diff options
| -rw-r--r-- | .gitattributes | 3 | ||||
| -rw-r--r-- | 32380-8.txt | 10031 | ||||
| -rw-r--r-- | 32380-8.zip | bin | 0 -> 139335 bytes | |||
| -rw-r--r-- | 32380-h.zip | bin | 0 -> 505541 bytes | |||
| -rw-r--r-- | 32380-h/32380-h.htm | 10301 | ||||
| -rw-r--r-- | 32380-h/images/capa.png | bin | 0 -> 349601 bytes | |||
| -rw-r--r-- | 32380-h/images/logo.png | bin | 0 -> 9358 bytes | |||
| -rw-r--r-- | LICENSE.txt | 11 | ||||
| -rw-r--r-- | README.md | 2 |
9 files changed, 20348 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/32380-8.txt b/32380-8.txt new file mode 100644 index 0000000..23ba985 --- /dev/null +++ b/32380-8.txt @@ -0,0 +1,10031 @@ +The Project Gutenberg EBook of O Romance d'uma cantora, by Alfredo Sirven + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Romance d'uma cantora + +Author: Alfredo Sirven + +Translator: Salvador de Medonça + +Release Date: May 15, 2010 [EBook #32380] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE D'UMA CANTORA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + Nova Bibliotheca Economica + Leitura para todos + + Travessa da Queimada, N.º 35 + LISBOA + + + Alfredo Sirven + + O ROMANCE + + D'UMA + + CANTORA + + TRAD. DE S. DE MENDONÇA + + PORTUGAL 100 réis + BRAZIL 600 réis + + + + +CORREIO DA EUROPA + +O jornal mais antigo que de Portugal se destina ao Brazil + +Completamente imparcial, sem se envolver na politica brazileira; com +largas secções do movimento official portuguez, dos acontecimentos do +estrangeiro e da vida nacional em todas as provincias, acompanhando com +a gravura todo esse noticiario. + +Vai (em 1897) no seu 18.º anno. + +Nunca alterou os seus preços, não obstante a situação cambial. + +ASSIGNATURAS + +_NO BRAZIL:_ + +Anno, 5$000 réis fracos; Semestre, 3$000 réis + +Numero avulso, 200 réis + +_EM PORTUGAL:_ + +Anno........... 2$000 réis + +ANNUNCIOS + +Cada linha, na respectiva secção, 40 réis fortes. Na 1.ª pagina, 200 réis. + +Artigos e communicados contractam-se: + +EM LISBOA--Travessa da Queimada, 135. + +NO RIO DE JANEIRO--No escriptorio, Rua Sete de Setembro, n.º 89--1.º andar. + + + + +O ROMANCE D'UMA CANTORA + + + + +Nova Bibliotheca Economica + +LEITURA PARA TODOS + +O MAIOR SUCCESSO DE EDITORAÇÃO EM PORTUGAL!!! + +100 réis cada volume de 300 paginas, em media + +DOIS VOLUMES POR MEZ + +Nas provincias, 120 réis por volume, franco de porte. + +Aos revendedores, 20 por cento de commissão + +ROMANCES PUBLICADOS + +1--Luiz Noir--A Estalagem Maldita, trad. de C. Dantas. + +2--Eugenio Chavette--Os companheiros do crime, trad. de A. Sarmento. + +3--Visconde Henri de Bornier--Romance d'um auctor dramatico, trad. de +Portugal da Silva. + +4--Mauricio Drack--A Mestra, trad. de N. de Bulhão Pato. + +5--Edgar Montell--João das Galés--traducção de C. Dantas. + +6--Eugenio Chavette--Lili, Tútú e Babette--trad. de A. Sarmento. + +7--Arsenio Houssaye--Joanna d'Armaillac, trad. de H. de Oliveira. + +8--Paulo Féval--A rainha dos estudantes, trad. de S. de Mendonça. + +9--Mayne-Reid--Os rebeldes, trad. do inglez, por M. Leal. + +10--Victor Perceval--Uma mulher perigosa, trad. de S. de Mendonça. + +11--Mauricio Talmeyer--Um drama nas minas, trad. de A. Sarmento + +12--Heitor Malot--Lua de mel, trad. de Antonio Bandeira. + +13--Alfredo Sirven--O romance d'uma cantora, trad. de Segurado de Mendonça. + +A SEGUIR: + +14--F. Champsaur--Uma excentrica, trad. de Ruy da Cunha. + +ESCRIPTORIO: TRAVESSA DA QUEIMADA, 35 + +LISBOA + + + + +ALFREDO SIRVEN + +O ROMANCE + +D'UMA + +CANTORA + +TRAD. DE S. DE MENDONÇA + +LISBOA + +1895 + + + + +TYPOGRAPHIA DO «DIARIO ILLUSTRADO» +35--Travessa da Queimada--35 +LISBOA + + + + +O ROMANCE D'UMA CANTORA + + + + +I + +A catastrophe + + +--Apaixonado por uma cantora... por uma mulher do theatro... eu?!... Ora +adeus!... não pode ser!... Hei de ver isso! + +Assim monologava o visconde Antonino de Bizeux, acabando de vestir-se. + +E sorria desdenhosamente, tomando um aspecto arrogante, como se quizesse +illudir-se sobre o estado do seu coração, persuadindo-se estar curado da +paixão que sentira, nos ultimos tempos, despertar em si. + +--Hei de ver isso... hei de ver isso!... repetia, procurando qualquer +coisa pelo quarto, destrahidamente, porque nada lhe faltava, a não ser +que chegasse a hora d'ir para a Opera. + +Os labios diziam: _hei de ver_, mas o coração tinha visto já. + +Amava Linda, a _estrella_ do dia, a diva que, do ceu da Opera, +scintillava sobre Paris fascinado. + +O visconde obtivera-se d'assistir ás ultimas quinze representações, +fugindo assim á fascinação que a grande artista exercia sobre elle. + +Tratava, pelo afastamento, o começo da paixão, que o assustava. + +Durante esse tempo violentára-se, domára o coração com a grande força de +vontade que possuia, e julgava-se curado, por isso. + +O theatro da rua Le Peletier annunciára, para aquella noite, um +magnifico espectaculo, em beneficio das victimas d'um sinistro recente. + +Cantavam-se os _Huguenottes_, desempenhando Laura Linda, pela primeira +vez, a parte de Valentina. + +Toda a primeira sociedade parisiense devia assistir á representação, +porque no camaroteiro não restava um só bilhete. + +Antonino ia tornar a ver Linda triumphante, acclamada. + +Se procurava uma occasião para experimentar-se, não podia encontral-a +melhor. + +--Irei aos _Huguenottes_! resolvera elle, depois de curta discussão +comsigo mesmo. Sem duvida ficarei certo de que estou completamente +curado, mas se, por acaso, ao ver Linda sentir a mesma impressão, +simultaneamente dolorosa e suave, de que necessito defender-me, juro que +ámanhã de manhã partirei para Saint-Malo, e que só no começo do inverno +voltarei a Paris. + +E foi para a Opera, onde o esperava a sua cadeira d'assignatura, +abandonada por mais de quinze dias. + +Trocou apertos de mão e palavras de cumprimento com alguns conhecidos +que encontrou, e dois ou tres amigos disseram-lhe familiarmente: + +--Adeus, formoso bretão! + +Antonino era, efectivamente, um bello rapaz. + +A sua estatura d'athleta, admiravelmente proporcionada, conservava a +mais completa linha d'elegancia. + +Louro, olhos d'um verde escuro, que semelhavam ser castanhos, era o +verdadeiro modelo do celta moderno: alliava a força á distincção. + +O espectaculo teve o brilhantismo ordinario das solemnidades da Opera. + +Todos se recordam ainda d'aquella noite, que se tornou celebre por uma +d'essas catastrophes que gravam uma data com traços indeleveis, mesmo na +memoria d'esse grande esquecido que se chama Paris. + +Quando Linda entrou em scena, Antonino estremeceu. + +Não se fita impunemente uma pessoa, que se julga inimiga, depois de se +ter deixado de a ver por alguns dias. + +Ella cantou, e o visconde sentiu-se arrebatado julgando, comtudo, que +fôra apenas a artista que o emocionára. + +Applaudiu-a delirantemente, como de resto todos os espectadores, porque +Laura, afinal,--tinha de confessal-o,--possuia raro talento. + +Durante a representação declarou a si proprio que não vira Linda, apenas +admirára Valentina. + +O tempo que o espectaculo durou passou-se para elle como se fosse presa +de inconsciente embriaguez. + +Por fim a grande ovação rebentou, imponente, com a furia da emoção que +trasborda. + +Linda foi completamente coberta de flores, e chamada repetidas vezes, +apparecendo sempre sorridente, formosissima. + +Antonino sentiu um mal estar indefinido, e uma alegria doida. + +E conservava-se sentado na sua cadeira, n'uma immobilidade involuntaria, +incapaz de levantar-se, de seguir a multidão que sahia. + +Passado algum tempo olhou em volta; a sala estava deserta. + +Dos corredores chegava um ruido confuso, produzido pelos ultimos +espectadores, que sahiam. + +Que fazia elle alli, diante do panno cahido; sob o lustre meio apagado? + +Um porteiro foi convidal-o a retirar-se. + +Como não recebesse resposta e julgasse o visconde a dormir, saccudi-o. + +Antonino estremeceu novamente, e no primeiro momento sentiu desejos de +desancar o porteiro. + +Depois, pensando melhor, levantou-se e dirigiu-se para a porta da sahida. + +Antes de transpôr o limiar, olhou uma ultima vez para o lado do palco, e +retrocedeu, entrando novamente na platéa. + +Parecera-lhe ter visto um tenue fio de fumo sahir do soalho. + +Approximou-se, arrastando o porteiro, a quem disse, sobresaltado: + +--Olhe!... alli!... + +--Que desgraça!... Fujamos!... + +Não havia que duvidar. + +O fio de fumo engrossava progressivamente. + +Antonino correu para o corredor, dando o grito de alarme. + +Duas ou tres costureiras do theatro, que sahiam, suppuzeram-o doido, mas +atraz do visconde corria o porteiro, gritando: + +--Fogo!... Fogo:!... + +As costureiras, repetindo aquelle grito, correram para fóra do theatro. + +Ao perceber que havia fogo no palco o visconde lembrou-se de Linda, +immediatamente. + +A cantora devia estar ainda no seu camarim. Seria prevenida a tempo de +se poder salvar? + +As portas que communicavam com o palco, estavam fechadas. + +O visconde bateu a uma, infrutiferamente, meio desvairado, e respirando +já a muito custo por entre o espesso fumo, que augmentava, enchendo os +corredores. + +Lembrou-se então da porta d'entrada para os artistas, que abria para a +rua Drouot, na outra extremidade do edificio. + +Sahiu do theatro e deu volta, empurrando, na passagem, os bombeiros que +chegavam. + +Chegado á porta, subiu, a dois e dois, os degraus da escada que conduzia +aos camarins dos artistas. + +O fumo era ainda mais espesso d'aquelle lado. + +Um bico de gaz, conservado acceso por acaso, rompia a custo, com +claridade amarellada, a densidade baça d'aquella especie de felpa +cinzenta, que enchia os corredores, pouco a pouco. + +Sombras corriam para todos os lados, espavoridas, sem responder ás +perguntas afflictas de Antonino, sem as ouvir. + +Como nunca entrara no palco da Opera, o visconde não sabia onde ficavam +os camarins. + +Bateu á primeira porta que encontrou, forçou-a violentamente, sem dar +tempo a que lhe respondessem, e entrou. + +Uma mulher atravessava n'esse momento o corredor, gritando com desespero: + +--Soccorro!... soccorro!... A senhora está incommodada! + +--Quem?... Linda?... perguntou anciosamente Antonino. + +--Sim!... O medico... onde está o medico? + +--O camarim?... Diga-me onde é o camarim! + +Mas a mulher não ouviu a pergunta; desapparecera por entre o fumo, cada +vez mais espesso. + +Repentinamente apagou-se o unico bico de gaz, que ainda ardia. + +O visconde ficou mergulhado n'uma escuridão pesada, completa, em que se +desenvolvia um calor violento. + +Caminhou ás apalpadellas, batendo com as mãos nas paredes e chamando com +voz forte: + +--Linda!... Linda!... Onde está? + +Mas ninguem lhe respondia. + +Continuou a caminhar, gritando sempre, cada vez com mais força, e +arrombando, enraivecido, todas as portas que encontrava. + +Repentinamente, pareceu-lhe ouvir um gemido fraco. + +Procurou nas algibeiras uma caixa de phosphoros, e, encontrando-a, +accendeu um. + +A alguns passos de distancia viu uma porta aberta. + +Entrou por ella precipitadamente. + +Era o camarim de Linda. A cantora estava caida por terra, pallida, meio +desmaiada. + +O phosphoro que Antonino tinha na mão, apagou-se. + +Com um outro, tentou accender o gaz, não conseguindo, felizmente o seu +designio. + +--Onde estou eu? perguntou Laura de repente. + +--Venha, venha! respondeu o visconde com voz imperiosa. + +Guiado pela voz de Linda, approximou-se d'ella, tentando tomal-a nos +braços para a conduzir. + +--Deixe-me, senhor, eu posso caminhar... Basta que me dê a mão. + +Pela porta aberta entrou no camarim uma claridade sinistra. + +Fumo azulado sahia por entre as fendas do soalho e subia até ao tecto, +onde se immobilisava em camadas cinzentas. + +Antonino e Laura sahiram do camarim e embrenharam-se nos corredores, +onde dançavam já as chammas do incendio. + +Apesar da natural turbação que o sinistro lhe causava, Antonino +experimentava deliciosa sensação por ter na sua a mão de Laura. + +Subitamente uma lingua de fogo subiu verticalmente pela escada que dava +sahida para a rua Drouot, lambendo, com poderosa tranquillidade, o tecto +que lhe ficava superior. O calor abrazava. + +--É muito tarde para sahirmos por aqui, disse Antonino sem perder a +presença de espirito. Necessitamos passar á platéa, atravessando o palco. + +--Vamos por aqui, respondeu Laura. Desceremos a escada que conduz á scena. + +O visconde seguiu a cantora. + +Dirigiram-se para a escada de serviço. + +Por entre a claridade avermelhada, viram os bombeiros correndo em todas +as direcções, d'archotes em punho, dando indicações uns aos outros, em +voz breve. + +Fumo espesso, vindo de baixo, attingia toda a altura das abobadas, pela +potencia do jacto, dilatando-se em silencio, como sopros quentes +vomitados por boccas invisiveis. + +Do palco partia um ruido continuo de fornalha bem alimentada, que solta +crepitamentos seccos. + +O incendio, que fomentava havia duas horas, invadiu, repentina e +invencivelmente, a nave immensa da platéa. + +A chamara que sahiu pelo buraco do ponto inflammou o panno de bocca, que +pouco depois misturava as suas cinzas ao fumo. + +O fogo chegou ás torrinhas, lambendo, na sua passagem, as decorações do +salão, cujo hemicyclo dentro em pouco foi tomado. + +--Saiam todos! gritou um chefe de bombeiros aos seus homens; saiam +todos! Nada temos que fazer aqui... O incendio é mais forte que nós! + +O soalho do palco queimava os pés dos que sobre elle caminhavam. + +--Venha depressa, minha senhora! supplicou Antonino. Necessitamos saltar +para o espaço destinado á orchestra, e d'aqui a dois minutos será tarde. + +--Ainda cá está alguem? perguntou o chefe dos bombeiros, que ficara para +traz. + +--Aqui, estão aqui duas pessoas, respondeu o visconde. Ajude-me a salvar +uma mulher. + +O bombeiro saltou da platéa para o palco e disse a Antonino: + +--Eleve-se a pulso até esse camarote de bocca; logo que lá esteja, eu +levantarei esta senhora, por fórma que possa agarral-a. + +O visconde seguiu o conselho, e depois, encostando o peito na borda +do camarote, estendeu os braços para Laura, que, elevada pelo bombeiro, +poude agarrar-se ao seu salvador. + +Logo que os viu no camarote, o bombeiro disse-lhes: + +--Agora fujam depressa, porque... + +O desgraçado não acabou. + +O soalho, completamente carbonisado, cedeu ao peso do corpo do homem, +que repentinamente se sentiu envolvido pelas chammas. + +--Soccorro!... gritou elle. Quem me acode!... + +Como as taboas não tinham quebrado completamente, conseguiu depois de +muitos esforços, retirar o corpo d'aquella solução de continuidade em +que cahira, e muito queimado, approximou-se do camarote onde ainda +estavam Laura e o visconde, a quem estendeu os braços, implorando salvação. + +Mas a chamma seguiu-o, incendiando-lhe o fato. + +Antonino inclinou-se novamente para o palco, estendendo-lhe as mãos. + +--Ajude-me!... não me abandone!... dizia o infeliz. + +E deligenciava chegar até á mão do visconde, que por fim logrou agarrar. + +De repente, a taboa em que se firmava, quebrou e á perda inesperada +d'aquelle appoio fez com que Antonino perdesse o equilibrio. + +Laura percebeu o perigo; lançou os braços, tornados fortes pela +imminencia do perigo, em volta do tronco do visconde, puchando por elle +com força. + +Apesar das queimaduras o fazerem soffrer bastante, Bizeux esforçou-se +por puchar para o camarote o infeliz bombeiro, que soltava gritos roucos. + +Subitamente o homem fez um movimento brusco, e o visconde sentiu +escorregar-lhe da mão o pulso do desditoso, que cahiu no meio d'aquella +fornalha monstro. + +O desgraçado soltou ainda estas palavras: Meus queridos filhos! + +E mais nada! + +Tomado d'espantoso horror, Antonino voltou-se para Laura. + +A cantora perdera os sentidos. + +O visconde estava meio asphixiado. + +Parecia-lhe que respirava fogo. + +Nas pupillas dilatadas e quasi sem vista, sentia milhares de picadas +d'agulhas. + +Envolveu a bocca de Laura com uma mantilha, e elle proprio tomou entre +os dentes o lenço d'assoar, cerrando os labios como que para preservar +do oxido de carbone, desenvolvido pelo incendio, os seus robustos pulmões. + +Em seguida, chamando a si toda a sua energia, levantou nos braços a +cantora, como se ella fosse uma creança, e sahiu do camarote, +percorrendo o corredor. + +Aquella parte do theatro era-lhe conhecida. + +O incendio desenvolvia-se no salão, com toda a intensidade. + +O lustre abateu, produzindo ruido enorme. + +A grande escadaria estava ainda praticavel. + +O visconde desceu por ella apressadamente, com as sobrancelhas e os +cabellos queimados. + +Um minuto depois chegava á rua, acclamado pela multidão enthusiasmada. + +N'esse instante abateu o tecto do salão. + +Pelo espaço espalhou-se infinita quantidade de faulhas. + +O incendio pavoroso, sacudindo o seu pennacho de fumo ardente, +polvorisado de faiscas, alumiou sinistramente a cidade. + +A claridade da lua extinguiu-se ante a intensa vermelhidão das chammas. + +Ao longe, sobre os telhados, o ondeado das labaredas, que se +distanciavam em espiraes phantasticas, fazia dançar as chaminés uma +dança macabra, no espaço afogueado. + + + + +II + +Antonino de Bizeux + + +Antonino de Bizeux residia em Paris havia apenas dezoito mezes. + +Até então vivera sempre na Bretanha, com seu pae, no seu palacio de +Saint-Malo, ou, na epoca da caça, no castello que possuia proximo de +Rascoff. + +O visconde viajára muito. + +Conhecia toda a Europa e as costas mediterraneas da Asia e da Africa. + +Entrára na vida parisiense conservando todas as suas illusões, mas +possuido do ardente desejo de se humanisar, como elle dizia, de se +tornar distincto na distincta sociedade, de que passava a fazer parte. + +Caracter firme, sincero, honrado--honrado até á ingenuidade--os seus +pensamentos eram purissimos, e na physionomia transparecia-lhe sempre o +que pensava. + +Na sociedade que frequentava, o visconde produzira primeiro o effeito +d'um phenomeno, prestando-se ao desfructe, sem dar por isso. + +Depois, pouco a pouco, fôra-se limpando da sua simplicidade primitiva e +tomando pé na encapellada torrente parisiense. + +Comtudo conservava o fundo de lhaneza natural, que lhe dava um certo +cunho d'originalidade, e lhe valia um verdadeiro successo junto das +mulheres, as eternas curiosas. + +Tinha poucos ou nenhuns amigos. + +O seu nome e a sua fortuna, porém, fizeram com que adquirisse innumeros +conhecimentos na alta roda, onde zombavam, apesar de o estimarem, d'esse +retardado da civilisação, a quem chamavam _formoso bretão_ e _selvagem_. + +Selvagem era elle seguramente, não porque lhe repugnasse o prazer, mas +porque, entregando-se aos gosos que constituem meros passatempos, +conservava puro o coração. + +Sobre o ponto _mulheres_, absolutamente sem importancia para homens que +frequentavam a sociedade em que elle vivia, o visconde pensava e +procedia contrariamente aos seus companheiros, porque elles tinham +os seus amores, e Antonino só poderia ter um amor. + +Em poucos mezes saboreára todos os prazeres possiveis sem se embriagar; +estivera exposto a todas as seducções sem ser seduzido. + +Não pertencia ao numero infinito de inactivos, que, segundo a phrase do +seu compatriota Chateaubriand, atravessam a vida bocejando, e no seu +dolente aborrecimento só teem uma ambição e um sonho: divertirem-se. + +O visconde possuia solida instrucção, fallava duas ou tres linguas; era +um litterato e um _dilettante_. + +Amava a arte sob todas as suas variadas fórmas, mas sobretudo era +apaixonado pela musica. + +Por essa razão tornou-se dentro em pouco um dos mais assiduos _habitués_ +da Opera. + +A sua cadeira raras vezes ficava vazia. + +N'essa epoca, como já dissemos, brilhava na Opera Laura Linda, estrella +de primeira grandeza que eclipsava todas as outras. + +Antonino era ardente admirador da diva. + +Adorava-lhe a voz e a expressão maravilhosa do canto. + +Mas, coisa extraordinaria, passára muito tempo sem reparar que Laura era +formosissima. + +Poderia passar dias inteiros a admirar a grande artista +interpretando as obras dos mestres, que, se a encontrasse na rua, não +voltaria a cabeça para a seguir com o olhar um minuto mais do que a +qualquer outra mulher. + +De resto, a sua admiração pela cantora jámais se manifestára de fórma a +dar nas vistas. + +Nem um _bouquet_ offerecido, nem o menor transporte de enthusiasmo. + +Limitava-se a applaudil-a, semelhando ser egoista do seu enlevo. + +Os conhecidos commentavam a seu modo a assiduidade do visconde nas +representações em que Laura tomava parte, e o recolhimento quasi +extatico d'elle a partir do momento em que a cantora entrava em scena. + +Todos consideravam Antonino apaixonado pela diva. + +A primeira vez que uns amigos, por brincadeira, lhe disseram que o +julgavam louco por Laura, elle admirou-se, mas nem tentou defender-se, +convencido de que os seus interlocutores não comprehendiam a que +sentimento obedecia. + +Limitou-se a concordar, sorrindo, que as apparencias justificavam as +suspeitas. + +Mas a brincadeira produziu no visconde o effeito d'uma revelação. + +A datar d'esse dia consultou o coração, espiando todos os variados +sentimentos que experimentava, perguntando a si proprio se os amigos não +tinham, antes d'elle e sem que de tal desconfiasse, dado o nome exacto á +attracção que Laura Linda exercia sobre elle. + +A diva, pelo seu lado, reparára n'aquelle espectador que todas as +noites, da sua cadeira, a seguia com olhar ardente. + +De resto, tinham-lhe apontado o visconde como uma das suas victimas. + +Deixára que lhe contassem tudo que constava do caracter do seu adorador, +da reputação de selvageria de que elle gosava, mas não admittira que +Antonino estivesse apaixonado por ella. + +Fosse intenção ou simples desejo de ser admirada por aquella fórma, +Laura quasi adivinhava o que o visconde sentia, e agradecia-lhe +intimamente a reserva em que elle se conservava, reserva que +desagradaria a qualquer outra. + +Uma noite,--é possivel que acabasse d'ouvir fallar d'elle,--como tinha +d'entrar em scena lentamente e em silencio, Laura fixou o visconde por +muito tempo. + +Áquelle olhar, todos os admiradores da diva se sentiram supplantados +pelo formoso bretão. + +O visconde, porém, longe de ficar satisfeito, parecia contrariado. + +É provavel que a cantora percebesse isso, porque muitas vezes durante a +noite olhou para o visconde, constatando sempre que o seu olhar, apesar +d'inoffensivo, produzia n'elle a mesma impressão desagradavel. + +Até d'uma occasião o visconde levantou os hombros n'um movimento rapido, +como irritado por ella se esquecer por momentos do papel que +desempenhava. + +Ao voltar ao seu camarim, Laura riu quando uma amiga lhe fallou +d'Antonino. + +--Apaixonado, aquelle?... Está enganada, disse ella. Será, quando muito, +um amador, e com certeza um homem extraordinario. Ha bocado olhei +algumas vezes para elle, que quasi protestou por eu me desviar do meu +papel! + +N'essa noite Antonino sahiu do theatro descontente comsigo e com a diva. + +Parecera-lhe que ella se mostrara inferior ao talento que possuia, e +zangou-se comsigo proprio: por julgar ter sido a causa das distracções +em que a cantora incorrera. + +Entrevira pela primeira vez a mulher através da artista. + +Entrou em casa mal humorado, e por muitas horas a imagem de Laura passou +ante o seu olhar sonhador, brilhante como em scena e fixando-o sempre. + +E os olhos fecharam-se-lhe, ao adormecer, suppondo estar ainda admirando +a diva. + +Pela manhã assaltou-o uma preoccupação. + +Porque olhara Laura para elle? + +Porque infringira a arte, porque commettera uma falta, a Linda, a +impeccavel? + +Á medida que reflectia, o ser palpavel, a belleza material, a mulher, +absorvia-lhe imaginação. + +Quando deu por isso encolerisou-se, e, só no seu quarto, disse alto, +despeitado, quasi furioso: + +--Não quero! + +No dia seguinte foi para Opera como de costume, mas inquieto, perplexo, +e pensando não voltar lá se, á entrada de Laura, sentisse a mais ligeira +commoção. + +A diva entrou, saudada pelos applausos dos seus adoradores. + +Depois do primeiro acto Antonino sorriu dos seus terrores. + +Por mais que se interrogasse durante todo o tempo que o acto durára, só +encontrara em si o simples melómano. + +Comtudo a sua tranquilidade não era obsoluta. + +Apesar de tudo tremia a cada instante que ella o fixasse. + +A Linda não tivera a mais ligeira distracção, conservara-se sempre a +artista superior que nem um segundo se esquece da personagem que +desempenha, e nem de passagem o seu olhar encontrara o do visconde. + +Esta ultima circumstancia não passou despercebida a Antonino, e muitas +vezes lhe occorreu, primeiro sem o impressionar, e depois produzindo-lhe +uma sensação desagradavel, que não estava longe do despeito. A diva +n'essa noite foi surprehendente. + +Quando, no fim do ultimo acto, o applauso irrompeu, unanime, só Antonino +não deu o seu contingente de palmas ou flores. + +Assistiu á ovação contrariado, franzindo as sobrancelhas descontente, +como se soffresse com aquelle ligitimo triumpho da cantora. + +Entre outros ramos, cahiu aos pés da diva um, de lilazes brancos, +lançado ao proscenio por um espectador que estava proximo d'Antonino. + +Porque apanhou Laura aquelle ramo, primeiro que qualquer outro? + +E porque, ao apanhal-o, olhou e sorriu para o espectador que lh'o +offerecera? + +Qualquer explicaria o caso, dizendo comsigo que o lilaz seria a flor +preferida pela diva. + +O visconde, porem, é que não considerou explicavel o facto, e +levantou-se da sua cadeira, bruscamente, sahindo apressado para os +corredores e seguindo para casa sem demora. + +N'aquella noite teve febre. + +No dia seguinte, ao ouvir um amigo fallar de Linda, declarou que ella +declinava, que dera já o que tinha a dar, e que não tardaria em chegar a +estado de só poder ser contratada para theatros d'operetta. + +Por si, resolvera passar as noites na Comedia Franceza, porque, afinal, +a musica, era uma arte secundaria. + +Com effeito o visconde não appareceu na Opera durante duas semanas. + +Amava Laura. + +Como nunca amára, não comprehendia a razão do seu mal estar. + +Amava-a; os proprios esforços que fazia para estrangular a voz do +coração eram d'isso prova irrefutavel. + +Amava-a, e sentia-se ingenuo, pateta, simples. + +Pois não praticára a tolice de estremecer de raiva por um estranho +lançar á diva um ramo de que ella gostara? + +Amava-a... mas, em summa, tinha ainda força de vontade. + +Saberia asphixiar o mal que apenas despontava! + +Estava resolvido: não iria mais á Opera, não tornaria a ver a Linda, +porque, custasse o que custasse, tinha de vencer aquella paixão estupida! + +Quinze dias depois de proceder pela fórma que a si mesmo impozera, +convenceu-se de que podia voltar á Opera sem perigo. + +Tinha a convicção de que se vencera; nada o impedia de voltar a assistir +ao seu divertimento predilecto. + +De resto, desejava colher a prova evidente da cura. + +Nem um só doente ha que, depois de estar por muito tempo preso no +quarto, não se sinta impaciente d'affrontar o ar livre, d'experimentar +as suas forças. + +Foi n'essas disposição confiantes que o visconde assistiu ao espectaculo +da Opera, depois do qual se deu o fatal sinistro que narrámos no +capitulo anterior. + + + + +III + +Laura Linda + + +Na lucta contra o amor nascente, que se travava no coração d'Antonino, o +maior perigo, mas ao mesmo tempo o maior attractivo, era, mais do que o +talento de Laura e até mais do que a peregrina belleza da cantora, o que +o visconde sabia, porque todos o diziam, da vida e do passado da diva. + +Tinha então vinte e seis annos e havia sete que cantava em theatros. + +No apogeu da gloria, envolta n'uma atmosphera d'adorações e de +sollicitações de toda a natureza, a Linda regeitara vinte propostas de +casamento, e ninguem jamais lhe conhecera amante. + +A historia simples da sua vida explicava esse caso pouco vulgar. + +Laura era hespanhola. + +Seu pae, o celebre violinista José Marcia, descendia d'uma familia +illustre porque era o ultimo representante dos condes de Marcia. + +Nunca usara o titulo, do qual raramente fallava e sempre com uma especie +de despreso. + +Para elle só existia a arte, e considerava um grande artista superior a +um rei. + +De resto, era á arte que tudo devia, porque a antiga casa dos Marcias, +era, desde muito tempo, uma casa arruinada. + +O pae de José Marcia colhera os ultimos restos da fortuna patrimonial, +mas a grande paixão que tivera pela musica tudo lhe levára. + +O conde de Marcia suppunha-se um verdadeiro genio para a composição. O +pouco dinheiro que possuia gastava-o na publicação das suas obras. + +Vendeu a ultima quinta para fazer representar com luzimento, na Opera de +Madrid, uma partitura de que era auctor, e com a qual contava assegurar +a sua reputação e refazer a sua fortuna. + +A opera, porém, cahiu desastradamente na primeira noite em que subiu á +scena. + +Por felicidade seu filho José, a quem elle communicára o amor pela +musica, tinha n'essa epocha vinte e cinco annos e gosava já de grande e +merecida reputação de violinista. + +Foi o filho que velou pela sustentação do pae. + +O velho melomano apenas tinha uma idéa fixa: desforrar-se. + +Compoz ainda duas ou tres operas; e a muito custo conseguiu o filho que +elle as guardasse n'uma gaveta, para que a apresentação d'ellas ao +publico não lhes levasse mais algum dinheiro. + +Comtudo José Marcia fingia admirar as composições paternas, por fórma +que o pobre velho morreu cheio d'illusões, legando-lhe confiadamente a +realisação da sua gloria posthuma. + +Não foi, porém, o pae, mas o filho quem conquistou a gloria dia a dia, a +que poderia ter junto a riqueza, se não houvesse uma coisa que elle +despresasse mais do que a nobreza: o dinheiro. + +Ganhou quantias importantissimas, mas como de ordinario as suas despezas +egualavam as receitas, quando não as ultrapassavam, é claro que jamais +poderia juntar um pequeno capital. + +E comtudo não esbanjava o dinheiro; apenas, como elle dizia rindo, não +sabia tratar dos seus negocios. + +Dava concertos em extremo lucrativos, mas deixava que o emprezario +embolsasse a maior parte dos ganhos. + +Era auctor d'um methodo celebre e gosava d'incontestada e incontestavel +reputação como professor, mas os seus discipulos predilectos não era os +que pagavam melhor, eram os que possuiam mais habilidade, e que +d'ordinario não lhe pagavam. + +Vem a proposito, contar uma historia de que riu toda a gente em Madrid. + +Um banqueiro riquissimo incumbiu José Marcia de leccionar +particularmente um filho, retribuindo-o principescamente. + +Por infelicidade não só o rapaz não tinha tendencia para a musica, como +tambem era um preguiçoso de primeira ordem, que só pegava no violino +durante o tempo das lições. + +Ao cabo d'um mez, José Marcia, impacientado, participou ao pae do seu +discipulo que as suas occupações não lhe promettiam continuar com a +leccionação. O banqueiro, ao receber este aviso, limitou-se a duplicar a +remuneração das lições. + +Marcia, tentado pelo lucro, continuou. + +Mas a tentação durou apenas uma semana. + +Finda ella, o distincto violinista escreveu o seguinte ao banqueiro: + +«Termino de vez com as lições, porque seu filho é extraordinariamente +estupido.» + +Vivia ainda o pae quando Marcia casou com a que devia ser mãe de Laura. + +Era filha d'um relojoeiro que vivia no mesmo predio. + +Á falta de dote possuia rara belleza. + +Elle estava longe de ser bello, e fortuna não a tinha tambem, mas, como +o rouxinol na primavera, conquistou o amor da que devia ser sua mulher +com o canto surprehendente do seu violino. + +A joven passava horas a escutal-o, embevecida. + +O artista pediu em casamento aquella sua sincera admiradora, que foi +esposa dedicada, e a melhor e a mais terna das mães. + +Laura foi creada pela mãe na adoração do pae, e pelo pae na adoração da +arte. + +Possuindo raros dotes vocaes, o pae fez d'ella uma artista completa. + +Quiz tambem ensinar-lhe a tocar violino, mas ella tinha um outro +instrumento melhor: a voz. + +A mãe jamais consentiu que Laura entrasse para o theatro. + +A sua prudencia inquieta, que o marido alcunhava de burguezismo, +considerava o palco como um logar de perdição. + +Parecia-lhe que a filha, a quem transmittira toda a sua bellesa, +renunciaria, apparecendo no proscenio, a tudo o que havia de honesto e +feliz na vida d'ella: o amor ao lar domestico, o amor d'esposa e o amor +de mãe. + +Mas antes de Laura completar desoito annos, falleceu a mãe extremosa, +acontecimento que por muito tempo acabrunhou o violinista e a filha. + +Alguns mezes depois da morte da mãe, Laura foi convidada a cantar n'um +concerto de beneficencia. + +Obteve um verdadeiro successo. + +Mas os applausos de que foi alvo, não lhe causaram tanto enthusiasmo +como ao pae. + +José Marcia procurou e encontrou occasião de renovar o triumpho obtido +por Laura. + +A fina intuição de que era dotado deixava-lhe antever que a filha e +discipula seria uma artista de primeira ordem. + +Aos desanove annos, Laura debutou na Opera de Madrid. + +A sua voz, porém, não attingira ainda o completo desenvolvimento. + +O pae assim o comprehendeu, e durante dois annos não consentiu que a +filha cantasse, senão raras vezes. + +Findos esses dois annos Laura partiu para a Italia, acompanhada do seu +natural emprezario. + +Conservou-se tres annos no Scala, de Milão, onde, sob a direcção de +Pozzoli, aperfeiçoou o methodo de canto, adquirindo, sobre o seu nome de +theatro, a Linda, uma enorme reputação, que augmentava todos os dias. + +Do Scala foi contractada para a Opera de Paris, porque Laura fallava +e cantava, com a mesma pureza d'accentuação e a mesma nitidez +d'articulação, o hespanhol, o italiano e o francez. + +Havia já dois annos que ella estava em Paris, e o seu talento e a sua +formosura tinham encantado por completo os frequentadores da Opera. + +O pae, que a acompanhára á capital da França, morreu tres mezes depois +de chegarem. + +Felizmente deixava a filha no apogeu da gloria. + +E só gloria, porque dinheiro não tinha Laura quando o pae falleceu, nem +elle lh'o deixou. + +José Marcia legara á filha o perfeito abandono pelas coisas praticas que +durante a vida sempre tivera. + +Por mais vantajosos que fossem os contractos que assignava, Laura apenas +conseguia não ter dividas. + +E não era ella quem gastava as suas receitas, mas consentia que os +creados gastassem como lhes aprouvesse. + +--Sei contar o meu tempo, dizia a Linda rindo, mas nunca saberei contar +o meu dinheiro! + +Comtudo, se no seu orçamento não havia ordem, a sua vida era ordenadissima. + +A recordação da mãe adorada estava sempre presente a Laura, e +guardava-a, como se fosse a propria mãe em pessoa. + +Resolvera seguir á justa uma vida irreprehensivel, e cumpriu o +compromisso tomado. + +De resto, Laura possuia a verdadeira honestidade, a que é indulgente +mesmo com as fraquezas que repudia. + +Era jovial com os seus companheiros de theatro, mas sabia fazer-se +respeitar. + +Fôra cortejada por muitos homens; soubera, porém, com rara habilidade, +repellir suavemente tanto os que lhe fallavam de casamento, como os que +só lhe fallavam d'amor. + +Jamais dissera que não se casaria, mas a primeira condição que estava +resolvida a impor ao noivo, se um dia o tivesse, era conservar-se no +theatro, o que fazia diminuir as probabilidades d'encontrar marido rico. + +Pozzoli, o director do Scala de Milão, que na epoca em que se passa esta +historia dirigia a Opera Italiana em Paris, pedira a mão de Laura ao pae +da cantora. + +Mas, além de ter uma reputação equivoca, Pozzoli contava evidentemente, +casando com a Linda, possuir sem concorrencia e sem despendio, uma +_primadona_ de primeira ordem. + +Dizia-se até que seguia esse systema de ha muito, amancebando-se com +varias das suas contractadas. + +Casando com Laura, Pozzoli faria diminuir as difficuldades com que +luctava como emprezario. + +Em Milão, um compositor de talento apaixonou-se doidamente pela +diva, e, ainda que fosse pobre, não era de certo o interesse que o movia +a dar-lhe o seu nome e a sua vida. + +Laura, porém, não sentia a mais insignificante parcella d'amor pelo que +tanto a adorava, e como elle comprehendesse essa triste verdade, sahiu +de Milão para Florença. + +O numero dos que apenas procuravam o amor de Laura era superior aos que +desejavam casar com ella. + +Mas perdiam o tempo e o trabalho. + +Um d'elles, o tenor ligeiro Lauretto Mina, era um bello homem, muito +infactuado, mas a quem poucas mulheres resistiam. + +Fôra ajudante d'um professor d'esgrima. + +Estava escripturado por Pozzoli na Opera Italiana. + +Possuia voz extensa e bem timbrada, mas não sabia servir-se d'ella, e +era sufficientemente preguiçoso para poder modificar-se, estudando. + +Entretanto considerava-se o primeiro tenor do mundo, e dizia-o +imperturbavelmente. + +Desde a primeira vez que viu a Linda, declarou-se apaixonado por ella. + +Mas Linda, com a natural finura de mulher, percebeu dentro em pouco que +especie d'homem era Lauretto e passou a tratal-o, contrariamente á +forma pela qual procedia com todos os outros collegas, com uma +frieza que bem se podia alcunhar de desdem. + +Este procedimento de Linda fez com que Lauretto, vaidoso em extremo, se +possuisse d'occulta irritação, que mesclava d'odio o amor, ou antes o +desejo, que sentia pela cantora. + +Entretanto teve a força de vontade sufficiente para não manifestar o seu +descontentamento, declarando até aos amigos, com ironico despreso, que +se inclinava ante a virtude de Laura, a quem elle chamava _Casta diva_. + +--Sou tão preguiçoso! dizia o tenor no _foyer_ dos artistas. Não tenho +paciencia para sustentar um prolongado cerco a uma mulher tão bem +defendida. Cedo o logar a qualquer outro assaltante de mais solida +perseverança. Renuncio a ser o primeiro, mas juro por Venus e pelo Amor, +que serei o segundo. + +Um outro apaixonado, mais amoldavel, foi Remissy, violinista hungaro, um +original, segundo uns, e um doido segundo outros, mas um grande, um +verdadeiro artista. + +Remissy foi a Milão para ouvir José Marcia, de quem elle admirava o +talento, apesar de deferir muito do que possuia o violinista hungaro. + +Viu Laura, e, como era facilmente impressionavel, inflammou-se +d'enthusiasmo pelo talento e pela belleza da cantora, simultaneamente. + +A Linda, porém, tratou-o com meiguice e alegria, a que não era estranho +um certo desdem, e todo o fogo de Remissy extinguiu-se subitamente. + +--Tem cem vezes razão! dizia-lhe elle. Não pode tomar a serio um maluco +como eu. Além d'isso, eu não estou perfeitamente certo de que não me +enganasse, e não adore apenas a sua voz, o que é muito possivel. Andaria +duzentas leguas para a ouvir! A sua voz transporta-me ao setimo ceu! +Convencionemos o seguinte: não serei seu amigo, serei seu idolatra. E +desde já te peço licença para te tratar por tu, como á divindade! + +De todos os seus apaixonados que eram bons e sinceros, Laura fazia amigos. + +Na primeira plana d'esses convertidos estava, em Paris, o dr. +Despujolles, o medico considerado como a verdadeira providencia dos +theatros, sobre tudo dos theatros de canto. + +Quem estivesse rouco pela manhã podia cantar á noite como um rouxinol, +mercê das magias homoeopathicas do dr. Despujolles. + +Foi um pouco mais recalcitrante que Remissy, á cura, homoeopathica +tambem, do amor pela amisade, mas como além d'intelligente era honesto, +acabou não só por se resignar, como tambem por estimar o papel que Laura +lhe confiava. + +Todas estas informações sobre a Linda foram colhidas por Antonino de +Bizeux dia a dia, d'este e d'aquelle, affectando indifferença, mas +sentindo na realidade um interesse e emoção de que elle não se +apercebia, e temendo e desejando ao mesmo tempo que lhe apontassem +qualquer nodoa no passado da diva, porque n'esse caso Laura passaria a +ser menos perigosa para elle. + + + + +IV + +O dia seguinte + + +Era quasi meio dia. + +Laura acabára de se levantar, e recostara-se languida e como magoada +ainda, sobre o canapé do seu salão, remexendo, distrahidamente, n'um +montão de cartas e de folhas rasgadas de carteiras, que cobriam o +marmore d'um velador. + +Por entre os nomes do que vulgarmente se chama _todo Paris_, procurava +um que não encontrava, e lia com indefferencia as palavras escriptas a +lapis sobre os papeis que folheava. + +Entretanto um bilhete houve que lhe prendeu a attenção por mais tempo. + +Era de Pozzoli. + +Dizia o antigo emprezario de Laura: + + +«Morreu a Opera, viva o theatro dos Italianos! Pozzoli irá ámanhã a casa +da distinctissima diva, levando um contracto em branco á sua ex e futura +escripturada». + + +Ao ver o cartão de Lauretto Mina, a Linda franziu as sobrancelhas. + +O tenor escrevera: + + +«Enforca-te Lauretto! Laura esteve prestes a ser queimada viva, e tu não +estavas junto d'ella para a salvar». + + +Em compensação, sorriu-se ao ler um outro bilhete. + + +«Compuz hoje de manhã um cantico d'acção de graças, uma _alleluia_ +triumphante, que irei executar-te no meu violino, logo que possas +receber o teu mais humilde admirador. + + _Remissy_». + +A diva resolveu responder sem perda de tempo ao violinista, convidando-o +a almoçar no dia seguinte. + +Chamou para isso Jacintha, a sua creada de quarto, pedindo-lhe o +necessario para escrever. + +Jacintha, collaça de Laura, tinha poucos mezes mais que a cantora. + +Era uma formosa rapariga, d'um trigueiro assetinado e quente, olhos e +cabellos pretos, labios vermelhos e sensuaes. + +Nunca abandonára a cantora, a quem estimava muito, mas a quem servia mal. + +--Mais cartas, minha senhora, disse ella ao entrar, quasi todas +entregues pelos proprios, que não subiram porque o porteiro não consentiu. + +--Que deixe subir o dr. Despujolles quando elle chegar. + +--Sim, minha senhora. E o sujeito que lhe salvou a vida? + +--O sr. Antonino de Bizeux? Tambem! Há bocado disse-te o mesmo. + +--Já se vê... Se não fosse elle estaria a senhora morta a estas horas. E +eu tambem, porque se a senhora morresse, não lhe sobreviveria. + +--É um homem deveras corajoso! disse Laura, pensativa. + +--E bonito! + +--Jacintha!... + +--Perdão, minha senhora!... jurei-lhe que nunca mais chamaria bonito a +qualquer homem, ainda que elle fosse como S. Miguel Archanjo, e +faltei ao meu juramento!... Mas não está mais na minha mão! + +--Cala-te! interrompeu Laura, que não poude deixar de sorrir, e manda +entregar immediatamente esta carta ao sr. Remissy, rua Favart. + +Alguns minutos depois, Jacintha annunciava o dr. Despujolles. + +--Eil-a! disse o medico ao entrar. Eil-a, a esta salamandra que +atravessou impunemente as chammas! + +--Infeliz da salamandra, respondeu Laura, que ficaria frita como uma +carpa se não tivesse quem a ajudasse. + +--Vejamos o pulso. Sabe que vim cá ás oito horas da manhã? + +--Sei. + +--Como me disseram que dormia, cedi o logar ao melhor dos medicos, o somno. + +--Só consegui adormecer ás seis horas da madrugada. + +--Pudera! Depois d'um tal abalo não admira. Hum! Está com febre, como +era de prever. Vou receitar-lhe um calmante. + +E chamou. + +Appareceu Jacintha. + +--Manda sem demora esta receita a uma pharmacia. + +--Sim, sr. doutor. + +--E então? Há mais juizo agora? + +Jacintha tornou-se purpurina. + +--De certo, sr. doutor. + +--Hein? Isso é verdade? Toma cuidado! Á primeira escorregadella, tens +d'haver-te commigo! + +Jacintha pegou na receita, e sahiu apressadamente. + +--É necessario, disse o doutor a Laura, que a minha amiga possua uma +solida reputação, para ter junto de si uma rapariga d'este quilate! + +--Coitada! É tão bondosa e dedicada! Quer que a abandone? + +--De certo que não! Estudo em Jacintha a força do instincto. É um +precioso _sujet_ physiologico para observar--desculpe-me o termo--o +animal na mulher. + +--Oh! doutor! + +--Posso-lhe fallar assim, porque a minha amiga é toda espirito. Em si o +animal não existe. + +--Trata de desculpar-se com um cumprimento! Pois dir-lhe-hei que, em +momento de perigo, o instincto é superior ao que o doutor chama +espirito. A noite passada, quando na Opera se ouviu o primeiro grito de +fogo, acabava eu de me vestir. Jacintha--o instincto--que estava no meu +camarim, fugiu immediatamente, e eu--o espirito--que temo o fogo mais do +que qualquer outra coisa no mundo, comecei a tremer, dobraram-se-me os +joelhos, fiquei impossibilitada de fazer o menor movimento. +Jacintha, que ainda não tinha sahido, sacudia-me, queria arrastar-me. +Tentei caminhar, e cahi desfallecida. Então ella sahiu, dizendo-me que +ia buscar quem me soccoresse. + +--Ah! a Jacintha fugiu? E pretende que ella é dedicada! Bonita +dedicação, não haja duvida! + +--Ouça o resto. Logo que chegou á rua e se viu livre de perigo, Jacintha +lembrou-se de mim immediatamente. Entrou de novo no theatro, soluçando, +querendo procurar-me atravez as chammas. E gritava: «Fui eu que a matei! +quero morrer com ella!» Foram necessarios tres homens para a segurar, +levando-a á força para um posto policial. Chegada lá, Jacintha cahiu +n'um mutismo feroz. Como não podia salvar-me do fogo, tinha resolvido +lançar-se ao Sena. + +--Mas, afinal, como e por quem foi salva? Corre já sobre o caso, uma +verdadeira lenda. + +--E parece lenda, com effeito. + +Seguidamente contou ao doutor as peripecias do seu salvamento até ao +momento da morte tragica do bombeiro, em que ella de novo tinha perdido +os sentidos. + +--Quando voltei a mim, continuou Laura, estava n'uma pharmacia da rua de +Peletier. Jacintha, que me tinha encontrado, soltava gritos d'alegria +por me ver abrir os olhos. O meu salvador estava ali tambem, com o +fato, as barbas e os cabellos queimados, pallido, mas satisfeito por ver +que eu voltava á vida. Reconheci-o como um dos _habitués_ dos +_fauteuils_ d'orchestra. Exprimi-lhe o meu reconhecimento, e pedi-lhe +que me dissesse como se chamava. Sabe o doutor o que elle me respondeu? +Isto: «Sou alguem que passava, e que a salvou, salvando-se.» Foi a custo +que obtive, ao subir para a carruagem que me conduziu a casa, que elle +me desse o seu cartão. + +--E conserva o cartão de tão modesto homem? + +--Eil-o aqui... O doutor leu: + +--ANTONINO DE BIZEUX. + +--Conhece-o? + +--De vista, apenas. Tenho-o encontrado em varios salões. É considerado +como um original, meio selvagem. Lembro-me de o ver muitas vezes na +Opera, e, se bem me recordo, dizia-se que elle estava apaixonado pela +minha querida Laura. + +--Engano! Quando muito estaria apaixonado pela minha voz. Se arriscou a +vida, para salvar a minha, estou certa que foi unicamente por suppôr que +não ha outra cantora que lhe faça sentir as mesmas emoções de _dilettante_. + +--Parece-me isso inverosimil, observou o medico. Verá que, como +recompensa, elle não se contentará com a promessa d'uma nova +escriptura na Opera. Já a veiu ver, sem duvida? + +--Pedi-lhe que viesse, e assegurou-me que viria saber como eu estava. +Julguei que tivesse vindo de manhã, emquanto dormi, mas não encontrei o +cartão d'elle entre os outros. + +--Se suppõe que será recebido, como merece, só se apresentará depois do +meio dia. Entretanto lembre-se que não lhe receito só o que mandei +buscar á pharmacia: é necessario que guarde um repouso absoluto. +Prohibo-a de receber quem quer que seja. + +--Tem de abrir uma excepção para o meu salvador, replicou Laura com +vivacidade. A ingratidão não é droga que o doutor receite a ninguem, com +certeza. + +--Bem! Farei a excepção pedida! disse Despujolles sorrindo. Registo, +comtudo, que a minha amiga desobedece ás prescripções do seu medico, o +que é grave. + +E retomando o tom serio do clinico, accrescentou: + +--Asseguro-lhe que necessita do mais absoluto repouso durante muitos +dias. N'este momento é a febre que lhe conserva as forças, mas em breve +cahirá n'uma grande prostração nervosa, e sentirá a necessidade d'uma +completa tranquillidade d'espirito. + +--Comtudo... disse Laura. + +--Não ha comtudos... + +--Não lhe fallarei de Pozzoli, que me propõe escriptura... + +--Eu me encarrego de mandar Pozzoli para o inferno! D'aqui a oito dias +tratará d'esse negocio. + +--Ou quinze; isso é o menos. O peor é que escrevi a Remissy, +convidando-o para almoçar ámanhã. Elle quer que eu ouça uma _alleluia_ +que compôz em minha honra... + +--Então convide-me tambem, disse o doutor n'outro tom. Como estarei +presente, não consentirei que falle. Remissy e eu a entreteremos. + +--E o meu salvador? perguntou Laura. Se vier hoje não posso convidal-o +para o almoço? + +--Mau! Isso já é outro genero de distracção. Como serei do rancho, +tratarei de vigiar, porque, na verdade, começo a ter ciumes do visconde. + +--Que idéa! + +--Pois sim! A verdade é que elle está apaixonado e é bretão. E um +apaixonado que salva a vida da sua bella... + +--O senhor sabe que eu sou sincera... interrompeu Laura. + +--Sei. É a mulher mais franca que eu conheço. Direi até: a unica, em que +pese á minha numerosa clientela feminina. + +--Consola tanto nada ter que dissimular ou occultar! Pois bem; +affianço-lhe, doutor, que, pensando no sr. de Bizeux, não sinto a +menor commoção indicativa d'amor; nem sombra d'ella! Que elle esteja ou +não apaixonado por mim, confesso-lhe e declaro-lhe que nunca desejei +tanto fazer de qualquer homem um amigo. + + + + +V + +Perplexidades + + +A Linda não recebeu n'esse dia a visita ou o cartão d'Antonino. + +Outro tanto succedeu no dia seguinte até á hora do almoço, ao qual +Remissy e Despujolles fizeram as devidas honras, sem conseguirem, apesar +dos esforços empregados para esse fim, distrahir a cantora d'uma especie +de preoccupação que se apossára d'ella. + +Nada de novas do meu salvador! disse Linda a Despujolles quando o doutor +se despediu. Tenho perguntado a mim mesma se não serei eu quem deva +mandar saber noticias d'elle. Quem nos assegura que o visconde não está +mal? + +--Vamos, serei generoso mais uma vez! replicou o medico. Irei saber do +seu heroe. Está satisfeita? Onde mora elle? Não tem indicação de morada, +no bilhete de visita? Parece-me que é no _boulevard_ Hausmann, mas +ignoro o numero. Sabel-o-hei por um dos meus clientes, que é primo do +visconde, e dentro em pouco lhe mandarei dizer como elle está. + +Ás tres horas da tarde Laura recebeu o seguinte bilhete: + + +«Fui a casa do nosso homem. Está no mais invejavel estado phisico. O +moral nãe me diz respeito. + + _Despujolles._» + + +Entretanto Antonino, cumprindo a promessa feita á cantora na noite do +incendio, fôra no dia seguinte saber como estava Laura. + +Contentára-se apenas com perguntar á porteira como estava Linda, sem +dizer nem deixar o nome. + +Nos dois dias seguintes procedeu de forma identica. + +Ao quarto, como os visitantes rareassem, a porteira respondeu á pergunta +d'Antonino: + +--A senhora vae melhorando, mas não poderá receber ninguem antes de dois +ou tres dias. + +E advertida por Jacintha, segundo instrucções de Laura, accrescentou: + +--O sr. quer ter a bondade de me dizer o seu nome? + +Antonino respondeu em tom breve. + +--Visconde de Bizeux. + +--N'esse caso, disse a porteira, o sr. visconde pode subir. Tinha ordem, +desde o primeiro dia, de dizer a vossa ex.ª que a senhora o recebe... +mas só ao sr. visconde. + +Antonino interdicto, respondeu: + +--Bem... mas hoje é impossivel... Tenho uma entrevista marcada... e já é +tarde... Transmitta á senhora os meus agradecimentos e os meus +respeitos... Eu voltarei. + +E sahiu como se fugisse. + +Alguns momentos depois Jacintha participava a Laura o que se passara. + +--Singular indifferença essa! disse a cantora. + +O que o coração d'Antonino sentia era justamente o contrario da +indifferença que Laura lhe suppunha. + +Tanto de dia como de noite o visconde só pensava em Laura. + +Tornar a vel-a era o seu mais ardente, o seu unico desejo. + +Mas desejava tanto isso, que tremia. + +Era como um barril repleto de polvora temendo uma faisca. + +E não voltou á rua de Bolonha. + +Quando Laura pôz Despujolles ao corrente da situação, e medico disse: + +--Oh! oh! o caso é mais grave do que eu julgava. Como é que um valente, +que a arrancou ás chammas do incendio, treme diante da minha amiga? +Afinal, o caso comprehende-se. Elle percebe que o perigo, agora, +augmentou de intensidade. O infeliz está em um estado verdadeiramente +inquietante. + +--Não mangue, dr., respondeu Laura que pensava justamente como o medico, +mas que entendeu conveniente não annuir ao que Despujolles dizia. Mas +emfim, eu não o tornarei a ver? + +--Seria o melhor para ambos. + +--Está enganado, doutor. Mesmo quando a sua observação fosse justa, é +necessario tornar a vel-o, para que o possa curar. O doutor trata dos +seus doentes a distancia? Não. O mesmo succede commigo. E como sabe, eu +tenho curas que me honram. + +--Quer que a ajude a procurar o seu paciente? Seja! Tornarei a ser +generoso. Forcemol-o a sahir do covil. Escreva-lhe ámanhã ao meio dia um +bilhete. Uma hora depois estarei aqui com a fera. + +No dia seguinte, ao meio dia preciso, o visconde, perturbado, lia, n'um +cartão de Laura, as seguintes linhas, escriptas pela cantora em +seguida ao nome: + + +«Permitte-se lembrar ao sr. de Bizeux que elle deve visita á que lhe +deve a vida.» + + +Um quarto de hora depois uma carruagem conduzia-o á gare d'Oeste. + +Comprou bilhete para Saint-Malo e subiu para o comboio prestes a partir. + +Quando Despujolles, ao meio dia e meia hora, chegou a casa d'Antonino, +disseram-lhe que o visconde tinha partido pouco antes, tendo deixado +dito que ia ver o pae. + +O doutor dirigiu-se immediatamente para casa de Laura, a quem participou +o caso, ajuntando: + +--Decididamente a doença torna-se alarmante! O visconde está apaixonado +até á indelicadeza! + +Como não podia prever a visita de Despujolles que lhe dennunciaria a +fuga, Antonino julgou-se ao abrigo de censura enviando, no dia seguinte, +a Laura, este telegramma: + + +«Recebi, minha senhora, o seu gracioso convite em Saint-Malo, onde fui +subitamente chamado por meu pae, um pouco doente. Ámanhã volto a +Paris, terei então a honra de lhe apresentar os meus respeitos.» + + +Sahira de Paris para metter cem leguas entre elle e a Linda, mas, ao +contrario do que esperava, a distancia fazia com que se lembrasse ainda +mais da cantora. + +Aquelle acto de energia apenas serviu para demonstrar a sua irremediavel +fraqueza. + +Em Paris estava perto de Laura; fugia de a ver, mas tinha noticias +d'ella, e quando quizesse podia procural-a. + +Considerou uma loucura o ter supposto que a ausencia o curava, porque +nunca soffrera tanto. + +Chegou desgostoso a Saint-Malo, achou soturna a velha casa da familia, +onde vivia o pae e uma irmã mais velha, solteira ainda. + +Tres dias depois, cançado de soffrer em silencio, Antonino resolveu-se a +tudo confessar a seu pae. + +O confidente foi bem escolhido e bem exposta a confidencia. + +Em novo, o pae d'Antonino passara por um desgosto semelhante. + +Amára uma menina encantadora, por quem era amado tambem, mas que tinha o +defeito de ser pobre e plebea. + +O conde de Bizeux, avô de Antonino, era um velho rigido, intractavel +em questões de nobreza e importancia patrimonial. + +Não se contentou, d'accordo com o pae da donzella, com destruir aquelle +amor; obrigou o filho a casar com uma prima, de belleza duvidosa, mas de +fortuna avultada. + +Aquelle enlace de conveniencia não podia fazer felizes os esposos. + +Ella era feia e altiva, entregue sempre a praticas devotas; elle, +tristemente resignado, deixava-se absorver pelas recordações. + +A filha mais velha parecia-se com a mãe, mais feia, mais orgulhosa, mais +devota ainda. + +Recusára sempre casar-se, não querendo entregar-se a qualquer homem, que +apenas a tomaria pelo dote, o seu unico merito. + +Depois d'enviuvar, o conde de Bizeux não tinha outra consolação além do +amor por Antonino. + +Essa grande estima que tinha pelo filho não impediu que se separasse +d'elle emquanto o visconde viajou, e que não quizesse acompanhal-o a Paris. + +Quiz ficar na sua Bretanha, vivendo melancholicamente das recordações do +passado. + +A excessiva severidade dos paes produz muitas vezes nos filhos, paes por +sua vez tambem, a excessiva indulgencia. + +Foi por essa razão que o conde de Bizeux recebeu a confidencia +d'Antonino com a simpathia terna d'um irmão. + +O soffrimento do visconde diminuiu desde que teve com quem fallar de Laura. + +Entretanto continuava triste e visivelmente inquieto. + +Como percebia o estado em que o filho estava, o conde, ao fim d'uma +semana, chamou-o e disse-lhe: + +--Tu soffres Antonino. Deixa-me dar-te um conselho: volta para Paris. +Parece-me que te falta um pouco de coragem e de dignidade. Amas uma +mulher que não te conhece e que só te viu quanto a salvaste. Não pode +ter-te amor, é certo; mas quem te diz que, conhecendo-te melhor, não +virá a amar-te? Pelo que sabes d'ella, a Linda só pensa em arte, não +amou nunca, não amará talvez. Mas approxima-te, não como uma creança que +teme, mas como um homem que não recua nem ante uma decepção, nem ante um +grande desgosto. Quem sabe se, quando a conheceres bem, não acharás que +Laura não corresponde ao teu sonho! + +Antonio abraçou o pae com effusão, agradecendo-lhe reconhecido aquelle +conselho viril, e partiu de Saint-Malo quasi tão precipitadamente como +deixára Paris. + +Ao partir telegraphou a Despujolles, dizendo-lhe que o procuraria no +dia seguinte, e pedindo-lhe para o acompanhar a casa de Laura. + +Pelas duas horas da tarde do outro dia entraram ambos no salão da +cantora, prevenida antecipadamente pelo medico. + +--Trago-lhe emfim o selvagem! disse o dr. ao entrar. + +Laura estendeu a mão a Antonino, dizendo-lhe com a mais graciosa +simplicidade: + +--Agradeço-lhe o ter vindo. Detesta a sociedade?... Tem rasão. Mas eu +não pertenço a essa sociedade, sou apenas uma mulher. Verá que sou +excellente camarada, muito sincera, que gosto muito d'alguns amigos, e +que me sentirei verdadeiramente feliz se o homem que me salvou a vida +quizer pertencer ao numero restricto d'esses amigos. + +Em seguida fallou, a Antonino do proprio Antonino, como se fallasse +d'elle ao dr. Despujolles. + +Lembrou-se, rindo, da noite em que o olhára da scena, com o que elle +indicára incommodar-se. + +--E era justo que assim fosse, accrescentou ella, porque nós, ante o +publico, nem por um momento nos devemos esquecer do personagem que +representamos. + +Fallando-lhe assim poz á vontade Antonino, que ao principio estava meio +compromettido. + +Fallaram de musica, de theatro. + +Ella disse-lhe que provavelmente ia para o theatro Italiano, visto +Pozzoli lhe ter proposto um bom contracto. + +Confessou que não tinha a menor estima ou sympathia por aquelle +emprezario, mas como gostava de Paris, queria demorar-se na grande cidade. + +De resto, não podia passar sem cantar,--por causa da sua bolsa e por +causa do seu espirito. + +Cantar era para ella metade da vida. + +--A proposito: Pozzoli, para celebrar o meu completo restabelecimento e +a minha entrada para os Italianos, offerece-me, na terça feira proxima, +uma especie de festa em S. Germano: almoço ajantarado na relva, passeio +aos Loges, etc. Devo-lhe enviar ámanhã a lista dos meus convidados. Na +cabeça do rol inscrevi o seu nome, sr. de Bizeux.... Oh! não recuse, +porque é caso para dizer: não haveria festa sem o sr. + +Antonino fez um gesto d'assentimento. + +Ficou combinado que iriam juntos a S. Germano, Despujolles e elle. + +--Que adoravel mulher e que encantadora creança! Dizia o medico ao +visconde, descendo as escadas da casa de Linda. Verá: com ella começa a +gente por estar apaixonado, e acaba por se sentir feliz de ficar amigo. + +--Assim será! respondeu Antonino. + +A verdade é que elle sentia-se cada vez mais apaixonado, e pensava com +desespero que Laura não o amava, que não o amaria jamais. + + + + +VI + +A festa + + +No dia fixado, um _mail-coach_, em que tinham tomado logar Antonino, +Despujolles e mais uns vinte convidados de Pozzoli, subia, ao trote +largo de quatro cavallos pretos, a avenida dos Campos Elyseus. + +Era a primeira terça feira de setembro. + +Ao longe os sinos de Santa Clotilde zumbiam, como enxame d'abelhas, sob +as agudas pontas das settas gothicas. + +As mulheres riam estridentemente, empoleiradas no alto da carruagem. + +Aquellas gargalhadas quebravam o silencio da avenida, deserta ainda +áquella hora. + +Os guisos de bronze reteniam ao pescoço dos cavallos n'uma alegria matinal. + +E em sorrisos de luz, as folhas altas dos platanos brilhavam, como +estrellas movediças, os castanheiros espessos formavam massiços largos, +ao fundo de _callidimos_ entrelaçados em ramos monstros sobre a relva +dos canteiros. + +Os jardineiros municipaes assestavam as mangueiras dos tubos d'irrigação +articulados. + +Uma chuva branca cahia sobre a relva, cortada quasi cerce, e por entre +as bambinellas do fino orvalho um arco iris dansava, radioso. + +O _mail-coach_ que conduzia a S. Germano Antonino, Despujolles e os +convidados de Pozzoli, chegou ao pavilhão Henrique IV ao mesmo tempo que +o _coupé_ de Linda. + +Laura vestia uma elegante _toilette_ de seda da India, cinzenta. + +O corpo do vestido era enfeitado com fazenda de lã e ornado de laços +granade. + +A saia, um pouco curta, deixava perceber a curva nascente d'uma perna +fina de parisiense ou de hespanhola. + +Estava encantadora assim. + +Apertou a mão a todos, mas em primeiro logar a Antonino, a quem +apresentou a Pozzoli, o amphytryão. + +O emprezario do theatro dos Italianos era um homem de mãos largas, dedos +massiços, cabello grosso e espetado, barba em leque, olhos redondos, +nariz recurvo como o bico d'um abutre, bocca grande, de labios grossos, +libidiminosos. + +Á primeira vista representava o typo completo da força bruta e dos +appetites sensuaes. + +Melhor examinado, porém, notavam-se-lhe extraordinarios ridiculos. + +Macaqueava com as mulheres, n'uns gestos afectados, como o tenor +Lauretto Mina. Fallava sempre com os labios quasi cerrados, e quando +pronunciava uma d'essas phrases equivocas, que as mulheres de que +habitualmente se rodeava achavam deliciosas, soltava gargalhadas +imprevistas casquinhando mechanicamente, para mostrar dentes +magnificos... mas postiços. + +D'ordinario pintava o cabello e a barba, e nas _soirées_ apparecia +sempre com carmim nas faces e as sobrancelhas alongadas e carregadas por +uma pincelada negra. + +Tal era Pozzoli. + +O emprezario desagradou soberanamente a Antonino, que tambem não +sympathisou com Lauretto Mina, cujos gestos afeminados e maneiras +pretenciosas faziam um absoluto contraste com os modos viris e simples +do gentilhomem bretão. + +Depois de trocados os cumprimentos e feitas as apresentações, os +excursionistas puzeram-se a caminho para a floresta, precedidos d'um +carro do pavilhão Henrique IV, que transportava o almoço. + +--Não vejo Remissy, disse Laura. Entretanto elle deu-me a sua palavra de +que não faltaria. + +--Elle virá, replicou o dr., mas provavelmente quando menos se esperar, +porque aquelle demonio tem grande tendencia para as surpresas. + +Os _mails-coachs_, os _landaus_ e os _coupés_ embrenharam-se sob as +abobadas verdejantes, n'um turbilhão d'alegria ruidosa. + +Ao atravessarem as pequeninas clareiras inundadas de luz, os raios das +rodas tinham brilhos vivos e vibrações agudas. + +Falseamentos rutilavam nas nuvens de pó, com um bulicio de ruidos +multiplos: a ferradura d'um cavallo topando n'uma pedra, uma roda +gemendo na depressão do terreno, o estridulo das gargalhadas subindo no +ar perfumado de verdura humida, o estalo d'um pingalim assustando as +aves aterrorisadas, e por vezes, cortando os intervallos de silencio, o +relincho satisfeito d'um cavallo. + +--Alto! gritou Lauretlo Mina com a sua voz de cigarra. + +--Alto! vociferou Pozzoli, como um echo brutal. + +As carruagens pararam. + +--Chegamos, disse o dr. a Laura, indo abrir a portinhola do _coupé_. + +--Eis a sala de jantar, a senhora está servida! annunciou Lauretto por +de traz do medico. + +Sem esperar que lhe dessem a mão, Laura saltou com ligeiresa. + +Pozzoli offereceu-lhe o braço. + +--Qual! disse a cantora recusando. No campo caminha-se em liberdade, sem +cerimonias. + +Em um minuto chegaram á verde clareira em que o almoço estava servido, +sobre uma elevação arrelvada. + +Cada qual tomou logar em volta d'aquella toalha verdejante, manchada de +escuro por tres presuntos d'York, quatro travessas de _foie gras_, doze +lagostas, seis gallinhas, montanhas de doces, pecegos de Montreuil, +passas de Malaga em caixas. + +Em volta da improvisada meza, como collocadas em atiradores, +alinhavam-se vinte quatro garrafas de _Bordeus_, e em torno d'um +carvalho secular, entre as anfractuosidades rugosas do tronco, trinta +garrafas de _moscatel_, de _Madeira_ e de _Champagne_, de gargalos +prateados, conservavam-se em reserva, meio occultas pela herva alta. + +Massiços de verdura banhados de luz, cruzavam-se, como bayonetas +enfeixadas; extremidades de plantas queimadas pela geada balouçavam-se +levemente, e tres grillos corajosos entoavam uma marcha triumphante +por entre uns fetos proximos. + +Laura sentara-se junto d'um freixo gigante, appoiando as costas ao tronco. + +Um grupo d'aveleiras servia-lhe de guarda-sol. + +Antonino de Bizeux e o dr. Despujolles tomaram logar á direita e á +esquerda da cantora. + +Em frente d'elles, agrupados, estavam Pozzoli, Lauretto Mina e os +restantes convivas. + +Eram uns quarenta ao todo. + +O almoço foi pouco ruidoso ao principio. + +O appetite é sempre silencioso. + +Ouvia-se apenas o ranger dos garfos de prata na porcellana dos pratos. + +A Linda comia com vontade, e molhava alegremente os labios finos no +liquido do copo. + +Á sobremesa a conversação rebentou, viva e alegre, acompanhada pelo +tenir dos copos e pelo riso das mulheres, e entre a confusão das vozes, +misturadas com o _pizzicato_ dos garfos, um melro, pousado n'uma arvore +proxima, rythmava as suas cadencias aflautadas. + +Lauretto Mina embriagou-se, como costumava. + +De repente levantou-se, tendo na mão uma taça de _Champagne_, e disse +com voz entaramelada: + +--Bebo á saude da rainha da festa, da divina Laura Linda! + +Laura corou um pouco, e Antonino franziu as sobrancelhas. + +Mas todos levantaram as taças, repetindo: + +--Á saude de Laura Linda! + +N'esse momento, na alléa que seguia ao lado d'aquella meza verdejante, +apparecia uma duzia de officiaes d'_hussards_, trotando nos seus cavallos. + +Logo que viram os convivas d'aquella pittoresca festa, fizeram diminuir +o andamento dos animaes. + +Despujolles disse algumas palavras ao ouvido de Pozzoli, e depois +caminhou para os officiaes e disse-lhes: + +--Meus senhores, somos artistas e homens de sociedade: querem fazer-nos +a honra d'acceitar um copo do nosso magnifico vinho francez? + +--Da melhor vontade! responderam os officiaes em coro. + +E puzeram em linha os cavallos arabes. + +Foram as damas que serviram o _Champagne_. + +Beberam pela França e pelos francezes. + +Em seguida os officiaes ofereceram charutos aos homens, cumprimentaram +as senhoras e partiram a galope. + +A brilhante cavalgada desappareceu rapidamente, como uma phantasia, na +profundeza do bosque. + +Deixaram as carruagens e as louças á guarda dos creados, e partiram a pé +para a feira das Loges. + +Combinaram que caminhariam sem cerimonia, em debandada. + +Mas como o caminho d'esta vez fosse mais longo, formaram-se, +naturalmente, grupos e pares. + +Antonino estava, como por acaso, ao lado de Laura, que deu um passo em +falso, e, como por acaso tambem, tomou o braço do visconde, appoiando-se +a elle ligeiramente, com uma graça encantadora. + +Caminharam assim por algum tempo, alegres e sonhadores, admirando coisas +vulgares que lhes pareciam tão interessantes como se nunca as tivessem +visto. + +Um ruido confuso annunciou, de longe, a feira das Loges. + +Sinetas, pandeiros, tambores, trompas, cornetins, produziam um baralho +ensurdecedor. + +Aquella parte da floresta estava cheia de gente vestindo fatos +domingueiros, pares mais ou menos apaixonados, creanças saltando na +alegria da plena liberdade. + +Appareceram as primeiras barracas ao fim da estrada. + +Augmentava o ruido da symphonia discordante d'instrumentos diversos, de +_clowns_ esganiçando-se em falsetes, d'hercules soprando em enormes +porta-vozes os seus desafios burlescos aos amadores de luctas. + +Antonino e Laura acharam-se, n'um instante, separados dos seus +companheiros. + +Pararam deante das barracas, admirando, embasbacados como creanças, os +objectos n'ellas expostos. + +Laura achou immensa graça á atabalhoada arenga berrada á porta d'uma +barraca de saltimbancos por uma especie de cigano, de cara serampintada, +cabellos crespos, com voz enrouquecida, que ainda assim não perdera o +tom accentuadamente marselhez. + +O homem convidava o respeitavel publico a visitar a Mulher-Electrica. + +--É entrar, meus senhores, é entrar, dizia elle. Por dois _sous_ podem +admirar a mais formosa e a mais gentil mulher do mundo. Só homens podem +entrar, porque se as senhoras viessem a esta barraca, sahiriam loucas de +inveja! Não quero dizer com isto que as senhoras presentes não sejam +novas e formosas, não! Mas, acreditem, nenhuma das que vejo, e das +ausentes, poderia dar a seu marido uma sensação semelhante á que esta +produz em todos os homens que lhe tocam!... É entrar, meus senhores, é +entrar! Não encontrarão outra occasião, como esta, para admirar uma +belleza sem rival! Tem pernas de Diana, braços de Venus... Parece a +esposa de Jupiter! Não ha uma só princeza que a não inveje!... É um ovo +por um real, contemplar uma maravilha d'esta ordem apenas por dez +centimos!... É entrar, meus senhores, é entrar!... + +Proximo, um colosso, de braços musculosos e nús, abronzeados, ao lado +d'uma preta robusta, provocava á lucta os amadores mais valentes. + +Um realejo moia a _Valsa das Rosas_, e ao lado, n'uma barraca de +balouços, um outro realejo gemia uma polka, emquanto que, por entre +gargalhadinhas de medo, mulheres cortavam o ar nos balouços, olhando +para os amantes, que as contemplavam satisfeitos. + +Um pouco mais longe via-se um _carrousel_ de cavallos de pau, enfeitado +d'uma franja vermelha e azul em que scintillavam lantejoulas. + +Creanças, sentadas n'aquelles animaes inoffensivos, sentiam-se felizes +por fazer concorrencia aos saltimbancos, chamando sobre si a attenção +embasbacada dos passeiantes. + +De toda aquella multidão desprendia-se rumor confuso, onomatopeas sem +sentido, cortadas pelo som d'um pandeiro ou pelas notas estridentes d'um +cornetim. + +No ar passavam odores acres de frituras rançosas, salchichas que ferviam +em gorduras velhas no fundo de largas frigideiras, vinho azedo que +bebiam pelo cangirão, café intoleravel feito do cosimento das borras e +de tintura de chicoria. + +As tabernas regorgitavam de freguezes vorazes. + +Muitos, como não tinham onde sentar-se, comiam de pé, ao sol, com o mais +invejavel appetite. + +A alegria franceza resaltava de toda aquella multidão franca, ruidosa, +divertida. + +Sentiam-se felizes por aquella excitação ardente, pelos movimentos +desordenados, pelos raios do sol que lhes alumiava as faces vermelhas, +pelas nuvens de pó amarellento, que se elevava até ao cimo das arvores +frondosas, em virtude do caminhar continuo d'aquelle formigueiro humano. + +Pelas cinco horas da tarde, um homem que desempenhava as funcções de +pregoeiro, attrahiu a attenção de todos com o toque preliminar do seu +tambor. + +Quando viu em volta um circulo espesso d'ouvintes, dos quaes faziam +parte grande numero de convivas de Pozzoli, desenrolou um largo papel e +leu esta especie de proclamação: + +«O violinista hungaro Remissy, aqui presente, faz saber que offerece um +_punch_ aos seus amigos e amigas no proprio local em que foi servido o +almoço d'esta manhã, ao qual circumstancias imprevistas fizeram com que +não tivesse o prazer d'assistir. Que todos o saibam!» + +Acabada a leitura, o pregoeiro affixou o papel no tronco d'uma +arvore e depôz tranquillamente no chão o tambor, onde um palhaço o foi +buscar. + +Depois, abrindo caminho com os cotovellos, desappareceu entre a multidão. + +O sol baixava, as sombras dos carvalhos alongavam-se d'instante a instante. + +Os donos d'algumas barracas accenderam os lampeões. + +A Linda e Antonino, que por vontade se tinham conservado perdidos dos +seus companheiros, voltaram sós para o local onde estavam as carruagens, +na meia luz crepuscular, sob a solemnidade grave das arvores. + +O silencio augmentava á medida que avançavam. + +Perdiam-se ao longe os clamores da feira e o ruido discordante da multidão. + +A floresta parecia indemnisar-se da desordem que n'ella causavam, pelo +contraste de socego altivo, apenas quebrado pelo ultimo chilrear das aves. + +A brisa fresca, impregnada de perfumes sadios, balanceava mollemente as +folhas humidas das arvores. + +Pouco depois de partirem da feira, todos os convivas se achavam na +clareira onde os esperavam as carruagens. + +Ao centro do terreno arrelvado onde fôra servido o almoço, +elevava-se uma enorme taça de prata cinzelada, em que chammejava um +_punch_ magistral! + +Os reflexos do _punch_ lançavam, n'um largo raio, vibrações de luz azulada. + +Remissy não apparecia. + +--É necessario esperar, disse Laura, visto ter-nos convidado. Mas onde +estará elle? + +No mesmo instante partiu d'uma matta proxima, como resposta melodiosa, +uma _phrase_ de violino, serena e lenta, n'um rythmo phantastico e velado. + +O violino de Remissy respondia á voz de Laura. + +E por entre a penumbra sentiu-se como que um formigamento d'insectos, +uma dança extravagante de grillos em hervas seccas, e no meio d'esse +acompanhamento de _pizzicato_ em surdina, a _phrase_ triste repetia-se +como um queixume atravez a noite! + +Foi extraordinario, simples, idealmente puro! + +Quando a ultima vibração melodiosa cessou, um bravo formidavel retumbou +na clareira. + +Remissy appareceu por entre o clarão do _punch_, cabeça ao vento, +ostentando a sua fronte alta que prematura calvice tornava enorme, com o +seu magnifico _stradivarius_ debaixo do braço esquerdo. + +--Hein! o que dizes a isto, Linda? que te parece a minha _Queen Mab_? +disse elle dirigindo-se á cantora. Tenho dedos, não é verdade? + +--Bravo! bravissimo! respondeu Laura enthusiasmada. Mas isso não +impede que seja um homem sem palavra. Prometteu vir almoçar comnosco e +não appareceu. + +--Não me falles em coisas tristes, minha filha! + +Foi o maldito director do Palacio de Crystal de Londres que veiu +novamente importunar-me! Imagina que parto para a capital da Inglaterra +hoje mesmo, no expresso da noite. Antes de partir, porém, quiz que +ouvisses a minha melodiasita. + +Creados de casaca serviam o _punch_ em copos de crystal. + +Foram feitas saudes mais ou menos estravagantes. + +Beberam um ultimo golo e dispozeram-se a subir para as carruagens. + +Remissy despediu-se da diva, beijando-a, e subiu para o carro de posta +que o trouxera. + +Quando viu todos prestes a partir, Pozzoli elevou a grossa voz e disse: + +--Minhas senhoras e meus senhores, tenho a dizer-lhes o seguinte: depois +do campo, a cidade; o almoço campestre d'hoje teve por fim celebrar a +promessa d'escriptura, no theatro dos Italianos, da diva Laura Linda; +quero dar uma _soirée_ em honra da realisação d'essa escriptura. Peço, +pois, a todas e a todos os presentes que queiram ir, d'hoje a quinze +dias, passar a noite em minha casa, na rua Pigolle. Cantar-se-ha, +dansar-se-ha, jogar-se-ha, beber-se-ha e rir-se-ha! + +Uma triple acclamação victoriou o discurso do amphitryão. + +Em seguida subiram para as carruagens, de volta a Paris. + +--Onde está o sr. de Bizeux? perguntou Laura a Despujolles. Tenho que +fallar-lhe. Quero que me acompanhe a Paris no meu _coupé_. + +--Não faça tal, minha querida, disse-lhe em voz baixa o doutor. Durante +a festa não se fallou senão na especie de monopolio que o visconde tinha +feito da diva. + +--Se eu era a rainha de festa, quer-me parecer que elle era o heroe d'ella. + +--Sem duvida, mas siga o conselho d'um amigo. Vou subir comsigo e com o +visconde para o _coupé_. Deixal-os-hei, se quizerem, em Verinet, d'onde +seguirei para Paris no comboio. Repito-lhe: não parta só com o visconde. +Lembre-se do que poderão dizer. + +Laura levantou a cabeça com altivez e replicou: + +--O que poderão dizer?... Que me importa?... O meu caro doutor conhece a +minha divisa: ser e não parecer. Repito-lhe que tenho de conversar +seriamente com o sr. de Bizeux, e não sei se, com a timidez de que elle +é dotado, acharei occasião tão propicia como esta. Supporá o dr. que +ha na minha intenção qualquer pensamento menos digno? + +--Eu? não, seguramente, mas. + +--Basta-me isso. Ah! Eis o sr. de Bizeux! ajuntou ella elevando a voz. +Senhor visconde, tenho que fallar-lhe. Quer subir para a minha carruagem +e acompanhar-me até Paris? + +--Oh! minha senhora!... respondeu Antonino meio compromettido, meio alegre. + +--Então venha. Subiram para o _coupé_ diante de todos. + +--Bravo! disse Lauretto Mina a meia voz, mas por fórma que foi ouvido +por todos os que o rodeavam. Vejo com prazer esboçar-se o numero um... +porque eu quero ser o numero dois! + + + + +VII + +Explicações + + +A palestra de Laura e de Antonino versou, ao principio, sobre assumptos +indiferentes, e quasi banaes. + +Fallaram do almoço e dos convidados de Pozzoli. + +O visconde não queria dizer o que pensava do emprezario e do tenor. + +Fallou de Remissy, cuja familiaridade o incommodára por vezes, mas cujo +enthusiasmo exuberante fizera com que sympathisasse com elle. + +--Que coração tão bondoso o d'elle! disse Laura. É meu verdadeiro amigo! +Meu pae dedicava-lhe grande affeição e profunda estima. Saberá quanto +vale em o conhecendo melhor. Em Remissy não ha só a admirar e a +applaudir o artista consumado: é tambem um valente e um patriota +sincero. Durante a guerra da insurreição da Hungria, elle foi um dos +primeiros que se apresentou, e não quiz nem espingarda nem sabre. «Tenho +horror de matar ou de ferir, disse Remissy; de resto, como não sei +servir-me d'essas armas, era capaz de dar cabo de mim com ellas». Em +compensação não largou o violino, e appareceu sempre onde mais accesa +era a lucta, ao lado de Kossuth, tocando admiravelmente o _Hymno de +Rakoçki_, por entre as ballas e a metralha, sem nunca falhar uma nota! + +Depois d'um curto silencio, a cantora accrescentou: + +--N'uma palavra: Remissy é um homem. Tem, superior a todas, a qualidade +que eu considero mais essencial ao caracter dos homens, a qualidade que +o sr. visconde possue: a lealdade. + +--É virtude que as mulheres tambem possuem, replicou Antonino, e quem a +conhece, minha senhora, affiança que não lhe falta. + +--Desejava possuir essa virtude viril, sem duvida. Entretanto esforço-me +o mais que posso para evitar os dois defeitos que a maior parte das +vezes perdem as mulheres: a galanteria e a vaidade. É precisamente por +essa razão que lhe desejei fallar hoje. + +--Porque? perguntou Antonino surprehendido. + +--N'este dia, em que o vi quasi pela primeira vez, occupei-me, sem +querer, e como por instincto, quasi exclusivamente do senhor, como o +senhor se occupou quasi exclusivamente de mim. Ha bocado, de subito, em +quanto Remissy tocava, acudiu-me ao espirito que tinha sido um pouco +leviana, que o sr. visconde não conhece a minha fórma de proceder, +talvez original, e que, por isso, interpretaria mal o que hoje se +passou. Portanto, disse commigo: é indespensavel que eu tenha com elle +uma explicação cabal, franca, em que lhe falle com o coração nas mãos... + +--Não sei se deva regosijar-me por essa sua resolução, disse Antonino +com voz tremula. Sinto que estou enfeitiçado e desejava conservar-me assim. + +--Mas eu não desejo que entre nós haja a menor sombra, a menor razão que +de futuro motive a mais leve surpreza. As mulheres, d'ordinario, esperam +a declaração dos homens para as acceitar ou rejeitar. Vae julgar talvez +que eu fujo ás conveniencias mais rudimentares, antecedendo-me á sua +declaração, mas é necessario, primeiro que tudo, que o sr. não soffra. +Sr. de Bizeux, tenho pensado muito no meu amigo desde o dia do incendio. +Não dou importancia ao que se diz, ao que se suppõe, ou ao que se +inventou, mas senti, de longe, nas suas acções, no seu silencio, na sua +fuga, e depois, quando o vi e lhe fallei, nas suas mais insignificantes +palavras, no seu aspecto, no seu metal de voz, senti... que o senhor +não estava longe de amar-me. + +O visconde fez um movimento, e quiz fallar. + +Mas Laura não lhe deu tempo, e continuou: + +--Peço-lhe que me não declare ser isso um facto consumado... Não, não +quero ouvir-lhe dizer: amo-a! + +--Comprehendo... sei... replicou Antonino. A senhora não me ama, o que é +natural, e--o que é triste,--não quer amar-me! + +--Não o amo, nem o quero amar... disse bem, repetiu Laura. + +Antonino fez um gesto de desgosto. + +Laura ajuntou suavemente: + +--Não se zangue commigo, e sobretudo não soffra. Sem duvida lhe disseram +o que tinha sido a minha vida até aqui, mas vista e julgada por +estranhos. Ouça-me agora. + +E seguidamente contou-lhe a educação que recebera, as suas primeiras +impressões, e o duplo fluido de que ella era por assim dizer formada: o +pae transmittira-lhe o culto pela arte, a mãe guiara-a por forma a ter +sempre a consciencia tranquilla, e a vida pura. + +Depois a cantora disse, pensativa: + +--Portanto não me accuse, como teem feito varios, de frieza, de +sequidão. Sinto em mim instinctos de ternura e d'expansão, aos quaes não +basta a sincera affeição que tenho aos meus amigos. Creio que só o +amor pode encher completamente o coração. Olhe, para se consolar um +pouco, vou dar-lhe uma prova de confiança absoluta, dizendo-lhe o que só +se diz a um irmão: ha em mim, em gráu bastante elevado, um sentimento +que herdei de minha mãe, a mais estremosa das mães: o sentimento +maternal. Todas as creanças que vejo, produzem-me uma impressão +inexplicavel, tenho por ellas uma adoração completa: adoro-lhes os +gestos, os sorrisos, a voz balbuciante, a alma por definir. Ter uma +creança que fosse meu filho, é para mim um sonho delicioso; ter um filho +do homem que amasse, é outro sonho que considero impossivel de realisar-se! + +--Porque? + +--Porque? Sob a apparencia d'uma mulher phantastica, eu sou, +garanto-lhe, uma mulher seria. Não quereria, não poderia amar um homem +que não fosse meu marido. + +Houve um silencio. + +Antonino cortou-o dizendo com voz grave: + +--Escute-me agora, Laura: sou absolutamente livre e senhor das minhas +acções, e da minha vida. Por coisa alguma d'este mundo affligiria ou +daria o menor desgosto a meu pae; mas o homem que me deu o ser possue +alma generosa e elevada como poucos, e tem por mim um amor sem limites. +Não me amará ainda, Laura, mas, se diligenciar amar-me, é possivel +que o consiga. Pois bem: prometta-me que no dia em que tal succeda, +consentirá em ser minha mulher! + +--Sua mulher!... disse a cantora admirada. + +Depois, com os olhos marejados de lagrimas, accrescentou: + +--Ah! como lhe agradeço a grande prova d'estima que acaba de dar-me! +Como as suas palavras me commovem! Será por me ter salvo a vida? Não +sei, mas o que é certo,--e já ha bocado lh'o disse,--é que fui attrahida +para o senhor por um vivo sentimento de sympathia, e se o não amo ainda, +parece-me que não necessitaria fazer grande esforço para o conseguir. +Levanta-se apenas uma difficuldade, que de novo lhe aponto: não quero +amal-o! + +--Mas porque? + +--Porque o sr. visconde não póde nem deve casar commigo. + +--E se os nossos desejos estiverem d'accordo, que obstaculo poderá +separar-nos? + +--Um obstaculo insupperavel. É impossivel que o sr. visconde Antonino de +Bizeux case com uma mulher de theatro, que, mesmo depois de casada, não +renunciará á scena. + +--É impossivel, disse? + +--Disse e repito: é impossivel! Não devemos deixar-nos obcecar por uma +excitação de momento. Quando se prende o destino inteiro, deve-se +ter em vista não a alegria do instante presente, mas a felicidade de +todo o futuro: Com as aspirações honestas que minha mãe me legou, eu +tenho as aspirações d'espirito de meu pae. Nasci e morrerei artista. Se +fosse pintora, compositora ou escriptora, podia ter um logar na vida da +alta sociedade. Mas sou apenas cantora; o meu talento é a minha voz, e +para que esse talento se produza é necessario um publico, não o publico +indulgente dos salões, mas o grande publico, a multidão que enche um +theatro. + +--E suppõe que o amor, o lar, as santas alegrias da familia não +substituirão vantajosamente o ruido das palmas e a gloriola dos bravos? + +--Durante algum tempo... sim... é possivel, é até provavel. Mas estou +certa de que depois chegará o aborrecimento, a nostalgia do proscenio. +Na ultima epoca que cantei no theatro Scala, ha tres annos, adoeci ao +começar o inverno. A doença era ligeira e qualquer outra que não fosse +eu estaria completamente curada com um mez de tratamento e de socego. +Mas a impaciencia, o desgosto e a febre devoravam-me, por fórma que +estive de cama tres mezes. Pereceria longe do theatro, como uma planta a +que não chegam os raios do sol. Ah! se o senhor fosse um artista como +eu, pobre, desconhecido até! Mas possue um honrado titulo e uma grande +fortuna. Seu pae por mais condescente que seja, não acceitaria para +nora uma comediante, uma cantora, uma mulher que póde ser pateada e +assobiada! Se o senhor quizesse contrariar a vontade de seu pae, +desprezando os deveres que lhe impõem o seu nome e a sua posição social, +seria eu a primeira--ouve?--que recusaria semelhante sacrificio. + +--Sacrificio, se vier a amar-me, será a senhora quem o fará um dia. + +--É possivel, e por isso mesmo é que eu não quero amal-o. + +--Mas eu que a amo, o que hei de fazer? + +--Tornar-se meu amigo. Não diga que não; não supponha que é impossivel +d'operar a transformação do amor em amisade. Verá que hei de auxilial-o +fraternalmente. É necessario vontade e coragem, bem sei, mas estou certa +de que não lhe faltarão essas duas qualidades. + +--Está-me fallando como me fallaria meu pae! + +--Ah! confessa?... Ainda bem! Attenda-o e attenda-me. A um homem de +caracter fraco, eu diria: parta, faça uma longa viagem, e volte d'aqui a +alguns mezes, completamente curado. Ao meu amigo digo-lhe: fique em +Paris, vá ver-me quantas vezes desejar, e estará curado dentro em poucas +semanas. + +--Seja! respondeu o visconde. Não partirei, tentarei a prova. Veremos o +que resulta d'ella. + +Quando o _coupé_ parou na rua de Bolonha, á porta da casa de Laura, +Antonino despediu-se da cantora sem commoção apparente. Beijou-lhe a mão +e trocaram amigavelmente um: + +--Até ámanhã. + +O visconde desceu a pé a rua de Glichy e a calçada d'Antin até aos +_boulevards_. + +Sentia uma especie de consolação ao ver-se perdido entre a multidão. + +Caminhou até que os passeiantes rarearam. + +Só depois disso entrou em casa, com o coração cheio d'incerteza e +d'angustia. + + + + +VIII + +Mais perplexidades + + +Antonino executou com a mais perseverante firmeza a resolução que tomára. + +No dia seguinte ao do almoço em S. Germano, e nos dez ou doze que se +seguiram, foi a casa da cantora, não a hora certa, e com demora +indeterminada, mas sem deixar de apparecer um unico dia. + +Umas vezes encontrava Laura só, outras apparecia o dr. Despujolles, +sempre alegre, sempre espirituoso. + +O visconde era como que uma pessoa da familia da cantora. + +Fallavam d'arte, de qualquer assumpto em geral, da novidade do dia. + +A Linda, por vezes, quando estavam sós, fallava d'ella propria, com +simplicidade, sem a menor affectação, sem se contrafazer, sem se macular. + +Contava-lhe o seu passado, fallava-lhe do pae, do que tinha visto, das +suas luctas, dos seus successos, das suas dôres. + +Antonino absorvia assim, dia a dia, por completo, as mais +insignificantes minucias da vida de Laura. + +A cantora não dissimulava os seus defeitos ou os seus erros, mas não os +exagerava. + +No dia em que participou a Antonino que assignára, de manhã, com +Pozzoli, uma escriptura d'um anno para cantar no Theatro Italiano, com a +multa de cincoenta mil francos para qualquer das partes contractantes, +que resolvesse rescindir o contracto, o visconde teve uma contracção +nervosa. + +Estava escripto que deveria levantar-se entre elles mais aquella barreira. + +Antonino não demonstrou descontentamento sobre o contracto propriamente +dito, mas ao mesmo tempo indicou uma profunda má vontade contra o +Theatro Italiano, contra Pozzoli e o _elenco_, que considerou muito +inferior ao do antigo salão Favart. + +Sentiu ver Laura confundida com artistas de valor secundario, n'uma +companhia de que Lauretto Mina era primeiro tenor. + +Lauretto Mina e Pozzoli! + +Um, brigão e libertino; o outro, libertino e rufião! + +Um, trapaceando ao jogo; o outro, explorando os duellos! + +Na opinião d'Antonino aquelles dois homens representavam a escoria dos +italianos. + +N'aquelle mesmo dia recebeu o visconde um convite de Pozzoli, para +assistir á _soirée_ que o emprezario dava, d'ali a algumas noites, na +sua casa da rua Pigolle. + +Laura tencionava ir? + +Emquanto a elle, estava resolvido a não pôr os pés n'aquelle bordel. + +Perguntou á cantora se não sabia o que diziam de Pozzoli. + +--Não é um italiano... é um grego! + +Laura respondeu com meiguice. + +Estava resolvida a ter com Pozzoli as relações indispensaveis que sempre +ligam a escripturada ao emprezario, unicamente. + +Entretanto não podia deixar d'ir á _soirée_, que era dada em sua honra, +e na qual devia cantar um ou dois trechos de musica. + +Ficaria muito reconhecida ao visconde, se elle annuisse a pôr de parte a +repugnancia que sentia, e assistisse á _soirée_ tambem. + +Necessitava que Antonino estivesse presente, para velar por ella. + +--Devo confessar-lhe um dos meus maiores vicios, accrescentou Laura, +rindo; sou jogadora. Não sei explicar nem me desculpo d'esta falta. O +jogo produz-me emoções tão extraordinarias, que as procuro e as adoro. +Não deixe d'ir, para que me contenha e afaste até, se eu, como costumo, +me deixar influenciar demais. + +--A acreditar no que se diz, respondeu Antonino, não é para a minha +amiga que a minha attenção deve voltar-se, se jogar com Pozzoli. + +--Bem sei. Diz-se que é muito feliz ao jogo, que principalmente os seus +escripturados não devem jogar contra elle, porque muitas vezes lhes tem +ganho um anno d'ordenados. Pela minha parte garanto-lhe que nunca vi +coisa alguma justificativa d'essa triste reputação de Pozzoli. Apenas +uma vez joguei contra elle, e levantei-me ganhando cento e cincoenta +_luizes_. Mas não importa; se é verdade o que se diz, isso é mais uma +razão para não deixar d'ir á _soirée_. Vae? + +--Irei. + +A cantora ficou satisfeita por fazer com que o visconde desempenhasse o +papel de seu protector e conselheiro. + +Sentia immenso prazer pedindo-lhe que a guiasse e reprehendesse, +confessando-lhe as suas faltas e a sua ignorancia. + +Interrogava-o sobre as viagens e estudos que elle tinha feito, +pedia-lhe a opinião sobre as coisas e sobre os homens, escutando-o +sempre com approvação e deferencia, como um irmão mais novo escuta o +irmão mais velho. + +Nas palestras que tinham, cada vez mais intimas, nunca Laura deixou +entrever a menor parcella de galanteio ou de vaidade. + +A mulher occultava-se, chegava mesmo a desapparecer, para só ficar a amiga. + +Laura percebia que com a sua encantadora simplicidade e graciosa +modestia, ia contra o fim que tinha em vista, porque um homem com o +caracter d'Antonino, em vez de se affastar, approxima-se cada vez mais +da mulher que faz d'elle confidente da sua alma ingenua e sincera. + +E effectivamente o visconde estava cada vez mais apaixonado. + +Nem já conhecia o grau a que se tinha elevado a sua paixão. + +Ao principio calculava o amor que sentira pela cantora, pelo ciume que +experimentava. + +Inquietava-se por ver com Laura os amigos intimos, como que os +inseparaveis da Linda. De resto, o numero d'esses amigos era limitadissimo. + +Tres ou quatro, contando com Despujolles, e Antonino conhecia-os a todos +antes de ter relações fraternaes com a cantora. + +Quando os encontrou pela primeira vez em casa de Laura, +tranquillisou-se. A Linda fallou-lhe d'elles com um socego e uma +serenidade que não deixou no espirito do visconde a menor sombra de +suspeita. + +Socegado pelos que via, Antonino sobresaltou-se por um que não via: o +tenor Lauretto Mina. + +Ouvira dizer que o tenor fizera em tempo a côrte a Laura, e nem uma só +vez a Linda pronunciára o nome de Lauretto. + +Porque? + +A verdade era que Laura temia o tenor, não por ella, mas por Antonino. + +Temia-o por causa das suas continuas fanfarrices, das suas +impertinencias, dos seus modos d'homem mal educado, e, emfim, pelas +varias narrações que lhe tinham feito da pericia com que Lauretto jogava +o sabre. + +Como já dissemos, o tenor fôra ajudante d'um professor d'esgrima em Milão. + +Dizia-se que conhecia dois botes ignorados, que consideravam incorrectos. + +Na Italia matára um homem, e ferira gravemente um outro. + +Além d'isso batera-se varias vezes, pondo sempre os adversarios fóra do +combate. + +E vangloriava-se do facto, dizendo que estava precavido contra qualquer +acontecimento grave. + +Uma especie d'instincto advertira Laura de que esse acontecimento podia +surgir da fatuidade do esgrimista emerito e da altivez do gentilhomem +bretão. + +Era essa a razão que a levava a não fallar do tenor ao visconde. + +Comtudo um dia Antonino interrogou-a. + +--Esse tal Lauretto Mina, com quem vae cantar no Theatro Italiano, não +lhe fez a côrte em tempo? + +A cantora respondeu, sorrindo e sem se perturbar, que Lauretto fazia a +côrte a todas as mulheres, mas que, a primeira vez que lhe dirigira +galanteios, ella respondera-lhe de fórma que elle não se atrevera a +continuar. + +Era a verdade, e Laura disse-a de maneira que convenceu Antonino. + +De resto, fallou d'aquelle homem sem escrupulos sem vergonha, tão +desdenhosamente, que o visconde arrependeu-se de ter, por um instante, +suspeitado que Laura poderia ter sympathia por um patife de tal especie. + +Portanto deixou de ter ciumes. + +Mas em compensação o amor augmentou. + + + + +IX + +A confissão + + +Um dia,--na vespera da _soirée_ dada por Pozzoli,--Antonino foi a casa +de Laura á hora costumada, duas da tarde, e encontrou-a ao piano. + +A pedido do visconde a Linda cantou duas ou tres canções populares +hespanholas, de que elle gostava muito, com uma graça e perfeição +inexcediveis. + +Antonino escutava, como mergulhado n'uma especie d'adormecimento. + +Ao contrario do que costumava, pouco a applaudiu. + +Ella fechou o piano e approximou-se d'elle. + +Fallou-lhe com a affabilidade e a franqueza habituaes. + +Vendo, porém que o visconde não lhe respondia, disse-lhe: + +--Está hoje muito triste! O que tem, meu amigo? Recebeu alguma má +noticia? Estará doente seu pae? + +--Effectivamente recebi hoje de manhã uma carta de meu pae, que, +felizmente, está bom, assim como minha irmã. A carta só fallava de mim, +e em resposta a outras que lhe escrevi nos ultimos dias. Como lhe +disse, meu pae é o meu confidente e o meu melhor amigo. + +--Se não é por elle, é pelo sr. que está triste? Teve algum desgosto? +Diga! Como sabe combinámos que eu seria tambem sua amiga. + +--Combinamos, é verdade... respondeu Antonino em tom pungente. + +--Então faça-me confidente dos seus desgostos; já confessou que estava +triste... + +--Estou... + +--E qual é a causa d'essa tristeza?... Vamos, falle... + +--Se fallo, Laura, respondeu Antonino decidindo-se? falto ao compromisso +que tomei com a senhora. Mas é o mesmo, fallarei... Perdôe-me e escute-me. + +--Acautelle-se, disse a cantora inquieta. Não venha turvar a profunda +satisfação que todos os dias me causa a sua visita. Ha apenas duas +semanas que o conheço, e parece-me que estamos relacionados ha mais de +dez annos. Acautelle-se... acautelle-se. De certo não me quer +entristecer tambem, e ainda menos offender-me. + +--Não a entristecerei nem a offenderei, certamente. Mas não combinámos +tambem que seriamos sempre extremamente francos um com o outro, que nada +dissimulariamos, que o primeiro artigo da lei da nossa amisade seria a +mais absoluta confiança? Pois bem: vou ler no meu coração, vou +indicar-lhe tudo o que n'elle ha. Calou-se por instantes, e depois +continuou: + +--Pediu-me, Laura, que não fosse mais do que seu amigo. Tentei, de boa +vontade e de boa fé, satisfazer o seu pedido, mas não o consegui. Quanto +mais vezes a vejo, mais augmenta em mim a estima e a admiração pela +senhora, e com a admiração e a estima, o amor. Não posso resistir-lhe, +não posso luctar por mais tempo, não posso conter-me! É indispensavel +que lhe diga bem alto: amo-a, Laura, amo-a!... + +Ella soluçou. + +--Escute-me... ainda não acabei. Se a phrase que me prohibiu de +pronunciar saltou dos meus labios, não foi com a intenção de a affligir +ou de lhe desobedecer. Não me esqueci d'uma só das palavras que trocamos +á volta de S. Germano. Consinta apenas que uma ultima vez lhe faça a +seguinta pergunta; se casasse com um homem que a amasse e cuja +posição e fortuna lhe permittissem abandonar o theatro, ser-lhe-ia +completamente impossivel renunciar á scena para sempre? + +--Já lh'o disse, mas vou repetir-lhe que o theatro é para mim como uma +segunda vida, e que não devo nem quero renunciar a elle. + +--Pois bem, Laura, eu é que não posso renunciar á sua mão. Talvez +soffresse menos não respirando do que deixando de a ver. A senhora é +para mim mais do que uma segunda vida, porque é a minha vida inteira! +Não quer ceder ao meu pedido? Cederei eu ao seu. + +E accrescentou com voz firme: + +--Continue no theatro, Laura, e no dia em que me amar, será minha mulher! + +Ella levantou-se, estupefacta, e soltou um grito de surpreza. + +--É possivel?... O que disse?... Pois consente?... Deixar-me-ha ficar no +theatro... depois de dar-me o seu nome?... Oh! meus Deus!... + +Sentiu uma alegria enorme, inexplicavel, de que ella propria não +comprehendia a significação. + +Elle ajoelhou-lhe aos pés e disse: + +--Sim... tudo... tudo! Consisto em tudo, com tanto que seja minha!... + +Laura pôz-lhe uma das mãos na frontes e respondeu: + +--Não, meu amigo, é muito! Não devo consentir em tanta generosidade... +não quero acceitar um tão grande sacrificio... não quero!... + +N'esse momento ouviu-se uma voz, alta e clara, na sala contigua áquella +em que estavam Antonino e Laura. + +Era a voz de Lauretto Mina. + + + + +X + +O supplicio do silencio + + +O tenor fallava com Jacintha, a creada de quarto. + +Devemos declarar aqui que Lauretto pertencia ao numero d'aquelles a quem +a expansiva Jacintha chamava bonitos. + +--Deixa-me, rapariga! dizia, ou antes, gritava o tenor. Um companheiro +nunca incommoda! + +E entrou de subito na sala onde estavam Laura e Antonino. + +A Linda empallideceu. + +O visconde levantou-se, cerrando os labios, enraivecido. + +Lauretto fingiu não ter visto Antonino ajoelhado. + +Foi direito a Laura, e pegou-lhe na mão, que ella não lhe estendera. + +--Bom dia, minha querida, disse elle. Senhor visconde, tenho a honra de +o cumprimentar... Esta Jacintha a não me querer deixar entrar!... +Nós só a estranhos não permittimos a entrada nos nossos camarins, mas, +que diabo! nas nossas casas os collegas teem sempre entrada franca! + +Laura, interdicta, não achou uma só palavra que responder. + +Elle não se incommodou por não obter resposta, e continuou: + +--Com que então cantamos ámanhã juntos, na _soirée_ de Pozzoli, o dueto +da _Lucia_! É por essa razão que venho a tua casa. Se queres, vamos +ensaiar-nos, minha querida. + +Antonino estava irritadissimo. + +Aquelle homem atrevia-se a tratar Laura por tu! + +Chamava-lhe _minha querida_, como se estivesse fallando com a creada de +quarto! + +Deu um passo para Laura, interrogando-a com o olhar ancioso. + +Ella de certo ia zangar-se, mandaria pôr fóra o atrevido... ou, pelo +menos, com uma só palavra, permittiria que elle, Antonino, interviesse, +dando uma lição ao insolente. + +Laura, gelada de pavor, percebia tudo o que se passava no espirito do +visconde. + +Mas deveria ella provocar um conflicto entre aquelles dois homens? + +Do conflicto resultaria um duello talvez... + +Aquelle miseravel mataria Antonino. + +Por isso, com um sorriso forçado, balbuciou apenas: + +--Ensaiar o dueto?... Não, é inutil... Agradeço-lhe ter-se incommodado... + +--Como queiras, _cara mia_, replicou o tenor. + +E sem ceremonia pegou n'uma cadeira e sentou-se perto de Laura. + +Percebia perfeitamente o effeito que estava produzindo, e no intimo +alegrava-se com ferocidade. + +Via no rosto de Laura pintada a consternação e a angustia, e nas feições +do visconde a indignação e o furor. + +Lauretto, ao contrario, estava cada vez mais tranquillo. + +De resto, que podiam elles fazer ou dizer? + +Por mais indignados que estivessem intimamente, estavam condemnados ao +silencio. + +Se ella se irritasse pelo procedimento indelicado do tenor, se por uma +palavra ou por um gesto deixasse perceber que se considerava offendida, +o visconde tinha o direito e o dever de intervir. + +E o que se seguiria? + +Uma altercação, de que resultaria um desafio, com todas as suas +perigosas consequencias. + +Se Antonino, retrahindo-se Laura, se mostrasse mais susceptivel que ella +e levantasse qualquer termo insolente de Lauretto, faltaria ás mais +rudimentares praxes da boa educação, comprometteria a cantora, porque se +daria ares de mandar mais que a dona da casa. + +O tenor, divertindo-se com a situação embaraçosa do visconde e da +cantora, continuou fallando a Laura com toda a liberdade. + +E, para completa impertinencia, fallou-lhe na sua lingua patria. + +Antonino sabia o italiano quasi tão bem como o francez, mas podia +desconhecel-o, e n'esse caso era excluido da conversação. + +--Não necessitas ensaiar o dueto, _cara_? Eu, desde que o cante comtigo, +estou certo de que hei de cantal-o magnificamente. Não o canto com tanta +correcção com qualquer outra. Como sabes, quando se sente o que se +canta, a emoção communica-se. Decididamente obteremos um verdadeiro +successo! Ah! _cara mia_, que alegria sinto por cantar de novo a teu +lado! O meu pobre talento é como duplicado pelo teu. Pozzoli disse-me +que a escriptura já estava assignada. É verdade? Duvido sempre das +affirmações d'aquelle demonio. + +--É verdade, respondeu Laura em francez. + +O tenor, é claro, fingiu não comprehender a indirecta advertencia, e +continuou na sua lingua: + +--Ah! Pozzoli d'esta vez não mentiu?!.... Bravo! bravissimo! Se +elle necessitar de metade dos meus ordenados para augmentar os teus, da +melhor vontade os cedo. Vamos ámanhã dar aos parisienses o ante-gosto do +nosso successo futuro. Estou satisfeitissimo por teres annuido a ir á +_soirée_ do nosso emprezario. Verdade seja que não podias proceder +d'outra fórma. + +--Effectivamente era difficil recusar. + +--Era até impossivel. Entretanto dizia commigo: a _casta diva_ não +acceita. Em S. Germano, em pleno campo, o Pozzoli, que nós conhecemos, +evaporava-se um pouco; mas em casa d'elle não pode deixar de ser o que +na realidade é. Ah! Ah! em Paris augmentou até os conhecidos +desregramentos, aquelle maroto! De resto, eu, como sou homem, pouco me +importo com isso. Mas digo mal: é justamente por ser homem que mais +sinto as loucuras de Pozzoli. Como está todos os dias a mudar de +sultanas,--aquelle sultão!--o pobre tenor é forçado a ser, +successivamente, agradavel a cada uma das favoritas. Não me falta que +fazer. A que reina agora é a Elvira gorda. Conheces? + +--Não, respondeu Laura com firmeza. + +--Agora me recordo que ella não foi a S. Germano. Não gosta d'apparecer +de dia. Mas socega, que elle ámanhã não deixa de apresentar-t'a. Tem uma +prenda bôa, a Elvira; não é cantora, e por isso não me incommoda +com pedidos para que cante com ella. É bailarina; dirige o corpo de +baile do theatro Italiano, composto de doze sylphides que ámanhã +dansarão na _soirée_ um bailado a caracter. Não te assustes, _casta +diva_, porque em publico apparecerão pouco apimentadas. Haverá outros +divertimentos; jogar-se-ha tambem. Tu continuas sendo jogadora, não é +verdade? Na questão do jogo estou convencido, caso extraordinario, que +calumniam Pozzoli. Dir-me-has que eu jogo sempre a favor d'elle, mas +isso explica-se: Pozzoli tem sorte como poucos. E sabes porque? Fiz esta +descoberta, apesar de não lhe faltarem sultanas, como te disse: Pozzoli +é infeliz nos amores. Ámanhã não foges á tentação: depois de cantarmos +decerto jogarás algumas _mãos_ de _baccara_. + +--Não sei, respondeu Laura impaciente. + +Lauretto continuou, mas d'esta vez em francez: + +--E o sr. visconde gosta de jogar? Se assim não fôr divertir-se-ha por +outra fórma, porque as distracções não faltarão. Em casa de Pozzoli ha +uma sala d'armas. Fui eu que a installei, aconselhando-o a que jogasse +um pouco o sabre, todos os dias, para não engordar demasiadamente. Não é +por ser meu discipulo, mas Pozzoli é já adversario para se temer um +pouco. Um dos numeros do programma da festa é um assalto. Sou +apaixonadissimo pela esgrima. Tenho um grande horror pelos duellos, +porque já matei dois adversarios, mas sinto-me satisfeitissimo +quando n'uma sala d'armas empunho um sabre ou um florete. Tambem não +admira: foi esse por muito tempo o meu ganha pão; e não me envergonho de +o confessar, pelo contrario, orgulho-me. Hoje, para mim, a esgrima é +apenas um simples passatempo, em que tanto se distrahem os artistas como +os fidalgos, não é verdade, sr. visconde? + +Antonino era d'esta vez directamente interpellado por Lauretto Mina. + +Brilharam-lhe os olhos, e abriu a bocca para responder. Laura estremeceu. + +Socegou, porém, porque no mesmo instante Jacintha abriu a porta da sala, +e annunciou: + +--O sr. dr. Despujolles. + +O medico cumprimentou Laura e o visconde. + +Lauretto Mina poucas relações tinha com o dr., e não se arriscou a ser +muito familiar com elle. + +Disse apenas: + +--Tenho a honra de cumprimentar o nosso excellente dr. Despujolles. +Infelizmente sou obrigado a partir no proprio momento em que elle chega. +Declaro, porém, que não é com medo de que me faça febre, como se diz no +_Barbeiro_. Pozzoli espera-me ás tres horas, por causa dos ultimos +preparativos para a _soirée_. Até ámanhã, minha cara Linda, Sr. +visconde... um seu humilde creado... + +Rodou sobre os tacões, fez com a mão um gesto amigavel ao dr., e sahiu. + +--Aborrecida creatura! disse Despujolles. Nunca pude supportal-o! + +Laura e Antonino não responderam. + +Elle olhou-os admirado. + +--Mas o que teem? Parece que viram a cabeça de Medusa! + +--Meu caro dr., disse Laura, foi essa aborrecida creatura, como lhe +chamou, que, na presença do sr. visconde de Bizeux, em minha casa, se +atreveu a tratar-me como apenas nos tratamos no theatro. O sr. de Bizeux +desconhece, sem duvida, os usos e costumes, originalmente singulares, do +nosso mundo theatral. Os artistas tratam-se por tu entre si desde o +primeiro dia que se conhecem. O que não procede d'essa fórma é +immediatamente considerado mau companheiro. Isto não impede que os +homens bem educados,--e no theatro tambem os ha, e muitos,--quando +encontram na sociedade uma mulher que é sua collega, se cohibam de lhe +fallar como se falla a uma senhora, sobretudo diante d'estranhos. Mas +ninguem ignora que Lauretto Mina não é um homem bem educado. Entretanto +o sr. visconde, que desconhecia o costume, estranhou a linguagem um +pouco licenciosa do insolente que acaba de sahir d'aqui. Emquanto +fallou, Laura nem por um instante desfitou Antonino, cujas feições +indicavam um profundo desgosto. + +Despujolles percebeu que chegára n'um momento de crise aguda, e tratou +de intervir como calmante, dizendo: + +--O nosso amigo, quasi recemchegado a Paris e desconhecedor, por +completo, dos habitos do nosso mundo de bastidores, não pode adivinhar o +que eu sei, que vivo ha vinte annos entre artistas. Não admira, pois, +que se surprehendesse e desgostasse pelo intimo tratamento de _tu_, que, +comtudo, garanto-o, é universal entre os artistas. + +--Esse tratamento admirou-me ao principio, confesso, respondeu Antonino +com voz lenta; mas o que mais me surprehendeu não foi a fórma da +linguagem foi a propria linguagem. + +--Oh! isso é uma especialidade de Lauretto Mina! replicou Laura com +vivacidade. E entretanto fiquei tão surprehendida como o meu amigo. + +--Então porque não lhe fez comprehender isso mesmo? Eu esperava um +olhar, um movimento, um simples signal que chamasse esse insolente á ordem. + +Uma mulher nunca pode dizer a um homem que sentiu medo por elle. +Portanto Laura limitou-se a responder: + +--Não quiz dar importancia ás inconveniencias d'esse homem, para +que elle julgasse que nem reparava n'ellas. + +--O Lauretto Mina é com effeito bastante conhecido e tem bem inferior +cotação para que se dê importancia ao que diz. + +Laura continuava olhando para Antonino, que se calou. + +--Peço perdão, meu caro dr., disse a cantora, mas o caso d'esta vez +tinha uma importancia enorme... + +E, voltando-se para o visconde, accrescentou: O que acaba de se passar, +confirma, sr. de Bizeux, o que eu estava para lhe dizer: agradeço-lhe +muito o generoso pensamento que teve, mas não posso acceitar o que me +propoz. Como vê, a sua intenção é completamente irrealisavel. + +Despujolles, comprehendendo que estava alli de mais, levantou-se, +dizendo a Laura: + +--Deixo-a. Subi apenas para lhe dizer: até ámanhã, na _soirée_ de Pozzoli. + +Antonino estava n'um d'esses momentos em que se necessita estar só, ou +antes, soffrer sem testemunhas. + +Fez parar Despujolles com um gesto. + +--Sou eu que me retiro, meu caro doutor. Demorei-me aqui mais do que +desejava. Tenho de resolver em casa um negocio urgente. + +Apertou a mão a Laura, que apenas lhe disse: + +--Espero que cumpra a palavra dada. Irá á _soirée_, a que eu não posso +deixar d'assistir, não é verdade? Arrependeu-se de lhe ter recordado a +promessa feita, porque Antonino, depois d'um instante de hesitação, e +como occorrendo-lhe uma idéa subita, respondeu precipitadamente: + +--Sim, irei á _soirée_ de Pozzoli. É indispensavel que eu me embrenhe +por completo nos habitos dos artistas! + +Despediu-se de Despujolles e saiu, sentindo inexplicavel oppressão no +coração. + + + + +XI + +Ouro, lama e sangue + + +A casa de Pozzoli era concorridissima no tempo do ultimo imperio. + +N'essa epoca, em que apenas se pensava em gozar e em que não se +escrupulisavam os meios a empregar para attingir qualquer prazer, as +salas do director do Theatro Italiano passavam, com justiça, por ser +d'aquellas em que melhor se perdia uma noite. + +Os homens que frequentavam a casa de Pozzoli pertenciam á melhor +sociedade parisiense. + +As mulheres faziam parte de todas as multiplices camadas sociaes. + +Encontravam-se alli artistas de primeira ordem, como a Linda, e +outras que por artistas queriam passar, mas que, d'ordinario, não tinham +direito a esse qualificativo, e que só se tornavam notadas pela belleza +ou pelo espirito, mais ou menos original, mais ou menos livre. + +O palacio em que Pozzoli habitava, era vasto e perfeitamente bem +dividido para recepções e festas de qualquer natureza. + +Pozzoli decorára e mobilára a casa com sumptuosidade, a que faltava um +certo gosto, mas visando a determinado effeito, que muitas vezes attingia. + +A arte de tapeceria moderna resplandecia em todas as salas. + +Entrava-se no rez do chão, subindo seis degráus, que terminavam em largo +patamar, protegido por elegante cobertura. + +O vestibulo era coberto de bocados de marmore, alternadamente branco e +vermelho, em losango. + +A escadaria, coberta de valioso tapete de Smyrna, era de marmore branco, +e de marmore vermelho o corrimão. + +Uma palmeira do Senegal envolvia o tronco na quasi perfeita espiral das +folhas largas e flexiveis. + +As paredes, terminando em velhos Aubussons, eram enfeitadas por placas +de prata, de muitos braços, sustentando globos baços, que espalhavam uma +claridade discreta. + +O grande salão Luiz XVI, branco e ouro, era illuminado por um lustre +enorme, e ornado de oito espelhos. + +N'esse salão entrava-se por uma porta que se abria á direita do vestibulo. + +No fogão de marmore de Carrara, entre dois Renommées ladeando um espelho +elliptico, e encimado por um frontão em arco, elevava-se, n'um pedestal +simples, o busto de Rossini. + +Ao fundo, o piano d'Erard, um magnifico piano de cauda, ornado +d'assumptos extrahidos a Watteau, a Lancret e Fragonard. + +A sala de jantar ficava em frente do salão, á esquerda do vestibulo. + +A sala de jogo, a sala de fumar, a bibliotheca, e a sala d'armas, eram +no primeiro andar. + +A primeira impressão que se experimentava ao entrar n'aquelles salões de +velludo, seda e oiro, era a de falta d'ar. + +Parecia que não se poderia respirar á vontade. + +Sentia-se que se estava num meio artificial, falso. + +Ao reparar-se para as ondas de luz que cahiam dos lustres e dos +candieiros, perguntava-se se a luz do dia, a verdadeira luz, poderia +penetrar alli. + +As tapecerias e os estofos espessos dos reposteiros e dos cortinados, +estavam como que impregnados d'um perfume capitoso, que tornava +pesada a cabeça, embaciados os olhos, oppresso o peito. + +Ás onze horas os salões começaram a encher-se. + +Áquella hora ainda não tinham chegado nem Laura nem o visconde. + +Pozzoli, encontrando-se com Lauretto Mina, que tambem fazia um pouco de +dono de casa, perguntou-lhe em voz baixa: + +--Tens a certeza de que a tua _casta diva_ não deixa de vir? Não achas +possivel que o nosso bretão a prohiba de comparecer? + +--Acho... + +--Começo a antypathisar com o tal visconde de Bizeux! Em S. Germano a +custo me cumprimentou, e ao receber o convite para a _soirée_ d'esta +noite, apenas me mandou o seu cartão, com estas palavras seccas, +escriptas a seguir ao nome: _acceita o convite do sr. Pozzoli_. +Desagrada-me deveras o pretencioso fidalgo! + +--E eu gosto immenso d'elle, respondeu o tenor, rindo. + +--Sim!... Porque? + +--Porque cada vez amo mais a Linda, e estou convencido de que será o +visconde quem me franqueará o caminho que conduz ao coração de Laura. +Cedo-lhe o logar da melhor vontade. Em geral não se gosta do +successor, mas não ha razão para odiar o predecessor. Ah! Eil-o que chega! + +--Com a Linda? + +--Não... Vem com o conde de Vireuil. + +--Diabos me levem se eu fingir que o vejo durante toda a noite! + +--Estás doido! Olha que elle é rico, e provavelmente gosta de jogar. + +--Necessito tanto do dinheiro do visconde, como d'elle proprio! + +--Mas parece-me mais conveniente detestal-o e ir-lhe embolsando o +dinheiro... + +--Que vá para o diabo! Recebe-o tu, se quizeres. Decididamente, não +estou disposto a incommodar-me com semelhante animal! + +--Eu? replicou o tenor. Não caio n'essa! Hoje não quero brincadeiras com +elle. Tratarei até de o evitar, com a maxima prudencia e habilidade. + +Alguns minutos depois chegava Laura Linda. + +Vinha acompanhada pelo dr. Despujolles, que lhe dava o braço. + +Trazia um magnifico vestido de velludo preto, muito decotado, que fazia +resaltar admiravelmente a brancura _mate_ da sua cutis d'andaluza. + +Nos sedosos e abundantes cabellos pretos ostentava um diadema de +margaritas em brilhantes. + +Das orelhas pendiam-lhe duas margaritas eguaes ás do diadema. + +Aos cantos dos laços dos sapatos de setim mais duas margaritas +semelhantes, como que chamavam a attenção para a extraordinaria pequenez +dos pés. + +Esta _toilette_ um pouco triste realçava, comtudo, a incomparavel +belleza da cantora. + +Sob os feixes de luz que sahiam dos lustres, os esplendores setinosos da +cabelleira preta, o vibrante brilho dos olhos aveludados, a faisca viva +do sorriso, coruscavam clarões femininos, scintillamentos de parisiense, +para quem o verdadeiro sol é a luz das _soirées_. + +Pozzoli, radioso, precipitou-se para Laura, logo que a viu entrar. + +--Ah! Até que emfim chegou a nossa querida diva! Estavamos anciosos pela +sua chegada... + +--Porque? + +--Porque o concerto não podia começar sem que estivesse presente... + +Offereceu-lhe o braço para a conduzir ao salão, onde todos os +convidados, amigos ou admiradores, a foram cumprimentar. + +Laura sorriu a Antonino quando o visconde lhe fallou. + +Só elle percebeu, ou antes, sentiu, que n'aquelle sorriso havia uma +nuvem de tristeza. + +O concerto começou pouco depois. + +Quando chegou a vez a Laura, pediu para cantar primeiro o dueto da +_Lucia_, que estava indicado no programma como devendo ser o segundo +trecho. + +Lauretto Mina cantou a toda a voz, á qual deu tudo o que suppunha ou +podia ter de sentimento. + +Laura cantou com a segurança e a pericia costumadas, mas os que por mais +vezes a tinham ouvido executar o dueto declararam que ella, d'esta vez, +não lhe dera todo o brilho que os seus vastos recursos vocaes permittiam. + +Ainda assim o successo não foi menor. + +Remissy, já de volta de Londres, executou as suas celebres variações +sobre o _Carnaval de Veneza_, a que deu o mais extraordinario e +admiravel relevo e a mais poetica e sonhadora phantasia. + +Depois d'uma aria de baritono, Laura sentou-se ao piano e cantou um +trecho da _Mancenilheira_. + +N'essa aria é que os seus admiradores reconheceram a Linda! + +Cantou com todo o sentimento, com toda a alma! + +Não olhou uma unica vez para Antonino, mas era por elle que Laura se +esforçava por cantar com surprehendente habilidade. + +O effeito foi extraordinario. + +O auditorio, transportado, rompeu em applausos enthusiasticos. + +Antonino, reprimindo violentamente os soluços prestes a rebentar, +abysmava-se n'um extasi de dôr e de paixão. Chegou a hora da ceia. + +Passaram á sala de jantar, vasta mas um pouco fria, mercê das paredes e +columnas de marmore. + +Os aparadores estavam carregados d'eguarias, e servidas as mezas. + +Pozzoli conduziu Laura para uma meza, sentando-se junto da cantora. + +Por entre a barafunda dos convidados que procuravam logar, o conde de +Vereuil, que seguia Antonino, fel-o parar inesperadamente, dizendo-lhe +depois: + +--Meu caro, esta dama pede-me que o apresente. + +E accrescentou: + +--O sr. visconde de Bizeux.--_Madame_ Elvira. + +A Elvira gorda,--porque era a dona da casa em pessoa que fôra +apresentada a Antonino--desfez-se em cumprimentos e phrases amaveis. + +Ouvia fallar tanto do sr. de Bizeux, que desejava ardentemente conhecer +tão distincto gentilhomem! + +Antonino, cortez e galante sempre com qualquer mulher, respondeu ás +expressões admirativas da Elvira gorda com as banalidades do estylo. + +Ella tomou o braço do visconde, sem ceremonia, e conduziu-o para uma das +mezas, bastante distanciada d'aquella a que estava Laura. + +A Elvira gorda fôra em tempo bastante formosa, e á luz do gaz parecia-o +ainda. + +Era branca e loira. + +Tinhas as feições regulares, mas sem expressão. + +O que ainda a fazia passar por uma bella mulher era o corpo, +admiravelmente bem feito, esbelto como poucos, d'espaduas e braços +soberbos. + +Fallava com vivacidade e um certo espirito a Antonino, que lhe respondia +com phrases curtas, d'uma concisão impossivel d'exceder. + +Discorrendo sobre Laura, a amante de Pozzoli absteve-se prudentemente de +lhe apontar o mais insignificante defeito. + +--Formosissima mulher! disse ella, mas sobretudo admiravel artista. +Nasceu para cantar, mas se a voz lhe faltasse nem por isso deixaria de +brilhar, porque á rara distincção de maneiras junta os mais invejaveis +predicados de coração. + +E continuou a elogiar a cantora, não perdendo occasião para, +disfarçadamente, dirigir tambem elogios ao visconde. + +Terminada a ceia, a Elvira gorda tomou o braço d'Antonino, para lhe +fazer as honras da casa. + +Mostrou-lhe a estufa, a galeria dos quadros, onde, entre algumas telas +de mestres, abundavam as copias mediocres, que Pozzoli fazia passar por +originaes authenticos. + +Fez parar o visconde deante d'uma estatua de Diana, para a qual +_pousara_, tendo apenas á cinta, como se via no marmore, uma simples +pelle de panthera. + +E tentou córar aos cumprimentos forçados d'Antonino, que declarou +admiraveis as formas. + +--Quer vir á sala do jogo? Gosta do _bacura_? perguntou ella. + +--Fará bem em ir, meu caro, disse repentinamente o dr. Despujolles +surgindo ao lado d'elles. A nossa amiga Laura Linda, pela fórma como +está jogando, arrisca-se a ficar arruinada esta noite. + +Desde que chegou, Laura seguira sempre o visconde com o olhar, sentindo +inexplicavel inquietação. + +Tambem não perdia de vista Lauretto Mina. + +Mas, percebendo que Antonino diligenciou por vezes approximar-se do +tenor, socegou por lhe parecer que Lauretto evitava encontrar-se com o +visconde. + +O socego foi substituido por um sentimento irritante quando deu pelas +attenções que a Elvira gorda prodigalisava ao visconde. + +Esse sentimento, desconhecido para ella, fazia-a soffrer immenso. + +Era o ciume. + +O que quereria aquella mulher a Antonino? + +Julgou que o mal estar que sentia era resultante da natural apprehensão +que lhe causava o pensamento de que o visconde podia correr perigo. + +Pois porque razão soffreria ella pelas attenções que a amante de Pozzoli +dispensava ao sr. de Bizeux? + +Vi-os sahir da sala de jantar, despeitada. + +Não tinha razão para se zangar por um facto tão insignificante, que de +mais a mais se passava com um homem a quem declarára não poder amar. + +Não devia considerar o visconde completamente livre, para escutar as +phrases ternas d'aquella mulher? + +E a cantora percebeu que era extraordinaria a sua preoccupação. + +Pozzoli, ao levantar-se da mesa, perguntou-lhe se queria jogar. + +Laura respondeu machinalmente que sim, mas não comprehendera o que lhe +dissera o emprezario. + +Chegaram á sala do jogo, conhecida pelos _habitués_ sob a designação da +sala verde, porque as paredes, o tecto e o proprio soalho eram forrados +de veludo d'aquella côr. + +Duas grandes mezas d'ebano, rodeadas por cadeiras, eram os unicos moveis +que guarneciam a sala, alumiada por quatro candelabros de sete lumes +cada um, collocados nos angulos da casa. + +Laura sentou-se, pensativa. + +Ao principio não quiz jogar. + +Depois, importunada e espicaçada por sentimentos diversos, passou a +tomar pelo jogo o mais vivo interesse. + +Chegou-lhe a vez de fazer _banca_. + +Pegou no baralho nervosamente, e jogou sem reflexão nem presença +d'espirito. + +Perdeu todos os _baccaras_. + +A sorte, sempre contraria a Laura, fez-lhes perder mil _luizes_ n'um +instante. + +Quando Pozzoli fez banca, disse graciosamente para a cantora: + +--Vae recuperar todo o dinheiro perdido, verá! + +A previsão não se realisou. + +Laura, esperando rehaver o perdido, jogou quantias importantes. + +O azar continuou. + +Foi então que Despujolles, notando a infelicidade da cantora, e a sorte +singular de Pozzoli, sahiu da sala em busca d'Antonino, a quem lhe +pareceu conveniente avisar. Entraram juntos no salão do jogo. + +A gorda Elvira segui-os de longe. + +Laura viu o visconde assim que elle entrou. + +--Ha vinte mil francos de _baccara_, dizia Pozzoli. + +--Jogo-os! disse Laura lançando para Antonino como que um olhar de +desafio. + +Pozzoli deu as cartas e ganhou. + +--Ha quarenta mil francos... disse elle. + +Laura ia abrir a bocca. + +Antonino, porém, que se approximara, curvou-se, para ella, e disse-lhe +em voz baixa e supplicante: + +--Peço-lhe que não jogue mais! + +Pozzoli percebeu o que o visconde dissera, e observou, sorrindo: + +--Meu caro visconde, deixe-me dar a desforra á nossa amiga. + +--Seja caridoso, replicou o visconde friamente. Deixe a desforra para +outra vez! + +Pozzoli empallideceu. + +Laura, sem pronunciar uma só palavra, apontou cento e cincoenta francos. + +O emprezario ganhou ainda. + +--Já vê que tinha razão, disse Antonino a Laura, sorrindo por sua vez. + +--A verdade é, replicou Pozzoli em laia d'explicação, que tenho uma +sorte verdadeiramente compremettedora para dono da casa. Passo as cartas. + +E levantou-se da mesa. + +O _banqueiro_ que se seguia, deu ainda quatro _baccaras_. + +Antonino continuava sorrindo. + +O emprezario não o desfitava. + +O rosto d'aquelle homem transformára-se de subito. + +Brilhava-lhe sinistramente o olhar, rugas fundas vincavam-lhe a fronte, +e gotas de suor perlavam-lhe o carmim das faces. Approximou-se de +Antonino, a quem disse em voz baixa: + +--Não joga, senhor visconde? + +--Não... + +--Como não se entretem aqui, se quer vamos até á sala d'esgrima... + +--Pois sim. + +--Muito bem. Para nos interessarmos um pouco mais no assalto, occorre-me +uma idéa, que talvez não lhe desagrade tambem. + +--Queira dizer. + +--A um canto da sala ha dois floretes, cujos botões saltaram ha dias. +Poderemos experimentar as nossas forças como elles... como quem não repara. + +--Acceito, mas hei de eu escolher um dos floretes. + +--Escolherá á sua vontade! respondeu Pozzoli tremente de raiva. + +E accrescentou em seguida: + +--A Linda está a olhar para nós. Não devemos sahir juntos. Vá o senhor +adiante. D'aqui a cinco minutos sahirei eu. + +Antonino fingiu seguir com attenção, por alguns segundos, a partida +_baccara_, que já não despertava interesse a Laura, assustada pelo +colloquio do visconde com Pozzoli. + +Pouco depois Antonino sahiu da sala, sem afectação. + +Laura procurou então o emprezario com o olhar. + +Pozzoli conversava e ria n'um grupo de convidados, que não jogavam. + +Passados dois minutos tomou o braço d'um d'elles, com quem pareceu +entabolar uma conversação interessante, e sahiu com elle. + +Quando chegou á sala d'esgrima, o visconde já o esperava. + +Despujolles e Remissy, que não eram fortes em esgrima, estavam um em +frente do outro, de sabre em punho. + +--Queira examinar estas explendidas panoplias, sr. visconde, disse Pozzoli. + +Antonino seguiu o emprezario, que, fingindo dar-lhe explicações sobre +varias armas antigas, escolheu dois floretes desembolados, que deu ao +visconde, sem pronunciar uma só palavra. + +Antonino examinou-os, dobrou-os para lhes experimentar a tempera, +escolheu um e deu o outro a Pozzoli. + +--Está combinado, disse o emprezario, que, succeda o que succeder, não +será mais do que o effeito d'um accidente? + +--Está. + +Todos os convidados presentes na sala d'armas seguiam com +curiosidade o assalto entre Despujolles e Remissy, que, em mangas de +camisa, esgrimiam enfurecidamente, como dois demonios. + +Ninguem reparou para Pozzoli e para o visconde, que fizeram tudo o que +deixamos dito sem serem percebidos. + +Quando, porém, acabavam de trocar as ultimas palavras, entrou na sala a +gorda Elvira, acompanhada de Lauretto Mina. + +Dirigiu-se para Pozzoli, dizendo-lhe: + +--Vamos para a galeria grande. As _pequenas_ vão executar a dansa das +bailadeiras. + +O emprezario franziu as sobrancelhas. + +Por fim respondeu com voz brusca: + +--Logo dansarão. + +Elvira tocou com o cotovello em Lauretto, imperceptivelmente. + +E sem dizerem nada, mas percebendo-se, foram-se sentar n'um _divan_, e +accenderam umas cigarrilhas. + +Despujolles tocava, pela terceira vez, o seu adversario, com applausos, +um pouco ironicos, dos assistentes. + +O violinista, já cançado, disse: + +--Estou satisfeito, meu caro dr. Confesso-me vencido. + +E ajuntou, sorrindo: + +--De resto, nenhum de nós é forte ao sabre. + +N'esse momento Pozzoli dizia ao visconde, em voz baixa: + +--Como estou em minha casa, parece-me conveniente que o sr. me convide, +para desviar todas as suspeitas... na hypothese d'um accidente +desagradavel. + +--D'accordo, replicou Antonino no mesmo tom. + +E em voz alta disse: + +--Sr. Pozzoli, o sr. Lauretto Mina, disse, ha dias, na minha presença, +que o meu amigo era de primeira força ao florete. Quer dar-me a honra de +ser meu adversario? + +--A honra será toda minha, sr. visconde, respondeu o emprezario. + +Pegaram, como por acaso, nos dois floretes desembolados, como se fossem +os primeiros que encontrassem á mão. + +Ao despirem os casacos, Pozzoli disse a Antonino, baixo: + +--Venha um pouco para a penumbra, para que não reparem na falta de +botões dos floretes. + +A sala era illuminada por uma enorme lampada persa, de cobre +avermelhado, trabalhada com arte. + +Estava suspensa ao centro da casa. + +As extremidades da sala, que era rectangular, ficavam um pouco na +sombra. + +Foi para uma d'essas extremidades que os dois esgrimistas se dirigiram. + +Cumprimentaram-se com os floretes, segundo as regras, e cahiram em guarda. + +Em volta formou-se rapidamente um circulo de curiosos, que engrossava de +momento a momento. + +Na sala não se ouvia mais do que o tenir das laminas. + +Os dois adversarios começaram sem demora a bater-se com encarniçamento, +_parando_ com toda a rapidez e _ripostando_ vigorosamente. + +Lauretto Mina, que tinha boa vista, e estava meio prevenido por Elvira, +percebeu immediatamente que os floretes estavam desembolados. + +Sem deixar de fumar, apontou o facto á amante de Pozzoli. Ao cabo de +dois minutos, continuando a observar os dois contendores, disse: + +--Sabes, Elvira?... + +--O quê?... + +--Estás prestes a enviuvar, minha querida. + +--Pois suppões?... + +--Ou, pelo menos, destinada a enfermeira durante dois ou tres mezes. + +--Que estopada? Parece-te então que Pozzoli?... + +--Será ferido? Com certeza!... Nem parece meu discipulo! Verdade seja +que o visconde é de primeira força. Repara para elle... + +Laura, que continuava na sala do jogo, reflexionou com temor que a +sahida de Pozzoli, quasi immediata á de Antonino, não era natural. + +Poucos minutos passados, não podendo conter-se por mais tempo, chamou o +conde de Vereuil, que estava proximo, e disse-lhe: + +--Não vejo Pozzoli. Queria fallar-lhe n'um assumpto urgente... Se o sr. +conde o procurasse e trouxesse aqui muito me obsequiava. + +O conde inclinou-se e sahiu. + +Demorou-se dez minutos. + +Á angustia de Laura parecia que elle partira ha mais de uma hora. + +Por fim o conde voltou. + +Vinha só. + +Laura perguntou-lhe, logo que o viu: + +--E então?... Pozzoli? + +--Perdôe-me a demora, mas com difficuldade o encontrei. Fui dar com elle +na sala d'armas. + +--Ah! Fallou-lhe? + +--Não. Era impossivel, porque no momento em que cheguei começava elle um +assalto ao florete. + +--Com quem?... com quem?... + +--Com Bizeux. + +Laura levantou-se, como que impellida por mola occulta. + +Estava pallida como uma morta. + +Passados instantes disse ao conde: + +--Queira dar-me o seu braço. Vamos até lá. Desejo ver o assalto. Sou tão +curiosa! + +Tomou o braço do conde, que, surprezo, a sentiu tremer. + +Entretanto não se atreveu a perguntar-lhe o que tinha. + +Laura apressou o passo. + +Quando entraram na sala d'armas, Pozzoli, extremamente pallido--porque +tinha percebido, antes de Lauretto Mina, que estava em frente d'um +adversasario de primeira ordem,--concentrava toda a sua vontade e todos +os seus recursos d'esgrimista em guardar a defensiva. + +Comtudo sentia-se perdido. + +No momento em que Laura se approximava, Antonino cahiu a fundo. Pozzoli +_parou_, curvando-se. + +A cantora, ao primeiro olhar, percebeu que o florete de Pozzoli não +tinha botão. + +--Acautelle-se!... gritou ella ao visconde. + +Antonino olhou para o lado d'onde partira a voz de Laura. + +Esta distracção fez com que se conservasse descoberto durante dois +segundos. + +Pozzoli aproveitou o momento para lhe vibrar uma estocada, de que o +visconde não teve tempo de defender-se. + +A ponta do florete attingiu-o debaixo do sovaco. + +Antonino cambaleou e cahiu nos braços do dr. Despujolles. + +Um ruido confuso espalhou-se por entre as testemunhas d'aquella scena +tragica. + +Transportaram o ferido para um _divan_. + +Laura, fóra de si, d'olhos esgazeados, gritava: + +--Fui eu que o matei. + +O dr. examinou cuidadosamente o ferimento do visconde. + +Passados momentos, disse: + +--Ferida quadrangular!... Não sangra! + +Alargou com a ponta do dedo a abertura do ferimento, d'onde apenas +sahiam umas gotas de sangue, e introduziu a sonda, que sempre trazia +comsigo. + +O rosto alegrou-se-lhe. + +Laura, ajoelhada junto d'elle, perguntou-lhe: + +--Então, dr?... + +--O ferimento é grave, mas não é mortal. Vou sangral-o. + +Durante esse tempo, Pozzoli, tendo nas mãos os dois floretes, dizia para +Lauretto Mina com aspecto consternado: + +--Ah! Foi aquelle idiota do Antonio que deixou aqui os floretes que nós, +a semana passada, tinhamos desembolado. Que miseravel! Nem mais uma +noite dormirá em minha casa! + +E mostrou o florete do visconde, para provar que não tinha botão, como +aquelle de que se servira. + +Antonino reabriu um pouco os olhos depois de sangrado. Olhou para Laura, +sorriu-lhe, e perdeu os sentidos. + +Despujolles parecia ter pressa de o fazer sahir d'aquella casa. + +--Pode já ser transportado, disse elle. + +--Irá na minha carruagem, observou Laura. + +--Não. Uma padiola é mais conveniente. + +Foi improvisada a padiola sem detença. + +Deitaram n'ella o ferido, e levaram-o. + +O visconde continuava sem sentidos. + +Ao chegarem ao vestibulo, cheio d'homens e senhoras em _toilette_ de +baile, os conductores perguntaram: + +--Para onde devemos seguir? + +--Boulevard Haussmann. + +--Não, disse Laura. Para minha casa, rua de Bolonha. É mais perto. + +--Mas... ia a observar Despujolles. + +--Em casa d'elle não terá ninguem que o trate. Para minha casa... para +minha casa!... + +--Veja o que faz... disse-lhe baixo Despujolles, que via trocarem-se +entre os espectadores d'aquella scena, olhares e sorrisos +significativos. Asseguro-lhe que respondo por elle... + +E voltando-se para os homens que conduziam a padiola, ajuntou em voz alta: + +--Levem o sr. de Bizeux... + +--Para minha casa, interrompeu Laura. Já lhe disse, doutor... quero que +o levem para minha casa! + +Ainda não eram tres horas da madrugada, e o baile devia prolongar-se até +pela manhã. + +Aquella scena inesperada, porém, desgostára todos os convidados de Pozzoli. + +Em menos de meia hora as salas ficaram desertas. + +Os convidados retiravam-se commentando, de mil formas diversas, o +assalto, ou o duello, de Pozzoli e do visconde. + +Remissy dizia ao baritono Lunier, com quem descia o _boulevard_: + +--Ninguem sabia ao certo, até agora, o que era a casa de Pozzoli. +Passava por ser um bordel. Desde hoje é tambem um covil. Completou-se. + +Em quanto os creados apagavam as ultimas velas, Pozzoli, ficando só com +Lauretto e a Elvira gorda, disse-lhes: + +--Vamos para o salão reservado. + +Contiguo ao quarto de cama de Pozzoli, no salão reservado não entravam +senão os intimos do emprezario. + +Era uma sala octogona, sem janellas, alumiada apenas por lampadas arabes +mettidas em vidros de côres, que espalhavam uma luz mysteriosa e +sensual. + +Espessos tapetes persas cobriam o sobrado e amontoavam-se para formar um +largo _divan_ baixo, que circundava toda a casa. + +Tamboretes de madrepérola e marfim, espalhados ao acaso, completavam a +mobilia da casa, cujas paredes eram forradas d'espelhos caros. + +A pintura do tecto representava a dansa de sete odaliscas nuas, deante +do senhor, acocorado e fumando, com os olhos semi-cerrados e os labios, +entre-abertos. + +--Uff! Não posso mais! disse Pozzoli ao entrar na sala, atirando-se para +o _divan_. Não bebi quasi nada durante a noite, para estar senhor de +mim. Vou desforrar-me! + +Carregou n'um botão. + +Um dos espelhos moveu-se, deixando uma abertura, a que appareceu um creado. + +--Antonio, _chypre_ para mim, e _champagne_ para a senhora e para o sr. +Lauretto Mina. + +--Temos de beber á tua dupla victoria, disse o tenor. Ah! meu caro, +palavra! cheguei a suppôr-te um homem morto! + +--Tambem eu cheguei a considerar-me n'esse lindo estado! replicou +Pozzoli, tirando das algibeiras, á mistura, notas de banco e moedas +d'oiro, que ia pondo sobre um tamborete proximo. + +Depois d'alguns instantes de silencio continuou: + +--Se não fosse a intervenção da nossa querida Laura, tinha-me levado o +diabo! Esteve toda a noite a meu favor, a Linda! Só lhe apanhei cinco +mil francos, mas ficou-me a dever quatorze, o que prefaz um total de +desanove. E aquelle grito de prevenção, que soltou, salvou-me a vida. +Ah! é tão bom viver! + +--O pobre visconde, chasqueou Lauretto, é que não pode dizer o mesmo por +muito tempo. Entretanto é de esperar que viva ainda bastante. Reparaste? +A Linda mandou-o conduzir para casa d'ella. Aposto em como o vae amar +loucamente. A noite foi boa, Pozzoli. Trataste satisfatoriamente dos +teus negocios e adeantaste os meus. Obrigado! + +--Não te calarás? gritou a Elvira gorda acotovellando o tenor com rudeza. + +Lauretto riu-se. + +--Deixa-o fallar, Elvira, disse Pozzoli. Lauretto tem razão. Vou por +elle. Has de ser amante de Laura! + +E rindo-se, pegou em quatro notas de mil francos cada uma. + +Dobrou-as e atirou com duas a Elvira, dizendo-lhe: + +--São para ti. + +--Obrigado, Eurico! + +E accrescentou dando as outras duas ao tenor: + +--E estas para ti, Lauretto. + +O tenor metteu as notas na algibeira, sem pronunciar palavra. + +--Pois nem me agradeces? + +--Para que? Dás sempre qualquer coisa com uns modos que provocam +explicações. + +--Então restitue-me o dinheiro!... + +--Estás doido!... Olha, eis o vinho que chega. Bebamos. Para isso é que +tu és um homem! Esvasias muito melhor os copos do que as algibeiras. + +Pozzoli deu aos hombros despresadoramente. + +Desrolhadas as garrafas, o creado sahiu. + +Os tres começaram a beber em silencio. + +Pozzoli, sobretudo, bebia com uma especie de bestialidade avida e feroz. + +De repente interrompeu as libações para dizer: + +--Então, não dizem nada?... Estão esta noite muito monos!... + +--Espera, respondeu Elvira. Vou chamar as _pequenas_. + +Carregou no botão d'uma campainha electrica. + +Quasi immediatamente appareceram quatro bailarinas, jovens e formosas. + +Elvira disse-lhes: + +--Executem a dansa das bailadeiras, sem córtes. + +Lauretto Mina pegou n'uma guitarra, e cantou, acompanhando-se com o +instrumento, uma canção arabe, primeiro lenta e terna, mas accelerando +gradualmente o movimento, até tornar-se ardente e rapida. + +As bailarinas seguiram-o, executando uma d'essas dansas egypciacas, +brandas e lascivas, que terminou n'uma especie de furia de bacchantes. + +Pozzoli soltava gargalhadas estridentes, batia as mãos, rebolava-se pelo +_divan_. + +Quando o bailado acabou, elle berrou: + +--Mais! mais!... + +--Mais não! replicou Lauretto. Eu e ellas é que sabemos se foi bastante. + +--Então bebamos! + +--Olha, cá está o teu copo grande, disse o tenor. + +E apresentou-lhe um copo enorme, que podia conter todo o liquido d'uma +garrafa. + +Pozzoli encheu-o de vinho de _chypre_. + +Depois de beber a grandes golos, disse: + +--Ah! isto consola! + +E bebeu o resto. + +--Basta, disse-lhe Lauretto. Já estás bebedo. + +--Deixa-o beber, meu querido Lauretto! observou a Elvira gorda sem se +dar ao incommodo de baixar a voz. Mais depressa ficaremos livres e sós. + +Lauretto apenas respondeu com um movimento de hombros approvativo, e +accendeu um cachimbo. + +--Não fumes esse veneno, meu idolatrado! aconselhou Elvira. Repara, eu +já não bebo... + +Mas elle continuou a fumar em silencio. + +Pozzoli rolára do _divan_ para o tapete, balbuciando: + +--Deem-me de beber!... Quero _chypre_!... Estão na mesa quinhentos +_luizes_... Aposta, visconde?... + +As quatro bailarinas descançavam, sentadas no _divan_, de pernas +cruzadas, olhando com curiosidade para os patrões. + +Elvira fez-lhe signal de que podiam retirar-se. + +Ellas desappareceram immediatamente. + +Entretanto Lauretto bebia e fumava. + +--Meu querido Lauretto, peço-te que não bebas mais! supplicava a Elvira +gorda. + +E passava os braços em volta do pescoço do tenor, tentando tirar-lhe o +cachimbo da bocca. + +Elle deu-lhe um murro. + +--Deixa-me, ursa!... Safa-te! Ou és tu como Laura? Se és, vem!... Mas, +não... ella é mais formosa... Não te pareces com a Linda, nem ao +longe... Ah! Laura!... + +As palpebras cerraram-se-lhe. + +No rosto desenhou-se-lhe uma expressão d'extasi voluptuoso. + +--Laura! vem!... Leva-me comtigo para o infinito, onde as estrellas +executam uma dansa luminosa!... Meu Deus! como os teus cabellos +cresceram desde a ultima vez que os acariciei, Laura!... Vejo-os +fluctuar ao longe, atraz de nós, cauda d'um cometa d'ouro, entre a +harmonia dos astros... A brisa eterna fal-os soltar notas maviosas... +Vibram como cordas d'harpas eolias... Ouço por toda a parte a +sympathonia do amor, em que canta um beijo que dura um seculo!... + +Calou-se. + +Elvira passou apenas a ouvir os roucos estribulos de Pozzoli, curtindo +socegadamente a bebedeira. + +Lauretto foi em breve fazer companhia ao emprezario, sobre o tapete. + +Elvira olhou primeiro para Pozzoli, que parecia dormir o somno da +innocencia, e depois para Lauretto, que conservava a bocca e os olhos +entreabertos, n'uma expressão mystica de Christo em extasi. + +Por fim levantou-se; arredou-os com o pé para passar, dizendo +despresadoramente: + +--Que dois brutos! + +E entrou, só, no quarto da cama. + + + + +XII + +A cura + + +Durante uma semana em que fluctuou entre a vida e a morte, Antonino viu, +atravez o delirio, passar e repassar uma sombra, branca e silenciosa, +que corria para elle ao ouvil-o soltar um gemido, ou se inclinava para +lhe humedecer a fronte escaldante de febre ou para lhe dar de beber. + +Por vezes essa que para o visconde era apenas sombra, dirigia-lhe +palavras meigas, que elle não comprehendia, mas que o embalavam, +socegando-o. + +Um dia o pensamento fixou-se no seu cerebro perturbado. + +A febre diminuiu, e, como accordando d'um pesadello terrivel, +Antonino olhou em volta, parecendo distinguir e perceber. + +A sombra branca lá estava junto d'elle. + +Não sonhára, pois. + +Ella lá estava, envolvendo-o n'um olhar em que o sorriso transparecia +por entre as lagrimas. + +O visconde reconheceu-a. + +Sorriu-lhe tambem e murmurou: + +--Laura! + +--Não falle, observou ella. Está melhor, está salvo, mas não está ainda +completamente curado. É necessario estar calado e quieto, porque foi +essa a recommendação do doutor. + +Elle repetiu com enlevo, despresando o conselho: + +--Laura! + +Depois, olhando em volta demoradamente, perguntou: + +--Onde estou eu? + +Despujolles entrava n'esse momento. + +--Ah! doutor! disse Laura indo ao encontro do medico, ainda bem que +chegou! Elle vê e falla. Voltou completamente a si! + +--Admire a minha sciencia! Preveni-a hontem de que hoje se daria esse +facto, respondeu Despujolles. + +E depois, voltando-se para o visconde, accrescentou: + +--Vejamos o pulso. Bem. A febre quasi desappareceu de todo. Tudo vae bem. + +--É o senhor, meu caro Despujolles? disse Antonino. Mas o que +succedeu?... Porque não estou eu em minha casa?... + +--Não falle, recommendou o medico. Vou pôl-o ao corrente do caso. O meu +amigo foi ferido ha oito dias, n'um pretendido assalto d'esgrima, pelo +patife do Pozzoli. O ferimento era serio, muito serio até! A nossa +querida Laura mandou-o transportar para casa d'ella. O meu amigo está no +salão da nossa amiga, deitado n'um leito que eu mandei arranjar de +proposito, e que facilita muito os pensos. Durante essa terrivel semana, +o meu caro visconde não teve, tanto de dia como de noite, senão uma +enfermeira: Laura Linda, que apenas admittia que Jacintha a ajudasse +algumas vezes na sua dedicada missão e nas vigilias longas. Está em via +de cura rapida e completa, mas é necessario ter juizo, obedecendo ao seu +medico como a um deus, não se mover, fallar pouco e pensar menos. + +--Seguirei á risca as suas instrucções, meu caro doutor, e agradeço-lhe +reconhecido os seus desvelados serviços, disse Antonino. + +Em seguida estendeu a mão para Laura. A cantora pegou n'aquella mão +descarnada, e disse, sem poder suster as lagrimas, que lhe deslisaram +pelas faces: + +--Como é estupido chorar d'alegria! + +--Sobretudo, accrescentou Despujolles, quando se corre o risco +d'enternecer um doente. Nada de pieguices! Vou fazer o penso. + +Antonino não cessava d'olhar para Laura, com expressão de reconhecimento +e amor. + +--Juizo! disse o medico no tom brusco que lhe era habitual, quando +estava no desempenho das suas funcções. Espero que, logo que eu sahir, +não comecem a contar historias um ao outro ou a cantar duetos. Addiem, +addiem as explicações e os projectos para mais tarde. Creio que dei ao +ferido todos os esclarecimentos necessarios... + +--Entretanto, meu caro doutor... interrompeu Antonino. + +--O que quer dizer?... Deixaria eu d'explicar claramente tudo o que se +passou? Ah! como está em casa de Laura, é possivel que deseje que lhe +expliquem o caso... + +--Sim, doutor, disse a cantora, parece-me necessario... + +--Bem, seja... concedo... Mas procedam de fórma que não pronunciem mais +de tres palavras. + +--Oh! doutor!... + +--Nem mais uma. Expliquem-se em tres palavras, sem commentarios, e com a +condição de que depois serão mudos como dois peixes. Adeus, meu +caro visconde, até ámanhã e juizo. + +Laura acompanhou Despujolles até á porta da escada. + +O medico mais uma vez lhe assegurou que o doente não corria perigo, +recommendando-lhe de novo socego absoluto para Antonino. + +O visconde, com o olhar fixo na porta da sala, esperava com impaciencia +a volta de Laura. + +A cantora entrou. + +Elle quiz fallar, mas ella collocou um dedo sobre os labios do doente, +ajoelhou junto do leito, e com voz d'anjo, disse: + +--Amo-o! + +Amava-o! Oito dias antes nem ella propria o sabia. + +Os diversos acontecimentos que successivamente se deram revelaram-lhe +aquelle amor, que existia latente no seu coração. + +Primeiro o sacrificio d'Antonino surprehendera-a. + +Aquelle honesto e grave fidalgo bretão, rico e considerado, dera-lhe a +mais irrefutavel prova de confiança e d'amor, offerecendo-lhe a sua mão +e permittindo que ficasse no theatro. + +A insolente interrupção de Lauretto Mina no momento em que o seu +contentamento de mulher e de artista mais se expandia, tinha-lhe +torturado o coração, demonstrando-lhe a impossibilidade d'acceitar +o offerecimento inesperado d'Antonino, que n'um momento, sem +hesitação, renunciava a todos os prejuizos d'educação e de familia. + +Mas tudo o que sentia então podia ser apenas admiração e reconhecimento +pelo cego amor do visconde. + +Na _soirée_ de Pozzoli, Laura não tinha percebido que era ciume o que +sentira, quando viu uma outra mulher parecendo querer monopolisar a +attenção e as amabilidades do visconde, que ella considerava como +pertencendo-lhe. + +Depois, quando Pozzoli e Antonino tinham trocado em voz baixa as phrases +pelas quaes deviam bater-se, poderia ella classificar a angustia que +experimentou, sentindo os espinhos da desconfiança picarem-lhe o coração? + +Por fim, toda a chamma do seu amor latente rebentou, como no incendio da +Opera, ao ver Antonino prostrado pelo florete de Pozzoli, morto talvez, +e morto por ella! + +Então tudo esquecera: posição, reputação compromettida, futuro perdido. + +Quizera levar para casa o seu amado, para o ter bem junto a si, morto ou +vivo. + +No dia seguinte pela manhã, levada pelo horror que sentia por aquelle +miseravel Pozzoli, Laura nada quiz dever ao que ella considerava +assassino, nem mesmo o dinheiro que na vespera elle lhe tinha +roubado ao jogo. + +Para obter esse dinheiro mandou Jacintha, com parte dos diamantes que +possuia, a um joalheiro, que n'outra occasião lhe adiantára, com um juro +modico, uma quantia importante sobre o mesmo penhor. + +Antes do meio dia, Pozzoli, esfregando as mãos de contente, estava pago. + +Durante oito dias, volteando em redor do leito de Antonino, espiara, +attribulada, o soffrimento do ferido. + +Emfim o dr. Despujolles annunciou um dia que o doente estava livre de +perigo. + +Elle estava salvo, e ella salva tambem! + +Tinha a certeza d'isso, porque, emfim, sentia que amava. + +Desde então aquella alma tão ardente e sincera não teria que +confranger-se, nem que hesitar. + +Seria sua esposa, seria sua amante, o que importava, com tanto que +pertencessem um ao outro para sempre! + +A cura d'Antonino caminhou rapidamente, activada pela felicidade. + +Ao cabo de quinze dias, o visconde levantava-se, pallido ainda e +enfraquecido pela dieta e pelo sangue perdido, mas sentindo que a força +e a vida lhe voltavam gradualmente. + +A Linda, obedecendo ás prescripções de Despujolles, fallava pouco a +Antonino e não consentia que elle fallasse. + +Por fim o medico declarou uma manhã, sorrindo indulgentemente, que, se +ella tinha alguma coisa importante a dizer ao visconde, podia fazel-o, +sem que o doente corresse risco de peorar. + +Laura poude então abrir completamente o seu coração a Antonino. + +--Ha um mez, disse-lhe ella, deu-me uma extraordinaria prova d'amor, +fazendo por mim o maior sacrificio que uma mulher póde esperar do homem +que ama. Hoje chegou a minha vez. Sei, sinto que o amo, e quero +provar-lhe quanto esse amor é intenso. Dava-me o seu nome, e, para +satisfazer a minha paixão d'artista, consentia em que eu continuasse no +theatro. Depois do que me disse, reflecti muito. Tenho reconhecido +duramente quanto, nas condições de fortuna e de posição em que o senhor +está, me seria difficil, se não impossivel, ficar no theatro, passando a +fazer parte da sua familia. Venho, pois, dizer-lhe o seguinte: acceito +com a maior satisfação o seu nome, e, salvo uma condição que d'aqui a +pouco exporei, renuncio ao theatro. + +--Ah! minha querida Laura! murmurou Antonino no auge da alegria. + +Ella continuou: + +--Seu pae, que tão bondoso é, ficará satisfeitissimo. Parece-me +conveniente evitar o mais possivel que se torne do dominio publico o +nosso projectado casamento. O visconde de Bizeux esposará a filha do +conde de Marcia. A Linda desapparecerá. + +--O que vale a minha abnegação ao lado da sua! disse Antonino. Eu +repudiava prejuizos que considerava mesquinhos e absurdos; a minha +querida Laura renuncia aos seus triumphos, á sua arte, ao que, segundo +affirmava, era metade da sua vida! Pesou bem toda a importancia do +sacrificio? + +--Tudo pensei e tudo previ. É justamente por essa circumstancia que ha +pouco resolvi apresentar-lhe uma condição. N'este momento creio +firmemente que o nosso amor, e o amor dos nossos filhos se os +tivermos,--como em tempo lhe disse, e decerto ainda se lembra, é esse o +meu mais delicioso sonho,--creio, dizia, que a felicidade da esposa e da +mãe não permittirá que me recorde das minhas satisfações e dos meus +successos d'artista. Entretanto é possivel que um dia, d'aqui a cinco ou +d'aqui a dez annos, a tristeza se apodere de mim e que uma irresistivel +necessidade me leve a voltar á minha querida arte, e a procurar, ainda +que não seja senão temporariamente, as luctas e as victorias d'outr'ora. +Se tal succeder, meu amigo, peço-lhe, simplesmente sob a sua palavra de +gentilhomem, que n'esse dia não se opporá a que eu volte ao que era +no passado, deixando-me de novo entrar para o theatro, que abandono +apenas pelo muito amor que lhe tenho. + +--Dou-lhe a minha palavra d'honra, Laura, de que não a impedirei de +satisfazer o seu desejo, respondeu Antonino. De resto, amo-a tanto, +fal-a-hei tão feliz, que certamente esquecerá para sempre o theatro. + +--Assim o espero e desejo ardentemente. Mas comprehende que, para que eu +caminhe de futuro sem preoccupações, desassombradamente, é indispensavel +que me sinta sempre senhora da minha vontade, senhora de mim propria. Se +eu tiver um dia de assignar um contracto com qualquer emprezario, a +opposição de meu marido pode annullar esse contracto. Fica assente, +Antonino, que renuncia por completo a qualquer opposição d'esse genero? + +Elle reflectiu alguns instantes. + +Depois dirigiu-se a uma secretária, pegou n'uma folha de papel e escreveu: + + +«Dou o meu consentimento e approvação ao contracto feito entre Laura +Marcia, minha mulher, e...» + + +Assignou e entregou o papel a Laura, dizendo: + +--Aqui tem a sua liberdade. O rouxinol pode sahir da gaiola quando +quizer, que a porta está aberta. + +--Obrigada, meu amigo! disse alegremente Laura. + +E agora cuidemos do presente, dos nossos projectos, do nosso amor. +Concluamos o nosso romance. + +A conclusão foi a seguinte: + +Occultaram de todos a sua felicidade, mesmo de Despujolles e de Remissy. + +Trataram do casamento com todo o segredo. + +Só o pae d'Antonino teve conhecimento dos projectos do filho. + +Combinaram que logo que o visconde estivesse completamente +restabelecido, partiriam para Inglaterra, casando em qualquer povoação +do littoral, religiosamente, por um padre catholico, e civilmente, no +consulado de França. + +Depois não partiriam para qualquer parte: desappareceriam. + +Laura desejára sempre viver em qualquer ponto da America hespanhola. + +Antonino, apesar de ter viajado muito, nunca fôra aquelles paizes calidos. + +Refugiar-se-hiam ahi até que a nostalgia os vencesse, isto é, até que a +felicidade diminuisse. + +Trespassaram a casa da rua de Bolonha. + +Os moveis que Laura mais estimava foram remettidos para Saint-Malo, e os +restantes vendidos. + +Antonino conservou os seus quartos de rapaz no _boulevard_ Haussmann, +residencia pouco dispendiosa que desejava conservar em Paris. + +Laura levaria Jacintha, que tinha fallado em matar-se se a separassem da +sua senhora, e que era sufficientemente doida para executar a ameaça. + +Pozzoli recebeu da Linda a multa de cincoenta mil francos, importancia +estipulada no contracto para a rescisão d'elle. + +--Tu estás meio contente, meio desapontado, disse Lauretto Mina ao +emprezario. Eu estou satisfeitissimo. Eis aberto o massudo livro da +virtude da Linda. O primeiro capitulo começa por um rapto. É promettedor +o romance. Desejo chegar o mais breve possivel ao capitulo segundo. + +Alguns dias depois lia-se nos _Echos_ d'um jornal _geralmente bem +informado_: + + +«A Linda não cantará no Theatro Italiano este inverno. Falla-se n'um +contracto fabuloso que assignou para uma _tournée_ nos Estados-Unidos.» + + +Poucas linhas mais a baixo via-se ess'outro _echo_: + + +«O visconde de B... parte, diz-se, para os Estados-Unidos logo que +esteja completamente restabelecido. Cumpre assim um voto que fez durante +a doença. Como chegou a julgar-se condemnado a deixar este mundo, +prometteu, se escapasse, ir visitar o novo. Feliz viagem.» + + + + +XIII + +Regresso a França + + +Dezoito mezes depois, no fim de abril, o conde de Bizeux e Estephania de +Bizeux, sua filha, esperavam, no molhe de Saint-Malo, a chegada do vapor +de Jersey, em que vinham o visconde e a viscondessa de Bizeux, de +regresso da America do Sul, via Liverpool e Southampton. + +O conde era um velho extremamente sympathico, de elevada estatura e +aspecto veneravel e terno. + +A menina de Bizeux contava trinta e seis annos. + +Tinha o rosto ossudo, aspecto altivo e severo, e comtudo, do conjuncto +das suas feições e de toda a sua pessoa, resaltava o cunho da alta +estirpe. + +O conde esperava ancioso a chegada do filho que estremecia, e que ia +tornar a vêr depois de prolongada ausencia. + +Assistira ao casamento do visconde em Inglaterra, e depois viajára +durante um mez, com os recém-casados, pela Escocia e pelo paiz de Galles. + +A nora conquistara-o sem difficuldade logo nos primeiros dias, pelo +finissimo espirito de que era dotada, e pelos cuidados, affectuosos e +ternos, de que o rodeava. + +Sentia tanta impaciencia de a abraçar, como de abraçar o filho. + +A menina de Bizeux esperava a cunhada, que nunca vira, com disposições +menos benevolas, e até com uma especie de desconfiança. + +O pae occultara-lhe cautellosamente que Laura tinha sido cantora, e que +estivera escripturada em diversos theatros. + +Se a tivesse prevenido d'essa circumstancia sem duvida a menina de +Bizeux abandonaria o lar paterno, refugiando-se n'um convento, para não +estar em contacto com uma _comediante_. + +Para não sympathisar com a cunhada bastava-lhe saber que o irmão a +desposara por amor, e que, apezar de ser d'alto nascimento, filha d'um +conde hespanhol, não tinha outro dote além da belleza. + +Estephania soubera, pela que lhe dera o ser, a historia do primeiro +amor de seu pae, historia em tudo semelhante á de Antonino, á excepção +de que no primeiro caso a moral social e religiosa e o direito augusto +da familia tinham triumphado, emquanto que, no caso d'Antonino, fôra o +amor, o amor profano, que vencera. + +Parecia a Estephania que o irmão, esposando a mulher que amava, +insultara a memoria de sua mãe. + +O vapor de Jersey não tardou a chegar. + +Logo que desembarcou, Antonino abraçou o pae com effusão, e seguidamente +deu um abraço na irmã. + +O conde, depois d'abraçar o filho, abraçou a nora, com alegria, e +apresentou as duas senhoras uma á outra. + +Laura, prevenida pelo marido, tinha resolvido tratar a cunhada por fórma +identica áquella por que fosse tratada. + +Estephania não a abraçou, limitando-se a estender-lhe a mão, dizendo: + +--Senhora viscondessa!... + +--Minha senhora... + +As relações futuras ficaram assim fixadas, graves e dignas. + +Ficou um creado para fazer conduzir as bagagens, e os quatro metteram-se +n'uma carruagem que os levou a casa, ou antes, que os levou a suas +casas. + +O visconde tinha casa sua, junto á do pae, que lhe legara um tio, +fallecido, viuvo e sem filhos, dez annos antes. + +As duas casas, juntas e separadas a um tempo, tinham portas de +communicação em todos os andares. + +Eram dois velhos palacetes patrimoniaes, de construcção antiga. + +O primeiro pavimento habitavel era no terceiro andar, porque os antigos +navegadores e corsarios de Saint-Malo desejavam poder deitar sempre a +cabeça por cima das muralhas da cidade, afim de não deixarem de gozar a +vista do mar. + +Os Bizeux descendiam de velhos bretões, marinheiros de raça. + +Da sua familia sahiram, nos reinados de Luiz XIV e de Luiz XV, dois +almirantes francezes. + +O pae e o filho tinham combinado, em cartas, que passariam uma vida +simultaneamente separada e commum. + +Viveria cada um em sua casa, mas tomariam as refeições juntos. + +De resto, como chegara a primavera, demorar-se-hiam em Saint-Malo apenas +uma ou duas semanas, o tempo indispensavel para apresentar a viscondessa +ás pessoas mais intimas. + +Depois partiriam para o castello da familia, situado proximo a +Saint-Pol-de-Léon. + +Deviam tomar todas as cautellas possiveis para que a Linda não podesse +ser reconhecida na viscondessa de Bizeux. + +Depois de viverem por algum tempo juntos, o conde, que no fundo temia a +filha, suppunha que, habituada á cunhada, attrahida pela meiguice e +encanto de Laura, Estephania revoltar-se-hia com menor violencia, na +hypothese d'uma revelação sempre possivel. + +Laura installou-se, pois, em sua casa, e, como uma verdadeira artista +que se accommoda a tudo que não seja burguez e vulgar, sentiu-se +immediatamente á vontade no velho palacete, cujas rasgadas janellas e +mobilia á Luiz XVI tinham a dupla vantagem de ser commodas, elegantes e +hygienicas. A vida, no castello, seria mais desafogada ainda, apesar de +dever ser, no fundo, um pouco monotona. + +Laura, porém, não dava por essa monotonia. + +Para isso era necessario que ella, habituada ás emoções do trabalho, da +acção, do combate, achasse muita novidade e muita variedade em volta de si. + +O primeiro anno do seu casamento foi para ella um verdadeiro encanto. + +A lua de mel durára doze luas, sem uma nuvem no céu d'anil. + +Gosou, sem a mais leve interrupção, o prazer d'amar e ser amada, que é o +melhor da vida. + +Percorreram os admiraveis paizes da America do Sul, o Perú, o Brazil, +visitaram as suas melhores cidades, atravessaram as mais esplendidas +paisagens, aventurando-se até ás florestas virgens. + +Mas o que acima de tudo os absorvia era as suas proprias pessoas. + +Aquella magnifica natureza não era mais do que uma moldura apropriada +para servir no quadro do seu amor. + +Ao cabo d'um anno, porém, começaram a achar, sem o dizer, nem mesmo dar +por isso talvez, que um homem e uma mulher, vivendo sós, vivem em solidão. + +O quer que fosse parecido com o aborrecimento começou a avoejar sobre +aquelle perpetuo colloquio. + +Durante tres mezes soffreram aquella sensação intermitentemente. + +Depois confessaram um ao outro que as viagens, a continua e fatigante +mudança de logar, os dias passados em carruagem de caminho de ferro ou +nos hoteis, tudo isso, por fim, cança o espirito e o corpo. + +Passou-se anno e meio, e o mais fagueiro sonho de Laura, ter um filho do +homem que adorava, fugia, fugia sempre diante d'ella, como um phantasma. + +--Acautella-te! dizia-lhe Antonino. Um filho pode-te fazer perder a +voz. + +--Ah! se tivesse um filho, respondia Laura, jámais teria saudades!... + +E teria ella saudades, effectivamente? + +O marido começára por se apaixonar pela voz, e continuava-a amando por +isso, sem prejuizo d'outros predicados. + +Todos os dias cantava para satisfazer os desejos d'Antonino, que, +excellente musico, a acompanhava ao piano, extasiando-se como d'antes, e +mais do que d'antes até, ante aquelle delicioso e divino canto. + +Mas se continuava a ser a mesma cantora, Laura deixára de ter o mesmo +publico. + +Foi essa a razão porque, depois de dezoito mezes d'ausencia, elles +annuiram em que o paiz natal, o socego do lar, a vida de familia, tinham +tambem o seu encanto. + +E como estavam d'accordo, regressaram a França. + + + + +XIV + +A vida no castello + + +O castello de Bizeux, proximo de Saint-Pol-de-Léon, e a um quarto de +legua de Roscoff e do mar, estava edificado n'uma encantadora região, em +que o ondeado da copa do arvoredo se perdia ao longe no accidentado das +colinas. + +Como estava um pouco isolado, porque o castello mais proximo distava +cinco kilometros, afóra durante a epoca da caça, a vida ali era muito +retirada. + +No caso presente esse facto não devia considerar-se um inconveniente. + +Laura estaria no castello completamente ao abrigo d'indiscripções e +encontros. + +Nos primeiros dias percorreu, a cavallo ou a pé, as immediações do +castello; mas depois de vistas as casas, as egrejas e as paysagens, +recahiu na monotonia da vida ociosa, quebrada apenas pelas fidalgas e +ininterruptas attenções do conde, sempre previdentemente delicado com a +nora, sempre ancioso por lhe procurar distracções. + +A menina de Bizeux desapprovava o procedimento do pae para com a cunhada. + +A solteirona dizia por vezes comsigo: + +--Mas que fórma de tratar esta desconhecida! O que tem ella que a +recommende? apenas a belleza, essa dadiva do demonio. + +Para Estephania a fealdade era certamente dadiva de Deus. + +O natural instincto de mulher invejosa fazia confusamente adivinhar a +Estephania que o passado de sua cunhada devia ter tido uma phase +brilhante, que lhe occultavam. + +Parecia-lhe que no menor gesto ou na mais insignificante palavra +pronunciada por Laura havia sempre dissimulação. + +--Mais outro vestido novo! disse-lhe Estephania um dia, vendo-a sentar á +mesa com uma _toilette_ que ainda não lhe conhecia. Lembre-se que +estamos no campo! + +--Por isso o vestido é simples e campestre! replicou Laura rindo. + +--Mas nós estamos em nossa casa... não recebemos visitas. A quem deseja +agradar? A meu pae? + +--E porque não? + +--Agradecido! disse o conde sorrindo. + +--A seu marido? + +--Certamente... + +--Um marido não é um amante, minha querida! + +--Para mim é. + +E estendeu a mão ao visconde, que lh'a beijou com prazer. + +Antonino gracejou com a irmã, que conservou o seu habitual aspecto +ironico e altivo. + +Aquellas picadas d'alfinete não tinham importancia, mas faziam soffrer +Laura, que, como todos os espiritos ternos, resentia-se da falta de +sympathia que a cunhada constantemente lhe testemunhava. + +Estephania tambem julgava Laura com severidade sob o ponto de vista +religioso. + +Entretanto a viscondessa, educada por uma mãe excessivamente devota, era +crente, e por vezes até supersticiosa como uma hespanhola. + +Para a menina de Bizeux, porém, havia duas religiões, a que os homens +seguiam, e a que era seguida pelas mulheres. + +Os homens podiam contentar-se em ir á missa aos domingos, comer de magro +ás sextas feiras, e confessar-se uma vez por anno, pela quaresma. + +As mulheres deviam, alem d'isso, comer de magro todos os sabbados, dia +em que deviam tambem confessar-se, commungar todos os domingos e jejuar +nas vesperas dos dias santificados. + +Ora Laura limitava-se a seguir a religião dos homens; portanto era uma +impia, votada ás chammas eternas! + +De fórma que a unica mulher com quem podia ter relações d'amisade fugia +da sua convivencia. + +Em vez de ser amiga e irmã, Estephania era inimiga. + +E se Laura procurasse relações entre as damas que viviam nos castellos +mais proximos não encontraria espiritos mais esclarecidos do que o de +sua cunhada. + +O conde adorava a musica quasi tanto como Antonino, e sentia-se +verdadeiramente feliz quando Laura se sentava ao piano e cantava +qualquer das arias em que d'antes fôra tão applaudida. + +Se o canto fosse religioso ou mesmo popular, Estephania escutava com +indulgencia. + +Se, porém, a palavra _amor_ fosse uma só vez pronunciada, levantava-se +cheia d'indignação e sahia altivamente da sala. + +Este ultimo caso dava-se com frequencia, porque o amor é um thema +musical frequentemente usado pelos compositores. + +Pelo menos Laura, agora, tinha mais um ouvinte: o conde. + +Isto não a impedia, como já estava em França e lia os jornaes +parisienses, de suspirar quando encontrava nos periodicos noticias de +theatro e as narrações dos debutes e das primeiras representações. + +O que lia era para ella o brilho, o ruido, a vida! + +Se não tivesse abandonado o theatro, seria d'ella que os jornaes fallariam! + +Esse eterno esquecido que se chama Paris, tinha-se por muito tempo +occupado d'ella! + +Decerto não sentia a falta da antiga cantora, mas a diva d'outro tempo +percebia que Paris lhe faltava. + +Estava prestes a ser inaugurada a nova Opera, e Laura não assistiria á +inauguração! + +Felizmente, por entre as saudades e os desalentos, conservára intacto no +coração o amor que tinha por Antonino. + +É verdade que o marido adorava-a como no primeiro dia de casados, mas +elle não tinha um passado de que lembrar-se, em quanto que ella, ao +casar-se, dera metade da sua vida despresando a arte. + +O amor dos dois esposos, substituira o ardor da paixão dos primeiros +tempos pelo prazer ineffavel do habito tomado. + +E ella consolava-se, chegava a encantar-se até, quando, por uma bella +manhã de sol, sahiam ambos, e atravessavam bosques e prados, caminhando +ou correndo, na alegria doida de dois collegiaes em férias. Passeiavam +sobre a relva, ella appoiada ao braço do marido, e levantando um pouco +as saias para não as molhar nas plantas humidas, ou conservando-se +direita, o tronco bem vertical sobre os quadris airosos, em quanto +Antonino, curvado, cortava com as unhas os pés das violetas, de que +Laura fazia, ramos deliciosos, cercados de folhas d'um verde pallido. + +Muitas vezes o caminho que seguiam afundava-se n'um declive pedregoso, +ou descia até á praia. + +Divertiam-se então em saltar precipitadamente, como creanças, elle +segurando-a por uma das mãos, e ella levantando com a outra as saias, +que tremulavam ao vento como um ruido d'azas, n'um vôo d'aves anciosas +de liberdade. + +Paravam na areia, e sentavam-se para contemplar a baixamar ou a maré que +subia. + +E ficavam-se por muito tempo a admirar as ondas lambendo com fragor as +saliencias dos rochedos, ou traçando na superficie lisa e clara da areia +o seu rasto sinuoso, coberto d'espuma. + +Uma manhã tiveram uma alegria que terminou em tristeza. + +Acharam um ninho de melros. + +Os passaritos tinham sahido da casca havia pouco tempo. + +Antonino mostrou-os a Laura, quebrando um ramo de madresilva brava que +os occultava por entre a espessura d'uma sebe d'espinheiros. + +Eram cinco. + +No fundo do ninho, apenas se viam bicos amarellos que se abriam com +voracidade. + +Laura ficou penalisada por não ter que dar aos passarinhos. + +--Voltaremos ámanhã com provisões, disse-lhe Antonino. + +No dia seguinte voltaram com as algibeiras cheias de bolos. + +A mãe estava no ninho. + +Logo que sentiu ruido, levantou vôo para uma arvore proxima, saltando +depois de ramo em ramo, dando gritos desolados, inquieta por ver os +filhos á mercê de seres humanos. + +Laura sentiu um prazer quasi maternal, em metter pelos bicos dos +passarinhos esfaimados, com a ponta do seu dedo côr de rosa, bocados de +bolo, que previamente amolecia entre os labios. + +Ao outro dia foram tambem ver o ninho. + +Estava vasio. + +O pae e a mãe tinham levado os passaritos. + +Laura ficou triste, sem saber porque. + +Como Antonino lhe perguntasse a razão d'aquella tristeza, Laura +respondeu: + +--É lugubre este ninho abandonado, lugubre... como um berço vasio! + +Depois d'um momento de silencio, perguntou: + +--As aves, quando encasalam, teem sempre filhos, não é verdade? + +--Sempre, pela primavera, respondeu Antonino. + +--Como as aves são felizes! + +Antonino comprehendeu. + +Percebia perfeitamente qual era o vacuo que havia na vida de Laura, e +esforçava-se sempre por lhe procurar distracções. + +Não servira na marinha, como muitos dos seus antepassados, mas todo o +bretão é marinheiro. + +Adorava o mar, e um dos seus maiores prazeres era andar embarcado. + +Poucos dias depois de chegar a Saint-Malo, comprou uma chalupa de recreio. + +O barco era estreito na proa, baixo de caverna, branco, com uma larga +facha vermelha, e tinha meia coberta. + +Os passageiros tomavam logar á pôpa, n'uma especie de camara oval, +cercada d'um banco em que cabiam oito pessoas. + +Na coberta tinham improvisado um casinhoto em que mettiam as malas e as +provisões, e um leito estreito, em que uma pessoa tinha suficiente +espaço para dormir ao abrigo do vento. + +O apparelho da chalupa compunha-se d'um mastro e d'um gurupés, d'uma +vela grande e d'uma bergantina. + +Com mau tempo tomavam quatro rizes á vela grande, e como o mastro se +inclinava para a proa, a chalupa navegava maravilhosamente com aquelle +unico panno. + +Graças á largura do barco e ao pouco comprimento relativo do casco, a +chalupa virava com facilidade, cedia bem ao vento e obedecia docilmente +á canna do leme. + +Antonino mandou o barco para Roscoff, ensinando com precisão a Laura +toda a manobra das velas. + +Era necessario um marinheiro, mas o visconde achava mais encanto a +embarcar só com sua mulher, e Laura era um marinheiro agil e encantador. + +Muitas vezes embarcavam de manhã. + +Um creado levava-lhes, até ao caes, um cesto com provisões. + +Antonino embarcava primeiro, e, antes que Laura estivesse a bordo, +armava a vela. + +Depois ajudava a esposa a saltar para a chalupa, e sentavam-se ambos na +camara oval, tendo a resguardal-os do sol um toldo de lona. + +Então Antonino gritava ao creado, que ficava no caes: + +--Larga! + +O cabo cahia na agua como um fustigamento de pingalim. + +O visconde amarrava a vela, suspendia a ancora, impellia o barco com o +croque, e puchava a canna do leme para bombordo. + +A chalupa inclinava-se graciosamente ao vento, balouçava por instantes +como indecisa, e por fim vogava. + +Cinco minutos depois, fendia a agua com uns movimentos de sereia. + +Percorreram assim as costas da Bretanha, d'um lado até Donamaner, e +mesmo a Lorient, e do outro até ao Mont-Saint-Michel. + +Algumas vezes succedeu estarem ausentes durante dois ou tres dias, com +grande inquietação do conde. + +O pae d'Antonino sabia que o vento contrario e o mau tempo não os fazia +parar. + +O menos temerario dos dois, era justamente o visconde. + +Laura sentia-se bem a bordo. + +O perigo incitava-a porque era uma emoção, e eram as emoções o que +faltava a Laura, a quem a vida socegada mais fazia recordar o passado. + +A caça divertia-a muito menos. + +Por vezes recusava-se até a acompanhar o marido e o sogro, e só ia á +tapada do castello, se o almoço fosse servido ao ar livre. + +Não acceitára até uma esplendida espingarda de caça, que Antonino lhe +offerecera, e que passava por ser uma verdadeira maravilha. + +As poucas reuniões que o conde entendeu dever dar no castello, não lhe +mereceram maior attenção, nem lhe proporcionaram o menor attractivo. + +Entretanto fazia as honras da casa com tão fino tacto e tão affavel +dignidade, que a propria Estephania se admirava. + +Uma d'essas reuniões, mais solemne que as outras, teve, comtudo, para +Laura, verdadeira importancia. + +Foi a festa da inauguração da capella restaurada do castello. + +Havia já tres annos que Estephania, que possuia fortuna pessoal, +emprehendera, com o concurso, felizmente habil, d'um architecto de +Rennes, a restauração da referida capella, uma verdadeira joia do seculo +XV, no gosto de Folgoet. + +A obra terminara emfim. + +Faltava baptisar o sino e consagrar a capella. + +O arcebispo de Rennes fôra convidado para esse fim, respondendo que iria +proceder á dupla ceremonia no primeiro domingo do mez d'agosto. + +Esta noticia, como era de suppôr, causou grande sensação em todos os +castellos e parochias dos arredores, e todos foram unanimes em declarar +que só ao conde de Bizeux se poderia dever semelhante honra. + +Afinal o arcebispo accedera com tanta mais vontade ao convite que o +conde lhe dirigira, quanto era certo que, da sua visita ao castello, +esperava ganhar a annuencia e o concurso do velho fidalgo para uma obra +tão excellente de certo, e muito mais util, que a inauguração da capella. + +Tratava-se de terminar um hospicio para marinheiros, edificado por +subscripção em Saint-Servan, sob a direcção d'uma commissão, de que o +arcebispo era presidente. + +Tinham angariado já umas centenas de mil francos, com que o edificio +principiára a ser construido, mas faltava ainda mais uma centena para +material e mobiliario, e as bolsas estavam exhaustas. + +Entretanto era indispensavel arranjar aquella quantia, e por isso o +arcebispo desejava fallar com o conde. + +Estephania fez no castello uma verdadeira revolução, para que a recepção +de _monsenhor_ fosse em tudo digna do alto cargo ecclesiastico que elle +desempenhava. + +Enfeitou a capella com arbustos e flores, e mandou vir organistas e +coristas da cathedral de Rennes. + +A missa, por musica vocal e instrumental, estava distinada a produzir +sensação, como effectivamente produziu, mas devido talvez a uma +circumstancia com que a menina de Bizeux não contava. + +Eram tantos os cuidados e attenções que a pessoa do _monsenhor_ lhe +merecia, que Estephania não deu pela falta da cunhada no banco da familia. + +Repentinamente, a seguir a uma nota grave soltada pelo orgão, elevou-se +uma voz, melodiosa e pura, e cantou, com perfeição e expressão +d'adoravel suavidade, um trecho de Handel, que conservou em extasi o +auditorio maravilhado. + +A mesma voz cantou depois o _offertorio_ do mesmo compositor, com tal +arte e vigor que a todos causou espanto. + +O arcebispo de Rennes, que era profundo conhecedor de musica religiosa, +balanceava a cabeça e movia as mãos com beatitude. + +Trocaram-se phrases d'admiração, e se não fosse o respeito á santidade +do logar, com certeza todos os ouvintes teriam applaudido com delirio. + +Terminada a ceremonia, a primeira pergunta do arcebispo, ao entrar na +sachristia, foi: + +--Mas quem é a admiravel _virtuose_ que a todos nos encantou? + +O conde, que entrava acompanhado de Laura, respondeu triumphantemente: + +--Foi minha nora, a sr.ª viscondessa de Bizeux, que tenho a honra de +apresentar-lhe, monsenhor. + +--Na realidade a sr.ª viscondessa é uma artista de primeira ordem! disse +o arcebispo. + +E depois accrescentou: + +--Isto fez com que eu tivesse uma ideia, que não me parece de todo má... +Logo lhe communicarei um certo projecto em que penso, meu caro conde. + +Em seguida desfez-se em agradecimentos e cumprimentos, aos quaes dava um +certo sabor particular a mistura que havia do padre e do _dilettante_. + +Não foi só Laura que recebeu esses agradecimentos e cumprimentos; +Estephania tambem compartilhou d'elles, e tão interdicta ficou, que não +sabia se devia estar satisfeita ou vexada. + +Laura commoveu-se e sorriu-se com melancholia. + +Era o seu primeiro successo em dois annos! + + + + +XV + +Saint-Malo + + +Tinham decidido que deixariam o castello para voltar a Saint-Malo quando +chegassem os primeiros frios, nos fins d'outubro ou principios de novembro. + +Na segunda quinzena d'agosto, porem, Estephania foi atacada de +rheumatismo agudo, que ao principio apresentou um caracter inquietante. + +Chamaram da cidade o medico da familia, clinico de talento e longa +pratica, que, depois de dispensar os primeiros cuidados á doente, +diagnosticou o mal de principio de rheumatismo articular. + +O doutor demorou-se um dia no castello. + +A sua ausencia da cidade não podia prolongar-se por mais tempo, porque, +como era o medico mais considerado, tinha longa clientela a reclamal-o. + +Prometteu voltar o maior numero de vezes possivel, duas ou tres por semana. + +Entretanto declarou que julgava indispensaveis as visitas diarias e +attenções constantes. + +O medico de Saint-Pol-de-Léon inspirava mediocre confiança ao conde. Que +fazer, pois? + +O tempo estava explendido; o mar socegado como um lago. + +Depois de pensar maduramente no caso, o conde resolveu-se. + +Estephania foi transportada, n'uma especie de maca, para bordo d'um +vapor, fretado para esse fim em Saint-Malo. + +Algumas horas depois d'embarcar a doente estava installada no seu quarto +do planalto da cidade. + +O conde de Bizeux queria partir só com a filha, deixando no castello +Antonino e a esposa. + +Laura, porém, oppozera-se a essa determinação, dizendo: + +--Estephania necessita dos cuidados d'uma senhora. O meu logar é á +cabeceira do leito da irmã de meu marido. + +Como a menina de Bizeux declarasse que não desejava incommodal-a, +principalmente por ser ardua a tarefa, Laura respondeu: + +--Pergunto a Antonino se eu sou enfermeira descuidada... + +Laura, a _impia_, tinha o mais absoluto despreso pela morte, emquanto +que Estephania, a _devota_, a temia sobremaneira, como d'ordinario +succede a todos os espiritos fracos. + +Essa circumstancia fez com que a menina de Bizeux acceitasse, sem mais +opposição, o offerecimento de sua cunhada. + +Durante mais de duas semanas em que a doença apresentou maior perigo, +Laura tratou Estephania com a mais dedicada sollicitude, nem um momento +desmentida. A menina de Bizeux parecia surpreza e commovida. + +Entretanto, no primeiro dia em que poude sahir do quarto, disse +simplesmente a Laura: + +--Agradeço-lhe e peço lhe que acredite que, no seu logar, teria +procedido da mesma fórma. + +--Não duvido, replicou Laura surprehendida da frieza d'aquellas palavras. + +D'este contratempo resultou que em pleno mez de setembro estavam em +Saint-Malo. + +A convalescença de Estephania e o adeantado da estação, impediam a volta +ao castello. + +Nos poucos dias que passara em Saint-Malo, de regresso da America, Laura +apenas tivera tempo de ver superficialmente a cidade e a sociedade. + +Depois do restabelecimento d'Estephania teve occasião para mais de perto +observar uma e outra. + +A cidade encantou-a, mas a sociedade pouco lhe agradou. + +Das janellas de casa gosáva o largo panorama do mar e o aspecto da +bahia, que se abre entre dois morros titanicos, a ponta da Verde e o +cabo Frehel, gigantes de pedra que parecem estender os braços atravez as +sete leguas de mar que os separam, por cima da ilha granitica de +Cézambre, guardada por negros recifes, que por entre as suas pontas +deixam apenas estreitas passagens aos navios. + +O mar entra por essas passagens com fragor medonho e enormes +acotovellamentos de vagas, vindas do largo em plena liberdade, e +penetrando á força na bahia pelas portas de pedra, que jámais poderam +arrombar. + +Ao fundo do golpho, sobre uma ilhota, eleva-se a cidade dos corsarios, +rodeada d'altas muralhas, onde se alinham os canhões de cerco, +estendidos pachorrentamente nas suas carretas, e abrindo, sobre a herva +dos revestimentos, as suas boccas ameaçadoras. O mar tem na bahia, +durante o estio, a placidez langorosamente azulada dos lagos. + +As ondas esperguiçam-se suavemente sobre a areia, junto das velhas +muralhas. + +Mas no inverno batem com furia nas pedras ennegrecidas, e sobem, em +turbilhões d'espuma, a enorme altura. + +A cidade, fechada pelas muralhas, assiste impassivel áquellas convulsões +da agua. + +As altas casas, de janellas sem rotulas, elevam as suas fachadas +geometricas, socegadamente, como que seguras de não serem attingidas +pela impetuosidade das ondas. + +Mas nos angulos dos predios veem-se por vezes nichos da Virgem, aos +quaes o vento arrebatou as imagens. + +A ilhota que serve de base á cidade apenas apresentava para fóra d'agua, +transposta a muralha, uma especie de calçada em declive, relativamente +larga, mas que, a pouco e pouco, as tempestades teem desconjunctado. + +D'antes Saint-Malo parecia um navio ancorado, e marinheiros os seus +habitantes. + +Os costumes da cidade eram d'uma severidade quasi selvagem, proverbial a +sua lealdade rude. + +A independencia d'aquelles homens não se curvava ante o governador da +provincia, nem mesmo em frente da nobreza, á qual, de resto, d'uma vez +emprestaram cincoenta milhões de francos. + +Que de mudanças se teem operado! + +Os caminhos de ferro, os casinos escalonados pela costa, o contacto +periodico com estrangeiros, a convivencia com os banhistas que de toda a +França ali concorrem, e, na cidade propriamente dita, a invasão dos +jesuitas, teem modificado as linhas, deprimido os angulos, alterado o +caracter brusco mas franco d'aquelles homens, filhos da terra que deu á +França Lammenais, Chateaubriand, Jacques Castier, Dagaray-Tronin, +Surconf e tantos outros pensadores e homens de superior talento. + +O caracter dominante da geração moderna é, nas casas nobres, um +formalismo devoto, de que o fanatismo não exclue a immoralidade. + +Apenas algumas familias de burguezes ricos resistiram ao contagio. + +Os membros d'essas familias tornaram-se republicanos, e fazem todos os +esforços para que o povo adore a republica. + +Mas para esses nem chaves d'ouro lhes abririam as portas dos cenaculos +aristocraticos, onde vêem a luz e se desenvolvem as intrigas monarchicas +e clericaes. Sobre a grande massa banal da burguezia pouco dinheirosa, +logistas, empregados, industriaes, sobresahem alguns, raros, perfis +intelligentes d'advogados, de medicos, d'artistas, de jornalistas, +isolados n'aquelle entorpecimento provincial. + +D'inverno ha bailes officiaes, e bailes no casino de verão. + +Esses bailes são frequentados por varias camadas sociaes, mas jámais tal +facto produziu a mais insignificante mistura de castas. + +O orgulho geral produz em todos a mais absoluta falta d'affabilidade. + +Comprehende-se, pois, que, na sociedade restricta e altiva da nobreza de +Saint-Malo, Laura se achasse completamente deslocada. + + + + +XVI + +A sr.ª baroneza + + +A rainha da moda, a que dava as leis e fazia a opinião da alta sociedade +em Saint-Malo, era a sr.ª baroneza de Pontual, uma formosa mulher de +trinta annos. Havia umas cinco ou seis estações que ninguem se atrevia a +disputar-lhe a elegante auctoridade. + +A baroneza era ainda parenta, em grau affastado, da menina por quem o +conde se apaixonára antes de casar com a mãe d'Antonino, e parecia-se +até, um pouco, com a infeliz a quem o desgosto matára. + +Essa circumstancia atrahira o conde, contra o seu habito, para a esphera +d'acção mundana da joven baroneza, elle que tanto amava a vida retirada, +onde podesse entregar-se completamente ás suas melancholicas +recordações. + +O barão de Pontual era um insignificante. + +Sendo o primeiro admirador e adorador da esposa, ella facilmente o +conduzia por todos os caminhos, bons ou maus, por onde lhe aprouvesse +caminhar. + +Adelia, que assim se chamava a baroneza, declarava ter _alma d'artista_, +o que é uma percebivel ambição, quando não seja pretenciosa. + +Ora, para completo esclarecimento do leitor, devemos dizer que á +baroneza faltava simplicidade e sinceridade. + +Cultivava simultaneamente, segundo a sua propria phrase, as lettras, a +pintura e a musica. + +A sua especialidade em litteratura era o genero epistolar, á semelhança +da sr.ª de Sévigné, sua compatriota. + +Os correspondentes previligiados da baroneza, como no passado os da +marqueza, colleccionavam as cartas e os bilhetes, em que havia tres +estylos diversos: o serio, o sentimental e o jocoso. + +Em pintura _orvalhava_ as suas aguarellas, e _dava vida_ ás paysagens. + +Mas a sua arte predilecta era a musica. + +Possuia voz agradavel, mas mal educada. + +Comtudo recebera lições de canto de Delle Sedia, como recebera lições de +piano de Lecouppey. + +Tinha opiniões cortantes, audacias pouco vulgares em mulher. + +O seu deus era Gounod. + +Eatretanto não desgostava de Berlioz, que ella declarava ser _quasi +sempre extravagante, mas algumas vezes sublime_. + +A baroneza, ao principio, quando no seu horisonte viu despontar a +viscondessa, inquietou-se. + +Laura era mais formosa e mais nova que ella. + +Além d'isso a situação dos srs. de Bizeux era muito mais brilhante do +que a do barão de Pontual. + +Tudo isto fazia com que Laura podesse ser uma rival terrivel. + +Mas socegou em breve, vendo o aspecto modesto e simples da viscondessa, +que apenas parecia desejar não dar nas vistas, occultar-se na sombra. + +A formosa Adelia foi desde logo indulgente e quasi amiga de Laura. + +--A viscondessinha é encantadora! disse ella. + +O barão de Pontual era o thesoureiro da commissão que tratava da +fundação do hospicio para marinheiros. + +O conde de Bizeux foi eleito, por essa occasião, vice-presidente da +mesma commissão. + +Uma ultima subscripção produziu approximadamente sessenta mil francos. + +Faltava, pois, arranjar apenas os quarenta mil que faltavam para +prefazer a quantia julgada indispensavel. + +Esplendidas regatas, organisadas em Saint-Malo, produziram quinze mil +francos. + +O arcebispo de Rennes foi então d'opinião que se devia angariar o +restante, dando um grande concerto. + +Foi convencionado que o concerto se realisaria nos fins de setembro. + +Tratariam d'accumular attractivos, que justificassem os preços elevados, +e attrahissem a Saint-Malo a _élite_ da nobreza e da finança de toda a +Bretanha. + +A baroneza de Pontual estava naturalmente indicada para preparar e +dirigir aquella festa. + +Haveria canções populares bretãs, para as quaes recrutariam executantes +nas classes baixas. + +O celebre pianista Nobillet, natural de Lorient, prometteu o seu +concurso, e egual promessa fez o barytono Gressier, que nascera em Nantes. + +O restante, para conservar ao Concerto o caracter aristocratico que +devia ter, a baroneza de Pontual tratou de o procurar e encontrou-o, nos +salões da melhor sociedade; homens e senhoras, cujos nomes e talento +dessem ao programma grande attracção, tornando-o de fórma a aguçar a +curiosidade de todos, prestaram-se a tomar parte na festa. + +O salão da baroneza era pequeno para n'elle se fazerem os ensaios. + +O conde de Bizeux offereceu o seu. + +A viscondessa, como Estephania estava ainda convalescente, viu-se +obrigada a fazer as honras da casa. + +O sr. de Bizeux, que tomára a peito a terminação da grande obra de +caridade, perguntou á nora se não queria dar o seu contingente para o +brilho do concerto. + +Laura, sem recusar abertamente, observou-lhe que se arriscava a trahir o +seu incognito d'artista e a deixar descobrir a cantora na viscondessa, +tomando parte n'esse espectaculo, a que de certo concorreria muita gente. + +O conde, ainda que com pesar, acceitou aquellas razões. + +Um incidente imprevisto tornou inutil aquella precaução. + +A baroneza devia cantar, no concerto, a _Ave Maria_ de Gounod, o seu deus. + +D'uma vez ensaiava, em casa do conde, aquelle delicioso trecho de +musica, ante um auditorio que, n'aquelle dia, por acaso, era numeroso. + +Obteve o successo costumado, e todos os presentes foram, no fim, +fazer-lhe os seus cumprimentos... + +Laura, como todos, foi testemunhar a sua admiração á baroneza. + +Adelia requebrou-se toda, segundo, o seu habito, defendendo-se dos +cumprimentos com a mais falsa das modestias. + +--Não, não... Favores!... Hoje não estava com voz... De certo +reparou que, no fim, a respiração faltou-me!... + +--Permitte-me que lhe diga de que foi resultante essa falta? perguntou +Laura com simplicidade. + +--Pois não, minha querida!... Falle... peço-lhe... + +--Parece-me, disse a viscondessa, que, em vez d'observar o _crescendo_ +phonico obrigado, a sr.ª baroneza o atacou demais no principio, +faltando-lhe depois a força no final, que deve ser cantado com toda a +intensidade de tom possivel. + +--Não percebo bem... objectou a baroneza deveras contrariada. + +E depois d'um momento de silencio, perguntou: + +--A sr.ª viscondessa sabe musica? + +--Um pouco... + +--Ah! sabe?... Então queira ter a bondade de juntar a pratica á theoria, +cantando o trecho como entende que elle deve ser cantado. + +--Depois da sr.ª baroneza ter cantado, não devo eu... + +--Não faça ceremonia... Cante... peço-lhe, insistiu a baroneza com frieza. + +Com a insistencia esperava collocar em terrivel embaraço a imprudente +conselheira. + +Laura fez um movimento de contrariada, mas accedeu ao pedido. + +Começou muito _piano_, com intensão de cantar a meia voz, quando muito. + +Mas o instincto d'artista foi mais forte que ella: arrastou-a. + +Quando chegou ás ultimas notas, a sonoridade da sua voz foi tal, +manifestou-se tanto o conhecimento do methodo, que todos os assistentes, +admirados, romperam em bravos e palmas. + +Antonino não estava presente, mas o conde de Bizeux assistiu ao triumpho +de Laura, o que, no intimo, lhe deu grande satisfação. + +A baroneza de Pontual ficou abysmada! + +A incontestavel superioridade de Laura esmagava-a ao primeiro recontro. + +Entretanto assaltou-a uma duvida. + +Quem seria aquella mulher que tinha dissimulado, e que subitamente +revelava, uma voz e uma arte de cantar pouco vulgares entre amadoras, e +mais do que sufficientes para fazerem a reputação d'uma cantora de +primeira ordem? + +Entretanto a baroneza não foi a ultima a felicitar Laura. + +--Mas que admiravel surpreza! disse ella. Porque me não fez conhecedora, +ha mais tempo, do seu maravilhoso talento, sr.ª viscondessa? + +Comtudo cohibiu-se de perguntar a Laura se queria tomar no concerto o +logar que lhe pertencia. + +É porque percebeu perfeitamente que esse logar seria o primeiro, e a +baroneza não desejava occupar o segundo plano. + +No dia seguinte, porém, a infeliz baroneza recebeu do arcebispo de +Rennes, a quem enviára o programma, uma carta desoladora. + +O arcebispo admirava-se de não ver figurar n'esse programma, o nome +d'aquella que devia ser a grande attracção, e que produziria o mais +brilhante successo. + +Esse nome era o da viscondessa de Bizeux. + +Fôra ouvindo-a cantar na missa d'inauguração da capella do castello, que +ao arcebispo occorrera a idéa de dar um concerto, cujo producto +revertesse a favor da subscripção para o hospicio de marinheiros. + +Em seguida o arcebispo perguntava se a baroneza de Pontual desconhecia o +raro talento da nora do conde de Bizeux. + +Pois a extrema modestia da viscondessa fazia com que ella não desejasse +manifestar o seu talento em publico? + +Quando se tratava d'uma obra meritoria, não se tinha o direito de ser +modesto, e por isso instava com a baroneza para que convidasse Laura. + +Ante esta especie d'intimação, a baroneza não poude deixar de convidar a +viscondessa. + +Portanto, no dia seguinte, foi officialmente perguntar-lhe se +queria prestar ao concerto o seu valioso concurso. + +Laura, perplexa, respondeu que necessitava consultar o marido e o sogro. + +Houve conselho privado entre o conde de Bizeux, Antonino e Laura. + +O conde foi d'opinião que a nora não devia deixar de prestar-se a dar a +sua contingente para tão santa obra. + +A Linda desapparecera havia mais de dois annos. + +Que mal podia resultar d'ella reapparecer, uma unica vez, n'uma cidade +tão distanciada de Paris, diante d'um publico local, que não estava ao +corrente do movimento dos theatros parisienses? + +O maior numero de probabilidades, era de que Laura não seria reconhecida. + +--Mas se o fôr? perguntou a viscondessa. + +--Se assim succedesse, respondeu o conde, a descoberta far-se-ia em +condições tão honrosas, tão respeitaveis para todos nós, que, ante o +facto consumado, os mais rigoristas não tinham o direito d'arguir meu +filho de a ter amado sufficientemente, Laura, para lhe dar o seu nome, +nem a mim por lhe chamar filha. + +Houve um momento de silencio. + +O conde, passados instantes, accrescentou: + +--Nada tem no seu passado, Laura, de que deva envergonhar-se. +Estephania, que tem os prejuizos que sabe, sem duvida ficaria +contrariada se lhe tivessemos, de principio, revelado toda a verdade. +Mas agora ella já a conhece e apprecia. Tratou-a com uma dedicação tão +fraternal, que minha filha está reconhecidissima. O arcebispo de Rennes, +que possue um espirito superior, reclama este serviço; depois seria o +primeiro a não consentir que elle se voltasse contra aquelles a quem o +pede. Se o seu segredo, que é tambem nosso, tem de ser conhecido mais +tarde ou mais cedo, parece-me que não encontraremos occasião mais +favoravel do que esta, para que todos saibam que a esposa de meu filho +foi cantora. + +Antonino, menos optimista que seu pae, e vagamente inquieto, nada achou +que oppôr ás razões apresentadas pelo conde. + +De resto, como sempre, desejava fazer-lhe a vontade. + +Assim pois, foi Laura a unica que resistiu á idéa de reapparecer e +cantar em publico. + +Mas não queria ou não podia dizer tudo o que pensava sobre o caso. + +A verdade era que, sobretudo, ella temia-se a si propria. + +Sabia com que intima alegria estremecera no dia da inauguração da +capella. + +Dois dias antes, ao cantar, ante um auditorio ainda assim restricto, a +_Ave Maria_ de Gounod, experimentára maior satisfação. + +Os bravos e palmas que então ouvira, tinham a como que transportado aos +bellos tempos em que ella arrebatava uma platéa inteira. + +O que lhe succederia se de novo se encontrasse na frente d'um publico +numeroso? + +Que effeito lhe produziriam os bravos, as chamadas, as corôas? + +Ah! a queda era tão facil e podia ser tão desastrosa! + +Tel-a-iam esquecido em Paris tanto quanto o conde julgava? + +Não. + +Poucos dias antes lera n'um jornal da capital, a proposito da abertura +da nova Opera e da companhia que n'ella devia cantar, que o director do +novo templo da arte, devia, se fosse habil, lembrar-se da Linda. + +N'essa mesma noticia accrescentava-se que a diva estava no Mexico, mas +dizia-se tambem que o Mexico não era no fim do mundo, que se volta de lá +dentro d'algumas semanas. + +Mas a Linda não estava longe! + +Podia chegar a Paris, ao seu querido Paris, em algumas horas. + +Laura, em seguida, pensou no seu amor por Antonino, sempre inalteravel +no seu coração. + +Era esse sentimento que ainda a retinha junto d'elle. + +Mas ao mesmo tempo recordava-se da palavra que o visconde lhe dera, e +que a tornava livre se achasse muito pesada a cadeia que a prendia. + +Eram todos estes pensamentos que a tornavam hesitante. Não tinha, porém, +a coragem de os expôr. + +Se a tivesse, seu marido e seu sogro ficariam convencidos de que ella +não devia cantar no concerto de benificencia. + +O conde persistia, insistia, e Antonino juntava os seus rogos aos do +pae. Ella, por fim, disse: + +--Reconhecem bem, não é verdade, que o que está mais em jogo não é o meu +interesse pessoal, mas o interesse da familia? + +--Sem duvida, respondeu o conde, e é por isso mesmo que insistimos e +somos de opinião que deve ceder, como nós cedemos. + +Laura, replicou então: + +--Visto assim o quererem, cantarei no concerto! + +N'essa noite, Laura disse á baroneza, pouco satisfeita, o seguinte: + +--Pode accrescentar no seu programma, minha senhora, que a viscondessa +X... cantará as arias _Fidelio_ e o _Rei dos Alamos_. + + + + +XVII + +A tempestade + + +O dia em que devia realisar-se o concerto foi por fim fixado: 29 de +setembro. + +Faltavam, pois, dez dias. + +Laura propôz ao marido não os passasem em Saint-Malo. + +Que necessidade tinham de juntar ao perigo d'ella ser reconhecida no +concerto, o risco de a reconhecerem nos ensaios? + +Até então a viscondessa não encontrára ninguem que a conhecesse. + +Os artistas que deviam tomar parte no concerto, Nobillet e Gressier, +nunca a tinham visto. + +Fallava-se, comtudo, em reforçar o programma, accrescentando-lhe os +nomes d'outros artistas. + +O mais prudente, pois, era não apparecer senão na noite do espectaculo. + +Como escolhera dois trechos de musica que conhecia perfeitamente, +bastava a Laura uma simples recordação com a orchestra, na manhã do dia +do concerto. + +Nos seus passeios maritimos Antonino e Laura não tinham ido alem do +Monte de Saint-Michel. + +Decidiram por isso visitar durante aquelles dias, na sua chalupa, as +costas do departamento da Mancha, e Jersey, onde Laura nunca tinha ido. + +O conde de Bizeux e Estephania, já completamente restabelecida, +receberiam as pessoas que iam ensaiar-se. + +A baroneza de Pontual seria a unica a dirigir a festa, sem temer a +intervenção da que ella considerava sua rival. + +Laura partiu alegre e despreoccupadamente para aquella excursão, a mais +longa que ainda tinham feito. + +A viagem foi encantadora. + +A volta da ilha de Jersey, que durou cinco a seis dias, foi sobretudo +uma verdadeira delicia. + +Passaram em todos os portosinhos naturaes que a ilha tem, desembarcavam, +jantavam e dormiam nas estalagens mais ou menos mediocres com que +deparavam, rindo do jantar, rindo do leito, rindo de tudo. + +Para descançarem das fadigas da navegação, davam esplendidos passeios de +carruagem, visitando os melhores locaes e todas as curiosidades da ilha. + +Não abriram um jornal. + +Sentiam-se tão longe da França como se ainda estivessem na America. + +Esqueceram Saint-Malo, esqueceram o universo. + +Os dias corriam magnificos, uns dias d'outomno, tepidos e amenos. + +Laura sentia apenas que o mar se conservasse tão uniformemente tranquillo. + +--Está bello de mais o tempo, disse ella. Algum vento que encapellasse +as ondas tornaria mais emotiva a nossa viagem. + +Que pesar sentiam de que aquelles dias tivessem que terminar! + +Na vespera do concerto estavam em Granville. + +Antonino sahiu depois do almoço para preparar a chalupa, e voltou ao +hotel, onde tinham passado a noite. + +Laura reparou que o marido estava com aspecto de pouco satisfeito. + +--Diabo! diabo! disse elle. Parece-me que procederiamos acertadamente +voltando a Saint-Malo por terra, tomando o comboio em Dol. + +--Porque? + +--Vejo nuvens de mau agoiro. Se o vento refrescar, é provavel que, +antes de chegarmos a Saint-Malo, tenhamos de luctar com mar bravo, e a +nossa chalupa não tem condições para luctas d'essa ordem. + +--_Levantae-vos, desejadas tempestades que deveis arrastar Renato!_ +disse rindo Laura, respondendo aos temores do marido com uma citação de +Chateaubriand. + +E accrescentou n'outro tom: + +--Ainda bem! Desejo defrontar-me com o perigo. + +Antonino dissera a verdade. + +O vento era contrario, e para os lados de Saint-Malo viam-se nuvens +ameaçadoras. + +--Não valem nada! disse a viscondessa depois de olhar para as nuvens que +o marido lhe indicava. Sobeja-nos o tempo para chegarmos antes que a +tempestade se desencadeie. Mas se assim não acontecer, tanto melhor, +Antonino, porque sinto grande desejo d'arrostar qualquer perigo a teu +lado. Acho encantador terminar por um incidente um pouco dramatico a +nossa socegada viagem. + +--Decididamente queres embarcar? perguntou Antonino depois de reflectir +por alguns momentos. + +--Quero. + +--Que a tua vontade seja feita. + +E embarcaram. + +Antonino tomou tres rizes á vela grande e prendeu o gurupés. + +Em seguida envolveu Laura n'um manto, e fez-se ao largo. Durante as +duas primeiras horas correu bem a viagem. + +A chalupa navegava com uma velocidade de doze nós por hora. + +O visconde chegou a ter esperanças de que chegariam a Saint-Malo sem +novidade. + +Mas repentinamente soprou rijo o vento, apanhando de flanco a chalupa, e +as ondas encapelaram-se. + +A cada vaga Antonino dava ao leme, e o barco vencia obliquamente a onda, +cuja espuma chegava ao cimo do mastro. + +O mar embravecia de minuto para minuto. + +O vento refrescava cada vez mais. + +A chalupa, inclinada para bombordo, seguia sempre, com a borda quasi ao +nivel das ondas. + +Entretanto houve um momento em que o vento abrandou, como que para dar +descanço ás vagas. + +Mas depois, bruscamente, saltou para sueste. + +Por felicidade Antonino viu chegar a borrasca. + +As montanhas d'agua que se moviam ao largo, batidas pelo vento +contrario, elevaram-se a enorme altura. + +Depois, obedecendo á força impetuosa do vento, correram na mesma direcção. + +Houve um minuto de indiscriptivel cahos. + +O choque das massas d'agua batendo umas contra outras, produzia um ruido +ensurdecedor. + +A chalupa corria rapida como um vôo. + +Apanhada pelas ondas que vinham de terra impellidas pelo vento, +encontrava outras ainda animadas da primeira impulsão. + +Se se encontrasse no ponto d'encontro d'essas montanhas moveis, estava +perdida. + +Antonino, socegado, attento, nem por um instante se deixava surprehender. + +Laura poude então admirar esse espectaculo extraordinario: a lucta da +destreza e da intelligencia humanas contra o poder brutal das forças +naturaes. + +O ceu assombreava-se cada vez mais. + +Uma grande nuvem côr de chumbo, com reflexos sulphurosos nas +extremidades, avançava rapidamente do lado de Saint-Malo. Laura disse a +Antonino: + +--Corremos grande perigo, não é verdade? + +--O mais insignificante descuido perder-nos-ia, respondeu o visconde. + +--Para onde diriges a chalupa? + +--Vou tentar abordar á ilha de Cézambre, da qual distamos dois +kilometros. E agora, minha querida, silencio! + +Laura approximou-se do unico homem que amara e que escolhera entre +todos, feliz por se saber protegida por elle. + +Não fôra ella, de resto, que desejara observar de perto o mar irritado? + +Chamára o cataclysmo, e elle viera, furioso por se ver arrostado por +aquelles dois entes cheios de vida. + +Por isso Laura não sentia verdadeiro temor. + +Ao principio, vendo a extraordinaria força dos elementos, sentira um +ligeiro calafrio. + +Mas, depois, socegou por completo. + +Pensava apenas: + +--Se nós fossemos separados por alguma vaga? + +E, sem pronunciar uma só palavra, pegou n'um cabo de linho, delgado mas +forte, prendeu uma das extremidades ao braço, passando a corda por cima +do hombro, e com a outra extremidade prendeu de fórma identica o braço +d'Antonino. Depois disse: + +--Agora podemos morrer! Morrer juntos e amando-nos, é morrer feliz! + +A tempestade attingia o paroxismo. + +As vagas cabriolavavam e cahiam depois em salto de tigre. + +O ceu cobrira-se de funebre tela, côr de ardosia, com manchas violaceas. + +As nuvens desciam pesadamente sobre as regiões inferiores da atmosphera. + +A chalupa voava, branca e ligeira como uma ave aquatica, sobre o dorso +das ondas. + +Por vezes desapparecia entre duas muralhas de vagas para reapparecer +pouco depois, continuando na carreira rapida. + +A ilha proxima a custo se avistava por entre as elevadas ondas, que a +espuma franjava phantasticamente. + +Antonino, com toda a energica tensão que pode ter a vontade, combatia +encarniçadamente, para não desapparecer no abysmo. + +Apenas uma vez foi surprehendido pelo quebrar de uma onda enorme, que +corria sobre a chalupa, n'um encarniçamento de fera, soltando roncos +temerosos. + +N'essa occasião a vela rasgou-se. + +Por felicidade, a chalupa adquirira grande velocidade. + +A onda, ao quebrar, inundou a embarcação. + +A chalupa esteve prestes a submergir-se. + +A especie de camara que havia a meia coberta, foi arrancada. + +O porão encheu-se d'agua. + +Felizmente chegavam. + +A praia da ilha de Cézambre, estava ali, muito proxima... + +Com mais um movimento da canna do leme Antonino achou-se no centro d'uma +enseadinha, ao abrigo do vento. Dois minutos depois a quilha da chalupa +afundava-se na areia. + +Antonino deitou ferro, e saltou sobre uma rocha, com uma ligeireza de gamo. + +Laura lançou-lhe a extremidade d'uma amarra, que o visconde atou +solidamente n'um adelgaçamento do rochedo. + +Depois estendeu as mãos para a esposa, que ligeiramente lhe saltou nos +braços. + +Abraçaram-se apaixonadamente, com delirio. + +Estavam salvos! + + + + +XVIII + +O encontro + + +Antonino e Laura atravessaram a estreita facha arenosa que havia junto +ao rochedo, e que era o unico ponto abordavel da ilha de Cézambre. + +Na praia estava amarrado um barco. + +Meio occulto n'uma especie de quebrada, encontraram o posto da Alfandega. + +A casa estava aberta e vazia. + +Sem duvida os guardas, tendo partido de manhã, não estavam ainda de volta. + +Antonino lembrou-se que proximo d'aquelle sitio havia uma cabana de +pescadores. + +Depois de a terem procurado por alguns minutos, encontraram-a por fim, +n'uma anfractuosidade dos rochedos. + +A porta apenas estava fechada na tranqueta. + +Abriram-a e entraram. + +Depararam com uma velha, meio surda, que concertava uma rêde. + +A custo conseguiram saber que o velho--marido sem duvida--tinha partido +de manhã para Saint-Malo e que ainda não voltára. + +Muito instada, disse mais que nada tinha que se Comesse e bebesse, além +de _cidra_, toucinho, peixe sêcco e pão. + +Uma moeda d'ouro, que Antonino atirou para cima d'uma meza, abriu-lhe um +pouco mais os ouvidos e a intelligencia. + +A velha levantou-se então e tratou de fazer lume sem demora. + +Pouco depois brilhavam as chammas na chaminé. + +Laura approximou-se para se aquecer e seccar o fato. + +Depois de estar tambem alguns momentos junto do lume, Antonino disse: + +--E agora vou buscar as nossas provisões a bordo da chalupa, porque, +antes d'embarcarmos novamente, necessitamos comer, e não me agrada o que +a velha nos póde dar. + +E voltando-se para a dona do tegurio, accrescentou: + +--Acompanhe-me, porque, indicando-me o caminho, menos tempo me demorarei. + +A velha levantou-se sem responder, e seguiu Antonino. + +Laura conservou-se á chaminé, pensativa. + +Pouco depois ouviu uma voz conhecida dizer-lhe: + +--Adeus, Linda, bom dia! + +Levantou-se sobresaltada e olhou. + +Tinha em frente Lauretto Mina. + +--Como vaes tu, carissima? + +Laura respondeu altivamente: + +--Eu chamo-me viscondessa de Bizeux! + +--Viscondessa?... Hum!... Emfim, seja! Effectivamente disseram-me, em +Saint-Malo, que tinha casado com o sr. de Bizeux, e que pertencia +officialmente á familia do visconde. Mas o casamento effectuou-se em +Inglaterra, não é verdade? Ninguem desconhece essa especie de +casamentos... enlaces pouco duraveis, tão faceis de fazer como de +desfazer. Casa-se em frente d'um padre catholico, mas nem por isso o +casamento deixa de ser civil, o que illude a lei. + +--Mas affianço-lhe... replicou Laura. + +Interrompeu-se para ajuntar em tom desprezador: + +--Que me importa o que o senhor pense! Acredite ou não, é-me indifferente! + +--Está bem! respondeu, rindo ironicamente, Lauretto Mina. Que a +viscondessa esteja mal, ou bem tincta, é questão secundaria, que não me +impede de prometter solemnemente tratal-a pelo seu titulo, com todas as +attenções e o mais profundo respeito. Tomo a peito proceder de fórma que +reconquiste as suas boas graças. + +Depois d'um momento de silencio, olhando-a de revez, accrescentou: + +--É possivel que a sr.ª viscondessa tenha a maxima conveniencia de +passar, para mim, como uma desconhecida em Saint-Malo. É possivel que +não deseje que a reconheçam como sendo a celebre cantora Linda... + +Laura, surprehendida e interrogando-o com o olhar, interrompeu-o: + +--E se assim fosse! + +--Bravo! Já vejo que acertei! Pois está combinado! Ámanhã, no concerto... + +--Ah! o senhor canta no concerto d'ámanhã? perguntou a viscondessa. + +--Canto. Foi para isso que vim a Saint-Malo... Ámanhã será para mim uma +desconhecida. Prometto-lh'o sob minha palavra d'honra. + +--Obrigada. + +--E agora que está certa da seriedade das minhas intenções, deixe-me +dizer-lhe rapidamente, antes que... seu marido volte, o que vim fazer +aqui, porque vim exclusivamente por sua causa. + +--Por minha causa? repetiu Laura como um echo. + +--Não me refiro precisamente á ilha de Cézambre. A estes rochedos +conduziu-me apenas o acaso, a minha boa estrella. Esta manhã +propozeram-me um passeio até á ilha, que me affiançaram ser +extraordinariamente pittoresca. A tempestade reteve-nos por mais +tempo do que desejavamos. Mas a Saint-Malo, vim exclusivamente por sua +causa, repito. + +Em seguida a uma pausa calculada, o tenor ajuntou: + +--O tempo passa. Vou direito ao fim. Sabe que no proximo mez é a +inauguração da nova Opera. O director encarregou-me de dizer-lhe que +tinha o maximo empenho em contratar a Linda. Elle acceita uma escriptura +nas condições que mais lhe agradem, sr.ª viscondessa, ou seja por anno e +por serie de representações. + +Laura córou, e esteve sem responder durante alguns segundos. + +Por fim disse: + +--É impossivel. Eu sou a esposa do visconde de Bizeux. + +--Ora adeus!... Nada de patetices!... replicou Lauretto com desdem. A +sr.ª é e será sempre a Linda! É possivel que seja viscondessa, mas não +deixou de ser artista! Usa agora, legitamente ou não, pouco importa, o +nome dos nobres avós d'um fidalgo da provincia, mas, _per Bacco!_ não +lhe merecerá mais consideração, não collocará cem vezes mais alto o seu +nome pessoal, o seu nome artistico, o grande nome que conquistou pelo +seu talento previlegiado? Não posso deixar de lhe lembrar que seu pae +tambem era conde. Mas ninguem o conhecia por conde de Marcia, todos +lhe chamavam o grande violinista, o grande artista Marcia. Acho extranho +que a filha proceda de fórma contraria, deixando offuscar o seu glorioso +nome de artista pelo vulgar titulo de nobreza! + +O tenor fallava com vehemencia e emphase italiana, mas as suas palavras +correspondiam aos intimos pensamentos de Laura. + +A viscondessa não respondeu. + +Inclinara a cabeça para o peito, pensativamente. + +O tenor perguntou: + +--Então?... Que resposta devo dar ao director da Opera? Que acceita, não +é verdade? + +Laura disse, como se fallasse comsigo mesma: + +--Ha uma coisa que a tudo sobreleva: amo meu marido! + +--Mas ha trinta mezes já que o ama! Parece-me sufficiente! O visconde +confiscou-a por mais de dois annos, é tempo de a restituir a si propria, +á arte, aos seus admiradores. Se a amasse, seria o primeiro a dar-lhe +esse conselho. E apesar disso a sr.ª continua amando-o, se é que não a +engana o coração. Mas eu conheço-a bem, e iria apostar em como está +farta da vida que leva. Convença-se: a sr.ª não pertence a um só homem, +pertence a todos! Eu nem um instante duvidei que a Linda voltaria +para o theatro. Se não fôr hoje, será ámanhã! + +Laura, fugindo de responder ao tenor, perguntou: + +--Como soube o director da Opera que eu estava em Saint-Malo? + +--Ah! isso é descoberta minha, replicou Lauretto Mina envaidecido. +Quando a sr.ª desappareceu com o visconde, disse-se que tinha partido +para a America do Norte ou do Sul. A verdade é que nunca se soube ao +certo para onde tinham ido. Pouco tempo depois ninguem se lembrava da +Linda, excepto eu, que nunca a esqueci. Velava, espiava. Ha pouco soube +pelo barytono Gressier, que elle fôra convidado para cantar n'um +espectaculo de beneficencia, em Saint-Malo. Lembrei-me que Saint-Malo +era a terra da naturalidade do visconde de Bizeux. Tratei de ler os +jornaes da provincia, e n'um, o _Correio d'Ille-et-Vilaine_, vi que o +conde de Bizeux era o vice-presidente da commissão que promovia o +espectaculo. Li o programma do concerto e n'elle encontrei os nomes da +baroneza de P... e da viscondessa de B... Procurei immediatamente «o +director de Opera, para onde, tenho a honra de lh'o participar, +estou escripturado. Logo que o vi, disse-lhe: Encontrei a Linda! +Meia hora depois escrevia ao sr. conde de Bizeux, offerecendo-me +desinteressadamente para cantar no concerto. O conde acceitou +reconhecidamente o meu valioso concurso, em telegramma. No dia seguinte, +munido de plenos poderes pelo director da Opera, parti para Saint-Malo, +onde cheguei ha poucos dias. Eu desejava ficar hospedado em casa de seu +sogro. Infelizmente, porem, elle hospedava Nobillet e Gressier que +considerava como patricios, e tive de contentar-me em ser hospede da +sr.ª baroneza de Pontual--uma mulher encantadora, palavra d'honra! disse +o tenor como que em aparte com sorriso fatuo. Pena é que a voz não +corresponda á belleza com que Deus a dotou! + +--Está hospedado em casa da baroneza de Pontual? perguntou Laura +inquieta. Disse-lhe quem eu era? + +--Admire a minha prudencia e delicadeza: fazendo com que a baroneza +fallasse da minha ex-companheira de theatro, percebi com facilidade que +a sr.ª viscondessa tinha realmente guardado o mais rigoroso incognito, e +não trahi o seu segredo. Como antecipadamente tinha admittido essa +hypothese e resolvido não a denunciar, guardei o mais absoluto silencio. + +--Agradeço-lhe, disse Laura pela segunda vez, durante a sua conversação +com Lauretto. + +D'esta vez, porém, pronunciou a palavra mais delicadamente do que da +primeira. + +--Nada tem que agradecer-me, replicou Lauretto. Repito-lhe; tenho o +maximo desejo em que veja em mim apenas um amigo. Escute-me, Laura: +ha mais de dois annos que nem um só momento deixei de pensar em si. A +sua imagem está sempre presente ao meu coração. Os sonhos de felicidade +que tenho architectado teem sido tantos e taes que nem mesmo me atrevo a +relatar-lh'os. É uma verdadeira obsessão! Ah! permitta-me que lhe diga, +o que ainda, sentido, nunca disse a qualquer mulher: adoro-a, Laura! + +A viscondessa endireitou o corpo, irritada. + +Depois d'olhar fixamente, com altivez, o tenor, disse-lhe desdenhosa: + +--Creio que ha bocado prometteu tratar-me com todas as attenções e +respeito? + +Lauretto não poude responder. + +Olhando pela porta, viu o visconde, que se approximava. + +Portanto disse a Laura, sorrindo maldosamente: + +--Não falle tão alto, que póde ouvil-a seu marido. + +Laura olhou tambem, e viu Antonino, seguido pela velha, que conduzia um +cabaz. + +Ao transpor o limiar da porta, o visconde recuou, estupefacto. + +A voz tremia-lhe ao pronunciar o nome do tenor. + +--Lauretto Mina! disse elle apenas. + +--Em pessoa! respondeu o tenor com toda a presença d'espirito. Diz-se, e +assim é, que o mundo é enorme. Pois apesar d'isso os amigos +encontram-se sempre. Portanto o nosso encontro, sr. visconde, apesar de +ser perfeitamente casual, não é para admirar. Vim a Saint-Malo para +cantar no concerto d'ámanhã. Uns amigos convidaram-me a passeio n'esta +ilha. A tempestade, retendo-nos, fez com que nos encontrassemos. Os seus +charutos devem estar molhados; permitti-me que lhe offereça um? + +--Obrigado, disse friamente Antonino, acompanhando a palavra com um +gesto de recusa. + +O tenor fingiu não perceber a frieza com que o visconde o tratava. + +Deu um passo para a porta, olhou para o espaço e disse: + +--O tempo melhorou. O demonio do vento começa a socegar um pouco. Nada +me prende já n'esta especie d'ilha selvagem. Não desejo importunal-os +por mais tempo; deixo-os com a sua refeição. Senhor visconde, tenho a +honra de o cumprimentar!... Senhora viscondessa, apresento-lhe a +homenagem do meu mais profundo respeito! + +Tirou o chapéu n'um gesto largo e saiu da cabana. + +Antonino seguiu Lauretto com olhar colerico. + +--Que tempo esteve este homem aqui? perguntou elle a Laura. + +--Entrou pouco depois de tu sahires. Não sei d'onde veiu! + +O visconde interrogou a velha. + +--Este senhor, respondeu a mulher, veiu passeiar á ilha para _ver a +vista_. Trouxe almoço, e como a tempestade rebentou, demorou-se. Estava +deitado entre as rochas a descançar, quando o senhor chegou. + +--O que te disse elle? interrogou o visconde logo que a velha terminou +as explicações. + +--Fallou-me da nova Opera, onde está contractado. O director mandou-me +offerecer escriptura, tambem. + +--E que lhe respondeste? + +--Que era tua mulher, que não podia pensar em voltar ao theatro. + +--É provavel que esse insolente continue a amar-te. Dirigiu-te algumas +palavras offensivas? + +Deveria ella provocar um conflicto entre seu marido e o tenor? + +Lauretto Mina, em duello, era adversario muito mais para temer que Pozzoli. + +Por isso Laura respondeu, tremendo-lhe a voz: + +--Lauretto foi attencioso d'esta vez. Está ha alguns dias, em +Saint-Malo, por causa do concerto, como te disse, e não fallou em mim, +promettendo-me até fingir que não me conhecia. + +--Oh! E ficaste-lhe muito reconhecida, não é verdade? disse Antonino +ironicamente. + +--O que tens? perguntou Laura com meiguice. Não admira que te +contrariasse o encontro com esse homem, mas isso não é rasão para me +tratares com modos bruscos! + +--Perdoa-me, Laura! Não sei porque, mas a presença d'este homem +irritou-me sobremaneira. Não podia nem devia provocal-o pela +impertinente polidez com que me tratou, mas cada uma das palavras que +pronunciava fizeram-me ferver o sangue nas veias! + +--Socega, não te exaltes. Vamos almoçar, que necessitamos readquirir +forças, tu principalmente. Senta-te, que eu te sirvo. + +Auxiliada pela velha, Laura poz a mesa. + +Depois tirou do cabaz pão, vinho de Bordeus, e carne assada. + +O appetite que sentiram ao desembarcar, desapparecera. + +Mal provaram os alimentos. + +Emquanto estiveram á mesa poucas palavras trocaram. + +Pensavam. + +Antonino, que desembarcara na ilha, alegre e triumphante, apesar da +fadiga physica, como se está sempre depois d'um combate de que se sae +victorioso, estava agora triste e inquieto. + +Laura fallara-lhe com a costumada meiguice, mas o instincto do amor que +sentia pela esposa, fazia com que o visconde visse para além das +apparencias, e entendesse o que as palavras não diziam. + +Esse instincto dizia-lhe que ella lhe occultava o quer que fosse, e que, +no pensamento intimo da mulher amada, havia um segredo, como que uma +sombra que lhe fugia e lhe era contraria. + +Pelo seu lado, Laura, repassando pelo espirito as tentadoras +perspectivas que Lauretto lhe desenrolara, dizia comsigo que Antonino +nem pronunciára uma palavra d'agradecimento pelo sacrificio que ella de +novo fazia regeitando as propostas do director da Opera. + +Parecia-lhe que o marido se esquecera do compromisso tomado, de, quando +ella lh'o pedisse, deixal-a em plena liberdade, ou, segundo as proprias +palavras que então pronunciára, deixar-lhe a gaiola aberta. + +Porque seria que, em vez de profundo reconhecimento, elle lhe +testemunhava uma especie de desconfiança amargurada? + +Porque pareceria temer a presença do insolente Lauretto Mina, que, como +mulher honesta, ella repellira? + +Aquelles dois entes que se amavam, que acabavam de escapar, juntos, d'um +perigo terrivel, e que se considerariam felizes de succumbir a elle, +enlaçados n'um abraço ultimo, ao entrarem de novo na vida social, +procuravam divergencias e sentiam egoismos, que separam e dilaceram. + +No fundo do coração é provavel que se recordassem, saudosos, da tempestade. + +E comtudo essa tempestade passára, como se nada mais tivesse a fazer, +uma vez que lhe fugira o encantador par que desejara victimar. + +A ilha de Cézambre dista apenas cinco kilometros de Saint-Malo, mas +necessitavam apressar-se para poderem chegar á cidade antes d'anoitecer. + +Prepararam-se para partir. + +Antonino continuava pensativo. + +Laura perguntou-lhe porque estava triste. + +Elle desculpou-se com a fadiga. + +A verdade, porém, era que deixára de a sentir desde que chegara á ilha. + +O abalo moral quebrantára-o muito mais do que a lucta contra a borrasca. + +Laura insistiu com sollicitude. + +--Mas sentes apenas fadiga? Nada mais te atormenta e incommoda? + +Antonino hesitou, mas por ultimo disse: + +--Porque não hei-de confessar-te tudo? É verdade, sim, estou desgostoso! +Sabes o que me incommoda? É a idéa de que devemos a Lauretto Mina o +obsequio de fingir que te não conhece, de não se indicar como teu antigo +companheiro no theatro, e, principalmente, a certeza de que elle, +como dantes, cantará ao teu lado, diante de numeroso publico. Se tivesse +supposto que esse insolente cantaria no concerto, affianço que não +consentiria que tu cantasses tambem. + +--Lembra-te de que, se vou cantar, é exclusivamente para te comprazer e +a teu pae. De resto, é tempo ainda. Queres que não cante? Affianço-te +que essa tua resolução não me entristecerá, pelo contrario, porque +talvez assim tu fiques completamente socegado. + +--Sim, replicou Antonino. Se não cantares socegarei, porque +desapparecerá a inexplicavel apprehensão que me assaltou, e de que só +por essa fórma conseguirei libertar-me. + +--Abraça-me e socega. Não cantarei ámanhã, e ficarei tão satisfeita como +tu. + +Quando chegaram a Saint-Malo a cidade estava já envolta em trevas. +Prepararam-se rapidamente para o jantar, que era de cerimonia. + +Os artistas que cantariam no dia seguinte jantavam em casa do barão de +Pontual. + +O conde de Bizeux tinha á sua meza, além do arcebispo de Rennes, todas +as pessoas d'importancia que tinham chegado de varios pontos da Bretanha +para assistir ao concerto, que em toda a provincia despertára o maior +enthusiasmo. + +Findo o jantar, Antonino e Laura chamaram o conde de parte. + +O visconde explicou ao pae a razão porque desejava que o nome de sua +mulher fosse riscado do programma do espectaculo. + +Mas o conde declarou: + +--É completamente impossivel! É tarde para isso! + +E depois, um pouco exaltado por semelhante resolução, deu a sua opinião +sobre o caso. + +Não comprehendia os escrupulos do filho. + +Vira e fallára com Lauretto Mina. + +O tenor parecera-lhe um homem delicadissimo. + +Era para agradecer-lhe que não tivesse feito a mais ligeira allusão á +sua antiga collega, a Linda, e estava certo que o tenor se portaria com +a viscondessa de Bizeux com todas as attenções e respeitos. + +O arcebispo de Rennes dissera a toda a gente que a admiravel voz que iam +ouvir não a possuiam muitas cantoras de profissão, que o talento de +Laura era inegualavel, despertando assim a geral curiosidade. Se, depois +disto, fossem riscar do programma o nome de Laura era collocar +pessimamente o conde que, como vice-presidente da commissão promotora do +espectaculo, como que offenderia as numerosas pessoas que tinham ido a +Saint-Malo para ouvir a viscondessa. + +Ora Antonino de certo não quereria que o pae fizesse má figura. + +Ante estas razões apresentadas pelo conde, era impossivel a insistencia. + +Portanto Antonino disse: + +--Pois bem, Laura cantará! + + + + +XIX + +O escandalo + + +Antonino, ainda que excessivamente fatigado, teve, n'essa noite, um +somno febril, cortado de sonhos sinistros. + +Laura não poude conciliar o somno, tão profunda sensação lhe tinham +causado as scenas d'aquelle dia. + +De manhã teve nova emoção. + +Ao ler o programma completo do concerto, encontrou inesperadamente, o +nome de Remissy. + +O que significava aquelle caso? + +Porque não a tinham prevenido? + +Estaria Remissy em Saint-Malo? + +Na vespera não o vira e nada lhe constára! + +Uma carta de Lauretto Mina respondeu a todas as perguntas que a +viscondessa a si propria fez. + +O tenor dizia o seguinte: + + + _Senhora viscondessa_ + +Não tive tempo de a prevenir hontem de que o nosso amigo Remissy tomava +parte no concerto d'hoje. Não sei se ficará satisfeita ou contrariada +com esta noticia. Se ha falta, confesso-me unicamente culpado d'ella. +Fui eu quem, satisfeitissimo por encontral-a, participei o caso a +Remissy, contratado em Vichy por uma quinzena, accrescentando se, elle +tambem não queria vir commigo a Saint-Malo, tornar a vel-a commigo, e +juntar, mais uma vez, n'este concerto de beneficencia, o nome d'elle, +como o meu, ao nome da sr.ª viscondessa. + +Remissy respondeu-me: + +«Ver e ouvir mais uma vez a Linda, _poi morir_. Sim, sim, irei, mas não +espere por mim para partir. Conhece a rapidez dos meus habitos +ambulantes. Informei-me na estação do caminho de ferro, e soube que ha +um comboio que chega a Saint-Malo ás sete e meia da noite. Ver-me-ha +entrar na sala do concerto, de casaca e gravata branca, ás nove horas +precisas da noite em que elle se efectua. Á cautella, peço-lhe que faça +com que o meu nome feche o programma. A _Marselheza_ está +interdiria pela censura imperial, e inquietaria os honrados legitimistas +locaes. Executarei, pois, a _Marselheza_ hungara, o hymno de Rakoçki.» + +Previno-a d'este caso, sr.ª viscondessa, mas peço-lhe que não se +inquiete. Hontem, depois de ter tido a honra de a ver, não pude escrever +ou telegraphar a Remissy, nem mesmo sabia para onde dirigir-lhe carta ou +telegramma. Esperal-o-hei á chegada e instruil-o-hei de fórma que elle +saiba que é compromettedora para a sr.ª viscondessa a mais ligeira +indiscrição. Remissy é, como eu, excessivamente dedicado á sr.ª +viscondessa, e por isso estou certo que elle annuirá ao meu pedido, e +procederá de fórma que não a comprometta. + +Tenho a honra de me assignar, sr.ª viscondessa, + + Seu humilde criado. + + «_Lauretto Mina._» + + +Esta carta fôra escripta pelo tenor calculadamente, para que podesse ser +lida pelo visconde. + +Laura mostrou-a effectivamente a Antonino. + +A leitura da missiva augmentou a inquietação do visconde. + +--Um risco mais! disse elle. + +E depois de pensar, por instantes, accrescentou: + +--Afinal a quantidade pouco importa. + +Quem não estava inquieto nem triste era o conde de Bizeux. + +Annunciou triumphantemente, ao almoço, que o espectaculo seria magnifico. + +A casa fôra completamente passada. + +Renderia mais de cincoenta mil francos. + +Subtrahidas as despezas ficaria, com certeza, livre, mais do que a +quantia necessaria para concluir o hospicio para os marinheiros. + +O conde agradeceu effusivamente a Laura o ter consentido em cantar, +fazendo-lhe assim a vontade. + +Estephania, é claro, não partilhava do enthusiasmo do pae. + +--Confesso, opinara ella, que não approvo essas exhibições n'uma senhora +nobre e titular, isso só se admitte nas mulheres que fazem vida pelo +theatro. + +O conde, porém, no cumulo da satisfação, mofava da filha e dos +_prejuizos gothicos_ que ella tinha. + +Ao meio dia Laura ensaiou-se com a orchestra, rapidamente, como quem +está segura do que executa. + +Na vespera fizera substituir no programma a aria _O Rei dos Alamos_ por +um outro trecho de Schubert, _Margarida_, que exigia mais sentimento, +mas que necessitava de menos voz, e que por isso era mais conveniente +que a dama d'alta sociedade o executasse. + +Era indispensavel não desprezar a mais insignificante circumstancia para +que, nem por um momento, os espectadores se esquecessem que quem cantava +era a viscondessa de Bizeux. + +Pelas oito horas da noite, nas socegadas ruas de Saint-Malo havia um +desusado rodar de carruagens. + +Apesar da noite ser de luar, o caes fôra illuminado a gaz até á porta do +Casino, onde devia realisar-se o espectaculo, logo que anoitecera. + +Um pouco antes das nove horas, Laura entrou no salão do Casino pelo +braço do conde de Bizeux. + +A entrada da viscondessa produziu sensação. + +Estava adoravelmente formosa. + +Um magnifico colar de saphyras e diamantes fazia-lhe sobresahir a rosada +epiderme do collo. + +Nos braços, d'uma belleza esculptural, trazia pulseiras semelhantes ao +collar. + +O louro veneziano dos seus sedosos cabellos sustentava uma borboleta, +collocada ao alto, cujo corpo era formado por uma enorme saphira, e +cujas azas, salpicadas de diamantes, scintillavam com extraordinario +brilho. + +Laços de finissima renda, fixos por colchetes de saphyra, alteavam-lhe +os microscopicos sapatos de velludo azul. + +O visconde de Bizeux seguia o pae e a esposa, dando o braço á irmã, +que vestia uma _toilette_ simples, de seda preta, sem enfeites. + +Logo que o conde de Bizeux se sentou, foram-lhe entregar um telegramma. + +Participavam ao conde que o comboio descarrillára a dois kilometros da +estação de La Fresnays. + +Não havia desastres pessoaes a lamentar, mas o comboio, forçado a +demorar-se por aquella circumstancia, não poderia a chegar a Saint-Malo +antes da meia-noite. + +Não podiam, pois, contar com Remissy. + +A noticia alegrou Antonino e Laura. + +O salão do Casino estava repleto, brilhante de _toilettes_ primorosas e +caras, e animado pelas meias conversações dos espectadores satisfeitos. + +Logo que o concerto começou, fez-se o mais completo silencio. + +O espectaculo constava de duas partes. + +A primeira abriu pelos córos populares bretões, cantados por homens e +mulheres do povo. + +Os espectadores, bretões na quasi totalidade, applaudiram com enthusiasmo. + +A baroneza de Pontual e Lauretto Mina, obtiveram successo na _Ave Maria_ +de Gounod, e n'um outro trecho que cantaram juntos. + +Depois do terceiro numero do programma, executado pelo baritono, Laura +cantou a aria _Fidelio_. + +O desusado sentimento e a adoravel simplicidade com que ella interpretou +o trecho musical, produziu em todos os espectadores um enthusiasmo +indiscriptivel. + +O concerto foi interrompido pelas palmas, bravos e repetidas chamadas á +viscondessa. + +A esposa dedicada executára a aria, imprimindo-lhe o cunho superior +d'uma alma d'_elite_. + +Por isso os espectadores se sentiram como que chocados por invisivel pilha. + +Antonino, que comprehendera quanto amor significava a execução da aria, +a custo retinha as lagrimas. + +Nobillet terminou a primeira parte do concerto, tocando uma rapsodia +sobre _motivos_ da Bretanha e da Vandêa, que foi coroada de palmas. + +O penultimo numero da segunda parte, tão interessante como a primeira, +era a marcha hungara executada pelo violinista Remissy. + +Quando se chegou a essa altura do programma, o conde de Bizeux +levantou-se para prevenir os espectadores de que se dera o +descarrillamento, e que, por isso, Remissy não estava presente. + +O conde começou dizendo: + +--Um descarrillamento entre as estações de... + +Mas foi interrompido pelo proprio Remissy em pessoa, que, de violino +debaixo do braço, avançou lentamente, e disse: + +--O comboio descarrillou, mas por felicidade não se voltou a carruagem +em que segui desde a estação de La Fresnays, e portanto eis-me aqui, á +hora marcada, ao seu dispor, minhas senhoras e meus senhores. + +As palavras de Remissy foram recebidas com uma salva de palmas. + +Duas ou tres pessoas que chegavam com o violinista, contaram o que se +passára. + +Em seguida ao descarrillamento, Remissy, com o violino a tiracollo e o +sacco de viagem na mão, mettera-se a caminho para La Fresnays, +tranquillamente. + +Chegado que foi, alugou uma carruagem, e uma hora depois chegava a +Saint-Malo, e entrava no salão do concerto, correcto, impeccavel, de +casaca e gravata branca, como se não chegasse d'uma viagem de trezentas +leguas. + +Logo que o silencio se restabeleceu no salão, Remissy começou a tocar o +hymno de Rakoçki. + +Como sempre, foi extraordinario d'execução. + +As primeiras notas foram ligeiras, simples, mas o _thema_ do hymno foi +exposto com firmeza e arte. + +Depois, foi-se animando pouco a pouco, levado por subito arrebatamento, +como se se sentisse no campo da batalha, ao lado do general Kossuth. + +Dir-se-ia que d'elle se apossava um enthusiasmo frenetico, tyrannico. + +Em seguida o arco tocava ao de leve nas cordas do violino, e percebia-se +o hymno como que tocado ao longe, mysteriosamente. + +Era a isso que elle chamava _tocar nas estrellas_. + +Mas, singular condão do genio, as notas, apesar de fracas e quasi +indistinctas, tinham a mesma expressão e o mesmo encanto. + +Parecia ouvir-se e ver-se, a centenas de leguas de distancia, cargas +furiosas de cavallaria, e o embate titanico de dois corpos d'exercito. + +Remissy, foi escutado com o mais profundo silencio. + +Quando terminou, romperam delirantemente os applausos, e todos os +espectadores gritaram: + +--Bis!... bis!... + +Remissy, depois de agradecer a ovação, disse: + +--Desculpem-me, mas não repito nunca os trechos que executo. Tocarei +qualquer outra coisa. D'esta vez será alegre a musica. + +E começou a executar as celebres variações, que compozera sobre o +_Carnaval de Veneza_. + +Foi com endiabrado estro e rara exuberancia de malicia e de jovialidade, +que Remissy resuscitou a eterna e pittoresca festa da praça de S. Marcos. + +Sentia-se mover e reviver todos esses alegres e encantadores personagens +dos companheiros da _Commedia dell'arte_. + +Por vezes, atravez de toda a alegria, resaltando do trecho musical, +passava uma nota melancholica e triste como uma saudade ou como um suspiro. + +As palmas retiniram novamente. + +Laura applaudiu com alegria o grande artista, que fôra amigo de seu pae. + +Remissy, habituado a estes triumphos, sorria com bondade e agradecia +modestamente. + +O ultimo numero do programma, era a _Margarida_, de Schubert, cantado +pela viscondessa de Bizeux. + +Laura, ao caminhar para o logar onde devia fazer-se ouvir, encontrou +Remissy, que se retirava. + +O violinista, ao vel-a, disse-lhe com arrebatamento: + +--Ah! encontro-a emfim! não a via... + +A viscondessa não o deixou terminar. + +Apertou-lhe expressivamente a mão, e continuou andando. + +Remissy procurou na sala uma cadeira vazia, d'onde podesse ouvir a Linda. + +A baroneza de Pontual, que percebeu, levantou-se e indicou-lhe com a mão +a cadeira que Laura acabava de deixar. + +O violinista approximou-se. + +A baroneza disse-lhe então: + +--Quererá o sr. Remissy fazer-me a honra de se sentar a meu lado? + +Elle inclinou-se diante d'aquella mulher, e sentou-se sem ceremonia, não +se dando mesmo ao trabalho de responder. + +Lauretto Mina não estava longe. + +Podia facilmente approximar-se de Remissy e avisal-o, como promettera, +de que a Linda desejava guardar o incognito. + +Não se moveu, porém. + +--O acaso é contra a Linda? Tanto peor! pensou o tenor. Nada terão a +censurar-me por faltar ao compromisso tomado. + +A viscondessa de Bizeux, saudada pelos applausos dos espectadores, +cumprimentou graciosamente antes de começar. + +Remissy, como fallando comsigo mesmo, disse a meia voz, com grande +espanto da baroneza: + +--Que felicidade! Não a ouvia ha tanto tempo! + +Laura pronunciou as primeiras phrases da aria com admiravel pureza e +nitida pronuncia, tão desprezadas actualmente, que é raro perceber-se +uma só das palavras ditas pelas cantoras. + +--Ah! Tem a voz mais volumosa! murmurou Remissy em extasi. Nunca +qualquer outra voz me emocionou como a da Linda! + +Laura chegou ao crescendo de melodia, para o qual reservava toda a +potencia da sua maravilhosa voz, enchendo, por assim dizer, o salão +com a mais bella e profunda sonoridade. + +Tres salvas de palmas, successivas, acclamaram a cantora. + +Os bravos resoavam. + +Remissy, enthusiasmado com o successo de Laura, gritava como possesso! + +--Bravo, diva!... bravo, Linda!... + +Felizmente, a voz do violinista perdeu-se entre o ruido do salão. + +Mas a baroneza ouvira perfeitamente o que dissera Remissy. + +Augmentava a sua surpreza. + +--Que quererá elle dizer? perguntou ella a si propria. Porque comparará +a voz da celebre Linda á voz da viscondessa? + +Laura proseguia. + +Os impulsos da paixão, e os gritos de dôr do final da aria, exprimiu-os +e pronunciou-os ella de uma fórma surprehendente. + +A sua voz foi simultaneamente tão penetrante e suave, o som tão sentido, +a emoção que experimentava manifestava-se-lhe no rosto formoso com tão +adoravel expressão, que o auditorio estava como que galvanisado. + +Os homens tinham-se levantado das cadeiras como impellidos por mola +occulta. + +As damas choravam. + +Logo que Laura terminou, houve uma verdadeira explosão d'applausos, de +bravos, de gritos d'admiração unanime. + +Remissy estava fóra de si. + +Levantava-se, sentava-se, gritava, chorava. + +A baroneza a custo lhe percebia algumas palavras. + +--Que artista!... dizia elle. Não tem egual!... É extraordinarissima!... + +Quando o ruido dos applausos diminuiu um pouco, Remissy estava como doido. + +Dir-se-ia que elle proprio não fôra alvo, pouco antes, de manifestação +quasi semelhante. + +É que os applausos dispensados ao seu idolo produziam n'elle +centuplicado effeito. + +Com o rosto innundado de lagrimas, dirigiu-se ao estrado sobre o qual +Laura cantára. + +A viscondessa retirava-se, agradecendo com venias a ovação que lhe era +feita. + +Remissy approximou-se d'ella, tomou-lhe as mãos e disse bem alto: + +--Ah! minha cara diva, tu és sublime!... Não posso conter-me, minha +querida Linda!... Se não te beijar, rebento! + +E envolvendo-a nos braços, beijou-a com sofreguidão nas duas faces. + +Laura, deixando-se beijar, sorriu com tristeza, e disse baixo ao +violinista: + +--Não póde calcular o mal que acaba de me fazer, meu caro Remissy! + +--Hein! o quê!... Fiz-te mal, eu?... murmurou o violinista estupefacto. + +E lançou em volta um olhar admirado. + +Era curiosa a mudança operada no auditorio. + +Os bravos interrompidos foram substituidos por murmurios hostis. + +Evidentemente, os dois grandes artistas, que pouco antes tinham com o +seu superior talento emocionado todos os espectadores, incommodavam-os +agora. + +Aquella scena final, completamente imprevista, chocava o nobre auditorio. + +E com gestos largos, todos, mais ou menos, pronunciavam phrases indignadas. + +--O que quer isto dizer? O que significa esta extraordinaria +familiaridade entre o violinista e a viscondessa?... Elle tratou-a por +tu!.. Beijou-a em publico!... _Shocking!..._ É escandaloso!... É +ridiculo!... + +Por entre o ruido ouviu-se repentinamente a voz da baroneza de Pontual, +que gritava, com irreprimivel satisfação: + +--A Linda! É a Linda! Tudo se explica! A viscondessa de Bizeux é a +Linda! + +Ao ouvir aquellas palavras o arcebispo de Rennes sahiu precipitadamente +do salão, pelo braço do vigario geral, murmurando a meia voz: + +--_Vade retro, Satanaz!_ + +Estephania, inclinando-se para o conde, disse-lhe ironicamente: + +--O que pensa agora dos meus prejuizos gothicos, meu pae? + +Entretanto alguns jornalistas e poucos espectadores applaudiam ainda Laura. + +O violinista, comprehendendo, vendo tudo, como ao brilho d'um relampago, +indignou-se por sua vez, e gritou, para ser ouvido por todos: + +--Mas o que significa este espanto? Os nobres, n'esta cidade, serão por +acaso burguezes?... Trato-a por tu, é verdade... Mas o que admira, se a +Linda é o meu idolo!... Beijo-a?... D'accordo, mas é a _Margarida_ que +beijo, selvagens!... Por ventura ignorarão os srs. barões, condes e +marquezes presentes que a verdadeira divisa da nobreza é _Honny soit qui +mal y pense_? + +Antonino approximára-se de sua mulher. + +Deitou-lhe sobre os hombros a capa de baile, e dando-lhe o braço disse-lhe: + +--Anda, Laura, vem. + +Atravessou altivamente o salão, com a mulher pelo braço. + +Empallidecera um pouco, mas conservava levantada a cabeça, e frio e +sereno o olhar. + +Os espectadores abriram alas. + +Á medida que avançavam, deixavam de se ouvir as phrases hostis. + +Quasi á sahida do salão os applausos resoaram de novo, tão entusiasticos +como no fim da aria. + +Remissy foi ter com Lauretto Mina, a quem disse: + +--Não me preveniu!... Dando a saber que a viscondessa era a nossa +querida Linda, pratiquei uma grande tolice! + +Mas depois d'um momento de silencio ajuntou: + +--Comtudo parece-me que depois reparei a asneira feita. + +O tenor respondeu apenas, sarcasticamente: + +--Parece-lhe? + + + + +XX + +Discordia conjugal + + +Laura e Antonino subiram para a carruagem, que os devia conduzir a casa. + +Iam tristes. + +Olhavam-se silenciosamente, encostados aos cantos do trem. + +O visconde pensava com amargura no escandalo que acabava de dar-se, que +tão fóra de proposito rebentára. + +Acceitára antecipadamente, com todo o desassombro, o effeito que devia +seguir-se, cedo ou tarde, á revelação do nome e do passado da esposa, +mas jámais calculara que essa revelação se faria em circumstancias tão +estrondosas e desagradaveis. + +Apesar do espirito independente que possuia, Antonino conservava comtudo +certos prejuizos de raça, de educação, impossiveis de fazer desapparecer +por completo. + +Ao atravessar na carruagem os caes desertos calculava com tristeza o que +se passaria no dia seguinte. + +Parecia-lhe estar vendo já o aspecto severo de sua irmã, e até de seu +pae, a frieza dos seus amigos, e a circumstancia, mais dolorosa ainda, +de sua esposa não continuar a ser recebida pela primeira sociedade de +Saint-Malo. + +Laura, pelo seu lado, magoada pelo silencio do marido, dizia comsigo que +nada tinha de que censurar-se. + +Não só não pedira para cantar no concerto, mas até se recusara a tomar +parte n'elle, apontando as inconvenientes que d'ahi podiam advir. + +Consentira em cantar em publico unicamente para annuir ás reiteradas +instancias do marido e do sogro. + +Fôra culpa sua que aquelle doido Remissy, com o seu exaltado +enthusiasmo, transformasse em escandalo o que não devia passar de triumpho? + +Chegaram a casa sem trocar uma só palavra. + +Operava-se, de subito, uma verdadeira separação entre aquelles dois +seres, que, entretanto, por inexplicavel aberração, continuavam amando-se. + +As desigualdades d'educação, e as educações diversas, produzem muitas +vezes affeições que a todas as contrariedades e desgostos resistem. + +Antonino acompanhou a mulher até ao quarto, e em seguida caminhou para a +porta, retirando-se. + +--Deixas-me assim? perguntou Laura com voz triste. + +Elle indicou-lhe, com um gesto, a creada, que entrava para despir Laura, +e respondeu: + +--Voltarei d'aqui a pouco. + +A viscondessa impoz silencio ás curiosas perguntas que Jacintha lhe +fazia sobre o concerto, e disse á creada que se retirasse logo que lhe +despiu o vestido que levara para o concerto, substituindo-o por um +outro, de trazer por casa. + +Depois foi, apesar da humidade da noite, encostrar-se ao parapeito da +janella aberta. + +Ao longe, o mar, tão tempestuoso na vespera, estava sereno como um lago. + +Ouvia-se o regular sussurro da vagas, e o ruido monotono das ondas +desfazendo-se na areia da praia. + +Nas aguas cahiam com lentidão os remos d'alguns escaleres da alfandega. + +No ceu azul, semeado d'estrellas, uma comprida nuvem clara, como longa +facha branca, listava o espaço, por baixo da lua impassivel. + +Um sino badalou triste, lugubremente. + +Aquelle som fez-lhe mal. + +Parecia-lhe que dobravam a finados, pela morte de alguem que lhe era caro. + +Seria esse morto o seu amor? + +Abriu-se a porta do quarto. + +Laura voltou-se. + +Era Antonino que entrava. + +Ao chegar junto da esposa, disse-lhe com voz grave e firme. + +--Vim, porque prometti voltar. Mas o que venho fazer aqui? O que +poderemos nós dizer sobre a deploravel scena que ha pouco se passou? + +--Parece-me, respondeu Laura, que devias consolar-me pelo desgosto que +soffri. Como conscienciosamente sabes, eu não tive a menor culpa do que +succedeu. + +Antonino replicou com amargura: + +--E eu muito menos, concorda. Tens, minha querida, amigos bem perigosos +e bem ridiculos! + +--Não é d'hoje que os conheces. Apresentei-te Remissy nos primeiros dias +das nossas relações. Foi a fatalidade que dispoz as coisas. De resto, se +era improvavel, não era impossivel que o facto se desse. Ter-se-hia +evitado se, como eu desejava, não me obrigassem a cantar no concerto. +Pois se eu não tivesse como que uma especie de pressentimento de que se +passaria o quer que fosse de desagradavel, insistiria por ventura para +não ser incluida no programma? Foi teu pae, e tu proprio, que não +annuiram aos meus pedidos. Cedi, porque não podia deixar de o fazer. O +enthusiasmo de Remissy desmascarou-me. Se eu tivesse cantado mal não +teriamos agora que lamentar-nos. Censurar-me-has, por ventura, por ter +cantado bem, fazendo com que me applaudissem? Não devo ser accusada +d'esse crime, se o foi, porque não sou responsavel por elle. Lavo d'ahi +as minhas mãos. + +--A verdade é que não és tu quem mais soffre com tudo isto, respondeu +Antonino meio irritado. Que te importa que se saiba que és a Linda? É um +nome que tornaste celebre, e que estimas,--sem duvida muito mais,--do +que aquelle que actualmente usas. Mas para mim e para a minha familia, +esse nome, cahindo bruscamente, sem preparações, sobre o publico, +vae servir de maná á malignidade de toda a gente, que nos escarnecerá e +diffamará. Seremos repellidos da sociedade que até aqui frequentavamos, +passaremos por pessoas que desprezaram a opinião publica, enganando os +amigos e os parentes. + +--N'uma palavra: deshonrei a tua familia, não é verdade? interrompeu Laura. + +--Não digo tanto, mas... + +--Na realidade admiro-te! disse a viscondessa irritando-se tambem. Para +que quizeste introduzir-me n'essa sociedade que não era a minha, n'essa +sociedade em que entrei como que de surpreza, e que, segundo todas as +probabilidades, me fechará ámanhã as suas portas? E eu por que accedi +aos teus desejos? Sabes porque? Porque te amava! Censurar-me-has tambem +por isso? Tens pouca memoria, Antonino; Quem te ouvisse, pensaria que, +casando commigo, tu me levantaste da lama, em que eu vivia. Sabes bem +que não é assim, sabes bem que eu, casando comtigo, pratiquei um acto +d'abnegação, immolando-te e ao amor que por ti sentia, o que até então +fôra a minha alegria e a minha vida, a arte, o renome, a gloria! E esse +sacrificio do primeiro dia, dura ainda, perpetua-se, persisto n'elle e +renovo-o incessantemente. E jámais te dei a perceber quanto elle por +vezes me tem sido pesado e cruel, sobretudo depois do nosso regresso a +França, depois que vivo n'esta atmosphera de provincia em que +respiro a custo, e que sinto diminuir em mim os dotes artisticos que +possuia. Pois em vez de tentares fazer-me esquecer esse passado que me é +querido, vens, pelas tuas palavras, como que transformal-o n'um crime! É +muito! Revolto-me contra o teu procedimento! E visto que me forças, +recordar-te-hei que me prometteste solemnemente deixar-me voltar para o +theatro, logo que assim o desejasse, voltar para esse passado que te +envergonha, mas que é a minha maior gloria! + +--Prometti-te tambem, Laura, que o meu amor te recompensaria do +sacrificio feito. Deixei de amar-te por ventura? Não te amo agora como +te amava d'antes? + +--Não, não me amas! Se me amasses como d'antes, não te porias ao lado da +sociedade contra mim, collocar-te-ias a meu lado contra a sociedade! + +--A sociedade! repetiu Antonino inquieto. Reconciliar-nos-hemos com ella.. + +--Muito bem! Empregarás todas as diligencias para que me tolerem, não é +verdade? Não, não, obrigada. Despreso esse obsequio, que se assemelha a +dó. Deixo-te n'ella; fica, fica n'essa sociedade em que eu era uma +estranha, em que eu não passava de pária! + +Laura fallava com vehemencia, exaltada pela colera e pelo desgosto. + +Antonino respondeu passados alguns instantes de silencio: + +--Estás como eu, Laura, sob a impressão do incidente que ambos +lamentamos. Como ha pouco te preveni, nada podemos dizer agora sobre +esse assumpto, que não augmente o mal estar que sentimos. Vou deixar-te. +Ámanhã estarás mais socegada. Até ámanhã... + +Pegou-lhe na mão, que ella lhe abandonou, inerte e fria, e repetiu: + +--Até ámanhã. + +Laura respondeu a meia voz: + +--Pois sim... deixa-me. Até ámanhã. + +Antonino olhou-a, ancioso. + +Depois deu tres passos para a porta, e parou, como sentindo desejo de +voltar. + +Por fim sahiu do quarto, fazendo um gesto de desanimado. + +Logo que o visconde fechou a porta e ella sentiu apenas o ruido de +passos, que se affastavam, Laura, que até então se reprimira, rompeu em +soluços. + +Chorou muito tempo. + +As lagrimas faziam-lhe diminuir a angustia que sentia. + +Passado algum tempo, um pouco socegada, ora passeiando pelo quarto, ora +encostada a uma mesa, ella reflectiu na sua situação. + +Tomado um partido, abriu uma porta que dava para o escada de serviço, e, +pegando n'uma vela, subiu ao quarto de Jacintha. + +O quarto estava vasio! + +Jacintha nem mesmo abrira a roupa da cama. + +Laura, ante este contratempo, ficou indecisa por momentos. + +Depois, fazendo um gesto de resolução, desceu ao seu quarto novamente. + +Davam quatro horas n'um relogio da casa. + +Vestiu apressadamente uma _toilette_ de viagem. + +Logo que terminou, sentou-se á mesa, e escreveu a seguinte carta, +precipitadamente: + + + _Antonino_ + +Reclamo de ti a palavra dada. + +Volto para o theatro. + +Parto sem te ver. + +Temi a tua resistencia e a minha fraqueza. + +Evito assim, a ambos nós o desgosto da despedida. + +A vida, no seio d'uma familia que me repelle e d'uma sociedade que me +despresa, era para mim impossivel. + +Aqui te deixo as ultimas palavras que o meu coração te envia: + +Amo-te, Antonino, amo-te muito! Não posso continuar vivendo comtigo +uma vida que me incommodaria, mas espero e peço-te que me dês a +felicidade de viver commigo a minha vida passada. + +Sou e serei sempre tua + + _Laura._ + + + + +XXI + +A fuga + + +Laura perguntou a si mesma se fazia bem abandonando á sua sorte essa +louca inconsciente, Jacintha. + +Pensou: + +--Devo deixar aqui toda a especie d'affeição? + +Lembrou-se da dedicação cega que Jacintha tinha por ella, dedicação que +a levaria a lançar-se ao mar, quando soubesse que Laura a tinha deixado. + +Depois de reflectir, resolveu-se. + +Escreveu em meia folha de papel algumas palavras a Jacintha, e foi ao +quarto da creada collocar o papel sobre uma mesa. + +Recommendava-lhe que de manhã tomasse, o mais occultamente que lhe +fosse possivel, o comboio de Paris, que partia ás oito e meia. + +Logo que chegasse á capital, procural-a-hia no Grande Hotel, +designando-a por _madame_ Linda. + +A Marieta, a outra creada, recommendava Laura que lhe enviasse, para o +Grande Hotel tambem, os vestidos e de mais roupas do seu uso. + +Ao escrever estas recommendações, Laura pensava: + +--Por esta fórma saberá Antonino onde encontrar-me. + +Isto feito, metteu n'uma pequena mala o dinheiro que possuia, joias, +cartas, alguns objectos insignificantes,--pura recordação,--e outros +essenciaes. + +Depois olhou tristemente, correndo-lhe as lagrimas pelas faces, para +aquelle quarto, onde, apesar de tudo, passara horas tão felizes. + +Foi appoiar a fronte, que abrasava, ao vidro frio da janella. + +Uma claridade, baça ainda, envolvia a cidade e estendia-se sobre as +aguas da bahia. + +As ondas tomavam reflexos cinzentos. + +Os pharoes distantes picavam de pontos avermelhados a meia obscuridade, +e desappareciam pouco a pouco na claridade livida, em que as ultimas +estrellas se perdiam. + +Os pombos voavam dos beiraes para as ruas. + +No azul pardacento do ceu destacavam-se as velas dos barcos, que +manchavam a côr d'ardosia do mar. + +Laura saccudiu bruscamente a cabeça. + +Parecia querer, com aquelle movimento, afugentar os pensamentos que a +torturavam. + +Retirou de sobre a mesa tudo o que n'ella havia, para que a sua carta +para Antonino ficasse bem em evidencia. + +Poz um chapeu de côr escura, um veu espesso, e embrulhou-se n'uma capa +cinzenta. + +A escada de serviço, que subia até ao quarto de Jacintha, descia para a +rua, do lado da casa opposto ao mar. + +A porta estava sempre fechada por um ferrolho interior. + +Laura abriu a porta do seu quarto com toda a precaução, caminhando na +ponta dos pés, para abafar o ruido dos passos, porque o quarto +d'Antonino, separado do d'ella apenas por um corredor, tinha tambem uma +porta para aquella escada. + +No patamar parou por um minuto. + +O coração batia-lhe apressadamente. Escutou. + +Antonino não estava deitado. + +Laura ouvia o ruido dos passos d'elle. + +Passeiava vagarosamente. + +A Linda esteve quasi a entrar no quarto do marido, lançando-se-lhe nos +braços. + +Resistiu á tentação. + +Enviou-lhe apenas, com as pontas dos dedos, um beijo silencioso, e +principiou a descer lentamente, sem fazer o menor ruido. + +Um dos degraus gemeu sob o peso. + +Teve medo. + +Com um movimento ligeiro saltou os tres ultimos degraus, cahindo sobre o +tapete que havia ao fim da escada. + +Levantou-se, abriu cautellosamente o ferrolho, descerrou a porta e sahiu +para a rua. + +O ar frio da madrugada fez-lhe bem. + +Dirigiu-se para o caes, atravessando as ruas estreitas e tortuosas da +velha cidade. + +Um relogio dava cinco horas n'uma torre proxima. + +Os carpinteiros, os pintores e os calafates, caminhavam em grupos, +dirigindo-se ao trabalho. + +As mulheres das hortas proximas, sentadas sobre os burros carregados de +legumes e hortaliças, chegavam do campo, em cavalgadas alegres, rindo +alto, e dirigindo, umas ás outras, os velhos motejos gaulezes, para +attrahirem a attenção dos homens que encontravam. + +Laura percebeu que todas aquellas mulheres a olhavam curiosamente, e +ouviu, ao passar, os seus commentarios licenciosos. + +Quando chegou á _gare_ era dia. + +O comboio expresso da manhã partia ás cinco e meia. + +Tomou um compartimento completo, e foi sentar-se para a sala d'espera, +pensativamente. + +Estava como que alheiada do que se passava em volta d'ella, quando o +silvo da locomotiva a chamou á realidade. + +Faltavam apenas cinco minutos para a partida do comboio. Entrou +apressadamente na _gare_. + +De repente estremeceu. + +A primeira pessoa que viu foi Lauretto Mina, fumando no seu charuto. + +Ao vel-a, o tenor dirigiu-se a Laura e disse-lhe, um pouco admirado: + +--Parte para Paris, Linda? + +--Parto, respondeu ella, continuando a caminhar para a sua carruagem. + +Mas logo em seguida perguntou: + +--Remissy não parte agora? + +--Não, respondeu o tenor caminhando ao lado da sua interlocutora. Está +muito fatigado. Deve seguir no comboio do meio dia. Eu parto, porque +necessito fallar esta noite com o director da Opera, sem falta. Quer que +lhe falle de si, ou, como não podia dizer em Saint-Malo que a senhora +era a Linda, ser-me-ha interdicto dizer em Paris que a Linda é a +viscondessa de Bizeux? + +--Proceda como entender... + +Chegou ao compartimento que tomára. + +Ao abrir a portinhola, o tenor disse-lhe: + +--Mas diga-me, _cara mia_... + +--Senhor, respondeu Laura com dignidade, já nos cumprimentámos. Como vê, +estou só e o senhor é um homem sufficientemente bem educado para não me +acompanhar por mais tempo. + +E subiu lestamente para a carruagem. + +Lauretto cumprimentou-a, mordendo os labios. + +Deitou fóra o charuto e tomou logar n'outra carruagem, murmurando por +entre dentes: + +--Tu me pagarás, vibora! + +Quando o comboio estava proximo da estação de Dol, o tenor escreveu +algumas palavras a lapis n'uma folha da carteira, rasgou essa folha, e, +logo que o comboio parou na estação, apeiou-se, chamou um empregado a +quem entregou o papel e uma moeda de cinco francos, dizendo apenas: + +--Para o telegrapho. + +O telegramma era concebido da seguinte fórma: + + +_Visconde de Bizeux.--Saint-Malo._ + +Vi no expresso de Paris a Linda e Lauretto Mina. + + _Um amigo._ + + +Antonino, estendido sobre o divan do quarto, dormia um somno pesado, +respirando a custo. + +Um pouco antes das nove horas, o criado entrou, apesar do visconde não +ter chamado. + +Antonino acordou ao ruido feito pela porta ao abrir-se. O criado disse: + +--Perdão; o sr. visconde não chamou, mas como este telegramma chegou ha +mais de uma hora, pareceu-me conveniente trazer-lh'o. + +O marido de Laura esfregou os olhos injectados de sangue, e abriu o +telegramma. + +Leu e soltou um grito estridente. + +Depois, cambaleando como um ebrio, abriu a porta que dava para o +corredor de communicação que percorreu, entrando no quarto de sua mulher. + +O leito estava intacto. + +Sobre a mesa viu a carta que Laura deixára. + +Pegou-lhe, quiz abril-a, mas o papel cahiu-lhe das mãos tremulas. + +Agitou os braços no espaço, e cahiu como uma massa inerte, fulminado por +uma congestão cerebral. + + + + +XXII + +Uma representação dos «Huguenottes» + + +O cartaz da Opera annunciava para aquella noite os _Huguenottes_, +cantando a Linda a parte de Valentina. + +Lauretto Mina desempenhava o papel de Raul, em substituição do primeiro +tenor, que adoecera. + +Pelas seis horas e meia da tarde, Antonino de Bizeux, um pouco pallido e +magro, apoiando-se á bengala, entrava n'uma das agencias theatraes então +recentemente abertas nos _boulevards_, e comprava um _fauteuil_ +d'orchestra, que pagou por trinta francos, ou fosse o dobro do preço da +casa. + +Tinham-se passado tres mezes menos alguns dias, desde que Laura +abandonara a casa do caes de Saint-Malo, e durante todo esse tempo, a +Linda só tivera noticias indirectas e incertas de seu marido. + +Cinco dias depois de chegar a Paris recebera,--_enviados por Marieta +Dauvin_,--seis grandes volumes contendo, não só os vestidos e demais +roupa do seu uso, como tambem os moveis que guarneciam o seu quarto, e +que provinham, quasi todos, da sua antiga casa da rua de Bolonha. + +Nem uma carta, nem uma só palavra, acompanhava a remessa. Laura sentiu +profunda anciedade. + +O que significava aquelle silencio? + +N'um primeiro movimento de inergia resolvera quebrar a cadeia que a +prendia e que achava pesada, e fizera-o immediatamente, sem hesitar, sem +reflectir. + +Agora estava livre. + +Todavia, essa liberdade, inquietava-a e consternava-a. + +Em Saint-Malo tinha saudades da sua querida arte, em Paris recordava-se, +saudosa, do seu amor. + +O director da Opera, prevenido por Lauretto da volta da Linda, +pedira-lhe uma entrevista. + +Laura respondeu-lhe que esperasse por alguns dias. + +Addiava, por instincto, a sua conversação com o emprezario, que de certo +a queria contractar. + +Lia todas as manhãs o _Correio de Saint-Malo_, que mandava comprar á +agencia Havas. + +Se qualquer facto se passasse em casa do conde de Bizeux,--uma partida, +um accidente imprevisto--encontraria a noticia n'aquella folha local. + +Mas nada se passava, com certeza, porque o nome de Bizeux, que ella +procurava todos os dias com o olhar, avidamente, nem uma só vez foi +mencionado pelo jornal. + +A quem devia dirigir-se? A quem escrever? + +Na Bretanha vivera sempre retirada, pensando apenas em Antonino. + +Essa circumstancia fez com que não se relacionasse intimamente com +pessoa alguma. + +Ao cabo de dez dias não poude conter-se, e escreveu ao proprio Antonino. + +Entre outras coisas dizia-lhe o seguinte: + + +«Porque guardas silencio? Não recebeste a carta que te deixei? Não +comprehendeste, por ventura, o grito d'amor com que a terminei? +Responde, peço-te! Responde, ainda que seja colerica ou desdenhosamente.» + + +Depois supplicava ao marido que só escrevesse uma palavra, uma só, que +podesse allivial-a da terrivel angustia em que vivia. + +Dois dias depois recebeu uma carta com o carimbo do correio de Saint-Malo. + +Rasgou o sobrescripto e procurou a assignatura. + +A carta era do conde de Bizeux. + +Escrevia o pae d'Antonino: + + + Minha senhora: + +Não é o filho que lhe responde, é o pae, é o chefe da familia que a +senhora abandonou tão bruscamente, tão cruelmente, e na qual deixou a +desolação e o lucto. + +Esse chefe de familia não lhe dirigirá, comtudo, a mais leve censura, +nem em seu nome, nem em nome do filho. + +Desejou ser livre _para voltar para o theatro_. Satisfez o seu desejo, +está livre. + +Nós desejamos, apenas, ter a liberdade de soffrer em silencio, sem que +nos importune quem quer que seja. + +Só lhe pedimos uma coisa: é que nos deixe esquecer, e esqueça o passado. + + _Augusto, conde de Bizeux._ + + +Laura offendeu-se pela frieza e rispidez que d'aquella carta transparecia. + +Nem Antonino se dera ao incommodo de lhe responder! + +Era o pae que intimava á fugitiva aquella especie de sentença, com ares +de juiz justiceiro! + +O que houvera no seu procedimento de tão reprehensivel e criminoso que +justificasse uma tal attitude? + +Se ella na realidade fosse uma mulher culpada, se tivesse trahido e +deshonrado seu marido, d'accordo que a tratassem por aquella fórma! + +Teria provocado a colera de toda a familia d'Antonino, e até o despreso +geral, se assim fosse. + +Mas a verdade era que o seu procedimento, uma vez que estava dentro das +leis estabelecidas, não podia ser julgado com tanta severidade por seu +sogro ou por seu marido. + +A injustiça, elevada ao excesso d'injuria, revoltou o espirito nobre e +altivo de Laura. + +A sua consciencia e o seu coração diziam-lhe que não merecia ser tratada +de semelhante modo. + +Resolveu, pois, por muito que a penalisasse uma tal abstenção, guardar o +mais completo silencio, para que a sua dignidade não soffresse a menor +quebra. + +Foi então, e só então, que marcou o dia para a entrevista que o director +da Opera solicitára. + +O emprezario queria escriptural-a. + +Laura recusou em absoluto um contracto de longa duração, apezar das +magnificas condições que lhe offereciam. + +Não desejava prender-se por muito tempo, e por isso só acceitou o +contracto por um limitado numero de representações. + +O director da Opera, apesar d'uma escriptura n'aquellas condições ir +alterar o seu plano d'exploração theatral, curvou-se á imposição de +Laura, e acceitou. + +A Linda arrendou então, na rua Boudreau, a dois passos da Opera, um rez +do chão modesto, que mobilou com simplicidade e bom gosto, aproveitando +os moveis que lhe tinham enviado de Saint-Malo. + +Além de Jacintha, tomou, para a servirem, um creado, homem de cincoenta +annos, casado; a mulher do creado, velha tambem, passou a desempenhar as +funcções de cosinheira. + +Tres dias depois de receber a carta do conde estava installada na sua +nova casa, satisfeita, na sua dôr e no seu isolamento, de sentir-se, +pelo menos, senhora absoluta das suas acções. + +Ostensivamente parecia alegre, mas intimamente o desgosto minava-a. + +Não lhe teria produzido tão doloroso effeito a carta do conde, se +soubesse em que circumstancias o velho fidalgo a escrevera. + +Oito dias depois da congestão o ter prostrado, ainda Antonino não +percebia o estado em que se achava. + +A doença aggravara-se dia a dia. + +Nem um só dos muitos medicos chamados deixou d'opinar que elle estava +condemnado. + +A robustez da sua constituição fazia augmentar a violencia da doença + +D'hora para hora, de minuto para minuto, o pobre pae suppunha que ia +perder o filho unico, a quem tanto amava. + +Foi n'este paroxismo de magua paterna que chegou a carta dirigida por +Laura a Antonino. + +O conde, para estar ao facto do que succedera, tinha aberto a carta que +a nora deixára em casa, á partida. + +Abriu, portanto, a que chegou de Paris, pela mesma razão. + +D'aquellas duas cartas transpirava um affecto immenso. + +Mas quem garantia ao fidalgo que Laura não mentia? + +Lera tambem o telegramma de Lauretto Mina, que fôra como que um +punhal a enterrar-se no coração d'Antonino. + +Seu filho acreditára no que dizia o telegramma. + +Que razão tinha o conde para não acreditar tambem? + +Mas, culpada ou não, Laura era a causadora unica da morte do seu filho. +O conde não era juiz, era pae. + +Escrevera sem medir o alcance das palavras, respondera o que a sua +indignação lhe inspirára. + +Laura matava-lhe o filho; não podia deixar de detestar, d'amaldiçoar +essa mulher. + +A crise, que para todos era agonia, prolongou-se ainda por mais duas +semanas. + +Durante todo esse tempo Antonino não reconheceu pessoa alguma. + +O delirio não o abandonára um só instante. + +Mas a prolongação da doença passou a significar esperança. + +Ao vigessimo quinto dia os medicos disseram: + +--É possivel salvar-se. + +Quinze dias depois accrescentaram, emfim: + +--Está salvo! + +Effectivamente Antonino pareceu ter, n'esse dia, alguma consciencia de +si mesmo. Apertou ao de leve a mão da irmã, que estava sentada junto ao +leito. + +Depois, olhando em torno ao quarto, murmurou com voz enfraquecida: + +--Laura?... + +Felizmente o pensamento era ainda vago e fraco. + +Em seguida áquelle esforço, Antonino recahiu de novo n'uma somnolencia +pesada, que era a sua salvação. + +A natureza, essa maravilhosa enfermeira, só lhe fez recuperar +completamente a razão, quando o doente estava em estado de já poder +supportar a verdade. + +Recordou-se de tudo. + +Laura, a sua Laura, que nos accessos febris nem um momento deixava de +chamar, não estava alli, abandonára-o. + +Porque? + +Quando? + +Ah! sim, recordava-se... fôra uma manhã... + +Mas ella fugira só? + +Accudiu-lhe á memoria o fatal telegramma... + +Mas ao mesmo tempo lembrou-se d'uma carta,--d'uma carta d'ella!--que não +tivera tempo d'abrir. + +Interrogou seu pae. + +O conde entregou-lhe então as duas cartas de Laura, cuja leitura só +podia fazer bem ao doente. + +E com efeito assim foi. + +Antonino poude chorar. + +O correr das lagrimas diminuiu a profundeza do desgosto. + +--Ah! meu pae! disse elle, Laura continua amando-me. Chama-me, +espera-me! Nunca deixára d'amar-me! E ha já dois mezes que ella me +espera? Mas como poude Laura estar tanto tempo longe de mim, sabendo-me +perigosamente enfermo? Ou ella ignora que eu estou doente? Não lhe deram +noticias minhas? + +O conde teve de confessar-lhe que, n'um instante de desvairamento em que +lhe parecia inevitavel a morte do filho, escrevera a Laura aquella carta +implacavel que lhe interdizia qualquer pergunta, e lhe assegurava que +jámais teria noticias de seu marido. + +De resto, o conde declarou que n'aquella resposta influira tambem o ter +acreditado no que dizia o telegramma desconfiando, por isso, que Laura +mentia nas duas cartas. Ao ouvir a explicação do conde, Antonino respondeu: + +--Não, não!... Foi o telegramma que mentiu! Laura diz a verdade, porque +declara continuar amando-me! Ah! meu pae!... não a conhece! Ella possue +o mais sincero e leal coração que é possivel imaginar-se! Tenho a +certeza que Laura não sente despreso por esse Lauretto Mina, sente +tambem horror! + +O conde de Bizeux, apesar de não estar convencido, não quiz contrariar o +filho, temendo que de tal contrariedade resultasse aggravamento da doença. + +Antonino desejou escrever immediatamente a Laura, perdoando-lhe, +chamando-a para junto d'elle sem detença. + +O medico, porém, impedia-o de realisar a intenção, declarando-lhe que +ainda não tinha forças sufficientes para escrever, e que, fazendo-o, +arriscava-se a peorar. + +Como não o deixassem satisfazer aquelle desejo, o visconde, reflectindo, +resolveu não escrever a Laura dias depois, quando o medico entendesse +que o podia fazer. + +Logo que estivesse restabelecido partiria para Paris, correria em procura +de Laura, fazendo-lhe assim mais surpreza. + +Por essa occasião os jornaes da capital noticiaram as representações de +Linda na Opera. + +Ao ter conhecimento d'esse facto, Antonino disse ao conde: + +--Não a incommodemos. Deixemol-a satisfazer o seu desejo, realisar o seu +sonho doirado. Voltará depois mais socegada. + +O conde, depois de ter perdido completamente as esperanças de que os +medicos salvassem Antonino, ao ter a certeza de que o filho não +morreria, estava louco de satisfação. + +Cria em tudo que o visconde acreditava, e, como elle, tinha confiança no +futuro. + +De resto, em consciencia, elle censurava-se pela fórma porque procedera +com Laura, respondendo desabridamente á carta que ella dirigira a +Antonino. + +Fôra injusto, fôra cruel até, e desejava por isso tornar a vel-a para +nobremente lhe pedir perdão. + +Comtudo, occasiões houve em que se inquietou. + +Nas noticias dadas pelos jornaes sobre os espectaculos em que Laura +tomava parte, viu, por vezes, o nome de Lauretto Mina ao lado do nome da +Linda. + +Entretanto cohibiu-se d'apontar o facto a Antonino. + +Foi o proprio visconde que um dia lhe fallou nisso. + +Com essa intuição que é como a segunda vista do amor, tinha a convicção +absoluta que esse homem, esse Lauretto insolente, nada era, nada podia +ser para Laura. + +Não lhe restava a maior duvida. + +Elle, tão concentrado e tão ciumento, como todos os que amam +verdadeiramente, sentia que era amado por Laura, que ella não podia amar +outro homem. + +Lembrou-se dos ultimos dias que tinham passado juntos, das ultimas +caricias trocadas, d'algumas injustiças que Laura lhe censurára, e +percebia, interrogando o seu coração, que ella seria sempre d'elle, só +d'elle. + +E tinha razão, porque não só a Linda não amava o tenor, como até o +despresava. + +Não se limitava a detestal-o, fazia-lh'o sentir. + +Laura suspeitava vagamente que Lauretto Mina influira de qualquer fórma +no que ella chamava ter sido abandonada por Antonino. + +Na noite do concerto o tenor não estava longe de Remissy, podia ter +avisado o violinista de que a Linda não desejava ser reconhecida, e +Laura lembrava-se tambem do sorriso mau, vingativo, que entre-abria os +labios de Lauretto, quando, no dia da fuga, a cumprimentara em silencio, +pouco antes do comboio se pôr em marcha. + +De tudo isto concluia a cantora que o tenor praticara qualquer +indignidade, o que, de resto, lhe estava nos habitos. + +Todavia a fatuidade de Lauretto não lhe fazia perder as esperanças, e +quando viu Laura no theatro, pela primeira vez, tentou ainda, empregando +meios quasi respeitosos e reservados, fazer-lhe a côrte. + +Não amava a Linda, apenas a desejava com violencia, como nunca desejara +qualquer outra mulher, segundo affiançava. D'uma vez exprimiu-lhe o seu +amor n'um tom serio que não lhe era habitual. + +--Vejo-a, disse-lhe elle, isolada e como abandonada, Laura. Aquelle a +quem em Saint-Malo chamava seu marido parece despresal-a. Se necessitar +d'um amigo, deveras devotado, que com alegria se fará matar pela minha +amiga, bastar-lhe-ha fazer um gesto a este seu collega e respeitoso +admirador. + +A prudencia ordenava que Laura recusasse o offerecimento do tenor com +uma certa brandura, sem o irritar, sem o ferir. + +Mas a repugnancia que sentia por Lauretto foi mais forte do que a +prudencia com que estava resolvida a responder. + +Portanto deixou transparecer nas suas palavras todo o despreso que +sentia por elle. + +Desde esse dia Lauretto juntou ao seu amor um odio sem limites, e +tornou-se inimigo de Laura. + +--Ah! ella despresa-me? dizia elle comsigo. Pois bem, juro que será minha! + +Companheiros antigos, que com Lauretto tinham passado do theatro +Italiano para a Opera, recordaram-lhe, rindo, o que em tempo dissera: + +--Não serei o primeiro, mas juro que serei o segundo! + +Motejavam d'elle, diziam-lhe que não poderia cumprir o juramento feito, +porque, decididamente, a fórma pela qual a diva o tratava, os seus +cumprimentos frios, despresadores, não lhe deviam deixar esperança de +ser bem succedido. + +--Veremos, veremos! respondia Lauretto aos companheiros mordendo os +labios com raiva contrahida. Quem espera, sempre alcança. O visconde +está ausente, portanto não tenho que temer o rival. Aposto o que +quizerem em como poderão verificar qualquer dia... ou qualquer noite, a +predicção do nosso antigo emprezario, Pozzoli, que dizia:--A Linda será +d'elle! + +O odiento adorador da Linda estava n'estas disposições ameaçadoras na +occasião em que Antonino chegou a Paris. + +O conde de Bizeux manifestara desejos d'acompanhar o filho á capital, em +primeiro logar para não se separar d'elle, e depois para velar por +Antonino, porque o visconde estava ainda convalescente da terrivel +doença que o ia matando. + +Mas Antonino tinha a sua idéa. + +Instou com o pae para que o deixasse partir só. + +Para conseguir a annuencia paterna teve de fazer duas concessões: addiar +a partida para oito dias mais tarde, de modo que a convalescença +avançasse mais uma semana, e parar em Mans, dividindo a viagem em duas +partes, para evitar o cansaço que lhe adviria de uma viagem tão longa. + +Pelas noticias dos jornaes elaborara o seu programma d'artista e de amante. + +Logo que chegou a Paris, acompanhado por um só creado, installou-se na +sua antiga casa de solteiro, no _boulevard_ Haussmann. + +Conservou-se deitado sobre um canapé até quasi ás seis horas da tarde, +descançando, sonhando. + +Pouco depois sahiu, e comprou, como já dissemos, um _fauteuil_ +d'orchestra n'uma agencia theatral dos _boulevards_. + +Em seguida foi jantar ao _Café Inglez_, e ás sete horas e meia entrava +na Opera. + +Tivera a phantasia, que se transformára em ideia fixa, de tornar a ver +sua mulher,--de tornar a ver a Linda,--cantando a parte de Valentina dos +_Huguenottes_, que era justamente o papel que ella representára a ultima +vez que a ouvira no theatro, na noite em que lhe salvara a vida. + +Tornaria a vel-a, do seu _fauteuil_ d'orchestra, apenas como um simples +espectador, e sem que ella desconfiasse da presença d'elle. + +Esperava sentir dupla alegria. + +Tornaria a ver, simultaneamente, a sua artista predilecta e a sua +adorada mulher. + +Sentiria as emoções do amador, e os estremecimentos do amante. + +A verdade era que, depois da meia anniquilação, da meia morte de que +sahia, não se lembrava de experimentar uma tal intensidade de vida nem +tanta exhuberancia d'amor. + +A sua vida e o seu amor tinham passado, na realidade, por uma terrivel +crise. + +Mas a convalescença chegara. + +Havia em todo o seu ser, e em todo o seu coração uma especie de +renascimento. + +A força physica e o espirito augmentavam ao mesmo tempo. + +Amava Laura com esperança e embriaguez, mais, muito mais, do que d'antes +a amara. + +Chegando, como um provinciano, meia hora antes de começar o espectaculo, +admirou a escadaria, o _foyer_, as pinturas de Paulo Baudry, o salão! + +Extasiou-se ante as _toilettes_ claras das senhoras, que sobresahiam do +vermelho do forro dos camarotes. + +Maravilhou-se das columnas de marmore polychromo, do bronze dos +candelabros, do ouro dos lustres, do enorme panno de bocca purpurino, +que dentro em pouco se elevaria para lhe deixar ver Laura. + +Um ruido confuso de conversação espalhou-se pela sala. + +Os violinos e os baixos afinavam-se indistinctamente. + +Antonino adorava aquelle sussurro, como adorava o do mar. O director da +orchestra levantou a batuta. + +A opera começou. + +Antonino, porém, conhecia a partitura de cór, escutava como em sonho, +apenas vagamente via passar Lauretto Mina. + +Todo o seu ser esperava por Laura. + +Quando, emfim, a Linda entrou, quando passou, velada, ao fundo da scena, +sentiu a louca tentação de se precipitar para o palco, e esteve prestes +a soltar um grito. + +Quasi immediatamente depois, porém, voltando a si, olhou em volta para +ver se tinha chamado a attenção dos demais espectadores. + +Mas não; mercê do instinctivo habito adquirido, conservára-se correcto. + +A representação seguia como um encanto para o visconde. + +No segundo acto a Linda foi admiravel no dueto com Marcel. + +Disse a phrase + + _A offensa mortal do ingrato..._ + +com um sentimento tão penetrante e tão meigo, que os olhos d'Antonino +marejaram-se de lagrimas. + +A sua emoção, porém, foi elevada ao cumulo no recitativo de Valentina, +que abre o terceiro acto, e começa + + _Estou só com a minha dor!_ + +Quando Laura soltou o grito doloroso: + + _Meu Deus! afugentae esta lembrança fatal..._ + +a vibração da sua voz maravilhosa foi tão pungente e tão vivida, que não +podia deixar de ser palpavel para Antonino que era Laura quem se +lamentava e não Valentina. + +O visconde sentiu, por isso, percorrer-lhe as veias uma especie de +terror gelado. + +Pensou que Laura o vira na sala, que era exclusivamente para elle que +cantava, unicamente a elle que se dirigia. + +Segundo as suas impressões, até então tudo se passara, por assim dizer, +entre ella e elle. + +Todavia no quarto acto teve que passar por um outro genero de prova. + +Depois da benção dos punhaes, Raul fica só com Valentina. + +Raul, por substituição n'aquella noite, era Lauretto Mina. + +O dueto sublime começou. + +Aquelle trecho de musica produz o que não poderia produzir qualquer +outra arte, nem a pintura ou a poesia. + +Explica, delinia, faz sentir o amor completo, o amor da alma e o amor +dos sentidos. + +Ha n'aquelle dueto assombroso, com todas as dilacerações da paixão, com +todos os horrores do passado susto, todas as delicias e todos os extasis +da voluptuosidade! + +E Raul era Lauretto! e Valentina era Laura! + +Antonino ouvira muitas vezes a parte de Valentina cantada por Laura. + +D'antes, a Linda cantava aquelle dueto com o superior talento e +_virtuosidade_ que possuia, com vigor e expressão. + +Jámais, porém, a ouvira cantar com aquella paixão e embriaguez. + +N'outro tempo ella comprehendia, adivinhava. + +Agora sentia, recordava-se. + +No espirito d'Antonino passou como que uma hallucinação extranha. + +Quando viu Laura--porque, para elle, aquella mulher deixára de ser +Valentina--lançar-se, supplicante, aos pés de Lauretto--que já não +considerava como Raul--acerbo ciume se apossou d'elle. + +Pouco a pouco, o admiravel jogo physionomico da Linda acabou por dar á +ficção uma realidade terrivel. + +O salão, o publico, desappareceram. + +Parecia-lhe que assistia, immovel e mudo, a uma verdadeira scena d'amor +entre sua mulher e aquelle homem detestado. + +E no cerebro fervia-lhe, confusamente, este pensamento: + +--Por grande tragica que seja, poderia Laura, se Lauretto lhe fosse +indifferente, envolvel-o em arrebatados abraços, dirigir-lhe tão +ardentes supplicas? Poderia, se não o amasse, attrahil-o e retel-o +contra o coração com tal accesso de ternura e de dôr? + +Quando Laura dirigiu ao tenor o desesperado appello; + + _Fica, Raul, eu amo-te!_ + +o visconde mordeu a mão para não gritar: + +--Miseravel! + +Raul parte e Valentina cae desmaiada. + +Antonino, no seu _fauteil_, parecia ter desmaiado tambem. + +Voltou a si aos primeiros compassos do terceto entre Valentina, Raul e +Marcial. + +A presença d'um terceiro personagem bastou, caso extraordinario, para o +despertar d'aquelle terrivel pesadello, chamando-o á verdade da situação +theatral. + +Os olhos viram claro. + +Laura passou novamente a ser Valentina para elle. + +Desempenhava superiormente o papel d'um drama, nada mais. + +Se ella representava com tanto ardor e enthusiasmo, se cantava o +inegualavel dueto d'amor com tanta paixão pessoal, deixando n'elle, por +assim dizer, a sua alma, não era um tenor qualquer que ella escongurava, +que ella adorava com aquelle abandono e aquellas lagrimas, mas o homem +que amava, o homem que não via, mas que estava sempre presente á sua +imaginação, o homem que primeiro lhe revelára as alegrias celestes que +podem gosar duas almas irmãs. + +E Antonino sentia agora vontade de rir da horrivel visão que tivera, +como se ri quando a luz do dia nos mostra os objectos sob as suas +verdadeiras formas, deturpadas pela illusão das trevas. Estava já +completamente senhor de si quando o panno caiu, no fim do espectaculo, +para de novo se levantar ás duas chamadas que o publico enthusiasmado +fez a Laura. + +O visconde sentia-se satisfeito pela resolução que tomara, antes de +partir para Paris. + +Sahiu, deu a volta ao edificio do theatro e entrou pela porta do palco, +perguntando ao porteiro onde era o camarim de _madame_ Laura Linda. + +Entrou. + +Ao atravessar um corredor, viu Lauretto Mina que sahia do _foyer_. + +O tenor, ainda vestido de Raul, ia de certo para o seu camarim. Ao ver +Antonino, recuou admirado. + +--O sr. de Bizeux! disse elle estupefacto. + +Mas quasi immediatamente voltou-lhe a presença d'espirito, e +accrescentou no tom de cortezia que exasperava Antonino: + +--O sr. visconde procura sem duvida _madame_ Laura Linda?... É a segunda +porta, n'esse corredor da direita. Creio que _madame_ Linda está só esta +noite. + +Antonino inclinou ligeiramente a cabeça, e passou sem responder. + +Logo que o viu desapparecer no corredor que lhe indicára, Lauretto +murmurou colerico: + +--Delicadissimo, este neto de fidalgos! Bem, bem! Isto é para juntar ao +total! + +Antonino parou em frente da segunda porta do corredor, e bateu. + +Jacintha foi abrir. + +Ao ver o visconde soltou um grito. + +Deixou-o entrar para a especie de sala d'espera que antecedia o camarim, +para o qual correu, gritando: + +--Minha senhora... minha senhora... é o sr. visconde! + +Laura, de penteador de cachemira branca, entrançava o cabello diante +d'um espelho. + +--O que dizes tu?... perguntou ella a Jacintha, voltando-se. + +No limiar da porta viu Antonino, pallido, magro, d'olhos fundos, +phantasma de si proprio. + +Conservaram-se por algum tempo contemplando-se, sem fazerem um só gesto +nem pronunciarem uma só palavra. Antonino disse por fim: + +--Laura! + +Depois caminhou para ella lentamente. + +A Linda, indecisa, olhava-o estupefacta. + +Ao chegar junto d'ella, disse-lhe em voz baixa e extraordinariamente terna. + +--Minha Laura... amo-te! + +Ella juntou as mãos, extasiada, e replicou: + +--Meu Antonino!... És tu?... Ah! tambem eu te amo! + +Lançou-lhe os braços em volta do pescoço, alegremente. + +Foi longo o abraço. + +Por fim Laura desprendeu-se d'Antonino, e perguntou-lhe: + +--Mas porque estás n'este estado? + +O visconde respondeu, sorrindo: + +--Vou contar-te tudo em duas palavras. Estive, durante mez e meio, entre +a vida e a morte, mas mais proximo da morte que da vida. Ia-me matando +uma terrivel febre cerebral. Todos me suppozeram perdido. Meu pae, +afflictissimo, e de mais a mais illudido por uma abominavel denuncia +anonyma, escreveu-te uma carta, que sem duvida te magoou muito. Elle +está arrependido do que fez, e pede-te perdão. Eu, logo que estive em +estado de partir, vim procurar te. Eis-me aqui. + +Quiz tomal-a nos braços. + +Ella impediu-o de realisar a intenção. + +Fez-o sentar n'um canapé e ajoelhou no tapete, contemplando-o com paixão. + +--Estiveste quasi a morrer, meu querido Antonino, e eu estava longe de +ti! Porque não me chamaste? + +--Estive muito tempo sem consciencia... + +--Mas depois? + +--Depois ias tu entrar para o theatro. Tinhas reclamado a minha palavra, +não quiz privar-te da liberdade promettida Não desejei ser um +impedimento, um obstaculo á vontade que tinhas de voltar para o theatro, +que é como o teu paiz natal. Álem disso, considerei-me obrigado a expiar +algumas culpas, Eras tu que tinhas rasão, Laura, n'aquella funesta noite +em que partiste. Que me importava a opinião d'estranhos? Não devia +inquietar-me com os prejuizos da sociedade. Existe, porventura, a +sociedade para o amor? A sociedade, para nós, somos nós proprios. Ama-me +como eu te amo, e nada mais te pedirei. Que me importa que ames tambem +Mozart, Beethoven e Meyerbeer? Não os amo eu tambem, principalmente por +tua causa? + +--Ah! como és bondoso! disse Laura. Sim, amas-me, sinto-o! A proposito: +assististe ao espectaculo de hoje? + +--Assisti. + +--Não te vi, mas adivinhei-te!... Sentiste no meu canto que pensava em +ti, não é verdade? Nem por um momento me esqueces quando desempenho o +papel de Valentina, cheio de _phrases_ que parecem ter sido escriptas +para a situação d'espirito em que me encontro. Aquella musica faz-me +mal, especialmente depois que estou só, e comtudo sinto-me feliz quando +a canto! E o dueto do quarto acto? Não é verdade que o canto agora +melhor do que d'antes? + +--Sim, sim, cem vezes melhor! + +Laura ajuntou, collocando as mãos sobre os hombros, do marido: + +--Foste tu que me ensinaste a cantar aquelle dueto! + +Antonino sentiu o coração innundado d'alegria. + +A segunda impressão que tivera durante o espectaculo, não o havia enganado. + +Era o seu amor, que Laura cantara tão apaixonadamente. + +Ella proseguiu: + +--A partir d'hoje vou amar sem reserva esse afortunado papel que duas +vezes me trouxe a felicidade. Eis-te aqui, meu Antonino, és novamente +meu. Estão reunidas as duas partes da minha alma. Eu tinha, por vezes, +junto de ti, a nostalgia do theatro; mas, no theatro, tive sempre a +nostalgia do teu amor! + +Em seguida contaram-se mutuamente tudo o que os interessava. + +Laura estava completamente entregue á sua querida arte. + +A casa da rua Boudreau era pequena demais para receber os seus amigos +d'outr'ora. + +Apenas algumas vezes alli ia o dr. Despujolles, que a tratara d'uma +bronchite. + +Remissy, terminado o contracto que o retinha em Vichy, partira para a +Italia, e devia passar o resto do inverno na Hungria. + +Por sua parte, Antonino contava não receber ninguem nos seus +aposentos do _boulevard_ Haussmann. + +Era possivel que o pae viesse vel-o, mas só muito mais tarde. + +--Bem, disse Laura satisfeita, sorridente, qual é a vontade do meu +senhor e amo? Irei eu para sua casa, ou irá elle para a minha? + +--Escuta, replicou Antonino, vou contar-te um sonho que tive durante os +longos dias de convalescença. É provavel que aches n'elle o quer que +seja de romanesco. Se te desagradar, dil-o com franqueza! Quebraste +bruscamente a nossa vida em commum, que talvez fosse um pouco monotona +para a tua alma d'artista. Se quizeres, viveremos agora d'outra forma. +Recuperaste a tua liberdade; como tenho plena confiança em ti, +deixo-t'a. Não serei mais teu marido, passarei a ser teu amante. Queres? + +--Quero, sim, quero, porque é a verdade! + +--Então nem eu irei para tua casa, nem tu te installarás na minha. +Concede-me oito dias d'espera. Durante esse tempo encontrarei e +prepararei em qualquer canto de Paris, um ninho, occulto, secreto, +apenas por nós conhecido, onde ninguem poderá surprehender-nos ou +incommodar-nos. Dar-nos-hemos entrevistas n'esse ninho, furtivamente, +clandestinamente, de noite, como quem teme a policia. De dia seremos +correctissimos. Eu irei visitar-te de tarde, e tu convidar-me-has +algumas vezes para jantar com Despujolles. + +--Oh! mas isso é encantador! disse Laura. + +--Agrada-te a minha idéa? + +--Immenso! + +--Bem! Havemos de ser muito felizes, verás. Está combinado. Chama +Jacintha. Vou deixar-te, para só te tornar a ver d'aqui a oito dias. +Necessito de todos os minutos d'esta semana para tratar da nossa +felicidade. O que me fará diminuir o pesar d'esta separação, será +lembrar-me que me occupo da minha querida Laura. + +--E eu, durante esse tempo, só em ti pensarei! + +Antonino levantou-se. + +Laura, pegando-lhe nas mãos, disse: + +--Troquemos, ao menos, o beijo dos esponsaes. + +Beijaram-se longamente, ardentemente. + +Depois, trocando um ultimo adeus, separaram-se. + + + + +XXIII + +O amante legitimo + + +Em Paris, como em todas as grandes cidades, o dinheiro faz milagres. + +No dia seguinte pela manhã, Antonino percorreu o bairro da Magdalena em +busca d'uma casa onde fizesse o _ninho_ promettido. + +Encontrou o que desejava na rua da Arcada, a meio caminho da casa de +Laura e d'aquella em que elle vivia. + +Era o rez-do-chão d'um predio de dois andares. + +Ficava alguns degraus acima do nivel da rua, e tinha, além da entrada +principal, á esquerda do vestibulo, para o qual se entrava por largo +portão, uma entrada particular que abria para a rua. + +A casa era composta d'um salão, d'uma sala de jantar, d'um quarto grande +e claro, cosinha e um outro quarto de menores dimensões. + +Arrendado o rez-do-chão, Antonino chamou um estofador dos mais +conceituados de Paris, e depois de conferenciar com elle durante duas +horas, ficou assente que moveis e estofos guarneceriam a casa. + +O estofador prometteu ter tudo concluido na tarde do setimo dia, tendo, +para isso, que trabalhar no domingo d'aquella semana. E cumpriu. + +Era deliciosa a ornamentação, apesar de simples. + +Na sala de jantar, forrada de coiro de Cordova, elevava-se, em dois +corpos, um aparador da Renascença, guarnecido de baixela de prata antiga +e de faianças de Ruen, Nevers e Marselha. + +O fogão, de marmore de Nuremberg, era notavel pelo relevo das suas +figuras biblicas. + +A mesa fôra coberta com um tapete de velludo de Gênes. + +O movel principal do salão era um piano Erard, construido no esqueleto +d'um cravo do seculo XVIII, todo coberto de pinturas no genero das de +Boucher, representando a dansa d'amores e de nymphas, n'uma paisagem +celeste. + +Ao fundo, as tres graças voavam para o Olympo. + +A cór viva da tapeçaria que forrava o salão fazia sobresahir os quadros +que Antonino mandára vir da casa de Saint-Malo, duas paysagens de +Lancret, uma Venus de Fragonard, e um duplicado do Gilles, de Watteau, +assignado pelo mestre. + +Um lago, de Julio Dupré, defrontava com um outro, visto á hora +crepuscular, de Corot. + +O quarto de cama era a maior casa do rez-do-chão. + +Dividiram-a, por tanto, fazendo-lhe aos lados, com divisorias, uns +gabinetesinhos de _toilette_. + +O leito, do seculo XVIII, cinzento e dourado, de linhas simples, tinha +por unico ornamento, na cabeceira, dois amores sustentando um medalhão, +em que se viam dois LL entrelaçados e encimados por uma corôa. + +Dizia-se que aquelle leito pertencera a Luiz XV; mas os dois LL, para +Antonino, queriam dizer Laura Linda. + +Nas paredes, côr de perola e cereja, avultavam seis pannos chinezes, +bordados, representando paysagens com figuras finamente desenhadas +e admiravelmente coloridas. + +Viam-se por todos os lados tapetes, da Persia do mais raro bom gosto. + +Nem um só objecto que compunha a mobilia do rez do chão era de mediano +valor. + +Mas, mais do que riqueza, impunha-se a elegancia e o fino gosto de quem +presidira á decoração das casas. + +O estofador encarregára-se d'enviar da praça da Magdalena tudo o que +respeitasse a cosinha. + +D'esta fórma apenas d'um creado necessitariam. + +Jacintha estava naturalmente indicada para esse serviço. + +Laura e Antonino podiam contar com a dedicação e a discrição da creada. + +Ella bastaria para servir á meza e para vestir a cantora. + +O visconde mandou mobilar para Jacintha o outro quarto da casa. + +Como a ornamentação não destoasse da restante, Jacintha, +satisfeitissima, declarou que nunca tivera quarto mais bello. + +Com um simples toque de campainha, ella estaria em tres segundos junto +de Laura, quando os seus serviços fossem necessarios. + +A nova casa foi inaugurada á hora prefixa, precisamente oito dias +depois da representação dos _Huguenottes_. + +N'essa noite a Linda cantava o _Roberto o Diabo_. + +Antonino levou-a, com Jacintha, logo que o espectaculo terminou, +encantado,--tanto como ella, de resto,--da sua nova felicidade conjugal. + +Combinaram, como regra geral, mas sem prejuiso de quaesquer outras +noites, que elles partiriam para o _ninho_ em seguida a cada +representação, quando Laura estivesse ainda vibrante da emoção que lhe +causassem os applausos, e duplamente palpitante da vida do papel que +desempenhára e da vida propria. + +Antonino assignára um _fauteuil_ d'orchestra junto á scena. + +Como d'antes, applaudia pouco a Linda, não juntava as suas ás +acclamações que a chamavam nos finaes d'acto. + +Mas como d'antes, mais do que d'antes talvez, saboreava em silencio o +extasi em que o mergulhava a voz da mulher adorada. + +Ella, pelo seu lado, não lhe sorria, não o olhava. + +Mas sabia que o visconde estava proximo, conhecia a cadeira em que elle +se sentava, e como era para Antonino que cantava, jámais cantara melhor. + +O visconde nunca mais sentiu ciumes de Lauretto Mina, ou de quem quer +que fosse. + +Ambos se consideravam felicissimos por aquella encantadora vida, +alegre como a phantasia, doce como o habito. + +O creado d'Antonino, de cada vez que o visconde não dormia em casa, +dizia que elle ficava em casa de Linda. + +Os creados da cantora sempre que ella só de manhã voltava para casa, +pensavam que Laura tivesse passado a noite em casa do visconde. + +Geralmente Antonino voltava para o _boulevard_ Haussmann ao amanhecer. + +Laura, porém, só deixava o ninho a hora adiantada da manhã. + +Sahiam e entravam sempre pela porta que abria para a rua. + +O porteiro, que tinha o seu cubiculo no vestibulo do predio, nunca vira +a Linda. + +De dia os dois esposos viam-se officialmente. + +Passeavam de dia no Bosque, de carruagem, e á noite partiam juntos para +o theatro. + +Antonino, uns dias por outros, mandava presentes a Laura: flores ou joias. + +De tarde visitava-a, invariavelmente á mesma hora, e jantava com a +esposa muitas vezes. + +Sempre, porém, que Laura não estava só, elle retirava-se conjuntamente +com as outras visitas, d'ordinario o dr. Despujolles, ou raros outros +amigos. + +Laura recebia menos admiradores na casa da rua Boudreau, do que d'antes +na rua de Bolonha. + +Reatára apenas relações com tres ou quatro admiradores mais intimos, e +que o eram tambem do visconde. + +Todos elles tinham estado, n'outro tempo, mais ou menos apaixonados pela +Linda. + +Mas como eram homens bem educados, e de mais a mais amigos d'Antonino, +que consideravam o amante official de Laura, não faziam a côrte á diva. + +Apenas não tinham perdido completamente a coragem. + +Pensavam que mais cedo ou mais tarde conseguiriam os seus fins, e +esperavam com paciencia digna de melhor sorte. + +Lauretto Mina, mais indelicado que elles, não guardava a mesma reserva +nem possuia identica paciencia. + +No mundo dos bastidores sabe-se tudo o que respeita a qualquer artista. + +O tenor sabia portanto, a situação em que se encontravam Laura e o +visconde, e agourava bem d'essa situação. + +Um dia disse á Linda, no _foyer_ dos artistas, motejando: + +E então, minha querida, tinha ou não razão quando lhe dizia na ilha de +Cézambre,--lembra-se?--que o seu casamento não me parecia dos mais +serios? Os habitantes de Saint-Malo, que não primam pela finura, parece +que viram o demonio quando tiveram conhecimento de semelhante união. De +resto, acho que procedeu sensatamente definindo a sua situação. Vale +mais ter um amante certo, de que um marido duvidoso. + +--Sinto-me satisfeitissima por merecer a sua approvação! respondeu Laura +no mesmo tom. + +--Por esta fórma, proseguiu Lauretto, todos terão esperanças. Os que +estão apaixonados pela sua pessoa,--e eu creio que pelo menos conhece +um,--veem agora augmentar infinitamente o numero das probabilidades +favoraveis. + +--Suppõe isso? Pois eu supponho que o numero de probabilidades não +augmenta nem diminue pelo facto do sr. de Bizeux ser meu marido ou meu +amante. O que influirá n'esse numero é que eu ame ou não o sr. de Bizeux. + +--Perdão! o caso é diverso! insistiu o tenor. + +E accrescentou, dirigindo-se ao baritono, que n'esse momento entrava no +_foyer_: + +--Não é verdade, Gressier, que amando eu Laura Linda, tenho mais +probabilidades de conseguir os meus fins defrontando-me com um amante de +que tendo na frente o marido? + +--Está enganado, sr. Lauretto Mina, apressou-se Laura a responder +sem dar tempo a que o baritono fallasse. Não é porque eu ame um outro +homem que não o amaria ao sr. Posso não amar ninguem, que nem por isso +lhe pertencera o meu amor. + +E voltando as costas ao tenor, sahiu. + +--Ah! ah! decididamente não avanças um passo, meu caro! disse Gressier, +rindo. + +--Engano! respondeu seccamente Lauretto, que empallidecera +extraordinariamente. Estou quasi a attingir o meu fim, e em breve te +darei provas irrefutaveis do que avanço. + +Laura, passado o primeiro momento, arrependeu-se de provocar a irritação +do tenor, respondendo-lhe por fórma a feril-o no seu amor proprio. + +Agora mais do que nunca ella temia um possivel conflicto entre Antonino +e Lauretto. + +Lembrava-se incessantemente das palavras, prefurantes como laminas, que +o tenor pronunciára uma noite, sentado tranquillamente junto ao fogão do +_foyer_. + +Fallava-se d'um duello realisado n'aquelle dia, que tinha chamado a +attenção de toda a gente. + +--Ora adeus! dissera Lauretto. As galerias facilmente se commovem pelos +duellos d'agora, que quasi sempre terminam por simples arranhaduras! Por +mim, estou resolvido a nunca provocar ninguem, e, mesmo quando +provocado, a só me bater se o insulto recebido fôr d'ordem a não +acceitar desculpas, porque eu, infelizmente, não arranho nem firo, mato. + +Era por essa razão que Laura deligenciava não sentir-se offendida pelas +impertinencias que o tenor lhe dirigia por vezes. + +Fingia não as comprehender, e até não as ouvir. + +Ella era tão feliz!... + +E aquella felicidade que gosava, prolongou-se por tres mezes, sem uma só +nuvem que a escurecel-a. + +Antonino, pela sua parte, só tinha um desejo: tornar a ver seu pae. + +Mas o conde, a quem o filho não quizera occultar o que elle chamava o +seu romance, não queria, por dignidade, ir a Paris emquanto durasse uma +tal situação. + +--Acautella-te, escrevia elle ao visconde, occultas tua mulher como se +occulta uma amante. Acho perigoso esse teu procedimento. Não me parece +razoavel tentar o perigo, misturar o que ha de mais serio e de mais +sagrado no amor com o disfarce, com a mascara, com a aventura. + +Seria isto um presentimento da fina intuição paterna? + +Uma noite, pelas quatro horas da madrugada, Laura, envolvida n'um largo +manto, foi, segundo o costume, acompanhar e alumiar seu marido até á +escada que descia para a rua. + +Demorou-se no patamar até que Antonino, sahindo, fechou a porta sobre si. + +Ao entrar no quarto, a Linda soltou um grito. + +Lauretto Mina estava sentado na cadeira de que pouco antes Antonino se +levantara. + + + + +XXIV + +Jacintha + + +Jacintha, como já dissemos, tinha por Laura uma dedicação sem limites. + +Far-se-ia matar pela cantora, e, se a diva morresse, ella não lhe +sobreviveria por muito tempo, com certeza. + +O peor era que a creada não possuia apenas a fidelidade canina do +irracional. + +As admoestações, as severidadese as irritações de Laura faziam-a chorar +deveras, porque possuia um bom coração. + +Mas arrependia-se e não se emendava. + +A Venus antiga divertia-se, ligando-se completamente áquella humilde presa. + +Por infelicidade, a belleza picante de Jacintha, os seus grandes olhos +pretos e brilhantes, a tez morena e fresca d'andaluza, a cintura +delicada e o agradavel conjuncto de toda a sua pessoa, davam-lhe um +grande numero de cumplices. + +Lauretto Mina, como indicámos, pertencera a esse numero. + +O formoso tenor não desdenhára colher aquella flôr modesta. + +Colhera-a e passára. + +Não era homem para perder muito tempo em negocios de semelhante natureza. + +Apesar d'isso Jacintha ficára singularmente lisongeada por contar, na +collecção dos seus admiradores, um _artista_, um verdadeiro artista, de +que grande quantidade de damas da primeira sociedade tinham disputado a +posse, segundo ella suppunha. + +Em Saint-Malo, na numerosa creadagem das casas proximas, Jacintha, +sempre picante e attrahente, fôra muito cortejada. + +E não tinham sido apenas os creados a darem-se a esse passatempo. + +Os proprios patrões deram-se ao incommodo de render homenagens á creada +de Laura. + +Afinal, na grande sociedade--está provado!--as cosinhas não recebem peor +gente que os salões. + +Lembrar-se-hão sem duvida que, na manhã em que Laura resolvera abandonar +a casa de seu marido, encontrára vasio o quarto de Jacintha. + +No dia seguinte, quando a creada se reuniu á cantora em Paris, Laura +admoestou-a com toda a severidade, como costumava. + +Sem se incommodar com a torrente de lagrimas que corria pelas faces de +Jacintha, e com as quaes a creada tratava lavar a falta commettida, +Laura demonstrou-lhe quanto era indigno um procedimento d'aquella ordem. + +Disse-lhe que a devia abandonar completamente. + +Mais uma vez, porém, lhe perdoaria, sob condição de Jacintha lhe dar a +sua palavra de que não voltaria a praticar o menor desmando. + +E affiançou-lhe que, no primeiro caso dado, a encontraria inflexivel. + +Jacintha, desfeita em lagrimas, prestou todos os juramentos possiveis. + +Tomou para testemunhas todas as virgens da côrte do ceu, promettendo +seguir os seus exemplos. + +Antes quereria perder a vida do que ser abandonada por Laura. + +A admoestação aproveitar-lhe-ia. + +Jámais o demonio se apossaria dos seus sentidos. + +Laura fingiu acreditar nas promessas de Jacintha, que, sem serem +solidas, eram com certeza sinceras. + +Entretanto tomou algumas precauções. + +Resolveu não admittir creados moços na sua modesta casa da rua +Boudreau. + +Escolheu um casal já idoso. + +O marido tinha cincoenta annos e a mulher quarenta e cinco. + +Durante tres mezes Jacintha foi um verdadeiro modelo de honestidade. + +Nunca sahia só, e quando acompanhava Laura ao theatro jámais transpunha +a porta do camarim. + +Mas no momento da chegada do visconde a Paris, os seus remorsos +começavam a cicatrisar. + +A installação mysteriosa no rez-do-chão da rua da Arcada produziu-lhe +terrivel effeito. + +Laura, porém, percebeu sem perda de tempo que Jacintha começava +novamente a andar mais ligeira. + +Aquella acceleração de movimento no corpo correspondia a movimentos, +accelerados tambem, no espirito. + +Ao ver a felicidade que disfructava Laura, sentia extraordinaria +melancholia. + +--Como o sr. visconde ama a senhora! murmurava ella. Ah! a senhora é bem +feliz!... + +--Se continuares a portar-te bem, dizia-lhe Laura, acharás qualquer dia +um bom marido. + +--A senhora achou, respondia Jacintha, mas eu, para o achar, +necessitarei procurar. + +Uma busca d'este genero é sempre um perigo para uma natureza +inflammavel. Se Laura, n'aquella occasião, tivesse reparado, +comprehenderia o perigo, verificaria que a virtude começava a ser +demasiado pesada para Jacintha. + +Uma noite, ao atravessar um corredor do theatro, a creada deu de cara +com Lauretto Mina. + +O tenor pôz-lhe uma das mãos na fronte, levantou-lhe o queixo com a +outra, e disse-lhe: + +--Sabes que estás cada vez mais bonita? Declaro-te que nunca te amei +tanto como agora. + +Não se contentou com palavras. + +Passou-lhe um braço em volta da cintura, levou-a para um canto pouco +alumiado, inclinou-lhe o corpo para traz e deu-lhe um demorado beijo na +bocca. + +Jacintha voltou para o camarim muito perturbada. + +O seu quarto na rua da Arcada era tão bonito! + +Devia haver muitas senhoras que o invejassem! + +Esta circumstancia foi mais uma tentação. + +Pois só ella é que havia admirar aquella verdadeira belleza? + +Era possivel que o tenor, mesmo em casa de duquezas, não tivesse visto +um quarto tão encantador como aquelle. + +Jacintha por coisa alguma trahiria Laura. + +Em tempo, Lauretto Mina tinha tido a prova d'essa verdade. + +Não se arriscou, por isso, a fazer-lhe perguntas directas sobre o +visconde ou sobre a Linda. + +Mas, depois d'uma scena de seducção admiravelmente bem desempenhada +pelo tenor, uma noite, durante um entre-acto, Jacintha foi forçada a +dar-lhe todas as indicações necessarias, para que elle podesse entrar +n'aquelle delicioso quarto, que para ella era um verdadeiro ninho d'amor. + +Pela uma hora da manhã, em quanto Antonino e Laura estivessem á mesa, +ceiando, ella iria abrir-lhe a porta da rua, e, pelo longo corredor, +para o qual abriam todas as portas interiores, introduzil-o-hia no +quarto. Depois iria ter com elle, logo que os dois esposos se deitassem. + +O tenor sahiria, entre as quatro e as cinco horas da manhã, quando o +visconde tivesse partido. + +Nada era mais simples, mais facil, mais seguro. + +Foi assim que, na noite de que já fallámos, Lauretto Mina estava ás tres +horas e meia da madrugada no quarto de Jacintha. + +Áquella hora a creada dormia profundamente. + +Lauretto levantou-se sem fazer ruido. + +Sobre a meza da cabeceira estava acceso um candieiro. + +O tenor tirou uma navalha da algibeira, abriu-a, e cortou os cordões +d'um reposteiro. + +Em seguida voltou ao leito, pegou na mão direita de Jacintha e +approximou-a levemente da esquerda. + +Ella descerrou vagamente as palpebras e perguntou: + +--Já te levantaste? + +--Não, não, respondeu o tenor. Ainda é cedo. + +Reuniu bruscamente as duas mãos e, n'um segundo, ligou os pulsos de +Jacintha com tres ou quatro voltas do cordão, que atou n'um nó rapido. +Ella accordou sobresaltada e tentou gritar. + +Mas o tenor applicou-lhe sobre a bocca uma mordaça que levava, +prendendo-lh'a solidamente atraz do pescoço. + +Jacintha deu com os pés na roupa da cama, tentando saltar do leito. + +O tenor ligou-lhe os pés com o cordão, como lhe ligara as mãos. + +Em seguida verificou se todos os nós estavam bem dados. + +Assim presa, Jacintha apenas podia fazer alguns movimentos quasi +imperceptiveis, que Lauretto impossibilitou ainda comprimindo-a com a +roupa da cama. + +Depois, o tenor vestiu-se lentamente. + +Entreabriu a porta do quarto, e escutou. + +Voltou para junto do leito, e vendo que Jacintha não se movia, +destapou-a, inquieto, e tirou-lhe a mordaça. + +A infeliz estava desmaiada. + +O ar livre que respirou, reanimou-a um pouco. + +Antes que a creada recuperasse completamente os sentidos, Lauretto +tornou-lhe a pôr a mordaça, mas apertando-lh'a menos, e deixando-lhe as +narinas a descoberto. + +Depois voltou novamente para junto da porta. + +Sentiu o visconde sahir, sendo acompanhado por Laura até á escada. + +Ouviu as palavras de despedida que ambos trocaram. + +Então transpôz o corredor, abriu a porta do quarto de Laura, e entrou. + +Jacintha, que recuperara os sentidos, viu e comprehendeu tudo. + +O miseravel armara ardilosamente aquelle laço á sua fraqueza, e ella +cahira estupidamente, como uma ingenua. + +Não era por ella, mas por Laura, que elle ali fôra. + +A Linda, é claro, não tornara a sua creada de quarto confidente das +impertinencias de Lauretto. + +Jacintha, porém, recordava-se agora de certas circumstancias e d'algumas +palavras pronunciadas pelo tenor. + +Não podia duvidar. + +Era Laura quem elle desejava. + +A Linda estava n'esse momento á discrição do insolente. + +E fôra ella, Jacintha, ella, que teria dado a vida pela cantora, que a +entregara áquelle miseravel! + +Ao ter este pensamento a infeliz sentiu-se gelada de pavor. + +Deixaria ella commetter um tão infame crime? + +Apenas podia soltar alguns gemidos inarticulados. + +As mãos e os pés ligados paralysavam-lhe todos os movimentos. Como +arrancar a mordaça? + +Como cortar os cordões que a atavam? + +O tempo passava, e ella não achava que responder áquellas perguntas. + +As lagrimas corriam-lhe pelas faces. + +Olhou para o candieiro acceso. + +Lauretto achara desnecessario apagal-o. Para que? + +Subitamente accudiu-lhe ao espirito uma idéa. + +Nem um instante hesitou. + +Encolheu-se, torceu-se, rebolou-se, e, lentamente, firmando-se nos +cotovellos e nos joelhos, conseguiu elevar-se pouco a pouco, acima do +travesseiro. + +Esta operação difficultosa durou dez minutos. + +Quando chegou com as mãos ligadas até ao angulo do leito, agarrou-se a +elle, e, com um esforço acabou de se elevar. + +Então, com um movimento decidido, chegou á luz do candieiro os cordões +que lhe prendiam os pulsos, que foram tambem attingidos pela chamma. + +A dôr era insupportavel. + +Por vezes, sentindo-se prestes a soltar um grito, retirava os pulsos da +luz. + +Mas em seguida, considerando aquelle facto como uma indesculpavel +cobardia, chegava novamente á chamma a carne já queimada. + +Uma das voltas do cordão quebrou por fim. + +Mas não era a que formava o nó. + +Foi indispensavel continuar a tortura, com todas as precauções e cuidados. + +E sentia-se feliz por poder dizer de si para comsigo: + +--Soffre, leviana, soffre o castigo da tua falta! + +O cordão cedeu emfim. + +Então, com um movimento rapido, desembaraçou-se dos bocados que ainda a +prendiam, e, sem reparar para o misero estado em que tinha os +pulsos--porque o tempo urgia--sentou-se na cama, e desligou os pés, +ainda que com bastante custo. + +Levantou-se, procurou uma tesoura, e cortou os cordões da mordaça. + +Estava livre! + +Vestiu-se sem perda d'um segundo. + +As mãos, tremulas ainda pelo supplicio supportado, difficilmente +cumpriam a sua missão. + +Sentia-se banhada em suor frio. + +Não prestou attenção á fórma pela qual se vestia. + +Pensava. + +O que deveria fazer? Acordar o porteiro? Esse meio poderia ser bom meia +hora antes. N'aquelle momento, como era possivel que o crime +estivesse consumado, era necessario não fazer escandalo. N'aquelle +negocio não devia intervir qualquer pessoa estranha. + +Logo que se apromptou, metteu na algibeira o dinheiro que pozera sobre a +meza, e seguiu pelo corredor, abafando o ruido dos passos. + +Parou em frente da porta do quarto de Laura e escutou. + +Não duviu o menor rumor. + +Aquelle silencio seria de bom ou de mau presagio? + +Não se atrevia a decidir. + +Continuou pelo corredor, desceu a escada, abriu cautellosamente a porta +e achou-se na rua, deserta áquella hora. + + + + +XXV + +O infame + + +Se não fosse fatuo e mau como era, Lauretto Mina, ao entrar no quarto de +Laura, teria apagado a lampada que o alumiava. + +Depois, quando a cantora voltasse, soprando a chamma do candieiro que +ella trazia, tel-a-hia tomado por surpreza na sombra, e a Linda +podia então considerar-se perdida. + +Mas elle quiz saborear o seu triumpho, divertir-se com o temor e mesmo +com a colera da cantora. + +Portanto mostrou-se, apresentou-se. + +--Boa noite, minha querida Linda, disse elle levantando-se logo que +Laura entrou. Não te admires nem te assustes por me veres em tua casa a +hora tão adiantada da noite. As minhas intenções são tudo o que ha de +mais amigaveis, e estou certo que havemos de nos entender. + +Laura olhava-o petreficada, sentindo como que fugir-lhe a razão. + +O tenor proseguiu: + +--Se entrei aqui, empregando meios menos usados e algum tanto violentos, +a culpa foi tua. Estou, como muitos outros, loucamente apaixonado por +ti. Mas isso não é uma razão para me escarneceres, para me tornares +ridiculo para com os nossos collegas, e para mofares de mim com o +visconde, teu amante. Tens procedido commigo imprudentemente. Resolvi +desforrar-me. Para o conseguir conquistei um coração mais sensivel que o +teu, o da Jacintha. Ella introduziu-me na praça--e eis-me aqui! + +--Foi bem combinado o assalto, respondeu Laura fazendo um gesto de +resignação. + +Voltára-lhe a presença d'espirito. + +Como se conservasse no limiar da porta, passou resolutamente em frente +do tenor e entrou no quarto. + +--Estimo que acceites a situação com essa desenvoltura! disse Lauretto +sorrindo victoriosamente. + +Como ella não respondesse, o tenor continuou: + +--Para que me havias de receber com ares tragicos? Tens razão. Jámais se +devem desprezar estas palavras: amo-te! + +Laura encostára-se a uma secretária Riesener. + +O tenor estava na frente d'ella. Elle proseguiu: + +--Pois não é verdade que é absurdo fazer barulho por causa d'um beijo? + +Caminhou para ella ao acabar de pronunciar aquellas palavras. + +Laura abriu rapidamente com a mão esquerda a gaveta da secretaria, +pegando, com a direita, n'um objecto que estava dentro. + +E repentinamente, como Lauretto se approximasse mais, visou-o com um +revolver que acabava de engatilhar. + +--Se dá um só passo mais, mato-o! gritou ella. + +Lauretto empallideceu horrivelmente. + +Mas replicou, tentando sorrir-se: + +--Suppunha-te mais sensata. A menos que não estejas brincando... + +--Prohibo-o de me tratar por tu, disse Laura ameaçando-o novamente com o +revolver. + +--Perdão, sr.ª viscondessa, respondeu o miseravel inclinando-se com +afectação, para dissimular o estremecimento que lhe percorreu todo o +corpo. Não considero de bom gosto ameaçar com um revolver um homem +desarmado, entretanto... + +E ia dar mais um passo. + +Laura, porém, fel-o parar, dizendo com energia: + +--Não se mecha, ou disparo! E previno-o de que não repetirei o aviso. +Acautelle-se! Tenho na mão uma arma admiravel, de precisão +extraordinaria. Comprei-a no Mexico, quando nos internamos na região dos +_pampas_. Ao dar um passo terá quatro balas no corpo. + +Ella fallava n'um tom firme e resoluto, tanto mais para admirar, quanto +era certo que omittia um pormenor importante. + +O revolver estava descarregado. + +Suppozera, e com razão, que um homem capaz de proceder como Lauretto +Mina, não podia deixar de ser cobarde. + +Ao ouvir Laura, o tenor teve uma idéa, que mais o assustou. + +Lembrou-se que o tiro podia partir, mesmo sem que a cantora puxasse pelo +gatilho. + +Entretanto, fazendo-se forte, disse: + +--Acautelle-se tambem, porque ao primeiro tiro precipitar-me-hei, e +então... + +--Socegue, interrompeu a Linda. Sei servir-me bem d'este revolver. Tinha +o direito, se quisesse, mesmo sem que o senhor chegasse a vias de facto, +de o matar como se mata um cão hydrophobo. Mas a vista do sangue +horrorisa-me. Conserve-se quieto, e nada terá a temer. + +Um pouco mais socegado, o tenor disse, ao cabo d'alguns minutos de +silencio, com riso forçado: + +--Nada d'isto tem senso commum! Ficaremos aqui toda a noite, a olhar um +para o outro, como dois cães de faiança? + +Laura não respondeu. + +Conservava-se immovel como uma estatua. + +--Permitte-me, ao menos, que me sente? perguntou elle. + +Ella replicou: + +--Pode sentar-se. Tem ahi proximo uma cadeira. Mas previno-o de que, uma +vez sentado, o prohibirei de se levantar. + +--Percebo, ficaria com uma vantagem a mais. Pois conservar-me-hei de pé. + +--Faria melhor sahindo d'esta casa. Deve seguir o conselho, que é bom. + +--Devéras?... disse Lauretto indiciso. + +Perguntou a si proprio se, realmente, o mais prudente não seria bater em +retirada. + +Aquelle revolver imprevisto mudára a situação. + +O negocio falhára, decididamente. + +Mas deveria fugir cobardemente d'uma mulher? + +No dia seguinte ella contaria a aventura ao amante, e talvez aos +collegas, que com razão o escarneceriam. Fugir, era, pois, impossivel. + +Era indispensavel sustentar a situação até ao fim, custasse o que custasse. + +Depois d'alguns minutos de reflexão, Lauretto disse com voz um pouco +mais firme: + +--Não partirei. Tenho ainda pelo meu lado uma probabilidade. + +--Qual? + +--Ha vinte minutos que nos olhamos fixamente; eu, que não tenho uma arma +na mão, sinto-me já fatigado. Pesa-me a cabeça e cerram-se-me as +palpebras. O relogio marca quatro horas e trinta e cinco minutos. Só +amanhecerá d'aqui a hora e meia. Quando nos tivermos hypnotisado +mutuamente, veremos se o seu olhar não se turbará, se os seus joelhos +não se dobrarão, se o braço não se baixará por si proprio. Veremos se a +gallinha não acabará fatalmente por ser magnetisada, immobilisada... e +tomada pela raposa! + +--Veremos! respondeu Laura apertando com mais força a coronha do revolver. + +Desde esse momento guardaram ambos o mais absoluto silencio. + +No quarto ouvia-se apenas o tic-tac monotono da pendula. + +O relogio deu os tres quartos para as cinco horas. + +Os minutos passavam com uma lentidão mortal. + +Laura sentia, com temor crescente, que o miseravel dissera a verdade. + +A tensão enorme em que desejava conservar o espirito fazia-lhe diminuir +as forças do corpo. + +Via como que sombras passarem-lhe pela frente; sentia nos ouvidos um +ruido extranho, as pernas dobravam-se-lhe, e a custo conservava o braço +meio estendido, empunhando o revolver. + +O que mais a angustiava era a arma estar descarregada. + +Se assim não fôra, mesmo dada a hypothese do desfallecimento, poderia +defender-se contra uma aggressão subita, ferindo ou pelo menos +assustando o seu inimigo. + +Emfim, haveria lucta, em que o maior numero de probabilidades estaria do +seu lado. + +Mas se, aproveitando um momento de torpor, Lauretto se precipitasse +sobre ella, e a agarrasse, a Linda nada mais tinha na mão do que um +bocado d'aço e de madeira, não poderia defender-se. + +E como que ouvia o grito de triumpho soltado por Lauretto, e o rir +infame d'aquelle miseravel. + +O relogio deu cinco horas. + +Laura sentiu necessidade de interromper aquelle silencio pesado e +d'ouvir uma voz humana, ainda que não fosse senão a propria. + +Disse portanto em voz alta: + +--Cinco horas! + +Lauretto replicou, e ella escutou-o quasi satisfeita: + +--Faço-lhe os meus cumprimentos. Possue energia rara em mulher. É triste +que não empregue essa energia ao serviço de melhor causa. Admittindo +mesmo,--o que é duvidoso,--que consiga sustentar até ao fim esse +magnanimo esforço para preservar a sua honra, nem por isso ficará menos +deshonrada. Quer saber como? + +Laura não respondeu. + +O tenor proseguiu: + +--O meu amor é muito sincero e ardente. Se não fosse para a possuir não +poria em pratica esta tentativa arrojada, ou criminosa, segundo o modo +de ver de cada um de nós. Mas o meu amor proprio está agora comprometido +n'esta empreza tambem. A sr.ª, ha muito tempo, tem-me despresado, +motejado, ridicularisado; eu, declarei, jurei publicamente, que +mereceria todo o seu desprezo se não conseguisse tel-a um dia nos meus +braços. Por emquanto ainda não perdi a esperança, e espero, até, +conseguir em breve o fim desejado. Em todo o caso, mesmo na peor das +hypotheses, deve concordar que as apparencias são por mim. Por +agora pouco importa que eu seja ou não seu amante. O essencial é que, +para os espectadores, o pareça. Ora parecel-o-hei, evidentemente... + +Laura sorriu com desdem. + +Elle continuou: + +--Deixe-me acabar e ria depois. Medite,--porque ainda é tempo,--e verá +que o que mais lhe convém é baixar o revolver e entregar-se á minha +generosidade. Procederei como um perfeito cavalheiro, desde já o +declaro. Mas reservar-me-hei o direito de fallar, e previno-a de que +fallarei. Será essa a minha compensação e a minha desforra. + +O tenor fez uma pausa. + +A Linda deu aos hombros despresadoramente. + +--Imagina que não me acreditarão? Ouça: limitar-me-hei a affirmar que a +tive esta noite nos meus braços. Estamos sós: quem poderá +contradizer-me? É de suppor que o visconde de Bizeux me peça +explicações; espero mesmo que isso succeda. Recusar-me-hei a dar-lh'as. +Elle esbofetear-me-ha e eu matal-o-hei, porque desgraçadamente +succede-me esse precalço sempre que me bato. Não será em virtude d'esse +duello em perspectiva e da morte do visconde que as minhas palavras +deixarão de ser acreditadas, ao contrario. Mas haverá mais do que as +minhas palavras, haverá provas e testemunhas. A prova eil-a: ao entrar +vi sobre aquella mesa o seu retrato em miniatura, ao lado do +retrato do visconde. Dei-me pressa em guardal-o--para possuir uma +recordação sua. Eis o testemunho: pela manhã sahirei, não pela porta que +deita para a rua, mas pela que abre para o vestibulo. O porteiro, ao +ver-me, perguntar-me-ha sem duvida quem eu sou e d'onde venho a hora tão +matinal, e eu responder-lhe-hei que me chamo Lauretto Mina, que sou +tenor da Opera, e que saio de casa da sr.ª Laura Linda, amante do sr. +visconde de Bizeux... + +--É engenhoso, mas um pouco cobarde! disse uma voz por detraz de Lauretto. + +A cantora soltou um grito d'alegria. + +--Antonino! disse ella. + +O tenor voltou-se admirado, e viu na sua frente Antonino de Bizeux, de +braços cruzados sobre o peito, dominando-o, com a alta estatura do seu +corpo herculeo. + +Na sombra do corredor, Lauretto viu Jacintha, pela porta entreaberta. +Lançou em volta um olhar assustado, como que procurando por onde fugir. + +Antonino bateu-lhe pesadamente com a mão no hombro. + +Laura, deitando fóra o revolver inutil, correu para o marido. + +O visconde disse, dirigindo-se ao tenor: + +--É triste que eu venha desmanchar as suas combinações infames. +Graças á coragem e á dedicação d'aquella pobre rapariga que me foi +chamar, eil-o preso no proprio laço que armou. Ao que parece é forte em +violentar e insultar mulheres, mas defronte d'um homem não faz tão boa +figura. + +Lauretto respirava a custo sob o peso da mão de Antonino. + +Apenas teve força para balbuciar: + +--Senhor... estarei ás suas ordens... quando quizer... + +--Na realidade? Consente em dar-me razão? Pois não sabe, miseravel, que +quando se apanha um patife da sua especie em flagrante delicto +d'attentado nocturno e de roubo... (com a mão que tinha livre procurou +na algibeira de Lauretto e tirou d'ella a miniatura de Laura, que lançou +sobre a mesa) só ha a escolher entre entregar o mariola á policia ou de +lhe pegar pelas orelhas e lançal-o pela porta fóra a ponta-pés? Não +sabe? Pois fique sabendo que n'um caso d'esta ordem o infame nunca +offende. Teria graça considerar-me eu offendido e bater-me com o gatuno +que me roubasse a bolsa! + +--Ouça-me, senhor, replicou Lauretto tremendo-lhe a voz de medo, de +vergonha e de colera. Ouça-me: n'este momento estou á sua discrição, é +verdade, mas aconselho-o a que não abuse da sua vantagem. + +Deixe-me sahir d'aqui sem ruido nem escandalo. Asseguro-lhe que +isso será mais conveniente não só para mim, como tambem para o senhor e +para esta senhora. + +--Concede-lhe o que elle pede, meu amigo, disse Laura intervindo. Que +parta, com a raiva de ver abortado o seu crime, e que não ouçamos mais +fallar d'elle. + +--Sim, sr. visconde, deixe-o partir! repetiu Jacintha do corredor, com +voz timida. + +--Pois quê! Este homem fez-te passar, Laura, por angustias mortaes, fez +soffrer a essa rapariga a mais horrivel tortura moral e physica, e ha de +sahir d'aqui socegadamente para acabar na cama a noite que tão mal +começou? Ah! eu considerar-me-ia tão cobarde como elle, se lhe +concedesse a impunidade que pedem. Dizes, Laura: que parta, e que não +ouçamos mais fallar d'elle? Mas não ouves as ameaças que o biltre acaba +de pronunciar? Elle irá ámanhã dizer por toda a parte que passou a noite +aqui, que eu cheguei muito tarde! Sinto ferver-me o sangue, pensando em +tal. Se não estivesses presente, tosal-o-hia por fórma que jámais se +esqueceria d'esta noite! + +E ao mesmo tempo que fallava, sacudia violentamente Lauretto, que tremia. + +--Não estarei eu em frente d'um homem bem educado?... atreveu-se elle a +dizer. + +--Está em frente d'um justiceiro! + +--Como?... O que vae fazer?... + +--O que o senhor proprio projectava. + +Antonino largou o hombro de tenor, e agarrou-o pelo casaco. + +--Vamos... venha!... + +--Não quero!... deixe-me!... murmurou Lauretto debatendo-se em vão. +Protesto contra as suas indignas violencias! + +O visconde apenas respondeu sorrindo desdenhosamente. + +--Não lhe faças mal! aconselhou Laura em voz baixa. + +Mas Antonino nada escutava. + +Estava possuido da mais profunda colera, colera fria, que é a mais +terrivel. + +Repetiu + +--Vamos!... venha!... + +E accrescentou, dirigindo-se á creada: + +--Jacintha, alumia-nos. Sahimos pela porta do vestibulo. + +Arrastou pelo corredor fóra o tenor, que empregava inoffensiva +resistencia, e chegou assim á porta que dava para o vestibulo do predio. + +Jacintha seguia-o, tendo um candieiro na mão tremula. + +Laura, anciosa, caminhava alguns passos mais atraz. + +Desceram ao vestibulo. + +Em frente do cubiculo do porteiro, o visconde gritou com voz forte: + +--Sr. Durandeau! peço-lhe que se levante e abra-nos a porta. + +Segurava Lauretto apenas com uma das mãos. + +O tenor, de labios trementes, pronunciava ameaças e palavras indistinctas. + +O porteiro appareceu pouco depois á porta do cubiculo, em mangas de +camisa e de chinellas. + +--O que suceedeu? perguntou elle vendo Lauretto. É um ladrão? + +--Peor do que isso, respondeu Antonino. Este biltre introduziu-se em +minha casa com intenção de violentar a creada de quarto! + +--Oh! que patife! disse o porteiro! + +Depois, reparando para o rosto apavorado de Lauretto, submettido ao +pulso nervoso d'Antonino, ajuntou: + +--Que cara de velhaco! Sabe quem elle é, sr. visconde? + +--Sei. Chama-se Lauretto Mina, e é cantor da Opera. + +O porteiro abriu a porta. + +Antonino, pegando no tenor pelas espaduas, arremeçou-o para a rua. + +Em seguida lançou para o passeio o chapéu e o sobretudo do tenor, +objectos que Jacintha trouxera na mão, cuidadosamente. + +A porta foi fechada quasi immediatamente depois. + +Lauretto, pallido pela colera, rangendo os dentes, voltou-se, e +estendendo o punho cerrado para a porta, murmurou enraivecido: + +--Chegar-me-ha a vez! + +E distanciou-se com passo rapido. + + + + +XXVI + +O desafio + + +Ao entrar no quarto de sua mulher, Antonino encontrou Jacintha ajoelhada +aos pés de Laura, dizendo-lhe arrependida: + +--Oh! minha senhora, perdôe-me! + +Levantou a creada e contou o que ella fizera, a sua presença d'espirito, +a sua coragem. + +--Sahiu, metteu-se n'uma carruagem que encontrou no _boulevard_ +Malesherbes, e foi chamar-me a casa. Felizmente eu não me deitára ainda, +e vim immediatamente. Foi ella que causou todo o mal, mas devemos +confessar que foi ella tambem que tudo remediou. + +Laura socegou Jacintha, consolou-a. + +Pelas suas proprias mãos envolveu em algodão em rama os pulsos queimados +da creada de quarto, emquanto não podesse ser feito outro tratamento, +acompanhou-a ao quarto, deitou-a, e só a deixou quando a viu adormecida. + +Voltou para junto d'Antonino. + +Até então podéra conter-se, mas a reacção veiu, por fim. + +Cahiu sobre um _fauteuil_ e chorou, murmurando: + +--Ah! que noite! que scena!... + +--Socega, minha querida Laura, disse-lhe Antonino pegando-lhe nas mãos. +Passaste uma hora terrivel, que felizmente não se repetirá. Acabou-se! + +--Acabou-se! repetiu Laura abanando a cabeça. Se tudo estivesse +terminado não me sentiria eu inquieta. Comprehendo que pelo espantoso +perigo que corri tu não podesses suffocar a tua indignação. Insultaste +terrivelmente esse miseravel. Conheço-o. Lauretto não possue apenas uma +alma vil, possue tambem uma alma má. Vingar-se-ha com certeza. + +--Pois suppões?... Estás enganada. Eu puni-o justamente para não ter que +o provocar. Verás que, elle tambem, não se atreverá a ser o provocador. + +--E se fôr? + +--Dão-se explicações d'um insulto e não d'um castigo. Recusarei bater-me +com esse homem. + +--Promettes, Antonino? juras? Necessito ter a certeza... A duvida +incommoda-me sobremaneira; Tinha razão teu pae na ultima carta que te +escreveu, e me mostraste. O muito que me amas fez com que quizesses +agradar á minha phantasia d'artista, collocando-me n'um meio romanesco e +poetico, que tinha muitos encantos, mas que não era isempto de perigos. +Seriamos felizes se não houvesse invejosos e maus. Estou convencida que +foi a nossa situação equivoca que causou todo o mal. + +Calou-se por instantes, como que absorvida por occulto pensamento. + +Depois proseguiu: + +--Lauretto ter-me-ia respeitado se estivesse certo de que eu era tua +mulher. Porque será que, amando-nos tanto, não podemos pôr d'accordo as +nossas existencias, como puzemos os nossos corações? + +Novas lagrimas rolaram-lhe pelas faces. + +Antonino seccou-as com beijos, esforçando-se por tranquillisar a esposa +com phrases ternas. + +--Escuta, disse ella, tenho o presentimento que atravessamos uma +hora terrivel, e quero fallar-te com toda a gravidade. Tenho a +annunciar-te uma resolução seria que tomei, e uma noticia agradavel a +dar-te. A resolução é que, decididamente, renuncio ao theatro. A +noticia...--fallemos baixo!--desejava esperar alguns dias para te fallar +nisso... Mas não... não posso esperar... tenho a certeza!... A noticia é +que, o meu constante sonho de mezes e annos, vae realisar-se emfim! +Antonino, no meu ser havia duas partes distinctas: tinha, por meu pae, o +sentimento artistico, e por minha mãe o sentimento maternal. Até hoje +pareci-me com meu pae, d'hoje para o futuro parecer-me-hei com minha +mãe! + +Antonino ajoelhou aos pés de sua mulher, envolvendo-a nos braços, louco +d'alegria. + +--Um filho!... O nosso filho!... murmurou elle. + +E cobriu-lhe de beijos as mãos. + +Ella retribuiu-lhe as caricias, e continuou: + +--És feliz, não é verdade? Pois bem: procede de fórma a dissipar a nuvem +sombria que, n'este momento, escurece a minha felicidade. Tens agora +novos deveres. A tua vida não te pertence unicamente, é tambem minha, é +nossa. Peço ao pae um juramento sagrado: peço-te, sob tua palavra +d'honra, que em caso algum, nem mesmo provocado por Lauretto Mina, +exporás a tua vida contra a d'esse miseravel. + +Antonino hesitou. + +--Sob minha palavra d'honra?... Nem mesmo provocado?... repetiu elle. + +--Ah! hesitas!... disse Laura. + +Elle percebeu a profunda anciedade de Laura. + +Reflectiu n'um instante que uma mulher póde acreditar n'um compromisso +tomado por aquella fórma, mas que em taes circunstancias esse +compromisso não obriga um homem. + +Portanto replicou: + +--Não hesito. Dou-te a palavra que me pedes. + +--Ah! obrigada!... + +Tomou-lhe a cabeça entre as mãos e beijou-o na fronte. + +Seguidamente começaram, cheios de confiança e de fé, a traçar o plano da +sua nova vida. + +Laura desejava deixar Paris immediatamente, mas concordou que a partida, +assim precipitada, semelhava a fuga. + +Demorarar-se-iam ainda quatro ou cinco dias, para regular os seus negocios. + +Como estava escripturada por espectaculo, a Linda não tihha de pagar +multa na Opera. + +Partiriam, depois, para Italia, onde o conde de Bizeux se lhes juntaria. + +Em regra, passariam o inverno nos paizes do sul, Italia, Hespanha, +Grecia, Egypto, Algeria, e os estios em Saint-Pol-de-Léon. + +Conversaram até ás sete horas da manhã. + +A essa hora Antonino deixou Laura, para que ella dormisse um pouco. + +Ficou resolvido que elle não voltaria mais áquella casa. O visconde +procuraria Laura, de tarde, na rua Boudreau. + +Até ao dia da partida, jantariam e dormiriam ali, devendo Antonino +voltar á casa do _boulevard_ Haussmann apenas para tratar de pormenores +materiaes. + +Laura adormeceu em breve, esperançosa e feliz. + +Antonino, chegado que foi aos seus aposentos de rapaz, estirou-se sobre +um canapé. + +Não podia conciliar o nome. + +Previa, preoccupado, o que se ia passar. + +Desejava lavar, com uma execução summaria, a offensa recebida, +principalmente para que o nome de sua mulher não fosse envolvido na +questão. + +Entretanto, percebia que se descobrira ante Lauretto Mina, e que entre +elles o insulto e o conflicto não podia deixar de terminar por duello. + +Ás onze horas o creado foi levar-lhe os cartões de Nobillet, o pianista, +e de Gressier, o baritono. + +Não poude deixar d'estremecer, dando ordem para que fosse introduzidas +as visitas. + +Laura tinha razão: a vida para elle duplicára de valor, desde a vespera. + +Lauretto Mina escolhera aquellas testemunhas, porque tanto Nobillet como +Gressier, tinham assistido á scena de Remissy no concerto de Saint-Malo, +e conheciam um pouco os incidentes e o visconde. + +Foi Nobillet quem fallou. + +--Vimos da parte, do sr. Lauretto Mina, sr. visconde, disse elle. O +nosso collega assegura que vossa ex.ª o insultou esta noite, +gravemente. O nosso primeiro dever era procurar o sr. visconde para +vereficarmos se as suas explicações condizem com as do nosso +constituinte. Disse-nos o sr. Lauretto Mina que em tempo tivera relações +com uma rapariga ao serviço da sr.ª viscondessa de Bizeux; parece que +essas relações foram agora reatadas, e que elle passou a noite anterior +no quarto d'essa rapariga. Por acaso vossa ex.ª encontrou-o, e sem +razão, sem provocação da parte d'elle, agarrou-o pelo casaco como se +fôra um gatuno vil, arrastou-o para o vestibulo, indicando o nome +d'elle, por entre injurias, ao porteiro do predio, e arremessando-o +depois para a rua, com violencia. São verdadeiras estas declarações, sr. +visconde? + +--Completamente... + +--Vossa ex.ª pode naturalmente interpretal-as e explical-as, e nós +estamos ás suas ordens para acceitar os esclarecimentos com que quizer +honrar-nos. + +--Nada tenho que explicar, replicou Antonino. Encontrei o sr. Lauretto +Mina sahindo do quarto da creada da minha mulher, na casa que ella +habita. Irritei-me e pul-o fóra. + +--Vossa ex.ª disse em voz alta que elle tinha violentado a rapariga. O +sr. Lauretto Mina affiança que não houve a menor violencia. + +--Ignorava e ignoro esse facto. + +Nobillet proseguiu: + +--Ser encontrado no quarto d'uma mulher, ainda que ella seja creada, não +é deshonra para um homem. Para que vossa ex.ª se irritasse até á +indignação e á violencia, por um facto que realmente não tem gravidade, +de certo houve razões estranhas a esse mesmo facto. Somos homens +honrados fallando com um homem honrado, sr. visconde; esperamos, pois, +que nos julgue capazes d'apreciar e comprehender essas razões. + +Nobillet e Gressier adivinhavam que havia um mysterio em todo aquelle +negocio. + +Nem um nem outro tinha grande consideração pelo caracter de Lauretto +Mina, de quem conheciam os terriveis antecedentes de duellista. + +Comtudo não tinham podido recusar-se a servir-lhe de intermediarios na +conclusão do conflicto. + +Entretanto esperavam que o visconde lhes fornecesse uma razão ou ao +menos um pretexto para declinar a sua penosa missão. + +Desejavam pois que Antonino pronunciasse uma só palavra n'esse sentido. + +O visconde, porém, limitou-se a responder: + +--Agradeço-lhes os termos delicados com que expozeram a questão. Sinto a +mais alta consideração por vossas ex.as, mas não só posso dar do meu +procedimento outras razões além das que já conhecem, porque não +existem. + +As duas testemunhas olharam-se consternadas. + +Depois Gressier disse: + +--Observar-lhe-hei, sr. visconde, que se o sr. Lauretto Mina o não +offendeu tambem, é elle que deve considerar-se offendido, tendo, +portanto, o direito de exigir ou desculpas ou uma reparação pelas armas. + +--Não estou disposto a pedir desculpas, disse Antonino com voz firme. De +resto supponho que não seriam acceites. + +--É claro que, reconhecendo-lhe a qualidade d'offendido, deixa-lhe a +escolha das armas... disse Gressier. + +--E sei antecipadamente que elle escolherá o sabre, respondeu Antonino, +sorrindo. + +E levantando-se, accrescentou: + +--Mais uma vez lhes agradeço, meus senhores, a sua delicada intervenção, +e a fórma correctissima do seu procedimento. Terei a honra de os pôr em +relações com dois dos meus amigos, os srs. conde de Bauriac e barão de +Chazeuil. Procural-o-hão esta tarde em sua casa, sr. Nobillet. + +Os tres cumprimentaram-se com silencio. + +O visconde acompanhou-os até á escada. + +Cumprimentaram-se novamente, e as duas testemunhas desceram, mais +inquietas que o proprio visconde. + + + + +XXVII + +Preliminares + + +Antonino, voltando para o interior da casa, disse apenas de si para +comsigo: + +--Era fatal este resultado! + +E principiou immediatamente, com a mais perfeita tranquillidade, a tomar +as suas disposições. + +Em primeiro logar expediu um telegramma a seu pae, dizendo-lhe que +tinha, no dia seguinte, um duello grave, e pedindo-lhe para tomar o +expresso da noite, que o devia trazer á capital pelas oito da manhã. + +A essa mesma hora deixaria sua mulher na casa da rua Boudreau, e +encontrar-se-ia com o conde, nos seus aposentos do _boulevard_ Hausmann +ás nove horas. + +Desejava que, em caso de fatalidade, o conde estivesse junto de Laura. + +Em seguida foi para casa do conde de Bauriac, d'onde mandou chamar o +barão de Chazeuil, que morava proximo, na rua dos Campos Elyseus. + +Os tres conferenciaram em seguida sobre o duello em perspectiva. + +O conde de Bauriac, entendedor na materia, disse, movendo a cabeça com +ar preoccupado: + +--Um duello com Lauretto Mina tem um caracter extremamente excepcional. +Esse homem, em dois duellos que teve, matou um dos adversarios, e feriu +gravemente o outro, que só escapou por milagre. Jámais foi possivel +explicar e justificar os botes que lhe valeram esta dupla e sangrenta +victoria. Em virtude da rapidez do ataque, ninguem viu como os botes +tinham sido vibrados. Conheço a sua força ao sabre, meu caro visconde, e +vel-o-ia, sem inquietação, bater-se com os melhores esgrimistas. Mas +considerando a fórma... italiana de Lauretto, todas as cautellas são +poucas. A nossa responsabilidade, como testemunhas d'este duello é +duplamente seria. Não se trata de regular o negocio, ou de apresentar +desculpas; mas, emfim, deve haver, e ha com certeza, no conflicto +apparente, razões occultas, que eu não lhe perguntarei. Nós sabemos, +Chazeuil e eu, que o meu amigo é corajoso como poucos. Encarregue-nos de +dizer ás testemunhas de Lauretto Mina que se recusa a dar-lhe +explicações, e nós acceitaremos a missão satisfeitissimos, não é +verdade, barão? + +Chazeuil respondeu com um gesto affirmativo. + +--Agradeço-lhes a confiança que em mim depositam, replicou Antonino, mas +não posso nem devo acceitar o seu offerecimento. Insultei esse homem, +sabendo bem quem elle era, e conhecendo o risco que corria. Se eu +recusasse a bater-me hoje, elle ámanhã offender-me-hia por fórma que +fosse então inevitavel o duello. Minha mulher não desconfia agora que eu +fui desafiado, e podia ser informada do novo conflicto que se daria de +futuro. Peço-lhes, pois, que me deixem terminar este negocio sem perda +de tempo. + +--Estamos á sua disposição, disse o conde de Bauriac. Tem algumas +instrucções a dar-nos? + +--Não. Desejo apenas que o duello se realise, sem falta, ámanhã ás onze +horas. Meu pae só chega ás oito, e eu tenho que fallar-lhe. + +Ficou combinado que os dois iriam buscar Antonino, á casa do _boulevard_ +Hausmann, pelas dez horas da manhã. + +Pouco depois d'Antonino sahir, entraram as testemunhas de Lauretto Mina. + +Estavam ainda mais perplexos do que de manhã. + +Gressier, sobretudo, não podia occultar a inquietação de que estava +possuido. + +Quando o conde de Bauriac lhe disse que era inevitavel o duello, o +baritono fez um gesto de profundo desgosto. + +É que Lauretto rira diabolicamente quando elles lhe tinham dito que o +visconde acceitava o desafio. + +Gressier lembrou-lhe o que o tenor d'uma vez dissera no _foyer_ dos +artistas: + +--N'um duello eu não arranho nem firo, mato. E ajuntou: + +--Aquella sua phrase de certo foi simples modo de fallar, meu caro. Sem +duvida não teremos que temer ámanhã um resultado tão tragico. + +--Está enganado! replicou Lauretto, com sorriso feroz. Hei de matar o +visconde! Hei de matal-o! + +Gressier estremecera violentamente, por tal fórma Lauretto pronunciára +as ultimas palavras. + +Quando entrou em casa do conde de Bauriac, o baritono estava ainda sob o +peso d'aquella desagradavel impressão. + +O barão de Chazeuil reparou para o gesto de Gresnier, e disse: + +--Não me parece que seja caso para temores. O sr. Lauretto Mina é um +adversario para respeitar... como esgrimista, bem entendido, mas o sr. +visconde de Bizeux saberá defender-se, com certeza. + +Os infelizes artistas temiam as responsabilidades que pesam sobre as +testemunhas de duellos que occasionam a morte, e desejavam encontrar um +meio que os levasse a não continuar com as negociações. + +Quando se tratou de resolver que sabres serviriam o conde de Bauriac +disse, segundo o costume, que a sorte decediria. + +Nós acceitamos sem o mais leve inconveniente os sabres do sr. visconde +de Bizeux, disse Nobillet. + +--O sr. Lauretto Mina não ratificaria a sua concessão, observou o conde. + +--N'esse caso retirar-nos-iamos, replicou Gressier apressadamente. + +O conde viu-se obrigado a conter aquelle ardor... d'abstenção, +affirmando que não poderiam ser censurados por tomar a sorte como arbitro. + +Foi resolvido que o duello se efectuaria no bosque de Bolonha. + +O barão de Chazeuil indicou uma clareira, sobre o mappa. + +Encontrar-se-iam n'aquelle sitio pelas onze horas do dia seguinte. + +Gressier e Nobillet retiraram-se, porque nada mais tinha que ser combinado. + +Durante esse tempo Antonino fôra a casa do dr. Despujolles, que deu um +salto ao saber que o visconde se batia com Lauretto. + +Depois, readquirindo a presença d'espirito, disse: + +--Lá estarei com os meus instrumentos, mas, não sei porque, estou +convencido que elles não servirão ao meu amigo. Já o vi de sabre em +punho; ia affiançar em como dará uma lição ao ajudante do professor +d'esgrima. O que é necessario é que não se distraia. + +Antonino quiz que o doutor o acompanhasse a jantar em casa de Linda. + +Despujolles, porém, pretextando affazeres, mas na realidade por temer +não estar sempre de bom humor, desculpou-se de não acceitar o convite. + +O visconde, que não desejava estar só com sua mulher, ao sahir de casa +de Despujolles procurou e convidou dois amigos para jantar. + +Chegando a casa, disse a Laura: + +--Encontrei Heitor e Linage; jantarão comnosco. + +--Desejava antes jantar só comtigo. + +E depois, olhando fixamente para o marido, perguntou: + +--Nada de novo sobre Lauretto Mina? + +--Nada. O biltre nem bulio, respondeu Antonino. + +O jantar correu alegremente. + +A fatalidade, porém, quiz que, pelas dez horas da noite, quando o +visconde acompanhava os dois amigos até á porta, Jacintha lhe entregasse +um telegramma. + +Antonino voltou para junto da esposa. + +Ella viu o carimbo de Saint-Malo, e estremeceu. + +--É um telegramma de teu pae? perguntou. + +--Ah! sim, é verdade. Escrevi-lhe sobre a nossa proxima mudança de vida. +Elle ficou satisfeitissimo e participa-me que vem ver-nos. Chega ámanhã, +talvez... + +--Deixa ver... disse Laura estendendo a mão para o telegramma. + +--Curiosa!... respondeu elle, rindo. + +Fez uma bola com o papel, e lançou-o ao fogão. + +Laura pensou immediatamente: + +--Bate-se ámanhã com Lauretto Mina. + +Mas ao mesmo tempo reflectiu que coisa alguma impediria, que os seus +pedidos e as suas lagrimas podiam dessocegar Antonino, e resolveu calar-se. + +--Em que pensas? perguntou-lhe elle. + +--Penso que teu pae será um magnifico avô. + +E não fallaram mais senão no pae e no filho. + +No dia seguinte o visconde levantou-se cedo. + +Ás oito horas estava prompto para sahir. + +Laura deu-lhe um beijo tranquillo, e limitou-se a recommendar-lhe: + +--Volta depressa, pensa em mim e n'elle!... + +O visconde calculou: + +--Não desconfia de nada! + +E Laura dizia para comsigo: + +--Não suppõe que eu adivinhei tudo! + + + + +XXVIII + +O duello + + +A entrevista entre o pae e o filho foi grave e terna. + +Antonino não dissimulou o perigo que corria, batendo-se com um +adversario tão habil como pouco escrupuloso. + +O conde disse-lhe com toda a energia viril: + +--Como conheces o perigo e conservas, apesar da imminencia d'elle, toda +a tua presença de espirito, tens por ti o maior numero de probabilidades. + +Antonino não necessitava recommendar Laura a seu pae. + +Participou-lhe apenas a feliz nova da gravidez da sua mulher. + +O conde abraçou o filho, dizendo: + +--Mais uma probabilidade a teu favor. + +O visconde entregou-lhe uma carta volumosa, especie de testamento de +coração, que dirigia a sua mulher. + +O primeiro a chegar, um pouco antes das dez horas, foi Despujolles. + +O dr. não podia occultar a sua inquietação. + +Pouco depois chegaram as duas testemunhas e o seu aspecto socegado +reanimou um pouco Despujolles. + +Antonino subiu para uma carruagem com seu pae. + +As testemunhas e o medico subiram para outra. + +O conde desejava assistir ao duello, ainda que conservando-se +completamente estranho a elle. + +O dia estava ennevoado, e, para a estação, um pouco frio. + +Ligeira neblina envolvia as arvores. No espaço passava como que uma +nuvem de melancholia. + +As duas carruagens chegaram á clareira destinada ao duello um pouco +antes das onze horas. + +As testemunhas e o adversario d'Antonino não tinham chegado ainda. O +conde não se apeiou. + +Apertou com força a mão do filho, quando Antonino desceu, e não +pronunciou uma só palavra. + +Pouco depois, porém, quando o conde de Bauriac foi buscar os sabres, o +velho, que tremia, não conseguiu entregar as armas á testemunha de seu +filho, tanta era a sua commoção. + +A carruagem conduzindo Lauretto Mina, as testemunhas e o medico do +theatro não se fez esperar. + +As quatro testemunhas approximaram-se com os chapeus nas mãos. + +Os dois adversarios olharam-se sem se cumprimentar. + +No rosto de Lauretto percebia-se uma alegria arrogante. + +O d'Antonino conservava-se impassivel e digno. + +Nobillet e Gressier, noviços e quasi incorrectos em assumptos d'aquella +natureza, deixaram que Bauriac e Chazeuil fizessem o que entendessem. + +A escolha das armas foi tirada á sorte, conforme tinham convencionado. + +A sorte designou os sabres de Lauretto Mina. + +Depois de procederem á medição das laminas, o conde de Bauriac disse +para os dois adversarios: + +--Podem conservar as luvas de passeio, se quizerem. + +Mas tanto Antonino como Lauretto tinham já descalçado as luvas. + +Despiram os sobretudos e os casacos. + +As quatro testemunhas tomaram os respectivos logares. + +--Vamos, meus senhores, disse Bauriac. + +Os dois adversarios cumprimentaram-se com os sabres, e cahiram em guarda. + +Nos primeiros minutos como que se tactearam indecisos. + +Depois deram a conhecer o jogo. + +Antonino, solido e como que de bronze, conservava-se evidentemente n'uma +calculada defensiva. + +Prudente e desconfiado, seguia e vigiava o jogo de Lauretto, +contentando-se com _parar_, rapido, mas tranquillo e frio, os botes do +adversario. + +O brilho do seu olhar implacavel causava perturbações ao tenor. + +Lauretto, ao contrario do visconde, esgremia com extraordinaria presteza. + +Parecia desconcertar-se, e até por vezes se descobria. + +Simulava ataques imprudentes, mas coisa alguma fazia com que o visconde +mudasse de tactica. + +O tenor, pouco depois, estava visivelmente cançado. + +Gotas de suor perlavam-lhe a fronte larga, onde os cabellos, d'um loiro +pallido, ondeavam. + +O assalto durava já por vinte minutos, quando Bauriac disse: + +--Podem descançar, meus senhores. + +Lauretto vestiu o sobretudo. + +O visconde conservou-se em mangas de camisa, com os braços cruzados +sobre o peito. + +Ao cabo de sete ou oito minutos, o barão de Chazeuil, olhando para +Lauretto, disse-lhe: + +--Quando quizer. + +Ao segundo assalto, o tenor continuou não tendo vantagens sobre o visconde. + +Perguntava a si proprio se o plano d'Antonino não seria esgotar-lhe as +forças, sem duvida menos resistentes do que as do athletico bretão. Mas +se assim fosse o duello devia prolongar-se por muito tempo sem resultado +definitivo, porque os momentos do descanço que as testemunhas +concederiam aos combatentes bastavam para Lauretto se refazer. + +Depois de muitos minutos passados, foi ainda Bauriac quem disse: + +--Podem descançar. + +O segundo descanço foi apenas de cinco minutos. + +Lauretto tinha quasi a certeza que Antonino atacaria n'aquelle terceiro +assalto, para pôr fim ao duello. + +Portanto começou a esgrimir com toda a presteza, como fizera ao principio. + +Dirigiu um bote ao visconde, mas Antonino _parou-o_ e _ripostou_ com +energia. + +Depois conservaram-se por alguns segundos immoveis, espiando-se, +tacteando os ferros, com sensivel crescimento d'irritação mutua. + +Repentinamente Antonino fez um movimento e cahiu a fundo, com a rapidez +do raio. + +Lauretto _parou em prima_ e _ripostou_. + +Foi tão rapido o jogo do tenor que o visconde não teve tempo de _parar_ +e foi _tocado_.. + +Ao mesmo tempo, porém, com um bote fortissimo, Antonino attingiu +Lauretto, trespassando-o. + +O visconde cahiu desmaiado, e o tenor cahiu morto. + +Despujolles precipitou-se para Antonino, e descobriu-lhe o ferimento. + +--Justamente a duas polegadas da cicatriz feita por Pozzoli! disse o dr. + +O conde de Bizeux correu, afflicto, mas Despujolles gritou-lhe: + +--Socegue! d'esta vez o ferimento não é grave! D'aqui a oito dias está +curado! + +Durante esse tempo o medico do theatro constatava a morte de Lauretto +Mina, que Nobillet e Gressier, aterrados, transportaram para a carruagem +que os conduzira. + +Duas horas depois a carruagem d'Antonino parava á porta da casa da rua +de Boudreau. + +Despujolles foi o primeiro a descer, para prevenir Laura. Logo que +abriram a porta, ella correu para o medico. + +Felizmente, porém, o aspecto de Despujolles indicava uma alegria +extraordinaria. + +--Ah! Antonino está vivo, não é verdade? perguntou-lhe Laura. + +--O que!... Pois sabia? + +--Adivinhei... Mas diga-me, elle está ferido?... + +--Está, ligeiramente. Se assim não fosse eu não estaria alegre. Já vae ver. + +Alguns instantes depois, Laura, ajoelhada junto do leito em que fôra +deitado Antonino, que tinha entre as suas as mãos de seu pae, dizia-lhe: + +--Meu querido Antonino!... é a terceira vez que expões a tua vida por +minha causa! + +--E agora abandonarás tudo por mim? + +--Ah! sim! E não terás completamente apenas a esposa, terás tambem a mãe! + + +FIM + + + + + +End of Project Gutenberg's O Romance d'uma cantora, by Alfredo Sirven + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE D'UMA CANTORA *** + +***** This file should be named 32380-8.txt or 32380-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/3/8/32380/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/32380-8.zip b/32380-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..a7d33c1 --- /dev/null +++ b/32380-8.zip diff --git a/32380-h.zip b/32380-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..5cc9d8a --- /dev/null +++ b/32380-h.zip diff --git a/32380-h/32380-h.htm b/32380-h/32380-h.htm new file mode 100644 index 0000000..99758de --- /dev/null +++ b/32380-h/32380-h.htm @@ -0,0 +1,10301 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" + "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>Romance d'uma Cantora, por Alfredo Sirven</title> + <meta name="Author" content="Alfred Sirven, 1838-?"> + <meta name="Publisher" content="Typographia do «Diario Illustrado»"> + <meta name="Date" content="1895"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1, h2 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px #000;} + blockquote {margin-left: 20%;} + .direita {text-align: right;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of O Romance d'uma cantora, by Alfredo Sirven + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Romance d'uma cantora + +Author: Alfredo Sirven + +Translator: Salvador de Medonça + +Release Date: May 15, 2010 [EBook #32380] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE D'UMA CANTORA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + + +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align:center;"><img src="images/capa.png" alt="Capa do Livro" border="0" width="60%"></p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.2em; color: white; background-color: black;"><small>NOVA</small><br> +B<small>IBLIOTHECA</small> E<small>CONOMICA</small><br> +<small>LEITURA PARA TODOS</small></p> + +<p style="font-size: 0.6em;">Travessa da Queimada, N.º 35<br> +LISBOA</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">Alfredo Sirven</p> + +<p style="font-size: 1.4em;">O ROMANCE</p> + +<p>D'UMA</p> + +<p style="font-size: 1.8em;">CANTORA</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">TRAD. DE S. DE MENDONÇA</p> + +<p> </p> +<p> </p> + +<p>PORTUGAL 100 réis</p> + +<p>BRAZIL 600 réis</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="font-size: small; margin: 10%; text-indent: 1em;"> +<p style="text-align:center;font-size: 1.2em;"><b>CORREIO DA EUROPA</b></p> + +<p style="text-align:center;"><b>O jornal mais antigo que de Portugal se destina +ao Brazil</b></p> + +<p style="text-align:justify;">Completamente imparcial, sem se envolver na +politica brazileira; com largas secções do movimento official portuguez, dos +acontecimentos do estrangeiro e da vida nacional em todas as provincias, +acompanhando com a gravura todo esse noticiario.</p> + +<p style="text-align:justify;">Vai (em 1897) no seu 18.º anno.</p> + +<p style="text-align:justify;">Nunca alterou os seus preços, não obstante a +situação cambial.</p> + +<p style="text-align:center;"><b>ASSIGNATURAS</b></p> + +<p style="text-indent: 2em;"><em>NO BRAZIL:</em></p> + +<p>Anno, 5$000 réis fracos; Semestre, 3$000 réis</p> + +<p style="text-align:center;">Numero avulso, 200 réis</p> + +<p style="text-indent: 2em;"><em>EM PORTUGAL:</em></p> + +<p>Anno........... 2$000 réis</p> + +<p style="text-align:center;"><b>ANNUNCIOS</b></p> + +<p>Cada linha, na respectiva secção, 40 réis fortes. Na 1.ª pagina, 200 réis. +</p> + +<p>Artigos e communicados contractam-se:</p> + +<p>EM LISBOA—Travessa da Queimada, 135.</p> + +<p>NO RIO DE JANEIRO—No escriptorio, Rua Sete de Setembro, n.º +89—1.º andar.</p> + +<p> </p> + +<p> </p> +</div> + +<p><span class="pn">{1}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.8em;">O ROMANCE D'UMA CANTORA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{2}</span></p> + +<div> +<p style="text-align:center; font-size: 1.4em;">Nova Bibliotheca Economica</p> + +<p style="text-align:center;font-size: 1.2em;">LEITURA PARA TODOS</p> + +<p style="text-align:center;">O MAIOR SUCCESSO DE EDITORAÇÃO EM PORTUGAL!!!</p> + +<p style="text-align:center;"><big><strong>100 réis</strong></big> cada volume +de 300 paginas, em media</p> + +<p style="text-align:center;">DOIS VOLUMES POR MEZ</p> + +<p style="text-align:center;">Nas provincias, 120 réis por volume, franco de +porte.</p> + +<p style="text-align:center;">Aos revendedores, 20 por cento de commissão</p> + +<hr style="width:10%"> + +<p style="text-align:center;">ROMANCES PUBLICADOS</p> + +<div style="font-size: small;"> +<p>1—Luiz Noir—A Estalagem Maldita, trad. de C. Dantas.</p> + +<p>2—Eugenio Chavette—Os companheiros do crime, trad. de A. +Sarmento.</p> + +<p>3—Visconde Henri de Bornier—Romance d'um auctor dramatico, trad. +de Portugal da Silva.</p> + +<p>4—Mauricio Drack—A Mestra, trad. de N. de Bulhão Pato.</p> + +<p>5—Edgar Montell—João das Galés—traducção de C. Dantas.</p> + +<p>6—Eugenio Chavette—Lili, Tútú e Babette—trad. de A. +Sarmento.</p> + +<p>7—Arsenio Houssaye—Joanna d'Armaillac, trad. de H. de +Oliveira.</p> + +<p>8—Paulo Féval—A rainha dos estudantes, trad. de S. de +Mendonça.</p> + +<p>9—Mayne-Reid—Os rebeldes, trad. do inglez, por M. Leal.</p> + +<p>10—Victor Perceval—Uma mulher perigosa, trad. de S. de +Mendonça.</p> + +<p>11—Mauricio Talmeyer—Um drama nas minas, trad. de A. Sarmento</p> + +<p>12—Heitor Malot—Lua de mel, trad. de Antonio Bandeira.</p> + +<p>13—Alfredo Sirven—O romance d'uma cantora, trad. de Segurado de +Mendonça. </p> +</div> + +<p style="text-align:center;">A SEGUIR:</p> + +<div style="font-size: small;"> +<p>14—F. Champsaur—Uma excentrica, trad. de Ruy da Cunha.</p> +</div> +<hr style="width:10%"> + +<p style="text-align:center;"><b>ESCRIPTORIO: TRAVESSA DA QUEIMADA, 35</b></p> + +<p style="text-align:center;"><small>LISBOA</small></p> +</div> + +<p><span class="pn">{3}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.2em;">Alfredo Sirven</p> + +<hr style="width: 60%;"> + +<p style="font-size: 1.4em;">O ROMANCE</p> + +<p>D'UMA</p> + +<p style="font-size: 2em;">CANTORA</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">TRAD. DE S. DE MENDONÇA</p> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;"><img src="images/logo.png" alt="Logotipo do editor" border="0"></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.2em;">LISBOA</p> + +<p>1895</p> +</div> + +<p><span class="pn">{4}</span></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<hr> + +<p style="text-align:center;">TYPOGRAPHIA DO «DIARIO ILLUSTRADO»<br> +<small>35—Travessa da Queimada—35<br> +LISBOA</small><span class="pn">{5}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1><a name="SECTION0010">O ROMANCE D'UMA CANTORA</a></h1> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0011">I<br> +A catastrophe</a></h2> + +<p>—Apaixonado por uma cantora... por uma mulher do theatro... eu?!... +Ora adeus!... não pode ser!... Hei de ver isso!</p> + +<p>Assim monologava o visconde Antonino de Bizeux, acabando de vestir-se.</p> + +<p>E sorria desdenhosamente, tomando um aspecto arrogante, como se quizesse +illudir-se sobre o estado do seu coração, persuadindo-se estar curado da paixão +que sentira, nos ultimos tempos, despertar em si.</p> + +<p>—Hei de ver isso... hei de ver isso!... repetia,<span +class="pn">{6}</span> procurando qualquer coisa pelo quarto, destrahidamente, +porque nada lhe faltava, a não ser que chegasse a hora d'ir para a Opera.</p> + +<p>Os labios diziam: <em>hei de ver</em>, mas o coração tinha visto já.</p> + +<p>Amava Linda, a <em>estrella</em> do dia, a diva que, do ceu da Opera, +scintillava sobre Paris fascinado.</p> + +<p>O visconde obtivera-se d'assistir ás ultimas quinze representações, fugindo +assim á fascinação que a grande artista exercia sobre elle.</p> + +<p>Tratava, pelo afastamento, o começo da paixão, que o assustava.</p> + +<p>Durante esse tempo violentára-se, domára o coração com a grande força de +vontade que possuia, e julgava-se curado, por isso.</p> + +<p>O theatro da rua Le Peletier annunciára, para aquella noite, um magnifico +espectaculo, em beneficio das victimas d'um sinistro recente.</p> + +<p>Cantavam-se os <em>Huguenottes</em>, desempenhando Laura Linda, pela +primeira vez, a parte de Valentina.</p> + +<p>Toda a primeira sociedade parisiense devia assistir á representação, porque +no camaroteiro não restava um só bilhete.</p> + +<p>Antonino ia tornar a ver Linda triumphante, acclamada.</p> + +<p>Se procurava uma occasião para experimentar-se, não podia encontral-a +melhor.<span class="pn">{7}</span></p> + +<p>—Irei aos <em>Huguenottes</em>! resolvera elle, depois de curta +discussão comsigo mesmo. Sem duvida ficarei certo de que estou completamente +curado, mas se, por acaso, ao ver Linda sentir a mesma impressão, +simultaneamente dolorosa e suave, de que necessito defender-me, juro que ámanhã +de manhã partirei para Saint-Malo, e que só no começo do inverno voltarei a +Paris.</p> + +<p>E foi para a Opera, onde o esperava a sua cadeira d'assignatura, abandonada +por mais de quinze dias.</p> + +<p>Trocou apertos de mão e palavras de cumprimento com alguns conhecidos que +encontrou, e dois ou tres amigos disseram-lhe familiarmente:</p> + +<p>—Adeus, formoso bretão!</p> + +<p>Antonino era, efectivamente, um bello rapaz.</p> + +<p>A sua estatura d'athleta, admiravelmente proporcionada, conservava a mais +completa linha d'elegancia.</p> + +<p>Louro, olhos d'um verde escuro, que semelhavam ser castanhos, era o +verdadeiro modelo do celta moderno: alliava a força á distincção.</p> + +<p>O espectaculo teve o brilhantismo ordinario das solemnidades da Opera.</p> + +<p>Todos se recordam ainda d'aquella noite, que se tornou celebre por uma +d'essas catastrophes que gravam uma data com traços indeleveis, mesmo na +memoria d'esse grande esquecido que se chama Paris.<span class="pn">{8}</span> +</p> + +<p>Quando Linda entrou em scena, Antonino estremeceu.</p> + +<p>Não se fita impunemente uma pessoa, que se julga inimiga, depois de se ter +deixado de a ver por alguns dias.</p> + +<p>Ella cantou, e o visconde sentiu-se arrebatado julgando, comtudo, que fôra +apenas a artista que o emocionára.</p> + +<p>Applaudiu-a delirantemente, como de resto todos os espectadores, porque +Laura, afinal,—tinha de confessal-o,—possuia raro talento.</p> + +<p>Durante a representação declarou a si proprio que não vira Linda, apenas +admirára Valentina.</p> + +<p>O tempo que o espectaculo durou passou-se para elle como se fosse presa de +inconsciente embriaguez.</p> + +<p>Por fim a grande ovação rebentou, imponente, com a furia da emoção que +trasborda.</p> + +<p>Linda foi completamente coberta de flores, e chamada repetidas vezes, +apparecendo sempre sorridente, formosissima.</p> + +<p>Antonino sentiu um mal estar indefinido, e uma alegria doida.</p> + +<p>E conservava-se sentado na sua cadeira, n'uma immobilidade involuntaria, +incapaz de levantar-se, de seguir a multidão que sahia.</p> + +<p>Passado algum tempo olhou em volta; a sala estava deserta.<span +class="pn">{9}</span></p> + +<p>Dos corredores chegava um ruido confuso, produzido pelos ultimos +espectadores, que sahiam.</p> + +<p>Que fazia elle alli, diante do panno cahido; sob o lustre meio apagado?</p> + +<p>Um porteiro foi convidal-o a retirar-se.</p> + +<p>Como não recebesse resposta e julgasse o visconde a dormir, saccudi-o.</p> + +<p>Antonino estremeceu novamente, e no primeiro momento sentiu desejos de +desancar o porteiro.</p> + +<p>Depois, pensando melhor, levantou-se e dirigiu-se para a porta da sahida. +</p> + +<p>Antes de transpôr o limiar, olhou uma ultima vez para o lado do palco, e +retrocedeu, entrando novamente na platéa.</p> + +<p>Parecera-lhe ter visto um tenue fio de fumo sahir do soalho.</p> + +<p>Approximou-se, arrastando o porteiro, a quem disse, sobresaltado:</p> + +<p>—Olhe!... alli!...</p> + +<p>—Que desgraça!... Fujamos!...</p> + +<p>Não havia que duvidar.</p> + +<p>O fio de fumo engrossava progressivamente.</p> + +<p>Antonino correu para o corredor, dando o grito de alarme.</p> + +<p>Duas ou tres costureiras do theatro, que sahiam, suppuzeram-o doido, mas +atraz do visconde corria o porteiro, gritando:<span class="pn">{10}</span></p> + +<p>—Fogo!... Fogo:!...</p> + +<p>As costureiras, repetindo aquelle grito, correram para fóra do theatro.</p> + +<p>Ao perceber que havia fogo no palco o visconde lembrou-se de Linda, +immediatamente.</p> + +<p>A cantora devia estar ainda no seu camarim. Seria prevenida a tempo de se +poder salvar?</p> + +<p>As portas que communicavam com o palco, estavam fechadas.</p> + +<p>O visconde bateu a uma, infrutiferamente, meio desvairado, e respirando já a +muito custo por entre o espesso fumo, que augmentava, enchendo os corredores. +</p> + +<p>Lembrou-se então da porta d'entrada para os artistas, que abria para a rua +Drouot, na outra extremidade do edificio.</p> + +<p>Sahiu do theatro e deu volta, empurrando, na passagem, os bombeiros que +chegavam.</p> + +<p>Chegado á porta, subiu, a dois e dois, os degraus da escada que conduzia aos +camarins dos artistas.</p> + +<p>O fumo era ainda mais espesso d'aquelle lado.</p> + +<p>Um bico de gaz, conservado acceso por acaso, rompia a custo, com claridade +amarellada, a densidade baça d'aquella especie de felpa cinzenta, que enchia os +corredores, pouco a pouco.</p> + +<p>Sombras corriam para todos os lados, espavoridas,<span +class="pn">{11}</span> sem responder ás perguntas afflictas de Antonino, sem as +ouvir.</p> + +<p>Como nunca entrara no palco da Opera, o visconde não sabia onde ficavam os +camarins.</p> + +<p>Bateu á primeira porta que encontrou, forçou-a violentamente, sem dar tempo +a que lhe respondessem, e entrou.</p> + +<p>Uma mulher atravessava n'esse momento o corredor, gritando com desespero: +</p> + +<p>—Soccorro!... soccorro!... A senhora está incommodada!</p> + +<p>—Quem?... Linda?... perguntou anciosamente Antonino.</p> + +<p>—Sim!... O medico... onde está o medico?</p> + +<p>—O camarim?... Diga-me onde é o camarim!</p> + +<p>Mas a mulher não ouviu a pergunta; desapparecera por entre o fumo, cada vez +mais espesso.</p> + +<p>Repentinamente apagou-se o unico bico de gaz, que ainda ardia.</p> + +<p>O visconde ficou mergulhado n'uma escuridão pesada, completa, em que se +desenvolvia um calor violento.</p> + +<p>Caminhou ás apalpadellas, batendo com as mãos nas paredes e chamando com voz +forte:</p> + +<p>—Linda!... Linda!... Onde está?</p> + +<p>Mas ninguem lhe respondia.</p> + +<p>Continuou a caminhar, gritando sempre, cada vez<span class="pn">{12}</span> +com mais força, e arrombando, enraivecido, todas as portas que encontrava.</p> + +<p>Repentinamente, pareceu-lhe ouvir um gemido fraco.</p> + +<p>Procurou nas algibeiras uma caixa de phosphoros, e, encontrando-a, accendeu +um.</p> + +<p>A alguns passos de distancia viu uma porta aberta.</p> + +<p>Entrou por ella precipitadamente.</p> + +<p>Era o camarim de Linda. A cantora estava caida por terra, pallida, meio +desmaiada.</p> + +<p>O phosphoro que Antonino tinha na mão, apagou-se.</p> + +<p>Com um outro, tentou accender o gaz, não conseguindo, felizmente o seu +designio.</p> + +<p>—Onde estou eu? perguntou Laura de repente.</p> + +<p>—Venha, venha! respondeu o visconde com voz imperiosa.</p> + +<p>Guiado pela voz de Linda, approximou-se d'ella, tentando tomal-a nos braços +para a conduzir.</p> + +<p>—Deixe-me, senhor, eu posso caminhar... Basta que me dê a mão.</p> + +<p>Pela porta aberta entrou no camarim uma claridade sinistra.</p> + +<p>Fumo azulado sahia por entre as fendas do soalho e subia até ao tecto, onde +se immobilisava em camadas cinzentas.<span class="pn">{13}</span></p> + +<p>Antonino e Laura sahiram do camarim e embrenharam-se nos corredores, onde +dançavam já as chammas do incendio.</p> + +<p>Apesar da natural turbação que o sinistro lhe causava, Antonino +experimentava deliciosa sensação por ter na sua a mão de Laura.</p> + +<p>Subitamente uma lingua de fogo subiu verticalmente pela escada que dava +sahida para a rua Drouot, lambendo, com poderosa tranquillidade, o tecto que +lhe ficava superior. O calor abrazava.</p> + +<p>—É muito tarde para sahirmos por aqui, disse Antonino sem perder a +presença de espirito. Necessitamos passar á platéa, atravessando o palco.</p> + +<p>—Vamos por aqui, respondeu Laura. Desceremos a escada que conduz á +scena. </p> + +<p>O visconde seguiu a cantora.</p> + +<p>Dirigiram-se para a escada de serviço.</p> + +<p>Por entre a claridade avermelhada, viram os bombeiros correndo em todas as +direcções, d'archotes em punho, dando indicações uns aos outros, em voz breve. +</p> + +<p>Fumo espesso, vindo de baixo, attingia toda a altura das abobadas, pela +potencia do jacto, dilatando-se em silencio, como sopros quentes vomitados por +boccas invisiveis.</p> + +<p>Do palco partia um ruido continuo de fornalha bem alimentada, que solta +crepitamentos seccos.<span class="pn">{14}</span></p> + +<p>O incendio, que fomentava havia duas horas, invadiu, repentina e +invencivelmente, a nave immensa da platéa.</p> + +<p>A chamara que sahiu pelo buraco do ponto inflammou o panno de bocca, que +pouco depois misturava as suas cinzas ao fumo.</p> + +<p>O fogo chegou ás torrinhas, lambendo, na sua passagem, as decorações do +salão, cujo hemicyclo dentro em pouco foi tomado.</p> + +<p>—Saiam todos! gritou um chefe de bombeiros aos seus homens; saiam +todos! Nada temos que fazer aqui... O incendio é mais forte que nós!</p> + +<p>O soalho do palco queimava os pés dos que sobre elle caminhavam.</p> + +<p>—Venha depressa, minha senhora! supplicou Antonino. Necessitamos +saltar para o espaço destinado á orchestra, e d'aqui a dois minutos será +tarde.</p> + +<p>—Ainda cá está alguem? perguntou o chefe dos bombeiros, que ficara +para traz.</p> + +<p>—Aqui, estão aqui duas pessoas, respondeu o visconde. Ajude-me a +salvar uma mulher.</p> + +<p>O bombeiro saltou da platéa para o palco e disse a Antonino:</p> + +<p>—Eleve-se a pulso até esse camarote de bocca; logo que lá esteja, eu +levantarei esta senhora, por fórma que possa agarral-a.</p> + +<p>O visconde seguiu o conselho, e depois, encostando<span +class="pn">{15}</span> o peito na borda do camarote, estendeu os braços para +Laura, que, elevada pelo bombeiro, poude agarrar-se ao seu salvador.</p> + +<p>Logo que os viu no camarote, o bombeiro disse-lhes:</p> + +<p>—Agora fujam depressa, porque...</p> + +<p>O desgraçado não acabou.</p> + +<p>O soalho, completamente carbonisado, cedeu ao peso do corpo do homem, que +repentinamente se sentiu envolvido pelas chammas.</p> + +<p>—Soccorro!... gritou elle. Quem me acode!...</p> + +<p>Como as taboas não tinham quebrado completamente, conseguiu depois de muitos +esforços, retirar o corpo d'aquella solução de continuidade em que cahira, e +muito queimado, approximou-se do camarote onde ainda estavam Laura e o +visconde, a quem estendeu os braços, implorando salvação.</p> + +<p>Mas a chamma seguiu-o, incendiando-lhe o fato.</p> + +<p>Antonino inclinou-se novamente para o palco, estendendo-lhe as mãos.</p> + +<p>—Ajude-me!... não me abandone!... dizia o infeliz.</p> + +<p>E deligenciava chegar até á mão do visconde, que por fim logrou agarrar.</p> + +<p>De repente, a taboa em que se firmava, quebrou e á perda inesperada +d'aquelle appoio fez com que Antonino perdesse o equilibrio.<span +class="pn">{16}</span></p> + +<p>Laura percebeu o perigo; lançou os braços, tornados fortes pela imminencia +do perigo, em volta do tronco do visconde, puchando por elle com força.</p> + +<p>Apesar das queimaduras o fazerem soffrer bastante, Bizeux esforçou-se por +puchar para o camarote o infeliz bombeiro, que soltava gritos roucos.</p> + +<p>Subitamente o homem fez um movimento brusco, e o visconde sentiu +escorregar-lhe da mão o pulso do desditoso, que cahiu no meio d'aquella +fornalha monstro.</p> + +<p>O desgraçado soltou ainda estas palavras: Meus queridos filhos!</p> + +<p>E mais nada!</p> + +<p>Tomado d'espantoso horror, Antonino voltou-se para Laura.</p> + +<p>A cantora perdera os sentidos.</p> + +<p>O visconde estava meio asphixiado.</p> + +<p>Parecia-lhe que respirava fogo.</p> + +<p>Nas pupillas dilatadas e quasi sem vista, sentia milhares de picadas +d'agulhas.</p> + +<p>Envolveu a bocca de Laura com uma mantilha, e elle proprio tomou entre os +dentes o lenço d'assoar, cerrando os labios como que para preservar do oxido de +carbone, desenvolvido pelo incendio, os seus robustos pulmões.</p> + +<p>Em seguida, chamando a si toda a sua energia, levantou nos braços a cantora, +como se ella fosse uma<span class="pn">{17}</span> creança, e sahiu do +camarote, percorrendo o corredor.</p> + +<p>Aquella parte do theatro era-lhe conhecida.</p> + +<p>O incendio desenvolvia-se no salão, com toda a intensidade.</p> + +<p>O lustre abateu, produzindo ruido enorme.</p> + +<p>A grande escadaria estava ainda praticavel.</p> + +<p>O visconde desceu por ella apressadamente, com as sobrancelhas e os cabellos +queimados.</p> + +<p>Um minuto depois chegava á rua, acclamado pela multidão enthusiasmada.</p> + +<p>N'esse instante abateu o tecto do salão.</p> + +<p>Pelo espaço espalhou-se infinita quantidade de faulhas.</p> + +<p>O incendio pavoroso, sacudindo o seu pennacho de fumo ardente, polvorisado +de faiscas, alumiou sinistramente a cidade.</p> + +<p>A claridade da lua extinguiu-se ante a intensa vermelhidão das chammas.</p> + +<p>Ao longe, sobre os telhados, o ondeado das labaredas, que se distanciavam em +espiraes phantasticas, fazia dançar as chaminés uma dança macabra, no espaço +afogueado.<span class="pn">{18}</span> <span class="pn">{19}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0012">II<br> +Antonino de Bizeux</a></h2> + +<p>Antonino de Bizeux residia em Paris havia apenas dezoito mezes.</p> + +<p>Até então vivera sempre na Bretanha, com seu pae, no seu palacio de +Saint-Malo, ou, na epoca da caça, no castello que possuia proximo de Rascoff. +</p> + +<p>O visconde viajára muito.</p> + +<p>Conhecia toda a Europa e as costas mediterraneas da Asia e da Africa.</p> + +<p>Entrára na vida parisiense conservando todas as suas illusões, mas possuido +do ardente desejo de se humanisar, como elle dizia, de se tornar distincto na +distincta sociedade, de que passava a fazer parte.<span class="pn">{20}</span> +</p> + +<p>Caracter firme, sincero, honrado—honrado até á ingenuidade—os +seus pensamentos eram purissimos, e na physionomia transparecia-lhe sempre o +que pensava.</p> + +<p>Na sociedade que frequentava, o visconde produzira primeiro o effeito d'um +phenomeno, prestando-se ao desfructe, sem dar por isso.</p> + +<p>Depois, pouco a pouco, fôra-se limpando da sua simplicidade primitiva e +tomando pé na encapellada torrente parisiense.</p> + +<p>Comtudo conservava o fundo de lhaneza natural, que lhe dava um certo cunho +d'originalidade, e lhe valia um verdadeiro successo junto das mulheres, as +eternas curiosas.</p> + +<p>Tinha poucos ou nenhuns amigos.</p> + +<p>O seu nome e a sua fortuna, porém, fizeram com que adquirisse innumeros +conhecimentos na alta roda, onde zombavam, apesar de o estimarem, d'esse +retardado da civilisação, a quem chamavam <em>formoso bretão</em> e +<em>selvagem</em>.</p> + +<p>Selvagem era elle seguramente, não porque lhe repugnasse o prazer, mas +porque, entregando-se aos gosos que constituem meros passatempos, conservava +puro o coração.</p> + +<p>Sobre o ponto <em>mulheres</em>, absolutamente sem importancia para homens +que frequentavam a sociedade em que elle vivia, o visconde pensava e +procedia<span class="pn">{21}</span> contrariamente aos seus companheiros, +porque elles tinham os seus amores, e Antonino só poderia ter um amor.</p> + +<p>Em poucos mezes saboreára todos os prazeres possiveis sem se embriagar; +estivera exposto a todas as seducções sem ser seduzido.</p> + +<p>Não pertencia ao numero infinito de inactivos, que, segundo a phrase do seu +compatriota Chateaubriand, atravessam a vida bocejando, e no seu dolente +aborrecimento só teem uma ambição e um sonho: divertirem-se.</p> + +<p>O visconde possuia solida instrucção, fallava duas ou tres linguas; era um +litterato e um <em>dilettante</em>.</p> + +<p>Amava a arte sob todas as suas variadas fórmas, mas sobretudo era apaixonado +pela musica.</p> + +<p>Por essa razão tornou-se dentro em pouco um dos mais assiduos +<em>habitués</em> da Opera.</p> + +<p>A sua cadeira raras vezes ficava vazia.</p> + +<p>N'essa epoca, como já dissemos, brilhava na Opera Laura Linda, estrella de +primeira grandeza que eclipsava todas as outras.</p> + +<p>Antonino era ardente admirador da diva.</p> + +<p>Adorava-lhe a voz e a expressão maravilhosa do canto.</p> + +<p>Mas, coisa extraordinaria, passára muito tempo sem reparar que Laura era +formosissima.</p> + +<p>Poderia passar dias inteiros a admirar a grande<span class="pn">{22}</span> +artista interpretando as obras dos mestres, que, se a encontrasse na rua, não +voltaria a cabeça para a seguir com o olhar um minuto mais do que a qualquer +outra mulher.</p> + +<p>De resto, a sua admiração pela cantora jámais se manifestára de fórma a dar +nas vistas.</p> + +<p>Nem um <em>bouquet</em> offerecido, nem o menor transporte de enthusiasmo. +</p> + +<p>Limitava-se a applaudil-a, semelhando ser egoista do seu enlevo.</p> + +<p>Os conhecidos commentavam a seu modo a assiduidade do visconde nas +representações em que Laura tomava parte, e o recolhimento quasi extatico +d'elle a partir do momento em que a cantora entrava em scena.</p> + +<p>Todos consideravam Antonino apaixonado pela diva.</p> + +<p>A primeira vez que uns amigos, por brincadeira, lhe disseram que o julgavam +louco por Laura, elle admirou-se, mas nem tentou defender-se, convencido de que +os seus interlocutores não comprehendiam a que sentimento obedecia.</p> + +<p>Limitou-se a concordar, sorrindo, que as apparencias justificavam as +suspeitas.</p> + +<p>Mas a brincadeira produziu no visconde o effeito d'uma revelação.</p> + +<p>A datar d'esse dia consultou o coração, espiando<span class="pn">{23}</span> +todos os variados sentimentos que experimentava, perguntando a si proprio se os +amigos não tinham, antes d'elle e sem que de tal desconfiasse, dado o nome +exacto á attracção que Laura Linda exercia sobre elle.</p> + +<p>A diva, pelo seu lado, reparára n'aquelle espectador que todas as noites, da +sua cadeira, a seguia com olhar ardente.</p> + +<p>De resto, tinham-lhe apontado o visconde como uma das suas victimas.</p> + +<p>Deixára que lhe contassem tudo que constava do caracter do seu adorador, da +reputação de selvageria de que elle gosava, mas não admittira que Antonino +estivesse apaixonado por ella.</p> + +<p>Fosse intenção ou simples desejo de ser admirada por aquella fórma, Laura +quasi adivinhava o que o visconde sentia, e agradecia-lhe intimamente a reserva +em que elle se conservava, reserva que desagradaria a qualquer outra.</p> + +<p>Uma noite,—é possivel que acabasse d'ouvir fallar d'elle,—como +tinha d'entrar em scena lentamente e em silencio, Laura fixou o visconde por +muito tempo.</p> + +<p>Áquelle olhar, todos os admiradores da diva se sentiram supplantados pelo +formoso bretão.</p> + +<p>O visconde, porém, longe de ficar satisfeito, parecia contrariado.<span +class="pn">{24}</span></p> + +<p>É provavel que a cantora percebesse isso, porque muitas vezes durante a +noite olhou para o visconde, constatando sempre que o seu olhar, apesar +d'inoffensivo, produzia n'elle a mesma impressão desagradavel.</p> + +<p>Até d'uma occasião o visconde levantou os hombros n'um movimento rapido, +como irritado por ella se esquecer por momentos do papel que desempenhava.</p> + +<p>Ao voltar ao seu camarim, Laura riu quando uma amiga lhe fallou d'Antonino. +</p> + +<p>—Apaixonado, aquelle?... Está enganada, disse ella. Será, quando +muito, um amador, e com certeza um homem extraordinario. Ha bocado olhei +algumas vezes para elle, que quasi protestou por eu me desviar do meu papel!</p> + +<p>N'essa noite Antonino sahiu do theatro descontente comsigo e com a diva.</p> + +<p>Parecera-lhe que ella se mostrara inferior ao talento que possuia, e +zangou-se comsigo proprio: por julgar ter sido a causa das distracções em que a +cantora incorrera.</p> + +<p>Entrevira pela primeira vez a mulher através da artista.</p> + +<p>Entrou em casa mal humorado, e por muitas horas a imagem de Laura passou +ante o seu olhar sonhador, brilhante como em scena e fixando-o sempre.<span +class="pn">{25}</span></p> + +<p>E os olhos fecharam-se-lhe, ao adormecer, suppondo estar ainda admirando a +diva.</p> + +<p>Pela manhã assaltou-o uma preoccupação.</p> + +<p>Porque olhara Laura para elle?</p> + +<p>Porque infringira a arte, porque commettera uma falta, a Linda, a +impeccavel?</p> + +<p>Á medida que reflectia, o ser palpavel, a belleza material, a mulher, +absorvia-lhe imaginação.</p> + +<p>Quando deu por isso encolerisou-se, e, só no seu quarto, disse alto, +despeitado, quasi furioso:</p> + +<p>—Não quero!</p> + +<p>No dia seguinte foi para Opera como de costume, mas inquieto, perplexo, e +pensando não voltar lá se, á entrada de Laura, sentisse a mais ligeira +commoção.</p> + +<p>A diva entrou, saudada pelos applausos dos seus adoradores.</p> + +<p>Depois do primeiro acto Antonino sorriu dos seus terrores.</p> + +<p>Por mais que se interrogasse durante todo o tempo que o acto durára, só +encontrara em si o simples melómano.</p> + +<p>Comtudo a sua tranquilidade não era obsoluta.</p> + +<p>Apesar de tudo tremia a cada instante que ella o fixasse.</p> + +<p>A Linda não tivera a mais ligeira distracção, conservara-se sempre a artista +superior que nem um<span class="pn">{26}</span> segundo se esquece da +personagem que desempenha, e nem de passagem o seu olhar encontrara o do +visconde.</p> + +<p>Esta ultima circumstancia não passou despercebida a Antonino, e muitas vezes +lhe occorreu, primeiro sem o impressionar, e depois produzindo-lhe uma sensação +desagradavel, que não estava longe do despeito. A diva n'essa noite foi +surprehendente.</p> + +<p>Quando, no fim do ultimo acto, o applauso irrompeu, unanime, só Antonino não +deu o seu contingente de palmas ou flores.</p> + +<p>Assistiu á ovação contrariado, franzindo as sobrancelhas descontente, como +se soffresse com aquelle ligitimo triumpho da cantora.</p> + +<p>Entre outros ramos, cahiu aos pés da diva um, de lilazes brancos, lançado ao +proscenio por um espectador que estava proximo d'Antonino.</p> + +<p>Porque apanhou Laura aquelle ramo, primeiro que qualquer outro?</p> + +<p>E porque, ao apanhal-o, olhou e sorriu para o espectador que lh'o +offerecera?</p> + +<p>Qualquer explicaria o caso, dizendo comsigo que o lilaz seria a flor +preferida pela diva.</p> + +<p>O visconde, porem, é que não considerou explicavel o facto, e levantou-se da +sua cadeira, bruscamente, sahindo apressado para os corredores e seguindo para +casa sem demora.<span class="pn">{27}</span></p> + +<p>N'aquella noite teve febre.</p> + +<p>No dia seguinte, ao ouvir um amigo fallar de Linda, declarou que ella +declinava, que dera já o que tinha a dar, e que não tardaria em chegar a estado +de só poder ser contratada para theatros d'operetta.</p> + +<p>Por si, resolvera passar as noites na Comedia Franceza, porque, afinal, a +musica, era uma arte secundaria.</p> + +<p>Com effeito o visconde não appareceu na Opera durante duas semanas.</p> + +<p>Amava Laura.</p> + +<p>Como nunca amára, não comprehendia a razão do seu mal estar.</p> + +<p>Amava-a; os proprios esforços que fazia para estrangular a voz do coração +eram d'isso prova irrefutavel.</p> + +<p>Amava-a, e sentia-se ingenuo, pateta, simples.</p> + +<p>Pois não praticára a tolice de estremecer de raiva por um estranho lançar á +diva um ramo de que ella gostara?</p> + +<p>Amava-a... mas, em summa, tinha ainda força de vontade.</p> + +<p>Saberia asphixiar o mal que apenas despontava!</p> + +<p>Estava resolvido: não iria mais á Opera, não tornaria a ver a Linda, porque, +custasse o que custasse, tinha de vencer aquella paixão estupida!</p> + +<p>Quinze dias depois de proceder pela fórma que a<span class="pn">{28}</span> +si mesmo impozera, convenceu-se de que podia voltar á Opera sem perigo.</p> + +<p>Tinha a convicção de que se vencera; nada o impedia de voltar a assistir ao +seu divertimento predilecto.</p> + +<p>De resto, desejava colher a prova evidente da cura.</p> + +<p>Nem um só doente ha que, depois de estar por muito tempo preso no quarto, +não se sinta impaciente d'affrontar o ar livre, d'experimentar as suas forças. +</p> + +<p>Foi n'essas disposição confiantes que o visconde assistiu ao espectaculo da +Opera, depois do qual se deu o fatal sinistro que narrámos no capitulo +anterior.<span class="pn">{29}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0013">III<br> +Laura Linda</a></h2> + +<p>Na lucta contra o amor nascente, que se travava no coração d'Antonino, o +maior perigo, mas ao mesmo tempo o maior attractivo, era, mais do que o talento +de Laura e até mais do que a peregrina belleza da cantora, o que o visconde +sabia, porque todos o diziam, da vida e do passado da diva.</p> + +<p>Tinha então vinte e seis annos e havia sete que cantava em theatros.</p> + +<p>No apogeu da gloria, envolta n'uma atmosphera d'adorações e de sollicitações +de toda a natureza, a Linda regeitara vinte propostas de casamento, e ninguem +jamais lhe conhecera amante.<span class="pn">{30}</span></p> + +<p>A historia simples da sua vida explicava esse caso pouco vulgar.</p> + +<p>Laura era hespanhola.</p> + +<p>Seu pae, o celebre violinista José Marcia, descendia d'uma familia illustre +porque era o ultimo representante dos condes de Marcia.</p> + +<p>Nunca usara o titulo, do qual raramente fallava e sempre com uma especie de +despreso.</p> + +<p>Para elle só existia a arte, e considerava um grande artista superior a um +rei.</p> + +<p>De resto, era á arte que tudo devia, porque a antiga casa dos Marcias, era, +desde muito tempo, uma casa arruinada.</p> + +<p>O pae de José Marcia colhera os ultimos restos da fortuna patrimonial, mas a +grande paixão que tivera pela musica tudo lhe levára.</p> + +<p>O conde de Marcia suppunha-se um verdadeiro genio para a composição. O pouco +dinheiro que possuia gastava-o na publicação das suas obras.</p> + +<p>Vendeu a ultima quinta para fazer representar com luzimento, na Opera de +Madrid, uma partitura de que era auctor, e com a qual contava assegurar a sua +reputação e refazer a sua fortuna.</p> + +<p>A opera, porém, cahiu desastradamente na primeira noite em que subiu á +scena.</p> + +<p>Por felicidade seu filho José, a quem elle communicára<span +class="pn">{31}</span> o amor pela musica, tinha n'essa epocha vinte e cinco +annos e gosava já de grande e merecida reputação de violinista.</p> + +<p>Foi o filho que velou pela sustentação do pae.</p> + +<p>O velho melomano apenas tinha uma idéa fixa: desforrar-se.</p> + +<p>Compoz ainda duas ou tres operas; e a muito custo conseguiu o filho que elle +as guardasse n'uma gaveta, para que a apresentação d'ellas ao publico não lhes +levasse mais algum dinheiro.</p> + +<p>Comtudo José Marcia fingia admirar as composições paternas, por fórma que o +pobre velho morreu cheio d'illusões, legando-lhe confiadamente a realisação da +sua gloria posthuma.</p> + +<p>Não foi, porém, o pae, mas o filho quem conquistou a gloria dia a dia, a que +poderia ter junto a riqueza, se não houvesse uma coisa que elle despresasse +mais do que a nobreza: o dinheiro.</p> + +<p>Ganhou quantias importantissimas, mas como de ordinario as suas despezas +egualavam as receitas, quando não as ultrapassavam, é claro que jamais poderia +juntar um pequeno capital.</p> + +<p>E comtudo não esbanjava o dinheiro; apenas, como elle dizia rindo, não sabia +tratar dos seus negocios.</p> + +<p>Dava concertos em extremo lucrativos, mas deixava que o emprezario +embolsasse a maior parte dos ganhos.<span class="pn">{32}</span></p> + +<p>Era auctor d'um methodo celebre e gosava d'incontestada e incontestavel +reputação como professor, mas os seus discipulos predilectos não era os que +pagavam melhor, eram os que possuiam mais habilidade, e que d'ordinario não lhe +pagavam.</p> + +<p>Vem a proposito, contar uma historia de que riu toda a gente em Madrid.</p> + +<p>Um banqueiro riquissimo incumbiu José Marcia de leccionar particularmente um +filho, retribuindo-o principescamente.</p> + +<p>Por infelicidade não só o rapaz não tinha tendencia para a musica, como +tambem era um preguiçoso de primeira ordem, que só pegava no violino durante o +tempo das lições.</p> + +<p>Ao cabo d'um mez, José Marcia, impacientado, participou ao pae do seu +discipulo que as suas occupações não lhe promettiam continuar com a +leccionação. O banqueiro, ao receber este aviso, limitou-se a duplicar a +remuneração das lições.</p> + +<p>Marcia, tentado pelo lucro, continuou.</p> + +<p>Mas a tentação durou apenas uma semana.</p> + +<p>Finda ella, o distincto violinista escreveu o seguinte ao banqueiro:</p> + +<p>«Termino de vez com as lições, porque seu filho é extraordinariamente +estupido.»</p> + +<p>Vivia ainda o pae quando Marcia casou com a que devia ser mãe de Laura.<span +class="pn">{33}</span></p> + +<p>Era filha d'um relojoeiro que vivia no mesmo predio.</p> + +<p>Á falta de dote possuia rara belleza.</p> + +<p>Elle estava longe de ser bello, e fortuna não a tinha tambem, mas, como o +rouxinol na primavera, conquistou o amor da que devia ser sua mulher com o +canto surprehendente do seu violino.</p> + +<p>A joven passava horas a escutal-o, embevecida.</p> + +<p>O artista pediu em casamento aquella sua sincera admiradora, que foi esposa +dedicada, e a melhor e a mais terna das mães.</p> + +<p>Laura foi creada pela mãe na adoração do pae, e pelo pae na adoração da +arte.</p> + +<p>Possuindo raros dotes vocaes, o pae fez d'ella uma artista completa.</p> + +<p>Quiz tambem ensinar-lhe a tocar violino, mas ella tinha um outro instrumento +melhor: a voz.</p> + +<p>A mãe jamais consentiu que Laura entrasse para o theatro.</p> + +<p>A sua prudencia inquieta, que o marido alcunhava de burguezismo, considerava +o palco como um logar de perdição.</p> + +<p>Parecia-lhe que a filha, a quem transmittira toda a sua bellesa, +renunciaria, apparecendo no proscenio, a tudo o que havia de honesto e feliz na +vida d'ella: o amor ao lar domestico, o amor d'esposa e o amor de mãe.<span +class="pn">{34}</span></p> + +<p>Mas antes de Laura completar desoito annos, falleceu a mãe extremosa, +acontecimento que por muito tempo acabrunhou o violinista e a filha.</p> + +<p>Alguns mezes depois da morte da mãe, Laura foi convidada a cantar n'um +concerto de beneficencia.</p> + +<p>Obteve um verdadeiro successo.</p> + +<p>Mas os applausos de que foi alvo, não lhe causaram tanto enthusiasmo como ao +pae.</p> + +<p>José Marcia procurou e encontrou occasião de renovar o triumpho obtido por +Laura.</p> + +<p>A fina intuição de que era dotado deixava-lhe antever que a filha e +discipula seria uma artista de primeira ordem.</p> + +<p>Aos desanove annos, Laura debutou na Opera de Madrid.</p> + +<p>A sua voz, porém, não attingira ainda o completo desenvolvimento.</p> + +<p>O pae assim o comprehendeu, e durante dois annos não consentiu que a filha +cantasse, senão raras vezes.</p> + +<p>Findos esses dois annos Laura partiu para a Italia, acompanhada do seu +natural emprezario.</p> + +<p>Conservou-se tres annos no Scala, de Milão, onde, sob a direcção de Pozzoli, +aperfeiçoou o methodo de canto, adquirindo, sobre o seu nome de theatro, a +Linda, uma enorme reputação, que augmentava todos os dias.</p> + +<p>Do Scala foi contractada para a Opera de Paris,<span class="pn">{35}</span> +porque Laura fallava e cantava, com a mesma pureza d'accentuação e a mesma +nitidez d'articulação, o hespanhol, o italiano e o francez.</p> + +<p>Havia já dois annos que ella estava em Paris, e o seu talento e a sua +formosura tinham encantado por completo os frequentadores da Opera.</p> + +<p>O pae, que a acompanhára á capital da França, morreu tres mezes depois de +chegarem.</p> + +<p>Felizmente deixava a filha no apogeu da gloria.</p> + +<p>E só gloria, porque dinheiro não tinha Laura quando o pae falleceu, nem elle +lh'o deixou.</p> + +<p>José Marcia legara á filha o perfeito abandono pelas coisas praticas que +durante a vida sempre tivera.</p> + +<p>Por mais vantajosos que fossem os contractos que assignava, Laura apenas +conseguia não ter dividas.</p> + +<p>E não era ella quem gastava as suas receitas, mas consentia que os creados +gastassem como lhes aprouvesse.</p> + +<p>—Sei contar o meu tempo, dizia a Linda rindo, mas nunca saberei contar +o meu dinheiro!</p> + +<p>Comtudo, se no seu orçamento não havia ordem, a sua vida era ordenadissima. +</p> + +<p>A recordação da mãe adorada estava sempre presente a Laura, e guardava-a, +como se fosse a propria mãe em pessoa.</p> + +<p>Resolvera seguir á justa uma vida irreprehensivel, e cumpriu o compromisso +tomado.<span class="pn">{36}</span></p> + +<p>De resto, Laura possuia a verdadeira honestidade, a que é indulgente mesmo +com as fraquezas que repudia.</p> + +<p>Era jovial com os seus companheiros de theatro, mas sabia fazer-se +respeitar.</p> + +<p>Fôra cortejada por muitos homens; soubera, porém, com rara habilidade, +repellir suavemente tanto os que lhe fallavam de casamento, como os que só lhe +fallavam d'amor.</p> + +<p>Jamais dissera que não se casaria, mas a primeira condição que estava +resolvida a impor ao noivo, se um dia o tivesse, era conservar-se no theatro, o +que fazia diminuir as probabilidades d'encontrar marido rico.</p> + +<p>Pozzoli, o director do Scala de Milão, que na epoca em que se passa esta +historia dirigia a Opera Italiana em Paris, pedira a mão de Laura ao pae da +cantora.</p> + +<p>Mas, além de ter uma reputação equivoca, Pozzoli contava evidentemente, +casando com a Linda, possuir sem concorrencia e sem despendio, uma +<em>primadona</em> de primeira ordem.</p> + +<p>Dizia-se até que seguia esse systema de ha muito, amancebando-se com varias +das suas contractadas.</p> + +<p>Casando com Laura, Pozzoli faria diminuir as difficuldades com que luctava +como emprezario.</p> + +<p>Em Milão, um compositor de talento apaixonou-se<span class="pn">{37}</span> +doidamente pela diva, e, ainda que fosse pobre, não era de certo o interesse +que o movia a dar-lhe o seu nome e a sua vida.</p> + +<p>Laura, porém, não sentia a mais insignificante parcella d'amor pelo que +tanto a adorava, e como elle comprehendesse essa triste verdade, sahiu de Milão +para Florença.</p> + +<p>O numero dos que apenas procuravam o amor de Laura era superior aos que +desejavam casar com ella.</p> + +<p>Mas perdiam o tempo e o trabalho.</p> + +<p>Um d'elles, o tenor ligeiro Lauretto Mina, era um bello homem, muito +infactuado, mas a quem poucas mulheres resistiam.</p> + +<p>Fôra ajudante d'um professor d'esgrima.</p> + +<p>Estava escripturado por Pozzoli na Opera Italiana.</p> + +<p>Possuia voz extensa e bem timbrada, mas não sabia servir-se d'ella, e era +sufficientemente preguiçoso para poder modificar-se, estudando.</p> + +<p>Entretanto considerava-se o primeiro tenor do mundo, e dizia-o +imperturbavelmente.</p> + +<p>Desde a primeira vez que viu a Linda, declarou-se apaixonado por ella.</p> + +<p>Mas Linda, com a natural finura de mulher, percebeu dentro em pouco que +especie d'homem era Lauretto e passou a tratal-o, contrariamente á forma<span +class="pn">{38}</span> pela qual procedia com todos os outros collegas, com uma +frieza que bem se podia alcunhar de desdem.</p> + +<p>Este procedimento de Linda fez com que Lauretto, vaidoso em extremo, se +possuisse d'occulta irritação, que mesclava d'odio o amor, ou antes o desejo, +que sentia pela cantora.</p> + +<p>Entretanto teve a força de vontade sufficiente para não manifestar o seu +descontentamento, declarando até aos amigos, com ironico despreso, que se +inclinava ante a virtude de Laura, a quem elle chamava <em>Casta diva</em>.</p> + +<p>—Sou tão preguiçoso! dizia o tenor no <em>foyer</em> dos artistas. Não +tenho paciencia para sustentar um prolongado cerco a uma mulher tão bem +defendida. Cedo o logar a qualquer outro assaltante de mais solida +perseverança. Renuncio a ser o primeiro, mas juro por Venus e pelo Amor, que +serei o segundo.</p> + +<p>Um outro apaixonado, mais amoldavel, foi Remissy, violinista hungaro, um +original, segundo uns, e um doido segundo outros, mas um grande, um verdadeiro +artista.</p> + +<p>Remissy foi a Milão para ouvir José Marcia, de quem elle admirava o talento, +apesar de deferir muito do que possuia o violinista hungaro.</p> + +<p>Viu Laura, e, como era facilmente impressionavel, inflammou-se d'enthusiasmo +pelo talento e pela belleza da cantora, simultaneamente.<span +class="pn">{39}</span></p> + +<p>A Linda, porém, tratou-o com meiguice e alegria, a que não era estranho um +certo desdem, e todo o fogo de Remissy extinguiu-se subitamente.</p> + +<p>—Tem cem vezes razão! dizia-lhe elle. Não pode tomar a serio um maluco +como eu. Além d'isso, eu não estou perfeitamente certo de que não me enganasse, +e não adore apenas a sua voz, o que é muito possivel. Andaria duzentas leguas +para a ouvir! A sua voz transporta-me ao setimo ceu! Convencionemos o seguinte: +não serei seu amigo, serei seu idolatra. E desde já te peço licença para te +tratar por tu, como á divindade!</p> + +<p>De todos os seus apaixonados que eram bons e sinceros, Laura fazia amigos. +</p> + +<p>Na primeira plana d'esses convertidos estava, em Paris, o dr. Despujolles, o +medico considerado como a verdadeira providencia dos theatros, sobre tudo dos +theatros de canto.</p> + +<p>Quem estivesse rouco pela manhã podia cantar á noite como um rouxinol, mercê +das magias hom½opathicas do dr. Despujolles.</p> + +<p>Foi um pouco mais recalcitrante que Remissy, á cura, hom½opathica tambem, do +amor pela amisade, mas como além d'intelligente era honesto, acabou não só por +se resignar, como tambem por estimar o papel que Laura lhe confiava.</p> + +<p>Todas estas informações sobre a Linda foram colhidas<span +class="pn">{40}</span> por Antonino de Bizeux dia a dia, d'este e d'aquelle, +affectando indifferença, mas sentindo na realidade um interesse e emoção de que +elle não se apercebia, e temendo e desejando ao mesmo tempo que lhe apontassem +qualquer nodoa no passado da diva, porque n'esse caso Laura passaria a ser +menos perigosa para elle.<span class="pn">{41}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0014">IV<br> +O dia seguinte</a></h2> + +<p>Era quasi meio dia.</p> + +<p>Laura acabára de se levantar, e recostara-se languida e como magoada ainda, +sobre o canapé do seu salão, remexendo, distrahidamente, n'um montão de cartas +e de folhas rasgadas de carteiras, que cobriam o marmore d'um velador.</p> + +<p>Por entre os nomes do que vulgarmente se chama <em>todo Paris</em>, +procurava um que não encontrava, e lia com indefferencia as palavras escriptas +a lapis sobre os papeis que folheava.</p> + +<p>Entretanto um bilhete houve que lhe prendeu a attenção por mais tempo.<span +class="pn">{42}</span></p> + +<p>Era de Pozzoli.</p> + +<p>Dizia o antigo emprezario de Laura:</p> + +<p> </p> + +<p>«Morreu a Opera, viva o theatro dos Italianos! Pozzoli irá ámanhã a casa da +distinctissima diva, levando um contracto em branco á sua ex e futura +escripturada».</p> + +<p> </p> + +<p>Ao ver o cartão de Lauretto Mina, a Linda franziu as sobrancelhas.</p> + +<p>O tenor escrevera:</p> + +<p> </p> + +<p>«Enforca-te Lauretto! Laura esteve prestes a ser queimada viva, e tu não +estavas junto d'ella para a salvar».</p> + +<p> </p> + +<p>Em compensação, sorriu-se ao ler um outro bilhete.</p> + +<p> </p> + +<p>«Compuz hoje de manhã um cantico d'acção de graças, uma <em>alleluia</em> +triumphante, que irei executar-te no meu violino, logo que possas receber o teu +mais humilde admirador.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;"><em>Remissy</em>».</p> + +<p> </p> + +<p>A diva resolveu responder sem perda de tempo ao violinista, convidando-o a +almoçar no dia seguinte.<span class="pn">{43}</span></p> + +<p>Chamou para isso Jacintha, a sua creada de quarto, pedindo-lhe o necessario +para escrever.</p> + +<p>Jacintha, collaça de Laura, tinha poucos mezes mais que a cantora.</p> + +<p>Era uma formosa rapariga, d'um trigueiro assetinado e quente, olhos e +cabellos pretos, labios vermelhos e sensuaes.</p> + +<p>Nunca abandonára a cantora, a quem estimava muito, mas a quem servia mal. +</p> + +<p>—Mais cartas, minha senhora, disse ella ao entrar, quasi todas +entregues pelos proprios, que não subiram porque o porteiro não consentiu.</p> + +<p>—Que deixe subir o dr. Despujolles quando elle chegar.</p> + +<p>—Sim, minha senhora. E o sujeito que lhe salvou a vida?</p> + +<p>—O sr. Antonino de Bizeux? Tambem! Há bocado disse-te o mesmo.</p> + +<p>—Já se vê... Se não fosse elle estaria a senhora morta a estas horas. +E eu tambem, porque se a senhora morresse, não lhe sobreviveria.</p> + +<p>—É um homem deveras corajoso! disse Laura, pensativa.</p> + +<p>—E bonito!</p> + +<p>—Jacintha!...</p> + +<p>—Perdão, minha senhora!... jurei-lhe que nunca mais chamaria bonito a +qualquer homem, ainda<span class="pn">{44}</span> que elle fosse como S. Miguel +Archanjo, e faltei ao meu juramento!... Mas não está mais na minha mão!</p> + +<p>—Cala-te! interrompeu Laura, que não poude deixar de sorrir, e manda +entregar immediatamente esta carta ao sr. Remissy, rua Favart.</p> + +<p>Alguns minutos depois, Jacintha annunciava o dr. Despujolles.</p> + +<p>—Eil-a! disse o medico ao entrar. Eil-a, a esta salamandra que +atravessou impunemente as chammas!</p> + +<p>—Infeliz da salamandra, respondeu Laura, que ficaria frita como uma +carpa se não tivesse quem a ajudasse.</p> + +<p>—Vejamos o pulso. Sabe que vim cá ás oito horas da manhã?</p> + +<p>—Sei.</p> + +<p>—Como me disseram que dormia, cedi o logar ao melhor dos medicos, o +somno. </p> + +<p>—Só consegui adormecer ás seis horas da madrugada.</p> + +<p>—Pudera! Depois d'um tal abalo não admira. Hum! Está com febre, como +era de prever. Vou receitar-lhe um calmante.</p> + +<p>E chamou.</p> + +<p>Appareceu Jacintha.</p> + +<p>—Manda sem demora esta receita a uma pharmacia.<span +class="pn">{45}</span> </p> + +<p>—Sim, sr. doutor.</p> + +<p>—E então? Há mais juizo agora?</p> + +<p>Jacintha tornou-se purpurina.</p> + +<p>—De certo, sr. doutor.</p> + +<p>—Hein? Isso é verdade? Toma cuidado! Á primeira escorregadella, tens +d'haver-te commigo!</p> + +<p>Jacintha pegou na receita, e sahiu apressadamente.</p> + +<p>—É necessario, disse o doutor a Laura, que a minha amiga possua uma +solida reputação, para ter junto de si uma rapariga d'este quilate!</p> + +<p>—Coitada! É tão bondosa e dedicada! Quer que a abandone?</p> + +<p>—De certo que não! Estudo em Jacintha a força do instincto. É um +precioso <em>sujet</em> physiologico para observar—desculpe-me o +termo—o animal na mulher.</p> + +<p>—Oh! doutor!</p> + +<p>—Posso-lhe fallar assim, porque a minha amiga é toda espirito. Em si o +animal não existe.</p> + +<p>—Trata de desculpar-se com um cumprimento! Pois dir-lhe-hei que, em +momento de perigo, o instincto é superior ao que o doutor chama espirito. A +noite passada, quando na Opera se ouviu o primeiro grito de fogo, acabava eu de +me vestir. Jacintha—o instincto—que estava no meu camarim, fugiu +immediatamente, e eu—o espirito—que temo o fogo mais do que +qualquer outra coisa no mundo, comecei a tremer, dobraram-se-me os joelhos, +fiquei impossibilitada<span class="pn">{46}</span> de fazer o menor movimento. +Jacintha, que ainda não tinha sahido, sacudia-me, queria arrastar-me. Tentei +caminhar, e cahi desfallecida. Então ella sahiu, dizendo-me que ia buscar quem +me soccoresse. </p> + +<p>—Ah! a Jacintha fugiu? E pretende que ella é dedicada! Bonita +dedicação, não haja duvida!</p> + +<p>—Ouça o resto. Logo que chegou á rua e se viu livre de perigo, +Jacintha lembrou-se de mim immediatamente. Entrou de novo no theatro, +soluçando, querendo procurar-me atravez as chammas. E gritava: «Fui eu que a +matei! quero morrer com ella!» Foram necessarios tres homens para a segurar, +levando-a á força para um posto policial. Chegada lá, Jacintha cahiu n'um +mutismo feroz. Como não podia salvar-me do fogo, tinha resolvido lançar-se ao +Sena.</p> + +<p>—Mas, afinal, como e por quem foi salva? Corre já sobre o caso, uma +verdadeira lenda.</p> + +<p>—E parece lenda, com effeito.</p> + +<p>Seguidamente contou ao doutor as peripecias do seu salvamento até ao momento +da morte tragica do bombeiro, em que ella de novo tinha perdido os sentidos. +</p> + +<p>—Quando voltei a mim, continuou Laura, estava n'uma pharmacia da rua +de Peletier. Jacintha, que me tinha encontrado, soltava gritos d'alegria por +me<span class="pn">{47}</span> ver abrir os olhos. O meu salvador estava ali +tambem, com o fato, as barbas e os cabellos queimados, pallido, mas satisfeito +por ver que eu voltava á vida. Reconheci-o como um dos <em>habitués</em> dos +<em>fauteuils</em> d'orchestra. Exprimi-lhe o meu reconhecimento, e pedi-lhe +que me dissesse como se chamava. Sabe o doutor o que elle me respondeu? Isto: +«Sou alguem que passava, e que a salvou, salvando-se.» Foi a custo que obtive, +ao subir para a carruagem que me conduziu a casa, que elle me desse o seu +cartão.</p> + +<p>—E conserva o cartão de tão modesto homem?</p> + +<p>—Eil-o aqui... O doutor leu:</p> + +<p>—<small>ANTONINO DE BIZEUX</small>.</p> + +<p>—Conhece-o?</p> + +<p>—De vista, apenas. Tenho-o encontrado em varios salões. É considerado +como um original, meio selvagem. Lembro-me de o ver muitas vezes na Opera, e, +se bem me recordo, dizia-se que elle estava apaixonado pela minha querida +Laura.</p> + +<p>—Engano! Quando muito estaria apaixonado pela minha voz. Se arriscou a +vida, para salvar a minha, estou certa que foi unicamente por suppôr que não ha +outra cantora que lhe faça sentir as mesmas emoções de <em>dilettante</em>.</p> + +<p>—Parece-me isso inverosimil, observou o medico. Verá que, como +recompensa, elle não se contentará<span class="pn">{48}</span> com a promessa +d'uma nova escriptura na Opera. Já a veiu ver, sem duvida?</p> + +<p>—Pedi-lhe que viesse, e assegurou-me que viria saber como eu estava. +Julguei que tivesse vindo de manhã, emquanto dormi, mas não encontrei o cartão +d'elle entre os outros.</p> + +<p>—Se suppõe que será recebido, como merece, só se apresentará depois do +meio dia. Entretanto lembre-se que não lhe receito só o que mandei buscar á +pharmacia: é necessario que guarde um repouso absoluto. Prohibo-a de receber +quem quer que seja.</p> + +<p>—Tem de abrir uma excepção para o meu salvador, replicou Laura com +vivacidade. A ingratidão não é droga que o doutor receite a ninguem, com +certeza.</p> + +<p>—Bem! Farei a excepção pedida! disse Despujolles sorrindo. Registo, +comtudo, que a minha amiga desobedece ás prescripções do seu medico, o que é +grave.</p> + +<p>E retomando o tom serio do clinico, accrescentou:</p> + +<p>—Asseguro-lhe que necessita do mais absoluto repouso durante muitos +dias. N'este momento é a febre que lhe conserva as forças, mas em breve cahirá +n'uma grande prostração nervosa, e sentirá a necessidade d'uma completa +tranquillidade d'espirito.</p> + +<p>—Comtudo... disse Laura.</p> + +<p>—Não ha comtudos...<span class="pn">{49}</span></p> + +<p>—Não lhe fallarei de Pozzoli, que me propõe escriptura...</p> + +<p>—Eu me encarrego de mandar Pozzoli para o inferno! D'aqui a oito dias +tratará d'esse negocio.</p> + +<p>—Ou quinze; isso é o menos. O peor é que escrevi a Remissy, +convidando-o para almoçar ámanhã. Elle quer que eu ouça uma <em>alleluia</em> +que compôz em minha honra...</p> + +<p>—Então convide-me tambem, disse o doutor n'outro tom. Como estarei +presente, não consentirei que falle. Remissy e eu a entreteremos.</p> + +<p>—E o meu salvador? perguntou Laura. Se vier hoje não posso convidal-o +para o almoço?</p> + +<p>—Mau! Isso já é outro genero de distracção. Como serei do rancho, +tratarei de vigiar, porque, na verdade, começo a ter ciumes do visconde.</p> + +<p>—Que idéa!</p> + +<p>—Pois sim! A verdade é que elle está apaixonado e é bretão. E um +apaixonado que salva a vida da sua bella...</p> + +<p>—O senhor sabe que eu sou sincera... interrompeu Laura.</p> + +<p>—Sei. É a mulher mais franca que eu conheço. Direi até: a unica, em +que pese á minha numerosa clientela feminina.</p> + +<p>—Consola tanto nada ter que dissimular ou occultar! Pois bem; +affianço-lhe, doutor, que, pensando no<span class="pn">{50}</span> sr. de +Bizeux, não sinto a menor commoção indicativa d'amor; nem sombra d'ella! Que +elle esteja ou não apaixonado por mim, confesso-lhe e declaro-lhe que nunca +desejei tanto fazer de qualquer homem um amigo.<span class="pn">{51}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0015">V<br> +Perplexidades</a></h2> + +<p>A Linda não recebeu n'esse dia a visita ou o cartão d'Antonino.</p> + +<p>Outro tanto succedeu no dia seguinte até á hora do almoço, ao qual Remissy e +Despujolles fizeram as devidas honras, sem conseguirem, apesar dos esforços +empregados para esse fim, distrahir a cantora d'uma especie de preoccupação que +se apossára d'ella.</p> + +<p>Nada de novas do meu salvador! disse Linda a Despujolles quando o doutor se +despediu. Tenho perguntado a mim mesma se não serei eu quem deva mandar saber +noticias d'elle. Quem nos assegura que o visconde não está mal?<span +class="pn">{52}</span></p> + +<p>—Vamos, serei generoso mais uma vez! replicou o medico. Irei saber do +seu heroe. Está satisfeita? Onde mora elle? Não tem indicação de morada, no +bilhete de visita? Parece-me que é no <em>boulevard</em> Hausmann, mas ignoro o +numero. Sabel-o-hei por um dos meus clientes, que é primo do visconde, e dentro +em pouco lhe mandarei dizer como elle está.</p> + +<p>Ás tres horas da tarde Laura recebeu o seguinte bilhete:</p> + +<p> </p> + +<p>«Fui a casa do nosso homem. Está no mais invejavel estado phisico. O moral +nãe me diz respeito.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;"><em>Despujolles.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>Entretanto Antonino, cumprindo a promessa feita á cantora na noite do +incendio, fôra no dia seguinte saber como estava Laura.</p> + +<p>Contentára-se apenas com perguntar á porteira como estava Linda, sem dizer +nem deixar o nome.</p> + +<p>Nos dois dias seguintes procedeu de forma identica.</p> + +<p>Ao quarto, como os visitantes rareassem, a porteira respondeu á pergunta +d'Antonino:</p> + +<p>—A senhora vae melhorando, mas não poderá receber ninguem antes de +dois ou tres dias.<span class="pn">{53}</span></p> + +<p>E advertida por Jacintha, segundo instrucções de Laura, accrescentou:</p> + +<p>—O sr. quer ter a bondade de me dizer o seu nome?</p> + +<p>Antonino respondeu em tom breve.</p> + +<p>—Visconde de Bizeux.</p> + +<p>—N'esse caso, disse a porteira, o sr. visconde pode subir. Tinha +ordem, desde o primeiro dia, de dizer a vossa ex.ª que a senhora o recebe... +mas só ao sr. visconde.</p> + +<p>Antonino interdicto, respondeu:</p> + +<p>—Bem... mas hoje é impossivel... Tenho uma entrevista marcada... e já +é tarde... Transmitta á senhora os meus agradecimentos e os meus respeitos... +Eu voltarei.</p> + +<p>E sahiu como se fugisse.</p> + +<p>Alguns momentos depois Jacintha participava a Laura o que se passara.</p> + +<p>—Singular indifferença essa! disse a cantora.</p> + +<p>O que o coração d'Antonino sentia era justamente o contrario da indifferença +que Laura lhe suppunha.</p> + +<p>Tanto de dia como de noite o visconde só pensava em Laura.</p> + +<p>Tornar a vel-a era o seu mais ardente, o seu unico desejo.</p> + +<p>Mas desejava tanto isso, que tremia.<span class="pn">{54}</span></p> + +<p>Era como um barril repleto de polvora temendo uma faisca.</p> + +<p>E não voltou á rua de Bolonha.</p> + +<p>Quando Laura pôz Despujolles ao corrente da situação, e medico disse:</p> + +<p>—Oh! oh! o caso é mais grave do que eu julgava. Como é que um valente, +que a arrancou ás chammas do incendio, treme diante da minha amiga? Afinal, o +caso comprehende-se. Elle percebe que o perigo, agora, augmentou de +intensidade. O infeliz está em um estado verdadeiramente inquietante.</p> + +<p>—Não mangue, dr., respondeu Laura que pensava justamente como o +medico, mas que entendeu conveniente não annuir ao que Despujolles dizia. Mas +emfim, eu não o tornarei a ver?</p> + +<p>—Seria o melhor para ambos.</p> + +<p>—Está enganado, doutor. Mesmo quando a sua observação fosse justa, é +necessario tornar a vel-o, para que o possa curar. O doutor trata dos seus +doentes a distancia? Não. O mesmo succede commigo. E como sabe, eu tenho curas +que me honram.</p> + +<p>—Quer que a ajude a procurar o seu paciente? Seja! Tornarei a ser +generoso. Forcemol-o a sahir do covil. Escreva-lhe ámanhã ao meio dia um +bilhete. Uma hora depois estarei aqui com a fera.</p> + +<p>No dia seguinte, ao meio dia preciso, o visconde, perturbado, lia, n'um +cartão de Laura, as seguintes<span class="pn">{55}</span> linhas, escriptas +pela cantora em seguida ao nome:</p> + +<p> </p> + +<p>«Permitte-se lembrar ao sr. de Bizeux que elle deve visita á que lhe deve a +vida.»</p> + +<p> </p> + +<p>Um quarto de hora depois uma carruagem conduzia-o á gare d'Oeste.</p> + +<p>Comprou bilhete para Saint-Malo e subiu para o comboio prestes a partir.</p> + +<p>Quando Despujolles, ao meio dia e meia hora, chegou a casa d'Antonino, +disseram-lhe que o visconde tinha partido pouco antes, tendo deixado dito que +ia ver o pae.</p> + +<p>O doutor dirigiu-se immediatamente para casa de Laura, a quem participou o +caso, ajuntando:</p> + +<p>—Decididamente a doença torna-se alarmante! O visconde está apaixonado +até á indelicadeza!</p> + +<p>Como não podia prever a visita de Despujolles que lhe dennunciaria a fuga, +Antonino julgou-se ao abrigo de censura enviando, no dia seguinte, a Laura, +este telegramma:</p> + +<p> </p> + +<p>«Recebi, minha senhora, o seu gracioso convite em Saint-Malo, onde fui +subitamente chamado por meu pae, um pouco doente. Ámanhã volto a Paris,<span +class="pn">{56}</span> terei então a honra de lhe apresentar os meus +respeitos.»</p> + +<p> </p> + +<p>Sahira de Paris para metter cem leguas entre elle e a Linda, mas, ao +contrario do que esperava, a distancia fazia com que se lembrasse ainda mais da +cantora.</p> + +<p>Aquelle acto de energia apenas serviu para demonstrar a sua irremediavel +fraqueza.</p> + +<p>Em Paris estava perto de Laura; fugia de a ver, mas tinha noticias d'ella, e +quando quizesse podia procural-a.</p> + +<p>Considerou uma loucura o ter supposto que a ausencia o curava, porque nunca +soffrera tanto.</p> + +<p>Chegou desgostoso a Saint-Malo, achou soturna a velha casa da familia, onde +vivia o pae e uma irmã mais velha, solteira ainda.</p> + +<p>Tres dias depois, cançado de soffrer em silencio, Antonino resolveu-se a +tudo confessar a seu pae.</p> + +<p>O confidente foi bem escolhido e bem exposta a confidencia.</p> + +<p>Em novo, o pae d'Antonino passara por um desgosto semelhante.</p> + +<p>Amára uma menina encantadora, por quem era amado tambem, mas que tinha o +defeito de ser pobre e plebea.</p> + +<p>O conde de Bizeux, avô de Antonino, era um velho<span class="pn">{57}</span> +rigido, intractavel em questões de nobreza e importancia patrimonial.</p> + +<p>Não se contentou, d'accordo com o pae da donzella, com destruir aquelle +amor; obrigou o filho a casar com uma prima, de belleza duvidosa, mas de +fortuna avultada.</p> + +<p>Aquelle enlace de conveniencia não podia fazer felizes os esposos.</p> + +<p>Ella era feia e altiva, entregue sempre a praticas devotas; elle, +tristemente resignado, deixava-se absorver pelas recordações.</p> + +<p>A filha mais velha parecia-se com a mãe, mais feia, mais orgulhosa, mais +devota ainda.</p> + +<p>Recusára sempre casar-se, não querendo entregar-se a qualquer homem, que +apenas a tomaria pelo dote, o seu unico merito.</p> + +<p>Depois d'enviuvar, o conde de Bizeux não tinha outra consolação além do amor +por Antonino.</p> + +<p>Essa grande estima que tinha pelo filho não impediu que se separasse d'elle +emquanto o visconde viajou, e que não quizesse acompanhal-o a Paris.</p> + +<p>Quiz ficar na sua Bretanha, vivendo melancholicamente das recordações do +passado.</p> + +<p>A excessiva severidade dos paes produz muitas vezes nos filhos, paes por sua +vez tambem, a excessiva indulgencia.</p> + +<p>Foi por essa razão que o conde de Bizeux recebeu<span class="pn">{58}</span> +a confidencia d'Antonino com a simpathia terna d'um irmão.</p> + +<p>O soffrimento do visconde diminuiu desde que teve com quem fallar de Laura. +</p> + +<p>Entretanto continuava triste e visivelmente inquieto.</p> + +<p>Como percebia o estado em que o filho estava, o conde, ao fim d'uma semana, +chamou-o e disse-lhe:</p> + +<p>—Tu soffres Antonino. Deixa-me dar-te um conselho: volta para Paris. +Parece-me que te falta um pouco de coragem e de dignidade. Amas uma mulher que +não te conhece e que só te viu quanto a salvaste. Não pode ter-te amor, é +certo; mas quem te diz que, conhecendo-te melhor, não virá a amar-te? Pelo que +sabes d'ella, a Linda só pensa em arte, não amou nunca, não amará talvez. Mas +approxima-te, não como uma creança que teme, mas como um homem que não recua +nem ante uma decepção, nem ante um grande desgosto. Quem sabe se, quando a +conheceres bem, não acharás que Laura não corresponde ao teu sonho!</p> + +<p>Antonio abraçou o pae com effusão, agradecendo-lhe reconhecido aquelle +conselho viril, e partiu de Saint-Malo quasi tão precipitadamente como deixára +Paris.</p> + +<p>Ao partir telegraphou a Despujolles, dizendo-lhe<span class="pn">{59}</span> +que o procuraria no dia seguinte, e pedindo-lhe para o acompanhar a casa de +Laura.</p> + +<p>Pelas duas horas da tarde do outro dia entraram ambos no salão da cantora, +prevenida antecipadamente pelo medico.</p> + +<p>—Trago-lhe emfim o selvagem! disse o dr. ao entrar.</p> + +<p>Laura estendeu a mão a Antonino, dizendo-lhe com a mais graciosa +simplicidade:</p> + +<p>—Agradeço-lhe o ter vindo. Detesta a sociedade?... Tem rasão. Mas eu +não pertenço a essa sociedade, sou apenas uma mulher. Verá que sou excellente +camarada, muito sincera, que gosto muito d'alguns amigos, e que me sentirei +verdadeiramente feliz se o homem que me salvou a vida quizer pertencer ao +numero restricto d'esses amigos.</p> + +<p>Em seguida fallou, a Antonino do proprio Antonino, como se fallasse d'elle +ao dr. Despujolles.</p> + +<p>Lembrou-se, rindo, da noite em que o olhára da scena, com o que elle +indicára incommodar-se.</p> + +<p>—E era justo que assim fosse, accrescentou ella, porque nós, ante o +publico, nem por um momento nos devemos esquecer do personagem que +representamos.</p> + +<p>Fallando-lhe assim poz á vontade Antonino, que ao principio estava meio +compromettido.</p> + +<p>Fallaram de musica, de theatro.<span class="pn">{60}</span></p> + +<p>Ella disse-lhe que provavelmente ia para o theatro Italiano, visto Pozzoli +lhe ter proposto um bom contracto.</p> + +<p>Confessou que não tinha a menor estima ou sympathia por aquelle emprezario, +mas como gostava de Paris, queria demorar-se na grande cidade.</p> + +<p>De resto, não podia passar sem cantar,—por causa da sua bolsa e por +causa do seu espirito.</p> + +<p>Cantar era para ella metade da vida.</p> + +<p>—A proposito: Pozzoli, para celebrar o meu completo restabelecimento e +a minha entrada para os Italianos, offerece-me, na terça feira proxima, uma +especie de festa em S. Germano: almoço ajantarado na relva, passeio aos Loges, +etc. Devo-lhe enviar ámanhã a lista dos meus convidados. Na cabeça do rol +inscrevi o seu nome, sr. de Bizeux.... Oh! não recuse, porque é caso para +dizer: não haveria festa sem o sr.</p> + +<p>Antonino fez um gesto d'assentimento.</p> + +<p>Ficou combinado que iriam juntos a S. Germano, Despujolles e elle.</p> + +<p>—Que adoravel mulher e que encantadora creança! Dizia o medico ao +visconde, descendo as escadas da casa de Linda. Verá: com ella começa a gente +por estar apaixonado, e acaba por se sentir feliz de ficar amigo.</p> + +<p>—Assim será! respondeu Antonino.<span class="pn">{61}</span></p> + +<p>A verdade é que elle sentia-se cada vez mais apaixonado, e pensava com +desespero que Laura não o amava, que não o amaria jamais.<span +class="pn">{62}</span> <span class="pn">{63}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0016">VI<br> +A festa</a></h2> + +<p>No dia fixado, um <em>mail-coach</em>, em que tinham tomado logar Antonino, +Despujolles e mais uns vinte convidados de Pozzoli, subia, ao trote largo de +quatro cavallos pretos, a avenida dos Campos Elyseus.</p> + +<p>Era a primeira terça feira de setembro.</p> + +<p>Ao longe os sinos de Santa Clotilde zumbiam, como enxame d'abelhas, sob as +agudas pontas das settas gothicas.</p> + +<p>As mulheres riam estridentemente, empoleiradas no alto da carruagem.</p> + +<p>Aquellas gargalhadas quebravam o silencio da avenida, deserta ainda áquella +hora.<span class="pn">{64}</span></p> + +<p>Os guisos de bronze reteniam ao pescoço dos cavallos n'uma alegria matinal. +</p> + +<p>E em sorrisos de luz, as folhas altas dos platanos brilhavam, como estrellas +movediças, os castanheiros espessos formavam massiços largos, ao fundo de +<em>callidimos</em> entrelaçados em ramos monstros sobre a relva dos canteiros. +</p> + +<p>Os jardineiros municipaes assestavam as mangueiras dos tubos d'irrigação +articulados.</p> + +<p>Uma chuva branca cahia sobre a relva, cortada quasi cerce, e por entre as +bambinellas do fino orvalho um arco iris dansava, radioso.</p> + +<p>O <em>mail-coach</em> que conduzia a S. Germano Antonino, Despujolles e os +convidados de Pozzoli, chegou ao pavilhão Henrique IV ao mesmo tempo que o +<em>coupé</em> de Linda.</p> + +<p>Laura vestia uma elegante <em>toilette</em> de seda da India, cinzenta.</p> + +<p>O corpo do vestido era enfeitado com fazenda de lã e ornado de laços +granade.</p> + +<p>A saia, um pouco curta, deixava perceber a curva nascente d'uma perna fina +de parisiense ou de hespanhola.</p> + +<p>Estava encantadora assim.</p> + +<p>Apertou a mão a todos, mas em primeiro logar a Antonino, a quem apresentou a +Pozzoli, o amphytryão.<span class="pn">{65}</span></p> + +<p>O emprezario do theatro dos Italianos era um homem de mãos largas, dedos +massiços, cabello grosso e espetado, barba em leque, olhos redondos, nariz +recurvo como o bico d'um abutre, bocca grande, de labios grossos, +libidiminosos.</p> + +<p>Á primeira vista representava o typo completo da força bruta e dos appetites +sensuaes.</p> + +<p>Melhor examinado, porém, notavam-se-lhe extraordinarios ridiculos.</p> + +<p>Macaqueava com as mulheres, n'uns gestos afectados, como o tenor Lauretto +Mina. Fallava sempre com os labios quasi cerrados, e quando pronunciava uma +d'essas phrases equivocas, que as mulheres de que habitualmente se rodeava +achavam deliciosas, soltava gargalhadas imprevistas casquinhando +mechanicamente, para mostrar dentes magnificos... mas postiços.</p> + +<p>D'ordinario pintava o cabello e a barba, e nas <em>soirées</em> apparecia +sempre com carmim nas faces e as sobrancelhas alongadas e carregadas por uma +pincelada negra.</p> + +<p>Tal era Pozzoli.</p> + +<p>O emprezario desagradou soberanamente a Antonino, que tambem não sympathisou +com Lauretto Mina, cujos gestos afeminados e maneiras pretenciosas faziam um +absoluto contraste com os modos viris e simples do gentilhomem bretão.<span +class="pn">{66}</span></p> + +<p>Depois de trocados os cumprimentos e feitas as apresentações, os +excursionistas puzeram-se a caminho para a floresta, precedidos d'um carro do +pavilhão Henrique IV, que transportava o almoço.</p> + +<p>—Não vejo Remissy, disse Laura. Entretanto elle deu-me a sua palavra +de que não faltaria.</p> + +<p>—Elle virá, replicou o dr., mas provavelmente quando menos se esperar, +porque aquelle demonio tem grande tendencia para as surpresas.</p> + +<p>Os <em>mails-coachs</em>, os <em>landaus</em> e os <em>coupés</em> +embrenharam-se sob as abobadas verdejantes, n'um turbilhão d'alegria ruidosa. +</p> + +<p>Ao atravessarem as pequeninas clareiras inundadas de luz, os raios das rodas +tinham brilhos vivos e vibrações agudas.</p> + +<p>Falseamentos rutilavam nas nuvens de pó, com um bulicio de ruidos multiplos: +a ferradura d'um cavallo topando n'uma pedra, uma roda gemendo na depressão do +terreno, o estridulo das gargalhadas subindo no ar perfumado de verdura humida, +o estalo d'um pingalim assustando as aves aterrorisadas, e por vezes, cortando +os intervallos de silencio, o relincho satisfeito d'um cavallo.</p> + +<p>—Alto! gritou Lauretlo Mina com a sua voz de cigarra.</p> + +<p>—Alto! vociferou Pozzoli, como um echo brutal.</p> + +<p>As carruagens pararam.<span class="pn">{67}</span></p> + +<p>—Chegamos, disse o dr. a Laura, indo abrir a portinhola do +<em>coupé</em>. </p> + +<p>—Eis a sala de jantar, a senhora está servida! annunciou Lauretto por +de traz do medico.</p> + +<p>Sem esperar que lhe dessem a mão, Laura saltou com ligeiresa.</p> + +<p>Pozzoli offereceu-lhe o braço.</p> + +<p>—Qual! disse a cantora recusando. No campo caminha-se em liberdade, +sem cerimonias.</p> + +<p>Em um minuto chegaram á verde clareira em que o almoço estava servido, sobre +uma elevação arrelvada.</p> + +<p>Cada qual tomou logar em volta d'aquella toalha verdejante, manchada de +escuro por tres presuntos d'York, quatro travessas de <em>foie gras</em>, doze +lagostas, seis gallinhas, montanhas de doces, pecegos de Montreuil, passas de +Malaga em caixas.</p> + +<p>Em volta da improvisada meza, como collocadas em atiradores, alinhavam-se +vinte quatro garrafas de <em>Bordeus</em>, e em torno d'um carvalho secular, +entre as anfractuosidades rugosas do tronco, trinta garrafas de +<em>moscatel</em>, de <em>Madeira</em> e de <em>Champagne</em>, de gargalos +prateados, conservavam-se em reserva, meio occultas pela herva alta.</p> + +<p>Massiços de verdura banhados de luz, cruzavam-se, como bayonetas enfeixadas; +extremidades de plantas queimadas pela geada balouçavam-se levemente,<span +class="pn">{68}</span> e tres grillos corajosos entoavam uma marcha triumphante +por entre uns fetos proximos.</p> + +<p>Laura sentara-se junto d'um freixo gigante, appoiando as costas ao tronco. +</p> + +<p>Um grupo d'aveleiras servia-lhe de guarda-sol.</p> + +<p>Antonino de Bizeux e o dr. Despujolles tomaram logar á direita e á esquerda +da cantora.</p> + +<p>Em frente d'elles, agrupados, estavam Pozzoli, Lauretto Mina e os restantes +convivas.</p> + +<p>Eram uns quarenta ao todo.</p> + +<p>O almoço foi pouco ruidoso ao principio.</p> + +<p>O appetite é sempre silencioso.</p> + +<p>Ouvia-se apenas o ranger dos garfos de prata na porcellana dos pratos.</p> + +<p>A Linda comia com vontade, e molhava alegremente os labios finos no liquido +do copo.</p> + +<p>Á sobremesa a conversação rebentou, viva e alegre, acompanhada pelo tenir +dos copos e pelo riso das mulheres, e entre a confusão das vozes, misturadas +com o <em>pizzicato</em> dos garfos, um melro, pousado n'uma arvore proxima, +rythmava as suas cadencias aflautadas.</p> + +<p>Lauretto Mina embriagou-se, como costumava.</p> + +<p>De repente levantou-se, tendo na mão uma taça de <em>Champagne</em>, e disse +com voz entaramelada:</p> + +<p>—Bebo á saude da rainha da festa, da divina Laura Linda!<span +class="pn">{69}</span></p> + +<p>Laura corou um pouco, e Antonino franziu as sobrancelhas.</p> + +<p>Mas todos levantaram as taças, repetindo:</p> + +<p>—Á saude de Laura Linda!</p> + +<p>N'esse momento, na alléa que seguia ao lado d'aquella meza verdejante, +apparecia uma duzia de officiaes d'<em>hussards</em>, trotando nos seus +cavallos.</p> + +<p>Logo que viram os convivas d'aquella pittoresca festa, fizeram diminuir o +andamento dos animaes.</p> + +<p>Despujolles disse algumas palavras ao ouvido de Pozzoli, e depois caminhou +para os officiaes e disse-lhes:</p> + +<p>—Meus senhores, somos artistas e homens de sociedade: querem fazer-nos +a honra d'acceitar um copo do nosso magnifico vinho francez?</p> + +<p>—Da melhor vontade! responderam os officiaes em coro.</p> + +<p>E puzeram em linha os cavallos arabes.</p> + +<p>Foram as damas que serviram o <em>Champagne</em>.</p> + +<p>Beberam pela França e pelos francezes.</p> + +<p>Em seguida os officiaes ofereceram charutos aos homens, cumprimentaram as +senhoras e partiram a galope.</p> + +<p>A brilhante cavalgada desappareceu rapidamente, como uma phantasia, na +profundeza do bosque.</p> + +<p>Deixaram as carruagens e as louças á guarda dos creados, e partiram a pé +para a feira das Loges.<span class="pn">{70}</span></p> + +<p>Combinaram que caminhariam sem cerimonia, em debandada.</p> + +<p>Mas como o caminho d'esta vez fosse mais longo, formaram-se, naturalmente, +grupos e pares.</p> + +<p>Antonino estava, como por acaso, ao lado de Laura, que deu um passo em +falso, e, como por acaso tambem, tomou o braço do visconde, appoiando-se a elle +ligeiramente, com uma graça encantadora.</p> + +<p>Caminharam assim por algum tempo, alegres e sonhadores, admirando coisas +vulgares que lhes pareciam tão interessantes como se nunca as tivessem visto. +</p> + +<p>Um ruido confuso annunciou, de longe, a feira das Loges.</p> + +<p>Sinetas, pandeiros, tambores, trompas, cornetins, produziam um baralho +ensurdecedor.</p> + +<p>Aquella parte da floresta estava cheia de gente vestindo fatos domingueiros, +pares mais ou menos apaixonados, creanças saltando na alegria da plena +liberdade.</p> + +<p>Appareceram as primeiras barracas ao fim da estrada.</p> + +<p>Augmentava o ruido da symphonia discordante d'instrumentos diversos, de +<em>clowns</em> esganiçando-se em falsetes, d'hercules soprando em enormes +porta-vozes os seus desafios burlescos aos amadores de luctas.<span +class="pn">{71}</span></p> + +<p>Antonino e Laura acharam-se, n'um instante, separados dos seus companheiros. +</p> + +<p>Pararam deante das barracas, admirando, embasbacados como creanças, os +objectos n'ellas expostos.</p> + +<p>Laura achou immensa graça á atabalhoada arenga berrada á porta d'uma barraca +de saltimbancos por uma especie de cigano, de cara serampintada, cabellos +crespos, com voz enrouquecida, que ainda assim não perdera o tom +accentuadamente marselhez.</p> + +<p>O homem convidava o respeitavel publico a visitar a Mulher-Electrica.</p> + +<p>—É entrar, meus senhores, é entrar, dizia elle. Por dois <em>sous</em> +podem admirar a mais formosa e a mais gentil mulher do mundo. Só homens podem +entrar, porque se as senhoras viessem a esta barraca, sahiriam loucas de +inveja! Não quero dizer com isto que as senhoras presentes não sejam novas e +formosas, não! Mas, acreditem, nenhuma das que vejo, e das ausentes, poderia +dar a seu marido uma sensação semelhante á que esta produz em todos os homens +que lhe tocam!... É entrar, meus senhores, é entrar! Não encontrarão outra +occasião, como esta, para admirar uma belleza sem rival! Tem pernas de Diana, +braços de Venus... Parece a esposa de Jupiter! Não ha uma só princeza que a não +inveje!... É um ovo por um real, contemplar uma<span class="pn">{72}</span> +maravilha d'esta ordem apenas por dez centimos!... É entrar, meus senhores, é +entrar!...</p> + +<p>Proximo, um colosso, de braços musculosos e nús, abronzeados, ao lado d'uma +preta robusta, provocava á lucta os amadores mais valentes.</p> + +<p>Um realejo moia a <em>Valsa das Rosas</em>, e ao lado, n'uma barraca de +balouços, um outro realejo gemia uma polka, emquanto que, por entre +gargalhadinhas de medo, mulheres cortavam o ar nos balouços, olhando para os +amantes, que as contemplavam satisfeitos.</p> + +<p>Um pouco mais longe via-se um <em>carrousel</em> de cavallos de pau, +enfeitado d'uma franja vermelha e azul em que scintillavam lantejoulas.</p> + +<p>Creanças, sentadas n'aquelles animaes inoffensivos, sentiam-se felizes por +fazer concorrencia aos saltimbancos, chamando sobre si a attenção embasbacada +dos passeiantes.</p> + +<p>De toda aquella multidão desprendia-se rumor confuso, onomatopeas sem +sentido, cortadas pelo som d'um pandeiro ou pelas notas estridentes d'um +cornetim.</p> + +<p>No ar passavam odores acres de frituras rançosas, salchichas que ferviam em +gorduras velhas no fundo de largas frigideiras, vinho azedo que bebiam pelo +cangirão, café intoleravel feito do cosimento das borras e de tintura de +chicoria.<span class="pn">{73}</span></p> + +<p>As tabernas regorgitavam de freguezes vorazes.</p> + +<p>Muitos, como não tinham onde sentar-se, comiam de pé, ao sol, com o mais +invejavel appetite.</p> + +<p>A alegria franceza resaltava de toda aquella multidão franca, ruidosa, +divertida.</p> + +<p>Sentiam-se felizes por aquella excitação ardente, pelos movimentos +desordenados, pelos raios do sol que lhes alumiava as faces vermelhas, pelas +nuvens de pó amarellento, que se elevava até ao cimo das arvores frondosas, em +virtude do caminhar continuo d'aquelle formigueiro humano.</p> + +<p>Pelas cinco horas da tarde, um homem que desempenhava as funcções de +pregoeiro, attrahiu a attenção de todos com o toque preliminar do seu tambor. +</p> + +<p>Quando viu em volta um circulo espesso d'ouvintes, dos quaes faziam parte +grande numero de convivas de Pozzoli, desenrolou um largo papel e leu esta +especie de proclamação:</p> + +<p> </p> + +<p>«O violinista hungaro Remissy, aqui presente, faz saber que offerece um +<em>punch</em> aos seus amigos e amigas no proprio local em que foi servido o +almoço d'esta manhã, ao qual circumstancias imprevistas fizeram com que não +tivesse o prazer d'assistir. Que todos o saibam!»</p> + +<p> </p> + +<p>Acabada a leitura, o pregoeiro affixou o papel no<span +class="pn">{74}</span> tronco d'uma arvore e depôz tranquillamente no chão o +tambor, onde um palhaço o foi buscar.</p> + +<p>Depois, abrindo caminho com os cotovellos, desappareceu entre a multidão. +</p> + +<p>O sol baixava, as sombras dos carvalhos alongavam-se d'instante a instante. +</p> + +<p>Os donos d'algumas barracas accenderam os lampeões.</p> + +<p>A Linda e Antonino, que por vontade se tinham conservado perdidos dos seus +companheiros, voltaram sós para o local onde estavam as carruagens, na meia luz +crepuscular, sob a solemnidade grave das arvores.</p> + +<p>O silencio augmentava á medida que avançavam.</p> + +<p>Perdiam-se ao longe os clamores da feira e o ruido discordante da multidão. +</p> + +<p>A floresta parecia indemnisar-se da desordem que n'ella causavam, pelo +contraste de socego altivo, apenas quebrado pelo ultimo chilrear das aves.</p> + +<p>A brisa fresca, impregnada de perfumes sadios, balanceava mollemente as +folhas humidas das arvores.</p> + +<p>Pouco depois de partirem da feira, todos os convivas se achavam na clareira +onde os esperavam as carruagens.</p> + +<p>Ao centro do terreno arrelvado onde fôra servido<span class="pn">{75}</span> +o almoço, elevava-se uma enorme taça de prata cinzelada, em que chammejava um +<em>punch</em> magistral!</p> + +<p>Os reflexos do <em>punch</em> lançavam, n'um largo raio, vibrações de luz +azulada.</p> + +<p>Remissy não apparecia.</p> + +<p>—É necessario esperar, disse Laura, visto ter-nos convidado. Mas onde +estará elle?</p> + +<p>No mesmo instante partiu d'uma matta proxima, como resposta melodiosa, uma +<em>phrase</em> de violino, serena e lenta, n'um rythmo phantastico e velado. +</p> + +<p>O violino de Remissy respondia á voz de Laura.</p> + +<p>E por entre a penumbra sentiu-se como que um formigamento d'insectos, uma +dança extravagante de grillos em hervas seccas, e no meio d'esse acompanhamento +de <em>pizzicato</em> em surdina, a <em>phrase</em> triste repetia-se como um +queixume atravez a noite!</p> + +<p>Foi extraordinario, simples, idealmente puro!</p> + +<p>Quando a ultima vibração melodiosa cessou, um bravo formidavel retumbou na +clareira.</p> + +<p>Remissy appareceu por entre o clarão do <em>punch</em>, cabeça ao vento, +ostentando a sua fronte alta que prematura calvice tornava enorme, com o seu +magnifico <em>stradivarius</em> debaixo do braço esquerdo.</p> + +<p>—Hein! o que dizes a isto, Linda? que te parece a minha <em>Queen +Mab</em>? disse elle dirigindo-se á cantora. Tenho dedos, não é verdade?</p> + +<p>—Bravo! bravissimo! respondeu Laura enthusiasmada.<span +class="pn">{76}</span> Mas isso não impede que seja um homem sem palavra. +Prometteu vir almoçar comnosco e não appareceu.</p> + +<p>—Não me falles em coisas tristes, minha filha!</p> + +<p>Foi o maldito director do Palacio de Crystal de Londres que veiu novamente +importunar-me! Imagina que parto para a capital da Inglaterra hoje mesmo, no +expresso da noite. Antes de partir, porém, quiz que ouvisses a minha +melodiasita.</p> + +<p>Creados de casaca serviam o <em>punch</em> em copos de crystal.</p> + +<p>Foram feitas saudes mais ou menos estravagantes.</p> + +<p>Beberam um ultimo golo e dispozeram-se a subir para as carruagens.</p> + +<p>Remissy despediu-se da diva, beijando-a, e subiu para o carro de posta que o +trouxera.</p> + +<p>Quando viu todos prestes a partir, Pozzoli elevou a grossa voz e disse:</p> + +<p>—Minhas senhoras e meus senhores, tenho a dizer-lhes o seguinte: +depois do campo, a cidade; o almoço campestre d'hoje teve por fim celebrar a +promessa d'escriptura, no theatro dos Italianos, da diva Laura Linda; quero dar +uma <em>soirée</em> em honra da realisação d'essa escriptura. Peço, pois, a +todas e a todos os presentes que queiram ir, d'hoje a quinze dias, passar a +noite em minha casa, na rua Pigolle.<span class="pn">{77}</span> Cantar-se-ha, +dansar-se-ha, jogar-se-ha, beber-se-ha e rir-se-ha!</p> + +<p>Uma triple acclamação victoriou o discurso do amphitryão.</p> + +<p>Em seguida subiram para as carruagens, de volta a Paris.</p> + +<p>—Onde está o sr. de Bizeux? perguntou Laura a Despujolles. Tenho que +fallar-lhe. Quero que me acompanhe a Paris no meu <em>coupé</em>.</p> + +<p>—Não faça tal, minha querida, disse-lhe em voz baixa o doutor. Durante +a festa não se fallou senão na especie de monopolio que o visconde tinha feito +da diva.</p> + +<p>—Se eu era a rainha de festa, quer-me parecer que elle era o heroe +d'ella. </p> + +<p>—Sem duvida, mas siga o conselho d'um amigo. Vou subir comsigo e com o +visconde para o <em>coupé</em>. Deixal-os-hei, se quizerem, em Verinet, d'onde +seguirei para Paris no comboio. Repito-lhe: não parta só com o visconde. +Lembre-se do que poderão dizer.</p> + +<p>Laura levantou a cabeça com altivez e replicou:</p> + +<p>—O que poderão dizer?... Que me importa?... O meu caro doutor conhece +a minha divisa: ser e não parecer. Repito-lhe que tenho de conversar seriamente +com o sr. de Bizeux, e não sei se, com a timidez de que elle é dotado, acharei +occasião tão<span class="pn">{78}</span> propicia como esta. Supporá o dr. que +ha na minha intenção qualquer pensamento menos digno?</p> + +<p>—Eu? não, seguramente, mas.</p> + +<p>—Basta-me isso. Ah! Eis o sr. de Bizeux! ajuntou ella elevando a voz. +Senhor visconde, tenho que fallar-lhe. Quer subir para a minha carruagem e +acompanhar-me até Paris?</p> + +<p>—Oh! minha senhora!... respondeu Antonino meio compromettido, meio +alegre. </p> + +<p>—Então venha. Subiram para o <em>coupé</em> diante de todos.</p> + +<p>—Bravo! disse Lauretto Mina a meia voz, mas por fórma que foi ouvido +por todos os que o rodeavam. Vejo com prazer esboçar-se o numero um... porque +eu quero ser o numero dois!<span class="pn">{79}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0017">VII<br> +Explicações</a></h2> + +<p>A palestra de Laura e de Antonino versou, ao principio, sobre assumptos +indiferentes, e quasi banaes.</p> + +<p>Fallaram do almoço e dos convidados de Pozzoli.</p> + +<p>O visconde não queria dizer o que pensava do emprezario e do tenor.</p> + +<p>Fallou de Remissy, cuja familiaridade o incommodára por vezes, mas cujo +enthusiasmo exuberante fizera com que sympathisasse com elle.</p> + +<p>—Que coração tão bondoso o d'elle! disse Laura. É meu verdadeiro +amigo! Meu pae dedicava-lhe grande affeição e profunda estima. Saberá quanto +vale em o conhecendo melhor. Em Remissy não ha só<span class="pn">{80}</span> a +admirar e a applaudir o artista consumado: é tambem um valente e um patriota +sincero. Durante a guerra da insurreição da Hungria, elle foi um dos primeiros +que se apresentou, e não quiz nem espingarda nem sabre. «Tenho horror de matar +ou de ferir, disse Remissy; de resto, como não sei servir-me d'essas armas, era +capaz de dar cabo de mim com ellas». Em compensação não largou o violino, e +appareceu sempre onde mais accesa era a lucta, ao lado de Kossuth, tocando +admiravelmente o <em>Hymno de Rakoçki</em>, por entre as ballas e a metralha, +sem nunca falhar uma nota!</p> + +<p>Depois d'um curto silencio, a cantora accrescentou:</p> + +<p>—N'uma palavra: Remissy é um homem. Tem, superior a todas, a qualidade +que eu considero mais essencial ao caracter dos homens, a qualidade que o sr. +visconde possue: a lealdade.</p> + +<p>—É virtude que as mulheres tambem possuem, replicou Antonino, e quem a +conhece, minha senhora, affiança que não lhe falta.</p> + +<p>—Desejava possuir essa virtude viril, sem duvida. Entretanto +esforço-me o mais que posso para evitar os dois defeitos que a maior parte das +vezes perdem as mulheres: a galanteria e a vaidade. É precisamente por essa +razão que lhe desejei fallar hoje.</p> + +<p>—Porque? perguntou Antonino surprehendido.</p> + +<p>—N'este dia, em que o vi quasi pela primeira<span +class="pn">{81}</span> vez, occupei-me, sem querer, e como por instincto, quasi +exclusivamente do senhor, como o senhor se occupou quasi exclusivamente de mim. +Ha bocado, de subito, em quanto Remissy tocava, acudiu-me ao espirito que tinha +sido um pouco leviana, que o sr. visconde não conhece a minha fórma de +proceder, talvez original, e que, por isso, interpretaria mal o que hoje se +passou. Portanto, disse commigo: é indespensavel que eu tenha com elle uma +explicação cabal, franca, em que lhe falle com o coração nas mãos...</p> + +<p>—Não sei se deva regosijar-me por essa sua resolução, disse Antonino +com voz tremula. Sinto que estou enfeitiçado e desejava conservar-me assim.</p> + +<p>—Mas eu não desejo que entre nós haja a menor sombra, a menor razão +que de futuro motive a mais leve surpreza. As mulheres, d'ordinario, esperam a +declaração dos homens para as acceitar ou rejeitar. Vae julgar talvez que eu +fujo ás conveniencias mais rudimentares, antecedendo-me á sua declaração, mas é +necessario, primeiro que tudo, que o sr. não soffra. Sr. de Bizeux, tenho +pensado muito no meu amigo desde o dia do incendio. Não dou importancia ao que +se diz, ao que se suppõe, ou ao que se inventou, mas senti, de longe, nas suas +acções, no seu silencio, na sua fuga, e depois, quando o vi e lhe fallei, nas +suas mais insignificantes palavras, no seu<span class="pn">{82}</span> aspecto, +no seu metal de voz, senti... que o senhor não estava longe de amar-me.</p> + +<p>O visconde fez um movimento, e quiz fallar.</p> + +<p>Mas Laura não lhe deu tempo, e continuou:</p> + +<p>—Peço-lhe que me não declare ser isso um facto consumado... Não, não +quero ouvir-lhe dizer: amo-a!</p> + +<p>—Comprehendo... sei... replicou Antonino. A senhora não me ama, o que +é natural, e—o que é triste,—não quer amar-me!</p> + +<p>—Não o amo, nem o quero amar... disse bem, repetiu Laura.</p> + +<p>Antonino fez um gesto de desgosto.</p> + +<p>Laura ajuntou suavemente:</p> + +<p>—Não se zangue commigo, e sobretudo não soffra. Sem duvida lhe +disseram o que tinha sido a minha vida até aqui, mas vista e julgada por +estranhos. Ouça-me agora.</p> + +<p>E seguidamente contou-lhe a educação que recebera, as suas primeiras +impressões, e o duplo fluido de que ella era por assim dizer formada: o pae +transmittira-lhe o culto pela arte, a mãe guiara-a por forma a ter sempre a +consciencia tranquilla, e a vida pura.</p> + +<p>Depois a cantora disse, pensativa:</p> + +<p>—Portanto não me accuse, como teem feito varios, de frieza, de +sequidão. Sinto em mim instinctos de ternura e d'expansão, aos quaes não basta +a sincera<span class="pn">{83}</span> affeição que tenho aos meus amigos. Creio +que só o amor pode encher completamente o coração. Olhe, para se consolar um +pouco, vou dar-lhe uma prova de confiança absoluta, dizendo-lhe o que só se diz +a um irmão: ha em mim, em gráu bastante elevado, um sentimento que herdei de +minha mãe, a mais estremosa das mães: o sentimento maternal. Todas as creanças +que vejo, produzem-me uma impressão inexplicavel, tenho por ellas uma adoração +completa: adoro-lhes os gestos, os sorrisos, a voz balbuciante, a alma por +definir. Ter uma creança que fosse meu filho, é para mim um sonho delicioso; +ter um filho do homem que amasse, é outro sonho que considero impossivel de +realisar-se!</p> + +<p>—Porque?</p> + +<p>—Porque? Sob a apparencia d'uma mulher phantastica, eu sou, +garanto-lhe, uma mulher seria. Não quereria, não poderia amar um homem que não +fosse meu marido.</p> + +<p>Houve um silencio.</p> + +<p>Antonino cortou-o dizendo com voz grave:</p> + +<p>—Escute-me agora, Laura: sou absolutamente livre e senhor das minhas +acções, e da minha vida. Por coisa alguma d'este mundo affligiria ou daria o +menor desgosto a meu pae; mas o homem que me deu o ser possue alma generosa e +elevada como poucos, e tem por mim um amor sem limites. Não me amará<span +class="pn">{84}</span> ainda, Laura, mas, se diligenciar amar-me, é possivel +que o consiga. Pois bem: prometta-me que no dia em que tal succeda, consentirá +em ser minha mulher!</p> + +<p>—Sua mulher!... disse a cantora admirada.</p> + +<p>Depois, com os olhos marejados de lagrimas, accrescentou:</p> + +<p>—Ah! como lhe agradeço a grande prova d'estima que acaba de dar-me! +Como as suas palavras me commovem! Será por me ter salvo a vida? Não sei, mas o +que é certo,—e já ha bocado lh'o disse,—é que fui attrahida para o +senhor por um vivo sentimento de sympathia, e se o não amo ainda, parece-me que +não necessitaria fazer grande esforço para o conseguir. Levanta-se apenas uma +difficuldade, que de novo lhe aponto: não quero amal-o!</p> + +<p>—Mas porque?</p> + +<p>—Porque o sr. visconde não póde nem deve casar commigo.</p> + +<p>—E se os nossos desejos estiverem d'accordo, que obstaculo poderá +separar-nos?</p> + +<p>—Um obstaculo insupperavel. É impossivel que o sr. visconde Antonino +de Bizeux case com uma mulher de theatro, que, mesmo depois de casada, não +renunciará á scena.</p> + +<p>—É impossivel, disse?</p> + +<p>—Disse e repito: é impossivel! Não devemos deixar-nos obcecar por uma +excitação de momento.<span class="pn">{85}</span> Quando se prende o destino +inteiro, deve-se ter em vista não a alegria do instante presente, mas a +felicidade de todo o futuro: Com as aspirações honestas que minha mãe me legou, +eu tenho as aspirações d'espirito de meu pae. Nasci e morrerei artista. Se +fosse pintora, compositora ou escriptora, podia ter um logar na vida da alta +sociedade. Mas sou apenas cantora; o meu talento é a minha voz, e para que esse +talento se produza é necessario um publico, não o publico indulgente dos +salões, mas o grande publico, a multidão que enche um theatro.</p> + +<p>—E suppõe que o amor, o lar, as santas alegrias da familia não +substituirão vantajosamente o ruido das palmas e a gloriola dos bravos?</p> + +<p>—Durante algum tempo... sim... é possivel, é até provavel. Mas estou +certa de que depois chegará o aborrecimento, a nostalgia do proscenio. Na +ultima epoca que cantei no theatro Scala, ha tres annos, adoeci ao começar o +inverno. A doença era ligeira e qualquer outra que não fosse eu estaria +completamente curada com um mez de tratamento e de socego. Mas a impaciencia, o +desgosto e a febre devoravam-me, por fórma que estive de cama tres mezes. +Pereceria longe do theatro, como uma planta a que não chegam os raios do sol. +Ah! se o senhor fosse um artista como eu, pobre, desconhecido até! Mas possue +um honrado titulo e uma grande fortuna. Seu pae<span class="pn">{86}</span> por +mais condescente que seja, não acceitaria para nora uma comediante, uma +cantora, uma mulher que póde ser pateada e assobiada! Se o senhor quizesse +contrariar a vontade de seu pae, desprezando os deveres que lhe impõem o seu +nome e a sua posição social, seria eu a primeira—ouve?—que +recusaria semelhante sacrificio.</p> + +<p>—Sacrificio, se vier a amar-me, será a senhora quem o fará um dia.</p> + +<p>—É possivel, e por isso mesmo é que eu não quero amal-o.</p> + +<p>—Mas eu que a amo, o que hei de fazer?</p> + +<p>—Tornar-se meu amigo. Não diga que não; não supponha que é impossivel +d'operar a transformação do amor em amisade. Verá que hei de auxilial-o +fraternalmente. É necessario vontade e coragem, bem sei, mas estou certa de que +não lhe faltarão essas duas qualidades.</p> + +<p>—Está-me fallando como me fallaria meu pae!</p> + +<p>—Ah! confessa?... Ainda bem! Attenda-o e attenda-me. A um homem de +caracter fraco, eu diria: parta, faça uma longa viagem, e volte d'aqui a alguns +mezes, completamente curado. Ao meu amigo digo-lhe: fique em Paris, vá ver-me +quantas vezes desejar, e estará curado dentro em poucas semanas.</p> + +<p>—Seja! respondeu o visconde. Não partirei, tentarei a prova. Veremos o +que resulta d'ella.<span class="pn">{87}</span></p> + +<p>Quando o <em>coupé</em> parou na rua de Bolonha, á porta da casa de Laura, +Antonino despediu-se da cantora sem commoção apparente. Beijou-lhe a mão e +trocaram amigavelmente um:</p> + +<p>—Até ámanhã.</p> + +<p>O visconde desceu a pé a rua de Glichy e a calçada d'Antin até aos +<em>boulevards</em>.</p> + +<p>Sentia uma especie de consolação ao ver-se perdido entre a multidão.</p> + +<p>Caminhou até que os passeiantes rarearam.</p> + +<p>Só depois disso entrou em casa, com o coração cheio d'incerteza e +d'angustia.<span class="pn">{88}</span> <span class="pn">{89}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0018">VIII<br> +Mais perplexidades</a></h2> + +<p>Antonino executou com a mais perseverante firmeza a resolução que tomára. +</p> + +<p>No dia seguinte ao do almoço em S. Germano, e nos dez ou doze que se +seguiram, foi a casa da cantora, não a hora certa, e com demora indeterminada, +mas sem deixar de apparecer um unico dia.</p> + +<p>Umas vezes encontrava Laura só, outras apparecia o dr. Despujolles, sempre +alegre, sempre espirituoso.</p> + +<p>O visconde era como que uma pessoa da familia da cantora.</p> + +<p>Fallavam d'arte, de qualquer assumpto em geral, da novidade do dia.<span +class="pn">{90}</span></p> + +<p>A Linda, por vezes, quando estavam sós, fallava d'ella propria, com +simplicidade, sem a menor affectação, sem se contrafazer, sem se macular.</p> + +<p>Contava-lhe o seu passado, fallava-lhe do pae, do que tinha visto, das suas +luctas, dos seus successos, das suas dôres.</p> + +<p>Antonino absorvia assim, dia a dia, por completo, as mais insignificantes +minucias da vida de Laura.</p> + +<p>A cantora não dissimulava os seus defeitos ou os seus erros, mas não os +exagerava.</p> + +<p>No dia em que participou a Antonino que assignára, de manhã, com Pozzoli, +uma escriptura d'um anno para cantar no Theatro Italiano, com a multa de +cincoenta mil francos para qualquer das partes contractantes, que resolvesse +rescindir o contracto, o visconde teve uma contracção nervosa.</p> + +<p>Estava escripto que deveria levantar-se entre elles mais aquella barreira. +</p> + +<p>Antonino não demonstrou descontentamento sobre o contracto propriamente +dito, mas ao mesmo tempo indicou uma profunda má vontade contra o Theatro +Italiano, contra Pozzoli e o <em>elenco</em>, que considerou muito inferior ao +do antigo salão Favart.</p> + +<p>Sentiu ver Laura confundida com artistas de valor secundario, n'uma +companhia de que Lauretto Mina era primeiro tenor.</p> + +<p>Lauretto Mina e Pozzoli!<span class="pn">{91}</span></p> + +<p>Um, brigão e libertino; o outro, libertino e rufião!</p> + +<p>Um, trapaceando ao jogo; o outro, explorando os duellos!</p> + +<p>Na opinião d'Antonino aquelles dois homens representavam a escoria dos +italianos.</p> + +<p>N'aquelle mesmo dia recebeu o visconde um convite de Pozzoli, para assistir +á <em>soirée</em> que o emprezario dava, d'ali a algumas noites, na sua casa da +rua Pigolle.</p> + +<p>Laura tencionava ir?</p> + +<p>Emquanto a elle, estava resolvido a não pôr os pés n'aquelle bordel.</p> + +<p>Perguntou á cantora se não sabia o que diziam de Pozzoli.</p> + +<p>—Não é um italiano... é um grego!</p> + +<p>Laura respondeu com meiguice.</p> + +<p>Estava resolvida a ter com Pozzoli as relações indispensaveis que sempre +ligam a escripturada ao emprezario, unicamente.</p> + +<p>Entretanto não podia deixar d'ir á <em>soirée</em>, que era dada em sua +honra, e na qual devia cantar um ou dois trechos de musica.</p> + +<p>Ficaria muito reconhecida ao visconde, se elle annuisse a pôr de parte a +repugnancia que sentia, e assistisse á <em>soirée</em> tambem.</p> + +<p>Necessitava que Antonino estivesse presente, para velar por ella.<span +class="pn">{92}</span></p> + +<p>—Devo confessar-lhe um dos meus maiores vicios, accrescentou Laura, +rindo; sou jogadora. Não sei explicar nem me desculpo d'esta falta. O jogo +produz-me emoções tão extraordinarias, que as procuro e as adoro. Não deixe +d'ir, para que me contenha e afaste até, se eu, como costumo, me deixar +influenciar demais.</p> + +<p>—A acreditar no que se diz, respondeu Antonino, não é para a minha +amiga que a minha attenção deve voltar-se, se jogar com Pozzoli.</p> + +<p>—Bem sei. Diz-se que é muito feliz ao jogo, que principalmente os seus +escripturados não devem jogar contra elle, porque muitas vezes lhes tem ganho +um anno d'ordenados. Pela minha parte garanto-lhe que nunca vi coisa alguma +justificativa d'essa triste reputação de Pozzoli. Apenas uma vez joguei contra +elle, e levantei-me ganhando cento e cincoenta <em>luizes</em>. Mas não +importa; se é verdade o que se diz, isso é mais uma razão para não deixar d'ir +á <em>soirée</em>. Vae?</p> + +<p>—Irei.</p> + +<p>A cantora ficou satisfeita por fazer com que o visconde desempenhasse o +papel de seu protector e conselheiro.</p> + +<p>Sentia immenso prazer pedindo-lhe que a guiasse e reprehendesse, +confessando-lhe as suas faltas e a sua ignorancia.</p> + +<p>Interrogava-o sobre as viagens e estudos que elle<span +class="pn">{93}</span> tinha feito, pedia-lhe a opinião sobre as coisas e sobre +os homens, escutando-o sempre com approvação e deferencia, como um irmão mais +novo escuta o irmão mais velho.</p> + +<p>Nas palestras que tinham, cada vez mais intimas, nunca Laura deixou entrever +a menor parcella de galanteio ou de vaidade.</p> + +<p>A mulher occultava-se, chegava mesmo a desapparecer, para só ficar a amiga. +</p> + +<p>Laura percebia que com a sua encantadora simplicidade e graciosa modestia, +ia contra o fim que tinha em vista, porque um homem com o caracter d'Antonino, +em vez de se affastar, approxima-se cada vez mais da mulher que faz d'elle +confidente da sua alma ingenua e sincera.</p> + +<p>E effectivamente o visconde estava cada vez mais apaixonado.</p> + +<p>Nem já conhecia o grau a que se tinha elevado a sua paixão.</p> + +<p>Ao principio calculava o amor que sentira pela cantora, pelo ciume que +experimentava.</p> + +<p>Inquietava-se por ver com Laura os amigos intimos, como que os inseparaveis +da Linda. De resto, o numero d'esses amigos era limitadissimo.</p> + +<p>Tres ou quatro, contando com Despujolles, e Antonino conhecia-os a todos +antes de ter relações fraternaes com a cantora.<span class="pn">{94}</span></p> + +<p>Quando os encontrou pela primeira vez em casa de Laura, tranquillisou-se. A +Linda fallou-lhe d'elles com um socego e uma serenidade que não deixou no +espirito do visconde a menor sombra de suspeita.</p> + +<p>Socegado pelos que via, Antonino sobresaltou-se por um que não via: o tenor +Lauretto Mina.</p> + +<p>Ouvira dizer que o tenor fizera em tempo a côrte a Laura, e nem uma só vez a +Linda pronunciára o nome de Lauretto.</p> + +<p>Porque?</p> + +<p>A verdade era que Laura temia o tenor, não por ella, mas por Antonino.</p> + +<p>Temia-o por causa das suas continuas fanfarrices, das suas impertinencias, +dos seus modos d'homem mal educado, e, emfim, pelas varias narrações que lhe +tinham feito da pericia com que Lauretto jogava o sabre.</p> + +<p>Como já dissemos, o tenor fôra ajudante d'um professor d'esgrima em Milão. +</p> + +<p>Dizia-se que conhecia dois botes ignorados, que consideravam incorrectos. +</p> + +<p>Na Italia matára um homem, e ferira gravemente um outro.</p> + +<p>Além d'isso batera-se varias vezes, pondo sempre os adversarios fóra do +combate.</p> + +<p>E vangloriava-se do facto, dizendo que estava precavido contra qualquer +acontecimento grave.<span class="pn">{95}</span></p> + +<p>Uma especie d'instincto advertira Laura de que esse acontecimento podia +surgir da fatuidade do esgrimista emerito e da altivez do gentilhomem bretão. +</p> + +<p>Era essa a razão que a levava a não fallar do tenor ao visconde.</p> + +<p>Comtudo um dia Antonino interrogou-a.</p> + +<p>—Esse tal Lauretto Mina, com quem vae cantar no Theatro Italiano, não +lhe fez a côrte em tempo?</p> + +<p>A cantora respondeu, sorrindo e sem se perturbar, que Lauretto fazia a côrte +a todas as mulheres, mas que, a primeira vez que lhe dirigira galanteios, ella +respondera-lhe de fórma que elle não se atrevera a continuar.</p> + +<p>Era a verdade, e Laura disse-a de maneira que convenceu Antonino.</p> + +<p>De resto, fallou d'aquelle homem sem escrupulos sem vergonha, tão +desdenhosamente, que o visconde arrependeu-se de ter, por um instante, +suspeitado que Laura poderia ter sympathia por um patife de tal especie.</p> + +<p>Portanto deixou de ter ciumes.</p> + +<p>Mas em compensação o amor augmentou.<span class="pn">{96}</span> <span +class="pn">{97}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION0019">IX<br> +A confissão</a></h2> + +<p>Um dia,—na vespera da <em>soirée</em> dada por Pozzoli,—Antonino +foi a casa de Laura á hora costumada, duas da tarde, e encontrou-a ao piano.</p> + +<p>A pedido do visconde a Linda cantou duas ou tres canções populares +hespanholas, de que elle gostava muito, com uma graça e perfeição inexcediveis. +</p> + +<p>Antonino escutava, como mergulhado n'uma especie d'adormecimento.</p> + +<p>Ao contrario do que costumava, pouco a applaudiu.</p> + +<p>Ella fechou o piano e approximou-se d'elle.</p> + +<p>Fallou-lhe com a affabilidade e a franqueza habituaes.</p> + +<p>Vendo, porém que o visconde não lhe respondia, disse-lhe:<span +class="pn">{98}</span></p> + +<p>—Está hoje muito triste! O que tem, meu amigo? Recebeu alguma má +noticia? Estará doente seu pae?</p> + +<p>—Effectivamente recebi hoje de manhã uma carta de meu pae, que, +felizmente, está bom, assim como minha irmã. A carta só fallava de mim, e em +resposta a outras que lhe escrevi nos ultimos dias. Como lhe disse, meu pae é o +meu confidente e o meu melhor amigo.</p> + +<p>—Se não é por elle, é pelo sr. que está triste? Teve algum desgosto? +Diga! Como sabe combinámos que eu seria tambem sua amiga.</p> + +<p>—Combinamos, é verdade... respondeu Antonino em tom pungente.</p> + +<p>—Então faça-me confidente dos seus desgostos; já confessou que estava +triste...</p> + +<p>—Estou...</p> + +<p>—E qual é a causa d'essa tristeza?... Vamos, falle...</p> + +<p>—Se fallo, Laura, respondeu Antonino decidindo-se? falto ao +compromisso que tomei com a senhora. Mas é o mesmo, fallarei... Perdôe-me e +escute-me.</p> + +<p>—Acautelle-se, disse a cantora inquieta. Não venha turvar a profunda +satisfação que todos os dias me causa a sua visita. Ha apenas duas semanas que +o conheço, e parece-me que estamos relacionados ha mais de dez annos. +Acautelle-se... acautelle-se. De<span class="pn">{99}</span> certo não me quer +entristecer tambem, e ainda menos offender-me.</p> + +<p>—Não a entristecerei nem a offenderei, certamente. Mas não combinámos +tambem que seriamos sempre extremamente francos um com o outro, que nada +dissimulariamos, que o primeiro artigo da lei da nossa amisade seria a mais +absoluta confiança? Pois bem: vou ler no meu coração, vou indicar-lhe tudo o +que n'elle ha. Calou-se por instantes, e depois continuou:</p> + +<p>—Pediu-me, Laura, que não fosse mais do que seu amigo. Tentei, de boa +vontade e de boa fé, satisfazer o seu pedido, mas não o consegui. Quanto mais +vezes a vejo, mais augmenta em mim a estima e a admiração pela senhora, e com a +admiração e a estima, o amor. Não posso resistir-lhe, não posso luctar por mais +tempo, não posso conter-me! É indispensavel que lhe diga bem alto: amo-a, +Laura, amo-a!...</p> + +<p>Ella soluçou.</p> + +<p>—Escute-me... ainda não acabei. Se a phrase que me prohibiu de +pronunciar saltou dos meus labios, não foi com a intenção de a affligir ou de +lhe desobedecer. Não me esqueci d'uma só das palavras que trocamos á volta de +S. Germano. Consinta apenas que uma ultima vez lhe faça a seguinta pergunta; se +casasse com um homem que a amasse e<span class="pn">{100}</span> cuja posição e +fortuna lhe permittissem abandonar o theatro, ser-lhe-ia completamente +impossivel renunciar á scena para sempre?</p> + +<p>—Já lh'o disse, mas vou repetir-lhe que o theatro é para mim como uma +segunda vida, e que não devo nem quero renunciar a elle.</p> + +<p>—Pois bem, Laura, eu é que não posso renunciar á sua mão. Talvez +soffresse menos não respirando do que deixando de a ver. A senhora é para mim +mais do que uma segunda vida, porque é a minha vida inteira! Não quer ceder ao +meu pedido? Cederei eu ao seu.</p> + +<p>E accrescentou com voz firme:</p> + +<p>—Continue no theatro, Laura, e no dia em que me amar, será minha +mulher! </p> + +<p>Ella levantou-se, estupefacta, e soltou um grito de surpreza.</p> + +<p>—É possivel?... O que disse?... Pois consente?... Deixar-me-ha ficar +no theatro... depois de dar-me o seu nome?... Oh! meus Deus!...</p> + +<p>Sentiu uma alegria enorme, inexplicavel, de que ella propria não +comprehendia a significação.</p> + +<p>Elle ajoelhou-lhe aos pés e disse:</p> + +<p>—Sim... tudo... tudo! Consisto em tudo, com tanto que seja +minha!...</p> + +<p>Laura pôz-lhe uma das mãos na frontes e respondeu:<span +class="pn">{101}</span></p> + +<p>—Não, meu amigo, é muito! Não devo consentir em tanta generosidade... +não quero acceitar um tão grande sacrificio... não quero!...</p> + +<p>N'esse momento ouviu-se uma voz, alta e clara, na sala contigua áquella em +que estavam Antonino e Laura.</p> + +<p>Era a voz de Lauretto Mina.<span class="pn">{102}</span> <span +class="pn">{103}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00110">X<br> +O supplicio do silencio</a></h2> + +<p>O tenor fallava com Jacintha, a creada de quarto.</p> + +<p>Devemos declarar aqui que Lauretto pertencia ao numero d'aquelles a quem a +expansiva Jacintha chamava bonitos.</p> + +<p>—Deixa-me, rapariga! dizia, ou antes, gritava o tenor. Um companheiro +nunca incommoda!</p> + +<p>E entrou de subito na sala onde estavam Laura e Antonino.</p> + +<p>A Linda empallideceu.</p> + +<p>O visconde levantou-se, cerrando os labios, enraivecido.</p> + +<p>Lauretto fingiu não ter visto Antonino ajoelhado.</p> + +<p>Foi direito a Laura, e pegou-lhe na mão, que ella não lhe estendera.</p> + +<p>—Bom dia, minha querida, disse elle. Senhor visconde, tenho a honra de +o cumprimentar... Esta Jacintha<span class="pn">{104}</span> a não me querer +deixar entrar!... Nós só a estranhos não permittimos a entrada nos nossos +camarins, mas, que diabo! nas nossas casas os collegas teem sempre entrada +franca!</p> + +<p>Laura, interdicta, não achou uma só palavra que responder.</p> + +<p>Elle não se incommodou por não obter resposta, e continuou:</p> + +<p>—Com que então cantamos ámanhã juntos, na <em>soirée</em> de Pozzoli, +o dueto da <em>Lucia</em>! É por essa razão que venho a tua casa. Se queres, +vamos ensaiar-nos, minha querida.</p> + +<p>Antonino estava irritadissimo.</p> + +<p>Aquelle homem atrevia-se a tratar Laura por tu!</p> + +<p>Chamava-lhe <em>minha querida</em>, como se estivesse fallando com a creada +de quarto!</p> + +<p>Deu um passo para Laura, interrogando-a com o olhar ancioso.</p> + +<p>Ella de certo ia zangar-se, mandaria pôr fóra o atrevido... ou, pelo menos, +com uma só palavra, permittiria que elle, Antonino, interviesse, dando uma +lição ao insolente.</p> + +<p>Laura, gelada de pavor, percebia tudo o que se passava no espirito do +visconde.</p> + +<p>Mas deveria ella provocar um conflicto entre aquelles dois homens?</p> + +<p>Do conflicto resultaria um duello talvez...<span class="pn">{105}</span></p> + +<p>Aquelle miseravel mataria Antonino.</p> + +<p>Por isso, com um sorriso forçado, balbuciou apenas:</p> + +<p>—Ensaiar o dueto?... Não, é inutil... Agradeço-lhe ter-se +incommodado... </p> + +<p>—Como queiras, <em>cara mia</em>, replicou o tenor.</p> + +<p>E sem ceremonia pegou n'uma cadeira e sentou-se perto de Laura.</p> + +<p>Percebia perfeitamente o effeito que estava produzindo, e no intimo +alegrava-se com ferocidade.</p> + +<p>Via no rosto de Laura pintada a consternação e a angustia, e nas feições do +visconde a indignação e o furor.</p> + +<p>Lauretto, ao contrario, estava cada vez mais tranquillo.</p> + +<p>De resto, que podiam elles fazer ou dizer?</p> + +<p>Por mais indignados que estivessem intimamente, estavam condemnados ao +silencio.</p> + +<p>Se ella se irritasse pelo procedimento indelicado do tenor, se por uma +palavra ou por um gesto deixasse perceber que se considerava offendida, o +visconde tinha o direito e o dever de intervir.</p> + +<p>E o que se seguiria?</p> + +<p>Uma altercação, de que resultaria um desafio, com todas as suas perigosas +consequencias.</p> + +<p>Se Antonino, retrahindo-se Laura, se mostrasse mais susceptivel que ella e +levantasse qualquer termo<span class="pn">{106}</span> insolente de Lauretto, +faltaria ás mais rudimentares praxes da boa educação, comprometteria a cantora, +porque se daria ares de mandar mais que a dona da casa.</p> + +<p>O tenor, divertindo-se com a situação embaraçosa do visconde e da cantora, +continuou fallando a Laura com toda a liberdade.</p> + +<p>E, para completa impertinencia, fallou-lhe na sua lingua patria.</p> + +<p>Antonino sabia o italiano quasi tão bem como o francez, mas podia +desconhecel-o, e n'esse caso era excluido da conversação.</p> + +<p>—Não necessitas ensaiar o dueto, <em>cara</em>? Eu, desde que o cante +comtigo, estou certo de que hei de cantal-o magnificamente. Não o canto com +tanta correcção com qualquer outra. Como sabes, quando se sente o que se canta, +a emoção communica-se. Decididamente obteremos um verdadeiro successo! Ah! +<em>cara mia</em>, que alegria sinto por cantar de novo a teu lado! O meu pobre +talento é como duplicado pelo teu. Pozzoli disse-me que a escriptura já estava +assignada. É verdade? Duvido sempre das affirmações d'aquelle demonio.</p> + +<p>—É verdade, respondeu Laura em francez.</p> + +<p>O tenor, é claro, fingiu não comprehender a indirecta advertencia, e +continuou na sua lingua:</p> + +<p>—Ah! Pozzoli d'esta vez não mentiu?!.... Bravo!<span +class="pn">{107}</span> bravissimo! Se elle necessitar de metade dos meus +ordenados para augmentar os teus, da melhor vontade os cedo. Vamos ámanhã dar +aos parisienses o ante-gosto do nosso successo futuro. Estou satisfeitissimo +por teres annuido a ir á <em>soirée</em> do nosso emprezario. Verdade seja que +não podias proceder d'outra fórma.</p> + +<p>—Effectivamente era difficil recusar.</p> + +<p>—Era até impossivel. Entretanto dizia commigo: a <em>casta diva</em> +não acceita. Em S. Germano, em pleno campo, o Pozzoli, que nós conhecemos, +evaporava-se um pouco; mas em casa d'elle não pode deixar de ser o que na +realidade é. Ah! Ah! em Paris augmentou até os conhecidos desregramentos, +aquelle maroto! De resto, eu, como sou homem, pouco me importo com isso. Mas +digo mal: é justamente por ser homem que mais sinto as loucuras de Pozzoli. +Como está todos os dias a mudar de sultanas,—aquelle sultão!—o +pobre tenor é forçado a ser, successivamente, agradavel a cada uma das +favoritas. Não me falta que fazer. A que reina agora é a Elvira gorda. +Conheces?</p> + +<p>—Não, respondeu Laura com firmeza.</p> + +<p>—Agora me recordo que ella não foi a S. Germano. Não gosta d'apparecer +de dia. Mas socega, que elle ámanhã não deixa de apresentar-t'a. Tem uma prenda +bôa, a Elvira; não é cantora, e por isso não<span class="pn">{108}</span> me +incommoda com pedidos para que cante com ella. É bailarina; dirige o corpo de +baile do theatro Italiano, composto de doze sylphides que ámanhã dansarão na +<em>soirée</em> um bailado a caracter. Não te assustes, <em>casta diva</em>, +porque em publico apparecerão pouco apimentadas. Haverá outros divertimentos; +jogar-se-ha tambem. Tu continuas sendo jogadora, não é verdade? Na questão do +jogo estou convencido, caso extraordinario, que calumniam Pozzoli. Dir-me-has +que eu jogo sempre a favor d'elle, mas isso explica-se: Pozzoli tem sorte como +poucos. E sabes porque? Fiz esta descoberta, apesar de não lhe faltarem +sultanas, como te disse: Pozzoli é infeliz nos amores. Ámanhã não foges á +tentação: depois de cantarmos decerto jogarás algumas <em>mãos</em> de +<em>baccara</em>.</p> + +<p>—Não sei, respondeu Laura impaciente.</p> + +<p>Lauretto continuou, mas d'esta vez em francez:</p> + +<p>—E o sr. visconde gosta de jogar? Se assim não fôr divertir-se-ha por +outra fórma, porque as distracções não faltarão. Em casa de Pozzoli ha uma sala +d'armas. Fui eu que a installei, aconselhando-o a que jogasse um pouco o sabre, +todos os dias, para não engordar demasiadamente. Não é por ser meu discipulo, +mas Pozzoli é já adversario para se temer um pouco. Um dos numeros do programma +da festa é um assalto. Sou apaixonadissimo pela esgrima. Tenho um grande horror +pelos duellos, porque já matei<span class="pn">{109}</span> dois adversarios, +mas sinto-me satisfeitissimo quando n'uma sala d'armas empunho um sabre ou um +florete. Tambem não admira: foi esse por muito tempo o meu ganha pão; e não me +envergonho de o confessar, pelo contrario, orgulho-me. Hoje, para mim, a +esgrima é apenas um simples passatempo, em que tanto se distrahem os artistas +como os fidalgos, não é verdade, sr. visconde?</p> + +<p>Antonino era d'esta vez directamente interpellado por Lauretto Mina.</p> + +<p>Brilharam-lhe os olhos, e abriu a bocca para responder. Laura estremeceu. +</p> + +<p>Socegou, porém, porque no mesmo instante Jacintha abriu a porta da sala, e +annunciou:</p> + +<p>—O sr. dr. Despujolles.</p> + +<p>O medico cumprimentou Laura e o visconde.</p> + +<p>Lauretto Mina poucas relações tinha com o dr., e não se arriscou a ser muito +familiar com elle.</p> + +<p>Disse apenas:</p> + +<p>—Tenho a honra de cumprimentar o nosso excellente dr. Despujolles. +Infelizmente sou obrigado a partir no proprio momento em que elle chega. +Declaro, porém, que não é com medo de que me faça febre, como se diz no +<em>Barbeiro</em>. Pozzoli espera-me ás tres horas, por causa dos ultimos +preparativos para a <em>soirée</em>. Até ámanhã, minha cara Linda, Sr. +visconde... um seu humilde creado...<span class="pn">{110}</span></p> + +<p>Rodou sobre os tacões, fez com a mão um gesto amigavel ao dr., e sahiu.</p> + +<p>—Aborrecida creatura! disse Despujolles. Nunca pude supportal-o!</p> + +<p>Laura e Antonino não responderam.</p> + +<p>Elle olhou-os admirado.</p> + +<p>—Mas o que teem? Parece que viram a cabeça de Medusa!</p> + +<p>—Meu caro dr., disse Laura, foi essa aborrecida creatura, como lhe +chamou, que, na presença do sr. visconde de Bizeux, em minha casa, se atreveu a +tratar-me como apenas nos tratamos no theatro. O sr. de Bizeux desconhece, sem +duvida, os usos e costumes, originalmente singulares, do nosso mundo theatral. +Os artistas tratam-se por tu entre si desde o primeiro dia que se conhecem. O +que não procede d'essa fórma é immediatamente considerado mau companheiro. Isto +não impede que os homens bem educados,—e no theatro tambem os ha, e +muitos,—quando encontram na sociedade uma mulher que é sua collega, se +cohibam de lhe fallar como se falla a uma senhora, sobretudo diante +d'estranhos. Mas ninguem ignora que Lauretto Mina não é um homem bem educado. +Entretanto o sr. visconde, que desconhecia o costume, estranhou a linguagem um +pouco licenciosa do insolente que acaba de sahir d'aqui. Emquanto fallou, Laura +nem por um instante desfitou<span class="pn">{111}</span> Antonino, cujas +feições indicavam um profundo desgosto.</p> + +<p>Despujolles percebeu que chegára n'um momento de crise aguda, e tratou de +intervir como calmante, dizendo:</p> + +<p>—O nosso amigo, quasi recemchegado a Paris e desconhecedor, por +completo, dos habitos do nosso mundo de bastidores, não pode adivinhar o que eu +sei, que vivo ha vinte annos entre artistas. Não admira, pois, que se +surprehendesse e desgostasse pelo intimo tratamento de <em>tu</em>, que, +comtudo, garanto-o, é universal entre os artistas.</p> + +<p>—Esse tratamento admirou-me ao principio, confesso, respondeu Antonino +com voz lenta; mas o que mais me surprehendeu não foi a fórma da linguagem foi +a propria linguagem.</p> + +<p>—Oh! isso é uma especialidade de Lauretto Mina! replicou Laura com +vivacidade. E entretanto fiquei tão surprehendida como o meu amigo.</p> + +<p>—Então porque não lhe fez comprehender isso mesmo? Eu esperava um +olhar, um movimento, um simples signal que chamasse esse insolente á ordem.</p> + +<p>Uma mulher nunca pode dizer a um homem que sentiu medo por elle. Portanto +Laura limitou-se a responder:</p> + +<p>—Não quiz dar importancia ás inconveniencias<span +class="pn">{112}</span> d'esse homem, para que elle julgasse que nem reparava +n'ellas.</p> + +<p>—O Lauretto Mina é com effeito bastante conhecido e tem bem inferior +cotação para que se dê importancia ao que diz.</p> + +<p>Laura continuava olhando para Antonino, que se calou.</p> + +<p>—Peço perdão, meu caro dr., disse a cantora, mas o caso d'esta vez +tinha uma importancia enorme...</p> + +<p>E, voltando-se para o visconde, accrescentou: O que acaba de se passar, +confirma, sr. de Bizeux, o que eu estava para lhe dizer: agradeço-lhe muito o +generoso pensamento que teve, mas não posso acceitar o que me propoz. Como vê, +a sua intenção é completamente irrealisavel.</p> + +<p>Despujolles, comprehendendo que estava alli de mais, levantou-se, dizendo a +Laura:</p> + +<p>—Deixo-a. Subi apenas para lhe dizer: até ámanhã, na <em>soirée</em> +de Pozzoli.</p> + +<p>Antonino estava n'um d'esses momentos em que se necessita estar só, ou +antes, soffrer sem testemunhas.</p> + +<p>Fez parar Despujolles com um gesto.</p> + +<p>—Sou eu que me retiro, meu caro doutor. Demorei-me aqui mais do que +desejava. Tenho de resolver em casa um negocio urgente.<span +class="pn">{113}</span></p> + +<p>Apertou a mão a Laura, que apenas lhe disse:</p> + +<p>—Espero que cumpra a palavra dada. Irá á <em>soirée</em>, a que eu não +posso deixar d'assistir, não é verdade? Arrependeu-se de lhe ter recordado a +promessa feita, porque Antonino, depois d'um instante de hesitação, e como +occorrendo-lhe uma idéa subita, respondeu precipitadamente:</p> + +<p>—Sim, irei á <em>soirée</em> de Pozzoli. É indispensavel que eu me +embrenhe por completo nos habitos dos artistas!</p> + +<p>Despediu-se de Despujolles e saiu, sentindo inexplicavel oppressão no +coração.<span class="pn">{114}</span> <span class="pn">{115}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00111">XI<br> +Ouro, lama e sangue</a></h2> + +<p>A casa de Pozzoli era concorridissima no tempo do ultimo imperio.</p> + +<p>N'essa epoca, em que apenas se pensava em gozar e em que não se +escrupulisavam os meios a empregar para attingir qualquer prazer, as salas do +director do Theatro Italiano passavam, com justiça, por ser d'aquellas em que +melhor se perdia uma noite.</p> + +<p>Os homens que frequentavam a casa de Pozzoli pertenciam á melhor sociedade +parisiense.</p> + +<p>As mulheres faziam parte de todas as multiplices camadas sociaes.</p> + +<p>Encontravam-se alli artistas de primeira ordem,<span class="pn">{116}</span> +como a Linda, e outras que por artistas queriam passar, mas que, d'ordinario, +não tinham direito a esse qualificativo, e que só se tornavam notadas pela +belleza ou pelo espirito, mais ou menos original, mais ou menos livre.</p> + +<p>O palacio em que Pozzoli habitava, era vasto e perfeitamente bem dividido +para recepções e festas de qualquer natureza.</p> + +<p>Pozzoli decorára e mobilára a casa com sumptuosidade, a que faltava um certo +gosto, mas visando a determinado effeito, que muitas vezes attingia.</p> + +<p>A arte de tapeceria moderna resplandecia em todas as salas.</p> + +<p>Entrava-se no rez do chão, subindo seis degráus, que terminavam em largo +patamar, protegido por elegante cobertura.</p> + +<p>O vestibulo era coberto de bocados de marmore, alternadamente branco e +vermelho, em losango.</p> + +<p>A escadaria, coberta de valioso tapete de Smyrna, era de marmore branco, e +de marmore vermelho o corrimão.</p> + +<p>Uma palmeira do Senegal envolvia o tronco na quasi perfeita espiral das +folhas largas e flexiveis.</p> + +<p>As paredes, terminando em velhos Aubussons, eram enfeitadas por placas de +prata, de muitos braços, sustentando globos baços, que espalhavam uma claridade +discreta.<span class="pn">{117}</span></p> + +<p>O grande salão Luiz XVI, branco e ouro, era illuminado por um lustre enorme, +e ornado de oito espelhos.</p> + +<p>N'esse salão entrava-se por uma porta que se abria á direita do vestibulo. +</p> + +<p>No fogão de marmore de Carrara, entre dois Renommées ladeando um espelho +elliptico, e encimado por um frontão em arco, elevava-se, n'um pedestal +simples, o busto de Rossini.</p> + +<p>Ao fundo, o piano d'Erard, um magnifico piano de cauda, ornado d'assumptos +extrahidos a Watteau, a Lancret e Fragonard.</p> + +<p>A sala de jantar ficava em frente do salão, á esquerda do vestibulo.</p> + +<p>A sala de jogo, a sala de fumar, a bibliotheca, e a sala d'armas, eram no +primeiro andar.</p> + +<p>A primeira impressão que se experimentava ao entrar n'aquelles salões de +velludo, seda e oiro, era a de falta d'ar.</p> + +<p>Parecia que não se poderia respirar á vontade.</p> + +<p>Sentia-se que se estava num meio artificial, falso.</p> + +<p>Ao reparar-se para as ondas de luz que cahiam dos lustres e dos candieiros, +perguntava-se se a luz do dia, a verdadeira luz, poderia penetrar alli.</p> + +<p>As tapecerias e os estofos espessos dos reposteiros e dos cortinados, +estavam como que impregnados<span class="pn">{118}</span> d'um perfume +capitoso, que tornava pesada a cabeça, embaciados os olhos, oppresso o peito. +</p> + +<p>Ás onze horas os salões começaram a encher-se.</p> + +<p>Áquella hora ainda não tinham chegado nem Laura nem o visconde.</p> + +<p>Pozzoli, encontrando-se com Lauretto Mina, que tambem fazia um pouco de dono +de casa, perguntou-lhe em voz baixa:</p> + +<p>—Tens a certeza de que a tua <em>casta diva</em> não deixa de vir? Não +achas possivel que o nosso bretão a prohiba de comparecer?</p> + +<p>—Acho...</p> + +<p>—Começo a antypathisar com o tal visconde de Bizeux! Em S. Germano a +custo me cumprimentou, e ao receber o convite para a <em>soirée</em> d'esta +noite, apenas me mandou o seu cartão, com estas palavras seccas, escriptas a +seguir ao nome: <em>acceita o convite do sr. Pozzoli</em>. Desagrada-me deveras +o pretencioso fidalgo!</p> + +<p>—E eu gosto immenso d'elle, respondeu o tenor, rindo.</p> + +<p>—Sim!... Porque?</p> + +<p>—Porque cada vez amo mais a Linda, e estou convencido de que será o +visconde quem me franqueará o caminho que conduz ao coração de Laura. Cedo-lhe +o logar da melhor vontade. Em geral não se gosta<span class="pn">{119}</span> +do successor, mas não ha razão para odiar o predecessor. Ah! Eil-o que chega! +</p> + +<p>—Com a Linda?</p> + +<p>—Não... Vem com o conde de Vireuil.</p> + +<p>—Diabos me levem se eu fingir que o vejo durante toda a noite!</p> + +<p>—Estás doido! Olha que elle é rico, e provavelmente gosta de jogar.</p> + +<p>—Necessito tanto do dinheiro do visconde, como d'elle proprio!</p> + +<p>—Mas parece-me mais conveniente detestal-o e ir-lhe embolsando o +dinheiro...</p> + +<p>—Que vá para o diabo! Recebe-o tu, se quizeres. Decididamente, não +estou disposto a incommodar-me com semelhante animal!</p> + +<p>—Eu? replicou o tenor. Não caio n'essa! Hoje não quero brincadeiras +com elle. Tratarei até de o evitar, com a maxima prudencia e habilidade.</p> + +<p>Alguns minutos depois chegava Laura Linda.</p> + +<p>Vinha acompanhada pelo dr. Despujolles, que lhe dava o braço.</p> + +<p>Trazia um magnifico vestido de velludo preto, muito decotado, que fazia +resaltar admiravelmente a brancura <em>mate</em> da sua cutis d'andaluza.</p> + +<p>Nos sedosos e abundantes cabellos pretos ostentava um diadema de margaritas +em brilhantes.<span class="pn">{120}</span></p> + +<p>Das orelhas pendiam-lhe duas margaritas eguaes ás do diadema.</p> + +<p>Aos cantos dos laços dos sapatos de setim mais duas margaritas semelhantes, +como que chamavam a attenção para a extraordinaria pequenez dos pés.</p> + +<p>Esta <em>toilette</em> um pouco triste realçava, comtudo, a incomparavel +belleza da cantora.</p> + +<p>Sob os feixes de luz que sahiam dos lustres, os esplendores setinosos da +cabelleira preta, o vibrante brilho dos olhos aveludados, a faisca viva do +sorriso, coruscavam clarões femininos, scintillamentos de parisiense, para quem +o verdadeiro sol é a luz das <em>soirées</em>.</p> + +<p>Pozzoli, radioso, precipitou-se para Laura, logo que a viu entrar.</p> + +<p>—Ah! Até que emfim chegou a nossa querida diva! Estavamos anciosos +pela sua chegada...</p> + +<p>—Porque?</p> + +<p>—Porque o concerto não podia começar sem que estivesse presente...</p> + +<p>Offereceu-lhe o braço para a conduzir ao salão, onde todos os convidados, +amigos ou admiradores, a foram cumprimentar.</p> + +<p>Laura sorriu a Antonino quando o visconde lhe fallou.</p> + +<p>Só elle percebeu, ou antes, sentiu, que n'aquelle sorriso havia uma nuvem de +tristeza.<span class="pn">{121}</span></p> + +<p>O concerto começou pouco depois.</p> + +<p>Quando chegou a vez a Laura, pediu para cantar primeiro o dueto da +<em>Lucia</em>, que estava indicado no programma como devendo ser o segundo +trecho.</p> + +<p>Lauretto Mina cantou a toda a voz, á qual deu tudo o que suppunha ou podia +ter de sentimento.</p> + +<p>Laura cantou com a segurança e a pericia costumadas, mas os que por mais +vezes a tinham ouvido executar o dueto declararam que ella, d'esta vez, não lhe +dera todo o brilho que os seus vastos recursos vocaes permittiam.</p> + +<p>Ainda assim o successo não foi menor.</p> + +<p>Remissy, já de volta de Londres, executou as suas celebres variações sobre o +<em>Carnaval de Veneza</em>, a que deu o mais extraordinario e admiravel relevo +e a mais poetica e sonhadora phantasia.</p> + +<p>Depois d'uma aria de baritono, Laura sentou-se ao piano e cantou um trecho +da <em>Mancenilheira</em>.</p> + +<p>N'essa aria é que os seus admiradores reconheceram a Linda!</p> + +<p>Cantou com todo o sentimento, com toda a alma!</p> + +<p>Não olhou uma unica vez para Antonino, mas era por elle que Laura se +esforçava por cantar com surprehendente habilidade.</p> + +<p>O effeito foi extraordinario.</p> + +<p>O auditorio, transportado, rompeu em applausos enthusiasticos.<span +class="pn">{122}</span></p> + +<p>Antonino, reprimindo violentamente os soluços prestes a rebentar, +abysmava-se n'um extasi de dôr e de paixão. Chegou a hora da ceia.</p> + +<p>Passaram á sala de jantar, vasta mas um pouco fria, mercê das paredes e +columnas de marmore.</p> + +<p>Os aparadores estavam carregados d'eguarias, e servidas as mezas.</p> + +<p>Pozzoli conduziu Laura para uma meza, sentando-se junto da cantora.</p> + +<p>Por entre a barafunda dos convidados que procuravam logar, o conde de +Vereuil, que seguia Antonino, fel-o parar inesperadamente, dizendo-lhe depois: +</p> + +<p>—Meu caro, esta dama pede-me que o apresente.</p> + +<p>E accrescentou:</p> + +<p>—O sr. visconde de Bizeux.—<em>Madame</em> Elvira.</p> + +<p>A Elvira gorda,—porque era a dona da casa em pessoa que fôra +apresentada a Antonino—desfez-se em cumprimentos e phrases amaveis.</p> + +<p>Ouvia fallar tanto do sr. de Bizeux, que desejava ardentemente conhecer tão +distincto gentilhomem!</p> + +<p>Antonino, cortez e galante sempre com qualquer mulher, respondeu ás +expressões admirativas da Elvira gorda com as banalidades do estylo.</p> + +<p>Ella tomou o braço do visconde, sem ceremonia, e conduziu-o para uma das +mezas, bastante distanciada d'aquella a que estava Laura.<span +class="pn">{123}</span></p> + +<p>A Elvira gorda fôra em tempo bastante formosa, e á luz do gaz parecia-o +ainda.</p> + +<p>Era branca e loira.</p> + +<p>Tinhas as feições regulares, mas sem expressão.</p> + +<p>O que ainda a fazia passar por uma bella mulher era o corpo, admiravelmente +bem feito, esbelto como poucos, d'espaduas e braços soberbos.</p> + +<p>Fallava com vivacidade e um certo espirito a Antonino, que lhe respondia com +phrases curtas, d'uma concisão impossivel d'exceder.</p> + +<p>Discorrendo sobre Laura, a amante de Pozzoli absteve-se prudentemente de lhe +apontar o mais insignificante defeito.</p> + +<p>—Formosissima mulher! disse ella, mas sobretudo admiravel artista. +Nasceu para cantar, mas se a voz lhe faltasse nem por isso deixaria de brilhar, +porque á rara distincção de maneiras junta os mais invejaveis predicados de +coração. </p> + +<p>E continuou a elogiar a cantora, não perdendo occasião para, +disfarçadamente, dirigir tambem elogios ao visconde.</p> + +<p>Terminada a ceia, a Elvira gorda tomou o braço d'Antonino, para lhe fazer as +honras da casa.</p> + +<p>Mostrou-lhe a estufa, a galeria dos quadros, onde, entre algumas telas de +mestres, abundavam as copias mediocres, que Pozzoli fazia passar por originaes +authenticos.<span class="pn">{124}</span></p> + +<p>Fez parar o visconde deante d'uma estatua de Diana, para a qual +<em>pousara</em>, tendo apenas á cinta, como se via no marmore, uma simples +pelle de panthera.</p> + +<p>E tentou córar aos cumprimentos forçados d'Antonino, que declarou admiraveis +as formas.</p> + +<p>—Quer vir á sala do jogo? Gosta do <em>bacura</em>? perguntou ella.</p> + +<p>—Fará bem em ir, meu caro, disse repentinamente o dr. Despujolles +surgindo ao lado d'elles. A nossa amiga Laura Linda, pela fórma como está +jogando, arrisca-se a ficar arruinada esta noite.</p> + +<p>Desde que chegou, Laura seguira sempre o visconde com o olhar, sentindo +inexplicavel inquietação.</p> + +<p>Tambem não perdia de vista Lauretto Mina.</p> + +<p>Mas, percebendo que Antonino diligenciou por vezes approximar-se do tenor, +socegou por lhe parecer que Lauretto evitava encontrar-se com o visconde.</p> + +<p>O socego foi substituido por um sentimento irritante quando deu pelas +attenções que a Elvira gorda prodigalisava ao visconde.</p> + +<p>Esse sentimento, desconhecido para ella, fazia-a soffrer immenso.</p> + +<p>Era o ciume.</p> + +<p>O que quereria aquella mulher a Antonino?<span class="pn">{125}</span></p> + +<p>Julgou que o mal estar que sentia era resultante da natural apprehensão que +lhe causava o pensamento de que o visconde podia correr perigo.</p> + +<p>Pois porque razão soffreria ella pelas attenções que a amante de Pozzoli +dispensava ao sr. de Bizeux?</p> + +<p>Vi-os sahir da sala de jantar, despeitada.</p> + +<p>Não tinha razão para se zangar por um facto tão insignificante, que de mais +a mais se passava com um homem a quem declarára não poder amar.</p> + +<p>Não devia considerar o visconde completamente livre, para escutar as phrases +ternas d'aquella mulher?</p> + +<p>E a cantora percebeu que era extraordinaria a sua preoccupação.</p> + +<p>Pozzoli, ao levantar-se da mesa, perguntou-lhe se queria jogar.</p> + +<p>Laura respondeu machinalmente que sim, mas não comprehendera o que lhe +dissera o emprezario.</p> + +<p>Chegaram á sala do jogo, conhecida pelos <em>habitués</em> sob a designação +da sala verde, porque as paredes, o tecto e o proprio soalho eram forrados de +veludo d'aquella côr.</p> + +<p>Duas grandes mezas d'ebano, rodeadas por cadeiras, eram os unicos moveis que +guarneciam a sala, alumiada por quatro candelabros de sete lumes cada um, +collocados nos angulos da casa.<span class="pn">{126}</span></p> + +<p>Laura sentou-se, pensativa.</p> + +<p>Ao principio não quiz jogar.</p> + +<p>Depois, importunada e espicaçada por sentimentos diversos, passou a tomar +pelo jogo o mais vivo interesse.</p> + +<p>Chegou-lhe a vez de fazer <em>banca</em>.</p> + +<p>Pegou no baralho nervosamente, e jogou sem reflexão nem presença d'espirito. +</p> + +<p>Perdeu todos os <em>baccaras</em>.</p> + +<p>A sorte, sempre contraria a Laura, fez-lhes perder mil <em>luizes</em> n'um +instante.</p> + +<p>Quando Pozzoli fez banca, disse graciosamente para a cantora:</p> + +<p>—Vae recuperar todo o dinheiro perdido, verá!</p> + +<p>A previsão não se realisou.</p> + +<p>Laura, esperando rehaver o perdido, jogou quantias importantes.</p> + +<p>O azar continuou.</p> + +<p>Foi então que Despujolles, notando a infelicidade da cantora, e a sorte +singular de Pozzoli, sahiu da sala em busca d'Antonino, a quem lhe pareceu +conveniente avisar. Entraram juntos no salão do jogo.</p> + +<p>A gorda Elvira segui-os de longe.</p> + +<p>Laura viu o visconde assim que elle entrou.</p> + +<p>—Ha vinte mil francos de <em>baccara</em>, dizia Pozzoli.</p> + +<p>—Jogo-os! disse Laura lançando para Antonino como que um olhar de +desafio.<span class="pn">{127}</span></p> + +<p>Pozzoli deu as cartas e ganhou.</p> + +<p>—Ha quarenta mil francos... disse elle.</p> + +<p>Laura ia abrir a bocca.</p> + +<p>Antonino, porém, que se approximara, curvou-se, para ella, e disse-lhe em +voz baixa e supplicante:</p> + +<p>—Peço-lhe que não jogue mais!</p> + +<p>Pozzoli percebeu o que o visconde dissera, e observou, sorrindo:</p> + +<p>—Meu caro visconde, deixe-me dar a desforra á nossa amiga.</p> + +<p>—Seja caridoso, replicou o visconde friamente. Deixe a desforra para +outra vez!</p> + +<p>Pozzoli empallideceu.</p> + +<p>Laura, sem pronunciar uma só palavra, apontou cento e cincoenta francos.</p> + +<p>O emprezario ganhou ainda.</p> + +<p>—Já vê que tinha razão, disse Antonino a Laura, sorrindo por sua +vez.</p> + +<p>—A verdade é, replicou Pozzoli em laia d'explicação, que tenho uma +sorte verdadeiramente compremettedora para dono da casa. Passo as cartas.</p> + +<p>E levantou-se da mesa.</p> + +<p>O <em>banqueiro</em> que se seguia, deu ainda quatro <em>baccaras</em>.</p> + +<p>Antonino continuava sorrindo.</p> + +<p>O emprezario não o desfitava.</p> + +<p>O rosto d'aquelle homem transformára-se de subito.<span +class="pn">{128}</span></p> + +<p>Brilhava-lhe sinistramente o olhar, rugas fundas vincavam-lhe a fronte, e +gotas de suor perlavam-lhe o carmim das faces. Approximou-se de Antonino, a +quem disse em voz baixa:</p> + +<p>—Não joga, senhor visconde?</p> + +<p>—Não...</p> + +<p>—Como não se entretem aqui, se quer vamos até á sala d'esgrima...</p> + +<p>—Pois sim.</p> + +<p>—Muito bem. Para nos interessarmos um pouco mais no assalto, +occorre-me uma idéa, que talvez não lhe desagrade tambem.</p> + +<p>—Queira dizer.</p> + +<p>—A um canto da sala ha dois floretes, cujos botões saltaram ha dias. +Poderemos experimentar as nossas forças como elles... como quem não repara.</p> + +<p>—Acceito, mas hei de eu escolher um dos floretes.</p> + +<p>—Escolherá á sua vontade! respondeu Pozzoli tremente de raiva.</p> + +<p>E accrescentou em seguida:</p> + +<p>—A Linda está a olhar para nós. Não devemos sahir juntos. Vá o senhor +adiante. D'aqui a cinco minutos sahirei eu.</p> + +<p>Antonino fingiu seguir com attenção, por alguns segundos, a partida +<em>baccara</em>, que já não despertava interesse a Laura, assustada pelo +colloquio do visconde com Pozzoli.<span class="pn">{129}</span></p> + +<p>Pouco depois Antonino sahiu da sala, sem afectação.</p> + +<p>Laura procurou então o emprezario com o olhar.</p> + +<p>Pozzoli conversava e ria n'um grupo de convidados, que não jogavam.</p> + +<p>Passados dois minutos tomou o braço d'um d'elles, com quem pareceu entabolar +uma conversação interessante, e sahiu com elle.</p> + +<p>Quando chegou á sala d'esgrima, o visconde já o esperava.</p> + +<p>Despujolles e Remissy, que não eram fortes em esgrima, estavam um em frente +do outro, de sabre em punho.</p> + +<p>—Queira examinar estas explendidas panoplias, sr. visconde, disse +Pozzoli. </p> + +<p>Antonino seguiu o emprezario, que, fingindo dar-lhe explicações sobre varias +armas antigas, escolheu dois floretes desembolados, que deu ao visconde, sem +pronunciar uma só palavra.</p> + +<p>Antonino examinou-os, dobrou-os para lhes experimentar a tempera, escolheu +um e deu o outro a Pozzoli.</p> + +<p>—Está combinado, disse o emprezario, que, succeda o que succeder, não +será mais do que o effeito d'um accidente?</p> + +<p>—Está.</p> + +<p>Todos os convidados presentes na sala d'armas seguiam<span +class="pn">{130}</span> com curiosidade o assalto entre Despujolles e Remissy, +que, em mangas de camisa, esgrimiam enfurecidamente, como dois demonios.</p> + +<p>Ninguem reparou para Pozzoli e para o visconde, que fizeram tudo o que +deixamos dito sem serem percebidos.</p> + +<p>Quando, porém, acabavam de trocar as ultimas palavras, entrou na sala a +gorda Elvira, acompanhada de Lauretto Mina.</p> + +<p>Dirigiu-se para Pozzoli, dizendo-lhe:</p> + +<p>—Vamos para a galeria grande. As <em>pequenas</em> vão executar a +dansa das bailadeiras.</p> + +<p>O emprezario franziu as sobrancelhas.</p> + +<p>Por fim respondeu com voz brusca:</p> + +<p>—Logo dansarão.</p> + +<p>Elvira tocou com o cotovello em Lauretto, imperceptivelmente.</p> + +<p>E sem dizerem nada, mas percebendo-se, foram-se sentar n'um <em>divan</em>, +e accenderam umas cigarrilhas.</p> + +<p>Despujolles tocava, pela terceira vez, o seu adversario, com applausos, um +pouco ironicos, dos assistentes.</p> + +<p>O violinista, já cançado, disse:</p> + +<p>—Estou satisfeito, meu caro dr. Confesso-me vencido.</p> + +<p>E ajuntou, sorrindo:<span class="pn">{131}</span></p> + +<p>—De resto, nenhum de nós é forte ao sabre.</p> + +<p>N'esse momento Pozzoli dizia ao visconde, em voz baixa:</p> + +<p>—Como estou em minha casa, parece-me conveniente que o sr. me convide, +para desviar todas as suspeitas... na hypothese d'um accidente desagradavel.</p> + +<p>—D'accordo, replicou Antonino no mesmo tom.</p> + +<p>E em voz alta disse:</p> + +<p>—Sr. Pozzoli, o sr. Lauretto Mina, disse, ha dias, na minha presença, +que o meu amigo era de primeira força ao florete. Quer dar-me a honra de ser +meu adversario?</p> + +<p>—A honra será toda minha, sr. visconde, respondeu o emprezario.</p> + +<p>Pegaram, como por acaso, nos dois floretes desembolados, como se fossem os +primeiros que encontrassem á mão.</p> + +<p>Ao despirem os casacos, Pozzoli disse a Antonino, baixo:</p> + +<p>—Venha um pouco para a penumbra, para que não reparem na falta de +botões dos floretes.</p> + +<p>A sala era illuminada por uma enorme lampada persa, de cobre avermelhado, +trabalhada com arte.</p> + +<p>Estava suspensa ao centro da casa.</p> + +<p>As extremidades da sala, que era rectangular, ficavam um pouco na +sombra.<span class="pn">{132}</span></p> + +<p>Foi para uma d'essas extremidades que os dois esgrimistas se dirigiram.</p> + +<p>Cumprimentaram-se com os floretes, segundo as regras, e cahiram em guarda. +</p> + +<p>Em volta formou-se rapidamente um circulo de curiosos, que engrossava de +momento a momento.</p> + +<p>Na sala não se ouvia mais do que o tenir das laminas.</p> + +<p>Os dois adversarios começaram sem demora a bater-se com encarniçamento, +<em>parando</em> com toda a rapidez e <em>ripostando</em> vigorosamente.</p> + +<p>Lauretto Mina, que tinha boa vista, e estava meio prevenido por Elvira, +percebeu immediatamente que os floretes estavam desembolados.</p> + +<p>Sem deixar de fumar, apontou o facto á amante de Pozzoli. Ao cabo de dois +minutos, continuando a observar os dois contendores, disse:</p> + +<p>—Sabes, Elvira?...</p> + +<p>—O quê?...</p> + +<p>—Estás prestes a enviuvar, minha querida.</p> + +<p>—Pois suppões?...</p> + +<p>—Ou, pelo menos, destinada a enfermeira durante dois ou tres mezes.</p> + +<p>—Que estopada? Parece-te então que Pozzoli?...</p> + +<p>—Será ferido? Com certeza!... Nem parece meu discipulo! Verdade seja +que o visconde é de primeira força. Repara para elle...<span +class="pn">{133}</span> </p> + +<p>Laura, que continuava na sala do jogo, reflexionou com temor que a sahida de +Pozzoli, quasi immediata á de Antonino, não era natural.</p> + +<p>Poucos minutos passados, não podendo conter-se por mais tempo, chamou o +conde de Vereuil, que estava proximo, e disse-lhe:</p> + +<p>—Não vejo Pozzoli. Queria fallar-lhe n'um assumpto urgente... Se o sr. +conde o procurasse e trouxesse aqui muito me obsequiava.</p> + +<p>O conde inclinou-se e sahiu.</p> + +<p>Demorou-se dez minutos.</p> + +<p>Á angustia de Laura parecia que elle partira ha mais de uma hora.</p> + +<p>Por fim o conde voltou.</p> + +<p>Vinha só.</p> + +<p>Laura perguntou-lhe, logo que o viu:</p> + +<p>—E então?... Pozzoli?</p> + +<p>—Perdôe-me a demora, mas com difficuldade o encontrei. Fui dar com +elle na sala d'armas.</p> + +<p>—Ah! Fallou-lhe?</p> + +<p>—Não. Era impossivel, porque no momento em que cheguei começava elle +um assalto ao florete.</p> + +<p>—Com quem?... com quem?...</p> + +<p>—Com Bizeux.</p> + +<p>Laura levantou-se, como que impellida por mola occulta.</p> + +<p>Estava pallida como uma morta.<span class="pn">{134}</span></p> + +<p>Passados instantes disse ao conde:</p> + +<p>—Queira dar-me o seu braço. Vamos até lá. Desejo ver o assalto. Sou +tão curiosa!</p> + +<p>Tomou o braço do conde, que, surprezo, a sentiu tremer.</p> + +<p>Entretanto não se atreveu a perguntar-lhe o que tinha.</p> + +<p>Laura apressou o passo.</p> + +<p>Quando entraram na sala d'armas, Pozzoli, extremamente pallido—porque +tinha percebido, antes de Lauretto Mina, que estava em frente d'um adversasario +de primeira ordem,—concentrava toda a sua vontade e todos os seus +recursos d'esgrimista em guardar a defensiva.</p> + +<p>Comtudo sentia-se perdido.</p> + +<p>No momento em que Laura se approximava, Antonino cahiu a fundo. Pozzoli +<em>parou</em>, curvando-se.</p> + +<p>A cantora, ao primeiro olhar, percebeu que o florete de Pozzoli não tinha +botão.</p> + +<p>—Acautelle-se!... gritou ella ao visconde.</p> + +<p>Antonino olhou para o lado d'onde partira a voz de Laura.</p> + +<p>Esta distracção fez com que se conservasse descoberto durante dois segundos. +</p> + +<p>Pozzoli aproveitou o momento para lhe vibrar uma estocada, de que o visconde +não teve tempo de defender-se.<span class="pn">{135}</span></p> + +<p>A ponta do florete attingiu-o debaixo do sovaco.</p> + +<p>Antonino cambaleou e cahiu nos braços do dr. Despujolles.</p> + +<p>Um ruido confuso espalhou-se por entre as testemunhas d'aquella scena +tragica.</p> + +<p>Transportaram o ferido para um <em>divan</em>.</p> + +<p>Laura, fóra de si, d'olhos esgazeados, gritava:</p> + +<p>—Fui eu que o matei.</p> + +<p>O dr. examinou cuidadosamente o ferimento do visconde.</p> + +<p>Passados momentos, disse:</p> + +<p>—Ferida quadrangular!... Não sangra!</p> + +<p>Alargou com a ponta do dedo a abertura do ferimento, d'onde apenas sahiam +umas gotas de sangue, e introduziu a sonda, que sempre trazia comsigo.</p> + +<p>O rosto alegrou-se-lhe.</p> + +<p>Laura, ajoelhada junto d'elle, perguntou-lhe:</p> + +<p>—Então, dr?...</p> + +<p>—O ferimento é grave, mas não é mortal. Vou sangral-o.</p> + +<p>Durante esse tempo, Pozzoli, tendo nas mãos os dois floretes, dizia para +Lauretto Mina com aspecto consternado:</p> + +<p>—Ah! Foi aquelle idiota do Antonio que deixou aqui os floretes que +nós, a semana passada, tinhamos desembolado. Que miseravel! Nem mais uma noite +dormirá em minha casa!<span class="pn">{136}</span></p> + +<p>E mostrou o florete do visconde, para provar que não tinha botão, como +aquelle de que se servira.</p> + +<p>Antonino reabriu um pouco os olhos depois de sangrado. Olhou para Laura, +sorriu-lhe, e perdeu os sentidos.</p> + +<p>Despujolles parecia ter pressa de o fazer sahir d'aquella casa.</p> + +<p>—Pode já ser transportado, disse elle.</p> + +<p>—Irá na minha carruagem, observou Laura.</p> + +<p>—Não. Uma padiola é mais conveniente.</p> + +<p>Foi improvisada a padiola sem detença.</p> + +<p>Deitaram n'ella o ferido, e levaram-o.</p> + +<p>O visconde continuava sem sentidos.</p> + +<p>Ao chegarem ao vestibulo, cheio d'homens e senhoras em <em>toilette</em> de +baile, os conductores perguntaram:</p> + +<p>—Para onde devemos seguir?</p> + +<p>—Boulevard Haussmann.</p> + +<p>—Não, disse Laura. Para minha casa, rua de Bolonha. É mais perto.</p> + +<p>—Mas... ia a observar Despujolles.</p> + +<p>—Em casa d'elle não terá ninguem que o trate. Para minha casa... para +minha casa!...</p> + +<p>—Veja o que faz... disse-lhe baixo Despujolles, que via trocarem-se +entre os espectadores d'aquella scena, olhares e sorrisos significativos. +Asseguro-lhe que respondo por elle...<span class="pn">{137}</span></p> + +<p>E voltando-se para os homens que conduziam a padiola, ajuntou em voz alta: +</p> + +<p>—Levem o sr. de Bizeux...</p> + +<p>—Para minha casa, interrompeu Laura. Já lhe disse, doutor... quero que +o levem para minha casa!</p> + +<p>Ainda não eram tres horas da madrugada, e o baile devia prolongar-se até +pela manhã.</p> + +<p>Aquella scena inesperada, porém, desgostára todos os convidados de Pozzoli. +</p> + +<p>Em menos de meia hora as salas ficaram desertas.</p> + +<p>Os convidados retiravam-se commentando, de mil formas diversas, o assalto, +ou o duello, de Pozzoli e do visconde.</p> + +<p>Remissy dizia ao baritono Lunier, com quem descia o <em>boulevard</em>:</p> + +<p>—Ninguem sabia ao certo, até agora, o que era a casa de Pozzoli. +Passava por ser um bordel. Desde hoje é tambem um covil. Completou-se.</p> + +<p>Em quanto os creados apagavam as ultimas velas, Pozzoli, ficando só com +Lauretto e a Elvira gorda, disse-lhes:</p> + +<p>—Vamos para o salão reservado.</p> + +<p>Contiguo ao quarto de cama de Pozzoli, no salão reservado não entravam senão +os intimos do emprezario.</p> + +<p>Era uma sala octogona, sem janellas, alumiada apenas por lampadas arabes +mettidas em vidros de<span class="pn">{138}</span> côres, que espalhavam uma +luz mysteriosa e sensual.</p> + +<p>Espessos tapetes persas cobriam o sobrado e amontoavam-se para formar um +largo <em>divan</em> baixo, que circundava toda a casa.</p> + +<p>Tamboretes de madrepérola e marfim, espalhados ao acaso, completavam a +mobilia da casa, cujas paredes eram forradas d'espelhos caros.</p> + +<p>A pintura do tecto representava a dansa de sete odaliscas nuas, deante do +senhor, acocorado e fumando, com os olhos semi-cerrados e os labios, +entre-abertos.</p> + +<p>—Uff! Não posso mais! disse Pozzoli ao entrar na sala, atirando-se +para o <em>divan</em>. Não bebi quasi nada durante a noite, para estar senhor +de mim. Vou desforrar-me!</p> + +<p>Carregou n'um botão.</p> + +<p>Um dos espelhos moveu-se, deixando uma abertura, a que appareceu um creado. +</p> + +<p>—Antonio, <em>chypre</em> para mim, e <em>champagne</em> para a +senhora e para o sr. Lauretto Mina.</p> + +<p>—Temos de beber á tua dupla victoria, disse o tenor. Ah! meu caro, +palavra! cheguei a suppôr-te um homem morto!</p> + +<p>—Tambem eu cheguei a considerar-me n'esse lindo estado! replicou +Pozzoli, tirando das algibeiras, á<span class="pn">{139}</span> mistura, notas +de banco e moedas d'oiro, que ia pondo sobre um tamborete proximo.</p> + +<p> </p> + +<p>Depois d'alguns instantes de silencio continuou:</p> + +<p>—Se não fosse a intervenção da nossa querida Laura, tinha-me levado o +diabo! Esteve toda a noite a meu favor, a Linda! Só lhe apanhei cinco mil +francos, mas ficou-me a dever quatorze, o que prefaz um total de desanove. E +aquelle grito de prevenção, que soltou, salvou-me a vida. Ah! é tão bom viver! +</p> + +<p>—O pobre visconde, chasqueou Lauretto, é que não pode dizer o mesmo +por muito tempo. Entretanto é de esperar que viva ainda bastante. Reparaste? A +Linda mandou-o conduzir para casa d'ella. Aposto em como o vae amar loucamente. +A noite foi boa, Pozzoli. Trataste satisfatoriamente dos teus negocios e +adeantaste os meus. Obrigado!</p> + +<p>—Não te calarás? gritou a Elvira gorda acotovellando o tenor com +rudeza. </p> + +<p>Lauretto riu-se.</p> + +<p>—Deixa-o fallar, Elvira, disse Pozzoli. Lauretto tem razão. Vou por +elle. Has de ser amante de Laura!</p> + +<p>E rindo-se, pegou em quatro notas de mil francos cada uma.</p> + +<p>Dobrou-as e atirou com duas a Elvira, dizendo-lhe:</p> + +<p>—São para ti.<span class="pn">{140}</span></p> + +<p>—Obrigado, Eurico!</p> + +<p>E accrescentou dando as outras duas ao tenor:</p> + +<p>—E estas para ti, Lauretto.</p> + +<p>O tenor metteu as notas na algibeira, sem pronunciar palavra.</p> + +<p>—Pois nem me agradeces?</p> + +<p>—Para que? Dás sempre qualquer coisa com uns modos que provocam +explicações.</p> + +<p>—Então restitue-me o dinheiro!...</p> + +<p>—Estás doido!... Olha, eis o vinho que chega. Bebamos. Para isso é que +tu és um homem! Esvasias muito melhor os copos do que as algibeiras.</p> + +<p>Pozzoli deu aos hombros despresadoramente.</p> + +<p>Desrolhadas as garrafas, o creado sahiu.</p> + +<p>Os tres começaram a beber em silencio.</p> + +<p>Pozzoli, sobretudo, bebia com uma especie de bestialidade avida e feroz.</p> + +<p>De repente interrompeu as libações para dizer:</p> + +<p>—Então, não dizem nada?... Estão esta noite muito monos!...</p> + +<p>—Espera, respondeu Elvira. Vou chamar as <em>pequenas</em>.</p> + +<p>Carregou no botão d'uma campainha electrica.</p> + +<p>Quasi immediatamente appareceram quatro bailarinas, jovens e formosas.</p> + +<p>Elvira disse-lhes:</p> + +<p>—Executem a dansa das bailadeiras, sem córtes.<span +class="pn">{141}</span> </p> + +<p>Lauretto Mina pegou n'uma guitarra, e cantou, acompanhando-se com o +instrumento, uma canção arabe, primeiro lenta e terna, mas accelerando +gradualmente o movimento, até tornar-se ardente e rapida.</p> + +<p>As bailarinas seguiram-o, executando uma d'essas dansas egypciacas, brandas +e lascivas, que terminou n'uma especie de furia de bacchantes.</p> + +<p>Pozzoli soltava gargalhadas estridentes, batia as mãos, rebolava-se pelo +<em>divan</em>.</p> + +<p>Quando o bailado acabou, elle berrou:</p> + +<p>—Mais! mais!...</p> + +<p>—Mais não! replicou Lauretto. Eu e ellas é que sabemos se foi +bastante.</p> + +<p>—Então bebamos!</p> + +<p>—Olha, cá está o teu copo grande, disse o tenor.</p> + +<p>E apresentou-lhe um copo enorme, que podia conter todo o liquido d'uma +garrafa.</p> + +<p>Pozzoli encheu-o de vinho de <em>chypre</em>.</p> + +<p>Depois de beber a grandes golos, disse:</p> + +<p>—Ah! isto consola!</p> + +<p>E bebeu o resto.</p> + +<p>—Basta, disse-lhe Lauretto. Já estás bebedo.</p> + +<p>—Deixa-o beber, meu querido Lauretto! observou a Elvira gorda sem se +dar ao incommodo de baixar a voz. Mais depressa ficaremos livres e sós.<span +class="pn">{142}</span></p> + +<p>Lauretto apenas respondeu com um movimento de hombros approvativo, e +accendeu um cachimbo.</p> + +<p>—Não fumes esse veneno, meu idolatrado! aconselhou Elvira. Repara, eu +já não bebo...</p> + +<p>Mas elle continuou a fumar em silencio.</p> + +<p>Pozzoli rolára do <em>divan</em> para o tapete, balbuciando:</p> + +<p>—Deem-me de beber!... Quero <em>chypre</em>!... Estão na mesa +quinhentos <em>luizes</em>... Aposta, visconde?...</p> + +<p>As quatro bailarinas descançavam, sentadas no <em>divan</em>, de pernas +cruzadas, olhando com curiosidade para os patrões.</p> + +<p>Elvira fez-lhe signal de que podiam retirar-se.</p> + +<p>Ellas desappareceram immediatamente.</p> + +<p>Entretanto Lauretto bebia e fumava.</p> + +<p>—Meu querido Lauretto, peço-te que não bebas mais! supplicava a Elvira +gorda.</p> + +<p>E passava os braços em volta do pescoço do tenor, tentando tirar-lhe o +cachimbo da bocca.</p> + +<p>Elle deu-lhe um murro.</p> + +<p>—Deixa-me, ursa!... Safa-te! Ou és tu como Laura? Se és, vem!... Mas, +não... ella é mais formosa... Não te pareces com a Linda, nem ao longe... Ah! +Laura!...</p> + +<p>As palpebras cerraram-se-lhe.</p> + +<p>No rosto desenhou-se-lhe uma expressão d'extasi voluptuoso.<span +class="pn">{143}</span></p> + +<p>—Laura! vem!... Leva-me comtigo para o infinito, onde as estrellas +executam uma dansa luminosa!... Meu Deus! como os teus cabellos cresceram desde +a ultima vez que os acariciei, Laura!... Vejo-os fluctuar ao longe, atraz de +nós, cauda d'um cometa d'ouro, entre a harmonia dos astros... A brisa eterna +fal-os soltar notas maviosas... Vibram como cordas d'harpas eolias... Ouço por +toda a parte a sympathonia do amor, em que canta um beijo que dura um +seculo!...</p> + +<p>Calou-se.</p> + +<p>Elvira passou apenas a ouvir os roucos estribulos de Pozzoli, curtindo +socegadamente a bebedeira.</p> + +<p>Lauretto foi em breve fazer companhia ao emprezario, sobre o tapete.</p> + +<p>Elvira olhou primeiro para Pozzoli, que parecia dormir o somno da +innocencia, e depois para Lauretto, que conservava a bocca e os olhos +entreabertos, n'uma expressão mystica de Christo em extasi.</p> + +<p>Por fim levantou-se; arredou-os com o pé para passar, dizendo +despresadoramente:</p> + +<p>—Que dois brutos!</p> + +<p>E entrou, só, no quarto da cama.<span class="pn">{144}</span></p> + +<p><span class="pn">{145}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00112">XII<br> +A cura</a></h2> + +<p>Durante uma semana em que fluctuou entre a vida e a morte, Antonino viu, +atravez o delirio, passar e repassar uma sombra, branca e silenciosa, que +corria para elle ao ouvil-o soltar um gemido, ou se inclinava para lhe +humedecer a fronte escaldante de febre ou para lhe dar de beber.</p> + +<p>Por vezes essa que para o visconde era apenas sombra, dirigia-lhe palavras +meigas, que elle não comprehendia, mas que o embalavam, socegando-o.</p> + +<p>Um dia o pensamento fixou-se no seu cerebro perturbado.</p> + +<p>A febre diminuiu, e, como accordando d'um pesadello<span +class="pn">{146}</span> terrivel, Antonino olhou em volta, parecendo distinguir +e perceber.</p> + +<p>A sombra branca lá estava junto d'elle.</p> + +<p>Não sonhára, pois.</p> + +<p>Ella lá estava, envolvendo-o n'um olhar em que o sorriso transparecia por +entre as lagrimas.</p> + +<p>O visconde reconheceu-a.</p> + +<p>Sorriu-lhe tambem e murmurou:</p> + +<p>—Laura!</p> + +<p>—Não falle, observou ella. Está melhor, está salvo, mas não está ainda +completamente curado. É necessario estar calado e quieto, porque foi essa a +recommendação do doutor.</p> + +<p>Elle repetiu com enlevo, despresando o conselho:</p> + +<p>—Laura!</p> + +<p>Depois, olhando em volta demoradamente, perguntou:</p> + +<p>—Onde estou eu?</p> + +<p>Despujolles entrava n'esse momento.</p> + +<p>—Ah! doutor! disse Laura indo ao encontro do medico, ainda bem que +chegou! Elle vê e falla. Voltou completamente a si!</p> + +<p>—Admire a minha sciencia! Preveni-a hontem de que hoje se daria esse +facto, respondeu Despujolles.</p> + +<p>E depois, voltando-se para o visconde, accrescentou:<span +class="pn">{147}</span></p> + +<p>—Vejamos o pulso. Bem. A febre quasi desappareceu de todo. Tudo vae +bem. </p> + +<p>—É o senhor, meu caro Despujolles? disse Antonino. Mas o que +succedeu?... Porque não estou eu em minha casa?...</p> + +<p>—Não falle, recommendou o medico. Vou pôl-o ao corrente do caso. O meu +amigo foi ferido ha oito dias, n'um pretendido assalto d'esgrima, pelo patife +do Pozzoli. O ferimento era serio, muito serio até! A nossa querida Laura +mandou-o transportar para casa d'ella. O meu amigo está no salão da nossa +amiga, deitado n'um leito que eu mandei arranjar de proposito, e que facilita +muito os pensos. Durante essa terrivel semana, o meu caro visconde não teve, +tanto de dia como de noite, senão uma enfermeira: Laura Linda, que apenas +admittia que Jacintha a ajudasse algumas vezes na sua dedicada missão e nas +vigilias longas. Está em via de cura rapida e completa, mas é necessario ter +juizo, obedecendo ao seu medico como a um deus, não se mover, fallar pouco e +pensar menos.</p> + +<p>—Seguirei á risca as suas instrucções, meu caro doutor, e agradeço-lhe +reconhecido os seus desvelados serviços, disse Antonino.</p> + +<p>Em seguida estendeu a mão para Laura. A cantora pegou n'aquella mão +descarnada, e disse, sem poder suster as lagrimas, que lhe deslisaram pelas +faces:<span class="pn">{148}</span></p> + +<p>—Como é estupido chorar d'alegria!</p> + +<p>—Sobretudo, accrescentou Despujolles, quando se corre o risco +d'enternecer um doente. Nada de pieguices! Vou fazer o penso.</p> + +<p>Antonino não cessava d'olhar para Laura, com expressão de reconhecimento e +amor.</p> + +<p>—Juizo! disse o medico no tom brusco que lhe era habitual, quando +estava no desempenho das suas funcções. Espero que, logo que eu sahir, não +comecem a contar historias um ao outro ou a cantar duetos. Addiem, addiem as +explicações e os projectos para mais tarde. Creio que dei ao ferido todos os +esclarecimentos necessarios...</p> + +<p>—Entretanto, meu caro doutor... interrompeu Antonino.</p> + +<p>—O que quer dizer?... Deixaria eu d'explicar claramente tudo o que se +passou? Ah! como está em casa de Laura, é possivel que deseje que lhe expliquem +o caso...</p> + +<p>—Sim, doutor, disse a cantora, parece-me necessario...</p> + +<p>—Bem, seja... concedo... Mas procedam de fórma que não pronunciem mais +de tres palavras.</p> + +<p>—Oh! doutor!...</p> + +<p>—Nem mais uma. Expliquem-se em tres palavras, sem commentarios, e com +a condição de que depois<span class="pn">{149}</span> serão mudos como dois +peixes. Adeus, meu caro visconde, até ámanhã e juizo.</p> + +<p>Laura acompanhou Despujolles até á porta da escada.</p> + +<p>O medico mais uma vez lhe assegurou que o doente não corria perigo, +recommendando-lhe de novo socego absoluto para Antonino.</p> + +<p>O visconde, com o olhar fixo na porta da sala, esperava com impaciencia a +volta de Laura.</p> + +<p>A cantora entrou.</p> + +<p>Elle quiz fallar, mas ella collocou um dedo sobre os labios do doente, +ajoelhou junto do leito, e com voz d'anjo, disse:</p> + +<p>—Amo-o!</p> + +<p>Amava-o! Oito dias antes nem ella propria o sabia.</p> + +<p>Os diversos acontecimentos que successivamente se deram revelaram-lhe +aquelle amor, que existia latente no seu coração.</p> + +<p>Primeiro o sacrificio d'Antonino surprehendera-a.</p> + +<p>Aquelle honesto e grave fidalgo bretão, rico e considerado, dera-lhe a mais +irrefutavel prova de confiança e d'amor, offerecendo-lhe a sua mão e +permittindo que ficasse no theatro.</p> + +<p>A insolente interrupção de Lauretto Mina no momento em que o seu +contentamento de mulher e de artista mais se expandia, tinha-lhe torturado o +coração, demonstrando-lhe a impossibilidade d'acceitar o<span +class="pn">{150}</span> offerecimento inesperado d'Antonino, que n'um momento, +sem hesitação, renunciava a todos os prejuizos d'educação e de familia.</p> + +<p>Mas tudo o que sentia então podia ser apenas admiração e reconhecimento pelo +cego amor do visconde.</p> + +<p>Na <em>soirée</em> de Pozzoli, Laura não tinha percebido que era ciume o que +sentira, quando viu uma outra mulher parecendo querer monopolisar a attenção e +as amabilidades do visconde, que ella considerava como pertencendo-lhe.</p> + +<p>Depois, quando Pozzoli e Antonino tinham trocado em voz baixa as phrases +pelas quaes deviam bater-se, poderia ella classificar a angustia que +experimentou, sentindo os espinhos da desconfiança picarem-lhe o coração?</p> + +<p>Por fim, toda a chamma do seu amor latente rebentou, como no incendio da +Opera, ao ver Antonino prostrado pelo florete de Pozzoli, morto talvez, e morto +por ella!</p> + +<p>Então tudo esquecera: posição, reputação compromettida, futuro perdido.</p> + +<p>Quizera levar para casa o seu amado, para o ter bem junto a si, morto ou +vivo.</p> + +<p>No dia seguinte pela manhã, levada pelo horror que sentia por aquelle +miseravel Pozzoli, Laura nada quiz dever ao que ella considerava assassino, +nem<span class="pn">{151}</span> mesmo o dinheiro que na vespera elle lhe tinha +roubado ao jogo.</p> + +<p>Para obter esse dinheiro mandou Jacintha, com parte dos diamantes que +possuia, a um joalheiro, que n'outra occasião lhe adiantára, com um juro +modico, uma quantia importante sobre o mesmo penhor.</p> + +<p>Antes do meio dia, Pozzoli, esfregando as mãos de contente, estava pago.</p> + +<p>Durante oito dias, volteando em redor do leito de Antonino, espiara, +attribulada, o soffrimento do ferido.</p> + +<p>Emfim o dr. Despujolles annunciou um dia que o doente estava livre de +perigo.</p> + +<p>Elle estava salvo, e ella salva tambem!</p> + +<p>Tinha a certeza d'isso, porque, emfim, sentia que amava.</p> + +<p>Desde então aquella alma tão ardente e sincera não teria que confranger-se, +nem que hesitar.</p> + +<p>Seria sua esposa, seria sua amante, o que importava, com tanto que +pertencessem um ao outro para sempre!</p> + +<p>A cura d'Antonino caminhou rapidamente, activada pela felicidade.</p> + +<p>Ao cabo de quinze dias, o visconde levantava-se, pallido ainda e +enfraquecido pela dieta e pelo sangue perdido, mas sentindo que a força e a +vida lhe voltavam gradualmente.<span class="pn">{152}</span></p> + +<p>A Linda, obedecendo ás prescripções de Despujolles, fallava pouco a Antonino +e não consentia que elle fallasse.</p> + +<p>Por fim o medico declarou uma manhã, sorrindo indulgentemente, que, se ella +tinha alguma coisa importante a dizer ao visconde, podia fazel-o, sem que o +doente corresse risco de peorar.</p> + +<p>Laura poude então abrir completamente o seu coração a Antonino.</p> + +<p>—Ha um mez, disse-lhe ella, deu-me uma extraordinaria prova d'amor, +fazendo por mim o maior sacrificio que uma mulher póde esperar do homem que +ama. Hoje chegou a minha vez. Sei, sinto que o amo, e quero provar-lhe quanto +esse amor é intenso. Dava-me o seu nome, e, para satisfazer a minha paixão +d'artista, consentia em que eu continuasse no theatro. Depois do que me disse, +reflecti muito. Tenho reconhecido duramente quanto, nas condições de fortuna e +de posição em que o senhor está, me seria difficil, se não impossivel, ficar no +theatro, passando a fazer parte da sua familia. Venho, pois, dizer-lhe o +seguinte: acceito com a maior satisfação o seu nome, e, salvo uma condição que +d'aqui a pouco exporei, renuncio ao theatro.</p> + +<p>—Ah! minha querida Laura! murmurou Antonino no auge da alegria.</p> + +<p>Ella continuou:<span class="pn">{153}</span></p> + +<p>—Seu pae, que tão bondoso é, ficará satisfeitissimo. Parece-me +conveniente evitar o mais possivel que se torne do dominio publico o nosso +projectado casamento. O visconde de Bizeux esposará a filha do conde de Marcia. +A Linda desapparecerá.</p> + +<p>—O que vale a minha abnegação ao lado da sua! disse Antonino. Eu +repudiava prejuizos que considerava mesquinhos e absurdos; a minha querida +Laura renuncia aos seus triumphos, á sua arte, ao que, segundo affirmava, era +metade da sua vida! Pesou bem toda a importancia do sacrificio?</p> + +<p>—Tudo pensei e tudo previ. É justamente por essa circumstancia que ha +pouco resolvi apresentar-lhe uma condição. N'este momento creio firmemente que +o nosso amor, e o amor dos nossos filhos se os tivermos,—como em tempo +lhe disse, e decerto ainda se lembra, é esse o meu mais delicioso +sonho,—creio, dizia, que a felicidade da esposa e da mãe não permittirá +que me recorde das minhas satisfações e dos meus successos d'artista. +Entretanto é possivel que um dia, d'aqui a cinco ou d'aqui a dez annos, a +tristeza se apodere de mim e que uma irresistivel necessidade me leve a voltar +á minha querida arte, e a procurar, ainda que não seja senão temporariamente, +as luctas e as victorias d'outr'ora. Se tal succeder, meu amigo, peço-lhe, +simplesmente sob a sua palavra de gentilhomem, que n'esse dia não se opporá a +que eu volte<span class="pn">{154}</span> ao que era no passado, deixando-me de +novo entrar para o theatro, que abandono apenas pelo muito amor que lhe +tenho.</p> + +<p>—Dou-lhe a minha palavra d'honra, Laura, de que não a impedirei de +satisfazer o seu desejo, respondeu Antonino. De resto, amo-a tanto, fal-a-hei +tão feliz, que certamente esquecerá para sempre o theatro.</p> + +<p>—Assim o espero e desejo ardentemente. Mas comprehende que, para que +eu caminhe de futuro sem preoccupações, desassombradamente, é indispensavel que +me sinta sempre senhora da minha vontade, senhora de mim propria. Se eu tiver +um dia de assignar um contracto com qualquer emprezario, a opposição de meu +marido pode annullar esse contracto. Fica assente, Antonino, que renuncia por +completo a qualquer opposição d'esse genero?</p> + +<p>Elle reflectiu alguns instantes.</p> + +<p>Depois dirigiu-se a uma secretária, pegou n'uma folha de papel e escreveu: +</p> + +<p> </p> + +<p>«Dou o meu consentimento e approvação ao contracto feito entre Laura Marcia, +minha mulher, e...»</p> + +<p> </p> + +<p>Assignou e entregou o papel a Laura, dizendo:</p> + +<p>—Aqui tem a sua liberdade. O rouxinol pode sahir da gaiola quando +quizer, que a porta está aberta.</p> + +<p>—Obrigada, meu amigo! disse alegremente Laura.<span +class="pn">{155}</span> </p> + +<p>E agora cuidemos do presente, dos nossos projectos, do nosso amor. +Concluamos o nosso romance.</p> + +<p>A conclusão foi a seguinte:</p> + +<p>Occultaram de todos a sua felicidade, mesmo de Despujolles e de Remissy.</p> + +<p>Trataram do casamento com todo o segredo.</p> + +<p>Só o pae d'Antonino teve conhecimento dos projectos do filho.</p> + +<p>Combinaram que logo que o visconde estivesse completamente restabelecido, +partiriam para Inglaterra, casando em qualquer povoação do littoral, +religiosamente, por um padre catholico, e civilmente, no consulado de França. +</p> + +<p>Depois não partiriam para qualquer parte: desappareceriam.</p> + +<p>Laura desejára sempre viver em qualquer ponto da America hespanhola.</p> + +<p>Antonino, apesar de ter viajado muito, nunca fôra aquelles paizes calidos. +</p> + +<p>Refugiar-se-hiam ahi até que a nostalgia os vencesse, isto é, até que a +felicidade diminuisse.</p> + +<p>Trespassaram a casa da rua de Bolonha.</p> + +<p>Os moveis que Laura mais estimava foram remettidos para Saint-Malo, e os +restantes vendidos.</p> + +<p>Antonino conservou os seus quartos de rapaz no <em>boulevard</em> Haussmann, +residencia pouco dispendiosa que desejava conservar em Paris.<span +class="pn">{156}</span></p> + +<p>Laura levaria Jacintha, que tinha fallado em matar-se se a separassem da sua +senhora, e que era sufficientemente doida para executar a ameaça.</p> + +<p>Pozzoli recebeu da Linda a multa de cincoenta mil francos, importancia +estipulada no contracto para a rescisão d'elle.</p> + +<p>—Tu estás meio contente, meio desapontado, disse Lauretto Mina ao +emprezario. Eu estou satisfeitissimo. Eis aberto o massudo livro da virtude da +Linda. O primeiro capitulo começa por um rapto. É promettedor o romance. Desejo +chegar o mais breve possivel ao capitulo segundo.</p> + +<p>Alguns dias depois lia-se nos <em>Echos</em> d'um jornal <em>geralmente bem +informado</em>:</p> + +<p> </p> + +<p>«A Linda não cantará no Theatro Italiano este inverno. Falla-se n'um +contracto fabuloso que assignou para uma <em>tournée</em> nos Estados-Unidos.» +</p> + +<p> </p> + +<p>Poucas linhas mais a baixo via-se ess'outro <em>echo</em>:</p> + +<p> </p> + +<p>«O visconde de B... parte, diz-se, para os Estados-Unidos logo que esteja +completamente restabelecido. Cumpre assim um voto que fez durante a doença. +Como chegou a julgar-se condemnado a deixar este mundo, prometteu, se +escapasse, ir visitar o novo. Feliz viagem.»<span class="pn">{157}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00113">XIII<br> +Regresso a França</a></h2> + +<p>Dezoito mezes depois, no fim de abril, o conde de Bizeux e Estephania de +Bizeux, sua filha, esperavam, no molhe de Saint-Malo, a chegada do vapor de +Jersey, em que vinham o visconde e a viscondessa de Bizeux, de regresso da +America do Sul, via Liverpool e Southampton.</p> + +<p>O conde era um velho extremamente sympathico, de elevada estatura e aspecto +veneravel e terno.</p> + +<p>A menina de Bizeux contava trinta e seis annos.</p> + +<p>Tinha o rosto ossudo, aspecto altivo e severo, e comtudo, do conjuncto das +suas feições e de toda a sua pessoa, resaltava o cunho da alta estirpe.<span +class="pn">{158}</span></p> + +<p>O conde esperava ancioso a chegada do filho que estremecia, e que ia tornar +a vêr depois de prolongada ausencia.</p> + +<p>Assistira ao casamento do visconde em Inglaterra, e depois viajára durante +um mez, com os recém-casados, pela Escocia e pelo paiz de Galles.</p> + +<p>A nora conquistara-o sem difficuldade logo nos primeiros dias, pelo +finissimo espirito de que era dotada, e pelos cuidados, affectuosos e ternos, +de que o rodeava.</p> + +<p>Sentia tanta impaciencia de a abraçar, como de abraçar o filho.</p> + +<p>A menina de Bizeux esperava a cunhada, que nunca vira, com disposições menos +benevolas, e até com uma especie de desconfiança.</p> + +<p>O pae occultara-lhe cautellosamente que Laura tinha sido cantora, e que +estivera escripturada em diversos theatros.</p> + +<p>Se a tivesse prevenido d'essa circumstancia sem duvida a menina de Bizeux +abandonaria o lar paterno, refugiando-se n'um convento, para não estar em +contacto com uma <em>comediante</em>.</p> + +<p>Para não sympathisar com a cunhada bastava-lhe saber que o irmão a desposara +por amor, e que, apezar de ser d'alto nascimento, filha d'um conde hespanhol, +não tinha outro dote além da belleza.</p> + +<p>Estephania soubera, pela que lhe dera o ser, a<span class="pn">{159}</span> +historia do primeiro amor de seu pae, historia em tudo semelhante á de +Antonino, á excepção de que no primeiro caso a moral social e religiosa e o +direito augusto da familia tinham triumphado, emquanto que, no caso d'Antonino, +fôra o amor, o amor profano, que vencera.</p> + +<p>Parecia a Estephania que o irmão, esposando a mulher que amava, insultara a +memoria de sua mãe.</p> + +<p>O vapor de Jersey não tardou a chegar.</p> + +<p>Logo que desembarcou, Antonino abraçou o pae com effusão, e seguidamente deu +um abraço na irmã.</p> + +<p>O conde, depois d'abraçar o filho, abraçou a nora, com alegria, e apresentou +as duas senhoras uma á outra.</p> + +<p>Laura, prevenida pelo marido, tinha resolvido tratar a cunhada por fórma +identica áquella por que fosse tratada.</p> + +<p>Estephania não a abraçou, limitando-se a estender-lhe a mão, dizendo:</p> + +<p>—Senhora viscondessa!...</p> + +<p>—Minha senhora...</p> + +<p>As relações futuras ficaram assim fixadas, graves e dignas.</p> + +<p>Ficou um creado para fazer conduzir as bagagens, e os quatro metteram-se +n'uma carruagem que os levou a casa, ou antes, que os levou a suas casas.<span +class="pn">{160}</span></p> + +<p>O visconde tinha casa sua, junto á do pae, que lhe legara um tio, fallecido, +viuvo e sem filhos, dez annos antes.</p> + +<p>As duas casas, juntas e separadas a um tempo, tinham portas de communicação +em todos os andares.</p> + +<p>Eram dois velhos palacetes patrimoniaes, de construcção antiga.</p> + +<p>O primeiro pavimento habitavel era no terceiro andar, porque os antigos +navegadores e corsarios de Saint-Malo desejavam poder deitar sempre a cabeça +por cima das muralhas da cidade, afim de não deixarem de gozar a vista do mar. +</p> + +<p>Os Bizeux descendiam de velhos bretões, marinheiros de raça.</p> + +<p>Da sua familia sahiram, nos reinados de Luiz XIV e de Luiz XV, dois +almirantes francezes.</p> + +<p>O pae e o filho tinham combinado, em cartas, que passariam uma vida +simultaneamente separada e commum.</p> + +<p>Viveria cada um em sua casa, mas tomariam as refeições juntos.</p> + +<p>De resto, como chegara a primavera, demorar-se-hiam em Saint-Malo apenas uma +ou duas semanas, o tempo indispensavel para apresentar a viscondessa ás pessoas +mais intimas.</p> + +<p>Depois partiriam para o castello da familia, situado proximo a +Saint-Pol-de-Léon.<span class="pn">{161}</span></p> + +<p>Deviam tomar todas as cautellas possiveis para que a Linda não podesse ser +reconhecida na viscondessa de Bizeux.</p> + +<p>Depois de viverem por algum tempo juntos, o conde, que no fundo temia a +filha, suppunha que, habituada á cunhada, attrahida pela meiguice e encanto de +Laura, Estephania revoltar-se-hia com menor violencia, na hypothese d'uma +revelação sempre possivel.</p> + +<p>Laura installou-se, pois, em sua casa, e, como uma verdadeira artista que se +accommoda a tudo que não seja burguez e vulgar, sentiu-se immediatamente á +vontade no velho palacete, cujas rasgadas janellas e mobilia á Luiz XVI tinham +a dupla vantagem de ser commodas, elegantes e hygienicas. A vida, no castello, +seria mais desafogada ainda, apesar de dever ser, no fundo, um pouco monotona. +</p> + +<p>Laura, porém, não dava por essa monotonia.</p> + +<p>Para isso era necessario que ella, habituada ás emoções do trabalho, da +acção, do combate, achasse muita novidade e muita variedade em volta de si.</p> + +<p>O primeiro anno do seu casamento foi para ella um verdadeiro encanto.</p> + +<p>A lua de mel durára doze luas, sem uma nuvem no céu d'anil.</p> + +<p>Gosou, sem a mais leve interrupção, o prazer d'amar e ser amada, que é o +melhor da vida.<span class="pn">{162}</span></p> + +<p>Percorreram os admiraveis paizes da America do Sul, o Perú, o Brazil, +visitaram as suas melhores cidades, atravessaram as mais esplendidas paisagens, +aventurando-se até ás florestas virgens.</p> + +<p>Mas o que acima de tudo os absorvia era as suas proprias pessoas.</p> + +<p>Aquella magnifica natureza não era mais do que uma moldura apropriada para +servir no quadro do seu amor.</p> + +<p>Ao cabo d'um anno, porém, começaram a achar, sem o dizer, nem mesmo dar por +isso talvez, que um homem e uma mulher, vivendo sós, vivem em solidão.</p> + +<p>O quer que fosse parecido com o aborrecimento começou a avoejar sobre +aquelle perpetuo colloquio.</p> + +<p>Durante tres mezes soffreram aquella sensação intermitentemente.</p> + +<p>Depois confessaram um ao outro que as viagens, a continua e fatigante +mudança de logar, os dias passados em carruagem de caminho de ferro ou nos +hoteis, tudo isso, por fim, cança o espirito e o corpo.</p> + +<p>Passou-se anno e meio, e o mais fagueiro sonho de Laura, ter um filho do +homem que adorava, fugia, fugia sempre diante d'ella, como um phantasma.</p> + +<p>—Acautella-te! dizia-lhe Antonino. Um filho pode-te fazer perder a +voz.<span class="pn">{163}</span></p> + +<p>—Ah! se tivesse um filho, respondia Laura, jámais teria +saudades!...</p> + +<p>E teria ella saudades, effectivamente?</p> + +<p>O marido começára por se apaixonar pela voz, e continuava-a amando por isso, +sem prejuizo d'outros predicados.</p> + +<p>Todos os dias cantava para satisfazer os desejos d'Antonino, que, excellente +musico, a acompanhava ao piano, extasiando-se como d'antes, e mais do que +d'antes até, ante aquelle delicioso e divino canto.</p> + +<p>Mas se continuava a ser a mesma cantora, Laura deixára de ter o mesmo +publico.</p> + +<p>Foi essa a razão porque, depois de dezoito mezes d'ausencia, elles annuiram +em que o paiz natal, o socego do lar, a vida de familia, tinham tambem o seu +encanto.</p> + +<p>E como estavam d'accordo, regressaram a França.<span class="pn">{164}</span> +</p> + +<p><span class="pn">{165}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00114">XIV<br> +A vida no castello</a></h2> + +<p>O castello de Bizeux, proximo de Saint-Pol-de-Léon, e a um quarto de legua +de Roscoff e do mar, estava edificado n'uma encantadora região, em que o +ondeado da copa do arvoredo se perdia ao longe no accidentado das colinas.</p> + +<p>Como estava um pouco isolado, porque o castello mais proximo distava cinco +kilometros, afóra durante a epoca da caça, a vida ali era muito retirada.</p> + +<p>No caso presente esse facto não devia considerar-se um inconveniente.</p> + +<p>Laura estaria no castello completamente ao abrigo d'indiscripções e +encontros.</p> + +<p>Nos primeiros dias percorreu, a cavallo ou a pé,<span +class="pn">{166}</span> as immediações do castello; mas depois de vistas as +casas, as egrejas e as paysagens, recahiu na monotonia da vida ociosa, quebrada +apenas pelas fidalgas e ininterruptas attenções do conde, sempre +previdentemente delicado com a nora, sempre ancioso por lhe procurar +distracções.</p> + +<p>A menina de Bizeux desapprovava o procedimento do pae para com a cunhada. +</p> + +<p>A solteirona dizia por vezes comsigo:</p> + +<p>—Mas que fórma de tratar esta desconhecida! O que tem ella que a +recommende? apenas a belleza, essa dadiva do demonio.</p> + +<p>Para Estephania a fealdade era certamente dadiva de Deus.</p> + +<p>O natural instincto de mulher invejosa fazia confusamente adivinhar a +Estephania que o passado de sua cunhada devia ter tido uma phase brilhante, que +lhe occultavam.</p> + +<p>Parecia-lhe que no menor gesto ou na mais insignificante palavra pronunciada +por Laura havia sempre dissimulação.</p> + +<p>—Mais outro vestido novo! disse-lhe Estephania um dia, vendo-a sentar +á mesa com uma <em>toilette</em> que ainda não lhe conhecia. Lembre-se que +estamos no campo!</p> + +<p>—Por isso o vestido é simples e campestre! replicou Laura rindo.<span +class="pn">{167}</span></p> + +<p>—Mas nós estamos em nossa casa... não recebemos visitas. A quem deseja +agradar? A meu pae?</p> + +<p>—E porque não?</p> + +<p>—Agradecido! disse o conde sorrindo.</p> + +<p>—A seu marido?</p> + +<p>—Certamente...</p> + +<p>—Um marido não é um amante, minha querida!</p> + +<p>—Para mim é.</p> + +<p>E estendeu a mão ao visconde, que lh'a beijou com prazer.</p> + +<p>Antonino gracejou com a irmã, que conservou o seu habitual aspecto ironico e +altivo.</p> + +<p>Aquellas picadas d'alfinete não tinham importancia, mas faziam soffrer +Laura, que, como todos os espiritos ternos, resentia-se da falta de sympathia +que a cunhada constantemente lhe testemunhava.</p> + +<p>Estephania tambem julgava Laura com severidade sob o ponto de vista +religioso.</p> + +<p>Entretanto a viscondessa, educada por uma mãe excessivamente devota, era +crente, e por vezes até supersticiosa como uma hespanhola.</p> + +<p>Para a menina de Bizeux, porém, havia duas religiões, a que os homens +seguiam, e a que era seguida pelas mulheres.</p> + +<p>Os homens podiam contentar-se em ir á missa aos domingos, comer de magro ás +sextas feiras, e confessar-se uma vez por anno, pela quaresma.<span +class="pn">{168}</span></p> + +<p>As mulheres deviam, alem d'isso, comer de magro todos os sabbados, dia em +que deviam tambem confessar-se, commungar todos os domingos e jejuar nas +vesperas dos dias santificados.</p> + +<p>Ora Laura limitava-se a seguir a religião dos homens; portanto era uma +impia, votada ás chammas eternas!</p> + +<p>De fórma que a unica mulher com quem podia ter relações d'amisade fugia da +sua convivencia.</p> + +<p>Em vez de ser amiga e irmã, Estephania era inimiga.</p> + +<p>E se Laura procurasse relações entre as damas que viviam nos castellos mais +proximos não encontraria espiritos mais esclarecidos do que o de sua cunhada. +</p> + +<p>O conde adorava a musica quasi tanto como Antonino, e sentia-se +verdadeiramente feliz quando Laura se sentava ao piano e cantava qualquer das +arias em que d'antes fôra tão applaudida.</p> + +<p>Se o canto fosse religioso ou mesmo popular, Estephania escutava com +indulgencia.</p> + +<p>Se, porém, a palavra <em>amor</em> fosse uma só vez pronunciada, +levantava-se cheia d'indignação e sahia altivamente da sala.</p> + +<p>Este ultimo caso dava-se com frequencia, porque o amor é um thema musical +frequentemente usado pelos compositores.<span class="pn">{169}</span></p> + +<p>Pelo menos Laura, agora, tinha mais um ouvinte: o conde.</p> + +<p>Isto não a impedia, como já estava em França e lia os jornaes parisienses, +de suspirar quando encontrava nos periodicos noticias de theatro e as narrações +dos debutes e das primeiras representações.</p> + +<p>O que lia era para ella o brilho, o ruido, a vida!</p> + +<p>Se não tivesse abandonado o theatro, seria d'ella que os jornaes fallariam! +</p> + +<p>Esse eterno esquecido que se chama Paris, tinha-se por muito tempo occupado +d'ella!</p> + +<p>Decerto não sentia a falta da antiga cantora, mas a diva d'outro tempo +percebia que Paris lhe faltava.</p> + +<p>Estava prestes a ser inaugurada a nova Opera, e Laura não assistiria á +inauguração!</p> + +<p>Felizmente, por entre as saudades e os desalentos, conservára intacto no +coração o amor que tinha por Antonino.</p> + +<p>É verdade que o marido adorava-a como no primeiro dia de casados, mas elle +não tinha um passado de que lembrar-se, em quanto que ella, ao casar-se, dera +metade da sua vida despresando a arte.</p> + +<p>O amor dos dois esposos, substituira o ardor da paixão dos primeiros tempos +pelo prazer ineffavel do habito tomado.</p> + +<p>E ella consolava-se, chegava a encantar-se até, quando, por uma bella manhã +de sol, sahiam ambos,<span class="pn">{170}</span> e atravessavam bosques e +prados, caminhando ou correndo, na alegria doida de dois collegiaes em férias. +Passeiavam sobre a relva, ella appoiada ao braço do marido, e levantando um +pouco as saias para não as molhar nas plantas humidas, ou conservando-se +direita, o tronco bem vertical sobre os quadris airosos, em quanto Antonino, +curvado, cortava com as unhas os pés das violetas, de que Laura fazia, ramos +deliciosos, cercados de folhas d'um verde pallido.</p> + +<p>Muitas vezes o caminho que seguiam afundava-se n'um declive pedregoso, ou +descia até á praia.</p> + +<p>Divertiam-se então em saltar precipitadamente, como creanças, elle +segurando-a por uma das mãos, e ella levantando com a outra as saias, que +tremulavam ao vento como um ruido d'azas, n'um vôo d'aves anciosas de +liberdade.</p> + +<p>Paravam na areia, e sentavam-se para contemplar a baixamar ou a maré que +subia.</p> + +<p>E ficavam-se por muito tempo a admirar as ondas lambendo com fragor as +saliencias dos rochedos, ou traçando na superficie lisa e clara da areia o seu +rasto sinuoso, coberto d'espuma.</p> + +<p>Uma manhã tiveram uma alegria que terminou em tristeza.</p> + +<p>Acharam um ninho de melros.</p> + +<p>Os passaritos tinham sahido da casca havia pouco tempo.<span +class="pn">{171}</span></p> + +<p>Antonino mostrou-os a Laura, quebrando um ramo de madresilva brava que os +occultava por entre a espessura d'uma sebe d'espinheiros.</p> + +<p>Eram cinco.</p> + +<p>No fundo do ninho, apenas se viam bicos amarellos que se abriam com +voracidade.</p> + +<p>Laura ficou penalisada por não ter que dar aos passarinhos.</p> + +<p>—Voltaremos ámanhã com provisões, disse-lhe Antonino.</p> + +<p>No dia seguinte voltaram com as algibeiras cheias de bolos.</p> + +<p>A mãe estava no ninho.</p> + +<p>Logo que sentiu ruido, levantou vôo para uma arvore proxima, saltando depois +de ramo em ramo, dando gritos desolados, inquieta por ver os filhos á mercê de +seres humanos.</p> + +<p>Laura sentiu um prazer quasi maternal, em metter pelos bicos dos passarinhos +esfaimados, com a ponta do seu dedo côr de rosa, bocados de bolo, que +previamente amolecia entre os labios.</p> + +<p>Ao outro dia foram tambem ver o ninho.</p> + +<p>Estava vasio.</p> + +<p>O pae e a mãe tinham levado os passaritos.</p> + +<p>Laura ficou triste, sem saber porque.</p> + +<p>Como Antonino lhe perguntasse a razão d'aquella tristeza, Laura +respondeu:<span class="pn">{172}</span></p> + +<p>—É lugubre este ninho abandonado, lugubre... como um berço vasio!</p> + +<p>Depois d'um momento de silencio, perguntou:</p> + +<p>—As aves, quando encasalam, teem sempre filhos, não é verdade?</p> + +<p>—Sempre, pela primavera, respondeu Antonino.</p> + +<p>—Como as aves são felizes!</p> + +<p>Antonino comprehendeu.</p> + +<p>Percebia perfeitamente qual era o vacuo que havia na vida de Laura, e +esforçava-se sempre por lhe procurar distracções.</p> + +<p>Não servira na marinha, como muitos dos seus antepassados, mas todo o bretão +é marinheiro.</p> + +<p>Adorava o mar, e um dos seus maiores prazeres era andar embarcado.</p> + +<p>Poucos dias depois de chegar a Saint-Malo, comprou uma chalupa de recreio. +</p> + +<p>O barco era estreito na proa, baixo de caverna, branco, com uma larga facha +vermelha, e tinha meia coberta.</p> + +<p>Os passageiros tomavam logar á pôpa, n'uma especie de camara oval, cercada +d'um banco em que cabiam oito pessoas.</p> + +<p>Na coberta tinham improvisado um casinhoto em que mettiam as malas e as +provisões, e um leito estreito, em que uma pessoa tinha suficiente espaço para +dormir ao abrigo do vento.<span class="pn">{173}</span></p> + +<p>O apparelho da chalupa compunha-se d'um mastro e d'um gurupés, d'uma vela +grande e d'uma bergantina.</p> + +<p>Com mau tempo tomavam quatro rizes á vela grande, e como o mastro se +inclinava para a proa, a chalupa navegava maravilhosamente com aquelle unico +panno.</p> + +<p>Graças á largura do barco e ao pouco comprimento relativo do casco, a +chalupa virava com facilidade, cedia bem ao vento e obedecia docilmente á canna +do leme.</p> + +<p>Antonino mandou o barco para Roscoff, ensinando com precisão a Laura toda a +manobra das velas.</p> + +<p>Era necessario um marinheiro, mas o visconde achava mais encanto a embarcar +só com sua mulher, e Laura era um marinheiro agil e encantador.</p> + +<p>Muitas vezes embarcavam de manhã.</p> + +<p>Um creado levava-lhes, até ao caes, um cesto com provisões.</p> + +<p>Antonino embarcava primeiro, e, antes que Laura estivesse a bordo, armava a +vela.</p> + +<p>Depois ajudava a esposa a saltar para a chalupa, e sentavam-se ambos na +camara oval, tendo a resguardal-os do sol um toldo de lona.</p> + +<p>Então Antonino gritava ao creado, que ficava no caes:</p> + +<p>—Larga!<span class="pn">{174}</span></p> + +<p>O cabo cahia na agua como um fustigamento de pingalim.</p> + +<p>O visconde amarrava a vela, suspendia a ancora, impellia o barco com o +croque, e puchava a canna do leme para bombordo.</p> + +<p>A chalupa inclinava-se graciosamente ao vento, balouçava por instantes como +indecisa, e por fim vogava.</p> + +<p>Cinco minutos depois, fendia a agua com uns movimentos de sereia.</p> + +<p>Percorreram assim as costas da Bretanha, d'um lado até Donamaner, e mesmo a +Lorient, e do outro até ao Mont-Saint-Michel.</p> + +<p>Algumas vezes succedeu estarem ausentes durante dois ou tres dias, com +grande inquietação do conde.</p> + +<p>O pae d'Antonino sabia que o vento contrario e o mau tempo não os fazia +parar.</p> + +<p>O menos temerario dos dois, era justamente o visconde.</p> + +<p>Laura sentia-se bem a bordo.</p> + +<p>O perigo incitava-a porque era uma emoção, e eram as emoções o que faltava a +Laura, a quem a vida socegada mais fazia recordar o passado.</p> + +<p>A caça divertia-a muito menos.</p> + +<p>Por vezes recusava-se até a acompanhar o marido e o sogro, e só ia á tapada +do castello, se o almoço fosse servido ao ar livre.<span +class="pn">{175}</span></p> + +<p>Não acceitára até uma esplendida espingarda de caça, que Antonino lhe +offerecera, e que passava por ser uma verdadeira maravilha.</p> + +<p>As poucas reuniões que o conde entendeu dever dar no castello, não lhe +mereceram maior attenção, nem lhe proporcionaram o menor attractivo.</p> + +<p>Entretanto fazia as honras da casa com tão fino tacto e tão affavel +dignidade, que a propria Estephania se admirava.</p> + +<p>Uma d'essas reuniões, mais solemne que as outras, teve, comtudo, para Laura, +verdadeira importancia.</p> + +<p>Foi a festa da inauguração da capella restaurada do castello.</p> + +<p>Havia já tres annos que Estephania, que possuia fortuna pessoal, +emprehendera, com o concurso, felizmente habil, d'um architecto de Rennes, a +restauração da referida capella, uma verdadeira joia do seculo XV, no gosto de +Folgoet.</p> + +<p>A obra terminara emfim.</p> + +<p>Faltava baptisar o sino e consagrar a capella.</p> + +<p>O arcebispo de Rennes fôra convidado para esse fim, respondendo que iria +proceder á dupla ceremonia no primeiro domingo do mez d'agosto.</p> + +<p>Esta noticia, como era de suppôr, causou grande sensação em todos os +castellos e parochias dos arredores, e todos foram unanimes em declarar que +só<span class="pn">{176}</span> ao conde de Bizeux se poderia dever semelhante +honra.</p> + +<p>Afinal o arcebispo accedera com tanta mais vontade ao convite que o conde +lhe dirigira, quanto era certo que, da sua visita ao castello, esperava ganhar +a annuencia e o concurso do velho fidalgo para uma obra tão excellente de +certo, e muito mais util, que a inauguração da capella.</p> + +<p>Tratava-se de terminar um hospicio para marinheiros, edificado por +subscripção em Saint-Servan, sob a direcção d'uma commissão, de que o arcebispo +era presidente.</p> + +<p>Tinham angariado já umas centenas de mil francos, com que o edificio +principiára a ser construido, mas faltava ainda mais uma centena para material +e mobiliario, e as bolsas estavam exhaustas.</p> + +<p>Entretanto era indispensavel arranjar aquella quantia, e por isso o +arcebispo desejava fallar com o conde.</p> + +<p>Estephania fez no castello uma verdadeira revolução, para que a recepção de +<em>monsenhor</em> fosse em tudo digna do alto cargo ecclesiastico que elle +desempenhava.</p> + +<p>Enfeitou a capella com arbustos e flores, e mandou vir organistas e coristas +da cathedral de Rennes.</p> + +<p>A missa, por musica vocal e instrumental, estava distinada a produzir +sensação, como effectivamente<span class="pn">{177}</span> produziu, mas devido +talvez a uma circumstancia com que a menina de Bizeux não contava.</p> + +<p>Eram tantos os cuidados e attenções que a pessoa do <em>monsenhor</em> lhe +merecia, que Estephania não deu pela falta da cunhada no banco da familia.</p> + +<p>Repentinamente, a seguir a uma nota grave soltada pelo orgão, elevou-se uma +voz, melodiosa e pura, e cantou, com perfeição e expressão d'adoravel +suavidade, um trecho de Handel, que conservou em extasi o auditorio +maravilhado.</p> + +<p>A mesma voz cantou depois o <em>offertorio</em> do mesmo compositor, com tal +arte e vigor que a todos causou espanto.</p> + +<p>O arcebispo de Rennes, que era profundo conhecedor de musica religiosa, +balanceava a cabeça e movia as mãos com beatitude.</p> + +<p>Trocaram-se phrases d'admiração, e se não fosse o respeito á santidade do +logar, com certeza todos os ouvintes teriam applaudido com delirio.</p> + +<p>Terminada a ceremonia, a primeira pergunta do arcebispo, ao entrar na +sachristia, foi:</p> + +<p>—Mas quem é a admiravel <em>virtuose</em> que a todos nos encantou?</p> + +<p>O conde, que entrava acompanhado de Laura, respondeu triumphantemente:</p> + +<p>—Foi minha nora, a sr.ª viscondessa de Bizeux, que tenho a honra de +apresentar-lhe, monsenhor.<span class="pn">{178}</span></p> + +<p>—Na realidade a sr.ª viscondessa é uma artista de primeira ordem! +disse o arcebispo.</p> + +<p>E depois accrescentou:</p> + +<p>—Isto fez com que eu tivesse uma ideia, que não me parece de todo +má... Logo lhe communicarei um certo projecto em que penso, meu caro conde.</p> + +<p>Em seguida desfez-se em agradecimentos e cumprimentos, aos quaes dava um +certo sabor particular a mistura que havia do padre e do <em>dilettante</em>. +</p> + +<p>Não foi só Laura que recebeu esses agradecimentos e cumprimentos; Estephania +tambem compartilhou d'elles, e tão interdicta ficou, que não sabia se devia +estar satisfeita ou vexada.</p> + +<p>Laura commoveu-se e sorriu-se com melancholia.</p> + +<p>Era o seu primeiro successo em dois annos!<span class="pn">{179}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00115">XV<br> +Saint-Malo</a></h2> + +<p>Tinham decidido que deixariam o castello para voltar a Saint-Malo quando +chegassem os primeiros frios, nos fins d'outubro ou principios de novembro.</p> + +<p>Na segunda quinzena d'agosto, porem, Estephania foi atacada de rheumatismo +agudo, que ao principio apresentou um caracter inquietante.</p> + +<p>Chamaram da cidade o medico da familia, clinico de talento e longa pratica, +que, depois de dispensar os primeiros cuidados á doente, diagnosticou o mal de +principio de rheumatismo articular.</p> + +<p>O doutor demorou-se um dia no castello.</p> + +<p>A sua ausencia da cidade não podia prolongar-se por mais tempo, porque, como +era o medico mais considerado, tinha longa clientela a reclamal-o.<span +class="pn">{180}</span></p> + +<p>Prometteu voltar o maior numero de vezes possivel, duas ou tres por semana. +</p> + +<p>Entretanto declarou que julgava indispensaveis as visitas diarias e +attenções constantes.</p> + +<p>O medico de Saint-Pol-de-Léon inspirava mediocre confiança ao conde. Que +fazer, pois?</p> + +<p>O tempo estava explendido; o mar socegado como um lago.</p> + +<p>Depois de pensar maduramente no caso, o conde resolveu-se.</p> + +<p>Estephania foi transportada, n'uma especie de maca, para bordo d'um vapor, +fretado para esse fim em Saint-Malo.</p> + +<p>Algumas horas depois d'embarcar a doente estava installada no seu quarto do +planalto da cidade.</p> + +<p>O conde de Bizeux queria partir só com a filha, deixando no castello +Antonino e a esposa.</p> + +<p>Laura, porém, oppozera-se a essa determinação, dizendo:</p> + +<p>—Estephania necessita dos cuidados d'uma senhora. O meu logar é á +cabeceira do leito da irmã de meu marido.</p> + +<p>Como a menina de Bizeux declarasse que não desejava incommodal-a, +principalmente por ser ardua a tarefa, Laura respondeu:</p> + +<p>—Pergunto a Antonino se eu sou enfermeira descuidada...<span +class="pn">{181}</span></p> + +<p>Laura, a <em>impia</em>, tinha o mais absoluto despreso pela morte, emquanto +que Estephania, a <em>devota</em>, a temia sobremaneira, como d'ordinario +succede a todos os espiritos fracos.</p> + +<p>Essa circumstancia fez com que a menina de Bizeux acceitasse, sem mais +opposição, o offerecimento de sua cunhada.</p> + +<p>Durante mais de duas semanas em que a doença apresentou maior perigo, Laura +tratou Estephania com a mais dedicada sollicitude, nem um momento desmentida. A +menina de Bizeux parecia surpreza e commovida.</p> + +<p>Entretanto, no primeiro dia em que poude sahir do quarto, disse simplesmente +a Laura:</p> + +<p>—Agradeço-lhe e peço lhe que acredite que, no seu logar, teria +procedido da mesma fórma.</p> + +<p>—Não duvido, replicou Laura surprehendida da frieza d'aquellas +palavras. </p> + +<p>D'este contratempo resultou que em pleno mez de setembro estavam em +Saint-Malo.</p> + +<p>A convalescença de Estephania e o adeantado da estação, impediam a volta ao +castello.</p> + +<p>Nos poucos dias que passara em Saint-Malo, de regresso da America, Laura +apenas tivera tempo de ver superficialmente a cidade e a sociedade.</p> + +<p>Depois do restabelecimento d'Estephania teve occasião para mais de perto +observar uma e outra.<span class="pn">{182}</span></p> + +<p>A cidade encantou-a, mas a sociedade pouco lhe agradou.</p> + +<p>Das janellas de casa gosáva o largo panorama do mar e o aspecto da bahia, +que se abre entre dois morros titanicos, a ponta da Verde e o cabo Frehel, +gigantes de pedra que parecem estender os braços atravez as sete leguas de mar +que os separam, por cima da ilha granitica de Cézambre, guardada por negros +recifes, que por entre as suas pontas deixam apenas estreitas passagens aos +navios.</p> + +<p>O mar entra por essas passagens com fragor medonho e enormes +acotovellamentos de vagas, vindas do largo em plena liberdade, e penetrando á +força na bahia pelas portas de pedra, que jámais poderam arrombar.</p> + +<p>Ao fundo do golpho, sobre uma ilhota, eleva-se a cidade dos corsarios, +rodeada d'altas muralhas, onde se alinham os canhões de cerco, estendidos +pachorrentamente nas suas carretas, e abrindo, sobre a herva dos revestimentos, +as suas boccas ameaçadoras. O mar tem na bahia, durante o estio, a placidez +langorosamente azulada dos lagos.</p> + +<p>As ondas esperguiçam-se suavemente sobre a areia, junto das velhas muralhas. +</p> + +<p>Mas no inverno batem com furia nas pedras ennegrecidas, e sobem, em +turbilhões d'espuma, a enorme altura.<span class="pn">{183}</span></p> + +<p>A cidade, fechada pelas muralhas, assiste impassivel áquellas convulsões da +agua.</p> + +<p>As altas casas, de janellas sem rotulas, elevam as suas fachadas +geometricas, socegadamente, como que seguras de não serem attingidas pela +impetuosidade das ondas.</p> + +<p>Mas nos angulos dos predios veem-se por vezes nichos da Virgem, aos quaes o +vento arrebatou as imagens.</p> + +<p>A ilhota que serve de base á cidade apenas apresentava para fóra d'agua, +transposta a muralha, uma especie de calçada em declive, relativamente larga, +mas que, a pouco e pouco, as tempestades teem desconjunctado.</p> + +<p>D'antes Saint-Malo parecia um navio ancorado, e marinheiros os seus +habitantes.</p> + +<p>Os costumes da cidade eram d'uma severidade quasi selvagem, proverbial a sua +lealdade rude.</p> + +<p>A independencia d'aquelles homens não se curvava ante o governador da +provincia, nem mesmo em frente da nobreza, á qual, de resto, d'uma vez +emprestaram cincoenta milhões de francos.</p> + +<p>Que de mudanças se teem operado!</p> + +<p>Os caminhos de ferro, os casinos escalonados pela costa, o contacto +periodico com estrangeiros, a convivencia com os banhistas que de toda a França +ali concorrem, e, na cidade propriamente dita, a invasão<span +class="pn">{184}</span> dos jesuitas, teem modificado as linhas, deprimido os +angulos, alterado o caracter brusco mas franco d'aquelles homens, filhos da +terra que deu á França Lammenais, Chateaubriand, Jacques Castier, +Dagaray-Tronin, Surconf e tantos outros pensadores e homens de superior +talento.</p> + +<p>O caracter dominante da geração moderna é, nas casas nobres, um formalismo +devoto, de que o fanatismo não exclue a immoralidade.</p> + +<p>Apenas algumas familias de burguezes ricos resistiram ao contagio.</p> + +<p>Os membros d'essas familias tornaram-se republicanos, e fazem todos os +esforços para que o povo adore a republica.</p> + +<p>Mas para esses nem chaves d'ouro lhes abririam as portas dos cenaculos +aristocraticos, onde vêem a luz e se desenvolvem as intrigas monarchicas e +clericaes. Sobre a grande massa banal da burguezia pouco dinheirosa, logistas, +empregados, industriaes, sobresahem alguns, raros, perfis intelligentes +d'advogados, de medicos, d'artistas, de jornalistas, isolados n'aquelle +entorpecimento provincial.</p> + +<p>D'inverno ha bailes officiaes, e bailes no casino de verão.</p> + +<p>Esses bailes são frequentados por varias camadas sociaes, mas jámais tal +facto produziu a mais insignificante mistura de castas.<span +class="pn">{185}</span></p> + +<p>O orgulho geral produz em todos a mais absoluta falta d'affabilidade.</p> + +<p>Comprehende-se, pois, que, na sociedade restricta e altiva da nobreza de +Saint-Malo, Laura se achasse completamente deslocada.<span +class="pn">{186}</span></p> + +<p><span class="pn">{187}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00116">XVI<br> +A sr.ª baroneza</a></h2> + +<p>A rainha da moda, a que dava as leis e fazia a opinião da alta sociedade em +Saint-Malo, era a sr.ª baroneza de Pontual, uma formosa mulher de trinta annos. +Havia umas cinco ou seis estações que ninguem se atrevia a disputar-lhe a +elegante auctoridade.</p> + +<p>A baroneza era ainda parenta, em grau affastado, da menina por quem o conde +se apaixonára antes de casar com a mãe d'Antonino, e parecia-se até, um pouco, +com a infeliz a quem o desgosto matára.</p> + +<p>Essa circumstancia atrahira o conde, contra o seu habito, para a esphera +d'acção mundana da joven baroneza, elle que tanto amava a vida retirada, onde +podesse entregar-se completamente ás suas melancholicas recordações.<span +class="pn">{188}</span></p> + +<p>O barão de Pontual era um insignificante.</p> + +<p>Sendo o primeiro admirador e adorador da esposa, ella facilmente o conduzia +por todos os caminhos, bons ou maus, por onde lhe aprouvesse caminhar.</p> + +<p>Adelia, que assim se chamava a baroneza, declarava ter <em>alma +d'artista</em>, o que é uma percebivel ambição, quando não seja pretenciosa. +</p> + +<p>Ora, para completo esclarecimento do leitor, devemos dizer que á baroneza +faltava simplicidade e sinceridade.</p> + +<p>Cultivava simultaneamente, segundo a sua propria phrase, as lettras, a +pintura e a musica.</p> + +<p>A sua especialidade em litteratura era o genero epistolar, á semelhança da +sr.ª de Sévigné, sua compatriota.</p> + +<p>Os correspondentes previligiados da baroneza, como no passado os da +marqueza, colleccionavam as cartas e os bilhetes, em que havia tres estylos +diversos: o serio, o sentimental e o jocoso.</p> + +<p>Em pintura <em>orvalhava</em> as suas aguarellas, e <em>dava vida</em> ás +paysagens.</p> + +<p>Mas a sua arte predilecta era a musica.</p> + +<p>Possuia voz agradavel, mas mal educada.</p> + +<p>Comtudo recebera lições de canto de Delle Sedia, como recebera lições de +piano de Lecouppey.</p> + +<p>Tinha opiniões cortantes, audacias pouco vulgares em mulher.<span +class="pn">{189}</span></p> + +<p>O seu deus era Gounod.</p> + +<p>Eatretanto não desgostava de Berlioz, que ella declarava ser <em>quasi +sempre extravagante, mas algumas vezes sublime</em>.</p> + +<p>A baroneza, ao principio, quando no seu horisonte viu despontar a +viscondessa, inquietou-se.</p> + +<p>Laura era mais formosa e mais nova que ella.</p> + +<p>Além d'isso a situação dos srs. de Bizeux era muito mais brilhante do que a +do barão de Pontual.</p> + +<p>Tudo isto fazia com que Laura podesse ser uma rival terrivel.</p> + +<p>Mas socegou em breve, vendo o aspecto modesto e simples da viscondessa, que +apenas parecia desejar não dar nas vistas, occultar-se na sombra.</p> + +<p>A formosa Adelia foi desde logo indulgente e quasi amiga de Laura.</p> + +<p>—A viscondessinha é encantadora! disse ella.</p> + +<p>O barão de Pontual era o thesoureiro da commissão que tratava da fundação do +hospicio para marinheiros.</p> + +<p>O conde de Bizeux foi eleito, por essa occasião, vice-presidente da mesma +commissão.</p> + +<p>Uma ultima subscripção produziu approximadamente sessenta mil francos.</p> + +<p>Faltava, pois, arranjar apenas os quarenta mil que faltavam para prefazer a +quantia julgada indispensavel.<span class="pn">{190}</span></p> + +<p>Esplendidas regatas, organisadas em Saint-Malo, produziram quinze mil +francos.</p> + +<p>O arcebispo de Rennes foi então d'opinião que se devia angariar o restante, +dando um grande concerto.</p> + +<p>Foi convencionado que o concerto se realisaria nos fins de setembro.</p> + +<p>Tratariam d'accumular attractivos, que justificassem os preços elevados, e +attrahissem a Saint-Malo a <em>élite</em> da nobreza e da finança de toda a +Bretanha.</p> + +<p>A baroneza de Pontual estava naturalmente indicada para preparar e dirigir +aquella festa.</p> + +<p>Haveria canções populares bretãs, para as quaes recrutariam executantes nas +classes baixas.</p> + +<p>O celebre pianista Nobillet, natural de Lorient, prometteu o seu concurso, e +egual promessa fez o barytono Gressier, que nascera em Nantes.</p> + +<p>O restante, para conservar ao Concerto o caracter aristocratico que devia +ter, a baroneza de Pontual tratou de o procurar e encontrou-o, nos salões da +melhor sociedade; homens e senhoras, cujos nomes e talento dessem ao programma +grande attracção, tornando-o de fórma a aguçar a curiosidade de todos, +prestaram-se a tomar parte na festa.</p> + +<p>O salão da baroneza era pequeno para n'elle se fazerem os ensaios.</p> + +<p>O conde de Bizeux offereceu o seu.</p> + +<p>A viscondessa, como Estephania estava ainda convalescente,<span +class="pn">{191}</span> viu-se obrigada a fazer as honras da casa.</p> + +<p>O sr. de Bizeux, que tomára a peito a terminação da grande obra de caridade, +perguntou á nora se não queria dar o seu contingente para o brilho do concerto. +</p> + +<p>Laura, sem recusar abertamente, observou-lhe que se arriscava a trahir o seu +incognito d'artista e a deixar descobrir a cantora na viscondessa, tomando +parte n'esse espectaculo, a que de certo concorreria muita gente.</p> + +<p>O conde, ainda que com pesar, acceitou aquellas razões.</p> + +<p>Um incidente imprevisto tornou inutil aquella precaução.</p> + +<p>A baroneza devia cantar, no concerto, a <em>Ave Maria</em> de Gounod, o seu +deus.</p> + +<p>D'uma vez ensaiava, em casa do conde, aquelle delicioso trecho de musica, +ante um auditorio que, n'aquelle dia, por acaso, era numeroso.</p> + +<p>Obteve o successo costumado, e todos os presentes foram, no fim, fazer-lhe +os seus cumprimentos...</p> + +<p>Laura, como todos, foi testemunhar a sua admiração á baroneza.</p> + +<p>Adelia requebrou-se toda, segundo, o seu habito, defendendo-se dos +cumprimentos com a mais falsa das modestias.</p> + +<p>—Não, não... Favores!... Hoje não estava com<span +class="pn">{192}</span> voz... De certo reparou que, no fim, a respiração +faltou-me!...</p> + +<p>—Permitte-me que lhe diga de que foi resultante essa falta? perguntou +Laura com simplicidade.</p> + +<p>—Pois não, minha querida!... Falle... peço-lhe...</p> + +<p>—Parece-me, disse a viscondessa, que, em vez d'observar o +<em>crescendo</em> phonico obrigado, a sr.ª baroneza o atacou demais no +principio, faltando-lhe depois a força no final, que deve ser cantado com toda +a intensidade de tom possivel.</p> + +<p>—Não percebo bem... objectou a baroneza deveras contrariada.</p> + +<p>E depois d'um momento de silencio, perguntou:</p> + +<p>—A sr.ª viscondessa sabe musica?</p> + +<p>—Um pouco...</p> + +<p>—Ah! sabe?... Então queira ter a bondade de juntar a pratica á +theoria, cantando o trecho como entende que elle deve ser cantado.</p> + +<p>—Depois da sr.ª baroneza ter cantado, não devo eu...</p> + +<p>—Não faça ceremonia... Cante... peço-lhe, insistiu a baroneza com +frieza. </p> + +<p>Com a insistencia esperava collocar em terrivel embaraço a imprudente +conselheira.</p> + +<p>Laura fez um movimento de contrariada, mas accedeu ao pedido.<span +class="pn">{193}</span></p> + +<p>Começou muito <em>piano</em>, com intensão de cantar a meia voz, quando +muito.</p> + +<p>Mas o instincto d'artista foi mais forte que ella: arrastou-a.</p> + +<p>Quando chegou ás ultimas notas, a sonoridade da sua voz foi tal, +manifestou-se tanto o conhecimento do methodo, que todos os assistentes, +admirados, romperam em bravos e palmas.</p> + +<p>Antonino não estava presente, mas o conde de Bizeux assistiu ao triumpho de +Laura, o que, no intimo, lhe deu grande satisfação.</p> + +<p>A baroneza de Pontual ficou abysmada!</p> + +<p>A incontestavel superioridade de Laura esmagava-a ao primeiro recontro.</p> + +<p>Entretanto assaltou-a uma duvida.</p> + +<p>Quem seria aquella mulher que tinha dissimulado, e que subitamente revelava, +uma voz e uma arte de cantar pouco vulgares entre amadoras, e mais do que +sufficientes para fazerem a reputação d'uma cantora de primeira ordem?</p> + +<p>Entretanto a baroneza não foi a ultima a felicitar Laura.</p> + +<p>—Mas que admiravel surpreza! disse ella. Porque me não fez +conhecedora, ha mais tempo, do seu maravilhoso talento, sr.ª viscondessa?</p> + +<p>Comtudo cohibiu-se de perguntar a Laura se queria tomar no concerto o logar +que lhe pertencia.<span class="pn">{194}</span></p> + +<p>É porque percebeu perfeitamente que esse logar seria o primeiro, e a +baroneza não desejava occupar o segundo plano.</p> + +<p>No dia seguinte, porém, a infeliz baroneza recebeu do arcebispo de Rennes, a +quem enviára o programma, uma carta desoladora.</p> + +<p>O arcebispo admirava-se de não ver figurar n'esse programma, o nome +d'aquella que devia ser a grande attracção, e que produziria o mais brilhante +successo.</p> + +<p>Esse nome era o da viscondessa de Bizeux.</p> + +<p>Fôra ouvindo-a cantar na missa d'inauguração da capella do castello, que ao +arcebispo occorrera a idéa de dar um concerto, cujo producto revertesse a favor +da subscripção para o hospicio de marinheiros.</p> + +<p>Em seguida o arcebispo perguntava se a baroneza de Pontual desconhecia o +raro talento da nora do conde de Bizeux.</p> + +<p>Pois a extrema modestia da viscondessa fazia com que ella não desejasse +manifestar o seu talento em publico?</p> + +<p>Quando se tratava d'uma obra meritoria, não se tinha o direito de ser +modesto, e por isso instava com a baroneza para que convidasse Laura.</p> + +<p>Ante esta especie d'intimação, a baroneza não poude deixar de convidar a +viscondessa.</p> + +<p>Portanto, no dia seguinte, foi officialmente perguntar-lhe<span +class="pn">{195}</span> se queria prestar ao concerto o seu valioso concurso. +</p> + +<p>Laura, perplexa, respondeu que necessitava consultar o marido e o sogro.</p> + +<p>Houve conselho privado entre o conde de Bizeux, Antonino e Laura.</p> + +<p>O conde foi d'opinião que a nora não devia deixar de prestar-se a dar a sua +contingente para tão santa obra.</p> + +<p>A Linda desapparecera havia mais de dois annos.</p> + +<p>Que mal podia resultar d'ella reapparecer, uma unica vez, n'uma cidade tão +distanciada de Paris, diante d'um publico local, que não estava ao corrente do +movimento dos theatros parisienses?</p> + +<p>O maior numero de probabilidades, era de que Laura não seria reconhecida. +</p> + +<p>—Mas se o fôr? perguntou a viscondessa.</p> + +<p>—Se assim succedesse, respondeu o conde, a descoberta far-se-ia em +condições tão honrosas, tão respeitaveis para todos nós, que, ante o facto +consumado, os mais rigoristas não tinham o direito d'arguir meu filho de a ter +amado sufficientemente, Laura, para lhe dar o seu nome, nem a mim por lhe +chamar filha.</p> + +<p>Houve um momento de silencio.</p> + +<p>O conde, passados instantes, accrescentou:</p> + +<p>—Nada tem no seu passado, Laura, de que deva<span +class="pn">{196}</span> envergonhar-se. Estephania, que tem os prejuizos que +sabe, sem duvida ficaria contrariada se lhe tivessemos, de principio, revelado +toda a verdade. Mas agora ella já a conhece e apprecia. Tratou-a com uma +dedicação tão fraternal, que minha filha está reconhecidissima. O arcebispo de +Rennes, que possue um espirito superior, reclama este serviço; depois seria o +primeiro a não consentir que elle se voltasse contra aquelles a quem o pede. Se +o seu segredo, que é tambem nosso, tem de ser conhecido mais tarde ou mais +cedo, parece-me que não encontraremos occasião mais favoravel do que esta, para +que todos saibam que a esposa de meu filho foi cantora.</p> + +<p>Antonino, menos optimista que seu pae, e vagamente inquieto, nada achou que +oppôr ás razões apresentadas pelo conde.</p> + +<p>De resto, como sempre, desejava fazer-lhe a vontade.</p> + +<p>Assim pois, foi Laura a unica que resistiu á idéa de reapparecer e cantar em +publico.</p> + +<p>Mas não queria ou não podia dizer tudo o que pensava sobre o caso.</p> + +<p>A verdade era que, sobretudo, ella temia-se a si propria.</p> + +<p>Sabia com que intima alegria estremecera no dia da inauguração da +capella.<span class="pn">{197}</span></p> + +<p>Dois dias antes, ao cantar, ante um auditorio ainda assim restricto, a +<em>Ave Maria</em> de Gounod, experimentára maior satisfação.</p> + +<p>Os bravos e palmas que então ouvira, tinham a como que transportado aos +bellos tempos em que ella arrebatava uma platéa inteira.</p> + +<p>O que lhe succederia se de novo se encontrasse na frente d'um publico +numeroso?</p> + +<p>Que effeito lhe produziriam os bravos, as chamadas, as corôas?</p> + +<p>Ah! a queda era tão facil e podia ser tão desastrosa!</p> + +<p>Tel-a-iam esquecido em Paris tanto quanto o conde julgava?</p> + +<p>Não.</p> + +<p>Poucos dias antes lera n'um jornal da capital, a proposito da abertura da +nova Opera e da companhia que n'ella devia cantar, que o director do novo +templo da arte, devia, se fosse habil, lembrar-se da Linda.</p> + +<p>N'essa mesma noticia accrescentava-se que a diva estava no Mexico, mas +dizia-se tambem que o Mexico não era no fim do mundo, que se volta de lá dentro +d'algumas semanas.</p> + +<p>Mas a Linda não estava longe!</p> + +<p>Podia chegar a Paris, ao seu querido Paris, em algumas horas.<span +class="pn">{198}</span></p> + +<p>Laura, em seguida, pensou no seu amor por Antonino, sempre inalteravel no +seu coração.</p> + +<p>Era esse sentimento que ainda a retinha junto d'elle.</p> + +<p>Mas ao mesmo tempo recordava-se da palavra que o visconde lhe dera, e que a +tornava livre se achasse muito pesada a cadeia que a prendia.</p> + +<p>Eram todos estes pensamentos que a tornavam hesitante. Não tinha, porém, a +coragem de os expôr.</p> + +<p>Se a tivesse, seu marido e seu sogro ficariam convencidos de que ella não +devia cantar no concerto de benificencia.</p> + +<p>O conde persistia, insistia, e Antonino juntava os seus rogos aos do pae. +Ella, por fim, disse:</p> + +<p>—Reconhecem bem, não é verdade, que o que está mais em jogo não é o +meu interesse pessoal, mas o interesse da familia?</p> + +<p>—Sem duvida, respondeu o conde, e é por isso mesmo que insistimos e +somos de opinião que deve ceder, como nós cedemos.</p> + +<p>Laura, replicou então:</p> + +<p>—Visto assim o quererem, cantarei no concerto!</p> + +<p>N'essa noite, Laura disse á baroneza, pouco satisfeita, o seguinte:</p> + +<p>—Pode accrescentar no seu programma, minha senhora, que a viscondessa +X... cantará as arias <em>Fidelio</em> e o <em>Rei dos Alamos</em>.<span +class="pn">{199}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00117">XVII<br> +A tempestade</a></h2> + +<p>O dia em que devia realisar-se o concerto foi por fim fixado: 29 de +setembro.</p> + +<p>Faltavam, pois, dez dias.</p> + +<p>Laura propôz ao marido não os passasem em Saint-Malo.</p> + +<p>Que necessidade tinham de juntar ao perigo d'ella ser reconhecida no +concerto, o risco de a reconhecerem nos ensaios?</p> + +<p>Até então a viscondessa não encontrára ninguem que a conhecesse.</p> + +<p>Os artistas que deviam tomar parte no concerto, Nobillet e Gressier, nunca a +tinham visto.</p> + +<p>Fallava-se, comtudo, em reforçar o programma, accrescentando-lhe os nomes +d'outros artistas.<span class="pn">{200}</span></p> + +<p>O mais prudente, pois, era não apparecer senão na noite do espectaculo.</p> + +<p>Como escolhera dois trechos de musica que conhecia perfeitamente, bastava a +Laura uma simples recordação com a orchestra, na manhã do dia do concerto.</p> + +<p>Nos seus passeios maritimos Antonino e Laura não tinham ido alem do Monte de +Saint-Michel.</p> + +<p>Decidiram por isso visitar durante aquelles dias, na sua chalupa, as costas +do departamento da Mancha, e Jersey, onde Laura nunca tinha ido.</p> + +<p>O conde de Bizeux e Estephania, já completamente restabelecida, receberiam +as pessoas que iam ensaiar-se.</p> + +<p>A baroneza de Pontual seria a unica a dirigir a festa, sem temer a +intervenção da que ella considerava sua rival.</p> + +<p>Laura partiu alegre e despreoccupadamente para aquella excursão, a mais +longa que ainda tinham feito.</p> + +<p>A viagem foi encantadora.</p> + +<p>A volta da ilha de Jersey, que durou cinco a seis dias, foi sobretudo uma +verdadeira delicia.</p> + +<p>Passaram em todos os portosinhos naturaes que a ilha tem, desembarcavam, +jantavam e dormiam nas estalagens mais ou menos mediocres com que deparavam, +rindo do jantar, rindo do leito, rindo de tudo.<span class="pn">{201}</span> +</p> + +<p>Para descançarem das fadigas da navegação, davam esplendidos passeios de +carruagem, visitando os melhores locaes e todas as curiosidades da ilha.</p> + +<p>Não abriram um jornal.</p> + +<p>Sentiam-se tão longe da França como se ainda estivessem na America.</p> + +<p>Esqueceram Saint-Malo, esqueceram o universo.</p> + +<p>Os dias corriam magnificos, uns dias d'outomno, tepidos e amenos.</p> + +<p>Laura sentia apenas que o mar se conservasse tão uniformemente tranquillo. +</p> + +<p>—Está bello de mais o tempo, disse ella. Algum vento que encapellasse +as ondas tornaria mais emotiva a nossa viagem.</p> + +<p>Que pesar sentiam de que aquelles dias tivessem que terminar!</p> + +<p>Na vespera do concerto estavam em Granville.</p> + +<p>Antonino sahiu depois do almoço para preparar a chalupa, e voltou ao hotel, +onde tinham passado a noite.</p> + +<p>Laura reparou que o marido estava com aspecto de pouco satisfeito.</p> + +<p>—Diabo! diabo! disse elle. Parece-me que procederiamos acertadamente +voltando a Saint-Malo por terra, tomando o comboio em Dol.</p> + +<p>—Porque?</p> + +<p>—Vejo nuvens de mau agoiro. Se o vento refrescar,<span +class="pn">{202}</span> é provavel que, antes de chegarmos a Saint-Malo, +tenhamos de luctar com mar bravo, e a nossa chalupa não tem condições para +luctas d'essa ordem.</p> + +<p>—<em>Levantae-vos, desejadas tempestades que deveis arrastar +Renato!</em> disse rindo Laura, respondendo aos temores do marido com uma +citação de Chateaubriand.</p> + +<p>E accrescentou n'outro tom:</p> + +<p>—Ainda bem! Desejo defrontar-me com o perigo.</p> + +<p>Antonino dissera a verdade.</p> + +<p>O vento era contrario, e para os lados de Saint-Malo viam-se nuvens +ameaçadoras.</p> + +<p>—Não valem nada! disse a viscondessa depois de olhar para as nuvens +que o marido lhe indicava. Sobeja-nos o tempo para chegarmos antes que a +tempestade se desencadeie. Mas se assim não acontecer, tanto melhor, Antonino, +porque sinto grande desejo d'arrostar qualquer perigo a teu lado. Acho +encantador terminar por um incidente um pouco dramatico a nossa socegada +viagem.</p> + +<p>—Decididamente queres embarcar? perguntou Antonino depois de reflectir +por alguns momentos.</p> + +<p>—Quero.</p> + +<p>—Que a tua vontade seja feita.</p> + +<p>E embarcaram.</p> + +<p>Antonino tomou tres rizes á vela grande e prendeu o gurupés.</p> + +<p>Em seguida envolveu Laura n'um manto, e fez-se<span class="pn">{203}</span> +ao largo. Durante as duas primeiras horas correu bem a viagem.</p> + +<p>A chalupa navegava com uma velocidade de doze nós por hora.</p> + +<p>O visconde chegou a ter esperanças de que chegariam a Saint-Malo sem +novidade.</p> + +<p>Mas repentinamente soprou rijo o vento, apanhando de flanco a chalupa, e as +ondas encapelaram-se.</p> + +<p>A cada vaga Antonino dava ao leme, e o barco vencia obliquamente a onda, +cuja espuma chegava ao cimo do mastro.</p> + +<p>O mar embravecia de minuto para minuto.</p> + +<p>O vento refrescava cada vez mais.</p> + +<p>A chalupa, inclinada para bombordo, seguia sempre, com a borda quasi ao +nivel das ondas.</p> + +<p>Entretanto houve um momento em que o vento abrandou, como que para dar +descanço ás vagas.</p> + +<p>Mas depois, bruscamente, saltou para sueste.</p> + +<p>Por felicidade Antonino viu chegar a borrasca.</p> + +<p>As montanhas d'agua que se moviam ao largo, batidas pelo vento contrario, +elevaram-se a enorme altura.</p> + +<p>Depois, obedecendo á força impetuosa do vento, correram na mesma direcção. +</p> + +<p>Houve um minuto de indiscriptivel cahos.</p> + +<p>O choque das massas d'agua batendo umas contra outras, produzia um ruido +ensurdecedor.<span class="pn">{204}</span></p> + +<p>A chalupa corria rapida como um vôo.</p> + +<p>Apanhada pelas ondas que vinham de terra impellidas pelo vento, encontrava +outras ainda animadas da primeira impulsão.</p> + +<p>Se se encontrasse no ponto d'encontro d'essas montanhas moveis, estava +perdida.</p> + +<p>Antonino, socegado, attento, nem por um instante se deixava surprehender. +</p> + +<p>Laura poude então admirar esse espectaculo extraordinario: a lucta da +destreza e da intelligencia humanas contra o poder brutal das forças naturaes. +</p> + +<p>O ceu assombreava-se cada vez mais.</p> + +<p>Uma grande nuvem côr de chumbo, com reflexos sulphurosos nas extremidades, +avançava rapidamente do lado de Saint-Malo. Laura disse a Antonino:</p> + +<p>—Corremos grande perigo, não é verdade?</p> + +<p>—O mais insignificante descuido perder-nos-ia, respondeu o +visconde.</p> + +<p>—Para onde diriges a chalupa?</p> + +<p>—Vou tentar abordar á ilha de Cézambre, da qual distamos dois +kilometros. E agora, minha querida, silencio!</p> + +<p>Laura approximou-se do unico homem que amara e que escolhera entre todos, +feliz por se saber protegida por elle.</p> + +<p>Não fôra ella, de resto, que desejara observar de perto o mar irritado?<span +class="pn">{205}</span></p> + +<p>Chamára o cataclysmo, e elle viera, furioso por se ver arrostado por +aquelles dois entes cheios de vida.</p> + +<p>Por isso Laura não sentia verdadeiro temor.</p> + +<p>Ao principio, vendo a extraordinaria força dos elementos, sentira um ligeiro +calafrio.</p> + +<p>Mas, depois, socegou por completo.</p> + +<p>Pensava apenas:</p> + +<p>—Se nós fossemos separados por alguma vaga?</p> + +<p>E, sem pronunciar uma só palavra, pegou n'um cabo de linho, delgado mas +forte, prendeu uma das extremidades ao braço, passando a corda por cima do +hombro, e com a outra extremidade prendeu de fórma identica o braço d'Antonino. +Depois disse:</p> + +<p>—Agora podemos morrer! Morrer juntos e amando-nos, é morrer feliz!</p> + +<p>A tempestade attingia o paroxismo.</p> + +<p>As vagas cabriolavavam e cahiam depois em salto de tigre.</p> + +<p>O ceu cobrira-se de funebre tela, côr de ardosia, com manchas violaceas.</p> + +<p>As nuvens desciam pesadamente sobre as regiões inferiores da atmosphera.</p> + +<p>A chalupa voava, branca e ligeira como uma ave aquatica, sobre o dorso das +ondas.</p> + +<p>Por vezes desapparecia entre duas muralhas de vagas para reapparecer pouco +depois, continuando na carreira rapida.<span class="pn">{206}</span></p> + +<p>A ilha proxima a custo se avistava por entre as elevadas ondas, que a espuma +franjava phantasticamente.</p> + +<p>Antonino, com toda a energica tensão que pode ter a vontade, combatia +encarniçadamente, para não desapparecer no abysmo.</p> + +<p>Apenas uma vez foi surprehendido pelo quebrar de uma onda enorme, que corria +sobre a chalupa, n'um encarniçamento de fera, soltando roncos temerosos.</p> + +<p>N'essa occasião a vela rasgou-se.</p> + +<p>Por felicidade, a chalupa adquirira grande velocidade.</p> + +<p>A onda, ao quebrar, inundou a embarcação.</p> + +<p>A chalupa esteve prestes a submergir-se.</p> + +<p>A especie de camara que havia a meia coberta, foi arrancada.</p> + +<p>O porão encheu-se d'agua.</p> + +<p>Felizmente chegavam.</p> + +<p>A praia da ilha de Cézambre, estava ali, muito proxima...</p> + +<p>Com mais um movimento da canna do leme Antonino achou-se no centro d'uma +enseadinha, ao abrigo do vento. Dois minutos depois a quilha da chalupa +afundava-se na areia.</p> + +<p>Antonino deitou ferro, e saltou sobre uma rocha, com uma ligeireza de gamo. +</p> + +<p>Laura lançou-lhe a extremidade d'uma amarra,<span class="pn">{207}</span> +que o visconde atou solidamente n'um adelgaçamento do rochedo.</p> + +<p>Depois estendeu as mãos para a esposa, que ligeiramente lhe saltou nos +braços.</p> + +<p>Abraçaram-se apaixonadamente, com delirio.</p> + +<p>Estavam salvos!<span class="pn">{208}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00118">XVIII<br> +O encontro</a></h2> + +<p>Antonino e Laura atravessaram a estreita facha arenosa que havia junto ao +rochedo, e que era o unico ponto abordavel da ilha de Cézambre.</p> + +<p>Na praia estava amarrado um barco.</p> + +<p>Meio occulto n'uma especie de quebrada, encontraram o posto da Alfandega. +</p> + +<p>A casa estava aberta e vazia.</p> + +<p>Sem duvida os guardas, tendo partido de manhã, não estavam ainda de volta. +</p> + +<p>Antonino lembrou-se que proximo d'aquelle sitio havia uma cabana de +pescadores.</p> + +<p>Depois de a terem procurado por alguns minutos, encontraram-a por fim, n'uma +anfractuosidade dos rochedos.</p> + +<p>A porta apenas estava fechada na tranqueta.</p> + +<p>Abriram-a e entraram.</p> + +<p>Depararam com uma velha, meio surda, que concertava uma rêde.<span +class="pn">{209}</span></p> + +<p>A custo conseguiram saber que o velho—marido sem duvida—tinha +partido de manhã para Saint-Malo e que ainda não voltára.</p> + +<p>Muito instada, disse mais que nada tinha que se Comesse e bebesse, além de +<em>cidra</em>, toucinho, peixe sêcco e pão.</p> + +<p>Uma moeda d'ouro, que Antonino atirou para cima d'uma meza, abriu-lhe um +pouco mais os ouvidos e a intelligencia.</p> + +<p>A velha levantou-se então e tratou de fazer lume sem demora.</p> + +<p>Pouco depois brilhavam as chammas na chaminé.</p> + +<p>Laura approximou-se para se aquecer e seccar o fato.</p> + +<p>Depois de estar tambem alguns momentos junto do lume, Antonino disse:</p> + +<p>—E agora vou buscar as nossas provisões a bordo da chalupa, porque, +antes d'embarcarmos novamente, necessitamos comer, e não me agrada o que a +velha nos póde dar.</p> + +<p>E voltando-se para a dona do tegurio, accrescentou:</p> + +<p>—Acompanhe-me, porque, indicando-me o caminho, menos tempo me +demorarei. </p> + +<p>A velha levantou-se sem responder, e seguiu Antonino.</p> + +<p>Laura conservou-se á chaminé, pensativa.<span class="pn">{210}</span></p> + +<p>Pouco depois ouviu uma voz conhecida dizer-lhe:</p> + +<p>—Adeus, Linda, bom dia!</p> + +<p>Levantou-se sobresaltada e olhou.</p> + +<p>Tinha em frente Lauretto Mina.</p> + +<p>—Como vaes tu, carissima?</p> + +<p>Laura respondeu altivamente:</p> + +<p>—Eu chamo-me viscondessa de Bizeux!</p> + +<p>—Viscondessa?... Hum!... Emfim, seja! Effectivamente disseram-me, em +Saint-Malo, que tinha casado com o sr. de Bizeux, e que pertencia officialmente +á familia do visconde. Mas o casamento effectuou-se em Inglaterra, não é +verdade? Ninguem desconhece essa especie de casamentos... enlaces pouco +duraveis, tão faceis de fazer como de desfazer. Casa-se em frente d'um padre +catholico, mas nem por isso o casamento deixa de ser civil, o que illude a lei. +</p> + +<p>—Mas affianço-lhe... replicou Laura.</p> + +<p>Interrompeu-se para ajuntar em tom desprezador:</p> + +<p>—Que me importa o que o senhor pense! Acredite ou não, é-me +indifferente! </p> + +<p>—Está bem! respondeu, rindo ironicamente, Lauretto Mina. Que a +viscondessa esteja mal, ou bem tincta, é questão secundaria, que não me impede +de prometter solemnemente tratal-a pelo seu titulo, com todas as attenções e o +mais profundo respeito. Tomo a peito proceder de fórma que reconquiste as suas +boas graças.<span class="pn">{211}</span></p> + +<p>Depois d'um momento de silencio, olhando-a de revez, accrescentou:</p> + +<p>—É possivel que a sr.ª viscondessa tenha a maxima conveniencia de +passar, para mim, como uma desconhecida em Saint-Malo. É possivel que não +deseje que a reconheçam como sendo a celebre cantora Linda...</p> + +<p>Laura, surprehendida e interrogando-o com o olhar, interrompeu-o:</p> + +<p>—E se assim fosse!</p> + +<p>—Bravo! Já vejo que acertei! Pois está combinado! Ámanhã, no +concerto... </p> + +<p>—Ah! o senhor canta no concerto d'ámanhã? perguntou a viscondessa.</p> + +<p>—Canto. Foi para isso que vim a Saint-Malo... Ámanhã será para mim uma +desconhecida. Prometto-lh'o sob minha palavra d'honra.</p> + +<p>—Obrigada.</p> + +<p>—E agora que está certa da seriedade das minhas intenções, deixe-me +dizer-lhe rapidamente, antes que... seu marido volte, o que vim fazer aqui, +porque vim exclusivamente por sua causa.</p> + +<p>—Por minha causa? repetiu Laura como um echo.</p> + +<p>—Não me refiro precisamente á ilha de Cézambre. A estes rochedos +conduziu-me apenas o acaso, a minha boa estrella. Esta manhã propozeram-me um +passeio até á ilha, que me affiançaram ser extraordinariamente<span +class="pn">{212}</span> pittoresca. A tempestade reteve-nos por mais tempo do +que desejavamos. Mas a Saint-Malo, vim exclusivamente por sua causa, repito. +</p> + +<p>Em seguida a uma pausa calculada, o tenor ajuntou:</p> + +<p>—O tempo passa. Vou direito ao fim. Sabe que no proximo mez é a +inauguração da nova Opera. O director encarregou-me de dizer-lhe que tinha o +maximo empenho em contratar a Linda. Elle acceita uma escriptura nas condições +que mais lhe agradem, sr.ª viscondessa, ou seja por anno e por serie de +representações.</p> + +<p>Laura córou, e esteve sem responder durante alguns segundos.</p> + +<p>Por fim disse:</p> + +<p>—É impossivel. Eu sou a esposa do visconde de Bizeux.</p> + +<p>—Ora adeus!... Nada de patetices!... replicou Lauretto com desdem. A +sr.ª é e será sempre a Linda! É possivel que seja viscondessa, mas não deixou +de ser artista! Usa agora, legitamente ou não, pouco importa, o nome dos nobres +avós d'um fidalgo da provincia, mas, <em>per Bacco!</em> não lhe merecerá mais +consideração, não collocará cem vezes mais alto o seu nome pessoal, o seu nome +artistico, o grande nome que conquistou pelo seu talento previlegiado? Não +posso deixar de lhe lembrar que seu pae tambem<span class="pn">{213}</span> era +conde. Mas ninguem o conhecia por conde de Marcia, todos lhe chamavam o grande +violinista, o grande artista Marcia. Acho extranho que a filha proceda de fórma +contraria, deixando offuscar o seu glorioso nome de artista pelo vulgar titulo +de nobreza!</p> + +<p>O tenor fallava com vehemencia e emphase italiana, mas as suas palavras +correspondiam aos intimos pensamentos de Laura.</p> + +<p>A viscondessa não respondeu.</p> + +<p>Inclinara a cabeça para o peito, pensativamente.</p> + +<p>O tenor perguntou:</p> + +<p>—Então?... Que resposta devo dar ao director da Opera? Que acceita, +não é verdade?</p> + +<p>Laura disse, como se fallasse comsigo mesma:</p> + +<p>—Ha uma coisa que a tudo sobreleva: amo meu marido!</p> + +<p>—Mas ha trinta mezes já que o ama! Parece-me sufficiente! O visconde +confiscou-a por mais de dois annos, é tempo de a restituir a si propria, á +arte, aos seus admiradores. Se a amasse, seria o primeiro a dar-lhe esse +conselho. E apesar disso a sr.ª continua amando-o, se é que não a engana o +coração. Mas eu conheço-a bem, e iria apostar em como está farta da vida que +leva. Convença-se: a sr.ª não pertence a um só homem, pertence a todos! Eu nem +um instante<span class="pn">{214}</span> duvidei que a Linda voltaria para o +theatro. Se não fôr hoje, será ámanhã!</p> + +<p>Laura, fugindo de responder ao tenor, perguntou:</p> + +<p>—Como soube o director da Opera que eu estava em Saint-Malo?</p> + +<p>—Ah! isso é descoberta minha, replicou Lauretto Mina envaidecido. +Quando a sr.ª desappareceu com o visconde, disse-se que tinha partido para a +America do Norte ou do Sul. A verdade é que nunca se soube ao certo para onde +tinham ido. Pouco tempo depois ninguem se lembrava da Linda, excepto eu, que +nunca a esqueci. Velava, espiava. Ha pouco soube pelo barytono Gressier, que +elle fôra convidado para cantar n'um espectaculo de beneficencia, em +Saint-Malo. Lembrei-me que Saint-Malo era a terra da naturalidade do visconde +de Bizeux. Tratei de ler os jornaes da provincia, e n'um, o <em>Correio +d'Ille-et-Vilaine</em>, vi que o conde de Bizeux era o vice-presidente da +commissão que promovia o espectaculo. Li o programma do concerto e n'elle +encontrei os nomes da baroneza de P... e da viscondessa de B... Procurei +immediatamente «o director de Opera, para onde, tenho a honra de lh'o +participar, estou escripturado. Logo que o vi, disse-lhe: Encontrei a Linda! +Meia hora depois escrevia ao sr. conde de Bizeux, offerecendo-me +desinteressadamente para cantar no concerto. O conde acceitou reconhecidamente +o meu<span class="pn">{215}</span> valioso concurso, em telegramma. No dia +seguinte, munido de plenos poderes pelo director da Opera, parti para +Saint-Malo, onde cheguei ha poucos dias. Eu desejava ficar hospedado em casa de +seu sogro. Infelizmente, porem, elle hospedava Nobillet e Gressier que +considerava como patricios, e tive de contentar-me em ser hospede da sr.ª +baroneza de Pontual—uma mulher encantadora, palavra d'honra! disse o +tenor como que em aparte com sorriso fatuo. Pena é que a voz não corresponda á +belleza com que Deus a dotou!</p> + +<p>—Está hospedado em casa da baroneza de Pontual? perguntou Laura +inquieta. Disse-lhe quem eu era?</p> + +<p>—Admire a minha prudencia e delicadeza: fazendo com que a baroneza +fallasse da minha ex-companheira de theatro, percebi com facilidade que a sr.ª +viscondessa tinha realmente guardado o mais rigoroso incognito, e não trahi o +seu segredo. Como antecipadamente tinha admittido essa hypothese e resolvido +não a denunciar, guardei o mais absoluto silencio.</p> + +<p>—Agradeço-lhe, disse Laura pela segunda vez, durante a sua conversação +com Lauretto.</p> + +<p>D'esta vez, porém, pronunciou a palavra mais delicadamente do que da +primeira.</p> + +<p>—Nada tem que agradecer-me, replicou Lauretto. Repito-lhe; tenho o +maximo desejo em que veja em<span class="pn">{216}</span> mim apenas um amigo. +Escute-me, Laura: ha mais de dois annos que nem um só momento deixei de pensar +em si. A sua imagem está sempre presente ao meu coração. Os sonhos de +felicidade que tenho architectado teem sido tantos e taes que nem mesmo me +atrevo a relatar-lh'os. É uma verdadeira obsessão! Ah! permitta-me que lhe +diga, o que ainda, sentido, nunca disse a qualquer mulher: adoro-a, Laura!</p> + +<p>A viscondessa endireitou o corpo, irritada.</p> + +<p>Depois d'olhar fixamente, com altivez, o tenor, disse-lhe desdenhosa:</p> + +<p>—Creio que ha bocado prometteu tratar-me com todas as attenções e +respeito? </p> + +<p>Lauretto não poude responder.</p> + +<p>Olhando pela porta, viu o visconde, que se approximava.</p> + +<p>Portanto disse a Laura, sorrindo maldosamente:</p> + +<p>—Não falle tão alto, que póde ouvil-a seu marido.</p> + +<p>Laura olhou tambem, e viu Antonino, seguido pela velha, que conduzia um +cabaz.</p> + +<p>Ao transpor o limiar da porta, o visconde recuou, estupefacto.</p> + +<p>A voz tremia-lhe ao pronunciar o nome do tenor.</p> + +<p>—Lauretto Mina! disse elle apenas.</p> + +<p>—Em pessoa! respondeu o tenor com toda a presença d'espirito. Diz-se, +e assim é, que o mundo é<span class="pn">{217}</span> enorme. Pois apesar +d'isso os amigos encontram-se sempre. Portanto o nosso encontro, sr. visconde, +apesar de ser perfeitamente casual, não é para admirar. Vim a Saint-Malo para +cantar no concerto d'ámanhã. Uns amigos convidaram-me a passeio n'esta ilha. A +tempestade, retendo-nos, fez com que nos encontrassemos. Os seus charutos devem +estar molhados; permitti-me que lhe offereça um?</p> + +<p>—Obrigado, disse friamente Antonino, acompanhando a palavra com um +gesto de recusa.</p> + +<p>O tenor fingiu não perceber a frieza com que o visconde o tratava.</p> + +<p>Deu um passo para a porta, olhou para o espaço e disse:</p> + +<p>—O tempo melhorou. O demonio do vento começa a socegar um pouco. Nada +me prende já n'esta especie d'ilha selvagem. Não desejo importunal-os por mais +tempo; deixo-os com a sua refeição. Senhor visconde, tenho a honra de o +cumprimentar!... Senhora viscondessa, apresento-lhe a homenagem do meu mais +profundo respeito!</p> + +<p>Tirou o chapéu n'um gesto largo e saiu da cabana.</p> + +<p>Antonino seguiu Lauretto com olhar colerico.</p> + +<p>—Que tempo esteve este homem aqui? perguntou elle a Laura.</p> + +<p>—Entrou pouco depois de tu sahires. Não sei d'onde veiu!<span +class="pn">{218}</span></p> + +<p>O visconde interrogou a velha.</p> + +<p>—Este senhor, respondeu a mulher, veiu passeiar á ilha para <em>ver a +vista</em>. Trouxe almoço, e como a tempestade rebentou, demorou-se. Estava +deitado entre as rochas a descançar, quando o senhor chegou.</p> + +<p>—O que te disse elle? interrogou o visconde logo que a velha terminou +as explicações.</p> + +<p>—Fallou-me da nova Opera, onde está contractado. O director mandou-me +offerecer escriptura, tambem.</p> + +<p>—E que lhe respondeste?</p> + +<p>—Que era tua mulher, que não podia pensar em voltar ao theatro.</p> + +<p>—É provavel que esse insolente continue a amar-te. Dirigiu-te algumas +palavras offensivas?</p> + +<p>Deveria ella provocar um conflicto entre seu marido e o tenor?</p> + +<p>Lauretto Mina, em duello, era adversario muito mais para temer que Pozzoli. +</p> + +<p>Por isso Laura respondeu, tremendo-lhe a voz:</p> + +<p>—Lauretto foi attencioso d'esta vez. Está ha alguns dias, em +Saint-Malo, por causa do concerto, como te disse, e não fallou em mim, +promettendo-me até fingir que não me conhecia.</p> + +<p>—Oh! E ficaste-lhe muito reconhecida, não é verdade? disse Antonino +ironicamente.</p> + +<p>—O que tens? perguntou Laura com meiguice.<span +class="pn">{219}</span> Não admira que te contrariasse o encontro com esse +homem, mas isso não é rasão para me tratares com modos bruscos!</p> + +<p>—Perdoa-me, Laura! Não sei porque, mas a presença d'este homem +irritou-me sobremaneira. Não podia nem devia provocal-o pela impertinente +polidez com que me tratou, mas cada uma das palavras que pronunciava fizeram-me +ferver o sangue nas veias!</p> + +<p>—Socega, não te exaltes. Vamos almoçar, que necessitamos readquirir +forças, tu principalmente. Senta-te, que eu te sirvo.</p> + +<p>Auxiliada pela velha, Laura poz a mesa.</p> + +<p>Depois tirou do cabaz pão, vinho de Bordeus, e carne assada.</p> + +<p>O appetite que sentiram ao desembarcar, desapparecera.</p> + +<p>Mal provaram os alimentos.</p> + +<p>Emquanto estiveram á mesa poucas palavras trocaram.</p> + +<p>Pensavam.</p> + +<p>Antonino, que desembarcara na ilha, alegre e triumphante, apesar da fadiga +physica, como se está sempre depois d'um combate de que se sae victorioso, +estava agora triste e inquieto.</p> + +<p>Laura fallara-lhe com a costumada meiguice, mas o instincto do amor que +sentia pela esposa, fazia<span class="pn">{220}</span> com que o visconde visse +para além das apparencias, e entendesse o que as palavras não diziam.</p> + +<p>Esse instincto dizia-lhe que ella lhe occultava o quer que fosse, e que, no +pensamento intimo da mulher amada, havia um segredo, como que uma sombra que +lhe fugia e lhe era contraria.</p> + +<p>Pelo seu lado, Laura, repassando pelo espirito as tentadoras perspectivas +que Lauretto lhe desenrolara, dizia comsigo que Antonino nem pronunciára uma +palavra d'agradecimento pelo sacrificio que ella de novo fazia regeitando as +propostas do director da Opera.</p> + +<p>Parecia-lhe que o marido se esquecera do compromisso tomado, de, quando ella +lh'o pedisse, deixal-a em plena liberdade, ou, segundo as proprias palavras que +então pronunciára, deixar-lhe a gaiola aberta.</p> + +<p>Porque seria que, em vez de profundo reconhecimento, elle lhe testemunhava +uma especie de desconfiança amargurada?</p> + +<p>Porque pareceria temer a presença do insolente Lauretto Mina, que, como +mulher honesta, ella repellira?</p> + +<p>Aquelles dois entes que se amavam, que acabavam de escapar, juntos, d'um +perigo terrivel, e que se considerariam felizes de succumbir a elle, enlaçados +n'um abraço ultimo, ao entrarem de novo na vida social,<span +class="pn">{221}</span> procuravam divergencias e sentiam egoismos, que separam +e dilaceram.</p> + +<p>No fundo do coração é provavel que se recordassem, saudosos, da tempestade. +</p> + +<p>E comtudo essa tempestade passára, como se nada mais tivesse a fazer, uma +vez que lhe fugira o encantador par que desejara victimar.</p> + +<p>A ilha de Cézambre dista apenas cinco kilometros de Saint-Malo, mas +necessitavam apressar-se para poderem chegar á cidade antes d'anoitecer.</p> + +<p>Prepararam-se para partir.</p> + +<p>Antonino continuava pensativo.</p> + +<p>Laura perguntou-lhe porque estava triste.</p> + +<p>Elle desculpou-se com a fadiga.</p> + +<p>A verdade, porém, era que deixára de a sentir desde que chegara á ilha.</p> + +<p>O abalo moral quebrantára-o muito mais do que a lucta contra a borrasca.</p> + +<p>Laura insistiu com sollicitude.</p> + +<p>—Mas sentes apenas fadiga? Nada mais te atormenta e incommoda?</p> + +<p>Antonino hesitou, mas por ultimo disse:</p> + +<p>—Porque não hei-de confessar-te tudo? É verdade, sim, estou +desgostoso! Sabes o que me incommoda? É a idéa de que devemos a Lauretto Mina o +obsequio de fingir que te não conhece, de não se indicar como teu antigo +companheiro no theatro, e, principalmente,<span class="pn">{222}</span> a +certeza de que elle, como dantes, cantará ao teu lado, diante de numeroso +publico. Se tivesse supposto que esse insolente cantaria no concerto, affianço +que não consentiria que tu cantasses tambem.</p> + +<p>—Lembra-te de que, se vou cantar, é exclusivamente para te comprazer e +a teu pae. De resto, é tempo ainda. Queres que não cante? Affianço-te que essa +tua resolução não me entristecerá, pelo contrario, porque talvez assim tu +fiques completamente socegado.</p> + +<p>—Sim, replicou Antonino. Se não cantares socegarei, porque +desapparecerá a inexplicavel apprehensão que me assaltou, e de que só por essa +fórma conseguirei libertar-me.</p> + +<p>—Abraça-me e socega. Não cantarei ámanhã, e ficarei tão satisfeita +como tu. </p> + +<p>Quando chegaram a Saint-Malo a cidade estava já envolta em trevas. +Prepararam-se rapidamente para o jantar, que era de cerimonia.</p> + +<p>Os artistas que cantariam no dia seguinte jantavam em casa do barão de +Pontual.</p> + +<p>O conde de Bizeux tinha á sua meza, além do arcebispo de Rennes, todas as +pessoas d'importancia que tinham chegado de varios pontos da Bretanha para +assistir ao concerto, que em toda a provincia despertára o maior +enthusiasmo.<span class="pn">{223}</span></p> + +<p>Findo o jantar, Antonino e Laura chamaram o conde de parte.</p> + +<p>O visconde explicou ao pae a razão porque desejava que o nome de sua mulher +fosse riscado do programma do espectaculo.</p> + +<p>Mas o conde declarou:</p> + +<p>—É completamente impossivel! É tarde para isso!</p> + +<p>E depois, um pouco exaltado por semelhante resolução, deu a sua opinião +sobre o caso.</p> + +<p>Não comprehendia os escrupulos do filho.</p> + +<p>Vira e fallára com Lauretto Mina.</p> + +<p>O tenor parecera-lhe um homem delicadissimo.</p> + +<p>Era para agradecer-lhe que não tivesse feito a mais ligeira allusão á sua +antiga collega, a Linda, e estava certo que o tenor se portaria com a +viscondessa de Bizeux com todas as attenções e respeitos.</p> + +<p>O arcebispo de Rennes dissera a toda a gente que a admiravel voz que iam +ouvir não a possuiam muitas cantoras de profissão, que o talento de Laura era +inegualavel, despertando assim a geral curiosidade. Se, depois disto, fossem +riscar do programma o nome de Laura era collocar pessimamente o conde que, como +vice-presidente da commissão promotora do espectaculo, como que offenderia as +numerosas pessoas que tinham ido a Saint-Malo para ouvir a viscondessa.<span +class="pn">{224}</span></p> + +<p>Ora Antonino de certo não quereria que o pae fizesse má figura.</p> + +<p>Ante estas razões apresentadas pelo conde, era impossivel a insistencia.</p> + +<p>Portanto Antonino disse:</p> + +<p>—Pois bem, Laura cantará!</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00119">XIX<br> +O escandalo</a></h2> + +<p>Antonino, ainda que excessivamente fatigado, teve, n'essa noite, um somno +febril, cortado de sonhos sinistros.</p> + +<p>Laura não poude conciliar o somno, tão profunda sensação lhe tinham causado +as scenas d'aquelle dia.</p> + +<p>De manhã teve nova emoção.</p> + +<p>Ao ler o programma completo do concerto, encontrou inesperadamente, o nome +de Remissy.</p> + +<p>O que significava aquelle caso?</p> + +<p>Porque não a tinham prevenido?</p> + +<p>Estaria Remissy em Saint-Malo?</p> + +<p>Na vespera não o vira e nada lhe constára!<span class="pn">{225}</span></p> + +<p>Uma carta de Lauretto Mina respondeu a todas as perguntas que a viscondessa +a si propria fez.</p> + +<p>O tenor dizia o seguinte:</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;"><em>Senhora viscondessa</em></p> + +<p>Não tive tempo de a prevenir hontem de que o nosso amigo Remissy tomava +parte no concerto d'hoje. Não sei se ficará satisfeita ou contrariada com esta +noticia. Se ha falta, confesso-me unicamente culpado d'ella. Fui eu quem, +satisfeitissimo por encontral-a, participei o caso a Remissy, contratado em +Vichy por uma quinzena, accrescentando se, elle tambem não queria vir commigo a +Saint-Malo, tornar a vel-a commigo, e juntar, mais uma vez, n'este concerto de +beneficencia, o nome d'elle, como o meu, ao nome da sr.ª viscondessa.</p> + +<p>Remissy respondeu-me:</p> + +<p>«Ver e ouvir mais uma vez a Linda, <em>poi morir</em>. Sim, sim, irei, mas +não espere por mim para partir. Conhece a rapidez dos meus habitos ambulantes. +Informei-me na estação do caminho de ferro, e soube que ha um comboio que chega +a Saint-Malo ás sete e meia da noite. Ver-me-ha entrar na sala do concerto, de +casaca e gravata branca, ás nove horas precisas da noite em que elle se +efectua. Á cautella, peço-lhe que faça com que o meu nome feche o +programma.<span class="pn">{226}</span> A <em>Marselheza</em> está interdiria +pela censura imperial, e inquietaria os honrados legitimistas locaes. +Executarei, pois, a <em>Marselheza</em> hungara, o hymno de Rakoçki.»</p> + +<p>Previno-a d'este caso, sr.ª viscondessa, mas peço-lhe que não se inquiete. +Hontem, depois de ter tido a honra de a ver, não pude escrever ou telegraphar a +Remissy, nem mesmo sabia para onde dirigir-lhe carta ou telegramma. +Esperal-o-hei á chegada e instruil-o-hei de fórma que elle saiba que é +compromettedora para a sr.ª viscondessa a mais ligeira indiscrição. Remissy é, +como eu, excessivamente dedicado á sr.ª viscondessa, e por isso estou certo que +elle annuirá ao meu pedido, e procederá de fórma que não a comprometta.</p> + +<p>Tenho a honra de me assignar, sr.ª viscondessa,</p> + +<p style="text-align: right;">Seu humilde criado.</p> + +<p style="text-align: right;">«<em>Lauretto Mina.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>Esta carta fôra escripta pelo tenor calculadamente, para que podesse ser +lida pelo visconde.</p> + +<p>Laura mostrou-a effectivamente a Antonino.</p> + +<p>A leitura da missiva augmentou a inquietação do visconde.</p> + +<p>—Um risco mais! disse elle.</p> + +<p>E depois de pensar, por instantes, accrescentou:<span +class="pn">{227}</span></p> + +<p>—Afinal a quantidade pouco importa.</p> + +<p>Quem não estava inquieto nem triste era o conde de Bizeux.</p> + +<p>Annunciou triumphantemente, ao almoço, que o espectaculo seria magnifico. +</p> + +<p>A casa fôra completamente passada.</p> + +<p>Renderia mais de cincoenta mil francos.</p> + +<p>Subtrahidas as despezas ficaria, com certeza, livre, mais do que a quantia +necessaria para concluir o hospicio para os marinheiros.</p> + +<p>O conde agradeceu effusivamente a Laura o ter consentido em cantar, +fazendo-lhe assim a vontade.</p> + +<p>Estephania, é claro, não partilhava do enthusiasmo do pae.</p> + +<p>—Confesso, opinara ella, que não approvo essas exhibições n'uma +senhora nobre e titular, isso só se admitte nas mulheres que fazem vida pelo +theatro. </p> + +<p>O conde, porém, no cumulo da satisfação, mofava da filha e dos <em>prejuizos +gothicos</em> que ella tinha.</p> + +<p>Ao meio dia Laura ensaiou-se com a orchestra, rapidamente, como quem está +segura do que executa.</p> + +<p>Na vespera fizera substituir no programma a aria <em>O Rei dos Alamos</em> +por um outro trecho de Schubert, <em>Margarida</em>, que exigia mais +sentimento, mas que necessitava de menos voz, e que por isso era mais +conveniente que a dama d'alta sociedade o executasse.<span +class="pn">{228}</span></p> + +<p>Era indispensavel não desprezar a mais insignificante circumstancia para +que, nem por um momento, os espectadores se esquecessem que quem cantava era a +viscondessa de Bizeux.</p> + +<p>Pelas oito horas da noite, nas socegadas ruas de Saint-Malo havia um +desusado rodar de carruagens.</p> + +<p>Apesar da noite ser de luar, o caes fôra illuminado a gaz até á porta do +Casino, onde devia realisar-se o espectaculo, logo que anoitecera.</p> + +<p>Um pouco antes das nove horas, Laura entrou no salão do Casino pelo braço do +conde de Bizeux.</p> + +<p>A entrada da viscondessa produziu sensação.</p> + +<p>Estava adoravelmente formosa.</p> + +<p>Um magnifico colar de saphyras e diamantes fazia-lhe sobresahir a rosada +epiderme do collo.</p> + +<p>Nos braços, d'uma belleza esculptural, trazia pulseiras semelhantes ao +collar.</p> + +<p>O louro veneziano dos seus sedosos cabellos sustentava uma borboleta, +collocada ao alto, cujo corpo era formado por uma enorme saphira, e cujas azas, +salpicadas de diamantes, scintillavam com extraordinario brilho.</p> + +<p>Laços de finissima renda, fixos por colchetes de saphyra, alteavam-lhe os +microscopicos sapatos de velludo azul.</p> + +<p>O visconde de Bizeux seguia o pae e a esposa,<span class="pn">{229}</span> +dando o braço á irmã, que vestia uma <em>toilette</em> simples, de seda preta, +sem enfeites.</p> + +<p>Logo que o conde de Bizeux se sentou, foram-lhe entregar um telegramma.</p> + +<p>Participavam ao conde que o comboio descarrillára a dois kilometros da +estação de La Fresnays.</p> + +<p>Não havia desastres pessoaes a lamentar, mas o comboio, forçado a demorar-se +por aquella circumstancia, não poderia a chegar a Saint-Malo antes da +meia-noite.</p> + +<p>Não podiam, pois, contar com Remissy.</p> + +<p>A noticia alegrou Antonino e Laura.</p> + +<p>O salão do Casino estava repleto, brilhante de <em>toilettes</em> primorosas +e caras, e animado pelas meias conversações dos espectadores satisfeitos.</p> + +<p>Logo que o concerto começou, fez-se o mais completo silencio.</p> + +<p>O espectaculo constava de duas partes.</p> + +<p>A primeira abriu pelos córos populares bretões, cantados por homens e +mulheres do povo.</p> + +<p>Os espectadores, bretões na quasi totalidade, applaudiram com enthusiasmo. +</p> + +<p>A baroneza de Pontual e Lauretto Mina, obtiveram successo na <em>Ave +Maria</em> de Gounod, e n'um outro trecho que cantaram juntos.</p> + +<p>Depois do terceiro numero do programma, executado pelo baritono, Laura +cantou a aria <em>Fidelio</em>.<span class="pn">{230}</span></p> + +<p>O desusado sentimento e a adoravel simplicidade com que ella interpretou o +trecho musical, produziu em todos os espectadores um enthusiasmo +indiscriptivel.</p> + +<p>O concerto foi interrompido pelas palmas, bravos e repetidas chamadas á +viscondessa.</p> + +<p>A esposa dedicada executára a aria, imprimindo-lhe o cunho superior d'uma +alma d'<em>elite</em>.</p> + +<p>Por isso os espectadores se sentiram como que chocados por invisivel pilha. +</p> + +<p>Antonino, que comprehendera quanto amor significava a execução da aria, a +custo retinha as lagrimas.</p> + +<p>Nobillet terminou a primeira parte do concerto, tocando uma rapsodia sobre +<em>motivos</em> da Bretanha e da Vandêa, que foi coroada de palmas.</p> + +<p>O penultimo numero da segunda parte, tão interessante como a primeira, era a +marcha hungara executada pelo violinista Remissy.</p> + +<p>Quando se chegou a essa altura do programma, o conde de Bizeux levantou-se +para prevenir os espectadores de que se dera o descarrillamento, e que, por +isso, Remissy não estava presente.</p> + +<p>O conde começou dizendo:</p> + +<p>—Um descarrillamento entre as estações de...</p> + +<p>Mas foi interrompido pelo proprio Remissy em pessoa, que, de violino debaixo +do braço, avançou lentamente, e disse:<span class="pn">{231}</span></p> + +<p>—O comboio descarrillou, mas por felicidade não se voltou a carruagem +em que segui desde a estação de La Fresnays, e portanto eis-me aqui, á hora +marcada, ao seu dispor, minhas senhoras e meus senhores.</p> + +<p>As palavras de Remissy foram recebidas com uma salva de palmas.</p> + +<p>Duas ou tres pessoas que chegavam com o violinista, contaram o que se +passára.</p> + +<p>Em seguida ao descarrillamento, Remissy, com o violino a tiracollo e o sacco +de viagem na mão, mettera-se a caminho para La Fresnays, tranquillamente.</p> + +<p>Chegado que foi, alugou uma carruagem, e uma hora depois chegava a +Saint-Malo, e entrava no salão do concerto, correcto, impeccavel, de casaca e +gravata branca, como se não chegasse d'uma viagem de trezentas leguas.</p> + +<p>Logo que o silencio se restabeleceu no salão, Remissy começou a tocar o +hymno de Rakoçki.</p> + +<p>Como sempre, foi extraordinario d'execução.</p> + +<p>As primeiras notas foram ligeiras, simples, mas o <em>thema</em> do hymno +foi exposto com firmeza e arte.</p> + +<p>Depois, foi-se animando pouco a pouco, levado por subito arrebatamento, como +se se sentisse no campo da batalha, ao lado do general Kossuth.</p> + +<p>Dir-se-ia que d'elle se apossava um enthusiasmo frenetico, tyrannico.<span +class="pn">{232}</span></p> + +<p>Em seguida o arco tocava ao de leve nas cordas do violino, e percebia-se o +hymno como que tocado ao longe, mysteriosamente.</p> + +<p>Era a isso que elle chamava <em>tocar nas estrellas</em>.</p> + +<p>Mas, singular condão do genio, as notas, apesar de fracas e quasi +indistinctas, tinham a mesma expressão e o mesmo encanto.</p> + +<p>Parecia ouvir-se e ver-se, a centenas de leguas de distancia, cargas +furiosas de cavallaria, e o embate titanico de dois corpos d'exercito.</p> + +<p>Remissy, foi escutado com o mais profundo silencio.</p> + +<p>Quando terminou, romperam delirantemente os applausos, e todos os +espectadores gritaram:</p> + +<p>—Bis!... bis!...</p> + +<p>Remissy, depois de agradecer a ovação, disse:</p> + +<p>—Desculpem-me, mas não repito nunca os trechos que executo. Tocarei +qualquer outra coisa. D'esta vez será alegre a musica.</p> + +<p>E começou a executar as celebres variações, que compozera sobre o +<em>Carnaval de Veneza</em>.</p> + +<p>Foi com endiabrado estro e rara exuberancia de malicia e de jovialidade, que +Remissy resuscitou a eterna e pittoresca festa da praça de S. Marcos.</p> + +<p>Sentia-se mover e reviver todos esses alegres e encantadores personagens dos +companheiros da <em>Commedia dell'arte</em>.<span class="pn">{233}</span></p> + +<p>Por vezes, atravez de toda a alegria, resaltando do trecho musical, passava +uma nota melancholica e triste como uma saudade ou como um suspiro.</p> + +<p>As palmas retiniram novamente.</p> + +<p>Laura applaudiu com alegria o grande artista, que fôra amigo de seu pae.</p> + +<p>Remissy, habituado a estes triumphos, sorria com bondade e agradecia +modestamente.</p> + +<p>O ultimo numero do programma, era a <em>Margarida</em>, de Schubert, cantado +pela viscondessa de Bizeux.</p> + +<p>Laura, ao caminhar para o logar onde devia fazer-se ouvir, encontrou +Remissy, que se retirava.</p> + +<p>O violinista, ao vel-a, disse-lhe com arrebatamento:</p> + +<p>—Ah! encontro-a emfim! não a via...</p> + +<p>A viscondessa não o deixou terminar.</p> + +<p>Apertou-lhe expressivamente a mão, e continuou andando.</p> + +<p>Remissy procurou na sala uma cadeira vazia, d'onde podesse ouvir a Linda. +</p> + +<p>A baroneza de Pontual, que percebeu, levantou-se e indicou-lhe com a mão a +cadeira que Laura acabava de deixar.</p> + +<p>O violinista approximou-se.</p> + +<p>A baroneza disse-lhe então:</p> + +<p>—Quererá o sr. Remissy fazer-me a honra de se sentar a meu lado?<span +class="pn">{234}</span></p> + +<p>Elle inclinou-se diante d'aquella mulher, e sentou-se sem ceremonia, não se +dando mesmo ao trabalho de responder.</p> + +<p>Lauretto Mina não estava longe.</p> + +<p>Podia facilmente approximar-se de Remissy e avisal-o, como promettera, de +que a Linda desejava guardar o incognito.</p> + +<p>Não se moveu, porém.</p> + +<p>—O acaso é contra a Linda? Tanto peor! pensou o tenor. Nada terão a +censurar-me por faltar ao compromisso tomado.</p> + +<p>A viscondessa de Bizeux, saudada pelos applausos dos espectadores, +cumprimentou graciosamente antes de começar.</p> + +<p>Remissy, como fallando comsigo mesmo, disse a meia voz, com grande espanto +da baroneza:</p> + +<p>—Que felicidade! Não a ouvia ha tanto tempo!</p> + +<p>Laura pronunciou as primeiras phrases da aria com admiravel pureza e nitida +pronuncia, tão desprezadas actualmente, que é raro perceber-se uma só das +palavras ditas pelas cantoras.</p> + +<p>—Ah! Tem a voz mais volumosa! murmurou Remissy em extasi. Nunca +qualquer outra voz me emocionou como a da Linda!</p> + +<p>Laura chegou ao crescendo de melodia, para o qual reservava toda a potencia +da sua maravilhosa<span class="pn">{235}</span> voz, enchendo, por assim dizer, +o salão com a mais bella e profunda sonoridade.</p> + +<p>Tres salvas de palmas, successivas, acclamaram a cantora.</p> + +<p>Os bravos resoavam.</p> + +<p>Remissy, enthusiasmado com o successo de Laura, gritava como possesso!</p> + +<p>—Bravo, diva!... bravo, Linda!...</p> + +<p>Felizmente, a voz do violinista perdeu-se entre o ruido do salão.</p> + +<p>Mas a baroneza ouvira perfeitamente o que dissera Remissy.</p> + +<p>Augmentava a sua surpreza.</p> + +<p>—Que quererá elle dizer? perguntou ella a si propria. Porque comparará +a voz da celebre Linda á voz da viscondessa?</p> + +<p>Laura proseguia.</p> + +<p>Os impulsos da paixão, e os gritos de dôr do final da aria, exprimiu-os e +pronunciou-os ella de uma fórma surprehendente.</p> + +<p>A sua voz foi simultaneamente tão penetrante e suave, o som tão sentido, a +emoção que experimentava manifestava-se-lhe no rosto formoso com tão adoravel +expressão, que o auditorio estava como que galvanisado.</p> + +<p>Os homens tinham-se levantado das cadeiras como impellidos por mola +occulta.<span class="pn">{236}</span></p> + +<p>As damas choravam.</p> + +<p>Logo que Laura terminou, houve uma verdadeira explosão d'applausos, de +bravos, de gritos d'admiração unanime.</p> + +<p>Remissy estava fóra de si.</p> + +<p>Levantava-se, sentava-se, gritava, chorava.</p> + +<p>A baroneza a custo lhe percebia algumas palavras.</p> + +<p>—Que artista!... dizia elle. Não tem egual!... É +extraordinarissima!...</p> + +<p>Quando o ruido dos applausos diminuiu um pouco, Remissy estava como doido. +</p> + +<p>Dir-se-ia que elle proprio não fôra alvo, pouco antes, de manifestação quasi +semelhante.</p> + +<p>É que os applausos dispensados ao seu idolo produziam n'elle centuplicado +effeito.</p> + +<p>Com o rosto innundado de lagrimas, dirigiu-se ao estrado sobre o qual Laura +cantára.</p> + +<p>A viscondessa retirava-se, agradecendo com venias a ovação que lhe era +feita.</p> + +<p>Remissy approximou-se d'ella, tomou-lhe as mãos e disse bem alto:</p> + +<p>—Ah! minha cara diva, tu és sublime!... Não posso conter-me, minha +querida Linda!... Se não te beijar, rebento!</p> + +<p>E envolvendo-a nos braços, beijou-a com sofreguidão nas duas faces.<span +class="pn">{237}</span></p> + +<p>Laura, deixando-se beijar, sorriu com tristeza, e disse baixo ao violinista: +</p> + +<p>—Não póde calcular o mal que acaba de me fazer, meu caro Remissy!</p> + +<p>—Hein! o quê!... Fiz-te mal, eu?... murmurou o violinista +estupefacto.</p> + +<p>E lançou em volta um olhar admirado.</p> + +<p>Era curiosa a mudança operada no auditorio.</p> + +<p>Os bravos interrompidos foram substituidos por murmurios hostis.</p> + +<p>Evidentemente, os dois grandes artistas, que pouco antes tinham com o seu +superior talento emocionado todos os espectadores, incommodavam-os agora.</p> + +<p>Aquella scena final, completamente imprevista, chocava o nobre auditorio. +</p> + +<p>E com gestos largos, todos, mais ou menos, pronunciavam phrases indignadas. +</p> + +<p>—O que quer isto dizer? O que significa esta extraordinaria +familiaridade entre o violinista e a viscondessa?... Elle tratou-a por tu!.. +Beijou-a em publico!... <em>Shocking!...</em> É escandaloso!... É +ridiculo!...</p> + +<p>Por entre o ruido ouviu-se repentinamente a voz da baroneza de Pontual, que +gritava, com irreprimivel satisfação:</p> + +<p>—A Linda! É a Linda! Tudo se explica! A viscondessa de Bizeux é a +Linda!<span class="pn">{238}</span></p> + +<p>Ao ouvir aquellas palavras o arcebispo de Rennes sahiu precipitadamente do +salão, pelo braço do vigario geral, murmurando a meia voz:</p> + +<p>—<em>Vade retro, Satanaz!</em></p> + +<p>Estephania, inclinando-se para o conde, disse-lhe ironicamente:</p> + +<p>—O que pensa agora dos meus prejuizos gothicos, meu pae?</p> + +<p>Entretanto alguns jornalistas e poucos espectadores applaudiam ainda Laura. +</p> + +<p>O violinista, comprehendendo, vendo tudo, como ao brilho d'um relampago, +indignou-se por sua vez, e gritou, para ser ouvido por todos:</p> + +<p>—Mas o que significa este espanto? Os nobres, n'esta cidade, serão por +acaso burguezes?... Trato-a por tu, é verdade... Mas o que admira, se a Linda é +o meu idolo!... Beijo-a?... D'accordo, mas é a <em>Margarida</em> que beijo, +selvagens!... Por ventura ignorarão os srs. barões, condes e marquezes +presentes que a verdadeira divisa da nobreza é <em>Honny soit qui mal y +pense</em>?</p> + +<p>Antonino approximára-se de sua mulher.</p> + +<p>Deitou-lhe sobre os hombros a capa de baile, e dando-lhe o braço disse-lhe: +</p> + +<p>—Anda, Laura, vem.</p> + +<p>Atravessou altivamente o salão, com a mulher pelo braço.<span +class="pn">{239}</span></p> + +<p>Empallidecera um pouco, mas conservava levantada a cabeça, e frio e sereno o +olhar.</p> + +<p>Os espectadores abriram alas.</p> + +<p>Á medida que avançavam, deixavam de se ouvir as phrases hostis.</p> + +<p>Quasi á sahida do salão os applausos resoaram de novo, tão entusiasticos +como no fim da aria.</p> + +<p>Remissy foi ter com Lauretto Mina, a quem disse:</p> + +<p>—Não me preveniu!... Dando a saber que a viscondessa era a nossa +querida Linda, pratiquei uma grande tolice!</p> + +<p>Mas depois d'um momento de silencio ajuntou:</p> + +<p>—Comtudo parece-me que depois reparei a asneira feita.</p> + +<p>O tenor respondeu apenas, sarcasticamente:</p> + +<p>—Parece-lhe?</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00120">XX<br> +Discordia conjugal</a></h2> + +<p>Laura e Antonino subiram para a carruagem, que os devia conduzir a casa.</p> + +<p>Iam tristes.<span class="pn">{240}</span></p> + +<p>Olhavam-se silenciosamente, encostados aos cantos do trem.</p> + +<p>O visconde pensava com amargura no escandalo que acabava de dar-se, que tão +fóra de proposito rebentára.</p> + +<p>Acceitára antecipadamente, com todo o desassombro, o effeito que devia +seguir-se, cedo ou tarde, á revelação do nome e do passado da esposa, mas +jámais calculara que essa revelação se faria em circumstancias tão estrondosas +e desagradaveis.</p> + +<p>Apesar do espirito independente que possuia, Antonino conservava comtudo +certos prejuizos de raça, de educação, impossiveis de fazer desapparecer por +completo.</p> + +<p>Ao atravessar na carruagem os caes desertos calculava com tristeza o que se +passaria no dia seguinte.</p> + +<p>Parecia-lhe estar vendo já o aspecto severo de sua irmã, e até de seu pae, a +frieza dos seus amigos, e a circumstancia, mais dolorosa ainda, de sua esposa +não continuar a ser recebida pela primeira sociedade de Saint-Malo.</p> + +<p>Laura, pelo seu lado, magoada pelo silencio do marido, dizia comsigo que +nada tinha de que censurar-se.</p> + +<p>Não só não pedira para cantar no concerto, mas até se recusara a tomar parte +n'elle, apontando as inconvenientes que d'ahi podiam advir.<span +class="pn">{241}</span></p> + +<p>Consentira em cantar em publico unicamente para annuir ás reiteradas +instancias do marido e do sogro.</p> + +<p>Fôra culpa sua que aquelle doido Remissy, com o seu exaltado enthusiasmo, +transformasse em escandalo o que não devia passar de triumpho?</p> + +<p>Chegaram a casa sem trocar uma só palavra.</p> + +<p>Operava-se, de subito, uma verdadeira separação entre aquelles dois seres, +que, entretanto, por inexplicavel aberração, continuavam amando-se.</p> + +<p>As desigualdades d'educação, e as educações diversas, produzem muitas vezes +affeições que a todas as contrariedades e desgostos resistem.</p> + +<p>Antonino acompanhou a mulher até ao quarto, e em seguida caminhou para a +porta, retirando-se.</p> + +<p>—Deixas-me assim? perguntou Laura com voz triste.</p> + +<p>Elle indicou-lhe, com um gesto, a creada, que entrava para despir Laura, e +respondeu:</p> + +<p>—Voltarei d'aqui a pouco.</p> + +<p>A viscondessa impoz silencio ás curiosas perguntas que Jacintha lhe fazia +sobre o concerto, e disse á creada que se retirasse logo que lhe despiu o +vestido que levara para o concerto, substituindo-o por um outro, de trazer por +casa.</p> + +<p>Depois foi, apesar da humidade da noite, encostrar-se ao parapeito da +janella aberta.<span class="pn">{242}</span></p> + +<p>Ao longe, o mar, tão tempestuoso na vespera, estava sereno como um lago.</p> + +<p>Ouvia-se o regular sussurro da vagas, e o ruido monotono das ondas +desfazendo-se na areia da praia.</p> + +<p>Nas aguas cahiam com lentidão os remos d'alguns escaleres da alfandega.</p> + +<p>No ceu azul, semeado d'estrellas, uma comprida nuvem clara, como longa facha +branca, listava o espaço, por baixo da lua impassivel.</p> + +<p>Um sino badalou triste, lugubremente.</p> + +<p>Aquelle som fez-lhe mal.</p> + +<p>Parecia-lhe que dobravam a finados, pela morte de alguem que lhe era caro. +</p> + +<p>Seria esse morto o seu amor?</p> + +<p>Abriu-se a porta do quarto.</p> + +<p>Laura voltou-se.</p> + +<p>Era Antonino que entrava.</p> + +<p>Ao chegar junto da esposa, disse-lhe com voz grave e firme.</p> + +<p>—Vim, porque prometti voltar. Mas o que venho fazer aqui? O que +poderemos nós dizer sobre a deploravel scena que ha pouco se passou?</p> + +<p>—Parece-me, respondeu Laura, que devias consolar-me pelo desgosto que +soffri. Como conscienciosamente sabes, eu não tive a menor culpa do que +succedeu.</p> + +<p>Antonino replicou com amargura:<span class="pn">{243}</span></p> + +<p>—E eu muito menos, concorda. Tens, minha querida, amigos bem perigosos +e bem ridiculos!</p> + +<p>—Não é d'hoje que os conheces. Apresentei-te Remissy nos primeiros +dias das nossas relações. Foi a fatalidade que dispoz as coisas. De resto, se +era improvavel, não era impossivel que o facto se desse. Ter-se-hia evitado se, +como eu desejava, não me obrigassem a cantar no concerto. Pois se eu não +tivesse como que uma especie de pressentimento de que se passaria o quer que +fosse de desagradavel, insistiria por ventura para não ser incluida no +programma? Foi teu pae, e tu proprio, que não annuiram aos meus pedidos. Cedi, +porque não podia deixar de o fazer. O enthusiasmo de Remissy desmascarou-me. Se +eu tivesse cantado mal não teriamos agora que lamentar-nos. Censurar-me-has, +por ventura, por ter cantado bem, fazendo com que me applaudissem? Não devo ser +accusada d'esse crime, se o foi, porque não sou responsavel por elle. Lavo +d'ahi as minhas mãos.</p> + +<p>—A verdade é que não és tu quem mais soffre com tudo isto, respondeu +Antonino meio irritado. Que te importa que se saiba que és a Linda? É um nome +que tornaste celebre, e que estimas,—sem duvida muito mais,—do que +aquelle que actualmente usas. Mas para mim e para a minha familia, esse nome, +cahindo bruscamente, sem preparações, sobre o<span class="pn">{244}</span> +publico, vae servir de maná á malignidade de toda a gente, que nos escarnecerá +e diffamará. Seremos repellidos da sociedade que até aqui frequentavamos, +passaremos por pessoas que desprezaram a opinião publica, enganando os amigos e +os parentes. </p> + +<p>—N'uma palavra: deshonrei a tua familia, não é verdade? interrompeu +Laura. </p> + +<p>—Não digo tanto, mas...</p> + +<p>—Na realidade admiro-te! disse a viscondessa irritando-se tambem. Para +que quizeste introduzir-me n'essa sociedade que não era a minha, n'essa +sociedade em que entrei como que de surpreza, e que, segundo todas as +probabilidades, me fechará ámanhã as suas portas? E eu por que accedi aos teus +desejos? Sabes porque? Porque te amava! Censurar-me-has tambem por isso? Tens +pouca memoria, Antonino; Quem te ouvisse, pensaria que, casando commigo, tu me +levantaste da lama, em que eu vivia. Sabes bem que não é assim, sabes bem que +eu, casando comtigo, pratiquei um acto d'abnegação, immolando-te e ao amor que +por ti sentia, o que até então fôra a minha alegria e a minha vida, a arte, o +renome, a gloria! E esse sacrificio do primeiro dia, dura ainda, perpetua-se, +persisto n'elle e renovo-o incessantemente. E jámais te dei a perceber quanto +elle por vezes me tem sido pesado e cruel, sobretudo depois do nosso regresso a +França, depois que vivo n'esta atmosphera<span class="pn">{245}</span> de +provincia em que respiro a custo, e que sinto diminuir em mim os dotes +artisticos que possuia. Pois em vez de tentares fazer-me esquecer esse passado +que me é querido, vens, pelas tuas palavras, como que transformal-o n'um crime! +É muito! Revolto-me contra o teu procedimento! E visto que me forças, +recordar-te-hei que me prometteste solemnemente deixar-me voltar para o +theatro, logo que assim o desejasse, voltar para esse passado que te +envergonha, mas que é a minha maior gloria!</p> + +<p>—Prometti-te tambem, Laura, que o meu amor te recompensaria do +sacrificio feito. Deixei de amar-te por ventura? Não te amo agora como te amava +d'antes? </p> + +<p>—Não, não me amas! Se me amasses como d'antes, não te porias ao lado +da sociedade contra mim, collocar-te-ias a meu lado contra a sociedade!</p> + +<p>—A sociedade! repetiu Antonino inquieto. Reconciliar-nos-hemos com +ella.. </p> + +<p>—Muito bem! Empregarás todas as diligencias para que me tolerem, não é +verdade? Não, não, obrigada. Despreso esse obsequio, que se assemelha a dó. +Deixo-te n'ella; fica, fica n'essa sociedade em que eu era uma estranha, em que +eu não passava de pária!</p> + +<p>Laura fallava com vehemencia, exaltada pela colera e pelo desgosto.<span +class="pn">{246}</span></p> + +<p>Antonino respondeu passados alguns instantes de silencio:</p> + +<p>—Estás como eu, Laura, sob a impressão do incidente que ambos +lamentamos. Como ha pouco te preveni, nada podemos dizer agora sobre esse +assumpto, que não augmente o mal estar que sentimos. Vou deixar-te. Ámanhã +estarás mais socegada. Até ámanhã...</p> + +<p>Pegou-lhe na mão, que ella lhe abandonou, inerte e fria, e repetiu:</p> + +<p>—Até ámanhã.</p> + +<p>Laura respondeu a meia voz:</p> + +<p>—Pois sim... deixa-me. Até ámanhã.</p> + +<p>Antonino olhou-a, ancioso.</p> + +<p>Depois deu tres passos para a porta, e parou, como sentindo desejo de +voltar.</p> + +<p>Por fim sahiu do quarto, fazendo um gesto de desanimado.</p> + +<p>Logo que o visconde fechou a porta e ella sentiu apenas o ruido de passos, +que se affastavam, Laura, que até então se reprimira, rompeu em soluços.</p> + +<p>Chorou muito tempo.</p> + +<p>As lagrimas faziam-lhe diminuir a angustia que sentia.</p> + +<p>Passado algum tempo, um pouco socegada, ora passeiando pelo quarto, ora +encostada a uma mesa, ella reflectiu na sua situação.<span +class="pn">{247}</span></p> + +<p>Tomado um partido, abriu uma porta que dava para o escada de serviço, e, +pegando n'uma vela, subiu ao quarto de Jacintha.</p> + +<p>O quarto estava vasio!</p> + +<p>Jacintha nem mesmo abrira a roupa da cama.</p> + +<p>Laura, ante este contratempo, ficou indecisa por momentos.</p> + +<p>Depois, fazendo um gesto de resolução, desceu ao seu quarto novamente.</p> + +<p>Davam quatro horas n'um relogio da casa.</p> + +<p>Vestiu apressadamente uma <em>toilette</em> de viagem.</p> + +<p>Logo que terminou, sentou-se á mesa, e escreveu a seguinte carta, +precipitadamente:</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;"><em>Antonino</em></p> + +<p> </p> + +<p>Reclamo de ti a palavra dada.</p> + +<p>Volto para o theatro.</p> + +<p>Parto sem te ver.</p> + +<p>Temi a tua resistencia e a minha fraqueza.</p> + +<p>Evito assim, a ambos nós o desgosto da despedida.</p> + +<p>A vida, no seio d'uma familia que me repelle e d'uma sociedade que me +despresa, era para mim impossivel.</p> + +<p>Aqui te deixo as ultimas palavras que o meu coração te envia:</p> + +<p>Amo-te, Antonino, amo-te muito! Não posso continuar<span +class="pn">{248}</span> vivendo comtigo uma vida que me incommodaria, mas +espero e peço-te que me dês a felicidade de viver commigo a minha vida passada. +</p> + +<p>Sou e serei sempre tua</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;"><em>Laura.</em></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00121">XXI<br> +A fuga</a></h2> + +<p>Laura perguntou a si mesma se fazia bem abandonando á sua sorte essa louca +inconsciente, Jacintha.</p> + +<p>Pensou:</p> + +<p>—Devo deixar aqui toda a especie d'affeição?</p> + +<p>Lembrou-se da dedicação cega que Jacintha tinha por ella, dedicação que a +levaria a lançar-se ao mar, quando soubesse que Laura a tinha deixado.</p> + +<p>Depois de reflectir, resolveu-se.</p> + +<p>Escreveu em meia folha de papel algumas palavras a Jacintha, e foi ao quarto +da creada collocar o papel sobre uma mesa.</p> + +<p>Recommendava-lhe que de manhã tomasse, o mais<span class="pn">{249}</span> +occultamente que lhe fosse possivel, o comboio de Paris, que partia ás oito e +meia.</p> + +<p>Logo que chegasse á capital, procural-a-hia no Grande Hotel, designando-a +por <em>madame</em> Linda.</p> + +<p>A Marieta, a outra creada, recommendava Laura que lhe enviasse, para o +Grande Hotel tambem, os vestidos e de mais roupas do seu uso.</p> + +<p>Ao escrever estas recommendações, Laura pensava:</p> + +<p>—Por esta fórma saberá Antonino onde encontrar-me.</p> + +<p>Isto feito, metteu n'uma pequena mala o dinheiro que possuia, joias, cartas, +alguns objectos insignificantes,—pura recordação,—e outros +essenciaes.</p> + +<p>Depois olhou tristemente, correndo-lhe as lagrimas pelas faces, para aquelle +quarto, onde, apesar de tudo, passara horas tão felizes.</p> + +<p>Foi appoiar a fronte, que abrasava, ao vidro frio da janella.</p> + +<p>Uma claridade, baça ainda, envolvia a cidade e estendia-se sobre as aguas da +bahia.</p> + +<p>As ondas tomavam reflexos cinzentos.</p> + +<p>Os pharoes distantes picavam de pontos avermelhados a meia obscuridade, e +desappareciam pouco a pouco na claridade livida, em que as ultimas estrellas se +perdiam.</p> + +<p>Os pombos voavam dos beiraes para as ruas.<span class="pn">{250}</span></p> + +<p>No azul pardacento do ceu destacavam-se as velas dos barcos, que manchavam a +côr d'ardosia do mar.</p> + +<p>Laura saccudiu bruscamente a cabeça.</p> + +<p>Parecia querer, com aquelle movimento, afugentar os pensamentos que a +torturavam.</p> + +<p>Retirou de sobre a mesa tudo o que n'ella havia, para que a sua carta para +Antonino ficasse bem em evidencia.</p> + +<p>Poz um chapeu de côr escura, um veu espesso, e embrulhou-se n'uma capa +cinzenta.</p> + +<p>A escada de serviço, que subia até ao quarto de Jacintha, descia para a rua, +do lado da casa opposto ao mar.</p> + +<p>A porta estava sempre fechada por um ferrolho interior.</p> + +<p>Laura abriu a porta do seu quarto com toda a precaução, caminhando na ponta +dos pés, para abafar o ruido dos passos, porque o quarto d'Antonino, separado +do d'ella apenas por um corredor, tinha tambem uma porta para aquella escada. +</p> + +<p>No patamar parou por um minuto.</p> + +<p>O coração batia-lhe apressadamente. Escutou.</p> + +<p>Antonino não estava deitado.</p> + +<p>Laura ouvia o ruido dos passos d'elle.</p> + +<p>Passeiava vagarosamente.</p> + +<p>A Linda esteve quasi a entrar no quarto do marido, lançando-se-lhe nos +braços.<span class="pn">{251}</span></p> + +<p>Resistiu á tentação.</p> + +<p>Enviou-lhe apenas, com as pontas dos dedos, um beijo silencioso, e +principiou a descer lentamente, sem fazer o menor ruido.</p> + +<p>Um dos degraus gemeu sob o peso.</p> + +<p>Teve medo.</p> + +<p>Com um movimento ligeiro saltou os tres ultimos degraus, cahindo sobre o +tapete que havia ao fim da escada.</p> + +<p>Levantou-se, abriu cautellosamente o ferrolho, descerrou a porta e sahiu +para a rua.</p> + +<p>O ar frio da madrugada fez-lhe bem.</p> + +<p>Dirigiu-se para o caes, atravessando as ruas estreitas e tortuosas da velha +cidade.</p> + +<p>Um relogio dava cinco horas n'uma torre proxima.</p> + +<p>Os carpinteiros, os pintores e os calafates, caminhavam em grupos, +dirigindo-se ao trabalho.</p> + +<p>As mulheres das hortas proximas, sentadas sobre os burros carregados de +legumes e hortaliças, chegavam do campo, em cavalgadas alegres, rindo alto, e +dirigindo, umas ás outras, os velhos motejos gaulezes, para attrahirem a +attenção dos homens que encontravam.</p> + +<p>Laura percebeu que todas aquellas mulheres a olhavam curiosamente, e ouviu, +ao passar, os seus commentarios licenciosos.</p> + +<p>Quando chegou á <em>gare</em> era dia.<span class="pn">{252}</span></p> + +<p>O comboio expresso da manhã partia ás cinco e meia.</p> + +<p>Tomou um compartimento completo, e foi sentar-se para a sala d'espera, +pensativamente.</p> + +<p>Estava como que alheiada do que se passava em volta d'ella, quando o silvo +da locomotiva a chamou á realidade.</p> + +<p>Faltavam apenas cinco minutos para a partida do comboio. Entrou +apressadamente na <em>gare</em>.</p> + +<p>De repente estremeceu.</p> + +<p>A primeira pessoa que viu foi Lauretto Mina, fumando no seu charuto.</p> + +<p>Ao vel-a, o tenor dirigiu-se a Laura e disse-lhe, um pouco admirado:</p> + +<p>—Parte para Paris, Linda?</p> + +<p>—Parto, respondeu ella, continuando a caminhar para a sua +carruagem.</p> + +<p>Mas logo em seguida perguntou:</p> + +<p>—Remissy não parte agora?</p> + +<p>—Não, respondeu o tenor caminhando ao lado da sua interlocutora. Está +muito fatigado. Deve seguir no comboio do meio dia. Eu parto, porque necessito +fallar esta noite com o director da Opera, sem falta. Quer que lhe falle de si, +ou, como não podia dizer em Saint-Malo que a senhora era a Linda, ser-me-ha +interdicto dizer em Paris que a Linda é a viscondessa de Bizeux?<span +class="pn">{253}</span></p> + +<p>—Proceda como entender...</p> + +<p>Chegou ao compartimento que tomára.</p> + +<p>Ao abrir a portinhola, o tenor disse-lhe:</p> + +<p>—Mas diga-me, <em>cara mia</em>...</p> + +<p>—Senhor, respondeu Laura com dignidade, já nos cumprimentámos. Como +vê, estou só e o senhor é um homem sufficientemente bem educado para não me +acompanhar por mais tempo.</p> + +<p>E subiu lestamente para a carruagem.</p> + +<p>Lauretto cumprimentou-a, mordendo os labios.</p> + +<p>Deitou fóra o charuto e tomou logar n'outra carruagem, murmurando por entre +dentes:</p> + +<p>—Tu me pagarás, vibora!</p> + +<p>Quando o comboio estava proximo da estação de Dol, o tenor escreveu algumas +palavras a lapis n'uma folha da carteira, rasgou essa folha, e, logo que o +comboio parou na estação, apeiou-se, chamou um empregado a quem entregou o +papel e uma moeda de cinco francos, dizendo apenas:</p> + +<p>—Para o telegrapho.</p> + +<p>O telegramma era concebido da seguinte fórma:</p> + +<p> </p> + +<p><em>Visconde de Bizeux.—Saint-Malo.</em></p> + +<p>Vi no expresso de Paris a Linda e Lauretto Mina.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;"><em>Um amigo.</em></p> + +<p> </p> + +<p>Antonino, estendido sobre o divan do quarto, dormia um somno pesado, +respirando a custo.<span class="pn">{254}</span></p> + +<p>Um pouco antes das nove horas, o criado entrou, apesar do visconde não ter +chamado.</p> + +<p>Antonino acordou ao ruido feito pela porta ao abrir-se. O criado disse:</p> + +<p>—Perdão; o sr. visconde não chamou, mas como este telegramma chegou ha +mais de uma hora, pareceu-me conveniente trazer-lh'o.</p> + +<p>O marido de Laura esfregou os olhos injectados de sangue, e abriu o +telegramma.</p> + +<p>Leu e soltou um grito estridente.</p> + +<p>Depois, cambaleando como um ebrio, abriu a porta que dava para o corredor de +communicação que percorreu, entrando no quarto de sua mulher.</p> + +<p>O leito estava intacto.</p> + +<p>Sobre a mesa viu a carta que Laura deixára.</p> + +<p>Pegou-lhe, quiz abril-a, mas o papel cahiu-lhe das mãos tremulas.</p> + +<p>Agitou os braços no espaço, e cahiu como uma massa inerte, fulminado por uma +congestão cerebral.</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00122">XXII<br> +Uma representação dos «Huguenottes»</a></h2> + +<p>O cartaz da Opera annunciava para aquella noite os <em>Huguenottes</em>, +cantando a Linda a parte de Valentina.<span class="pn">{255}</span></p> + +<p>Lauretto Mina desempenhava o papel de Raul, em substituição do primeiro +tenor, que adoecera.</p> + +<p>Pelas seis horas e meia da tarde, Antonino de Bizeux, um pouco pallido e +magro, apoiando-se á bengala, entrava n'uma das agencias theatraes então +recentemente abertas nos <em>boulevards</em>, e comprava um <em>fauteuil</em> +d'orchestra, que pagou por trinta francos, ou fosse o dobro do preço da casa. +</p> + +<p>Tinham-se passado tres mezes menos alguns dias, desde que Laura abandonara a +casa do caes de Saint-Malo, e durante todo esse tempo, a Linda só tivera +noticias indirectas e incertas de seu marido.</p> + +<p>Cinco dias depois de chegar a Paris recebera,—<em>enviados por Marieta +Dauvin</em>,—seis grandes volumes contendo, não só os vestidos e demais +roupa do seu uso, como tambem os moveis que guarneciam o seu quarto, e que +provinham, quasi todos, da sua antiga casa da rua de Bolonha.</p> + +<p>Nem uma carta, nem uma só palavra, acompanhava a remessa. Laura sentiu +profunda anciedade.</p> + +<p>O que significava aquelle silencio?</p> + +<p>N'um primeiro movimento de inergia resolvera quebrar a cadeia que a prendia +e que achava pesada, e fizera-o immediatamente, sem hesitar, sem reflectir.</p> + +<p>Agora estava livre.</p> + +<p>Todavia, essa liberdade, inquietava-a e consternava-a.<span +class="pn">{256}</span></p> + +<p>Em Saint-Malo tinha saudades da sua querida arte, em Paris recordava-se, +saudosa, do seu amor.</p> + +<p>O director da Opera, prevenido por Lauretto da volta da Linda, pedira-lhe +uma entrevista.</p> + +<p>Laura respondeu-lhe que esperasse por alguns dias.</p> + +<p>Addiava, por instincto, a sua conversação com o emprezario, que de certo a +queria contractar.</p> + +<p>Lia todas as manhãs o <em>Correio de Saint-Malo</em>, que mandava comprar á +agencia Havas.</p> + +<p>Se qualquer facto se passasse em casa do conde de Bizeux,—uma partida, +um accidente imprevisto—encontraria a noticia n'aquella folha local.</p> + +<p>Mas nada se passava, com certeza, porque o nome de Bizeux, que ella +procurava todos os dias com o olhar, avidamente, nem uma só vez foi mencionado +pelo jornal.</p> + +<p>A quem devia dirigir-se? A quem escrever?</p> + +<p>Na Bretanha vivera sempre retirada, pensando apenas em Antonino.</p> + +<p>Essa circumstancia fez com que não se relacionasse intimamente com pessoa +alguma.</p> + +<p>Ao cabo de dez dias não poude conter-se, e escreveu ao proprio Antonino.</p> + +<p>Entre outras coisas dizia-lhe o seguinte:</p> + +<p> </p> + +<p>«Porque guardas silencio? Não recebeste a carta<span class="pn">{257}</span> +que te deixei? Não comprehendeste, por ventura, o grito d'amor com que a +terminei? Responde, peço-te! Responde, ainda que seja colerica ou +desdenhosamente.»</p> + +<p> </p> + +<p>Depois supplicava ao marido que só escrevesse uma palavra, uma só, que +podesse allivial-a da terrivel angustia em que vivia.</p> + +<p>Dois dias depois recebeu uma carta com o carimbo do correio de Saint-Malo. +</p> + +<p>Rasgou o sobrescripto e procurou a assignatura.</p> + +<p>A carta era do conde de Bizeux.</p> + +<p>Escrevia o pae d'Antonino:</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;">Minha senhora:</p> + +<p>Não é o filho que lhe responde, é o pae, é o chefe da familia que a senhora +abandonou tão bruscamente, tão cruelmente, e na qual deixou a desolação e o +lucto.</p> + +<p>Esse chefe de familia não lhe dirigirá, comtudo, a mais leve censura, nem em +seu nome, nem em nome do filho.</p> + +<p>Desejou ser livre <em>para voltar para o theatro</em>. Satisfez o seu +desejo, está livre.</p> + +<p>Nós desejamos, apenas, ter a liberdade de soffrer em silencio, sem que nos +importune quem quer que seja.<span class="pn">{258}</span></p> + +<p>Só lhe pedimos uma coisa: é que nos deixe esquecer, e esqueça o passado.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: right;"><em>Augusto, conde de Bizeux.</em></p> + +<p> </p> + +<p>Laura offendeu-se pela frieza e rispidez que d'aquella carta transparecia. +</p> + +<p>Nem Antonino se dera ao incommodo de lhe responder!</p> + +<p>Era o pae que intimava á fugitiva aquella especie de sentença, com ares de +juiz justiceiro!</p> + +<p>O que houvera no seu procedimento de tão reprehensivel e criminoso que +justificasse uma tal attitude?</p> + +<p>Se ella na realidade fosse uma mulher culpada, se tivesse trahido e +deshonrado seu marido, d'accordo que a tratassem por aquella fórma!</p> + +<p>Teria provocado a colera de toda a familia d'Antonino, e até o despreso +geral, se assim fosse.</p> + +<p>Mas a verdade era que o seu procedimento, uma vez que estava dentro das leis +estabelecidas, não podia ser julgado com tanta severidade por seu sogro ou por +seu marido.</p> + +<p>A injustiça, elevada ao excesso d'injuria, revoltou o espirito nobre e +altivo de Laura.</p> + +<p>A sua consciencia e o seu coração diziam-lhe que não merecia ser tratada de +semelhante modo.<span class="pn">{259}</span></p> + +<p>Resolveu, pois, por muito que a penalisasse uma tal abstenção, guardar o +mais completo silencio, para que a sua dignidade não soffresse a menor quebra. +</p> + +<p>Foi então, e só então, que marcou o dia para a entrevista que o director da +Opera solicitára.</p> + +<p>O emprezario queria escriptural-a.</p> + +<p>Laura recusou em absoluto um contracto de longa duração, apezar das +magnificas condições que lhe offereciam.</p> + +<p>Não desejava prender-se por muito tempo, e por isso só acceitou o contracto +por um limitado numero de representações.</p> + +<p>O director da Opera, apesar d'uma escriptura n'aquellas condições ir alterar +o seu plano d'exploração theatral, curvou-se á imposição de Laura, e +acceitou.</p> + +<p>A Linda arrendou então, na rua Boudreau, a dois passos da Opera, um rez do +chão modesto, que mobilou com simplicidade e bom gosto, aproveitando os moveis +que lhe tinham enviado de Saint-Malo.</p> + +<p>Além de Jacintha, tomou, para a servirem, um creado, homem de cincoenta +annos, casado; a mulher do creado, velha tambem, passou a desempenhar as +funcções de cosinheira.</p> + +<p>Tres dias depois de receber a carta do conde estava installada na sua nova +casa, satisfeita, na sua dôr e no seu isolamento, de sentir-se, pelo menos, +senhora absoluta das suas acções.<span class="pn">{260}</span></p> + +<p>Ostensivamente parecia alegre, mas intimamente o desgosto minava-a.</p> + +<p>Não lhe teria produzido tão doloroso effeito a carta do conde, se soubesse +em que circumstancias o velho fidalgo a escrevera.</p> + +<p>Oito dias depois da congestão o ter prostrado, ainda Antonino não percebia o +estado em que se achava.</p> + +<p>A doença aggravara-se dia a dia.</p> + +<p>Nem um só dos muitos medicos chamados deixou d'opinar que elle estava +condemnado.</p> + +<p>A robustez da sua constituição fazia augmentar a violencia da doença</p> + +<p>D'hora para hora, de minuto para minuto, o pobre pae suppunha que ia perder +o filho unico, a quem tanto amava.</p> + +<p>Foi n'este paroxismo de magua paterna que chegou a carta dirigida por Laura +a Antonino.</p> + +<p>O conde, para estar ao facto do que succedera, tinha aberto a carta que a +nora deixára em casa, á partida.</p> + +<p>Abriu, portanto, a que chegou de Paris, pela mesma razão.</p> + +<p>D'aquellas duas cartas transpirava um affecto immenso.</p> + +<p>Mas quem garantia ao fidalgo que Laura não mentia?</p> + +<p>Lera tambem o telegramma de Lauretto Mina, que<span class="pn">{261}</span> +fôra como que um punhal a enterrar-se no coração d'Antonino.</p> + +<p>Seu filho acreditára no que dizia o telegramma.</p> + +<p>Que razão tinha o conde para não acreditar tambem?</p> + +<p>Mas, culpada ou não, Laura era a causadora unica da morte do seu filho. O +conde não era juiz, era pae.</p> + +<p>Escrevera sem medir o alcance das palavras, respondera o que a sua +indignação lhe inspirára.</p> + +<p>Laura matava-lhe o filho; não podia deixar de detestar, d'amaldiçoar essa +mulher.</p> + +<p>A crise, que para todos era agonia, prolongou-se ainda por mais duas +semanas.</p> + +<p>Durante todo esse tempo Antonino não reconheceu pessoa alguma.</p> + +<p>O delirio não o abandonára um só instante.</p> + +<p>Mas a prolongação da doença passou a significar esperança.</p> + +<p>Ao vigessimo quinto dia os medicos disseram:</p> + +<p>—É possivel salvar-se.</p> + +<p>Quinze dias depois accrescentaram, emfim:</p> + +<p>—Está salvo!</p> + +<p>Effectivamente Antonino pareceu ter, n'esse dia, alguma consciencia de si +mesmo. Apertou ao de leve a mão da irmã, que estava sentada junto ao leito.</p> + +<p>Depois, olhando em torno ao quarto, murmurou com voz enfraquecida:<span +class="pn">{262}</span></p> + +<p>—Laura?...</p> + +<p>Felizmente o pensamento era ainda vago e fraco.</p> + +<p>Em seguida áquelle esforço, Antonino recahiu de novo n'uma somnolencia +pesada, que era a sua salvação.</p> + +<p>A natureza, essa maravilhosa enfermeira, só lhe fez recuperar completamente +a razão, quando o doente estava em estado de já poder supportar a verdade.</p> + +<p>Recordou-se de tudo.</p> + +<p>Laura, a sua Laura, que nos accessos febris nem um momento deixava de +chamar, não estava alli, abandonára-o.</p> + +<p>Porque?</p> + +<p>Quando?</p> + +<p>Ah! sim, recordava-se... fôra uma manhã...</p> + +<p>Mas ella fugira só?</p> + +<p>Accudiu-lhe á memoria o fatal telegramma...</p> + +<p>Mas ao mesmo tempo lembrou-se d'uma carta,—d'uma carta +d'ella!—que não tivera tempo d'abrir.</p> + +<p>Interrogou seu pae.</p> + +<p>O conde entregou-lhe então as duas cartas de Laura, cuja leitura só podia +fazer bem ao doente.</p> + +<p>E com efeito assim foi.</p> + +<p>Antonino poude chorar.</p> + +<p>O correr das lagrimas diminuiu a profundeza do desgosto.</p> + +<p>—Ah! meu pae! disse elle, Laura continua amando-me.<span +class="pn">{263}</span> Chama-me, espera-me! Nunca deixára d'amar-me! E ha já +dois mezes que ella me espera? Mas como poude Laura estar tanto tempo longe de +mim, sabendo-me perigosamente enfermo? Ou ella ignora que eu estou doente? Não +lhe deram noticias minhas?</p> + +<p>O conde teve de confessar-lhe que, n'um instante de desvairamento em que lhe +parecia inevitavel a morte do filho, escrevera a Laura aquella carta implacavel +que lhe interdizia qualquer pergunta, e lhe assegurava que jámais teria +noticias de seu marido.</p> + +<p>De resto, o conde declarou que n'aquella resposta influira tambem o ter +acreditado no que dizia o telegramma desconfiando, por isso, que Laura mentia +nas duas cartas. Ao ouvir a explicação do conde, Antonino respondeu:</p> + +<p>—Não, não!... Foi o telegramma que mentiu! Laura diz a verdade, porque +declara continuar amando-me! Ah! meu pae!... não a conhece! Ella possue o mais +sincero e leal coração que é possivel imaginar-se! Tenho a certeza que Laura +não sente despreso por esse Lauretto Mina, sente tambem horror!</p> + +<p>O conde de Bizeux, apesar de não estar convencido, não quiz contrariar o +filho, temendo que de tal contrariedade resultasse aggravamento da doença.</p> + +<p>Antonino desejou escrever immediatamente a Laura, perdoando-lhe, chamando-a +para junto d'elle sem detença.<span class="pn">{264}</span></p> + +<p>O medico, porém, impedia-o de realisar a intenção, declarando-lhe que ainda +não tinha forças sufficientes para escrever, e que, fazendo-o, arriscava-se a +peorar.</p> + +<p>Como não o deixassem satisfazer aquelle desejo, o visconde, reflectindo, +resolveu não escrever a Laura dias depois, quando o medico entendesse que o +podia fazer.</p> + +<p>Logo que estivesse restabelecido partiria para Paris, correria em procura de +Laura, fazendo-lhe assim mais surpreza.</p> + +<p>Por essa occasião os jornaes da capital noticiaram as representações de +Linda na Opera.</p> + +<p>Ao ter conhecimento d'esse facto, Antonino disse ao conde:</p> + +<p>—Não a incommodemos. Deixemol-a satisfazer o seu desejo, realisar o +seu sonho doirado. Voltará depois mais socegada.</p> + +<p>O conde, depois de ter perdido completamente as esperanças de que os medicos +salvassem Antonino, ao ter a certeza de que o filho não morreria, estava louco +de satisfação.</p> + +<p>Cria em tudo que o visconde acreditava, e, como elle, tinha confiança no +futuro.</p> + +<p>De resto, em consciencia, elle censurava-se pela fórma porque procedera com +Laura, respondendo desabridamente á carta que ella dirigira a Antonino.<span +class="pn">{265}</span></p> + +<p>Fôra injusto, fôra cruel até, e desejava por isso tornar a vel-a para +nobremente lhe pedir perdão.</p> + +<p>Comtudo, occasiões houve em que se inquietou.</p> + +<p>Nas noticias dadas pelos jornaes sobre os espectaculos em que Laura tomava +parte, viu, por vezes, o nome de Lauretto Mina ao lado do nome da Linda.</p> + +<p>Entretanto cohibiu-se d'apontar o facto a Antonino.</p> + +<p>Foi o proprio visconde que um dia lhe fallou nisso.</p> + +<p>Com essa intuição que é como a segunda vista do amor, tinha a convicção +absoluta que esse homem, esse Lauretto insolente, nada era, nada podia ser para +Laura.</p> + +<p>Não lhe restava a maior duvida.</p> + +<p>Elle, tão concentrado e tão ciumento, como todos os que amam +verdadeiramente, sentia que era amado por Laura, que ella não podia amar outro +homem.</p> + +<p>Lembrou-se dos ultimos dias que tinham passado juntos, das ultimas caricias +trocadas, d'algumas injustiças que Laura lhe censurára, e percebia, +interrogando o seu coração, que ella seria sempre d'elle, só d'elle.</p> + +<p>E tinha razão, porque não só a Linda não amava o tenor, como até o +despresava.</p> + +<p>Não se limitava a detestal-o, fazia-lh'o sentir.</p> + +<p>Laura suspeitava vagamente que Lauretto Mina influira de qualquer fórma no +que ella chamava ter sido abandonada por Antonino.<span class="pn">{266}</span> +</p> + +<p>Na noite do concerto o tenor não estava longe de Remissy, podia ter avisado +o violinista de que a Linda não desejava ser reconhecida, e Laura lembrava-se +tambem do sorriso mau, vingativo, que entre-abria os labios de Lauretto, +quando, no dia da fuga, a cumprimentara em silencio, pouco antes do comboio se +pôr em marcha.</p> + +<p>De tudo isto concluia a cantora que o tenor praticara qualquer indignidade, +o que, de resto, lhe estava nos habitos.</p> + +<p>Todavia a fatuidade de Lauretto não lhe fazia perder as esperanças, e quando +viu Laura no theatro, pela primeira vez, tentou ainda, empregando meios quasi +respeitosos e reservados, fazer-lhe a côrte.</p> + +<p>Não amava a Linda, apenas a desejava com violencia, como nunca desejara +qualquer outra mulher, segundo affiançava. D'uma vez exprimiu-lhe o seu amor +n'um tom serio que não lhe era habitual.</p> + +<p>—Vejo-a, disse-lhe elle, isolada e como abandonada, Laura. Aquelle a +quem em Saint-Malo chamava seu marido parece despresal-a. Se necessitar d'um +amigo, deveras devotado, que com alegria se fará matar pela minha amiga, +bastar-lhe-ha fazer um gesto a este seu collega e respeitoso admirador.</p> + +<p>A prudencia ordenava que Laura recusasse o offerecimento do tenor com uma +certa brandura, sem o irritar, sem o ferir.<span class="pn">{267}</span></p> + +<p>Mas a repugnancia que sentia por Lauretto foi mais forte do que a prudencia +com que estava resolvida a responder.</p> + +<p>Portanto deixou transparecer nas suas palavras todo o despreso que sentia +por elle.</p> + +<p>Desde esse dia Lauretto juntou ao seu amor um odio sem limites, e tornou-se +inimigo de Laura.</p> + +<p>—Ah! ella despresa-me? dizia elle comsigo. Pois bem, juro que será +minha! </p> + +<p>Companheiros antigos, que com Lauretto tinham passado do theatro Italiano +para a Opera, recordaram-lhe, rindo, o que em tempo dissera:</p> + +<p>—Não serei o primeiro, mas juro que serei o segundo!</p> + +<p>Motejavam d'elle, diziam-lhe que não poderia cumprir o juramento feito, +porque, decididamente, a fórma pela qual a diva o tratava, os seus cumprimentos +frios, despresadores, não lhe deviam deixar esperança de ser bem succedido.</p> + +<p>—Veremos, veremos! respondia Lauretto aos companheiros mordendo os +labios com raiva contrahida. Quem espera, sempre alcança. O visconde está +ausente, portanto não tenho que temer o rival. Aposto o que quizerem em como +poderão verificar qualquer dia... ou qualquer noite, a predicção do nosso +antigo emprezario, Pozzoli, que dizia:—A Linda será d'elle!<span +class="pn">{268}</span></p> + +<p>O odiento adorador da Linda estava n'estas disposições ameaçadoras na +occasião em que Antonino chegou a Paris.</p> + +<p>O conde de Bizeux manifestara desejos d'acompanhar o filho á capital, em +primeiro logar para não se separar d'elle, e depois para velar por Antonino, +porque o visconde estava ainda convalescente da terrivel doença que o ia +matando.</p> + +<p>Mas Antonino tinha a sua idéa.</p> + +<p>Instou com o pae para que o deixasse partir só.</p> + +<p>Para conseguir a annuencia paterna teve de fazer duas concessões: addiar a +partida para oito dias mais tarde, de modo que a convalescença avançasse mais +uma semana, e parar em Mans, dividindo a viagem em duas partes, para evitar o +cansaço que lhe adviria de uma viagem tão longa.</p> + +<p>Pelas noticias dos jornaes elaborara o seu programma d'artista e de amante. +</p> + +<p>Logo que chegou a Paris, acompanhado por um só creado, installou-se na sua +antiga casa de solteiro, no <em>boulevard</em> Haussmann.</p> + +<p>Conservou-se deitado sobre um canapé até quasi ás seis horas da tarde, +descançando, sonhando.</p> + +<p>Pouco depois sahiu, e comprou, como já dissemos, um <em>fauteuil</em> +d'orchestra n'uma agencia theatral dos <em>boulevards</em>.<span +class="pn">{269}</span></p> + +<p>Em seguida foi jantar ao <em>Café Inglez</em>, e ás sete horas e meia +entrava na Opera.</p> + +<p>Tivera a phantasia, que se transformára em ideia fixa, de tornar a ver sua +mulher,—de tornar a ver a Linda,—cantando a parte de Valentina dos +<em>Huguenottes</em>, que era justamente o papel que ella representára a ultima +vez que a ouvira no theatro, na noite em que lhe salvara a vida.</p> + +<p>Tornaria a vel-a, do seu <em>fauteuil</em> d'orchestra, apenas como um +simples espectador, e sem que ella desconfiasse da presença d'elle.</p> + +<p>Esperava sentir dupla alegria.</p> + +<p>Tornaria a ver, simultaneamente, a sua artista predilecta e a sua adorada +mulher.</p> + +<p>Sentiria as emoções do amador, e os estremecimentos do amante.</p> + +<p>A verdade era que, depois da meia anniquilação, da meia morte de que sahia, +não se lembrava de experimentar uma tal intensidade de vida nem tanta +exhuberancia d'amor.</p> + +<p>A sua vida e o seu amor tinham passado, na realidade, por uma terrivel +crise.</p> + +<p>Mas a convalescença chegara.</p> + +<p>Havia em todo o seu ser, e em todo o seu coração uma especie de +renascimento.</p> + +<p>A força physica e o espirito augmentavam ao mesmo tempo.<span +class="pn">{270}</span></p> + +<p>Amava Laura com esperança e embriaguez, mais, muito mais, do que d'antes a +amara.</p> + +<p>Chegando, como um provinciano, meia hora antes de começar o espectaculo, +admirou a escadaria, o <em>foyer</em>, as pinturas de Paulo Baudry, o salão! +</p> + +<p>Extasiou-se ante as <em>toilettes</em> claras das senhoras, que sobresahiam +do vermelho do forro dos camarotes.</p> + +<p>Maravilhou-se das columnas de marmore polychromo, do bronze dos candelabros, +do ouro dos lustres, do enorme panno de bocca purpurino, que dentro em pouco se +elevaria para lhe deixar ver Laura.</p> + +<p>Um ruido confuso de conversação espalhou-se pela sala.</p> + +<p>Os violinos e os baixos afinavam-se indistinctamente.</p> + +<p>Antonino adorava aquelle sussurro, como adorava o do mar. O director da +orchestra levantou a batuta.</p> + +<p>A opera começou.</p> + +<p>Antonino, porém, conhecia a partitura de cór, escutava como em sonho, apenas +vagamente via passar Lauretto Mina.</p> + +<p>Todo o seu ser esperava por Laura.</p> + +<p>Quando, emfim, a Linda entrou, quando passou, velada, ao fundo da scena, +sentiu a louca tentação de se precipitar para o palco, e esteve prestes a +soltar um grito.<span class="pn">{271}</span></p> + +<p>Quasi immediatamente depois, porém, voltando a si, olhou em volta para ver +se tinha chamado a attenção dos demais espectadores.</p> + +<p>Mas não; mercê do instinctivo habito adquirido, conservára-se correcto.</p> + +<p>A representação seguia como um encanto para o visconde.</p> + +<p>No segundo acto a Linda foi admiravel no dueto com Marcel.</p> + +<p>Disse a phrase</p> + +<blockquote> + <em>A offensa mortal do ingrato...</em> </blockquote> + +<p style="text-indent: 0;">com um sentimento tão penetrante e tão meigo, que os +olhos d'Antonino marejaram-se de lagrimas.</p> + +<p>A sua emoção, porém, foi elevada ao cumulo no recitativo de Valentina, que +abre o terceiro acto, e começa</p> + +<blockquote> + <em>Estou só com a minha dor!</em> </blockquote> + +<p>Quando Laura soltou o grito doloroso:</p> + +<blockquote> + <em>Meu Deus! afugentae esta lembrança fatal...</em> </blockquote> + +<p style="text-indent: 0;">a vibração da sua voz maravilhosa foi tão pungente e +tão vivida, que não podia deixar de ser palpavel para Antonino que era Laura +quem se lamentava e não Valentina.</p> + +<p>O visconde sentiu, por isso, percorrer-lhe as veias uma especie de terror +gelado.<span class="pn">{272}</span></p> + +<p>Pensou que Laura o vira na sala, que era exclusivamente para elle que +cantava, unicamente a elle que se dirigia.</p> + +<p>Segundo as suas impressões, até então tudo se passara, por assim dizer, +entre ella e elle.</p> + +<p>Todavia no quarto acto teve que passar por um outro genero de prova.</p> + +<p>Depois da benção dos punhaes, Raul fica só com Valentina.</p> + +<p>Raul, por substituição n'aquella noite, era Lauretto Mina.</p> + +<p>O dueto sublime começou.</p> + +<p>Aquelle trecho de musica produz o que não poderia produzir qualquer outra +arte, nem a pintura ou a poesia.</p> + +<p>Explica, delinia, faz sentir o amor completo, o amor da alma e o amor dos +sentidos.</p> + +<p>Ha n'aquelle dueto assombroso, com todas as dilacerações da paixão, com +todos os horrores do passado susto, todas as delicias e todos os extasis da +voluptuosidade!</p> + +<p>E Raul era Lauretto! e Valentina era Laura!</p> + +<p>Antonino ouvira muitas vezes a parte de Valentina cantada por Laura.</p> + +<p>D'antes, a Linda cantava aquelle dueto com o superior talento e +<em>virtuosidade</em> que possuia, com vigor e expressão.<span +class="pn">{273}</span></p> + +<p>Jámais, porém, a ouvira cantar com aquella paixão e embriaguez.</p> + +<p>N'outro tempo ella comprehendia, adivinhava.</p> + +<p>Agora sentia, recordava-se.</p> + +<p>No espirito d'Antonino passou como que uma hallucinação extranha.</p> + +<p>Quando viu Laura—porque, para elle, aquella mulher deixára de ser +Valentina—lançar-se, supplicante, aos pés de Lauretto—que já não +considerava como Raul—acerbo ciume se apossou d'elle.</p> + +<p>Pouco a pouco, o admiravel jogo physionomico da Linda acabou por dar á +ficção uma realidade terrivel.</p> + +<p>O salão, o publico, desappareceram.</p> + +<p>Parecia-lhe que assistia, immovel e mudo, a uma verdadeira scena d'amor +entre sua mulher e aquelle homem detestado.</p> + +<p>E no cerebro fervia-lhe, confusamente, este pensamento:</p> + +<p>—Por grande tragica que seja, poderia Laura, se Lauretto lhe fosse +indifferente, envolvel-o em arrebatados abraços, dirigir-lhe tão ardentes +supplicas? Poderia, se não o amasse, attrahil-o e retel-o contra o coração com +tal accesso de ternura e de dôr?</p> + +<p>Quando Laura dirigiu ao tenor o desesperado appello;</p> + +<blockquote> + <em>Fica, Raul, eu amo-te!</em> </blockquote> + +<p style="text-indent: 0;">o visconde mordeu a mão para não gritar:<span +class="pn">{274}</span></p> + +<p>—Miseravel!</p> + +<p>Raul parte e Valentina cae desmaiada.</p> + +<p>Antonino, no seu <em>fauteil</em>, parecia ter desmaiado tambem.</p> + +<p>Voltou a si aos primeiros compassos do terceto entre Valentina, Raul e +Marcial.</p> + +<p>A presença d'um terceiro personagem bastou, caso extraordinario, para o +despertar d'aquelle terrivel pesadello, chamando-o á verdade da situação +theatral.</p> + +<p>Os olhos viram claro.</p> + +<p>Laura passou novamente a ser Valentina para elle.</p> + +<p>Desempenhava superiormente o papel d'um drama, nada mais.</p> + +<p>Se ella representava com tanto ardor e enthusiasmo, se cantava o inegualavel +dueto d'amor com tanta paixão pessoal, deixando n'elle, por assim dizer, a sua +alma, não era um tenor qualquer que ella escongurava, que ella adorava com +aquelle abandono e aquellas lagrimas, mas o homem que amava, o homem que não +via, mas que estava sempre presente á sua imaginação, o homem que primeiro lhe +revelára as alegrias celestes que podem gosar duas almas irmãs.</p> + +<p>E Antonino sentia agora vontade de rir da horrivel visão que tivera, como se +ri quando a luz do dia nos mostra os objectos sob as suas verdadeiras formas, +deturpadas pela illusão das trevas. Estava já<span class="pn">{275}</span> +completamente senhor de si quando o panno caiu, no fim do espectaculo, para de +novo se levantar ás duas chamadas que o publico enthusiasmado fez a Laura.</p> + +<p>O visconde sentia-se satisfeito pela resolução que tomara, antes de partir +para Paris.</p> + +<p>Sahiu, deu a volta ao edificio do theatro e entrou pela porta do palco, +perguntando ao porteiro onde era o camarim de <em>madame</em> Laura Linda.</p> + +<p>Entrou.</p> + +<p>Ao atravessar um corredor, viu Lauretto Mina que sahia do <em>foyer</em>. +</p> + +<p>O tenor, ainda vestido de Raul, ia de certo para o seu camarim. Ao ver +Antonino, recuou admirado.</p> + +<p>—O sr. de Bizeux! disse elle estupefacto.</p> + +<p>Mas quasi immediatamente voltou-lhe a presença d'espirito, e accrescentou no +tom de cortezia que exasperava Antonino:</p> + +<p>—O sr. visconde procura sem duvida <em>madame</em> Laura Linda?... É a +segunda porta, n'esse corredor da direita. Creio que <em>madame</em> Linda está +só esta noite.</p> + +<p>Antonino inclinou ligeiramente a cabeça, e passou sem responder.</p> + +<p>Logo que o viu desapparecer no corredor que lhe indicára, Lauretto murmurou +colerico:</p> + +<p>—Delicadissimo, este neto de fidalgos! Bem, bem! Isto é para juntar ao +total!<span class="pn">{276}</span></p> + +<p>Antonino parou em frente da segunda porta do corredor, e bateu.</p> + +<p>Jacintha foi abrir.</p> + +<p>Ao ver o visconde soltou um grito.</p> + +<p>Deixou-o entrar para a especie de sala d'espera que antecedia o camarim, +para o qual correu, gritando:</p> + +<p>—Minha senhora... minha senhora... é o sr. visconde!</p> + +<p>Laura, de penteador de cachemira branca, entrançava o cabello diante d'um +espelho.</p> + +<p>—O que dizes tu?... perguntou ella a Jacintha, voltando-se.</p> + +<p>No limiar da porta viu Antonino, pallido, magro, d'olhos fundos, phantasma +de si proprio.</p> + +<p>Conservaram-se por algum tempo contemplando-se, sem fazerem um só gesto nem +pronunciarem uma só palavra. Antonino disse por fim:</p> + +<p>—Laura!</p> + +<p>Depois caminhou para ella lentamente.</p> + +<p>A Linda, indecisa, olhava-o estupefacta.</p> + +<p>Ao chegar junto d'ella, disse-lhe em voz baixa e extraordinariamente terna. +</p> + +<p>—Minha Laura... amo-te!</p> + +<p>Ella juntou as mãos, extasiada, e replicou:</p> + +<p>—Meu Antonino!... És tu?... Ah! tambem eu te amo!<span +class="pn">{277}</span></p> + +<p>Lançou-lhe os braços em volta do pescoço, alegremente.</p> + +<p>Foi longo o abraço.</p> + +<p>Por fim Laura desprendeu-se d'Antonino, e perguntou-lhe:</p> + +<p>—Mas porque estás n'este estado?</p> + +<p>O visconde respondeu, sorrindo:</p> + +<p>—Vou contar-te tudo em duas palavras. Estive, durante mez e meio, +entre a vida e a morte, mas mais proximo da morte que da vida. Ia-me matando +uma terrivel febre cerebral. Todos me suppozeram perdido. Meu pae, +afflictissimo, e de mais a mais illudido por uma abominavel denuncia anonyma, +escreveu-te uma carta, que sem duvida te magoou muito. Elle está arrependido do +que fez, e pede-te perdão. Eu, logo que estive em estado de partir, vim +procurar te. Eis-me aqui.</p> + +<p>Quiz tomal-a nos braços.</p> + +<p>Ella impediu-o de realisar a intenção.</p> + +<p>Fez-o sentar n'um canapé e ajoelhou no tapete, contemplando-o com paixão. +</p> + +<p>—Estiveste quasi a morrer, meu querido Antonino, e eu estava longe de +ti! Porque não me chamaste?</p> + +<p>—Estive muito tempo sem consciencia...</p> + +<p>—Mas depois?</p> + +<p>—Depois ias tu entrar para o theatro. Tinhas reclamado a minha +palavra, não quiz privar-te da liberdade<span class="pn">{278}</span> +promettida Não desejei ser um impedimento, um obstaculo á vontade que tinhas de +voltar para o theatro, que é como o teu paiz natal. Álem disso, considerei-me +obrigado a expiar algumas culpas, Eras tu que tinhas rasão, Laura, n'aquella +funesta noite em que partiste. Que me importava a opinião d'estranhos? Não +devia inquietar-me com os prejuizos da sociedade. Existe, porventura, a +sociedade para o amor? A sociedade, para nós, somos nós proprios. Ama-me como +eu te amo, e nada mais te pedirei. Que me importa que ames tambem Mozart, +Beethoven e Meyerbeer? Não os amo eu tambem, principalmente por tua causa?</p> + +<p>—Ah! como és bondoso! disse Laura. Sim, amas-me, sinto-o! A proposito: +assististe ao espectaculo de hoje?</p> + +<p>—Assisti.</p> + +<p>—Não te vi, mas adivinhei-te!... Sentiste no meu canto que pensava em +ti, não é verdade? Nem por um momento me esqueces quando desempenho o papel de +Valentina, cheio de <em>phrases</em> que parecem ter sido escriptas para a +situação d'espirito em que me encontro. Aquella musica faz-me mal, +especialmente depois que estou só, e comtudo sinto-me feliz quando a canto! E o +dueto do quarto acto? Não é verdade que o canto agora melhor do que d'antes? +</p> + +<p>—Sim, sim, cem vezes melhor!<span class="pn">{279}</span></p> + +<p>Laura ajuntou, collocando as mãos sobre os hombros, do marido:</p> + +<p>—Foste tu que me ensinaste a cantar aquelle dueto!</p> + +<p>Antonino sentiu o coração innundado d'alegria.</p> + +<p>A segunda impressão que tivera durante o espectaculo, não o havia enganado. +</p> + +<p>Era o seu amor, que Laura cantara tão apaixonadamente.</p> + +<p>Ella proseguiu:</p> + +<p>—A partir d'hoje vou amar sem reserva esse afortunado papel que duas +vezes me trouxe a felicidade. Eis-te aqui, meu Antonino, és novamente meu. +Estão reunidas as duas partes da minha alma. Eu tinha, por vezes, junto de ti, +a nostalgia do theatro; mas, no theatro, tive sempre a nostalgia do teu +amor!</p> + +<p>Em seguida contaram-se mutuamente tudo o que os interessava.</p> + +<p>Laura estava completamente entregue á sua querida arte.</p> + +<p>A casa da rua Boudreau era pequena demais para receber os seus amigos +d'outr'ora.</p> + +<p>Apenas algumas vezes alli ia o dr. Despujolles, que a tratara d'uma +bronchite.</p> + +<p>Remissy, terminado o contracto que o retinha em Vichy, partira para a +Italia, e devia passar o resto do inverno na Hungria.</p> + +<p>Por sua parte, Antonino contava não receber ninguem<span +class="pn">{280}</span> nos seus aposentos do <em>boulevard</em> Haussmann.</p> + +<p>Era possivel que o pae viesse vel-o, mas só muito mais tarde.</p> + +<p>—Bem, disse Laura satisfeita, sorridente, qual é a vontade do meu +senhor e amo? Irei eu para sua casa, ou irá elle para a minha?</p> + +<p>—Escuta, replicou Antonino, vou contar-te um sonho que tive durante os +longos dias de convalescença. É provavel que aches n'elle o quer que seja de +romanesco. Se te desagradar, dil-o com franqueza! Quebraste bruscamente a nossa +vida em commum, que talvez fosse um pouco monotona para a tua alma d'artista. +Se quizeres, viveremos agora d'outra forma. Recuperaste a tua liberdade; como +tenho plena confiança em ti, deixo-t'a. Não serei mais teu marido, passarei a +ser teu amante. Queres?</p> + +<p>—Quero, sim, quero, porque é a verdade!</p> + +<p>—Então nem eu irei para tua casa, nem tu te installarás na minha. +Concede-me oito dias d'espera. Durante esse tempo encontrarei e prepararei em +qualquer canto de Paris, um ninho, occulto, secreto, apenas por nós conhecido, +onde ninguem poderá surprehender-nos ou incommodar-nos. Dar-nos-hemos +entrevistas n'esse ninho, furtivamente, clandestinamente, de noite, como quem +teme a policia. De dia seremos correctissimos. Eu irei visitar-te de +tarde,<span class="pn">{281}</span> e tu convidar-me-has algumas vezes para +jantar com Despujolles.</p> + +<p>—Oh! mas isso é encantador! disse Laura.</p> + +<p>—Agrada-te a minha idéa?</p> + +<p>—Immenso!</p> + +<p>—Bem! Havemos de ser muito felizes, verás. Está combinado. Chama +Jacintha. Vou deixar-te, para só te tornar a ver d'aqui a oito dias. Necessito +de todos os minutos d'esta semana para tratar da nossa felicidade. O que me +fará diminuir o pesar d'esta separação, será lembrar-me que me occupo da minha +querida Laura.</p> + +<p>—E eu, durante esse tempo, só em ti pensarei!</p> + +<p>Antonino levantou-se.</p> + +<p>Laura, pegando-lhe nas mãos, disse:</p> + +<p>—Troquemos, ao menos, o beijo dos esponsaes.</p> + +<p>Beijaram-se longamente, ardentemente.</p> + +<p>Depois, trocando um ultimo adeus, separaram-se.</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00123">XXIII<br> +O amante legitimo</a></h2> + +<p>Em Paris, como em todas as grandes cidades, o dinheiro faz milagres.</p> + +<p>No dia seguinte pela manhã, Antonino percorreu o bairro da Magdalena em +busca d'uma casa onde fizesse o <em>ninho</em> promettido.<span +class="pn">{282}</span></p> + +<p>Encontrou o que desejava na rua da Arcada, a meio caminho da casa de Laura e +d'aquella em que elle vivia.</p> + +<p>Era o rez-do-chão d'um predio de dois andares.</p> + +<p>Ficava alguns degraus acima do nivel da rua, e tinha, além da entrada +principal, á esquerda do vestibulo, para o qual se entrava por largo portão, +uma entrada particular que abria para a rua.</p> + +<p>A casa era composta d'um salão, d'uma sala de jantar, d'um quarto grande e +claro, cosinha e um outro quarto de menores dimensões.</p> + +<p>Arrendado o rez-do-chão, Antonino chamou um estofador dos mais conceituados +de Paris, e depois de conferenciar com elle durante duas horas, ficou assente +que moveis e estofos guarneceriam a casa.</p> + +<p>O estofador prometteu ter tudo concluido na tarde do setimo dia, tendo, para +isso, que trabalhar no domingo d'aquella semana. E cumpriu.</p> + +<p>Era deliciosa a ornamentação, apesar de simples.</p> + +<p>Na sala de jantar, forrada de coiro de Cordova, elevava-se, em dois corpos, +um aparador da Renascença, guarnecido de baixela de prata antiga e de faianças +de Ruen, Nevers e Marselha.</p> + +<p>O fogão, de marmore de Nuremberg, era notavel pelo relevo das suas figuras +biblicas.</p> + +<p>A mesa fôra coberta com um tapete de velludo de Gênes.<span +class="pn">{283}</span></p> + +<p>O movel principal do salão era um piano Erard, construido no esqueleto d'um +cravo do seculo XVIII, todo coberto de pinturas no genero das de Boucher, +representando a dansa d'amores e de nymphas, n'uma paisagem celeste.</p> + +<p>Ao fundo, as tres graças voavam para o Olympo.</p> + +<p>A cór viva da tapeçaria que forrava o salão fazia sobresahir os quadros que +Antonino mandára vir da casa de Saint-Malo, duas paysagens de Lancret, uma +Venus de Fragonard, e um duplicado do Gilles, de Watteau, assignado pelo +mestre.</p> + +<p>Um lago, de Julio Dupré, defrontava com um outro, visto á hora crepuscular, +de Corot.</p> + +<p>O quarto de cama era a maior casa do rez-do-chão.</p> + +<p>Dividiram-a, por tanto, fazendo-lhe aos lados, com divisorias, uns +gabinetesinhos de <em>toilette</em>.</p> + +<p>O leito, do seculo XVIII, cinzento e dourado, de linhas simples, tinha por +unico ornamento, na cabeceira, dois amores sustentando um medalhão, em que se +viam dois LL entrelaçados e encimados por uma corôa.</p> + +<p>Dizia-se que aquelle leito pertencera a Luiz XV; mas os dois LL, para +Antonino, queriam dizer Laura Linda.</p> + +<p>Nas paredes, côr de perola e cereja, avultavam seis pannos chinezes, +bordados, representando paysagens<span class="pn">{284}</span> com figuras +finamente desenhadas e admiravelmente coloridas.</p> + +<p>Viam-se por todos os lados tapetes, da Persia do mais raro bom gosto.</p> + +<p>Nem um só objecto que compunha a mobilia do rez do chão era de mediano +valor.</p> + +<p>Mas, mais do que riqueza, impunha-se a elegancia e o fino gosto de quem +presidira á decoração das casas.</p> + +<p>O estofador encarregára-se d'enviar da praça da Magdalena tudo o que +respeitasse a cosinha.</p> + +<p>D'esta fórma apenas d'um creado necessitariam.</p> + +<p>Jacintha estava naturalmente indicada para esse serviço.</p> + +<p>Laura e Antonino podiam contar com a dedicação e a discrição da creada.</p> + +<p>Ella bastaria para servir á meza e para vestir a cantora.</p> + +<p>O visconde mandou mobilar para Jacintha o outro quarto da casa.</p> + +<p>Como a ornamentação não destoasse da restante, Jacintha, satisfeitissima, +declarou que nunca tivera quarto mais bello.</p> + +<p>Com um simples toque de campainha, ella estaria em tres segundos junto de +Laura, quando os seus serviços fossem necessarios.</p> + +<p>A nova casa foi inaugurada á hora prefixa, precisamente<span +class="pn">{285}</span> oito dias depois da representação dos +<em>Huguenottes</em>.</p> + +<p>N'essa noite a Linda cantava o <em>Roberto o Diabo</em>.</p> + +<p>Antonino levou-a, com Jacintha, logo que o espectaculo terminou, +encantado,—tanto como ella, de resto,—da sua nova felicidade +conjugal.</p> + +<p>Combinaram, como regra geral, mas sem prejuiso de quaesquer outras noites, +que elles partiriam para o <em>ninho</em> em seguida a cada representação, +quando Laura estivesse ainda vibrante da emoção que lhe causassem os applausos, +e duplamente palpitante da vida do papel que desempenhára e da vida propria. +</p> + +<p>Antonino assignára um <em>fauteuil</em> d'orchestra junto á scena.</p> + +<p>Como d'antes, applaudia pouco a Linda, não juntava as suas ás acclamações +que a chamavam nos finaes d'acto.</p> + +<p>Mas como d'antes, mais do que d'antes talvez, saboreava em silencio o extasi +em que o mergulhava a voz da mulher adorada.</p> + +<p>Ella, pelo seu lado, não lhe sorria, não o olhava.</p> + +<p>Mas sabia que o visconde estava proximo, conhecia a cadeira em que elle se +sentava, e como era para Antonino que cantava, jámais cantara melhor.</p> + +<p>O visconde nunca mais sentiu ciumes de Lauretto Mina, ou de quem quer que +fosse.</p> + +<p>Ambos se consideravam felicissimos por aquella<span class="pn">{286}</span> +encantadora vida, alegre como a phantasia, doce como o habito.</p> + +<p>O creado d'Antonino, de cada vez que o visconde não dormia em casa, dizia +que elle ficava em casa de Linda.</p> + +<p>Os creados da cantora sempre que ella só de manhã voltava para casa, +pensavam que Laura tivesse passado a noite em casa do visconde.</p> + +<p>Geralmente Antonino voltava para o <em>boulevard</em> Haussmann ao +amanhecer.</p> + +<p>Laura, porém, só deixava o ninho a hora adiantada da manhã.</p> + +<p>Sahiam e entravam sempre pela porta que abria para a rua.</p> + +<p>O porteiro, que tinha o seu cubiculo no vestibulo do predio, nunca vira a +Linda.</p> + +<p>De dia os dois esposos viam-se officialmente.</p> + +<p>Passeavam de dia no Bosque, de carruagem, e á noite partiam juntos para o +theatro.</p> + +<p>Antonino, uns dias por outros, mandava presentes a Laura: flores ou joias. +</p> + +<p>De tarde visitava-a, invariavelmente á mesma hora, e jantava com a esposa +muitas vezes.</p> + +<p>Sempre, porém, que Laura não estava só, elle retirava-se conjuntamente com +as outras visitas, d'ordinario o dr. Despujolles, ou raros outros amigos.<span +class="pn">{287}</span></p> + +<p>Laura recebia menos admiradores na casa da rua Boudreau, do que d'antes na +rua de Bolonha.</p> + +<p>Reatára apenas relações com tres ou quatro admiradores mais intimos, e que o +eram tambem do visconde.</p> + +<p>Todos elles tinham estado, n'outro tempo, mais ou menos apaixonados pela +Linda.</p> + +<p>Mas como eram homens bem educados, e de mais a mais amigos d'Antonino, que +consideravam o amante official de Laura, não faziam a côrte á diva.</p> + +<p>Apenas não tinham perdido completamente a coragem.</p> + +<p>Pensavam que mais cedo ou mais tarde conseguiriam os seus fins, e esperavam +com paciencia digna de melhor sorte.</p> + +<p>Lauretto Mina, mais indelicado que elles, não guardava a mesma reserva nem +possuia identica paciencia.</p> + +<p>No mundo dos bastidores sabe-se tudo o que respeita a qualquer artista.</p> + +<p>O tenor sabia portanto, a situação em que se encontravam Laura e o visconde, +e agourava bem d'essa situação.</p> + +<p>Um dia disse á Linda, no <em>foyer</em> dos artistas, motejando:</p> + +<p>E então, minha querida, tinha ou não razão quando lhe dizia na ilha de +Cézambre,—lembra-se?—que<span class="pn">{288}</span> o seu +casamento não me parecia dos mais serios? Os habitantes de Saint-Malo, que não +primam pela finura, parece que viram o demonio quando tiveram conhecimento de +semelhante união. De resto, acho que procedeu sensatamente definindo a sua +situação. Vale mais ter um amante certo, de que um marido duvidoso.</p> + +<p>—Sinto-me satisfeitissima por merecer a sua approvação! respondeu +Laura no mesmo tom.</p> + +<p>—Por esta fórma, proseguiu Lauretto, todos terão esperanças. Os que +estão apaixonados pela sua pessoa,—e eu creio que pelo menos conhece +um,—veem agora augmentar infinitamente o numero das probabilidades +favoraveis.</p> + +<p>—Suppõe isso? Pois eu supponho que o numero de probabilidades não +augmenta nem diminue pelo facto do sr. de Bizeux ser meu marido ou meu amante. +O que influirá n'esse numero é que eu ame ou não o sr. de Bizeux.</p> + +<p>—Perdão! o caso é diverso! insistiu o tenor.</p> + +<p>E accrescentou, dirigindo-se ao baritono, que n'esse momento entrava no +<em>foyer</em>:</p> + +<p>—Não é verdade, Gressier, que amando eu Laura Linda, tenho mais +probabilidades de conseguir os meus fins defrontando-me com um amante de que +tendo na frente o marido?</p> + +<p>—Está enganado, sr. Lauretto Mina, apressou-se<span +class="pn">{289}</span> Laura a responder sem dar tempo a que o baritono +fallasse. Não é porque eu ame um outro homem que não o amaria ao sr. Posso não +amar ninguem, que nem por isso lhe pertencera o meu amor.</p> + +<p>E voltando as costas ao tenor, sahiu.</p> + +<p>—Ah! ah! decididamente não avanças um passo, meu caro! disse Gressier, +rindo.</p> + +<p>—Engano! respondeu seccamente Lauretto, que empallidecera +extraordinariamente. Estou quasi a attingir o meu fim, e em breve te darei +provas irrefutaveis do que avanço.</p> + +<p>Laura, passado o primeiro momento, arrependeu-se de provocar a irritação do +tenor, respondendo-lhe por fórma a feril-o no seu amor proprio.</p> + +<p>Agora mais do que nunca ella temia um possivel conflicto entre Antonino e +Lauretto.</p> + +<p>Lembrava-se incessantemente das palavras, prefurantes como laminas, que o +tenor pronunciára uma noite, sentado tranquillamente junto ao fogão do +<em>foyer</em>.</p> + +<p>Fallava-se d'um duello realisado n'aquelle dia, que tinha chamado a attenção +de toda a gente.</p> + +<p>—Ora adeus! dissera Lauretto. As galerias facilmente se commovem pelos +duellos d'agora, que quasi sempre terminam por simples arranhaduras! Por mim, +estou resolvido a nunca provocar ninguem, e, mesmo quando provocado, a só me +bater se o insulto<span class="pn">{290}</span> recebido fôr d'ordem a não +acceitar desculpas, porque eu, infelizmente, não arranho nem firo, mato.</p> + +<p>Era por essa razão que Laura deligenciava não sentir-se offendida pelas +impertinencias que o tenor lhe dirigia por vezes.</p> + +<p>Fingia não as comprehender, e até não as ouvir.</p> + +<p>Ella era tão feliz!...</p> + +<p>E aquella felicidade que gosava, prolongou-se por tres mezes, sem uma só +nuvem que a escurecel-a.</p> + +<p>Antonino, pela sua parte, só tinha um desejo: tornar a ver seu pae.</p> + +<p>Mas o conde, a quem o filho não quizera occultar o que elle chamava o seu +romance, não queria, por dignidade, ir a Paris emquanto durasse uma tal +situação.</p> + +<p>—Acautella-te, escrevia elle ao visconde, occultas tua mulher como se +occulta uma amante. Acho perigoso esse teu procedimento. Não me parece razoavel +tentar o perigo, misturar o que ha de mais serio e de mais sagrado no amor com +o disfarce, com a mascara, com a aventura.</p> + +<p>Seria isto um presentimento da fina intuição paterna?</p> + +<p>Uma noite, pelas quatro horas da madrugada, Laura, envolvida n'um largo +manto, foi, segundo o costume, acompanhar e alumiar seu marido até á escada que +descia para a rua.<span class="pn">{291}</span></p> + +<p>Demorou-se no patamar até que Antonino, sahindo, fechou a porta sobre si. +</p> + +<p>Ao entrar no quarto, a Linda soltou um grito.</p> + +<p>Lauretto Mina estava sentado na cadeira de que pouco antes Antonino se +levantara.</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00124">XXIV<br> +Jacintha</a></h2> + +<p>Jacintha, como já dissemos, tinha por Laura uma dedicação sem limites.</p> + +<p>Far-se-ia matar pela cantora, e, se a diva morresse, ella não lhe +sobreviveria por muito tempo, com certeza.</p> + +<p>O peor era que a creada não possuia apenas a fidelidade canina do +irracional.</p> + +<p>As admoestações, as severidadese as irritações de Laura faziam-a chorar +deveras, porque possuia um bom coração.</p> + +<p>Mas arrependia-se e não se emendava.</p> + +<p>A Venus antiga divertia-se, ligando-se completamente áquella humilde presa. +</p> + +<p>Por infelicidade, a belleza picante de Jacintha, os seus grandes olhos +pretos e brilhantes, a tez morena<span class="pn">{292}</span> e fresca +d'andaluza, a cintura delicada e o agradavel conjuncto de toda a sua pessoa, +davam-lhe um grande numero de cumplices.</p> + +<p>Lauretto Mina, como indicámos, pertencera a esse numero.</p> + +<p>O formoso tenor não desdenhára colher aquella flôr modesta.</p> + +<p>Colhera-a e passára.</p> + +<p>Não era homem para perder muito tempo em negocios de semelhante natureza. +</p> + +<p>Apesar d'isso Jacintha ficára singularmente lisongeada por contar, na +collecção dos seus admiradores, um <em>artista</em>, um verdadeiro artista, de +que grande quantidade de damas da primeira sociedade tinham disputado a posse, +segundo ella suppunha.</p> + +<p>Em Saint-Malo, na numerosa creadagem das casas proximas, Jacintha, sempre +picante e attrahente, fôra muito cortejada.</p> + +<p>E não tinham sido apenas os creados a darem-se a esse passatempo.</p> + +<p>Os proprios patrões deram-se ao incommodo de render homenagens á creada de +Laura.</p> + +<p>Afinal, na grande sociedade—está provado!—as cosinhas não +recebem peor gente que os salões.</p> + +<p>Lembrar-se-hão sem duvida que, na manhã em que Laura resolvera abandonar a +casa de seu marido, encontrára vasio o quarto de Jacintha.<span +class="pn">{293}</span></p> + +<p>No dia seguinte, quando a creada se reuniu á cantora em Paris, Laura +admoestou-a com toda a severidade, como costumava.</p> + +<p>Sem se incommodar com a torrente de lagrimas que corria pelas faces de +Jacintha, e com as quaes a creada tratava lavar a falta commettida, Laura +demonstrou-lhe quanto era indigno um procedimento d'aquella ordem.</p> + +<p>Disse-lhe que a devia abandonar completamente.</p> + +<p>Mais uma vez, porém, lhe perdoaria, sob condição de Jacintha lhe dar a sua +palavra de que não voltaria a praticar o menor desmando.</p> + +<p>E affiançou-lhe que, no primeiro caso dado, a encontraria inflexivel.</p> + +<p>Jacintha, desfeita em lagrimas, prestou todos os juramentos possiveis.</p> + +<p>Tomou para testemunhas todas as virgens da côrte do ceu, promettendo seguir +os seus exemplos.</p> + +<p>Antes quereria perder a vida do que ser abandonada por Laura.</p> + +<p>A admoestação aproveitar-lhe-ia.</p> + +<p>Jámais o demonio se apossaria dos seus sentidos.</p> + +<p>Laura fingiu acreditar nas promessas de Jacintha, que, sem serem solidas, +eram com certeza sinceras.</p> + +<p>Entretanto tomou algumas precauções.</p> + +<p>Resolveu não admittir creados moços na sua modesta casa da rua +Boudreau.<span class="pn">{294}</span></p> + +<p>Escolheu um casal já idoso.</p> + +<p>O marido tinha cincoenta annos e a mulher quarenta e cinco.</p> + +<p>Durante tres mezes Jacintha foi um verdadeiro modelo de honestidade.</p> + +<p>Nunca sahia só, e quando acompanhava Laura ao theatro jámais transpunha a +porta do camarim.</p> + +<p>Mas no momento da chegada do visconde a Paris, os seus remorsos começavam a +cicatrisar.</p> + +<p>A installação mysteriosa no rez-do-chão da rua da Arcada produziu-lhe +terrivel effeito.</p> + +<p>Laura, porém, percebeu sem perda de tempo que Jacintha começava novamente a +andar mais ligeira.</p> + +<p>Aquella acceleração de movimento no corpo correspondia a movimentos, +accelerados tambem, no espirito.</p> + +<p>Ao ver a felicidade que disfructava Laura, sentia extraordinaria +melancholia.</p> + +<p>—Como o sr. visconde ama a senhora! murmurava ella. Ah! a senhora é +bem feliz!...</p> + +<p>—Se continuares a portar-te bem, dizia-lhe Laura, acharás qualquer dia +um bom marido.</p> + +<p>—A senhora achou, respondia Jacintha, mas eu, para o achar, +necessitarei procurar.</p> + +<p>Uma busca d'este genero é sempre um perigo para uma natureza inflammavel. Se +Laura, n'aquella occasião, tivesse reparado, comprehenderia o perigo, +verificaria<span class="pn">{295}</span> que a virtude começava a ser demasiado +pesada para Jacintha.</p> + +<p>Uma noite, ao atravessar um corredor do theatro, a creada deu de cara com +Lauretto Mina.</p> + +<p>O tenor pôz-lhe uma das mãos na fronte, levantou-lhe o queixo com a outra, e +disse-lhe:</p> + +<p>—Sabes que estás cada vez mais bonita? Declaro-te que nunca te amei +tanto como agora.</p> + +<p>Não se contentou com palavras.</p> + +<p>Passou-lhe um braço em volta da cintura, levou-a para um canto pouco +alumiado, inclinou-lhe o corpo para traz e deu-lhe um demorado beijo na bocca. +</p> + +<p>Jacintha voltou para o camarim muito perturbada.</p> + +<p>O seu quarto na rua da Arcada era tão bonito!</p> + +<p>Devia haver muitas senhoras que o invejassem!</p> + +<p>Esta circumstancia foi mais uma tentação.</p> + +<p>Pois só ella é que havia admirar aquella verdadeira belleza?</p> + +<p>Era possivel que o tenor, mesmo em casa de duquezas, não tivesse visto um +quarto tão encantador como aquelle.</p> + +<p>Jacintha por coisa alguma trahiria Laura.</p> + +<p>Em tempo, Lauretto Mina tinha tido a prova d'essa verdade.</p> + +<p>Não se arriscou, por isso, a fazer-lhe perguntas directas sobre o visconde +ou sobre a Linda.</p> + +<p>Mas, depois d'uma scena de seducção admiravelmente<span +class="pn">{296}</span> bem desempenhada pelo tenor, uma noite, durante um +entre-acto, Jacintha foi forçada a dar-lhe todas as indicações necessarias, +para que elle podesse entrar n'aquelle delicioso quarto, que para ella era um +verdadeiro ninho d'amor.</p> + +<p>Pela uma hora da manhã, em quanto Antonino e Laura estivessem á mesa, +ceiando, ella iria abrir-lhe a porta da rua, e, pelo longo corredor, para o +qual abriam todas as portas interiores, introduzil-o-hia no quarto. Depois iria +ter com elle, logo que os dois esposos se deitassem.</p> + +<p>O tenor sahiria, entre as quatro e as cinco horas da manhã, quando o +visconde tivesse partido.</p> + +<p>Nada era mais simples, mais facil, mais seguro.</p> + +<p>Foi assim que, na noite de que já fallámos, Lauretto Mina estava ás tres +horas e meia da madrugada no quarto de Jacintha.</p> + +<p>Áquella hora a creada dormia profundamente.</p> + +<p>Lauretto levantou-se sem fazer ruido.</p> + +<p>Sobre a meza da cabeceira estava acceso um candieiro.</p> + +<p>O tenor tirou uma navalha da algibeira, abriu-a, e cortou os cordões d'um +reposteiro.</p> + +<p>Em seguida voltou ao leito, pegou na mão direita de Jacintha e approximou-a +levemente da esquerda.</p> + +<p>Ella descerrou vagamente as palpebras e perguntou:<span +class="pn">{297}</span></p> + +<p>—Já te levantaste?</p> + +<p>—Não, não, respondeu o tenor. Ainda é cedo.</p> + +<p>Reuniu bruscamente as duas mãos e, n'um segundo, ligou os pulsos de Jacintha +com tres ou quatro voltas do cordão, que atou n'um nó rapido. Ella accordou +sobresaltada e tentou gritar.</p> + +<p>Mas o tenor applicou-lhe sobre a bocca uma mordaça que levava, +prendendo-lh'a solidamente atraz do pescoço.</p> + +<p>Jacintha deu com os pés na roupa da cama, tentando saltar do leito.</p> + +<p>O tenor ligou-lhe os pés com o cordão, como lhe ligara as mãos.</p> + +<p>Em seguida verificou se todos os nós estavam bem dados.</p> + +<p>Assim presa, Jacintha apenas podia fazer alguns movimentos quasi +imperceptiveis, que Lauretto impossibilitou ainda comprimindo-a com a roupa da +cama.</p> + +<p>Depois, o tenor vestiu-se lentamente.</p> + +<p>Entreabriu a porta do quarto, e escutou.</p> + +<p>Voltou para junto do leito, e vendo que Jacintha não se movia, destapou-a, +inquieto, e tirou-lhe a mordaça.</p> + +<p>A infeliz estava desmaiada.</p> + +<p>O ar livre que respirou, reanimou-a um pouco.</p> + +<p>Antes que a creada recuperasse completamente os<span class="pn">{298}</span> +sentidos, Lauretto tornou-lhe a pôr a mordaça, mas apertando-lh'a menos, e +deixando-lhe as narinas a descoberto.</p> + +<p>Depois voltou novamente para junto da porta.</p> + +<p>Sentiu o visconde sahir, sendo acompanhado por Laura até á escada.</p> + +<p>Ouviu as palavras de despedida que ambos trocaram.</p> + +<p>Então transpôz o corredor, abriu a porta do quarto de Laura, e entrou.</p> + +<p>Jacintha, que recuperara os sentidos, viu e comprehendeu tudo.</p> + +<p>O miseravel armara ardilosamente aquelle laço á sua fraqueza, e ella cahira +estupidamente, como uma ingenua.</p> + +<p>Não era por ella, mas por Laura, que elle ali fôra.</p> + +<p>A Linda, é claro, não tornara a sua creada de quarto confidente das +impertinencias de Lauretto.</p> + +<p>Jacintha, porém, recordava-se agora de certas circumstancias e d'algumas +palavras pronunciadas pelo tenor.</p> + +<p>Não podia duvidar.</p> + +<p>Era Laura quem elle desejava.</p> + +<p>A Linda estava n'esse momento á discrição do insolente.</p> + +<p>E fôra ella, Jacintha, ella, que teria dado a vida pela cantora, que a +entregara áquelle miseravel!<span class="pn">{299}</span></p> + +<p>Ao ter este pensamento a infeliz sentiu-se gelada de pavor.</p> + +<p>Deixaria ella commetter um tão infame crime?</p> + +<p>Apenas podia soltar alguns gemidos inarticulados.</p> + +<p>As mãos e os pés ligados paralysavam-lhe todos os movimentos. Como arrancar +a mordaça?</p> + +<p>Como cortar os cordões que a atavam?</p> + +<p>O tempo passava, e ella não achava que responder áquellas perguntas.</p> + +<p>As lagrimas corriam-lhe pelas faces.</p> + +<p>Olhou para o candieiro acceso.</p> + +<p>Lauretto achara desnecessario apagal-o. Para que?</p> + +<p>Subitamente accudiu-lhe ao espirito uma idéa.</p> + +<p>Nem um instante hesitou.</p> + +<p>Encolheu-se, torceu-se, rebolou-se, e, lentamente, firmando-se nos +cotovellos e nos joelhos, conseguiu elevar-se pouco a pouco, acima do +travesseiro.</p> + +<p>Esta operação difficultosa durou dez minutos.</p> + +<p>Quando chegou com as mãos ligadas até ao angulo do leito, agarrou-se a elle, +e, com um esforço acabou de se elevar.</p> + +<p>Então, com um movimento decidido, chegou á luz do candieiro os cordões que +lhe prendiam os pulsos, que foram tambem attingidos pela chamma.</p> + +<p>A dôr era insupportavel.</p> + +<p>Por vezes, sentindo-se prestes a soltar um grito, retirava os pulsos da +luz.<span class="pn">{300}</span></p> + +<p>Mas em seguida, considerando aquelle facto como uma indesculpavel cobardia, +chegava novamente á chamma a carne já queimada.</p> + +<p>Uma das voltas do cordão quebrou por fim.</p> + +<p>Mas não era a que formava o nó.</p> + +<p>Foi indispensavel continuar a tortura, com todas as precauções e cuidados. +</p> + +<p>E sentia-se feliz por poder dizer de si para comsigo:</p> + +<p>—Soffre, leviana, soffre o castigo da tua falta!</p> + +<p>O cordão cedeu emfim.</p> + +<p>Então, com um movimento rapido, desembaraçou-se dos bocados que ainda a +prendiam, e, sem reparar para o misero estado em que tinha os +pulsos—porque o tempo urgia—sentou-se na cama, e desligou os pés, +ainda que com bastante custo.</p> + +<p>Levantou-se, procurou uma tesoura, e cortou os cordões da mordaça.</p> + +<p>Estava livre!</p> + +<p>Vestiu-se sem perda d'um segundo.</p> + +<p>As mãos, tremulas ainda pelo supplicio supportado, difficilmente cumpriam a +sua missão.</p> + +<p>Sentia-se banhada em suor frio.</p> + +<p>Não prestou attenção á fórma pela qual se vestia.</p> + +<p>Pensava.</p> + +<p>O que deveria fazer? Acordar o porteiro? Esse meio poderia ser bom meia hora +antes. N'aquelle momento,<span class="pn">{301}</span> como era possivel que o +crime estivesse consumado, era necessario não fazer escandalo. N'aquelle +negocio não devia intervir qualquer pessoa estranha.</p> + +<p>Logo que se apromptou, metteu na algibeira o dinheiro que pozera sobre a +meza, e seguiu pelo corredor, abafando o ruido dos passos.</p> + +<p>Parou em frente da porta do quarto de Laura e escutou.</p> + +<p>Não duviu o menor rumor.</p> + +<p>Aquelle silencio seria de bom ou de mau presagio?</p> + +<p>Não se atrevia a decidir.</p> + +<p>Continuou pelo corredor, desceu a escada, abriu cautellosamente a porta e +achou-se na rua, deserta áquella hora.</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00125">XXV<br> +O infame</a></h2> + +<p>Se não fosse fatuo e mau como era, Lauretto Mina, ao entrar no quarto de +Laura, teria apagado a lampada que o alumiava.</p> + +<p>Depois, quando a cantora voltasse, soprando a chamma do candieiro que ella +trazia, tel-a-hia tomado<span class="pn">{302}</span> por surpreza na sombra, e +a Linda podia então considerar-se perdida.</p> + +<p>Mas elle quiz saborear o seu triumpho, divertir-se com o temor e mesmo com a +colera da cantora.</p> + +<p>Portanto mostrou-se, apresentou-se.</p> + +<p>—Boa noite, minha querida Linda, disse elle levantando-se logo que +Laura entrou. Não te admires nem te assustes por me veres em tua casa a hora +tão adiantada da noite. As minhas intenções são tudo o que ha de mais +amigaveis, e estou certo que havemos de nos entender.</p> + +<p>Laura olhava-o petreficada, sentindo como que fugir-lhe a razão.</p> + +<p>O tenor proseguiu:</p> + +<p>—Se entrei aqui, empregando meios menos usados e algum tanto +violentos, a culpa foi tua. Estou, como muitos outros, loucamente apaixonado +por ti. Mas isso não é uma razão para me escarneceres, para me tornares +ridiculo para com os nossos collegas, e para mofares de mim com o visconde, teu +amante. Tens procedido commigo imprudentemente. Resolvi desforrar-me. Para o +conseguir conquistei um coração mais sensivel que o teu, o da Jacintha. Ella +introduziu-me na praça—e eis-me aqui!</p> + +<p>—Foi bem combinado o assalto, respondeu Laura fazendo um gesto de +resignação.</p> + +<p>Voltára-lhe a presença d'espirito.<span class="pn">{303}</span></p> + +<p>Como se conservasse no limiar da porta, passou resolutamente em frente do +tenor e entrou no quarto.</p> + +<p>—Estimo que acceites a situação com essa desenvoltura! disse Lauretto +sorrindo victoriosamente.</p> + +<p>Como ella não respondesse, o tenor continuou:</p> + +<p>—Para que me havias de receber com ares tragicos? Tens razão. Jámais +se devem desprezar estas palavras: amo-te!</p> + +<p>Laura encostára-se a uma secretária Riesener.</p> + +<p>O tenor estava na frente d'ella. Elle proseguiu:</p> + +<p>—Pois não é verdade que é absurdo fazer barulho por causa d'um +beijo?</p> + +<p>Caminhou para ella ao acabar de pronunciar aquellas palavras.</p> + +<p>Laura abriu rapidamente com a mão esquerda a gaveta da secretaria, pegando, +com a direita, n'um objecto que estava dentro.</p> + +<p>E repentinamente, como Lauretto se approximasse mais, visou-o com um +revolver que acabava de engatilhar.</p> + +<p>—Se dá um só passo mais, mato-o! gritou ella.</p> + +<p>Lauretto empallideceu horrivelmente.</p> + +<p>Mas replicou, tentando sorrir-se:</p> + +<p>—Suppunha-te mais sensata. A menos que não estejas brincando...</p> + +<p>—Prohibo-o de me tratar por tu, disse Laura ameaçando-o novamente com +o revolver.<span class="pn">{304}</span></p> + +<p>—Perdão, sr.ª viscondessa, respondeu o miseravel inclinando-se com +afectação, para dissimular o estremecimento que lhe percorreu todo o corpo. Não +considero de bom gosto ameaçar com um revolver um homem desarmado, +entretanto...</p> + +<p>E ia dar mais um passo.</p> + +<p>Laura, porém, fel-o parar, dizendo com energia:</p> + +<p>—Não se mecha, ou disparo! E previno-o de que não repetirei o aviso. +Acautelle-se! Tenho na mão uma arma admiravel, de precisão extraordinaria. +Comprei-a no Mexico, quando nos internamos na região dos <em>pampas</em>. Ao +dar um passo terá quatro balas no corpo.</p> + +<p>Ella fallava n'um tom firme e resoluto, tanto mais para admirar, quanto era +certo que omittia um pormenor importante.</p> + +<p>O revolver estava descarregado.</p> + +<p>Suppozera, e com razão, que um homem capaz de proceder como Lauretto Mina, +não podia deixar de ser cobarde.</p> + +<p>Ao ouvir Laura, o tenor teve uma idéa, que mais o assustou.</p> + +<p>Lembrou-se que o tiro podia partir, mesmo sem que a cantora puxasse pelo +gatilho.</p> + +<p>Entretanto, fazendo-se forte, disse:</p> + +<p>—Acautelle-se tambem, porque ao primeiro tiro precipitar-me-hei, e +então...<span class="pn">{305}</span></p> + +<p>—Socegue, interrompeu a Linda. Sei servir-me bem d'este revolver. +Tinha o direito, se quisesse, mesmo sem que o senhor chegasse a vias de facto, +de o matar como se mata um cão hydrophobo. Mas a vista do sangue horrorisa-me. +Conserve-se quieto, e nada terá a temer.</p> + +<p>Um pouco mais socegado, o tenor disse, ao cabo d'alguns minutos de silencio, +com riso forçado:</p> + +<p>—Nada d'isto tem senso commum! Ficaremos aqui toda a noite, a olhar um +para o outro, como dois cães de faiança?</p> + +<p>Laura não respondeu.</p> + +<p>Conservava-se immovel como uma estatua.</p> + +<p>—Permitte-me, ao menos, que me sente? perguntou elle.</p> + +<p>Ella replicou:</p> + +<p>—Pode sentar-se. Tem ahi proximo uma cadeira. Mas previno-o de que, +uma vez sentado, o prohibirei de se levantar.</p> + +<p>—Percebo, ficaria com uma vantagem a mais. Pois conservar-me-hei de +pé.</p> + +<p>—Faria melhor sahindo d'esta casa. Deve seguir o conselho, que é +bom.</p> + +<p>—Devéras?... disse Lauretto indiciso.</p> + +<p>Perguntou a si proprio se, realmente, o mais prudente não seria bater em +retirada.</p> + +<p>Aquelle revolver imprevisto mudára a situação.<span class="pn">{306}</span> +</p> + +<p>O negocio falhára, decididamente.</p> + +<p>Mas deveria fugir cobardemente d'uma mulher?</p> + +<p>No dia seguinte ella contaria a aventura ao amante, e talvez aos collegas, +que com razão o escarneceriam. Fugir, era, pois, impossivel.</p> + +<p>Era indispensavel sustentar a situação até ao fim, custasse o que custasse. +</p> + +<p>Depois d'alguns minutos de reflexão, Lauretto disse com voz um pouco mais +firme:</p> + +<p>—Não partirei. Tenho ainda pelo meu lado uma probabilidade.</p> + +<p>—Qual?</p> + +<p>—Ha vinte minutos que nos olhamos fixamente; eu, que não tenho uma +arma na mão, sinto-me já fatigado. Pesa-me a cabeça e cerram-se-me as +palpebras. O relogio marca quatro horas e trinta e cinco minutos. Só amanhecerá +d'aqui a hora e meia. Quando nos tivermos hypnotisado mutuamente, veremos se o +seu olhar não se turbará, se os seus joelhos não se dobrarão, se o braço não se +baixará por si proprio. Veremos se a gallinha não acabará fatalmente por ser +magnetisada, immobilisada... e tomada pela raposa!</p> + +<p>—Veremos! respondeu Laura apertando com mais força a coronha do +revolver. </p> + +<p>Desde esse momento guardaram ambos o mais absoluto silencio.<span +class="pn">{307}</span></p> + +<p>No quarto ouvia-se apenas o tic-tac monotono da pendula.</p> + +<p>O relogio deu os tres quartos para as cinco horas.</p> + +<p>Os minutos passavam com uma lentidão mortal.</p> + +<p>Laura sentia, com temor crescente, que o miseravel dissera a verdade.</p> + +<p>A tensão enorme em que desejava conservar o espirito fazia-lhe diminuir as +forças do corpo.</p> + +<p>Via como que sombras passarem-lhe pela frente; sentia nos ouvidos um ruido +extranho, as pernas dobravam-se-lhe, e a custo conservava o braço meio +estendido, empunhando o revolver.</p> + +<p>O que mais a angustiava era a arma estar descarregada.</p> + +<p>Se assim não fôra, mesmo dada a hypothese do desfallecimento, poderia +defender-se contra uma aggressão subita, ferindo ou pelo menos assustando o seu +inimigo.</p> + +<p>Emfim, haveria lucta, em que o maior numero de probabilidades estaria do seu +lado.</p> + +<p>Mas se, aproveitando um momento de torpor, Lauretto se precipitasse sobre +ella, e a agarrasse, a Linda nada mais tinha na mão do que um bocado d'aço e de +madeira, não poderia defender-se.</p> + +<p>E como que ouvia o grito de triumpho soltado por Lauretto, e o rir infame +d'aquelle miseravel.</p> + +<p>O relogio deu cinco horas.<span class="pn">{308}</span></p> + +<p>Laura sentiu necessidade de interromper aquelle silencio pesado e d'ouvir +uma voz humana, ainda que não fosse senão a propria.</p> + +<p>Disse portanto em voz alta:</p> + +<p>—Cinco horas!</p> + +<p>Lauretto replicou, e ella escutou-o quasi satisfeita:</p> + +<p>—Faço-lhe os meus cumprimentos. Possue energia rara em mulher. É +triste que não empregue essa energia ao serviço de melhor causa. Admittindo +mesmo,—o que é duvidoso,—que consiga sustentar até ao fim esse +magnanimo esforço para preservar a sua honra, nem por isso ficará menos +deshonrada. Quer saber como? </p> + +<p>Laura não respondeu.</p> + +<p>O tenor proseguiu:</p> + +<p>—O meu amor é muito sincero e ardente. Se não fosse para a possuir não +poria em pratica esta tentativa arrojada, ou criminosa, segundo o modo de ver +de cada um de nós. Mas o meu amor proprio está agora comprometido n'esta +empreza tambem. A sr.ª, ha muito tempo, tem-me despresado, motejado, +ridicularisado; eu, declarei, jurei publicamente, que mereceria todo o seu +desprezo se não conseguisse tel-a um dia nos meus braços. Por emquanto ainda +não perdi a esperança, e espero, até, conseguir em breve o fim desejado. Em +todo o caso, mesmo na peor das hypotheses, deve concordar que as apparencias +são<span class="pn">{309}</span> por mim. Por agora pouco importa que eu seja +ou não seu amante. O essencial é que, para os espectadores, o pareça. Ora +parecel-o-hei, evidentemente...</p> + +<p>Laura sorriu com desdem.</p> + +<p>Elle continuou:</p> + +<p>—Deixe-me acabar e ria depois. Medite,—porque ainda é +tempo,—e verá que o que mais lhe convém é baixar o revolver e entregar-se +á minha generosidade. Procederei como um perfeito cavalheiro, desde já o +declaro. Mas reservar-me-hei o direito de fallar, e previno-a de que fallarei. +Será essa a minha compensação e a minha desforra.</p> + +<p>O tenor fez uma pausa.</p> + +<p>A Linda deu aos hombros despresadoramente.</p> + +<p>—Imagina que não me acreditarão? Ouça: limitar-me-hei a affirmar que a +tive esta noite nos meus braços. Estamos sós: quem poderá contradizer-me? É de +suppor que o visconde de Bizeux me peça explicações; espero mesmo que isso +succeda. Recusar-me-hei a dar-lh'as. Elle esbofetear-me-ha e eu matal-o-hei, +porque desgraçadamente succede-me esse precalço sempre que me bato. Não será em +virtude d'esse duello em perspectiva e da morte do visconde que as minhas +palavras deixarão de ser acreditadas, ao contrario. Mas haverá mais do que as +minhas palavras, haverá provas e testemunhas. A prova eil-a: ao entrar vi sobre +aquella mesa o seu retrato em miniatura,<span class="pn">{310}</span> ao lado +do retrato do visconde. Dei-me pressa em guardal-o—para possuir uma +recordação sua. Eis o testemunho: pela manhã sahirei, não pela porta que deita +para a rua, mas pela que abre para o vestibulo. O porteiro, ao ver-me, +perguntar-me-ha sem duvida quem eu sou e d'onde venho a hora tão matinal, e eu +responder-lhe-hei que me chamo Lauretto Mina, que sou tenor da Opera, e que +saio de casa da sr.ª Laura Linda, amante do sr. visconde de Bizeux...</p> + +<p>—É engenhoso, mas um pouco cobarde! disse uma voz por detraz de +Lauretto. </p> + +<p>A cantora soltou um grito d'alegria.</p> + +<p>—Antonino! disse ella.</p> + +<p>O tenor voltou-se admirado, e viu na sua frente Antonino de Bizeux, de +braços cruzados sobre o peito, dominando-o, com a alta estatura do seu corpo +herculeo.</p> + +<p>Na sombra do corredor, Lauretto viu Jacintha, pela porta entreaberta. Lançou +em volta um olhar assustado, como que procurando por onde fugir.</p> + +<p>Antonino bateu-lhe pesadamente com a mão no hombro.</p> + +<p>Laura, deitando fóra o revolver inutil, correu para o marido.</p> + +<p>O visconde disse, dirigindo-se ao tenor:</p> + +<p>—É triste que eu venha desmanchar as suas combinações<span +class="pn">{311}</span> infames. Graças á coragem e á dedicação d'aquella pobre +rapariga que me foi chamar, eil-o preso no proprio laço que armou. Ao que +parece é forte em violentar e insultar mulheres, mas defronte d'um homem não +faz tão boa figura.</p> + +<p>Lauretto respirava a custo sob o peso da mão de Antonino.</p> + +<p>Apenas teve força para balbuciar:</p> + +<p>—Senhor... estarei ás suas ordens... quando quizer...</p> + +<p>—Na realidade? Consente em dar-me razão? Pois não sabe, miseravel, que +quando se apanha um patife da sua especie em flagrante delicto d'attentado +nocturno e de roubo... (com a mão que tinha livre procurou na algibeira de +Lauretto e tirou d'ella a miniatura de Laura, que lançou sobre a mesa) só ha a +escolher entre entregar o mariola á policia ou de lhe pegar pelas orelhas e +lançal-o pela porta fóra a ponta-pés? Não sabe? Pois fique sabendo que n'um +caso d'esta ordem o infame nunca offende. Teria graça considerar-me eu +offendido e bater-me com o gatuno que me roubasse a bolsa!</p> + +<p>—Ouça-me, senhor, replicou Lauretto tremendo-lhe a voz de medo, de +vergonha e de colera. Ouça-me: n'este momento estou á sua discrição, é verdade, +mas aconselho-o a que não abuse da sua vantagem.</p> + +<p>Deixe-me sahir d'aqui sem ruido nem escandalo. Asseguro-lhe<span +class="pn">{312}</span> que isso será mais conveniente não só para mim, como +tambem para o senhor e para esta senhora.</p> + +<p>—Concede-lhe o que elle pede, meu amigo, disse Laura intervindo. Que +parta, com a raiva de ver abortado o seu crime, e que não ouçamos mais fallar +d'elle. </p> + +<p>—Sim, sr. visconde, deixe-o partir! repetiu Jacintha do corredor, com +voz timida.</p> + +<p>—Pois quê! Este homem fez-te passar, Laura, por angustias mortaes, fez +soffrer a essa rapariga a mais horrivel tortura moral e physica, e ha de sahir +d'aqui socegadamente para acabar na cama a noite que tão mal começou? Ah! eu +considerar-me-ia tão cobarde como elle, se lhe concedesse a impunidade que +pedem. Dizes, Laura: que parta, e que não ouçamos mais fallar d'elle? Mas não +ouves as ameaças que o biltre acaba de pronunciar? Elle irá ámanhã dizer por +toda a parte que passou a noite aqui, que eu cheguei muito tarde! Sinto +ferver-me o sangue, pensando em tal. Se não estivesses presente, tosal-o-hia +por fórma que jámais se esqueceria d'esta noite!</p> + +<p>E ao mesmo tempo que fallava, sacudia violentamente Lauretto, que tremia. +</p> + +<p>—Não estarei eu em frente d'um homem bem educado?... atreveu-se elle a +dizer.</p> + +<p>—Está em frente d'um justiceiro!<span class="pn">{313}</span></p> + +<p>—Como?... O que vae fazer?...</p> + +<p>—O que o senhor proprio projectava.</p> + +<p>Antonino largou o hombro de tenor, e agarrou-o pelo casaco.</p> + +<p>—Vamos... venha!...</p> + +<p>—Não quero!... deixe-me!... murmurou Lauretto debatendo-se em vão. +Protesto contra as suas indignas violencias!</p> + +<p>O visconde apenas respondeu sorrindo desdenhosamente.</p> + +<p>—Não lhe faças mal! aconselhou Laura em voz baixa.</p> + +<p>Mas Antonino nada escutava.</p> + +<p>Estava possuido da mais profunda colera, colera fria, que é a mais terrivel. +</p> + +<p>Repetiu</p> + +<p>—Vamos!... venha!...</p> + +<p>E accrescentou, dirigindo-se á creada:</p> + +<p>—Jacintha, alumia-nos. Sahimos pela porta do vestibulo.</p> + +<p>Arrastou pelo corredor fóra o tenor, que empregava inoffensiva resistencia, +e chegou assim á porta que dava para o vestibulo do predio.</p> + +<p>Jacintha seguia-o, tendo um candieiro na mão tremula.</p> + +<p>Laura, anciosa, caminhava alguns passos mais atraz.<span +class="pn">{314}</span></p> + +<p>Desceram ao vestibulo.</p> + +<p>Em frente do cubiculo do porteiro, o visconde gritou com voz forte:</p> + +<p>—Sr. Durandeau! peço-lhe que se levante e abra-nos a porta.</p> + +<p>Segurava Lauretto apenas com uma das mãos.</p> + +<p>O tenor, de labios trementes, pronunciava ameaças e palavras indistinctas. +</p> + +<p>O porteiro appareceu pouco depois á porta do cubiculo, em mangas de camisa e +de chinellas.</p> + +<p>—O que suceedeu? perguntou elle vendo Lauretto. É um ladrão?</p> + +<p>—Peor do que isso, respondeu Antonino. Este biltre introduziu-se em +minha casa com intenção de violentar a creada de quarto!</p> + +<p>—Oh! que patife! disse o porteiro!</p> + +<p>Depois, reparando para o rosto apavorado de Lauretto, submettido ao pulso +nervoso d'Antonino, ajuntou:</p> + +<p>—Que cara de velhaco! Sabe quem elle é, sr. visconde?</p> + +<p>—Sei. Chama-se Lauretto Mina, e é cantor da Opera.</p> + +<p>O porteiro abriu a porta.</p> + +<p>Antonino, pegando no tenor pelas espaduas, arremeçou-o para a rua.</p> + +<p>Em seguida lançou para o passeio o chapéu e o sobretudo<span +class="pn">{315}</span> do tenor, objectos que Jacintha trouxera na mão, +cuidadosamente.</p> + +<p>A porta foi fechada quasi immediatamente depois.</p> + +<p>Lauretto, pallido pela colera, rangendo os dentes, voltou-se, e estendendo o +punho cerrado para a porta, murmurou enraivecido:</p> + +<p>—Chegar-me-ha a vez!</p> + +<p>E distanciou-se com passo rapido.</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00126">XXVI<br> +O desafio</a></h2> + +<p>Ao entrar no quarto de sua mulher, Antonino encontrou Jacintha ajoelhada aos +pés de Laura, dizendo-lhe arrependida:</p> + +<p>—Oh! minha senhora, perdôe-me!</p> + +<p>Levantou a creada e contou o que ella fizera, a sua presença d'espirito, a +sua coragem.</p> + +<p>—Sahiu, metteu-se n'uma carruagem que encontrou no <em>boulevard</em> +Malesherbes, e foi chamar-me a casa. Felizmente eu não me deitára ainda, e vim +immediatamente. Foi ella que causou todo o mal, mas devemos confessar que foi +ella tambem que tudo remediou.<span class="pn">{316}</span></p> + +<p>Laura socegou Jacintha, consolou-a.</p> + +<p>Pelas suas proprias mãos envolveu em algodão em rama os pulsos queimados da +creada de quarto, emquanto não podesse ser feito outro tratamento, acompanhou-a +ao quarto, deitou-a, e só a deixou quando a viu adormecida.</p> + +<p>Voltou para junto d'Antonino.</p> + +<p>Até então podéra conter-se, mas a reacção veiu, por fim.</p> + +<p>Cahiu sobre um <em>fauteuil</em> e chorou, murmurando:</p> + +<p>—Ah! que noite! que scena!...</p> + +<p>—Socega, minha querida Laura, disse-lhe Antonino pegando-lhe nas mãos. +Passaste uma hora terrivel, que felizmente não se repetirá. Acabou-se!</p> + +<p>—Acabou-se! repetiu Laura abanando a cabeça. Se tudo estivesse +terminado não me sentiria eu inquieta. Comprehendo que pelo espantoso perigo +que corri tu não podesses suffocar a tua indignação. Insultaste terrivelmente +esse miseravel. Conheço-o. Lauretto não possue apenas uma alma vil, possue +tambem uma alma má. Vingar-se-ha com certeza.</p> + +<p>—Pois suppões?... Estás enganada. Eu puni-o justamente para não ter +que o provocar. Verás que, elle tambem, não se atreverá a ser o provocador.</p> + +<p>—E se fôr?</p> + +<p>—Dão-se explicações d'um insulto e não d'um castigo. Recusarei +bater-me com esse homem.<span class="pn">{317}</span></p> + +<p>—Promettes, Antonino? juras? Necessito ter a certeza... A duvida +incommoda-me sobremaneira; Tinha razão teu pae na ultima carta que te escreveu, +e me mostraste. O muito que me amas fez com que quizesses agradar á minha +phantasia d'artista, collocando-me n'um meio romanesco e poetico, que tinha +muitos encantos, mas que não era isempto de perigos. Seriamos felizes se não +houvesse invejosos e maus. Estou convencida que foi a nossa situação equivoca +que causou todo o mal.</p> + +<p>Calou-se por instantes, como que absorvida por occulto pensamento.</p> + +<p>Depois proseguiu:</p> + +<p>—Lauretto ter-me-ia respeitado se estivesse certo de que eu era tua +mulher. Porque será que, amando-nos tanto, não podemos pôr d'accordo as nossas +existencias, como puzemos os nossos corações?</p> + +<p>Novas lagrimas rolaram-lhe pelas faces.</p> + +<p>Antonino seccou-as com beijos, esforçando-se por tranquillisar a esposa com +phrases ternas.</p> + +<p>—Escuta, disse ella, tenho o presentimento que atravessamos uma hora +terrivel, e quero fallar-te com toda a gravidade. Tenho a annunciar-te uma +resolução seria que tomei, e uma noticia agradavel a dar-te. A resolução é que, +decididamente, renuncio ao theatro. A noticia...—fallemos +baixo!—desejava esperar alguns dias para te fallar nisso... Mas +não...<span class="pn">{318}</span> não posso esperar... tenho a certeza!... A +noticia é que, o meu constante sonho de mezes e annos, vae realisar-se emfim! +Antonino, no meu ser havia duas partes distinctas: tinha, por meu pae, o +sentimento artistico, e por minha mãe o sentimento maternal. Até hoje pareci-me +com meu pae, d'hoje para o futuro parecer-me-hei com minha mãe!</p> + +<p>Antonino ajoelhou aos pés de sua mulher, envolvendo-a nos braços, louco +d'alegria.</p> + +<p>—Um filho!... O nosso filho!... murmurou elle.</p> + +<p>E cobriu-lhe de beijos as mãos.</p> + +<p>Ella retribuiu-lhe as caricias, e continuou:</p> + +<p>—És feliz, não é verdade? Pois bem: procede de fórma a dissipar a +nuvem sombria que, n'este momento, escurece a minha felicidade. Tens agora +novos deveres. A tua vida não te pertence unicamente, é tambem minha, é nossa. +Peço ao pae um juramento sagrado: peço-te, sob tua palavra d'honra, que em caso +algum, nem mesmo provocado por Lauretto Mina, exporás a tua vida contra a +d'esse miseravel.</p> + +<p>Antonino hesitou.</p> + +<p>—Sob minha palavra d'honra?... Nem mesmo provocado?... repetiu +elle.</p> + +<p>—Ah! hesitas!... disse Laura.</p> + +<p>Elle percebeu a profunda anciedade de Laura.</p> + +<p>Reflectiu n'um instante que uma mulher póde acreditar n'um compromisso +tomado por aquella fórma,<span class="pn">{319}</span> mas que em taes +circunstancias esse compromisso não obriga um homem.</p> + +<p>Portanto replicou:</p> + +<p>—Não hesito. Dou-te a palavra que me pedes.</p> + +<p>—Ah! obrigada!...</p> + +<p>Tomou-lhe a cabeça entre as mãos e beijou-o na fronte.</p> + +<p>Seguidamente começaram, cheios de confiança e de fé, a traçar o plano da sua +nova vida.</p> + +<p>Laura desejava deixar Paris immediatamente, mas concordou que a partida, +assim precipitada, semelhava a fuga.</p> + +<p>Demorarar-se-iam ainda quatro ou cinco dias, para regular os seus negocios. +</p> + +<p>Como estava escripturada por espectaculo, a Linda não tihha de pagar multa +na Opera.</p> + +<p>Partiriam, depois, para Italia, onde o conde de Bizeux se lhes juntaria.</p> + +<p>Em regra, passariam o inverno nos paizes do sul, Italia, Hespanha, Grecia, +Egypto, Algeria, e os estios em Saint-Pol-de-Léon.</p> + +<p>Conversaram até ás sete horas da manhã.</p> + +<p>A essa hora Antonino deixou Laura, para que ella dormisse um pouco.</p> + +<p>Ficou resolvido que elle não voltaria mais áquella casa. O visconde +procuraria Laura, de tarde, na rua Boudreau.<span class="pn">{320}</span></p> + +<p>Até ao dia da partida, jantariam e dormiriam ali, devendo Antonino voltar á +casa do <em>boulevard</em> Haussmann apenas para tratar de pormenores +materiaes.</p> + +<p>Laura adormeceu em breve, esperançosa e feliz.</p> + +<p>Antonino, chegado que foi aos seus aposentos de rapaz, estirou-se sobre um +canapé.</p> + +<p>Não podia conciliar o nome.</p> + +<p>Previa, preoccupado, o que se ia passar.</p> + +<p>Desejava lavar, com uma execução summaria, a offensa recebida, +principalmente para que o nome de sua mulher não fosse envolvido na questão. +</p> + +<p>Entretanto, percebia que se descobrira ante Lauretto Mina, e que entre elles +o insulto e o conflicto não podia deixar de terminar por duello.</p> + +<p>Ás onze horas o creado foi levar-lhe os cartões de Nobillet, o pianista, e +de Gressier, o baritono.</p> + +<p>Não poude deixar d'estremecer, dando ordem para que fosse introduzidas as +visitas.</p> + +<p>Laura tinha razão: a vida para elle duplicára de valor, desde a vespera.</p> + +<p>Lauretto Mina escolhera aquellas testemunhas, porque tanto Nobillet como +Gressier, tinham assistido á scena de Remissy no concerto de Saint-Malo, e +conheciam um pouco os incidentes e o visconde.</p> + +<p>Foi Nobillet quem fallou.</p> + +<p>—Vimos da parte, do sr. Lauretto Mina, sr. visconde, disse elle. O +nosso collega assegura que vossa<span class="pn">{321}</span> ex.ª o insultou +esta noite, gravemente. O nosso primeiro dever era procurar o sr. visconde para +vereficarmos se as suas explicações condizem com as do nosso constituinte. +Disse-nos o sr. Lauretto Mina que em tempo tivera relações com uma rapariga ao +serviço da sr.ª viscondessa de Bizeux; parece que essas relações foram agora +reatadas, e que elle passou a noite anterior no quarto d'essa rapariga. Por +acaso vossa ex.ª encontrou-o, e sem razão, sem provocação da parte d'elle, +agarrou-o pelo casaco como se fôra um gatuno vil, arrastou-o para o vestibulo, +indicando o nome d'elle, por entre injurias, ao porteiro do predio, e +arremessando-o depois para a rua, com violencia. São verdadeiras estas +declarações, sr. visconde?</p> + +<p>—Completamente...</p> + +<p>—Vossa ex.ª pode naturalmente interpretal-as e explical-as, e nós +estamos ás suas ordens para acceitar os esclarecimentos com que quizer +honrar-nos.</p> + +<p>—Nada tenho que explicar, replicou Antonino. Encontrei o sr. Lauretto +Mina sahindo do quarto da creada da minha mulher, na casa que ella habita. +Irritei-me e pul-o fóra.</p> + +<p>—Vossa ex.ª disse em voz alta que elle tinha violentado a rapariga. O +sr. Lauretto Mina affiança que não houve a menor violencia.</p> + +<p>—Ignorava e ignoro esse facto.</p> + +<p>Nobillet proseguiu:<span class="pn">{322}</span></p> + +<p>—Ser encontrado no quarto d'uma mulher, ainda que ella seja creada, +não é deshonra para um homem. Para que vossa ex.ª se irritasse até á indignação +e á violencia, por um facto que realmente não tem gravidade, de certo houve +razões estranhas a esse mesmo facto. Somos homens honrados fallando com um +homem honrado, sr. visconde; esperamos, pois, que nos julgue capazes d'apreciar +e comprehender essas razões.</p> + +<p>Nobillet e Gressier adivinhavam que havia um mysterio em todo aquelle +negocio.</p> + +<p>Nem um nem outro tinha grande consideração pelo caracter de Lauretto Mina, +de quem conheciam os terriveis antecedentes de duellista.</p> + +<p>Comtudo não tinham podido recusar-se a servir-lhe de intermediarios na +conclusão do conflicto.</p> + +<p>Entretanto esperavam que o visconde lhes fornecesse uma razão ou ao menos um +pretexto para declinar a sua penosa missão.</p> + +<p>Desejavam pois que Antonino pronunciasse uma só palavra n'esse sentido.</p> + +<p>O visconde, porém, limitou-se a responder:</p> + +<p>—Agradeço-lhes os termos delicados com que expozeram a questão. Sinto +a mais alta consideração por vossas ex.<sup>as</sup>, mas não só posso dar do +meu procedimento outras razões além das que já conhecem, porque não +existem.<span class="pn">{323}</span></p> + +<p>As duas testemunhas olharam-se consternadas.</p> + +<p>Depois Gressier disse:</p> + +<p>—Observar-lhe-hei, sr. visconde, que se o sr. Lauretto Mina o não +offendeu tambem, é elle que deve considerar-se offendido, tendo, portanto, o +direito de exigir ou desculpas ou uma reparação pelas armas.</p> + +<p>—Não estou disposto a pedir desculpas, disse Antonino com voz firme. +De resto supponho que não seriam acceites.</p> + +<p>—É claro que, reconhecendo-lhe a qualidade d'offendido, deixa-lhe a +escolha das armas... disse Gressier.</p> + +<p>—E sei antecipadamente que elle escolherá o sabre, respondeu Antonino, +sorrindo.</p> + +<p>E levantando-se, accrescentou:</p> + +<p>—Mais uma vez lhes agradeço, meus senhores, a sua delicada +intervenção, e a fórma correctissima do seu procedimento. Terei a honra de os +pôr em relações com dois dos meus amigos, os srs. conde de Bauriac e barão de +Chazeuil. Procural-o-hão esta tarde em sua casa, sr. Nobillet.</p> + +<p>Os tres cumprimentaram-se com silencio.</p> + +<p>O visconde acompanhou-os até á escada.</p> + +<p>Cumprimentaram-se novamente, e as duas testemunhas desceram, mais inquietas +que o proprio visconde.<span class="pn">{324}</span></p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00127">XXVII<br> +Preliminares</a></h2> + +<p>Antonino, voltando para o interior da casa, disse apenas de si para comsigo: +</p> + +<p>—Era fatal este resultado!</p> + +<p>E principiou immediatamente, com a mais perfeita tranquillidade, a tomar as +suas disposições.</p> + +<p>Em primeiro logar expediu um telegramma a seu pae, dizendo-lhe que tinha, no +dia seguinte, um duello grave, e pedindo-lhe para tomar o expresso da noite, +que o devia trazer á capital pelas oito da manhã.</p> + +<p>A essa mesma hora deixaria sua mulher na casa da rua Boudreau, e +encontrar-se-ia com o conde, nos seus aposentos do <em>boulevard</em> Hausmann +ás nove horas.</p> + +<p>Desejava que, em caso de fatalidade, o conde estivesse junto de Laura.</p> + +<p>Em seguida foi para casa do conde de Bauriac, d'onde mandou chamar o barão +de Chazeuil, que morava proximo, na rua dos Campos Elyseus.</p> + +<p>Os tres conferenciaram em seguida sobre o duello em perspectiva.<span +class="pn">{325}</span></p> + +<p>O conde de Bauriac, entendedor na materia, disse, movendo a cabeça com ar +preoccupado:</p> + +<p>—Um duello com Lauretto Mina tem um caracter extremamente excepcional. +Esse homem, em dois duellos que teve, matou um dos adversarios, e feriu +gravemente o outro, que só escapou por milagre. Jámais foi possivel explicar e +justificar os botes que lhe valeram esta dupla e sangrenta victoria. Em virtude +da rapidez do ataque, ninguem viu como os botes tinham sido vibrados. Conheço a +sua força ao sabre, meu caro visconde, e vel-o-ia, sem inquietação, bater-se +com os melhores esgrimistas. Mas considerando a fórma... italiana de Lauretto, +todas as cautellas são poucas. A nossa responsabilidade, como testemunhas +d'este duello é duplamente seria. Não se trata de regular o negocio, ou de +apresentar desculpas; mas, emfim, deve haver, e ha com certeza, no conflicto +apparente, razões occultas, que eu não lhe perguntarei. Nós sabemos, Chazeuil e +eu, que o meu amigo é corajoso como poucos. Encarregue-nos de dizer ás +testemunhas de Lauretto Mina que se recusa a dar-lhe explicações, e nós +acceitaremos a missão satisfeitissimos, não é verdade, barão?</p> + +<p>Chazeuil respondeu com um gesto affirmativo.</p> + +<p>—Agradeço-lhes a confiança que em mim depositam, replicou Antonino, +mas não posso nem devo acceitar o seu offerecimento. Insultei esse homem, +sabendo<span class="pn">{326}</span> bem quem elle era, e conhecendo o risco +que corria. Se eu recusasse a bater-me hoje, elle ámanhã offender-me-hia por +fórma que fosse então inevitavel o duello. Minha mulher não desconfia agora que +eu fui desafiado, e podia ser informada do novo conflicto que se daria de +futuro. Peço-lhes, pois, que me deixem terminar este negocio sem perda de +tempo.</p> + +<p>—Estamos á sua disposição, disse o conde de Bauriac. Tem algumas +instrucções a dar-nos?</p> + +<p>—Não. Desejo apenas que o duello se realise, sem falta, ámanhã ás onze +horas. Meu pae só chega ás oito, e eu tenho que fallar-lhe.</p> + +<p>Ficou combinado que os dois iriam buscar Antonino, á casa do +<em>boulevard</em> Hausmann, pelas dez horas da manhã.</p> + +<p>Pouco depois d'Antonino sahir, entraram as testemunhas de Lauretto Mina.</p> + +<p>Estavam ainda mais perplexos do que de manhã.</p> + +<p>Gressier, sobretudo, não podia occultar a inquietação de que estava +possuido.</p> + +<p>Quando o conde de Bauriac lhe disse que era inevitavel o duello, o baritono +fez um gesto de profundo desgosto.</p> + +<p>É que Lauretto rira diabolicamente quando elles lhe tinham dito que o +visconde acceitava o desafio.</p> + +<p>Gressier lembrou-lhe o que o tenor d'uma vez dissera no <em>foyer</em> dos +artistas:<span class="pn">{327}</span></p> + +<p>—N'um duello eu não arranho nem firo, mato. E ajuntou:</p> + +<p>—Aquella sua phrase de certo foi simples modo de fallar, meu caro. Sem +duvida não teremos que temer ámanhã um resultado tão tragico.</p> + +<p>—Está enganado! replicou Lauretto, com sorriso feroz. Hei de matar o +visconde! Hei de matal-o!</p> + +<p>Gressier estremecera violentamente, por tal fórma Lauretto pronunciára as +ultimas palavras.</p> + +<p>Quando entrou em casa do conde de Bauriac, o baritono estava ainda sob o +peso d'aquella desagradavel impressão.</p> + +<p>O barão de Chazeuil reparou para o gesto de Gresnier, e disse:</p> + +<p>—Não me parece que seja caso para temores. O sr. Lauretto Mina é um +adversario para respeitar... como esgrimista, bem entendido, mas o sr. visconde +de Bizeux saberá defender-se, com certeza.</p> + +<p>Os infelizes artistas temiam as responsabilidades que pesam sobre as +testemunhas de duellos que occasionam a morte, e desejavam encontrar um meio +que os levasse a não continuar com as negociações.</p> + +<p>Quando se tratou de resolver que sabres serviriam o conde de Bauriac disse, +segundo o costume, que a sorte decediria.</p> + +<p>Nós acceitamos sem o mais leve inconveniente os sabres do sr. visconde de +Bizeux, disse Nobillet.<span class="pn">{328}</span></p> + +<p>—O sr. Lauretto Mina não ratificaria a sua concessão, observou o +conde.</p> + +<p>—N'esse caso retirar-nos-iamos, replicou Gressier apressadamente.</p> + +<p>O conde viu-se obrigado a conter aquelle ardor... d'abstenção, affirmando +que não poderiam ser censurados por tomar a sorte como arbitro.</p> + +<p>Foi resolvido que o duello se efectuaria no bosque de Bolonha.</p> + +<p>O barão de Chazeuil indicou uma clareira, sobre o mappa.</p> + +<p>Encontrar-se-iam n'aquelle sitio pelas onze horas do dia seguinte.</p> + +<p>Gressier e Nobillet retiraram-se, porque nada mais tinha que ser combinado. +</p> + +<p>Durante esse tempo Antonino fôra a casa do dr. Despujolles, que deu um salto +ao saber que o visconde se batia com Lauretto.</p> + +<p>Depois, readquirindo a presença d'espirito, disse:</p> + +<p>—Lá estarei com os meus instrumentos, mas, não sei porque, estou +convencido que elles não servirão ao meu amigo. Já o vi de sabre em punho; ia +affiançar em como dará uma lição ao ajudante do professor d'esgrima. O que é +necessario é que não se distraia.</p> + +<p>Antonino quiz que o doutor o acompanhasse a jantar em casa de Linda.<span +class="pn">{329}</span></p> + +<p>Despujolles, porém, pretextando affazeres, mas na realidade por temer não +estar sempre de bom humor, desculpou-se de não acceitar o convite.</p> + +<p>O visconde, que não desejava estar só com sua mulher, ao sahir de casa de +Despujolles procurou e convidou dois amigos para jantar.</p> + +<p>Chegando a casa, disse a Laura:</p> + +<p>—Encontrei Heitor e Linage; jantarão comnosco.</p> + +<p>—Desejava antes jantar só comtigo.</p> + +<p>E depois, olhando fixamente para o marido, perguntou:</p> + +<p>—Nada de novo sobre Lauretto Mina?</p> + +<p>—Nada. O biltre nem bulio, respondeu Antonino.</p> + +<p>O jantar correu alegremente.</p> + +<p>A fatalidade, porém, quiz que, pelas dez horas da noite, quando o visconde +acompanhava os dois amigos até á porta, Jacintha lhe entregasse um telegramma. +</p> + +<p>Antonino voltou para junto da esposa.</p> + +<p>Ella viu o carimbo de Saint-Malo, e estremeceu.</p> + +<p>—É um telegramma de teu pae? perguntou.</p> + +<p>—Ah! sim, é verdade. Escrevi-lhe sobre a nossa proxima mudança de +vida. Elle ficou satisfeitissimo e participa-me que vem ver-nos. Chega ámanhã, +talvez...</p> + +<p>—Deixa ver... disse Laura estendendo a mão para o telegramma.<span +class="pn">{330}</span></p> + +<p>—Curiosa!... respondeu elle, rindo.</p> + +<p>Fez uma bola com o papel, e lançou-o ao fogão.</p> + +<p>Laura pensou immediatamente:</p> + +<p>—Bate-se ámanhã com Lauretto Mina.</p> + +<p>Mas ao mesmo tempo reflectiu que coisa alguma impediria, que os seus pedidos +e as suas lagrimas podiam dessocegar Antonino, e resolveu calar-se.</p> + +<p>—Em que pensas? perguntou-lhe elle.</p> + +<p>—Penso que teu pae será um magnifico avô.</p> + +<p>E não fallaram mais senão no pae e no filho.</p> + +<p>No dia seguinte o visconde levantou-se cedo.</p> + +<p>Ás oito horas estava prompto para sahir.</p> + +<p>Laura deu-lhe um beijo tranquillo, e limitou-se a recommendar-lhe:</p> + +<p>—Volta depressa, pensa em mim e n'elle!...</p> + +<p>O visconde calculou:</p> + +<p>—Não desconfia de nada!</p> + +<p>E Laura dizia para comsigo:</p> + +<p>—Não suppõe que eu adivinhei tudo!</p> + +<p> </p> + +<h2><a name="SECTION00128">XXVIII<br> +O duello</a></h2> + +<p>A entrevista entre o pae e o filho foi grave e terna.</p> + +<p>Antonino não dissimulou o perigo que corria, batendo-se<span +class="pn">{331}</span> com um adversario tão habil como pouco escrupuloso.</p> + +<p>O conde disse-lhe com toda a energia viril:</p> + +<p>—Como conheces o perigo e conservas, apesar da imminencia d'elle, toda +a tua presença de espirito, tens por ti o maior numero de probabilidades.</p> + +<p>Antonino não necessitava recommendar Laura a seu pae.</p> + +<p>Participou-lhe apenas a feliz nova da gravidez da sua mulher.</p> + +<p>O conde abraçou o filho, dizendo:</p> + +<p>—Mais uma probabilidade a teu favor.</p> + +<p>O visconde entregou-lhe uma carta volumosa, especie de testamento de +coração, que dirigia a sua mulher.</p> + +<p>O primeiro a chegar, um pouco antes das dez horas, foi Despujolles.</p> + +<p>O dr. não podia occultar a sua inquietação.</p> + +<p>Pouco depois chegaram as duas testemunhas e o seu aspecto socegado reanimou +um pouco Despujolles.</p> + +<p>Antonino subiu para uma carruagem com seu pae.</p> + +<p>As testemunhas e o medico subiram para outra.</p> + +<p>O conde desejava assistir ao duello, ainda que conservando-se completamente +estranho a elle.</p> + +<p>O dia estava ennevoado, e, para a estação, um pouco frio.<span +class="pn">{332}</span></p> + +<p>Ligeira neblina envolvia as arvores. No espaço passava como que uma nuvem de +melancholia.</p> + +<p>As duas carruagens chegaram á clareira destinada ao duello um pouco antes +das onze horas.</p> + +<p>As testemunhas e o adversario d'Antonino não tinham chegado ainda. O conde +não se apeiou.</p> + +<p>Apertou com força a mão do filho, quando Antonino desceu, e não pronunciou +uma só palavra.</p> + +<p>Pouco depois, porém, quando o conde de Bauriac foi buscar os sabres, o +velho, que tremia, não conseguiu entregar as armas á testemunha de seu filho, +tanta era a sua commoção.</p> + +<p>A carruagem conduzindo Lauretto Mina, as testemunhas e o medico do theatro +não se fez esperar.</p> + +<p>As quatro testemunhas approximaram-se com os chapeus nas mãos.</p> + +<p>Os dois adversarios olharam-se sem se cumprimentar.</p> + +<p>No rosto de Lauretto percebia-se uma alegria arrogante.</p> + +<p>O d'Antonino conservava-se impassivel e digno.</p> + +<p>Nobillet e Gressier, noviços e quasi incorrectos em assumptos d'aquella +natureza, deixaram que Bauriac e Chazeuil fizessem o que entendessem.</p> + +<p>A escolha das armas foi tirada á sorte, conforme tinham convencionado.<span +class="pn">{333}</span></p> + +<p>A sorte designou os sabres de Lauretto Mina.</p> + +<p>Depois de procederem á medição das laminas, o conde de Bauriac disse para os +dois adversarios:</p> + +<p>—Podem conservar as luvas de passeio, se quizerem.</p> + +<p>Mas tanto Antonino como Lauretto tinham já descalçado as luvas.</p> + +<p>Despiram os sobretudos e os casacos.</p> + +<p>As quatro testemunhas tomaram os respectivos logares.</p> + +<p>—Vamos, meus senhores, disse Bauriac.</p> + +<p>Os dois adversarios cumprimentaram-se com os sabres, e cahiram em guarda. +</p> + +<p>Nos primeiros minutos como que se tactearam indecisos.</p> + +<p>Depois deram a conhecer o jogo.</p> + +<p>Antonino, solido e como que de bronze, conservava-se evidentemente n'uma +calculada defensiva.</p> + +<p>Prudente e desconfiado, seguia e vigiava o jogo de Lauretto, contentando-se +com <em>parar</em>, rapido, mas tranquillo e frio, os botes do adversario.</p> + +<p>O brilho do seu olhar implacavel causava perturbações ao tenor.</p> + +<p>Lauretto, ao contrario do visconde, esgremia com extraordinaria presteza. +</p> + +<p>Parecia desconcertar-se, e até por vezes se descobria.<span +class="pn">{334}</span></p> + +<p>Simulava ataques imprudentes, mas coisa alguma fazia com que o visconde +mudasse de tactica.</p> + +<p>O tenor, pouco depois, estava visivelmente cançado.</p> + +<p>Gotas de suor perlavam-lhe a fronte larga, onde os cabellos, d'um loiro +pallido, ondeavam.</p> + +<p>O assalto durava já por vinte minutos, quando Bauriac disse:</p> + +<p>—Podem descançar, meus senhores.</p> + +<p>Lauretto vestiu o sobretudo.</p> + +<p>O visconde conservou-se em mangas de camisa, com os braços cruzados sobre o +peito.</p> + +<p>Ao cabo de sete ou oito minutos, o barão de Chazeuil, olhando para Lauretto, +disse-lhe:</p> + +<p>—Quando quizer.</p> + +<p>Ao segundo assalto, o tenor continuou não tendo vantagens sobre o visconde. +</p> + +<p>Perguntava a si proprio se o plano d'Antonino não seria esgotar-lhe as +forças, sem duvida menos resistentes do que as do athletico bretão. Mas se +assim fosse o duello devia prolongar-se por muito tempo sem resultado +definitivo, porque os momentos do descanço que as testemunhas concederiam aos +combatentes bastavam para Lauretto se refazer.</p> + +<p>Depois de muitos minutos passados, foi ainda Bauriac quem disse:</p> + +<p>—Podem descançar.<span class="pn">{335}</span></p> + +<p>O segundo descanço foi apenas de cinco minutos.</p> + +<p>Lauretto tinha quasi a certeza que Antonino atacaria n'aquelle terceiro +assalto, para pôr fim ao duello.</p> + +<p>Portanto começou a esgrimir com toda a presteza, como fizera ao principio. +</p> + +<p>Dirigiu um bote ao visconde, mas Antonino <em>parou-o</em> e +<em>ripostou</em> com energia.</p> + +<p>Depois conservaram-se por alguns segundos immoveis, espiando-se, tacteando +os ferros, com sensivel crescimento d'irritação mutua.</p> + +<p>Repentinamente Antonino fez um movimento e cahiu a fundo, com a rapidez do +raio.</p> + +<p>Lauretto <em>parou em prima</em> e <em>ripostou</em>.</p> + +<p>Foi tão rapido o jogo do tenor que o visconde não teve tempo de +<em>parar</em> e foi <em>tocado</em>..</p> + +<p>Ao mesmo tempo, porém, com um bote fortissimo, Antonino attingiu Lauretto, +trespassando-o.</p> + +<p>O visconde cahiu desmaiado, e o tenor cahiu morto.</p> + +<p>Despujolles precipitou-se para Antonino, e descobriu-lhe o ferimento.</p> + +<p>—Justamente a duas polegadas da cicatriz feita por Pozzoli! disse o +dr.</p> + +<p>O conde de Bizeux correu, afflicto, mas Despujolles gritou-lhe:</p> + +<p>—Socegue! d'esta vez o ferimento não é grave! D'aqui a oito dias está +curado!<span class="pn">{336}</span></p> + +<p>Durante esse tempo o medico do theatro constatava a morte de Lauretto Mina, +que Nobillet e Gressier, aterrados, transportaram para a carruagem que os +conduzira.</p> + +<p>Duas horas depois a carruagem d'Antonino parava á porta da casa da rua de +Boudreau.</p> + +<p>Despujolles foi o primeiro a descer, para prevenir Laura. Logo que abriram a +porta, ella correu para o medico.</p> + +<p>Felizmente, porém, o aspecto de Despujolles indicava uma alegria +extraordinaria.</p> + +<p>—Ah! Antonino está vivo, não é verdade? perguntou-lhe Laura.</p> + +<p>—O que!... Pois sabia?</p> + +<p>—Adivinhei... Mas diga-me, elle está ferido?...</p> + +<p>—Está, ligeiramente. Se assim não fosse eu não estaria alegre. Já vae +ver. </p> + +<p>Alguns instantes depois, Laura, ajoelhada junto do leito em que fôra deitado +Antonino, que tinha entre as suas as mãos de seu pae, dizia-lhe:</p> + +<p>—Meu querido Antonino!... é a terceira vez que expões a tua vida por +minha causa!</p> + +<p>—E agora abandonarás tudo por mim?</p> + +<p>—Ah! sim! E não terás completamente apenas a esposa, terás tambem a +mãe!</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">FIM<span class="pn">{337}</span></p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's O Romance d'uma cantora, by Alfredo Sirven + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE D'UMA CANTORA *** + +***** This file should be named 32380-h.htm or 32380-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/3/8/32380/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/32380-h/images/capa.png b/32380-h/images/capa.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..b122433 --- /dev/null +++ b/32380-h/images/capa.png diff --git a/32380-h/images/logo.png b/32380-h/images/logo.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..cd37f33 --- /dev/null +++ b/32380-h/images/logo.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..dfe4aa8 --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #32380 (https://www.gutenberg.org/ebooks/32380) |
