The Project Gutenberg EBook of Contos, by Jos Maria Ea de Queirs

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Contos

Author: Jos Maria Ea de Queirs

Release Date: February 22, 2010 [EBook #31347]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS ***




Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
Proofreading Team at https://www.pgdp.net






CONTOS

PORTO--Imprensa Moderna




                             EA DE QUEIROZ

                                 CONTOS


                             TERCEIRA EDIO


                                  PORTO

                   LIVRARIA CHARDRON, DE LELO & IRMO,
                   EDITORES--RUA DAS CARMELITAS, 144

                                  1913

Todos os direitos reservados




Obras de EA DE QUEIROZ

*O Crime do Padre Amaro*, 1 vol. 1$200

*O Primo Bazlio*, 1 volume 1$000

*O Mandarim*, 1 volume 500

*Os Maias*, 2 grossos volumes 2$000

*A Relquia*, 1 grosso volume 1$000

*Correspondncia de Fradique Mendes*, 1 volume 600

*A Ilustre Casa de Ramires*, 1 volume 1$000

*A Cidade e as Serras*, 1 volume 800

*Contos*, 1 volume 600

*Prosas Brbaras*, 1 volume 600

*Cartas de Inglaterra*, 1 volume 500

*Ecos de Paris*, 1 volume 500

*Cartas Familiares*, 1 vol. 500

*Notas Contemporneas*, 1 volume 1$000

*ltimas pginas* (manuscritos inditos), 1 vol. 1$000

*Pginas esquecidas*, com um largo estudo de Jos Sampaio (Bruno) no prlo

*As Minas de Salomo*, (traduo), 1 volume 600

*Revista de Portugal*, 4 grossos volumes (colaborao) 12$000




A propriedade literria e artstica est garantida em todos os pases
que aderiram  conveno de Berne--(Em Portugal, pela lei de 18 de maro
de 1911. No Brasil pela lei n. 2.577 de 17 de Jan. de 1912.)

      *      *      *      *      *




A obra dispersa de Ea de Queiroz, desde os seus primeiros folhetins na
_Revoluo de Setembro_ e na _Gazeta de Portugal_ at  sua assdua
colaborao na _Gazeta de Notcias_, do Rio de Janeiro, e na _Revista
Moderna_,  muito vasta, muito variada e encerra algumas das mais
maravilhosas pginas do grande e saudoso escritor.

Os seus editores comeam, com a publicao do presente volume, a
_compilao da obra pstuma e dispersa_, recolhendo cuidadosamente sse
riqussimo esplio, para o salvar, pelo livro, do esquecimento a que o
condenariam a disperso das flhas dirias e a sua efmera vida.

Os _Contos_ compreendem todos os escritos dste gnero que Ea de
Queiroz nos deixou, a partir das _Singularidades duma rapariga loura_.
Os seus primitivos escritos na _Revoluo_ e na _Gazeta de
Portugal_, obra mixta de fantasia e de crtica, seguir-se ho a ste em
outro volume, j no prelo, e a que uma feliz indicao do snr. Jaime
Batalha Reis[1] nos revelou o prprio ttulo que o autor
determinara dar-lhe: _Prosas Brbaras_.

Mais trs volumes sero destinados a coligir as suas correspondncias
para os jornais brasileiros, conservando-se-lhes como ttulos as
rbricas sob que ali eram publicadas: _Cartas de Inglaterra_, _Ecos de
Paris e Cartas Familiares_; e outros dois encerraro[2] a
sua copiosa _vria_, onde se misturam impresses de literatura e de
arte, artigos sbre poltica geral, estudos biogrficos, notas de
viagem, ensaios, crticas, polmica, etc.

Completar esta srie um derradeiro volume com o precioso indito do _S.
Cristvo_,[3] tal como o admirvel artista o deixou: um
esbo magnfico, um verdadeiro improviso, traado com largueza numa
primeira factura pronta e fluente, onde a sua imaginao e a sua prosa
brotam em jorros impetuosos e borbulhantes, em contrrio da falsa lenda
que fazia de Ea de Queiroz um criador moroso, e um escritor sem
espontaneidade.

A ttulo de curiosidade, para mostrar o poder de desenvolvimento e
ampliao das suas faculdades imaginativas e como um exemplo dos seus
processos de trabalho, inserimos no presente volume o conto intitulado
_Civilizao_, que o autor, amplificando-o, transformou depois na
deliciosa novela _A Cidade e as Serras_.

Ao terminar estas linhas, os editores cumprem o grato dever de
testemunhar o seu reconhecimento ao snr. Francisco Ramos Paz,
co-proprietrio da _Gazeta de Notcias_, do Rio de Janeiro, que, com o
mais vivo interesse pela publicao dos escritos dispersos de Ea de
Queiroz, lhes forneceu obsequiosamente toda a vasta colaborao do
ilustre romancista no importante jornal fluminense.


Prto, 1903.

                                                    *_Lelo & Irmo._*

(_Da primeira edio_)



    [1] ANTHERO DE QUENTAL, _In Memoriam_, pag. 444.

    [2] Publicado num s volume--_Notas Contemporneas_--1909.

    [3] Incluido no volume--_ltimas pginas_--1911.





SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA


I

Comeou por me dizer que o seu caso era simples--e que se chamava
Macrio...

Devo contar que conheci ste homem numa estalagem do Minho. Era alto e
grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se
lhe erriavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda
engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e
rectido--por trs dos seus culos redondos com aros de tartaruga. Tinha
a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de
setim negro apertada por trs com uma fivela; um casaco comprido cr de
pinho, com as mangas estreitas e justas e canhes de veludilho. E pela
longa abertura do seu colete de sda, onde reluzia um grilho antigo,
saam as pregas moles de uma camisa bordada.

Era isto em setembro: j as noites vinham mais cedo, com uma friagem
fina e sca e uma escurido aparatosa. Eu tinha descido da diligncia,
fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejo de listas escarlates.

Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram
oito horas da noite. Os cus estavam pesados e sujos. E, ou fsse um
certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar montono da
diligncia, ou fsse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influncia da
paizagem escarpada e rida, sob o cncavo silncio noturno, ou a
opresso da electricidade, que enchia as alturas--o facto  que eu--que
sou naturalmente positivo e realista--tinha vindo tiranizado pela
imaginao e pelas quimeras. Existe, no fundo de cada um de ns, 
certo,--tam friamente educados que sejmos--um resto de misticismo; e
basta s vezes uma paizagem soturna, o vlho muro de um cemitrio, um
ermo asctico, as emolientes brancuras de um luar, para que sse fundo
mstico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensao e a
idea, e fique assim o mais matemtico ou o mais crtico--tam triste, tam
visionrio, tam idealista--como um vlho monge poeta. A mim, o que me
lanara na quimera e no sonho, fra o aspecto do mosteiro de Rastelo,
que eu tinha visto,  claridade suave e outonal da tarde, na sua doce
colina. Ento, emquanto anoitecia, a diligncia rolava contnuamente ao
trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro, com o
capuz do gabo enterrado na cabea, ruminava o seu cachimbo--eu pus-me,
elegacamente, ridculamente, a considerar a esterilidade da vida: e
desejava ser um monge, estar num convento, tranqilo, entre arvoredos ou
na murmurosa concavidade dum vale, e emquanto a gua da crca canta
sonoramente nas bacias de pedra, ler a _Imitao_, e ouvindo os
rouxinis nos loireirais ter saudades do cu.--No se pode ser mais
estpido. Mas eu estava assim, e atribuo a esta disposio visionria a
falta de esprito--a sensao--que me fez a histria daquele homem dos
canhes de veludilho.

A minha curiosidade comeou  ceia, quando eu desfazia o peito de uma
galinha afogada em arroz branco, com fatias escarlates de paio--e a
criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no
copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada. O homem estava
defronte de mim, comendo tranqilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com
a bca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimares suspenso nos
dedos--se le era de Vila Rial.

--Vivo l. H muitos anos--disse-me le.

--Terra de mulheres bonitas, segundo me consta--disse eu.

O homem calou-se.

--Hein?--tornei.

O homem contraiu-se num silncio saliente. At a estivera alegre, rindo
dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas ento imobilizou o seu
sorriso fino.

Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrana. Havia
de-certo no destino daquele vlho uma _mulher_. A estava o seu
melodrama ou a sua fara, porque inconscientemente estabeleci-me na idea
de que o _facto_, o _caso_ daquele homem, devera ser grotesco e exalar
escrnio.

De sorte que lhe disse:

--A mim teem-me afirmado que as mulheres de Vila Rial so as mais
bonitas do Norte. Para os olhos pretos Guimares, para corpos Santo
Aleixo, para tranas os Arcos:  l que se vem os cabellos claros cr
de trigo.

O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos.

--Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante--e para isto tudo
Vila Rial. Eu tenho um amigo que veio casar a Vila Rial. Talvez conhea.
O Peixoto, um alto, de barba loura, bacharel.

--O Peixoto, sim,--disse-me le, olhando gravemente para mim.

--Veio casar a Vila Rial como antigamente se ia casar 
Andaluzia--questo de arranjar a fina flor da perfeio.-- sua saude.

Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi  janela com um
passo pesado, e reparei ento nos seus grossos sapatos de casimira com a
sola forte e atilhos de coiro. E saiu.

Quando pedi o meu castial, a criada trouxe-me um candieiro de lato
lustroso e antigo e disse:

--O senhor est com outro.  no n. 3.

Nas estalagens do Minho, s vezes, cada quarto  um dormitrio
impertinente.

--V--disse eu.

O n. 3 era no fundo do corredor. s portas dos lados os hspedes tinham
posto o seu calado para engraxar: estavam umas grossas botas de montar,
enlameadas, com esporas de correia; os sapatos brancos de um caador;
botas de proprietrio, de altos canos vermelhos; as botas de um padre,
altas, com a sua borla de retroz; os botins cambados de bezerro, de um
estudante; e a uma das portas, o n. 15, havia umas botinas de mulher,
de duraque, pequeninas e finas, e ao lado as pequeninas botas de uma
criana, todas coadas e batidas, e os seus canos de pelica-mr
caam-lhe para os lados com os atacadores desatados. Todos dormiam.
Defronte do n. 3 estavam os sapatos de casimira com atilhos: e quando
abri a porta vi o homem dos canhes de veludilho, que amarrava na cabea
um leno de sda: estava com uma jaqueta curta de ramagens, uma meia de
l, grossa e alta, e os ps metidos nuns chinelos de ourelo.

--O senhor no repare--disse le.

-- vontade--e para estabelecer a intimidade tirei o casaco.

No direi os motivos porque le da a pouco, j deitado, me disse a sua
histria. H um provrbio eslavo da Galcia que diz: o que no contas 
tua mulher, o que no contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na
estalagem. Mas le teve raivas inesperadas e dominantes para a sua larga
e sentida confidncia. Foi a respeito do meu amigo, do Peixoto, que fra
casar a Vila Rial. Vi-o chorar, quele vlho de qusi sessenta anos.
Talvez a histria seja julgada trivial: a mim, que nessa noite estava
nervoso e sensvel, pareceu-me terrvel,--mas conto-a apenas como um
acidente singular da vida amorosa....

Comeou pois por me dizer que o seu caso era simples--e que se chamava
Macrio.

Perguntei-lhe ento se era de uma famlia que eu conhecera que tinha o
apelido de _Macrio_. E como le me respondeu que era primo dsses, eu
tive logo do seu carcter uma idea simptica, porque os Macrios eram
uma antiga famlia, qusi uma dinastia de comerciantes, que mantinham
com uma severidade religiosa a sua vlha tradio de honra e de
escrpulo. Macrio disse-me que nesse tempo, em 1823 ou 33, na sua
mocidade, seu tio Francisco tinha, em Lisboa, um armazm de panos, e le
era um dos caixeiros. Depois o tio compenetrra-se de certos instintos
inteligentes e do talento prtico e aritmtico de Macrio, e deu-lhe a
escriturao. Macrio tornou-se o seu _guarda-livros_.

Disse-me le que sendo naturalmente linftico e mesmo tmido, a sua vida
tinha nesse tempo uma grande concentrao. Um trabalho escrupuloso e
fiel, algumas raras merendas no campo, um apuro saliente de fato e de
roupas brancas, era todo o interesse da sua vida. A existncia nesse
tempo era caseira e apertada. Uma grande simplicidade social aclarava os
costumes: os espritos eram mais ingnuos, os sentimentos menos
complicados.

Jantar alegremente numa horta, debaixo das parreiras, vendo correr a
gua das regas--chorar com os melodramas que rugiam entre os bastidores
do Salitre, alumiados a cera, eram contentamentos que bastavam 
burguesia cautelosa. Alm disso os tempos eram confusos e
revolucionrios: e nada torna o homem recolhido, conchegado  lareira,
simples e fcilmente feliz--como a guerra.  a paz que dando os
vagares da imaginao--causa as impacincias do desejo.

Macrio, aos vinte e dois anos, ainda no tinha--como lhe dizia uma
vlha tia, que fra querida do desembargador Curvo Semedo, da
Arcdia,--_sentido Vnus_.

Mas por sse tempo veio morar para defronte do armazm dos Macrios,
para um terceiro andar, uma mulher de quarenta anos, vestida de luto,
uma pele branca e baa, o busto bem feito e redondo e um aspecto
desejvel. Macrio tinha a sua carteira no primeiro andar, por cima do
armazm, ao p de uma varanda, e dali viu uma manh aquela mulher com o
cabelo preto solto e anelado, um chambre branco e braos nus, chegar-se
a uma pequena janela de peitoril, a sacudir um vestido. Macrio
afirmou-se e sem mais inteno dizia mentalmente que aquela mulher, aos
vinte anos, devia ter sido uma pessoa cativante e cheia de domnio:
porque os seus cabelos violentos e speros, o sobr'lho espesso, o lbio
forte, o perfil aquilino e firme, revelavam um temperamento activo e
imaginaes apaixonadas. No entanto, continuou serenamente alinhando as
suas cifras. Mas  noite estava sentado fumando  janela do seu quarto,
que abria sbre o ptio: era em julho e a atmosfera estava elctrica e
amorosa: a rebeca de um vizinho gemia uma _chcara_ mourisca, que
ento sensibilizava, e era de um melodrama; o quarto estava numa
penumbra doce e cheia de mistrio--e Macrio, que estava em chinelas,
comeou a lembrar-se daqueles cabelos negros e fortes e daqueles braos
que tinham a cr dos mrmores plidos: espreguiou-se, rolou
mrbidamente a cabea pelas costas da cadeira de vime, como os gatos
sensveis que se esfregam, e decidiu bocejando que a sua vida era
montona. E ao outro dia, ainda impressionado, sentou-se  sua carteira
com a janela toda aberta, e olhando o prdio fronteiro onde viviam
aqueles cabelos grandes--comeou a aparar vagarosamente a sua pena de
rama. Mas ningum se chegou  janela de peitoril, com caixilhos verdes.
Macrio estava enfastiado, pesado--e o trabalho foi lento. Pareceu-lhe
que havia na rua um sol alegre, e que nos campos as sombras deviam ser
mimosas e que se estaria bem vendo o palpitar das borboletas brancas nas
madre-silvas! E, quando fechou a carteira, sentiu defronte correr-se a
vidraa; eram de-certo os cabelos pretos. Mas apareceram uns cabelos
louros. Oh! E Macrio veio logo salientemente para a varanda aparar um
lpis. Era uma rapariga de vinte anos, talvez--fina, fresca, loura como
uma vinheta inglesa: a brancura da pele tinha alguma coisa da
transparncia das vlhas porcelanas, e havia no seu perfil uma linha
pura como de uma medalha antiga, e os vlhos poetas pitorescos
ter-lhe-iam chamado--pomba, arminho, neve e oiro.

Macrio disse consigo:

-- filha.

A outra vestia de luto, mas esta, a loira, tinha um vestido de cassa com
pintas azuis, um leno de cambraia traspassado sbre o peito, as mangas
perdidas com rendas, e tudo aquilo era asseado, mo, fresco, flexvel e
tenro.

Macrio nesse tempo era louro com a barba curta. O cabelo era anelado e
a sua figura devia ter aquele ar sco e nervoso que depois do sculo
XVIII e da revoluo--foi tam vulgar nas raas plebeias.

A rapariga loura reparou naturalmente em Macrio, e naturalmente desceu
a vidraa, correndo por trs uma cortina de cassa bordada. Estas
pequenas cortinas datam de Goethe e teem na vida amorosa um
interessante destino: revelam. Levantar-lhes uma ponta e espreitar,
franzi-la suavemente, revela um fim; corr-la, pregar nela uma flor,
agit-la fazendo sentir que por trs um rosto atento se move e
espera--so vlhas maneiras com que na realidade e na arte comea o
romance. A cortina ergueu-se devagarinho e o rosto louro espreitou.

Macrio no me contou por pulsaes--a histria minuciosa do seu
corao. Disse singelamente que da a cinco dias--_estava doido_
_por ela_. O seu trabalho tornou-se logo vagaroso e infiel e o seu belo
cursivo ingls firme e largo ganhou curvas, ganchos, rabiscos, onde
estava todo o romance impaciente dos seus nervos. No a podia ver pela
manh: o sol mordente de julho batia e escaldava a pequena janela de
peitoril. S pela tarde, a cortina se franzia, se corria a vidraa, e
ela, estendendo uma almofadinha no rebordo do peitoril, vinha
encostar-se mimosa e fresca com o seu leque. Leque que preocupou
Macrio: era uma ventarola chinesa, redonda, de sda branca com drages
escarlates bordados  pena, uma cercadura de plumagem azul, fina e
trmula como uma penugem e o seu cabo de marfim, donde pendiam duas
borlas de fio de oiro, tinha incrustaes de ncar  linda maneira persa.

Era um leque magnfico e naquele tempo inesperado nas mos plebeias de
uma rapariga vestida de cassa. Mas como ela era loura e a me tam
meridional, Macrio, com esta intuio interpretativa dos namorados,
disse  sua curiosidade: _ser filha de um ingls_. O ingls vai 
China,  Prsia, a Ormuz,  Austrlia e vem cheio daquelas jias dos
luxos exticos, e nem Macrio sabia porque  que aquela ventarola de
mandarina o preocupava assim: mas segundo le me disse--_aquilo deu-lhe
no gto_.

Tinha-se passado uma semana, quando um dia Macrio viu, da sua carteira,
que ela, a loura, saa com a me, porque se acostumara a considerar
me dela aquela magnfica pessoa, magnficamente plida e vestida de luto.

Macrio veio  janela e viu-a atravessar a rua e entrarem no armazm. No
seu armazm! Desceu logo trmulo, sfrego, apaixonado e com palpitaes.
Estavam elas j encostadas ao balco e um caixeiro desdobrava-lhes
defronte casimiras pretas. Isto comoveu Macrio. le mesmo mo disse.

--Porque emfim, meu caro, no era natural que elas viessem comprar, para
si, casimiras pretas.

E no: elas no usavam _amazonas_, no quereriam de-certo estofar
cadeiras com casimira preta, no havia homens em casa delas; portanto
aquela vinda ao armazm era um meio delicado de o ver de perto, de lhe
falar, e tinha o encanto penetrante de uma mentira sentimental. Eu disse
a Macrio que, sendo assim, le devia estranhar aquele movimento
amoroso, porque denotava na me uma cumplicidade equvoca. le
confessou-me _que nem pensava em tal_. O que fez foi chegar ao balco e
dizer estpidamente:

--Sim senhor, vo bem servidas, estas casimiras no encolhem.

E a loura ergueu para le o seu olhar azul, e foi como se Macrio se
sentisse envolvido na doura de um cu.

Mas quando le ia dizer-lhe uma palavra reveladora e veemente, apareceu
ao fundo do armazm o tio Francisco, com o seu comprido casaco cr de
pinho, de botes amarelos. Como era singular e desusado achar-se o snr.
guarda-livros vendendo ao balco e o tio Francisco com a sua crtica
estreita e celibatria podia escandalizar-se, Macrio comeou a subir
vagarosamente a escada em caracol que levava ao escritrio, e ainda
ouviu a voz delicada da loura dizer brandamente:

--Agora queria ver lenos da ndia.

E o caixeiro foi buscar um pequenino pacote daqueles lenos, acamados e
apertados numa tira de papel dourado.

Macrio, que tinha visto naquela visita uma revelao de amor, qusi uma
_declarao_, esteve todo o dia entregue s impacincias amargas da
paixo. Andava distrado, abstracto, pueril, no deu ateno 
escriturao, jantou calado, sem escutar o tio Francisco que exaltava as
almndegas, mal reparou no seu ordenado que lhe foi pago em pintos s
trs horas, e no entendeu bem as recomendaes do tio e a preocupao
dos caixeiros sbre o desaparecimento de um pacote de lenos da ndia.

-- o costume de deixar entrar pobres no armazm--tinha dito no seu
laconismo majestoso o tio Francisco.--So 12$000 ris de lenos. Lance 
minha conta.

Macrio, no entanto, ruminava secretamente uma carta, mas sucedeu que ao
outro dia, estando le  varanda, a me, a de cabelos pretos, veio
encostar-se ao peitoril da janela, e neste momento, passava na rua um
rapaz amigo de Macrio, que vendo aquela senhora afirmou-se e tirou-lhe,
com uma cortesia toda risonha, o seu chapu de palha. Macrio ficou
radioso: logo nessa noite procurou o seu amigo, e abruptamente, sem meia
tinta:

--Quem  aquela mulher que tu hoje cumprimentaste defronte do armazm?

-- a Vilaa. Bela mulher.

--E a filha?

--A filha!

--Sim, uma loura, clara, com um leque chins.

--Ah! sim.  filha.

-- o que eu dizia....

--Sim, e ento?

-- bonita.

-- bonita.

-- gente de bem, hein?

--Sim, gente de bem.

--Est bom. Tu conhece-las muito?

--Conheo-as. Muito no. Encontrava-as dantes em casa de D. Cludia.

--Bem, ouve l.

E Macrio, contando a histria do seu corao acordado e exigente e
falando do amor com as exaltaes de ento, pediu-lhe como a glria
da sua vida, _que achasse um meio de o encaixar l_. No era difcil. As
Vilaas costumavam ir aos sbados a casa de um tabelio muito rico na
rua dos Calafates: eram assembleias simples e pacatas, onde se cantavam
motetes ao cravo, se glosavam motes e havia jogos de prendas do tempo da
senhora D. Maria I, e s 9 horas a criada servia a orchata. Bem. Logo no
primeiro sbado, Macrio, de casaca azul, calas de ganga com presilhas
de trama de metal, gravata de setim roxo, curvava-se diante da espsa do
tabelio, a snr. D. Maria da Graa, pessoa sca e aguada, com um
vestido bordado a matiz, um nariz adunco, uma enorme luneta de
tartaruga, a pluma de _marabout_ nos seus cabelos grisalhos. A um canto
da sala j l estava, entre um _frou-frou_ de vestidos enormes, a menina
Vilaa, a loura, vestida de branco, simples, fresca, com o seu ar de
gravura colorida. A me Vilaa, a soberba mulher plida, cochichava com
um desembargador de figura apopltica. O tabelio era homem letrado,
latinista e amigo das musas; escrevia num jornal de ento, a _Alcofa das
Damas_: porque era sobretudo galante, e le mesmo se intitulava, numa
ode pitoresca, _mo escudeiro de Vnus_. Assim, as suas renies eram
ocupadas pelas belas-artes--e nessa noite um poeta do tempo devia
vir ler um poemeto intitulado _Elmira ou a vingana do veneziano_!...
Comeavam ento a aparecer as primeiras audcias romnticas. As
revolues da Grcia principiavam a atrair os espritos romanescos e
sados da mitologia para os pases maravilhosos do Oriente. Por toda a
parte se falava no pach de Janina. E a poesia apossava-se vorazmente
dste mundo novo e virginal de minaretes, serralhos, sultanas cr de
mbar, piratas do Arquiplago, e salas rendilhadas, cheias do perfume do
alos onde pachs decrpitos acariciam lees.--De sorte que a
curiosidade era grande--e quando o poeta apareceu com os cabelos
compridos, o nariz adunco e fatal, o pescoo entalado na alta gola do
seu fraque  Restaurao e um canudo de lata na mo--o snr. Macrio 
que no experimentou sensao alguma, porque l estava todo absorvido,
falando com a menina Vilaa. E dizia-lhe meigamente:

--Ento, noutro dia, gostou das casimiras?

--Muito--disse ela baixo.

E, desde sse momento, envolveu-os um destino nupcial.

No entanto, na larga sala a noite passava-se espiritualmente. Macrio
no pde dar todos os pormenores histricos e caractersticos daquela
assembleia. Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o
_Madrigal a Ldia_: lia-o de p, com uma luneta redonda aplicada
sbre o papel, a perna direita lanada para diante, a mo na abertura do
colete branco de gola alta. E em redor, formando crculo, as damas, com
vestidos de ramagens, cobertas de plumas, as mangas estreitas terminadas
num fofo de rendas, mitenes de retroz preto cheias da scintilao dos
aneis, tinham sorrisos ternos, cochichos, doces murmuraes, risinhos, e
um brando palpitar de leques recamados de lantejoulas.--Muito bonito,
diziam, muito bonito! E o corregedor, desviando a luneta, cumprimentava
sorrindo--e via-se-lhe um dente pdre.

Depois a preciosa D. Jernima da Piedade e Sande, sentando-se com
maneiras comovidas ao cravo, cantou com a sua voz roufenha a antiga ria
de Sully:

    Oh Ricardo, oh meu rei,
    O mundo te abandona

o que obrigou o terrvel Gaudncio, democrata de 20 e admirador de
Robespierre, a rosnar rancorosamente junto de Macrio:

--Reis!... vboras!

Depois, o cnego Saavedra cantou uma modinha de Pernambuco muito usada
no tempo do senhor D. Joo VI: _lindas mas_, _lindas mas_. E a noite
ia assim correndo, literria, pachorrenta, erudita, requintada e toda
cheia de musas.

Oito dias depois, Macrio era recebido em casa da Vilaa, num domingo. A
me convidra-o, dizendo-lhe:

--Espero que o vizinho honre aquela choupana.

E at o desembargador apopltico, que estava ao lado, exclamou:

--Choupana?! diga alcar, formosa dama!

Estavam, nesta noite, o amigo do chapu de palha, um vlho cavaleiro de
Malta, trpego, estpido e surdo, um beneficiado da S, ilustre pela sua
voz de tiple, e as manas Hilrias, a mais vlha das quais tendo
assistido, como aia de uma senhora da casa da Mina,  tourada de
Salvaterra, em que morreu o conde dos Arcos, nunca deixava de narrar os
episdios pitorescos daquela tarde: a figura do conde dos Arcos de cara
rapada e uma fita de setim escarlate no rabicho; o soneto que um magro
poeta, parasita da casa de Vimioso, recitou quando o conde entrou,
fazendo ladear o seu cavalo negro, arreado  espanhola, com um xairel
onde as suas armas estavam lavradas em prata: o tombo que nesse momento
um frade de S. Francisco deu da trincheira alta, e a hilaridade da
crte, que at a snr. condessa de Pavolide apertava as mos nas
ilhargas: depois el-rei o senhor D. Jos I, vestido de veludo escarlate,
recamado de ouro, todo encostado ao rebordo do seu palanque, e fazendo
girar entre dois dedos a sua caixa de rap cravejada, e por trs,
imveis, o fsico Loureno e o frade, seu confessor: depois o rico
aspecto da praa cheia de gente de Salvaterra, maiorais, mendigos dos
arredores, frades, lacaios, e o grito que houve, quando D. Jos I
entrou--Viva el-rei, nosso senhor! E o povo ajoelhou, e el-rei tinha-se
sentado, comendo doces, que um criado trouxe num saco de veludo, atrs
dle. Depois a morte do conde dos Arcos, os desmaios, e at el-rei todo
debruado, batendo com a mo no parapeito, gritando na confuso, e o
capelo da casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-uno.
Ela, Hilria, ficara estarrecida de pavor: sentia os urros dos bois,
gritos agudos de mulheres, os ganidos dos flatos, e vira ento um vlho,
todo vestido de veludo preto, com a fina espada na mo, debater-se entre
fidalgos e damas que o seguravam, e querer atirar-se  praa, bramindo
de raiva!  o pai do conde! explicavam em volta. Ela ento desmaiara
nos braos de um padre da Congregao. Quando veio a si, achou-se junto
da praa; a berlinda rial estava  porta, com os bolieiros emplumados,
os machos cheios de guisos, e os batedores a cavalo,  frente: via-se l
dentro el-rei, escondido ao fundo, plido, sorvendo febrilmente rap,
todo encolhido com o confessor; e defronte, com uma das mos apoiada 
alta bengala, forte, espadado, o aspecto carregado, o marqus de
Pombal falava devagar e intimativamente, gesticulando com a luneta. Mas
os batedores picaram, os estalos dos bolieiros retiniram, e a berlinda
partiu a galope, emquanto o povo gritava: Viva el-rei, nosso senhor!--e
o sino da capela do pao tocava a finados! Era uma honra que el-rei
concedia  casa dos Arcos.

Quando D. Hilria acabou de contar, suspirando, estas desgraas
passadas, comeou-se a jogar. Era singular que Macrio no se lembrava o
que tinha jogado nessa noite radiosa. S se recordava que tinha ficado
ao lado da menina Vilaa (que se chamava Lusa), que reparara muito na
sua fina pele rosada, tocada de luz, e na meiga e amorosa pequenez da
sua mo com uma unha mais polida que o marfim de Dieppe. E lembrava-se
tambm de um acidente excntrico, que determinara nele, desde sse dia,
uma grande hostilidade ao clero da S. Macrio estava sentado  mesa, e
ao p dle Lusa: Lusa estava toda voltada para le com uma das mos
apoiando a sua fina cabea loura e amorosa, e a outra esquecida no
regao. Defronte estava o beneficiado, com o seu barrete preto, os seus
culos na ponta aguda do nariz, o tom azulado da forte barba rapada, e
as suas duas grandes orelhas, complicadas e cheias de cabelo, separadas
do crnio como dois postigos abertos. Ora, como era necessrio no
fim do jgo pagar uns tentos ao cavaleiro de Malta, que estava ao lado
do beneficiado, Macrio tirou da algibeira uma pea e quando o
cavaleiro, todo curvado e com um lho pisco, fazia a sma dos tentos nas
costas dum az, Macrio conversava com Lusa, e fazia girar sbre o pano
verde a sua pea de oiro, como um bilro ou um peo. Era uma pea nova
que luzia, faiscava, rodando, e feria a vista como uma bola de nvoa
doirada. Lusa sorria vendo-a girar, girar, e parecia a Macrio que todo
o cu, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrlas estavam
naquele claro sorriso distrado, espiritual, arcanglico, com que ela
seguia o giro fulgurante da pea de oiro nova. Mas de repente, a pea,
correndo at  borda da mesa, caiu para o lado do regao de Lusa, e
desapareceu, sem se ouvir no soalho de tbuas o seu rudo metlico. O
beneficiado abaixou-se logo cortsmente: Macrio afastou a cadeira,
olhando para debaixo da mesa: a me Vilaa alumiou com um castial, e
Lusa ergueu-se e sacudiu com pequenina pancada o seu vestido de cassa.
A pea no apareceu.

-- celebre--disse o amigo de chapu de palha--eu no ouvi tinir no cho.

--Nem eu, nem eu--disseram.

O beneficiado, curvado, buscava tenazmente, e a Hilria mais nova
rosnava o responso de Santo Antnio.

--Pois a casa no tem buracos--dizia a me Vilaa.

--Sumio assim!--resmungava o beneficiado.

No entanto Macrio exalava-se em exclamaes desinteressadas:

--Pelo amor de Deus! Ora que tem! manh aparecer! Tenham a bondade!
Por quem so! Ento, snr. D. Lusa! Pelo amor de Deus! No vale nada.

Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtraco--e atribuiu-a ao
beneficiado. A pea rolara, de-certo, at junto dle sem ruido; le
pusera-lhe em cima o seu vasto sapato eclesistico e tachado; depois, no
movimento brusco e curto que tivera, empolgra-a vilmente. E, quando
saram, o beneficiado, todo embrulhado no seu vasto capote de camelo,
dizia a Macrio pela escada:

--Ora o sumio da pea, hein? Que brincadeira!

--Acha, snr. beneficiado?!--disse Macrio parando, pasmado da impudncia.

--Ora essa! Se acho?! Se lhe parece! Uma pea de 7$000 ris! S se o
senhor as semeia... Safa! Eu dava em doido!

Macrio teve tdio daquela astcia fria. No lhe respondeu. O
beneficiado  que acrescentou:

--manh mande l pela manh, homem. Que diabo... Deus me perde!
Que diabo! uma pea no se perde assim. Que bolada, hein!

E Macrio tinha vontade de lhe bater.

Foi neste ponto que Macrio me disse, com a sua voz singularmente sentida:

--Emfim, meu amigo, para encurtarmos razes, resolvi-me casar com ela.

--Mas a pea?

--No pensei mais nisso! Pensava eu l na pea! Resolvi-me casar com ela!


II

Macrio contou-me o que o determinara mais precisamente quela resoluo
profunda e perptua. Foi um beijo. Mas sse caso, casto e simples, eu
calo-o;--mesmo porque a nica testemunha foi uma imagem em gravura da
Virgem, que estava pendurada no seu caixilho de pau preto, na saleta
escura que abria para a escada... Um beijo fugitivo, superficial,
efmero. Mas isso bastou ao seu esprito recto e severo para o obrigar a
tom-la como espsa, a dar-lhe uma f imutvel e a posse da sua vida.
Tais foram os seus esponsais. Aquela simptica sombra das janelas
vizinhas tornara-se para le um destino, o fim moral da sua vida e
toda a idea dominante do seu trabalho. E esta histria toma, desde logo,
um alto carcter de santidade e de tristeza.

Macrio falou-me muito do carcter e da figura do tio Francisco: a sua
possante estatura, os seus culos de oiro, a sua barba grisalha, em
colar, por baixo do queixo, um tic nervoso que tinha numa asa do nariz,
a dureza da sua voz, a sua austera e majestosa tranqilidade, os seus
princpios antigos, autoritrios e tirnicos, e a brevidade telegrfica
das suas palavras.

Quando Macrio lhe disse, uma manh, ao almo, abruptamente, sem
transies emolientes: Peo-lhe licena para casar o tio Francisco,
que deitava o acar no seu caf, ficou calado, remexendo com a colher,
devagar, majestoso e terrvel: e quando acabou de sorver pelo pires, com
grande rudo, tirou do pescoo o guardanapo, dobrou-o, aguou com a faca
o seu palito, meteu-o na bca e sau: mas  porta da sala parou, e
voltando-se para Macrio, que estava de p, junto da mesa, disse secamente:

--No.

--Perdo, tio Francisco!

--No.

--Mas oia, tio Francisco...

--No.

Macrio sentiu uma grande clera:

--Nesse caso, fao-o sem licena.

--Despedido da casa.

--Sairei. No haja dvida.

--Hoje.

--Hoje.

E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se:

--Ol!--disse le a Macrio, que estava exasperado, apopltico, raspando
nos vidros da janela.

Macrio voltou-se com uma esperana.

--D-me da a caixa do rap--disse o tio Francisco.

Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto, estava perturbado.

--Tio Francisco...--comeou Macrio.

--Basta. Estamos a 12. Receber o seu ms por inteiro. V.

As antigas educaes produziam estas situaes insensatas. Era brutal e
idiota. Macrio afirmou-me que era assim.

Nessa tarde Macrio achava-se no quarto de uma hospedaria na Praa da
Figueira com seis peas, o seu ba de roupa branca e a sua paixo. No
entanto estava tranqilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha
relaes e amizades no comrcio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez
do seu trabalho, a sua honra tradicional, o nome da famlia, o seu
tacto comercial, o seu belo cursivo ingls, abriam-lhe, de par em par,
respeitosamente, todas as portas dos escritrios. No outro dia foi
procurar alegremente o negociante Faleiro, antiga relao comercial da
sua casa.

--De muito boa vontade, meu amigo--disse-me le.--Quem mo dra c! Mas,
se o recebo, fico de mal com seu tio, meu vlho amigo de vinte anos. le
declarou-mo categricamente. Bem v. Fra maior. Eu sinto, mas...

E todos, a quem Macrio se dirigiu, confiado em relaes slidas,
receavam _ficar de mal com o seu tio, vlho amigo de vinte anos_.

E todos _sentiam_, _mas_...

Macrio dirigiu-se ento a negociantes novos, estranhos  sua casa e 
sua famlia, e sobretudo aos estrangeiros: esperava encontrar gente
livre da amizade de vinte anos do tio. Mas, para sses, Macrio era
desconhecido, e desconhecidos por igual a sua dignidade e o seu hbil
trabalho. Se tomavam informaes, sabiam que le fra despedido da casa
do tio repentinamente, por causa duma rapariga loura, vestida de cassa.
Esta circunstncia tirava as simpatias a Macrio. O comrcio evita o
guarda-livros sentimental. De sorte que Macrio comeou a sentir-se num
momento agudo. Procurando, pedindo, rebuscando, o tempo passava,
sorvendo, pinto a pinto, as suas seis peas.

Macrio mudou para uma estalagem barata, e continuou farejando. Mas,
como fra sempre de temperamento recolhido, no criara amigos. De modo
que se encontrava desamparado e solitrio--e a vida aparecia-lhe como um
descampado.

As peas findaram. Macrio entrou, pouco a pouco, na tradio antiga da
misria. Ela tem solenidades fatais e estabelecidas: comeou por
empenhar--depois vendeu. Relgio, aneis, casaco azul, cadeia, paletot de
alamares, tudo foi levando pouco e pouco, embrulhado debaixo do chale,
uma vlha sca e cheia de asma.

No entanto via Lusa de noite, na saleta escura que dava para o patamar:
uma lamparina ardia em cima da mesa: era feliz ali naquela penumbra,
todo sentado castamente, ao p de Lusa, a um canto de um vlho canap
de palhinha. No a via de dia, porque trazia j a roupa usada, as botas
cambadas, e no queria mostrar  fresca Lusa, toda mimosa nas suas
cambraias asseadas, a sua misria remendada: ali, quela luz tnue e
esbatida, le exalava a sua paixo crescente e escondia o seu fato
decadente. Segundo me disse Macrio--era muito singular o temperamento
de Lusa. Tinha o carcter louro como o cabelo--se  certo que o louro 
uma cr fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus
brancos dentinhos, dizia a tudo _pois sim_: era muito simples, qusi
indiferente, cheia de transigncias.

Amava de-certo Macrio, mas com todo o amor que podia dar a sua natureza
dbil, aguada, nula. Era como uma estriga de linho, fiava-se como se
queria: e s vezes, naqueles encontros noturnos, tinha sono.

Um dia, porm, Macrio encontrou-a excitada: estava com pressa, o chale
traado  ta, olhando sempre para a porta interior.

--A mam percebeu--disse ela.

E contou-lhe que a me desconfiava, ainda rabugenta e spera, e que
de-certo farejava aquele plano nupcial tramado como uma conjurao.

--Porque no me vens pedir  mam?

--Mas, filha, se eu no posso! No tenho arranjo nenhum. Espera.  mais
um ms talvez. Tenho agora a um negcio em bom caminho. Morramos de fome.

Lusa calou-se, torcendo a ponta do chale, com os olhos baixos.

--Mas ao menos--disse ela--emquanto eu te no fizer sinal da janela,
no subas mais, sim?

Macrio rompeu a chorar, os soluos saam violentos e desesperados.

--Chut!--dizia-lhe Lusa.--No chores alto!...

Macrio contou-me a noite que passou, ao acaso pelas ruas, ruminando
febrilmente a sua dor, e lutando, sob a friagem de janeiro, na sua
quinzena curta. No dormiu, e logo pela manh, ao outro dia, entrou como
uma rajada no quarto do tio Francisco e disse-lhe abruptamente, secamente:

-- tudo o que tenho--e mostrava-lhe trs pintos.--Roupa, estou sem ela.
Vendi tudo. Daqui a pouco tenho fome.

O Tio Francisco, que fazia a barba  janela, com o leno da ndia
amarrado na cabea, voltou-se e, pondo os culos, fitou-o.

--A sua carteira l est. Fique--e acrescentou, com um gesto
decisivo--solteiro.

--Tio Francisco, oua-me!...

--Solteiro, disse eu--continuou o tio Francisco, dando o fio  navalha
numa tira de sola.

--No posso.

--Ento, rua!

Macrio sau, estonteado. Chegou a casa, deitou-se, chorou e adormeceu.
Quando saiu,  noitinha, no tinha resoluo, nem idea. Estava como uma
esponja saturada. Deixava-se ir.

De repente, uma voz disse de dentro de uma loja:

--Eh! pst! ol!

Era o amigo do chapu de palha: abriu grandes braos pasmados.

--Que diacho! desde manh que te procuro

E contou-lhe que tinha chegado da provncia, tinha sabido a sua crise e
trazia-lhe um desenlace.

--Queres?

--Tudo.

Uma casa comercial queria um homem hbil, resoluto e duro, para ir numa
comisso difcil e de grande ganho a Cabo-Verde.

--Pronto!--disse Macrio.--Pronto! manh.

E foi logo escrever a Lusa, pedindo-lhe uma despedida, um ltimo
encontro, aquele em que os braos desolados e veementes tanto custam a
desenlaar-se. Foi. Encontrou-a toda embrulhada no seu chale, tiritando
de frio. Macrio chorou. Ela, com a sua passiva e loura doura, disse-lhe:

--Fazes bem. Talvez ganhes.

E ao outro dia Macrio partiu.

Conheceu as viagens trabalhosas nos mares inimigos, o enjo montono num
beliche abafado, os duros sis das colnias, a brutalidade tirnica dos
fazendeiros ricos, o pso dos fardos humilhantes, as dilaceraes da
ausncia, as viagens ao interior das terras negras e a melancolia das
caravanas que costeiam por violentas noites, durante dias e dias, os
rios tranqilos, donde se exala a morte.

Voltou.

E logo nessa tarde a viu a ela, Lusa, clara, fresca, repousada,
serena, encostada ao peitoril da janela, com a sua ventarola chinesa. E
ao outro dia, sfregamente, foi pedi-la  me. Macrio tinha feito um
ganho saliente--e a me Vilaa abriu-lhe uns grandes braos amigos,
cheia de exclamaes. O casamento decidiu-se para da a um ano.

--Porqu?--disse eu a Macrio.

E le explicou-me que os lucros de Cabo-Verde no podiam constituir um
capital definitivo: eram apenas um capital de habilitao. Trazia de
Cabo-Verde elementos de poderosos negcios: trabalharia, durante um ano,
hericamente, e ao fim poderia, sossegadamente, criar uma famlia.

E trabalhou: ps naquele trabalho a fra criadora da sua paixo.
Erguia-se de madrugada, comia  pressa, mal falava.  tardinha ia
visitar Lusa. Depois voltava sfregamente para a fadiga, como um avaro
para o seu cofre. Estava grosso, forte, duro, fero: servia-se com o
mesmo mpeto das ideas e dos msculos: vivia numa tempestade de cifras.
s vezes Lusa, de passagem, entrava no seu armazm: aquele pousar de
ave fugitiva dava-lhe alegria, f, reconforto para todo um ms
cheiamente trabalhado.

Por sse tempo o amigo do chapu de palha veio pedir a Macrio que fsse
seu fiador por uma grande quantia que le pedira para estabelecer
uma loja de ferragens em grande. Macrio, que estava no vigor do seu
crdito, cedeu com alegria. O amigo do chapu de palha  que lhe dera o
negcio providencial de Cabo-Verde. Faltavam ento dois meses para o
casamento. Macrio j sentia, por vezes, subirem-lhe ao rosto as febris
vermelhides da esperana. J comeara a tratar dos _banhos_. Mas um dia
o amigo do chapu de palha desapareceu com a mulher de um alferes. O seu
estabelecimento estava em como. Era uma confusa aventura. No se pde
nunca precisar ntidamente aquele _embrglio_ doloroso. O que era
positivo  que Macrio era fiador, Macrio devia reembolsar. Quando o
soube, empalideceu e disse simplesmente:

--Liqudo e pago!

E quando liquidou, ficou outra vez pobre. Mas nesse mesmo dia, como o
desastre tivera uma grande publicidade, e a sua honra estava santificada
na opinio, a casa Peres & C., que o mandara a Cabo-Verde, veio
propor-lhe uma outra viagem e outros ganhos.

--Voltar a Cabo-Verde outra vez!

--Faz outra vez fortuna, homem. O senhor  o diabo!--disse o snr.
Eleutrio Peres.

Quando se viu assim, s e pobre, Macrio desatou a chorar. Tudo estava
perdido, findo, extinto; era necessrio recomear pacientemente a vida,
voltar s longas misrias de Cabo-Verde, tornar a tremer os passados
desesperos, suar os antigos suores! E Lusa? Macrio escreveu-lhe.
Depois, rasgou a carta. Foi a casa dela: as janelas tinham luz: subiu
at ao primeiro andar, mas a tomou-o uma mgoa, uma covardia de revelar
o desastre, o pavor trmulo de uma separao, o terror de ela se
recusar, negar-se, hesitar! E quereria ela esperar mais? No se atreveu
a falar, explicar, pedir; desceu, p-ante-p. Era noite. Andou ao acaso
pelas ruas: havia um sereno e silencioso luar. Ia sem saber: de repente
ouviu, de uma janela alumiada, uma rabeca que tocava a _xcara
mourisca_. Lembrou-se do tempo em que conhecera Lusa, do bom sol claro
que havia ento, e do vestido dela, de cassa com pintas azuis! Estava na
rua onde eram os armazns do tio. Foi caminhando. Ps-se a olhar para a
sua antiga casa. A janela do escritrio estava fechada. Quantas vezes
dali vira Lusa, e o brando movimento do seu leque chins! Mas uma
janela, no segundo andar, tinha luz; era o quarto do tio. Macrio foi
observar mais de longe: uma figura estava encostada, por dentro, 
vidraa: era o tio Francisco. Veio-lhe uma saudade de todo o seu passado
simples, retirado, plcido. Lembrava-lhe o seu quarto, e a vlha
carteira com fecho de prata, e a miniatura de sua me, que estava por
cima da barra do leito; a sala de jantar e o seu vlho aparador de
pau preto, e a grande caneca de gua, cuja asa era uma serpente
irritada. Decidiu-se, e impelido por um instinto, bateu  porta. Bateu
outra vez. Sentiu abrir a vidraa, e a voz do tio perguntar:

--Quem ?

--Sou eu, tio Francisco, sou eu. Venho dizer-lhe adeus.

A vidraa fechou-se, e da a pouco a porta abriu-se, com um grande rudo
de ferrolhos. O tio Francisco tinha um candieiro de azeite na mo.
Macrio achou-o magro, mais vlho. Beijou-lhe a mo.

--Suba--disse o tio.

Macrio ia calado, cosido com o corrimo.

Quando chegou ao quarto, o tio Francisco poisou o candieiro sbre uma
larga mesa de pau-santo, e de p, com as mos nos bolsos, esperou.

Macrio estava calado, anediando a barba.

--Que quer?--gritou-lhe o tio.

--Vinha dizer-lhe adeus; volto para Cabo-Verde.

--Boa viagem.

E o tio Francisco, voltando-lhe as costas, foi rufar na vidraa.

Macrio ficou imvel, deu dois passos no quarto, todo revoltado, e ia sair.

--Onde vai, seu estpido?--gritou-lhe o tio.

--Vou-me.

--Sente-se ali!

E o tio Francisco continuou, com grandes passadas pelo quarto:

--O seu amigo  um canalha! Loja de ferragens! No est m! O senhor 
um homem de bem. Estpido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O
seu amigo  um canalha! O senhor  um homem de bem! Foi a Cabo-Verde!
Bem sei! Pagou tudo. Est claro! Tambm sei! manh faz o favor de ir
para a sua carteira, l para baixo. Mandei pr palhinha nova na cadeira.
Faz favor de pr na factura Macrio & Sobrinho. E case. Case, e que lhe
preste! Levante dinheiro. O senhor precisa de roupa branca e de moblia.
Levante dinheiro. E meta na minha conta. A sua cama l est feita.

Macrio, estonteado, radioso, com as lgrimas nos olhos, queria abra-lo.

--Bem, bem. Adeus!

Macrio ia sair.

--Oh! burro, pois quer-se ir desta sua casa?

E, indo a um pequeno armrio, trouxe geleia, um covilhete de doce, uma
garrafa antiga do Prto e biscoitos.

--Cma!

E sentando-se ao p dle, e tornando a chamar-lhe estpido, tinha uma
lgrima a correr-lhe pelo engelhado da pele.

De sorte que o casamento foi decidido para dali a um ms. E Lusa
comeou a tratar do seu enxoval.

Macrio estava ento na plenitude do amor e da alegria.

Via o fim da sua vida preenchido, completo, feliz. Estava qusi sempre
em casa da noiva, e um dia andando a acompanh-la, em compras, pela
lojas, le mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente. A me tinha
ficado numa modista, num primeiro andar da rua do Ouro, e les tinham
descido, alegremente, rindo, a um ourives que havia em baixo, no mesmo
prdio, na loja.

O dia estava de inverno, claro, fino, frio, com um grande cu
azul-ferrete, profundo, luminoso, consolador.

--Que bonito dia!--disse Macrio.

E com a noiva pelo brao, caminhou um pouco, ao comprido do passeio.

--Est!--disse ela.--Mas podem reparar; ns ss...

--Deixa, est tam bom...

--No, no.

E Lusa arrastou-o brandamente para a loja do ourives. Estava apenas um
caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto.

Macrio disse-lhe:

--Queria ver aneis.

--Com pedras--disse Lusa--e o mais bonito.

--Sim, com pedras--disse Macrio.--Ametista, granada. Emfim, o melhor.

E, no entanto, Lusa ia examinando as _montres_ forradas de veludo azul,
onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilhes, os colares
de camafeus, os aneis, as finas _alianas_ frgeis como o amor, e toda a
scintilao da pesada ourivesaria.

--V, Lusa--disse Macrio.

O caixeiro tinha estendido, na outra extremidade do balco, em cima do
vidro da _montre_, um reluzente espalhado de aneis de ouro, de pedras,
lavrados, esmaltados; e Lusa, tomando-os e deixando-os com as pontas
dos dedos, ia-os correndo e dizendo:

-- feio...  pesado...  largo...

--V este--disse-lhe Macrio.

Era um anel de pequenas prolas.

-- bonito--respondeu ela.-- lindo!

--Deixa ver se serve--tornou Macrio.

E tomando-lhe a mo, meteu-lhe o anel devagarinho, docemente, no dedo; e
ela ria, com os seus brancos dentinhos finos, todos esmaltados.

-- muito largo--disse Macrio.--Que pena!

--Aperta-se, querendo. Deixe a medida. Tem-no pronto manh.

--Boa idea--disse Macrio--sim senhor. Porque  muito bonito. No 
verdade? As prolas muito iguais, muito claras. Muito bonito! E
stes brincos?--acrescentou, indo ao fim do balco, a outra
_montre_.--stes brincos com uma concha?

--Dez moedas--disse o caixeiro.

E, no entanto, Lusa continuava examinando os aneis, experimentando-os
em todos os dedos, revolvendo aquela delicada _montre_, scintilante e
preciosa.

Mas, de repente, o caixeiro fez-se muito plido, e afirmou-se em Lusa,
passeando vagarosamente a mo pela cara.

--Bem--disse Macrio, aproximando-se--ento manh temos o anel pronto.
A que horas?

O caixeiro no respondeu e comeou a olhar fixamente para Macrio.

--A que horas?

--Ao meio dia.

--Bem, adeus--disse Macrio.

E iam sair. Lusa trazia um vestido de l azul, que arrastava um pouco,
dando uma ondulao melodiosa ao seu passo, e as suas mos pequeninas
estavam escondidas num regalo branco.

--Perdo!--disse de repente o caixeiro.

Macrio voltou-se.

--O senhor no pagou...

Macrio olhou para le gravemente.

--Est claro que no. manh venho buscar o anel, pago manh.

--Perdo!--insistiu o caixeiro--mas o outro...

--Qual outro?--exclamou Macrio com uma voz surpreendida, adiantando-se
para o balco.

--Essa senhora sabe--afirmou o caixeiro.--Essa senhora sabe...

Macrio tirou a carteira lentamente.

--Perdo, se h uma conta antiga...

O caixeiro abriu o balco, e com um aspecto resoluto:

--Nada, meu caro senhor,  de agora.  um anel com dois brilhantes que
aquela senhora leva.

--Eu!--disse Lusa, com a voz baixa, toda escarlate.

--Que ? Que est a dizer?

E Macrio, plido, com os dentes cerrados, contrado, fitava o caixeiro
colricamente.

O caixeiro disse ento:

--Essa senhora tirou dali um anel.

Macrio ficou imvel, encarando-o.

--Um anel com dois brilhantes--continuou o rapaz.--Vi perfeitamente.

O caixeiro estava tam excitado, que a sua voz gaguejava, prendia-se
espessamente.

--Essa senhora no sei quem . Mas tirou o anel. Tirou-o dali...

Macrio, maquinalmente, agarrou-lhe no brao, e voltando-se para Lusa,
com a palavra abafada, gotas de suor na testa, lvido:

--Lusa, dize...

Mas a voz cortou-se-lhe.

--Eu...--balbuciou ela, trmula, assombrada, enfiada, decomposta.

E deixou cair o regalo no cho.

Macrio veio para ela, agarrou-lhe no pulso fitando-a: e o seu aspecto
era tam resoluto e tam imperioso, que ela meteu a mo no blso,
bruscamente, apavorada, e mostrando o anel:

--No me faa mal!--suplicou, encolhendo-se toda.

Macrio ficou com os braos caidos, o ar abstracto, os beios brancos;
mas de repente, dando um puxo ao casaco, recuperando-se, disse ao
caixeiro:

--Tem razo. Era distraco... Est claro! Esta senhora tinha-se
esquecido.  o anel. Sim, senhor, evidentemente... Tem a bondade. Toma,
filha, toma. Deixa estar, ste senhor embrulha-o. Quanto custa?

Abriu a carteira e pagou.

Depois apanhou o regalo, sacudiu-o brandamente, limpou os beios com o
leno, deu o brao a Lusa, e dizendo ao caixeiro: _desculpe_,
_desculpe_, levou-a, inerte, passiva, aterrada, semi-morta.

Deram alguns passos na rua, que um largo sol iluminava intensamente: as
seges cruzavam-se, rolando ao estalido do chicote: figuras risonhas
passavam, conversando: os preges subiam em gritos alegres: um cavaleiro
de calo de anta fazia ladear o seu cavalo, enfeitado de rosetas; e a
rua estava cheia, ruidosa, viva, feliz e coberta de sol.

Macrio ia maquinalmente, como no fundo de um sonho. Parou a uma
esquina. Tinha o brao de Lusa passado no seu; e via-lhe a mo
pendente, a sua linda mo de cera, com as veias docemente azuladas, os
dedos finos e amorosos: era a mo direita, e aquela mo era a da sua
noiva! E, instintivamente, leu o cartaz que anunciava, para esta noite,
_Palafoz em Saragoa_.

De repente, soltando o brao de Lusa, disse-lhe baixo:

--Vai-te.

--Ouve!...--rogou ela, com a cabea toda inclinada.

--Vai-te.--E com a voz abafada e terrvel:--Vai-te! Olha que chamo.
Mando-te para o Aljube. Vai-te.

--Mas ouve, Jesus!

--Vai-te!--E fez um gesto, com o punho cerrado.

--Pelo amor de Deus, no me batas aqui!--disse ela, sufocada.

--Vai-te! Podem reparar. No chores. Olha que vem. Vai-te!

E chegando-se para ela, disse baixo:

--s uma ladra!

E voltando-lhe as costas, afastou-se, devagar, riscando o cho com a
bengala.

A distncia, voltou-se: ainda viu, atravs dos vultos, o seu vestido azul.

Como partiu nessa tarde para a provncia, no soube mais daquela
rapariga loura.




UM POETA LRICO


Aqui est, simplesmente, sem frases e sem ornatos, a histria triste do
poeta Korriscosso. De todos os poetas lricos de que tenho notcia, 
ste, certamente, o mais infeliz. Conheci-o em Londres, no hotel de
Charing-Cross, uma madrugada regelada de dezembro. Tinha eu chegado do
continente, prostrado por duas horas de Canal da Mancha... Ah! que mar!
E era s uma brisa fresca de Noroeste: mas ali, no tombadilho, sob uma
capa de oleado de que um marujo me tinha coberto, como se cobre um corpo
morto, fustigado da neve e da vaga, oprimido por aquela treva tumultuosa
que o paquete ia rompendo aos roncos e aos encontres--parecia-me um
tufo dos mares da China...

Apenas entrei no hotel, gelado e estremunhado, corri ao vasto fogo do
perstilo, e ali fiquei, saturando-me daquela paz quente em que a sala
estava adormecida, com os olhos beatamente postos na boa brasa
escarlate... E foi ento que vi aquela figura esguia e longa, j de
casaca e gravata branca, que do outro lado da chamin, de p, com a
taciturna tristeza duma cegonha que scisma, olhava tambm os carves
ardentes, com um guardanapo no brao. Mas o porteiro tinha rolado a
minha bagagem, e eu fui inscrever-me ao _bureau_. A _guarda-livros_,
tesa e loura, com um perfil antiquado de medalha safada, pousou o seu
_crochet_ ao lado da sua chvena de ch, acariciou com um gesto doce os
dois bands louros, assentou correctamente o meu nome, de dedinho no ar,
fazendo rebrilhar um diamante, e eu ia subir a vasta escadaria,--quando
a figura magra e fatal se dobrou num ngulo, e murmurou-me num ingls
silabado:

--J est servido o almo das sete...

Mas eu no queria o almo das sete. Fui dormir.

Mais tarde, j repousado, fresco do banho, quando desci ao restaurante
para o _lunch_, avistei logo, plantado melanclicamente ao p da larga
janela, o indivduo esguio e triste. A sala estava deserta numa luz
parda; os foges flamejavam; e fra, no silncio do domingo, nas
ruas mudas, a neve caa sem cessar dum ceu amarelento e bao. Eu via
apenas as costas do homem; mas havia na sua linha magra e um pouco
dobrada uma expresso tam evidente de desalento, que me interessei por
aquela figura. O cabelo comprido, de tenor, cado sbre a gola da
casaca, era, manifestamente, dum meridional; e toda a sua magreza
friorenta se encolhia ao aspecto daqueles telhados cobertos de neve, na
sensao daquele silncio lvido... Chamei-o. Quando le se voltou, a
sua fisionomia, que apenas entrevira na vspera, impressionou-me: era um
caro longo e triste, muito moreno, de nariz judaico e uma barba curta e
frisada, uma barba de Cristo em estampa romntica; a testa era destas
que, em boa literatura, se chama, creio eu, _fronte_; era larga e era
lustrosa. Tinha o olhar encovado e vago, com uma indeciso de sonho
nadando num fluido enternecido... E que magreza! quando andava, a cala
curta torcia-se em trno da canela como pregas de bandeira em trno dum
mastro: a casaca tinha dobras de tnica ampla; as duas abas compridas e
agudas eram desgraadamente grotescas. Recebeu a ordem do meu almo,
sem me olhar, num tdio resignado: arrastou-se para o _comptoir_ onde o
_matre de hotel_ lia a Bblia, passou a mo pela testa com um gesto
errante e dolente, e disse-lhe numa voz surda:

--Nmero 307. Duas costeletas. Ch...

O _matre de hotel_ afastou a _Bblia_, inscreveu o _menu_--e eu
acomodei-me  mesa, e abri o volume de Tennyson que trouxera para
almoar comigo--porque, creio que lhes disse, era domingo, dia sem
jornais e sem po fresco. Fra continuava a nevar sbre a cidade muda. A
uma mesa distante, um vlho cr de tijolo e todo branco de cabelo e de
suas, que acabara de almoar, dormitava de mos no ventre, bca
aberta, e luneta na ponta do nariz. E o nico som vinha da rua, uma voz
gemente que a neve abafava mais, uma voz pedinte que  esquina defronte
garganteava um psalmo... Um domingo de Londres.

Foi o magro que me trouxe o almo--e apenas le se aproximou, com o
servio do ch, eu senti logo que aquele volume de Tennyson nas minhas
mos o tinha interessado e impressionado: foi um olhar rpido,
gulosamente fixado na pgina aberta, um estremecimento qusi
imperceptvel,--emoo fugitiva, de-certo, porque depois de ter pousado
o servio, rodou sbre os calcanhares e foi plantar-se,
melanclicamente,  janela, de lho triste e posto na neve triste. Eu
atribu aquele movimento curioso ao esplendor da encadernao do volume,
que eram os _Idlios de El-Rei_, em marroquim negro, com o escudo de
armas de Lanarote do Lago--o pelicano de oiro sbre um mar de sinopla.

Nessa noite parti no expresso para a Esccia, e ainda no tinha passado
York, adormecida na sua gravidade episcopal, j me esquecera o criado
romanesco do restaurante de Charing-Cross. Foi s da a um ms, ao
voltar a Londres, que entrando no restaurante, e revendo aquela figura
lenta e fatal atravessar com um prato de _roast-beef_ numa das mos e na
outra um _puding_ de batata, senti renascer o antigo interesse. E nessa
noite mesmo, tive a singular felicidade de saber o seu nome e de
entrever um fragmento do seu passado. Era j tarde e eu voltava do
_Covent-Garden_, quando no perstilo do hotel encontrei, majestoso e
prspero, o meu amigo Bracolletti.

No conhecem Bracolletti? A sua presena  formidvel; tem a amplido
panuda, o negro cerrado da barba, a lentido, o cerimonial dum pach
gordo; mas esta ponderosa gravidade turca  temperada, em Bracolletti,
pelo sorriso e pelo olhar. Que olhar! Um olhar doce, que me faz lembrar
o dos animais da Sria:  o mesmo enternecimento. Parece errar no seu
fluido macio a religiosidade meiga das raas que do os Messias... Mas o
sorriso! O sorriso de Bracolletti  a mais complexa, a mais perfeita, a
mais rica das expresses humanas; h finura, inocncia, bonomia,
abandono, ironia doce, persuaso, naqueles dois lbios que se descerram
e que deixam brilhar um esmalte de dentes de virgem... Ah! mas
tambm ste sorriso  a fortuna de Bracolletti.

Moralmente, Bracolletti  um hbil. Nasceu em Esmirna de pais gregos; 
tudo o que le revela: de resto, quando se lhe pergunta pelo seu
passado, o bom grego rola um momento a cabea de ombro a ombro, esconde
sob as palpebras cerradas com bonomia o seu lho maometano, desabrocha o
sorriso duma doura de tentar abelhas, e murmura, como afogado em
bondade e em enternecimento:

--_Eh! mon Dieu! Eh! mon Dieu!_...

Nada mais. Parece, porm, que viajou,--porque conhece o Per, a Crimeia,
o Cabo da Boa-Esperana, os pases exticos--tam bem como Regent-Street:
mas  evidente para todos que a sua existncia no foi tecida, como a
dos vulgares aventureiros do Levante, de oiro e estpa, de esplendores e
pelintrices:  um gordo e, portanto, um prudente: o seu magnfico
solitrio nunca deixou de lhe brilhar no dedo: nenhum frio jmais o
surpreendeu sem uma pelissa de dois mil francos: e nunca deixa de
ganhar, todas as semanas, no _Fraternal Club_, de que  um membro
querido, dez libras ao whist.  um forte.

Mas tem uma debilidade.  singularmente guloso de rapariguinhas de dze
a catorze anos: gosta delas magrinhas, muito louras, e com o hbito de
praguejar. Coleciona-as pelos bairros pobres de Londres, com mtodo.
Instala-as em casa, e ali as tem, como passarinhos na gaiola,
metendo-lhes a papinha no bico, ouvindo-as palrar todo baboso,
animando-as a que lhe roubem os _shillings_ da algibeira, gozando o
desenvolvimento dos vcios naquelas flores, pondo-lhes ao alcance as
garrafas de _gin_ para que os anjinhos se embebedem;--e quando alguma,
excitada de lcool, de cabelo ao vento e face acesa, o injura, o
arrepela, baba obscenidades,--o bom Bracolletti, encruzado no sof, de
mos beatamente cruzadas na pana, o olhar afogado em xtase, murmura no
seu italiano da costa sria.

--_Piccolina! Gentilleta!_

Querido Bracolletti! Foi, realmente, com prazer, que o abracei, nessa
noite, em Charing-Cross: e como nos no vamos h muito, fomos cear
juntos ao restaurante. O criado triste l estava no seu _comptoir_,
curvado sbre o _Journal des Debats_. E apenas Bracolletti apareceu, na
sua majestade de obeso, o homem estendeu-lhe silenciosamente a mo; foi
um _shake-hands_ solene, enternecido e sincero.

Bom Deus, eram amigos! Arrebatei Bracolletti para o fundo da sala, e
vibrando de curiosidade, interroguei-o com sofreguido. Quis primeiro o
nome do homem.

--Chama-se Korriscosso--disse-me Bracolletti, grave.

Quis depois a sua histria. Mas Bracolletti, como os deuses da tica
que, nos seus embaraos no mundo, se recolhiam  sua nuvem, Bracolletti
refugiou-se na sua vaga reticncia.

--_Eh! mon Dieu!..._ _Eh! mon Dieu!_...

--No, no, Bracolletti. Vejmos. Quero-lhe a histria... Aquela face
fatal e baironeana deve ter uma histria...

Bracolletti ento tomou todo o ar cndido que lhe permitem a sua pana e
as suas barbas--e confessou-me, deixando cair as frases s gotas, que
tinham viajado ambos na Bulgria e no Montenegro... Korriscosso foi seu
secretrio... Boa letra... Tempos difceis... _Eh! mon Dieu!_...

--De onde  le?

Bracolletti respondeu sem hesitar, baixando a voz com um gesto repassado
de desconsiderao:

-- um grego de Atenas.

O meu interesse sumiu-se como a gua que a areia absorve. Quando se tem
viajado no Oriente e nas escalas do Levante, adquire-se fcilmente o
hbito, talvez injusto, de suspeitar do grego: aos primeiros que se
vem, sobretudo tendo uma educao universitria e clssica, o
entusiasmo acende-se um pouco, pensa-se em Alcibades e em Plato, nas
glrias duma raa esttica e livre, e perfilam-se na imaginao as
linhas augustas do Prtenon. Mas, depois de os ter freqentado, s
mesas redondas e nos tombadilhos das _Messageries_, e principalmente
depois de ter escutado a lenda de velhacaria que les tem deixado desde
Esmirna at Tnis, os outros que se vem provocam, apenas, stes
movimentos: abotoar rpidamente o casaco, cruzar fortemente os braos
sbre a cadeia do relgio, e aguar o intelecto para rechassar a
_escroquerie_. A causa desta reputao funesta  que a gente grega, que
emigra para as escalas do Levante,  uma plebe torpe, parte pirata e
parte lacaia, bando de rapina astuto e perverso. A verdade  que apenas
soube Korriscosso um grego, lembrei-me logo que o meu belo volume de
Tennyson, na minha ltima estada em Charing-Cross, me desaparecera do
quarto, e recordei o olhar de gula e de prsa que cravara nele
Korriscosso... Era um bandido!

E durante a ceia no falamos mais de Korriscosso. Serviu-nos outro
criado, rubro, honesto e so. O lgubre Korriscosso no se afastou do
_comptoir_ abismado no _Journal des Debats_.

Nessa noite aconteceu, ao recolher-me ao meu quarto, que me perdi... O
hotel estava atulhado, e eu tinha sido alojado naqueles altos de
Charing-Cross, numa complicao de corredores, escadas, recantos,
ngulos, onde  qusi necessrio roteiro e bssola.

De castial na mo, penetrei num passadio onde corria um bafo morno de
viela mal arejada. As portas a no tinham nmeros, mas pequenos cartes
colados onde estavam inscritos nomes: _John Smith_, _Charlie_,
_Willie_... Emfim, eram evidentemente as habitaes dos criados. De uma
porta aberta saa a claridade de um bico de gs; adiantei-me, e vi logo
Korriscosso, ainda de casaca, sentado a uma mesa alastrada de papeis, de
testa pendida sbre a mo, escrevendo.

--Pode-me indicar o caminho para o nmero 508?--balbuciei.

le ergueu para mim um olhar estremunhado e ennevoado; parecia ressurgir
de muito longe, de um outro universo; batia as plpebras, repetindo:

--508? 508?...

Foi ento que eu avistei, sbre a mesa, entre papeis, colarinhos sujos e
um rosrio--o meu volume de Tennyson! le viu o meu olhar, o bandido! e
acusou-se todo numa vermelhido que lhe inundou a face chupada. O meu
primeiro movimento foi no reconhecer o livro: como era um movimento
bom, e obedecendo logo  moral superior do mestre Talleyrand, reprimi-o;
apontando o volume com um dedo severo, um dedo de Providncia irritada,
disse-lhe:

-- o meu Tennyson...

No sei que resposta le tartamudeou, porque eu, apiedado, retomado
tambm pelo interesse que me dava aquela figura picaresca de grego
sentimental, acrescentei num tom repassado de perdo e de justificao:

--Grande poeta, no  verdade? Que lhe pareceu? Tenho a certeza que se
entusiasmou...

Korriscosso corou mais: mas no era o despeito humilhado do salteador
surpreendido: era, julguei eu, a vergonha de ver a sua inteligncia, o
seu gsto potico adivinhados--e de ter no corpo a casaca coada de
criado de restaurante. No respondeu. Mas as pginas do volume, que eu
abri, responderam por le; a brancura das margens largas desaparecia sob
uma rde de comentrios a lpis: _Sublime!_ _Grandioso!_
_Divino!_--palavras lanadas numa letra convulsiva, num tremor de mo,
agitada por uma sensibilidade vibrante...

No entanto, Korriscosso permanecia de p, respeitoso, culpado, de cabea
baixa, com o lao da gravata branca fugindo para o cachao. Pobre
Korriscosso! Compadeci-me daquela atitude, revelando todo um passado sem
sorte, tantas tristezas de dependncia... Lembrei-me que nada
impressiona o homem do Levante como um gesto de drama e de palco;
estendi-lhe ambas as mos num movimento  Talma, e disse-lhe:

--Eu tambem sou poeta!...

Esta frase extraordinria pareceria grotesca e impudente a um homem do
Norte; o levantino viu logo nela a expanso de uma alma irm. Porque,
no lhes disse? o que Korriscosso estava escrevendo, numa tira de papel,
eram estrofes: era uma ode.

Da a pouco, com a porta fechada, Korriscosso contava-me a sua
histria--ou antes fragmentos, anedotas desirmanadas da sua biografia. 
tam triste, que a condenso. De resto, havia na sua narrao lacunas de
anos;--e eu no posso reconstituir com lgica e seqncia a histria
dste sentimental. Tudo  vago e suspeito. Nasceu com efeito em Atenas;
seu pai parece que era carregador no Pireu. Aos 18 anos Korriscosso
servia de criado a um mdico, e nos intervalos do servio freqentava a
Universidade de Atenas; estas coisas so freqentes _l-bas_, como le
dizia. Formou-se em leis: isto habilitou-o, mais tarde, em tempos
difceis, a ser um intrprete de hotel. Dsse tempo datam as suas
primeiras elgias num semanrio lrico intitulado _Ecos da tica_. A
literatura levou-o directamente  poltica e s ambies parlamentares.
Uma paixo, uma crise pattica, um marido brutal, ameaas de morte,
foraram-no a expatriar-se. Viajou na Bulgria, foi em Salnica
empregado numa sucursal do _Banco Otomano_, remeteu endechas
dolorosas a um jornal da provncia--a _Trombeta da Arglida_. Aqui h
uma dessas lacunas, um buraco negro na sua histria. Reaparece em
Atenas, com fato novo, liberal e deputado.

ste perodo de glria foi breve, mas suficiente para o pr em
evidncia; a sua palavra colorida, potica, recamada de imagens
engenhosas e lustrosas, encantou Atenas: tinha o segredo de florir, como
le dizia, os terrenos mais ridos; duma discusso de imposto ou de
viao fazia saltar clogas de Tecrito. Em Atenas ste talento leva ao
poder: Korriscosso era indicado para gerir uma alta administrao do
Estado: o ministrio, porm, e com le a maioria de que Korriscosso era
o tenor querido, caram, sumiram-se sem lgica constitucional, num
dstes sbitos desabamentos polticos tam comuns na Grcia, em que os
governos se aluem, como as casas em Atenas--sem motivo. Falta de base,
decrepitude de materiais e de individualidades... Tudo tende para o p
num solo de ruinas...

Nova lacuna, novo mergulho obscuro na histria de Korriscosso...

Volta  superfcie, membro de um club rpublicano de Atenas, pede num
jornal a emancipao da Polnia, e a Grcia governada por um conclio de
gnios. Publca ento os seus _Suspiros da Trcia_. Tem outro
romance de corao... E emfim--e isto disse-mo sem explicaes--
obrigado a refugiar-se em Inglaterra. Depois de tentar em Londres vrias
posies, coloca-se no restaurant de Charing-Cross.

-- um prto de abrigo--disse-lhe eu, apertando-lhe a mo.

le sorriu com amargura. Era de-certo um prto de abrigo, e vantajoso. 
bem alimentado; as gorgetas so razoveis; tem um vlho colxo de
molas,--mas as delicadezas da sua alma so, a todo o momento,
dolorosamente feridas...

Dias atribulados, dias crucificados, os daquele poeta lrico, forado a
distribuir numa sala, a burgueses estabelecidos e glutes, costeletas e
copos de cerveja! No  a dependncia que o aflige; a sua alma de grego
no  particularmente vida de liberdade, basta-lhe que o patro seja
corts. E, como le me disse, -lhe grato reconhecer que os fregueses de
Charing-Cross nunca lhe pedem a mostarda ou o queijo sem dizer _if you
please_; e quando saem, ao passar por le, levam dois dedos  aba do
chapu: isto satisfaz a dignidade de Korriscosso.

Mas o que o tortura  o contacto constante com o alimento. Se le fsse
um guarda-livros de um banqueiro, primeiro caixeiro de um armazm de
sdas... Nisso h uma sombra de poesia--os milhes que se revolvem, as
frotas mercantes, a brutal fra do oiro, ou ento dispr ricamente
os estofos, os cortes de sda, fazer correr a luz nas ondulaes dos
_moirs_, dar ao veludo as molezas da linha e da prega... Mas num
restaurante como se pode exercer o gsto, a originalidade artstica, o
instinto da cr, do efeito, do drama--a partir nacos de _roast-beef_ ou
de presunto de York?!... Depois, como le disse, dar a comer, fornecer
alimento,  servir exclusivamente a pana, a tripa, a baixa necessidade
material: no restaurante, o ventre  Deus: a alma fica fra, com o
chapu que se pendura no cabide ou com o rlo de jornais que se deixou
no blso do paletot.

E as convivncias, e a falta de conversao! Nunca se voltarem para le
seno para lhe pedirem salame ou sardinhas de Nantes! Nunca abrir os
seus lbios, de onde pendia o parlamento de Atenas, seno para
perguntar:--Mais po? mais bife?--Esta privao de eloqncia -lhe
dolorosa.

Alm disso o servio impede-lhe o trabalho. Korriscosso compe de
memria; quatro passeios pelo quarto, um repelo ao cabelo, e a ode
sai-lhe harmoniosa e doce.... Mas a interrupo glutona da voz do
fregus, pedindo nutrio,  fatal a esta maneira de trabalhar. s
vezes, encostado a uma janela, de guardanapo no brao, Korriscosso est
fazendo uma elgia; so tudo luares, roupagens alvas de virgens
plidas, horizontes celestes, flores de alma dolorida...  feliz;
est remontado aos cus poticos, nas plancies azuladas onde os sonhos
acampam, galopando de estrla em estrla... De repente, uma grossa voz
faminta berra dum canto:

--Bife e batatas!

Ai! as aladas fantasias batem o vo como pombas espavoridas! E a vem o
infeliz Korriscosso, precipitado dos cimos ideais, de ombros vergados e
as abas da casaca balouando, perguntar com o sorriso lvido:

--Passado ou meio cr?

Ah!  um amargo destino!

--Mas--perguntei-lhe eu--porque no deixa ste covil, ste templo do
ventre?

Ele deixou pender a sua bela cabea de poeta. E disse-me a razo que o
prende: disse-ma, qusi chorando nos meus braos, com o n da gravata
branca no cachao: Korriscosso ama.

Ama uma Fanny, criada de todo o servio em Charing-Cross. Ama-a desde o
primeiro dia em que entrou no hotel: amou-a no momento em que a viu
lavando as escadas de pedra, com os braos rolios nus, e os cabelos
louros, os fatais cabelos louros, dste louro que entontece os
meridionais, cabelos ricos, de um tom de cobre, dum tom de oiro mate,
torcendo-se numa trana de deusa. E depois a carnao, uma carnao
de inglesa do Yorkshire--leite e rosas...

E o que Korriscosso tem sofrido! Toda a sua dor exala-a em odes--que
passa a limpo ao domingo, dia de repouso e dia do Senhor! Leu-mas. E eu
vi quanto a paixo pode perturbar um ser nervoso: que ferocidade de
linguagem, que lances de desespero, que gritos de alma dilacerada
arremesados dali, daqueles altos de Charing-Cross, para a mudez do cu
frio!  que Korriscosso tem ciumes. A desgraada Fanny ignora aquele
poeta a seu lado, aquele delicado, aquele sentimental, e ama um
_policeman_. Ama um _policeman_, um colosso, um alcides, uma montanha de
carne erriada duma floresta de barbas, com o peito como o flanco de um
couraado, com pernas como fortalezas normandas. ste Polifemo, como diz
Korriscosso, tem, ordinriamente, servio no Strand; e a pobre Fanny
passa o seu dia a espreit-lo de um postigo, dos altos do hotel.

Todas as suas economias as gasta em quartilhos de _gin_, de _brandy_, de
genebra, que  noite lhe leva em copinhos debaixo do avental: mantem-no
fiel pelo lcool; o monstro, plantado enormemente a uma esquina, recebe
em silncio o copo, atira-o de um golpe s fauces tenebrosas, arrota
cavamente, passa a mo cabeluda pela barba de hrcules, e segue
taciturnamente, sem um _obrigado_, sem um _amo-te_, batendo o lagedo
com a vastido das suas solas sonoras. A pobre Fanny admira-o babosa...
E talvez nesse momento,  outra esquina, o magro Korriscosso, fazendo no
nevoeiro um esguio relvo de poste telegrfico, soluce com a face magra
entre as mos transparentes.

Pobre Korriscosso! Se le ao menos a pudesse comover... Mas qu! Ela
despreza-lhe o corpo de tsico triste: e a alma no lha compreende...
No que Fanny seja inacessvel a sentimentos ardentes, expressos em
linguagem melodiosa. Mas Korriscosso s pode escrever as suas elgias na
sua lngua materna... E Fanny no compreende grego... E Korriscosso  s
um grande homem--em grego...

Quando desci ao meu quarto, deixei-o soluando sbre o catre. Tenho-o
visto depois, outras vezes, ao passar em Londres. Est mais magro, mais
fatal, mais mirrado de zelos, mais curvado quando se move pelo
restaurante com a travessa do _roast-beef_, mais exaltado no seu
lirismo... Sempre que le me serve dou-lhe um _shilling_ de gorgeta: e
depois, ao retirar, aperto-lhe sinceramente a mo.




NO MOINHO


D. Maria da Piedade era considerada em toda a vila como uma senhora
modlo. O vlho Nunes, director do correio, sempre que se falava nela,
dizia, acariciando com autoridade os quatro plos da calva:

-- uma santa!  o que ela !

A vila tinha qusi orgulho na sua beleza delicada e tocante; era uma
loura, de perfil fino, a pele eburnea, e os olhos escuros de um tom de
violeta, a que as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e
doce. Morava ao fim da estrada, numa casa azul de trs sacadas; e era,
para a gente que s tardes ia fazer o giro at ao moinho, um encanto
sempre novo v-la por trs da vidraa, entre as cortinas de cassa,
curvada sbre a sua costura, vestida de preto, recolhida e sria.
Poucas vezes saa. O marido, mais vlho que ela, era um invlido,
sempre de cama, inutilizado por uma doena de espinha; havia anos que
no descia  rua; avistavam-no s vezes tambm  janela murcho e
trpego, agarrado  bengala, encolhido na _robe-de-chambre_, com uma
face macilenta, a barba desleixada e com um barretinho de sda enterrado
melanclicamente at ao cachao. Os filhos, duas rapariguitas e um
rapaz, eram tambm doentes, crescendo pouco e com dificuldade, cheios de
tumores nas orelhas, chores e tristonhos. A casa, interiormente,
parecia lgubre. Andava-se nas pontas dos ps, porque o senhor, na
excitao nervosa que lhe davam as insnias, irritava-se com o menor
rumor; havia sbre as cmodas alguma garrafada da botica, alguma malga
com papas de linhaa; as mesmas flores com que ela, no seu arranjo e no
seu gsto de frescura, ornava as mesas, depressa murchavam naquele ar
abafado de febre, nunca renovado por causa das correntes de ar; e era
uma tristeza ver sempre algum dos pequenos ou de emplastro sbre a
orelha, ou a um canto do camap, embrulhado em cobertores com uma
amarelido de hospital.

Maria da Piedade vivia assim, desde os vinte anos. Mesmo em solteira, em
casa dos pais, a sua existncia fra triste. A me era uma criatura
desagradvel e azda; o pai, que se empenhara pelas tavernas e pelas
batotas, j vlho, sempre bbedo, os dias que aparecia em casa
passava-os  lareira, num silncio sombrio, cachimbando e escarrando
para as cinzas. Todas as semanas desancava a mulher. E quando Joo
Coutinho pediu Maria em casamento, a-pesar de doente j, ela aceitou,
sem hesitao, qusi com reconhecimento, para salvar o casebre da
penhora, no ouvir mais os gritos da me, que a faziam tremer, rezar, em
cima no seu quarto, onde a chuva entrava pelo telhado. No amava o
marido, de-certo; e mesmo na vila tinha-se lamentado que aquele lindo
rosto de Virgem Maria, aquela figura de fada, fsse pertencer ao
Joosinho Coutinho, que desde rapaz fra sempre entrevado. O Coutinho,
por morte do pai, ficra rico; e ela, acostumada por fim quele marido
rabugento, que passava o dia arrastando-se sombriamente da sala para a
lcva, ter-se-ia resignado, na sua natureza de enfermeira e de
consoladora, se os filhos ao menos tivessem nascido sos e robustos. Mas
aquela famlia que lhe vinha com o sangue viciado, aquelas existncias
hesitantes, que depois pareciam apodrecer-lhe nas mos, a-pesar dos seus
cuidados inquietos, acabrunhavam-na. s vezes s, picando a sua costura,
corriam-lhe as lgrimas pela face: uma fadiga da vida invadia-a, como
uma nvoa que lhe escurecia a alma.

Mas se o marido de dentro chamava desesperado, ou um dos pequenos
choramingava, l limpava os olhos, l aparecia com a sua bonita face
tranqila, com alguma palavra consoladora, compondo a almofada a um,
indo animar o outro, feliz em ser boa. Toda a sua ambio era ver o seu
pequeno mundo bem tratado e bem acarinhado. Nunca tivera desde casada
uma curiosidade, um desejo, um capricho: nada a interessava na terra
seno as horas dos remdios e o sono dos seus doentes. Todo o esfro
lhe era fcil quando era para os contentar: a-pesar de fraca, passeava
horas trazendo ao colo o pequerrucho, que era o mais impertinente, com
as feridas que faziam dos seus pobres beicinhos uma crosta escura:
durante as insnias do marido no dormia tambm, sentada ao p da cama,
conversando, lendo-lhe as Vidas dos Santos, porque o pobre entrevado ia
cando em devoo. De manh estava um pouco mais plida, mas toda
correcta no seu vestido preto, fresca, com os bands bem lustrosos,
fazendo-se bonita para ir dar as sopas de leite aos pequerruchos. A sua
nica distraco era  tarde sentar-se  janela com a sua costura, e a
pequenada em roda, aninhada no cho, brincando tristemente. A mesma
paizagem que ela via da janela era tam montona como a sua vida: em
baixo a estrada, depois uma ondulao de campos, uma terra magra
plantada aqui e alm de oliveiras e, erguendo-se ao fundo, uma
colina triste e nua, sem uma casa, uma rvore, um fumo de casal que
pusesse naquela solido de terreno pobre uma nota humana e viva.

Vendo-a assim tam resignada e tam sujeita, algumas senhoras da vila
afirmavam que ela era beata: todavia ningum a avistava na igreja, a no
ser ao domingo, com o pequerrucho mais vlho pela mo, todo plido no
seu vestido de veludo azul. Com efeito, a sua devoo limitava-se a esta
missa todas as semanas. A sua casa ocupava-a muito para se deixar
invadir pelas preocupaes do cu: naquele dever de boa me, cumprido
com amor, encontrava uma satisfao suficiente  sua sensibilidade; no
necessitava adorar santos ou enternecer-se com Jesus. Instintivamente
mesmo pensava que toda a afeio excessiva dada ao Pai do Cu, todo o
tempo gasto em se arrastar pelo confessionrio ou junto do oratrio,
seria uma diminuio cruel no seu cuidado de enfermeira: a sua maneira
de rezar era velar os filhos: e aquele pobre marido pregado numa cama,
todo dependente dela, tendo-a s a ela, parecia-lhe ter mais direito ao
seu fervor que o outro, pregado numa cruz, tendo para o amar toda uma
humanidade pronta. Alm disso, nunca tivera estas sentimentalidades de
alma triste que levam  devoo. O seu longo hbito de dirigir uma casa
de doentes, de ser ela o centro, a fra, o amparo daqueles
invlidos, tornra-a terna, mas prtica: e assim era ela que
administrava agora a casa do marido, com um bom senso que a afeio
dirigira, uma solicitude de me prvida. Tais ocupaes bastavam para
entreter o seu dia: o marido, de resto, detestava visitas, o aspecto de
caras saudveis, as comiseraes de cerimnia; e passavam-se meses sem
que em casa de Maria da Piedade se ouvisse outra voz estranha  famlia,
a no ser a do Dr. Ablio--que a adorava, e que dizia dela com os olhos
esgazeados:

-- uma fada!  uma fada...


Foi por isso grande a excitao na casa, quando Joo Coutinho recebeu
uma carta de seu primo Adrio que lhe anunciava que em duas ou trs
semanas ia chegar  vila. Adrio era um homem clebre, e o marido de
Maria da Piedade tinha naquele parente um orgulho enftico. Assinra
mesmo um jornal de Lisboa, s para ver o seu nome nas locais e na
crtica. Adrio era um romancista: e o seu ltimo livro, _Madalena_, um
estudo de mulher trabalhado a grande estilo, duma anlise delicada e
subtil, consagrara-o como um mestre. A sua fama, que chegara at  vila,
num vago de legenda, apresentava-o como uma personalidade interessante,
um heri de Lisboa, amado das fidalgas, impetuoso e brilhante, destinado
a uma alta situao no Estado. Mas realmente na vila era sobretudo
notvel por ser primo do Joo Coutinho.

D. Maria da Piedade ficou aterrada com esta visita. Via j a sua casa em
confuso com a presena do hspede extraordinrio. Depois a necessidade
de fazer mais _toilette_, de alterar a hora do jantar, de conversar com
um literato, e tantos outros esforos crueis!... E a brusca invaso
daquele mundano, com as suas malas, o fumo do seu charuto, a sua alegria
de so, na paz triste do seu hospital, dava-lhe a impresso apavorada
duma profanao. Foi por isso um alvio, qusi um reconhecimento, quando
Adrio chegou, e muito simplesmente se instalou na antiga estalagem do
tio Andr,  outra extremidade da vila. Joo Coutinho escandalizou-se:
tinha j o quarto do hspede preparado, com lenis de rendas, uma
colcha de damasco, pratas sbre a cmoda, e queria-o todo para si, o
primo, o homem clebre, o grande autor... Adrio porm recusou:

--Eu tenho os meus hbitos, vocs teem os seus... No nos contrariemos,
hein?... O que fao  vir c jantar. De resto, no estou mal no tio
Andr... Vejo da janela um moinho e uma reprsa que so um quadrosinho
delicioso... E ficamos amigos, no  verdade?

Maria da Piedade olhava-o assombrada: aquele heri, aquele fascinador
por quem choravam mulheres, aquele poeta que os jornais
glorificavam, era um sujeito extremamente simples,--muito menos
complicado, menos espectaculoso que o filho do recebedor! Nem formoso
era: e com o seu chapu desabado sbre uma face cheia e barbuda, a
quinzena de flanela cando  larga num corpo robusto e pequeno, os seus
sapatos enormes, parecia-lhe a ela um dos caadores de aldeia que s
vezes encontrava, quando de ms a ms ia visitar as fazendas do outro
lado do rio. Alm disso no fazia frases; e a primeira vez que veio
jantar, falou apenas, com grande bonomia, dos seus negcios. Viera por
les. Da fortuna do pai, a nica terra que no estava devorada, ou
abominavelmente hipotecada, era a Curgossa, uma fazenda ao p da vila,
que andava alm disso mal arrendada... O que le desejava era vend-la.
Mas isso parecia-lhe a le tam difcil, como fazer a _Ilada_!... E
lamentava sinceramente ver o primo ali, intil sbre uma cama, sem o
poder ajudar nesses passos a dar com os proprietrios da vila. Foi por
isso, com grande alegria, que ouviu Joo Coutinho declarar-lhe que a
mulher era uma administradora de primeira ordem, e hbil nestas questes
como um antigo rbula!...

--Ela vai contigo ver a fazenda, fala com o Teles, e arranja-te isso
tudo... E na questo de preo, deixa-a a ela!...

--Mas que superioridade, prima!--exclamou Adrio maravilhado.--Um anjo
que entende de cifras!

Pela primeira vez na sua existncia Maria da Piedade corou com a palavra
dum homem. De resto prontificou-se logo a ser a procuradora do primo...

No outro dia foram ver a fazenda. Como ficava perto, e era um dia de
maro fresco e claro, partiram a p. Ao princpio, acanhada por aquela
companhia de um leo, a pobre senhora caminhava junto dle com o ar de
um pssaro assustado: a-pesar de le ser tam simples, havia na sua
figura enrgica e musculosa, no timbre rico da sua voz, nos seus olhos
pequenos e luzidios alguma coisa de forte, de dominante, que a enleava.
Tinha-se-lhe prendido  orla do seu vestido um galho de silvado, e como
le se abaixra para o desprender delicadamente, o contacto daquela mo
branca e fina de artista na orla da sua saia incomodou-a singularmente.
Apressava o passo para chegar bem depressa  fazenda, aviar o negcio
com o Teles, e voltar imediatamente a refugiar-se, como no seu elemento
prprio, no ar abafado e triste do seu hospital. Mas a estrada
estendia-se, branca e longa, sob o sol tpido--e a conversa de Adrio
foi-a lentamente acostumado  sua presena.

le parecia desolado daquela tristeza da casa. Deu-lhe alguns bons
conselhos: o que os pequenos necessitavam era ar, sol, uma outra vida
diversa daquele abafamento de alcva...

Ela tambm assim o julgava: mas qu! o pobre Joo, sempre que se lhe
falava de ir passar algum tempo  quinta, afligia-se terrvelmente:
tinha horror aos grandes ares e aos grandes horizontes: a natureza forte
fazia-o qusi desmaiar; tornra-se um ser artificial, encafuado entre os
cortinados da cama...

le ento lamentou-a. De-certo poderia haver alguma satisfao num dever
tam santamente cumprido... Mas, emfim, ela devia ter momentos em que
desejasse alguma outra cousa alm daquelas quatro paredes, impregnadas
do bafo da doena...

--Que hei-de eu desejar mais?--disse ela.

Adrio calou-se: pareceu-lhe absurdo supr que ela desejasse, realmente,
o Chiado ou o Teatro da Trindade... No que le pensava era noutros
apetites, nas ambies do corao insatisfeito... Mas isto pareceu-lhe
tam delicado, tam grave de dizer quela criatura virginal e sria--que
falou da paizagem...

--J viu o moinho?--perguntou-lhe ela.

--Tenho vontade de o ver, se mo quiser ir mostrar, prima.

--Hoje  tarde.

Combinaram logo ir visitar sse recanto de verdura, que era o idlio da
vila.

Na fazenda, a longa conversa com o Teles criou uma aproximao maior
entre Adrio e Maria da Piedade. Aquela venda que ela discutia com uma
astcia de alde, punha entre les como que um interesse comum. Ela
falou-lhe j com menos reserva quando voltaram. Havia nas maneiras dle,
dum respeito tocante, uma atraco que a seu pesar a levava a
revelar-se, a dar-lhe a sua confiana: nunca falra tanto a ningum: a
ningum jmais deixara ver tanto da melancolia oculta que errava
constantemente na sua alma. De resto as suas queixas eram sbre a mesma
dor--a tristeza do seu interior, as doenas, tantos cuidados graves... E
vinha-lhe por le uma simpatia, como um indefinido desejo de o ter
sempre presente, desde que le se tornava assim depositrio das suas
tristezas.

Adrio voltou para o seu quarto, na estalagem do Andr, impressionado,
interessado por aquela criatura tam triste e tam doce. Ela destacava
sbre o mundo de mulheres que at ali conhecera, como um perfil suave de
anjo gtico entre fisionomias de mesa redonda. Tudo nela concordava
deliciosamente: o oiro do cabelo, a doura da voz, a modstia na
melancolia, a linha casta, fazendo um ser delicado e tocante, a que
mesmo o seu pequenino esprito burgus, certo fundo rstico de alde e
uma leve vulgaridade de hbitos davam um encanto: era um anjo que
vivia h muito tempo numa vilota grosseira e estava por muitos lados
prso s trivialidades do stio: mas bastaria um spro para o fazer
remontar ao cu natural, aos cimos puros da sentimentalidade...

Achava absurdo e infame fazer a crte  prima... Mas involuntriamente
pensava no delicioso prazer de fazer bater aquele corao que no estava
deformado pelo espartilho, e de pr emfim os seus lbios numa face onde
no houvesse ps de arroz... E o que o tentava sobretudo era pensar que
poderia percorrer toda a provncia em Portugal, sem encontrar nem aquela
linha do corpo, nem aquela virgindade tocante de alma adormecida... Era
uma ocasio que no voltava.

O passeio ao moinho foi encantador. Era um recanto de natureza, digno de
Corot, sobretudo  hora do meio dia em que les l foram, com a frescura
da verdura, a sombra recolhida das grandes rvores, e toda a sorte de
murmrios de gua corrente, fugindo, reluzindo entre os musgos e as
pedras, levando e espalhando no ar o frio da folhagem, da relva, por
onde corriam cantando. O moinho era dum alto pitoresco, com a sua vlha
edificao de pedra secular, a sua roda enorme, qusi pdre, coberta de
ervas, imvel sbre a gelada limpidez da gua escura. Adrio achou-o
digno duma scena de romance, ou melhor, da morada duma fada. Maria
da Piedade no dizia nada, achando extraordinria aquela admirao pelo
moinho abandonado do tio Costa. Como ela vinha um pouco cansada,
sentaram-se numa escada desconjuntada de pedra, que mergulhava na gua
da reprsa os ltimos degraus: e ali ficaram um momento calados, no
encanto daquela frescura murmurosa, ouvindo as aves piarem nas ramas.
Adrio via-a de perfil, um pouco curvada, esburacando com a ponteira do
guarda-sol as ervas bravas que invadiam os degraus: era deliciosa assim,
tam branca, tam loura, duma linha tam pura sbre o fundo azul do ar: o
seu chapu era de mau gsto, o seu mantelete antiquado, mas le achava
nisso mesmo uma ingenuidade picante. O silncio dos campos em redor
isolava-os--e, insensvelmente, le comeou a falar-lhe baixo. Era ainda
a mesma compaixo pela melancolia da sua existncia naquela triste vila,
pelo seu destino de enfermeira... Ela escutava-o de olhos baixos,
pasmada de se achar ali tam s com aquele homem tam robusto, toda
receosa e achando um sabor delicioso ao seu receio... Houve um momento
em que le falou do encanto de ficar ali para sempre na vila.

--Ficar aqui? Para qu?--perguntou ela sorrindo.

--Para qu? para isto, para estar sempre ao p de si...

Ela cobriu-se de um rubor, o guarda-solinho escapou-lhe das mos. Adrio
receou t-la ofendido, e acrescentou logo rindo:

--Pois no era delicioso?... Eu podia alugar ste moinho, fazer-me
moleiro... A prima havia de me dar a sua freguesia...

Isto f-la rir: era mais linda quando ria: tudo brilhava nela, os
dentes, a pele, a cr do cabelo. le continuou gracejando, com o seu
plano de se fazer moleiro, e de ir pela estrada tocando o burro,
carregado de sacas de farinha.

--E eu venho ajud-lo, primo!--disse ela, animada pelo seu prprio riso,
pela alegria daquele homem a seu lado.

--Vem?--exclamou le.--Juro-lhe que me fao moleiro! Que paraso ns
aqui ambos no moinho, ganhando alegremente a nossa vida, ouvindo cantar
stes melros!

Ela corou outra vez do fervor da sua voz, e recuou como se le fsse j
arrebat-la para o moinho. Mas Adrio agora, inflamado quela idea,
pintava-lhe na sua palavra colorida toda uma vida romanesca, de uma
felicidade idlica, naquele esconderijo de verdura: de manh, a p cedo,
para o trabalho; depois o jantar na relva  beira de gua; e  noite as
boas palestras ali sentados,  claridade das estrlas ou sob a
sombra clida dos cus negros de vero...

E de repente, sem que ela resistisse, prendeu-a nos braos, e beijou-a
sbre os lbios, dum s beijo profundo e interminvel. Ela tinha ficado
contra o seu peito, branca, como morta: e duas lgrimas corriam-lhe ao
comprido da face. Era assim tam dolorosa e fraca, que le soltou-a; ela
ergueu-se, apanhou o guarda-solinho e ficou diante dle, com o beicinho
a tremer, murmurando:

-- mal feito...  mal feito...

le mesmo estava tam perturbado--que a deixou descer para o caminho: e
da a um momento, seguiam ambos calados para a vila. Foi s na estalagem
que le pensou:

--Fui um tolo!

Mas no fundo estava contente da sua generosidade.  noite foi a casa
dela: encontrou-a com o pequerrucho no colo, lavando-lhe em gua de
malvas as feridas que le tinha na perna. E ento, pareceu-lhe odioso
distrair aquela mulher dos seus doentes. De resto um momento como aquele
no moinho no voltaria. Seria absurdo ficar ali, naquele canto odioso da
provncia, desmoralizando, a frio, uma boa me... A venda da fazenda
estava concluda. Por isso, no dia seguinte, apareceu de tarde, a
dizer-lhe adeus: partia  noitinha na diligncia: encontrou-a na sala,
 janela costumada, com a pequenada doente aninhada contra as suas
saias... Ouviu que le partia, sem lhe mudar a cr, sem lhe arfar o
peito. Mas Adrio achou-lhe a palma da mo tam fria como um mrmore: e
quando le sau, Maria da Piedade ficou voltada para a janela,
escondendo a face dos pequenos, olhando abstractamente a paizagem que
escurecia, com as lgrimas, quatro a quatro, cando-lhe na costura...

Amava-o. Desde os primeiros dias, a sua figura resoluta e forte, os seus
olhos luzidios, toda a virilidade da sua pessoa, se lhe tinham apossado
da imaginao. O que a encantava nele no era o seu talento, nem a sua
celebridade em Lisboa, nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela
aparecia-lhe vago e pouco compreensvel: o que a fascinava era aquela
seriedade, aquele ar honesto e so, aquela robustez de vida, aquela voz
tam grave e tam rica: e antevia, para alm da sua existncia ligada a um
invlido, outras existncias possveis, em que se no v sempre diante
dos olhos uma face fraca e moribunda, em que as noites se no passam a
esperar as horas dos remdios... Era como uma rajada de ar impregnado de
todas as fras vivas da natureza, que atravessava, sbitamente, a sua
alcva abafada: e ela respirava-a deliciosamente... Depois, tinha
ouvido aquelas conversas em que le se mostrava tam bom, tam srio,
tam delicado: e  fra do seu corpo, que admirava, juntava-se agora um
corao terno, duma ternura varonil e forte, para a cativar... ste amor
latente invadiu-a, apoderou-se dela uma noite que lhe apareceu esta
idea, esta viso--_Se le fosse meu marido!_ Toda ela estremeceu,
apertou desesperadamente os braos contra o peito, como confundindo-se
com a sua imagem evocada, prendendo-se a ela, refugiando-se na sua
fra... Depois le deu-lhe aquele beijo no moinho.

E partira!


Ento comeou para Maria da Piedade uma existncia de abandonada. Tudo
de repente em volta dela--a doena do marido, achaques dos filhos,
tristezas do seu dia, a sua costura--lhe pareceu lgubre. Os seus
deveres, agora que no punha neles toda a sua alma, eram-lhe pesados
como fardos injustos. A sua vida representava-se-lhe como desgraa
excepcional: no se revoltava ainda: mas tinha dsses abatimentos,
dessas sbitas fadigas de todo o seu ser, em que caa sbre a cadeira,
com os braos pendentes, murmurando:

--Quando se acabar isto?

Refugiava-se ento naquele amor como uma compensao deliciosa.
Julgando-o todo puro, todo de alma, deixava-se penetrar dle e da sua
lenta influncia. Adrio tornara-se, na sua imaginao, como um ser de
propores extraordinrias, tudo o que  forte, e que  belo, e que d
razo  vida. No quis que nada do que era dle ou vinha dle lhe fsse
alheio. Leu todos os seus livros, sobretudo aquela _Madalena_ que tambm
amara, e morrera dum abandono. Estas leituras calmavam-na, davam-lhe
como uma vaga satisfao ao desejo. Chorando as dores das heronas de
romance, parecia sentir alvio s suas.

Lentamente, esta necessidade de encher a imaginao dsses lances de
amor, de dramas infelizes, apoderou-se dela. Foi durante meses um
devorar constante de romances. Ia-se assim criando no seu esprito um
mundo artificial e idealizado. A realidade tornava-se-lhe odiosa,
sobretudo sob aquele aspecto da sua casa, onde encontrava sempre
agarrado s saias um ser enfermo. Vieram as primeiras revoltas.
Tornou-se impaciente e spera. No suportava ser arrancada aos episdios
sentimentais do seu livro, para ir ajudar a voltar o marido e sentir-lhe
o hlito mau. Veio-lhe o nojo das garrafadas, dos emplastros, das
feridas dos pequenos a lavar. Comeou a ler versos. Passava horas s,
num mutismo,  janela, tendo sob o seu olhar de virgem loura toda a
rebelio duma apaixonada. Acreditava nos amantes que escalam os balces,
entre o canto dos rouxinis: e queria ser amada assim, possuda num
mistrio de noite romntica...

O seu amor desprendeu-se pouco a pouco da imagem de Adrio e alargou-se,
estendeu-se a um ser vago que era feito de tudo o que a encantara nos
heris de novela; era um ente meio prncipe e meio facnora, que tinha,
sobretudo, a fra. Porque era isto que admirava, que queria, porque
ansiava nas noites clidas em que no podia dormir--dois braos fortes
como ao, que a apertassem num abrao mortal, dois lbios de fogo que,
num beijo, lhe chupassem a alma. Estava uma histrica.

s vezes, ao p do leito do marido, vendo diante de si aquele corpo de
tsico, numa imobilidade de entrevado, vinha-lhe um dio torpe, um
desejo de lhe apressar a morte...

E no meio desta excitao mrbida do temperamento irritado, eram
fraquezas sbitas, sustos de ave que pousa, um grito ao ouvir bater uma
porta, uma palidez de desmaio se havia na sala flores muito cheirosas...
 noite abafava; abria a janela; mas o clido ar, o bafo mrno da terra
aquecida do sol, enchiam-na dum desejo intenso, duma nsia voluptuosa,
cortada de crises de chro...

A Santa tornava-se Vnus.

E o romantismo mrbido tinha penetrado tanto naquele ser, e
desmoralizra-o tam profundamente, que chegou ao momento em que bastaria
que um homem lhe tocasse, para ela lhe car nos braos:--e foi o que
sucedeu emfim, com o primeiro que a namorou, da a dois anos. Era o
praticante da botica.

Por causa dle escandalizou toda a vila. E agora deixa a casa numa
desordem, os filhos sujos e ramelosos, em farrapos, sem comer at altas
horas, o marido a gemer abandonado na sua alcva, toda a trapagem dos
emplastros por cima das cadeiras, tudo num desamparo torpe--para andar
atrs do homem, um magano odioso e cebento, de cara balfa e
gordalhufa, luneta preta com grossa fita passada atrs da orelha, e
bonsinho de sda posto  catita. Vem de noite s entrevistas de chinelo
de ourelo: cheira a suor: e pede-lhe dinheiro emprestado para sustentar
uma Joana, criatura obsa, a quem chamam na vila a _bola de unto_.




CIVILIZAO


I

Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome  Jacinto) que nasceu num
palcio, com quarenta contos de renda em pingues terras de po, azeite e
gado.

Desde o bero, onde sua me, senhora gorda e crdula de Trs-os-montes,
espalhava, para reter as Fadas Benficas, funcho e mbar, Jacinto fra
sempre mais resistente e so que um pinheiro das dunas. Um lindo rio,
murmuroso e transparente, com um leito muito liso de areia muito branca,
reflectindo apenas pedaos lustrosos de um cu de vero ou ramagens
sempre verdes e de bom aroma, no ofereceria, quele que o descesse numa
barca cheia de almofadas e de Champanhe gelada, mais doura e
facilidades do que a vida oferecia ao meu camarada Jacinto. No teve
sarampo e no teve lombrigas. Nunca padeceu, mesmo na idade em que se l
Balzac e Musset, os tormentos da sensibilidade. Nas suas amizades foi
sempre tam feliz como o clssico Orestes. Do Amor s experimentra o
mel--sse mel que o amor invariavelmente concede a quem o pratca, como
as abelhas, com ligeireza e mobilidade. Ambio, sentira smente a de
compreender bem as ideas gerais, e a ponta do seu intelecto (como diz
o vlho cronista medieval) no estava ainda romba nem ferrugenta... E
todavia, desde os vinte e oito anos, Jacinto j se vinha repastando de
Schopenhauer, do Eclesiastes, doutros Pessimistas menores, e trs,
quatro vezes por dia, bocejava, com um bocejo cavo e lento, passando os
dedos finos sbre as faces, como se nela s palpasse palidez e runa.
Porqu?

Era le, de todos os homens que conheci, o mais complexamente
civilizado--ou antes aquele que se munira da mais vasta sma de
civilizao material, ornamental e intelectual. Nesse palcio
(floridamente chamado o _Jasmineiro_) que seu pai, tambm Jacinto,
construira sbre uma honesta casa do sculo XVII, assoalhada a pinho e
branqueada a cal--existia, creio eu, tudo quanto para bem do esprito ou
da matria os homens teem criado, atravs da incerteza e dor, desde que
abandonaram o vale feliz de Septa-Sindu, a Terra das guas Fceis, o
doce pas Ariano. A biblioteca, que em duas salas, amplas e claras como
praas, forrava as paredes, inteiramente, desde os tapetes de Carannia
at ao teto de onde, alternadamente, atravs de cristais, o sol e a
electricidade vertiam uma luz estudiosa e calma--continha vinte e cinco
mil volumes, instalados em bano, magnificamente revestidos de marroquim
escarlate. S sistemas filosficos (e com justa prudncia, para poupar
espao, o bibliotecrio apenas colecionra os que irreconciliavelmente
se contradizem) havia mil oito centos e dezassete!

Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith, percorri,
buscando ste economista ao longo das estantes, oito metros de economia
poltica! Assim se achava formidavelmente abastecido o meu amigo Jacinto
de todas as obras essenciais da inteligncia--e mesmo da estupidez. E o
nico inconveniente dste monumental armazm do saber era que todo
aquele que l penetrava, inevitavelmente l adormecia, por causa das
poltronas, que provdas de finas pranchas mveis para sustentar o livro,
o charuto, o lpis das notas, a taa de caf, ofereciam ainda uma
combinao oscilante e flcida de almofadas, onde o corpo encontrava
logo, para mal do esprito, a doura, a profundidade e a paz estirada de
um leito.

Ao fundo, e como um altar-mr, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A
sua cadeira, grave e abacial, de couro, com brazes, datava do sculo
XIV, e em trno dela pendiam numerosos tubos acsticos, que, sbre os
panejamentos de sda cr de musgo e cr de hera, pareciam serpentes
adormecidas e suspensas num vlho muro de quinta. Nunca recordo sem
assombro a sua mesa, recoberta toda de sagazes e subtis instrumentos
para cortar papel, numerar pginas, colar estampilhas, aguar lpis,
raspar emendas, imprimir datas, derreter lacre, cintar documentos,
carimbar contas! Uns de nquel, outros de ao, rebrilhantes e frios,
todos eram de um manejo laborioso e lento: alguns, com as molas rgidas,
as pontas vivas, trilhavam e feriam: e nas largas flhas de papel
Whatman em que le escrevia, e que custavam 500 ris, eu por vezes
surpreendi gotas de sangue do meu amigo. Mas a todos le considerava
indispensveis para compr as suas cartas (Jacinto no compunha obras)
assim como os trinta e cinco dicionrios, e os manuais, e as
enciclopdias, e os guias, e os directrios, atulhando uma estante
isolada, esguia, em forma de trre, que silenciosamente girava sbre o
seu pedestal, e que eu denominra o Farol. O que, porm, mais
completamente imprimia quele gabinete um portentoso carcter de
civilizao eram, sbre as suas peanhas de carvalho, os grandes
aparelhos, facilitadores do pensamento,--a mquina de escrever, os
auto-copistas, o telgrafo-Morse, o fongrafo, o telefone, o teatrofone,
outros ainda, todos com metais luzidios, todos com longos fios.
Constantemente sons curtos e secos retiniam no ar morno daquele
santurio. Tic, tic, tic! Dlin, dlin, dlin! Crac, crac, crac! Trrre,
trrre!... Era o meu amigo comunicando. Todos sses fios mergulhavam em
fras universais, transmitiam fras universais. E elas nem sempre,
desgraadamente, se conservavam domadas e disciplinadas! Jacinto
recolhera no fongrafo a voz do conselheiro Pinto Prto, uma voz
oracular e rotunda, no momento de exclamar com respeito, com autoridade:

--_Maravilhosa inveno! Quem no admirar os progressos dste sculo?_

Pois, numa doce noite de S. Joo, o meu supercivilizado amigo, desejando
que umas senhoras parentas de Pinto Prto (as amveis Gouveias)
admirassem o fongrafo, fez romper do bocarro do aparelho, que parece
uma trompa, a conhecida voz rotunda e oracular.

--_Quem no admirar os progressos dste sculo?_

Mas, inbil ou brusco, certamente desconcertou alguma mola vital--porque
de repente o fongrafo comea a redizer, sem descontinuao,
interminavelmente, com uma sonoridade cada vez mais rotunda, a sentena
do conselheiro:

--_Quem no admirar os progressos dste sculo?_

Debalde Jacinto, plido, com os dedos trmulos, torturava o aparelho. A
exclamao recomeava, rolava, oracular e majestosa:

--_Quem no admirar os progressos dste sculo?_

Enervados, retiramos para uma sala distante, pesadamente revestida de
panos de Arraz. Em vo! A voz de Pinto Prto l estava, entre os panos
de Arraz, implacvel e rotunda:

--_Quem no admirar os progressos dste sculo?_

Furiosos, enterramos uma almofada na bca do fongrafo, atiramos por
cima mantas, cobertores espessos, para sufocar a voz abominvel. Em vo!
sob a mordaa, sob as grossas ls, a voz rouquejava, surda mas oracular:

--_Quem no admirar os progressos dste sculo?_

As amveis Gouveias tinham abalado, apertando desesperadamente os chales
sbre a cabea. Mesmo  cozinha, onde nos refugiamos, a voz descia,
engasgada e gosmosa:

--_Quem no admirar os progressos dste sculo?_

Fugimos espavoridos para a rua.

Era de madrugada. Um fresco bando de raparigas, de volta das fontes,
passava cantando com braados de flores:

    Todas as ervas so bentas
    Em manh de S. Joo...

Jacinto, respirando o ar matinal, limpava as bagas lentas do suor.
Recolhemos ao _Jasmineiro_, com o sol j alto, j quente. Muito de manso
abrimos as portas, como no receio de despertar _algum_. Horror! Logo da
ante-cmara percebemos sons estrangulados, roufenhos: _admirar..._
_progressos..._ _sculo!..._ S de tarde um electricista pde emmudecer
aquele fongrafo horrendo.

Bem mais aprazvel (para mim) do que esse gabinete temerosamente
atulhado de civilizao--era a sala de jantar, pelo seu arranjo
compreensvel, fcil e ntimo.  mesa s cabiam seis amigos que Jacinto
escolhia com critrio na literatura, na arte e na metafsica, e que,
entre as tapearias de Arraz, representando colinas, pomares e portos da
tica cheias de classicismo e de luz, renovavam ali repetidamente
banquetes que, pela sua intelectualidade, lembravam os de Plato. Cada
garfada se cruzava com um pensamento ou com palavras dextramente
arranjadas em forma de pensamento.

E a cada talher correspondiam seis garfos, todos de feitios
dissemelhantes e astuciosos:--um para as ostras, outro para o peixe,
outro para as carnes, outro para os legumes, outro para a fruta, outro
para o queijo. Os copos, pela diversidade dos contornos e das cres,
faziam, sbre a toalha mais reluzente que esmalte, como ramalhetes
silvestres espalhados por cima de neve. Mas Jacinto e os seus filsofos,
lembrando o que o experiente Salomo ensina sbre as runas e amarguras
do vinho, bebiam apenas em trs gotas de gua uma gota de Bordeus
(Chateaubriand, 1860). Assim o recomendam--Hesodo no seu _Nereu_, e
Diocles nas suas _Abelhas_. E de guas havia sempre no _Jasmineiro_ um
luxo redundante--guas geladas, guas carbonatadas, guas esterilizadas,
guas gasosas, guas de sais, guas minerais, outras ainda, em garrafas
srias, com tratados teraputicos impressos no rtulo... O cozinheiro,
mestre Sardo, era daqueles que Anaxgoras equiparava aos Retricos, aos
oradores, a todos os que sabem a arte divina de temperar e servir a
Idea: e em Sybaris, cidade do Viver Excelente, os magistrados teriam
votado a mestre Sardo, pelas festas de Juno Lacina, a coroa de flhas
de ouro e a tnica Milsia que se devia aos bemfeitores cvicos. A
sua sopa de alcachofra e ovas de carpa; os seus filetes de veado
macerados em vlho Madeira com _pure_ de nozes; as suas amoras geladas
em ter, outros acepipes ainda, numerosos e profundos (e os nicos que
tolerava o meu Jacinto) eram obras de um artista, superior pela
abundncia das ideas novas--e juntavam sempre a raridade do sabor 
magnificncia da forma. Tal prato dsse mestre imcomparvel, parecia,
pela ornamentao, pela graa florida dos lavores, pelo arranjo dos
coloridos frescos e cantantes, uma joia esmaltada do cinzel de Cellini
ou Meurice. Quantas tardes eu desejei fotografar aquelas composies de
excelente fantasia, antes que o trinchante as retalhasse! E esta
superfinidade do comer condizia deliciosamente com a do servir. Por
sbre um tapete, mais ffo e mole que o musgo da floresta da
Brocelndia, deslizavam, como sombras fardadas de branco, cinco criados
e um pagem preto,  maneira vistosa do sculo XVIII. As travessas (de
prata) subiam da cozinha e da copa por dous ascensores, um para as
iguarias quentes, forrado de tubos onde a gua fervia; outro, mais
lento, para as iguarias frias, forrado de zinco, amnia e sal, e ambos
escondidos por flores tam densas e viosas que era como se at a sopa
sasse fumegando dos romnticos jardins de Armida. E muito bem me lembro
de um domingo de maio em que, jantando com Jacinto um bispo, o
erudito bispo de Chorazin, o peixe emperrou no meio do ascensor, sendo
necessrio que acudissem, para o extrair, pedreiros com alavancas.


II

Nas tardes em que havia banquete de Plato (que assim denominvamos
essas festas de trutas e ideas gerais), eu, vizinho e ntimo, aparecia
ao declinar do sol, e subia familiarmente aos quartos do nosso
Jacinto--onde o encontrava sempre incerto entre as suas casacas, porque
as usava alternadamente de sda, de pano, de flanelas Jaegher, e de
_foulard_ das ndias. O quarto respirava o frescor e aroma do jardim por
duas vastas janelas, providas magnificamente (alm das cortinas de sda
mole Lus XV) de uma vidraa exterior de cristal inteiro, duma vidraa
interior de cristais miudos, dum tldo rolando na cimalha, dum estore de
sedinha frouxa, de gases que franziam e se enrolavam como nuvens, e duma
gelosia mvel de gradaria mourisca. Todos stes resguardos (sbia
inveno de Holland & C., de Londres) serviam a guardar a luz e o
ar--segundo os avisos de termmetros, barmetros e higrmetros, montados
em bano, e a que um meteorologista (Cunha Guedes) vinha, todas as
semanas, verificar a preciso.

Entre estas duas varandas rebrilhava a mesa de _toilette_, uma mesa
enorme de vidro, toda de vidro, para a tornar impenetrvel aos
micrbios, e coberta de todos sses utenslios de asseio e alinho que o
homem do sculo XIX necessita numa capital, para no desfear o conjunto
sunturio da civilizao. Quando o nosso Jacinto, arrastando as suas
engenhosas chinelas de pelica e sda, se acercava desta ara--eu, bem
aconchegado num div, abria com indolncia uma Revista, ordinriamente a
_Revista Electro-Ptica_, ou a das _Indagaes Psquicas_. E Jacinto
comeava... Cada um dsses utenslios de ao, de marfim, de prata,
impunham ao meu amigo, pela influncia omnipoderosa que as cousas
exercem sbre o dono (_sunt tyranni rerum_) o dever de o utilizar com
aptido e deferncia. E assim as operaes do alindamento de Jacinto
apresentavam a prolixidade, reverente e insuprimvel, dos ritos dum
sacrifcio.

Comeava pelo cabelo... Com uma escva chata, redonda e dura, acamava o
cabelo, corredio e louro, no alto, aos lados da risca; com uma escva
estreita e recurva,  maneira do alfange dum persa, ondeava o cabelo
sbre a orelha; com uma escva cncava, em forma de telha, empastava o
cabelo, por trs, sbre a nuca... Respirava e sorria. Depois, com
uma escva de longas cerdas, fixava o bigode; com uma escva leve e
flcida acurvava as sobrancelhas; com uma escva feita de penugem
regularizava as pestanas. E dste modo Jacinto ficava diante do espelho,
passando plos sbre o seu plo, durante catorze minutos.

Penteado e cansado, ia purificar as mos. Dois criados, ao fundo,
manobravam com percia e vigor os aparelhos do lavatrio--que era apenas
um resumo dos maquinismos monumentais da sala de banho. Ali, sbre o
mrmore verde e rseo do lavatrio, havia apenas duas duches (quente e
fria) para a cabea; quatro jactos, graduados desde _zero at cem
graus_; o vaporizador de perfumes; a fonte de gua esterilizada (para os
dentes); o repuxo para a barba; e ainda torneiras que rebrilhavam e
botes de bano que, de leve roados, desencadeavam o marulho e o
estridor de torrentes nos Alpes... Nunca eu, para molhar os dedos, me
cheguei quele lavatrio sem terror--escarmentado da tarde amarga de
janeiro em que bruscamente, dessoldada a torneira, o jacto de gua a
_cem graus_ rebentou, silvando e fumegando, furioso, devastador...
Fugimos todos, espavoridos. Um clamor atroou o _Jasmineiro_. O vlho
Grilo, escudeiro que fra do Jacinto pai, ficou coberto de emplas na
face, nas mos fieis.

Quando Jacinto acabava de se enxugar laboriosamente a toalhas de felpo,
de linho, de corda entranada (para restabelecer a circulao), de sda
frouxa (para lustrar a pele) bocejava, com um bocejo cavo e lento.

E era ste bocejo, perptuo e vago, que nos inquietava a ns, seus
amigos e filsofos. Que faltava a ste homem excelente? le tinha a sua
inabalvel sade de pinheiro bravo, crescido nas dunas; uma luz da
inteligncia, prpria a tudo alumiar, firme e clara sem tremor ou
morro; quarenta magnficos contos de renda; todas as simpatias duma
cidade chasqueadora e scptica; uma vida varrida de sombras, mais
liberta e lisa do que um cu de vero... E todavia bocejava
constantemente, palpava na face, com os dedos finos, a palidez e as
rugas. Aos trinta anos Jacinto corcovava, como sob um fardo injusto! E
pela morosidade desconsolada de toda a sua aco parecia ligado, desde
os dedos at  vontade, pelas malhas apertadas duma rde que se no via
e que o travava. Era doloroso testemunhar o fastio com que le, para
apontar um endero, tomava o seu lpis pneumtico, a sua pena
elctrica--ou, para avisar o cocheiro, apanhava o tubo telefnico!...
Neste mover lento do brao magro, nos vincos que lhe arrepanhavam o
nariz, mesmo nos seus silncios, longos e derreados, se sentia o brado
constante que lhe ia na alma;--_Que massada! Que massada!_
Claramente a vida era para Jacinto um cansao--ou por laboriosa e
difcil, ou por desinteressante e ca... Por isso o meu pobre amigo
procurava constantemente juntar  sua vida novos intersses, novas
facilidades. Dois inventores, homens de muito zlo e pesquiza estavam
encarregados, um em Inglaterra, outro na Amrica, de lhe noticiar e de
lhe fornecer todas as invenes, as mais miudas, que concorressem a
aperfeioar a confortabilidade do _Jasmineiro_. De resto, le proprio se
correspondia com Edison. E, pelo lado do pensamento, Jacinto no cessava
tambm de buscar intersses e emoes que o reconciliassem com a
vida--penetrando  cata dessas emoes e dsses intersses pelas veredas
mais desviadas do saber, a ponto de devorar, desde janeiro a maro,
setenta e sete volumes sbre a _evoluo das ideas morais entre as raas
negrides_. Ah! nunca homem dste sculo batalhou mais esforadamente
contra a _sca de viver_! Debalde! Mesmo de exploraes tam cativantes
como essa, atravs da moral dos negrides, Jacinto regressava mais
murcho, com bocejos mais cavos!

E era ento que le se refugiava intensamente na leitura de Schopenhauer
e do _Eclesiastes_. Porque? Sem dvida porque ambos sses pessimistas o
confirmavam nas concluses que le tirava de uma experincia
paciente e rigorosa: que tudo  vaidade ou dor, que quanto mais se
sabe, mais se pna, e que ter sido rei de Jerusalm e obtido os gzos
todos na vida s leva a maior amargura... Mas porque rolara assim a
tam escura desiluso--o sadvel, rico, sereno e intelectual Jacinto? O
vlho escudeiro Grilo pretendia que S. Ex. sofria de fartura!


III

Ora justamente depois dsse inverno, em que le se embrenhara na moral
dos negrides e instalara a luz elctrica entre os arvoredos do jardim,
sucedeu que Jacinto teve a necessidade moral iniludvel de partir para o
Norte, para o seu vlho solar de Torges. Jacinto no conhecia Torges, e
foi com desusado tdio que le se preparou, durante sete semanas, para
essa jornada agreste. A quinta fica nas serras--e a rude casa solarenga,
onde ainda resta uma trre do sculo XV, estava ocupada, havia trinta
anos, pelos caseiros, boa gente de trabalho, que comia o seu caldo entre
a fumaraa da lareira, e estendia o trigo a secar nas salas senhoriais.

Jacinto, logo nos comeos de maro, escrevera cuidadosamente ao seu
procurador Sousa, que habitava a aldeia de Torges, ordenando-lhe que
compuzesse os telhados, caiasse os muros, envidraasse as janelas.
Depois mandou expedir, por combios rpidos, em caixotes que transpunham
a custo os portes do _Jasmineiro_, todos os confortos necessrios a
duas semanas de montanha--camas de penas, poltronas, divs, lmpadas de
Carcel, banheiras de nquel, tubos acsticos para chamar os escudeiros,
tapetes persas para amaciar os soalhos. Um dos cocheiros partiu com um
cop, uma vitria, um breque, mulas e guizos.

Depois foi o cozinheiro, com a bateria, a garrafeira, a geleira, bocais
de trufas, caixas profundas de guas mineris. Desde o amanhecer, nos
ptios largos do palacete, se pregava, se martelava, como na construo
de uma cidade. E as bagagens, desfilando, lembravam uma pgina de
Herdoto ao narrar a invaso persa. Jacinto emmagrecera com os cuidados
daquele xodo. Por fim, largamos numa manh de junho, com o Grilo, e
trinta e sete malas.

Eu acompanhava Jacinto, no meu caminho para Guies, onde vive minha tia,
a uma lgua farta de Torges: e amos num vagom reservado, entre vastas
almofadas, com perdizes e Champanhe num csto. A meio da jornada
devamos mudar de combio--nessa estao, que tem um nome sonoro em
_ola_ e um tam suave e cndido jardim de roseiras brancas. Era domingo
de imensa poeira e sol--e encontrmos a, enchendo a plata-forma
estreita, todo um povaru festivo que vinha da romaria de S. Gregrio da
Serra.

Para aquele trasbrdo, em tarde de arraial, o horrio s nos concedia
trs minutos avaros. O outro combio j esperava, rente aos alpendres,
impaciente e silvando. Uma sineta badalava com furor. E, sem mesmo
atender s lindas mas que ali saracoteavam, aos bandos, afogueadas, de
lenos flamejantes, o seio farto coberto de ouro, e a imagem do santo
espetada no chapu--corremos, empurrmos, furmos, saltmos para o outro
vagom, j reservado, marcado por um carto com as iniciais de Jacinto.
Imediatamente o trem rolou. Pensei ento no nosso Grilo, nas trinta e
sete malas! E debruado da portinhola avistei ainda junto ao cunhal da
estao, sob os eucaliptos, um monte de bagagens, e homens de bon
agaloado que, diante delas, bracejavam com desespro.

Murmurei, recaindo nas almofadas:

--Que servio!

Jacinto, ao canto, sem descerrar os olhos, suspirou:

--Que massada!

Toda uma hora deslizamos lentamente entre trigais e vinhedo; e ainda o
sol batia nas vidraas, quente e poeirento, quando chegamos  estao de
Gondim, onde o procurador de Jacinto, o excelente Sousa, nos devia
esperar com cavalos para treparmos a serra at ao solar de Torges. Por
trs do jardim da estao, todo florido tambm de rosas e margaridas,
Jacinto reconheceu logo as suas carruagens ainda empacotadas em lona.

Mas quando nos apeamos no pequeno cais branco e fresco--s houve em
trno de ns solido e silncio. Nem procurador, nem cavalos! O chefe da
estao, a quem eu perguntara com ansiedade se no aparecera ali o snr.
Sousa, se no conhecia o snr. Sousa, tirou afavelmente o seu bon de
galo. Era um moo gordo e redondo, com cres de ma camoesa, que
trazia sob o brao um volume de versos. Conhecia perfeitamente o snr.
Sousa! Trs semanas antes jogara le a manilha com o snr. Sousa! Nessa
tarde porm, infelizmente, no avistara o snr. Sousa! O comboio
desaparecera por detrs das fragas altas que ali pendem sbre o rio. Um
carregador enrolava o cigarro, assobiando. Rente da grade do jardim, uma
vlha, toda de negro, dormitava agachada no cho, diante duma csta de
ovos. E o nosso Grilo, e as nossas bagagens?... O chefe encolheu
risonhamente os ombros ndios. Todos os nossos bens tinham
encalhado, de-certo, naquela estao de roseiras brancas que tem um nome
sonoro em _ola_. E ns ali estvamos, perdidos na serra agreste, sem
procurador, sem cavalos, sem Grilo, sem malas.

Para que esfiar miudamente o lance lamentvel? Ao p da estao, numa
quebrada da serra, havia um casal foreiro  quinta, onde alcanamos,
para nos levarem e nos guiarem a Torges, uma gua lazarenta, um jumento
branco, um rapaz e um podengo. E a comeamos a trepar, enfastiadamente,
sses caminhos agrestes--os mesmos, de-certo, por onde vinham e iam, de
monte a rio, os Jacintos do sculo XV. Mas, passada uma trmula ponte de
pau que galga um ribeiro todo quebrado por fragas (e onde abunda a truta
adorvel) os nossos males esqueceram, ante a inesperada, incomparvel
beleza daquela terra bemdita. O divino artista que est nos cus
compuzera, certamente, sse monte numa das suas manhs de mais solene e
buclica inspirao.

A grandeza era tanta como a graa... Dizer os vales ffos de verdura, os
bosques qusi sacros, os pomares cheirosos e em flor, a frescura das
guas cantantes, as ermidinhas branqueando nos altos, as rochas
musgosas, o ar de uma doura de paraso, toda a majestade e toda a
lindeza--no  para mim, homem de pequena arte. Nem creio mesmo que
fsse para mestre Horcio. Quem pode dizer a beleza das cousas,
tam simples e inexprmivel? Jacinto adiante, na gua tarda, murmurava:

--Ah! que beleza!

Eu atrs, no burro, com as pernas bambas, murmurava:

--Ah! que beleza!

Os espertos regatos riam, saltando de rocha em rocha. Finos ramos de
arbustos floridos roavam as nossas faces, com familiaridade e carinho.
Muito tempo um melro nos seguiu, de choupo para castanheiro, assobiando
os nossos louvores. Serra bem acolhedora e amvel... Ah! que beleza!

Por entre _ahs_ maravilhados chegamos a uma avenida de faias, que nos
pareceu clssica e nobre. Atirando uma nova vergastada ao burro e 
gua, o nosso rapaz, com o seu podengo ao lado, gritava:

--Aqui  que estmos!

E ao fundo das faias havia, com efeito, um porto de quinta, que um
escudo de armas de vlha pedra, roda de musgo, grandemente afidalgava.
Dentro j os ces ladravam com furor. E mal Jacinto, e eu atrs dle no
burro de Sancho, transpuzemos o limiar solarengo, correu para ns, do
alto da escadaria, um homem branco, rapado como um clrigo, sem colete,
sem jaleca, que erguia para o ar, num assombro, os braos desolados. Era
o caseiro, o Z Brs. E logo ali, nas pedras do ptio, entre o
latir dos ces, surdiu uma tumultuosa histria, que o pobre Brs
balbuciava, aturdido, e que enchia a face de Jacinto de lividez e de
clera. O caseiro no esperava S. Ex. Ningum esperava S. Ex. (le
dizia _sua inselncia_).

O procurador, o snr. Sousa, estava para a raia desde maio, a tratar a
me que levra um couce de mula. E de-certo houvera engano, cartas
perdidas... Porque o snr. Sousa s contava com S. Ex.... em setembro,
para a vindima. Na casa nenhuma obra comera. E, infelizmente para S.
Ex., os telhados ainda estavam sem telhas, e as janelas sem vidraas...

Cruzei os braos, num justo espanto. Mas os caixotes--sses caixotes
remetidos para Torges, com tanta prudncia, em abril, repletos de
colches, de regalos, de civilizao?... O caseiro, vago, sem
compreender, arregalava os olhos miudos onde j bailavam lgrimas. Os
caixotes?! Nada chegra, nada aparecera. E na sua perturbao o Z Brs
procurava entre as arcadas do ptio, nas algibeiras das pantalonas... Os
caixotes? No, no tinha os caixotes!

Foi ento que o cocheiro de Jacinto (que trouxera os cavalos e as
carruagens) se acercou, gravemente. sse era um civilizado--e
acusou logo o govrno. J quando le servia o snr. visconde de S.
Francisco se tinham assim perdido, por desleixo do govrno, da cidade
para a serra, dous caixotes com vinho vlho da Madeira, e roupa branca
de senhora. Por isso le, escarmentado, sem confiana na nao, no
largra as carruagens--e era tudo o que restava a S. Ex.: o breque, a
vitria, o cop e os guizos. Smente, naquela rude montanha, no havia
estradas onde elas rolassem. E como s podiam subir para a quinta em
grandes carros de bois--le l as deixra em baixo, na estao, quietas,
empacotadas na lona...

Jacinto ficra plantado diante de mim, com as mos nos bolsos:

--E agora?

Nada restava seno recolher, cear o caldo do tio Z Brs, e dormir nas
palhas que os fados nos concedessem. Subimos. A escadaria nobre conduzia
a uma varanda, toda coberta, em alpendre, acompanhando a fachada do
casaro e ornada, entre os seus grossos pilares de granito, por caixotes
cheios de terra, em que floriam cravos. Colhi um cravo. Entramos. E o
meu pobre Jacinto contemplou, emfim, as salas do seu solar! Eram
enormes, com as altas paredes rebocadas a cal que o tempo e o abandno
tinham ennegrecido, e vazias, desoladamente nuas, oferecendo apenas como
vestgio de habitao e de vida, pelos cantos algum monte de cestos
ou algum mlho de enxadas. Nos tetos remotos de carvalho negro alvejavam
manchas--que era o cu j plido do fim da tarde, surpreendido atravs
dos buracos do telhado. No restava uma vidraa. Por vezes, sob os
nossos passos, uma tbua pdre rangia e cedia.

Paramos, emfim, na ltima, a mais vasta, onde havia duas arcas tulheiras
para guardar o gro; e a depuzemos, melanclicamente, o que nos ficra
de trinta e sete malas--os palets alvadios, uma bengala e um _Jornal da
Tarde_. Atravs das janelas desvidraadas, por onde se avistavam copas
de arvoredos e as serras azuis de alm-rio, o ar entrava, montesino e
largo, circulando plenamente como em um eirado, com aromas de pinheiro
bravo. E, l debaixo, dos vales, subia, desgarrada e triste, uma voz de
pegureira cantando. Jacinto balbuciou:

-- horroroso!

Eu murmurei:

-- campestre!


IV

O Z Brs, no entanto, com as mos na cabea, desaparecera a ordenar a
ceia para _suas inselncias_. O pobre Jacinto, esbarrondado pelo
desastre, sem resistncia contra aquele brusco desaparecimento de toda a
civilizao, cara pesadamente sbre o poial duma janela, e da olhava
os montes. E eu, a quem aqueles ares serranos e o cantar do pegureiro
sabiam bem, terminei por descer  cozinha, conduzido pelo cocheiro,
atravs de escadas e becos onde a escurido vinha menos do crepsculo do
que de densas teias de aranha.

A cozinha era uma espessa massa de tons e formas negras, cr de fuligem,
onde refulgia ao fundo, sbre o cho de terra, uma fogueira vermelha que
lambia grossas panelas de ferro, e se perdia em fumarada pela grade
escassa que no alto coava a luz. A um bando alvoroado e palreiro de
mulheres depenava frangos, batia ovos, escarolava arroz, com santo
fervor... Do meio delas o bom caseiro, estonteado, investiu para mim
jurando que a ceia de _suas inselncias_ no demorava um credo. E como
eu o interrogava a respeito de camas, o digno Brs teve um murmrio
vago e tmido sobre enxergasinhas no cho.

-- o que basta, snr. Z Brs--acudi eu para o consolar.

--Pois assim Deus seja servido!--suspirou o homem excelente, que
atravessava, nessa hora, o transe mais amargo da sua vida serrana.

Voltando a cima, com estas consolantes novas de ceia e cama, encontrei
ainda o meu Jacinto no poial da janela, embebendo-se todo da doce paz
crepuscular, que lenta e caladamente se estabelecia sbre vale e monte.
No alto j tremeluzia uma estrla, a Vesper diamantina, que  tudo o que
neste cu cristo resta do esplendor corporal de Vnus! Jacinto nunca
considerra bem aquela estrla--nem assistira a ste majestoso e doce
adormecer das cousas. sse ennegrecimento de montes e arvoredos, casais
claros fundindo-se na sombra, um toque dormente de sino que vinha pelas
quebradas, o cochichar das guas entre relvas baixas--eram para le como
iniciaes. Eu estava defronte, no outro poial. E senti-o suspirar como
um homem que emfim descansa.

Assim nos encontrou nesta contemplao o Z Brs, com o doce aviso de
que estava na mesa a _ceiasinha_. Era adiante, noutra sala mais nua,
mais negra. E a, o meu supercivilizado Jacinto recuou com um pavor
genuno. Na mesa de pinho, recoberta com uma toalha de mos, encostada 
parede srdida, uma vela de cebo meio derretida num castial de lato,
alumiava dous pratos de loua amarela, ladeados por colheres de pau e
por garfos de ferro. Os copos, de vidro, grosso e bao, conservavam o
tom rxo do vinho que neles passra em fartos anos de fartas vindimas. O
covilhete de barro com as azeitonas deleitaria, pela sua singeleza
tica, o corao de Digenes. Na larga bra estava cravado um
facalho... Pobre Jacinto!

Mas l abancou resignado, e muito tempo, pensativamente, esfregou com o
seu leno o garfo negro e a colher de pau. Depois, mudo, desconfiado,
provou um gole curto do caldo, que era de galinha e rescendia. Provou, e
levantou para mim, seu companheiro e amigo, uns olhos largos que luziam,
surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada de caldo, mais cheia, mais
lenta... E sorriu, murmurando com espanto:

--Est bom!

Estava realmente bom: tinha figado e tinha moela: o seu perfume
enternecia. Eu, trs vezes, com energia, ataquei aquele caldo: foi
Jacinto que rapou a sopeira. Mas j, arredando a bra, arredando a vela,
o bom Z Brs pousra na mesa uma travessa vidrada, que
transbordava de arroz com favas. Ora, a-pesar da fava (que os gregos
chamaram _cibria_) pertencer s pocas superiores da civilizao, e
promover tanto a sapincia que havia em Sycio, na Galcia, um templo
dedicado a Minerva Ciboriana--Jacinto sempre detestra favas. Tentou
todavia uma garfada tmida. De novo os seus olhos, alargados pelo
assombro, procuravam os meus. Outra garfada, outra concentrao... E eis
que o meu dificllimo amigo exclama:

--Est timo!

Eram os picantes ares da serra? Era a arte deliciosa daquelas mulheres
que em baixo remexiam as panelas, cantando o _Vira_, _meu bem_? No
sei:--mas os louvores de Jacinto a cada travessa foram ganhando em
amplido e firmeza. E diante do frango louro, assado no espto de pau,
terminou por bradar:

--Est divino!

Nada porm o entusiasmou como o vinho, o vinho cando de alto, da grossa
caneca verde, um vinho gostoso, penetrante, vivo, quente, que tinha em
si mais alma que muito poema ou livro santo! Mirando  luz de cebo o
copo rude que le orlava de espuma, eu recordava o dia gergico em que
Virglio, em casa de Horcio, sob a ramada, cantava o fresco palhete da
Rtica. E Jacinto, com uma cr que eu nunca vira na sua palidez
schopenhurica, sussurrou logo o doce verso:

    _Rethica qu te carmina dicat._

Quem dignamente te cantar, vinho daquelas serras?!

Assim jantamos deliciosamente, sob os auspcios do Z Brs. E depois
voltamos para as alegrias nicas da casa, para as janelas desvidraadas,
a contemplar silenciosamente um suntuoso cu de vero, tam cheio de
estrlas que todo le parecia uma densa poeirada de oiro vivo, suspensa,
imvel, por cima dos montes negros. Como eu observei ao meu Jacinto, na
cidade nunca se olham os astros por causa dos candieiros--que os
ofuscam: e nunca se entra por isso numa completa comunho com o
universo. O homem nas capitais pertence  sua casa, ou se o impelem
fortes tendncias de sociabilidade, ao seu bairro. Tudo o isola e o
separa da restante natureza--os prdios obstrutores de seis andares, a
fumaa das chamins, o rolar moroso e grosso dos nibus, a trama
encarceradora da vida urbana... Mas que diferena, num cimo de monte,
como Torges! A todas essas belas estrelas olham para ns de prto,
rebrilhando,  maneira de olhos conscientes, umas fixamente, com sublime
indiferena, outras ansiosamente, com uma luz que palpita, uma luz
que chama, como se tentassem revelar os seus segredos ou compreender os
nossos... E  impossvel no sentir uma solidariedade perfeita entre
sses imensos mundos e os nossos pobres corpos. Todos somos obra da
mesma vontade. Todos vivemos da aco dessa vontade imanente. Todos,
portanto, desde os Uranos at aos Jacintos, constituimos modos diversos
de um ser nico, e atravs das suas transformaes somamos na mesma
unidade. No h idea mais consoladora do que esta--que eu, e tu, e
aquele monte, e o sol que agora se esconde, somos molculas do mesmo
Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim. Desde logo se
smem as responsabilidades torturantes do individualismo. Que somos
ns? Formas sem fra, que uma Fra impele. E h um descanso delicioso
nesta certeza, mesmo fugitiva, de que se  o gro de p irresponsvel e
passivo que vai levado no grande vento, ou a gota perdida na torrente!
Jacinto concordava, sumido na sombra. Nem le nem eu sabamos os nomes
dsses astros admirveis. Eu, por causa da macia e indesbastvel
ignorncia de bacharel, com que sa do ventre de Combra, minha me
espiritual. Jacinto, porque na sua ponderosa biblioteca tinha _trezentos
e dezoito_ tratados sbre astronomia! Mas que nos importava, de
resto, que aquele astro alm se chamasse Srius e aquele outro
Aldebaran? Que lhes importava a les que um de ns fsse Jos e o outro
Jacinto? ramos formas transitrias do mesmo ser eterno--e em ns havia
o mesmo Deus. E se les tambm assim o compreendiam, estvamos ali, ns
 janela num casaro serrano, les no seu maravilhoso infinito,
perfazendo um acto sacrossanto, um perfeito acto de Graa--que era
sentir conscientemente a nossa unidade, e realizar, durante um instante,
na conscincia, a nossa divinizao.

Assim ennevoadamente filosofvamos--quando Z Brs, com uma candeia na
mo, veio avisar que estavam preparadas as camas de _suas
inselncias..._ Da idealidade descemos gostosamente  realidade, e que
vimos ento ns, os irmos dos astros? Em duas salas tenebrosas e
cncavas, duas enxergas, postas no cho, a um canto, com duas cobertas
de chita;  cabeceira um castial de lato, pousado sbre um alqueire: e
aos ps, como lavatrio, um alguidar vidrado em cima de uma cadeira de pau!

Em silncio, o meu super-civilizado amigo palpou a sua enxerga e sentiu
nela a rigidez dum granito. Depois, correndo pela face descada os dedos
murchos, considerou que, perdidas as suas malas, no tinha nem
chinelas nem roupo! E foi ainda o Z Brs que providenciou,
trazendo ao pobre Jacinto, para le desafogar os ps, uns tremendos
tamancos de pau, e para le embrulhar o corpo, docemente educado em
Sybaris, uma camisa da caseira, enorme, de estopa mais aspera que
estamenha de penitente, e com folhos crespos e duros como lavores em
madeira... Para o consolar, lembrei que Plato, quando compunha o
_Banquete_, Xenofonte, quando comandava os Dez Mil, dormiam em piores
catres. As enxergas austeras fazem as fortes almas--e  s vestido de
estamenha que se penetra no Paraso.

--Tem voc--murmurou o meu amigo, desatento e sco--alguma cousa que eu
leia?.... Eu no posso adormecer sem ler!

Eu possuia apenas o nmero do _Jornal da Tarde_, que rasguei pelo meio,
e partilhei com le fraternalmente. E quem no viu ento Jacinto, senhor
de Torges, acaapado  borda da enxerga, junto da vela que pingava sbre
o alqueire, com os ps nus encafuados nos grossos scos, perdido dentro
da camisa da patra, toda em folhos, percorrendo na metade do _Jornal da
Tarde_, com os olhos turvos, os anncios dos paquetes--no pode saber o
que  uma vigorosa e real imagem do desalento!

Assim o deixei--e da a pouco, estendido na minha enxerga tambm
espartana, subia, atravs dum sonho jovial e erudito, ao planeta Vnus,
onde encontrava, entre os olmos e os ciprestes, num vergel, Plato e Z
Brs, em alta camaradagem intelectual, bebendo o vinho da Rtica pelos
copos de Torges! Travmos todos trs bruscamente uma controvrsia sbre
o sculo XIX. Ao longe, por entre uma floresta de roseiras mais altas
que carvalhos, alvejavam os mrmores duma cidade e ressoavam cantos
sacros. No recordo o que Xenofonte sustentou crca da civilizao e do
fongrafo. De repente tudo foi turbado por fuscas nuvens, atravs das
quais eu distinguia Jacinto, fugindo num burro que le impelia
furiosamente com os calcanhares, com uma vergasta, com berros, para os
lados do _Jasmineiro_!


V

Cedo, de madrugada, sem rumor, para no despertar Jacinto, que, com as
mos sbre o peito, dormia plcidamente no seu leito de granito--parti
para Guies. E durante trs quietas semanas, naquela vila onde se
conservam os hbitos e as ideas do tempo de El-Rei D. Dins, no
soube do meu desconsolado amigo, que de-certo fugira dos seus tetos
esburacados e remergulhra na civilizao. Depois, por uma abrasada
manh de agosto, descendo de Guies, de novo trilhei a avenida de faias,
e entrei o porto solarengo de Torges, entre o furioso latir dos
rafeiros. A mulher do Z Brs apareceu alvoroada  porta da tulha. E a
sua nova foi logo que o snr. D. Jacinto (em Torges, o meu amigo tinha
dom) andava l em baixo com o Sousa nos campos de Freixomil.

--Ento, ainda c est o snr. D. Jacinto?!

_Sua inselncia_ ainda estava em Torges--e _sua inselncia_ ficava para
a vindima!... Justamente eu reparava que as janelas do solar tinham
vidraas novas; e a um canto do ptio pousavam baldes de cal; uma escada
de pedreiro ficra arrimada contra a varanda; e num caixote aberto,
ainda cheio de palha de empacotar, dormiam dois gatos.

--E o Grilo apareceu?

--O snr. Grilo est no pomar,  sombra.

--Bem! e as malas?

--O snr. D. Jacinto j tem o seu saquinho de couro...

Louvado Deus! O meu Jacinto estava, emfim, provido de civilizao! Subi
contente. Na sala nobre, onde o soalho fra composto e esfregado,
encontrei uma mesa recoberta de oleado, prateleiras de pinho com
loua branca de Barcelos e cadeiras de palhinha, orlando as paredes
muito caiadas que davam uma frescura de capela nova. Ao lado, noutra
sala, tambm de faiscante alvura, havia o confrto inesperado de trs
cadeiras de vrga da Madeira, com braos largos e almofadas de chita:
sbre a mesa de pinho, o papel almasso, o candieiro de azeite, as penas
de pato espetadas num tinteiro de frade, pareciam preparadas para um
estudo calmo e ditoso de humanidades: e na parede, suspensa de dois
pregos, uma estantesinha continha quatro ou cinco livros, folheados e
usados, o _D. Quixote_, um Virglio, uma Histria de Roma, as Crnicas
de Froissart. Adiante era certamente o quarto de D. Jacinto, um quarto
claro e casto de estudante, com um catre de ferro, um lavatrio de
ferro, a roupa pendurada de cabides toscos. Tudo resplandecia de asseio
e ordem. As janelas cerradas defendiam do sol de agosto, que escaldava
fra os peitoris de pedra. Do soalho, borrifado de gua, subia uma
fresquido consoladora. Num vlho vaso azul um mlho de cravos alegrava
e perfumava. No havia um rumor. Torges dormia no esplendor da ssta. E
envolvido naquele repouso de convento remoto, terminei por me estender
numa cadeira de vrga junto  mesa, abri lnguidamente o Virglio,
murmurando:

    _Fortunate Jacinthe! tu inter arva nota_
    _Et fontes sacros frigus captabis opacum._

J mesmo irreverentemente adormecera sbre o divino bucolista, quando me
despertou um brado amigo. Era o nosso Jacinto. E imediatamente o
comparei a uma planta, meio murcha e estiolada no escuro, que fra
profusamente regada e revivera em pleno sol. No corcovava. Sbre a sua
palidez de supercivilizado, o ar da serra ou a reconciliao com a vida
tinham espalhado um tom trigueiro e forte que o virilizava soberbamente.
Dos olhos, que na cidade eu lhe conhecera sempre crepusculares, saltava
agora um brilho de meio dia, decidido e largo, que mergulhava
francamente na beleza das cousas. J no passava as mos murchas sbre a
face--batia com elas rijamente na cxa... Que sei eu?! Era uma
reincarnao. E tudo o que me contou, pisando alegremente com os sapatos
brancos o soalho, foi que se sentira, ao fim de trs dias em Torges,
como desanuviado, mandra comprar um colcho macio, renira cinco
livros, nunca lidos, e ali estava...

--Para todo o vero?

--Para todo o sempre! E agora, homem das cidades, vem almoar umas
trutas que eu pesquei, e compreende emfim o que  o cu.

As trutas eram, com efeito, celestes. E apareceu tambm uma salada fria
de couve-flor e vagens, e um vinho branco de Azes... Mas quem
condignamente vos cantar, comeres e beberes daquelas serras?

De tarde, finda a calma, passeamos pelos caminhos, coleando a vasta
quinta, que vai de vales a montes. Jacinto parava a contemplar com
carinho os milhos altos. Com a mo espalmada e forte batia no tronco dos
castanheiros, como nas costas de amigos recuperados. Todo o fio de gua,
todo o tufo de erva, todo o p de vinha o ocupava como vidas filiais
porque fsse responsvel. Conhecia certos melros que cantavam em certos
choupos. Exclamava enternecido:

--Que encanto, a flor do trevo!

 noite, depois de um cabrito assado no forno, a que mestre Horcio
teria dedicado uma Ode (talvez mesmo um Carme Herico) conversamos sbre
o Destino e a Vida. Eu citei, com discreta malcia, Schopenhauer e o
_Eclesiastes_... Mas Jacinto ergueu os ombros, com seguro desdm. A sua
confiana nesses dois sombrios explicadores da vida desaparecera, e
irremediavelmente, sem poder mais voltar, como uma nvoa que o sol
espalha. Tremenda tolice! afirmar que a vida se compe, meramente, duma
longa iluso-- erguer um aparatoso sistema sbre um ponto especial
e estreito da vida, deixando fra do sistema toda a vida restante, como
uma contradio permanente e soberba. Era como se le, Jacinto,
apontando para uma ortiga, crescida naquele ptio, declarasse,
triunfalmente:--Aqui est uma ortiga! Toda a quinta de Torges,
portanto,  uma massa de ortigas.--Mas bastaria que o hspede erguesse
os olhos, para ver as searas, os pomares e os vinhedos!

De resto, dsses dois ilustres pessimistas, um o alemo, que conhecia
le da vida--dessa vida de que fizera, com doutoral majestade, uma
teoria definitiva e dolente? Tudo o que pode conhecer quem, como ste
genial farante, viveu cincoenta anos numa soturna hospedaria da
provncia, levantando apenas os culos dos livros para conversar,  mesa
redonda, com os alferes da guarnio! E o outro, o israelista, o homem
dos _Cantares_, o muito pedantesco rei de Jerusalm, s descobre que a
vida  uma iluso aos setenta e cinco anos, quando o poder lhe escapa
das mos trmulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se torna
ridculamente suprfluo  sua carcassa frgida. Um dogmatiza
fnebremente sbre o que no sabe--e o outro sbre o que no pode. Mas
que se d a sse bom Schopenhauer uma vida tam completa e cheia como a
de Csar, e onde estar o seu schopenhaurismo? que se restitua a sse
sulto, besuntado de literatura, que tanto edificou e professorou
em Jerusalm, a sua virilidade--e onde estar o _Eclesiastes_? De
resto, que importa bemdizer ou maldizer da vida? Afortunada ou dolorosa,
fecunda ou v, ela tem de ser vida. Loucos aqueles que, para a
atravessar, se embrulham desde logo em pesados vus de tristeza e
desiluso, de sorte que na sua estrada tudo lhe seja negrume, no s as
lguas realmente escuras, mas mesmo aquelas em que scintila um sol
amvel. Na terra tudo vive--e s o homem sente a dor e a desiluso da
vida. E tanto mais as sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa
inteligncia que o torna homem, e que o separa da restante natureza,
impensante e inerte.  no mximo de civilizao que le experimenta o
mximo de tdio. A sapincia, portanto, est em recuar at sse honesto
mnimo de civilizao, que consiste em ter um teto de colmo, uma leira
de terra e o gro para nela semear. Em resumo, para reaver a felicidade,
 necessrio regressar ao Paraso--e ficar l, quieto, na sua flha de
vinha, inteiramente desguarnecido de civilizao, contemplando o anho
aos saltos entre o tomilho, e sem procurar, nem com o desejo, a rvore
funesta da Scincia! _Dixi!_

Eu escutava, assombrado, ste Jacinto novssimo. Era verdadeiramente uma
ressurreio no magnfico estilo de Lzaro. Ao _surge et ambula_
que lhe tinham sussurrado as guas e os bosques de Torges, le erguia-se
do fundo da cova do Pessimismo, desembaraava-se das suas casacas de
Poole, _et ambulabat_, e comeava a ser ditoso. Quando recolhi ao meu
quarto, quelas horas honestas que convm ao campo e ao Otimismo, tomei
entre as minhas a mo j firme do meu amigo, e pensando que le emfim
alcanra a verdadeira rialeza, porque possuia a verdadeira liberdade,
gritei-lhe os meus parabens  maneira do moralista de Tibur:

    _Vive et regna, fortunate Jacinthe!_

Da a pouco, atravs da porta aberta que nos separava, senti uma risada
fresca, ma, genuna e consolada. Era Jacinto que lia o _D. Quixote_.
Oh bemaventurado Jacinto! Conservava o agudo poder de criticar, e
recuperra o dom divino de rir!


Quatro anos vo passados. Jacinto ainda habita Torges. As paredes do seu
solar continuam bem caiadas, mas nuas.

De inverno enverga um gabo de briche e acende um braseiro. Para chamar
o Grilo ou a ma, bate as mos, como fazia Cato. Com os seus
deliciosos vagares, j leu a _Ilada_.

No faz a barba. Nos caminhos silvestres, pra e fala com as crianas.
Todos os casais da serra o bemdizem. Ouo que vai casar com uma forte,
s, e bela rapariga de Guies. De-certo crescer ali uma trbu, que ser
grata ao Senhor!

Como le, recentemente, me mandou pedir livros da sua livraria (uma
_Vida de Buda_, uma _Histria da Grcia_ e as obras de S. Francisco de
Sales) fui, depois dstes quatro anos, ao _Jasmineiro_ deserto. Cada
passo meu sbre os fofos tapetes de Korannia soou triste como num cho
de mortos. Todos os brocados estavam engelhados, esgaados. Pelas
paredes pendiam, como olhos fra de rbitas, os botes elctricos das
campainhas e das luzes:--e havia vagos fios de arame, soltos,
enroscados, onde a aranha regalada e reinando tecera teias espessas. Na
livraria, todo o vasto saber dos sculos jazia numa imensa mudez,
debaixo duma imensa poeira. Sbre as lombadas dos sistemas filosficos
alvejava o bolr: vorazmente a traa devastra as Histrias Universais:
errava ali um cheiro mole de literatura apodrecida:--e eu abalei, com o
leno no nariz, certo de que naqueles vinte mil volumes no restava uma
verdade viva! Quis lavar as mos maculadas pelo contacto com estes
detritos de conhecimentos humanos. Mas os maravilhosos aparelhos do
lavatrio, da sala de banho, enferrujados, perros, dessoldados, no
largaram uma gota de gua; e, como chovia nessa tarde de abril, tive de
sar  varanda, pedir ao cu que me lavasse.

Ao descer, penetrei no gabinete de trabalho de Jacinto e tropecei num
monto negro de ferragens, rodas, lminas, campainhas, parafusos...
Entreabri a janela, e reconheci o telefone, o teatrofone, o fongrafo,
outros aparelhos, tombados das suas peanhas, srdidos, desfeitos, sob a
poeira dos anos. Empurrei com o p ste lixo do engenho humano. A
mquina de escrever, escancarada, com os buracos negros marcando as
letras desarraigadas, era como uma bca alvar e desdentada. O telefone
parecia esborrachado, enrodilhado nas suas tripas de arame. Na trompa do
fongrafo, torta, esbeiada, para sempre muda, fervilhavam carochas. E
ali jaziam, tam lamentveis e grotescas, aquelas geniais invenes, que
eu sa rindo, como duma enorme faccia, daquele super-civilizado palcio.

A chuva de abril secra: os telhados remotos da cidade negrejavam sbre
um poente de carmesim e oiro. E, atravs das ruas mais frescas, eu ia
pensando que ste nosso magnifco sculo XIX se assemelharia, um dia,
quele _Jasmineiro_ abandonado, e que outros homens, com uma certeza
mais pura do que  a Vida e a Felicidade, dariam, como eu, com o p no
lixo da super-civilizao, e, como eu, ririam alegremente da grande
iluso que findra, intil e coberta de ferrugem.

quela hora, de-certo, Jacinto, na varanda, em Torges, sem fongrafo e
sem telefone, reentrado na simplicidade, via, sob a paz lenta da tarde,
ao tremeluzir da primeira estrla, a boiada recolher entre o canto dos
boieiros.




O TESOIRO


I

Os trs irmos de Medranhos, Rui, Guannes e Rostabal, eram ento, em
todo o Reino das Astrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.

Nos Paos de Medranhos, a que o vento da serra levra vidraa e telha,
passavam les as tardes dsse inverno, engelhados nos seus pelotes de
camelo, batendo as solas rotas sbre as lages da cozinha, diante da
vasta lareira negra, onde desde muito no estalava lume, nem fervia a
panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma cdea de po negro,
esfregada com alho. Depois, sem candeia, atravs do ptio, fendendo a
neve, iam dormir  estrebaria, para aproveitar o calor das trs guas
lazarentas que, esfaimadas como les, roam as traves da
mangedoura. E a misria tornra stes senhores mais bravios que lbos.

Ora, na primavera, por uma silenciosa manh de domingo, andando todos
trs na mata de Roquelanes a espiar pgadas de caa e a apanhar
tortulhos entre os robles, emquanto as trs guas pastavam a relva nova
de abril,--os irmos de Medranhos encontraram, por trs de uma moita de
espinheiros, numa cova de rocha, um vlho cofre de ferro. Como se o
resguardasse uma trre segura, conservava as suas trs chaves nas suas
trs fechaduras. Sbre a tampa, mal decifrvel atravs da ferrugem,
corria um dstico em letras rabes. E dentro, at s bordas, estava
cheio de dobres de oiro!

No terror e esplendor da emoo, os trs senhores ficaram mais lvidos
do que crios. Depois, mergulhando furiosamente as mos no oiro,
estalaram a rir, num riso de tam larga rajada, que as flhas tenras dos
olmos, em roda, tremiam... E de novo recuaram, bruscamente se encararam,
com os olhos a flamejar, numa desconfiana tam desabrida que Guannes e
Rostabal apalpavam nos cintos os cabos das grandes facas. Ento Rui, que
era gordo e ruivo, e o mais avisado, ergueu os braos, como um rbitro,
e comeou por decidir que o tesoiro, ou viesse de Deus ou do demnio,
pertencia aos trs, e entre les se repartiria, rgidamente,
pesando-se o oiro em balanas. Mas como poderiam carregar para
Medranhos, para os cimos da serra, aquele cofre tam cheio? Nem convinha
que sassem da mata com o seu bem, antes de cerrar a escurido. Por isso
le entendia que o mano Guannes, como mais leve, devia trotar para a
vila vizinha de Retortilho, levando j oiro na bolsinha, a comprar trs
alforges de coiro, trs maquias de cevada, trs empades de carne, e
trs botelhas de vinho. Vinho e carne eram para les, que no comiam
desde a vspera: a cevada era para as guas. E assim refeitos, senhores
e cavalgaduras, ensacariam o oiro nos alforges, e subiriam para
Medranhos, sob a segurana da noite sem lua.

--Bem tramado!--gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de
longa guedelha, e com uma barba que lhe caa desde os olhos raiados de
sangue at  fivela do cinturo.

Mas Guannes no se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando
entre os dedos a pele negra do seu pescoo de grou. Por fim, brutalmente:

--Manos! O cofre tem trs chaves... Eu quero fechar a minha fechadura e
levar a minha chave!

--Tambm eu quero a minha, mil raios!--rugiu logo Rostabal.

Rui sorriu. De-certo, de-certo! A cada dono do oiro cabia uma das chaves
que o guardavam. E cada um em silncio, agachado ante o cofre, cerrou a
sua fechadura com fra. Imediatamente Guannes, desanuviado, saltou na
gua, meteu pela vereda de olmos, a caminho de Retortilho, atirando aos
ramos a sua cantiga costumada e dolente:

              Ol! ol!
    Sale la crus de la iglesia,
    Vestida de negro luto...


II

Na clareira, em frente  moita que encobria o tesoiro (e que os trs
tinham desbastado a cutiladas) um fio de gua, brotando entre rochas,
caa sbre uma vasta lage escavada, onde fazia como um tanque, claro e
quieto, antes de se escoar para as relvas altas. E ao lado, na sombra de
uma faia, jazia um vlho pilar de granito, tombado e musgoso. Ali vieram
sentar-se Rui e Rostabal, com os seus tremendos espades entre os
joelhos. As duas guas tosavam a boa erva pintalgada de papoulas e
botes de oiro. Pela ramaria andava um melro a assobiar. Um cheiro
errante de violetas adoava o ar luminoso. E Rostabal, olhando o sol,
bocejava com fome.

Ento Rui, que tirra o _sombrero_ e lhe cofiava as vlhas plumas rxas,
comeou a considerar, na sua fala avisada e mansa, que Guannes, nessa
manh, no quisera descer com les  mata de Roquelanes. E assim era a
sorte ruim! Pois que se Guannes tivesse quedado em Medranhos, s les
dois teriam descoberto o cofre, e s entre les dois se dividiria o
oiro! Grande pena! Tanto mais que a parte de Guannes seria em breve
dissipada, com rufies, aos dados, pelas tavernas.

--Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guannes, passando aqui szinho, tivesse
achado ste oiro, no dividia comnosco, Rostabal!

O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxo s barbas negras:

--No, mil raios! Guannes  sfrego... Quando o ano passado, se te
lembras, ganhou os cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis
emprestar trs para eu comprar um gibo novo!

--Vs tu?--gritou Rui, resplandecendo.

Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma
idea, que os deslumbrava. E, atravs das suas largas passadas, as ervas
altas silvavam.

--E para qu?--prosseguia Rui,--Para que lhe serve todo o oiro que
nos leva? Tu no o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em
que dorme, todo o cho est negro do sangue que escarra! No dura at s
outras neves, Rostabal! Mas at l ter dissipado os bons dobres que
deviam ser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres
ginetes, e armas, e trajes nobres, e o teu tero de solarengos, como
compete, a quem , como tu, o mais vlho dos de Medranhos...

--Pois que morra, e morra hoje!--bradou Rostabal.

--Queres?

Vivamente, Rui agarrra o brao do irmo e apontava para a vereda de
olmos, por onde Guannes partira cantando:

--Logo adiante, ao fim do trilho, h um stio bom, nos silvados. E
hs-de ser tu, Rostabal, que s o mais forte e o mais destro. Um golpe
de ponta pelas costas. E  justia de Deus que sejas tu, que muitas
vezes, nas tavernas, sem pudor, Guannes te tratava de _cerdo_ e de
torpe, por no saberes a letra nem os numeros.

--Malvado!

--Vem!

Foram. Ambos se emboscaram por trs dum silvado, que dominava o atalho,
estreito e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal assolapado na
vala, tinha j a espada nua. Um vento leve arripiou na encosta as
flhas dos lamos--e sentiram o repique leve dos sinos de Retortilho.
Rui, coando a barba, calculava as horas pelo sol, que j se inclinava
para as serras. Um bando de crvos passou sbre les, grasnando. E
Rostabal, que lhes seguira o vo, recomeou a bocejar, com fome,
pensando nos empades e no vinho que o outro trazia nos alforges.

Emfim! lerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos
ramos:

              Ol! ol!
    Sale la crus de la iglesia
    Toda vestida de negro...

Rui murmurou:--Na ilharga! Mal que passe! O chouto da gua bateu o
cascalho, uma pluma num _sombrero_ vermelhejou por sbre a ponta das
silvas.

Rostabal rompeu de entre a sara por uma brecha, atirou o brao, a longa
espada;--e toda a lmina se embebeu molemente na ilharga de Guannes,
quando ao rumor, bruscamente, le se virra na sela. Com um surdo
arranco, tombou de lado, sbre as pedras. J Rui se arremessava aos
freios da gua:--Rostabal, cando sbre Guannes, que arquejava, de novo
lhe mergulhou a espada, agarrada pela flha como um punhal, no peito e
na garganta.

--A chave!--gritou Rui.

E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela
vereda--Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do _sombrero_ quebrada e
torta, a espada ainda nua entalada sob o brao, todo encolhido,
arripiado com o sabor de sangue que lhe espirrra para a bca; Rui,
atrs, puxando desesperadamente os freios da gua, que, de patas
fincadas no cho pedregoso, arreganhando a longa dentua amarela, no
queria deixar o seu amo assim estirado, abandonado, ao comprido das sebes.

Teve de lhe espicaar as ancas lazarentas com a ponta da espada:--e foi
correndo sbre ela, de lmina alta, como se perseguisse um mouro, que
desembocou na clareira onde o sol j no doirava as flhas. Rostabal
arremessra para a relva o _sombrero_ e a espada; e debruado sbre a
lage escavada em tanque, de mangas arregaadas, lavava, ruidosamente, a
face e as barbas.

A gua, quieta, recomeou a pastar, carregada com os alforges novos que
Guannes comprra em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois
gargalos de garrafas. Ento, Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua
larga navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou at Rostabal, que
resfolgava, com as longas barbas pingando. E, serenamente, como se
pregasse uma estaca num canteiro, enterrou a flha toda no largo
dorso dobrado, certeira sbre o corao.

Rostabal cau sbre o tanque, sem um gemido, com a face na gua, os
longos cabelos flutuando na gua. A sua vlha escarcela de coiro ficra
entalada sob a cxa. Para tirar de dentro a terceira chave do cofre, Rui
solevou o corpo--e um sangue mais grosso jorrou, escorreu pela borda do
tanque, fumegando.


III

Agora eram dle, s dle, as trs chaves do cofre!... E Rui, alargando
os braos, respirou deliciosamente. Mal a noite descesse, com o oiro
metido nos alforges, guiando a fila das guas pelos trilhos da serra,
subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesoiro! E quando ali na
fonte, e alm rente aos silvados, s restassem, sob as neves de
dezembro, alguns ossos sem nome, le seria o magnfico senhor de
Medranhos, e na capela nova do solar renascido, mandaria dizer missas
ricas pelos seus dois irmos mortos... Mortos, como? Como devem morrer
os de Medranhos--a pelejar contra o Turco!

Abriu as trs fechaduras, apanhou um punhado de dobres, que fez
retinir sbre as pedras. Que puro oiro, de fino quilate! E era o _seu_
oiro! Depois foi examinar a capacidade dos alforges--e encontrando as
duas garrafas de vinho, e um gordo capo assado, sentiu uma imensa fome.
Desde a vspera s comera uma lasca de peixe sco. E h quanto tempo no
provava capo!

Com que delcia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas,
a ave loura, que rescendia, e o vinho cr de mbar! Ah! Guannes fra bom
mordomo--nem esquecera azeitonas. Mas, porque trouxera le, para trs
convivas, s duas garrafas? Rasgou uma asa do capo: devorava a grandes
dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvemsinhas cr de rosa.
Para alm, na vereda, um bando de corvos grasnava. As guas fartas
dormitavam, com o focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.

Rui ergueu  luz a garrafa de vinho. Com aquela cr vlha e quente, no
teria custado menos de trs maravedis. E pondo o gargalo  bca, bebeu
em sorvos lentos, que lhe faziam ondular o pescoo peludo. Oh vinho
bemdito, que tam prontamente aquecia o sangue! Atirou a garrafa
vazia--destapou outra. Mas, como era avisado, no bebeu, porque a
jornada para a serra, com o tesoiro, requeria firmeza e acrto.
Estendido sbre o cotovelo, descansando, pensava em Medranhos
coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites de neve, e
o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.

De repente, tomado de uma ansiedade, teve pressa de carregar os
alforges. J, entre os troncos, a sombra se adensava. Puxou uma das
guas para junto do cofre, ergueu a tampa, tomou um punhado de oiro...
Mas oscilou, largando os dobres que retilintaram no cho, e levou as
duas mos aflitas ao peito. Que , D. Rui? Raios de Deus! era um lume,
um lume vivo, que se lhe acendera dentro, lhe subia at s guelas. J
rasgra o gibo, atirava os passos incertos, e, a arquejar, com a lngua
pendente, limpava as grossas bagas de um suor horrendo que o regelava
como neve. Oh Virgem Me! Outra vez o lume, mais forte, que alastrava, o
roa! Gritou:

--Socorro! Algum! Guannes! Rostabal!

Os seus braos torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro
galgava--sentia os ossos a estalarem como as traves duma casa em fogo.

Cambaleou at  fonte para apagar aquela labareda, tropeou sbre
Rostabal; e foi com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que
le, entre uivos, procurava o fio de gua, que recebia sbre os olhos,
pelos cabelos. Mas a gua mais o queimava, como se fsse um metal
derretido. Recuou, cau para cima da relva que arrancava aos punhados, e
que mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura. Ainda se
ergueu, com uma baba densa a escorrer-lhe nas barbas: e de repente,
esbogalhando pavorosamente os olhos, berrou, como se compreendesse emfim
a traio, todo o horror:

-- veneno!

Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guannes, apenas chegra a
Retortilho, mesmo antes de comprar os alforges, correra cantando a uma
viela, por detrs da catedral, a comprar ao vlho droguista judeu o
veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a le, a le smente, dono de
todo o tesoiro.

Anoiteceu. Dois corvos de entre o bando que grasnava, alm nos silvados,
j tinham pousado sbre o corpo de Guannes. A fonte, cantando, lavava o
outro morto. Meio enterrada na erva negra, toda a face de Rui se tornra
negra. Uma estrelinha tremeluzia no cu.

O tesoiro ainda l est, na mata de Roquelanes.




FREI GENEBRO


I

Nesse tempo ainda vivia na sua solido das montanhas da mbria, o divino
Francisco de Assis--e j por toda a Itlia se louvava a santidade de
Frei Genebro, seu amigo e seu discpulo.

Frei Genebro, na verdade, completra a perfeio em todas as virtudes
evanglicas. Pela abundncia e perptuidade da Orao, le arrancava da
sua alma as razes mais miudas do Pecado, e tornava-a limpa e cndida
como um dsses celestes jardins em que o slo anda regado pelo Senhor, e
onde s podem brotar aucenas. A sua penitncia, durante vinte anos de
clustro, fra tam dura e alta que j no temia o Tentador; e agora, s
com o sacudir a manga do hbito, rechaava as tentaes, as mais
pavorosas ou as mais deliciosas, como se fssem apenas moscas
importunas. Benfica e universal  maneira de um orvalho de vero, a sua
caridade no se derramava smente sbre as misrias do pobre, mas sbre
as melancolias do rico. Na sua humilssima humildade no se considerava
nem o igual dum verme. Os bravios bares, cujas negras trres esmagavam
a Itlia, acolhiam reverentemente e curvavam a cabea a ste franciscano
descalo e mal remendado que lhes ensinava a mansido. Em Roma, em S.
Joo de Latro, o Papa Honrio beijra as feridas de cadeias que lhe
tinham ficado nos pulsos, do ano em que na Mourama, por amor dos
escravos, padecera a escravido. E como nessas idades os anjos ainda
viajavam na terra, com as asas escondidas, arrimados a um bordo, muitas
vezes, trilhando uma vlha estrada pag ou atravessando uma selva, le
encontrava um moo de inefvel formosura, que lhe sorria e murmurava:

--Bons dias, irmo Genebro!

Ora, um dia, indo ste admirvel mendicante de Spoleto para Terni, e
avistando no azul e no sol da manh, sbre uma colina coberta de
carvalhos, as runas do castelo de Otofrid, pensou no seu amigo Egdio,
antigo novio como le no mosteiro de Santa Maria dos Anjos, que se
retirra quele ermo para se avizinhar mais de Deus, e ali habitava
uma cabana de colmo, junto das muralhas derrocadas, cantando e
regando as alfaces do seu horto, porque a sua virtude era amena. E como
mais de trs anos tinham passado desde que visitra o bom Egdio, largou
a estrada, passou em baixo, no vale, sbre as alpondras, o riacho que
fugia por entre os aloendros em flor, e comeou a subir, lentamente, a
colina frondosa. Depois da poeira e ardor do caminho de Spoleto, era
doce a larga sombra dos castanheiros e a relva que lhe refrescava os ps
doridos. A meia encosta, numa rocha onde se esguedelhavam silvados,
sussurrava e luzia um fio de gua. Estendido ao lado, nas ervas hmidas,
dormia, ressonando consoladamente, um homem, que de-certo ali guardava
porcos, porque vestia um grosso surro de coiro e trazia, pendurada da
cinta, uma buzina de porqueiro. O bom frade bebeu de leve, afugentou os
moscardos que zumbiam sbre a rude face adormecida e continuou a trepar
a colina, com o seu alforge, o seu cajado, agradecendo ao Senhor aquela
gua, aquela sombra, aquela frescura, tantos bens inesperados. Em breve
avistou, com efeito, o rebanho de porcos, espalhados sob as frondes,
roncando e fossando as razes, uns magros e agudos, de cerdas duras,
outros redondos, com o focinho curto afogado em gordura, e os bacorinhos
correndo em trno s ttas das mes, luzidios e cr de rosa.

Frei Genebro pensou nos lbos e lamentou o sono do pastor descuidado. No
fim da mata comeava a rocha, onde os restos do castelo lombardo se
erguiam, revestidos de hera, conservando ainda alguma seteira esburacada
sbre o cu, ou, numa esquina de trre, uma goteira que, esticando o
pescoo de drago, espreitava por meio das silvas bravas.

A cabana do ermito, telhada de colmo que lascas de pedra seguravam,
apenas se percebia, entre aqueles escuros granitos, pela horta que em
frente verdejava, com os seus talhes de couve e estacas de feijoal,
entre alfazema cheirosa. Egdio no andaria afastado porque sbre o
murosinho de pedra solta ficra pousado o seu cntaro, o seu podo e a
sua enxada. E docemente, para o no importunar, se quela hora da ssta
estivesse recolhido e orando, Frei Genebro empurrou a porta de pranchas
vlhas, que no tinha loquete para ser mais hospitaleira.

--Irmo Egdio!

Do fundo da choa rude, que mais parecia cova de bicho, veio um lento
gemido:

--Quem me chama? Aqui neste canto, neste canto a morrer!... A morrer,
meu irmo!

Frei Genebro acudiu em grande d; encontrou o bom ermito estirado num
monte de flhas scas, encolhido em farrapos, e tam definhado que a sua
face, outrora farta e rosada, era como um pedacinho de vlho
pergaminho muito enrugado, perdido entre os flocos das barbas brancas.
Com infinita caridade e doura o abraou.

--E h quanto tempo, h quanto tempo neste abandno, irmo Egdio?

Louvado Deus, desde a vspera! S na vspera,  tarde, depois de olhar
uma derradeira vez para o sol e para a sua horta, se viera estender
naquele canto para acabar... Mas havia meses que com le entrra um
cansao, que nem podia segurar a bilha cheia quando voltava da fonte.

--E dizei, irmo Egdio, pois que o Senhor me trouxe, que posso eu
fazer pelo vosso corpo? Pelo corpo, digo; que pela alma bastante tendes
vs feito na virtude desta solido!

Gemendo, arrepanhando para o peito as flhas scas em que jazia, como se
fssem dobras dum lenol, o pobre ermito murmurou:

--Meu bom Frei Genebro, no sei se  pecado, mas toda esta noite, em
verdade vos confesso, me apeteceu comer um pedao de carne, um pedao de
porco assado!... Mas ser pecado?

Frei Genebro, com a sua imensa misericrdia, logo o tranqilizou.
Pecado? No, certamente! Aquele que, por tortura, recusa ao seu corpo um
contentamento honesto, desagrada ao Senhor. No ordenava le aos
seus discpulos que comessem as boas cousas da terra? O corpo 
servo; e est na vontade divina que as suas fras sejam sustentadas,
para que preste ao esprito, seu amo, bom e leal servio. Quando Frei
Silvestre, j tam doentinho, sentira aquele longo desejo de uvas
moscateis, o bom Francisco de Assis logo o conduziu  vinha, e por suas
mos lhe apanhou os melhores cachos, depois de os abenoar para serem
mais sumarentos e mais doces...

-- um pedao de porco assado que apeteceis?--exclamava risonhamente o
bom Frei Genebro, acariciando as mos transparentes do ermito.--Pois
sossegai, irmo querido, que bem sei como vos vou contentar!

E imediatamente, com os olhos a reluzir de caridade e de amor, agarrou o
afiado podo que pousava sbre o muro da horta. Arregaando as mangas do
hbito, e mais ligeiro que um gamo, porque era aquele um servio do
Senhor, correu pela colina at aos densos castanheiros onde encontrra o
rebanho de porcos. E a, andando sorrateiramente de tronco para tronco,
surpreendeu um bacorinho desgarrado que fossava a bolota, desabou sobre
le, e, emquanto lhe sufocava o focinho e os gritos, decepou, com dois
golpes certeiro do podo, a perna por onde o agarrra. Depois, com as
mos salpicadas de sangue, a perna de porco bem alta a pingar sangue,
deixando a rs a arquejar numa pa de sangue, o piedoso homem
galgou a colina, correu  cabana, gritou para dentro alegremente:

--Irmo Egdio, a pea de carne j o Senhor a deu! E eu, em Santa Maria
dos Anjos, era bom cozinheiro.

Na horta do ermito arrancou uma estaca do feijoal, que, com o podo
sangrento, aguou em espto. Entre duas pedras acendeu uma fogueira. Com
zeloso carinho assou a perna do porco. Tanta era a sua caridade que para
dar a Egdio todos os antegostos daquele banquete, raro em terra de
mortificao, anunciava com vozes festivas e de boa promessa:

--J vai aloirando o porquinho, irmo Egdio! A pele j tosta, meu santo!

Entrou emfim na choa, triunfalmente, com o assado que fumegava e
rescendia, cercado de frescas flhas de alface. Ternamente, ajudou a
sentar o vlho, que tremia e se babava de gula. Arredou das pobres faces
maceradas os cabelos que o suor da fraqueza empastra. E, para que o bom
Egdio se no vexasse com a sua voracidade e tam carnal apetite, ia
afirmando, emquanto lhe partia as febras gordas, que tambm le comeria
regaladamente daquele excelente porco, se no tivesse almoado  farta
na _Locanda dos Trs Caminhos_.

--Mas nem bocado agora me podia entrar, meu irmo! Com uma galinha
inteira me atochei! E depois uma fritada de ovos! E de vinho branco, um
quartilho!

E o santo homem mentia santamente--porque, desde madrugada, no provra
mais que um magro caldo de ervas, recebido por esmola  cancela de uma
granja.

Farto, consolado, Egdio deu um suspiro, recau no seu leito de flhas
scas. Que bem lhe fizera, que bem lhe fizera! O Senhor, na sua justia,
pagasse a seu irmo Genebro aquele pedao de porco! At sentia a alma
mais rija para a temerosa jornada... E o ermito com as mos postas,
Genebro ajoelhado, ambos louvaram, ardentemente, o Senhor que, a toda a
necessidade solitria, manda de longe o socorro.

Ento, tendo coberto Egdio com um pedao de manta e posto, a seu lado,
a bilha cheia de gua fresca, e tapado, contra as aragens da tarde, a
fresta da cabana, Frei Genebro, debruado sbre le, murmurou:

--Meu bom irmo, vs no podeis ficar neste abandono... Eu vou levado
por obra de Jesus, que no admite tardana. Mas passarei no convento de
Sambricena e darei recado para que um novio venha e cuide de vs com
amor, no vosso transe. Deus vos vele entretanto, meu irmo; Deus
vos sossegue e vos ampare com a sua mo direita!

Mas Egdio cerrra os olhos, nem se moveu, ou porque adormecera, ou
porque o seu esprito, tendo pago aquele derradeiro salrio ao corpo,
como a um bom servidor, para sempre partira, finda a sua obra na terra.
Frei Genebro abenoou o vlho, tomou o seu bordo, desceu a colina dos
grandes carvalhos. Sob a fronde, para os lados onde andava o rebanho, a
buzina do porqueiro ressoava agora num toque de alarma e de furor.
De-certo acordra, descobrira o seu porco mutilado... Estugando o passo,
Frei Genebro pensava quanto era magnnimo o Senhor em permitir que o
homem, feito  sua imagem augusta, recebesse tam fcil consolao duma
perna de cerdo assada entre duas pedras.

Retomou a estrada, marchou para Terni. E prodigiosa foi, desde sse dia,
a actividade da sua virtude. Atravs de toda a Itlia, sem descanso,
prgou o Evangelho Eterno, adoando a aspereza dos ricos, alargando a
esperana dos pobres. O seu imenso amor ia ainda para alm dos que
sofrem, at queles que pecam, oferecendo um alvio a cada dr,
estendendo um perdo a cada culpa: e com a mesma caridade com que
tratava os leprosos, convertia os bandidos. Durante as invernias e a
neve, vezes inumerveis dava, aos mendigos, a sua tnica, as suas
alpercatas; os abades dos mosteiros ricos, as damas devotas de novo o
vestiam, para evitar o escndalo da sua nudez atravs das cidades; e sem
demora, na primeira esquina, ante qualquer esfarrapado, le se despojava
sorrindo. Para remir servos que penavam sob um amo fero, penetrava nas
igrejas, arrancava do altar os candelabros de prata, afirmando,
jovialmente, que mais praz a Deus uma alma liberta que uma tocha acesa.

Cercado de viuvas, de crianas famintas, invadia as padarias, os
aougues, at as tendas dos cambistas, e reclamava imperiosamente, em
nome de Deus, a parte dos deserdados. Sofrer, sentir a humilhao, eram,
para le, as nicas alegrias completas: nada o deliciava mais do que
chegar de noite, molhado, esfaimado, tiritando, a uma opulenta abadia
feudal, e ser repelido da portaria como um mau vagabundo: s ento,
agachado nos ldos do caminho, mastigando um punhado de ervas cruas, le
se reconhecia verdadeiramente irmo de Jesus, que no tivera tambm,
como teem sequer os bichos do mato, um covil para se abrigar. Quando um
dia, em Perusa, as confrarias saram ao seu encontro, com bandeiras
festivas, ao repique dos sinos, le correu para um monte de estrco,
onde se rolou e se sujou, para que daqueles que o vinham
engrandecer, s recebesse compaixo e escrnio. Nos clustros, nos
descampados, em meio das multides, durante as lides mais pesadas, orava
constantemente, no por obrigao, mas porque na prece encontrava um
deleite adorvel. Deleite maior, porm, era, para o franciscano, ensinar
e servir. Assim, longos anos errou entre os homens, vertendo o seu
corao como a gua de um rio, oferecendo os seus braos como alavancas
incansveis; e tam depressa, numa ladeira deserta, aliviava uma pobre
vlha da sua carga de lenha, como numa cidade revoltada, onde reluzissem
armas, se adiantava, com o peito aberto, e amansava as discrdias.

Emfim, uma tarde, em vspera de Pscoa, estando a descansar nos degraus
de Santa Maria dos Anjos, avistou de repente, no ar liso e branco, uma
vasta mo luminosa que sbre le se abria e faiscava. Pensativo, murmurou:

--Eis a mo de Deus, a sua mo direita, que se estende para me acolher
ou para me repelir.

Deu logo a um pobre, que ali rezava a Av-Maria, com a sua sacola nos
joelhos, tudo o que no mundo lhe restava, que era um volume do
Evangelho, muito usado e manchado das suas lgrimas. No domingo, na
igreja, ao levantar da Hstia, desmaiou. Sentindo ento que ia
terminar a sua jornada terrestre, quis que o levassem para um curral, o
deitassem sbre uma camada de cinzas.

Em santa obedincia ao guardio do convento, consentiu que o limpassem
dos seus trapos, lhe vestissem um hbito novo: mas, com os olhos
alagados de ternura, implorou que o enterrassem num sepulcro emprestado
como fra o de Jesus, seu senhor.

E, suspirando, s se queixava de no sofrer:

--O senhor, que tanto sofreu, porque me no manda a mim o padecimento
bemdito?

De madrugada pediu que abrissem, bem largo, o porto do curral.

Contemplou o cu que clareava, escutou as andorinhas que, na frescura e
silncio, comeavam a cantar sbre o beiral do telhado, e, sorrindo,
recordou uma manh, assim de silncio e frescura, em que, andando com
Francisco de Assis  beira do lago de Perusa, o mestre incomparvel se
detivera ante uma rvore cheia de pssaros, e, fraternalmente, lhes
recomendra que louvassem sempre o Senhor! Meus irmos, meus irmos
passarinhos, cantai bem o vosso Criador, que vos deu essa rvore para
que nela habiteis, e toda esta limpa gua para nela beber, e essas penas
bem quentes para vos agasalharem, a vs e aos vossos filhinhos!
Depois, beijando humildemente a manga do monge que o amparava, Frei
Genebro morreu.


II

Logo que le cerrou os seus olhos carnais, um Grande Anjo penetrou
difanamente no curral e tomou, nos braos, a alma de Frei Genebro.
Durante um momento, na fina luz da madrugada, deslizou por sbre o prado
fronteiro tam levemente que nem roava as pontas orvalhadas da relva
alta. Depois, abrindo as asas, radiantes e nveas, transps, num vo
sereno, as nuvens, os astros, todo o cu que os homens conhecem.

Aninhada nos seus braos, como na doura de um bero, a alma de Genebro
conservava a forma do corpo que sbre a terra ficra; o hbito
franciscano ainda a cobria, com um resto de poeira e de cinza nas pregas
rudes; e, com um olhar novo, que agora tudo trespassava e tudo
compreendia, ela contemplava, num deslumbramento, aquela regio em que o
Anjo parra, para alm dos universos transitrios e de todos os rumores
siderais. Era um espao sem limite, sem contrno e sem cr. Por
cima comeava uma claridade, subindo espalhada  maneira duma aurora,
cada vez mais branca, e mais luzente, e mais radiante, at que
resplandecia num fulgor tam sublime que nela um sol coruscante seria
como uma ndoa pardacenta. E por baixo estendia-se uma sombra cada vez
mais baa, mais fusca, mais cinzenta, at que formava como um espesso
crepsculo de profunda, insondvel tristeza. Entre essa refulgncia
ascendente e a escurido inferior, permanecera o Anjo imvel, esperando,
com as asas fechadas. E a alma de Genebro perfeitamente sentia que
estava ali, esperando tambm, entre o Purgatrio e o Paraso. Ento,
sbitamente, nas alturas, apareceram os dois imensos pratos duma
Balana--um que rebrilhava como diamante e era reservado s suas Boas
Obras, outro, negrejando mais que carvo, para receber o pso das suas
Obras Ms. Entre os braos do Anjo, a alma de Genebro estremeceu... Mas
o prato diamantino comeou a descer lentamente. Oh! contentamento e
glria! Carregado com as suas Boas Obras, le descia, calmo e majestoso,
espargindo claridade. Tam pesado vinha, que as suas grossas cordas se
retesavam, rangiam. E entre elas, formando como uma montanha de neve,
alvejavam magnficamente as suas virtudes evanglicas. L estavam as
incontveis esmolas que semera no mundo, agora desabrochadas em
alvas flores, cheias de aroma e de luz.

A sua humildade era um cimo, aureolado por um claro. Cada uma das suas
penitncias scintilava mais lmpidamente que cristais purssimos. E a
sua orao perene subia e enrolava-se em trno das cordas,  maneira
duma deslumbrante nvoa de oiro.

Sereno, tendo a majestade de um astro, o prato das Boas Obras parou,
finalmente, com a sua carga preciosa. O outro, l em cima, no se movia
tambm, negro, da cr do carvo, intil, esquecido, vazio. J das
profundidades, sonoros bandos de Serafins voavam, balanando palmas
verdes. O pobre franciscano ia entrar triunfalmente no Paraso--e aquela
era a milcia divina que o acompanharia cantando. Um frmito de alegria
passou na luz do Paraso, que um Santo novo enriquecia. E a alma de
Genebro anteprovou as delcias da Bemaventurana.

Sbitamente, porm, no alto, o prato negro oscilou como a um pso
inesperado que sbre le casse! E comeou a descer, duro, temeroso,
fazendo uma sombra dolente atravs da celestial claridade. Que M Aco
de Genebro trazia le, tam miuda que nem se avistava, tam pesada que
forava o prato luminoso a subir, remontar ligeiramente como se a
montanha de Boas Aces, que nele transbordavam, fssem um fumo
mentiroso? Oh! mgoa! oh! desesperana! Os Serafins recuavam, com as
asas trementes. Na alma de Frei Genebro correu um arrepio imenso de
terror. O negro prato descia, firme, inexorvel, com as cordas retsas.
E na regio que se cavava sob os ps do Anjo, cinzenta, de inconsolvel
tristeza, uma massa de sombra, molemente e sem rumor, arfou, cresceu,
rolou, como a onda duma mar devoradora.

O prato, mais triste que a noite, parra--parra em pavoroso equilbrio
com o prato que rebrilhava. E os Serafins, Genebro, o Anjo que o
trouxera, descobriram, no fundo daquele prato que inutilizava um Santo,
um porco, um pobre porquinho com uma perna brbaramente cortada,
arquejando, a morrer, numa pa de sangue... O animal mutilado pesava
tanto na balana da justia como a montanha luminosa de virtudes perfeitas!

Ento, das alturas, surgiu uma vasta mo, abrindo os dedos que
faiscavam. Era a mo de Deus, a sua mo direita, que aparecera a Genebro
na escada de Santa Maria dos Anjos, e que agora supremamente se estendia
para o acolher ou para o repelir. Toda a luz e toda a sombra, desde o
Paraso fulgente ao Purgatrio crepuscular, se contraram num
recolhimento de inexprimvel amor e terror. E na esttica mudez, a
vasta mo, atravs das alturas, lanou um gesto que repelia...

Ento o Anjo, baixando a face compadecida, alargou os braos e deixou
car, na escurido do Purgatrio, a alma de Frei Genebro.




ADO E EVA NO PARASO


I

Ado, Pai dos Homens, foi criado no dia 28 de Outubro, s 2 horas da
tarde...

Assim o afirma, com majestade, nos seus _Annales Veteris et Novi
Testamento_, o muito douto e muito ilustre Usserius, Bispo de Meath,
Arcebispo de Armagh, e Chanceler-Mr da S de S. Patrcio.

A Terra existia desde que a Luz se fizera, a 23, na manh de todas as
manhs. Mas j no era essa Terra primordial, parda e mole, ensopada em
guas barrentas, abafada numa nvoa densa, erguendo, aqui e alm,
rgidos troncos duma s flha e dum s rebento, muito solitria, muito
silenciosa, com uma vida toda escondida, apenas surdamente revelada pelo
remexer de bichos obscuros, gelatinosos, sem cr e qusi sem forma,
crescendo no fundo dos ldos. No! agora, durante os dias genesacos de
26 e 27, toda ela se completra, se abastecera e se enfeitra, para
acolher condignamente o Predestinado que vinha. No dia 28 j apareceu
perfeita, _perfecta_, com as provises e alfaias que a Bblia enumera,
as ervas verdes de espiga madura, as rvores providas do fruto entre a
flor, todos os peixes nadando nos mares resplandecentes, todas as aves
voando pelos ares aclarados, todos os animais pastando sbre as colinas
viosas, e os regatos regando, e o fogo armazenado no seio da pedra, e o
cristal, e o nix, e o oiro muito bom do pas de Hevilath...

Nesses tempos, meus amigos, o Sol ainda girava em trno da Terra. Ela era
ma e formosa e preferida de Deus. le ainda se no submetera 
imobilidade augusta que lhe imps mais tarde, entre amuados suspiros da
Igreja, mestre Galileu, estendendo um dedo do fundo do seu pomar, rente
aos muros do Convento de S. Mateus de Florena. E o sol, amorosamente,
corria em volta da Terra, como o noivo dos _Cantares_, que, nos lascivos
dias da iluso, sbre o outeiro de mirra, sem descanso e pulando mais
levemente que os gamos de Gaalad, circundava a Bem-Amada, a cobria com o
fulgor dos seus olhos, coroado de sal-gma, a faiscar de fecunda
impacincia. Ora desde essa alvorada do dia 28, segundo o clculo
majesttico de Usserius, o Sol, muito novo, sem sardas, sem rugas, sem
falhas na sua cabeleira flamante, envolvera a terra, durante oito horas,
numa contnua e insaciada carcia de calor e de luz. Quando a oitava
hora scintilou e fugiu, uma emoo confusa, feita de medo e feita de
glria, perpassou por toda a Criao, agitando num frmito as relvas e
as frondes, arripiando o plo das feras, empolando o dorso dos montes,
apressando o borbulhar das nascentes, arrancando dos prfiros um brilho
mais vivo... Ento numa floresta muito cerrada e muito tenebrosa, certo
Ser, desprendendo lentamente a garra do galho de rvore onde se
empoleirra toda essa manh de longos sculos, escorregou pelo tronco
comido de hera, pousou as duas patas no slo que o musgo afofava, sbre
as duas patas se firmou com esforada energia, e ficou erecto, e alargou
os braos livres, e lanou um passo forte, e sentiu a sua dissemelhana
da Animalidade, e concebeu o deslumbrado pensamento do que era, e
verdadeiramente _foi_! Deus, que o amparra, nesse instante o criou. E
vivo, da vida superior, descido da inconscincia da rvore, Ado
caminhou para o Paraso.

Era medonho. Um plo crespo e luzidio cobria todo o seu grosso, macio
corpo, rareando apenas em trno dos cotovelos, dos joelhos rudes,
onde o coiro aparecia curtido e da cr de cobre fosco. Do achatado,
fugidio crnio, vincado de rugas, rompia uma guedelha rala e ruiva,
tufando sbre as orelhas agudas. Entre as rombas queixadas, na fenda
enorme dos beios trombudos, estirados em focinho, as prsas reluziam,
afiadas rijamente para rasgar a febra e esmigalhar o osso. E sob as
arcadas sombriamente fundas, que um felpo hirsuto orlava como um silvado
orla o arco duma caverna, os olhos redondos, dum amarelo de mbar, sem
cessar se moviam, tremiam, esgazeados de inquietao e de espanto...
No, no era belo, nosso Pai venervel, nessa tarde de Outono, quando
Jeov o ajudou com carinho a descer da sua rvore! E todavia, nesses
olhos redondos, de fino mbar, mesmo atravs do tremor e do espanto,
rebrilhava uma superior beleza--a Energia Inteligente que o ia
trpegamente levando, sbre as pernas arqueadas, para fra da mata onde
passra a sua manh de longos sculos a pular e a guinchar por cima dos
ramos altos.

Mas (se os Compndios de Antropologia nos no iludem) os primeiros passos
humanos de Ado no foram logo atirados, com alacridade e confiana, para o
destino que o esperava entre os quatro rios do den. Entorpecido, envolvido
pelas influncias da Floresta, ainda despega com custo a pata de entre o
folhoso cho de fetos e begnias, e gostosamente se roa pelos pesados
cachos de flores que lhe orvalham o plo, e acaricia as longas barbas de
lichen branco, pendentes dos troncos de roble e de teca, onde gozra as
douras da irresponsabilidade. Nas ramagens que tam generosamente, atravs
tam longas idades, o nutriram e o embalaram, ainda colhe as bagas
sumarentas, os rebentes mais tenros. Para transpor os regatos, que por
todo o bosque reluzem e sussurram depois da sazo das chuvas, ainda se
pendura duma rija liana, entrelaada de orqudeas, e se balana, e arqueia
o pulo, com pesada indolncia. E receio bem que quando a aragem restolhasse
pela espessura, carregada com o cheiro morno e acre das fmeas acocoradas
nos cimos, o Pai dos Homens ainda dilatasse as ventas chatas e soltasse do
peito felpudo um grunhido rouco e triste.

Mas caminha... As suas pupilas amarelas, onde faisca o Querer, sondam,
esbugalhadas, atravs da ramaria, procuram para alm o mundo que deseja
e receia, e a que sente j a zoada violenta, como toda feita de batalha
e rancor. E,  maneira que a penumbra das folhagens clareia, vai
surgindo, dentro do seu crnio bisonho, como uma alvorada que penetra
numa toca, o sentimento das Formas diferentes e da Vida diferente
que as anima. Essa rudimentar compreenso s trouxe a nosso Pai
venervel turbao e terror. Todas as Tradies, as mais orgulhosas,
concordam em que Ado, na sua entrada inicial pelas plancies do den,
tremeu e gritou como criancinha perdida em arraial turbulento. E bem
podemos pensar que, de todas as Formas, nenhuma o apavorava mais que a
dessas mesmas rvores onde vivera, agora que as reconhecia como seres
tam dissemelhantes do seu Ser e imobilizadas numa inrcia tam contrria
 sua Energia. Liberto da Animalidade, em caminho para a sua
Humanizao, o arvoredo que lhe fra abrigo natural e doce s lhe
pareceria agora um cativeiro de degradante tristeza. E sses ramos
tortuosos, empecendo a sua marcha, no seriam braos fortes que se
estendiam para o empolgar, o repuxar, o reter nos cimos frondosos? sse
ramalhado sussurro que o seguia, composto do desassossgo irritado de
cada flha, no era a selva toda, num alvoroo, reclamando o seu secular
morador? De tam estranho medo nasceu, talvez, a primeira luta do Homem
com a Natureza. Quando um galho alongado o roasse, de-certo nosso Pai
atiraria contra le as garras desesperadas para o repelir e lhe escapar.
Nesses bruscos mpetos quantas vezes se desequilibrou, e as suas mos se
abateram desamparadamente sbre o slo de mato ou rocha, de novo
precipitado na postura bestial, retrogradando  inconscincia, entre o
clamor triunfal da Floresta! Que angustioso esfro ento para se
erguer, recuperar a atitude humana, e correr, com os felpudos braos
despegados da terra bruta, livres para a obra imensa da sua Humanizao!
Esfro sublime, em que ruge, morde as rases detestadas, e, quem sabe?
levanta j os olhos de mbar lustroso para os cus, onde, confusamente,
sente Algum que o vem amparando--e que na realidade o levanta.

Mas, de cada um dstes tombos modificantes, nosso Pai ressurge mais
humano, mais nosso Pai. E h j conscincia, pressa da Racionalidade,
nos ressoantes passos com que se arranca ao seu limbo arboral,
despedaando as enredias, fendendo o bravio denso, despertando os
tapires adormecidos sob cogumelos monstruosos, ou espantando algum urso
mo e tresmalhado que, de patas contra um olmo, chupa, meio borracho,
as uvas dsse farto outono.


Emfim, Ado emerge da Floresta obscura:--e os seus olhos de mbar
vivamente se cerram sob o deslumbramento em que o envolve o den.

Ao fundo dessa encosta, onde parara, resplandecem vastas campinas (se as
Tradies no exageram) com desordenada e sombria abundncia.
Lentamente, atravs, um rio corre, semeado de ilhas, ensopando, em
fecundos e espraiados remansos, as verduras onde j talvez cresce a
lentilha e se alastra o arrozal. Rochas de mrmore rosado rebrilham com
um rubor quente. De entre bosques de algodoeiros, brancos como crespa
espuma, sobem outeiros cobertos de magnlias, dum esplendor ainda mais
branco. Alm a neve coroa uma serra com um radiante nimbo de santidade,
e escorre, por entre os flancos despedaados, em finas franjas que
refulgem. Outros montes dardejam mudas labaredas. Da borda de rgidas
escarpas, pendem perdidamente, sbre profundidades, palmeirais
desgrenhados. Pelas lagas a bruma arrasta a luminosa moleza das suas
rendas. E o mar, nos confins do mundo, faiscando, tudo encerra, como um
aro de oiro.--Neste fecundo espao toda a Criao se espaneja, com a
fra, a graa, a braveza vivaz duma mocidade de cinco dias, ainda
quente das mos do seu Criador. Profusos rebanhos de auroques, de
pelagem ruiva, pastam, majestosamente, enterrados nas ervas tam altas
que nelas desaparece a ovelha e o seu anho. Temerosos e barbudos urus,
brigando contra gigantescos veados-elefas, entrechocam cornos e
galhos com o sco fragor de robles que o vento racha. Um bando de
girafas rodeia uma mimosa a que vai trincando, delicadamente, nos
trmulos cimos, as folhinhas mais tenras.  sombra dos tamarindos,
repousam disformes rinocerontes, sob o vo apressado de pssaros que
lhes catam servialmente a vermina. Cada arremsso de tigre causa uma
debandada furiosa de ancas, e chifres, e clinas, onde, mais certo e mais
leve, se arqueia o pulo grcil dos antlopes. Uma rija palmeira verga
toda ao pso da jibia que nela se enrosca. Entre duas penedias, por
vezes, aparece, numa profuso de juba, a face magnfica de um leo que,
serenamente, olha o sol, a imensidade radiante. No remoto azul, enormes
condores dormem imveis, de asas abertas, entre o sulco nveo e rseo
das garas e dos flamingos. E em frente  encosta, num alto, entre o
matagal, passa, lenta e montanhosa, uma rcua de mastodontes, com a rude
clina do dorso erriada ao vento, e a tromba a bambolear entre os dentes
mais recurvos que foices.

Assim vetustssimas Crnicas contam o vetustssimo den, que era nas
campinas do Eufrates, talvez na trigueira Ceilo, ou entre os quatro
claros rios que hoje regam a Hngria, ou mesmo nestas terras bemditas
onde a nossa Lisboa aquece a sua velhice ao soalheiro, cansada de
proezas e mares. Mas quem pode garantir stes bosques e stes bichos,
pois que desde sse dia 25 de Outubro, que inundava o Paraso de
esplendor outonal, j passaram, muito breves e muito cheios, sbre o
gro de p que  o nosso mundo, mais de sete vezes setecentos mil anos?
S parece certo que, diante de Ado apavorado, um grande pssaro passou.
Um pssaro cinzento, calvo e pensativo, com as penas esguedelhadas como
as ptalas de um crisntemo, que saltitava pesadamente sbre uma das
patas, erguendo na outra, bem agarrado, um mlho de ervas e ramos. O
nosso Pai venervel, com a fusca face franzida, no doloroso esfro de
compreender, pasmava para aquele pssaro, que ao lado, sob o abrigo de
azleas em flor, terminava muito gravemente a construo duma cabana!
Vistosa e slida cabana, com o seu cho de greda bem alisado, galhos
fortes de pinheiro e faia formando estacas e traves, um seguro teto de
relva sca, e na parede de enredias bem liadas o desafgo duma
janela!... Mas o Pai dos Homens, nessa tarde, ainda no compreendeu.

Depois caminhou para o largo rio, desconfiadamente, sem se afastar da
ourela do bosque abrigador. Lento, farejando o cheiro novo dos gordos
herbvoros da plancie, com os punhos rijamente cerrados contra o
peito peludo, Ado vai arfando entre o apetite daquela resplandecente
Natureza e o terror dos seres nunca avistados que a atulham e atroam com
tam fera turbulncia. Mas dentro dle borbulha, no cessa, a nascente
sublime, a sublime nascente da Energia, que o impele a desentranhar da
crassa bruteza, e a ensaiar, com esforos que so semi-penosos porque
so j semi-lcidos, os Dons que estabelecero a sua supremacia sbre
essa Natureza incompreendida e o libertaro do seu terror. Assim, na
surprsa de todas aquelas inesperadas aparies do den, reses,
pastagens, montes nevados, imensidades radiosas, Ado solta roucas
exclamaes, gritos com que desafoga, vozes gaguejadas, em que por
instinto reproduz outras vozes, e brados, e toadas, e mesmo o rebolio
das criaturas, e mesmo o estrondo das guas despenhadas... E stes sons
ficam j na escura memria de nosso Pai ligados s sensaes que lhos
arrancam:--de sorte que o guincho spero que lhe escapara ao topar um
cangur com a sua ninhada embolsada no ventre, de novo lhe ressoar nos
lbios trombudos quando outros cangurs, fugindo dle, adiante, se
embrenhem na sombra negra das caneleiras. A Bblia, com a sua exagerao
oriental, cndida e simplista, conta que Ado, logo na sua entrada pelo
den, distribuiu nomes a todos os animais, e a todas as plantas,
muito definitivamente, muito eruditamente, como se compuzesse o Lexicon
da Criao, entre Buffon, j com os seus punhos, e Linneu, j com os
seus culos. No! eram apenas grunhidos, roncos mais verdadeiramente
augustos, porque todos les se plantavam na sua conscincia nascente
como as tscas razes dessa Palavra pela qual verdadeiramente se
humanou, e foi depois, sbre a terra, tam sublime e tam burlesco.

E bem podemos pensar, com orgulho, que ao descer a borda do rio Ednico,
nosso Pai, compenetrado do que _era_, e quanto diverso dos outros seres!
j se afirmava, se individualizava, e batia no peito sonoro, e rugia
soberbamente:--_Eheu! Eheu!_ Depois, alongando os olhos reluzentes por
aquela longa gua que corria vagarosamente para alm, j tenta
exteriorizar o seu espantado sentimento dos espaos, e rosna com
pensativa cubia:--_Lhl! Lhl!_


II

Calmo, magnficamente fecundo, corria le, o nobre rio do Paraso, por
entre as ilhas, qusi afundadas sob o pso rijo do rijo arvoredo
todas fragrantes, e atroadas pelo clamor das cacatuas. E Ado,
trotando pesadamente pela margem baixa, j sente a atraco das guas
disciplinadas que andam e vivem--essa atraco que ser tam forte nos
seus filhos, quando no rio descobrirem o bom servidor que desaltera,
estruma, rega, mi e acarreta. Mas quantos terrores especiais ainda o
arrepiam, o atiram com espavoridos pulos para o abrigo dos salgueiros e
dos choupos! Noutras ilhas, de areia fina e rosada, preguiam pedregosos
crocodilos, achatados sbre o ventre, que arfam molemente, escancarando
as fundas goelas na tpida preguia da tarde, embebendo todo o ar com um
cheirinho de almscar. Por entre os canaviais, coleam e refulgem gordas
cobras de gua, de colo alteado, que fitam Ado com furor, dardejando e
silvando. E, para nosso Pai que nunca as avistara, certamente seriam
pavorosas as tartarugas imensas dsse como do Mundo, pastando, com
arrastada mansido, atravs dos prados novos. Mas uma curiosidade o
atrai, qusi resvala na riba lodosa, onde a franja de gua roa e
marulha. Na largueza do rio espraiado, uma longa e negra fila de
auroques, serenamente, com os cornos altos e a espessa barba a flutuar,
nada para a outra margem, campina coberta de louras messes onde talvez
j amaduram as espigas sociveis do centeio e do milho. Nosso Pai
venervel olha a fila lenta, olha o rio lustroso, concebe o ennevoado
desejo de tambm atravessar para aqueles longes em que as ervas
rebrilham, e arrisca a mo na corrente--na rija corrente que lha repuxa,
como para o atrair e iniciar. le grunhe, arranca a mo--e segue, com
speras patadas, esmagando, sem mesmo lhes sentir o perfume, os frescos
morangos silvestres que ensangentam a relva... Em breve pra,
considerando um bando de aves alcandoradas numa penedia toda riscada de
guanos, que espreitam, com o bico atento, para baixo, onde as guas
apertadas refervem. Que espreitam elas, as brancas garas? Lindos
peixes em cardume, que rompem contra a levada, e pulam, lampejando nas
espumas claras. E bruscamente, num desabrido abanar de asas brancas, uma
gara, depois outra, fende o cu alto, levando, atravessado no bico, um
peixe que se estorce e reluz. Nosso Pai venervel coa a ilharga. A sua
crassa gula, entre aquela abundncia do rio, tambm apetece uma prsa: e
atira a garra, colhe, no seu vo soante, cascudos insectos que farisca e
trinca. Mas nada certamente assombrou o Primeiro Homem como um grosso
tronco de rvore meio apodrecido, que boiava, descia na corrente,
levando sentados numa ponta, com segurana e graa, dois bichos sedosos,
louros, de focinho esperto, e ffas caudas vaidosas. Para os
seguir, os observar, ansiosamente correu, enorme e desengonado. E os
seus olhos faiscavam, como se j compreendesse a malcia daqueles dois
bichos, embarcados num toro de rvore, e viajando, com a macia frescura
da tarde, no rio do Paraso.

No entanto, a gua que le costeava era mais baixa, turva e tarda. J na
sua largueza no verdejam ilhas, nem nela se molha a orla das fartas
pastagens. Para alm, sem limite, fundidas nas neblinas, fogem
descampadas solides, de onde rola um vento lento e hmido. Nosso Pai
venervel enterrava as patas em ribas moles, atravs de aluvies, de
lixos silvestres, em que chapinavam, para seu intenso horror, enormes
rs coaxando furiosamente. E o rio em breve se perdeu numa vasta laga,
escura e desolada, resto das grandes guas sbre que flutuara o Esprito
de Jeov. Uma tristeza humana apertou o corao de nosso Pai. Do meio de
grossas blhas, que se empolavam na estanhada lisura da gua triste,
constantemente surdiam horrendas trombas, a escorrer de limos verdes,
que bufavam ruidosamente, logo se afundavam, como repuxadas pelos ldos
viscosos. E quando de entre os altos e negros canaviais, manchando a
vermelhido da tarde, se elevou, se alargou sobre le uma nuvem
estridente de moscardos vorazes, Ado foge, estonteado, trilha
saibros pegajosos, rasga o plo na aspereza dos cardos brancos que o
vento estorce, resvala por uma encosta de cascalho e seixo, e pra em
areia fina. Arqueja: as suas longas orelhas remexem, escutando, para
alm das dunas, um vasto rumor que rola e desaba e retumba...  o mar.
Nosso Pai transpe as plidas dunas--e diante dle est o Mar!


Ento foi o pavor supremo. Com um pulo, batendo convulsamente os punhos
no peito, reca at onde trs pinheiros, mortos e sem rama, lhe oferecem
o refgio hereditrio. Porque avanam assim para le, sem cessar, numa
inchada ameaa, aqueles rolos verdes, com a sua clina de espuma, e se
atiram, se esmigalham, refervem, babujam rudemente a areia? Mas toda a
outra vasta gua permanece imvel, como morta, com uma grande mancha de
sangue que lateja. Todo sse sangue cau, de-certo, da ferida do sol,
redonda e vermelha, sangrando em cima, num cu dilacerado por fundos
golpes j rxos. Para alm da nvoa leitosa que cobre as lagas, dos
charcos salgados, onde a marezia ainda chega e se espraia muito longe,
um monte flameja e fumega. E sempre diante de Ado, contra Ado, os
verdes rolos da verde vaga avanam, e ribombam, e alastram a praia de
algas, de conchas, de gelatinas que alvejam lvidamente.

Mas eis que todo o mar se pova! E, encolhido contra o pinheiro, nosso
Pai venervel dardeja os olhos inquietos e trmulos, para aqui, para
alm--para os rochedos cobertos de sargao onde gordssimas focas
rebolam majestosamente; para os repuxos de gua, que ao largo esguicham
at s nuvens rxas e recem numa chuva radiante; para uma linda armada
de bzios, imensos bzios alvos e nacarados, vogando  bolina,
circundando as penedias, com manobra elegante... Ado pasma sem saber
que estas so as Amonites, e que nenhum outro homem, depois dle, ver a
luzida e rsea armada singrando nos mares dste mundo. Ainda le a
admira, talvez com a impresso inicial da beleza das cousas, quando
bruscamente, num tremor de sulcos brancos, toda a maravilhosa frota
sossobra! Com o mesmo salto mole, as focas tombam, trambulham na vaga
funda. E um terror passa, um terror levantado do mar, tam intenso que um
bando de albatrozes, muito seguro sbre uma escarpa, bate, com azoados
gritos, o vo espavorido.

Nosso Pai venervel aferra a mo a um galho de pinheiro, sondando, num
arrepio, a imensido deserta. Ento, ao longe, sob o claro enfiado
do sol que se esconde, um dorso imenso sai, lentamente, das guas, como
uma comprida colina, toda espetada de negras, agudas lascas de rocha. E
avana! Adiante um tumulto de blhas redemoinha e rebenta; e de entre
elas emerge, por fim, resfolegando cavamente, uma tromba disforme, de
fauces entreabertas, onde lampejam e se somem cardumes de peixes que os
seus sorvos vem tragando...

 um monstro, um pavoroso monstro marinho! E bem podemos supor que nosso
Pai, esquecendo toda a sua dignidade humana (ainda recente), trepou
desesperadamente ao pinheiro at onde os galhos findavam. Mas mesmo
nesse abrigo, os seus poderosos queixos batiam, num medo convulso, ante
o horrfico ser surgido das profundidades. Com um baque raspante,
esmigalhando conchas, seixos e galhos de coral, o monstro esbarra na
areia, que fundamente escava e sbre que retesa as duas patas, mais
grossas que troncos de teca, com as unhas todas enrodilhadas de silvas
marinhas. Da caverna das suas fauces, atravs dos dentes terrficos, que
os limos e musgos esverdeiam, sopra um bafo espesso de fadiga ou de
furor, tam forte que faz rodopiar as algas scas e os bzios ligeiros.
Entre as crostas pedregosas, que lhe couraam a fronte, negrejam dois
cornos curtos e rombos. Os seus olhos, lvidos e vtreos, so como
duas enormes luas mortas. A imensa cauda dentada arrasta pelo mar
distante, e a cada rabeio lento levanta uma tempestade.

Por estas feies, pouco amveis, j reconhecesteis o Ictiosaurio, o
mais horrendo dos cetceos concebidos por Jeov. Era le!--talvez o
derradeiro, que durara nas trevas ocenicas at ste dia memorvel de 28
de Outubro, para que nosso Pai entrevisse as origens da Vida. E agora
est em frente de Ado, ligando os tempos vlhos aos tempos novos--e,
com as escamas do dorso assanhadas, muge devastadoramente. Nosso Pai
venervel, enroscado ao tronco alto, guincha de vivo horror... E eis
que, do lado dos charcos ennevoados, um silvo fende os cus, uivado e
arremetido, como o de um spero vento numa garganta de serrania. O qu!
Outro monstro?... Sim, o Plesiosaurio.  tambm o derradeiro
Plesiosaurio que corre do fundo dos pntanos. E agora de novo se trava,
para assombro do primeiro Homem (e gsto dos Paleontologistas) o combate
que foi a desolao dos pre-humanos dias da Terra. L aparece a fabulosa
cabea do Plsio, terminada em bico de ave, bico de duas braas, mais
agudo que o dardo mais agudo, erguida sbre um longussimo e esguio
pescoo que ondula, arqueia, esfusia, dardeja com pavorosa elegncia!
Duas barbatanas de incomparvel rijeza veem movendo o seu disforme
corpo, mole, glutinoso, todo em rugas, manchado por uma lepra de fungos
esverdinhados. E tam imenso  assim rojando, com o pescoo empinado,
que, diante da duna onde se levantam os pinheiros que acoitam Ado, le
parece uma outra duna negra sustentando um pinheiro solitrio.
Furiosamente avana.--E de repente  um horroroso tumulto de mugidos, e
sibilos, e choques ribombantes, e areias torvelinhando, e grossos mares
espadanando. Nosso Pai venervel salta dum pinheiro para outro pinheiro,
tremendo tanto que, com le, tremem os rijos troncos. E quando se
arrisca a espreitar, ao recrescer dos bramidos, s percebe, na enrolada
massa dos dois monstros, atravs de uma nvoa de espuma que os esguichos
de sangue avermelham, o bico do Plsio todo enterrado no ventre mole do
Ictio, cuja cauda, erguida, se estorce furiosamente na palidez dos cus
espantados. De novo esconde perdidamente a face, nosso Pai venervel! Um
urro de monstruosa agonia rola na praia. As plidas dunas estremecem, as
cavernas soturnas ressoam. Depois  uma paz muito larga, em que o ruido
do mar Oceano no  mais que um consolado murmrio de alvio. Ado
espia, debruado entre os galhos... O Plsio recuara ferido para a
tpida lama dos seus pntanos. E sbre a praia jaz o Ictio morto,
como uma colina onde a vaga da tarde mansamente se quebra.

Ento, nosso Pai venervel cautelosamente escorrega do seu pinheiro, e
se abeira do monstro. A areia, em redor, est medonhamente revlta;--e
por toda ela, em lentos regos, em pas escuras, o sangue, mal chupado,
fumega. Tam montanhoso  o Ictio, que Ado, erguendo a face assombrada,
nem avista as puas do monstro, erriadas ao longo daquele alcantilado
espinhao, a que o bico do Plsio arrancou escamas mais pesadas que
lages. Mas, diante das mos trementes do Homem, esto os rasges do
ventre mole, de onde o sangue pinga, e gorduras babam, e imensas tripas
esfiadas escorrem, e pendem febras atassalhadas de carne rosada... E as
chatas ventas de nosso Pai venervel estranhamente se alargam e farejam.

Toda essa tarde le caminhara, desde a Floresta, atravs do Paraso,
chupando bagas, rilhando razes, trincando os insectos de casca picante.
Mas agora o sol penetrou no mar--e Ado tem fome, nesse areal maninho,
onde s alvejam cardos que o vento estorce. Oh! aquela carne rija,
sangrenta, ainda viva, que exala um cheiro tam fresco e salino! As suas
rombas mandbulas ruidosamente se escancaram num bocejo enfastiado e
famlico... O Oceano arfa, como adormecido... Ento, irresistvelmente,
Ado mergulha numa das feridas do surio os dedos que lambe e
rechupa, moles de sangue e gorduras. O espanto dum sabor novo imobiliza
o homem frugal que vem das ervas e das frutas. Depois, com um salto,
arremete contra a montanha de abundncia, e arranca uma fbra que trinca
e traga, a grunhir, num furor, numa pressa, em que h o gzo e h o medo
da primeira carne comida.


Tendo ceado assim postas cruas dum monstro marinho, nosso Pai venervel
sente uma grande sde. So salgadas as pas que na areia rebrilham.
Pesado e triste, com os beios empastados de banha e de sangue, Ado,
sob o calado crepsculo, atravessa as dunas, repenetra nas terras,
rebuscando sfregamente gua doce. Por toda a relva, nesses tempos de
universal humidade, fugia e chalrava um regato. Em breve, estendido numa
riba lodosa, Ado bebeu consoladamente, em fundos sorvos, sob o vo
espantado de moscas fosforescentes que se lhe prendiam na guedelha.

Era junto dum bosque de carvalhos e faias. A noite, que j se adensara,
ennegrecia um cho todo de plantas, onde a malva se encostava  hortel,
e a salsa ao funcho ligeiro. Nessa clareira fresca, penetrou nosso Pai
venervel, estafado com a marcha e os espantos daquela tarde do Paraso.
E apenas se estendera na alfombra cheirosa, com a hirsuta face
pousada sbre as palmas unidas, os joelhos colhidos contra o ventre
distendido como um tambor, mergulhou num sono como le nunca
dormira--todo povoado de sombras moventes, que eram aves construindo uma
casa, patas de insectos tecendo uma teia, dois bichos vogando nas guas
rolantes.

Ora conta a Lenda que ento, em trno do Primeiro Homem adormecido,
comearam a surdir, por entre o mato baixo, focinhos fariscantes, finas
orelhas espetadas, olhinhos reluzindo como botes de azeviche, e
espinhaos inquietos que a emoo arqueava--emquanto que, dos cimos dos
carvalhos e faias, num abafado frmito de asas, se debruavam bicos
recurvos, bicos retesos, bicos bravios, bicos pensativos, todos
alvejando na claridade delgada da lua, que subia por trs dos montes, e
banhava as frondes altas. Depois,  orla da clareira, uma hiena
apareceu, coxeando, miando com lstima. Atravs da campina trotaram dois
lobos, esgalgados, famlicos, com os verdes olhos acesos. Os lees no
tardaram, com as riais faces erguidas, soberanamente enrugadas, numa
profuso de jubas flamantes. Em confusa manada, que chegava bufando, os
cornos dos auroques entrechocavam com impacincia os galhos palmares das
renas. Todos os plos se arrepiaram quando o tigre e a pantera
negra, ondulando calada e aveludadamente, resvalaram, com as lnguas
pendentes e vermelhas como coalhos de sangue. Dos vales, das serranias,
das fragas, outros acudiam, numa pressa tam anciosa, que os horrendos
cavalos primitivos se empinavam por sbre os cangurus, e a tromba do
hipoptamo, a escorrer de limos, empurrava as ancas lentas do
dromedrio. Entre as patas e os cascos apinhados coleavam em aliana o
furo, a sardonisca, a doninha, a cobra fulgente que engole a doninha, e
o alegre manguo que assassina a cobra. Um bando de gazelas tropeava,
magoando as pernas finas, contra a crosta dos crocodilos, que subiam em
fila da borda das lagas, de goelas preparadas e a gemer. J toda a
plancie arfava, sob a lua, no mole remexer de dorsos apertados, de onde
se erguia, ora o pescoo da girafa, ora o corpo da jibia, como mastros
naufragados, balanados entre vagas. E por fim, abalando o slo,
enchendo o cu, com a tromba enrolada entre os dentes recurvos, assomou
o rugoso mastodonte.

Era toda a Animalidade do Paraso, que, sabendo o Primeiro Homem
adormecido, sem defesa, num ermo bosque, corria, na imensa esperana de
o destruir e eliminar da terra a Fra Inteligente, destinada a submeter
a Fra Bruta. Mas, naquela pavorosa turba que fumegava, se
atropelava  borda da clareira, onde Ado dormia sbre a hortel e a
malva, nenhuma fera avanava. Os longos dentes reluziam, feramente
arreganhados; todos os cornos repontavam; cada garra sada dilacerava
com nsia a terra mole; e os bicos, de cima das ramas, teravam os fios
da lua com bicadas famintas.... Mas nem ave descia, nem fera
avanava,--porque ao lado de Ado velava uma Figura sria e branca, de
asas brancas fechadas, os cabelos presos num aro de estrlas, o peito
guardado numa couraa de diamante, e as duas refulgentes mos apoiadas
ao punho duma espada que era de lume--e vivia.


A aurora despontou, com ardente pompa, comunicando  terra alegre, 
terra braviamente alegre,  terra ainda sem andrajos,  terra ainda sem
sepulturas, uma alegria superior, mais grave, religiosa e nupcial. Ado
acordou: e, batendo as fuscas plpebras, na surprsa do seu acordar
humano, sentiu sbre a ilharga um pso que era macio e que era doce.
Nesse terror que, desde as rvores, no desamparava o seu corao, pulou
e com tam ruidoso pulo, que, pela selva, os melros, os rouxinis, as
toutinegras, todos os passarinhos de festa e de amor, despertaram e
romperam num canto de congratulaes e de esperanas.--E, oh maravilha!
diante de Ado, e como despegado dle, estava outro Ser a le
semelhante, mas mais esbelto, suavemente coberto dum plo mais sedoso,
que o contemplava com largos olhos lustrosos e lquidos. Uma cma ruiva,
dum ruivo tostado, rolava, em espessas ondas, at s suas ancas
arredondadas numa plenitude harmoniosa e fecunda. De entre os braos
peludinhos, que cruzara, surdiam, abundantes e gordos, os dois peitos da
cr do medronho, com uma penugem crespa orlando o bico, que se
enristava, entumecido. E roando, num roar lento, num roar muito doce,
os joelhos pelados, todo aquele sedoso e tenro Ser se ofertava com uma
submisso pasmada e lasciva. Era Eva... Eras tu, Me Venervel!


III

Ento comearam, para nossos Pais, os dias abominveis do Paraso.

O seu constante e desesperado esfro foi sobreviver--no meio duma
Natureza que, sem cessar e furiosamente, tramava a sua destruio.
E Ado e Eva passaram sses tempos, que os poemas Semticos celebram
como Inefveis--sempre a tremer, sempre a ganir, sempre a fugir! A terra
ainda no era uma obra perfeita: e a Divina Energia, que a andava
compondo, incessantemente a emendava, numa tam mbil inspirao, que em
stio coberto ao alvorecer por uma floresta,  noite se espelhava uma
laga onde a Lua, j doente, vinha estudar a sua palidez. Quantas vezes
nossos Pais, repousando no pendor de um outeiro inocente, entre o serpol
e o rosmaninho (Ado com a face deitada sbre a cxa de Eva, Eva com
dedos geis catando o plo de Ado) foram sacudidos pela encosta amena
como por um dorso irritado, e rolaram, embrulhados, entre o ribombo, e a
labareda, e a fumarada, e a cinza quente do vulco que Jeov
improvisara! Quantas noites escaparam, uivando, dalguma abrigada
caverna, quando j sbre ela corria um grande mar inchado que bramava,
se desenrolava, ficava fervendo entre as rochas, com negras focas mortas
a boiar. Ou ento era o cho, o cho seguro, j social e fertilizado
para as searas sociveis, que de repente rugia como uma fera,
escancarava uma insondvel goela, e tragava rebanhos, prados, nascentes,
benficos cedros com todas as rlas que na sua rama arrulhavam.

Depois eram as chuvas, as longas chuvas Ednicas, desabando em
jorros clamorosos, durante alagados dias, durante torrentosas noites,
tam desabaladamente que do Paraso, vasto charco barrento, apenas
apareciam as pontas do arvoredo afogado, e os cimos dos montes atulhados
de bichos transidos que bramiam no terror das guas soltas. E nossos
Pais, refugiados nalguma erguida fraga, gemiam lamentavelmente, com
regatos a escorrer dos ombros, com ribeiras a escorrer dos ps, como se
o barro novo de que Jeov os fizera se andasse j desfazendo.

E mais terrficas eram as estiagens. Oh! o incomparvel tormento das
scas no Paraso! Lentos dias tristes, aps lentos dias tristes, a
imensa brasa do sol candente coriscava furiosamente num cu cr de
cobre, em que o ar bao e grosso crepitava e arfava. Os montes
estalavam, gretados: e as plancies desapareciam sob uma denegrida
camada de fios retorcidos, ennovelados, rijos como arames, que eram os
restos das verdes pastagens. Toda a tisnada folhagem rolava nos ventos
abrasados, com rugidora restolhada. O leito dos rios chupados tinha a
rigidez de ferro fundido. O musgo escorregava das rochas, como uma pele
sca que se despega descobrindo largos ossos. Cada noite um bosque
ardia, fogueira estralejante, de lenha ressequida, escaldando mais a
abbada do forno inclemente. Todo o den andava coberto das
revoadas de abutres e corvos, porque, com tanto animal morto de fome e
de sde, abundava a carne pdre. No rio, a gua que restava mal corria,
empoada pela massa fervilhante de cobras, rs, lontras, tartarugas,
refugiadas naquele derradeiro veio, lodoso e todo morno. E nossos Pais
venerveis, com as magras costelas a arquejar contra o plo crestado, a
lngua pendida e mais dura que cortia, erravam de fonte em fonte, a
sorver desesperadamente alguma gota que ainda brotasse, gota rara, que
assobiava, ao car, sobre as lages esbraseadas...

E assim Ado e Eva, fugindo do Fogo, fugindo da gua, fugindo da Terra,
fugindo do Ar, encetavam a vida no Jardim de Delcias.

E no meio de tantos perigos, constantes e flagrantes, era necessrio
comer! Ah! Comer--que portentosa emprsa para nossos Pais venerveis!
Sobretudo desde que Ado (e depois Eva, por Ado iniciada) tendo provado
os deleites fatais da carne, j no encontravam sabor, nem fartura, nem
decncia, nos frutos, nas razes, e nos bagos do tempo da sua
Animalidade. Certamente, as boas carnes no faltavam no Paraso.
Delicioso seria o salmo primitivo--mas nadava alegremente nas guas
rpidas. Saborosa seria a galinhola, ou o faiso rutilante, nutridos com
os gros que o Criador considerara bons--mas voavam nos cus, em
triunfal segurana. O coelho, a lebre--que fugas ligeiras no mato
cheiroso!... E nosso Pai, nesses dias cndidos, no possuia o anzol nem
a seta. Por isso, sem cessar rondava em trno das lagas, nas ribas do
mar, onde casualmente encalhava, boiando, algum cetceo morto. Mas sses
achados de abundncia eram raros--e o triste casal humano, nas suas
marchas famintas pela borda das guas, s conquistava, aqui e alm, na
rocha ou na areia revlta, algum feio caranguejo em cuja dura casca os
seus beios se esgaavam. Essas solides marinhas andavam tambm
infestadas por bandos de feras esperando, como Ado, que a vaga rolasse
os peixes vencidos em borrasca ou batalha. E quantas vezes, nossos Pais,
j com a garra cravada numa posta de foca ou golfinho, fugiam
desconsoladamente, sentindo o passo ffo do horrendo speleo, ou o bafo
dos ursos brancos, bamboleando pelo branco areal, sob a branca
indiferena da lua!

De-certo, a sua scincia hereditria de trepar s arvores socorria
nossos Pais nesta conquista da prsa. Que, sob as ramarias da caneleira
de onde les, assolapadamente, espreitavam, aparecesse algum cabrito
desgarrado, ou uma tartaruga ma e bisonha se arrastasse para a erva
miuda--e eis o repasto seguro! Num relance, o cabrito ficava
atassalhado, todo o seu sangue chupado em sorvos convulsos: e Eva, nossa
Me forte, guinchando sombriamente, arrancava, uma a uma, de entre a
casca, as patas da tartaruga... Mas quantas noites, depois de jejuns
angustiosos, se achavam os Eleitos da Terra forados a afugentar a
hiena, com rijos brados, atravs das clareiras, para lhe roubar um osso
fetidamente babujado, que era j o sobejo de um leo farto! E dias
piores sucediam, em que a fome reduzia nossos Pais a retrogradar 
desgostosa frugalidade do tempo da rvore, s ervas, aos rebentos, s
razes amargas--conhecendo assim, entre a abundncia do Paraso, a
primeira forma da Misria!

E, atravs dstes trabalhos, no os desamparava o terror das feras!
Porque, se Ado e Eva comiam os bichos fracos e fceis, eram tambm uma
prsa apetecida por todos os brutos superiores. Comer Eva, tam redonda e
carnuda, foi de-certo o sonho de muito tigre nos juncais do Paraso.
Quanto urso, mesmo ocupado a roubar favos de mel num escavado tronco de
roble, no se deteve, e se balanou, e lambeu o focinho numa gula mais
fina, ao avistar, atravs da ramaria, num rebrilho errante de sol, o
sombrio corpanzo de nosso Pai venervel! E nem s o perigo vinha das
hordas esfaimadas dos carnvoros, mas ainda dos lentos e fartos
herbvoros, o auroque, o urus, o cervo elefas, que alegremente
escorneariam e espesinhariam nossos Pais, por estupidez, dissemelhana
de raa e cheiro, emprgo da vida ociosa. E acresciam ainda os que
matavam para no serem mortos--porque Medo, Fome e Furor, foram as leis
da vida no Paraso.

Certamente nossos Pais eram tambm ferozes, de tremenda fra, e
perfeitos na arte salvadora de trepar aos cimos frondosos. Mas o
leopardo pulava de ramo em ramo, sem rumor, com uma destreza mais felina
e segura! A jibia furava com a cabea at aos galhos extremos do mais
levantado cedro para colher os macacos--e bem poderia abocar Ado, com
aquela obtusa incapacidade que sempre as jibias tiveram de distinguir,
sob a similitude das formas, a diversidade dos mritos. E que valiam as
garras de Ado, mesmo aliadas s garras de Eva, contra sses pavorosos
lees do Jardim de Delcias que a Zoologia, ainda hoje arrepiada, chama
o _Leo Anticus_? Ou contra a hiena-spelea tam ousada, que, nos
primeiros dias do Gnesis, os Anjos, quando desciam ao Paraso,
caminhavam sempre com as asas arregaadas, para que ela, saltando de
entre dos bambus, lhes no arrancasse as penas refulgentes? Ou contra
os ces, os horrendos ces do Paraso, que atacando em cerradas e
ululantes hostes, foram, nesses comeos do Homem, os piores inimigos do
Homem?

E entre toda esta bicharia adversa, Ado no contava um aliado. Os seus
prprios parentes, os Antropides, invejosos e farantes, o apedrejavam
com enormes ccos. S um animal, e formidvel, conservava pelo Homem uma
majestosa e pachorrenta simpatia. Era o Mastodonte. Mas a ennevoada
Inteligncia de nosso Pai ainda, nesses dias Ednicos, no compreendia a
bondade, a justia, o servial corao do paquiderme admirvel. Por
isso, certo da sua fraqueza e do seu isolamento, le viveu, durante
sses trgicos anos, num ansiado terror. Tam ansiado e longo, que o seu
arrepio, como uma longa ondulao, se perptuou por toda a sua
descendncia--e  o vlho medo de Ado que nos torna inquietos, quando
atravessamos a mata mais segura na solido crepuscular.

E depois consideremos que ainda restavam pelo Paraso, entre bichos de
formas racionais, polidas, j preparadas para a prosa nobre de Mr. de
Buffon, alguns dos grotescos monstros que desonraram a Criao antes da
madrugada purificadora de 25 de Outubro. De-certo Jeov poupou a Ado o
degradante horror de viver no Paraso em companhia dessa escandalosa
avantesma a que os Paleontologistas, assombrados, deram o nome de
_Iguanodo_! Na vspera do advento do Homem, Jeov, muito caridosamente,
afogou todos os Iguanodes nos ldos de um pntano, a um canto escondido
do Paraso, onde hoje se estende a Flandres. Mas Ado e Eva ainda
conheceram os Pterodactilos. Oh! estes Pterodactilos!... Corpos de
Jacar, escamosos e penugentos; duas lgubres, negras, carnudas asas, de
morcego: um bico disparatado, mais grosso que o corpo, tristonhamente
cado, erriado de centenas de dentes, finos como os duma serra. E no
voava! Descia, de asas moles, e mudas, e nelas abafava a prsa como num
pano viscoso e gelado, para a retalhar toda com os estalados golpes das
mandbulas ftidas. E ste funambulesco avejo enturvava o cu do
Paraso com a mesma abundncia com que os melros ou as andorinhas cruzam
os santos ares de Portugal. Os dias de nossos Pais venerveis foram por
les torturados;--e nunca o seu pobre corao tremia tanto como quando,
de alm dos montes, se vinha despenhado, com sinistro estridor de asas e
bicos, a revoada dos Pterodactilos.

Como sobreviveram nossos Pais, neste Jardim de Delcias? De-certo muito
faiscou e trabalhou a espada do Anjo que os guardava!


Pois bem, meus amigos! A todos stes furiosos seres deve o homem a sua
carreira triunfal. Sem os Surios, e os Pterodactilos, e a Hiena Spelea,
e o arrepiado terror que espalhavam, e a necessidade de ter, contra o
seu ataque, sempre bestial, uma defesa sempre racional--a Terra
permaneceria um temeroso Paraso, onde erraramos todos, desgrenhados e
nus, chupando pela borda dos mares as banhas cruas de monstros
naufragados. Ao encolhido medo de Ado se deve a supremacia da sua
descendncia. Foi o bicho perseguidor que o forou a subir aos cimos da
Humanidade. E bem sabedores das Origens se mostraram os poetas
Mesopotmicos do Gnesis, nesses versculos subtis em que um animal, e o
mais perigoso, a Serpente, leva Ado, por amor de Eva, a colher o fruto
do Saber! Se no rugisse outrora o Leo das cavernas, no trabalhava
hoje o Homem das cidades--pois que a Civilizao nasceu do desesperado
esfro defensivo contra o Inanimado e o Inconsciente. A Sociedade 
realmente a obra da fra. Que a Hiena e o Tigre, no Paraso, comeassem
por acariciar lnguidamente o ombro peludo de Ado com pata amiga--Ado
ficaria irmo do Tigre e da Hiena, partilhando as suas tocas, as suas
prsas, os seus cios, os seus gostos bravios. E a Energia
Inteligente, que o descera da rvore, em breve se apagaria dentro da sua
bruteza inerte, como se apaga a faisca, mesmo entre galhos secos, se um
frio spro, vindo de um buraco escuro, no a estimula a viver, para
vencer a friagem e vencer a escurido.

Mas uma tarde (como ensinaria o exacto Usserius) sando Ado e Eva da
espessura dum bosque, um urso enorme, o Pai dos Ursos, apareceu diante
dles, ergueu as negras patas, escancarou a goela sangrenta... Ento,
assim colhido, sem refgio, na apertada nsia de defender a sua fmea, o
Pai dos Homens arremessou contra o Pai dos Ursos o cajado a que se
arrimava, um forte galho de tca, arrancado na mata, que findava em
lasca aguda... E o pau atravessou o corao da fra.


Ah! Desde essa tarde bemdita houve verdadeiramente, sbre a terra, um
Homem.

Era j um Homem, e superior, quando lanou um passo espantado, e
arrancou o pau do seio do monstro estendido, e lhe mirou a ponta
gotejante de sangue--com a testa toda franzida, no af de compreender.
Os seus olhos resplandeceram, num deslumbrado triunfo. Ado
compreendera...

Nem cuidou mais da boa carne do urso! Remergulhou na floresta, e toda a
tarde, emquanto a luz se arrastou pelas frondes, arrancou ramos aos
troncos, cautelosamente, destramente, para que as pontas quebrassem bem
lascadas e agudas. Ah! que soberbo estalar de hastes, pelo fundo bosque,
atravs da frescura e da sombra, para a obra da primeira Redeno! Selva
amvel, que foste a primeira oficina, quem soubera onde jazes, na tua
secular sepultura, tornada negro carvo!... Quando da mata largaram,
fumegando de suor, para recolher  toca distante, nossos Pais venerveis
vergavam sob o pso glorioso de dois grossos mlhos de armas.

E ento no cessam mais os feitos do Homem. Ainda os corvos e os chacais
no tinham esburgado a carcassa do Pai dos Ursos--j nosso Pai racha uma
ponta do seu cajado vitorioso; entala na fenda um dsses seixos afiados
e bicudos, em que por vezes se feriam as suas patas, descendo  beira
dos rios; e segura o fino estilhao na racha com os lios, muito
arrochados, de uma fibra de enredia sca. E eis a lana! Como essas
pedras no abundam, Ado e Eva ensangentam as garras, tentando fender
os pedreges redondos de slex em lascas curtas, que venham perfeitas,
com ponta e com gume, para rasgar, cravar. A pedra resiste, pouco
desejosa de ajudar o Homem que, nos dias genesacos do grande
Outubro, ela tentara suplantar (como contam as prodigiosas Crnicas de
Backun).--Mas de novo lampeja a face de Ado, numa idea que o sulca,
como faisca emanada da Eterna Sabedoria. Apanha um pedregulho, bate a
rocha, arranca a lasca... E eis o martelo!

Depois, noutra tarde bemdita, costeando uma escura e bravia colina,
descobre, com aqueles seus olhos que j rebuscam e comparam, um calhau
negro, spero, facetado, sombriamente luzidio. Pasma do seu pso--e logo
pressente nele um mao superior, de decisiva rijeza. Com que alvoroo o
leva agarrado contra o peito, para martelar o slex rebelde! Ao lado de
Eva, que o espera  beira do rio, logo malha rijamente sbre a
pederneira... E oh espanto! uma fagulha salta, refulge, morre! Ambos
recam, se entreolham, num terror qusi sagrado!  um lume, um vivo
lume, que le assim arrancou com as suas mos da rocha bruta--semelhante
ao lume vivo que dardeja de entre as nuvens. De novo bate, a tremer. A
scentelha brilha, a scentelha passa, e Ado remira e fareja o escuro
calhau. Mas no compreende. E pensativos, nossos Pais venerveis sobem,
com os cabelos ao vento, para a sua caverna costumada, que  no pendor
dum crro, junto duma fonte borbulhando entre ftos.

E a, no seu retiro, Ado, com uma curiosidade onde lateja uma
esperana, novamente entala o slex, grosso como uma abbora, entre os
calosos ps, e recomea a martelar, sob o bafo de Eva, que se debrua e
arfa. Sempre a falha salta, rebrilha na sombra, tam refulgente como
aqueles lumes que agora palpitam, olham, de alm, das alturas. Mas sses
lumes permanecem, atravs da negrura do cu e da noite, vivos, a
espreitar, na sua radincia. E aquelas estrelinhas da pedra ainda no
tem vivido e j teem morrido... Ser o vento que as leva, le que tudo
leva, vozes, nuvens e flhas? Nosso Pai venervel, fugindo do vento
malvolo que ronda no monte, reca at ao fundo mais abrigado da
caverna, onde se affam as camadas de feno muito sco, que so o seu
leito. E de novo fere a pedra, despedindo scentelha apoz scentelha,
emquanto Eva, agachada, abriga com as mos aqueles refulgentes e
fugitivos seres. E eis que dos fenos um fumosinho se eleva, e se
engrossa, e se enrola, e atravs dle, vermelha, uma chama ressalta... 
o Fogo! Nossos Pais fogem espavoridamente da caverna, obscurecida por
uma fumaraa cheirosa, onde flamejam alegres, rutilantes lnguas, que
lambem a rocha. Acocorados  porta da toca, ambos arquejam, no pasmo e
terror da sua obra, com os olhos a chorar do fumo acre. E, mesmo
atravs do susto e do espanto, sentem uma doura muito nova que os
penetra e que vem daquela luz e vem daquele calor... Mas j o fumo se
escapou da caverna, o vento roubador o levou. As chamas rastejam,
incertas, azuladas: em breve s resta um borralho que descra, se
acinzenta, se abate em cisco: e a derradeira falha corre, tremeluz,
passa. O fogo morreu! Ento, na alma nascente de Ado, entra a dor duma
runa. Desesperadamente puxa os grossos beios e geme. Saber le
jmais recomear o feito maravilhoso?... E  nossa Me, j consoladora,
que o consola. Com as suas rudes mos comovidas, porque realiza sbre a
terra a sua primeira obra, junta outro monto de fenos scos, pousa
entre les o slex redondo, toma o escuro calhau, bate rijamente, num
falhar de estrelinhas. E de novo o fumo rola, e de novo a chama
refulge. Oh triunfo! eis a fogueira, a fogueira inicial do Paraso, e
no casualmente rebentada, mas acendida por uma clara Vontade, que agora
para todo sempre, cada noite e cada manh, poder repetir com segurana
a faanha suprema!

 nossa Me Venervel pertence ento, na caverna, a doce e augusta
tarefa do Lume. Ela o cria, ela o nutre, ela o defende, ela o perpeta.
E, como me deslumbrada, descobre cada dia, nesse resplandecente filho
dos seus cuidados, uma virtude ou graa nova. Agora j Ado sabe
que o _seu_ fogo espanta todas as fras e que no Paraso existe emfim um
buraco seguro, que  o _seu_ buraco! No s seguro, mas amvel--porque o
lume o alumia, o aquece, o alegra, o purifica. E quando Ado, com um
mlho de lanas, desce  plancie ou se embrenha na selva a caar a
prsa, j mata com redobrada nsia, para recolher depressa quela boa
segurana e consolao do lume. Ah! que docemente le o penetra, e lhe
sca no plo a friagem dos matos, e doura como um sol a penedia da sua
toca! E depois ainda lhe prende os olhos, e o enleva, e o guia num
scismar fecundo, em que inspiradamente lhe aparecem formas de flexas,
malhos com cabos, ossos recurvos que fisgam os peixes, lascas dentadas
que serram o pau!...  sua fmea forte deve Ado esta hora criadora!

E quanto lhe no deve a Humanidade! Recordemos, meus irmos, que nossa
Me, com aquela adivinhao superior que mais tarde a tornou Profetiza e
Sibila, no hesitou, quando a Serpente lhe disse, coleando entre as
Rosas:--Come do fruto do Saber, que os teus olhos se abriro, e sers
como os Deuses sabedores! Ado teria comido a serpente, bocado mais
suculento. Nem acreditaria em frutos que comunicam a Divindade e
Sapincia, le que tanta fruta comera nas rvores, e se conservava
insciente e bestial como o urso e o auroque. Eva, porm, com a
credulidade sublime que sempre no mundo opra as transformaes
sublimes, comeu logo a ma, e a casca, e a pevide. E persuadindo Ado a
que partilhasse do transcendente pmo, muito dce e enredosamente o
convenceu do proveito, da felicidade, da glria e da fra que d o
Saber! Esta alegoria dos poetas do Gnesis com esplndida subtileza nos
revela a imensa obra de Eva nos anos dolorosos do Paraso. Por ela Deus
continua a Criao superior, a do Reino espiritual, a que desenrola
sbre a terra o lar, a famlia, a trbu, a cidade.  Eva que cimenta e
bate as grandes pedras angulares na construo da Humanidade.

Seno, vde! Quando o bravio caador recolhe  caverna, derreado sob o
pso da caa morta, cheirando todo a selva, e a sangue, e a fra,  le,
de-certo, que esfola a rs com a faca de pedra, e retalha as postas, e
esburga os ossos (que sfregamente guarda sob a cxa e reserva para a
sua rao, porque contm a moela preciosa). Mas Eva junta essa pele,
cuidadosamente, s outras peles armazenadas; esconde os ossos partidos,
porque as suas lascas agudas pregam e furam; e numa cavidade da rocha
fresca guarda a carne que sobejou. Ora em breve uma dessas fartas
postas esquece, cada junto  fogueira perptua. O lume alastra,
lentamente lambe a carne pelo lado mais gordo, at que um cheiro,
desconhecido e saboroso, afaga e alarga as rudes narinas de nossa Me
venervel. De onde vem le, o gostoso aroma? Do fogo, onde a posta de
veado ou de lebre grelha e rechina. Ento Eva, inspirada e grave,
empurra a carne para a braza viva; e espera, ajoelhada, at que a espeta
com uma ponta de osso, e a retira da chama ruidosa, e a trinca, em
sombrio silncio. Os seus olhos rebrilhantes anunciam outra conquista.
E, com a pressa amorosa com que oferece a Ma a Ado, lhe apresenta
agora aquela carne tam nova, que le cheira desconfiado, e depois devora
a rijas dentadas, roncando de gzo! E eis que, por ste pedao de gamo
assado, nossos Pais sobem vitoriosamente outro escalo da Humanidade!

A gua ainda a bebem na nascente vizinha, entre os ftos, com a face
mergulhada no veio claro. Depois de beber, Ado, arrimado  sua grossa
lana, olha ao longe o rolar do rio lento, os montes coroados de neve ou
de lume, o sol sbre o mar--pensando, com arrastado pensar, se nessas
terras que se estendem, se escondem para alm, a prsa ser mais certa e
as selvas menos cerradas. Mas Eva recolhe logo  caverna, para se
entregar, sem descanso, a uma tarefa que a encanta. Encruzada no
cho, toda atenta sob a cma crespa, nossa Me fura, com um ossinho
agudo, buracos finos na orla duma pele, e depois na orla doutra pele. E,
tam embebida que nem sente Ado entrar e remexer nas suas armas, une as
duas peles sobrepostas, passando atravs dos buracos uma delgada fibra
das algas que secam diante do lume. Ado considera com desdm sse
trabalho miudo que no acrescenta fra  sua fra. No pressente
ainda, o bruto Pai, que aquelas peles cosidas sero o resguardo do seu
corpo, a armao da sua tenda, o saco do seu farnel, o dre da sua gua,
e o tambor em que bata quando fr um Guerreiro, e a pgina em que
escreva quando fr um Profeta!

Outros gostos e modos de Eva o irritam tambm: e por vezes, com uma
desumanidade que  j toda humana, nosso Pai arrebata pelos cabelos a
sua fmea, e a derruba, e a pisa sob a pata calosa. Assim um furor o
tomou uma tarde, avistando, no regao de Eva, sentada diante da
fogueira, um cachorrinho mole e trpego, que ela, com carinho e
pacincia, ensinava a sugar numa febra de carne fresca.  beira da fonte
descobrira o cachorrinho perdido e ganindo; e muito mansamente o
recolhera, o aquecera, o alimentara, com uma sensao que lhe era doce,
e lhe abria na espessa bca, ainda mal sabedora de sorrir, um
sorriso de maternidade. Nosso Pai venervel, com as pupilas a reluzir,
atira a garra, quer devorar o cachorro que entrara na sua toca. Mas Eva
defende o animal pequenino, que treme e que a lambe. O primeiro
sentimento de Caridade, informe como a primeira flor que brotou dos
limos, aparece na terra! E, com as curtas e roucas vozes que eram o
falar de nossos Pais, Eva tenta talvez afianar que ser til, na
caverna do homem, a amizade dum bicho... Ado puxa o beio trombudo.
Depois, em silncio, mansamente, corre os dedos pelo lombo macio do
cachorrinho encolhido. E ste , na Histria, um momento espantoso! Eis
que o Homem domestca o Animal! Dsse cachorro agasalhado no Paraso
nascer o co amigo, por le a aliana com o cavalo, depois o domnio
sbre a ovelha. O rebanho crescer; o pastor o levar; o co fiel o
guardar. Eva, da beira do seu lume, prepara os povos errantes que
pastoreiam os gados.

Depois, naquelas longas manhs em que Ado bravio caava, Eva, errando
de vale a monte, apanhava conchas, ovos de aves, curiosas razes,
sementes, com o gsto de acumular, de abastecer a sua toca de riquezas
novas, que escondia nas fendas da rocha. Ora um punhado dessas sementes
cara, atravs dos seus dedos, sbre terra hmida e negra, quando
recolhia pela beira da fonte. Uma ponta verde brotou; depois uma haste
cresceu; depois uma espiga amadurou. Os seus gros so gostosos. Eva,
pensativa, enterra outras sementes, na esperana de criar em trno do
seu lar, num bocado do seu torro, altas ervas que espiguem, e lhe
tragam o gro adocicado e tenro... E eis a seara! E assim nossa Me
torna possveis, do fundo do Paraso, os povos estveis que lavram a terra.


No entanto, bem podemos supr que Abel nasceu--e, uns aps outros, os
dias deslizam no Paraso, mais seguros e fceis. J os vulces
lentamente se vo apagando. As rochas no se despenham j com fragor
sbre a abundncia inocente dos vales. Tam amansadas andam as guas, que
na sua transparncia se miram, com demora e cuidado, as nuvens e os
ramos dos olmos. Raramente um Pterodactilo macla, com o escndalo do
seu bico e das suas asas, os cus, onde o sol alterna com a bruma, e os
estios se franjam de chuvas ligeiras. E nesta tranqilidade que se
estabelece h como uma submisso consciente. O Mundo pressente e aceita
a supremacia do Homem. A floresta j no arde com a leviandade do
restolho, sabendo que em breve o Homem lhe pedir a estaca, a trave, o
rmo, o mastro. O vento, nas gargantas da serra, brandamente se
disciplina, e ensaia os sopros regulares com que trabalhar a m do
moinho. O mar afogou os seus monstros, e estira o dorso preparado para o
cortar da quilha. A terra torna estvel a sua gleba, e molemente se
humedece, para quando chegar o arado e a semente. E todos os metais se
alinham em filo, e alegremente se dispem para o fogo que lhes dar
forma e beleza.

E pela tarde Ado recolhe contente, com caa abundante. A lareira
flameja: e alumia a face de nosso Pai, que o esfro da Vida embelezou,
onde j os beios se adelgaaram, e a testa se encheu com o lento
pensar, e os olhos sossegaram num brilho mais certo. O anho, espetado
num pau, assa e pinga nas brasas. No cho pousam cascas de cco, cheias
de clara gua da fonte. Uma pele de urso tornou macio o leito de fetos.
Outra pele, pendurada, abriga a bca da caverna. A um canto, que  a
oficina, esto os montes de slex e o malho: a outro canto, que  o
arsenal, esto as lanas e as clavas. Eva torce os fios duma l de
cabra. Ao bom calor, sbre folhelho, dorme Abel, muito gordo, todo n,
com um plo mais ralo na carninha mais branca. Partilhando do folhelho
e do mesmo calor, vela o co, j crescido, com o lho amorvel, o
focinho entre as patas. E Ado (oh, a estranha tarefa!) muito absorto,
tenta gravar, com uma ponta de pedra, sbre um osso largo, os galhos, o
dorso, as pernas estiradas dum veado a correr!... A lenha estala. Todas
as estrlas do cu esto presentes. Deus, pensativo, contempla o crescer
da Humanidade.


E agora que acendi, na noite estrelada do Paraso, com galhos bem scos
da rvore da Scincia, ste verdico lar, consenti que vos deixe, oh
Pais venerveis!

J no receio que a Terra instvel vos esmague; ou que as feras
superiores vos devorem; ou que, apagada,  maneira duma lmpada
imperfeita, a Energia que vos trouxe da Floresta, vs retrogradeis 
vossa rvore. Sois j irremediavelmente humanos--e cada manh
progredireis, com tam poderoso arremsso, para a perfeio do Corpo e
esplendor da Razo, que em breve, dentro dumas centenas de milhares de
curtos anos, Eva ser a formosa Helena e Ado ser o imenso Aristteles!

Mas no sei se vos felicite, oh Pais venerveis! Outros irmos vossos
ficaram na espessura das rvores--e a sua vida  doce.

Todas as manhs o Orangotango acorda entre os seus lenis de flhas de
pendnia, sbre o ffo colcho de musgos que le, com cuidado, acamou
por cima dum catre de ramos cheirosos. Lnguidamente, sem cuidados,
preguia na moleza dos musgos, escutando as lmpidas rias dos pssaros,
gozando os fios do sol que se emmaranham por entre a renda das flhas, e
lambendo no plo dos seus braos o orvalho aucarado. Depois de bem se
coar e bem se esfregar, sobe com pachorra  rvore dilecta, que elegeu
em todo o bosque pela sua frescura, pela elasticidade embaladora das
suas ramagens. Da, tendo respirado as brisas carregadas de aromas,
salta, com lestos pulos, atravs das sempre fceis, sempre fartas
ucharias do bosque, onde almoa a banana, a manga, a goiaba, todos os
finos frutos que o tornam tam so e alheio a males como as rvores onde
os colheu. Percorre ento, sociavelmente, as ruas e as vielas palreiras
da espessura; cabriola com destros amigos, em jogos amveis de ligeireza
e fra; galanteia as Orangas gentis que o catam, e penduradas com le,
duma liana florida, se balanam chalrando; trota, entre alegres ranchos,
pela borda das guas claras; ou, sentado na ponta dum ramo, escuta algum
vlho e facundo chimpanz contando divertidas histrias de caa, de
viagens, de amores e de troas s feras pesadas, que circulam nas
relvas e no podem trepar. Cedo recolhe  sua rvore, e, estendido na
folhosa rde, brandamente se abandona  delcia de sonhar, num sonho
acordado, semelhante s nossas Metafsicas e s nossas Epopeias, mas que
rolando todo sbre sensaes reais, , ao contrrio dos nossos incertos
sonhos, um sonho todo feito de certeza. Por fim a Floresta lentamente se
cala, a sombra escorrega entre os troncos:--e o Orango ditoso desce ao
seu catre de pendnias e musgos, e adormece na imensa paz de Deus--de
Deus que le nunca se cansou em comentar, nem sequer em negar, e que
todavia sbre le derrama, com imparcial carinho, os bens inteiros da
sua Misericrdia.

Assim ocupou o seu dia o Orango, nas rvores. E no entanto, como
gastou, nas Cidades, o seu dia, o Homem, primo do Orango? Sofrendo--por
ter os dons superiores que faltam ao Orango! Sofrendo--por arrastar
consigo, irresgatavelmente, sse mal incurvel que  a sua Alma!
Sofrendo--porque nosso Pai Ado, no terrvel dia 28 de Outubro, depois
de espreitar e farejar o Paraso, no ousou declarar reverentemente ao
Senhor:--Obrigado, oh meu doce Criador; d o governo da Terra a quem
melhor escolheres, ao Elefante ou ao Cangur, que eu por mim, bem
mais avisado, volto j para a minha rvore!...

Mas, emfim, desde que nosso Pai venervel no teve a previdncia ou a
abnegao de declinar a grande supremacia--continuemos a reinar sbre a
Criao e a ser sublimes... Sobretudo continuemos a usar,
insaciavelmente, do dom melhor que Deus nos concedeu entre todos os
dons, o mais puro, o nico genunamente grande, o dom de o amar--pois
que no nos concedeu tambm o dom de o compreender. E no esqueamos que
le j nos ensinou, atravs de vozes levantadas em Galilea, e sob as
mangueiras de Veluvana, e nos vales severos de Yen-Chou, que a melhor
maneira de o amar  que uns aos outros nos amemos, e que amemos toda a
sua obra, mesmo o verme, e a rocha dura, e a raiz venenosa, e at sses
vastos seres que no parecem necessitar o nosso amor, sses Sis, sses
Mundos, essas esparsas Nebuloses, que, inicialmente fechadas, como ns,
na mo de Deus, e feitas da nossa substncia, nem de-certo nos amam--nem
talvez nos conhecem.




A AIA


Era uma vez um rei, mo e valente, senhor de um reino abundante em
cidades e searas, que partira a batalhar por terras distantes, deixando
solitria e triste a sua ranha e um filhinho, que ainda vivia no seu
bero, dentro das suas faixas.

A lua cheia que o vira marchar, levado no seu sonho de conquista e de
fama, comeava a minguar--quando um dos seus cavaleiros apareceu, com as
armas rtas, negro do sangue sco e do p dos caminhos, trazendo a
amarga nova de uma batalha perdida e da morte do rei, traspassado por
sete lanas entre a flor da sua nobreza,  beira de um grande rio.

A ranha chorou magnficamente o rei. Chorou ainda desoladamente o
espso, que era formoso e alegre. Mas, sobretudo, chorou ansiosamente o
pai que assim deixava o filhinho desamparado, no meio de tantos inimigos
da sua frgil vida e do reino que seria seu, sem um brao que o
defendesse, forte pela fra e forte pelo amor.

Dsses inimigos o mais temeroso era seu tio, irmo bastardo do rei,
homem depravado e bravio, consumido de cobias grosseiras, desejando s
a rialeza por causa dos seus tesoiros, e que havia anos vivia num
castelo sbre os montes, com uma horda de rebeldes,  maneira de um lbo
que, de atalaia no seu fojo, espera a prsa. Ai! a prsa agora era
aquela criancinha, rei de mama, senhor de tantas provncias, e que
dormia no seu bero com seu guiso de oiro fechado na mo!

Ao lado dle, outro menino dormia noutro bero. Mas ste era um
escravosinho, filho da bela e robusta escrava que amamentava o prncipe.
Ambos tinham nascido na mesma noite de vero. O mesmo seio os criava.
Quando a ranha, antes de adormecer, vinha beijar o principesinho, que
tinha o cabelo louro e fino, beijava tambm por amor dle o
escravosinho, que tinha o cabelo negro e crespo. Os olhos de ambos
reluziam como pedras preciosas. Smente, o bero de um era magnfico e
de marfim entre brocados--e o bero do outro pobre e de vrga. A
leal escrava, porm, a ambos cercava de carinho igual, porque se um era
o seu filho--o outro seria o seu rei.

Nascida naquela casa rial, ela tinha a paixo, a religio dos seus
senhores. Nenhum pranto correra mais sentidamente do que o seu pelo rei
morto  beira do grande rio. Pertencia, porm, a uma raa que acredita
que a vida da terra se continua no cu. O rei seu amo, de-certo, j
estaria agora reinando num outro reino, para alm das nuvens, abundante
tambm em searas e cidades. O seu cavalo de batalha, as suas armas, os
seus pagens tinham subido com le s alturas. Os seus vassalos, que
fssem morrendo, prontamente iriam, nesse reino celeste, retomar em
trno dele a sua vassalagem. E ela um dia, por seu turno, remontaria num
raio de luz a habitar o palcio do seu senhor, e a fiar de novo o linho
das suas tnicas, e a acender de novo a caoleta dos seus perfumes;
seria no cu como fra na terra, e feliz na sua servido.

Todavia, tambm ela tremia pelo seu prncipesinho! Quantas vezes, com
le pendurado do peito, pensava na sua fragilidade, na sua longa
infncia, nos anos lentos que correriam antes que le fsse ao menos do
tamanho de uma espada, e naquele tio cruel, de face mais escura que
a noite e corao mais escuro que a face, faminto do trono, e
espreitando de cima do seu rochedo entre os alfanges da sua horda! Pobre
prncipesinho da sua alma! Com uma ternura maior o apertava ento nos
braos. Mas se o seu filho chalrava ao lado--era para le que os seus
braos corriam com um ardor mais feliz. sse, na sua indigncia, nada
tinha a recear da vida. Desgraas, assaltos da sorte m nunca o poderiam
deixar mais despido das glrias e bens do mundo do que j estava ali no
seu bero, sob o pedao de linho branco que resguardava a sua nudez. A
existncia, na verdade, era para le mais preciosa e digna de ser
conservada que a do seu prncipe, porque nenhum dos duros cuidados com
que ela ennegrece a alma dos senhores roaria sequer a sua alma livre e
simples de escravo. E, como se o amasse mais por aquela humildade
ditosa, cobria o seu corpinho gordo de beijos pesados e devoradores--dos
beijos que ela fazia ligeiros sbre as mos do seu prncipe.

No entanto um grande temor enchia o palcio, onde agora reinava uma
mulher entre mulheres. O bastardo, o homem de rapina, que errava no cimo
das serras, descera  plancie com a sua horda, e j atravs de casais e
aldeias felizes ia deixando um sulco de matana e runas. As portas da
cidade tinham sido seguras com cadeias mais fortes. Nas atalaias
ardiam lumes mais altos. Mas  defesa faltava disciplina viril. Uma roca
no governa como uma espada. Toda a nobreza fiel perecera na grande
batalha. E a ranha desventurosa apenas sabia correr a cada instante ao
bero do seu filhinho e chorar sbre le a sua fraqueza de viuva. S a
ama leal parecia segura--como se os braos em que estreitava o seu
prncipe fssem muralhas de uma cidadela que nenhuma audcia pode transpr.

Ora uma noite, noite de silncio e de escurido, indo ela a adormecer,
j despida, no seu catre, entre os seus dois meninos, adivinhou, mais
que sentiu, um curto rumor de ferro e de briga, longe,  entrada dos
vergeis riais. Embrulhada  pressa num pano, atirando os cabelos para
trs, escutou ansiosamente. Na terra areada, entre os jasmineiros,
corriam passos pesados e rudes. Depois houve um gemido, um corpo
tombando molemente, sbre lages, como um fardo. Descerrou violentamente
a cortina. E alm, ao fundo da galeria, avistou homens, um claro de
lanternas, brilhos de armas... Num relance tudo compreendeu--o palcio
surpreendido, o bastardo cruel vindo roubar, matar o seu prncipe!
Ento, rpidamente, sem uma vacilao, uma dvida, arrebatou o prncipe
do seu bero de marfim, atirou-o para o pobre bero de vrga--e tirando
o seu filho do bero servil, entre beijos desesperados, deitou-o no
bero rial que cobriu com um brocado.

Bruscamente um homem enorme, de face flamejante, com um manto negro
sbre a cota de malha, surgiu  porta da cmara, entre outros, que
erguiam lanternas. Olhou--correu ao bero de marfim onde os brocados
luziam, arrancou a criana, como se arranca uma blsa de oiro, e
abafando os seus gritos no manto, abalou furiosamente.

O prncipe dormia no seu novo bero. A ama ficara imvel no silncio e
na treva.

Mas brados de alarme atroaram de repente o palcio. Pelas janelas
perpassou o longo flamejar das tochas. Os ptios ressoavam com o bater
das armas. E desgrenhada, qusi nua, a ranha invadiu a cmara, entre as
aias, gritando pelo seu filho! Ao avistar o bero de marfim, com as
roupas desmanchadas, vazio, caiu sbre as lages, num choro, despedaada.
Ento calada, muito lenta, muito plida, a ama descobriu o pobre bero
de vrga... O prncipe l estava quieto, adormecido, num sonho que o
fazia sorrir, lhe iluminava toda a face entre os seus cabelos de oiro. A
me cau sbre o bero, com um suspiro, como cai um corpo morto.

E nesse instante um novo clamor abalou a galeria de mrmore. Era o
capito das guardas, a sua gente fiel. Nos seus clamores havia,
porm, mais tristeza que triunfo. O bastardo morrera! Colhido, ao fugir,
entre o palcio e a cidadela, esmagado pela forte legio de archeiros,
sucumbira, le e vinte da sua horda. O seu corpo l ficara, com flechas
no flanco, numa pa de sangue. Mas, ai! dor sem nome! O corposinho
tenro do prncipe l ficara tambm, envolto num manto, j frio, rxo
ainda das mos ferozes que o tinham esganado! Assim tumultuosamente
lanavam a nova cruel os homens de armas--quando a ranha, deslumbrada,
com lgrimas entre risos, ergueu nos braos, para lho mostrar, o
prncipe que despertara.

Foi um espanto, uma aclamao. Quem o salvara? Quem?... L estava junto
do bero de marfim vazio, muda e hirta, aquela que o salvara! Serva
sublimemente leal! Fra ela que, para conservar a vida ao seu prncipe,
mandara  morte o seu filho... Ento, s ento, a me ditosa, emergindo
da sua alegria esttica, abraou apaixonadamente a me dolorosa, e a
beijou, e lhe chamou irm do seu corao... E de entre aquela multido
que se apertava na galeria veio uma nova, ardente aclamao, com
splicas de que fsse recompensada magnficamente a serva admirvel que
salvara o rei e o reino.

Mas como? Que blsas de oiro podem pagar um filho? Ento um vlho
de casta nobre lembrou que ela fsse levada ao tesoiro rial, e
escolhesse de entre essas riquezas, que eram como as maiores dos maiores
tesoiros da ndia, todas as que o seu desejo apetecesse...

A ranha tomou a mo da serva. E sem que a sua face de mrmore perdesse
a rigidez, com um andar de morta, como num sonho, ela foi assim
conduzida para a Cmara dos Tesoiros. Senhores, aias, homens de armas,
seguiam, num respeito tam comovido que apenas se ouvia o roar das
sandlias nas lages. As espessas portas do Tesoiro rodaram lentamente.
E, quando um servo destrancou as janelas, a luz da madrugada, j clara e
rsea, entrando pelos gradeamentos de ferro, acendeu um maravilhoso e
faiscante incndio de oiro e pedrarias! Do cho de rocha at s sombrias
abbadas, por toda a cmara, reluziam, scintilavam, refulgiam os escudos
de oiro, as armas marchetadas, os montes de diamantes, as pilhas de
moedas, os longos fios de prolas, todas as riquezas daquele reino,
acumuladas por cem reis durante vinte sculos. Um longo _ah_, lento e
maravilhado, passou por sbre a turba que emmudecera. Depois houve um
silncio ansioso. E no meio da cmara, envolta na refulgncia preciosa,
a ama no se movia... Apenas os seus olhos, brilhantes e secos, se
tinham erguido para aquele cu que, alm das grades, se tingia de rosa e
de oiro. Era l, nesse cu fresco de madrugada, que estava agora o seu
menino. Estava l, e j o sol se erguia, e era tarde, e o seu menino
chorava de-certo, e procurava o seu peito!... E ento a ama sorriu e
estendeu a mo. Todos seguiam, sem respirar, aquele lento mover da sua
mo aberta. Que joia maravilhosa, que fio de diamantes, que punhado de
rubs, ia ela escolher?

A ama estendia a mo--e sbre um escabelo ao lado, entre um molho de
armas, agarrou um punhal. Era um punhal de um vlho rei, todo cravejado
de esmeraldas, e que valia uma provncia.

Agarrara o punhal, e com le apertado fortemente na mo, apontando para
o cu, onde subiam os primeiros raios do sol, encarou a ranha, a
multido, e gritou:

--Salvei o meu prncipe, e agora--vou dar de mamar ao meu filho!

E cravou o punhal no corao.




O DEFUNTO


I

No ano de 1474, que foi por toda a Cristandade tam abundante em mercs
divinas, reinando em Castela el-rei Henrique IV, veio habitar na cidade
de Segvia, onde herdara moradias e uma horta, um cavaleiro moo, de
muito limpa linhagem e gentil parecer, que se chamava D. Rui de Cardenas.

Essa casa, que lhe legara seu tio, arcediago e mestre em cnones, ficava
ao lado e na sombra silenciosa da igreja de Nossa Senhora do Pilar; e,
em frente, para alm do adro, onde cantavam as trs bicas de um chafariz
antigo, era o escuro e gradeado palcio de D. Alonso de Lara, fidalgo de
grande riqueza e maneiras sombrias, que j na madureza da sua
idade, todo grisalho, desposara uma menina falada em Castela pela sua
alvura, cabelos cr de sol claro, e colo de gara rial. D. Rui tivera
justamente por madrinha, ao nascer, Nossa Senhora do Pilar, de quem
sempre se conservou devoto e fiel servidor; ainda que, sendo de sangue
bravo e alegre, amava as armas, a caa, os saraus bem galanteados, e
mesmo por vezes uma noite ruidosa de taverna com dados e picheis de
vinho. Por amor, e pelas facilidades desta santa vizinhana, tomara le
o piedoso costume, desde a sua chegada a Segvia, de visitar todas as
manhs,  hora de Prima, a sua divina madrinha e de lhe pedir, em trs
_Ave-Marias_, a bno e a graa.

Ao escurecer, mesmo depois de alguma rija correria por campo e monte com
lebreus ou falco, ainda voltava para,  saudao de Vsperas, murmurar
docemente uma _Salve-Ranha_.

E todos os domingos comprava no adro, a uma ramalheteira mourisca, algum
ramo de junquilhos, ou cravos, ou rosas singelas, que espalhava, com
ternura e cuidado galante, em frente ao altar da Senhora.

A esta venerada igreja do Pilar vinha tambm cada domingo D. Leonor, a
tam falada e formosa mulher do senhor de Lara, acompanhada por uma aia
carrancuda, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, e
por dois possantes lacaios que a ladeavam e guardavam como trres. Tam
ciumento era o senhor D. Alonso que, s por lho haver severamente
ordenado o seu confessor, e com medo de ofender a Senhora, sua vizinha,
permitia esta visita fugitiva, a que le ficava espreitando
sfregamente, de entre as rexas de uma gelosia, os passos e a demora.
Todos os lentos dias da lenta semana os passava a senhora D. Leonor no
encrro do gradeado solar de granito negro, no tendo, para se recrear e
respirar, mesmo nas calmas do estio, mais que um fundo de jardim
verde-negro, cercado de tam altos muros, que apenas se avistava,
emergindo dles, aqui, alm, alguma ponta de triste cipreste. Mas essa
curta visita a Nossa Senhora do Pilar bastou para que D. Rui se
namorasse dela tresloucadamente, na manh de maio em que a viu de
joelhos ante o altar, numa rstea de sol, aureolada pelos seus cabelos
de oiro, com as compridas pestanas pendidas sbre o livro de Horas, o
rosrio cando de entre os dedos finos, fina toda ela e macia, e branca,
de uma brancura de lrio aberto na sombra, mais branca entre as rendas
negras e os negros setins que  volta do seu corpo cheio de graa se
quebravam, em pregas duras, sbre as lages da capela, vlhas lages de
sepulturas. Quando depois dum momento de enleio e de delicioso
pasmo se ajoelhou, foi menos para a Virgem do Pilar, sua divina
Madrinha, do que para aquela apario mortal, de quem no sabia o nome
nem a vida, e s que por ela daria vida e nome, se ela se rendesse por
tam incerto preo. Balbuciando, com uma prece ingrata, as trs
Ave-Marias com que cada manh sadava Maria, apanhou o seu sombreiro,
desceu levemente a nave sonora e no portal se quedou, esperando por ela
entre os mendigos lazarentos que se catavam ao sol. Mas quando ao cabo
de um tempo, em que D. Rui sentiu no corao um desusado bater de
ansiedade e medo, a senhora D. Leonor passou e se deteve, molhando os
dedos na pia de mrmore de gua benta, os seus olhos sob o vu descido,
no se ergueram para le, ou tmidos ou desatentos. Com a aia de olhos
muito abertos colada aos vestidos, entre os dois lacaios, como entre
duas trres, atravessou vagarosamente o adro, pedra por pedra, gozando
de-certo, como encarcerada, o desafogado ar e o livre sol que o
inundavam. E foi um espanto para D. Rui quando ela penetrou na sombria
arcada, de grossos pilares, sbre que assentava o palcio, e desapareceu
por uma esguia porta recoberta de ferragens. Era, pois, essa a tam
falada D. Leonor, a linda e nobre senhora de Lara...

Ento comearam sete arrastados dias, que le gastou sentado a um
poial da sua janela, considerando aquela negra porta recoberta de
ferragens como se fsse a do Paraso, e por ela devesse sar um anjo
para lhe anunciar a Bemaventurana. At que chegou o vagaroso domingo: e
passando le no adro,  hora de Prima, ao repicar dos sinos, com um
mlho de cravos amarelos para a sua divina Madrinha, cruzou D. Leonor,
que saa de entre os pilares da escura arcada, branca, doce e pensativa,
como uma lua de entre nuvens. Os cravos qusi lhe caram naquele gostoso
alvoroo em que o peito lhe arfou mais que um mar, e a alma toda lhe
fugiu em tumulto atravs do olhar com que a devorava. E ela ergueu
tambm os olhos para D. Rui, mas uns olhos repousados, uns olhos
serenos, em que no luzia curiosidade, nem mesmo conscincia de se
estarem trocando com outros, tam acesos e ennegrecidos pelo desejo. O
mo cavalheiro no entrou na igreja, com piedoso receio de no prestar
 sua Madrinha divina a ateno, que de-certo lhe roubaria toda aquela
que era s humana, mas dona j do seu corao, e nele divinizada.

Esperou sfregamente  porta, entre os mendigos, secando os cravos com o
ardor das mos trmulas, pensando quanto era demorado o rosrio que ela
rezava. Ainda D. Leonor descia a nave, j le sentia dentro da alma
o doce rugir das sedas fortes que ela arrastava nas lages. A branca
senhora passou--e o mesmo distraido olhar, desatento e calmo, que
espalhou pelos mendigos e pelo adro, o deixou escorregar sbre le, ou
porque no compreendesse aquele moo que de repente se tornara tam
plido, ou porque no o diferenciava ainda das cousas e das formas
indiferentes.

D. Rui abalou, com um fundo suspiro; e, no seu quarto, ps devotamente
ante a imagem da Virgem as flores que no oferecera, na igreja, ao seu
altar. Toda a sua vida se tornou ento um longo queixume por sentir tam
fria e desumana aquela mulher, nica entre as mulheres, que prendera e
tornara srio o seu corao ligeiro e errante. Numa esperana, a que
antevia bem o desengano, comeou a rondar os muros altos do jardim--ou
embuado numa capa, com o ombro contra uma esquina, lentas horas se
quedava contemplando as grades das gelosias, negras e grossas como as
dum crcere. Os muros no se fendiam, das grades no saa sequer um
rasto de luz prometedora. Todo o solar era como um jazigo onde jazia uma
insensvel, e por trs das frias pedras havia ainda um frio peito. Para
se desafogar comps, com piedoso cuidado, em noites veladas sbre o
pergaminho, trovas gementes que o no desafogavam. Diante do altar
da Senhora do Pilar, sbre as mesmas lages onde a vira ajoelhada,
pousava le os joelhos, e ficava, sem palavras de orao, num scismar
amargo e doce, esperando que o seu corao serenasse e se consolasse,
sob a influncia de Aquela que tudo consola e serena. Mas sempre se
erguia mais desditoso e tendo apenas a sensao de quanto eram frias e
rgidas as pedras sbre que ajoelhara. O mundo todo s lhe parecia
conter rigidez e frieza.

Outras claras manhs de domingo encontrou D. Leonor: e sempre os olhos
dela permaneciam descuidados e como esquecidos, ou quando se cruzavam
com os seus era tam singelamente, tam limpos de toda a emoo, que D.
Rui os preferiria ofendidos e faiscando de ira, ou soberbamente
desviados com soberbo desdm. De-certo D. Leonor j o conhecia:--mas,
assim, conhecia tambm a ramalheteira mourisca agachada diante do seu
csto  beira da fonte; ou os pobres que se catavam ao sol diante do
portal da Senhora. Nem D. Rui j podia pensar que ela fsse desumana e
fria. Era apenas soberanamente remota, como uma estrla que nas alturas
gira e refulge, sem saber que, em baixo, num mundo que ela no
distingue, olhos que ela no suspeita a contemplam, a adoram e lhe
entregam o govrno da sua ventura e sorte.

Ento D. Rui pensou:

--Ela no quer, eu no posso: foi um sonho que findou, e Nossa Senhora a
ambos nos tenha na sua graa!

E como era cavaleiro muito discreto, desde que a reconheceu assim
inabalvel na sua indiferena, no a procurou, nem sequer ergueu mais os
olhos para as grades das suas janelas, e at nem penetrava na igreja de
Nossa Senhora quando casualmente, do portal, a avistava ajoelhada, com a
sua cabea tam cheia de graa e de oiro, pendida sbre o Livro de Horas.


II

A vlha aia, de olhos mais abertos e duros que os de uma coruja, no
tardara em contar ao senhor de Lara que um mo audaz, de gentil
parecer, novo morador nas vlhas casas do arcediago, constantemente se
atravessava no adro, se postava diante da igreja para atirar o corao
pelos olhos  senhora D. Leonor. Bem amargamente o sabia j o ciumento
fidalgo, porque quando da sua janela espreitava, como um falco, a
airosa senhora a caminho da igreja, observara os giros, as esperas, os
olhares dardejados daquele mo galante--e puxara as barbas de
furor. Desde ento, na verdade, a sua mais intensa ocupao era odiar D.
Rui, o impudente sobrinho do cnego, que ousava erguer o seu baixo
desejo at  alta senhora de Lara. Constantemente agora o trazia vigiado
por um servial--e conhecia todos os seus passos e pousos, e os amigos
com quem caava ou folgava, e at quem lhe talhava os gibes, e at quem
lhe polia a espada, e cada hora do seu viver. E mais ansiosamente ainda
vigiava D. Leonor--cada um dos seus movimentos, os mais fugitivos modos,
os silncios e o conversar com as aias, as distraces sbre o bordado,
o geito de scismar sob as rvores do jardim, e o ar e a cr com que
recolhia da igreja... Mas tam inalteradamente serena no seu sossgo de
corao se mostrava a senhora D. Leonor que nem o ciume mais imaginador
de culpas poderia achar manchas naquela pura neve. Redobradamente spero
ento se voltava o rancor de D. Alonso contra o sobrinho do cnego por
ter apetecido aquela pureza, e aqueles cabelos cr de sol claro, e
aquele colo de gara rial, que eram s seus, para esplndido gsto da
sua vida. E quando passeava na sombria galeria do solar, sonora e toda
de abbada, embrulhado na sua samarra orlada de peles, com o bico da
barba grisalha espetado para diante, a grenha crespa erriada para trs
e os punhos cerrados, era sempre remoendo o mesmo fel:

--Tentou contra a virtude dela, tentou contra a minha honra...  culpado
por duas culpas e merece duas mortes!

Mas ao seu furor qusi se misturou um terror, quando soube que D. Rui j
no esperava no adro a senhora D. Leonor, nem rondava amorosamente os
muros do palacete, nem penetrava na igreja quando ela l rezava, aos
domingos; e que tam inteiramente se alheava dela que uma manh, estando
rente da arcada, e sentindo bem ranger e abrir a porta por onde a
senhora ia aparecer, permanecera de costas voltadas, sem se mover, rindo
com um cavaleiro gordo que lhe lia um pergaminho. Tam bem afectada
indiferena s servia de-certo (pensou D. Alonso) a esconder alguma bem
danada teno! Que tramava le, o destro enganador? Tudo no desabrido
fidalgo se exacerbou--ciume, rancor, vigilncia, pesar da sua idade
grisalha e feia. No sossgo de D. Leonor suspeitou manha e
fingimento;--e imediatamente lhe vedou as visitas  Senhora do Pilar.

Nas manhs costumadas corria le  igreja para rezar o rosrio, a levar
as desculpas de D. Leonor--_que no puede venir_ (murmurava curvado
diante do altar) _por lo que sabeis, virgem purissima!_ Cuidadosamente
visitou e reforou todos os negros ferrolhos das portas do seu solar.

De noite soltava dois mastins nas sombras do jardim murado.

 cabeceira do vasto leito, junto da mesa onde ficava a lmpada, um
relicrio e o copo de vinho quente com canela e cravo para lhe
retemperar as fras--luzia sempre uma grande espada nua. Mas, com
tantas seguranas, mal dormia--e a cada instante se solevava em
sobressalto de entre as fundas almofadas, agarrando a senhora D. Leonor
com mo bruta e sfrega, que lhe pisava o colo, para rugir muito baixo,
numa nsia: Dize que me queres s a mim!... Depois, com a alvorada, l
se empoleirava, a espreitar, como um falco, as janelas de D. Rui. Nunca
o avistava, agora, nem  porta da igreja s horas de missa, nem
recolhendo do campo, a cavalo, ao toque de Ave-Marias.

E por o sentir assim sumido dos stios e giros costumados-- que mais o
suspeitava dentro do corao de D. Leonor.

Emfim, uma noite, depois de muito trilhar o lagedo da galeria, remoendo
surdamente desconfianas e dios, gritou pelo intendente e ordenou que
se preparassem trouxas e cavalgaduras. Cedo, de madrugada, partiria, com
a senhora D. Leonor, para a sua herdade de Cabril, a duas lguas de
Segvia! A partida no foi de madrugada, como uma fuga de avarento
que vai esconder longe o seu tesoiro:--mas, realizada com aparato e
demora, ficando a liteira diante da arcada, a esperar longas horas, de
cortinas abertas, emquanto um cavalario passeava pelo adro a mula
branca do fidalgo, enxairelada  mourisca, e do lado do jardim a rcua
de machos, carregados de bas, presos s argolas, sob o sol e a mosca,
aturdiam a viela com o tilintar dos guizos. Assim D. Rui soube a jornada
do senhor de Lara:--e assim a soube toda a cidade.

Fra um grande contentamento para D. Leonor, que gostava de Cabril, dos
seus viosos pomares, dos jardins, para onde abriam, rasgadamente e sem
grades, as janelas dos seus aposentos claros: a ao menos tinha largo
ar, pleno sol, e alegretes a regar, um viveiro de pssaros, e tam
compridas ruas de loureiro ou teixo, que eram qusi a liberdade. E
depois esperava que no campo se aligeirassem aqueles cuidados que
traziam, nos derradeiros tempos, tam enrugado e taciturno seu marido e
senhor. Mas no logrou esta esperana, porque ao cabo de uma semana
ainda se no desanuviara a face de D. Alonso--nem de-certo havia
frescura de arvoredos, sussurros de guas correntes, ou aromas esparsos
nos rosais em flor, que calmassem agitao tam amarga e funda. Como em
Segvia, na galeria sonora de grande abobada, sem descanso
passeava, enterrado na sua samarra, com o bico da barba espetado para
diante, a grenha basta erriada para trs, um geito de arreganhar
silenciosamente o beio, como se meditasse maldades a que gozava de
antemo o sabor acre. E todo o intersse da sua vida se concentrara num
servial, que constantemente galopava entre Segvia e Cabril, e que le
por vezes esperava no como da aldeia, junto ao Cruzeiro, ficando a
escutar o homem que desmontava, ofegante, e logo lhe dava novas apressadas.

Uma noite em que D. Leonor, no seu quarto, rezava o tero com as aias, 
luz duma tocha de cera, o senhor de Lara entrou muito vagarosamente,
trazendo na mo uma flha de pergaminho e uma pena mergulhada no seu
tinteiro de osso. Com um rude acno despediu as aias, que o temiam como
a um lbo. E, empurrando um escabelo para junto da mesa, volvendo para
D. Leonor a face a que impusera tranqilidade e agrado, como se apenas
viesse por cousas naturais e fceis:

--Senhora--disse--quero que me escrevais aqui uma carta que muito convm
escrever...

Tam costumada era nela a submisso, que, sem outro reparo ou
curiosidade, indo apenas pendurar na barra do leito o rosrio em
que rezara, se acomodou sbre o escabelo, e os seus dedos finos, com
muita aplicao, para que a letra fsse esmerada e clara, traaram a
primeira linha curta que o Senhor de Lara ditara e era: _Meu
cavaleiro_... Mas quando le ditou a outra, mais longa, e dum modo
amargo, D. Leonor arrojou a pena como se a pena a escaldasse, e,
recuando da mesa, gritou, numa aflio:

--Senhor, para que convm que eu escreva tais cousas e tam falsas?...

Num brusco furor, o senhor de Lara arrancou do cinto um punhal, que lhe
agitou junto  face, rugindo surdamente:

--Ou escreveis o que vos mando e que a mim me convm, ou por Deus, que
vos varo o corao!...

Mais branca que a cera da tocha que os alumiava, com a carne arrepiada
ante aquele ferro que luzia, num terror supremo e que tudo aceitava, D.
Leonor murmurou:

--Pela Virgem Maria, no me faais mal!... Nem vos agasteis, senhor, que
eu vivo para vos obedecer e servir... Agora, mandai, que eu escreverei.

Ento, com os punhos cerrados nas bordas da mesa, onde pousara o punhal,
esmagando a frgil e desditosa mulher sob o olhar duro que fuzilava, o
senhor de Lara ditou, atirou roucamente, aos pedaos, aos repeles,
uma carta que dizia, quando finda e traada em letra bem incerta e
trmula:--Meu cavaleiro: Muito mal haveis compreendido, ou muito mal
pagais o amor que vos tenho, e que no vos pude nunca, em Segvia,
mostrar claramente... Agora aqui estou em Cabril, ardendo por vos ver; e
se o vosso desejo corresponde ao meu, bem fcilmente o podeis realizar,
pois que meu marido se acha ausente noutra herdade, e esta de Cabril 
toda fcil e aberta. Vinde esta noite, entrai pela porta do jardim, do
lado da azinhaga, passando o tanque, at ao terrao. A avistareis uma
escada encostada a uma janela da casa, que  a janela do meu quarto,
onde sereis bem docemente agasalhado por quem ansiosamente vos espera...

--Agora, senhora, assinai por baixo o vosso nome, que isso sobretudo
convm!

D. Leonor traou vagarosamente o seu nome, tam vermelha como se a
despissem diante de uma multido.

--E agora--ordenou o marido mais surdamente, atravs dos dentes
cerrados--endereai a D. Rui de Cardenas!

Ela ousou erguer os olhos, na surprsa daquele nome desconhecido.

--Andai!... A D. Rui de Cardenas!--gritou o homem sombrio.

E ela endereou a sua desonesta carta a D. Rui de Cardenas.

D. Alonso meteu o pergaminho no cinto, junto ao punhal que embainhara, e
sau em silncio com a barba espetada, abafando o rumor dos passos nas
lages do corredor

Ela ficara sbre o escabelo, as mos cansadas e cadas no regao, num
infinito espanto, o olhar perdido na escurido da noite silente. Menos
escura lhe parecia a morte que essa escura aventura em que se sentia
envolvida e levada! Quem era sse D. Rui de Cardenas, de quem nunca
ouvira falar, que nunca atravessara a sua vida, tam quieta, tam pouco
povoada de memrias e de homens? E le de-certo a conhecia, a
encontrara, a seguira, ao menos com os olhos, pois que era cousa natural
e bem ligada receber dela carta de tanta paixo e promessa...

Assim, um homem, e mo de-certo bem nascido, talvez gentil, penetrava
no seu destino bruscamente, trazido pela mo de seu marido? Tam
ntimamente mesmo se entranhara sse homem na sua vida, sem que ela se
apercebesse, que j para le se abria de noite a porta do seu jardim, e
contra a sua janela, para le subir, se arrumava de noite uma escada!...
E era seu marido que muito secretamente escancarava a porta, e muito
secretamente levantava a escada... Para que?

Ento, num relance, D. Leonor compreendeu a verdade, a vergonhosa
verdade, que lhe arrancou um grito ansiado e mal sufocado. Era uma
cilada! O senhor de Lara atraa a Cabril sse D. Rui com uma promessa
magnfica, para dle se apoderar, e de-certo o matar, indefeso e
solitrio! E ela, o seu amor, o seu corpo, eram as promessas que se
faziam rebrilhar ante os olhos seduzidos do mo desventuroso. Assim seu
marido usava a sua beleza, o seu leito, como a rde de oiro em que devia
car aquela prsa estouvada! Onde haveria maior ofensa? E tambm quanta
imprudncia! Bem poderia esse D. Rui de Cardenas desconfiar, no aceder
a convite tam abertamente amoroso, e depois mostrar por toda a Segvia,
rindo e triunfando, aquela carta em que lhe fazia oferta do seu leito e
do seu corpo a mulher de Alonso de Lara! Mas no! o desventurado
correria a Cabril--e para morrer, miservelmente morrer no negro
silncio da noite, sem padre, nem sacramentos, com a alma encharcada em
pecado de amor! Para morrer, de-certo--porque nunca o senhor de Lara
permitiria que vivesse o homem que recebera tal carta. Assim, aquele
mo morria por amor dela, e por um amor que, sem lhe valer nunca um
gsto, lhe valia logo a morte! De-certo por amor dela--pois que tal dio
do senhor de Lara, dio que com tanta deslealdade e vilania se
cevava, s podia nascer de ciumes, que lhe escureciam todo o dever de
cavaleiro e de cristo. Sem dvida le surpreendera olhares, passos,
tenes dste senhor D. Rui, mal acautelado por bem namorado.

Mas como? quando? Confusamente se lembrava ela de um moo que um domingo
a cruzara no adro, a esperara ao portal da igreja, com um molho de
cravos na mo... Seria sse? Era de nobre parecer, muito plido, com
grandes olhos negros e quentes. Ela passara--indiferente... Os cravos
que segurava na mo eram vermelhos e amarelos... A quem os levava?...
Ah! se o pudesse avisar, bem cedo, de madrugada!

Como, se no havia em Cabril servial ou aia de quem se fiasse? Mas
deixar que uma bruta espada varasse traioeiramente aquele corao, que
vinha cheio dela, palpitando por ela, todo na esperana dela!...

Oh! a desabrida e ardente correria de D. Rui, desde Segvia a Cabril,
com a promessa do encantador jardim aberto, da escada posta contra a
janela, sob a nudez e proteco da noite! Mandaria realmente o senhor
de Lara encostar uma escada  janela? De-certo, para com mais facilidade
o poderem matar, ao pobre, e doce, e inocente mo, quando le subisse,
mal seguro sbre um frgil degrau, as mos embaraadas, a espada a
dormir na bainha... E assim, na outra noite, em face ao seu leito, a sua
janela estaria aberta, e uma escada estaria erguida contra a sua janela
 espera de um homem! Emboscado na sombra do quarto, seu marido
seguramente mataria sse homem...

Mas se o senhor de Lara esperasse fra dos muros da quinta, assaltasse
brutalmente, nalguma azinhaga, aquele D. Rui de Cardenas, e ou por menos
destro, ou por menos forte, num terar de armas, casse le traspassado,
sem que o outro conhecesse a quem matara? E ela, ali, no seu quarto, sem
saber, e todas as portas abertas, e a escada erguida, e aquele homem
assomando  janela na sombra macia da noite tpida, e o marido que a
devia defender morto no fundo duma azinhaga... Que faria ela, Virgem
Me? Oh! de-certo repeliria, soberbarmente, o mo temerrio. Mas o
espanto dle e a clera do seu desejo enganado! Por Vs  que eu vim
chamado, senhora! E ali trazia, sbre o corao, a carta dela, com seu
nome, que a sua mo traara. Como lhe poderia contar a emboscada e o
dolo? Era tam longo de contar, naquele silncio e solido da noite,
emquanto os olhos dle, hmidos e negros, a estivessem suplicando e
traspassando... Desgraada dela se o senhor de Lara morresse, a deixasse
solitria, sem defesa, naquela vasta casa aberta! Mas quanto
desgraada tambm se aquele mo, chamado por ela, e que a amava, e que
por sse amor vinha correndo deslumbrante, encontrasse a morte no stio
da sua esperana, que era o stio do seu pecado, e, morto em pleno
pecado, rolasse para a eterna desesperana... Vinte e cinco anos,
le--se era o mesmo de quem se lembrava, plido, e tam airoso, com um
gibo de veludo roxo e um ramo de cravos na mo,  porta da igreja, em
Segvia...

Duas lgrimas saltaram dos cansados olhos de D. Leonor. E dobrando os
joelhos, levantando a alma toda para o cu, onde a lua se comeava a
levantar, murmurou, numa infinita mgoa e f:

--Oh! Santa Virgem do Pilar, Senhora minha, vela por ns ambos, vela por
todos ns!...


III

D. Rui entrava, pela hora da calma, no fresco ptio da sua casa, quando
de um banco de pedra, na sombra, se ergueu um mo do campo, que tirou
de dentro do surro uma carta, lha entregou, murmurando:

--Senhor, dai-vos pressa em ler, que tenho de voltar a Cabril, a quem me
mandou...

D. Rui abriu o pergaminho; e, no deslumbramento que o tomou, bateu com
le contra o peito, como para o enterrar no corao...

O moo do campo insistia, inquieto:

--Aviai, senhor, aviai! Nem precisais responder. Basta que me deis um
sinal de vos ter vindo o recado...

Muito plido, D. Rui arrancou uma das luvas bordadas a retroz, que o
mo enrolou e sumiu no surro. E j abalava na ponta das alpercatas
leves, quando, com um acno, D. Rui ainda o deteve:

--Escuta. Que caminho tomas tu para Cabril?

--O mais certo e szinho para gente afoita, que  pelo Crro dos
Enforcados.

--Bem.

D. Rui galgou as escadas de pedra, e no seu aposento, sem mesmo tirar o
sombreiro, de novo leu junto da gelosia aquele pergaminho divino, em que
D. Leonor o chamava de noite ao seu quarto,  posse inteira do seu ser.
E no o maravilhava esta oferta--depois de uma tam constante,
imperturbada indiferena. Antes nela logo percebeu um amor muito astuto,
por ser muito forte, que com grande pacincia se esconde ante os
estorvos e os perigos, e mudamente prepara a sua hora de
contentamento, melhor e mais deliciosa por tam preparada. Sempre ela o
amara, pois, desde a manh bemdita em que os seus olhos se tinham
cruzado no portal de Nossa Senhora. E emquanto le rondava aqueles muros
do jardim, maldizendo uma frieza que lhe parecia mais fria que a dos
frios muros, j ela lhe dera a sua alma, e cheia de constncia, com
amorosa sagacidade, recalcando o menor suspiro, adormecendo
desconfianas, preparava a noite radiante em que lhe daria tambm o seu
corpo.

Tanta firmeza, tam fino engenho nas coisas do amor ainda lha tornavam
mais bela e mais apetecida!

Com que impacincia olhava ento o sol, tam desapressado nessa tarde em
descer para os montes! Sem repouso, no seu quarto, com as gelosias
cerradas para melhor concentrar a sua felicidade, tudo aprontava
amorosamente para a triunfal jornada: as finas roupas, as finas rendas,
um gibo de veludo negro e as essncias perfumadas. Duas vezes desceu 
cavalaria a verificar se o seu cavalo estava bem ferrado e bem pensado.
Sbre o soalho, vergou e revergou, para a experimentar, a folha da
espada que levaria  cinta... Mas o seu maior cuidado era o caminho para
Cabril, a-pesar de bem o conhecer, e a aldeia apinhada em trno ao
mosteiro franciscano, e a vlha ponte romana com o seu Calvrio, e
a azinhaga funda que levava  herdade do senhor de Lara. Ainda nesse
inverno por l passara, indo montear com dois amigos de Astorga, e
avistara a torre dos de Lara, e pensara:--Eis a torre da minha
ingrata! Como se enganava! As noites agora eram de lua, e le saria de
Segvia caladamente, pela porta de S. Mauros. Um galope curto o punha no
Crro dos Enforcados... Bem o conhecia tambm, sse stio de tristeza e
pavor, com os seus quatro pilares de pedra, onde se enforcavam os
criminosos, e onde os seus corpos ficavam, balouados da ventania,
ressequidos do sol, at que as cordas apodrecessem e as ossadas cassem,
brancas e limpas da carne pelo bico dos corvos. Por trs do Crro era a
laga das Donas. A derradeira vez que por l andara, fra em dia do
apstolo S. Matias, quando o corregedor e as confrarias de caridade e
paz, em procisso, iam dar sepultura sagrada s ossadas cadas no cho
negro, esbrugadas pelas aves. Da o caminho, depois, corria liso e
direito a Cabril.

Assim D. Rui meditava a sua jornada venturosa, emquanto a tarde ia
cando. Mas, quando escureceu, e em trno s trres da igreja comearam
a girar os morcegos, e nas esquinas do adro se acenderam os nichos das
Almas, o valente mo sentiu um medo estranho, o medo daquela
felicidade que se acercava e que lhe parecia sobrenatural. Era, pois,
certo que essa mulher de divina formosura, famosa em Castela, e mais
inacessvel que um astro, seria sua, toda sua, no silncio e segurana
duma alcova, dentro em breves instantes, quando ainda se no tivessem
apagado diante dos retbulos das Almas aqueles lumes devotos? E o que
fizera le para lograr tam grande bem? Pisara as lages de um adro,
esperara no portal de uma igreja, procurando com os olhos outros dois
olhos, que no se erguiam, indiferentes ou desatentos. Ento, sem dor,
abandonara a sua esperana... E eis que de repente aqueles olhos
distrados o procuram, e aqueles braos fechados se lhe abrem, largos e
nus, e com o corpo e com a alma aquela mulher lhe grita:--Oh! mal
avisado, que no me entendeste! Vem! Quem te desanimou j te pertence!
Houvera jmais igual ventura? Tam alta, tam rara era, que de-certo
atrs dela, se no erra a lei humana, j devia caminhar a desventura! J
na verdade caminhava;--pois quanta desventura em saber que depois de tal
ventura, quando de madrugada, sando dos divinos braos, le recolhesse
a Segvia, a sua Leonor, o bem sublime da sua vida, tam inesperadamente
adquirido por um instante, recaria logo sob o poder de outro amo!

Que importava! Viessem depois dores e zelos! Aquela noite era
esplndidamente sua, o mundo todo uma aparncia v e a nica realidade
sse quarto de Cabril, mal alumiado, onde ela o esperaria, com os
cabelos soltos! Foi com sofreguido que desceu a escada, se arremessou
sbre o seu cavalo. Depois, por prudncia, atravessou o adro muito
lentamente, com o sombreiro bem levantado da face, como num passeio
natural, a procurar fra dos muros a frescura da noite. Nenhum encontro
o inquietou at  porta de S. Mauros. A, um mendigo, agachado na
escurido dum arco, e que tocava montonamente a sua sanfona, pediu, em
lamria,  Virgem e a todos os santos, que levassem aquele gentil
cavaleiro na sua doce e santa guarda. D. Rui parara para lhe atirar uma
esmola, quando se lembrou que nessa tarde no fra  igreja,  hora de
vsperas, rezar e pedir a bno  sua divina madrinha. Com um salto,
desceu logo do cavalo, porque, justamente, rente ao vlho arco,
tremeluzia uma lmpada alumiando um retbulo. Era uma imagem da Virgem
com o peito traspassado por sete espadas. D. Rui ajoelhou, pousou o
sombreiro nas lages, e com as mos erguidas, muito zelosamente, rezou
uma Salve-Rainha. O claro amarelo da luz envolvia o rosto da Senhora,
que, sem sentir as dores dos sete ferros, ou como se les s dssem
inefveis gozos, sorria com os lbios muito vermelhos. Emquanto le
rezava, no convento de So Domingos, ao lado, a sineta comeou a tocar a
agonia. De entre a sombra negra do arco, cessando a sanfona, o mendigo
murmurou:--L est um frade a morrer! D. Rui disse uma Ave-Maria pelo
frade que morria. A Virgem das sete espadas sorria docemente--o toque de
agonia no era, pois, de mau presgio! D. Rui cavalgou alegremente e
partiu.

Para alm da porta de S. Mauros, depois de alguns casebres de oleiros, o
caminho seguia, esguio e negro, entre altas piteiras. Por trs das
colinas, ao fundo da plancie escura, subia o primeiro claro, amarelo e
lnguido, da lua cheia, ainda escondida. E D. Rui marchava a passo,
receando chegar a Cabril muito cedo, antes que as aias e os moos
findassem o sero e o rosrio. Porque no lhe marcara D. Leonor a hora,
naquela carta tam clara e tam pensada? Ento a sua imaginao corria
adiante, rompia pelo jardim de Cabril, galgava aladamente a escada
prometida--e le largava tambm atrs, numa carreira sfrega, que
arrancava as pedras do caminho mal junto. Depois sofreava o cavalo
ofegante. Era cedo, era cedo! E retomava o passo penoso, sentindo o
corao contra o peito, como ave presa que bate s grades.

Assim chegou ao Cruzeiro, onde a estrada se fendia em duas, mais
juntas que as pontas de uma forquilha, ambas cortando atravs de
pinheiral. Descoberto diante da imagem crucificada, D. Rui teve um
instante de angstia, pois no se recordava qual delas levava ao Crro
dos Enforcados. J se embrenhara na mais cerrada, quando, de entre os
pinheiros calados, uma luz surgiu, dansando no escuro. Era uma vlha em
farrapos, com as longas melenas soltas, vergada sbre um bordo e
levando uma candeia.

--Para onde vai este caminho?--gritou Rui.

A vlha balanou mais ao alto a candeia, para mirar o cavaleiro.

--Para Xarama.

E luz e vlha imediatamente se sumiram, fundidas na sombra, como se ali
tivessem surgindo smente para avisar o cavaleiro do seu caminho
errado... J le virara arrebatadamente; e, rodeando o Calvrio, galopou
pela outra estrada mais larga, at avistar sbre a claridade do cu os
pilares negros, os madeiros negros do Crro dos Enforcados. Ento
estacou, direito nos estribos. Num cmoro alto, sco, sem erva ou urze,
ligados por um muro baixo, todo esbrechado, l se erguiam, negros,
enormes, sbre a amarelido do luar, os quatro pilares de granito
semelhantes aos quatro cunhais duma casa desfeita. Sbre os pilares
pousavam quatro grossas traves. Das traves pendiam quatro enforcados
negros e rgidos, no ar parado e mudo. Tudo em trno parecia morto como
les.

Gordas aves de rapina dormiam empoleiradas sbre os madeiros. Para alm,
rebrilhava lvidamente a gua morta da laga das Donas. E, no cu, a lua
ia grande e cheia.

D. Rui murmurou o Padre Nosso devido por todo o cristo quelas almas
culpadas. Depois impeliu o cavalo, e passava--quando, no imenso silncio
e na imensa solido, se ergueu, ressoou uma voz, uma voz que o chamava,
suplicante e lenta:

--Cavaleiro, detende-vos, vinde c!...

D. Rui colheu bruscamente as rdeas e erguido sbre os estribos, atirou
os olhos espantados por todo o sinistro ermo. S avistou o crro spero,
a gua rebrilhante e muda, os madeiros, os mortos. Pensou que fra
iluso da noite ou ousadia de algum demnio errante. E, serenamente,
picou o cavalo, sem sobressalto ou pressa, como numa rua de Segvia.
Mas, por trs, a voz tornou, mais urgentemente o chamou, ansiosa, qusi
aflita:

--Cavaleiro, esperai, no vos vades, voltai, chegai aqui!...

De novo D. Rui estacou e, virado sbre a sela, encarou afoitamente os
quatro corpos pendurados das traves. Do lado dles soava a voz,
que, sendo humana, s podia sar de forma humana! Um dsses enforcados,
pois, o chamara, com tanta pressa e nsia.

Restaria nalguns, por maravilhosa merc de Deus, alento e vida? Ou
seria que, por maior maravilha, uma dessas carcassas meio apodrecidas o
detinha para lhe transmitir avisos de Alm-da-Campa?... Mas, que a voz
rompesse dum peito vivo ou dum peito morto, grande covardia era abalar,
espavoridamente, sem a atender e a ouvir.

Atirou logo para dentro do crro o cavalo, que tremia; e, parando,
direito e calmo, com a mo na ilharga, depois de fitar, um por um, os
quatro corpos suspensos, gritou:

--Qual de vs, homens enforcados, ousou chamar por D. Rui de Cardenas?

Ento aquele que voltava as costas  lua cheia respondeu, do alto da
corda, muito quieta e naturalmente, como um homem que conversa da sua
janela para a rua:

--Senhor, fui eu.

D. Rui fez avanar para diante dle o cavalo. No lhe distinguia a face,
enterrada no peito, escondida pelas longas e negras melenas pendentes.
S percebeu que tinha as mos soltas e desamarradas, e tambm soltos os
ps nus, j ressequidos e da cr do betume.

--Que me queres?

O enforcado, suspirando, murmurou:

--Senhor, fazei-me a grande merc de me cortar esta corda em que estou
pendurado.

D. Rui arrancou a espada e de um golpe certo cortou a corda meio
apodrecida. Com um sinistro som de ossos entrechocados o corpo cau no
cho, onde jazeu um momento, estirado. Mas, imediatamente, se endireitou
sbre os ps mal seguros e ainda dormentes--e ergueu para D. Rui uma
face morta, que era uma caveira com a pele muito colada, e mais amarela
que a lua que nela batia. Os olhos no tinham movimento nem brilho.
Ambos os beios se lhe arreganhavam num sorriso empedernido. De entre os
dentes, muito brancos, surdia uma ponta de lngua muito negra.

D. Rui no mostrou terror, nem asco. E embainhando serenamente a espada:

--Tu ests morto ou vivo?--perguntou. O homem encolheu os ombros com
lentido:

--Senhor, no sei... Quem sabe o que  a vida? Quem sabe o que  a
morte?...

--Mas que queres de mim?

O enforcado, com os longos dedos descarnados, alargou o n da corda que
ainda lhe laava o pescoo e declarou muito serena e firmemente:

--Senhor, eu tenho de ir convosco a Cabril, onde vs ides.

O cavaleiro estremeceu num tam forte assombro, repuxando as rdeas, que
o seu bom cavalo se empinou como assombrado tambm.

--Comigo a Cabril?!...

O homem curvou o espinhao, a que se viam os ossos todos, mais agudos
que os dentes de uma serra, atravs de um longo rasgo da camisa de
estamenha:

--Senhor--suplicou--no mo negueis. Que eu tenho a receber grande
salrio se vos fizer grande servio!

Ento D. Rui pensou de repente que bem podia ser aquela uma traa
formidvel do Demnio. E, cravando os olhos muito brilhantes na face morta
que para le se erguia, ansiosa,  espera do seu consentimento--fez um
lento e largo Sinal da Cruz.

O enforcado vergou os joelhos com assustada reverncia:

--Senhor, para que me experimentais com sse sinal? S por le
alcanamos remisso, e eu s dle espero misericrdia.

Ento D. Rui pensou que, se sse homem no era mandado pelo Demnio, bem
podia ser mandado por Deus! E logo devotamente, com um gesto submisso em
que tudo entregava ao cu, consentiu, aceitou o pavoroso companheiro:

--Vem comigo, pois, a Cabril, se Deus te manda! Mas eu nada te
pergunto e tu nada me perguntes.

Desceu logo o cavalo  estrada, toda alumiada da lua. O enforcado seguia
ao seu lado, com passos tam ligeiros, que mesmo quando D. Rui galopava
le se conservava rente ao estribo, como levado por um vento mudo.

Por vezes, para respirar mais livremente, repuxava o n da corda que lhe
enroscava o pescoo. E, quando passavam entre sebes onde errasse o aroma
de flores silvestres, o homem murmurava com infinito alvio e delcia:

--Como  bom correr!

D. Rui ia num assombro, num tormentoso cuidado. Bem compreendia agora
que era aquele um cadver reanimado por Deus, para um estranho e
encoberto servio. Mas para que lhe dava Deus tam medonho companheiro?
Para o proteger? Para impedir que D. Leonor, amada do cu pela sua
piedade, casse em culpa mortal? E, para tam divina incumbncia de tam
alta merc, j no tinha o Senhor anjos no cu, que necessitasse
empregar um supliciado?... Ah! como le voltaria alegremente a rdea
para Segvia, se no fra a galante lealdade de cavaleiro, o orgulho de
nunca recuar, e a submisso s ordens de Deus, que sentia sbre si
pesarem...

Dum alto da estrada, de repente avistaram Cabril, as torres do convento
franciscano alvejando ao luar, os casais adormecidos entre as
hortas. Muito silenciosamente, sem que um co ladrasse detrs das
cancelas ou de cima dos muros, desceram a vlha ponte romana. Diante do
Calvrio, o enforcado cau de joelhos nas lages, ergueu os lvidos ossos
das mos, ficou longamente rezando, entre longos suspiros. Depois ao
entrar na azinhaga, bebeu muito tempo, e consoladamente, de uma fonte
que corria e cantava sob as frondes de um salgueiro. Como a azinhaga era
muito estreita, le caminhava adiante do cavaleiro, todo curvado, os
braos cruzados fortemente sbre o peito, sem um rumor.

A lua ia alta no cu. D. Rui considerava com amargura aquele disco,
cheio e lustroso, que espargia tanta claridade, e tam indiscreta, sbre
o seu segredo. Ah! como se estragava a noite que devia ser divina! Uma
enorme lua surdia de entre os montes para tudo alumiar. Um enforcado
descia da forca para o seguir e tudo saber. Deus assim o ordenara. Mas
que tristeza chegar  doce porta docemente prometida, com tal intruso ao
seu lado, sob aquele cu todo claro!

Bruscamente, o enforcado estacou, erguendo o brao, de onde a manga
pendia em farrapos. Era o fim da azinhaga que desembocava em caminho
mais largo e mais batido:--e diante dles alvejava o comprido muro da
quinta do senhor de Lara, tendo a um mirante, com varandins de
pedra, e todo revestido de hera.

--Senhor--murmurou o enforcado, segurando com respeito o estribo de D.
Rui--logo a poucos passos dste mirante  a porta por onde deveis
penetrar no jardim. Convm que aqui deixeis o cavalo, amarrado a uma
rvore, se o tendes por seguro e fiel. Que na emprsa em que vamos, j 
de mais o rumor dos nossos ps!...

Silenciosamente D. Rui apeou, prendeu o cavalo, que sabia fiel e seguro,
ao tronco dum lamo sco.

E tam submisso se tornara quele companheiro imposto por Deus, que sem
outro reparo o foi seguindo rente do muro que o luar batia.

Com vagarosa cautela, e na ponta dos ps nus, avanava agora o
enforcado, vigiando o alto do muro, sondando a negrura da sebe, parando
a escutar rumores que s para le eram percebveis--porque nunca D. Rui
conhecera noite mais fundamente adormecida e muda.

E tal susto, em quem devia ser indiferente a perigos humanos, foi
lentamente enchendo tambm o valoroso cavaleiro de tam viva
desconfiana, que tirava o punhal da banha, enrodilhava a capa no
brao, e marchava em defesa, com o olhar faiscando, como num
caminho de emboscada e briga. Assim chegaram a uma porta baixa, que o
enforcado empurrou, e que se abriu sem gemer nos gonzos. Penetraram numa
rua ladeada de espessos teixos at a um tanque cheio de gua, onde
boiavam flhas de nenfares, e que toscos bancos de pedra circundavam,
cobertos pela rama de arbustos em flor.

--Por ali--murmurou o enforcado, estendendo o brao mirrado.

Era alm do tanque, uma avenida que densas e vlhas rvores abobadavam e
escureciam. Por ela se meteram, como sombras na sombra, o enforcado
adiante, D. Rui seguindo muito subtilmente, sem roar um ramo, mal
pisando a areia. Um leve fio de gua sussurrava entre relvas. Pelos
troncos subiam rosas trepadeiras, que cheiravam docemente. O corao de
D. Rui recomeou a bater numa esperana de amor.

--Chut!--fez o enforcado.

E D. Rui qusi tropeou no sinistro homem que estacava, com os braos
abertos como as traves de uma cancela. Diante dles quatro degraus de
pedra subiam a um terrao, onde a claridade era larga e livre.
Agachados, treparam os degraus--e ao fundo dum jardim sem rvores, todo
em canteiros de flores bem recortados, orlados de buxo curto,
avistaram um lado da casa batido pela lua cheia. Ao meio, entre as
janelas de peitoril fechadas, um balco de pedra, com manjerices aos
cantos, conservava as vidraas abertas largamente. O quarto, dentro,
apagado, era como um buraco de treva na claridade da fachada que o luar
banhava. E arrimada contra o balco, estava uma escada com degraus de
corda.

Ento o enforcado empurrou D. Rui vivamente dos degraus para a escurido
da avenida. E a, com um modo urgente, dominando o cavaleiro, exclamou:

--Senhor! Convm agora que me deis o vosso sombreiro e a capa! Vs
quedais aqui na escurido destas rvores. Eu vou trepar quela escada e
espreitar para aquele quarto... E se fr como desejais, aqui voltarei, e
com Deus sde feliz...

D. Rui recuou no horror de que tal criatura subisse a tal janela!

E bateu o p, gritou surdamente:

--No, por Deus!

Mas a mo do enforcado, lvida na escurido, bruscamente lhe arrancou o
sombreiro da cabea, lhe puxou a capa do brao. E j se cobria, j se
embuava, murmurando agora, numa splica ansiosa:

--No mo negueis, senhor, que se vos fizer grande servio, ganharei
grande merc!

E galgou os degraus:--estava no alumiado e largo terrao.

D. Rui subiu, atontado, e espreitou. E--oh maravilha!--era le, D. Rui,
todo le, na figura e no modo, aquele homem que, por entre os canteiros
e o buxo curto, avanava, airoso e leve, com a mo na cintura, a face
erguida risonhamente para a janela, a longa pluma escarlate do chapu
balanando em triunfo. O homem avanava no luar esplndido. O quarto
amoroso l estava esperando, aberto e negro. E D. Rui olhava, com olhos
que faiscavam, tremendo de pasmo e clera. O homem chegara  escada:
destraou a capa, assentou o p no degrau de corda!--Oh! l sobe, o
maldito!--rugiu D. Rui. O enforcado subia. J a alta figura, que era
dle, D. Rui, estava a meio da escada, toda negra contra a parede
branca. Parou!... No! no parara: subia, chegava,--j sbre o rebordo
da varanda pousara o joelho cauteloso. D. Rui olhava, desesperadamente,
com os olhos, com a alma, com todo o seu ser... E eis que, de repente,
do quarto negro surge um negro vulto, uma furiosa voz brada:--vilo,
vilo!--e uma lmina de adaga faisca, e cai, e outra vez se ergue, e
rebrilha, e se abate, e ainda refulge, e ainda se embebe!... Como um
fardo, do alto da escada, pesadamente, o enforcado cai sbre a terra
mole. Vidraas, portadas do balco logo se fecham com fragor. E no
houve mais seno o silncio, a serenidade macia, a lua muito alta e
redonda no cu de vero.

Num relance D. Rui compreendera a traio, arrancara a espada, recuando
para a escurido da avenida--quando, oh milagre! correndo atravs do
terrao, aparece o enforcado, que lhe agarra a manga e lhe grita:

--A cavalo, senhor, e abalar, que o encontro no era de amor, mas de morte!

Ambos descem arrebatadamente a avenida, costeiam o tanque sob o refgio
dos arbustos em flor, metem pela rua estreita orlada de teixos, varam a
porta--e um momento param, ofegantes, na estrada, onde a lua, mais
refulgente, mais cheia, fazia como um puro dia.

E ento, s ento, D. Rui descobriu que o enforcado conservava cravada
no peito, at aos copos, a adaga, cuja ponta lhe saa pelas costas,
luzidia e limpa!... Mas j o pavoroso homem o empurrava, o apressava:

--A cavalo, senhor, e abalar, que ainda est sbre ns a traio!

Arrepiado, numa nsia de findar aventura tam cheia de milagre e de
horror, D. Rui colheu as rdeas, cavalgou sfregamente. E logo, em
grande pressa, o enforcado saltou tambm para a garupa do cavalo fiel.
Todo se arrepiou o bom cavaleiro, ao sentir nas suas costas o roar
daquele corpo morto, dependurado de uma forca, atravessado por uma
adaga. Com que desespro galopou ento pela estrada infindvel! Em
carreira tam violenta o enforcado nem oscilava, rgido sbre a garupa,
como um bronze num pedestal. E D. Rui a cada momento sentia um frio mais
regelado que lhe regelava os ombros, como se levasse sbre les um saco
cheio de glo. Ao passar no cruzeiro murmurou:--Senhor,
valei-me!--Para alm do cruzeiro, de repente estremeceu com o quimrico
medo de que tam fnebre companheiro para sempre o ficasse acompanhando,
e se tornasse seu destino galopar atravs do mundo, numa noite eterna,
levando um morto  garupa... E no se conteve, gritou para trs, no
vento da carreira que os vergastava:

--Para onde quereis que vos leve?

O enforcado, encostando tanto o corpo a D. Rui que o magoou com os copos
da adaga, segredou:

--Senhor, convm que me deixeis no Crro!

Doce e infinito alvio para o bom cavaleiro--pois o Crro estava perto,
e j lhe avistava, na claridade desmaiada, os pilares e as traves
negras... Em breve estacou o cavalo que tremia, branqueado de espuma.

Logo o enforcado, sem rumor, escorregou da garupa, segurou, como
bom servial, o estribo de D. Rui. E com a caveira erguida, a lngua
negra mais sada de entre os dentes brancos, murmurou em respeitosa
splica:

--Senhor, fazei-me agora a grande merc de me pendurar outra vez da
minha trave.

D. Rui estremeceu de horror:

--Por Deus! Que vos enforque, eu?...

O homem suspirou, abrindo os braos compridos:

--Senhor, por vontade de Deus , e por vontade de Aquela que  mais cara
a Deus!

Ento, resignado, submisso aos mandados do Alto, D. Rui apeou--e comeou
a seguir o homem, que subia para o Crro pensativamente, vergando o
dorso, de onde saa, espetada e luzidia, a ponta da adaga. Pararam ambos
sob a trave vazia. Em trno das outras traves pendiam as outras
carcassas. O silncio era mais triste e fundo que os outros silncios da
terra. A gua da laga ennegrecera. A lua descia e desfalecia.

D. Rui considerou a trave onde restava, curto no ar, o pedao de corda
que le cortara com a espada.

--Como quereis que vos pendure?--exclamou.--quele pedao de corda no
posso chegar com a mo; nem eu s basto para l vos iar.

--Senhor--respondeu o homem--a a um canto deve haver um longo rlo de
corda. Uma ponta dela ma atareis a este n que trago no pescoo: a outra
ponta a arremessareis por cima da trave, e puxando depois, forte como
sois, bem me podereis reenforcar.

Ambos curvados, com passos lentos, procuraram o rlo de corda. E foi o
enforcado que o encontrou, o desenrolou... Ento D. Rui descalou as
luvas. E ensinado por le (que tam bem o aprendera do carrasco) atou uma
ponta da corda ao lao que o homem conservava no pescoo, e arremessou
fortemente a outra ponta, que ondeou no ar, passou sbre a trave, ficou
pendurada rente ao cho. E o rijo cavaleiro, fincando os ps, retezando
os braos, puxou, iou o homem, at le se quedar, suspenso, negro no
ar, como um enforcado natural entre os outros enforcados.

--Estais bem assim?

Lenta e sumida, veio a voz do morto:

--Senhor, estou como devo.

Ento D. Rui, para o fixar, enrolou a corda em voltas grossas ao pilar
de pedra. E tirando o sombreiro, limpando com as costas da mo o suor
que o alagava, contemplou o seu sinistro e miraculoso companheiro.
Estava j rgido como antes, com a face pendida sob as melenas cadas,
os ps inteiriados, todo podo e carcomido como uma vlha carcassa. No
peito conservava a adaga cravada. Por cima, dois corvos dormiam
quietos.

--E agora que mais quereis?--perguntou D. Rui, comeando a calar as
luvas.

Sumidamente, do alto, o enforcado murmurou:

--Senhor, muito vos rogo agora que, ao chegar a Segvia, tudo conteis
fielmente a Nossa Senhora do Pilar, vossa madrinha, que dela espero
grande merc para a minha alma, por ste servio que, a seu mandado, vos
fez o meu corpo!

Ento, D. Rui de Cardenas tudo compreendeu--e, ajoelhando devotamente
sbre o cho de dor e morte, rezou uma longa orao por aquele bom
enforcado.

Depois galopou para Segvia. A manh clareava quando le transps a
porta de S. Mauros. No ar fino os sinos claros tocavam a matinas. E
entrando na igreja de Nossa Senhora do Pilar, ainda no desalinho da sua
terrvel jornada, D. Rui, de rjo ante o altar, narrou  sua Divina
Madrinha a ruim teno que o levara a Cabril, o socorro que do cu
recebera, e, com quentes lgrimas de arrependimento e gratido, lhe
jurou que nunca mais poria desejo onde houvesse pecado, nem no seu
corao daria entrada a pensamento que viesse do Mundo e do Mal.


IV

A essa hora, em Cabril, D. Alonso de Lara, com os olhos esbugalhados de
pasmo e terror, esquadrinhava todas as ruas e recantos e sombras do seu
jardim.

Quando ao alvorecer, depois de escutar  porta da cmara onde nessa
noite encerrara D. Leonor, le descera subtilmente ao jardim e no
encontrara, debaixo do balco, rente  escada, como deliciosamente
esperava, o corpo de D. Rui de Cardenas, teve por certo que o homem
odioso, ao tombar, ainda com um resto dbil de vida, se arrastara
sangrando e arquejando, na tentativa de alcanar o cavalo e abalar de
Cabril... Mas, com aquela rija adaga que le trs vezes lhe enterrara no
peito, e que no peito lhe deixara, no se arrastaria o vilo por muitas
jardas, e nalgum canto devia jazer frio e inteiriado. Rebuscou ento
cada rua, cada sombra, cada macio de arbustos. E--maravilhoso
caso!--no descobria o corpo, nem pgadas, nem terra que houvesse sido
remexida, nem sequer rasto de sangue sbre a terra! E todavia, com mo
certeira e faminta de vingana, trs vezes le lhe embebera a adaga
no peito, e no peito lha deixara!

E era Rui de Cardenas o homem que le matara--que muito bem o conhecera
logo, do fundo apagado do quarto de onde espreitava, quando le, 
claridade da lua, veio atravs do terrao, confiado, ligeiro, com a mo
na cintura, a face risonhamente erguida e a pluma do sombreiro meneando
em triunfo! Como podia ser cousa tam rara--um corpo mortal sobrevivendo
a um ferro, que trs vezes lhe vara o corao e no corao lhe fica
cravado? E a maior raridade era que nem no cho, debaixo da varanda,
onde corria ao longo do muro uma tira de goivos e cecns, deixara um
vestgio aquele corpo forte, cando de tam alto pesadamente,
inertemente, como um fardo! Nem uma flor machucada--todas direitas,
viosas, como novas, com gotas leves de orvalho! Imvel de espanto,
qusi de terror, D. Alonso de Lara ali parava, considerando o balco,
medindo a altura da escada, olhando esgazeadamente os goivos direitos,
frescos, sem uma haste ou flha vergada. Depois recomeava a correr
loucamente o terrao, a avenida, a rua de teixos, na esperana ainda
duma pgada, dum galho partido, de uma ndoa de sangue na areia fina.

Nada! Todo o jardim oferecia um desusado arranjo e limpeza nova, como se
sbre le nunca houvesse passado nem o vento que desfolha, nem o
sol que murcha.

Ento, ao entardecer, devorado pela incerteza e mistrio, tomou um
cavalo e, sem escudeiro ou cavalario, partiu para Segvia. Curvada e
escondidamente, como um foragido, penetrou no seu palcio pela porta do
pomar: e o seu primeiro cuidado foi correr  galeria de abbada,
destrancar as portadas da janela e espreitar vidamente a casa de D. Rui
de Cardenas. Todas as gelosias da vlha morada do arcediago estavam
escuras, abertas, respirando a fresquido da noite:--e  porta, sentado
num banco de pedra, um mo de cavalaria afinava preguiosamente a
bandurra.

D. Alonso de Lara desceu  sua cmara, lvido, pensando que no houvera
certamente desgraa em casa onde todas as janelas se abrem para
refrescar, e no porto da rua os moos folgam. Ento bateu as palmas,
pediu furiosamente a ceia. E, apenas sentado, ao tpo da mesa, na sua
alta sde de couro lavrado, mandou chamar o intendente, a quem ofereceu
logo com estranha familiaridade um copo de vinho vlho. Emquanto o
homem, de p, bebia respeitosamente, D. Alonso, metendo os dedos pelas
barbas e forando a sua sombria face a sorrir, perguntava pelas novas e
rumores de Segvia. Nesses dias da sua estada em Cabril, nenhum
caso criara pela cidade espanto e murmurao?... O intendente limpou os
beios, para afirmar que nada ocorrera em Segvia de que andasse
murmurao, a no ser que a filha do senhor D. Gutierres, tam ma e tam
rica herdeira, tomara o vu no convento das Carmelitas Descalas. D.
Alonso insistia, fitando vorazmente o intendente. E no se travara uma
grande briga?... no se encontrara ferido, na estrada de Cabril, um
cavaleiro mo, muito falado?... O intendente encolhia os ombros: nada
ouvira, pela cidade, de brigas ou de cavaleiros feridos. Com um acno
desabrido D. Alonso despediu o intendente.

Apenas ceara, parcamente, logo voltou  galeria a espreitar as janelas
de D. Rui. Estavam agora cerradas; na ltima, da esquina, tremeluzia uma
claridade. Toda a noite D. Alonso velou, remoendo incansavelmente o
mesmo espanto. Como pudera escapar aquele homem, com uma adaga
atravessada no corao? Como pudera?... Ao luzir da manh, tomou uma
capa, um largo sombreiro, desceu ao adro, todo embuado e encoberto, e
ficou rondando por diante da casa de D. Rui. Os sinos tocaram a matinas.
Os mercadores, com os gibes mal abotoados, saam a erguer as portadas
das lojas, a pendurar as taboletas. J os horteles, picando os burros
carregados de ceiras, atiravam os preges de hortalia fresca, e
frades descalos, com o alforge aos ombros, pediam esmola, benziam as
moas.

Beatas embiocadas, com grossos rosrios negros, enfiavam gulosamente
para a igreja. Depois o pregoeiro da cidade, parando a um canto do adro,
tocou uma buzina, e numa voz tremenda comeou a ler um edital.

O senhor de Lara, parara junto do chafariz, pasmado, como embebido no
cantar das trs bicas de gua. De repente pensou que aquele edital, lido
pelo pregoeiro da cidade, se referia talvez a D. Rui, ao seu
desaparecimento... Correu  esquina do adro--mas j o homem enrolara o
papel, se afastava majestosamente, batendo nas lages com a sua vara
branca. E, quando se voltava para espiar de novo a casa, eis que os seus
olhos atnitos encontram D. Rui, D. Rui que le matara--e que vinha
caminhando para a igreja de Nossa Senhora, ligeiro, airoso, a face
risonha e erguida no fresco ar da manh, de gibo claro, de plumas
claras, com uma das mos pousando na cinta, a outra meneando
distradamente um basto com borlas de toral de oiro!

D. Alonso recolheu ento a casa com passos arrastados e envelhecidos. No
alto da escadaria de pedra, achou o seu vlho capelo, que o viera
sadar, e que, penetrando com le na ante-cmara, depois de pedir, com
reverncia, novas da senhora D. Leonor, lhe contou logo dum
prodigioso caso que causava pela cidade grave murmurao e espanto. Na
vspera, de tarde, indo o corregedor visitar o crro das forcas, pois se
acercava a festa dos Santos Apstolos, descobrira, com muito pasmo e
muito escndalo, que um dos enforcados tinha uma adaga cravada no peito!
Fra gracejo de um pcaro sinistro? Vingana que nem a morte
saciara?... E para maior prodgio ainda, o corpo fra despendurado da
forca, arrastado em horta ou jardim (pois que prsas aos vlhos farrapos
se encontraram flhas tenras) e depois novamente enforcado e com corda
nova!... E assim ia a turbulncia dos tempos, que nem os mortos se
furtavam a ultrajes!

D. Alonso escutava com as mos a tremer, os plos arrepiados. E
imediatamente, numa ansiosa agitao, bradando, tropeando contra as
portas, quis partir, e por seus olhos verificar a fnebre profanao. Em
duas mulas ajaezadas  pressa, ambos abalaram para o Crro dos
Enforcados, le e o capelo arrastado e aturdido. Numeroso povo de
Segvia se ajuntara j no Crro, pasmando para o maravilhoso horror--o
morto que fra morto!... Todos se arredaram ante o nobre senhor de Lara,
que arremessando-se pelo cabeo acima, estacara a olhar, esgazeado e
lvido, para o enforcado e para a adaga que lhe varava o peito. Era
a sua adaga:--fra le que matara o morto!

Galopou espavoridamente para Cabril. E a se encerrou com o seu segredo,
comeando logo a amarelecer, a definhar, sempre arredado da senhora D.
Leonor, escondido pelas ruas sombrias do jardim, murmurando palavras ao
vento, at que na madrugada de S. Joo uma serva, que voltava da fonte
com a sua bilha, o encontrou morto, por baixo do balco de pedra, todo
estirado no cho, com os dedos encravados no canteiro de goivos, onde
parecia ter longamente esgravatado a terra, a procurar...


V

Para fugir a tam lamentveis memrias, a senhora D. Leonor, herdeira de
todos os bens da casa de Lara, recolheu ao seu palcio de Segvia. Mas
como agora sabia que o senhor D. Rui de Cardenas escapara
miraculosamente  emboscada de Cabril, e como cada manh, espreitando de
entre as gelosias, meio cerradas, o seguia, com olhos que se no
fartavam e se humedeciam, quando le cruzava o adro para entrar na
igreja, no quis ela, com receio das pressas e impacincias do seu
corao, visitar a Senhora do Pilar emquanto durasse o seu luto. Depois,
uma manh de domingo, quando, em vez de crepes negros, se poude cobrir
de sdas roxas, desceu a escadaria do seu palcio, plida de uma emoo
nova e divina, pisou as lages do adro, transps as portas da igreja. D.
Rui de Cardenas estava ajoelhado diante do altar, onde depusera o seu
ramo votivo de cravos amarelos e brancos. Ao rumor das sdas finas,
ergueu os olhos com uma esperana muito pura e toda feita de graa
celeste, como se um anjo o chamasse. D. Leonor ajoelhou, com o peito a
arfar, tam plida e tam feliz que a cera das tochas no era mais plida,
nem mais felizes as andorinhas que batiam as asas livres pelas ogivas da
vlha igreja.

Ante sse altar, e de joelhos nessas lages, foram eles casados pelo
bispo de Segvia, D. Martinho, no outono do ano da Graa de 1475, sendo
j reis de Castela Isabel e Fernando, muito fortes e muito catlicos,
por quem Deus operou grandes feitos sbre a terra e sbre o mar.




JOSE MATIAS


Linda tarde, meu amigo!... Estou esperando o entrro do Jos Matias--do
Jos Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Garmilde... O meu
amigo certamente o conheceu--um rapaz airoso, louro como uma espiga, com
um bigode crespo de paladino sbre uma bca indecisa de contemplativo,
dstro cavaleiro, duma elegncia sbria e fina. E esprito curioso,
muito afeioado s ideas gerais, tam penetrante que compreendeu a minha
_Defesa da Filosofia Hegeliana_! Esta imagem do Jos Matias data de
1865: porque a derradeira vez que o encontrei, numa tarde agreste de
Janeiro, metido num portal da rua de S. Bento, tiritava dentro duma
quinzena cr de mel, roda nos cotovelos, e cheirava abominavelmente a
aguardente.

Mas o meu amigo, numa ocasio que o Jos Matias parou em Combra,
recolhendo do Prto, ceou com le, no Pao do Conde! At o Craveiro, que
preparava as _Ironias e Dores de Satan_, para acirrar mais a briga entre
a Escola Purista e a Escola Satnica, recitou aquele seu soneto, de tam
fnebre idealismo: _Na jaula do meu peito, o corao_... E ainda lembro
o Jos Matias, com uma grande gravata de setim preto tufada entre o
colete de linho branco, sem despegar os olhos das velas das serpentinas,
sorrindo plidamente quele corao que rugia na sua jaula... Era uma
noite de Abril, de lua cheia. Passeamos depois em bando, com guitarras,
pela Ponte e pelo Choupal. O Janurio cantou ardentemente as endechas
romnticas do nosso tempo:

    Ontem de tarde, ao sol posto,
    Contemplavas, silenciosa,
    A torrente caudalosa
    Que refervia a teus ps...

E o Jos Matias, encostado ao parapeito da Ponte, com a alma e os olhos
perdidos na lua!--Porque no acompanha o meu amigo ste mo
interessante ao Cemitrio dos Prazeres? Eu tenho uma tipia, de praa e
com nmero, como convm a um Professor de filosofia... O qu! Por causa
das calas claras? Oh! meu caro amigo! De todas as materializaes
da simpatia, nenhuma mais grosseiramente material do que a casimira
preta. E o homem que ns vamos enterrar era um grande espiritualista!

Vem o caixo sando da Igreja... Apenas trs carruagens para o
acompanhar. Mas realmente, meu caro amigo, o Jos Matias morreu h seis
anos, no seu puro brilho. sse, que a levamos, meio decomposto, dentro
de tbuas agaloadas de amarelo,  um resto de bbedo, sem histria e sem
nome, que o frio de Fevereiro matou no vo dum portal.

O sujeito de culos de oiro, dentro do cop?... No conheo, meu amigo.
Talvez um parente rico, dsses que aparecem nos enterros, com o
parentesco correctamente coberto de fumo, quando o defunto j no
importuna, nem compromete. O homem obeso de caro amarelo, dentro da
vitria,  o Alves _Capo_, que tem um jornal onde desgraadamente a
Filosofia no abunda, e que se chama a _Piada_. Que relaes o prendiam
ao Matias?... No sei. Talvez se embebedassem nas mesmas tascas; talvez
o Jos Matias ltimamente colaborasse na _Piada_; talvez debaixo daquela
gordura e daquela literatura, ambas tam srdidas, se abrigue uma alma
compassiva. Agora  a nossa tipia... Quer que desa a vidraa? Um
cigarro?... Eu trago fsforos. Pois ste Jos Matias foi um homem
desconsolador para quem, como eu, na vida ama a evoluo lgica e
pretende que a espiga nasa coerentemente do gro. Em Combra sempre o
consideramos como uma alma escandalosamente banal. Para ste juizo
concorria talvez a sua horrenda correco. Nunca um rasgo brilhante na
batina! nunca uma poeira estouvada nos sapatos! nunca um plo rebelde do
cabelo ou do bigode fugindo daquele rgido alinho que nos desolava! Alm
disso, na nossa ardente gerao, le foi o nico intelectual que no
rugiu com as misrias da Polnia; que leu sem palidez ou pranto as
_Contemplaes_; que permaneceu insensvel ante a ferida de Garibaldi! E
todavia, nesse Jos Matias, nenhuma secura ou dureza ou egoismo ou
desafabilidade! Pelo contrrio! Um suave camarada, sempre cordial, e
mansamente risonho. Toda a sua inabalvel quietao parecia provir duma
imensa superficialidade sentimental. E, nesse tempo, no foi sem razo e
propriedade que ns alcunhamos aquele mo tam macio, tam louro e tam
ligeiro, de _Matias-Corao-de-Esquilo_. Quando se formou, como lhe
morrera o pai, depois a me, delicada e linda senhora de quem herdara
cincoenta contos, partiu para Lisboa, alegrar a solido dum tio que o
adorava, o general Visconde de Garmilde. O meu amigo sem dvida se
lembra dessa perfeita estampa de general clssico, sempre de bigodes
terrficamente encerados, as calas cr de flor de alecrim
desesperadamente esticadas pelas presilhas sbre as botas coruscantes, e
o chicote debaixo do brao com a ponta a tremer, vida de vergastar o
Mundo! Guerreiro grotesco e deliciosamente bom... O Garmilde morava
ento em Arroios, numa casa antiga de azulejos, com um jardim, onde le
cultivava apaixonadamente canteiros soberbos de dlias. sse jardim
subia muito suavemente at ao muro coberto de hera que o separava de
outro jardim, o largo e belo jardim de rosas do Conselheiro Matos
Miranda, cuja casa, com um arejado terrao entre dois torresinhos
amarelos, se erguia no cimo do outeiro e se chamava a casa da
Parreira. O meu amigo conhece (pelo menos de tradio, como se conhece
Helena de Troia ou Ins de Castro) a formosa Elisa Miranda, a Elisa da
Parreira... Foi a sublime beleza romntica de Lisboa, nos fins da
Regenerao. Mas realmente Lisboa apenas a entrevia pelos vidros da sua
grande caleche, ou nalguma noite de iluminao do Passeio Pblico entre
a poeira e a turba, ou nos dois bailes da Assembleia do Carmo de que o
Matos Miranda era um director venerado. Por gsto borralheiro de
provinciana, ou por pertencer quela burguesia sria que nesses
tempos, em Lisboa, ainda conservava os antigos hbitos severamente
encerrados, ou por imposio paternal do marido, j diabtico e com
sessenta anos--a Deusa raramente emergia de Arroios e se mostrava aos
mortais. Mas quem a viu, e com facilidade constante, qusi
irremediavelmente, logo que se instalou em Lisboa, foi o Jos
Matias--porque, jazendo o palacete do general na falda da colina, aos
ps do jardim e da casa da Parreira, no podia a divina Elisa assomar a
uma janela, atravessar o terrao, colhr uma rosa entre as ruas de buxo,
sem ser deliciosamente visvel, tanto mais que nos dois jardins
assoalhados nenhuma rvore espalhava a cortina da sua rama densa. O meu
amigo de-certo trauteou, como todos trauteamos, aqueles versos gastos,
mas imortais:

    Era no outono, quando a imagem tua
     luz da lua...

Pois, como nessa estrofe, o pobre Jos Matias, ao regressar da praia da
Ericeira em outubro, no outono, avistou Elisa Miranda, uma noite no
terrao,  luz da lua! O meu amigo nunca contemplou aquele precioso tipo
de encanto Lamartiniano. Alta, esbelta, ondulosa, digna da comparao
bblica da palmeira ao vento. Cabelos negros, lustrosos e ricos, em
bands ondeados. Uma carnao de camlia muito fresca. Olhos negros,
lquidos, quebrados, tristes, de longas pestanas... Ah! meu amigo, at
eu, que j ento laboriosamente anotava Hegel, depois de a encontrar
numa tarde de chuva esperando a carruagem  porta do Seixas, a adorei
durante trs exaltados dias e lhe rimei um soneto! No sei se o Jos
Matias lhe dedicou sonetos. Mas todos ns, seus amigos, percebemos logo
o forte, profundo, absoluto amor que concebera, desde a noite de outono,
 luz da lua, aquele corao, que em Combra considervamos de _esquilo_!

Bem compreende que homem tam comedido e quieto no se exalou em suspiros
pblicos. J, porm, no tempo de Aristteles, se afirmava que amor e
fumo no se escondem; e do nosso cerrado Jos Matias o amor comeou logo
a escapar, como o fumo leve atravs das fendas invisveis duma casa
fechada que arde terrvelmente. Bem me recordo duma tarde que o visitei
em Arroios, depois de voltar do Alentejo. Era um domingo de Julho. le
ia jantar com uma tia-av, uma D. Mafalda Noronha, que vivia em Bemfica,
na quinta dos Cedros, onde habitualmente jantavam tambm aos domingos o
Matos Miranda e a divina Elisa. Creio mesmo que s nessa casa ela e o
Jos Matias se encontravam, sobretudo com as facilidades que
oferecem pensativas alamedas e retiros de sombra. As janelas do quarto
do Jos Matias abriam sbre o seu jardim e sbre o jardim dos Mirandas:
e, quando entrei, le ainda se vestia, lentamente. Nunca admirei, meu
amigo, face humana aureolada por felicidade mais segura e serena! Sorria
iluminadamente quando me abraou, com um sorriso que vinha das
profundidades da alma iluminada; sorria ainda deliciadamente emquanto eu
lhe contei todos os meus desgostos no Alentejo: sorriu depois
estticamente, aludindo ao calor e enrolando um cigarro distrado; e
sorriu sempre, enlevado, a escolher na gaveta da cmoda, com escrpulo
religioso, uma gravata de sda branca. E a cada momento,
irresistivelmente, por um hbito j tam inconsciente como o pestanejar,
os seus olhos risonhos, calmamente enternecidos, se voltavam para as
vidraas fechadas... De sorte que, acompanhando aquele raio ditoso, logo
descobri, no terrao da casa da Parreira, a divina Elisa, vestida de
claro, com um chapu branco, passeando preguiosamente, calando
pensativamente as luvas, e espreitando tambm as janelas do meu amigo,
que um lampejo oblquo do sol ofuscava de manchas de oiro. O Jos Matias
no entanto conversava, antes murmurava, atravs do sorriso perene,
coisas afveis e dispersas. Toda a sua ateno se concentrara
diante do espelho, no alfinete de coral e prola para prender a gravata,
no colete branco que abotoava e ajustava com a devoo com que um padre
novo, na exaltao cndida da primeira missa, se reveste da estola e do
amito para se acercar do altar. Nunca eu vira um homem deitar, com tam
profundo xtasi, gua de Colnia no leno! E depois de enfiar a
sobrecasaca, de lhe espetar uma soberba rosa, foi com inefvel emoo,
sem reter um delicioso suspiro, que abriu largamente, solenemente, as
vidraas! _Introibo ad altarem De!_ Eu permaneci discretamente
enterrado no sof. E, meu caro amigo, acredite! invejei aquele homem 
janela, imvel, hirto na sua adorao sublime, com os olhos, e a alma, e
todo o ser cravados no terrao, na branca mulher calando as luvas
claras, e tam indiferente ao Mundo como se o Mundo fsse apenas o
ladrilho que ela pisava e cobria com os ps!

E ste enlvo, meu amigo, durou dez anos, assim esplndido, puro,
distante e imaterial! No ria... De-certo se encontravam na quinta de D.
Mafalda: de-certo se escreviam, e transbordantemente, atirando as cartas
por cima do muro que separava os dois quintais: mas nunca, por cima das
heras dsse muro, procuraram a rara delcia duma conversa roubada ou a
delcia ainda mais perfeita dum silncio escondido na sombra. E
nunca trocaram um beijo... No duvide! Algum aprto de mo fugidio e
sfrego, sob os arvoredos da D. Mafalda, foi o limite exaltadamente
extremo, que a vontade lhes marcou ao desejo. O meu amigo no compreende
como se mantiveram assim dois frgeis corpos, durante dez anos, em tam
terrvel e mrbido renunciamento... Sim, de-certo lhes faltou, para se
perderem, uma hora de segurana ou uma portinha no muro. Depois a divina
Elisa vivia realmente num mosteiro, em que ferrolhos e grades eram
formados pelos hbitos rgidamente reclusos do Matos Miranda, diabtico
e tristonho. Mas, na castidade dste amor, entrou muita nobreza moral e
finura superior de sentimento. O amor espiritualiza o homem--e
materializa a mulher. Essa espiritualizao era fcil ao Jos Matias,
que (sem ns desconfiarmos) nascera desvairadamente espiritualista; mas
a humana Elisa encontrou tambm um gzo delicado nessa ideal adorao de
monge, que nem ousa roar, com os dedos trmulos e embrulhados no
rozrio, a tnica da Virgem sublimada. le, sim! le gozou nesse amor
transcendentemente desmaterializado um encanto sobreumano. E durante dez
anos, como o Ruy-Blas do vlho Hugo, caminhou, vivo e deslumbrado,
dentro do seu sonho radiante, sonho em que Elisa habitou realmente
dentro da sua alma, numa fuso tam absoluta que se tornou consubstancial
com o seu ser! Acreditar o meu amigo que le abandonou o charuto,
mesmo passeando solitariamente a cavalo pelos arredores de Lisboa, logo
que descobrira na quinta de D. Mafalda, uma tarde, que o fumo perturbava
Elisa?

E esta presena real da divina criatura no seu ser criou no Jos Matias
modos novos, estranhos, derivando da alucinao. Como o Visconde de
Garmilde jantava cedo,  hora verncula do Portugal antigo, Jos Matias
ceava, depois de S. Carlos, naquele delicioso e saudoso Caf Central,
onde o linguado parecia frito no cu, e o Colares no cu engarrafado.
Pois nunca ceava sem serpentinas profusamente acesas e a mesa juncada de
flores. Porque? Porque Elisa tambm ali ceava invisvel. Da sses
silncios banhados num sorriso religiosamente atento... Porque? Porque a
estava sempre escutando! Ainda me lembro dle arrancar do quarto trs
gravuras clssicas de Faunos ousados e Ninfas rendidas... Elisa pairava
idealmente naquele ambiente; e le purificava as paredes, que mandou
forrar de sdas claras. O amor arrasta ao luxo, sobretudo amor de tam
elegante idealismo: e o Jos Matias prodigalizou com esplendor o luxo
que ela partilhava. Decentemente no podia andar com a imagem de
Elisa numa tipia de praa, nem consentir que a augusta imagem roasse
pelas cadeiras de palhinha da plateia de S. Carlos. Montou, portanto,
carruagens dum gsto sbrio e puro: e assinou um camarote na pera, onde
instalou, para ela, uma poltrona pontifical, de setim branco, bordado a
strelas de oiro.

Alm disso como descobrira a generosidade de Elisa, logo se tornou
congnere e suntuosamente generoso: e ningum existiu ento em Lisboa
que espalhasse, com facilidade mais risonha, notas de cem mil ris.
Assim desbaratou, rpidamente, sessenta contos com o amor daquela mulher
a quem nunca dra uma flor!

E, durante sse tempo, o Matos Miranda? Meu amigo, o bom Matos Miranda
no desmanchava nem a perfeio, nem a quietao desta felicidade! Tam
absoluto seria o espiritualismo do Jos Matias que apenas se
interessasse pela alma de Elisa, indiferente s submisses do seu corpo,
invlucro inferior e mortal?... No sei. Verdade seja! aquele digno
diabtico, tam grave, sempre de cachen de l escura, com as suas suas
grisalhas, os seus ponderosos culos de oiro, no sugeria ideas
inquietadoras de marido ardente, cujo ardor, fatalmente e
involuntariamente, se partilha e abrasa. Todavia nunca compreendi,
eu, Filsofo, aquela considerao, qusi carinhosa, do Jos Matias pelo
homem que, mesmo desinteressadamente, podia por direito, por costume,
contemplar Elisa desapertando as fitas da saia branca!... Haveria ali
reconhecimento por o Miranda ter descoberto numa remota rua de Setbal
(onde Jos Matias nunca a descortinaria) aquela divina mulher, e por a
manter em confrto, slidamente nutrida, finamente vestida, transportada
em caleches de macias molas? Ou recebera o Jos Matias aquela costumada
confidncia--no sou tua, nem dle--que tanto consola do sacrifcio
porque tanto lisonjeia o egoismo?... No sei. Mas com certeza, ste seu
magnnimo desdm pela presena corporal do Miranda no templo, onde
habitava a sua Deusa, dava  felicidade de Jos Matias uma unidade
perfeita, a unidade dum cristal que por todos os lados rebrilha,
igualmente puro, sem arranhadura ou mancha. E esta felicidade, meu
amigo, durou dez anos... Que escandaloso luxo para um mortal!

Mas um dia, a terra, para o Jos Matias, tremeu toda, num terramoto de
incomparvel espanto. Em Janeiro ou Fevereiro de 1871, o Miranda, j
debilitado pela diabetes, morreu com uma pneumonia. Por estas mesmas
ruas, numa pachorrenta tipia de praa, acompanhei o seu entrro
numeroso, rico, com Ministros, porque o Miranda pertencia s
Instituies. E depois, aproveitando a tipia, visitei o Jos Matias em
Arroios, no por curiosidade perversa, nem para lhe levar felicitaes
indecentes, mas para que, naquele lance deslumbrador, le sentisse ao
lado a fra moderadora da Filosofia... Encontrei porm com le um amigo
mais antigo e confidencial, aquele brilhante Nicolau da Barca, que j
conduzi tambm a ste cemitrio, onde agora jazem, debaixo de lpides,
todos aqueles camaradas com quem levantei castelos nas nuvens... O
Nicolau chegara da Velosa, da sua quinta de Santarm, de madrugada,
reclamado por um telegrama do Matias. Quando entrei, um criado atarefado
arranjava duas malas enormes. O Jos Matias abalava nessa noite para o
Prto. J envergara mesmo um fato de viagem, todo negro, com sapatos de
couro amarelo: e depois de me sacudir a mo, emquanto o Nicolau remexia
um grog, continuou vagando pelo quarto, calado, como embaado, com um
modo que no era emoo, nem alegria pdicamente disfarada, nem
surprsa do seu destino bruscamente sublimado. No! se o bom Darwin nos
no ilude no seu livro da _Expresso das Emoes_, o Jos Matias, nessa
tarde, s sentia e s exprimia embarao! Em frente, na casa da Parreira,
todas as janelas permaneciam fechadas sob a tristeza da tarde
cinzenta. E todavia surpreendi o Jos Matias atirando para o terrao,
rpidamente, um olhar em que transparecia inquietao, ansiedade, quasi
terror! Como direi? Aquele  o olhar que se resvala para a jaula mal
segura onde se agita uma lea! Num momento em que le entrara na alcova,
murmurei ao Nicolau, por cima do grog:--O Matias faz perfeitamente em
ir para o Prto... Nicolau encolheu os ombros:--Sim, pensou que era
mais delicado... Eu aprovei. Mas s durante os meses de luto pesado...
s sete horas acompanhamos o nosso amigo  estao de Santa Apolnia. Na
volta, dentro do cop que uma grande chuva batia, filosofamos. Eu sorria
contente:--Um ano de luto, e depois muita felicidade e muitos filhos...
 um poema acabado!--O Nicolau acudiu srio:--E acabado numa deliciosa
e suculenta prosa. A divina Elisa fica com toda a sua divindade e a
fortuna do Miranda, uns dez ou dze contos de renda... Pela primeira vez
na nossa vida contemplamos, tu e eu, a virtude recompensada!


Meu caro amigo! os meses cerimoniais de luto passaram, depois outros, e
Jos Matias no se arredou do Prto. Nesse Agosto o encontrei eu
instalado fundamentalmente no Hotel Francfort, onde entretinha a
melancolia dos dias abrasados, fumando (porque voltara ao tabaco), lendo
romances de Jlio Verne, e bebendo cerveja gelada at que a tarde
refrescava e le se vestia, se perfumava, se floria para jantar na Foz.

E a-pesar de se acercar o bemdito remate do luto e da desesperada
espera, no notei no Jos Matias nem alvoroo elegantemente reprimido,
nem revolta contra a lentido do tempo, vlho por vezes tam moroso e
trpego... Pelo contrrio! Ao sorriso de radiosa certeza, que nesses
anos o iluminara com um nimbo de beatitude, sucedera a seriedade
carregada, toda em sombra e rugas, de quem se debate numa dvida
irresolvel, sempre presente, roedora e dolorosa. Quer que lhe diga?
Nesse vero, no Hotel Francfort, sempre me pareceu que o Jos Matias, a
cada instante da sua vida acordada, mesmo emborcando a fresca cerveja,
mesmo calando as luvas ao entrar para a caleche que o levava  Foz,
angustiadamente perguntava  sua conscincia:--Que hei-de fazer? Que
hei-de fazer?--E depois, uma manh, ao almo, realmente me assombrou,
exclamando ao abrir o jornal, com um assomo de sangue na face: O qu!
J so 29 de Agosto? Santo Deus... J o fim de Agosto!...

Voltei a Lisboa, meu amigo. O inverno passou, muito sco e muito azul.
Eu trabalhei nas minhas _Origens do Utilitarismo_. Um domingo, no Rocio,
quando j se vendiam cravos nas tabacarias, avistei dentro dum cop a
divina Elisa, com plumas roxas no chapu. E nessa semana encontrei no
meu _Dirio Ilustrado_ a notcia curta, qusi tmida, do casamento da
Snr. D. Elisa Miranda... Com quem, meu amigo?--Com o conhecido
propritrio, o Snr. Francisco Trres Nogueira!...

O meu amigo cerrou a o punho, e bateu na coxa espantado. Eu tambm
cerrei os punhos ambos, mas para os levantar ao Cu onde se julgam os
feitos da Terra, e clamar furiosamente, aos urros, contra a falsidade, a
inconstncia ondeante e prfida, toda a enganadora torpeza das mulheres,
e daquela especial Elisa cheia de infmia entre as mulheres! Atraioar 
pressa, atabalhoadamente, apenas findara o luto negro, aquele nobre,
puro, intelectual Matias! e o seu amor de dez anos, submisso e sublime!...

E depois de apontar os punhos para o Cu ainda os apertava na cabea,
gritando:--Mas porqu? porqu?--Por amor? Durante anos ela amara
enlevadamente ste mo, e dum amor que se no desiludira nem se
fartara, porque permanecia suspenso, imaterial, insatisfeito. Por
ambio? Trres Nogueira era um ocioso amvel como Jos Matias, e
possuia em vinhas hipotecadas os mesmos cincoenta ou sessenta contos que
o Jos Matias herdara agora do tio Garmilde em terras excelentes e
livres. Ento porqu? Certamente porque os grossos bigodes negros do
Trres Nogueira apeteciam mais  sua carne, do que o buo louro e
pensativo do Jos Matias! Ah! bem ensinara S. Joo Crislogo que a
mulher  um monturo de impureza, erguido  porta do Inferno!

Pois, meu amigo, quando eu assim rugia, encontro uma tarde na rua do
Alecrim o nosso Nicolau da Barca, que salta da tipia, me empurra para
um portal, agarra excitadamente no meu pobre brao, e exclama
engasgado:--J sabes? Foi o Jos Matias que recusou! Ela escreveu,
esteve no Prto, chorou... le nem consentiu em a ver! No quis casar,
no quer casar! Fiquei trespassado.--E ento ela...--Despeitada,
fortemente cercada pelo Trres, cansada da viuvice, com aqueles blos
trinta anos em boto, que diabo! coitada, casou! Eu ergui os braos at
a abbada do ptio:--Mas ento sse sublime amor do Jos Matias?. O
Nicolau, seu ntimo e confidente, jurou com irrecusvel segurana:-- o
mesmo sempre! Infinito, absoluto... Mas no quer casar!--Ambos nos
olhamos, e depois ambos nos separamos, encolhendo os ombros, com
aquele assombro resignado que convm a espritos prudentes perante o
Incognoscvel. Mas eu, Filsofo, e portanto esprito imprudente, toda
essa noite esfuraquei o acto do Jos Matias com a ponta duma Psicologia
que expressamente aguara:--e j de madrugada, estafado, conclu, como
se conclui sempre em Filosofia, que me encontrava diante duma Causa
Primria, portanto impenetrvel, onde se quebraria, sem vantagem para
le, para mim, ou para o Mundo, a ponta do meu Instrumento!

Depois a divina Elisa casou e continuou habitando a Parreira com o seu
Trres Nogueira, no confrto e sossgo que j gozara com o seu Matos
Miranda. No meado do vero Jos Matias recolheu do Prto a Arroios, ao
casaro do tio Garmilde, onde reocupou os seus antigos quartos, com as
varandas para o jardim, j florido de dlias que ningum tratava. Veio
Agosto, como sempre em Lisboa silencioso e quente. Aos domingos Jos Matias
jantava com D. Mafalda de Noronha, em Bemfica, solitariamente--porque o
Trres Nogueira no conhecia aquela venerada senhora da Quinta dos Cedros.
A divina Elisa, com vestidos claros, passeava  tarde no jardim entre as
roseiras. De sorte que a nica mudana, naquele doce canto de Arroios,
parecia ser o Matos Miranda no seu belo jazigo dos Prazeres, todo de
mrmore--e o Trres Nogueira no leito excelente de Elisa.

Havia, porm, uma tremenda e dolorosa mudana--a do Jos Matias!
Adivinha o meu amigo como sse desgraado consumia os seus estreis
dias? Com os olhos, e a memria, e a alma, e todo o ser cravados no
terrao, nas janelas, nos jardins da Parreira! Mas agora no era de
vidraas largamente abertas, em aberto xtasi, com o sorriso de segura
beatitude: era por trs das cortinas fechadas, atravs duma escassa
fenda, escondido, surripiando furtivamente os brancos sulcos do vestido
branco, com a face toda devastada pela angstia e pela derrota. E
compreende porque sofria assim, ste pobre corao? Certamente porque
Elisa, desdenhada pelos seus braos fechados, correra logo, sem luta,
sem escrpulos, para outros braos, mais acessveis e prontos... No,
meu amigo! E note agora a complicada subtileza desta paixo. O Jos
Matias permanecia devotamente crente de que Elisa, na profundidade da
sua alma, nesse sagrado fundo espiritual onde no entram as imposies
das convenincias, nem as decises da razo pura, nem os mpetos do
orgulho, nem as emoes da carne--o amava, a le, nicamente a le, e
com um amor que no deperecera, no se alterara, floria em todo o
seu vio, mesmo sem ser regado ou tratado, como a antiga Rosa Mstica! O
que o torturava, meu amigo, o que lhe cavara longas rugas em curtos
meses, era que um homem, um macho, um bruto, se tivesse apoderado
daquela mulher que era sua! e que do modo mais santo e mais socialmente
puro, sob o patrocnio enternecido da Igreja e do Estado, lambuzasse com
os rijos bigodes negros,  farta, os divinos lbios que le nunca ousara
roar, na supersticiosa reverncia e qusi no terror da sua divindade!
Como lhe direi?... O sentimento dste extraordinrio Matias era o de um
monge, prostrado ante uma Imagem da Virgem, em transcendente
enlvo--quando de repente um bestial sacrlego trepa ao altar, e ergue
obscenamente a tnica da Imagem! O meu amigo sorri... E ento o Matos
Miranda? Ah! meu amigo! sse era diabtico, e grave, e obeso, e j
existia instalado na Parreira, com a sua obesidade e a sua diabetes,
quando le conhecera Elisa e lhe dera para sempre vida e corao. E o
Trres Nogueira, sse, rompera brutalmente atravs do seu purssimo
amor, com os negros bigodes, e os carnudos braos, e o rijo arranque dum
antigo pegador de toiros, e empolgara aquela mulher--a quem revelara
talvez o que  um homem!

Mas, com os demnios! essa mulher le a recusara, quando ela se lhe
oferecia, na frescura e na grandeza dum sentimento que nenhum desdm
ainda ressequira ou abatera. Que quer?...  a espantosa tortuosidade
espiritual dste Matias! Ao cabo duns meses le _esquecera_,
positivamente _esquecera_ essa recusa afrontosa, como se fra um leve
desencontro de intersses materiais ou sociais, passado h meses, no
Norte, e a que a distncia e o tempo dissipavam a realidade e a amargura
leve! E agora, aqui em Lisboa, com as janelas de Elisa diante das suas
janelas e as rosas dos dois jardins unidos rescendendo na sombra, a dor
presente, a dor real, era que le amara sublimemente uma mulher, e que a
colocara entre as estrlas para mais pura adorao, e que um bruto
moreno, de bigodes negros, arrancara essa mulher de entre as estrlas e
a arremessara para a cama!

Enredado caso, hein, meu amigo? Ah! muito filosofei sbre le, por
dever de filsofo! E conclu que o Matias era um doente, atacado de
hiper-espiritualismo, duma inflamao violenta e putrida do
espiritualismo, que receara apavoradamente as materialidades do
casamento, as chinelas, a pele pouco fresca ao acordar, um ventre enorme
durante seis meses, os meninos berrando no bero molhado... E agora
rugia de furor e tormento, porque certo materialo, ao lado, se
prontificara a aceitar Elisa em camisola de l. Um imbecil?... No, meu
amigo! um ultra-romntico, loucamente alheio s realidades fortes da
vida, que nunca suspeitou que chinelas e cueiros sujos de meninos so
coisas de superior beleza em casa em que entre o sol e haja amor.

E sabe o meu amigo o que exacerbou, mais furiosamente, ste tormento? 
que a pobre Elisa mostrava por le o antigo amor! Que lhe parece?
Infernal, hein?... Pelo menos se no sentia o antigo amor intacto na sua
essncia, forte como outrora e nico, conservava pelo pobre Matias uma
irresistvel curiosidade e repetia os gestos dsse amor... Talvez fsse
apenas a fatalidade dos jardins vizinhos! No sei. Mas logo desde
Setembro, quando o Trres Nogueira partiu para as suas vinhas de
Carcavelos a assistir  vindima, ela recomeou da borda do terrao, por
sbre as rosas e as dlias abertas, aquela doce remessa de doces olhares
com que durante dez anos extasiara o corao do Jos Matias.

No creio que se escrevessem por cima do muro do jardim, como sob o
regmen paternal do Matos Miranda... O novo senhor, o homem robusto da
bigodeira negra, impunha  divina Elisa, mesmo de longe, de entre as
vinhas de Carcavelos, retramento e prudncia. E acalmada por aquele
marido, mo e forte, menos sentiria agora a necessidade de algum
encontro discreto na sombra tpida da noite, mesmo quando a sua
elegncia moral e o rgido idealismo do Jos Matias consentissem em
aproveitar uma escada contra o muro... De resto, Elisa era
fundamentalmente honesta; e conservava o respeito sagrado do seu corpo,
por o sentir tam belo e cuidadosamente feito por Deus--mais do que da
sua alma. E quem sabe?... Talvez a adorvel mulher pertencesse  bela
raa daquela marquesa italiana, a Marquesa Jlia de Malfieri, que
conservava dois amorosos ao seu doce servio, um poeta para as
delicadezas romnticas e um cocheiro para as necessidades grosseiras.

Emfim, meu amigo, no psicologuemos mais sbre esta viva, atrs do morto
que morreu por ela! O facto foi que Elisa e o seu amigo insensivelmente
recaram na vlha unio ideal atravs dos jardins em flor. E em Outubro,
como o Trres Nogueira continuava a vindimar em Carcavelos, o Jos
Matias, para contemplar o terrao da Parreira, j abria de novo as
vidraas, larga e estticamente!

Parece que um tam estreme espiritualista, reconquistando a idealidade do
antigo amor, devia reentrar tambm na antiga felicidade perfeita. le
reinava na alma imortal de Elisa:--que importava que outro se ocupasse
do seu corpo mortal? Mas no! o pobre mo sofria, angustiadamente.
E, para sacudir a pungncia dstes tormentos, findou, le tam sereno,
duma tam doce harmonia de modos, por se tornar um agitado. Ah! meu
amigo, que redemonho e estrpito de vida! Desesperadamente, durante um
ano, remexeu, aturdiu, escandalizou Lisboa! So dsse tempo algumas das
suas extravagncias lendrias... Conhece a da ceia?... Uma ceia
oferecida a trinta ou quarenta mulheres das mais torpes e das mais
sujas, apanhadas pelas negras vielas do Bairro-Alto e da Mouraria, que
depois mandou montar em burros, e gravemente, melanclicamente, posto na
frente, sbre um grande cavalo branco, com um imenso chicote, conduziu
aos altos da Graa, para saudar a apario do sol!

Mas todo ste alarido no lhe dissipou a dor--e foi ento que, nesse
inverno, comeou a jogar e a beber! Todo o dia se encerrava em casa
(certamente por trs das vidraas, agora que Trres Nogueira regressara
das vinhas) com olhos e alma cravados no terrao fatal; depois  noite,
quando as janelas de Elisa se apagavam, saa numa tipia, sempre a
mesma, a tipia do _Gago_, corria  roleta do Bravo, depois ao club do
Cavalheiro, onde jogava frenticamente at a tardia hora de cear, num
gabinete de restaurante, com molhos de velas acesas, e o Colares, e o
Champanhe, e o Conhaque correndo em jorros desesperados.

E esta vida, espicaada pelas Frias, durou anos, sete anos! Todas as
terras que lhe deixara o tio Garmilde se foram, largamente jogadas e
bebidas: e s lhe restava o casaro de Arroios e o dinheiro apressado
porque o hipotecara. Mas, sbitamente, desapareceu de todos os antros do
vinho e de jgo. E soubemos que o Trres Nogueira estava morrendo com
uma anasarca!

Por sse tempo, e por causa dum negcio do Nicolau da Barca que me
telegrafara ansiosamente da sua quinta de Santarm (negcio embrulhado,
duma letra) procurei o Jos Matias em Arroios, s dez horas, numa noite
quente de Abril. O criado, emquanto me conduzia pelo corredor mal
alumiado, j desadornado das ricas arcas e talhas da ndia do vlho
Garmilde, confessou que S. Ex. no acabara de jantar... E ainda me
lembro, com um arrepio, da impresso desolada que me deu o desgraado!
Era no quarto que abria sbre os dois jardins. Diante duma janela, que
as cortinas de damasco cerravam, a mesa resplandecia, com duas
serpentinas, um csto de rosas brancas, e algumas das nobres pratas do
Garmilde: e ao lado, todo estendido numa poltrona, com o colete branco
desabotoado, a face lvida descada sbre o peito, um copo vazio na
mo inerte, o Jos Matias parecia adormecido ou morto.

Quando lhe toquei no ombro, ergueu num sobressalto a cabea, toda
despenteada:--Que horas so?--Apenas lhe gritei, num gesto alegre,
para o despertar, que era tarde, que eram dez, encheu precipitadamente o
copo, da garrafa mais chegada, de vinho branco, e bebeu lentamente, com
a mo a tremer, a tremer... Depois, arredando os cabelos da testa
hmida:--Ento que h de novo?--Esgazeado, sem compreender, escutou,
como num sonho, o recado que lhe mandava o Nicolau. Por fim, com um
suspiro, remexeu uma garrafa de Champanhe dentro do balde em que ela
gelava, encheu outro copo, murmurando:--Um calor... Uma sde!... Mas
no bebeu: arrancou o corpo pesado  poltrona de vrga, e forou os
passos mal firmes para a janela, a que abriu violentamente as cortinas,
depois a vidraa... E ficou hirto, como colhido pelo silncio e escuro
sossgo da noite estrelada. Eu espreitei, meu amigo! Na casa da Parreira
duas janelas brilhavam, fortemente alumiadas, abertas  aragem. E essa
claridade viva envolvia uma figura branca, nas longas pregas de um
roupo branco, parada  beira do terrao, como esquecida numa
contemplao. Era Elisa, meu amigo! Por trs, no fundo do quarto claro,
o marido certamente arquejava, na opresso da anasarca. Ela,
imvel, repousava, mandando um doce olhar, talvez um sorriso, ao seu
doce amigo. O miservel, fascinado, sem respirar, sorvia o encanto
daquela viso bemfazeja. E entre les rescendiam, na moleza da noite,
todas as flores dos dois jardins... Sbitamente Elisa recolheu, 
pressa, chamada por algum gemido ou impacincia do pobre Trres. E as
janelas logo se fecharam, toda a luz e vida se sumiram na casa da Parreira.

Ento Jos Matias, com um soluo despedaado, de transbordante tormento,
cambaleou, tam ansiadamente se agarrou  cortina que a rasgou, e tombou
desamparado nos braos que lhe estendi, e em que o arrastei para a
cadeira, pesadamente, como a um morto ou a um bbado. Mas, volvido um
momento, com espanto meu, o extraordinrio homem descerra os olhos,
sorri num lento e inerte sorriso, murmura qusi serenamente:-- o
calor... Est um calor! Voc no quer tomar ch?

Recusei e abalei--emquanto le, indiferente  minha fuga, estendido na
poltrona, acendia trmulamente um imenso charuto.


Santo Deus! j estamos em Santa Isabel! Como stes lagias vo
arrastando depressa o pobre Jos Matias para o p e para o verme
final! Pois, meu amigo, depois dessa curiosa noite, o Trres Nogueira
morreu. A divina Elisa, durante o novo luto, recolheu  quinta duma
cunhada tambm viuva,  Crte Moreira, ao p de Beja. E o Jos Matias
inteiramente se sumiu, se evaporou, sem que me revoassem novas dle,
mesmo incertas--tanto mais que o ntimo por quem as conheceria, o nosso
brilhante Nicolau da Barca, partira para a ilha da Madeira, com o seu
derradeiro pedao de pulmo, sem esperana, por dever clssico, qusi
dever social, de tsico.

Todo sse ano, tambm, andei enfronhado no meu _Ensaio dos Fenmenos
afectivos_. Depois, um dia, no como do vero, descendo pela rua de S.
Bento, com os olhos levantados, a procurar o n. 214, onde se catalogava
a livraria do Morgado de Azemel, quem avisto eu  varanda duma casa
nova e de esquina? A divina Elisa, metendo flhas de alface na gaiola de
um canrio! E bela, meu amigo! mais cheia e mais harmoniosa, toda
madura, e suculenta, e desejvel, a-pesar de ter festejado em Beja os
seus quarenta e dois anos! Mas aquela mulher era da grande raa de
Helena que, quarenta anos tambm depois do crco de Troia, ainda
deslumbrava os homens mortais e os Deuses imortais. E, curioso acaso!
logo nessa tarde, pelo Sco, o Joo Sco da Biblioteca, que catalogava a
livraria do Morgado, conheci a nova histria desta Helena admirvel.

A divina Elisa tinha agora um amante... E nicamente por no poder, com
a sua costumada honestidade, possuir um legtimo e terceiro marido. O
ditoso mo que ela adorava era com efeito casado... Casado em Beja com
uma espanhola que, ao cabo dum ano dsse casamento e de outros
requebros, partira para Sevilha, passar devotamente a Semana Santa, e l
adormecera nos braos dum riqussimo criador de gado. O marido, pacato
apontador de Obras-Pblicas, continuara em Beja, onde tambm vagamente
ensinava um vago desenho... Ora uma das suas discpulas era a filha da
senhora da Crte Moreira: e a na quinta, emquanto le guiava o
esfuminho da menina, Elisa o conheceu e o amou, com uma paixo tam
urgente que o arrancou precipitadamente s Obras Pblicas, e o arrastou
a Lisboa, cidade mais propcia do que Beja a uma felicidade escandalosa,
e que se esconde. O Joo Sco  de Beja, onde passara o Natal; conhecia
perfeitamente o apontador, as senhoras da Crte Moreira; e compreendeu
o romance, quando das janelas dsse n. 214, onde catalogava a Livraria
do Azemel, reconheceu Elisa na varanda da esquina, e o apontador
enfiando regaladamente o porto, bem vestido, bem calado, de luvas
claras, com aparncia de ser infinitamente mais ditoso naquelas
obras particulares do que nas Pblicas.

E dessa mesma janela do 214 o conheci eu tambm, o apontador! Belo mo,
slido, branco, de barba escura, em excelentes condies de quantidade
(e talvez mesmo de qualidade) para encher um corao viuvo, e portanto
vazio, como diz a Bblia. Eu freqentava sse n. 214, interessado no
catlogo da Livraria, porque o Morgado de Azemel possuia, pelo irnico
acaso das heranas, uma coleco incomparvel dos Filsofos do sculo
XVIII. E passadas semanas, sando dsses livros uma noite (o Joo Sco
trabalhava de noite) e parando adiante,  beira dum portal aberto, para
acender o charuto, enxergo  luz tremente do fsforo, metido na sombra,
o Jos Matias! Mas que Jos Matias, meu caro amigo! Para o considerar
mais detidamente, raspei outro fsforo. Pobre Jos Matias! Deixara
crescer a barba, uma barba rara, indecisa, suja, mole como coto
amarelado: deixara crescer o cabelo, que lhe surdia em farripas scas de
sob um vlho chapu cco: mas todo le, no resto, parecia diminuido,
minguado, dentro duma quinzena de mescla enxovalhada, e dumas calas
pretas, de grandes bolsos, onde escondia as mos com o gesto
tradicional, tam infinitamente triste, da misria ociosa. Na
espantada lstima que me tomou, apenas balbuciei:--Ora esta! Voc!
Ento que  feito?--E le, com a sua mansido polida, mas secamente,
para se desembaraar, e numa voz que a aguardente enrouquecera: Por
aqui,  espera de um sujeito.--No insisti, segui. Depois, adiante,
parando, verifiquei o que num relance adivinhara--que o portal negro
ficava em frente ao prdio novo e s varandas de Elisa!

Pois, meu amigo, trs anos viveu o Jos Matias encafuado naquele portal!


Era um dsses ptios da Lisboa antiga, sem porteiro, sempre
escancarados, sempre sujos, cavernas laterais da rua, de onde ningum
escorraa os escondidos da misria ou da dor. Ao lado havia uma taberna.
Infalivelmente, ao anoitecer, o Jos Matias descia a rua de S. Bento,
colado aos muros, e, como uma sombra, mergulhava na sombra do portal. A
essa hora j as janelas de Elisa luziam, de inverno embaciadas pela
nvoa fina, de vero ainda abertas e arejando no repouso e na calma. E
para elas, imvel, com as mos nas algibeiras, o Jos Matias se quedava
em contemplao. Cada meia-hora, subtilmente, enfiava para a taberna.
Copo de vinho, copo de aguardente;--e, de mansinho, recolhia 
negrura do portal, ao seu xtasi. Quando as janelas de Elisa se
apagavam, ainda atravs da longa noite, mesmo das negras noites de
inverno--encolhido, transido, a bater as solas rtas no lagedo, ou
sentado ao fundo, nos degraus da escada--ficava esmagando os olhos
turvos na fachada negra daquela casa, onde a sabia dormindo com o outro!

Ao princpio, para fumar um cigarro apressado, trepava at ao patamar
deserto, a esconder o lume que o denunciaria no seu esconderijo. Mas
depois, meu amigo, fumava incessantemente, colado  ombreira, puxando o
cigarro com nsia, para que a ponta rebrilhasse, o alumiasse! E percebe
porqu, meu amigo?... Porque Elisa j descobrira que, dentro daquele
portal, a adorar submissamente as suas janelas, com a alma de outrora,
estava o seu pobre Jos Matias!...

E acreditar o meu amigo que ento, todas as noites, ou por trs da
vidraa ou encostada  varanda (com o apontador dentro, estirado no
sof, j de chinelas, lendo o _Jornal da Noite_) ela se demorava a fitar
o portal, muito quieta, sem outro gesto, naquele antigo e mudo olhar do
terrao por sbre as rosas e as dlias? O Jos Matias percebera,
deslumbrado. E agora avivava desesperadamente o lume, como um farol,
para guiar na escurido os amados olhos dela, e lhe mostrar que ali
estava, transido, todo seu, e fiel!

De dia nunca le passava na rua de S. Bento. Como ousaria, com o
jaqueto rto nos cotovelos e as botas cambadas? Porque aquele mo de
elegncia sbria e fina tombara na misria do andrajo. Onde arranjava
mesmo, cada dia, os trs patacos para o vinho e para a posta de bacalhau
nas tabernas? No sei... Mas louvemos a divina Elisa, meu amigo! Muito
delicadamente, por caminhos arredados e astutos, ela, rica, procurara
estabelecer uma penso ao Jos Matias, mendigo. Situao picante, hein?
A grata senhora dando duas mesadas aos seus dois homens--o amante do
corpo e o amante da alma! le, porm, adivinhou de onde procedia a
pavorosa esmola--e recusou, sem revolta, nem alarido de orgulho, at com
enternecimento, at com lgrimas nas plpebras que a aguardente inflamara!

Mas s com noite muito cerrada ousava descer  rua de S. Bento, e enfiar
para o seu portal. E adivinha o meu amigo como le gastava o dia? A
espreitar, a seguir, a farejar o apontador de Obras-Pblicas! Sim, meu
amigo! uma curiosidade insaciada, frentica, atroz, por aquele homem,
que Elisa escolhera!... Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira,
tinham entrado na alcova de Elisa, pblicamente, pela porta da
Igreja, e para outros fins humanos alm do amor--para possuir um lar,
talvez filhos, estabilidade e quietao na vida. Mas ste era meramente
o amante, que ela nomeara e mantinha s para ser amada: e nessa unio
no aparecia outro motivo racional seno que os dois corpos se unissem.
No se fartava, portanto, de o estudar, na figura, na roupa, nos modos,
ansioso por saber bem como era sse homem, que, para se completar, a sua
Elisa preferira entre a turba dos homens. Por decncia, o apontador
morava na outra extremidade da rua de S. Bento, diante do Mercado. E
essa parte da rua, onde o no surpreenderiam, na sua pelintrice, os
olhos de Elisa, era o paradeiro do Jos Matias, logo de manh, para
mirar, farejar o homem, quando le recolhia da casa de Elisa, ainda
quente do calor da sua alcva. Depois no o largava, cautelosamente,
como um larpio, rastejando de longe no seu rasto. E eu suspeito que o
seguia assim, menos por curiosidade perversa, do que para verificar se,
atravs das tentaes de Lisboa, terrveis para um apontador de Beja, o
homem conservava o corpo fiel a Elisa. Em servio da felicidade
dela--fiscalizava o amante da mulher que amava!

Requinte furioso de espiritualismo e devoo, meu amigo! A alma de Elisa
era a sua e recebia perenemente a adorao perene: e agora queria
que o corpo de Elisa no fsse menos adorado, nem menos lealmente, por
aquele a quem ela entregara o corpo! Mas o apontador era fcilmente fiel
a uma mulher tam formosa, tam rica, de meias de sda, de brilhantes nas
orelhas, que o deslumbrava. E quem sabe, meu amigo? talvez esta
fidelidade, preito carnal  divindade de Elisa, fsse para o Jos Matias
a derradeira felicidade que lhe concedeu a vida. Assim me persuado,
porque no inverno passado, encontrei o apontador, numa manh de chuva,
comprando camlias a um florista da rua do Oiro; e defronte, a uma
esquina, o Jos Matias, escaveirado, esfrangalhado, cocava o homem, com
carinho, qusi com gratido! E talvez nessa noite, no portal, tiritando,
batendo as solas encharcadas, com os olhos enternecidos nas escuras
vidraas, pensasse:--Coitadinha, pobre Elisa! Ficou bem contente por
le lhe trazer as flores!

Isto durou trs anos.

Emfim, meu amigo, antes de ontem, o Joo Sco apareceu em minha casa, de
tarde, esbaforido:--L levaram o Jos Matias numa maca, para o
hospital, com uma congesto nos pulmes!

Parece que o encontraram, de madrugada, estirado no ladrilho, todo
encolhido no jaqueto delgado, arquejando, com a face coberta de
morte, voltada para as varandas de Elisa. Corri ao hospital. Morrera...
Subi, com o mdico de servio,  enfermaria. Levantei o lenol que o
cobria. Na abertura da camisa suja e rta, prso ao pescoo por um
cordo, conservava um saquinho de sda, podo e sujo tambm. De-certo
continha flor, ou cabelos, ou pedao de renda de Elisa, do tempo do
primeiro encanto e das tardes de Bemfica... Perguntei ao mdico, que o
conhecia e o lastimava, se le sofrera.--No! Teve um momento comatoso,
depois arregalou os olhos, exclamou _Oh!_ com grande espanto, e ficou.

Era o grito da alma, no assombro e horror de morrer tambm? Ou era a
alma triunfando por se reconhecer emfim imortal e livre? O meu amigo no
sabe; nem o soube o divino Plato; nem o saber o derradeiro filsofo na
derradeira tarde do mundo.

Chegamos ao cemitrio. Creio que devemos pegar s borlas do caixo... Na
verdade,  bem singular ste Alves _Capo_, seguindo tam sentidamente o
nosso pobre espiritualista... Mas, Santo Deus, olhe! Alm,  espera, 
porta da Igreja, aquele sujeito compenetrado, de casaca, com palet
alvadio...  o apontador de Obras Pblicas! E trs um grosso ramo de
violetas... Elisa mandou o seu amante carnal acompanhar  cova e
cobrir de flores o seu amante espiritual! Mas, nunca ela pediria ao
Jos Matias para espalhar violetas sbre o cadaver do apontador!  que
sempre a Matria, mesmo sem o compreender, sem dle tirar a sua
felicidade, adorar o Esprito, e sempre a si prpria, atravs dos gozos
que de si recebe, se tratar com brutalidade e desdm! Grande conslo,
meu amigo, ste apontador com o seu ramo, para um Metafsico que, como
eu, comentou Spnosa e Mallebranche, reabilitou Fichte, e provou
suficientemente a iluso da sensao! S por isto valeu a pena trazer 
sua cova ste inexplicado Jos Matias, que era talvez muito mais que um
homem--ou talvez ainda menos que um homem...--Com efeito, est frio...
Mas que linda tarde!




A PERFEIO


I

Sentado numa rocha, na ilha de Ogigya, com a barba enterrada entre as
mos, de onde desaparecera a aspereza calosa e tisnada das armas e dos
remos, Ulisses, o mais subtil dos homens, considerava, numa escura e
pesada tristeza, o mar muito azul que mansa e harmoniosamente rolava
sbre a areia muito branca. Uma tnica bordada de flores escarlates
cobria, em pregas moles, o seu corpo poderoso, que engordara. Nas
correias das sandlias, que lhe calavam os ps amaciados e perfumados
de essncias, reluziam esmeraldas do Egipto. E o seu basto era um
maravilhoso galho de coral, rematado em pinha de prolas, como os que
usam os Deuses marinhos.

A divina Ilha, com os seus rochedos de alabastro, os bosques de cedros e
tuias odorferas, as messes eternas doirando os vales, a frescura das
roseiras revestindo os outeiros suaves, resplandecia, adormecida na
moleza da ssta, toda envolta em mar resplandecente. Nem um spro dos
Zfiros curiosos, que brincam e correm por sbre o Arquiplago,
desmanchava a serenidade do luminoso ar, mais doce que o vinho mais
doce, todo repassado pelo fino aroma dos prados de violetas. No
silncio, embebido de calor afvel, eram duma harmonia mais embaladora
os murmrios de arroios e fontes, o arrulhar das pombas voando dos
ciprestes aos pltanos, e o lento rolar e quebrar da onda mansa sbre a
areia macia. E nesta inefvel paz e beleza imortal, o subtil Ulisses,
com os olhos perdidos nas guas lustrosas, amargamente gemia, revolvendo
o queixume do seu corao...

Sete anos, sete imensos anos, iam passados desde que o raio fulgente de
Jpiter fendera a sua nave de alta pra vermelha, e le, agarrado ao
mastro partido, trambulhara na braveza mugidora das espumas sombrias,
durante nove dias, durante nove noites, at que boiara em guas mais
calmas, e tocara as areias daquela ilha onde Calipso, a Deusa radiosa, o
recolhera e o amara! E durante sses imensos anos, como se arrastara a
sua vida, a sua grande e forte vida, que, depois da partida para os
muros fatais de Troia, abandonando entre lgrimas inumerveis a sua
Penlope de olhos claros, o seu pequenino Telmaco enfaixado no colo da
ama, andara sempre tam agitada por perigos, e guerras, e astcias, e
tormentas, e rumos perdidos?... Ah! ditosos os Reis mortos, com formosas
feridas no branco peito, diante das portas de Troia! Felizes os seus
companheiros tragados pela onda amarga! Feliz le se as lanas troianas
o trespassassem nessa tarde de grande vento e poeira, quando, junto 
_Faia_, defendia dos ultrajes, com a espada sonora, o corpo morto de
Aquiles! Mas no! vivera!--E agora, cada manh, ao sar sem alegria do
trabalhoso leito de Calipso, as Ninfas, servas da Deusa, o banhavam numa
gua muito pura, o perfumavam de lnguidas essncias, o cobriam com uma
tnica sempre nova, ora bordada a sdas finas, ora bordada de oiro
plido! No entanto, sbre a mesa lustrosa, erguida  porta da gruta, na
sombra das ramadas, junto ao sussurro dormente dum arroio diamantino, os
aafates e as travessas lavradas transbordavam de bolos, de frutas, de
tenras carnes fumegando, de peixes scintilando como tramas de prata. A
intendenta venervel gelava os vinhos doces nas crateras de bronze,
coroadas de rosas. E le, sentado num escabelo, estendia as mos
para as iguarias perfeitas, emquanto ao lado, sbre um trono de marfim,
Calipso, espargindo atravs da tnica nevada a claridade e o aroma do
seu corpo imortal, sublimemente serena, com um sorriso taciturno, sem
tocar nas comidas humanas, debicava a ambrosia, bebia em goles delgados
o nctar transparente e rubro. Depois, tomando aquele basto de
Prncipe-de-Povos com que Calipso o presenteara, repercorria sem
curiosidade os sabidos caminho da Ilha, tam lisos e tratados que nunca
as suas sandlias reluzentes se maculavam de p, tam penetrados pela
imortalidade da Deusa que jmais neles encontrara flha sca, nem flor
menos fresca pendendo na haste. Sbre uma rocha se sentava ento,
contemplando aquele mar que tambm banhava taca, l tam bravio, aqui
tam sereno, e pensava, e gemia, at que as guas e os caminhos se
cobriam de sombra, e le recolhia  gruta para dormir, sem desejo, com a
Deusa que o desejava!... E durante stes imensos anos, que destino
envolvera a sua taca, a spera ilha de sombrias matas? Viviam les
ainda, os seres amados? Sbre a forte colina, dominando a enseada de
Reithros e os pinheirais de Neus, ainda se erguia o seu palcio, com os
belos prticos pintados de vermelho e roxo? Ao cabo de tam lentos e
vazios anos, sem novas, apagada toda a esperana como uma lmpada,
despira a sua Penlope a tnica passageira da viuvez e passara para os
braos doutro espso forte, que agora manejava as suas lanas e
vindimava as suas vinhas? E o doce filho Telmaco? Reinaria le em
taca, sentado, com o branco scetro, sbre o mrmore alto da Agor?
Ocioso e rondando pelos ptios, baixaria os olhos sob o imprio duro
dum padrasto? Erraria por cidades alheias, mendigando um salrio?...
Ah! se a sua existncia, assim para sempre arrancada da mulher, do
filho, tam doces ao seu corao, andasse ao menos empregada em faanhas
ilustres! Dez anos antes, tambm desconhecia a sorte de taca, e dos
seres preciosos que l deixara em solido e fragilidade; mas uma emprsa
herica o agitava; e cada manh a sua fama crescia, como uma rvore num
promontrio, que enche o cu e todos os homens contemplam. Ento era a
plancie de Troia--e as brancas tendas dos gregos ao longo do mar
sonoro! Sem cessar, meditava astcias de guerra; com soberba facndia
discursava na Assembleia dos Reis; rijamente jungia os cavalos empinados
ao timo dos carros; de lana alta corria, entre a grita e a pressa,
contra os Troianos de altos elmos, que surdiam, em roldo ressoante, das
portas Skaias!... Oh! e quando le, Prncipe-de-Povos, encolhido sob
farrapos de mendigo, com os braos maculados de chagas postias,
coxeando e gemendo, penetrara nos muros da orgulhosa Troia, pelo lado da
Faia, para de noite, com incomparvel ardil e bravura, roubar o Paldio
tutelar da cidade! E quando, dentro do ventre do Cavalo-de-Pau, na
escurido, no aprto de todos aqueles guerreiros hirtos e cobertos de
ferro, calmava a impacincia dos que sufocavam, e tapava com a mo a
bca de Antiklos bravejando furioso, ao escutar fra na plancie os
ultrajes e os escrnios troianos, e a todos murmurava: Cala, cala! que
a noite desce e Troia  nossa... E depois as prodigiosas viagens! O
pavoroso Polifemo, ludibriado com uma astcia que para sempre
maravilhar as geraes! As manobras sublimes entre Scylla e Carybdes!
As Sereias, vogando e cantando em trno do mastro, de onde le,
amarrado, as rechaava com o mudo dardejar dos olhos mais agudos que
dardos! A descida aos Infernos, jmais concedida a um mortal!... E agora
homem de tam rutilantes feitos jazia numa ilha mole, eternamente prso,
sem amor, pelo amor duma Deusa! Como poderia le fugir, rodeado de mar
indomvel, sem nave, nem companheiros para mover os remos longos? Os
Deuses ditosos certamente esqueciam quem tanto por les combatera e
sempre piedosamente lhes votara as reses devidas, mesmo atravs do
fragor e fumaraa das cidadelas derrubadas, mesmo quando a sua pra
encalhava em terra agreste!... E ao heri, que recebera dos Reis da
Grcia as armas de Aquiles, cabia por destino amargo engordar na
ociosidade duma ilha mais lnguida que uma csta de rosas, e estender as
mos amolecidas para as iguarias abundantes, e, quando guas e caminhos
se cobriam de sombra, dormir sem desejo com uma Deusa que, sem cessar, o
desejava.

Assim gemia o magnnimo Ulisses,  beira do mar lustroso... E eis que de
repente um sulco de desusado brilho, mais rutilantemente branco que o
duma estrla cando, riscou a rutilncia do cu, desde as alturas at 
cheirosa mata de tuias e cedros, que assombreava um golfo sereno, a
oriente da Ilha. Com alvoroo bateu o corao do heri. Rasto tam
refulgente, na refulgncia do dia, s um Deus o podia traar atravs do
largo Ouranos. Um Deus, pois, descera  Ilha?


II

Um Deus descera, um grande Deus... Era o Mensageiro dos Deuses, o leve,
eloqente Mercrio. Calado com aquelas sandlias que teem duas
asas brancas, os cabelos cr de vinho cobertos pelo casco onde batem
tambm duas claras asas, erguendo na mo o Caduceu, le fendera o ter,
roara a lisura do mar sossegado, pisara a areia da Ilha, onde as suas
pgadas ficavam rebrilhando como palmilhas de oiro novo. A-pesar de
percorrer toda a terra, com os recados inumerveis dos Deuses, o
luminoso Mensageiro no conhecia aquela ilha de Ogigya--e admirou,
sorrindo, a beleza dos prados de violetas tam doces para o correr e
brincar de Ninfas, e o harmonioso faiscar dos regatos por entre os altos
e lnguidos lrios. Uma vinha, sbre esteios de jaspe, carregada de
cachos maduros, conduzia, como fresco prtico salpicado de sol, at 
entrada da gruta, toda de rochas polidas, de onde pendiam jasmineiros e
madre-silvas, envoltas no sussurrar das abelhas. E logo avistou Calipso,
a Deusa ditosa, sentada num Trono, fiando em roca de oiro, com fuso de
oiro, a l formosa de prpura marinha. Um aro de esmeraldas prendia os
seus cabelos muito anelados e ardentemente louros. Sob a tnica difana
a mocidade imortal do seu corpo rebrilhava, como a neve quando a aurora
a tinge de rosas nas colinas eternas povoadas de Deuses. E, emquanto
torcia o fuso, cantava um trinado e fino canto, como trmulo fio de
cristal vibrando da Terra ao Cu. Mercrio pensou: Linda ilha, e linda
Ninfa!

Dum lume claro de cedro e tuia, subia, muito direito, um fumo delgado
que perfumava toda a Ilha. Em roda, sentadas em esteiras sbre o cho de
gata, as Ninfas, servas da Deusa, dobavam as ls, bordavam na sda as
flores ligeiras, teciam as puras teias em teares de prata. Todas
coraram, com o seio a arfar, sentindo a presena do Deus. E sem deter o
fuso faiscante, Calipso reconhecera logo o Mensageiro--pois que todos os
Imortais sabem, uns dos outros, os nomes, os feitos, e os rostos
soberanos, mesmo quando habitam retiros remotos que o ter e o Mar separam.

Mercrio parara, risonho, na sua nudez divina, exalando o perfume do
Olimpo. Ento a Deusa ergueu para le, com composta serenidade, o
esplendor largo dos seus olhos verdes:

--Oh Mercrio! porque desceste  minha Ilha humilde, tu, venervel e
querido, que eu nunca vi pisar a terra? Dize o que de mim esperas. J o
meu aberto corao me ordena que te contente, se o teu desejo couber
dentro do meu poder e do Fado... Mas entra, repousa, e que eu te sirva,
como doce irm,  mesa da hospitalidade.

Tirou da cintura a roca, arredou os aneis soltos do cabelo radiante--e
com as suas nacaradas mos colocou sbre a mesa, que as Ninfas
acercaram do lume aromtico, o prato transbordando de Ambrosia, e as
infusas de cristal onde scintilava o Nctar.

Mercrio murmurou:--Doce  a tua hospitalidade,  Deusa! Pendurou o
Caduceu do fresco ramo dum pltano, estendeu os dedos reluzentes para a
travessa de oiro, risonhamente louvou a excelncia daquele Nctar da
Ilha. E contentada a alma, encostando a cabea ao tronco liso do pltano
que se cobriu de claridade, comeou, com palavras perfeitas e aladas:

--Perguntaste porque descia um Deus  tua morada, oh Deusa! E certamente
nenhum Imortal percorreria sem motivo, desde o Olimpo at Ogigya, esta
deserta imensidade do mar salgado em que se no encontram cidades de
homens, nem templos cercados de bosques, nem sequer um pequenino
santurio de onde suba o aroma do incenso, ou o cheiro das carnes
votivas, ou o murmrio gostoso das preces... Mas foi nosso Pai Jpiter,
o tempestuoso, que me mandou neste recado. Tu recolhestes, e retens pela
fra incomensurvel da tua doura, o mais subtil e desgraado de todos
os Prncipes que combateram durante dez anos a alta Troia, e depois
embarcaram nas naves fundas para voltar  terra da Ptria. Muitos dsses
conseguiram reentrar nos seus ricos lares, carregados de fama, de
despojos, e de histrias excelentes para contar. Ventos inimigos,
porm, e um fado mais inexorvel, arremessaram a esta tua ilha, enrolado
nas sujas espumas, o facundo e astuto Ulisses... Ora o destino dste
heri no  ficar na ociosidade imortal do leito, longe daqueles que o
choram, e que carecem da sua fra e manhas divinas. Por isso Jpiter,
regulador da Ordem, te ordena, oh Deusa, que soltes o magnnimo Ulisses
dos teus braos claros, e o restituas, com os presentes docemente
devidos,  sua taca amada, e  sua Penlope, que tece e desfaz a teia
ardilosa, cercada dos Pretendentes arrogantes, devoradores dos seus
gordos bois, sorvedores dos seus frescos vinhos!

A divina Calipso mordeu levemente o beio; e sbre a sua face luminosa
desceu a sombra das densas pestanas cr de jacinto. Depois, com um
harmonioso suspiro, em que ondulou todo o seu peito rebrilhante:

--Ah Deuses grandes, Deuses ditosos! como sois speramente ciumentos das
Deusas, que, sem se esconderem pela espessura dos bosques ou nas pregas
escuras dos montes, amam os homens eloqentes e fortes!... ste, que me
invejais, rolou s areias da minha Ilha, nu, pisado, faminto, prso a
uma quilha partida, perseguido por todas as iras, e todas as rajadas, e
todos os raios dardejantes de que dispe o Olimpo. Eu o recolhi, o
lavei, o nutri, o amei, o guardei, para que ficasse eternamente ao
abrigo das tormentas, da dor e da velhice. E agora Jpiter trovejador,
ao cabo de oito anos em que a minha doce vida se enroscou em trno desta
afeio como a vide ao olmo, determina que eu me separe do companheiro
que escolhera para a minha imortalidade! Realmente sois crueis, oh
Deuses, que constantemente aumentais a raa turbulenta dos Semideuses
dormindo com as mulheres mortais! E como queres que eu mande Ulisses 
sua ptria, se no possuo naves, nem remadores, nem pilto sabedor que o
guie atravs das Ilhas? Mas quem pode resistir a Jpiter, que ajunta as
nuvens? Seja! e que Olimpo ria, obedecido. Eu ensinarei o intrpido
Ulisses a construir uma jangada segura, com que de novo fenda o dorso
verde do mar...

Imediatamente, o Mensageiro Mercrio se levantou do escabelo pregado com
pregos de oiro, retomou o seu Caduceu, e bebendo uma derradeira taa do
Nctar excelente da Ilha, louvou a obedincia da Deusa:

--Bem fars, oh Calipso! Assim evitas a clera do Pai trovejante. Quem
lhe resistir? A sua Omniscincia dirige a sua Omnipotncia. E le
sustenta, como scetro, uma rvore que tem por flor a Ordem... As suas
decises, clementes ou crueis, resultam sempre em harmonia. Por isso o
seu brao se torna terrfico aos peitos rebeldes. Pela tua pronta
submisso sers filha estimada, e gozars uma imortalidade repassada de
sossgo, sem intrigas e sem surpresas...

J as asas impacientes das suas sandlias palpitavam, e o seu corpo, com
sublime graa, se balanava por sbre as relvas e flores que alcatifavam
a entrada da gruta.

--De resto--acrescentou--a tua Ilha, oh Deusa, fica no caminho das naves
ousadas que cortam as ondas. Em breve talvez outro heri robusto, tendo
ofendido os Imortais, aportar  tua doce praia, abraado a uma
quilha... Acende um facho claro, de noite, nas rocas altas!

E, rindo, o Mensageiro Divino serenamente se elevou, riscando no ter um
sulco de elegante fulgor que as Ninfas, esquecida a tarefa, seguiam, com
os frescos lbios entreabertos e o seio levantado, no desejo daquele
imortal formoso.

Ento Calipso, pensativa, lanando sbre os seus cabelos anelados um vu
da cr do aafro, caminhou para a orla do mar, atravs dos prados, numa
pressa que lhe enrodilhava a tnica,  maneira duma espuma leve, em
trno das pernas redondas e rseas. Tam levemente pisou a areia, que o
magnnimo Ulisses no a sentiu deslizar, perdido na contemplao das
guas lustrosas, com a negra barba entre as mos, aliviando em
gemidos o pso do seu corao. A Deusa sorriu, com fugitiva e soberana
amargura. Depois, pousando no vasto ombro do Heri os seus dedos tam
claros como os de Eos, me do dia:

--No te lamentes mais, desgraado, nem te consumas, olhando o Mar! Os
Deuses, que me so superiores pela inteligncia e pela vontade,
determinam que tu partas, afrontes a inconstncia dos ventos, e calques
de novo a terra da Ptria...

Bruscamente, como o condor fendendo sbre a prsa, o divino Ulisses, com
a face assombrada, saltou da rocha musgosa:

--Oh Deusa, tu dizes!...

Ela continuou sossegadamente, com os formosos braos pendidos,
enrodilhados no vu cr de aafro, emquanto a vaga rolava, mais doce e
cantante, no amoroso respeito da sua presena divina:

--Bem sabes que no tenho naves de alta pra, nem remadores de rijo
peito, nem pilto amigo das estrlas, que te conduzam... Mas certamente
te confiarei o machado de bronze que foi de meu pai, para tu abateres as
rvores que eu te marcar, e construires uma jangada em que embarques...
Depois eu a proverei de odres de vinho, de comidas perfeitas, e a
impelirei com um spro amigo para o mar indomado...

O cauteloso Ulisses recuara lentamente, cravando na Deusa um duro olhar
que a desconfiana ennegrecia. E erguendo a mo, que tremia toda, com a
ansiedade do seu corao:

--Oh Deusa, tu abrigas um pensamento terrvel, pois que assim me
convidas a afrontar numa jangada as ondas difceis, onde mal se mantm
fundas naves! No, Deusa perigosa, no! Eu combati na grande guerra onde
os Deuses tambm combateram, e conheo a malcia infinita que contm o
corao dos Imortais! Se resisti s sereias irresistveis, e me safei
com sublimes manobras de entre Scylla e Charybdes, e venci Polifemo com
um ardil que eternamente me tornar ilustre entre os homens, no foi
de-certo, oh Deusa, para que agora, na Ilha de Ogigya, como passarinho
de pouca penugem, no seu primeiro vo do ninho, cia em armadilha
ligeira arranjada com dizeres de mel! No, Deusa, no! S embarcarei na
tua extraordinria jangada se tu jurares, pelo juramento terrfico dos
Deuses, que no preparas, com sses quietos olhos, a minha perda
irreparvel.

Assim bradava,  beira das ondas, com o peito a arfar, Ulisses, o Heri
prudente... Ento a Deusa clemente riu, com um cantado e refulgente
riso. E caminhando para o Heri, correndo os dedos celestes pelos seus
espessos cabelos mais negros que o pez:

--Oh maravilhoso Ulisses--disse--tu s bem na verdade o mais refalsado e
manhoso dos homens, pois que nem concebes que exista esprito sem manha
e sem falsidade! Meu pai ilustre no me gerou com um corao de ferro!
A-pesar de imortal, compreendo as desventuras mortais. S te aconselhei
o que eu, Deusa, empreenderia, se o Fado me obrigasse a sar de Ogigya
atravs do mar incerto!...

O divino Ulisses retirou lenta e sombriamente a cabea da rosada carcia
dos dedos divinos:

--Mas jura... Oh Deusa, jura, para que ao meu peito desa, como onda de
leite, a saborosa confiana!

Ela ergueu o claro brao ao azul onde os Deuses moram:

--Por Gaia, e pelo Cu superior, e pelas guas subterrneas do Stygio,
que  a maior invocao que podem lanar os Imortais, juro, oh homem,
Prncipe dos homens, que no preparo a tua perda, nem misrias maiores...

O valente Ulisses respirou largamente. E arregaando logo as mangas da
tnica, esfregando as palmas das mos robustas:

--Onde est o machado de teu pai magnfico? Mostra as rvores, oh
Deusa!... O dia baixa e o trabalho  longo!

--Sossega, oh homem sfrego de males humanos! Os deuses superiores em
sapincia j determinaram o teu destino... Recolhe comigo  doce gruta,
a reforar a tua fra... Quando Eos vermelha aparecer, manh, eu te
conduzirei  floresta.


III

Era com efeito a hora em que homens mortais e Deuses imortais se acercam
das mesas cobertas de baixelas, onde os espera a abundncia, o repouso,
o esquecimento dos cuidados, e as amorveis conversas que contentam a
alma. Em breve Ulisses se sentou no escabelo de marfim, que ainda
conservava o aroma do corpo de Mercrio, e diante dle as Ninfas, servas
da Deusa, colocaram os blos, as frutas, as tenras carnes fumegando, os
peixes rebrilhantes como tramas de prata. Pousada num Trono de oiro
puro, a Deusa recebeu da Intendenta venervel o prato de Ambrosia e a
taa de Nctar. Ambos estenderam as mos para as comidas perfeitas da
Terra e do Cu. E logo que deram a oferenda abundante  Fome e  Sde, a
ilustre Calipso, encostando a face aos dedos rseos, e considerando
pensativamente o Heri, soltou estas palavras aladas:

--Oh Ulisses muito subtil, tu queres voltar  tua morada mortal e 
terra da Ptria... Ah! se conhecesses, como eu, quantos duros males tens
de sofrer antes de avistar as rochas de taca, ficarias entre os meus
braos, amimado, banhado, bem nutrido, revestido de linhos finos, sem
nunca perder a querida fra, nem a agudeza do entendimento, nem o calor
da facndia, pois que eu te comunicaria a minha imortalidade!... Mas
desejas voltar  espsa mortal, que habita na ilha spera onde as matas
so tenebrosas. E todavia eu no lhe sou inferior, nem pela beleza, nem
pela inteligncia, porque as mortais brilham ante as Imortais como
lmpadas fumarentas diante de estrlas puras...

O facundo Ulisses acariciou a barba rude. Depois, erguendo o brao, como
costumava na Assembleia dos Reis,  sombra das altas ppas, diante dos
muros de Troia, disse:

--Oh Deusa venervel, no te escandalises! Perfeitamente sei que
Penlope te est muito inferior em formusura, sapincia e majestade. Tu
sers eternamente bela e ma, emquanto os Deuses durarem: e ela, em
poucos anos, conhecer a melancolia das rugas, dos cabelos brancos, das
dores da decrepitude, e dos passos que tremem apoiados a um pau que
treme. O seu esprito mortal erra atravs da escurido e da dvida; tu,
sob essa fonte luminosa, possuis as luminosas certezas. Mas, oh Deusa,
justamente pelo que ela tem de incompleto, de frgil, de grosseiro e de
mortal, eu a amo, e apeteo a sua companhia congnere! Considera como 
penoso que, nesta mesa, cada dia, eu cma vorazmente o anho das
pastagens e a fruta dos vergeis, emquanto tu ao meu lado, pela inefvel
superioridade da tua natureza, levas aos lbios, com lentido soberana,
a Ambrosia divina! Em oito anos, oh Deusa, nunca a tua face rebrilhou
com uma alegria; nem dos teus verdes olhos rolou uma lgrima; nem
bateste o p, com irada impacincia; nem, gemendo com uma dor, te
estendeste no leito macio... E assim trazes inutilizadas todas as
virtudes do meu corao, pois que a tua divindade no permite que eu te
congratule, te console, te sossegue, ou mesmo te esfregue o corpo dorido
com o suco das ervas benficas. Considera ainda que a tua inteligncia
de Deusa possui todo o saber, atinge sempre a verdade: e, durante o
longo tempo que contigo dormi, nunca gozei a felicidade de te emendar,
de te contradizer, e de sentir, ante a fraqueza do teu, a fra do meu
entendimento! Oh Deusa, tu s aquele ser terrfico que tem sempre razo!
Considera ainda que, como Deusa, conheces todo o passado e todo o
futuro dos homens: e eu no pude saborear a incomparvel delcia de te
contar  noite, bebendo o vinho fresco, as minhas ilustres faanhas e as
minhas viagens sublimes! Oh Deusa, tu s impecvel: e quando eu
escorregue num tapete estendido, ou me estale uma correia da sandlia,
no te posso gritar, como os homens mortais gritam s espsas
mortais--Foi culpa tua, mulher!--erguendo, em frente  lareira, um
alarido cruel! Por isso sofrerei, num esprito paciente, todos os males
com que os Deuses me assaltem no sombrio mar, para voltar a uma humana
Penlope que eu mande e console, e repreenda, e acuse, e contrarie, e
ensine, e humilhe, e deslumbre, e por isso ame dum amor que
constantemente se alimenta dstes modos ondeantes, como o lume se nutre
dos ventos contrrios!

Assim o facundo Ulisses desabafava, ante a taa de oiro vazia: e
serenamente a Deusa escutava, com um sorriso taciturno, e as mos
imveis sbre o regao, enrodilhadas na ponta do vu.

No entanto, Febo Apolo descia para Ocidente; e j das ancas dos seus
quatro cavalos suados subia e se espalhava por sbre o Mar um vapor
rbido e doirado. Em breve os caminhos da Ilha se cobriam de
sombra. E sbre os velos preciosos do leito, ao fundo da gruta,
Ulisses, sem desejo, e a Deusa, que o desejava, gozaram o doce amor, e
depois o doce sono.

Cedo, apenas Eos entreabria as portas do largo Ouranos, a divina
Calipso, que revestira uma tnica mais branca que a neve do Pindo, e
pregara nos cabelos um vu transparente e azul como o ter ligeiro, sau
da gruta, trazendo ao magnnimo Ulisses, j sentado  porta, sob a
ramada, diante duma taa de vinho claro, o machado poderoso de seu pai
ilustre, todo de bronze, com dois fios, e um rijo cabo de oliveira
cortado nas faldas do Olimpo.

Limpando rpidamente a dura barba com as costas da mo, o Heri
arrebatou o machado venervel:

--Oh Deusa, h quantos anos no palpo uma arma ou uma ferramenta, eu,
devastador de cidadelas e construtor de naves!

A Deusa sorriu. E, iluminada a lisa face, em palavras aladas:

--Oh, Ulisses, vencedor de homens, se tu ficasses nesta ilha, eu
encomendaria para ti, a Vulcano e s suas forjas do Etna, armas
maravilhosas...

--Que valem armas sem combates, ou homens que as admirem? De resto, oh
Deusa, j muito batalhei, e a minha glria entre as geraes est
soberbamente segura; S aspiro ao macio repouso, vigiando os meu gados,
concebendo sbias leis para os meus povos... S benvola, oh Deusa, e
mostra as rvores fortes que me convm cortar!

Em silncio ela caminhou por um atalho florido de altas e radiosas
aucenas, que conduzia  ponta da Ilha mais cerrada de matas, do lado do
Oriente: e atrs seguia o intrpido Ulisses, com o luzidio machado ao
ombro. As pombas deixavam os ramos dos cedros, ou as concavidades das
rochas onde bebiam, para esvoaarem em trno da Deusa num tumulto
amoroso. Um aroma mais delicado, quando ela passava, subia das flores
abertas, como de incensadores. As relvas que a orla da sua tnica roava
reverdejavam num vio mais fresco. E Ulisses, indiferente aos prestgios
da Deusa, impaciente com a serenidade divina do seu andar harmonioso,
meditava a jangada, almejava pelo bosque.

Denso e escuro o avistou emfim, povoado de carvalhos, de velhssimas
tcas, de pinheiros que ramalhavam no alto ter. Da sua orla descia um
areal a que nem concha, nem galho quebrado de coral, nem plida flor de
cardo marinho, desmanchava a doura perfeita. E o Mar refulgia com um
brilho safrico, na quietao da manh branca e crada. Caminhando dos
carvalhos s tcas, a Deusa marcou ao atento Ulisses os troncos
scos, robustecidos por sis inumerveis, que flutuariam, com ligeireza
mais segura, sbre as guas traidoras. Depois, acariciando o ombro do
Heri, como outra rvore robusta tambm votada s aguas crueis, recolheu
 sua gruta, onde tomou a roca de oiro, e todo o dia fiou, e todo o dia
cantou...

Com alvoroada e soberba alegria, Ulisses atirou o machado contra um
vasto carvalho que gemeu. E em breve toda a Ilha retumbava, no fragor da
obra sobreumana. As gaivotas, adormecidas no silncio eterno daquelas
ribas, bateram o vo em largos bandos, espantadas e gritando. As fluidas
divindades dos ribeiros indolentes, estremecendo num fulgente arrepio,
fugiam para entre os canaviais e as razes dos amieiros. Nesse curto dia
o valente Ulisses abateu vinte rvores, robles, pinheiros, tcas e
choupos--e todas decotou, esquadrou, e alinhou sbre a areia. O seu
pescoo e arcado peito fumegavam de suor, quando recolheu pesadamente 
gruta, para saciar a rude fome, e beber a cerveja gelada. E nunca le
parecera tam belo  Deusa Imortal, que, sobre o leito de peles
preciosas, apenas os caminhos se cobriram de sombra, encontrou incansada
e pronta a fra daqueles braos que tinham abatido vinte troncos!

Assim, durante trs dias, trabalhou o Heri.

E, como arrebatada nessa actividade magnfica que abalava a Ilha, a
Deusa ajudava Ulisses, conduzindo da gruta para a praia, nas suas mos
delicadas, as cordas e os pregos de bronze. As Ninfas, por seu mandado,
abandonando as tarefas suaves, teciam uma tela forte, para a vela que
empurrariam com amor os ventos amveis. E a Intendenta venervel j
enchia os odres de vinhos robustos, e preparava com generosidade os
vveres numerosos para a travessia incerta. No entanto a jangada
crescia, com os troncos bem ligados, e um banco erguido ao meio, donde
se empinava o mastro, desbastado num pinheiro, mais redondo e lizo que
uma vara de marfim. Cada tarde a Deusa, sentada numa rocha  sombra do
bosque, contemplava o calafate admirvel martelando furiosamente, e
cantando, com rija alegria, um canto de remador. E, ligeiras, na ponta
dos ps luzidios, por entre o arvoredo, as Ninfas, escapando  tarefa,
acudiam a espreitar, com desejosos olhos fulgurantes, aquela fra
solitria, que soberbamente, no areal solitrio, ia erguendo uma nave.


IV

Emfim no quarto dia, de manh, Ulisses findou de esquadrar o leme, que
reforou com grades de amieiro para melhor aparar o embate das ondas.
Depois ajuntou um lastro copioso, com a terra da Ilha imortal e as suas
pedras polidas. Sem descanso, numa nsia risonha, amarrou  vrga alta a
vela cortada pelas Ninfas. Sbre pesados rolos, manobrando a alavanca,
rolou a jangada imensa at  espuma da vaga, num esfro sublime, com
msculos tam retesos e veias tam inchadas, que le mesmo parecia feito
de troncos e cordas. Uma ponta da jangada arfou, levantada em cadncia
pela onda harmoniosa. E o Heri, erguendo os braos lustrosos de suor,
louvou os Deuses Imortais.

Ento, como a obra findra e a tarde rebrilhava, propcia  partida, a
generosa Calipso trouxe Ulisses, atravs das violetas e das anmonas, 
fresca gruta. Pelas suas divinas mos o banhou numa concha de ncar, e o
perfumou com essncias sobrenaturais, e o vestiu com uma tnica formosa
de l bordada, e lanou sbre os seus ombros um manto impenetrvel s
neblinas do mar, e lhe estendeu sbre a mesa, para le saciar a
fome rude, as comidas mais ss e mais finas da Terra. O Heri aceitava
os amorosos cuidados, com paciente magnanimidade. A Deusa, de gestos
serenos, sorria taciturnamente.

Depois ela tomou a mo cabeluda de Ulisses, palpando com gsto os calos
que lhe deixara o machado; e pela borda do Mar o conduziu  praia, onde
a vaga mansamente lambia os troncos da jangada forte. Ambos descansaram
sbre uma rocha musgosa. Nunca a Ilha resplandecera com uma beleza tam
serena, entre um mar tam azul, sob um cu tam macio. Nem a gua fresca
do Pindo bebida em marcha abrasada, nem o vinho doirado que produzem as
colinas de Chio, eram mais doces de sorver do que aquele ar repassado de
aromas, composto pelos Deuses para o respirar duma Deusa. A frescura
imorredoira das rvores entrava no corao, qusi pedia a carcia dos
dedos. Todos os rumores, o dos regatos na relva, o das ondas no areal, o
das aves nas sombras frondosas, subiam, suave e finamente fundidos, como
as harmonias sagradas de um Templo distante. O esplendor e a graa das
flores retinham os raios pasmados do sol. Tantos eram os frutos nos
vergeis, e as espigas nas messes, que a Ilha parecia ceder, afundada no
Mar, sob o pso da sua abundncia.

Ento a Deusa, ao lado do Heri, levemente suspirou, e murmurou num
sorriso alado:

--Oh, magnnimo Ulisses, tu certamente partes! O desejo te leva de rever
a mortal Penlope, e o teu doce Telmaco, que deixaste no colo da ama
quando a Europa correu contra a sia, e agora j sustenta na mo uma
lana temida. Sempre dum amor antigo, com razes fundas, brotar mais
tarde uma flor, mesmo triste. Mas dize! Se em taca no te esperasse a
espsa tecendo e destecendo a teia, e o filho ansioso que alonga os
olhos incansados para o mar, deixarias tu, oh homem prudente, esta
doura, esta paz, esta abundncia e beleza imortal?

O Heri, ao lado da Deusa, estendeu o brao poderoso, como na Assembleia
dos Reis, diante dos muros de Troia, quando plantava nas almas a verdade
persuasiva:

--Oh Deusa, no te escandalises! Mas ainda que no existissem, para me
levar, nem filho, nem espsa, nem reino, eu afrontaria alegremente os
mares e a ira dos Deuses! Porque, na verdade, oh Deusa muito ilustre, o
meu corao saciado j no suporta esta paz, esta doura e esta beleza
imortal. Considera, oh Deusa, que em oito anos nunca vi a folhagem
destas rvores amarelecer e car. Nunca ste cu rutilante se carregou
de nuvens escuras; nem tive o contentamento de estender, bem
abrigado, as mos ao doce lume, emquanto a borrasca grossa batesse nos
montes. Todas essas flores que brilham nas hastes airosas so as mesmas,
oh Deusa, que admirei e respirei, na primeira manh que me mostraste
stes prados perptuos:--e h lrios que odeio, com um dio amargo, pela
impassibilidade da sua alvura eterna! Estas gaivotas repetem tam
incessantemente, tam implacavelmente, o seu vo harmonioso e branco, que
eu escondo delas a face, como outros a escondem das negras Harpias! E
quantas vezes me refugo no fundo da gruta para no escutar o murmrio
sempre lnguido dstes arroios sempre transparentes! Considera, oh
Deusa, que na tua Ilha nunca encontrei um charco; um tronco apodrecido;
a carcassa dum bicho morto e coberto de moscas zumbidoras. Oh Deusa, h
oito anos, oito anos terrveis, estou privado de ver o trabalho, o
esfro, a luta e o sofrimento... Oh Deusa, no te escandalises! Ando
esfaimado por encontrar um corpo arquejando sob um fardo; dois bois
fumegantes puxando um arado; homens que se injuriem na passagem duma
ponte; os braos suplicantes duma me que chora; um coxo, sbre a sua
muleta, mendigando  porta das vilas... Deusa, h oito anos que no lho
para uma sepultura... No posso mais com esta serenidade sublime!
Toda a minha alma arde no desejo do que se deforma, e se suja, e se
espedaa, e se corrompe... Oh Deusa imortal, eu morro com saudades da
morte!

Imvel, com as mos imveis no regao, enrodilhadas nas pontas do vu
amarelo, a Deusa escutara, com um sorriso serenamente divino, o furioso
queixume do Heri cativo... No entanto j pela colina as Ninfas, servas
da Deusa, desciam, trazendo  cabea, e amparando-os com o brao
redondo, os jarros de vinho, os sacos de coiro, que a Intendenta
venervel mandava para abastecer a jangada. Silenciosamente, o Heri
lanou uma tbua desde a areia at ao bordo de altos toros. E emquanto
sbre ela as Ninfas passavam, ligeiras, com as manilhas de oiro
tilintando nos ps luzidios, Ulisses atento, contando os sacos e os
odres, gozava no seu nobre corao a abundncia generosa. Mas, amarrados
com cordas s cavilhas aqueles fardos excelentes, todas as Ninfas,
lentamente, se sentaram sbre o areal em trno da Deusa, para
contemplarem a despedida, o embarque, as manobras do Heri sbre o dorso
das guas... Ento uma clera lampejou nos largos olhos de Ulisses. E,
diante de Calipso, cruzando furiosamente os valentes braos:

--Oh Deusa, pensas tu na verdade que nada falta para que eu largue
a vela e navegue? Onde esto os ricos presentes que me deves? Oito
anos, oito duros anos, fui o hspede magnfico da tua Ilha, da tua
gruta, do teu leito... Sempre os Deuses imortais determinaram que aos
hspedes, no momento amigo da partida, se ofertem considerveis
presentes! Onde esto elas, oh Deusa, essas riquezas abundantes que me
deves por costume da Terra e lei do Cu?

A Deusa sorriu, com sublime pacincia. E com palavras aladas, que fugiam
na aragem:

--Oh Ulisses, tu s claramente o mais interesseiro dos homens! E tambm
o mais desconfiado, pois que supes que uma Deusa negaria os presentes
devidos quele que amou... Sossega, oh subtil Heri... Os ricos
presentes no tardam, largos e rebrilhantes.

E, certamente, pela colina suave, outras Ninfas desciam, ligeiras, com
os vus a ondular, trazendo nos braos alfaias lustrosas, que ao sol
rutilavam! O magnnimo Ulisses estendeu as mos, os olhos devoradores...
E emquanto elas passavam sbre a tbua rangente, o Heri astuto contava,
avaliava no seu nobre esprito os escabelos de marfim, os rolos de telas
bordadas, os cntaros de bronze lavrado, os escudos cravejados de pedras...

Tam rico e belo era o vaso de oiro que a derradeira Ninfa sustentava no
ombro, que Ulisses deteve a Ninfa, arrebatou o vaso, o sopesou, o
mirou, e gritou, com soberbo riso estridente:

--Na verdade, ste oiro  bom!

Depois de arrumadas e ligadas sob o largo banco as alfaias preciosas, o
impaciente Heri, arrebatando o machado, cortou a corda que prendia a
jangada ao tronco dum roble, e saltou para o alto bordo que a espuma
envolvia. Mas ento recordou que nem beijara a generosa e ilustre
Calipso! Rpido, arremessando o manto, pulou atravs da espuma, correu
pela areia, e pousou um beijo sereno na fronte aureolada da Deusa. Ela
segurou de leve o seu ombro robusto:

--Quantos males te esperam, oh desgraado! Antes ficasses, para toda a
imortalidade, na minha Ilha perfeita, entre os meus braos perfeitos...

Ulisses recuou, com um brado magnfico:

--Oh Deusa, o irreparvel e supremo mal est na tua perfeio!

E, atravs da vaga, fugiu, trepou sfregamente  jangada, soltou a vela,
fendeu o mar, partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as
misrias--para a delcia das coisas imperfeitas!




O SUAVE MILAGRE!


Nesse tempo Jesus ainda se no afastara da Galilea e das doces,
luminosas margens do Lago de Tiberade:--mas a nova dos seus Milagres
penetrara j at Enganim, cidade rica, de muralhas fortes, entre olivais
e vinhedos, no pas de Issachar.

Uma tarde um homem de olhos ardentes e deslumbrados passou no fresco
vale, e anunciou que um novo Profeta, um Rabi formoso, percorria os
campos e as aldeias da Galilea, predizendo a chegada do Reino de Deus,
curando todos os males humanos. E emquanto descansava, sentado  beira
da _Fonte dos Vergeis_, contou ainda que sse Rabi, na estrada de
Magdala, sarara da lepra o servo dum Decurio Romano s com estender
sbre le a sombra das suas mos; e que noutra manh, atravessando
numa barca para a terra dos Gerassnios, onde comeava a colheita do
blsamo, ressuscitara a filha de Jaira, homem considervel e douto que
comentava os Livros na Sinagoga. E como em redor, assombrados,
seareiros, pastores, e as mulheres trigueiras com a bilha no ombro, lhe
perguntassem se sse era, em verdade, o Messias da Judea, e se diante
dle refulgia a espada de fogo, e se o ladeavam, caminhando como as
sombras de duas trres, as sombras de Gog e de Magog--o homem, sem mesmo
beber daquela gua tam fria de que bebera Josu, apanhou o cajado,
sacudiu os cabelos, e meteu pensativamente por sob o Aqueduto, logo
sumido na espessura das amendoeiras em flor. Mas uma esperana,
deliciosa como o orvalho nos meses em que canta a cigarra, refrescou as
almas simples: logo, por toda a campina que verdeja at Ascalon, o arado
pareceu mais brando de enterrar, mais leve de mover a pedra do lagar: as
crianas, colhendo ramos de anmonas, espreitavam pelos caminhos se alm
da esquina do muro, ou de sob o sicmoro, no surgiria uma claridade: e
nos bancos de pedra, s portas da cidade, os vlhos, correndo os dedos
pelos fios das barbas, j no desenrolavam, com tam sapiente certeza, os
ditames antigos.

Ora ento vivia em Enganim um vlho, por nome Obed, duma famlia
pontifical de Samaria que sacrificara nas aras do Monte Ebal, senhor de
fartos rebanhos e de fartas vinhas--e com o corao tam cheio de orgulho
como o seu celeiro de trigo. Mas um vento rido e abrasado, sse vento
de desolao que ao mando do Senhor sopra das torvas terras de Assur,
matara as reses mais gordas das suas manadas, e pelas encostas onde as
suas vinhas se enroscavam ao olmo, e se estiravam na latada airosa, s
deixara, em trno dos olmos e pilares despidos, sarmentos, cpas
mirradas, e a parra roda de crespa ferrugem. E Obed agachado  soleira
da sua porta, com a ponta do manto sbre a face, palpava a poeira,
lamentava a velhice, ruminava queixumes contra Deus cruel.

Apenas ouvira falar dsse novo Rabi da Galilea, que alimentava as
multides, amedrontava os demnios, emendava todas as desventuras--Obed,
homem lido, que viajara na Fencia, logo pensou que Jesus seria um
dsses feiticeiros, tam costumados na Palestina, como Apolnio, ou Rabi
Ben-Dossa, ou Simo, o Subtil. sses, mesmo nas noites tenebrosas,
conversam com as estrlas, para les sempre claras e fceis nos seus
segredos: com uma vara afugentam de sbre as searas os moscardos gerados
nos ldos do Egipto: e agarram entre os dedos as sombras das
rvores, que conduzem, como toldos benficos, para cima das eiras, 
hora da ssta. Jesus da Galilea, mais novo, com magias mais viosas
de-certo, se le largamente o pagasse, sustaria a mortandade dos seus
gados, reverdeceria os seus vinhedos. Ento Obed ordenou aos seus servos
que partissem, procurassem por toda a Galilea o Rabi novo, e com
promessa de dinheiros ou alfaias o trouxessem a Enganim, no pas de
Assachar.

Os servos apertaram os cintures de coiro--e largaram pela estrada das
Caravanas, que, costeando o Lago, se estende at Damasco. Uma tarde,
avistaram sbre o poente, vermelho como uma rom muito madura, as neves
finas do monte Hermon. Depois, na frescura duma manh macia, o lago de
Tiberade resplandeceu diante dles, transparente, coberto de silncio,
mais azul que o cu, todo orlado de prados floridos, de densos vergeis,
de rochas de prfiro, e de alvos terraos por entre os pomares, sob o
vo das rlas. Um pescador que desamarrava preguiosamente a sua barca
duma ponta de relva, assombreada de aloendros, escutou, sorrindo, os
servos. O Rabi de Nazareth? Oh! desde o ms de Ijar, o Rabi descera,
com os seus discpulos, para os lados para onde o Jordo leva as guas.

Os servos, correndo, seguiram pelas margens do rio, at adiante do
vau, onde le se estira num largo remanso, e descansa, e um instante
dorme, imvel e verde,  sombra dos tamarindos. Um homem da trbu dos
Essnios, todo vestido de linho branco, apanhava lentamente ervas
salutares, pela beira da gua, com um cordeirinho branco ao colo. Os
servos humildemente saudaram-no porque o povo ama aqueles homens de
corao tam limpo, e claro, e cndido como as suas vestes cada manh
lavadas em tanques purificados. E sabia le da passagem do novo Rabi da
Galilea, que como os Essnios ensinava a doura, e curava as gentes e os
gados? O Essnio murmurou que o Rabi atravessara o Osis de Engaddi,
depois se adiantara para alm...--Mas onde, alm?--Movendo um ramo de
flores roxas que colhera, o Essnio mostrou as terras de Alm Jordo, a
plancie de Moab. Os servos vadearam o rio--e debalde procuraram Jesus,
arquejando pelos rudes trilhos, at s fragas onde se ergue a cidadela
sinistra de Makaur... No Po de Yakob repousava uma larga caravana, que
conduzia para o Egipto mirra, especiarias e blsamos de Gilead: e os
cameleiros, tirando a gua com os baldes de coiro, contaram aos servos
de Obed que em Gadara, pela lua nova um Rabi maravilhoso, maior que
David ou Isaias, arrancara sete demnios do peito duma tecedeira, e
que,  sua voz, um homem degolado pelo salteador Barabas, se erguera da
sua sepultura e recolhera ao seu horto. Os servos, esperanados, subiram
logo aodadamente pelo caminho dos Peregrinos at Gadara, cidade de
altas trres, e ainda mais longe at s Nascentes da Amalha... Mas
Jesus, nessa madrugada, seguindo por um povo que cantava e sacudia ramos
de mimosa, embarcara no Lago, num batel de pesca, e  vela navegara para
Magdala. E os servos de Obed descoroados, de novo passaram o Jordo na
Ponte das Filhas de Jacob. Um dia, j com as sandlias rtas dos longos
caminhos, pisando j as terras da Judea Romana, cruzaram um Fariseu
sombrio, que recolhia a Efraim, montado na sua mula. Com devota
reverncia detiveram o homem da Lei. Encontrara le por acaso sse
Profeta novo da Galilea que, como um Deus passeando na terra, semeava
milagres? A adunca face do Fariseu escureceu enrugada--e a sua clera,
retumbou como um tambor orgulhoso:

--Oh escravos pagos! Oh blasfemos! Onde ouvistes que existissem
profetas ou milagres fra de Jerusalm? S Jeov tem fra no seu
Templo. De Galilea surdem os nscios e os impostores...

E como os servos recuavam ante o seu punho erguido, todo enrodilhado de
dsticos sagrados--o furioso Doutor saltou da mula, e, com as
pedras da estrada, apedrejou os servos de Obed, uivando: _Racca! Racca!_
e todos os Antemas rituais. Os servos fugiram para Enganim. E grande
foi a desconsolao de Obed, porque os seus gados morriam, as suas
vinhas secavam,--e todavia radiantemente, como uma alvorada por detrs
de serras, crescia, consoladora e cheia de promessas divinas, a fama de
Jesus da Galilea.

Por sse tempo, um Centurio Romano, Publius Septimus, comandava o forte
que domina o vale de Cesarea, at  cidade e ao mar. Publius, homem
spero, veterano da campanha de Tibrio contra os Partas, enriquecera
durante a revolta de Samaria com prsas e saques, possuia minas na
tica, e gozava, como favor supremo dos Deuses, a amizade de Flaccus,
Legado Imperial da Sria. Mas uma dor roa a sua prosperidade muito
poderosa, como um verme ri um fruto muito suculento. Sua filha nica,
para le mais amada que vida e bens, definhava com um mal subtil e
lento, estranho mesmo ao saber dos esculpios e mgicos que le mandara
consultar a Sidon e a Tyro. Branca e triste como a lua num cemitrio,
sem um queixume, sorrindo plidamente a seu pai, definhava, sentada na
alta esplanada do forte, sob um velrio, alongando saudosamente os
negros olhos tristes pelo azul do mar de Tyro, por onde ela
navegara de Itlia, numa opulenta galera. Ao seu lado, por vezes, um
legionrio, entre as ameias, apontava vagarosamente ao alto a flecha, e
varava uma grande guia, voando de asa serena, no cu rutilante. A filha
de Septimus, seguia um momento a ave, torneando at bater morta sbre as
rochas:--depois, com um suspiro, mais triste e mais plida, recomeava a
olhar para o mar.

Ento Septimus, ouvindo contar, a mercadores de Chorazin, dste Rabi
admirvel, tam potente sbre os Espritos, que sarava os males
tenebrosos da alma, destacou trs decrias de soldados para que o
procurassem pela Galilea, e por todas as cidades da Decpola, at 
costa e at Ascalon. Os soldados enfiaram os escudos nos sacos de lona,
espetaram nos elmos ramos de oliveira--e as suas sandlias ferradas
apressadamente se afastaram, ressoando sbre as lages de basalto da
estrada romana, que desde Cesarea at ao Lago corta toda a Tetraquia de
Herodes. As suas armas, de noite, brilhavam no tpo das colinas, por
entre a chama ondeante dos archotes erguidos. De dia invadiam os casais,
rebuscavam a espessura dos pomares, esfuracavam com a ponta das lanas a
palha das medas: e as mulheres, assustadas, para os amansar, logo
acudiam com bolos de mel, figos novos, e malgas cheias de vinho, que
les bebiam dum trago, sentados  sombra dos sicmoros. Assim correram a
Baixa Galilea--e, do Rabi, s encontraram o sulco luminoso nos coraes.
Enfastiados com as inteis marchas, desconfiando que os Judeus
sonegassem o seu feiticeiro para que Romanos no aproveitassem do
superior feitio, derramavam com tumulto a sua clera, atravs da
piedosa terra submissa.  entrada das pontes detinham os peregrinos,
gritando o nome do Rabi, rasgando os vus s virgens: e,  hora em que
os cntaros se enchem nas cisternas, invadiam as ruas estreitas dos
burgos, penetravam nas Sinagogas, e batiam sacrlegamente com os punhos
das espadas nas _Thebahs_, os Santos Armrios de cedro que continham os
Livros Sagrados. Nas cercanias de Hebron arrastaram os Solitrios pelas
barbas para fra das grutas, para lhes arrancar o nome do deserto ou do
palmar em que se ocultava o Rabi:--e dois mercadores Fencios que vinham
de Jopp com uma carga de malobatro, e a quem nunca chegara o nome de
Jesus, pagaram por sse delito cem drcmas a cada Decurio. J a gente
dos campos, mesmos os bravios pastores de Idumea, que levam as reses
brancas para o Templo, fugiam espavoridos para as serranias, apenas
luziam, nalguma volta do caminho, as armas do bando violento. E da beira
dos eirados, as vlhas sacudiam como taleigos a ponta dos cabelos
desgrenhados, e arrojavam sbre les as Ms-Sortes, invocando a vingana
de Elias. Assim tumultuosamente erraram at Ascalon: no encontraram
Jesus: e retrocederam ao longo da costa enterrando as sandlias nas
areias ardentes.

Uma madrugada, perto de Cesarea, marchando num vale, avistaram sbre um
outeiro um verde-negro bosque de loureiros, onde alvejava,
recolhidamente, o fino e claro prtico dum templo. Um vlho, de
compridas barbas brancas, coroado de flhas de louro, vestido com uma
tnica cr de aafro, segurando uma curta lira de trs cordas, esperava
gravemente, sbre os degraus de mrmore, a apario do sol. Debaixo,
agitando um ramo de oliveira, os soldados bradaram pelo Sacerdote.
Conhecia le um novo Profeta que surgira na Galilea, e tam dstro em
milagres que ressuscitava os mortos e mudava a gua em vinho?
Serenamente, alargando os braos, o sereno vlho exclamou por sbre a
rociada verdura do vale:

--Oh romanos! pois acreditais que em Galilea ou Judea apaream profetas
consumando milagres? Como pode um brbaro alterar a Ordem instituida
por Zeus?... Mgicos e feiticeiros so vendilhes, que murmuram
palavras cas, para arrebatar a esprtula dos simples... Sem a permisso
dos Imortais nem um galho sco pode tombar da rvore, nem sca flha
pode ser sacudida na rvore. No h profetas, no h milagres... S
Apolo Dlfico conhece o segredo das coisas!

Ento, devagar, com a cabea derrubada, como numa tarde de derrota, os
soldados recolheram  fortaleza de Cesarea. E grande foi o desespero de
Septimus, porque sua filha morria, sem um queixume, olhando o mar de
Tyro--e todavia a fama de Jesus, curador dos lnguidos males, crescia,
sempre mais consoladora e fresca, como a aragem da tarde que sopra do
Hermon e, atravs dos hortos, reanima e levanta as aucenas pendidas.

Ora entre Enganim e Cesarea, num casebre desgarrado, sumido na prega dum
crro, vivia a sse tempo uma viuva, mais desgraada mulher que todas as
mulheres de Israel. O seu filhinho nico, todo aleijado, passara do
magro peito a que ela o criara para os farrapos da enxerga apodrecida,
onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Tambm a ela a
doena a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e
torcida que uma cepa arrancada. E, sbre ambos, espessamente a misria
cresceu como o bolr sbre cacos perdidos num ermo. At na lmpada
de barro vermelho, secara h muito o azeite. Dentro da arca pintada no
restava gro ou cdea. No estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no
quinteiro, secara a figueira. Tam longe do povoado, nunca esmola de po
ou mel entrava o portal. E s ervas apanhadas nas fendas das rochas,
cosidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida,
onde at s aves malficas sobrava o sustento!

Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a me
amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coando as feridas
das pernas, contou dessa grande esperana dos tristes, sse Rabi que
aparecera na Galilea, e de um po no mesmo csto fazia sete, e amava
todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres
um grande e luminoso Reino, de abundncia maior que a Crte de Salomo.
A mulher escutava com olhos famintos. E sse dce Rabi, esperana dos
tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah sse dce Rabi!
quantos o desejavam, que se desesperanavam! A sua fama andava por sbre
toda a Judea como o sol que at por qualquer vlho muro se estende e se
goza; mas para enxergar a claridade do seu rosto, s aqueles ditosos que
o seu desejo escolhia. Obed, tam rico, mandara os seus servos por
toda a Galilea para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas a
Enganim: Septimus, tam soberano, destacara os seus soldados at  costa
do mar, para que buscassem Jesus, o conduzissem, por seu mando, a
Cesarea. Errando, esmolando por tantas estradas, le topara os servos de
Obed, depois os legionrios de Septimus. E todos voltavam, como
derrotados, com as sandlias rtas, sem ter descoberto em que mata ou
cidade, em que toca ou palcio, se escondia Jesus.

A tarde caa. O mendigo apanhou o seu bordo, desceu pelo duro trilho,
entre a urze e a rocha. A me retomou o seu canto, mais vergada, mais
abandonada. E ento o filhinho, num murmrio mais dbil que o roar duma
asa, pediu  me que lhe trouxesse sse Rabi, que amava as criancinhas
ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A me
apertou a cabea esguedelhada:

--Oh filho! e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos, 
procura do Rabi da Galilea? Obed  rico e tem servos, e debalde buscaram
Jesus, por areais e colinas, desde Chorazin at ao pas de Moab.
Septimus  forte, e tem soldados, e debalde correram por Jesus, desde o
Hebron at ao mar! Como queres que te deixe? Jesus anda por muito longe
e a nossa dor mora comnosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos
prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o Rabi tam
desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse atravs das
cidades at ste ermo, para sarar um entrevadinho tam pobre, sbre
enxerga tam rta?

A criana, com duas longas lgrimas na face magrinha, murmurou:

--Oh me! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tam pequeno, e com
um mal tam pesado, e que tanto queria sarar!

E a me, em soluos:

--Oh meu filho, como te posso deixar? Longas so as estradas da
Galilea, e curta a piedade dos homens. Tam rta, tam trpega, tam
triste, at os ces me ladrariam da porta dos casais. Ningum atenderia
o meu recado, e me apontaria a morada do doce Rabi. Oh filho! talvez
Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O cu o
trouxe, o cu o levou. E com le para sempre morreu a esperana dos
tristes.

De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mosinhas que
tremiam, a criana murmurou:

--Me, eu queria ver Jesus...

E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse  criana:

--Aqui estou.


FIM




NDICE

                                             Pag.

    Singularidades de uma rapariga loura        1

    Um poeta lrico                            43

    No monho                                  61

    Civilizao                                81

    O tesoiro                                 123

    Frei Genebro                              135

    Ado e Eva no Paraso                     153

    A aia                                     205

    O defunto                                 215

    Jos Matias                               265

    A perfeio                               303

    O suave milagre!                          335




Notas de transcrio:

Foram encontrados e corrigidos alguns erros tipogrficos evidentes,
de que no considermos necessria meno especial.





End of the Project Gutenberg EBook of Contos, by Jos Maria Ea de Queirs

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CONTOS ***

***** This file should be named 31347-8.txt or 31347-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        https://www.gutenberg.org/3/1/3/4/31347/

Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
Proofreading Team at https://www.pgdp.net


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
https://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
