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+The Project Gutenberg EBook of Serão inquieto : contos, by Patrício António
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Serão inquieto : contos
+
+Author: Patrício António
+
+Release Date: April 17, 2010 [EBook #32020]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SERÃO INQUIETO : CONTOS ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano (This file was produced from
+images generously made available by The Internet Archive)
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+ Notas de transcrição:
+
+ O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso
+ em 1920.
+
+ No original havia uma errata. Nesta adição corrigimos os erros ali
+ assinalados, e marcámos as alterações na versão html deste livro.
+ Outros erros detectados durante a transcrição, foram devidamente
+ corrigidos e, quando poderiam alterar a intenção do autor, foram
+ também assinalados na versão html.
+
+
+
+ ANTÓNIO PATRÍCIO
+
+ SERÃO INQUIETO
+
+ CONTOS
+
+
+ LIVRARIAS AILLAUD E BERTRAND--PARIS-LISBOA
+
+
+
+
+SERÃO INQUIETO
+
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+DO AUCTOR
+
+OCEANO (versos).
+
+O FIM (história dramática em dois quadros).
+
+SERÃO INQUIETO (contos), 2.ª edição.
+
+PEDRO O CRU (drama em 4 actos), 2.ª edição.
+
+DINIS E ISABEL (Conto de primavera).
+
+_Em preparação:_
+
+POEMAS.
+
+O REI DE SEMPRE (Tragedia Nossa).
+
+SHEHÉREZADE (contos).
+
+CINCO DIÁLOGOS DE SONHO.
+
+
+Composto e impresso na Tip. da Empresa Diário de Notícias
+Rua do Diário de Notícias, 78
+
+
+
+
+ANTÓNIO PATRÍCIO
+
+SERÃO INQUIETO
+
+CONTOS
+
+2.ª EDIÇÃO
+
+
+LIVRARIAS AILLAUD E BERTRAND
+
+PARIS--LISBOA
+
+LIVRARIA CHARDRON
+
+PORTO
+
+LIVRARIA FRANCISCO ALVES
+
+RIO DE JANEIRO
+
+1920
+
+
+
+
+A
+
+ANTÓNIO CÂNDIDO
+
+
+ Ecris avec du sang et tu apprendras que le sang est esprit.
+
+ _Ainsi parlait Zarathoustra._
+
+ F. NIETZSCHE.
+
+
+
+
+DIÁLOGO COM UMA ÁGUIA
+
+
+Diálogo com uma águia
+
+Fui jantar hontem ao palácio. Estava lindo! Felizmente ninguêm. Tudo
+deserto. Quando eu desci do restaurante, a accender um Laferme com
+preguiça, caía a tarde de outono em vitrais ricos p'ralêm das ramarias a
+despir-se. Passeei algum tempo na avenida, e sem saber porquê, indo ao
+acaso, fui estacar nesse recanto triste onde mora engaiolada uma águia
+velha. Há que tempos conheço êste mostrengo, num abandono de asilo, de
+ar pedinte, com asas que diríeis paralíticas, de um tom coçado e neutro
+de miséria!... Uma águia isto, êste espantalho! A decadência reles de
+estas asas que tanta vez olhei com indiferença, nem eu sei bem
+porquê, impressionou-me. Um animal de fábula, de mito, um ser que bebeu
+sol de olhos abertos, curvava as garras frouxas num poleiro, e depois de
+carnagens e aventuras, encolhido, misérrimo, com fome, acabava a aspirar
+a um meio-bife, como um vadio à porta de um café. Coitada! Teve uma
+forma assim aquela águia que saboreou Prometeu numa montanha!
+
+A gaiola está sórdida, está imunda. Antes estivesse empalhada num museu,
+ou no quarto de trabalho de um zoólogo, sócio da Academia, homem de
+estudo, que ao voltar da rua ou da glória, lhe pendurasse do bico o
+chapéu alto. Coitada! Coitada! E notei com um calafrio, que pronunciara
+alto êste «coitada», com uma voz que a mim mesmo surpreendeu pela
+inflexão perturbante de quinto acto. Olhei a águia. Vi-a encolher-se
+tôda, contrair-se, enclavinhar as garras no poleiro, como a uma dor
+aguda que a varasse. Encarou-me por fim, olhou-me todo, fazendo-me corar
+dos pés ao côco, e com uma voz que não era a voz da fábula, sem nada
+de lendário, sem estranho, com uma voz normal de velha beata, arrastada
+e roufenha, quasi gaga, cacarejou num tom de dor e mofa:
+
+--Ao que eu cheguei! Ao que eu cheguei! Já tem pena de mim _isso_ aí
+fora... Antes estar morta e podre, antes estar podre...
+
+Estarreci. Não era o impossível realizado dessa carcassa de águia a
+falar alto, a falar como eu, que me empedrava: nem sequer o estranhei
+naquele instante; mas o dolorosíssimo desprêzo com que ela me chamou
+_isso aí fora_, com que ella ouviu que um _isso_ a lamentava. Deitei
+fora o cigarro bruscamente, compus um momo frio de desdêm escondendo a
+irritação que me excitava, e premindo a bengala contra o queixo,
+retorqui-lhe benévolo e grosseiro:
+
+--Não percebo o seu desprêso, não me atinge. Eu não disse «coitada» p'rá
+ofender. É sempre triste ver uma águia presa, mas numa gaiola, assim, é
+lamentável. P'ra mais, conforme vejo no letreiro, foi um comendador
+que a ofereceu... E a gaiola...
+
+--Que tem? Falta de estilo?
+
+--Está cheia de excrementos. Está indecente.
+
+--Já não diria isso se os visse cair de alto, no deserto, sôbre o
+granito cariado duma esfinge... Scenários, digo-lho eu, literatura...
+
+Eu então requintei de pedantismo, e perguntei-lhe a rir de que alta
+estirpe, de que águias reais, de que família, ela veio a cair neste
+poleiro onde agora a ouvia perorar num claro entardecer de intimidade,
+com idilios de guardas e criadas, raros bebés jogando às escondidas e um
+homem a varrer as fôlhas sêcas. Coçava-se a hesitar, com o bico baixo.
+Sacudio as longas asas poeirentas e com uma voz de sono, começou:
+
+--De alta estirpe, sim, de uma família de águias antiquíssima. Uma das
+minhas ancestrais, como agora se diz, fêz viagens épicas na Judeia, e
+num crepúculo de assombros, abrindo com as garras uma cordilheira de
+nuvens, vio pregado na cruz o Hebreu Doce, e logo desceu ao morro numa
+gula tão doida, que ensanguentou no ar de sêda as asas bravas... Rasgou
+o peito magro do Homem-Deus, e ficou doida para sempre, doida, doida, na
+alucinação dêsse manjar patético, de martírio divino e desespêro. Porque
+ela ouviu a confidência do Heroi meigo... Mas não posso contar-lha, nem
+mais pio! É um segrêdo de família, é o meu segrêdo.
+
+Amuei, retorqui num tom mimalho:
+
+--Mas então, se não podia contar, p'ra que me falou nisso? Eu sou de uma
+curiosidade feminina. Já não saio daqui sem que mo diga.
+
+--Mau! O senhor é uma criança. Que tolice! Dezenas e dezenas de avós
+meus, gerações e gerações de águias marinhas, levaram o segrêdo herdado
+e não traído, que nem ao sol, que é o deus das águias, revelaram. E
+quere agora o senhor com um papelzinho que lhe custou uns cobres (se o
+pagou) violar o murmúrio que tem séculos, e é a última vibração
+daquele espírito que vestiu de nebulosas tôda a Vida... Sabe que mais?
+Estou já arrependida de falar.
+
+--Não se zangue. Juro-lhe, juro-lhe que não digo nada a ninguêm. Se
+soubesse o que eu sei!... Segredos de família, dramas... dramas...
+
+Esperei um instante ansiosamente. A águia inteiriçou-se, sem me olhar,
+bicando longes de memória, de saudade:
+
+--Não sei que tenho hoje. Velhice, morte próxima talvez,
+pressentimentos... Quando essa avó longínqua cravou as garras no peito
+d'êsse Réu, e lhe bicou o coração e bebeu sangue, sentiu que
+enlouquecia, que era outra... Como se ferisse uma irmã, teve remorsos;
+fixou os olhos bêbedos de sol nos olhos d'Êle, refrescou-lhe com as asas
+a cabeça, empastada em suor, de um verde lívido...
+
+A cruz que estremecia, ficou hirta. E foi então, foi então que Êle lho
+disse...
+
+--Mas o quê? O quê? Diga depressa.
+
+--O segrêdo, senhor, o meu segrêdo.
+
+--Mas qual é afinal? Quere torturar-me...
+
+--Renegou-se a Si-mesmo. Retractou-se! Disse o remorso de não ter
+vivido, a tristeza infinita, o desespero e o mal sem remédio de ser
+virgem, de morrer no corpo morto de uma árvore, único corpo que sentiu,
+o de um cadáver... As estrêlas que nasciam no céu dúbio eram pr'ó Moço
+Hebreu pólen doirado, e a sua alma moribunda abria tôda como os hortos
+ideais da Galilea... O peito arqueou-lhe mais, contracturado... Queria
+largar a cruz p'ra poder dar-se, à terra dêsse cerro, a alguma forma, a
+um corpo de mulher, a alguêm, a alguêm...
+
+A voz da multidão pela ravina era um marulho de ressaca mui confuso, e
+Êle sentiu entre pragas e risadas, entre os lamentos e os insultos que
+silvavam, sentia vozes de mulher... ouviu, ouviu-as... Só elas Êle
+ouviu, ouvia sempre... Queria falar ainda, quis falar-lhes e pedir-lhes
+perdão do que lhes disse, com parábolas mentirosas de doçura e com
+olhos de lago sem desejo... Esvaía-se em sangue, ia azulando. Foi então
+que a minha avó num voo lento, lhe emmoldurou nas asas côncavas a
+Face... e que ela ouviu, senhor, e que ela ouviu...
+
+Calou-se um instante imóvel no poleiro. Reparei. Era o guarda que passava.
+
+--Já não sei onde ia. Estou com febre. Ah! No que ouviu a minha avó
+naquele instante... Quando eu penso nisso, quando penso... Imagine, se
+pode, ora imagine... Êle que era um Adivinho, Êle o Vidente, num dêsses
+instantes de génio que abrem séculos, previu, previu bem claramente,
+como se mentiria à Vida em nome d'Êle, a morte da Beleza e da Alegria, a
+Tristeza e a Doença em nome d'Êle, séculos e séculos de vida envenenados
+por o sangue de amor que Êle vertera, e iria embebedar os homens muito
+tempo, para sempre talvez, talvez p'ra sempre. Sentiu então que a querer
+salvá-los, os perdera... Certo, êsse instante de dor sempre ignorado
+foi o maior de dor que alguêm viveu. E como Êle a diria, como...
+
+--Em que língua falou? Foi em hebraico?
+
+--Foi na língua das asas que Êle o disse. Não lha posso ensinar, já me
+não lembro. Quando me engaiolaram, esqueci-a. Mas que impressão lhe faz
+o meu segrêdo? Se os homens o soubessem, seria Êle na verdade o Redentor...
+
+--Sim, sim. É bem justo o que me grasna. Shelley tê-lo-ia amado como
+irmão, e Nietzsche, o próprio Nietzsche...
+
+--Bem sei. Êsse afirmou com pompa lá p'rò Norte, que Êle decerto se
+teria retractado se tão cedo o não crucificassem. Foi minha mãe que o
+disse a Zaratustra. Zaratustra ouviu mal, não disse tudo. A verdade é
+assim, como eu lha conto. Parece que os homens riram do filósofo,
+acharam tudo isso uma tolice...
+
+--Acharam...
+
+--E afinal êsse Hebreu crucificado, no instante supremo de tortura,
+quando p'ralêm das nuvens o esqueciam, chamava só por Pan, o grande
+Pan! Se os homens soubessem isto e o entendessem, teria o grande Pan
+ressuscitado. Seriam brancas estas pobres asas.
+
+--Brancas? Porquê?
+
+--Durante séculos tivemos asas brancas, todas nós, águias da minha
+estirpe. Foi só depois que Pan morreu, que elas ficaram pretas, como
+luto. Quem se lembra de Pan por êstes tempos?...
+
+--Os que sabem amar, os que ainda amam.
+
+--Os que sabem amar!... Êsse Hebreu mesmo só conheceu o Amor no alto da
+cruz. Viveu como um fantasma transparente, com sonho nas artérias e nos
+olhos... Só escoado em sangue, no madeiro, viu nos olhos da minha avó
+sanguissedenta, dois espelhos do Amor, irmão do sangue...
+
+--Conhecem lá o amor aves de presa!
+
+A águia crispou as garras no poleiro e casquinou um riso muito sêco, que
+soava sem timbre, como tosse. Depois mudou de aspecto. Começou a
+tremer, tôda friorenta, as asas como andrajos mais pendidas, e nos olhos
+de febre, muito fitos, uma grande saudade que varava.
+
+--O amor das águias... o amor das águias...
+
+--Que tem? Está comovida. Conte-me o seu amor. Sou todos ouvidos.
+
+--O meu amor... o meu amor... Já me não lembro. Já não posso dizer-lho.
+Vai tão longe!... Sou uma velha tonta, sem memória, um farrapo de penas
+para escárnio. Nem olho o sol em face há muito tempo. O meu amor... o
+meu amor... Já me não lembro. Coisas sem forma... nuvens... nostalgias...
+
+Fêz uma pausa. Parecia mais adunca, mais mirrada.
+
+--No convés de um navio abandonado, amei no mar do Norte, aos vagalhões,
+noites e noites, bêbeda de espuma... Havia a bordo um marinheiro morto.
+Lembro-me bem. Que noites! Que mar alto!...
+
+Tive um ninho e filhos pequeninos, num jardim vago, ao sol da
+meia-noite... Que silêncio! Sentia-o a passar por entre as garras...
+
+Ensandeci de gôzo no deserto... Ouvi a Esfinge falar, ouvi a Esfinge,
+quando o sol lhe fendeu todo o granito, pôs ranhuras de dor nos olhos
+átonos, e escancarou a bôca em rictos duros... O que eu ouvi à pobre?
+
+Soluçava!... Eis o inigma afinal, o grande enigma, à hora das miragens,
+do delírio, quando o sol enraivece, é só desejo, e o deserto urra no
+silêncio, e as areias escaldam e o ar zune... Amei... amei... amei na
+terra tôda... Desfraldei o desejo, cravei garras. Olhei o mar saciada e
+compreendi-o.
+
+--Tem saudades do mar, aí na gaiola?
+
+--Como um marinheiro preso... doidamente... O que eu viajei, o que eu
+viajei por sôbre a espuma!... Sei as lendas do mar como ninguêm.
+Contou-mas numa rocha um corvo antigo. Como sabe, os corvos vivem
+séculos... Sabia-as todas êsse velho amigo... naufrágios e terrores...
+dramas da névoa... O mar! O mar! O que eu amei no mar! Mas o senhor não
+compreende, o senhor não sabe. Que sabem do Amor os homens todos?... Foi
+êsse Hebreu, sem querer, que os desgraçou. Fizeram ao Desejo o que fazem
+às águias quando podem... Está como eu o Desejo: engaiolaram-no! Fizeram
+do Amor isto... um dever! Um dever... um dever... um dever triste!
+Empalaram-no em leis, codificaram-no. Até fizeram isso... o casamento! E
+vivem em gaiolas, os seus lares! Raça de escravos! Se êsse Hebreu os
+visse...
+
+--A senhora é uma águia, não percebe... Eu não posso explicar-lhe a
+Sociedade...
+
+A águia olhou-me com um desprêso frio.
+
+--O quê? Não sei? Sei mais do que Balzac. Eu li-o todo em casa de um
+burguês. Vivi lá dez anos de amarguras. Estive presa primeiro no
+quintal. Depois cortaram-me as asas e soltaram-me. Soltaram-me
+mutilada pelas salas... Canalha! O que eu odeio os homens... As
+crianças, veja o senhor os anjos!... arrancavam-me as penas,
+espetavam-me o corpo com agulhas, e um dia um criado, na cozinha, tentou
+picar-me os olhos às risadas, a rir, a rir... como só riem homens. Sofri
+dez anos entre essa canalha. Era uma gente séria, muito séria. Vi a
+Família, a Tradição, vi tudo. Não queira argumentar, não diga nada. Sou
+uma águia, mas conheço os homens.
+
+--De acôrdo. Eu não duvido. Não quero discutir, não argumento. Mas
+falamos do Amor, e apenas digo que há ainda quem ame sôbre a terra...
+gente da minha espécie... homens... homens... O amor, há-de a senhora
+concordar, não é um monopólio de asas nómades... Um bípede implume
+tambêm ama. É raro, eu sei, amor genuíno, é raro. Mas existe ainda,
+afirmo-lho eu, existe ainda...
+
+--Que novidade! Pois não lhe disse já que li Balzac? E viajei, e
+vivi mais do que pensa.
+
+Parou um instante, o olhar scismático, sem foco:
+
+--... Uma vez, num céu da Andaluzia, vi num jardim mourisco dois
+amantes. Senti o cio encrespar-me as asas largas e desci p'rós ver de
+perto na luz de ouro... Era na paz de uma cidade morta. Pousei num dos
+ciprestes do jardim. Tinha uma taça de alabastro esverdinhada, e uma
+água glauca que cheirava a febre. Era junto da taça que se amavam, sob a
+garra do sol, loucos de raiva. Fiquei quêda a aspirá-los muitas horas.
+Que corpos fortes! Eu achava-os lindos. Dormi na torre da igreja, numa
+gárgula, e de manhã voltei p'rós ver ainda. E assim dias e dias... Uma
+vez demorei-me, vim mais tarde, e encontrei-os imóveis e enlaçados.
+Tanto tempo os vi assim e tão imóveis, que pensei: _estão talvez mais
+que adormecidos..._ Desci. Bati-lhes com as azas nos cabelos. Cravei as
+garras devagar nos seios dela... Estavam mortos! Julguei então
+enlouquecer de gula. Devorei, devorei, até à noite... Lembro-me que
+sorvi os olhos dela. Estavam secos de amor. Eram cinzentos...
+
+--Que horror! O que a senhora fêz!...
+
+A águia ergueu as asas num espanto e tornou a fechá-las lentamente.
+Depois, com grande enfado, foi dizendo:
+
+--Que absurdos macacos são os homens! São os animais mais torpes que eu
+conheço. Como tudo que vive, como todos, só pensam em gozar, gozar a
+vida... e com esta obsessão a estorcegá-los, prendem-se os braços,
+castram os desejos, adoentam-se, torcem-se... progridem. Querem morder,
+morder bem fundo... e beijam-se; sentem calor e andam ao sol vestidos;
+amordaçam o instinto, os imbecis!... Encerram o desejo nas alcovas, onde
+não entre sol, sombra de lua... Tem estatutos, cláusulas, parágrafo. Não
+fecundam a amar, são fabricados: são produtos de indústria os homens de
+hoje! Chamam a isto Civilisação. Não vivem por viver: tem deveres a
+cumprir, obrigações... E tudo isto em códigos, sistemas, em religiões,
+teorias, em morais!... P'r'ós que tentem ser homens a valer, há prisões,
+há leis, ha tôda a Ordem! Existem já na terra há muitos séculos, e ainda
+não começaram a viver... ou, se viveram, foi na Pre-História ou na
+Pre-Lenda! Que macacos absurdos! Que macacos!
+
+--Mas pare um instantinho, oiça, oiça...
+
+--Não me mace, senhor, não me interrompa... O que mais os consome e os
+faz grotescos, e os enche de vaidade, é a Consciência, o Espelho, o
+Guia, o grande Guia, que os levou a isso que são hoje...
+
+Atalhei, como quem aponta um cumplice:
+
+--A culpa foi dêsse Hebreu de quem falámos. Talvez se o seu segrêdo se
+soubesse...
+
+--Não foi só d'Êle, foi de muitos outros... Antes d'Êle e depois..., de
+muitos outros.
+
+Tremeu-lhe o corpo todo. Arrepanhavam-se-lhe as penas. Estava outra.
+Via-a transfigurar-se com espanto.
+
+--O senhor é bem um homem. Não se pode nutrir sem illusão. Quando há
+pouco lhe disse o meu segrêdo, dei-lhe a entender que se êle se
+soubesse, havia na verdade um Redentor, os homens viveriam sôbre a
+terra. Tive pena de si que é um desgraçado. Sempre lho digo agora: era
+inútil! Conheço bem os homens por meu mal. O segrêdo do Hebreu que lhe
+contei, não é um caso único: é de sempre. _Á hora de morrer--a uma
+águia, aos lençois ou ao travesseiro, todos os homens tem como êsse
+Hebreu, um segrêdo supremo a revelar. É apenas isto: a confissão de que
+morrem sem viver._
+
+Continuou depois com o bico alto:
+
+--Os homens são uma espécie condenada. _São bastardos de planta e de
+fantasma._[1] Quem disse isto? Não sei... estou sem memória.
+Raça de escravos vis, raça de escravos! E p'ra fugir à Vida o que
+inventaram! Como trabalham, suam e tressuam!... Dissecam tudo, árvores e
+pedras, fecham-se em quartos a estudar micróbios... E cada dia são mais
+desgraçados, mais fracos, mais inquietos e mais tristes!... Cada dia se
+embrulham mais em roupas, põem mais vidros nos olhos, tem mais mêdo... E
+cada dia fogem mais à vida! Que imbecis! Que imbecis! Que espécie torpe!
+
+Sentia-me exaltado, nervosíssimo. A voz saíu-me estrangulada, rouca, em
+sobressaltos, brusca, sem fluência:
+
+--A senhora diz coisas que me espantam, que por vezes são justas e
+terríveis, mas há outras tambêm que não entende, que não pode entender,
+sim, que não pode. É natural. A senhora é de outra espécie. Tem vivido
+com os homens mas é águia... e águia ficará até morrer.
+
+Parei. Sentia-me vazio, em suores álgidos, quási incapaz de articular
+palavras. Ela então, com a plumagem toda crespa, transfigurada
+agora, agora outra, já com metal na voz, interrogou-me:
+
+--O quê? O quê? O que é que eu não entendo?
+
+Sem recursos, nulo, desvairado, atirei-lhe êste lugar comum, como se
+estivesse a falar com um jornalista:
+
+--Por exemplo: o Sentimento, a Beleza moral que há no Universo!
+
+Vi-a saltar do poleiro, esvoaçar, bater asas de fúria nos arames, e
+recaír depois na mesma pose, a arquejar, asmática de raiva. Ficou assim
+sem fala ainda algum tempo. Apeteceu-me fugir. Tive vergonha. A voz dela
+por fim veio em arestas, ferindo o meu orgulho já ulcerado:
+
+--A Beleza moral!... O Sentimento! Que fizeram com isso?... Que fizeram?
+A Harmonia social, êsse concerto que é de rasgar os olhos e os ouvidos.
+A fome, a revolta, o desespêro... A raiva de saber, de analisar, de
+fechar em teorias toda a Vida... A Dúvida, a loucura metafísica, e o
+culto da dor, êsse onanismo!... A impotência em tudo, a
+impotência... E por paródia à luta de viver, uma luta sem garras,
+enluvada, um ódio triste e covarde, corrosivo; a intriga e a cilada pela
+fôrça; a caridade que é o egoísmo doente, e o culto dos ídolos, os
+cultos, a escravidão aos deuses e às ideias... A Harmonia social... essa
+gaiola onde vivem a uivar os homens todos!
+
+Dava gritos estrídulos, sarcásticos: as penas erriçavam-se de fúria.
+
+--Oh! O ódio dos homens, que grotesco! E há classes opressoras e
+oprimidas, com fórmulas, com cláusulas, com leis!
+
+Não é o ódio celular, contracturante; não é o ódio animal todo de
+instinto; não é o ódio de todos quantos vivem! O ódio dos homens foi
+canalizado, por seitas, por classes, por partidos, em dogmas,
+preconceitos, covardias. Nos outros animais o ódio é orgânico! Todo o
+combate é sempre pela Vida. O dos homens é anémico, missérrimo, e
+defende o dever, o preconceito, as taras de domínio e servidão, e até
+mesmo na revolta é miserável, pautando a Vida, sistematizando. É o
+ódio da paródia de viver, do fantasma de Vida que êles vivem!...
+
+Parou. Eu estava como tonto, desvairado. Tinha decerto endoidecido essa
+águia velha, delirava, dizia só loucuras; mas eu não achei nada para
+opor-lhe, p'rà aniquilar nêsse silêncio de fadiga. De súbito lembrei-me:
+a Arte, a Arte, tôda a minha quimera de mãos postas!
+
+Sentindo-me desta vez irredutível, gritei-lhe p'rà gaiola:
+
+--E a Arte? A Arte? Consolação suprema de viver...
+
+Teve farpões de escárneo ao responder-me:
+
+--A Arte!... A Arte é a expressão da Vida. São os homens que o dizem,
+não é assim? Ora se êles não vivem, se não vivem, se parodiam a Vida a
+cada instante, se fogem mais e mais da grande Vida, a Arte é uma paródia
+de paródia, um espectro de espectro... miserável! Querem com tintas
+imitar o céu, e transcrevê-lo em lonas, em madeiras!... O céu bebe-se
+aos haustos, com os olhos; olha-se por olhar, sem intenção;
+recebe-se nas pupilas extasiadas, que se alargam mais com sêde dêle... É
+o que faz um sapo a olhar os astros! É o que os homens não compreendem
+nunca! Toda a terra é feliz se o sol a doura; tudo germina, as pedras e
+as sementes... Só os homens que se cobrem p'ra evitá-lo; que nas cidades
+gastam horas a vestir-se; que tem por céu só um paninho côncavo a que
+chamam guarda-chuva ou guarda-sol; que o filtram nas igrejas por
+vitrais, que usam lunetas, que o receiam sempre; que tem medo da morte
+às suas garras, deslumbramento e orgulho de águias soltas; só os homens,
+absurdíssimos macacos, querem copiá-lo em lonas, em madeiras, com
+tintas, com carvões, com paus de côr!...
+
+Que macacos absurdos, que macacos!
+
+Bem quis interrompê-la, não podia. Vibrava de loucura negadora,
+hierática, estranha, convulsiva.
+
+--E nem poupam o mar nem as searas, as penedias trágicas, as rosas!
+Metem o mar nuns centímetros de lona, e com medo que as marés vão
+sufocá-los (a águia ria, ria como louca) mandam emoldurá-lo,
+encaixilhá-lo!...
+
+Prendem-no assim nas salas, nas alcovas. Oh! A Arte dos homens! Coisa
+imensa! A paródia da Vida... paralítica! Mas vá alguêm dizer-lho! Vão
+dizer-lho! Ainda os antigos cegavam as estátuas... Êstes abrem-lhes
+olhos, bem abertos, a reflectir... o quê? A vida dêles, a paródia de
+vida que êles vivem e que andam a imitar ainda por cima!...
+
+A noite começava a entrar nas coisas. Um grito de pavão varou o parque,
+assustou os jardins que adormeciam, e um instante no ar, teve
+saudades... Uma angústia sem nome andava esparsa, caía das árvores
+grisalhas, que pareciam à escuta, com terror. Em frente o chorão vergava
+mais, quási rasava a terra com doçura, em curvas de um encanto nazareno.
+Uma sereia aguda de vapor, já a sair a barra certamente, mugiu como um
+agouro de naufrágio. A treva ia afogar tôda a gaiola. Não via bem a
+águia, mal a via. Só os olhos e as asas muito vagas... Era um fantasma
+de águia àquela hora, mas crescia em mim desmesurada, como um ser de
+fábula e tragédia, oráculo sarcástico e sinistro, lendo o horóscopo num
+poleiro reles, como se rasgasse a esperança com as garras. Afinal era eu
+a sua presa, e ouvia-a passivo a torturar-me.
+
+--A Arte dos homens! Que mentira triste! Em vez de serem belos como
+estátuas, derrancam mais os corpos para erguê-las! Até modelam sonhos e
+quimeras!...
+
+Nunca olharam as nuvens, nunca as viram, esses mármores ao vento,
+fluctuando... E o vento! O vento! Sabem lá ouvi-lo! Tanto não sabem que
+quando êle prega, durante o inverno em que êle é todo génio, metem-se em
+casas grandes, bem fechadas, p'ra ouvir sons, sons, imensos sons...
+Chamam a isso Música. Conheço-a. Desde que vivo com os homens,
+perseguiu-me. Nem aqui na gaiola eu lhe escapei. Toca aos domingos
+horas, no coreto. Enche-me mais de raiva e de miséria. A música das
+águias como é outra!... Quem a ouviu como eu quando era águia, antes de
+ser esta carcassa reles! Nas montanhas, no mar, na névoa móvel!...
+Sobretudo no mar, no grande mar... O que eu viajei nos temporais a
+ouvi-la! Ás vezes partíamos no vento em turbilhões, asas e asas,
+nómades, pairantes... Regougos de ondas, nuvens a rasgar-se, e os nossos
+gritos, bêbedas de espuma!... E mil vozes de formas nunca ouvidas, a voz
+de tudo, tudo, a voz de Pan! E o silêncio, o silêncio... Certos
+instantes únicos, supremos, em que êle se ouve, o temporal hesita, e um
+pânico arrepanha as asas todas... Como é agudo, agudo, êsse silêncio!...
+Nas meias-noites de estio... o que eu gostava de despertar no éter
+melodias, ferindo-lhe o teclado luminoso, numa alma de voo,
+sereníssima... Punha medo com o rumor das minhas asas às nuvens que
+dormiam extasiadas, e auscultava a noite pelo céu, até ouvir a manhã
+vibrando tôda, quando o ar é uma orquestra miriadaria e os homens dormem
+nas alcovas mornas...
+
+Estendeu por minutos seculares o seu monólogo patético de velha, essa
+arenga evocativa de fantasma, lapidando o meu ser com ironias, em que
+memórias épicas passavam, como o granizo aos pobres em dezembro. Todo o
+meu senso crítico se foi na rajada feroz dos seus desprezos: era uma
+fúria aguda de vingança, de esfrangalhar essa carcassa oráculo,
+varar-lhe os olhos com a ponteira da bengala, acabá-la de vez,
+estrangulá-la. Retorqui-lhe então com a voz dura, pondo raivas de morte
+nas palavras:
+
+--Sim, sim... Diga ainda mais... o que quiser. Cante à sua vontade,
+minha amiga! Insulte os homens, ria, desgraçada. Nem me dou ao trabalho
+de a esmagar. Só lhe pergunto isto, apenas isto: quem a tem aí bem presa
+na gaiola? A si e a êsse mocho seu vizinho? Ao leopardo, ao lobo, a
+essas feras? Quem lhe dá por esmola bifes podres, e faz de si o riso das
+crianças, e a há-de empalhar depois de morta?... Você é uma águia tonta,
+dementada, que a escravidão ensandeceu de vez. Melhor, melhor! Assim
+faz-nos rir mais. Grasne p'raí; rebente a divertir-nos!...
+
+Parei pr'a tomar fôlego, cansado; mas o relevo imóvel dessa ave, a sua
+forma heráldica de bronze, alheavam-na tanto desta cólera, do desespero
+besta em que eu tremia, que me pareceu inútil continuar e me senti um
+títere grotesco. Era o mais infernal dos casuístas, essa águia
+impossível de ferir, feita de sombra, emoldurada em sombra, presa nessa
+gaiola e mais distante que se esgarçasse as asas nas estrelas. Emquanto
+assim pensava, ei-la que fala:
+
+--Bem certo, sim, bem certo o que me diz! O Homem alastra pela terra
+como um cancro, pervertendo a vida, corroendo. Reduziu-me a mim, asas e
+garras, a um animal grotesco de capoeira, meio tonto de dor e de
+miséria. E as feras!... Exibem-nas nas feiras e nos circos, em gaiolas
+de ferro, à luz eléctrica, ante o pasmo alvar das multidões, rindo da
+força mutilada e doente. Cortam as jubas aos leões, abrem-lhes
+risca, dão-lhes chicote e bifes, civilizam-nos! E quando os tem nas
+jaulas, sonolentos, sem força e sem instinto, entorpecidos, com as
+pupilas de oiro marasmadas, com as garras inúteis já sem preza, acham-se
+heróicos porque os chicoteiam, mesmo quando êles tremem de sezões, mesmo
+quando êles morrem de saudade!... Não há amor de asas num rochedo à
+névoa, que o terror dos homens não errice!... Antes disto, porém, já os
+adoraram. No Egipto, em tardes de colheita, o voo das íbis riscava no ar
+do Nilo curvas em que êles viam profecias... E outros como Isis, como
+Anúbis, sucumbiram no tédio de ser deuses, e depois das pompas rituais,
+de oferendas, de orações, de sacrifícios, são os servos misérrimos do
+homem, domesticados já, civilizados!
+
+Mutilam as árvores, deformam-nas; exilam certas plantas nas estufas, com
+saudades do húmus e do sol, e trazem na lapela rosas mártires, que
+abriam de desejo como noivas, à espera do pólen bem-amado! Não entendem
+o sangue nem a seiva: vão pervertendo tudo, corroendo! Até que um
+dia, não mais florestas, catedrais a Pan! A terra será calva como um
+sábio, e cordilheiras, montes e ravinas serão assassinadas, cavacadas,
+p'ra que os homens mobilem os palácios, p'ra que tenham poleiros nas
+gaiolas... Os areais, as deserteiras ruivas onde o mar espadana e se
+extasia, terão motores, instalações fabris p'ra utilizar a raiva das
+marés, em quê, deus-sol?... a enriquecer indústrias... Todo o azul será
+viuvo de asas, e os filhos das águias e das feras nascerão em gaiolas e
+em jaulas! Ah! Mas tambêm nada haverá mais triste do que os filhos dos
+homens, as crianças... A inocência, essa graça animal, de flôr e de ave,
+que êles chamam divina... os imbecis! não mais existirá nos filhos
+dêles, reflectindo nos olhos já doentes, a farça de viver, como nos
+velhos... Será assim um dia, será assim. Onde irão depois refugiar-se?
+Nos braços do amor, do amor dêles, em que um olhar de mulher lembra um
+naufrágio, e faz que, cada trança, por mais loira, venha a ser
+sempre a fôrca de um destino! A terra será a catedral do sofrimento, fim
+da farça sinistra que êles vivem, a inventar anestésicos e dores!
+
+Certo, o farrapo de penas que hoje sou, é bem obra dos homens. Certo,
+certo... Mas aqui mesmo, num poleiro reles, garras em cotos, quási
+paralítica, consola-me pensar que nenhum dêles será nunca o que eu fui,
+asas e garras, vivendo pr'ó Desejo pelo instinto, e em nomaderias de
+vertigem, amando tudo, tudo, a terra tôda, na luxúria suprema e
+inconsciente, de viver, de viver só por viver!
+
+Fêz uma pausa. Tive a visão daquela vida fulgurante, evocada em gritos
+de delírio, por essa pitonisa de asas longas que cortava com o bico o
+meu destino.
+
+Foi então que eu ouvi estas palavras, que eram mais que um soluço, que
+um crocito, uma espécie de guincho em que houve lágrimas.
+
+--Iriam cair nas mãos dos homens os meus filhos!...
+
+Lambeu-me um calefrio de vertigem.
+
+Era demais, meu Deus, era de mais! Não era já o meu orgulho em chaga,
+enovelado como um trapo nessas garras: o que eu agora queria, o que era
+urgente, era mostrar a essa águia, a essa mãe, que o seu dolorosíssimo
+terror era uma apreensão de louca, uma injustiça: o que eu agora queria
+de alma tôda, era mostrar-lhe o coração dos homens p'ra que ela o visse
+bem e tão patente, como se lhe pendesse a sangrar do bico curvo. Pr'à
+convencer daria tudo, tudo. Procurava um meio, sem achar. Sentia a
+inanidade das palavras. Com uma idea súbita falei-lhe:
+
+--Vou abrir-lhe a gaiola. Vai ser livre.
+
+Era decerto o pasmo que a gelava, porque não saiu da treva uma palavra.
+Eu continuei numa emoção crescente em que vibrava a ânsia de a soltar:
+
+--Vai ser livre, livre como outrora. Acorde as suas asas esquecidas.
+Diga adeus a essa gaiola imunda. Olhe mesmo daí: que encanto de hora! A
+noite arqueia ao pêso das estrelas... Uma palavra sua e abro-lhe a
+porta. Não duvide. Sou forte. É num instante...
+
+O seu recorte altivo de águia em bronze amezendou: fôsse fadiga ou
+tédio. E num becejo vago, interrogou-me:
+
+--Vai abrir-me a gaiola... mas p'ra quê?...
+
+--P'ra quê?! P'ra que antes de morrer domine o espaço... p'ra sentir a
+vertigem do infinito...
+
+--Eu?!... repetiu numa fleugma desdenhosa. Eu?!... Saír dêste poleiro,
+da gaiola? Não sou doida varrida por emquanto. Saír da minha casa, do
+conforto pr'á incerteza da noite, p'rò mistério?... Sou uma águia mas
+vivi entre homens. Já estou civilizada, meu senhor... E se o vento me
+arranca as asas velhas? E se chover, e se chover? Já pensou nisso? Nem
+com as garras enluvadas eu me atrevo... Nem que me cubra as asas de
+impermeáveis...
+
+Nem com um _water-proof_, nem assim...
+
+A águia ria, ria doidamente. Crispei as mãos nos arames, exasperado,
+e com uma voz enrouquecida fui dizendo, num tom de confissão, quási febril:
+
+--Imagina talvez que a não entendo, que sou um homem como os outros,
+imagina...
+
+É natural... é natural. Não me conhece... Mas eu quero dizer-lhe: oiça!
+oiça!
+
+Há em mim um não sei quê de águia marinha. A sua sorte comove-me,
+acredite. Quero tambêm dizer-lhe o meu segredo, quero desabafar,
+contar-lhe tudo...
+
+Bateu as asas com um ruído sêco, e num timbre fatídico de corvo, com uma
+voz de sibila, crocitante, atirou-me estas palavras derradeiras:
+
+--_É cedo, é cedo ainda. Imite os outros. Diga isso ao morrer ao
+travesseiro._
+
+Esse sarcasmo último transiu-me; e como quem se agarra ainda á
+esperança, pus-me a gritar p'rà gaiola, tontamente:
+
+--É o convívio dos homens que nos perde. O seu destino é irmão do meu,
+escute... Queria ser forte e belo, queria...
+
+Falei, falei, falei... Não sei que disse.
+
+Sandices e quimeras e desejos, larvas de ideas, raivas, desesperos.
+Parei por fim.
+
+Já nem lhe via os olhos. Decerto cerrara as pálpebras com tédio. Só o
+vulto de sombra sôbre a sombra se alongara mais, estava maior. Ouvi
+então uma sineta banalíssima, a pôr-me fora sêcamente: era já tarde.
+Olhei ainda a gaiola, despedi-me, atirei-lhe p'ra lá um «adeus» surdo.
+Ao passar na jaula do leopardo, senti um cheiro mau a carne podre.
+Vi-lhe o vulto enigmático de esfinge, a cabeça nas patas dianteiras, os
+olhos de oiro fulvo, fuzilando. Se aquele me falasse, o que diria!...
+Atravessei o parque silencioso, como numa balada, com terror. Vi nas
+acácias os pavões adormecidos, olhei o céu filtrado por folhagens onde
+um langor de outono se esfolhava, e à saída já, p'ra me calmar, molhei
+as mãos febris numa das taças e passei-as nas fontes consolado.
+
+Achei-me emfim na rua, longe dela.
+
+Um rapaz namorava mesmo em frente, a patrulha descia compassada,
+disse-me adeus um côco conhecido: dobrava a esquina um eléctrico
+apinhado. Tinha ainda no ouvido a voz da águia, quando saiu de uma
+janela aberta uma ária roufenha de fonógrafo.
+
+Comuniquei feliz com a vida reles. Depois disto, é evidente, não posso
+mais falar-lhe. Ainda bem! Levava-me ao suicídio essa águia velha.
+
+
+
+
+O PRECOCE
+
+A João de Barros
+
+
+O precoce
+
+Desde que o Emílio estava doente, todos os dias, ao anoitecer, se
+reuniam no seu quarto e assim ficavam algumas horas, numa intimidade
+meiga, como se dessa cabeça de precoce, ungida de sossêgo, dos seus
+olhos de adivinho, de um veludo grande e calmo, se exalasse paz, uma paz
+clara, em que tudo se perdoasse e se esquecesse.
+
+Tinham já lugares marcados. A mãe à cabeceira, logo ao pé a tia Olívia,
+p'ra contar histórias; os outros em redor, e aos pés da cama, em frente
+ao doentinho, o busto nobre do tio Eduardo, já grisalho, a sua máscara
+fina um pouco vaga, como a de todos os que vivem no silêncio como
+outrora se vivia num convento. O pequenino era assim uma figurinha de
+mito familiar, e nas suas palavras lentas, de intuição e de carícia,
+todos se ouviam como o mar nas conchas. Tinha uma voz de sombra amiga.
+Adoravam-no. Mas agora, martirisado de dores, a consumir-se dia a dia,
+as mãozitas transparentes, entravam no terror de o ver pior. E se um
+móvel estalava, um farrapo de luar batia os vidros, ou ao cair da noite,
+a sombra vinha,--tremiam no silêncio, tinham medo, como se
+disfarçadamente a Morte entrasse, viesse de mansinho p'ra gelá-lo.
+
+Às vezes, nas pausas de algum conto ou da conversa, se alguêm se
+voltava, logo os outros inquietos o seguiam; e era vulgar olharem a
+porta de soslaio, como se esperassem alguêm, uma visita...
+
+Todos falavam em surdina, velando a voz um pouco opressa, e assim as
+coisas mais banais tinham um não sei quê de estranho; as palavras caíam
+como fôlhas sêcas e nos olhos de todos havia uma expressão de adeus.
+Nem todos, nem todos! A mãe radiava fé. Bastava ver-lhe as mãos correndo
+a dobra do lençol, de veias altas, entumecidas de ternura, e poisarem
+numa geada de beijos nas mãos do seu filhinho, para sentir a emoção
+louca, religiosa, tendo ressurreições em cada gesto, sarando num olhar,
+numa oração. É que essa creança era a sua própria alma, presa naquele
+leito como um passarito enfêrmo, abrindo p'ra ela olhos enormes, como
+p'rá decorar bem, antes de partir; e dizendo de quando em quando: «mamã,
+minha mamã», num rumor de asa cansada.
+
+Era muito moreno, tinha a testa alta, um pouco bombeada, bôca de lábios
+finos, mento curto, bosselado em covinhas, que a magreza já quási que
+delira. Mesmo quando tinha saúde, ria pouco; não sabia brincar e
+qualquer coisa, o mais simples aspecto, o distraía como numa visão
+inconsciente.
+
+Tinha um ar de quem se lembra. Uma vez foi ao colégio. Voltou com febre,
+doente, a tremer todo, e quando o pai o interrogou, só pôde dizer
+«que não era nada, que não tinha nada». Mas à noite, quando a mãe ia a
+deitá-lo, rompeu a beijar-lhe as mãos, num chôro brusco, e mal pôde
+pedir entre soluços, de mãos postas, p'ra não voltar... p'ra não voltar
+mais ao colégio.
+
+--Sossega, meu filhinho. Quem te fêz mal? Que te fizeram? Não voltas
+mais, não voltas mais. Que te fizeram?...
+
+--Vi bater num menino.
+
+E outra vez o chôro o sufocou, em bagas grossas, torcendo o seu corpinho
+de arbusto à ventania. Nessa noite teve febre, delirou, e os pais
+resolveram que tão cedo não voltava. Pediu então à mãe que o ensinasse.
+Ao caír das tardes, com a costura no regaço, ela dava-lhe lição, e em
+pouco tempo, por entre confidências que eram beijos, êle aprendeu
+maravilhado a ler. O seu amor cresceu ainda, como regado de gratidão.
+Dizia «mamã» como quem reza.
+
+Adorava-a. Nas tardes de sol, os irmãos brincavam no quintal;
+chamavam-no, e como êle era o mais pequeno, faziam-lhe mimos, numa
+grande ternura protectora. Êle não ia, desculpava-se. Preferia ficar
+junto dela, na varanda de pedra, a vê-la bordar.
+
+--Não queres brincar, Milinho? Vai, vai brincar com os manos.
+
+Êle erguia os seus olhos de veludo:
+
+--Deixe-me estar ao pé de si, mamã. Não há nada tão bom p'ra mim.
+
+Raro saíam. Ás vezes, com a mãe, ia às tardes à Foz p'ra ver o mar.
+Voltavam ao anoitecer. Falavam pouco.
+
+--Gostas do mar, Milinho?
+
+--Muito, mamã, muito. É a coisa mais linda que há.
+
+Foi ao voltar de um passeio assim, numa tarde de novembro, que o
+pequenino teve tosse e cuspiu sangue.
+
+--Que te dói? Dói-te o peito?
+
+--Pouco, mamã. Não se aflija. Não há-de ser nada.
+
+O médico veio, aconselhou cautela, receitou. Teve depois com o pai uma
+conferência larga. E foi então que o terror abriu sôbre ela as asas
+concavas, geladas. Não podia dormir. Levantava-se a cada instante, p'ra
+ver se estava bem coberto, se tomara o remédio, p'ra senti-lo. A tosse
+dêle feria-lhe tambêm o peito; transia-a tôda, como um dobre. Vestia-se
+à tôa, sem cuidado. Tudo o mais lhe era indiferente. Marido, os outros
+filhos, família, governo da casa, visitas, os outros... que lhe
+importavam agora, se o seu filhinho estava mal?
+
+E extenuada, adormecia às tardes à cabeceira do doentinho, que a olhava
+a sorrir, muito feliz, como se fôsse um ser de conto preso num lindo
+encantamento. Pouco a pouco, apesar de ninguem o achar melhor, foi-se
+esvaindo o terror dela, e uma grande loucura, a loucura divina da
+esperança, galvanizou-a de coragem, deu-lhe fé. Amava-o com tôda a carne
+e tôda a alma.
+
+O casamento tinha sido, p'rá sua índole delicada de romântica, uma
+decepção dolorosíssima a que pouco a pouco se adaptara. Não teve crises,
+não sofreu violentamente. Foi um esperecer lento da ilusão; todo o
+seu sentimento que morria como uma planta à sêde; e ela curvara a
+cabeça, aceitava a vida que lhe davam, com uma resignação de fraca que
+se esquece. Teve dois filhos. Criou-os. E uma paz de maternidade um
+pouco animal, foi-a calmando; o seu passado de sonho estava longe, nas
+águas mortas da memória; e ia vivendo assim, anestesiada, sem os
+sobressaltos de nervos de outros tempos, uma vida normal e clara, no seu
+lar, entre os seus. Era uma renúncia sem tortura, inconsciente.
+
+Passaram alguns anos, uniformes, que só a doença de um filho ou do
+marido vinham alvoroçar de longe a longe, e que por fim se sumiam na
+memória, na mesma cinza neutra, pardamente. Vivia como se fôsse a
+própria sombra. Já não esperava ter mais filhos. Quando soube que ia ser
+mãe ainda uma vez, teve a emoção maior da sua vida. Certo, ela foi
+sempre boa mãe: amava os seus dois filhos muito e muito. Mas agora era
+diferente, era outra coisa. O que viria era mais, bem mais que os
+outros: era o filho dela e do seu _sonho_... Ressuscitou em si
+mesma: renasceu. O seu sangue resava nas artérias promessas que antes
+não lhe ouvira, e começou a parecer-lhe que êsse filho era a compensação
+que Deus lhe dava, quási um milagre, a flôr inesperada em que o seu
+sonho redivivo iria abrir.
+
+A sua vida banal, desencantada, murchando dia a dia, sem interesse, num
+automatismo frio e resignado, fôra uma provação, tinha passado: e os
+seus nervos de histérica, despertos, com todo o amor que a vida
+sufocara, calcado em resignação, morrendo à sêde, renasciam a vibrar de
+esperança, davam-lhe uma beatitude transcendente.
+
+O seu filho (estava certa que era um filho) seria um pequenino
+abençoado, com um destino que só ela e Deus sabiam, e no primeiro olhar
+que êle lhe desse, pressentiria um evangelho novo como um beijo a
+correr-lhe tôda a alma... Tudo mudou na vida dela, tudo. Mal falava aos
+filhos, ao marido, que interpretava a estranheza dos seus modos como a
+mudança de carácter, os caprichos que muitas mulheres tem naquele
+estado. Se a olhavam insistentemente ou lhe faziam perguntas, alusões,
+isolava-se, desaparecia de repente, como alguêm que vive p'ra um segrêdo
+e receia que os outros lho desvendem. Parecia mais alta, elanguescida,
+com grandes olhos sempre a olhar p'ra dentro, como teem certas aves e os
+mármores.
+
+Em solteira, nunca fêz confidências às amigas. Tecia a sua teia no
+mistério. Todos lhe achavam qualquer coisa de dormente: não compreendiam
+bem o seu carácter. Mas como era modesta e era boa, esquecida de si
+mesma e sem vaidade, deixavam-na viver no seu silêncio como um nelumbo
+de pureza à flôr de um lago. Mesmo no seu isolamento da província, onde
+vivera com os pais até casar, lia pouco e sempre os mesmos livros: vidas
+de santas, lendas de conventos. Exaltava-se com êles, tinha fé em
+qualquer coisa que Deus lhe reservava. Durante os serões lentos,
+costurando, scismava que nascera para freira. Toda a sua energia, a
+sua força, abrasava o seu sonho, era interior: e quando batiam à porta
+da sua alma, ela saía distraída, resignada, a obedecer aos seus
+passivamente. Esperava contudo _um não sei quê_. O Destino dissera-lhe
+um segrêdo. E sem contar a ninguêm o que pensava, vivia como uma eleita:
+estava à espera... Os seus vinte anos em flôr eram p'ra êle.
+
+Foi debruçada a esta ogiva de mistério, que a vieram chamar para a
+casarem. Depois a decepção, o sofrimento: mais tarde a renúncia, a
+anestesia na sonolência banal dos seus cuidados.
+
+Apesar de não casarem por amor, outra qualquer, no seu lugar, era feliz.
+Êle era forte, delicado e bom. A sua vida de engenheiro absorvia-o.
+Quando viu que aquela rapariga, que conhecera na província vaga e meiga,
+continuava nos seus braços abstraída, com um olhar desencantado e quási
+triste, compreendeu que fizera mal em ir buscá-la como quem colhe um
+lindo fruto: erguendo o braço. Tentou então insinuar-se pouco a
+pouco, interessá-la nas suas coisas, diverti-la. Por fim resignou-se,
+desistiu. Como não era um sentimental, um romanesco, e a sua profissão o
+apaixonava, contentou-se em ter nela uma amizade, um ser de lialdade e
+de doçura, desdenhando teatros e convívios pela paz transparente do seu
+lar, e vivendo p'ra êle, para os filhos, e para aquela vida inviolada
+que desfocava os seus olhos noutros céus... Como porêm tudo mudara agora!
+
+Dia a dia, a exaltação dela ia crescendo. Uma noite mesmo teve febre, e
+o médico lembrou que p'rà calmar, era melhor uma mudança de ares, uma
+temporada na aldeia ou à beira-mar. Partiu então p'rò Minho, para a
+quinta, e como nem o marido nem os filhos podiam nesse tempo
+acompanhá-la, levou consigo apenas as criadas, dizendo que preferia
+ficar só na grande paz do campo, a sossegar.
+
+Era na Páscoa. Nessa ressurreição da primavera, ao abrir a janela do seu
+quarto, aspirou no perfume dos lilases a esperança que subia com as
+seivas, vibrando já nas asas migradoras e no pólen que doirava o ar.
+
+Enternecia-a tudo: as relvas novas, ver os rebanhos beberar às tardes
+quando os montes violáceos se concentram, os pássaros felizes no pomar,
+e à hora das regas, ao crepúsculo, a alegria das águas borbulhantes,
+quando as estrelas vem, tudo descansa, pelos atalhos vão chiando carros,
+e nos paúis, pobres poetas liricos, os sapos piam comovidamente. Nunca
+sentira tanto a natureza.
+
+E foi nesta atmosfera de pomar que ela esperou misticamente a hora
+suprema, querendo sofrer, feliz, extasiada, como uma nuvem alta da manhã
+que o sol rompesse p'ra descer aos homens...
+
+
+
+Davam Trindades. A tia Olívia contara um lindo conto. Ao sair dos
+palácios de feeria por onde a voz dela o ia levando, o Emílio ficava a
+olhar as jóias, os anéis, a pedras preciosas esparsas na sua mesa de
+doente e luzindo em sortilégio, na penumbra. Eram olhos de fadas,
+encantados...
+
+Não tiveram remédio senão dar-lhos: por quanto tempo, meu Deus, por
+quanto tempo?... P'rò distrair, há dias, o tio Eduardo tirou os anéis e
+deu-lhos, e como o viram ficar muito contente, os outros deram-lhe
+tambêm os que traziam. Mas quando iam nessa noite a despedir-se, êle
+ficou tão triste ao entregá-los, que o tio Eduardo propôs que lhos
+deixassem e todos imediatamente consentiram.
+
+--Fica com êles, Milinho, guarda-os, guarda-os.
+
+--Mas não são meus, não quero... Assim, não quero...
+
+--São todos teus, são todos teus, meu filho.
+
+Então em roda todos confirmaram a mentira damor que o alegrava.
+
+Daí por diante, sempre àquela hora, vivia num delírio de gandezas. Mas
+nesta tarde, ou porque o conto mais o impressionasse, ou porque
+estava mais fraco e com mais febre, a excitação do Emílio era maior. Os
+seus olhos de mago, muito abertos, dois veludos de febre ainda mais
+negros, maguavam-se fitando as pedrarias, êsse baile de côres e de
+reflexos que pareciam mais vivos na penumbra, e como se a febre dêle os
+contagiasse, tinham fulgurações de um brilho agudo. Abria, abria os
+olhos fascinado.
+
+--Que lindo, mamã, veja que lindo!
+
+Toda a sua carita consumida desaparecia no clarão dos olhos, mais pretos
+que asas de andorinhas, ao tremerem no ar em despedida. Outro sino mais
+longe deu Trindades, numa voz de prata e de fadiga, como se lhe custasse
+a vibrar até ao quarto. Todos estavam opressos, sem falar. E êle,
+erguendo os braços de repente, deixou-os ir cahindo sôbre as jóias,
+cobriu-as com as palmas das mãosinhas, puxando-as contra o peito
+avaramente:
+
+--São todas minhas, não é? São todas minhas...
+
+--Todas, Milinho, disse a mãe transida. Vergou-se então sôbre elas com
+esfôrço, como se fôsse p'ràs beijar, branco de cera, e repetiu ainda
+extasiado:
+
+--É lindo, lindo... lindo. Não dou nenhuma a ninguêm. São todas minhas.
+
+Espalhou-as um pouco sôbre a mesa, pôs de parte os anéis, ficou a
+olhá-los, e sorrindo à idea que tivera, disse baixinho:
+
+--Vou pô-los nos meus dedos. Começou a enfiá-los com cuidado nos
+dedinhos ossudos, só falanges, mas deixava-os cair a cada instante,
+largos de mais, em fugas de reflexos. Já ia na terceira tentativa, num
+desespero mudo, a arfar cansado, quando o tio Eduardo e a mãe o
+ajudaram. Levantaram-lhe as mãos quentes de febre, e enfiaram-lhe os
+anéis nos dedos ósseos, que êle ergueu quanto pôde, deslumbrado.
+
+--Mamã! Estavam a dar Trindades. Vou rezar uma avé-maria, vou rezar.
+
+Na penumbra da alcova, de mãos postas, escorrendo em reflexos irisados,
+a sua vòsinha disse a avé-maria num timbre muito fino de carícia,
+como um adeus que punha os olhos rasos, num veludo expirante de
+palavras, dêsses que tem no outono, a horas mortas, certas fôlhas de
+arbusto a despedir-se. Nem o tio Eduardo se conteve. Brilhavam-lhe já
+lágrimas nos olhos. Ninguêm tinha coragem para falar.
+
+A lua, que agora vinha muito cedo, batia na varanda, brancacenta. Êle
+tirou os anéis devagarinho, como um ser de conto, a sorrir sempre, e
+deitou-se p'ra baixo fatigado.
+
+--Dê-me as suas mãos, mamã, quero senti-las.
+
+E ficou a beijar-lhas muito calmo. No enleio de uma emoção religiosa,
+todos queriam quebrar êsse silêncio, feito de sonho e de apreensões de
+morte, que avançava talvez na luz do luar. Foi o tio Eduardo que falou:
+
+--Esteve hoje um dia lindo, quási quente. Temos à porta a primavera.
+Dentro em pouco, Milinho, estás mais forte; já podes dar à tarde o teu
+passeio.
+
+--Logo que possa, mamã, vou ver o mar. Consigo, sim?
+
+--Se Deus quiser, meu filho, havemos de ir. E ainda antes, has-de ir
+para o quintal brincar com os manos. Sabes que a _tua_ árvore, a
+magnólia, já está cheia de flores muito brancas?
+
+--Ó mamã, mamã, deixe-ma ver,--pediu êle erguendo a cabeça de repente.
+
+--Mas vais apanhar frio, meu filhinho. Amanhã, amanhã, agora não.
+
+Tanto insistiu, que o levaram ao colo até à janela, embrulhado em
+cobertores, muito contente, e ficou assim alguns instantes, a carinha
+colada contra os vidros, no deslumbramento da magnólia, da _sua_ árvore,
+erguendo o tronco negro e lívido de lua, e nos ramos implorantes e
+afilados, as flores mais brancas que há na terra.
+
+Deitaram-no. Deviam ser nove horas, pouco mais. E como sempre,
+levantaram-se todos p'ra partir. Cada um então foi dar-lhe um beijo, e
+ao apertarem-lhe as mãos--adeus Milinho!--êle olhou-os desta vez
+mais devagar, com um olhar que nunca mais lhe viram, em longes de
+meiguice, de outro mundo, numa névoa de lágrimas contentes. E sorria ao
+dizer:
+
+--Adeus, adeus. Tio Eduardo, tia Olívia, adeus, adeus...
+
+Essa creança assim, a despedir-se, com uma voz perlada de carícia,
+encheu-os de aflição e de terror; e foi mordendo os soluços, sufocados,
+que saíram da alcova, que partiram, ouvindo dentro dêles o
+crocito--nunca mais! para sempre! _never more!_--dêsse corvo fatídico,
+de lutos, que Poé revelou em versos trágicos. Qualquer coisa de lindo ia
+morrer. Qualquer coisa de lindo ia morrer...
+
+
+
+No emtanto na alcova, o pequenino, alongava os bracitos para a mãe e
+dizia feliz, como em segrêdo:
+
+--Que bom, mamã! Que bom estar só consigo! Sente-se aqui depressa, mais
+pertinho...
+
+--Aqui me tens, Milinho, aqui me tens. E beijava-o na testa longamente.
+
+--Como eu gosto de si, minha mamã! Quem me dera viver sempre ao pé de si!
+
+--Deus há-de-te sarar. Verás, verás...
+
+--Bem sei que lhe faz pena, não se aflija: qualquer dia, mamã, eu vou
+partir...
+
+--Nem digas isso, meu amor, nem digas isso.
+
+--Vou-me embora, vou, p'ra muito longe... Não faço falta a ninguêm.
+Ficam-lhe os manos. Só lhe deixo a si muitas saudades...
+
+--Se tu gostas de mim, não digas isso.
+
+Êle tornou mais lento, resignado:
+
+--Por sua causa, mamã, queria viver ainda que fôsse assim... sempre
+doente, sem saír do quarto, ao pé de si, mamã, ao pé de si...
+
+--Agora precisas de dormir, de descansar. Fecha os olhos, Milinho,
+dorme, dorme...
+
+--Então dê-me as suas mãos. Quero dormir com as minhas mãos nas suas.
+
+Dentro em pouco, serenamente, adormeceu. Ela tirou as mãos devagarinho,
+aconchegou-lhe a roupa contra os ombros, e afastando-lhe dos olhos o
+cabelo, deu-lhe um beijo na testa, muito leve.
+
+Já o luar escorria pelos vidros em lágrimas de opala e de mercúrio. A
+noite vinha ver o seu filhinho e enchê-la de esperança e de coragem.
+Como o pai disse recolher mais tarde (uma entrevista no _club_ p'ra
+negócios) mandou deitar as criadas, ficou só: esperá-lo-ia ali, junto ao
+seu filho. Como dormia bem, tão sossegado! Deus era bom, havia de
+salva-lo. E numa exaltação, quási feliz, encostou-se à vidraça a olhar a
+noite.
+
+A magnólia ao luar estava divina. Se o pequenino a visse, o pobresinho!
+Como êle gostava das árvores, do mar! Não se lembrava de ter visto um
+luar assim. Fazia-lhe tão bem: calmava-a tôda. Via ao longe, no rio, as
+mastreações, e distinguia as vêrgas, o velame, a luz dos estais à pôpa,
+nictitando. Vila-Nova, a casaria, os arvoredos, subiam do outro lado
+empoalhados, e a névoa que se erguera pouco a pouco, era já na
+colina ao luaceiro uma via-láctea nova, avoejante, salpicada de luzes,
+muitas luzes, como se Deus atirasse com amor, às mãos-cheias de estrêlas
+sôbre a terra. Toda a mole granítica da Sé, galvanisada a lua, se
+animara: corria luar nas veias dessas pedras, morenas do sol de tantos
+séculos, e tôda a catedral se eterizava como se as gárgulas aladas das
+cimalhas acordassem p'ra tentar um voo último. A casaria mesmo, estava
+absorta. Que lindo, meu Deus, como era lindo! Elfos de lua, gnomos,
+rondas fluidas, andavam no ar com o pólen dos jardins, e as rosas de
+toucar por sôbre o muro, fechando todo o quintal em trepadeiras, tinham
+nuances de síncope, esmaiadas. A paisagem era um sonho deslumbrado, numa
+assunção p'ra Deus, erguendo os caules, e os troncos, as torres das
+igrejas, e os olhos das janelas: de mãos postas. Deus fundira-se em lua,
+andava esparso, como um filtro de sonho, transcendente, propiciando,
+amando, perdoando.
+
+Bem certo: o seu filhinho sararia. E nessa maré-cheia de luar, no
+encantamento sortílego da noite, a esperança subia a aluciná-la
+despertando o sonho místico de outrora. Aquella figurinha não mentia: os
+seus olhos de mago eram proféticos. As suas mãos tocando adivinhavam,
+como naquela noite, há já três meses, em que uniu, sob a bênção dos seus
+olhos, as mãos do tio Eduardo e da tia Olívia, no silêncio que em roda
+se fizera. Assim os dois souberam que se amavam, e ficaram a olhar o
+pequenino como numa liturgia nupcial... E não tinha sete anos ainda
+então! Mesmo a sua conversa perturbava, com inflexões de médium,
+reticentes, em que palavras de sempre, as mais comuns, se engastavam em
+timbres de mistério. Nascera para amar, o seu filhinho. E tudo, a sua
+voz de concha meiga, a sua palidez estiolada, os seus olhos de
+oráculo--criança, diziam bem um ser predestinado, um guiador augusto de
+destinos, em cuja atmosfera de carícia muita dor havia de acalmar-se,
+como um perfume de rosa, a certas horas, nos beija com uma bôca de
+perdão.
+
+Toda a vida do seu filho ia passando. Descaíam-lhe as pálpebras, ao peso
+das quimeras debruçadas. E de repente, estremeceu gelada. Sentiu o luar
+nas mãos, subiu-lhe aos seios... Se a beleza da noite, transparente,
+êste aquário em que a lua abria as veias e a vida da terra ia boiando
+num abandono de ninfeia aberta, fôsse afinal uma cilada d'_Ela_, um
+disfarce da Morte p'ra roubar-lho!?... Meu Deus, meu Deus! Era possível
+que ela viesse assim, essa maldita, na feeria argêntea dessa noite, com
+a fouce escondida em musselinas, silenciário carrasco sem memória,
+correndo em passos de êxtase e de opala, e matando com um hálito de
+gelo, num aflorar de plumas hesitantes junto do qual um beijo era
+grosseiro?... Um instante o terror alucinou-a. Não deixaria a lua entrar
+na alcova! Ia fechar as portadas, e no escuro, colando o corpo contra o
+seu filhinho, estaria mais segura, a defendê-lo. Num sobressalto, foi
+até junto dêle, ficou queda. Que imensa paz nessa carinha meiga!
+Pôs-lhe a polpa dos dedos sôbre a testa. Estava muito suado como sempre.
+Mas a sua respiração era tão calma, e na concha das pálpebras descidas
+havia uma doçura tão profunda, que se sentia bem que o seu anjinho
+estava a sonhar com as fadas de algum conto, onde, como êle às vezes lhe
+contava, a boa fada tinha a cara dela, e olhava e beijava como ela. Tudo
+corria bem. P'ra que assustar-se? Os seus nervos, afinal, só os seus
+nervos! E ao voltar-se de novo para a noite, teve remorsos de ter medo
+dela, de ter desconfiado loucamente que êsse luar de perdão espargelado
+fôsse um scenário infame de traição, contra aquela flôr--a pobresinha!
+que era seu filho e Deus ia salvar.
+
+Voltou p'ra junto da vidraça, ainda trémula, a sossegar nesse esplendor
+silente. O luar avançava sempre e sempre. Já lhe doirava agora os olhos
+razos, o cabelo, a testa, o corpo todo. E com uma idea súbita rezou. Não
+podia dizer a quem rezava, se rezava a Deus ou ao luar... Mas Deus
+era o luar, era o luar... E agora estava certa, estava certa de que êle
+vinha p'ra curar o seu filhinho, e envolvê-lo todo p'ra sará-lo como um
+beijo de Deus a essa criança.
+
+Pôs-se em bicos de pés o mais que pôde, e com um gesto feliz,
+misterioso, corria os cortinados de mansinho, p'ra que êle chegasse mais
+depressa junto ao leito, a sorrir e a chorar, tôda contente. Êle vinha,
+êle entrava sempre e sempre. Estendia-lhe as mãos como a chamál-o, as
+suas mãos de mãe, de veias altas, que um dilúvio de amor intumescera. Já
+despertava os móveis, seus amigos, a que ela queria como a confidentes.
+E doida de feliz, quási riu alto ao ver-se no espelho enluarado.
+Dizia-lhe baixinho: «entra, entra...» Já a cadeira de braços estava
+empoada e a trama florida do tapete ressuscitava em gamas sonolentas.
+Se até vitalizava as coisas mortas! Era Deus, era Deus êste luar... E
+que sossêgo agora, que sossêgo!... Até a bica do tanque se calara. Havia
+uma atmosfera de milagre, o seu sonho de mística era certo. Os seus
+pressentimentos não mentiram. Era um destino sagrado, o pequenino. Por
+isso Deus descera no luar: era êle, era êle, estava ali... Isto era bem
+verdade, era a verdade. Mas então o seu filho estava salvo! E desatou a
+rir perdidamente, num timbre de histeria muito sêco.
+
+De repente lembrou-se: o luar era Deus: não devia pisál-o, era um
+pecado... Fugiu então p'rà zona ainda escura, olhou o pequenino
+adormecido. Pareceu-lhe que sorria extasiado. Sentiu uma alegria
+semi-louca, um excesso de esperança a sufocál-a. Por fim ajoelhou-se
+junto ao leito, chamando-o com as mãos, lavada em lágrimas; mas rindo
+sempre, sempre, a segredar-lhe: «Entra, entra, entra...» Êle vinha, êle
+vinha, muito fluido, de cada vez mais branco, mais divino. Debruçou-se
+então, beijou-lhe a orla. Ergueu-se a radiar, transfigurada, com os
+olhos histéricos mais vítreos e um riso em aro, descobrindo os dentes,
+numa beatitude arripiada. Foi esperar o luar do outro lado, as mãos
+nas grades da cama, à cabeceira. Êle dormia sempre, o pequenino, uma mão
+escondida no pescoço, a outra sôbre a dobra do lençol. Curvou-se para
+ver onde o luar vinha. Mal conteve um grito de ventura. Tocava os pés da
+cama: ia subir!... «Sóbe, sóbe, sóbe» ia dizendo. O seu pobre coração
+endoidecera: despedaçava-lhe o peito, de feliz. Premiu as fontes com as
+mãos: «lá vem, lá vem. Bemdito seja Deus, sempre bemdito».
+
+Havia um clarão no _couvre-pieds_ agora. Uma larga lágrima, redonda, foi
+lá rolar como uma grande pérola. Nesse instante ouviu como um gemido. O
+pequenido mexia-se, acordava. Levou as mãos ao peito, despertou. Mal se
+viu o veludo dos seus olhos... Quis erguer a cabeça, descaíu-a. A mãe
+vergou-se sôbre êle: «meu filhinho», pôs-lhe as mãos em caricia sôbre as
+fontes que um suor muito frio perolava, e ia beijál-o, quando ouviu três
+vezes, como um fio de voz, já muito longe: «mamã, mamã, mamã...» E
+fechou p'ra sempre os seus olhos febris de grande génio triste
+depois dessa palavra suprema que era tôda a sua fé.
+
+O luar chegara emfim à cabeceira!
+
+Só quando êle esfriou sob os seus beijos, só quando viu os braços que
+lhe erguera, para que Deus o visse de mãos postas, implorando-lhe vida,
+o pequenino!--recaírem inertes sôbre a roupa, compreendeu o crime, o
+crime imenso.
+
+--Vinha no luar a Morte... no luar...
+
+Voltou-se então num desespero último, p'ró expulsar, p'ró pisar sob os
+seus pés: depois reanimaria o seu filhinho: dar-lhe-ia a beber todo o
+seu sangue. Mas ficou paralítica de assombro. O luar alagara todo o
+quarto: água lustral de lua, alma de lua, no chão, no ar, em tôda a
+parte... O seu sangue gelava-se nas veias. Não podia lutar, era
+impossível. Êle invadira a alcova, asfixiara-a. Estava tudo perdido,
+tudo, tudo... Abriu os braços, hirta, inteiriçada, e caiu ao desamparo,
+sem sentidos.
+
+
+
+
+O HOMEM DAS FONTES
+
+A Justino de Montalvão
+
+
+O Homem das Fontes
+
+Chama-se Harry Young o homem das fontes. Vi-o a primeira vez em Granada
+no Paseo de los Tristes, ao pé de uma fonte árabe já morta. É um rapaz
+alto, de um loiro muito claro, maneiras simples que revelam raça, olhos
+de névoa calmos e abstractos, e uma voz estranha, monocórdia, ou p'ra
+dizer melhor, uma voz de água. Nasceu em Londres. É rico. Sem família e
+sem lar, vive em perpétua viagem. Encontrei-o em Roma, em
+Constantinopla, em Florença, e, detalhe que me feriu intensamente,
+desenhando, escrevendo ou só olhando, sempre junto a uma fonte,
+concentrado, como se fôsse a caricatura fabulosa que o encantamento
+de uma ninfa ali prendesse.
+
+Harry Young chegou a obsidiar-me. Nunca porêm, pensei em ir falar-lhe,
+recorrendo ao impudor tradicional que se tolera sempre aos que viajam.
+
+Uma manhã, em Florença, tive quási a impressão de que era um louco. Cedo
+ainda, seriam cinco horas da manhã, fui p'rà Piazza dela Signoria
+encher-me de sadismo estesiante a olhar na Loggia o Perseu de
+Benevenuto. Tem, como sabem por centenas de gravuras, uma fonte
+desenhada por Vasári à sombra ameada do Palazzo Vecchio. Caía uma luz
+melodiosa. Harry desenhava, um caderno de apontamentos na mão fina. Um
+esbôço da fonte, era evidente.
+
+Àquela hora só havia pombas no silêncio irreal da praça. Discretamente,
+pus-me a olhar tambêm a fonte. Ao centro, o Neptuno de mármore é boçal;
+há uma ronda de ninfas alongadas num bronze de _patine_ quási azul; os
+cavalos marinhos saltam na água e os tritões que cercam tôda a taça
+tem a alegria de quem vive na água, uma beatitude cínica e animal,
+espirrando das máscaras de bronze por fossetas de riso, bocas ébrias, em
+_verve_ muscular, em gestos vivos. Os dorsos luziam de água
+esparrinhada, e de estátua p'ra estátua voavam pombas fazendo em roda
+aquele adágio de asas que à pôpa dos navios, no mar alto, riscam os voos
+curvos das gaivotas. Não podia saborear aquela paz, com um desejo único
+a morder-me: ver o que Harry Young desenhava.
+
+Êle fixava a fonte alguns instantes, e antes de transcrever o que
+colhera, quedava ainda imóvel, recolhido, numa aura de emoção mais do
+que estética, que me parecia absurda, incompatível com um esbôço num
+álbum de viagem. Ao lado, em frente à estátua de Cosme de Médicis,
+criados sonolentos iam dispondo as mesas nas _terrasses_. Já havia dois
+cafés abertos onde gente apressada ia beber. Harry, que continuou
+alheado ainda algum tempo, foi por fim sentar-se a uma _terrasse_, e
+bebendo um copo de leite lentamenle, tinha o álbum aberto sôbre a
+mesa dando os últimos retoques ao desenho.
+
+Quem era esta criatura que só o encanto das fontes interessava, e que em
+Florença, como em Granada, como em Córdova, nunca vi num museu ou numa
+igreja, como se só o granito ou o mármore das fontes tivessem para os
+seus olhos estesia? Que sensibilidade aberrante, que destino fadara p'rò
+convívio enigmático, p'rò segrêdo embalador das fontes, êste rapaz, que
+não tinha ainda trinta anos, era decerto rico, bem nascido, e nem via
+mulheres nem paisagens, absorto neste claro misticismo?
+
+Sentei-me numa mesa perto dêle e pude ver à vontade o seu desenho. Nem
+um traço da fonte nessa página onde bem claro, escrito a grandes letras,
+sob um desenho singular de mulher nua, eu li: _Fonte Adamanti, em
+Florença._ O quê?! A fonte concebida por Vasári era p'ra Harry Young
+aquele corpo?... E buscando a relação possível com essa fonte mítica e
+ingénua, onde em torno a um Neptuno gigantesco farandolam ninfas e
+tritões, ou fôsse sugestão da simpatia que desde que vira Harry eu
+senti, ou porque de facto ela fôsse um claro simbolo, pareceu-me que
+essa forma musical, êsse corpo de oceanide surprêsa esperando o tritão
+que a possuiria, era a síntese poética flagrante da fonte que Vasári
+imaginou. Corria o risco de me tornar suspeito na ânsia de ver melhor,
+de analisar. Harry ergueu-se. Vi-o seguir pela galeria degli Uffizii e
+desaparecer ao fundo, lentamente, p'ra êsse scenario onde se evoca
+Dante, feito de lindas pontes habitadas, da escultura nobre das colinas
+e das águas do Arno romanescas.
+
+Depois voltei p'ra Roma, onde encontrara Harry meses antes.
+
+Muitas vezes me lembrava dêle, eu que tambêm adoro as fontes, com uma
+simpatia persistente, cúmplice. Por êsse tempo ia eu às noites degustar
+o rascante trágico da solidão na Piazza del Popolo, estirado no largo
+rebordo de alabastro da fonte, fronteira ao Pincio, impregnando-me
+dessa alma sem memória, dessa crónica augusta de silêncio, que é em Roma
+a atmosfera de magia das praças sem ninguêm, com vozes de água. Ficava
+assim horas numa tristeza quási sensual, com uma espécie de delírio de
+grandezas que me permitia dialogar com Roma, calmar a minha incerteza de
+falhado na beleza sobrenatural da grande morta, e fundir com o dela o
+meu destino como o de um herói num poema antigo.
+
+P'ra sentir esta luxúria psiquica é preciso ter vivido muito ou ter a
+velhice precoce dos artistas, que em plena força e plena mocidade,
+agarrando pelos cabelos a alegria, entristecem ao beijar-lhe os olhos.
+Era aquela em Roma _a minha hora mais silenciosa_.
+
+Ao centro da praça os quatro leões golfavam água, guardando o obelisco
+egípcio numa vigília de esfinges, sempiterna. Em Roma, à noite, vivem-se
+horas de convento. É a cidade suprema p'ra viver com um sonho ou com uma
+idea, velada por formas milenárias que recebem exames de
+consciência. Notei um vulto esguio, à quarta ou quinta noite, sentado
+aos pés do obelisco, num degrau. Estava na sombra e, nem eu sei porquê,
+pensei em Harry. Dentro em pouco, na embriaguez dessa auto-sugestão, nem
+já admitia dúvidas: era Harry, era o _homem das fontes_ que ali estava.
+E como uma raiz fende um granito, brotou da minha solidão de quatro
+meses, viajando sem sofrer um só convívio, um desejo furioso de falar-lhe.
+
+O lirismo imemorial dêsse silêncio levava-me p'ra aquela criatura, que
+uma espécie de loucura poética instalara de vez no meu espírito, como
+p'ra um ser afim, um quási irmão.
+
+Pareceu-me que êle mesmo se movera, olhara na minha direcção, como
+esperando. E nessa hipertensão de nervos que dá aos imaginativos o
+silêncio, o convívio calado e fascinante com as criaturas brancas dos
+museus, o meu desejo de falar com Harry atingiu a plenitude,
+exasperou-se. Levantei-me. Sem me atrever a caminhar p'ra êle,
+fui-me timidamente aproximando: dei a volta ao obelisco devagar e parei
+com ar distraído junto de Harry, como se olhasse um dos leões golfando
+água. Fiquei assim nervosamente alguns segundos.
+
+Quando por fim o olhei, vi nessa máscara glabra de tritão um desejo de
+me falar igual ao meu. Não posso repetir o que lhe disse, as primeiras
+palavras que trocámos. Aludimos aos nossos múltiplos encontros, em
+Espanha, na Itália, na Turquia, por uma coincidência bem estranha,
+sempre junto de fontes...
+
+Ninguém passava. Ouvia-se o vento a arrastar no Pincio fôlhas sêcas.
+Lembrei-lhe a manhã em Florença, na Piazza dela Signoria, o desenho da
+fonte de Vasári que eu vira na _terrasse_ por trás dêle. Harry calava-se
+surpreendido. Perguntei-lhe se viajava como artista, p'ra pintar.
+
+--Não sou pintor. Gosto muito das fontes, perdidamente. São o grande
+interesse da minha vida...
+
+Disse-me então o seu amor às fontes, baixando um pouco a voz, quàsi em
+segrêdo.
+
+Era órfão. Nunca quis conviver com os seus parentes, onde, por razões
+que depois soube, só encontrou um acolhimento frio, como se fôsse um
+estranho, sem ternura.
+
+Tinha uns nervos doentios que o isolavam. Dos seus tempos de colégio não
+guardava saudades mas só ódios, à grosseria vulgar dos camaradas, à
+promiscuidade forçada e torturante p'ra uma sensibilidade como a sua.
+Logo que chegou à maioridade, rico e só, foi visitar nos arredores de
+Londres o castelo em que seus pais viveram. Correu o parque, as salas,
+as estufas. Viu ainda o seu berço, os seus brinquedos, onde um pó sem
+saudade ia caindo, como sôbre coisas velhas num museu.
+
+Passou no quarto de sua mãe algumas horas... Sentiu uma tristeza imensa
+em que tudo lhe parecia hostil: os móveis, o ar, um cheiro a morte, até
+os olhos fitos dos retratos... O seu primeiro desejo de homem livre fôra
+essa visita com que tanta vez sonhara, e saía de lá desamparado, com
+uma espécie de desespêro inerte que tôda a casa lhe contagiara: a
+velhice das coisas sem beleza onde viveu alguêm que nos foi querido e
+que perdem com a côr tôda a memória. Esses muros sem alma
+angustiavam-no. Já atravessava o parque p'ra sair quando ouviu a
+chamá-lo uma voz de agua. Era ali perto e pareceu-lhe bem distante,
+vinda da sua infância já tão longe. Emfim alguêm amigo, acolhedor! Foi
+p'ra ela como iria p'ra sua mãe ressuscitada, e ficou a ouvi-la até à
+noite. Abrira-a o jardineiro emquanto êle percorria as salas. Harry
+contou-me:
+
+--Tive a visão de um lar naquele instante. Aquela pobre fonte sem beleza
+consolou-me como uma mãe, beijou-me os olhos.
+
+Acarinhou-me como a irmã... que nunca tive, como a noiva que decerto não
+terei...
+
+A sua água encheu-me de saudades. E ao pensar nas salas que deixara,
+tudo me comoveu, ali, a ouvi-la: os olhos dos retratos já me olhavam...
+os tapetes, os móveis, as paredes, tinham linguagem agora:
+compreendiam-me. As janelas á névoa, eram olhos tão rasos como os
+meus. E como poisavam pássaros na pedra, eu mesmo fui buscar pão p'ra
+lhes dar, espalhei muitas migalhas pela fonte... Senti a vida tôda no
+meu peito. Vem dessa hora o meu amor às fontes.
+
+Harry erguera-se. Seguíamos pelo _Corso_ lentamente. Pedi-lhe então que
+me mostrasse os seus desenhos, os símbolos de fontes que creara.
+
+--Só se quiser vir comigo ao meu hotel.
+
+Já tenho as malas feitas p'ra partir. Vou p'ra Veneza. Veneza é um
+hospital de águas... Faz-me triste.
+
+
+
+O quarto de Harry no hotel de Londres, Piazza d'Espagnia, tinha entre
+duas janelas um piano. Estavam abertas à noite, que em Roma parece mais
+arqueada, como p'ra receber melhor as confidências. A torre della
+Trinitá del Monte deu onze horas. Naquela paz não éramos só dois, porque
+subia da praça, propiciando, a voz da fonte de Bernini, _la
+Borcáccia_, a escoar-se sem jactos, brandamente. Harry acendeu as
+serpentinas sôbre a mesa. Vi então dois álbuns grandes de viagem, e
+alguns pequenos mais esguios.
+
+Começámos a folhear num dos primeiros a imaginosa notação das fontes
+árabes: de Córdova, de Granada _la vieja_, a terra andaluza de
+_mors-amor_. A fonte morta do Paseo de los Tristes, onde pela primeira
+vez eu vira Harry, era um cadáver de almeia; e havia ainda outra de
+Granada, que eu toquei no jardim de Lindaraja, onde a princesa agarena
+vive ainda com uma côrte calada de ciprestes...
+
+O desenho de Harry dava-me dela uma visão patética. Evocava-a nova,
+musical, nesse jardim interior da Alhambra--jaula feérica da luxúria
+árabe, onde os corpos morenos das almeias elanguesciam nos mármores dos
+pátios, e nas salas de jóias lapidadas dormiam com os perfumes dos
+jardins as grandes séstas tórridas, de cópula...
+
+Desenhára o mirador de Lindaraja, com as suas gelosias marchetadas
+que ela entreabria um pouco, debruçando-se, como p'ra ouvir melhor a voz
+da fonte. E a fonte falava de desejo, porque ela tinha nos olhos, nos
+cabelos, na bôca a entumescer, nas linhas sôfregas, a expressão de uma
+corola ao cair do pólen... Dos desenhos que vi das fontes turcas, um
+entre todos me maravilhou: a do sultão Ahmed, em Stambul, no coração da
+praça do Serralho. É um lindo harém de grades redoiradas, arabescado de
+oiro e lápis-lazuli, de que a água é sultana única.
+
+Harry representara Schehèrezade, a noveleira das _Mil noites e uma
+noite_. Essa era bem um símbolo de fonte, que durante _mil noites e uma
+noite_, a contar histórias sôbre histórias, adormeceu o califa que a
+matava se a sua voz lhe não fechasse os olhos... Foi um destino de fonte
+Schehèrezade.
+
+Havia fontes de parques e de claustros: a primeira era uma _Belle au
+bois dormant_ que um pavão heráldico velava; e entre as imagens místicas
+que vi, apenas lembro uma carmelitana, lendo sob uma ogiva, côr de
+cera, decerto Santa Theresa, _Las moradas_... A última, porém, a mais
+estranha, de não sei que vila romana ao abandono, era uma grande esfinge
+tumular com asas mortuárias de falena. Recordo ainda páginas isoladas: a
+fonte dos cavalos marinhos da vila Borghése era um Pégaso de crinas
+alagadas, uma cabeça de cavalo grego, dêsses que nos versos de Homero
+viviam irmãmente com os heróis. E não sei que fonte mitológica--uma
+estátua de Juno, sereníssima, a cabeça nimbada de andorinhas.
+
+O outro álbum era de esboços--desenhos e _maquettes_,--tôda uma
+arquitectura fragmentária p'ra um palácio quimérico da água, num poético
+parque, inverosímil como o de Poë no _Domínio de Arnheim_.
+
+A maior parte dos desenhos eram vagos, dizendo a embriogenia dêsse
+templo que Harry erguia à Água Padroeira, com beatitudes de arquitecto
+místico, em linhas-versículos de sonho.
+
+Perguntei-lhe se tencionava construi-lo. Harry sorriu.
+
+--Construi-lo e habitá-lo... Com _Miss Fountain_... se a encontrar um dia.
+
+O desenho mais minucioso era a fachada, feita de duas arquiteturas
+sobrepostas: uma estável, de mármores rosados; outra móvel, música,
+espumante, de milhares de tranças de água de essas fontes, cavadas em
+motivos decorais no sonoro frontão religioso que viveria um dia tão
+beijado como as asas do mar no temporal.
+
+É impossível descrever-lhe as linhas, como é impossível descrever a
+Alhambra. A fachada de mármore era subsidiária da segunda, a real, a
+litúrgica, a _aquática_; era o seu esqueleto quási oculto, e por
+milhares de ranhuras invisíveis, de declives matematicamente calculados,
+por bôcas inflectindo em curvas gráceis, por biliões de crivos capilares
+donde cairiam chorões de prata fluida, destinada a dar vazão a essa
+segunda, arquitectura sinfónica, hino vivo, que o meu tritão exilado ia
+criar.
+
+O mármore apparecia, sob a trama arquitectural da água golfante, como
+através de rendas de Burano um colo ou uma nuca de mulher, e intumescia
+às vezes como um seio no bôjo de uma ânfora sveltíssima ou na escultura
+de uma planta de água.
+
+Oh! que feliz a carne dêsse mármore, escrava de uma fluida arquitectura,
+cantada e beijada todo o sempre! Jactos cruzavam-se como na argentaria
+solar de uma panóplia, caíam numa taça canelada, donde escorriam
+molemente, em lágrimas, p'ra renascer vivendo noutros sulcos, donde
+espirravam como flores se esfolham, em graças _platerescas_, em sorrisos.
+
+Contra o sol, as janelas, os balcões, tinham estores de longos fios de
+água, tamisando a luz pr'ò interior em irisações fantásticas de nave.
+Mas, como Harry me fêz logo notar, o seu projecto, perfeitamente
+realizável, era um _ensaio de arquitetura musical_. A euritmia dessas
+linhas de água, tantas volutas líquidas que eu via no amoroso desenho
+daquele álbum, não tinham só um fim arquitetónico, antes eram a
+consequência imediata, o instrumento de beleza necessário, pr'á ópera da
+Água revelada por um arquitecto-músico de génio. Mostrou-me então a
+_partitura_ do palácio. Sentou-se ao piano e tocou-me alguns motivos.
+
+Como tôda a gente no hotel dormia, executava em surdina, emocionado.
+Primeiro o _leit-motiv_ da entrada, cantado no peristilo por três
+fontes, com três taças de prata cada uma. Era a ogiva elegantíssima da
+entrada (duas curvas angulares de água jorrante em conchas de alabastro
+quási ocultas) que acompanhava as três vozes argentinas. Harry
+chamava-lhe: _o motivo de saudação_.
+
+Depois tocou-me a sinfonia da fachada. E foi então que ouvi a alma
+transcendente dêsse tristão-poeta desterrado! E Harry dizia, crispando
+as mãos numa impotência de nervoso, que era impossível mimar sôbre um
+piano a fluidez dionisíaca das frases. Os _graves_ e os _agudos_
+conseguiam-se por diferenças de calibres, indo de uma tenuidade
+capilar até aos cilindros de maior diâmetro, às bocas, divertículos,
+ampolas, com recôncavos e inflexões previstas, num duplo intuito
+ornamental e acústico.
+
+A gama das resonâncias era imensa, indo dos acordes dos mármores e
+alabastros até aos timbres dos metais mais ricos, dos bronzes, pratas
+foscas, claros oiros, com espessuras várias nuançando, imbutidos nos
+mármores da fachada, enriquecida assim com côres de jóia e os tons
+sobrenaturais de um órgão de água. Oh! essa sinfonia! Reouvi-la e, meu
+Deus! prazer supremo, ouvi-la e vê-la, se um dia o templo da Água fôsse
+vida!
+
+Três melodias _fugadas_ corriam a fachada sem cessar. A que vibrava ao
+centro tinha timbres mais finos e mais altos, os jactos erguiam-se mais,
+implorativos, antes de recaírem em vertigem, nos dois focos de
+resonância decoral. Era uma prece indefinida e dava ao templo como uma
+aspiração de agulhas góticas, a expressão decantada, musical, que teem
+as mãos erguidas das Ogivas. Harry chamava-lhe: _a ânsia de ser nuvem_.
+
+Os outros dois, visualmente, fundiam-se em sinuosidades expressivas, em
+caprichos de linhas reticentes, e fiando a mesma clara rêde, eram,
+musicalmente, bem diversos. Harry chamava-lhes: _a alegria de morrer
+sorrindo: a saudade dos rios, das nascentes_. E os três deliam-se numa
+polifonia liquescente em que a _ânsia de ser nuvem_ tinha o patético de
+umas mãos erguidas; _a alegria de morrer sorrindo_ lembrava a vida e
+morte das espumas; e _a saudade dos rios, das nascentes_, nas conchas e
+recôncavos de mármore revestidos dos bronzes mais espessos, dizia em
+acordes quasi cavos o desespero da água outrora livre, domada e
+orquestrada sabiamente: a nostalgia do coração das rochas vivas, dos
+açudes, dos campos cultivados que ela regava a chalrar nos sulcos largos.
+
+Nos três lados restantes, a decoração musical era mais simples: baladas
+de ecos sem memória instilando um esquecimento de magia. Inútil
+descrevê-las: impossível. Ante o imprevisto desta arquitectura, Harry
+compreendendo o meu espanto, mostrou-me, em cadernos atulhados, a
+notação musical minuciosa, em que as vozes de milhares de fontes tinham
+sido por êle copiadas, e outras de ensaios que realizara até poder
+compor a _partitura_ dêsse palácio feérico da Água.
+
+O seu esfôrço agora, a sua obsessão de cada instante, era, estudando a
+hidráulica e a acústica, chegar a harmonizar a arquitetura, que lhe
+parecia pouco bela ainda no mármore, com a beleza musical e plástica da
+arquitetura líquida exterior. Trabalhava com febre, dia e noite.
+
+Mostrou-me ainda detalhes interiores. A _Galeria da Meditação_ tinha
+vitrais historiando os mitos da Água: ao largo da laguna veneziana, o
+casamento do Doge com o Adriático na galera de sonho o _Bucentauro_;
+Ophélia louca, o cabelo como um chorão de fios de oiro, apartando com
+mãos de prata fosca os canaviais orando à beira-rio: sereias
+penteando-se ao luar com medusas nos seios gotejantes...
+
+No chão de pórfiro, um tapete esmaecido de reflexos. E nas paredes nuas,
+como se pendurasse as telas de algum mestre, Harry cavara duas fontes
+pequeninas, num tingling lacrimal, beijante, clepsidras a viver fora do
+tempo... Ali iria meditar e ler.
+
+Era evidente porém que o seu palácio só podia existir no isolamento.
+
+Disse-me então como teria de murá-lo, defendendo-o do vento,
+concentrando-o. Alêm das grades balizando o parque, cinco muros de
+árvores concêntricas, por ordem de alturas decrescente: a grisalha
+colossal dos eucaliptos, o veludo dos cedros, choupos góticos, ciprestes
+tutelares, e em vagas meigas, as cabeleiras sôltas dos chorões... E
+seria num vale agasalhado.
+
+Harry empalidecia de emoção. Detestava viajar, o convívio forçado dos
+expressos, a promiscuidade dos hotéis, dos restaurantes. Só por as
+fontes se fizera vagabundo, para as ver, pr'às ouvir assimilando-as, e
+poder executar um dia o seu palácio--síntese de todas.
+
+O entusiasmo de Harry contagiou-me. É possível que amanhã não seja
+assim, que dêste plano de arquitectura musical que antevejo e anteoiço
+emocionado, no contágio febril que me vem de Harry, me fique a idea de
+um projecto fruste, de uma alucinação de hiperacústico, com uma forma de
+loucura poética só como documento, interessante.
+
+O templo da Água é para a vida dêste sensitivo, sob uma forma íntima e
+discreta, a minúscula visão quási infantil, a creancice lírica encantada
+em que êste poeta semi-louco e ingénuo tenta exprimir em linguagem de
+arte, com a arquitectura e a música por meios, tudo quanto na terra
+deslumbrou a sua alma de tritão éxul.
+
+Se amanhã analisar êste projecto longe do seu contacto perturbante,
+talvez eu reconheça a inanidade de todo o seu amorosíssimo trabalho, mas
+sempre com emoção hei-de admirá-lo, porque teve uma paixão e se lhe
+entrega, sem nenhuma restricção, de todo o corpo, e arde nessa
+febre dia a dia, abandonando tudo, belo e rico, por uma vida nómade, de
+acaso, que o fará morrer ao desamparo no hotel dálguma terra onde haja
+fontes, ainda fiel a essa visão de sempre, sorrindo ao seu palácio em
+cristais múrmuros...
+
+O palácio da Água!... «Construi-lo e habitá-lo com _miss Fountain_ se a
+encontrar um dia...» Eu cuido ver essa beleza de água tal como vive nas
+pupilas de Harry. Tem uma voz de água, os olhos de água, uma alma de
+água, clara, imperturbada, e um desejo, um sensualismo de água,
+envolvente, fluido, esquecedor, como um nirvana de água inexgotável.
+
+Sem o fermento de nevrose que o desvaira, com faculdades criadoras
+coordenadas, Harry seria talvez um grande músico, um encantador, um
+mystico dos sons, como fragmentariamente o revelaram as estranhas
+composições que agora ouvi. Ou, quem sabe! um arquitecto novo, musical
+pela assunção das linhas, sem recorrer, vesánico, quimérico, às
+impossíveis sinfonias da água onde os seus olhos pálidos, de névoa,
+cuidaram descobrir todo o destino.
+
+Ao ouvir-lhe a voz meíga, monocórdia, já começo aqui mesmo a duvidar, e
+penso no que seria o desespero, a irremissível catástrofe dêste homem,
+sem família, sem noiva, sem amigos, condenado a um absoluto isolamento
+por uma sensibilidade hiperaguda, se viesse um dia a convencer-se de que
+era uma loucura essa chimera onde fechou o futuro a sete chaves.
+
+É certo, é natural que isso suceda. Que sabe êle de hidráulica, de
+acústica? Nem sequer tem uma educação profissional, e era forçoso, p'ra
+admitir como exequível êsse plano, que êle fôsse um arquitecto
+extraordinário, um músico revelador de novos meios e um engenheiro
+único, de génio.
+
+E assim mesmo, pois que o drama musical de Wagner é, na sua beleza de
+vertigem, a mais victoriosa das derrotas, condenando pela voz dêsse
+homem-deus tentativas quaisquer de fusão de artes, não era mais que
+certa, irrevocável, a falência total do sonho de Harry?
+
+Êsse supremo aro de unidade, fervorosa obsessão de todo o artista, é um
+prodígio _interior_, não se exterioriza, e só com uma genialidade
+adivinhante, se realiza por um meio único (literatura, música, pintura)
+a obra-prima contendo em potencial, englobando em sugestões latentes,
+domínios que pareciam de outras artes.
+
+Se ao menos pudesse conviver com êle e canalizar tão bellas qualidades
+p'ra qualquer coisa de viável, de fecundo! Queria evitar que a sua vida
+se partisse como uma lufada de vento quebraria aquela arquitectura em
+pratas de água, como um sistema arterial de sonho. Mas é esta a primeira
+noite que falamos e é decerto a última tambêm.
+
+E depois, como poderia desviá-lo, por que paixão substituir esta paixão,
+êste culto das fontes religioso?...
+
+Lembrei-me então do mar, todo o meu culto. E voltando à sinfonia da
+fachada, comecei a dizer que um dos motivos--_a alegria de morrer
+sorrindo_--me fizera, ali na paz de Roma, uma saudade imensa do meu
+mar. Harry fixou-me. Parecia constrangido.
+
+--Gosta muito do mar, não é verdade?
+
+Harry calava-se, interdito. Senti então entrar pelas janelas, como uma
+onda de silêncio que arrolasse, a paz de Roma prenhe de memórias... A
+fonte de Bernini ouviu-se mais: dir-se-hia uma voz de ama milenária a
+acalentar fantasmas com terror...
+
+Ao ver Harry perplexo, hesitante, arrependia-me da pergunta que lhe fiz,
+mas elle viu com certeza nos meus olhos a minha curiosidade, a minha
+ância. A sôbre-excitação daquele instante, até o facto de eu ser quási
+um estranho, a quem se faz mais facilmente confidências do que mesmo a
+um amigo ou a um conhecido, forçaram-no a falar, violentaram-no.
+
+Respondeu-me com agitação de um modo brusco:
+
+--O mar?!... Não posso suportá-lo, odeio-o, porque foi êle que perdeu os
+meus... Compreendo-lhe a beleza, que é divina, mas não o posso ver,
+atterra-me, detesto-o...
+
+Ainda hesitou. Depois, sem interrupção, _vivendo_ as frases:
+
+--Meu pai, que era um homem do povo, viveu doze anos com _êle_ e
+adorava-o. Era piloto. Viajava p'rò Norte quási sempre. Filho de
+marinheiros, tinha nas veias o amor do mar. Foi de volta da Islândia, a
+bordo do _Baltic_, que pela primeira vez viu minha mãe. Teria ela então
+dezassete anos.
+
+Meu pai, ruivo e forte, tinha uma beleza viril, impressionante. Ela, já
+então órfã, viajava com meu tio, um velho estranho, que só as viagens
+por mar interessavam. Era bela (tirou uma fotografia da carteira)
+imensamente bela, não é verdade?
+
+Tinha uma índole exaltada, romanesca, que o hábito de realizar todos os
+caprichos levou a um despotismo singular, de perversão nervosa, de
+histeria, e ao menor obstaculo, com acessos de chôro e grandes febres.
+Meu tio era o tutor, e longe de a reprimir, estimulava-a mais,
+lisonjeando-a, com uma adoração de spleenético alcoólico por aquela
+andorinha semi-louca. Mesmo a bordo, quando começou a amar meu pai, ela
+ia fazer-lhe confidências, contar-lhe os sobresaltos dos seus nervos, e
+êle ouvia-a com uma indulgência de ternura e talvez mesmo com uma ponta
+de sadismo. Mas não quero aborrecê-lo com detalhes.
+
+Contra a vontade de todos, apenas ajudados por meu tio, cujo spleen se
+comprazia neste drama, os dois casaram, depois de uma côrte romanesca
+que alucinara de paixão meu pai. Minha mãe teve uma exigência única, mas
+que era para êle a mais cruel: _abandonar a vida de bordo para sempre_.
+Estava tão doido, que a aceitou sem compreender, pálido como se lhe
+arrancassem tôda a alma...
+
+Na véspera do casamento, foi a bordo do _Baltic_ despedir-se. Abraçou os
+companheiros um a um, e andou horas a bordo, como um náufrago, como um
+cão sem dono, os olhos rasos, a dizer adeus ao seu navio. Toda essa
+noite passou-a a errar no pôrto. Ninguém diria que aquele vagabundo
+tinha uma noiva aristocrata, bela e rica, e ia casar já na manhã seguinte.
+
+A caminho da igreja, sentia uma alegria lúgubre, uma felicidade
+exasperada, como um travo de remorso do mar longe...
+
+Depois veio a vertigem. Durante dois anos, esqueceu o mar, esqueceu tudo
+nos olhos verdes de minha mãe como num álcool. Viviam um do outro, sem
+convívio, num castelo dos arredores de Londres, que meu tio, ainda em
+vida, lhes doou. Havia no amor dêle a minha mãe devoções de plebeu por
+um ser de raça, e o sensualismo de um marinheiro, moço e forte, com
+longos períodos de abstinência no mar largo, por um corpo de pétala,
+serpentino, enlaçando com braços e perfumes...
+
+No amor de minha mãe havia bastante de perversão histérica. Sabia como
+êle evitava falar do mar com uma espécie de pudor religioso. Um dia
+mesmo êle pediu-lhe de joelhos que não lhe lembrasse a promessa que
+fizera, que não falasse do mar diante dêle. E a cada instante, em
+horas íntimas, quando passeavam no parque, nas estufas, nas grandes
+noites de invernia e chuva, ela aludia em frases reticentes onde adejava
+o espectro do mar longe. Tinha a volúpia de o martirizar. E quando o via
+bem amarfanhado, caído como uma coisa ao desamparo, p'ra cima de um
+estofo, a mascar raivas, erguia-se mais linda que um _tanagra_ e ia
+beijar-lhe os olhos, dar-lhe a bôca, endoidecê-lo de amor e de luxúria.
+
+E viviam assim meses e meses. Nem uma visita. Ninguêm. Raro saíam. A
+vida mundana não interessava minha mãe. Tinha-a vivido febrilmente e
+esgotou-a com uma precocidade de nervosa, que tudo interessa e aborrece
+em pouco tempo. Depois, ainda por orgulho. Tendo feito um casamento
+desigual, não queria humilhar meu pai nem humilhar-se.
+
+Havia nesta vida de desejo de dois seres tão diferentes e isolados
+qualquer coisa de feroz, de criminoso. Dois instintos presos por amor,
+na mesma jaula de oiro, dia e noite... Enervavam-se um ao outro.
+Enlouqueciam-se.
+
+Tenho em Londres uma fotografia de minha mãe por êsse tempo. Emagrecera.
+Lembrava um ser patético de Shakespeare. O seu temperamento de histérica
+requintava, em perversões subtis, quási em loucuras. Torturava meu pai
+continuamente, dando-lhe a visão do mar a cada instante, por sugestões
+que iam atormentá-lo, evitando contudo falar dêle, com uma hipocrisia
+que era mais cruel do que seria uma alusão bem clara. Nas salas havia
+paisagens de mar por tôda a parte... E por cima das mesas, dos sofás,
+como uma obsessão de crime, sempre e sempre, livros, romances e
+gravuras, com narrações de mar, sempre com o mar...
+
+Até as músicas que tocava ao piano. Dizia-lhe: anda «ouvir como isto é
+lindo!» E êle encostado ao piano, junto dela, via os _Lieder_ de
+Schubert já abertos numa página marcada. E lia: _O mar!..._
+
+Depois que eu nasci, a nevrose de minha mãe, longe de se calmar na
+maternidade, exasperou-se. Os dias para os dois eram enormes. Passavam
+horas junto do meu berço, inventando-me encantos, a adorar-me. E como me
+dizia a velha Jenny, por quem eu soube tudo o que lhe conto, dir-se-ia,
+naquela solidão envenenada, que cada vez se desejavam mais, se bebiam
+com olhos mais sedentos, com um amor que era uma espécie de ódio.
+
+Tudo isto passava-se sem gestos, sem levantarem a voz uma só vez.
+
+A virilidade impulsiva de meu pae caía dominada ao ouvir-lhe o andar. O
+ruge-ruge dos vestidos dela fazia-lhe um terror voluptuoso. Estirava-se
+aos pés dela muito tempo a beijar-lhe os sapatos, marasmado...
+
+Os criados achavam-nos estranhos, cada vez mais pálidos, mais magros.
+Eles mesmos pressentiam--no silêncio augural daquela casa onde os viam
+enlaçados, de olhos loucos--qualquer coisa de trágico, de mau...
+
+Meu pai, que a bordo fôra sempre sóbrio, bebia agora imenso,
+embebedava-se. Depois, com a idea do mar cravada nele, ia esmoer essa
+obsessão, calado. Viam-no às vezes falar só, baixinho, escondido nas
+salas afastadas, dizendo por entre dentes, sufocado, coisas de bordo,
+vozes de comando, com as mãos em porta-voz, olhando o tecto, como se
+fitasse os mastros, o velame...
+
+Se alguêm o via, disfarçava, com uma expressão de terror quási idiota.
+Ia endoidecendo pouco a pouco.
+
+Minha mãe sabia tudo, tudo. A pobre Jenny, sobressaltada, ia contar-lhe;
+pedia-lhes que se distraíssem, viajassem, que fizesse um esfôrço p'rò
+salvar. Ela, porêm, só tinha curiosidade p'ra saber se meu pai bebia
+muito, se falava só, o que dizia...
+
+Ás vezes vinham cartas dos camaradas, dos portos em que o _Baltic_
+tocava, falando-lhe de bordo com saudades. Êle lia-as e relia-as muitas
+vezes. Trazia-as sempre consigo, decorava-as. Mas logo que minha mãe
+aparecia, mudava de figura, era já outro. O olhar babava adoração.
+E se um instante se abandonava nos seus braços, pegava nela ao colo como
+um doido, levava-a p'rà alcova aos tropeções, sem se importar com os
+criados, com ninguêm.
+
+Afinal minha mãe gostava disto. Era ela que o enlouquecia pouco a pouco.
+Cada vez mais, sem falar dêle, a propósito das coisas mais triviais,
+aludia ao mar, com pausas bruscas, em que os ouvidos dêle, alucinados,
+ouviam o rumor, a voz do largo...
+
+Evocado a todos os pretextos, por essa linda torcionária histérica,
+_êle_ acabou por ser uma presença: o Espírito do Mar viveu com êles!...
+Eram três agora no castelo. Passava o inverno com êles, a seu lado.
+Vivia nas marinhas das paredes, nos livros e no vento, nos ruídos... E
+mais e melhor: na alma dêles...
+
+Sós, à noite, a ouvir o vento, olhavam-se... E em ambas as bôcas, bem
+cerradas, cada um lia: «Ouves o mar? É _êle_...» E depois de suspensos
+um instante p'rò sentirem correr-lhes a medula, afogavam-se nos
+braços um do outro, com uma fúria sensual desesperada. Foi minha mãe que
+provocou tudo isto, e acabou por se enredar tambêm, por acreditar como
+êle, contagiada. Numa cama de amor, dois amorosos, partilham as loucuras
+como os corpos...
+
+O Espirito do Mar estava com êles. Ainda lhe não tinham pronunciado o
+nome, mas calavam-se muitas vezes para ouvi-lo, conversavam sôbre _êle_
+por olhares...
+
+Uma noite de inverno--ia a fazer três anos que casaram--recebeu do Norte
+um telegrama.
+
+Era dum camarada íntimo de bordo. Toda a tripulação o abraçava;
+mandavam-lhe do _Baltic_ saudades... Pareceu-lhe então que o seu navio,
+o seu pano que tanta vez ferrára, vinha naquela noite de Janeiro,
+dizer-lhe o ultimo adeus da vida a bordo, das grandes rotas pelos mares
+de névoa, das veladas na ponte a todo o tempo, dos sonos bons depois no
+seu beliche, pequenino e estreito como um berço... Rolavam-lhe as
+lagrimas dos olhos.
+
+A Jenny, que andava inquieta e os vigiava, muita vez me contou essa
+noite ultima.
+
+Chovia imenso. Ela mesma lhes serviu o chá. Meu pai, como de costume,
+bebeu _gin_. Mas nessa noite foi brutal o que bebeu. Minha mãe, com uns
+olhos de aura histérica, dava-lhe as mãos a beijar, encorajava-o...
+
+Já tarde, ergueram-se. Jenny foi ajudar a despir-se minha mãe. Êle
+seguiu devagar pelo corredor e abriu a janela tôda à noite negra...
+Ficou assim algum tempo a olhar o vago, com a cabeça nua, à chuva e ao
+vento...
+
+Depois, bruscamente, foi pr'ò quarto. Com um tremor de alcoólico nas
+mãos, foi a um armário de que nunca se servia, e começou a tirar roupas
+de bordo, atiradas há três anos para ali como coisas inúteis para
+sempre. Pôs-se então a vesti-las febrilmente: japona de oleado, botas
+altas, na cabeça o sueste... Como a bordo. Viu-se ao espelho. E ia a
+sair, quando voltou p'ra trás. Qualquer coisa lhe faltava. Procurou
+no armário, procurou... Era a faca de bordo, numa bainha de coiro já
+puído. Pô-la â cinta e partiu com um andar mais firme, resoluto, como se
+a bordo, fôsse fazer um _quarto_ em noite má.
+
+Outra vez seguiu pelo corredor, até ao quarto de minha mãe, que o
+esperava. Sem bater, entrou: parou a olha-la. Tinha os cabelos
+desfeitos, muito branca, num _robe-de-chambre_ que abriu ao vê-lo
+entrar. E com o colo nu perdeu-se a rir...
+
+«Vaes p'r'ò mar, meu amor? Deixas-me só?...»
+
+_P'rò mar! P'rò mar!..._ Pela primeira vez há já três annos, espantado
+de se ouvir, da sua voz, repetia o nome sortílego, supremo: «_P'rò
+mar!_» com uma inflexão pueril, quasi idiota.
+
+A lenha crepitava no fogão. Ouvia-se chover cada vez mais.
+
+--«Estás vestido p'ra bordo... Estás já pronto...»
+
+De súbito, ela viu-o demudar-se. Com uma inflexão rouca, de bêbedo,
+tornou; «Está mau... está mau... Está um temporal desfeito. Como querias
+tu que eu me vestisse?» Ela sentiu terror e aproximou-se. «Ouves a
+chuva?» dizia êle. «Ouves a noite?... Ouves?... Ih! Ih! Que vento! Que
+maldito!...» Num lindo gesto meteu-se-lhe nos braços, colando-se contra
+ele, abandonando-se. O _robe-de-chambre_ descaía-lhe nos ombros. «O pano
+incha, o pano incha... Ferrar pano! gritou com voz de comando: Ferrar
+pano!»--Tomou-lhe o corpo nos braços ennovelado. E Jenny, que ao
+ouvir-lhe a voz correra, ouviu ainda aterrada; «Não aguenta o pano!
+Cortar cabos!...» Tirou a faca de bordo da cintura, prendeu a bainha nos
+dentes p'rà arrancar, e cravou-lha no colo até à raiz. Era curva.
+Dir-se-ia que tinha a inflexão dos seios dela.
+
+....................................................
+
+Harry contou-me ainda o processo, o julgamento, e como êle no tribunal
+acusou o Mar... A opinião dos médicos legistas, foi que êle estava
+doido irresponsável. Apesar disso, porêm, foi enforcado. A opinião
+pública, os jornais, eram contra êle.
+
+Harry estava lívido.
+
+--Compreende agora porque odeio o mar.
+
+
+
+
+SUZE
+
+A Paulo Osório
+
+
+Suze
+
+ Oh! dolce,
+ della soglia del lupanare
+ mirar le vergini stelle!
+ --_La meretrice di Pirgo_--GABRIELE D'ANNUNZIO.
+
+
+Não posso dormir. Como há mais de oito dias não recebi carta da Suze, e
+a minha absurda vaidade se recusa a crer que ela me esqueça, ponho-me a
+pensar, com uma perversidade triste, que tenho escrito loucuras a um
+cadáver.
+
+Na última contava ela com uma coragem simples, como o mais fútil
+incidente, que ia entrar p'rò hospital p'ra ser operada. Anunciava-me
+isto, entre um projecto de vestido _gris-taupe_, que iria bem à sua
+tinta de viciosa pálida, e uma chuva de detalhes sôbre a gata, a
+amar com romance e com luxúria um gato magro do terceiro andar.
+
+Se tivesse sido operada e convalescesse, já decerto me teria mandado um
+telegrama.
+
+É pois forçoso convencer-me que a minha pobre Suze--«era uma vez»...
+
+Repito alto p'ra mim mesmo: está morta, está morta a Suze! Logo que o
+disse alto, todo o meu temperamento de actor o acreditou, e em todo o
+meu ser, essa auto-sugestão ressoou em dobres, agudamente, por essa
+rapariga de vinte e três anos com quem vivi dois meses.
+
+A morta (é certo, é positivo que morreu) era alta e magra.
+
+Aqui mesmo, no meu quarto, onde certa noite ela tomou chá entre os meus
+livros, a vejo atirar o chapeu de rendas caras, em que havia heráldicas
+tulipas, acender com um gesto fino um dos Laferme, correr a mão na testa
+com o gesto da Duse nas catastrofes supremas, e dar-me fumo e destino e
+sonho. Aqui mesmo.
+
+Naquele espelho prolongou com um traço de crayon os olhos vagos,
+ali palpou as molas do divan, e no _toilette_ atou horas depois, _im
+memoriam_, as fitas de sêda azul que lhe prendiam a camisa nas espaduas...
+
+(Mas assim, não consigo dizer o que ela foi. Preciso calmar a minha
+febre e começar pelo comêço).
+
+Vi-a a primeira vez êste verão, no teatro, e logo a destaquei.
+
+Os seus cabelos de criança escandinava, loiro cendrado e sêda palha em
+que havia reflexos quási brancos, tufavam na testa sob o chapéu preto,
+descaíam à esquerda, subiam à direita recortando a têmpora em ogiva;
+inverosímeis como raios de um sol de vício, quimicos, absurdos... Só
+depois me convenci que eram autênticos.
+
+Os olhos eram claros, cinzento de agua em névoa; a máscara alongava-se
+num focinhito sonâmbulo; nariz incorrecto, quási grosseiro; bôca grande,
+acolhedora, de comissuras em pontos de interrogação; e o mento perdia-se
+na nuvem de tule de um laço, esparso na gola impecavel de um
+_costume tailleur_ azul.
+
+Tinha muito da Sarah em nova: a cabeça de uma madona _quatrocento_ em
+que vivesse a alma de Montmartre.
+
+Acompanhava-a outra que mal vi, fisgado pelo estranho do seu tipo. Toda
+a noite, ferozmente, a encarcerei no meu binoculo e ela, exibindo
+atitudes de indiferença numa galeria intérmina, nem sequer teve o ar de
+ver-me.
+
+Aborrecia-se com complacência, olhando sem fitar, cumprindo com
+resignação êsse destino de, sôbre uma platea do Pôrto, num barracão de
+_Folies_-Brégeiras, esfolhar a carícia exangue e lambedora das suas mãos
+de raça.
+
+No meu grupo faziam-se hipóteses. Cocotte? Cançonetista? Talvez seja
+essa que se estreia amanhã.
+
+Todos a achavam imensamente estranha e alguma coisa feia.
+
+Quando à saída ela passou, compondo um ar abstracto e um passo ondeante
+de serpente-fantasma, excitado e burro, disse não sei que frase
+escória e ouvi numa voz de sêda que range, esta coisa justa: _imbécile!_
+
+Deixei de ir ao teatro. Achei a vida tôda tão imbecil como eu.
+
+Até que uma manhã Just irrompe no meu quarto e preludia felicíssimo:
+«Foste um doido em não aparecer». Contou então: o empresário F.
+apresentára-o, e como eram duas e eu continuava incógnito, apresentou
+por sua vez o conde C., que ao menos não se arranjava mal.--«A tua, a do
+conde, chama-se Suzanne. A outra, a minha, é Gaby d'Anjou, é perfeita.
+Não sei se reparaste: um corpo grego. Ha uns poucos de dias que isto nem
+parece o Pôrto--».
+
+E partiu num turbilhão de _chance_, dizendo apenas quási à porta, que a
+Suzanne era finíssima, e se tolerava o conde é porque não via melhor, e
+porque emfim, o Amieiro o não vestia mal.
+
+Como mesmo escrevendo, estou morto por chegar ao quarto dela, direi já
+que almoçamos a sós dias depois, e nem sei mesmo se comi, porque
+estendia as mãos em concha aos seus pés magros, p'ròs sentir crispar-se
+com luxúria ao ranger da sêda em fôlha sêca...
+
+Foi rapido e simples. O meu amigo apresentou-me: o conde é lorpa, eu sou
+fino, ela é fina e... _voilà_!
+
+Aqui começa a feitiçaria, o encantamento em que essa serpentina bruxa me
+colheu, polarizando o meu desejo p'rò seu corpo elástico e felino, como
+se as suas mãos de pianista me corressem na medula, e os seus olhos de
+névoa me perdessem em hipnose.
+
+De corpo e espírito era flexivel como uma chama ao vento.
+
+Horas e horas, com febre, com riso, com desespero, vasculho na memória,
+recomponho o complexo encanto dessa rapariga que sabia de cór tôda a
+_Comédia Humana_; tinha um vício pessoal, erudito, arqui-subtil;
+cinicamente ingénua, ingenuamente cínica; amoral e heróica, e que
+caminhava p'rò seu leito de _cocotte_ com o ar redolente de Desdemona na
+_canção do salgueiro_...
+
+Oh! A sua _canção do salgueiro_, musica e versos de Bruant, como eu a
+trauteio ainda exasperado:
+
+ Les ch' veux frisés,
+ Les seins blasés,
+ Les reins brisés,
+ Les pieds usés.
+
+ Pierreuses,
+ Trotteuses,
+ Ás marchent l'soir
+ Quand il fait noir
+ Sur le trottoir.
+
+Os cabelos impossíveis, abusivos, excessivos, caíam-lhe nos ombros; a
+_robe empire_ era ampla e branca, as mangas vibravam em asas de serafim
+profissional... Era uma aparição de lenda rociada de agua Lubin--orvalho
+caro...
+
+Quando depois mais de perto a detalhei, achei-lhe um não sei quê de
+transido, de parado, espécie de kakemono, espécie de bébé enorme,
+enigmatico, aflictivo, como só um caricaturista-poeta criaria, num
+instante de emoção e febre, de quimera e riso. Pobre Suze!
+
+Era pálida, pálida, no seu roupão de noite, sem as rosas do _maquillage_
+que ela tão subtilmente esmaecia. Pobre Suze!
+
+Nenhum pintor português, desde o Grão Vasco, viu para além do real como
+tu viste, nem como tu transfigurou uma mascara de gêsso, patinada a lua,
+numa obra-prima irradiante.
+
+Tu que eu agora vejo como um mármore de desgraça, arripiado, vestido à
+toa, sem _maillot_ de sêda, sôbre uma mesa misérrima de _morgue_; tu que
+tens já talvez no ventre aberto o esverdear levíssimo com que a Morte
+agora te maquilha; tu que depois de tanto te venderes, cada vez eras
+mais _tu_ e mais perfeita,--ninguêm irá junto do teu cadáver pôr-te o
+colar da Ordem do Desprêzo que na vida te deu beleza e estilo.
+
+Foste um génio incompreendido, Suze. É o único ponto de contacto que
+tiveste com dezenas de idiotas que eu admiro.
+
+Mas não é isto o que me aflige, pois sei bem que se da Morte me ouvisses
+e se da Morte me falasses, mais uma vez me dirias a tua grande frase, a
+frase-medalhão, a frase-refrem, que tão sinteticamente define a tua
+graça, o teu _génio_, o teu vicio, o teu desdem:
+
+--_Tu sais, ça, c'est un détail._
+
+
+
+P'rà Suze, tudo na vida era um _detalhe_.
+
+Ela que se deu a saborear a tantos homens, duvido bem que conhecesse um
+_ensaiista_, espírito de síntese, à Carlyle, que emquanto eu nesta noite
+de insomnia a recomponho, com uma saudade sem esperança, friamente
+medite um grosso tomo, que deveria assim chamar-se:--_A Filosofia de
+Suze_ (livro postumo).
+
+E em sub-título, dum chic transcendente:--_ensaio sôbre a supra-mulher_.
+Dir-se-ia no futuro:--_isso é um detalhe_, como outrora se
+disse:--_penso, logo existo_, como hoje se diz:--_o homem é uma ponte
+p'ró Sôbrehumano_.
+
+Se Eça de Queiroz fôsse ainda vivo, eu que nunca o conheci, havia de
+apresentar-lhe a Suze, e juro, juro, que a acharia bem mais subtil, bem
+mais complexa e humanamente fascinante, que o seu extraordinário
+figurino--Carlos Fradique, dandy e epistológrafo.
+
+Fialho, mais feliz, pôde falar-lhe; viu-lhe gestos que valiam maximas, e
+ouviu-lhe memórias e anedotas bem mais significativas que parábolas. Mas
+por mais que insistentemente lho pedisse, nunca escreveu sôbre ela:
+recusou-se.
+
+Não posso eu, como quem empalha uma asa, amortalhar o génio da Suze em
+frases sabias, articular-lhe em sistema as formas tipicas, erguer emfim
+essa arquitectura metafísica, que ficaria na névoa das idades, como um
+farol p'ra sempre...
+
+Não, não posso. Sinto ainda correr-me o corpo todo, em ondas lentas, o
+afago dos seus cabelos, dos seus dedos, que eram vivos, enervantes como
+línguas...
+
+E não é assim, a arder em desejo postumo, que eu posso lançá-la à
+posteridade... De resto, Suze, que era p'ra ti a posteridade? Um
+_detalhe_, um _detalhe_ apenas...
+
+Mas quero afirmar que nessa frase--que nem sequer p'ra muitos que a
+beijaram, foi mais que uma ironia sem estílo--se condensa o estoicismo,
+o galbo heroico, que fez desta parisiense tão estranha na sua vida de
+_cocotte_ nobilíssima, uma neta espiritual de Marco Aurelio.
+
+Foi nobre e foi cocotte. Não estranhem.
+
+Viver, p'ra uma mulher, na sociedade de hoje, é qúasi sempre
+prostituir-se. Mesmo as que casam, e que casando amavam os maridos,
+quantas vezes não sofrem sem desejo, um cio incontinente, numa
+humilhação de prostitutas, até que tôda a emoção se lhes estanque e o
+hábito lhes embote o corpo e o espírito?...
+
+Depois da primeira frase, em que a sêde de amor lhes doira a vida,
+quantas não reconhecem no convívio que o seu ídolo moral é um canalha, e
+que o amoroso é só o macho sordido, sem delicadeza, sem
+ternura--contundente, ferocíssimo, legal...
+
+As outras, são apenas fêmeas broncas presas à canga do lar animalmente,
+ou semi-loucas resignadas que um catolicismo castrador perdeu, ou
+índoles lunares de amorosas esperecendo de martírio e tédio. E
+consciente ou inconscientemente, todas vão afinal prostituir-se. Só a
+_moeda_ diferere: nada mais.
+
+Mas se viver, p'ra uma mulher, é quási sempre prostituir-se, não o é
+menos afinal p'ra um homem.
+
+Prostituir-se é deformar, ou anular mesmo, o que em nós há de individual
+e caracterisante, pela necessidade de captar alguêm, patrão ou mestre,
+rico ou superior hierarquico, e até mesmo o pobre, que nos dá a ilusão
+de sermos bons e a consideração hipocrita dos outros.
+
+Cada um de nós, ao entrar na aula ou na oficina, no escriptorio ou na
+repartição, no salão ou na taberna, é postiço, é convencional, é um
+_outro_; ao princípio confrangídamente, através de mil torturas; depois
+inconscientemente: mecanizado, deformado, quinquilharia andante e
+cérebro de lixos, contribuindo assim para êsse ideal que nos empala, e
+os moralistas chamam--solidariedade humana.
+
+Era fácil mostrar como, violentando o temperamento, esta prostituição se
+repercute até nos gestos, na nossa maneira de andar e de vestir. E isto
+em todas as classes, porque ninguêm é suficientemente forte p'ra se
+bastar a si mesmo; todos precisam da consideração dos outros, da opinião
+pública, e vão vivendo sob a garra do preconceito, que os desengonça e
+deforma, que os raquitiza e anula, como os saltinbancos às crianças.
+
+Quantos resistem íntegros ao regímen penitenciário que é a vida de hoje
+em sociedade? Alguns pelo isolamento;--bem poucos dos que ficam.
+
+Não riam portanto ao ouvir que a Suze, a minha pobre Suze, foi nobre e
+foi cocotte. Cocotte, sim. Como nós todos. Porque, em summa, eu sou
+cocotte, tu és cocotte, êle é cocotte...
+
+Que horas serão? Deve ser quási madrugada.
+
+Eu bem queria nestas palavras de febre, silhuetar a Suze, ter um pouco
+de método, monografá-la. Mas não posso, não posso.
+
+Tenho aqui na minha mesa de trabalho o seu retrato, e nem sei como tenho
+coragem p'ra escrever, como posso desviar os olhos da névoa abysmal dos
+seus, que me transem de irremediável e me enlouquecem de desejo. Desejo
+absurdo, que o impossível hiperestesia, e me impregnou celula a celula.
+
+Sinto no corpo todo a carícia opiada dos seus dedos, a sua carne
+sortílega, embruxada; a sua pele afim da minha, e que com ela dialogava
+em silêncio, nas horas de esgotamento, rememorando sensações agudas,
+fulgurantes...
+
+Vejo-a, vejo-a!
+
+Passa a teoria das nossas noites (em que os seus tics profissionais me
+confrangiam) e ela era sempre duma envolvência fluida, de uma estesia de
+actriz inconsciente, uma viciosa triste, insaciada, e uma boa e uma
+pobre rapariga.
+
+De comêço podiam julgá-la artificial, tão estilizada era a sua graça,
+tanto o seu requinte parecia consciente e erudito, traindo-se em tudo:
+no andar elástico, no dandismo sóbrio, e até no ruge-ruge da sua voz de
+alcova e confidência. Mas não: viam-na mal. Ela era assim sem esfôrço,
+naturalmente: ela nascera uma obra de arte. E todo o meu trabalho de
+esta noite me parece o de um doido que quisesse com poeira reconstruir
+uma obra prima...
+
+Muitas vezes já, aludi ao seu cinismo. Mas entendam-me: cinismo, disse-o
+o forçado genial de Reading--é a coragem de dizer as coisas como são e
+não como deviam ser. E a Suze era assim, quando falava a alguêm que a
+compreendia.
+
+Êsses porém, eram raros, muito raros. Com uma intuição divinatória,
+balzaquiana, a Suze adivinhava às primeiras palavras o seu caso,
+lisonjeava-lhe os instintos, e assim durante o dia era, conforme o macho
+em catequese, canalha ou ducal, obscena ou protocolar.
+
+Um dêles, com quem viveu muito tempo, não via na Suze um animal de vício
+em quintessência, e, estúpido, não lhe sentia a graça esparrinhando
+génio: era apenas sentimental e jogador.
+
+Outra qualquer, para o prender, faria comédias românticas, e decerto
+orientaria o seu comércio por êsse fundo fadista e namorisquento. A Suze
+não. Parecia-lhe demasiado reles, insuportávelmente folhetim. E foi por
+o jôgo que o laçou.
+
+Pouco a pouco, por sugestões dominadoras, foi-o convencendo de que
+ganhava sempre quando cedia passivamente aos seus caprichos, quando lhe
+dava mais vestidos, mais dinheiro: e em pouco tempo, ela era p'ra êsse
+jogador supersticioso, um ícone sagrado, tutelar,--Nossa Senhora da
+Sorte ao seu alcance...
+
+Dominava-o por completo. Se o traía, explicava-lhe com um ar vago e
+superior... que era para lhe dar _chance_; e todas as noites o
+desgraçado vinha implorar da Suze, aninhada num divan, com um pequenino
+ar de sibila delfica, um pouco de sorte por amor de Deus!...
+
+Teve êste espectáculo hiper-dantesco: os Poderes Constituidos--em
+cuecas!... Ella os viu, aos redentores da patria: viu como era piloso o
+sacro onde teem o fogo os oradores: foi caloteada por economistas:
+sofreu contra a pele fina a camisola de flanela dos guerreiros. Mas o
+que mais magoou o seu desprezo, foi a secura e a egolatria dos artistas.
+
+P'ra todos a sua arte era perfeita, radiando ilusão, hipnotisando.
+
+Mais flexível que as nuvens são p'ró vento, o seu proteísmo teatral de
+prostituta mimava a cada um o seu _ideal_...
+
+Ah! Mas como ela ficava, a minha Suze, a sua fadiga nervosa aniquilante,
+o seu imenso tédio neurasténico, querendo desertar de si, da sua alma e
+da sua pele enojada, para sempre!...
+
+E caída num estôfo, amarfanhada, era às vezes triste como uma coisa
+morta, como uma asa ferida nalgum charco... Curtia assim consigo mesma
+horas de miseria moral e de exaspêro, sem uma queixa, sem uma lágrima,
+num orgulho de sózinha, donde só resumava o sofrimento, num gesto, num
+olhar, numa ironia.
+
+Uma manhã em Lisboa, acabavamos de almoçar no nosso quarto, com a
+janella aberta p'rà Avenida.
+
+Ela fumava um Laferme, devagar, no prazer subtil de soprar nuvens. E de
+repente, como a uma lembrança súbita, disse-me isto baixinho, num tom
+que nunca esquecerei:
+
+--Tu sabes: não gosto de falar da minha vida. Nunca me queixei. Se agora
+te falo, é porque é p'ra dizer bem... Neste horror, tenho tido dias de
+uma volupia imensa. Nem sei como te diga. Começo por me sentir doente,
+exasperada, sem poder mais... Eles vêem e eu penso que vou morrer de
+nojo. Vem um, vêem muitos... vêem todos... Então, não sei porquê,
+sinto um bem-estar, um gôso doido; acho prazer a que me humilhem;
+parece-me que nasci p'ra isto, que não há destino melhor... e gozo... gozo.
+
+Depois, num riso sêco:
+
+--Sinto a volúpia de um cristão ás feras...
+
+Parou. Eu recebi num beijo o fumo do Laferme, e a Suze concluiu:
+
+--Que importa isto! É um _detalhe_...
+
+As outras, as vulgares, bestializavam-se; passada a crise horrível de
+adaptação, vendiam beijos, como um mercieiro vende arroz, um advogado
+eloquência, ou um diplomata uma colonia. A Suze não; era esculptada em
+lava: era _alguêm_. Prostituta ou esposa, seria sempre infeliz, seria
+sempre _ela_, seria sempre só. Pobre Suze!
+
+Alma apolínea, foi esboteada por fadistas que teem o nome em crónicas
+heróicas; sofreu-lhes, em noites de orgia besta, o suor e o vomito; e
+com uma clarividência trágica, presentiu muita vez os haustos da manhã
+subindo, a olhar com a pele arrepiada a máscara boçal de algum cliente.
+
+Teve amantes ricos, equipagens, e as suas melhores horas eram quando
+sozinha, abandonada a si mesma, ouvia numa noite de inverno, como uma
+confidência, o crepitar da lenha num fogão...
+
+Teve paixões sensuais que a torturaram, foi roubada impunemente muitas
+vezes, e uma noite em Moscou--cahia neve--velando uma companheira
+moribunda, sem nada p'ra empenhar e sem recursos, foi pôr no prego, jóia
+grotesquíssima!--a propria dentadura da doente que. Deus louvado, era
+montada em oiro... Assim puderam comer aquela noite.
+
+É de estoirar a rir--não lhes parece?...
+
+Sabia de cor tôda a _Comédia humana_: viveu tôda a comédia humana. Pobre
+Suze!
+
+
+
+Tu ao menos, não precisaste de ser louca p'ra sêres santa: ergueste-te
+sempre corajosa e simples, sem um abatimento ou uma queixa; e através de
+insultos e torpezas, conservaste puríssima, apolínea, uma alma
+aberta ao sol como uma rosa!
+
+Quantas vezes, calçada de verniz, tiveste fome, e com teu passo elástico
+de espectro, nem um só Cireneu topaste que ao estender-te a mão, te não
+pedisse gôzo...
+
+Tu, Suze, sabias bem tôda a piedade humana e como ela é antes... e
+depois. Se algum principe Nekhuladoff tentasse redimir-te, como a tua
+palidez riria de alto ao pobre místico, a êle que te falava de perdão e
+arrependimento, quando os teus olhos de névoa viam claro, com um
+determinismo lúcido, fatal, que a tua vida era assim, irremediável, e
+nem tinhas ódios nem sêde de justiça, pois bem sabias que é inútil tê-la
+p'ra morrer à sêde...
+
+Conheceste príncipes, é certo, mas nem um místico: só mais ou menos
+imbecis... Não te fossem falar do ceu,--a ti que tantos viras de platina
+na bôca de gozadores com avarias.
+
+Por isso não tiveste gritos, não te estorceste: nem sei mesmo se
+choraste.
+
+Posta em teatro, não farias uivar as galerias nessa paródia de circo tão
+grotesca que é um quinto acto p'ra burgueses e povinho; eras p'ròs
+_raros apenas_ como o matoidismo poético da minha terra. Na tua voz de
+fôlha seca, dizias de todo o teu calvário apenas isto: _é um detalhe_.
+
+Mas para mim, Suze, o teu corpo serpertino, que ora começa a
+decompor-se, o teu génio a fagulhar num incêndio murmuro de elitros e,
+sobretudo, o supremo encanto da tua dor heróica, sem desfalências e sem
+queixas, para sempre ficarão no meu espírito, como qualquer coisa de
+belo, de perfeito, pois que correste os bastidores da vida, todo o
+egoísmo, tôda a lama, tôda a infâmia, em vítima serena--tão serena como
+essas que na Grécia iam hirtas de dor entre colunas...
+
+E amaste sempre o sol! E amaste sempre o sol!
+
+
+
+Deixa-me lembrar-te: é a última carta que te escrevo. Desta vez serei
+sincero, porque estás morta, porque a não lerás...
+
+Espera!... As nossas tardes no Rio Doce, em Leça... Os olhos dos mortos
+ainda reflectem, ainda _vêem_... Pudesse eu ir arrancar-tos, trazê-los
+nas mãos com cautela, como dois pássaros mortos, e dar-lhes ainda a
+beber, pobrezinhos!--sol, mar, areias ruivas, aguas correntes...
+
+Pudesse eu beijar-te os olhos mortos!
+
+Chamava-se _Sol_ o nosso barco. Eu levava-o à vara, lentamente. Tiravas
+o chapéu, estendias-te à pôpa e nem falavas. De quando em quando, ia
+colar à tua a minha bôca: beijava-te as pálpebras de manso.
+
+Parava sob um chorão, à sombra dos seus cabelos verdes. Cingia-te.
+Poisava a cabeça nos teus seios, que eram lindos, tersos como de virgem.
+Todo o teu corpo desfalecia, se humilhava no teu vestido de sêda crua
+como o duma criança adormecida... E era então que eu sentia, que eu
+palpava, que eu vivia a vida divina do silêncio.
+
+Era mais vago o marulhar da ramaria e fazia mais silêncio, como faz mais
+silêncio, à noite, o acorde das ondas numa praia...
+
+Sentia-se cair silêncio como se sente cair névoa.
+
+As nossas bôcas colavam-se num beijo húmido, calado, duma volúpia
+tristíssima, confrangida. Era como uma despedida sem palavras, muito
+lenta, de dois suicidas...
+
+Eu não te via os olhos, mas adivinhava-os: estavam maiores, mais
+nevoentos, como janelas deitando p'rò silencio que se cavava em torno,
+fazendo leito ao nosso pensamento pelo espaço...
+
+E confusamente sentíamos que o tempo passava, passava sempre entre os
+nossos corpos enlaçados....
+
+Por fim--era à bôca da noite--voltávamos.
+
+Devagarinho, dizias tu, devagarinho...
+
+Eu ia levando o _Sol_ na agua mortuária, e à nossa passagem, partiam
+sempre, iam partindo, pássaros mal adormecidos nos salgueirais das
+margens, reflectiam-se no rio em fugas de asas, e era tudo mais
+triste como se êsse vôo fôsse o adeus de tudo...
+
+Quantas vezes te olhei com os olhos rasos! Disfarçava, não queria nunca
+que mos visses. E de repente, apertava-te os braços, sacudia-te p'ra me
+aturdir, p'ra espancar a emoção que me afogava numa maré de lágrimas
+reprêsas.
+
+Queria gritar, queria chamar-te meu amor e... odiava-te. Queria
+beijar-te as mãos, vestir-te de meiguice, e dizer-te a ância, o sonho
+doido de viver contigo sem palavras--como as estátuas dos túmulos nas
+criptas...
+
+Queria bater-te, cuspir-te, demolir-te, como faz um tufão a uma árvore
+sozinha, e a puxar-te os cabelos de creança, ir gritando, gritando
+sempre: prostituta... prostituta...
+
+Hoje tenho remorsos. Mas tu compreendes, tu bem sabes: era quási loucura.
+
+Não podia perdoar à tua graça ter-se deixado poluir, não podia perdoar
+ao teu génio a tua derrota, não podia perdoar-te, Suze, que fosses
+vítima.
+
+Ah! ter piedade, ter piedade... Mas isso é pouco, muito pouco: é um
+sentimento consolador só para eunucos. E eu queria amar-te ao sol, Suze,
+olhando as árvores irmãmente, todo o nosso desejo a escorrer luz...
+
+A noite vinha. Seguíamos enlaçados, e eu cansava-me no esfôrço imenso de
+te não magoar... Tu bem sabias, tu bem sabias... Segundo a segundo, o
+meu martírio pesava o tempo como se uns ponteiros de relógio me ferissem
+os nervos... Tu bem sabias. Tanto sabias, que por fim me beijavas na
+testa, quási maternal, e a tua voz de fôlha seca rangia êste refrem de
+outono: «Isso passa. E um instante, _é um detalhe_.
+
+Minha pobre Suze, como tu eras justa, como tu adivinhavas, bruxa de
+vinte ânos, p'ralêm da hora que passa, o nada que virá.
+
+A tua desgraça era suprema, porque tu eras _aquela que não se ilude nunca_.
+
+Ainda assim, penso comigo: quem sabe! quem sabe! Se ela me visse como eu
+sou, se eu não fôsse com ela sempre actor, se eu não fôsse o ser
+falso, o clown scéptico mascarrando com riso o sentimento; se eu não me
+amordaçasse a cada instante, e tivesse podido ser eu mesmo... Se visses,
+Suze, a creatura que eu escondo; se soubesses que afinal eu sou bem
+simples e como eu amo a vida tôda de mãos postas...
+
+Se em vez de analisar, eu me entregasse; se eu esquecesse os livros e os
+outros e te falasse tão naturalmente como o meu sangue fala nas
+artérias... Quem sabe!... Talvez, Suze, se eu fôsse o que não viste, o
+que te fala agora... Porque eu lembro-me, eu lembro-me. Duas horas houve
+que nós vivemos um no outro, fora do espaço, fora do tempo... Tu bem
+sabes, tu lembras-te.
+
+Era madrugada. Estávamos deitados.
+
+Todo o meu ser vivia de ti, morria em ti. O nosso desejo ardera, estava
+morto. Que fadiga a nossa, que fadiga!...
+
+A rua despertava, ouviam-se pregões, o sol luzia nas frinchas: eu tinha
+a cabeça contra o teu peito, perdidamente, como contra a esperança,
+como contra o futuro...
+
+Embebia-me em ti, aspirava o teu corpo, a tua carne, a sua tristeza
+imensa, a sua saudade de tudo o que não teve, de tudo o que não foi... e
+juro--que em nenhum jardim, em nenhuma aurora, uma flôr com orvalho me
+ungiu assim de sonho, me fêz assim vibrar no impossível dum amor perfeito.
+
+Levantámo-nos, saímos, e logo a rua, os outros, a vida dos outros, se
+apossou de mim, me perverteu, me obrigou a mentir, a torcer-me... e eu
+ri, eu ri imbecilmente, de nós, da nossa vida, e dessas horas em que
+auscultei contra o teu peito--o impossível de um sonho sempre erguido!...
+
+Pois se esta noite mesmo, ao começar a escrever, ao pensar em ti--na tua
+morte, Suze!--eu fui palhaço, eu quebrei em esgares a emoção, e mimei um
+ar gelado, irónico, impossível, quando queria chorar perdidamente,
+quando queria beijar os pés ao teu cadáver... É que tinha medo, um
+medo horrivel de que os outros me vissem, porque p'ra êles é uma
+torpeza amar-te assim...
+
+Eu podia dormir contigo, dar-te dinheiro... só não podia amar-te. P'ra
+todos os crimes há uma indulgência feita de cumplicidade, menos p'ra um
+crime assim: não tem remissão: é imoral e é grotesco.
+
+É preciso que a dor me abale todo, me fite bem de frente, e me hipnotize
+o seu olhar de chama, p'ra eu poder dizer como te amava, como te amo.
+
+Perdoa, perdoa. Aqui me tens aos pés do teu cadáver.
+
+Tôda a vida morreu p'ra mim: a seiva gelou nas veias das árvores; o mar
+que eu amei tanto, não me importa.
+
+A vida agora é êste horror: uma sala de _morgue_, mesas ovais de
+mármore, cadáveres sem nome, já esquecidos, e entre êles, Suze, o teu
+cadáver.
+
+Como irás tu p'rà cova? Quem te vestiu?... Foram mãos sem carinho,
+mercenárias.
+
+Vejo-te, digo-te adeus, Suze... O teu cadáver transe, empedra de
+martírio. Pareces mais alta, mais comprida. Não te souberam pentear;
+deixaram-te o cabelo em desalinho e, não sei porquê, está mais claro, de
+uma sêda mais pura, mais de infância...
+
+Tens um vestido preto (com que me foste esperar: há quanto tempo?...)
+sapatos de verniz, ponteagudos... fivelas de oiro... meias de sêda nos
+teus artelhos finos de cegonha.
+
+Cruzaram-te de certo as mãos no peito, mas escorregaram, descaíram, e
+amarelas, outonais, dizem ainda: «é um _detalhe_ apenas, um _detalhe_...»
+
+E o que mais me entristece é que tens frio: as mãos da podridão vão-te
+gelando. Oh! As tuas noites na cova, Suze!...
+
+Abriram-te o ventre no hospital. Suturaram-to àpressa, sem cuidado. Se
+te tirassem os nervos... Bem sei que é doido, mas que querem?... Ficava
+assim mais socegado.
+
+É amanhã que te enterram?... Hoje mesmo? Deve ser quási dia, minha
+Suze.
+
+Deixa beijar-te as mãos geladas, de mansinho, enquanto falo... Assim. A
+minha febre aquece-tas: verás...
+
+Não te descerro as pálpebras. P'ra quê? Está ainda escuro.
+
+Tens saudades do sol, minha pobrinha?... A última vez, quando almoçámos
+na praia, ao pé de Leça, olhaste-o tanto que logo pensei que ias
+morrer... Todo o teu corpo diz adeus ao sol. A mais ninguêm.
+
+Família?... Nunca quis saber de ti: contaste-mo sem queixa,
+simplesmente. Disseste como sempre: _é um detalhe..._
+
+Que fica de ti, Suze? A memória da pele é passageira, e é muito incerto
+que a tua graça vá dourar uma saudade.
+
+Ninguêm irá ao teu enterro, e ainda bem!
+
+Por tua causa, ninguêm se irritará jantando à pressa; ninguêm irá, de
+sobrecasaca e mau humor, fazer-te o necrológio ao cemitério.
+
+Não terás latim grunhido por um clérigo, nem essa coisa triste e
+tão grotesca--um círio laico em ar solemne, com fungagá e arenga
+humanitária.
+
+Vais p'rà cova só, como viveste; e depois de te teres dado a tantos
+homens, vai parecer-te natural que te amem vermes... Até na morte és
+discreta, minha Suze, pois nem sequer virás numa gazeta.
+
+Foste perfeita: és perfeita. Amaste a beleza sempre com loucura: nas
+nuvens, nos _maquereaux_, nas pupilas das jóias, nos crepúsculos...
+
+Ensinaste-me o desprêso sem palavras, a dor sem confidência, feita
+orgulho. Deixa beijar-te ainda as mãos geladas.
+
+Quem mas dera guardar p'ra sempre, em mármore; suspendê-las como um
+_ex-voto_ à cabeceira, as tuas pobres mãos tão humilhadas, esfolhando
+eternamente sôbre a vida, o perdão dos que a entendem:--o desprêzo.
+
+... Oiço horas. Uma, duas... oito. Oito horas! Se eu pudesse dormir!
+
+E agora mesmo, ao enfiar-me na cama extenuado, eu oiço a voz da
+Suze, voz de sêda que range, a segredar-me:
+
+--_Mon pauvre ami! Quoi?! Qu'est-ce qui t'attriste? Ma mort?... Mais, tu
+sais, ça c'est un detail._
+
+Sim, um _detalhe_... como tudo, terminando no mármore frio de uma
+_morgue_, ou a uma esquina de rua banalmente. Como tudo.
+
+
+
+
+O VEIGA
+
+A Ramiro Mourão.
+
+
+O VEIGA
+
+É o tipo mais estranho que eu conheço. Que anos terá? Deve ter trinta ou
+mais. Magríssimo, êsse lúgubre cabide que é o seu corpo, traz enfiadas
+roupas de outros, muito largas: sobrecasacas, fraks, vestes ricas,
+esverdeando, já em plena decomposição, e mais vexadas nesse esqueleto
+curvo de pedinte que numa loja de adelo ou num palhaço.
+
+Decerto o conhecem. Decerto já, cerimonioso e gago, lhes pediu esmola. É
+um pobre diabo e é doido: o Veiga.
+
+Caricatura das ruas, conselheiral e poética, encontro-o sempre com vagar
+e ritmo, num abandono corcova de vadio, que daria dandismo a um
+diplomata.
+
+Pois bem: é só mendigo. Mas não como nós todos, a uma esquina de rua ou
+a uma porta banal de ministério, a pedir emprêgo ou noiva rica, dez reis
+ou participação num monopólio. Não é assim: é outro género, é paradoxal,
+é único!
+
+Pede para comer, mas não come como nós todos: por comer. É p'ra viver a
+Vida, a Vida toda! Esperem um instantinho: é extraordinário.
+
+Deixem-me antes contar-lhes como êle era.
+
+O Veiga, quando eu dei por êle, era empregado num cartório. Às dez,
+todas as manhãs, enfiava com unção manga de alpaca. Assim ficava até às
+três, todo curvado, cumprindo religiosamente, riscando o papel selado
+com uma letra estilada e redondinha, tão correcta e tão banal que faria
+o desespêro de um grafólogo.
+
+Tipo neutro, _nem vou lá, nem faço minga_, gozava em todo o tribunal uma
+simpatia benevolente e desdenhosa. O escrivão, os colegas diziam
+dêle: é um pobre diabo.
+
+Era bem um pobre diabo.
+
+Sofriam os seus nervos destrambilhados com o drama quotidiano do
+tribunal, êsse espectáculo de miséria em carne viva, explorada pelos
+outros que viam nela a melhor posta, extra-oficial e lucrativa, o
+verdadeiro emprêgo.
+
+O Veiga, coitado, não explorava: sofria. Às vezes, copiando
+interrogatórios, mandados de captura ou de penhora, tinha os olhos
+rasos, e umas rovoltas frustes de nervoso crispavam-lhe as mãos magras
+na caneta, perturbando em trémulos sem arte o seu lindo e banalíssimo
+cursivo.
+
+Em muitas dessas prosas rígidas, onde se amortalha em formulas destinos,
+ia o gráfico da sua emoção romantisada, o patético mapa dos seus nervos.
+
+No cartório, melhor do que nos livros, sem gangas literárias, sem
+imagens, o Veiga ouviu a maré rouca da desgraça: a sua caneta atenta
+correu-lhe os sete círculos fatídicos; soube-a de cor, como um
+folhetim vivo, gritado aos seus ouvidos, que êle recolhia em papel
+selado a 20$000 réis por mês.
+
+Naquelas laudas oficiais folheava a vida social como num índice; lia
+como numa partitura, tôda a harmonia humana. E que harmonia, Santo Deus!
+
+Tinha vontade de fugir, de tapar os ouvidos, de se meter sòzinho num
+buraco. Ali roçou, mais encolhido, aspirações, quimeras ulceradas. Como
+era um fraco, de uma nervosidade romanesca, sentiu terror: tinha vontade
+de chorar. Não embotava como os outros num cinismo comodista: cada vez
+destrambilhava mais.
+
+Claro que não podia ter amigos: era ridículo, era diferente, era um
+sòzinho. Riam-se dêle com benevolência, estendiam-lhe a mão com um ar de
+obséquio.
+
+Quando se afastava de algum grupo, sob as arcadas conventuais do
+tribunal, ia aflito, a querer sumir-se, com vontade de morrer, pois bem
+sabia que se riam dêle, das palhetas desafinadas, da gaguez.
+
+Vivia com a mãe e sem mais parentes. Mal chegava a casa, ia esquecer,
+queimar no braseiro interior essas misérias, e com a luz de tão má
+lenha, fazia nimbos p'ro seu sonho.
+
+Com que sonhava êle? Com o Amor.
+
+Vira-o nu, reduzido a autos; ouviu-o debater-se bem imundo na
+camisa-de-fôrças que é a Lei; acotovelou-o no cartório, em todas as
+formas, da prostituta de viela ao adultério rico; e assim mesmo,
+persistiu em amar imbecilmente, convencido,--o desgraçado! de não sei
+que sarcástico destino que o talhara p'ra amoroso, com uma carcassa
+humilhante de fantoche.
+
+Amou.
+
+Era uma loira muito chromo, filha da loja de miudezas lá da rua.
+Escreveu-lhe em insónias de delírio, cartas imensas em papel azul.
+Chamou-lhe tudo e ela respondeu-lhe. Durante umas semanas viu cor de
+oiro, andava estonteado, como em sonho, suspenso dos fios dessa trança,
+pairando à altura de um terceiro andar.
+
+E mesmo na saleta do cartório, se o deixavam só alguns instantes,
+fechava como os misticos os olhos, para forrar as pálpebras com ela,
+sussurando baixinho devoções.
+
+Que lhe importava agora o tribunal, essa tragédia amorfa, sem estilo,
+tantas palavras que condensam dramas e que êle por ofício, copiava!
+Escrevia a pensar nela, envolto em vago, como numa nebulosa redentora, e
+já não via no papel um mar pautado, em que bóiam cadáveres de destinos,
+frangalhos de esperanças, vidas podres...
+
+Há muitos dias, o Veiga era quási um ser de sonho. Dizia à mãe em casa
+coisas vagas, comia talvez menos, mas radiava.
+
+Tinha grandes cuidados de _toilette_. Mandou brunir o seu antigo frak,
+que agora sem pêlo era espelhento, e arranjou ainda um côco preto que o
+magoava pouco na cabeça. P'ra ser em segunda mão, era magnifico.
+Vendera-lho um colega no cartório. Andava cheio de felicidade como um
+ovo. Era uma vontade doida de sorrir, de beijar as crianças, dar
+esmolas, de agradecer a Deus o sol e a chuva, e de dizer a todos que era
+amado.
+
+Tinha ido apreçar um anel de oiro, e fazia economias prodigiosas para
+lhe dar em breve essa _aliança_. P'ra ele o anel era um símbolo supremo:
+fundiria p'ra sempre os seus destinos.
+
+Só iria falar-lhe, gritando-lhe da rua o seu amor, quando pudesse levar
+êsse aro liso, que ela enfiaria olhando-o perturbada, como numa liturgia
+nupcial.
+
+Chegou o dia. O Veiga nem comeu. Meteu o anel no bôlso, pôs o côco,
+beijou a mão à mãe comovidíssimo, e partiu rítmico e mudo, mui solemne,
+como se pisasse a aresta do destino.
+
+Era ainda cedo. Vadiou nas ruas, braços pendentes, lânguido, scismático,
+a construir projectos de futuro: outra casa melhor e em poucos anos--um
+lar com ela, imortalmente loira.
+
+Caminhava, alheado, fluctuando, sem olhar, sem perceber aspectos,
+fumando o seu monólogo de sonho, sentindo com prazer que a noite vinha.
+
+Parou por fim, cravando olhos de febre nessa varanda do terceiro andar.
+
+Esperou... esperou e ela não vinha!... Há quanto tempo olhava êle a
+varanda? Há cinco minutos talvez, talvez há uma hora. Perdera a noção do
+tempo. Não sabia. Súbito moveu-se o transparente... Era ela. Olhou um
+instante, viu-o, e retirou depois de um modo brusco.
+
+«Coitadinha! Não pode vir agora. Talvez gente de fora...
+Esperarei»--pensava o Veiga com as pernas a tremer. E esperou, esperou,
+numa agonia.
+
+Por fim deram dez horas muito fortes, badalando-lhe dentro da cabeça.
+Ergueu os olhos. Não podia mais. Batia os vidros um luar de opalas
+fluidas, e ela apareceu na claridade, muito branca, ao mesmo tempo que
+lhe deu um encontrão um caixeiro ajanotado que passava.
+
+«Foi decerto sem querer»,--pensou o Veiga, mas viu-o logo voltar-se a
+provoca-lo.
+
+«Que tem êle comigo? Que lhe fiz?» E interrogava-se assim ingenuamente,
+quando o viu fazer sinais p'rò andar dela e opontá-lo a rir, com um ar
+de troça.
+
+Cessou em torno dêle tôda a vida. Deixou de ver, deixou de ouvir, ficou
+imóvel, numa aura de vertigem que o lambia, cara p'rò alto, lívido,
+inconsciente. O outro então aproximou-se dêle, fisgou-o pela gola, muito
+têso, e com bruscos sacões foi-lhe dizendo:
+
+--Que faz você alí, seu grande lorpa? Não percebeu ainda que o troçaram?
+As suas cartas trago-as eu aqui, p'ràs ler aos meus amigos, p'ra me rir.
+Você sempre é um ponto de primeira... Você ouve ou não ouve?...
+
+E deu-lhe um sacão último mais forte.
+
+--Não há que ver. É mouco como um muro.
+
+O Veiga olhou-o atónito, sem gestos. Não teve uma palavra. Empedrou
+todo. Vergava de fraqueza, mal ouvia, e nos olhos de febre, muito
+abertos, um desencanto imenso, emparvecido, um vazio de assombro,
+semi-louco... Estava em frente do outro sem o ver. Todo o seu corpo
+magro de humilhado corcovava ainda mais de decepção, como se o
+esfrangalhasse uma rajada. Parecia esperar uns braços p'ra cair. O outro
+olhou-o num desprêzo besta, e rematou com o punho em murro junto dêle:
+
+--Agora rode! Senão parto-lhe a cara.
+
+O Veiga nem buliu. Ficou inerte.
+
+--Não ouviu, seu burro, não ouviu?
+
+E como êle não tinha um movimento, deu-lhe uma bofetada que o virou.
+Depois, gozando muito o seu triunfo, encheu-lhe de pontapés o corpo
+todo, teve-o nas patas ennovelado como um trapo, até que farto, resolveu
+larga-lo, soltando-lhe magnânimo o perdão:
+
+--Já basta. Tomou p'rò seu tabaco...
+
+Havia um luar de espasmo, amorosissímo, e o imbecil, trepando a rua
+derreado, abafava os soluços contra o lenço, cerrava a bôca seca como em
+trismus, e só tinha uma ância a empurra-lo: ir despertar a mãe na
+alcova escura para chorar baixinho junto dela, como em petiz quando o
+troçavam no colegio.
+
+Só isto poderia consola-lo: ouvir-lhe a voz, palavras de ternura,
+sentir-lhe as mãos rugosas nos cabelos...
+
+Fêz um último esfôrço, dominou-se. Foi em bicos de pés até ao quarto, e
+caíu de bruços sôbre a cama, como se fôsse a cova, p'ra acabar, na
+humilhação suprema de sovado diante do seu ídolo tão loiro.
+
+Crispou no travesseiro mãos de náufrago, como na carne de alguêm que o
+acolhesse, um amigo pr'a ouvir-lhe a confidência; disse coisas baixinho,
+o nome dela, chorou horas e horas, gemeu alto, diluindo nas lágrimas a
+angústia, sentindo contra o corpo extenuado a moleza da moinha a
+consolá-lo.
+
+Por vezes chorou quási com prazer, desdobrou-se, assistiu ao seu
+martírio, como nas melhores noites de teatro, quando ouvia os quintos
+actos soluçantes, apertado num logar das galerias.
+
+Esteve assim de bruços muito tempo, amolentado, estúpido, pastoso. Não
+podia dormir: era impossível. E com um grande esfôrço, quis erguer-se.
+Mas doeram-lhe então as pisaduras, e numa raiva fruste de impotente,
+feriu a paz do quarto com patadas, com rangidos de dentes e com murros,
+torcendo-se num ódio corrosivo, menos contra o caixeiro que o tosara,
+que contra êle, Veiga, gago e reles, sempre curvado em cumprimentos
+torpes, entre troças e adeuses de desprêzo, sem coragem pr'a um murro ou
+uma insolência.
+
+Sentiu-se trapo, lôdo, coisa imunda. Teve mesmo prazer em deprimir-se;
+rolou-se na humilhação quási com gôzo, como outros na glória ou na
+luxúria, e arrancou do seu misérrimo grotesco, da sua covardia tão
+cuspida, êste consôlo cristão para aureolar-se:
+
+--Sou uma vítima, uma vítima do Amor e do Destino!
+
+Tinha ainda na cara as bofetadas, ouvia ainda a voz boçal do caixeirola:
+«Já basta. Tomou p'rò seu tabaco»; mas a única realidade bem
+tangível, ao sentir-se chorar, assim, de bruços, de côco para a nuca e
+sobretudo, era esta coisa mágica e inefável:--«Sou uma vítima do Amor,
+tenho romance!» E com a cara a arder, era um herói.
+
+Já quási madrugada, adormeceu. Acordou-o o sol vindo até êle, e ia
+voltar-se contra a luz covardemente, p'ra se escoar no sono, p'ra
+esquecer, quando ouviu passos da mãe que vinha entrando.
+
+Embrulhou-se nos cobertores num gesto brusco, para que ela o não visse
+por despir; encolheu-se na roupa o mais que pôde, mas ainda assim ficou
+com os pés de fora, com as botas de elástico enlameadas e o côco
+amolgado em travesseira.
+
+A mãe entrou no quarto devagar, foi abrir as janelas de mansinho,
+supondo-o a dormir, bem sossegado. Quando o viu vestido sôbre a cama,
+com uma palidez desfeita e olheiras fundas, correu p'ra êle, pôs-lhe a
+mão na testa, e perguntou branca de susto, a tremer tôda:
+
+--Que tens tu, meu filho? Estás doente? Porque dormiste assim todo
+vestido?!...
+
+O Veiga olhou-a lorpa, emburrecido. Não soube que dizer, não quis
+contar-lhe; e como se a morte da ilusão o acanalhasse, como se viesse de
+nascer nêle um outro ser, de secura e vaidade, um reles cínico,
+levantou-se da cama, espreguiçou-se, e sem olhar a mãe, sem a beijar,
+foi eructando estas mentiras torpes, surpreendido êle mesmo de as ouvir,
+travando relações com um novo Veiga:
+
+--Que quer?... Nem eu sei já como isto foi. Uma noitada... mulheres...
+foi um pagode. Carreguei-lhe no vinho. Ora aí tem...
+
+Meteu as mãos nos bolsos do colete, e de pernas abertas, bamboleando-se,
+vomitou aos puxões o seu programa:
+
+--Isto vai mudar muito de figura. Estou farto de ser burro, vou mudar.
+De ora avante é outra coisa, é outra vida... Previno-a já. Não tem mais
+que estranhar...
+
+E apontava-lhe a porta:
+
+--O almôço está pronto? Vamos a isso já. Não quero esperar.
+
+Quási nem gaguejava, o imbecil. Sem as asas-muletas da ilusão, que
+erguiam êste orango a céus de sonho, êle ficava um tiranete bufo, com um
+rancor covarde de falhado, a farejar na sua raiva de impotente, uma
+vítima, alguêm para expiar. Pasmada, a pobre criatura saíu limpando ao
+avental os olhos. E começou nessa hora o seu martírio.
+
+
+
+Nova fase do Veiga.
+
+Iniciou-se então no botequim e com o olhar envernizado de genebra,
+ouvindo as _mayonnaises_ de ópera que um sexteto melodramático lhe
+servia, ia pagando bebidas aos amigos...
+
+Foi um ex-colega, que se alcançara havia meses, p'ra fundar um semanário
+clandestino, que o apresentou aos rapazes do cavaco. Depois,
+extorquindo-lhe os cobres da bebida, empreenderam tambêm o apostolado.
+
+--E o nosso amigo tem... a _ideia_?
+
+O Veiga não a tinha. Forneceram-lha copiosamente, em noites de catequese
+desvairante. Era agora um iniciado o meu idiota. As necedades que os
+outros lhe gosmavam, como uma bíblia obscena de revolta, acolhia-as o
+Veiga com fervor: o caixeiro agora era o _burguês_, e o seu ídolo loiro
+o _preconceito_!
+
+Perdia as noites num delírio gago, a proclamar no botequim o _amor
+livre_. Faltava ao cartório muitas vezes. Inconscientemente, como rezava
+com devoção até há pouco, absorvia brochuras anarquistas, e tinha à
+cabeceira, como uma espécie de _Flos sanctorum_ laico, um agiológio
+patético, ilustrado, com um Ravachol de auréola, hiper-cristo, e os
+mártires de Chicago nimbados.
+
+Recolhia de madrugada ou noite morta. Nem já tinha horas certas de
+comer. Alimentava-se de pastéis e álcool. Só ia a casa para insultar a
+mãe e p'ra dormir.
+
+Mal lhe dava dinheiro p'ra comer. A pobre criatura envelhecia anos cada
+dia. Por fim já nem falava: tinha por êle uma espécie de terror. Ouvia-o
+arengar coisas tremendas: a revindita social a dinamite, o «ódio ao
+burguês», trapos de frases feitas que êle moía e remoía muitas vezes,
+numa espécie de automatismo cerebral.
+
+--Porque, fique-o sabeado, Deus é o crime... o crime, sim senhor,
+digo-lho eu... Hei-de dar que falar. Verá, verá...
+
+--Não hei-de ver, meu filho, que eu não tardo... Deus há-de me levar. É
+grande esmola...
+
+E lá ia a chorar muito baixinho.
+
+Com as noites de álcool e vadiagem, numa exaltação agudíssima e imbecil,
+a loucura do Veiga emparedou-o.
+
+Não podia dormir o meu fantoche. E depois das palestras de café, em que
+os outros disparavam burramente trechos de artigos de fundo e anecdotas,
+vagueava monologando, em falla-só, repetindo na excitação da bebedeira
+as escórias que mais o impressionaram, e o que era pior,
+sugestionando-se, desdobrando-se num Veiga que ameaçava, e noutro que o
+terror lambia todo.
+
+A Sociedade, a Religião, o Estado, eram os inimigos do meu títere.
+
+Ao recolher a casa, noite morta, tomava precauções, dava mais voltas, e
+era em suores de angústia, em calefrios, que dobrava, na névoa, cada
+esquina.
+
+Andavam a preparar-lhe uma cilada... Quàsi tinha terror do novo ser que
+se instalara nêle, inquietante, atulhado de fluído de revolta, como uma
+garrafa de Leyde subversiva.
+
+Certo, êle não fizera nada, era um pobre diabo inofensivo, mas vivia
+agora o _outro_ dentro dêle, como uma mina de dinamite, subterrânea, que
+a Ordem poderia farejar... E entrou a ter medo da polícia.
+
+Ao recolher, logo que via um guarda, nem sequer dissimulava o seu
+terror, rodava nos calcanhares, voltava logo, de uma forma tão flagrante
+e tão grotesca, que se fazia notar ao mais boçal.
+
+Às vezes esperava o sol, porque de dia não _lhes_ tinha medo, e era na
+luz lial da madrugada que se esgueirava p'ra casa, rente às portas.
+
+Uma noite em que bebera mais, desengonçou-se em tão cómicos tregeitos
+ante o primeiro guarda que avistou, que o santo homem resolveu
+deitar-lhe a luva, e regenerá-lo com parasitas no Aljube.
+
+Lá passou o resto da noite, sem falar, meio sonâmbulo de medo e de
+genebra, e a única impressão nítida que teve, foi a de ouvir, pouco
+antes de o soltarem, um fado soluçado como nunca, por um gatuno que
+dormira ao lado dêle:
+
+ Já que eu te não dou o pão,
+ dá-te nua a quem to der;
+ mas guarda-me o coração,
+ a alma que ninguêm quer.
+
+Foi por êste tempo, que êle fez parte do grupo dramático _Luz e
+Esperança_. Gago e solene, estava a calhar p'ra conde e p'ra _pai
+nobre_.
+
+Teve triunfos colossais nos arredores. Declamava às noites pelas ruas,
+corrigia nos espelhos das vitrines a expressão dramática da tromba, e
+muita vez contrascenou com os candieiros, à hora espectral dos
+varredores... Fazia, é claro, teatro de combate, peças de intuitos
+sociais, dramas de tese, e como todos os colegas lá na _troupe_,
+considerava-se um _actor-apóstolo_. Recolhia cada vez mais tarde,
+trespassado de frio e de patético.
+
+Uma manhã, chegando ao patamar, procurava a chave pelos bolsos, quando
+viu um vulto enrodilhado contra a porta. Estacou, varado de terror. O
+seu primeiro movimento foi de fuga. Quem seria?!... A mãe não,--dormia
+àquela hora. Mas, olhando melhor, viu que era ela... Estremeceu. Meu
+Deus! Estaria morta?... Não, não: adormecera ali. P'ra quê?... Não podia
+perceber.
+
+--Deu-lhe talvez alguma coisa... Coitadinha!
+
+Sacudiu-a de manso, despertou-a. Pela primeira vez há muito tempo,
+teve um gesto de filho, de piedade: ajudou-a com ternura a levantar-se.
+A pobre criatura erguia uma cara de espanto, de terror. Vê-lo outra vez
+meigo p'ra ela como dantes, inquietava-a mais que ouvir-lhe insultos. E
+ali no patamar, sem gestos, fitaram-se, como dois náufragos, segundos.
+Não se viam já há muitos dias...
+
+A expressão da cara dela ia mudando à medida que o fitava:--_era o seu
+filho!_ Aquele rapaz cheio de rugas como um velho, com um tremor nas
+mãos, no corpo todo, aquele pobrezinho--_era o seu filho!..._
+
+Sempre a olhá-lo, ergueu as mãos que tanto o abençoaram; a sua máscara
+desfeita iluminou-se, tanto a piedade ardia dentro dela; e com uma voz
+de misericórdia e de carícia, pôde ainda dizer-lhe:
+
+--Ó meu filhinho!...
+
+E caíu-lhe, tôda em lágrimas, no peito. Entraram abraçados pelo quarto.
+Lá estava a cama aberta, a dobra feita--como uma carícia dela a
+recebê-lo... Através das frinchas das portadas, a manhã estava a
+sorrir no travesseiro...
+
+Então na alma dêste trapo humano o remorso dobrou como um mau sino,
+fazendo-lhe vêr quanto de bom era possível: a vida antiga com a mãe, a
+vida calma... Sentia bem que fôra torpe para ela; viu-a com a cova ao
+lado p'ra tragá-la: e numa lufada de desespero ajoelhou com lágrimas
+rolando quatro a quatro; gaguejou como uma creança a quem bateram:
+
+--Ó mãesinha... ó minha mãe... perdão
+
+Ficou assim alguns instantes; levantou-se. Ainda outra vez fitaram-se
+nos olhos--como se um dêles acabasse de chegar, com uma sacola de dor,
+de muito longe... E agora, entre lágrimas, sorriam. Êle pôz-se a
+dizer-lhe muito baixo:
+
+--Juro por Deus, minha mãe, juro por si, que ainda a hei-de fazer muito
+feliz... Hei-de pagar-lhe com amor, com muito amor, os meses de martírio
+que lhe dei. Verá, verá. Vou ser outra vez o seu filho, vou ser
+outro...
+
+--Sim, sim, meu filho, tu és bom. Deus trouxe-te outra vez. Pedi-lho
+muito. Eram as más companhias... os malvados... Por pouco te matavam,
+meu filhinho. Matavam-nos a ambos, Manoel. A tua mãe já não podia mais.
+E tu... e tu... estás tão magrinho!...
+
+--Hoje começa vida nova. Não se aflija. Hei-de ser forte outra vez, vou
+trabalhar...
+
+Interrompeu-se de repente, como se uma ideia de terror viesse gelá-lo. A
+mãe, sem compreender, continuava:
+
+--Trabalhar... ora ahi está, é o que é preciso. Foi por isso que te
+esperei deitada à porta, com mêdo que entrasses e saísses sem te eu
+ver--como nos últimos dias sucedera... E eu, pobre de mim, que tinha
+medo, não sabia como to havia de dizer!... E afinal tu mesmo o
+reconheces. Louvado Deus! Tudo é pelo melhor. Ora vê tu--mas que cabeça
+a minha!--pus-me p'raqui a falar e nem to disse... Esta tarde, o senhor
+Sousa esteve cá...
+
+--Quem?
+
+--O snr. Sousa escrivão... êle... o teu chefe.
+
+--Ah! disse o Veiga e pôs-se cor de cal.
+
+A mãe, sem reparar, dizia sempre:
+
+--Devo-lhe muito, é muito nosso amigo. Que outro no seu lugar--tu bem o
+sabes--tinha-te posto fora do emprêgo. Mas êle não. Só quer que tu te
+emendes. Diz que te espera hoje sem falta, às dez em ponto. Verás,
+Manoel, tudo se arranja bem...
+
+Êle olhava-a com os beiços a tremer:
+
+--Estás contente com isto? An! Manoel?...
+
+--Não, minha mãe, não volto ao tribunal. Não posso mais... não posso
+mais lá ir...
+
+--Ora essa, meu filho, tu que dizes?!...
+
+--Não, minha mãe, não posso mais lá ir...
+
+Por mais que perguntasse, que insistisse, sempre a mesma resposta em voz
+sumida, como a última decisão de um agonisante:
+
+--Não posso... não posso... É-me impossível
+
+E de repente, chegando-se p'ra ela como um petiz com terror, pôs-se
+a dizer baixinho:
+
+--Quem sabe se não é uma cilada... O Sousa quere-me lá p'ra me
+prender... Sabe que sou um anarquista... quere vingar-se...
+
+Continuou neste tom ainda algum tempo. Ouvindo-o sem poder
+interrompê-lo, com o coração a desfazer-lhe o peito, a mãe era forçada a
+perceber que aquele desgraçado que ali tinha, guardado nos seus braços
+outra vez, precisava mais de si que em pequenino, porque Deus lhe tirara
+o entendimento.
+
+Quando êle lhe contava as suas noites, como na rua a polícia o
+perseguia, o que havia na nèvoa, a certas horas,--interrompeu-se
+bruscamente e ainda mais baixo, transido de pavor, colado a ela,
+pediu-lhe que fôsse ver ao patamar... tinha ouvido passos... era
+alguêm... Para o tranquilizar, ela fechou a porta à chave, com os olhos
+rasos, a conter-se, e pôs-se então a ver se o adormecia.
+
+--O que precisas, Manoel, é de dormir, tens mesmo os teus olhos a
+fechar-se...
+
+Êle não queria dormir. Era impossível. Podia vir o Sousa... alguêm
+prendê-lo... Só se ela ficasse ao lado, de vigia.
+
+--Eu fico, eu fico ao pé de ti. Sossega. Despiu-o então como em pequeno.
+Tirava-lhe a roupa devagar, ia-o beijando com meiguice, em despedida: e
+deitou-o por fim sem resistência, como se fôsse uma criança sonolenta.
+Aconchegou-lhe o cobertor bem contra os hombros--tão magrinho, Senhor,
+um esqueleto!--e à beira da cama, de joelhos, sentindo-o adormecer, ia
+dizendo:
+
+--Dorme, meu filho. Dorme... dorme... dorme...
+
+Quando o sentiu adormecido, ergueu-se.
+
+--E agora?!... perguntou no quarto escuro. O filho doido... a morte em
+tôrno dela... e ninguêm, ninguêm que lhe valesse...
+
+Lá fora a manhã subia, com pregões. Mas neste quarto, para a pobre
+velha, o silêncio era doloroso como um uivo.
+
+Meses depois, encontrei-o uma manhã em Nevogilde, sob um grande
+castanheiro a desfolhar-se.
+
+Intrigou-me ver o Veiga em pleno campo, saturando-se de outono e
+solidão. Que podia fazer ali aquele idiota?
+
+Mas quando me aproximei e o vi de perto, espantou-me a mudança que
+fizera. Era outro: era um pedinte louco, de olhos meigos...
+
+Parei a olhá-lo. Êle cumprimentou-me com maneiras untuosas de prelado...
+E ficou a sorrir, chapéu na mão, como à espera de que eu fôsse falar-lhe.
+
+--Linda manhã, senhor Veiga, não é verdade?
+
+--Diz Vossa Excelência muito bem... Está linda.
+
+--Então mora por aqui--por Nevogilde?
+
+--Não, senhor... Eu não tenho casa. Gosto disto... aqui. Ha campo e mar...
+
+--Não tem casa!... Desculpe esta pergunta: e onde dorme o senhor?...
+
+Esteve um pedaço a fitar-me, olhos em olhos. Depois--em confidência
+misteriosa:
+
+--A Vossa Excelência sempre o digo. Eu nunca durmo...
+
+--An?!...
+
+--Eu nunca durmo. Não tenho tempo p'ra dormir. Quero viver! viver!...
+Não posso perder nem uma manhã nem uma noite. A gente sabe lá quando tem
+de deixar isto... Sabe-o Deus! Eu já perdi muito. Tenho remorsos. Quando
+penso nisso... tenho remorsos... Quando eu era empregado, passava dias
+inteiros sem olhar p'rò céu. Só via gente e ruas... E as noites...
+tambêm as perdia. Ia p'ròs teatros, p'ròs cafés. Foi só depois--quando
+morreu a minha mãe--que eu compreendi que ia mal... e resolvi viver.
+Passei dias de desespero, a pensar que não gostei dela como devia... que
+a não acarinhei... que a deixei ficar sozinha muitas vezes... Ia dando
+comigo em doido. Depois lembrei-me--que o que me sucedeu com a minha mãe
+me podia suceder com a vida toda. E mudei de rumo... Deixei o
+emprêgo. Fiquei assim... pus-me a viver. Agora, se adormeço num banco
+uma hora ou duas, zango-me comigo...
+
+Por muito tempo, em palavras de gago, bipartidas, sussurou as razões da
+sua vida, a sua exegese moral de vagabundo, a sua felicidade e... os
+seus recursos.
+
+Tinha amigos, pessoas que o conheceram noutro tempo, _antes de êle saber
+o que era a vida_... E quando precisava de dinheiro (êle afinal de pouco
+precisava: nutria-se de frutos e de pão) era muito raro recusarem-lho:
+só se de todo em todo não podiam.
+
+Notou que eu lhe fixava a andaina rôta e sorriu com meiguice desdenhosa:
+
+--Ando assim... todo rôto. Que me importa! E podia andar bem... isso
+podia. Muitas pessoas me teem dado roupa. Até fatos inteiros... e em bom
+uso. Pode V. Ex.ª acreditar. Mas às vezes, de noite, pelas ruas, vêem
+ter comigo às escondidas da polícia, desgraçados com fome... todos
+rotos... E por boas maneiras ou à fôrça, tenho de trocar a minha roupa
+pela dêles...
+
+--Imaginam, coitados, que me roubam... Que pode isso fazer-me!... Que me
+importa!...
+
+Teve uma expressão de piedade em tôda a máscara, e gaguejou com outra
+voz, comovidíssimo:
+
+--Tenho tanta pena dêles... tanta... tanta... de todos os que foram como
+eu.... No fundo... é mais triste que a fome e que a miséria... ver como
+andam na vida _sem viver_... V. Ex.ª perdoe o que eu lhe digo...
+
+Assim, nessa manhã de outono, eu conheci um outro Veiga--o que me
+interessa.
+
+Perguntei-lhe, almofadando a oferta, se precisava algum dinheiro.
+Recusou. Tinha já almoçado há algumas horas... Mas como eu insistia,
+tirou do bolso uma mãocheia de migalhas, e mostrou-mas como um último
+argumento:
+
+--Ficou-me ainda isto... pr'òs pardais...
+
+Depois, com um gesto lento, precioso, em que as taras do amador
+dramático automaticamente se traíam, tirou do outro bolso muitas
+pétalas, e ofereceu-me algumas:
+
+--Faz... favor. São de uma roseira que o vento desfolhou...
+
+Ficou curvado a aspirá-las uns segundos:
+
+--Certas manhãs de outono... os perfumes dão vontade de chorar...
+
+Datam daqui as nossas relações. Cultivo nele com estima, com ternura, o
+único panteísta que eu conheço. E tal qual o vêem pelas ruas, êste pobre
+mendigo alienado anda «bêbedo de Deus», como Spinosa.
+
+Encontrei-o ontem à noite: conversámos. E as poucas palavras que me
+disse, cravaram garra em mim: não as esqueço. Êle anda agora
+esquelético, a cair: o seu boemianismo panteísta tomou uma forma aguda,
+convulsiva: é uma espécie de delírio ambulatório.
+
+Como eu aludia ao seu cansaço, pedindo-lhe que não andasse dia e noite
+nessa lufa em que agora o via sempre, êle, que era mais meigo de
+que um cão, deitou-me bruscamente as mãos aos braços, e com uma
+indizível voz de raiva e súplica:
+
+--Por o amor de Deus... não diga isso! Olhe que eu não duro muito. Eu
+sei... eu sei... E tenho fome... fome de adorar... Eu quero como a um
+filho, à terra tôda...
+
+E falou-me das árvores, do mar.
+
+Disse-me que queria acompanhar a Noite, sem perder um segundo, um só
+segundo, caminhando com ela, caminhando;--e logo, logo ao despedir-se
+dela, abrir bem os seus olhos, bem abertos, ao primeiro araiar da
+madrugada... E seguir depois o sol até à morte, ele e a sua sombra que
+era triste--como se fôsse já uma saudade...
+
+Era num jardim público, deserto. Caíam dos plátanos fôlhas sêcas... Êle
+baixou-se, apanhou algumas com cuidado, como se fossem borboletas
+estonteadas...
+
+--Veja V. Ex.ª veja... Como estão encarquilhadas... tão sequinhas! A
+minha hora chegou como a hora delas...
+
+E como o vento as fazia redemoinhar, estremeceu e disse bruscamente:
+
+--Passe Vossa Excelêcia muito bem... Queira perdoar... Não posso perder
+tempo...
+
+E o amante da terra o meu pedinte; não tem tempo p'rá amar, por isso
+sofre; sente que ela lhe foge a cada instante, e não quer adormecer p'rà
+sentir sempre, contra o seu corpo de fantoche mártir, com sobrecasacas
+doutros, fraques doutros, por cujos rasgões entra o sol ao luzir dalva,
+até que a noite por sua vez se engolfe neles, correndo-lhe a carne de
+miséria, sensitiva, e amando-o sem nojo horas e horas...
+
+A Morte, quando vier, vai comover-se, ouvindo-lhe na gaguez frémitos de
+asas, vendo-lhe abrir os braços de esqueleto como p'ra agasalhar a vida
+tôda, e oferecer-lhe nas mãos roxas e ósseas--pétalas murchas e
+folhagens sêcas...
+
+Não pode durar muito: é impossível.
+
+Mas nas pedras da rua onde morrer, terá em torno dêle a despedir-se, o
+Mar, as Árvores, a Aurora, tôda a vida da terra--sua amante...
+
+Apercebia com uma acuidade visionária a orquestração da noite, dita em
+surdina nas janelas, nas folhagens, e decompunha essa penumbra de
+ruídos, complexíssima, a que chamamos vulgarmente as «horas mortas».
+
+Quási madrugada, em Dezembro, recolhia eu estugando o passo, porque
+fazia uma névoa frigidíssima, quando o cruzei numa ruela íngreme. Levei
+a mão ao chapéu e fui andando, mas instantes depois êle atracou-me, a
+tiritar de frio, soleníssimo, o côco erguido e o busto em reverência.
+Era ainda polidez, diplomacia:
+
+--Desculpe V. Ex.ª Teve agora a bondade de saudar-me e eu não pude
+corresponder... Só depois me voltei e o conheci. É que eu ia distraído,
+a trautear...
+
+--Nada mais natural, senhor Veiga, nada mais natural...
+
+E p'rò não despedir com brusqueria, fiz-lhe ainda esta pergunta
+estúpida:
+
+--E que trauteava o senhor com êste frio?
+
+Fixou-me. Depois com um gesto curvo, muito vago:
+
+--Isto... o silêncio... a névoa...
+
+Sem frauta rústica, pobre fauno de quico e butes rotos, o Veiga não
+imitava, como colegas seus de longes tempos, quando a Terra era ainda
+uma criança, o rumor claro das levadas rindo espuma, mas apenas o
+esgarçar dolorosíssimo de uma névoa mendiga de dezembro, que o vento ia
+rasgando aos empuxões, nos beirais dos telhados, nas esquinas, esquecida
+talvez de que foi mar ou o chôro das nuvens vagabundas...
+
+E lá foi sob a grisalha a desfazer-se, ouvindo música inédita p'ra
+todos, êsse mísero fauno arripiado que eu vi uma só vez com uma ninfa...
+
+Foi à beira do rio, em Massarellos. Como era tarde e não havia
+eléctrico, eu ia a pé p'rà Foz, na noite calma.
+
+No cais, sentado em toros de pinheiro,--madeira para embarque,
+certamente--havia um par em idílio, muito unido, onde fui descobrir
+com grande espanto, a silhueta cómica do Veiga.
+
+Por trás, junto a uma faia sonolenta, detive-me um instante a escutar.
+Era o Veiga que falava à creatura, na sua voz gaguejada e um pouco
+emfática, em que eu sentia o ex-amador dramático sob uma névoa de
+lágrimas molhando-a:
+
+--Não se aflija. Eu tenho relações. Ha-de tornar a entrar p'rà fábrica,
+descanse. De que serve chorar?... Torna a entrar, torna a entrar,
+digo-lho eu.
+
+E uma voz de timbre fino, adolescente, respondia num chôro sem esperança:
+
+--Não me querem lá mais. Que hei-de eu fazer?...
+
+--Qual não querem! Olha a grande coisa! Mas porque foi que andaram à
+pancada?
+
+A outra voz choramingava, aos haustos:
+
+--Eu andava na descarga do carvão... Nunca chegávamos à barca ao mesmo
+tempo. Quando eu trazia o cêsto carregado, voltava ela sempre de o
+largar... e dava-me encontrões e más palavras. Eu calava-me, mas já não
+podia mais. Tudo isto, já se vê, por causa dum rapaz que é da Afurada e
+anda a passar o povo p'rá outra banda. Hoje deu-me um encontrão com
+tanta força, que me voltou o cesto na cabeça e chamou-me... ainda por
+cima. Foi então que me atirei a ela como cega--que até lhe cuspi de
+raiva no cabelo... Depois o inspector veio e poz-me fora. E agora...
+agora...
+
+Desatou a chorar de encontro ao Veiga. Corria um leste morno de carícia,
+e êle passando-lhe as mãos magras na cabeça, gaguejava consolações, mui
+comovido:
+
+--Não chore, não chore, torna a entrar. E há-de voltar p'ra casa ainda
+esta noite... Eu mesmo vou acompanhá-la... Não tenho nada que fazer. Não
+me faz monta... Eu falo à sua mãe, conto-lhe tudo. Já ela lhe não
+bate... então... não vê? Depois volta p'rà fábrica, verá. Eu tenho
+relações, trato-lhe disso. Amanhã pela manhã...
+
+Não ouvi mais. Nem um sôpro de desejo nessa arenga: apenas o amor por um
+ser vivo, a ânsia de o erguer que êle teria, vendo um caule partido num
+caminho ou uma rosa ao abandono, a desfolhar-se.
+
+É que os nervos do Veiga, como os de certos artistas que teem génio,
+vibravam de amor egual por tôda a Vida, e sentiam nas rosas e na névoa,
+nas crianças e nos pobres e nas almas, a mesma ância inconsciente de
+Unidade, o mesmo erguer de mãos para a Beleza.
+
+Vi-o depois na Cordoaria uma manhã de inverno, sob o tufo scismático dos
+cedros, grisalhos de névoa e de geada.
+
+Debatia-se com grandes gestos aflitos, entre um grupo de garotos que
+gritavam. Trazia um frak imenso, parecendo ter sido acastanhado, côco
+preto que a grenha intonsa levantava, e na cara chorinca e acriançada,
+davam-lhe os olhos rasos, mais que nunca, um ar de melodrama pífio, um
+cómico angustioso de careta.
+
+Não me sentiu aproximar. Ouvi-lhe a arenga gaguejada: compreendi.
+
+Um dos garotos apanhara, fisgando-o à pedra, um pobre pássaro que outro
+tinha nas mãos agonizante. O Veiga que passeava, interviera, e entre
+insultos e risadas, reclamava com palavras patéticas, o pássaro--_para
+que o não matassem._
+
+--Se o quer, dê-me um vintém por êle, dizia brusco um dos pequenos.
+
+--Quem?! Olha o peneira! gritava outro às gargalhadas.
+
+Dei o vintém, mandei que lho entregassem.
+
+Foi ao ouvir-me a voz que se voltou. Riam-lhe as lágrimas nos olhos.
+Tirou-me o côco, curvado em reverência. Depois, como o garoto lhe
+entregava o passarito, recebeu-o com carícia no côncavo das mãos
+arroxeadas, e hirto, solene, sacerdotal, veio entregar-mo, erguendo
+muito os braços, como se levasse uma píxide sacrosanta.
+
+--É... é de Vossa Excelência... Muito... muito obrigado...
+
+E sem que eu tivesse tempo p'ra fugir-lhe, beijou-me as mãos e deu-mo
+ensanguentado.
+
+Encontrei-o muitas vezes de passagem: de manhã, de noite, a tôda a hora.
+
+Às vezes, esquecia-se a olhar muros de quinta, quando caem braçadas de
+glicínias, e era dêstes p'ra quem o musgo núma pedra é um afago de
+veludo que comove.
+
+Uma noite, vi-o sair com um embrulho de um bazar. Vinha radiante.
+Viu-me, flectiu em parábola numa vénia, e foi andando.
+
+Cruzei-o horas depois ao vir do teatro. Seguiu-me. Vi que queria
+falar-me e esperei-o numa esquina, a acender um cigarro. Abordou-me com
+o cerimonial de mandarim que êle usa sempre. Supus que ia pedir
+dinheiro. Mas não: era outra coisa.
+
+--V. Ex.ª desculpe... Está frio e eu venho demorá-lo. Vem decerto do S.
+João... é só um instante. É que eu devo uma satisfação a V. Ex.ª. Viu-me
+hoje sair do _Bazar dos tres vintens_, não é verdade? Decerto
+imaginou que eu fui lá comprar p'ra mim alguma coisa... Não fui: quero
+contar-lhe...
+
+--Ó senhor Veiga, que idea! Nem pensei nisso.
+
+--V. Ex.ª consente? Eu vou dizer. Fui lá comprar uma boneca p'rà
+Mariinha... Perdão. V. Ex.ª não sabe quem ela é. É a filhita duma pobre
+que eu conheço... Tem cinco anos... É um amor de pequenina. Sou muito
+amigo dela. Até me chama padrinho... A mãe ensinou-lhe. Já V. Ex.ª vê...
+Era p'ra ela...
+
+--Não era preciso dizer, eu nem notei...
+
+--Era o meu dever. Pela consideração que V. Ex.ª me merece. Queira V.
+Ex.ª perdoar. Não o importuno mais. Está fria... está muito fria a noite!
+
+Ainda uma reverência e lá partiu.
+
+Estranho Veiga! Como se desentranhou êste ser de hoje, do grotesco banal
+que eu conheci?
+
+Como dêsse reles títere, amoroso sovado, trapo humano, ex-amador
+dramático e ex-poetrasto, saiu o panteísta vagabundo, o louco duma
+misericórdia tão sentida, que eu vi salvar com os olhos rasos um pobre
+passarito moribundo?...
+
+A pobre velha, morrendo, _iniciou-o_. Nasceu da sua dor segunda vez...
+
+Uma manhã, em Carreiros, junto à praia, depois das cortesias do costume,
+pediu-me uns cobres para ir almoçar. E quando eu ia já a despedir-me,
+reteve-me com um gesto, e gaguejou esta oferta, muito lento:
+
+--Peço licença... p'ra uma pequena lembrança a V. Ex.ª Mas antes
+prometa-me que a aceita... É uma insignificância, mas cuido que V. Ex.ª
+a estimará...
+
+Prometi.
+
+Enfiou solene a mão ossuda no bolso da sobrecasaca coçadíssima, que
+vestia sem camisa, contra a pele, e tirou com infinitas precauções, um
+asterídeo ainda húmido, perfeito.
+
+--Como sei que V. Ex.ª gosta do mar, pensei em dar-lha. É uma estrela do
+mar... Perdoe o atrevimento...
+
+E partiu quando eu lha agradeci, com os olhos loucos rasos de alegria.
+
+Nunca, porém, me feriu tão fundamente o seu amor de louco à Natureza,
+como nessa madrugada em que eu o vi numa rua afastada de arrabalde.
+
+Fazia já um calor asfixiante. Estava em cabelo junto a um muro de
+quintal, revestido de rosas de toucar, madre-silvas em flôr e clematites.
+
+Todo em gestos litúrgicos, mui lentos, punha rosas a abrir na grenha
+imunda, perfumava as mãos com madre-silvas, e passava-as nas fontes,
+extasiado.
+
+De quando em quando descaía os braços, descansava assim alguns
+instantes, e na cara sugada, pele e osso, os olhos puros riam, muito
+calmos, numa beatitude transcendente.
+
+Havia já um grupo em torno dêle, de leiteiras que vinham p'rà cidade, de
+moços de lavoura que estacavam. Olhavam-no a rir perdidamente.
+
+Eu pensava em Ophélia, no Rei Lear, nas loucuras patéticas de
+Shakespeare, ao ver êsse alienado vagabundo, êsse estranho pedinte de
+olhos meigos, que trazia só pétalas nos bolsos, e em plena luz polínica
+de estio, oficiava a Pan, de butes rotos, aspirando perfumes
+voluptuado...
+
+
+
+
+WORDS...
+
+
+Words...
+
+(DUM CADERNO DE NOTAS DE C. F.)[2]
+
+--Ao morrer, cada um de nós deve dizer à Morte: «Deixe-me estar ainda um
+bocadinho. Esquecia-me por completo de viver...»
+
+
+--Xerxes chicoteou o Helesponto. Quando nós nos queixamos do Destino,
+somos tão pueris como êsse rei.
+
+
+--A dôr deve ser como um amante--que nos faz sofrer e em quem batemos.
+
+
+--Nietzsche definiu a glória «a falta de pudor na admiração». No meu
+país, é a falta de pudor na incompreensão.
+
+
+--No silêncio, nascem em nós sentidos: os sentidos p'rà vida do mistério...
+
+
+--Obsessão a brocar um moribundo:
+
+«Nunca olhei, _sem outra idéa_, para o sol...
+
+
+--Só a verdade é inverosimil.
+
+
+--A amizade é uma hipótese divina que só os grosseiros cuidam ter
+vivido.
+
+
+--Avaliamos quási sempre os outros pelas opiniões que teem de nós. É por
+isso que conhecemos menos--aqueles que mais julgam conhecer-nos.
+
+
+--Os artistas procuram no amor, além da satisfação do instincto, a
+glória,--na admiração de mãos postas da mulher. Compensa-os de não terem
+público, e só tarde percebem--que quanto mais beijados... mais inéditos.
+
+
+--É preciso ser feliz em família p'ra compreender a volúpia de estar só.
+
+
+--Porque é que os ciprestes entristecem?... Porque, p'ra nós, são um
+soluço alongado e verde-escuro. É bem possível que êles sejam muito
+alegres... É por motivos dêstes que muitas coisas nos parecem tristes.
+
+
+--Alguns dizem: publicar um livro é prostituir-se. Pedantes! O mar
+recebe nêle os vossos corpos...
+
+
+--Quem mais injustamente julga um crime? Primeiro o criminoso, que
+estava _fora de si_, que já não sabe; depois os julgadores oficiais--que
+estão _fóra de si_ profissionalmente.
+
+
+--_Aut César aut nihil._ Podes ser um mendigo e ter na tua vida interior
+êste brazão.
+
+
+--Sou por tal fórma talhado para amar--que o meu amor cresce com o meu
+desprêso.
+
+
+--A maior parte da gente é _honesta_--em virtude da lei do menor
+esfôrço.
+
+
+--Há um instante na vida em que cada um de nós se julga um deus: com uma
+doutrina a revelar, um calvário nos longes e um profeta...
+
+
+--Quando depois de lamentar alguêm o vemos salvo, sentimo-nos _roubados_.
+
+
+--A arte é o refúgio dos que não podem viver integralmente. E muitas
+vezes tambêm, uma vingança.
+
+
+--A mentira e o dever são irmãos gémeos.
+
+Quando naturalmente, por instinto, nós fugimos ao código e à moral, ela
+apareceu-nos, máscara doirada, para esconder a responsabilidade. Mas há
+outra, a mentira criadora, que é a asa do Sonho e da Beleza. Os
+filósofos chamam-lhe:--_Verdade_...
+
+
+--Umas mãos, um gesto de mulher, um perfume de flôr, ou um velho estofo,
+consolam bem melhor que Marco Aurélio...
+
+
+--As mulheres não falam só ao nosso instinto. Falam mais: sem se
+ouvirem, sem saberem... São quási sempre vazias ou banais. Mas para alêm
+da frivolidade e do desejo, são verdadeiras fontes de inconsciente.
+Numas pálpebras descidas, num olhar, no misterioso de milhares de
+_nadas_, há sonhos e sonhos revelados, a expressão do _irredutível a
+palavras_.
+
+Elas são na sua vida interior, como crianças a assistir a uma
+tragédia... Soube lá nunca a Mona Lisa que tinha tudo o que Vinci
+copiou!...
+
+
+--Um perfume na sombra tem uma voz de aparição.
+
+
+--A renúncia é uma doença do desejo. Vem com a velhice quási sempre.
+
+
+--A humildade corresponde no homem ao mimetismo dos insectos.
+
+
+--Certas preferências--que nem o raciocínio nem a estesia
+explicam--despertam em nós sensações de vidas anteriores: um certo
+perfume, uma paisagem p'ra outros sem encanto, certa feia, uns versos
+medíocres, um acorde banal...
+
+
+--Recusei ontem uma apresentação a um «homem de princípios». P'ra quê?
+Um «homem de princípios» é um homem conhecido: está impresso.
+
+
+--_Música do mar_--Aquele violinista meu amigo foi viver, por conselho
+meu, p'rà beira mar. Ia com uma grande febre de compor. Levava um
+quarteto inacabado, um esbôço de sinfonia, outros projectos...
+Encontrei-o na praia ontem à noite.--Então... êsse quarteto? a
+sinfonia?...--Nem quarteto... nem sinfonia... nem violino... Eu já não
+faço música. Pus-me a ouvir a do mar bem simplesmente.
+
+
+--A moral é um lastro. Deita-se fora p'ra subir...
+
+
+--Todos dizem adeus com o mesmo gesto. E êsse gesto é o das asas...
+Subir é ficar só.
+
+
+--Quando duas criaturas se amam, não pensam um instante em
+compreender-se. Uma vaga de inconsciente submergiu-as. Só mais tarde,
+morto o desejo, se reconhecem com espanto, dois estranhos.
+
+Dizem com desespero: «Um de nós mudou. Já não somos os mesmos».
+
+
+--De uma maneira geral, temos mais pontos de contacto com os nossos
+inimigos do que com os nossos amigos.
+
+Amar uma mulher, querer conseguir o mesmo fim, são causas de ódio.
+
+
+--O nosso inimigo é o nosso cúmplice.
+
+
+--Os programas de governo estão para a política, como os dogmas para as
+religiões. Nem os primeiros interessam os partidários, nem os segundos
+os crentes.
+
+--A liturgia obliterou-se, é de uma teatralidade já sem símbolo.
+Corresponde à retórica--ou arte de hipnotizar imbecis com gestos e
+palavras em que se sacrifica à idea ausente.
+
+
+--Não há esculturas como as nuvens.
+
+
+--Os homens que construem um sistema, fazem a própria jaula em que se
+fecham.
+
+
+--A grande indústria humana--a específica--é a fabricação de deuses.
+
+
+--P'ra viver puro é preciso durar como as espumas: um instante.
+
+
+--A tragédia de D. João está no supremo poder de seduzir, de que êle
+próprio foi a maior vítima. Em nenhum amor matou a sêde.
+
+De mulher em mulher, como outros de idea em idea, êle era,
+essencialmente, um homem _bêbedo de Deus_, como Spinosa.
+
+
+--Um perfume é uma confidência: é tambêm o olhar das flôres, e, segundo
+Hello, o seu estilo.
+
+
+--Viajar é a arte de saborear decepções.
+
+
+--A magia da viagem, tão grande como a do amor, começa no instante do
+regresso. A do amor chama-se--saúdade, a da viagem--evocação.
+
+
+--Se na morte tivéssemos consciência--gozaríamos emfim a viagem da vida.
+
+
+--Um artista numa terra nova tem a sensação de nascer segunda vez.
+
+
+--As escólas literárias são verdadeiras cooperativas de consumo. É só
+matricular-se... e cozinhar.
+
+
+--Os génios são inclassificáveis: são a promessa falhada de outra espécie.
+
+
+--A garra do génio é a sinceridade.--Falar _por la bocca de su
+herida_ é um acto heróico.
+
+
+--Só são coerentes os factícios.
+
+
+--Os que se conhecem, são vazios.
+
+
+--A palavra de honra é uma gazua. Força a credulidade dos ingénuos
+quando não temos força moral p'ròs convencer.
+
+
+--A música é o médium do mistério.
+
+
+--A eternidade é a sensação de _alguns_ instantes...
+
+Às vezes é num grande perigo que a sentimos: certos segundos lúcidos da
+agonia em que se faz o supremo exame de consciência; antes duma operação
+grave, quando cada gesto tem um fervor de despedida; nos últimos minutos
+dum condenado à morte.
+
+Outras vezes, é num grande gôzo que a entrevemos: no espasmo da cópula;
+na aura do ataque epiléptico (que Dostoïevski diviniza); nos primeiros
+momentos de admiração por uma obra-prima; na vertigem da criação
+sub-consciente; e finalmente os místicos, na absorção em Deus, ou,
+segundo a expressão de Dante, quando «partem do século».
+
+
+--Uma vez, tomando nas mãos uma cabeça de mulher, disse-lhe baixo, com a
+vontade perdida nos seus olhos: «Podes fazer de mim o que quiseres».
+
+É isto que eu agora digo à Vida.
+
+
+--_Testamento dum pobre_--Se eu morrer na primavera, envolvam em feno
+aromático meu cadaver nu, cubram-me de lilases e de rosas, deixem-me
+decompor assim--com tantos vermes como borboletas!
+
+Enterrem nos meus olhos de morto já gomosos, pecíolos de rosas de
+veludo. Não me embalsamem. Que eu seja uma podridão bem petalada!
+
+Ponham-me sob uma árvore florida, p'ra que um vento de cópula passando,
+sacuda o pólen sôbre o meu cabelo! Depois no roxo outono, morto, o
+mais feliz dos mortos, cada corvo que vier grasnando--há-de partir de
+gula o bico curvo contra o meu crânio em que há pétalas murchas...
+
+
+--O sacrifício é a selecção natural invertida: os fortes servem de
+degrau aos fracos.
+
+
+--A incoerência instintiva, absolutamente sincera, tem uma lógica
+interior--a própria lógica da vida--que os psicólogos profissionais
+nunca auscultaram. Os personagens de Dostoïevski, por exemplo, ganham
+tanto mais em unidade e em verdade, quanto mais, p'ra olhos vulgares, se
+contradizem. Bourget é o psicólogo da coerência...
+
+
+--O grito de Oswald Alving no último acto dos «Espectros»: «Mãe, dá-me o
+sol», é o grito que a morte gela em muitas bocas.
+
+
+--Portugal é um navio naufragado em que a tripulação espera há
+séculos...
+
+
+--A arquitectura que eu mais amo é a dos navios.
+
+Os mastros aspiram como agulhas góticas, mas emquanto a catedral se
+queda em êxtase, as velas seguem entre adágios de asas...
+
+
+--Adoro o mar. Ando a ensinar ao meu desejo um ritmo de ondas, e à minha
+dor a arquear de desespero como as vagas--mas a sorrir por fim em pó de
+espumas.
+
+
+--A. é um místico (medievalite e hidrofobia), B. vê tudo Wateau (é um
+requintado...), C. é um grego do tempo de Pericles; eu, tal qual tu me
+vês, sou um romano...
+
+Quantos homens da Renascença tu conheces!...
+
+O visconde L., por exemplo, é um Medícis...
+
+Como quási ninguêm está nesta época--é bem de ver--quási ninguêm existe.
+Os que tu vês--são só sobreviventes... almas fósseis...
+
+
+--Uma estátua mutilada humilha menos a nossa imperfeição: está mais
+perto de nós, comove mais.
+
+
+--Conheci um poeta que escreveu a «Imitação do Mar», paralelo á
+«Imitação de Cristo».
+
+Durante semanas viveu num quarto--só--uma vida de vaga. Encrespou,
+arqueou num grande esfôrço, foi um côncavo glauco cheio de asas, e
+explodiu a rir--todo espumante...
+
+Só eu sei que se matou por não poder reviver aquela vida.
+
+
+--Um livro tem p'rò autor uma outra voz: a do seu sangue a correr pelas
+palavras.
+
+
+--O ritmo é o anestésico mais forte.
+
+
+--O sarcasmo é um soluço que despreza.
+
+
+--Alguns escritores publicam os retratos nos seus livros. Ignoram,
+decerto, que a _vera efigie_ de um artista é o estilo.
+
+
+--Há no fundo do panfletário mais violento, um pobre diabo ingénuo,
+fascinado, que aspira a _conselheiro_--sem saber...
+
+
+--Receita p'ra fazer sucesso: condensar a banalidade, dar-lhe êmfase e
+imprimi-la com maiúsculas...
+
+
+--Alguns condenam as corridas de toiros e proclamam como uma
+obrigação--o sacrifício...
+
+
+--A procurar o sentido da vida, esquece-se muita gente de viver.
+
+
+--Conheço muita gente que só olha a natureza... emoldurada.
+
+
+--O processo, em arte, é o _maquillage_ do talento.
+
+
+--O sucesso faz-se nos jornais:--a glória no silêncio.
+
+
+--Quando um homem superior é célebre, ou é admirado por defeitos,
+ou então por qualidades que não tem...
+
+
+--As metafísicas são a _Belle au bois dormant_ contada em ideas.
+
+
+--Que frio! Deito ao lume os meus deuses p'ra aquecer... É bom ouvil-os
+crepitar: lenha divina!
+
+Mas da cinza dos deuses--nascem deuses. Pela janela aberta vejo uma
+estátua na névoa: o super-homem!
+
+Criar deuses é a mais estranha função da nossa espécie. Nem podemos
+aspirar as rosas: vivemos asfixiados de divino...
+
+
+--Já viste uma ave livre--adormecida?... Tem nas asas fechadas todo o
+ceu. Antes de te deitares, bebe à janela a noite, até caíres...
+
+
+--A civilização é uma camisa de forças. Há duas maneiras de a rasgar: a
+arte e o crime.
+
+
+--A sociedade perfeita é a de Narciso: a própria imagem reflectida numa
+fonte. É o máximo e o mínimo de convívio.
+
+
+--A alegria é a pérola dos mergulhadores. Só se descobre com muitas
+atmosferas de dôr por sôbre os ombros.
+
+
+--Meditar é viajar através de nós mesmos.
+
+
+--A lei faz isto: que um homem passe com fome num pomar sem cravar os
+dentes num só fruto...
+
+
+--As academias são o _trust_ da glória. Às vezes, são tambêm o asilo...
+
+
+--P'ra saberes a expressão que teem as rochas, encomenda uma a um
+escultor. Nenhum ta poderá executar. São mil máscaras fundidas numa
+máscara.
+
+
+--A melhor maneira de admirar um escritor é viver segundo o ritmo da sua
+obra.
+
+
+--Viver é adorar com o corpo todo. A suprema oração é o desejo, a
+linguagem--a arte, que é o esfôrço heróico p'rà Beleza.
+
+
+--Morte! És p'ra mim o sal da vida...
+
+O teu silêncio grita:--andem depressa! Deita mais lenha na ambição,
+ambicioso; decifrador de enigmas, parte a esfinge; corpo a corpo,
+amorosos, sonho em sonho; e tu, maníaco de teorias, bom filósofo, coze
+depressa o teu sistema--anda depressa!...
+
+O teu silêncio excita como uma dança de baiaderas: dá vertigem...
+
+P'ra exasperar em nós a sagrada loucura de viver, para que os homens não
+percam um instante--ergam-te estátuas nos jardins, nas praças, na
+cimalha das academias e dos templos, Musagéta da Vida, grande Morte, com
+a lira de Apolo e olhos vazios...
+
+
+--O que é o mar para o meu corpo, é a dôr para a minha alma.
+
+
+--A solidão, _beata solitudo_, é o palácio encantado dos espelhos. Ó
+alma, corre as tuas galerias. Myríades de retratos, de obras-primas, no
+dédalo dos corredores, nas salas lúcidas, echoando em reflexos,
+irisando-se, como a palavra de Deus de estrela em estrela. É o teu povo;
+és tu, alma: és tu mesma.
+
+
+--O tacto da alma é a evocação.
+
+
+--Outono: idílio da Natureza com a Morte.
+
+
+--O amor é o génio do desejo: um instinto espiritualisado.
+
+
+--A arte é uma espécie de alchimia: mesmo do crime, extrai o oiro mais
+puro.
+
+
+ [1] Nietzsche.
+
+ [2] C. F., meu ex-condiscípulo, despediu-se de mim para casar, como
+ outros se despedem para morrer. Casou depois de ter vivido
+ intensamente,--como outros se fazem morfinomanos ou alcoólicos: p'ra
+ anular a sua inquietação, a sua febre, na sedativa estupidez da vida
+ séria. Sentia-se sem saúde e sem coragem, quer p'ra viver a vida com
+ nobreza, quer p'ra ir ao encontro ao seu outono, morrendo a
+ tempo--como manda o meu filósofo. Foi há três anos. Nunca mais nos
+ vimos. Soube depois, por os jornais, que é deputado e, o que é
+ melhor... ou pior, que vai ser par. Não sei se o meu amigo conseguiu
+ a paz no anulamento, ou se é o actor duma comédia
+ lúgubre--mascarando de banalidade o seu espírito. Deixou-me à hora
+ da morte (à hora da vida social, da vida _séria_) os seus cadernos
+ de notas--e uma obra de humorismo lírico, de ironia comovida e
+ filosófica:--_A Metafísica de uma borboleta._--Estas notas, que
+ transcrevo de um dos seus cadernos, de entre as que não ferem
+ sensivelmente a moral pública, são talvez--os senhores
+ dirão--curiosas.
+
+
+
+
+Índice
+
+ PAG.
+
+ Diálogo com uma águia 9
+
+ O precoce 47
+
+ O homem das fontes 77
+
+ Suze 119
+
+ O Veiga 155
+
+ Words 201
+
+
+
+
+
+ACABOU DE SE IMPRIMIR ÊSTE LIVRO A QUINZE DE JUNHO DE MIL NOVECENTOS E
+VINTE NA IMPRENSA DA EMPRÊSA DO «DIARIO DE NOTICIAS» PARA AS LIVRARIAS
+AILLAUD E BERTRAND
+
+
+
+ERRATA
+
+A pag. 2, onde se lê: «Colhecem lá o amor etc.», deve lêr-se: «Conhecem
+lá o amor etc.»
+
+A pag. 73, onde se lê: «... ressuscitava em gramas sonolontas.», deve
+lêr-se: «... ressuscitava em gamas sonolentas.»
+
+A pag. 86, onde se lê: «Aludimos os», deve lêr-se: «Aludimos aos».
+
+A pag. 93, onde se lê: «Com miss Foutain», deve lêr-se: «Com Miss
+Fountain».
+
+A pag. 161, onde se lê: «Vivia com a mãe e sem mais parentes.», deve
+lêr-se: Vivia com a mãe sem mais parentes.»
+
+
+
+
+
+
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+
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
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+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
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@@ -0,0 +1,4661 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd">
+<html>
+<head>
+ <title>Serão Inquieto, por António Patricio</title>
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+</head>
+
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Serão inquieto : contos, by Patrício António
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Serão inquieto : contos
+
+Author: Patrício António
+
+Release Date: April 17, 2010 [EBook #32020]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SERÃO INQUIETO : CONTOS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (This file was produced from
+images generously made available by The Internet Archive)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div class="fbox">
+<p><b>Notas de transcrição:</b></p>
+
+<p>O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1920.</p>
+
+<p>No original havia uma errata. Nesta adição corrigimos os erros ali assinalados, e
+marcámos as alterações colocando o texto originalmente impresso em comentário
+como: <span class="errata" title="Errata: como no original">correcção</span>.
+Outros erros detectados durante a transcrição, foram devidamente corrigidos e,
+quando poderiam alterar a intenção do autor, foram assinalados como: <span
+class="typo" title="no original: erro">correcção</span>.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center; border: double 10px #000;">
+<p><big>ANTÓNIO PATRÍCIO</big></p>
+
+<p><big>....</big></p>
+
+<p><big><big><big><big>SERÃO INQUIETO</big></big></big></big></p>
+
+<p><big>...</big></p>
+
+<p><big>CONTOS</big></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><br>
+</p>
+
+<p><br>
+</p>
+
+<p>LIVRARIAS AILLAUD E BERTRAND&mdash;PARIS-LISBOA</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;"><br>
+</p>
+
+<p style="text-align: center;"><big><big><br>
+SERÃO INQUIETO</big></big></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">DO AUCTOR</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>OCEANO (versos).</p>
+
+<p>O FIM (história dramática em dois quadros).</p>
+
+<p>SERÃO INQUIETO (contos), 2.ª edição.</p>
+
+<p>PEDRO O CRU (drama em 4 actos), 2.ª edição. </p>
+
+<p>DINIS E ISABEL (Conto de primavera).</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="margin-left: 2em;"><em>Em preparação:</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>POEMAS.</p>
+
+<p>O REI DE SEMPRE (Tragedia Nossa).</p>
+
+<p>SHEHÉREZADE (contos).</p>
+
+<p>CINCO DIÁLOGOS DE SONHO.<br>
+</p>
+
+<p><br>
+</p>
+
+<p><br>
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr>
+
+<p style="text-align: center;"><small>Composto e impresso na Tip. da Empresa
+Diário de Notícias<br>
+Rua do Diário de Notícias, 78<br>
+</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align: center;">
+<p><big>ANTÓNIO PATRÍCIO</big></p>
+
+<p><big>...</big></p>
+
+<p><big><big><big><big>SERÃO</big></big></big></big></p>
+
+<p><big><big><big><big>INQUIETO</big></big></big></big></p>
+
+<p>CONTOS</p>
+
+<p><small>2.ª EDIÇÃO</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><big>....</big></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><br>
+<small>LIVRARIAS AILLAUD E BERTRAND<br>
+PARIS&mdash;LISBOA<br>
+LIVRARIA CHARDRON<br>
+PORTO<br>
+LIVRARIA FRANCISCO ALVES<br>
+RIO DE JANEIRO<br>
+1920</small></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">A</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">ANTÓNIO CÂNDIDO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote style="margin-left: 10em;">
+ <p>  Ecris avec du sang et tu apprendras que le sang est esprit.</p>
+
+ <p style="margin-left: 2em;"><em>Ainsi parlait Zarathoustra.</em></p>
+
+ <p style="text-align: right;">F. NIETZSCHE.</p>
+</blockquote>
+
+<p><span class="pn">{9}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h1><a name="SECTION00010">DIÁLOGO COM UMA ÁGUIA</a></h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00011">Diálogo com uma águia</a></h2>
+
+<p>Fui jantar hontem ao palácio. Estava lindo! Felizmente ninguêm. Tudo
+deserto. Quando eu desci do restaurante, a accender um Laferme com preguiça,
+caía a tarde de outono em vitrais ricos p'ralêm das ramarias a despir-se.
+Passeei algum tempo na avenida, e sem saber porquê, indo ao acaso, fui estacar
+nesse recanto triste onde mora engaiolada uma águia velha. Há que tempos
+conheço êste mostrengo, num abandono de asilo, de ar pedinte, com asas que
+diríeis paralíticas, de um tom coçado e neutro de miséria!... Uma águia isto,
+êste espantalho! A decadência reles de estas asas que tanta<span
+class="pn">{12}</span> vez olhei com indiferença, nem eu sei bem porquê,
+impressionou-me. Um animal de fábula, de mito, um ser que bebeu sol de olhos
+abertos, curvava as garras frouxas num poleiro, e depois de carnagens e
+aventuras, encolhido, misérrimo, com fome, acabava a aspirar a um meio-bife,
+como um vadio à porta de um café. Coitada! Teve uma forma assim aquela águia
+que saboreou Prometeu numa montanha!</p>
+
+<p>A <span class="typo" title="no original: goiola">gaiola</span> está sórdida,
+está imunda. Antes estivesse empalhada num museu, ou no quarto de trabalho de
+um zoólogo, sócio da Academia, homem de estudo, que ao voltar da rua ou da
+glória, lhe pendurasse do bico o chapéu alto. Coitada! Coitada! E notei com um
+calafrio, que pronunciara alto êste «coitada», com uma voz que a mim mesmo
+surpreendeu pela inflexão perturbante de quinto acto. Olhei a águia. Vi-a
+encolher-se tôda, contrair-se, enclavinhar as garras no poleiro, como a uma dor
+aguda que a varasse. Encarou-me por fim, olhou-me todo, fazendo-me corar dos
+pés ao côco,<span class="pn">{13}</span> e com uma voz que não era a voz da
+fábula, sem nada de lendário, sem estranho, com uma voz normal de velha beata,
+arrastada e roufenha, quasi gaga, cacarejou num tom de dor e mofa:</p>
+
+<p>&mdash;Ao que eu cheguei! Ao que eu cheguei! Já tem pena de mim
+<em>isso</em> aí fora... Antes estar morta e podre, antes estar podre...</p>
+
+<p>Estarreci. Não era o impossível realizado dessa carcassa de águia a falar
+alto, a falar como eu, que me empedrava: nem sequer o estranhei naquele
+instante; mas o dolorosíssimo desprêzo com que ela me chamou <em>isso aí
+fora</em>, com que ella ouviu que um <em>isso</em> a lamentava. Deitei fora o
+cigarro bruscamente, compus um momo frio de desdêm escondendo a irritação que
+me excitava, e premindo a bengala contra o queixo, retorqui-lhe benévolo e
+grosseiro:</p>
+
+<p>&mdash;Não percebo o seu desprêso, não me atinge. Eu não disse «coitada»
+p'rá ofender. É sempre triste ver uma águia presa, mas numa gaiola, assim, é
+lamentável. P'ra mais,<span class="pn">{14}</span> conforme vejo no letreiro,
+foi um comendador que a ofereceu... E a gaiola...</p>
+
+<p>&mdash;Que tem? Falta de estilo?</p>
+
+<p>&mdash;Está cheia de excrementos. Está indecente.</p>
+
+<p>&mdash;Já não diria isso se os visse cair de alto, no deserto, sôbre o
+granito cariado duma esfinge... Scenários, digo-lho eu, literatura...</p>
+
+<p>Eu então requintei de pedantismo, e perguntei-lhe a rir de que alta estirpe,
+de que águias reais, de que família, ela veio a cair neste poleiro onde agora a
+ouvia perorar num claro entardecer de intimidade, com idilios de guardas e
+criadas, raros bebés jogando às escondidas e um homem a varrer as fôlhas sêcas.
+Coçava-se a hesitar, com o bico baixo. Sacudio as longas asas poeirentas e com
+uma voz de sono, começou:</p>
+
+<p>&mdash;De alta estirpe, sim, de uma família de águias antiquíssima. Uma das
+minhas ancestrais, como agora se diz, fêz viagens épicas na Judeia, e num
+crepúculo de assombros, abrindo com as garras uma cordilheira<span
+class="pn">{15}</span> de nuvens, vio pregado na cruz o Hebreu Doce, e logo
+desceu ao morro numa gula tão doida, que ensanguentou no ar de sêda as asas
+bravas... Rasgou o peito magro do Homem-Deus, e ficou doida para sempre, doida,
+doida, na alucinação dêsse manjar patético, de martírio divino e desespêro.
+Porque ela ouviu a confidência do Heroi meigo... Mas não posso contar-lha, nem
+mais pio! É um segrêdo de família, é o meu segrêdo.</p>
+
+<p>Amuei, retorqui num tom mimalho:</p>
+
+<p>&mdash;Mas então, se não podia contar, p'ra que me falou nisso? Eu sou de
+uma curiosidade feminina. Já não saio daqui sem que mo diga.</p>
+
+<p>&mdash;Mau! O senhor é uma criança. Que tolice! Dezenas e dezenas de avós
+meus, gerações e gerações de águias marinhas, levaram o segrêdo herdado e não
+traído, que nem ao sol, que é o deus das águias, revelaram. E quere agora o
+senhor com um papelzinho que lhe custou uns cobres (se o pagou) violar o
+murmúrio que tem séculos,<span class="pn">{16}</span> e é a última vibração
+daquele espírito que vestiu de nebulosas tôda a Vida... Sabe que mais? Estou já
+arrependida de falar.</p>
+
+<p>&mdash;Não se zangue. Juro-lhe, juro-lhe que não digo nada a ninguêm. Se
+soubesse o que eu sei!... Segredos de família, dramas... dramas...</p>
+
+<p>Esperei um instante ansiosamente. A águia inteiriçou-se, sem me olhar,
+bicando longes de memória, de saudade:</p>
+
+<p>&mdash;Não sei que tenho hoje. Velhice, morte próxima talvez,
+pressentimentos... Quando essa avó longínqua cravou as garras no peito d'êsse
+Réu, e lhe bicou o coração e bebeu sangue, sentiu que enlouquecia, que era
+outra... Como se ferisse uma irmã, teve remorsos; fixou os olhos bêbedos de sol
+nos olhos d'Êle, refrescou-lhe com as asas a cabeça, empastada em suor, de um
+verde lívido... </p>
+
+<p>A cruz que estremecia, ficou hirta. E foi então, foi então que Êle lho
+disse...</p>
+
+<p>&mdash;Mas o quê? O quê? Diga depressa.</p>
+
+<p>&mdash;O segrêdo, senhor, o meu segrêdo.<span class="pn">{17}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mas qual é afinal? Quere torturar-me...</p>
+
+<p>&mdash;Renegou-se a Si-mesmo. Retractou-se! Disse o remorso de não ter
+vivido, a tristeza infinita, o desespero e o mal sem remédio de ser virgem, de
+morrer no corpo morto de uma árvore, único corpo que sentiu, o de um cadáver...
+As estrêlas que nasciam no céu dúbio eram pr'ó Moço Hebreu pólen doirado, e a
+sua alma moribunda abria tôda como os hortos ideais da Galilea... O peito
+arqueou-lhe mais, contracturado... Queria largar a cruz p'ra poder dar-se, à
+terra dêsse cerro, a alguma forma, a um corpo de mulher, a alguêm, a alguêm...
+</p>
+
+<p>A voz da multidão pela ravina era um marulho de ressaca mui confuso, e Êle
+sentiu entre pragas e risadas, entre os lamentos e os insultos que silvavam,
+sentia vozes de mulher... ouviu, ouviu-as... Só elas Êle ouviu, ouvia sempre...
+Queria falar ainda, quis falar-lhes e pedir-lhes perdão do que lhes disse, com
+parábolas mentirosas<span class="pn">{18}</span> de doçura e com olhos de lago
+sem desejo... Esvaía-se em sangue, ia azulando. Foi então que a minha avó num
+voo lento, lhe emmoldurou nas asas côncavas a Face... e que ela ouviu, senhor,
+e que ela ouviu...</p>
+
+<p>Calou-se um instante imóvel no poleiro. Reparei. Era o guarda que passava.
+</p>
+
+<p>&mdash;Já não sei onde ia. Estou com febre. Ah! No que ouviu a minha avó
+naquele instante... Quando eu penso nisso, quando penso... Imagine, se pode,
+ora imagine... Êle que era um Adivinho, Êle o Vidente, num dêsses instantes de
+génio que abrem séculos, previu, previu bem claramente, como se mentiria à Vida
+em nome d'Êle, a morte da Beleza e da Alegria, a Tristeza e a Doença em nome
+d'Êle, séculos e séculos de vida envenenados por o sangue de amor que Êle
+vertera, e iria embebedar os homens muito tempo, para sempre talvez, talvez
+p'ra sempre. Sentiu então que a querer salvá-los, os perdera... Certo, êsse
+instante de dor sempre ignorado<span class="pn">{19}</span> foi o maior de dor
+que alguêm viveu. E como Êle a diria, como...</p>
+
+<p>&mdash;Em que língua falou? Foi em hebraico?</p>
+
+<p>&mdash;Foi na língua das asas que Êle o disse. Não lha posso ensinar, já me
+não lembro. Quando me engaiolaram, esqueci-a. Mas que impressão lhe faz o meu
+segrêdo? Se os homens o soubessem, seria Êle na verdade o Redentor...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim. É bem justo o que me grasna. Shelley tê-lo-ia amado como
+irmão, e Nietzsche, o próprio Nietzsche...</p>
+
+<p>&mdash;Bem sei. Êsse afirmou com pompa lá p'rò Norte, que Êle decerto se
+teria retractado se tão cedo o não crucificassem. Foi minha mãe que o disse a
+Zaratustra. Zaratustra ouviu mal, não disse tudo. A verdade é assim, como eu
+lha conto. Parece que os homens riram do filósofo, acharam tudo isso uma
+tolice...</p>
+
+<p>&mdash;Acharam...</p>
+
+<p>&mdash;E afinal êsse Hebreu crucificado, no instante supremo de tortura,
+quando p'ralêm<span class="pn">{20}</span> das nuvens o esqueciam, chamava só
+por Pan, o grande Pan! Se os homens soubessem isto e o entendessem, teria o
+grande Pan ressuscitado. Seriam brancas estas pobres asas.</p>
+
+<p>&mdash;Brancas? Porquê?</p>
+
+<p>&mdash;Durante séculos tivemos asas brancas, todas nós, águias da minha
+estirpe. Foi só depois que Pan morreu, que elas ficaram pretas, como luto. Quem
+se lembra de Pan por êstes tempos?...</p>
+
+<p>&mdash;Os que sabem amar, os que ainda amam.</p>
+
+<p>&mdash;Os que sabem amar!... Êsse Hebreu mesmo só conheceu o Amor no alto da
+cruz. Viveu como um fantasma transparente, com sonho nas artérias e nos
+olhos... Só escoado em sangue, no madeiro, viu nos olhos da minha avó
+sanguissedenta, dois espelhos do Amor, irmão do sangue...</p>
+
+<p>&mdash;<span class="errata" title="Errata: Colhecem">Conhecem</span> lá o
+amor aves de presa!</p>
+
+<p>A águia crispou as garras no poleiro e casquinou um riso muito sêco, que
+soava<span class="pn">{21}</span> sem timbre, como tosse. Depois mudou de
+aspecto. Começou a tremer, tôda friorenta, as asas como andrajos mais pendidas,
+e nos olhos de febre, muito fitos, uma grande saudade que varava.</p>
+
+<p>&mdash;O amor das águias... o amor das águias...</p>
+
+<p>&mdash;Que tem? Está comovida. Conte-me o seu amor. Sou todos ouvidos.</p>
+
+<p>&mdash;O meu amor... o meu amor... Já me não lembro. Já não posso dizer-lho.
+Vai tão longe!... Sou uma velha tonta, sem memória, um farrapo de penas para
+escárnio. Nem olho o sol em face há muito tempo. O meu amor... o meu amor... Já
+me não lembro. Coisas sem forma... nuvens... nostalgias...</p>
+
+<p>Fêz uma pausa. Parecia mais adunca, mais mirrada.</p>
+
+<p>&mdash;No convés de um navio abandonado, amei no mar do Norte, aos
+vagalhões, noites e noites, bêbeda de espuma... Havia a bordo um marinheiro
+morto. Lembro-me bem. Que noites! Que mar alto!...<span
+class="pn">{22}</span></p>
+
+<p>Tive um ninho e filhos pequeninos, num jardim vago, ao sol da meia-noite...
+Que silêncio! Sentia-o a passar por entre as garras...</p>
+
+<p>Ensandeci de gôzo no deserto... Ouvi a Esfinge falar, ouvi a Esfinge, quando
+o sol lhe fendeu todo o granito, pôs ranhuras de dor nos olhos átonos, e
+escancarou a bôca em rictos duros... O que eu ouvi à pobre?</p>
+
+<p>Soluçava!... Eis o inigma afinal, o grande enigma, à hora das miragens, do
+delírio, quando o sol enraivece, é só desejo, e o deserto urra no silêncio, e
+as areias escaldam e o ar zune... Amei... amei... amei na terra tôda...
+Desfraldei o desejo, cravei garras. Olhei o mar saciada e compreendi-o.</p>
+
+<p>&mdash;Tem saudades do mar, aí na gaiola?</p>
+
+<p>&mdash;Como um marinheiro preso... doidamente... O que eu viajei, o que eu
+viajei por sôbre a espuma!... Sei as lendas do mar como ninguêm. Contou-mas
+numa rocha um corvo antigo. Como sabe, os<span class="pn">{23}</span> corvos
+vivem séculos... Sabia-as todas êsse velho amigo... naufrágios e terrores...
+dramas da névoa... O mar! O mar! O que eu amei no mar! Mas o senhor não
+compreende, o senhor não sabe. Que sabem do Amor os homens todos?... Foi êsse
+Hebreu, sem querer, que os desgraçou. Fizeram ao Desejo o que fazem às águias
+quando podem... Está como eu o Desejo: engaiolaram-no! Fizeram do Amor isto...
+um dever! Um dever... um dever... um dever triste! Empalaram-no em leis,
+codificaram-no. Até fizeram isso... o casamento! E vivem em gaiolas, os seus
+lares! Raça de escravos! Se êsse Hebreu os visse...</p>
+
+<p>&mdash;A senhora é uma águia, não percebe... Eu não posso explicar-lhe a
+Sociedade...</p>
+
+<p>A águia olhou-me com um desprêso frio.</p>
+
+<p>&mdash;O quê? Não sei? Sei mais do que Balzac. Eu li-o todo em casa de um
+burguês. Vivi lá dez anos de amarguras. Estive presa primeiro no quintal.
+Depois cortaram-me<span class="pn">{24}</span> as asas e soltaram-me.
+Soltaram-me mutilada pelas salas... Canalha! O que eu odeio os homens... As
+crianças, veja o senhor os anjos!... arrancavam-me as penas, <span class="typo"
+title="no original: espetavam-ve">espetavam-me</span> o corpo com agulhas, e um
+dia um criado, na cozinha, tentou picar-me os olhos às risadas, a rir, a rir...
+como só riem homens. Sofri dez anos entre essa canalha. Era uma gente séria,
+muito séria. Vi a Família, a Tradição, vi tudo. Não queira argumentar, não diga
+nada. Sou uma águia, mas conheço os homens.</p>
+
+<p>&mdash;De acôrdo. Eu não duvido. Não quero discutir, não argumento. Mas
+falamos do Amor, e apenas digo que há ainda quem ame sôbre a terra... gente da
+minha espécie... homens... homens... O amor, há-de a senhora concordar, não é
+um monopólio de asas nómades... Um bípede implume tambêm ama. É raro, eu sei,
+amor genuíno, é raro. Mas existe ainda, afirmo-lho eu, existe ainda...</p>
+
+<p>&mdash;Que novidade! Pois não lhe disse já<span class="pn">{25}</span> que
+li Balzac? E viajei, e vivi mais do que pensa.</p>
+
+<p>Parou um instante, o olhar scismático, sem foco:</p>
+
+<p>&mdash;... Uma vez, num céu da Andaluzia, vi num jardim mourisco dois
+amantes. Senti o cio encrespar-me as asas largas e desci p'rós ver de perto na
+luz de ouro... Era na paz de uma cidade morta. Pousei num dos ciprestes do
+jardim. Tinha uma taça de alabastro esverdinhada, e uma água glauca que
+cheirava a febre. Era junto da taça que se amavam, sob a garra do sol, loucos
+de raiva. Fiquei quêda a aspirá-los muitas horas. Que corpos fortes! Eu
+achava-os lindos. Dormi na torre da igreja, numa gárgula, e de manhã voltei
+p'rós ver ainda. E assim dias e dias... Uma vez demorei-me, vim mais tarde, e
+<span class="typo" title="no original: encontreio-os">encontrei-os</span>
+imóveis e enlaçados. Tanto tempo os vi assim e tão imóveis, que pensei:
+<em>estão talvez mais que adormecidos...</em> Desci. Bati-lhes com as azas nos
+cabelos. Cravei as garras devagar nos seios dela... Estavam<span
+class="pn">{26}</span> mortos! Julguei então enlouquecer de gula. Devorei,
+devorei, até à noite... Lembro-me que sorvi os olhos dela. Estavam secos de
+amor. Eram cinzentos...</p>
+
+<p>&mdash;Que horror! O que a senhora fêz!...</p>
+
+<p>A águia ergueu as asas num espanto e tornou a fechá-las lentamente. Depois,
+com grande enfado, foi dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Que absurdos macacos são os homens! São os animais mais torpes que eu
+conheço. Como tudo que vive, como todos, só pensam em gozar, gozar a vida... e
+com esta obsessão a estorcegá-los, prendem-se os braços, castram os desejos,
+adoentam-se, torcem-se... progridem. Querem morder, morder bem fundo... e
+beijam-se; sentem calor e andam ao sol vestidos; amordaçam o instinto, os
+imbecis!... Encerram o desejo nas alcovas, onde não entre sol, sombra de lua...
+Tem estatutos, cláusulas, parágrafo. Não fecundam a amar, são fabricados: são
+produtos de indústria os homens de hoje! Chamam a isto Civilisação. Não vivem
+por viver: tem<span class="pn">{27}</span> deveres a cumprir, obrigações... E
+tudo isto em códigos, sistemas, em religiões, teorias, em morais!... P'r'ós que
+tentem ser homens a valer, há prisões, há leis, ha tôda a Ordem! Existem já na
+terra há muitos séculos, e ainda não começaram a viver... ou, se viveram, foi
+na Pre-História ou na Pre-Lenda! Que macacos absurdos! Que macacos!</p>
+
+<p>&mdash;Mas pare um instantinho, oiça, oiça...</p>
+
+<p>&mdash;Não me mace, senhor, não me interrompa... O que mais os consome e os
+faz grotescos, e os enche de vaidade, é a Consciência, o Espelho, o Guia, o
+grande Guia, que os levou a isso que são hoje...</p>
+
+<p>Atalhei, como quem aponta um cumplice:</p>
+
+<p>&mdash;A culpa foi dêsse Hebreu de quem falámos. Talvez se o seu segrêdo se
+soubesse...</p>
+
+<p>&mdash;Não foi só d'Êle, foi de muitos outros... Antes d'Êle e depois..., de
+muitos outros.</p>
+
+<p>Tremeu-lhe o corpo todo. Arrepanhavam-se-lhe<span class="pn">{28}</span> as
+penas. Estava outra. Via-a transfigurar-se com espanto.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor é bem um homem. Não se pode nutrir sem illusão. Quando há
+pouco lhe disse o meu segrêdo, dei-lhe a entender que se êle se soubesse, havia
+na verdade um Redentor, os homens viveriam sôbre a terra. Tive pena de si que é
+um desgraçado. Sempre lho digo agora: era inútil! Conheço bem os homens por meu
+mal. O segrêdo do Hebreu que lhe contei, não é um caso único: é de sempre.
+<em>Á hora de morrer&mdash;a uma águia, aos lençois ou ao travesseiro, todos os
+homens tem como êsse Hebreu, um segrêdo supremo a revelar. É apenas isto: a
+confissão de que morrem sem viver.</em></p>
+
+<p>Continuou depois com o bico alto:</p>
+
+<p>&mdash;Os homens são uma espécie condenada. <em>São bastardos de planta e de
+fantasma.</em><a name="tex2html1" href="#foot46"><sup>[1]</sup></a>Quem disse
+isto? Não sei... estou sem memória. Raça de escravos vis,<span
+class="pn">{29}</span> raça de escravos! E p'ra fugir à Vida o que inventaram!
+Como trabalham, suam e tressuam!... Dissecam tudo, árvores e pedras, fecham-se
+em quartos a estudar micróbios... E cada dia são mais desgraçados, mais fracos,
+mais inquietos e mais tristes!... Cada dia se embrulham mais em roupas, põem
+mais vidros nos olhos, tem mais mêdo... E cada dia fogem mais à vida! Que
+imbecis! Que imbecis! Que espécie torpe!</p>
+
+<p>Sentia-me exaltado, nervosíssimo. A voz saíu-me estrangulada, rouca, em
+sobressaltos, brusca, sem fluência:</p>
+
+<p>&mdash;A senhora diz coisas que me espantam, que por vezes são justas e
+terríveis, mas há outras tambêm que não entende, que não pode entender, sim,
+que não pode. É natural. A senhora é de outra espécie. Tem vivido com os homens
+mas é águia... e águia ficará até morrer.</p>
+
+<p>Parei. Sentia-me vazio, em suores álgidos, quási incapaz de articular
+palavras. Ela então, com a plumagem toda crespa, transfigurada<span
+class="pn">{30}</span> agora, agora outra, já com metal na voz, interrogou-me:
+</p>
+
+<p>&mdash;O quê? O quê? O que é que eu não entendo?</p>
+
+<p>Sem recursos, nulo, desvairado, atirei-lhe êste lugar comum, como se
+estivesse a falar com um jornalista:</p>
+
+<p>&mdash;Por exemplo: o Sentimento, a Beleza moral que há no Universo!</p>
+
+<p>Vi-a saltar do poleiro, esvoaçar, bater asas de fúria nos arames, e recaír
+depois na mesma pose, a arquejar, asmática de raiva. Ficou assim sem fala ainda
+algum tempo. Apeteceu-me fugir. Tive vergonha. A voz dela por fim veio em
+arestas, ferindo o meu orgulho já ulcerado:</p>
+
+<p>&mdash;A Beleza moral!... O Sentimento! Que fizeram com isso?... Que
+fizeram? A Harmonia social, êsse concerto que é de rasgar os olhos e os
+ouvidos. A fome, a revolta, o desespêro... A raiva de saber, de analisar, de
+fechar em teorias toda a Vida... A Dúvida, a loucura metafísica, e o culto da
+dor, êsse onanismo!... A impotência em<span class="pn">{31}</span> tudo, a
+impotência... E por paródia à luta de viver, uma luta sem garras, enluvada, um
+ódio triste e covarde, corrosivo; a intriga e a cilada pela fôrça; a caridade
+que é o egoísmo doente, e o culto dos ídolos, os cultos, a escravidão aos
+deuses e às ideias... A Harmonia social... essa gaiola onde vivem a uivar os
+homens todos!</p>
+
+<p>Dava gritos estrídulos, sarcásticos: as penas erriçavam-se de fúria.</p>
+
+<p>&mdash;Oh! O ódio dos homens, que grotesco! E há classes opressoras e
+oprimidas, com fórmulas, com cláusulas, com leis!</p>
+
+<p>Não é o ódio celular, contracturante; não é o ódio animal todo de instinto;
+não é o ódio de todos quantos vivem! O ódio dos homens foi canalizado, por
+seitas, por classes, por partidos, em dogmas, preconceitos, covardias. Nos
+outros animais o ódio é orgânico! Todo o combate é sempre pela Vida. O dos
+homens é anémico, missérrimo, e defende o dever, o preconceito, as taras de
+domínio e servidão, e até mesmo na revolta é miserável, pautando a Vida,
+sistematizando.<span class="pn">{32}</span> É o ódio da paródia de viver, do
+fantasma de Vida que êles vivem!...</p>
+
+<p>Parou. Eu estava como tonto, desvairado. Tinha decerto endoidecido essa
+águia velha, delirava, dizia só loucuras; mas eu não achei nada para opor-lhe,
+p'rà aniquilar nêsse silêncio de fadiga. De súbito lembrei-me: a Arte, a Arte,
+tôda a minha quimera de mãos postas!</p>
+
+<p>Sentindo-me desta vez irredutível, gritei-lhe p'rà gaiola:</p>
+
+<p>&mdash;E a Arte? A Arte? Consolação suprema de viver...</p>
+
+<p>Teve farpões de escárneo ao responder-me:</p>
+
+<p>&mdash;A Arte!... A Arte é a expressão da Vida. São os homens que o dizem,
+não é assim? Ora se êles não vivem, se não vivem, se parodiam a Vida a cada
+instante, se fogem mais e mais da grande Vida, a Arte é uma paródia de paródia,
+um espectro de espectro... miserável! Querem com tintas imitar o céu, e
+transcrevê-lo em lonas, em madeiras!... O céu bebe-se aos haustos,<span
+class="pn">{33}</span> com os olhos; olha-se por olhar, sem intenção; recebe-se
+nas pupilas extasiadas, que se alargam mais com sêde dêle... É o que faz um
+sapo a olhar os astros! É o que os homens não compreendem nunca! Toda a terra é
+feliz se o sol a doura; tudo germina, as pedras e as sementes... Só os homens
+que se cobrem p'ra evitá-lo; que nas cidades gastam horas a vestir-se; que tem
+por céu só um paninho côncavo a que chamam guarda-chuva ou guarda-sol; que o
+filtram nas igrejas por vitrais, que usam lunetas, que o receiam sempre; que
+tem medo da morte às suas garras, deslumbramento e orgulho de águias soltas; só
+os homens, absurdíssimos macacos, querem copiá-lo em lonas, em madeiras, com
+tintas, com carvões, com paus de côr!...</p>
+
+<p>Que macacos absurdos, que macacos!</p>
+
+<p>Bem quis interrompê-la, não podia. Vibrava de loucura negadora, hierática,
+estranha, convulsiva.</p>
+
+<p>&mdash;E nem poupam o mar nem as searas, as penedias trágicas, as rosas!
+Metem o<span class="pn">{34}</span> mar nuns centímetros de lona, e com medo
+que as marés vão sufocá-los (a águia ria, ria como louca) mandam emoldurá-lo,
+encaixilhá-lo!...</p>
+
+<p>Prendem-no assim nas salas, nas alcovas. Oh! A Arte dos homens! Coisa
+imensa! A paródia da Vida... paralítica! Mas vá alguêm dizer-lho! Vão
+dizer-lho! Ainda os antigos cegavam as estátuas... Êstes abrem-lhes olhos, bem
+abertos, a reflectir... o quê? A vida dêles, a paródia de vida que êles vivem e
+que andam a imitar ainda por cima!...</p>
+
+<p>A noite começava a entrar nas coisas. Um grito de pavão varou o parque,
+assustou os jardins que adormeciam, e um instante no ar, teve saudades... Uma
+angústia sem nome andava esparsa, caía das árvores grisalhas, que pareciam à
+escuta, com terror. Em frente o chorão vergava mais, quási rasava a terra com
+doçura, em curvas de um encanto nazareno. Uma sereia aguda de vapor, já a sair
+a barra certamente, mugiu como um agouro de naufrágio. A treva ia afogar tôda a
+gaiola. Não via bem<span class="pn">{35}</span> a águia, mal a via. Só os olhos
+e as asas muito vagas... Era um fantasma de águia àquela hora, mas crescia em
+mim desmesurada, como um ser de fábula e tragédia, oráculo sarcástico e
+sinistro, lendo o horóscopo num poleiro reles, como se rasgasse a esperança com
+as garras. Afinal era eu a sua presa, e ouvia-a passivo a torturar-me.</p>
+
+<p>&mdash;A Arte dos homens! Que mentira triste! Em vez de serem belos como
+estátuas, derrancam mais os corpos para erguê-las! Até modelam sonhos e
+quimeras!...</p>
+
+<p>Nunca olharam as nuvens, nunca as viram, esses mármores ao vento,
+fluctuando... E o vento! O vento! Sabem lá ouvi-lo! Tanto não sabem que quando
+êle prega, durante o inverno em que êle é todo génio, metem-se em casas
+grandes, bem fechadas, p'ra ouvir sons, sons, imensos sons... Chamam a isso
+Música. Conheço-a. Desde que vivo com os homens, perseguiu-me. Nem aqui na
+gaiola eu lhe escapei. Toca aos domingos horas, no coreto. Enche-me mais de
+raiva e de miséria. A música das<span class="pn">{36}</span> águias como é
+outra!... Quem a ouviu como eu quando era águia, antes de ser esta carcassa
+reles! Nas montanhas, no mar, na névoa móvel!... Sobretudo no mar, no grande
+mar... O que eu viajei nos temporais a ouvi-la! Ás vezes partíamos no vento em
+turbilhões, asas e asas, nómades, pairantes... Regougos de ondas, nuvens a
+rasgar-se, e os nossos gritos, bêbedas de espuma!... E mil vozes de formas
+nunca ouvidas, a voz de tudo, tudo, a voz de Pan! E o silêncio, o silêncio...
+Certos instantes únicos, supremos, em que êle se ouve, o temporal hesita, e um
+pânico arrepanha as asas todas... Como é agudo, agudo, êsse silêncio!... Nas
+meias-noites de estio... o que eu gostava de despertar no éter melodias,
+ferindo-lhe o teclado luminoso, numa alma de voo, sereníssima... Punha medo com
+o rumor das minhas asas às nuvens que dormiam extasiadas, e auscultava a noite
+pelo céu, até ouvir a manhã vibrando tôda, quando o ar é uma orquestra
+miriadaria e os homens dormem nas alcovas mornas...<span class="pn">{37}</span>
+</p>
+
+<p>Estendeu por minutos seculares o seu monólogo patético de velha, essa arenga
+evocativa de fantasma, lapidando o meu ser com ironias, em que memórias épicas
+passavam, como o granizo aos pobres em dezembro. Todo o meu senso crítico se
+foi na rajada feroz dos seus desprezos: era uma fúria aguda de vingança, de
+esfrangalhar essa carcassa oráculo, varar-lhe os olhos com a ponteira da
+bengala, acabá-la de vez, estrangulá-la. Retorqui-lhe então com a voz dura,
+pondo raivas de morte nas palavras:</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim... Diga ainda mais... o que quiser. Cante à sua vontade,
+minha amiga! Insulte os homens, ria, desgraçada. Nem me dou ao trabalho de a
+esmagar. Só lhe pergunto isto, apenas isto: quem a tem aí bem presa na gaiola?
+A si e a êsse mocho seu vizinho? Ao leopardo, ao lobo, a essas feras? Quem lhe
+dá por esmola bifes podres, e faz de si o riso das crianças, e a há-de empalhar
+depois de morta?... Você é uma águia tonta, dementada, que a<span
+class="pn">{38}</span> escravidão ensandeceu de vez. Melhor, melhor! Assim
+faz-nos rir mais. Grasne p'raí; rebente a divertir-nos!...</p>
+
+<p>Parei pr'a tomar fôlego, cansado; mas o relevo imóvel dessa ave, a sua forma
+heráldica de bronze, alheavam-na tanto desta cólera, do desespero besta em que
+eu tremia, que me pareceu inútil continuar e me senti um títere grotesco. Era o
+mais infernal dos casuístas, essa águia impossível de ferir, feita de sombra,
+emoldurada em sombra, presa nessa gaiola e mais distante que se esgarçasse as
+asas nas estrelas. Emquanto assim pensava, ei-la que fala:</p>
+
+<p>&mdash;Bem certo, sim, bem certo o que me diz! O Homem alastra pela terra
+como um cancro, pervertendo a vida, corroendo. Reduziu-me a mim, asas e garras,
+a um animal grotesco de capoeira, meio tonto de dor e de miséria. E as
+feras!... Exibem-nas nas feiras e nos circos, em gaiolas de ferro, à luz
+eléctrica, ante o pasmo alvar das multidões, rindo da força mutilada e doente.
+Cortam as jubas aos leões, abrem-lhes risca,<span class="pn">{39}</span>
+dão-lhes chicote e bifes, civilizam-nos! E quando os tem nas jaulas,
+sonolentos, sem força e sem instinto, entorpecidos, com as pupilas de oiro
+marasmadas, com as garras inúteis já sem preza, acham-se heróicos porque os
+chicoteiam, mesmo quando êles tremem de sezões, mesmo quando êles morrem de
+saudade!... Não há amor de asas num rochedo à névoa, que o terror dos homens
+não errice!... Antes disto, porém, já os adoraram. No Egipto, em tardes de
+colheita, o voo das íbis riscava no ar do Nilo curvas em que êles viam
+profecias... E outros como Isis, como Anúbis, sucumbiram no tédio de ser
+deuses, e depois das pompas rituais, de oferendas, de orações, de sacrifícios,
+são os servos misérrimos do homem, domesticados já, civilizados!</p>
+
+<p>Mutilam as árvores, deformam-nas; exilam certas plantas nas estufas, com
+saudades do húmus e do sol, e trazem na lapela rosas mártires, que abriam de
+desejo como noivas, à espera do pólen bem-amado! Não entendem o sangue nem a
+seiva: vão pervertendo<span class="pn">{40}</span> tudo, corroendo! Até que um
+dia, não mais florestas, catedrais a Pan! A terra será calva como um sábio, e
+cordilheiras, montes e ravinas serão assassinadas, cavacadas, p'ra que os
+homens mobilem os palácios, p'ra que tenham poleiros nas gaiolas... Os areais,
+as deserteiras ruivas onde o mar espadana e se extasia, terão motores,
+instalações fabris p'ra utilizar a raiva das marés, em quê, deus-sol?... a
+enriquecer indústrias... Todo o azul será viuvo de asas, e os filhos das águias
+e das feras nascerão em gaiolas e em jaulas! Ah! Mas tambêm nada haverá mais
+triste do que os filhos dos homens, as crianças... A inocência, essa graça
+animal, de flôr e de ave, que êles chamam divina... os imbecis! não mais
+existirá nos filhos dêles, reflectindo nos olhos já doentes, a farça de viver,
+como nos velhos... Será assim um dia, será assim. Onde irão depois refugiar-se?
+Nos braços do amor, do amor dêles, em que um olhar de mulher lembra um
+naufrágio, e faz que, cada trança, por mais loira, venha a<span
+class="pn">{41}</span> ser sempre a fôrca de um destino! A terra será a
+catedral do sofrimento, fim da farça sinistra que êles vivem, a inventar
+anestésicos e dores!</p>
+
+<p>Certo, o farrapo de penas que hoje sou, é bem obra dos homens. Certo,
+certo... Mas aqui mesmo, num poleiro reles, garras em cotos, quási paralítica,
+consola-me pensar que nenhum dêles será nunca o que eu fui, asas e garras,
+vivendo pr'ó Desejo pelo instinto, e em nomaderias de vertigem, amando tudo,
+tudo, a terra tôda, na luxúria suprema e inconsciente, de viver, de viver só
+por viver!</p>
+
+<p>Fêz uma pausa. Tive a visão daquela vida fulgurante, evocada em gritos de
+delírio, por essa pitonisa de asas longas que cortava com o bico o meu destino.
+</p>
+
+<p>Foi então que eu ouvi estas palavras, que eram mais que um soluço, que um
+crocito, uma espécie de guincho em que houve lágrimas.</p>
+
+<p>&mdash;Iriam cair nas mãos dos homens os meus filhos!...<span
+class="pn">{42}</span></p>
+
+<p>Lambeu-me um calefrio de vertigem.</p>
+
+<p>Era demais, meu Deus, era de mais! Não era já o meu orgulho em chaga,
+enovelado como um trapo nessas garras: o que eu agora queria, o que era
+urgente, era mostrar a essa águia, a essa mãe, que o seu dolorosíssimo terror
+era uma apreensão de louca, uma injustiça: o que eu agora queria de alma tôda,
+era mostrar-lhe o coração dos homens p'ra que ela o visse bem e tão patente,
+como se lhe pendesse a sangrar do bico curvo. Pr'à convencer daria tudo, tudo.
+Procurava um meio, sem achar. Sentia a inanidade das palavras. Com uma idea
+súbita falei-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Vou abrir-lhe a gaiola. Vai ser livre.</p>
+
+<p>Era decerto o pasmo que a gelava, porque não saiu da treva uma palavra. Eu
+continuei numa emoção crescente em que vibrava a ânsia de a soltar:</p>
+
+<p>&mdash;Vai ser livre, livre como outrora. Acorde as suas asas esquecidas.
+Diga adeus a essa gaiola imunda. Olhe mesmo daí: que encanto de hora! A noite
+arqueia ao pêso<span class="pn">{43}</span> das estrelas... Uma palavra sua e
+abro-lhe a porta. Não duvide. Sou forte. É num instante...</p>
+
+<p>O seu recorte altivo de águia em bronze amezendou: fôsse fadiga ou tédio. E
+num becejo vago, interrogou-me:</p>
+
+<p>&mdash;Vai abrir-me a gaiola... mas p'ra quê?...</p>
+
+<p>&mdash;P'ra quê?! P'ra que antes de morrer domine o espaço... p'ra sentir a
+vertigem do infinito...</p>
+
+<p>&mdash;Eu?!... repetiu numa fleugma desdenhosa. Eu?!... Saír dêste poleiro,
+da gaiola? Não sou doida varrida por emquanto. Saír da minha casa, do conforto
+pr'á incerteza da noite, p'rò mistério?... Sou uma águia mas vivi entre homens.
+Já estou civilizada, meu senhor... E se o vento me arranca as asas velhas? E se
+chover, e se chover? Já pensou nisso? Nem com as garras enluvadas eu me
+atrevo... Nem que me cubra as asas de impermeáveis...</p>
+
+<p>Nem com um <em>water-proof</em>, nem assim...</p>
+
+<p>A águia ria, ria doidamente. Crispei as<span class="pn">{44}</span> mãos nos
+arames, exasperado, e com uma voz enrouquecida fui dizendo, num tom de
+confissão, quási febril:</p>
+
+<p>&mdash;Imagina talvez que a não entendo, que sou um homem como os outros,
+imagina...</p>
+
+<p>É natural... é natural. Não me conhece... Mas eu quero dizer-lhe: oiça!
+oiça!</p>
+
+<p>Há em mim um não sei quê de águia marinha. A sua sorte comove-me, acredite.
+Quero tambêm dizer-lhe o meu segredo, quero desabafar, contar-lhe tudo...</p>
+
+<p>Bateu as asas com um ruído sêco, e num timbre fatídico de corvo, com uma voz
+de sibila, crocitante, atirou-me estas palavras derradeiras:</p>
+
+<p>&mdash;<em>É cedo, é cedo ainda. Imite os outros. Diga isso ao morrer ao
+travesseiro.</em></p>
+
+<p>Esse sarcasmo último transiu-me; e como quem se agarra ainda á esperança,
+pus-me a gritar p'rà gaiola, tontamente:</p>
+
+<p>&mdash;É o convívio dos homens que nos perde. O seu destino é irmão do meu,
+escute... Queria ser forte e belo, queria...</p>
+
+<p>Falei, falei, falei... Não sei que disse.<span class="pn">{45}</span></p>
+
+<p>Sandices e quimeras e desejos, larvas de ideas, raivas, desesperos. Parei
+por fim.</p>
+
+<p>Já nem lhe via os olhos. Decerto cerrara as pálpebras com tédio. Só o vulto
+de sombra sôbre a sombra se alongara mais, estava maior. Ouvi então uma sineta
+banalíssima, a pôr-me fora sêcamente: era já tarde. Olhei ainda a gaiola,
+despedi-me, atirei-lhe p'ra lá um «adeus» surdo. Ao passar na jaula do
+leopardo, senti um cheiro mau a carne podre. Vi-lhe o vulto enigmático de
+esfinge, a cabeça nas patas dianteiras, os olhos de oiro fulvo, fuzilando. Se
+aquele me falasse, o que diria!... Atravessei o parque silencioso, como numa
+balada, com terror. Vi nas acácias os pavões adormecidos, olhei o céu filtrado
+por folhagens onde um langor de outono se esfolhava, e à saída já, p'ra me
+calmar, molhei as mãos febris numa das taças e passei-as nas fontes consolado.
+</p>
+
+<p>Achei-me emfim na rua, longe dela.</p>
+
+<p>Um rapaz namorava mesmo em frente, a patrulha descia compassada, disse-me
+adeus<span class="pn">{46}</span> um côco conhecido: dobrava a esquina um
+eléctrico apinhado. Tinha ainda no ouvido a voz da águia, quando saiu de uma
+janela aberta uma ária roufenha de fonógrafo.</p>
+
+<p>Comuniquei feliz com a vida reles. Depois disto, é evidente, não posso mais
+falar-lhe. Ainda bem! Levava-me ao suicídio essa águia velha.<span
+class="pn">{47}</span></p>
+
+<p><span class="pn">{48}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00020">O PRECOCE</a></h1>
+
+<p style="text-align: right;"><br>
+A J<small>OÃO DE</small> B<small>ARROS</small></p>
+
+<p><span class="pn">{49}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00030">O precoce</a></h1>
+
+<p>Desde que o Emílio estava doente, todos os dias, ao anoitecer, se reuniam no
+seu quarto e assim ficavam algumas horas, numa intimidade meiga, como se dessa
+cabeça de precoce, ungida de sossêgo, dos seus olhos de adivinho, de um veludo
+grande e calmo, se exalasse paz, uma paz clara, em que tudo se perdoasse e se
+esquecesse.</p>
+
+<p>Tinham já lugares marcados. A mãe à cabeceira, logo ao pé a tia Olívia, p'ra
+contar histórias; os outros em redor, e aos pés da cama, em frente ao
+doentinho, o busto nobre do tio Eduardo, já grisalho, a sua máscara fina um
+pouco vaga, como a<span class="pn">{50}</span> de todos os que vivem no
+silêncio como outrora se vivia num convento. O pequenino era assim uma
+figurinha de mito familiar, e nas suas palavras lentas, de intuição e de
+carícia, todos se ouviam como o mar nas conchas. Tinha uma voz de sombra amiga.
+Adoravam-no. Mas agora, martirisado de dores, a consumir-se dia a dia, as
+mãozitas transparentes, entravam no terror de o ver pior. E se um móvel
+estalava, um farrapo de luar batia os vidros, ou ao cair da noite, a sombra
+vinha,&mdash;tremiam no silêncio, tinham medo, como se disfarçadamente a Morte
+entrasse, viesse de mansinho p'ra gelá-lo.</p>
+
+<p>Às vezes, nas pausas de algum conto ou da conversa, se alguêm se voltava,
+logo os outros inquietos o seguiam; e era vulgar olharem a porta de soslaio,
+como se esperassem alguêm, uma visita...</p>
+
+<p>Todos falavam em surdina, velando a voz um pouco opressa, e assim as coisas
+mais banais tinham um não sei quê de estranho; as palavras caíam como fôlhas
+sêcas e nos<span class="pn">{51}</span> olhos de todos havia uma expressão de
+adeus. Nem todos, nem todos! A mãe radiava fé. Bastava ver-lhe as mãos correndo
+a dobra do lençol, de veias altas, entumecidas de ternura, e poisarem numa
+geada de beijos nas mãos do seu filhinho, para sentir a emoção louca,
+religiosa, tendo ressurreições em cada gesto, sarando num olhar, numa oração. É
+que essa creança era a sua própria alma, presa naquele leito como um passarito
+enfêrmo, abrindo p'ra ela olhos enormes, como p'rá decorar bem, antes de
+partir; e dizendo de quando em quando: «mamã, minha mamã», num rumor de asa
+cansada.</p>
+
+<p>Era muito moreno, tinha a testa alta, um pouco bombeada, bôca de lábios
+finos, mento curto, bosselado em covinhas, que a magreza já quási que delira.
+Mesmo quando tinha saúde, ria pouco; não sabia brincar e qualquer coisa, o mais
+simples aspecto, o distraía como numa visão inconsciente.</p>
+
+<p>Tinha um ar de quem se lembra. Uma vez foi ao colégio. Voltou com febre,
+doente,<span class="pn">{52}</span> a tremer todo, e quando o pai o interrogou,
+só pôde dizer «que não era nada, que não tinha nada». Mas à noite, quando a mãe
+ia a deitá-lo, rompeu a beijar-lhe as mãos, num chôro brusco, e mal pôde pedir
+entre soluços, de mãos postas, p'ra não voltar... p'ra não voltar mais ao
+colégio.</p>
+
+<p>&mdash;Sossega, meu filhinho. Quem te fêz mal? Que te fizeram? Não voltas
+mais, não voltas mais. Que te fizeram?...</p>
+
+<p>&mdash;Vi bater num menino.</p>
+
+<p>E outra vez o chôro o sufocou, em bagas grossas, torcendo o seu corpinho de
+arbusto à ventania. Nessa noite teve febre, delirou, e os pais resolveram que
+tão cedo não voltava. Pediu então à mãe que o ensinasse. Ao caír das tardes,
+com a costura no regaço, ela dava-lhe lição, e em pouco tempo, por entre
+confidências que eram beijos, êle aprendeu maravilhado a ler. O seu amor
+cresceu ainda, como regado de gratidão. Dizia «mamã» como quem reza.</p>
+
+<p>Adorava-a. Nas tardes de sol, os irmãos brincavam no quintal; chamavam-no, e
+como<span class="pn">{53}</span> êle era o mais pequeno, faziam-lhe mimos, numa
+grande ternura protectora. Êle não ia, desculpava-se. Preferia ficar junto
+dela, na varanda de pedra, a vê-la bordar.</p>
+
+<p>&mdash;Não queres brincar, Milinho? Vai, vai brincar com os manos.</p>
+
+<p>Êle erguia os seus olhos de veludo:</p>
+
+<p>&mdash;Deixe-me estar ao pé de si, mamã. Não há nada tão bom p'ra mim.</p>
+
+<p>Raro saíam. Ás vezes, com a mãe, ia às tardes à Foz p'ra ver o mar. Voltavam
+ao anoitecer. Falavam pouco.</p>
+
+<p>&mdash;Gostas do mar, Milinho?</p>
+
+<p>&mdash;Muito, mamã, muito. É a coisa mais linda que há.</p>
+
+<p>Foi ao voltar de um passeio assim, numa tarde de novembro, que o pequenino
+teve tosse e cuspiu sangue.</p>
+
+<p>&mdash;Que te dói? Dói-te o peito?</p>
+
+<p>&mdash;Pouco, mamã. Não se aflija. Não há-de ser nada.</p>
+
+<p>O médico veio, aconselhou cautela, receitou. Teve depois com o pai uma
+conferência larga. E foi então que o terror abriu<span class="pn">{54}</span>
+sôbre ela as asas concavas, geladas. Não podia dormir. Levantava-se a cada
+instante, p'ra ver se estava bem coberto, se tomara o remédio, p'ra senti-lo. A
+tosse dêle feria-lhe tambêm o peito; transia-a tôda, como um dobre. Vestia-se à
+tôa, sem cuidado. Tudo o mais lhe era indiferente. Marido, os outros filhos,
+família, governo da casa, visitas, os outros... que lhe importavam agora, se o
+seu filhinho estava mal?</p>
+
+<p>E extenuada, adormecia às tardes à cabeceira do doentinho, que a olhava a
+sorrir, muito feliz, como se fôsse um ser de conto preso num lindo
+encantamento. Pouco a pouco, apesar de ninguem o achar melhor, foi-se esvaindo
+o terror dela, e uma grande loucura, a loucura divina da esperança,
+galvanizou-a de coragem, deu-lhe fé. Amava-o com tôda a carne e tôda a alma.
+</p>
+
+<p>O casamento tinha sido, p'rá sua índole delicada de romântica, uma decepção
+dolorosíssima a que pouco a pouco se adaptara. Não teve crises, não sofreu
+violentamente. Foi um esperecer lento da ilusão;<span class="pn">{55}</span>
+todo o seu sentimento que morria como uma planta à sêde; e ela curvara a
+cabeça, aceitava a vida que lhe davam, com uma resignação de fraca que se
+esquece. Teve dois filhos. Criou-os. E uma paz de maternidade um pouco animal,
+foi-a calmando; o seu passado de sonho estava longe, nas águas mortas da
+memória; e ia vivendo assim, anestesiada, sem os sobressaltos de nervos de
+outros tempos, uma vida normal e clara, no seu lar, entre os seus. Era uma
+renúncia sem tortura, inconsciente.</p>
+
+<p>Passaram alguns anos, uniformes, que só a doença de um filho ou do marido
+vinham alvoroçar de longe a longe, e que por fim se sumiam na memória, na mesma
+cinza neutra, pardamente. Vivia como se fôsse a própria sombra. Já não esperava
+ter mais filhos. Quando soube que ia ser mãe ainda uma vez, teve a emoção maior
+da sua vida. Certo, ela foi sempre boa mãe: amava os seus dois filhos muito e
+muito. Mas agora era diferente, era outra coisa. O que viria era mais, bem mais
+que os outros: era o<span class="pn">{56}</span> filho dela e do seu
+<em>sonho</em>... Ressuscitou em si mesma: renasceu. O seu sangue resava nas
+artérias promessas que antes não lhe ouvira, e começou a parecer-lhe que êsse
+filho era a compensação que Deus lhe dava, quási um milagre, a flôr inesperada
+em que o seu sonho redivivo iria abrir.</p>
+
+<p>A sua vida banal, desencantada, murchando dia a dia, sem interesse, num
+automatismo frio e resignado, fôra uma provação, tinha passado: e os seus
+nervos de histérica, despertos, com todo o amor que a vida sufocara, calcado em
+resignação, morrendo à sêde, renasciam a vibrar de esperança, davam-lhe uma
+beatitude transcendente.</p>
+
+<p>O seu filho (estava certa que era um filho) seria um pequenino abençoado,
+com um destino que só ela e Deus sabiam, e no primeiro olhar que êle lhe desse,
+pressentiria um evangelho novo como um beijo a correr-lhe tôda a alma... Tudo
+mudou na vida dela, tudo. Mal falava aos filhos, ao marido, que interpretava a
+estranheza dos seus modos como a mudança de carácter,<span
+class="pn">{57}</span> os caprichos que muitas mulheres tem naquele estado. Se
+a olhavam insistentemente ou lhe faziam perguntas, alusões, isolava-se,
+desaparecia de repente, como alguêm que vive p'ra um segrêdo e receia que os
+outros lho desvendem. Parecia mais alta, elanguescida, com grandes olhos sempre
+a olhar p'ra dentro, como teem certas aves e os mármores.</p>
+
+<p>Em solteira, nunca fêz confidências às amigas. Tecia a sua teia no mistério.
+Todos lhe achavam qualquer coisa de dormente: não compreendiam bem o seu
+carácter. Mas como era modesta e era boa, esquecida de si mesma e sem vaidade,
+deixavam-na viver no seu silêncio como um nelumbo de pureza à flôr de um lago.
+Mesmo no seu isolamento da província, onde vivera com os pais até casar, lia
+pouco e sempre os mesmos livros: vidas de santas, lendas de conventos.
+Exaltava-se com êles, tinha fé em qualquer coisa que Deus lhe reservava.
+Durante os serões lentos, costurando, scismava que nascera para freira. Toda a
+sua energia,<span class="pn">{58}</span> a sua força, abrasava o seu sonho, era
+interior: e quando batiam à porta da sua alma, ela saía distraída, resignada, a
+obedecer aos seus passivamente. Esperava contudo <em>um não sei quê</em>. O
+Destino dissera-lhe um segrêdo. E sem contar a ninguêm o que pensava, vivia
+como uma eleita: estava à espera... Os seus vinte anos em flôr eram p'ra êle.
+</p>
+
+<p>Foi debruçada a esta ogiva de mistério, que a vieram chamar para a casarem.
+Depois a decepção, o sofrimento: mais tarde a renúncia, a anestesia na
+sonolência banal dos seus cuidados.</p>
+
+<p>Apesar de não casarem por amor, outra qualquer, no seu lugar, era feliz. Êle
+era forte, delicado e bom. A sua vida de engenheiro absorvia-o. Quando viu que
+aquela rapariga, que conhecera na província vaga e meiga, continuava nos seus
+braços abstraída, com um olhar desencantado e quási triste, compreendeu que
+fizera mal em ir buscá-la como quem colhe um lindo fruto: erguendo o braço.
+Tentou então insinuar-se<span class="pn">{59}</span> pouco a pouco,
+interessá-la nas suas coisas, diverti-la. Por fim resignou-se, desistiu. Como
+não era um sentimental, um romanesco, e a sua profissão o apaixonava,
+contentou-se em ter nela uma amizade, um ser de lialdade e de doçura,
+desdenhando teatros e convívios pela paz transparente do seu lar, e vivendo
+p'ra êle, para os filhos, e para aquela vida inviolada que desfocava os seus
+olhos noutros céus... Como porêm tudo mudara agora!</p>
+
+<p>Dia a dia, a exaltação dela ia crescendo. Uma noite mesmo teve febre, e o
+médico lembrou que p'rà calmar, era melhor uma mudança de ares, uma temporada
+na aldeia ou à beira-mar. Partiu então p'rò Minho, para a quinta, e como nem o
+marido nem os filhos podiam nesse tempo acompanhá-la, levou consigo apenas as
+criadas, dizendo que preferia ficar só na grande paz do campo, a sossegar.</p>
+
+<p>Era na Páscoa. Nessa ressurreição da primavera, ao abrir a janela do seu
+quarto, aspirou no perfume dos lilases a esperança<span class="pn">{60}</span>
+que subia com as seivas, vibrando já nas asas migradoras e no pólen que doirava
+o ar.</p>
+
+<p>Enternecia-a tudo: as relvas novas, ver os rebanhos beberar às tardes quando
+os montes violáceos se concentram, os pássaros felizes no pomar, e à hora das
+regas, ao crepúsculo, a alegria das águas borbulhantes, quando as estrelas vem,
+tudo descansa, pelos atalhos vão chiando carros, e nos paúis, pobres poetas
+liricos, os sapos piam comovidamente. Nunca sentira tanto a natureza.</p>
+
+<p>E foi nesta atmosfera de pomar que ela esperou misticamente a hora suprema,
+querendo sofrer, feliz, extasiada, como uma nuvem alta da manhã que o sol
+rompesse p'ra descer aos homens...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Davam Trindades. A tia Olívia contara um lindo conto. Ao sair dos palácios
+de feeria por onde a voz dela o ia levando, o Emílio ficava a olhar as jóias,
+os anéis, a<span class="pn">{61}</span> pedras preciosas esparsas na sua mesa
+de doente e luzindo em sortilégio, na penumbra. Eram olhos de fadas,
+encantados...</p>
+
+<p>Não tiveram remédio senão dar-lhos: por quanto tempo, meu Deus, por quanto
+tempo?... P'rò distrair, há dias, o tio Eduardo tirou os anéis e deu-lhos, e
+como o viram ficar muito contente, os outros deram-lhe tambêm os que traziam.
+Mas quando iam nessa noite a despedir-se, êle ficou tão triste ao entregá-los,
+que o tio Eduardo propôs que lhos deixassem e todos imediatamente consentiram.
+</p>
+
+<p>&mdash;Fica com êles, Milinho, guarda-os, guarda-os.</p>
+
+<p>&mdash;Mas não são meus, não quero... Assim, não quero...</p>
+
+<p>&mdash;São todos teus, são todos teus, meu filho.</p>
+
+<p>Então em roda todos confirmaram a mentira damor que o alegrava.</p>
+
+<p>Daí por diante, sempre àquela hora, vivia num delírio de gandezas. Mas nesta
+tarde, ou porque o conto mais o impressionasse,<span class="pn">{62}</span> ou
+porque estava mais fraco e com mais febre, a excitação do Emílio era maior. Os
+seus olhos de mago, muito abertos, dois veludos de febre ainda mais negros,
+maguavam-se fitando as pedrarias, êsse baile de côres e de reflexos que
+pareciam mais vivos na penumbra, e como se a febre dêle os contagiasse, tinham
+fulgurações de um brilho agudo. Abria, abria os olhos fascinado.</p>
+
+<p>&mdash;Que lindo, mamã, veja que lindo!</p>
+
+<p>Toda a sua carita consumida desaparecia no clarão dos olhos, mais pretos que
+asas de andorinhas, ao tremerem no ar em despedida. Outro sino mais longe deu
+Trindades, numa voz de prata e de fadiga, como se lhe custasse a vibrar até ao
+quarto. Todos estavam opressos, sem falar. E êle, erguendo os braços de
+repente, deixou-os ir cahindo sôbre as jóias, cobriu-as com as palmas das
+mãosinhas, puxando-as contra o peito avaramente:</p>
+
+<p>&mdash;São todas minhas, não é? São todas minhas...<span
+class="pn">{63}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Todas, Milinho, disse a mãe transida. Vergou-se então sôbre elas com
+esfôrço, como se fôsse p'ràs beijar, branco de cera, e repetiu ainda extasiado:
+</p>
+
+<p>&mdash;É lindo, lindo... lindo. Não dou nenhuma a ninguêm. São todas
+minhas.</p>
+
+<p>Espalhou-as um pouco sôbre a mesa, pôs de parte os anéis, ficou a olhá-los,
+e sorrindo à idea que tivera, disse baixinho:</p>
+
+<p>&mdash;Vou pô-los nos meus dedos. Começou a enfiá-los com cuidado nos
+dedinhos ossudos, só falanges, mas deixava-os cair a cada instante, largos de
+mais, em fugas de reflexos. Já ia na terceira tentativa, num desespero mudo, a
+arfar cansado, quando o tio Eduardo e a mãe o ajudaram. Levantaram-lhe as mãos
+quentes de febre, e enfiaram-lhe os anéis nos dedos ósseos, que êle ergueu
+quanto pôde, deslumbrado.</p>
+
+<p>&mdash;Mamã! Estavam a dar Trindades. Vou rezar uma avé-maria, vou rezar.</p>
+
+<p>Na penumbra da alcova, de mãos postas, escorrendo em reflexos irisados, a
+sua<span class="pn">{64}</span> vòsinha disse a avé-maria num timbre muito fino
+de carícia, como um adeus que punha os olhos rasos, num veludo expirante de
+palavras, dêsses que tem no outono, a horas mortas, certas fôlhas de arbusto a
+despedir-se. Nem o tio Eduardo se conteve. Brilhavam-lhe já lágrimas nos olhos.
+Ninguêm tinha coragem para falar.</p>
+
+<p>A lua, que agora vinha muito cedo, batia na varanda, brancacenta. Êle tirou
+os anéis devagarinho, como um ser de conto, a sorrir sempre, e deitou-se p'ra
+baixo fatigado.</p>
+
+<p>&mdash;Dê-me as suas mãos, mamã, quero senti-las.</p>
+
+<p>E ficou a beijar-lhas muito calmo. No enleio de uma emoção religiosa, todos
+queriam quebrar êsse silêncio, feito de sonho e de apreensões de morte, que
+avançava talvez na luz do luar. Foi o tio Eduardo que falou:</p>
+
+<p>&mdash;Esteve hoje um dia lindo, quási quente. Temos à porta a primavera.
+Dentro em pouco, Milinho, estás mais forte; já podes dar à tarde o teu
+passeio.<span class="pn">{65}</span></p>
+
+<p>&mdash;Logo que possa, mamã, vou ver o mar. Consigo, sim?</p>
+
+<p>&mdash;Se Deus quiser, meu filho, havemos de ir. E ainda antes, has-de ir
+para o quintal brincar com os manos. Sabes que a <em>tua</em> árvore, a
+magnólia, já está cheia de flores muito brancas?</p>
+
+<p>&mdash;Ó mamã, mamã, deixe-ma ver,&mdash;pediu êle erguendo a cabeça de
+repente.</p>
+
+<p>&mdash;Mas vais apanhar frio, meu filhinho. Amanhã, amanhã, agora não.</p>
+
+<p>Tanto insistiu, que o levaram ao colo até à janela, embrulhado em
+cobertores, muito contente, e ficou assim alguns instantes, a carinha colada
+contra os vidros, no deslumbramento da magnólia, da <em>sua</em> árvore,
+erguendo o tronco negro e lívido de lua, e nos ramos implorantes e afilados, as
+flores mais brancas que há na terra.</p>
+
+<p>Deitaram-no. Deviam ser nove horas, pouco mais. E como sempre, levantaram-se
+todos p'ra partir. Cada um então foi dar-lhe um beijo, e ao apertarem-lhe as
+mãos&mdash;adeus Milinho!&mdash;êle olhou-os desta vez mais<span
+class="pn">{66}</span> devagar, com um olhar que nunca mais lhe viram, em
+longes de meiguice, de outro mundo, numa névoa de lágrimas contentes. E sorria
+ao dizer:</p>
+
+<p>&mdash;Adeus, adeus. Tio Eduardo, tia Olívia, adeus, adeus...</p>
+
+<p>Essa creança assim, a despedir-se, com uma voz perlada de carícia, encheu-os
+de aflição e de terror; e foi mordendo os soluços, sufocados, que saíram da
+alcova, que partiram, ouvindo dentro dêles o crocito&mdash;nunca mais! para
+sempre! <em>never more!</em>&mdash;dêsse corvo fatídico, de lutos, que Poé
+revelou em versos trágicos. Qualquer coisa de lindo ia morrer. Qualquer coisa
+de lindo ia morrer...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>No emtanto na alcova, o pequenino, alongava os bracitos para a mãe e dizia
+feliz, como em segrêdo:</p>
+
+<p>&mdash;Que bom, mamã! Que bom estar só consigo! Sente-se aqui depressa, mais
+pertinho...<span class="pn">{67}</span></p>
+
+<p>&mdash;Aqui me tens, Milinho, aqui me tens. E beijava-o na testa
+longamente.</p>
+
+<p>&mdash;Como eu gosto de si, minha mamã! Quem me dera viver sempre ao pé de
+si! </p>
+
+<p>&mdash;Deus há-de-te sarar. Verás, verás...</p>
+
+<p>&mdash;Bem sei que lhe faz pena, não se aflija: qualquer dia, mamã, eu vou
+partir...</p>
+
+<p>&mdash;Nem digas isso, meu amor, nem digas isso.</p>
+
+<p>&mdash;Vou-me embora, vou, p'ra muito longe... Não faço falta a ninguêm.
+Ficam-lhe os manos. Só lhe deixo a si muitas saudades...</p>
+
+<p>&mdash;Se tu gostas de mim, não digas isso.</p>
+
+<p>Êle tornou mais lento, resignado:</p>
+
+<p>&mdash;Por sua causa, mamã, queria viver ainda que fôsse assim... sempre
+doente, sem saír do quarto, ao pé de si, mamã, ao pé de si...</p>
+
+<p>&mdash;Agora precisas de dormir, de descansar. Fecha os olhos, Milinho,
+dorme, dorme...</p>
+
+<p>&mdash;Então dê-me as suas mãos. Quero dormir com as minhas mãos nas
+suas.<span class="pn">{68}</span></p>
+
+<p>Dentro em pouco, serenamente, adormeceu. Ela tirou as mãos devagarinho,
+aconchegou-lhe a roupa contra os ombros, e afastando-lhe dos olhos o cabelo,
+deu-lhe um beijo na testa, muito leve.</p>
+
+<p>Já o luar escorria pelos vidros em lágrimas de opala e de mercúrio. A noite
+vinha ver o seu filhinho e enchê-la de esperança e de coragem. Como o pai disse
+recolher mais tarde (uma entrevista no <em>club</em> p'ra negócios) mandou
+deitar as criadas, ficou só: esperá-lo-ia ali, junto ao seu filho. Como dormia
+bem, tão sossegado! Deus era bom, havia de salva-lo. E numa exaltação, quási
+feliz, encostou-se à vidraça a olhar a noite.</p>
+
+<p>A magnólia ao luar estava divina. Se o pequenino a visse, o pobresinho! Como
+êle gostava das árvores, do mar! Não se lembrava de ter visto um luar assim.
+Fazia-lhe tão bem: calmava-a tôda. Via ao longe, no rio, as mastreações, e
+distinguia as vêrgas, o velame, a luz dos estais à pôpa, nictitando. Vila-Nova,
+a casaria, os arvoredos, subiam do outro lado empoalhados, e a névoa que<span
+class="pn">{69}</span> se erguera pouco a pouco, era já na colina ao luaceiro
+uma via-láctea nova, avoejante, salpicada de luzes, muitas luzes, como se Deus
+atirasse com amor, às mãos-cheias de estrêlas sôbre a terra. Toda a mole
+granítica da Sé, galvanisada a lua, se animara: corria luar nas veias dessas
+pedras, morenas do sol de tantos séculos, e tôda a catedral se eterizava como
+se as gárgulas aladas das cimalhas acordassem p'ra tentar um voo último. A
+casaria mesmo, estava absorta. Que lindo, meu Deus, como era lindo! Elfos de
+lua, gnomos, rondas fluidas, andavam no ar com o pólen dos jardins, e as rosas
+de toucar por sôbre o muro, fechando todo o quintal em trepadeiras, tinham
+nuances de síncope, esmaiadas. A paisagem era um sonho deslumbrado, numa
+assunção p'ra Deus, erguendo os caules, e os troncos, as torres das igrejas, e
+os olhos das janelas: de mãos postas. Deus fundira-se em lua, andava esparso,
+como um filtro de sonho, transcendente, propiciando, amando, perdoando.<span
+class="pn">{70}</span></p>
+
+<p>Bem certo: o seu filhinho sararia. E nessa maré-cheia de luar, no
+encantamento sortílego da noite, a esperança subia a aluciná-la despertando o
+sonho místico de outrora. Aquella figurinha não mentia: os seus olhos de mago
+eram proféticos. As suas mãos tocando adivinhavam, como naquela noite, há já
+três meses, em que uniu, sob a bênção dos seus olhos, as mãos do tio Eduardo e
+da tia Olívia, no silêncio que em roda se fizera. Assim os dois souberam que se
+amavam, e ficaram a olhar o pequenino como numa liturgia nupcial... E não tinha
+sete anos ainda então! Mesmo a sua conversa perturbava, com inflexões de
+médium, reticentes, em que palavras de sempre, as mais comuns, se engastavam em
+timbres de mistério. Nascera para amar, o seu filhinho. E tudo, a sua voz de
+concha meiga, a sua palidez estiolada, os seus olhos de oráculo&mdash;criança,
+diziam bem um ser predestinado, um guiador augusto de destinos, em cuja
+atmosfera de carícia muita dor havia de acalmar-se, como<span
+class="pn">{71}</span> um perfume de rosa, a certas horas, nos beija com uma
+bôca de perdão.</p>
+
+<p>Toda a vida do seu filho ia passando. Descaíam-lhe as <span class="typo"
+title="no original: pálpebres">pálpebras</span>, ao peso das quimeras
+debruçadas. E de repente, estremeceu gelada. Sentiu o luar nas mãos, subiu-lhe
+aos seios... Se a beleza da noite, transparente, êste aquário em que a lua
+abria as veias e a vida da terra ia boiando num abandono de ninfeia aberta,
+fôsse afinal uma cilada d'<em>Ela</em>, um disfarce da Morte p'ra
+roubar-lho!?... Meu Deus, meu Deus! Era possível que ela viesse assim, essa
+maldita, na feeria argêntea dessa noite, com a fouce escondida em musselinas,
+silenciário carrasco sem memória, correndo em passos de êxtase e de opala, e
+matando com um hálito de gelo, num aflorar de plumas hesitantes junto do qual
+um beijo era grosseiro?... Um instante o terror alucinou-a. Não deixaria a lua
+entrar na alcova! Ia fechar as portadas, e no escuro, colando o corpo contra o
+seu filhinho, estaria mais segura, a defendê-lo. Num sobressalto, foi até
+junto<span class="pn">{72}</span> dêle, ficou queda. Que imensa paz nessa
+carinha meiga! Pôs-lhe a polpa dos dedos sôbre a testa. Estava muito suado como
+sempre. Mas a sua respiração era tão calma, e na concha das pálpebras descidas
+havia uma doçura tão profunda, que se sentia bem que o seu anjinho estava a
+sonhar com as fadas de algum conto, onde, como êle às vezes lhe contava, a boa
+fada tinha a cara dela, e olhava e beijava como ela. Tudo corria bem. P'ra que
+assustar-se? Os seus nervos, afinal, só os seus nervos! E ao voltar-se de novo
+para a noite, teve remorsos de ter medo dela, de ter desconfiado loucamente que
+êsse luar de perdão espargelado fôsse um scenário infame de traição, contra
+aquela flôr&mdash;a pobresinha! que era seu filho e Deus ia salvar.</p>
+
+<p>Voltou p'ra junto da vidraça, ainda trémula, a sossegar nesse esplendor
+silente. O luar avançava sempre e sempre. Já lhe doirava agora os olhos razos,
+o cabelo, a testa, o corpo todo. E com uma idea súbita rezou. Não podia dizer a
+quem rezava, se<span class="pn">{73}</span> rezava a Deus ou ao luar... Mas
+Deus era o luar, era o luar... E agora estava certa, estava certa de que êle
+vinha p'ra curar o seu filhinho, e envolvê-lo todo p'ra sará-lo como um beijo
+de Deus a essa criança.</p>
+
+<p>Pôs-se em bicos de pés o mais que pôde, e com um gesto feliz, misterioso,
+corria os cortinados de mansinho, p'ra que êle chegasse mais depressa junto ao
+leito, a sorrir e a chorar, tôda contente. Êle vinha, êle entrava sempre e
+sempre. Estendia-lhe as mãos como a chamál-o, as suas mãos de mãe, de veias
+altas, que um dilúvio de amor intumescera. Já despertava os móveis, seus
+amigos, a que ela queria como a confidentes. E doida de feliz, quási riu alto
+ao ver-se no espelho enluarado. Dizia-lhe baixinho: «entra, entra...» Já a
+cadeira de braços estava empoada e a trama florida do tapete ressuscitava em
+<span class="errata" title="Errata: gramas sonolontas">gamas sonolentas</span>.
+Se até vitalizava as coisas mortas! Era Deus, era Deus êste luar... E que
+sossêgo agora, que sossêgo!... Até a bica do tanque se calara. Havia uma
+atmosfera de<span class="pn">{74}</span> milagre, o seu sonho de mística era
+certo. Os seus pressentimentos não mentiram. Era um destino sagrado, o
+pequenino. Por isso Deus descera no luar: era êle, era êle, estava ali... Isto
+era bem verdade, era a verdade. Mas então o seu filho estava salvo! E desatou a
+rir perdidamente, num timbre de histeria muito sêco.</p>
+
+<p>De repente lembrou-se: o luar era Deus: não devia pisál-o, era um pecado...
+Fugiu então p'rà zona ainda escura, olhou o pequenino adormecido. Pareceu-lhe
+que sorria extasiado. Sentiu uma alegria semi-louca, um excesso de esperança a
+sufocál-a. Por fim ajoelhou-se junto ao leito, chamando-o com as mãos, lavada
+em lágrimas; mas rindo sempre, sempre, a segredar-lhe: «Entra, entra, entra...»
+Êle vinha, êle vinha, muito fluido, de cada vez mais branco, mais divino.
+Debruçou-se então, beijou-lhe a orla. Ergueu-se a radiar, transfigurada, com os
+olhos histéricos mais vítreos e um riso em aro, descobrindo os dentes, numa
+beatitude arripiada. Foi esperar o luar do outro lado,<span
+class="pn">{75}</span> as mãos nas grades da cama, à cabeceira. Êle dormia
+sempre, o pequenino, uma mão escondida no pescoço, a outra sôbre a dobra do
+lençol. Curvou-se para ver onde o luar vinha. Mal conteve um grito de ventura.
+Tocava os pés da cama: ia subir!... «Sóbe, sóbe, sóbe» ia dizendo. O seu pobre
+coração endoidecera: despedaçava-lhe o peito, de feliz. Premiu as fontes com as
+mãos: «lá vem, lá vem. Bemdito seja Deus, sempre bemdito».</p>
+
+<p>Havia um clarão no <em>couvre-pieds</em> agora. Uma larga lágrima, redonda,
+foi lá rolar como uma grande pérola. Nesse instante ouviu como um gemido. O
+pequenido mexia-se, acordava. Levou as mãos ao peito, despertou. Mal se viu o
+veludo dos seus olhos... Quis erguer a cabeça, descaíu-a. A mãe vergou-se sôbre
+êle: «meu filhinho», pôs-lhe as mãos em caricia sôbre as fontes que um suor
+muito frio perolava, e ia beijál-o, quando ouviu três vezes, como um fio de
+voz, já muito longe: «mamã, mamã, mamã...» E fechou p'ra sempre os seus<span
+class="pn">{76}</span> olhos febris de grande génio triste depois dessa palavra
+suprema que era tôda a sua fé.</p>
+
+<p>O luar chegara emfim à cabeceira!</p>
+
+<p>Só quando êle esfriou sob os seus beijos, só quando viu os braços que lhe
+erguera, para que Deus o visse de mãos postas, implorando-lhe vida, o
+pequenino!&mdash;recaírem inertes sôbre a roupa, compreendeu o crime, o crime
+imenso.</p>
+
+<p>&mdash;Vinha no luar a Morte... no luar...</p>
+
+<p>Voltou-se então num desespero último, p'ró expulsar, p'ró pisar sob os seus
+pés: depois reanimaria o seu filhinho: dar-lhe-ia a beber todo o seu sangue.
+Mas ficou paralítica de assombro. O luar alagara todo o quarto: água lustral de
+lua, alma de lua, no chão, no ar, em tôda a parte... O seu sangue gelava-se nas
+veias. Não podia lutar, era impossível. Êle invadira a alcova, asfixiara-a.
+Estava tudo perdido, tudo, tudo... Abriu os braços, hirta, inteiriçada, e caiu
+ao desamparo, sem sentidos.<span class="pn">{77}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00040">O HOMEM DAS FONTES</a> </h1>
+
+<p style="text-align: right;"><br>
+A J<small>USTINO DE</small> M<small>ONTALVÃO</small></p>
+
+<p><span class="pn">{78}</span></p>
+
+<p><span class="pn">{79}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00041">O Homem das Fontes</a> </h2>
+
+<p>Chama-se Harry Young o homem das fontes. Vi-o a primeira vez em Granada no
+Paseo de los Tristes, ao pé de uma fonte árabe já morta. É um rapaz alto, de um
+loiro muito claro, maneiras simples que revelam raça, olhos de névoa calmos e
+abstractos, e uma voz estranha, monocórdia, ou p'ra dizer melhor, uma voz de
+água. Nasceu em Londres. É rico. Sem família e sem lar, vive em perpétua
+viagem. Encontrei-o em Roma, em Constantinopla, em Florença, e, detalhe que me
+feriu intensamente, desenhando, escrevendo ou só olhando, sempre junto a uma
+fonte, concentrado,<span class="pn">{80}</span> como se fôsse a caricatura
+fabulosa que o encantamento de uma ninfa ali prendesse.</p>
+
+<p>Harry Young chegou a obsidiar-me. Nunca porêm, pensei em ir falar-lhe,
+recorrendo ao impudor tradicional que se tolera sempre aos que viajam.</p>
+
+<p>Uma manhã, em Florença, tive quási a impressão de que era um louco. Cedo
+ainda, seriam cinco horas da manhã, fui p'rà Piazza dela Signoria encher-me de
+sadismo estesiante a olhar na Loggia o Perseu de Benevenuto. Tem, como sabem
+por centenas de gravuras, uma fonte desenhada por Vasári à sombra ameada do
+Palazzo Vecchio. Caía uma luz melodiosa. Harry desenhava, um caderno de
+apontamentos na mão fina. Um esbôço da fonte, era evidente.</p>
+
+<p>Àquela hora só havia pombas no silêncio irreal da praça. Discretamente,
+pus-me a olhar tambêm a fonte. Ao centro, o Neptuno de mármore é boçal; há uma
+ronda de ninfas alongadas num bronze de <em>patine</em> quási azul; os cavalos
+marinhos saltam na água e os tritões que cercam tôda a taça<span
+class="pn">{81}</span> tem a alegria de quem vive na água, uma beatitude cínica
+e animal, espirrando das máscaras de bronze por fossetas de riso, bocas ébrias,
+em <em>verve</em> muscular, em gestos vivos. Os dorsos luziam de água
+esparrinhada, e de estátua p'ra estátua voavam pombas fazendo em roda aquele
+adágio de asas que à pôpa dos navios, no mar alto, riscam os voos curvos das
+gaivotas. Não podia saborear aquela paz, com um desejo único a morder-me: ver o
+que Harry Young desenhava.</p>
+
+<p>Êle fixava a fonte alguns instantes, e antes de transcrever o que colhera,
+quedava ainda imóvel, recolhido, numa aura de emoção mais do que estética, que
+me parecia absurda, incompatível com um esbôço num álbum de viagem. Ao lado, em
+frente à estátua de Cosme de Médicis, criados sonolentos iam dispondo as mesas
+nas <em>terrasses</em>. Já havia dois cafés abertos onde gente apressada ia
+beber. Harry, que continuou alheado ainda algum tempo, foi por fim sentar-se a
+uma <em>terrasse</em>, e bebendo um copo de leite<span class="pn">{82.}</span>
+lentamenle, tinha o álbum aberto sôbre a mesa dando os últimos retoques ao
+desenho.</p>
+
+<p>Quem era esta criatura que só o encanto das fontes interessava, e que em
+Florença, como em Granada, como em Córdova, nunca vi num museu ou numa igreja,
+como se só o granito ou o mármore das fontes tivessem para os seus olhos
+estesia? Que sensibilidade aberrante, que destino fadara p'rò convívio
+enigmático, p'rò segrêdo embalador das fontes, êste rapaz, que não tinha ainda
+trinta anos, era decerto rico, bem nascido, e nem via mulheres nem paisagens,
+absorto neste claro misticismo?</p>
+
+<p>Sentei-me numa mesa perto dêle e pude ver à vontade o seu desenho. Nem um
+traço da fonte nessa página onde bem claro, escrito a grandes letras, sob um
+desenho singular de mulher nua, eu li: <em>Fonte Adamanti, em Florença.</em> O
+quê?! A fonte concebida por Vasári era p'ra Harry Young aquele corpo?... E
+buscando a relação possível com essa fonte mítica e ingénua,<span
+class="pn">{83}</span> onde em torno a um Neptuno gigantesco farandolam ninfas
+e tritões, ou fôsse sugestão da simpatia que desde que vira Harry eu senti, ou
+porque de facto ela fôsse um claro simbolo, pareceu-me que essa forma musical,
+êsse corpo de oceanide surprêsa esperando o tritão que a possuiria, era a
+síntese poética flagrante da fonte que Vasári imaginou. Corria o risco de me
+tornar suspeito na ânsia de ver melhor, de analisar. Harry ergueu-se. Vi-o
+seguir pela galeria degli Uffizii e desaparecer ao fundo, lentamente, p'ra êsse
+scenario onde se evoca Dante, feito de lindas pontes habitadas, da escultura
+nobre das colinas e das águas do Arno romanescas.</p>
+
+<p>Depois voltei p'ra Roma, onde encontrara Harry meses antes.</p>
+
+<p>Muitas vezes me lembrava dêle, eu que tambêm adoro as fontes, com uma
+simpatia persistente, cúmplice. Por êsse tempo ia eu às noites degustar o
+rascante trágico da solidão na Piazza del Popolo, estirado no largo rebordo de
+alabastro da fonte, fronteira<span class="pn">{84}</span> ao Pincio,
+impregnando-me dessa alma sem memória, dessa crónica augusta de silêncio, que é
+em Roma a atmosfera de magia das praças sem ninguêm, com vozes de água. Ficava
+assim horas numa tristeza quási sensual, com uma espécie de delírio de
+grandezas que me permitia dialogar com Roma, calmar a minha incerteza de
+falhado na beleza sobrenatural da grande morta, e fundir com o dela o meu
+destino como o de um herói num poema antigo.</p>
+
+<p>P'ra sentir esta luxúria psiquica é preciso ter vivido muito ou ter a
+velhice precoce dos artistas, que em plena força e plena mocidade, agarrando
+pelos cabelos a alegria, entristecem ao beijar-lhe os olhos. Era aquela em Roma
+<em>a minha hora mais silenciosa</em>.</p>
+
+<p>Ao centro da praça os quatro leões golfavam água, guardando o obelisco
+egípcio numa vigília de esfinges, sempiterna. Em Roma, à noite, vivem-se horas
+de convento. É a cidade suprema p'ra viver com um sonho ou com uma idea, velada
+por formas<span class="pn">{85}</span> milenárias que recebem exames de
+consciência. Notei um vulto esguio, à quarta ou quinta noite, sentado aos pés
+do obelisco, num degrau. Estava na sombra e, nem eu sei porquê, pensei em
+Harry. Dentro em pouco, na embriaguez dessa auto-sugestão, nem já admitia
+dúvidas: era Harry, era o <em>homem das fontes</em> que ali estava. E como uma
+raiz fende um granito, brotou da minha solidão de quatro meses, viajando sem
+sofrer um só convívio, um desejo furioso de falar-lhe.</p>
+
+<p>O lirismo imemorial dêsse silêncio levava-me p'ra aquela criatura, que uma
+espécie de loucura poética instalara de vez no meu espírito, como p'ra um ser
+afim, um quási irmão.</p>
+
+<p>Pareceu-me que êle mesmo se movera, olhara na minha direcção, como
+esperando. E nessa hipertensão de nervos que dá aos imaginativos o silêncio, o
+convívio calado e fascinante com as criaturas brancas dos museus, o meu desejo
+de falar com Harry atingiu a plenitude, exasperou-se. Levantei-me.<span
+class="pn">{86}</span> Sem me atrever a caminhar p'ra êle, fui-me timidamente
+aproximando: dei a volta ao obelisco devagar e parei com ar distraído junto de
+Harry, como se olhasse um dos leões golfando água. Fiquei assim nervosamente
+alguns segundos.</p>
+
+<p>Quando por fim o olhei, vi nessa máscara glabra de tritão um desejo de me
+falar igual ao meu. Não posso repetir o que lhe disse, as primeiras palavras
+que trocámos. <span class="errata" title="Errata: Aludimos os">Aludimos
+aos</span> nossos múltiplos encontros, em Espanha, na Itália, na Turquia, por
+uma coincidência bem estranha, sempre junto de fontes...</p>
+
+<p>Ninguém passava. Ouvia-se o vento a arrastar no Pincio fôlhas sêcas.
+Lembrei-lhe a manhã em Florença, na Piazza dela Signoria, o desenho da fonte de
+Vasári que eu vira na <em>terrasse</em> por trás dêle. Harry calava-se
+surpreendido. Perguntei-lhe se viajava como artista, p'ra pintar.</p>
+
+<p>&mdash;Não sou pintor. Gosto muito das fontes, perdidamente. São o grande
+interesse da minha vida...<span class="pn">{87}</span></p>
+
+<p>Disse-me então o seu amor às fontes, baixando um pouco a voz, quàsi em
+segrêdo.</p>
+
+<p>Era órfão. Nunca quis conviver com os seus parentes, onde, por razões que
+depois soube, só encontrou um acolhimento frio, como se fôsse um estranho, sem
+ternura.</p>
+
+<p>Tinha uns nervos doentios que o isolavam. Dos seus tempos de colégio não
+guardava saudades mas só ódios, à grosseria vulgar dos camaradas, à <span
+class="typo" title="no original: promuscuidade">promiscuidade</span> forçada e
+torturante p'ra uma sensibilidade como a sua. Logo que chegou à maioridade,
+rico e só, foi visitar nos arredores de Londres o castelo em que seus pais
+viveram. Correu o parque, as salas, as estufas. Viu ainda o seu berço, os seus
+brinquedos, onde um pó sem saudade ia caindo, como sôbre coisas velhas num
+museu.</p>
+
+<p>Passou no quarto de sua mãe algumas horas... Sentiu uma tristeza imensa em
+que tudo lhe parecia hostil: os móveis, o ar, um cheiro a morte, até os olhos
+fitos dos retratos... O seu primeiro desejo de homem livre fôra essa visita com
+que tanta<span class="pn">{88}</span> vez sonhara, e saía de lá desamparado,
+com uma espécie de desespêro inerte que tôda a casa lhe contagiara: a velhice
+das coisas sem beleza onde viveu alguêm que nos foi querido e que perdem com a
+côr tôda a memória. Esses muros sem alma angustiavam-no. Já atravessava o
+parque p'ra sair quando ouviu a chamá-lo uma voz de agua. Era ali perto e
+pareceu-lhe bem distante, vinda da sua infância já tão longe. Emfim alguêm
+amigo, acolhedor! Foi p'ra ela como iria p'ra sua mãe ressuscitada, e ficou a
+ouvi-la até à noite. Abrira-a o jardineiro emquanto êle percorria as salas.
+Harry contou-me:</p>
+
+<p>&mdash;Tive a visão de um lar naquele instante. Aquela pobre fonte sem
+beleza consolou-me como uma mãe, beijou-me os olhos.</p>
+
+<p>Acarinhou-me como a irmã... que nunca tive, como a noiva que decerto não
+terei...</p>
+
+<p>A sua água encheu-me de saudades. E ao pensar nas salas que deixara, tudo me
+comoveu, ali, a ouvi-la: os olhos dos retratos já me olhavam... os tapetes, os
+móveis, as paredes, tinham linguagem agora: compreendiam-me.<span
+class="pn">{89}</span> As janelas á névoa, eram olhos tão rasos como os meus. E
+como poisavam pássaros na pedra, eu mesmo fui buscar pão p'ra lhes dar,
+espalhei muitas migalhas pela fonte... Senti a vida tôda no meu peito. Vem
+dessa hora o meu amor às fontes.</p>
+
+<p>Harry erguera-se. Seguíamos pelo <em>Corso</em> lentamente. Pedi-lhe então
+que me mostrasse os seus desenhos, os símbolos de fontes que creara.</p>
+
+<p>&mdash;Só se quiser vir comigo ao meu hotel.</p>
+
+<p>Já tenho as malas feitas p'ra partir. Vou p'ra Veneza. Veneza é um hospital
+de águas... Faz-me triste.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>O quarto de Harry no hotel de Londres, Piazza d'Espagnia, tinha entre duas
+janelas um piano. Estavam abertas à noite, que em Roma parece mais arqueada,
+como p'ra receber melhor as confidências. A torre della Trinitá del Monte deu
+onze horas. Naquela paz não éramos só dois, porque subia da praça, propiciando,
+a voz da fonte<span class="pn">{90}</span> de Bernini, <em>la Borcáccia</em>, a
+escoar-se sem jactos, brandamente. Harry acendeu as serpentinas sôbre a mesa.
+Vi então dois álbuns grandes de viagem, e alguns pequenos mais esguios.</p>
+
+<p>Começámos a folhear num dos primeiros a imaginosa notação das fontes árabes:
+de Córdova, de Granada <em>la vieja</em>, a terra andaluza de
+<em>mors-amor</em>. A fonte morta do Paseo de los Tristes, onde pela primeira
+vez eu vira Harry, era um cadáver de almeia; e havia ainda outra de Granada,
+que eu toquei no jardim de Lindaraja, onde a princesa agarena vive ainda com
+uma côrte calada de ciprestes...</p>
+
+<p>O desenho de Harry dava-me dela uma visão patética. Evocava-a nova, musical,
+nesse jardim interior da Alhambra&mdash;jaula feérica da luxúria árabe, onde os
+corpos morenos das almeias elanguesciam nos mármores dos pátios, e nas salas de
+jóias lapidadas dormiam com os perfumes dos jardins as grandes séstas tórridas,
+de cópula...</p>
+
+<p>Desenhára o mirador de Lindaraja, com<span class="pn">{91}</span> as suas
+gelosias marchetadas que ela entreabria um pouco, debruçando-se, como p'ra
+ouvir melhor a voz da fonte. E a fonte falava de desejo, porque ela tinha nos
+olhos, nos cabelos, na bôca a entumescer, nas linhas sôfregas, a expressão de
+uma corola ao cair do pólen... Dos desenhos que vi das fontes turcas, um entre
+todos me maravilhou: a do sultão Ahmed, em Stambul, no coração da praça do
+Serralho. É um lindo harém de grades redoiradas, arabescado de oiro e
+lápis-lazuli, de que a água é sultana única.</p>
+
+<p>Harry representara Schehèrezade, a noveleira das <em>Mil noites e uma
+noite</em>. Essa era bem um símbolo de fonte, que durante <em>mil noites e uma
+noite</em>, a contar histórias sôbre histórias, adormeceu o califa que a matava
+se a sua voz lhe não fechasse os olhos... Foi um destino de fonte Schehèrezade.
+</p>
+
+<p>Havia fontes de parques e de claustros: a primeira era uma <em>Belle au bois
+dormant</em> que um pavão heráldico velava; e entre as imagens místicas que vi,
+apenas lembro uma<span class="pn">{92}</span> carmelitana, lendo sob uma ogiva,
+côr de cera, decerto Santa Theresa, <em>Las moradas</em>... A última, porém, a
+mais estranha, de não sei que vila romana ao abandono, era uma grande esfinge
+tumular com asas mortuárias de falena. Recordo ainda páginas isoladas: a fonte
+dos cavalos marinhos da vila Borghése era um Pégaso de crinas alagadas, uma
+cabeça de cavalo grego, dêsses que nos versos de Homero viviam irmãmente com os
+heróis. E não sei que fonte mitológica&mdash;uma estátua de Juno, sereníssima,
+a cabeça nimbada de andorinhas.</p>
+
+<p>O outro álbum era de esboços&mdash;desenhos e <em>maquettes</em>,&mdash;tôda
+uma arquitectura fragmentária p'ra um palácio quimérico da água, num poético
+parque, inverosímil como o de Poë no <em>Domínio de Arnheim</em>.</p>
+
+<p>A maior parte dos desenhos eram vagos, dizendo a embriogenia dêsse templo
+que Harry erguia à Água Padroeira, com beatitudes de arquitecto místico, em
+linhas-versículos de sonho.<span class="pn">{93}</span></p>
+
+<p>Perguntei-lhe se tencionava construi-lo. Harry sorriu.</p>
+
+<p>&mdash;Construi-lo e habitá-lo... Com <em><span class="errata"
+title="Errata: miss Foutain">Miss Fountain</span></em>... se a encontrar um
+dia.</p>
+
+<p>O desenho mais minucioso era a fachada, feita de duas arquiteturas
+sobrepostas: uma estável, de mármores rosados; outra móvel, música, espumante,
+de milhares de tranças de água de essas fontes, cavadas em motivos decorais no
+sonoro frontão religioso que viveria um dia tão beijado como as asas do mar no
+temporal.</p>
+
+<p>É impossível descrever-lhe as linhas, como é impossível descrever a
+Alhambra. A fachada de mármore era subsidiária da segunda, a real, a litúrgica,
+a <em>aquática</em>; era o seu esqueleto quási oculto, e por milhares de
+ranhuras invisíveis, de declives matematicamente calculados, por bôcas
+inflectindo em curvas gráceis, por biliões de crivos capilares donde cairiam
+chorões de prata fluida, destinada a dar vazão a essa segunda, arquitectura
+sinfónica, hino vivo, que o meu tritão exilado ia criar.<span
+class="pn">{94}</span></p>
+
+<p>O mármore apparecia, sob a trama arquitectural da água golfante, como
+através de rendas de Burano um colo ou uma nuca de mulher, e intumescia às
+vezes como um seio no bôjo de uma ânfora sveltíssima ou na escultura de uma
+planta de água.</p>
+
+<p>Oh! que feliz a carne dêsse mármore, escrava de uma fluida arquitectura,
+cantada e beijada todo o sempre! Jactos cruzavam-se como na argentaria solar de
+uma panóplia, caíam numa taça canelada, donde escorriam molemente, em lágrimas,
+p'ra renascer vivendo noutros sulcos, donde espirravam como flores se esfolham,
+em graças <em>platerescas</em>, em sorrisos.</p>
+
+<p>Contra o sol, as janelas, os balcões, tinham estores de longos fios de água,
+tamisando a luz pr'ò interior em irisações fantásticas de nave. Mas, como Harry
+me fêz logo notar, o seu projecto, perfeitamente realizável, era um <em>ensaio
+de arquitetura musical</em>. A euritmia dessas linhas de água, tantas volutas
+líquidas que eu via no amoroso desenho daquele álbum, não tinham só<span
+class="pn">{95}</span> um fim arquitetónico, antes eram a consequência
+imediata, o instrumento de beleza necessário, pr'á ópera da Água revelada por
+um arquitecto-músico de génio. Mostrou-me então a <em>partitura</em> do
+palácio. Sentou-se ao piano e tocou-me alguns motivos.</p>
+
+<p>Como tôda a gente no hotel dormia, executava em surdina, emocionado.
+Primeiro o <em>leit-motiv</em> da entrada, cantado no peristilo por três
+fontes, com três taças de prata cada uma. Era a ogiva elegantíssima da entrada
+(duas curvas angulares de água jorrante em conchas de alabastro quási ocultas)
+que acompanhava as três vozes argentinas. Harry chamava-lhe: <em>o motivo de
+saudação</em>.</p>
+
+<p>Depois tocou-me a sinfonia da fachada. E foi então que ouvi a alma
+transcendente dêsse tristão-poeta desterrado! E Harry dizia, crispando as mãos
+numa impotência de nervoso, que era impossível mimar sôbre um piano a fluidez
+dionisíaca das frases. Os <em>graves</em> e os <em>agudos</em> conseguiam-se
+por diferenças de calibres, indo de uma tenuidade<span class="pn">{96}</span>
+capilar até aos cilindros de maior diâmetro, às bocas, divertículos, ampolas,
+com recôncavos e inflexões previstas, num duplo intuito ornamental e acústico.
+</p>
+
+<p>A gama das resonâncias era imensa, indo dos acordes dos mármores e
+alabastros até aos timbres dos metais mais ricos, dos bronzes, pratas foscas,
+claros oiros, com espessuras várias nuançando, imbutidos nos mármores da
+fachada, enriquecida assim com côres de jóia e os tons sobrenaturais de um
+órgão de água. Oh! essa sinfonia! Reouvi-la e, meu Deus! prazer supremo,
+ouvi-la e vê-la, se um dia o templo da Água fôsse vida!</p>
+
+<p>Três melodias <em>fugadas</em> corriam a fachada sem cessar. A que vibrava
+ao centro tinha timbres mais finos e mais altos, os jactos erguiam-se mais,
+implorativos, antes de recaírem em vertigem, nos dois focos de resonância
+decoral. Era uma prece indefinida e dava ao templo como uma aspiração de
+agulhas góticas, a expressão decantada, musical, que teem as mãos erguidas
+das<span class="pn">{97}</span> Ogivas. Harry chamava-lhe: <em>a ânsia de ser
+nuvem</em>.</p>
+
+<p>Os outros dois, visualmente, fundiam-se em sinuosidades expressivas, em
+caprichos de linhas reticentes, e fiando a mesma clara rêde, eram,
+musicalmente, bem diversos. Harry chamava-lhes: <em>a alegria de morrer
+sorrindo: a saudade dos rios, das nascentes</em>. E os três deliam-se numa
+polifonia liquescente em que a <em>ânsia de ser nuvem</em> tinha o patético de
+umas mãos erguidas; <em>a alegria de morrer sorrindo</em> lembrava a vida e
+morte das espumas; e <em>a saudade dos rios, das nascentes</em>, nas conchas e
+recôncavos de mármore revestidos dos bronzes mais espessos, dizia em acordes
+quasi cavos o desespero da água outrora livre, domada e orquestrada sabiamente:
+a nostalgia do coração das rochas vivas, dos açudes, dos campos cultivados que
+ela regava a chalrar nos sulcos largos.</p>
+
+<p>Nos três lados restantes, a decoração musical era mais simples: baladas de
+ecos sem memória instilando um esquecimento<span class="pn">{98}</span> de
+magia. Inútil descrevê-las: impossível. Ante o imprevisto desta arquitectura,
+Harry compreendendo o meu espanto, mostrou-me, em cadernos atulhados, a notação
+musical minuciosa, em que as vozes de milhares de fontes tinham sido por êle
+copiadas, e outras de ensaios que realizara até poder compor a
+<em>partitura</em> dêsse palácio feérico da Água.</p>
+
+<p>O seu esfôrço agora, a sua obsessão de cada instante, era, estudando a
+hidráulica e a acústica, chegar a harmonizar a arquitetura, que lhe parecia
+pouco bela ainda no mármore, com a beleza musical e plástica da arquitetura
+líquida exterior. Trabalhava com febre, dia e noite.</p>
+
+<p>Mostrou-me ainda detalhes interiores. A <em>Galeria da Meditação</em> tinha
+vitrais historiando os mitos da Água: ao largo da laguna veneziana, o casamento
+do Doge com o Adriático na galera de sonho o <em>Bucentauro</em>; Ophélia
+louca, o cabelo como um chorão de fios de oiro, apartando com mãos de prata
+fosca os canaviais orando à<span class="pn">{99}</span> beira-rio: sereias
+penteando-se ao luar com medusas nos seios gotejantes...</p>
+
+<p>No chão de pórfiro, um tapete esmaecido de reflexos. E nas paredes nuas,
+como se pendurasse as telas de algum mestre, Harry cavara duas fontes
+pequeninas, num tingling lacrimal, beijante, clepsidras a viver fora do
+tempo... Ali iria meditar e ler.</p>
+
+<p>Era evidente porém que o seu palácio só podia existir no isolamento.</p>
+
+<p>Disse-me então como teria de murá-lo, defendendo-o do vento, concentrando-o.
+Alêm das grades balizando o parque, cinco muros de árvores concêntricas, por
+ordem de alturas decrescente: a grisalha colossal dos eucaliptos, o veludo dos
+cedros, choupos góticos, ciprestes tutelares, e em vagas meigas, as cabeleiras
+sôltas dos chorões... E seria num vale agasalhado.</p>
+
+<p>Harry empalidecia de emoção. Detestava viajar, o convívio forçado dos
+expressos, a promiscuidade dos hotéis, dos restaurantes. Só por as fontes se
+fizera vagabundo, para as ver, pr'às ouvir assimilando-as, e poder<span
+class="pn">{100}</span> executar um dia o seu palácio&mdash;síntese de
+todas.</p>
+
+<p>O entusiasmo de Harry contagiou-me. É possível que amanhã não seja assim,
+que dêste plano de arquitectura musical que antevejo e anteoiço emocionado, no
+contágio febril que me vem de Harry, me fique a idea de um projecto fruste, de
+uma alucinação de hiperacústico, com uma forma de loucura poética só como
+documento, interessante.</p>
+
+<p>O templo da Água é para a vida dêste sensitivo, sob uma forma íntima e
+discreta, a minúscula visão quási infantil, a creancice lírica encantada em que
+êste poeta semi-louco e ingénuo tenta exprimir em linguagem de arte, com a
+arquitectura e a música por meios, tudo quanto na terra deslumbrou a sua alma
+de tritão éxul.</p>
+
+<p>Se amanhã analisar êste projecto longe do seu contacto perturbante, talvez
+eu reconheça a inanidade de todo o seu amorosíssimo trabalho, mas sempre com
+emoção hei-de admirá-lo, porque teve uma paixão e se lhe entrega, sem nenhuma
+restricção,<span class="pn">{101}</span> de todo o corpo, e arde nessa febre
+dia a dia, abandonando tudo, belo e rico, por uma vida nómade, de acaso, que o
+fará morrer ao desamparo no hotel dálguma terra onde haja fontes, ainda fiel a
+essa visão de sempre, sorrindo ao seu palácio em cristais múrmuros...</p>
+
+<p>O palácio da Água!... «Construi-lo e habitá-lo com <em>miss Fountain</em> se
+a encontrar um dia...» Eu cuido ver essa beleza de água tal como vive nas
+pupilas de Harry. Tem uma voz de água, os olhos de água, uma alma de água,
+clara, imperturbada, e um desejo, um sensualismo de água, envolvente, fluido,
+esquecedor, como um nirvana de água inexgotável.</p>
+
+<p>Sem o fermento de nevrose que o desvaira, com faculdades criadoras
+coordenadas, Harry seria talvez um grande músico, um encantador, um mystico dos
+sons, como fragmentariamente o revelaram as estranhas composições que agora
+ouvi. Ou, quem sabe! um arquitecto novo, musical pela assunção das linhas, sem
+recorrer, vesánico, quimérico,<span class="pn">{102}</span> às impossíveis
+sinfonias da água onde os seus olhos pálidos, de névoa, cuidaram descobrir todo
+o destino.</p>
+
+<p>Ao ouvir-lhe a voz meíga, monocórdia, já começo aqui mesmo a duvidar, e
+penso no que seria o desespero, a irremissível catástrofe dêste homem, sem
+família, sem noiva, sem amigos, condenado a um absoluto isolamento por uma
+sensibilidade hiperaguda, se viesse um dia a convencer-se de que era uma
+loucura essa chimera onde fechou o futuro a sete chaves.</p>
+
+<p>É certo, é natural que isso suceda. Que sabe êle de hidráulica, de acústica?
+Nem sequer tem uma educação profissional, e era forçoso, p'ra admitir como
+exequível êsse plano, que êle fôsse um arquitecto extraordinário, um músico
+revelador de novos meios e um engenheiro único, de génio.</p>
+
+<p>E assim mesmo, pois que o drama musical de Wagner é, na sua beleza de
+vertigem, a mais victoriosa das derrotas, condenando pela voz dêsse homem-deus
+tentativas quaisquer de fusão de artes, não era mais que<span
+class="pn">{103}</span> certa, irrevocável, a falência total do sonho de Harry?
+</p>
+
+<p>Êsse supremo aro de unidade, fervorosa obsessão de todo o artista, é um
+prodígio <em>interior</em>, não se exterioriza, e só com uma genialidade
+adivinhante, se realiza por um meio único (literatura, música, pintura) a
+obra-prima contendo em potencial, englobando em sugestões latentes, domínios
+que pareciam de outras artes.</p>
+
+<p>Se ao menos pudesse conviver com êle e canalizar tão bellas qualidades p'ra
+qualquer coisa de viável, de fecundo! Queria evitar que a sua vida se partisse
+como uma lufada de vento quebraria aquela arquitectura em pratas de água, como
+um sistema arterial de sonho. Mas é esta a primeira noite que falamos e é
+decerto a última tambêm.</p>
+
+<p>E depois, como poderia desviá-lo, por que paixão substituir esta paixão,
+êste culto das fontes religioso?...</p>
+
+<p>Lembrei-me então do mar, todo o meu culto. E voltando à sinfonia da fachada,
+comecei a dizer que um dos motivos&mdash;<em>a alegria de morrer
+sorrindo</em>&mdash;me<span class="pn">{104}</span> fizera, ali na paz de Roma,
+uma saudade imensa do meu mar. Harry fixou-me. Parecia constrangido.</p>
+
+<p>&mdash;Gosta muito do mar, não é verdade?</p>
+
+<p>Harry calava-se, interdito. Senti então entrar pelas janelas, como uma onda
+de silêncio que arrolasse, a paz de Roma prenhe de memórias... A fonte de
+Bernini ouviu-se mais: dir-se-hia uma voz de ama milenária a acalentar
+fantasmas com terror...</p>
+
+<p>Ao ver Harry perplexo, hesitante, arrependia-me da pergunta que lhe fiz, mas
+elle viu com certeza nos meus olhos a minha curiosidade, a minha ância. A
+sôbre-excitação daquele instante, até o facto de eu ser quási um estranho, a
+quem se faz mais facilmente confidências do que mesmo a um amigo ou a um
+conhecido, forçaram-no a falar, violentaram-no.</p>
+
+<p>Respondeu-me com agitação de um modo brusco:</p>
+
+<p>&mdash;O mar?!... Não posso suportá-lo, odeio-o, porque foi êle que perdeu
+os meus...<span class="pn">{105}</span> Compreendo-lhe a beleza, que é divina,
+mas não o posso ver, atterra-me, detesto-o...</p>
+
+<p>Ainda hesitou. Depois, sem interrupção, <em>vivendo</em> as frases:</p>
+
+<p>&mdash;Meu pai, que era um homem do povo, viveu doze anos com <em>êle</em> e
+adorava-o. Era piloto. Viajava p'rò Norte quási sempre. Filho de marinheiros,
+tinha nas veias o amor do mar. Foi de volta da Islândia, a bordo do
+<em>Baltic</em>, que pela primeira vez viu minha mãe. Teria ela então dezassete
+anos.</p>
+
+<p>Meu pai, ruivo e forte, tinha uma beleza viril, impressionante. Ela, já
+então órfã, viajava com meu tio, um velho estranho, que só as viagens por mar
+interessavam. Era bela (tirou uma fotografia da carteira) imensamente bela, não
+é verdade?</p>
+
+<p>Tinha uma índole exaltada, romanesca, que o hábito de realizar todos os
+caprichos levou a um despotismo singular, de perversão nervosa, de histeria, e
+ao menor obstaculo, com acessos de chôro e grandes febres. Meu tio era o tutor,
+e longe de a reprimir, estimulava-a mais, lisonjeando-a, com<span
+class="pn">{106}</span> uma adoração de spleenético alcoólico por aquela
+andorinha semi-louca. Mesmo a bordo, quando começou a amar meu pai, ela ia
+fazer-lhe confidências, contar-lhe os sobresaltos dos seus nervos, e êle
+ouvia-a com uma indulgência de ternura e talvez mesmo com uma ponta de sadismo.
+Mas não quero aborrecê-lo com detalhes.</p>
+
+<p>Contra a vontade de todos, apenas ajudados por meu tio, cujo spleen se
+comprazia neste drama, os dois casaram, depois de uma côrte romanesca que
+alucinara de paixão meu pai. Minha mãe teve uma exigência única, mas que era
+para êle a mais cruel: <em>abandonar a vida de bordo para sempre</em>. Estava
+tão doido, que a aceitou sem compreender, pálido como se lhe arrancassem tôda a
+alma...</p>
+
+<p>Na véspera do casamento, foi a bordo do <em>Baltic</em> despedir-se. Abraçou
+os companheiros um a um, e andou horas a bordo, como um náufrago, como um cão
+sem dono, os olhos rasos, a dizer adeus ao seu navio. Toda essa noite passou-a
+a errar no pôrto.<span class="pn">{107}</span> Ninguém diria que aquele
+vagabundo tinha uma noiva aristocrata, bela e rica, e ia casar já na manhã
+seguinte.</p>
+
+<p>A caminho da igreja, sentia uma alegria lúgubre, uma felicidade exasperada,
+como um travo de remorso do mar longe...</p>
+
+<p>Depois veio a vertigem. Durante dois anos, esqueceu o mar, esqueceu tudo nos
+olhos verdes de minha mãe como num álcool. Viviam um do outro, sem convívio,
+num castelo dos arredores de Londres, que meu tio, ainda em vida, lhes doou.
+Havia no amor dêle a minha mãe devoções de plebeu por um ser de raça, e o
+sensualismo de um marinheiro, moço e forte, com longos períodos de abstinência
+no mar largo, por um corpo de pétala, serpentino, enlaçando com braços e
+perfumes...</p>
+
+<p>No amor de minha mãe havia bastante de perversão histérica. Sabia como êle
+evitava falar do mar com uma espécie de pudor religioso. Um dia mesmo êle
+pediu-lhe de joelhos que não lhe lembrasse a promessa que fizera, que não
+falasse do mar<span class="pn">{108}</span> diante dêle. E a cada instante, em
+horas íntimas, quando passeavam no parque, nas estufas, nas grandes noites de
+invernia e chuva, ela aludia em frases reticentes onde adejava o espectro do
+mar longe. Tinha a volúpia de o martirizar. E quando o via bem amarfanhado,
+caído como uma coisa ao desamparo, p'ra cima de um estofo, a mascar raivas,
+erguia-se mais linda que um <em>tanagra</em> e ia beijar-lhe os olhos, dar-lhe
+a bôca, endoidecê-lo de amor e de luxúria.</p>
+
+<p>E viviam assim meses e meses. Nem uma visita. Ninguêm. Raro saíam. A vida
+mundana não interessava minha mãe. Tinha-a vivido febrilmente e esgotou-a com
+uma precocidade de nervosa, que tudo interessa e aborrece em pouco tempo.
+Depois, ainda por orgulho. Tendo feito um casamento desigual, não queria
+humilhar meu pai nem humilhar-se.</p>
+
+<p>Havia nesta vida de desejo de dois seres tão diferentes e isolados qualquer
+coisa de feroz, de criminoso. Dois instintos presos por amor, na mesma jaula de
+oiro, dia e noite...<span class="pn">{109}</span> Enervavam-se um ao outro.
+Enlouqueciam-se.</p>
+
+<p>Tenho em Londres uma fotografia de minha mãe por êsse tempo. Emagrecera.
+Lembrava um ser patético de Shakespeare. O seu temperamento de histérica
+requintava, em perversões subtis, quási em loucuras. Torturava meu pai
+continuamente, dando-lhe a visão do mar a cada instante, por sugestões que iam
+atormentá-lo, evitando contudo falar dêle, com uma hipocrisia que era mais
+cruel do que seria uma alusão bem clara. Nas salas havia paisagens de mar por
+tôda a parte... E por cima das mesas, dos sofás, como uma obsessão de crime,
+sempre e sempre, livros, romances e gravuras, com narrações de mar, sempre com
+o mar...</p>
+
+<p>Até as músicas que tocava ao piano. Dizia-lhe: anda «ouvir como isto é
+lindo!» E êle encostado ao piano, junto dela, via os <em>Lieder</em> de
+Schubert já abertos numa página marcada. E lia: <em>O mar!...</em></p>
+
+<p>Depois que eu nasci, a nevrose de minha<span class="pn">{110}</span> mãe,
+longe de se calmar na maternidade, exasperou-se. Os dias para os dois eram
+enormes. Passavam horas junto do meu berço, inventando-me encantos, a
+adorar-me. E como me dizia a velha Jenny, por quem eu soube tudo o que lhe
+conto, dir-se-ia, naquela solidão envenenada, que cada vez se desejavam mais,
+se bebiam com olhos mais sedentos, com um amor que era uma espécie de ódio.</p>
+
+<p>Tudo isto passava-se sem gestos, sem levantarem a voz uma só vez.</p>
+
+<p>A virilidade impulsiva de meu pae caía dominada ao ouvir-lhe o andar. O
+ruge-ruge dos vestidos dela fazia-lhe um terror voluptuoso. Estirava-se aos pés
+dela muito tempo a beijar-lhe os sapatos, marasmado...</p>
+
+<p>Os criados achavam-nos estranhos, cada vez mais pálidos, mais magros. Eles
+mesmos pressentiam&mdash;no silêncio augural daquela casa onde os viam
+enlaçados, de olhos loucos&mdash;qualquer coisa de trágico, de mau...<span
+class="pn">{111}</span> </p>
+
+<p>Meu pai, que a bordo fôra sempre sóbrio, bebia agora imenso, embebedava-se.
+Depois, com a idea do mar cravada nele, ia esmoer essa obsessão, calado.
+Viam-no às vezes falar só, baixinho, escondido nas salas afastadas, dizendo por
+entre dentes, sufocado, coisas de bordo, vozes de comando, com as mãos em
+porta-voz, olhando o tecto, como se fitasse os mastros, o velame...</p>
+
+<p>Se alguêm o via, disfarçava, com uma expressão de terror quási idiota. Ia
+endoidecendo pouco a pouco.</p>
+
+<p>Minha mãe sabia tudo, tudo. A pobre Jenny, sobressaltada, ia contar-lhe;
+pedia-lhes que se distraíssem, viajassem, que fizesse um esfôrço p'rò salvar.
+Ela, porêm, só tinha curiosidade p'ra saber se meu pai bebia muito, se falava
+só, o que dizia...</p>
+
+<p>Ás vezes vinham cartas dos camaradas, dos portos em que o <em>Baltic</em>
+tocava, falando-lhe de bordo com saudades. Êle lia-as e relia-as muitas vezes.
+Trazia-as sempre consigo, decorava-as. Mas logo que minha mãe aparecia, mudava
+de figura, era já outro. O<span class="pn">{112}</span> olhar babava adoração.
+E se um instante se abandonava nos seus braços, pegava nela ao colo como um
+doido, levava-a p'rà alcova aos tropeções, sem se importar com os criados, com
+ninguêm.</p>
+
+<p>Afinal minha mãe gostava disto. Era ela que o enlouquecia pouco a pouco.
+Cada vez mais, sem falar dêle, a propósito das coisas mais triviais, aludia ao
+mar, com pausas bruscas, em que os ouvidos dêle, alucinados, ouviam o rumor, a
+voz do largo...</p>
+
+<p>Evocado a todos os pretextos, por essa linda torcionária histérica,
+<em>êle</em> acabou por ser uma presença: o Espírito do Mar viveu com êles!...
+Eram três agora no castelo. Passava o inverno com êles, a seu lado. Vivia nas
+marinhas das paredes, nos livros e no vento, nos ruídos... E mais e melhor: na
+alma dêles...</p>
+
+<p>Sós, à noite, a ouvir o vento, olhavam-se... E em ambas as bôcas, bem
+cerradas, cada um lia: «Ouves o mar? É <em>êle</em>...» E depois de suspensos
+um instante p'rò sentirem correr-lhes a medula, afogavam-se nos<span
+class="pn">{113}</span> braços um do outro, com uma fúria sensual desesperada.
+Foi minha mãe que provocou tudo isto, e acabou por se enredar tambêm, por
+acreditar como êle, contagiada. Numa cama de amor, dois amorosos, partilham as
+loucuras como os corpos...</p>
+
+<p>O Espirito do Mar estava com êles. Ainda lhe não tinham pronunciado o nome,
+mas calavam-se muitas vezes para ouvi-lo, conversavam sôbre <em>êle</em> por
+olhares...</p>
+
+<p>Uma noite de inverno&mdash;ia a fazer três anos que casaram&mdash;recebeu do
+Norte um telegrama.</p>
+
+<p>Era dum camarada íntimo de bordo. Toda a tripulação o abraçava; mandavam-lhe
+do <em>Baltic</em> saudades... Pareceu-lhe então que o seu navio, o seu pano
+que tanta vez ferrára, vinha naquela noite de Janeiro, dizer-lhe o ultimo adeus
+da vida a bordo, das grandes rotas pelos mares de névoa, das veladas na ponte a
+todo o tempo, dos sonos bons depois no seu beliche, pequenino e estreito como
+um berço... Rolavam-lhe as lagrimas dos olhos.<span class="pn">{114}</span></p>
+
+<p>A Jenny, que andava inquieta e os vigiava, muita vez me contou essa noite
+ultima.</p>
+
+<p>Chovia imenso. Ela mesma lhes serviu o chá. Meu pai, como de costume, bebeu
+<em>gin</em>. Mas nessa noite foi brutal o que bebeu. Minha mãe, com uns olhos
+de aura histérica, dava-lhe as mãos a beijar, encorajava-o...</p>
+
+<p>Já tarde, ergueram-se. Jenny foi ajudar a despir-se minha mãe. Êle seguiu
+devagar pelo corredor e abriu a janela tôda à noite negra... Ficou assim algum
+tempo a olhar o vago, com a cabeça nua, à chuva e ao vento...</p>
+
+<p>Depois, bruscamente, foi pr'ò quarto. Com um tremor de alcoólico nas mãos,
+foi a um armário de que nunca se servia, e começou a tirar roupas de bordo,
+atiradas há três anos para ali como coisas inúteis para sempre. Pôs-se então a
+vesti-las febrilmente: japona de oleado, botas altas, na cabeça o sueste...
+Como a bordo. Viu-se ao espelho. E ia a sair, quando voltou p'ra trás.<span
+class="pn">{115}</span> Qualquer coisa lhe faltava. Procurou no armário,
+procurou... Era a faca de bordo, numa bainha de coiro já puído. Pô-la â cinta e
+partiu com um andar mais firme, resoluto, como se a bordo, fôsse fazer um
+<em>quarto</em> em noite má.</p>
+
+<p>Outra vez seguiu pelo corredor, até ao quarto de minha mãe, que o esperava.
+Sem bater, entrou: parou a olha-la. Tinha os cabelos desfeitos, muito branca,
+num <em>robe-de-chambre</em> que abriu ao vê-lo entrar. E com o colo nu
+perdeu-se a rir...</p>
+
+<p>«Vaes p'r'ò mar, meu amor? Deixas-me só?...»</p>
+
+<p><em>P'rò mar! P'rò mar!...</em> Pela primeira vez há já três annos,
+espantado de se ouvir, da sua voz, repetia o nome sortílego, supremo: «<em>P'rò
+mar!</em>» com uma inflexão pueril, quasi idiota.</p>
+
+<p>A lenha crepitava no fogão. Ouvia-se chover cada vez mais.</p>
+
+<p>&mdash;«Estás vestido p'ra bordo... Estás já pronto...»</p>
+
+<p>De súbito, ela viu-o demudar-se. Com<span class="pn">{116}</span> uma
+inflexão rouca, de bêbedo, tornou; «Está mau... está mau... Está um temporal
+desfeito. Como querias tu que eu me vestisse?» Ela sentiu terror e
+aproximou-se. «Ouves a chuva?» dizia êle. «Ouves a noite?... Ouves?... Ih! Ih!
+Que vento! Que maldito!...» Num lindo gesto meteu-se-lhe nos braços, colando-se
+contra ele, abandonando-se. O <em>robe-de-chambre</em> descaía-lhe nos ombros.
+«O pano incha, o pano incha... Ferrar pano! gritou com voz de comando: Ferrar
+pano!»&mdash;Tomou-lhe o corpo nos braços ennovelado. E Jenny, que ao ouvir-lhe
+a voz correra, ouviu ainda aterrada; «Não aguenta o pano! Cortar cabos!...»
+Tirou a faca de bordo da cintura, prendeu a bainha nos dentes p'rà arrancar, e
+cravou-lha no colo até à raiz. Era curva. Dir-se-ia que tinha a inflexão dos
+seios dela.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Harry contou-me ainda o processo, o julgamento, e como êle no tribunal
+acusou o Mar... A opinião dos médicos legistas, foi<span
+class="pn">{117}</span> que êle estava doido irresponsável. Apesar disso,
+porêm, foi enforcado. A opinião pública, os jornais, eram contra êle.</p>
+
+<p>Harry estava lívido.</p>
+
+<p>&mdash;Compreende agora porque odeio o mar.<span class="pn">{118}</span></p>
+
+<p><span class="pn">{119}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00050">SUZE</a> </h1>
+
+<p style="text-align: right;"><br>
+A P<small>AULO</small> O<small>SÓRIO</small></p>
+
+<p><span class="pn">{120}</span></p>
+
+<p><span class="pn">{121}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00051">Suze</a> </h2>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<blockquote style="margin-left: 12em;">
+         Oh! dolce, <br>
+ della soglia del lupanare <br>
+ mirar le vergini stelle!
+
+ <p>&mdash;<em>La meretrice di Pirgo</em>&mdash;GABRIELE D'ANNUNZIO. </p>
+</blockquote>
+
+<p> </p>
+
+<p>Não posso dormir. Como há mais de oito dias não recebi carta da Suze, e a
+minha absurda vaidade se recusa a crer que ela me esqueça, ponho-me a pensar,
+com uma perversidade triste, que tenho escrito loucuras a um cadáver.</p>
+
+<p>Na última contava ela com uma coragem simples, como o mais fútil incidente,
+que ia entrar p'rò hospital p'ra ser operada. Anunciava-me isto, entre um
+projecto de vestido <em>gris-taupe</em>, que iria bem à sua tinta de viciosa
+pálida, e uma chuva de detalhes sôbre<span class="pn">{122}</span> a gata, a
+amar com romance e com luxúria um gato magro do terceiro andar.</p>
+
+<p>Se tivesse sido operada e convalescesse, já decerto me teria mandado um
+telegrama.</p>
+
+<p>É pois forçoso convencer-me que a minha pobre Suze&mdash;«era uma vez»...</p>
+
+<p>Repito alto p'ra mim mesmo: está morta, está morta a Suze! Logo que o disse
+alto, todo o meu temperamento de actor o acreditou, e em todo o meu ser, essa
+auto-sugestão ressoou em dobres, agudamente, por essa rapariga de vinte e três
+anos com quem vivi dois meses.</p>
+
+<p>A morta (é certo, é positivo que morreu) era alta e magra.</p>
+
+<p>Aqui mesmo, no meu quarto, onde certa noite ela tomou chá entre os meus
+livros, a vejo atirar o chapeu de rendas caras, em que havia heráldicas
+tulipas, acender com um gesto fino um dos Laferme, correr a mão na testa com o
+gesto da Duse nas catastrofes supremas, e dar-me fumo e destino e sonho. Aqui
+mesmo.</p>
+
+<p>Naquele espelho prolongou com um traço<span class="pn">{123}</span> de
+crayon os olhos vagos, ali palpou as molas do divan, e no <em>toilette</em>
+atou horas depois, <em>im memoriam</em>, as fitas de sêda azul que lhe prendiam
+a camisa nas espaduas...</p>
+
+<p>(Mas assim, não consigo dizer o que ela foi. Preciso calmar a minha febre e
+começar pelo comêço).</p>
+
+<p>Vi-a a primeira vez êste verão, no teatro, e logo a destaquei.</p>
+
+<p>Os seus cabelos de criança escandinava, loiro cendrado e sêda palha em que
+havia reflexos quási brancos, tufavam na testa sob o chapéu preto, descaíam à
+esquerda, subiam à direita recortando a têmpora em ogiva; inverosímeis como
+raios de um sol de vício, quimicos, absurdos... Só depois me convenci que eram
+autênticos.</p>
+
+<p>Os olhos eram claros, cinzento de agua em névoa; a máscara alongava-se num
+focinhito sonâmbulo; nariz incorrecto, quási grosseiro; bôca grande,
+acolhedora, de comissuras em pontos de interrogação; e o mento perdia-se na
+nuvem de tule de um<span class="pn">{124}</span> laço, esparso na gola
+impecavel de um <em>costume tailleur</em> azul.</p>
+
+<p>Tinha muito da Sarah em nova: a cabeça de uma madona <em>quatrocento</em> em
+que vivesse a alma de Montmartre.</p>
+
+<p>Acompanhava-a outra que mal vi, fisgado pelo estranho do seu tipo. Toda a
+noite, ferozmente, a encarcerei no meu binoculo e ela, exibindo atitudes de
+indiferença numa galeria intérmina, nem sequer teve o ar de ver-me.</p>
+
+<p>Aborrecia-se com complacência, olhando sem fitar, cumprindo com resignação
+êsse destino de, sôbre uma platea do Pôrto, num barracão de
+<em>Folies</em>-Brégeiras, esfolhar a carícia exangue e lambedora das suas mãos
+de raça.</p>
+
+<p>No meu grupo faziam-se hipóteses. Cocotte? Cançonetista? Talvez seja essa
+que se estreia amanhã.</p>
+
+<p>Todos a achavam imensamente estranha e alguma coisa feia.</p>
+
+<p>Quando à saída ela passou, compondo um ar abstracto e um passo ondeante de
+serpente-fantasma,<span class="pn">{125}</span> excitado e burro, disse não sei
+que frase escória e ouvi numa voz de sêda que range, esta coisa justa:
+<em>imbécile!</em></p>
+
+<p>Deixei de ir ao teatro. Achei a vida tôda tão imbecil como eu.</p>
+
+<p>Até que uma manhã Just irrompe no meu quarto e preludia felicíssimo: «Foste
+um doido em não aparecer». Contou então: o empresário F. apresentára-o, e como
+eram duas e eu continuava incógnito, apresentou por sua vez o conde C., que ao
+menos não se arranjava mal.&mdash;«A tua, a do conde, chama-se Suzanne. A
+outra, a minha, é Gaby d'Anjou, é perfeita. Não sei se reparaste: um corpo
+grego. Ha uns poucos de dias que isto nem parece o Pôrto&mdash;».</p>
+
+<p>E partiu num turbilhão de <em>chance</em>, dizendo apenas quási à porta, que
+a Suzanne era finíssima, e se tolerava o conde é porque não via melhor, e
+porque emfim, o Amieiro o não vestia mal.</p>
+
+<p>Como mesmo escrevendo, estou morto por chegar ao quarto dela, direi já que
+almoçamos a sós dias depois, e nem sei mesmo<span class="pn">{126}</span> se
+comi, porque estendia as mãos em concha aos seus pés magros, p'ròs sentir
+crispar-se com luxúria ao ranger da sêda em fôlha sêca...</p>
+
+<p>Foi rapido e simples. O meu amigo apresentou-me: o conde é lorpa, eu sou
+fino, ela é fina e... <em>voilà</em>!</p>
+
+<p>Aqui começa a feitiçaria, o encantamento em que essa serpentina bruxa me
+colheu, polarizando o meu desejo p'rò seu corpo elástico e felino, como se as
+suas mãos de pianista me corressem na medula, e os seus olhos de névoa me
+perdessem em hipnose.</p>
+
+<p>De corpo e espírito era flexivel como uma chama ao vento.</p>
+
+<p>Horas e horas, com febre, com riso, com desespero, vasculho na memória,
+recomponho o complexo encanto dessa rapariga que sabia de cór tôda a
+<em>Comédia Humana</em>; tinha um vício pessoal, erudito, arqui-subtil;
+cinicamente ingénua, ingenuamente cínica; amoral e heróica, e que caminhava
+p'rò seu leito de <em>cocotte</em> com o ar redolente de Desdemona na
+<em>canção do salgueiro</em>...<span class="pn">{127}</span></p>
+
+<p>Oh! A sua <em>canção do salgueiro</em>, musica e versos de Bruant, como eu a
+trauteio ainda exasperado:</p>
+
+<blockquote>
+ Les ch' veux frisés, <br>
+ Les seins blasés, <br>
+ Les reins brisés, <br>
+ Les pieds usés. <br>
+   <br>
+    Pierreuses, <br>
+    Trotteuses, <br>
+ Ás marchent l'soir <br>
+ Quand il fait noir <br>
+ Sur le trottoir.<br>
+</blockquote>
+
+<p>Os cabelos impossíveis, abusivos, excessivos, caíam-lhe nos ombros; a
+<em>robe empire</em> era ampla e branca, as mangas vibravam em asas de serafim
+profissional... Era uma aparição de lenda rociada de agua Lubin&mdash;orvalho
+caro...</p>
+
+<p>Quando depois mais de perto a detalhei, achei-lhe um não sei quê de
+transido, de parado, espécie de kakemono, espécie de bébé enorme, enigmatico,
+aflictivo, como só um<span class="pn">{128}</span> caricaturista-poeta criaria,
+num instante de emoção e febre, de quimera e riso. Pobre Suze!</p>
+
+<p>Era pálida, pálida, no seu roupão de noite, sem as rosas do
+<em>maquillage</em> que ela tão subtilmente esmaecia. Pobre Suze!</p>
+
+<p>Nenhum pintor português, desde o Grão Vasco, viu para além do real como tu
+viste, nem como tu transfigurou uma mascara de gêsso, patinada a lua, numa
+obra-prima irradiante.</p>
+
+<p>Tu que eu agora vejo como um mármore de desgraça, arripiado, vestido à toa,
+sem <em>maillot</em> de sêda, sôbre uma mesa misérrima de <em>morgue</em>; tu
+que tens já talvez no ventre aberto o esverdear levíssimo com que a Morte agora
+te maquilha; tu que depois de tanto te venderes, cada vez eras mais <em>tu</em>
+e mais perfeita,&mdash;ninguêm irá junto do teu cadáver pôr-te o colar da Ordem
+do Desprêzo que na vida te deu beleza e estilo.</p>
+
+<p>Foste um génio incompreendido, Suze. É o único ponto de contacto que tiveste
+com dezenas de idiotas que eu admiro.<span class="pn">{129}</span></p>
+
+<p>Mas não é isto o que me aflige, pois sei bem que se da Morte me ouvisses e
+se da Morte me falasses, mais uma vez me dirias a tua grande frase, a
+frase-medalhão, a frase-refrem, que tão sinteticamente define a tua graça, o
+teu <em>génio</em>, o teu vicio, o teu desdem:</p>
+
+<p>&mdash;<em>Tu sais, ça, c'est un détail.</em></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>P'rà Suze, tudo na vida era um <em>detalhe</em>.</p>
+
+<p>Ela que se deu a saborear a tantos homens, duvido bem que conhecesse um
+<em>ensaiista</em>, espírito de síntese, à Carlyle, que emquanto eu nesta noite
+de insomnia a recomponho, com uma saudade sem esperança, friamente medite um
+grosso tomo, que deveria assim chamar-se:&mdash;<em>A Filosofia de Suze</em>
+(livro postumo).</p>
+
+<p>E em sub-título, dum chic transcendente:&mdash;<em>ensaio sôbre a
+supra-mulher</em>. Dir-se-ia no futuro:&mdash;<em>isso é um detalhe</em>, como
+outrora se disse:&mdash;<em>penso, logo existo</em>, como hoje se
+diz:&mdash;<em>o homem é uma ponte p'ró Sôbrehumano</em>.<span
+class="pn">{130}</span></p>
+
+<p>Se Eça de Queiroz fôsse ainda vivo, eu que nunca o conheci, havia de
+apresentar-lhe a Suze, e juro, juro, que a acharia bem mais subtil, bem mais
+complexa e humanamente fascinante, que o seu extraordinário
+figurino&mdash;Carlos Fradique, dandy e epistológrafo.</p>
+
+<p>Fialho, mais feliz, pôde falar-lhe; viu-lhe gestos que valiam maximas, e
+ouviu-lhe memórias e anedotas bem mais significativas que parábolas. Mas por
+mais que insistentemente lho pedisse, nunca escreveu sôbre ela: recusou-se.</p>
+
+<p>Não posso eu, como quem empalha uma asa, amortalhar o génio da Suze em
+frases sabias, articular-lhe em sistema as formas tipicas, erguer emfim essa
+arquitectura metafísica, que ficaria na névoa das idades, como um farol p'ra
+sempre...</p>
+
+<p>Não, não posso. Sinto ainda correr-me o corpo todo, em ondas lentas, o afago
+dos seus cabelos, dos seus dedos, que eram vivos, enervantes como línguas...
+</p>
+
+<p>E não é assim, a arder em desejo postumo, que eu posso lançá-la à
+posteridade...<span class="pn">{131}</span> De resto, Suze, que era p'ra ti a
+posteridade? Um <em>detalhe</em>, um <em>detalhe</em> apenas...</p>
+
+<p>Mas quero afirmar que nessa frase&mdash;que nem sequer p'ra muitos que a
+beijaram, foi mais que uma ironia sem estílo&mdash;se condensa o estoicismo, o
+galbo heroico, que fez desta parisiense tão estranha na sua vida de
+<em>cocotte</em> nobilíssima, uma neta espiritual de Marco Aurelio.</p>
+
+<p>Foi nobre e foi cocotte. Não estranhem.</p>
+
+<p>Viver, p'ra uma mulher, na sociedade de hoje, é qúasi sempre prostituir-se.
+Mesmo as que casam, e que casando amavam os maridos, quantas vezes não sofrem
+sem desejo, um cio incontinente, numa humilhação de prostitutas, até que tôda a
+emoção se lhes estanque e o hábito lhes embote o corpo e o espírito?...</p>
+
+<p>Depois da primeira frase, em que a sêde de amor lhes doira a vida, quantas
+não reconhecem no convívio que o seu ídolo moral é um canalha, e que o amoroso
+é só o macho sordido, sem delicadeza, sem ternura&mdash;contundente,
+ferocíssimo, legal...<span class="pn">{132}</span></p>
+
+<p>As outras, são apenas fêmeas broncas presas à canga do lar animalmente, ou
+semi-loucas resignadas que um catolicismo castrador perdeu, ou índoles lunares
+de amorosas esperecendo de martírio e tédio. E consciente ou inconscientemente,
+todas vão afinal prostituir-se. Só a <em>moeda</em> diferere: nada mais.</p>
+
+<p>Mas se viver, p'ra uma mulher, é quási sempre prostituir-se, não o é menos
+afinal p'ra um homem.</p>
+
+<p>Prostituir-se é deformar, ou anular mesmo, o que em nós há de individual e
+caracterisante, pela necessidade de captar alguêm, patrão ou mestre, rico ou
+superior hierarquico, e até mesmo o pobre, que nos dá a ilusão de sermos bons e
+a consideração hipocrita dos outros.</p>
+
+<p>Cada um de nós, ao entrar na aula ou na oficina, no escriptorio ou na
+repartição, no salão ou na taberna, é postiço, é convencional, é um
+<em>outro</em>; ao princípio confrangídamente, através de mil torturas; depois
+inconscientemente: mecanizado, deformado,<span class="pn">{133}</span>
+quinquilharia andante e cérebro de lixos, contribuindo assim para êsse ideal
+que nos empala, e os moralistas chamam&mdash;solidariedade humana.</p>
+
+<p>Era fácil mostrar como, violentando o temperamento, esta prostituição se
+repercute até nos gestos, na nossa maneira de andar e de vestir. E isto em
+todas as classes, porque ninguêm é suficientemente forte p'ra se bastar a si
+mesmo; todos precisam da consideração dos outros, da opinião pública, e vão
+vivendo sob a garra do preconceito, que os desengonça e deforma, que os
+raquitiza e anula, como os saltinbancos às crianças.</p>
+
+<p>Quantos resistem íntegros ao regímen penitenciário que é a vida de hoje em
+sociedade? Alguns pelo isolamento;&mdash;bem poucos dos que ficam.</p>
+
+<p>Não riam portanto ao ouvir que a Suze, a minha pobre Suze, foi nobre e foi
+cocotte. Cocotte, sim. Como nós todos. Porque, em summa, eu sou cocotte, tu és
+cocotte, êle é cocotte...<span class="pn">{134}</span></p>
+
+<p>Que horas serão? Deve ser quási madrugada.</p>
+
+<p>Eu bem queria nestas palavras de febre, silhuetar a Suze, ter um pouco de
+método, monografá-la. Mas não posso, não posso.</p>
+
+<p>Tenho aqui na minha mesa de trabalho o seu retrato, e nem sei como tenho
+coragem p'ra escrever, como posso desviar os olhos da névoa abysmal dos seus,
+que me transem de irremediável e me enlouquecem de desejo. Desejo absurdo, que
+o impossível hiperestesia, e me impregnou celula a celula.</p>
+
+<p>Sinto no corpo todo a carícia opiada dos seus dedos, a sua carne sortílega,
+embruxada; a sua pele afim da minha, e que com ela dialogava em silêncio, nas
+horas de esgotamento, rememorando sensações agudas, fulgurantes...</p>
+
+<p>Vejo-a, vejo-a!</p>
+
+<p>Passa a teoria das nossas noites (em que os seus tics profissionais me
+confrangiam) e ela era sempre duma envolvência fluida, de uma estesia de actriz
+inconsciente, uma<span class="pn">{135}</span> viciosa triste, insaciada, e uma
+boa e uma pobre rapariga.</p>
+
+<p>De comêço podiam julgá-la artificial, tão estilizada era a sua graça, tanto
+o seu requinte parecia consciente e erudito, traindo-se em tudo: no andar
+elástico, no dandismo sóbrio, e até no ruge-ruge da sua voz de alcova e
+confidência. Mas não: viam-na mal. Ela era assim sem esfôrço, naturalmente: ela
+nascera uma obra de arte. E todo o meu trabalho de esta noite me parece o de um
+doido que quisesse com poeira reconstruir uma obra prima...</p>
+
+<p>Muitas vezes já, aludi ao seu cinismo. Mas entendam-me: cinismo, disse-o o
+forçado genial de Reading&mdash;é a coragem de dizer as coisas como são e não
+como deviam ser. E a Suze era assim, quando falava a alguêm que a
+compreendia.</p>
+
+<p>Êsses porém, eram raros, muito raros. Com uma intuição divinatória,
+balzaquiana, a Suze adivinhava às primeiras palavras o seu caso, lisonjeava-lhe
+os instintos, e assim durante o dia era, conforme o macho em<span
+class="pn">{136}</span> catequese, canalha ou ducal, obscena ou protocolar.</p>
+
+<p>Um dêles, com quem viveu muito tempo, não via na Suze um animal de vício em
+quintessência, e, estúpido, não lhe sentia a graça esparrinhando génio: era
+apenas sentimental e jogador.</p>
+
+<p>Outra qualquer, para o prender, faria comédias românticas, e decerto
+orientaria o seu comércio por êsse fundo fadista e namorisquento. A Suze não.
+Parecia-lhe demasiado reles, insuportávelmente folhetim. E foi por o jôgo que o
+laçou.</p>
+
+<p>Pouco a pouco, por sugestões dominadoras, foi-o convencendo de que ganhava
+sempre quando cedia passivamente aos seus caprichos, quando lhe dava mais
+vestidos, mais dinheiro: e em pouco tempo, ela era p'ra êsse jogador
+supersticioso, um ícone sagrado, tutelar,&mdash;Nossa Senhora da Sorte ao seu
+alcance...</p>
+
+<p>Dominava-o por completo. Se o traía, explicava-lhe com um ar vago e
+superior... que era para lhe dar <em>chance</em>; e todas as<span
+class="pn">{137}</span> noites o desgraçado vinha implorar da Suze, aninhada
+num divan, com um pequenino ar de sibila delfica, um pouco de sorte por amor de
+Deus!...</p>
+
+<p>Teve êste espectáculo hiper-dantesco: os Poderes Constituidos&mdash;em
+cuecas!... Ella os viu, aos redentores da patria: viu como era piloso o sacro
+onde teem o fogo os oradores: foi caloteada por economistas: sofreu contra a
+pele fina a camisola de flanela dos guerreiros. Mas o que mais magoou o seu
+desprezo, foi a secura e a egolatria dos artistas.</p>
+
+<p>P'ra todos a sua arte era perfeita, radiando ilusão, hipnotisando.</p>
+
+<p>Mais flexível que as nuvens são p'ró vento, o seu proteísmo teatral de
+prostituta mimava a cada um o seu <em>ideal</em>...</p>
+
+<p>Ah! Mas como ela ficava, a minha Suze, a sua fadiga nervosa aniquilante, o
+seu imenso tédio neurasténico, querendo desertar de si, da sua alma e da sua
+pele enojada, para sempre!...</p>
+
+<p>E caída num estôfo, amarfanhada, era às<span class="pn">{138}</span> vezes
+triste como uma coisa morta, como uma asa ferida nalgum charco... Curtia assim
+consigo mesma horas de miseria moral e de exaspêro, sem uma queixa, sem uma
+lágrima, num orgulho de sózinha, donde só resumava o sofrimento, num gesto, num
+olhar, numa ironia.</p>
+
+<p>Uma manhã em Lisboa, acabavamos de almoçar no nosso quarto, com a janella
+aberta p'rà Avenida.</p>
+
+<p>Ela fumava um Laferme, devagar, no prazer subtil de soprar nuvens. E de
+repente, como a uma lembrança súbita, disse-me isto baixinho, num tom que nunca
+esquecerei:</p>
+
+<p>&mdash;Tu sabes: não gosto de falar da minha vida. Nunca me queixei. Se
+agora te falo, é porque é p'ra dizer bem... Neste horror, tenho tido dias de
+uma volupia imensa. Nem sei como te diga. Começo por me sentir doente,
+exasperada, sem poder mais... Eles vêem e eu penso que vou morrer de nojo. Vem
+um, vêem muitos... vêem todos... Então, não sei porquê, sinto<span
+class="pn">{139}</span> um bem-estar, um gôso doido; acho prazer a que me
+humilhem; parece-me que nasci p'ra isto, que não há destino melhor... e gozo...
+gozo.</p>
+
+<p>Depois, num riso sêco:</p>
+
+<p>&mdash;Sinto a volúpia de um cristão ás feras...</p>
+
+<p>Parou. Eu recebi num beijo o fumo do Laferme, e a Suze concluiu:</p>
+
+<p>&mdash;Que importa isto! É um <em>detalhe</em>...</p>
+
+<p>As outras, as vulgares, bestializavam-se; passada a crise horrível de
+adaptação, vendiam beijos, como um mercieiro vende arroz, um advogado
+eloquência, ou um diplomata uma colonia. A Suze não; era esculptada em lava:
+era <em>alguêm</em>. Prostituta ou esposa, seria sempre infeliz, seria sempre
+<em>ela</em>, seria sempre só. Pobre Suze!</p>
+
+<p>Alma apolínea, foi esboteada por fadistas que teem o nome em crónicas
+heróicas; sofreu-lhes, em noites de orgia besta, o suor e o vomito; e com uma
+clarividência trágica, presentiu muita vez os haustos da manhã subindo, a olhar
+com a pele arrepiada a máscara boçal de algum cliente.<span
+class="pn">{140}</span></p>
+
+<p>Teve amantes ricos, equipagens, e as suas melhores horas eram quando
+sozinha, abandonada a si mesma, ouvia numa noite de inverno, como uma
+confidência, o crepitar da lenha num fogão...</p>
+
+<p>Teve paixões sensuais que a torturaram, foi roubada impunemente muitas
+vezes, e uma noite em Moscou&mdash;cahia neve&mdash;velando uma companheira
+moribunda, sem nada p'ra empenhar e sem recursos, foi pôr no prego, jóia
+grotesquíssima!&mdash;a propria dentadura da doente que. Deus louvado, era
+montada em oiro... Assim puderam comer aquela noite.</p>
+
+<p>É de estoirar a rir&mdash;não lhes parece?...</p>
+
+<p>Sabia de cor tôda a <em>Comédia humana</em>: viveu tôda a comédia humana.
+Pobre Suze!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Tu ao menos, não precisaste de ser louca p'ra sêres santa: ergueste-te
+sempre corajosa e simples, sem um abatimento ou uma queixa; e através de
+insultos e torpezas,<span class="pn">{141}</span> conservaste puríssima,
+apolínea, uma alma aberta ao sol como uma rosa!</p>
+
+<p>Quantas vezes, calçada de verniz, tiveste fome, e com teu passo elástico de
+espectro, nem um só Cireneu topaste que ao estender-te a mão, te não pedisse
+gôzo...</p>
+
+<p>Tu, Suze, sabias bem tôda a piedade humana e como ela é antes... e depois.
+Se algum principe Nekhuladoff tentasse redimir-te, como a tua palidez riria de
+alto ao pobre místico, a êle que te falava de perdão e arrependimento, quando
+os teus olhos de névoa viam claro, com um determinismo lúcido, fatal, que a tua
+vida era assim, irremediável, e nem tinhas ódios nem sêde de justiça, pois bem
+sabias que é inútil tê-la p'ra morrer à sêde...</p>
+
+<p>Conheceste príncipes, é certo, mas nem um místico: só mais ou menos
+imbecis... Não te fossem falar do ceu,&mdash;a ti que tantos viras de platina
+na bôca de gozadores com avarias.</p>
+
+<p>Por isso não tiveste gritos, não te estorceste: nem sei mesmo se
+choraste.<span class="pn">{142}</span></p>
+
+<p>Posta em teatro, não farias uivar as galerias nessa paródia de circo tão
+grotesca que é um quinto acto p'ra burgueses e povinho; eras p'ròs <em>raros
+apenas</em> como o matoidismo poético da minha terra. Na tua voz de fôlha seca,
+dizias de todo o teu calvário apenas isto: <em>é um detalhe</em>.</p>
+
+<p>Mas para mim, Suze, o teu corpo serpertino, que ora começa a decompor-se, o
+teu génio a fagulhar num incêndio murmuro de elitros e, sobretudo, o supremo
+encanto da tua dor heróica, sem desfalências e sem queixas, para sempre ficarão
+no meu espírito, como qualquer coisa de belo, de perfeito, pois que correste os
+bastidores da vida, todo o egoísmo, tôda a lama, tôda a infâmia, em vítima
+serena&mdash;tão serena como essas que na Grécia iam hirtas de dor entre
+colunas... </p>
+
+<p>E amaste sempre o sol! E amaste sempre o sol!</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Deixa-me lembrar-te: é a última carta que te escrevo. Desta vez serei
+sincero,<span class="pn">{143}</span> porque estás morta, porque a não lerás...
+</p>
+
+<p>Espera!... As nossas tardes no Rio Doce, em Leça... Os olhos dos mortos
+ainda reflectem, ainda <em>vêem</em>... Pudesse eu ir arrancar-tos, trazê-los
+nas mãos com cautela, como dois pássaros mortos, e dar-lhes ainda a beber,
+pobrezinhos!&mdash;sol, mar, areias ruivas, aguas correntes...</p>
+
+<p>Pudesse eu beijar-te os olhos mortos!</p>
+
+<p>Chamava-se <em>Sol</em> o nosso barco. Eu levava-o à vara, lentamente.
+Tiravas o chapéu, estendias-te à pôpa e nem falavas. De quando em quando, ia
+colar à tua a minha bôca: beijava-te as pálpebras de manso.</p>
+
+<p>Parava sob um chorão, à sombra dos seus cabelos verdes. Cingia-te. Poisava a
+cabeça nos teus seios, que eram lindos, tersos como de virgem. Todo o teu corpo
+desfalecia, se humilhava no teu vestido de sêda crua como o duma criança
+adormecida... E era então que eu sentia, que eu palpava, que eu vivia a vida
+divina do silêncio.<span class="pn">{144}</span></p>
+
+<p>Era mais vago o marulhar da ramaria e fazia mais silêncio, como faz mais
+silêncio, à noite, o acorde das ondas numa praia...</p>
+
+<p>Sentia-se cair silêncio como se sente cair névoa.</p>
+
+<p>As nossas bôcas colavam-se num beijo húmido, calado, duma volúpia
+tristíssima, confrangida. Era como uma despedida sem palavras, muito lenta, de
+dois suicidas...</p>
+
+<p>Eu não te via os olhos, mas adivinhava-os: estavam maiores, mais nevoentos,
+como janelas deitando p'rò silencio que se cavava em torno, fazendo leito ao
+nosso pensamento pelo espaço...</p>
+
+<p>E confusamente sentíamos que o tempo passava, passava sempre entre os nossos
+corpos enlaçados....</p>
+
+<p>Por fim&mdash;era à bôca da noite&mdash;voltávamos.</p>
+
+<p>Devagarinho, dizias tu, devagarinho...</p>
+
+<p>Eu ia levando o <em>Sol</em> na agua mortuária, e à nossa passagem, partiam
+sempre, iam partindo, pássaros mal adormecidos nos salgueirais das margens,
+reflectiam-se no rio<span class="pn">{145}</span> em fugas de asas, e era tudo
+mais triste como se êsse vôo fôsse o adeus de tudo...</p>
+
+<p>Quantas vezes te olhei com os olhos rasos! Disfarçava, não queria nunca que
+mos visses. E de repente, apertava-te os braços, sacudia-te p'ra me aturdir,
+p'ra espancar a emoção que me afogava numa maré de lágrimas reprêsas.</p>
+
+<p>Queria gritar, queria chamar-te meu amor e... odiava-te. Queria beijar-te as
+mãos, vestir-te de meiguice, e dizer-te a ância, o sonho doido de viver contigo
+sem palavras&mdash;como as estátuas dos túmulos nas criptas...</p>
+
+<p>Queria bater-te, cuspir-te, demolir-te, como faz um tufão a uma árvore
+sozinha, e a puxar-te os cabelos de creança, ir gritando, gritando sempre:
+prostituta... prostituta...</p>
+
+<p>Hoje tenho remorsos. Mas tu compreendes, tu bem sabes: era <span
+class="typo" title="no original: quési">quási</span> loucura. </p>
+
+<p>Não podia perdoar à tua graça ter-se deixado poluir, não podia perdoar ao
+teu génio a tua derrota, não podia perdoar-te, Suze, que fosses vítima.<span
+class="pn">{146}</span></p>
+
+<p>Ah! ter piedade, ter piedade... Mas isso é pouco, muito pouco: é um
+sentimento consolador só para eunucos. E eu queria amar-te ao sol, Suze,
+olhando as árvores irmãmente, todo o nosso desejo a escorrer luz...</p>
+
+<p>A noite vinha. Seguíamos enlaçados, e eu cansava-me no esfôrço imenso de te
+não magoar... Tu bem sabias, tu bem sabias... Segundo a segundo, o meu martírio
+pesava o tempo como se uns ponteiros de relógio me ferissem os nervos... Tu bem
+sabias. Tanto sabias, que por fim me beijavas na testa, quási maternal, e a tua
+voz de fôlha seca rangia êste refrem de outono: «Isso passa. E um instante,
+<em>é um detalhe</em>.</p>
+
+<p>Minha pobre Suze, como tu eras justa, como tu adivinhavas, bruxa de vinte
+ânos, p'ralêm da hora que passa, o nada que virá.</p>
+
+<p>A tua desgraça era suprema, porque tu eras <em>aquela que não se ilude
+nunca</em>.</p>
+
+<p>Ainda assim, penso comigo: quem sabe! quem sabe! Se ela me visse como eu
+sou,<span class="pn">{147}</span> se eu não fôsse com ela sempre actor, se eu
+não fôsse o ser falso, o clown scéptico mascarrando com riso o sentimento; se
+eu não me amordaçasse a cada instante, e tivesse podido ser eu mesmo... Se
+visses, Suze, a creatura que eu escondo; se soubesses que afinal eu sou bem
+simples e como eu amo a vida tôda de mãos postas...</p>
+
+<p>Se em vez de analisar, eu me entregasse; se eu esquecesse os livros e os
+outros e te falasse tão naturalmente como o meu sangue fala nas artérias...
+Quem sabe!... Talvez, Suze, se eu fôsse o que não viste, o que te fala agora...
+Porque eu lembro-me, eu lembro-me. Duas horas houve que nós vivemos um no
+outro, fora do espaço, fora do tempo... Tu bem sabes, tu lembras-te.</p>
+
+<p>Era madrugada. Estávamos deitados.</p>
+
+<p>Todo o meu ser vivia de ti, morria em ti. O nosso desejo ardera, estava
+morto. Que fadiga a nossa, que fadiga!...</p>
+
+<p>A rua despertava, ouviam-se pregões, o sol luzia nas frinchas: eu tinha a
+cabeça<span class="pn">{148}</span> contra o teu peito, perdidamente, como
+contra a esperança, como contra o futuro...</p>
+
+<p>Embebia-me em ti, aspirava o teu corpo, a tua carne, a sua tristeza imensa,
+a sua saudade de tudo o que não teve, de tudo o que não foi... e juro&mdash;que
+em nenhum jardim, em nenhuma aurora, uma flôr com orvalho me ungiu assim de
+sonho, me fêz assim vibrar no impossível dum amor perfeito.</p>
+
+<p>Levantámo-nos, saímos, e logo a rua, os outros, a vida dos outros, se
+apossou de mim, me perverteu, me obrigou a mentir, a torcer-me... e eu ri, eu
+ri imbecilmente, de nós, da nossa vida, e dessas horas em que auscultei contra
+o teu peito&mdash;o impossível de um sonho sempre erguido!...</p>
+
+<p>Pois se esta noite mesmo, ao começar a escrever, ao pensar em ti&mdash;na
+tua morte, Suze!&mdash;eu fui palhaço, eu quebrei em esgares a emoção, e mimei
+um ar gelado, irónico, impossível, quando queria chorar perdidamente, quando
+queria beijar os pés ao teu cadáver... É que tinha medo, um medo<span
+class="pn">{149}</span> horrivel de que os outros me vissem, porque p'ra êles é
+uma torpeza amar-te assim...</p>
+
+<p>Eu podia dormir contigo, dar-te dinheiro... só não podia amar-te. P'ra todos
+os crimes há uma indulgência feita de cumplicidade, menos p'ra um crime assim:
+não tem remissão: é imoral e é grotesco.</p>
+
+<p>É preciso que a dor me abale todo, me fite bem de frente, e me hipnotize o
+seu olhar de chama, p'ra eu poder dizer como te amava, como te amo.</p>
+
+<p>Perdoa, perdoa. Aqui me tens aos pés do teu cadáver.</p>
+
+<p>Tôda a vida morreu p'ra mim: a seiva gelou nas veias das árvores; o mar que
+eu amei tanto, não me importa.</p>
+
+<p>A vida agora é êste horror: uma sala de <em>morgue</em>, mesas ovais de
+mármore, cadáveres sem nome, já esquecidos, e entre êles, Suze, o teu cadáver.
+</p>
+
+<p>Como irás tu p'rà cova? Quem te vestiu?... Foram mãos sem carinho,
+mercenárias.</p>
+
+<p>Vejo-te, digo-te adeus, Suze... O teu cadáver<span class="pn">{150}</span>
+transe, empedra de martírio. Pareces mais alta, mais comprida. Não te souberam
+pentear; deixaram-te o cabelo em desalinho e, não sei porquê, está mais claro,
+de uma sêda mais pura, mais de infância...</p>
+
+<p>Tens um vestido preto (com que me foste esperar: há quanto tempo?...)
+sapatos de verniz, ponteagudos... fivelas de oiro... meias de sêda nos teus
+artelhos finos de cegonha.</p>
+
+<p>Cruzaram-te de certo as mãos no peito, mas escorregaram, descaíram, e
+amarelas, outonais, dizem ainda: «é um <em>detalhe</em> apenas, um
+<em>detalhe</em>...»</p>
+
+<p>E o que mais me entristece é que tens frio: as mãos da podridão vão-te
+gelando. Oh! As tuas noites na cova, Suze!...</p>
+
+<p>Abriram-te o ventre no hospital. Suturaram-to àpressa, sem cuidado. Se te
+tirassem os nervos... Bem sei que é doido, mas que querem?... Ficava assim mais
+socegado.</p>
+
+<p>É amanhã que te enterram?... Hoje mesmo? Deve ser quási dia, minha
+Suze.<span class="pn">{151}</span></p>
+
+<p>Deixa beijar-te as mãos geladas, de mansinho, enquanto falo... Assim. A
+minha febre aquece-tas: verás...</p>
+
+<p>Não te descerro as pálpebras. P'ra quê? Está ainda escuro.</p>
+
+<p>Tens saudades do sol, minha pobrinha?... A última vez, quando almoçámos na
+praia, ao pé de Leça, olhaste-o tanto que logo pensei que ias morrer... Todo o
+teu corpo diz adeus ao sol. A mais ninguêm.</p>
+
+<p>Família?... Nunca quis saber de ti: contaste-mo sem queixa, simplesmente.
+Disseste como sempre: <em>é um detalhe...</em></p>
+
+<p>Que fica de ti, Suze? A memória da pele é passageira, e é muito incerto que
+a tua graça vá dourar uma saudade.</p>
+
+<p>Ninguêm irá ao teu enterro, e ainda bem!</p>
+
+<p>Por tua causa, ninguêm se irritará jantando à pressa; ninguêm irá, de
+sobrecasaca e mau humor, fazer-te o necrológio ao cemitério.</p>
+
+<p>Não terás latim grunhido por um clérigo,<span class="pn">{152}</span> nem
+essa coisa triste e tão grotesca&mdash;um círio laico em ar solemne, com
+fungagá e arenga humanitária.</p>
+
+<p>Vais p'rà cova só, como viveste; e depois de te teres dado a tantos homens,
+vai parecer-te natural que te amem vermes... Até na morte és discreta, minha
+Suze, pois nem sequer virás numa gazeta.</p>
+
+<p>Foste perfeita: és perfeita. Amaste a beleza sempre com loucura: nas nuvens,
+nos <em>maquereaux</em>, nas pupilas das jóias, nos crepúsculos...</p>
+
+<p>Ensinaste-me o desprêso sem palavras, a dor sem confidência, feita orgulho.
+Deixa beijar-te ainda as mãos geladas.</p>
+
+<p>Quem mas dera guardar p'ra sempre, em mármore; suspendê-las como um
+<em>ex-voto</em> à cabeceira, as tuas pobres mãos tão humilhadas, esfolhando
+eternamente sôbre a vida, o perdão dos que a entendem:&mdash;o desprêzo.</p>
+
+<p>... Oiço horas. Uma, duas... oito. Oito horas! Se eu pudesse dormir!</p>
+
+<p>E agora mesmo, ao enfiar-me na cama<span class="pn">{153}</span> extenuado,
+eu oiço a voz da Suze, voz de sêda que range, a segredar-me:</p>
+
+<p>&mdash;<em>Mon pauvre ami! Quoi?! Qu'est-ce qui t'attriste? Ma mort?...
+Mais, tu sais, ça c'est un detail.</em></p>
+
+<p>Sim, um <em>detalhe</em>... como tudo, terminando no mármore frio de uma
+<em>morgue</em>, ou a uma esquina de rua banalmente. Como tudo.<span
+class="pn">{154}</span></p>
+
+<p><span class="pn">{155}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00060">O VEIGA</a> </h1>
+
+<p style="text-align: right;"><br>
+A R<small>AMIRO</small> M<small>OURÃO.</small></p>
+
+<p><span class="pn">{156}</span></p>
+
+<p><span class="pn">{157}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00061">O VEIGA</a> </h2>
+
+<p>É o tipo mais estranho que eu conheço. Que anos terá? Deve ter trinta ou
+mais. Magríssimo, êsse lúgubre cabide que é o seu corpo, traz enfiadas roupas
+de outros, muito largas: sobrecasacas, fraks, vestes ricas, esverdeando, já em
+plena decomposição, e mais vexadas nesse esqueleto curvo de pedinte que numa
+loja de adelo ou num palhaço.</p>
+
+<p>Decerto o conhecem. Decerto já, cerimonioso e gago, lhes pediu esmola. É um
+pobre diabo e é doido: o Veiga.</p>
+
+<p>Caricatura das ruas, conselheiral e poética, encontro-o sempre com vagar e
+ritmo,<span class="pn">{158}</span> num abandono corcova de vadio, que daria
+dandismo a um diplomata.</p>
+
+<p>Pois bem: é só mendigo. Mas não como nós todos, a uma esquina de rua ou a
+uma porta banal de ministério, a pedir emprêgo ou noiva rica, dez reis ou
+participação num monopólio. Não é assim: é outro género, é paradoxal, é único!
+</p>
+
+<p>Pede para comer, mas não come como nós todos: por comer. É p'ra viver a
+Vida, a Vida toda! Esperem um instantinho: é extraordinário.</p>
+
+<p>Deixem-me antes contar-lhes como êle era.</p>
+
+<p>O Veiga, quando eu dei por êle, era empregado num cartório. Às dez, todas as
+manhãs, enfiava com unção manga de alpaca. Assim ficava até às três, todo
+curvado, cumprindo religiosamente, riscando o papel selado com uma letra
+estilada e redondinha, tão correcta e tão banal que faria o desespêro de um
+grafólogo.</p>
+
+<p>Tipo neutro, <em>nem vou lá, nem faço minga</em>, gozava em todo o tribunal
+uma simpatia<span class="pn">{159}</span> benevolente e desdenhosa. O escrivão,
+os colegas diziam dêle: é um pobre diabo.</p>
+
+<p>Era bem um pobre diabo.</p>
+
+<p>Sofriam os seus nervos destrambilhados com o drama quotidiano do tribunal,
+êsse espectáculo de miséria em carne viva, explorada pelos outros que viam nela
+a melhor posta, extra-oficial e lucrativa, o verdadeiro emprêgo.</p>
+
+<p>O Veiga, coitado, não explorava: sofria. Às vezes, copiando interrogatórios,
+mandados de captura ou de penhora, tinha os olhos rasos, e umas rovoltas
+frustes de nervoso crispavam-lhe as mãos magras na caneta, perturbando em
+trémulos sem arte o seu lindo e banalíssimo cursivo.</p>
+
+<p>Em muitas dessas prosas rígidas, onde se amortalha em formulas destinos, ia
+o gráfico da sua emoção romantisada, o patético mapa dos seus nervos.</p>
+
+<p>No cartório, melhor do que nos livros, sem gangas literárias, sem imagens, o
+Veiga ouviu a maré rouca da desgraça: a sua caneta atenta correu-lhe os sete
+círculos fatídicos;<span class="pn">{160}</span> soube-a de cor, como um
+folhetim vivo, gritado aos seus ouvidos, que êle recolhia em papel selado a
+20$000 réis por mês.</p>
+
+<p>Naquelas laudas oficiais folheava a vida social como num índice; lia como
+numa partitura, tôda a harmonia humana. E que harmonia, Santo Deus!</p>
+
+<p>Tinha vontade de fugir, de tapar os ouvidos, de se meter sòzinho num buraco.
+Ali roçou, mais encolhido, aspirações, quimeras ulceradas. Como era um fraco,
+de uma nervosidade romanesca, sentiu terror: tinha vontade de chorar. Não
+embotava como os outros num cinismo comodista: cada vez destrambilhava mais.
+</p>
+
+<p>Claro que não podia ter amigos: era ridículo, era diferente, era um sòzinho.
+Riam-se dêle com benevolência, estendiam-lhe a mão com um ar de obséquio.</p>
+
+<p>Quando se afastava de algum grupo, sob as arcadas conventuais do tribunal,
+ia aflito, a querer sumir-se, com vontade de morrer, pois bem sabia que se riam
+dêle, das palhetas desafinadas, da gaguez.<span class="pn">{161}</span></p>
+
+<p>Vivia com a mãe <span class="errata" title="Errata: e mais">e sem
+mais</span> parentes. Mal chegava a casa, ia esquecer, queimar no braseiro
+interior essas misérias, e com a luz de tão má lenha, fazia nimbos p'ro seu
+sonho.</p>
+
+<p>Com que sonhava êle? Com o Amor.</p>
+
+<p>Vira-o nu, reduzido a autos; ouviu-o debater-se bem imundo na
+camisa-de-fôrças que é a Lei; acotovelou-o no cartório, em todas as formas, da
+prostituta de viela ao adultério rico; e assim mesmo, persistiu em amar
+imbecilmente, convencido,&mdash;o desgraçado! de não sei que sarcástico destino
+que o talhara p'ra amoroso, com uma carcassa humilhante de fantoche.</p>
+
+<p>Amou.</p>
+
+<p>Era uma loira muito chromo, filha da loja de miudezas lá da rua.
+Escreveu-lhe em insónias de delírio, cartas imensas em papel azul. Chamou-lhe
+tudo e ela respondeu-lhe. Durante umas semanas viu cor de oiro, andava
+estonteado, como em sonho, suspenso dos fios dessa trança, pairando à altura de
+um terceiro andar.<span class="pn">{162}</span></p>
+
+<p>E mesmo na saleta do cartório, se o deixavam só alguns instantes, fechava
+como os misticos os olhos, para forrar as pálpebras com ela, sussurando
+baixinho devoções.</p>
+
+<p>Que lhe importava agora o tribunal, essa tragédia amorfa, sem estilo, tantas
+palavras que condensam dramas e que êle por ofício, copiava! Escrevia a pensar
+nela, envolto em vago, como numa nebulosa redentora, e já não via no papel um
+mar pautado, em que bóiam cadáveres de destinos, frangalhos de esperanças,
+vidas podres...</p>
+
+<p>Há muitos dias, o Veiga era quási um ser de sonho. Dizia à mãe em casa
+coisas vagas, comia talvez menos, mas radiava.</p>
+
+<p>Tinha grandes cuidados de <em>toilette</em>. Mandou brunir o seu antigo
+frak, que agora sem pêlo era espelhento, e arranjou ainda um côco preto que o
+magoava pouco na cabeça. P'ra ser em segunda mão, era magnifico. Vendera-lho um
+colega no cartório. Andava cheio de felicidade como um ovo. Era uma vontade
+doida de sorrir, de beijar<span class="pn">{163}</span> as crianças, dar
+esmolas, de agradecer a Deus o sol e a chuva, e de dizer a todos que era amado.
+</p>
+
+<p>Tinha ido apreçar um anel de oiro, e fazia economias prodigiosas para lhe
+dar em breve essa <em>aliança</em>. P'ra ele o anel era um símbolo supremo:
+fundiria p'ra sempre os seus destinos.</p>
+
+<p>Só iria falar-lhe, gritando-lhe da rua o seu amor, quando pudesse levar êsse
+aro liso, que ela enfiaria olhando-o perturbada, como numa liturgia nupcial.
+</p>
+
+<p>Chegou o dia. O Veiga nem comeu. Meteu o anel no bôlso, pôs o côco, beijou a
+mão à mãe comovidíssimo, e partiu rítmico e mudo, mui solemne, como se pisasse
+a aresta do destino.</p>
+
+<p>Era ainda cedo. Vadiou nas ruas, braços pendentes, lânguido, scismático, a
+construir projectos de futuro: outra casa melhor e em poucos anos&mdash;um lar
+com ela, imortalmente loira.</p>
+
+<p>Caminhava, alheado, fluctuando, sem olhar, sem perceber aspectos, fumando o
+seu monólogo<span class="pn">{164}</span> de sonho, sentindo com prazer que a
+noite vinha.</p>
+
+<p>Parou por fim, cravando olhos de febre nessa varanda do terceiro andar.</p>
+
+<p>Esperou... esperou e ela não vinha!... Há quanto tempo olhava êle a varanda?
+Há cinco minutos talvez, talvez há uma hora. Perdera a noção do tempo. Não
+sabia. Súbito moveu-se o transparente... Era ela. Olhou um instante, viu-o, e
+retirou depois de um modo brusco.</p>
+
+<p>«Coitadinha! Não pode vir agora. Talvez gente de fora...
+Esperarei»&mdash;pensava o Veiga com as pernas a tremer. E esperou, esperou,
+numa agonia.</p>
+
+<p>Por fim deram dez horas muito fortes, badalando-lhe dentro da cabeça. Ergueu
+os olhos. Não podia mais. Batia os vidros um luar de opalas fluidas, e ela
+apareceu na claridade, muito branca, ao mesmo tempo que lhe deu um encontrão um
+caixeiro ajanotado que passava.</p>
+
+<p>«Foi decerto sem querer»,&mdash;pensou o Veiga, mas viu-o logo voltar-se a
+provoca-lo.<span class="pn">{165}</span></p>
+
+<p>«Que tem êle comigo? Que lhe fiz?» E interrogava-se assim ingenuamente,
+quando o viu fazer sinais p'rò andar dela e opontá-lo a rir, com um ar de
+troça.</p>
+
+<p>Cessou em torno dêle tôda a vida. Deixou de ver, deixou de ouvir, ficou
+imóvel, numa aura de vertigem que o lambia, cara p'rò alto, lívido,
+inconsciente. O outro então aproximou-se dêle, fisgou-o pela gola, muito têso,
+e com bruscos sacões foi-lhe dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Que faz você alí, seu grande lorpa? Não percebeu ainda que o
+troçaram? As suas cartas trago-as eu aqui, p'ràs ler aos meus amigos, p'ra me
+rir. Você sempre é um ponto de primeira... Você ouve ou não ouve?...</p>
+
+<p>E deu-lhe um sacão último mais forte.</p>
+
+<p>&mdash;Não há que ver. É mouco como um muro.</p>
+
+<p>O Veiga olhou-o atónito, sem gestos. Não teve uma palavra. Empedrou todo.
+Vergava de fraqueza, mal ouvia, e nos olhos de febre, muito abertos, um
+desencanto imenso,<span class="pn">{166}</span> emparvecido, um vazio de
+assombro, semi-louco... Estava em frente do outro sem o ver. Todo o seu corpo
+magro de humilhado corcovava ainda mais de decepção, como se o esfrangalhasse
+uma rajada. Parecia esperar uns braços p'ra cair. O outro olhou-o num desprêzo
+besta, e rematou com o punho em murro junto dêle:</p>
+
+<p>&mdash;Agora rode! Senão parto-lhe a cara.</p>
+
+<p>O Veiga nem buliu. Ficou inerte.</p>
+
+<p>&mdash;Não ouviu, seu burro, não ouviu?</p>
+
+<p>E como êle não tinha um movimento, deu-lhe uma bofetada que o virou. Depois,
+gozando muito o seu triunfo, encheu-lhe de pontapés o corpo todo, teve-o nas
+patas ennovelado como um trapo, até que farto, resolveu larga-lo, soltando-lhe
+magnânimo o perdão:</p>
+
+<p>&mdash;Já basta. Tomou p'rò seu tabaco...</p>
+
+<p>Havia um luar de espasmo, amorosissímo, e o imbecil, trepando a rua
+derreado, abafava os soluços contra o lenço, cerrava a bôca seca como em
+trismus, e só tinha uma ância a empurra-lo: ir despertar a<span
+class="pn">{167}</span> mãe na alcova escura para chorar baixinho junto dela,
+como em petiz quando o troçavam no colegio.</p>
+
+<p>Só isto poderia consola-lo: ouvir-lhe a voz, palavras de ternura, sentir-lhe
+as mãos rugosas nos cabelos...</p>
+
+<p>Fêz um último esfôrço, dominou-se. Foi em bicos de pés até ao quarto, e caíu
+de bruços sôbre a cama, como se fôsse a cova, p'ra acabar, na humilhação
+suprema de sovado diante do seu ídolo tão loiro.</p>
+
+<p>Crispou no travesseiro mãos de náufrago, como na carne de alguêm que o
+acolhesse, um amigo pr'a ouvir-lhe a confidência; disse coisas baixinho, o nome
+dela, chorou horas e horas, gemeu alto, diluindo nas lágrimas a angústia,
+sentindo contra o corpo extenuado a moleza da moinha a consolá-lo.</p>
+
+<p>Por vezes chorou quási com prazer, desdobrou-se, assistiu ao seu martírio,
+como nas melhores noites de teatro, quando ouvia os quintos actos soluçantes,
+apertado num logar das galerias.<span class="pn">{168}</span></p>
+
+<p>Esteve assim de bruços muito tempo, amolentado, estúpido, pastoso. Não podia
+dormir: era impossível. E com um grande esfôrço, quis erguer-se. Mas doeram-lhe
+então as pisaduras, e numa raiva fruste de impotente, feriu a paz do quarto com
+patadas, com rangidos de dentes e com murros, torcendo-se num ódio corrosivo,
+menos contra o caixeiro que o tosara, que contra êle, Veiga, gago e reles,
+sempre curvado em cumprimentos torpes, entre troças e adeuses de desprêzo, sem
+coragem pr'a um murro ou uma insolência.</p>
+
+<p>Sentiu-se trapo, lôdo, coisa imunda. Teve mesmo prazer em deprimir-se;
+rolou-se na humilhação quási com gôzo, como outros na glória ou na luxúria, e
+arrancou do seu misérrimo grotesco, da sua covardia tão cuspida, êste consôlo
+cristão para aureolar-se:</p>
+
+<p>&mdash;Sou uma vítima, uma vítima do Amor e do Destino!</p>
+
+<p>Tinha ainda na cara as bofetadas, ouvia ainda a voz boçal do caixeirola: «Já
+basta. Tomou p'rò seu tabaco»; mas a única realidade<span
+class="pn">{169}</span> bem tangível, ao sentir-se chorar, assim, de bruços, de
+côco para a nuca e sobretudo, era esta coisa mágica e inefável:&mdash;«Sou uma
+vítima do Amor, tenho romance!» E com a cara a arder, era um herói.</p>
+
+<p>Já quási madrugada, adormeceu. Acordou-o o sol vindo até êle, e ia voltar-se
+contra a luz covardemente, p'ra se escoar no sono, p'ra esquecer, quando ouviu
+passos da mãe que vinha entrando.</p>
+
+<p>Embrulhou-se nos cobertores num gesto brusco, para que ela o não visse por
+despir; encolheu-se na roupa o mais que pôde, mas ainda assim ficou com os pés
+de fora, com as botas de elástico enlameadas e o côco amolgado em travesseira.
+</p>
+
+<p>A mãe entrou no quarto devagar, foi abrir as janelas de mansinho, supondo-o
+a dormir, bem sossegado. Quando o viu vestido sôbre a cama, com uma palidez
+desfeita e olheiras fundas, correu p'ra êle, pôs-lhe a mão na testa, e
+perguntou branca de susto, a tremer tôda:<span class="pn">{170}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que tens tu, meu filho? Estás doente? Porque dormiste assim todo
+vestido?!...</p>
+
+<p>O Veiga olhou-a lorpa, emburrecido. Não soube que dizer, não quis
+contar-lhe; e como se a morte da ilusão o acanalhasse, como se viesse de nascer
+nêle um outro ser, de secura e vaidade, um reles cínico, levantou-se da cama,
+espreguiçou-se, e sem olhar a mãe, sem a beijar, foi eructando estas mentiras
+torpes, surpreendido êle mesmo de as ouvir, travando relações com um novo
+Veiga:</p>
+
+<p>&mdash;Que quer?... Nem eu sei já como isto foi. Uma noitada... mulheres...
+foi um pagode. Carreguei-lhe no vinho. Ora aí tem...</p>
+
+<p>Meteu as mãos nos bolsos do colete, e de pernas abertas, bamboleando-se,
+vomitou aos puxões o seu programa:</p>
+
+<p>&mdash;Isto vai mudar muito de figura. Estou farto de ser burro, vou mudar.
+De ora avante é outra coisa, é outra vida... Previno-a já. Não tem mais que
+estranhar...</p>
+
+<p>E apontava-lhe a porta:<span class="pn">{171}</span></p>
+
+<p>&mdash;O almôço está pronto? Vamos a isso já. Não quero esperar.</p>
+
+<p>Quási nem gaguejava, o imbecil. Sem as asas-muletas da ilusão, que erguiam
+êste orango a céus de sonho, êle ficava um tiranete bufo, com um rancor covarde
+de falhado, a farejar na sua raiva de impotente, uma vítima, alguêm para
+expiar. Pasmada, a pobre criatura saíu limpando ao avental os olhos. E começou
+nessa hora o seu martírio.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>Nova fase do Veiga.</p>
+
+<p>Iniciou-se então no botequim e com o olhar envernizado de genebra, ouvindo
+as <em>mayonnaises</em> de ópera que um sexteto melodramático lhe servia, ia
+pagando bebidas aos amigos...</p>
+
+<p>Foi um ex-colega, que se alcançara havia meses, p'ra fundar um semanário
+clandestino, que o apresentou aos rapazes do cavaco. Depois, extorquindo-lhe os
+cobres<span class="pn">{172}</span> da bebida, empreenderam tambêm o
+apostolado.</p>
+
+<p>&mdash;E o nosso amigo tem... a <em>ideia</em>?</p>
+
+<p>O Veiga não a tinha. Forneceram-lha copiosamente, em noites de catequese
+desvairante. Era agora um iniciado o meu idiota. As necedades que os outros lhe
+gosmavam, como uma bíblia obscena de revolta, acolhia-as o Veiga com fervor: o
+caixeiro agora era o <em>burguês</em>, e o seu ídolo loiro o
+<em>preconceito</em>!</p>
+
+<p>Perdia as noites num delírio gago, a proclamar no botequim o <em>amor
+livre</em>. Faltava ao cartório muitas vezes. Inconscientemente, como rezava
+com devoção até há pouco, absorvia brochuras anarquistas, e tinha à cabeceira,
+como uma espécie de <em>Flos sanctorum</em> laico, um agiológio patético,
+ilustrado, com um Ravachol de auréola, hiper-cristo, e os mártires de Chicago
+nimbados.</p>
+
+<p>Recolhia de madrugada ou noite morta. Nem já tinha horas certas de comer.
+Alimentava-se de pastéis e álcool. Só ia a casa para insultar a mãe e p'ra
+dormir.<span class="pn">{173}</span></p>
+
+<p>Mal lhe dava dinheiro p'ra comer. A pobre criatura envelhecia anos cada dia.
+Por fim já nem falava: tinha por êle uma espécie de terror. Ouvia-o arengar
+coisas tremendas: a revindita social a dinamite, o «ódio ao burguês», trapos de
+frases feitas que êle moía e remoía muitas vezes, numa espécie de automatismo
+cerebral.</p>
+
+<p>&mdash;Porque, fique-o sabeado, Deus é o crime... o crime, sim senhor,
+digo-lho eu... Hei-de dar que falar. Verá, verá...</p>
+
+<p>&mdash;Não hei-de ver, meu filho, que eu não tardo... Deus há-de me levar. É
+grande esmola...</p>
+
+<p>E lá ia a chorar muito baixinho.</p>
+
+<p>Com as noites de álcool e vadiagem, numa exaltação agudíssima e imbecil, a
+loucura do Veiga emparedou-o.</p>
+
+<p>Não podia dormir o meu fantoche. E depois das palestras de café, em que os
+outros disparavam burramente trechos de artigos de fundo e anecdotas, vagueava
+monologando, em falla-só, repetindo na excitação da bebedeira as escórias que
+mais o impressionaram,<span class="pn">{174}</span> e o que era pior,
+sugestionando-se, desdobrando-se num Veiga que ameaçava, e noutro que o terror
+lambia todo.</p>
+
+<p>A Sociedade, a Religião, o Estado, eram os inimigos do meu títere.</p>
+
+<p>Ao recolher a casa, noite morta, tomava precauções, dava mais voltas, e era
+em suores de angústia, em calefrios, que dobrava, na névoa, cada esquina.</p>
+
+<p>Andavam a preparar-lhe uma cilada... Quàsi tinha terror do novo ser que se
+instalara nêle, inquietante, atulhado de fluído de revolta, como uma garrafa de
+Leyde subversiva.</p>
+
+<p>Certo, êle não fizera nada, era um pobre diabo inofensivo, mas vivia agora o
+<em>outro</em> dentro dêle, como uma mina de dinamite, subterrânea, que a Ordem
+poderia farejar... E entrou a ter medo da polícia.</p>
+
+<p>Ao recolher, logo que via um guarda, nem sequer dissimulava o seu terror,
+rodava nos calcanhares, voltava logo, de uma forma tão flagrante e tão
+grotesca, que se fazia notar ao mais boçal.<span class="pn">{175}</span></p>
+
+<p>Às vezes esperava o sol, porque de dia não <em>lhes</em> tinha medo, e era
+na luz lial da madrugada que se esgueirava p'ra casa, rente às portas.</p>
+
+<p>Uma noite em que bebera mais, desengonçou-se em tão cómicos tregeitos ante o
+primeiro guarda que avistou, que o santo homem resolveu deitar-lhe a luva, e
+regenerá-lo com parasitas no Aljube.</p>
+
+<p>Lá passou o resto da noite, sem falar, meio sonâmbulo de medo e de genebra,
+e a única impressão nítida que teve, foi a de ouvir, pouco antes de o soltarem,
+um fado soluçado como nunca, por um gatuno que dormira ao lado dêle:</p>
+
+<blockquote>
+ Já que eu te não dou o pão, <br>
+ dá-te nua a quem to der; <br>
+ mas guarda-me o coração, <br>
+ a alma que ninguêm quer.</blockquote>
+
+<p>Foi por êste tempo, que êle fez parte do grupo dramático <em>Luz e
+Esperança</em>. Gago e solene, estava a calhar p'ra conde e p'ra <em>pai
+nobre</em>.<span class="pn">{176}</span></p>
+
+<p>Teve triunfos colossais nos arredores. Declamava às noites pelas ruas,
+corrigia nos espelhos das vitrines a expressão dramática da tromba, e muita vez
+contrascenou com os candieiros, à hora espectral dos varredores... Fazia, é
+claro, teatro de combate, peças de intuitos sociais, dramas de tese, e como
+todos os colegas lá na <em>troupe</em>, considerava-se um
+<em>actor-apóstolo</em>. Recolhia cada vez mais tarde, trespassado de frio e de
+patético.</p>
+
+<p>Uma manhã, chegando ao patamar, procurava a chave pelos bolsos, quando viu
+um vulto enrodilhado contra a porta. Estacou, varado de terror. O seu primeiro
+movimento foi de fuga. Quem seria?!... A mãe não,&mdash;dormia àquela hora.
+Mas, olhando melhor, viu que era ela... Estremeceu. Meu Deus! Estaria morta?...
+Não, não: adormecera ali. P'ra quê?... Não podia perceber.</p>
+
+<p>&mdash;Deu-lhe talvez alguma coisa... Coitadinha!</p>
+
+<p>Sacudiu-a de manso, despertou-a. Pela<span class="pn">{177}</span> primeira
+vez há muito tempo, teve um gesto de filho, de piedade: ajudou-a com ternura a
+levantar-se. A pobre criatura erguia uma cara de espanto, de terror. Vê-lo
+outra vez meigo p'ra ela como dantes, inquietava-a mais que ouvir-lhe insultos.
+E ali no patamar, sem gestos, fitaram-se, como dois náufragos, segundos. Não se
+viam já há muitos dias...</p>
+
+<p>A expressão da cara dela ia mudando à medida que o fitava:&mdash;<em>era o
+seu filho!</em> Aquele rapaz cheio de rugas como um velho, com um tremor nas
+mãos, no corpo todo, aquele pobrezinho&mdash;<em>era o seu filho!...</em></p>
+
+<p>Sempre a olhá-lo, ergueu as mãos que tanto o abençoaram; a sua máscara
+desfeita iluminou-se, tanto a piedade ardia dentro dela; e com uma voz de
+misericórdia e de carícia, pôde ainda dizer-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Ó meu filhinho!...</p>
+
+<p>E caíu-lhe, tôda em lágrimas, no peito. Entraram abraçados pelo quarto. Lá
+estava a cama aberta, a dobra feita&mdash;como uma carícia dela a recebê-lo...
+Através das frinchas<span class="pn">{178}</span> das portadas, a manhã estava
+a sorrir no travesseiro...</p>
+
+<p>Então na alma dêste trapo humano o remorso dobrou como um mau sino,
+fazendo-lhe vêr quanto de bom era possível: a vida antiga com a mãe, a vida
+calma... Sentia bem que fôra torpe para ela; viu-a com a cova ao lado p'ra
+tragá-la: e numa lufada de desespero ajoelhou com lágrimas rolando quatro a
+quatro; gaguejou como uma creança a quem bateram:</p>
+
+<p>&mdash;Ó mãesinha... ó minha mãe... perdão</p>
+
+<p>Ficou assim alguns instantes; levantou-se. Ainda outra vez fitaram-se nos
+olhos&mdash;como se um dêles acabasse de chegar, com uma sacola de dor, de
+muito longe... E agora, entre lágrimas, sorriam. Êle pôz-se a dizer-lhe muito
+baixo: </p>
+
+<p>&mdash;Juro por Deus, minha mãe, juro por si, que ainda a hei-de fazer muito
+feliz... Hei-de pagar-lhe com amor, com muito amor, os meses de martírio que
+lhe dei. Verá, verá. Vou ser outra vez o seu filho, vou ser outro...<span
+class="pn">{179}</span></p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim, meu filho, tu és bom. Deus trouxe-te outra vez. Pedi-lho
+muito. Eram as más companhias... os malvados... Por pouco te matavam, meu
+filhinho. Matavam-nos a ambos, Manoel. A tua mãe já não podia mais. E tu... e
+tu... estás tão magrinho!...</p>
+
+<p>&mdash;Hoje começa vida nova. Não se aflija. Hei-de ser forte outra vez, vou
+trabalhar...</p>
+
+<p>Interrompeu-se de repente, como se uma ideia de terror viesse gelá-lo. A
+mãe, sem compreender, continuava:</p>
+
+<p>&mdash;Trabalhar... ora ahi está, é o que é preciso. Foi por isso que te
+esperei deitada à porta, com mêdo que entrasses e saísses sem te eu
+ver&mdash;como nos últimos dias sucedera... E eu, pobre de mim, que tinha medo,
+não sabia como to havia de dizer!... E afinal tu mesmo o reconheces. Louvado
+Deus! Tudo é pelo melhor. Ora vê tu&mdash;mas que cabeça a minha!&mdash;pus-me
+p'raqui a falar e nem to disse... Esta tarde, o senhor Sousa esteve cá...</p>
+
+<p>&mdash;Quem?<span class="pn">{180}</span></p>
+
+<p>&mdash;O snr. Sousa escrivão... êle... o teu chefe.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! disse o Veiga e pôs-se cor de cal.</p>
+
+<p>A mãe, sem reparar, dizia sempre:</p>
+
+<p>&mdash;Devo-lhe muito, é muito nosso amigo. Que outro no seu lugar&mdash;tu
+bem o sabes&mdash;tinha-te posto fora do emprêgo. Mas êle não. Só quer que tu
+te emendes. Diz que te espera hoje sem falta, às dez em ponto. Verás, Manoel,
+tudo se arranja bem...</p>
+
+<p>Êle olhava-a com os beiços a tremer:</p>
+
+<p>&mdash;Estás contente com isto? An! Manoel?...</p>
+
+<p>&mdash;Não, minha mãe, não volto ao tribunal. Não posso mais... não posso
+mais lá ir...</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa, meu filho, tu que dizes?!...</p>
+
+<p>&mdash;Não, minha mãe, não posso mais lá ir...</p>
+
+<p>Por mais que perguntasse, que insistisse, sempre a mesma resposta em voz
+sumida, como a última decisão de um agonisante:</p>
+
+<p>&mdash;Não posso... não posso... É-me impossível</p>
+
+<p>E de repente, chegando-se p'ra ela como<span class="pn">{181}</span> um
+petiz com terror, pôs-se a dizer baixinho:</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe se não é uma cilada... O Sousa quere-me lá p'ra me
+prender... Sabe que sou um anarquista... quere vingar-se...</p>
+
+<p>Continuou neste tom ainda algum tempo. Ouvindo-o sem poder interrompê-lo,
+com o coração a desfazer-lhe o peito, a mãe era forçada a perceber que aquele
+desgraçado que ali tinha, guardado nos seus braços outra vez, precisava mais de
+si que em pequenino, porque Deus lhe tirara o entendimento.</p>
+
+<p>Quando êle lhe contava as suas noites, como na rua a polícia o perseguia, o
+que havia na nèvoa, a certas horas,&mdash;interrompeu-se bruscamente e ainda
+mais baixo, transido de pavor, colado a ela, pediu-lhe que fôsse ver ao
+patamar... tinha ouvido passos... era alguêm... Para o tranquilizar, ela fechou
+a porta à chave, com os olhos rasos, a conter-se, e pôs-se então a ver se o
+adormecia.<span class="pn">{182}</span></p>
+
+<p>&mdash;O que precisas, Manoel, é de dormir, tens mesmo os teus olhos a
+fechar-se...</p>
+
+<p>Êle não queria dormir. Era impossível. Podia vir o Sousa... alguêm
+prendê-lo... Só se ela ficasse ao lado, de vigia.</p>
+
+<p>&mdash;Eu fico, eu fico ao pé de ti. Sossega. Despiu-o então como em
+pequeno. Tirava-lhe a roupa devagar, ia-o beijando com meiguice, em despedida:
+e deitou-o por fim sem resistência, como se fôsse uma criança sonolenta.
+Aconchegou-lhe o cobertor bem contra os hombros&mdash;tão magrinho, Senhor, um
+esqueleto!&mdash;e à beira da cama, de joelhos, sentindo-o adormecer, ia
+dizendo: </p>
+
+<p>&mdash;Dorme, meu filho. Dorme... dorme... dorme...</p>
+
+<p>Quando o sentiu adormecido, ergueu-se.</p>
+
+<p>&mdash;E agora?!... perguntou no quarto escuro. O filho doido... a morte em
+tôrno dela... e ninguêm, ninguêm que lhe valesse...</p>
+
+<p>Lá fora a manhã subia, com pregões. Mas neste quarto, para a pobre velha, o
+silêncio era doloroso como um uivo.<span class="pn">{183}</span></p>
+
+<p>Meses depois, encontrei-o uma manhã em Nevogilde, sob um grande castanheiro
+a desfolhar-se.</p>
+
+<p>Intrigou-me ver o Veiga em pleno campo, saturando-se de outono e solidão.
+Que podia fazer ali aquele idiota?</p>
+
+<p>Mas quando me aproximei e o vi de perto, espantou-me a mudança que fizera.
+Era outro: era um pedinte louco, de olhos meigos...</p>
+
+<p>Parei a olhá-lo. Êle cumprimentou-me com maneiras untuosas de prelado... E
+ficou a sorrir, chapéu na mão, como à espera de que eu fôsse falar-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Linda manhã, senhor Veiga, não é verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Diz Vossa Excelência muito bem... Está linda.</p>
+
+<p>&mdash;Então mora por aqui&mdash;por Nevogilde?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor... Eu não tenho casa. Gosto disto... aqui. Ha campo e
+mar... </p>
+
+<p>&mdash;Não tem casa!... Desculpe esta pergunta: e onde dorme o
+senhor?...<span class="pn">{184}</span></p>
+
+<p>Esteve um pedaço a fitar-me, olhos em olhos. Depois&mdash;em confidência
+misteriosa:</p>
+
+<p>&mdash;A Vossa Excelência sempre o digo. Eu nunca durmo...</p>
+
+<p>&mdash;An?!...</p>
+
+<p>&mdash;Eu nunca durmo. Não tenho tempo p'ra dormir. Quero viver! viver!...
+Não posso perder nem uma manhã nem uma noite. A gente sabe lá quando tem de
+deixar isto... Sabe-o Deus! Eu já perdi muito. Tenho remorsos. Quando penso
+nisso... tenho remorsos... Quando eu era empregado, passava dias inteiros sem
+olhar p'rò céu. Só via gente e ruas... E as noites... tambêm as perdia. Ia
+p'ròs teatros, p'ròs cafés. Foi só depois&mdash;quando morreu a minha
+mãe&mdash;que eu compreendi que ia mal... e resolvi viver. Passei dias de
+desespero, a pensar que não gostei dela como devia... que a não acarinhei...
+que a deixei ficar sozinha muitas vezes... Ia dando comigo em doido. Depois
+lembrei-me&mdash;que o que me sucedeu com a minha mãe me podia suceder com a
+vida toda.<span class="pn">{185}</span> E mudei de rumo... Deixei o emprêgo.
+Fiquei assim... pus-me a viver. Agora, se adormeço num banco uma hora ou duas,
+zango-me comigo...</p>
+
+<p>Por muito tempo, em palavras de gago, bipartidas, sussurou as razões da sua
+vida, a sua exegese moral de vagabundo, a sua felicidade e... os seus recursos.
+</p>
+
+<p>Tinha amigos, pessoas que o conheceram noutro tempo, <em>antes de êle saber
+o que era a vida</em>... E quando precisava de dinheiro (êle afinal de pouco
+precisava: nutria-se de frutos e de pão) era muito raro recusarem-lho: só se de
+todo em todo não podiam.</p>
+
+<p>Notou que eu lhe fixava a andaina rôta e sorriu com meiguice desdenhosa:</p>
+
+<p>&mdash;Ando assim... todo rôto. Que me importa! E podia andar bem... isso
+podia. Muitas pessoas me teem dado roupa. Até fatos inteiros... e em bom uso.
+Pode V. Ex.ª acreditar. Mas às vezes, de noite, pelas ruas, vêem ter comigo às
+escondidas da polícia, desgraçados com fome... todos<span
+class="pn">{186}</span> rotos... E por boas maneiras ou à fôrça, tenho de
+trocar a minha roupa pela dêles...</p>
+
+<p>&mdash;Imaginam, coitados, que me roubam... Que pode isso fazer-me!... Que
+me importa!...</p>
+
+<p>Teve uma expressão de piedade em tôda a máscara, e gaguejou com outra voz,
+comovidíssimo:</p>
+
+<p>&mdash;Tenho tanta pena dêles... tanta... tanta... de todos os que foram
+como eu.... No fundo... é mais triste que a fome e que a miséria... ver como
+andam na vida <em>sem viver</em>... V. Ex.ª perdoe o que eu lhe digo...</p>
+
+<p>Assim, nessa manhã de outono, eu conheci um outro Veiga&mdash;o que me
+interessa. </p>
+
+<p>Perguntei-lhe, almofadando a oferta, se precisava algum dinheiro. Recusou.
+Tinha já almoçado há algumas horas... Mas como eu insistia, tirou do bolso uma
+mãocheia de migalhas, e mostrou-mas como um último argumento:</p>
+
+<p>&mdash;Ficou-me ainda isto... pr'òs pardais...</p>
+
+<p>Depois, com um gesto lento, precioso,<span class="pn">{187}</span> em que as
+taras do amador dramático automaticamente se traíam, tirou do outro bolso
+muitas pétalas, e ofereceu-me algumas:</p>
+
+<p>&mdash;Faz... favor. São de uma roseira que o vento desfolhou...</p>
+
+<p>Ficou curvado a aspirá-las uns segundos:</p>
+
+<p>&mdash;Certas manhãs de outono... os perfumes dão vontade de chorar...</p>
+
+<p>Datam daqui as nossas relações. Cultivo nele com estima, com ternura, o
+único panteísta que eu conheço. E tal qual o vêem pelas ruas, êste pobre
+mendigo alienado anda «bêbedo de Deus», como Spinosa.</p>
+
+<p>Encontrei-o ontem à noite: conversámos. E as poucas palavras que me disse,
+cravaram garra em mim: não as esqueço. Êle anda agora esquelético, a cair: o
+seu boemianismo panteísta tomou uma forma aguda, convulsiva: é uma espécie de
+delírio ambulatório.</p>
+
+<p>Como eu aludia ao seu cansaço, pedindo-lhe que não andasse dia e noite nessa
+lufa em que agora o via sempre, êle, que era<span class="pn">{188}</span> mais
+meigo de que um cão, deitou-me bruscamente as mãos aos braços, e com uma
+indizível voz de raiva e súplica:</p>
+
+<p>&mdash;Por o amor de Deus... não diga isso! Olhe que eu não duro muito. Eu
+sei... eu sei... E tenho fome... fome de adorar... Eu quero como a um filho, à
+terra tôda...</p>
+
+<p>E falou-me das árvores, do mar.</p>
+
+<p>Disse-me que queria acompanhar a Noite, sem perder um segundo, um só
+segundo, caminhando com ela, caminhando;&mdash;e logo, logo ao despedir-se
+dela, abrir bem os seus olhos, bem abertos, ao primeiro araiar da madrugada...
+E seguir depois o sol até à morte, ele e a sua sombra que era triste&mdash;como
+se fôsse já uma saudade...</p>
+
+<p>Era num jardim público, deserto. Caíam dos plátanos fôlhas sêcas... Êle
+baixou-se, apanhou algumas com cuidado, como se fossem borboletas
+estonteadas...</p>
+
+<p>&mdash;Veja V. Ex.ª veja... Como estão encarquilhadas... tão sequinhas! A
+minha hora chegou como a hora delas...<span class="pn">{189}</span></p>
+
+<p>E como o vento as fazia redemoinhar, estremeceu e disse bruscamente:</p>
+
+<p>&mdash;Passe Vossa Excelêcia muito bem... Queira perdoar... Não posso perder
+tempo...</p>
+
+<p>E o amante da terra o meu pedinte; não tem tempo p'rá amar, por isso sofre;
+sente que ela lhe foge a cada instante, e não quer adormecer p'rà sentir
+sempre, contra o seu corpo de fantoche mártir, com sobrecasacas doutros,
+fraques doutros, por cujos rasgões entra o sol ao luzir dalva, até que a noite
+por sua vez se engolfe neles, correndo-lhe a carne de miséria, sensitiva, e
+amando-o sem nojo horas e horas...</p>
+
+<p>A Morte, quando vier, vai comover-se, ouvindo-lhe na gaguez frémitos de
+asas, vendo-lhe abrir os braços de esqueleto como p'ra agasalhar a vida tôda, e
+oferecer-lhe nas mãos roxas e ósseas&mdash;pétalas murchas e folhagens
+sêcas...</p>
+
+<p>Não pode durar muito: é impossível.</p>
+
+<p>Mas nas pedras da rua onde morrer, terá em torno dêle a despedir-se, o Mar,
+as Árvores,<span class="pn">{190}</span> a Aurora, tôda a vida da
+terra&mdash;sua amante...</p>
+
+<p>Apercebia com uma acuidade visionária a orquestração da noite, dita em
+surdina nas janelas, nas folhagens, e decompunha essa penumbra de ruídos,
+complexíssima, a que chamamos vulgarmente as «horas mortas».</p>
+
+<p>Quási madrugada, em Dezembro, recolhia eu estugando o passo, porque fazia
+uma névoa frigidíssima, quando o cruzei numa ruela íngreme. Levei a mão ao
+chapéu e fui andando, mas instantes depois êle atracou-me, a tiritar de frio,
+soleníssimo, o côco erguido e o busto em reverência. Era ainda polidez,
+diplomacia:</p>
+
+<p>&mdash;Desculpe V. Ex.ª Teve agora a bondade de saudar-me e eu não pude
+corresponder... Só depois me voltei e o conheci. É que eu ia distraído, a
+trautear...</p>
+
+<p>&mdash;Nada mais natural, senhor Veiga, nada mais natural...</p>
+
+<p>E p'rò não despedir com brusqueria, fiz-lhe ainda esta pergunta
+estúpida:<span class="pn">{191}</span></p>
+
+<p>&mdash;E que trauteava o senhor com êste frio?</p>
+
+<p>Fixou-me. Depois com um gesto curvo, muito vago:</p>
+
+<p>&mdash;Isto... o silêncio... a névoa...</p>
+
+<p>Sem frauta rústica, pobre fauno de quico e butes rotos, o Veiga não imitava,
+como colegas seus de longes tempos, quando a Terra era ainda uma criança, o
+rumor claro das levadas rindo espuma, mas apenas o esgarçar dolorosíssimo de
+uma névoa mendiga de dezembro, que o vento ia rasgando aos empuxões, nos
+beirais dos telhados, nas esquinas, esquecida talvez de que foi mar ou o chôro
+das nuvens vagabundas...</p>
+
+<p>E lá foi sob a grisalha a desfazer-se, ouvindo música inédita p'ra todos,
+êsse mísero fauno arripiado que eu vi uma só vez com uma ninfa...</p>
+
+<p>Foi à beira do rio, em Massarellos. Como era tarde e não havia eléctrico, eu
+ia a pé p'rà Foz, na noite calma.</p>
+
+<p>No cais, sentado em toros de pinheiro,&mdash;madeira para embarque,
+certamente&mdash;havia<span class="pn">{192}</span> um par em idílio, muito
+unido, onde fui descobrir com grande espanto, a silhueta cómica do Veiga.</p>
+
+<p>Por trás, junto a uma faia sonolenta, detive-me um instante a escutar. Era o
+Veiga que falava à creatura, na sua voz gaguejada e um pouco emfática, em que
+eu sentia o ex-amador dramático sob uma névoa de lágrimas molhando-a:</p>
+
+<p>&mdash;Não se aflija. Eu tenho relações. Ha-de tornar a entrar p'rà fábrica,
+descanse. De que serve chorar?... Torna a entrar, torna a entrar, digo-lho eu.
+</p>
+
+<p>E uma voz de timbre fino, adolescente, respondia num chôro sem esperança:
+</p>
+
+<p>&mdash;Não me querem lá mais. Que hei-de eu fazer?...</p>
+
+<p>&mdash;Qual não querem! Olha a grande coisa! Mas porque foi que andaram à
+pancada?</p>
+
+<p>A outra voz choramingava, aos haustos:</p>
+
+<p>&mdash;Eu andava na descarga do carvão... Nunca chegávamos à barca ao mesmo
+tempo. Quando eu trazia o cêsto carregado,<span class="pn">{193}</span> voltava
+ela sempre de o largar... e dava-me encontrões e más palavras. Eu calava-me,
+mas já não podia mais. Tudo isto, já se vê, por causa dum rapaz que é da
+Afurada e anda a passar o povo p'rá outra banda. Hoje deu-me um encontrão com
+tanta força, que me voltou o cesto na cabeça e chamou-me... ainda por cima. Foi
+então que me atirei a ela como cega&mdash;que até lhe cuspi de raiva no
+cabelo... Depois o inspector veio e poz-me fora. E agora... agora...</p>
+
+<p>Desatou a chorar de encontro ao Veiga. Corria um leste morno de carícia, e
+êle passando-lhe as mãos magras na cabeça, gaguejava consolações, mui comovido:
+</p>
+
+<p>&mdash;Não chore, não chore, torna a entrar. E há-de voltar p'ra casa ainda
+esta noite... Eu mesmo vou acompanhá-la... Não tenho nada que fazer. Não me faz
+monta... Eu falo à sua mãe, conto-lhe tudo. Já ela lhe não bate... então... não
+vê? Depois volta p'rà fábrica, verá. Eu tenho relações, trato-lhe disso. Amanhã
+pela manhã...<span class="pn">{194}</span></p>
+
+<p>Não ouvi mais. Nem um sôpro de desejo nessa arenga: apenas o amor por um ser
+vivo, a ânsia de o erguer que êle teria, vendo um caule partido num caminho ou
+uma rosa ao abandono, a desfolhar-se.</p>
+
+<p>É que os nervos do Veiga, como os de certos artistas que teem génio,
+vibravam de amor egual por tôda a Vida, e sentiam nas rosas e na névoa, nas
+crianças e nos pobres e nas almas, a mesma ância inconsciente de Unidade, o
+mesmo erguer de mãos para a Beleza.</p>
+
+<p>Vi-o depois na Cordoaria uma manhã de inverno, sob o tufo scismático dos
+cedros, grisalhos de névoa e de geada.</p>
+
+<p>Debatia-se com grandes gestos aflitos, entre um grupo de garotos que
+gritavam. Trazia um frak imenso, parecendo ter sido acastanhado, côco preto que
+a grenha intonsa levantava, e na cara chorinca e acriançada, davam-lhe os olhos
+rasos, mais que nunca, um ar de melodrama pífio, um cómico angustioso de
+careta.<span class="pn">{195}</span></p>
+
+<p>Não me sentiu aproximar. Ouvi-lhe a arenga gaguejada: compreendi.</p>
+
+<p>Um dos garotos apanhara, fisgando-o à pedra, um pobre pássaro que outro
+tinha nas mãos agonizante. O Veiga que passeava, interviera, e entre insultos e
+risadas, reclamava com palavras patéticas, o pássaro&mdash;<em>para que o não
+matassem.</em></p>
+
+<p>&mdash;Se o quer, dê-me um vintém por êle, dizia brusco um dos pequenos.</p>
+
+<p>&mdash;Quem?! Olha o peneira! gritava outro às gargalhadas.</p>
+
+<p>Dei o vintém, mandei que lho entregassem.</p>
+
+<p>Foi ao ouvir-me a voz que se voltou. Riam-lhe as lágrimas nos olhos.
+Tirou-me o côco, curvado em reverência. Depois, como o garoto lhe entregava o
+passarito, recebeu-o com carícia no côncavo das mãos arroxeadas, e hirto,
+solene, sacerdotal, veio entregar-mo, erguendo muito os braços, como se levasse
+uma píxide sacrosanta.</p>
+
+<p>&mdash;É... é de Vossa Excelência... Muito... muito obrigado...<span
+class="pn">{196}</span></p>
+
+<p>E sem que eu tivesse tempo p'ra fugir-lhe, beijou-me as mãos e deu-mo
+ensanguentado.</p>
+
+<p>Encontrei-o muitas vezes de passagem: de manhã, de noite, a tôda a hora.</p>
+
+<p>Às vezes, esquecia-se a olhar muros de quinta, quando caem braçadas de
+glicínias, e era dêstes p'ra quem o musgo núma pedra é um afago de veludo que
+comove.</p>
+
+<p>Uma noite, vi-o sair com um embrulho de um bazar. Vinha radiante. Viu-me,
+flectiu em parábola numa vénia, e foi andando.</p>
+
+<p>Cruzei-o horas depois ao vir do teatro. Seguiu-me. Vi que queria falar-me e
+esperei-o numa esquina, a acender um cigarro. Abordou-me com o cerimonial de
+mandarim que êle usa sempre. Supus que ia pedir dinheiro. Mas não: era outra
+coisa.</p>
+
+<p>&mdash;V. Ex.ª desculpe... Está frio e eu venho demorá-lo. Vem decerto do S.
+João... é só um instante. É que eu devo uma satisfação a V. Ex.ª. Viu-me hoje
+sair do <em>Bazar dos tres vintens</em>, não é verdade? Decerto<span
+class="pn">{197}</span> imaginou que eu fui lá comprar p'ra mim alguma coisa...
+Não fui: quero contar-lhe...</p>
+
+<p>&mdash;Ó senhor Veiga, que idea! Nem pensei nisso.</p>
+
+<p>&mdash;V. Ex.ª consente? Eu vou dizer. Fui lá comprar uma boneca p'rà
+Mariinha... Perdão. V. Ex.ª não sabe quem ela é. É a filhita duma pobre que eu
+conheço... Tem cinco anos... É um amor de pequenina. Sou muito amigo dela. Até
+me chama padrinho... A mãe ensinou-lhe. Já V. Ex.ª vê... Era p'ra ela...</p>
+
+<p>&mdash;Não era preciso dizer, eu nem notei...</p>
+
+<p>&mdash;Era o meu dever. Pela consideração que V. Ex.ª me merece. Queira V.
+Ex.ª perdoar. Não o importuno mais. Está fria... está muito fria a noite!</p>
+
+<p>Ainda uma reverência e lá partiu.</p>
+
+<p>Estranho Veiga! Como se desentranhou êste ser de hoje, do grotesco banal que
+eu conheci?</p>
+
+<p>Como dêsse reles títere, amoroso sovado, trapo humano, ex-amador dramático e
+ex-poetrasto,<span class="pn">{198}</span> saiu o panteísta vagabundo, o louco
+duma misericórdia tão sentida, que eu vi salvar com os olhos rasos um pobre
+passarito moribundo?...</p>
+
+<p>A pobre velha, morrendo, <em>iniciou-o</em>. Nasceu da sua dor segunda
+vez...</p>
+
+<p>Uma manhã, em Carreiros, junto à praia, depois das cortesias do costume,
+pediu-me uns cobres para ir almoçar. E quando eu ia já a despedir-me, reteve-me
+com um gesto, e gaguejou esta oferta, muito lento:</p>
+
+<p>&mdash;Peço licença... p'ra uma pequena lembrança a V. Ex.ª Mas antes
+prometa-me que a aceita... É uma insignificância, mas cuido que V. Ex.ª a
+estimará...</p>
+
+<p>Prometi.</p>
+
+<p>Enfiou solene a mão ossuda no bolso da sobrecasaca coçadíssima, que vestia
+sem camisa, contra a pele, e tirou com infinitas precauções, um asterídeo ainda
+húmido, perfeito.</p>
+
+<p>&mdash;Como sei que V. Ex.ª gosta do mar, pensei em dar-lha. É uma estrela
+do mar... Perdoe o atrevimento...<span class="pn">{199}</span></p>
+
+<p>E partiu quando eu lha agradeci, com os olhos loucos rasos de alegria.</p>
+
+<p>Nunca, porém, me feriu tão fundamente o seu amor de louco à Natureza, como
+nessa madrugada em que eu o vi numa rua afastada de arrabalde.</p>
+
+<p>Fazia já um calor asfixiante. Estava em cabelo junto a um muro de quintal,
+revestido de rosas de toucar, madre-silvas em flôr e clematites.</p>
+
+<p>Todo em gestos litúrgicos, mui lentos, punha rosas a abrir na grenha imunda,
+perfumava as mãos com madre-silvas, e passava-as nas fontes, extasiado.</p>
+
+<p>De quando em quando descaía os braços, descansava assim alguns instantes, e
+na cara sugada, pele e osso, os olhos puros riam, muito calmos, numa beatitude
+transcendente.</p>
+
+<p>Havia já um grupo em torno dêle, de leiteiras que vinham p'rà cidade, de
+moços de lavoura que estacavam. Olhavam-no a rir perdidamente.</p>
+
+<p>Eu pensava em Ophélia, no Rei Lear, nas<span class="pn">{200}</span>
+loucuras patéticas de Shakespeare, ao ver êsse alienado vagabundo, êsse
+estranho pedinte de olhos meigos, que trazia só pétalas nos bolsos, e em plena
+luz polínica de estio, oficiava a Pan, de butes rotos, aspirando perfumes
+voluptuado...<span class="pn">{201}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00070">WORDS...</a></h1>
+
+<p><span class="pn">{202}</span></p>
+
+<p><span class="pn">{203}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2><a name="SECTION00071">Words...</a></h2>
+
+<p style="text-align: center;">(<small>DUM CADERNO DE NOTAS DE</small> C. F.)<a
+name="tex2html2" href="#foot441"><sup>[2]</sup></a></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Ao morrer, cada um de nós deve dizer à Morte: «Deixe-me estar ainda
+um bocadinho. Esquecia-me por completo de viver...»</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Xerxes chicoteou o Helesponto. Quando nós nos queixamos do Destino,
+somos tão pueris como êsse rei.<span class="pn">{204}</span></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A dôr deve ser como um amante&mdash;que nos faz sofrer e em quem
+batemos.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Nietzsche definiu a glória «a falta de pudor na admiração». No meu
+país, é a falta de pudor na incompreensão.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;No silêncio, nascem em nós sentidos: os sentidos p'rà vida do
+mistério... </p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Obsessão a brocar um moribundo:</p>
+
+<p>«Nunca olhei, <em>sem outra idéa</em>, para o sol...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Só a verdade é inverosimil.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A amizade é uma hipótese divina que só os grosseiros cuidam ter
+vivido.<span class="pn">{205}</span></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Avaliamos quási sempre os outros pelas opiniões que teem de nós. É
+por isso que conhecemos menos&mdash;aqueles que mais julgam conhecer-nos.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Os artistas procuram no amor, além da satisfação do instincto, a
+glória,&mdash;na admiração de mãos postas da mulher. Compensa-os de não terem
+público, e só tarde percebem&mdash;que quanto mais beijados... mais
+inéditos.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;É preciso ser feliz em família p'ra compreender a volúpia de estar
+só.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Porque é que os ciprestes entristecem?... Porque, p'ra nós, são um
+soluço<span class="pn">{206}</span> alongado e verde-escuro. É bem possível que
+êles sejam muito alegres... É por motivos dêstes que muitas coisas nos parecem
+tristes.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Alguns dizem: publicar um livro é prostituir-se. Pedantes! O mar
+recebe nêle os vossos corpos...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Quem mais injustamente julga um crime? Primeiro o criminoso, que
+estava <em>fora de si</em>, que já não sabe; depois os julgadores
+oficiais&mdash;que estão <em>fóra de si</em> profissionalmente.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;<em>Aut César aut nihil.</em> Podes ser um mendigo e ter na tua vida
+interior êste brazão.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Sou por tal fórma talhado para amar&mdash;que o meu amor cresce com o
+meu desprêso.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A maior parte da gente é <em>honesta</em>&mdash;em virtude da lei do
+menor esfôrço.<span class="pn">{207}</span></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Há um instante na vida em que cada um de nós se julga um deus: com
+uma doutrina a revelar, um calvário nos longes e um profeta...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Quando depois de lamentar alguêm o vemos salvo, sentimo-nos
+<em>roubados</em>.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A arte é o refúgio dos que não podem viver integralmente. E muitas
+vezes tambêm, uma vingança.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A mentira e o dever são irmãos gémeos.</p>
+
+<p>Quando naturalmente, por instinto, nós fugimos ao código e à moral, ela
+apareceu-nos, máscara doirada, para esconder a responsabilidade. Mas há outra,
+a mentira criadora, que é a asa do Sonho e da Beleza. Os filósofos
+chamam-lhe:&mdash;<em>Verdade</em>...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Umas mãos, um gesto de mulher, um perfume de flôr, ou um velho
+estofo, consolam bem melhor que Marco Aurélio...<span
+class="pn">{208}</span></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;As mulheres não falam só ao nosso instinto. Falam mais: sem se
+ouvirem, sem saberem... São quási sempre vazias ou banais. Mas para alêm da
+frivolidade e do desejo, são verdadeiras fontes de inconsciente. Numas
+pálpebras descidas, num olhar, no misterioso de milhares de <em>nadas</em>, há
+sonhos e sonhos revelados, a expressão do <em>irredutível a palavras</em>.</p>
+
+<p>Elas são na sua vida interior, como crianças a assistir a uma tragédia...
+Soube lá nunca a Mona Lisa que tinha tudo o que Vinci copiou!...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Um perfume na sombra tem uma voz de aparição.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A renúncia é uma doença do desejo. Vem com a velhice quási sempre.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A humildade corresponde no homem ao mimetismo dos insectos.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Certas preferências&mdash;que nem o raciocínio nem a estesia
+explicam&mdash;despertam<span class="pn">{209}</span> em nós sensações de vidas
+anteriores: um certo perfume, uma paisagem p'ra outros sem encanto, certa feia,
+uns versos medíocres, um acorde banal...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Recusei ontem uma apresentação a um «homem de princípios». P'ra quê?
+Um «homem de princípios» é um homem conhecido: está impresso.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;<em>Música do mar</em>&mdash;Aquele violinista meu amigo foi viver,
+por conselho meu, p'rà beira mar. Ia com uma grande febre de compor. Levava um
+quarteto inacabado, um esbôço de sinfonia, outros projectos... Encontrei-o na
+praia ontem à noite.&mdash;Então... êsse quarteto? a sinfonia?...&mdash;Nem
+quarteto... nem sinfonia... nem violino... Eu já não faço música. Pus-me a
+ouvir a do mar bem simplesmente.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A moral é um lastro. Deita-se fora p'ra subir...<span
+class="pn">{210}</span></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Todos dizem adeus com o mesmo gesto. E êsse gesto é o das asas...
+Subir é ficar só.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Quando duas criaturas se amam, não pensam um instante em
+compreender-se. Uma vaga de inconsciente submergiu-as. Só mais tarde, morto o
+desejo, se reconhecem com espanto, dois estranhos.</p>
+
+<p>Dizem com desespero: «Um de nós mudou. Já não somos os mesmos».</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;De uma maneira geral, temos mais pontos de contacto com os nossos
+inimigos do que com os nossos amigos.</p>
+
+<p>Amar uma mulher, querer conseguir o mesmo fim, são causas de ódio.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;O nosso inimigo é o nosso cúmplice.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Os programas de governo estão para a política, como os dogmas para as
+religiões. Nem os primeiros interessam os partidários, nem os segundos os
+crentes.<span class="pn">{211}</span></p>
+
+<p>&mdash;A liturgia obliterou-se, é de uma teatralidade já sem símbolo.
+Corresponde à retórica&mdash;ou arte de hipnotizar imbecis com gestos e
+palavras em que se sacrifica à idea ausente.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Não há esculturas como as nuvens.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Os homens que construem um sistema, fazem a própria jaula em que se
+fecham.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A grande indústria humana&mdash;a específica&mdash;é a fabricação de
+deuses.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;P'ra viver puro é preciso durar como as espumas: um instante.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A tragédia de D. João está no supremo poder de seduzir, de que êle
+próprio foi a maior vítima. Em nenhum amor matou a sêde.</p>
+
+<p>De mulher em mulher, como outros de idea em idea, êle era, essencialmente,
+um homem <em>bêbedo de Deus</em>, como Spinosa.<span class="pn">{212}</span>
+</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Um perfume é uma confidência: é tambêm o olhar das flôres, e, segundo
+Hello, o seu estilo.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Viajar é a arte de saborear decepções.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A magia da viagem, tão grande como a do amor, começa no instante do
+regresso. A do amor chama-se&mdash;saúdade, a da viagem&mdash;evocação.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Se na morte tivéssemos consciência&mdash;gozaríamos emfim a viagem da
+vida.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Um artista numa terra nova tem a sensação de nascer segunda vez.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;As escólas literárias são verdadeiras cooperativas de consumo. É só
+matricular-se... e cozinhar.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Os génios são inclassificáveis: são a promessa falhada de outra
+espécie. </p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A garra do génio é a sinceridade.&mdash;Falar<span
+class="pn">{213}</span> <em>por la bocca de su herida</em> é um acto
+heróico.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Só são coerentes os factícios.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Os que se conhecem, são vazios.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A palavra de honra é uma gazua. Força a credulidade dos ingénuos
+quando não temos força moral p'ròs convencer.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A música é o médium do mistério.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A eternidade é a sensação de <em>alguns</em> instantes...</p>
+
+<p>Às vezes é num grande perigo que a sentimos: certos segundos lúcidos da
+agonia em que se faz o supremo exame de consciência; antes duma operação grave,
+quando cada gesto tem um fervor de despedida; nos últimos minutos dum condenado
+à morte.</p>
+
+<p>Outras vezes, é num grande gôzo que a entrevemos: no espasmo da cópula; na
+aura do ataque epiléptico (que Dostoïevski diviniza); nos primeiros momentos de
+admiração<span class="pn">{214}</span> por uma obra-prima; na vertigem da
+criação sub-consciente; e finalmente os místicos, na absorção em Deus, ou,
+segundo a expressão de Dante, quando «partem do século».</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Uma vez, tomando nas mãos uma cabeça de mulher, disse-lhe baixo, com
+a vontade perdida nos seus olhos: «Podes fazer de mim o que quiseres».</p>
+
+<p>É isto que eu agora digo à Vida.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;<em>Testamento dum pobre</em>&mdash;Se eu morrer na primavera,
+envolvam em feno aromático meu cadaver nu, cubram-me de lilases e de rosas,
+deixem-me decompor assim&mdash;com tantos vermes como borboletas!</p>
+
+<p>Enterrem nos meus olhos de morto já gomosos, pecíolos de rosas de veludo.
+Não me embalsamem. Que eu seja uma podridão bem petalada!</p>
+
+<p>Ponham-me sob uma árvore florida, p'ra que um vento de cópula passando,
+sacuda o pólen sôbre o meu cabelo! Depois no<span class="pn">{215}</span> roxo
+outono, morto, o mais feliz dos mortos, cada corvo que vier
+grasnando&mdash;há-de partir de gula o bico curvo contra o meu crânio em que há
+pétalas murchas... </p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;O sacrifício é a selecção natural invertida: os fortes servem de
+degrau aos fracos.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A incoerência instintiva, absolutamente sincera, tem uma lógica
+interior&mdash;a própria lógica da vida&mdash;que os psicólogos profissionais
+nunca auscultaram. Os personagens de Dostoïevski, por exemplo, ganham tanto
+mais em unidade e em verdade, quanto mais, p'ra olhos vulgares, se contradizem.
+Bourget é o psicólogo da coerência...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;O grito de Oswald Alving no último acto dos «Espectros»: «Mãe, dá-me
+o sol», é o grito que a morte gela em muitas bocas.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Portugal é um navio naufragado em que a tripulação espera há
+séculos...<span class="pn">{216}</span></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A arquitectura que eu mais amo é a dos navios.</p>
+
+<p>Os mastros aspiram como agulhas góticas, mas emquanto a catedral se queda em
+êxtase, as velas seguem entre adágios de asas...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Adoro o mar. Ando a ensinar ao meu desejo um ritmo de ondas, e à
+minha dor a arquear de desespero como as vagas&mdash;mas a sorrir por fim em pó
+de espumas. </p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A. é um místico (medievalite e hidrofobia), B. vê tudo Wateau (é um
+requintado...), C. é um grego do tempo de Pericles; eu, tal qual tu me vês, sou
+um romano...</p>
+
+<p>Quantos homens da Renascença tu conheces!...</p>
+
+<p>O visconde L., por exemplo, é um Medícis...</p>
+
+<p>Como quási ninguêm está nesta época&mdash;é bem de ver&mdash;quási ninguêm
+existe. Os que tu vês&mdash;são só sobreviventes... almas fósseis...<span
+class="pn">{217}</span></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Uma estátua mutilada humilha menos a nossa imperfeição: está mais
+perto de nós, comove mais.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Conheci um poeta que escreveu a «Imitação do Mar», paralelo á
+«Imitação de Cristo».</p>
+
+<p>Durante semanas viveu num quarto&mdash;só&mdash;uma vida de vaga. Encrespou,
+arqueou num grande esfôrço, foi um côncavo glauco cheio de asas, e explodiu a
+rir&mdash;todo espumante...</p>
+
+<p>Só eu sei que se matou por não poder reviver aquela vida.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Um livro tem p'rò autor uma outra voz: a do seu sangue a correr pelas
+palavras.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;O ritmo é o anestésico mais forte.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;O sarcasmo é um soluço que despreza.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Alguns escritores publicam os retratos nos seus livros. Ignoram,
+decerto, que a <em>vera efigie</em> de um artista é o estilo.<span
+class="pn">{218}</span></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Há no fundo do panfletário mais violento, um pobre diabo ingénuo,
+fascinado, que aspira a <em>conselheiro</em>&mdash;sem saber...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Receita p'ra fazer sucesso: condensar a banalidade, dar-lhe êmfase e
+imprimi-la com maiúsculas...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Alguns condenam as corridas de toiros e proclamam como uma
+obrigação&mdash;o sacrifício...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A procurar o sentido da vida, esquece-se muita gente de viver.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Conheço muita gente que só olha a natureza... emoldurada.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;O processo, em arte, é o <em>maquillage</em> do talento.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;O sucesso faz-se nos jornais:&mdash;a glória no silêncio.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Quando um homem superior é célebre,<span class="pn">{219}</span> ou é
+admirado por defeitos, ou então por qualidades que não tem...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;As metafísicas são a <em>Belle au bois dormant</em> contada em
+ideas.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Que frio! Deito ao lume os meus deuses p'ra aquecer... É bom ouvil-os
+crepitar: lenha divina!</p>
+
+<p>Mas da cinza dos deuses&mdash;nascem deuses. Pela janela aberta vejo uma
+estátua na névoa: o super-homem!</p>
+
+<p>Criar deuses é a mais estranha função da nossa espécie. Nem podemos aspirar
+as rosas: vivemos asfixiados de divino...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Já viste uma ave livre&mdash;adormecida?... Tem nas asas fechadas
+todo o ceu. Antes de te deitares, bebe à janela a noite, até caíres...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A civilização é uma camisa de forças. Há duas maneiras de a rasgar: a
+arte e o crime.<span class="pn">{220}</span></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A sociedade perfeita é a de Narciso: a própria imagem reflectida numa
+fonte. É o máximo e o mínimo de convívio.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A alegria é a pérola dos mergulhadores. Só se descobre com muitas
+atmosferas de dôr por sôbre os ombros.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Meditar é viajar através de nós mesmos.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A lei faz isto: que um homem passe com fome num pomar sem cravar os
+dentes num só fruto...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;As academias são o <em>trust</em> da glória. Às vezes, são tambêm o
+asilo...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;P'ra saberes a expressão que teem as rochas, encomenda uma a um
+escultor. Nenhum ta poderá executar. São mil máscaras fundidas numa máscara.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A melhor maneira de admirar um escritor é viver segundo o ritmo da
+sua obra.<span class="pn">{221}</span></p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Viver é adorar com o corpo todo. A suprema oração é o desejo, a
+linguagem&mdash;a arte, que é o esfôrço heróico p'rà Beleza.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Morte! És p'ra mim o sal da vida...</p>
+
+<p>O teu silêncio grita:&mdash;andem depressa! Deita mais lenha na ambição,
+ambicioso; decifrador de enigmas, parte a esfinge; corpo a corpo, amorosos,
+sonho em sonho; e tu, maníaco de teorias, bom filósofo, coze depressa o teu
+sistema&mdash;anda depressa!...</p>
+
+<p>O teu silêncio excita como uma dança de baiaderas: dá vertigem...</p>
+
+<p>P'ra exasperar em nós a sagrada loucura de viver, para que os homens não
+percam um instante&mdash;ergam-te estátuas nos jardins, nas praças, na cimalha
+das academias e dos templos, Musagéta da Vida, grande Morte, com a lira de
+Apolo e olhos vazios...</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;O que é o mar para o meu corpo, é a dôr para a minha alma.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A solidão, <em>beata solitudo</em>, é o palácio encantado dos
+espelhos. Ó alma, corre as<span class="pn">{222}</span> tuas galerias. Myríades
+de retratos, de obras-primas, no dédalo dos corredores, nas salas lúcidas,
+echoando em reflexos, irisando-se, como a palavra de Deus de estrela em
+estrela. É o teu povo; és tu, alma: és tu mesma.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;O tacto da alma é a evocação.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;Outono: idílio da Natureza com a Morte.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;O amor é o génio do desejo: um instinto espiritualisado.</p>
+
+<p> </p>
+
+<p>&mdash;A arte é uma espécie de alchimia: mesmo do crime, extrai o oiro mais
+puro.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot46" href="#tex2html1" id="foot46"><sup>[1]</sup></a>
+Nietzsche.</p>
+
+<p><a name="foot441" href="#tex2html2" id="foot441"><sup>[2]</sup></a> C. F.,
+meu ex-condiscípulo, despediu-se de mim para casar, como outros se despedem
+para morrer. Casou depois de ter vivido intensamente,&mdash;como outros se
+fazem morfinomanos ou alcoólicos: p'ra anular a sua inquietação, a sua febre,
+na sedativa estupidez da vida séria. Sentia-se sem saúde e sem coragem, quer
+p'ra viver a vida com nobreza, quer p'ra ir ao encontro ao seu outono, morrendo
+a tempo&mdash;como manda o meu filósofo. Foi há três anos. Nunca mais nos
+vimos. Soube depois, por os jornais, que é deputado e, o que é melhor... ou
+pior, que vai ser par. Não sei se o meu amigo conseguiu a paz no anulamento, ou
+se é o actor duma comédia lúgubre&mdash;mascarando de banalidade o seu
+espírito. Deixou-me à hora da morte (à hora da vida social, da vida
+<em>séria</em>) os seus cadernos de notas&mdash;e uma obra de humorismo lírico,
+de ironia comovida e filosófica:&mdash;<em>A Metafísica de uma
+borboleta.</em>&mdash;Estas notas, que transcrevo de um dos seus cadernos, de
+entre as que não ferem sensivelmente a moral pública, são talvez&mdash;os
+senhores dirão&mdash;curiosas.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h3>ÍNDICE</h3>
+
+<table align="center" border="0" summary="Índice">
+ <col>
+ <col>
+ <tbody>
+ <tr>
+ <td><br>
+ </td>
+ <td style="text-align: right;">PAG.</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION00010">Diálogo com uma águia...</a></td>
+ <td style="text-align: right;"><a href="#SECTION00010">9</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION00020">O precoce...</a></td>
+ <td style="text-align: right;"><a href="#SECTION00020">47</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION00040">O homem das fontes...</a></td>
+ <td style="text-align: right;"><a href="#SECTION00040">77</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION00050">Suze...</a></td>
+ <td style="text-align: right;"><a href="#SECTION00050">119</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION00060">O Veiga...</a></td>
+ <td style="text-align: right;"><a href="#SECTION00060">155</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><a href="#SECTION00070">Words...</a></td>
+ <td style="text-align: right;"><a href="#SECTION00070">201</a></td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p> </p>
+
+<p style="text-align: center;">ACABOU DE SE IMPRIMIR ÊSTE LIVRO A QUINZE DE
+JUNHO DE MIL NOVECENTOS E VINTE NA IMPRENSA DA EMPRÊSA DO «DIARIO DE NOTICIAS»
+PARA AS LIVRARIAS AILLAUD E BERTRAND</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1><a name="SECTION00080">ERRATA</a> </h1>
+
+<p>A pag. 2, onde se lê: «Colhecem lá o amor etc.», deve lêr-se: «Conhecem lá o
+amor etc.»</p>
+
+<p>A pag. 73, onde se lê: «... ressuscitava em gramas sonolontas.», deve
+lêr-se: «... ressuscitava em gamas sonolentas.»</p>
+
+<p>A pag. 86, onde se lê: «Aludimos os», deve lêr-se: «Aludimos aos».</p>
+
+<p>A pag. 93, onde se lê: «Com miss Foutain», deve lêr-se: «Com Miss Fountain».
+</p>
+
+<p>A pag. 161, onde se lê: «Vivia com a mãe e sem mais parentes.», deve lêr-se:
+Vivia com a mãe sem mais parentes.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Serão inquieto : contos, by Patrício António
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SERÃO INQUIETO : CONTOS ***
+
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
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+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
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+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
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