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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-14 19:56:50 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A espada de Alexandre + Corte profundo da questão do Homem-Mulher e Mulher-Homem + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: April 15, 2010 [EBook #32003] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A ESPADA DE ALEXANDRE *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + + A ESPADA DE ALEXANDRE. + + CORTE PROFUNDO NA QUESTÃO DO HOMEM-MULHER E MULHER-HOMEM + + POR + + UM SOCIO PRENDADO DE VARIAS PHILARMONICAS + + + + PORTO + TYPOGRAPHIA DA CASA REAL + Praça de Santa Thereza, 63 + + 1872 + + + + A ESPADA DE ALEXANDRE. + + + + + + A ESPADA DE ALEXANDRE. + + CORTE PROFUNDO NA QUESTÃO DO HOMEM-MULHER E MULHER-HOMEM + + POR + + UM SOCIO PRENDADO DE VARIAS PHILARMONICAS + + + + PORTO + TYPOGRAPHIA DA CASA REAL + Praça de Santa Thereza, 63 + + 1872 + + + + +CARTA AO MEU VISINHO RAIMUNDO, + +POETA LAUREADO NA «AGUIA-D'OURO» + + +MEU CARO SENHOR E VISINHO! + +Era por uma noite de lua cheia do agosto preterito. Estava eu á janella +do terceiro andar, onde moro, n'esta fragrante rua das Congostas, ninho +de poetas e philosophos, floresta ramalhosa onde v. s.ª regorgeia as +suas lyras, e eu medito Theophilo e Rozalino Candido. + +Estavam então v. s.ª e sua esposa, com as vidraças erguidas, banhados de +resplendores da lua, altercando em voz alta a respeito de um livro de +Alexandre Dumas-Filho, obra que por ahi gira com o titulo hermaphrodita +de HOMEM-MULHER. + +Dizia sua esposa que o auctor do livro atacava o direito, a justiça, a +religião e o pudor. Replicava o snr. Raimundo que o auctor do livro +não atacava nada; pelo contrario defendia tudo. + +Redarguia s. exc.ª que a mansão conjugal não é açougue, nem a esposa +vaca, nem o marido megarefe. Recalcitrava v. s.ª que a esposa devia +considerar-se vaca, desde que o marido era boi. _L'Homme-Femme--Le +Boeuf-vache!_ Está claro. + +Contenderam largo espaço os meus prezados visinhos n'este honesto +certame; e, ao mesmo passo que mutuamente se illustravam nos deveres de +cada um, abriam no meu cerebro um jacto de philosophias que eu passo a +golphar aos quatro ventos da terra. + +Os sentimentos bem ou mal expendidos n'esta carta, meu prezado visinho, +são uma especie de prolegómenos com que tenciono predispor os animos +para a representação de uma tragedia, em que trabalho ha muito, +intitulada _O homem de Claudia_. Não se presuma, porém, que eu venho com +esta noticia aliciar espectadores para a minha tragedia no +Theatro-Circo. Não, snr. Raimundo. Eu sou publicista da eschola de +Mestre Theophilo--o symbolico, + + _.......... um que tem nos MALABARES_ + _Do summo sacerdocio a dignidade,_ + +como a respeito d'elle vaticinou Luiz de Camoens, no Cant. X, est. 11. + +Publico um livro, sei que ninguem m'o compra, nem m'o lê; mas +convenço-me, á laia do mestre, que os meus livros ensinam tudo que os +outros sabem. Esta ronha pegou-m'a elle, o Grão-Lama, que imagina fazer +reformas de raças com os seus livros de dentadura anavalhada como Cadmus +fazia homens com a dentuça do dragão. Ajoujei-me, pois, na canga d'este +pedagogo, e vou bem. + +Revertendo ao ponto: + +Affirmam auctores de boa nota que a mulher é femea, _femina_. N'este +parecer abundam D. Antonio Ayres, bispo do Algarve, na «Reforma» do +aprisoamento, e Bento Pereira, na _Prosodia_. Auctoras tambem de boa +nota asseveram que o homem é macho. Do inlace e coezão d'estas entidades +heterogenias forma-se o Macho-Femea, o colchete phyloginio. Faça-me o +favor, snr. Raimundo, de alçapremar o seu intellecto á altura d'estes +principios. Em materias transcendentes seja-me aguia e não kágado. + +No principio do mundo (não iremos mais longe por em quanto) extrahiu +Deus a femea do intercôsto do homem. Aurora do paraizo! Então era a +costella do homem que dava a mulher; hoje em dia, ha homens com todas as +costellas partidas por que desejaram uma ou duas mulheres! O lombo do +rei da creação perdeu bastante da sua importancia desde que os nossos +irmãos anthropophagos pegaram d'extrahir d'elle sandwichs. + +Este exemplo indelicado seduziu a esposa a considerar o marido uma +substancia comestivel entre o prezunto de javali e o fiambre de viado. +D'ahi, o desacato, o deslize d'aquella patriarchal idolatria com que dez +centos de mulheres genuflectiam ao sancto rei Salomão. + +Abastardado o antigo preito da costella ao costado, da parte ao todo, os +philosophos inventaram a alma para d'alguma fórma afidalgarem a juncção +da carne á carne, do osso ao osso--phraze biblica sobremaneira bonita e +aziatica. Ideada a alma, cumpria ungir com os oleos mysticos o pacto da +alliança entre alma e alma. Accudiram os canonicos com a invenção do +sacramento. + +Espero que o meu visinho não ignore inteiramente que os Sacramentos são +sete. E, se esta sombra de duvida offende a sua orthodoxia, sirva-me de +desculpa aquillo de Plutarcho no seu tractado «Da maneira de lêr +poetas.» Diz elle: «A religião, coisa difficil de perceber, está acima +da intelligencia dos poetas». Mas do sacramento do matrimonio sei eu que +o snr. Raimundo, sem embargo do seu alto lyrismo, percebe o essencial, +porque eu mesmo o ouvi dizer a sua esposa: + +«O matrimonio foi divinamente instituido». Por signal que ella, +áttica e sceptica, lhe respondeu:--Bem me fio eu n'isso! + +E a razão de sua esposa duvidar da procedencia divina da instituição, +meu caro visinho, eu lhe digo em que bases se funda. + +Instituição divina ha só uma: é o mundo. Esta crença hade prevalecer +emquanto meu mestre Theophilo não quizer provar que o mundo é obra dos +mosarabes. Divino é tão sómente aquillo que humanamente se não faz. Os +sonetos de v. s.ª, por exemplo, não me parecem absolutamente de +instituição divina. O cazamento tambem não, por que em tal acto influem +o amor, o interesse, o medo, a vergonha, o reumatismo, a papa de linhaça +posta por mão de esposa carinhosa nas irritações do apparelho digestivo, +_etc_. Estas coisas são tão divinas como eu; e, senão ouso dizer como o +visinho, é por que v. s.ª, na sua qualidade de bardo, tem lumes divinos, +_mens divina_; arde, fumega, evola-se como Elias--volatisação de que se +não gabam aqui os nossos visinhos pecuniosos por que o dinheiro pucha +por elles para baixo como os elythros pela tartaruga. + +V. s.ª sabe que, na antiga Germania, consoante Cornelio Tacito descreve, +aquelles barbaros ditosos cazavam-se sem sacramento, sem sacerdote e sem +templo. O noivo, em presença de parentes seus e da noiva, dizia-lhe: +«Recebo-te como minha legitima mulher, para te haver e possuir, de hoje +ávante, boa ou má, rica ou pobre, para te amar e assistir em tempo de +saude e doença, até que a morte nos separe». + +Alli, divindade e padre, n'aquella augusta ceremonia, eram os arcanos +sagrados, _arcana sacra_, o mysterioso respeito ao Deus invisivel, +consagrado nos solitarios murmurejos da selva, _lucos ac nemora +consecrant_. + +Ora, medite, snr., n'estes selvagens, onde as mulheres rapadas, as +adulteras, eram por tanta maneira raras, que apenas apparecia uma para +cevar a execração das turbas! Pois olhe que não havia lá n'aquellas +florestas dodonicas idea de femea fabricada da costella do homem. Lá +dizia-se que a creadora do mundo havia sido uma enorme e desmedida vaca, +e vivia-se honradamente apesar de tão estupida cosmogonia de uma vaca +bruta; e, por aqui, no pino da civilisação, com tantas vacas sabias, +vamos a pique! As nossas femeas restituem-nos a costella, pondo-no'l-a +como apendice ao craneo; e, em vez de se tosquiarem á guiza das +germanicas, alcantilam as cabeças com uns riçados delirantes. Atroz! + +Diga-me, poeta laureado: não será injuriar Deus attribuir-lhe o vinculo +sacramental do matrimonio, d'onde derivam tantos infernos sabidos, +tantos infernos ignorados, tantos coraçoens nobilissimos +pervertidos, tanta deshonra escarnecida pelos folioens dos palcos, +tantas alcovas devassadas, tanta mulher emborcada no gôlphão das +lagrimas a que a sociedade chama o lodo da prostituição? + +Levam a taes voragens as estradas complanadas pela mão de Deus? + +Ó snr. Raimundo, não parvoejemos por amor ao catholicismo. Não façamos +da nossa hypocrisia aspa de patibulo em que estamos sempre a cravejar a +memoria de Jesus, sobre quem Deus refrangiu o mais divino reflexo da sua +gloria. + +Jesus não fez o cazamento: quiz fazer a nova Eva, com o pé sobre os +colmilhos da serpe, e a fronte amparada no seio amantissimo do homem. +Ah! Jesus disse: «Amai-vos!» Isto de: «maridai-vos» é preceito de +concilios, e é palavra que não sôa no lexicon hebreu nem chaldeu. +Ser-me-hia mais facil encontral-a em Petronio que em S. Paulo. Ressuma +d'essa palavra um travo de impudor. Quando ella vier do intimo seio aos +labios da mulher, já lá dentro não ha flôr que lhe perfume o furtum. +_Maridança!_--expressão deslavada de um acto sem vislumbre de ideal, a +desfloração a começar na prosodia, um rebaixamento d'aquelle prodigio da +fantasia genetica--da mulher--á condição da femea, da retorta, do +recipiente, da maquina de costura silenciosa, da materia grangeada para +reproduzir, como quem aduba um torrão que hade verdejar couves lombardas! + +Atroz, snr. Raimundo, atroz! + +Que é o adulterio? + +É a razão insurgida contra o absurdo do vinculo indissoluvel. + +A mulher, que morre no acto da sua rebellião, que é? Hoje, é uma +criminosa que uns deploram, e outros impropéram na sepultura. D'aqui a +cem annos será celebrada como holocausto da emancipação. + +Por que, d'hoje a cem annos, visinho, não haverá matrimonio, nem +adulterio--crime convencional e estranho á natureza, na judiciosa phrase +de Girardin--; haverá amor duravel e mantido mutuamente pela liberdade +de quebrantar o pacto. O sacramento, o nó indesatavel, serão os anjos, +os filhos. Por que os filhos, as creanças amadas do defensor de Maria +Magdalena, desde então conversam com Deus, e haurem-lhe dos olhos +divinos o raio de luz que reverbera entre os coraçoens de seus pais. Não +descerá a treva do tedio sobre as almas amadas. A aza pura e alva do +filho cobril-as-ha, quando a hydra da lascivia resurtir das ruinas de +algum extincto mosteiro de bernardos ou bernardas. + +Que é o matrimonio? + +A definição, dada recentemente pela minha collega Maria Deraismes, +recende aromas de tão subtil feminilidade, que não ha ahi coisa mais +balsamica de donzellice e pudicicia! + +Ora, leia, poeta e senhor meu, e confesse que, ao par d'isto, os seus +madrigaes são trovas de marujo que fadeja nas fontes cabalinas da +Travessa dos Barbadinhos. + +«O cazamento--diz a dama, invectivando Alexandre Dumas--é a união de +dois organismos, cada qual com seu officio a exercer, em consequencia de +precisoens, appetites, e desejos que reciprocamente pendem a +satisfazer-se um pelo outro, sendo o objecto desta satisfação a +perpetuidade da especie. Eis a essencia, o fim do cazamento.»[1] + +Esta minha collega physiologica, ao que parece, é lida em Sanches, _De +matrimonio_, e tem bastantes luzes de anatomia. Para alguns espiritos +rasteiros e ignaros prefiguram-se no hymeneu suavidades, arrôbos, +idealisaçoens, evoluçoens mais ou menos gasosas, borboletas iriadas, +_etc_. A snr.ª D. Maria da EVA, não. Essa vê dois orgãos com appetites. +Em materia de cazamento não é christan, nem mahometana, nem pagan: é +organista. + +Em outro lanço, pag. 38, a mesma philosopha, discreteando ácerca dos +ditos orgãos, pondera que «a physiologia, parte da biologia, quando +tracta dos órgãos em exercicio, requer a mais rigorosa imparcialidade, e +a regeição plena de tudo que é postiço.» + +Apoiada! Gosto d'esta senhora! Se eu tivesse um filho parvo, dizia-lhe : +«Caza-te com esta D. Maria da EVA, se queres saber biologia.» + +Outra minha collega, que por nome não perca, diz que: «se a sua filha +for sanguinea e de compleição robusta, lhe não escolherá marido fraco ou +desfalcado de forças por libertinagem.»[2] + +É tambem organista. + +Cá está outra: a snr.ª D. Hermance Lesguillon, versada em Aristoteles. + +Esta dama abespinha-se rasoavelmente contra Dumas, porque elle parece +alvitrar que as meninas se abstenham de interpretar muito á lettra o +preceito genesiaco. A douta matrona, authora de quatorze livros, exclama: + +«Qual é o fim da creação? É decisivamente convento para as mulheres e +mosteiro para os homens? Isto, a fallar verdade, é ridiculo! Onde quer o +snr. que ellas vão? Aos vicios contra-natura, como Aristoteles os +attribue ao masculino nas republicas gregas?»[3] + +Veja-me esta sábia, ó snr. Raimundo! + +Quer agora regalar-se com um pedacinho de apostrophe contra o mesmo +vicio dos gregos? + +«Cautela, eterno masculino! O proprio Deus se offende d'esses attentados +contra a natureza! Esses impudicos mysterios que commetteis contra a +mulher--obra da predilecção e ternura divinas--ultrajam Deus!»[4] + +_Mysterios_ impudicos que ella lá sabe, como se não fossem mysterios. +Vista dupla do genio. Emfim, sempre é dama que lê Aristoteles, como a +sua esposa, meu visinho, não é capaz de soletrar a _Palavra_, gazeta de +lettras de 10 reis, as quaes não podem formar uma intelligencia de pataco. + +Conta a referida litterata que certa donzella sua amiga, em vespera de +cazar, leu o _Homem-mulher_. Entrou o noivo, e achou-a a tremer de pavor +com o livro entre mãos. Pergunta-lhe que tem; ella mostra-lhe a +brochura, e aponta-lhe com o dedo de ágatha aquelle truculento _Tue-la_! +Mata-a!» + +--Que lhe parece isto?--disse a pallida noiva. + +--Soberbo!--responde o gentil namorado--Não ha ahi palavra ociosa. O +remate principalmente é optimo! + +E a menina, sem mais delongas, desmaiou. E, assim que recobrou os +sentidos, disse á mãe que não queria semelhante marido. + +Rodeiam-na as suas amigas; forma-se synagoga de senhoras conspicuas, e +concede-se á loira Alice a palavra para explicaçoens. + +E a menina entre outras phrases, expediu estas do seio arquejante: + +--Aquelle _mata-a! mata-a!_ zumbia-me nos miolos! Estarreci!.. Como hade +a gente jurar que será sempre a mesma, quando o livre arbitrio está +dependente de outro? Poderei responsabilisar-me por amal-o sempre? Se me +elle sahir abominavel, por sentimentos, e violento, caprichoso e +despota, poderei soffrear a minha impaciencia? Se elle me não agradar +depois, poderei amal-o?-- + +Visinho, bacorejou-lhe á prevista menina onde iria parar ao diante, e +teve medo. Honrado susto! Não lhe assevero que ella soubesse biologia, +nem miologia, nem manuseasse as politicas aristotelicas; mas de tal +donzella ha muito que esperar, scientificamente fallando. D'estas +vitellas tenras é que se fazem as vaccas sabias e duras. + +Mas não se persuada, senhor meu, que a discreta Alice aprezilhe no colo +de alabastro a tunica de vestal. Longe d'isso. Tenciona cazar, +porque as matronas academicas lhe preleccionam biologicamente que a +perpetuidade da especie é condição indeclinavel. Diz ella então muito +aforçurada: + +--Heide cazar com pessoa cujos sentimentos eu conheça radicalmente; +quero que eu e elle saibamos com o que podemos contar, e se as nossas +sympathias são reciprocas... Lá do enxoval, que estava prompto, não se +me importa já... Eu ia cazar com um sujeito que não amava nem conhecia. +Primeiro que tudo, quero amar os sentimentos honestos do meu namoro. Com +taes condiçoens, tudo se arranja bem. _Seremos depois indulgentes um +para o outro._[5] + +Bastante petisca; mas boa rapariga de lei! E ingenua então... até alli! +Confessa que esteve a ponto de cazar com homem que não amava; mas cazava +tão de vontade como voluntariamente o regeitou. De sorte que, se não +apparecesse o livro de Alexandre Dumas, veja v. s.ª que destino se +estava aparelhando para o marido d'aquella senhora! + +Ó visinho, sabe o snr.? eu, se tivesse um filho indulgente, dizia-lhe: +«Rapaz, se não levas a mal que o almoxarife da caza de Bragança, em +Villa Viçosa, te mande agarrar e recolher á tapada como cervo +tresmalhado, caza com esta menina perliquiteta.» + + +Agora, duas paginas sérias, snr. Raimundo. + +Cá tenho a pitada engatilhada ao nariz circumspecto. Devo-me ao futuro +do meu paiz. Vou enviar-me gravemente á posteridade. + +Não me consta que em Portugal, por em quanto, alguma das gentilissimas +damas, que recolheram a herança das Sigeas, Alornas e Possolos, haja +sahido á liça a esgrimir com o fulminante estylista francez. Parabens á +constellação de estrellas que scintillam annualmente no _Almanach das +Senhoras_! Que não baixem da região excelsa em que são contempladas cá +d'estas cavernas onde urram alcateas de féras. Se anjos descerem a +involverem-se comnosco, sahirão desluzidos, com as candidas plumas +incarvoadas do suor negro dos nossos pugilatos. Nós, os gladiadores +d'esta arena, se as sanctas estrellas se apagarem, não teremos a quem +saudar, moribundos. + +Não as induzam exemplos de escriptoras francezas n'esta melindrosa +contenda. A sciencia perigosa, que lhes sobeja, é escorregadia, pudor +abaixo, até ao desdouro da idéa e da forma. Já lhes não basta a área +modesta dos argumentos colhidos nos mananciaes doces do coração e da +alma. Rompem as fronteiras das sciencias physicas e graduam +chimicamente os globulos cruoricos do sangue de cada mulher. + +Dão venia e desculpa aos temperamentos rijos, e acham menos perdoavel o +desacerto da esposa lymphatica. Devassam os latibulos de Sodoma, e +dardejam por sobre a espadua de Aristoteles frechas sarcasticas á cara +purulenta dos lazaros que raspam a sua lepra nas sargentas. Abrem Bichat +e De Bienville para nos ensinarem o que é a esposa anatomica e +physiologicamente. Uma, que diz ter filha ainda creança, promette +consultar o calorico, os estos e o arphar do sangue de sua filha +nubente, quando houver de lhe escolher o homem. + +É uma senhora quem cogita e escreve estas carnalidades, e as estampa e +atira o livro á onda suja, que espuma nos tapetes das salas de Pariz e +de todo mundo. As avezinhas, esvoaçadas do pombal do _Sacré-Coeur_ para +o baile, para o theatro, para o _Bois_, seguem o olhar lavateriano das +mães a cada homem anémico ou plethorico, descarnado ou inxundioso, que +se aproxima. Isto sobreleva a torpeza tolerada á mulher que esconde o +seu aviltamento nas alfurjas. N'este phrenesi de esgaravunchar em +temperamentos, será racional que o noivo se exhiba e sujeite a ser +apalpado no craneo pela mãe da noiva, com Spurzheim aberto, para +averiguações de bossas, e confronto de protuberancias das duas cabeças +examinadas como aptas ao maquinismo da procreação. Alvitres +d'aquella estôfa, dados por um ebrio no _estaminet_, revessam-se +precipitados no sedimento do absyntho e do _hachich_; mas, decoados +pelos prelos, tornam a chronica das orgias de Trimalcião um livrinho +digno da puericia, um «Ramilhete de christãos»; e, se derivam por entre +os dedos translucidos de uma senhora, ah! eu não lhes sei o nome!--a +minha vontade é chorar um choro grande como o propheta Ezechias: _flevit +fletu magno!_ + +E v. s.ª não chora, snr. Raimundo? Esponje-me d'essas entranhas de poeta +fios de lagrimas; depois, enxugue-se, e leia, se está de pachorra. + + +Aquellas e outras damas que taes livros escrevem, inspirando-se da +catastrophe de Denise Mac Leod, assassinada, pouco ha, pelo marido, +afugentam a piedade de ao pé da sepultura onde o archanjo sombrio e +mesto da paixão se abraça á cruz das Manas Egypsiaca e de Cortona. A +desgraça no tumulo é inviolavel. As mais austeras consciencias se +commiseram das infelizes dilaceradas pelas rodas d'este pessimo +maquinismo social; todavia, a compaixão não é assentimento ás +irreflectidas damas que peróram ás turbas mostrando a tunica +ensanguentada da victima, como quem mostra o punhal de Lucrecia. Se nos +querem commover, chorem primeiro. Lagrimas, lagrimas. Nada de +rethoricas lardeadas de doutorices. Em vez de physiologia, +espiritualismo. Alma; e de corpo só o _quantum satis_. Contem-nos +segredos das suas fragilidades maviosas; coisas do seio para dentro; +flores de coração, que, ainda afogadas e delidas na raiz por abundancia +de lagrimas, espiram sempre olores de innocencia. Se se desviam da +honra, aconselhadas por suas sabenças, então está tudo perdido! Em +organismos, em sangues ricos ou depauperados, em disciplinas do 3.º anno +medico, façam-nos o favor de nos não aperfeiçoarem. Receamos que s. +exc.as nos intimem tarefa de _chrochet_, emquanto ellas, montando os +oculos, abrem o grande volume de Harveus, e, para nossa confusão e +escarmento, pegam de declamar: _Exercitationes quædam de partu: de +membranis ac humoribus uteris et conceptione._ Eu tenho este livro, +visinho; e, se uma filha que heide ter, me abrir o livro e o traduzir no +capitulo _Propagação da especie_, mato-a; para que o filho do snr. +Alexandre Dumas, vindo a ser meu genro, m'a não mate, aconselhado pelo pai. + + +Snr. Raimundo: + +Eu não sei se sua esposa é instruida e bastante profunda em _Ponson du +Terrail_. Que não vá ella arrenegar do mau visinho da porta como de +todos os diabos, malsinando-me de zoilo de damas que versam com mão +diurna e nocturna os romances da «Bibliotheca economica». + +Não, senhor. + +Acato a sabedoria das senhoras, quando a figura lhes dá geito de +virágos, feitio de mestras regias jubiladas, e um não sei que de sexo +canonico. + +Que sua esposa, moça e galante, recite ao piano trovas de lavra propria, +e escreva o soneto acrostico no dia natalicio do marido, acho isso +bonito, senhoril e benemerito de um até dois osculos castos e dignos da +testa da Minerva antiga. Mas, se ella descambar das branduras erothicas +de Sapho para as meditaçoens sociologicas da snr.ª Canuto, peco-lhe, +visinho, que a obrigue a lêr as obras de meu mestre doutor Theophilo, a +fim de ganhar odio á letra redonda--virtude supranumeraria dos escriptos +d'aquelle varão. + +Houve damas que lograram intalhar seus nomes na arvore immortal da +sciencia; essas, porém, não desgarraram da senda florída por onde as +abelhas do Hymeto lhes sahiam a dulcificar mulherilmente a phrase. +Dou-lhe como exemplo Stael. + +De involta com vastissima lição entreluzem, nos seus livros mais grados, +donaires feminis, e genio acendrado na fragua do coração. Ao proposito +d'esta esteril peleja, que se renova cada vez que um marido se furta +ás prezas da irrisão publica, atirando ás da morte a esposa adultera, +Stael perpassou ligeiramente, como lhe cumpria, pela solução do +divorcio, reprovando-o. No extremado livro chamado _Da Allemanha_, +escreve a insigne pensadora: «É forçosa coisa confessar que a facilidade +do divorcio, nas provincias protestantes, macula profundamente a +sanctidade do matrimonio. Tanto monta mudar de marido como urdir as +peripecias de um drama. Lá, a boa indole dos homens e das mulheres +permitte que semelhantes rompimentos não sejam amargurados... É, +todavia, certo que, á conta d'isso, a consistencia do caracter +alquebra-se, os bons costumes abastardam-se, o espirito paradoxal alue +as mais sagradas instituições, e não ha ahi determinar regras sobre +coisa nenhuma».[6] + +Aqui tem sentimentos que frizam honradamente primorosos em indole de +senhora n'esta questão, a todas as luzes pessima, por nimiamente +arriscada. Aquelle parecer é talvez vulneravel, e não resistirá, por +ventura, a Portalis ou Montesquieu; mas o que a sciencia lhe respeita é +a honestidade. Filha, esposa e mãe,--tudo no extremo em que a eminente +escriptora logrou ser, em vida tão aparcellada de angustias--respiram +n'aquelle pudibundo resguardo á seriedade do cazamento. Ella não quer o +divorcio: quer a dignidade na paciencia, quando falleça no homem a +probidade de marido. + +Compare-m'a, snr. Raimundo com estas Hippatias de 1872. Em quanto a +poetisa de _Corinna_ linimentava suas maguas de expatriada com a +_Messiada_ de Klopstock, est'outras, com o cerebro ainda escaldado dos +meteoros de petroleo, justificam o desaire das esposas com a physiologia +de Muller, e vão ler, ao lampejo dos cirios mortuarios, que ladeam o +ataúde de Denize Mac Leode, as vaias que o philosopho de Stagyra +desfrechava contra os pederastas espartanos. + +Quer v. s.ª ler, a occultas de sua esposa, um molde de altercação, entre +marido e mulher, que D. Maria da EVA, lhe offerece em desculpa da adultera? + +MARIDO + +O adulterio de minha mulher póde fazer-me pai de filhos alheios. + +ESPOSA + +O adulterio de meu marido póde arruinar-me os bens de fortuna. + +MARIDO + +Tu devias ter força e juizo para não succumbir. + +ESPOSA + +E tu, que representas a razão, foste o primeiro a prevaricar: não fiz +mais que pagar-te na mesma moeda. + +MARIDO + +A minha culpa foi um mero capricho dos sentidos. + +ESPOSA + +E a minha foi uma necessidade. Quizeste que eu fizesse de viuva sem ter +inviuvado.[7] + + * * * * * + +Aqui tem! Que senhoraças! Não lhe faz saudades a decencia das _Cartas_ +de Ninon de Lenclos? Eu estou em dizer-lhe como o poeta, + + _que honras e famas_ + _Em taes damas não ha para ser damas_[8] + +E, por tanto, visinho e amigo, á vista do que pregam estas pandorgas +folicularias,--symptomas de acirro incuravel no coração da +França,--somos entrados em periodo de decomposição. Salve-se quem poder +com a sua companheira d'esta peor Troya, e leve alguns penates reduzidos +em especies bancarias sobre os hottentotes, e vamos para lá muito nas +boas horas, se v. s.ª não prefere antes que fiquemos para moralisar as +massas. + +Eu, de mim, anteponho o martyrio á fuga. Irei bradar debaixo dos +muros d'esta segunda Jerusalem, sem me esquecer de Barcellos, Amarante, +Lamego e outras Ninives corrompidas. Se os de dentro me amolgarem a +cabeça á pedrada como fizeram ao outro enviado do Senhor, arrange v. s.ª +a formar de mim um sugeito legendario, depois de consultado mestre +Theophilo--o arbitro das castas--sobre a raça em que me hade grudar. + + +Sou apostolo commedido e modesto, snr. Raimundo. Não me desvanecem +presumpções de o convencer. O que faço é alqueivar bravios: o semeador +virá mais tarde. + +Repare, no emtanto, por essa vida de seis mil annos fóra que vem +fluctuando desde o cháos. Não vê uns altos e eternos padrões +assignalando paragens que o genero-humano fez para ouvir a consciencia +de sua força, o Deus interior, pela voz dos oraculos? Sobre esses +padroens ha umas estatuas que topetam com as estrellas. Chamam-se +Moisés, Fó, Kong-Fou-Tsée, Socrates, Platão, Aristoteles, Cicero, Paulo, +Galileu, Luthero, Vico, Descartes, Kant, Kepler, Leibnitz, Newton, +Pascal, Montesquieu, Voltaire, etc. + +Cuida v. s.ª que as torrentes da vida intellectual e progressiva se +rebalsaram n'este pantano descompassado em que as rans, por entre os +rabaçaes, nos estão coaxando sciencia... de rans? Está illudido, +visinho. A natureza humanal fermenta, tem febre como puérpera d'um +grande feto que lhe escouceia os flancos, fita grandes orelhas abertas +aos rugidos da idéa nova que vem da Cafrária, e assesta o oculo de longa +mira ás brumas do horisonte, onde, a espaços, lhe corisca um pyrilampo, +que, se não é Theophilo, sou eu. + +Se é elle, digam-lhe que se abra. _Epheta!_--palavra hebraica, que quer +dizer: _abre-te!_ Melhorar os costumes das raças deve ser-lhe mais facil +que a costumeira de invental-as. E elle, como o visinho +sabe--inventou-se a si, inventou aquillo! Pois então que falle, com +dispensa até da syntaxe. Que espirre candeias na treva que se está +condensando á volta do cerebro social--a familia. Que laqueie a grande +arteria aórta da sociedade humana--o matrimonio. Que defeque o intestino +cego das raças germanicas e latinas da ténia que o róe--o adulterio. Que +nos diga, em fim, Theophilo o que se hade fazer ao dono ou dona d'esta +prenda! + +Ninguem receia que se esquive de entrar n'esta gafaria de tabardoens, +com o seu emplasto, elle, que entrou com 3725 paginas em-8.º no +gasofilacio da patria. Sabia isto, visinho? E nós, os seus discipulos +laudanisados, esperamos que o mestre, depois desta somnolenta operação +de Mesmer, nos transporte ás regioens translucidas do espiritismo. + +Entretanto, porém, que o vidente incuba, vou eu arroteando o chavascal +que elle depois tozará mais a preceito. + +Snr. Raimundo, poeta laureado e amigo: + +Alexandre Dumas-Filho quer que Caim cazasse com uma macaca, natural do +paiz de Nod, terra desconhecida a Strabão. É logicamente rigoroso que um +paiz desconhecido a Ptolomeu e outros geographos antigos seja paiz de +macacas. Se v. s.ª não achar no mappa de Portugal a terra onde fui +creado e educado, a Samardan, tão chasqueada por Filintho Elysio, fica +authorisado a decidir que eu, em pequeno, andava lá pelos bosques a +brincar com as caudas dos cynocéphalos, meus mestres de gymnastica e +gesticulação. + +--D'onde és tu, meu amor?--pergunto, na praia da Foz, á mulher que adoro. + +--Sou de S. Gonhedo--responde ella. + +--De S. Gonhedo? Espera ahi. + +Abro o «Diccionario geographico», de que ando munido depois dos ultimos +acontecimentos. Procuro _S. Gonhedo_, e não acho. + +Começo a suspeitar que o meu amor é de Nod;--que é, pelo menos, +amacacada. Disfarço, accendo o meu charuto, e safo-me. É o mais prudente. + +De Caim e de sua esposa Catarhina (sem _dom_: receio que v. s.ª, +esquecido dos seus estudos zoologicos, faça a mulher quadrumana de Caim +homonima da inspiradora de Luiz de Camoens. _Catarhina_ é o nome de uma +das duas tribus da primeira familia de macacos. Veja Milne-Edwards, +Dumeril, Lamarck, e a mim, _passim_)--de Caim e de sua esposa Catarhina +procedem, segundo Alexandre Dumas, as mulheres de má raça e condição +bravia. Pelos modos, n'esta progenie maldita, os machos são poucos, sem +embargo de enxamearem por ahi em barda uns que macaqueam Schlegel e Kant +como uma foca póde remedar um acrobata arabe. + +A geração de Caim, continuada em Cham, brunida pelo esmeril dos seculos, +adelgaçou-se e puliu-se de feitio que já se confunde hoje em dia com a +descendencia abençoada de Sem e Japhet.--V. s.ª (permitta o +exemplo)--está persuadido que sua senhora é da raça boa, e faz muito +bem; mas vá de hypothese que sua mulher amua e trinca o labio porque o +visinho resiste a renovar-lhe a cuia. Parece-me que será então acertado +reparar se ella n'essa occasião róe o sabugo, se coça os quadris com o +dedo indicador, e anda de cadeira para cadeira a dar uns saltos +suspeitos. Se este desgraçado presupposto se realisar, v. s.ª não será +demasiadamente iniquo desconfiando que está matrimoniado com uma senhora +que tem nas veias um litro de sangue de macaca. Feito o +descobrimento anthropomorpho (queira desculpar esta gregaria), +nenhuma cautella é de mais. O bom siso pela minha boca humilde, +aconselha o visinho que lhe dê a cuia, duas cuias, e tres nozes para +ella se desarrufar. Se não fizer isto,... estende-se, snr. Raimundo. + +Começam a entre-luzir os meus principios ácerca do adulterio. Já achou, +visinho? + +O adulterio é um fatalismo organico. A mulher de stirpe macaca é +irresponsavel do fratricidio e cazamento bestial de Caim. A rôla +arrulha, o sagui chia, cada qual segundo a sua natureza glottica. O +homem não deve sangrar á ponta de punhal a arteria onde o supremo +gerador injectou sangue viciado. Ninguem se lembrou de fazer irmans da +caridade as hyenas, nem encarregou os pachidermes de missionarem aos +pretos seus visinhos. + +O crime deprehende-se da liberdade de o não praticar. A bossa impede o +arbitrio. + +O homem, que descadeira a mulher victima da fatalidade do seu organismo, +será capaz de me desfechar um rewolver á queima roupa, se eu lhe não +aceitar a côrte. E eu não lh'a aceito, por que não está na minha +organisação aceitar a côrte do masculino nem do neutro. Sou +irresponsavel da minha esquivança ás caricias ardentes d'essa pessoa. +Não posso amar o sugeito que me enviou uma camelia, ou um frasco de agua +de Colonia do Farina. Se esse galan me bater, sobre ser asno, é feroz. + +Os legisladores, menos arredios das leis naturaes, estatuem que marido e +esposa se divorciem, dada a incongruencia de genios, aggravada pela +prevaricação dos reciprocos deveres da fidelidade conjugal. O divorcio, +porém, restricto á separação do foro conjugal e bens, não sanêa as +feridas abertas na honra. A mulher resvala com o nome do marido a todas +as voragens onde a irresistivel condição a baqueia. + +Hade elle, por tanto, matal-a para desacorrentar-se do pelourinho do +vilipendio? Não; por que mata um authomato inconsciente da sua queda. É +como se andasse ás facadas aos seus amigos, por que elles, na sua +qualidade de corpos, obedecendo á lei da gravitação, pendem para o +centro da terra. + +«O divorcio judiciario constitue o cazamento escola de escandalo»--diz o +douto dramaturgo do _Supplicio de uma mulher_.[9]--E acrescenta: «A +interferencia de juizes é quasi sempre cega ou nociva. Se entre cazados +ha motivos de divorcio, deem-lhes plena liberdade de se desligarem». Até +aqui o primeiro publicista de França. + +Mas divorcio incondicional, rompimento sem clauzulas. Se ha dote ou bens +paraphrenaes, a mulher é credora, não já do marido, que é um titulo +extincto, mas do detensor incompetente dos seus haveres. + +Essa mulher, livre, póde encontrar marido de sua especie, com tres +partes de macaco ou mais, que lhe não estorve os instinctos, e ser +ditosa, como a esposa de todos os sujeitos de prol e tino, + + _Que não são de ciumes offendidos._ + +E, simultaneamente, aquelle homem, desatado do vinculo infamante, póde +topar uma descendente de Japhet, esposa leal, sanguinea ou biliosa, mas +sobre tudo honrada, que é melhor que lymphatica. + +E o sacramento?--pergunta-me o visinho com a Cartilha de Mestre Ignacio +em punho. + +O sacramento, snr. Raimundo, é um attentado contra a natureza; é, na +phraze energica de Girardin:--«uma pretenção impia dos fabricadores de +leis positivas, prophetas e legisladores a desfazerem as leis naturaes +para refazerem o genero humano sob o nome de Sociedade». + +Observe que Girardin foi marido exemplar de Delphine Gay, a mais formosa +e illustrada alma no mais gentil corpo de parisiense. Pondere n'isto. + +Mas muito mais ponderosa é a questão dos filhos.--Que se hade fazer +ás creanças, flores que desbotoam á ourela d'essas sentinas, anjos +nitidos que passam deplorativos por entre as lavaredas d'esses infernos? + +Os filhos, legitimos ou bastardos, adulterinos ou incestuosos são eguaes +perante a mãe. Ella é quem não duvida que os filhos são seus. Receba-os, +leve-os, que talvez leve comsigo os esteios do seu rehabilitado decoro. +Mas, se o marido os quizer, deixe-lh'os, que bem amparados ficam no seio +do amor. Deve de ser immenso o bem-querer do homem que lava com suas +lagrimas os estygmas na face do filho da mulher perfida e repulsa. + +Pergunta-me o visinho se, em harmonia com estes paradoxos, o cazamento, +a alliança sacramental de homem e mulher acabam. + +Acaba o que a sociedade fez, violentando o que a natureza tinha feito. +Mulher e homem volvem ao que foram. + +Target, o collaborador do Codigo Civil da Convenção, responde-lhe melhor +do que eu: _Onde quer que a sociedade encontrar um homem vivendo com uma +mulher, deve reconhecer um consorcio apto para dar aos filhos o direito +da legitimidade._ + +--Paganismo! + +Seja o que v. s.ª quizer; mas olhe que já não é bom tom trejeitar +visagens e momos quando a razão joeira perolas no lixo da Roma de +Aggripa e Seneca, de Catão Censorino e Marco Aurelio. Se o visinho +admira nos Congregados e na Trindade muita senhora, devota e escrava de +Maria Sanctissima, não se edificaria menos entrando em Roma no templo do +Pudor, edificado pelas Veturias, Cornelias, Calpurnias, Sulpicias +Pretextatas e Arrhias Marcellas. Estas ou morriam com os maridos amados, +ou vingavam-os. O opprobrio não ousava erguer a cabeça petulante de +sobre a alta barreira que extremava aquellas matronas das Silias e +Octavias, das Apuleias Varilias e das mulheres de Claudio. + +O visinho sabe que na Roma pagan, dado que o divorcio pendesse da +simples deliberação de um ou de ambos os conjuges, ou ainda do mero +capricho do marido immoral--quer elle se chamasse Nero ou +Cicero--decorreram quinhentos e vinte annos sem um exemplo de divorcio. + +Montesquieu explica o phenomeno: «Marido e mulher soffriam-se +pacientemente os mutuos dissabores cazeiros, por isso mesmo que podiam +acabal-os; e, só por que tinham livre o uso d'esse direito, passavam +toda a vida sem pratical-o». + + +Ahi está a minha idéa peneirada aos ventos quadrantes da opinião +tempestuosa das turbas. Ruja a leôa da hypocrisia na sua +caverna--que eu, á laia do varão justo de Horacio, ouvirei sem pavor o +estrondear do mundo derruido á volta de mim, visto que tenho assistido +impavido aos estrondos de todas as philarmonicas de que sou socio +prendado. _Impavidum ferient ruinæ._ + + +Direi agora de v. s.ª, e de mim, e aqui do visinho especieiro da +esquerda, e d'outros sucios do masculino. + +Napoleão I, na ilha de Sancta Helena, mandou escrever no seu _Memorial_ +que «um homem deve ter muitas mulheres». Fez o que disse, e formulou uma +maxima ao alcance de todos os tolos, salvo seja. A aguia de Austerlitz +alçou aos páramos da sua ascenção axiomatica os infimos escaravelhos e +osgas d'estes nossos paues burguezes. + +O nosso velho amigo D. João Tenorio incorporou-se em toda a casta de +galan esgrouviado, de galan mazorro, de galan aparrado no corpo e na +alma. Os monarchas, constituidos Luizes XIV de refugo, metteram nos +paços uns retalhos de Constantinopla, com a differença que os seus +camaristas--os lançarotes--não poderiam gargantear de falsete na capella +sixtina. Por sua parte, os sapateiros, convictos da egualdade do homem +perante a mulher, fizeram-se tambem califas de sultanas cozinheiras, +immolando á sua intemperança d'amores o decoro das cozinhas e a +perfeição das almondegas. + +Está, pois, derrancado o masculino desde o throno até á tripeça. + +E diga-me cá, ó visinho: onde iria cada homem buscar as muitas mulheres +decretadas por Napoleão--o grande? Fóra do triangulo? era impossivel. V. +s.ª está bem certo do que é o triangulo? Vem isso lucidamente explicado +no _Homme-Femme_ de Alexandre Dumas. Triangulo é o homem-movimento, é a +mulher-fórma, e é Deus manifestado n'essas duas coisas que se unem. E, +se não se unirem e amalgamarem n'uma só, nem o homem terá fórma, nem a +mulher se moverá. Por tanto, homem sem mulher tem pezo, mas não tem +feitio; mulher sem homem, nem se quer é um _movel_, por que é immovel. +Mais claro do que isto, só um preto e a _Poesia do Direito_ de mestre +Theophilo. + +Logo que o Codigo Penal não providenciou contra o homem, contra o +movimento, que se quizesse apropriar vinte fórmas de uma assentada, era +de esperar que a sociedade soffresse grande terramoto nas suas mais +augustas instituiçoens. Assim aconteceu. O homem, abroquellado com a +impunidade, desfraldando a bandeira da natureza em bruto, arpoou as suas +prêas no proprio thalamo conjugal. Tal marido, que tinha uma só +fórma, perdeu a mulher, e ficou amorpho, sem feitio de casta nenhuma. + +Outros, que tinham duas fórmas e d'ahi para cima, lá se avieram melhor +com a sua vida. A mulher, essa é que nunca ficou intrevada, á mingua de +movimento, porque o homem para ella era como o ramo de Virgilio:--homem +ido homem substituido: + + _Primo avulso non deficit alter._ + +Choveu então aquella praga de leoens devastadores, _Leo vastratix_ de +Lineu--uns ribaldos que se gabavam de ser pais de todos os nossos +filhos. E seriam;--o diabo o jure! + +Estes homens eram negros ou pallidos--Othellos ou Romeos. Tinham +maneiras scismaticas nas salas. Sombrios como anjos precipitados; +demonios ainda bellos do resplendor do céo perdido. Liam romances do +visconde de Arlincourt, cheirando a patibulos ensanguentados. Bebiam +cognac, na abundancia, em que o _crévé_ de hoje em dia, o seu filho +degenerado, bebe agua de Entre-ambos-os-rios para desimtupir o figado. +Comiam bribigoens e outros testáceos com salada de malaguetas. + +Ás duas da manhan sahiam dos seus antros da Aguia-d'ouro, chapeo +derrubado, capote ás canhas, e içavam a devastação das familias +pelas trapeiras com escadas de corda. + +Estes devassissimos Richelieus de esnoga eram conhecidos. Toda a gente +fina sabia que elles bebiam as lagrimas de umas senhoras pelos craneos +das outras. E, não obstante, a sociedade decretava-lhes a primazia na +elegancia, o primor na cortezia, e bom-gosto nas fidalgas estouvices. + +Era vêl-os nas salas. + +As meninas remiravam-os de esguelha, tremidas de amor e mêdo; e +aconchegavam-se da egide tutelar da mãe que lhes segredava em suores de +afflicção: + +--Aquelles homens tem manfarrico! Meninas, não olhem para elles, que tem +perdido muitas donzellas, e de cazadas não ha conta nem medida. + +E as meninas ficavam sabendo que as donzellas se perdiam como as +cazadas; e, se perguntavam o destino d'essas perdidas, as mães respondiam: + +--Não vês alli D. Pulcheria? D. Athanazia? D. Herminigilda? e _etc_?! + +Ellas reparavam castamente, e viam as trez nomeadas, e as _etcoeteras_, +refesteladas em poltronas, arraiadas de seda e pedras. E, depois, +viam-as ir, sobraçadas pela cinta desnalgada, nos braços d'aquelles +homens precítos, regamboleando a perna com furor macábro n'aquellas +polkas de então que eram a propria lascivia, o segredo descoberto das +corêas na festa da deusa Bona. + +Eram assim iniciadas as meninas ao sahir do collegio: mostrava-se-lhes o +seductor fatal com o prestigio das salas e dos amores defesos; +mostrava-se-lhes a mulher deshonesta com as regalias dos diamantes e das +polkas. + +Parabens, visinho! D'aquelles homens, uns morreram; outros, prostrados +ao canto da leoneira, urram nas angustias da gotta, e pitadeam do +meio-grosso. + +Durma v. s.ª socegado nos braços da esposa fiel e da policia civil. +Escada de corda não consta ha muitos annos que as patrulhas topassem uma +funccionando contra o pudor publico. Das muitas cordas que houve, +suspeito que os seus possuidores se serviram, inforcando-se a final com +ellas para desaggravo dos bons costumes. + +Verdade é que se dispensam escadas, se a hypothese ethologica de +Alexandre Dumas é verdadeira--a hypothese das macacas, á qual eu +racionalmente associo a hypothese dos macacos, com bastante desaire do +meu sexo. Aquelles bichos atrepam contra todas as previsoens da policia. +Um bugio é capaz de enroscar a cauda na sacada do visinho da esquerda, e +baloiçar-se á janella do snr. Raimundo com a maior limpeza de +trabalho: _quod di omen avertant_--o que os deuses não permittam! + +Seja como fôr, oiço dizer que os defunctos leoens, se não deixaram +leonculos com as mánhas paternas, inocularam na geração actual o que +quer que fosse da sua posthema. Por aqui na nossa rua e nas travessas +limitrophes, graças aos temperamentos, não tem havido, que eu saiba, +supplicio de macaca; observo, porém, cheio d'estas tristezas modernas, +que, uma vez por outra, lá ao longe, certos maridos, ignorantes do +cazamento de Caim no paiz de Nod, vão exercitando o officio do avô sem +se importarem dos costumes da avó: matam. + +Esta acção, visinho, se me não parece digna, sem reserva, do maior +elogio, tambem a não impropéro em diatribes de Sganarello que defende o +seu impudor proprio, arguindo a crueldade alheia. + +Isto de trahir é um funesto pendor do organismo. E matar, a meu vêr, é +uma funesta e irrecusavel influição da nevroze. Mulher, que refrear os +impetos do seu temperamento, é tanto como divina, senão é mais, porque +sopeza a natureza, divinamente saturada do deus universal, do grande Pan +indivisivel. Homem trahido, que sente em si o retalhar de dois gumes, +amor e honra, dois cauterios a sarjar-lhe a um tempo coração e +cerebro,--que arde em ancias de matar como ardêra outr'ora em ancias +d'amor, tal homem, se perdoou, é um sancto, é a mais bella e perfeita +desgraça que Deus creou. + +Não temos, porém, que ver com aquellas excepçoens. Balancemos o +thuribulo da nossa admiração á Providencia d'essas almas, e desandemos +para a feira franca onde o sátan de Gil Vicente infeirava as suas +vitualhas. + +O commum dos adulterios é a retaliação, o despique, a mulher que a si se +despreza por que se vê aviltada do marido. Elle, sacerdote do amor, +erigira-lhe altar e idolatrára; depois, esfriado o fervor, apeára o +idolo, e assentará sobre a peanha profanada a deidade nova, com +resplendor de seducçoens infames. Primeiramente, o amor e vaidade +choraram no coração da mulher expulsa do templo; em seguida, o orgulho +represou as lagrimas, fêl-as peçonha de vingança; e, por derradeiro, +livelou a mulher vingada hombro a hombro do homem libertino. Elles ahi +estão, dignos um do outro, levados pelo delicto social ás leis +authenticas da natureza. Acabou o artificio do marido-esposa. +Restaurou-se o macho-femea. Romperam o pacto da fidelidade? +deshonraram-se reciprocamente? Muito bem! Hossana aos filhos da +natureza! _Urrah_ pelo rebanho de Epicuro! Qual matarem-se! Vivam! no +lar ou na rua, na lama ou nos arminhos; mas vivam e medrem como gente de +boas e bem saldadas contas. + +Isto é o que a lei quer, o que a religião da caridade aconselha, e o que +a sociedade tolera com um bem dissimulado respeito. + +Todavia, ha ahi uns celibatarios, extraviados dos concilios, amantes +extremosos, pais loucos de amor aos filhos, mas, em fim, celibatarios +impudicos, que sorriem, a occultas, dos maridos logrados. + +Quem disse a esses malsins do lar alheio que taes maridos são logrados? +Com que protervia se marêa a fama da esposa estygmatisando-a de perfida? +Esposo trahido e mulher treda são os que reciprocamente se mentem. Cessa +a ignominia da perfidia onde começa a luminosa tolerancia da desforra. +E, por tanto, a invasão da crytica ao seio da familia, que não reclama a +interferencia do Codigo Penal, é uma villania estupida, um insulto á +liberdade dos cultos. + +Snr. Raimundo, sei de umas pessoas, que mofam cruelmente dos maridos +enxovalhados pelo desdouro das mulheres. Ora, esses que hoje escarnecem +o homem deshonrado, apedreja-l'o-hão ámanhan, se elle offerecer o +cadaver da adultera como resgate da sua honra. + +--Matar! Oh! não, assassino! Despenhassel-a antes com um ponta-pé, de +abysmo em abysmo, até aos nossos alcouces. Nós já temos encontrado cá +mulheres illustres como a tua. Borrifamol-as com a champagne das +nossas orgias. Ouvimol-as espumejar dos labios roixos o nome dos maridos +por entre o acre do alcool. Vimo-'las repintadas de esfoliaçoens +esqualidas no rosto. Soubemos emfim que o lençol da misericordia as +baldeou da infermaria á vala. E os maridos viveram e sobreviveram, por +que tinham juizo na cabeça, e abrigavam religiosamente no coração o +augusto preceito: _não matarás!_-- + +Apoiados! snr. Raimundo, apoiados! Estes homens fallam bem: são os +sociologicos, os philosophos, os estoicos, os cultos, sou eu, é v. s.ª, +se me não illude a confiança que puz na sua capacidade, hão de ser os +jornalistas, os legisladores, os juizes e os jurados, quando a brocha +der a ultima de mão n'este mascarrado edificio social. + +Se eu tivesse um filho, havia de encouraçal-o para se affrontar, +intemerato e invulneravel com esta sociedade cancerada. Creal-o-hia +debaixo de mão, e no regaço da mãe virtuosa, até aos trinta e cinco +annos, vestido de menina. Depois, mandal-o-ia estudar primeiras lettras, +e ultimas, com professor de acrizolada sanctidade de costumes--mestre +regio que houvesse tido a heroica abnegação de viver com o que lhe dá o +governo, sem me sahir á estrada a roubar-me o relogio. Aperfeiçoada +d'esta arte a educação intellectual de meu herdeiro, eu iria com elle a +um ponto culminante da cidade, á Torre dos Clerigos, por exemplo, na +falta da montanha de Alexandre Dumas, e dir-lhe-hia o seguinte: + +«Meu filho, tens quarenta annos. Fizeste exame de instrucção +primaria:--coisa que eu não era capaz de fazer. Sabes as _Raizes da +formação dos tempos_, conjugas um verbo irregular, tens luzes não +vulgares do _Preterito mais que perfeito composto_, bebeste a longos +haustos os _Logares selectos_ do snr. Padre Cardoso, e vislumbraste +Guizot atravez da historia patria do snr. Motta Veiga. Estás prompto. Eu +é que não sei nada d'isso; que desbaratei a minha mocidade com o +_Thesouro de meninos_, e depois com a tisoura das meninas, umas +costureiras que me cortaram os voadouros, quando eu batia as azas para a +região superior do _Manual encyclopedico_. Perdi-me. _Delicta juventutis +meæ._ + +«Em compensação, meu filho, fiz enxertar no teu cerebro dois garfos da +sciencia universal. És um reportorio dos conhecimentos humanos e +prestadíos. Estás habilitado para tudo, desde porteiro do Monte-pio dos +empregados publicos até ministro da Marinha. + +«Portugal é conquista dos talentos, como sabes. + +«Espera-te uma cadeira velha na Academia Real das Sciencias, e outra no +Gabinete de Leitura de Lamego. Tem-me d'olho estas duas couçoeiras +luzentissimas dos penetraes da immortalidade. + +«Tenho a satisfação de saber que chegaste á florida idade dos quarenta, +sem que uma só petala se haja fenecido na tua grinalda de virgem. Em +meio d'esta fornalha de Babylonia, portaste-te como verdadeira +salamandra. Era grande o meu jubilo quando te via chegar a caza em +mangas de camiza, e, rosado de pejo, me dizias que mulher de Pharaó te +despira o fraque! És um menino das eras antigas. Em tempo de D. João V e +outros reis castos, serias sacristão de Mafra ou da Patriarchal. Hoje em +dia, a virtude da continencia levada a tamanho apuro, poderá, quando +muito, permittir-te a directoria interna do Azilo das velhas do Camarão. + +«Meu filho, é tempo de intrares na fórma, quero dizer, de teres fórma, +de completares o triangulo com a esposa. + +«Caza-te, se queres; mas, se te parece, espera mais cinco annos--periodo +não de sobra para bem digerires e ruminares certos preceitos. É bom +ruminar desde já, para que depois não estranhes as operaçoens +physiologicas de ruminante. + +«Entretanto, procura esposa que não saiba lêr nem escrever, se tanto fôr +possivel; receio, porém, que a não topes n'este paiz onde a instrucção +está por tanta maneira derramada. _Derramada_ é o termo lidimo. + +«Se, á mingua de outra, o coração te esporear para mulher versada no +alphabeto, fornece-a desde logo de livros uteis, brindando-a com as +copiosas _Artes da cozinha_, que se publicaram n'este abençoado +refeitorio de Portugal, desde Fernão Rodrigues até Ramalho Ortigão. Não +se te importe que ella conheça este segundo sujeito; mas tão sómente do +_Cozinheiro dos Cozinheiros_, que elle deu á estampa com outros poetas +causticados da inspiração satanica de Beaudellère. Que tua mulher +procure o vampiro d'aquelles genios unicamente no seio de um timbal de +borrachos. + +«Averigua, antes de mais nada, se tua noiva procede directamente de sua +quinta avó e respectivo avô, sem travessia. Tal avó tal neta. Indaga que +frades, e de qual ordem, entravam em casa das avoengas do teu namoro; e +não será demasiada pesquiza esquadrinhar se a mãe d'ella ainda alcançou +os bernardos. + +«Sabido e provado que a menina é de boa linhagem, observa se isto de +fundilhar ciroulas e apontar piugas não são para ella coisas mero +legendarias, tradicçoens mythicas de Peneloppe e da rainha Bertha. Bom +será que ella seja caroavel da criação de parrecos e gallinhas, e outros +«lances cazeirissimos» ao modo de fallar de D. Francisco Manoel de Mello. + +«Que não se te olvide de espiar-lhe com aturada vigilancia o +temperamento, como clausula em que muito bate o ponto. Se te sahir +sanguinea,--alimentação vegetal, legumes, muita chicoria, fructas e +macarrão. Se lymphathica, não privo que a faças quinhoeira de +substancias fibrosas. Se os nervos predominarem, subordina-lhe a +alimentação calmante aos banhos de chuva. Em summa, pelo que é de +temperamentos, intende-te com Alberto Pimentel, auctor dos _Sanguineos, +lymphaticos e nervosos_, amavel escriptor que todos os noivos devem +convidar para lhes tirar o horóscopo da systole-dyastole, e da espinal +medula. + +«Estás, pois, cazado, meu filho. Tens outra alma no ámago da tua, uma +segunda consciencia a dirigir, como pai, esposo e sacerdote. Na +qualidade de padre de tua mulher, não me admittas acolyto, percebes? + +«Serás fiel a tua mulher; leval-a-has ao Circo de quando em vez; e de +tempo a tempo á musica do quartel-general, e ás Figuras de cera, +auctorisadas pelo chefe da policia, por causa das Venus. De comedias +chamadas «de cazaca», e dramas lardeados de can-can, e Quadros-vivos, +livra como de peste. + +«Irás onde ella fôr; passarás á sua beira as noites de janeiro, fazendo +«paciencias» ou jogando o burro: isto emquanto não ha prole. Quando +houver pequenos, andarás com elles ás cavalleiras, emquanto a mãe +jubilosa lhes está costurando os atafaes. + +«Visitas de casta nenhuma, sem resalva de sexo ou idade. Diz o esperto +Rozado nas _Lagrimas de Jerusalem_: «Está o mundo cheio de velhos e +velhas que lêem de cadeira vicios aos moços e ás moças.» Foi isto +estampado ha duzentos e cincoenta annos! Que diria elle hoje? O que +escreveu n'outro lanço: «Já não ha virtudes nem cherume d'ellas». + +«Ora bem: conjecturemos agora, meu filho, que tua mulher, lealmente +amada, farta e cheia, querida e acariciada, pega de sentir-se invadida +ob e subrepiticiamente pela imagem de certo homem que viu no Circo ou +nas Figuras de Cera. Considera, ó misero, que o freguez da Gran-Duqueza +é um d'esses cachorros da raça funesta dos citados «leoens», que, +atravez das lentes do binoculo, despede coriscos á alma de tua consorte, +queimando-lhe as grandes arterias, as medias, as filamentosas, os vasos +capillares, tudo em que ha sangue e palpitar na economia animal. +Considera, outrosim, que ella, ouvindo a cavillosa natureza, mãe dos +escandalos, em vez de confessar-se a ti, que és o seu padre lareiro, +manifesta-se á cozinheira; e, por entre os soluços da honestidade +moribunda, abre-lhe o peito onde a sua má sina lhe photographou a +ternissima cara do Saint-Preux do Circo. + +«Por te não polear inquisitorialmente com hypotheses, vamos á ultima. A +cosinheira introu no triangulo. Tua mulher recebeu cartas, e +respondeu-lhes, servindo-se dos teus diccionarios, do teu papel pautado, +dos teus enveloppes, e, para remate da affronta, da penna com que tu +enriquecias de glossas o _Cozinheiro dos cozinheiros_, ou esboçavas +narizes tortos para intreter os rapazes. + +«N'este tempo,--vá outra conjectura desgraçada--suppõe tu que eras socio +prendado, como eu, de varias philarmonicas aonde ias, uma noite por +outra, prestar a Offenback o preito da tua corneta de chaves. Com refece +sorriso, tua mulher dava-te á sahida o osculo do costume, e esperava-te +de volta, perguntando-te com a voz convulsa da consciencia irrequieta se +fôras feliz nos bemoes, e tiveras palmas no solo do 2.º acto da «Ilha de +Jafanapatão.» + +«Ah! filho! Estavas trahido como todos os musicos incautos, trahido como +todas as victimas generosas das bellas artes, quando a alma enthusiasta +as etherisa assima do capacho onde as esposas se amesendram com as suas +aspirações razas! + +«Atraiçoado, pois! + +«E, por tanto, se essa mulher, que tanto amavas, te cravou o punhal +hervado da deshonra no intimo seio onde lhe tinhas a imagem;--se te coou +mortal peçonha no beijo que te deu com os labios crestados da lava de +outros lubricissimos;--se te fez a fabula dos visinhos, e te plantou +na praça onde ha o gargalhar dilacerante, e ahi te poz ao cêvo dos +corvos que crocitam á volta do corpo onde farejam morta uma alma;--se te +levou o nome pelos seus muladares, a rojo da cauda de seus vestidos +mercadejados com o corpo;--se te acalcanhou o coração, e te matou no +cerebro o roixinol dos teus cantares;--se te incutiu no _eu_ objectivo a +dyspepsia, a hepathite, a hypocondria, a cacochimia, e emfim te poz a +honra e os intestinos entre o suicidio e o inevitavel opprobrio: sabes o +que hasde fazer? Sabes o que hasde fazer a essa macaca, meu filho?--Não +lhe faças nada: deixa correr o marfim». + + * * * * * + +Isto é o que eu diria a meu filho; v. s.ª, porém, faça o que bem lhe +parecer: eu não aconselho ninguem. + +Visinho, se a questão do _Homem-mulher_ não está assim resolvida, sou eu +mais lorpa do que penso, ou a questão é mais infame que o acto que ella +discute. + +Seja como fôr, _Pax Domini sit temper tecum_, e boas noites. + + +S. C. 10 de setembro, Anno da Graça 1872. + + +(_Á sombra . . . dos 240 réis._) + + + +240 REIS + + + [1] EVE, _contre Monsieur Dumas, Fils_. Pag. 47. + + [2] LA FEMME-HOMME, _Réponse d'une femme a M. Alex. Dumas Fils_, + pag. 40. + + [3] L'HOMME, _Reponse a M. Alex. Dumas Fils_. Pag. 31. + + [4] _Id._, pag. 32 + + [5] _Pag._ 43 e 44. + + [6] _De l'Allemagne, Des Femmes_, Pag. 27. ediç. de 1864. + + [7] _Marie Desraimes, ÉVE, contre M. Alex. Dumas Fils_, pag. 49 e 50. + + [8] _Lusiad, cant. 6.º est. 44._ + + [9] _L'homme et la femme. Lettre a Mr. Alex. Dumas par E. Girardin._ + + + + + + +End of Project Gutenberg's A espada de Alexandre, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A ESPADA DE ALEXANDRE *** + +***** This file should be named 32003-8.txt or 32003-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/0/0/32003/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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Typographia da Casa Real."> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo {border: solid 1px #000; padding: 1em;} + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1,h2,h3 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + .fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: +75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's A espada de Alexandre, by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A espada de Alexandre + Corte profundo da questão do Homem-Mulher e Mulher-Homem + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: April 15, 2010 [EBook #32003] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A ESPADA DE ALEXANDRE *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> + +<div style="text-align: center; border: solid 2px #000; padding: 1em;"> +<p><big><big><big>A ESPADA DE ALEXANDRE.</big></big></big></p> + +<p><big>CORTE PROFUNDO NA QUESTÃO DO HOMEM-MULHER E MULHER-HOMEM</big></p> + +<p>POR</p> + +<p><big>UM SOCIO PRENDADO DE VARIAS PHILARMONICAS</big></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>PORTO <br> +TYPOGRAPHIA DA CASA REAL <br> +<small>Praça de Santa Thereza, 63</small></p> + +<p><small>1872</small></p> +</div> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p style="text-align:center;"><big><big>A ESPADA DE ALEXANDRE.</big></big></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p><big><big><big>A ESPADA DE ALEXANDRE.</big></big></big></p> + +<p><big>CORTE PROFUNDO NA QUESTÃO DO HOMEM-MULHER E MULHER-HOMEM</big></p> + +<p>POR</p> + +<p><big>UM SOCIO PRENDADO DE VARIAS PHILARMONICAS</big></p> + +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> +<p> </p> + +<p>PORTO <br> +TYPOGRAPHIA DA CASA REAL <br> +<small>Praça de Santa Thereza, 63</small></p> + +<p><small>1872</small></p> +</div> +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<p><span class="pn">{5}</span></p> + +<h1>CARTA AO MEU VISINHO RAIMUNDO,</h1> + +<h2>POETA LAUREADO NA «AGUIA-D'OURO»</h2> + +<p> </p> + +<hr style="border: 0; border-top: 1px solid #000; border-bottom: 1px solid #000; height: 3px; width: 30%;"> + +<p> </p> + +<p>M<small>EU CARO SENHOR E VISINHO!</small></p> + +<p> </p> + +<p>Era por uma noite de lua cheia do agosto preterito. Estava eu á janella do +terceiro andar, onde moro, n'esta fragrante rua das Congostas, ninho de poetas +e philosophos, floresta ramalhosa onde v. s.ª regorgeia as suas lyras, e eu +medito Theophilo e Rozalino Candido.</p> + +<p>Estavam então v. s.ª e sua esposa, com as vidraças erguidas, banhados de +resplendores da lua, altercando em voz alta a respeito de um livro de Alexandre +Dumas-Filho, obra que por ahi gira com o titulo hermaphrodita de +<small>HOMEM-MULHER</small>.</p> + +<p>Dizia sua esposa que o auctor do livro atacava o direito, a justiça, a +religião e o pudor. Replicava o snr.<span class="pn">{6}</span> Raimundo que o auctor do livro não +atacava nada; pelo contrario defendia tudo.</p> + +<p>Redarguia s. exc.ª que a mansão conjugal não é açougue, nem a esposa vaca, +nem o marido megarefe. Recalcitrava v. s.ª que a esposa devia considerar-se +vaca, desde que o marido era boi. <em>L'Homme-Femme--Le Boeuf-vache!</em> Está +claro.</p> + +<p>Contenderam largo espaço os meus prezados visinhos n'este honesto certame; +e, ao mesmo passo que mutuamente se illustravam nos deveres de cada um, abriam +no meu cerebro um jacto de philosophias que eu passo a golphar aos quatro +ventos da terra.</p> + +<p>Os sentimentos bem ou mal expendidos n'esta carta, meu prezado visinho, são +uma especie de prolegómenos com que tenciono predispor os animos para a +representação de uma tragedia, em que trabalho ha muito, intitulada <em>O homem +de Claudia</em>. Não se presuma, porém, que eu venho com esta noticia aliciar +espectadores para a minha tragedia no Theatro-Circo. Não, snr. Raimundo. Eu sou +publicista da eschola de Mestre Theophilo--o symbolico,</p> + +<blockquote> + <em>.......... um que tem nos </em><em><small>MALABARES</small></em> + <br> + <em>Do summo sacerdocio a dignidade,</em> </blockquote> + +<p>como a respeito d'elle vaticinou Luiz de Camoens, no Cant. <small>X</small>, +est. 11.<span class="pn">{7}</span></p> + +<p>Publico um livro, sei que ninguem m'o compra, nem m'o lê; mas convenço-me, á +laia do mestre, que os meus livros ensinam tudo que os outros sabem. Esta ronha +pegou-m'a elle, o Grão-Lama, que imagina fazer reformas de raças com os seus +livros de dentadura anavalhada como Cadmus fazia homens com a dentuça do +dragão. Ajoujei-me, pois, na canga d'este pedagogo, e vou bem.</p> + +<p>Revertendo ao ponto:</p> + +<p>Affirmam auctores de boa nota que a mulher é femea, <em>femina</em>. N'este +parecer abundam D. Antonio Ayres, bispo do Algarve, na «Reforma» do +aprisoamento, e Bento Pereira, na <em>Prosodia</em>. Auctoras tambem de boa +nota asseveram que o homem é macho. Do inlace e coezão d'estas entidades +heterogenias forma-se o Macho-Femea, o colchete phyloginio. Faça-me o favor, +snr. Raimundo, de alçapremar o seu intellecto á altura d'estes principios. Em +materias transcendentes seja-me aguia e não kágado.</p> + +<p>No principio do mundo (não iremos mais longe por em quanto) extrahiu Deus a +femea do intercôsto do homem. Aurora do paraizo! Então era a costella do homem +que dava a mulher; hoje em dia, ha homens com todas as costellas partidas por +que desejaram uma ou duas mulheres! O lombo do rei da creação perdeu +bastante<span class="pn">{8}</span> da sua importancia desde que os nossos irmãos anthropophagos +pegaram d'extrahir d'elle sandwichs.</p> + +<p>Este exemplo indelicado seduziu a esposa a considerar o marido uma +substancia comestivel entre o prezunto de javali e o fiambre de viado. D'ahi, o +desacato, o deslize d'aquella patriarchal idolatria com que dez centos de +mulheres genuflectiam ao sancto rei Salomão.</p> + +<p>Abastardado o antigo preito da costella ao costado, da parte ao todo, os +philosophos inventaram a alma para d'alguma fórma afidalgarem a juncção da +carne á carne, do osso ao osso--phraze biblica sobremaneira bonita e aziatica. +Ideada a alma, cumpria ungir com os oleos mysticos o pacto da alliança entre +alma e alma. Accudiram os canonicos com a invenção do sacramento.</p> + +<p>Espero que o meu visinho não ignore inteiramente que os Sacramentos são +sete. E, se esta sombra de duvida offende a sua orthodoxia, sirva-me de +desculpa aquillo de Plutarcho no seu tractado «Da maneira de lêr poetas.» Diz +elle: «A religião, coisa difficil de perceber, está acima da intelligencia dos +poetas». Mas do sacramento do matrimonio sei eu que o snr. Raimundo, sem +embargo do seu alto lyrismo, percebe o essencial, porque eu mesmo o ouvi dizer +a sua esposa:</p> + +<p>«O matrimonio foi divinamente instituido». Por signal<span class="pn">{9}</span> que ella, áttica +e sceptica, lhe respondeu:--Bem me fio eu n'isso!</p> + +<p>E a razão de sua esposa duvidar da procedencia divina da instituição, meu +caro visinho, eu lhe digo em que bases se funda.</p> + +<p>Instituição divina ha só uma: é o mundo. Esta crença hade prevalecer +emquanto meu mestre Theophilo não quizer provar que o mundo é obra dos +mosarabes. Divino é tão sómente aquillo que humanamente se não faz. Os sonetos +de v. s.ª, por exemplo, não me parecem absolutamente de instituição divina. O +cazamento tambem não, por que em tal acto influem o amor, o interesse, o medo, +a vergonha, o reumatismo, a papa de linhaça posta por mão de esposa carinhosa +nas irritações do apparelho digestivo, <em>etc</em>. Estas coisas são tão +divinas como eu; e, senão ouso dizer como o visinho, é por que v. s.ª, na sua +qualidade de bardo, tem lumes divinos, <em>mens divina</em>; arde, fumega, +evola-se como Elias--volatisação de que se não gabam aqui os nossos visinhos +pecuniosos por que o dinheiro pucha por elles para baixo como os elythros pela +tartaruga.</p> + +<p>V. s.ª sabe que, na antiga Germania, consoante Cornelio Tacito descreve, +aquelles barbaros ditosos cazavam-se sem sacramento, sem sacerdote e sem +templo. O noivo, em presença de parentes seus e da noiva, dizia-lhe:<span class="pn">{10}</span> +«Recebo-te como minha legitima mulher, para te haver e possuir, de hoje ávante, +boa ou má, rica ou pobre, para te amar e assistir em tempo de saude e doença, +até que a morte nos separe».</p> + +<p>Alli, divindade e padre, n'aquella augusta ceremonia, eram os arcanos +sagrados, <em>arcana sacra</em>, o mysterioso respeito ao Deus invisivel, +consagrado nos solitarios murmurejos da selva, <em>lucos ac nemora +consecrant</em>.</p> + +<p>Ora, medite, snr., n'estes selvagens, onde as mulheres rapadas, as +adulteras, eram por tanta maneira raras, que apenas apparecia uma para cevar a +execração das turbas! Pois olhe que não havia lá n'aquellas florestas dodonicas +idea de femea fabricada da costella do homem. Lá dizia-se que a creadora do +mundo havia sido uma enorme e desmedida vaca, e vivia-se honradamente apesar de +tão estupida cosmogonia de uma vaca bruta; e, por aqui, no pino da civilisação, +com tantas vacas sabias, vamos a pique! As nossas femeas restituem-nos a +costella, pondo-no'l-a como apendice ao craneo; e, em vez de se tosquiarem á +guiza das germanicas, alcantilam as cabeças com uns riçados delirantes. Atroz! +</p> + +<p>Diga-me, poeta laureado: não será injuriar Deus attribuir-lhe o vinculo +sacramental do matrimonio, d'onde derivam tantos infernos sabidos, tantos +infernos ignorados,<span class="pn">{11}</span> tantos coraçoens nobilissimos pervertidos, tanta +deshonra escarnecida pelos folioens dos palcos, tantas alcovas devassadas, +tanta mulher emborcada no gôlphão das lagrimas a que a sociedade chama o lodo +da prostituição?</p> + +<p>Levam a taes voragens as estradas complanadas pela mão de Deus?</p> + +<p>Ó snr. Raimundo, não parvoejemos por amor ao catholicismo. Não façamos da +nossa hypocrisia aspa de patibulo em que estamos sempre a cravejar a memoria de +Jesus, sobre quem Deus refrangiu o mais divino reflexo da sua gloria.</p> + +<p>Jesus não fez o cazamento: quiz fazer a nova Eva, com o pé sobre os +colmilhos da serpe, e a fronte amparada no seio amantissimo do homem. Ah! Jesus +disse: «Amai-vos!» Isto de: «maridai-vos» é preceito de concilios, e é palavra +que não sôa no lexicon hebreu nem chaldeu. Ser-me-hia mais facil encontral-a em +Petronio que em S. Paulo. Ressuma d'essa palavra um travo de impudor. Quando +ella vier do intimo seio aos labios da mulher, já lá dentro não ha flôr que lhe +perfume o furtum. <em>Maridança!</em>--expressão deslavada de um acto sem +vislumbre de ideal, a desfloração a começar na prosodia, um rebaixamento +d'aquelle prodigio da fantasia genetica--da mulher--á condição da femea, da +retorta, do<span class="pn">{12}</span> recipiente, da maquina de costura silenciosa, da materia +grangeada para reproduzir, como quem aduba um torrão que hade verdejar couves +lombardas!</p> + +<p>Atroz, snr. Raimundo, atroz!</p> + +<p>Que é o adulterio?</p> + +<p>É a razão insurgida contra o absurdo do vinculo indissoluvel.</p> + +<p>A mulher, que morre no acto da sua rebellião, que é? Hoje, é uma criminosa +que uns deploram, e outros impropéram na sepultura. D'aqui a cem annos será +celebrada como holocausto da emancipação.</p> + +<p>Por que, d'hoje a cem annos, visinho, não haverá matrimonio, nem +adulterio--crime convencional e estranho á natureza, na judiciosa phrase de +Girardin--; haverá amor duravel e mantido mutuamente pela liberdade de +quebrantar o pacto. O sacramento, o nó indesatavel, serão os anjos, os filhos. +Por que os filhos, as creanças amadas do defensor de Maria Magdalena, desde +então conversam com Deus, e haurem-lhe dos olhos divinos o raio de luz que +reverbera entre os coraçoens de seus pais. Não descerá a treva do tedio sobre +as almas amadas. A aza pura e alva do filho cobril-as-ha, quando a hydra da +lascivia resurtir das ruinas de algum extincto mosteiro de bernardos ou +bernardas.</p> + +<p>Que é o matrimonio?<span class="pn">{13}</span></p> + +<p>A definição, dada recentemente pela minha collega Maria Deraismes, recende +aromas de tão subtil feminilidade, que não ha ahi coisa mais balsamica de +donzellice e pudicicia!</p> + +<p>Ora, leia, poeta e senhor meu, e confesse que, ao par d'isto, os seus +madrigaes são trovas de marujo que fadeja nas fontes cabalinas da Travessa dos +Barbadinhos.</p> + +<p>«O cazamento--diz a dama, invectivando Alexandre Dumas--é a união de dois +organismos, cada qual com seu officio a exercer, em consequencia de precisoens, +appetites, e desejos que reciprocamente pendem a satisfazer-se um pelo outro, +sendo o objecto desta satisfação a perpetuidade da especie. Eis a essencia, o +fim do cazamento.»<a name="tex2html1" href="#foot202"><sup>[1]</sup></a></p> + +<p>Esta minha collega physiologica, ao que parece, é lida em Sanches, <em>De +matrimonio</em>, e tem bastantes luzes de anatomia. Para alguns espiritos +rasteiros e ignaros prefiguram-se no hymeneu suavidades, arrôbos, +idealisaçoens, evoluçoens mais ou menos gasosas, borboletas iriadas, +<em>etc</em>. A snr.ª D. Maria da E<small>VA</small>, não. Essa vê dois orgãos +com appetites. Em materia de cazamento não é christan, nem mahometana, nem +pagan: é organista.<span class="pn">{14}</span></p> + +<p>Em outro lanço, pag. 38, a mesma philosopha, discreteando ácerca dos ditos +orgãos, pondera que «a physiologia, parte da biologia, quando tracta dos órgãos +em exercicio, requer a mais rigorosa imparcialidade, e a regeição plena de tudo +que é postiço.»</p> + +<p>Apoiada! Gosto d'esta senhora! Se eu tivesse um filho parvo, dizia-lhe : +«Caza-te com esta D. Maria da E<small>VA</small>, se queres saber biologia.» +</p> + +<p>Outra minha collega, que por nome não perca, diz que: «se a sua filha for +sanguinea e de compleição robusta, lhe não escolherá marido fraco ou desfalcado +de forças por libertinagem.»<a name="tex2html2" +href="#foot203"><sup>[2]</sup></a></p> + +<p>É tambem organista.</p> + +<p>Cá está outra: a snr.ª D. Hermance Lesguillon, versada em Aristoteles.</p> + +<p>Esta dama abespinha-se rasoavelmente contra Dumas, porque elle parece +alvitrar que as meninas se abstenham de interpretar muito á lettra o preceito +genesiaco. A douta matrona, authora de quatorze livros, exclama:</p> + +<p>«Qual é o fim da creação? É decisivamente convento para as mulheres e +mosteiro para os homens? Isto, a fallar verdade, é ridiculo! Onde quer o snr. +que ellas<span class="pn">{15}</span> vão? Aos vicios contra-natura, como Aristoteles os attribue ao +masculino nas republicas gregas?»<a name="tex2html3" +href="#foot204"><sup>[3]</sup></a></p> + +<p>Veja-me esta sábia, ó snr. Raimundo!</p> + +<p>Quer agora regalar-se com um pedacinho de apostrophe contra o mesmo vicio +dos gregos?</p> + +<p>«Cautela, eterno masculino! O proprio Deus se offende d'esses attentados +contra a natureza! Esses impudicos mysterios que commetteis contra a +mulher--obra da predilecção e ternura divinas--ultrajam Deus!»<a +name="tex2html4" href="#foot205"><sup>[4]</sup></a></p> + +<p><em>Mysterios</em> impudicos que ella lá sabe, como se não fossem mysterios. +Vista dupla do genio. Emfim, sempre é dama que lê Aristoteles, como a sua +esposa, meu visinho, não é capaz de soletrar a <em>Palavra</em>, gazeta de +lettras de 10 reis, as quaes não podem formar uma intelligencia de pataco.</p> + +<p>Conta a referida litterata que certa donzella sua amiga, em vespera de +cazar, leu o <em>Homem-mulher</em>. Entrou o noivo, e achou-a a tremer de pavor +com o livro entre mãos. Pergunta-lhe que tem; ella mostra-lhe a brochura, e +aponta-lhe com o dedo de ágatha aquelle truculento <em>Tue-la</em>! Mata-a!» +</p> + +<p>--Que lhe parece isto?--disse a pallida noiva.</p> + +<p>--Soberbo!--responde o gentil namorado--Não<span class="pn">{16}</span> ha ahi palavra ociosa. O +remate principalmente é optimo!</p> + +<p>E a menina, sem mais delongas, desmaiou. E, assim que recobrou os sentidos, +disse á mãe que não queria semelhante marido.</p> + +<p>Rodeiam-na as suas amigas; forma-se synagoga de senhoras conspicuas, e +concede-se á loira Alice a palavra para explicaçoens.</p> + +<p>E a menina entre outras phrases, expediu estas do seio arquejante:</p> + +<p>--Aquelle <em>mata-a! mata-a!</em> zumbia-me nos miolos! Estarreci!.. Como +hade a gente jurar que será sempre a mesma, quando o livre arbitrio está +dependente de outro? Poderei responsabilisar-me por amal-o sempre? Se me elle +sahir abominavel, por sentimentos, e violento, caprichoso e despota, poderei +soffrear a minha impaciencia? Se elle me não agradar depois, poderei amal-o?-- +</p> + +<p>Visinho, bacorejou-lhe á prevista menina onde iria parar ao diante, e teve +medo. Honrado susto! Não lhe assevero que ella soubesse biologia, nem miologia, +nem manuseasse as politicas aristotelicas; mas de tal donzella ha muito que +esperar, scientificamente fallando. D'estas vitellas tenras é que se fazem as +vaccas sabias e duras.</p> + +<p>Mas não se persuada, senhor meu, que a discreta Alice aprezilhe no colo de +alabastro a tunica de vestal.<span class="pn">{17}</span> Longe d'isso. Tenciona cazar, porque as +matronas academicas lhe preleccionam biologicamente que a perpetuidade da +especie é condição indeclinavel. Diz ella então muito aforçurada:</p> + +<p>--Heide cazar com pessoa cujos sentimentos eu conheça radicalmente; quero +que eu e elle saibamos com o que podemos contar, e se as nossas sympathias são +reciprocas... Lá do enxoval, que estava prompto, não se me importa já... Eu ia +cazar com um sujeito que não amava nem conhecia. Primeiro que tudo, quero amar +os sentimentos honestos do meu namoro. Com taes condiçoens, tudo se arranja +bem. <em>Seremos depois indulgentes um para o outro.</em><a name="tex2html5" +href="#foot206"><sup>[5]</sup></a></p> + +<p>Bastante petisca; mas boa rapariga de lei! E ingenua então... até alli! +Confessa que esteve a ponto de cazar com homem que não amava; mas cazava tão de +vontade como voluntariamente o regeitou. De sorte que, se não apparecesse o +livro de Alexandre Dumas, veja v. s.ª que destino se estava aparelhando para o +marido d'aquella senhora!</p> + +<p>Ó visinho, sabe o snr.? eu, se tivesse um filho indulgente, dizia-lhe: +«Rapaz, se não levas a mal que o almoxarife da caza de Bragança, em Villa +Viçosa, te<span class="pn">{18}</span> mande agarrar e recolher á tapada como cervo tresmalhado, caza +com esta menina perliquiteta.»</p> + +<p> </p> + +<p>Agora, duas paginas sérias, snr. Raimundo.</p> + +<p>Cá tenho a pitada engatilhada ao nariz circumspecto. Devo-me ao futuro do +meu paiz. Vou enviar-me gravemente á posteridade.</p> + +<p>Não me consta que em Portugal, por em quanto, alguma das gentilissimas +damas, que recolheram a herança das Sigeas, Alornas e Possolos, haja sahido á +liça a esgrimir com o fulminante estylista francez. Parabens á constellação de +estrellas que scintillam annualmente no <em>Almanach das Senhoras</em>! Que não +baixem da região excelsa em que são contempladas cá d'estas cavernas onde urram +alcateas de féras. Se anjos descerem a involverem-se comnosco, sahirão +desluzidos, com as candidas plumas incarvoadas do suor negro dos nossos +pugilatos. Nós, os gladiadores d'esta arena, se as sanctas estrellas se +apagarem, não teremos a quem saudar, moribundos.</p> + +<p>Não as induzam exemplos de escriptoras francezas n'esta melindrosa contenda. +A sciencia perigosa, que lhes sobeja, é escorregadia, pudor abaixo, até ao +desdouro da idéa e da forma. Já lhes não basta a área modesta dos argumentos +colhidos nos mananciaes doces do coração e da alma. Rompem as fronteiras das +sciencias physicas<span class="pn">{19}</span> e graduam chimicamente os globulos cruoricos do sangue +de cada mulher.</p> + +<p>Dão venia e desculpa aos temperamentos rijos, e acham menos perdoavel o +desacerto da esposa lymphatica. Devassam os latibulos de Sodoma, e dardejam por +sobre a espadua de Aristoteles frechas sarcasticas á cara purulenta dos lazaros +que raspam a sua lepra nas sargentas. Abrem Bichat e De Bienville para nos +ensinarem o que é a esposa anatomica e physiologicamente. Uma, que diz ter +filha ainda creança, promette consultar o calorico, os estos e o arphar do +sangue de sua filha nubente, quando houver de lhe escolher o homem.</p> + +<p>É uma senhora quem cogita e escreve estas carnalidades, e as estampa e atira +o livro á onda suja, que espuma nos tapetes das salas de Pariz e de todo mundo. +As avezinhas, esvoaçadas do pombal do <em>Sacré-Coeur</em> para o baile, para o +theatro, para o <em>Bois</em>, seguem o olhar lavateriano das mães a cada homem +anémico ou plethorico, descarnado ou inxundioso, que se aproxima. Isto +sobreleva a torpeza tolerada á mulher que esconde o seu aviltamento nas +alfurjas. N'este phrenesi de esgaravunchar em temperamentos, será racional que +o noivo se exhiba e sujeite a ser apalpado no craneo pela mãe da noiva, com +Spurzheim aberto, para averiguações de bossas, e confronto de protuberancias +das duas cabeças examinadas<span class="pn">{20}</span> como aptas ao maquinismo da procreação. +Alvitres d'aquella estôfa, dados por um ebrio no <em>estaminet</em>, +revessam-se precipitados no sedimento do absyntho e do <em>hachich</em>; mas, +decoados pelos prelos, tornam a chronica das orgias de Trimalcião um livrinho +digno da puericia, um «Ramilhete de christãos»; e, se derivam por entre os +dedos translucidos de uma senhora, ah! eu não lhes sei o nome!--a minha vontade +é chorar um choro grande como o propheta Ezechias: <em>flevit fletu magno!</em></p> + +<p>E v. s.ª não chora, snr. Raimundo? Esponje-me d'essas entranhas de poeta +fios de lagrimas; depois, enxugue-se, e leia, se está de pachorra.</p> + +<p> </p> + +<p>Aquellas e outras damas que taes livros escrevem, inspirando-se da +catastrophe de Denise Mac Leod, assassinada, pouco ha, pelo marido, afugentam a +piedade de ao pé da sepultura onde o archanjo sombrio e mesto da paixão se +abraça á cruz das Manas Egypsiaca e de Cortona. A desgraça no tumulo é +inviolavel. As mais austeras consciencias se commiseram das infelizes +dilaceradas pelas rodas d'este pessimo maquinismo social; todavia, a compaixão +não é assentimento ás irreflectidas damas que peróram ás turbas mostrando a +tunica ensanguentada da victima, como quem mostra o punhal de Lucrecia. Se nos +querem commover, chorem primeiro. Lagrimas,<span class="pn">{21}</span> lagrimas. Nada de rethoricas +lardeadas de doutorices. Em vez de physiologia, espiritualismo. Alma; e de +corpo só o <em>quantum satis</em>. Contem-nos segredos das suas fragilidades +maviosas; coisas do seio para dentro; flores de coração, que, ainda afogadas e +delidas na raiz por abundancia de lagrimas, espiram sempre olores de +innocencia. Se se desviam da honra, aconselhadas por suas sabenças, então está +tudo perdido! Em organismos, em sangues ricos ou depauperados, em disciplinas +do 3.º anno medico, façam-nos o favor de nos não aperfeiçoarem. Receamos que s. +exc.<sup>as</sup> nos intimem tarefa de <em>chrochet</em>, emquanto ellas, +montando os oculos, abrem o grande volume de Harveus, e, para nossa confusão e +escarmento, pegam de declamar: <em>Exercitationes quædam de partu: de membranis +ac humoribus uteris et conceptione.</em> Eu tenho este livro, visinho; e, se +uma filha que heide ter, me abrir o livro e o traduzir no capitulo +<em>Propagação da especie</em>, mato-a; para que o filho do snr. Alexandre +Dumas, vindo a ser meu genro, m'a não mate, aconselhado pelo pai.</p> + +<p> </p> + +<p>Snr. Raimundo:</p> + +<p>Eu não sei se sua esposa é instruida e bastante profunda em <em>Ponson du +Terrail</em>. Que não vá ella arrenegar do mau visinho da porta como de todos +os diabos, malsinando-me de zoilo de damas que versam com<span class="pn">{22}</span> mão diurna e +nocturna os romances da «Bibliotheca economica».</p> + +<p>Não, senhor.</p> + +<p>Acato a sabedoria das senhoras, quando a figura lhes dá geito de virágos, +feitio de mestras regias jubiladas, e um não sei que de sexo canonico.</p> + +<p>Que sua esposa, moça e galante, recite ao piano trovas de lavra propria, e +escreva o soneto acrostico no dia natalicio do marido, acho isso bonito, +senhoril e benemerito de um até dois osculos castos e dignos da testa da +Minerva antiga. Mas, se ella descambar das branduras erothicas de Sapho para as +meditaçoens sociologicas da snr.ª Canuto, peco-lhe, visinho, que a obrigue a +lêr as obras de meu mestre doutor Theophilo, a fim de ganhar odio á letra +redonda--virtude supranumeraria dos escriptos d'aquelle varão.</p> + +<p>Houve damas que lograram intalhar seus nomes na arvore immortal da sciencia; +essas, porém, não desgarraram da senda florída por onde as abelhas do Hymeto +lhes sahiam a dulcificar mulherilmente a phrase. Dou-lhe como exemplo Stael. +</p> + +<p>De involta com vastissima lição entreluzem, nos seus livros mais grados, +donaires feminis, e genio acendrado na fragua do coração. Ao proposito d'esta +esteril peleja, que se renova cada vez que um marido se furta<span class="pn">{23}</span> ás prezas +da irrisão publica, atirando ás da morte a esposa adultera, Stael perpassou +ligeiramente, como lhe cumpria, pela solução do divorcio, reprovando-o. No +extremado livro chamado <em>Da Allemanha</em>, escreve a insigne pensadora: «É +forçosa coisa confessar que a facilidade do divorcio, nas provincias +protestantes, macula profundamente a sanctidade do matrimonio. Tanto monta +mudar de marido como urdir as peripecias de um drama. Lá, a boa indole dos +homens e das mulheres permitte que semelhantes rompimentos não sejam +amargurados... É, todavia, certo que, á conta d'isso, a consistencia do +caracter alquebra-se, os bons costumes abastardam-se, o espirito paradoxal alue +as mais sagradas instituições, e não ha ahi determinar regras sobre coisa +nenhuma».<a name="tex2html6" href="#foot208"><sup>[6]</sup></a></p> + +<p>Aqui tem sentimentos que frizam honradamente primorosos em indole de senhora +n'esta questão, a todas as luzes pessima, por nimiamente arriscada. Aquelle +parecer é talvez vulneravel, e não resistirá, por ventura, a Portalis ou +Montesquieu; mas o que a sciencia lhe respeita é a honestidade. Filha, esposa e +mãe,--tudo no extremo em que a eminente escriptora logrou ser, em vida tão +aparcellada de angustias--respiram n'aquelle pudibundo resguardo á seriedade do +cazamento. Ella não quer o divorcio:<span class="pn">{24}</span> quer a dignidade na paciencia, +quando falleça no homem a probidade de marido.</p> + +<p>Compare-m'a, snr. Raimundo com estas Hippatias de 1872. Em quanto a poetisa +de <em>Corinna</em> linimentava suas maguas de expatriada com a +<em>Messiada</em> de Klopstock, est'outras, com o cerebro ainda escaldado dos +meteoros de petroleo, justificam o desaire das esposas com a physiologia de +Muller, e vão ler, ao lampejo dos cirios mortuarios, que ladeam o ataúde de +Denize Mac Leode, as vaias que o philosopho de Stagyra desfrechava contra os +pederastas espartanos.</p> + +<p>Quer v. s.ª ler, a occultas de sua esposa, um molde de altercação, entre +marido e mulher, que D. Maria da E<small>VA</small>, lhe offerece em desculpa +da adultera?</p> + +<p style="text-align:center;">MARIDO</p> + +<p>O adulterio de minha mulher póde fazer-me pai de filhos alheios.</p> + +<p style="text-align:center;">ESPOSA</p> + +<p>O adulterio de meu marido póde arruinar-me os bens de fortuna.</p> + +<p style="text-align:center;">MARIDO</p> + +<p>Tu devias ter força e juizo para não succumbir.</p> + +<p style="text-align:center;">ESPOSA</p> + +<p>E tu, que representas a razão, foste o primeiro a prevaricar: não fiz mais +que pagar-te na mesma moeda.<span class="pn">{25}</span></p> + +<p style="text-align:center;">MARIDO</p> + +<p>A minha culpa foi um mero capricho dos sentidos.</p> + +<p style="text-align:center;">ESPOSA</p> + +<p>E a minha foi uma necessidade. Quizeste que eu fizesse de viuva sem ter +inviuvado.<a name="tex2html7" href="#foot213"><sup>[7]</sup></a></p> + +<hr style="width: 30%;"> + +<p>Aqui tem! Que senhoraças! Não lhe faz saudades a decencia das +<em>Cartas</em> de Ninon de Lenclos? Eu estou em dizer-lhe como o poeta,</p> + +<blockquote> + <em> que honras e famas</em> <br> + <em>Em taes damas não ha para ser damas</em><a name="tex2html8" + href="#foot210"><sup>[8]</sup></a> </blockquote> + +<p>E, por tanto, visinho e amigo, á vista do que pregam estas pandorgas +folicularias,--symptomas de acirro incuravel no coração da França,--somos +entrados em periodo de decomposição. Salve-se quem poder com a sua companheira +d'esta peor Troya, e leve alguns penates reduzidos em especies bancarias sobre +os hottentotes, e vamos para lá muito nas boas horas, se v. s.ª não prefere +antes que fiquemos para moralisar as massas.</p> + +<p>Eu, de mim, anteponho o martyrio á fuga. Irei<span class="pn">{26}</span> bradar debaixo dos muros +d'esta segunda Jerusalem, sem me esquecer de Barcellos, Amarante, Lamego e +outras Ninives corrompidas. Se os de dentro me amolgarem a cabeça á pedrada +como fizeram ao outro enviado do Senhor, arrange v. s.ª a formar de mim um +sugeito legendario, depois de consultado mestre Theophilo--o arbitro das +castas--sobre a raça em que me hade grudar.</p> + +<p> </p> + +<p>Sou apostolo commedido e modesto, snr. Raimundo. Não me desvanecem +presumpções de o convencer. O que faço é alqueivar bravios: o semeador virá +mais tarde.</p> + +<p>Repare, no emtanto, por essa vida de seis mil annos fóra que vem fluctuando +desde o cháos. Não vê uns altos e eternos padrões assignalando paragens que o +genero-humano fez para ouvir a consciencia de sua força, o Deus interior, pela +voz dos oraculos? Sobre esses padroens ha umas estatuas que topetam com as +estrellas. Chamam-se Moisés, Fó, Kong-Fou-Tsée, Socrates, Platão, Aristoteles, +Cicero, Paulo, Galileu, Luthero, Vico, Descartes, Kant, Kepler, Leibnitz, +Newton, Pascal, Montesquieu, Voltaire, etc.</p> + +<p>Cuida v. s.ª que as torrentes da vida intellectual e progressiva se +rebalsaram n'este pantano descompassado em que as rans, por entre os rabaçaes, +nos estão coaxando sciencia... de rans? Está illudido, visinho. A +natureza<span class="pn">{27}</span> humanal fermenta, tem febre como puérpera d'um grande feto que +lhe escouceia os flancos, fita grandes orelhas abertas aos rugidos da idéa nova +que vem da Cafrária, e assesta o oculo de longa mira ás brumas do horisonte, +onde, a espaços, lhe corisca um pyrilampo, que, se não é Theophilo, sou eu.</p> + +<p>Se é elle, digam-lhe que se abra. <em>Epheta!</em>--palavra hebraica, que +quer dizer: <em>abre-te!</em> Melhorar os costumes das raças deve ser-lhe mais +facil que a costumeira de invental-as. E elle, como o visinho sabe--inventou-se +a si, inventou aquillo! Pois então que falle, com dispensa até da syntaxe. Que +espirre candeias na treva que se está condensando á volta do cerebro social--a +familia. Que laqueie a grande arteria aórta da sociedade humana--o matrimonio. +Que defeque o intestino cego das raças germanicas e latinas da ténia que o +róe--o adulterio. Que nos diga, em fim, Theophilo o que se hade fazer ao dono +ou dona d'esta prenda!</p> + +<p>Ninguem receia que se esquive de entrar n'esta gafaria de tabardoens, com o +seu emplasto, elle, que entrou com 3725 paginas em-8.º no gasofilacio da +patria. Sabia isto, visinho? E nós, os seus discipulos laudanisados, esperamos +que o mestre, depois desta somnolenta operação de Mesmer, nos transporte ás +regioens translucidas do espiritismo.<span class="pn">{28}</span></p> + +<p>Entretanto, porém, que o vidente incuba, vou eu arroteando o chavascal que +elle depois tozará mais a preceito.</p> + +<p>Snr. Raimundo, poeta laureado e amigo:</p> + +<p>Alexandre Dumas-Filho quer que Caim cazasse com uma macaca, natural do paiz +de Nod, terra desconhecida a Strabão. É logicamente rigoroso que um paiz +desconhecido a Ptolomeu e outros geographos antigos seja paiz de macacas. Se v. +s.ª não achar no mappa de Portugal a terra onde fui creado e educado, a +Samardan, tão chasqueada por Filintho Elysio, fica authorisado a decidir que +eu, em pequeno, andava lá pelos bosques a brincar com as caudas dos +cynocéphalos, meus mestres de gymnastica e gesticulação.</p> + +<p>--D'onde és tu, meu amor?--pergunto, na praia da Foz, á mulher que adoro. +</p> + +<p>--Sou de S. Gonhedo--responde ella.</p> + +<p>--De S. Gonhedo? Espera ahi.</p> + +<p>Abro o «Diccionario geographico», de que ando munido depois dos ultimos +acontecimentos. Procuro <em>S. Gonhedo</em>, e não acho.</p> + +<p>Começo a suspeitar que o meu amor é de Nod;--que é, pelo menos, amacacada. +Disfarço, accendo o meu charuto, e safo-me. É o mais prudente.</p> + +<p>De Caim e de sua esposa Catarhina (sem <em>dom</em>: receio<span class="pn">{29}</span> que v. +s.ª, esquecido dos seus estudos zoologicos, faça a mulher quadrumana de Caim +homonima da inspiradora de Luiz de Camoens. <em>Catarhina</em> é o nome de uma +das duas tribus da primeira familia de macacos. Veja Milne-Edwards, Dumeril, +Lamarck, e a mim, <em>passim</em>)--de Caim e de sua esposa Catarhina procedem, +segundo Alexandre Dumas, as mulheres de má raça e condição bravia. Pelos modos, +n'esta progenie maldita, os machos são poucos, sem embargo de enxamearem por +ahi em barda uns que macaqueam Schlegel e Kant como uma foca póde remedar um +acrobata arabe.</p> + +<p>A geração de Caim, continuada em Cham, brunida pelo esmeril dos seculos, +adelgaçou-se e puliu-se de feitio que já se confunde hoje em dia com a +descendencia abençoada de Sem e Japhet.--V. s.ª (permitta o exemplo)--está +persuadido que sua senhora é da raça boa, e faz muito bem; mas vá de hypothese +que sua mulher amua e trinca o labio porque o visinho resiste a renovar-lhe a +cuia. Parece-me que será então acertado reparar se ella n'essa occasião róe o +sabugo, se coça os quadris com o dedo indicador, e anda de cadeira para cadeira +a dar uns saltos suspeitos. Se este desgraçado presupposto se realisar, v. s.ª +não será demasiadamente iniquo desconfiando que está matrimoniado com uma +senhora que tem nas veias um litro de sangue de macaca. Feito o +descobrimento<span class="pn">{30}</span> anthropomorpho (queira desculpar esta gregaria), nenhuma +cautella é de mais. O bom siso pela minha boca humilde, aconselha o visinho que +lhe dê a cuia, duas cuias, e tres nozes para ella se desarrufar. Se não fizer +isto,... estende-se, snr. Raimundo.</p> + +<p>Começam a entre-luzir os meus principios ácerca do adulterio. Já achou, +visinho?</p> + +<p>O adulterio é um fatalismo organico. A mulher de stirpe macaca é +irresponsavel do fratricidio e cazamento bestial de Caim. A rôla arrulha, o +sagui chia, cada qual segundo a sua natureza glottica. O homem não deve sangrar +á ponta de punhal a arteria onde o supremo gerador injectou sangue viciado. +Ninguem se lembrou de fazer irmans da caridade as hyenas, nem encarregou os +pachidermes de missionarem aos pretos seus visinhos.</p> + +<p>O crime deprehende-se da liberdade de o não praticar. A bossa impede o +arbitrio.</p> + +<p>O homem, que descadeira a mulher victima da fatalidade do seu organismo, +será capaz de me desfechar um rewolver á queima roupa, se eu lhe não aceitar a +côrte. E eu não lh'a aceito, por que não está na minha organisação aceitar a +côrte do masculino nem do neutro. Sou irresponsavel da minha esquivança ás +caricias ardentes d'essa pessoa. Não posso amar o sugeito que me enviou uma +camelia, ou um frasco de agua de<span class="pn">{31}</span> Colonia do Farina. Se esse galan me +bater, sobre ser asno, é feroz.</p> + +<p>Os legisladores, menos arredios das leis naturaes, estatuem que marido e +esposa se divorciem, dada a incongruencia de genios, aggravada pela +prevaricação dos reciprocos deveres da fidelidade conjugal. O divorcio, porém, +restricto á separação do foro conjugal e bens, não sanêa as feridas abertas na +honra. A mulher resvala com o nome do marido a todas as voragens onde a +irresistivel condição a baqueia.</p> + +<p>Hade elle, por tanto, matal-a para desacorrentar-se do pelourinho do +vilipendio? Não; por que mata um authomato inconsciente da sua queda. É como se +andasse ás facadas aos seus amigos, por que elles, na sua qualidade de corpos, +obedecendo á lei da gravitação, pendem para o centro da terra.</p> + +<p>«O divorcio judiciario constitue o cazamento escola de escandalo»--diz o +douto dramaturgo do <em>Supplicio de uma mulher</em>.<a name="tex2html9" +href="#foot211"><sup>[9]</sup></a>--E acrescenta: «A interferencia de juizes é +quasi sempre cega ou nociva. Se entre cazados ha motivos de divorcio, deem-lhes +plena liberdade de se desligarem». Até aqui o primeiro publicista de +França.<span class="pn">{32}</span></p> + +<p>Mas divorcio incondicional, rompimento sem clauzulas. Se ha dote ou bens +paraphrenaes, a mulher é credora, não já do marido, que é um titulo extincto, +mas do detensor incompetente dos seus haveres.</p> + +<p>Essa mulher, livre, póde encontrar marido de sua especie, com tres partes de +macaco ou mais, que lhe não estorve os instinctos, e ser ditosa, como a esposa +de todos os sujeitos de prol e tino,</p> + +<p style="text-align: center"><em>Que não são de ciumes offendidos.</em></p> + +<p>E, simultaneamente, aquelle homem, desatado do vinculo infamante, póde topar +uma descendente de Japhet, esposa leal, sanguinea ou biliosa, mas sobre tudo +honrada, que é melhor que lymphatica.</p> + +<p>E o sacramento?--pergunta-me o visinho com a Cartilha de Mestre Ignacio em +punho.</p> + +<p>O sacramento, snr. Raimundo, é um attentado contra a natureza; é, na phraze +energica de Girardin:--«uma pretenção impia dos fabricadores de leis positivas, +prophetas e legisladores a desfazerem as leis naturaes para refazerem o genero +humano sob o nome de Sociedade».</p> + +<p>Observe que Girardin foi marido exemplar de Delphine Gay, a mais formosa e +illustrada alma no mais gentil corpo de parisiense. Pondere n'isto.</p> + +<p>Mas muito mais ponderosa é a questão dos filhos.--Que<span class="pn">{33}</span> se hade fazer ás +creanças, flores que desbotoam á ourela d'essas sentinas, anjos nitidos que +passam deplorativos por entre as lavaredas d'esses infernos?</p> + +<p>Os filhos, legitimos ou bastardos, adulterinos ou incestuosos são eguaes +perante a mãe. Ella é quem não duvida que os filhos são seus. Receba-os, +leve-os, que talvez leve comsigo os esteios do seu rehabilitado decoro. Mas, se +o marido os quizer, deixe-lh'os, que bem amparados ficam no seio do amor. Deve +de ser immenso o bem-querer do homem que lava com suas lagrimas os estygmas na +face do filho da mulher perfida e repulsa.</p> + +<p>Pergunta-me o visinho se, em harmonia com estes paradoxos, o cazamento, a +alliança sacramental de homem e mulher acabam.</p> + +<p>Acaba o que a sociedade fez, violentando o que a natureza tinha feito. +Mulher e homem volvem ao que foram.</p> + +<p>Target, o collaborador do Codigo Civil da Convenção, responde-lhe melhor do +que eu: <em>Onde quer que a sociedade encontrar um homem vivendo com uma +mulher, deve reconhecer um consorcio apto para dar aos filhos o direito da +legitimidade.</em></p> + +<p>--Paganismo!</p> + +<p>Seja o que v. s.ª quizer; mas olhe que já não é bom tom trejeitar visagens e +momos quando a razão joeira<span class="pn">{34}</span> perolas no lixo da Roma de Aggripa e Seneca, +de Catão Censorino e Marco Aurelio. Se o visinho admira nos Congregados e na +Trindade muita senhora, devota e escrava de Maria Sanctissima, não se +edificaria menos entrando em Roma no templo do Pudor, edificado pelas Veturias, +Cornelias, Calpurnias, Sulpicias Pretextatas e Arrhias Marcellas. Estas ou +morriam com os maridos amados, ou vingavam-os. O opprobrio não ousava erguer a +cabeça petulante de sobre a alta barreira que extremava aquellas matronas das +Silias e Octavias, das Apuleias Varilias e das mulheres de Claudio.</p> + +<p>O visinho sabe que na Roma pagan, dado que o divorcio pendesse da simples +deliberação de um ou de ambos os conjuges, ou ainda do mero capricho do marido +immoral--quer elle se chamasse Nero ou Cicero--decorreram quinhentos e vinte +annos sem um exemplo de divorcio.</p> + +<p>Montesquieu explica o phenomeno: «Marido e mulher soffriam-se pacientemente +os mutuos dissabores cazeiros, por isso mesmo que podiam acabal-os; e, só por +que tinham livre o uso d'esse direito, passavam toda a vida sem pratical-o». +</p> + +<p> </p> + +<p>Ahi está a minha idéa peneirada aos ventos quadrantes da opinião tempestuosa +das turbas. Ruja a leôa<span class="pn">{35}</span> da hypocrisia na sua caverna--que eu, á laia do +varão justo de Horacio, ouvirei sem pavor o estrondear do mundo derruido á +volta de mim, visto que tenho assistido impavido aos estrondos de todas as +philarmonicas de que sou socio prendado. <em>Impavidum ferient ruinæ.</em></p> + +<p> </p> + +<p>Direi agora de v. s.ª, e de mim, e aqui do visinho especieiro da esquerda, e +d'outros sucios do masculino.</p> + +<p>Napoleão I, na ilha de Sancta Helena, mandou escrever no seu +<em>Memorial</em> que «um homem deve ter muitas mulheres». Fez o que disse, e +formulou uma maxima ao alcance de todos os tolos, salvo seja. A aguia de +Austerlitz alçou aos páramos da sua ascenção axiomatica os infimos escaravelhos +e osgas d'estes nossos paues burguezes.</p> + +<p>O nosso velho amigo D. João Tenorio incorporou-se em toda a casta de galan +esgrouviado, de galan mazorro, de galan aparrado no corpo e na alma. Os +monarchas, constituidos Luizes <small>XIV</small> de refugo, metteram nos paços +uns retalhos de Constantinopla, com a differença que os seus camaristas--os +lançarotes--não poderiam gargantear de falsete na capella sixtina. Por sua +parte, os sapateiros, convictos da egualdade do homem perante a mulher, +fizeram-se tambem califas de sultanas cozinheiras,<span class="pn">{36}</span> immolando á sua +intemperança d'amores o decoro das cozinhas e a perfeição das almondegas.</p> + +<p>Está, pois, derrancado o masculino desde o throno até á tripeça.</p> + +<p>E diga-me cá, ó visinho: onde iria cada homem buscar as muitas mulheres +decretadas por Napoleão--o grande? Fóra do triangulo? era impossivel. V. s.ª +está bem certo do que é o triangulo? Vem isso lucidamente explicado no +<em>Homme-Femme</em> de Alexandre Dumas. Triangulo é o homem-movimento, é a +mulher-fórma, e é Deus manifestado n'essas duas coisas que se unem. E, se não +se unirem e amalgamarem n'uma só, nem o homem terá fórma, nem a mulher se +moverá. Por tanto, homem sem mulher tem pezo, mas não tem feitio; mulher sem +homem, nem se quer é um <em>movel</em>, por que é immovel. Mais claro do que +isto, só um preto e a <em>Poesia do Direito</em> de mestre Theophilo.</p> + +<p>Logo que o Codigo Penal não providenciou contra o homem, contra o movimento, +que se quizesse apropriar vinte fórmas de uma assentada, era de esperar que a +sociedade soffresse grande terramoto nas suas mais augustas instituiçoens. +Assim aconteceu. O homem, abroquellado com a impunidade, desfraldando a +bandeira da natureza em bruto, arpoou as suas prêas no proprio thalamo +conjugal. Tal marido, que tinha uma só fórma,<span class="pn">{37}</span> perdeu a mulher, e ficou +amorpho, sem feitio de casta nenhuma.</p> + +<p>Outros, que tinham duas fórmas e d'ahi para cima, lá se avieram melhor com a +sua vida. A mulher, essa é que nunca ficou intrevada, á mingua de movimento, +porque o homem para ella era como o ramo de Virgilio:--homem ido homem +substituido:</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center"><em>Primo avulso non deficit alter.</em></p> + +<p> </p> + +<p>Choveu então aquella praga de leoens devastadores, <em>Leo vastratix</em> de +Lineu--uns ribaldos que se gabavam de ser pais de todos os nossos filhos. E +seriam;--o diabo o jure!</p> + +<p>Estes homens eram negros ou pallidos--Othellos ou Romeos. Tinham maneiras +scismaticas nas salas. Sombrios como anjos precipitados; demonios ainda bellos +do resplendor do céo perdido. Liam romances do visconde de Arlincourt, +cheirando a patibulos ensanguentados. Bebiam cognac, na abundancia, em que o +<em>crévé</em> de hoje em dia, o seu filho degenerado, bebe agua de +Entre-ambos-os-rios para desimtupir o figado. Comiam bribigoens e outros +testáceos com salada de malaguetas.</p> + +<p>Ás duas da manhan sahiam dos seus antros da Aguia-d'ouro, chapeo derrubado, +capote ás canhas, e içavam<span class="pn">{38}</span> a devastação das familias pelas trapeiras com +escadas de corda.</p> + +<p>Estes devassissimos Richelieus de esnoga eram conhecidos. Toda a gente fina +sabia que elles bebiam as lagrimas de umas senhoras pelos craneos das outras. +E, não obstante, a sociedade decretava-lhes a primazia na elegancia, o primor +na cortezia, e bom-gosto nas fidalgas estouvices.</p> + +<p>Era vêl-os nas salas.</p> + +<p>As meninas remiravam-os de esguelha, tremidas de amor e mêdo; e +aconchegavam-se da egide tutelar da mãe que lhes segredava em suores de +afflicção:</p> + +<p>--Aquelles homens tem manfarrico! Meninas, não olhem para elles, que tem +perdido muitas donzellas, e de cazadas não ha conta nem medida.</p> + +<p>E as meninas ficavam sabendo que as donzellas se perdiam como as cazadas; e, +se perguntavam o destino d'essas perdidas, as mães respondiam:</p> + +<p>--Não vês alli D. Pulcheria? D. Athanazia? D. Herminigilda? e <em>etc</em>?! +</p> + +<p>Ellas reparavam castamente, e viam as trez nomeadas, e as +<em>etcoeteras</em>, refesteladas em poltronas, arraiadas de seda e pedras. E, +depois, viam-as ir, sobraçadas pela cinta desnalgada, nos braços d'aquelles +homens precítos, regamboleando a perna com furor macábro n'aquellas<span class="pn">{39}</span> +polkas de então que eram a propria lascivia, o segredo descoberto das corêas na +festa da deusa Bona.</p> + +<p>Eram assim iniciadas as meninas ao sahir do collegio: mostrava-se-lhes o +seductor fatal com o prestigio das salas e dos amores defesos; mostrava-se-lhes +a mulher deshonesta com as regalias dos diamantes e das polkas.</p> + +<p>Parabens, visinho! D'aquelles homens, uns morreram; outros, prostrados ao +canto da leoneira, urram nas angustias da gotta, e pitadeam do meio-grosso.</p> + +<p>Durma v. s.ª socegado nos braços da esposa fiel e da policia civil. Escada +de corda não consta ha muitos annos que as patrulhas topassem uma funccionando +contra o pudor publico. Das muitas cordas que houve, suspeito que os seus +possuidores se serviram, inforcando-se a final com ellas para desaggravo dos +bons costumes.</p> + +<p>Verdade é que se dispensam escadas, se a hypothese ethologica de Alexandre +Dumas é verdadeira--a hypothese das macacas, á qual eu racionalmente associo a +hypothese dos macacos, com bastante desaire do meu sexo. Aquelles bichos +atrepam contra todas as previsoens da policia. Um bugio é capaz de enroscar a +cauda na sacada do visinho da esquerda, e baloiçar-se á janella do snr. +Raimundo com a maior limpeza de trabalho:<span class="pn">{40}</span> <em>quod di omen +avertant</em>--o que os deuses não permittam!</p> + +<p>Seja como fôr, oiço dizer que os defunctos leoens, se não deixaram leonculos +com as mánhas paternas, inocularam na geração actual o que quer que fosse da +sua posthema. Por aqui na nossa rua e nas travessas limitrophes, graças aos +temperamentos, não tem havido, que eu saiba, supplicio de macaca; observo, +porém, cheio d'estas tristezas modernas, que, uma vez por outra, lá ao longe, +certos maridos, ignorantes do cazamento de Caim no paiz de Nod, vão exercitando +o officio do avô sem se importarem dos costumes da avó: matam.</p> + +<p>Esta acção, visinho, se me não parece digna, sem reserva, do maior elogio, +tambem a não impropéro em diatribes de Sganarello que defende o seu impudor +proprio, arguindo a crueldade alheia.</p> + +<p>Isto de trahir é um funesto pendor do organismo. E matar, a meu vêr, é uma +funesta e irrecusavel influição da nevroze. Mulher, que refrear os impetos do +seu temperamento, é tanto como divina, senão é mais, porque sopeza a natureza, +divinamente saturada do deus universal, do grande Pan indivisivel. Homem +trahido, que sente em si o retalhar de dois gumes, amor e honra, dois cauterios +a sarjar-lhe a um tempo coração e cerebro,--que arde em ancias de matar como +ardêra outr'ora<span class="pn">{41}</span> em ancias d'amor, tal homem, se perdoou, é um sancto, é a +mais bella e perfeita desgraça que Deus creou.</p> + +<p>Não temos, porém, que ver com aquellas excepçoens. Balancemos o thuribulo da +nossa admiração á Providencia d'essas almas, e desandemos para a feira franca +onde o sátan de Gil Vicente infeirava as suas vitualhas.</p> + +<p>O commum dos adulterios é a retaliação, o despique, a mulher que a si se +despreza por que se vê aviltada do marido. Elle, sacerdote do amor, erigira-lhe +altar e idolatrára; depois, esfriado o fervor, apeára o idolo, e assentará +sobre a peanha profanada a deidade nova, com resplendor de seducçoens infames. +Primeiramente, o amor e vaidade choraram no coração da mulher expulsa do +templo; em seguida, o orgulho represou as lagrimas, fêl-as peçonha de vingança; +e, por derradeiro, livelou a mulher vingada hombro a hombro do homem libertino. +Elles ahi estão, dignos um do outro, levados pelo delicto social ás leis +authenticas da natureza. Acabou o artificio do marido-esposa. Restaurou-se o +macho-femea. Romperam o pacto da fidelidade? deshonraram-se reciprocamente? +Muito bem! Hossana aos filhos da natureza! <em>Urrah</em> pelo rebanho de +Epicuro! Qual matarem-se! Vivam! no lar ou na rua, na lama ou nos arminhos; mas +vivam e medrem como gente de boas e bem saldadas contas.<span class="pn">{42}</span></p> + +<p>Isto é o que a lei quer, o que a religião da caridade aconselha, e o que a +sociedade tolera com um bem dissimulado respeito.</p> + +<p>Todavia, ha ahi uns celibatarios, extraviados dos concilios, amantes +extremosos, pais loucos de amor aos filhos, mas, em fim, celibatarios +impudicos, que sorriem, a occultas, dos maridos logrados.</p> + +<p>Quem disse a esses malsins do lar alheio que taes maridos são logrados? Com +que protervia se marêa a fama da esposa estygmatisando-a de perfida? Esposo +trahido e mulher treda são os que reciprocamente se mentem. Cessa a ignominia +da perfidia onde começa a luminosa tolerancia da desforra. E, por tanto, a +invasão da crytica ao seio da familia, que não reclama a interferencia do +Codigo Penal, é uma villania estupida, um insulto á liberdade dos cultos.</p> + +<p>Snr. Raimundo, sei de umas pessoas, que mofam cruelmente dos maridos +enxovalhados pelo desdouro das mulheres. Ora, esses que hoje escarnecem o homem +deshonrado, apedreja-l'o-hão ámanhan, se elle offerecer o cadaver da adultera +como resgate da sua honra.</p> + +<p>--Matar! Oh! não, assassino! Despenhassel-a antes com um ponta-pé, de abysmo +em abysmo, até aos nossos alcouces. Nós já temos encontrado cá mulheres +illustres como a tua. Borrifamol-as com a champagne<span class="pn">{43}</span> das nossas orgias. +Ouvimol-as espumejar dos labios roixos o nome dos maridos por entre o acre do +alcool. Vimo-'las repintadas de esfoliaçoens esqualidas no rosto. Soubemos +emfim que o lençol da misericordia as baldeou da infermaria á vala. E os +maridos viveram e sobreviveram, por que tinham juizo na cabeça, e abrigavam +religiosamente no coração o augusto preceito: <em>não matarás!</em>--</p> + +<p>Apoiados! snr. Raimundo, apoiados! Estes homens fallam bem: são os +sociologicos, os philosophos, os estoicos, os cultos, sou eu, é v. s.ª, se me +não illude a confiança que puz na sua capacidade, hão de ser os jornalistas, os +legisladores, os juizes e os jurados, quando a brocha der a ultima de mão +n'este mascarrado edificio social.</p> + +<p>Se eu tivesse um filho, havia de encouraçal-o para se affrontar, intemerato +e invulneravel com esta sociedade cancerada. Creal-o-hia debaixo de mão, e no +regaço da mãe virtuosa, até aos trinta e cinco annos, vestido de menina. +Depois, mandal-o-ia estudar primeiras lettras, e ultimas, com professor de +acrizolada sanctidade de costumes--mestre regio que houvesse tido a heroica +abnegação de viver com o que lhe dá o governo, sem me sahir á estrada a +roubar-me o relogio. Aperfeiçoada d'esta arte a educação intellectual de meu +herdeiro, eu iria com elle a um ponto culminante da cidade, á Torre dos +Clerigos,<span class="pn">{44}</span> por exemplo, na falta da montanha de Alexandre Dumas, e +dir-lhe-hia o seguinte:</p> + +<p>«Meu filho, tens quarenta annos. Fizeste exame de instrucção +primaria:--coisa que eu não era capaz de fazer. Sabes as <em>Raizes da formação +dos tempos</em>, conjugas um verbo irregular, tens luzes não vulgares do +<em>Preterito mais que perfeito composto</em>, bebeste a longos haustos os +<em>Logares selectos</em> do snr. Padre Cardoso, e vislumbraste Guizot atravez +da historia patria do snr. Motta Veiga. Estás prompto. Eu é que não sei nada +d'isso; que desbaratei a minha mocidade com o <em>Thesouro de meninos</em>, e +depois com a tisoura das meninas, umas costureiras que me cortaram os +voadouros, quando eu batia as azas para a região superior do <em>Manual +encyclopedico</em>. Perdi-me. <em>Delicta juventutis meæ.</em></p> + +<p>«Em compensação, meu filho, fiz enxertar no teu cerebro dois garfos da +sciencia universal. És um reportorio dos conhecimentos humanos e prestadíos. +Estás habilitado para tudo, desde porteiro do Monte-pio dos empregados publicos +até ministro da Marinha.</p> + +<p>«Portugal é conquista dos talentos, como sabes.</p> + +<p>«Espera-te uma cadeira velha na Academia Real das Sciencias, e outra no +Gabinete de Leitura de Lamego. Tem-me d'olho estas duas couçoeiras +luzentissimas dos penetraes da immortalidade.<span class="pn">{45}</span></p> + +<p>«Tenho a satisfação de saber que chegaste á florida idade dos quarenta, sem +que uma só petala se haja fenecido na tua grinalda de virgem. Em meio d'esta +fornalha de Babylonia, portaste-te como verdadeira salamandra. Era grande o meu +jubilo quando te via chegar a caza em mangas de camiza, e, rosado de pejo, me +dizias que mulher de Pharaó te despira o fraque! És um menino das eras antigas. +Em tempo de D. João <small>V</small> e outros reis castos, serias sacristão de +Mafra ou da Patriarchal. Hoje em dia, a virtude da continencia levada a tamanho +apuro, poderá, quando muito, permittir-te a directoria interna do Azilo das +velhas do Camarão.</p> + +<p>«Meu filho, é tempo de intrares na fórma, quero dizer, de teres fórma, de +completares o triangulo com a esposa.</p> + +<p>«Caza-te, se queres; mas, se te parece, espera mais cinco annos--periodo não +de sobra para bem digerires e ruminares certos preceitos. É bom ruminar desde +já, para que depois não estranhes as operaçoens physiologicas de ruminante.</p> + +<p>«Entretanto, procura esposa que não saiba lêr nem escrever, se tanto fôr +possivel; receio, porém, que a não topes n'este paiz onde a instrucção está por +tanta maneira derramada. <em>Derramada</em> é o termo lidimo.</p> + +<p>«Se, á mingua de outra, o coração te esporear<span class="pn">{46}</span> para mulher versada no +alphabeto, fornece-a desde logo de livros uteis, brindando-a com as copiosas +<em>Artes da cozinha</em>, que se publicaram n'este abençoado refeitorio de +Portugal, desde Fernão Rodrigues até Ramalho Ortigão. Não se te importe que +ella conheça este segundo sujeito; mas tão sómente do <em>Cozinheiro dos +Cozinheiros</em>, que elle deu á estampa com outros poetas causticados da +inspiração satanica de Beaudellère. Que tua mulher procure o vampiro d'aquelles +genios unicamente no seio de um timbal de borrachos.</p> + +<p>«Averigua, antes de mais nada, se tua noiva procede directamente de sua +quinta avó e respectivo avô, sem travessia. Tal avó tal neta. Indaga que +frades, e de qual ordem, entravam em casa das avoengas do teu namoro; e não +será demasiada pesquiza esquadrinhar se a mãe d'ella ainda alcançou os +bernardos.</p> + +<p>«Sabido e provado que a menina é de boa linhagem, observa se isto de +fundilhar ciroulas e apontar piugas não são para ella coisas mero legendarias, +tradicçoens mythicas de Peneloppe e da rainha Bertha. Bom será que ella seja +caroavel da criação de parrecos e gallinhas, e outros «lances cazeirissimos» ao +modo de fallar de D. Francisco Manoel de Mello.</p> + +<p>«Que não se te olvide de espiar-lhe com aturada vigilancia o temperamento, +como clausula em que muito<span class="pn">{47}</span> bate o ponto. Se te sahir +sanguinea,--alimentação vegetal, legumes, muita chicoria, fructas e macarrão. +Se lymphathica, não privo que a faças quinhoeira de substancias fibrosas. Se os +nervos predominarem, subordina-lhe a alimentação calmante aos banhos de chuva. +Em summa, pelo que é de temperamentos, intende-te com Alberto Pimentel, auctor +dos <em>Sanguineos, lymphaticos e nervosos</em>, amavel escriptor que todos os +noivos devem convidar para lhes tirar o horóscopo da systole-dyastole, e da +espinal medula.</p> + +<p>«Estás, pois, cazado, meu filho. Tens outra alma no ámago da tua, uma +segunda consciencia a dirigir, como pai, esposo e sacerdote. Na qualidade de +padre de tua mulher, não me admittas acolyto, percebes?</p> + +<p>«Serás fiel a tua mulher; leval-a-has ao Circo de quando em vez; e de tempo +a tempo á musica do quartel-general, e ás Figuras de cera, auctorisadas pelo +chefe da policia, por causa das Venus. De comedias chamadas «de cazaca», e +dramas lardeados de can-can, e Quadros-vivos, livra como de peste.</p> + +<p>«Irás onde ella fôr; passarás á sua beira as noites de janeiro, fazendo +«paciencias» ou jogando o burro: isto emquanto não ha prole. Quando houver +pequenos, andarás com elles ás cavalleiras, emquanto a mãe jubilosa lhes está +costurando os atafaes.<span class="pn">{48}</span></p> + +<p>«Visitas de casta nenhuma, sem resalva de sexo ou idade. Diz o esperto +Rozado nas <em>Lagrimas de Jerusalem</em>: «Está o mundo cheio de velhos e +velhas que lêem de cadeira vicios aos moços e ás moças.» Foi isto estampado ha +duzentos e cincoenta annos! Que diria elle hoje? O que escreveu n'outro lanço: +«Já não ha virtudes nem cherume d'ellas».</p> + +<p>«Ora bem: conjecturemos agora, meu filho, que tua mulher, lealmente amada, +farta e cheia, querida e acariciada, pega de sentir-se invadida ob e +subrepiticiamente pela imagem de certo homem que viu no Circo ou nas Figuras de +Cera. Considera, ó misero, que o freguez da Gran-Duqueza é um d'esses cachorros +da raça funesta dos citados «leoens», que, atravez das lentes do binoculo, +despede coriscos á alma de tua consorte, queimando-lhe as grandes arterias, as +medias, as filamentosas, os vasos capillares, tudo em que ha sangue e palpitar +na economia animal. Considera, outrosim, que ella, ouvindo a cavillosa +natureza, mãe dos escandalos, em vez de confessar-se a ti, que és o seu padre +lareiro, manifesta-se á cozinheira; e, por entre os soluços da honestidade +moribunda, abre-lhe o peito onde a sua má sina lhe photographou a ternissima +cara do Saint-Preux do Circo.</p> + +<p>«Por te não polear inquisitorialmente com hypotheses, vamos á ultima. A +cosinheira introu no triangulo.<span class="pn">{49}</span> Tua mulher recebeu cartas, e +respondeu-lhes, servindo-se dos teus diccionarios, do teu papel pautado, dos +teus enveloppes, e, para remate da affronta, da penna com que tu enriquecias de +glossas o <em>Cozinheiro dos cozinheiros</em>, ou esboçavas narizes tortos para +intreter os rapazes.</p> + +<p>«N'este tempo,--vá outra conjectura desgraçada--suppõe tu que eras socio +prendado, como eu, de varias philarmonicas aonde ias, uma noite por outra, +prestar a Offenback o preito da tua corneta de chaves. Com refece sorriso, tua +mulher dava-te á sahida o osculo do costume, e esperava-te de volta, +perguntando-te com a voz convulsa da consciencia irrequieta se fôras feliz nos +bemoes, e tiveras palmas no solo do 2.º acto da «Ilha de Jafanapatão.»</p> + +<p>«Ah! filho! Estavas trahido como todos os musicos incautos, trahido como +todas as victimas generosas das bellas artes, quando a alma enthusiasta as +etherisa assima do capacho onde as esposas se amesendram com as suas aspirações +razas!</p> + +<p>«Atraiçoado, pois!</p> + +<p>«E, por tanto, se essa mulher, que tanto amavas, te cravou o punhal hervado +da deshonra no intimo seio onde lhe tinhas a imagem;--se te coou mortal peçonha +no beijo que te deu com os labios crestados da lava de outros +lubricissimos;--se te fez a fabula dos visinhos,<span class="pn">{50}</span> e te plantou na praça +onde ha o gargalhar dilacerante, e ahi te poz ao cêvo dos corvos que crocitam á +volta do corpo onde farejam morta uma alma;--se te levou o nome pelos seus +muladares, a rojo da cauda de seus vestidos mercadejados com o corpo;--se te +acalcanhou o coração, e te matou no cerebro o roixinol dos teus cantares;--se +te incutiu no <em>eu</em> objectivo a dyspepsia, a hepathite, a hypocondria, a +cacochimia, e emfim te poz a honra e os intestinos entre o suicidio e o +inevitavel opprobrio: sabes o que hasde fazer? Sabes o que hasde fazer a essa +macaca, meu filho?--Não lhe faças nada: deixa correr o marfim».</p> + +<hr style="width: 30%;"> + +<p>Isto é o que eu diria a meu filho; v. s.ª, porém, faça o que bem lhe +parecer: eu não aconselho ninguem.</p> + +<p>Visinho, se a questão do <em>Homem-mulher</em> não está assim resolvida, sou +eu mais lorpa do que penso, ou a questão é mais infame que o acto que ella +discute.</p> + +<p>Seja como fôr, <em>Pax Domini sit temper tecum</em>, e boas noites.</p> + +<p> </p> + +<p>S. C. 10 de setembro, Anno da Graça 1872.</p> + +<p> </p> + +<p>(<em>Á sombra . . . dos 240 réis.</em>)</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">240 REIS</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot202" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> E<small>VE</small>, +<em>contre Monsieur Dumas, Fils</em>. Pag. 47.</p> + +<p><a name="foot203" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> L<small>A +</small>F<small>EMME-</small>H<small>OMME</small>, <em>Réponse d'une femme a M. +Alex. Dumas Fils</em>, pag. 40.</p> + +<p><a name="foot204" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> +L'<small>HOMME</small>, <em>Reponse a M. Alex. Dumas Fils</em>. Pag. 31.</p> + +<p><a name="foot205" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> <em>Id.</em>, pag. 32 +</p> + +<p><a name="foot206" href="#tex2html5"><sup>[5]</sup></a> <em>Pag.</em> 43 e +44.</p> + +<p><a name="foot208" href="#tex2html6"><sup>[6]</sup></a> <em>De l'Allemagne, +Des Femmes</em>, Pag. 27. ediç. de 1864.</p> + +<p><a name="foot213" href="#tex2html7"><sup>[7]</sup></a> <em>Marie Desraimes, +</em><em>É<small>VE</small></em><em>, contre M. Alex. Dumas Fils</em>, pag. 49 +e 50.</p> + +<p><a name="foot210" href="#tex2html8"><sup>[8]</sup></a> <em>Lusiad, cant. 6.º +est. 44.</em></p> + +<p><a name="foot211" href="#tex2html9"><sup>[9]</sup></a> <em>L'homme et la +femme. Lettre a Mr. Alex. Dumas par E. Girardin.</em></p> +</div> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's A espada de Alexandre, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A ESPADA DE ALEXANDRE *** + +***** This file should be named 32003-h.htm or 32003-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/2/0/0/32003/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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