Project Gutenberg's Camillo Castello Branco, by Antonio da Silva Pinto

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Camillo Castello Branco

Author: Antonio da Silva Pinto

Release Date: February 22, 2010 [EBook #31346]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CAMILLO CASTELLO BRANCO ***




Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
of public domain material from Google Book Search)






                            OS CONTEMPORANEOS

                         CAMILLO CASTELLO BRANCO

                                    POR

                                SILVA PINTO


                                 200  Reis


               GUILLARD, AILLAUD & C.ia, LIVREIROS-EDITORES
                       47, Rua de S.t Andr-des-Arts
                                   PARIS
                         Filial: 28, Rua Ivens, 1.
                                   LISBOA
                                    1889




                         CAMILLO CASTELLO BRANCO




                            OS CONTEMPORANEOS

                         CAMILLO CASTELLO BRANCO

                                    POR

                                SILVA PINTO


                                 200  Reis


               GUILLARD, AILLAUD & C.ia, LIVREIROS-EDITORES
                       47, Rua de S.t Andr-des-Arts
                                   PARIS
                         Filial: 28, Rua Ivens, 1.
                                   LISBOA
                                    1889




CAMILLO CASTELLO BRANCO

Quando se interroga um leitor portuguez sobre a individualidade
litteraria de Camillo Castello Branco, o interrogado se  homem affirma
a recordao dos risos, se  mulher a reminiscencia das lagrimas; e
d'este duplo tributo, da razo e do sentimento, resalta a nitida
comprehenso do homem de genio que ha trinta annos, dia a dia, armado da
observao e da intuio, tem erguido o mais poderoso e alevantado
monumento de que ha registro em lingua portugueza.




I

Na dolorosa epopa do genio discutido e calumniado abre uma excepo,
que nos consola, este grande nome de Camillo Castello Branco. Os grandes
homens insultados pela mediocridade confiaram sempre do futuro o
glorioso desaggravo; Camillo encarregou-se da desforra; e os seus
insultadores so _homens mortos_ para a imputao, desde a hora em que o
gigante os discutiu,--dado que no vinguem purificar-se no
arrependimento e honrosamente confessal-o.

Eu insisto ainda agora na expiao que me rehabilita: se ha quem muito
deva em lio, mais que muito salutar, ao mestre de todos ns, sou eu,
que lhe aggredi o trabalho colossal, sem resvalar ao insulto ignobil ao
_homem_ que mais tarde me foi mestre e ao _lar_ que me recebeu amigo...

Pude assistir, hospede, n'esse lar,  formao do ultimo livro de
Camillo. Pede-me a consciencia, porventura illudida, um juizo favoravel
 consciencia dos insultadores do livro e do seu auctor;--eu creio que
os sentimentos de simples equidade, avocados pela simplicissima
vergonha, dariam rebate  confisso do erro no espirito d'esses
transviados, se n'esses espiritos pudesse transluzir um claro
tenuissimo d'aquelle viver de sacras amarguras que tem o lenitivo no
trabalho, ou que desabafa em palavras de amigavel incitamento quando a
provocao dos insensatos o no distrahe para as violencias do correctivo.

Afigure-se ao leitor de boa f e de claro entendimento que a sorte, raro
propicia a entendimentos honrados, o levou em hora de paz ao remanso de
S. Miguel de Seide.  hospede na hospitaleira morada. Alta manh, subiu
ao gabinete de trabalho do mestre e achou-o solitario. Sahiu da officina
para o lugar do descano: sobre o leito, presa dos soffrimentos physicos
de cada hora, que os soffrimentos moraes vingam suffocar a espaos, o
grande homem descana no trabalho. No ha que hesitar na interrupo:
entrai: l est o sorriso socratico do mestre a receber-vos, carinhoso.
Ahi tendes a _fra_ que se propem acossar uns taes que mal espulgam a
insignificancia nas horas ferozes em que o pulguedo da vaidade parva
lhes d rebate s furias: ahi tendes o _homem feroz_ que esses
pregoeiros de especiarias podres apontam como o algoz de suas industrias
d'elles. No hesiteis na expanso do vosso crr: elle--_o verdugo_--tem
indulgencia e conselho para todas as ignorancias; tem o silencio de
favor para as vaidades que o no insultam; o que elle no tem  a
resignao criminosa da bondade exaggerada, quando os pygmeus chafurdam
no pantano fetidissimo da injuria soez, no intuito de lhe salpicarem a
formidavel sombra; o que elle no tem  a indulgencia da exaggerada
caridade quando suspeita que o aggressor ingenuo encobre o vulto de
villo cobarde que se agacha na sombra, menos escura que a alma do
miseravel.

Ento, n'esses momentos em que os profanos imaginam,  luz vermelha da
represalia do mestre, uma irritao feroz, o grande homem converte o
insultador em titere, prende-lhe o cordel; puxa: as cambalhotas
succedem-se; o publico ri perdidamente, ou sente fremitos de espanto: o
insolente morde a terra, e, quando o auditorio espera a punhalada final
vibrada pelo gigante, o gigante applica no esmurraado nariz do
iconoclasta um misericordioso piparote, e ri.

Riso que seria crudelissimo se a bondade da suprema fora o no
temperasse...

s vezes, quando o feroz inverno da alda me fornecia, benevolo, o
pretexto para conservar-me  beira de Camillo, o mestre concedia-me a
leitura do seu trabalho, e eu lia distrahido:  que eu pensava, em
quanto lia, nos esforos de uns miseros parturientes que atram os ares
com os seus gemidos, quando cerradas noites dolorosas de meditao lhes
arrancam dez paginas de _original_, morto ao nascer,--uns reformadores
sarrafaaes que pem a tratos de emendas os compositores martyres,
quando no preferem--no furor de produco--pr a tratos a critica
misericordiosa que lhes corrige, em que peze a safanes ingratos, as
demasias de desaforados absurdos. Confrontava, e confronto a
espontaneidade uberrima e a ardentissima e vigorosa seiva d'aquelle
espirito de luz com a escuridade interior dos eunucos que o doestam l
da acolheita das suas tropelias.  assim que o mister do critico se
distrahe, a espaos, avocado pelo dever de amargas retaliaes.

A _Corja_, elaborada ao correr da penna pelo mestre,  um novo documento
para o processo da mixordia litteraria. Demonstra-se, uma vez ainda, que
o esplendor da _obra nova_  uma illuso d'optica, fascinadora para o
gentio zanaga, se os arrebiques no occultam o oiro de lei da concepo
genial, ou da observao profunda, de par com os conhecimentos da lingua
em que se escreve.

E raro occultam esses thesouros.

O que por ahi vemos,  a saudao aos arrebiques; e, justia inteira, se
 pobre chronica jornalistica no  vedado o ingresso nas sociedades de
_geographos_ e de _escriptores_, a crassissima ignorancia veda-lhe o uso
da palavra em assumptos que demandam estudo. Que ha a esperar em
affirmaes de tal lote por parte d'esses eternos infantes prodigiosos
que trocam por bilhetes de theatro a sua triste collaborao nas gazetas
e os seus direitos de litterato no _Martinho_ ou na associao risonha?

Eu no posso reproduzir-me no aquilatar da moderna escla (?), dos
modernos artistas, dos modernissimos abortos e das deturpaes que o
trabalho de boa f tem obtido dos censores inconscientes e dos
facciosos instrumentos involuntarios de uns tetrarchas burlescos da
evoluo deturpadissima. Mas que primores de sanissima linguagem, para
lio crudelissima dos abortos e para nossa lio solicitada, no
offerece o novo livro de Camillo! Depois, como a espaos, transparece,
no decorrer da epopa de miserias, o moralista mordacissimo, e como
n'essa mordacidade transluz um raio de suprema piedade que sem
experimentar e conceder os espiritos de lei, firmados na base dupla do
estudo e da experiencia dolorosa!

Eu pasmo--hoje--quando um espirito culto e de serios precedentes atira a
luva, de envolta com a injuria, ao invencivel athleta de mil combates.
Comprehendo as aggresses de uns gatunos que pedem a um puxo d'orelhas
a _celebridade_, uns pelitrapos de botiquim aceites na Associao dos
escriptores portuguezes (_sic_): mas, que uma entidade pensante, no
usufructo da imputao desa  camaradagem com a suja horda-- o que no
se pde comprehender sem derivar, para o triste caso, da allucinao
partidaria, tanto monta--do mais triste facciosismo.

Elle, o flagellador da _Corja_, no  apenas o erudito e paciente
investigador da nossa historia, o derradeiro e mais illustre mestre da
lingua portugueza, o gigante que fixou em livros immorredouros toda a
comedia portugueza contemporanea (palavras do snr. A. da Conceio no
seu primeiro artigo sobre _A Corja_); mal vae aos tristes aggressores
que o consideram immobilisado nos estudos de ha vinte annos: com a
autoridade de quem assim levianamente creu e mais tarde corrigiu os seus
erros sobre Camillo _e sobre outros_, eu poderia asseverar que o grande
escriptor acompanha no seu retiro da alda todo o movimento litterario e
scientifico do periodo contemporaneo,--poderia asseveral-o, se no visse
bater em retirada, aps tres dias de _lucta_, a aggresso moderna ao
supposto immobilisado... Mas no ser um crime egual ao da aggresso
esta apparencia de defeza?

De homens como Camillo  uso dizer-se: Est ainda mui perto de ns para
a justia; o futuro ha de fazer-lh'a. Quer dizer:--Estabeleamos como
norma o insulto aos mestres, durante a vida; mais tarde, depois da sua
morte, nos serviro seus nomes para injuriar os vivos! Oh! espiritos
sublimados dos homens d'hoje, reformadores do existente, destruidores da
torpeza legalisada! se no applicasseis todo o marmore disponivel 
construco das vossas proprias estatuas antecipadas, se no
empregasseis o vosso esforo em tentativas de demolio das glorias
justificadas, se no desseis guarida aos insignificantes repletos de
odio e aos parlapates repletos de charlatanismo, se abrigasseis o
respeito ao genio aureolado pelos cabellos brancos e pelo saber,--no
dariamos o espectaculo permanente de contendas deploraveis entre os
apregoados voluntarios do bom senso e da justia.


II

O Movimento do Romantismo em Portugal affirma-se n'uma corrente de
banalidades que do em litteratura a nota da suprema inepcia. Mas todos
os crimes e todas as faltas, melhor todas as excrescencias d'essa
evoluo de sentimentos se resgatam e afundam no esquecimento
misericordioso, se acertamos em ver a toda a luz, a obra colossal do
homem de genio que entre ns consagrou o romantismo e que o mantem,
quarenta annos volvidos, nos dominios do romance portuguez, em plena
fora indestructivel e em plena gloria incontestavel.

Vieram, com grandes esperanas, algumas tentativas de implantao de
novas formulas e de processos novos. No escaceou o talento, menos ainda
a observao, com todo o brilhantismo expositor. Mas faltou a
paixo--desculpe-se a velha definio do facto eterno e insubstituivel.
Foi pela paixo que triumpharam os raros e grandes triumphadores da
gerao d'hontem. Surgem os excessos de analyse, as subtilezas, as
minudencias, a cathedra para os sentimentos, mas a inferioridade do
effeito  manifesta. O successo relativo do romance modernissimo est
nas bellezas do descriptivo e nos pormenores liberrimos at aos dominios
da pornographia. Mas  raro que dos detalhes saia o grande trao
emocional, a forte scena dramatica que convulsiona, a grande synthese
psychologica que se impe e que illumina como uma revelao.


Um lucido e poderoso espirito que ns perdemos e choramos e cujo nome
deixaremos vinculado a este singelo estudo--o poeta Cesario
Verde--apresentava-nos um dia diversas definies muito rapidas e muito
seguras de varios escriptores portuguezes. Tendo de referir-se a Camillo
Castello Branco, apresentou a seguinte definio-- o mais litterato de
todos--completo:  no terreno do estudo severo a erudio benedictina
apoiada no bom-senso profundo;  o _sacerdos magnus_ nos dominios da
lingua portugueza;  o humorista Sterne combinado com o humorista Henri
Heine, e das amarguras d'este teem muito as suas amarguras. A nota
plangente que faz estremecer e sossobrar os espiritos na desolao ou
que os redime pelas lagrimas, fere-a o grande escriptor com a
sinceridade do momento--que  toda a fora da paixo. Em hora de
zombaria serena assimila os processos novos e desmascara-lhes a
impotencia e a inferioridade; logo, corrigindo a ironia, d-nos em duas
paginas que adiante sero transcriptas a scena mais artisticamente
executada da galeria do romance portuguez.

Teremos ensejo de fallar d'elle como polemista. Vejamos no entanto a
philosophia do seu riso.


III[1]

No conto commigo para destramente me desempenhar da empreza litteraria
em que se faz mister mais mocidade de corao que lettras bem ajuizadas.

 materia,--se se pode com tal nome invilecer o que ha ahi mais subtil
e espiritual-- materia, isto d'amores, para inspirar srias
consideraes a homem dos meus annos.

E se os amores vm d'azas quebradas e involtas nas escomilhas do lucto,
se em vez de grinaldas de rozas, cingem cypreste; se lhes alvejam a
tiracolo caveiras em vez de aljavas, e l dentro estiletes hervados em
vez de flechas d'ouro--emfim amores negros, amores abominaveis,--maior
dever me corre de ser sizudo, elegiaco e espantador de paixes.

Conheo-me. Dei o primeiro passo na senda da sabedoria, segundo Cicero:
_se ipsum nosce_; cavei com utilidade no preceito: _Nosce te ipsum_;
sabia felizmente um pouco de latim para me intender mais depressa.

A minha raiva ao planeta em que estou  acerba mas fica muito aquem
da misanthropia. Em rapaz fiz de Heraclito, quando no conhecia melhor
do que hoje este grego que aforou as lagrimas com honras de eschola
philosophica. De tal philosopho, coisa que sirva, s temos o boato de
que chorava e declamava em publico. Hoje em dia, um homem com esta
sensibilidade era levado ao commissario de policia.

Por mim e pelos meus visinhos tambem eu chorei.

Eis que, desce a geada de muitos invernos a nevar-me, o frio a filtrar,
a temperatura dos liquidos a descer, o sangue a coagular-se, e logo o
cristallisar das lagrimas no corao como as concrees vitreas d'uma
caverna.

Principiei a rir s vezes.

Rir  contrahir-se o diaphragma e os musculos faciaes, operao
materialissima, muscular, carnal, e que nenhum outro animal exercita.

Claro  que o rir  attributo de ser racional.

A par e passo que a razo se allumia e fecunda, as contraces
musculares amiudam-se. Raciocinar  rir. O acume da sabedoria humana 
ver os reversos das tragedias sociaes; l est por fora a comedia. A
ignorancia que esteriliza e mirra e incalvece  a que s deixa ver uma
face da mortalha.

Eu no cheguei ainda aos pinaculos da sabedoria.

Vou subindo.

Subir  ir um homem desatando os ns que atam a dr estranha  sua; 
ir tirando s coizas tristes a sua essencia lacrimal, por feio que o
_sunt lacrim rerum_ de Virgilio no se perceba.

O rir, porem, do animal philosopho no  a casquinada saloia do bipede
implume de Plato que vaga  toa e  tuna, sem casta de philosophia
nenhuma.

Ha ahi um gargalhar que a sciencia denomina _spasmo cynico_, ou de co,
um exhibir das arcadas dentarias at aos condylos.  o caracter bestial
da canalha.  o que os inglezes chamo rir de cavallo--_horse laugh_.

Ha tambem o rir chamado _sardonico_, o rir d'uns que comeram o fabuloso
rainunculo da Sardenha. Ora entre ns os que d'esta arte destampam
gargalhadas no comeram rainunculos,  gente imbuchada de feijo branco
e orelha de cevado. Essa hedionda deformidade caracterisa estupidez
quasi sempre malevola; corresponde ao espojar-se, se o rir  meramente
bruto e ao escoucear, quando  bruto e mau.

No riram assim Democrito, Aristophanes, Esopo, Petronio, Aretino, Gil
Vicente, Erasmo, Sterne, Rabelais, Charron, Molire, Voltaire,
Tolentino, Byron, Heine.

D'estes, alguns, seno todos, riram dos homens e dos Deuses.

E o ultimo nome que cerra a phalange consubstancia todas as calamidades
comprehensiveis, desde o jazer do paralytico cego, at  theophobia, o
horror de Deus. E, assim mesmo, como elle adivinhou o sorrir de Satan, a
despenhar-se das regies da luz, onde o _Summo-Bem_ permittiu que se
gerassem Anjos soberbos! Vejam a superrima vingana d'aquelle Prometheu
que recurva os dedos nos fusis da gargalheira, que o amarra oito annos a
um leito, e do estridor dos ferros sacudidos, medula o sinistro arpejo
das suas gargalhadas sarcasticas! Como Lucifer invejaria o gentilissimo
demonio que retransido das agonias da nevrose, todo trevas dentro e
fora, creava a paradoxal harmonia do gemido com a risada.

 preciso ter chorado para immortalisar o riso no livro, na estrophe,
na sentena, na palavra; o riso que excava, mina e alue theogonias; o
riso que desfaz religies, cujo bero boiou embalado sobre ondas de sangue;

O riso que abate a abobada do templo sobre as ossadas dos martyres;

O riso que revolve as tormentas dos imperios, e abysma thronos, e
espuma espadanas de lama, lama com que as geraes erigem os seus marcos
millenarios, as suas chronologias gloriosas.


Oh! mas que susto no faria aos proceres que regem a republica e
aos sacerdotes que regem almas, o rir do demagogo e do atheu, se a cada
chasco d'uns taes ruissem thronos e altares?

Nada de medo em Portugal.

Aqui o dardo do sarcasmo alcana apenas o scopo onde a calumnia mira.
As gargalhadas, como aqui as bascolejam estas maxilas alvares dos
goliardos professos, vingam mariar a honra d'um homem, desluzindo-lhe o
passado, innoitando-lhe o futuro, infernando-lhe o sanctuario da
familia. Isto  o mais. Receal-as todavia, como attentatorias das
instituies civis ou religiosas, seria dar-lhes a honra de
ridiculisarem quem as teme.

Aqui no ha esgrima de facecia que entre dois contendores decida um
pleito util. Dois homens que se medem e floreteam a remoques so dois
fundibularios que se apedrejam.

Ninguem se lembrou de inscrever algum dos nossos satyricos na pleiade
dos que, rindo, castigaram. O espirito portuguez nunca espantou ninguem.
A bruteza carniceira, sim. Assevera-o o douto e pio bispo Amador Arrais:
Espanta-se o mundo e tem inveja  nossa ferocidade. Isto escreveu-se,
de boa f, no seculo XVII entre a inquisio e a pirataria portugueza no
Oriente.

Quando Rabelais e Montaigne forjavam alavancas para Voltaire--o ridente
que transfigurou a Europa--ns queimavamos homens, em cujas frontes
lampejassem reflexos de Joo de Leide ou de Petrus Ramus. Quando, em
Frana, rumorejavam os sorrisos prenuncios do terramoto social, aqui
ouvia-se o mugir subterreo das masmorras d'um cruelissimo verdugo, que
disputava  inquisio trevas e supplicios para centralisar a ferocia do
poder em si, e esteiar o throno nos caibros da forca. Para o riso, que
assombrava o dogma, acendia-se a fogueira; para o que assombrava a
realeza, arvoravam-se os patibulos de Belem.

D'ahi procedeu que portuguezes ainda teem n'alma crepusculos d'aquella
grande noite. No sabemos rir com espirito; apenas gargalhamos com os
queixos.

Sem embargo, implantou-se entre ns uma coisa creada pontualmente para
ns. Chama-se a chalaa, que j deu uma filha estupida como sua me,
chamada a laracha.

Me e filha vivem abarregadas com uns chanceadores lettrados da indole
dos eternos tolos de Tertulliano.


Aos quaes peo indulgencia, se a merecem as tortuosidades por onde me
transviei, degenerando d'aquella derreada prosa com que abri esta coisa
alabyrintada.

Era meu proposito dizer espalmadamente que, ha vinte annos, comecei a
ver as duas faces dos lances tristes: uma que intende com as glandulas
lacrimaes, outra com o diaphragma. Primeiramente, se no choro,
condo-me; depois, esgaravatando na raiz das dores humanas, encontro ahi
ou sedimento de perversidade ou ridicularias miserabilissimas. Ento  o
rir. E, afim de que os padecentes me desculpem, rio primeiro de mim.

D'ahi se causou que os meus livros, entre muitos defeitos, realam em
um que tem ferido a benevolencia da critica: e  que no conservo, sem
intercadencias desvanecidamente faceciosas, uma situao plangente, e
amarguro com o acerbo da ironia a dulcido das lagrimas.

 justo o reparo.

E n'este livro me quer parecer que tal defeito subir de ponto; porque
vou intender em tragedias amorosas, n'esta edade de quarenta e tres
annos feitos, velhice em que nenhum escriptor sincero, obediente a
Horacio, deu aos seus leitores o exemplo das lagrimas. _Si vis me
flere_, etc.

D. Francisco Manuel de Mello, em annos sedios, escreveu uma
_Epanaphora amorosa_. Succede, por isso, ao estremado estylista que faz
rir a gente quando os seus personagens choram.  o providencial castigo
de quem anda, fra de saso,  cata de flores, ou intenta com myrradas
perpetuas dar fragrancia de tomilhos ao livro que resumbra o acre
enjoativo do bolor.

E d'isto me pesa; que este livro abranger um tristissimo caso que me
fez invelhecer annos na hora em que o vi. Que profanao, se o riso
me antepozer os fantasmas irritados das almas insepultas!


Creio que, ao fechar d'algumas sepulturas, se abrem livros de
proveitoso doutrinamento ao de e cima d'ellas.

Mas quem procura ahi fontes de vida?

Quem se demora a ver a ladeira por onde resvalou  leiva humida um
mancebo com o corao ainda a queimar-lhe a mortalha?

Por isso as historias dos mortos se escrevem, e este livro se faz.

, todavia, inutil.

A mocidade no l d'isto para aprender. Atira-se  voragem e morre--
voragem, onde o menos que se perde  o corpo.

O corao no se afoga debaixo da pedra onde as cinzas d'outros se
desfazem. Cada qual quer sentir, em pessoa, o desfibrar-se-lhe o corao
fio a fio, o esvasear-se-lhe de piedade, lagrima a lagrima.

Depois, ao fogo das volupias infernaes, d'essa massa informe faz-se o
pragal, a bruteza d'uma coisa que d um som asperrimo de tdo petrificado.

Seja assim. Eu assim fui. Todos os que eu vi morrer assim foram.


IV

Oiamos agora as vibraes da dr e da saudade d'este colosso, que seria
o descendente directo de Heine, se no possuisse a envergadura d'um
independente:

No principio d'este anno de 1864 sahi de Ruives, onde por espao de
oito dias me escondi  minha estrella funesta--a vigilantissima
desgraa, que eu ia esquecendo. No termo d'este prazo, estranhei o
socego das minhas noites, faltou-me a mo do demonio que me arregaava
com dedos de fogo as palpebras quebrantadas do somno, e fui  procura
d'elle.

Deixei o meu amigo na cumiada do outeiro, visinho da casa, com sua
esposa e filhos. As ultimas palavras d'elle foram: _quando tiveres o
livro escripto, deixa-me gozar a no vulgar satisfaco de me ver
personagem e heroe d'um romance, que me promette uma immortalidade..._

--De quinze dias--interrompi eu.

No longe da obscura paragem de Affonso de Teive,  margem do crrego
chamado Ple, riacho que, pela primeira vez,  revelado ao mundo em
letra redonda, assentei eu a minha tenda nomada. A minha tenda so uns
vinte volumes, um tinteiro de ferro e um cabo de penna de osso, que
me deram n'outro ponto do mundo, onde ha quatro annos assentra tambem a
minha tenda,--ponto do mundo que por um singular acaso implicava ao meu
sestro vagabundo: era no anno do Senhor de 1860, nos carceres da Relao
do Porto, o menos conveniente dos paradeiros para homem de gostos
impermanentes em objecto de aposentadoria. Isto, sem embargo, no
impedia que esta minha to querida penna, to amiga confidente
d'aquellas trezentas e oitenta noites--de janeiro todas, que l a dentro
dos congelados firmamentos de pedra reina perpetuo inverno, e giam as
abobadas, no sei se lagrimas, se sangue, se agua represada nos poros do
granito,--no impedia, vinha eu dizendo, que a minha penna, com o seu
incanavel fremir sobre o papel, me aligeirasse as noites, e aos assomos
da alvorada me convidasse para a banca do trabalho, que foi o meu altar
de graas ao Senhor, e o confessionario onde abri minha alma ao
perscrutar do anjo providencial que me dava a unco dos athletas e dos
grandes desgraados, para mais affrontosos e excruciadores supplicios.

Os meus vinte volumes e o meu tinteiro de ferro esto hoje sob o tecto
gasalhoso d'uma alma que eu n'outras eras encontrei na minha. No sei ha
que seculos isto foi, nem que congerie de abysmos nos separam para
sempre. Parei aqui, porque ainda aqui, a tempos, se me figura rediviva a
imagem do passado, ainda aquella alma se me hospeda no corao em
instantes de sonhos do co, ainda a pedra tumular das affeies cahidas
 voragem infernal do desengano, est pendida sobre a derradeira: que a
saudade  ainda um affecto, um excelso amor, o melhor amor e o mais
incorruptivel que o passado nos herda.

A casa, onde vivo, rodeiam-na pinhaes gementes, que sob qualquer lufada
desferem suas harpas. Este incessante soido  a linguagem da noite que
me falla: parece-me que  voz d'alm-mundo, um como borborinho que
referve longe s portas da eternidade. Se eu no amasse de preferencia o
socego do tumulo, amaria o rumor d'estas arvores, o murmurio do crrego
onde vou cada tarde vr a folhinha scca derivar na onda limpida; amaria
o pobre presbyterio, que ha trezentos annos acolhe em seu seio de pedra
bruta as geraes pacificas, ditosas, e incultas d'estes selvagens
felizes que to illuminadamente amaram e serviram o seu Creador. Amaria
tudo; mas amo muito mais a morte.

Aqui, se Deus se amercear de mim, embargando o passo ao anjo
exterminador, que continuo me assalteia os aditos do meu eden de quinze
dias, aqui escreverei, com quanta fidelidade a memoria me suggerir, a
narrativa que Affonso de Teive me fez.

Seis mezes ha que se fez noite no meu espirito. Por arrebatados impetos
de quem quer furtar-se s garras de um imaginario drago, tenho fugido
para defronte do meu tinteiro de ferro, e avocado as graciosas
imagens, filhas do co, que, nos dias da mocidade fremente de ms
paixes, me refrigeravam a fronte, e disputavam ao encanto do mal,
psalmeando-me o hymno de amor ao trabalho. O perdimento d'esse amor foi
a suprema provao, a forja ardentissima em que minha alma foi lanada 
voracidade d'um fogo depurante. Mas, no interior, por tudo em que
sombreava a negrura do corao, eram tudo trevas, frio, lethargia,
esquecimento.

No sei de que futuro abril do meu porvir me veiu esta manh um bafejo
aromatico de flres, umas ondulaes de luz, que me pareciam as da minha
juventude. Tudo me visitou como em mos do fugace archanjo do
contentamento. Passou o nuncio mysterioso, passou depressa, mas o meu
espirito ergueu-se alvoroado a saudar o sol de Deus, do Deus immenso
que na immensidade dos seus mundos ainda guardar para mim um quinho de
alegrias parcas e modestas, as que unicamente podem dar consciencia
repousada, prelibaes de bemaventurana, e honrada alliana com os homens.

Penso que estou escrevendo as tuas palavras,  meu amigo, redimido a
lagrimas, a ultrages e a desapego do mundo. O claro, que hoje alumiou a
minha alvorada, seria porventura um reflexo das tuas alegrias. Ha dias
me disseste:

Sabes tu o que  ter um Deus, que nos escuta, que nos reprova, que
nos louva, que nos pova o espao onde a alma insaciavel do homem
encontra um vazio horrendo, uma respirao afflictiva? Querias tu
dizer-me que orasse? A ti o confesso em grandes enchentes de consolao,
e ao mundo o confessarei sem o impio rubor dos miseraveis que perderiam
sua alma antes que a irreligiosidade os escarnecesse: orei, meu amigo;
porque, n'um dos mais apertados trances de tua vida, quando m'o acabavas
de contar, interrompi o teu silencio, perguntando:

--E que fizeste depois?

E tu respondeste-me:

--Depois, OREI[2].


V

Quando o CRIME DO PADRE AMARO e o PRIMO BAZILIO de Ea de Queiroz
estalaram como gritos de guerra nos dominios das lettras portuguezas,
fez-se  volta do recem-chegado um clamor de admirao, que, para ser
justo, s precisava de ser consciente. Quem isto escreve applaudiu e deu
a razo do applauso. O romancista felicitou o critico pela comprehenso
do trabalho e dos intuitos. Estes processos desusados tiram  critica a
feio _protectora_ e fixam a independencia da arte no sentido elevado e
puro da palavra _independencia_[3].

Mas de par com as saudaes _criticadas_ surgiram as acclamaes
insensatas da turba multa e a explorao perfida do _successo_ do
romancista.

A perfidia consistia em jogar os livros de Ea de Queiroz como uma
catapulta contra a obra de Camillo Castello Branco. Provocado o velho
leo, no moribundo por mal dos aggressores, sahiu a terreno--zombando.
O _Euzebio Macario_ e a _Corja_ so tiros certeiros contra a matulagem;
no prejudicam nem visam a prejudicar os processos novos dos mestres
da ultima gerao; mas pem a nota de bom senso na conta do que se
derimia entre a velhacaria e a ignorancia e restabelecem a situao no
seu terreno sob o ponto de vista da boa critica.

Mas fora dos dois livros de ironia buscaremos specimen de soberba
execuo artistica, alheia aos antigos processos do grande romancista. 
do livro _A Brazileira de Prazins_. A galeria do romance portuguez no
apresenta quadro mais vigoroso, nem mais surprehendente colorido
tragico, com todas as _nuances_ de uma observao que se evade  fadiga
pelos primores incomparaveis dos seus moldes.


O Melro, s 8 da noite, quando os freguezes desalojaram, fechou a
taverna; e, espreitando se os pequenos dormiam, disse  mulher:--A casa
do Cambado  nossa, mas  preciso vindimar o Zeferino...

--Credo!--exclamou a mulher com as mos na cabea.--Nossa Senhora nos
acuda!

--Leva rumor!--e punha o dedo no nariz.

-- Joaquim,  marido da minha alma, alembrate dos trez annos que
penaste na cadeia! Olha para aquelles quatro filhos!...

--J te disse que me no cantes--e relanava-lhe o seu formidavel olhar
vsgo, incendido com os lampejos da candeia em que afogueava o cachimbo
de po. Depois, foi tirar d'entre a cama de bancos e a parede uma
velha clavina. Sentou-se  lareira e disse  mulher que tivesse mo na
candeia. Enroscou o sacatrapo na ponta da vareta de ferro e descarregou
a arma, tirando primeiro a buxa de musgo, e depois, voltando o cano,
vazou o chumbo na palma da mo.

-- Jos, v l o que vaes fazer!--insistia a mulher, limpando os olhos
com a estopa da camisa. E elle, assobiando o hymno de Maria da Fonte,
despejava a polvora da escorva, desaparafusava a culatra e tirava as
duas braadeiras. A mulher soluava, e elle, cantando n'uma surdina rouca:

    _Leva avante, portuguezes,
    Leva avante, no temer..._

--Pelas chagas de Nosso Senhor, lembra-te dos nossos pequenos.

E o Melro n'uma distraco lyrica:

    _Pela sancta liberdade,
    Triumphar ou padecer..._

Depois, bufava para dentro do cano e punha o dedo indicador no ouvido
da culatra para sentir a presso do sopro, que fazia um fremito aspero
impedido pelas escorias nitrosas. Pediu  mulher umas febras d'agodo em
rama, enroscou-as n'uma agulha de albarda e escarafunchou o ouvido
do cano.--Est suja--disse elle--d c um todo-nada de aguardente.

--Joaquim, vamo-n'os deitar, pelas almas. No te desgraces!

--Traz aguardente e cala-te, j t'o disse, mulher, com dez diabos!--E
pz-se a assobiar a _Luisinha_. Enroscou algodo embebido em aguardente
no sacatrapo e esfregou repetidas vezes o interior do cano at sahirem
brancas e seccas as ultimas farripas da zaracotea. Soprou novamente e o
ar sahia sem estorvo pelo ouvido com um sibilo egual. Parecia
satisfeito, e cantarolava, _mezza voce_:

    _Agora, agora, agora,
    Luisinha, agora._

Armou a clavina, aparafusou as braadeiras, a culatra e a fecharia,
introduzindo a agulha. Aperrou e desfechou o co repetidas vezes,
acompanhando o movimento com o dedo pollegar, para certificar-se de que
o desarmador, a caxta e o fradte trabalhavam harmonicamente. Levantou
o fusil de ao, que fez um som rijo na mola, e friccionou-o com polvora
fina; e, com o bordo de um navalho de cabo de chifre, lascou a aresta
da pedreneira, que faiscava.

--Valha-me a Virgem! valha-me a Virgem! soluava a mulher.

E elle, zangado com as lastimas da mulher, com expanso raivosa, n'um
_sfogato_:

    _E viva a nossa rainha,
          Luisinha,
    Que  uma linda capita..._

--Vai  loja atraz da ceira dos figos e traz o masso dos cartuxos e uma
cabacinha de polvora de escorvar que est ao canto.

A mulher dava-lhe as coisas, a tremer, e fazia invocaes ao Bom Jesus
de Braga, e s almas santas bemditas. Elle encarou-a de esconso, e
regougou:--Mo!... mo!...

Carregou a clavina com a polvora de um cartuxo; bateu com a cronha no
sobrado, e deu algumas palmadas na recamara, para fazer descer a polvora
ao ouvido. Fez duas buxas do papel do cartuxo, bateu-as com a vareta
ligeiramente uma sobre a polvora e a outra sobre a bala.

    _Agora, agora, agora,
    Luisinha, agora._

Depois pegou da clavina pela guarda-matta, e poz-se a fazer pontarias
vagamente, passeando um olho, com o outro fechado, desde a mira ao ponto.

A mulher fra sentar-se no sobrado,  beira da enxerga de tres filhos a
chorar; o mais novo esperneava, dava vagidos na cama a procural-a. O
_Alma-negra_ fra dentro beber uns tragos de aguardente, voltou
enroupado n'um capote de militar, despojo das batalhas da _Maria da
Fonte_.--Ora agora--disse elle--ouvistes? porta da cosinha e a cancella
da horta aberta, porque eu venho pelo lado do pinhal.

--Vae com Nossa Senhora--disse a mulher--e poz-se de joelhos a uma
estampa do Bom Jesus, a rezar muitos _Padre-nossos_, a fio.


Era uma noite de fevereiro, de nevoa cerrada, um co de carvo
pulverisado em brumas molhadas, sem clareira onde lucilasse uma
estrella. No se agitava um galho de arvore nua movido pelo ar, nem
ondulava uma erva. Era a serenidade negra e immota das catacumbas. s
vezes rugia nas folhas ensopadas de nebrina no cho esponjoso das
carvalheiras a fuga rapida das hardas, dos toires e das raposas que se
avisinhavam do povoado a fariscarem as capoeiras. O Joaquim Melro
estremecia e punha o dedo no gatilho. O restolhar d'um gato bravo, o pio
da coruja no campanario distante, punham arrepios de medo na espinha
d'aquelle homem que ia matar outro--chamal-o  janella e varal-o 
traio com uma bala.--Era o traado.

--Que raio de escuro!--dizia, esbarrando nos espinheiros perfurantes.

Em noites assim, o universo seria o immenso vacuo precedente ao _Fiat_
genesiaco, se os viandantes no esbarrassem com as arvores e no
escorregassem nos silvdos das ribanceiras. O noctivago sente na sua
individualidade, nos seus callos e no seu nariz, a doce impresso
pantheista das arvores e dos calhos. Que este globo est muito bem
feito. Os transgressores do descano que Deus estatuiu nas horas
tenebrosas, os scelerados das aldeias que larapeam o presunto do
visinho, que fisgam a moa incauta ou empunham o trabuco homicida, se
no temem encontrar as patrulhas civicas das grandes municipalidades,
encontram os troncos hostilmente nodosos das arvores que so as
patrulhas de Deus. Alguns, porm, protegidos pelo Mephisto a quem
venderam a alma pelo preo da consciencia eleitoral, ou mais barata,
chegam incolumes ao delicto, passando illesos como o lobo e o javali por
entre os troncos das carvalheiras esmoitadas, hirtas, com os galhos a
esbracejarem retorcidos n'uma agonia patibular.

O Melro, como o porco montez e o lobo cerval, embrenhra-se por pinhaes
e carvalheiras; s vezes, parava a orientar-se pelo cucuritar dos gallos
tresnoitados e latir dos ces. Ao fundo das bouas ladeirentas, rugia o
rio Ple nos audes das azenhas e nas guardas dos pontilhes. Lamellas
era da parte d'alm. Mas o rio, de monte a monte, rugia
intransitavel nas pequenas pontes. Foi  de Landim, uma aldeia
engravatada, onde ainda se avistavam clares de luz nas vidraas das
familias distinctas que jogavam a bisca em ricos saros do _faubourg
Saint-Honor_, com uns deboches sardanapalescos de sueca a feijes.

Havia tambem um rumorejo de vozes que altercavam na taverna do Chasco.
Tinia dinheiro l dentro. Jogava-se o monte.

O Melro cuidou ouvir proferir o nome do Zeferino. Abeirou-se, p ante
p, do postigo da taverna, e convenceu-se de que estava ali o pedreiro.
Era elle quem reclamava um quartinho que pozera _de porta_, e o
banqueiro recolhra com as paradas que estavam _dentro_, quando tirou a
contraria _de cara_.

--Que no admittia ladroeiras!

E o banqueiro desfeiteado observava-lhe que nada de chalaas a respeito
de ladroeiras; que todos os que estavam d'aquella porta para dentro eram
cavalheiros. O Zeferino replicava que no queria saber de cavalheiros;
que queria o seu quartinho ou que se acabava ali o mundo. Que quem
queria roubar que fosse para a Terra Negra.

A alluso era muito certeira e inconveniente. Estavam na roda dos
cavalheiros alguns veteranos da antiga quadrilha do Faisca, na Terra
Negra, muito desfalcada pelo degredo e pela forca. Travou-se a lucta
a sco e po; havia lampejos de navalhas que davam estalos nas mollas; o
Tagarro de Monte Cordova tinha feito afocinhar o banqueiro sobre os dois
galhos do baralho com um murro herculeo phenomenal. O taberneiro abriu a
porta para escoar o turbilho. Elles sahiram de roldo; e, quando
entestaram com a treva exterior, quedaram-se cegos como n'um antro de
caverna. Um, porm, dos que estavam, no sahiu; encostra-se ao
mostrador com as mos no baixo ventre, gritando que o mataram; e,
vergando sobre os joelhos, n'um escabujar angustioso, cahiu de bruos,
quando o taberneiro e o Tagarro o seguravam pelos sovacos. Era o Zeferino.


Quando,  meia noite, o _Alma-negra_ entrava em casa pela porta do
quintal, encontrou a mulher ainda de joelhos diante da estampa do Bom
Jesus do Monte. Ao lado d'ella estavam duas filhas a rezar tambem, a
tiritar, embrulhadas em uma manta esburacada, aquecendo as mos com o bafo.

O Melro mandou deitar as filhas, e foi  loja contar  mulher, livida e
tremula, como o Zeferino morreu sem elle pr para isso prego nem estopa.
Ella poz as mos com transporte e disse que fra milagre do Bom Jesus;
que estivera trez horas de joelhos diante da sua divina imagem. O
marido objectava contra o milagre--que o compadre no lhe dava a
casa, visto que no fra elle quem vindimara o Zeferino; e a mulher--que
levasse o demo a casa; que elles tinham vivido at ento na choupana
alugada e que o Bom Jesus os havia de ajudar.

Ao outro dia, o Joaquim Melro convenceu-se do milagre, quando o
compadre, depois de lhe ouvir contar a morte do pedreiro, lhe disse:

--Emfim, voc ganha a casa, compadre, porque matava Zfrino, se os
outros no matam elle, heim?


VI

 de Lisboa o grande romancista. Nasceu a 16 de maro de 1826. Orpho
aos dez annos de edade, foi transportado a Villa Real (Trs os Montes)
d'onde passou ao Porto. Foi n'esta ultima cidade que elle se affirmou
litterariamente, e no Porto ou a breve distancia tem vivido, salvo
alguma ausencia limitadissima, a sua vida de combates e de triumphos.

Hoje vive--ha uns vinte annos--na freguezia de S. Miguel de Seide,
concelho de Villa Nova de Famalico.

S. Miguel de Seide vincula-se  historia litteraria portugueza do seculo
XIX, por Camillo Castello Branco, como Valle de Lobos por Alexandre
Herculano. Ermos sagrados e veneraveis!


No vale a pena mencionar distinces honorificas, desdenhosamente
acceitas por Camillo. Citaremos apenas a distinco que elle recusou;
registro de um castigo.  de 1862, na _Revoluo de Setembro_ de 19 de
maro d'aquelle anno e refere-se ao Instituto de Coimbra.


As obras de Camillo Castello Branco, manuseadas por duas geraes,
durante os ultimos quarenta annos decorridos (tem a data de 1847 o
_Agostinho de Ceuta_) no figuram completas em algum catalogo publicado.
Colligimos, todavia, os dados ao nosso alcance para a formao de mais
completa lista bibliographica da obra do grande escriptor.

_Abenoadas lagrimas!_, drama em tres actos.

_Agostinho de Ceuta_, drama em quatro actos.

_Agulha em palheiro._

_Amor de perdio._

_Amor de salvao._

_Amores do diabo_, por Cazotte. Traduco.

_Anathema._

_Ao anoitecer da vida_, poesias.

_Annos de prosa._

_Esboo biographico de D. Antonio Alves Martins, bispo de Vizeu._

_Aspiraes._

_O bem e o mal._

_No bom Jesus do Monte._

_Os brilhantes do brazileiro._

_A bruxa de Monte Cordova._

_Cancioneiro Alegre._

_Carlota Angela._

_O carrasco de Victor Hugo Jos Alves._

_Cavar em ruinas._

_A caveira da martyr._

_O clero e o Sr. Alexandre Herculano._

_Coisas espantosas._

_Coisas leves e pesadas._

_Condemnado_, drama em trez actos.

_Corao, cabea e estomago._

_A Corja._

_Correspondencia epistolar entre Camillo Castello Branco e Jos Cardoso
Vieira de Castro._

_Curso de literatura portugueza_, por Andrade Ferreira e C. C. Branco.

_A cruz_, semanario religioso.

_O demonio do ouro._

_Diccionario Universal de educao e ensino_, por Capagne: traduco.

_Divindade de Jesus e tradio apostolica_, com uma carta dirigida ao
auctor pelo visconde de Azevedo.

_A doida do Candal._

_Doze casamentos felizes._

_Duas epocas da vida_, poesias. Incluindo o folheto _Hossana._

_Duas horas de leitura._

_A engeitada_, romance.

_Esboos de apreciaes litterarias._

_A espada de Alexandre. Crte profundo na questo do homem-mulher e
mulher-homem, por um socio prendado de varias philharmonicas._

_Lagrimas abenoadas._

_O livro de consolao._

_O livro negro_, continuao dos _Mysterios de Lisboa_.

_Luta de gigantes._

_O Marquez de Torres Novas_, drama em cinco actos.

_Os martyres_, por Chateaubriand; traduco.

_Memorias do Carcere._

_Memorias de Fr. Joo de S. Jos de Queiroz, bispo do Gro Par_, com
uma introduo e muitas notas illustrativas.

_Memorias de Guilherme do Amaral._

_O Morgado de Fafe em Lisboa_, drama em dois actos.

_O Morgado de Fafe amoroso_, comedia em trez actos.

_Mosaico e silva de curiosidades historicas, litterarias e biographicas._

_A mulher fatal._

_Mysterios de Fafe._

_Mysterios de Lisboa._

_A neta do Arcediago._

_Noites de insomnia._

_Noites de Lamego._

_Novellas do Minho._

_O Olho de vidro._

_Espinhos e flores_, drama em tres actos.

_O esqueleto._

_Estrellas propicias._

_Estrellas funestas._

_Eusebio Macario._

_Fanny_, por Ernesto Feydeau, trad.

_A filha do Arcediago._

_A filha do Dr. Negro._

_A filha do regicida._

_A freira no subterraneo_, traduco.

_Gazeta litteraria do Porto._

_O genio do Christianismo_, de Chateaubriand; traduco.

_Historia de Gabriel Malagrida_, pelo P. Mony; traduco.

_O homem de brios._

_Horas de paz_, escritos religiosos.

_A immortalidade, a morte e a vida_, estudo cerca do destino do homem
por B. Puchesse, traduzido e com um prefacio.

_O inferno_, por Calet, traduco.

_Inspiraes_, poesias.

_O judeu._

_Justia_, drama em dois actos.

_Onde est a felicidade?_

_Poesia ou dinheiro_, drama em dois actos.

_Poesias._

_Poesias e prosas ineditas de Ferno Rodrigues Lobo Soropita_, com uma
prefao e notas.

_Purgatorio e Paraizo_, drama em trez actos.

_Quatro horas innocentes._

_O que fazem mulheres._

_A queda d'um anjo._

_O Regicida._

_Romance de um homem rico._

_Romance de um rapaz pobre_, por Octavio Feuillet, traduco.

_O santo da montanha._

_O sangue._

_Scenas contemporaneas._

_Scenas da Foz. Solemnia verba. Ultima palavra da Sciencia._

_Scenas innocentes da comedia humana._

_O senhor do Pao de Nines._

_A sereia._

_Theatro comico. A morgadinha de Val de Amores,_ em um acto. _Entre a
flauta e a viola_, entremez em um acto.

_As trez irmans._

_O ultimo acto_, drama em um acto.

_Um homem de brios._

_Um livro_, poesias.

_Vaidades irritadas e irritantes._

_Vida de D. Affonso VI._

_Vinte horas de liteira._

_Vingana._

_As virtudes antigas, ou a freira que fazia chagas e o frade que fazia
reis._

_O visconde de Ouguella._

_Voltareis,  Christo?_

_Euzebio Macario._

_A Corja._

_O general Carlos Ribeiro._

_O Cancioneiro Alegre._

_Os Criticos do Cancioneiro Alegre._

_D. Luiz de Portugal._

_O vinho do Porto._

_Maria da Fonte._

_Eccos humoristicos do Minho._

_Seres de S. Miguel de Seide._

_Brazileira de Prazins._

_Bohemia do Espirito._

_Vulces de Lama._

_Luiz de Cames--Carta de Guia._

_Vida de D. Affonso VI._


VII

Fez-se nos ultimos tempos cerrada noite de amarguras no espirito de
Camillo Castello Branco. Os desgostos cruciantes que lhe surgiram da
loucura de Jorge Camillo, seu filho, aggravaram-se com a enfermidade
dolorosissima e pertinaz, que nos ultimos dois annos tem flagellado
acerbamente a vida do illustre escriptor, e levado a consternao e a
magoa a dentro dos coraes amigos.

Nestes ultimos mezes, aps doze annos de ausencia, visitou Lisboa. A
vinda do grande homem foi o acontecimento do dia. Acorreram a saudal-o
os mais distinctos por seu saber, talentos e posio. A ideia de um
tributo por parte do municipio de Lisboa ao seu filho mais illustre
n'este seculo pareceu avocar por momentos o _senado_ lisbonense das
combinaes resolutivas e salvadoras da sua politica. Passou breve o
lampejo racional; no houve rua que fornecesse o cunhal para a
inscripo d'aquelle grande nome. Estavam distribuidos todos os cunhaes,
excepto ainda o das Bolas, pelos bolas contemporaneos, no esquecendo o
_Diario de Noticias_, que o leitor pode ver entre as ruas do Norte e da
Barroca, muito gratas s musas nacionaes.

Regressou ao Minho, e l vive o grande homem, na regio que ficar
celebre, merc dos livros em que elle de preferencia a enquadrou com
seus matizes e que elle escolheu para abrigo da sua gloria. L vive,
longe das academias, longe do bulicio dos pequeninos e dos miseraveis,
involto na lenda entre flammejante e sombria da sua lucta e do seu
martyrio.

Gloria do seu paiz, em quarenta annos de victorias, Camillo Castello
Branco deixar na sua obra o monumento mais complexo e valioso da
historia da nossa litteratura, da nossa lingua e das chronicas
historicas, e ao mesmo passo o grande e immortal modelo da polemica, do
humorismo, da elevao tragica, da simplicidade popular, modelo que far
o desespero--ai de ns!--d'aquelles a quem foi offerecido.


Typ. GUILLARD, AILLAUD & C.--1889.


    [1] _A Mulher Fatal_, introduco. Camillo Castello Branco.

    [2] Do _Amor de salvao_.

    [3] Veja-se COMBATES e CRITICAS, vol. I, cap. do REALISMO NA ARTE.





End of Project Gutenberg's Camillo Castello Branco, by Antonio da Silva Pinto

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CAMILLO CASTELLO BRANCO ***

***** This file should be named 31346-8.txt or 31346-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        https://www.gutenberg.org/3/1/3/4/31346/

Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
of public domain material from Google Book Search)


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
https://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
