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+The Project Gutenberg EBook of O Romance d'uma cantora, by Alfredo Sirven
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: O Romance d'uma cantora
+
+Author: Alfredo Sirven
+
+Translator: Salvador de Medonça
+
+Release Date: May 15, 2010 [EBook #32380]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE D'UMA CANTORA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+ Nova Bibliotheca Economica
+ Leitura para todos
+
+ Travessa da Queimada, N.º 35
+ LISBOA
+
+
+ Alfredo Sirven
+
+ O ROMANCE
+
+ D'UMA
+
+ CANTORA
+
+ TRAD. DE S. DE MENDONÇA
+
+ PORTUGAL 100 réis
+ BRAZIL 600 réis
+
+
+
+
+CORREIO DA EUROPA
+
+O jornal mais antigo que de Portugal se destina ao Brazil
+
+Completamente imparcial, sem se envolver na politica brazileira; com
+largas secções do movimento official portuguez, dos acontecimentos do
+estrangeiro e da vida nacional em todas as provincias, acompanhando com
+a gravura todo esse noticiario.
+
+Vai (em 1897) no seu 18.º anno.
+
+Nunca alterou os seus preços, não obstante a situação cambial.
+
+ASSIGNATURAS
+
+_NO BRAZIL:_
+
+Anno, 5$000 réis fracos; Semestre, 3$000 réis
+
+Numero avulso, 200 réis
+
+_EM PORTUGAL:_
+
+Anno........... 2$000 réis
+
+ANNUNCIOS
+
+Cada linha, na respectiva secção, 40 réis fortes. Na 1.ª pagina, 200 réis.
+
+Artigos e communicados contractam-se:
+
+EM LISBOA--Travessa da Queimada, 135.
+
+NO RIO DE JANEIRO--No escriptorio, Rua Sete de Setembro, n.º 89--1.º andar.
+
+
+
+
+O ROMANCE D'UMA CANTORA
+
+
+
+
+Nova Bibliotheca Economica
+
+LEITURA PARA TODOS
+
+O MAIOR SUCCESSO DE EDITORAÇÃO EM PORTUGAL!!!
+
+100 réis cada volume de 300 paginas, em media
+
+DOIS VOLUMES POR MEZ
+
+Nas provincias, 120 réis por volume, franco de porte.
+
+Aos revendedores, 20 por cento de commissão
+
+ROMANCES PUBLICADOS
+
+1--Luiz Noir--A Estalagem Maldita, trad. de C. Dantas.
+
+2--Eugenio Chavette--Os companheiros do crime, trad. de A. Sarmento.
+
+3--Visconde Henri de Bornier--Romance d'um auctor dramatico, trad. de
+Portugal da Silva.
+
+4--Mauricio Drack--A Mestra, trad. de N. de Bulhão Pato.
+
+5--Edgar Montell--João das Galés--traducção de C. Dantas.
+
+6--Eugenio Chavette--Lili, Tútú e Babette--trad. de A. Sarmento.
+
+7--Arsenio Houssaye--Joanna d'Armaillac, trad. de H. de Oliveira.
+
+8--Paulo Féval--A rainha dos estudantes, trad. de S. de Mendonça.
+
+9--Mayne-Reid--Os rebeldes, trad. do inglez, por M. Leal.
+
+10--Victor Perceval--Uma mulher perigosa, trad. de S. de Mendonça.
+
+11--Mauricio Talmeyer--Um drama nas minas, trad. de A. Sarmento
+
+12--Heitor Malot--Lua de mel, trad. de Antonio Bandeira.
+
+13--Alfredo Sirven--O romance d'uma cantora, trad. de Segurado de Mendonça.
+
+A SEGUIR:
+
+14--F. Champsaur--Uma excentrica, trad. de Ruy da Cunha.
+
+ESCRIPTORIO: TRAVESSA DA QUEIMADA, 35
+
+LISBOA
+
+
+
+
+ALFREDO SIRVEN
+
+O ROMANCE
+
+D'UMA
+
+CANTORA
+
+TRAD. DE S. DE MENDONÇA
+
+LISBOA
+
+1895
+
+
+
+
+TYPOGRAPHIA DO «DIARIO ILLUSTRADO»
+35--Travessa da Queimada--35
+LISBOA
+
+
+
+
+O ROMANCE D'UMA CANTORA
+
+
+
+
+I
+
+A catastrophe
+
+
+--Apaixonado por uma cantora... por uma mulher do theatro... eu?!... Ora
+adeus!... não pode ser!... Hei de ver isso!
+
+Assim monologava o visconde Antonino de Bizeux, acabando de vestir-se.
+
+E sorria desdenhosamente, tomando um aspecto arrogante, como se quizesse
+illudir-se sobre o estado do seu coração, persuadindo-se estar curado da
+paixão que sentira, nos ultimos tempos, despertar em si.
+
+--Hei de ver isso... hei de ver isso!... repetia, procurando qualquer
+coisa pelo quarto, destrahidamente, porque nada lhe faltava, a não ser
+que chegasse a hora d'ir para a Opera.
+
+Os labios diziam: _hei de ver_, mas o coração tinha visto já.
+
+Amava Linda, a _estrella_ do dia, a diva que, do ceu da Opera,
+scintillava sobre Paris fascinado.
+
+O visconde obtivera-se d'assistir ás ultimas quinze representações,
+fugindo assim á fascinação que a grande artista exercia sobre elle.
+
+Tratava, pelo afastamento, o começo da paixão, que o assustava.
+
+Durante esse tempo violentára-se, domára o coração com a grande força de
+vontade que possuia, e julgava-se curado, por isso.
+
+O theatro da rua Le Peletier annunciára, para aquella noite, um
+magnifico espectaculo, em beneficio das victimas d'um sinistro recente.
+
+Cantavam-se os _Huguenottes_, desempenhando Laura Linda, pela primeira
+vez, a parte de Valentina.
+
+Toda a primeira sociedade parisiense devia assistir á representação,
+porque no camaroteiro não restava um só bilhete.
+
+Antonino ia tornar a ver Linda triumphante, acclamada.
+
+Se procurava uma occasião para experimentar-se, não podia encontral-a
+melhor.
+
+--Irei aos _Huguenottes_! resolvera elle, depois de curta discussão
+comsigo mesmo. Sem duvida ficarei certo de que estou completamente
+curado, mas se, por acaso, ao ver Linda sentir a mesma impressão,
+simultaneamente dolorosa e suave, de que necessito defender-me, juro que
+ámanhã de manhã partirei para Saint-Malo, e que só no começo do inverno
+voltarei a Paris.
+
+E foi para a Opera, onde o esperava a sua cadeira d'assignatura,
+abandonada por mais de quinze dias.
+
+Trocou apertos de mão e palavras de cumprimento com alguns conhecidos
+que encontrou, e dois ou tres amigos disseram-lhe familiarmente:
+
+--Adeus, formoso bretão!
+
+Antonino era, efectivamente, um bello rapaz.
+
+A sua estatura d'athleta, admiravelmente proporcionada, conservava a
+mais completa linha d'elegancia.
+
+Louro, olhos d'um verde escuro, que semelhavam ser castanhos, era o
+verdadeiro modelo do celta moderno: alliava a força á distincção.
+
+O espectaculo teve o brilhantismo ordinario das solemnidades da Opera.
+
+Todos se recordam ainda d'aquella noite, que se tornou celebre por uma
+d'essas catastrophes que gravam uma data com traços indeleveis, mesmo na
+memoria d'esse grande esquecido que se chama Paris.
+
+Quando Linda entrou em scena, Antonino estremeceu.
+
+Não se fita impunemente uma pessoa, que se julga inimiga, depois de se
+ter deixado de a ver por alguns dias.
+
+Ella cantou, e o visconde sentiu-se arrebatado julgando, comtudo, que
+fôra apenas a artista que o emocionára.
+
+Applaudiu-a delirantemente, como de resto todos os espectadores, porque
+Laura, afinal,--tinha de confessal-o,--possuia raro talento.
+
+Durante a representação declarou a si proprio que não vira Linda, apenas
+admirára Valentina.
+
+O tempo que o espectaculo durou passou-se para elle como se fosse presa
+de inconsciente embriaguez.
+
+Por fim a grande ovação rebentou, imponente, com a furia da emoção que
+trasborda.
+
+Linda foi completamente coberta de flores, e chamada repetidas vezes,
+apparecendo sempre sorridente, formosissima.
+
+Antonino sentiu um mal estar indefinido, e uma alegria doida.
+
+E conservava-se sentado na sua cadeira, n'uma immobilidade involuntaria,
+incapaz de levantar-se, de seguir a multidão que sahia.
+
+Passado algum tempo olhou em volta; a sala estava deserta.
+
+Dos corredores chegava um ruido confuso, produzido pelos ultimos
+espectadores, que sahiam.
+
+Que fazia elle alli, diante do panno cahido; sob o lustre meio apagado?
+
+Um porteiro foi convidal-o a retirar-se.
+
+Como não recebesse resposta e julgasse o visconde a dormir, saccudi-o.
+
+Antonino estremeceu novamente, e no primeiro momento sentiu desejos de
+desancar o porteiro.
+
+Depois, pensando melhor, levantou-se e dirigiu-se para a porta da sahida.
+
+Antes de transpôr o limiar, olhou uma ultima vez para o lado do palco, e
+retrocedeu, entrando novamente na platéa.
+
+Parecera-lhe ter visto um tenue fio de fumo sahir do soalho.
+
+Approximou-se, arrastando o porteiro, a quem disse, sobresaltado:
+
+--Olhe!... alli!...
+
+--Que desgraça!... Fujamos!...
+
+Não havia que duvidar.
+
+O fio de fumo engrossava progressivamente.
+
+Antonino correu para o corredor, dando o grito de alarme.
+
+Duas ou tres costureiras do theatro, que sahiam, suppuzeram-o doido, mas
+atraz do visconde corria o porteiro, gritando:
+
+--Fogo!... Fogo:!...
+
+As costureiras, repetindo aquelle grito, correram para fóra do theatro.
+
+Ao perceber que havia fogo no palco o visconde lembrou-se de Linda,
+immediatamente.
+
+A cantora devia estar ainda no seu camarim. Seria prevenida a tempo de
+se poder salvar?
+
+As portas que communicavam com o palco, estavam fechadas.
+
+O visconde bateu a uma, infrutiferamente, meio desvairado, e respirando
+já a muito custo por entre o espesso fumo, que augmentava, enchendo os
+corredores.
+
+Lembrou-se então da porta d'entrada para os artistas, que abria para a
+rua Drouot, na outra extremidade do edificio.
+
+Sahiu do theatro e deu volta, empurrando, na passagem, os bombeiros que
+chegavam.
+
+Chegado á porta, subiu, a dois e dois, os degraus da escada que conduzia
+aos camarins dos artistas.
+
+O fumo era ainda mais espesso d'aquelle lado.
+
+Um bico de gaz, conservado acceso por acaso, rompia a custo, com
+claridade amarellada, a densidade baça d'aquella especie de felpa
+cinzenta, que enchia os corredores, pouco a pouco.
+
+Sombras corriam para todos os lados, espavoridas, sem responder ás
+perguntas afflictas de Antonino, sem as ouvir.
+
+Como nunca entrara no palco da Opera, o visconde não sabia onde ficavam
+os camarins.
+
+Bateu á primeira porta que encontrou, forçou-a violentamente, sem dar
+tempo a que lhe respondessem, e entrou.
+
+Uma mulher atravessava n'esse momento o corredor, gritando com desespero:
+
+--Soccorro!... soccorro!... A senhora está incommodada!
+
+--Quem?... Linda?... perguntou anciosamente Antonino.
+
+--Sim!... O medico... onde está o medico?
+
+--O camarim?... Diga-me onde é o camarim!
+
+Mas a mulher não ouviu a pergunta; desapparecera por entre o fumo, cada
+vez mais espesso.
+
+Repentinamente apagou-se o unico bico de gaz, que ainda ardia.
+
+O visconde ficou mergulhado n'uma escuridão pesada, completa, em que se
+desenvolvia um calor violento.
+
+Caminhou ás apalpadellas, batendo com as mãos nas paredes e chamando com
+voz forte:
+
+--Linda!... Linda!... Onde está?
+
+Mas ninguem lhe respondia.
+
+Continuou a caminhar, gritando sempre, cada vez com mais força, e
+arrombando, enraivecido, todas as portas que encontrava.
+
+Repentinamente, pareceu-lhe ouvir um gemido fraco.
+
+Procurou nas algibeiras uma caixa de phosphoros, e, encontrando-a,
+accendeu um.
+
+A alguns passos de distancia viu uma porta aberta.
+
+Entrou por ella precipitadamente.
+
+Era o camarim de Linda. A cantora estava caida por terra, pallida, meio
+desmaiada.
+
+O phosphoro que Antonino tinha na mão, apagou-se.
+
+Com um outro, tentou accender o gaz, não conseguindo, felizmente o seu
+designio.
+
+--Onde estou eu? perguntou Laura de repente.
+
+--Venha, venha! respondeu o visconde com voz imperiosa.
+
+Guiado pela voz de Linda, approximou-se d'ella, tentando tomal-a nos
+braços para a conduzir.
+
+--Deixe-me, senhor, eu posso caminhar... Basta que me dê a mão.
+
+Pela porta aberta entrou no camarim uma claridade sinistra.
+
+Fumo azulado sahia por entre as fendas do soalho e subia até ao tecto,
+onde se immobilisava em camadas cinzentas.
+
+Antonino e Laura sahiram do camarim e embrenharam-se nos corredores,
+onde dançavam já as chammas do incendio.
+
+Apesar da natural turbação que o sinistro lhe causava, Antonino
+experimentava deliciosa sensação por ter na sua a mão de Laura.
+
+Subitamente uma lingua de fogo subiu verticalmente pela escada que dava
+sahida para a rua Drouot, lambendo, com poderosa tranquillidade, o tecto
+que lhe ficava superior. O calor abrazava.
+
+--É muito tarde para sahirmos por aqui, disse Antonino sem perder a
+presença de espirito. Necessitamos passar á platéa, atravessando o palco.
+
+--Vamos por aqui, respondeu Laura. Desceremos a escada que conduz á scena.
+
+O visconde seguiu a cantora.
+
+Dirigiram-se para a escada de serviço.
+
+Por entre a claridade avermelhada, viram os bombeiros correndo em todas
+as direcções, d'archotes em punho, dando indicações uns aos outros, em
+voz breve.
+
+Fumo espesso, vindo de baixo, attingia toda a altura das abobadas, pela
+potencia do jacto, dilatando-se em silencio, como sopros quentes
+vomitados por boccas invisiveis.
+
+Do palco partia um ruido continuo de fornalha bem alimentada, que solta
+crepitamentos seccos.
+
+O incendio, que fomentava havia duas horas, invadiu, repentina e
+invencivelmente, a nave immensa da platéa.
+
+A chamara que sahiu pelo buraco do ponto inflammou o panno de bocca, que
+pouco depois misturava as suas cinzas ao fumo.
+
+O fogo chegou ás torrinhas, lambendo, na sua passagem, as decorações do
+salão, cujo hemicyclo dentro em pouco foi tomado.
+
+--Saiam todos! gritou um chefe de bombeiros aos seus homens; saiam
+todos! Nada temos que fazer aqui... O incendio é mais forte que nós!
+
+O soalho do palco queimava os pés dos que sobre elle caminhavam.
+
+--Venha depressa, minha senhora! supplicou Antonino. Necessitamos saltar
+para o espaço destinado á orchestra, e d'aqui a dois minutos será tarde.
+
+--Ainda cá está alguem? perguntou o chefe dos bombeiros, que ficara para
+traz.
+
+--Aqui, estão aqui duas pessoas, respondeu o visconde. Ajude-me a salvar
+uma mulher.
+
+O bombeiro saltou da platéa para o palco e disse a Antonino:
+
+--Eleve-se a pulso até esse camarote de bocca; logo que lá esteja, eu
+levantarei esta senhora, por fórma que possa agarral-a.
+
+O visconde seguiu o conselho, e depois, encostando o peito na borda
+do camarote, estendeu os braços para Laura, que, elevada pelo bombeiro,
+poude agarrar-se ao seu salvador.
+
+Logo que os viu no camarote, o bombeiro disse-lhes:
+
+--Agora fujam depressa, porque...
+
+O desgraçado não acabou.
+
+O soalho, completamente carbonisado, cedeu ao peso do corpo do homem,
+que repentinamente se sentiu envolvido pelas chammas.
+
+--Soccorro!... gritou elle. Quem me acode!...
+
+Como as taboas não tinham quebrado completamente, conseguiu depois de
+muitos esforços, retirar o corpo d'aquella solução de continuidade em
+que cahira, e muito queimado, approximou-se do camarote onde ainda
+estavam Laura e o visconde, a quem estendeu os braços, implorando salvação.
+
+Mas a chamma seguiu-o, incendiando-lhe o fato.
+
+Antonino inclinou-se novamente para o palco, estendendo-lhe as mãos.
+
+--Ajude-me!... não me abandone!... dizia o infeliz.
+
+E deligenciava chegar até á mão do visconde, que por fim logrou agarrar.
+
+De repente, a taboa em que se firmava, quebrou e á perda inesperada
+d'aquelle appoio fez com que Antonino perdesse o equilibrio.
+
+Laura percebeu o perigo; lançou os braços, tornados fortes pela
+imminencia do perigo, em volta do tronco do visconde, puchando por elle
+com força.
+
+Apesar das queimaduras o fazerem soffrer bastante, Bizeux esforçou-se
+por puchar para o camarote o infeliz bombeiro, que soltava gritos roucos.
+
+Subitamente o homem fez um movimento brusco, e o visconde sentiu
+escorregar-lhe da mão o pulso do desditoso, que cahiu no meio d'aquella
+fornalha monstro.
+
+O desgraçado soltou ainda estas palavras: Meus queridos filhos!
+
+E mais nada!
+
+Tomado d'espantoso horror, Antonino voltou-se para Laura.
+
+A cantora perdera os sentidos.
+
+O visconde estava meio asphixiado.
+
+Parecia-lhe que respirava fogo.
+
+Nas pupillas dilatadas e quasi sem vista, sentia milhares de picadas
+d'agulhas.
+
+Envolveu a bocca de Laura com uma mantilha, e elle proprio tomou entre
+os dentes o lenço d'assoar, cerrando os labios como que para preservar
+do oxido de carbone, desenvolvido pelo incendio, os seus robustos pulmões.
+
+Em seguida, chamando a si toda a sua energia, levantou nos braços a
+cantora, como se ella fosse uma creança, e sahiu do camarote,
+percorrendo o corredor.
+
+Aquella parte do theatro era-lhe conhecida.
+
+O incendio desenvolvia-se no salão, com toda a intensidade.
+
+O lustre abateu, produzindo ruido enorme.
+
+A grande escadaria estava ainda praticavel.
+
+O visconde desceu por ella apressadamente, com as sobrancelhas e os
+cabellos queimados.
+
+Um minuto depois chegava á rua, acclamado pela multidão enthusiasmada.
+
+N'esse instante abateu o tecto do salão.
+
+Pelo espaço espalhou-se infinita quantidade de faulhas.
+
+O incendio pavoroso, sacudindo o seu pennacho de fumo ardente,
+polvorisado de faiscas, alumiou sinistramente a cidade.
+
+A claridade da lua extinguiu-se ante a intensa vermelhidão das chammas.
+
+Ao longe, sobre os telhados, o ondeado das labaredas, que se
+distanciavam em espiraes phantasticas, fazia dançar as chaminés uma
+dança macabra, no espaço afogueado.
+
+
+
+
+II
+
+Antonino de Bizeux
+
+
+Antonino de Bizeux residia em Paris havia apenas dezoito mezes.
+
+Até então vivera sempre na Bretanha, com seu pae, no seu palacio de
+Saint-Malo, ou, na epoca da caça, no castello que possuia proximo de
+Rascoff.
+
+O visconde viajára muito.
+
+Conhecia toda a Europa e as costas mediterraneas da Asia e da Africa.
+
+Entrára na vida parisiense conservando todas as suas illusões, mas
+possuido do ardente desejo de se humanisar, como elle dizia, de se
+tornar distincto na distincta sociedade, de que passava a fazer parte.
+
+Caracter firme, sincero, honrado--honrado até á ingenuidade--os seus
+pensamentos eram purissimos, e na physionomia transparecia-lhe sempre o
+que pensava.
+
+Na sociedade que frequentava, o visconde produzira primeiro o effeito
+d'um phenomeno, prestando-se ao desfructe, sem dar por isso.
+
+Depois, pouco a pouco, fôra-se limpando da sua simplicidade primitiva e
+tomando pé na encapellada torrente parisiense.
+
+Comtudo conservava o fundo de lhaneza natural, que lhe dava um certo
+cunho d'originalidade, e lhe valia um verdadeiro successo junto das
+mulheres, as eternas curiosas.
+
+Tinha poucos ou nenhuns amigos.
+
+O seu nome e a sua fortuna, porém, fizeram com que adquirisse innumeros
+conhecimentos na alta roda, onde zombavam, apesar de o estimarem, d'esse
+retardado da civilisação, a quem chamavam _formoso bretão_ e _selvagem_.
+
+Selvagem era elle seguramente, não porque lhe repugnasse o prazer, mas
+porque, entregando-se aos gosos que constituem meros passatempos,
+conservava puro o coração.
+
+Sobre o ponto _mulheres_, absolutamente sem importancia para homens que
+frequentavam a sociedade em que elle vivia, o visconde pensava e
+procedia contrariamente aos seus companheiros, porque elles tinham
+os seus amores, e Antonino só poderia ter um amor.
+
+Em poucos mezes saboreára todos os prazeres possiveis sem se embriagar;
+estivera exposto a todas as seducções sem ser seduzido.
+
+Não pertencia ao numero infinito de inactivos, que, segundo a phrase do
+seu compatriota Chateaubriand, atravessam a vida bocejando, e no seu
+dolente aborrecimento só teem uma ambição e um sonho: divertirem-se.
+
+O visconde possuia solida instrucção, fallava duas ou tres linguas; era
+um litterato e um _dilettante_.
+
+Amava a arte sob todas as suas variadas fórmas, mas sobretudo era
+apaixonado pela musica.
+
+Por essa razão tornou-se dentro em pouco um dos mais assiduos _habitués_
+da Opera.
+
+A sua cadeira raras vezes ficava vazia.
+
+N'essa epoca, como já dissemos, brilhava na Opera Laura Linda, estrella
+de primeira grandeza que eclipsava todas as outras.
+
+Antonino era ardente admirador da diva.
+
+Adorava-lhe a voz e a expressão maravilhosa do canto.
+
+Mas, coisa extraordinaria, passára muito tempo sem reparar que Laura era
+formosissima.
+
+Poderia passar dias inteiros a admirar a grande artista
+interpretando as obras dos mestres, que, se a encontrasse na rua, não
+voltaria a cabeça para a seguir com o olhar um minuto mais do que a
+qualquer outra mulher.
+
+De resto, a sua admiração pela cantora jámais se manifestára de fórma a
+dar nas vistas.
+
+Nem um _bouquet_ offerecido, nem o menor transporte de enthusiasmo.
+
+Limitava-se a applaudil-a, semelhando ser egoista do seu enlevo.
+
+Os conhecidos commentavam a seu modo a assiduidade do visconde nas
+representações em que Laura tomava parte, e o recolhimento quasi
+extatico d'elle a partir do momento em que a cantora entrava em scena.
+
+Todos consideravam Antonino apaixonado pela diva.
+
+A primeira vez que uns amigos, por brincadeira, lhe disseram que o
+julgavam louco por Laura, elle admirou-se, mas nem tentou defender-se,
+convencido de que os seus interlocutores não comprehendiam a que
+sentimento obedecia.
+
+Limitou-se a concordar, sorrindo, que as apparencias justificavam as
+suspeitas.
+
+Mas a brincadeira produziu no visconde o effeito d'uma revelação.
+
+A datar d'esse dia consultou o coração, espiando todos os variados
+sentimentos que experimentava, perguntando a si proprio se os amigos não
+tinham, antes d'elle e sem que de tal desconfiasse, dado o nome exacto á
+attracção que Laura Linda exercia sobre elle.
+
+A diva, pelo seu lado, reparára n'aquelle espectador que todas as
+noites, da sua cadeira, a seguia com olhar ardente.
+
+De resto, tinham-lhe apontado o visconde como uma das suas victimas.
+
+Deixára que lhe contassem tudo que constava do caracter do seu adorador,
+da reputação de selvageria de que elle gosava, mas não admittira que
+Antonino estivesse apaixonado por ella.
+
+Fosse intenção ou simples desejo de ser admirada por aquella fórma,
+Laura quasi adivinhava o que o visconde sentia, e agradecia-lhe
+intimamente a reserva em que elle se conservava, reserva que
+desagradaria a qualquer outra.
+
+Uma noite,--é possivel que acabasse d'ouvir fallar d'elle,--como tinha
+d'entrar em scena lentamente e em silencio, Laura fixou o visconde por
+muito tempo.
+
+Áquelle olhar, todos os admiradores da diva se sentiram supplantados
+pelo formoso bretão.
+
+O visconde, porém, longe de ficar satisfeito, parecia contrariado.
+
+É provavel que a cantora percebesse isso, porque muitas vezes durante a
+noite olhou para o visconde, constatando sempre que o seu olhar, apesar
+d'inoffensivo, produzia n'elle a mesma impressão desagradavel.
+
+Até d'uma occasião o visconde levantou os hombros n'um movimento rapido,
+como irritado por ella se esquecer por momentos do papel que
+desempenhava.
+
+Ao voltar ao seu camarim, Laura riu quando uma amiga lhe fallou
+d'Antonino.
+
+--Apaixonado, aquelle?... Está enganada, disse ella. Será, quando muito,
+um amador, e com certeza um homem extraordinario. Ha bocado olhei
+algumas vezes para elle, que quasi protestou por eu me desviar do meu
+papel!
+
+N'essa noite Antonino sahiu do theatro descontente comsigo e com a diva.
+
+Parecera-lhe que ella se mostrara inferior ao talento que possuia, e
+zangou-se comsigo proprio: por julgar ter sido a causa das distracções
+em que a cantora incorrera.
+
+Entrevira pela primeira vez a mulher através da artista.
+
+Entrou em casa mal humorado, e por muitas horas a imagem de Laura passou
+ante o seu olhar sonhador, brilhante como em scena e fixando-o sempre.
+
+E os olhos fecharam-se-lhe, ao adormecer, suppondo estar ainda admirando
+a diva.
+
+Pela manhã assaltou-o uma preoccupação.
+
+Porque olhara Laura para elle?
+
+Porque infringira a arte, porque commettera uma falta, a Linda, a
+impeccavel?
+
+Á medida que reflectia, o ser palpavel, a belleza material, a mulher,
+absorvia-lhe imaginação.
+
+Quando deu por isso encolerisou-se, e, só no seu quarto, disse alto,
+despeitado, quasi furioso:
+
+--Não quero!
+
+No dia seguinte foi para Opera como de costume, mas inquieto, perplexo,
+e pensando não voltar lá se, á entrada de Laura, sentisse a mais ligeira
+commoção.
+
+A diva entrou, saudada pelos applausos dos seus adoradores.
+
+Depois do primeiro acto Antonino sorriu dos seus terrores.
+
+Por mais que se interrogasse durante todo o tempo que o acto durára, só
+encontrara em si o simples melómano.
+
+Comtudo a sua tranquilidade não era obsoluta.
+
+Apesar de tudo tremia a cada instante que ella o fixasse.
+
+A Linda não tivera a mais ligeira distracção, conservara-se sempre a
+artista superior que nem um segundo se esquece da personagem que
+desempenha, e nem de passagem o seu olhar encontrara o do visconde.
+
+Esta ultima circumstancia não passou despercebida a Antonino, e muitas
+vezes lhe occorreu, primeiro sem o impressionar, e depois produzindo-lhe
+uma sensação desagradavel, que não estava longe do despeito. A diva
+n'essa noite foi surprehendente.
+
+Quando, no fim do ultimo acto, o applauso irrompeu, unanime, só Antonino
+não deu o seu contingente de palmas ou flores.
+
+Assistiu á ovação contrariado, franzindo as sobrancelhas descontente,
+como se soffresse com aquelle ligitimo triumpho da cantora.
+
+Entre outros ramos, cahiu aos pés da diva um, de lilazes brancos,
+lançado ao proscenio por um espectador que estava proximo d'Antonino.
+
+Porque apanhou Laura aquelle ramo, primeiro que qualquer outro?
+
+E porque, ao apanhal-o, olhou e sorriu para o espectador que lh'o
+offerecera?
+
+Qualquer explicaria o caso, dizendo comsigo que o lilaz seria a flor
+preferida pela diva.
+
+O visconde, porem, é que não considerou explicavel o facto, e
+levantou-se da sua cadeira, bruscamente, sahindo apressado para os
+corredores e seguindo para casa sem demora.
+
+N'aquella noite teve febre.
+
+No dia seguinte, ao ouvir um amigo fallar de Linda, declarou que ella
+declinava, que dera já o que tinha a dar, e que não tardaria em chegar a
+estado de só poder ser contratada para theatros d'operetta.
+
+Por si, resolvera passar as noites na Comedia Franceza, porque, afinal,
+a musica, era uma arte secundaria.
+
+Com effeito o visconde não appareceu na Opera durante duas semanas.
+
+Amava Laura.
+
+Como nunca amára, não comprehendia a razão do seu mal estar.
+
+Amava-a; os proprios esforços que fazia para estrangular a voz do
+coração eram d'isso prova irrefutavel.
+
+Amava-a, e sentia-se ingenuo, pateta, simples.
+
+Pois não praticára a tolice de estremecer de raiva por um estranho
+lançar á diva um ramo de que ella gostara?
+
+Amava-a... mas, em summa, tinha ainda força de vontade.
+
+Saberia asphixiar o mal que apenas despontava!
+
+Estava resolvido: não iria mais á Opera, não tornaria a ver a Linda,
+porque, custasse o que custasse, tinha de vencer aquella paixão estupida!
+
+Quinze dias depois de proceder pela fórma que a si mesmo impozera,
+convenceu-se de que podia voltar á Opera sem perigo.
+
+Tinha a convicção de que se vencera; nada o impedia de voltar a assistir
+ao seu divertimento predilecto.
+
+De resto, desejava colher a prova evidente da cura.
+
+Nem um só doente ha que, depois de estar por muito tempo preso no
+quarto, não se sinta impaciente d'affrontar o ar livre, d'experimentar
+as suas forças.
+
+Foi n'essas disposição confiantes que o visconde assistiu ao espectaculo
+da Opera, depois do qual se deu o fatal sinistro que narrámos no
+capitulo anterior.
+
+
+
+
+III
+
+Laura Linda
+
+
+Na lucta contra o amor nascente, que se travava no coração d'Antonino, o
+maior perigo, mas ao mesmo tempo o maior attractivo, era, mais do que o
+talento de Laura e até mais do que a peregrina belleza da cantora, o que
+o visconde sabia, porque todos o diziam, da vida e do passado da diva.
+
+Tinha então vinte e seis annos e havia sete que cantava em theatros.
+
+No apogeu da gloria, envolta n'uma atmosphera d'adorações e de
+sollicitações de toda a natureza, a Linda regeitara vinte propostas de
+casamento, e ninguem jamais lhe conhecera amante.
+
+A historia simples da sua vida explicava esse caso pouco vulgar.
+
+Laura era hespanhola.
+
+Seu pae, o celebre violinista José Marcia, descendia d'uma familia
+illustre porque era o ultimo representante dos condes de Marcia.
+
+Nunca usara o titulo, do qual raramente fallava e sempre com uma especie
+de despreso.
+
+Para elle só existia a arte, e considerava um grande artista superior a
+um rei.
+
+De resto, era á arte que tudo devia, porque a antiga casa dos Marcias,
+era, desde muito tempo, uma casa arruinada.
+
+O pae de José Marcia colhera os ultimos restos da fortuna patrimonial,
+mas a grande paixão que tivera pela musica tudo lhe levára.
+
+O conde de Marcia suppunha-se um verdadeiro genio para a composição. O
+pouco dinheiro que possuia gastava-o na publicação das suas obras.
+
+Vendeu a ultima quinta para fazer representar com luzimento, na Opera de
+Madrid, uma partitura de que era auctor, e com a qual contava assegurar
+a sua reputação e refazer a sua fortuna.
+
+A opera, porém, cahiu desastradamente na primeira noite em que subiu á
+scena.
+
+Por felicidade seu filho José, a quem elle communicára o amor pela
+musica, tinha n'essa epocha vinte e cinco annos e gosava já de grande e
+merecida reputação de violinista.
+
+Foi o filho que velou pela sustentação do pae.
+
+O velho melomano apenas tinha uma idéa fixa: desforrar-se.
+
+Compoz ainda duas ou tres operas; e a muito custo conseguiu o filho que
+elle as guardasse n'uma gaveta, para que a apresentação d'ellas ao
+publico não lhes levasse mais algum dinheiro.
+
+Comtudo José Marcia fingia admirar as composições paternas, por fórma
+que o pobre velho morreu cheio d'illusões, legando-lhe confiadamente a
+realisação da sua gloria posthuma.
+
+Não foi, porém, o pae, mas o filho quem conquistou a gloria dia a dia, a
+que poderia ter junto a riqueza, se não houvesse uma coisa que elle
+despresasse mais do que a nobreza: o dinheiro.
+
+Ganhou quantias importantissimas, mas como de ordinario as suas despezas
+egualavam as receitas, quando não as ultrapassavam, é claro que jamais
+poderia juntar um pequeno capital.
+
+E comtudo não esbanjava o dinheiro; apenas, como elle dizia rindo, não
+sabia tratar dos seus negocios.
+
+Dava concertos em extremo lucrativos, mas deixava que o emprezario
+embolsasse a maior parte dos ganhos.
+
+Era auctor d'um methodo celebre e gosava d'incontestada e incontestavel
+reputação como professor, mas os seus discipulos predilectos não era os
+que pagavam melhor, eram os que possuiam mais habilidade, e que
+d'ordinario não lhe pagavam.
+
+Vem a proposito, contar uma historia de que riu toda a gente em Madrid.
+
+Um banqueiro riquissimo incumbiu José Marcia de leccionar
+particularmente um filho, retribuindo-o principescamente.
+
+Por infelicidade não só o rapaz não tinha tendencia para a musica, como
+tambem era um preguiçoso de primeira ordem, que só pegava no violino
+durante o tempo das lições.
+
+Ao cabo d'um mez, José Marcia, impacientado, participou ao pae do seu
+discipulo que as suas occupações não lhe promettiam continuar com a
+leccionação. O banqueiro, ao receber este aviso, limitou-se a duplicar a
+remuneração das lições.
+
+Marcia, tentado pelo lucro, continuou.
+
+Mas a tentação durou apenas uma semana.
+
+Finda ella, o distincto violinista escreveu o seguinte ao banqueiro:
+
+«Termino de vez com as lições, porque seu filho é extraordinariamente
+estupido.»
+
+Vivia ainda o pae quando Marcia casou com a que devia ser mãe de Laura.
+
+Era filha d'um relojoeiro que vivia no mesmo predio.
+
+Á falta de dote possuia rara belleza.
+
+Elle estava longe de ser bello, e fortuna não a tinha tambem, mas, como
+o rouxinol na primavera, conquistou o amor da que devia ser sua mulher
+com o canto surprehendente do seu violino.
+
+A joven passava horas a escutal-o, embevecida.
+
+O artista pediu em casamento aquella sua sincera admiradora, que foi
+esposa dedicada, e a melhor e a mais terna das mães.
+
+Laura foi creada pela mãe na adoração do pae, e pelo pae na adoração da
+arte.
+
+Possuindo raros dotes vocaes, o pae fez d'ella uma artista completa.
+
+Quiz tambem ensinar-lhe a tocar violino, mas ella tinha um outro
+instrumento melhor: a voz.
+
+A mãe jamais consentiu que Laura entrasse para o theatro.
+
+A sua prudencia inquieta, que o marido alcunhava de burguezismo,
+considerava o palco como um logar de perdição.
+
+Parecia-lhe que a filha, a quem transmittira toda a sua bellesa,
+renunciaria, apparecendo no proscenio, a tudo o que havia de honesto e
+feliz na vida d'ella: o amor ao lar domestico, o amor d'esposa e o amor
+de mãe.
+
+Mas antes de Laura completar desoito annos, falleceu a mãe extremosa,
+acontecimento que por muito tempo acabrunhou o violinista e a filha.
+
+Alguns mezes depois da morte da mãe, Laura foi convidada a cantar n'um
+concerto de beneficencia.
+
+Obteve um verdadeiro successo.
+
+Mas os applausos de que foi alvo, não lhe causaram tanto enthusiasmo
+como ao pae.
+
+José Marcia procurou e encontrou occasião de renovar o triumpho obtido
+por Laura.
+
+A fina intuição de que era dotado deixava-lhe antever que a filha e
+discipula seria uma artista de primeira ordem.
+
+Aos desanove annos, Laura debutou na Opera de Madrid.
+
+A sua voz, porém, não attingira ainda o completo desenvolvimento.
+
+O pae assim o comprehendeu, e durante dois annos não consentiu que a
+filha cantasse, senão raras vezes.
+
+Findos esses dois annos Laura partiu para a Italia, acompanhada do seu
+natural emprezario.
+
+Conservou-se tres annos no Scala, de Milão, onde, sob a direcção de
+Pozzoli, aperfeiçoou o methodo de canto, adquirindo, sobre o seu nome de
+theatro, a Linda, uma enorme reputação, que augmentava todos os dias.
+
+Do Scala foi contractada para a Opera de Paris, porque Laura fallava
+e cantava, com a mesma pureza d'accentuação e a mesma nitidez
+d'articulação, o hespanhol, o italiano e o francez.
+
+Havia já dois annos que ella estava em Paris, e o seu talento e a sua
+formosura tinham encantado por completo os frequentadores da Opera.
+
+O pae, que a acompanhára á capital da França, morreu tres mezes depois
+de chegarem.
+
+Felizmente deixava a filha no apogeu da gloria.
+
+E só gloria, porque dinheiro não tinha Laura quando o pae falleceu, nem
+elle lh'o deixou.
+
+José Marcia legara á filha o perfeito abandono pelas coisas praticas que
+durante a vida sempre tivera.
+
+Por mais vantajosos que fossem os contractos que assignava, Laura apenas
+conseguia não ter dividas.
+
+E não era ella quem gastava as suas receitas, mas consentia que os
+creados gastassem como lhes aprouvesse.
+
+--Sei contar o meu tempo, dizia a Linda rindo, mas nunca saberei contar
+o meu dinheiro!
+
+Comtudo, se no seu orçamento não havia ordem, a sua vida era ordenadissima.
+
+A recordação da mãe adorada estava sempre presente a Laura, e
+guardava-a, como se fosse a propria mãe em pessoa.
+
+Resolvera seguir á justa uma vida irreprehensivel, e cumpriu o
+compromisso tomado.
+
+De resto, Laura possuia a verdadeira honestidade, a que é indulgente
+mesmo com as fraquezas que repudia.
+
+Era jovial com os seus companheiros de theatro, mas sabia fazer-se
+respeitar.
+
+Fôra cortejada por muitos homens; soubera, porém, com rara habilidade,
+repellir suavemente tanto os que lhe fallavam de casamento, como os que
+só lhe fallavam d'amor.
+
+Jamais dissera que não se casaria, mas a primeira condição que estava
+resolvida a impor ao noivo, se um dia o tivesse, era conservar-se no
+theatro, o que fazia diminuir as probabilidades d'encontrar marido rico.
+
+Pozzoli, o director do Scala de Milão, que na epoca em que se passa esta
+historia dirigia a Opera Italiana em Paris, pedira a mão de Laura ao pae
+da cantora.
+
+Mas, além de ter uma reputação equivoca, Pozzoli contava evidentemente,
+casando com a Linda, possuir sem concorrencia e sem despendio, uma
+_primadona_ de primeira ordem.
+
+Dizia-se até que seguia esse systema de ha muito, amancebando-se com
+varias das suas contractadas.
+
+Casando com Laura, Pozzoli faria diminuir as difficuldades com que
+luctava como emprezario.
+
+Em Milão, um compositor de talento apaixonou-se doidamente pela
+diva, e, ainda que fosse pobre, não era de certo o interesse que o movia
+a dar-lhe o seu nome e a sua vida.
+
+Laura, porém, não sentia a mais insignificante parcella d'amor pelo que
+tanto a adorava, e como elle comprehendesse essa triste verdade, sahiu
+de Milão para Florença.
+
+O numero dos que apenas procuravam o amor de Laura era superior aos que
+desejavam casar com ella.
+
+Mas perdiam o tempo e o trabalho.
+
+Um d'elles, o tenor ligeiro Lauretto Mina, era um bello homem, muito
+infactuado, mas a quem poucas mulheres resistiam.
+
+Fôra ajudante d'um professor d'esgrima.
+
+Estava escripturado por Pozzoli na Opera Italiana.
+
+Possuia voz extensa e bem timbrada, mas não sabia servir-se d'ella, e
+era sufficientemente preguiçoso para poder modificar-se, estudando.
+
+Entretanto considerava-se o primeiro tenor do mundo, e dizia-o
+imperturbavelmente.
+
+Desde a primeira vez que viu a Linda, declarou-se apaixonado por ella.
+
+Mas Linda, com a natural finura de mulher, percebeu dentro em pouco que
+especie d'homem era Lauretto e passou a tratal-o, contrariamente á
+forma pela qual procedia com todos os outros collegas, com uma
+frieza que bem se podia alcunhar de desdem.
+
+Este procedimento de Linda fez com que Lauretto, vaidoso em extremo, se
+possuisse d'occulta irritação, que mesclava d'odio o amor, ou antes o
+desejo, que sentia pela cantora.
+
+Entretanto teve a força de vontade sufficiente para não manifestar o seu
+descontentamento, declarando até aos amigos, com ironico despreso, que
+se inclinava ante a virtude de Laura, a quem elle chamava _Casta diva_.
+
+--Sou tão preguiçoso! dizia o tenor no _foyer_ dos artistas. Não tenho
+paciencia para sustentar um prolongado cerco a uma mulher tão bem
+defendida. Cedo o logar a qualquer outro assaltante de mais solida
+perseverança. Renuncio a ser o primeiro, mas juro por Venus e pelo Amor,
+que serei o segundo.
+
+Um outro apaixonado, mais amoldavel, foi Remissy, violinista hungaro, um
+original, segundo uns, e um doido segundo outros, mas um grande, um
+verdadeiro artista.
+
+Remissy foi a Milão para ouvir José Marcia, de quem elle admirava o
+talento, apesar de deferir muito do que possuia o violinista hungaro.
+
+Viu Laura, e, como era facilmente impressionavel, inflammou-se
+d'enthusiasmo pelo talento e pela belleza da cantora, simultaneamente.
+
+A Linda, porém, tratou-o com meiguice e alegria, a que não era estranho
+um certo desdem, e todo o fogo de Remissy extinguiu-se subitamente.
+
+--Tem cem vezes razão! dizia-lhe elle. Não pode tomar a serio um maluco
+como eu. Além d'isso, eu não estou perfeitamente certo de que não me
+enganasse, e não adore apenas a sua voz, o que é muito possivel. Andaria
+duzentas leguas para a ouvir! A sua voz transporta-me ao setimo ceu!
+Convencionemos o seguinte: não serei seu amigo, serei seu idolatra. E
+desde já te peço licença para te tratar por tu, como á divindade!
+
+De todos os seus apaixonados que eram bons e sinceros, Laura fazia amigos.
+
+Na primeira plana d'esses convertidos estava, em Paris, o dr.
+Despujolles, o medico considerado como a verdadeira providencia dos
+theatros, sobre tudo dos theatros de canto.
+
+Quem estivesse rouco pela manhã podia cantar á noite como um rouxinol,
+mercê das magias homoeopathicas do dr. Despujolles.
+
+Foi um pouco mais recalcitrante que Remissy, á cura, homoeopathica
+tambem, do amor pela amisade, mas como além d'intelligente era honesto,
+acabou não só por se resignar, como tambem por estimar o papel que Laura
+lhe confiava.
+
+Todas estas informações sobre a Linda foram colhidas por Antonino de
+Bizeux dia a dia, d'este e d'aquelle, affectando indifferença, mas
+sentindo na realidade um interesse e emoção de que elle não se
+apercebia, e temendo e desejando ao mesmo tempo que lhe apontassem
+qualquer nodoa no passado da diva, porque n'esse caso Laura passaria a
+ser menos perigosa para elle.
+
+
+
+
+IV
+
+O dia seguinte
+
+
+Era quasi meio dia.
+
+Laura acabára de se levantar, e recostara-se languida e como magoada
+ainda, sobre o canapé do seu salão, remexendo, distrahidamente, n'um
+montão de cartas e de folhas rasgadas de carteiras, que cobriam o
+marmore d'um velador.
+
+Por entre os nomes do que vulgarmente se chama _todo Paris_, procurava
+um que não encontrava, e lia com indefferencia as palavras escriptas a
+lapis sobre os papeis que folheava.
+
+Entretanto um bilhete houve que lhe prendeu a attenção por mais tempo.
+
+Era de Pozzoli.
+
+Dizia o antigo emprezario de Laura:
+
+
+«Morreu a Opera, viva o theatro dos Italianos! Pozzoli irá ámanhã a casa
+da distinctissima diva, levando um contracto em branco á sua ex e futura
+escripturada».
+
+
+Ao ver o cartão de Lauretto Mina, a Linda franziu as sobrancelhas.
+
+O tenor escrevera:
+
+
+«Enforca-te Lauretto! Laura esteve prestes a ser queimada viva, e tu não
+estavas junto d'ella para a salvar».
+
+
+Em compensação, sorriu-se ao ler um outro bilhete.
+
+
+«Compuz hoje de manhã um cantico d'acção de graças, uma _alleluia_
+triumphante, que irei executar-te no meu violino, logo que possas
+receber o teu mais humilde admirador.
+
+ _Remissy_».
+
+A diva resolveu responder sem perda de tempo ao violinista, convidando-o
+a almoçar no dia seguinte.
+
+Chamou para isso Jacintha, a sua creada de quarto, pedindo-lhe o
+necessario para escrever.
+
+Jacintha, collaça de Laura, tinha poucos mezes mais que a cantora.
+
+Era uma formosa rapariga, d'um trigueiro assetinado e quente, olhos e
+cabellos pretos, labios vermelhos e sensuaes.
+
+Nunca abandonára a cantora, a quem estimava muito, mas a quem servia mal.
+
+--Mais cartas, minha senhora, disse ella ao entrar, quasi todas
+entregues pelos proprios, que não subiram porque o porteiro não consentiu.
+
+--Que deixe subir o dr. Despujolles quando elle chegar.
+
+--Sim, minha senhora. E o sujeito que lhe salvou a vida?
+
+--O sr. Antonino de Bizeux? Tambem! Há bocado disse-te o mesmo.
+
+--Já se vê... Se não fosse elle estaria a senhora morta a estas horas. E
+eu tambem, porque se a senhora morresse, não lhe sobreviveria.
+
+--É um homem deveras corajoso! disse Laura, pensativa.
+
+--E bonito!
+
+--Jacintha!...
+
+--Perdão, minha senhora!... jurei-lhe que nunca mais chamaria bonito a
+qualquer homem, ainda que elle fosse como S. Miguel Archanjo, e
+faltei ao meu juramento!... Mas não está mais na minha mão!
+
+--Cala-te! interrompeu Laura, que não poude deixar de sorrir, e manda
+entregar immediatamente esta carta ao sr. Remissy, rua Favart.
+
+Alguns minutos depois, Jacintha annunciava o dr. Despujolles.
+
+--Eil-a! disse o medico ao entrar. Eil-a, a esta salamandra que
+atravessou impunemente as chammas!
+
+--Infeliz da salamandra, respondeu Laura, que ficaria frita como uma
+carpa se não tivesse quem a ajudasse.
+
+--Vejamos o pulso. Sabe que vim cá ás oito horas da manhã?
+
+--Sei.
+
+--Como me disseram que dormia, cedi o logar ao melhor dos medicos, o somno.
+
+--Só consegui adormecer ás seis horas da madrugada.
+
+--Pudera! Depois d'um tal abalo não admira. Hum! Está com febre, como
+era de prever. Vou receitar-lhe um calmante.
+
+E chamou.
+
+Appareceu Jacintha.
+
+--Manda sem demora esta receita a uma pharmacia.
+
+--Sim, sr. doutor.
+
+--E então? Há mais juizo agora?
+
+Jacintha tornou-se purpurina.
+
+--De certo, sr. doutor.
+
+--Hein? Isso é verdade? Toma cuidado! Á primeira escorregadella, tens
+d'haver-te commigo!
+
+Jacintha pegou na receita, e sahiu apressadamente.
+
+--É necessario, disse o doutor a Laura, que a minha amiga possua uma
+solida reputação, para ter junto de si uma rapariga d'este quilate!
+
+--Coitada! É tão bondosa e dedicada! Quer que a abandone?
+
+--De certo que não! Estudo em Jacintha a força do instincto. É um
+precioso _sujet_ physiologico para observar--desculpe-me o termo--o
+animal na mulher.
+
+--Oh! doutor!
+
+--Posso-lhe fallar assim, porque a minha amiga é toda espirito. Em si o
+animal não existe.
+
+--Trata de desculpar-se com um cumprimento! Pois dir-lhe-hei que, em
+momento de perigo, o instincto é superior ao que o doutor chama
+espirito. A noite passada, quando na Opera se ouviu o primeiro grito de
+fogo, acabava eu de me vestir. Jacintha--o instincto--que estava no meu
+camarim, fugiu immediatamente, e eu--o espirito--que temo o fogo mais do
+que qualquer outra coisa no mundo, comecei a tremer, dobraram-se-me os
+joelhos, fiquei impossibilitada de fazer o menor movimento.
+Jacintha, que ainda não tinha sahido, sacudia-me, queria arrastar-me.
+Tentei caminhar, e cahi desfallecida. Então ella sahiu, dizendo-me que
+ia buscar quem me soccoresse.
+
+--Ah! a Jacintha fugiu? E pretende que ella é dedicada! Bonita
+dedicação, não haja duvida!
+
+--Ouça o resto. Logo que chegou á rua e se viu livre de perigo, Jacintha
+lembrou-se de mim immediatamente. Entrou de novo no theatro, soluçando,
+querendo procurar-me atravez as chammas. E gritava: «Fui eu que a matei!
+quero morrer com ella!» Foram necessarios tres homens para a segurar,
+levando-a á força para um posto policial. Chegada lá, Jacintha cahiu
+n'um mutismo feroz. Como não podia salvar-me do fogo, tinha resolvido
+lançar-se ao Sena.
+
+--Mas, afinal, como e por quem foi salva? Corre já sobre o caso, uma
+verdadeira lenda.
+
+--E parece lenda, com effeito.
+
+Seguidamente contou ao doutor as peripecias do seu salvamento até ao
+momento da morte tragica do bombeiro, em que ella de novo tinha perdido
+os sentidos.
+
+--Quando voltei a mim, continuou Laura, estava n'uma pharmacia da rua de
+Peletier. Jacintha, que me tinha encontrado, soltava gritos d'alegria
+por me ver abrir os olhos. O meu salvador estava ali tambem, com o
+fato, as barbas e os cabellos queimados, pallido, mas satisfeito por ver
+que eu voltava á vida. Reconheci-o como um dos _habitués_ dos
+_fauteuils_ d'orchestra. Exprimi-lhe o meu reconhecimento, e pedi-lhe
+que me dissesse como se chamava. Sabe o doutor o que elle me respondeu?
+Isto: «Sou alguem que passava, e que a salvou, salvando-se.» Foi a custo
+que obtive, ao subir para a carruagem que me conduziu a casa, que elle
+me desse o seu cartão.
+
+--E conserva o cartão de tão modesto homem?
+
+--Eil-o aqui... O doutor leu:
+
+--ANTONINO DE BIZEUX.
+
+--Conhece-o?
+
+--De vista, apenas. Tenho-o encontrado em varios salões. É considerado
+como um original, meio selvagem. Lembro-me de o ver muitas vezes na
+Opera, e, se bem me recordo, dizia-se que elle estava apaixonado pela
+minha querida Laura.
+
+--Engano! Quando muito estaria apaixonado pela minha voz. Se arriscou a
+vida, para salvar a minha, estou certa que foi unicamente por suppôr que
+não ha outra cantora que lhe faça sentir as mesmas emoções de _dilettante_.
+
+--Parece-me isso inverosimil, observou o medico. Verá que, como
+recompensa, elle não se contentará com a promessa d'uma nova
+escriptura na Opera. Já a veiu ver, sem duvida?
+
+--Pedi-lhe que viesse, e assegurou-me que viria saber como eu estava.
+Julguei que tivesse vindo de manhã, emquanto dormi, mas não encontrei o
+cartão d'elle entre os outros.
+
+--Se suppõe que será recebido, como merece, só se apresentará depois do
+meio dia. Entretanto lembre-se que não lhe receito só o que mandei
+buscar á pharmacia: é necessario que guarde um repouso absoluto.
+Prohibo-a de receber quem quer que seja.
+
+--Tem de abrir uma excepção para o meu salvador, replicou Laura com
+vivacidade. A ingratidão não é droga que o doutor receite a ninguem, com
+certeza.
+
+--Bem! Farei a excepção pedida! disse Despujolles sorrindo. Registo,
+comtudo, que a minha amiga desobedece ás prescripções do seu medico, o
+que é grave.
+
+E retomando o tom serio do clinico, accrescentou:
+
+--Asseguro-lhe que necessita do mais absoluto repouso durante muitos
+dias. N'este momento é a febre que lhe conserva as forças, mas em breve
+cahirá n'uma grande prostração nervosa, e sentirá a necessidade d'uma
+completa tranquillidade d'espirito.
+
+--Comtudo... disse Laura.
+
+--Não ha comtudos...
+
+--Não lhe fallarei de Pozzoli, que me propõe escriptura...
+
+--Eu me encarrego de mandar Pozzoli para o inferno! D'aqui a oito dias
+tratará d'esse negocio.
+
+--Ou quinze; isso é o menos. O peor é que escrevi a Remissy,
+convidando-o para almoçar ámanhã. Elle quer que eu ouça uma _alleluia_
+que compôz em minha honra...
+
+--Então convide-me tambem, disse o doutor n'outro tom. Como estarei
+presente, não consentirei que falle. Remissy e eu a entreteremos.
+
+--E o meu salvador? perguntou Laura. Se vier hoje não posso convidal-o
+para o almoço?
+
+--Mau! Isso já é outro genero de distracção. Como serei do rancho,
+tratarei de vigiar, porque, na verdade, começo a ter ciumes do visconde.
+
+--Que idéa!
+
+--Pois sim! A verdade é que elle está apaixonado e é bretão. E um
+apaixonado que salva a vida da sua bella...
+
+--O senhor sabe que eu sou sincera... interrompeu Laura.
+
+--Sei. É a mulher mais franca que eu conheço. Direi até: a unica, em que
+pese á minha numerosa clientela feminina.
+
+--Consola tanto nada ter que dissimular ou occultar! Pois bem;
+affianço-lhe, doutor, que, pensando no sr. de Bizeux, não sinto a
+menor commoção indicativa d'amor; nem sombra d'ella! Que elle esteja ou
+não apaixonado por mim, confesso-lhe e declaro-lhe que nunca desejei
+tanto fazer de qualquer homem um amigo.
+
+
+
+
+V
+
+Perplexidades
+
+
+A Linda não recebeu n'esse dia a visita ou o cartão d'Antonino.
+
+Outro tanto succedeu no dia seguinte até á hora do almoço, ao qual
+Remissy e Despujolles fizeram as devidas honras, sem conseguirem, apesar
+dos esforços empregados para esse fim, distrahir a cantora d'uma especie
+de preoccupação que se apossára d'ella.
+
+Nada de novas do meu salvador! disse Linda a Despujolles quando o doutor
+se despediu. Tenho perguntado a mim mesma se não serei eu quem deva
+mandar saber noticias d'elle. Quem nos assegura que o visconde não está
+mal?
+
+--Vamos, serei generoso mais uma vez! replicou o medico. Irei saber do
+seu heroe. Está satisfeita? Onde mora elle? Não tem indicação de morada,
+no bilhete de visita? Parece-me que é no _boulevard_ Hausmann, mas
+ignoro o numero. Sabel-o-hei por um dos meus clientes, que é primo do
+visconde, e dentro em pouco lhe mandarei dizer como elle está.
+
+Ás tres horas da tarde Laura recebeu o seguinte bilhete:
+
+
+«Fui a casa do nosso homem. Está no mais invejavel estado phisico. O
+moral nãe me diz respeito.
+
+ _Despujolles._»
+
+
+Entretanto Antonino, cumprindo a promessa feita á cantora na noite do
+incendio, fôra no dia seguinte saber como estava Laura.
+
+Contentára-se apenas com perguntar á porteira como estava Linda, sem
+dizer nem deixar o nome.
+
+Nos dois dias seguintes procedeu de forma identica.
+
+Ao quarto, como os visitantes rareassem, a porteira respondeu á pergunta
+d'Antonino:
+
+--A senhora vae melhorando, mas não poderá receber ninguem antes de dois
+ou tres dias.
+
+E advertida por Jacintha, segundo instrucções de Laura, accrescentou:
+
+--O sr. quer ter a bondade de me dizer o seu nome?
+
+Antonino respondeu em tom breve.
+
+--Visconde de Bizeux.
+
+--N'esse caso, disse a porteira, o sr. visconde pode subir. Tinha ordem,
+desde o primeiro dia, de dizer a vossa ex.ª que a senhora o recebe...
+mas só ao sr. visconde.
+
+Antonino interdicto, respondeu:
+
+--Bem... mas hoje é impossivel... Tenho uma entrevista marcada... e já é
+tarde... Transmitta á senhora os meus agradecimentos e os meus
+respeitos... Eu voltarei.
+
+E sahiu como se fugisse.
+
+Alguns momentos depois Jacintha participava a Laura o que se passara.
+
+--Singular indifferença essa! disse a cantora.
+
+O que o coração d'Antonino sentia era justamente o contrario da
+indifferença que Laura lhe suppunha.
+
+Tanto de dia como de noite o visconde só pensava em Laura.
+
+Tornar a vel-a era o seu mais ardente, o seu unico desejo.
+
+Mas desejava tanto isso, que tremia.
+
+Era como um barril repleto de polvora temendo uma faisca.
+
+E não voltou á rua de Bolonha.
+
+Quando Laura pôz Despujolles ao corrente da situação, e medico disse:
+
+--Oh! oh! o caso é mais grave do que eu julgava. Como é que um valente,
+que a arrancou ás chammas do incendio, treme diante da minha amiga?
+Afinal, o caso comprehende-se. Elle percebe que o perigo, agora,
+augmentou de intensidade. O infeliz está em um estado verdadeiramente
+inquietante.
+
+--Não mangue, dr., respondeu Laura que pensava justamente como o medico,
+mas que entendeu conveniente não annuir ao que Despujolles dizia. Mas
+emfim, eu não o tornarei a ver?
+
+--Seria o melhor para ambos.
+
+--Está enganado, doutor. Mesmo quando a sua observação fosse justa, é
+necessario tornar a vel-o, para que o possa curar. O doutor trata dos
+seus doentes a distancia? Não. O mesmo succede commigo. E como sabe, eu
+tenho curas que me honram.
+
+--Quer que a ajude a procurar o seu paciente? Seja! Tornarei a ser
+generoso. Forcemol-o a sahir do covil. Escreva-lhe ámanhã ao meio dia um
+bilhete. Uma hora depois estarei aqui com a fera.
+
+No dia seguinte, ao meio dia preciso, o visconde, perturbado, lia, n'um
+cartão de Laura, as seguintes linhas, escriptas pela cantora em
+seguida ao nome:
+
+
+«Permitte-se lembrar ao sr. de Bizeux que elle deve visita á que lhe
+deve a vida.»
+
+
+Um quarto de hora depois uma carruagem conduzia-o á gare d'Oeste.
+
+Comprou bilhete para Saint-Malo e subiu para o comboio prestes a partir.
+
+Quando Despujolles, ao meio dia e meia hora, chegou a casa d'Antonino,
+disseram-lhe que o visconde tinha partido pouco antes, tendo deixado
+dito que ia ver o pae.
+
+O doutor dirigiu-se immediatamente para casa de Laura, a quem participou
+o caso, ajuntando:
+
+--Decididamente a doença torna-se alarmante! O visconde está apaixonado
+até á indelicadeza!
+
+Como não podia prever a visita de Despujolles que lhe dennunciaria a
+fuga, Antonino julgou-se ao abrigo de censura enviando, no dia seguinte,
+a Laura, este telegramma:
+
+
+«Recebi, minha senhora, o seu gracioso convite em Saint-Malo, onde fui
+subitamente chamado por meu pae, um pouco doente. Ámanhã volto a
+Paris, terei então a honra de lhe apresentar os meus respeitos.»
+
+
+Sahira de Paris para metter cem leguas entre elle e a Linda, mas, ao
+contrario do que esperava, a distancia fazia com que se lembrasse ainda
+mais da cantora.
+
+Aquelle acto de energia apenas serviu para demonstrar a sua irremediavel
+fraqueza.
+
+Em Paris estava perto de Laura; fugia de a ver, mas tinha noticias
+d'ella, e quando quizesse podia procural-a.
+
+Considerou uma loucura o ter supposto que a ausencia o curava, porque
+nunca soffrera tanto.
+
+Chegou desgostoso a Saint-Malo, achou soturna a velha casa da familia,
+onde vivia o pae e uma irmã mais velha, solteira ainda.
+
+Tres dias depois, cançado de soffrer em silencio, Antonino resolveu-se a
+tudo confessar a seu pae.
+
+O confidente foi bem escolhido e bem exposta a confidencia.
+
+Em novo, o pae d'Antonino passara por um desgosto semelhante.
+
+Amára uma menina encantadora, por quem era amado tambem, mas que tinha o
+defeito de ser pobre e plebea.
+
+O conde de Bizeux, avô de Antonino, era um velho rigido, intractavel
+em questões de nobreza e importancia patrimonial.
+
+Não se contentou, d'accordo com o pae da donzella, com destruir aquelle
+amor; obrigou o filho a casar com uma prima, de belleza duvidosa, mas de
+fortuna avultada.
+
+Aquelle enlace de conveniencia não podia fazer felizes os esposos.
+
+Ella era feia e altiva, entregue sempre a praticas devotas; elle,
+tristemente resignado, deixava-se absorver pelas recordações.
+
+A filha mais velha parecia-se com a mãe, mais feia, mais orgulhosa, mais
+devota ainda.
+
+Recusára sempre casar-se, não querendo entregar-se a qualquer homem, que
+apenas a tomaria pelo dote, o seu unico merito.
+
+Depois d'enviuvar, o conde de Bizeux não tinha outra consolação além do
+amor por Antonino.
+
+Essa grande estima que tinha pelo filho não impediu que se separasse
+d'elle emquanto o visconde viajou, e que não quizesse acompanhal-o a Paris.
+
+Quiz ficar na sua Bretanha, vivendo melancholicamente das recordações do
+passado.
+
+A excessiva severidade dos paes produz muitas vezes nos filhos, paes por
+sua vez tambem, a excessiva indulgencia.
+
+Foi por essa razão que o conde de Bizeux recebeu a confidencia
+d'Antonino com a simpathia terna d'um irmão.
+
+O soffrimento do visconde diminuiu desde que teve com quem fallar de Laura.
+
+Entretanto continuava triste e visivelmente inquieto.
+
+Como percebia o estado em que o filho estava, o conde, ao fim d'uma
+semana, chamou-o e disse-lhe:
+
+--Tu soffres Antonino. Deixa-me dar-te um conselho: volta para Paris.
+Parece-me que te falta um pouco de coragem e de dignidade. Amas uma
+mulher que não te conhece e que só te viu quanto a salvaste. Não pode
+ter-te amor, é certo; mas quem te diz que, conhecendo-te melhor, não
+virá a amar-te? Pelo que sabes d'ella, a Linda só pensa em arte, não
+amou nunca, não amará talvez. Mas approxima-te, não como uma creança que
+teme, mas como um homem que não recua nem ante uma decepção, nem ante um
+grande desgosto. Quem sabe se, quando a conheceres bem, não acharás que
+Laura não corresponde ao teu sonho!
+
+Antonio abraçou o pae com effusão, agradecendo-lhe reconhecido aquelle
+conselho viril, e partiu de Saint-Malo quasi tão precipitadamente como
+deixára Paris.
+
+Ao partir telegraphou a Despujolles, dizendo-lhe que o procuraria no
+dia seguinte, e pedindo-lhe para o acompanhar a casa de Laura.
+
+Pelas duas horas da tarde do outro dia entraram ambos no salão da
+cantora, prevenida antecipadamente pelo medico.
+
+--Trago-lhe emfim o selvagem! disse o dr. ao entrar.
+
+Laura estendeu a mão a Antonino, dizendo-lhe com a mais graciosa
+simplicidade:
+
+--Agradeço-lhe o ter vindo. Detesta a sociedade?... Tem rasão. Mas eu
+não pertenço a essa sociedade, sou apenas uma mulher. Verá que sou
+excellente camarada, muito sincera, que gosto muito d'alguns amigos, e
+que me sentirei verdadeiramente feliz se o homem que me salvou a vida
+quizer pertencer ao numero restricto d'esses amigos.
+
+Em seguida fallou, a Antonino do proprio Antonino, como se fallasse
+d'elle ao dr. Despujolles.
+
+Lembrou-se, rindo, da noite em que o olhára da scena, com o que elle
+indicára incommodar-se.
+
+--E era justo que assim fosse, accrescentou ella, porque nós, ante o
+publico, nem por um momento nos devemos esquecer do personagem que
+representamos.
+
+Fallando-lhe assim poz á vontade Antonino, que ao principio estava meio
+compromettido.
+
+Fallaram de musica, de theatro.
+
+Ella disse-lhe que provavelmente ia para o theatro Italiano, visto
+Pozzoli lhe ter proposto um bom contracto.
+
+Confessou que não tinha a menor estima ou sympathia por aquelle
+emprezario, mas como gostava de Paris, queria demorar-se na grande cidade.
+
+De resto, não podia passar sem cantar,--por causa da sua bolsa e por
+causa do seu espirito.
+
+Cantar era para ella metade da vida.
+
+--A proposito: Pozzoli, para celebrar o meu completo restabelecimento e
+a minha entrada para os Italianos, offerece-me, na terça feira proxima,
+uma especie de festa em S. Germano: almoço ajantarado na relva, passeio
+aos Loges, etc. Devo-lhe enviar ámanhã a lista dos meus convidados. Na
+cabeça do rol inscrevi o seu nome, sr. de Bizeux.... Oh! não recuse,
+porque é caso para dizer: não haveria festa sem o sr.
+
+Antonino fez um gesto d'assentimento.
+
+Ficou combinado que iriam juntos a S. Germano, Despujolles e elle.
+
+--Que adoravel mulher e que encantadora creança! Dizia o medico ao
+visconde, descendo as escadas da casa de Linda. Verá: com ella começa a
+gente por estar apaixonado, e acaba por se sentir feliz de ficar amigo.
+
+--Assim será! respondeu Antonino.
+
+A verdade é que elle sentia-se cada vez mais apaixonado, e pensava com
+desespero que Laura não o amava, que não o amaria jamais.
+
+
+
+
+VI
+
+A festa
+
+
+No dia fixado, um _mail-coach_, em que tinham tomado logar Antonino,
+Despujolles e mais uns vinte convidados de Pozzoli, subia, ao trote
+largo de quatro cavallos pretos, a avenida dos Campos Elyseus.
+
+Era a primeira terça feira de setembro.
+
+Ao longe os sinos de Santa Clotilde zumbiam, como enxame d'abelhas, sob
+as agudas pontas das settas gothicas.
+
+As mulheres riam estridentemente, empoleiradas no alto da carruagem.
+
+Aquellas gargalhadas quebravam o silencio da avenida, deserta ainda
+áquella hora.
+
+Os guisos de bronze reteniam ao pescoço dos cavallos n'uma alegria matinal.
+
+E em sorrisos de luz, as folhas altas dos platanos brilhavam, como
+estrellas movediças, os castanheiros espessos formavam massiços largos,
+ao fundo de _callidimos_ entrelaçados em ramos monstros sobre a relva
+dos canteiros.
+
+Os jardineiros municipaes assestavam as mangueiras dos tubos d'irrigação
+articulados.
+
+Uma chuva branca cahia sobre a relva, cortada quasi cerce, e por entre
+as bambinellas do fino orvalho um arco iris dansava, radioso.
+
+O _mail-coach_ que conduzia a S. Germano Antonino, Despujolles e os
+convidados de Pozzoli, chegou ao pavilhão Henrique IV ao mesmo tempo que
+o _coupé_ de Linda.
+
+Laura vestia uma elegante _toilette_ de seda da India, cinzenta.
+
+O corpo do vestido era enfeitado com fazenda de lã e ornado de laços
+granade.
+
+A saia, um pouco curta, deixava perceber a curva nascente d'uma perna
+fina de parisiense ou de hespanhola.
+
+Estava encantadora assim.
+
+Apertou a mão a todos, mas em primeiro logar a Antonino, a quem
+apresentou a Pozzoli, o amphytryão.
+
+O emprezario do theatro dos Italianos era um homem de mãos largas, dedos
+massiços, cabello grosso e espetado, barba em leque, olhos redondos,
+nariz recurvo como o bico d'um abutre, bocca grande, de labios grossos,
+libidiminosos.
+
+Á primeira vista representava o typo completo da força bruta e dos
+appetites sensuaes.
+
+Melhor examinado, porém, notavam-se-lhe extraordinarios ridiculos.
+
+Macaqueava com as mulheres, n'uns gestos afectados, como o tenor
+Lauretto Mina. Fallava sempre com os labios quasi cerrados, e quando
+pronunciava uma d'essas phrases equivocas, que as mulheres de que
+habitualmente se rodeava achavam deliciosas, soltava gargalhadas
+imprevistas casquinhando mechanicamente, para mostrar dentes
+magnificos... mas postiços.
+
+D'ordinario pintava o cabello e a barba, e nas _soirées_ apparecia
+sempre com carmim nas faces e as sobrancelhas alongadas e carregadas por
+uma pincelada negra.
+
+Tal era Pozzoli.
+
+O emprezario desagradou soberanamente a Antonino, que tambem não
+sympathisou com Lauretto Mina, cujos gestos afeminados e maneiras
+pretenciosas faziam um absoluto contraste com os modos viris e simples
+do gentilhomem bretão.
+
+Depois de trocados os cumprimentos e feitas as apresentações, os
+excursionistas puzeram-se a caminho para a floresta, precedidos d'um
+carro do pavilhão Henrique IV, que transportava o almoço.
+
+--Não vejo Remissy, disse Laura. Entretanto elle deu-me a sua palavra de
+que não faltaria.
+
+--Elle virá, replicou o dr., mas provavelmente quando menos se esperar,
+porque aquelle demonio tem grande tendencia para as surpresas.
+
+Os _mails-coachs_, os _landaus_ e os _coupés_ embrenharam-se sob as
+abobadas verdejantes, n'um turbilhão d'alegria ruidosa.
+
+Ao atravessarem as pequeninas clareiras inundadas de luz, os raios das
+rodas tinham brilhos vivos e vibrações agudas.
+
+Falseamentos rutilavam nas nuvens de pó, com um bulicio de ruidos
+multiplos: a ferradura d'um cavallo topando n'uma pedra, uma roda
+gemendo na depressão do terreno, o estridulo das gargalhadas subindo no
+ar perfumado de verdura humida, o estalo d'um pingalim assustando as
+aves aterrorisadas, e por vezes, cortando os intervallos de silencio, o
+relincho satisfeito d'um cavallo.
+
+--Alto! gritou Lauretlo Mina com a sua voz de cigarra.
+
+--Alto! vociferou Pozzoli, como um echo brutal.
+
+As carruagens pararam.
+
+--Chegamos, disse o dr. a Laura, indo abrir a portinhola do _coupé_.
+
+--Eis a sala de jantar, a senhora está servida! annunciou Lauretto por
+de traz do medico.
+
+Sem esperar que lhe dessem a mão, Laura saltou com ligeiresa.
+
+Pozzoli offereceu-lhe o braço.
+
+--Qual! disse a cantora recusando. No campo caminha-se em liberdade, sem
+cerimonias.
+
+Em um minuto chegaram á verde clareira em que o almoço estava servido,
+sobre uma elevação arrelvada.
+
+Cada qual tomou logar em volta d'aquella toalha verdejante, manchada de
+escuro por tres presuntos d'York, quatro travessas de _foie gras_, doze
+lagostas, seis gallinhas, montanhas de doces, pecegos de Montreuil,
+passas de Malaga em caixas.
+
+Em volta da improvisada meza, como collocadas em atiradores,
+alinhavam-se vinte quatro garrafas de _Bordeus_, e em torno d'um
+carvalho secular, entre as anfractuosidades rugosas do tronco, trinta
+garrafas de _moscatel_, de _Madeira_ e de _Champagne_, de gargalos
+prateados, conservavam-se em reserva, meio occultas pela herva alta.
+
+Massiços de verdura banhados de luz, cruzavam-se, como bayonetas
+enfeixadas; extremidades de plantas queimadas pela geada balouçavam-se
+levemente, e tres grillos corajosos entoavam uma marcha triumphante
+por entre uns fetos proximos.
+
+Laura sentara-se junto d'um freixo gigante, appoiando as costas ao tronco.
+
+Um grupo d'aveleiras servia-lhe de guarda-sol.
+
+Antonino de Bizeux e o dr. Despujolles tomaram logar á direita e á
+esquerda da cantora.
+
+Em frente d'elles, agrupados, estavam Pozzoli, Lauretto Mina e os
+restantes convivas.
+
+Eram uns quarenta ao todo.
+
+O almoço foi pouco ruidoso ao principio.
+
+O appetite é sempre silencioso.
+
+Ouvia-se apenas o ranger dos garfos de prata na porcellana dos pratos.
+
+A Linda comia com vontade, e molhava alegremente os labios finos no
+liquido do copo.
+
+Á sobremesa a conversação rebentou, viva e alegre, acompanhada pelo
+tenir dos copos e pelo riso das mulheres, e entre a confusão das vozes,
+misturadas com o _pizzicato_ dos garfos, um melro, pousado n'uma arvore
+proxima, rythmava as suas cadencias aflautadas.
+
+Lauretto Mina embriagou-se, como costumava.
+
+De repente levantou-se, tendo na mão uma taça de _Champagne_, e disse
+com voz entaramelada:
+
+--Bebo á saude da rainha da festa, da divina Laura Linda!
+
+Laura corou um pouco, e Antonino franziu as sobrancelhas.
+
+Mas todos levantaram as taças, repetindo:
+
+--Á saude de Laura Linda!
+
+N'esse momento, na alléa que seguia ao lado d'aquella meza verdejante,
+apparecia uma duzia de officiaes d'_hussards_, trotando nos seus cavallos.
+
+Logo que viram os convivas d'aquella pittoresca festa, fizeram diminuir
+o andamento dos animaes.
+
+Despujolles disse algumas palavras ao ouvido de Pozzoli, e depois
+caminhou para os officiaes e disse-lhes:
+
+--Meus senhores, somos artistas e homens de sociedade: querem fazer-nos
+a honra d'acceitar um copo do nosso magnifico vinho francez?
+
+--Da melhor vontade! responderam os officiaes em coro.
+
+E puzeram em linha os cavallos arabes.
+
+Foram as damas que serviram o _Champagne_.
+
+Beberam pela França e pelos francezes.
+
+Em seguida os officiaes ofereceram charutos aos homens, cumprimentaram
+as senhoras e partiram a galope.
+
+A brilhante cavalgada desappareceu rapidamente, como uma phantasia, na
+profundeza do bosque.
+
+Deixaram as carruagens e as louças á guarda dos creados, e partiram a pé
+para a feira das Loges.
+
+Combinaram que caminhariam sem cerimonia, em debandada.
+
+Mas como o caminho d'esta vez fosse mais longo, formaram-se,
+naturalmente, grupos e pares.
+
+Antonino estava, como por acaso, ao lado de Laura, que deu um passo em
+falso, e, como por acaso tambem, tomou o braço do visconde, appoiando-se
+a elle ligeiramente, com uma graça encantadora.
+
+Caminharam assim por algum tempo, alegres e sonhadores, admirando coisas
+vulgares que lhes pareciam tão interessantes como se nunca as tivessem
+visto.
+
+Um ruido confuso annunciou, de longe, a feira das Loges.
+
+Sinetas, pandeiros, tambores, trompas, cornetins, produziam um baralho
+ensurdecedor.
+
+Aquella parte da floresta estava cheia de gente vestindo fatos
+domingueiros, pares mais ou menos apaixonados, creanças saltando na
+alegria da plena liberdade.
+
+Appareceram as primeiras barracas ao fim da estrada.
+
+Augmentava o ruido da symphonia discordante d'instrumentos diversos, de
+_clowns_ esganiçando-se em falsetes, d'hercules soprando em enormes
+porta-vozes os seus desafios burlescos aos amadores de luctas.
+
+Antonino e Laura acharam-se, n'um instante, separados dos seus
+companheiros.
+
+Pararam deante das barracas, admirando, embasbacados como creanças, os
+objectos n'ellas expostos.
+
+Laura achou immensa graça á atabalhoada arenga berrada á porta d'uma
+barraca de saltimbancos por uma especie de cigano, de cara serampintada,
+cabellos crespos, com voz enrouquecida, que ainda assim não perdera o
+tom accentuadamente marselhez.
+
+O homem convidava o respeitavel publico a visitar a Mulher-Electrica.
+
+--É entrar, meus senhores, é entrar, dizia elle. Por dois _sous_ podem
+admirar a mais formosa e a mais gentil mulher do mundo. Só homens podem
+entrar, porque se as senhoras viessem a esta barraca, sahiriam loucas de
+inveja! Não quero dizer com isto que as senhoras presentes não sejam
+novas e formosas, não! Mas, acreditem, nenhuma das que vejo, e das
+ausentes, poderia dar a seu marido uma sensação semelhante á que esta
+produz em todos os homens que lhe tocam!... É entrar, meus senhores, é
+entrar! Não encontrarão outra occasião, como esta, para admirar uma
+belleza sem rival! Tem pernas de Diana, braços de Venus... Parece a
+esposa de Jupiter! Não ha uma só princeza que a não inveje!... É um ovo
+por um real, contemplar uma maravilha d'esta ordem apenas por dez
+centimos!... É entrar, meus senhores, é entrar!...
+
+Proximo, um colosso, de braços musculosos e nús, abronzeados, ao lado
+d'uma preta robusta, provocava á lucta os amadores mais valentes.
+
+Um realejo moia a _Valsa das Rosas_, e ao lado, n'uma barraca de
+balouços, um outro realejo gemia uma polka, emquanto que, por entre
+gargalhadinhas de medo, mulheres cortavam o ar nos balouços, olhando
+para os amantes, que as contemplavam satisfeitos.
+
+Um pouco mais longe via-se um _carrousel_ de cavallos de pau, enfeitado
+d'uma franja vermelha e azul em que scintillavam lantejoulas.
+
+Creanças, sentadas n'aquelles animaes inoffensivos, sentiam-se felizes
+por fazer concorrencia aos saltimbancos, chamando sobre si a attenção
+embasbacada dos passeiantes.
+
+De toda aquella multidão desprendia-se rumor confuso, onomatopeas sem
+sentido, cortadas pelo som d'um pandeiro ou pelas notas estridentes d'um
+cornetim.
+
+No ar passavam odores acres de frituras rançosas, salchichas que ferviam
+em gorduras velhas no fundo de largas frigideiras, vinho azedo que
+bebiam pelo cangirão, café intoleravel feito do cosimento das borras e
+de tintura de chicoria.
+
+As tabernas regorgitavam de freguezes vorazes.
+
+Muitos, como não tinham onde sentar-se, comiam de pé, ao sol, com o mais
+invejavel appetite.
+
+A alegria franceza resaltava de toda aquella multidão franca, ruidosa,
+divertida.
+
+Sentiam-se felizes por aquella excitação ardente, pelos movimentos
+desordenados, pelos raios do sol que lhes alumiava as faces vermelhas,
+pelas nuvens de pó amarellento, que se elevava até ao cimo das arvores
+frondosas, em virtude do caminhar continuo d'aquelle formigueiro humano.
+
+Pelas cinco horas da tarde, um homem que desempenhava as funcções de
+pregoeiro, attrahiu a attenção de todos com o toque preliminar do seu
+tambor.
+
+Quando viu em volta um circulo espesso d'ouvintes, dos quaes faziam
+parte grande numero de convivas de Pozzoli, desenrolou um largo papel e
+leu esta especie de proclamação:
+
+«O violinista hungaro Remissy, aqui presente, faz saber que offerece um
+_punch_ aos seus amigos e amigas no proprio local em que foi servido o
+almoço d'esta manhã, ao qual circumstancias imprevistas fizeram com que
+não tivesse o prazer d'assistir. Que todos o saibam!»
+
+Acabada a leitura, o pregoeiro affixou o papel no tronco d'uma
+arvore e depôz tranquillamente no chão o tambor, onde um palhaço o foi
+buscar.
+
+Depois, abrindo caminho com os cotovellos, desappareceu entre a multidão.
+
+O sol baixava, as sombras dos carvalhos alongavam-se d'instante a instante.
+
+Os donos d'algumas barracas accenderam os lampeões.
+
+A Linda e Antonino, que por vontade se tinham conservado perdidos dos
+seus companheiros, voltaram sós para o local onde estavam as carruagens,
+na meia luz crepuscular, sob a solemnidade grave das arvores.
+
+O silencio augmentava á medida que avançavam.
+
+Perdiam-se ao longe os clamores da feira e o ruido discordante da multidão.
+
+A floresta parecia indemnisar-se da desordem que n'ella causavam, pelo
+contraste de socego altivo, apenas quebrado pelo ultimo chilrear das aves.
+
+A brisa fresca, impregnada de perfumes sadios, balanceava mollemente as
+folhas humidas das arvores.
+
+Pouco depois de partirem da feira, todos os convivas se achavam na
+clareira onde os esperavam as carruagens.
+
+Ao centro do terreno arrelvado onde fôra servido o almoço,
+elevava-se uma enorme taça de prata cinzelada, em que chammejava um
+_punch_ magistral!
+
+Os reflexos do _punch_ lançavam, n'um largo raio, vibrações de luz azulada.
+
+Remissy não apparecia.
+
+--É necessario esperar, disse Laura, visto ter-nos convidado. Mas onde
+estará elle?
+
+No mesmo instante partiu d'uma matta proxima, como resposta melodiosa,
+uma _phrase_ de violino, serena e lenta, n'um rythmo phantastico e velado.
+
+O violino de Remissy respondia á voz de Laura.
+
+E por entre a penumbra sentiu-se como que um formigamento d'insectos,
+uma dança extravagante de grillos em hervas seccas, e no meio d'esse
+acompanhamento de _pizzicato_ em surdina, a _phrase_ triste repetia-se
+como um queixume atravez a noite!
+
+Foi extraordinario, simples, idealmente puro!
+
+Quando a ultima vibração melodiosa cessou, um bravo formidavel retumbou
+na clareira.
+
+Remissy appareceu por entre o clarão do _punch_, cabeça ao vento,
+ostentando a sua fronte alta que prematura calvice tornava enorme, com o
+seu magnifico _stradivarius_ debaixo do braço esquerdo.
+
+--Hein! o que dizes a isto, Linda? que te parece a minha _Queen Mab_?
+disse elle dirigindo-se á cantora. Tenho dedos, não é verdade?
+
+--Bravo! bravissimo! respondeu Laura enthusiasmada. Mas isso não
+impede que seja um homem sem palavra. Prometteu vir almoçar comnosco e
+não appareceu.
+
+--Não me falles em coisas tristes, minha filha!
+
+Foi o maldito director do Palacio de Crystal de Londres que veiu
+novamente importunar-me! Imagina que parto para a capital da Inglaterra
+hoje mesmo, no expresso da noite. Antes de partir, porém, quiz que
+ouvisses a minha melodiasita.
+
+Creados de casaca serviam o _punch_ em copos de crystal.
+
+Foram feitas saudes mais ou menos estravagantes.
+
+Beberam um ultimo golo e dispozeram-se a subir para as carruagens.
+
+Remissy despediu-se da diva, beijando-a, e subiu para o carro de posta
+que o trouxera.
+
+Quando viu todos prestes a partir, Pozzoli elevou a grossa voz e disse:
+
+--Minhas senhoras e meus senhores, tenho a dizer-lhes o seguinte: depois
+do campo, a cidade; o almoço campestre d'hoje teve por fim celebrar a
+promessa d'escriptura, no theatro dos Italianos, da diva Laura Linda;
+quero dar uma _soirée_ em honra da realisação d'essa escriptura. Peço,
+pois, a todas e a todos os presentes que queiram ir, d'hoje a quinze
+dias, passar a noite em minha casa, na rua Pigolle. Cantar-se-ha,
+dansar-se-ha, jogar-se-ha, beber-se-ha e rir-se-ha!
+
+Uma triple acclamação victoriou o discurso do amphitryão.
+
+Em seguida subiram para as carruagens, de volta a Paris.
+
+--Onde está o sr. de Bizeux? perguntou Laura a Despujolles. Tenho que
+fallar-lhe. Quero que me acompanhe a Paris no meu _coupé_.
+
+--Não faça tal, minha querida, disse-lhe em voz baixa o doutor. Durante
+a festa não se fallou senão na especie de monopolio que o visconde tinha
+feito da diva.
+
+--Se eu era a rainha de festa, quer-me parecer que elle era o heroe d'ella.
+
+--Sem duvida, mas siga o conselho d'um amigo. Vou subir comsigo e com o
+visconde para o _coupé_. Deixal-os-hei, se quizerem, em Verinet, d'onde
+seguirei para Paris no comboio. Repito-lhe: não parta só com o visconde.
+Lembre-se do que poderão dizer.
+
+Laura levantou a cabeça com altivez e replicou:
+
+--O que poderão dizer?... Que me importa?... O meu caro doutor conhece a
+minha divisa: ser e não parecer. Repito-lhe que tenho de conversar
+seriamente com o sr. de Bizeux, e não sei se, com a timidez de que elle
+é dotado, acharei occasião tão propicia como esta. Supporá o dr. que
+ha na minha intenção qualquer pensamento menos digno?
+
+--Eu? não, seguramente, mas.
+
+--Basta-me isso. Ah! Eis o sr. de Bizeux! ajuntou ella elevando a voz.
+Senhor visconde, tenho que fallar-lhe. Quer subir para a minha carruagem
+e acompanhar-me até Paris?
+
+--Oh! minha senhora!... respondeu Antonino meio compromettido, meio alegre.
+
+--Então venha. Subiram para o _coupé_ diante de todos.
+
+--Bravo! disse Lauretto Mina a meia voz, mas por fórma que foi ouvido
+por todos os que o rodeavam. Vejo com prazer esboçar-se o numero um...
+porque eu quero ser o numero dois!
+
+
+
+
+VII
+
+Explicações
+
+
+A palestra de Laura e de Antonino versou, ao principio, sobre assumptos
+indiferentes, e quasi banaes.
+
+Fallaram do almoço e dos convidados de Pozzoli.
+
+O visconde não queria dizer o que pensava do emprezario e do tenor.
+
+Fallou de Remissy, cuja familiaridade o incommodára por vezes, mas cujo
+enthusiasmo exuberante fizera com que sympathisasse com elle.
+
+--Que coração tão bondoso o d'elle! disse Laura. É meu verdadeiro amigo!
+Meu pae dedicava-lhe grande affeição e profunda estima. Saberá quanto
+vale em o conhecendo melhor. Em Remissy não ha só a admirar e a
+applaudir o artista consumado: é tambem um valente e um patriota
+sincero. Durante a guerra da insurreição da Hungria, elle foi um dos
+primeiros que se apresentou, e não quiz nem espingarda nem sabre. «Tenho
+horror de matar ou de ferir, disse Remissy; de resto, como não sei
+servir-me d'essas armas, era capaz de dar cabo de mim com ellas». Em
+compensação não largou o violino, e appareceu sempre onde mais accesa
+era a lucta, ao lado de Kossuth, tocando admiravelmente o _Hymno de
+Rakoçki_, por entre as ballas e a metralha, sem nunca falhar uma nota!
+
+Depois d'um curto silencio, a cantora accrescentou:
+
+--N'uma palavra: Remissy é um homem. Tem, superior a todas, a qualidade
+que eu considero mais essencial ao caracter dos homens, a qualidade que
+o sr. visconde possue: a lealdade.
+
+--É virtude que as mulheres tambem possuem, replicou Antonino, e quem a
+conhece, minha senhora, affiança que não lhe falta.
+
+--Desejava possuir essa virtude viril, sem duvida. Entretanto esforço-me
+o mais que posso para evitar os dois defeitos que a maior parte das
+vezes perdem as mulheres: a galanteria e a vaidade. É precisamente por
+essa razão que lhe desejei fallar hoje.
+
+--Porque? perguntou Antonino surprehendido.
+
+--N'este dia, em que o vi quasi pela primeira vez, occupei-me, sem
+querer, e como por instincto, quasi exclusivamente do senhor, como o
+senhor se occupou quasi exclusivamente de mim. Ha bocado, de subito, em
+quanto Remissy tocava, acudiu-me ao espirito que tinha sido um pouco
+leviana, que o sr. visconde não conhece a minha fórma de proceder,
+talvez original, e que, por isso, interpretaria mal o que hoje se
+passou. Portanto, disse commigo: é indespensavel que eu tenha com elle
+uma explicação cabal, franca, em que lhe falle com o coração nas mãos...
+
+--Não sei se deva regosijar-me por essa sua resolução, disse Antonino
+com voz tremula. Sinto que estou enfeitiçado e desejava conservar-me assim.
+
+--Mas eu não desejo que entre nós haja a menor sombra, a menor razão que
+de futuro motive a mais leve surpreza. As mulheres, d'ordinario, esperam
+a declaração dos homens para as acceitar ou rejeitar. Vae julgar talvez
+que eu fujo ás conveniencias mais rudimentares, antecedendo-me á sua
+declaração, mas é necessario, primeiro que tudo, que o sr. não soffra.
+Sr. de Bizeux, tenho pensado muito no meu amigo desde o dia do incendio.
+Não dou importancia ao que se diz, ao que se suppõe, ou ao que se
+inventou, mas senti, de longe, nas suas acções, no seu silencio, na sua
+fuga, e depois, quando o vi e lhe fallei, nas suas mais insignificantes
+palavras, no seu aspecto, no seu metal de voz, senti... que o senhor
+não estava longe de amar-me.
+
+O visconde fez um movimento, e quiz fallar.
+
+Mas Laura não lhe deu tempo, e continuou:
+
+--Peço-lhe que me não declare ser isso um facto consumado... Não, não
+quero ouvir-lhe dizer: amo-a!
+
+--Comprehendo... sei... replicou Antonino. A senhora não me ama, o que é
+natural, e--o que é triste,--não quer amar-me!
+
+--Não o amo, nem o quero amar... disse bem, repetiu Laura.
+
+Antonino fez um gesto de desgosto.
+
+Laura ajuntou suavemente:
+
+--Não se zangue commigo, e sobretudo não soffra. Sem duvida lhe disseram
+o que tinha sido a minha vida até aqui, mas vista e julgada por
+estranhos. Ouça-me agora.
+
+E seguidamente contou-lhe a educação que recebera, as suas primeiras
+impressões, e o duplo fluido de que ella era por assim dizer formada: o
+pae transmittira-lhe o culto pela arte, a mãe guiara-a por forma a ter
+sempre a consciencia tranquilla, e a vida pura.
+
+Depois a cantora disse, pensativa:
+
+--Portanto não me accuse, como teem feito varios, de frieza, de
+sequidão. Sinto em mim instinctos de ternura e d'expansão, aos quaes não
+basta a sincera affeição que tenho aos meus amigos. Creio que só o
+amor pode encher completamente o coração. Olhe, para se consolar um
+pouco, vou dar-lhe uma prova de confiança absoluta, dizendo-lhe o que só
+se diz a um irmão: ha em mim, em gráu bastante elevado, um sentimento
+que herdei de minha mãe, a mais estremosa das mães: o sentimento
+maternal. Todas as creanças que vejo, produzem-me uma impressão
+inexplicavel, tenho por ellas uma adoração completa: adoro-lhes os
+gestos, os sorrisos, a voz balbuciante, a alma por definir. Ter uma
+creança que fosse meu filho, é para mim um sonho delicioso; ter um filho
+do homem que amasse, é outro sonho que considero impossivel de realisar-se!
+
+--Porque?
+
+--Porque? Sob a apparencia d'uma mulher phantastica, eu sou,
+garanto-lhe, uma mulher seria. Não quereria, não poderia amar um homem
+que não fosse meu marido.
+
+Houve um silencio.
+
+Antonino cortou-o dizendo com voz grave:
+
+--Escute-me agora, Laura: sou absolutamente livre e senhor das minhas
+acções, e da minha vida. Por coisa alguma d'este mundo affligiria ou
+daria o menor desgosto a meu pae; mas o homem que me deu o ser possue
+alma generosa e elevada como poucos, e tem por mim um amor sem limites.
+Não me amará ainda, Laura, mas, se diligenciar amar-me, é possivel
+que o consiga. Pois bem: prometta-me que no dia em que tal succeda,
+consentirá em ser minha mulher!
+
+--Sua mulher!... disse a cantora admirada.
+
+Depois, com os olhos marejados de lagrimas, accrescentou:
+
+--Ah! como lhe agradeço a grande prova d'estima que acaba de dar-me!
+Como as suas palavras me commovem! Será por me ter salvo a vida? Não
+sei, mas o que é certo,--e já ha bocado lh'o disse,--é que fui attrahida
+para o senhor por um vivo sentimento de sympathia, e se o não amo ainda,
+parece-me que não necessitaria fazer grande esforço para o conseguir.
+Levanta-se apenas uma difficuldade, que de novo lhe aponto: não quero
+amal-o!
+
+--Mas porque?
+
+--Porque o sr. visconde não póde nem deve casar commigo.
+
+--E se os nossos desejos estiverem d'accordo, que obstaculo poderá
+separar-nos?
+
+--Um obstaculo insupperavel. É impossivel que o sr. visconde Antonino de
+Bizeux case com uma mulher de theatro, que, mesmo depois de casada, não
+renunciará á scena.
+
+--É impossivel, disse?
+
+--Disse e repito: é impossivel! Não devemos deixar-nos obcecar por uma
+excitação de momento. Quando se prende o destino inteiro, deve-se
+ter em vista não a alegria do instante presente, mas a felicidade de
+todo o futuro: Com as aspirações honestas que minha mãe me legou, eu
+tenho as aspirações d'espirito de meu pae. Nasci e morrerei artista. Se
+fosse pintora, compositora ou escriptora, podia ter um logar na vida da
+alta sociedade. Mas sou apenas cantora; o meu talento é a minha voz, e
+para que esse talento se produza é necessario um publico, não o publico
+indulgente dos salões, mas o grande publico, a multidão que enche um
+theatro.
+
+--E suppõe que o amor, o lar, as santas alegrias da familia não
+substituirão vantajosamente o ruido das palmas e a gloriola dos bravos?
+
+--Durante algum tempo... sim... é possivel, é até provavel. Mas estou
+certa de que depois chegará o aborrecimento, a nostalgia do proscenio.
+Na ultima epoca que cantei no theatro Scala, ha tres annos, adoeci ao
+começar o inverno. A doença era ligeira e qualquer outra que não fosse
+eu estaria completamente curada com um mez de tratamento e de socego.
+Mas a impaciencia, o desgosto e a febre devoravam-me, por fórma que
+estive de cama tres mezes. Pereceria longe do theatro, como uma planta a
+que não chegam os raios do sol. Ah! se o senhor fosse um artista como
+eu, pobre, desconhecido até! Mas possue um honrado titulo e uma grande
+fortuna. Seu pae por mais condescente que seja, não acceitaria para
+nora uma comediante, uma cantora, uma mulher que póde ser pateada e
+assobiada! Se o senhor quizesse contrariar a vontade de seu pae,
+desprezando os deveres que lhe impõem o seu nome e a sua posição social,
+seria eu a primeira--ouve?--que recusaria semelhante sacrificio.
+
+--Sacrificio, se vier a amar-me, será a senhora quem o fará um dia.
+
+--É possivel, e por isso mesmo é que eu não quero amal-o.
+
+--Mas eu que a amo, o que hei de fazer?
+
+--Tornar-se meu amigo. Não diga que não; não supponha que é impossivel
+d'operar a transformação do amor em amisade. Verá que hei de auxilial-o
+fraternalmente. É necessario vontade e coragem, bem sei, mas estou certa
+de que não lhe faltarão essas duas qualidades.
+
+--Está-me fallando como me fallaria meu pae!
+
+--Ah! confessa?... Ainda bem! Attenda-o e attenda-me. A um homem de
+caracter fraco, eu diria: parta, faça uma longa viagem, e volte d'aqui a
+alguns mezes, completamente curado. Ao meu amigo digo-lhe: fique em
+Paris, vá ver-me quantas vezes desejar, e estará curado dentro em poucas
+semanas.
+
+--Seja! respondeu o visconde. Não partirei, tentarei a prova. Veremos o
+que resulta d'ella.
+
+Quando o _coupé_ parou na rua de Bolonha, á porta da casa de Laura,
+Antonino despediu-se da cantora sem commoção apparente. Beijou-lhe a mão
+e trocaram amigavelmente um:
+
+--Até ámanhã.
+
+O visconde desceu a pé a rua de Glichy e a calçada d'Antin até aos
+_boulevards_.
+
+Sentia uma especie de consolação ao ver-se perdido entre a multidão.
+
+Caminhou até que os passeiantes rarearam.
+
+Só depois disso entrou em casa, com o coração cheio d'incerteza e
+d'angustia.
+
+
+
+
+VIII
+
+Mais perplexidades
+
+
+Antonino executou com a mais perseverante firmeza a resolução que tomára.
+
+No dia seguinte ao do almoço em S. Germano, e nos dez ou doze que se
+seguiram, foi a casa da cantora, não a hora certa, e com demora
+indeterminada, mas sem deixar de apparecer um unico dia.
+
+Umas vezes encontrava Laura só, outras apparecia o dr. Despujolles,
+sempre alegre, sempre espirituoso.
+
+O visconde era como que uma pessoa da familia da cantora.
+
+Fallavam d'arte, de qualquer assumpto em geral, da novidade do dia.
+
+A Linda, por vezes, quando estavam sós, fallava d'ella propria, com
+simplicidade, sem a menor affectação, sem se contrafazer, sem se macular.
+
+Contava-lhe o seu passado, fallava-lhe do pae, do que tinha visto, das
+suas luctas, dos seus successos, das suas dôres.
+
+Antonino absorvia assim, dia a dia, por completo, as mais
+insignificantes minucias da vida de Laura.
+
+A cantora não dissimulava os seus defeitos ou os seus erros, mas não os
+exagerava.
+
+No dia em que participou a Antonino que assignára, de manhã, com
+Pozzoli, uma escriptura d'um anno para cantar no Theatro Italiano, com a
+multa de cincoenta mil francos para qualquer das partes contractantes,
+que resolvesse rescindir o contracto, o visconde teve uma contracção
+nervosa.
+
+Estava escripto que deveria levantar-se entre elles mais aquella barreira.
+
+Antonino não demonstrou descontentamento sobre o contracto propriamente
+dito, mas ao mesmo tempo indicou uma profunda má vontade contra o
+Theatro Italiano, contra Pozzoli e o _elenco_, que considerou muito
+inferior ao do antigo salão Favart.
+
+Sentiu ver Laura confundida com artistas de valor secundario, n'uma
+companhia de que Lauretto Mina era primeiro tenor.
+
+Lauretto Mina e Pozzoli!
+
+Um, brigão e libertino; o outro, libertino e rufião!
+
+Um, trapaceando ao jogo; o outro, explorando os duellos!
+
+Na opinião d'Antonino aquelles dois homens representavam a escoria dos
+italianos.
+
+N'aquelle mesmo dia recebeu o visconde um convite de Pozzoli, para
+assistir á _soirée_ que o emprezario dava, d'ali a algumas noites, na
+sua casa da rua Pigolle.
+
+Laura tencionava ir?
+
+Emquanto a elle, estava resolvido a não pôr os pés n'aquelle bordel.
+
+Perguntou á cantora se não sabia o que diziam de Pozzoli.
+
+--Não é um italiano... é um grego!
+
+Laura respondeu com meiguice.
+
+Estava resolvida a ter com Pozzoli as relações indispensaveis que sempre
+ligam a escripturada ao emprezario, unicamente.
+
+Entretanto não podia deixar d'ir á _soirée_, que era dada em sua honra,
+e na qual devia cantar um ou dois trechos de musica.
+
+Ficaria muito reconhecida ao visconde, se elle annuisse a pôr de parte a
+repugnancia que sentia, e assistisse á _soirée_ tambem.
+
+Necessitava que Antonino estivesse presente, para velar por ella.
+
+--Devo confessar-lhe um dos meus maiores vicios, accrescentou Laura,
+rindo; sou jogadora. Não sei explicar nem me desculpo d'esta falta. O
+jogo produz-me emoções tão extraordinarias, que as procuro e as adoro.
+Não deixe d'ir, para que me contenha e afaste até, se eu, como costumo,
+me deixar influenciar demais.
+
+--A acreditar no que se diz, respondeu Antonino, não é para a minha
+amiga que a minha attenção deve voltar-se, se jogar com Pozzoli.
+
+--Bem sei. Diz-se que é muito feliz ao jogo, que principalmente os seus
+escripturados não devem jogar contra elle, porque muitas vezes lhes tem
+ganho um anno d'ordenados. Pela minha parte garanto-lhe que nunca vi
+coisa alguma justificativa d'essa triste reputação de Pozzoli. Apenas
+uma vez joguei contra elle, e levantei-me ganhando cento e cincoenta
+_luizes_. Mas não importa; se é verdade o que se diz, isso é mais uma
+razão para não deixar d'ir á _soirée_. Vae?
+
+--Irei.
+
+A cantora ficou satisfeita por fazer com que o visconde desempenhasse o
+papel de seu protector e conselheiro.
+
+Sentia immenso prazer pedindo-lhe que a guiasse e reprehendesse,
+confessando-lhe as suas faltas e a sua ignorancia.
+
+Interrogava-o sobre as viagens e estudos que elle tinha feito,
+pedia-lhe a opinião sobre as coisas e sobre os homens, escutando-o
+sempre com approvação e deferencia, como um irmão mais novo escuta o
+irmão mais velho.
+
+Nas palestras que tinham, cada vez mais intimas, nunca Laura deixou
+entrever a menor parcella de galanteio ou de vaidade.
+
+A mulher occultava-se, chegava mesmo a desapparecer, para só ficar a amiga.
+
+Laura percebia que com a sua encantadora simplicidade e graciosa
+modestia, ia contra o fim que tinha em vista, porque um homem com o
+caracter d'Antonino, em vez de se affastar, approxima-se cada vez mais
+da mulher que faz d'elle confidente da sua alma ingenua e sincera.
+
+E effectivamente o visconde estava cada vez mais apaixonado.
+
+Nem já conhecia o grau a que se tinha elevado a sua paixão.
+
+Ao principio calculava o amor que sentira pela cantora, pelo ciume que
+experimentava.
+
+Inquietava-se por ver com Laura os amigos intimos, como que os
+inseparaveis da Linda. De resto, o numero d'esses amigos era limitadissimo.
+
+Tres ou quatro, contando com Despujolles, e Antonino conhecia-os a todos
+antes de ter relações fraternaes com a cantora.
+
+Quando os encontrou pela primeira vez em casa de Laura,
+tranquillisou-se. A Linda fallou-lhe d'elles com um socego e uma
+serenidade que não deixou no espirito do visconde a menor sombra de
+suspeita.
+
+Socegado pelos que via, Antonino sobresaltou-se por um que não via: o
+tenor Lauretto Mina.
+
+Ouvira dizer que o tenor fizera em tempo a côrte a Laura, e nem uma só
+vez a Linda pronunciára o nome de Lauretto.
+
+Porque?
+
+A verdade era que Laura temia o tenor, não por ella, mas por Antonino.
+
+Temia-o por causa das suas continuas fanfarrices, das suas
+impertinencias, dos seus modos d'homem mal educado, e, emfim, pelas
+varias narrações que lhe tinham feito da pericia com que Lauretto jogava
+o sabre.
+
+Como já dissemos, o tenor fôra ajudante d'um professor d'esgrima em Milão.
+
+Dizia-se que conhecia dois botes ignorados, que consideravam incorrectos.
+
+Na Italia matára um homem, e ferira gravemente um outro.
+
+Além d'isso batera-se varias vezes, pondo sempre os adversarios fóra do
+combate.
+
+E vangloriava-se do facto, dizendo que estava precavido contra qualquer
+acontecimento grave.
+
+Uma especie d'instincto advertira Laura de que esse acontecimento podia
+surgir da fatuidade do esgrimista emerito e da altivez do gentilhomem
+bretão.
+
+Era essa a razão que a levava a não fallar do tenor ao visconde.
+
+Comtudo um dia Antonino interrogou-a.
+
+--Esse tal Lauretto Mina, com quem vae cantar no Theatro Italiano, não
+lhe fez a côrte em tempo?
+
+A cantora respondeu, sorrindo e sem se perturbar, que Lauretto fazia a
+côrte a todas as mulheres, mas que, a primeira vez que lhe dirigira
+galanteios, ella respondera-lhe de fórma que elle não se atrevera a
+continuar.
+
+Era a verdade, e Laura disse-a de maneira que convenceu Antonino.
+
+De resto, fallou d'aquelle homem sem escrupulos sem vergonha, tão
+desdenhosamente, que o visconde arrependeu-se de ter, por um instante,
+suspeitado que Laura poderia ter sympathia por um patife de tal especie.
+
+Portanto deixou de ter ciumes.
+
+Mas em compensação o amor augmentou.
+
+
+
+
+IX
+
+A confissão
+
+
+Um dia,--na vespera da _soirée_ dada por Pozzoli,--Antonino foi a casa
+de Laura á hora costumada, duas da tarde, e encontrou-a ao piano.
+
+A pedido do visconde a Linda cantou duas ou tres canções populares
+hespanholas, de que elle gostava muito, com uma graça e perfeição
+inexcediveis.
+
+Antonino escutava, como mergulhado n'uma especie d'adormecimento.
+
+Ao contrario do que costumava, pouco a applaudiu.
+
+Ella fechou o piano e approximou-se d'elle.
+
+Fallou-lhe com a affabilidade e a franqueza habituaes.
+
+Vendo, porém que o visconde não lhe respondia, disse-lhe:
+
+--Está hoje muito triste! O que tem, meu amigo? Recebeu alguma má
+noticia? Estará doente seu pae?
+
+--Effectivamente recebi hoje de manhã uma carta de meu pae, que,
+felizmente, está bom, assim como minha irmã. A carta só fallava de mim,
+e em resposta a outras que lhe escrevi nos ultimos dias. Como lhe
+disse, meu pae é o meu confidente e o meu melhor amigo.
+
+--Se não é por elle, é pelo sr. que está triste? Teve algum desgosto?
+Diga! Como sabe combinámos que eu seria tambem sua amiga.
+
+--Combinamos, é verdade... respondeu Antonino em tom pungente.
+
+--Então faça-me confidente dos seus desgostos; já confessou que estava
+triste...
+
+--Estou...
+
+--E qual é a causa d'essa tristeza?... Vamos, falle...
+
+--Se fallo, Laura, respondeu Antonino decidindo-se? falto ao compromisso
+que tomei com a senhora. Mas é o mesmo, fallarei... Perdôe-me e escute-me.
+
+--Acautelle-se, disse a cantora inquieta. Não venha turvar a profunda
+satisfação que todos os dias me causa a sua visita. Ha apenas duas
+semanas que o conheço, e parece-me que estamos relacionados ha mais de
+dez annos. Acautelle-se... acautelle-se. De certo não me quer
+entristecer tambem, e ainda menos offender-me.
+
+--Não a entristecerei nem a offenderei, certamente. Mas não combinámos
+tambem que seriamos sempre extremamente francos um com o outro, que nada
+dissimulariamos, que o primeiro artigo da lei da nossa amisade seria a
+mais absoluta confiança? Pois bem: vou ler no meu coração, vou
+indicar-lhe tudo o que n'elle ha. Calou-se por instantes, e depois
+continuou:
+
+--Pediu-me, Laura, que não fosse mais do que seu amigo. Tentei, de boa
+vontade e de boa fé, satisfazer o seu pedido, mas não o consegui. Quanto
+mais vezes a vejo, mais augmenta em mim a estima e a admiração pela
+senhora, e com a admiração e a estima, o amor. Não posso resistir-lhe,
+não posso luctar por mais tempo, não posso conter-me! É indispensavel
+que lhe diga bem alto: amo-a, Laura, amo-a!...
+
+Ella soluçou.
+
+--Escute-me... ainda não acabei. Se a phrase que me prohibiu de
+pronunciar saltou dos meus labios, não foi com a intenção de a affligir
+ou de lhe desobedecer. Não me esqueci d'uma só das palavras que trocamos
+á volta de S. Germano. Consinta apenas que uma ultima vez lhe faça a
+seguinta pergunta; se casasse com um homem que a amasse e cuja
+posição e fortuna lhe permittissem abandonar o theatro, ser-lhe-ia
+completamente impossivel renunciar á scena para sempre?
+
+--Já lh'o disse, mas vou repetir-lhe que o theatro é para mim como uma
+segunda vida, e que não devo nem quero renunciar a elle.
+
+--Pois bem, Laura, eu é que não posso renunciar á sua mão. Talvez
+soffresse menos não respirando do que deixando de a ver. A senhora é
+para mim mais do que uma segunda vida, porque é a minha vida inteira!
+Não quer ceder ao meu pedido? Cederei eu ao seu.
+
+E accrescentou com voz firme:
+
+--Continue no theatro, Laura, e no dia em que me amar, será minha mulher!
+
+Ella levantou-se, estupefacta, e soltou um grito de surpreza.
+
+--É possivel?... O que disse?... Pois consente?... Deixar-me-ha ficar no
+theatro... depois de dar-me o seu nome?... Oh! meus Deus!...
+
+Sentiu uma alegria enorme, inexplicavel, de que ella propria não
+comprehendia a significação.
+
+Elle ajoelhou-lhe aos pés e disse:
+
+--Sim... tudo... tudo! Consisto em tudo, com tanto que seja minha!...
+
+Laura pôz-lhe uma das mãos na frontes e respondeu:
+
+--Não, meu amigo, é muito! Não devo consentir em tanta generosidade...
+não quero acceitar um tão grande sacrificio... não quero!...
+
+N'esse momento ouviu-se uma voz, alta e clara, na sala contigua áquella
+em que estavam Antonino e Laura.
+
+Era a voz de Lauretto Mina.
+
+
+
+
+X
+
+O supplicio do silencio
+
+
+O tenor fallava com Jacintha, a creada de quarto.
+
+Devemos declarar aqui que Lauretto pertencia ao numero d'aquelles a quem
+a expansiva Jacintha chamava bonitos.
+
+--Deixa-me, rapariga! dizia, ou antes, gritava o tenor. Um companheiro
+nunca incommoda!
+
+E entrou de subito na sala onde estavam Laura e Antonino.
+
+A Linda empallideceu.
+
+O visconde levantou-se, cerrando os labios, enraivecido.
+
+Lauretto fingiu não ter visto Antonino ajoelhado.
+
+Foi direito a Laura, e pegou-lhe na mão, que ella não lhe estendera.
+
+--Bom dia, minha querida, disse elle. Senhor visconde, tenho a honra de
+o cumprimentar... Esta Jacintha a não me querer deixar entrar!...
+Nós só a estranhos não permittimos a entrada nos nossos camarins, mas,
+que diabo! nas nossas casas os collegas teem sempre entrada franca!
+
+Laura, interdicta, não achou uma só palavra que responder.
+
+Elle não se incommodou por não obter resposta, e continuou:
+
+--Com que então cantamos ámanhã juntos, na _soirée_ de Pozzoli, o dueto
+da _Lucia_! É por essa razão que venho a tua casa. Se queres, vamos
+ensaiar-nos, minha querida.
+
+Antonino estava irritadissimo.
+
+Aquelle homem atrevia-se a tratar Laura por tu!
+
+Chamava-lhe _minha querida_, como se estivesse fallando com a creada de
+quarto!
+
+Deu um passo para Laura, interrogando-a com o olhar ancioso.
+
+Ella de certo ia zangar-se, mandaria pôr fóra o atrevido... ou, pelo
+menos, com uma só palavra, permittiria que elle, Antonino, interviesse,
+dando uma lição ao insolente.
+
+Laura, gelada de pavor, percebia tudo o que se passava no espirito do
+visconde.
+
+Mas deveria ella provocar um conflicto entre aquelles dois homens?
+
+Do conflicto resultaria um duello talvez...
+
+Aquelle miseravel mataria Antonino.
+
+Por isso, com um sorriso forçado, balbuciou apenas:
+
+--Ensaiar o dueto?... Não, é inutil... Agradeço-lhe ter-se incommodado...
+
+--Como queiras, _cara mia_, replicou o tenor.
+
+E sem ceremonia pegou n'uma cadeira e sentou-se perto de Laura.
+
+Percebia perfeitamente o effeito que estava produzindo, e no intimo
+alegrava-se com ferocidade.
+
+Via no rosto de Laura pintada a consternação e a angustia, e nas feições
+do visconde a indignação e o furor.
+
+Lauretto, ao contrario, estava cada vez mais tranquillo.
+
+De resto, que podiam elles fazer ou dizer?
+
+Por mais indignados que estivessem intimamente, estavam condemnados ao
+silencio.
+
+Se ella se irritasse pelo procedimento indelicado do tenor, se por uma
+palavra ou por um gesto deixasse perceber que se considerava offendida,
+o visconde tinha o direito e o dever de intervir.
+
+E o que se seguiria?
+
+Uma altercação, de que resultaria um desafio, com todas as suas
+perigosas consequencias.
+
+Se Antonino, retrahindo-se Laura, se mostrasse mais susceptivel que ella
+e levantasse qualquer termo insolente de Lauretto, faltaria ás mais
+rudimentares praxes da boa educação, comprometteria a cantora, porque se
+daria ares de mandar mais que a dona da casa.
+
+O tenor, divertindo-se com a situação embaraçosa do visconde e da
+cantora, continuou fallando a Laura com toda a liberdade.
+
+E, para completa impertinencia, fallou-lhe na sua lingua patria.
+
+Antonino sabia o italiano quasi tão bem como o francez, mas podia
+desconhecel-o, e n'esse caso era excluido da conversação.
+
+--Não necessitas ensaiar o dueto, _cara_? Eu, desde que o cante comtigo,
+estou certo de que hei de cantal-o magnificamente. Não o canto com tanta
+correcção com qualquer outra. Como sabes, quando se sente o que se
+canta, a emoção communica-se. Decididamente obteremos um verdadeiro
+successo! Ah! _cara mia_, que alegria sinto por cantar de novo a teu
+lado! O meu pobre talento é como duplicado pelo teu. Pozzoli disse-me
+que a escriptura já estava assignada. É verdade? Duvido sempre das
+affirmações d'aquelle demonio.
+
+--É verdade, respondeu Laura em francez.
+
+O tenor, é claro, fingiu não comprehender a indirecta advertencia, e
+continuou na sua lingua:
+
+--Ah! Pozzoli d'esta vez não mentiu?!.... Bravo! bravissimo! Se
+elle necessitar de metade dos meus ordenados para augmentar os teus, da
+melhor vontade os cedo. Vamos ámanhã dar aos parisienses o ante-gosto do
+nosso successo futuro. Estou satisfeitissimo por teres annuido a ir á
+_soirée_ do nosso emprezario. Verdade seja que não podias proceder
+d'outra fórma.
+
+--Effectivamente era difficil recusar.
+
+--Era até impossivel. Entretanto dizia commigo: a _casta diva_ não
+acceita. Em S. Germano, em pleno campo, o Pozzoli, que nós conhecemos,
+evaporava-se um pouco; mas em casa d'elle não pode deixar de ser o que
+na realidade é. Ah! Ah! em Paris augmentou até os conhecidos
+desregramentos, aquelle maroto! De resto, eu, como sou homem, pouco me
+importo com isso. Mas digo mal: é justamente por ser homem que mais
+sinto as loucuras de Pozzoli. Como está todos os dias a mudar de
+sultanas,--aquelle sultão!--o pobre tenor é forçado a ser,
+successivamente, agradavel a cada uma das favoritas. Não me falta que
+fazer. A que reina agora é a Elvira gorda. Conheces?
+
+--Não, respondeu Laura com firmeza.
+
+--Agora me recordo que ella não foi a S. Germano. Não gosta d'apparecer
+de dia. Mas socega, que elle ámanhã não deixa de apresentar-t'a. Tem uma
+prenda bôa, a Elvira; não é cantora, e por isso não me incommoda
+com pedidos para que cante com ella. É bailarina; dirige o corpo de
+baile do theatro Italiano, composto de doze sylphides que ámanhã
+dansarão na _soirée_ um bailado a caracter. Não te assustes, _casta
+diva_, porque em publico apparecerão pouco apimentadas. Haverá outros
+divertimentos; jogar-se-ha tambem. Tu continuas sendo jogadora, não é
+verdade? Na questão do jogo estou convencido, caso extraordinario, que
+calumniam Pozzoli. Dir-me-has que eu jogo sempre a favor d'elle, mas
+isso explica-se: Pozzoli tem sorte como poucos. E sabes porque? Fiz esta
+descoberta, apesar de não lhe faltarem sultanas, como te disse: Pozzoli
+é infeliz nos amores. Ámanhã não foges á tentação: depois de cantarmos
+decerto jogarás algumas _mãos_ de _baccara_.
+
+--Não sei, respondeu Laura impaciente.
+
+Lauretto continuou, mas d'esta vez em francez:
+
+--E o sr. visconde gosta de jogar? Se assim não fôr divertir-se-ha por
+outra fórma, porque as distracções não faltarão. Em casa de Pozzoli ha
+uma sala d'armas. Fui eu que a installei, aconselhando-o a que jogasse
+um pouco o sabre, todos os dias, para não engordar demasiadamente. Não é
+por ser meu discipulo, mas Pozzoli é já adversario para se temer um
+pouco. Um dos numeros do programma da festa é um assalto. Sou
+apaixonadissimo pela esgrima. Tenho um grande horror pelos duellos,
+porque já matei dois adversarios, mas sinto-me satisfeitissimo
+quando n'uma sala d'armas empunho um sabre ou um florete. Tambem não
+admira: foi esse por muito tempo o meu ganha pão; e não me envergonho de
+o confessar, pelo contrario, orgulho-me. Hoje, para mim, a esgrima é
+apenas um simples passatempo, em que tanto se distrahem os artistas como
+os fidalgos, não é verdade, sr. visconde?
+
+Antonino era d'esta vez directamente interpellado por Lauretto Mina.
+
+Brilharam-lhe os olhos, e abriu a bocca para responder. Laura estremeceu.
+
+Socegou, porém, porque no mesmo instante Jacintha abriu a porta da sala,
+e annunciou:
+
+--O sr. dr. Despujolles.
+
+O medico cumprimentou Laura e o visconde.
+
+Lauretto Mina poucas relações tinha com o dr., e não se arriscou a ser
+muito familiar com elle.
+
+Disse apenas:
+
+--Tenho a honra de cumprimentar o nosso excellente dr. Despujolles.
+Infelizmente sou obrigado a partir no proprio momento em que elle chega.
+Declaro, porém, que não é com medo de que me faça febre, como se diz no
+_Barbeiro_. Pozzoli espera-me ás tres horas, por causa dos ultimos
+preparativos para a _soirée_. Até ámanhã, minha cara Linda, Sr.
+visconde... um seu humilde creado...
+
+Rodou sobre os tacões, fez com a mão um gesto amigavel ao dr., e sahiu.
+
+--Aborrecida creatura! disse Despujolles. Nunca pude supportal-o!
+
+Laura e Antonino não responderam.
+
+Elle olhou-os admirado.
+
+--Mas o que teem? Parece que viram a cabeça de Medusa!
+
+--Meu caro dr., disse Laura, foi essa aborrecida creatura, como lhe
+chamou, que, na presença do sr. visconde de Bizeux, em minha casa, se
+atreveu a tratar-me como apenas nos tratamos no theatro. O sr. de Bizeux
+desconhece, sem duvida, os usos e costumes, originalmente singulares, do
+nosso mundo theatral. Os artistas tratam-se por tu entre si desde o
+primeiro dia que se conhecem. O que não procede d'essa fórma é
+immediatamente considerado mau companheiro. Isto não impede que os
+homens bem educados,--e no theatro tambem os ha, e muitos,--quando
+encontram na sociedade uma mulher que é sua collega, se cohibam de lhe
+fallar como se falla a uma senhora, sobretudo diante d'estranhos. Mas
+ninguem ignora que Lauretto Mina não é um homem bem educado. Entretanto
+o sr. visconde, que desconhecia o costume, estranhou a linguagem um
+pouco licenciosa do insolente que acaba de sahir d'aqui. Emquanto
+fallou, Laura nem por um instante desfitou Antonino, cujas feições
+indicavam um profundo desgosto.
+
+Despujolles percebeu que chegára n'um momento de crise aguda, e tratou
+de intervir como calmante, dizendo:
+
+--O nosso amigo, quasi recemchegado a Paris e desconhecedor, por
+completo, dos habitos do nosso mundo de bastidores, não pode adivinhar o
+que eu sei, que vivo ha vinte annos entre artistas. Não admira, pois,
+que se surprehendesse e desgostasse pelo intimo tratamento de _tu_, que,
+comtudo, garanto-o, é universal entre os artistas.
+
+--Esse tratamento admirou-me ao principio, confesso, respondeu Antonino
+com voz lenta; mas o que mais me surprehendeu não foi a fórma da
+linguagem foi a propria linguagem.
+
+--Oh! isso é uma especialidade de Lauretto Mina! replicou Laura com
+vivacidade. E entretanto fiquei tão surprehendida como o meu amigo.
+
+--Então porque não lhe fez comprehender isso mesmo? Eu esperava um
+olhar, um movimento, um simples signal que chamasse esse insolente á ordem.
+
+Uma mulher nunca pode dizer a um homem que sentiu medo por elle.
+Portanto Laura limitou-se a responder:
+
+--Não quiz dar importancia ás inconveniencias d'esse homem, para
+que elle julgasse que nem reparava n'ellas.
+
+--O Lauretto Mina é com effeito bastante conhecido e tem bem inferior
+cotação para que se dê importancia ao que diz.
+
+Laura continuava olhando para Antonino, que se calou.
+
+--Peço perdão, meu caro dr., disse a cantora, mas o caso d'esta vez
+tinha uma importancia enorme...
+
+E, voltando-se para o visconde, accrescentou: O que acaba de se passar,
+confirma, sr. de Bizeux, o que eu estava para lhe dizer: agradeço-lhe
+muito o generoso pensamento que teve, mas não posso acceitar o que me
+propoz. Como vê, a sua intenção é completamente irrealisavel.
+
+Despujolles, comprehendendo que estava alli de mais, levantou-se,
+dizendo a Laura:
+
+--Deixo-a. Subi apenas para lhe dizer: até ámanhã, na _soirée_ de Pozzoli.
+
+Antonino estava n'um d'esses momentos em que se necessita estar só, ou
+antes, soffrer sem testemunhas.
+
+Fez parar Despujolles com um gesto.
+
+--Sou eu que me retiro, meu caro doutor. Demorei-me aqui mais do que
+desejava. Tenho de resolver em casa um negocio urgente.
+
+Apertou a mão a Laura, que apenas lhe disse:
+
+--Espero que cumpra a palavra dada. Irá á _soirée_, a que eu não posso
+deixar d'assistir, não é verdade? Arrependeu-se de lhe ter recordado a
+promessa feita, porque Antonino, depois d'um instante de hesitação, e
+como occorrendo-lhe uma idéa subita, respondeu precipitadamente:
+
+--Sim, irei á _soirée_ de Pozzoli. É indispensavel que eu me embrenhe
+por completo nos habitos dos artistas!
+
+Despediu-se de Despujolles e saiu, sentindo inexplicavel oppressão no
+coração.
+
+
+
+
+XI
+
+Ouro, lama e sangue
+
+
+A casa de Pozzoli era concorridissima no tempo do ultimo imperio.
+
+N'essa epoca, em que apenas se pensava em gozar e em que não se
+escrupulisavam os meios a empregar para attingir qualquer prazer, as
+salas do director do Theatro Italiano passavam, com justiça, por ser
+d'aquellas em que melhor se perdia uma noite.
+
+Os homens que frequentavam a casa de Pozzoli pertenciam á melhor
+sociedade parisiense.
+
+As mulheres faziam parte de todas as multiplices camadas sociaes.
+
+Encontravam-se alli artistas de primeira ordem, como a Linda, e
+outras que por artistas queriam passar, mas que, d'ordinario, não tinham
+direito a esse qualificativo, e que só se tornavam notadas pela belleza
+ou pelo espirito, mais ou menos original, mais ou menos livre.
+
+O palacio em que Pozzoli habitava, era vasto e perfeitamente bem
+dividido para recepções e festas de qualquer natureza.
+
+Pozzoli decorára e mobilára a casa com sumptuosidade, a que faltava um
+certo gosto, mas visando a determinado effeito, que muitas vezes attingia.
+
+A arte de tapeceria moderna resplandecia em todas as salas.
+
+Entrava-se no rez do chão, subindo seis degráus, que terminavam em largo
+patamar, protegido por elegante cobertura.
+
+O vestibulo era coberto de bocados de marmore, alternadamente branco e
+vermelho, em losango.
+
+A escadaria, coberta de valioso tapete de Smyrna, era de marmore branco,
+e de marmore vermelho o corrimão.
+
+Uma palmeira do Senegal envolvia o tronco na quasi perfeita espiral das
+folhas largas e flexiveis.
+
+As paredes, terminando em velhos Aubussons, eram enfeitadas por placas
+de prata, de muitos braços, sustentando globos baços, que espalhavam uma
+claridade discreta.
+
+O grande salão Luiz XVI, branco e ouro, era illuminado por um lustre
+enorme, e ornado de oito espelhos.
+
+N'esse salão entrava-se por uma porta que se abria á direita do vestibulo.
+
+No fogão de marmore de Carrara, entre dois Renommées ladeando um espelho
+elliptico, e encimado por um frontão em arco, elevava-se, n'um pedestal
+simples, o busto de Rossini.
+
+Ao fundo, o piano d'Erard, um magnifico piano de cauda, ornado
+d'assumptos extrahidos a Watteau, a Lancret e Fragonard.
+
+A sala de jantar ficava em frente do salão, á esquerda do vestibulo.
+
+A sala de jogo, a sala de fumar, a bibliotheca, e a sala d'armas, eram
+no primeiro andar.
+
+A primeira impressão que se experimentava ao entrar n'aquelles salões de
+velludo, seda e oiro, era a de falta d'ar.
+
+Parecia que não se poderia respirar á vontade.
+
+Sentia-se que se estava num meio artificial, falso.
+
+Ao reparar-se para as ondas de luz que cahiam dos lustres e dos
+candieiros, perguntava-se se a luz do dia, a verdadeira luz, poderia
+penetrar alli.
+
+As tapecerias e os estofos espessos dos reposteiros e dos cortinados,
+estavam como que impregnados d'um perfume capitoso, que tornava
+pesada a cabeça, embaciados os olhos, oppresso o peito.
+
+Ás onze horas os salões começaram a encher-se.
+
+Áquella hora ainda não tinham chegado nem Laura nem o visconde.
+
+Pozzoli, encontrando-se com Lauretto Mina, que tambem fazia um pouco de
+dono de casa, perguntou-lhe em voz baixa:
+
+--Tens a certeza de que a tua _casta diva_ não deixa de vir? Não achas
+possivel que o nosso bretão a prohiba de comparecer?
+
+--Acho...
+
+--Começo a antypathisar com o tal visconde de Bizeux! Em S. Germano a
+custo me cumprimentou, e ao receber o convite para a _soirée_ d'esta
+noite, apenas me mandou o seu cartão, com estas palavras seccas,
+escriptas a seguir ao nome: _acceita o convite do sr. Pozzoli_.
+Desagrada-me deveras o pretencioso fidalgo!
+
+--E eu gosto immenso d'elle, respondeu o tenor, rindo.
+
+--Sim!... Porque?
+
+--Porque cada vez amo mais a Linda, e estou convencido de que será o
+visconde quem me franqueará o caminho que conduz ao coração de Laura.
+Cedo-lhe o logar da melhor vontade. Em geral não se gosta do
+successor, mas não ha razão para odiar o predecessor. Ah! Eil-o que chega!
+
+--Com a Linda?
+
+--Não... Vem com o conde de Vireuil.
+
+--Diabos me levem se eu fingir que o vejo durante toda a noite!
+
+--Estás doido! Olha que elle é rico, e provavelmente gosta de jogar.
+
+--Necessito tanto do dinheiro do visconde, como d'elle proprio!
+
+--Mas parece-me mais conveniente detestal-o e ir-lhe embolsando o
+dinheiro...
+
+--Que vá para o diabo! Recebe-o tu, se quizeres. Decididamente, não
+estou disposto a incommodar-me com semelhante animal!
+
+--Eu? replicou o tenor. Não caio n'essa! Hoje não quero brincadeiras com
+elle. Tratarei até de o evitar, com a maxima prudencia e habilidade.
+
+Alguns minutos depois chegava Laura Linda.
+
+Vinha acompanhada pelo dr. Despujolles, que lhe dava o braço.
+
+Trazia um magnifico vestido de velludo preto, muito decotado, que fazia
+resaltar admiravelmente a brancura _mate_ da sua cutis d'andaluza.
+
+Nos sedosos e abundantes cabellos pretos ostentava um diadema de
+margaritas em brilhantes.
+
+Das orelhas pendiam-lhe duas margaritas eguaes ás do diadema.
+
+Aos cantos dos laços dos sapatos de setim mais duas margaritas
+semelhantes, como que chamavam a attenção para a extraordinaria pequenez
+dos pés.
+
+Esta _toilette_ um pouco triste realçava, comtudo, a incomparavel
+belleza da cantora.
+
+Sob os feixes de luz que sahiam dos lustres, os esplendores setinosos da
+cabelleira preta, o vibrante brilho dos olhos aveludados, a faisca viva
+do sorriso, coruscavam clarões femininos, scintillamentos de parisiense,
+para quem o verdadeiro sol é a luz das _soirées_.
+
+Pozzoli, radioso, precipitou-se para Laura, logo que a viu entrar.
+
+--Ah! Até que emfim chegou a nossa querida diva! Estavamos anciosos pela
+sua chegada...
+
+--Porque?
+
+--Porque o concerto não podia começar sem que estivesse presente...
+
+Offereceu-lhe o braço para a conduzir ao salão, onde todos os
+convidados, amigos ou admiradores, a foram cumprimentar.
+
+Laura sorriu a Antonino quando o visconde lhe fallou.
+
+Só elle percebeu, ou antes, sentiu, que n'aquelle sorriso havia uma
+nuvem de tristeza.
+
+O concerto começou pouco depois.
+
+Quando chegou a vez a Laura, pediu para cantar primeiro o dueto da
+_Lucia_, que estava indicado no programma como devendo ser o segundo
+trecho.
+
+Lauretto Mina cantou a toda a voz, á qual deu tudo o que suppunha ou
+podia ter de sentimento.
+
+Laura cantou com a segurança e a pericia costumadas, mas os que por mais
+vezes a tinham ouvido executar o dueto declararam que ella, d'esta vez,
+não lhe dera todo o brilho que os seus vastos recursos vocaes permittiam.
+
+Ainda assim o successo não foi menor.
+
+Remissy, já de volta de Londres, executou as suas celebres variações
+sobre o _Carnaval de Veneza_, a que deu o mais extraordinario e
+admiravel relevo e a mais poetica e sonhadora phantasia.
+
+Depois d'uma aria de baritono, Laura sentou-se ao piano e cantou um
+trecho da _Mancenilheira_.
+
+N'essa aria é que os seus admiradores reconheceram a Linda!
+
+Cantou com todo o sentimento, com toda a alma!
+
+Não olhou uma unica vez para Antonino, mas era por elle que Laura se
+esforçava por cantar com surprehendente habilidade.
+
+O effeito foi extraordinario.
+
+O auditorio, transportado, rompeu em applausos enthusiasticos.
+
+Antonino, reprimindo violentamente os soluços prestes a rebentar,
+abysmava-se n'um extasi de dôr e de paixão. Chegou a hora da ceia.
+
+Passaram á sala de jantar, vasta mas um pouco fria, mercê das paredes e
+columnas de marmore.
+
+Os aparadores estavam carregados d'eguarias, e servidas as mezas.
+
+Pozzoli conduziu Laura para uma meza, sentando-se junto da cantora.
+
+Por entre a barafunda dos convidados que procuravam logar, o conde de
+Vereuil, que seguia Antonino, fel-o parar inesperadamente, dizendo-lhe
+depois:
+
+--Meu caro, esta dama pede-me que o apresente.
+
+E accrescentou:
+
+--O sr. visconde de Bizeux.--_Madame_ Elvira.
+
+A Elvira gorda,--porque era a dona da casa em pessoa que fôra
+apresentada a Antonino--desfez-se em cumprimentos e phrases amaveis.
+
+Ouvia fallar tanto do sr. de Bizeux, que desejava ardentemente conhecer
+tão distincto gentilhomem!
+
+Antonino, cortez e galante sempre com qualquer mulher, respondeu ás
+expressões admirativas da Elvira gorda com as banalidades do estylo.
+
+Ella tomou o braço do visconde, sem ceremonia, e conduziu-o para uma das
+mezas, bastante distanciada d'aquella a que estava Laura.
+
+A Elvira gorda fôra em tempo bastante formosa, e á luz do gaz parecia-o
+ainda.
+
+Era branca e loira.
+
+Tinhas as feições regulares, mas sem expressão.
+
+O que ainda a fazia passar por uma bella mulher era o corpo,
+admiravelmente bem feito, esbelto como poucos, d'espaduas e braços
+soberbos.
+
+Fallava com vivacidade e um certo espirito a Antonino, que lhe respondia
+com phrases curtas, d'uma concisão impossivel d'exceder.
+
+Discorrendo sobre Laura, a amante de Pozzoli absteve-se prudentemente de
+lhe apontar o mais insignificante defeito.
+
+--Formosissima mulher! disse ella, mas sobretudo admiravel artista.
+Nasceu para cantar, mas se a voz lhe faltasse nem por isso deixaria de
+brilhar, porque á rara distincção de maneiras junta os mais invejaveis
+predicados de coração.
+
+E continuou a elogiar a cantora, não perdendo occasião para,
+disfarçadamente, dirigir tambem elogios ao visconde.
+
+Terminada a ceia, a Elvira gorda tomou o braço d'Antonino, para lhe
+fazer as honras da casa.
+
+Mostrou-lhe a estufa, a galeria dos quadros, onde, entre algumas telas
+de mestres, abundavam as copias mediocres, que Pozzoli fazia passar por
+originaes authenticos.
+
+Fez parar o visconde deante d'uma estatua de Diana, para a qual
+_pousara_, tendo apenas á cinta, como se via no marmore, uma simples
+pelle de panthera.
+
+E tentou córar aos cumprimentos forçados d'Antonino, que declarou
+admiraveis as formas.
+
+--Quer vir á sala do jogo? Gosta do _bacura_? perguntou ella.
+
+--Fará bem em ir, meu caro, disse repentinamente o dr. Despujolles
+surgindo ao lado d'elles. A nossa amiga Laura Linda, pela fórma como
+está jogando, arrisca-se a ficar arruinada esta noite.
+
+Desde que chegou, Laura seguira sempre o visconde com o olhar, sentindo
+inexplicavel inquietação.
+
+Tambem não perdia de vista Lauretto Mina.
+
+Mas, percebendo que Antonino diligenciou por vezes approximar-se do
+tenor, socegou por lhe parecer que Lauretto evitava encontrar-se com o
+visconde.
+
+O socego foi substituido por um sentimento irritante quando deu pelas
+attenções que a Elvira gorda prodigalisava ao visconde.
+
+Esse sentimento, desconhecido para ella, fazia-a soffrer immenso.
+
+Era o ciume.
+
+O que quereria aquella mulher a Antonino?
+
+Julgou que o mal estar que sentia era resultante da natural apprehensão
+que lhe causava o pensamento de que o visconde podia correr perigo.
+
+Pois porque razão soffreria ella pelas attenções que a amante de Pozzoli
+dispensava ao sr. de Bizeux?
+
+Vi-os sahir da sala de jantar, despeitada.
+
+Não tinha razão para se zangar por um facto tão insignificante, que de
+mais a mais se passava com um homem a quem declarára não poder amar.
+
+Não devia considerar o visconde completamente livre, para escutar as
+phrases ternas d'aquella mulher?
+
+E a cantora percebeu que era extraordinaria a sua preoccupação.
+
+Pozzoli, ao levantar-se da mesa, perguntou-lhe se queria jogar.
+
+Laura respondeu machinalmente que sim, mas não comprehendera o que lhe
+dissera o emprezario.
+
+Chegaram á sala do jogo, conhecida pelos _habitués_ sob a designação da
+sala verde, porque as paredes, o tecto e o proprio soalho eram forrados
+de veludo d'aquella côr.
+
+Duas grandes mezas d'ebano, rodeadas por cadeiras, eram os unicos moveis
+que guarneciam a sala, alumiada por quatro candelabros de sete lumes
+cada um, collocados nos angulos da casa.
+
+Laura sentou-se, pensativa.
+
+Ao principio não quiz jogar.
+
+Depois, importunada e espicaçada por sentimentos diversos, passou a
+tomar pelo jogo o mais vivo interesse.
+
+Chegou-lhe a vez de fazer _banca_.
+
+Pegou no baralho nervosamente, e jogou sem reflexão nem presença
+d'espirito.
+
+Perdeu todos os _baccaras_.
+
+A sorte, sempre contraria a Laura, fez-lhes perder mil _luizes_ n'um
+instante.
+
+Quando Pozzoli fez banca, disse graciosamente para a cantora:
+
+--Vae recuperar todo o dinheiro perdido, verá!
+
+A previsão não se realisou.
+
+Laura, esperando rehaver o perdido, jogou quantias importantes.
+
+O azar continuou.
+
+Foi então que Despujolles, notando a infelicidade da cantora, e a sorte
+singular de Pozzoli, sahiu da sala em busca d'Antonino, a quem lhe
+pareceu conveniente avisar. Entraram juntos no salão do jogo.
+
+A gorda Elvira segui-os de longe.
+
+Laura viu o visconde assim que elle entrou.
+
+--Ha vinte mil francos de _baccara_, dizia Pozzoli.
+
+--Jogo-os! disse Laura lançando para Antonino como que um olhar de
+desafio.
+
+Pozzoli deu as cartas e ganhou.
+
+--Ha quarenta mil francos... disse elle.
+
+Laura ia abrir a bocca.
+
+Antonino, porém, que se approximara, curvou-se, para ella, e disse-lhe
+em voz baixa e supplicante:
+
+--Peço-lhe que não jogue mais!
+
+Pozzoli percebeu o que o visconde dissera, e observou, sorrindo:
+
+--Meu caro visconde, deixe-me dar a desforra á nossa amiga.
+
+--Seja caridoso, replicou o visconde friamente. Deixe a desforra para
+outra vez!
+
+Pozzoli empallideceu.
+
+Laura, sem pronunciar uma só palavra, apontou cento e cincoenta francos.
+
+O emprezario ganhou ainda.
+
+--Já vê que tinha razão, disse Antonino a Laura, sorrindo por sua vez.
+
+--A verdade é, replicou Pozzoli em laia d'explicação, que tenho uma
+sorte verdadeiramente compremettedora para dono da casa. Passo as cartas.
+
+E levantou-se da mesa.
+
+O _banqueiro_ que se seguia, deu ainda quatro _baccaras_.
+
+Antonino continuava sorrindo.
+
+O emprezario não o desfitava.
+
+O rosto d'aquelle homem transformára-se de subito.
+
+Brilhava-lhe sinistramente o olhar, rugas fundas vincavam-lhe a fronte,
+e gotas de suor perlavam-lhe o carmim das faces. Approximou-se de
+Antonino, a quem disse em voz baixa:
+
+--Não joga, senhor visconde?
+
+--Não...
+
+--Como não se entretem aqui, se quer vamos até á sala d'esgrima...
+
+--Pois sim.
+
+--Muito bem. Para nos interessarmos um pouco mais no assalto, occorre-me
+uma idéa, que talvez não lhe desagrade tambem.
+
+--Queira dizer.
+
+--A um canto da sala ha dois floretes, cujos botões saltaram ha dias.
+Poderemos experimentar as nossas forças como elles... como quem não repara.
+
+--Acceito, mas hei de eu escolher um dos floretes.
+
+--Escolherá á sua vontade! respondeu Pozzoli tremente de raiva.
+
+E accrescentou em seguida:
+
+--A Linda está a olhar para nós. Não devemos sahir juntos. Vá o senhor
+adiante. D'aqui a cinco minutos sahirei eu.
+
+Antonino fingiu seguir com attenção, por alguns segundos, a partida
+_baccara_, que já não despertava interesse a Laura, assustada pelo
+colloquio do visconde com Pozzoli.
+
+Pouco depois Antonino sahiu da sala, sem afectação.
+
+Laura procurou então o emprezario com o olhar.
+
+Pozzoli conversava e ria n'um grupo de convidados, que não jogavam.
+
+Passados dois minutos tomou o braço d'um d'elles, com quem pareceu
+entabolar uma conversação interessante, e sahiu com elle.
+
+Quando chegou á sala d'esgrima, o visconde já o esperava.
+
+Despujolles e Remissy, que não eram fortes em esgrima, estavam um em
+frente do outro, de sabre em punho.
+
+--Queira examinar estas explendidas panoplias, sr. visconde, disse Pozzoli.
+
+Antonino seguiu o emprezario, que, fingindo dar-lhe explicações sobre
+varias armas antigas, escolheu dois floretes desembolados, que deu ao
+visconde, sem pronunciar uma só palavra.
+
+Antonino examinou-os, dobrou-os para lhes experimentar a tempera,
+escolheu um e deu o outro a Pozzoli.
+
+--Está combinado, disse o emprezario, que, succeda o que succeder, não
+será mais do que o effeito d'um accidente?
+
+--Está.
+
+Todos os convidados presentes na sala d'armas seguiam com
+curiosidade o assalto entre Despujolles e Remissy, que, em mangas de
+camisa, esgrimiam enfurecidamente, como dois demonios.
+
+Ninguem reparou para Pozzoli e para o visconde, que fizeram tudo o que
+deixamos dito sem serem percebidos.
+
+Quando, porém, acabavam de trocar as ultimas palavras, entrou na sala a
+gorda Elvira, acompanhada de Lauretto Mina.
+
+Dirigiu-se para Pozzoli, dizendo-lhe:
+
+--Vamos para a galeria grande. As _pequenas_ vão executar a dansa das
+bailadeiras.
+
+O emprezario franziu as sobrancelhas.
+
+Por fim respondeu com voz brusca:
+
+--Logo dansarão.
+
+Elvira tocou com o cotovello em Lauretto, imperceptivelmente.
+
+E sem dizerem nada, mas percebendo-se, foram-se sentar n'um _divan_, e
+accenderam umas cigarrilhas.
+
+Despujolles tocava, pela terceira vez, o seu adversario, com applausos,
+um pouco ironicos, dos assistentes.
+
+O violinista, já cançado, disse:
+
+--Estou satisfeito, meu caro dr. Confesso-me vencido.
+
+E ajuntou, sorrindo:
+
+--De resto, nenhum de nós é forte ao sabre.
+
+N'esse momento Pozzoli dizia ao visconde, em voz baixa:
+
+--Como estou em minha casa, parece-me conveniente que o sr. me convide,
+para desviar todas as suspeitas... na hypothese d'um accidente
+desagradavel.
+
+--D'accordo, replicou Antonino no mesmo tom.
+
+E em voz alta disse:
+
+--Sr. Pozzoli, o sr. Lauretto Mina, disse, ha dias, na minha presença,
+que o meu amigo era de primeira força ao florete. Quer dar-me a honra de
+ser meu adversario?
+
+--A honra será toda minha, sr. visconde, respondeu o emprezario.
+
+Pegaram, como por acaso, nos dois floretes desembolados, como se fossem
+os primeiros que encontrassem á mão.
+
+Ao despirem os casacos, Pozzoli disse a Antonino, baixo:
+
+--Venha um pouco para a penumbra, para que não reparem na falta de
+botões dos floretes.
+
+A sala era illuminada por uma enorme lampada persa, de cobre
+avermelhado, trabalhada com arte.
+
+Estava suspensa ao centro da casa.
+
+As extremidades da sala, que era rectangular, ficavam um pouco na
+sombra.
+
+Foi para uma d'essas extremidades que os dois esgrimistas se dirigiram.
+
+Cumprimentaram-se com os floretes, segundo as regras, e cahiram em guarda.
+
+Em volta formou-se rapidamente um circulo de curiosos, que engrossava de
+momento a momento.
+
+Na sala não se ouvia mais do que o tenir das laminas.
+
+Os dois adversarios começaram sem demora a bater-se com encarniçamento,
+_parando_ com toda a rapidez e _ripostando_ vigorosamente.
+
+Lauretto Mina, que tinha boa vista, e estava meio prevenido por Elvira,
+percebeu immediatamente que os floretes estavam desembolados.
+
+Sem deixar de fumar, apontou o facto á amante de Pozzoli. Ao cabo de
+dois minutos, continuando a observar os dois contendores, disse:
+
+--Sabes, Elvira?...
+
+--O quê?...
+
+--Estás prestes a enviuvar, minha querida.
+
+--Pois suppões?...
+
+--Ou, pelo menos, destinada a enfermeira durante dois ou tres mezes.
+
+--Que estopada? Parece-te então que Pozzoli?...
+
+--Será ferido? Com certeza!... Nem parece meu discipulo! Verdade seja
+que o visconde é de primeira força. Repara para elle...
+
+Laura, que continuava na sala do jogo, reflexionou com temor que a
+sahida de Pozzoli, quasi immediata á de Antonino, não era natural.
+
+Poucos minutos passados, não podendo conter-se por mais tempo, chamou o
+conde de Vereuil, que estava proximo, e disse-lhe:
+
+--Não vejo Pozzoli. Queria fallar-lhe n'um assumpto urgente... Se o sr.
+conde o procurasse e trouxesse aqui muito me obsequiava.
+
+O conde inclinou-se e sahiu.
+
+Demorou-se dez minutos.
+
+Á angustia de Laura parecia que elle partira ha mais de uma hora.
+
+Por fim o conde voltou.
+
+Vinha só.
+
+Laura perguntou-lhe, logo que o viu:
+
+--E então?... Pozzoli?
+
+--Perdôe-me a demora, mas com difficuldade o encontrei. Fui dar com elle
+na sala d'armas.
+
+--Ah! Fallou-lhe?
+
+--Não. Era impossivel, porque no momento em que cheguei começava elle um
+assalto ao florete.
+
+--Com quem?... com quem?...
+
+--Com Bizeux.
+
+Laura levantou-se, como que impellida por mola occulta.
+
+Estava pallida como uma morta.
+
+Passados instantes disse ao conde:
+
+--Queira dar-me o seu braço. Vamos até lá. Desejo ver o assalto. Sou tão
+curiosa!
+
+Tomou o braço do conde, que, surprezo, a sentiu tremer.
+
+Entretanto não se atreveu a perguntar-lhe o que tinha.
+
+Laura apressou o passo.
+
+Quando entraram na sala d'armas, Pozzoli, extremamente pallido--porque
+tinha percebido, antes de Lauretto Mina, que estava em frente d'um
+adversasario de primeira ordem,--concentrava toda a sua vontade e todos
+os seus recursos d'esgrimista em guardar a defensiva.
+
+Comtudo sentia-se perdido.
+
+No momento em que Laura se approximava, Antonino cahiu a fundo. Pozzoli
+_parou_, curvando-se.
+
+A cantora, ao primeiro olhar, percebeu que o florete de Pozzoli não
+tinha botão.
+
+--Acautelle-se!... gritou ella ao visconde.
+
+Antonino olhou para o lado d'onde partira a voz de Laura.
+
+Esta distracção fez com que se conservasse descoberto durante dois
+segundos.
+
+Pozzoli aproveitou o momento para lhe vibrar uma estocada, de que o
+visconde não teve tempo de defender-se.
+
+A ponta do florete attingiu-o debaixo do sovaco.
+
+Antonino cambaleou e cahiu nos braços do dr. Despujolles.
+
+Um ruido confuso espalhou-se por entre as testemunhas d'aquella scena
+tragica.
+
+Transportaram o ferido para um _divan_.
+
+Laura, fóra de si, d'olhos esgazeados, gritava:
+
+--Fui eu que o matei.
+
+O dr. examinou cuidadosamente o ferimento do visconde.
+
+Passados momentos, disse:
+
+--Ferida quadrangular!... Não sangra!
+
+Alargou com a ponta do dedo a abertura do ferimento, d'onde apenas
+sahiam umas gotas de sangue, e introduziu a sonda, que sempre trazia
+comsigo.
+
+O rosto alegrou-se-lhe.
+
+Laura, ajoelhada junto d'elle, perguntou-lhe:
+
+--Então, dr?...
+
+--O ferimento é grave, mas não é mortal. Vou sangral-o.
+
+Durante esse tempo, Pozzoli, tendo nas mãos os dois floretes, dizia para
+Lauretto Mina com aspecto consternado:
+
+--Ah! Foi aquelle idiota do Antonio que deixou aqui os floretes que nós,
+a semana passada, tinhamos desembolado. Que miseravel! Nem mais uma
+noite dormirá em minha casa!
+
+E mostrou o florete do visconde, para provar que não tinha botão, como
+aquelle de que se servira.
+
+Antonino reabriu um pouco os olhos depois de sangrado. Olhou para Laura,
+sorriu-lhe, e perdeu os sentidos.
+
+Despujolles parecia ter pressa de o fazer sahir d'aquella casa.
+
+--Pode já ser transportado, disse elle.
+
+--Irá na minha carruagem, observou Laura.
+
+--Não. Uma padiola é mais conveniente.
+
+Foi improvisada a padiola sem detença.
+
+Deitaram n'ella o ferido, e levaram-o.
+
+O visconde continuava sem sentidos.
+
+Ao chegarem ao vestibulo, cheio d'homens e senhoras em _toilette_ de
+baile, os conductores perguntaram:
+
+--Para onde devemos seguir?
+
+--Boulevard Haussmann.
+
+--Não, disse Laura. Para minha casa, rua de Bolonha. É mais perto.
+
+--Mas... ia a observar Despujolles.
+
+--Em casa d'elle não terá ninguem que o trate. Para minha casa... para
+minha casa!...
+
+--Veja o que faz... disse-lhe baixo Despujolles, que via trocarem-se
+entre os espectadores d'aquella scena, olhares e sorrisos
+significativos. Asseguro-lhe que respondo por elle...
+
+E voltando-se para os homens que conduziam a padiola, ajuntou em voz alta:
+
+--Levem o sr. de Bizeux...
+
+--Para minha casa, interrompeu Laura. Já lhe disse, doutor... quero que
+o levem para minha casa!
+
+Ainda não eram tres horas da madrugada, e o baile devia prolongar-se até
+pela manhã.
+
+Aquella scena inesperada, porém, desgostára todos os convidados de Pozzoli.
+
+Em menos de meia hora as salas ficaram desertas.
+
+Os convidados retiravam-se commentando, de mil formas diversas, o
+assalto, ou o duello, de Pozzoli e do visconde.
+
+Remissy dizia ao baritono Lunier, com quem descia o _boulevard_:
+
+--Ninguem sabia ao certo, até agora, o que era a casa de Pozzoli.
+Passava por ser um bordel. Desde hoje é tambem um covil. Completou-se.
+
+Em quanto os creados apagavam as ultimas velas, Pozzoli, ficando só com
+Lauretto e a Elvira gorda, disse-lhes:
+
+--Vamos para o salão reservado.
+
+Contiguo ao quarto de cama de Pozzoli, no salão reservado não entravam
+senão os intimos do emprezario.
+
+Era uma sala octogona, sem janellas, alumiada apenas por lampadas arabes
+mettidas em vidros de côres, que espalhavam uma luz mysteriosa e
+sensual.
+
+Espessos tapetes persas cobriam o sobrado e amontoavam-se para formar um
+largo _divan_ baixo, que circundava toda a casa.
+
+Tamboretes de madrepérola e marfim, espalhados ao acaso, completavam a
+mobilia da casa, cujas paredes eram forradas d'espelhos caros.
+
+A pintura do tecto representava a dansa de sete odaliscas nuas, deante
+do senhor, acocorado e fumando, com os olhos semi-cerrados e os labios,
+entre-abertos.
+
+--Uff! Não posso mais! disse Pozzoli ao entrar na sala, atirando-se para
+o _divan_. Não bebi quasi nada durante a noite, para estar senhor de
+mim. Vou desforrar-me!
+
+Carregou n'um botão.
+
+Um dos espelhos moveu-se, deixando uma abertura, a que appareceu um creado.
+
+--Antonio, _chypre_ para mim, e _champagne_ para a senhora e para o sr.
+Lauretto Mina.
+
+--Temos de beber á tua dupla victoria, disse o tenor. Ah! meu caro,
+palavra! cheguei a suppôr-te um homem morto!
+
+--Tambem eu cheguei a considerar-me n'esse lindo estado! replicou
+Pozzoli, tirando das algibeiras, á mistura, notas de banco e moedas
+d'oiro, que ia pondo sobre um tamborete proximo.
+
+Depois d'alguns instantes de silencio continuou:
+
+--Se não fosse a intervenção da nossa querida Laura, tinha-me levado o
+diabo! Esteve toda a noite a meu favor, a Linda! Só lhe apanhei cinco
+mil francos, mas ficou-me a dever quatorze, o que prefaz um total de
+desanove. E aquelle grito de prevenção, que soltou, salvou-me a vida.
+Ah! é tão bom viver!
+
+--O pobre visconde, chasqueou Lauretto, é que não pode dizer o mesmo por
+muito tempo. Entretanto é de esperar que viva ainda bastante. Reparaste?
+A Linda mandou-o conduzir para casa d'ella. Aposto em como o vae amar
+loucamente. A noite foi boa, Pozzoli. Trataste satisfatoriamente dos
+teus negocios e adeantaste os meus. Obrigado!
+
+--Não te calarás? gritou a Elvira gorda acotovellando o tenor com rudeza.
+
+Lauretto riu-se.
+
+--Deixa-o fallar, Elvira, disse Pozzoli. Lauretto tem razão. Vou por
+elle. Has de ser amante de Laura!
+
+E rindo-se, pegou em quatro notas de mil francos cada uma.
+
+Dobrou-as e atirou com duas a Elvira, dizendo-lhe:
+
+--São para ti.
+
+--Obrigado, Eurico!
+
+E accrescentou dando as outras duas ao tenor:
+
+--E estas para ti, Lauretto.
+
+O tenor metteu as notas na algibeira, sem pronunciar palavra.
+
+--Pois nem me agradeces?
+
+--Para que? Dás sempre qualquer coisa com uns modos que provocam
+explicações.
+
+--Então restitue-me o dinheiro!...
+
+--Estás doido!... Olha, eis o vinho que chega. Bebamos. Para isso é que
+tu és um homem! Esvasias muito melhor os copos do que as algibeiras.
+
+Pozzoli deu aos hombros despresadoramente.
+
+Desrolhadas as garrafas, o creado sahiu.
+
+Os tres começaram a beber em silencio.
+
+Pozzoli, sobretudo, bebia com uma especie de bestialidade avida e feroz.
+
+De repente interrompeu as libações para dizer:
+
+--Então, não dizem nada?... Estão esta noite muito monos!...
+
+--Espera, respondeu Elvira. Vou chamar as _pequenas_.
+
+Carregou no botão d'uma campainha electrica.
+
+Quasi immediatamente appareceram quatro bailarinas, jovens e formosas.
+
+Elvira disse-lhes:
+
+--Executem a dansa das bailadeiras, sem córtes.
+
+Lauretto Mina pegou n'uma guitarra, e cantou, acompanhando-se com o
+instrumento, uma canção arabe, primeiro lenta e terna, mas accelerando
+gradualmente o movimento, até tornar-se ardente e rapida.
+
+As bailarinas seguiram-o, executando uma d'essas dansas egypciacas,
+brandas e lascivas, que terminou n'uma especie de furia de bacchantes.
+
+Pozzoli soltava gargalhadas estridentes, batia as mãos, rebolava-se pelo
+_divan_.
+
+Quando o bailado acabou, elle berrou:
+
+--Mais! mais!...
+
+--Mais não! replicou Lauretto. Eu e ellas é que sabemos se foi bastante.
+
+--Então bebamos!
+
+--Olha, cá está o teu copo grande, disse o tenor.
+
+E apresentou-lhe um copo enorme, que podia conter todo o liquido d'uma
+garrafa.
+
+Pozzoli encheu-o de vinho de _chypre_.
+
+Depois de beber a grandes golos, disse:
+
+--Ah! isto consola!
+
+E bebeu o resto.
+
+--Basta, disse-lhe Lauretto. Já estás bebedo.
+
+--Deixa-o beber, meu querido Lauretto! observou a Elvira gorda sem se
+dar ao incommodo de baixar a voz. Mais depressa ficaremos livres e sós.
+
+Lauretto apenas respondeu com um movimento de hombros approvativo, e
+accendeu um cachimbo.
+
+--Não fumes esse veneno, meu idolatrado! aconselhou Elvira. Repara, eu
+já não bebo...
+
+Mas elle continuou a fumar em silencio.
+
+Pozzoli rolára do _divan_ para o tapete, balbuciando:
+
+--Deem-me de beber!... Quero _chypre_!... Estão na mesa quinhentos
+_luizes_... Aposta, visconde?...
+
+As quatro bailarinas descançavam, sentadas no _divan_, de pernas
+cruzadas, olhando com curiosidade para os patrões.
+
+Elvira fez-lhe signal de que podiam retirar-se.
+
+Ellas desappareceram immediatamente.
+
+Entretanto Lauretto bebia e fumava.
+
+--Meu querido Lauretto, peço-te que não bebas mais! supplicava a Elvira
+gorda.
+
+E passava os braços em volta do pescoço do tenor, tentando tirar-lhe o
+cachimbo da bocca.
+
+Elle deu-lhe um murro.
+
+--Deixa-me, ursa!... Safa-te! Ou és tu como Laura? Se és, vem!... Mas,
+não... ella é mais formosa... Não te pareces com a Linda, nem ao
+longe... Ah! Laura!...
+
+As palpebras cerraram-se-lhe.
+
+No rosto desenhou-se-lhe uma expressão d'extasi voluptuoso.
+
+--Laura! vem!... Leva-me comtigo para o infinito, onde as estrellas
+executam uma dansa luminosa!... Meu Deus! como os teus cabellos
+cresceram desde a ultima vez que os acariciei, Laura!... Vejo-os
+fluctuar ao longe, atraz de nós, cauda d'um cometa d'ouro, entre a
+harmonia dos astros... A brisa eterna fal-os soltar notas maviosas...
+Vibram como cordas d'harpas eolias... Ouço por toda a parte a
+sympathonia do amor, em que canta um beijo que dura um seculo!...
+
+Calou-se.
+
+Elvira passou apenas a ouvir os roucos estribulos de Pozzoli, curtindo
+socegadamente a bebedeira.
+
+Lauretto foi em breve fazer companhia ao emprezario, sobre o tapete.
+
+Elvira olhou primeiro para Pozzoli, que parecia dormir o somno da
+innocencia, e depois para Lauretto, que conservava a bocca e os olhos
+entreabertos, n'uma expressão mystica de Christo em extasi.
+
+Por fim levantou-se; arredou-os com o pé para passar, dizendo
+despresadoramente:
+
+--Que dois brutos!
+
+E entrou, só, no quarto da cama.
+
+
+
+
+XII
+
+A cura
+
+
+Durante uma semana em que fluctuou entre a vida e a morte, Antonino viu,
+atravez o delirio, passar e repassar uma sombra, branca e silenciosa,
+que corria para elle ao ouvil-o soltar um gemido, ou se inclinava para
+lhe humedecer a fronte escaldante de febre ou para lhe dar de beber.
+
+Por vezes essa que para o visconde era apenas sombra, dirigia-lhe
+palavras meigas, que elle não comprehendia, mas que o embalavam,
+socegando-o.
+
+Um dia o pensamento fixou-se no seu cerebro perturbado.
+
+A febre diminuiu, e, como accordando d'um pesadello terrivel,
+Antonino olhou em volta, parecendo distinguir e perceber.
+
+A sombra branca lá estava junto d'elle.
+
+Não sonhára, pois.
+
+Ella lá estava, envolvendo-o n'um olhar em que o sorriso transparecia
+por entre as lagrimas.
+
+O visconde reconheceu-a.
+
+Sorriu-lhe tambem e murmurou:
+
+--Laura!
+
+--Não falle, observou ella. Está melhor, está salvo, mas não está ainda
+completamente curado. É necessario estar calado e quieto, porque foi
+essa a recommendação do doutor.
+
+Elle repetiu com enlevo, despresando o conselho:
+
+--Laura!
+
+Depois, olhando em volta demoradamente, perguntou:
+
+--Onde estou eu?
+
+Despujolles entrava n'esse momento.
+
+--Ah! doutor! disse Laura indo ao encontro do medico, ainda bem que
+chegou! Elle vê e falla. Voltou completamente a si!
+
+--Admire a minha sciencia! Preveni-a hontem de que hoje se daria esse
+facto, respondeu Despujolles.
+
+E depois, voltando-se para o visconde, accrescentou:
+
+--Vejamos o pulso. Bem. A febre quasi desappareceu de todo. Tudo vae bem.
+
+--É o senhor, meu caro Despujolles? disse Antonino. Mas o que
+succedeu?... Porque não estou eu em minha casa?...
+
+--Não falle, recommendou o medico. Vou pôl-o ao corrente do caso. O meu
+amigo foi ferido ha oito dias, n'um pretendido assalto d'esgrima, pelo
+patife do Pozzoli. O ferimento era serio, muito serio até! A nossa
+querida Laura mandou-o transportar para casa d'ella. O meu amigo está no
+salão da nossa amiga, deitado n'um leito que eu mandei arranjar de
+proposito, e que facilita muito os pensos. Durante essa terrivel semana,
+o meu caro visconde não teve, tanto de dia como de noite, senão uma
+enfermeira: Laura Linda, que apenas admittia que Jacintha a ajudasse
+algumas vezes na sua dedicada missão e nas vigilias longas. Está em via
+de cura rapida e completa, mas é necessario ter juizo, obedecendo ao seu
+medico como a um deus, não se mover, fallar pouco e pensar menos.
+
+--Seguirei á risca as suas instrucções, meu caro doutor, e agradeço-lhe
+reconhecido os seus desvelados serviços, disse Antonino.
+
+Em seguida estendeu a mão para Laura. A cantora pegou n'aquella mão
+descarnada, e disse, sem poder suster as lagrimas, que lhe deslisaram
+pelas faces:
+
+--Como é estupido chorar d'alegria!
+
+--Sobretudo, accrescentou Despujolles, quando se corre o risco
+d'enternecer um doente. Nada de pieguices! Vou fazer o penso.
+
+Antonino não cessava d'olhar para Laura, com expressão de reconhecimento
+e amor.
+
+--Juizo! disse o medico no tom brusco que lhe era habitual, quando
+estava no desempenho das suas funcções. Espero que, logo que eu sahir,
+não comecem a contar historias um ao outro ou a cantar duetos. Addiem,
+addiem as explicações e os projectos para mais tarde. Creio que dei ao
+ferido todos os esclarecimentos necessarios...
+
+--Entretanto, meu caro doutor... interrompeu Antonino.
+
+--O que quer dizer?... Deixaria eu d'explicar claramente tudo o que se
+passou? Ah! como está em casa de Laura, é possivel que deseje que lhe
+expliquem o caso...
+
+--Sim, doutor, disse a cantora, parece-me necessario...
+
+--Bem, seja... concedo... Mas procedam de fórma que não pronunciem mais
+de tres palavras.
+
+--Oh! doutor!...
+
+--Nem mais uma. Expliquem-se em tres palavras, sem commentarios, e com a
+condição de que depois serão mudos como dois peixes. Adeus, meu
+caro visconde, até ámanhã e juizo.
+
+Laura acompanhou Despujolles até á porta da escada.
+
+O medico mais uma vez lhe assegurou que o doente não corria perigo,
+recommendando-lhe de novo socego absoluto para Antonino.
+
+O visconde, com o olhar fixo na porta da sala, esperava com impaciencia
+a volta de Laura.
+
+A cantora entrou.
+
+Elle quiz fallar, mas ella collocou um dedo sobre os labios do doente,
+ajoelhou junto do leito, e com voz d'anjo, disse:
+
+--Amo-o!
+
+Amava-o! Oito dias antes nem ella propria o sabia.
+
+Os diversos acontecimentos que successivamente se deram revelaram-lhe
+aquelle amor, que existia latente no seu coração.
+
+Primeiro o sacrificio d'Antonino surprehendera-a.
+
+Aquelle honesto e grave fidalgo bretão, rico e considerado, dera-lhe a
+mais irrefutavel prova de confiança e d'amor, offerecendo-lhe a sua mão
+e permittindo que ficasse no theatro.
+
+A insolente interrupção de Lauretto Mina no momento em que o seu
+contentamento de mulher e de artista mais se expandia, tinha-lhe
+torturado o coração, demonstrando-lhe a impossibilidade d'acceitar
+o offerecimento inesperado d'Antonino, que n'um momento, sem
+hesitação, renunciava a todos os prejuizos d'educação e de familia.
+
+Mas tudo o que sentia então podia ser apenas admiração e reconhecimento
+pelo cego amor do visconde.
+
+Na _soirée_ de Pozzoli, Laura não tinha percebido que era ciume o que
+sentira, quando viu uma outra mulher parecendo querer monopolisar a
+attenção e as amabilidades do visconde, que ella considerava como
+pertencendo-lhe.
+
+Depois, quando Pozzoli e Antonino tinham trocado em voz baixa as phrases
+pelas quaes deviam bater-se, poderia ella classificar a angustia que
+experimentou, sentindo os espinhos da desconfiança picarem-lhe o coração?
+
+Por fim, toda a chamma do seu amor latente rebentou, como no incendio da
+Opera, ao ver Antonino prostrado pelo florete de Pozzoli, morto talvez,
+e morto por ella!
+
+Então tudo esquecera: posição, reputação compromettida, futuro perdido.
+
+Quizera levar para casa o seu amado, para o ter bem junto a si, morto ou
+vivo.
+
+No dia seguinte pela manhã, levada pelo horror que sentia por aquelle
+miseravel Pozzoli, Laura nada quiz dever ao que ella considerava
+assassino, nem mesmo o dinheiro que na vespera elle lhe tinha
+roubado ao jogo.
+
+Para obter esse dinheiro mandou Jacintha, com parte dos diamantes que
+possuia, a um joalheiro, que n'outra occasião lhe adiantára, com um juro
+modico, uma quantia importante sobre o mesmo penhor.
+
+Antes do meio dia, Pozzoli, esfregando as mãos de contente, estava pago.
+
+Durante oito dias, volteando em redor do leito de Antonino, espiara,
+attribulada, o soffrimento do ferido.
+
+Emfim o dr. Despujolles annunciou um dia que o doente estava livre de
+perigo.
+
+Elle estava salvo, e ella salva tambem!
+
+Tinha a certeza d'isso, porque, emfim, sentia que amava.
+
+Desde então aquella alma tão ardente e sincera não teria que
+confranger-se, nem que hesitar.
+
+Seria sua esposa, seria sua amante, o que importava, com tanto que
+pertencessem um ao outro para sempre!
+
+A cura d'Antonino caminhou rapidamente, activada pela felicidade.
+
+Ao cabo de quinze dias, o visconde levantava-se, pallido ainda e
+enfraquecido pela dieta e pelo sangue perdido, mas sentindo que a força
+e a vida lhe voltavam gradualmente.
+
+A Linda, obedecendo ás prescripções de Despujolles, fallava pouco a
+Antonino e não consentia que elle fallasse.
+
+Por fim o medico declarou uma manhã, sorrindo indulgentemente, que, se
+ella tinha alguma coisa importante a dizer ao visconde, podia fazel-o,
+sem que o doente corresse risco de peorar.
+
+Laura poude então abrir completamente o seu coração a Antonino.
+
+--Ha um mez, disse-lhe ella, deu-me uma extraordinaria prova d'amor,
+fazendo por mim o maior sacrificio que uma mulher póde esperar do homem
+que ama. Hoje chegou a minha vez. Sei, sinto que o amo, e quero
+provar-lhe quanto esse amor é intenso. Dava-me o seu nome, e, para
+satisfazer a minha paixão d'artista, consentia em que eu continuasse no
+theatro. Depois do que me disse, reflecti muito. Tenho reconhecido
+duramente quanto, nas condições de fortuna e de posição em que o senhor
+está, me seria difficil, se não impossivel, ficar no theatro, passando a
+fazer parte da sua familia. Venho, pois, dizer-lhe o seguinte: acceito
+com a maior satisfação o seu nome, e, salvo uma condição que d'aqui a
+pouco exporei, renuncio ao theatro.
+
+--Ah! minha querida Laura! murmurou Antonino no auge da alegria.
+
+Ella continuou:
+
+--Seu pae, que tão bondoso é, ficará satisfeitissimo. Parece-me
+conveniente evitar o mais possivel que se torne do dominio publico o
+nosso projectado casamento. O visconde de Bizeux esposará a filha do
+conde de Marcia. A Linda desapparecerá.
+
+--O que vale a minha abnegação ao lado da sua! disse Antonino. Eu
+repudiava prejuizos que considerava mesquinhos e absurdos; a minha
+querida Laura renuncia aos seus triumphos, á sua arte, ao que, segundo
+affirmava, era metade da sua vida! Pesou bem toda a importancia do
+sacrificio?
+
+--Tudo pensei e tudo previ. É justamente por essa circumstancia que ha
+pouco resolvi apresentar-lhe uma condição. N'este momento creio
+firmemente que o nosso amor, e o amor dos nossos filhos se os
+tivermos,--como em tempo lhe disse, e decerto ainda se lembra, é esse o
+meu mais delicioso sonho,--creio, dizia, que a felicidade da esposa e da
+mãe não permittirá que me recorde das minhas satisfações e dos meus
+successos d'artista. Entretanto é possivel que um dia, d'aqui a cinco ou
+d'aqui a dez annos, a tristeza se apodere de mim e que uma irresistivel
+necessidade me leve a voltar á minha querida arte, e a procurar, ainda
+que não seja senão temporariamente, as luctas e as victorias d'outr'ora.
+Se tal succeder, meu amigo, peço-lhe, simplesmente sob a sua palavra de
+gentilhomem, que n'esse dia não se opporá a que eu volte ao que era
+no passado, deixando-me de novo entrar para o theatro, que abandono
+apenas pelo muito amor que lhe tenho.
+
+--Dou-lhe a minha palavra d'honra, Laura, de que não a impedirei de
+satisfazer o seu desejo, respondeu Antonino. De resto, amo-a tanto,
+fal-a-hei tão feliz, que certamente esquecerá para sempre o theatro.
+
+--Assim o espero e desejo ardentemente. Mas comprehende que, para que eu
+caminhe de futuro sem preoccupações, desassombradamente, é indispensavel
+que me sinta sempre senhora da minha vontade, senhora de mim propria. Se
+eu tiver um dia de assignar um contracto com qualquer emprezario, a
+opposição de meu marido pode annullar esse contracto. Fica assente,
+Antonino, que renuncia por completo a qualquer opposição d'esse genero?
+
+Elle reflectiu alguns instantes.
+
+Depois dirigiu-se a uma secretária, pegou n'uma folha de papel e escreveu:
+
+
+«Dou o meu consentimento e approvação ao contracto feito entre Laura
+Marcia, minha mulher, e...»
+
+
+Assignou e entregou o papel a Laura, dizendo:
+
+--Aqui tem a sua liberdade. O rouxinol pode sahir da gaiola quando
+quizer, que a porta está aberta.
+
+--Obrigada, meu amigo! disse alegremente Laura.
+
+E agora cuidemos do presente, dos nossos projectos, do nosso amor.
+Concluamos o nosso romance.
+
+A conclusão foi a seguinte:
+
+Occultaram de todos a sua felicidade, mesmo de Despujolles e de Remissy.
+
+Trataram do casamento com todo o segredo.
+
+Só o pae d'Antonino teve conhecimento dos projectos do filho.
+
+Combinaram que logo que o visconde estivesse completamente
+restabelecido, partiriam para Inglaterra, casando em qualquer povoação
+do littoral, religiosamente, por um padre catholico, e civilmente, no
+consulado de França.
+
+Depois não partiriam para qualquer parte: desappareceriam.
+
+Laura desejára sempre viver em qualquer ponto da America hespanhola.
+
+Antonino, apesar de ter viajado muito, nunca fôra aquelles paizes calidos.
+
+Refugiar-se-hiam ahi até que a nostalgia os vencesse, isto é, até que a
+felicidade diminuisse.
+
+Trespassaram a casa da rua de Bolonha.
+
+Os moveis que Laura mais estimava foram remettidos para Saint-Malo, e os
+restantes vendidos.
+
+Antonino conservou os seus quartos de rapaz no _boulevard_ Haussmann,
+residencia pouco dispendiosa que desejava conservar em Paris.
+
+Laura levaria Jacintha, que tinha fallado em matar-se se a separassem da
+sua senhora, e que era sufficientemente doida para executar a ameaça.
+
+Pozzoli recebeu da Linda a multa de cincoenta mil francos, importancia
+estipulada no contracto para a rescisão d'elle.
+
+--Tu estás meio contente, meio desapontado, disse Lauretto Mina ao
+emprezario. Eu estou satisfeitissimo. Eis aberto o massudo livro da
+virtude da Linda. O primeiro capitulo começa por um rapto. É promettedor
+o romance. Desejo chegar o mais breve possivel ao capitulo segundo.
+
+Alguns dias depois lia-se nos _Echos_ d'um jornal _geralmente bem
+informado_:
+
+
+«A Linda não cantará no Theatro Italiano este inverno. Falla-se n'um
+contracto fabuloso que assignou para uma _tournée_ nos Estados-Unidos.»
+
+
+Poucas linhas mais a baixo via-se ess'outro _echo_:
+
+
+«O visconde de B... parte, diz-se, para os Estados-Unidos logo que
+esteja completamente restabelecido. Cumpre assim um voto que fez durante
+a doença. Como chegou a julgar-se condemnado a deixar este mundo,
+prometteu, se escapasse, ir visitar o novo. Feliz viagem.»
+
+
+
+
+XIII
+
+Regresso a França
+
+
+Dezoito mezes depois, no fim de abril, o conde de Bizeux e Estephania de
+Bizeux, sua filha, esperavam, no molhe de Saint-Malo, a chegada do vapor
+de Jersey, em que vinham o visconde e a viscondessa de Bizeux, de
+regresso da America do Sul, via Liverpool e Southampton.
+
+O conde era um velho extremamente sympathico, de elevada estatura e
+aspecto veneravel e terno.
+
+A menina de Bizeux contava trinta e seis annos.
+
+Tinha o rosto ossudo, aspecto altivo e severo, e comtudo, do conjuncto
+das suas feições e de toda a sua pessoa, resaltava o cunho da alta
+estirpe.
+
+O conde esperava ancioso a chegada do filho que estremecia, e que ia
+tornar a vêr depois de prolongada ausencia.
+
+Assistira ao casamento do visconde em Inglaterra, e depois viajára
+durante um mez, com os recém-casados, pela Escocia e pelo paiz de Galles.
+
+A nora conquistara-o sem difficuldade logo nos primeiros dias, pelo
+finissimo espirito de que era dotada, e pelos cuidados, affectuosos e
+ternos, de que o rodeava.
+
+Sentia tanta impaciencia de a abraçar, como de abraçar o filho.
+
+A menina de Bizeux esperava a cunhada, que nunca vira, com disposições
+menos benevolas, e até com uma especie de desconfiança.
+
+O pae occultara-lhe cautellosamente que Laura tinha sido cantora, e que
+estivera escripturada em diversos theatros.
+
+Se a tivesse prevenido d'essa circumstancia sem duvida a menina de
+Bizeux abandonaria o lar paterno, refugiando-se n'um convento, para não
+estar em contacto com uma _comediante_.
+
+Para não sympathisar com a cunhada bastava-lhe saber que o irmão a
+desposara por amor, e que, apezar de ser d'alto nascimento, filha d'um
+conde hespanhol, não tinha outro dote além da belleza.
+
+Estephania soubera, pela que lhe dera o ser, a historia do primeiro
+amor de seu pae, historia em tudo semelhante á de Antonino, á excepção
+de que no primeiro caso a moral social e religiosa e o direito augusto
+da familia tinham triumphado, emquanto que, no caso d'Antonino, fôra o
+amor, o amor profano, que vencera.
+
+Parecia a Estephania que o irmão, esposando a mulher que amava,
+insultara a memoria de sua mãe.
+
+O vapor de Jersey não tardou a chegar.
+
+Logo que desembarcou, Antonino abraçou o pae com effusão, e seguidamente
+deu um abraço na irmã.
+
+O conde, depois d'abraçar o filho, abraçou a nora, com alegria, e
+apresentou as duas senhoras uma á outra.
+
+Laura, prevenida pelo marido, tinha resolvido tratar a cunhada por fórma
+identica áquella por que fosse tratada.
+
+Estephania não a abraçou, limitando-se a estender-lhe a mão, dizendo:
+
+--Senhora viscondessa!...
+
+--Minha senhora...
+
+As relações futuras ficaram assim fixadas, graves e dignas.
+
+Ficou um creado para fazer conduzir as bagagens, e os quatro metteram-se
+n'uma carruagem que os levou a casa, ou antes, que os levou a suas
+casas.
+
+O visconde tinha casa sua, junto á do pae, que lhe legara um tio,
+fallecido, viuvo e sem filhos, dez annos antes.
+
+As duas casas, juntas e separadas a um tempo, tinham portas de
+communicação em todos os andares.
+
+Eram dois velhos palacetes patrimoniaes, de construcção antiga.
+
+O primeiro pavimento habitavel era no terceiro andar, porque os antigos
+navegadores e corsarios de Saint-Malo desejavam poder deitar sempre a
+cabeça por cima das muralhas da cidade, afim de não deixarem de gozar a
+vista do mar.
+
+Os Bizeux descendiam de velhos bretões, marinheiros de raça.
+
+Da sua familia sahiram, nos reinados de Luiz XIV e de Luiz XV, dois
+almirantes francezes.
+
+O pae e o filho tinham combinado, em cartas, que passariam uma vida
+simultaneamente separada e commum.
+
+Viveria cada um em sua casa, mas tomariam as refeições juntos.
+
+De resto, como chegara a primavera, demorar-se-hiam em Saint-Malo apenas
+uma ou duas semanas, o tempo indispensavel para apresentar a viscondessa
+ás pessoas mais intimas.
+
+Depois partiriam para o castello da familia, situado proximo a
+Saint-Pol-de-Léon.
+
+Deviam tomar todas as cautellas possiveis para que a Linda não podesse
+ser reconhecida na viscondessa de Bizeux.
+
+Depois de viverem por algum tempo juntos, o conde, que no fundo temia a
+filha, suppunha que, habituada á cunhada, attrahida pela meiguice e
+encanto de Laura, Estephania revoltar-se-hia com menor violencia, na
+hypothese d'uma revelação sempre possivel.
+
+Laura installou-se, pois, em sua casa, e, como uma verdadeira artista
+que se accommoda a tudo que não seja burguez e vulgar, sentiu-se
+immediatamente á vontade no velho palacete, cujas rasgadas janellas e
+mobilia á Luiz XVI tinham a dupla vantagem de ser commodas, elegantes e
+hygienicas. A vida, no castello, seria mais desafogada ainda, apesar de
+dever ser, no fundo, um pouco monotona.
+
+Laura, porém, não dava por essa monotonia.
+
+Para isso era necessario que ella, habituada ás emoções do trabalho, da
+acção, do combate, achasse muita novidade e muita variedade em volta de si.
+
+O primeiro anno do seu casamento foi para ella um verdadeiro encanto.
+
+A lua de mel durára doze luas, sem uma nuvem no céu d'anil.
+
+Gosou, sem a mais leve interrupção, o prazer d'amar e ser amada, que é o
+melhor da vida.
+
+Percorreram os admiraveis paizes da America do Sul, o Perú, o Brazil,
+visitaram as suas melhores cidades, atravessaram as mais esplendidas
+paisagens, aventurando-se até ás florestas virgens.
+
+Mas o que acima de tudo os absorvia era as suas proprias pessoas.
+
+Aquella magnifica natureza não era mais do que uma moldura apropriada
+para servir no quadro do seu amor.
+
+Ao cabo d'um anno, porém, começaram a achar, sem o dizer, nem mesmo dar
+por isso talvez, que um homem e uma mulher, vivendo sós, vivem em solidão.
+
+O quer que fosse parecido com o aborrecimento começou a avoejar sobre
+aquelle perpetuo colloquio.
+
+Durante tres mezes soffreram aquella sensação intermitentemente.
+
+Depois confessaram um ao outro que as viagens, a continua e fatigante
+mudança de logar, os dias passados em carruagem de caminho de ferro ou
+nos hoteis, tudo isso, por fim, cança o espirito e o corpo.
+
+Passou-se anno e meio, e o mais fagueiro sonho de Laura, ter um filho do
+homem que adorava, fugia, fugia sempre diante d'ella, como um phantasma.
+
+--Acautella-te! dizia-lhe Antonino. Um filho pode-te fazer perder a
+voz.
+
+--Ah! se tivesse um filho, respondia Laura, jámais teria saudades!...
+
+E teria ella saudades, effectivamente?
+
+O marido começára por se apaixonar pela voz, e continuava-a amando por
+isso, sem prejuizo d'outros predicados.
+
+Todos os dias cantava para satisfazer os desejos d'Antonino, que,
+excellente musico, a acompanhava ao piano, extasiando-se como d'antes, e
+mais do que d'antes até, ante aquelle delicioso e divino canto.
+
+Mas se continuava a ser a mesma cantora, Laura deixára de ter o mesmo
+publico.
+
+Foi essa a razão porque, depois de dezoito mezes d'ausencia, elles
+annuiram em que o paiz natal, o socego do lar, a vida de familia, tinham
+tambem o seu encanto.
+
+E como estavam d'accordo, regressaram a França.
+
+
+
+
+XIV
+
+A vida no castello
+
+
+O castello de Bizeux, proximo de Saint-Pol-de-Léon, e a um quarto de
+legua de Roscoff e do mar, estava edificado n'uma encantadora região, em
+que o ondeado da copa do arvoredo se perdia ao longe no accidentado das
+colinas.
+
+Como estava um pouco isolado, porque o castello mais proximo distava
+cinco kilometros, afóra durante a epoca da caça, a vida ali era muito
+retirada.
+
+No caso presente esse facto não devia considerar-se um inconveniente.
+
+Laura estaria no castello completamente ao abrigo d'indiscripções e
+encontros.
+
+Nos primeiros dias percorreu, a cavallo ou a pé, as immediações do
+castello; mas depois de vistas as casas, as egrejas e as paysagens,
+recahiu na monotonia da vida ociosa, quebrada apenas pelas fidalgas e
+ininterruptas attenções do conde, sempre previdentemente delicado com a
+nora, sempre ancioso por lhe procurar distracções.
+
+A menina de Bizeux desapprovava o procedimento do pae para com a cunhada.
+
+A solteirona dizia por vezes comsigo:
+
+--Mas que fórma de tratar esta desconhecida! O que tem ella que a
+recommende? apenas a belleza, essa dadiva do demonio.
+
+Para Estephania a fealdade era certamente dadiva de Deus.
+
+O natural instincto de mulher invejosa fazia confusamente adivinhar a
+Estephania que o passado de sua cunhada devia ter tido uma phase
+brilhante, que lhe occultavam.
+
+Parecia-lhe que no menor gesto ou na mais insignificante palavra
+pronunciada por Laura havia sempre dissimulação.
+
+--Mais outro vestido novo! disse-lhe Estephania um dia, vendo-a sentar á
+mesa com uma _toilette_ que ainda não lhe conhecia. Lembre-se que
+estamos no campo!
+
+--Por isso o vestido é simples e campestre! replicou Laura rindo.
+
+--Mas nós estamos em nossa casa... não recebemos visitas. A quem deseja
+agradar? A meu pae?
+
+--E porque não?
+
+--Agradecido! disse o conde sorrindo.
+
+--A seu marido?
+
+--Certamente...
+
+--Um marido não é um amante, minha querida!
+
+--Para mim é.
+
+E estendeu a mão ao visconde, que lh'a beijou com prazer.
+
+Antonino gracejou com a irmã, que conservou o seu habitual aspecto
+ironico e altivo.
+
+Aquellas picadas d'alfinete não tinham importancia, mas faziam soffrer
+Laura, que, como todos os espiritos ternos, resentia-se da falta de
+sympathia que a cunhada constantemente lhe testemunhava.
+
+Estephania tambem julgava Laura com severidade sob o ponto de vista
+religioso.
+
+Entretanto a viscondessa, educada por uma mãe excessivamente devota, era
+crente, e por vezes até supersticiosa como uma hespanhola.
+
+Para a menina de Bizeux, porém, havia duas religiões, a que os homens
+seguiam, e a que era seguida pelas mulheres.
+
+Os homens podiam contentar-se em ir á missa aos domingos, comer de magro
+ás sextas feiras, e confessar-se uma vez por anno, pela quaresma.
+
+As mulheres deviam, alem d'isso, comer de magro todos os sabbados, dia
+em que deviam tambem confessar-se, commungar todos os domingos e jejuar
+nas vesperas dos dias santificados.
+
+Ora Laura limitava-se a seguir a religião dos homens; portanto era uma
+impia, votada ás chammas eternas!
+
+De fórma que a unica mulher com quem podia ter relações d'amisade fugia
+da sua convivencia.
+
+Em vez de ser amiga e irmã, Estephania era inimiga.
+
+E se Laura procurasse relações entre as damas que viviam nos castellos
+mais proximos não encontraria espiritos mais esclarecidos do que o de
+sua cunhada.
+
+O conde adorava a musica quasi tanto como Antonino, e sentia-se
+verdadeiramente feliz quando Laura se sentava ao piano e cantava
+qualquer das arias em que d'antes fôra tão applaudida.
+
+Se o canto fosse religioso ou mesmo popular, Estephania escutava com
+indulgencia.
+
+Se, porém, a palavra _amor_ fosse uma só vez pronunciada, levantava-se
+cheia d'indignação e sahia altivamente da sala.
+
+Este ultimo caso dava-se com frequencia, porque o amor é um thema
+musical frequentemente usado pelos compositores.
+
+Pelo menos Laura, agora, tinha mais um ouvinte: o conde.
+
+Isto não a impedia, como já estava em França e lia os jornaes
+parisienses, de suspirar quando encontrava nos periodicos noticias de
+theatro e as narrações dos debutes e das primeiras representações.
+
+O que lia era para ella o brilho, o ruido, a vida!
+
+Se não tivesse abandonado o theatro, seria d'ella que os jornaes fallariam!
+
+Esse eterno esquecido que se chama Paris, tinha-se por muito tempo
+occupado d'ella!
+
+Decerto não sentia a falta da antiga cantora, mas a diva d'outro tempo
+percebia que Paris lhe faltava.
+
+Estava prestes a ser inaugurada a nova Opera, e Laura não assistiria á
+inauguração!
+
+Felizmente, por entre as saudades e os desalentos, conservára intacto no
+coração o amor que tinha por Antonino.
+
+É verdade que o marido adorava-a como no primeiro dia de casados, mas
+elle não tinha um passado de que lembrar-se, em quanto que ella, ao
+casar-se, dera metade da sua vida despresando a arte.
+
+O amor dos dois esposos, substituira o ardor da paixão dos primeiros
+tempos pelo prazer ineffavel do habito tomado.
+
+E ella consolava-se, chegava a encantar-se até, quando, por uma bella
+manhã de sol, sahiam ambos, e atravessavam bosques e prados, caminhando
+ou correndo, na alegria doida de dois collegiaes em férias. Passeiavam
+sobre a relva, ella appoiada ao braço do marido, e levantando um pouco
+as saias para não as molhar nas plantas humidas, ou conservando-se
+direita, o tronco bem vertical sobre os quadris airosos, em quanto
+Antonino, curvado, cortava com as unhas os pés das violetas, de que
+Laura fazia, ramos deliciosos, cercados de folhas d'um verde pallido.
+
+Muitas vezes o caminho que seguiam afundava-se n'um declive pedregoso,
+ou descia até á praia.
+
+Divertiam-se então em saltar precipitadamente, como creanças, elle
+segurando-a por uma das mãos, e ella levantando com a outra as saias,
+que tremulavam ao vento como um ruido d'azas, n'um vôo d'aves anciosas
+de liberdade.
+
+Paravam na areia, e sentavam-se para contemplar a baixamar ou a maré que
+subia.
+
+E ficavam-se por muito tempo a admirar as ondas lambendo com fragor as
+saliencias dos rochedos, ou traçando na superficie lisa e clara da areia
+o seu rasto sinuoso, coberto d'espuma.
+
+Uma manhã tiveram uma alegria que terminou em tristeza.
+
+Acharam um ninho de melros.
+
+Os passaritos tinham sahido da casca havia pouco tempo.
+
+Antonino mostrou-os a Laura, quebrando um ramo de madresilva brava que
+os occultava por entre a espessura d'uma sebe d'espinheiros.
+
+Eram cinco.
+
+No fundo do ninho, apenas se viam bicos amarellos que se abriam com
+voracidade.
+
+Laura ficou penalisada por não ter que dar aos passarinhos.
+
+--Voltaremos ámanhã com provisões, disse-lhe Antonino.
+
+No dia seguinte voltaram com as algibeiras cheias de bolos.
+
+A mãe estava no ninho.
+
+Logo que sentiu ruido, levantou vôo para uma arvore proxima, saltando
+depois de ramo em ramo, dando gritos desolados, inquieta por ver os
+filhos á mercê de seres humanos.
+
+Laura sentiu um prazer quasi maternal, em metter pelos bicos dos
+passarinhos esfaimados, com a ponta do seu dedo côr de rosa, bocados de
+bolo, que previamente amolecia entre os labios.
+
+Ao outro dia foram tambem ver o ninho.
+
+Estava vasio.
+
+O pae e a mãe tinham levado os passaritos.
+
+Laura ficou triste, sem saber porque.
+
+Como Antonino lhe perguntasse a razão d'aquella tristeza, Laura
+respondeu:
+
+--É lugubre este ninho abandonado, lugubre... como um berço vasio!
+
+Depois d'um momento de silencio, perguntou:
+
+--As aves, quando encasalam, teem sempre filhos, não é verdade?
+
+--Sempre, pela primavera, respondeu Antonino.
+
+--Como as aves são felizes!
+
+Antonino comprehendeu.
+
+Percebia perfeitamente qual era o vacuo que havia na vida de Laura, e
+esforçava-se sempre por lhe procurar distracções.
+
+Não servira na marinha, como muitos dos seus antepassados, mas todo o
+bretão é marinheiro.
+
+Adorava o mar, e um dos seus maiores prazeres era andar embarcado.
+
+Poucos dias depois de chegar a Saint-Malo, comprou uma chalupa de recreio.
+
+O barco era estreito na proa, baixo de caverna, branco, com uma larga
+facha vermelha, e tinha meia coberta.
+
+Os passageiros tomavam logar á pôpa, n'uma especie de camara oval,
+cercada d'um banco em que cabiam oito pessoas.
+
+Na coberta tinham improvisado um casinhoto em que mettiam as malas e as
+provisões, e um leito estreito, em que uma pessoa tinha suficiente
+espaço para dormir ao abrigo do vento.
+
+O apparelho da chalupa compunha-se d'um mastro e d'um gurupés, d'uma
+vela grande e d'uma bergantina.
+
+Com mau tempo tomavam quatro rizes á vela grande, e como o mastro se
+inclinava para a proa, a chalupa navegava maravilhosamente com aquelle
+unico panno.
+
+Graças á largura do barco e ao pouco comprimento relativo do casco, a
+chalupa virava com facilidade, cedia bem ao vento e obedecia docilmente
+á canna do leme.
+
+Antonino mandou o barco para Roscoff, ensinando com precisão a Laura
+toda a manobra das velas.
+
+Era necessario um marinheiro, mas o visconde achava mais encanto a
+embarcar só com sua mulher, e Laura era um marinheiro agil e encantador.
+
+Muitas vezes embarcavam de manhã.
+
+Um creado levava-lhes, até ao caes, um cesto com provisões.
+
+Antonino embarcava primeiro, e, antes que Laura estivesse a bordo,
+armava a vela.
+
+Depois ajudava a esposa a saltar para a chalupa, e sentavam-se ambos na
+camara oval, tendo a resguardal-os do sol um toldo de lona.
+
+Então Antonino gritava ao creado, que ficava no caes:
+
+--Larga!
+
+O cabo cahia na agua como um fustigamento de pingalim.
+
+O visconde amarrava a vela, suspendia a ancora, impellia o barco com o
+croque, e puchava a canna do leme para bombordo.
+
+A chalupa inclinava-se graciosamente ao vento, balouçava por instantes
+como indecisa, e por fim vogava.
+
+Cinco minutos depois, fendia a agua com uns movimentos de sereia.
+
+Percorreram assim as costas da Bretanha, d'um lado até Donamaner, e
+mesmo a Lorient, e do outro até ao Mont-Saint-Michel.
+
+Algumas vezes succedeu estarem ausentes durante dois ou tres dias, com
+grande inquietação do conde.
+
+O pae d'Antonino sabia que o vento contrario e o mau tempo não os fazia
+parar.
+
+O menos temerario dos dois, era justamente o visconde.
+
+Laura sentia-se bem a bordo.
+
+O perigo incitava-a porque era uma emoção, e eram as emoções o que
+faltava a Laura, a quem a vida socegada mais fazia recordar o passado.
+
+A caça divertia-a muito menos.
+
+Por vezes recusava-se até a acompanhar o marido e o sogro, e só ia á
+tapada do castello, se o almoço fosse servido ao ar livre.
+
+Não acceitára até uma esplendida espingarda de caça, que Antonino lhe
+offerecera, e que passava por ser uma verdadeira maravilha.
+
+As poucas reuniões que o conde entendeu dever dar no castello, não lhe
+mereceram maior attenção, nem lhe proporcionaram o menor attractivo.
+
+Entretanto fazia as honras da casa com tão fino tacto e tão affavel
+dignidade, que a propria Estephania se admirava.
+
+Uma d'essas reuniões, mais solemne que as outras, teve, comtudo, para
+Laura, verdadeira importancia.
+
+Foi a festa da inauguração da capella restaurada do castello.
+
+Havia já tres annos que Estephania, que possuia fortuna pessoal,
+emprehendera, com o concurso, felizmente habil, d'um architecto de
+Rennes, a restauração da referida capella, uma verdadeira joia do seculo
+XV, no gosto de Folgoet.
+
+A obra terminara emfim.
+
+Faltava baptisar o sino e consagrar a capella.
+
+O arcebispo de Rennes fôra convidado para esse fim, respondendo que iria
+proceder á dupla ceremonia no primeiro domingo do mez d'agosto.
+
+Esta noticia, como era de suppôr, causou grande sensação em todos os
+castellos e parochias dos arredores, e todos foram unanimes em declarar
+que só ao conde de Bizeux se poderia dever semelhante honra.
+
+Afinal o arcebispo accedera com tanta mais vontade ao convite que o
+conde lhe dirigira, quanto era certo que, da sua visita ao castello,
+esperava ganhar a annuencia e o concurso do velho fidalgo para uma obra
+tão excellente de certo, e muito mais util, que a inauguração da capella.
+
+Tratava-se de terminar um hospicio para marinheiros, edificado por
+subscripção em Saint-Servan, sob a direcção d'uma commissão, de que o
+arcebispo era presidente.
+
+Tinham angariado já umas centenas de mil francos, com que o edificio
+principiára a ser construido, mas faltava ainda mais uma centena para
+material e mobiliario, e as bolsas estavam exhaustas.
+
+Entretanto era indispensavel arranjar aquella quantia, e por isso o
+arcebispo desejava fallar com o conde.
+
+Estephania fez no castello uma verdadeira revolução, para que a recepção
+de _monsenhor_ fosse em tudo digna do alto cargo ecclesiastico que elle
+desempenhava.
+
+Enfeitou a capella com arbustos e flores, e mandou vir organistas e
+coristas da cathedral de Rennes.
+
+A missa, por musica vocal e instrumental, estava distinada a produzir
+sensação, como effectivamente produziu, mas devido talvez a uma
+circumstancia com que a menina de Bizeux não contava.
+
+Eram tantos os cuidados e attenções que a pessoa do _monsenhor_ lhe
+merecia, que Estephania não deu pela falta da cunhada no banco da familia.
+
+Repentinamente, a seguir a uma nota grave soltada pelo orgão, elevou-se
+uma voz, melodiosa e pura, e cantou, com perfeição e expressão
+d'adoravel suavidade, um trecho de Handel, que conservou em extasi o
+auditorio maravilhado.
+
+A mesma voz cantou depois o _offertorio_ do mesmo compositor, com tal
+arte e vigor que a todos causou espanto.
+
+O arcebispo de Rennes, que era profundo conhecedor de musica religiosa,
+balanceava a cabeça e movia as mãos com beatitude.
+
+Trocaram-se phrases d'admiração, e se não fosse o respeito á santidade
+do logar, com certeza todos os ouvintes teriam applaudido com delirio.
+
+Terminada a ceremonia, a primeira pergunta do arcebispo, ao entrar na
+sachristia, foi:
+
+--Mas quem é a admiravel _virtuose_ que a todos nos encantou?
+
+O conde, que entrava acompanhado de Laura, respondeu triumphantemente:
+
+--Foi minha nora, a sr.ª viscondessa de Bizeux, que tenho a honra de
+apresentar-lhe, monsenhor.
+
+--Na realidade a sr.ª viscondessa é uma artista de primeira ordem! disse
+o arcebispo.
+
+E depois accrescentou:
+
+--Isto fez com que eu tivesse uma ideia, que não me parece de todo má...
+Logo lhe communicarei um certo projecto em que penso, meu caro conde.
+
+Em seguida desfez-se em agradecimentos e cumprimentos, aos quaes dava um
+certo sabor particular a mistura que havia do padre e do _dilettante_.
+
+Não foi só Laura que recebeu esses agradecimentos e cumprimentos;
+Estephania tambem compartilhou d'elles, e tão interdicta ficou, que não
+sabia se devia estar satisfeita ou vexada.
+
+Laura commoveu-se e sorriu-se com melancholia.
+
+Era o seu primeiro successo em dois annos!
+
+
+
+
+XV
+
+Saint-Malo
+
+
+Tinham decidido que deixariam o castello para voltar a Saint-Malo quando
+chegassem os primeiros frios, nos fins d'outubro ou principios de novembro.
+
+Na segunda quinzena d'agosto, porem, Estephania foi atacada de
+rheumatismo agudo, que ao principio apresentou um caracter inquietante.
+
+Chamaram da cidade o medico da familia, clinico de talento e longa
+pratica, que, depois de dispensar os primeiros cuidados á doente,
+diagnosticou o mal de principio de rheumatismo articular.
+
+O doutor demorou-se um dia no castello.
+
+A sua ausencia da cidade não podia prolongar-se por mais tempo, porque,
+como era o medico mais considerado, tinha longa clientela a reclamal-o.
+
+Prometteu voltar o maior numero de vezes possivel, duas ou tres por semana.
+
+Entretanto declarou que julgava indispensaveis as visitas diarias e
+attenções constantes.
+
+O medico de Saint-Pol-de-Léon inspirava mediocre confiança ao conde. Que
+fazer, pois?
+
+O tempo estava explendido; o mar socegado como um lago.
+
+Depois de pensar maduramente no caso, o conde resolveu-se.
+
+Estephania foi transportada, n'uma especie de maca, para bordo d'um
+vapor, fretado para esse fim em Saint-Malo.
+
+Algumas horas depois d'embarcar a doente estava installada no seu quarto
+do planalto da cidade.
+
+O conde de Bizeux queria partir só com a filha, deixando no castello
+Antonino e a esposa.
+
+Laura, porém, oppozera-se a essa determinação, dizendo:
+
+--Estephania necessita dos cuidados d'uma senhora. O meu logar é á
+cabeceira do leito da irmã de meu marido.
+
+Como a menina de Bizeux declarasse que não desejava incommodal-a,
+principalmente por ser ardua a tarefa, Laura respondeu:
+
+--Pergunto a Antonino se eu sou enfermeira descuidada...
+
+Laura, a _impia_, tinha o mais absoluto despreso pela morte, emquanto
+que Estephania, a _devota_, a temia sobremaneira, como d'ordinario
+succede a todos os espiritos fracos.
+
+Essa circumstancia fez com que a menina de Bizeux acceitasse, sem mais
+opposição, o offerecimento de sua cunhada.
+
+Durante mais de duas semanas em que a doença apresentou maior perigo,
+Laura tratou Estephania com a mais dedicada sollicitude, nem um momento
+desmentida. A menina de Bizeux parecia surpreza e commovida.
+
+Entretanto, no primeiro dia em que poude sahir do quarto, disse
+simplesmente a Laura:
+
+--Agradeço-lhe e peço lhe que acredite que, no seu logar, teria
+procedido da mesma fórma.
+
+--Não duvido, replicou Laura surprehendida da frieza d'aquellas palavras.
+
+D'este contratempo resultou que em pleno mez de setembro estavam em
+Saint-Malo.
+
+A convalescença de Estephania e o adeantado da estação, impediam a volta
+ao castello.
+
+Nos poucos dias que passara em Saint-Malo, de regresso da America, Laura
+apenas tivera tempo de ver superficialmente a cidade e a sociedade.
+
+Depois do restabelecimento d'Estephania teve occasião para mais de perto
+observar uma e outra.
+
+A cidade encantou-a, mas a sociedade pouco lhe agradou.
+
+Das janellas de casa gosáva o largo panorama do mar e o aspecto da
+bahia, que se abre entre dois morros titanicos, a ponta da Verde e o
+cabo Frehel, gigantes de pedra que parecem estender os braços atravez as
+sete leguas de mar que os separam, por cima da ilha granitica de
+Cézambre, guardada por negros recifes, que por entre as suas pontas
+deixam apenas estreitas passagens aos navios.
+
+O mar entra por essas passagens com fragor medonho e enormes
+acotovellamentos de vagas, vindas do largo em plena liberdade, e
+penetrando á força na bahia pelas portas de pedra, que jámais poderam
+arrombar.
+
+Ao fundo do golpho, sobre uma ilhota, eleva-se a cidade dos corsarios,
+rodeada d'altas muralhas, onde se alinham os canhões de cerco,
+estendidos pachorrentamente nas suas carretas, e abrindo, sobre a herva
+dos revestimentos, as suas boccas ameaçadoras. O mar tem na bahia,
+durante o estio, a placidez langorosamente azulada dos lagos.
+
+As ondas esperguiçam-se suavemente sobre a areia, junto das velhas
+muralhas.
+
+Mas no inverno batem com furia nas pedras ennegrecidas, e sobem, em
+turbilhões d'espuma, a enorme altura.
+
+A cidade, fechada pelas muralhas, assiste impassivel áquellas convulsões
+da agua.
+
+As altas casas, de janellas sem rotulas, elevam as suas fachadas
+geometricas, socegadamente, como que seguras de não serem attingidas
+pela impetuosidade das ondas.
+
+Mas nos angulos dos predios veem-se por vezes nichos da Virgem, aos
+quaes o vento arrebatou as imagens.
+
+A ilhota que serve de base á cidade apenas apresentava para fóra d'agua,
+transposta a muralha, uma especie de calçada em declive, relativamente
+larga, mas que, a pouco e pouco, as tempestades teem desconjunctado.
+
+D'antes Saint-Malo parecia um navio ancorado, e marinheiros os seus
+habitantes.
+
+Os costumes da cidade eram d'uma severidade quasi selvagem, proverbial a
+sua lealdade rude.
+
+A independencia d'aquelles homens não se curvava ante o governador da
+provincia, nem mesmo em frente da nobreza, á qual, de resto, d'uma vez
+emprestaram cincoenta milhões de francos.
+
+Que de mudanças se teem operado!
+
+Os caminhos de ferro, os casinos escalonados pela costa, o contacto
+periodico com estrangeiros, a convivencia com os banhistas que de toda a
+França ali concorrem, e, na cidade propriamente dita, a invasão dos
+jesuitas, teem modificado as linhas, deprimido os angulos, alterado o
+caracter brusco mas franco d'aquelles homens, filhos da terra que deu á
+França Lammenais, Chateaubriand, Jacques Castier, Dagaray-Tronin,
+Surconf e tantos outros pensadores e homens de superior talento.
+
+O caracter dominante da geração moderna é, nas casas nobres, um
+formalismo devoto, de que o fanatismo não exclue a immoralidade.
+
+Apenas algumas familias de burguezes ricos resistiram ao contagio.
+
+Os membros d'essas familias tornaram-se republicanos, e fazem todos os
+esforços para que o povo adore a republica.
+
+Mas para esses nem chaves d'ouro lhes abririam as portas dos cenaculos
+aristocraticos, onde vêem a luz e se desenvolvem as intrigas monarchicas
+e clericaes. Sobre a grande massa banal da burguezia pouco dinheirosa,
+logistas, empregados, industriaes, sobresahem alguns, raros, perfis
+intelligentes d'advogados, de medicos, d'artistas, de jornalistas,
+isolados n'aquelle entorpecimento provincial.
+
+D'inverno ha bailes officiaes, e bailes no casino de verão.
+
+Esses bailes são frequentados por varias camadas sociaes, mas jámais tal
+facto produziu a mais insignificante mistura de castas.
+
+O orgulho geral produz em todos a mais absoluta falta d'affabilidade.
+
+Comprehende-se, pois, que, na sociedade restricta e altiva da nobreza de
+Saint-Malo, Laura se achasse completamente deslocada.
+
+
+
+
+XVI
+
+A sr.ª baroneza
+
+
+A rainha da moda, a que dava as leis e fazia a opinião da alta sociedade
+em Saint-Malo, era a sr.ª baroneza de Pontual, uma formosa mulher de
+trinta annos. Havia umas cinco ou seis estações que ninguem se atrevia a
+disputar-lhe a elegante auctoridade.
+
+A baroneza era ainda parenta, em grau affastado, da menina por quem o
+conde se apaixonára antes de casar com a mãe d'Antonino, e parecia-se
+até, um pouco, com a infeliz a quem o desgosto matára.
+
+Essa circumstancia atrahira o conde, contra o seu habito, para a esphera
+d'acção mundana da joven baroneza, elle que tanto amava a vida retirada,
+onde podesse entregar-se completamente ás suas melancholicas
+recordações.
+
+O barão de Pontual era um insignificante.
+
+Sendo o primeiro admirador e adorador da esposa, ella facilmente o
+conduzia por todos os caminhos, bons ou maus, por onde lhe aprouvesse
+caminhar.
+
+Adelia, que assim se chamava a baroneza, declarava ter _alma d'artista_,
+o que é uma percebivel ambição, quando não seja pretenciosa.
+
+Ora, para completo esclarecimento do leitor, devemos dizer que á
+baroneza faltava simplicidade e sinceridade.
+
+Cultivava simultaneamente, segundo a sua propria phrase, as lettras, a
+pintura e a musica.
+
+A sua especialidade em litteratura era o genero epistolar, á semelhança
+da sr.ª de Sévigné, sua compatriota.
+
+Os correspondentes previligiados da baroneza, como no passado os da
+marqueza, colleccionavam as cartas e os bilhetes, em que havia tres
+estylos diversos: o serio, o sentimental e o jocoso.
+
+Em pintura _orvalhava_ as suas aguarellas, e _dava vida_ ás paysagens.
+
+Mas a sua arte predilecta era a musica.
+
+Possuia voz agradavel, mas mal educada.
+
+Comtudo recebera lições de canto de Delle Sedia, como recebera lições de
+piano de Lecouppey.
+
+Tinha opiniões cortantes, audacias pouco vulgares em mulher.
+
+O seu deus era Gounod.
+
+Eatretanto não desgostava de Berlioz, que ella declarava ser _quasi
+sempre extravagante, mas algumas vezes sublime_.
+
+A baroneza, ao principio, quando no seu horisonte viu despontar a
+viscondessa, inquietou-se.
+
+Laura era mais formosa e mais nova que ella.
+
+Além d'isso a situação dos srs. de Bizeux era muito mais brilhante do
+que a do barão de Pontual.
+
+Tudo isto fazia com que Laura podesse ser uma rival terrivel.
+
+Mas socegou em breve, vendo o aspecto modesto e simples da viscondessa,
+que apenas parecia desejar não dar nas vistas, occultar-se na sombra.
+
+A formosa Adelia foi desde logo indulgente e quasi amiga de Laura.
+
+--A viscondessinha é encantadora! disse ella.
+
+O barão de Pontual era o thesoureiro da commissão que tratava da
+fundação do hospicio para marinheiros.
+
+O conde de Bizeux foi eleito, por essa occasião, vice-presidente da
+mesma commissão.
+
+Uma ultima subscripção produziu approximadamente sessenta mil francos.
+
+Faltava, pois, arranjar apenas os quarenta mil que faltavam para
+prefazer a quantia julgada indispensavel.
+
+Esplendidas regatas, organisadas em Saint-Malo, produziram quinze mil
+francos.
+
+O arcebispo de Rennes foi então d'opinião que se devia angariar o
+restante, dando um grande concerto.
+
+Foi convencionado que o concerto se realisaria nos fins de setembro.
+
+Tratariam d'accumular attractivos, que justificassem os preços elevados,
+e attrahissem a Saint-Malo a _élite_ da nobreza e da finança de toda a
+Bretanha.
+
+A baroneza de Pontual estava naturalmente indicada para preparar e
+dirigir aquella festa.
+
+Haveria canções populares bretãs, para as quaes recrutariam executantes
+nas classes baixas.
+
+O celebre pianista Nobillet, natural de Lorient, prometteu o seu
+concurso, e egual promessa fez o barytono Gressier, que nascera em Nantes.
+
+O restante, para conservar ao Concerto o caracter aristocratico que
+devia ter, a baroneza de Pontual tratou de o procurar e encontrou-o, nos
+salões da melhor sociedade; homens e senhoras, cujos nomes e talento
+dessem ao programma grande attracção, tornando-o de fórma a aguçar a
+curiosidade de todos, prestaram-se a tomar parte na festa.
+
+O salão da baroneza era pequeno para n'elle se fazerem os ensaios.
+
+O conde de Bizeux offereceu o seu.
+
+A viscondessa, como Estephania estava ainda convalescente, viu-se
+obrigada a fazer as honras da casa.
+
+O sr. de Bizeux, que tomára a peito a terminação da grande obra de
+caridade, perguntou á nora se não queria dar o seu contingente para o
+brilho do concerto.
+
+Laura, sem recusar abertamente, observou-lhe que se arriscava a trahir o
+seu incognito d'artista e a deixar descobrir a cantora na viscondessa,
+tomando parte n'esse espectaculo, a que de certo concorreria muita gente.
+
+O conde, ainda que com pesar, acceitou aquellas razões.
+
+Um incidente imprevisto tornou inutil aquella precaução.
+
+A baroneza devia cantar, no concerto, a _Ave Maria_ de Gounod, o seu deus.
+
+D'uma vez ensaiava, em casa do conde, aquelle delicioso trecho de
+musica, ante um auditorio que, n'aquelle dia, por acaso, era numeroso.
+
+Obteve o successo costumado, e todos os presentes foram, no fim,
+fazer-lhe os seus cumprimentos...
+
+Laura, como todos, foi testemunhar a sua admiração á baroneza.
+
+Adelia requebrou-se toda, segundo, o seu habito, defendendo-se dos
+cumprimentos com a mais falsa das modestias.
+
+--Não, não... Favores!... Hoje não estava com voz... De certo
+reparou que, no fim, a respiração faltou-me!...
+
+--Permitte-me que lhe diga de que foi resultante essa falta? perguntou
+Laura com simplicidade.
+
+--Pois não, minha querida!... Falle... peço-lhe...
+
+--Parece-me, disse a viscondessa, que, em vez d'observar o _crescendo_
+phonico obrigado, a sr.ª baroneza o atacou demais no principio,
+faltando-lhe depois a força no final, que deve ser cantado com toda a
+intensidade de tom possivel.
+
+--Não percebo bem... objectou a baroneza deveras contrariada.
+
+E depois d'um momento de silencio, perguntou:
+
+--A sr.ª viscondessa sabe musica?
+
+--Um pouco...
+
+--Ah! sabe?... Então queira ter a bondade de juntar a pratica á theoria,
+cantando o trecho como entende que elle deve ser cantado.
+
+--Depois da sr.ª baroneza ter cantado, não devo eu...
+
+--Não faça ceremonia... Cante... peço-lhe, insistiu a baroneza com frieza.
+
+Com a insistencia esperava collocar em terrivel embaraço a imprudente
+conselheira.
+
+Laura fez um movimento de contrariada, mas accedeu ao pedido.
+
+Começou muito _piano_, com intensão de cantar a meia voz, quando muito.
+
+Mas o instincto d'artista foi mais forte que ella: arrastou-a.
+
+Quando chegou ás ultimas notas, a sonoridade da sua voz foi tal,
+manifestou-se tanto o conhecimento do methodo, que todos os assistentes,
+admirados, romperam em bravos e palmas.
+
+Antonino não estava presente, mas o conde de Bizeux assistiu ao triumpho
+de Laura, o que, no intimo, lhe deu grande satisfação.
+
+A baroneza de Pontual ficou abysmada!
+
+A incontestavel superioridade de Laura esmagava-a ao primeiro recontro.
+
+Entretanto assaltou-a uma duvida.
+
+Quem seria aquella mulher que tinha dissimulado, e que subitamente
+revelava, uma voz e uma arte de cantar pouco vulgares entre amadoras, e
+mais do que sufficientes para fazerem a reputação d'uma cantora de
+primeira ordem?
+
+Entretanto a baroneza não foi a ultima a felicitar Laura.
+
+--Mas que admiravel surpreza! disse ella. Porque me não fez conhecedora,
+ha mais tempo, do seu maravilhoso talento, sr.ª viscondessa?
+
+Comtudo cohibiu-se de perguntar a Laura se queria tomar no concerto o
+logar que lhe pertencia.
+
+É porque percebeu perfeitamente que esse logar seria o primeiro, e a
+baroneza não desejava occupar o segundo plano.
+
+No dia seguinte, porém, a infeliz baroneza recebeu do arcebispo de
+Rennes, a quem enviára o programma, uma carta desoladora.
+
+O arcebispo admirava-se de não ver figurar n'esse programma, o nome
+d'aquella que devia ser a grande attracção, e que produziria o mais
+brilhante successo.
+
+Esse nome era o da viscondessa de Bizeux.
+
+Fôra ouvindo-a cantar na missa d'inauguração da capella do castello, que
+ao arcebispo occorrera a idéa de dar um concerto, cujo producto
+revertesse a favor da subscripção para o hospicio de marinheiros.
+
+Em seguida o arcebispo perguntava se a baroneza de Pontual desconhecia o
+raro talento da nora do conde de Bizeux.
+
+Pois a extrema modestia da viscondessa fazia com que ella não desejasse
+manifestar o seu talento em publico?
+
+Quando se tratava d'uma obra meritoria, não se tinha o direito de ser
+modesto, e por isso instava com a baroneza para que convidasse Laura.
+
+Ante esta especie d'intimação, a baroneza não poude deixar de convidar a
+viscondessa.
+
+Portanto, no dia seguinte, foi officialmente perguntar-lhe se
+queria prestar ao concerto o seu valioso concurso.
+
+Laura, perplexa, respondeu que necessitava consultar o marido e o sogro.
+
+Houve conselho privado entre o conde de Bizeux, Antonino e Laura.
+
+O conde foi d'opinião que a nora não devia deixar de prestar-se a dar a
+sua contingente para tão santa obra.
+
+A Linda desapparecera havia mais de dois annos.
+
+Que mal podia resultar d'ella reapparecer, uma unica vez, n'uma cidade
+tão distanciada de Paris, diante d'um publico local, que não estava ao
+corrente do movimento dos theatros parisienses?
+
+O maior numero de probabilidades, era de que Laura não seria reconhecida.
+
+--Mas se o fôr? perguntou a viscondessa.
+
+--Se assim succedesse, respondeu o conde, a descoberta far-se-ia em
+condições tão honrosas, tão respeitaveis para todos nós, que, ante o
+facto consumado, os mais rigoristas não tinham o direito d'arguir meu
+filho de a ter amado sufficientemente, Laura, para lhe dar o seu nome,
+nem a mim por lhe chamar filha.
+
+Houve um momento de silencio.
+
+O conde, passados instantes, accrescentou:
+
+--Nada tem no seu passado, Laura, de que deva envergonhar-se.
+Estephania, que tem os prejuizos que sabe, sem duvida ficaria
+contrariada se lhe tivessemos, de principio, revelado toda a verdade.
+Mas agora ella já a conhece e apprecia. Tratou-a com uma dedicação tão
+fraternal, que minha filha está reconhecidissima. O arcebispo de Rennes,
+que possue um espirito superior, reclama este serviço; depois seria o
+primeiro a não consentir que elle se voltasse contra aquelles a quem o
+pede. Se o seu segredo, que é tambem nosso, tem de ser conhecido mais
+tarde ou mais cedo, parece-me que não encontraremos occasião mais
+favoravel do que esta, para que todos saibam que a esposa de meu filho
+foi cantora.
+
+Antonino, menos optimista que seu pae, e vagamente inquieto, nada achou
+que oppôr ás razões apresentadas pelo conde.
+
+De resto, como sempre, desejava fazer-lhe a vontade.
+
+Assim pois, foi Laura a unica que resistiu á idéa de reapparecer e
+cantar em publico.
+
+Mas não queria ou não podia dizer tudo o que pensava sobre o caso.
+
+A verdade era que, sobretudo, ella temia-se a si propria.
+
+Sabia com que intima alegria estremecera no dia da inauguração da
+capella.
+
+Dois dias antes, ao cantar, ante um auditorio ainda assim restricto, a
+_Ave Maria_ de Gounod, experimentára maior satisfação.
+
+Os bravos e palmas que então ouvira, tinham a como que transportado aos
+bellos tempos em que ella arrebatava uma platéa inteira.
+
+O que lhe succederia se de novo se encontrasse na frente d'um publico
+numeroso?
+
+Que effeito lhe produziriam os bravos, as chamadas, as corôas?
+
+Ah! a queda era tão facil e podia ser tão desastrosa!
+
+Tel-a-iam esquecido em Paris tanto quanto o conde julgava?
+
+Não.
+
+Poucos dias antes lera n'um jornal da capital, a proposito da abertura
+da nova Opera e da companhia que n'ella devia cantar, que o director do
+novo templo da arte, devia, se fosse habil, lembrar-se da Linda.
+
+N'essa mesma noticia accrescentava-se que a diva estava no Mexico, mas
+dizia-se tambem que o Mexico não era no fim do mundo, que se volta de lá
+dentro d'algumas semanas.
+
+Mas a Linda não estava longe!
+
+Podia chegar a Paris, ao seu querido Paris, em algumas horas.
+
+Laura, em seguida, pensou no seu amor por Antonino, sempre inalteravel
+no seu coração.
+
+Era esse sentimento que ainda a retinha junto d'elle.
+
+Mas ao mesmo tempo recordava-se da palavra que o visconde lhe dera, e
+que a tornava livre se achasse muito pesada a cadeia que a prendia.
+
+Eram todos estes pensamentos que a tornavam hesitante. Não tinha, porém,
+a coragem de os expôr.
+
+Se a tivesse, seu marido e seu sogro ficariam convencidos de que ella
+não devia cantar no concerto de benificencia.
+
+O conde persistia, insistia, e Antonino juntava os seus rogos aos do
+pae. Ella, por fim, disse:
+
+--Reconhecem bem, não é verdade, que o que está mais em jogo não é o meu
+interesse pessoal, mas o interesse da familia?
+
+--Sem duvida, respondeu o conde, e é por isso mesmo que insistimos e
+somos de opinião que deve ceder, como nós cedemos.
+
+Laura, replicou então:
+
+--Visto assim o quererem, cantarei no concerto!
+
+N'essa noite, Laura disse á baroneza, pouco satisfeita, o seguinte:
+
+--Pode accrescentar no seu programma, minha senhora, que a viscondessa
+X... cantará as arias _Fidelio_ e o _Rei dos Alamos_.
+
+
+
+
+XVII
+
+A tempestade
+
+
+O dia em que devia realisar-se o concerto foi por fim fixado: 29 de
+setembro.
+
+Faltavam, pois, dez dias.
+
+Laura propôz ao marido não os passasem em Saint-Malo.
+
+Que necessidade tinham de juntar ao perigo d'ella ser reconhecida no
+concerto, o risco de a reconhecerem nos ensaios?
+
+Até então a viscondessa não encontrára ninguem que a conhecesse.
+
+Os artistas que deviam tomar parte no concerto, Nobillet e Gressier,
+nunca a tinham visto.
+
+Fallava-se, comtudo, em reforçar o programma, accrescentando-lhe os
+nomes d'outros artistas.
+
+O mais prudente, pois, era não apparecer senão na noite do espectaculo.
+
+Como escolhera dois trechos de musica que conhecia perfeitamente,
+bastava a Laura uma simples recordação com a orchestra, na manhã do dia
+do concerto.
+
+Nos seus passeios maritimos Antonino e Laura não tinham ido alem do
+Monte de Saint-Michel.
+
+Decidiram por isso visitar durante aquelles dias, na sua chalupa, as
+costas do departamento da Mancha, e Jersey, onde Laura nunca tinha ido.
+
+O conde de Bizeux e Estephania, já completamente restabelecida,
+receberiam as pessoas que iam ensaiar-se.
+
+A baroneza de Pontual seria a unica a dirigir a festa, sem temer a
+intervenção da que ella considerava sua rival.
+
+Laura partiu alegre e despreoccupadamente para aquella excursão, a mais
+longa que ainda tinham feito.
+
+A viagem foi encantadora.
+
+A volta da ilha de Jersey, que durou cinco a seis dias, foi sobretudo
+uma verdadeira delicia.
+
+Passaram em todos os portosinhos naturaes que a ilha tem, desembarcavam,
+jantavam e dormiam nas estalagens mais ou menos mediocres com que
+deparavam, rindo do jantar, rindo do leito, rindo de tudo.
+
+Para descançarem das fadigas da navegação, davam esplendidos passeios de
+carruagem, visitando os melhores locaes e todas as curiosidades da ilha.
+
+Não abriram um jornal.
+
+Sentiam-se tão longe da França como se ainda estivessem na America.
+
+Esqueceram Saint-Malo, esqueceram o universo.
+
+Os dias corriam magnificos, uns dias d'outomno, tepidos e amenos.
+
+Laura sentia apenas que o mar se conservasse tão uniformemente tranquillo.
+
+--Está bello de mais o tempo, disse ella. Algum vento que encapellasse
+as ondas tornaria mais emotiva a nossa viagem.
+
+Que pesar sentiam de que aquelles dias tivessem que terminar!
+
+Na vespera do concerto estavam em Granville.
+
+Antonino sahiu depois do almoço para preparar a chalupa, e voltou ao
+hotel, onde tinham passado a noite.
+
+Laura reparou que o marido estava com aspecto de pouco satisfeito.
+
+--Diabo! diabo! disse elle. Parece-me que procederiamos acertadamente
+voltando a Saint-Malo por terra, tomando o comboio em Dol.
+
+--Porque?
+
+--Vejo nuvens de mau agoiro. Se o vento refrescar, é provavel que,
+antes de chegarmos a Saint-Malo, tenhamos de luctar com mar bravo, e a
+nossa chalupa não tem condições para luctas d'essa ordem.
+
+--_Levantae-vos, desejadas tempestades que deveis arrastar Renato!_
+disse rindo Laura, respondendo aos temores do marido com uma citação de
+Chateaubriand.
+
+E accrescentou n'outro tom:
+
+--Ainda bem! Desejo defrontar-me com o perigo.
+
+Antonino dissera a verdade.
+
+O vento era contrario, e para os lados de Saint-Malo viam-se nuvens
+ameaçadoras.
+
+--Não valem nada! disse a viscondessa depois de olhar para as nuvens que
+o marido lhe indicava. Sobeja-nos o tempo para chegarmos antes que a
+tempestade se desencadeie. Mas se assim não acontecer, tanto melhor,
+Antonino, porque sinto grande desejo d'arrostar qualquer perigo a teu
+lado. Acho encantador terminar por um incidente um pouco dramatico a
+nossa socegada viagem.
+
+--Decididamente queres embarcar? perguntou Antonino depois de reflectir
+por alguns momentos.
+
+--Quero.
+
+--Que a tua vontade seja feita.
+
+E embarcaram.
+
+Antonino tomou tres rizes á vela grande e prendeu o gurupés.
+
+Em seguida envolveu Laura n'um manto, e fez-se ao largo. Durante as
+duas primeiras horas correu bem a viagem.
+
+A chalupa navegava com uma velocidade de doze nós por hora.
+
+O visconde chegou a ter esperanças de que chegariam a Saint-Malo sem
+novidade.
+
+Mas repentinamente soprou rijo o vento, apanhando de flanco a chalupa, e
+as ondas encapelaram-se.
+
+A cada vaga Antonino dava ao leme, e o barco vencia obliquamente a onda,
+cuja espuma chegava ao cimo do mastro.
+
+O mar embravecia de minuto para minuto.
+
+O vento refrescava cada vez mais.
+
+A chalupa, inclinada para bombordo, seguia sempre, com a borda quasi ao
+nivel das ondas.
+
+Entretanto houve um momento em que o vento abrandou, como que para dar
+descanço ás vagas.
+
+Mas depois, bruscamente, saltou para sueste.
+
+Por felicidade Antonino viu chegar a borrasca.
+
+As montanhas d'agua que se moviam ao largo, batidas pelo vento
+contrario, elevaram-se a enorme altura.
+
+Depois, obedecendo á força impetuosa do vento, correram na mesma direcção.
+
+Houve um minuto de indiscriptivel cahos.
+
+O choque das massas d'agua batendo umas contra outras, produzia um ruido
+ensurdecedor.
+
+A chalupa corria rapida como um vôo.
+
+Apanhada pelas ondas que vinham de terra impellidas pelo vento,
+encontrava outras ainda animadas da primeira impulsão.
+
+Se se encontrasse no ponto d'encontro d'essas montanhas moveis, estava
+perdida.
+
+Antonino, socegado, attento, nem por um instante se deixava surprehender.
+
+Laura poude então admirar esse espectaculo extraordinario: a lucta da
+destreza e da intelligencia humanas contra o poder brutal das forças
+naturaes.
+
+O ceu assombreava-se cada vez mais.
+
+Uma grande nuvem côr de chumbo, com reflexos sulphurosos nas
+extremidades, avançava rapidamente do lado de Saint-Malo. Laura disse a
+Antonino:
+
+--Corremos grande perigo, não é verdade?
+
+--O mais insignificante descuido perder-nos-ia, respondeu o visconde.
+
+--Para onde diriges a chalupa?
+
+--Vou tentar abordar á ilha de Cézambre, da qual distamos dois
+kilometros. E agora, minha querida, silencio!
+
+Laura approximou-se do unico homem que amara e que escolhera entre
+todos, feliz por se saber protegida por elle.
+
+Não fôra ella, de resto, que desejara observar de perto o mar irritado?
+
+Chamára o cataclysmo, e elle viera, furioso por se ver arrostado por
+aquelles dois entes cheios de vida.
+
+Por isso Laura não sentia verdadeiro temor.
+
+Ao principio, vendo a extraordinaria força dos elementos, sentira um
+ligeiro calafrio.
+
+Mas, depois, socegou por completo.
+
+Pensava apenas:
+
+--Se nós fossemos separados por alguma vaga?
+
+E, sem pronunciar uma só palavra, pegou n'um cabo de linho, delgado mas
+forte, prendeu uma das extremidades ao braço, passando a corda por cima
+do hombro, e com a outra extremidade prendeu de fórma identica o braço
+d'Antonino. Depois disse:
+
+--Agora podemos morrer! Morrer juntos e amando-nos, é morrer feliz!
+
+A tempestade attingia o paroxismo.
+
+As vagas cabriolavavam e cahiam depois em salto de tigre.
+
+O ceu cobrira-se de funebre tela, côr de ardosia, com manchas violaceas.
+
+As nuvens desciam pesadamente sobre as regiões inferiores da atmosphera.
+
+A chalupa voava, branca e ligeira como uma ave aquatica, sobre o dorso
+das ondas.
+
+Por vezes desapparecia entre duas muralhas de vagas para reapparecer
+pouco depois, continuando na carreira rapida.
+
+A ilha proxima a custo se avistava por entre as elevadas ondas, que a
+espuma franjava phantasticamente.
+
+Antonino, com toda a energica tensão que pode ter a vontade, combatia
+encarniçadamente, para não desapparecer no abysmo.
+
+Apenas uma vez foi surprehendido pelo quebrar de uma onda enorme, que
+corria sobre a chalupa, n'um encarniçamento de fera, soltando roncos
+temerosos.
+
+N'essa occasião a vela rasgou-se.
+
+Por felicidade, a chalupa adquirira grande velocidade.
+
+A onda, ao quebrar, inundou a embarcação.
+
+A chalupa esteve prestes a submergir-se.
+
+A especie de camara que havia a meia coberta, foi arrancada.
+
+O porão encheu-se d'agua.
+
+Felizmente chegavam.
+
+A praia da ilha de Cézambre, estava ali, muito proxima...
+
+Com mais um movimento da canna do leme Antonino achou-se no centro d'uma
+enseadinha, ao abrigo do vento. Dois minutos depois a quilha da chalupa
+afundava-se na areia.
+
+Antonino deitou ferro, e saltou sobre uma rocha, com uma ligeireza de gamo.
+
+Laura lançou-lhe a extremidade d'uma amarra, que o visconde atou
+solidamente n'um adelgaçamento do rochedo.
+
+Depois estendeu as mãos para a esposa, que ligeiramente lhe saltou nos
+braços.
+
+Abraçaram-se apaixonadamente, com delirio.
+
+Estavam salvos!
+
+
+
+
+XVIII
+
+O encontro
+
+
+Antonino e Laura atravessaram a estreita facha arenosa que havia junto
+ao rochedo, e que era o unico ponto abordavel da ilha de Cézambre.
+
+Na praia estava amarrado um barco.
+
+Meio occulto n'uma especie de quebrada, encontraram o posto da Alfandega.
+
+A casa estava aberta e vazia.
+
+Sem duvida os guardas, tendo partido de manhã, não estavam ainda de volta.
+
+Antonino lembrou-se que proximo d'aquelle sitio havia uma cabana de
+pescadores.
+
+Depois de a terem procurado por alguns minutos, encontraram-a por fim,
+n'uma anfractuosidade dos rochedos.
+
+A porta apenas estava fechada na tranqueta.
+
+Abriram-a e entraram.
+
+Depararam com uma velha, meio surda, que concertava uma rêde.
+
+A custo conseguiram saber que o velho--marido sem duvida--tinha partido
+de manhã para Saint-Malo e que ainda não voltára.
+
+Muito instada, disse mais que nada tinha que se Comesse e bebesse, além
+de _cidra_, toucinho, peixe sêcco e pão.
+
+Uma moeda d'ouro, que Antonino atirou para cima d'uma meza, abriu-lhe um
+pouco mais os ouvidos e a intelligencia.
+
+A velha levantou-se então e tratou de fazer lume sem demora.
+
+Pouco depois brilhavam as chammas na chaminé.
+
+Laura approximou-se para se aquecer e seccar o fato.
+
+Depois de estar tambem alguns momentos junto do lume, Antonino disse:
+
+--E agora vou buscar as nossas provisões a bordo da chalupa, porque,
+antes d'embarcarmos novamente, necessitamos comer, e não me agrada o que
+a velha nos póde dar.
+
+E voltando-se para a dona do tegurio, accrescentou:
+
+--Acompanhe-me, porque, indicando-me o caminho, menos tempo me demorarei.
+
+A velha levantou-se sem responder, e seguiu Antonino.
+
+Laura conservou-se á chaminé, pensativa.
+
+Pouco depois ouviu uma voz conhecida dizer-lhe:
+
+--Adeus, Linda, bom dia!
+
+Levantou-se sobresaltada e olhou.
+
+Tinha em frente Lauretto Mina.
+
+--Como vaes tu, carissima?
+
+Laura respondeu altivamente:
+
+--Eu chamo-me viscondessa de Bizeux!
+
+--Viscondessa?... Hum!... Emfim, seja! Effectivamente disseram-me, em
+Saint-Malo, que tinha casado com o sr. de Bizeux, e que pertencia
+officialmente á familia do visconde. Mas o casamento effectuou-se em
+Inglaterra, não é verdade? Ninguem desconhece essa especie de
+casamentos... enlaces pouco duraveis, tão faceis de fazer como de
+desfazer. Casa-se em frente d'um padre catholico, mas nem por isso o
+casamento deixa de ser civil, o que illude a lei.
+
+--Mas affianço-lhe... replicou Laura.
+
+Interrompeu-se para ajuntar em tom desprezador:
+
+--Que me importa o que o senhor pense! Acredite ou não, é-me indifferente!
+
+--Está bem! respondeu, rindo ironicamente, Lauretto Mina. Que a
+viscondessa esteja mal, ou bem tincta, é questão secundaria, que não me
+impede de prometter solemnemente tratal-a pelo seu titulo, com todas as
+attenções e o mais profundo respeito. Tomo a peito proceder de fórma que
+reconquiste as suas boas graças.
+
+Depois d'um momento de silencio, olhando-a de revez, accrescentou:
+
+--É possivel que a sr.ª viscondessa tenha a maxima conveniencia de
+passar, para mim, como uma desconhecida em Saint-Malo. É possivel que
+não deseje que a reconheçam como sendo a celebre cantora Linda...
+
+Laura, surprehendida e interrogando-o com o olhar, interrompeu-o:
+
+--E se assim fosse!
+
+--Bravo! Já vejo que acertei! Pois está combinado! Ámanhã, no concerto...
+
+--Ah! o senhor canta no concerto d'ámanhã? perguntou a viscondessa.
+
+--Canto. Foi para isso que vim a Saint-Malo... Ámanhã será para mim uma
+desconhecida. Prometto-lh'o sob minha palavra d'honra.
+
+--Obrigada.
+
+--E agora que está certa da seriedade das minhas intenções, deixe-me
+dizer-lhe rapidamente, antes que... seu marido volte, o que vim fazer
+aqui, porque vim exclusivamente por sua causa.
+
+--Por minha causa? repetiu Laura como um echo.
+
+--Não me refiro precisamente á ilha de Cézambre. A estes rochedos
+conduziu-me apenas o acaso, a minha boa estrella. Esta manhã
+propozeram-me um passeio até á ilha, que me affiançaram ser
+extraordinariamente pittoresca. A tempestade reteve-nos por mais
+tempo do que desejavamos. Mas a Saint-Malo, vim exclusivamente por sua
+causa, repito.
+
+Em seguida a uma pausa calculada, o tenor ajuntou:
+
+--O tempo passa. Vou direito ao fim. Sabe que no proximo mez é a
+inauguração da nova Opera. O director encarregou-me de dizer-lhe que
+tinha o maximo empenho em contratar a Linda. Elle acceita uma escriptura
+nas condições que mais lhe agradem, sr.ª viscondessa, ou seja por anno e
+por serie de representações.
+
+Laura córou, e esteve sem responder durante alguns segundos.
+
+Por fim disse:
+
+--É impossivel. Eu sou a esposa do visconde de Bizeux.
+
+--Ora adeus!... Nada de patetices!... replicou Lauretto com desdem. A
+sr.ª é e será sempre a Linda! É possivel que seja viscondessa, mas não
+deixou de ser artista! Usa agora, legitamente ou não, pouco importa, o
+nome dos nobres avós d'um fidalgo da provincia, mas, _per Bacco!_ não
+lhe merecerá mais consideração, não collocará cem vezes mais alto o seu
+nome pessoal, o seu nome artistico, o grande nome que conquistou pelo
+seu talento previlegiado? Não posso deixar de lhe lembrar que seu pae
+tambem era conde. Mas ninguem o conhecia por conde de Marcia, todos
+lhe chamavam o grande violinista, o grande artista Marcia. Acho extranho
+que a filha proceda de fórma contraria, deixando offuscar o seu glorioso
+nome de artista pelo vulgar titulo de nobreza!
+
+O tenor fallava com vehemencia e emphase italiana, mas as suas palavras
+correspondiam aos intimos pensamentos de Laura.
+
+A viscondessa não respondeu.
+
+Inclinara a cabeça para o peito, pensativamente.
+
+O tenor perguntou:
+
+--Então?... Que resposta devo dar ao director da Opera? Que acceita, não
+é verdade?
+
+Laura disse, como se fallasse comsigo mesma:
+
+--Ha uma coisa que a tudo sobreleva: amo meu marido!
+
+--Mas ha trinta mezes já que o ama! Parece-me sufficiente! O visconde
+confiscou-a por mais de dois annos, é tempo de a restituir a si propria,
+á arte, aos seus admiradores. Se a amasse, seria o primeiro a dar-lhe
+esse conselho. E apesar disso a sr.ª continua amando-o, se é que não a
+engana o coração. Mas eu conheço-a bem, e iria apostar em como está
+farta da vida que leva. Convença-se: a sr.ª não pertence a um só homem,
+pertence a todos! Eu nem um instante duvidei que a Linda voltaria
+para o theatro. Se não fôr hoje, será ámanhã!
+
+Laura, fugindo de responder ao tenor, perguntou:
+
+--Como soube o director da Opera que eu estava em Saint-Malo?
+
+--Ah! isso é descoberta minha, replicou Lauretto Mina envaidecido.
+Quando a sr.ª desappareceu com o visconde, disse-se que tinha partido
+para a America do Norte ou do Sul. A verdade é que nunca se soube ao
+certo para onde tinham ido. Pouco tempo depois ninguem se lembrava da
+Linda, excepto eu, que nunca a esqueci. Velava, espiava. Ha pouco soube
+pelo barytono Gressier, que elle fôra convidado para cantar n'um
+espectaculo de beneficencia, em Saint-Malo. Lembrei-me que Saint-Malo
+era a terra da naturalidade do visconde de Bizeux. Tratei de ler os
+jornaes da provincia, e n'um, o _Correio d'Ille-et-Vilaine_, vi que o
+conde de Bizeux era o vice-presidente da commissão que promovia o
+espectaculo. Li o programma do concerto e n'elle encontrei os nomes da
+baroneza de P... e da viscondessa de B... Procurei immediatamente «o
+director de Opera, para onde, tenho a honra de lh'o participar,
+estou escripturado. Logo que o vi, disse-lhe: Encontrei a Linda!
+Meia hora depois escrevia ao sr. conde de Bizeux, offerecendo-me
+desinteressadamente para cantar no concerto. O conde acceitou
+reconhecidamente o meu valioso concurso, em telegramma. No dia seguinte,
+munido de plenos poderes pelo director da Opera, parti para Saint-Malo,
+onde cheguei ha poucos dias. Eu desejava ficar hospedado em casa de seu
+sogro. Infelizmente, porem, elle hospedava Nobillet e Gressier que
+considerava como patricios, e tive de contentar-me em ser hospede da
+sr.ª baroneza de Pontual--uma mulher encantadora, palavra d'honra! disse
+o tenor como que em aparte com sorriso fatuo. Pena é que a voz não
+corresponda á belleza com que Deus a dotou!
+
+--Está hospedado em casa da baroneza de Pontual? perguntou Laura
+inquieta. Disse-lhe quem eu era?
+
+--Admire a minha prudencia e delicadeza: fazendo com que a baroneza
+fallasse da minha ex-companheira de theatro, percebi com facilidade que
+a sr.ª viscondessa tinha realmente guardado o mais rigoroso incognito, e
+não trahi o seu segredo. Como antecipadamente tinha admittido essa
+hypothese e resolvido não a denunciar, guardei o mais absoluto silencio.
+
+--Agradeço-lhe, disse Laura pela segunda vez, durante a sua conversação
+com Lauretto.
+
+D'esta vez, porém, pronunciou a palavra mais delicadamente do que da
+primeira.
+
+--Nada tem que agradecer-me, replicou Lauretto. Repito-lhe; tenho o
+maximo desejo em que veja em mim apenas um amigo. Escute-me, Laura:
+ha mais de dois annos que nem um só momento deixei de pensar em si. A
+sua imagem está sempre presente ao meu coração. Os sonhos de felicidade
+que tenho architectado teem sido tantos e taes que nem mesmo me atrevo a
+relatar-lh'os. É uma verdadeira obsessão! Ah! permitta-me que lhe diga,
+o que ainda, sentido, nunca disse a qualquer mulher: adoro-a, Laura!
+
+A viscondessa endireitou o corpo, irritada.
+
+Depois d'olhar fixamente, com altivez, o tenor, disse-lhe desdenhosa:
+
+--Creio que ha bocado prometteu tratar-me com todas as attenções e
+respeito?
+
+Lauretto não poude responder.
+
+Olhando pela porta, viu o visconde, que se approximava.
+
+Portanto disse a Laura, sorrindo maldosamente:
+
+--Não falle tão alto, que póde ouvil-a seu marido.
+
+Laura olhou tambem, e viu Antonino, seguido pela velha, que conduzia um
+cabaz.
+
+Ao transpor o limiar da porta, o visconde recuou, estupefacto.
+
+A voz tremia-lhe ao pronunciar o nome do tenor.
+
+--Lauretto Mina! disse elle apenas.
+
+--Em pessoa! respondeu o tenor com toda a presença d'espirito. Diz-se, e
+assim é, que o mundo é enorme. Pois apesar d'isso os amigos
+encontram-se sempre. Portanto o nosso encontro, sr. visconde, apesar de
+ser perfeitamente casual, não é para admirar. Vim a Saint-Malo para
+cantar no concerto d'ámanhã. Uns amigos convidaram-me a passeio n'esta
+ilha. A tempestade, retendo-nos, fez com que nos encontrassemos. Os seus
+charutos devem estar molhados; permitti-me que lhe offereça um?
+
+--Obrigado, disse friamente Antonino, acompanhando a palavra com um
+gesto de recusa.
+
+O tenor fingiu não perceber a frieza com que o visconde o tratava.
+
+Deu um passo para a porta, olhou para o espaço e disse:
+
+--O tempo melhorou. O demonio do vento começa a socegar um pouco. Nada
+me prende já n'esta especie d'ilha selvagem. Não desejo importunal-os
+por mais tempo; deixo-os com a sua refeição. Senhor visconde, tenho a
+honra de o cumprimentar!... Senhora viscondessa, apresento-lhe a
+homenagem do meu mais profundo respeito!
+
+Tirou o chapéu n'um gesto largo e saiu da cabana.
+
+Antonino seguiu Lauretto com olhar colerico.
+
+--Que tempo esteve este homem aqui? perguntou elle a Laura.
+
+--Entrou pouco depois de tu sahires. Não sei d'onde veiu!
+
+O visconde interrogou a velha.
+
+--Este senhor, respondeu a mulher, veiu passeiar á ilha para _ver a
+vista_. Trouxe almoço, e como a tempestade rebentou, demorou-se. Estava
+deitado entre as rochas a descançar, quando o senhor chegou.
+
+--O que te disse elle? interrogou o visconde logo que a velha terminou
+as explicações.
+
+--Fallou-me da nova Opera, onde está contractado. O director mandou-me
+offerecer escriptura, tambem.
+
+--E que lhe respondeste?
+
+--Que era tua mulher, que não podia pensar em voltar ao theatro.
+
+--É provavel que esse insolente continue a amar-te. Dirigiu-te algumas
+palavras offensivas?
+
+Deveria ella provocar um conflicto entre seu marido e o tenor?
+
+Lauretto Mina, em duello, era adversario muito mais para temer que Pozzoli.
+
+Por isso Laura respondeu, tremendo-lhe a voz:
+
+--Lauretto foi attencioso d'esta vez. Está ha alguns dias, em
+Saint-Malo, por causa do concerto, como te disse, e não fallou em mim,
+promettendo-me até fingir que não me conhecia.
+
+--Oh! E ficaste-lhe muito reconhecida, não é verdade? disse Antonino
+ironicamente.
+
+--O que tens? perguntou Laura com meiguice. Não admira que te
+contrariasse o encontro com esse homem, mas isso não é rasão para me
+tratares com modos bruscos!
+
+--Perdoa-me, Laura! Não sei porque, mas a presença d'este homem
+irritou-me sobremaneira. Não podia nem devia provocal-o pela
+impertinente polidez com que me tratou, mas cada uma das palavras que
+pronunciava fizeram-me ferver o sangue nas veias!
+
+--Socega, não te exaltes. Vamos almoçar, que necessitamos readquirir
+forças, tu principalmente. Senta-te, que eu te sirvo.
+
+Auxiliada pela velha, Laura poz a mesa.
+
+Depois tirou do cabaz pão, vinho de Bordeus, e carne assada.
+
+O appetite que sentiram ao desembarcar, desapparecera.
+
+Mal provaram os alimentos.
+
+Emquanto estiveram á mesa poucas palavras trocaram.
+
+Pensavam.
+
+Antonino, que desembarcara na ilha, alegre e triumphante, apesar da
+fadiga physica, como se está sempre depois d'um combate de que se sae
+victorioso, estava agora triste e inquieto.
+
+Laura fallara-lhe com a costumada meiguice, mas o instincto do amor que
+sentia pela esposa, fazia com que o visconde visse para além das
+apparencias, e entendesse o que as palavras não diziam.
+
+Esse instincto dizia-lhe que ella lhe occultava o quer que fosse, e que,
+no pensamento intimo da mulher amada, havia um segredo, como que uma
+sombra que lhe fugia e lhe era contraria.
+
+Pelo seu lado, Laura, repassando pelo espirito as tentadoras
+perspectivas que Lauretto lhe desenrolara, dizia comsigo que Antonino
+nem pronunciára uma palavra d'agradecimento pelo sacrificio que ella de
+novo fazia regeitando as propostas do director da Opera.
+
+Parecia-lhe que o marido se esquecera do compromisso tomado, de, quando
+ella lh'o pedisse, deixal-a em plena liberdade, ou, segundo as proprias
+palavras que então pronunciára, deixar-lhe a gaiola aberta.
+
+Porque seria que, em vez de profundo reconhecimento, elle lhe
+testemunhava uma especie de desconfiança amargurada?
+
+Porque pareceria temer a presença do insolente Lauretto Mina, que, como
+mulher honesta, ella repellira?
+
+Aquelles dois entes que se amavam, que acabavam de escapar, juntos, d'um
+perigo terrivel, e que se considerariam felizes de succumbir a elle,
+enlaçados n'um abraço ultimo, ao entrarem de novo na vida social,
+procuravam divergencias e sentiam egoismos, que separam e dilaceram.
+
+No fundo do coração é provavel que se recordassem, saudosos, da tempestade.
+
+E comtudo essa tempestade passára, como se nada mais tivesse a fazer,
+uma vez que lhe fugira o encantador par que desejara victimar.
+
+A ilha de Cézambre dista apenas cinco kilometros de Saint-Malo, mas
+necessitavam apressar-se para poderem chegar á cidade antes d'anoitecer.
+
+Prepararam-se para partir.
+
+Antonino continuava pensativo.
+
+Laura perguntou-lhe porque estava triste.
+
+Elle desculpou-se com a fadiga.
+
+A verdade, porém, era que deixára de a sentir desde que chegara á ilha.
+
+O abalo moral quebrantára-o muito mais do que a lucta contra a borrasca.
+
+Laura insistiu com sollicitude.
+
+--Mas sentes apenas fadiga? Nada mais te atormenta e incommoda?
+
+Antonino hesitou, mas por ultimo disse:
+
+--Porque não hei-de confessar-te tudo? É verdade, sim, estou desgostoso!
+Sabes o que me incommoda? É a idéa de que devemos a Lauretto Mina o
+obsequio de fingir que te não conhece, de não se indicar como teu antigo
+companheiro no theatro, e, principalmente, a certeza de que elle,
+como dantes, cantará ao teu lado, diante de numeroso publico. Se tivesse
+supposto que esse insolente cantaria no concerto, affianço que não
+consentiria que tu cantasses tambem.
+
+--Lembra-te de que, se vou cantar, é exclusivamente para te comprazer e
+a teu pae. De resto, é tempo ainda. Queres que não cante? Affianço-te
+que essa tua resolução não me entristecerá, pelo contrario, porque
+talvez assim tu fiques completamente socegado.
+
+--Sim, replicou Antonino. Se não cantares socegarei, porque
+desapparecerá a inexplicavel apprehensão que me assaltou, e de que só
+por essa fórma conseguirei libertar-me.
+
+--Abraça-me e socega. Não cantarei ámanhã, e ficarei tão satisfeita como
+tu.
+
+Quando chegaram a Saint-Malo a cidade estava já envolta em trevas.
+Prepararam-se rapidamente para o jantar, que era de cerimonia.
+
+Os artistas que cantariam no dia seguinte jantavam em casa do barão de
+Pontual.
+
+O conde de Bizeux tinha á sua meza, além do arcebispo de Rennes, todas
+as pessoas d'importancia que tinham chegado de varios pontos da Bretanha
+para assistir ao concerto, que em toda a provincia despertára o maior
+enthusiasmo.
+
+Findo o jantar, Antonino e Laura chamaram o conde de parte.
+
+O visconde explicou ao pae a razão porque desejava que o nome de sua
+mulher fosse riscado do programma do espectaculo.
+
+Mas o conde declarou:
+
+--É completamente impossivel! É tarde para isso!
+
+E depois, um pouco exaltado por semelhante resolução, deu a sua opinião
+sobre o caso.
+
+Não comprehendia os escrupulos do filho.
+
+Vira e fallára com Lauretto Mina.
+
+O tenor parecera-lhe um homem delicadissimo.
+
+Era para agradecer-lhe que não tivesse feito a mais ligeira allusão á
+sua antiga collega, a Linda, e estava certo que o tenor se portaria com
+a viscondessa de Bizeux com todas as attenções e respeitos.
+
+O arcebispo de Rennes dissera a toda a gente que a admiravel voz que iam
+ouvir não a possuiam muitas cantoras de profissão, que o talento de
+Laura era inegualavel, despertando assim a geral curiosidade. Se, depois
+disto, fossem riscar do programma o nome de Laura era collocar
+pessimamente o conde que, como vice-presidente da commissão promotora do
+espectaculo, como que offenderia as numerosas pessoas que tinham ido a
+Saint-Malo para ouvir a viscondessa.
+
+Ora Antonino de certo não quereria que o pae fizesse má figura.
+
+Ante estas razões apresentadas pelo conde, era impossivel a insistencia.
+
+Portanto Antonino disse:
+
+--Pois bem, Laura cantará!
+
+
+
+
+XIX
+
+O escandalo
+
+
+Antonino, ainda que excessivamente fatigado, teve, n'essa noite, um
+somno febril, cortado de sonhos sinistros.
+
+Laura não poude conciliar o somno, tão profunda sensação lhe tinham
+causado as scenas d'aquelle dia.
+
+De manhã teve nova emoção.
+
+Ao ler o programma completo do concerto, encontrou inesperadamente, o
+nome de Remissy.
+
+O que significava aquelle caso?
+
+Porque não a tinham prevenido?
+
+Estaria Remissy em Saint-Malo?
+
+Na vespera não o vira e nada lhe constára!
+
+Uma carta de Lauretto Mina respondeu a todas as perguntas que a
+viscondessa a si propria fez.
+
+O tenor dizia o seguinte:
+
+
+ _Senhora viscondessa_
+
+Não tive tempo de a prevenir hontem de que o nosso amigo Remissy tomava
+parte no concerto d'hoje. Não sei se ficará satisfeita ou contrariada
+com esta noticia. Se ha falta, confesso-me unicamente culpado d'ella.
+Fui eu quem, satisfeitissimo por encontral-a, participei o caso a
+Remissy, contratado em Vichy por uma quinzena, accrescentando se, elle
+tambem não queria vir commigo a Saint-Malo, tornar a vel-a commigo, e
+juntar, mais uma vez, n'este concerto de beneficencia, o nome d'elle,
+como o meu, ao nome da sr.ª viscondessa.
+
+Remissy respondeu-me:
+
+«Ver e ouvir mais uma vez a Linda, _poi morir_. Sim, sim, irei, mas não
+espere por mim para partir. Conhece a rapidez dos meus habitos
+ambulantes. Informei-me na estação do caminho de ferro, e soube que ha
+um comboio que chega a Saint-Malo ás sete e meia da noite. Ver-me-ha
+entrar na sala do concerto, de casaca e gravata branca, ás nove horas
+precisas da noite em que elle se efectua. Á cautella, peço-lhe que faça
+com que o meu nome feche o programma. A _Marselheza_ está
+interdiria pela censura imperial, e inquietaria os honrados legitimistas
+locaes. Executarei, pois, a _Marselheza_ hungara, o hymno de Rakoçki.»
+
+Previno-a d'este caso, sr.ª viscondessa, mas peço-lhe que não se
+inquiete. Hontem, depois de ter tido a honra de a ver, não pude escrever
+ou telegraphar a Remissy, nem mesmo sabia para onde dirigir-lhe carta ou
+telegramma. Esperal-o-hei á chegada e instruil-o-hei de fórma que elle
+saiba que é compromettedora para a sr.ª viscondessa a mais ligeira
+indiscrição. Remissy é, como eu, excessivamente dedicado á sr.ª
+viscondessa, e por isso estou certo que elle annuirá ao meu pedido, e
+procederá de fórma que não a comprometta.
+
+Tenho a honra de me assignar, sr.ª viscondessa,
+
+ Seu humilde criado.
+
+ «_Lauretto Mina._»
+
+
+Esta carta fôra escripta pelo tenor calculadamente, para que podesse ser
+lida pelo visconde.
+
+Laura mostrou-a effectivamente a Antonino.
+
+A leitura da missiva augmentou a inquietação do visconde.
+
+--Um risco mais! disse elle.
+
+E depois de pensar, por instantes, accrescentou:
+
+--Afinal a quantidade pouco importa.
+
+Quem não estava inquieto nem triste era o conde de Bizeux.
+
+Annunciou triumphantemente, ao almoço, que o espectaculo seria magnifico.
+
+A casa fôra completamente passada.
+
+Renderia mais de cincoenta mil francos.
+
+Subtrahidas as despezas ficaria, com certeza, livre, mais do que a
+quantia necessaria para concluir o hospicio para os marinheiros.
+
+O conde agradeceu effusivamente a Laura o ter consentido em cantar,
+fazendo-lhe assim a vontade.
+
+Estephania, é claro, não partilhava do enthusiasmo do pae.
+
+--Confesso, opinara ella, que não approvo essas exhibições n'uma senhora
+nobre e titular, isso só se admitte nas mulheres que fazem vida pelo
+theatro.
+
+O conde, porém, no cumulo da satisfação, mofava da filha e dos
+_prejuizos gothicos_ que ella tinha.
+
+Ao meio dia Laura ensaiou-se com a orchestra, rapidamente, como quem
+está segura do que executa.
+
+Na vespera fizera substituir no programma a aria _O Rei dos Alamos_ por
+um outro trecho de Schubert, _Margarida_, que exigia mais sentimento,
+mas que necessitava de menos voz, e que por isso era mais conveniente
+que a dama d'alta sociedade o executasse.
+
+Era indispensavel não desprezar a mais insignificante circumstancia para
+que, nem por um momento, os espectadores se esquecessem que quem cantava
+era a viscondessa de Bizeux.
+
+Pelas oito horas da noite, nas socegadas ruas de Saint-Malo havia um
+desusado rodar de carruagens.
+
+Apesar da noite ser de luar, o caes fôra illuminado a gaz até á porta do
+Casino, onde devia realisar-se o espectaculo, logo que anoitecera.
+
+Um pouco antes das nove horas, Laura entrou no salão do Casino pelo
+braço do conde de Bizeux.
+
+A entrada da viscondessa produziu sensação.
+
+Estava adoravelmente formosa.
+
+Um magnifico colar de saphyras e diamantes fazia-lhe sobresahir a rosada
+epiderme do collo.
+
+Nos braços, d'uma belleza esculptural, trazia pulseiras semelhantes ao
+collar.
+
+O louro veneziano dos seus sedosos cabellos sustentava uma borboleta,
+collocada ao alto, cujo corpo era formado por uma enorme saphira, e
+cujas azas, salpicadas de diamantes, scintillavam com extraordinario
+brilho.
+
+Laços de finissima renda, fixos por colchetes de saphyra, alteavam-lhe
+os microscopicos sapatos de velludo azul.
+
+O visconde de Bizeux seguia o pae e a esposa, dando o braço á irmã,
+que vestia uma _toilette_ simples, de seda preta, sem enfeites.
+
+Logo que o conde de Bizeux se sentou, foram-lhe entregar um telegramma.
+
+Participavam ao conde que o comboio descarrillára a dois kilometros da
+estação de La Fresnays.
+
+Não havia desastres pessoaes a lamentar, mas o comboio, forçado a
+demorar-se por aquella circumstancia, não poderia a chegar a Saint-Malo
+antes da meia-noite.
+
+Não podiam, pois, contar com Remissy.
+
+A noticia alegrou Antonino e Laura.
+
+O salão do Casino estava repleto, brilhante de _toilettes_ primorosas e
+caras, e animado pelas meias conversações dos espectadores satisfeitos.
+
+Logo que o concerto começou, fez-se o mais completo silencio.
+
+O espectaculo constava de duas partes.
+
+A primeira abriu pelos córos populares bretões, cantados por homens e
+mulheres do povo.
+
+Os espectadores, bretões na quasi totalidade, applaudiram com enthusiasmo.
+
+A baroneza de Pontual e Lauretto Mina, obtiveram successo na _Ave Maria_
+de Gounod, e n'um outro trecho que cantaram juntos.
+
+Depois do terceiro numero do programma, executado pelo baritono, Laura
+cantou a aria _Fidelio_.
+
+O desusado sentimento e a adoravel simplicidade com que ella interpretou
+o trecho musical, produziu em todos os espectadores um enthusiasmo
+indiscriptivel.
+
+O concerto foi interrompido pelas palmas, bravos e repetidas chamadas á
+viscondessa.
+
+A esposa dedicada executára a aria, imprimindo-lhe o cunho superior
+d'uma alma d'_elite_.
+
+Por isso os espectadores se sentiram como que chocados por invisivel pilha.
+
+Antonino, que comprehendera quanto amor significava a execução da aria,
+a custo retinha as lagrimas.
+
+Nobillet terminou a primeira parte do concerto, tocando uma rapsodia
+sobre _motivos_ da Bretanha e da Vandêa, que foi coroada de palmas.
+
+O penultimo numero da segunda parte, tão interessante como a primeira,
+era a marcha hungara executada pelo violinista Remissy.
+
+Quando se chegou a essa altura do programma, o conde de Bizeux
+levantou-se para prevenir os espectadores de que se dera o
+descarrillamento, e que, por isso, Remissy não estava presente.
+
+O conde começou dizendo:
+
+--Um descarrillamento entre as estações de...
+
+Mas foi interrompido pelo proprio Remissy em pessoa, que, de violino
+debaixo do braço, avançou lentamente, e disse:
+
+--O comboio descarrillou, mas por felicidade não se voltou a carruagem
+em que segui desde a estação de La Fresnays, e portanto eis-me aqui, á
+hora marcada, ao seu dispor, minhas senhoras e meus senhores.
+
+As palavras de Remissy foram recebidas com uma salva de palmas.
+
+Duas ou tres pessoas que chegavam com o violinista, contaram o que se
+passára.
+
+Em seguida ao descarrillamento, Remissy, com o violino a tiracollo e o
+sacco de viagem na mão, mettera-se a caminho para La Fresnays,
+tranquillamente.
+
+Chegado que foi, alugou uma carruagem, e uma hora depois chegava a
+Saint-Malo, e entrava no salão do concerto, correcto, impeccavel, de
+casaca e gravata branca, como se não chegasse d'uma viagem de trezentas
+leguas.
+
+Logo que o silencio se restabeleceu no salão, Remissy começou a tocar o
+hymno de Rakoçki.
+
+Como sempre, foi extraordinario d'execução.
+
+As primeiras notas foram ligeiras, simples, mas o _thema_ do hymno foi
+exposto com firmeza e arte.
+
+Depois, foi-se animando pouco a pouco, levado por subito arrebatamento,
+como se se sentisse no campo da batalha, ao lado do general Kossuth.
+
+Dir-se-ia que d'elle se apossava um enthusiasmo frenetico, tyrannico.
+
+Em seguida o arco tocava ao de leve nas cordas do violino, e percebia-se
+o hymno como que tocado ao longe, mysteriosamente.
+
+Era a isso que elle chamava _tocar nas estrellas_.
+
+Mas, singular condão do genio, as notas, apesar de fracas e quasi
+indistinctas, tinham a mesma expressão e o mesmo encanto.
+
+Parecia ouvir-se e ver-se, a centenas de leguas de distancia, cargas
+furiosas de cavallaria, e o embate titanico de dois corpos d'exercito.
+
+Remissy, foi escutado com o mais profundo silencio.
+
+Quando terminou, romperam delirantemente os applausos, e todos os
+espectadores gritaram:
+
+--Bis!... bis!...
+
+Remissy, depois de agradecer a ovação, disse:
+
+--Desculpem-me, mas não repito nunca os trechos que executo. Tocarei
+qualquer outra coisa. D'esta vez será alegre a musica.
+
+E começou a executar as celebres variações, que compozera sobre o
+_Carnaval de Veneza_.
+
+Foi com endiabrado estro e rara exuberancia de malicia e de jovialidade,
+que Remissy resuscitou a eterna e pittoresca festa da praça de S. Marcos.
+
+Sentia-se mover e reviver todos esses alegres e encantadores personagens
+dos companheiros da _Commedia dell'arte_.
+
+Por vezes, atravez de toda a alegria, resaltando do trecho musical,
+passava uma nota melancholica e triste como uma saudade ou como um suspiro.
+
+As palmas retiniram novamente.
+
+Laura applaudiu com alegria o grande artista, que fôra amigo de seu pae.
+
+Remissy, habituado a estes triumphos, sorria com bondade e agradecia
+modestamente.
+
+O ultimo numero do programma, era a _Margarida_, de Schubert, cantado
+pela viscondessa de Bizeux.
+
+Laura, ao caminhar para o logar onde devia fazer-se ouvir, encontrou
+Remissy, que se retirava.
+
+O violinista, ao vel-a, disse-lhe com arrebatamento:
+
+--Ah! encontro-a emfim! não a via...
+
+A viscondessa não o deixou terminar.
+
+Apertou-lhe expressivamente a mão, e continuou andando.
+
+Remissy procurou na sala uma cadeira vazia, d'onde podesse ouvir a Linda.
+
+A baroneza de Pontual, que percebeu, levantou-se e indicou-lhe com a mão
+a cadeira que Laura acabava de deixar.
+
+O violinista approximou-se.
+
+A baroneza disse-lhe então:
+
+--Quererá o sr. Remissy fazer-me a honra de se sentar a meu lado?
+
+Elle inclinou-se diante d'aquella mulher, e sentou-se sem ceremonia, não
+se dando mesmo ao trabalho de responder.
+
+Lauretto Mina não estava longe.
+
+Podia facilmente approximar-se de Remissy e avisal-o, como promettera,
+de que a Linda desejava guardar o incognito.
+
+Não se moveu, porém.
+
+--O acaso é contra a Linda? Tanto peor! pensou o tenor. Nada terão a
+censurar-me por faltar ao compromisso tomado.
+
+A viscondessa de Bizeux, saudada pelos applausos dos espectadores,
+cumprimentou graciosamente antes de começar.
+
+Remissy, como fallando comsigo mesmo, disse a meia voz, com grande
+espanto da baroneza:
+
+--Que felicidade! Não a ouvia ha tanto tempo!
+
+Laura pronunciou as primeiras phrases da aria com admiravel pureza e
+nitida pronuncia, tão desprezadas actualmente, que é raro perceber-se
+uma só das palavras ditas pelas cantoras.
+
+--Ah! Tem a voz mais volumosa! murmurou Remissy em extasi. Nunca
+qualquer outra voz me emocionou como a da Linda!
+
+Laura chegou ao crescendo de melodia, para o qual reservava toda a
+potencia da sua maravilhosa voz, enchendo, por assim dizer, o salão
+com a mais bella e profunda sonoridade.
+
+Tres salvas de palmas, successivas, acclamaram a cantora.
+
+Os bravos resoavam.
+
+Remissy, enthusiasmado com o successo de Laura, gritava como possesso!
+
+--Bravo, diva!... bravo, Linda!...
+
+Felizmente, a voz do violinista perdeu-se entre o ruido do salão.
+
+Mas a baroneza ouvira perfeitamente o que dissera Remissy.
+
+Augmentava a sua surpreza.
+
+--Que quererá elle dizer? perguntou ella a si propria. Porque comparará
+a voz da celebre Linda á voz da viscondessa?
+
+Laura proseguia.
+
+Os impulsos da paixão, e os gritos de dôr do final da aria, exprimiu-os
+e pronunciou-os ella de uma fórma surprehendente.
+
+A sua voz foi simultaneamente tão penetrante e suave, o som tão sentido,
+a emoção que experimentava manifestava-se-lhe no rosto formoso com tão
+adoravel expressão, que o auditorio estava como que galvanisado.
+
+Os homens tinham-se levantado das cadeiras como impellidos por mola
+occulta.
+
+As damas choravam.
+
+Logo que Laura terminou, houve uma verdadeira explosão d'applausos, de
+bravos, de gritos d'admiração unanime.
+
+Remissy estava fóra de si.
+
+Levantava-se, sentava-se, gritava, chorava.
+
+A baroneza a custo lhe percebia algumas palavras.
+
+--Que artista!... dizia elle. Não tem egual!... É extraordinarissima!...
+
+Quando o ruido dos applausos diminuiu um pouco, Remissy estava como doido.
+
+Dir-se-ia que elle proprio não fôra alvo, pouco antes, de manifestação
+quasi semelhante.
+
+É que os applausos dispensados ao seu idolo produziam n'elle
+centuplicado effeito.
+
+Com o rosto innundado de lagrimas, dirigiu-se ao estrado sobre o qual
+Laura cantára.
+
+A viscondessa retirava-se, agradecendo com venias a ovação que lhe era
+feita.
+
+Remissy approximou-se d'ella, tomou-lhe as mãos e disse bem alto:
+
+--Ah! minha cara diva, tu és sublime!... Não posso conter-me, minha
+querida Linda!... Se não te beijar, rebento!
+
+E envolvendo-a nos braços, beijou-a com sofreguidão nas duas faces.
+
+Laura, deixando-se beijar, sorriu com tristeza, e disse baixo ao
+violinista:
+
+--Não póde calcular o mal que acaba de me fazer, meu caro Remissy!
+
+--Hein! o quê!... Fiz-te mal, eu?... murmurou o violinista estupefacto.
+
+E lançou em volta um olhar admirado.
+
+Era curiosa a mudança operada no auditorio.
+
+Os bravos interrompidos foram substituidos por murmurios hostis.
+
+Evidentemente, os dois grandes artistas, que pouco antes tinham com o
+seu superior talento emocionado todos os espectadores, incommodavam-os
+agora.
+
+Aquella scena final, completamente imprevista, chocava o nobre auditorio.
+
+E com gestos largos, todos, mais ou menos, pronunciavam phrases indignadas.
+
+--O que quer isto dizer? O que significa esta extraordinaria
+familiaridade entre o violinista e a viscondessa?... Elle tratou-a por
+tu!.. Beijou-a em publico!... _Shocking!..._ É escandaloso!... É
+ridiculo!...
+
+Por entre o ruido ouviu-se repentinamente a voz da baroneza de Pontual,
+que gritava, com irreprimivel satisfação:
+
+--A Linda! É a Linda! Tudo se explica! A viscondessa de Bizeux é a
+Linda!
+
+Ao ouvir aquellas palavras o arcebispo de Rennes sahiu precipitadamente
+do salão, pelo braço do vigario geral, murmurando a meia voz:
+
+--_Vade retro, Satanaz!_
+
+Estephania, inclinando-se para o conde, disse-lhe ironicamente:
+
+--O que pensa agora dos meus prejuizos gothicos, meu pae?
+
+Entretanto alguns jornalistas e poucos espectadores applaudiam ainda Laura.
+
+O violinista, comprehendendo, vendo tudo, como ao brilho d'um relampago,
+indignou-se por sua vez, e gritou, para ser ouvido por todos:
+
+--Mas o que significa este espanto? Os nobres, n'esta cidade, serão por
+acaso burguezes?... Trato-a por tu, é verdade... Mas o que admira, se a
+Linda é o meu idolo!... Beijo-a?... D'accordo, mas é a _Margarida_ que
+beijo, selvagens!... Por ventura ignorarão os srs. barões, condes e
+marquezes presentes que a verdadeira divisa da nobreza é _Honny soit qui
+mal y pense_?
+
+Antonino approximára-se de sua mulher.
+
+Deitou-lhe sobre os hombros a capa de baile, e dando-lhe o braço disse-lhe:
+
+--Anda, Laura, vem.
+
+Atravessou altivamente o salão, com a mulher pelo braço.
+
+Empallidecera um pouco, mas conservava levantada a cabeça, e frio e
+sereno o olhar.
+
+Os espectadores abriram alas.
+
+Á medida que avançavam, deixavam de se ouvir as phrases hostis.
+
+Quasi á sahida do salão os applausos resoaram de novo, tão entusiasticos
+como no fim da aria.
+
+Remissy foi ter com Lauretto Mina, a quem disse:
+
+--Não me preveniu!... Dando a saber que a viscondessa era a nossa
+querida Linda, pratiquei uma grande tolice!
+
+Mas depois d'um momento de silencio ajuntou:
+
+--Comtudo parece-me que depois reparei a asneira feita.
+
+O tenor respondeu apenas, sarcasticamente:
+
+--Parece-lhe?
+
+
+
+
+XX
+
+Discordia conjugal
+
+
+Laura e Antonino subiram para a carruagem, que os devia conduzir a casa.
+
+Iam tristes.
+
+Olhavam-se silenciosamente, encostados aos cantos do trem.
+
+O visconde pensava com amargura no escandalo que acabava de dar-se, que
+tão fóra de proposito rebentára.
+
+Acceitára antecipadamente, com todo o desassombro, o effeito que devia
+seguir-se, cedo ou tarde, á revelação do nome e do passado da esposa,
+mas jámais calculara que essa revelação se faria em circumstancias tão
+estrondosas e desagradaveis.
+
+Apesar do espirito independente que possuia, Antonino conservava comtudo
+certos prejuizos de raça, de educação, impossiveis de fazer desapparecer
+por completo.
+
+Ao atravessar na carruagem os caes desertos calculava com tristeza o que
+se passaria no dia seguinte.
+
+Parecia-lhe estar vendo já o aspecto severo de sua irmã, e até de seu
+pae, a frieza dos seus amigos, e a circumstancia, mais dolorosa ainda,
+de sua esposa não continuar a ser recebida pela primeira sociedade de
+Saint-Malo.
+
+Laura, pelo seu lado, magoada pelo silencio do marido, dizia comsigo que
+nada tinha de que censurar-se.
+
+Não só não pedira para cantar no concerto, mas até se recusara a tomar
+parte n'elle, apontando as inconvenientes que d'ahi podiam advir.
+
+Consentira em cantar em publico unicamente para annuir ás reiteradas
+instancias do marido e do sogro.
+
+Fôra culpa sua que aquelle doido Remissy, com o seu exaltado
+enthusiasmo, transformasse em escandalo o que não devia passar de triumpho?
+
+Chegaram a casa sem trocar uma só palavra.
+
+Operava-se, de subito, uma verdadeira separação entre aquelles dois
+seres, que, entretanto, por inexplicavel aberração, continuavam amando-se.
+
+As desigualdades d'educação, e as educações diversas, produzem muitas
+vezes affeições que a todas as contrariedades e desgostos resistem.
+
+Antonino acompanhou a mulher até ao quarto, e em seguida caminhou para a
+porta, retirando-se.
+
+--Deixas-me assim? perguntou Laura com voz triste.
+
+Elle indicou-lhe, com um gesto, a creada, que entrava para despir Laura,
+e respondeu:
+
+--Voltarei d'aqui a pouco.
+
+A viscondessa impoz silencio ás curiosas perguntas que Jacintha lhe
+fazia sobre o concerto, e disse á creada que se retirasse logo que lhe
+despiu o vestido que levara para o concerto, substituindo-o por um
+outro, de trazer por casa.
+
+Depois foi, apesar da humidade da noite, encostrar-se ao parapeito da
+janella aberta.
+
+Ao longe, o mar, tão tempestuoso na vespera, estava sereno como um lago.
+
+Ouvia-se o regular sussurro da vagas, e o ruido monotono das ondas
+desfazendo-se na areia da praia.
+
+Nas aguas cahiam com lentidão os remos d'alguns escaleres da alfandega.
+
+No ceu azul, semeado d'estrellas, uma comprida nuvem clara, como longa
+facha branca, listava o espaço, por baixo da lua impassivel.
+
+Um sino badalou triste, lugubremente.
+
+Aquelle som fez-lhe mal.
+
+Parecia-lhe que dobravam a finados, pela morte de alguem que lhe era caro.
+
+Seria esse morto o seu amor?
+
+Abriu-se a porta do quarto.
+
+Laura voltou-se.
+
+Era Antonino que entrava.
+
+Ao chegar junto da esposa, disse-lhe com voz grave e firme.
+
+--Vim, porque prometti voltar. Mas o que venho fazer aqui? O que
+poderemos nós dizer sobre a deploravel scena que ha pouco se passou?
+
+--Parece-me, respondeu Laura, que devias consolar-me pelo desgosto que
+soffri. Como conscienciosamente sabes, eu não tive a menor culpa do que
+succedeu.
+
+Antonino replicou com amargura:
+
+--E eu muito menos, concorda. Tens, minha querida, amigos bem perigosos
+e bem ridiculos!
+
+--Não é d'hoje que os conheces. Apresentei-te Remissy nos primeiros dias
+das nossas relações. Foi a fatalidade que dispoz as coisas. De resto, se
+era improvavel, não era impossivel que o facto se desse. Ter-se-hia
+evitado se, como eu desejava, não me obrigassem a cantar no concerto.
+Pois se eu não tivesse como que uma especie de pressentimento de que se
+passaria o quer que fosse de desagradavel, insistiria por ventura para
+não ser incluida no programma? Foi teu pae, e tu proprio, que não
+annuiram aos meus pedidos. Cedi, porque não podia deixar de o fazer. O
+enthusiasmo de Remissy desmascarou-me. Se eu tivesse cantado mal não
+teriamos agora que lamentar-nos. Censurar-me-has, por ventura, por ter
+cantado bem, fazendo com que me applaudissem? Não devo ser accusada
+d'esse crime, se o foi, porque não sou responsavel por elle. Lavo d'ahi
+as minhas mãos.
+
+--A verdade é que não és tu quem mais soffre com tudo isto, respondeu
+Antonino meio irritado. Que te importa que se saiba que és a Linda? É um
+nome que tornaste celebre, e que estimas,--sem duvida muito mais,--do
+que aquelle que actualmente usas. Mas para mim e para a minha familia,
+esse nome, cahindo bruscamente, sem preparações, sobre o publico,
+vae servir de maná á malignidade de toda a gente, que nos escarnecerá e
+diffamará. Seremos repellidos da sociedade que até aqui frequentavamos,
+passaremos por pessoas que desprezaram a opinião publica, enganando os
+amigos e os parentes.
+
+--N'uma palavra: deshonrei a tua familia, não é verdade? interrompeu Laura.
+
+--Não digo tanto, mas...
+
+--Na realidade admiro-te! disse a viscondessa irritando-se tambem. Para
+que quizeste introduzir-me n'essa sociedade que não era a minha, n'essa
+sociedade em que entrei como que de surpreza, e que, segundo todas as
+probabilidades, me fechará ámanhã as suas portas? E eu por que accedi
+aos teus desejos? Sabes porque? Porque te amava! Censurar-me-has tambem
+por isso? Tens pouca memoria, Antonino; Quem te ouvisse, pensaria que,
+casando commigo, tu me levantaste da lama, em que eu vivia. Sabes bem
+que não é assim, sabes bem que eu, casando comtigo, pratiquei um acto
+d'abnegação, immolando-te e ao amor que por ti sentia, o que até então
+fôra a minha alegria e a minha vida, a arte, o renome, a gloria! E esse
+sacrificio do primeiro dia, dura ainda, perpetua-se, persisto n'elle e
+renovo-o incessantemente. E jámais te dei a perceber quanto elle por
+vezes me tem sido pesado e cruel, sobretudo depois do nosso regresso a
+França, depois que vivo n'esta atmosphera de provincia em que
+respiro a custo, e que sinto diminuir em mim os dotes artisticos que
+possuia. Pois em vez de tentares fazer-me esquecer esse passado que me é
+querido, vens, pelas tuas palavras, como que transformal-o n'um crime! É
+muito! Revolto-me contra o teu procedimento! E visto que me forças,
+recordar-te-hei que me prometteste solemnemente deixar-me voltar para o
+theatro, logo que assim o desejasse, voltar para esse passado que te
+envergonha, mas que é a minha maior gloria!
+
+--Prometti-te tambem, Laura, que o meu amor te recompensaria do
+sacrificio feito. Deixei de amar-te por ventura? Não te amo agora como
+te amava d'antes?
+
+--Não, não me amas! Se me amasses como d'antes, não te porias ao lado da
+sociedade contra mim, collocar-te-ias a meu lado contra a sociedade!
+
+--A sociedade! repetiu Antonino inquieto. Reconciliar-nos-hemos com ella..
+
+--Muito bem! Empregarás todas as diligencias para que me tolerem, não é
+verdade? Não, não, obrigada. Despreso esse obsequio, que se assemelha a
+dó. Deixo-te n'ella; fica, fica n'essa sociedade em que eu era uma
+estranha, em que eu não passava de pária!
+
+Laura fallava com vehemencia, exaltada pela colera e pelo desgosto.
+
+Antonino respondeu passados alguns instantes de silencio:
+
+--Estás como eu, Laura, sob a impressão do incidente que ambos
+lamentamos. Como ha pouco te preveni, nada podemos dizer agora sobre
+esse assumpto, que não augmente o mal estar que sentimos. Vou deixar-te.
+Ámanhã estarás mais socegada. Até ámanhã...
+
+Pegou-lhe na mão, que ella lhe abandonou, inerte e fria, e repetiu:
+
+--Até ámanhã.
+
+Laura respondeu a meia voz:
+
+--Pois sim... deixa-me. Até ámanhã.
+
+Antonino olhou-a, ancioso.
+
+Depois deu tres passos para a porta, e parou, como sentindo desejo de
+voltar.
+
+Por fim sahiu do quarto, fazendo um gesto de desanimado.
+
+Logo que o visconde fechou a porta e ella sentiu apenas o ruido de
+passos, que se affastavam, Laura, que até então se reprimira, rompeu em
+soluços.
+
+Chorou muito tempo.
+
+As lagrimas faziam-lhe diminuir a angustia que sentia.
+
+Passado algum tempo, um pouco socegada, ora passeiando pelo quarto, ora
+encostada a uma mesa, ella reflectiu na sua situação.
+
+Tomado um partido, abriu uma porta que dava para o escada de serviço, e,
+pegando n'uma vela, subiu ao quarto de Jacintha.
+
+O quarto estava vasio!
+
+Jacintha nem mesmo abrira a roupa da cama.
+
+Laura, ante este contratempo, ficou indecisa por momentos.
+
+Depois, fazendo um gesto de resolução, desceu ao seu quarto novamente.
+
+Davam quatro horas n'um relogio da casa.
+
+Vestiu apressadamente uma _toilette_ de viagem.
+
+Logo que terminou, sentou-se á mesa, e escreveu a seguinte carta,
+precipitadamente:
+
+
+ _Antonino_
+
+Reclamo de ti a palavra dada.
+
+Volto para o theatro.
+
+Parto sem te ver.
+
+Temi a tua resistencia e a minha fraqueza.
+
+Evito assim, a ambos nós o desgosto da despedida.
+
+A vida, no seio d'uma familia que me repelle e d'uma sociedade que me
+despresa, era para mim impossivel.
+
+Aqui te deixo as ultimas palavras que o meu coração te envia:
+
+Amo-te, Antonino, amo-te muito! Não posso continuar vivendo comtigo
+uma vida que me incommodaria, mas espero e peço-te que me dês a
+felicidade de viver commigo a minha vida passada.
+
+Sou e serei sempre tua
+
+ _Laura._
+
+
+
+
+XXI
+
+A fuga
+
+
+Laura perguntou a si mesma se fazia bem abandonando á sua sorte essa
+louca inconsciente, Jacintha.
+
+Pensou:
+
+--Devo deixar aqui toda a especie d'affeição?
+
+Lembrou-se da dedicação cega que Jacintha tinha por ella, dedicação que
+a levaria a lançar-se ao mar, quando soubesse que Laura a tinha deixado.
+
+Depois de reflectir, resolveu-se.
+
+Escreveu em meia folha de papel algumas palavras a Jacintha, e foi ao
+quarto da creada collocar o papel sobre uma mesa.
+
+Recommendava-lhe que de manhã tomasse, o mais occultamente que lhe
+fosse possivel, o comboio de Paris, que partia ás oito e meia.
+
+Logo que chegasse á capital, procural-a-hia no Grande Hotel,
+designando-a por _madame_ Linda.
+
+A Marieta, a outra creada, recommendava Laura que lhe enviasse, para o
+Grande Hotel tambem, os vestidos e de mais roupas do seu uso.
+
+Ao escrever estas recommendações, Laura pensava:
+
+--Por esta fórma saberá Antonino onde encontrar-me.
+
+Isto feito, metteu n'uma pequena mala o dinheiro que possuia, joias,
+cartas, alguns objectos insignificantes,--pura recordação,--e outros
+essenciaes.
+
+Depois olhou tristemente, correndo-lhe as lagrimas pelas faces, para
+aquelle quarto, onde, apesar de tudo, passara horas tão felizes.
+
+Foi appoiar a fronte, que abrasava, ao vidro frio da janella.
+
+Uma claridade, baça ainda, envolvia a cidade e estendia-se sobre as
+aguas da bahia.
+
+As ondas tomavam reflexos cinzentos.
+
+Os pharoes distantes picavam de pontos avermelhados a meia obscuridade,
+e desappareciam pouco a pouco na claridade livida, em que as ultimas
+estrellas se perdiam.
+
+Os pombos voavam dos beiraes para as ruas.
+
+No azul pardacento do ceu destacavam-se as velas dos barcos, que
+manchavam a côr d'ardosia do mar.
+
+Laura saccudiu bruscamente a cabeça.
+
+Parecia querer, com aquelle movimento, afugentar os pensamentos que a
+torturavam.
+
+Retirou de sobre a mesa tudo o que n'ella havia, para que a sua carta
+para Antonino ficasse bem em evidencia.
+
+Poz um chapeu de côr escura, um veu espesso, e embrulhou-se n'uma capa
+cinzenta.
+
+A escada de serviço, que subia até ao quarto de Jacintha, descia para a
+rua, do lado da casa opposto ao mar.
+
+A porta estava sempre fechada por um ferrolho interior.
+
+Laura abriu a porta do seu quarto com toda a precaução, caminhando na
+ponta dos pés, para abafar o ruido dos passos, porque o quarto
+d'Antonino, separado do d'ella apenas por um corredor, tinha tambem uma
+porta para aquella escada.
+
+No patamar parou por um minuto.
+
+O coração batia-lhe apressadamente. Escutou.
+
+Antonino não estava deitado.
+
+Laura ouvia o ruido dos passos d'elle.
+
+Passeiava vagarosamente.
+
+A Linda esteve quasi a entrar no quarto do marido, lançando-se-lhe nos
+braços.
+
+Resistiu á tentação.
+
+Enviou-lhe apenas, com as pontas dos dedos, um beijo silencioso, e
+principiou a descer lentamente, sem fazer o menor ruido.
+
+Um dos degraus gemeu sob o peso.
+
+Teve medo.
+
+Com um movimento ligeiro saltou os tres ultimos degraus, cahindo sobre o
+tapete que havia ao fim da escada.
+
+Levantou-se, abriu cautellosamente o ferrolho, descerrou a porta e sahiu
+para a rua.
+
+O ar frio da madrugada fez-lhe bem.
+
+Dirigiu-se para o caes, atravessando as ruas estreitas e tortuosas da
+velha cidade.
+
+Um relogio dava cinco horas n'uma torre proxima.
+
+Os carpinteiros, os pintores e os calafates, caminhavam em grupos,
+dirigindo-se ao trabalho.
+
+As mulheres das hortas proximas, sentadas sobre os burros carregados de
+legumes e hortaliças, chegavam do campo, em cavalgadas alegres, rindo
+alto, e dirigindo, umas ás outras, os velhos motejos gaulezes, para
+attrahirem a attenção dos homens que encontravam.
+
+Laura percebeu que todas aquellas mulheres a olhavam curiosamente, e
+ouviu, ao passar, os seus commentarios licenciosos.
+
+Quando chegou á _gare_ era dia.
+
+O comboio expresso da manhã partia ás cinco e meia.
+
+Tomou um compartimento completo, e foi sentar-se para a sala d'espera,
+pensativamente.
+
+Estava como que alheiada do que se passava em volta d'ella, quando o
+silvo da locomotiva a chamou á realidade.
+
+Faltavam apenas cinco minutos para a partida do comboio. Entrou
+apressadamente na _gare_.
+
+De repente estremeceu.
+
+A primeira pessoa que viu foi Lauretto Mina, fumando no seu charuto.
+
+Ao vel-a, o tenor dirigiu-se a Laura e disse-lhe, um pouco admirado:
+
+--Parte para Paris, Linda?
+
+--Parto, respondeu ella, continuando a caminhar para a sua carruagem.
+
+Mas logo em seguida perguntou:
+
+--Remissy não parte agora?
+
+--Não, respondeu o tenor caminhando ao lado da sua interlocutora. Está
+muito fatigado. Deve seguir no comboio do meio dia. Eu parto, porque
+necessito fallar esta noite com o director da Opera, sem falta. Quer que
+lhe falle de si, ou, como não podia dizer em Saint-Malo que a senhora
+era a Linda, ser-me-ha interdicto dizer em Paris que a Linda é a
+viscondessa de Bizeux?
+
+--Proceda como entender...
+
+Chegou ao compartimento que tomára.
+
+Ao abrir a portinhola, o tenor disse-lhe:
+
+--Mas diga-me, _cara mia_...
+
+--Senhor, respondeu Laura com dignidade, já nos cumprimentámos. Como vê,
+estou só e o senhor é um homem sufficientemente bem educado para não me
+acompanhar por mais tempo.
+
+E subiu lestamente para a carruagem.
+
+Lauretto cumprimentou-a, mordendo os labios.
+
+Deitou fóra o charuto e tomou logar n'outra carruagem, murmurando por
+entre dentes:
+
+--Tu me pagarás, vibora!
+
+Quando o comboio estava proximo da estação de Dol, o tenor escreveu
+algumas palavras a lapis n'uma folha da carteira, rasgou essa folha, e,
+logo que o comboio parou na estação, apeiou-se, chamou um empregado a
+quem entregou o papel e uma moeda de cinco francos, dizendo apenas:
+
+--Para o telegrapho.
+
+O telegramma era concebido da seguinte fórma:
+
+
+_Visconde de Bizeux.--Saint-Malo._
+
+Vi no expresso de Paris a Linda e Lauretto Mina.
+
+ _Um amigo._
+
+
+Antonino, estendido sobre o divan do quarto, dormia um somno pesado,
+respirando a custo.
+
+Um pouco antes das nove horas, o criado entrou, apesar do visconde não
+ter chamado.
+
+Antonino acordou ao ruido feito pela porta ao abrir-se. O criado disse:
+
+--Perdão; o sr. visconde não chamou, mas como este telegramma chegou ha
+mais de uma hora, pareceu-me conveniente trazer-lh'o.
+
+O marido de Laura esfregou os olhos injectados de sangue, e abriu o
+telegramma.
+
+Leu e soltou um grito estridente.
+
+Depois, cambaleando como um ebrio, abriu a porta que dava para o
+corredor de communicação que percorreu, entrando no quarto de sua mulher.
+
+O leito estava intacto.
+
+Sobre a mesa viu a carta que Laura deixára.
+
+Pegou-lhe, quiz abril-a, mas o papel cahiu-lhe das mãos tremulas.
+
+Agitou os braços no espaço, e cahiu como uma massa inerte, fulminado por
+uma congestão cerebral.
+
+
+
+
+XXII
+
+Uma representação dos «Huguenottes»
+
+
+O cartaz da Opera annunciava para aquella noite os _Huguenottes_,
+cantando a Linda a parte de Valentina.
+
+Lauretto Mina desempenhava o papel de Raul, em substituição do primeiro
+tenor, que adoecera.
+
+Pelas seis horas e meia da tarde, Antonino de Bizeux, um pouco pallido e
+magro, apoiando-se á bengala, entrava n'uma das agencias theatraes então
+recentemente abertas nos _boulevards_, e comprava um _fauteuil_
+d'orchestra, que pagou por trinta francos, ou fosse o dobro do preço da
+casa.
+
+Tinham-se passado tres mezes menos alguns dias, desde que Laura
+abandonara a casa do caes de Saint-Malo, e durante todo esse tempo, a
+Linda só tivera noticias indirectas e incertas de seu marido.
+
+Cinco dias depois de chegar a Paris recebera,--_enviados por Marieta
+Dauvin_,--seis grandes volumes contendo, não só os vestidos e demais
+roupa do seu uso, como tambem os moveis que guarneciam o seu quarto, e
+que provinham, quasi todos, da sua antiga casa da rua de Bolonha.
+
+Nem uma carta, nem uma só palavra, acompanhava a remessa. Laura sentiu
+profunda anciedade.
+
+O que significava aquelle silencio?
+
+N'um primeiro movimento de inergia resolvera quebrar a cadeia que a
+prendia e que achava pesada, e fizera-o immediatamente, sem hesitar, sem
+reflectir.
+
+Agora estava livre.
+
+Todavia, essa liberdade, inquietava-a e consternava-a.
+
+Em Saint-Malo tinha saudades da sua querida arte, em Paris recordava-se,
+saudosa, do seu amor.
+
+O director da Opera, prevenido por Lauretto da volta da Linda,
+pedira-lhe uma entrevista.
+
+Laura respondeu-lhe que esperasse por alguns dias.
+
+Addiava, por instincto, a sua conversação com o emprezario, que de certo
+a queria contractar.
+
+Lia todas as manhãs o _Correio de Saint-Malo_, que mandava comprar á
+agencia Havas.
+
+Se qualquer facto se passasse em casa do conde de Bizeux,--uma partida,
+um accidente imprevisto--encontraria a noticia n'aquella folha local.
+
+Mas nada se passava, com certeza, porque o nome de Bizeux, que ella
+procurava todos os dias com o olhar, avidamente, nem uma só vez foi
+mencionado pelo jornal.
+
+A quem devia dirigir-se? A quem escrever?
+
+Na Bretanha vivera sempre retirada, pensando apenas em Antonino.
+
+Essa circumstancia fez com que não se relacionasse intimamente com
+pessoa alguma.
+
+Ao cabo de dez dias não poude conter-se, e escreveu ao proprio Antonino.
+
+Entre outras coisas dizia-lhe o seguinte:
+
+
+«Porque guardas silencio? Não recebeste a carta que te deixei? Não
+comprehendeste, por ventura, o grito d'amor com que a terminei?
+Responde, peço-te! Responde, ainda que seja colerica ou desdenhosamente.»
+
+
+Depois supplicava ao marido que só escrevesse uma palavra, uma só, que
+podesse allivial-a da terrivel angustia em que vivia.
+
+Dois dias depois recebeu uma carta com o carimbo do correio de Saint-Malo.
+
+Rasgou o sobrescripto e procurou a assignatura.
+
+A carta era do conde de Bizeux.
+
+Escrevia o pae d'Antonino:
+
+
+ Minha senhora:
+
+Não é o filho que lhe responde, é o pae, é o chefe da familia que a
+senhora abandonou tão bruscamente, tão cruelmente, e na qual deixou a
+desolação e o lucto.
+
+Esse chefe de familia não lhe dirigirá, comtudo, a mais leve censura,
+nem em seu nome, nem em nome do filho.
+
+Desejou ser livre _para voltar para o theatro_. Satisfez o seu desejo,
+está livre.
+
+Nós desejamos, apenas, ter a liberdade de soffrer em silencio, sem que
+nos importune quem quer que seja.
+
+Só lhe pedimos uma coisa: é que nos deixe esquecer, e esqueça o passado.
+
+ _Augusto, conde de Bizeux._
+
+
+Laura offendeu-se pela frieza e rispidez que d'aquella carta transparecia.
+
+Nem Antonino se dera ao incommodo de lhe responder!
+
+Era o pae que intimava á fugitiva aquella especie de sentença, com ares
+de juiz justiceiro!
+
+O que houvera no seu procedimento de tão reprehensivel e criminoso que
+justificasse uma tal attitude?
+
+Se ella na realidade fosse uma mulher culpada, se tivesse trahido e
+deshonrado seu marido, d'accordo que a tratassem por aquella fórma!
+
+Teria provocado a colera de toda a familia d'Antonino, e até o despreso
+geral, se assim fosse.
+
+Mas a verdade era que o seu procedimento, uma vez que estava dentro das
+leis estabelecidas, não podia ser julgado com tanta severidade por seu
+sogro ou por seu marido.
+
+A injustiça, elevada ao excesso d'injuria, revoltou o espirito nobre e
+altivo de Laura.
+
+A sua consciencia e o seu coração diziam-lhe que não merecia ser tratada
+de semelhante modo.
+
+Resolveu, pois, por muito que a penalisasse uma tal abstenção, guardar o
+mais completo silencio, para que a sua dignidade não soffresse a menor
+quebra.
+
+Foi então, e só então, que marcou o dia para a entrevista que o director
+da Opera solicitára.
+
+O emprezario queria escriptural-a.
+
+Laura recusou em absoluto um contracto de longa duração, apezar das
+magnificas condições que lhe offereciam.
+
+Não desejava prender-se por muito tempo, e por isso só acceitou o
+contracto por um limitado numero de representações.
+
+O director da Opera, apesar d'uma escriptura n'aquellas condições ir
+alterar o seu plano d'exploração theatral, curvou-se á imposição de
+Laura, e acceitou.
+
+A Linda arrendou então, na rua Boudreau, a dois passos da Opera, um rez
+do chão modesto, que mobilou com simplicidade e bom gosto, aproveitando
+os moveis que lhe tinham enviado de Saint-Malo.
+
+Além de Jacintha, tomou, para a servirem, um creado, homem de cincoenta
+annos, casado; a mulher do creado, velha tambem, passou a desempenhar as
+funcções de cosinheira.
+
+Tres dias depois de receber a carta do conde estava installada na sua
+nova casa, satisfeita, na sua dôr e no seu isolamento, de sentir-se,
+pelo menos, senhora absoluta das suas acções.
+
+Ostensivamente parecia alegre, mas intimamente o desgosto minava-a.
+
+Não lhe teria produzido tão doloroso effeito a carta do conde, se
+soubesse em que circumstancias o velho fidalgo a escrevera.
+
+Oito dias depois da congestão o ter prostrado, ainda Antonino não
+percebia o estado em que se achava.
+
+A doença aggravara-se dia a dia.
+
+Nem um só dos muitos medicos chamados deixou d'opinar que elle estava
+condemnado.
+
+A robustez da sua constituição fazia augmentar a violencia da doença
+
+D'hora para hora, de minuto para minuto, o pobre pae suppunha que ia
+perder o filho unico, a quem tanto amava.
+
+Foi n'este paroxismo de magua paterna que chegou a carta dirigida por
+Laura a Antonino.
+
+O conde, para estar ao facto do que succedera, tinha aberto a carta que
+a nora deixára em casa, á partida.
+
+Abriu, portanto, a que chegou de Paris, pela mesma razão.
+
+D'aquellas duas cartas transpirava um affecto immenso.
+
+Mas quem garantia ao fidalgo que Laura não mentia?
+
+Lera tambem o telegramma de Lauretto Mina, que fôra como que um
+punhal a enterrar-se no coração d'Antonino.
+
+Seu filho acreditára no que dizia o telegramma.
+
+Que razão tinha o conde para não acreditar tambem?
+
+Mas, culpada ou não, Laura era a causadora unica da morte do seu filho.
+O conde não era juiz, era pae.
+
+Escrevera sem medir o alcance das palavras, respondera o que a sua
+indignação lhe inspirára.
+
+Laura matava-lhe o filho; não podia deixar de detestar, d'amaldiçoar
+essa mulher.
+
+A crise, que para todos era agonia, prolongou-se ainda por mais duas
+semanas.
+
+Durante todo esse tempo Antonino não reconheceu pessoa alguma.
+
+O delirio não o abandonára um só instante.
+
+Mas a prolongação da doença passou a significar esperança.
+
+Ao vigessimo quinto dia os medicos disseram:
+
+--É possivel salvar-se.
+
+Quinze dias depois accrescentaram, emfim:
+
+--Está salvo!
+
+Effectivamente Antonino pareceu ter, n'esse dia, alguma consciencia de
+si mesmo. Apertou ao de leve a mão da irmã, que estava sentada junto ao
+leito.
+
+Depois, olhando em torno ao quarto, murmurou com voz enfraquecida:
+
+--Laura?...
+
+Felizmente o pensamento era ainda vago e fraco.
+
+Em seguida áquelle esforço, Antonino recahiu de novo n'uma somnolencia
+pesada, que era a sua salvação.
+
+A natureza, essa maravilhosa enfermeira, só lhe fez recuperar
+completamente a razão, quando o doente estava em estado de já poder
+supportar a verdade.
+
+Recordou-se de tudo.
+
+Laura, a sua Laura, que nos accessos febris nem um momento deixava de
+chamar, não estava alli, abandonára-o.
+
+Porque?
+
+Quando?
+
+Ah! sim, recordava-se... fôra uma manhã...
+
+Mas ella fugira só?
+
+Accudiu-lhe á memoria o fatal telegramma...
+
+Mas ao mesmo tempo lembrou-se d'uma carta,--d'uma carta d'ella!--que não
+tivera tempo d'abrir.
+
+Interrogou seu pae.
+
+O conde entregou-lhe então as duas cartas de Laura, cuja leitura só
+podia fazer bem ao doente.
+
+E com efeito assim foi.
+
+Antonino poude chorar.
+
+O correr das lagrimas diminuiu a profundeza do desgosto.
+
+--Ah! meu pae! disse elle, Laura continua amando-me. Chama-me,
+espera-me! Nunca deixára d'amar-me! E ha já dois mezes que ella me
+espera? Mas como poude Laura estar tanto tempo longe de mim, sabendo-me
+perigosamente enfermo? Ou ella ignora que eu estou doente? Não lhe deram
+noticias minhas?
+
+O conde teve de confessar-lhe que, n'um instante de desvairamento em que
+lhe parecia inevitavel a morte do filho, escrevera a Laura aquella carta
+implacavel que lhe interdizia qualquer pergunta, e lhe assegurava que
+jámais teria noticias de seu marido.
+
+De resto, o conde declarou que n'aquella resposta influira tambem o ter
+acreditado no que dizia o telegramma desconfiando, por isso, que Laura
+mentia nas duas cartas. Ao ouvir a explicação do conde, Antonino respondeu:
+
+--Não, não!... Foi o telegramma que mentiu! Laura diz a verdade, porque
+declara continuar amando-me! Ah! meu pae!... não a conhece! Ella possue
+o mais sincero e leal coração que é possivel imaginar-se! Tenho a
+certeza que Laura não sente despreso por esse Lauretto Mina, sente
+tambem horror!
+
+O conde de Bizeux, apesar de não estar convencido, não quiz contrariar o
+filho, temendo que de tal contrariedade resultasse aggravamento da doença.
+
+Antonino desejou escrever immediatamente a Laura, perdoando-lhe,
+chamando-a para junto d'elle sem detença.
+
+O medico, porém, impedia-o de realisar a intenção, declarando-lhe que
+ainda não tinha forças sufficientes para escrever, e que, fazendo-o,
+arriscava-se a peorar.
+
+Como não o deixassem satisfazer aquelle desejo, o visconde, reflectindo,
+resolveu não escrever a Laura dias depois, quando o medico entendesse
+que o podia fazer.
+
+Logo que estivesse restabelecido partiria para Paris, correria em procura
+de Laura, fazendo-lhe assim mais surpreza.
+
+Por essa occasião os jornaes da capital noticiaram as representações de
+Linda na Opera.
+
+Ao ter conhecimento d'esse facto, Antonino disse ao conde:
+
+--Não a incommodemos. Deixemol-a satisfazer o seu desejo, realisar o seu
+sonho doirado. Voltará depois mais socegada.
+
+O conde, depois de ter perdido completamente as esperanças de que os
+medicos salvassem Antonino, ao ter a certeza de que o filho não
+morreria, estava louco de satisfação.
+
+Cria em tudo que o visconde acreditava, e, como elle, tinha confiança no
+futuro.
+
+De resto, em consciencia, elle censurava-se pela fórma porque procedera
+com Laura, respondendo desabridamente á carta que ella dirigira a
+Antonino.
+
+Fôra injusto, fôra cruel até, e desejava por isso tornar a vel-a para
+nobremente lhe pedir perdão.
+
+Comtudo, occasiões houve em que se inquietou.
+
+Nas noticias dadas pelos jornaes sobre os espectaculos em que Laura
+tomava parte, viu, por vezes, o nome de Lauretto Mina ao lado do nome da
+Linda.
+
+Entretanto cohibiu-se d'apontar o facto a Antonino.
+
+Foi o proprio visconde que um dia lhe fallou nisso.
+
+Com essa intuição que é como a segunda vista do amor, tinha a convicção
+absoluta que esse homem, esse Lauretto insolente, nada era, nada podia
+ser para Laura.
+
+Não lhe restava a maior duvida.
+
+Elle, tão concentrado e tão ciumento, como todos os que amam
+verdadeiramente, sentia que era amado por Laura, que ella não podia amar
+outro homem.
+
+Lembrou-se dos ultimos dias que tinham passado juntos, das ultimas
+caricias trocadas, d'algumas injustiças que Laura lhe censurára, e
+percebia, interrogando o seu coração, que ella seria sempre d'elle, só
+d'elle.
+
+E tinha razão, porque não só a Linda não amava o tenor, como até o
+despresava.
+
+Não se limitava a detestal-o, fazia-lh'o sentir.
+
+Laura suspeitava vagamente que Lauretto Mina influira de qualquer fórma
+no que ella chamava ter sido abandonada por Antonino.
+
+Na noite do concerto o tenor não estava longe de Remissy, podia ter
+avisado o violinista de que a Linda não desejava ser reconhecida, e
+Laura lembrava-se tambem do sorriso mau, vingativo, que entre-abria os
+labios de Lauretto, quando, no dia da fuga, a cumprimentara em silencio,
+pouco antes do comboio se pôr em marcha.
+
+De tudo isto concluia a cantora que o tenor praticara qualquer
+indignidade, o que, de resto, lhe estava nos habitos.
+
+Todavia a fatuidade de Lauretto não lhe fazia perder as esperanças, e
+quando viu Laura no theatro, pela primeira vez, tentou ainda, empregando
+meios quasi respeitosos e reservados, fazer-lhe a côrte.
+
+Não amava a Linda, apenas a desejava com violencia, como nunca desejara
+qualquer outra mulher, segundo affiançava. D'uma vez exprimiu-lhe o seu
+amor n'um tom serio que não lhe era habitual.
+
+--Vejo-a, disse-lhe elle, isolada e como abandonada, Laura. Aquelle a
+quem em Saint-Malo chamava seu marido parece despresal-a. Se necessitar
+d'um amigo, deveras devotado, que com alegria se fará matar pela minha
+amiga, bastar-lhe-ha fazer um gesto a este seu collega e respeitoso
+admirador.
+
+A prudencia ordenava que Laura recusasse o offerecimento do tenor com
+uma certa brandura, sem o irritar, sem o ferir.
+
+Mas a repugnancia que sentia por Lauretto foi mais forte do que a
+prudencia com que estava resolvida a responder.
+
+Portanto deixou transparecer nas suas palavras todo o despreso que
+sentia por elle.
+
+Desde esse dia Lauretto juntou ao seu amor um odio sem limites, e
+tornou-se inimigo de Laura.
+
+--Ah! ella despresa-me? dizia elle comsigo. Pois bem, juro que será minha!
+
+Companheiros antigos, que com Lauretto tinham passado do theatro
+Italiano para a Opera, recordaram-lhe, rindo, o que em tempo dissera:
+
+--Não serei o primeiro, mas juro que serei o segundo!
+
+Motejavam d'elle, diziam-lhe que não poderia cumprir o juramento feito,
+porque, decididamente, a fórma pela qual a diva o tratava, os seus
+cumprimentos frios, despresadores, não lhe deviam deixar esperança de
+ser bem succedido.
+
+--Veremos, veremos! respondia Lauretto aos companheiros mordendo os
+labios com raiva contrahida. Quem espera, sempre alcança. O visconde
+está ausente, portanto não tenho que temer o rival. Aposto o que
+quizerem em como poderão verificar qualquer dia... ou qualquer noite, a
+predicção do nosso antigo emprezario, Pozzoli, que dizia:--A Linda será
+d'elle!
+
+O odiento adorador da Linda estava n'estas disposições ameaçadoras na
+occasião em que Antonino chegou a Paris.
+
+O conde de Bizeux manifestara desejos d'acompanhar o filho á capital, em
+primeiro logar para não se separar d'elle, e depois para velar por
+Antonino, porque o visconde estava ainda convalescente da terrivel
+doença que o ia matando.
+
+Mas Antonino tinha a sua idéa.
+
+Instou com o pae para que o deixasse partir só.
+
+Para conseguir a annuencia paterna teve de fazer duas concessões: addiar
+a partida para oito dias mais tarde, de modo que a convalescença
+avançasse mais uma semana, e parar em Mans, dividindo a viagem em duas
+partes, para evitar o cansaço que lhe adviria de uma viagem tão longa.
+
+Pelas noticias dos jornaes elaborara o seu programma d'artista e de amante.
+
+Logo que chegou a Paris, acompanhado por um só creado, installou-se na
+sua antiga casa de solteiro, no _boulevard_ Haussmann.
+
+Conservou-se deitado sobre um canapé até quasi ás seis horas da tarde,
+descançando, sonhando.
+
+Pouco depois sahiu, e comprou, como já dissemos, um _fauteuil_
+d'orchestra n'uma agencia theatral dos _boulevards_.
+
+Em seguida foi jantar ao _Café Inglez_, e ás sete horas e meia entrava
+na Opera.
+
+Tivera a phantasia, que se transformára em ideia fixa, de tornar a ver
+sua mulher,--de tornar a ver a Linda,--cantando a parte de Valentina dos
+_Huguenottes_, que era justamente o papel que ella representára a ultima
+vez que a ouvira no theatro, na noite em que lhe salvara a vida.
+
+Tornaria a vel-a, do seu _fauteuil_ d'orchestra, apenas como um simples
+espectador, e sem que ella desconfiasse da presença d'elle.
+
+Esperava sentir dupla alegria.
+
+Tornaria a ver, simultaneamente, a sua artista predilecta e a sua
+adorada mulher.
+
+Sentiria as emoções do amador, e os estremecimentos do amante.
+
+A verdade era que, depois da meia anniquilação, da meia morte de que
+sahia, não se lembrava de experimentar uma tal intensidade de vida nem
+tanta exhuberancia d'amor.
+
+A sua vida e o seu amor tinham passado, na realidade, por uma terrivel
+crise.
+
+Mas a convalescença chegara.
+
+Havia em todo o seu ser, e em todo o seu coração uma especie de
+renascimento.
+
+A força physica e o espirito augmentavam ao mesmo tempo.
+
+Amava Laura com esperança e embriaguez, mais, muito mais, do que d'antes
+a amara.
+
+Chegando, como um provinciano, meia hora antes de começar o espectaculo,
+admirou a escadaria, o _foyer_, as pinturas de Paulo Baudry, o salão!
+
+Extasiou-se ante as _toilettes_ claras das senhoras, que sobresahiam do
+vermelho do forro dos camarotes.
+
+Maravilhou-se das columnas de marmore polychromo, do bronze dos
+candelabros, do ouro dos lustres, do enorme panno de bocca purpurino,
+que dentro em pouco se elevaria para lhe deixar ver Laura.
+
+Um ruido confuso de conversação espalhou-se pela sala.
+
+Os violinos e os baixos afinavam-se indistinctamente.
+
+Antonino adorava aquelle sussurro, como adorava o do mar. O director da
+orchestra levantou a batuta.
+
+A opera começou.
+
+Antonino, porém, conhecia a partitura de cór, escutava como em sonho,
+apenas vagamente via passar Lauretto Mina.
+
+Todo o seu ser esperava por Laura.
+
+Quando, emfim, a Linda entrou, quando passou, velada, ao fundo da scena,
+sentiu a louca tentação de se precipitar para o palco, e esteve prestes
+a soltar um grito.
+
+Quasi immediatamente depois, porém, voltando a si, olhou em volta para
+ver se tinha chamado a attenção dos demais espectadores.
+
+Mas não; mercê do instinctivo habito adquirido, conservára-se correcto.
+
+A representação seguia como um encanto para o visconde.
+
+No segundo acto a Linda foi admiravel no dueto com Marcel.
+
+Disse a phrase
+
+ _A offensa mortal do ingrato..._
+
+com um sentimento tão penetrante e tão meigo, que os olhos d'Antonino
+marejaram-se de lagrimas.
+
+A sua emoção, porém, foi elevada ao cumulo no recitativo de Valentina,
+que abre o terceiro acto, e começa
+
+ _Estou só com a minha dor!_
+
+Quando Laura soltou o grito doloroso:
+
+ _Meu Deus! afugentae esta lembrança fatal..._
+
+a vibração da sua voz maravilhosa foi tão pungente e tão vivida, que não
+podia deixar de ser palpavel para Antonino que era Laura quem se
+lamentava e não Valentina.
+
+O visconde sentiu, por isso, percorrer-lhe as veias uma especie de
+terror gelado.
+
+Pensou que Laura o vira na sala, que era exclusivamente para elle que
+cantava, unicamente a elle que se dirigia.
+
+Segundo as suas impressões, até então tudo se passara, por assim dizer,
+entre ella e elle.
+
+Todavia no quarto acto teve que passar por um outro genero de prova.
+
+Depois da benção dos punhaes, Raul fica só com Valentina.
+
+Raul, por substituição n'aquella noite, era Lauretto Mina.
+
+O dueto sublime começou.
+
+Aquelle trecho de musica produz o que não poderia produzir qualquer
+outra arte, nem a pintura ou a poesia.
+
+Explica, delinia, faz sentir o amor completo, o amor da alma e o amor
+dos sentidos.
+
+Ha n'aquelle dueto assombroso, com todas as dilacerações da paixão, com
+todos os horrores do passado susto, todas as delicias e todos os extasis
+da voluptuosidade!
+
+E Raul era Lauretto! e Valentina era Laura!
+
+Antonino ouvira muitas vezes a parte de Valentina cantada por Laura.
+
+D'antes, a Linda cantava aquelle dueto com o superior talento e
+_virtuosidade_ que possuia, com vigor e expressão.
+
+Jámais, porém, a ouvira cantar com aquella paixão e embriaguez.
+
+N'outro tempo ella comprehendia, adivinhava.
+
+Agora sentia, recordava-se.
+
+No espirito d'Antonino passou como que uma hallucinação extranha.
+
+Quando viu Laura--porque, para elle, aquella mulher deixára de ser
+Valentina--lançar-se, supplicante, aos pés de Lauretto--que já não
+considerava como Raul--acerbo ciume se apossou d'elle.
+
+Pouco a pouco, o admiravel jogo physionomico da Linda acabou por dar á
+ficção uma realidade terrivel.
+
+O salão, o publico, desappareceram.
+
+Parecia-lhe que assistia, immovel e mudo, a uma verdadeira scena d'amor
+entre sua mulher e aquelle homem detestado.
+
+E no cerebro fervia-lhe, confusamente, este pensamento:
+
+--Por grande tragica que seja, poderia Laura, se Lauretto lhe fosse
+indifferente, envolvel-o em arrebatados abraços, dirigir-lhe tão
+ardentes supplicas? Poderia, se não o amasse, attrahil-o e retel-o
+contra o coração com tal accesso de ternura e de dôr?
+
+Quando Laura dirigiu ao tenor o desesperado appello;
+
+ _Fica, Raul, eu amo-te!_
+
+o visconde mordeu a mão para não gritar:
+
+--Miseravel!
+
+Raul parte e Valentina cae desmaiada.
+
+Antonino, no seu _fauteil_, parecia ter desmaiado tambem.
+
+Voltou a si aos primeiros compassos do terceto entre Valentina, Raul e
+Marcial.
+
+A presença d'um terceiro personagem bastou, caso extraordinario, para o
+despertar d'aquelle terrivel pesadello, chamando-o á verdade da situação
+theatral.
+
+Os olhos viram claro.
+
+Laura passou novamente a ser Valentina para elle.
+
+Desempenhava superiormente o papel d'um drama, nada mais.
+
+Se ella representava com tanto ardor e enthusiasmo, se cantava o
+inegualavel dueto d'amor com tanta paixão pessoal, deixando n'elle, por
+assim dizer, a sua alma, não era um tenor qualquer que ella escongurava,
+que ella adorava com aquelle abandono e aquellas lagrimas, mas o homem
+que amava, o homem que não via, mas que estava sempre presente á sua
+imaginação, o homem que primeiro lhe revelára as alegrias celestes que
+podem gosar duas almas irmãs.
+
+E Antonino sentia agora vontade de rir da horrivel visão que tivera,
+como se ri quando a luz do dia nos mostra os objectos sob as suas
+verdadeiras formas, deturpadas pela illusão das trevas. Estava já
+completamente senhor de si quando o panno caiu, no fim do espectaculo,
+para de novo se levantar ás duas chamadas que o publico enthusiasmado
+fez a Laura.
+
+O visconde sentia-se satisfeito pela resolução que tomara, antes de
+partir para Paris.
+
+Sahiu, deu a volta ao edificio do theatro e entrou pela porta do palco,
+perguntando ao porteiro onde era o camarim de _madame_ Laura Linda.
+
+Entrou.
+
+Ao atravessar um corredor, viu Lauretto Mina que sahia do _foyer_.
+
+O tenor, ainda vestido de Raul, ia de certo para o seu camarim. Ao ver
+Antonino, recuou admirado.
+
+--O sr. de Bizeux! disse elle estupefacto.
+
+Mas quasi immediatamente voltou-lhe a presença d'espirito, e
+accrescentou no tom de cortezia que exasperava Antonino:
+
+--O sr. visconde procura sem duvida _madame_ Laura Linda?... É a segunda
+porta, n'esse corredor da direita. Creio que _madame_ Linda está só esta
+noite.
+
+Antonino inclinou ligeiramente a cabeça, e passou sem responder.
+
+Logo que o viu desapparecer no corredor que lhe indicára, Lauretto
+murmurou colerico:
+
+--Delicadissimo, este neto de fidalgos! Bem, bem! Isto é para juntar ao
+total!
+
+Antonino parou em frente da segunda porta do corredor, e bateu.
+
+Jacintha foi abrir.
+
+Ao ver o visconde soltou um grito.
+
+Deixou-o entrar para a especie de sala d'espera que antecedia o camarim,
+para o qual correu, gritando:
+
+--Minha senhora... minha senhora... é o sr. visconde!
+
+Laura, de penteador de cachemira branca, entrançava o cabello diante
+d'um espelho.
+
+--O que dizes tu?... perguntou ella a Jacintha, voltando-se.
+
+No limiar da porta viu Antonino, pallido, magro, d'olhos fundos,
+phantasma de si proprio.
+
+Conservaram-se por algum tempo contemplando-se, sem fazerem um só gesto
+nem pronunciarem uma só palavra. Antonino disse por fim:
+
+--Laura!
+
+Depois caminhou para ella lentamente.
+
+A Linda, indecisa, olhava-o estupefacta.
+
+Ao chegar junto d'ella, disse-lhe em voz baixa e extraordinariamente terna.
+
+--Minha Laura... amo-te!
+
+Ella juntou as mãos, extasiada, e replicou:
+
+--Meu Antonino!... És tu?... Ah! tambem eu te amo!
+
+Lançou-lhe os braços em volta do pescoço, alegremente.
+
+Foi longo o abraço.
+
+Por fim Laura desprendeu-se d'Antonino, e perguntou-lhe:
+
+--Mas porque estás n'este estado?
+
+O visconde respondeu, sorrindo:
+
+--Vou contar-te tudo em duas palavras. Estive, durante mez e meio, entre
+a vida e a morte, mas mais proximo da morte que da vida. Ia-me matando
+uma terrivel febre cerebral. Todos me suppozeram perdido. Meu pae,
+afflictissimo, e de mais a mais illudido por uma abominavel denuncia
+anonyma, escreveu-te uma carta, que sem duvida te magoou muito. Elle
+está arrependido do que fez, e pede-te perdão. Eu, logo que estive em
+estado de partir, vim procurar te. Eis-me aqui.
+
+Quiz tomal-a nos braços.
+
+Ella impediu-o de realisar a intenção.
+
+Fez-o sentar n'um canapé e ajoelhou no tapete, contemplando-o com paixão.
+
+--Estiveste quasi a morrer, meu querido Antonino, e eu estava longe de
+ti! Porque não me chamaste?
+
+--Estive muito tempo sem consciencia...
+
+--Mas depois?
+
+--Depois ias tu entrar para o theatro. Tinhas reclamado a minha palavra,
+não quiz privar-te da liberdade promettida Não desejei ser um
+impedimento, um obstaculo á vontade que tinhas de voltar para o theatro,
+que é como o teu paiz natal. Álem disso, considerei-me obrigado a expiar
+algumas culpas, Eras tu que tinhas rasão, Laura, n'aquella funesta noite
+em que partiste. Que me importava a opinião d'estranhos? Não devia
+inquietar-me com os prejuizos da sociedade. Existe, porventura, a
+sociedade para o amor? A sociedade, para nós, somos nós proprios. Ama-me
+como eu te amo, e nada mais te pedirei. Que me importa que ames tambem
+Mozart, Beethoven e Meyerbeer? Não os amo eu tambem, principalmente por
+tua causa?
+
+--Ah! como és bondoso! disse Laura. Sim, amas-me, sinto-o! A proposito:
+assististe ao espectaculo de hoje?
+
+--Assisti.
+
+--Não te vi, mas adivinhei-te!... Sentiste no meu canto que pensava em
+ti, não é verdade? Nem por um momento me esqueces quando desempenho o
+papel de Valentina, cheio de _phrases_ que parecem ter sido escriptas
+para a situação d'espirito em que me encontro. Aquella musica faz-me
+mal, especialmente depois que estou só, e comtudo sinto-me feliz quando
+a canto! E o dueto do quarto acto? Não é verdade que o canto agora
+melhor do que d'antes?
+
+--Sim, sim, cem vezes melhor!
+
+Laura ajuntou, collocando as mãos sobre os hombros, do marido:
+
+--Foste tu que me ensinaste a cantar aquelle dueto!
+
+Antonino sentiu o coração innundado d'alegria.
+
+A segunda impressão que tivera durante o espectaculo, não o havia enganado.
+
+Era o seu amor, que Laura cantara tão apaixonadamente.
+
+Ella proseguiu:
+
+--A partir d'hoje vou amar sem reserva esse afortunado papel que duas
+vezes me trouxe a felicidade. Eis-te aqui, meu Antonino, és novamente
+meu. Estão reunidas as duas partes da minha alma. Eu tinha, por vezes,
+junto de ti, a nostalgia do theatro; mas, no theatro, tive sempre a
+nostalgia do teu amor!
+
+Em seguida contaram-se mutuamente tudo o que os interessava.
+
+Laura estava completamente entregue á sua querida arte.
+
+A casa da rua Boudreau era pequena demais para receber os seus amigos
+d'outr'ora.
+
+Apenas algumas vezes alli ia o dr. Despujolles, que a tratara d'uma
+bronchite.
+
+Remissy, terminado o contracto que o retinha em Vichy, partira para a
+Italia, e devia passar o resto do inverno na Hungria.
+
+Por sua parte, Antonino contava não receber ninguem nos seus
+aposentos do _boulevard_ Haussmann.
+
+Era possivel que o pae viesse vel-o, mas só muito mais tarde.
+
+--Bem, disse Laura satisfeita, sorridente, qual é a vontade do meu
+senhor e amo? Irei eu para sua casa, ou irá elle para a minha?
+
+--Escuta, replicou Antonino, vou contar-te um sonho que tive durante os
+longos dias de convalescença. É provavel que aches n'elle o quer que
+seja de romanesco. Se te desagradar, dil-o com franqueza! Quebraste
+bruscamente a nossa vida em commum, que talvez fosse um pouco monotona
+para a tua alma d'artista. Se quizeres, viveremos agora d'outra forma.
+Recuperaste a tua liberdade; como tenho plena confiança em ti,
+deixo-t'a. Não serei mais teu marido, passarei a ser teu amante. Queres?
+
+--Quero, sim, quero, porque é a verdade!
+
+--Então nem eu irei para tua casa, nem tu te installarás na minha.
+Concede-me oito dias d'espera. Durante esse tempo encontrarei e
+prepararei em qualquer canto de Paris, um ninho, occulto, secreto,
+apenas por nós conhecido, onde ninguem poderá surprehender-nos ou
+incommodar-nos. Dar-nos-hemos entrevistas n'esse ninho, furtivamente,
+clandestinamente, de noite, como quem teme a policia. De dia seremos
+correctissimos. Eu irei visitar-te de tarde, e tu convidar-me-has
+algumas vezes para jantar com Despujolles.
+
+--Oh! mas isso é encantador! disse Laura.
+
+--Agrada-te a minha idéa?
+
+--Immenso!
+
+--Bem! Havemos de ser muito felizes, verás. Está combinado. Chama
+Jacintha. Vou deixar-te, para só te tornar a ver d'aqui a oito dias.
+Necessito de todos os minutos d'esta semana para tratar da nossa
+felicidade. O que me fará diminuir o pesar d'esta separação, será
+lembrar-me que me occupo da minha querida Laura.
+
+--E eu, durante esse tempo, só em ti pensarei!
+
+Antonino levantou-se.
+
+Laura, pegando-lhe nas mãos, disse:
+
+--Troquemos, ao menos, o beijo dos esponsaes.
+
+Beijaram-se longamente, ardentemente.
+
+Depois, trocando um ultimo adeus, separaram-se.
+
+
+
+
+XXIII
+
+O amante legitimo
+
+
+Em Paris, como em todas as grandes cidades, o dinheiro faz milagres.
+
+No dia seguinte pela manhã, Antonino percorreu o bairro da Magdalena em
+busca d'uma casa onde fizesse o _ninho_ promettido.
+
+Encontrou o que desejava na rua da Arcada, a meio caminho da casa de
+Laura e d'aquella em que elle vivia.
+
+Era o rez-do-chão d'um predio de dois andares.
+
+Ficava alguns degraus acima do nivel da rua, e tinha, além da entrada
+principal, á esquerda do vestibulo, para o qual se entrava por largo
+portão, uma entrada particular que abria para a rua.
+
+A casa era composta d'um salão, d'uma sala de jantar, d'um quarto grande
+e claro, cosinha e um outro quarto de menores dimensões.
+
+Arrendado o rez-do-chão, Antonino chamou um estofador dos mais
+conceituados de Paris, e depois de conferenciar com elle durante duas
+horas, ficou assente que moveis e estofos guarneceriam a casa.
+
+O estofador prometteu ter tudo concluido na tarde do setimo dia, tendo,
+para isso, que trabalhar no domingo d'aquella semana. E cumpriu.
+
+Era deliciosa a ornamentação, apesar de simples.
+
+Na sala de jantar, forrada de coiro de Cordova, elevava-se, em dois
+corpos, um aparador da Renascença, guarnecido de baixela de prata antiga
+e de faianças de Ruen, Nevers e Marselha.
+
+O fogão, de marmore de Nuremberg, era notavel pelo relevo das suas
+figuras biblicas.
+
+A mesa fôra coberta com um tapete de velludo de Gênes.
+
+O movel principal do salão era um piano Erard, construido no esqueleto
+d'um cravo do seculo XVIII, todo coberto de pinturas no genero das de
+Boucher, representando a dansa d'amores e de nymphas, n'uma paisagem
+celeste.
+
+Ao fundo, as tres graças voavam para o Olympo.
+
+A cór viva da tapeçaria que forrava o salão fazia sobresahir os quadros
+que Antonino mandára vir da casa de Saint-Malo, duas paysagens de
+Lancret, uma Venus de Fragonard, e um duplicado do Gilles, de Watteau,
+assignado pelo mestre.
+
+Um lago, de Julio Dupré, defrontava com um outro, visto á hora
+crepuscular, de Corot.
+
+O quarto de cama era a maior casa do rez-do-chão.
+
+Dividiram-a, por tanto, fazendo-lhe aos lados, com divisorias, uns
+gabinetesinhos de _toilette_.
+
+O leito, do seculo XVIII, cinzento e dourado, de linhas simples, tinha
+por unico ornamento, na cabeceira, dois amores sustentando um medalhão,
+em que se viam dois LL entrelaçados e encimados por uma corôa.
+
+Dizia-se que aquelle leito pertencera a Luiz XV; mas os dois LL, para
+Antonino, queriam dizer Laura Linda.
+
+Nas paredes, côr de perola e cereja, avultavam seis pannos chinezes,
+bordados, representando paysagens com figuras finamente desenhadas
+e admiravelmente coloridas.
+
+Viam-se por todos os lados tapetes, da Persia do mais raro bom gosto.
+
+Nem um só objecto que compunha a mobilia do rez do chão era de mediano
+valor.
+
+Mas, mais do que riqueza, impunha-se a elegancia e o fino gosto de quem
+presidira á decoração das casas.
+
+O estofador encarregára-se d'enviar da praça da Magdalena tudo o que
+respeitasse a cosinha.
+
+D'esta fórma apenas d'um creado necessitariam.
+
+Jacintha estava naturalmente indicada para esse serviço.
+
+Laura e Antonino podiam contar com a dedicação e a discrição da creada.
+
+Ella bastaria para servir á meza e para vestir a cantora.
+
+O visconde mandou mobilar para Jacintha o outro quarto da casa.
+
+Como a ornamentação não destoasse da restante, Jacintha,
+satisfeitissima, declarou que nunca tivera quarto mais bello.
+
+Com um simples toque de campainha, ella estaria em tres segundos junto
+de Laura, quando os seus serviços fossem necessarios.
+
+A nova casa foi inaugurada á hora prefixa, precisamente oito dias
+depois da representação dos _Huguenottes_.
+
+N'essa noite a Linda cantava o _Roberto o Diabo_.
+
+Antonino levou-a, com Jacintha, logo que o espectaculo terminou,
+encantado,--tanto como ella, de resto,--da sua nova felicidade conjugal.
+
+Combinaram, como regra geral, mas sem prejuiso de quaesquer outras
+noites, que elles partiriam para o _ninho_ em seguida a cada
+representação, quando Laura estivesse ainda vibrante da emoção que lhe
+causassem os applausos, e duplamente palpitante da vida do papel que
+desempenhára e da vida propria.
+
+Antonino assignára um _fauteuil_ d'orchestra junto á scena.
+
+Como d'antes, applaudia pouco a Linda, não juntava as suas ás
+acclamações que a chamavam nos finaes d'acto.
+
+Mas como d'antes, mais do que d'antes talvez, saboreava em silencio o
+extasi em que o mergulhava a voz da mulher adorada.
+
+Ella, pelo seu lado, não lhe sorria, não o olhava.
+
+Mas sabia que o visconde estava proximo, conhecia a cadeira em que elle
+se sentava, e como era para Antonino que cantava, jámais cantara melhor.
+
+O visconde nunca mais sentiu ciumes de Lauretto Mina, ou de quem quer
+que fosse.
+
+Ambos se consideravam felicissimos por aquella encantadora vida,
+alegre como a phantasia, doce como o habito.
+
+O creado d'Antonino, de cada vez que o visconde não dormia em casa,
+dizia que elle ficava em casa de Linda.
+
+Os creados da cantora sempre que ella só de manhã voltava para casa,
+pensavam que Laura tivesse passado a noite em casa do visconde.
+
+Geralmente Antonino voltava para o _boulevard_ Haussmann ao amanhecer.
+
+Laura, porém, só deixava o ninho a hora adiantada da manhã.
+
+Sahiam e entravam sempre pela porta que abria para a rua.
+
+O porteiro, que tinha o seu cubiculo no vestibulo do predio, nunca vira
+a Linda.
+
+De dia os dois esposos viam-se officialmente.
+
+Passeavam de dia no Bosque, de carruagem, e á noite partiam juntos para
+o theatro.
+
+Antonino, uns dias por outros, mandava presentes a Laura: flores ou joias.
+
+De tarde visitava-a, invariavelmente á mesma hora, e jantava com a
+esposa muitas vezes.
+
+Sempre, porém, que Laura não estava só, elle retirava-se conjuntamente
+com as outras visitas, d'ordinario o dr. Despujolles, ou raros outros
+amigos.
+
+Laura recebia menos admiradores na casa da rua Boudreau, do que d'antes
+na rua de Bolonha.
+
+Reatára apenas relações com tres ou quatro admiradores mais intimos, e
+que o eram tambem do visconde.
+
+Todos elles tinham estado, n'outro tempo, mais ou menos apaixonados pela
+Linda.
+
+Mas como eram homens bem educados, e de mais a mais amigos d'Antonino,
+que consideravam o amante official de Laura, não faziam a côrte á diva.
+
+Apenas não tinham perdido completamente a coragem.
+
+Pensavam que mais cedo ou mais tarde conseguiriam os seus fins, e
+esperavam com paciencia digna de melhor sorte.
+
+Lauretto Mina, mais indelicado que elles, não guardava a mesma reserva
+nem possuia identica paciencia.
+
+No mundo dos bastidores sabe-se tudo o que respeita a qualquer artista.
+
+O tenor sabia portanto, a situação em que se encontravam Laura e o
+visconde, e agourava bem d'essa situação.
+
+Um dia disse á Linda, no _foyer_ dos artistas, motejando:
+
+E então, minha querida, tinha ou não razão quando lhe dizia na ilha de
+Cézambre,--lembra-se?--que o seu casamento não me parecia dos mais
+serios? Os habitantes de Saint-Malo, que não primam pela finura, parece
+que viram o demonio quando tiveram conhecimento de semelhante união. De
+resto, acho que procedeu sensatamente definindo a sua situação. Vale
+mais ter um amante certo, de que um marido duvidoso.
+
+--Sinto-me satisfeitissima por merecer a sua approvação! respondeu Laura
+no mesmo tom.
+
+--Por esta fórma, proseguiu Lauretto, todos terão esperanças. Os que
+estão apaixonados pela sua pessoa,--e eu creio que pelo menos conhece
+um,--veem agora augmentar infinitamente o numero das probabilidades
+favoraveis.
+
+--Suppõe isso? Pois eu supponho que o numero de probabilidades não
+augmenta nem diminue pelo facto do sr. de Bizeux ser meu marido ou meu
+amante. O que influirá n'esse numero é que eu ame ou não o sr. de Bizeux.
+
+--Perdão! o caso é diverso! insistiu o tenor.
+
+E accrescentou, dirigindo-se ao baritono, que n'esse momento entrava no
+_foyer_:
+
+--Não é verdade, Gressier, que amando eu Laura Linda, tenho mais
+probabilidades de conseguir os meus fins defrontando-me com um amante de
+que tendo na frente o marido?
+
+--Está enganado, sr. Lauretto Mina, apressou-se Laura a responder
+sem dar tempo a que o baritono fallasse. Não é porque eu ame um outro
+homem que não o amaria ao sr. Posso não amar ninguem, que nem por isso
+lhe pertencera o meu amor.
+
+E voltando as costas ao tenor, sahiu.
+
+--Ah! ah! decididamente não avanças um passo, meu caro! disse Gressier,
+rindo.
+
+--Engano! respondeu seccamente Lauretto, que empallidecera
+extraordinariamente. Estou quasi a attingir o meu fim, e em breve te
+darei provas irrefutaveis do que avanço.
+
+Laura, passado o primeiro momento, arrependeu-se de provocar a irritação
+do tenor, respondendo-lhe por fórma a feril-o no seu amor proprio.
+
+Agora mais do que nunca ella temia um possivel conflicto entre Antonino
+e Lauretto.
+
+Lembrava-se incessantemente das palavras, prefurantes como laminas, que
+o tenor pronunciára uma noite, sentado tranquillamente junto ao fogão do
+_foyer_.
+
+Fallava-se d'um duello realisado n'aquelle dia, que tinha chamado a
+attenção de toda a gente.
+
+--Ora adeus! dissera Lauretto. As galerias facilmente se commovem pelos
+duellos d'agora, que quasi sempre terminam por simples arranhaduras! Por
+mim, estou resolvido a nunca provocar ninguem, e, mesmo quando
+provocado, a só me bater se o insulto recebido fôr d'ordem a não
+acceitar desculpas, porque eu, infelizmente, não arranho nem firo, mato.
+
+Era por essa razão que Laura deligenciava não sentir-se offendida pelas
+impertinencias que o tenor lhe dirigia por vezes.
+
+Fingia não as comprehender, e até não as ouvir.
+
+Ella era tão feliz!...
+
+E aquella felicidade que gosava, prolongou-se por tres mezes, sem uma só
+nuvem que a escurecel-a.
+
+Antonino, pela sua parte, só tinha um desejo: tornar a ver seu pae.
+
+Mas o conde, a quem o filho não quizera occultar o que elle chamava o
+seu romance, não queria, por dignidade, ir a Paris emquanto durasse uma
+tal situação.
+
+--Acautella-te, escrevia elle ao visconde, occultas tua mulher como se
+occulta uma amante. Acho perigoso esse teu procedimento. Não me parece
+razoavel tentar o perigo, misturar o que ha de mais serio e de mais
+sagrado no amor com o disfarce, com a mascara, com a aventura.
+
+Seria isto um presentimento da fina intuição paterna?
+
+Uma noite, pelas quatro horas da madrugada, Laura, envolvida n'um largo
+manto, foi, segundo o costume, acompanhar e alumiar seu marido até á
+escada que descia para a rua.
+
+Demorou-se no patamar até que Antonino, sahindo, fechou a porta sobre si.
+
+Ao entrar no quarto, a Linda soltou um grito.
+
+Lauretto Mina estava sentado na cadeira de que pouco antes Antonino se
+levantara.
+
+
+
+
+XXIV
+
+Jacintha
+
+
+Jacintha, como já dissemos, tinha por Laura uma dedicação sem limites.
+
+Far-se-ia matar pela cantora, e, se a diva morresse, ella não lhe
+sobreviveria por muito tempo, com certeza.
+
+O peor era que a creada não possuia apenas a fidelidade canina do
+irracional.
+
+As admoestações, as severidadese as irritações de Laura faziam-a chorar
+deveras, porque possuia um bom coração.
+
+Mas arrependia-se e não se emendava.
+
+A Venus antiga divertia-se, ligando-se completamente áquella humilde presa.
+
+Por infelicidade, a belleza picante de Jacintha, os seus grandes olhos
+pretos e brilhantes, a tez morena e fresca d'andaluza, a cintura
+delicada e o agradavel conjuncto de toda a sua pessoa, davam-lhe um
+grande numero de cumplices.
+
+Lauretto Mina, como indicámos, pertencera a esse numero.
+
+O formoso tenor não desdenhára colher aquella flôr modesta.
+
+Colhera-a e passára.
+
+Não era homem para perder muito tempo em negocios de semelhante natureza.
+
+Apesar d'isso Jacintha ficára singularmente lisongeada por contar, na
+collecção dos seus admiradores, um _artista_, um verdadeiro artista, de
+que grande quantidade de damas da primeira sociedade tinham disputado a
+posse, segundo ella suppunha.
+
+Em Saint-Malo, na numerosa creadagem das casas proximas, Jacintha,
+sempre picante e attrahente, fôra muito cortejada.
+
+E não tinham sido apenas os creados a darem-se a esse passatempo.
+
+Os proprios patrões deram-se ao incommodo de render homenagens á creada
+de Laura.
+
+Afinal, na grande sociedade--está provado!--as cosinhas não recebem peor
+gente que os salões.
+
+Lembrar-se-hão sem duvida que, na manhã em que Laura resolvera abandonar
+a casa de seu marido, encontrára vasio o quarto de Jacintha.
+
+No dia seguinte, quando a creada se reuniu á cantora em Paris, Laura
+admoestou-a com toda a severidade, como costumava.
+
+Sem se incommodar com a torrente de lagrimas que corria pelas faces de
+Jacintha, e com as quaes a creada tratava lavar a falta commettida,
+Laura demonstrou-lhe quanto era indigno um procedimento d'aquella ordem.
+
+Disse-lhe que a devia abandonar completamente.
+
+Mais uma vez, porém, lhe perdoaria, sob condição de Jacintha lhe dar a
+sua palavra de que não voltaria a praticar o menor desmando.
+
+E affiançou-lhe que, no primeiro caso dado, a encontraria inflexivel.
+
+Jacintha, desfeita em lagrimas, prestou todos os juramentos possiveis.
+
+Tomou para testemunhas todas as virgens da côrte do ceu, promettendo
+seguir os seus exemplos.
+
+Antes quereria perder a vida do que ser abandonada por Laura.
+
+A admoestação aproveitar-lhe-ia.
+
+Jámais o demonio se apossaria dos seus sentidos.
+
+Laura fingiu acreditar nas promessas de Jacintha, que, sem serem
+solidas, eram com certeza sinceras.
+
+Entretanto tomou algumas precauções.
+
+Resolveu não admittir creados moços na sua modesta casa da rua
+Boudreau.
+
+Escolheu um casal já idoso.
+
+O marido tinha cincoenta annos e a mulher quarenta e cinco.
+
+Durante tres mezes Jacintha foi um verdadeiro modelo de honestidade.
+
+Nunca sahia só, e quando acompanhava Laura ao theatro jámais transpunha
+a porta do camarim.
+
+Mas no momento da chegada do visconde a Paris, os seus remorsos
+começavam a cicatrisar.
+
+A installação mysteriosa no rez-do-chão da rua da Arcada produziu-lhe
+terrivel effeito.
+
+Laura, porém, percebeu sem perda de tempo que Jacintha começava
+novamente a andar mais ligeira.
+
+Aquella acceleração de movimento no corpo correspondia a movimentos,
+accelerados tambem, no espirito.
+
+Ao ver a felicidade que disfructava Laura, sentia extraordinaria
+melancholia.
+
+--Como o sr. visconde ama a senhora! murmurava ella. Ah! a senhora é bem
+feliz!...
+
+--Se continuares a portar-te bem, dizia-lhe Laura, acharás qualquer dia
+um bom marido.
+
+--A senhora achou, respondia Jacintha, mas eu, para o achar,
+necessitarei procurar.
+
+Uma busca d'este genero é sempre um perigo para uma natureza
+inflammavel. Se Laura, n'aquella occasião, tivesse reparado,
+comprehenderia o perigo, verificaria que a virtude começava a ser
+demasiado pesada para Jacintha.
+
+Uma noite, ao atravessar um corredor do theatro, a creada deu de cara
+com Lauretto Mina.
+
+O tenor pôz-lhe uma das mãos na fronte, levantou-lhe o queixo com a
+outra, e disse-lhe:
+
+--Sabes que estás cada vez mais bonita? Declaro-te que nunca te amei
+tanto como agora.
+
+Não se contentou com palavras.
+
+Passou-lhe um braço em volta da cintura, levou-a para um canto pouco
+alumiado, inclinou-lhe o corpo para traz e deu-lhe um demorado beijo na
+bocca.
+
+Jacintha voltou para o camarim muito perturbada.
+
+O seu quarto na rua da Arcada era tão bonito!
+
+Devia haver muitas senhoras que o invejassem!
+
+Esta circumstancia foi mais uma tentação.
+
+Pois só ella é que havia admirar aquella verdadeira belleza?
+
+Era possivel que o tenor, mesmo em casa de duquezas, não tivesse visto
+um quarto tão encantador como aquelle.
+
+Jacintha por coisa alguma trahiria Laura.
+
+Em tempo, Lauretto Mina tinha tido a prova d'essa verdade.
+
+Não se arriscou, por isso, a fazer-lhe perguntas directas sobre o
+visconde ou sobre a Linda.
+
+Mas, depois d'uma scena de seducção admiravelmente bem desempenhada
+pelo tenor, uma noite, durante um entre-acto, Jacintha foi forçada a
+dar-lhe todas as indicações necessarias, para que elle podesse entrar
+n'aquelle delicioso quarto, que para ella era um verdadeiro ninho d'amor.
+
+Pela uma hora da manhã, em quanto Antonino e Laura estivessem á mesa,
+ceiando, ella iria abrir-lhe a porta da rua, e, pelo longo corredor,
+para o qual abriam todas as portas interiores, introduzil-o-hia no
+quarto. Depois iria ter com elle, logo que os dois esposos se deitassem.
+
+O tenor sahiria, entre as quatro e as cinco horas da manhã, quando o
+visconde tivesse partido.
+
+Nada era mais simples, mais facil, mais seguro.
+
+Foi assim que, na noite de que já fallámos, Lauretto Mina estava ás tres
+horas e meia da madrugada no quarto de Jacintha.
+
+Áquella hora a creada dormia profundamente.
+
+Lauretto levantou-se sem fazer ruido.
+
+Sobre a meza da cabeceira estava acceso um candieiro.
+
+O tenor tirou uma navalha da algibeira, abriu-a, e cortou os cordões
+d'um reposteiro.
+
+Em seguida voltou ao leito, pegou na mão direita de Jacintha e
+approximou-a levemente da esquerda.
+
+Ella descerrou vagamente as palpebras e perguntou:
+
+--Já te levantaste?
+
+--Não, não, respondeu o tenor. Ainda é cedo.
+
+Reuniu bruscamente as duas mãos e, n'um segundo, ligou os pulsos de
+Jacintha com tres ou quatro voltas do cordão, que atou n'um nó rapido.
+Ella accordou sobresaltada e tentou gritar.
+
+Mas o tenor applicou-lhe sobre a bocca uma mordaça que levava,
+prendendo-lh'a solidamente atraz do pescoço.
+
+Jacintha deu com os pés na roupa da cama, tentando saltar do leito.
+
+O tenor ligou-lhe os pés com o cordão, como lhe ligara as mãos.
+
+Em seguida verificou se todos os nós estavam bem dados.
+
+Assim presa, Jacintha apenas podia fazer alguns movimentos quasi
+imperceptiveis, que Lauretto impossibilitou ainda comprimindo-a com a
+roupa da cama.
+
+Depois, o tenor vestiu-se lentamente.
+
+Entreabriu a porta do quarto, e escutou.
+
+Voltou para junto do leito, e vendo que Jacintha não se movia,
+destapou-a, inquieto, e tirou-lhe a mordaça.
+
+A infeliz estava desmaiada.
+
+O ar livre que respirou, reanimou-a um pouco.
+
+Antes que a creada recuperasse completamente os sentidos, Lauretto
+tornou-lhe a pôr a mordaça, mas apertando-lh'a menos, e deixando-lhe as
+narinas a descoberto.
+
+Depois voltou novamente para junto da porta.
+
+Sentiu o visconde sahir, sendo acompanhado por Laura até á escada.
+
+Ouviu as palavras de despedida que ambos trocaram.
+
+Então transpôz o corredor, abriu a porta do quarto de Laura, e entrou.
+
+Jacintha, que recuperara os sentidos, viu e comprehendeu tudo.
+
+O miseravel armara ardilosamente aquelle laço á sua fraqueza, e ella
+cahira estupidamente, como uma ingenua.
+
+Não era por ella, mas por Laura, que elle ali fôra.
+
+A Linda, é claro, não tornara a sua creada de quarto confidente das
+impertinencias de Lauretto.
+
+Jacintha, porém, recordava-se agora de certas circumstancias e d'algumas
+palavras pronunciadas pelo tenor.
+
+Não podia duvidar.
+
+Era Laura quem elle desejava.
+
+A Linda estava n'esse momento á discrição do insolente.
+
+E fôra ella, Jacintha, ella, que teria dado a vida pela cantora, que a
+entregara áquelle miseravel!
+
+Ao ter este pensamento a infeliz sentiu-se gelada de pavor.
+
+Deixaria ella commetter um tão infame crime?
+
+Apenas podia soltar alguns gemidos inarticulados.
+
+As mãos e os pés ligados paralysavam-lhe todos os movimentos. Como
+arrancar a mordaça?
+
+Como cortar os cordões que a atavam?
+
+O tempo passava, e ella não achava que responder áquellas perguntas.
+
+As lagrimas corriam-lhe pelas faces.
+
+Olhou para o candieiro acceso.
+
+Lauretto achara desnecessario apagal-o. Para que?
+
+Subitamente accudiu-lhe ao espirito uma idéa.
+
+Nem um instante hesitou.
+
+Encolheu-se, torceu-se, rebolou-se, e, lentamente, firmando-se nos
+cotovellos e nos joelhos, conseguiu elevar-se pouco a pouco, acima do
+travesseiro.
+
+Esta operação difficultosa durou dez minutos.
+
+Quando chegou com as mãos ligadas até ao angulo do leito, agarrou-se a
+elle, e, com um esforço acabou de se elevar.
+
+Então, com um movimento decidido, chegou á luz do candieiro os cordões
+que lhe prendiam os pulsos, que foram tambem attingidos pela chamma.
+
+A dôr era insupportavel.
+
+Por vezes, sentindo-se prestes a soltar um grito, retirava os pulsos da
+luz.
+
+Mas em seguida, considerando aquelle facto como uma indesculpavel
+cobardia, chegava novamente á chamma a carne já queimada.
+
+Uma das voltas do cordão quebrou por fim.
+
+Mas não era a que formava o nó.
+
+Foi indispensavel continuar a tortura, com todas as precauções e cuidados.
+
+E sentia-se feliz por poder dizer de si para comsigo:
+
+--Soffre, leviana, soffre o castigo da tua falta!
+
+O cordão cedeu emfim.
+
+Então, com um movimento rapido, desembaraçou-se dos bocados que ainda a
+prendiam, e, sem reparar para o misero estado em que tinha os
+pulsos--porque o tempo urgia--sentou-se na cama, e desligou os pés,
+ainda que com bastante custo.
+
+Levantou-se, procurou uma tesoura, e cortou os cordões da mordaça.
+
+Estava livre!
+
+Vestiu-se sem perda d'um segundo.
+
+As mãos, tremulas ainda pelo supplicio supportado, difficilmente
+cumpriam a sua missão.
+
+Sentia-se banhada em suor frio.
+
+Não prestou attenção á fórma pela qual se vestia.
+
+Pensava.
+
+O que deveria fazer? Acordar o porteiro? Esse meio poderia ser bom meia
+hora antes. N'aquelle momento, como era possivel que o crime
+estivesse consumado, era necessario não fazer escandalo. N'aquelle
+negocio não devia intervir qualquer pessoa estranha.
+
+Logo que se apromptou, metteu na algibeira o dinheiro que pozera sobre a
+meza, e seguiu pelo corredor, abafando o ruido dos passos.
+
+Parou em frente da porta do quarto de Laura e escutou.
+
+Não duviu o menor rumor.
+
+Aquelle silencio seria de bom ou de mau presagio?
+
+Não se atrevia a decidir.
+
+Continuou pelo corredor, desceu a escada, abriu cautellosamente a porta
+e achou-se na rua, deserta áquella hora.
+
+
+
+
+XXV
+
+O infame
+
+
+Se não fosse fatuo e mau como era, Lauretto Mina, ao entrar no quarto de
+Laura, teria apagado a lampada que o alumiava.
+
+Depois, quando a cantora voltasse, soprando a chamma do candieiro que
+ella trazia, tel-a-hia tomado por surpreza na sombra, e a Linda
+podia então considerar-se perdida.
+
+Mas elle quiz saborear o seu triumpho, divertir-se com o temor e mesmo
+com a colera da cantora.
+
+Portanto mostrou-se, apresentou-se.
+
+--Boa noite, minha querida Linda, disse elle levantando-se logo que
+Laura entrou. Não te admires nem te assustes por me veres em tua casa a
+hora tão adiantada da noite. As minhas intenções são tudo o que ha de
+mais amigaveis, e estou certo que havemos de nos entender.
+
+Laura olhava-o petreficada, sentindo como que fugir-lhe a razão.
+
+O tenor proseguiu:
+
+--Se entrei aqui, empregando meios menos usados e algum tanto violentos,
+a culpa foi tua. Estou, como muitos outros, loucamente apaixonado por
+ti. Mas isso não é uma razão para me escarneceres, para me tornares
+ridiculo para com os nossos collegas, e para mofares de mim com o
+visconde, teu amante. Tens procedido commigo imprudentemente. Resolvi
+desforrar-me. Para o conseguir conquistei um coração mais sensivel que o
+teu, o da Jacintha. Ella introduziu-me na praça--e eis-me aqui!
+
+--Foi bem combinado o assalto, respondeu Laura fazendo um gesto de
+resignação.
+
+Voltára-lhe a presença d'espirito.
+
+Como se conservasse no limiar da porta, passou resolutamente em frente
+do tenor e entrou no quarto.
+
+--Estimo que acceites a situação com essa desenvoltura! disse Lauretto
+sorrindo victoriosamente.
+
+Como ella não respondesse, o tenor continuou:
+
+--Para que me havias de receber com ares tragicos? Tens razão. Jámais se
+devem desprezar estas palavras: amo-te!
+
+Laura encostára-se a uma secretária Riesener.
+
+O tenor estava na frente d'ella. Elle proseguiu:
+
+--Pois não é verdade que é absurdo fazer barulho por causa d'um beijo?
+
+Caminhou para ella ao acabar de pronunciar aquellas palavras.
+
+Laura abriu rapidamente com a mão esquerda a gaveta da secretaria,
+pegando, com a direita, n'um objecto que estava dentro.
+
+E repentinamente, como Lauretto se approximasse mais, visou-o com um
+revolver que acabava de engatilhar.
+
+--Se dá um só passo mais, mato-o! gritou ella.
+
+Lauretto empallideceu horrivelmente.
+
+Mas replicou, tentando sorrir-se:
+
+--Suppunha-te mais sensata. A menos que não estejas brincando...
+
+--Prohibo-o de me tratar por tu, disse Laura ameaçando-o novamente com o
+revolver.
+
+--Perdão, sr.ª viscondessa, respondeu o miseravel inclinando-se com
+afectação, para dissimular o estremecimento que lhe percorreu todo o
+corpo. Não considero de bom gosto ameaçar com um revolver um homem
+desarmado, entretanto...
+
+E ia dar mais um passo.
+
+Laura, porém, fel-o parar, dizendo com energia:
+
+--Não se mecha, ou disparo! E previno-o de que não repetirei o aviso.
+Acautelle-se! Tenho na mão uma arma admiravel, de precisão
+extraordinaria. Comprei-a no Mexico, quando nos internamos na região dos
+_pampas_. Ao dar um passo terá quatro balas no corpo.
+
+Ella fallava n'um tom firme e resoluto, tanto mais para admirar, quanto
+era certo que omittia um pormenor importante.
+
+O revolver estava descarregado.
+
+Suppozera, e com razão, que um homem capaz de proceder como Lauretto
+Mina, não podia deixar de ser cobarde.
+
+Ao ouvir Laura, o tenor teve uma idéa, que mais o assustou.
+
+Lembrou-se que o tiro podia partir, mesmo sem que a cantora puxasse pelo
+gatilho.
+
+Entretanto, fazendo-se forte, disse:
+
+--Acautelle-se tambem, porque ao primeiro tiro precipitar-me-hei, e
+então...
+
+--Socegue, interrompeu a Linda. Sei servir-me bem d'este revolver. Tinha
+o direito, se quisesse, mesmo sem que o senhor chegasse a vias de facto,
+de o matar como se mata um cão hydrophobo. Mas a vista do sangue
+horrorisa-me. Conserve-se quieto, e nada terá a temer.
+
+Um pouco mais socegado, o tenor disse, ao cabo d'alguns minutos de
+silencio, com riso forçado:
+
+--Nada d'isto tem senso commum! Ficaremos aqui toda a noite, a olhar um
+para o outro, como dois cães de faiança?
+
+Laura não respondeu.
+
+Conservava-se immovel como uma estatua.
+
+--Permitte-me, ao menos, que me sente? perguntou elle.
+
+Ella replicou:
+
+--Pode sentar-se. Tem ahi proximo uma cadeira. Mas previno-o de que, uma
+vez sentado, o prohibirei de se levantar.
+
+--Percebo, ficaria com uma vantagem a mais. Pois conservar-me-hei de pé.
+
+--Faria melhor sahindo d'esta casa. Deve seguir o conselho, que é bom.
+
+--Devéras?... disse Lauretto indiciso.
+
+Perguntou a si proprio se, realmente, o mais prudente não seria bater em
+retirada.
+
+Aquelle revolver imprevisto mudára a situação.
+
+O negocio falhára, decididamente.
+
+Mas deveria fugir cobardemente d'uma mulher?
+
+No dia seguinte ella contaria a aventura ao amante, e talvez aos
+collegas, que com razão o escarneceriam. Fugir, era, pois, impossivel.
+
+Era indispensavel sustentar a situação até ao fim, custasse o que custasse.
+
+Depois d'alguns minutos de reflexão, Lauretto disse com voz um pouco
+mais firme:
+
+--Não partirei. Tenho ainda pelo meu lado uma probabilidade.
+
+--Qual?
+
+--Ha vinte minutos que nos olhamos fixamente; eu, que não tenho uma arma
+na mão, sinto-me já fatigado. Pesa-me a cabeça e cerram-se-me as
+palpebras. O relogio marca quatro horas e trinta e cinco minutos. Só
+amanhecerá d'aqui a hora e meia. Quando nos tivermos hypnotisado
+mutuamente, veremos se o seu olhar não se turbará, se os seus joelhos
+não se dobrarão, se o braço não se baixará por si proprio. Veremos se a
+gallinha não acabará fatalmente por ser magnetisada, immobilisada... e
+tomada pela raposa!
+
+--Veremos! respondeu Laura apertando com mais força a coronha do revolver.
+
+Desde esse momento guardaram ambos o mais absoluto silencio.
+
+No quarto ouvia-se apenas o tic-tac monotono da pendula.
+
+O relogio deu os tres quartos para as cinco horas.
+
+Os minutos passavam com uma lentidão mortal.
+
+Laura sentia, com temor crescente, que o miseravel dissera a verdade.
+
+A tensão enorme em que desejava conservar o espirito fazia-lhe diminuir
+as forças do corpo.
+
+Via como que sombras passarem-lhe pela frente; sentia nos ouvidos um
+ruido extranho, as pernas dobravam-se-lhe, e a custo conservava o braço
+meio estendido, empunhando o revolver.
+
+O que mais a angustiava era a arma estar descarregada.
+
+Se assim não fôra, mesmo dada a hypothese do desfallecimento, poderia
+defender-se contra uma aggressão subita, ferindo ou pelo menos
+assustando o seu inimigo.
+
+Emfim, haveria lucta, em que o maior numero de probabilidades estaria do
+seu lado.
+
+Mas se, aproveitando um momento de torpor, Lauretto se precipitasse
+sobre ella, e a agarrasse, a Linda nada mais tinha na mão do que um
+bocado d'aço e de madeira, não poderia defender-se.
+
+E como que ouvia o grito de triumpho soltado por Lauretto, e o rir
+infame d'aquelle miseravel.
+
+O relogio deu cinco horas.
+
+Laura sentiu necessidade de interromper aquelle silencio pesado e
+d'ouvir uma voz humana, ainda que não fosse senão a propria.
+
+Disse portanto em voz alta:
+
+--Cinco horas!
+
+Lauretto replicou, e ella escutou-o quasi satisfeita:
+
+--Faço-lhe os meus cumprimentos. Possue energia rara em mulher. É triste
+que não empregue essa energia ao serviço de melhor causa. Admittindo
+mesmo,--o que é duvidoso,--que consiga sustentar até ao fim esse
+magnanimo esforço para preservar a sua honra, nem por isso ficará menos
+deshonrada. Quer saber como?
+
+Laura não respondeu.
+
+O tenor proseguiu:
+
+--O meu amor é muito sincero e ardente. Se não fosse para a possuir não
+poria em pratica esta tentativa arrojada, ou criminosa, segundo o modo
+de ver de cada um de nós. Mas o meu amor proprio está agora comprometido
+n'esta empreza tambem. A sr.ª, ha muito tempo, tem-me despresado,
+motejado, ridicularisado; eu, declarei, jurei publicamente, que
+mereceria todo o seu desprezo se não conseguisse tel-a um dia nos meus
+braços. Por emquanto ainda não perdi a esperança, e espero, até,
+conseguir em breve o fim desejado. Em todo o caso, mesmo na peor das
+hypotheses, deve concordar que as apparencias são por mim. Por
+agora pouco importa que eu seja ou não seu amante. O essencial é que,
+para os espectadores, o pareça. Ora parecel-o-hei, evidentemente...
+
+Laura sorriu com desdem.
+
+Elle continuou:
+
+--Deixe-me acabar e ria depois. Medite,--porque ainda é tempo,--e verá
+que o que mais lhe convém é baixar o revolver e entregar-se á minha
+generosidade. Procederei como um perfeito cavalheiro, desde já o
+declaro. Mas reservar-me-hei o direito de fallar, e previno-a de que
+fallarei. Será essa a minha compensação e a minha desforra.
+
+O tenor fez uma pausa.
+
+A Linda deu aos hombros despresadoramente.
+
+--Imagina que não me acreditarão? Ouça: limitar-me-hei a affirmar que a
+tive esta noite nos meus braços. Estamos sós: quem poderá
+contradizer-me? É de suppor que o visconde de Bizeux me peça
+explicações; espero mesmo que isso succeda. Recusar-me-hei a dar-lh'as.
+Elle esbofetear-me-ha e eu matal-o-hei, porque desgraçadamente
+succede-me esse precalço sempre que me bato. Não será em virtude d'esse
+duello em perspectiva e da morte do visconde que as minhas palavras
+deixarão de ser acreditadas, ao contrario. Mas haverá mais do que as
+minhas palavras, haverá provas e testemunhas. A prova eil-a: ao entrar
+vi sobre aquella mesa o seu retrato em miniatura, ao lado do
+retrato do visconde. Dei-me pressa em guardal-o--para possuir uma
+recordação sua. Eis o testemunho: pela manhã sahirei, não pela porta que
+deita para a rua, mas pela que abre para o vestibulo. O porteiro, ao
+ver-me, perguntar-me-ha sem duvida quem eu sou e d'onde venho a hora tão
+matinal, e eu responder-lhe-hei que me chamo Lauretto Mina, que sou
+tenor da Opera, e que saio de casa da sr.ª Laura Linda, amante do sr.
+visconde de Bizeux...
+
+--É engenhoso, mas um pouco cobarde! disse uma voz por detraz de Lauretto.
+
+A cantora soltou um grito d'alegria.
+
+--Antonino! disse ella.
+
+O tenor voltou-se admirado, e viu na sua frente Antonino de Bizeux, de
+braços cruzados sobre o peito, dominando-o, com a alta estatura do seu
+corpo herculeo.
+
+Na sombra do corredor, Lauretto viu Jacintha, pela porta entreaberta.
+Lançou em volta um olhar assustado, como que procurando por onde fugir.
+
+Antonino bateu-lhe pesadamente com a mão no hombro.
+
+Laura, deitando fóra o revolver inutil, correu para o marido.
+
+O visconde disse, dirigindo-se ao tenor:
+
+--É triste que eu venha desmanchar as suas combinações infames.
+Graças á coragem e á dedicação d'aquella pobre rapariga que me foi
+chamar, eil-o preso no proprio laço que armou. Ao que parece é forte em
+violentar e insultar mulheres, mas defronte d'um homem não faz tão boa
+figura.
+
+Lauretto respirava a custo sob o peso da mão de Antonino.
+
+Apenas teve força para balbuciar:
+
+--Senhor... estarei ás suas ordens... quando quizer...
+
+--Na realidade? Consente em dar-me razão? Pois não sabe, miseravel, que
+quando se apanha um patife da sua especie em flagrante delicto
+d'attentado nocturno e de roubo... (com a mão que tinha livre procurou
+na algibeira de Lauretto e tirou d'ella a miniatura de Laura, que lançou
+sobre a mesa) só ha a escolher entre entregar o mariola á policia ou de
+lhe pegar pelas orelhas e lançal-o pela porta fóra a ponta-pés? Não
+sabe? Pois fique sabendo que n'um caso d'esta ordem o infame nunca
+offende. Teria graça considerar-me eu offendido e bater-me com o gatuno
+que me roubasse a bolsa!
+
+--Ouça-me, senhor, replicou Lauretto tremendo-lhe a voz de medo, de
+vergonha e de colera. Ouça-me: n'este momento estou á sua discrição, é
+verdade, mas aconselho-o a que não abuse da sua vantagem.
+
+Deixe-me sahir d'aqui sem ruido nem escandalo. Asseguro-lhe que
+isso será mais conveniente não só para mim, como tambem para o senhor e
+para esta senhora.
+
+--Concede-lhe o que elle pede, meu amigo, disse Laura intervindo. Que
+parta, com a raiva de ver abortado o seu crime, e que não ouçamos mais
+fallar d'elle.
+
+--Sim, sr. visconde, deixe-o partir! repetiu Jacintha do corredor, com
+voz timida.
+
+--Pois quê! Este homem fez-te passar, Laura, por angustias mortaes, fez
+soffrer a essa rapariga a mais horrivel tortura moral e physica, e ha de
+sahir d'aqui socegadamente para acabar na cama a noite que tão mal
+começou? Ah! eu considerar-me-ia tão cobarde como elle, se lhe
+concedesse a impunidade que pedem. Dizes, Laura: que parta, e que não
+ouçamos mais fallar d'elle? Mas não ouves as ameaças que o biltre acaba
+de pronunciar? Elle irá ámanhã dizer por toda a parte que passou a noite
+aqui, que eu cheguei muito tarde! Sinto ferver-me o sangue, pensando em
+tal. Se não estivesses presente, tosal-o-hia por fórma que jámais se
+esqueceria d'esta noite!
+
+E ao mesmo tempo que fallava, sacudia violentamente Lauretto, que tremia.
+
+--Não estarei eu em frente d'um homem bem educado?... atreveu-se elle a
+dizer.
+
+--Está em frente d'um justiceiro!
+
+--Como?... O que vae fazer?...
+
+--O que o senhor proprio projectava.
+
+Antonino largou o hombro de tenor, e agarrou-o pelo casaco.
+
+--Vamos... venha!...
+
+--Não quero!... deixe-me!... murmurou Lauretto debatendo-se em vão.
+Protesto contra as suas indignas violencias!
+
+O visconde apenas respondeu sorrindo desdenhosamente.
+
+--Não lhe faças mal! aconselhou Laura em voz baixa.
+
+Mas Antonino nada escutava.
+
+Estava possuido da mais profunda colera, colera fria, que é a mais
+terrivel.
+
+Repetiu
+
+--Vamos!... venha!...
+
+E accrescentou, dirigindo-se á creada:
+
+--Jacintha, alumia-nos. Sahimos pela porta do vestibulo.
+
+Arrastou pelo corredor fóra o tenor, que empregava inoffensiva
+resistencia, e chegou assim á porta que dava para o vestibulo do predio.
+
+Jacintha seguia-o, tendo um candieiro na mão tremula.
+
+Laura, anciosa, caminhava alguns passos mais atraz.
+
+Desceram ao vestibulo.
+
+Em frente do cubiculo do porteiro, o visconde gritou com voz forte:
+
+--Sr. Durandeau! peço-lhe que se levante e abra-nos a porta.
+
+Segurava Lauretto apenas com uma das mãos.
+
+O tenor, de labios trementes, pronunciava ameaças e palavras indistinctas.
+
+O porteiro appareceu pouco depois á porta do cubiculo, em mangas de
+camisa e de chinellas.
+
+--O que suceedeu? perguntou elle vendo Lauretto. É um ladrão?
+
+--Peor do que isso, respondeu Antonino. Este biltre introduziu-se em
+minha casa com intenção de violentar a creada de quarto!
+
+--Oh! que patife! disse o porteiro!
+
+Depois, reparando para o rosto apavorado de Lauretto, submettido ao
+pulso nervoso d'Antonino, ajuntou:
+
+--Que cara de velhaco! Sabe quem elle é, sr. visconde?
+
+--Sei. Chama-se Lauretto Mina, e é cantor da Opera.
+
+O porteiro abriu a porta.
+
+Antonino, pegando no tenor pelas espaduas, arremeçou-o para a rua.
+
+Em seguida lançou para o passeio o chapéu e o sobretudo do tenor,
+objectos que Jacintha trouxera na mão, cuidadosamente.
+
+A porta foi fechada quasi immediatamente depois.
+
+Lauretto, pallido pela colera, rangendo os dentes, voltou-se, e
+estendendo o punho cerrado para a porta, murmurou enraivecido:
+
+--Chegar-me-ha a vez!
+
+E distanciou-se com passo rapido.
+
+
+
+
+XXVI
+
+O desafio
+
+
+Ao entrar no quarto de sua mulher, Antonino encontrou Jacintha ajoelhada
+aos pés de Laura, dizendo-lhe arrependida:
+
+--Oh! minha senhora, perdôe-me!
+
+Levantou a creada e contou o que ella fizera, a sua presença d'espirito,
+a sua coragem.
+
+--Sahiu, metteu-se n'uma carruagem que encontrou no _boulevard_
+Malesherbes, e foi chamar-me a casa. Felizmente eu não me deitára ainda,
+e vim immediatamente. Foi ella que causou todo o mal, mas devemos
+confessar que foi ella tambem que tudo remediou.
+
+Laura socegou Jacintha, consolou-a.
+
+Pelas suas proprias mãos envolveu em algodão em rama os pulsos queimados
+da creada de quarto, emquanto não podesse ser feito outro tratamento,
+acompanhou-a ao quarto, deitou-a, e só a deixou quando a viu adormecida.
+
+Voltou para junto d'Antonino.
+
+Até então podéra conter-se, mas a reacção veiu, por fim.
+
+Cahiu sobre um _fauteuil_ e chorou, murmurando:
+
+--Ah! que noite! que scena!...
+
+--Socega, minha querida Laura, disse-lhe Antonino pegando-lhe nas mãos.
+Passaste uma hora terrivel, que felizmente não se repetirá. Acabou-se!
+
+--Acabou-se! repetiu Laura abanando a cabeça. Se tudo estivesse
+terminado não me sentiria eu inquieta. Comprehendo que pelo espantoso
+perigo que corri tu não podesses suffocar a tua indignação. Insultaste
+terrivelmente esse miseravel. Conheço-o. Lauretto não possue apenas uma
+alma vil, possue tambem uma alma má. Vingar-se-ha com certeza.
+
+--Pois suppões?... Estás enganada. Eu puni-o justamente para não ter que
+o provocar. Verás que, elle tambem, não se atreverá a ser o provocador.
+
+--E se fôr?
+
+--Dão-se explicações d'um insulto e não d'um castigo. Recusarei bater-me
+com esse homem.
+
+--Promettes, Antonino? juras? Necessito ter a certeza... A duvida
+incommoda-me sobremaneira; Tinha razão teu pae na ultima carta que te
+escreveu, e me mostraste. O muito que me amas fez com que quizesses
+agradar á minha phantasia d'artista, collocando-me n'um meio romanesco e
+poetico, que tinha muitos encantos, mas que não era isempto de perigos.
+Seriamos felizes se não houvesse invejosos e maus. Estou convencida que
+foi a nossa situação equivoca que causou todo o mal.
+
+Calou-se por instantes, como que absorvida por occulto pensamento.
+
+Depois proseguiu:
+
+--Lauretto ter-me-ia respeitado se estivesse certo de que eu era tua
+mulher. Porque será que, amando-nos tanto, não podemos pôr d'accordo as
+nossas existencias, como puzemos os nossos corações?
+
+Novas lagrimas rolaram-lhe pelas faces.
+
+Antonino seccou-as com beijos, esforçando-se por tranquillisar a esposa
+com phrases ternas.
+
+--Escuta, disse ella, tenho o presentimento que atravessamos uma
+hora terrivel, e quero fallar-te com toda a gravidade. Tenho a
+annunciar-te uma resolução seria que tomei, e uma noticia agradavel a
+dar-te. A resolução é que, decididamente, renuncio ao theatro. A
+noticia...--fallemos baixo!--desejava esperar alguns dias para te fallar
+nisso... Mas não... não posso esperar... tenho a certeza!... A noticia é
+que, o meu constante sonho de mezes e annos, vae realisar-se emfim!
+Antonino, no meu ser havia duas partes distinctas: tinha, por meu pae, o
+sentimento artistico, e por minha mãe o sentimento maternal. Até hoje
+pareci-me com meu pae, d'hoje para o futuro parecer-me-hei com minha
+mãe!
+
+Antonino ajoelhou aos pés de sua mulher, envolvendo-a nos braços, louco
+d'alegria.
+
+--Um filho!... O nosso filho!... murmurou elle.
+
+E cobriu-lhe de beijos as mãos.
+
+Ella retribuiu-lhe as caricias, e continuou:
+
+--És feliz, não é verdade? Pois bem: procede de fórma a dissipar a nuvem
+sombria que, n'este momento, escurece a minha felicidade. Tens agora
+novos deveres. A tua vida não te pertence unicamente, é tambem minha, é
+nossa. Peço ao pae um juramento sagrado: peço-te, sob tua palavra
+d'honra, que em caso algum, nem mesmo provocado por Lauretto Mina,
+exporás a tua vida contra a d'esse miseravel.
+
+Antonino hesitou.
+
+--Sob minha palavra d'honra?... Nem mesmo provocado?... repetiu elle.
+
+--Ah! hesitas!... disse Laura.
+
+Elle percebeu a profunda anciedade de Laura.
+
+Reflectiu n'um instante que uma mulher póde acreditar n'um compromisso
+tomado por aquella fórma, mas que em taes circunstancias esse
+compromisso não obriga um homem.
+
+Portanto replicou:
+
+--Não hesito. Dou-te a palavra que me pedes.
+
+--Ah! obrigada!...
+
+Tomou-lhe a cabeça entre as mãos e beijou-o na fronte.
+
+Seguidamente começaram, cheios de confiança e de fé, a traçar o plano da
+sua nova vida.
+
+Laura desejava deixar Paris immediatamente, mas concordou que a partida,
+assim precipitada, semelhava a fuga.
+
+Demorarar-se-iam ainda quatro ou cinco dias, para regular os seus negocios.
+
+Como estava escripturada por espectaculo, a Linda não tihha de pagar
+multa na Opera.
+
+Partiriam, depois, para Italia, onde o conde de Bizeux se lhes juntaria.
+
+Em regra, passariam o inverno nos paizes do sul, Italia, Hespanha,
+Grecia, Egypto, Algeria, e os estios em Saint-Pol-de-Léon.
+
+Conversaram até ás sete horas da manhã.
+
+A essa hora Antonino deixou Laura, para que ella dormisse um pouco.
+
+Ficou resolvido que elle não voltaria mais áquella casa. O visconde
+procuraria Laura, de tarde, na rua Boudreau.
+
+Até ao dia da partida, jantariam e dormiriam ali, devendo Antonino
+voltar á casa do _boulevard_ Haussmann apenas para tratar de pormenores
+materiaes.
+
+Laura adormeceu em breve, esperançosa e feliz.
+
+Antonino, chegado que foi aos seus aposentos de rapaz, estirou-se sobre
+um canapé.
+
+Não podia conciliar o nome.
+
+Previa, preoccupado, o que se ia passar.
+
+Desejava lavar, com uma execução summaria, a offensa recebida,
+principalmente para que o nome de sua mulher não fosse envolvido na
+questão.
+
+Entretanto, percebia que se descobrira ante Lauretto Mina, e que entre
+elles o insulto e o conflicto não podia deixar de terminar por duello.
+
+Ás onze horas o creado foi levar-lhe os cartões de Nobillet, o pianista,
+e de Gressier, o baritono.
+
+Não poude deixar d'estremecer, dando ordem para que fosse introduzidas
+as visitas.
+
+Laura tinha razão: a vida para elle duplicára de valor, desde a vespera.
+
+Lauretto Mina escolhera aquellas testemunhas, porque tanto Nobillet como
+Gressier, tinham assistido á scena de Remissy no concerto de Saint-Malo,
+e conheciam um pouco os incidentes e o visconde.
+
+Foi Nobillet quem fallou.
+
+--Vimos da parte, do sr. Lauretto Mina, sr. visconde, disse elle. O
+nosso collega assegura que vossa ex.ª o insultou esta noite,
+gravemente. O nosso primeiro dever era procurar o sr. visconde para
+vereficarmos se as suas explicações condizem com as do nosso
+constituinte. Disse-nos o sr. Lauretto Mina que em tempo tivera relações
+com uma rapariga ao serviço da sr.ª viscondessa de Bizeux; parece que
+essas relações foram agora reatadas, e que elle passou a noite anterior
+no quarto d'essa rapariga. Por acaso vossa ex.ª encontrou-o, e sem
+razão, sem provocação da parte d'elle, agarrou-o pelo casaco como se
+fôra um gatuno vil, arrastou-o para o vestibulo, indicando o nome
+d'elle, por entre injurias, ao porteiro do predio, e arremessando-o
+depois para a rua, com violencia. São verdadeiras estas declarações, sr.
+visconde?
+
+--Completamente...
+
+--Vossa ex.ª pode naturalmente interpretal-as e explical-as, e nós
+estamos ás suas ordens para acceitar os esclarecimentos com que quizer
+honrar-nos.
+
+--Nada tenho que explicar, replicou Antonino. Encontrei o sr. Lauretto
+Mina sahindo do quarto da creada da minha mulher, na casa que ella
+habita. Irritei-me e pul-o fóra.
+
+--Vossa ex.ª disse em voz alta que elle tinha violentado a rapariga. O
+sr. Lauretto Mina affiança que não houve a menor violencia.
+
+--Ignorava e ignoro esse facto.
+
+Nobillet proseguiu:
+
+--Ser encontrado no quarto d'uma mulher, ainda que ella seja creada, não
+é deshonra para um homem. Para que vossa ex.ª se irritasse até á
+indignação e á violencia, por um facto que realmente não tem gravidade,
+de certo houve razões estranhas a esse mesmo facto. Somos homens
+honrados fallando com um homem honrado, sr. visconde; esperamos, pois,
+que nos julgue capazes d'apreciar e comprehender essas razões.
+
+Nobillet e Gressier adivinhavam que havia um mysterio em todo aquelle
+negocio.
+
+Nem um nem outro tinha grande consideração pelo caracter de Lauretto
+Mina, de quem conheciam os terriveis antecedentes de duellista.
+
+Comtudo não tinham podido recusar-se a servir-lhe de intermediarios na
+conclusão do conflicto.
+
+Entretanto esperavam que o visconde lhes fornecesse uma razão ou ao
+menos um pretexto para declinar a sua penosa missão.
+
+Desejavam pois que Antonino pronunciasse uma só palavra n'esse sentido.
+
+O visconde, porém, limitou-se a responder:
+
+--Agradeço-lhes os termos delicados com que expozeram a questão. Sinto a
+mais alta consideração por vossas ex.as, mas não só posso dar do meu
+procedimento outras razões além das que já conhecem, porque não
+existem.
+
+As duas testemunhas olharam-se consternadas.
+
+Depois Gressier disse:
+
+--Observar-lhe-hei, sr. visconde, que se o sr. Lauretto Mina o não
+offendeu tambem, é elle que deve considerar-se offendido, tendo,
+portanto, o direito de exigir ou desculpas ou uma reparação pelas armas.
+
+--Não estou disposto a pedir desculpas, disse Antonino com voz firme. De
+resto supponho que não seriam acceites.
+
+--É claro que, reconhecendo-lhe a qualidade d'offendido, deixa-lhe a
+escolha das armas... disse Gressier.
+
+--E sei antecipadamente que elle escolherá o sabre, respondeu Antonino,
+sorrindo.
+
+E levantando-se, accrescentou:
+
+--Mais uma vez lhes agradeço, meus senhores, a sua delicada intervenção,
+e a fórma correctissima do seu procedimento. Terei a honra de os pôr em
+relações com dois dos meus amigos, os srs. conde de Bauriac e barão de
+Chazeuil. Procural-o-hão esta tarde em sua casa, sr. Nobillet.
+
+Os tres cumprimentaram-se com silencio.
+
+O visconde acompanhou-os até á escada.
+
+Cumprimentaram-se novamente, e as duas testemunhas desceram, mais
+inquietas que o proprio visconde.
+
+
+
+
+XXVII
+
+Preliminares
+
+
+Antonino, voltando para o interior da casa, disse apenas de si para
+comsigo:
+
+--Era fatal este resultado!
+
+E principiou immediatamente, com a mais perfeita tranquillidade, a tomar
+as suas disposições.
+
+Em primeiro logar expediu um telegramma a seu pae, dizendo-lhe que
+tinha, no dia seguinte, um duello grave, e pedindo-lhe para tomar o
+expresso da noite, que o devia trazer á capital pelas oito da manhã.
+
+A essa mesma hora deixaria sua mulher na casa da rua Boudreau, e
+encontrar-se-ia com o conde, nos seus aposentos do _boulevard_ Hausmann
+ás nove horas.
+
+Desejava que, em caso de fatalidade, o conde estivesse junto de Laura.
+
+Em seguida foi para casa do conde de Bauriac, d'onde mandou chamar o
+barão de Chazeuil, que morava proximo, na rua dos Campos Elyseus.
+
+Os tres conferenciaram em seguida sobre o duello em perspectiva.
+
+O conde de Bauriac, entendedor na materia, disse, movendo a cabeça com
+ar preoccupado:
+
+--Um duello com Lauretto Mina tem um caracter extremamente excepcional.
+Esse homem, em dois duellos que teve, matou um dos adversarios, e feriu
+gravemente o outro, que só escapou por milagre. Jámais foi possivel
+explicar e justificar os botes que lhe valeram esta dupla e sangrenta
+victoria. Em virtude da rapidez do ataque, ninguem viu como os botes
+tinham sido vibrados. Conheço a sua força ao sabre, meu caro visconde, e
+vel-o-ia, sem inquietação, bater-se com os melhores esgrimistas. Mas
+considerando a fórma... italiana de Lauretto, todas as cautellas são
+poucas. A nossa responsabilidade, como testemunhas d'este duello é
+duplamente seria. Não se trata de regular o negocio, ou de apresentar
+desculpas; mas, emfim, deve haver, e ha com certeza, no conflicto
+apparente, razões occultas, que eu não lhe perguntarei. Nós sabemos,
+Chazeuil e eu, que o meu amigo é corajoso como poucos. Encarregue-nos de
+dizer ás testemunhas de Lauretto Mina que se recusa a dar-lhe
+explicações, e nós acceitaremos a missão satisfeitissimos, não é
+verdade, barão?
+
+Chazeuil respondeu com um gesto affirmativo.
+
+--Agradeço-lhes a confiança que em mim depositam, replicou Antonino, mas
+não posso nem devo acceitar o seu offerecimento. Insultei esse homem,
+sabendo bem quem elle era, e conhecendo o risco que corria. Se eu
+recusasse a bater-me hoje, elle ámanhã offender-me-hia por fórma que
+fosse então inevitavel o duello. Minha mulher não desconfia agora que eu
+fui desafiado, e podia ser informada do novo conflicto que se daria de
+futuro. Peço-lhes, pois, que me deixem terminar este negocio sem perda
+de tempo.
+
+--Estamos á sua disposição, disse o conde de Bauriac. Tem algumas
+instrucções a dar-nos?
+
+--Não. Desejo apenas que o duello se realise, sem falta, ámanhã ás onze
+horas. Meu pae só chega ás oito, e eu tenho que fallar-lhe.
+
+Ficou combinado que os dois iriam buscar Antonino, á casa do _boulevard_
+Hausmann, pelas dez horas da manhã.
+
+Pouco depois d'Antonino sahir, entraram as testemunhas de Lauretto Mina.
+
+Estavam ainda mais perplexos do que de manhã.
+
+Gressier, sobretudo, não podia occultar a inquietação de que estava
+possuido.
+
+Quando o conde de Bauriac lhe disse que era inevitavel o duello, o
+baritono fez um gesto de profundo desgosto.
+
+É que Lauretto rira diabolicamente quando elles lhe tinham dito que o
+visconde acceitava o desafio.
+
+Gressier lembrou-lhe o que o tenor d'uma vez dissera no _foyer_ dos
+artistas:
+
+--N'um duello eu não arranho nem firo, mato. E ajuntou:
+
+--Aquella sua phrase de certo foi simples modo de fallar, meu caro. Sem
+duvida não teremos que temer ámanhã um resultado tão tragico.
+
+--Está enganado! replicou Lauretto, com sorriso feroz. Hei de matar o
+visconde! Hei de matal-o!
+
+Gressier estremecera violentamente, por tal fórma Lauretto pronunciára
+as ultimas palavras.
+
+Quando entrou em casa do conde de Bauriac, o baritono estava ainda sob o
+peso d'aquella desagradavel impressão.
+
+O barão de Chazeuil reparou para o gesto de Gresnier, e disse:
+
+--Não me parece que seja caso para temores. O sr. Lauretto Mina é um
+adversario para respeitar... como esgrimista, bem entendido, mas o sr.
+visconde de Bizeux saberá defender-se, com certeza.
+
+Os infelizes artistas temiam as responsabilidades que pesam sobre as
+testemunhas de duellos que occasionam a morte, e desejavam encontrar um
+meio que os levasse a não continuar com as negociações.
+
+Quando se tratou de resolver que sabres serviriam o conde de Bauriac
+disse, segundo o costume, que a sorte decediria.
+
+Nós acceitamos sem o mais leve inconveniente os sabres do sr. visconde
+de Bizeux, disse Nobillet.
+
+--O sr. Lauretto Mina não ratificaria a sua concessão, observou o conde.
+
+--N'esse caso retirar-nos-iamos, replicou Gressier apressadamente.
+
+O conde viu-se obrigado a conter aquelle ardor... d'abstenção,
+affirmando que não poderiam ser censurados por tomar a sorte como arbitro.
+
+Foi resolvido que o duello se efectuaria no bosque de Bolonha.
+
+O barão de Chazeuil indicou uma clareira, sobre o mappa.
+
+Encontrar-se-iam n'aquelle sitio pelas onze horas do dia seguinte.
+
+Gressier e Nobillet retiraram-se, porque nada mais tinha que ser combinado.
+
+Durante esse tempo Antonino fôra a casa do dr. Despujolles, que deu um
+salto ao saber que o visconde se batia com Lauretto.
+
+Depois, readquirindo a presença d'espirito, disse:
+
+--Lá estarei com os meus instrumentos, mas, não sei porque, estou
+convencido que elles não servirão ao meu amigo. Já o vi de sabre em
+punho; ia affiançar em como dará uma lição ao ajudante do professor
+d'esgrima. O que é necessario é que não se distraia.
+
+Antonino quiz que o doutor o acompanhasse a jantar em casa de Linda.
+
+Despujolles, porém, pretextando affazeres, mas na realidade por temer
+não estar sempre de bom humor, desculpou-se de não acceitar o convite.
+
+O visconde, que não desejava estar só com sua mulher, ao sahir de casa
+de Despujolles procurou e convidou dois amigos para jantar.
+
+Chegando a casa, disse a Laura:
+
+--Encontrei Heitor e Linage; jantarão comnosco.
+
+--Desejava antes jantar só comtigo.
+
+E depois, olhando fixamente para o marido, perguntou:
+
+--Nada de novo sobre Lauretto Mina?
+
+--Nada. O biltre nem bulio, respondeu Antonino.
+
+O jantar correu alegremente.
+
+A fatalidade, porém, quiz que, pelas dez horas da noite, quando o
+visconde acompanhava os dois amigos até á porta, Jacintha lhe entregasse
+um telegramma.
+
+Antonino voltou para junto da esposa.
+
+Ella viu o carimbo de Saint-Malo, e estremeceu.
+
+--É um telegramma de teu pae? perguntou.
+
+--Ah! sim, é verdade. Escrevi-lhe sobre a nossa proxima mudança de vida.
+Elle ficou satisfeitissimo e participa-me que vem ver-nos. Chega ámanhã,
+talvez...
+
+--Deixa ver... disse Laura estendendo a mão para o telegramma.
+
+--Curiosa!... respondeu elle, rindo.
+
+Fez uma bola com o papel, e lançou-o ao fogão.
+
+Laura pensou immediatamente:
+
+--Bate-se ámanhã com Lauretto Mina.
+
+Mas ao mesmo tempo reflectiu que coisa alguma impediria, que os seus
+pedidos e as suas lagrimas podiam dessocegar Antonino, e resolveu calar-se.
+
+--Em que pensas? perguntou-lhe elle.
+
+--Penso que teu pae será um magnifico avô.
+
+E não fallaram mais senão no pae e no filho.
+
+No dia seguinte o visconde levantou-se cedo.
+
+Ás oito horas estava prompto para sahir.
+
+Laura deu-lhe um beijo tranquillo, e limitou-se a recommendar-lhe:
+
+--Volta depressa, pensa em mim e n'elle!...
+
+O visconde calculou:
+
+--Não desconfia de nada!
+
+E Laura dizia para comsigo:
+
+--Não suppõe que eu adivinhei tudo!
+
+
+
+
+XXVIII
+
+O duello
+
+
+A entrevista entre o pae e o filho foi grave e terna.
+
+Antonino não dissimulou o perigo que corria, batendo-se com um
+adversario tão habil como pouco escrupuloso.
+
+O conde disse-lhe com toda a energia viril:
+
+--Como conheces o perigo e conservas, apesar da imminencia d'elle, toda
+a tua presença de espirito, tens por ti o maior numero de probabilidades.
+
+Antonino não necessitava recommendar Laura a seu pae.
+
+Participou-lhe apenas a feliz nova da gravidez da sua mulher.
+
+O conde abraçou o filho, dizendo:
+
+--Mais uma probabilidade a teu favor.
+
+O visconde entregou-lhe uma carta volumosa, especie de testamento de
+coração, que dirigia a sua mulher.
+
+O primeiro a chegar, um pouco antes das dez horas, foi Despujolles.
+
+O dr. não podia occultar a sua inquietação.
+
+Pouco depois chegaram as duas testemunhas e o seu aspecto socegado
+reanimou um pouco Despujolles.
+
+Antonino subiu para uma carruagem com seu pae.
+
+As testemunhas e o medico subiram para outra.
+
+O conde desejava assistir ao duello, ainda que conservando-se
+completamente estranho a elle.
+
+O dia estava ennevoado, e, para a estação, um pouco frio.
+
+Ligeira neblina envolvia as arvores. No espaço passava como que uma
+nuvem de melancholia.
+
+As duas carruagens chegaram á clareira destinada ao duello um pouco
+antes das onze horas.
+
+As testemunhas e o adversario d'Antonino não tinham chegado ainda. O
+conde não se apeiou.
+
+Apertou com força a mão do filho, quando Antonino desceu, e não
+pronunciou uma só palavra.
+
+Pouco depois, porém, quando o conde de Bauriac foi buscar os sabres, o
+velho, que tremia, não conseguiu entregar as armas á testemunha de seu
+filho, tanta era a sua commoção.
+
+A carruagem conduzindo Lauretto Mina, as testemunhas e o medico do
+theatro não se fez esperar.
+
+As quatro testemunhas approximaram-se com os chapeus nas mãos.
+
+Os dois adversarios olharam-se sem se cumprimentar.
+
+No rosto de Lauretto percebia-se uma alegria arrogante.
+
+O d'Antonino conservava-se impassivel e digno.
+
+Nobillet e Gressier, noviços e quasi incorrectos em assumptos d'aquella
+natureza, deixaram que Bauriac e Chazeuil fizessem o que entendessem.
+
+A escolha das armas foi tirada á sorte, conforme tinham convencionado.
+
+A sorte designou os sabres de Lauretto Mina.
+
+Depois de procederem á medição das laminas, o conde de Bauriac disse
+para os dois adversarios:
+
+--Podem conservar as luvas de passeio, se quizerem.
+
+Mas tanto Antonino como Lauretto tinham já descalçado as luvas.
+
+Despiram os sobretudos e os casacos.
+
+As quatro testemunhas tomaram os respectivos logares.
+
+--Vamos, meus senhores, disse Bauriac.
+
+Os dois adversarios cumprimentaram-se com os sabres, e cahiram em guarda.
+
+Nos primeiros minutos como que se tactearam indecisos.
+
+Depois deram a conhecer o jogo.
+
+Antonino, solido e como que de bronze, conservava-se evidentemente n'uma
+calculada defensiva.
+
+Prudente e desconfiado, seguia e vigiava o jogo de Lauretto,
+contentando-se com _parar_, rapido, mas tranquillo e frio, os botes do
+adversario.
+
+O brilho do seu olhar implacavel causava perturbações ao tenor.
+
+Lauretto, ao contrario do visconde, esgremia com extraordinaria presteza.
+
+Parecia desconcertar-se, e até por vezes se descobria.
+
+Simulava ataques imprudentes, mas coisa alguma fazia com que o visconde
+mudasse de tactica.
+
+O tenor, pouco depois, estava visivelmente cançado.
+
+Gotas de suor perlavam-lhe a fronte larga, onde os cabellos, d'um loiro
+pallido, ondeavam.
+
+O assalto durava já por vinte minutos, quando Bauriac disse:
+
+--Podem descançar, meus senhores.
+
+Lauretto vestiu o sobretudo.
+
+O visconde conservou-se em mangas de camisa, com os braços cruzados
+sobre o peito.
+
+Ao cabo de sete ou oito minutos, o barão de Chazeuil, olhando para
+Lauretto, disse-lhe:
+
+--Quando quizer.
+
+Ao segundo assalto, o tenor continuou não tendo vantagens sobre o visconde.
+
+Perguntava a si proprio se o plano d'Antonino não seria esgotar-lhe as
+forças, sem duvida menos resistentes do que as do athletico bretão. Mas
+se assim fosse o duello devia prolongar-se por muito tempo sem resultado
+definitivo, porque os momentos do descanço que as testemunhas
+concederiam aos combatentes bastavam para Lauretto se refazer.
+
+Depois de muitos minutos passados, foi ainda Bauriac quem disse:
+
+--Podem descançar.
+
+O segundo descanço foi apenas de cinco minutos.
+
+Lauretto tinha quasi a certeza que Antonino atacaria n'aquelle terceiro
+assalto, para pôr fim ao duello.
+
+Portanto começou a esgrimir com toda a presteza, como fizera ao principio.
+
+Dirigiu um bote ao visconde, mas Antonino _parou-o_ e _ripostou_ com
+energia.
+
+Depois conservaram-se por alguns segundos immoveis, espiando-se,
+tacteando os ferros, com sensivel crescimento d'irritação mutua.
+
+Repentinamente Antonino fez um movimento e cahiu a fundo, com a rapidez
+do raio.
+
+Lauretto _parou em prima_ e _ripostou_.
+
+Foi tão rapido o jogo do tenor que o visconde não teve tempo de _parar_
+e foi _tocado_..
+
+Ao mesmo tempo, porém, com um bote fortissimo, Antonino attingiu
+Lauretto, trespassando-o.
+
+O visconde cahiu desmaiado, e o tenor cahiu morto.
+
+Despujolles precipitou-se para Antonino, e descobriu-lhe o ferimento.
+
+--Justamente a duas polegadas da cicatriz feita por Pozzoli! disse o dr.
+
+O conde de Bizeux correu, afflicto, mas Despujolles gritou-lhe:
+
+--Socegue! d'esta vez o ferimento não é grave! D'aqui a oito dias está
+curado!
+
+Durante esse tempo o medico do theatro constatava a morte de Lauretto
+Mina, que Nobillet e Gressier, aterrados, transportaram para a carruagem
+que os conduzira.
+
+Duas horas depois a carruagem d'Antonino parava á porta da casa da rua
+de Boudreau.
+
+Despujolles foi o primeiro a descer, para prevenir Laura. Logo que
+abriram a porta, ella correu para o medico.
+
+Felizmente, porém, o aspecto de Despujolles indicava uma alegria
+extraordinaria.
+
+--Ah! Antonino está vivo, não é verdade? perguntou-lhe Laura.
+
+--O que!... Pois sabia?
+
+--Adivinhei... Mas diga-me, elle está ferido?...
+
+--Está, ligeiramente. Se assim não fosse eu não estaria alegre. Já vae ver.
+
+Alguns instantes depois, Laura, ajoelhada junto do leito em que fôra
+deitado Antonino, que tinha entre as suas as mãos de seu pae, dizia-lhe:
+
+--Meu querido Antonino!... é a terceira vez que expões a tua vida por
+minha causa!
+
+--E agora abandonarás tudo por mim?
+
+--Ah! sim! E não terás completamente apenas a esposa, terás tambem a mãe!
+
+
+FIM
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's O Romance d'uma cantora, by Alfredo Sirven
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE D'UMA CANTORA ***
+
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+Produced by Pedro Saborano
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+ <title>Romance d'uma Cantora, por Alfredo Sirven</title>
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+ <meta name="Publisher" content="Typographia do «Diario Illustrado»">
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of O Romance d'uma cantora, by Alfredo Sirven
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Romance d'uma cantora
+
+Author: Alfredo Sirven
+
+Translator: Salvador de Medonça
+
+Release Date: May 15, 2010 [EBook #32380]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE D'UMA CANTORA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
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+
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;"><img src="images/capa.png" alt="Capa do Livro" border="0" width="60%"></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 1.2em; color: white; background-color: black;"><small>NOVA</small><br>
+B<small>IBLIOTHECA</small> E<small>CONOMICA</small><br>
+<small>LEITURA PARA TODOS</small></p>
+
+<p style="font-size: 0.6em;">Travessa da Queimada, N.º 35<br>
+LISBOA</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">Alfredo Sirven</p>
+
+<p style="font-size: 1.4em;">O ROMANCE</p>
+
+<p>D'UMA</p>
+
+<p style="font-size: 1.8em;">CANTORA</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">TRAD. DE S. DE MENDONÇA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>PORTUGAL 100 réis</p>
+
+<p>BRAZIL 600 réis</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="font-size: small; margin: 10%; text-indent: 1em;">
+<p style="text-align:center;font-size: 1.2em;"><b>CORREIO DA EUROPA</b></p>
+
+<p style="text-align:center;"><b>O jornal mais antigo que de Portugal se destina
+ao Brazil</b></p>
+
+<p style="text-align:justify;">Completamente imparcial, sem se envolver na
+politica brazileira; com largas secções do movimento official portuguez, dos
+acontecimentos do estrangeiro e da vida nacional em todas as provincias,
+acompanhando com a gravura todo esse noticiario.</p>
+
+<p style="text-align:justify;">Vai (em 1897) no seu 18.º anno.</p>
+
+<p style="text-align:justify;">Nunca alterou os seus preços, não obstante a
+situação cambial.</p>
+
+<p style="text-align:center;"><b>ASSIGNATURAS</b></p>
+
+<p style="text-indent: 2em;"><em>NO BRAZIL:</em></p>
+
+<p>Anno, 5$000 réis fracos; Semestre, 3$000 réis</p>
+
+<p style="text-align:center;">Numero avulso, 200 réis</p>
+
+<p style="text-indent: 2em;"><em>EM PORTUGAL:</em></p>
+
+<p>Anno........... 2$000 réis</p>
+
+<p style="text-align:center;"><b>ANNUNCIOS</b></p>
+
+<p>Cada linha, na respectiva secção, 40 réis fortes. Na 1.ª pagina, 200 réis.
+</p>
+
+<p>Artigos e communicados contractam-se:</p>
+
+<p>EM LISBOA&mdash;Travessa da Queimada, 135.</p>
+
+<p>NO RIO DE JANEIRO&mdash;No escriptorio, Rua Sete de Setembro, n.º
+89&mdash;1.º andar.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{1}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.8em;">O ROMANCE D'UMA CANTORA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{2}</span></p>
+
+<div>
+<p style="text-align:center; font-size: 1.4em;">Nova Bibliotheca Economica</p>
+
+<p style="text-align:center;font-size: 1.2em;">LEITURA PARA TODOS</p>
+
+<p style="text-align:center;">O MAIOR SUCCESSO DE EDITORAÇÃO EM PORTUGAL!!!</p>
+
+<p style="text-align:center;"><big><strong>100 réis</strong></big> cada volume
+de 300 paginas, em media</p>
+
+<p style="text-align:center;">DOIS VOLUMES POR MEZ</p>
+
+<p style="text-align:center;">Nas provincias, 120 réis por volume, franco de
+porte.</p>
+
+<p style="text-align:center;">Aos revendedores, 20 por cento de commissão</p>
+
+<hr style="width:10%">
+
+<p style="text-align:center;">ROMANCES PUBLICADOS</p>
+
+<div style="font-size: small;">
+<p>1&mdash;Luiz Noir&mdash;A Estalagem Maldita, trad. de C. Dantas.</p>
+
+<p>2&mdash;Eugenio Chavette&mdash;Os companheiros do crime, trad. de A.
+Sarmento.</p>
+
+<p>3&mdash;Visconde Henri de Bornier&mdash;Romance d'um auctor dramatico, trad.
+de Portugal da Silva.</p>
+
+<p>4&mdash;Mauricio Drack&mdash;A Mestra, trad. de N. de Bulhão Pato.</p>
+
+<p>5&mdash;Edgar Montell&mdash;João das Galés&mdash;traducção de C. Dantas.</p>
+
+<p>6&mdash;Eugenio Chavette&mdash;Lili, Tútú e Babette&mdash;trad. de A.
+Sarmento.</p>
+
+<p>7&mdash;Arsenio Houssaye&mdash;Joanna d'Armaillac, trad. de H. de
+Oliveira.</p>
+
+<p>8&mdash;Paulo Féval&mdash;A rainha dos estudantes, trad. de S. de
+Mendonça.</p>
+
+<p>9&mdash;Mayne-Reid&mdash;Os rebeldes, trad. do inglez, por M. Leal.</p>
+
+<p>10&mdash;Victor Perceval&mdash;Uma mulher perigosa, trad. de S. de
+Mendonça.</p>
+
+<p>11&mdash;Mauricio Talmeyer&mdash;Um drama nas minas, trad. de A. Sarmento</p>
+
+<p>12&mdash;Heitor Malot&mdash;Lua de mel, trad. de Antonio Bandeira.</p>
+
+<p>13&mdash;Alfredo Sirven&mdash;O romance d'uma cantora, trad. de Segurado de
+Mendonça. </p>
+</div>
+
+<p style="text-align:center;">A SEGUIR:</p>
+
+<div style="font-size: small;">
+<p>14&mdash;F. Champsaur&mdash;Uma excentrica, trad. de Ruy da Cunha.</p>
+</div>
+<hr style="width:10%">
+
+<p style="text-align:center;"><b>ESCRIPTORIO: TRAVESSA DA QUEIMADA, 35</b></p>
+
+<p style="text-align:center;"><small>LISBOA</small></p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{3}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 1.2em;">Alfredo Sirven</p>
+
+<hr style="width: 60%;">
+
+<p style="font-size: 1.4em;">O ROMANCE</p>
+
+<p>D'UMA</p>
+
+<p style="font-size: 2em;">CANTORA</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">TRAD. DE S. DE MENDONÇA</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;"><img src="images/logo.png" alt="Logotipo do editor" border="0"></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">LISBOA</p>
+
+<p>1895</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{4}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr>
+
+<p style="text-align:center;">TYPOGRAPHIA DO «DIARIO ILLUSTRADO»<br>
+<small>35&mdash;Travessa da Queimada&mdash;35<br>
+LISBOA</small><span class="pn">{5}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h1><a name="SECTION0010">O ROMANCE D'UMA CANTORA</a></h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0011">I<br>
+A catastrophe</a></h2>
+
+<p>&mdash;Apaixonado por uma cantora... por uma mulher do theatro... eu?!...
+Ora adeus!... não pode ser!... Hei de ver isso!</p>
+
+<p>Assim monologava o visconde Antonino de Bizeux, acabando de vestir-se.</p>
+
+<p>E sorria desdenhosamente, tomando um aspecto arrogante, como se quizesse
+illudir-se sobre o estado do seu coração, persuadindo-se estar curado da paixão
+que sentira, nos ultimos tempos, despertar em si.</p>
+
+<p>&mdash;Hei de ver isso... hei de ver isso!... repetia,<span
+class="pn">{6}</span> procurando qualquer coisa pelo quarto, destrahidamente,
+porque nada lhe faltava, a não ser que chegasse a hora d'ir para a Opera.</p>
+
+<p>Os labios diziam: <em>hei de ver</em>, mas o coração tinha visto já.</p>
+
+<p>Amava Linda, a <em>estrella</em> do dia, a diva que, do ceu da Opera,
+scintillava sobre Paris fascinado.</p>
+
+<p>O visconde obtivera-se d'assistir ás ultimas quinze representações, fugindo
+assim á fascinação que a grande artista exercia sobre elle.</p>
+
+<p>Tratava, pelo afastamento, o começo da paixão, que o assustava.</p>
+
+<p>Durante esse tempo violentára-se, domára o coração com a grande força de
+vontade que possuia, e julgava-se curado, por isso.</p>
+
+<p>O theatro da rua Le Peletier annunciára, para aquella noite, um magnifico
+espectaculo, em beneficio das victimas d'um sinistro recente.</p>
+
+<p>Cantavam-se os <em>Huguenottes</em>, desempenhando Laura Linda, pela
+primeira vez, a parte de Valentina.</p>
+
+<p>Toda a primeira sociedade parisiense devia assistir á representação, porque
+no camaroteiro não restava um só bilhete.</p>
+
+<p>Antonino ia tornar a ver Linda triumphante, acclamada.</p>
+
+<p>Se procurava uma occasião para experimentar-se, não podia encontral-a
+melhor.<span class="pn">{7}</span></p>
+
+<p>&mdash;Irei aos <em>Huguenottes</em>! resolvera elle, depois de curta
+discussão comsigo mesmo. Sem duvida ficarei certo de que estou completamente
+curado, mas se, por acaso, ao ver Linda sentir a mesma impressão,
+simultaneamente dolorosa e suave, de que necessito defender-me, juro que ámanhã
+de manhã partirei para Saint-Malo, e que só no começo do inverno voltarei a
+Paris.</p>
+
+<p>E foi para a Opera, onde o esperava a sua cadeira d'assignatura, abandonada
+por mais de quinze dias.</p>
+
+<p>Trocou apertos de mão e palavras de cumprimento com alguns conhecidos que
+encontrou, e dois ou tres amigos disseram-lhe familiarmente:</p>
+
+<p>&mdash;Adeus, formoso bretão!</p>
+
+<p>Antonino era, efectivamente, um bello rapaz.</p>
+
+<p>A sua estatura d'athleta, admiravelmente proporcionada, conservava a mais
+completa linha d'elegancia.</p>
+
+<p>Louro, olhos d'um verde escuro, que semelhavam ser castanhos, era o
+verdadeiro modelo do celta moderno: alliava a força á distincção.</p>
+
+<p>O espectaculo teve o brilhantismo ordinario das solemnidades da Opera.</p>
+
+<p>Todos se recordam ainda d'aquella noite, que se tornou celebre por uma
+d'essas catastrophes que gravam uma data com traços indeleveis, mesmo na
+memoria d'esse grande esquecido que se chama Paris.<span class="pn">{8}</span>
+</p>
+
+<p>Quando Linda entrou em scena, Antonino estremeceu.</p>
+
+<p>Não se fita impunemente uma pessoa, que se julga inimiga, depois de se ter
+deixado de a ver por alguns dias.</p>
+
+<p>Ella cantou, e o visconde sentiu-se arrebatado julgando, comtudo, que fôra
+apenas a artista que o emocionára.</p>
+
+<p>Applaudiu-a delirantemente, como de resto todos os espectadores, porque
+Laura, afinal,&mdash;tinha de confessal-o,&mdash;possuia raro talento.</p>
+
+<p>Durante a representação declarou a si proprio que não vira Linda, apenas
+admirára Valentina.</p>
+
+<p>O tempo que o espectaculo durou passou-se para elle como se fosse presa de
+inconsciente embriaguez.</p>
+
+<p>Por fim a grande ovação rebentou, imponente, com a furia da emoção que
+trasborda.</p>
+
+<p>Linda foi completamente coberta de flores, e chamada repetidas vezes,
+apparecendo sempre sorridente, formosissima.</p>
+
+<p>Antonino sentiu um mal estar indefinido, e uma alegria doida.</p>
+
+<p>E conservava-se sentado na sua cadeira, n'uma immobilidade involuntaria,
+incapaz de levantar-se, de seguir a multidão que sahia.</p>
+
+<p>Passado algum tempo olhou em volta; a sala estava deserta.<span
+class="pn">{9}</span></p>
+
+<p>Dos corredores chegava um ruido confuso, produzido pelos ultimos
+espectadores, que sahiam.</p>
+
+<p>Que fazia elle alli, diante do panno cahido; sob o lustre meio apagado?</p>
+
+<p>Um porteiro foi convidal-o a retirar-se.</p>
+
+<p>Como não recebesse resposta e julgasse o visconde a dormir, saccudi-o.</p>
+
+<p>Antonino estremeceu novamente, e no primeiro momento sentiu desejos de
+desancar o porteiro.</p>
+
+<p>Depois, pensando melhor, levantou-se e dirigiu-se para a porta da sahida.
+</p>
+
+<p>Antes de transpôr o limiar, olhou uma ultima vez para o lado do palco, e
+retrocedeu, entrando novamente na platéa.</p>
+
+<p>Parecera-lhe ter visto um tenue fio de fumo sahir do soalho.</p>
+
+<p>Approximou-se, arrastando o porteiro, a quem disse, sobresaltado:</p>
+
+<p>&mdash;Olhe!... alli!...</p>
+
+<p>&mdash;Que desgraça!... Fujamos!...</p>
+
+<p>Não havia que duvidar.</p>
+
+<p>O fio de fumo engrossava progressivamente.</p>
+
+<p>Antonino correu para o corredor, dando o grito de alarme.</p>
+
+<p>Duas ou tres costureiras do theatro, que sahiam, suppuzeram-o doido, mas
+atraz do visconde corria o porteiro, gritando:<span class="pn">{10}</span></p>
+
+<p>&mdash;Fogo!... Fogo:!...</p>
+
+<p>As costureiras, repetindo aquelle grito, correram para fóra do theatro.</p>
+
+<p>Ao perceber que havia fogo no palco o visconde lembrou-se de Linda,
+immediatamente.</p>
+
+<p>A cantora devia estar ainda no seu camarim. Seria prevenida a tempo de se
+poder salvar?</p>
+
+<p>As portas que communicavam com o palco, estavam fechadas.</p>
+
+<p>O visconde bateu a uma, infrutiferamente, meio desvairado, e respirando já a
+muito custo por entre o espesso fumo, que augmentava, enchendo os corredores.
+</p>
+
+<p>Lembrou-se então da porta d'entrada para os artistas, que abria para a rua
+Drouot, na outra extremidade do edificio.</p>
+
+<p>Sahiu do theatro e deu volta, empurrando, na passagem, os bombeiros que
+chegavam.</p>
+
+<p>Chegado á porta, subiu, a dois e dois, os degraus da escada que conduzia aos
+camarins dos artistas.</p>
+
+<p>O fumo era ainda mais espesso d'aquelle lado.</p>
+
+<p>Um bico de gaz, conservado acceso por acaso, rompia a custo, com claridade
+amarellada, a densidade baça d'aquella especie de felpa cinzenta, que enchia os
+corredores, pouco a pouco.</p>
+
+<p>Sombras corriam para todos os lados, espavoridas,<span
+class="pn">{11}</span> sem responder ás perguntas afflictas de Antonino, sem as
+ouvir.</p>
+
+<p>Como nunca entrara no palco da Opera, o visconde não sabia onde ficavam os
+camarins.</p>
+
+<p>Bateu á primeira porta que encontrou, forçou-a violentamente, sem dar tempo
+a que lhe respondessem, e entrou.</p>
+
+<p>Uma mulher atravessava n'esse momento o corredor, gritando com desespero:
+</p>
+
+<p>&mdash;Soccorro!... soccorro!... A senhora está incommodada!</p>
+
+<p>&mdash;Quem?... Linda?... perguntou anciosamente Antonino.</p>
+
+<p>&mdash;Sim!... O medico... onde está o medico?</p>
+
+<p>&mdash;O camarim?... Diga-me onde é o camarim!</p>
+
+<p>Mas a mulher não ouviu a pergunta; desapparecera por entre o fumo, cada vez
+mais espesso.</p>
+
+<p>Repentinamente apagou-se o unico bico de gaz, que ainda ardia.</p>
+
+<p>O visconde ficou mergulhado n'uma escuridão pesada, completa, em que se
+desenvolvia um calor violento.</p>
+
+<p>Caminhou ás apalpadellas, batendo com as mãos nas paredes e chamando com voz
+forte:</p>
+
+<p>&mdash;Linda!... Linda!... Onde está?</p>
+
+<p>Mas ninguem lhe respondia.</p>
+
+<p>Continuou a caminhar, gritando sempre, cada vez<span class="pn">{12}</span>
+com mais força, e arrombando, enraivecido, todas as portas que encontrava.</p>
+
+<p>Repentinamente, pareceu-lhe ouvir um gemido fraco.</p>
+
+<p>Procurou nas algibeiras uma caixa de phosphoros, e, encontrando-a, accendeu
+um.</p>
+
+<p>A alguns passos de distancia viu uma porta aberta.</p>
+
+<p>Entrou por ella precipitadamente.</p>
+
+<p>Era o camarim de Linda. A cantora estava caida por terra, pallida, meio
+desmaiada.</p>
+
+<p>O phosphoro que Antonino tinha na mão, apagou-se.</p>
+
+<p>Com um outro, tentou accender o gaz, não conseguindo, felizmente o seu
+designio.</p>
+
+<p>&mdash;Onde estou eu? perguntou Laura de repente.</p>
+
+<p>&mdash;Venha, venha! respondeu o visconde com voz imperiosa.</p>
+
+<p>Guiado pela voz de Linda, approximou-se d'ella, tentando tomal-a nos braços
+para a conduzir.</p>
+
+<p>&mdash;Deixe-me, senhor, eu posso caminhar... Basta que me dê a mão.</p>
+
+<p>Pela porta aberta entrou no camarim uma claridade sinistra.</p>
+
+<p>Fumo azulado sahia por entre as fendas do soalho e subia até ao tecto, onde
+se immobilisava em camadas cinzentas.<span class="pn">{13}</span></p>
+
+<p>Antonino e Laura sahiram do camarim e embrenharam-se nos corredores, onde
+dançavam já as chammas do incendio.</p>
+
+<p>Apesar da natural turbação que o sinistro lhe causava, Antonino
+experimentava deliciosa sensação por ter na sua a mão de Laura.</p>
+
+<p>Subitamente uma lingua de fogo subiu verticalmente pela escada que dava
+sahida para a rua Drouot, lambendo, com poderosa tranquillidade, o tecto que
+lhe ficava superior. O calor abrazava.</p>
+
+<p>&mdash;É muito tarde para sahirmos por aqui, disse Antonino sem perder a
+presença de espirito. Necessitamos passar á platéa, atravessando o palco.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos por aqui, respondeu Laura. Desceremos a escada que conduz á
+scena. </p>
+
+<p>O visconde seguiu a cantora.</p>
+
+<p>Dirigiram-se para a escada de serviço.</p>
+
+<p>Por entre a claridade avermelhada, viram os bombeiros correndo em todas as
+direcções, d'archotes em punho, dando indicações uns aos outros, em voz breve.
+</p>
+
+<p>Fumo espesso, vindo de baixo, attingia toda a altura das abobadas, pela
+potencia do jacto, dilatando-se em silencio, como sopros quentes vomitados por
+boccas invisiveis.</p>
+
+<p>Do palco partia um ruido continuo de fornalha bem alimentada, que solta
+crepitamentos seccos.<span class="pn">{14}</span></p>
+
+<p>O incendio, que fomentava havia duas horas, invadiu, repentina e
+invencivelmente, a nave immensa da platéa.</p>
+
+<p>A chamara que sahiu pelo buraco do ponto inflammou o panno de bocca, que
+pouco depois misturava as suas cinzas ao fumo.</p>
+
+<p>O fogo chegou ás torrinhas, lambendo, na sua passagem, as decorações do
+salão, cujo hemicyclo dentro em pouco foi tomado.</p>
+
+<p>&mdash;Saiam todos! gritou um chefe de bombeiros aos seus homens; saiam
+todos! Nada temos que fazer aqui... O incendio é mais forte que nós!</p>
+
+<p>O soalho do palco queimava os pés dos que sobre elle caminhavam.</p>
+
+<p>&mdash;Venha depressa, minha senhora! supplicou Antonino. Necessitamos
+saltar para o espaço destinado á orchestra, e d'aqui a dois minutos será
+tarde.</p>
+
+<p>&mdash;Ainda cá está alguem? perguntou o chefe dos bombeiros, que ficara
+para traz.</p>
+
+<p>&mdash;Aqui, estão aqui duas pessoas, respondeu o visconde. Ajude-me a
+salvar uma mulher.</p>
+
+<p>O bombeiro saltou da platéa para o palco e disse a Antonino:</p>
+
+<p>&mdash;Eleve-se a pulso até esse camarote de bocca; logo que lá esteja, eu
+levantarei esta senhora, por fórma que possa agarral-a.</p>
+
+<p>O visconde seguiu o conselho, e depois, encostando<span
+class="pn">{15}</span> o peito na borda do camarote, estendeu os braços para
+Laura, que, elevada pelo bombeiro, poude agarrar-se ao seu salvador.</p>
+
+<p>Logo que os viu no camarote, o bombeiro disse-lhes:</p>
+
+<p>&mdash;Agora fujam depressa, porque...</p>
+
+<p>O desgraçado não acabou.</p>
+
+<p>O soalho, completamente carbonisado, cedeu ao peso do corpo do homem, que
+repentinamente se sentiu envolvido pelas chammas.</p>
+
+<p>&mdash;Soccorro!... gritou elle. Quem me acode!...</p>
+
+<p>Como as taboas não tinham quebrado completamente, conseguiu depois de muitos
+esforços, retirar o corpo d'aquella solução de continuidade em que cahira, e
+muito queimado, approximou-se do camarote onde ainda estavam Laura e o
+visconde, a quem estendeu os braços, implorando salvação.</p>
+
+<p>Mas a chamma seguiu-o, incendiando-lhe o fato.</p>
+
+<p>Antonino inclinou-se novamente para o palco, estendendo-lhe as mãos.</p>
+
+<p>&mdash;Ajude-me!... não me abandone!... dizia o infeliz.</p>
+
+<p>E deligenciava chegar até á mão do visconde, que por fim logrou agarrar.</p>
+
+<p>De repente, a taboa em que se firmava, quebrou e á perda inesperada
+d'aquelle appoio fez com que Antonino perdesse o equilibrio.<span
+class="pn">{16}</span></p>
+
+<p>Laura percebeu o perigo; lançou os braços, tornados fortes pela imminencia
+do perigo, em volta do tronco do visconde, puchando por elle com força.</p>
+
+<p>Apesar das queimaduras o fazerem soffrer bastante, Bizeux esforçou-se por
+puchar para o camarote o infeliz bombeiro, que soltava gritos roucos.</p>
+
+<p>Subitamente o homem fez um movimento brusco, e o visconde sentiu
+escorregar-lhe da mão o pulso do desditoso, que cahiu no meio d'aquella
+fornalha monstro.</p>
+
+<p>O desgraçado soltou ainda estas palavras: Meus queridos filhos!</p>
+
+<p>E mais nada!</p>
+
+<p>Tomado d'espantoso horror, Antonino voltou-se para Laura.</p>
+
+<p>A cantora perdera os sentidos.</p>
+
+<p>O visconde estava meio asphixiado.</p>
+
+<p>Parecia-lhe que respirava fogo.</p>
+
+<p>Nas pupillas dilatadas e quasi sem vista, sentia milhares de picadas
+d'agulhas.</p>
+
+<p>Envolveu a bocca de Laura com uma mantilha, e elle proprio tomou entre os
+dentes o lenço d'assoar, cerrando os labios como que para preservar do oxido de
+carbone, desenvolvido pelo incendio, os seus robustos pulmões.</p>
+
+<p>Em seguida, chamando a si toda a sua energia, levantou nos braços a cantora,
+como se ella fosse uma<span class="pn">{17}</span> creança, e sahiu do
+camarote, percorrendo o corredor.</p>
+
+<p>Aquella parte do theatro era-lhe conhecida.</p>
+
+<p>O incendio desenvolvia-se no salão, com toda a intensidade.</p>
+
+<p>O lustre abateu, produzindo ruido enorme.</p>
+
+<p>A grande escadaria estava ainda praticavel.</p>
+
+<p>O visconde desceu por ella apressadamente, com as sobrancelhas e os cabellos
+queimados.</p>
+
+<p>Um minuto depois chegava á rua, acclamado pela multidão enthusiasmada.</p>
+
+<p>N'esse instante abateu o tecto do salão.</p>
+
+<p>Pelo espaço espalhou-se infinita quantidade de faulhas.</p>
+
+<p>O incendio pavoroso, sacudindo o seu pennacho de fumo ardente, polvorisado
+de faiscas, alumiou sinistramente a cidade.</p>
+
+<p>A claridade da lua extinguiu-se ante a intensa vermelhidão das chammas.</p>
+
+<p>Ao longe, sobre os telhados, o ondeado das labaredas, que se distanciavam em
+espiraes phantasticas, fazia dançar as chaminés uma dança macabra, no espaço
+afogueado.<span class="pn">{18}</span> <span class="pn">{19}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0012">II<br>
+Antonino de Bizeux</a></h2>
+
+<p>Antonino de Bizeux residia em Paris havia apenas dezoito mezes.</p>
+
+<p>Até então vivera sempre na Bretanha, com seu pae, no seu palacio de
+Saint-Malo, ou, na epoca da caça, no castello que possuia proximo de Rascoff.
+</p>
+
+<p>O visconde viajára muito.</p>
+
+<p>Conhecia toda a Europa e as costas mediterraneas da Asia e da Africa.</p>
+
+<p>Entrára na vida parisiense conservando todas as suas illusões, mas possuido
+do ardente desejo de se humanisar, como elle dizia, de se tornar distincto na
+distincta sociedade, de que passava a fazer parte.<span class="pn">{20}</span>
+</p>
+
+<p>Caracter firme, sincero, honrado&mdash;honrado até á ingenuidade&mdash;os
+seus pensamentos eram purissimos, e na physionomia transparecia-lhe sempre o
+que pensava.</p>
+
+<p>Na sociedade que frequentava, o visconde produzira primeiro o effeito d'um
+phenomeno, prestando-se ao desfructe, sem dar por isso.</p>
+
+<p>Depois, pouco a pouco, fôra-se limpando da sua simplicidade primitiva e
+tomando pé na encapellada torrente parisiense.</p>
+
+<p>Comtudo conservava o fundo de lhaneza natural, que lhe dava um certo cunho
+d'originalidade, e lhe valia um verdadeiro successo junto das mulheres, as
+eternas curiosas.</p>
+
+<p>Tinha poucos ou nenhuns amigos.</p>
+
+<p>O seu nome e a sua fortuna, porém, fizeram com que adquirisse innumeros
+conhecimentos na alta roda, onde zombavam, apesar de o estimarem, d'esse
+retardado da civilisação, a quem chamavam <em>formoso bretão</em> e
+<em>selvagem</em>.</p>
+
+<p>Selvagem era elle seguramente, não porque lhe repugnasse o prazer, mas
+porque, entregando-se aos gosos que constituem meros passatempos, conservava
+puro o coração.</p>
+
+<p>Sobre o ponto <em>mulheres</em>, absolutamente sem importancia para homens
+que frequentavam a sociedade em que elle vivia, o visconde pensava e
+procedia<span class="pn">{21}</span> contrariamente aos seus companheiros,
+porque elles tinham os seus amores, e Antonino só poderia ter um amor.</p>
+
+<p>Em poucos mezes saboreára todos os prazeres possiveis sem se embriagar;
+estivera exposto a todas as seducções sem ser seduzido.</p>
+
+<p>Não pertencia ao numero infinito de inactivos, que, segundo a phrase do seu
+compatriota Chateaubriand, atravessam a vida bocejando, e no seu dolente
+aborrecimento só teem uma ambição e um sonho: divertirem-se.</p>
+
+<p>O visconde possuia solida instrucção, fallava duas ou tres linguas; era um
+litterato e um <em>dilettante</em>.</p>
+
+<p>Amava a arte sob todas as suas variadas fórmas, mas sobretudo era apaixonado
+pela musica.</p>
+
+<p>Por essa razão tornou-se dentro em pouco um dos mais assiduos
+<em>habitués</em> da Opera.</p>
+
+<p>A sua cadeira raras vezes ficava vazia.</p>
+
+<p>N'essa epoca, como já dissemos, brilhava na Opera Laura Linda, estrella de
+primeira grandeza que eclipsava todas as outras.</p>
+
+<p>Antonino era ardente admirador da diva.</p>
+
+<p>Adorava-lhe a voz e a expressão maravilhosa do canto.</p>
+
+<p>Mas, coisa extraordinaria, passára muito tempo sem reparar que Laura era
+formosissima.</p>
+
+<p>Poderia passar dias inteiros a admirar a grande<span class="pn">{22}</span>
+artista interpretando as obras dos mestres, que, se a encontrasse na rua, não
+voltaria a cabeça para a seguir com o olhar um minuto mais do que a qualquer
+outra mulher.</p>
+
+<p>De resto, a sua admiração pela cantora jámais se manifestára de fórma a dar
+nas vistas.</p>
+
+<p>Nem um <em>bouquet</em> offerecido, nem o menor transporte de enthusiasmo.
+</p>
+
+<p>Limitava-se a applaudil-a, semelhando ser egoista do seu enlevo.</p>
+
+<p>Os conhecidos commentavam a seu modo a assiduidade do visconde nas
+representações em que Laura tomava parte, e o recolhimento quasi extatico
+d'elle a partir do momento em que a cantora entrava em scena.</p>
+
+<p>Todos consideravam Antonino apaixonado pela diva.</p>
+
+<p>A primeira vez que uns amigos, por brincadeira, lhe disseram que o julgavam
+louco por Laura, elle admirou-se, mas nem tentou defender-se, convencido de que
+os seus interlocutores não comprehendiam a que sentimento obedecia.</p>
+
+<p>Limitou-se a concordar, sorrindo, que as apparencias justificavam as
+suspeitas.</p>
+
+<p>Mas a brincadeira produziu no visconde o effeito d'uma revelação.</p>
+
+<p>A datar d'esse dia consultou o coração, espiando<span class="pn">{23}</span>
+todos os variados sentimentos que experimentava, perguntando a si proprio se os
+amigos não tinham, antes d'elle e sem que de tal desconfiasse, dado o nome
+exacto á attracção que Laura Linda exercia sobre elle.</p>
+
+<p>A diva, pelo seu lado, reparára n'aquelle espectador que todas as noites, da
+sua cadeira, a seguia com olhar ardente.</p>
+
+<p>De resto, tinham-lhe apontado o visconde como uma das suas victimas.</p>
+
+<p>Deixára que lhe contassem tudo que constava do caracter do seu adorador, da
+reputação de selvageria de que elle gosava, mas não admittira que Antonino
+estivesse apaixonado por ella.</p>
+
+<p>Fosse intenção ou simples desejo de ser admirada por aquella fórma, Laura
+quasi adivinhava o que o visconde sentia, e agradecia-lhe intimamente a reserva
+em que elle se conservava, reserva que desagradaria a qualquer outra.</p>
+
+<p>Uma noite,&mdash;é possivel que acabasse d'ouvir fallar d'elle,&mdash;como
+tinha d'entrar em scena lentamente e em silencio, Laura fixou o visconde por
+muito tempo.</p>
+
+<p>Áquelle olhar, todos os admiradores da diva se sentiram supplantados pelo
+formoso bretão.</p>
+
+<p>O visconde, porém, longe de ficar satisfeito, parecia contrariado.<span
+class="pn">{24}</span></p>
+
+<p>É provavel que a cantora percebesse isso, porque muitas vezes durante a
+noite olhou para o visconde, constatando sempre que o seu olhar, apesar
+d'inoffensivo, produzia n'elle a mesma impressão desagradavel.</p>
+
+<p>Até d'uma occasião o visconde levantou os hombros n'um movimento rapido,
+como irritado por ella se esquecer por momentos do papel que desempenhava.</p>
+
+<p>Ao voltar ao seu camarim, Laura riu quando uma amiga lhe fallou d'Antonino.
+</p>
+
+<p>&mdash;Apaixonado, aquelle?... Está enganada, disse ella. Será, quando
+muito, um amador, e com certeza um homem extraordinario. Ha bocado olhei
+algumas vezes para elle, que quasi protestou por eu me desviar do meu papel!</p>
+
+<p>N'essa noite Antonino sahiu do theatro descontente comsigo e com a diva.</p>
+
+<p>Parecera-lhe que ella se mostrara inferior ao talento que possuia, e
+zangou-se comsigo proprio: por julgar ter sido a causa das distracções em que a
+cantora incorrera.</p>
+
+<p>Entrevira pela primeira vez a mulher através da artista.</p>
+
+<p>Entrou em casa mal humorado, e por muitas horas a imagem de Laura passou
+ante o seu olhar sonhador, brilhante como em scena e fixando-o sempre.<span
+class="pn">{25}</span></p>
+
+<p>E os olhos fecharam-se-lhe, ao adormecer, suppondo estar ainda admirando a
+diva.</p>
+
+<p>Pela manhã assaltou-o uma preoccupação.</p>
+
+<p>Porque olhara Laura para elle?</p>
+
+<p>Porque infringira a arte, porque commettera uma falta, a Linda, a
+impeccavel?</p>
+
+<p>Á medida que reflectia, o ser palpavel, a belleza material, a mulher,
+absorvia-lhe imaginação.</p>
+
+<p>Quando deu por isso encolerisou-se, e, só no seu quarto, disse alto,
+despeitado, quasi furioso:</p>
+
+<p>&mdash;Não quero!</p>
+
+<p>No dia seguinte foi para Opera como de costume, mas inquieto, perplexo, e
+pensando não voltar lá se, á entrada de Laura, sentisse a mais ligeira
+commoção.</p>
+
+<p>A diva entrou, saudada pelos applausos dos seus adoradores.</p>
+
+<p>Depois do primeiro acto Antonino sorriu dos seus terrores.</p>
+
+<p>Por mais que se interrogasse durante todo o tempo que o acto durára, só
+encontrara em si o simples melómano.</p>
+
+<p>Comtudo a sua tranquilidade não era obsoluta.</p>
+
+<p>Apesar de tudo tremia a cada instante que ella o fixasse.</p>
+
+<p>A Linda não tivera a mais ligeira distracção, conservara-se sempre a artista
+superior que nem um<span class="pn">{26}</span> segundo se esquece da
+personagem que desempenha, e nem de passagem o seu olhar encontrara o do
+visconde.</p>
+
+<p>Esta ultima circumstancia não passou despercebida a Antonino, e muitas vezes
+lhe occorreu, primeiro sem o impressionar, e depois produzindo-lhe uma sensação
+desagradavel, que não estava longe do despeito. A diva n'essa noite foi
+surprehendente.</p>
+
+<p>Quando, no fim do ultimo acto, o applauso irrompeu, unanime, só Antonino não
+deu o seu contingente de palmas ou flores.</p>
+
+<p>Assistiu á ovação contrariado, franzindo as sobrancelhas descontente, como
+se soffresse com aquelle ligitimo triumpho da cantora.</p>
+
+<p>Entre outros ramos, cahiu aos pés da diva um, de lilazes brancos, lançado ao
+proscenio por um espectador que estava proximo d'Antonino.</p>
+
+<p>Porque apanhou Laura aquelle ramo, primeiro que qualquer outro?</p>
+
+<p>E porque, ao apanhal-o, olhou e sorriu para o espectador que lh'o
+offerecera?</p>
+
+<p>Qualquer explicaria o caso, dizendo comsigo que o lilaz seria a flor
+preferida pela diva.</p>
+
+<p>O visconde, porem, é que não considerou explicavel o facto, e levantou-se da
+sua cadeira, bruscamente, sahindo apressado para os corredores e seguindo para
+casa sem demora.<span class="pn">{27}</span></p>
+
+<p>N'aquella noite teve febre.</p>
+
+<p>No dia seguinte, ao ouvir um amigo fallar de Linda, declarou que ella
+declinava, que dera já o que tinha a dar, e que não tardaria em chegar a estado
+de só poder ser contratada para theatros d'operetta.</p>
+
+<p>Por si, resolvera passar as noites na Comedia Franceza, porque, afinal, a
+musica, era uma arte secundaria.</p>
+
+<p>Com effeito o visconde não appareceu na Opera durante duas semanas.</p>
+
+<p>Amava Laura.</p>
+
+<p>Como nunca amára, não comprehendia a razão do seu mal estar.</p>
+
+<p>Amava-a; os proprios esforços que fazia para estrangular a voz do coração
+eram d'isso prova irrefutavel.</p>
+
+<p>Amava-a, e sentia-se ingenuo, pateta, simples.</p>
+
+<p>Pois não praticára a tolice de estremecer de raiva por um estranho lançar á
+diva um ramo de que ella gostara?</p>
+
+<p>Amava-a... mas, em summa, tinha ainda força de vontade.</p>
+
+<p>Saberia asphixiar o mal que apenas despontava!</p>
+
+<p>Estava resolvido: não iria mais á Opera, não tornaria a ver a Linda, porque,
+custasse o que custasse, tinha de vencer aquella paixão estupida!</p>
+
+<p>Quinze dias depois de proceder pela fórma que a<span class="pn">{28}</span>
+si mesmo impozera, convenceu-se de que podia voltar á Opera sem perigo.</p>
+
+<p>Tinha a convicção de que se vencera; nada o impedia de voltar a assistir ao
+seu divertimento predilecto.</p>
+
+<p>De resto, desejava colher a prova evidente da cura.</p>
+
+<p>Nem um só doente ha que, depois de estar por muito tempo preso no quarto,
+não se sinta impaciente d'affrontar o ar livre, d'experimentar as suas forças.
+</p>
+
+<p>Foi n'essas disposição confiantes que o visconde assistiu ao espectaculo da
+Opera, depois do qual se deu o fatal sinistro que narrámos no capitulo
+anterior.<span class="pn">{29}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0013">III<br>
+Laura Linda</a></h2>
+
+<p>Na lucta contra o amor nascente, que se travava no coração d'Antonino, o
+maior perigo, mas ao mesmo tempo o maior attractivo, era, mais do que o talento
+de Laura e até mais do que a peregrina belleza da cantora, o que o visconde
+sabia, porque todos o diziam, da vida e do passado da diva.</p>
+
+<p>Tinha então vinte e seis annos e havia sete que cantava em theatros.</p>
+
+<p>No apogeu da gloria, envolta n'uma atmosphera d'adorações e de sollicitações
+de toda a natureza, a Linda regeitara vinte propostas de casamento, e ninguem
+jamais lhe conhecera amante.<span class="pn">{30}</span></p>
+
+<p>A historia simples da sua vida explicava esse caso pouco vulgar.</p>
+
+<p>Laura era hespanhola.</p>
+
+<p>Seu pae, o celebre violinista José Marcia, descendia d'uma familia illustre
+porque era o ultimo representante dos condes de Marcia.</p>
+
+<p>Nunca usara o titulo, do qual raramente fallava e sempre com uma especie de
+despreso.</p>
+
+<p>Para elle só existia a arte, e considerava um grande artista superior a um
+rei.</p>
+
+<p>De resto, era á arte que tudo devia, porque a antiga casa dos Marcias, era,
+desde muito tempo, uma casa arruinada.</p>
+
+<p>O pae de José Marcia colhera os ultimos restos da fortuna patrimonial, mas a
+grande paixão que tivera pela musica tudo lhe levára.</p>
+
+<p>O conde de Marcia suppunha-se um verdadeiro genio para a composição. O pouco
+dinheiro que possuia gastava-o na publicação das suas obras.</p>
+
+<p>Vendeu a ultima quinta para fazer representar com luzimento, na Opera de
+Madrid, uma partitura de que era auctor, e com a qual contava assegurar a sua
+reputação e refazer a sua fortuna.</p>
+
+<p>A opera, porém, cahiu desastradamente na primeira noite em que subiu á
+scena.</p>
+
+<p>Por felicidade seu filho José, a quem elle communicára<span
+class="pn">{31}</span> o amor pela musica, tinha n'essa epocha vinte e cinco
+annos e gosava já de grande e merecida reputação de violinista.</p>
+
+<p>Foi o filho que velou pela sustentação do pae.</p>
+
+<p>O velho melomano apenas tinha uma idéa fixa: desforrar-se.</p>
+
+<p>Compoz ainda duas ou tres operas; e a muito custo conseguiu o filho que elle
+as guardasse n'uma gaveta, para que a apresentação d'ellas ao publico não lhes
+levasse mais algum dinheiro.</p>
+
+<p>Comtudo José Marcia fingia admirar as composições paternas, por fórma que o
+pobre velho morreu cheio d'illusões, legando-lhe confiadamente a realisação da
+sua gloria posthuma.</p>
+
+<p>Não foi, porém, o pae, mas o filho quem conquistou a gloria dia a dia, a que
+poderia ter junto a riqueza, se não houvesse uma coisa que elle despresasse
+mais do que a nobreza: o dinheiro.</p>
+
+<p>Ganhou quantias importantissimas, mas como de ordinario as suas despezas
+egualavam as receitas, quando não as ultrapassavam, é claro que jamais poderia
+juntar um pequeno capital.</p>
+
+<p>E comtudo não esbanjava o dinheiro; apenas, como elle dizia rindo, não sabia
+tratar dos seus negocios.</p>
+
+<p>Dava concertos em extremo lucrativos, mas deixava que o emprezario
+embolsasse a maior parte dos ganhos.<span class="pn">{32}</span></p>
+
+<p>Era auctor d'um methodo celebre e gosava d'incontestada e incontestavel
+reputação como professor, mas os seus discipulos predilectos não era os que
+pagavam melhor, eram os que possuiam mais habilidade, e que d'ordinario não lhe
+pagavam.</p>
+
+<p>Vem a proposito, contar uma historia de que riu toda a gente em Madrid.</p>
+
+<p>Um banqueiro riquissimo incumbiu José Marcia de leccionar particularmente um
+filho, retribuindo-o principescamente.</p>
+
+<p>Por infelicidade não só o rapaz não tinha tendencia para a musica, como
+tambem era um preguiçoso de primeira ordem, que só pegava no violino durante o
+tempo das lições.</p>
+
+<p>Ao cabo d'um mez, José Marcia, impacientado, participou ao pae do seu
+discipulo que as suas occupações não lhe promettiam continuar com a
+leccionação. O banqueiro, ao receber este aviso, limitou-se a duplicar a
+remuneração das lições.</p>
+
+<p>Marcia, tentado pelo lucro, continuou.</p>
+
+<p>Mas a tentação durou apenas uma semana.</p>
+
+<p>Finda ella, o distincto violinista escreveu o seguinte ao banqueiro:</p>
+
+<p>«Termino de vez com as lições, porque seu filho é extraordinariamente
+estupido.»</p>
+
+<p>Vivia ainda o pae quando Marcia casou com a que devia ser mãe de Laura.<span
+class="pn">{33}</span></p>
+
+<p>Era filha d'um relojoeiro que vivia no mesmo predio.</p>
+
+<p>Á falta de dote possuia rara belleza.</p>
+
+<p>Elle estava longe de ser bello, e fortuna não a tinha tambem, mas, como o
+rouxinol na primavera, conquistou o amor da que devia ser sua mulher com o
+canto surprehendente do seu violino.</p>
+
+<p>A joven passava horas a escutal-o, embevecida.</p>
+
+<p>O artista pediu em casamento aquella sua sincera admiradora, que foi esposa
+dedicada, e a melhor e a mais terna das mães.</p>
+
+<p>Laura foi creada pela mãe na adoração do pae, e pelo pae na adoração da
+arte.</p>
+
+<p>Possuindo raros dotes vocaes, o pae fez d'ella uma artista completa.</p>
+
+<p>Quiz tambem ensinar-lhe a tocar violino, mas ella tinha um outro instrumento
+melhor: a voz.</p>
+
+<p>A mãe jamais consentiu que Laura entrasse para o theatro.</p>
+
+<p>A sua prudencia inquieta, que o marido alcunhava de burguezismo, considerava
+o palco como um logar de perdição.</p>
+
+<p>Parecia-lhe que a filha, a quem transmittira toda a sua bellesa,
+renunciaria, apparecendo no proscenio, a tudo o que havia de honesto e feliz na
+vida d'ella: o amor ao lar domestico, o amor d'esposa e o amor de mãe.<span
+class="pn">{34}</span></p>
+
+<p>Mas antes de Laura completar desoito annos, falleceu a mãe extremosa,
+acontecimento que por muito tempo acabrunhou o violinista e a filha.</p>
+
+<p>Alguns mezes depois da morte da mãe, Laura foi convidada a cantar n'um
+concerto de beneficencia.</p>
+
+<p>Obteve um verdadeiro successo.</p>
+
+<p>Mas os applausos de que foi alvo, não lhe causaram tanto enthusiasmo como ao
+pae.</p>
+
+<p>José Marcia procurou e encontrou occasião de renovar o triumpho obtido por
+Laura.</p>
+
+<p>A fina intuição de que era dotado deixava-lhe antever que a filha e
+discipula seria uma artista de primeira ordem.</p>
+
+<p>Aos desanove annos, Laura debutou na Opera de Madrid.</p>
+
+<p>A sua voz, porém, não attingira ainda o completo desenvolvimento.</p>
+
+<p>O pae assim o comprehendeu, e durante dois annos não consentiu que a filha
+cantasse, senão raras vezes.</p>
+
+<p>Findos esses dois annos Laura partiu para a Italia, acompanhada do seu
+natural emprezario.</p>
+
+<p>Conservou-se tres annos no Scala, de Milão, onde, sob a direcção de Pozzoli,
+aperfeiçoou o methodo de canto, adquirindo, sobre o seu nome de theatro, a
+Linda, uma enorme reputação, que augmentava todos os dias.</p>
+
+<p>Do Scala foi contractada para a Opera de Paris,<span class="pn">{35}</span>
+porque Laura fallava e cantava, com a mesma pureza d'accentuação e a mesma
+nitidez d'articulação, o hespanhol, o italiano e o francez.</p>
+
+<p>Havia já dois annos que ella estava em Paris, e o seu talento e a sua
+formosura tinham encantado por completo os frequentadores da Opera.</p>
+
+<p>O pae, que a acompanhára á capital da França, morreu tres mezes depois de
+chegarem.</p>
+
+<p>Felizmente deixava a filha no apogeu da gloria.</p>
+
+<p>E só gloria, porque dinheiro não tinha Laura quando o pae falleceu, nem elle
+lh'o deixou.</p>
+
+<p>José Marcia legara á filha o perfeito abandono pelas coisas praticas que
+durante a vida sempre tivera.</p>
+
+<p>Por mais vantajosos que fossem os contractos que assignava, Laura apenas
+conseguia não ter dividas.</p>
+
+<p>E não era ella quem gastava as suas receitas, mas consentia que os creados
+gastassem como lhes aprouvesse.</p>
+
+<p>&mdash;Sei contar o meu tempo, dizia a Linda rindo, mas nunca saberei contar
+o meu dinheiro!</p>
+
+<p>Comtudo, se no seu orçamento não havia ordem, a sua vida era ordenadissima.
+</p>
+
+<p>A recordação da mãe adorada estava sempre presente a Laura, e guardava-a,
+como se fosse a propria mãe em pessoa.</p>
+
+<p>Resolvera seguir á justa uma vida irreprehensivel, e cumpriu o compromisso
+tomado.<span class="pn">{36}</span></p>
+
+<p>De resto, Laura possuia a verdadeira honestidade, a que é indulgente mesmo
+com as fraquezas que repudia.</p>
+
+<p>Era jovial com os seus companheiros de theatro, mas sabia fazer-se
+respeitar.</p>
+
+<p>Fôra cortejada por muitos homens; soubera, porém, com rara habilidade,
+repellir suavemente tanto os que lhe fallavam de casamento, como os que só lhe
+fallavam d'amor.</p>
+
+<p>Jamais dissera que não se casaria, mas a primeira condição que estava
+resolvida a impor ao noivo, se um dia o tivesse, era conservar-se no theatro, o
+que fazia diminuir as probabilidades d'encontrar marido rico.</p>
+
+<p>Pozzoli, o director do Scala de Milão, que na epoca em que se passa esta
+historia dirigia a Opera Italiana em Paris, pedira a mão de Laura ao pae da
+cantora.</p>
+
+<p>Mas, além de ter uma reputação equivoca, Pozzoli contava evidentemente,
+casando com a Linda, possuir sem concorrencia e sem despendio, uma
+<em>primadona</em> de primeira ordem.</p>
+
+<p>Dizia-se até que seguia esse systema de ha muito, amancebando-se com varias
+das suas contractadas.</p>
+
+<p>Casando com Laura, Pozzoli faria diminuir as difficuldades com que luctava
+como emprezario.</p>
+
+<p>Em Milão, um compositor de talento apaixonou-se<span class="pn">{37}</span>
+doidamente pela diva, e, ainda que fosse pobre, não era de certo o interesse
+que o movia a dar-lhe o seu nome e a sua vida.</p>
+
+<p>Laura, porém, não sentia a mais insignificante parcella d'amor pelo que
+tanto a adorava, e como elle comprehendesse essa triste verdade, sahiu de Milão
+para Florença.</p>
+
+<p>O numero dos que apenas procuravam o amor de Laura era superior aos que
+desejavam casar com ella.</p>
+
+<p>Mas perdiam o tempo e o trabalho.</p>
+
+<p>Um d'elles, o tenor ligeiro Lauretto Mina, era um bello homem, muito
+infactuado, mas a quem poucas mulheres resistiam.</p>
+
+<p>Fôra ajudante d'um professor d'esgrima.</p>
+
+<p>Estava escripturado por Pozzoli na Opera Italiana.</p>
+
+<p>Possuia voz extensa e bem timbrada, mas não sabia servir-se d'ella, e era
+sufficientemente preguiçoso para poder modificar-se, estudando.</p>
+
+<p>Entretanto considerava-se o primeiro tenor do mundo, e dizia-o
+imperturbavelmente.</p>
+
+<p>Desde a primeira vez que viu a Linda, declarou-se apaixonado por ella.</p>
+
+<p>Mas Linda, com a natural finura de mulher, percebeu dentro em pouco que
+especie d'homem era Lauretto e passou a tratal-o, contrariamente á forma<span
+class="pn">{38}</span> pela qual procedia com todos os outros collegas, com uma
+frieza que bem se podia alcunhar de desdem.</p>
+
+<p>Este procedimento de Linda fez com que Lauretto, vaidoso em extremo, se
+possuisse d'occulta irritação, que mesclava d'odio o amor, ou antes o desejo,
+que sentia pela cantora.</p>
+
+<p>Entretanto teve a força de vontade sufficiente para não manifestar o seu
+descontentamento, declarando até aos amigos, com ironico despreso, que se
+inclinava ante a virtude de Laura, a quem elle chamava <em>Casta diva</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Sou tão preguiçoso! dizia o tenor no <em>foyer</em> dos artistas. Não
+tenho paciencia para sustentar um prolongado cerco a uma mulher tão bem
+defendida. Cedo o logar a qualquer outro assaltante de mais solida
+perseverança. Renuncio a ser o primeiro, mas juro por Venus e pelo Amor, que
+serei o segundo.</p>
+
+<p>Um outro apaixonado, mais amoldavel, foi Remissy, violinista hungaro, um
+original, segundo uns, e um doido segundo outros, mas um grande, um verdadeiro
+artista.</p>
+
+<p>Remissy foi a Milão para ouvir José Marcia, de quem elle admirava o talento,
+apesar de deferir muito do que possuia o violinista hungaro.</p>
+
+<p>Viu Laura, e, como era facilmente impressionavel, inflammou-se d'enthusiasmo
+pelo talento e pela belleza da cantora, simultaneamente.<span
+class="pn">{39}</span></p>
+
+<p>A Linda, porém, tratou-o com meiguice e alegria, a que não era estranho um
+certo desdem, e todo o fogo de Remissy extinguiu-se subitamente.</p>
+
+<p>&mdash;Tem cem vezes razão! dizia-lhe elle. Não pode tomar a serio um maluco
+como eu. Além d'isso, eu não estou perfeitamente certo de que não me enganasse,
+e não adore apenas a sua voz, o que é muito possivel. Andaria duzentas leguas
+para a ouvir! A sua voz transporta-me ao setimo ceu! Convencionemos o seguinte:
+não serei seu amigo, serei seu idolatra. E desde já te peço licença para te
+tratar por tu, como á divindade!</p>
+
+<p>De todos os seus apaixonados que eram bons e sinceros, Laura fazia amigos.
+</p>
+
+<p>Na primeira plana d'esses convertidos estava, em Paris, o dr. Despujolles, o
+medico considerado como a verdadeira providencia dos theatros, sobre tudo dos
+theatros de canto.</p>
+
+<p>Quem estivesse rouco pela manhã podia cantar á noite como um rouxinol, mercê
+das magias hom½opathicas do dr. Despujolles.</p>
+
+<p>Foi um pouco mais recalcitrante que Remissy, á cura, hom½opathica tambem, do
+amor pela amisade, mas como além d'intelligente era honesto, acabou não só por
+se resignar, como tambem por estimar o papel que Laura lhe confiava.</p>
+
+<p>Todas estas informações sobre a Linda foram colhidas<span
+class="pn">{40}</span> por Antonino de Bizeux dia a dia, d'este e d'aquelle,
+affectando indifferença, mas sentindo na realidade um interesse e emoção de que
+elle não se apercebia, e temendo e desejando ao mesmo tempo que lhe apontassem
+qualquer nodoa no passado da diva, porque n'esse caso Laura passaria a ser
+menos perigosa para elle.<span class="pn">{41}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0014">IV<br>
+O dia seguinte</a></h2>
+
+<p>Era quasi meio dia.</p>
+
+<p>Laura acabára de se levantar, e recostara-se languida e como magoada ainda,
+sobre o canapé do seu salão, remexendo, distrahidamente, n'um montão de cartas
+e de folhas rasgadas de carteiras, que cobriam o marmore d'um velador.</p>
+
+<p>Por entre os nomes do que vulgarmente se chama <em>todo Paris</em>,
+procurava um que não encontrava, e lia com indefferencia as palavras escriptas
+a lapis sobre os papeis que folheava.</p>
+
+<p>Entretanto um bilhete houve que lhe prendeu a attenção por mais tempo.<span
+class="pn">{42}</span></p>
+
+<p>Era de Pozzoli.</p>
+
+<p>Dizia o antigo emprezario de Laura:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Morreu a Opera, viva o theatro dos Italianos! Pozzoli irá ámanhã a casa da
+distinctissima diva, levando um contracto em branco á sua ex e futura
+escripturada».</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Ao ver o cartão de Lauretto Mina, a Linda franziu as sobrancelhas.</p>
+
+<p>O tenor escrevera:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Enforca-te Lauretto! Laura esteve prestes a ser queimada viva, e tu não
+estavas junto d'ella para a salvar».</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Em compensação, sorriu-se ao ler um outro bilhete.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Compuz hoje de manhã um cantico d'acção de graças, uma <em>alleluia</em>
+triumphante, que irei executar-te no meu violino, logo que possas receber o teu
+mais humilde admirador.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Remissy</em>».</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>A diva resolveu responder sem perda de tempo ao violinista, convidando-o a
+almoçar no dia seguinte.<span class="pn">{43}</span></p>
+
+<p>Chamou para isso Jacintha, a sua creada de quarto, pedindo-lhe o necessario
+para escrever.</p>
+
+<p>Jacintha, collaça de Laura, tinha poucos mezes mais que a cantora.</p>
+
+<p>Era uma formosa rapariga, d'um trigueiro assetinado e quente, olhos e
+cabellos pretos, labios vermelhos e sensuaes.</p>
+
+<p>Nunca abandonára a cantora, a quem estimava muito, mas a quem servia mal.
+</p>
+
+<p>&mdash;Mais cartas, minha senhora, disse ella ao entrar, quasi todas
+entregues pelos proprios, que não subiram porque o porteiro não consentiu.</p>
+
+<p>&mdash;Que deixe subir o dr. Despujolles quando elle chegar.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha senhora. E o sujeito que lhe salvou a vida?</p>
+
+<p>&mdash;O sr. Antonino de Bizeux? Tambem! Há bocado disse-te o mesmo.</p>
+
+<p>&mdash;Já se vê... Se não fosse elle estaria a senhora morta a estas horas.
+E eu tambem, porque se a senhora morresse, não lhe sobreviveria.</p>
+
+<p>&mdash;É um homem deveras corajoso! disse Laura, pensativa.</p>
+
+<p>&mdash;E bonito!</p>
+
+<p>&mdash;Jacintha!...</p>
+
+<p>&mdash;Perdão, minha senhora!... jurei-lhe que nunca mais chamaria bonito a
+qualquer homem, ainda<span class="pn">{44}</span> que elle fosse como S. Miguel
+Archanjo, e faltei ao meu juramento!... Mas não está mais na minha mão!</p>
+
+<p>&mdash;Cala-te! interrompeu Laura, que não poude deixar de sorrir, e manda
+entregar immediatamente esta carta ao sr. Remissy, rua Favart.</p>
+
+<p>Alguns minutos depois, Jacintha annunciava o dr. Despujolles.</p>
+
+<p>&mdash;Eil-a! disse o medico ao entrar. Eil-a, a esta salamandra que
+atravessou impunemente as chammas!</p>
+
+<p>&mdash;Infeliz da salamandra, respondeu Laura, que ficaria frita como uma
+carpa se não tivesse quem a ajudasse.</p>
+
+<p>&mdash;Vejamos o pulso. Sabe que vim cá ás oito horas da manhã?</p>
+
+<p>&mdash;Sei.</p>
+
+<p>&mdash;Como me disseram que dormia, cedi o logar ao melhor dos medicos, o
+somno. </p>
+
+<p>&mdash;Só consegui adormecer ás seis horas da madrugada.</p>
+
+<p>&mdash;Pudera! Depois d'um tal abalo não admira. Hum! Está com febre, como
+era de prever. Vou receitar-lhe um calmante.</p>
+
+<p>E chamou.</p>
+
+<p>Appareceu Jacintha.</p>
+
+<p>&mdash;Manda sem demora esta receita a uma pharmacia.<span
+class="pn">{45}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Sim, sr. doutor.</p>
+
+<p>&mdash;E então? Há mais juizo agora?</p>
+
+<p>Jacintha tornou-se purpurina.</p>
+
+<p>&mdash;De certo, sr. doutor.</p>
+
+<p>&mdash;Hein? Isso é verdade? Toma cuidado! Á primeira escorregadella, tens
+d'haver-te commigo!</p>
+
+<p>Jacintha pegou na receita, e sahiu apressadamente.</p>
+
+<p>&mdash;É necessario, disse o doutor a Laura, que a minha amiga possua uma
+solida reputação, para ter junto de si uma rapariga d'este quilate!</p>
+
+<p>&mdash;Coitada! É tão bondosa e dedicada! Quer que a abandone?</p>
+
+<p>&mdash;De certo que não! Estudo em Jacintha a força do instincto. É um
+precioso <em>sujet</em> physiologico para observar&mdash;desculpe-me o
+termo&mdash;o animal na mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! doutor!</p>
+
+<p>&mdash;Posso-lhe fallar assim, porque a minha amiga é toda espirito. Em si o
+animal não existe.</p>
+
+<p>&mdash;Trata de desculpar-se com um cumprimento! Pois dir-lhe-hei que, em
+momento de perigo, o instincto é superior ao que o doutor chama espirito. A
+noite passada, quando na Opera se ouviu o primeiro grito de fogo, acabava eu de
+me vestir. Jacintha&mdash;o instincto&mdash;que estava no meu camarim, fugiu
+immediatamente, e eu&mdash;o espirito&mdash;que temo o fogo mais do que
+qualquer outra coisa no mundo, comecei a tremer, dobraram-se-me os joelhos,
+fiquei impossibilitada<span class="pn">{46}</span> de fazer o menor movimento.
+Jacintha, que ainda não tinha sahido, sacudia-me, queria arrastar-me. Tentei
+caminhar, e cahi desfallecida. Então ella sahiu, dizendo-me que ia buscar quem
+me soccoresse. </p>
+
+<p>&mdash;Ah! a Jacintha fugiu? E pretende que ella é dedicada! Bonita
+dedicação, não haja duvida!</p>
+
+<p>&mdash;Ouça o resto. Logo que chegou á rua e se viu livre de perigo,
+Jacintha lembrou-se de mim immediatamente. Entrou de novo no theatro,
+soluçando, querendo procurar-me atravez as chammas. E gritava: «Fui eu que a
+matei! quero morrer com ella!» Foram necessarios tres homens para a segurar,
+levando-a á força para um posto policial. Chegada lá, Jacintha cahiu n'um
+mutismo feroz. Como não podia salvar-me do fogo, tinha resolvido lançar-se ao
+Sena.</p>
+
+<p>&mdash;Mas, afinal, como e por quem foi salva? Corre já sobre o caso, uma
+verdadeira lenda.</p>
+
+<p>&mdash;E parece lenda, com effeito.</p>
+
+<p>Seguidamente contou ao doutor as peripecias do seu salvamento até ao momento
+da morte tragica do bombeiro, em que ella de novo tinha perdido os sentidos.
+</p>
+
+<p>&mdash;Quando voltei a mim, continuou Laura, estava n'uma pharmacia da rua
+de Peletier. Jacintha, que me tinha encontrado, soltava gritos d'alegria por
+me<span class="pn">{47}</span> ver abrir os olhos. O meu salvador estava ali
+tambem, com o fato, as barbas e os cabellos queimados, pallido, mas satisfeito
+por ver que eu voltava á vida. Reconheci-o como um dos <em>habitués</em> dos
+<em>fauteuils</em> d'orchestra. Exprimi-lhe o meu reconhecimento, e pedi-lhe
+que me dissesse como se chamava. Sabe o doutor o que elle me respondeu? Isto:
+«Sou alguem que passava, e que a salvou, salvando-se.» Foi a custo que obtive,
+ao subir para a carruagem que me conduziu a casa, que elle me desse o seu
+cartão.</p>
+
+<p>&mdash;E conserva o cartão de tão modesto homem?</p>
+
+<p>&mdash;Eil-o aqui... O doutor leu:</p>
+
+<p>&mdash;<small>ANTONINO DE BIZEUX</small>.</p>
+
+<p>&mdash;Conhece-o?</p>
+
+<p>&mdash;De vista, apenas. Tenho-o encontrado em varios salões. É considerado
+como um original, meio selvagem. Lembro-me de o ver muitas vezes na Opera, e,
+se bem me recordo, dizia-se que elle estava apaixonado pela minha querida
+Laura.</p>
+
+<p>&mdash;Engano! Quando muito estaria apaixonado pela minha voz. Se arriscou a
+vida, para salvar a minha, estou certa que foi unicamente por suppôr que não ha
+outra cantora que lhe faça sentir as mesmas emoções de <em>dilettante</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me isso inverosimil, observou o medico. Verá que, como
+recompensa, elle não se contentará<span class="pn">{48}</span> com a promessa
+d'uma nova escriptura na Opera. Já a veiu ver, sem duvida?</p>
+
+<p>&mdash;Pedi-lhe que viesse, e assegurou-me que viria saber como eu estava.
+Julguei que tivesse vindo de manhã, emquanto dormi, mas não encontrei o cartão
+d'elle entre os outros.</p>
+
+<p>&mdash;Se suppõe que será recebido, como merece, só se apresentará depois do
+meio dia. Entretanto lembre-se que não lhe receito só o que mandei buscar á
+pharmacia: é necessario que guarde um repouso absoluto. Prohibo-a de receber
+quem quer que seja.</p>
+
+<p>&mdash;Tem de abrir uma excepção para o meu salvador, replicou Laura com
+vivacidade. A ingratidão não é droga que o doutor receite a ninguem, com
+certeza.</p>
+
+<p>&mdash;Bem! Farei a excepção pedida! disse Despujolles sorrindo. Registo,
+comtudo, que a minha amiga desobedece ás prescripções do seu medico, o que é
+grave.</p>
+
+<p>E retomando o tom serio do clinico, accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Asseguro-lhe que necessita do mais absoluto repouso durante muitos
+dias. N'este momento é a febre que lhe conserva as forças, mas em breve cahirá
+n'uma grande prostração nervosa, e sentirá a necessidade d'uma completa
+tranquillidade d'espirito.</p>
+
+<p>&mdash;Comtudo... disse Laura.</p>
+
+<p>&mdash;Não ha comtudos...<span class="pn">{49}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não lhe fallarei de Pozzoli, que me propõe escriptura...</p>
+
+<p>&mdash;Eu me encarrego de mandar Pozzoli para o inferno! D'aqui a oito dias
+tratará d'esse negocio.</p>
+
+<p>&mdash;Ou quinze; isso é o menos. O peor é que escrevi a Remissy,
+convidando-o para almoçar ámanhã. Elle quer que eu ouça uma <em>alleluia</em>
+que compôz em minha honra...</p>
+
+<p>&mdash;Então convide-me tambem, disse o doutor n'outro tom. Como estarei
+presente, não consentirei que falle. Remissy e eu a entreteremos.</p>
+
+<p>&mdash;E o meu salvador? perguntou Laura. Se vier hoje não posso convidal-o
+para o almoço?</p>
+
+<p>&mdash;Mau! Isso já é outro genero de distracção. Como serei do rancho,
+tratarei de vigiar, porque, na verdade, começo a ter ciumes do visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Que idéa!</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim! A verdade é que elle está apaixonado e é bretão. E um
+apaixonado que salva a vida da sua bella...</p>
+
+<p>&mdash;O senhor sabe que eu sou sincera... interrompeu Laura.</p>
+
+<p>&mdash;Sei. É a mulher mais franca que eu conheço. Direi até: a unica, em
+que pese á minha numerosa clientela feminina.</p>
+
+<p>&mdash;Consola tanto nada ter que dissimular ou occultar! Pois bem;
+affianço-lhe, doutor, que, pensando no<span class="pn">{50}</span> sr. de
+Bizeux, não sinto a menor commoção indicativa d'amor; nem sombra d'ella! Que
+elle esteja ou não apaixonado por mim, confesso-lhe e declaro-lhe que nunca
+desejei tanto fazer de qualquer homem um amigo.<span class="pn">{51}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0015">V<br>
+Perplexidades</a></h2>
+
+<p>A Linda não recebeu n'esse dia a visita ou o cartão d'Antonino.</p>
+
+<p>Outro tanto succedeu no dia seguinte até á hora do almoço, ao qual Remissy e
+Despujolles fizeram as devidas honras, sem conseguirem, apesar dos esforços
+empregados para esse fim, distrahir a cantora d'uma especie de preoccupação que
+se apossára d'ella.</p>
+
+<p>Nada de novas do meu salvador! disse Linda a Despujolles quando o doutor se
+despediu. Tenho perguntado a mim mesma se não serei eu quem deva mandar saber
+noticias d'elle. Quem nos assegura que o visconde não está mal?<span
+class="pn">{52}</span></p>
+
+<p>&mdash;Vamos, serei generoso mais uma vez! replicou o medico. Irei saber do
+seu heroe. Está satisfeita? Onde mora elle? Não tem indicação de morada, no
+bilhete de visita? Parece-me que é no <em>boulevard</em> Hausmann, mas ignoro o
+numero. Sabel-o-hei por um dos meus clientes, que é primo do visconde, e dentro
+em pouco lhe mandarei dizer como elle está.</p>
+
+<p>Ás tres horas da tarde Laura recebeu o seguinte bilhete:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Fui a casa do nosso homem. Está no mais invejavel estado phisico. O moral
+nãe me diz respeito.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Despujolles.</em>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Entretanto Antonino, cumprindo a promessa feita á cantora na noite do
+incendio, fôra no dia seguinte saber como estava Laura.</p>
+
+<p>Contentára-se apenas com perguntar á porteira como estava Linda, sem dizer
+nem deixar o nome.</p>
+
+<p>Nos dois dias seguintes procedeu de forma identica.</p>
+
+<p>Ao quarto, como os visitantes rareassem, a porteira respondeu á pergunta
+d'Antonino:</p>
+
+<p>&mdash;A senhora vae melhorando, mas não poderá receber ninguem antes de
+dois ou tres dias.<span class="pn">{53}</span></p>
+
+<p>E advertida por Jacintha, segundo instrucções de Laura, accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;O sr. quer ter a bondade de me dizer o seu nome?</p>
+
+<p>Antonino respondeu em tom breve.</p>
+
+<p>&mdash;Visconde de Bizeux.</p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso, disse a porteira, o sr. visconde pode subir. Tinha
+ordem, desde o primeiro dia, de dizer a vossa ex.ª que a senhora o recebe...
+mas só ao sr. visconde.</p>
+
+<p>Antonino interdicto, respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Bem... mas hoje é impossivel... Tenho uma entrevista marcada... e já
+é tarde... Transmitta á senhora os meus agradecimentos e os meus respeitos...
+Eu voltarei.</p>
+
+<p>E sahiu como se fugisse.</p>
+
+<p>Alguns momentos depois Jacintha participava a Laura o que se passara.</p>
+
+<p>&mdash;Singular indifferença essa! disse a cantora.</p>
+
+<p>O que o coração d'Antonino sentia era justamente o contrario da indifferença
+que Laura lhe suppunha.</p>
+
+<p>Tanto de dia como de noite o visconde só pensava em Laura.</p>
+
+<p>Tornar a vel-a era o seu mais ardente, o seu unico desejo.</p>
+
+<p>Mas desejava tanto isso, que tremia.<span class="pn">{54}</span></p>
+
+<p>Era como um barril repleto de polvora temendo uma faisca.</p>
+
+<p>E não voltou á rua de Bolonha.</p>
+
+<p>Quando Laura pôz Despujolles ao corrente da situação, e medico disse:</p>
+
+<p>&mdash;Oh! oh! o caso é mais grave do que eu julgava. Como é que um valente,
+que a arrancou ás chammas do incendio, treme diante da minha amiga? Afinal, o
+caso comprehende-se. Elle percebe que o perigo, agora, augmentou de
+intensidade. O infeliz está em um estado verdadeiramente inquietante.</p>
+
+<p>&mdash;Não mangue, dr., respondeu Laura que pensava justamente como o
+medico, mas que entendeu conveniente não annuir ao que Despujolles dizia. Mas
+emfim, eu não o tornarei a ver?</p>
+
+<p>&mdash;Seria o melhor para ambos.</p>
+
+<p>&mdash;Está enganado, doutor. Mesmo quando a sua observação fosse justa, é
+necessario tornar a vel-o, para que o possa curar. O doutor trata dos seus
+doentes a distancia? Não. O mesmo succede commigo. E como sabe, eu tenho curas
+que me honram.</p>
+
+<p>&mdash;Quer que a ajude a procurar o seu paciente? Seja! Tornarei a ser
+generoso. Forcemol-o a sahir do covil. Escreva-lhe ámanhã ao meio dia um
+bilhete. Uma hora depois estarei aqui com a fera.</p>
+
+<p>No dia seguinte, ao meio dia preciso, o visconde, perturbado, lia, n'um
+cartão de Laura, as seguintes<span class="pn">{55}</span> linhas, escriptas
+pela cantora em seguida ao nome:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Permitte-se lembrar ao sr. de Bizeux que elle deve visita á que lhe deve a
+vida.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Um quarto de hora depois uma carruagem conduzia-o á gare d'Oeste.</p>
+
+<p>Comprou bilhete para Saint-Malo e subiu para o comboio prestes a partir.</p>
+
+<p>Quando Despujolles, ao meio dia e meia hora, chegou a casa d'Antonino,
+disseram-lhe que o visconde tinha partido pouco antes, tendo deixado dito que
+ia ver o pae.</p>
+
+<p>O doutor dirigiu-se immediatamente para casa de Laura, a quem participou o
+caso, ajuntando:</p>
+
+<p>&mdash;Decididamente a doença torna-se alarmante! O visconde está apaixonado
+até á indelicadeza!</p>
+
+<p>Como não podia prever a visita de Despujolles que lhe dennunciaria a fuga,
+Antonino julgou-se ao abrigo de censura enviando, no dia seguinte, a Laura,
+este telegramma:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Recebi, minha senhora, o seu gracioso convite em Saint-Malo, onde fui
+subitamente chamado por meu pae, um pouco doente. Ámanhã volto a Paris,<span
+class="pn">{56}</span> terei então a honra de lhe apresentar os meus
+respeitos.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Sahira de Paris para metter cem leguas entre elle e a Linda, mas, ao
+contrario do que esperava, a distancia fazia com que se lembrasse ainda mais da
+cantora.</p>
+
+<p>Aquelle acto de energia apenas serviu para demonstrar a sua irremediavel
+fraqueza.</p>
+
+<p>Em Paris estava perto de Laura; fugia de a ver, mas tinha noticias d'ella, e
+quando quizesse podia procural-a.</p>
+
+<p>Considerou uma loucura o ter supposto que a ausencia o curava, porque nunca
+soffrera tanto.</p>
+
+<p>Chegou desgostoso a Saint-Malo, achou soturna a velha casa da familia, onde
+vivia o pae e uma irmã mais velha, solteira ainda.</p>
+
+<p>Tres dias depois, cançado de soffrer em silencio, Antonino resolveu-se a
+tudo confessar a seu pae.</p>
+
+<p>O confidente foi bem escolhido e bem exposta a confidencia.</p>
+
+<p>Em novo, o pae d'Antonino passara por um desgosto semelhante.</p>
+
+<p>Amára uma menina encantadora, por quem era amado tambem, mas que tinha o
+defeito de ser pobre e plebea.</p>
+
+<p>O conde de Bizeux, avô de Antonino, era um velho<span class="pn">{57}</span>
+rigido, intractavel em questões de nobreza e importancia patrimonial.</p>
+
+<p>Não se contentou, d'accordo com o pae da donzella, com destruir aquelle
+amor; obrigou o filho a casar com uma prima, de belleza duvidosa, mas de
+fortuna avultada.</p>
+
+<p>Aquelle enlace de conveniencia não podia fazer felizes os esposos.</p>
+
+<p>Ella era feia e altiva, entregue sempre a praticas devotas; elle,
+tristemente resignado, deixava-se absorver pelas recordações.</p>
+
+<p>A filha mais velha parecia-se com a mãe, mais feia, mais orgulhosa, mais
+devota ainda.</p>
+
+<p>Recusára sempre casar-se, não querendo entregar-se a qualquer homem, que
+apenas a tomaria pelo dote, o seu unico merito.</p>
+
+<p>Depois d'enviuvar, o conde de Bizeux não tinha outra consolação além do amor
+por Antonino.</p>
+
+<p>Essa grande estima que tinha pelo filho não impediu que se separasse d'elle
+emquanto o visconde viajou, e que não quizesse acompanhal-o a Paris.</p>
+
+<p>Quiz ficar na sua Bretanha, vivendo melancholicamente das recordações do
+passado.</p>
+
+<p>A excessiva severidade dos paes produz muitas vezes nos filhos, paes por sua
+vez tambem, a excessiva indulgencia.</p>
+
+<p>Foi por essa razão que o conde de Bizeux recebeu<span class="pn">{58}</span>
+a confidencia d'Antonino com a simpathia terna d'um irmão.</p>
+
+<p>O soffrimento do visconde diminuiu desde que teve com quem fallar de Laura.
+</p>
+
+<p>Entretanto continuava triste e visivelmente inquieto.</p>
+
+<p>Como percebia o estado em que o filho estava, o conde, ao fim d'uma semana,
+chamou-o e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Tu soffres Antonino. Deixa-me dar-te um conselho: volta para Paris.
+Parece-me que te falta um pouco de coragem e de dignidade. Amas uma mulher que
+não te conhece e que só te viu quanto a salvaste. Não pode ter-te amor, é
+certo; mas quem te diz que, conhecendo-te melhor, não virá a amar-te? Pelo que
+sabes d'ella, a Linda só pensa em arte, não amou nunca, não amará talvez. Mas
+approxima-te, não como uma creança que teme, mas como um homem que não recua
+nem ante uma decepção, nem ante um grande desgosto. Quem sabe se, quando a
+conheceres bem, não acharás que Laura não corresponde ao teu sonho!</p>
+
+<p>Antonio abraçou o pae com effusão, agradecendo-lhe reconhecido aquelle
+conselho viril, e partiu de Saint-Malo quasi tão precipitadamente como deixára
+Paris.</p>
+
+<p>Ao partir telegraphou a Despujolles, dizendo-lhe<span class="pn">{59}</span>
+que o procuraria no dia seguinte, e pedindo-lhe para o acompanhar a casa de
+Laura.</p>
+
+<p>Pelas duas horas da tarde do outro dia entraram ambos no salão da cantora,
+prevenida antecipadamente pelo medico.</p>
+
+<p>&mdash;Trago-lhe emfim o selvagem! disse o dr. ao entrar.</p>
+
+<p>Laura estendeu a mão a Antonino, dizendo-lhe com a mais graciosa
+simplicidade:</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço-lhe o ter vindo. Detesta a sociedade?... Tem rasão. Mas eu
+não pertenço a essa sociedade, sou apenas uma mulher. Verá que sou excellente
+camarada, muito sincera, que gosto muito d'alguns amigos, e que me sentirei
+verdadeiramente feliz se o homem que me salvou a vida quizer pertencer ao
+numero restricto d'esses amigos.</p>
+
+<p>Em seguida fallou, a Antonino do proprio Antonino, como se fallasse d'elle
+ao dr. Despujolles.</p>
+
+<p>Lembrou-se, rindo, da noite em que o olhára da scena, com o que elle
+indicára incommodar-se.</p>
+
+<p>&mdash;E era justo que assim fosse, accrescentou ella, porque nós, ante o
+publico, nem por um momento nos devemos esquecer do personagem que
+representamos.</p>
+
+<p>Fallando-lhe assim poz á vontade Antonino, que ao principio estava meio
+compromettido.</p>
+
+<p>Fallaram de musica, de theatro.<span class="pn">{60}</span></p>
+
+<p>Ella disse-lhe que provavelmente ia para o theatro Italiano, visto Pozzoli
+lhe ter proposto um bom contracto.</p>
+
+<p>Confessou que não tinha a menor estima ou sympathia por aquelle emprezario,
+mas como gostava de Paris, queria demorar-se na grande cidade.</p>
+
+<p>De resto, não podia passar sem cantar,&mdash;por causa da sua bolsa e por
+causa do seu espirito.</p>
+
+<p>Cantar era para ella metade da vida.</p>
+
+<p>&mdash;A proposito: Pozzoli, para celebrar o meu completo restabelecimento e
+a minha entrada para os Italianos, offerece-me, na terça feira proxima, uma
+especie de festa em S. Germano: almoço ajantarado na relva, passeio aos Loges,
+etc. Devo-lhe enviar ámanhã a lista dos meus convidados. Na cabeça do rol
+inscrevi o seu nome, sr. de Bizeux.... Oh! não recuse, porque é caso para
+dizer: não haveria festa sem o sr.</p>
+
+<p>Antonino fez um gesto d'assentimento.</p>
+
+<p>Ficou combinado que iriam juntos a S. Germano, Despujolles e elle.</p>
+
+<p>&mdash;Que adoravel mulher e que encantadora creança! Dizia o medico ao
+visconde, descendo as escadas da casa de Linda. Verá: com ella começa a gente
+por estar apaixonado, e acaba por se sentir feliz de ficar amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Assim será! respondeu Antonino.<span class="pn">{61}</span></p>
+
+<p>A verdade é que elle sentia-se cada vez mais apaixonado, e pensava com
+desespero que Laura não o amava, que não o amaria jamais.<span
+class="pn">{62}</span> <span class="pn">{63}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0016">VI<br>
+A festa</a></h2>
+
+<p>No dia fixado, um <em>mail-coach</em>, em que tinham tomado logar Antonino,
+Despujolles e mais uns vinte convidados de Pozzoli, subia, ao trote largo de
+quatro cavallos pretos, a avenida dos Campos Elyseus.</p>
+
+<p>Era a primeira terça feira de setembro.</p>
+
+<p>Ao longe os sinos de Santa Clotilde zumbiam, como enxame d'abelhas, sob as
+agudas pontas das settas gothicas.</p>
+
+<p>As mulheres riam estridentemente, empoleiradas no alto da carruagem.</p>
+
+<p>Aquellas gargalhadas quebravam o silencio da avenida, deserta ainda áquella
+hora.<span class="pn">{64}</span></p>
+
+<p>Os guisos de bronze reteniam ao pescoço dos cavallos n'uma alegria matinal.
+</p>
+
+<p>E em sorrisos de luz, as folhas altas dos platanos brilhavam, como estrellas
+movediças, os castanheiros espessos formavam massiços largos, ao fundo de
+<em>callidimos</em> entrelaçados em ramos monstros sobre a relva dos canteiros.
+</p>
+
+<p>Os jardineiros municipaes assestavam as mangueiras dos tubos d'irrigação
+articulados.</p>
+
+<p>Uma chuva branca cahia sobre a relva, cortada quasi cerce, e por entre as
+bambinellas do fino orvalho um arco iris dansava, radioso.</p>
+
+<p>O <em>mail-coach</em> que conduzia a S. Germano Antonino, Despujolles e os
+convidados de Pozzoli, chegou ao pavilhão Henrique IV ao mesmo tempo que o
+<em>coupé</em> de Linda.</p>
+
+<p>Laura vestia uma elegante <em>toilette</em> de seda da India, cinzenta.</p>
+
+<p>O corpo do vestido era enfeitado com fazenda de lã e ornado de laços
+granade.</p>
+
+<p>A saia, um pouco curta, deixava perceber a curva nascente d'uma perna fina
+de parisiense ou de hespanhola.</p>
+
+<p>Estava encantadora assim.</p>
+
+<p>Apertou a mão a todos, mas em primeiro logar a Antonino, a quem apresentou a
+Pozzoli, o amphytryão.<span class="pn">{65}</span></p>
+
+<p>O emprezario do theatro dos Italianos era um homem de mãos largas, dedos
+massiços, cabello grosso e espetado, barba em leque, olhos redondos, nariz
+recurvo como o bico d'um abutre, bocca grande, de labios grossos,
+libidiminosos.</p>
+
+<p>Á primeira vista representava o typo completo da força bruta e dos appetites
+sensuaes.</p>
+
+<p>Melhor examinado, porém, notavam-se-lhe extraordinarios ridiculos.</p>
+
+<p>Macaqueava com as mulheres, n'uns gestos afectados, como o tenor Lauretto
+Mina. Fallava sempre com os labios quasi cerrados, e quando pronunciava uma
+d'essas phrases equivocas, que as mulheres de que habitualmente se rodeava
+achavam deliciosas, soltava gargalhadas imprevistas casquinhando
+mechanicamente, para mostrar dentes magnificos... mas postiços.</p>
+
+<p>D'ordinario pintava o cabello e a barba, e nas <em>soirées</em> apparecia
+sempre com carmim nas faces e as sobrancelhas alongadas e carregadas por uma
+pincelada negra.</p>
+
+<p>Tal era Pozzoli.</p>
+
+<p>O emprezario desagradou soberanamente a Antonino, que tambem não sympathisou
+com Lauretto Mina, cujos gestos afeminados e maneiras pretenciosas faziam um
+absoluto contraste com os modos viris e simples do gentilhomem bretão.<span
+class="pn">{66}</span></p>
+
+<p>Depois de trocados os cumprimentos e feitas as apresentações, os
+excursionistas puzeram-se a caminho para a floresta, precedidos d'um carro do
+pavilhão Henrique IV, que transportava o almoço.</p>
+
+<p>&mdash;Não vejo Remissy, disse Laura. Entretanto elle deu-me a sua palavra
+de que não faltaria.</p>
+
+<p>&mdash;Elle virá, replicou o dr., mas provavelmente quando menos se esperar,
+porque aquelle demonio tem grande tendencia para as surpresas.</p>
+
+<p>Os <em>mails-coachs</em>, os <em>landaus</em> e os <em>coupés</em>
+embrenharam-se sob as abobadas verdejantes, n'um turbilhão d'alegria ruidosa.
+</p>
+
+<p>Ao atravessarem as pequeninas clareiras inundadas de luz, os raios das rodas
+tinham brilhos vivos e vibrações agudas.</p>
+
+<p>Falseamentos rutilavam nas nuvens de pó, com um bulicio de ruidos multiplos:
+a ferradura d'um cavallo topando n'uma pedra, uma roda gemendo na depressão do
+terreno, o estridulo das gargalhadas subindo no ar perfumado de verdura humida,
+o estalo d'um pingalim assustando as aves aterrorisadas, e por vezes, cortando
+os intervallos de silencio, o relincho satisfeito d'um cavallo.</p>
+
+<p>&mdash;Alto! gritou Lauretlo Mina com a sua voz de cigarra.</p>
+
+<p>&mdash;Alto! vociferou Pozzoli, como um echo brutal.</p>
+
+<p>As carruagens pararam.<span class="pn">{67}</span></p>
+
+<p>&mdash;Chegamos, disse o dr. a Laura, indo abrir a portinhola do
+<em>coupé</em>. </p>
+
+<p>&mdash;Eis a sala de jantar, a senhora está servida! annunciou Lauretto por
+de traz do medico.</p>
+
+<p>Sem esperar que lhe dessem a mão, Laura saltou com ligeiresa.</p>
+
+<p>Pozzoli offereceu-lhe o braço.</p>
+
+<p>&mdash;Qual! disse a cantora recusando. No campo caminha-se em liberdade,
+sem cerimonias.</p>
+
+<p>Em um minuto chegaram á verde clareira em que o almoço estava servido, sobre
+uma elevação arrelvada.</p>
+
+<p>Cada qual tomou logar em volta d'aquella toalha verdejante, manchada de
+escuro por tres presuntos d'York, quatro travessas de <em>foie gras</em>, doze
+lagostas, seis gallinhas, montanhas de doces, pecegos de Montreuil, passas de
+Malaga em caixas.</p>
+
+<p>Em volta da improvisada meza, como collocadas em atiradores, alinhavam-se
+vinte quatro garrafas de <em>Bordeus</em>, e em torno d'um carvalho secular,
+entre as anfractuosidades rugosas do tronco, trinta garrafas de
+<em>moscatel</em>, de <em>Madeira</em> e de <em>Champagne</em>, de gargalos
+prateados, conservavam-se em reserva, meio occultas pela herva alta.</p>
+
+<p>Massiços de verdura banhados de luz, cruzavam-se, como bayonetas enfeixadas;
+extremidades de plantas queimadas pela geada balouçavam-se levemente,<span
+class="pn">{68}</span> e tres grillos corajosos entoavam uma marcha triumphante
+por entre uns fetos proximos.</p>
+
+<p>Laura sentara-se junto d'um freixo gigante, appoiando as costas ao tronco.
+</p>
+
+<p>Um grupo d'aveleiras servia-lhe de guarda-sol.</p>
+
+<p>Antonino de Bizeux e o dr. Despujolles tomaram logar á direita e á esquerda
+da cantora.</p>
+
+<p>Em frente d'elles, agrupados, estavam Pozzoli, Lauretto Mina e os restantes
+convivas.</p>
+
+<p>Eram uns quarenta ao todo.</p>
+
+<p>O almoço foi pouco ruidoso ao principio.</p>
+
+<p>O appetite é sempre silencioso.</p>
+
+<p>Ouvia-se apenas o ranger dos garfos de prata na porcellana dos pratos.</p>
+
+<p>A Linda comia com vontade, e molhava alegremente os labios finos no liquido
+do copo.</p>
+
+<p>Á sobremesa a conversação rebentou, viva e alegre, acompanhada pelo tenir
+dos copos e pelo riso das mulheres, e entre a confusão das vozes, misturadas
+com o <em>pizzicato</em> dos garfos, um melro, pousado n'uma arvore proxima,
+rythmava as suas cadencias aflautadas.</p>
+
+<p>Lauretto Mina embriagou-se, como costumava.</p>
+
+<p>De repente levantou-se, tendo na mão uma taça de <em>Champagne</em>, e disse
+com voz entaramelada:</p>
+
+<p>&mdash;Bebo á saude da rainha da festa, da divina Laura Linda!<span
+class="pn">{69}</span></p>
+
+<p>Laura corou um pouco, e Antonino franziu as sobrancelhas.</p>
+
+<p>Mas todos levantaram as taças, repetindo:</p>
+
+<p>&mdash;Á saude de Laura Linda!</p>
+
+<p>N'esse momento, na alléa que seguia ao lado d'aquella meza verdejante,
+apparecia uma duzia de officiaes d'<em>hussards</em>, trotando nos seus
+cavallos.</p>
+
+<p>Logo que viram os convivas d'aquella pittoresca festa, fizeram diminuir o
+andamento dos animaes.</p>
+
+<p>Despujolles disse algumas palavras ao ouvido de Pozzoli, e depois caminhou
+para os officiaes e disse-lhes:</p>
+
+<p>&mdash;Meus senhores, somos artistas e homens de sociedade: querem fazer-nos
+a honra d'acceitar um copo do nosso magnifico vinho francez?</p>
+
+<p>&mdash;Da melhor vontade! responderam os officiaes em coro.</p>
+
+<p>E puzeram em linha os cavallos arabes.</p>
+
+<p>Foram as damas que serviram o <em>Champagne</em>.</p>
+
+<p>Beberam pela França e pelos francezes.</p>
+
+<p>Em seguida os officiaes ofereceram charutos aos homens, cumprimentaram as
+senhoras e partiram a galope.</p>
+
+<p>A brilhante cavalgada desappareceu rapidamente, como uma phantasia, na
+profundeza do bosque.</p>
+
+<p>Deixaram as carruagens e as louças á guarda dos creados, e partiram a pé
+para a feira das Loges.<span class="pn">{70}</span></p>
+
+<p>Combinaram que caminhariam sem cerimonia, em debandada.</p>
+
+<p>Mas como o caminho d'esta vez fosse mais longo, formaram-se, naturalmente,
+grupos e pares.</p>
+
+<p>Antonino estava, como por acaso, ao lado de Laura, que deu um passo em
+falso, e, como por acaso tambem, tomou o braço do visconde, appoiando-se a elle
+ligeiramente, com uma graça encantadora.</p>
+
+<p>Caminharam assim por algum tempo, alegres e sonhadores, admirando coisas
+vulgares que lhes pareciam tão interessantes como se nunca as tivessem visto.
+</p>
+
+<p>Um ruido confuso annunciou, de longe, a feira das Loges.</p>
+
+<p>Sinetas, pandeiros, tambores, trompas, cornetins, produziam um baralho
+ensurdecedor.</p>
+
+<p>Aquella parte da floresta estava cheia de gente vestindo fatos domingueiros,
+pares mais ou menos apaixonados, creanças saltando na alegria da plena
+liberdade.</p>
+
+<p>Appareceram as primeiras barracas ao fim da estrada.</p>
+
+<p>Augmentava o ruido da symphonia discordante d'instrumentos diversos, de
+<em>clowns</em> esganiçando-se em falsetes, d'hercules soprando em enormes
+porta-vozes os seus desafios burlescos aos amadores de luctas.<span
+class="pn">{71}</span></p>
+
+<p>Antonino e Laura acharam-se, n'um instante, separados dos seus companheiros.
+</p>
+
+<p>Pararam deante das barracas, admirando, embasbacados como creanças, os
+objectos n'ellas expostos.</p>
+
+<p>Laura achou immensa graça á atabalhoada arenga berrada á porta d'uma barraca
+de saltimbancos por uma especie de cigano, de cara serampintada, cabellos
+crespos, com voz enrouquecida, que ainda assim não perdera o tom
+accentuadamente marselhez.</p>
+
+<p>O homem convidava o respeitavel publico a visitar a Mulher-Electrica.</p>
+
+<p>&mdash;É entrar, meus senhores, é entrar, dizia elle. Por dois <em>sous</em>
+podem admirar a mais formosa e a mais gentil mulher do mundo. Só homens podem
+entrar, porque se as senhoras viessem a esta barraca, sahiriam loucas de
+inveja! Não quero dizer com isto que as senhoras presentes não sejam novas e
+formosas, não! Mas, acreditem, nenhuma das que vejo, e das ausentes, poderia
+dar a seu marido uma sensação semelhante á que esta produz em todos os homens
+que lhe tocam!... É entrar, meus senhores, é entrar! Não encontrarão outra
+occasião, como esta, para admirar uma belleza sem rival! Tem pernas de Diana,
+braços de Venus... Parece a esposa de Jupiter! Não ha uma só princeza que a não
+inveje!... É um ovo por um real, contemplar uma<span class="pn">{72}</span>
+maravilha d'esta ordem apenas por dez centimos!... É entrar, meus senhores, é
+entrar!...</p>
+
+<p>Proximo, um colosso, de braços musculosos e nús, abronzeados, ao lado d'uma
+preta robusta, provocava á lucta os amadores mais valentes.</p>
+
+<p>Um realejo moia a <em>Valsa das Rosas</em>, e ao lado, n'uma barraca de
+balouços, um outro realejo gemia uma polka, emquanto que, por entre
+gargalhadinhas de medo, mulheres cortavam o ar nos balouços, olhando para os
+amantes, que as contemplavam satisfeitos.</p>
+
+<p>Um pouco mais longe via-se um <em>carrousel</em> de cavallos de pau,
+enfeitado d'uma franja vermelha e azul em que scintillavam lantejoulas.</p>
+
+<p>Creanças, sentadas n'aquelles animaes inoffensivos, sentiam-se felizes por
+fazer concorrencia aos saltimbancos, chamando sobre si a attenção embasbacada
+dos passeiantes.</p>
+
+<p>De toda aquella multidão desprendia-se rumor confuso, onomatopeas sem
+sentido, cortadas pelo som d'um pandeiro ou pelas notas estridentes d'um
+cornetim.</p>
+
+<p>No ar passavam odores acres de frituras rançosas, salchichas que ferviam em
+gorduras velhas no fundo de largas frigideiras, vinho azedo que bebiam pelo
+cangirão, café intoleravel feito do cosimento das borras e de tintura de
+chicoria.<span class="pn">{73}</span></p>
+
+<p>As tabernas regorgitavam de freguezes vorazes.</p>
+
+<p>Muitos, como não tinham onde sentar-se, comiam de pé, ao sol, com o mais
+invejavel appetite.</p>
+
+<p>A alegria franceza resaltava de toda aquella multidão franca, ruidosa,
+divertida.</p>
+
+<p>Sentiam-se felizes por aquella excitação ardente, pelos movimentos
+desordenados, pelos raios do sol que lhes alumiava as faces vermelhas, pelas
+nuvens de pó amarellento, que se elevava até ao cimo das arvores frondosas, em
+virtude do caminhar continuo d'aquelle formigueiro humano.</p>
+
+<p>Pelas cinco horas da tarde, um homem que desempenhava as funcções de
+pregoeiro, attrahiu a attenção de todos com o toque preliminar do seu tambor.
+</p>
+
+<p>Quando viu em volta um circulo espesso d'ouvintes, dos quaes faziam parte
+grande numero de convivas de Pozzoli, desenrolou um largo papel e leu esta
+especie de proclamação:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«O violinista hungaro Remissy, aqui presente, faz saber que offerece um
+<em>punch</em> aos seus amigos e amigas no proprio local em que foi servido o
+almoço d'esta manhã, ao qual circumstancias imprevistas fizeram com que não
+tivesse o prazer d'assistir. Que todos o saibam!»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Acabada a leitura, o pregoeiro affixou o papel no<span
+class="pn">{74}</span> tronco d'uma arvore e depôz tranquillamente no chão o
+tambor, onde um palhaço o foi buscar.</p>
+
+<p>Depois, abrindo caminho com os cotovellos, desappareceu entre a multidão.
+</p>
+
+<p>O sol baixava, as sombras dos carvalhos alongavam-se d'instante a instante.
+</p>
+
+<p>Os donos d'algumas barracas accenderam os lampeões.</p>
+
+<p>A Linda e Antonino, que por vontade se tinham conservado perdidos dos seus
+companheiros, voltaram sós para o local onde estavam as carruagens, na meia luz
+crepuscular, sob a solemnidade grave das arvores.</p>
+
+<p>O silencio augmentava á medida que avançavam.</p>
+
+<p>Perdiam-se ao longe os clamores da feira e o ruido discordante da multidão.
+</p>
+
+<p>A floresta parecia indemnisar-se da desordem que n'ella causavam, pelo
+contraste de socego altivo, apenas quebrado pelo ultimo chilrear das aves.</p>
+
+<p>A brisa fresca, impregnada de perfumes sadios, balanceava mollemente as
+folhas humidas das arvores.</p>
+
+<p>Pouco depois de partirem da feira, todos os convivas se achavam na clareira
+onde os esperavam as carruagens.</p>
+
+<p>Ao centro do terreno arrelvado onde fôra servido<span class="pn">{75}</span>
+o almoço, elevava-se uma enorme taça de prata cinzelada, em que chammejava um
+<em>punch</em> magistral!</p>
+
+<p>Os reflexos do <em>punch</em> lançavam, n'um largo raio, vibrações de luz
+azulada.</p>
+
+<p>Remissy não apparecia.</p>
+
+<p>&mdash;É necessario esperar, disse Laura, visto ter-nos convidado. Mas onde
+estará elle?</p>
+
+<p>No mesmo instante partiu d'uma matta proxima, como resposta melodiosa, uma
+<em>phrase</em> de violino, serena e lenta, n'um rythmo phantastico e velado.
+</p>
+
+<p>O violino de Remissy respondia á voz de Laura.</p>
+
+<p>E por entre a penumbra sentiu-se como que um formigamento d'insectos, uma
+dança extravagante de grillos em hervas seccas, e no meio d'esse acompanhamento
+de <em>pizzicato</em> em surdina, a <em>phrase</em> triste repetia-se como um
+queixume atravez a noite!</p>
+
+<p>Foi extraordinario, simples, idealmente puro!</p>
+
+<p>Quando a ultima vibração melodiosa cessou, um bravo formidavel retumbou na
+clareira.</p>
+
+<p>Remissy appareceu por entre o clarão do <em>punch</em>, cabeça ao vento,
+ostentando a sua fronte alta que prematura calvice tornava enorme, com o seu
+magnifico <em>stradivarius</em> debaixo do braço esquerdo.</p>
+
+<p>&mdash;Hein! o que dizes a isto, Linda? que te parece a minha <em>Queen
+Mab</em>? disse elle dirigindo-se á cantora. Tenho dedos, não é verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Bravo! bravissimo! respondeu Laura enthusiasmada.<span
+class="pn">{76}</span> Mas isso não impede que seja um homem sem palavra.
+Prometteu vir almoçar comnosco e não appareceu.</p>
+
+<p>&mdash;Não me falles em coisas tristes, minha filha!</p>
+
+<p>Foi o maldito director do Palacio de Crystal de Londres que veiu novamente
+importunar-me! Imagina que parto para a capital da Inglaterra hoje mesmo, no
+expresso da noite. Antes de partir, porém, quiz que ouvisses a minha
+melodiasita.</p>
+
+<p>Creados de casaca serviam o <em>punch</em> em copos de crystal.</p>
+
+<p>Foram feitas saudes mais ou menos estravagantes.</p>
+
+<p>Beberam um ultimo golo e dispozeram-se a subir para as carruagens.</p>
+
+<p>Remissy despediu-se da diva, beijando-a, e subiu para o carro de posta que o
+trouxera.</p>
+
+<p>Quando viu todos prestes a partir, Pozzoli elevou a grossa voz e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Minhas senhoras e meus senhores, tenho a dizer-lhes o seguinte:
+depois do campo, a cidade; o almoço campestre d'hoje teve por fim celebrar a
+promessa d'escriptura, no theatro dos Italianos, da diva Laura Linda; quero dar
+uma <em>soirée</em> em honra da realisação d'essa escriptura. Peço, pois, a
+todas e a todos os presentes que queiram ir, d'hoje a quinze dias, passar a
+noite em minha casa, na rua Pigolle.<span class="pn">{77}</span> Cantar-se-ha,
+dansar-se-ha, jogar-se-ha, beber-se-ha e rir-se-ha!</p>
+
+<p>Uma triple acclamação victoriou o discurso do amphitryão.</p>
+
+<p>Em seguida subiram para as carruagens, de volta a Paris.</p>
+
+<p>&mdash;Onde está o sr. de Bizeux? perguntou Laura a Despujolles. Tenho que
+fallar-lhe. Quero que me acompanhe a Paris no meu <em>coupé</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Não faça tal, minha querida, disse-lhe em voz baixa o doutor. Durante
+a festa não se fallou senão na especie de monopolio que o visconde tinha feito
+da diva.</p>
+
+<p>&mdash;Se eu era a rainha de festa, quer-me parecer que elle era o heroe
+d'ella. </p>
+
+<p>&mdash;Sem duvida, mas siga o conselho d'um amigo. Vou subir comsigo e com o
+visconde para o <em>coupé</em>. Deixal-os-hei, se quizerem, em Verinet, d'onde
+seguirei para Paris no comboio. Repito-lhe: não parta só com o visconde.
+Lembre-se do que poderão dizer.</p>
+
+<p>Laura levantou a cabeça com altivez e replicou:</p>
+
+<p>&mdash;O que poderão dizer?... Que me importa?... O meu caro doutor conhece
+a minha divisa: ser e não parecer. Repito-lhe que tenho de conversar seriamente
+com o sr. de Bizeux, e não sei se, com a timidez de que elle é dotado, acharei
+occasião tão<span class="pn">{78}</span> propicia como esta. Supporá o dr. que
+ha na minha intenção qualquer pensamento menos digno?</p>
+
+<p>&mdash;Eu? não, seguramente, mas.</p>
+
+<p>&mdash;Basta-me isso. Ah! Eis o sr. de Bizeux! ajuntou ella elevando a voz.
+Senhor visconde, tenho que fallar-lhe. Quer subir para a minha carruagem e
+acompanhar-me até Paris?</p>
+
+<p>&mdash;Oh! minha senhora!... respondeu Antonino meio compromettido, meio
+alegre. </p>
+
+<p>&mdash;Então venha. Subiram para o <em>coupé</em> diante de todos.</p>
+
+<p>&mdash;Bravo! disse Lauretto Mina a meia voz, mas por fórma que foi ouvido
+por todos os que o rodeavam. Vejo com prazer esboçar-se o numero um... porque
+eu quero ser o numero dois!<span class="pn">{79}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0017">VII<br>
+Explicações</a></h2>
+
+<p>A palestra de Laura e de Antonino versou, ao principio, sobre assumptos
+indiferentes, e quasi banaes.</p>
+
+<p>Fallaram do almoço e dos convidados de Pozzoli.</p>
+
+<p>O visconde não queria dizer o que pensava do emprezario e do tenor.</p>
+
+<p>Fallou de Remissy, cuja familiaridade o incommodára por vezes, mas cujo
+enthusiasmo exuberante fizera com que sympathisasse com elle.</p>
+
+<p>&mdash;Que coração tão bondoso o d'elle! disse Laura. É meu verdadeiro
+amigo! Meu pae dedicava-lhe grande affeição e profunda estima. Saberá quanto
+vale em o conhecendo melhor. Em Remissy não ha só<span class="pn">{80}</span> a
+admirar e a applaudir o artista consumado: é tambem um valente e um patriota
+sincero. Durante a guerra da insurreição da Hungria, elle foi um dos primeiros
+que se apresentou, e não quiz nem espingarda nem sabre. «Tenho horror de matar
+ou de ferir, disse Remissy; de resto, como não sei servir-me d'essas armas, era
+capaz de dar cabo de mim com ellas». Em compensação não largou o violino, e
+appareceu sempre onde mais accesa era a lucta, ao lado de Kossuth, tocando
+admiravelmente o <em>Hymno de Rakoçki</em>, por entre as ballas e a metralha,
+sem nunca falhar uma nota!</p>
+
+<p>Depois d'um curto silencio, a cantora accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;N'uma palavra: Remissy é um homem. Tem, superior a todas, a qualidade
+que eu considero mais essencial ao caracter dos homens, a qualidade que o sr.
+visconde possue: a lealdade.</p>
+
+<p>&mdash;É virtude que as mulheres tambem possuem, replicou Antonino, e quem a
+conhece, minha senhora, affiança que não lhe falta.</p>
+
+<p>&mdash;Desejava possuir essa virtude viril, sem duvida. Entretanto
+esforço-me o mais que posso para evitar os dois defeitos que a maior parte das
+vezes perdem as mulheres: a galanteria e a vaidade. É precisamente por essa
+razão que lhe desejei fallar hoje.</p>
+
+<p>&mdash;Porque? perguntou Antonino surprehendido.</p>
+
+<p>&mdash;N'este dia, em que o vi quasi pela primeira<span
+class="pn">{81}</span> vez, occupei-me, sem querer, e como por instincto, quasi
+exclusivamente do senhor, como o senhor se occupou quasi exclusivamente de mim.
+Ha bocado, de subito, em quanto Remissy tocava, acudiu-me ao espirito que tinha
+sido um pouco leviana, que o sr. visconde não conhece a minha fórma de
+proceder, talvez original, e que, por isso, interpretaria mal o que hoje se
+passou. Portanto, disse commigo: é indespensavel que eu tenha com elle uma
+explicação cabal, franca, em que lhe falle com o coração nas mãos...</p>
+
+<p>&mdash;Não sei se deva regosijar-me por essa sua resolução, disse Antonino
+com voz tremula. Sinto que estou enfeitiçado e desejava conservar-me assim.</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu não desejo que entre nós haja a menor sombra, a menor razão
+que de futuro motive a mais leve surpreza. As mulheres, d'ordinario, esperam a
+declaração dos homens para as acceitar ou rejeitar. Vae julgar talvez que eu
+fujo ás conveniencias mais rudimentares, antecedendo-me á sua declaração, mas é
+necessario, primeiro que tudo, que o sr. não soffra. Sr. de Bizeux, tenho
+pensado muito no meu amigo desde o dia do incendio. Não dou importancia ao que
+se diz, ao que se suppõe, ou ao que se inventou, mas senti, de longe, nas suas
+acções, no seu silencio, na sua fuga, e depois, quando o vi e lhe fallei, nas
+suas mais insignificantes palavras, no seu<span class="pn">{82}</span> aspecto,
+no seu metal de voz, senti... que o senhor não estava longe de amar-me.</p>
+
+<p>O visconde fez um movimento, e quiz fallar.</p>
+
+<p>Mas Laura não lhe deu tempo, e continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Peço-lhe que me não declare ser isso um facto consumado... Não, não
+quero ouvir-lhe dizer: amo-a!</p>
+
+<p>&mdash;Comprehendo... sei... replicou Antonino. A senhora não me ama, o que
+é natural, e&mdash;o que é triste,&mdash;não quer amar-me!</p>
+
+<p>&mdash;Não o amo, nem o quero amar... disse bem, repetiu Laura.</p>
+
+<p>Antonino fez um gesto de desgosto.</p>
+
+<p>Laura ajuntou suavemente:</p>
+
+<p>&mdash;Não se zangue commigo, e sobretudo não soffra. Sem duvida lhe
+disseram o que tinha sido a minha vida até aqui, mas vista e julgada por
+estranhos. Ouça-me agora.</p>
+
+<p>E seguidamente contou-lhe a educação que recebera, as suas primeiras
+impressões, e o duplo fluido de que ella era por assim dizer formada: o pae
+transmittira-lhe o culto pela arte, a mãe guiara-a por forma a ter sempre a
+consciencia tranquilla, e a vida pura.</p>
+
+<p>Depois a cantora disse, pensativa:</p>
+
+<p>&mdash;Portanto não me accuse, como teem feito varios, de frieza, de
+sequidão. Sinto em mim instinctos de ternura e d'expansão, aos quaes não basta
+a sincera<span class="pn">{83}</span> affeição que tenho aos meus amigos. Creio
+que só o amor pode encher completamente o coração. Olhe, para se consolar um
+pouco, vou dar-lhe uma prova de confiança absoluta, dizendo-lhe o que só se diz
+a um irmão: ha em mim, em gráu bastante elevado, um sentimento que herdei de
+minha mãe, a mais estremosa das mães: o sentimento maternal. Todas as creanças
+que vejo, produzem-me uma impressão inexplicavel, tenho por ellas uma adoração
+completa: adoro-lhes os gestos, os sorrisos, a voz balbuciante, a alma por
+definir. Ter uma creança que fosse meu filho, é para mim um sonho delicioso;
+ter um filho do homem que amasse, é outro sonho que considero impossivel de
+realisar-se!</p>
+
+<p>&mdash;Porque?</p>
+
+<p>&mdash;Porque? Sob a apparencia d'uma mulher phantastica, eu sou,
+garanto-lhe, uma mulher seria. Não quereria, não poderia amar um homem que não
+fosse meu marido.</p>
+
+<p>Houve um silencio.</p>
+
+<p>Antonino cortou-o dizendo com voz grave:</p>
+
+<p>&mdash;Escute-me agora, Laura: sou absolutamente livre e senhor das minhas
+acções, e da minha vida. Por coisa alguma d'este mundo affligiria ou daria o
+menor desgosto a meu pae; mas o homem que me deu o ser possue alma generosa e
+elevada como poucos, e tem por mim um amor sem limites. Não me amará<span
+class="pn">{84}</span> ainda, Laura, mas, se diligenciar amar-me, é possivel
+que o consiga. Pois bem: prometta-me que no dia em que tal succeda, consentirá
+em ser minha mulher!</p>
+
+<p>&mdash;Sua mulher!... disse a cantora admirada.</p>
+
+<p>Depois, com os olhos marejados de lagrimas, accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! como lhe agradeço a grande prova d'estima que acaba de dar-me!
+Como as suas palavras me commovem! Será por me ter salvo a vida? Não sei, mas o
+que é certo,&mdash;e já ha bocado lh'o disse,&mdash;é que fui attrahida para o
+senhor por um vivo sentimento de sympathia, e se o não amo ainda, parece-me que
+não necessitaria fazer grande esforço para o conseguir. Levanta-se apenas uma
+difficuldade, que de novo lhe aponto: não quero amal-o!</p>
+
+<p>&mdash;Mas porque?</p>
+
+<p>&mdash;Porque o sr. visconde não póde nem deve casar commigo.</p>
+
+<p>&mdash;E se os nossos desejos estiverem d'accordo, que obstaculo poderá
+separar-nos?</p>
+
+<p>&mdash;Um obstaculo insupperavel. É impossivel que o sr. visconde Antonino
+de Bizeux case com uma mulher de theatro, que, mesmo depois de casada, não
+renunciará á scena.</p>
+
+<p>&mdash;É impossivel, disse?</p>
+
+<p>&mdash;Disse e repito: é impossivel! Não devemos deixar-nos obcecar por uma
+excitação de momento.<span class="pn">{85}</span> Quando se prende o destino
+inteiro, deve-se ter em vista não a alegria do instante presente, mas a
+felicidade de todo o futuro: Com as aspirações honestas que minha mãe me legou,
+eu tenho as aspirações d'espirito de meu pae. Nasci e morrerei artista. Se
+fosse pintora, compositora ou escriptora, podia ter um logar na vida da alta
+sociedade. Mas sou apenas cantora; o meu talento é a minha voz, e para que esse
+talento se produza é necessario um publico, não o publico indulgente dos
+salões, mas o grande publico, a multidão que enche um theatro.</p>
+
+<p>&mdash;E suppõe que o amor, o lar, as santas alegrias da familia não
+substituirão vantajosamente o ruido das palmas e a gloriola dos bravos?</p>
+
+<p>&mdash;Durante algum tempo... sim... é possivel, é até provavel. Mas estou
+certa de que depois chegará o aborrecimento, a nostalgia do proscenio. Na
+ultima epoca que cantei no theatro Scala, ha tres annos, adoeci ao começar o
+inverno. A doença era ligeira e qualquer outra que não fosse eu estaria
+completamente curada com um mez de tratamento e de socego. Mas a impaciencia, o
+desgosto e a febre devoravam-me, por fórma que estive de cama tres mezes.
+Pereceria longe do theatro, como uma planta a que não chegam os raios do sol.
+Ah! se o senhor fosse um artista como eu, pobre, desconhecido até! Mas possue
+um honrado titulo e uma grande fortuna. Seu pae<span class="pn">{86}</span> por
+mais condescente que seja, não acceitaria para nora uma comediante, uma
+cantora, uma mulher que póde ser pateada e assobiada! Se o senhor quizesse
+contrariar a vontade de seu pae, desprezando os deveres que lhe impõem o seu
+nome e a sua posição social, seria eu a primeira&mdash;ouve?&mdash;que
+recusaria semelhante sacrificio.</p>
+
+<p>&mdash;Sacrificio, se vier a amar-me, será a senhora quem o fará um dia.</p>
+
+<p>&mdash;É possivel, e por isso mesmo é que eu não quero amal-o.</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu que a amo, o que hei de fazer?</p>
+
+<p>&mdash;Tornar-se meu amigo. Não diga que não; não supponha que é impossivel
+d'operar a transformação do amor em amisade. Verá que hei de auxilial-o
+fraternalmente. É necessario vontade e coragem, bem sei, mas estou certa de que
+não lhe faltarão essas duas qualidades.</p>
+
+<p>&mdash;Está-me fallando como me fallaria meu pae!</p>
+
+<p>&mdash;Ah! confessa?... Ainda bem! Attenda-o e attenda-me. A um homem de
+caracter fraco, eu diria: parta, faça uma longa viagem, e volte d'aqui a alguns
+mezes, completamente curado. Ao meu amigo digo-lhe: fique em Paris, vá ver-me
+quantas vezes desejar, e estará curado dentro em poucas semanas.</p>
+
+<p>&mdash;Seja! respondeu o visconde. Não partirei, tentarei a prova. Veremos o
+que resulta d'ella.<span class="pn">{87}</span></p>
+
+<p>Quando o <em>coupé</em> parou na rua de Bolonha, á porta da casa de Laura,
+Antonino despediu-se da cantora sem commoção apparente. Beijou-lhe a mão e
+trocaram amigavelmente um:</p>
+
+<p>&mdash;Até ámanhã.</p>
+
+<p>O visconde desceu a pé a rua de Glichy e a calçada d'Antin até aos
+<em>boulevards</em>.</p>
+
+<p>Sentia uma especie de consolação ao ver-se perdido entre a multidão.</p>
+
+<p>Caminhou até que os passeiantes rarearam.</p>
+
+<p>Só depois disso entrou em casa, com o coração cheio d'incerteza e
+d'angustia.<span class="pn">{88}</span> <span class="pn">{89}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0018">VIII<br>
+Mais perplexidades</a></h2>
+
+<p>Antonino executou com a mais perseverante firmeza a resolução que tomára.
+</p>
+
+<p>No dia seguinte ao do almoço em S. Germano, e nos dez ou doze que se
+seguiram, foi a casa da cantora, não a hora certa, e com demora indeterminada,
+mas sem deixar de apparecer um unico dia.</p>
+
+<p>Umas vezes encontrava Laura só, outras apparecia o dr. Despujolles, sempre
+alegre, sempre espirituoso.</p>
+
+<p>O visconde era como que uma pessoa da familia da cantora.</p>
+
+<p>Fallavam d'arte, de qualquer assumpto em geral, da novidade do dia.<span
+class="pn">{90}</span></p>
+
+<p>A Linda, por vezes, quando estavam sós, fallava d'ella propria, com
+simplicidade, sem a menor affectação, sem se contrafazer, sem se macular.</p>
+
+<p>Contava-lhe o seu passado, fallava-lhe do pae, do que tinha visto, das suas
+luctas, dos seus successos, das suas dôres.</p>
+
+<p>Antonino absorvia assim, dia a dia, por completo, as mais insignificantes
+minucias da vida de Laura.</p>
+
+<p>A cantora não dissimulava os seus defeitos ou os seus erros, mas não os
+exagerava.</p>
+
+<p>No dia em que participou a Antonino que assignára, de manhã, com Pozzoli,
+uma escriptura d'um anno para cantar no Theatro Italiano, com a multa de
+cincoenta mil francos para qualquer das partes contractantes, que resolvesse
+rescindir o contracto, o visconde teve uma contracção nervosa.</p>
+
+<p>Estava escripto que deveria levantar-se entre elles mais aquella barreira.
+</p>
+
+<p>Antonino não demonstrou descontentamento sobre o contracto propriamente
+dito, mas ao mesmo tempo indicou uma profunda má vontade contra o Theatro
+Italiano, contra Pozzoli e o <em>elenco</em>, que considerou muito inferior ao
+do antigo salão Favart.</p>
+
+<p>Sentiu ver Laura confundida com artistas de valor secundario, n'uma
+companhia de que Lauretto Mina era primeiro tenor.</p>
+
+<p>Lauretto Mina e Pozzoli!<span class="pn">{91}</span></p>
+
+<p>Um, brigão e libertino; o outro, libertino e rufião!</p>
+
+<p>Um, trapaceando ao jogo; o outro, explorando os duellos!</p>
+
+<p>Na opinião d'Antonino aquelles dois homens representavam a escoria dos
+italianos.</p>
+
+<p>N'aquelle mesmo dia recebeu o visconde um convite de Pozzoli, para assistir
+á <em>soirée</em> que o emprezario dava, d'ali a algumas noites, na sua casa da
+rua Pigolle.</p>
+
+<p>Laura tencionava ir?</p>
+
+<p>Emquanto a elle, estava resolvido a não pôr os pés n'aquelle bordel.</p>
+
+<p>Perguntou á cantora se não sabia o que diziam de Pozzoli.</p>
+
+<p>&mdash;Não é um italiano... é um grego!</p>
+
+<p>Laura respondeu com meiguice.</p>
+
+<p>Estava resolvida a ter com Pozzoli as relações indispensaveis que sempre
+ligam a escripturada ao emprezario, unicamente.</p>
+
+<p>Entretanto não podia deixar d'ir á <em>soirée</em>, que era dada em sua
+honra, e na qual devia cantar um ou dois trechos de musica.</p>
+
+<p>Ficaria muito reconhecida ao visconde, se elle annuisse a pôr de parte a
+repugnancia que sentia, e assistisse á <em>soirée</em> tambem.</p>
+
+<p>Necessitava que Antonino estivesse presente, para velar por ella.<span
+class="pn">{92}</span></p>
+
+<p>&mdash;Devo confessar-lhe um dos meus maiores vicios, accrescentou Laura,
+rindo; sou jogadora. Não sei explicar nem me desculpo d'esta falta. O jogo
+produz-me emoções tão extraordinarias, que as procuro e as adoro. Não deixe
+d'ir, para que me contenha e afaste até, se eu, como costumo, me deixar
+influenciar demais.</p>
+
+<p>&mdash;A acreditar no que se diz, respondeu Antonino, não é para a minha
+amiga que a minha attenção deve voltar-se, se jogar com Pozzoli.</p>
+
+<p>&mdash;Bem sei. Diz-se que é muito feliz ao jogo, que principalmente os seus
+escripturados não devem jogar contra elle, porque muitas vezes lhes tem ganho
+um anno d'ordenados. Pela minha parte garanto-lhe que nunca vi coisa alguma
+justificativa d'essa triste reputação de Pozzoli. Apenas uma vez joguei contra
+elle, e levantei-me ganhando cento e cincoenta <em>luizes</em>. Mas não
+importa; se é verdade o que se diz, isso é mais uma razão para não deixar d'ir
+á <em>soirée</em>. Vae?</p>
+
+<p>&mdash;Irei.</p>
+
+<p>A cantora ficou satisfeita por fazer com que o visconde desempenhasse o
+papel de seu protector e conselheiro.</p>
+
+<p>Sentia immenso prazer pedindo-lhe que a guiasse e reprehendesse,
+confessando-lhe as suas faltas e a sua ignorancia.</p>
+
+<p>Interrogava-o sobre as viagens e estudos que elle<span
+class="pn">{93}</span> tinha feito, pedia-lhe a opinião sobre as coisas e sobre
+os homens, escutando-o sempre com approvação e deferencia, como um irmão mais
+novo escuta o irmão mais velho.</p>
+
+<p>Nas palestras que tinham, cada vez mais intimas, nunca Laura deixou entrever
+a menor parcella de galanteio ou de vaidade.</p>
+
+<p>A mulher occultava-se, chegava mesmo a desapparecer, para só ficar a amiga.
+</p>
+
+<p>Laura percebia que com a sua encantadora simplicidade e graciosa modestia,
+ia contra o fim que tinha em vista, porque um homem com o caracter d'Antonino,
+em vez de se affastar, approxima-se cada vez mais da mulher que faz d'elle
+confidente da sua alma ingenua e sincera.</p>
+
+<p>E effectivamente o visconde estava cada vez mais apaixonado.</p>
+
+<p>Nem já conhecia o grau a que se tinha elevado a sua paixão.</p>
+
+<p>Ao principio calculava o amor que sentira pela cantora, pelo ciume que
+experimentava.</p>
+
+<p>Inquietava-se por ver com Laura os amigos intimos, como que os inseparaveis
+da Linda. De resto, o numero d'esses amigos era limitadissimo.</p>
+
+<p>Tres ou quatro, contando com Despujolles, e Antonino conhecia-os a todos
+antes de ter relações fraternaes com a cantora.<span class="pn">{94}</span></p>
+
+<p>Quando os encontrou pela primeira vez em casa de Laura, tranquillisou-se. A
+Linda fallou-lhe d'elles com um socego e uma serenidade que não deixou no
+espirito do visconde a menor sombra de suspeita.</p>
+
+<p>Socegado pelos que via, Antonino sobresaltou-se por um que não via: o tenor
+Lauretto Mina.</p>
+
+<p>Ouvira dizer que o tenor fizera em tempo a côrte a Laura, e nem uma só vez a
+Linda pronunciára o nome de Lauretto.</p>
+
+<p>Porque?</p>
+
+<p>A verdade era que Laura temia o tenor, não por ella, mas por Antonino.</p>
+
+<p>Temia-o por causa das suas continuas fanfarrices, das suas impertinencias,
+dos seus modos d'homem mal educado, e, emfim, pelas varias narrações que lhe
+tinham feito da pericia com que Lauretto jogava o sabre.</p>
+
+<p>Como já dissemos, o tenor fôra ajudante d'um professor d'esgrima em Milão.
+</p>
+
+<p>Dizia-se que conhecia dois botes ignorados, que consideravam incorrectos.
+</p>
+
+<p>Na Italia matára um homem, e ferira gravemente um outro.</p>
+
+<p>Além d'isso batera-se varias vezes, pondo sempre os adversarios fóra do
+combate.</p>
+
+<p>E vangloriava-se do facto, dizendo que estava precavido contra qualquer
+acontecimento grave.<span class="pn">{95}</span></p>
+
+<p>Uma especie d'instincto advertira Laura de que esse acontecimento podia
+surgir da fatuidade do esgrimista emerito e da altivez do gentilhomem bretão.
+</p>
+
+<p>Era essa a razão que a levava a não fallar do tenor ao visconde.</p>
+
+<p>Comtudo um dia Antonino interrogou-a.</p>
+
+<p>&mdash;Esse tal Lauretto Mina, com quem vae cantar no Theatro Italiano, não
+lhe fez a côrte em tempo?</p>
+
+<p>A cantora respondeu, sorrindo e sem se perturbar, que Lauretto fazia a côrte
+a todas as mulheres, mas que, a primeira vez que lhe dirigira galanteios, ella
+respondera-lhe de fórma que elle não se atrevera a continuar.</p>
+
+<p>Era a verdade, e Laura disse-a de maneira que convenceu Antonino.</p>
+
+<p>De resto, fallou d'aquelle homem sem escrupulos sem vergonha, tão
+desdenhosamente, que o visconde arrependeu-se de ter, por um instante,
+suspeitado que Laura poderia ter sympathia por um patife de tal especie.</p>
+
+<p>Portanto deixou de ter ciumes.</p>
+
+<p>Mas em compensação o amor augmentou.<span class="pn">{96}</span> <span
+class="pn">{97}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION0019">IX<br>
+A confissão</a></h2>
+
+<p>Um dia,&mdash;na vespera da <em>soirée</em> dada por Pozzoli,&mdash;Antonino
+foi a casa de Laura á hora costumada, duas da tarde, e encontrou-a ao piano.</p>
+
+<p>A pedido do visconde a Linda cantou duas ou tres canções populares
+hespanholas, de que elle gostava muito, com uma graça e perfeição inexcediveis.
+</p>
+
+<p>Antonino escutava, como mergulhado n'uma especie d'adormecimento.</p>
+
+<p>Ao contrario do que costumava, pouco a applaudiu.</p>
+
+<p>Ella fechou o piano e approximou-se d'elle.</p>
+
+<p>Fallou-lhe com a affabilidade e a franqueza habituaes.</p>
+
+<p>Vendo, porém que o visconde não lhe respondia, disse-lhe:<span
+class="pn">{98}</span></p>
+
+<p>&mdash;Está hoje muito triste! O que tem, meu amigo? Recebeu alguma má
+noticia? Estará doente seu pae?</p>
+
+<p>&mdash;Effectivamente recebi hoje de manhã uma carta de meu pae, que,
+felizmente, está bom, assim como minha irmã. A carta só fallava de mim, e em
+resposta a outras que lhe escrevi nos ultimos dias. Como lhe disse, meu pae é o
+meu confidente e o meu melhor amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Se não é por elle, é pelo sr. que está triste? Teve algum desgosto?
+Diga! Como sabe combinámos que eu seria tambem sua amiga.</p>
+
+<p>&mdash;Combinamos, é verdade... respondeu Antonino em tom pungente.</p>
+
+<p>&mdash;Então faça-me confidente dos seus desgostos; já confessou que estava
+triste...</p>
+
+<p>&mdash;Estou...</p>
+
+<p>&mdash;E qual é a causa d'essa tristeza?... Vamos, falle...</p>
+
+<p>&mdash;Se fallo, Laura, respondeu Antonino decidindo-se? falto ao
+compromisso que tomei com a senhora. Mas é o mesmo, fallarei... Perdôe-me e
+escute-me.</p>
+
+<p>&mdash;Acautelle-se, disse a cantora inquieta. Não venha turvar a profunda
+satisfação que todos os dias me causa a sua visita. Ha apenas duas semanas que
+o conheço, e parece-me que estamos relacionados ha mais de dez annos.
+Acautelle-se... acautelle-se. De<span class="pn">{99}</span> certo não me quer
+entristecer tambem, e ainda menos offender-me.</p>
+
+<p>&mdash;Não a entristecerei nem a offenderei, certamente. Mas não combinámos
+tambem que seriamos sempre extremamente francos um com o outro, que nada
+dissimulariamos, que o primeiro artigo da lei da nossa amisade seria a mais
+absoluta confiança? Pois bem: vou ler no meu coração, vou indicar-lhe tudo o
+que n'elle ha. Calou-se por instantes, e depois continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Pediu-me, Laura, que não fosse mais do que seu amigo. Tentei, de boa
+vontade e de boa fé, satisfazer o seu pedido, mas não o consegui. Quanto mais
+vezes a vejo, mais augmenta em mim a estima e a admiração pela senhora, e com a
+admiração e a estima, o amor. Não posso resistir-lhe, não posso luctar por mais
+tempo, não posso conter-me! É indispensavel que lhe diga bem alto: amo-a,
+Laura, amo-a!...</p>
+
+<p>Ella soluçou.</p>
+
+<p>&mdash;Escute-me... ainda não acabei. Se a phrase que me prohibiu de
+pronunciar saltou dos meus labios, não foi com a intenção de a affligir ou de
+lhe desobedecer. Não me esqueci d'uma só das palavras que trocamos á volta de
+S. Germano. Consinta apenas que uma ultima vez lhe faça a seguinta pergunta; se
+casasse com um homem que a amasse e<span class="pn">{100}</span> cuja posição e
+fortuna lhe permittissem abandonar o theatro, ser-lhe-ia completamente
+impossivel renunciar á scena para sempre?</p>
+
+<p>&mdash;Já lh'o disse, mas vou repetir-lhe que o theatro é para mim como uma
+segunda vida, e que não devo nem quero renunciar a elle.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, Laura, eu é que não posso renunciar á sua mão. Talvez
+soffresse menos não respirando do que deixando de a ver. A senhora é para mim
+mais do que uma segunda vida, porque é a minha vida inteira! Não quer ceder ao
+meu pedido? Cederei eu ao seu.</p>
+
+<p>E accrescentou com voz firme:</p>
+
+<p>&mdash;Continue no theatro, Laura, e no dia em que me amar, será minha
+mulher! </p>
+
+<p>Ella levantou-se, estupefacta, e soltou um grito de surpreza.</p>
+
+<p>&mdash;É possivel?... O que disse?... Pois consente?... Deixar-me-ha ficar
+no theatro... depois de dar-me o seu nome?... Oh! meus Deus!...</p>
+
+<p>Sentiu uma alegria enorme, inexplicavel, de que ella propria não
+comprehendia a significação.</p>
+
+<p>Elle ajoelhou-lhe aos pés e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Sim... tudo... tudo! Consisto em tudo, com tanto que seja
+minha!...</p>
+
+<p>Laura pôz-lhe uma das mãos na frontes e respondeu:<span
+class="pn">{101}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não, meu amigo, é muito! Não devo consentir em tanta generosidade...
+não quero acceitar um tão grande sacrificio... não quero!...</p>
+
+<p>N'esse momento ouviu-se uma voz, alta e clara, na sala contigua áquella em
+que estavam Antonino e Laura.</p>
+
+<p>Era a voz de Lauretto Mina.<span class="pn">{102}</span> <span
+class="pn">{103}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00110">X<br>
+O supplicio do silencio</a></h2>
+
+<p>O tenor fallava com Jacintha, a creada de quarto.</p>
+
+<p>Devemos declarar aqui que Lauretto pertencia ao numero d'aquelles a quem a
+expansiva Jacintha chamava bonitos.</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-me, rapariga! dizia, ou antes, gritava o tenor. Um companheiro
+nunca incommoda!</p>
+
+<p>E entrou de subito na sala onde estavam Laura e Antonino.</p>
+
+<p>A Linda empallideceu.</p>
+
+<p>O visconde levantou-se, cerrando os labios, enraivecido.</p>
+
+<p>Lauretto fingiu não ter visto Antonino ajoelhado.</p>
+
+<p>Foi direito a Laura, e pegou-lhe na mão, que ella não lhe estendera.</p>
+
+<p>&mdash;Bom dia, minha querida, disse elle. Senhor visconde, tenho a honra de
+o cumprimentar... Esta Jacintha<span class="pn">{104}</span> a não me querer
+deixar entrar!... Nós só a estranhos não permittimos a entrada nos nossos
+camarins, mas, que diabo! nas nossas casas os collegas teem sempre entrada
+franca!</p>
+
+<p>Laura, interdicta, não achou uma só palavra que responder.</p>
+
+<p>Elle não se incommodou por não obter resposta, e continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Com que então cantamos ámanhã juntos, na <em>soirée</em> de Pozzoli,
+o dueto da <em>Lucia</em>! É por essa razão que venho a tua casa. Se queres,
+vamos ensaiar-nos, minha querida.</p>
+
+<p>Antonino estava irritadissimo.</p>
+
+<p>Aquelle homem atrevia-se a tratar Laura por tu!</p>
+
+<p>Chamava-lhe <em>minha querida</em>, como se estivesse fallando com a creada
+de quarto!</p>
+
+<p>Deu um passo para Laura, interrogando-a com o olhar ancioso.</p>
+
+<p>Ella de certo ia zangar-se, mandaria pôr fóra o atrevido... ou, pelo menos,
+com uma só palavra, permittiria que elle, Antonino, interviesse, dando uma
+lição ao insolente.</p>
+
+<p>Laura, gelada de pavor, percebia tudo o que se passava no espirito do
+visconde.</p>
+
+<p>Mas deveria ella provocar um conflicto entre aquelles dois homens?</p>
+
+<p>Do conflicto resultaria um duello talvez...<span class="pn">{105}</span></p>
+
+<p>Aquelle miseravel mataria Antonino.</p>
+
+<p>Por isso, com um sorriso forçado, balbuciou apenas:</p>
+
+<p>&mdash;Ensaiar o dueto?... Não, é inutil... Agradeço-lhe ter-se
+incommodado... </p>
+
+<p>&mdash;Como queiras, <em>cara mia</em>, replicou o tenor.</p>
+
+<p>E sem ceremonia pegou n'uma cadeira e sentou-se perto de Laura.</p>
+
+<p>Percebia perfeitamente o effeito que estava produzindo, e no intimo
+alegrava-se com ferocidade.</p>
+
+<p>Via no rosto de Laura pintada a consternação e a angustia, e nas feições do
+visconde a indignação e o furor.</p>
+
+<p>Lauretto, ao contrario, estava cada vez mais tranquillo.</p>
+
+<p>De resto, que podiam elles fazer ou dizer?</p>
+
+<p>Por mais indignados que estivessem intimamente, estavam condemnados ao
+silencio.</p>
+
+<p>Se ella se irritasse pelo procedimento indelicado do tenor, se por uma
+palavra ou por um gesto deixasse perceber que se considerava offendida, o
+visconde tinha o direito e o dever de intervir.</p>
+
+<p>E o que se seguiria?</p>
+
+<p>Uma altercação, de que resultaria um desafio, com todas as suas perigosas
+consequencias.</p>
+
+<p>Se Antonino, retrahindo-se Laura, se mostrasse mais susceptivel que ella e
+levantasse qualquer termo<span class="pn">{106}</span> insolente de Lauretto,
+faltaria ás mais rudimentares praxes da boa educação, comprometteria a cantora,
+porque se daria ares de mandar mais que a dona da casa.</p>
+
+<p>O tenor, divertindo-se com a situação embaraçosa do visconde e da cantora,
+continuou fallando a Laura com toda a liberdade.</p>
+
+<p>E, para completa impertinencia, fallou-lhe na sua lingua patria.</p>
+
+<p>Antonino sabia o italiano quasi tão bem como o francez, mas podia
+desconhecel-o, e n'esse caso era excluido da conversação.</p>
+
+<p>&mdash;Não necessitas ensaiar o dueto, <em>cara</em>? Eu, desde que o cante
+comtigo, estou certo de que hei de cantal-o magnificamente. Não o canto com
+tanta correcção com qualquer outra. Como sabes, quando se sente o que se canta,
+a emoção communica-se. Decididamente obteremos um verdadeiro successo! Ah!
+<em>cara mia</em>, que alegria sinto por cantar de novo a teu lado! O meu pobre
+talento é como duplicado pelo teu. Pozzoli disse-me que a escriptura já estava
+assignada. É verdade? Duvido sempre das affirmações d'aquelle demonio.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, respondeu Laura em francez.</p>
+
+<p>O tenor, é claro, fingiu não comprehender a indirecta advertencia, e
+continuou na sua lingua:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Pozzoli d'esta vez não mentiu?!.... Bravo!<span
+class="pn">{107}</span> bravissimo! Se elle necessitar de metade dos meus
+ordenados para augmentar os teus, da melhor vontade os cedo. Vamos ámanhã dar
+aos parisienses o ante-gosto do nosso successo futuro. Estou satisfeitissimo
+por teres annuido a ir á <em>soirée</em> do nosso emprezario. Verdade seja que
+não podias proceder d'outra fórma.</p>
+
+<p>&mdash;Effectivamente era difficil recusar.</p>
+
+<p>&mdash;Era até impossivel. Entretanto dizia commigo: a <em>casta diva</em>
+não acceita. Em S. Germano, em pleno campo, o Pozzoli, que nós conhecemos,
+evaporava-se um pouco; mas em casa d'elle não pode deixar de ser o que na
+realidade é. Ah! Ah! em Paris augmentou até os conhecidos desregramentos,
+aquelle maroto! De resto, eu, como sou homem, pouco me importo com isso. Mas
+digo mal: é justamente por ser homem que mais sinto as loucuras de Pozzoli.
+Como está todos os dias a mudar de sultanas,&mdash;aquelle sultão!&mdash;o
+pobre tenor é forçado a ser, successivamente, agradavel a cada uma das
+favoritas. Não me falta que fazer. A que reina agora é a Elvira gorda.
+Conheces?</p>
+
+<p>&mdash;Não, respondeu Laura com firmeza.</p>
+
+<p>&mdash;Agora me recordo que ella não foi a S. Germano. Não gosta d'apparecer
+de dia. Mas socega, que elle ámanhã não deixa de apresentar-t'a. Tem uma prenda
+bôa, a Elvira; não é cantora, e por isso não<span class="pn">{108}</span> me
+incommoda com pedidos para que cante com ella. É bailarina; dirige o corpo de
+baile do theatro Italiano, composto de doze sylphides que ámanhã dansarão na
+<em>soirée</em> um bailado a caracter. Não te assustes, <em>casta diva</em>,
+porque em publico apparecerão pouco apimentadas. Haverá outros divertimentos;
+jogar-se-ha tambem. Tu continuas sendo jogadora, não é verdade? Na questão do
+jogo estou convencido, caso extraordinario, que calumniam Pozzoli. Dir-me-has
+que eu jogo sempre a favor d'elle, mas isso explica-se: Pozzoli tem sorte como
+poucos. E sabes porque? Fiz esta descoberta, apesar de não lhe faltarem
+sultanas, como te disse: Pozzoli é infeliz nos amores. Ámanhã não foges á
+tentação: depois de cantarmos decerto jogarás algumas <em>mãos</em> de
+<em>baccara</em>.</p>
+
+<p>&mdash;Não sei, respondeu Laura impaciente.</p>
+
+<p>Lauretto continuou, mas d'esta vez em francez:</p>
+
+<p>&mdash;E o sr. visconde gosta de jogar? Se assim não fôr divertir-se-ha por
+outra fórma, porque as distracções não faltarão. Em casa de Pozzoli ha uma sala
+d'armas. Fui eu que a installei, aconselhando-o a que jogasse um pouco o sabre,
+todos os dias, para não engordar demasiadamente. Não é por ser meu discipulo,
+mas Pozzoli é já adversario para se temer um pouco. Um dos numeros do programma
+da festa é um assalto. Sou apaixonadissimo pela esgrima. Tenho um grande horror
+pelos duellos, porque já matei<span class="pn">{109}</span> dois adversarios,
+mas sinto-me satisfeitissimo quando n'uma sala d'armas empunho um sabre ou um
+florete. Tambem não admira: foi esse por muito tempo o meu ganha pão; e não me
+envergonho de o confessar, pelo contrario, orgulho-me. Hoje, para mim, a
+esgrima é apenas um simples passatempo, em que tanto se distrahem os artistas
+como os fidalgos, não é verdade, sr. visconde?</p>
+
+<p>Antonino era d'esta vez directamente interpellado por Lauretto Mina.</p>
+
+<p>Brilharam-lhe os olhos, e abriu a bocca para responder. Laura estremeceu.
+</p>
+
+<p>Socegou, porém, porque no mesmo instante Jacintha abriu a porta da sala, e
+annunciou:</p>
+
+<p>&mdash;O sr. dr. Despujolles.</p>
+
+<p>O medico cumprimentou Laura e o visconde.</p>
+
+<p>Lauretto Mina poucas relações tinha com o dr., e não se arriscou a ser muito
+familiar com elle.</p>
+
+<p>Disse apenas:</p>
+
+<p>&mdash;Tenho a honra de cumprimentar o nosso excellente dr. Despujolles.
+Infelizmente sou obrigado a partir no proprio momento em que elle chega.
+Declaro, porém, que não é com medo de que me faça febre, como se diz no
+<em>Barbeiro</em>. Pozzoli espera-me ás tres horas, por causa dos ultimos
+preparativos para a <em>soirée</em>. Até ámanhã, minha cara Linda, Sr.
+visconde... um seu humilde creado...<span class="pn">{110}</span></p>
+
+<p>Rodou sobre os tacões, fez com a mão um gesto amigavel ao dr., e sahiu.</p>
+
+<p>&mdash;Aborrecida creatura! disse Despujolles. Nunca pude supportal-o!</p>
+
+<p>Laura e Antonino não responderam.</p>
+
+<p>Elle olhou-os admirado.</p>
+
+<p>&mdash;Mas o que teem? Parece que viram a cabeça de Medusa!</p>
+
+<p>&mdash;Meu caro dr., disse Laura, foi essa aborrecida creatura, como lhe
+chamou, que, na presença do sr. visconde de Bizeux, em minha casa, se atreveu a
+tratar-me como apenas nos tratamos no theatro. O sr. de Bizeux desconhece, sem
+duvida, os usos e costumes, originalmente singulares, do nosso mundo theatral.
+Os artistas tratam-se por tu entre si desde o primeiro dia que se conhecem. O
+que não procede d'essa fórma é immediatamente considerado mau companheiro. Isto
+não impede que os homens bem educados,&mdash;e no theatro tambem os ha, e
+muitos,&mdash;quando encontram na sociedade uma mulher que é sua collega, se
+cohibam de lhe fallar como se falla a uma senhora, sobretudo diante
+d'estranhos. Mas ninguem ignora que Lauretto Mina não é um homem bem educado.
+Entretanto o sr. visconde, que desconhecia o costume, estranhou a linguagem um
+pouco licenciosa do insolente que acaba de sahir d'aqui. Emquanto fallou, Laura
+nem por um instante desfitou<span class="pn">{111}</span> Antonino, cujas
+feições indicavam um profundo desgosto.</p>
+
+<p>Despujolles percebeu que chegára n'um momento de crise aguda, e tratou de
+intervir como calmante, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;O nosso amigo, quasi recemchegado a Paris e desconhecedor, por
+completo, dos habitos do nosso mundo de bastidores, não pode adivinhar o que eu
+sei, que vivo ha vinte annos entre artistas. Não admira, pois, que se
+surprehendesse e desgostasse pelo intimo tratamento de <em>tu</em>, que,
+comtudo, garanto-o, é universal entre os artistas.</p>
+
+<p>&mdash;Esse tratamento admirou-me ao principio, confesso, respondeu Antonino
+com voz lenta; mas o que mais me surprehendeu não foi a fórma da linguagem foi
+a propria linguagem.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! isso é uma especialidade de Lauretto Mina! replicou Laura com
+vivacidade. E entretanto fiquei tão surprehendida como o meu amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Então porque não lhe fez comprehender isso mesmo? Eu esperava um
+olhar, um movimento, um simples signal que chamasse esse insolente á ordem.</p>
+
+<p>Uma mulher nunca pode dizer a um homem que sentiu medo por elle. Portanto
+Laura limitou-se a responder:</p>
+
+<p>&mdash;Não quiz dar importancia ás inconveniencias<span
+class="pn">{112}</span> d'esse homem, para que elle julgasse que nem reparava
+n'ellas.</p>
+
+<p>&mdash;O Lauretto Mina é com effeito bastante conhecido e tem bem inferior
+cotação para que se dê importancia ao que diz.</p>
+
+<p>Laura continuava olhando para Antonino, que se calou.</p>
+
+<p>&mdash;Peço perdão, meu caro dr., disse a cantora, mas o caso d'esta vez
+tinha uma importancia enorme...</p>
+
+<p>E, voltando-se para o visconde, accrescentou: O que acaba de se passar,
+confirma, sr. de Bizeux, o que eu estava para lhe dizer: agradeço-lhe muito o
+generoso pensamento que teve, mas não posso acceitar o que me propoz. Como vê,
+a sua intenção é completamente irrealisavel.</p>
+
+<p>Despujolles, comprehendendo que estava alli de mais, levantou-se, dizendo a
+Laura:</p>
+
+<p>&mdash;Deixo-a. Subi apenas para lhe dizer: até ámanhã, na <em>soirée</em>
+de Pozzoli.</p>
+
+<p>Antonino estava n'um d'esses momentos em que se necessita estar só, ou
+antes, soffrer sem testemunhas.</p>
+
+<p>Fez parar Despujolles com um gesto.</p>
+
+<p>&mdash;Sou eu que me retiro, meu caro doutor. Demorei-me aqui mais do que
+desejava. Tenho de resolver em casa um negocio urgente.<span
+class="pn">{113}</span></p>
+
+<p>Apertou a mão a Laura, que apenas lhe disse:</p>
+
+<p>&mdash;Espero que cumpra a palavra dada. Irá á <em>soirée</em>, a que eu não
+posso deixar d'assistir, não é verdade? Arrependeu-se de lhe ter recordado a
+promessa feita, porque Antonino, depois d'um instante de hesitação, e como
+occorrendo-lhe uma idéa subita, respondeu precipitadamente:</p>
+
+<p>&mdash;Sim, irei á <em>soirée</em> de Pozzoli. É indispensavel que eu me
+embrenhe por completo nos habitos dos artistas!</p>
+
+<p>Despediu-se de Despujolles e saiu, sentindo inexplicavel oppressão no
+coração.<span class="pn">{114}</span> <span class="pn">{115}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00111">XI<br>
+Ouro, lama e sangue</a></h2>
+
+<p>A casa de Pozzoli era concorridissima no tempo do ultimo imperio.</p>
+
+<p>N'essa epoca, em que apenas se pensava em gozar e em que não se
+escrupulisavam os meios a empregar para attingir qualquer prazer, as salas do
+director do Theatro Italiano passavam, com justiça, por ser d'aquellas em que
+melhor se perdia uma noite.</p>
+
+<p>Os homens que frequentavam a casa de Pozzoli pertenciam á melhor sociedade
+parisiense.</p>
+
+<p>As mulheres faziam parte de todas as multiplices camadas sociaes.</p>
+
+<p>Encontravam-se alli artistas de primeira ordem,<span class="pn">{116}</span>
+como a Linda, e outras que por artistas queriam passar, mas que, d'ordinario,
+não tinham direito a esse qualificativo, e que só se tornavam notadas pela
+belleza ou pelo espirito, mais ou menos original, mais ou menos livre.</p>
+
+<p>O palacio em que Pozzoli habitava, era vasto e perfeitamente bem dividido
+para recepções e festas de qualquer natureza.</p>
+
+<p>Pozzoli decorára e mobilára a casa com sumptuosidade, a que faltava um certo
+gosto, mas visando a determinado effeito, que muitas vezes attingia.</p>
+
+<p>A arte de tapeceria moderna resplandecia em todas as salas.</p>
+
+<p>Entrava-se no rez do chão, subindo seis degráus, que terminavam em largo
+patamar, protegido por elegante cobertura.</p>
+
+<p>O vestibulo era coberto de bocados de marmore, alternadamente branco e
+vermelho, em losango.</p>
+
+<p>A escadaria, coberta de valioso tapete de Smyrna, era de marmore branco, e
+de marmore vermelho o corrimão.</p>
+
+<p>Uma palmeira do Senegal envolvia o tronco na quasi perfeita espiral das
+folhas largas e flexiveis.</p>
+
+<p>As paredes, terminando em velhos Aubussons, eram enfeitadas por placas de
+prata, de muitos braços, sustentando globos baços, que espalhavam uma claridade
+discreta.<span class="pn">{117}</span></p>
+
+<p>O grande salão Luiz XVI, branco e ouro, era illuminado por um lustre enorme,
+e ornado de oito espelhos.</p>
+
+<p>N'esse salão entrava-se por uma porta que se abria á direita do vestibulo.
+</p>
+
+<p>No fogão de marmore de Carrara, entre dois Renommées ladeando um espelho
+elliptico, e encimado por um frontão em arco, elevava-se, n'um pedestal
+simples, o busto de Rossini.</p>
+
+<p>Ao fundo, o piano d'Erard, um magnifico piano de cauda, ornado d'assumptos
+extrahidos a Watteau, a Lancret e Fragonard.</p>
+
+<p>A sala de jantar ficava em frente do salão, á esquerda do vestibulo.</p>
+
+<p>A sala de jogo, a sala de fumar, a bibliotheca, e a sala d'armas, eram no
+primeiro andar.</p>
+
+<p>A primeira impressão que se experimentava ao entrar n'aquelles salões de
+velludo, seda e oiro, era a de falta d'ar.</p>
+
+<p>Parecia que não se poderia respirar á vontade.</p>
+
+<p>Sentia-se que se estava num meio artificial, falso.</p>
+
+<p>Ao reparar-se para as ondas de luz que cahiam dos lustres e dos candieiros,
+perguntava-se se a luz do dia, a verdadeira luz, poderia penetrar alli.</p>
+
+<p>As tapecerias e os estofos espessos dos reposteiros e dos cortinados,
+estavam como que impregnados<span class="pn">{118}</span> d'um perfume
+capitoso, que tornava pesada a cabeça, embaciados os olhos, oppresso o peito.
+</p>
+
+<p>Ás onze horas os salões começaram a encher-se.</p>
+
+<p>Áquella hora ainda não tinham chegado nem Laura nem o visconde.</p>
+
+<p>Pozzoli, encontrando-se com Lauretto Mina, que tambem fazia um pouco de dono
+de casa, perguntou-lhe em voz baixa:</p>
+
+<p>&mdash;Tens a certeza de que a tua <em>casta diva</em> não deixa de vir? Não
+achas possivel que o nosso bretão a prohiba de comparecer?</p>
+
+<p>&mdash;Acho...</p>
+
+<p>&mdash;Começo a antypathisar com o tal visconde de Bizeux! Em S. Germano a
+custo me cumprimentou, e ao receber o convite para a <em>soirée</em> d'esta
+noite, apenas me mandou o seu cartão, com estas palavras seccas, escriptas a
+seguir ao nome: <em>acceita o convite do sr. Pozzoli</em>. Desagrada-me deveras
+o pretencioso fidalgo!</p>
+
+<p>&mdash;E eu gosto immenso d'elle, respondeu o tenor, rindo.</p>
+
+<p>&mdash;Sim!... Porque?</p>
+
+<p>&mdash;Porque cada vez amo mais a Linda, e estou convencido de que será o
+visconde quem me franqueará o caminho que conduz ao coração de Laura. Cedo-lhe
+o logar da melhor vontade. Em geral não se gosta<span class="pn">{119}</span>
+do successor, mas não ha razão para odiar o predecessor. Ah! Eil-o que chega!
+</p>
+
+<p>&mdash;Com a Linda?</p>
+
+<p>&mdash;Não... Vem com o conde de Vireuil.</p>
+
+<p>&mdash;Diabos me levem se eu fingir que o vejo durante toda a noite!</p>
+
+<p>&mdash;Estás doido! Olha que elle é rico, e provavelmente gosta de jogar.</p>
+
+<p>&mdash;Necessito tanto do dinheiro do visconde, como d'elle proprio!</p>
+
+<p>&mdash;Mas parece-me mais conveniente detestal-o e ir-lhe embolsando o
+dinheiro...</p>
+
+<p>&mdash;Que vá para o diabo! Recebe-o tu, se quizeres. Decididamente, não
+estou disposto a incommodar-me com semelhante animal!</p>
+
+<p>&mdash;Eu? replicou o tenor. Não caio n'essa! Hoje não quero brincadeiras
+com elle. Tratarei até de o evitar, com a maxima prudencia e habilidade.</p>
+
+<p>Alguns minutos depois chegava Laura Linda.</p>
+
+<p>Vinha acompanhada pelo dr. Despujolles, que lhe dava o braço.</p>
+
+<p>Trazia um magnifico vestido de velludo preto, muito decotado, que fazia
+resaltar admiravelmente a brancura <em>mate</em> da sua cutis d'andaluza.</p>
+
+<p>Nos sedosos e abundantes cabellos pretos ostentava um diadema de margaritas
+em brilhantes.<span class="pn">{120}</span></p>
+
+<p>Das orelhas pendiam-lhe duas margaritas eguaes ás do diadema.</p>
+
+<p>Aos cantos dos laços dos sapatos de setim mais duas margaritas semelhantes,
+como que chamavam a attenção para a extraordinaria pequenez dos pés.</p>
+
+<p>Esta <em>toilette</em> um pouco triste realçava, comtudo, a incomparavel
+belleza da cantora.</p>
+
+<p>Sob os feixes de luz que sahiam dos lustres, os esplendores setinosos da
+cabelleira preta, o vibrante brilho dos olhos aveludados, a faisca viva do
+sorriso, coruscavam clarões femininos, scintillamentos de parisiense, para quem
+o verdadeiro sol é a luz das <em>soirées</em>.</p>
+
+<p>Pozzoli, radioso, precipitou-se para Laura, logo que a viu entrar.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Até que emfim chegou a nossa querida diva! Estavamos anciosos
+pela sua chegada...</p>
+
+<p>&mdash;Porque?</p>
+
+<p>&mdash;Porque o concerto não podia começar sem que estivesse presente...</p>
+
+<p>Offereceu-lhe o braço para a conduzir ao salão, onde todos os convidados,
+amigos ou admiradores, a foram cumprimentar.</p>
+
+<p>Laura sorriu a Antonino quando o visconde lhe fallou.</p>
+
+<p>Só elle percebeu, ou antes, sentiu, que n'aquelle sorriso havia uma nuvem de
+tristeza.<span class="pn">{121}</span></p>
+
+<p>O concerto começou pouco depois.</p>
+
+<p>Quando chegou a vez a Laura, pediu para cantar primeiro o dueto da
+<em>Lucia</em>, que estava indicado no programma como devendo ser o segundo
+trecho.</p>
+
+<p>Lauretto Mina cantou a toda a voz, á qual deu tudo o que suppunha ou podia
+ter de sentimento.</p>
+
+<p>Laura cantou com a segurança e a pericia costumadas, mas os que por mais
+vezes a tinham ouvido executar o dueto declararam que ella, d'esta vez, não lhe
+dera todo o brilho que os seus vastos recursos vocaes permittiam.</p>
+
+<p>Ainda assim o successo não foi menor.</p>
+
+<p>Remissy, já de volta de Londres, executou as suas celebres variações sobre o
+<em>Carnaval de Veneza</em>, a que deu o mais extraordinario e admiravel relevo
+e a mais poetica e sonhadora phantasia.</p>
+
+<p>Depois d'uma aria de baritono, Laura sentou-se ao piano e cantou um trecho
+da <em>Mancenilheira</em>.</p>
+
+<p>N'essa aria é que os seus admiradores reconheceram a Linda!</p>
+
+<p>Cantou com todo o sentimento, com toda a alma!</p>
+
+<p>Não olhou uma unica vez para Antonino, mas era por elle que Laura se
+esforçava por cantar com surprehendente habilidade.</p>
+
+<p>O effeito foi extraordinario.</p>
+
+<p>O auditorio, transportado, rompeu em applausos enthusiasticos.<span
+class="pn">{122}</span></p>
+
+<p>Antonino, reprimindo violentamente os soluços prestes a rebentar,
+abysmava-se n'um extasi de dôr e de paixão. Chegou a hora da ceia.</p>
+
+<p>Passaram á sala de jantar, vasta mas um pouco fria, mercê das paredes e
+columnas de marmore.</p>
+
+<p>Os aparadores estavam carregados d'eguarias, e servidas as mezas.</p>
+
+<p>Pozzoli conduziu Laura para uma meza, sentando-se junto da cantora.</p>
+
+<p>Por entre a barafunda dos convidados que procuravam logar, o conde de
+Vereuil, que seguia Antonino, fel-o parar inesperadamente, dizendo-lhe depois:
+</p>
+
+<p>&mdash;Meu caro, esta dama pede-me que o apresente.</p>
+
+<p>E accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;O sr. visconde de Bizeux.&mdash;<em>Madame</em> Elvira.</p>
+
+<p>A Elvira gorda,&mdash;porque era a dona da casa em pessoa que fôra
+apresentada a Antonino&mdash;desfez-se em cumprimentos e phrases amaveis.</p>
+
+<p>Ouvia fallar tanto do sr. de Bizeux, que desejava ardentemente conhecer tão
+distincto gentilhomem!</p>
+
+<p>Antonino, cortez e galante sempre com qualquer mulher, respondeu ás
+expressões admirativas da Elvira gorda com as banalidades do estylo.</p>
+
+<p>Ella tomou o braço do visconde, sem ceremonia, e conduziu-o para uma das
+mezas, bastante distanciada d'aquella a que estava Laura.<span
+class="pn">{123}</span></p>
+
+<p>A Elvira gorda fôra em tempo bastante formosa, e á luz do gaz parecia-o
+ainda.</p>
+
+<p>Era branca e loira.</p>
+
+<p>Tinhas as feições regulares, mas sem expressão.</p>
+
+<p>O que ainda a fazia passar por uma bella mulher era o corpo, admiravelmente
+bem feito, esbelto como poucos, d'espaduas e braços soberbos.</p>
+
+<p>Fallava com vivacidade e um certo espirito a Antonino, que lhe respondia com
+phrases curtas, d'uma concisão impossivel d'exceder.</p>
+
+<p>Discorrendo sobre Laura, a amante de Pozzoli absteve-se prudentemente de lhe
+apontar o mais insignificante defeito.</p>
+
+<p>&mdash;Formosissima mulher! disse ella, mas sobretudo admiravel artista.
+Nasceu para cantar, mas se a voz lhe faltasse nem por isso deixaria de brilhar,
+porque á rara distincção de maneiras junta os mais invejaveis predicados de
+coração. </p>
+
+<p>E continuou a elogiar a cantora, não perdendo occasião para,
+disfarçadamente, dirigir tambem elogios ao visconde.</p>
+
+<p>Terminada a ceia, a Elvira gorda tomou o braço d'Antonino, para lhe fazer as
+honras da casa.</p>
+
+<p>Mostrou-lhe a estufa, a galeria dos quadros, onde, entre algumas telas de
+mestres, abundavam as copias mediocres, que Pozzoli fazia passar por originaes
+authenticos.<span class="pn">{124}</span></p>
+
+<p>Fez parar o visconde deante d'uma estatua de Diana, para a qual
+<em>pousara</em>, tendo apenas á cinta, como se via no marmore, uma simples
+pelle de panthera.</p>
+
+<p>E tentou córar aos cumprimentos forçados d'Antonino, que declarou admiraveis
+as formas.</p>
+
+<p>&mdash;Quer vir á sala do jogo? Gosta do <em>bacura</em>? perguntou ella.</p>
+
+<p>&mdash;Fará bem em ir, meu caro, disse repentinamente o dr. Despujolles
+surgindo ao lado d'elles. A nossa amiga Laura Linda, pela fórma como está
+jogando, arrisca-se a ficar arruinada esta noite.</p>
+
+<p>Desde que chegou, Laura seguira sempre o visconde com o olhar, sentindo
+inexplicavel inquietação.</p>
+
+<p>Tambem não perdia de vista Lauretto Mina.</p>
+
+<p>Mas, percebendo que Antonino diligenciou por vezes approximar-se do tenor,
+socegou por lhe parecer que Lauretto evitava encontrar-se com o visconde.</p>
+
+<p>O socego foi substituido por um sentimento irritante quando deu pelas
+attenções que a Elvira gorda prodigalisava ao visconde.</p>
+
+<p>Esse sentimento, desconhecido para ella, fazia-a soffrer immenso.</p>
+
+<p>Era o ciume.</p>
+
+<p>O que quereria aquella mulher a Antonino?<span class="pn">{125}</span></p>
+
+<p>Julgou que o mal estar que sentia era resultante da natural apprehensão que
+lhe causava o pensamento de que o visconde podia correr perigo.</p>
+
+<p>Pois porque razão soffreria ella pelas attenções que a amante de Pozzoli
+dispensava ao sr. de Bizeux?</p>
+
+<p>Vi-os sahir da sala de jantar, despeitada.</p>
+
+<p>Não tinha razão para se zangar por um facto tão insignificante, que de mais
+a mais se passava com um homem a quem declarára não poder amar.</p>
+
+<p>Não devia considerar o visconde completamente livre, para escutar as phrases
+ternas d'aquella mulher?</p>
+
+<p>E a cantora percebeu que era extraordinaria a sua preoccupação.</p>
+
+<p>Pozzoli, ao levantar-se da mesa, perguntou-lhe se queria jogar.</p>
+
+<p>Laura respondeu machinalmente que sim, mas não comprehendera o que lhe
+dissera o emprezario.</p>
+
+<p>Chegaram á sala do jogo, conhecida pelos <em>habitués</em> sob a designação
+da sala verde, porque as paredes, o tecto e o proprio soalho eram forrados de
+veludo d'aquella côr.</p>
+
+<p>Duas grandes mezas d'ebano, rodeadas por cadeiras, eram os unicos moveis que
+guarneciam a sala, alumiada por quatro candelabros de sete lumes cada um,
+collocados nos angulos da casa.<span class="pn">{126}</span></p>
+
+<p>Laura sentou-se, pensativa.</p>
+
+<p>Ao principio não quiz jogar.</p>
+
+<p>Depois, importunada e espicaçada por sentimentos diversos, passou a tomar
+pelo jogo o mais vivo interesse.</p>
+
+<p>Chegou-lhe a vez de fazer <em>banca</em>.</p>
+
+<p>Pegou no baralho nervosamente, e jogou sem reflexão nem presença d'espirito.
+</p>
+
+<p>Perdeu todos os <em>baccaras</em>.</p>
+
+<p>A sorte, sempre contraria a Laura, fez-lhes perder mil <em>luizes</em> n'um
+instante.</p>
+
+<p>Quando Pozzoli fez banca, disse graciosamente para a cantora:</p>
+
+<p>&mdash;Vae recuperar todo o dinheiro perdido, verá!</p>
+
+<p>A previsão não se realisou.</p>
+
+<p>Laura, esperando rehaver o perdido, jogou quantias importantes.</p>
+
+<p>O azar continuou.</p>
+
+<p>Foi então que Despujolles, notando a infelicidade da cantora, e a sorte
+singular de Pozzoli, sahiu da sala em busca d'Antonino, a quem lhe pareceu
+conveniente avisar. Entraram juntos no salão do jogo.</p>
+
+<p>A gorda Elvira segui-os de longe.</p>
+
+<p>Laura viu o visconde assim que elle entrou.</p>
+
+<p>&mdash;Ha vinte mil francos de <em>baccara</em>, dizia Pozzoli.</p>
+
+<p>&mdash;Jogo-os! disse Laura lançando para Antonino como que um olhar de
+desafio.<span class="pn">{127}</span></p>
+
+<p>Pozzoli deu as cartas e ganhou.</p>
+
+<p>&mdash;Ha quarenta mil francos... disse elle.</p>
+
+<p>Laura ia abrir a bocca.</p>
+
+<p>Antonino, porém, que se approximara, curvou-se, para ella, e disse-lhe em
+voz baixa e supplicante:</p>
+
+<p>&mdash;Peço-lhe que não jogue mais!</p>
+
+<p>Pozzoli percebeu o que o visconde dissera, e observou, sorrindo:</p>
+
+<p>&mdash;Meu caro visconde, deixe-me dar a desforra á nossa amiga.</p>
+
+<p>&mdash;Seja caridoso, replicou o visconde friamente. Deixe a desforra para
+outra vez!</p>
+
+<p>Pozzoli empallideceu.</p>
+
+<p>Laura, sem pronunciar uma só palavra, apontou cento e cincoenta francos.</p>
+
+<p>O emprezario ganhou ainda.</p>
+
+<p>&mdash;Já vê que tinha razão, disse Antonino a Laura, sorrindo por sua
+vez.</p>
+
+<p>&mdash;A verdade é, replicou Pozzoli em laia d'explicação, que tenho uma
+sorte verdadeiramente compremettedora para dono da casa. Passo as cartas.</p>
+
+<p>E levantou-se da mesa.</p>
+
+<p>O <em>banqueiro</em> que se seguia, deu ainda quatro <em>baccaras</em>.</p>
+
+<p>Antonino continuava sorrindo.</p>
+
+<p>O emprezario não o desfitava.</p>
+
+<p>O rosto d'aquelle homem transformára-se de subito.<span
+class="pn">{128}</span></p>
+
+<p>Brilhava-lhe sinistramente o olhar, rugas fundas vincavam-lhe a fronte, e
+gotas de suor perlavam-lhe o carmim das faces. Approximou-se de Antonino, a
+quem disse em voz baixa:</p>
+
+<p>&mdash;Não joga, senhor visconde?</p>
+
+<p>&mdash;Não...</p>
+
+<p>&mdash;Como não se entretem aqui, se quer vamos até á sala d'esgrima...</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim.</p>
+
+<p>&mdash;Muito bem. Para nos interessarmos um pouco mais no assalto,
+occorre-me uma idéa, que talvez não lhe desagrade tambem.</p>
+
+<p>&mdash;Queira dizer.</p>
+
+<p>&mdash;A um canto da sala ha dois floretes, cujos botões saltaram ha dias.
+Poderemos experimentar as nossas forças como elles... como quem não repara.</p>
+
+<p>&mdash;Acceito, mas hei de eu escolher um dos floretes.</p>
+
+<p>&mdash;Escolherá á sua vontade! respondeu Pozzoli tremente de raiva.</p>
+
+<p>E accrescentou em seguida:</p>
+
+<p>&mdash;A Linda está a olhar para nós. Não devemos sahir juntos. Vá o senhor
+adiante. D'aqui a cinco minutos sahirei eu.</p>
+
+<p>Antonino fingiu seguir com attenção, por alguns segundos, a partida
+<em>baccara</em>, que já não despertava interesse a Laura, assustada pelo
+colloquio do visconde com Pozzoli.<span class="pn">{129}</span></p>
+
+<p>Pouco depois Antonino sahiu da sala, sem afectação.</p>
+
+<p>Laura procurou então o emprezario com o olhar.</p>
+
+<p>Pozzoli conversava e ria n'um grupo de convidados, que não jogavam.</p>
+
+<p>Passados dois minutos tomou o braço d'um d'elles, com quem pareceu entabolar
+uma conversação interessante, e sahiu com elle.</p>
+
+<p>Quando chegou á sala d'esgrima, o visconde já o esperava.</p>
+
+<p>Despujolles e Remissy, que não eram fortes em esgrima, estavam um em frente
+do outro, de sabre em punho.</p>
+
+<p>&mdash;Queira examinar estas explendidas panoplias, sr. visconde, disse
+Pozzoli. </p>
+
+<p>Antonino seguiu o emprezario, que, fingindo dar-lhe explicações sobre varias
+armas antigas, escolheu dois floretes desembolados, que deu ao visconde, sem
+pronunciar uma só palavra.</p>
+
+<p>Antonino examinou-os, dobrou-os para lhes experimentar a tempera, escolheu
+um e deu o outro a Pozzoli.</p>
+
+<p>&mdash;Está combinado, disse o emprezario, que, succeda o que succeder, não
+será mais do que o effeito d'um accidente?</p>
+
+<p>&mdash;Está.</p>
+
+<p>Todos os convidados presentes na sala d'armas seguiam<span
+class="pn">{130}</span> com curiosidade o assalto entre Despujolles e Remissy,
+que, em mangas de camisa, esgrimiam enfurecidamente, como dois demonios.</p>
+
+<p>Ninguem reparou para Pozzoli e para o visconde, que fizeram tudo o que
+deixamos dito sem serem percebidos.</p>
+
+<p>Quando, porém, acabavam de trocar as ultimas palavras, entrou na sala a
+gorda Elvira, acompanhada de Lauretto Mina.</p>
+
+<p>Dirigiu-se para Pozzoli, dizendo-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Vamos para a galeria grande. As <em>pequenas</em> vão executar a
+dansa das bailadeiras.</p>
+
+<p>O emprezario franziu as sobrancelhas.</p>
+
+<p>Por fim respondeu com voz brusca:</p>
+
+<p>&mdash;Logo dansarão.</p>
+
+<p>Elvira tocou com o cotovello em Lauretto, imperceptivelmente.</p>
+
+<p>E sem dizerem nada, mas percebendo-se, foram-se sentar n'um <em>divan</em>,
+e accenderam umas cigarrilhas.</p>
+
+<p>Despujolles tocava, pela terceira vez, o seu adversario, com applausos, um
+pouco ironicos, dos assistentes.</p>
+
+<p>O violinista, já cançado, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Estou satisfeito, meu caro dr. Confesso-me vencido.</p>
+
+<p>E ajuntou, sorrindo:<span class="pn">{131}</span></p>
+
+<p>&mdash;De resto, nenhum de nós é forte ao sabre.</p>
+
+<p>N'esse momento Pozzoli dizia ao visconde, em voz baixa:</p>
+
+<p>&mdash;Como estou em minha casa, parece-me conveniente que o sr. me convide,
+para desviar todas as suspeitas... na hypothese d'um accidente desagradavel.</p>
+
+<p>&mdash;D'accordo, replicou Antonino no mesmo tom.</p>
+
+<p>E em voz alta disse:</p>
+
+<p>&mdash;Sr. Pozzoli, o sr. Lauretto Mina, disse, ha dias, na minha presença,
+que o meu amigo era de primeira força ao florete. Quer dar-me a honra de ser
+meu adversario?</p>
+
+<p>&mdash;A honra será toda minha, sr. visconde, respondeu o emprezario.</p>
+
+<p>Pegaram, como por acaso, nos dois floretes desembolados, como se fossem os
+primeiros que encontrassem á mão.</p>
+
+<p>Ao despirem os casacos, Pozzoli disse a Antonino, baixo:</p>
+
+<p>&mdash;Venha um pouco para a penumbra, para que não reparem na falta de
+botões dos floretes.</p>
+
+<p>A sala era illuminada por uma enorme lampada persa, de cobre avermelhado,
+trabalhada com arte.</p>
+
+<p>Estava suspensa ao centro da casa.</p>
+
+<p>As extremidades da sala, que era rectangular, ficavam um pouco na
+sombra.<span class="pn">{132}</span></p>
+
+<p>Foi para uma d'essas extremidades que os dois esgrimistas se dirigiram.</p>
+
+<p>Cumprimentaram-se com os floretes, segundo as regras, e cahiram em guarda.
+</p>
+
+<p>Em volta formou-se rapidamente um circulo de curiosos, que engrossava de
+momento a momento.</p>
+
+<p>Na sala não se ouvia mais do que o tenir das laminas.</p>
+
+<p>Os dois adversarios começaram sem demora a bater-se com encarniçamento,
+<em>parando</em> com toda a rapidez e <em>ripostando</em> vigorosamente.</p>
+
+<p>Lauretto Mina, que tinha boa vista, e estava meio prevenido por Elvira,
+percebeu immediatamente que os floretes estavam desembolados.</p>
+
+<p>Sem deixar de fumar, apontou o facto á amante de Pozzoli. Ao cabo de dois
+minutos, continuando a observar os dois contendores, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Sabes, Elvira?...</p>
+
+<p>&mdash;O quê?...</p>
+
+<p>&mdash;Estás prestes a enviuvar, minha querida.</p>
+
+<p>&mdash;Pois suppões?...</p>
+
+<p>&mdash;Ou, pelo menos, destinada a enfermeira durante dois ou tres mezes.</p>
+
+<p>&mdash;Que estopada? Parece-te então que Pozzoli?...</p>
+
+<p>&mdash;Será ferido? Com certeza!... Nem parece meu discipulo! Verdade seja
+que o visconde é de primeira força. Repara para elle...<span
+class="pn">{133}</span> </p>
+
+<p>Laura, que continuava na sala do jogo, reflexionou com temor que a sahida de
+Pozzoli, quasi immediata á de Antonino, não era natural.</p>
+
+<p>Poucos minutos passados, não podendo conter-se por mais tempo, chamou o
+conde de Vereuil, que estava proximo, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Não vejo Pozzoli. Queria fallar-lhe n'um assumpto urgente... Se o sr.
+conde o procurasse e trouxesse aqui muito me obsequiava.</p>
+
+<p>O conde inclinou-se e sahiu.</p>
+
+<p>Demorou-se dez minutos.</p>
+
+<p>Á angustia de Laura parecia que elle partira ha mais de uma hora.</p>
+
+<p>Por fim o conde voltou.</p>
+
+<p>Vinha só.</p>
+
+<p>Laura perguntou-lhe, logo que o viu:</p>
+
+<p>&mdash;E então?... Pozzoli?</p>
+
+<p>&mdash;Perdôe-me a demora, mas com difficuldade o encontrei. Fui dar com
+elle na sala d'armas.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Fallou-lhe?</p>
+
+<p>&mdash;Não. Era impossivel, porque no momento em que cheguei começava elle
+um assalto ao florete.</p>
+
+<p>&mdash;Com quem?... com quem?...</p>
+
+<p>&mdash;Com Bizeux.</p>
+
+<p>Laura levantou-se, como que impellida por mola occulta.</p>
+
+<p>Estava pallida como uma morta.<span class="pn">{134}</span></p>
+
+<p>Passados instantes disse ao conde:</p>
+
+<p>&mdash;Queira dar-me o seu braço. Vamos até lá. Desejo ver o assalto. Sou
+tão curiosa!</p>
+
+<p>Tomou o braço do conde, que, surprezo, a sentiu tremer.</p>
+
+<p>Entretanto não se atreveu a perguntar-lhe o que tinha.</p>
+
+<p>Laura apressou o passo.</p>
+
+<p>Quando entraram na sala d'armas, Pozzoli, extremamente pallido&mdash;porque
+tinha percebido, antes de Lauretto Mina, que estava em frente d'um adversasario
+de primeira ordem,&mdash;concentrava toda a sua vontade e todos os seus
+recursos d'esgrimista em guardar a defensiva.</p>
+
+<p>Comtudo sentia-se perdido.</p>
+
+<p>No momento em que Laura se approximava, Antonino cahiu a fundo. Pozzoli
+<em>parou</em>, curvando-se.</p>
+
+<p>A cantora, ao primeiro olhar, percebeu que o florete de Pozzoli não tinha
+botão.</p>
+
+<p>&mdash;Acautelle-se!... gritou ella ao visconde.</p>
+
+<p>Antonino olhou para o lado d'onde partira a voz de Laura.</p>
+
+<p>Esta distracção fez com que se conservasse descoberto durante dois segundos.
+</p>
+
+<p>Pozzoli aproveitou o momento para lhe vibrar uma estocada, de que o visconde
+não teve tempo de defender-se.<span class="pn">{135}</span></p>
+
+<p>A ponta do florete attingiu-o debaixo do sovaco.</p>
+
+<p>Antonino cambaleou e cahiu nos braços do dr. Despujolles.</p>
+
+<p>Um ruido confuso espalhou-se por entre as testemunhas d'aquella scena
+tragica.</p>
+
+<p>Transportaram o ferido para um <em>divan</em>.</p>
+
+<p>Laura, fóra de si, d'olhos esgazeados, gritava:</p>
+
+<p>&mdash;Fui eu que o matei.</p>
+
+<p>O dr. examinou cuidadosamente o ferimento do visconde.</p>
+
+<p>Passados momentos, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Ferida quadrangular!... Não sangra!</p>
+
+<p>Alargou com a ponta do dedo a abertura do ferimento, d'onde apenas sahiam
+umas gotas de sangue, e introduziu a sonda, que sempre trazia comsigo.</p>
+
+<p>O rosto alegrou-se-lhe.</p>
+
+<p>Laura, ajoelhada junto d'elle, perguntou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Então, dr?...</p>
+
+<p>&mdash;O ferimento é grave, mas não é mortal. Vou sangral-o.</p>
+
+<p>Durante esse tempo, Pozzoli, tendo nas mãos os dois floretes, dizia para
+Lauretto Mina com aspecto consternado:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Foi aquelle idiota do Antonio que deixou aqui os floretes que
+nós, a semana passada, tinhamos desembolado. Que miseravel! Nem mais uma noite
+dormirá em minha casa!<span class="pn">{136}</span></p>
+
+<p>E mostrou o florete do visconde, para provar que não tinha botão, como
+aquelle de que se servira.</p>
+
+<p>Antonino reabriu um pouco os olhos depois de sangrado. Olhou para Laura,
+sorriu-lhe, e perdeu os sentidos.</p>
+
+<p>Despujolles parecia ter pressa de o fazer sahir d'aquella casa.</p>
+
+<p>&mdash;Pode já ser transportado, disse elle.</p>
+
+<p>&mdash;Irá na minha carruagem, observou Laura.</p>
+
+<p>&mdash;Não. Uma padiola é mais conveniente.</p>
+
+<p>Foi improvisada a padiola sem detença.</p>
+
+<p>Deitaram n'ella o ferido, e levaram-o.</p>
+
+<p>O visconde continuava sem sentidos.</p>
+
+<p>Ao chegarem ao vestibulo, cheio d'homens e senhoras em <em>toilette</em> de
+baile, os conductores perguntaram:</p>
+
+<p>&mdash;Para onde devemos seguir?</p>
+
+<p>&mdash;Boulevard Haussmann.</p>
+
+<p>&mdash;Não, disse Laura. Para minha casa, rua de Bolonha. É mais perto.</p>
+
+<p>&mdash;Mas... ia a observar Despujolles.</p>
+
+<p>&mdash;Em casa d'elle não terá ninguem que o trate. Para minha casa... para
+minha casa!...</p>
+
+<p>&mdash;Veja o que faz... disse-lhe baixo Despujolles, que via trocarem-se
+entre os espectadores d'aquella scena, olhares e sorrisos significativos.
+Asseguro-lhe que respondo por elle...<span class="pn">{137}</span></p>
+
+<p>E voltando-se para os homens que conduziam a padiola, ajuntou em voz alta:
+</p>
+
+<p>&mdash;Levem o sr. de Bizeux...</p>
+
+<p>&mdash;Para minha casa, interrompeu Laura. Já lhe disse, doutor... quero que
+o levem para minha casa!</p>
+
+<p>Ainda não eram tres horas da madrugada, e o baile devia prolongar-se até
+pela manhã.</p>
+
+<p>Aquella scena inesperada, porém, desgostára todos os convidados de Pozzoli.
+</p>
+
+<p>Em menos de meia hora as salas ficaram desertas.</p>
+
+<p>Os convidados retiravam-se commentando, de mil formas diversas, o assalto,
+ou o duello, de Pozzoli e do visconde.</p>
+
+<p>Remissy dizia ao baritono Lunier, com quem descia o <em>boulevard</em>:</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem sabia ao certo, até agora, o que era a casa de Pozzoli.
+Passava por ser um bordel. Desde hoje é tambem um covil. Completou-se.</p>
+
+<p>Em quanto os creados apagavam as ultimas velas, Pozzoli, ficando só com
+Lauretto e a Elvira gorda, disse-lhes:</p>
+
+<p>&mdash;Vamos para o salão reservado.</p>
+
+<p>Contiguo ao quarto de cama de Pozzoli, no salão reservado não entravam senão
+os intimos do emprezario.</p>
+
+<p>Era uma sala octogona, sem janellas, alumiada apenas por lampadas arabes
+mettidas em vidros de<span class="pn">{138}</span> côres, que espalhavam uma
+luz mysteriosa e sensual.</p>
+
+<p>Espessos tapetes persas cobriam o sobrado e amontoavam-se para formar um
+largo <em>divan</em> baixo, que circundava toda a casa.</p>
+
+<p>Tamboretes de madrepérola e marfim, espalhados ao acaso, completavam a
+mobilia da casa, cujas paredes eram forradas d'espelhos caros.</p>
+
+<p>A pintura do tecto representava a dansa de sete odaliscas nuas, deante do
+senhor, acocorado e fumando, com os olhos semi-cerrados e os labios,
+entre-abertos.</p>
+
+<p>&mdash;Uff! Não posso mais! disse Pozzoli ao entrar na sala, atirando-se
+para o <em>divan</em>. Não bebi quasi nada durante a noite, para estar senhor
+de mim. Vou desforrar-me!</p>
+
+<p>Carregou n'um botão.</p>
+
+<p>Um dos espelhos moveu-se, deixando uma abertura, a que appareceu um creado.
+</p>
+
+<p>&mdash;Antonio, <em>chypre</em> para mim, e <em>champagne</em> para a
+senhora e para o sr. Lauretto Mina.</p>
+
+<p>&mdash;Temos de beber á tua dupla victoria, disse o tenor. Ah! meu caro,
+palavra! cheguei a suppôr-te um homem morto!</p>
+
+<p>&mdash;Tambem eu cheguei a considerar-me n'esse lindo estado! replicou
+Pozzoli, tirando das algibeiras, á<span class="pn">{139}</span> mistura, notas
+de banco e moedas d'oiro, que ia pondo sobre um tamborete proximo.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Depois d'alguns instantes de silencio continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Se não fosse a intervenção da nossa querida Laura, tinha-me levado o
+diabo! Esteve toda a noite a meu favor, a Linda! Só lhe apanhei cinco mil
+francos, mas ficou-me a dever quatorze, o que prefaz um total de desanove. E
+aquelle grito de prevenção, que soltou, salvou-me a vida. Ah! é tão bom viver!
+</p>
+
+<p>&mdash;O pobre visconde, chasqueou Lauretto, é que não pode dizer o mesmo
+por muito tempo. Entretanto é de esperar que viva ainda bastante. Reparaste? A
+Linda mandou-o conduzir para casa d'ella. Aposto em como o vae amar loucamente.
+A noite foi boa, Pozzoli. Trataste satisfatoriamente dos teus negocios e
+adeantaste os meus. Obrigado!</p>
+
+<p>&mdash;Não te calarás? gritou a Elvira gorda acotovellando o tenor com
+rudeza. </p>
+
+<p>Lauretto riu-se.</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-o fallar, Elvira, disse Pozzoli. Lauretto tem razão. Vou por
+elle. Has de ser amante de Laura!</p>
+
+<p>E rindo-se, pegou em quatro notas de mil francos cada uma.</p>
+
+<p>Dobrou-as e atirou com duas a Elvira, dizendo-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;São para ti.<span class="pn">{140}</span></p>
+
+<p>&mdash;Obrigado, Eurico!</p>
+
+<p>E accrescentou dando as outras duas ao tenor:</p>
+
+<p>&mdash;E estas para ti, Lauretto.</p>
+
+<p>O tenor metteu as notas na algibeira, sem pronunciar palavra.</p>
+
+<p>&mdash;Pois nem me agradeces?</p>
+
+<p>&mdash;Para que? Dás sempre qualquer coisa com uns modos que provocam
+explicações.</p>
+
+<p>&mdash;Então restitue-me o dinheiro!...</p>
+
+<p>&mdash;Estás doido!... Olha, eis o vinho que chega. Bebamos. Para isso é que
+tu és um homem! Esvasias muito melhor os copos do que as algibeiras.</p>
+
+<p>Pozzoli deu aos hombros despresadoramente.</p>
+
+<p>Desrolhadas as garrafas, o creado sahiu.</p>
+
+<p>Os tres começaram a beber em silencio.</p>
+
+<p>Pozzoli, sobretudo, bebia com uma especie de bestialidade avida e feroz.</p>
+
+<p>De repente interrompeu as libações para dizer:</p>
+
+<p>&mdash;Então, não dizem nada?... Estão esta noite muito monos!...</p>
+
+<p>&mdash;Espera, respondeu Elvira. Vou chamar as <em>pequenas</em>.</p>
+
+<p>Carregou no botão d'uma campainha electrica.</p>
+
+<p>Quasi immediatamente appareceram quatro bailarinas, jovens e formosas.</p>
+
+<p>Elvira disse-lhes:</p>
+
+<p>&mdash;Executem a dansa das bailadeiras, sem córtes.<span
+class="pn">{141}</span> </p>
+
+<p>Lauretto Mina pegou n'uma guitarra, e cantou, acompanhando-se com o
+instrumento, uma canção arabe, primeiro lenta e terna, mas accelerando
+gradualmente o movimento, até tornar-se ardente e rapida.</p>
+
+<p>As bailarinas seguiram-o, executando uma d'essas dansas egypciacas, brandas
+e lascivas, que terminou n'uma especie de furia de bacchantes.</p>
+
+<p>Pozzoli soltava gargalhadas estridentes, batia as mãos, rebolava-se pelo
+<em>divan</em>.</p>
+
+<p>Quando o bailado acabou, elle berrou:</p>
+
+<p>&mdash;Mais! mais!...</p>
+
+<p>&mdash;Mais não! replicou Lauretto. Eu e ellas é que sabemos se foi
+bastante.</p>
+
+<p>&mdash;Então bebamos!</p>
+
+<p>&mdash;Olha, cá está o teu copo grande, disse o tenor.</p>
+
+<p>E apresentou-lhe um copo enorme, que podia conter todo o liquido d'uma
+garrafa.</p>
+
+<p>Pozzoli encheu-o de vinho de <em>chypre</em>.</p>
+
+<p>Depois de beber a grandes golos, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! isto consola!</p>
+
+<p>E bebeu o resto.</p>
+
+<p>&mdash;Basta, disse-lhe Lauretto. Já estás bebedo.</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-o beber, meu querido Lauretto! observou a Elvira gorda sem se
+dar ao incommodo de baixar a voz. Mais depressa ficaremos livres e sós.<span
+class="pn">{142}</span></p>
+
+<p>Lauretto apenas respondeu com um movimento de hombros approvativo, e
+accendeu um cachimbo.</p>
+
+<p>&mdash;Não fumes esse veneno, meu idolatrado! aconselhou Elvira. Repara, eu
+já não bebo...</p>
+
+<p>Mas elle continuou a fumar em silencio.</p>
+
+<p>Pozzoli rolára do <em>divan</em> para o tapete, balbuciando:</p>
+
+<p>&mdash;Deem-me de beber!... Quero <em>chypre</em>!... Estão na mesa
+quinhentos <em>luizes</em>... Aposta, visconde?...</p>
+
+<p>As quatro bailarinas descançavam, sentadas no <em>divan</em>, de pernas
+cruzadas, olhando com curiosidade para os patrões.</p>
+
+<p>Elvira fez-lhe signal de que podiam retirar-se.</p>
+
+<p>Ellas desappareceram immediatamente.</p>
+
+<p>Entretanto Lauretto bebia e fumava.</p>
+
+<p>&mdash;Meu querido Lauretto, peço-te que não bebas mais! supplicava a Elvira
+gorda.</p>
+
+<p>E passava os braços em volta do pescoço do tenor, tentando tirar-lhe o
+cachimbo da bocca.</p>
+
+<p>Elle deu-lhe um murro.</p>
+
+<p>&mdash;Deixa-me, ursa!... Safa-te! Ou és tu como Laura? Se és, vem!... Mas,
+não... ella é mais formosa... Não te pareces com a Linda, nem ao longe... Ah!
+Laura!...</p>
+
+<p>As palpebras cerraram-se-lhe.</p>
+
+<p>No rosto desenhou-se-lhe uma expressão d'extasi voluptuoso.<span
+class="pn">{143}</span></p>
+
+<p>&mdash;Laura! vem!... Leva-me comtigo para o infinito, onde as estrellas
+executam uma dansa luminosa!... Meu Deus! como os teus cabellos cresceram desde
+a ultima vez que os acariciei, Laura!... Vejo-os fluctuar ao longe, atraz de
+nós, cauda d'um cometa d'ouro, entre a harmonia dos astros... A brisa eterna
+fal-os soltar notas maviosas... Vibram como cordas d'harpas eolias... Ouço por
+toda a parte a sympathonia do amor, em que canta um beijo que dura um
+seculo!...</p>
+
+<p>Calou-se.</p>
+
+<p>Elvira passou apenas a ouvir os roucos estribulos de Pozzoli, curtindo
+socegadamente a bebedeira.</p>
+
+<p>Lauretto foi em breve fazer companhia ao emprezario, sobre o tapete.</p>
+
+<p>Elvira olhou primeiro para Pozzoli, que parecia dormir o somno da
+innocencia, e depois para Lauretto, que conservava a bocca e os olhos
+entreabertos, n'uma expressão mystica de Christo em extasi.</p>
+
+<p>Por fim levantou-se; arredou-os com o pé para passar, dizendo
+despresadoramente:</p>
+
+<p>&mdash;Que dois brutos!</p>
+
+<p>E entrou, só, no quarto da cama.<span class="pn">{144}</span></p>
+
+<p><span class="pn">{145}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00112">XII<br>
+A cura</a></h2>
+
+<p>Durante uma semana em que fluctuou entre a vida e a morte, Antonino viu,
+atravez o delirio, passar e repassar uma sombra, branca e silenciosa, que
+corria para elle ao ouvil-o soltar um gemido, ou se inclinava para lhe
+humedecer a fronte escaldante de febre ou para lhe dar de beber.</p>
+
+<p>Por vezes essa que para o visconde era apenas sombra, dirigia-lhe palavras
+meigas, que elle não comprehendia, mas que o embalavam, socegando-o.</p>
+
+<p>Um dia o pensamento fixou-se no seu cerebro perturbado.</p>
+
+<p>A febre diminuiu, e, como accordando d'um pesadello<span
+class="pn">{146}</span> terrivel, Antonino olhou em volta, parecendo distinguir
+e perceber.</p>
+
+<p>A sombra branca lá estava junto d'elle.</p>
+
+<p>Não sonhára, pois.</p>
+
+<p>Ella lá estava, envolvendo-o n'um olhar em que o sorriso transparecia por
+entre as lagrimas.</p>
+
+<p>O visconde reconheceu-a.</p>
+
+<p>Sorriu-lhe tambem e murmurou:</p>
+
+<p>&mdash;Laura!</p>
+
+<p>&mdash;Não falle, observou ella. Está melhor, está salvo, mas não está ainda
+completamente curado. É necessario estar calado e quieto, porque foi essa a
+recommendação do doutor.</p>
+
+<p>Elle repetiu com enlevo, despresando o conselho:</p>
+
+<p>&mdash;Laura!</p>
+
+<p>Depois, olhando em volta demoradamente, perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;Onde estou eu?</p>
+
+<p>Despujolles entrava n'esse momento.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! doutor! disse Laura indo ao encontro do medico, ainda bem que
+chegou! Elle vê e falla. Voltou completamente a si!</p>
+
+<p>&mdash;Admire a minha sciencia! Preveni-a hontem de que hoje se daria esse
+facto, respondeu Despujolles.</p>
+
+<p>E depois, voltando-se para o visconde, accrescentou:<span
+class="pn">{147}</span></p>
+
+<p>&mdash;Vejamos o pulso. Bem. A febre quasi desappareceu de todo. Tudo vae
+bem. </p>
+
+<p>&mdash;É o senhor, meu caro Despujolles? disse Antonino. Mas o que
+succedeu?... Porque não estou eu em minha casa?...</p>
+
+<p>&mdash;Não falle, recommendou o medico. Vou pôl-o ao corrente do caso. O meu
+amigo foi ferido ha oito dias, n'um pretendido assalto d'esgrima, pelo patife
+do Pozzoli. O ferimento era serio, muito serio até! A nossa querida Laura
+mandou-o transportar para casa d'ella. O meu amigo está no salão da nossa
+amiga, deitado n'um leito que eu mandei arranjar de proposito, e que facilita
+muito os pensos. Durante essa terrivel semana, o meu caro visconde não teve,
+tanto de dia como de noite, senão uma enfermeira: Laura Linda, que apenas
+admittia que Jacintha a ajudasse algumas vezes na sua dedicada missão e nas
+vigilias longas. Está em via de cura rapida e completa, mas é necessario ter
+juizo, obedecendo ao seu medico como a um deus, não se mover, fallar pouco e
+pensar menos.</p>
+
+<p>&mdash;Seguirei á risca as suas instrucções, meu caro doutor, e agradeço-lhe
+reconhecido os seus desvelados serviços, disse Antonino.</p>
+
+<p>Em seguida estendeu a mão para Laura. A cantora pegou n'aquella mão
+descarnada, e disse, sem poder suster as lagrimas, que lhe deslisaram pelas
+faces:<span class="pn">{148}</span></p>
+
+<p>&mdash;Como é estupido chorar d'alegria!</p>
+
+<p>&mdash;Sobretudo, accrescentou Despujolles, quando se corre o risco
+d'enternecer um doente. Nada de pieguices! Vou fazer o penso.</p>
+
+<p>Antonino não cessava d'olhar para Laura, com expressão de reconhecimento e
+amor.</p>
+
+<p>&mdash;Juizo! disse o medico no tom brusco que lhe era habitual, quando
+estava no desempenho das suas funcções. Espero que, logo que eu sahir, não
+comecem a contar historias um ao outro ou a cantar duetos. Addiem, addiem as
+explicações e os projectos para mais tarde. Creio que dei ao ferido todos os
+esclarecimentos necessarios...</p>
+
+<p>&mdash;Entretanto, meu caro doutor... interrompeu Antonino.</p>
+
+<p>&mdash;O que quer dizer?... Deixaria eu d'explicar claramente tudo o que se
+passou? Ah! como está em casa de Laura, é possivel que deseje que lhe expliquem
+o caso...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, doutor, disse a cantora, parece-me necessario...</p>
+
+<p>&mdash;Bem, seja... concedo... Mas procedam de fórma que não pronunciem mais
+de tres palavras.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! doutor!...</p>
+
+<p>&mdash;Nem mais uma. Expliquem-se em tres palavras, sem commentarios, e com
+a condição de que depois<span class="pn">{149}</span> serão mudos como dois
+peixes. Adeus, meu caro visconde, até ámanhã e juizo.</p>
+
+<p>Laura acompanhou Despujolles até á porta da escada.</p>
+
+<p>O medico mais uma vez lhe assegurou que o doente não corria perigo,
+recommendando-lhe de novo socego absoluto para Antonino.</p>
+
+<p>O visconde, com o olhar fixo na porta da sala, esperava com impaciencia a
+volta de Laura.</p>
+
+<p>A cantora entrou.</p>
+
+<p>Elle quiz fallar, mas ella collocou um dedo sobre os labios do doente,
+ajoelhou junto do leito, e com voz d'anjo, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Amo-o!</p>
+
+<p>Amava-o! Oito dias antes nem ella propria o sabia.</p>
+
+<p>Os diversos acontecimentos que successivamente se deram revelaram-lhe
+aquelle amor, que existia latente no seu coração.</p>
+
+<p>Primeiro o sacrificio d'Antonino surprehendera-a.</p>
+
+<p>Aquelle honesto e grave fidalgo bretão, rico e considerado, dera-lhe a mais
+irrefutavel prova de confiança e d'amor, offerecendo-lhe a sua mão e
+permittindo que ficasse no theatro.</p>
+
+<p>A insolente interrupção de Lauretto Mina no momento em que o seu
+contentamento de mulher e de artista mais se expandia, tinha-lhe torturado o
+coração, demonstrando-lhe a impossibilidade d'acceitar o<span
+class="pn">{150}</span> offerecimento inesperado d'Antonino, que n'um momento,
+sem hesitação, renunciava a todos os prejuizos d'educação e de familia.</p>
+
+<p>Mas tudo o que sentia então podia ser apenas admiração e reconhecimento pelo
+cego amor do visconde.</p>
+
+<p>Na <em>soirée</em> de Pozzoli, Laura não tinha percebido que era ciume o que
+sentira, quando viu uma outra mulher parecendo querer monopolisar a attenção e
+as amabilidades do visconde, que ella considerava como pertencendo-lhe.</p>
+
+<p>Depois, quando Pozzoli e Antonino tinham trocado em voz baixa as phrases
+pelas quaes deviam bater-se, poderia ella classificar a angustia que
+experimentou, sentindo os espinhos da desconfiança picarem-lhe o coração?</p>
+
+<p>Por fim, toda a chamma do seu amor latente rebentou, como no incendio da
+Opera, ao ver Antonino prostrado pelo florete de Pozzoli, morto talvez, e morto
+por ella!</p>
+
+<p>Então tudo esquecera: posição, reputação compromettida, futuro perdido.</p>
+
+<p>Quizera levar para casa o seu amado, para o ter bem junto a si, morto ou
+vivo.</p>
+
+<p>No dia seguinte pela manhã, levada pelo horror que sentia por aquelle
+miseravel Pozzoli, Laura nada quiz dever ao que ella considerava assassino,
+nem<span class="pn">{151}</span> mesmo o dinheiro que na vespera elle lhe tinha
+roubado ao jogo.</p>
+
+<p>Para obter esse dinheiro mandou Jacintha, com parte dos diamantes que
+possuia, a um joalheiro, que n'outra occasião lhe adiantára, com um juro
+modico, uma quantia importante sobre o mesmo penhor.</p>
+
+<p>Antes do meio dia, Pozzoli, esfregando as mãos de contente, estava pago.</p>
+
+<p>Durante oito dias, volteando em redor do leito de Antonino, espiara,
+attribulada, o soffrimento do ferido.</p>
+
+<p>Emfim o dr. Despujolles annunciou um dia que o doente estava livre de
+perigo.</p>
+
+<p>Elle estava salvo, e ella salva tambem!</p>
+
+<p>Tinha a certeza d'isso, porque, emfim, sentia que amava.</p>
+
+<p>Desde então aquella alma tão ardente e sincera não teria que confranger-se,
+nem que hesitar.</p>
+
+<p>Seria sua esposa, seria sua amante, o que importava, com tanto que
+pertencessem um ao outro para sempre!</p>
+
+<p>A cura d'Antonino caminhou rapidamente, activada pela felicidade.</p>
+
+<p>Ao cabo de quinze dias, o visconde levantava-se, pallido ainda e
+enfraquecido pela dieta e pelo sangue perdido, mas sentindo que a força e a
+vida lhe voltavam gradualmente.<span class="pn">{152}</span></p>
+
+<p>A Linda, obedecendo ás prescripções de Despujolles, fallava pouco a Antonino
+e não consentia que elle fallasse.</p>
+
+<p>Por fim o medico declarou uma manhã, sorrindo indulgentemente, que, se ella
+tinha alguma coisa importante a dizer ao visconde, podia fazel-o, sem que o
+doente corresse risco de peorar.</p>
+
+<p>Laura poude então abrir completamente o seu coração a Antonino.</p>
+
+<p>&mdash;Ha um mez, disse-lhe ella, deu-me uma extraordinaria prova d'amor,
+fazendo por mim o maior sacrificio que uma mulher póde esperar do homem que
+ama. Hoje chegou a minha vez. Sei, sinto que o amo, e quero provar-lhe quanto
+esse amor é intenso. Dava-me o seu nome, e, para satisfazer a minha paixão
+d'artista, consentia em que eu continuasse no theatro. Depois do que me disse,
+reflecti muito. Tenho reconhecido duramente quanto, nas condições de fortuna e
+de posição em que o senhor está, me seria difficil, se não impossivel, ficar no
+theatro, passando a fazer parte da sua familia. Venho, pois, dizer-lhe o
+seguinte: acceito com a maior satisfação o seu nome, e, salvo uma condição que
+d'aqui a pouco exporei, renuncio ao theatro.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! minha querida Laura! murmurou Antonino no auge da alegria.</p>
+
+<p>Ella continuou:<span class="pn">{153}</span></p>
+
+<p>&mdash;Seu pae, que tão bondoso é, ficará satisfeitissimo. Parece-me
+conveniente evitar o mais possivel que se torne do dominio publico o nosso
+projectado casamento. O visconde de Bizeux esposará a filha do conde de Marcia.
+A Linda desapparecerá.</p>
+
+<p>&mdash;O que vale a minha abnegação ao lado da sua! disse Antonino. Eu
+repudiava prejuizos que considerava mesquinhos e absurdos; a minha querida
+Laura renuncia aos seus triumphos, á sua arte, ao que, segundo affirmava, era
+metade da sua vida! Pesou bem toda a importancia do sacrificio?</p>
+
+<p>&mdash;Tudo pensei e tudo previ. É justamente por essa circumstancia que ha
+pouco resolvi apresentar-lhe uma condição. N'este momento creio firmemente que
+o nosso amor, e o amor dos nossos filhos se os tivermos,&mdash;como em tempo
+lhe disse, e decerto ainda se lembra, é esse o meu mais delicioso
+sonho,&mdash;creio, dizia, que a felicidade da esposa e da mãe não permittirá
+que me recorde das minhas satisfações e dos meus successos d'artista.
+Entretanto é possivel que um dia, d'aqui a cinco ou d'aqui a dez annos, a
+tristeza se apodere de mim e que uma irresistivel necessidade me leve a voltar
+á minha querida arte, e a procurar, ainda que não seja senão temporariamente,
+as luctas e as victorias d'outr'ora. Se tal succeder, meu amigo, peço-lhe,
+simplesmente sob a sua palavra de gentilhomem, que n'esse dia não se opporá a
+que eu volte<span class="pn">{154}</span> ao que era no passado, deixando-me de
+novo entrar para o theatro, que abandono apenas pelo muito amor que lhe
+tenho.</p>
+
+<p>&mdash;Dou-lhe a minha palavra d'honra, Laura, de que não a impedirei de
+satisfazer o seu desejo, respondeu Antonino. De resto, amo-a tanto, fal-a-hei
+tão feliz, que certamente esquecerá para sempre o theatro.</p>
+
+<p>&mdash;Assim o espero e desejo ardentemente. Mas comprehende que, para que
+eu caminhe de futuro sem preoccupações, desassombradamente, é indispensavel que
+me sinta sempre senhora da minha vontade, senhora de mim propria. Se eu tiver
+um dia de assignar um contracto com qualquer emprezario, a opposição de meu
+marido pode annullar esse contracto. Fica assente, Antonino, que renuncia por
+completo a qualquer opposição d'esse genero?</p>
+
+<p>Elle reflectiu alguns instantes.</p>
+
+<p>Depois dirigiu-se a uma secretária, pegou n'uma folha de papel e escreveu:
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Dou o meu consentimento e approvação ao contracto feito entre Laura Marcia,
+minha mulher, e...»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Assignou e entregou o papel a Laura, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Aqui tem a sua liberdade. O rouxinol pode sahir da gaiola quando
+quizer, que a porta está aberta.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigada, meu amigo! disse alegremente Laura.<span
+class="pn">{155}</span> </p>
+
+<p>E agora cuidemos do presente, dos nossos projectos, do nosso amor.
+Concluamos o nosso romance.</p>
+
+<p>A conclusão foi a seguinte:</p>
+
+<p>Occultaram de todos a sua felicidade, mesmo de Despujolles e de Remissy.</p>
+
+<p>Trataram do casamento com todo o segredo.</p>
+
+<p>Só o pae d'Antonino teve conhecimento dos projectos do filho.</p>
+
+<p>Combinaram que logo que o visconde estivesse completamente restabelecido,
+partiriam para Inglaterra, casando em qualquer povoação do littoral,
+religiosamente, por um padre catholico, e civilmente, no consulado de França.
+</p>
+
+<p>Depois não partiriam para qualquer parte: desappareceriam.</p>
+
+<p>Laura desejára sempre viver em qualquer ponto da America hespanhola.</p>
+
+<p>Antonino, apesar de ter viajado muito, nunca fôra aquelles paizes calidos.
+</p>
+
+<p>Refugiar-se-hiam ahi até que a nostalgia os vencesse, isto é, até que a
+felicidade diminuisse.</p>
+
+<p>Trespassaram a casa da rua de Bolonha.</p>
+
+<p>Os moveis que Laura mais estimava foram remettidos para Saint-Malo, e os
+restantes vendidos.</p>
+
+<p>Antonino conservou os seus quartos de rapaz no <em>boulevard</em> Haussmann,
+residencia pouco dispendiosa que desejava conservar em Paris.<span
+class="pn">{156}</span></p>
+
+<p>Laura levaria Jacintha, que tinha fallado em matar-se se a separassem da sua
+senhora, e que era sufficientemente doida para executar a ameaça.</p>
+
+<p>Pozzoli recebeu da Linda a multa de cincoenta mil francos, importancia
+estipulada no contracto para a rescisão d'elle.</p>
+
+<p>&mdash;Tu estás meio contente, meio desapontado, disse Lauretto Mina ao
+emprezario. Eu estou satisfeitissimo. Eis aberto o massudo livro da virtude da
+Linda. O primeiro capitulo começa por um rapto. É promettedor o romance. Desejo
+chegar o mais breve possivel ao capitulo segundo.</p>
+
+<p>Alguns dias depois lia-se nos <em>Echos</em> d'um jornal <em>geralmente bem
+informado</em>:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«A Linda não cantará no Theatro Italiano este inverno. Falla-se n'um
+contracto fabuloso que assignou para uma <em>tournée</em> nos Estados-Unidos.»
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Poucas linhas mais a baixo via-se ess'outro <em>echo</em>:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«O visconde de B... parte, diz-se, para os Estados-Unidos logo que esteja
+completamente restabelecido. Cumpre assim um voto que fez durante a doença.
+Como chegou a julgar-se condemnado a deixar este mundo, prometteu, se
+escapasse, ir visitar o novo. Feliz viagem.»<span class="pn">{157}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00113">XIII<br>
+Regresso a França</a></h2>
+
+<p>Dezoito mezes depois, no fim de abril, o conde de Bizeux e Estephania de
+Bizeux, sua filha, esperavam, no molhe de Saint-Malo, a chegada do vapor de
+Jersey, em que vinham o visconde e a viscondessa de Bizeux, de regresso da
+America do Sul, via Liverpool e Southampton.</p>
+
+<p>O conde era um velho extremamente sympathico, de elevada estatura e aspecto
+veneravel e terno.</p>
+
+<p>A menina de Bizeux contava trinta e seis annos.</p>
+
+<p>Tinha o rosto ossudo, aspecto altivo e severo, e comtudo, do conjuncto das
+suas feições e de toda a sua pessoa, resaltava o cunho da alta estirpe.<span
+class="pn">{158}</span></p>
+
+<p>O conde esperava ancioso a chegada do filho que estremecia, e que ia tornar
+a vêr depois de prolongada ausencia.</p>
+
+<p>Assistira ao casamento do visconde em Inglaterra, e depois viajára durante
+um mez, com os recém-casados, pela Escocia e pelo paiz de Galles.</p>
+
+<p>A nora conquistara-o sem difficuldade logo nos primeiros dias, pelo
+finissimo espirito de que era dotada, e pelos cuidados, affectuosos e ternos,
+de que o rodeava.</p>
+
+<p>Sentia tanta impaciencia de a abraçar, como de abraçar o filho.</p>
+
+<p>A menina de Bizeux esperava a cunhada, que nunca vira, com disposições menos
+benevolas, e até com uma especie de desconfiança.</p>
+
+<p>O pae occultara-lhe cautellosamente que Laura tinha sido cantora, e que
+estivera escripturada em diversos theatros.</p>
+
+<p>Se a tivesse prevenido d'essa circumstancia sem duvida a menina de Bizeux
+abandonaria o lar paterno, refugiando-se n'um convento, para não estar em
+contacto com uma <em>comediante</em>.</p>
+
+<p>Para não sympathisar com a cunhada bastava-lhe saber que o irmão a desposara
+por amor, e que, apezar de ser d'alto nascimento, filha d'um conde hespanhol,
+não tinha outro dote além da belleza.</p>
+
+<p>Estephania soubera, pela que lhe dera o ser, a<span class="pn">{159}</span>
+historia do primeiro amor de seu pae, historia em tudo semelhante á de
+Antonino, á excepção de que no primeiro caso a moral social e religiosa e o
+direito augusto da familia tinham triumphado, emquanto que, no caso d'Antonino,
+fôra o amor, o amor profano, que vencera.</p>
+
+<p>Parecia a Estephania que o irmão, esposando a mulher que amava, insultara a
+memoria de sua mãe.</p>
+
+<p>O vapor de Jersey não tardou a chegar.</p>
+
+<p>Logo que desembarcou, Antonino abraçou o pae com effusão, e seguidamente deu
+um abraço na irmã.</p>
+
+<p>O conde, depois d'abraçar o filho, abraçou a nora, com alegria, e apresentou
+as duas senhoras uma á outra.</p>
+
+<p>Laura, prevenida pelo marido, tinha resolvido tratar a cunhada por fórma
+identica áquella por que fosse tratada.</p>
+
+<p>Estephania não a abraçou, limitando-se a estender-lhe a mão, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Senhora viscondessa!...</p>
+
+<p>&mdash;Minha senhora...</p>
+
+<p>As relações futuras ficaram assim fixadas, graves e dignas.</p>
+
+<p>Ficou um creado para fazer conduzir as bagagens, e os quatro metteram-se
+n'uma carruagem que os levou a casa, ou antes, que os levou a suas casas.<span
+class="pn">{160}</span></p>
+
+<p>O visconde tinha casa sua, junto á do pae, que lhe legara um tio, fallecido,
+viuvo e sem filhos, dez annos antes.</p>
+
+<p>As duas casas, juntas e separadas a um tempo, tinham portas de communicação
+em todos os andares.</p>
+
+<p>Eram dois velhos palacetes patrimoniaes, de construcção antiga.</p>
+
+<p>O primeiro pavimento habitavel era no terceiro andar, porque os antigos
+navegadores e corsarios de Saint-Malo desejavam poder deitar sempre a cabeça
+por cima das muralhas da cidade, afim de não deixarem de gozar a vista do mar.
+</p>
+
+<p>Os Bizeux descendiam de velhos bretões, marinheiros de raça.</p>
+
+<p>Da sua familia sahiram, nos reinados de Luiz XIV e de Luiz XV, dois
+almirantes francezes.</p>
+
+<p>O pae e o filho tinham combinado, em cartas, que passariam uma vida
+simultaneamente separada e commum.</p>
+
+<p>Viveria cada um em sua casa, mas tomariam as refeições juntos.</p>
+
+<p>De resto, como chegara a primavera, demorar-se-hiam em Saint-Malo apenas uma
+ou duas semanas, o tempo indispensavel para apresentar a viscondessa ás pessoas
+mais intimas.</p>
+
+<p>Depois partiriam para o castello da familia, situado proximo a
+Saint-Pol-de-Léon.<span class="pn">{161}</span></p>
+
+<p>Deviam tomar todas as cautellas possiveis para que a Linda não podesse ser
+reconhecida na viscondessa de Bizeux.</p>
+
+<p>Depois de viverem por algum tempo juntos, o conde, que no fundo temia a
+filha, suppunha que, habituada á cunhada, attrahida pela meiguice e encanto de
+Laura, Estephania revoltar-se-hia com menor violencia, na hypothese d'uma
+revelação sempre possivel.</p>
+
+<p>Laura installou-se, pois, em sua casa, e, como uma verdadeira artista que se
+accommoda a tudo que não seja burguez e vulgar, sentiu-se immediatamente á
+vontade no velho palacete, cujas rasgadas janellas e mobilia á Luiz XVI tinham
+a dupla vantagem de ser commodas, elegantes e hygienicas. A vida, no castello,
+seria mais desafogada ainda, apesar de dever ser, no fundo, um pouco monotona.
+</p>
+
+<p>Laura, porém, não dava por essa monotonia.</p>
+
+<p>Para isso era necessario que ella, habituada ás emoções do trabalho, da
+acção, do combate, achasse muita novidade e muita variedade em volta de si.</p>
+
+<p>O primeiro anno do seu casamento foi para ella um verdadeiro encanto.</p>
+
+<p>A lua de mel durára doze luas, sem uma nuvem no céu d'anil.</p>
+
+<p>Gosou, sem a mais leve interrupção, o prazer d'amar e ser amada, que é o
+melhor da vida.<span class="pn">{162}</span></p>
+
+<p>Percorreram os admiraveis paizes da America do Sul, o Perú, o Brazil,
+visitaram as suas melhores cidades, atravessaram as mais esplendidas paisagens,
+aventurando-se até ás florestas virgens.</p>
+
+<p>Mas o que acima de tudo os absorvia era as suas proprias pessoas.</p>
+
+<p>Aquella magnifica natureza não era mais do que uma moldura apropriada para
+servir no quadro do seu amor.</p>
+
+<p>Ao cabo d'um anno, porém, começaram a achar, sem o dizer, nem mesmo dar por
+isso talvez, que um homem e uma mulher, vivendo sós, vivem em solidão.</p>
+
+<p>O quer que fosse parecido com o aborrecimento começou a avoejar sobre
+aquelle perpetuo colloquio.</p>
+
+<p>Durante tres mezes soffreram aquella sensação intermitentemente.</p>
+
+<p>Depois confessaram um ao outro que as viagens, a continua e fatigante
+mudança de logar, os dias passados em carruagem de caminho de ferro ou nos
+hoteis, tudo isso, por fim, cança o espirito e o corpo.</p>
+
+<p>Passou-se anno e meio, e o mais fagueiro sonho de Laura, ter um filho do
+homem que adorava, fugia, fugia sempre diante d'ella, como um phantasma.</p>
+
+<p>&mdash;Acautella-te! dizia-lhe Antonino. Um filho pode-te fazer perder a
+voz.<span class="pn">{163}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ah! se tivesse um filho, respondia Laura, jámais teria
+saudades!...</p>
+
+<p>E teria ella saudades, effectivamente?</p>
+
+<p>O marido começára por se apaixonar pela voz, e continuava-a amando por isso,
+sem prejuizo d'outros predicados.</p>
+
+<p>Todos os dias cantava para satisfazer os desejos d'Antonino, que, excellente
+musico, a acompanhava ao piano, extasiando-se como d'antes, e mais do que
+d'antes até, ante aquelle delicioso e divino canto.</p>
+
+<p>Mas se continuava a ser a mesma cantora, Laura deixára de ter o mesmo
+publico.</p>
+
+<p>Foi essa a razão porque, depois de dezoito mezes d'ausencia, elles annuiram
+em que o paiz natal, o socego do lar, a vida de familia, tinham tambem o seu
+encanto.</p>
+
+<p>E como estavam d'accordo, regressaram a França.<span class="pn">{164}</span>
+</p>
+
+<p><span class="pn">{165}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00114">XIV<br>
+A vida no castello</a></h2>
+
+<p>O castello de Bizeux, proximo de Saint-Pol-de-Léon, e a um quarto de legua
+de Roscoff e do mar, estava edificado n'uma encantadora região, em que o
+ondeado da copa do arvoredo se perdia ao longe no accidentado das colinas.</p>
+
+<p>Como estava um pouco isolado, porque o castello mais proximo distava cinco
+kilometros, afóra durante a epoca da caça, a vida ali era muito retirada.</p>
+
+<p>No caso presente esse facto não devia considerar-se um inconveniente.</p>
+
+<p>Laura estaria no castello completamente ao abrigo d'indiscripções e
+encontros.</p>
+
+<p>Nos primeiros dias percorreu, a cavallo ou a pé,<span
+class="pn">{166}</span> as immediações do castello; mas depois de vistas as
+casas, as egrejas e as paysagens, recahiu na monotonia da vida ociosa, quebrada
+apenas pelas fidalgas e ininterruptas attenções do conde, sempre
+previdentemente delicado com a nora, sempre ancioso por lhe procurar
+distracções.</p>
+
+<p>A menina de Bizeux desapprovava o procedimento do pae para com a cunhada.
+</p>
+
+<p>A solteirona dizia por vezes comsigo:</p>
+
+<p>&mdash;Mas que fórma de tratar esta desconhecida! O que tem ella que a
+recommende? apenas a belleza, essa dadiva do demonio.</p>
+
+<p>Para Estephania a fealdade era certamente dadiva de Deus.</p>
+
+<p>O natural instincto de mulher invejosa fazia confusamente adivinhar a
+Estephania que o passado de sua cunhada devia ter tido uma phase brilhante, que
+lhe occultavam.</p>
+
+<p>Parecia-lhe que no menor gesto ou na mais insignificante palavra pronunciada
+por Laura havia sempre dissimulação.</p>
+
+<p>&mdash;Mais outro vestido novo! disse-lhe Estephania um dia, vendo-a sentar
+á mesa com uma <em>toilette</em> que ainda não lhe conhecia. Lembre-se que
+estamos no campo!</p>
+
+<p>&mdash;Por isso o vestido é simples e campestre! replicou Laura rindo.<span
+class="pn">{167}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mas nós estamos em nossa casa... não recebemos visitas. A quem deseja
+agradar? A meu pae?</p>
+
+<p>&mdash;E porque não?</p>
+
+<p>&mdash;Agradecido! disse o conde sorrindo.</p>
+
+<p>&mdash;A seu marido?</p>
+
+<p>&mdash;Certamente...</p>
+
+<p>&mdash;Um marido não é um amante, minha querida!</p>
+
+<p>&mdash;Para mim é.</p>
+
+<p>E estendeu a mão ao visconde, que lh'a beijou com prazer.</p>
+
+<p>Antonino gracejou com a irmã, que conservou o seu habitual aspecto ironico e
+altivo.</p>
+
+<p>Aquellas picadas d'alfinete não tinham importancia, mas faziam soffrer
+Laura, que, como todos os espiritos ternos, resentia-se da falta de sympathia
+que a cunhada constantemente lhe testemunhava.</p>
+
+<p>Estephania tambem julgava Laura com severidade sob o ponto de vista
+religioso.</p>
+
+<p>Entretanto a viscondessa, educada por uma mãe excessivamente devota, era
+crente, e por vezes até supersticiosa como uma hespanhola.</p>
+
+<p>Para a menina de Bizeux, porém, havia duas religiões, a que os homens
+seguiam, e a que era seguida pelas mulheres.</p>
+
+<p>Os homens podiam contentar-se em ir á missa aos domingos, comer de magro ás
+sextas feiras, e confessar-se uma vez por anno, pela quaresma.<span
+class="pn">{168}</span></p>
+
+<p>As mulheres deviam, alem d'isso, comer de magro todos os sabbados, dia em
+que deviam tambem confessar-se, commungar todos os domingos e jejuar nas
+vesperas dos dias santificados.</p>
+
+<p>Ora Laura limitava-se a seguir a religião dos homens; portanto era uma
+impia, votada ás chammas eternas!</p>
+
+<p>De fórma que a unica mulher com quem podia ter relações d'amisade fugia da
+sua convivencia.</p>
+
+<p>Em vez de ser amiga e irmã, Estephania era inimiga.</p>
+
+<p>E se Laura procurasse relações entre as damas que viviam nos castellos mais
+proximos não encontraria espiritos mais esclarecidos do que o de sua cunhada.
+</p>
+
+<p>O conde adorava a musica quasi tanto como Antonino, e sentia-se
+verdadeiramente feliz quando Laura se sentava ao piano e cantava qualquer das
+arias em que d'antes fôra tão applaudida.</p>
+
+<p>Se o canto fosse religioso ou mesmo popular, Estephania escutava com
+indulgencia.</p>
+
+<p>Se, porém, a palavra <em>amor</em> fosse uma só vez pronunciada,
+levantava-se cheia d'indignação e sahia altivamente da sala.</p>
+
+<p>Este ultimo caso dava-se com frequencia, porque o amor é um thema musical
+frequentemente usado pelos compositores.<span class="pn">{169}</span></p>
+
+<p>Pelo menos Laura, agora, tinha mais um ouvinte: o conde.</p>
+
+<p>Isto não a impedia, como já estava em França e lia os jornaes parisienses,
+de suspirar quando encontrava nos periodicos noticias de theatro e as narrações
+dos debutes e das primeiras representações.</p>
+
+<p>O que lia era para ella o brilho, o ruido, a vida!</p>
+
+<p>Se não tivesse abandonado o theatro, seria d'ella que os jornaes fallariam!
+</p>
+
+<p>Esse eterno esquecido que se chama Paris, tinha-se por muito tempo occupado
+d'ella!</p>
+
+<p>Decerto não sentia a falta da antiga cantora, mas a diva d'outro tempo
+percebia que Paris lhe faltava.</p>
+
+<p>Estava prestes a ser inaugurada a nova Opera, e Laura não assistiria á
+inauguração!</p>
+
+<p>Felizmente, por entre as saudades e os desalentos, conservára intacto no
+coração o amor que tinha por Antonino.</p>
+
+<p>É verdade que o marido adorava-a como no primeiro dia de casados, mas elle
+não tinha um passado de que lembrar-se, em quanto que ella, ao casar-se, dera
+metade da sua vida despresando a arte.</p>
+
+<p>O amor dos dois esposos, substituira o ardor da paixão dos primeiros tempos
+pelo prazer ineffavel do habito tomado.</p>
+
+<p>E ella consolava-se, chegava a encantar-se até, quando, por uma bella manhã
+de sol, sahiam ambos,<span class="pn">{170}</span> e atravessavam bosques e
+prados, caminhando ou correndo, na alegria doida de dois collegiaes em férias.
+Passeiavam sobre a relva, ella appoiada ao braço do marido, e levantando um
+pouco as saias para não as molhar nas plantas humidas, ou conservando-se
+direita, o tronco bem vertical sobre os quadris airosos, em quanto Antonino,
+curvado, cortava com as unhas os pés das violetas, de que Laura fazia, ramos
+deliciosos, cercados de folhas d'um verde pallido.</p>
+
+<p>Muitas vezes o caminho que seguiam afundava-se n'um declive pedregoso, ou
+descia até á praia.</p>
+
+<p>Divertiam-se então em saltar precipitadamente, como creanças, elle
+segurando-a por uma das mãos, e ella levantando com a outra as saias, que
+tremulavam ao vento como um ruido d'azas, n'um vôo d'aves anciosas de
+liberdade.</p>
+
+<p>Paravam na areia, e sentavam-se para contemplar a baixamar ou a maré que
+subia.</p>
+
+<p>E ficavam-se por muito tempo a admirar as ondas lambendo com fragor as
+saliencias dos rochedos, ou traçando na superficie lisa e clara da areia o seu
+rasto sinuoso, coberto d'espuma.</p>
+
+<p>Uma manhã tiveram uma alegria que terminou em tristeza.</p>
+
+<p>Acharam um ninho de melros.</p>
+
+<p>Os passaritos tinham sahido da casca havia pouco tempo.<span
+class="pn">{171}</span></p>
+
+<p>Antonino mostrou-os a Laura, quebrando um ramo de madresilva brava que os
+occultava por entre a espessura d'uma sebe d'espinheiros.</p>
+
+<p>Eram cinco.</p>
+
+<p>No fundo do ninho, apenas se viam bicos amarellos que se abriam com
+voracidade.</p>
+
+<p>Laura ficou penalisada por não ter que dar aos passarinhos.</p>
+
+<p>&mdash;Voltaremos ámanhã com provisões, disse-lhe Antonino.</p>
+
+<p>No dia seguinte voltaram com as algibeiras cheias de bolos.</p>
+
+<p>A mãe estava no ninho.</p>
+
+<p>Logo que sentiu ruido, levantou vôo para uma arvore proxima, saltando depois
+de ramo em ramo, dando gritos desolados, inquieta por ver os filhos á mercê de
+seres humanos.</p>
+
+<p>Laura sentiu um prazer quasi maternal, em metter pelos bicos dos passarinhos
+esfaimados, com a ponta do seu dedo côr de rosa, bocados de bolo, que
+previamente amolecia entre os labios.</p>
+
+<p>Ao outro dia foram tambem ver o ninho.</p>
+
+<p>Estava vasio.</p>
+
+<p>O pae e a mãe tinham levado os passaritos.</p>
+
+<p>Laura ficou triste, sem saber porque.</p>
+
+<p>Como Antonino lhe perguntasse a razão d'aquella tristeza, Laura
+respondeu:<span class="pn">{172}</span></p>
+
+<p>&mdash;É lugubre este ninho abandonado, lugubre... como um berço vasio!</p>
+
+<p>Depois d'um momento de silencio, perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;As aves, quando encasalam, teem sempre filhos, não é verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Sempre, pela primavera, respondeu Antonino.</p>
+
+<p>&mdash;Como as aves são felizes!</p>
+
+<p>Antonino comprehendeu.</p>
+
+<p>Percebia perfeitamente qual era o vacuo que havia na vida de Laura, e
+esforçava-se sempre por lhe procurar distracções.</p>
+
+<p>Não servira na marinha, como muitos dos seus antepassados, mas todo o bretão
+é marinheiro.</p>
+
+<p>Adorava o mar, e um dos seus maiores prazeres era andar embarcado.</p>
+
+<p>Poucos dias depois de chegar a Saint-Malo, comprou uma chalupa de recreio.
+</p>
+
+<p>O barco era estreito na proa, baixo de caverna, branco, com uma larga facha
+vermelha, e tinha meia coberta.</p>
+
+<p>Os passageiros tomavam logar á pôpa, n'uma especie de camara oval, cercada
+d'um banco em que cabiam oito pessoas.</p>
+
+<p>Na coberta tinham improvisado um casinhoto em que mettiam as malas e as
+provisões, e um leito estreito, em que uma pessoa tinha suficiente espaço para
+dormir ao abrigo do vento.<span class="pn">{173}</span></p>
+
+<p>O apparelho da chalupa compunha-se d'um mastro e d'um gurupés, d'uma vela
+grande e d'uma bergantina.</p>
+
+<p>Com mau tempo tomavam quatro rizes á vela grande, e como o mastro se
+inclinava para a proa, a chalupa navegava maravilhosamente com aquelle unico
+panno.</p>
+
+<p>Graças á largura do barco e ao pouco comprimento relativo do casco, a
+chalupa virava com facilidade, cedia bem ao vento e obedecia docilmente á canna
+do leme.</p>
+
+<p>Antonino mandou o barco para Roscoff, ensinando com precisão a Laura toda a
+manobra das velas.</p>
+
+<p>Era necessario um marinheiro, mas o visconde achava mais encanto a embarcar
+só com sua mulher, e Laura era um marinheiro agil e encantador.</p>
+
+<p>Muitas vezes embarcavam de manhã.</p>
+
+<p>Um creado levava-lhes, até ao caes, um cesto com provisões.</p>
+
+<p>Antonino embarcava primeiro, e, antes que Laura estivesse a bordo, armava a
+vela.</p>
+
+<p>Depois ajudava a esposa a saltar para a chalupa, e sentavam-se ambos na
+camara oval, tendo a resguardal-os do sol um toldo de lona.</p>
+
+<p>Então Antonino gritava ao creado, que ficava no caes:</p>
+
+<p>&mdash;Larga!<span class="pn">{174}</span></p>
+
+<p>O cabo cahia na agua como um fustigamento de pingalim.</p>
+
+<p>O visconde amarrava a vela, suspendia a ancora, impellia o barco com o
+croque, e puchava a canna do leme para bombordo.</p>
+
+<p>A chalupa inclinava-se graciosamente ao vento, balouçava por instantes como
+indecisa, e por fim vogava.</p>
+
+<p>Cinco minutos depois, fendia a agua com uns movimentos de sereia.</p>
+
+<p>Percorreram assim as costas da Bretanha, d'um lado até Donamaner, e mesmo a
+Lorient, e do outro até ao Mont-Saint-Michel.</p>
+
+<p>Algumas vezes succedeu estarem ausentes durante dois ou tres dias, com
+grande inquietação do conde.</p>
+
+<p>O pae d'Antonino sabia que o vento contrario e o mau tempo não os fazia
+parar.</p>
+
+<p>O menos temerario dos dois, era justamente o visconde.</p>
+
+<p>Laura sentia-se bem a bordo.</p>
+
+<p>O perigo incitava-a porque era uma emoção, e eram as emoções o que faltava a
+Laura, a quem a vida socegada mais fazia recordar o passado.</p>
+
+<p>A caça divertia-a muito menos.</p>
+
+<p>Por vezes recusava-se até a acompanhar o marido e o sogro, e só ia á tapada
+do castello, se o almoço fosse servido ao ar livre.<span
+class="pn">{175}</span></p>
+
+<p>Não acceitára até uma esplendida espingarda de caça, que Antonino lhe
+offerecera, e que passava por ser uma verdadeira maravilha.</p>
+
+<p>As poucas reuniões que o conde entendeu dever dar no castello, não lhe
+mereceram maior attenção, nem lhe proporcionaram o menor attractivo.</p>
+
+<p>Entretanto fazia as honras da casa com tão fino tacto e tão affavel
+dignidade, que a propria Estephania se admirava.</p>
+
+<p>Uma d'essas reuniões, mais solemne que as outras, teve, comtudo, para Laura,
+verdadeira importancia.</p>
+
+<p>Foi a festa da inauguração da capella restaurada do castello.</p>
+
+<p>Havia já tres annos que Estephania, que possuia fortuna pessoal,
+emprehendera, com o concurso, felizmente habil, d'um architecto de Rennes, a
+restauração da referida capella, uma verdadeira joia do seculo XV, no gosto de
+Folgoet.</p>
+
+<p>A obra terminara emfim.</p>
+
+<p>Faltava baptisar o sino e consagrar a capella.</p>
+
+<p>O arcebispo de Rennes fôra convidado para esse fim, respondendo que iria
+proceder á dupla ceremonia no primeiro domingo do mez d'agosto.</p>
+
+<p>Esta noticia, como era de suppôr, causou grande sensação em todos os
+castellos e parochias dos arredores, e todos foram unanimes em declarar que
+só<span class="pn">{176}</span> ao conde de Bizeux se poderia dever semelhante
+honra.</p>
+
+<p>Afinal o arcebispo accedera com tanta mais vontade ao convite que o conde
+lhe dirigira, quanto era certo que, da sua visita ao castello, esperava ganhar
+a annuencia e o concurso do velho fidalgo para uma obra tão excellente de
+certo, e muito mais util, que a inauguração da capella.</p>
+
+<p>Tratava-se de terminar um hospicio para marinheiros, edificado por
+subscripção em Saint-Servan, sob a direcção d'uma commissão, de que o arcebispo
+era presidente.</p>
+
+<p>Tinham angariado já umas centenas de mil francos, com que o edificio
+principiára a ser construido, mas faltava ainda mais uma centena para material
+e mobiliario, e as bolsas estavam exhaustas.</p>
+
+<p>Entretanto era indispensavel arranjar aquella quantia, e por isso o
+arcebispo desejava fallar com o conde.</p>
+
+<p>Estephania fez no castello uma verdadeira revolução, para que a recepção de
+<em>monsenhor</em> fosse em tudo digna do alto cargo ecclesiastico que elle
+desempenhava.</p>
+
+<p>Enfeitou a capella com arbustos e flores, e mandou vir organistas e coristas
+da cathedral de Rennes.</p>
+
+<p>A missa, por musica vocal e instrumental, estava distinada a produzir
+sensação, como effectivamente<span class="pn">{177}</span> produziu, mas devido
+talvez a uma circumstancia com que a menina de Bizeux não contava.</p>
+
+<p>Eram tantos os cuidados e attenções que a pessoa do <em>monsenhor</em> lhe
+merecia, que Estephania não deu pela falta da cunhada no banco da familia.</p>
+
+<p>Repentinamente, a seguir a uma nota grave soltada pelo orgão, elevou-se uma
+voz, melodiosa e pura, e cantou, com perfeição e expressão d'adoravel
+suavidade, um trecho de Handel, que conservou em extasi o auditorio
+maravilhado.</p>
+
+<p>A mesma voz cantou depois o <em>offertorio</em> do mesmo compositor, com tal
+arte e vigor que a todos causou espanto.</p>
+
+<p>O arcebispo de Rennes, que era profundo conhecedor de musica religiosa,
+balanceava a cabeça e movia as mãos com beatitude.</p>
+
+<p>Trocaram-se phrases d'admiração, e se não fosse o respeito á santidade do
+logar, com certeza todos os ouvintes teriam applaudido com delirio.</p>
+
+<p>Terminada a ceremonia, a primeira pergunta do arcebispo, ao entrar na
+sachristia, foi:</p>
+
+<p>&mdash;Mas quem é a admiravel <em>virtuose</em> que a todos nos encantou?</p>
+
+<p>O conde, que entrava acompanhado de Laura, respondeu triumphantemente:</p>
+
+<p>&mdash;Foi minha nora, a sr.ª viscondessa de Bizeux, que tenho a honra de
+apresentar-lhe, monsenhor.<span class="pn">{178}</span></p>
+
+<p>&mdash;Na realidade a sr.ª viscondessa é uma artista de primeira ordem!
+disse o arcebispo.</p>
+
+<p>E depois accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Isto fez com que eu tivesse uma ideia, que não me parece de todo
+má... Logo lhe communicarei um certo projecto em que penso, meu caro conde.</p>
+
+<p>Em seguida desfez-se em agradecimentos e cumprimentos, aos quaes dava um
+certo sabor particular a mistura que havia do padre e do <em>dilettante</em>.
+</p>
+
+<p>Não foi só Laura que recebeu esses agradecimentos e cumprimentos; Estephania
+tambem compartilhou d'elles, e tão interdicta ficou, que não sabia se devia
+estar satisfeita ou vexada.</p>
+
+<p>Laura commoveu-se e sorriu-se com melancholia.</p>
+
+<p>Era o seu primeiro successo em dois annos!<span class="pn">{179}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00115">XV<br>
+Saint-Malo</a></h2>
+
+<p>Tinham decidido que deixariam o castello para voltar a Saint-Malo quando
+chegassem os primeiros frios, nos fins d'outubro ou principios de novembro.</p>
+
+<p>Na segunda quinzena d'agosto, porem, Estephania foi atacada de rheumatismo
+agudo, que ao principio apresentou um caracter inquietante.</p>
+
+<p>Chamaram da cidade o medico da familia, clinico de talento e longa pratica,
+que, depois de dispensar os primeiros cuidados á doente, diagnosticou o mal de
+principio de rheumatismo articular.</p>
+
+<p>O doutor demorou-se um dia no castello.</p>
+
+<p>A sua ausencia da cidade não podia prolongar-se por mais tempo, porque, como
+era o medico mais considerado, tinha longa clientela a reclamal-o.<span
+class="pn">{180}</span></p>
+
+<p>Prometteu voltar o maior numero de vezes possivel, duas ou tres por semana.
+</p>
+
+<p>Entretanto declarou que julgava indispensaveis as visitas diarias e
+attenções constantes.</p>
+
+<p>O medico de Saint-Pol-de-Léon inspirava mediocre confiança ao conde. Que
+fazer, pois?</p>
+
+<p>O tempo estava explendido; o mar socegado como um lago.</p>
+
+<p>Depois de pensar maduramente no caso, o conde resolveu-se.</p>
+
+<p>Estephania foi transportada, n'uma especie de maca, para bordo d'um vapor,
+fretado para esse fim em Saint-Malo.</p>
+
+<p>Algumas horas depois d'embarcar a doente estava installada no seu quarto do
+planalto da cidade.</p>
+
+<p>O conde de Bizeux queria partir só com a filha, deixando no castello
+Antonino e a esposa.</p>
+
+<p>Laura, porém, oppozera-se a essa determinação, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Estephania necessita dos cuidados d'uma senhora. O meu logar é á
+cabeceira do leito da irmã de meu marido.</p>
+
+<p>Como a menina de Bizeux declarasse que não desejava incommodal-a,
+principalmente por ser ardua a tarefa, Laura respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Pergunto a Antonino se eu sou enfermeira descuidada...<span
+class="pn">{181}</span></p>
+
+<p>Laura, a <em>impia</em>, tinha o mais absoluto despreso pela morte, emquanto
+que Estephania, a <em>devota</em>, a temia sobremaneira, como d'ordinario
+succede a todos os espiritos fracos.</p>
+
+<p>Essa circumstancia fez com que a menina de Bizeux acceitasse, sem mais
+opposição, o offerecimento de sua cunhada.</p>
+
+<p>Durante mais de duas semanas em que a doença apresentou maior perigo, Laura
+tratou Estephania com a mais dedicada sollicitude, nem um momento desmentida. A
+menina de Bizeux parecia surpreza e commovida.</p>
+
+<p>Entretanto, no primeiro dia em que poude sahir do quarto, disse simplesmente
+a Laura:</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço-lhe e peço lhe que acredite que, no seu logar, teria
+procedido da mesma fórma.</p>
+
+<p>&mdash;Não duvido, replicou Laura surprehendida da frieza d'aquellas
+palavras. </p>
+
+<p>D'este contratempo resultou que em pleno mez de setembro estavam em
+Saint-Malo.</p>
+
+<p>A convalescença de Estephania e o adeantado da estação, impediam a volta ao
+castello.</p>
+
+<p>Nos poucos dias que passara em Saint-Malo, de regresso da America, Laura
+apenas tivera tempo de ver superficialmente a cidade e a sociedade.</p>
+
+<p>Depois do restabelecimento d'Estephania teve occasião para mais de perto
+observar uma e outra.<span class="pn">{182}</span></p>
+
+<p>A cidade encantou-a, mas a sociedade pouco lhe agradou.</p>
+
+<p>Das janellas de casa gosáva o largo panorama do mar e o aspecto da bahia,
+que se abre entre dois morros titanicos, a ponta da Verde e o cabo Frehel,
+gigantes de pedra que parecem estender os braços atravez as sete leguas de mar
+que os separam, por cima da ilha granitica de Cézambre, guardada por negros
+recifes, que por entre as suas pontas deixam apenas estreitas passagens aos
+navios.</p>
+
+<p>O mar entra por essas passagens com fragor medonho e enormes
+acotovellamentos de vagas, vindas do largo em plena liberdade, e penetrando á
+força na bahia pelas portas de pedra, que jámais poderam arrombar.</p>
+
+<p>Ao fundo do golpho, sobre uma ilhota, eleva-se a cidade dos corsarios,
+rodeada d'altas muralhas, onde se alinham os canhões de cerco, estendidos
+pachorrentamente nas suas carretas, e abrindo, sobre a herva dos revestimentos,
+as suas boccas ameaçadoras. O mar tem na bahia, durante o estio, a placidez
+langorosamente azulada dos lagos.</p>
+
+<p>As ondas esperguiçam-se suavemente sobre a areia, junto das velhas muralhas.
+</p>
+
+<p>Mas no inverno batem com furia nas pedras ennegrecidas, e sobem, em
+turbilhões d'espuma, a enorme altura.<span class="pn">{183}</span></p>
+
+<p>A cidade, fechada pelas muralhas, assiste impassivel áquellas convulsões da
+agua.</p>
+
+<p>As altas casas, de janellas sem rotulas, elevam as suas fachadas
+geometricas, socegadamente, como que seguras de não serem attingidas pela
+impetuosidade das ondas.</p>
+
+<p>Mas nos angulos dos predios veem-se por vezes nichos da Virgem, aos quaes o
+vento arrebatou as imagens.</p>
+
+<p>A ilhota que serve de base á cidade apenas apresentava para fóra d'agua,
+transposta a muralha, uma especie de calçada em declive, relativamente larga,
+mas que, a pouco e pouco, as tempestades teem desconjunctado.</p>
+
+<p>D'antes Saint-Malo parecia um navio ancorado, e marinheiros os seus
+habitantes.</p>
+
+<p>Os costumes da cidade eram d'uma severidade quasi selvagem, proverbial a sua
+lealdade rude.</p>
+
+<p>A independencia d'aquelles homens não se curvava ante o governador da
+provincia, nem mesmo em frente da nobreza, á qual, de resto, d'uma vez
+emprestaram cincoenta milhões de francos.</p>
+
+<p>Que de mudanças se teem operado!</p>
+
+<p>Os caminhos de ferro, os casinos escalonados pela costa, o contacto
+periodico com estrangeiros, a convivencia com os banhistas que de toda a França
+ali concorrem, e, na cidade propriamente dita, a invasão<span
+class="pn">{184}</span> dos jesuitas, teem modificado as linhas, deprimido os
+angulos, alterado o caracter brusco mas franco d'aquelles homens, filhos da
+terra que deu á França Lammenais, Chateaubriand, Jacques Castier,
+Dagaray-Tronin, Surconf e tantos outros pensadores e homens de superior
+talento.</p>
+
+<p>O caracter dominante da geração moderna é, nas casas nobres, um formalismo
+devoto, de que o fanatismo não exclue a immoralidade.</p>
+
+<p>Apenas algumas familias de burguezes ricos resistiram ao contagio.</p>
+
+<p>Os membros d'essas familias tornaram-se republicanos, e fazem todos os
+esforços para que o povo adore a republica.</p>
+
+<p>Mas para esses nem chaves d'ouro lhes abririam as portas dos cenaculos
+aristocraticos, onde vêem a luz e se desenvolvem as intrigas monarchicas e
+clericaes. Sobre a grande massa banal da burguezia pouco dinheirosa, logistas,
+empregados, industriaes, sobresahem alguns, raros, perfis intelligentes
+d'advogados, de medicos, d'artistas, de jornalistas, isolados n'aquelle
+entorpecimento provincial.</p>
+
+<p>D'inverno ha bailes officiaes, e bailes no casino de verão.</p>
+
+<p>Esses bailes são frequentados por varias camadas sociaes, mas jámais tal
+facto produziu a mais insignificante mistura de castas.<span
+class="pn">{185}</span></p>
+
+<p>O orgulho geral produz em todos a mais absoluta falta d'affabilidade.</p>
+
+<p>Comprehende-se, pois, que, na sociedade restricta e altiva da nobreza de
+Saint-Malo, Laura se achasse completamente deslocada.<span
+class="pn">{186}</span></p>
+
+<p><span class="pn">{187}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00116">XVI<br>
+A sr.ª baroneza</a></h2>
+
+<p>A rainha da moda, a que dava as leis e fazia a opinião da alta sociedade em
+Saint-Malo, era a sr.ª baroneza de Pontual, uma formosa mulher de trinta annos.
+Havia umas cinco ou seis estações que ninguem se atrevia a disputar-lhe a
+elegante auctoridade.</p>
+
+<p>A baroneza era ainda parenta, em grau affastado, da menina por quem o conde
+se apaixonára antes de casar com a mãe d'Antonino, e parecia-se até, um pouco,
+com a infeliz a quem o desgosto matára.</p>
+
+<p>Essa circumstancia atrahira o conde, contra o seu habito, para a esphera
+d'acção mundana da joven baroneza, elle que tanto amava a vida retirada, onde
+podesse entregar-se completamente ás suas melancholicas recordações.<span
+class="pn">{188}</span></p>
+
+<p>O barão de Pontual era um insignificante.</p>
+
+<p>Sendo o primeiro admirador e adorador da esposa, ella facilmente o conduzia
+por todos os caminhos, bons ou maus, por onde lhe aprouvesse caminhar.</p>
+
+<p>Adelia, que assim se chamava a baroneza, declarava ter <em>alma
+d'artista</em>, o que é uma percebivel ambição, quando não seja pretenciosa.
+</p>
+
+<p>Ora, para completo esclarecimento do leitor, devemos dizer que á baroneza
+faltava simplicidade e sinceridade.</p>
+
+<p>Cultivava simultaneamente, segundo a sua propria phrase, as lettras, a
+pintura e a musica.</p>
+
+<p>A sua especialidade em litteratura era o genero epistolar, á semelhança da
+sr.ª de Sévigné, sua compatriota.</p>
+
+<p>Os correspondentes previligiados da baroneza, como no passado os da
+marqueza, colleccionavam as cartas e os bilhetes, em que havia tres estylos
+diversos: o serio, o sentimental e o jocoso.</p>
+
+<p>Em pintura <em>orvalhava</em> as suas aguarellas, e <em>dava vida</em> ás
+paysagens.</p>
+
+<p>Mas a sua arte predilecta era a musica.</p>
+
+<p>Possuia voz agradavel, mas mal educada.</p>
+
+<p>Comtudo recebera lições de canto de Delle Sedia, como recebera lições de
+piano de Lecouppey.</p>
+
+<p>Tinha opiniões cortantes, audacias pouco vulgares em mulher.<span
+class="pn">{189}</span></p>
+
+<p>O seu deus era Gounod.</p>
+
+<p>Eatretanto não desgostava de Berlioz, que ella declarava ser <em>quasi
+sempre extravagante, mas algumas vezes sublime</em>.</p>
+
+<p>A baroneza, ao principio, quando no seu horisonte viu despontar a
+viscondessa, inquietou-se.</p>
+
+<p>Laura era mais formosa e mais nova que ella.</p>
+
+<p>Além d'isso a situação dos srs. de Bizeux era muito mais brilhante do que a
+do barão de Pontual.</p>
+
+<p>Tudo isto fazia com que Laura podesse ser uma rival terrivel.</p>
+
+<p>Mas socegou em breve, vendo o aspecto modesto e simples da viscondessa, que
+apenas parecia desejar não dar nas vistas, occultar-se na sombra.</p>
+
+<p>A formosa Adelia foi desde logo indulgente e quasi amiga de Laura.</p>
+
+<p>&mdash;A viscondessinha é encantadora! disse ella.</p>
+
+<p>O barão de Pontual era o thesoureiro da commissão que tratava da fundação do
+hospicio para marinheiros.</p>
+
+<p>O conde de Bizeux foi eleito, por essa occasião, vice-presidente da mesma
+commissão.</p>
+
+<p>Uma ultima subscripção produziu approximadamente sessenta mil francos.</p>
+
+<p>Faltava, pois, arranjar apenas os quarenta mil que faltavam para prefazer a
+quantia julgada indispensavel.<span class="pn">{190}</span></p>
+
+<p>Esplendidas regatas, organisadas em Saint-Malo, produziram quinze mil
+francos.</p>
+
+<p>O arcebispo de Rennes foi então d'opinião que se devia angariar o restante,
+dando um grande concerto.</p>
+
+<p>Foi convencionado que o concerto se realisaria nos fins de setembro.</p>
+
+<p>Tratariam d'accumular attractivos, que justificassem os preços elevados, e
+attrahissem a Saint-Malo a <em>élite</em> da nobreza e da finança de toda a
+Bretanha.</p>
+
+<p>A baroneza de Pontual estava naturalmente indicada para preparar e dirigir
+aquella festa.</p>
+
+<p>Haveria canções populares bretãs, para as quaes recrutariam executantes nas
+classes baixas.</p>
+
+<p>O celebre pianista Nobillet, natural de Lorient, prometteu o seu concurso, e
+egual promessa fez o barytono Gressier, que nascera em Nantes.</p>
+
+<p>O restante, para conservar ao Concerto o caracter aristocratico que devia
+ter, a baroneza de Pontual tratou de o procurar e encontrou-o, nos salões da
+melhor sociedade; homens e senhoras, cujos nomes e talento dessem ao programma
+grande attracção, tornando-o de fórma a aguçar a curiosidade de todos,
+prestaram-se a tomar parte na festa.</p>
+
+<p>O salão da baroneza era pequeno para n'elle se fazerem os ensaios.</p>
+
+<p>O conde de Bizeux offereceu o seu.</p>
+
+<p>A viscondessa, como Estephania estava ainda convalescente,<span
+class="pn">{191}</span> viu-se obrigada a fazer as honras da casa.</p>
+
+<p>O sr. de Bizeux, que tomára a peito a terminação da grande obra de caridade,
+perguntou á nora se não queria dar o seu contingente para o brilho do concerto.
+</p>
+
+<p>Laura, sem recusar abertamente, observou-lhe que se arriscava a trahir o seu
+incognito d'artista e a deixar descobrir a cantora na viscondessa, tomando
+parte n'esse espectaculo, a que de certo concorreria muita gente.</p>
+
+<p>O conde, ainda que com pesar, acceitou aquellas razões.</p>
+
+<p>Um incidente imprevisto tornou inutil aquella precaução.</p>
+
+<p>A baroneza devia cantar, no concerto, a <em>Ave Maria</em> de Gounod, o seu
+deus.</p>
+
+<p>D'uma vez ensaiava, em casa do conde, aquelle delicioso trecho de musica,
+ante um auditorio que, n'aquelle dia, por acaso, era numeroso.</p>
+
+<p>Obteve o successo costumado, e todos os presentes foram, no fim, fazer-lhe
+os seus cumprimentos...</p>
+
+<p>Laura, como todos, foi testemunhar a sua admiração á baroneza.</p>
+
+<p>Adelia requebrou-se toda, segundo, o seu habito, defendendo-se dos
+cumprimentos com a mais falsa das modestias.</p>
+
+<p>&mdash;Não, não... Favores!... Hoje não estava com<span
+class="pn">{192}</span> voz... De certo reparou que, no fim, a respiração
+faltou-me!...</p>
+
+<p>&mdash;Permitte-me que lhe diga de que foi resultante essa falta? perguntou
+Laura com simplicidade.</p>
+
+<p>&mdash;Pois não, minha querida!... Falle... peço-lhe...</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me, disse a viscondessa, que, em vez d'observar o
+<em>crescendo</em> phonico obrigado, a sr.ª baroneza o atacou demais no
+principio, faltando-lhe depois a força no final, que deve ser cantado com toda
+a intensidade de tom possivel.</p>
+
+<p>&mdash;Não percebo bem... objectou a baroneza deveras contrariada.</p>
+
+<p>E depois d'um momento de silencio, perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;A sr.ª viscondessa sabe musica?</p>
+
+<p>&mdash;Um pouco...</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sabe?... Então queira ter a bondade de juntar a pratica á
+theoria, cantando o trecho como entende que elle deve ser cantado.</p>
+
+<p>&mdash;Depois da sr.ª baroneza ter cantado, não devo eu...</p>
+
+<p>&mdash;Não faça ceremonia... Cante... peço-lhe, insistiu a baroneza com
+frieza. </p>
+
+<p>Com a insistencia esperava collocar em terrivel embaraço a imprudente
+conselheira.</p>
+
+<p>Laura fez um movimento de contrariada, mas accedeu ao pedido.<span
+class="pn">{193}</span></p>
+
+<p>Começou muito <em>piano</em>, com intensão de cantar a meia voz, quando
+muito.</p>
+
+<p>Mas o instincto d'artista foi mais forte que ella: arrastou-a.</p>
+
+<p>Quando chegou ás ultimas notas, a sonoridade da sua voz foi tal,
+manifestou-se tanto o conhecimento do methodo, que todos os assistentes,
+admirados, romperam em bravos e palmas.</p>
+
+<p>Antonino não estava presente, mas o conde de Bizeux assistiu ao triumpho de
+Laura, o que, no intimo, lhe deu grande satisfação.</p>
+
+<p>A baroneza de Pontual ficou abysmada!</p>
+
+<p>A incontestavel superioridade de Laura esmagava-a ao primeiro recontro.</p>
+
+<p>Entretanto assaltou-a uma duvida.</p>
+
+<p>Quem seria aquella mulher que tinha dissimulado, e que subitamente revelava,
+uma voz e uma arte de cantar pouco vulgares entre amadoras, e mais do que
+sufficientes para fazerem a reputação d'uma cantora de primeira ordem?</p>
+
+<p>Entretanto a baroneza não foi a ultima a felicitar Laura.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que admiravel surpreza! disse ella. Porque me não fez
+conhecedora, ha mais tempo, do seu maravilhoso talento, sr.ª viscondessa?</p>
+
+<p>Comtudo cohibiu-se de perguntar a Laura se queria tomar no concerto o logar
+que lhe pertencia.<span class="pn">{194}</span></p>
+
+<p>É porque percebeu perfeitamente que esse logar seria o primeiro, e a
+baroneza não desejava occupar o segundo plano.</p>
+
+<p>No dia seguinte, porém, a infeliz baroneza recebeu do arcebispo de Rennes, a
+quem enviára o programma, uma carta desoladora.</p>
+
+<p>O arcebispo admirava-se de não ver figurar n'esse programma, o nome
+d'aquella que devia ser a grande attracção, e que produziria o mais brilhante
+successo.</p>
+
+<p>Esse nome era o da viscondessa de Bizeux.</p>
+
+<p>Fôra ouvindo-a cantar na missa d'inauguração da capella do castello, que ao
+arcebispo occorrera a idéa de dar um concerto, cujo producto revertesse a favor
+da subscripção para o hospicio de marinheiros.</p>
+
+<p>Em seguida o arcebispo perguntava se a baroneza de Pontual desconhecia o
+raro talento da nora do conde de Bizeux.</p>
+
+<p>Pois a extrema modestia da viscondessa fazia com que ella não desejasse
+manifestar o seu talento em publico?</p>
+
+<p>Quando se tratava d'uma obra meritoria, não se tinha o direito de ser
+modesto, e por isso instava com a baroneza para que convidasse Laura.</p>
+
+<p>Ante esta especie d'intimação, a baroneza não poude deixar de convidar a
+viscondessa.</p>
+
+<p>Portanto, no dia seguinte, foi officialmente perguntar-lhe<span
+class="pn">{195}</span> se queria prestar ao concerto o seu valioso concurso.
+</p>
+
+<p>Laura, perplexa, respondeu que necessitava consultar o marido e o sogro.</p>
+
+<p>Houve conselho privado entre o conde de Bizeux, Antonino e Laura.</p>
+
+<p>O conde foi d'opinião que a nora não devia deixar de prestar-se a dar a sua
+contingente para tão santa obra.</p>
+
+<p>A Linda desapparecera havia mais de dois annos.</p>
+
+<p>Que mal podia resultar d'ella reapparecer, uma unica vez, n'uma cidade tão
+distanciada de Paris, diante d'um publico local, que não estava ao corrente do
+movimento dos theatros parisienses?</p>
+
+<p>O maior numero de probabilidades, era de que Laura não seria reconhecida.
+</p>
+
+<p>&mdash;Mas se o fôr? perguntou a viscondessa.</p>
+
+<p>&mdash;Se assim succedesse, respondeu o conde, a descoberta far-se-ia em
+condições tão honrosas, tão respeitaveis para todos nós, que, ante o facto
+consumado, os mais rigoristas não tinham o direito d'arguir meu filho de a ter
+amado sufficientemente, Laura, para lhe dar o seu nome, nem a mim por lhe
+chamar filha.</p>
+
+<p>Houve um momento de silencio.</p>
+
+<p>O conde, passados instantes, accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Nada tem no seu passado, Laura, de que deva<span
+class="pn">{196}</span> envergonhar-se. Estephania, que tem os prejuizos que
+sabe, sem duvida ficaria contrariada se lhe tivessemos, de principio, revelado
+toda a verdade. Mas agora ella já a conhece e apprecia. Tratou-a com uma
+dedicação tão fraternal, que minha filha está reconhecidissima. O arcebispo de
+Rennes, que possue um espirito superior, reclama este serviço; depois seria o
+primeiro a não consentir que elle se voltasse contra aquelles a quem o pede. Se
+o seu segredo, que é tambem nosso, tem de ser conhecido mais tarde ou mais
+cedo, parece-me que não encontraremos occasião mais favoravel do que esta, para
+que todos saibam que a esposa de meu filho foi cantora.</p>
+
+<p>Antonino, menos optimista que seu pae, e vagamente inquieto, nada achou que
+oppôr ás razões apresentadas pelo conde.</p>
+
+<p>De resto, como sempre, desejava fazer-lhe a vontade.</p>
+
+<p>Assim pois, foi Laura a unica que resistiu á idéa de reapparecer e cantar em
+publico.</p>
+
+<p>Mas não queria ou não podia dizer tudo o que pensava sobre o caso.</p>
+
+<p>A verdade era que, sobretudo, ella temia-se a si propria.</p>
+
+<p>Sabia com que intima alegria estremecera no dia da inauguração da
+capella.<span class="pn">{197}</span></p>
+
+<p>Dois dias antes, ao cantar, ante um auditorio ainda assim restricto, a
+<em>Ave Maria</em> de Gounod, experimentára maior satisfação.</p>
+
+<p>Os bravos e palmas que então ouvira, tinham a como que transportado aos
+bellos tempos em que ella arrebatava uma platéa inteira.</p>
+
+<p>O que lhe succederia se de novo se encontrasse na frente d'um publico
+numeroso?</p>
+
+<p>Que effeito lhe produziriam os bravos, as chamadas, as corôas?</p>
+
+<p>Ah! a queda era tão facil e podia ser tão desastrosa!</p>
+
+<p>Tel-a-iam esquecido em Paris tanto quanto o conde julgava?</p>
+
+<p>Não.</p>
+
+<p>Poucos dias antes lera n'um jornal da capital, a proposito da abertura da
+nova Opera e da companhia que n'ella devia cantar, que o director do novo
+templo da arte, devia, se fosse habil, lembrar-se da Linda.</p>
+
+<p>N'essa mesma noticia accrescentava-se que a diva estava no Mexico, mas
+dizia-se tambem que o Mexico não era no fim do mundo, que se volta de lá dentro
+d'algumas semanas.</p>
+
+<p>Mas a Linda não estava longe!</p>
+
+<p>Podia chegar a Paris, ao seu querido Paris, em algumas horas.<span
+class="pn">{198}</span></p>
+
+<p>Laura, em seguida, pensou no seu amor por Antonino, sempre inalteravel no
+seu coração.</p>
+
+<p>Era esse sentimento que ainda a retinha junto d'elle.</p>
+
+<p>Mas ao mesmo tempo recordava-se da palavra que o visconde lhe dera, e que a
+tornava livre se achasse muito pesada a cadeia que a prendia.</p>
+
+<p>Eram todos estes pensamentos que a tornavam hesitante. Não tinha, porém, a
+coragem de os expôr.</p>
+
+<p>Se a tivesse, seu marido e seu sogro ficariam convencidos de que ella não
+devia cantar no concerto de benificencia.</p>
+
+<p>O conde persistia, insistia, e Antonino juntava os seus rogos aos do pae.
+Ella, por fim, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Reconhecem bem, não é verdade, que o que está mais em jogo não é o
+meu interesse pessoal, mas o interesse da familia?</p>
+
+<p>&mdash;Sem duvida, respondeu o conde, e é por isso mesmo que insistimos e
+somos de opinião que deve ceder, como nós cedemos.</p>
+
+<p>Laura, replicou então:</p>
+
+<p>&mdash;Visto assim o quererem, cantarei no concerto!</p>
+
+<p>N'essa noite, Laura disse á baroneza, pouco satisfeita, o seguinte:</p>
+
+<p>&mdash;Pode accrescentar no seu programma, minha senhora, que a viscondessa
+X... cantará as arias <em>Fidelio</em> e o <em>Rei dos Alamos</em>.<span
+class="pn">{199}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00117">XVII<br>
+A tempestade</a></h2>
+
+<p>O dia em que devia realisar-se o concerto foi por fim fixado: 29 de
+setembro.</p>
+
+<p>Faltavam, pois, dez dias.</p>
+
+<p>Laura propôz ao marido não os passasem em Saint-Malo.</p>
+
+<p>Que necessidade tinham de juntar ao perigo d'ella ser reconhecida no
+concerto, o risco de a reconhecerem nos ensaios?</p>
+
+<p>Até então a viscondessa não encontrára ninguem que a conhecesse.</p>
+
+<p>Os artistas que deviam tomar parte no concerto, Nobillet e Gressier, nunca a
+tinham visto.</p>
+
+<p>Fallava-se, comtudo, em reforçar o programma, accrescentando-lhe os nomes
+d'outros artistas.<span class="pn">{200}</span></p>
+
+<p>O mais prudente, pois, era não apparecer senão na noite do espectaculo.</p>
+
+<p>Como escolhera dois trechos de musica que conhecia perfeitamente, bastava a
+Laura uma simples recordação com a orchestra, na manhã do dia do concerto.</p>
+
+<p>Nos seus passeios maritimos Antonino e Laura não tinham ido alem do Monte de
+Saint-Michel.</p>
+
+<p>Decidiram por isso visitar durante aquelles dias, na sua chalupa, as costas
+do departamento da Mancha, e Jersey, onde Laura nunca tinha ido.</p>
+
+<p>O conde de Bizeux e Estephania, já completamente restabelecida, receberiam
+as pessoas que iam ensaiar-se.</p>
+
+<p>A baroneza de Pontual seria a unica a dirigir a festa, sem temer a
+intervenção da que ella considerava sua rival.</p>
+
+<p>Laura partiu alegre e despreoccupadamente para aquella excursão, a mais
+longa que ainda tinham feito.</p>
+
+<p>A viagem foi encantadora.</p>
+
+<p>A volta da ilha de Jersey, que durou cinco a seis dias, foi sobretudo uma
+verdadeira delicia.</p>
+
+<p>Passaram em todos os portosinhos naturaes que a ilha tem, desembarcavam,
+jantavam e dormiam nas estalagens mais ou menos mediocres com que deparavam,
+rindo do jantar, rindo do leito, rindo de tudo.<span class="pn">{201}</span>
+</p>
+
+<p>Para descançarem das fadigas da navegação, davam esplendidos passeios de
+carruagem, visitando os melhores locaes e todas as curiosidades da ilha.</p>
+
+<p>Não abriram um jornal.</p>
+
+<p>Sentiam-se tão longe da França como se ainda estivessem na America.</p>
+
+<p>Esqueceram Saint-Malo, esqueceram o universo.</p>
+
+<p>Os dias corriam magnificos, uns dias d'outomno, tepidos e amenos.</p>
+
+<p>Laura sentia apenas que o mar se conservasse tão uniformemente tranquillo.
+</p>
+
+<p>&mdash;Está bello de mais o tempo, disse ella. Algum vento que encapellasse
+as ondas tornaria mais emotiva a nossa viagem.</p>
+
+<p>Que pesar sentiam de que aquelles dias tivessem que terminar!</p>
+
+<p>Na vespera do concerto estavam em Granville.</p>
+
+<p>Antonino sahiu depois do almoço para preparar a chalupa, e voltou ao hotel,
+onde tinham passado a noite.</p>
+
+<p>Laura reparou que o marido estava com aspecto de pouco satisfeito.</p>
+
+<p>&mdash;Diabo! diabo! disse elle. Parece-me que procederiamos acertadamente
+voltando a Saint-Malo por terra, tomando o comboio em Dol.</p>
+
+<p>&mdash;Porque?</p>
+
+<p>&mdash;Vejo nuvens de mau agoiro. Se o vento refrescar,<span
+class="pn">{202}</span> é provavel que, antes de chegarmos a Saint-Malo,
+tenhamos de luctar com mar bravo, e a nossa chalupa não tem condições para
+luctas d'essa ordem.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Levantae-vos, desejadas tempestades que deveis arrastar
+Renato!</em> disse rindo Laura, respondendo aos temores do marido com uma
+citação de Chateaubriand.</p>
+
+<p>E accrescentou n'outro tom:</p>
+
+<p>&mdash;Ainda bem! Desejo defrontar-me com o perigo.</p>
+
+<p>Antonino dissera a verdade.</p>
+
+<p>O vento era contrario, e para os lados de Saint-Malo viam-se nuvens
+ameaçadoras.</p>
+
+<p>&mdash;Não valem nada! disse a viscondessa depois de olhar para as nuvens
+que o marido lhe indicava. Sobeja-nos o tempo para chegarmos antes que a
+tempestade se desencadeie. Mas se assim não acontecer, tanto melhor, Antonino,
+porque sinto grande desejo d'arrostar qualquer perigo a teu lado. Acho
+encantador terminar por um incidente um pouco dramatico a nossa socegada
+viagem.</p>
+
+<p>&mdash;Decididamente queres embarcar? perguntou Antonino depois de reflectir
+por alguns momentos.</p>
+
+<p>&mdash;Quero.</p>
+
+<p>&mdash;Que a tua vontade seja feita.</p>
+
+<p>E embarcaram.</p>
+
+<p>Antonino tomou tres rizes á vela grande e prendeu o gurupés.</p>
+
+<p>Em seguida envolveu Laura n'um manto, e fez-se<span class="pn">{203}</span>
+ao largo. Durante as duas primeiras horas correu bem a viagem.</p>
+
+<p>A chalupa navegava com uma velocidade de doze nós por hora.</p>
+
+<p>O visconde chegou a ter esperanças de que chegariam a Saint-Malo sem
+novidade.</p>
+
+<p>Mas repentinamente soprou rijo o vento, apanhando de flanco a chalupa, e as
+ondas encapelaram-se.</p>
+
+<p>A cada vaga Antonino dava ao leme, e o barco vencia obliquamente a onda,
+cuja espuma chegava ao cimo do mastro.</p>
+
+<p>O mar embravecia de minuto para minuto.</p>
+
+<p>O vento refrescava cada vez mais.</p>
+
+<p>A chalupa, inclinada para bombordo, seguia sempre, com a borda quasi ao
+nivel das ondas.</p>
+
+<p>Entretanto houve um momento em que o vento abrandou, como que para dar
+descanço ás vagas.</p>
+
+<p>Mas depois, bruscamente, saltou para sueste.</p>
+
+<p>Por felicidade Antonino viu chegar a borrasca.</p>
+
+<p>As montanhas d'agua que se moviam ao largo, batidas pelo vento contrario,
+elevaram-se a enorme altura.</p>
+
+<p>Depois, obedecendo á força impetuosa do vento, correram na mesma direcção.
+</p>
+
+<p>Houve um minuto de indiscriptivel cahos.</p>
+
+<p>O choque das massas d'agua batendo umas contra outras, produzia um ruido
+ensurdecedor.<span class="pn">{204}</span></p>
+
+<p>A chalupa corria rapida como um vôo.</p>
+
+<p>Apanhada pelas ondas que vinham de terra impellidas pelo vento, encontrava
+outras ainda animadas da primeira impulsão.</p>
+
+<p>Se se encontrasse no ponto d'encontro d'essas montanhas moveis, estava
+perdida.</p>
+
+<p>Antonino, socegado, attento, nem por um instante se deixava surprehender.
+</p>
+
+<p>Laura poude então admirar esse espectaculo extraordinario: a lucta da
+destreza e da intelligencia humanas contra o poder brutal das forças naturaes.
+</p>
+
+<p>O ceu assombreava-se cada vez mais.</p>
+
+<p>Uma grande nuvem côr de chumbo, com reflexos sulphurosos nas extremidades,
+avançava rapidamente do lado de Saint-Malo. Laura disse a Antonino:</p>
+
+<p>&mdash;Corremos grande perigo, não é verdade?</p>
+
+<p>&mdash;O mais insignificante descuido perder-nos-ia, respondeu o
+visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Para onde diriges a chalupa?</p>
+
+<p>&mdash;Vou tentar abordar á ilha de Cézambre, da qual distamos dois
+kilometros. E agora, minha querida, silencio!</p>
+
+<p>Laura approximou-se do unico homem que amara e que escolhera entre todos,
+feliz por se saber protegida por elle.</p>
+
+<p>Não fôra ella, de resto, que desejara observar de perto o mar irritado?<span
+class="pn">{205}</span></p>
+
+<p>Chamára o cataclysmo, e elle viera, furioso por se ver arrostado por
+aquelles dois entes cheios de vida.</p>
+
+<p>Por isso Laura não sentia verdadeiro temor.</p>
+
+<p>Ao principio, vendo a extraordinaria força dos elementos, sentira um ligeiro
+calafrio.</p>
+
+<p>Mas, depois, socegou por completo.</p>
+
+<p>Pensava apenas:</p>
+
+<p>&mdash;Se nós fossemos separados por alguma vaga?</p>
+
+<p>E, sem pronunciar uma só palavra, pegou n'um cabo de linho, delgado mas
+forte, prendeu uma das extremidades ao braço, passando a corda por cima do
+hombro, e com a outra extremidade prendeu de fórma identica o braço d'Antonino.
+Depois disse:</p>
+
+<p>&mdash;Agora podemos morrer! Morrer juntos e amando-nos, é morrer feliz!</p>
+
+<p>A tempestade attingia o paroxismo.</p>
+
+<p>As vagas cabriolavavam e cahiam depois em salto de tigre.</p>
+
+<p>O ceu cobrira-se de funebre tela, côr de ardosia, com manchas violaceas.</p>
+
+<p>As nuvens desciam pesadamente sobre as regiões inferiores da atmosphera.</p>
+
+<p>A chalupa voava, branca e ligeira como uma ave aquatica, sobre o dorso das
+ondas.</p>
+
+<p>Por vezes desapparecia entre duas muralhas de vagas para reapparecer pouco
+depois, continuando na carreira rapida.<span class="pn">{206}</span></p>
+
+<p>A ilha proxima a custo se avistava por entre as elevadas ondas, que a espuma
+franjava phantasticamente.</p>
+
+<p>Antonino, com toda a energica tensão que pode ter a vontade, combatia
+encarniçadamente, para não desapparecer no abysmo.</p>
+
+<p>Apenas uma vez foi surprehendido pelo quebrar de uma onda enorme, que corria
+sobre a chalupa, n'um encarniçamento de fera, soltando roncos temerosos.</p>
+
+<p>N'essa occasião a vela rasgou-se.</p>
+
+<p>Por felicidade, a chalupa adquirira grande velocidade.</p>
+
+<p>A onda, ao quebrar, inundou a embarcação.</p>
+
+<p>A chalupa esteve prestes a submergir-se.</p>
+
+<p>A especie de camara que havia a meia coberta, foi arrancada.</p>
+
+<p>O porão encheu-se d'agua.</p>
+
+<p>Felizmente chegavam.</p>
+
+<p>A praia da ilha de Cézambre, estava ali, muito proxima...</p>
+
+<p>Com mais um movimento da canna do leme Antonino achou-se no centro d'uma
+enseadinha, ao abrigo do vento. Dois minutos depois a quilha da chalupa
+afundava-se na areia.</p>
+
+<p>Antonino deitou ferro, e saltou sobre uma rocha, com uma ligeireza de gamo.
+</p>
+
+<p>Laura lançou-lhe a extremidade d'uma amarra,<span class="pn">{207}</span>
+que o visconde atou solidamente n'um adelgaçamento do rochedo.</p>
+
+<p>Depois estendeu as mãos para a esposa, que ligeiramente lhe saltou nos
+braços.</p>
+
+<p>Abraçaram-se apaixonadamente, com delirio.</p>
+
+<p>Estavam salvos!<span class="pn">{208}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00118">XVIII<br>
+O encontro</a></h2>
+
+<p>Antonino e Laura atravessaram a estreita facha arenosa que havia junto ao
+rochedo, e que era o unico ponto abordavel da ilha de Cézambre.</p>
+
+<p>Na praia estava amarrado um barco.</p>
+
+<p>Meio occulto n'uma especie de quebrada, encontraram o posto da Alfandega.
+</p>
+
+<p>A casa estava aberta e vazia.</p>
+
+<p>Sem duvida os guardas, tendo partido de manhã, não estavam ainda de volta.
+</p>
+
+<p>Antonino lembrou-se que proximo d'aquelle sitio havia uma cabana de
+pescadores.</p>
+
+<p>Depois de a terem procurado por alguns minutos, encontraram-a por fim, n'uma
+anfractuosidade dos rochedos.</p>
+
+<p>A porta apenas estava fechada na tranqueta.</p>
+
+<p>Abriram-a e entraram.</p>
+
+<p>Depararam com uma velha, meio surda, que concertava uma rêde.<span
+class="pn">{209}</span></p>
+
+<p>A custo conseguiram saber que o velho&mdash;marido sem duvida&mdash;tinha
+partido de manhã para Saint-Malo e que ainda não voltára.</p>
+
+<p>Muito instada, disse mais que nada tinha que se Comesse e bebesse, além de
+<em>cidra</em>, toucinho, peixe sêcco e pão.</p>
+
+<p>Uma moeda d'ouro, que Antonino atirou para cima d'uma meza, abriu-lhe um
+pouco mais os ouvidos e a intelligencia.</p>
+
+<p>A velha levantou-se então e tratou de fazer lume sem demora.</p>
+
+<p>Pouco depois brilhavam as chammas na chaminé.</p>
+
+<p>Laura approximou-se para se aquecer e seccar o fato.</p>
+
+<p>Depois de estar tambem alguns momentos junto do lume, Antonino disse:</p>
+
+<p>&mdash;E agora vou buscar as nossas provisões a bordo da chalupa, porque,
+antes d'embarcarmos novamente, necessitamos comer, e não me agrada o que a
+velha nos póde dar.</p>
+
+<p>E voltando-se para a dona do tegurio, accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Acompanhe-me, porque, indicando-me o caminho, menos tempo me
+demorarei. </p>
+
+<p>A velha levantou-se sem responder, e seguiu Antonino.</p>
+
+<p>Laura conservou-se á chaminé, pensativa.<span class="pn">{210}</span></p>
+
+<p>Pouco depois ouviu uma voz conhecida dizer-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Adeus, Linda, bom dia!</p>
+
+<p>Levantou-se sobresaltada e olhou.</p>
+
+<p>Tinha em frente Lauretto Mina.</p>
+
+<p>&mdash;Como vaes tu, carissima?</p>
+
+<p>Laura respondeu altivamente:</p>
+
+<p>&mdash;Eu chamo-me viscondessa de Bizeux!</p>
+
+<p>&mdash;Viscondessa?... Hum!... Emfim, seja! Effectivamente disseram-me, em
+Saint-Malo, que tinha casado com o sr. de Bizeux, e que pertencia officialmente
+á familia do visconde. Mas o casamento effectuou-se em Inglaterra, não é
+verdade? Ninguem desconhece essa especie de casamentos... enlaces pouco
+duraveis, tão faceis de fazer como de desfazer. Casa-se em frente d'um padre
+catholico, mas nem por isso o casamento deixa de ser civil, o que illude a lei.
+</p>
+
+<p>&mdash;Mas affianço-lhe... replicou Laura.</p>
+
+<p>Interrompeu-se para ajuntar em tom desprezador:</p>
+
+<p>&mdash;Que me importa o que o senhor pense! Acredite ou não, é-me
+indifferente! </p>
+
+<p>&mdash;Está bem! respondeu, rindo ironicamente, Lauretto Mina. Que a
+viscondessa esteja mal, ou bem tincta, é questão secundaria, que não me impede
+de prometter solemnemente tratal-a pelo seu titulo, com todas as attenções e o
+mais profundo respeito. Tomo a peito proceder de fórma que reconquiste as suas
+boas graças.<span class="pn">{211}</span></p>
+
+<p>Depois d'um momento de silencio, olhando-a de revez, accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;É possivel que a sr.ª viscondessa tenha a maxima conveniencia de
+passar, para mim, como uma desconhecida em Saint-Malo. É possivel que não
+deseje que a reconheçam como sendo a celebre cantora Linda...</p>
+
+<p>Laura, surprehendida e interrogando-o com o olhar, interrompeu-o:</p>
+
+<p>&mdash;E se assim fosse!</p>
+
+<p>&mdash;Bravo! Já vejo que acertei! Pois está combinado! Ámanhã, no
+concerto... </p>
+
+<p>&mdash;Ah! o senhor canta no concerto d'ámanhã? perguntou a viscondessa.</p>
+
+<p>&mdash;Canto. Foi para isso que vim a Saint-Malo... Ámanhã será para mim uma
+desconhecida. Prometto-lh'o sob minha palavra d'honra.</p>
+
+<p>&mdash;Obrigada.</p>
+
+<p>&mdash;E agora que está certa da seriedade das minhas intenções, deixe-me
+dizer-lhe rapidamente, antes que... seu marido volte, o que vim fazer aqui,
+porque vim exclusivamente por sua causa.</p>
+
+<p>&mdash;Por minha causa? repetiu Laura como um echo.</p>
+
+<p>&mdash;Não me refiro precisamente á ilha de Cézambre. A estes rochedos
+conduziu-me apenas o acaso, a minha boa estrella. Esta manhã propozeram-me um
+passeio até á ilha, que me affiançaram ser extraordinariamente<span
+class="pn">{212}</span> pittoresca. A tempestade reteve-nos por mais tempo do
+que desejavamos. Mas a Saint-Malo, vim exclusivamente por sua causa, repito.
+</p>
+
+<p>Em seguida a uma pausa calculada, o tenor ajuntou:</p>
+
+<p>&mdash;O tempo passa. Vou direito ao fim. Sabe que no proximo mez é a
+inauguração da nova Opera. O director encarregou-me de dizer-lhe que tinha o
+maximo empenho em contratar a Linda. Elle acceita uma escriptura nas condições
+que mais lhe agradem, sr.ª viscondessa, ou seja por anno e por serie de
+representações.</p>
+
+<p>Laura córou, e esteve sem responder durante alguns segundos.</p>
+
+<p>Por fim disse:</p>
+
+<p>&mdash;É impossivel. Eu sou a esposa do visconde de Bizeux.</p>
+
+<p>&mdash;Ora adeus!... Nada de patetices!... replicou Lauretto com desdem. A
+sr.ª é e será sempre a Linda! É possivel que seja viscondessa, mas não deixou
+de ser artista! Usa agora, legitamente ou não, pouco importa, o nome dos nobres
+avós d'um fidalgo da provincia, mas, <em>per Bacco!</em> não lhe merecerá mais
+consideração, não collocará cem vezes mais alto o seu nome pessoal, o seu nome
+artistico, o grande nome que conquistou pelo seu talento previlegiado? Não
+posso deixar de lhe lembrar que seu pae tambem<span class="pn">{213}</span> era
+conde. Mas ninguem o conhecia por conde de Marcia, todos lhe chamavam o grande
+violinista, o grande artista Marcia. Acho extranho que a filha proceda de fórma
+contraria, deixando offuscar o seu glorioso nome de artista pelo vulgar titulo
+de nobreza!</p>
+
+<p>O tenor fallava com vehemencia e emphase italiana, mas as suas palavras
+correspondiam aos intimos pensamentos de Laura.</p>
+
+<p>A viscondessa não respondeu.</p>
+
+<p>Inclinara a cabeça para o peito, pensativamente.</p>
+
+<p>O tenor perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;Então?... Que resposta devo dar ao director da Opera? Que acceita,
+não é verdade?</p>
+
+<p>Laura disse, como se fallasse comsigo mesma:</p>
+
+<p>&mdash;Ha uma coisa que a tudo sobreleva: amo meu marido!</p>
+
+<p>&mdash;Mas ha trinta mezes já que o ama! Parece-me sufficiente! O visconde
+confiscou-a por mais de dois annos, é tempo de a restituir a si propria, á
+arte, aos seus admiradores. Se a amasse, seria o primeiro a dar-lhe esse
+conselho. E apesar disso a sr.ª continua amando-o, se é que não a engana o
+coração. Mas eu conheço-a bem, e iria apostar em como está farta da vida que
+leva. Convença-se: a sr.ª não pertence a um só homem, pertence a todos! Eu nem
+um instante<span class="pn">{214}</span> duvidei que a Linda voltaria para o
+theatro. Se não fôr hoje, será ámanhã!</p>
+
+<p>Laura, fugindo de responder ao tenor, perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;Como soube o director da Opera que eu estava em Saint-Malo?</p>
+
+<p>&mdash;Ah! isso é descoberta minha, replicou Lauretto Mina envaidecido.
+Quando a sr.ª desappareceu com o visconde, disse-se que tinha partido para a
+America do Norte ou do Sul. A verdade é que nunca se soube ao certo para onde
+tinham ido. Pouco tempo depois ninguem se lembrava da Linda, excepto eu, que
+nunca a esqueci. Velava, espiava. Ha pouco soube pelo barytono Gressier, que
+elle fôra convidado para cantar n'um espectaculo de beneficencia, em
+Saint-Malo. Lembrei-me que Saint-Malo era a terra da naturalidade do visconde
+de Bizeux. Tratei de ler os jornaes da provincia, e n'um, o <em>Correio
+d'Ille-et-Vilaine</em>, vi que o conde de Bizeux era o vice-presidente da
+commissão que promovia o espectaculo. Li o programma do concerto e n'elle
+encontrei os nomes da baroneza de P... e da viscondessa de B... Procurei
+immediatamente «o director de Opera, para onde, tenho a honra de lh'o
+participar, estou escripturado. Logo que o vi, disse-lhe: Encontrei a Linda!
+Meia hora depois escrevia ao sr. conde de Bizeux, offerecendo-me
+desinteressadamente para cantar no concerto. O conde acceitou reconhecidamente
+o meu<span class="pn">{215}</span> valioso concurso, em telegramma. No dia
+seguinte, munido de plenos poderes pelo director da Opera, parti para
+Saint-Malo, onde cheguei ha poucos dias. Eu desejava ficar hospedado em casa de
+seu sogro. Infelizmente, porem, elle hospedava Nobillet e Gressier que
+considerava como patricios, e tive de contentar-me em ser hospede da sr.ª
+baroneza de Pontual&mdash;uma mulher encantadora, palavra d'honra! disse o
+tenor como que em aparte com sorriso fatuo. Pena é que a voz não corresponda á
+belleza com que Deus a dotou!</p>
+
+<p>&mdash;Está hospedado em casa da baroneza de Pontual? perguntou Laura
+inquieta. Disse-lhe quem eu era?</p>
+
+<p>&mdash;Admire a minha prudencia e delicadeza: fazendo com que a baroneza
+fallasse da minha ex-companheira de theatro, percebi com facilidade que a sr.ª
+viscondessa tinha realmente guardado o mais rigoroso incognito, e não trahi o
+seu segredo. Como antecipadamente tinha admittido essa hypothese e resolvido
+não a denunciar, guardei o mais absoluto silencio.</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço-lhe, disse Laura pela segunda vez, durante a sua conversação
+com Lauretto.</p>
+
+<p>D'esta vez, porém, pronunciou a palavra mais delicadamente do que da
+primeira.</p>
+
+<p>&mdash;Nada tem que agradecer-me, replicou Lauretto. Repito-lhe; tenho o
+maximo desejo em que veja em<span class="pn">{216}</span> mim apenas um amigo.
+Escute-me, Laura: ha mais de dois annos que nem um só momento deixei de pensar
+em si. A sua imagem está sempre presente ao meu coração. Os sonhos de
+felicidade que tenho architectado teem sido tantos e taes que nem mesmo me
+atrevo a relatar-lh'os. É uma verdadeira obsessão! Ah! permitta-me que lhe
+diga, o que ainda, sentido, nunca disse a qualquer mulher: adoro-a, Laura!</p>
+
+<p>A viscondessa endireitou o corpo, irritada.</p>
+
+<p>Depois d'olhar fixamente, com altivez, o tenor, disse-lhe desdenhosa:</p>
+
+<p>&mdash;Creio que ha bocado prometteu tratar-me com todas as attenções e
+respeito? </p>
+
+<p>Lauretto não poude responder.</p>
+
+<p>Olhando pela porta, viu o visconde, que se approximava.</p>
+
+<p>Portanto disse a Laura, sorrindo maldosamente:</p>
+
+<p>&mdash;Não falle tão alto, que póde ouvil-a seu marido.</p>
+
+<p>Laura olhou tambem, e viu Antonino, seguido pela velha, que conduzia um
+cabaz.</p>
+
+<p>Ao transpor o limiar da porta, o visconde recuou, estupefacto.</p>
+
+<p>A voz tremia-lhe ao pronunciar o nome do tenor.</p>
+
+<p>&mdash;Lauretto Mina! disse elle apenas.</p>
+
+<p>&mdash;Em pessoa! respondeu o tenor com toda a presença d'espirito. Diz-se,
+e assim é, que o mundo é<span class="pn">{217}</span> enorme. Pois apesar
+d'isso os amigos encontram-se sempre. Portanto o nosso encontro, sr. visconde,
+apesar de ser perfeitamente casual, não é para admirar. Vim a Saint-Malo para
+cantar no concerto d'ámanhã. Uns amigos convidaram-me a passeio n'esta ilha. A
+tempestade, retendo-nos, fez com que nos encontrassemos. Os seus charutos devem
+estar molhados; permitti-me que lhe offereça um?</p>
+
+<p>&mdash;Obrigado, disse friamente Antonino, acompanhando a palavra com um
+gesto de recusa.</p>
+
+<p>O tenor fingiu não perceber a frieza com que o visconde o tratava.</p>
+
+<p>Deu um passo para a porta, olhou para o espaço e disse:</p>
+
+<p>&mdash;O tempo melhorou. O demonio do vento começa a socegar um pouco. Nada
+me prende já n'esta especie d'ilha selvagem. Não desejo importunal-os por mais
+tempo; deixo-os com a sua refeição. Senhor visconde, tenho a honra de o
+cumprimentar!... Senhora viscondessa, apresento-lhe a homenagem do meu mais
+profundo respeito!</p>
+
+<p>Tirou o chapéu n'um gesto largo e saiu da cabana.</p>
+
+<p>Antonino seguiu Lauretto com olhar colerico.</p>
+
+<p>&mdash;Que tempo esteve este homem aqui? perguntou elle a Laura.</p>
+
+<p>&mdash;Entrou pouco depois de tu sahires. Não sei d'onde veiu!<span
+class="pn">{218}</span></p>
+
+<p>O visconde interrogou a velha.</p>
+
+<p>&mdash;Este senhor, respondeu a mulher, veiu passeiar á ilha para <em>ver a
+vista</em>. Trouxe almoço, e como a tempestade rebentou, demorou-se. Estava
+deitado entre as rochas a descançar, quando o senhor chegou.</p>
+
+<p>&mdash;O que te disse elle? interrogou o visconde logo que a velha terminou
+as explicações.</p>
+
+<p>&mdash;Fallou-me da nova Opera, onde está contractado. O director mandou-me
+offerecer escriptura, tambem.</p>
+
+<p>&mdash;E que lhe respondeste?</p>
+
+<p>&mdash;Que era tua mulher, que não podia pensar em voltar ao theatro.</p>
+
+<p>&mdash;É provavel que esse insolente continue a amar-te. Dirigiu-te algumas
+palavras offensivas?</p>
+
+<p>Deveria ella provocar um conflicto entre seu marido e o tenor?</p>
+
+<p>Lauretto Mina, em duello, era adversario muito mais para temer que Pozzoli.
+</p>
+
+<p>Por isso Laura respondeu, tremendo-lhe a voz:</p>
+
+<p>&mdash;Lauretto foi attencioso d'esta vez. Está ha alguns dias, em
+Saint-Malo, por causa do concerto, como te disse, e não fallou em mim,
+promettendo-me até fingir que não me conhecia.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! E ficaste-lhe muito reconhecida, não é verdade? disse Antonino
+ironicamente.</p>
+
+<p>&mdash;O que tens? perguntou Laura com meiguice.<span
+class="pn">{219}</span> Não admira que te contrariasse o encontro com esse
+homem, mas isso não é rasão para me tratares com modos bruscos!</p>
+
+<p>&mdash;Perdoa-me, Laura! Não sei porque, mas a presença d'este homem
+irritou-me sobremaneira. Não podia nem devia provocal-o pela impertinente
+polidez com que me tratou, mas cada uma das palavras que pronunciava fizeram-me
+ferver o sangue nas veias!</p>
+
+<p>&mdash;Socega, não te exaltes. Vamos almoçar, que necessitamos readquirir
+forças, tu principalmente. Senta-te, que eu te sirvo.</p>
+
+<p>Auxiliada pela velha, Laura poz a mesa.</p>
+
+<p>Depois tirou do cabaz pão, vinho de Bordeus, e carne assada.</p>
+
+<p>O appetite que sentiram ao desembarcar, desapparecera.</p>
+
+<p>Mal provaram os alimentos.</p>
+
+<p>Emquanto estiveram á mesa poucas palavras trocaram.</p>
+
+<p>Pensavam.</p>
+
+<p>Antonino, que desembarcara na ilha, alegre e triumphante, apesar da fadiga
+physica, como se está sempre depois d'um combate de que se sae victorioso,
+estava agora triste e inquieto.</p>
+
+<p>Laura fallara-lhe com a costumada meiguice, mas o instincto do amor que
+sentia pela esposa, fazia<span class="pn">{220}</span> com que o visconde visse
+para além das apparencias, e entendesse o que as palavras não diziam.</p>
+
+<p>Esse instincto dizia-lhe que ella lhe occultava o quer que fosse, e que, no
+pensamento intimo da mulher amada, havia um segredo, como que uma sombra que
+lhe fugia e lhe era contraria.</p>
+
+<p>Pelo seu lado, Laura, repassando pelo espirito as tentadoras perspectivas
+que Lauretto lhe desenrolara, dizia comsigo que Antonino nem pronunciára uma
+palavra d'agradecimento pelo sacrificio que ella de novo fazia regeitando as
+propostas do director da Opera.</p>
+
+<p>Parecia-lhe que o marido se esquecera do compromisso tomado, de, quando ella
+lh'o pedisse, deixal-a em plena liberdade, ou, segundo as proprias palavras que
+então pronunciára, deixar-lhe a gaiola aberta.</p>
+
+<p>Porque seria que, em vez de profundo reconhecimento, elle lhe testemunhava
+uma especie de desconfiança amargurada?</p>
+
+<p>Porque pareceria temer a presença do insolente Lauretto Mina, que, como
+mulher honesta, ella repellira?</p>
+
+<p>Aquelles dois entes que se amavam, que acabavam de escapar, juntos, d'um
+perigo terrivel, e que se considerariam felizes de succumbir a elle, enlaçados
+n'um abraço ultimo, ao entrarem de novo na vida social,<span
+class="pn">{221}</span> procuravam divergencias e sentiam egoismos, que separam
+e dilaceram.</p>
+
+<p>No fundo do coração é provavel que se recordassem, saudosos, da tempestade.
+</p>
+
+<p>E comtudo essa tempestade passára, como se nada mais tivesse a fazer, uma
+vez que lhe fugira o encantador par que desejara victimar.</p>
+
+<p>A ilha de Cézambre dista apenas cinco kilometros de Saint-Malo, mas
+necessitavam apressar-se para poderem chegar á cidade antes d'anoitecer.</p>
+
+<p>Prepararam-se para partir.</p>
+
+<p>Antonino continuava pensativo.</p>
+
+<p>Laura perguntou-lhe porque estava triste.</p>
+
+<p>Elle desculpou-se com a fadiga.</p>
+
+<p>A verdade, porém, era que deixára de a sentir desde que chegara á ilha.</p>
+
+<p>O abalo moral quebrantára-o muito mais do que a lucta contra a borrasca.</p>
+
+<p>Laura insistiu com sollicitude.</p>
+
+<p>&mdash;Mas sentes apenas fadiga? Nada mais te atormenta e incommoda?</p>
+
+<p>Antonino hesitou, mas por ultimo disse:</p>
+
+<p>&mdash;Porque não hei-de confessar-te tudo? É verdade, sim, estou
+desgostoso! Sabes o que me incommoda? É a idéa de que devemos a Lauretto Mina o
+obsequio de fingir que te não conhece, de não se indicar como teu antigo
+companheiro no theatro, e, principalmente,<span class="pn">{222}</span> a
+certeza de que elle, como dantes, cantará ao teu lado, diante de numeroso
+publico. Se tivesse supposto que esse insolente cantaria no concerto, affianço
+que não consentiria que tu cantasses tambem.</p>
+
+<p>&mdash;Lembra-te de que, se vou cantar, é exclusivamente para te comprazer e
+a teu pae. De resto, é tempo ainda. Queres que não cante? Affianço-te que essa
+tua resolução não me entristecerá, pelo contrario, porque talvez assim tu
+fiques completamente socegado.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, replicou Antonino. Se não cantares socegarei, porque
+desapparecerá a inexplicavel apprehensão que me assaltou, e de que só por essa
+fórma conseguirei libertar-me.</p>
+
+<p>&mdash;Abraça-me e socega. Não cantarei ámanhã, e ficarei tão satisfeita
+como tu. </p>
+
+<p>Quando chegaram a Saint-Malo a cidade estava já envolta em trevas.
+Prepararam-se rapidamente para o jantar, que era de cerimonia.</p>
+
+<p>Os artistas que cantariam no dia seguinte jantavam em casa do barão de
+Pontual.</p>
+
+<p>O conde de Bizeux tinha á sua meza, além do arcebispo de Rennes, todas as
+pessoas d'importancia que tinham chegado de varios pontos da Bretanha para
+assistir ao concerto, que em toda a provincia despertára o maior
+enthusiasmo.<span class="pn">{223}</span></p>
+
+<p>Findo o jantar, Antonino e Laura chamaram o conde de parte.</p>
+
+<p>O visconde explicou ao pae a razão porque desejava que o nome de sua mulher
+fosse riscado do programma do espectaculo.</p>
+
+<p>Mas o conde declarou:</p>
+
+<p>&mdash;É completamente impossivel! É tarde para isso!</p>
+
+<p>E depois, um pouco exaltado por semelhante resolução, deu a sua opinião
+sobre o caso.</p>
+
+<p>Não comprehendia os escrupulos do filho.</p>
+
+<p>Vira e fallára com Lauretto Mina.</p>
+
+<p>O tenor parecera-lhe um homem delicadissimo.</p>
+
+<p>Era para agradecer-lhe que não tivesse feito a mais ligeira allusão á sua
+antiga collega, a Linda, e estava certo que o tenor se portaria com a
+viscondessa de Bizeux com todas as attenções e respeitos.</p>
+
+<p>O arcebispo de Rennes dissera a toda a gente que a admiravel voz que iam
+ouvir não a possuiam muitas cantoras de profissão, que o talento de Laura era
+inegualavel, despertando assim a geral curiosidade. Se, depois disto, fossem
+riscar do programma o nome de Laura era collocar pessimamente o conde que, como
+vice-presidente da commissão promotora do espectaculo, como que offenderia as
+numerosas pessoas que tinham ido a Saint-Malo para ouvir a viscondessa.<span
+class="pn">{224}</span></p>
+
+<p>Ora Antonino de certo não quereria que o pae fizesse má figura.</p>
+
+<p>Ante estas razões apresentadas pelo conde, era impossivel a insistencia.</p>
+
+<p>Portanto Antonino disse:</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, Laura cantará!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00119">XIX<br>
+O escandalo</a></h2>
+
+<p>Antonino, ainda que excessivamente fatigado, teve, n'essa noite, um somno
+febril, cortado de sonhos sinistros.</p>
+
+<p>Laura não poude conciliar o somno, tão profunda sensação lhe tinham causado
+as scenas d'aquelle dia.</p>
+
+<p>De manhã teve nova emoção.</p>
+
+<p>Ao ler o programma completo do concerto, encontrou inesperadamente, o nome
+de Remissy.</p>
+
+<p>O que significava aquelle caso?</p>
+
+<p>Porque não a tinham prevenido?</p>
+
+<p>Estaria Remissy em Saint-Malo?</p>
+
+<p>Na vespera não o vira e nada lhe constára!<span class="pn">{225}</span></p>
+
+<p>Uma carta de Lauretto Mina respondeu a todas as perguntas que a viscondessa
+a si propria fez.</p>
+
+<p>O tenor dizia o seguinte:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Senhora viscondessa</em></p>
+
+<p>Não tive tempo de a prevenir hontem de que o nosso amigo Remissy tomava
+parte no concerto d'hoje. Não sei se ficará satisfeita ou contrariada com esta
+noticia. Se ha falta, confesso-me unicamente culpado d'ella. Fui eu quem,
+satisfeitissimo por encontral-a, participei o caso a Remissy, contratado em
+Vichy por uma quinzena, accrescentando se, elle tambem não queria vir commigo a
+Saint-Malo, tornar a vel-a commigo, e juntar, mais uma vez, n'este concerto de
+beneficencia, o nome d'elle, como o meu, ao nome da sr.ª viscondessa.</p>
+
+<p>Remissy respondeu-me:</p>
+
+<p>«Ver e ouvir mais uma vez a Linda, <em>poi morir</em>. Sim, sim, irei, mas
+não espere por mim para partir. Conhece a rapidez dos meus habitos ambulantes.
+Informei-me na estação do caminho de ferro, e soube que ha um comboio que chega
+a Saint-Malo ás sete e meia da noite. Ver-me-ha entrar na sala do concerto, de
+casaca e gravata branca, ás nove horas precisas da noite em que elle se
+efectua. Á cautella, peço-lhe que faça com que o meu nome feche o
+programma.<span class="pn">{226}</span> A <em>Marselheza</em> está interdiria
+pela censura imperial, e inquietaria os honrados legitimistas locaes.
+Executarei, pois, a <em>Marselheza</em> hungara, o hymno de Rakoçki.»</p>
+
+<p>Previno-a d'este caso, sr.ª viscondessa, mas peço-lhe que não se inquiete.
+Hontem, depois de ter tido a honra de a ver, não pude escrever ou telegraphar a
+Remissy, nem mesmo sabia para onde dirigir-lhe carta ou telegramma.
+Esperal-o-hei á chegada e instruil-o-hei de fórma que elle saiba que é
+compromettedora para a sr.ª viscondessa a mais ligeira indiscrição. Remissy é,
+como eu, excessivamente dedicado á sr.ª viscondessa, e por isso estou certo que
+elle annuirá ao meu pedido, e procederá de fórma que não a comprometta.</p>
+
+<p>Tenho a honra de me assignar, sr.ª viscondessa,</p>
+
+<p style="text-align: right;">Seu humilde criado.</p>
+
+<p style="text-align: right;">«<em>Lauretto Mina.</em>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Esta carta fôra escripta pelo tenor calculadamente, para que podesse ser
+lida pelo visconde.</p>
+
+<p>Laura mostrou-a effectivamente a Antonino.</p>
+
+<p>A leitura da missiva augmentou a inquietação do visconde.</p>
+
+<p>&mdash;Um risco mais! disse elle.</p>
+
+<p>E depois de pensar, por instantes, accrescentou:<span
+class="pn">{227}</span></p>
+
+<p>&mdash;Afinal a quantidade pouco importa.</p>
+
+<p>Quem não estava inquieto nem triste era o conde de Bizeux.</p>
+
+<p>Annunciou triumphantemente, ao almoço, que o espectaculo seria magnifico.
+</p>
+
+<p>A casa fôra completamente passada.</p>
+
+<p>Renderia mais de cincoenta mil francos.</p>
+
+<p>Subtrahidas as despezas ficaria, com certeza, livre, mais do que a quantia
+necessaria para concluir o hospicio para os marinheiros.</p>
+
+<p>O conde agradeceu effusivamente a Laura o ter consentido em cantar,
+fazendo-lhe assim a vontade.</p>
+
+<p>Estephania, é claro, não partilhava do enthusiasmo do pae.</p>
+
+<p>&mdash;Confesso, opinara ella, que não approvo essas exhibições n'uma
+senhora nobre e titular, isso só se admitte nas mulheres que fazem vida pelo
+theatro. </p>
+
+<p>O conde, porém, no cumulo da satisfação, mofava da filha e dos <em>prejuizos
+gothicos</em> que ella tinha.</p>
+
+<p>Ao meio dia Laura ensaiou-se com a orchestra, rapidamente, como quem está
+segura do que executa.</p>
+
+<p>Na vespera fizera substituir no programma a aria <em>O Rei dos Alamos</em>
+por um outro trecho de Schubert, <em>Margarida</em>, que exigia mais
+sentimento, mas que necessitava de menos voz, e que por isso era mais
+conveniente que a dama d'alta sociedade o executasse.<span
+class="pn">{228}</span></p>
+
+<p>Era indispensavel não desprezar a mais insignificante circumstancia para
+que, nem por um momento, os espectadores se esquecessem que quem cantava era a
+viscondessa de Bizeux.</p>
+
+<p>Pelas oito horas da noite, nas socegadas ruas de Saint-Malo havia um
+desusado rodar de carruagens.</p>
+
+<p>Apesar da noite ser de luar, o caes fôra illuminado a gaz até á porta do
+Casino, onde devia realisar-se o espectaculo, logo que anoitecera.</p>
+
+<p>Um pouco antes das nove horas, Laura entrou no salão do Casino pelo braço do
+conde de Bizeux.</p>
+
+<p>A entrada da viscondessa produziu sensação.</p>
+
+<p>Estava adoravelmente formosa.</p>
+
+<p>Um magnifico colar de saphyras e diamantes fazia-lhe sobresahir a rosada
+epiderme do collo.</p>
+
+<p>Nos braços, d'uma belleza esculptural, trazia pulseiras semelhantes ao
+collar.</p>
+
+<p>O louro veneziano dos seus sedosos cabellos sustentava uma borboleta,
+collocada ao alto, cujo corpo era formado por uma enorme saphira, e cujas azas,
+salpicadas de diamantes, scintillavam com extraordinario brilho.</p>
+
+<p>Laços de finissima renda, fixos por colchetes de saphyra, alteavam-lhe os
+microscopicos sapatos de velludo azul.</p>
+
+<p>O visconde de Bizeux seguia o pae e a esposa,<span class="pn">{229}</span>
+dando o braço á irmã, que vestia uma <em>toilette</em> simples, de seda preta,
+sem enfeites.</p>
+
+<p>Logo que o conde de Bizeux se sentou, foram-lhe entregar um telegramma.</p>
+
+<p>Participavam ao conde que o comboio descarrillára a dois kilometros da
+estação de La Fresnays.</p>
+
+<p>Não havia desastres pessoaes a lamentar, mas o comboio, forçado a demorar-se
+por aquella circumstancia, não poderia a chegar a Saint-Malo antes da
+meia-noite.</p>
+
+<p>Não podiam, pois, contar com Remissy.</p>
+
+<p>A noticia alegrou Antonino e Laura.</p>
+
+<p>O salão do Casino estava repleto, brilhante de <em>toilettes</em> primorosas
+e caras, e animado pelas meias conversações dos espectadores satisfeitos.</p>
+
+<p>Logo que o concerto começou, fez-se o mais completo silencio.</p>
+
+<p>O espectaculo constava de duas partes.</p>
+
+<p>A primeira abriu pelos córos populares bretões, cantados por homens e
+mulheres do povo.</p>
+
+<p>Os espectadores, bretões na quasi totalidade, applaudiram com enthusiasmo.
+</p>
+
+<p>A baroneza de Pontual e Lauretto Mina, obtiveram successo na <em>Ave
+Maria</em> de Gounod, e n'um outro trecho que cantaram juntos.</p>
+
+<p>Depois do terceiro numero do programma, executado pelo baritono, Laura
+cantou a aria <em>Fidelio</em>.<span class="pn">{230}</span></p>
+
+<p>O desusado sentimento e a adoravel simplicidade com que ella interpretou o
+trecho musical, produziu em todos os espectadores um enthusiasmo
+indiscriptivel.</p>
+
+<p>O concerto foi interrompido pelas palmas, bravos e repetidas chamadas á
+viscondessa.</p>
+
+<p>A esposa dedicada executára a aria, imprimindo-lhe o cunho superior d'uma
+alma d'<em>elite</em>.</p>
+
+<p>Por isso os espectadores se sentiram como que chocados por invisivel pilha.
+</p>
+
+<p>Antonino, que comprehendera quanto amor significava a execução da aria, a
+custo retinha as lagrimas.</p>
+
+<p>Nobillet terminou a primeira parte do concerto, tocando uma rapsodia sobre
+<em>motivos</em> da Bretanha e da Vandêa, que foi coroada de palmas.</p>
+
+<p>O penultimo numero da segunda parte, tão interessante como a primeira, era a
+marcha hungara executada pelo violinista Remissy.</p>
+
+<p>Quando se chegou a essa altura do programma, o conde de Bizeux levantou-se
+para prevenir os espectadores de que se dera o descarrillamento, e que, por
+isso, Remissy não estava presente.</p>
+
+<p>O conde começou dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Um descarrillamento entre as estações de...</p>
+
+<p>Mas foi interrompido pelo proprio Remissy em pessoa, que, de violino debaixo
+do braço, avançou lentamente, e disse:<span class="pn">{231}</span></p>
+
+<p>&mdash;O comboio descarrillou, mas por felicidade não se voltou a carruagem
+em que segui desde a estação de La Fresnays, e portanto eis-me aqui, á hora
+marcada, ao seu dispor, minhas senhoras e meus senhores.</p>
+
+<p>As palavras de Remissy foram recebidas com uma salva de palmas.</p>
+
+<p>Duas ou tres pessoas que chegavam com o violinista, contaram o que se
+passára.</p>
+
+<p>Em seguida ao descarrillamento, Remissy, com o violino a tiracollo e o sacco
+de viagem na mão, mettera-se a caminho para La Fresnays, tranquillamente.</p>
+
+<p>Chegado que foi, alugou uma carruagem, e uma hora depois chegava a
+Saint-Malo, e entrava no salão do concerto, correcto, impeccavel, de casaca e
+gravata branca, como se não chegasse d'uma viagem de trezentas leguas.</p>
+
+<p>Logo que o silencio se restabeleceu no salão, Remissy começou a tocar o
+hymno de Rakoçki.</p>
+
+<p>Como sempre, foi extraordinario d'execução.</p>
+
+<p>As primeiras notas foram ligeiras, simples, mas o <em>thema</em> do hymno
+foi exposto com firmeza e arte.</p>
+
+<p>Depois, foi-se animando pouco a pouco, levado por subito arrebatamento, como
+se se sentisse no campo da batalha, ao lado do general Kossuth.</p>
+
+<p>Dir-se-ia que d'elle se apossava um enthusiasmo frenetico, tyrannico.<span
+class="pn">{232}</span></p>
+
+<p>Em seguida o arco tocava ao de leve nas cordas do violino, e percebia-se o
+hymno como que tocado ao longe, mysteriosamente.</p>
+
+<p>Era a isso que elle chamava <em>tocar nas estrellas</em>.</p>
+
+<p>Mas, singular condão do genio, as notas, apesar de fracas e quasi
+indistinctas, tinham a mesma expressão e o mesmo encanto.</p>
+
+<p>Parecia ouvir-se e ver-se, a centenas de leguas de distancia, cargas
+furiosas de cavallaria, e o embate titanico de dois corpos d'exercito.</p>
+
+<p>Remissy, foi escutado com o mais profundo silencio.</p>
+
+<p>Quando terminou, romperam delirantemente os applausos, e todos os
+espectadores gritaram:</p>
+
+<p>&mdash;Bis!... bis!...</p>
+
+<p>Remissy, depois de agradecer a ovação, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Desculpem-me, mas não repito nunca os trechos que executo. Tocarei
+qualquer outra coisa. D'esta vez será alegre a musica.</p>
+
+<p>E começou a executar as celebres variações, que compozera sobre o
+<em>Carnaval de Veneza</em>.</p>
+
+<p>Foi com endiabrado estro e rara exuberancia de malicia e de jovialidade, que
+Remissy resuscitou a eterna e pittoresca festa da praça de S. Marcos.</p>
+
+<p>Sentia-se mover e reviver todos esses alegres e encantadores personagens dos
+companheiros da <em>Commedia dell'arte</em>.<span class="pn">{233}</span></p>
+
+<p>Por vezes, atravez de toda a alegria, resaltando do trecho musical, passava
+uma nota melancholica e triste como uma saudade ou como um suspiro.</p>
+
+<p>As palmas retiniram novamente.</p>
+
+<p>Laura applaudiu com alegria o grande artista, que fôra amigo de seu pae.</p>
+
+<p>Remissy, habituado a estes triumphos, sorria com bondade e agradecia
+modestamente.</p>
+
+<p>O ultimo numero do programma, era a <em>Margarida</em>, de Schubert, cantado
+pela viscondessa de Bizeux.</p>
+
+<p>Laura, ao caminhar para o logar onde devia fazer-se ouvir, encontrou
+Remissy, que se retirava.</p>
+
+<p>O violinista, ao vel-a, disse-lhe com arrebatamento:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! encontro-a emfim! não a via...</p>
+
+<p>A viscondessa não o deixou terminar.</p>
+
+<p>Apertou-lhe expressivamente a mão, e continuou andando.</p>
+
+<p>Remissy procurou na sala uma cadeira vazia, d'onde podesse ouvir a Linda.
+</p>
+
+<p>A baroneza de Pontual, que percebeu, levantou-se e indicou-lhe com a mão a
+cadeira que Laura acabava de deixar.</p>
+
+<p>O violinista approximou-se.</p>
+
+<p>A baroneza disse-lhe então:</p>
+
+<p>&mdash;Quererá o sr. Remissy fazer-me a honra de se sentar a meu lado?<span
+class="pn">{234}</span></p>
+
+<p>Elle inclinou-se diante d'aquella mulher, e sentou-se sem ceremonia, não se
+dando mesmo ao trabalho de responder.</p>
+
+<p>Lauretto Mina não estava longe.</p>
+
+<p>Podia facilmente approximar-se de Remissy e avisal-o, como promettera, de
+que a Linda desejava guardar o incognito.</p>
+
+<p>Não se moveu, porém.</p>
+
+<p>&mdash;O acaso é contra a Linda? Tanto peor! pensou o tenor. Nada terão a
+censurar-me por faltar ao compromisso tomado.</p>
+
+<p>A viscondessa de Bizeux, saudada pelos applausos dos espectadores,
+cumprimentou graciosamente antes de começar.</p>
+
+<p>Remissy, como fallando comsigo mesmo, disse a meia voz, com grande espanto
+da baroneza:</p>
+
+<p>&mdash;Que felicidade! Não a ouvia ha tanto tempo!</p>
+
+<p>Laura pronunciou as primeiras phrases da aria com admiravel pureza e nitida
+pronuncia, tão desprezadas actualmente, que é raro perceber-se uma só das
+palavras ditas pelas cantoras.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Tem a voz mais volumosa! murmurou Remissy em extasi. Nunca
+qualquer outra voz me emocionou como a da Linda!</p>
+
+<p>Laura chegou ao crescendo de melodia, para o qual reservava toda a potencia
+da sua maravilhosa<span class="pn">{235}</span> voz, enchendo, por assim dizer,
+o salão com a mais bella e profunda sonoridade.</p>
+
+<p>Tres salvas de palmas, successivas, acclamaram a cantora.</p>
+
+<p>Os bravos resoavam.</p>
+
+<p>Remissy, enthusiasmado com o successo de Laura, gritava como possesso!</p>
+
+<p>&mdash;Bravo, diva!... bravo, Linda!...</p>
+
+<p>Felizmente, a voz do violinista perdeu-se entre o ruido do salão.</p>
+
+<p>Mas a baroneza ouvira perfeitamente o que dissera Remissy.</p>
+
+<p>Augmentava a sua surpreza.</p>
+
+<p>&mdash;Que quererá elle dizer? perguntou ella a si propria. Porque comparará
+a voz da celebre Linda á voz da viscondessa?</p>
+
+<p>Laura proseguia.</p>
+
+<p>Os impulsos da paixão, e os gritos de dôr do final da aria, exprimiu-os e
+pronunciou-os ella de uma fórma surprehendente.</p>
+
+<p>A sua voz foi simultaneamente tão penetrante e suave, o som tão sentido, a
+emoção que experimentava manifestava-se-lhe no rosto formoso com tão adoravel
+expressão, que o auditorio estava como que galvanisado.</p>
+
+<p>Os homens tinham-se levantado das cadeiras como impellidos por mola
+occulta.<span class="pn">{236}</span></p>
+
+<p>As damas choravam.</p>
+
+<p>Logo que Laura terminou, houve uma verdadeira explosão d'applausos, de
+bravos, de gritos d'admiração unanime.</p>
+
+<p>Remissy estava fóra de si.</p>
+
+<p>Levantava-se, sentava-se, gritava, chorava.</p>
+
+<p>A baroneza a custo lhe percebia algumas palavras.</p>
+
+<p>&mdash;Que artista!... dizia elle. Não tem egual!... É
+extraordinarissima!...</p>
+
+<p>Quando o ruido dos applausos diminuiu um pouco, Remissy estava como doido.
+</p>
+
+<p>Dir-se-ia que elle proprio não fôra alvo, pouco antes, de manifestação quasi
+semelhante.</p>
+
+<p>É que os applausos dispensados ao seu idolo produziam n'elle centuplicado
+effeito.</p>
+
+<p>Com o rosto innundado de lagrimas, dirigiu-se ao estrado sobre o qual Laura
+cantára.</p>
+
+<p>A viscondessa retirava-se, agradecendo com venias a ovação que lhe era
+feita.</p>
+
+<p>Remissy approximou-se d'ella, tomou-lhe as mãos e disse bem alto:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! minha cara diva, tu és sublime!... Não posso conter-me, minha
+querida Linda!... Se não te beijar, rebento!</p>
+
+<p>E envolvendo-a nos braços, beijou-a com sofreguidão nas duas faces.<span
+class="pn">{237}</span></p>
+
+<p>Laura, deixando-se beijar, sorriu com tristeza, e disse baixo ao violinista:
+</p>
+
+<p>&mdash;Não póde calcular o mal que acaba de me fazer, meu caro Remissy!</p>
+
+<p>&mdash;Hein! o quê!... Fiz-te mal, eu?... murmurou o violinista
+estupefacto.</p>
+
+<p>E lançou em volta um olhar admirado.</p>
+
+<p>Era curiosa a mudança operada no auditorio.</p>
+
+<p>Os bravos interrompidos foram substituidos por murmurios hostis.</p>
+
+<p>Evidentemente, os dois grandes artistas, que pouco antes tinham com o seu
+superior talento emocionado todos os espectadores, incommodavam-os agora.</p>
+
+<p>Aquella scena final, completamente imprevista, chocava o nobre auditorio.
+</p>
+
+<p>E com gestos largos, todos, mais ou menos, pronunciavam phrases indignadas.
+</p>
+
+<p>&mdash;O que quer isto dizer? O que significa esta extraordinaria
+familiaridade entre o violinista e a viscondessa?... Elle tratou-a por tu!..
+Beijou-a em publico!... <em>Shocking!...</em> É escandaloso!... É
+ridiculo!...</p>
+
+<p>Por entre o ruido ouviu-se repentinamente a voz da baroneza de Pontual, que
+gritava, com irreprimivel satisfação:</p>
+
+<p>&mdash;A Linda! É a Linda! Tudo se explica! A viscondessa de Bizeux é a
+Linda!<span class="pn">{238}</span></p>
+
+<p>Ao ouvir aquellas palavras o arcebispo de Rennes sahiu precipitadamente do
+salão, pelo braço do vigario geral, murmurando a meia voz:</p>
+
+<p>&mdash;<em>Vade retro, Satanaz!</em></p>
+
+<p>Estephania, inclinando-se para o conde, disse-lhe ironicamente:</p>
+
+<p>&mdash;O que pensa agora dos meus prejuizos gothicos, meu pae?</p>
+
+<p>Entretanto alguns jornalistas e poucos espectadores applaudiam ainda Laura.
+</p>
+
+<p>O violinista, comprehendendo, vendo tudo, como ao brilho d'um relampago,
+indignou-se por sua vez, e gritou, para ser ouvido por todos:</p>
+
+<p>&mdash;Mas o que significa este espanto? Os nobres, n'esta cidade, serão por
+acaso burguezes?... Trato-a por tu, é verdade... Mas o que admira, se a Linda é
+o meu idolo!... Beijo-a?... D'accordo, mas é a <em>Margarida</em> que beijo,
+selvagens!... Por ventura ignorarão os srs. barões, condes e marquezes
+presentes que a verdadeira divisa da nobreza é <em>Honny soit qui mal y
+pense</em>?</p>
+
+<p>Antonino approximára-se de sua mulher.</p>
+
+<p>Deitou-lhe sobre os hombros a capa de baile, e dando-lhe o braço disse-lhe:
+</p>
+
+<p>&mdash;Anda, Laura, vem.</p>
+
+<p>Atravessou altivamente o salão, com a mulher pelo braço.<span
+class="pn">{239}</span></p>
+
+<p>Empallidecera um pouco, mas conservava levantada a cabeça, e frio e sereno o
+olhar.</p>
+
+<p>Os espectadores abriram alas.</p>
+
+<p>Á medida que avançavam, deixavam de se ouvir as phrases hostis.</p>
+
+<p>Quasi á sahida do salão os applausos resoaram de novo, tão entusiasticos
+como no fim da aria.</p>
+
+<p>Remissy foi ter com Lauretto Mina, a quem disse:</p>
+
+<p>&mdash;Não me preveniu!... Dando a saber que a viscondessa era a nossa
+querida Linda, pratiquei uma grande tolice!</p>
+
+<p>Mas depois d'um momento de silencio ajuntou:</p>
+
+<p>&mdash;Comtudo parece-me que depois reparei a asneira feita.</p>
+
+<p>O tenor respondeu apenas, sarcasticamente:</p>
+
+<p>&mdash;Parece-lhe?</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00120">XX<br>
+Discordia conjugal</a></h2>
+
+<p>Laura e Antonino subiram para a carruagem, que os devia conduzir a casa.</p>
+
+<p>Iam tristes.<span class="pn">{240}</span></p>
+
+<p>Olhavam-se silenciosamente, encostados aos cantos do trem.</p>
+
+<p>O visconde pensava com amargura no escandalo que acabava de dar-se, que tão
+fóra de proposito rebentára.</p>
+
+<p>Acceitára antecipadamente, com todo o desassombro, o effeito que devia
+seguir-se, cedo ou tarde, á revelação do nome e do passado da esposa, mas
+jámais calculara que essa revelação se faria em circumstancias tão estrondosas
+e desagradaveis.</p>
+
+<p>Apesar do espirito independente que possuia, Antonino conservava comtudo
+certos prejuizos de raça, de educação, impossiveis de fazer desapparecer por
+completo.</p>
+
+<p>Ao atravessar na carruagem os caes desertos calculava com tristeza o que se
+passaria no dia seguinte.</p>
+
+<p>Parecia-lhe estar vendo já o aspecto severo de sua irmã, e até de seu pae, a
+frieza dos seus amigos, e a circumstancia, mais dolorosa ainda, de sua esposa
+não continuar a ser recebida pela primeira sociedade de Saint-Malo.</p>
+
+<p>Laura, pelo seu lado, magoada pelo silencio do marido, dizia comsigo que
+nada tinha de que censurar-se.</p>
+
+<p>Não só não pedira para cantar no concerto, mas até se recusara a tomar parte
+n'elle, apontando as inconvenientes que d'ahi podiam advir.<span
+class="pn">{241}</span></p>
+
+<p>Consentira em cantar em publico unicamente para annuir ás reiteradas
+instancias do marido e do sogro.</p>
+
+<p>Fôra culpa sua que aquelle doido Remissy, com o seu exaltado enthusiasmo,
+transformasse em escandalo o que não devia passar de triumpho?</p>
+
+<p>Chegaram a casa sem trocar uma só palavra.</p>
+
+<p>Operava-se, de subito, uma verdadeira separação entre aquelles dois seres,
+que, entretanto, por inexplicavel aberração, continuavam amando-se.</p>
+
+<p>As desigualdades d'educação, e as educações diversas, produzem muitas vezes
+affeições que a todas as contrariedades e desgostos resistem.</p>
+
+<p>Antonino acompanhou a mulher até ao quarto, e em seguida caminhou para a
+porta, retirando-se.</p>
+
+<p>&mdash;Deixas-me assim? perguntou Laura com voz triste.</p>
+
+<p>Elle indicou-lhe, com um gesto, a creada, que entrava para despir Laura, e
+respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Voltarei d'aqui a pouco.</p>
+
+<p>A viscondessa impoz silencio ás curiosas perguntas que Jacintha lhe fazia
+sobre o concerto, e disse á creada que se retirasse logo que lhe despiu o
+vestido que levara para o concerto, substituindo-o por um outro, de trazer por
+casa.</p>
+
+<p>Depois foi, apesar da humidade da noite, encostrar-se ao parapeito da
+janella aberta.<span class="pn">{242}</span></p>
+
+<p>Ao longe, o mar, tão tempestuoso na vespera, estava sereno como um lago.</p>
+
+<p>Ouvia-se o regular sussurro da vagas, e o ruido monotono das ondas
+desfazendo-se na areia da praia.</p>
+
+<p>Nas aguas cahiam com lentidão os remos d'alguns escaleres da alfandega.</p>
+
+<p>No ceu azul, semeado d'estrellas, uma comprida nuvem clara, como longa facha
+branca, listava o espaço, por baixo da lua impassivel.</p>
+
+<p>Um sino badalou triste, lugubremente.</p>
+
+<p>Aquelle som fez-lhe mal.</p>
+
+<p>Parecia-lhe que dobravam a finados, pela morte de alguem que lhe era caro.
+</p>
+
+<p>Seria esse morto o seu amor?</p>
+
+<p>Abriu-se a porta do quarto.</p>
+
+<p>Laura voltou-se.</p>
+
+<p>Era Antonino que entrava.</p>
+
+<p>Ao chegar junto da esposa, disse-lhe com voz grave e firme.</p>
+
+<p>&mdash;Vim, porque prometti voltar. Mas o que venho fazer aqui? O que
+poderemos nós dizer sobre a deploravel scena que ha pouco se passou?</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me, respondeu Laura, que devias consolar-me pelo desgosto que
+soffri. Como conscienciosamente sabes, eu não tive a menor culpa do que
+succedeu.</p>
+
+<p>Antonino replicou com amargura:<span class="pn">{243}</span></p>
+
+<p>&mdash;E eu muito menos, concorda. Tens, minha querida, amigos bem perigosos
+e bem ridiculos!</p>
+
+<p>&mdash;Não é d'hoje que os conheces. Apresentei-te Remissy nos primeiros
+dias das nossas relações. Foi a fatalidade que dispoz as coisas. De resto, se
+era improvavel, não era impossivel que o facto se desse. Ter-se-hia evitado se,
+como eu desejava, não me obrigassem a cantar no concerto. Pois se eu não
+tivesse como que uma especie de pressentimento de que se passaria o quer que
+fosse de desagradavel, insistiria por ventura para não ser incluida no
+programma? Foi teu pae, e tu proprio, que não annuiram aos meus pedidos. Cedi,
+porque não podia deixar de o fazer. O enthusiasmo de Remissy desmascarou-me. Se
+eu tivesse cantado mal não teriamos agora que lamentar-nos. Censurar-me-has,
+por ventura, por ter cantado bem, fazendo com que me applaudissem? Não devo ser
+accusada d'esse crime, se o foi, porque não sou responsavel por elle. Lavo
+d'ahi as minhas mãos.</p>
+
+<p>&mdash;A verdade é que não és tu quem mais soffre com tudo isto, respondeu
+Antonino meio irritado. Que te importa que se saiba que és a Linda? É um nome
+que tornaste celebre, e que estimas,&mdash;sem duvida muito mais,&mdash;do que
+aquelle que actualmente usas. Mas para mim e para a minha familia, esse nome,
+cahindo bruscamente, sem preparações, sobre o<span class="pn">{244}</span>
+publico, vae servir de maná á malignidade de toda a gente, que nos escarnecerá
+e diffamará. Seremos repellidos da sociedade que até aqui frequentavamos,
+passaremos por pessoas que desprezaram a opinião publica, enganando os amigos e
+os parentes. </p>
+
+<p>&mdash;N'uma palavra: deshonrei a tua familia, não é verdade? interrompeu
+Laura. </p>
+
+<p>&mdash;Não digo tanto, mas...</p>
+
+<p>&mdash;Na realidade admiro-te! disse a viscondessa irritando-se tambem. Para
+que quizeste introduzir-me n'essa sociedade que não era a minha, n'essa
+sociedade em que entrei como que de surpreza, e que, segundo todas as
+probabilidades, me fechará ámanhã as suas portas? E eu por que accedi aos teus
+desejos? Sabes porque? Porque te amava! Censurar-me-has tambem por isso? Tens
+pouca memoria, Antonino; Quem te ouvisse, pensaria que, casando commigo, tu me
+levantaste da lama, em que eu vivia. Sabes bem que não é assim, sabes bem que
+eu, casando comtigo, pratiquei um acto d'abnegação, immolando-te e ao amor que
+por ti sentia, o que até então fôra a minha alegria e a minha vida, a arte, o
+renome, a gloria! E esse sacrificio do primeiro dia, dura ainda, perpetua-se,
+persisto n'elle e renovo-o incessantemente. E jámais te dei a perceber quanto
+elle por vezes me tem sido pesado e cruel, sobretudo depois do nosso regresso a
+França, depois que vivo n'esta atmosphera<span class="pn">{245}</span> de
+provincia em que respiro a custo, e que sinto diminuir em mim os dotes
+artisticos que possuia. Pois em vez de tentares fazer-me esquecer esse passado
+que me é querido, vens, pelas tuas palavras, como que transformal-o n'um crime!
+É muito! Revolto-me contra o teu procedimento! E visto que me forças,
+recordar-te-hei que me prometteste solemnemente deixar-me voltar para o
+theatro, logo que assim o desejasse, voltar para esse passado que te
+envergonha, mas que é a minha maior gloria!</p>
+
+<p>&mdash;Prometti-te tambem, Laura, que o meu amor te recompensaria do
+sacrificio feito. Deixei de amar-te por ventura? Não te amo agora como te amava
+d'antes? </p>
+
+<p>&mdash;Não, não me amas! Se me amasses como d'antes, não te porias ao lado
+da sociedade contra mim, collocar-te-ias a meu lado contra a sociedade!</p>
+
+<p>&mdash;A sociedade! repetiu Antonino inquieto. Reconciliar-nos-hemos com
+ella.. </p>
+
+<p>&mdash;Muito bem! Empregarás todas as diligencias para que me tolerem, não é
+verdade? Não, não, obrigada. Despreso esse obsequio, que se assemelha a dó.
+Deixo-te n'ella; fica, fica n'essa sociedade em que eu era uma estranha, em que
+eu não passava de pária!</p>
+
+<p>Laura fallava com vehemencia, exaltada pela colera e pelo desgosto.<span
+class="pn">{246}</span></p>
+
+<p>Antonino respondeu passados alguns instantes de silencio:</p>
+
+<p>&mdash;Estás como eu, Laura, sob a impressão do incidente que ambos
+lamentamos. Como ha pouco te preveni, nada podemos dizer agora sobre esse
+assumpto, que não augmente o mal estar que sentimos. Vou deixar-te. Ámanhã
+estarás mais socegada. Até ámanhã...</p>
+
+<p>Pegou-lhe na mão, que ella lhe abandonou, inerte e fria, e repetiu:</p>
+
+<p>&mdash;Até ámanhã.</p>
+
+<p>Laura respondeu a meia voz:</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim... deixa-me. Até ámanhã.</p>
+
+<p>Antonino olhou-a, ancioso.</p>
+
+<p>Depois deu tres passos para a porta, e parou, como sentindo desejo de
+voltar.</p>
+
+<p>Por fim sahiu do quarto, fazendo um gesto de desanimado.</p>
+
+<p>Logo que o visconde fechou a porta e ella sentiu apenas o ruido de passos,
+que se affastavam, Laura, que até então se reprimira, rompeu em soluços.</p>
+
+<p>Chorou muito tempo.</p>
+
+<p>As lagrimas faziam-lhe diminuir a angustia que sentia.</p>
+
+<p>Passado algum tempo, um pouco socegada, ora passeiando pelo quarto, ora
+encostada a uma mesa, ella reflectiu na sua situação.<span
+class="pn">{247}</span></p>
+
+<p>Tomado um partido, abriu uma porta que dava para o escada de serviço, e,
+pegando n'uma vela, subiu ao quarto de Jacintha.</p>
+
+<p>O quarto estava vasio!</p>
+
+<p>Jacintha nem mesmo abrira a roupa da cama.</p>
+
+<p>Laura, ante este contratempo, ficou indecisa por momentos.</p>
+
+<p>Depois, fazendo um gesto de resolução, desceu ao seu quarto novamente.</p>
+
+<p>Davam quatro horas n'um relogio da casa.</p>
+
+<p>Vestiu apressadamente uma <em>toilette</em> de viagem.</p>
+
+<p>Logo que terminou, sentou-se á mesa, e escreveu a seguinte carta,
+precipitadamente:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Antonino</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Reclamo de ti a palavra dada.</p>
+
+<p>Volto para o theatro.</p>
+
+<p>Parto sem te ver.</p>
+
+<p>Temi a tua resistencia e a minha fraqueza.</p>
+
+<p>Evito assim, a ambos nós o desgosto da despedida.</p>
+
+<p>A vida, no seio d'uma familia que me repelle e d'uma sociedade que me
+despresa, era para mim impossivel.</p>
+
+<p>Aqui te deixo as ultimas palavras que o meu coração te envia:</p>
+
+<p>Amo-te, Antonino, amo-te muito! Não posso continuar<span
+class="pn">{248}</span> vivendo comtigo uma vida que me incommodaria, mas
+espero e peço-te que me dês a felicidade de viver commigo a minha vida passada.
+</p>
+
+<p>Sou e serei sempre tua</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Laura.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00121">XXI<br>
+A fuga</a></h2>
+
+<p>Laura perguntou a si mesma se fazia bem abandonando á sua sorte essa louca
+inconsciente, Jacintha.</p>
+
+<p>Pensou:</p>
+
+<p>&mdash;Devo deixar aqui toda a especie d'affeição?</p>
+
+<p>Lembrou-se da dedicação cega que Jacintha tinha por ella, dedicação que a
+levaria a lançar-se ao mar, quando soubesse que Laura a tinha deixado.</p>
+
+<p>Depois de reflectir, resolveu-se.</p>
+
+<p>Escreveu em meia folha de papel algumas palavras a Jacintha, e foi ao quarto
+da creada collocar o papel sobre uma mesa.</p>
+
+<p>Recommendava-lhe que de manhã tomasse, o mais<span class="pn">{249}</span>
+occultamente que lhe fosse possivel, o comboio de Paris, que partia ás oito e
+meia.</p>
+
+<p>Logo que chegasse á capital, procural-a-hia no Grande Hotel, designando-a
+por <em>madame</em> Linda.</p>
+
+<p>A Marieta, a outra creada, recommendava Laura que lhe enviasse, para o
+Grande Hotel tambem, os vestidos e de mais roupas do seu uso.</p>
+
+<p>Ao escrever estas recommendações, Laura pensava:</p>
+
+<p>&mdash;Por esta fórma saberá Antonino onde encontrar-me.</p>
+
+<p>Isto feito, metteu n'uma pequena mala o dinheiro que possuia, joias, cartas,
+alguns objectos insignificantes,&mdash;pura recordação,&mdash;e outros
+essenciaes.</p>
+
+<p>Depois olhou tristemente, correndo-lhe as lagrimas pelas faces, para aquelle
+quarto, onde, apesar de tudo, passara horas tão felizes.</p>
+
+<p>Foi appoiar a fronte, que abrasava, ao vidro frio da janella.</p>
+
+<p>Uma claridade, baça ainda, envolvia a cidade e estendia-se sobre as aguas da
+bahia.</p>
+
+<p>As ondas tomavam reflexos cinzentos.</p>
+
+<p>Os pharoes distantes picavam de pontos avermelhados a meia obscuridade, e
+desappareciam pouco a pouco na claridade livida, em que as ultimas estrellas se
+perdiam.</p>
+
+<p>Os pombos voavam dos beiraes para as ruas.<span class="pn">{250}</span></p>
+
+<p>No azul pardacento do ceu destacavam-se as velas dos barcos, que manchavam a
+côr d'ardosia do mar.</p>
+
+<p>Laura saccudiu bruscamente a cabeça.</p>
+
+<p>Parecia querer, com aquelle movimento, afugentar os pensamentos que a
+torturavam.</p>
+
+<p>Retirou de sobre a mesa tudo o que n'ella havia, para que a sua carta para
+Antonino ficasse bem em evidencia.</p>
+
+<p>Poz um chapeu de côr escura, um veu espesso, e embrulhou-se n'uma capa
+cinzenta.</p>
+
+<p>A escada de serviço, que subia até ao quarto de Jacintha, descia para a rua,
+do lado da casa opposto ao mar.</p>
+
+<p>A porta estava sempre fechada por um ferrolho interior.</p>
+
+<p>Laura abriu a porta do seu quarto com toda a precaução, caminhando na ponta
+dos pés, para abafar o ruido dos passos, porque o quarto d'Antonino, separado
+do d'ella apenas por um corredor, tinha tambem uma porta para aquella escada.
+</p>
+
+<p>No patamar parou por um minuto.</p>
+
+<p>O coração batia-lhe apressadamente. Escutou.</p>
+
+<p>Antonino não estava deitado.</p>
+
+<p>Laura ouvia o ruido dos passos d'elle.</p>
+
+<p>Passeiava vagarosamente.</p>
+
+<p>A Linda esteve quasi a entrar no quarto do marido, lançando-se-lhe nos
+braços.<span class="pn">{251}</span></p>
+
+<p>Resistiu á tentação.</p>
+
+<p>Enviou-lhe apenas, com as pontas dos dedos, um beijo silencioso, e
+principiou a descer lentamente, sem fazer o menor ruido.</p>
+
+<p>Um dos degraus gemeu sob o peso.</p>
+
+<p>Teve medo.</p>
+
+<p>Com um movimento ligeiro saltou os tres ultimos degraus, cahindo sobre o
+tapete que havia ao fim da escada.</p>
+
+<p>Levantou-se, abriu cautellosamente o ferrolho, descerrou a porta e sahiu
+para a rua.</p>
+
+<p>O ar frio da madrugada fez-lhe bem.</p>
+
+<p>Dirigiu-se para o caes, atravessando as ruas estreitas e tortuosas da velha
+cidade.</p>
+
+<p>Um relogio dava cinco horas n'uma torre proxima.</p>
+
+<p>Os carpinteiros, os pintores e os calafates, caminhavam em grupos,
+dirigindo-se ao trabalho.</p>
+
+<p>As mulheres das hortas proximas, sentadas sobre os burros carregados de
+legumes e hortaliças, chegavam do campo, em cavalgadas alegres, rindo alto, e
+dirigindo, umas ás outras, os velhos motejos gaulezes, para attrahirem a
+attenção dos homens que encontravam.</p>
+
+<p>Laura percebeu que todas aquellas mulheres a olhavam curiosamente, e ouviu,
+ao passar, os seus commentarios licenciosos.</p>
+
+<p>Quando chegou á <em>gare</em> era dia.<span class="pn">{252}</span></p>
+
+<p>O comboio expresso da manhã partia ás cinco e meia.</p>
+
+<p>Tomou um compartimento completo, e foi sentar-se para a sala d'espera,
+pensativamente.</p>
+
+<p>Estava como que alheiada do que se passava em volta d'ella, quando o silvo
+da locomotiva a chamou á realidade.</p>
+
+<p>Faltavam apenas cinco minutos para a partida do comboio. Entrou
+apressadamente na <em>gare</em>.</p>
+
+<p>De repente estremeceu.</p>
+
+<p>A primeira pessoa que viu foi Lauretto Mina, fumando no seu charuto.</p>
+
+<p>Ao vel-a, o tenor dirigiu-se a Laura e disse-lhe, um pouco admirado:</p>
+
+<p>&mdash;Parte para Paris, Linda?</p>
+
+<p>&mdash;Parto, respondeu ella, continuando a caminhar para a sua
+carruagem.</p>
+
+<p>Mas logo em seguida perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;Remissy não parte agora?</p>
+
+<p>&mdash;Não, respondeu o tenor caminhando ao lado da sua interlocutora. Está
+muito fatigado. Deve seguir no comboio do meio dia. Eu parto, porque necessito
+fallar esta noite com o director da Opera, sem falta. Quer que lhe falle de si,
+ou, como não podia dizer em Saint-Malo que a senhora era a Linda, ser-me-ha
+interdicto dizer em Paris que a Linda é a viscondessa de Bizeux?<span
+class="pn">{253}</span></p>
+
+<p>&mdash;Proceda como entender...</p>
+
+<p>Chegou ao compartimento que tomára.</p>
+
+<p>Ao abrir a portinhola, o tenor disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Mas diga-me, <em>cara mia</em>...</p>
+
+<p>&mdash;Senhor, respondeu Laura com dignidade, já nos cumprimentámos. Como
+vê, estou só e o senhor é um homem sufficientemente bem educado para não me
+acompanhar por mais tempo.</p>
+
+<p>E subiu lestamente para a carruagem.</p>
+
+<p>Lauretto cumprimentou-a, mordendo os labios.</p>
+
+<p>Deitou fóra o charuto e tomou logar n'outra carruagem, murmurando por entre
+dentes:</p>
+
+<p>&mdash;Tu me pagarás, vibora!</p>
+
+<p>Quando o comboio estava proximo da estação de Dol, o tenor escreveu algumas
+palavras a lapis n'uma folha da carteira, rasgou essa folha, e, logo que o
+comboio parou na estação, apeiou-se, chamou um empregado a quem entregou o
+papel e uma moeda de cinco francos, dizendo apenas:</p>
+
+<p>&mdash;Para o telegrapho.</p>
+
+<p>O telegramma era concebido da seguinte fórma:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>Visconde de Bizeux.&mdash;Saint-Malo.</em></p>
+
+<p>Vi no expresso de Paris a Linda e Lauretto Mina.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Um amigo.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Antonino, estendido sobre o divan do quarto, dormia um somno pesado,
+respirando a custo.<span class="pn">{254}</span></p>
+
+<p>Um pouco antes das nove horas, o criado entrou, apesar do visconde não ter
+chamado.</p>
+
+<p>Antonino acordou ao ruido feito pela porta ao abrir-se. O criado disse:</p>
+
+<p>&mdash;Perdão; o sr. visconde não chamou, mas como este telegramma chegou ha
+mais de uma hora, pareceu-me conveniente trazer-lh'o.</p>
+
+<p>O marido de Laura esfregou os olhos injectados de sangue, e abriu o
+telegramma.</p>
+
+<p>Leu e soltou um grito estridente.</p>
+
+<p>Depois, cambaleando como um ebrio, abriu a porta que dava para o corredor de
+communicação que percorreu, entrando no quarto de sua mulher.</p>
+
+<p>O leito estava intacto.</p>
+
+<p>Sobre a mesa viu a carta que Laura deixára.</p>
+
+<p>Pegou-lhe, quiz abril-a, mas o papel cahiu-lhe das mãos tremulas.</p>
+
+<p>Agitou os braços no espaço, e cahiu como uma massa inerte, fulminado por uma
+congestão cerebral.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00122">XXII<br>
+Uma representação dos «Huguenottes»</a></h2>
+
+<p>O cartaz da Opera annunciava para aquella noite os <em>Huguenottes</em>,
+cantando a Linda a parte de Valentina.<span class="pn">{255}</span></p>
+
+<p>Lauretto Mina desempenhava o papel de Raul, em substituição do primeiro
+tenor, que adoecera.</p>
+
+<p>Pelas seis horas e meia da tarde, Antonino de Bizeux, um pouco pallido e
+magro, apoiando-se á bengala, entrava n'uma das agencias theatraes então
+recentemente abertas nos <em>boulevards</em>, e comprava um <em>fauteuil</em>
+d'orchestra, que pagou por trinta francos, ou fosse o dobro do preço da casa.
+</p>
+
+<p>Tinham-se passado tres mezes menos alguns dias, desde que Laura abandonara a
+casa do caes de Saint-Malo, e durante todo esse tempo, a Linda só tivera
+noticias indirectas e incertas de seu marido.</p>
+
+<p>Cinco dias depois de chegar a Paris recebera,&mdash;<em>enviados por Marieta
+Dauvin</em>,&mdash;seis grandes volumes contendo, não só os vestidos e demais
+roupa do seu uso, como tambem os moveis que guarneciam o seu quarto, e que
+provinham, quasi todos, da sua antiga casa da rua de Bolonha.</p>
+
+<p>Nem uma carta, nem uma só palavra, acompanhava a remessa. Laura sentiu
+profunda anciedade.</p>
+
+<p>O que significava aquelle silencio?</p>
+
+<p>N'um primeiro movimento de inergia resolvera quebrar a cadeia que a prendia
+e que achava pesada, e fizera-o immediatamente, sem hesitar, sem reflectir.</p>
+
+<p>Agora estava livre.</p>
+
+<p>Todavia, essa liberdade, inquietava-a e consternava-a.<span
+class="pn">{256}</span></p>
+
+<p>Em Saint-Malo tinha saudades da sua querida arte, em Paris recordava-se,
+saudosa, do seu amor.</p>
+
+<p>O director da Opera, prevenido por Lauretto da volta da Linda, pedira-lhe
+uma entrevista.</p>
+
+<p>Laura respondeu-lhe que esperasse por alguns dias.</p>
+
+<p>Addiava, por instincto, a sua conversação com o emprezario, que de certo a
+queria contractar.</p>
+
+<p>Lia todas as manhãs o <em>Correio de Saint-Malo</em>, que mandava comprar á
+agencia Havas.</p>
+
+<p>Se qualquer facto se passasse em casa do conde de Bizeux,&mdash;uma partida,
+um accidente imprevisto&mdash;encontraria a noticia n'aquella folha local.</p>
+
+<p>Mas nada se passava, com certeza, porque o nome de Bizeux, que ella
+procurava todos os dias com o olhar, avidamente, nem uma só vez foi mencionado
+pelo jornal.</p>
+
+<p>A quem devia dirigir-se? A quem escrever?</p>
+
+<p>Na Bretanha vivera sempre retirada, pensando apenas em Antonino.</p>
+
+<p>Essa circumstancia fez com que não se relacionasse intimamente com pessoa
+alguma.</p>
+
+<p>Ao cabo de dez dias não poude conter-se, e escreveu ao proprio Antonino.</p>
+
+<p>Entre outras coisas dizia-lhe o seguinte:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Porque guardas silencio? Não recebeste a carta<span class="pn">{257}</span>
+que te deixei? Não comprehendeste, por ventura, o grito d'amor com que a
+terminei? Responde, peço-te! Responde, ainda que seja colerica ou
+desdenhosamente.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Depois supplicava ao marido que só escrevesse uma palavra, uma só, que
+podesse allivial-a da terrivel angustia em que vivia.</p>
+
+<p>Dois dias depois recebeu uma carta com o carimbo do correio de Saint-Malo.
+</p>
+
+<p>Rasgou o sobrescripto e procurou a assignatura.</p>
+
+<p>A carta era do conde de Bizeux.</p>
+
+<p>Escrevia o pae d'Antonino:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;">Minha senhora:</p>
+
+<p>Não é o filho que lhe responde, é o pae, é o chefe da familia que a senhora
+abandonou tão bruscamente, tão cruelmente, e na qual deixou a desolação e o
+lucto.</p>
+
+<p>Esse chefe de familia não lhe dirigirá, comtudo, a mais leve censura, nem em
+seu nome, nem em nome do filho.</p>
+
+<p>Desejou ser livre <em>para voltar para o theatro</em>. Satisfez o seu
+desejo, está livre.</p>
+
+<p>Nós desejamos, apenas, ter a liberdade de soffrer em silencio, sem que nos
+importune quem quer que seja.<span class="pn">{258}</span></p>
+
+<p>Só lhe pedimos uma coisa: é que nos deixe esquecer, e esqueça o passado.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: right;"><em>Augusto, conde de Bizeux.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Laura offendeu-se pela frieza e rispidez que d'aquella carta transparecia.
+</p>
+
+<p>Nem Antonino se dera ao incommodo de lhe responder!</p>
+
+<p>Era o pae que intimava á fugitiva aquella especie de sentença, com ares de
+juiz justiceiro!</p>
+
+<p>O que houvera no seu procedimento de tão reprehensivel e criminoso que
+justificasse uma tal attitude?</p>
+
+<p>Se ella na realidade fosse uma mulher culpada, se tivesse trahido e
+deshonrado seu marido, d'accordo que a tratassem por aquella fórma!</p>
+
+<p>Teria provocado a colera de toda a familia d'Antonino, e até o despreso
+geral, se assim fosse.</p>
+
+<p>Mas a verdade era que o seu procedimento, uma vez que estava dentro das leis
+estabelecidas, não podia ser julgado com tanta severidade por seu sogro ou por
+seu marido.</p>
+
+<p>A injustiça, elevada ao excesso d'injuria, revoltou o espirito nobre e
+altivo de Laura.</p>
+
+<p>A sua consciencia e o seu coração diziam-lhe que não merecia ser tratada de
+semelhante modo.<span class="pn">{259}</span></p>
+
+<p>Resolveu, pois, por muito que a penalisasse uma tal abstenção, guardar o
+mais completo silencio, para que a sua dignidade não soffresse a menor quebra.
+</p>
+
+<p>Foi então, e só então, que marcou o dia para a entrevista que o director da
+Opera solicitára.</p>
+
+<p>O emprezario queria escriptural-a.</p>
+
+<p>Laura recusou em absoluto um contracto de longa duração, apezar das
+magnificas condições que lhe offereciam.</p>
+
+<p>Não desejava prender-se por muito tempo, e por isso só acceitou o contracto
+por um limitado numero de representações.</p>
+
+<p>O director da Opera, apesar d'uma escriptura n'aquellas condições ir alterar
+o seu plano d'exploração theatral, curvou-se á imposição de Laura, e
+acceitou.</p>
+
+<p>A Linda arrendou então, na rua Boudreau, a dois passos da Opera, um rez do
+chão modesto, que mobilou com simplicidade e bom gosto, aproveitando os moveis
+que lhe tinham enviado de Saint-Malo.</p>
+
+<p>Além de Jacintha, tomou, para a servirem, um creado, homem de cincoenta
+annos, casado; a mulher do creado, velha tambem, passou a desempenhar as
+funcções de cosinheira.</p>
+
+<p>Tres dias depois de receber a carta do conde estava installada na sua nova
+casa, satisfeita, na sua dôr e no seu isolamento, de sentir-se, pelo menos,
+senhora absoluta das suas acções.<span class="pn">{260}</span></p>
+
+<p>Ostensivamente parecia alegre, mas intimamente o desgosto minava-a.</p>
+
+<p>Não lhe teria produzido tão doloroso effeito a carta do conde, se soubesse
+em que circumstancias o velho fidalgo a escrevera.</p>
+
+<p>Oito dias depois da congestão o ter prostrado, ainda Antonino não percebia o
+estado em que se achava.</p>
+
+<p>A doença aggravara-se dia a dia.</p>
+
+<p>Nem um só dos muitos medicos chamados deixou d'opinar que elle estava
+condemnado.</p>
+
+<p>A robustez da sua constituição fazia augmentar a violencia da doença</p>
+
+<p>D'hora para hora, de minuto para minuto, o pobre pae suppunha que ia perder
+o filho unico, a quem tanto amava.</p>
+
+<p>Foi n'este paroxismo de magua paterna que chegou a carta dirigida por Laura
+a Antonino.</p>
+
+<p>O conde, para estar ao facto do que succedera, tinha aberto a carta que a
+nora deixára em casa, á partida.</p>
+
+<p>Abriu, portanto, a que chegou de Paris, pela mesma razão.</p>
+
+<p>D'aquellas duas cartas transpirava um affecto immenso.</p>
+
+<p>Mas quem garantia ao fidalgo que Laura não mentia?</p>
+
+<p>Lera tambem o telegramma de Lauretto Mina, que<span class="pn">{261}</span>
+fôra como que um punhal a enterrar-se no coração d'Antonino.</p>
+
+<p>Seu filho acreditára no que dizia o telegramma.</p>
+
+<p>Que razão tinha o conde para não acreditar tambem?</p>
+
+<p>Mas, culpada ou não, Laura era a causadora unica da morte do seu filho. O
+conde não era juiz, era pae.</p>
+
+<p>Escrevera sem medir o alcance das palavras, respondera o que a sua
+indignação lhe inspirára.</p>
+
+<p>Laura matava-lhe o filho; não podia deixar de detestar, d'amaldiçoar essa
+mulher.</p>
+
+<p>A crise, que para todos era agonia, prolongou-se ainda por mais duas
+semanas.</p>
+
+<p>Durante todo esse tempo Antonino não reconheceu pessoa alguma.</p>
+
+<p>O delirio não o abandonára um só instante.</p>
+
+<p>Mas a prolongação da doença passou a significar esperança.</p>
+
+<p>Ao vigessimo quinto dia os medicos disseram:</p>
+
+<p>&mdash;É possivel salvar-se.</p>
+
+<p>Quinze dias depois accrescentaram, emfim:</p>
+
+<p>&mdash;Está salvo!</p>
+
+<p>Effectivamente Antonino pareceu ter, n'esse dia, alguma consciencia de si
+mesmo. Apertou ao de leve a mão da irmã, que estava sentada junto ao leito.</p>
+
+<p>Depois, olhando em torno ao quarto, murmurou com voz enfraquecida:<span
+class="pn">{262}</span></p>
+
+<p>&mdash;Laura?...</p>
+
+<p>Felizmente o pensamento era ainda vago e fraco.</p>
+
+<p>Em seguida áquelle esforço, Antonino recahiu de novo n'uma somnolencia
+pesada, que era a sua salvação.</p>
+
+<p>A natureza, essa maravilhosa enfermeira, só lhe fez recuperar completamente
+a razão, quando o doente estava em estado de já poder supportar a verdade.</p>
+
+<p>Recordou-se de tudo.</p>
+
+<p>Laura, a sua Laura, que nos accessos febris nem um momento deixava de
+chamar, não estava alli, abandonára-o.</p>
+
+<p>Porque?</p>
+
+<p>Quando?</p>
+
+<p>Ah! sim, recordava-se... fôra uma manhã...</p>
+
+<p>Mas ella fugira só?</p>
+
+<p>Accudiu-lhe á memoria o fatal telegramma...</p>
+
+<p>Mas ao mesmo tempo lembrou-se d'uma carta,&mdash;d'uma carta
+d'ella!&mdash;que não tivera tempo d'abrir.</p>
+
+<p>Interrogou seu pae.</p>
+
+<p>O conde entregou-lhe então as duas cartas de Laura, cuja leitura só podia
+fazer bem ao doente.</p>
+
+<p>E com efeito assim foi.</p>
+
+<p>Antonino poude chorar.</p>
+
+<p>O correr das lagrimas diminuiu a profundeza do desgosto.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! meu pae! disse elle, Laura continua amando-me.<span
+class="pn">{263}</span> Chama-me, espera-me! Nunca deixára d'amar-me! E ha já
+dois mezes que ella me espera? Mas como poude Laura estar tanto tempo longe de
+mim, sabendo-me perigosamente enfermo? Ou ella ignora que eu estou doente? Não
+lhe deram noticias minhas?</p>
+
+<p>O conde teve de confessar-lhe que, n'um instante de desvairamento em que lhe
+parecia inevitavel a morte do filho, escrevera a Laura aquella carta implacavel
+que lhe interdizia qualquer pergunta, e lhe assegurava que jámais teria
+noticias de seu marido.</p>
+
+<p>De resto, o conde declarou que n'aquella resposta influira tambem o ter
+acreditado no que dizia o telegramma desconfiando, por isso, que Laura mentia
+nas duas cartas. Ao ouvir a explicação do conde, Antonino respondeu:</p>
+
+<p>&mdash;Não, não!... Foi o telegramma que mentiu! Laura diz a verdade, porque
+declara continuar amando-me! Ah! meu pae!... não a conhece! Ella possue o mais
+sincero e leal coração que é possivel imaginar-se! Tenho a certeza que Laura
+não sente despreso por esse Lauretto Mina, sente tambem horror!</p>
+
+<p>O conde de Bizeux, apesar de não estar convencido, não quiz contrariar o
+filho, temendo que de tal contrariedade resultasse aggravamento da doença.</p>
+
+<p>Antonino desejou escrever immediatamente a Laura, perdoando-lhe, chamando-a
+para junto d'elle sem detença.<span class="pn">{264}</span></p>
+
+<p>O medico, porém, impedia-o de realisar a intenção, declarando-lhe que ainda
+não tinha forças sufficientes para escrever, e que, fazendo-o, arriscava-se a
+peorar.</p>
+
+<p>Como não o deixassem satisfazer aquelle desejo, o visconde, reflectindo,
+resolveu não escrever a Laura dias depois, quando o medico entendesse que o
+podia fazer.</p>
+
+<p>Logo que estivesse restabelecido partiria para Paris, correria em procura de
+Laura, fazendo-lhe assim mais surpreza.</p>
+
+<p>Por essa occasião os jornaes da capital noticiaram as representações de
+Linda na Opera.</p>
+
+<p>Ao ter conhecimento d'esse facto, Antonino disse ao conde:</p>
+
+<p>&mdash;Não a incommodemos. Deixemol-a satisfazer o seu desejo, realisar o
+seu sonho doirado. Voltará depois mais socegada.</p>
+
+<p>O conde, depois de ter perdido completamente as esperanças de que os medicos
+salvassem Antonino, ao ter a certeza de que o filho não morreria, estava louco
+de satisfação.</p>
+
+<p>Cria em tudo que o visconde acreditava, e, como elle, tinha confiança no
+futuro.</p>
+
+<p>De resto, em consciencia, elle censurava-se pela fórma porque procedera com
+Laura, respondendo desabridamente á carta que ella dirigira a Antonino.<span
+class="pn">{265}</span></p>
+
+<p>Fôra injusto, fôra cruel até, e desejava por isso tornar a vel-a para
+nobremente lhe pedir perdão.</p>
+
+<p>Comtudo, occasiões houve em que se inquietou.</p>
+
+<p>Nas noticias dadas pelos jornaes sobre os espectaculos em que Laura tomava
+parte, viu, por vezes, o nome de Lauretto Mina ao lado do nome da Linda.</p>
+
+<p>Entretanto cohibiu-se d'apontar o facto a Antonino.</p>
+
+<p>Foi o proprio visconde que um dia lhe fallou nisso.</p>
+
+<p>Com essa intuição que é como a segunda vista do amor, tinha a convicção
+absoluta que esse homem, esse Lauretto insolente, nada era, nada podia ser para
+Laura.</p>
+
+<p>Não lhe restava a maior duvida.</p>
+
+<p>Elle, tão concentrado e tão ciumento, como todos os que amam
+verdadeiramente, sentia que era amado por Laura, que ella não podia amar outro
+homem.</p>
+
+<p>Lembrou-se dos ultimos dias que tinham passado juntos, das ultimas caricias
+trocadas, d'algumas injustiças que Laura lhe censurára, e percebia,
+interrogando o seu coração, que ella seria sempre d'elle, só d'elle.</p>
+
+<p>E tinha razão, porque não só a Linda não amava o tenor, como até o
+despresava.</p>
+
+<p>Não se limitava a detestal-o, fazia-lh'o sentir.</p>
+
+<p>Laura suspeitava vagamente que Lauretto Mina influira de qualquer fórma no
+que ella chamava ter sido abandonada por Antonino.<span class="pn">{266}</span>
+</p>
+
+<p>Na noite do concerto o tenor não estava longe de Remissy, podia ter avisado
+o violinista de que a Linda não desejava ser reconhecida, e Laura lembrava-se
+tambem do sorriso mau, vingativo, que entre-abria os labios de Lauretto,
+quando, no dia da fuga, a cumprimentara em silencio, pouco antes do comboio se
+pôr em marcha.</p>
+
+<p>De tudo isto concluia a cantora que o tenor praticara qualquer indignidade,
+o que, de resto, lhe estava nos habitos.</p>
+
+<p>Todavia a fatuidade de Lauretto não lhe fazia perder as esperanças, e quando
+viu Laura no theatro, pela primeira vez, tentou ainda, empregando meios quasi
+respeitosos e reservados, fazer-lhe a côrte.</p>
+
+<p>Não amava a Linda, apenas a desejava com violencia, como nunca desejara
+qualquer outra mulher, segundo affiançava. D'uma vez exprimiu-lhe o seu amor
+n'um tom serio que não lhe era habitual.</p>
+
+<p>&mdash;Vejo-a, disse-lhe elle, isolada e como abandonada, Laura. Aquelle a
+quem em Saint-Malo chamava seu marido parece despresal-a. Se necessitar d'um
+amigo, deveras devotado, que com alegria se fará matar pela minha amiga,
+bastar-lhe-ha fazer um gesto a este seu collega e respeitoso admirador.</p>
+
+<p>A prudencia ordenava que Laura recusasse o offerecimento do tenor com uma
+certa brandura, sem o irritar, sem o ferir.<span class="pn">{267}</span></p>
+
+<p>Mas a repugnancia que sentia por Lauretto foi mais forte do que a prudencia
+com que estava resolvida a responder.</p>
+
+<p>Portanto deixou transparecer nas suas palavras todo o despreso que sentia
+por elle.</p>
+
+<p>Desde esse dia Lauretto juntou ao seu amor um odio sem limites, e tornou-se
+inimigo de Laura.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! ella despresa-me? dizia elle comsigo. Pois bem, juro que será
+minha! </p>
+
+<p>Companheiros antigos, que com Lauretto tinham passado do theatro Italiano
+para a Opera, recordaram-lhe, rindo, o que em tempo dissera:</p>
+
+<p>&mdash;Não serei o primeiro, mas juro que serei o segundo!</p>
+
+<p>Motejavam d'elle, diziam-lhe que não poderia cumprir o juramento feito,
+porque, decididamente, a fórma pela qual a diva o tratava, os seus cumprimentos
+frios, despresadores, não lhe deviam deixar esperança de ser bem succedido.</p>
+
+<p>&mdash;Veremos, veremos! respondia Lauretto aos companheiros mordendo os
+labios com raiva contrahida. Quem espera, sempre alcança. O visconde está
+ausente, portanto não tenho que temer o rival. Aposto o que quizerem em como
+poderão verificar qualquer dia... ou qualquer noite, a predicção do nosso
+antigo emprezario, Pozzoli, que dizia:&mdash;A Linda será d'elle!<span
+class="pn">{268}</span></p>
+
+<p>O odiento adorador da Linda estava n'estas disposições ameaçadoras na
+occasião em que Antonino chegou a Paris.</p>
+
+<p>O conde de Bizeux manifestara desejos d'acompanhar o filho á capital, em
+primeiro logar para não se separar d'elle, e depois para velar por Antonino,
+porque o visconde estava ainda convalescente da terrivel doença que o ia
+matando.</p>
+
+<p>Mas Antonino tinha a sua idéa.</p>
+
+<p>Instou com o pae para que o deixasse partir só.</p>
+
+<p>Para conseguir a annuencia paterna teve de fazer duas concessões: addiar a
+partida para oito dias mais tarde, de modo que a convalescença avançasse mais
+uma semana, e parar em Mans, dividindo a viagem em duas partes, para evitar o
+cansaço que lhe adviria de uma viagem tão longa.</p>
+
+<p>Pelas noticias dos jornaes elaborara o seu programma d'artista e de amante.
+</p>
+
+<p>Logo que chegou a Paris, acompanhado por um só creado, installou-se na sua
+antiga casa de solteiro, no <em>boulevard</em> Haussmann.</p>
+
+<p>Conservou-se deitado sobre um canapé até quasi ás seis horas da tarde,
+descançando, sonhando.</p>
+
+<p>Pouco depois sahiu, e comprou, como já dissemos, um <em>fauteuil</em>
+d'orchestra n'uma agencia theatral dos <em>boulevards</em>.<span
+class="pn">{269}</span></p>
+
+<p>Em seguida foi jantar ao <em>Café Inglez</em>, e ás sete horas e meia
+entrava na Opera.</p>
+
+<p>Tivera a phantasia, que se transformára em ideia fixa, de tornar a ver sua
+mulher,&mdash;de tornar a ver a Linda,&mdash;cantando a parte de Valentina dos
+<em>Huguenottes</em>, que era justamente o papel que ella representára a ultima
+vez que a ouvira no theatro, na noite em que lhe salvara a vida.</p>
+
+<p>Tornaria a vel-a, do seu <em>fauteuil</em> d'orchestra, apenas como um
+simples espectador, e sem que ella desconfiasse da presença d'elle.</p>
+
+<p>Esperava sentir dupla alegria.</p>
+
+<p>Tornaria a ver, simultaneamente, a sua artista predilecta e a sua adorada
+mulher.</p>
+
+<p>Sentiria as emoções do amador, e os estremecimentos do amante.</p>
+
+<p>A verdade era que, depois da meia anniquilação, da meia morte de que sahia,
+não se lembrava de experimentar uma tal intensidade de vida nem tanta
+exhuberancia d'amor.</p>
+
+<p>A sua vida e o seu amor tinham passado, na realidade, por uma terrivel
+crise.</p>
+
+<p>Mas a convalescença chegara.</p>
+
+<p>Havia em todo o seu ser, e em todo o seu coração uma especie de
+renascimento.</p>
+
+<p>A força physica e o espirito augmentavam ao mesmo tempo.<span
+class="pn">{270}</span></p>
+
+<p>Amava Laura com esperança e embriaguez, mais, muito mais, do que d'antes a
+amara.</p>
+
+<p>Chegando, como um provinciano, meia hora antes de começar o espectaculo,
+admirou a escadaria, o <em>foyer</em>, as pinturas de Paulo Baudry, o salão!
+</p>
+
+<p>Extasiou-se ante as <em>toilettes</em> claras das senhoras, que sobresahiam
+do vermelho do forro dos camarotes.</p>
+
+<p>Maravilhou-se das columnas de marmore polychromo, do bronze dos candelabros,
+do ouro dos lustres, do enorme panno de bocca purpurino, que dentro em pouco se
+elevaria para lhe deixar ver Laura.</p>
+
+<p>Um ruido confuso de conversação espalhou-se pela sala.</p>
+
+<p>Os violinos e os baixos afinavam-se indistinctamente.</p>
+
+<p>Antonino adorava aquelle sussurro, como adorava o do mar. O director da
+orchestra levantou a batuta.</p>
+
+<p>A opera começou.</p>
+
+<p>Antonino, porém, conhecia a partitura de cór, escutava como em sonho, apenas
+vagamente via passar Lauretto Mina.</p>
+
+<p>Todo o seu ser esperava por Laura.</p>
+
+<p>Quando, emfim, a Linda entrou, quando passou, velada, ao fundo da scena,
+sentiu a louca tentação de se precipitar para o palco, e esteve prestes a
+soltar um grito.<span class="pn">{271}</span></p>
+
+<p>Quasi immediatamente depois, porém, voltando a si, olhou em volta para ver
+se tinha chamado a attenção dos demais espectadores.</p>
+
+<p>Mas não; mercê do instinctivo habito adquirido, conservára-se correcto.</p>
+
+<p>A representação seguia como um encanto para o visconde.</p>
+
+<p>No segundo acto a Linda foi admiravel no dueto com Marcel.</p>
+
+<p>Disse a phrase</p>
+
+<blockquote>
+ <em>A offensa mortal do ingrato...</em> </blockquote>
+
+<p style="text-indent: 0;">com um sentimento tão penetrante e tão meigo, que os
+olhos d'Antonino marejaram-se de lagrimas.</p>
+
+<p>A sua emoção, porém, foi elevada ao cumulo no recitativo de Valentina, que
+abre o terceiro acto, e começa</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Estou só com a minha dor!</em> </blockquote>
+
+<p>Quando Laura soltou o grito doloroso:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Meu Deus! afugentae esta lembrança fatal...</em> </blockquote>
+
+<p style="text-indent: 0;">a vibração da sua voz maravilhosa foi tão pungente e
+tão vivida, que não podia deixar de ser palpavel para Antonino que era Laura
+quem se lamentava e não Valentina.</p>
+
+<p>O visconde sentiu, por isso, percorrer-lhe as veias uma especie de terror
+gelado.<span class="pn">{272}</span></p>
+
+<p>Pensou que Laura o vira na sala, que era exclusivamente para elle que
+cantava, unicamente a elle que se dirigia.</p>
+
+<p>Segundo as suas impressões, até então tudo se passara, por assim dizer,
+entre ella e elle.</p>
+
+<p>Todavia no quarto acto teve que passar por um outro genero de prova.</p>
+
+<p>Depois da benção dos punhaes, Raul fica só com Valentina.</p>
+
+<p>Raul, por substituição n'aquella noite, era Lauretto Mina.</p>
+
+<p>O dueto sublime começou.</p>
+
+<p>Aquelle trecho de musica produz o que não poderia produzir qualquer outra
+arte, nem a pintura ou a poesia.</p>
+
+<p>Explica, delinia, faz sentir o amor completo, o amor da alma e o amor dos
+sentidos.</p>
+
+<p>Ha n'aquelle dueto assombroso, com todas as dilacerações da paixão, com
+todos os horrores do passado susto, todas as delicias e todos os extasis da
+voluptuosidade!</p>
+
+<p>E Raul era Lauretto! e Valentina era Laura!</p>
+
+<p>Antonino ouvira muitas vezes a parte de Valentina cantada por Laura.</p>
+
+<p>D'antes, a Linda cantava aquelle dueto com o superior talento e
+<em>virtuosidade</em> que possuia, com vigor e expressão.<span
+class="pn">{273}</span></p>
+
+<p>Jámais, porém, a ouvira cantar com aquella paixão e embriaguez.</p>
+
+<p>N'outro tempo ella comprehendia, adivinhava.</p>
+
+<p>Agora sentia, recordava-se.</p>
+
+<p>No espirito d'Antonino passou como que uma hallucinação extranha.</p>
+
+<p>Quando viu Laura&mdash;porque, para elle, aquella mulher deixára de ser
+Valentina&mdash;lançar-se, supplicante, aos pés de Lauretto&mdash;que já não
+considerava como Raul&mdash;acerbo ciume se apossou d'elle.</p>
+
+<p>Pouco a pouco, o admiravel jogo physionomico da Linda acabou por dar á
+ficção uma realidade terrivel.</p>
+
+<p>O salão, o publico, desappareceram.</p>
+
+<p>Parecia-lhe que assistia, immovel e mudo, a uma verdadeira scena d'amor
+entre sua mulher e aquelle homem detestado.</p>
+
+<p>E no cerebro fervia-lhe, confusamente, este pensamento:</p>
+
+<p>&mdash;Por grande tragica que seja, poderia Laura, se Lauretto lhe fosse
+indifferente, envolvel-o em arrebatados abraços, dirigir-lhe tão ardentes
+supplicas? Poderia, se não o amasse, attrahil-o e retel-o contra o coração com
+tal accesso de ternura e de dôr?</p>
+
+<p>Quando Laura dirigiu ao tenor o desesperado appello;</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Fica, Raul, eu amo-te!</em> </blockquote>
+
+<p style="text-indent: 0;">o visconde mordeu a mão para não gritar:<span
+class="pn">{274}</span></p>
+
+<p>&mdash;Miseravel!</p>
+
+<p>Raul parte e Valentina cae desmaiada.</p>
+
+<p>Antonino, no seu <em>fauteil</em>, parecia ter desmaiado tambem.</p>
+
+<p>Voltou a si aos primeiros compassos do terceto entre Valentina, Raul e
+Marcial.</p>
+
+<p>A presença d'um terceiro personagem bastou, caso extraordinario, para o
+despertar d'aquelle terrivel pesadello, chamando-o á verdade da situação
+theatral.</p>
+
+<p>Os olhos viram claro.</p>
+
+<p>Laura passou novamente a ser Valentina para elle.</p>
+
+<p>Desempenhava superiormente o papel d'um drama, nada mais.</p>
+
+<p>Se ella representava com tanto ardor e enthusiasmo, se cantava o inegualavel
+dueto d'amor com tanta paixão pessoal, deixando n'elle, por assim dizer, a sua
+alma, não era um tenor qualquer que ella escongurava, que ella adorava com
+aquelle abandono e aquellas lagrimas, mas o homem que amava, o homem que não
+via, mas que estava sempre presente á sua imaginação, o homem que primeiro lhe
+revelára as alegrias celestes que podem gosar duas almas irmãs.</p>
+
+<p>E Antonino sentia agora vontade de rir da horrivel visão que tivera, como se
+ri quando a luz do dia nos mostra os objectos sob as suas verdadeiras formas,
+deturpadas pela illusão das trevas. Estava já<span class="pn">{275}</span>
+completamente senhor de si quando o panno caiu, no fim do espectaculo, para de
+novo se levantar ás duas chamadas que o publico enthusiasmado fez a Laura.</p>
+
+<p>O visconde sentia-se satisfeito pela resolução que tomara, antes de partir
+para Paris.</p>
+
+<p>Sahiu, deu a volta ao edificio do theatro e entrou pela porta do palco,
+perguntando ao porteiro onde era o camarim de <em>madame</em> Laura Linda.</p>
+
+<p>Entrou.</p>
+
+<p>Ao atravessar um corredor, viu Lauretto Mina que sahia do <em>foyer</em>.
+</p>
+
+<p>O tenor, ainda vestido de Raul, ia de certo para o seu camarim. Ao ver
+Antonino, recuou admirado.</p>
+
+<p>&mdash;O sr. de Bizeux! disse elle estupefacto.</p>
+
+<p>Mas quasi immediatamente voltou-lhe a presença d'espirito, e accrescentou no
+tom de cortezia que exasperava Antonino:</p>
+
+<p>&mdash;O sr. visconde procura sem duvida <em>madame</em> Laura Linda?... É a
+segunda porta, n'esse corredor da direita. Creio que <em>madame</em> Linda está
+só esta noite.</p>
+
+<p>Antonino inclinou ligeiramente a cabeça, e passou sem responder.</p>
+
+<p>Logo que o viu desapparecer no corredor que lhe indicára, Lauretto murmurou
+colerico:</p>
+
+<p>&mdash;Delicadissimo, este neto de fidalgos! Bem, bem! Isto é para juntar ao
+total!<span class="pn">{276}</span></p>
+
+<p>Antonino parou em frente da segunda porta do corredor, e bateu.</p>
+
+<p>Jacintha foi abrir.</p>
+
+<p>Ao ver o visconde soltou um grito.</p>
+
+<p>Deixou-o entrar para a especie de sala d'espera que antecedia o camarim,
+para o qual correu, gritando:</p>
+
+<p>&mdash;Minha senhora... minha senhora... é o sr. visconde!</p>
+
+<p>Laura, de penteador de cachemira branca, entrançava o cabello diante d'um
+espelho.</p>
+
+<p>&mdash;O que dizes tu?... perguntou ella a Jacintha, voltando-se.</p>
+
+<p>No limiar da porta viu Antonino, pallido, magro, d'olhos fundos, phantasma
+de si proprio.</p>
+
+<p>Conservaram-se por algum tempo contemplando-se, sem fazerem um só gesto nem
+pronunciarem uma só palavra. Antonino disse por fim:</p>
+
+<p>&mdash;Laura!</p>
+
+<p>Depois caminhou para ella lentamente.</p>
+
+<p>A Linda, indecisa, olhava-o estupefacta.</p>
+
+<p>Ao chegar junto d'ella, disse-lhe em voz baixa e extraordinariamente terna.
+</p>
+
+<p>&mdash;Minha Laura... amo-te!</p>
+
+<p>Ella juntou as mãos, extasiada, e replicou:</p>
+
+<p>&mdash;Meu Antonino!... És tu?... Ah! tambem eu te amo!<span
+class="pn">{277}</span></p>
+
+<p>Lançou-lhe os braços em volta do pescoço, alegremente.</p>
+
+<p>Foi longo o abraço.</p>
+
+<p>Por fim Laura desprendeu-se d'Antonino, e perguntou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Mas porque estás n'este estado?</p>
+
+<p>O visconde respondeu, sorrindo:</p>
+
+<p>&mdash;Vou contar-te tudo em duas palavras. Estive, durante mez e meio,
+entre a vida e a morte, mas mais proximo da morte que da vida. Ia-me matando
+uma terrivel febre cerebral. Todos me suppozeram perdido. Meu pae,
+afflictissimo, e de mais a mais illudido por uma abominavel denuncia anonyma,
+escreveu-te uma carta, que sem duvida te magoou muito. Elle está arrependido do
+que fez, e pede-te perdão. Eu, logo que estive em estado de partir, vim
+procurar te. Eis-me aqui.</p>
+
+<p>Quiz tomal-a nos braços.</p>
+
+<p>Ella impediu-o de realisar a intenção.</p>
+
+<p>Fez-o sentar n'um canapé e ajoelhou no tapete, contemplando-o com paixão.
+</p>
+
+<p>&mdash;Estiveste quasi a morrer, meu querido Antonino, e eu estava longe de
+ti! Porque não me chamaste?</p>
+
+<p>&mdash;Estive muito tempo sem consciencia...</p>
+
+<p>&mdash;Mas depois?</p>
+
+<p>&mdash;Depois ias tu entrar para o theatro. Tinhas reclamado a minha
+palavra, não quiz privar-te da liberdade<span class="pn">{278}</span>
+promettida Não desejei ser um impedimento, um obstaculo á vontade que tinhas de
+voltar para o theatro, que é como o teu paiz natal. Álem disso, considerei-me
+obrigado a expiar algumas culpas, Eras tu que tinhas rasão, Laura, n'aquella
+funesta noite em que partiste. Que me importava a opinião d'estranhos? Não
+devia inquietar-me com os prejuizos da sociedade. Existe, porventura, a
+sociedade para o amor? A sociedade, para nós, somos nós proprios. Ama-me como
+eu te amo, e nada mais te pedirei. Que me importa que ames tambem Mozart,
+Beethoven e Meyerbeer? Não os amo eu tambem, principalmente por tua causa?</p>
+
+<p>&mdash;Ah! como és bondoso! disse Laura. Sim, amas-me, sinto-o! A proposito:
+assististe ao espectaculo de hoje?</p>
+
+<p>&mdash;Assisti.</p>
+
+<p>&mdash;Não te vi, mas adivinhei-te!... Sentiste no meu canto que pensava em
+ti, não é verdade? Nem por um momento me esqueces quando desempenho o papel de
+Valentina, cheio de <em>phrases</em> que parecem ter sido escriptas para a
+situação d'espirito em que me encontro. Aquella musica faz-me mal,
+especialmente depois que estou só, e comtudo sinto-me feliz quando a canto! E o
+dueto do quarto acto? Não é verdade que o canto agora melhor do que d'antes?
+</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim, cem vezes melhor!<span class="pn">{279}</span></p>
+
+<p>Laura ajuntou, collocando as mãos sobre os hombros, do marido:</p>
+
+<p>&mdash;Foste tu que me ensinaste a cantar aquelle dueto!</p>
+
+<p>Antonino sentiu o coração innundado d'alegria.</p>
+
+<p>A segunda impressão que tivera durante o espectaculo, não o havia enganado.
+</p>
+
+<p>Era o seu amor, que Laura cantara tão apaixonadamente.</p>
+
+<p>Ella proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;A partir d'hoje vou amar sem reserva esse afortunado papel que duas
+vezes me trouxe a felicidade. Eis-te aqui, meu Antonino, és novamente meu.
+Estão reunidas as duas partes da minha alma. Eu tinha, por vezes, junto de ti,
+a nostalgia do theatro; mas, no theatro, tive sempre a nostalgia do teu
+amor!</p>
+
+<p>Em seguida contaram-se mutuamente tudo o que os interessava.</p>
+
+<p>Laura estava completamente entregue á sua querida arte.</p>
+
+<p>A casa da rua Boudreau era pequena demais para receber os seus amigos
+d'outr'ora.</p>
+
+<p>Apenas algumas vezes alli ia o dr. Despujolles, que a tratara d'uma
+bronchite.</p>
+
+<p>Remissy, terminado o contracto que o retinha em Vichy, partira para a
+Italia, e devia passar o resto do inverno na Hungria.</p>
+
+<p>Por sua parte, Antonino contava não receber ninguem<span
+class="pn">{280}</span> nos seus aposentos do <em>boulevard</em> Haussmann.</p>
+
+<p>Era possivel que o pae viesse vel-o, mas só muito mais tarde.</p>
+
+<p>&mdash;Bem, disse Laura satisfeita, sorridente, qual é a vontade do meu
+senhor e amo? Irei eu para sua casa, ou irá elle para a minha?</p>
+
+<p>&mdash;Escuta, replicou Antonino, vou contar-te um sonho que tive durante os
+longos dias de convalescença. É provavel que aches n'elle o quer que seja de
+romanesco. Se te desagradar, dil-o com franqueza! Quebraste bruscamente a nossa
+vida em commum, que talvez fosse um pouco monotona para a tua alma d'artista.
+Se quizeres, viveremos agora d'outra forma. Recuperaste a tua liberdade; como
+tenho plena confiança em ti, deixo-t'a. Não serei mais teu marido, passarei a
+ser teu amante. Queres?</p>
+
+<p>&mdash;Quero, sim, quero, porque é a verdade!</p>
+
+<p>&mdash;Então nem eu irei para tua casa, nem tu te installarás na minha.
+Concede-me oito dias d'espera. Durante esse tempo encontrarei e prepararei em
+qualquer canto de Paris, um ninho, occulto, secreto, apenas por nós conhecido,
+onde ninguem poderá surprehender-nos ou incommodar-nos. Dar-nos-hemos
+entrevistas n'esse ninho, furtivamente, clandestinamente, de noite, como quem
+teme a policia. De dia seremos correctissimos. Eu irei visitar-te de
+tarde,<span class="pn">{281}</span> e tu convidar-me-has algumas vezes para
+jantar com Despujolles.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! mas isso é encantador! disse Laura.</p>
+
+<p>&mdash;Agrada-te a minha idéa?</p>
+
+<p>&mdash;Immenso!</p>
+
+<p>&mdash;Bem! Havemos de ser muito felizes, verás. Está combinado. Chama
+Jacintha. Vou deixar-te, para só te tornar a ver d'aqui a oito dias. Necessito
+de todos os minutos d'esta semana para tratar da nossa felicidade. O que me
+fará diminuir o pesar d'esta separação, será lembrar-me que me occupo da minha
+querida Laura.</p>
+
+<p>&mdash;E eu, durante esse tempo, só em ti pensarei!</p>
+
+<p>Antonino levantou-se.</p>
+
+<p>Laura, pegando-lhe nas mãos, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Troquemos, ao menos, o beijo dos esponsaes.</p>
+
+<p>Beijaram-se longamente, ardentemente.</p>
+
+<p>Depois, trocando um ultimo adeus, separaram-se.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00123">XXIII<br>
+O amante legitimo</a></h2>
+
+<p>Em Paris, como em todas as grandes cidades, o dinheiro faz milagres.</p>
+
+<p>No dia seguinte pela manhã, Antonino percorreu o bairro da Magdalena em
+busca d'uma casa onde fizesse o <em>ninho</em> promettido.<span
+class="pn">{282}</span></p>
+
+<p>Encontrou o que desejava na rua da Arcada, a meio caminho da casa de Laura e
+d'aquella em que elle vivia.</p>
+
+<p>Era o rez-do-chão d'um predio de dois andares.</p>
+
+<p>Ficava alguns degraus acima do nivel da rua, e tinha, além da entrada
+principal, á esquerda do vestibulo, para o qual se entrava por largo portão,
+uma entrada particular que abria para a rua.</p>
+
+<p>A casa era composta d'um salão, d'uma sala de jantar, d'um quarto grande e
+claro, cosinha e um outro quarto de menores dimensões.</p>
+
+<p>Arrendado o rez-do-chão, Antonino chamou um estofador dos mais conceituados
+de Paris, e depois de conferenciar com elle durante duas horas, ficou assente
+que moveis e estofos guarneceriam a casa.</p>
+
+<p>O estofador prometteu ter tudo concluido na tarde do setimo dia, tendo, para
+isso, que trabalhar no domingo d'aquella semana. E cumpriu.</p>
+
+<p>Era deliciosa a ornamentação, apesar de simples.</p>
+
+<p>Na sala de jantar, forrada de coiro de Cordova, elevava-se, em dois corpos,
+um aparador da Renascença, guarnecido de baixela de prata antiga e de faianças
+de Ruen, Nevers e Marselha.</p>
+
+<p>O fogão, de marmore de Nuremberg, era notavel pelo relevo das suas figuras
+biblicas.</p>
+
+<p>A mesa fôra coberta com um tapete de velludo de Gênes.<span
+class="pn">{283}</span></p>
+
+<p>O movel principal do salão era um piano Erard, construido no esqueleto d'um
+cravo do seculo XVIII, todo coberto de pinturas no genero das de Boucher,
+representando a dansa d'amores e de nymphas, n'uma paisagem celeste.</p>
+
+<p>Ao fundo, as tres graças voavam para o Olympo.</p>
+
+<p>A cór viva da tapeçaria que forrava o salão fazia sobresahir os quadros que
+Antonino mandára vir da casa de Saint-Malo, duas paysagens de Lancret, uma
+Venus de Fragonard, e um duplicado do Gilles, de Watteau, assignado pelo
+mestre.</p>
+
+<p>Um lago, de Julio Dupré, defrontava com um outro, visto á hora crepuscular,
+de Corot.</p>
+
+<p>O quarto de cama era a maior casa do rez-do-chão.</p>
+
+<p>Dividiram-a, por tanto, fazendo-lhe aos lados, com divisorias, uns
+gabinetesinhos de <em>toilette</em>.</p>
+
+<p>O leito, do seculo XVIII, cinzento e dourado, de linhas simples, tinha por
+unico ornamento, na cabeceira, dois amores sustentando um medalhão, em que se
+viam dois LL entrelaçados e encimados por uma corôa.</p>
+
+<p>Dizia-se que aquelle leito pertencera a Luiz XV; mas os dois LL, para
+Antonino, queriam dizer Laura Linda.</p>
+
+<p>Nas paredes, côr de perola e cereja, avultavam seis pannos chinezes,
+bordados, representando paysagens<span class="pn">{284}</span> com figuras
+finamente desenhadas e admiravelmente coloridas.</p>
+
+<p>Viam-se por todos os lados tapetes, da Persia do mais raro bom gosto.</p>
+
+<p>Nem um só objecto que compunha a mobilia do rez do chão era de mediano
+valor.</p>
+
+<p>Mas, mais do que riqueza, impunha-se a elegancia e o fino gosto de quem
+presidira á decoração das casas.</p>
+
+<p>O estofador encarregára-se d'enviar da praça da Magdalena tudo o que
+respeitasse a cosinha.</p>
+
+<p>D'esta fórma apenas d'um creado necessitariam.</p>
+
+<p>Jacintha estava naturalmente indicada para esse serviço.</p>
+
+<p>Laura e Antonino podiam contar com a dedicação e a discrição da creada.</p>
+
+<p>Ella bastaria para servir á meza e para vestir a cantora.</p>
+
+<p>O visconde mandou mobilar para Jacintha o outro quarto da casa.</p>
+
+<p>Como a ornamentação não destoasse da restante, Jacintha, satisfeitissima,
+declarou que nunca tivera quarto mais bello.</p>
+
+<p>Com um simples toque de campainha, ella estaria em tres segundos junto de
+Laura, quando os seus serviços fossem necessarios.</p>
+
+<p>A nova casa foi inaugurada á hora prefixa, precisamente<span
+class="pn">{285}</span> oito dias depois da representação dos
+<em>Huguenottes</em>.</p>
+
+<p>N'essa noite a Linda cantava o <em>Roberto o Diabo</em>.</p>
+
+<p>Antonino levou-a, com Jacintha, logo que o espectaculo terminou,
+encantado,&mdash;tanto como ella, de resto,&mdash;da sua nova felicidade
+conjugal.</p>
+
+<p>Combinaram, como regra geral, mas sem prejuiso de quaesquer outras noites,
+que elles partiriam para o <em>ninho</em> em seguida a cada representação,
+quando Laura estivesse ainda vibrante da emoção que lhe causassem os applausos,
+e duplamente palpitante da vida do papel que desempenhára e da vida propria.
+</p>
+
+<p>Antonino assignára um <em>fauteuil</em> d'orchestra junto á scena.</p>
+
+<p>Como d'antes, applaudia pouco a Linda, não juntava as suas ás acclamações
+que a chamavam nos finaes d'acto.</p>
+
+<p>Mas como d'antes, mais do que d'antes talvez, saboreava em silencio o extasi
+em que o mergulhava a voz da mulher adorada.</p>
+
+<p>Ella, pelo seu lado, não lhe sorria, não o olhava.</p>
+
+<p>Mas sabia que o visconde estava proximo, conhecia a cadeira em que elle se
+sentava, e como era para Antonino que cantava, jámais cantara melhor.</p>
+
+<p>O visconde nunca mais sentiu ciumes de Lauretto Mina, ou de quem quer que
+fosse.</p>
+
+<p>Ambos se consideravam felicissimos por aquella<span class="pn">{286}</span>
+encantadora vida, alegre como a phantasia, doce como o habito.</p>
+
+<p>O creado d'Antonino, de cada vez que o visconde não dormia em casa, dizia
+que elle ficava em casa de Linda.</p>
+
+<p>Os creados da cantora sempre que ella só de manhã voltava para casa,
+pensavam que Laura tivesse passado a noite em casa do visconde.</p>
+
+<p>Geralmente Antonino voltava para o <em>boulevard</em> Haussmann ao
+amanhecer.</p>
+
+<p>Laura, porém, só deixava o ninho a hora adiantada da manhã.</p>
+
+<p>Sahiam e entravam sempre pela porta que abria para a rua.</p>
+
+<p>O porteiro, que tinha o seu cubiculo no vestibulo do predio, nunca vira a
+Linda.</p>
+
+<p>De dia os dois esposos viam-se officialmente.</p>
+
+<p>Passeavam de dia no Bosque, de carruagem, e á noite partiam juntos para o
+theatro.</p>
+
+<p>Antonino, uns dias por outros, mandava presentes a Laura: flores ou joias.
+</p>
+
+<p>De tarde visitava-a, invariavelmente á mesma hora, e jantava com a esposa
+muitas vezes.</p>
+
+<p>Sempre, porém, que Laura não estava só, elle retirava-se conjuntamente com
+as outras visitas, d'ordinario o dr. Despujolles, ou raros outros amigos.<span
+class="pn">{287}</span></p>
+
+<p>Laura recebia menos admiradores na casa da rua Boudreau, do que d'antes na
+rua de Bolonha.</p>
+
+<p>Reatára apenas relações com tres ou quatro admiradores mais intimos, e que o
+eram tambem do visconde.</p>
+
+<p>Todos elles tinham estado, n'outro tempo, mais ou menos apaixonados pela
+Linda.</p>
+
+<p>Mas como eram homens bem educados, e de mais a mais amigos d'Antonino, que
+consideravam o amante official de Laura, não faziam a côrte á diva.</p>
+
+<p>Apenas não tinham perdido completamente a coragem.</p>
+
+<p>Pensavam que mais cedo ou mais tarde conseguiriam os seus fins, e esperavam
+com paciencia digna de melhor sorte.</p>
+
+<p>Lauretto Mina, mais indelicado que elles, não guardava a mesma reserva nem
+possuia identica paciencia.</p>
+
+<p>No mundo dos bastidores sabe-se tudo o que respeita a qualquer artista.</p>
+
+<p>O tenor sabia portanto, a situação em que se encontravam Laura e o visconde,
+e agourava bem d'essa situação.</p>
+
+<p>Um dia disse á Linda, no <em>foyer</em> dos artistas, motejando:</p>
+
+<p>E então, minha querida, tinha ou não razão quando lhe dizia na ilha de
+Cézambre,&mdash;lembra-se?&mdash;que<span class="pn">{288}</span> o seu
+casamento não me parecia dos mais serios? Os habitantes de Saint-Malo, que não
+primam pela finura, parece que viram o demonio quando tiveram conhecimento de
+semelhante união. De resto, acho que procedeu sensatamente definindo a sua
+situação. Vale mais ter um amante certo, de que um marido duvidoso.</p>
+
+<p>&mdash;Sinto-me satisfeitissima por merecer a sua approvação! respondeu
+Laura no mesmo tom.</p>
+
+<p>&mdash;Por esta fórma, proseguiu Lauretto, todos terão esperanças. Os que
+estão apaixonados pela sua pessoa,&mdash;e eu creio que pelo menos conhece
+um,&mdash;veem agora augmentar infinitamente o numero das probabilidades
+favoraveis.</p>
+
+<p>&mdash;Suppõe isso? Pois eu supponho que o numero de probabilidades não
+augmenta nem diminue pelo facto do sr. de Bizeux ser meu marido ou meu amante.
+O que influirá n'esse numero é que eu ame ou não o sr. de Bizeux.</p>
+
+<p>&mdash;Perdão! o caso é diverso! insistiu o tenor.</p>
+
+<p>E accrescentou, dirigindo-se ao baritono, que n'esse momento entrava no
+<em>foyer</em>:</p>
+
+<p>&mdash;Não é verdade, Gressier, que amando eu Laura Linda, tenho mais
+probabilidades de conseguir os meus fins defrontando-me com um amante de que
+tendo na frente o marido?</p>
+
+<p>&mdash;Está enganado, sr. Lauretto Mina, apressou-se<span
+class="pn">{289}</span> Laura a responder sem dar tempo a que o baritono
+fallasse. Não é porque eu ame um outro homem que não o amaria ao sr. Posso não
+amar ninguem, que nem por isso lhe pertencera o meu amor.</p>
+
+<p>E voltando as costas ao tenor, sahiu.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! ah! decididamente não avanças um passo, meu caro! disse Gressier,
+rindo.</p>
+
+<p>&mdash;Engano! respondeu seccamente Lauretto, que empallidecera
+extraordinariamente. Estou quasi a attingir o meu fim, e em breve te darei
+provas irrefutaveis do que avanço.</p>
+
+<p>Laura, passado o primeiro momento, arrependeu-se de provocar a irritação do
+tenor, respondendo-lhe por fórma a feril-o no seu amor proprio.</p>
+
+<p>Agora mais do que nunca ella temia um possivel conflicto entre Antonino e
+Lauretto.</p>
+
+<p>Lembrava-se incessantemente das palavras, prefurantes como laminas, que o
+tenor pronunciára uma noite, sentado tranquillamente junto ao fogão do
+<em>foyer</em>.</p>
+
+<p>Fallava-se d'um duello realisado n'aquelle dia, que tinha chamado a attenção
+de toda a gente.</p>
+
+<p>&mdash;Ora adeus! dissera Lauretto. As galerias facilmente se commovem pelos
+duellos d'agora, que quasi sempre terminam por simples arranhaduras! Por mim,
+estou resolvido a nunca provocar ninguem, e, mesmo quando provocado, a só me
+bater se o insulto<span class="pn">{290}</span> recebido fôr d'ordem a não
+acceitar desculpas, porque eu, infelizmente, não arranho nem firo, mato.</p>
+
+<p>Era por essa razão que Laura deligenciava não sentir-se offendida pelas
+impertinencias que o tenor lhe dirigia por vezes.</p>
+
+<p>Fingia não as comprehender, e até não as ouvir.</p>
+
+<p>Ella era tão feliz!...</p>
+
+<p>E aquella felicidade que gosava, prolongou-se por tres mezes, sem uma só
+nuvem que a escurecel-a.</p>
+
+<p>Antonino, pela sua parte, só tinha um desejo: tornar a ver seu pae.</p>
+
+<p>Mas o conde, a quem o filho não quizera occultar o que elle chamava o seu
+romance, não queria, por dignidade, ir a Paris emquanto durasse uma tal
+situação.</p>
+
+<p>&mdash;Acautella-te, escrevia elle ao visconde, occultas tua mulher como se
+occulta uma amante. Acho perigoso esse teu procedimento. Não me parece razoavel
+tentar o perigo, misturar o que ha de mais serio e de mais sagrado no amor com
+o disfarce, com a mascara, com a aventura.</p>
+
+<p>Seria isto um presentimento da fina intuição paterna?</p>
+
+<p>Uma noite, pelas quatro horas da madrugada, Laura, envolvida n'um largo
+manto, foi, segundo o costume, acompanhar e alumiar seu marido até á escada que
+descia para a rua.<span class="pn">{291}</span></p>
+
+<p>Demorou-se no patamar até que Antonino, sahindo, fechou a porta sobre si.
+</p>
+
+<p>Ao entrar no quarto, a Linda soltou um grito.</p>
+
+<p>Lauretto Mina estava sentado na cadeira de que pouco antes Antonino se
+levantara.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00124">XXIV<br>
+Jacintha</a></h2>
+
+<p>Jacintha, como já dissemos, tinha por Laura uma dedicação sem limites.</p>
+
+<p>Far-se-ia matar pela cantora, e, se a diva morresse, ella não lhe
+sobreviveria por muito tempo, com certeza.</p>
+
+<p>O peor era que a creada não possuia apenas a fidelidade canina do
+irracional.</p>
+
+<p>As admoestações, as severidadese as irritações de Laura faziam-a chorar
+deveras, porque possuia um bom coração.</p>
+
+<p>Mas arrependia-se e não se emendava.</p>
+
+<p>A Venus antiga divertia-se, ligando-se completamente áquella humilde presa.
+</p>
+
+<p>Por infelicidade, a belleza picante de Jacintha, os seus grandes olhos
+pretos e brilhantes, a tez morena<span class="pn">{292}</span> e fresca
+d'andaluza, a cintura delicada e o agradavel conjuncto de toda a sua pessoa,
+davam-lhe um grande numero de cumplices.</p>
+
+<p>Lauretto Mina, como indicámos, pertencera a esse numero.</p>
+
+<p>O formoso tenor não desdenhára colher aquella flôr modesta.</p>
+
+<p>Colhera-a e passára.</p>
+
+<p>Não era homem para perder muito tempo em negocios de semelhante natureza.
+</p>
+
+<p>Apesar d'isso Jacintha ficára singularmente lisongeada por contar, na
+collecção dos seus admiradores, um <em>artista</em>, um verdadeiro artista, de
+que grande quantidade de damas da primeira sociedade tinham disputado a posse,
+segundo ella suppunha.</p>
+
+<p>Em Saint-Malo, na numerosa creadagem das casas proximas, Jacintha, sempre
+picante e attrahente, fôra muito cortejada.</p>
+
+<p>E não tinham sido apenas os creados a darem-se a esse passatempo.</p>
+
+<p>Os proprios patrões deram-se ao incommodo de render homenagens á creada de
+Laura.</p>
+
+<p>Afinal, na grande sociedade&mdash;está provado!&mdash;as cosinhas não
+recebem peor gente que os salões.</p>
+
+<p>Lembrar-se-hão sem duvida que, na manhã em que Laura resolvera abandonar a
+casa de seu marido, encontrára vasio o quarto de Jacintha.<span
+class="pn">{293}</span></p>
+
+<p>No dia seguinte, quando a creada se reuniu á cantora em Paris, Laura
+admoestou-a com toda a severidade, como costumava.</p>
+
+<p>Sem se incommodar com a torrente de lagrimas que corria pelas faces de
+Jacintha, e com as quaes a creada tratava lavar a falta commettida, Laura
+demonstrou-lhe quanto era indigno um procedimento d'aquella ordem.</p>
+
+<p>Disse-lhe que a devia abandonar completamente.</p>
+
+<p>Mais uma vez, porém, lhe perdoaria, sob condição de Jacintha lhe dar a sua
+palavra de que não voltaria a praticar o menor desmando.</p>
+
+<p>E affiançou-lhe que, no primeiro caso dado, a encontraria inflexivel.</p>
+
+<p>Jacintha, desfeita em lagrimas, prestou todos os juramentos possiveis.</p>
+
+<p>Tomou para testemunhas todas as virgens da côrte do ceu, promettendo seguir
+os seus exemplos.</p>
+
+<p>Antes quereria perder a vida do que ser abandonada por Laura.</p>
+
+<p>A admoestação aproveitar-lhe-ia.</p>
+
+<p>Jámais o demonio se apossaria dos seus sentidos.</p>
+
+<p>Laura fingiu acreditar nas promessas de Jacintha, que, sem serem solidas,
+eram com certeza sinceras.</p>
+
+<p>Entretanto tomou algumas precauções.</p>
+
+<p>Resolveu não admittir creados moços na sua modesta casa da rua
+Boudreau.<span class="pn">{294}</span></p>
+
+<p>Escolheu um casal já idoso.</p>
+
+<p>O marido tinha cincoenta annos e a mulher quarenta e cinco.</p>
+
+<p>Durante tres mezes Jacintha foi um verdadeiro modelo de honestidade.</p>
+
+<p>Nunca sahia só, e quando acompanhava Laura ao theatro jámais transpunha a
+porta do camarim.</p>
+
+<p>Mas no momento da chegada do visconde a Paris, os seus remorsos começavam a
+cicatrisar.</p>
+
+<p>A installação mysteriosa no rez-do-chão da rua da Arcada produziu-lhe
+terrivel effeito.</p>
+
+<p>Laura, porém, percebeu sem perda de tempo que Jacintha começava novamente a
+andar mais ligeira.</p>
+
+<p>Aquella acceleração de movimento no corpo correspondia a movimentos,
+accelerados tambem, no espirito.</p>
+
+<p>Ao ver a felicidade que disfructava Laura, sentia extraordinaria
+melancholia.</p>
+
+<p>&mdash;Como o sr. visconde ama a senhora! murmurava ella. Ah! a senhora é
+bem feliz!...</p>
+
+<p>&mdash;Se continuares a portar-te bem, dizia-lhe Laura, acharás qualquer dia
+um bom marido.</p>
+
+<p>&mdash;A senhora achou, respondia Jacintha, mas eu, para o achar,
+necessitarei procurar.</p>
+
+<p>Uma busca d'este genero é sempre um perigo para uma natureza inflammavel. Se
+Laura, n'aquella occasião, tivesse reparado, comprehenderia o perigo,
+verificaria<span class="pn">{295}</span> que a virtude começava a ser demasiado
+pesada para Jacintha.</p>
+
+<p>Uma noite, ao atravessar um corredor do theatro, a creada deu de cara com
+Lauretto Mina.</p>
+
+<p>O tenor pôz-lhe uma das mãos na fronte, levantou-lhe o queixo com a outra, e
+disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Sabes que estás cada vez mais bonita? Declaro-te que nunca te amei
+tanto como agora.</p>
+
+<p>Não se contentou com palavras.</p>
+
+<p>Passou-lhe um braço em volta da cintura, levou-a para um canto pouco
+alumiado, inclinou-lhe o corpo para traz e deu-lhe um demorado beijo na bocca.
+</p>
+
+<p>Jacintha voltou para o camarim muito perturbada.</p>
+
+<p>O seu quarto na rua da Arcada era tão bonito!</p>
+
+<p>Devia haver muitas senhoras que o invejassem!</p>
+
+<p>Esta circumstancia foi mais uma tentação.</p>
+
+<p>Pois só ella é que havia admirar aquella verdadeira belleza?</p>
+
+<p>Era possivel que o tenor, mesmo em casa de duquezas, não tivesse visto um
+quarto tão encantador como aquelle.</p>
+
+<p>Jacintha por coisa alguma trahiria Laura.</p>
+
+<p>Em tempo, Lauretto Mina tinha tido a prova d'essa verdade.</p>
+
+<p>Não se arriscou, por isso, a fazer-lhe perguntas directas sobre o visconde
+ou sobre a Linda.</p>
+
+<p>Mas, depois d'uma scena de seducção admiravelmente<span
+class="pn">{296}</span> bem desempenhada pelo tenor, uma noite, durante um
+entre-acto, Jacintha foi forçada a dar-lhe todas as indicações necessarias,
+para que elle podesse entrar n'aquelle delicioso quarto, que para ella era um
+verdadeiro ninho d'amor.</p>
+
+<p>Pela uma hora da manhã, em quanto Antonino e Laura estivessem á mesa,
+ceiando, ella iria abrir-lhe a porta da rua, e, pelo longo corredor, para o
+qual abriam todas as portas interiores, introduzil-o-hia no quarto. Depois iria
+ter com elle, logo que os dois esposos se deitassem.</p>
+
+<p>O tenor sahiria, entre as quatro e as cinco horas da manhã, quando o
+visconde tivesse partido.</p>
+
+<p>Nada era mais simples, mais facil, mais seguro.</p>
+
+<p>Foi assim que, na noite de que já fallámos, Lauretto Mina estava ás tres
+horas e meia da madrugada no quarto de Jacintha.</p>
+
+<p>Áquella hora a creada dormia profundamente.</p>
+
+<p>Lauretto levantou-se sem fazer ruido.</p>
+
+<p>Sobre a meza da cabeceira estava acceso um candieiro.</p>
+
+<p>O tenor tirou uma navalha da algibeira, abriu-a, e cortou os cordões d'um
+reposteiro.</p>
+
+<p>Em seguida voltou ao leito, pegou na mão direita de Jacintha e approximou-a
+levemente da esquerda.</p>
+
+<p>Ella descerrou vagamente as palpebras e perguntou:<span
+class="pn">{297}</span></p>
+
+<p>&mdash;Já te levantaste?</p>
+
+<p>&mdash;Não, não, respondeu o tenor. Ainda é cedo.</p>
+
+<p>Reuniu bruscamente as duas mãos e, n'um segundo, ligou os pulsos de Jacintha
+com tres ou quatro voltas do cordão, que atou n'um nó rapido. Ella accordou
+sobresaltada e tentou gritar.</p>
+
+<p>Mas o tenor applicou-lhe sobre a bocca uma mordaça que levava,
+prendendo-lh'a solidamente atraz do pescoço.</p>
+
+<p>Jacintha deu com os pés na roupa da cama, tentando saltar do leito.</p>
+
+<p>O tenor ligou-lhe os pés com o cordão, como lhe ligara as mãos.</p>
+
+<p>Em seguida verificou se todos os nós estavam bem dados.</p>
+
+<p>Assim presa, Jacintha apenas podia fazer alguns movimentos quasi
+imperceptiveis, que Lauretto impossibilitou ainda comprimindo-a com a roupa da
+cama.</p>
+
+<p>Depois, o tenor vestiu-se lentamente.</p>
+
+<p>Entreabriu a porta do quarto, e escutou.</p>
+
+<p>Voltou para junto do leito, e vendo que Jacintha não se movia, destapou-a,
+inquieto, e tirou-lhe a mordaça.</p>
+
+<p>A infeliz estava desmaiada.</p>
+
+<p>O ar livre que respirou, reanimou-a um pouco.</p>
+
+<p>Antes que a creada recuperasse completamente os<span class="pn">{298}</span>
+sentidos, Lauretto tornou-lhe a pôr a mordaça, mas apertando-lh'a menos, e
+deixando-lhe as narinas a descoberto.</p>
+
+<p>Depois voltou novamente para junto da porta.</p>
+
+<p>Sentiu o visconde sahir, sendo acompanhado por Laura até á escada.</p>
+
+<p>Ouviu as palavras de despedida que ambos trocaram.</p>
+
+<p>Então transpôz o corredor, abriu a porta do quarto de Laura, e entrou.</p>
+
+<p>Jacintha, que recuperara os sentidos, viu e comprehendeu tudo.</p>
+
+<p>O miseravel armara ardilosamente aquelle laço á sua fraqueza, e ella cahira
+estupidamente, como uma ingenua.</p>
+
+<p>Não era por ella, mas por Laura, que elle ali fôra.</p>
+
+<p>A Linda, é claro, não tornara a sua creada de quarto confidente das
+impertinencias de Lauretto.</p>
+
+<p>Jacintha, porém, recordava-se agora de certas circumstancias e d'algumas
+palavras pronunciadas pelo tenor.</p>
+
+<p>Não podia duvidar.</p>
+
+<p>Era Laura quem elle desejava.</p>
+
+<p>A Linda estava n'esse momento á discrição do insolente.</p>
+
+<p>E fôra ella, Jacintha, ella, que teria dado a vida pela cantora, que a
+entregara áquelle miseravel!<span class="pn">{299}</span></p>
+
+<p>Ao ter este pensamento a infeliz sentiu-se gelada de pavor.</p>
+
+<p>Deixaria ella commetter um tão infame crime?</p>
+
+<p>Apenas podia soltar alguns gemidos inarticulados.</p>
+
+<p>As mãos e os pés ligados paralysavam-lhe todos os movimentos. Como arrancar
+a mordaça?</p>
+
+<p>Como cortar os cordões que a atavam?</p>
+
+<p>O tempo passava, e ella não achava que responder áquellas perguntas.</p>
+
+<p>As lagrimas corriam-lhe pelas faces.</p>
+
+<p>Olhou para o candieiro acceso.</p>
+
+<p>Lauretto achara desnecessario apagal-o. Para que?</p>
+
+<p>Subitamente accudiu-lhe ao espirito uma idéa.</p>
+
+<p>Nem um instante hesitou.</p>
+
+<p>Encolheu-se, torceu-se, rebolou-se, e, lentamente, firmando-se nos
+cotovellos e nos joelhos, conseguiu elevar-se pouco a pouco, acima do
+travesseiro.</p>
+
+<p>Esta operação difficultosa durou dez minutos.</p>
+
+<p>Quando chegou com as mãos ligadas até ao angulo do leito, agarrou-se a elle,
+e, com um esforço acabou de se elevar.</p>
+
+<p>Então, com um movimento decidido, chegou á luz do candieiro os cordões que
+lhe prendiam os pulsos, que foram tambem attingidos pela chamma.</p>
+
+<p>A dôr era insupportavel.</p>
+
+<p>Por vezes, sentindo-se prestes a soltar um grito, retirava os pulsos da
+luz.<span class="pn">{300}</span></p>
+
+<p>Mas em seguida, considerando aquelle facto como uma indesculpavel cobardia,
+chegava novamente á chamma a carne já queimada.</p>
+
+<p>Uma das voltas do cordão quebrou por fim.</p>
+
+<p>Mas não era a que formava o nó.</p>
+
+<p>Foi indispensavel continuar a tortura, com todas as precauções e cuidados.
+</p>
+
+<p>E sentia-se feliz por poder dizer de si para comsigo:</p>
+
+<p>&mdash;Soffre, leviana, soffre o castigo da tua falta!</p>
+
+<p>O cordão cedeu emfim.</p>
+
+<p>Então, com um movimento rapido, desembaraçou-se dos bocados que ainda a
+prendiam, e, sem reparar para o misero estado em que tinha os
+pulsos&mdash;porque o tempo urgia&mdash;sentou-se na cama, e desligou os pés,
+ainda que com bastante custo.</p>
+
+<p>Levantou-se, procurou uma tesoura, e cortou os cordões da mordaça.</p>
+
+<p>Estava livre!</p>
+
+<p>Vestiu-se sem perda d'um segundo.</p>
+
+<p>As mãos, tremulas ainda pelo supplicio supportado, difficilmente cumpriam a
+sua missão.</p>
+
+<p>Sentia-se banhada em suor frio.</p>
+
+<p>Não prestou attenção á fórma pela qual se vestia.</p>
+
+<p>Pensava.</p>
+
+<p>O que deveria fazer? Acordar o porteiro? Esse meio poderia ser bom meia hora
+antes. N'aquelle momento,<span class="pn">{301}</span> como era possivel que o
+crime estivesse consumado, era necessario não fazer escandalo. N'aquelle
+negocio não devia intervir qualquer pessoa estranha.</p>
+
+<p>Logo que se apromptou, metteu na algibeira o dinheiro que pozera sobre a
+meza, e seguiu pelo corredor, abafando o ruido dos passos.</p>
+
+<p>Parou em frente da porta do quarto de Laura e escutou.</p>
+
+<p>Não duviu o menor rumor.</p>
+
+<p>Aquelle silencio seria de bom ou de mau presagio?</p>
+
+<p>Não se atrevia a decidir.</p>
+
+<p>Continuou pelo corredor, desceu a escada, abriu cautellosamente a porta e
+achou-se na rua, deserta áquella hora.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00125">XXV<br>
+O infame</a></h2>
+
+<p>Se não fosse fatuo e mau como era, Lauretto Mina, ao entrar no quarto de
+Laura, teria apagado a lampada que o alumiava.</p>
+
+<p>Depois, quando a cantora voltasse, soprando a chamma do candieiro que ella
+trazia, tel-a-hia tomado<span class="pn">{302}</span> por surpreza na sombra, e
+a Linda podia então considerar-se perdida.</p>
+
+<p>Mas elle quiz saborear o seu triumpho, divertir-se com o temor e mesmo com a
+colera da cantora.</p>
+
+<p>Portanto mostrou-se, apresentou-se.</p>
+
+<p>&mdash;Boa noite, minha querida Linda, disse elle levantando-se logo que
+Laura entrou. Não te admires nem te assustes por me veres em tua casa a hora
+tão adiantada da noite. As minhas intenções são tudo o que ha de mais
+amigaveis, e estou certo que havemos de nos entender.</p>
+
+<p>Laura olhava-o petreficada, sentindo como que fugir-lhe a razão.</p>
+
+<p>O tenor proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Se entrei aqui, empregando meios menos usados e algum tanto
+violentos, a culpa foi tua. Estou, como muitos outros, loucamente apaixonado
+por ti. Mas isso não é uma razão para me escarneceres, para me tornares
+ridiculo para com os nossos collegas, e para mofares de mim com o visconde, teu
+amante. Tens procedido commigo imprudentemente. Resolvi desforrar-me. Para o
+conseguir conquistei um coração mais sensivel que o teu, o da Jacintha. Ella
+introduziu-me na praça&mdash;e eis-me aqui!</p>
+
+<p>&mdash;Foi bem combinado o assalto, respondeu Laura fazendo um gesto de
+resignação.</p>
+
+<p>Voltára-lhe a presença d'espirito.<span class="pn">{303}</span></p>
+
+<p>Como se conservasse no limiar da porta, passou resolutamente em frente do
+tenor e entrou no quarto.</p>
+
+<p>&mdash;Estimo que acceites a situação com essa desenvoltura! disse Lauretto
+sorrindo victoriosamente.</p>
+
+<p>Como ella não respondesse, o tenor continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Para que me havias de receber com ares tragicos? Tens razão. Jámais
+se devem desprezar estas palavras: amo-te!</p>
+
+<p>Laura encostára-se a uma secretária Riesener.</p>
+
+<p>O tenor estava na frente d'ella. Elle proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Pois não é verdade que é absurdo fazer barulho por causa d'um
+beijo?</p>
+
+<p>Caminhou para ella ao acabar de pronunciar aquellas palavras.</p>
+
+<p>Laura abriu rapidamente com a mão esquerda a gaveta da secretaria, pegando,
+com a direita, n'um objecto que estava dentro.</p>
+
+<p>E repentinamente, como Lauretto se approximasse mais, visou-o com um
+revolver que acabava de engatilhar.</p>
+
+<p>&mdash;Se dá um só passo mais, mato-o! gritou ella.</p>
+
+<p>Lauretto empallideceu horrivelmente.</p>
+
+<p>Mas replicou, tentando sorrir-se:</p>
+
+<p>&mdash;Suppunha-te mais sensata. A menos que não estejas brincando...</p>
+
+<p>&mdash;Prohibo-o de me tratar por tu, disse Laura ameaçando-o novamente com
+o revolver.<span class="pn">{304}</span></p>
+
+<p>&mdash;Perdão, sr.ª viscondessa, respondeu o miseravel inclinando-se com
+afectação, para dissimular o estremecimento que lhe percorreu todo o corpo. Não
+considero de bom gosto ameaçar com um revolver um homem desarmado,
+entretanto...</p>
+
+<p>E ia dar mais um passo.</p>
+
+<p>Laura, porém, fel-o parar, dizendo com energia:</p>
+
+<p>&mdash;Não se mecha, ou disparo! E previno-o de que não repetirei o aviso.
+Acautelle-se! Tenho na mão uma arma admiravel, de precisão extraordinaria.
+Comprei-a no Mexico, quando nos internamos na região dos <em>pampas</em>. Ao
+dar um passo terá quatro balas no corpo.</p>
+
+<p>Ella fallava n'um tom firme e resoluto, tanto mais para admirar, quanto era
+certo que omittia um pormenor importante.</p>
+
+<p>O revolver estava descarregado.</p>
+
+<p>Suppozera, e com razão, que um homem capaz de proceder como Lauretto Mina,
+não podia deixar de ser cobarde.</p>
+
+<p>Ao ouvir Laura, o tenor teve uma idéa, que mais o assustou.</p>
+
+<p>Lembrou-se que o tiro podia partir, mesmo sem que a cantora puxasse pelo
+gatilho.</p>
+
+<p>Entretanto, fazendo-se forte, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Acautelle-se tambem, porque ao primeiro tiro precipitar-me-hei, e
+então...<span class="pn">{305}</span></p>
+
+<p>&mdash;Socegue, interrompeu a Linda. Sei servir-me bem d'este revolver.
+Tinha o direito, se quisesse, mesmo sem que o senhor chegasse a vias de facto,
+de o matar como se mata um cão hydrophobo. Mas a vista do sangue horrorisa-me.
+Conserve-se quieto, e nada terá a temer.</p>
+
+<p>Um pouco mais socegado, o tenor disse, ao cabo d'alguns minutos de silencio,
+com riso forçado:</p>
+
+<p>&mdash;Nada d'isto tem senso commum! Ficaremos aqui toda a noite, a olhar um
+para o outro, como dois cães de faiança?</p>
+
+<p>Laura não respondeu.</p>
+
+<p>Conservava-se immovel como uma estatua.</p>
+
+<p>&mdash;Permitte-me, ao menos, que me sente? perguntou elle.</p>
+
+<p>Ella replicou:</p>
+
+<p>&mdash;Pode sentar-se. Tem ahi proximo uma cadeira. Mas previno-o de que,
+uma vez sentado, o prohibirei de se levantar.</p>
+
+<p>&mdash;Percebo, ficaria com uma vantagem a mais. Pois conservar-me-hei de
+pé.</p>
+
+<p>&mdash;Faria melhor sahindo d'esta casa. Deve seguir o conselho, que é
+bom.</p>
+
+<p>&mdash;Devéras?... disse Lauretto indiciso.</p>
+
+<p>Perguntou a si proprio se, realmente, o mais prudente não seria bater em
+retirada.</p>
+
+<p>Aquelle revolver imprevisto mudára a situação.<span class="pn">{306}</span>
+</p>
+
+<p>O negocio falhára, decididamente.</p>
+
+<p>Mas deveria fugir cobardemente d'uma mulher?</p>
+
+<p>No dia seguinte ella contaria a aventura ao amante, e talvez aos collegas,
+que com razão o escarneceriam. Fugir, era, pois, impossivel.</p>
+
+<p>Era indispensavel sustentar a situação até ao fim, custasse o que custasse.
+</p>
+
+<p>Depois d'alguns minutos de reflexão, Lauretto disse com voz um pouco mais
+firme:</p>
+
+<p>&mdash;Não partirei. Tenho ainda pelo meu lado uma probabilidade.</p>
+
+<p>&mdash;Qual?</p>
+
+<p>&mdash;Ha vinte minutos que nos olhamos fixamente; eu, que não tenho uma
+arma na mão, sinto-me já fatigado. Pesa-me a cabeça e cerram-se-me as
+palpebras. O relogio marca quatro horas e trinta e cinco minutos. Só amanhecerá
+d'aqui a hora e meia. Quando nos tivermos hypnotisado mutuamente, veremos se o
+seu olhar não se turbará, se os seus joelhos não se dobrarão, se o braço não se
+baixará por si proprio. Veremos se a gallinha não acabará fatalmente por ser
+magnetisada, immobilisada... e tomada pela raposa!</p>
+
+<p>&mdash;Veremos! respondeu Laura apertando com mais força a coronha do
+revolver. </p>
+
+<p>Desde esse momento guardaram ambos o mais absoluto silencio.<span
+class="pn">{307}</span></p>
+
+<p>No quarto ouvia-se apenas o tic-tac monotono da pendula.</p>
+
+<p>O relogio deu os tres quartos para as cinco horas.</p>
+
+<p>Os minutos passavam com uma lentidão mortal.</p>
+
+<p>Laura sentia, com temor crescente, que o miseravel dissera a verdade.</p>
+
+<p>A tensão enorme em que desejava conservar o espirito fazia-lhe diminuir as
+forças do corpo.</p>
+
+<p>Via como que sombras passarem-lhe pela frente; sentia nos ouvidos um ruido
+extranho, as pernas dobravam-se-lhe, e a custo conservava o braço meio
+estendido, empunhando o revolver.</p>
+
+<p>O que mais a angustiava era a arma estar descarregada.</p>
+
+<p>Se assim não fôra, mesmo dada a hypothese do desfallecimento, poderia
+defender-se contra uma aggressão subita, ferindo ou pelo menos assustando o seu
+inimigo.</p>
+
+<p>Emfim, haveria lucta, em que o maior numero de probabilidades estaria do seu
+lado.</p>
+
+<p>Mas se, aproveitando um momento de torpor, Lauretto se precipitasse sobre
+ella, e a agarrasse, a Linda nada mais tinha na mão do que um bocado d'aço e de
+madeira, não poderia defender-se.</p>
+
+<p>E como que ouvia o grito de triumpho soltado por Lauretto, e o rir infame
+d'aquelle miseravel.</p>
+
+<p>O relogio deu cinco horas.<span class="pn">{308}</span></p>
+
+<p>Laura sentiu necessidade de interromper aquelle silencio pesado e d'ouvir
+uma voz humana, ainda que não fosse senão a propria.</p>
+
+<p>Disse portanto em voz alta:</p>
+
+<p>&mdash;Cinco horas!</p>
+
+<p>Lauretto replicou, e ella escutou-o quasi satisfeita:</p>
+
+<p>&mdash;Faço-lhe os meus cumprimentos. Possue energia rara em mulher. É
+triste que não empregue essa energia ao serviço de melhor causa. Admittindo
+mesmo,&mdash;o que é duvidoso,&mdash;que consiga sustentar até ao fim esse
+magnanimo esforço para preservar a sua honra, nem por isso ficará menos
+deshonrada. Quer saber como? </p>
+
+<p>Laura não respondeu.</p>
+
+<p>O tenor proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;O meu amor é muito sincero e ardente. Se não fosse para a possuir não
+poria em pratica esta tentativa arrojada, ou criminosa, segundo o modo de ver
+de cada um de nós. Mas o meu amor proprio está agora comprometido n'esta
+empreza tambem. A sr.ª, ha muito tempo, tem-me despresado, motejado,
+ridicularisado; eu, declarei, jurei publicamente, que mereceria todo o seu
+desprezo se não conseguisse tel-a um dia nos meus braços. Por emquanto ainda
+não perdi a esperança, e espero, até, conseguir em breve o fim desejado. Em
+todo o caso, mesmo na peor das hypotheses, deve concordar que as apparencias
+são<span class="pn">{309}</span> por mim. Por agora pouco importa que eu seja
+ou não seu amante. O essencial é que, para os espectadores, o pareça. Ora
+parecel-o-hei, evidentemente...</p>
+
+<p>Laura sorriu com desdem.</p>
+
+<p>Elle continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Deixe-me acabar e ria depois. Medite,&mdash;porque ainda é
+tempo,&mdash;e verá que o que mais lhe convém é baixar o revolver e entregar-se
+á minha generosidade. Procederei como um perfeito cavalheiro, desde já o
+declaro. Mas reservar-me-hei o direito de fallar, e previno-a de que fallarei.
+Será essa a minha compensação e a minha desforra.</p>
+
+<p>O tenor fez uma pausa.</p>
+
+<p>A Linda deu aos hombros despresadoramente.</p>
+
+<p>&mdash;Imagina que não me acreditarão? Ouça: limitar-me-hei a affirmar que a
+tive esta noite nos meus braços. Estamos sós: quem poderá contradizer-me? É de
+suppor que o visconde de Bizeux me peça explicações; espero mesmo que isso
+succeda. Recusar-me-hei a dar-lh'as. Elle esbofetear-me-ha e eu matal-o-hei,
+porque desgraçadamente succede-me esse precalço sempre que me bato. Não será em
+virtude d'esse duello em perspectiva e da morte do visconde que as minhas
+palavras deixarão de ser acreditadas, ao contrario. Mas haverá mais do que as
+minhas palavras, haverá provas e testemunhas. A prova eil-a: ao entrar vi sobre
+aquella mesa o seu retrato em miniatura,<span class="pn">{310}</span> ao lado
+do retrato do visconde. Dei-me pressa em guardal-o&mdash;para possuir uma
+recordação sua. Eis o testemunho: pela manhã sahirei, não pela porta que deita
+para a rua, mas pela que abre para o vestibulo. O porteiro, ao ver-me,
+perguntar-me-ha sem duvida quem eu sou e d'onde venho a hora tão matinal, e eu
+responder-lhe-hei que me chamo Lauretto Mina, que sou tenor da Opera, e que
+saio de casa da sr.ª Laura Linda, amante do sr. visconde de Bizeux...</p>
+
+<p>&mdash;É engenhoso, mas um pouco cobarde! disse uma voz por detraz de
+Lauretto. </p>
+
+<p>A cantora soltou um grito d'alegria.</p>
+
+<p>&mdash;Antonino! disse ella.</p>
+
+<p>O tenor voltou-se admirado, e viu na sua frente Antonino de Bizeux, de
+braços cruzados sobre o peito, dominando-o, com a alta estatura do seu corpo
+herculeo.</p>
+
+<p>Na sombra do corredor, Lauretto viu Jacintha, pela porta entreaberta. Lançou
+em volta um olhar assustado, como que procurando por onde fugir.</p>
+
+<p>Antonino bateu-lhe pesadamente com a mão no hombro.</p>
+
+<p>Laura, deitando fóra o revolver inutil, correu para o marido.</p>
+
+<p>O visconde disse, dirigindo-se ao tenor:</p>
+
+<p>&mdash;É triste que eu venha desmanchar as suas combinações<span
+class="pn">{311}</span> infames. Graças á coragem e á dedicação d'aquella pobre
+rapariga que me foi chamar, eil-o preso no proprio laço que armou. Ao que
+parece é forte em violentar e insultar mulheres, mas defronte d'um homem não
+faz tão boa figura.</p>
+
+<p>Lauretto respirava a custo sob o peso da mão de Antonino.</p>
+
+<p>Apenas teve força para balbuciar:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor... estarei ás suas ordens... quando quizer...</p>
+
+<p>&mdash;Na realidade? Consente em dar-me razão? Pois não sabe, miseravel, que
+quando se apanha um patife da sua especie em flagrante delicto d'attentado
+nocturno e de roubo... (com a mão que tinha livre procurou na algibeira de
+Lauretto e tirou d'ella a miniatura de Laura, que lançou sobre a mesa) só ha a
+escolher entre entregar o mariola á policia ou de lhe pegar pelas orelhas e
+lançal-o pela porta fóra a ponta-pés? Não sabe? Pois fique sabendo que n'um
+caso d'esta ordem o infame nunca offende. Teria graça considerar-me eu
+offendido e bater-me com o gatuno que me roubasse a bolsa!</p>
+
+<p>&mdash;Ouça-me, senhor, replicou Lauretto tremendo-lhe a voz de medo, de
+vergonha e de colera. Ouça-me: n'este momento estou á sua discrição, é verdade,
+mas aconselho-o a que não abuse da sua vantagem.</p>
+
+<p>Deixe-me sahir d'aqui sem ruido nem escandalo. Asseguro-lhe<span
+class="pn">{312}</span> que isso será mais conveniente não só para mim, como
+tambem para o senhor e para esta senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Concede-lhe o que elle pede, meu amigo, disse Laura intervindo. Que
+parta, com a raiva de ver abortado o seu crime, e que não ouçamos mais fallar
+d'elle. </p>
+
+<p>&mdash;Sim, sr. visconde, deixe-o partir! repetiu Jacintha do corredor, com
+voz timida.</p>
+
+<p>&mdash;Pois quê! Este homem fez-te passar, Laura, por angustias mortaes, fez
+soffrer a essa rapariga a mais horrivel tortura moral e physica, e ha de sahir
+d'aqui socegadamente para acabar na cama a noite que tão mal começou? Ah! eu
+considerar-me-ia tão cobarde como elle, se lhe concedesse a impunidade que
+pedem. Dizes, Laura: que parta, e que não ouçamos mais fallar d'elle? Mas não
+ouves as ameaças que o biltre acaba de pronunciar? Elle irá ámanhã dizer por
+toda a parte que passou a noite aqui, que eu cheguei muito tarde! Sinto
+ferver-me o sangue, pensando em tal. Se não estivesses presente, tosal-o-hia
+por fórma que jámais se esqueceria d'esta noite!</p>
+
+<p>E ao mesmo tempo que fallava, sacudia violentamente Lauretto, que tremia.
+</p>
+
+<p>&mdash;Não estarei eu em frente d'um homem bem educado?... atreveu-se elle a
+dizer.</p>
+
+<p>&mdash;Está em frente d'um justiceiro!<span class="pn">{313}</span></p>
+
+<p>&mdash;Como?... O que vae fazer?...</p>
+
+<p>&mdash;O que o senhor proprio projectava.</p>
+
+<p>Antonino largou o hombro de tenor, e agarrou-o pelo casaco.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos... venha!...</p>
+
+<p>&mdash;Não quero!... deixe-me!... murmurou Lauretto debatendo-se em vão.
+Protesto contra as suas indignas violencias!</p>
+
+<p>O visconde apenas respondeu sorrindo desdenhosamente.</p>
+
+<p>&mdash;Não lhe faças mal! aconselhou Laura em voz baixa.</p>
+
+<p>Mas Antonino nada escutava.</p>
+
+<p>Estava possuido da mais profunda colera, colera fria, que é a mais terrivel.
+</p>
+
+<p>Repetiu</p>
+
+<p>&mdash;Vamos!... venha!...</p>
+
+<p>E accrescentou, dirigindo-se á creada:</p>
+
+<p>&mdash;Jacintha, alumia-nos. Sahimos pela porta do vestibulo.</p>
+
+<p>Arrastou pelo corredor fóra o tenor, que empregava inoffensiva resistencia,
+e chegou assim á porta que dava para o vestibulo do predio.</p>
+
+<p>Jacintha seguia-o, tendo um candieiro na mão tremula.</p>
+
+<p>Laura, anciosa, caminhava alguns passos mais atraz.<span
+class="pn">{314}</span></p>
+
+<p>Desceram ao vestibulo.</p>
+
+<p>Em frente do cubiculo do porteiro, o visconde gritou com voz forte:</p>
+
+<p>&mdash;Sr. Durandeau! peço-lhe que se levante e abra-nos a porta.</p>
+
+<p>Segurava Lauretto apenas com uma das mãos.</p>
+
+<p>O tenor, de labios trementes, pronunciava ameaças e palavras indistinctas.
+</p>
+
+<p>O porteiro appareceu pouco depois á porta do cubiculo, em mangas de camisa e
+de chinellas.</p>
+
+<p>&mdash;O que suceedeu? perguntou elle vendo Lauretto. É um ladrão?</p>
+
+<p>&mdash;Peor do que isso, respondeu Antonino. Este biltre introduziu-se em
+minha casa com intenção de violentar a creada de quarto!</p>
+
+<p>&mdash;Oh! que patife! disse o porteiro!</p>
+
+<p>Depois, reparando para o rosto apavorado de Lauretto, submettido ao pulso
+nervoso d'Antonino, ajuntou:</p>
+
+<p>&mdash;Que cara de velhaco! Sabe quem elle é, sr. visconde?</p>
+
+<p>&mdash;Sei. Chama-se Lauretto Mina, e é cantor da Opera.</p>
+
+<p>O porteiro abriu a porta.</p>
+
+<p>Antonino, pegando no tenor pelas espaduas, arremeçou-o para a rua.</p>
+
+<p>Em seguida lançou para o passeio o chapéu e o sobretudo<span
+class="pn">{315}</span> do tenor, objectos que Jacintha trouxera na mão,
+cuidadosamente.</p>
+
+<p>A porta foi fechada quasi immediatamente depois.</p>
+
+<p>Lauretto, pallido pela colera, rangendo os dentes, voltou-se, e estendendo o
+punho cerrado para a porta, murmurou enraivecido:</p>
+
+<p>&mdash;Chegar-me-ha a vez!</p>
+
+<p>E distanciou-se com passo rapido.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00126">XXVI<br>
+O desafio</a></h2>
+
+<p>Ao entrar no quarto de sua mulher, Antonino encontrou Jacintha ajoelhada aos
+pés de Laura, dizendo-lhe arrependida:</p>
+
+<p>&mdash;Oh! minha senhora, perdôe-me!</p>
+
+<p>Levantou a creada e contou o que ella fizera, a sua presença d'espirito, a
+sua coragem.</p>
+
+<p>&mdash;Sahiu, metteu-se n'uma carruagem que encontrou no <em>boulevard</em>
+Malesherbes, e foi chamar-me a casa. Felizmente eu não me deitára ainda, e vim
+immediatamente. Foi ella que causou todo o mal, mas devemos confessar que foi
+ella tambem que tudo remediou.<span class="pn">{316}</span></p>
+
+<p>Laura socegou Jacintha, consolou-a.</p>
+
+<p>Pelas suas proprias mãos envolveu em algodão em rama os pulsos queimados da
+creada de quarto, emquanto não podesse ser feito outro tratamento, acompanhou-a
+ao quarto, deitou-a, e só a deixou quando a viu adormecida.</p>
+
+<p>Voltou para junto d'Antonino.</p>
+
+<p>Até então podéra conter-se, mas a reacção veiu, por fim.</p>
+
+<p>Cahiu sobre um <em>fauteuil</em> e chorou, murmurando:</p>
+
+<p>&mdash;Ah! que noite! que scena!...</p>
+
+<p>&mdash;Socega, minha querida Laura, disse-lhe Antonino pegando-lhe nas mãos.
+Passaste uma hora terrivel, que felizmente não se repetirá. Acabou-se!</p>
+
+<p>&mdash;Acabou-se! repetiu Laura abanando a cabeça. Se tudo estivesse
+terminado não me sentiria eu inquieta. Comprehendo que pelo espantoso perigo
+que corri tu não podesses suffocar a tua indignação. Insultaste terrivelmente
+esse miseravel. Conheço-o. Lauretto não possue apenas uma alma vil, possue
+tambem uma alma má. Vingar-se-ha com certeza.</p>
+
+<p>&mdash;Pois suppões?... Estás enganada. Eu puni-o justamente para não ter
+que o provocar. Verás que, elle tambem, não se atreverá a ser o provocador.</p>
+
+<p>&mdash;E se fôr?</p>
+
+<p>&mdash;Dão-se explicações d'um insulto e não d'um castigo. Recusarei
+bater-me com esse homem.<span class="pn">{317}</span></p>
+
+<p>&mdash;Promettes, Antonino? juras? Necessito ter a certeza... A duvida
+incommoda-me sobremaneira; Tinha razão teu pae na ultima carta que te escreveu,
+e me mostraste. O muito que me amas fez com que quizesses agradar á minha
+phantasia d'artista, collocando-me n'um meio romanesco e poetico, que tinha
+muitos encantos, mas que não era isempto de perigos. Seriamos felizes se não
+houvesse invejosos e maus. Estou convencida que foi a nossa situação equivoca
+que causou todo o mal.</p>
+
+<p>Calou-se por instantes, como que absorvida por occulto pensamento.</p>
+
+<p>Depois proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Lauretto ter-me-ia respeitado se estivesse certo de que eu era tua
+mulher. Porque será que, amando-nos tanto, não podemos pôr d'accordo as nossas
+existencias, como puzemos os nossos corações?</p>
+
+<p>Novas lagrimas rolaram-lhe pelas faces.</p>
+
+<p>Antonino seccou-as com beijos, esforçando-se por tranquillisar a esposa com
+phrases ternas.</p>
+
+<p>&mdash;Escuta, disse ella, tenho o presentimento que atravessamos uma hora
+terrivel, e quero fallar-te com toda a gravidade. Tenho a annunciar-te uma
+resolução seria que tomei, e uma noticia agradavel a dar-te. A resolução é que,
+decididamente, renuncio ao theatro. A noticia...&mdash;fallemos
+baixo!&mdash;desejava esperar alguns dias para te fallar nisso... Mas
+não...<span class="pn">{318}</span> não posso esperar... tenho a certeza!... A
+noticia é que, o meu constante sonho de mezes e annos, vae realisar-se emfim!
+Antonino, no meu ser havia duas partes distinctas: tinha, por meu pae, o
+sentimento artistico, e por minha mãe o sentimento maternal. Até hoje pareci-me
+com meu pae, d'hoje para o futuro parecer-me-hei com minha mãe!</p>
+
+<p>Antonino ajoelhou aos pés de sua mulher, envolvendo-a nos braços, louco
+d'alegria.</p>
+
+<p>&mdash;Um filho!... O nosso filho!... murmurou elle.</p>
+
+<p>E cobriu-lhe de beijos as mãos.</p>
+
+<p>Ella retribuiu-lhe as caricias, e continuou:</p>
+
+<p>&mdash;És feliz, não é verdade? Pois bem: procede de fórma a dissipar a
+nuvem sombria que, n'este momento, escurece a minha felicidade. Tens agora
+novos deveres. A tua vida não te pertence unicamente, é tambem minha, é nossa.
+Peço ao pae um juramento sagrado: peço-te, sob tua palavra d'honra, que em caso
+algum, nem mesmo provocado por Lauretto Mina, exporás a tua vida contra a
+d'esse miseravel.</p>
+
+<p>Antonino hesitou.</p>
+
+<p>&mdash;Sob minha palavra d'honra?... Nem mesmo provocado?... repetiu
+elle.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! hesitas!... disse Laura.</p>
+
+<p>Elle percebeu a profunda anciedade de Laura.</p>
+
+<p>Reflectiu n'um instante que uma mulher póde acreditar n'um compromisso
+tomado por aquella fórma,<span class="pn">{319}</span> mas que em taes
+circunstancias esse compromisso não obriga um homem.</p>
+
+<p>Portanto replicou:</p>
+
+<p>&mdash;Não hesito. Dou-te a palavra que me pedes.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! obrigada!...</p>
+
+<p>Tomou-lhe a cabeça entre as mãos e beijou-o na fronte.</p>
+
+<p>Seguidamente começaram, cheios de confiança e de fé, a traçar o plano da sua
+nova vida.</p>
+
+<p>Laura desejava deixar Paris immediatamente, mas concordou que a partida,
+assim precipitada, semelhava a fuga.</p>
+
+<p>Demorarar-se-iam ainda quatro ou cinco dias, para regular os seus negocios.
+</p>
+
+<p>Como estava escripturada por espectaculo, a Linda não tihha de pagar multa
+na Opera.</p>
+
+<p>Partiriam, depois, para Italia, onde o conde de Bizeux se lhes juntaria.</p>
+
+<p>Em regra, passariam o inverno nos paizes do sul, Italia, Hespanha, Grecia,
+Egypto, Algeria, e os estios em Saint-Pol-de-Léon.</p>
+
+<p>Conversaram até ás sete horas da manhã.</p>
+
+<p>A essa hora Antonino deixou Laura, para que ella dormisse um pouco.</p>
+
+<p>Ficou resolvido que elle não voltaria mais áquella casa. O visconde
+procuraria Laura, de tarde, na rua Boudreau.<span class="pn">{320}</span></p>
+
+<p>Até ao dia da partida, jantariam e dormiriam ali, devendo Antonino voltar á
+casa do <em>boulevard</em> Haussmann apenas para tratar de pormenores
+materiaes.</p>
+
+<p>Laura adormeceu em breve, esperançosa e feliz.</p>
+
+<p>Antonino, chegado que foi aos seus aposentos de rapaz, estirou-se sobre um
+canapé.</p>
+
+<p>Não podia conciliar o nome.</p>
+
+<p>Previa, preoccupado, o que se ia passar.</p>
+
+<p>Desejava lavar, com uma execução summaria, a offensa recebida,
+principalmente para que o nome de sua mulher não fosse envolvido na questão.
+</p>
+
+<p>Entretanto, percebia que se descobrira ante Lauretto Mina, e que entre elles
+o insulto e o conflicto não podia deixar de terminar por duello.</p>
+
+<p>Ás onze horas o creado foi levar-lhe os cartões de Nobillet, o pianista, e
+de Gressier, o baritono.</p>
+
+<p>Não poude deixar d'estremecer, dando ordem para que fosse introduzidas as
+visitas.</p>
+
+<p>Laura tinha razão: a vida para elle duplicára de valor, desde a vespera.</p>
+
+<p>Lauretto Mina escolhera aquellas testemunhas, porque tanto Nobillet como
+Gressier, tinham assistido á scena de Remissy no concerto de Saint-Malo, e
+conheciam um pouco os incidentes e o visconde.</p>
+
+<p>Foi Nobillet quem fallou.</p>
+
+<p>&mdash;Vimos da parte, do sr. Lauretto Mina, sr. visconde, disse elle. O
+nosso collega assegura que vossa<span class="pn">{321}</span> ex.ª o insultou
+esta noite, gravemente. O nosso primeiro dever era procurar o sr. visconde para
+vereficarmos se as suas explicações condizem com as do nosso constituinte.
+Disse-nos o sr. Lauretto Mina que em tempo tivera relações com uma rapariga ao
+serviço da sr.ª viscondessa de Bizeux; parece que essas relações foram agora
+reatadas, e que elle passou a noite anterior no quarto d'essa rapariga. Por
+acaso vossa ex.ª encontrou-o, e sem razão, sem provocação da parte d'elle,
+agarrou-o pelo casaco como se fôra um gatuno vil, arrastou-o para o vestibulo,
+indicando o nome d'elle, por entre injurias, ao porteiro do predio, e
+arremessando-o depois para a rua, com violencia. São verdadeiras estas
+declarações, sr. visconde?</p>
+
+<p>&mdash;Completamente...</p>
+
+<p>&mdash;Vossa ex.ª pode naturalmente interpretal-as e explical-as, e nós
+estamos ás suas ordens para acceitar os esclarecimentos com que quizer
+honrar-nos.</p>
+
+<p>&mdash;Nada tenho que explicar, replicou Antonino. Encontrei o sr. Lauretto
+Mina sahindo do quarto da creada da minha mulher, na casa que ella habita.
+Irritei-me e pul-o fóra.</p>
+
+<p>&mdash;Vossa ex.ª disse em voz alta que elle tinha violentado a rapariga. O
+sr. Lauretto Mina affiança que não houve a menor violencia.</p>
+
+<p>&mdash;Ignorava e ignoro esse facto.</p>
+
+<p>Nobillet proseguiu:<span class="pn">{322}</span></p>
+
+<p>&mdash;Ser encontrado no quarto d'uma mulher, ainda que ella seja creada,
+não é deshonra para um homem. Para que vossa ex.ª se irritasse até á indignação
+e á violencia, por um facto que realmente não tem gravidade, de certo houve
+razões estranhas a esse mesmo facto. Somos homens honrados fallando com um
+homem honrado, sr. visconde; esperamos, pois, que nos julgue capazes d'apreciar
+e comprehender essas razões.</p>
+
+<p>Nobillet e Gressier adivinhavam que havia um mysterio em todo aquelle
+negocio.</p>
+
+<p>Nem um nem outro tinha grande consideração pelo caracter de Lauretto Mina,
+de quem conheciam os terriveis antecedentes de duellista.</p>
+
+<p>Comtudo não tinham podido recusar-se a servir-lhe de intermediarios na
+conclusão do conflicto.</p>
+
+<p>Entretanto esperavam que o visconde lhes fornecesse uma razão ou ao menos um
+pretexto para declinar a sua penosa missão.</p>
+
+<p>Desejavam pois que Antonino pronunciasse uma só palavra n'esse sentido.</p>
+
+<p>O visconde, porém, limitou-se a responder:</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço-lhes os termos delicados com que expozeram a questão. Sinto
+a mais alta consideração por vossas ex.<sup>as</sup>, mas não só posso dar do
+meu procedimento outras razões além das que já conhecem, porque não
+existem.<span class="pn">{323}</span></p>
+
+<p>As duas testemunhas olharam-se consternadas.</p>
+
+<p>Depois Gressier disse:</p>
+
+<p>&mdash;Observar-lhe-hei, sr. visconde, que se o sr. Lauretto Mina o não
+offendeu tambem, é elle que deve considerar-se offendido, tendo, portanto, o
+direito de exigir ou desculpas ou uma reparação pelas armas.</p>
+
+<p>&mdash;Não estou disposto a pedir desculpas, disse Antonino com voz firme.
+De resto supponho que não seriam acceites.</p>
+
+<p>&mdash;É claro que, reconhecendo-lhe a qualidade d'offendido, deixa-lhe a
+escolha das armas... disse Gressier.</p>
+
+<p>&mdash;E sei antecipadamente que elle escolherá o sabre, respondeu Antonino,
+sorrindo.</p>
+
+<p>E levantando-se, accrescentou:</p>
+
+<p>&mdash;Mais uma vez lhes agradeço, meus senhores, a sua delicada
+intervenção, e a fórma correctissima do seu procedimento. Terei a honra de os
+pôr em relações com dois dos meus amigos, os srs. conde de Bauriac e barão de
+Chazeuil. Procural-o-hão esta tarde em sua casa, sr. Nobillet.</p>
+
+<p>Os tres cumprimentaram-se com silencio.</p>
+
+<p>O visconde acompanhou-os até á escada.</p>
+
+<p>Cumprimentaram-se novamente, e as duas testemunhas desceram, mais inquietas
+que o proprio visconde.<span class="pn">{324}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00127">XXVII<br>
+Preliminares</a></h2>
+
+<p>Antonino, voltando para o interior da casa, disse apenas de si para comsigo:
+</p>
+
+<p>&mdash;Era fatal este resultado!</p>
+
+<p>E principiou immediatamente, com a mais perfeita tranquillidade, a tomar as
+suas disposições.</p>
+
+<p>Em primeiro logar expediu um telegramma a seu pae, dizendo-lhe que tinha, no
+dia seguinte, um duello grave, e pedindo-lhe para tomar o expresso da noite,
+que o devia trazer á capital pelas oito da manhã.</p>
+
+<p>A essa mesma hora deixaria sua mulher na casa da rua Boudreau, e
+encontrar-se-ia com o conde, nos seus aposentos do <em>boulevard</em> Hausmann
+ás nove horas.</p>
+
+<p>Desejava que, em caso de fatalidade, o conde estivesse junto de Laura.</p>
+
+<p>Em seguida foi para casa do conde de Bauriac, d'onde mandou chamar o barão
+de Chazeuil, que morava proximo, na rua dos Campos Elyseus.</p>
+
+<p>Os tres conferenciaram em seguida sobre o duello em perspectiva.<span
+class="pn">{325}</span></p>
+
+<p>O conde de Bauriac, entendedor na materia, disse, movendo a cabeça com ar
+preoccupado:</p>
+
+<p>&mdash;Um duello com Lauretto Mina tem um caracter extremamente excepcional.
+Esse homem, em dois duellos que teve, matou um dos adversarios, e feriu
+gravemente o outro, que só escapou por milagre. Jámais foi possivel explicar e
+justificar os botes que lhe valeram esta dupla e sangrenta victoria. Em virtude
+da rapidez do ataque, ninguem viu como os botes tinham sido vibrados. Conheço a
+sua força ao sabre, meu caro visconde, e vel-o-ia, sem inquietação, bater-se
+com os melhores esgrimistas. Mas considerando a fórma... italiana de Lauretto,
+todas as cautellas são poucas. A nossa responsabilidade, como testemunhas
+d'este duello é duplamente seria. Não se trata de regular o negocio, ou de
+apresentar desculpas; mas, emfim, deve haver, e ha com certeza, no conflicto
+apparente, razões occultas, que eu não lhe perguntarei. Nós sabemos, Chazeuil e
+eu, que o meu amigo é corajoso como poucos. Encarregue-nos de dizer ás
+testemunhas de Lauretto Mina que se recusa a dar-lhe explicações, e nós
+acceitaremos a missão satisfeitissimos, não é verdade, barão?</p>
+
+<p>Chazeuil respondeu com um gesto affirmativo.</p>
+
+<p>&mdash;Agradeço-lhes a confiança que em mim depositam, replicou Antonino,
+mas não posso nem devo acceitar o seu offerecimento. Insultei esse homem,
+sabendo<span class="pn">{326}</span> bem quem elle era, e conhecendo o risco
+que corria. Se eu recusasse a bater-me hoje, elle ámanhã offender-me-hia por
+fórma que fosse então inevitavel o duello. Minha mulher não desconfia agora que
+eu fui desafiado, e podia ser informada do novo conflicto que se daria de
+futuro. Peço-lhes, pois, que me deixem terminar este negocio sem perda de
+tempo.</p>
+
+<p>&mdash;Estamos á sua disposição, disse o conde de Bauriac. Tem algumas
+instrucções a dar-nos?</p>
+
+<p>&mdash;Não. Desejo apenas que o duello se realise, sem falta, ámanhã ás onze
+horas. Meu pae só chega ás oito, e eu tenho que fallar-lhe.</p>
+
+<p>Ficou combinado que os dois iriam buscar Antonino, á casa do
+<em>boulevard</em> Hausmann, pelas dez horas da manhã.</p>
+
+<p>Pouco depois d'Antonino sahir, entraram as testemunhas de Lauretto Mina.</p>
+
+<p>Estavam ainda mais perplexos do que de manhã.</p>
+
+<p>Gressier, sobretudo, não podia occultar a inquietação de que estava
+possuido.</p>
+
+<p>Quando o conde de Bauriac lhe disse que era inevitavel o duello, o baritono
+fez um gesto de profundo desgosto.</p>
+
+<p>É que Lauretto rira diabolicamente quando elles lhe tinham dito que o
+visconde acceitava o desafio.</p>
+
+<p>Gressier lembrou-lhe o que o tenor d'uma vez dissera no <em>foyer</em> dos
+artistas:<span class="pn">{327}</span></p>
+
+<p>&mdash;N'um duello eu não arranho nem firo, mato. E ajuntou:</p>
+
+<p>&mdash;Aquella sua phrase de certo foi simples modo de fallar, meu caro. Sem
+duvida não teremos que temer ámanhã um resultado tão tragico.</p>
+
+<p>&mdash;Está enganado! replicou Lauretto, com sorriso feroz. Hei de matar o
+visconde! Hei de matal-o!</p>
+
+<p>Gressier estremecera violentamente, por tal fórma Lauretto pronunciára as
+ultimas palavras.</p>
+
+<p>Quando entrou em casa do conde de Bauriac, o baritono estava ainda sob o
+peso d'aquella desagradavel impressão.</p>
+
+<p>O barão de Chazeuil reparou para o gesto de Gresnier, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;Não me parece que seja caso para temores. O sr. Lauretto Mina é um
+adversario para respeitar... como esgrimista, bem entendido, mas o sr. visconde
+de Bizeux saberá defender-se, com certeza.</p>
+
+<p>Os infelizes artistas temiam as responsabilidades que pesam sobre as
+testemunhas de duellos que occasionam a morte, e desejavam encontrar um meio
+que os levasse a não continuar com as negociações.</p>
+
+<p>Quando se tratou de resolver que sabres serviriam o conde de Bauriac disse,
+segundo o costume, que a sorte decediria.</p>
+
+<p>Nós acceitamos sem o mais leve inconveniente os sabres do sr. visconde de
+Bizeux, disse Nobillet.<span class="pn">{328}</span></p>
+
+<p>&mdash;O sr. Lauretto Mina não ratificaria a sua concessão, observou o
+conde.</p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso retirar-nos-iamos, replicou Gressier apressadamente.</p>
+
+<p>O conde viu-se obrigado a conter aquelle ardor... d'abstenção, affirmando
+que não poderiam ser censurados por tomar a sorte como arbitro.</p>
+
+<p>Foi resolvido que o duello se efectuaria no bosque de Bolonha.</p>
+
+<p>O barão de Chazeuil indicou uma clareira, sobre o mappa.</p>
+
+<p>Encontrar-se-iam n'aquelle sitio pelas onze horas do dia seguinte.</p>
+
+<p>Gressier e Nobillet retiraram-se, porque nada mais tinha que ser combinado.
+</p>
+
+<p>Durante esse tempo Antonino fôra a casa do dr. Despujolles, que deu um salto
+ao saber que o visconde se batia com Lauretto.</p>
+
+<p>Depois, readquirindo a presença d'espirito, disse:</p>
+
+<p>&mdash;Lá estarei com os meus instrumentos, mas, não sei porque, estou
+convencido que elles não servirão ao meu amigo. Já o vi de sabre em punho; ia
+affiançar em como dará uma lição ao ajudante do professor d'esgrima. O que é
+necessario é que não se distraia.</p>
+
+<p>Antonino quiz que o doutor o acompanhasse a jantar em casa de Linda.<span
+class="pn">{329}</span></p>
+
+<p>Despujolles, porém, pretextando affazeres, mas na realidade por temer não
+estar sempre de bom humor, desculpou-se de não acceitar o convite.</p>
+
+<p>O visconde, que não desejava estar só com sua mulher, ao sahir de casa de
+Despujolles procurou e convidou dois amigos para jantar.</p>
+
+<p>Chegando a casa, disse a Laura:</p>
+
+<p>&mdash;Encontrei Heitor e Linage; jantarão comnosco.</p>
+
+<p>&mdash;Desejava antes jantar só comtigo.</p>
+
+<p>E depois, olhando fixamente para o marido, perguntou:</p>
+
+<p>&mdash;Nada de novo sobre Lauretto Mina?</p>
+
+<p>&mdash;Nada. O biltre nem bulio, respondeu Antonino.</p>
+
+<p>O jantar correu alegremente.</p>
+
+<p>A fatalidade, porém, quiz que, pelas dez horas da noite, quando o visconde
+acompanhava os dois amigos até á porta, Jacintha lhe entregasse um telegramma.
+</p>
+
+<p>Antonino voltou para junto da esposa.</p>
+
+<p>Ella viu o carimbo de Saint-Malo, e estremeceu.</p>
+
+<p>&mdash;É um telegramma de teu pae? perguntou.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim, é verdade. Escrevi-lhe sobre a nossa proxima mudança de
+vida. Elle ficou satisfeitissimo e participa-me que vem ver-nos. Chega ámanhã,
+talvez...</p>
+
+<p>&mdash;Deixa ver... disse Laura estendendo a mão para o telegramma.<span
+class="pn">{330}</span></p>
+
+<p>&mdash;Curiosa!... respondeu elle, rindo.</p>
+
+<p>Fez uma bola com o papel, e lançou-o ao fogão.</p>
+
+<p>Laura pensou immediatamente:</p>
+
+<p>&mdash;Bate-se ámanhã com Lauretto Mina.</p>
+
+<p>Mas ao mesmo tempo reflectiu que coisa alguma impediria, que os seus pedidos
+e as suas lagrimas podiam dessocegar Antonino, e resolveu calar-se.</p>
+
+<p>&mdash;Em que pensas? perguntou-lhe elle.</p>
+
+<p>&mdash;Penso que teu pae será um magnifico avô.</p>
+
+<p>E não fallaram mais senão no pae e no filho.</p>
+
+<p>No dia seguinte o visconde levantou-se cedo.</p>
+
+<p>Ás oito horas estava prompto para sahir.</p>
+
+<p>Laura deu-lhe um beijo tranquillo, e limitou-se a recommendar-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Volta depressa, pensa em mim e n'elle!...</p>
+
+<p>O visconde calculou:</p>
+
+<p>&mdash;Não desconfia de nada!</p>
+
+<p>E Laura dizia para comsigo:</p>
+
+<p>&mdash;Não suppõe que eu adivinhei tudo!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00128">XXVIII<br>
+O duello</a></h2>
+
+<p>A entrevista entre o pae e o filho foi grave e terna.</p>
+
+<p>Antonino não dissimulou o perigo que corria, batendo-se<span
+class="pn">{331}</span> com um adversario tão habil como pouco escrupuloso.</p>
+
+<p>O conde disse-lhe com toda a energia viril:</p>
+
+<p>&mdash;Como conheces o perigo e conservas, apesar da imminencia d'elle, toda
+a tua presença de espirito, tens por ti o maior numero de probabilidades.</p>
+
+<p>Antonino não necessitava recommendar Laura a seu pae.</p>
+
+<p>Participou-lhe apenas a feliz nova da gravidez da sua mulher.</p>
+
+<p>O conde abraçou o filho, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Mais uma probabilidade a teu favor.</p>
+
+<p>O visconde entregou-lhe uma carta volumosa, especie de testamento de
+coração, que dirigia a sua mulher.</p>
+
+<p>O primeiro a chegar, um pouco antes das dez horas, foi Despujolles.</p>
+
+<p>O dr. não podia occultar a sua inquietação.</p>
+
+<p>Pouco depois chegaram as duas testemunhas e o seu aspecto socegado reanimou
+um pouco Despujolles.</p>
+
+<p>Antonino subiu para uma carruagem com seu pae.</p>
+
+<p>As testemunhas e o medico subiram para outra.</p>
+
+<p>O conde desejava assistir ao duello, ainda que conservando-se completamente
+estranho a elle.</p>
+
+<p>O dia estava ennevoado, e, para a estação, um pouco frio.<span
+class="pn">{332}</span></p>
+
+<p>Ligeira neblina envolvia as arvores. No espaço passava como que uma nuvem de
+melancholia.</p>
+
+<p>As duas carruagens chegaram á clareira destinada ao duello um pouco antes
+das onze horas.</p>
+
+<p>As testemunhas e o adversario d'Antonino não tinham chegado ainda. O conde
+não se apeiou.</p>
+
+<p>Apertou com força a mão do filho, quando Antonino desceu, e não pronunciou
+uma só palavra.</p>
+
+<p>Pouco depois, porém, quando o conde de Bauriac foi buscar os sabres, o
+velho, que tremia, não conseguiu entregar as armas á testemunha de seu filho,
+tanta era a sua commoção.</p>
+
+<p>A carruagem conduzindo Lauretto Mina, as testemunhas e o medico do theatro
+não se fez esperar.</p>
+
+<p>As quatro testemunhas approximaram-se com os chapeus nas mãos.</p>
+
+<p>Os dois adversarios olharam-se sem se cumprimentar.</p>
+
+<p>No rosto de Lauretto percebia-se uma alegria arrogante.</p>
+
+<p>O d'Antonino conservava-se impassivel e digno.</p>
+
+<p>Nobillet e Gressier, noviços e quasi incorrectos em assumptos d'aquella
+natureza, deixaram que Bauriac e Chazeuil fizessem o que entendessem.</p>
+
+<p>A escolha das armas foi tirada á sorte, conforme tinham convencionado.<span
+class="pn">{333}</span></p>
+
+<p>A sorte designou os sabres de Lauretto Mina.</p>
+
+<p>Depois de procederem á medição das laminas, o conde de Bauriac disse para os
+dois adversarios:</p>
+
+<p>&mdash;Podem conservar as luvas de passeio, se quizerem.</p>
+
+<p>Mas tanto Antonino como Lauretto tinham já descalçado as luvas.</p>
+
+<p>Despiram os sobretudos e os casacos.</p>
+
+<p>As quatro testemunhas tomaram os respectivos logares.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos, meus senhores, disse Bauriac.</p>
+
+<p>Os dois adversarios cumprimentaram-se com os sabres, e cahiram em guarda.
+</p>
+
+<p>Nos primeiros minutos como que se tactearam indecisos.</p>
+
+<p>Depois deram a conhecer o jogo.</p>
+
+<p>Antonino, solido e como que de bronze, conservava-se evidentemente n'uma
+calculada defensiva.</p>
+
+<p>Prudente e desconfiado, seguia e vigiava o jogo de Lauretto, contentando-se
+com <em>parar</em>, rapido, mas tranquillo e frio, os botes do adversario.</p>
+
+<p>O brilho do seu olhar implacavel causava perturbações ao tenor.</p>
+
+<p>Lauretto, ao contrario do visconde, esgremia com extraordinaria presteza.
+</p>
+
+<p>Parecia desconcertar-se, e até por vezes se descobria.<span
+class="pn">{334}</span></p>
+
+<p>Simulava ataques imprudentes, mas coisa alguma fazia com que o visconde
+mudasse de tactica.</p>
+
+<p>O tenor, pouco depois, estava visivelmente cançado.</p>
+
+<p>Gotas de suor perlavam-lhe a fronte larga, onde os cabellos, d'um loiro
+pallido, ondeavam.</p>
+
+<p>O assalto durava já por vinte minutos, quando Bauriac disse:</p>
+
+<p>&mdash;Podem descançar, meus senhores.</p>
+
+<p>Lauretto vestiu o sobretudo.</p>
+
+<p>O visconde conservou-se em mangas de camisa, com os braços cruzados sobre o
+peito.</p>
+
+<p>Ao cabo de sete ou oito minutos, o barão de Chazeuil, olhando para Lauretto,
+disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Quando quizer.</p>
+
+<p>Ao segundo assalto, o tenor continuou não tendo vantagens sobre o visconde.
+</p>
+
+<p>Perguntava a si proprio se o plano d'Antonino não seria esgotar-lhe as
+forças, sem duvida menos resistentes do que as do athletico bretão. Mas se
+assim fosse o duello devia prolongar-se por muito tempo sem resultado
+definitivo, porque os momentos do descanço que as testemunhas concederiam aos
+combatentes bastavam para Lauretto se refazer.</p>
+
+<p>Depois de muitos minutos passados, foi ainda Bauriac quem disse:</p>
+
+<p>&mdash;Podem descançar.<span class="pn">{335}</span></p>
+
+<p>O segundo descanço foi apenas de cinco minutos.</p>
+
+<p>Lauretto tinha quasi a certeza que Antonino atacaria n'aquelle terceiro
+assalto, para pôr fim ao duello.</p>
+
+<p>Portanto começou a esgrimir com toda a presteza, como fizera ao principio.
+</p>
+
+<p>Dirigiu um bote ao visconde, mas Antonino <em>parou-o</em> e
+<em>ripostou</em> com energia.</p>
+
+<p>Depois conservaram-se por alguns segundos immoveis, espiando-se, tacteando
+os ferros, com sensivel crescimento d'irritação mutua.</p>
+
+<p>Repentinamente Antonino fez um movimento e cahiu a fundo, com a rapidez do
+raio.</p>
+
+<p>Lauretto <em>parou em prima</em> e <em>ripostou</em>.</p>
+
+<p>Foi tão rapido o jogo do tenor que o visconde não teve tempo de
+<em>parar</em> e foi <em>tocado</em>..</p>
+
+<p>Ao mesmo tempo, porém, com um bote fortissimo, Antonino attingiu Lauretto,
+trespassando-o.</p>
+
+<p>O visconde cahiu desmaiado, e o tenor cahiu morto.</p>
+
+<p>Despujolles precipitou-se para Antonino, e descobriu-lhe o ferimento.</p>
+
+<p>&mdash;Justamente a duas polegadas da cicatriz feita por Pozzoli! disse o
+dr.</p>
+
+<p>O conde de Bizeux correu, afflicto, mas Despujolles gritou-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Socegue! d'esta vez o ferimento não é grave! D'aqui a oito dias está
+curado!<span class="pn">{336}</span></p>
+
+<p>Durante esse tempo o medico do theatro constatava a morte de Lauretto Mina,
+que Nobillet e Gressier, aterrados, transportaram para a carruagem que os
+conduzira.</p>
+
+<p>Duas horas depois a carruagem d'Antonino parava á porta da casa da rua de
+Boudreau.</p>
+
+<p>Despujolles foi o primeiro a descer, para prevenir Laura. Logo que abriram a
+porta, ella correu para o medico.</p>
+
+<p>Felizmente, porém, o aspecto de Despujolles indicava uma alegria
+extraordinaria.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! Antonino está vivo, não é verdade? perguntou-lhe Laura.</p>
+
+<p>&mdash;O que!... Pois sabia?</p>
+
+<p>&mdash;Adivinhei... Mas diga-me, elle está ferido?...</p>
+
+<p>&mdash;Está, ligeiramente. Se assim não fosse eu não estaria alegre. Já vae
+ver. </p>
+
+<p>Alguns instantes depois, Laura, ajoelhada junto do leito em que fôra deitado
+Antonino, que tinha entre as suas as mãos de seu pae, dizia-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Meu querido Antonino!... é a terceira vez que expões a tua vida por
+minha causa!</p>
+
+<p>&mdash;E agora abandonarás tudo por mim?</p>
+
+<p>&mdash;Ah! sim! E não terás completamente apenas a esposa, terás tambem a
+mãe!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM<span class="pn">{337}</span></p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's O Romance d'uma cantora, by Alfredo Sirven
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ROMANCE D'UMA CANTORA ***
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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