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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/30462-0.txt b/30462-0.txt new file mode 100644 index 0000000..23ffa03 --- /dev/null +++ b/30462-0.txt @@ -0,0 +1,2363 @@ +*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30462 *** + +O ORACULO + +DO + +PASSADO, DO PRESENTE E DO FUTURO + +OU O + +Verdadeiro modo de aprender no passado +a prevenir o presente, e a adivinhar o futuro + +POR + +BENTO SERRANO + +ASTROLOGO DA SERRA DA ESTRELLA, + +_Onde reside ha perto de trinta annos, sendo a sua habitação uma estreita +gruta que lhe serve de gabinete dos seus assiduos estudos astronomicos_ + + +OBRA DIVIDIDA EM SETE PARTES, CONTENDO CADA UMA O SEGUINTE: + +Parte primeira--O ORACULO DA NOITE +Parte Segunda--O ORACULO DAS SALAS +Parte Terceira--O ORACULO DOS SEGREDOS +Parte Quarta--O ORACULO DAS FLORES +Parte Quinta--O ORACULO DAS SINAS +Parte Sexta--O ORACULO DA MAGICA +Parte Setima--O ORACULO DOS ASTROS + + +PORTO +LIVRARIA PORTUGUEZA--EDITORA +55, Largo dos Loyos, 56 +1883 + + + + +PARTE TERCEIRA + +O ORACULO DOS SEGREDOS + +OU + +Collecção de muitos segredos uteis a todas as pessoas, e para a cura +radical de muitas molestias conhecidas e desconhecidas + + + + +PORTO +LIVRARIA PORTUGUEZA--EDITORA +55, Largo dos Loyos, 56 +1883 + + + + +Porto: 1883--Imprensa Commercial--Lavadouros, 16. + + + + +O ORACULO DOS SEGREDOS + + + + +Segredo 1.º + + +Tirado do livro de S. Cypriano (o feiticeiro) para fazer subir um +homem ao ar e andar nas alturas 30 minutos, sem lhe acontecer mal +algum. + +Deita-se um homem estendido no chão, depois ponham-se dois homens aos +pés e outros dois á cabeceira. Feito isto digam as palavras seguintes, +principiando por um e acabando por outros: + +1.º homem--Aqui cheira a corpo morto. + +2.º--Pezado como um chumbo. + +3.º--Leve como uma penna. + +4.º--Levanta-te na hora de Deus. + +No fim de ditas as palavras acima mencionadas, apontae-lhe com os dedos, +que elle logo sobe ao ar, tal qual como um passaro; no fim de 30 +minutos, cáe ao chão sem lhe acontecer mal algum. + +Este segredo foi descoberto por Lucifer, o principe do Inferno. + + + + +Segredo 2.º + + +Para um homem conhecer se a mulher lhe é infiel ou não + +A qualquer hora da noute, quando observarem que a mulher está dormindo e +sonhando, põe-se-lhe devagarinho uma mão sobre o coração, que d'essa +maneira conhecem logo se é sonho; se o fôr ella por sua propria bocca +vos começará a descobrir tudo o que fôr de verdade, e o homem vae +observando o que ella lhe diz e vae tirando a mão de pouco a pouco por +que esta operação não póde durar mais que 10 minutos, para não acontecer +que a mulher acorde e observe o que se está fazendo. + +Sendo assim tudo descobrirão, e ella nada fica sabendo do que disse. +Depois de feito isto devem guardar segredo para evitar questões. + + + + +Segredo 3.º + + +Effeitos do vinagre e da ourina + +Logo que uma pessoa dê qualquer cortadella e queira vêr-se sã em 8 +horas, botem-lhe em cima vinagre ou ourina. Este remedio é approvado, +assim o tenho experimentado e sempre com bom resultado. + + + + +Segredo 4.º + + +Para tirar as dores de cabeça + +Se alguns dos meus leitores tiverem dores de cabeça e se em pouco tempo +as quizerem alliviar façam o remedio seguinte: uma cabeça de alhos, +tirar as cascas aos dentes, botal-os em um almofariz e moêl-os bem +moÃdos, pegar em um bocadinho de massa e esfregar a testa e fontes bem +esfregadas que, depois, em pouco tempo passará a dita dôr. + +Se no fim da esfregação o paciente se poder deitar melhor será que +depois de se levantar nada ha de sentir. + + + + +Segredo 5.º + + +Para quem quizer beber o vinho simples sem agua + +Para tirar a agua do vinho, se fará uma vazilha de pau de hera, lançando +o vinho n'ella; se tiver agua, todo o vinho se irá coando, e ficará só a +agua na mesma vazilha; e se não tiver agua ficará a vazilha escorrida de +todo o vinho. + + + + +Segredo 6.º + + +Para que uma pessoa indo pela rua em noute escura leve luz adiante +de si que allumie toda a rua sem se conhecer que qualidade de luz é + +Quebre-se uma noz em duas, de modo que fiquem os miolos inteiros; estes +mettidos sem os quebrar na ponta de uma verga de arame, que tenha uma +vara que seja grossa, pondo o lume no miolo das nozes, tendo a outra +ponta de arame na mão, farão tanto lume como uma tocha, sem se vêr mais +que o mesmo lume. + + + + +Segredo 7.º + + +Para fazer que a comida pareça estar cheia de bichos + +Secretamente partiremos duas cordas de viola uma grossa outra delgada em +bocadinhos, se fôr assado sendo gallinha se lhe metterão pela abertura; +sendo outra cousa se lhe dará um golpe em que se lhe mettem; sendo +cozido se botarão na panella ao tirar do lume e assim virão pegados na +carne com a quentura que em si levam, e com a fresquidão do ar que lhes +dá se encolherão e estenderão como bichos, e quem estiver comendo fica +enganado. + + + + +Segredo 8.º + + +Para aquelles que caminham não sentirem a calma, nem o cansaço do +caminho + +Saindo eu de Alcoy para S. Thiago, á porta de uma aldeia, encontrei tres +peregrinos, com os quaes acompanhei até ao meu destino, e segundo o que +n'elles observei deviam ser virtuosos, e aos mesmos vi que levavam +pendurado no cinto, um pequeno raminho de bella-luz. Perguntei-lhe o que +aquillo representava, e tive de resposta: Pois vós ainda não sabeis o +segredo? Tiraram do seio cada um sua mancheia de artemija, dizendo-me +que com aquillo pouco se sentia a calma e o cansaço do caminho. D'ahi +por diante me aproveitei d'isso e achei ser verdade, o segredo que me +ensinaram. + + + + +Segredo 9.º + + +Para não criar pulgas e para evitar persevejos + +Tomem quatro folhas de herva santa, um ramo de arreçã com flor, outro de +herva sedagoza partes iguaes frigam-se em azeite simples, misture-se +tres onças de cêra amarella, untando tres dias successivos não sómente +os mata, mas tambem a pessoa que com isto se untar nunca mais os criará. +E para evitar pulgas bote-se pela casa mentastros e folhas de amieiro, +estas hervas tem virtude para as matar e não criarem outras. E +qualquer d'ellas fará o mesmo effeito, botando com abundancia pela casa. + + + + +Segredo 10.º + + +Para fazer letras nas costas da mão com cinza de papel + +Se quizerem fazer com que os assistentes, fiquem admirados sem saberem +de que modo veio essa letra, secretamente, com a propria ourina e a +ponta de um pausinho, escrevem as letras que quizerem que appareçam, e +depois se deixará seccar, e se mostra a quem quizer vêr a mão limpa; +queimem um papel tendo escripto as mesmas letras (isto com tinta, preta) +que se escreveram na mão, e com o mesmo papel queimado, se esfregará a +parte onde se fizeram as letras com a ourina, que conforme foram feitas +assim saÃrão pintadas de preto, por isso quem não souber o segredo se +admirará. + + + + +Segredo 11.º + + +Para crianças que teem lombrigas e tosse + +Provavel remedio para quem tem crianças com essa doença. Se fôr tosse +lancem-lhe uma esponja ao pescoço, que logo lhes abrandará. E se forem +lombrigas, botem uma pequena mancheia de farinha centeia, em uma +pouca de agua, que fique tingida como sôro de leite, assim dada a beber +em jejum, todas as manhãs, mata as lombrigas. + + + + +Segredo 12.º + + + + +Segredo para os cabellos nunca cahirem e conservarem-se pretos + +Tomarão folhas de azinheiro, e cascas de pepino sêccas, depois de +misturado em partes iguaes, bem pizado e espremido, botar-se-ha o sumo +em meio quartilho de agua-ardente camphorada, e bem mechida, se porá ao +orvalho da noute, por espaço de 8 dias. Com esta mistura lavarão a +cabeça pelo menos de tres em tres annos, que o cabello não cahirá. + + + + +Segredo 13.º + + + + +Segredo para quando forem tirar o mel das colmeias não serem +mordidos pelas abelhas + +Tomem o malvaisco, e untem bem as mãos e rosto com o sumo d'esta planta, +depois untem-se com azeite que tenha servido já nas candeias, com que se +allumiam, que indo bem untado podem fazer o serviço sem receio, que +ellas não farão mal algum. E se por acaso te picar alguma vespa, +unta bem a parte com azeite liquido, que brevemente está são. + + + + +Segredo 14.º + + +Para evitar formigas, mosquitos e persevejos + +Aquella parte onde quizermos que não entrem n'ella formigas, cercaremos +com um risco de carvão grosso, ou com cinza, ou com salmoura, ou com sal +molhado, que não passarão este limite para dentro. E se pozerem estas +cousas todas misturadas melhor será. + +E para mosquitos não virem de noute á cama dependurarão á cabeceira uns +poucos de pregos, que não chegarão alli. E para persevejos, tome-se uma +pouca de palha estrangeira, cozida n'um tacho, e botem-lhe uma quarta de +pedra hume, e em fervendo tudo depois da agua estar fria lavem a barra +da cama; ou a qualidade que lhe pertença com a dita agua. Na cama, ou +casa onde se criarem persevejos, tomando um pimento em um fogareiro que +se queime, posto debaixo da cama todos os persevejos que houver onde +chegar o fumo do brazeiro morrerão. + + + + +Segredo 15.º + + +Para se conhecer a sarna e o meio de a curar + +Para se conhecer a doença da sarna, basta vêr entre os dedos das mãos +umas bolhinhas, que estão quasi constantemente em comichões; mas com +este segredo, cura-se facilmente, dentro em pouco tempo: basta deitar +sobre a parte doente, umas pingas de oleo de petroleo. Mas não se deve +esfregar. + +Deixe-se o oleo na parte durante uma hora. Continua-se no dia seguinte e +mesmo nos outros emquanto não sarar. Este remedio que está ao alcance de +todos, é muito approvado, e seu emprego tem sido adoptado em immensos +casos. + +Um outro consiste em lavar com licor concentrado de alcatrão, por que +produz muito bom effeito. + + + + +Segredo 16.º + + +Para os que costumam enjoar + +Um verdadeiro serviço, que com este segredo presto aos viajantes, +principalmente aos embarcadiços. Dou-lhes a saber este segredo que de +tanto lhe póde servir: logo que o mal se começa a sentir, e quando a +cabeça anda á roda e o estomago enfraquecido deve-se tomar 2 até 5 +perolas de chloroformio, que o mal desapparece logo. E não havendo +as ditas perolas, tomarão perolas de ether, que fazem o mesmo effeito. +Tanto umas, como as outras vendem-se em quasi todas as pharmacias, e o +viajante se munirá d'ellas antes de embarcar, porque o enjôo é um mal +que causa sempre bem á creatura que vae no mar. + + + + +Segredo 17.º + + +Para curar os catarrhos que nos costumam apoquentar + +Tenho observado já muitas vezes que este segredo dá sempre bom +resultado, n'esta doença tão massadora, e custosa de soffrer. Para essa +cura tomem: essencia de therebentina, que dá bom resultado; com um gosto +detestavel é impossivel o poder tomal-a pura, ou em mistura. Mas tomae +em fórma de perolas. As perolas de therebentina tomam-se de 6 até 12 na +occasião das comidas. Dentro em pouco tempo, os catarrhos, mesmo os +antigos, melhoram-se e curam-se. Por muito que explique, nunca são +muitas as explicações, dignas do elogio d'este segredo. + + + + +Segredo 18.º + + +Para os enganos que ha em pezos e medidas + +Antes de outra cousa se note, que o gado vaccum quanto mais está depois +de morto mais peza, pelo contrario o gado miudo, assim tambem para +dar o seu a seu dono assim no pezo da carne, como de outro qualquer +hade-se pôr primeiro o pezo, depois a carne, ou o que fôr, por que se a +carne se põe em a mesma parte, requer muita força de pezo para outra +parte para se endireitar. + +E assim tambem nas medidas de vara, ou covado para se medir seda, ou +linho, ou panno de côr, se ha de medir sobre a meza, ou caixa, não nas +mãos, porque estira, e se faz mais copia de varas, ou covados, do que são. + +Quanto á medida do vinho, ou azeite que se mede em armazens e lojas +baixas leva mais que nas altas, a razão é por que toda a cousa se +pretende igualar, com o globo da terra, assim nas partes baixas faz o +azeite, ou vinho, cobril-o para cima, nas altas não; tanto é assim, que +para prova d'isto ponham um vaso que leve meia canada, ou mais sobre uma +meza, este cheio de vinho ou agua, ou azeite, da meza posto no chão, lhe +podem botar um vintém em moedas, moeda mansamente, todas levará sem +derramar gotta pelo motivo que temos dito. + + + + +Segredo 19.º + + +Remedio para persevejos, piolhos e pulgas + +Para persevejos, tomem-se umas poucas de brazas em um têsto, bota-se-lhe +dois ou trez pimentos vermelhos; posto o têsto no meio da casa onde +os houver, ou morrerão ou se ausentarão. + +Para piolhos, basta o summo da erva santa, untar com ellas trez noutes a +parte onde se elles criarem, que desapparecerão. + +E para pulgas, na casa onde andarem se botará uma pouca de hortelã pela +casa, logo morrerão ou se ausentarão. + + + + +Segredo 20.º + + +Como se devem curtir as azeitonas de conserva para durarem + +Devem ser as azeitonas mais sobre o verde, que sobre o maduro, é preciso +serem colhidas á mão da oliveira, nem varejadas, nem encorrilhadas, +deitadas na vasilha, se lhe botará agua simples, de modo que fiquem +todas cobertas; aos tres dias tira-se-lhe essa agua e deita-se-lhe +outra; assim continuando todos os tres dias na outra agua, se lhe botará +pouco sal, ouregãos, cascas de limão sem amargo algum, porque o amargo +corrompe; ao tirar d'ellas será com colher, não com a mão, e assim se +sustentarão por largo tempo. + + + + +Segredo 21.º + + +De varias qualidades que ha no ovo + +A primeira propriedade que tem, é ser a gema fresca e substancial, a +clara cálida, e reimosa; cura humores viscosos. + +O ovo é neutral, porque se o comer uma pessoa estando colerica e +agastada converte-se-lhe em outra tanta cólera; se a pessoa está alegre, +converte-se em outra tanta alegria; e tanto é assim, que escreve um +auctor grave, que se um furioso continuar dois mezes pela manhã, e á +noite, comendo duas gemas de ovos crus, tornará ao seu juizo; a razão é +porque o furioso é tão contente de si que imagina que tudo é seu. + +Para mais, o ovo que é cozido, de modo que fique duro ou forte, é +cálido; em cru é frio, tão frio, que bebendo-o pela manhã, no verão, vai +contra a calma, e contra a enfermidade do figado. + + + + +Segredo 22.º + + +Para fazer com que a agua do mar não seja salgada e poder beber-se + +Tenho observado que para fazer a agua do mar dôce, a pontos de se poder +beber, farão uma vasilha de cêra branca bem tapada, e a metterão no mar, +que fique toda coberta, e a que fôr entrando para dentro da vasilha, +perde o sal e fica dôce, e o mesmo acontece se metterem uma vasilha nova +de barro, mas que tenha a boca bem tapada; com a mesma será, porque a +agua tanto dá que de pouco em pouco, lá vae entrando para a vasilha até +estar cheia. + + + + +Segredo 23.º + + +Para em pouco tempo se curar a diarrhea e dysentheria + +Contra esta terrivel doença, tenho um segredo que vou dizer aos meus +leitores: ás pessoas que depois de serem apoquentadas por este mal, +fazem remedios que de nada valem, por isso, se quizerem vêr esse mal +fóra do corpo, existe um meio de o fazer que é approvado: é o carvão do +doutor Belloc; tomar cada dia de tres a seis colheres de sôpa d'este +carvão, que em pouco tempo estarão livres do mal que os apoquentava. + +Ao principio, parece impossivel que o carvão possa curar a diarrhea, mas +por muitos está experimentado, e sempre com bom effeito, por isso vos +recommendo este segredo. + + + + +Segredo 24.º + + +De nossos concebimentos, da causa e porque os nascidos do oitavo +mez não vivem + +O primeiro planeta chamado Saturno, é de sua natureza frio, secco, +melancolico, terreno; por isso os Astronomos o chamam _infortuna maior_, +porque a qualidade frio, e sêcco, é contraria á criação de todas as +cousas, supposto que seja por esta razão inimigo da natureza humana +emquanto terreno; acharam os philosophos o primeiro mez de nossos +concebimentos ser do dominio de Saturno, o qual não prejudica o geral, +porque ainda a materia não tem vida a qual, nos possa empecer. + +O segundo mez é dedicado a Jupiter, o qual por ser de compleição +sanguinea e cria quente e humido, o qual sendo bom, e que convém á +creacão das cousas, chamaram-lhe os Astronomos _fortuna maior_; assim em +seu mez a materia se une, incorpora, e orna de espiritos vitaes. + +O terceiro mez é dedicado a Marte, que é de compleição colerica, quente, +e sêcco; porque como a quentura é conveniente á creação das cousas, e +por outra parte a seccura a impedia, chamaram-lhe os Astronomos +_infortuna_; assim no terceiro mez a mãe sempre padece achaques porque a +creatura os padece. + +O quarto mez é dedicado ao Sol, que supposto que seja cálido, e sêcco, +comtudo é _luminaria maior_; emquanto luminaria, cria, augmenta e +corrobora. + +O quinto mez é dedicado a Venus, que supposto seja de per si humida, +fleumatica, e fria, tem de certa participação de quentura, com a qual +favorece a humidade; por isso os Astronomos a chamaram _fortuna menor_; +porque ainda que não seja tão favoravel como Jupiter, é comtudo +ajudadoura da creação de todas as cousas, por isso em seu mez, a mãe e a +creança estão livres de achaques. + +O sexto mez é dedicado a Mercurio, que é planeta natural, participante +de todas as compleições, pelo qual em seu mez supposto que a creatura +está perfeita, capaz de vida, comtudo se n'este mez nascer, morrerá +logo, porque como Mercurio seja neutral acommoda-se ao primeiro +principio que é Saturno assim--_mata_. + +O septimo mez é dedicado á Lua, que supposto que seja planeta frio, +humido, fleumatico, e aquatico, comtudo emquanto _luminaria_ é +conveniente á creação de todas as cousas, assim vemos que os nascidos de +sete mezes vivem. + +O oitavo mez torna a dominar Saturno o qual como temos dito é contrario +á natureza humana; assim não temos visto até hoje que o nascido, até ao +oitavo mez resista. + +Ao nono mez torna a entrar Jupiter, o qual como temos dito é bom +planeta, em geral todos os que nascem n'este mez vivem. + + + + +Segredo 25.º + + +Para sabermos dos meninos pequenos, a estatura que virão a ter +depois de grandes + +O Sol divide os outros seis planetas em duas partes: tres acima, tres +abaixo; os tres de cima chamam-se _tardos_, por serem mais vagarosos em +seu movimento, assim tambem são chamados _masculinos_. Os tres de baixo +são chamados _femeninos velozes_, porque em seu movimento são mais +ligeiros, supposto que Mercurio, que está abaixo por ser masculino, +planeta natural e applicar-se com quem se acha, por ficar entre a Lua, e +Venus que são planetas femeninos, se conte tambem femenino como elles; +assim pois a Lua, Mercurio, Venus, que estão abaixo do Sol, por serem +_velozes_, representam os tres annos primeiros de nossa vida, tambem +Marte, Jupiter e Saturno, por serem _masculinos-tardos_, e estarem acima +do Sol, representam o resto da nossa vida, pelo que quem quizer saber a +estatura, que qualquer creança virá a ter depois de grande, na edade de +tres annos perfeitos, tomem-lhe a medida com uma fita estando a creança +com o corpo direito, o comprimento da fita que tiver da ponta da cabeça, +até aos pés dobra-se, o que se achar, que faz a dita fita dobrada, será +a estatura que a tal creança virá a ter depois de grande. + + + + +Segredo 26.º + + +Para deitar fogo a uma pouca de estopa e não se queimar + +Peguem na estopa, deitem-lhe um pouco de espirito de vinho, e ao mesmo +tempo deitem-lhe o fogo, que começa a arder e acabando-se o espirito se +apagará, e a estopa ficará sem se queimar. Mas devem ter cautella antes +do espirito arder todo, por causa de se não inflammar á estopa, que é +mais verdadeiro. + + + + +Segredo 27.º + + +Para fazer estalar por baixo--divertimento de travessos + +Tomarão folhas de espirradeira, cascas de castanhas, tudo muito queimado +e desfeito em pó lhe juntarão pimentos que estivessem de calda de +vinagre, isto tudo em vinho branco: quem o beber não poderá estar +calado. + + + + +Segredo 28.º + + +Tambem de entertenimento e travessura + +Se os leitores se quizerem rir e entreter, os que estiverem presentes +farão o segredo seguinte: Agarrarão um rato vivo, e secretamente (para +ninguem lhes vêr) deitarão agua-raz sobre o lombo e por todo esse bixo +menos nas pernas e cabeça; depois apparecerão diante de quem quizerem e +pondo o rato no chão agarrado pelo rabo, se lhe lançará o fogo com um +lume e o deixarão que começará a correr todo cheio de lume, e quem não +souber este segredo se admirará por vêr uma pouca de lavareda a fugir de +umas partes para outras. + +Depois de a agua-raz se gastar, acabará tambem a vida do rato. + + + + +Segredo 29.º + + +Como se póde conhecer as enfermidades pelas ourinas + +Todos os que na medicina tem escripto, fazem mais duvida em saber +conhecer doenças, do que em applicar os remedios, e a razão é que mal se +póde applicar medicamento salutiphero á doença que não é conhecida. É +porque nem todos os medicos, sabem este grande fundamento. Dos mesmos +authores de Villa-Nova tiramos a receita seguinte, que é tão boa +como n'ella se verá, a qual é a seguinte: + +A ourina de côr rosada demonstra saude, estado do corpo são, e boa +digestão. + +Se a ourina fôr menos rosada, supposto que demonstre saude, com tudo +isto não é tão perfeito como se propriamente fôra rosada. + +A ourina de côr de cidra, quando o circulo d'ella é da mesma côr, é boa. +Tambem o é, ainda que não seja de todo côr de cidra. + +A ourina de côr vermelha significa febre simples que dura 24 horas; +salvo se o doente cuja tal ourina fôr ourinar a miudo que é signal de +febre continuada. + +A ourina acêsa de côr de sangue demonstra sangue sobejo; logo é bom +sangrar-se, salvo se estiver a lua em signo _Feminis_, que domina nos +braços, pois será prejudicial a sangria. + +A ourina de côr verde quando sahe depois de vermelha, demonstra +inflammação; é perigosa e quasi mortal. + +A ourina de côr vermelha escura demonstra declinação na doença. + +A ourina vermelha misturada com algum pouco de negro, demonstra +esfalfamento e outros vicios do figado. + +A ourina de côr amarella, demonstra fraqueza do estomago, impedimento de +segunda indigestão. + +A ourina branca de côr da agua da fonte, demonstra aos sãos, ter humores +crus; nas febres agudas é signal de morte. + +A ourina côr de leite com a substancia espessa, se fôr de mulher não é +tão perigosa como a do homem pela indisposição da madre. E se acontecer +em febres agudas é signal de morte. + +A ourina de côr de leite, escura em cima e clara debaixo da região do +meio, demonstra hydropesia. + +A ourina no hydropico, rosada, ou meio rosada, é signal de morte. + +A ourina de côr azulada demonstra multidão de humores corruptos no +fleugmatico e hydropico. + +A ourina negra póde acontecer algumas vezes que a natureza é gastada ao +doente, o calor natural n'este caso é mortal, em outra maneira póde +acontecer expulsão de materia venenosa que sahe pelas veias ourinaes. + +A ourina que traz luz como lanterna, denota indisposição no baço, boa +disposição no que tiver quartans. + +A ourina côr de açafrão, quando está espessa, meia negra, que tem mau +cheiro e alguma espuma, demonstra etericia. + +A ourina rosada, ou meio rosada, que na região inferior traz umas +resoluções redondas, brancas em cima, e um tanto grossas, é signal de +febre hectica. + +A ourina clara no fundo do ourinol até ao meio d'ella, e a de cima mais +espessa, demonstra dôr e inchação nos peitos. + +A ourina escumosa clara, quasi meio vermelha, demonstra maior dôr da +parte direita, do que da esquerda. Porém se a ourina fôr escumosa +branca, demonstra maior dôr na parte esquerda que na direita. + +Se o circulo da ourina não bolindo com ella, parecer que bole de si +mesmo, demonstra decurso de fleugma, n'outros humores da cabeça pelo +pescoço, n'outros nos membros. + +A ourina delgada, amarella-clara, demonstra humor fleugmatico e grosso. + +A ourina espessa de côr de chumbo, negra da região do meio, demonstra +paralysia. + +A ourina espessa de côr de leite, pouca em quantidade, grossas com +algumas espumas na parte inferior do ourinol demonstra dôr de pedra, se +fôr sem espumas espessas de côr de leite podre demonstra ventosidade. + +A ourina espessa de côr de leite, em muita quantidade, demonstra gota +nas partes inferiores. + +A ourina amarella na parte inferior, demonstra nos homens dôr de rins, e +nas mulheres dôr de madre. + +Na ourina em que apparecerem alguns pedaços de leite, se fôr pouco +turbada, demonstra rotura de veia junto aos rins da bexiga. + +A ourina que no fundo do ourinol mostra sangue podre, demonstra podridão +dos rins e bexiga; se juntamente toda a ourina estiver tal, demonstra +podridão de todo o corpo. + +A ourina onde se veem pedaços estreitos-compridos, demonstra desolamento +de bexiga. + +A ourina que sae de vagar, cheia de argueiros como faz o sol, demonstra +pedra nos rins. + +A ourina branca sem febre, demonstra nos homens dôr de rins, nas +mulheres estarem prenhas. + +A ourina de mulher prenha de um mez até trez deve ser mui clara, branca; +se fôr de quatro mezes ha de ser parda, branca e grossa no fundo. + +A ourina espumosa nas mulheres demonstra ventosidade no estomago, ardor +no ventre até á garganta. + +E devem entender que as significações das aguas, são mais válidas +tomadas, vistas logo, do que depois que arrefecem, porque mudam a +substancia, mórmente no tempo do inverno, que com o frio se colham. + + + + +Segredo 30.º + + +Das virtudes e effeitos da genebra + +A genebra tem muitas virtudes, mas especialmente para quem se costuma a +agoniar do estomago, e nas indigestões. Logo que qualquer pessoa se ache +incommodada com qualquer d'estas doenças, tomem meio quarteirão de +genebra, mas para melhor effeito será da hollandeza, porque é mais +approvada, e com isso logo ficarão livres d'essa afflicção, porque além +de vos parecer que não tiram resultado, vos affianço que é engano; +porque eu que vos descubro este segredo, em diversas occasiões tenho +feito uso d'essa bebida e sempre com bom resultado, segredo este que +nunca me esquecerá porque me tem valido á minha vida, e as suas +virtudes, para todos são proveitosas, por isso todos os elogios são +poucos para remedio tão efficaz. + + + + +Segredo 31.º + + +Os effeitos do alecrim da India + +Estou informado de um segredo muito prestavel, para quem padece dôres de +cabeça que é remedio que dou por approvado e muito economico. + +Em um testo botarão umas poucas de brasas acezas, e depois pegarão em +umas poucas de folhas de alecrim da India, e botarão as folhas em +cima das brasas; depois de ellas botarem bastante fumo lhes deitarão uma +onça de assucar; põe-se a cabeça do paciente a tomar aquelle fumo, isto +é dous palmos acima das brasas para evitar da muita quentura, que +fazendo isto oito noutes ao deitar da cama, se acharão melhor, porque +assim como eu fiz e achei bom resultado, tambem me parece que o meu +semelhante que padecer da mesma doença tambem o achará se isto fizer +como explico. + + + + +Segredo 32.º + + +Para que o vinho estragado torne ao seu ser + +Pegarão em uma duzia de laranjas maduras, darão em cada uma tres ou +quatro golpes como quem retalha azeitonas, assim as botarão pelo batoque +da pipa, botal-as-hão em pedaços, e d'ahi por oito dias botarão uma +canada d'agua-ardente fina, e depois d'isto feito em passando 15 dias +vão proval-o que estará bom vinho; mas advirto que a pipa deverá estar +em sitio fresco, porque os vinhos para se conservarem não querem lugares +abafados. + + + + +Segredo 33.º + + +Para tirar o mau cheiro ás vasilhas de madeira e dar cheiro ao +vinho que n'ellas botarem + +Tira-se um tampo á vasilha e mette-se dentro um testo cheio de brasas e +depois bota-se-lhe nas brasas um vintem de cravo da India, dez reis de +canella e um bocado de pês, abafa-se a vasilha com o tampo para que este +fumo se entranhe na madeira, e sair-lhe-ha o mau cheiro, e a vasilha +ficará cheirando sempre bem. + +E para que o vinho que se recolher n'estas vasilhas seja bom de cheiro, +ao tempo que quizerem recolher o vinho coserão uma pouca de palha de +cevada em uma caldeira de agoa, e assim fervendo se bota sómente a agoa +na vasilha, enxuga-se-lhe, tapa-se com o batoque para que tome esse +soadouro, que depois o vinho que n'essa vasilha se recolher terá bom +cheiro. + + + + +Segredo 34.º + + +Para fazer o vinagre forte + +Faz-se um molhinho de ortelã, que peze uma quarta, atado com um cordel +mette-se pela boca da pipa que tiver o vinagre de modo que a ortelã +fique mettida dentro no vinagre ficando o cordel de fóra, e d'ahi a +sete ou oito dias tirem-lhe a ortelã e ficará o vinagre fortissimo. + +Se ainda não tiver a fortaleza que queriam, tornarão a fazer igual +operação, que ao fim dos segundos oito dias estará mais forte. + + + + +Segredo 35.º + + +Para fazer vellas de sebo que não cheirem a elle + +Para as vellas de sebo não cheirarem a elle e parecerem de cêra e que +durem mais, ao fazel-as se terá uma pouca de cal virgem bem peneirada, +cada camada de sebo que se botar na fôrma se lhe botará duas mãos ou um +punhado de cal accesa por toda a forma; as vellas que assim se fizerem +parecerão de cêra, sem terem cheiro de sebo, e durarão muito mais porque +a cal tem a virtude de lhe dar a côr como a de cêra, e conservar o sebo +a arder sem se desfazer tão facilmente. + + + + +Segredo 36.º + + +Para o vinho não fazer mal ao homem + +Este segredo vos vou descobrir, mas será bom que vos não seja preciso, +porque o entendimento da creatura bastará para o evitar. Porém se +acontecer essa bebida a fazer-vos mal á cabeça será bom comer os boxes +assados de uma ovelha, antes de comerem mais cousa alguma. Se quizerem +antes de beber o vinho que elle lhe não faça mal comerão berças com +vinagre, que assim não lhe fará mal, mas eu entendo que será bom não +seja preciso estas cousas; e quando se beber o vinho não se bebe +demasiado, para não arruinar a saude, um dos bens que o vivente tem +n'esta vida. Se ha quem diga que bebem vinho porque não podem deixar de +o fazer, porque é um vicio, ahi vae um segredo tambem para perder esse +vicio: Metam duas enguias vivas dentro de uma canada de vinho, e tapem a +vasilha e quando estiverem mortas tirem-as, e os que costumam tomar-se +da pinga bebam d'este vinho que depois o aborrecerão completamente. +Tambem serve para este effeito a bretonica feita em pó e bebida em vinho. + + + + +Segredo 37.º + + +Para que um cavallo pareça manco sendo são + +Secretamente arrancar-lhe-hão uma seda do rabo dobrada atal-a-hão entre +o casco e os cabellos aonde chamam os machinhos, ficando mettida entre a +seda e os machinhos um grão ou dous de cevada estando bem apertada, +farão andar o cavallo que elle irá a mancar de um pé ou de uma mão, +porque o grão de cevada causa-lhe incommodo nas juntas das pernas e o +animal mancará porque o não póde deixar de fazer. Depois d'este +segredo assim feito, tirarão o grão da cevada que o cavallo tem, que +ficará andando direito e causará admiração a quem o viu manco e em pouco +tempo andar são. + + + + +Segredo 38.º + + +Para refinar a polvora + +Muitos costumam refinar a polvora com limão e outras cousas, mas em vez +de a refinar quasi que a estragam; porque a prova d'isto, tenho visto +fazer uso de polvora ordinaria; o melhor segredo para a refinar é, tanto +de verão como de inverno, borrifal-a com agua-ardente muito fina, +secando-a depois, que este espirito dá-lhe toda a força precisa para que +ella produza bom effeito. Sei isto por a experimentar e tirar bom +resultado. + + + + +Segredo 39.º + + +Para quando uma mulher parir se conhecer se o parto seguinte, se o +houver, é macho ou femea + +Quando uma mulher parir, se quizerem saber o que a mesma mulher parirá +no parto seguinte, pela criança que teve o podem conhecer; nada mais é +preciso do que vêr a corôa do nascido; se o redemoinho que trazemos +de cabellos estiver bem no meio da cabeça, sendo um só redemoinho o +parto que se seguir será macho, e sendo dous os redemoinhos, ou sendo um +só e declinar para qualquer dos lados, o parto que se seguir será femea. + + + + +Segredo 40.º + + +Para se saber das virtudes da ortemija + +A ortemija é uma herva, que quem fizer um molhinho d'ella e a trouxer ao +pescoço, junto ao coração, terá mais animo e maiores forças. E esta +herva, moÃda e bem desfeita, deitada em um pouco de vinho e bebida, para +a pessoa que estiver cançada dá-lhe logo muito mais forças por ser uma +bebida muito mais substancial; qualquer caminhante que fizer uma jornada +a levará tambem comsigo porque tem a virtude de se não cançar tanto e +andar mais caminho, que essa virtude é um dos astros que a concede a +esta herva, assim como tambem serve para espantar as moscas de qualquer +casa, se a cozerem com leite de cabras, e depois de bem cozida untarão +as paredes com esse leite, que ellas por causa do cheiro fugirão. + + + + +Segredo 41.º + + +Da monstruosidade da natureza + +A monstruosidade da natureza é de duas maneiras: uma d'ellas é aquella +que se deixa logo vêr em nascendo a creatura, e a outra a que se +descobre por tempo. A que se deixa logo vêr, é quando a creatura vem com +mais ou menos abundancia de membros dos ordinarios, ou trazendo dos +ordinarios, é algum d'elles semelhante ao de algum animal irracional; +aquelles que trazem mais ou menos membros, de ordinario póde acontecer +pela geração ser feita no bicorporeo, como são Geminis, Virgo, +Sagitario, Piscis, assim tambem aos faltos de membros póde acontecer, +por falta de materia, ou pelos signos moveis estarem infortunados, os +quaes são: Aries, Cancer, Libra, Capricornio; os que trazem de algum +animal tambem póde ser de duas maneiras ou de ajuntamento com o mesmo, +ou no tempo do concebimento concorrer a mãe com o pensamento em algum +animal. + +Da monstruosidade que a natureza descobre com o tempo, se ha-de entender +d'aquelles que são demasiadamente grandes do corpo, ou demasiadamente +pequenos, fóra da proporção que adiante se dirá, ou tendo grande corpo +tem disforme a cabeça de pequena, ou sendo pequeno tem a cabeça +demasiadamente grande, ou sendo demasiadamente grande do corpo, +demasiadamente pequeno com demasiada grossura, porque d'estas +montruosidades se póde conhecer a differença que ha dos compostos em +proporção perfeita; da natureza temos a seguinte: + +Tres cousas ha por onde isto se conhece; a primeira é, que a verdadeira +proporção do homem tem na estatura sete palmos e meio de vicio da +natureza, o mais que se dá são sete palmos a maior, o menor seis palmos, +que a estatura do maior de nove palmos, e o menor de seis se tem por +monstruosidade. + +A segunda cousa por onde se conhece a verdadeira proporção é, que posto +um compasso com uma ponta entre as sobrancelhas e outra na ponta do +nariz tornando o compasso para baixo chegará á superficie da testa na +raiz do cabello, com o mesmo compasso sem mais fechar nem abrir, posta +uma ponta no nariz por baixo das sobrancelhas tornando-o a uma e outra +parte chegará aos lagrimaes dos olhos de cada um d'elles, dando volta +chegará a orelha, advertindo que os dous compassos dos lagrimaes ás +orelhas, da ponta do nariz á ponta da barba, estes tres são eguaes, mas +são maiores do que os outros de que temos tratado, que é de entre as +sobrancelhas á raiz do cabello, á ponta do nariz d'estes ha-de haver em +todo o corpo desde a raiz do cabello até aos pés vinte e sete compassos +dando ao rosto tres, e ao demais corpo vinte e quatro; esta é a regra +que guardam os imaginarios que é dar a um corpo quantidade de nove +rostos, contando inclusivè o mesmo. + +A terceira é: que em ausencia da mesma pessoa se lhe possa fazer todo o +genero de vestidos, calçado, tão justo como se estivesse presente, o +qual se fará d'esta maneira: vêr-se-ha uma luva, que a pessoa calce +justa com uma fita se tomará a grossura do dedo polegar pela raiz do +dito dedo, a qual medida dobrada fará o bocal da manga do casaco ou +roupa, a medida do bocal da manga será dobrada, a medida do cabeção +dobrado, faz a medida da cintura; a da cintura dobrada em tres +terços, um terço até ao comprimento de um quarto do casaco, o outro +terço com uma mão atravessada da mesma luva, faz o comprimento da manga; +o mesmo terço com a mesma mão atravez, faz o comprimento da calça, o +ultimo terço faz todo o comprimento da bota, cujo pé será de um palmo da +mesma luva, juntando-lhe mais o que houver do dito dedo polegar da luva, +da junta do meio até á extremidade, isto do pé; dois terços dos ditos +pés fazem capa até ao joelho, os mesmos dois terços, sendo mulher lhe +faz a casaquinha e os tres terços lhe fazem a saia, os mesmos tres +terços com mais tres palmos de luva lhe fazem manto e casaquinha, manga +e corpinho, e o mesmo que acima temos dito. A pessoa que com estas +medidas lhe fizerem a roupa que venha conforme e justo, poderá dizer que +é conforme a proporção da natureza, sem que falte cousa alguma, sendo a +proporção de sua estatura o que temos dito; resta pois que suas obras +sejam taes, quaes convem para ser mais perfeito. Os que carecem d'esta +composição lhes convem fazerem taes obras, que com a perfeição d'ellas +fique satisfeito, á proporção do corpo. + + + + +Segredo 42.º + + +Bons effeitos do alecrim + +O alecrim tem uma natureza que é quente, secco e cheiroso, e por isso +fortalece todas as partes e membros de dentro e de fóra do corpo, alegra +e fortalece os sentidos, consome as humidades, frialdades, e todos +os males contagiosos. + +O alecrim não consente melancholias, tremores nem desmaios no coração, +cujas raizes, ramos, cascas e flores d'essa excellente herva tem todas +as virtudes, as quaes diremos com ajuda de Nosso Senhor Jesus Christo e +proveito da humanidade. + +Os olhinhos mais tenros do alecrim, comidos pela manhã, com pão e sal, +fortalece a cabeça, conserva a vista clara, aguda e forte. + +A flor e folhas da mesma herva feitas em pó e trazida no seio, afugenta +os tres inimigos do corpo, que tanto affligem o coração, que são elles: +as pulgas, piolhos e persevejos. + +Os mesmos pós no seio do lado esquerdo, espantam a melancholia e ao +coração fazem-lhe muita alegria. + +As folhas da mesma herva bem mastigadas e postas sobre uma chaga fresca, +a curam, e fecha maravilhosamente. + +A flor da mesma, comida pela manhã com mel da mesma flor e um bocado de +pão quente, faz muito bem á saude: nem deixa gerar sangue podre, nem o +mal da gota; e se alguem tiver mal, essa herva lh'o tirará. + +O alecrim serve para afugentar todo o animal venenoso, e o seu fumo +serve contra todo o mal e pestes. + +Os ramos do mesmo, tambem servem para depois de queimados e feitos em +pó, fortalecer dentes e não lhe deixar criar bicho, nem constipações. + +Toda a mulher que tenha uso de comer a flor do alecrim em jejum com pão +de centeio, não padecerá mal da madre, porque lhe reprime os maus +humores, gasta as humidades, e cura os achaques a todas as pessoas que +assim usarem. + +A flor da mesma herva, mettida em qualquer sitio onde estiver roupa, não +deixa entrar a traça na mesma, e dá-lhe muito bom cheiro. + +Se lavarem o corpo com a agua, devem cozer muito bem o alecrim e se +conservarão com boa saude. + +As casas que são escuras e muito humidas, se as defumarem com alecrim a +miudo, conservar-se-hão enxutas. + +Um segredo para as quebraduras, já experimentado, são as alfarrobas +verdes, pizadas e applicadas sobre as quebraduras, que as curam e soldam. + +Se tiverem dôres nas juntas por causa de algum refriado e as lavarem com +agua onde se cozesse alecrim, lhe tirará a dor. + +No tempo da peste é muito proveitoso queimar alecrim pelas casas e nas +ruas, por que afina o ar e faz fugir a peste. + +Estas virtudes do alecrim, acabarei de ser tão extenso como pede este +bem para a natureza e tudo deixarei dito da maneira seguinte: + +Mel virgem de alecrim serve, tira nevoas dos olhos. + +O summo do alecrim lançado nos ouvidos, tira a dôr. + +O summo do mesmo tomado pelos narizes, tira o mau cheiro e sana todos os +males que dentro d'elles estiver. + +Um segredo provado e experimentado, a agoa do alecrim pôr-se ao sol, +será para os olhos que tem belidas, cataratas, ou que estão ennevoados. +Faz-se esta agua da maneira seguinte: um bom mólho de alecrim verde e +colhido de fresco, põe-se dentro de um ourinol novo de vidro com as +pontas para baixo, não devem chegar ao fundo, tapa-se com um panno de +linho dobrado, e em cima d'este panno põe-se um bocado de fermento +que tome toda a boca do ourinol, e em cima do formento põe-se outro +panno dobrado, e ata-se muito para que não saia bafo algum, põe-se o +ourinol ao sol em tempo de calor 6 até 8 dias e d'alli se fará uma agua +muito importante para os olhos. Quando essa agua estiver prompta, +deve-se lançar em uma vazilha pequena e se terá ao sol e ao sereno +outros tantos dias, que depois a agua que era branca, torna-se amarella +e grossa, na qual se desfará um pouco de assucar de pedra e d'esta agua +se lançarão nos olhos tres pingas, em cada um uma vez pela manhã, outras +ao meio dia, e outra á noute, e por favor de Deus sararão. + +Mulher que tiver pouco leite, não póde criar os filhos com as folhas e +flores de alecrim, que lhe causará abundancia de leite bom, porque +purifica o sangue. + +O summo do alecrim misturado com assucar e tomado de manhã e ao deitar +da cama faz bem ás afflicções do peito, ajuda a digestão e mitiga o +apetite de comer. + +A flor e as folhas em pós servem para a dôr do baço e do figado +tomando-as em vinho e mel. + +As folhas e flores da mesma herva fervidas em vinho tinto e bebido faz +muito bem á dôr de tripas, tira a cobiça e a dezinteria. + +Tambem servem os mesmos pós bebidos no mesmo vinho para quem padecer +defluxo da ourina, por debilitação ou fraqueza, isto é approvado mas +devem ser cozidas as folhas e flores em vinho do mais velho que fôr +encontrado. + +Para quem não tiver apetite de comer, tome pela manhã duas ou tres +colheres de sopa, de vinho fervido com alecrim, que lhe abrirá a vontade +de comer e lhe fará fortaleza no estomago. + +Alguns auctores são de opinião, que a triaga é o remedio da peçonha; +mas o alecrim cozido lhe faz o mesmo effeito. + +Finalmente o alecrim cozido em agua tem todas estas virtudes que se +seguem tomando bastantes banhos d'essa agua, chama-se o banho da vida, +porque tira a dôr das juntas e de todas as mais partes do corpo, é +remedio para a canceira, para a suffocação do coração, dá alento e vigor +á velhice, conserva a mocidade, fortalece os membros e aviva os sentidos. + +Aqui deixo por isso escripto aos meus leitores, em estas poucas linhas +todas as virtudes d'esta planta chamada alecrim, que tão bom proveito +tenho tirado d'ella e estou por certo que quem d'ella fizer uso como eu +o tirará e se conservará limpo, de tantos achaques que affligem o corpo +humano. + + + + +Segredo 43.º + + +Para a azia + +A azia, além de ser uma molestia pouco impertinente quando ataca a +creatura causa-lhe um pouco de desarranjo na garganta, e é o que basta +para nos incommodar, e como não ha quem goste de incommodos, temos um +segredo pelo qual em um instante fiquemos alliviados da garganta, é +segredo economico, barato, pois se algum de vós tiver azia é só pegar em +uma cebolla: tem poder para a fazer sahir. Se houver quem não goste +d'este objecto dou-lhe tambem por approvado: comerão amendoas +amargosas que tambem ficam livres d'esse mal. + +Assim tenho feito sempre e encontrei bom resultado, por isso d'estes +dois segredos o que primeiro me apparece, é d'esse que eu faço uso. + + + + +Segredo 44.º + + +Para os meninos pequenos se criarem, de modo que sejam mais +encorpados e de mais forças + +Muitos homens ficam pequenos de corpo e de poucas forças, porque as mães +e amas lhes tiram os braços de fóra antes do tempo, e assim como são +tenros, bolindo com os braços se relaxam os membros e assim ficam mais +fracos e debilitados, por isso quem quizer criar a criança, de modo que +fique largo das espaduas e com muita força nos braços não lh'os deve +tirar fóra, quero dizer vestidos, senão de trez mezes por diante, assim +ficarão sendo mais corpolentos e forçosos, porque se vão criando com +todas as forças da sua natureza, cujas forças não lhe abrandam tanto, +como se forem criados como acima disse. + + + + +Segredo 45.º + + +Para conhecermos se qualquer homem nasceu de dia, ou de noute, ou +no crepusculo + +A pessoa que tiver as orelhas despegadas da cabeça pela extremidade de +baixo, fazendo as pontas rombas, despegadas ou levantando os olhos +direitamente, se levantar mais o olho esquerdo que o direito, diremos +que nasceu de dia; se as orelhas pela parte debaixo forem ponteagudas +sempre pegadas no casco da cabeça ou levantando os olhos direitamente, e +se levantar mais o direito que o esquerdo, assim diremos que nasceu de +noite. + +Se um d'estes signaes mostrar que nasceu de dia, outro que nasceu de +noute, o tal diremos que nasceu no crepusculo: chamamos crepusculo de +pela manhã tanto que vem rompendo a alva, e dura até que nasce o sol, o +crepusculo da noite conta-se desde que se põe o sol, até que se cerra a +noute. + + + + +Segredo 46.º + + +Da ethmologia dos dedos das mãos + +O dedo mais curto e grosso da mão chama-se polex, de que se deriva +poder, porque sem elle não se póde apertar cousa alguma na mão, que +firme fique, n'este costumam os mercadores trazerem os anneis, dando +a entender o muito que podem valer com seus reales. + +O dedo logo seguido se chama index, que quer dizer amostrador, porque +nos serve de mostrarmos aquillo que queremos; n'este costumam os medicos +trazer os anneis, dando-nos a entender que elles são index, pelos quaes +nossa saude se governa. + +O terceiro dedo se chama médio, ou maior, pelo ser, médio por estar no +meio de todos, n'estes costumam os soldados trazer os anneis, +significando fortaleza e esforço. + +O quarto dedo se chama annular ou dedo do coração, porque elle vem a ter +uma veia que passa pelo coração. Como o ouro é metal agradavel á vista +de todas as pessoas, em geral é costume pôr os anneis n'este dedo para +evitar a melancholia e outras paixões que acodem ao coração. Muitas +pessoas costumam usar de anneis, mais pela tradição antiga, que pela +razão atraz escripta. Quem trouxer n'este dedo um annel com uma pedra de +Jacintho fina, que a toque na carne, não é tão sómente bom para a +melancholia, pois tambem tem outras propriedades boas. + +O quinto dedo se chama minimo ou auricular: minimo, pelo ser, auricular, +porque com elle costumamos limpar as orelhas. N'este dedo costumam +trazer os anneis as pessoas illustres, dando assim a entender quem são, +e não pela valia do ouro. + + + + +Segredo 47.º + + +Da causa das nossas enfermidades, e com a ajuda de Nosso Senhor as +podemos remediar + +As quatro compleições de que fomos formados comnosco, assim como uma +meza com quatro pés, que sendo todos eguaes e direitos, em plano, está +quieta e segura, porém se algum d'elles se levanta ou quebra e é mais +comprido, isto só é bastante para que os outros tres com a meza venham +ao chão, da mesma maneira a cólera, sangue, fleuma, e melancholia, cujas +quatro compleições de que somos compostos estão eguaes conforme á saude +no corpo, porém tanto, que alguma d'ellas se altera ou sobrepuja ás +outras, causa no corpo a doença conforme sua qualidade. Porque da cólera +se causam tabardilhos, frenesis, febres malignas, e outras enfermidades +semelhantes. + +E do sangue se geram dôres de costas, de cabeça, pontadas e outras +semelhantes da fleuma, dôres de tripas, humidades no estomago, dôres de +madre, colicas, apostemas, e outras semelhantes. E da melancholia se +geram tristezas, humores viscosos, tremulos, gota e outros semelhantes. + +E supposto que segundo nossa santa fé aos sonhos não se póde dar +credito, por não terem razão nem fundamento algum, são sómente +phantasmas que se representam no entendimento, estando uma pessoa dormindo. + +Todavia se alguma das quatro compleições se altera do corpo, causa que +os taes phantasmas tenham alguma correspondencia, a qualidade da dita +compleicão, assim sabendo que seja se póde remediar com defensivos, +que á tal compleição alterada applicam. + +Pelo que se a pessoa sonhar com o fogo ou arma e outras cousas que +incitam a cólera, é signal que a cólera predomina, segundo ella se lhe +póde dar remedio. + +E se o sonho fôr de pescarias ou embarcações, cousas que pertençam á +agua predomina a fleuma. + +E se sonhar com prisões, mortes, ou outras cousas que incitem tristezas, +perdomina melancholia conforme a ella se lhe applicará remedio. + + + + +Segredo 48.º + + +Para o fogo não queimar + +Pegarão em 20 reis de alteia e depois de a fazer em pó a botarão com uma +clara de ovo em uma tigela e com essa mistura untarão as mãos ou outra +qualquer parte que quizerem, que depois d'isto feito não se queimarão. + + + + +Segredo 49.º + + +Do tempo que é salutifero cada um dormir segundo a compleição que +tiver + +Temos a notar que as compleições atraz declaradas tem aquelles +effeitos em quanto distinctas, mas pela mistura d'ellas formam outras +quatro compleições, que são as do temperamento, colerica, sanguinea, +fleumatica, melancholica. Da do temperamento não trataremos, porque não +é possivel havel-a, que onde ha temperamento não ha alteração e não póde +haver doença. Assim tambem se ha de notar, que o dormir é parte mui +essencial para o cosimento do estomago: porém convém a cada um para sua +saude tomar o somno conforme a qualidade da sua compleição. Porque os +puramente colericos pela muita quentura que tem, basta-lhes dormir cinco +a seis horas: os colericos sanguineos basta-lhes cinco e meia a seis e +meia; os puramente sanguineos basta-lhes seis a sete; os fleumaticos +bastam-lhe seis e meia a sete; os puramente fleumaticos, bastam-lhe sete +a oito, os fleumaticos melancholicos bastam-lhe sete e meia a oito e +meia; os puramente melancholicos bastam-lhe oito a nove. + +E tudo o que passa d'esta regra é prejudicial á saude, porque tanto se +perde por carta de menos, porque assim como não dormir inquieta o corpo, +o móe e debilita, assim o dormir muito causa gota e outras enfermidades. +Note-se tambem que os colericos, pela muita quentura que teem, lhes é +prejudicial á saude soffrer fome; mais ou menos, comer é melhor. + + + + +Segredo 50.º + + +Para fazer levantar um ovo ao ar deante de gente + +No mez de maio colherão em uma horta uma ambula de orvalho, guarda-se em +parte onde lhe não dê o sol, e quando quizermos fazer o que acima fica +dito, com um alfinete grosso fura-se um ovo e chupando-o pelo mesmo +buraco, o encherão de orvalho, e taparão o dito buraco com um bocadinho +de cêra branca, collocando-se o dito ovo á vista de todos em parte onde +lhe dê o sol, e assim como o ovo fôr aquecendo se irá levantando e +subindo até desapparecer. Quem quizer que este mesmo ovo lhe sirva para +mais vezes, ate-o a um cordel na ponta de uma lança, e que seja o cordel +tão comprido como ella, ficando a lança no chão. Com uma linha atarão o +ovo no cordel, posto ao pé da banca em parte onde lhe dê o sol, e quando +aquecer subirá pela lança acima e assim estará no ar, até o tirarem, +emquanto estiver quente, porque quando o sol d'aquelle sitio fôr +desapparecendo, o ovo vae arrefecendo, e conforme fôr arrefecendo assim +vae cahindo para o chão; por isso lhe devem acudir a tempo para se não +quebrar. + + + + +Segredo 51.º + + +Para queimar um lenço e ficar são + +Secretamente molharemos um lenço em aguardente de cabeça; trazendo-o +diante dos circumstantes mandaremos vir uma candeia acesa e tomando o +lenço por duas pontas para ficar estendido lhe mandaremos deitar fogo, e +como fôr inflammando andaremos com elle ao redor por espaço de um minuto +á vista dos circumstantes e logo o sacudiremos e apertaremos entre as +mãos para que se apague o lume; tornando-o a estender o mostraremos aos +circumstantes tão são como era antes de se lhe botar fogo. + + + + +Segredo 52.º + + +Para que as mulheres sem postura pareçam melhor e tenham melhor +cara com menos custo + +Entre outras cousas que entre nós ha mal feitas são duas, as quaes nos +dão notavel prejuizo á saude: a primeira é quererem os homens mostrar +que calçam pequeno pé, mandando fazer menor sapato, do que pede o +pé, assim continuando vem a ser gotosos; por conseguinte as mulheres que +usam posturas perdem os dentes, mais depressa se arusgam e outras muitas +desgraças se seguem d'aqui. + + + + +Segredo 53.º + + +Para mostrar aos circumstantes um braço atravessado com uma faca +sem prejuizo algum + +Faz-se uma faca de duas metades ligadas uma á outra com uma mola e será +feita de tempera branda, que se alargue e aparte o que a pessoa quizer; +esta mola mettida pelo braço acima por baixo do casaco ou camisa, +apertada a manga junto á faca, e feito isto secretamente sahir aos +circumstantes, mostrar-lh'a, parecerá o braço estar passado pelo collo +da mão. + +Adverte-se que a feitoria da mola d'esta faca é necessario seja de modo +que se aperte e alargue. + + + + +Segredo 54.º + + +Para fazer tinta de qualquer côr com facilidade, e as letras que +estão em papel quasi safadas se acharem a ponto de se lerem + +Deve haver tinteiro separado para cada tinta, para que uma não corrompa +a outra. + +Para fazer tinta vermelha, pizam-se flores de papoula, espremidas, o +sumo que deitarem, coado, posto um pouco ao sol, para que engrosse e não +corra tanto, se faz tinta vermelha bastantemente. + +Para fazer tinta verde, faz-se a mesma operação com os concelleiros que +nascem pelas paredes, e da mesma maneira ficará tinta verde. + +Para a tinta roxa, do mesmo modo se fará da flor do lyrio. + +Para tinta amarella, egualmente se faz com flôr do pampiro. + +E assim para qualquer outra tinta que quizermos fazer, buscaremos a +herva da côr da tinta que quizermos fazer, e do mesmo modo que fica dito +se fará. + +E para fazer que as letras que estão em papel que mal se enxerguem por +estarem gastas pelo tempo se possam lêr, se molhará um panno de baeta em +ourina fresca, levemente se esfregam as letras com elle, que depois se +poderão lêr. + + + + +Segredo 55.º + + +Para tirar nodoas de azeite e pingos de cêra de toda a qualidade +de pannos + +Para tirar nodoas de azeite amassarão um bocado de barro vermelho, que +não fique muito espesso, e da parte do avêsso que quizerem tirar as +nodoas, cubra-se toda a nodoa com este barro, e da parte direita se +ponha sobre a nodoa uma folha de papel alinhavada, de modo que se chegue +o papel ao panno, e posto a enxugar até o barro estar bem secco, logo se +esfrega, e tirando-se-lhe o papel ficará a nodoa fóra. Este remedio é +bom principalmente para panno de côr; é bom lavar em agua de pescada. + +E tambem para tirar a nodoa do panno se cobrirá a nodoa com sabão e por +cima do sabão botar um pouco de sal, pondo ao sol por espaço de um +quarto de hora e lavando a nodoa, logo se tirará. + +Para tirar pingos de cêra, estando em sêda, tosta-se uma fatia de pão +trigo, e assim quente se põe em cima da cera que a attrahirá a si. + +Se fôr em panno de côr, bota-se um testinho no lume, e estando bem +quente se tira, embrulha-se em um papel, esfrega-se com elle no lugar +onde está a cêra, e assim logo sahirá e o panno ficará limpo. + + + + +Segredo 56.º + + +Do modo mais facil de fazer dôce a agua do mar + +Se quizerem fazer uma canada em pouco tempo, de agua do mar para ficar +dôce, tome-se um pote novo, metta-se-lhe dentro uma pedra que peze +quatro ou cinco arrateis, tapa-se-lhe a bocca com uma rolha de cortiça, +bem justa, atando o pote por um cordel, se botará o dito pote no mar, +mansamente, para que a pedra não quebre, e d'ahi a tres ou quatro horas +o tirarão, tirando a rolha ao pote, acharão dentro d'elle uma canada de +agua dôce como a da fonte; a razão por que a pedra se mette é para que o +pote vá ao fundo do mar, para a agua tomar a virtude que se pretende. + + + + +Segredo 57.º + + +Das regiões do ar e da terra + +Como no segredo adiante havemos de tratar das qualidades da agua dôce, +necessariamente é tratarmos primeiro da terra, por cuja razão se faz +dôce, e do ar a que ella sobe. + +Os mathematicos que tenham observado cometas, os quaes se fazem entre a +região do fogo e do ar, acham ter este corpo aereo, trinta e quatro +leguas, dous terços, estes se repartem em tres regiões; a primeira +que é esta que gozamos temperada por razão dos raios do sol que dão na +terra, reverberando para cima aquentam, temperam até duas leguas e meia +para cima, esta região é mais palpavel, porque n'ella andam as aves, e +n'ella respiram todos os animaes terrestres, racionaes e irracionaes. A +segunda região é summamente fria mais pura que a primeira, em tanto que +as aves subindo a ella não se poderão ter nem respirar no principio +d'esta região, estão em deposito as aguas que chovem, que sobem do mar +vapores da terra, aguas sobem, até ao meio da dita região, congelam-se +em neve, e se mais acima forem, congelam-se em pedra, assim como esta +primeira e segunda região occupam para o alto oito leguas e meia, as +mais que faltam para trinta e quatro leguas, dous terços occupa a +terceira região, a qual pela parte proxima a segunda é fria, e pela +parte de cima por estar á região do fogo é calidosissima; n'esta se +fazem todos os trovões, raios e cometas. Assim tambem a terra se parte +em tres regiões, para que não pareça desordem brotaremos o gosto d'ella, +proval-o-hemos por regras grammaticaes, as quaes são pela circumferencia +ou superficie de um globo, saber-se a grossura d'elle, quero dizer seu +diametro, ou peso diametro de uma cousa, vir em conhecimento da +superficie d'ella guardando a regra seguinte. + +Que sabido o diametro de qualquer circulo, este multiplicando partes, um +setimo; o que tudo sommado terá de circumferencia a superficie, por +conseguinte sabendo a circumferencia, esta, partida por tres um setimo, +o que vier á partição fará o diametro, assim, vinte e dous palmos de +diametro, nos dão sete palmos de circumferencia, pois temos sabido assim +pelas dimensões geometricas, como das experiencias de homens do mar +ter a terra em redondeza, seis mil e trezentas leguas; iremos á regra de +tres, dizendo se vinte e duas leguas de circumferencia nos dão sete de +diametro, seis mil e trezentas de circumferencia da terra quantas nos +darão de diametro, virá a partição de duas mil e quatro leguas e meia, +assim diremos ter a terra de grosso, duas mil quatro leguas e meia que +partidas pelo meio vem duas mil duas leguas e um quarto de legua, tanto +ha da superficie ao centro da terra, que é o meio de toda a grossura. + +Estas mil duas leguas e um quarto se repartem em tres regiões, a +primeira das quaes a da superficie para o centro duas leguas e um +quarto, ou posto que a terra em si seja summamente fria, secca e pesada, +esta primeira região é temperada pela razão que temos dado da impressão +que fazem os raios do sol n'ella, n'esta região se criam as exhalações +que com a força do sol chamadas para cima se acertam de cahir por terra, +pela resistencia que lhe põem ao cair, causa para ella tremer que é +haver em algumas ilhas e outras partes tanta calidade na terra que no +verão com a força do sol abrem grandes concavidades, as quaes vindo o +inverno, pela razão que acima dissemos, se tornam a fechar. + +A segunda região que é de duas leguas e um quarto, seis leguas para +baixo n'esta região, a superficie d'ella é o principio da creação do +ouro e mais metaes mineraes, d'ahi vem botando para cima por veias canos +a modo de arvores, assim a raiz do ouro principia n'elle e na segunda +região. + +A terceira região é de oito leguas e um quarto, que occupam a primeira e +segunda região para baixo até ao centro, esta ultima região, é +summamente pesada, fria e secca; é incapaz de criar cousa alguma, no +intimo interior da qual está o inferno de que Deus nos livre. + + + + +Segredo 58.º + + +De dous medicamentos que se usam entre os rusticos + +Quando alguma pessoa do campo se sente com qualquer mal que seja, cose +um bocado de carqueija e bebem aquella agua, e deitados na cama se +abafam para suar, e com isto lhe faz Deus algumas vezes de lhe abrandar +o mal. + +O segundo é que para maleitas dizem ao enfermo que dê a ourina para +mostrar ao medico, com ella dão uma volta fingindo que vão buscar um +xarope e em lugar d'elle lhe dão a beber a mesma ourina e com este +remedio continuam oito dias, e é com este mesmo remedio que se lhe vão +embora as maleitas. + + + + +Segredo 59.º + + +Para fazer acreditar aos presentes que conhecemos as cartas de +jogar pelo cheiro + +Ha-de vir a terceira pessoa, a quem tenhamos dado conta d'isto, logo +faremos pôr a mesa e diremos que nos tapem os olhos, e nos sentaremos, e +defronte de nós a pessoa em que nos fiamos, e logo pediremos cartas, +perguntando que é o que querem que d'alli se tire, se a primeira de +quatro ou o que quizerem, logo indo tirando carta por carta, e cheirando +cada uma d'ellas pelas costas de modo que o que ha-de avisar veja que +cartas são, assim tirando-as iremos pondo uma por uma na meza em tanto +que nos venha alguma das que nos tem pedido a pessoa a que temos +communicado o segredo, porá o pé sobre o nosso, assim poremos aquella +carta de parte e iremos continuando até tirar todas as pedidas, da mesma +sorte que acima fica dito e quem estiver fazendo este segredo +acautelar-se-ha para os assistentes não darem fé do que se está fazendo +por baixo da meza. + + + + +Segredo 60.º + + +Virtudes do jacintho + +O jacintho é de muitas côres, porém o verde ou roxo mui brilhante é o +melhor, o qual feito em pó e tomado pela bocca, é cordial, e serve +contra as febres malignas: defende a quem o traz dos raios e temporaes. + +Trazendo o jacintho comsigo, que toque ao corpo, conforta o coração, e +aviva o engenho. + +Defende o jacintho, a quem o trouxer comsigo, de venenos e ares corruptos. + +Tem virtude o jacintho de refrear a loucura, e evitar a melancolia; e +não soffre representações de fantasmas, nem visões. + +Meia legua de Toledo junto a um mosteiro de Bernardos, ha uma fonte +pegada á ribeira do rio Tejo que chamam dos jacinthos, porque ali ha +tantos, que sae a agua e corre por cima d'elles. + + + + +Segredo 61.º + + +Virtudes das pedras da andorinha + +Diz o experimentador Alberto, e ainda outros, que na cabeça da andorinha +se acham duas pedrinhas mui pequenas, e que uma é branca, e outra +vermelha, cujas virtudes são as seguintes. + +Dizem que quem trouxer comsigo a pedra branca da andorinha, não será +molestado de sêde, e que se a tiver na bocca, sempre a terá fresca. + +Dizem mais, que se alguem tiver fluxo de sangue e trouxer a mesma +pedrinha branca ao pescoço, logo se lhe estancará o sangue. + +Tambem dizem que tem virtude para ajudar as mulheres no parto, como a +pedra da aguia. + +Dizem mais, que lançada a mesma pedrinha branca em uma vasilha de agua +por espaço de uma noite, e bebida a agua, provoca a cursos, e tira o mal +da gotta, e ainda a febre se a tiver. + +Tambem dizem que quem trouxer comsigo a pedra vermelha da andorinha se +livrará de muitas doenças. + + + + +Segredo 62.º + + +Virtudes da pelle que a cobra costuma despir + +A pelle da cobra queimada, e posta em cima de alguma ferida, a deixa sã; +e se houver bico, ou ferro mettido dentro na carne costuma attrahil-o a +si, até o tirar fóra. + +Notem uma e outra vez, advirtam, que quem trouxer comsigo os pós d'esta +pelle de cobra será preservado de lepra, e de qualquer peçonha. E +saibam, que os ditos pós tem grandes virtudes, e muitas propriedades: +porém, ha de se queimar a dita pelle, estando o sol no signo de Aries, +que é de 12 de março até 26 de abril. + + + + +Segredo 63.º + + +Para tornar doce a agua do mar, que se possa beber + +Diz Aristoteles, que para fazer a agua do mar doce que se possa beber, +façam uma vasilha de cêra bem tapada, e a mettam no mar, que fique +coberta de agua, e toda a que fôr entrando pelos poros da cera perderá o +sal e ficará doce. O mesmo succederá, se metterem no mar uma vasilha +nova de barro com tanto que tenha a bocca bem tapada. + + + + +Segredo 64.º + + +Para conservar a castidade, e reprimir os estimulos da carne + +Escreve Macencio, que o summo da erva chamada sagunta, bebido em jejum +reprime os estimulos da carne, e as suas folhas postas sobre os +genitaes, diz, que tem virtude de applacar os incentivos da luxuria. + +Avicena escreve, que a arruda comida, mitiga os ardores da carne no +homem; e na mulher pelo contrario, porque os aviva com excesso. + +O mestre João diz, que o orjavão tem mui grande virtude, e efficacia +para reprimir a luxuria, porque applicado aos lombos mitiga, e applaca +grandemente os estimulos da carne. Diz mais o mesmo author, que o sumo +do orjavão bebido causa impotencia, a quem o toma, por espaço de sete +dias. Escreve Dioscorides, que a fructa, que produz o cedro, pizada, ou +o sumo de suas folhas posto nos genitaes, desterra a appetencia de actos +venereos. Michael Escoto diz com muito fundamento que todas as cousas +agras, frias e azedas se accomodam bem com a castidade, conservando-a: e +pelo contrario as cousas doces, quentes e odoriferas, a destroem, e +estragam de todo. Porém fallando espiritual e catholicamente, o que mais +conserva, e defende a castidade é o jejum, a disciplina e a oração +frequente e com muita devoção. + + + + +Segredo 65.º + + +Para conservar as camas sem persevejos, os aposentos sem pulgas, +as casas sem moscas, e ainda sem mosquitos nem ratos + +Tomarão cóla feita de retalhos de couro, e desfeita em agua ao fogo, que +fique bem clara e rala, lhe misturem azeite, e assim quente, molharão e +esfregarão as taboas e pés do leito, de sorte que toda a madeira fique +lavada com este cosimento, e resultarão dois effeitos muito bons. O +primeiro será que o leito todo parecerá de nogueira. E o segundo, que +não se crearão n'elle persevejos, como tenho bem experimentado. + + + + +Segredo 66.º + + +Contra pulgas + +Ponham uma panella de agoa ao lume, e lançar-lhe-hão dois vintens de +solimão, e deixando-a ferver bem, borrifarão o aposento depois de bem +varrido, e tenham por certo que morrerão, e se não crearão outras. Mas +isto se ha de fazer duas vezes na semana. + + + + +Segredo 67.º + + +Contra moscas + +Tomem um pouco de mel e farinha, mechida com uma pouca de agoa clara, +lhe lancem arsenico ou rosalgar, e ponham esta mistura em caqueiros, +aonde cheguem as moscas, e vêr-se-ha quantas vão caindo, porque em +provando ficam mortas. O mesmo effeito faz o ouro e pimenta moida, e +desfeito em agoa e posto em algumas vasilhas pela casa; mas vigiem que +não chegue cão ou galinha a provar, porque ficarão mortos. + + + + +Segredo 68.º + + +Contra mosquitos + +Queimarão cominhos rusticos no aposento aonde houver mosquitos, e logo +cairão mortos ou se irão; tambem quem molhar o rosto com agoa, na qual +estivessem cominhos rusticos de infusão, não lhe hão de chegar os +mosquitos ao rosto. Em outro logar se dirão outros segredos mais ácerca +d'isto; mui notaveis e difficultosos de crer, e por tanto cito ali os +auctores que o dizem. + + + + +Segredo 69.º + + +Contra ratos + +Façam por apanhar um rato vivo, já grande ou mediano, e façam uma de +duas cousas. Ou lhe esfolem a cabeça e lhe ponham na abertura da pelle +um pouco de sal moido e deixem-no vivo, que elle com o ardor e raiva +affugentará os outros: ou façam outra cousa, se lhes parecer mais facil, +e é atar ao pescoço do rato um cascavel pequeno, que tenha o tenido mui +vivo, com o que fará fugir os outros; e assim ficarão livres d'estes +inimigos caseiros, poupando gastos e molestias. Outro segredo melhor e +mais facil. Tomarão gesso novo, e passado por peneira o misturarão com +queijo ralado subtilmente, e misturado tudo o ponham em diversas partes +da casa, e será cousa entretida vêr os ratos que comerem da iguaria +andarem inchados por casa, e se tiverem agua que beber, morrerão mais +depressa; porque o gesso tanto que chega á agua ou cousa humida, logo se +torna em massa, e é segredo sem perigo. + + + + +Segredo 70.º + + +Para fazer durar o azeite da candêa + +Tomarão giesta da mais pequena e de folhas mais miudas; (porque ha duas +castas d'ellas) queimal-a-hão, e da cinza farão decoada; e pondo +esta a cozer, se converterá em sal, o qual lançado nas candêas, +conservará e fará durar o azeite mais do terço. A pedra hume de rosa e o +sal commum, que serve para o comer, tem a mesma propriedade, porém não +tanto como o sal da giesta. + + + + +Segredo 71.º + + +Para fazer augmentar o azeite das candêas + +Tomarão uma canada de azeite e pôr-se-ha ao fogo, e logo lançarão quatro +onças de pêz grego e um vintem de pedra hume de rosa; tudo bem moido +primeiro, e mechendo-o muito bem, até que esteja de todo misturado, logo +se poderão servir d'elle nas candêas, poder-se-ha fazer mais ou menos +seguindo a mesma ordem com proporção dos materiaes. + + + + +Segredo 72.º + + +Para fazer vinagre bom e forte multiplicando-o com pouco custo + +No tempo da vindima tomarão um pé de bagaço no patamal do lagar, depois +de espremido e estendido lhe lançarão cem potes de agua e quatro +arrateis de perrexil verde, dois de flor de sabugo verde, e um bom +cantaro de vinagre do melhor e mais forte, e deixal-o estar vinte ou +trinta dias, e no fim se esprema tudo, e recolherão vinagre mui forte e +odorifero; e proporcionando os materiaes, podem fazer mais ou menos. + + + + +Segredo 73.º + + +Para multiplicar a cera + +Tomarão uma arroba de cebo de bode e uma duzia de ovos de adem, só as +gemas, meias cozidas, desfeitas e bem batidas, se lancem no cebo com +outra arroba de cera, e tudo posto ao fogo se mecherá, até que fique +derretido e bem misturado; e ficará tudo convertido em cera mui +amarella, para se fazer d'ella toda a obra que quizerem. + + + + +Segredo 74.º + + +Para saber se o vinho tem agua ou não + +Diz Creponte, que para saber se o vinho tem agua, lhe lançarão umas +talhadas de pera brava aparada, e se nadarem em cima, signal que está o +vinho puro; mas se forem ao fundo, se conhecerá que o vinho está +aguado. Outra advertencia. Tomarão um junco ou uma palha de avêa bem +lisa, e untada com cebo a metterão na vasilha do vinho; e se este tiver +agua, sairão pegadas umas pingas mui subtis de agua. Outra. Encherão de +vinho uma panella nova, e deixando-a estar dois dias, se sumirá toda a +agua, se a tiver. Outra. Tomarão uma pedrinha de cal virgem, e +molhando-a com elle, vinho, se tiver agua logo se desfará a cal; e se +estiver puro, se apertará mais. Outra. Lançarão um pouco de vinho em +azeite que esteja bem quente, e se tiver agua, espirrará e saltará, o +que não hade acontecer se fôr puro. + + + + +Segredo 75.º + + +Para se não embebedar + +Diz Filonio, que para se não embebedar são bons os bofes de ovelhas +assados, e comidos antes de jantar, ou que, antes que bebam vinho, comam +verças com vinagre, e d'este modo lhe não fará mal o vinho, posto que +bebam mais do ordinario. Porém o melhor remedio para se não embebedar é +o que eu uso ha sessenta e tres annos que hoje faço de idade, e nunca +bebi vinho, e acho tanto regalo na agua, que é para mim a melhor iguaria +que vejo na mais explendida meza: e oxalá se praticára isto que digo, +que o vinho se havia de vender na botica e usar por medicina. Se alguem +reconhecer o descredito, que causa o vicio de destemperança no beber, e +quizer livrar-se de se embebedar e aborrecel-o de todo, note o que +escreve Plinio, e é que mettam duas enguias vivas e grossas dentro em um +cantaro de vinho, e que depois de estarem affogadas, dêem este vinho aos +que se costumam embebedar, e virão a aborrecer o vinho de todo; porque +causa um raro tedio e aversão. Para o mesmo serve a bretonica feita em +pó e bebida. + + + + +Segredo 76.º + + +Para tirar a agua do vinho + +Escreve Catão e Plinio, que para tirar a agua do vinho, se fará uma +vasilha de páo de hera, lançando o vinho n'ella, se tiver agua, todo o +vinho se irá coando e ficará só a agua na mesma vasilha: e se não tiver +agua, ficará a vasilha completamente vazia. + + + + +Segredo 77.º + + +Uma redoma que estando cheia de agua, e posta com a bocca +destapada para baixo, se não entorne + +Ponham uma redoma ou garrafa cheia de agua ou vinho dentro em um +cubosinho ou balde de madeira ou de cobre que é melhor, e lançarão sobre +a garrafa ou redoma, e por baixo quantidade de neve bem desfeita, e +por cima da neve se deitarão bastante sal moido e pouco a pouco irão +virando a garrafa, até que de todo esteja a neve desfeita, e escorrerão +a agua da neve e lançar-lhe-hão outra tanta neve desfeita com sal moido; +e assim se deixará estar até que de todo se desfaça, sem mover a +garrafa: e farão o mesmo terceira vez, e tirará a agua congelada ou o +vinho que estiver na garrafa. E isto se póde fazer na força do verão, e +parecerá cousa impossivel, sendo tão facil; e pondo a garrafa com a +bocca destapada para baixo, é certo que se não entornará. Como +experimentou o duque de Gandia, D. Francisco de Borja, que mandou uma +cheia de agua congelada no verão, ao patriarcha D. João de Ribeira, +arcebispo de Valença, o qual em retorno de tão curioso segredo, lhe +mandou outra garrafa cheia de vinho congelado, que foi maior maravilha. + + + + +Segredo 78.º + + +Para tornar uma rosa e um cravo de vermelho em branco + +Defumarão o cravo e a rosa em enxofre, e logo se tornarão brancos de +encarnados; e podem fazer todo o craveiro branco, de vermelho, como eu +fiz a experiencia em uma occasião, tornando brancos mais de vinte cravos +encarnados, com admiração do dono do craveiro, por não saber a causa. + + + + +Segredo 79.º + + +Curioso e de entretenimento + +Recolherão uma pequena porção de azougue em um canudinho de penna e +muito bem tapado, o metterão dentro em um pedaço de pão quente, e +ver-se-ha, tanto que o azougue aquecer, que começará o pão a dar saltos +pela meza. O mesmo verão que fará uma avelã, se a encheram de azougue, e +bem tapada com um torno que atoche bem, lançada em agua quente, porque +tanto que o azougue aquecer, fará saltar a avelã. + + + + +Segredo 80.º + + +Garrafa ou redoma + +Se quizerem fazer subir a agua por uma redoma vasia ou garrafa, +aquentar-se-ha muito bem e por-se-ha com a bocca para baixo na agua, e +verão subir a agua pela redoma acima em quanto esta estiver quente, e +para que o esteja, irão queimando papel sobre o fundo da mesma vasilha, +e não ha de parar até que encha de todo, e é provado. + + + + +Segredo 81.º + + +Do ovo e da sanguexuga + +Se quizeres que um ovo ande pela casa, tomarão um ovo vasio, de sorte +que fique a casca quasi inteira, e pelo buraco por onde o vasarem, lhe +mettam uma sanguexuga viva, e tapar-se-ha o buraco com cera, e tomarão +uma tigella de agua e a irão movendo junto ao ovo, e como a sanguexuga +do instincto natural conhece e sente o rumor da agua, vae seguindo +aquelle rumor, e o ovo rebolando, a quem não sabe o segredo fica +confuso, e é provado, e nota que a sanguexuga ha de ser de paul e de +umas que ha mui negras e grossas. + + + + +Segredo 82.º + + +Raro do ovo e da linha + +Atarão uma linha ao redor de um ovo, e pondo-o a assar no meio do +borralho que esteja bem coberto do lume mais vivo, e ver-se-ha que o ovo +se assa e não se queima a linha nem se quebra, e é provado. + + + + +Segredo 83.º + + +Incrivel para quem o não viu nem provou + +Se quizerem frigir peixe ou ovos em papel em logar de certã, tomem um +pedaço de papel feito a modo de barrete de quatro cantos, e +deitar-lhe-hão azeite, e pondo-o sobre uma vela ou candeia accésa, irá +fervendo o azeite sem que o papel se queime e frigindo o peixe ou ovos, +é provado. + + + + +Segredo 84.º + + +De duas caras pintadas na parede que apaguem e accendam uma vela + +Pintarão na parede duas caras grandes, e no meio das boccas lhe farão +duas covinhas; em uma ponham salitre moido bem enxuto, e na outra +enxofre em pó; e se chegarem o lume da vela á boca ou covinha do +salitre, se ha de apagar, e no mesmo instante chegarão o pavio da vela +que fica fumegando, á outra bocca do enxofre, se accenderá e é provado; +mas hão de tocar o pavio no salitre e no enxofre. + + + + +Segredo 85.º + + +Para que um frangão, estando vivo, pareça morto e assado na meza, +e para o fazer saltar e fugir + +Tomarão sumo de aipo e misturem-no com aguardente refinada, e deitarão +de molho umas migalhas de pão n'esta agua misturada com sumo do aipo, e +darão de comer ao frangão em jejum d'estas migalhas, e d'ali a pouco +cairá o mesmo frangão no chão amortecido, e no mesmo instante tirar-lhe +toda a penna e untal-o com mel branco, misturado com açafrão, de +sorte que fique bem córado, e pondo o frangão em um prato, na meza, +parecerá assado. E quando o quizerem fazer tornar em si e saltar fóra da +meza, molhar-lhe-hão o bico com um pouco de vinagre forte, de sorte que +lhe chegue á garganta, e de repente se levantará e fugirá da meza, e é +provado. + + + + +Segredo 86.º + + +Maravilha rara + +Escrevem S. Basilio e S. Ambrosio, de uma ave que se chama Alcião, da +fórma do maçarico, a qual cria junto ao mar na area e no inverno; a qual +em 14 dias se tira e cria, até poderem voar. E dizem estes Santos +Doutores, que em todos estes 14 dias, que esta ave gasta em criar +seus filhos, nunca o mar se altera, pouco nem muito, antes se conserva +mui sereno e socegado. Esta maravilha e prodigio tem bem observado os +marinheiros, e chamam a estes dias alcionicos; e estão mui certos que em +todos estes 14 dias não ha tormenta no mar. + + + + +Segredo 87.º + + +Do olho do cão + +Baptista Aranda, escreve em um livro de seus conceitos, que quem trouxer +comsigo um olho de cão negro, não lhe ladrarão os outros cães; por que +diz que o dito olho lança de si tão grande fartum e cheiro, que os cães +o sentem logo pelo grande faro que teem; e não só se não atrevem a +ladrar, mas ainda nem a bolir comsigo. + + + + +Segredo 88.º + + +Importante para a memoria + +Se quizerem augmentar a memoria, tomarão a banha do urso e cera branca, +e derreterão a cera com a banha, sendo esta dois tantos de cera; tomarão +a herva que se chama Valeriana, e outra que se chama Eufragia, frescas +ou seccas, e pizadas muito bem, as misturem com a banha e cera +derretida, e tornando ao fogo, deixarão ferver até que fique grosso, +mechendo com um páo, e com este unguento untarão o toutiço e testa, de +quando em quando, e se augmentará notavelmente a memoria, e é provado. + + + + +Segredo 89.º + + +Dos dois casados que não tem filhos + +Para saber, de dois casados que não tem filhos, em qual dos dois está o +defeito natural, tomem a ourina de ambos, marido e mulher, cada uma em +sua vasilha, e em cada qual d'ellas lançarão uns poucos de farellos de +trigo, e n'aquella ourina em que se crearem bichos, está o defeito +natural de não poder procrear ou conceber. + + + + +Segredo 90.º + + +Para ter boa voz e clara + +Tomarão a flor do sabugueiro, e seccando-a ao sol, moida, lançarão os +pós em vinho branco e os tomarão em jejum, e causará boa voz e clara. + +O sumo do aipo e orjavão, bebidos, aclara muito a voz; mas advirtam, +que o sumo do orjavão resfria os genitaes. + + + + +Segredo 91.º + + +Para que se não coza a carne na panella posta ao lume em todo o dia + +Tomem uma pasta de chumbo delgada, e pondo-a no fundo da panella, não se +cozerá a carne por mais fogo que tenha em todo o dia, e é provado. + + + + +Segredo 92.º + + +Provado contra o mal dos queixos + +Tomem duas duzias de folhas de hera, outras tantas de sabugo e outros +tantos grãos de pimenta, e ponham tudo a ferver em vinho bem tinto e +velho com um pouco de sal, e depois de ferver bem, tirado do fogo, +tomarão bochechos de vinho quente, fazendo-se tres ou quatro vezes, se +tirará a dor sem falta. + + + + +Segredo 93.º + + +Para fazer espirrar por baixo e por cima a quantos estiverem em +uma casa + +Tomarão tres ou quatro pimentos ou malaguetas, e as porão em um +brazeiro, cobertas de cinza, de sorte que as brazas não cheguem aos +pimentos, porém que haja muitas brazas em cima e ao redor da cinza, e +tanto que forem aquecendo os pimentos, pouco a pouco sairá um fumo tão +subtil e delgado, que se não sente, até causar o sobredito effeito, com +tanto que a casa esteja bem fechada, e é provado. + + + + +Segredo 94.º + + +Provado para que não nasçam nem cresçam cabellos + +Raparão mui bem com uma navalha os cabellos que quizerem, e untarão +aquelle logar com gomma-arabia, desfeita com o sumo de herva molerinha +ou sangue de morcego, que é melhor, e não lhe crescerão mais. O mesmo +effeito fará o esterco de gato desfeito com vinagre. + + + + +Segredo 95.º + + +Para que a barba e cabellos sempre se conservem negros + +Mandarão fazer um pente de chumbo mui basto, com o qual pentearão a +barba e cabellos a miudo e sempre se conservarão negros. + + + + +Segredo 96.º + + +Para conservar a barba e cabellos loiros + +Tomarão folhas de nogueira e cascas de romã, distillado tudo por +lambique de vidro, e com esta agua lavarão mui bem, por quinze dias, a +barba e cabellos, e conservar-se-hão loiros. + + + + +Segredo 97.º + + +Para que a barba e cabellos de brancos se tornem negros + +Tomem folhas de figueira negra bem seccas, e feitas em pó as misturarão +com azeite de macella gallega, e com isto untarão os cabellos e +barba muitas vezes, e se farão negros. + + + + +Segredo 98.º + + +Para que as unhas e cabellos cresçam pouco + +Cortarão as unhas e cabellos em minguante da lua, com tanto que se ache +a lua no signo de Cancer, Pisces ou Escorpião, e crescerão mui pouco. + + + + +Segredo 99.º + + +Para que as unhas e cabellos cresçam depressa + +Cortarão as unhas e cabello em crescence de lua no signo de Tauro, Virgo +ou Libra, e verão como tornam a crescer depressa. + + + + +Segredo 100.º + + +Aviso importante e proveitoso para os lavradores + +Para que as sementeiras saiam boas, e a colheita melhor, observará o +lavrador, quando semear, que seja em lua nova, e que se ache no Signo de +Tauro, Cancer, Virgo, Libra ou Capricornio, e achará uma grande e rara +differença na seara e na colheita. + + + + +Segredo 101.º + + +Para ferir fogo sem pederneira nem isca + +Tomarão um páo de louro secco, e outro de amoreira, ou de hera, que é +melhor, e roçando rijamente um contra outro, aquecerão tanto que sé +accenderá fogo como polvora, ou mecha. D'este segredo usavam as espias +no campo de Cesar, por não serem sentidas dos inimigos. + + + + +Segredo 102.º + + +Para seccar o leite dos peitos das mulheres + +Notem este segredo: as mulheres para se lhes seccar o leite dos +peitos, por mais cheios e duros que os tenham, tomarão as folhas do +sabugueiro e as ponham estendidas e enxutas sobre os peitos, e logo se +irão abrandando e seccando; e é provado muitas vezes. Outro segredo mui +importante para o mesmo, e é que tomem uma herva que se chama melcoraje, +e pondo-a ao fogo em uma tigella com um pouco de azeite rosado, assim +que estiver quente a ponham aos peitos, cobrindo-os bem com pannos em +cima, e aos tres dias não sentirão leite nem molestia alguma; e tambem é +provado e experimentado muitas vezes. + + + + +Segredo 103.º + + +Para saber antecipadamente se ha de haver abundancia de vinho + +Escreve Missaldo, se a poupa (que é uma ave pintada como um periquito na +cabeça) cantar antes que as vinhas rebentem, é signal mui certo que +haverá abundancia de vinho n'aquelle anno. + + + + +Segredo 104.º + + +Para que os novilhos sigam a um homem + +Diz Aristoteles, livro de _Animalibus_, que se pozerem uns pedacinhos de +cera benta nas pontas do novilho, ha de seguir a quem lh'os pozer. + + + + +Segredo 105.º + + +Para que as bestas tornem para casa de seus donos + +Escreve Santo Alberto Magno, que untem a testa da besta com sumo de +cebolla alvarrã, e não temam que se perca se a não furtarem. + + + + +Segredo 106.º + + +Para fazer que uma besta não possa comer + +Untar-lhe-hão a lingua toda com cebo, e antes se deixará estalar que +comer cousa alguma, se lhe não tirarem o cebo com sal e vinagre, +lavando-lhe muito bem a lingua. + + + + +Segredo 107.º + + +Para não poderem passar por uma rua cavallos nem outro gado + +Escreve Santo Alberto Magno, que façam uma cordinha de tripa de lobo, e +pondo-a atravessada na rua, coberta de arêa ou pó, verão que não passará +por ella cavallo ou gado, ainda que os matem ás pancadas; e dizem que +fez a experiencia S. Thomaz de Aquino, discipulo de Santo Alberto Magno. + + + + +Segredo 108.º + + +Para descanço das bestas que caminham + +Escreve Plinio, que tomem os dentes maiores dos lobos e que os atem ao +pescoço das cavalgaduras, e não se molestarão nem cançarão muito no +caminho. + + +FIM DA TERCEIRA PARTE + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Oraculo do Passado, do presente e do +Futuro (3/7), by Bento Serrano + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30462 *** diff --git a/30462-h/30462-h.htm b/30462-h/30462-h.htm new file mode 100644 index 0000000..4db2276 --- /dev/null +++ b/30462-h/30462-h.htm @@ -0,0 +1,1937 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" + "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>O Oráculo dos Segredos</title> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=UTF-8"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + h1, h2, h3 {margin-top: 3em; margin-bottom: 2em; text-align: center;} + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: #cccccc; + } + .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;padding: 0.5em;} + .capa p{margin: 0;} + #corpo p { text-align: justify; text-indent: 1em;} + </style> +</head> + +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30462 ***</div> + +<div class="capa"> +<p style="font-size: 3em;">O ORACULO</p> + +<p>DO</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">PASSADO, DO PRESENTE E DO FUTURO</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">OU O</p> + +<p>Verdadeiro modo de aprender no passado a prevenir o presente, e a adivinhar +o futuro</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">BENTO SERRANO</p> + +<p> </p> + +<p>ASTROLOGO DA SERRA DA ESTRELLA,</p> + +<p><i>Onde reside ha perto de trinta annos, sendo a sua habitação uma estreita +gruta que lhe serve de gabinete dos seus assiduos estudos astronomicos</i></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div +style="font-size: 0.9em;margin-left:20%; text-align: left; width: 60%; border: solid 2px #000000;padding: 0.5em;"> +<h4>OBRA DIVIDIDA EM SETE PARTES, CONTENDO CADA UMA O SEGUINTE:</h4> + +<p>Parte primeira—O ORACULO DA NOITE<br> +Parte Segunda—O ORACULO DAS SALAS<br> +Parte Terceira—O ORACULO DOS SEGREDOS<br> +Parte Quarta—O ORACULO DAS FLORES<br> +Parte Quinta—O ORACULO DAS SINAS<br> +Parte Sexta—O ORACULO DA MAGICA<br> +Parte Setima—O ORACULO DOS ASTROS</p> +</div> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em;">PORTO<br> +LIVRARIA PORTUGUEZA—EDITORA<br> +55, Largo dos Loyos, 56<br> +1883</p> +</div> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.5em;">PARTE TERCEIRA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 3em;">O ORACULO DOS SEGREDOS</p> + +<p> </p> + +<p>OU</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.5em;">Collecção de muitos segredos uteis a todas as +pessoas, e para a cura radical de muitas molestias conhecidas e +desconhecidas</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em;">PORTO</p> + +<p>LIVRARIA PORTUGUEZA—EDITORA<br> +55, Largo dos Loyos, 56<br> +1883</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p align="center">Porto: 1883—Imprensa Commercial—Lavadouros, +16.</p> +</div> + +<div id="corpo"> +<h1>O ORACULO DOS SEGREDOS</h1> + +<h2>Segredo 1.º</h2> + +<h3>Tirado do livro de S. Cypriano (o feiticeiro) para fazer subir um homem ao +ar e andar nas alturas 30 minutos, sem lhe acontecer mal algum.</h3> + +<p>Deita-se um homem estendido no chão, depois ponham-se dois homens aos pés e +outros dois á cabeceira. Feito isto digam as palavras seguintes, principiando +por um e acabando por outros:</p> + +<p>1.º homem—Aqui cheira a corpo morto.</p> + +<p>2.º—Pezado como um chumbo.</p> + +<p>3.º—Leve como uma penna.</p> + +<p>4.º—Levanta-te na hora de Deus.</p> + +<p>No fim de ditas as palavras acima mencionadas, apontae-lhe com os dedos, que +elle logo sobe ao ar, tal qual como um passaro; no fim de 30 minutos, cáe ao +chão sem lhe acontecer mal algum.</p> + +<p>Este segredo foi descoberto por Lucifer, o principe do Inferno.<span +class="pn">{4}</span></p> + +<h2>Segredo 2.º</h2> + +<h3>Para um homem conhecer se a mulher lhe é infiel ou não</h3> + +<p>A qualquer hora da noute, quando observarem que a mulher está dormindo e +sonhando, põe-se-lhe devagarinho uma mão sobre o coração, que d'essa maneira +conhecem logo se é sonho; se o fôr ella por sua propria bocca vos começará a +descobrir tudo o que fôr de verdade, e o homem vae observando o que ella lhe +diz e vae tirando a mão de pouco a pouco por que esta operação não póde durar +mais que 10 minutos, para não acontecer que a mulher acorde e observe o que se +está fazendo.</p> + +<p>Sendo assim tudo descobrirão, e ella nada fica sabendo do que disse. Depois +de feito isto devem guardar segredo para evitar questões.</p> + +<h2>Segredo 3.º</h2> + +<h3>Effeitos do vinagre e da ourina</h3> + +<p>Logo que uma pessoa dê qualquer cortadella e queira vêr-se sã em 8 horas, +botem-lhe em cima vinagre ou ourina. Este remedio é approvado, assim o tenho +experimentado e sempre com bom resultado.<span class="pn">{5}</span></p> + +<h2>Segredo 4.º</h2> + +<h3>Para tirar as dores de cabeça</h3> + +<p>Se alguns dos meus leitores tiverem dores de cabeça e se em pouco tempo as +quizerem alliviar façam o remedio seguinte: uma cabeça de alhos, tirar as +cascas aos dentes, botal-os em um almofariz e moêl-os bem moÃdos, pegar em um +bocadinho de massa e esfregar a testa e fontes bem esfregadas que, depois, em +pouco tempo passará a dita dôr.</p> + +<p>Se no fim da esfregação o paciente se poder deitar melhor será que depois de +se levantar nada ha de sentir.</p> + +<h2>Segredo 5.º</h2> + +<h3>Para quem quizer beber o vinho simples sem agua</h3> + +<p>Para tirar a agua do vinho, se fará uma vazilha de pau de hera, lançando o +vinho n'ella; se tiver agua, todo o vinho se irá coando, e ficará só a agua na +mesma vazilha; e se não tiver agua ficará a vazilha escorrida de todo o +vinho.<span class="pn">{6}</span></p> + +<h2>Segredo 6.º</h2> + +<h3>Para que uma pessoa indo pela rua em noute escura leve luz adiante de si +que allumie toda a rua sem se conhecer que qualidade de luz é</h3> + +<p>Quebre-se uma noz em duas, de modo que fiquem os miolos inteiros; estes +mettidos sem os quebrar na ponta de uma verga de arame, que tenha uma vara que +seja grossa, pondo o lume no miolo das nozes, tendo a outra ponta de arame na +mão, farão tanto lume como uma tocha, sem se vêr mais que o mesmo lume.</p> + +<h2>Segredo 7.º</h2> + +<h3>Para fazer que a comida pareça estar cheia de bichos</h3> + +<p>Secretamente partiremos duas cordas de viola uma grossa outra delgada em +bocadinhos, se fôr assado sendo gallinha se lhe metterão pela abertura; sendo +outra cousa se lhe dará um golpe em que se lhe mettem; sendo cozido se botarão +na panella ao tirar do lume e assim virão pegados na carne com a quentura que +em si levam, e com a fresquidão do ar que lhes dá se encolherão e estenderão +como bichos, e quem estiver comendo fica enganado.<span class="pn">{7}</span> +</p> + +<h2>Segredo 8.º</h2> + +<h3>Para aquelles que caminham não sentirem a calma, nem o cansaço do +caminho</h3> + +<p>Saindo eu de Alcoy para S. Thiago, á porta de uma aldeia, encontrei tres +peregrinos, com os quaes acompanhei até ao meu destino, e segundo o que n'elles +observei deviam ser virtuosos, e aos mesmos vi que levavam pendurado no cinto, +um pequeno raminho de bella-luz. Perguntei-lhe o que aquillo representava, e +tive de resposta: Pois vós ainda não sabeis o segredo? Tiraram do seio cada um +sua mancheia de artemija, dizendo-me que com aquillo pouco se sentia a calma e +o cansaço do caminho. D'ahi por diante me aproveitei d'isso e achei ser +verdade, o segredo que me ensinaram.</p> + +<h2>Segredo 9.º</h2> + +<h3>Para não criar pulgas e para evitar persevejos</h3> + +<p>Tomem quatro folhas de herva santa, um ramo de arreçã com flor, outro de +herva sedagoza partes iguaes frigam-se em azeite simples, misture-se tres onças +de cêra amarella, untando tres dias successivos não sómente os mata, mas tambem +a pessoa que com isto se untar nunca mais os criará. E para evitar pulgas +bote-se pela casa mentastros e folhas de amieiro, estas hervas tem virtude para +as matar e não criarem<span class="pn">{8}</span> outras. E qualquer d'ellas +fará o mesmo effeito, botando com abundancia pela casa.</p> + +<h2>Segredo 10.º</h2> + +<h3>Para fazer letras nas costas da mão com cinza de papel</h3> + +<p>Se quizerem fazer com que os assistentes, fiquem admirados sem saberem de +que modo veio essa letra, secretamente, com a propria ourina e a ponta de um +pausinho, escrevem as letras que quizerem que appareçam, e depois se deixará +seccar, e se mostra a quem quizer vêr a mão limpa; queimem um papel tendo +escripto as mesmas letras (isto com tinta, preta) que se escreveram na mão, e +com o mesmo papel queimado, se esfregará a parte onde se fizeram as letras com +a ourina, que conforme foram feitas assim saÃrão pintadas de preto, por isso +quem não souber o segredo se admirará.</p> + +<h2>Segredo 11.º</h2> + +<h3>Para crianças que teem lombrigas e tosse</h3> + +<p>Provavel remedio para quem tem crianças com essa doença. Se fôr tosse +lancem-lhe uma esponja ao pescoço, que logo lhes abrandará. E se forem +lombrigas, botem uma pequena mancheia de farinha centeia, em<span +class="pn">{9}</span> uma pouca de agua, que fique tingida como sôro de leite, +assim dada a beber em jejum, todas as manhãs, mata as lombrigas.</p> + +<h2>Segredo 12.º</h2> + +<h3>Segredo para os cabellos nunca cahirem e conservarem-se pretos</h3> + +<p>Tomarão folhas de azinheiro, e cascas de pepino sêccas, depois de misturado +em partes iguaes, bem pizado e espremido, botar-se-ha o sumo em meio quartilho +de agua-ardente camphorada, e bem mechida, se porá ao orvalho da noute, por +espaço de 8 dias. Com esta mistura lavarão a cabeça pelo menos de tres em tres +annos, que o cabello não cahirá.</p> + +<h2>Segredo 13.º</h2> + +<h3>Segredo para quando forem tirar o mel das colmeias não serem mordidos pelas +abelhas</h3> + +<p>Tomem o malvaisco, e untem bem as mãos e rosto com o sumo d'esta planta, +depois untem-se com azeite que tenha servido já nas candeias, com que se +allumiam, que indo bem untado podem fazer o serviço sem receio, que ellas não +farão mal algum. E se por<span class="pn">{10}</span> acaso te picar alguma +vespa, unta bem a parte com azeite liquido, que brevemente está são.</p> + +<h2>Segredo 14.º</h2> + +<h3>Para evitar formigas, mosquitos e persevejos</h3> + +<p>Aquella parte onde quizermos que não entrem n'ella formigas, cercaremos com +um risco de carvão grosso, ou com cinza, ou com salmoura, ou com sal molhado, +que não passarão este limite para dentro. E se pozerem estas cousas todas +misturadas melhor será.</p> + +<p>E para mosquitos não virem de noute á cama dependurarão á cabeceira uns +poucos de pregos, que não chegarão alli. E para persevejos, tome-se uma pouca +de palha estrangeira, cozida n'um tacho, e botem-lhe uma quarta de pedra hume, +e em fervendo tudo depois da agua estar fria lavem a barra da cama; ou a +qualidade que lhe pertença com a dita agua. Na cama, ou casa onde se criarem +persevejos, tomando um pimento em um fogareiro que se queime, posto debaixo da +cama todos os persevejos que houver onde chegar o fumo do brazeiro +morrerão.<span class="pn">{11}</span></p> + +<h2>Segredo 15.º</h2> + +<h3>Para se conhecer a sarna e o meio de a curar</h3> + +<p>Para se conhecer a doença da sarna, basta vêr entre os dedos das mãos umas +bolhinhas, que estão quasi constantemente em comichões; mas com este segredo, +cura-se facilmente, dentro em pouco tempo: basta deitar sobre a parte doente, +umas pingas de oleo de petroleo. Mas não se deve esfregar.</p> + +<p>Deixe-se o oleo na parte durante uma hora. Continua-se no dia seguinte e +mesmo nos outros emquanto não sarar. Este remedio que está ao alcance de todos, +é muito approvado, e seu emprego tem sido adoptado em immensos casos.</p> + +<p>Um outro consiste em lavar com licor concentrado de alcatrão, por que produz +muito bom effeito.</p> + +<h2>Segredo 16.º</h2> + +<h3>Para os que costumam enjoar</h3> + +<p>Um verdadeiro serviço, que com este segredo presto aos viajantes, +principalmente aos embarcadiços. Dou-lhes a saber este segredo que de tanto lhe +póde servir: logo que o mal se começa a sentir, e quando a cabeça anda á roda e +o estomago enfraquecido deve-se tomar 2 até 5 perolas de chloroformio, que +o<span class="pn">{12}</span> mal desapparece logo. E não havendo as ditas +perolas, tomarão perolas de ether, que fazem o mesmo effeito. Tanto umas, como +as outras vendem-se em quasi todas as pharmacias, e o viajante se munirá +d'ellas antes de embarcar, porque o enjôo é um mal que causa sempre bem á +creatura que vae no mar.</p> + +<h2>Segredo 17.º</h2> + +<h3>Para curar os catarrhos que nos costumam apoquentar</h3> + +<p>Tenho observado já muitas vezes que este segredo dá sempre bom resultado, +n'esta doença tão massadora, e custosa de soffrer. Para essa cura tomem: +essencia de therebentina, que dá bom resultado; com um gosto detestavel é +impossivel o poder tomal-a pura, ou em mistura. Mas tomae em fórma de perolas. +As perolas de therebentina tomam-se de 6 até 12 na occasião das comidas. Dentro +em pouco tempo, os catarrhos, mesmo os antigos, melhoram-se e curam-se. Por +muito que explique, nunca são muitas as explicações, dignas do elogio d'este +segredo.</p> + +<h2>Segredo 18.º</h2> + +<h3>Para os enganos que ha em pezos e medidas</h3> + +<p>Antes de outra cousa se note, que o gado vaccum quanto mais está depois de +morto mais peza, pelo<span class="pn">{13}</span> contrario o gado miudo, assim +tambem para dar o seu a seu dono assim no pezo da carne, como de outro qualquer +hade-se pôr primeiro o pezo, depois a carne, ou o que fôr, por que se a carne +se põe em a mesma parte, requer muita força de pezo para outra parte para se +endireitar.</p> + +<p>E assim tambem nas medidas de vara, ou covado para se medir seda, ou linho, +ou panno de côr, se ha de medir sobre a meza, ou caixa, não nas mãos, porque +estira, e se faz mais copia de varas, ou covados, do que são.</p> + +<p>Quanto á medida do vinho, ou azeite que se mede em armazens e lojas baixas +leva mais que nas altas, a razão é por que toda a cousa se pretende igualar, +com o globo da terra, assim nas partes baixas faz o azeite, ou vinho, cobril-o +para cima, nas altas não; tanto é assim, que para prova d'isto ponham um vaso +que leve meia canada, ou mais sobre uma meza, este cheio de vinho ou agua, ou +azeite, da meza posto no chão, lhe podem botar um vintém em moedas, moeda +mansamente, todas levará sem derramar gotta pelo motivo que temos dito.</p> + +<h2>Segredo 19.º</h2> + +<h3>Remedio para persevejos, piolhos e pulgas</h3> + +<p>Para persevejos, tomem-se umas poucas de brazas em um têsto, bota-se-lhe +dois ou trez pimentos vermelhos;<span class="pn">{14}</span> posto o têsto no +meio da casa onde os houver, ou morrerão ou se ausentarão.</p> + +<p>Para piolhos, basta o summo da erva santa, untar com ellas trez noutes a +parte onde se elles criarem, que desapparecerão.</p> + +<p>E para pulgas, na casa onde andarem se botará uma pouca de hortelã pela +casa, logo morrerão ou se ausentarão.</p> + +<h2>Segredo 20.º</h2> + +<h3>Como se devem curtir as azeitonas de conserva para durarem</h3> + +<p>Devem ser as azeitonas mais sobre o verde, que sobre o maduro, é preciso +serem colhidas á mão da oliveira, nem varejadas, nem encorrilhadas, deitadas na +vasilha, se lhe botará agua simples, de modo que fiquem todas cobertas; aos +tres dias tira-se-lhe essa agua e deita-se-lhe outra; assim continuando todos +os tres dias na outra agua, se lhe botará pouco sal, ouregãos, cascas de limão +sem amargo algum, porque o amargo corrompe; ao tirar d'ellas será com colher, +não com a mão, e assim se sustentarão por largo tempo.<span +class="pn">{15}</span></p> + +<h2>Segredo 21.º</h2> + +<h3>De varias qualidades que ha no ovo</h3> + +<p>A primeira propriedade que tem, é ser a gema fresca e substancial, a clara +cálida, e reimosa; cura humores viscosos.</p> + +<p>O ovo é neutral, porque se o comer uma pessoa estando colerica e agastada +converte-se-lhe em outra tanta cólera; se a pessoa está alegre, converte-se em +outra tanta alegria; e tanto é assim, que escreve um auctor grave, que se um +furioso continuar dois mezes pela manhã, e á noite, comendo duas gemas de ovos +crus, tornará ao seu juizo; a razão é porque o furioso é tão contente de si que +imagina que tudo é seu.</p> + +<p>Para mais, o ovo que é cozido, de modo que fique duro ou forte, é cálido; em +cru é frio, tão frio, que bebendo-o pela manhã, no verão, vai contra a calma, e +contra a enfermidade do figado.</p> + +<h2>Segredo 22.º</h2> + +<h3>Para fazer com que a agua do mar não seja salgada e poder beber-se</h3> + +<p>Tenho observado que para fazer a agua do mar dôce, a pontos de se poder +beber, farão uma vasilha de cêra branca bem tapada, e a metterão no mar, +que<span class="pn">{16}</span> fique toda coberta, e a que fôr entrando para +dentro da vasilha, perde o sal e fica dôce, e o mesmo acontece se metterem uma +vasilha nova de barro, mas que tenha a boca bem tapada; com a mesma será, +porque a agua tanto dá que de pouco em pouco, lá vae entrando para a vasilha +até estar cheia.</p> + +<h2>Segredo 23.º</h2> + +<h3>Para em pouco tempo se curar a diarrhea e dysentheria</h3> + +<p>Contra esta terrivel doença, tenho um segredo que vou dizer aos meus +leitores: ás pessoas que depois de serem apoquentadas por este mal, fazem +remedios que de nada valem, por isso, se quizerem vêr esse mal fóra do corpo, +existe um meio de o fazer que é approvado: é o carvão do doutor Belloc; tomar +cada dia de tres a seis colheres de sôpa d'este carvão, que em pouco tempo +estarão livres do mal que os apoquentava.</p> + +<p>Ao principio, parece impossivel que o carvão possa curar a diarrhea, mas por +muitos está experimentado, e sempre com bom effeito, por isso vos recommendo +este segredo.<span class="pn">{17}</span></p> + +<h2>Segredo 24.º</h2> + +<h3>De nossos concebimentos, da causa e porque os nascidos do oitavo mez não +vivem</h3> + +<p>O primeiro planeta chamado Saturno, é de sua natureza frio, secco, +melancolico, terreno; por isso os Astronomos o chamam <em>infortuna maior</em>, +porque a qualidade frio, e sêcco, é contraria á criação de todas as cousas, +supposto que seja por esta razão inimigo da natureza humana emquanto terreno; +acharam os philosophos o primeiro mez de nossos concebimentos ser do dominio de +Saturno, o qual não prejudica o geral, porque ainda a materia não tem vida a +qual, nos possa empecer.</p> + +<p>O segundo mez é dedicado a Jupiter, o qual por ser de compleição sanguinea e +cria quente e humido, o qual sendo bom, e que convém á creacão das cousas, +chamaram-lhe os Astronomos <em>fortuna maior</em>; assim em seu mez a materia +se une, incorpora, e orna de espiritos vitaes.</p> + +<p>O terceiro mez é dedicado a Marte, que é de compleição colerica, quente, e +sêcco; porque como a quentura é conveniente á creação das cousas, e por outra +parte a seccura a impedia, chamaram-lhe os Astronomos <em>infortuna</em>; assim +no terceiro mez a mãe sempre padece achaques porque a creatura os padece.</p> + +<p>O quarto mez é dedicado ao Sol, que supposto que seja cálido, e sêcco, +comtudo é <em>luminaria maior</em>; emquanto luminaria, cria, augmenta e +corrobora.</p> + +<p>O quinto mez é dedicado a Venus, que supposto<span class="pn">{18}</span> +seja de per si humida, fleumatica, e fria, tem de certa participação de +quentura, com a qual favorece a humidade; por isso os Astronomos a chamaram +<em>fortuna menor</em>; porque ainda que não seja tão favoravel como Jupiter, é +comtudo ajudadoura da creação de todas as cousas, por isso em seu mez, a mãe e +a creança estão livres de achaques.</p> + +<p>O sexto mez é dedicado a Mercurio, que é planeta natural, participante de +todas as compleições, pelo qual em seu mez supposto que a creatura está +perfeita, capaz de vida, comtudo se n'este mez nascer, morrerá logo, porque +como Mercurio seja neutral acommoda-se ao primeiro principio que é Saturno +assim—<em>mata</em>.</p> + +<p>O septimo mez é dedicado á Lua, que supposto que seja planeta frio, humido, +fleumatico, e aquatico, comtudo emquanto <em>luminaria</em> é conveniente á +creação de todas as cousas, assim vemos que os nascidos de sete mezes vivem. +</p> + +<p>O oitavo mez torna a dominar Saturno o qual como temos dito é contrario á +natureza humana; assim não temos visto até hoje que o nascido, até ao oitavo +mez resista.</p> + +<p>Ao nono mez torna a entrar Jupiter, o qual como temos dito é bom planeta, em +geral todos os que nascem n'este mez vivem.<span class="pn">{19}</span></p> + +<h2>Segredo 25.º</h2> + +<h3>Para sabermos dos meninos pequenos, a estatura que virão a ter depois de +grandes</h3> + +<p>O Sol divide os outros seis planetas em duas partes: tres acima, tres +abaixo; os tres de cima chamam-se <em>tardos</em>, por serem mais vagarosos em +seu movimento, assim tambem são chamados <em>masculinos</em>. Os tres de baixo +são chamados <em>femeninos velozes</em>, porque em seu movimento são mais +ligeiros, supposto que Mercurio, que está abaixo por ser masculino, planeta +natural e applicar-se com quem se acha, por ficar entre a Lua, e Venus que são +planetas femeninos, se conte tambem femenino como elles; assim pois a Lua, +Mercurio, Venus, que estão abaixo do Sol, por serem <em>velozes</em>, +representam os tres annos primeiros de nossa vida, tambem Marte, Jupiter e +Saturno, por serem <em>masculinos-tardos</em>, e estarem acima do Sol, +representam o resto da nossa vida, pelo que quem quizer saber a estatura, que +qualquer creança virá a ter depois de grande, na edade de tres annos perfeitos, +tomem-lhe a medida com uma fita estando a creança com o corpo direito, o +comprimento da fita que tiver da ponta da cabeça, até aos pés dobra-se, o que +se achar, que faz a dita fita dobrada, será a estatura que a tal creança virá a +ter depois de grande.<span class="pn">{20}</span></p> + +<h2>Segredo 26.º</h2> + +<h3>Para deitar fogo a uma pouca de estopa e não se queimar</h3> + +<p>Peguem na estopa, deitem-lhe um pouco de espirito de vinho, e ao mesmo tempo +deitem-lhe o fogo, que começa a arder e acabando-se o espirito se apagará, e a +estopa ficará sem se queimar. Mas devem ter cautella antes do espirito arder +todo, por causa de se não inflammar á estopa, que é mais verdadeiro.</p> + +<h2>Segredo 27.º</h2> + +<h3>Para fazer estalar por baixo—divertimento de travessos</h3> + +<p>Tomarão folhas de espirradeira, cascas de castanhas, tudo muito queimado e +desfeito em pó lhe juntarão pimentos que estivessem de calda de vinagre, isto +tudo em vinho branco: quem o beber não poderá estar calado.<span +class="pn">{21}</span></p> + +<h2>Segredo 28.º</h2> + +<h3>Tambem de entertenimento e travessura</h3> + +<p>Se os leitores se quizerem rir e entreter, os que estiverem presentes farão +o segredo seguinte: Agarrarão um rato vivo, e secretamente (para ninguem lhes +vêr) deitarão agua-raz sobre o lombo e por todo esse bixo menos nas pernas e +cabeça; depois apparecerão diante de quem quizerem e pondo o rato no chão +agarrado pelo rabo, se lhe lançará o fogo com um lume e o deixarão que começará +a correr todo cheio de lume, e quem não souber este segredo se admirará por vêr +uma pouca de lavareda a fugir de umas partes para outras.</p> + +<p>Depois de a agua-raz se gastar, acabará tambem a vida do rato.</p> + +<h2>Segredo 29.º</h2> + +<h3>Como se póde conhecer as enfermidades pelas ourinas</h3> + +<p>Todos os que na medicina tem escripto, fazem mais duvida em saber conhecer +doenças, do que em applicar os remedios, e a razão é que mal se póde applicar +medicamento salutiphero á doença que não é conhecida. É porque nem todos os +medicos, sabem este grande fundamento. Dos mesmos authores de Villa-Nova<span +class="pn">{22}</span> tiramos a receita seguinte, que é tão boa como n'ella se +verá, a qual é a seguinte:</p> + +<p>A ourina de côr rosada demonstra saude, estado do corpo são, e boa digestão. +</p> + +<p>Se a ourina fôr menos rosada, supposto que demonstre saude, com tudo isto +não é tão perfeito como se propriamente fôra rosada.</p> + +<p>A ourina de côr de cidra, quando o circulo d'ella é da mesma côr, é boa. +Tambem o é, ainda que não seja de todo côr de cidra.</p> + +<p>A ourina de côr vermelha significa febre simples que dura 24 horas; salvo se +o doente cuja tal ourina fôr ourinar a miudo que é signal de febre continuada. +</p> + +<p>A ourina acêsa de côr de sangue demonstra sangue sobejo; logo é bom +sangrar-se, salvo se estiver a lua em signo <em>Feminis</em>, que domina nos +braços, pois será prejudicial a sangria.</p> + +<p>A ourina de côr verde quando sahe depois de vermelha, demonstra inflammação; +é perigosa e quasi mortal.</p> + +<p>A ourina de côr vermelha escura demonstra declinação na doença.</p> + +<p>A ourina vermelha misturada com algum pouco de negro, demonstra esfalfamento +e outros vicios do figado.</p> + +<p>A ourina de côr amarella, demonstra fraqueza do estomago, impedimento de +segunda indigestão.</p> + +<p>A ourina branca de côr da agua da fonte, demonstra aos sãos, ter humores +crus; nas febres agudas é signal de morte.</p> + +<p>A ourina côr de leite com a substancia espessa, se fôr de mulher não é tão +perigosa como a do homem pela indisposição da madre. E se acontecer em febres +agudas é signal de morte.<span class="pn">{23}</span></p> + +<p>A ourina de côr de leite, escura em cima e clara debaixo da região do meio, +demonstra hydropesia.</p> + +<p>A ourina no hydropico, rosada, ou meio rosada, é signal de morte.</p> + +<p>A ourina de côr azulada demonstra multidão de humores corruptos no +fleugmatico e hydropico.</p> + +<p>A ourina negra póde acontecer algumas vezes que a natureza é gastada ao +doente, o calor natural n'este caso é mortal, em outra maneira póde acontecer +expulsão de materia venenosa que sahe pelas veias ourinaes.</p> + +<p>A ourina que traz luz como lanterna, denota indisposição no baço, boa +disposição no que tiver quartans.</p> + +<p>A ourina côr de açafrão, quando está espessa, meia negra, que tem mau cheiro +e alguma espuma, demonstra etericia.</p> + +<p>A ourina rosada, ou meio rosada, que na região inferior traz umas resoluções +redondas, brancas em cima, e um tanto grossas, é signal de febre hectica.</p> + +<p>A ourina clara no fundo do ourinol até ao meio d'ella, e a de cima mais +espessa, demonstra dôr e inchação nos peitos.</p> + +<p>A ourina escumosa clara, quasi meio vermelha, demonstra maior dôr da parte +direita, do que da esquerda. Porém se a ourina fôr escumosa branca, demonstra +maior dôr na parte esquerda que na direita.</p> + +<p>Se o circulo da ourina não bolindo com ella, parecer que bole de si mesmo, +demonstra decurso de fleugma, n'outros humores da cabeça pelo pescoço, n'outros +nos membros.</p> + +<p>A ourina delgada, amarella-clara, demonstra humor fleugmatico e grosso.</p> + +<p>A ourina espessa de côr de chumbo, negra da região do meio, demonstra +paralysia.<span class="pn">{24}</span></p> + +<p>A ourina espessa de côr de leite, pouca em quantidade, grossas com algumas +espumas na parte inferior do ourinol demonstra dôr de pedra, se fôr sem espumas +espessas de côr de leite podre demonstra ventosidade.</p> + +<p>A ourina espessa de côr de leite, em muita quantidade, demonstra gota nas +partes inferiores.</p> + +<p>A ourina amarella na parte inferior, demonstra nos homens dôr de rins, e nas +mulheres dôr de madre.</p> + +<p>Na ourina em que apparecerem alguns pedaços de leite, se fôr pouco turbada, +demonstra rotura de veia junto aos rins da bexiga.</p> + +<p>A ourina que no fundo do ourinol mostra sangue podre, demonstra podridão dos +rins e bexiga; se juntamente toda a ourina estiver tal, demonstra podridão de +todo o corpo.</p> + +<p>A ourina onde se veem pedaços estreitos-compridos, demonstra desolamento de +bexiga.</p> + +<p>A ourina que sae de vagar, cheia de argueiros como faz o sol, demonstra +pedra nos rins.</p> + +<p>A ourina branca sem febre, demonstra nos homens dôr de rins, nas mulheres +estarem prenhas.</p> + +<p>A ourina de mulher prenha de um mez até trez deve ser mui clara, branca; se +fôr de quatro mezes ha de ser parda, branca e grossa no fundo.</p> + +<p>A ourina espumosa nas mulheres demonstra ventosidade no estomago, ardor no +ventre até á garganta.</p> + +<p>E devem entender que as significações das aguas, são mais válidas tomadas, +vistas logo, do que depois que arrefecem, porque mudam a substancia, mórmente +no tempo do inverno, que com o frio se colham.<span class="pn">{25}</span></p> + +<h2>Segredo 30.º</h2> + +<h3>Das virtudes e effeitos da genebra</h3> + +<p>A genebra tem muitas virtudes, mas especialmente para quem se costuma a +agoniar do estomago, e nas indigestões. Logo que qualquer pessoa se ache +incommodada com qualquer d'estas doenças, tomem meio quarteirão de genebra, mas +para melhor effeito será da hollandeza, porque é mais approvada, e com isso +logo ficarão livres d'essa afflicção, porque além de vos parecer que não tiram +resultado, vos affianço que é engano; porque eu que vos descubro este segredo, +em diversas occasiões tenho feito uso d'essa bebida e sempre com bom resultado, +segredo este que nunca me esquecerá porque me tem valido á minha vida, e as +suas virtudes, para todos são proveitosas, por isso todos os elogios são poucos +para remedio tão efficaz.</p> + +<h2>Segredo 31.º</h2> + +<h3>Os effeitos do alecrim da India</h3> + +<p>Estou informado de um segredo muito prestavel, para quem padece dôres de +cabeça que é remedio que dou por approvado e muito economico.</p> + +<p>Em um testo botarão umas poucas de brasas acezas, e depois pegarão em umas +poucas de folhas de<span class="pn">{26}</span> alecrim da India, e botarão as +folhas em cima das brasas; depois de ellas botarem bastante fumo lhes deitarão +uma onça de assucar; põe-se a cabeça do paciente a tomar aquelle fumo, isto é +dous palmos acima das brasas para evitar da muita quentura, que fazendo isto +oito noutes ao deitar da cama, se acharão melhor, porque assim como eu fiz e +achei bom resultado, tambem me parece que o meu semelhante que padecer da mesma +doença tambem o achará se isto fizer como explico.</p> + +<h2>Segredo 32.º</h2> + +<h3>Para que o vinho estragado torne ao seu ser</h3> + +<p>Pegarão em uma duzia de laranjas maduras, darão em cada uma tres ou quatro +golpes como quem retalha azeitonas, assim as botarão pelo batoque da pipa, +botal-as-hão em pedaços, e d'ahi por oito dias botarão uma canada +d'agua-ardente fina, e depois d'isto feito em passando 15 dias vão proval-o que +estará bom vinho; mas advirto que a pipa deverá estar em sitio fresco, porque +os vinhos para se conservarem não querem lugares abafados.<span +class="pn">{27}</span></p> + +<h2>Segredo 33.º</h2> + +<h3>Para tirar o mau cheiro ás vasilhas de madeira e dar cheiro ao vinho que +n'ellas botarem</h3> + +<p>Tira-se um tampo á vasilha e mette-se dentro um testo cheio de brasas e +depois bota-se-lhe nas brasas um vintem de cravo da India, dez reis de canella +e um bocado de pês, abafa-se a vasilha com o tampo para que este fumo se +entranhe na madeira, e sair-lhe-ha o mau cheiro, e a vasilha ficará cheirando +sempre bem.</p> + +<p>E para que o vinho que se recolher n'estas vasilhas seja bom de cheiro, ao +tempo que quizerem recolher o vinho coserão uma pouca de palha de cevada em uma +caldeira de agoa, e assim fervendo se bota sómente a agoa na vasilha, +enxuga-se-lhe, tapa-se com o batoque para que tome esse soadouro, que depois o +vinho que n'essa vasilha se recolher terá bom cheiro.</p> + +<h2>Segredo 34.º</h2> + +<h3>Para fazer o vinagre forte</h3> + +<p>Faz-se um molhinho de ortelã, que peze uma quarta, atado com um cordel +mette-se pela boca da pipa que tiver o vinagre de modo que a ortelã fique +mettida dentro no vinagre ficando o cordel de fóra, e<span +class="pn">{28}</span> d'ahi a sete ou oito dias tirem-lhe a ortelã e ficará o +vinagre fortissimo.</p> + +<p>Se ainda não tiver a fortaleza que queriam, tornarão a fazer igual operação, +que ao fim dos segundos oito dias estará mais forte.</p> + +<h2>Segredo 35.º</h2> + +<h3>Para fazer vellas de sebo que não cheirem a elle</h3> + +<p>Para as vellas de sebo não cheirarem a elle e parecerem de cêra e que durem +mais, ao fazel-as se terá uma pouca de cal virgem bem peneirada, cada camada de +sebo que se botar na fôrma se lhe botará duas mãos ou um punhado de cal accesa +por toda a forma; as vellas que assim se fizerem parecerão de cêra, sem terem +cheiro de sebo, e durarão muito mais porque a cal tem a virtude de lhe dar a +côr como a de cêra, e conservar o sebo a arder sem se desfazer tão facilmente. +</p> + +<h2>Segredo 36.º</h2> + +<h3>Para o vinho não fazer mal ao homem</h3> + +<p>Este segredo vos vou descobrir, mas será bom que vos não seja preciso, +porque o entendimento da creatura<span class="pn">{29}</span> bastará para o +evitar. Porém se acontecer essa bebida a fazer-vos mal á cabeça será bom comer +os boxes assados de uma ovelha, antes de comerem mais cousa alguma. Se quizerem +antes de beber o vinho que elle lhe não faça mal comerão berças com vinagre, +que assim não lhe fará mal, mas eu entendo que será bom não seja preciso estas +cousas; e quando se beber o vinho não se bebe demasiado, para não arruinar a +saude, um dos bens que o vivente tem n'esta vida. Se ha quem diga que bebem +vinho porque não podem deixar de o fazer, porque é um vicio, ahi vae um segredo +tambem para perder esse vicio: Metam duas enguias vivas dentro de uma canada de +vinho, e tapem a vasilha e quando estiverem mortas tirem-as, e os que costumam +tomar-se da pinga bebam d'este vinho que depois o aborrecerão completamente. +Tambem serve para este effeito a bretonica feita em pó e bebida em vinho.</p> + +<h2>Segredo 37.º</h2> + +<h3>Para que um cavallo pareça manco sendo são</h3> + +<p>Secretamente arrancar-lhe-hão uma seda do rabo dobrada atal-a-hão entre o +casco e os cabellos aonde chamam os machinhos, ficando mettida entre a seda e +os machinhos um grão ou dous de cevada estando bem apertada, farão andar o +cavallo que elle irá a mancar de um pé ou de uma mão, porque o grão de cevada +causa-lhe incommodo nas juntas das pernas e o animal mancará porque o não póde +deixar de fazer.<span class="pn">{30}</span> Depois d'este segredo assim feito, +tirarão o grão da cevada que o cavallo tem, que ficará andando direito e +causará admiração a quem o viu manco e em pouco tempo andar são.</p> + +<h2>Segredo 38.º</h2> + +<h3>Para refinar a polvora</h3> + +<p>Muitos costumam refinar a polvora com limão e outras cousas, mas em vez de a +refinar quasi que a estragam; porque a prova d'isto, tenho visto fazer uso de +polvora ordinaria; o melhor segredo para a refinar é, tanto de verão como de +inverno, borrifal-a com agua-ardente muito fina, secando-a depois, que este +espirito dá-lhe toda a força precisa para que ella produza bom effeito. Sei +isto por a experimentar e tirar bom resultado.</p> + +<h2>Segredo 39.º</h2> + +<h3>Para quando uma mulher parir se conhecer se o parto seguinte, se o houver, +é macho ou femea</h3> + +<p>Quando uma mulher parir, se quizerem saber o que a mesma mulher parirá no +parto seguinte, pela criança que teve o podem conhecer; nada mais é +preciso<span class="pn">{31}</span> do que vêr a corôa do nascido; se o +redemoinho que trazemos de cabellos estiver bem no meio da cabeça, sendo um só +redemoinho o parto que se seguir será macho, e sendo dous os redemoinhos, ou +sendo um só e declinar para qualquer dos lados, o parto que se seguir será +femea.</p> + +<h2>Segredo 40.º</h2> + +<h3>Para se saber das virtudes da ortemija</h3> + +<p>A ortemija é uma herva, que quem fizer um molhinho d'ella e a trouxer ao +pescoço, junto ao coração, terá mais animo e maiores forças. E esta herva, +moÃda e bem desfeita, deitada em um pouco de vinho e bebida, para a pessoa que +estiver cançada dá-lhe logo muito mais forças por ser uma bebida muito mais +substancial; qualquer caminhante que fizer uma jornada a levará tambem comsigo +porque tem a virtude de se não cançar tanto e andar mais caminho, que essa +virtude é um dos astros que a concede a esta herva, assim como tambem serve +para espantar as moscas de qualquer casa, se a cozerem com leite de cabras, e +depois de bem cozida untarão as paredes com esse leite, que ellas por causa do +cheiro fugirão.<span class="pn">{32}</span></p> + +<h2>Segredo 41.º</h2> + +<h3>Da monstruosidade da natureza</h3> + +<p>A monstruosidade da natureza é de duas maneiras: uma d'ellas é aquella que +se deixa logo vêr em nascendo a creatura, e a outra a que se descobre por +tempo. A que se deixa logo vêr, é quando a creatura vem com mais ou menos +abundancia de membros dos ordinarios, ou trazendo dos ordinarios, é algum +d'elles semelhante ao de algum animal irracional; aquelles que trazem mais ou +menos membros, de ordinario póde acontecer pela geração ser feita no +bicorporeo, como são Geminis, Virgo, Sagitario, Piscis, assim tambem aos faltos +de membros póde acontecer, por falta de materia, ou pelos signos moveis estarem +infortunados, os quaes são: Aries, Cancer, Libra, Capricornio; os que trazem de +algum animal tambem póde ser de duas maneiras ou de ajuntamento com o mesmo, ou +no tempo do concebimento concorrer a mãe com o pensamento em algum animal.</p> + +<p>Da monstruosidade que a natureza descobre com o tempo, se ha-de entender +d'aquelles que são demasiadamente grandes do corpo, ou demasiadamente pequenos, +fóra da proporção que adiante se dirá, ou tendo grande corpo tem disforme a +cabeça de pequena, ou sendo pequeno tem a cabeça demasiadamente grande, ou +sendo demasiadamente grande do corpo, demasiadamente pequeno com demasiada +grossura, porque d'estas montruosidades se póde conhecer a differença que ha +dos compostos em proporção perfeita; da natureza temos a seguinte:<span +class="pn">{33}</span></p> + +<p>Tres cousas ha por onde isto se conhece; a primeira é, que a verdadeira +proporção do homem tem na estatura sete palmos e meio de vicio da natureza, o +mais que se dá são sete palmos a maior, o menor seis palmos, que a estatura do +maior de nove palmos, e o menor de seis se tem por monstruosidade.</p> + +<p>A segunda cousa por onde se conhece a verdadeira proporção é, que posto um +compasso com uma ponta entre as sobrancelhas e outra na ponta do nariz tornando +o compasso para baixo chegará á superficie da testa na raiz do cabello, com o +mesmo compasso sem mais fechar nem abrir, posta uma ponta no nariz por baixo +das sobrancelhas tornando-o a uma e outra parte chegará aos lagrimaes dos olhos +de cada um d'elles, dando volta chegará a orelha, advertindo que os dous +compassos dos lagrimaes ás orelhas, da ponta do nariz á ponta da barba, estes +tres são eguaes, mas são maiores do que os outros de que temos tratado, que é +de entre as sobrancelhas á raiz do cabello, á ponta do nariz d'estes ha-de +haver em todo o corpo desde a raiz do cabello até aos pés vinte e sete +compassos dando ao rosto tres, e ao demais corpo vinte e quatro; esta é a regra +que guardam os imaginarios que é dar a um corpo quantidade de nove rostos, +contando inclusivè o mesmo.</p> + +<p>A terceira é: que em ausencia da mesma pessoa se lhe possa fazer todo o +genero de vestidos, calçado, tão justo como se estivesse presente, o qual se +fará d'esta maneira: vêr-se-ha uma luva, que a pessoa calce justa com uma fita +se tomará a grossura do dedo polegar pela raiz do dito dedo, a qual medida +dobrada fará o bocal da manga do casaco ou roupa, a medida do bocal da manga +será dobrada, a medida do cabeção dobrado, faz a medida da cintura; a da +cintura<span class="pn">{34}</span> dobrada em tres terços, um terço até ao +comprimento de um quarto do casaco, o outro terço com uma mão atravessada da +mesma luva, faz o comprimento da manga; o mesmo terço com a mesma mão atravez, +faz o comprimento da calça, o ultimo terço faz todo o comprimento da bota, cujo +pé será de um palmo da mesma luva, juntando-lhe mais o que houver do dito dedo +polegar da luva, da junta do meio até á extremidade, isto do pé; dois terços +dos ditos pés fazem capa até ao joelho, os mesmos dois terços, sendo mulher lhe +faz a casaquinha e os tres terços lhe fazem a saia, os mesmos tres terços com +mais tres palmos de luva lhe fazem manto e casaquinha, manga e corpinho, e o +mesmo que acima temos dito. A pessoa que com estas medidas lhe fizerem a roupa +que venha conforme e justo, poderá dizer que é conforme a proporção da +natureza, sem que falte cousa alguma, sendo a proporção de sua estatura o que +temos dito; resta pois que suas obras sejam taes, quaes convem para ser mais +perfeito. Os que carecem d'esta composição lhes convem fazerem taes obras, que +com a perfeição d'ellas fique satisfeito, á proporção do corpo.</p> + +<h2>Segredo 42.º</h2> + +<h3>Bons effeitos do alecrim</h3> + +<p>O alecrim tem uma natureza que é quente, secco e cheiroso, e por isso +fortalece todas as partes e membros de dentro e de fóra do corpo, alegra e +fortalece<span class="pn">{35}</span> os sentidos, consome as humidades, +frialdades, e todos os males contagiosos.</p> + +<p>O alecrim não consente melancholias, tremores nem desmaios no coração, cujas +raizes, ramos, cascas e flores d'essa excellente herva tem todas as virtudes, +as quaes diremos com ajuda de Nosso Senhor Jesus Christo e proveito da +humanidade.</p> + +<p>Os olhinhos mais tenros do alecrim, comidos pela manhã, com pão e sal, +fortalece a cabeça, conserva a vista clara, aguda e forte.</p> + +<p>A flor e folhas da mesma herva feitas em pó e trazida no seio, afugenta os +tres inimigos do corpo, que tanto affligem o coração, que são elles: as pulgas, +piolhos e persevejos.</p> + +<p>Os mesmos pós no seio do lado esquerdo, espantam a melancholia e ao coração +fazem-lhe muita alegria.</p> + +<p>As folhas da mesma herva bem mastigadas e postas sobre uma chaga fresca, a +curam, e fecha maravilhosamente.</p> + +<p>A flor da mesma, comida pela manhã com mel da mesma flor e um bocado de pão +quente, faz muito bem á saude: nem deixa gerar sangue podre, nem o mal da gota; +e se alguem tiver mal, essa herva lh'o tirará.</p> + +<p>O alecrim serve para afugentar todo o animal venenoso, e o seu fumo serve +contra todo o mal e pestes.</p> + +<p>Os ramos do mesmo, tambem servem para depois de queimados e feitos em pó, +fortalecer dentes e não lhe deixar criar bicho, nem constipações.</p> + +<p>Toda a mulher que tenha uso de comer a flor do alecrim em jejum com pão de +centeio, não padecerá mal da madre, porque lhe reprime os maus humores, gasta +as humidades, e cura os achaques a todas as pessoas que assim usarem.<span +class="pn">{36}</span></p> + +<p>A flor da mesma herva, mettida em qualquer sitio onde estiver roupa, não +deixa entrar a traça na mesma, e dá-lhe muito bom cheiro.</p> + +<p>Se lavarem o corpo com a agua, devem cozer muito bem o alecrim e se +conservarão com boa saude.</p> + +<p>As casas que são escuras e muito humidas, se as defumarem com alecrim a +miudo, conservar-se-hão enxutas.</p> + +<p>Um segredo para as quebraduras, já experimentado, são as alfarrobas verdes, +pizadas e applicadas sobre as quebraduras, que as curam e soldam.</p> + +<p>Se tiverem dôres nas juntas por causa de algum refriado e as lavarem com +agua onde se cozesse alecrim, lhe tirará a dor.</p> + +<p>No tempo da peste é muito proveitoso queimar alecrim pelas casas e nas ruas, +por que afina o ar e faz fugir a peste.</p> + +<p>Estas virtudes do alecrim, acabarei de ser tão extenso como pede este bem +para a natureza e tudo deixarei dito da maneira seguinte:</p> + +<p>Mel virgem de alecrim serve, tira nevoas dos olhos.</p> + +<p>O summo do alecrim lançado nos ouvidos, tira a dôr.</p> + +<p>O summo do mesmo tomado pelos narizes, tira o mau cheiro e sana todos os +males que dentro d'elles estiver.</p> + +<p>Um segredo provado e experimentado, a agoa do alecrim pôr-se ao sol, será +para os olhos que tem belidas, cataratas, ou que estão ennevoados. Faz-se esta +agua da maneira seguinte: um bom mólho de alecrim verde e colhido de fresco, +põe-se dentro de um ourinol novo de vidro com as pontas para baixo, não devem +chegar ao fundo, tapa-se com um panno de linho dobrado, e em cima d'este panno +põe-se um bocado<span class="pn">{37}</span> de fermento que tome toda a boca +do ourinol, e em cima do formento põe-se outro panno dobrado, e ata-se muito +para que não saia bafo algum, põe-se o ourinol ao sol em tempo de calor 6 até 8 +dias e d'alli se fará uma agua muito importante para os olhos. Quando essa agua +estiver prompta, deve-se lançar em uma vazilha pequena e se terá ao sol e ao +sereno outros tantos dias, que depois a agua que era branca, torna-se amarella +e grossa, na qual se desfará um pouco de assucar de pedra e d'esta agua se +lançarão nos olhos tres pingas, em cada um uma vez pela manhã, outras ao meio +dia, e outra á noute, e por favor de Deus sararão.</p> + +<p>Mulher que tiver pouco leite, não póde criar os filhos com as folhas e +flores de alecrim, que lhe causará abundancia de leite bom, porque purifica o +sangue.</p> + +<p>O summo do alecrim misturado com assucar e tomado de manhã e ao deitar da +cama faz bem ás afflicções do peito, ajuda a digestão e mitiga o apetite de +comer.</p> + +<p>A flor e as folhas em pós servem para a dôr do baço e do figado tomando-as +em vinho e mel.</p> + +<p>As folhas e flores da mesma herva fervidas em vinho tinto e bebido faz muito +bem á dôr de tripas, tira a cobiça e a dezinteria.</p> + +<p>Tambem servem os mesmos pós bebidos no mesmo vinho para quem padecer defluxo +da ourina, por debilitação ou fraqueza, isto é approvado mas devem ser cozidas +as folhas e flores em vinho do mais velho que fôr encontrado.</p> + +<p>Para quem não tiver apetite de comer, tome pela manhã duas ou tres colheres +de sopa, de vinho fervido com alecrim, que lhe abrirá a vontade de comer e lhe +fará fortaleza no estomago.</p> + +<p>Alguns auctores são de opinião, que a triaga é o<span class="pn">{38}</span> +remedio da peçonha; mas o alecrim cozido lhe faz o mesmo effeito.</p> + +<p>Finalmente o alecrim cozido em agua tem todas estas virtudes que se seguem +tomando bastantes banhos d'essa agua, chama-se o banho da vida, porque tira a +dôr das juntas e de todas as mais partes do corpo, é remedio para a canceira, +para a suffocação do coração, dá alento e vigor á velhice, conserva a mocidade, +fortalece os membros e aviva os sentidos.</p> + +<p>Aqui deixo por isso escripto aos meus leitores, em estas poucas linhas todas +as virtudes d'esta planta chamada alecrim, que tão bom proveito tenho tirado +d'ella e estou por certo que quem d'ella fizer uso como eu o tirará e se +conservará limpo, de tantos achaques que affligem o corpo humano.</p> + +<h2>Segredo 43.º</h2> + +<h3>Para a azia</h3> + +<p>A azia, além de ser uma molestia pouco impertinente quando ataca a creatura +causa-lhe um pouco de desarranjo na garganta, e é o que basta para nos +incommodar, e como não ha quem goste de incommodos, temos um segredo pelo qual +em um instante fiquemos alliviados da garganta, é segredo economico, barato, +pois se algum de vós tiver azia é só pegar em uma cebolla: tem poder para a +fazer sahir. Se houver quem não goste d'este objecto dou-lhe tambem por +approvado:<span class="pn">{39}</span> comerão amendoas amargosas que tambem +ficam livres d'esse mal.</p> + +<p>Assim tenho feito sempre e encontrei bom resultado, por isso d'estes dois +segredos o que primeiro me apparece, é d'esse que eu faço uso.</p> + +<h2>Segredo 44.º</h2> + +<h3>Para os meninos pequenos se criarem, de modo que sejam mais encorpados e de +mais forças</h3> + +<p>Muitos homens ficam pequenos de corpo e de poucas forças, porque as mães e +amas lhes tiram os braços de fóra antes do tempo, e assim como são tenros, +bolindo com os braços se relaxam os membros e assim ficam mais fracos e +debilitados, por isso quem quizer criar a criança, de modo que fique largo das +espaduas e com muita força nos braços não lh'os deve tirar fóra, quero dizer +vestidos, senão de trez mezes por diante, assim ficarão sendo mais corpolentos +e forçosos, porque se vão criando com todas as forças da sua natureza, cujas +forças não lhe abrandam tanto, como se forem criados como acima disse.<span +class="pn">{40}</span></p> + +<h2>Segredo 45.º</h2> + +<h3>Para conhecermos se qualquer homem nasceu de dia, ou de noute, ou no +crepusculo</h3> + +<p>A pessoa que tiver as orelhas despegadas da cabeça pela extremidade de +baixo, fazendo as pontas rombas, despegadas ou levantando os olhos +direitamente, se levantar mais o olho esquerdo que o direito, diremos que +nasceu de dia; se as orelhas pela parte debaixo forem ponteagudas sempre +pegadas no casco da cabeça ou levantando os olhos direitamente, e se levantar +mais o direito que o esquerdo, assim diremos que nasceu de noite.</p> + +<p>Se um d'estes signaes mostrar que nasceu de dia, outro que nasceu de noute, +o tal diremos que nasceu no crepusculo: chamamos crepusculo de pela manhã tanto +que vem rompendo a alva, e dura até que nasce o sol, o crepusculo da noite +conta-se desde que se põe o sol, até que se cerra a noute.</p> + +<h2>Segredo 46.º</h2> + +<h3>Da ethmologia dos dedos das mãos</h3> + +<p>O dedo mais curto e grosso da mão chama-se polex, de que se deriva poder, +porque sem elle não se póde apertar cousa alguma na mão, que firme fique,<span +class="pn">{41}</span> n'este costumam os mercadores trazerem os anneis, dando +a entender o muito que podem valer com seus reales.</p> + +<p>O dedo logo seguido se chama index, que quer dizer amostrador, porque nos +serve de mostrarmos aquillo que queremos; n'este costumam os medicos trazer os +anneis, dando-nos a entender que elles são index, pelos quaes nossa saude se +governa.</p> + +<p>O terceiro dedo se chama médio, ou maior, pelo ser, médio por estar no meio +de todos, n'estes costumam os soldados trazer os anneis, significando fortaleza +e esforço.</p> + +<p>O quarto dedo se chama annular ou dedo do coração, porque elle vem a ter uma +veia que passa pelo coração. Como o ouro é metal agradavel á vista de todas as +pessoas, em geral é costume pôr os anneis n'este dedo para evitar a melancholia +e outras paixões que acodem ao coração. Muitas pessoas costumam usar de anneis, +mais pela tradição antiga, que pela razão atraz escripta. Quem trouxer n'este +dedo um annel com uma pedra de Jacintho fina, que a toque na carne, não é tão +sómente bom para a melancholia, pois tambem tem outras propriedades boas.</p> + +<p>O quinto dedo se chama minimo ou auricular: minimo, pelo ser, auricular, +porque com elle costumamos limpar as orelhas. N'este dedo costumam trazer os +anneis as pessoas illustres, dando assim a entender quem são, e não pela valia +do ouro.<span class="pn">{42}</span></p> + +<h2>Segredo 47.º</h2> + +<h3>Da causa das nossas enfermidades, e com a ajuda de Nosso Senhor as podemos +remediar</h3> + +<p>As quatro compleições de que fomos formados comnosco, assim como uma meza +com quatro pés, que sendo todos eguaes e direitos, em plano, está quieta e +segura, porém se algum d'elles se levanta ou quebra e é mais comprido, isto só +é bastante para que os outros tres com a meza venham ao chão, da mesma maneira +a cólera, sangue, fleuma, e melancholia, cujas quatro compleições de que somos +compostos estão eguaes conforme á saude no corpo, porém tanto, que alguma +d'ellas se altera ou sobrepuja ás outras, causa no corpo a doença conforme sua +qualidade. Porque da cólera se causam tabardilhos, frenesis, febres malignas, e +outras enfermidades semelhantes.</p> + +<p>E do sangue se geram dôres de costas, de cabeça, pontadas e outras +semelhantes da fleuma, dôres de tripas, humidades no estomago, dôres de madre, +colicas, apostemas, e outras semelhantes. E da melancholia se geram tristezas, +humores viscosos, tremulos, gota e outros semelhantes.</p> + +<p>E supposto que segundo nossa santa fé aos sonhos não se póde dar credito, +por não terem razão nem fundamento algum, são sómente phantasmas que se +representam no entendimento, estando uma pessoa dormindo.</p> + +<p>Todavia se alguma das quatro compleições se altera do corpo, causa que os +taes phantasmas tenham alguma correspondencia, a qualidade da dita +compleicão,<span class="pn">{43}</span> assim sabendo que seja se póde remediar +com defensivos, que á tal compleição alterada applicam.</p> + +<p>Pelo que se a pessoa sonhar com o fogo ou arma e outras cousas que incitam a +cólera, é signal que a cólera predomina, segundo ella se lhe póde dar remedio. +</p> + +<p>E se o sonho fôr de pescarias ou embarcações, cousas que pertençam á agua +predomina a fleuma.</p> + +<p>E se sonhar com prisões, mortes, ou outras cousas que incitem tristezas, +perdomina melancholia conforme a ella se lhe applicará remedio.</p> + +<h2>Segredo 48.º</h2> + +<h3>Para o fogo não queimar </h3> + +<p>Pegarão em 20 reis de alteia e depois de a fazer em pó a botarão com uma +clara de ovo em uma tigela e com essa mistura untarão as mãos ou outra qualquer +parte que quizerem, que depois d'isto feito não se queimarão.</p> + +<h2>Segredo 49.º</h2> + +<h3>Do tempo que é salutifero cada um dormir segundo a compleição que tiver</h3> + +<p>Temos a notar que as compleições atraz declaradas<span +class="pn">{44}</span> tem aquelles effeitos em quanto distinctas, mas pela +mistura d'ellas formam outras quatro compleições, que são as do temperamento, +colerica, sanguinea, fleumatica, melancholica. Da do temperamento não +trataremos, porque não é possivel havel-a, que onde ha temperamento não ha +alteração e não póde haver doença. Assim tambem se ha de notar, que o dormir é +parte mui essencial para o cosimento do estomago: porém convém a cada um para +sua saude tomar o somno conforme a qualidade da sua compleição. Porque os +puramente colericos pela muita quentura que tem, basta-lhes dormir cinco a seis +horas: os colericos sanguineos basta-lhes cinco e meia a seis e meia; os +puramente sanguineos basta-lhes seis a sete; os fleumaticos bastam-lhe seis e +meia a sete; os puramente fleumaticos, bastam-lhe sete a oito, os fleumaticos +melancholicos bastam-lhe sete e meia a oito e meia; os puramente melancholicos +bastam-lhe oito a nove.</p> + +<p>E tudo o que passa d'esta regra é prejudicial á saude, porque tanto se perde +por carta de menos, porque assim como não dormir inquieta o corpo, o móe e +debilita, assim o dormir muito causa gota e outras enfermidades. Note-se tambem +que os colericos, pela muita quentura que teem, lhes é prejudicial á saude +soffrer fome; mais ou menos, comer é melhor.<span class="pn">{45}</span></p> + +<h2>Segredo 50.º</h2> + +<h3>Para fazer levantar um ovo ao ar deante de gente</h3> + +<p>No mez de maio colherão em uma horta uma ambula de orvalho, guarda-se em +parte onde lhe não dê o sol, e quando quizermos fazer o que acima fica dito, +com um alfinete grosso fura-se um ovo e chupando-o pelo mesmo buraco, o +encherão de orvalho, e taparão o dito buraco com um bocadinho de cêra branca, +collocando-se o dito ovo á vista de todos em parte onde lhe dê o sol, e assim +como o ovo fôr aquecendo se irá levantando e subindo até desapparecer. Quem +quizer que este mesmo ovo lhe sirva para mais vezes, ate-o a um cordel na ponta +de uma lança, e que seja o cordel tão comprido como ella, ficando a lança no +chão. Com uma linha atarão o ovo no cordel, posto ao pé da banca em parte onde +lhe dê o sol, e quando aquecer subirá pela lança acima e assim estará no ar, +até o tirarem, emquanto estiver quente, porque quando o sol d'aquelle sitio fôr +desapparecendo, o ovo vae arrefecendo, e conforme fôr arrefecendo assim vae +cahindo para o chão; por isso lhe devem acudir a tempo para se não +quebrar.<span class="pn">{46}</span></p> + +<h2>Segredo 51.º</h2> + +<h3>Para queimar um lenço e ficar são</h3> + +<p>Secretamente molharemos um lenço em aguardente de cabeça; trazendo-o diante +dos circumstantes mandaremos vir uma candeia acesa e tomando o lenço por duas +pontas para ficar estendido lhe mandaremos deitar fogo, e como fôr inflammando +andaremos com elle ao redor por espaço de um minuto á vista dos circumstantes e +logo o sacudiremos e apertaremos entre as mãos para que se apague o lume; +tornando-o a estender o mostraremos aos circumstantes tão são como era antes de +se lhe botar fogo.</p> + +<h2>Segredo 52.º</h2> + +<h3>Para que as mulheres sem postura pareçam melhor e tenham melhor cara com +menos custo</h3> + +<p>Entre outras cousas que entre nós ha mal feitas são duas, as quaes nos dão +notavel prejuizo á saude: a primeira é quererem os homens mostrar que calçam +pequeno pé, mandando fazer menor sapato, do que<span class="pn">{47}</span> +pede o pé, assim continuando vem a ser gotosos; por conseguinte as mulheres que +usam posturas perdem os dentes, mais depressa se arusgam e outras muitas +desgraças se seguem d'aqui.</p> + +<h2>Segredo 53.º</h2> + +<h3>Para mostrar aos circumstantes um braço atravessado com uma faca sem +prejuizo algum</h3> + +<p>Faz-se uma faca de duas metades ligadas uma á outra com uma mola e será +feita de tempera branda, que se alargue e aparte o que a pessoa quizer; esta +mola mettida pelo braço acima por baixo do casaco ou camisa, apertada a manga +junto á faca, e feito isto secretamente sahir aos circumstantes, mostrar-lh'a, +parecerá o braço estar passado pelo collo da mão.</p> + +<p>Adverte-se que a feitoria da mola d'esta faca é necessario seja de modo que +se aperte e alargue.<span class="pn">{48}</span></p> + +<h2>Segredo 54.º</h2> + +<h3>Para fazer tinta de qualquer côr com facilidade, e as letras que estão em +papel quasi safadas se acharem a ponto de se lerem</h3> + +<p>Deve haver tinteiro separado para cada tinta, para que uma não corrompa a +outra.</p> + +<p>Para fazer tinta vermelha, pizam-se flores de papoula, espremidas, o sumo +que deitarem, coado, posto um pouco ao sol, para que engrosse e não corra +tanto, se faz tinta vermelha bastantemente.</p> + +<p>Para fazer tinta verde, faz-se a mesma operação com os concelleiros que +nascem pelas paredes, e da mesma maneira ficará tinta verde.</p> + +<p>Para a tinta roxa, do mesmo modo se fará da flor do lyrio.</p> + +<p>Para tinta amarella, egualmente se faz com flôr do pampiro.</p> + +<p>E assim para qualquer outra tinta que quizermos fazer, buscaremos a herva da +côr da tinta que quizermos fazer, e do mesmo modo que fica dito se fará.</p> + +<p>E para fazer que as letras que estão em papel que mal se enxerguem por +estarem gastas pelo tempo se possam lêr, se molhará um panno de baeta em ourina +fresca, levemente se esfregam as letras com elle, que depois se poderão +lêr.<span class="pn">{49}</span></p> + +<h2>Segredo 55.º</h2> + +<h3>Para tirar nodoas de azeite e pingos de cêra de toda a qualidade de +pannos</h3> + +<p>Para tirar nodoas de azeite amassarão um bocado de barro vermelho, que não +fique muito espesso, e da parte do avêsso que quizerem tirar as nodoas, +cubra-se toda a nodoa com este barro, e da parte direita se ponha sobre a nodoa +uma folha de papel alinhavada, de modo que se chegue o papel ao panno, e posto +a enxugar até o barro estar bem secco, logo se esfrega, e tirando-se-lhe o +papel ficará a nodoa fóra. Este remedio é bom principalmente para panno de côr; +é bom lavar em agua de pescada.</p> + +<p>E tambem para tirar a nodoa do panno se cobrirá a nodoa com sabão e por cima +do sabão botar um pouco de sal, pondo ao sol por espaço de um quarto de hora e +lavando a nodoa, logo se tirará.</p> + +<p>Para tirar pingos de cêra, estando em sêda, tosta-se uma fatia de pão trigo, +e assim quente se põe em cima da cera que a attrahirá a si.</p> + +<p>Se fôr em panno de côr, bota-se um testinho no lume, e estando bem quente se +tira, embrulha-se em um papel, esfrega-se com elle no lugar onde está a cêra, e +assim logo sahirá e o panno ficará limpo.<span class="pn">{50}</span></p> + +<h2>Segredo 56.º</h2> + +<h3>Do modo mais facil de fazer dôce a agua do mar</h3> + +<p>Se quizerem fazer uma canada em pouco tempo, de agua do mar para ficar dôce, +tome-se um pote novo, metta-se-lhe dentro uma pedra que peze quatro ou cinco +arrateis, tapa-se-lhe a bocca com uma rolha de cortiça, bem justa, atando o +pote por um cordel, se botará o dito pote no mar, mansamente, para que a pedra +não quebre, e d'ahi a tres ou quatro horas o tirarão, tirando a rolha ao pote, +acharão dentro d'elle uma canada de agua dôce como a da fonte; a razão por que +a pedra se mette é para que o pote vá ao fundo do mar, para a agua tomar a +virtude que se pretende.</p> + +<h2>Segredo 57.º</h2> + +<h3>Das regiões do ar e da terra</h3> + +<p>Como no segredo adiante havemos de tratar das qualidades da agua dôce, +necessariamente é tratarmos primeiro da terra, por cuja razão se faz dôce, e do +ar a que ella sobe.</p> + +<p>Os mathematicos que tenham observado cometas, os quaes se fazem entre a +região do fogo e do ar, acham ter este corpo aereo, trinta e quatro leguas, +dous terços, estes se repartem em tres regiões; a primeira<span +class="pn">{51}</span> que é esta que gozamos temperada por razão dos raios do +sol que dão na terra, reverberando para cima aquentam, temperam até duas leguas +e meia para cima, esta região é mais palpavel, porque n'ella andam as aves, e +n'ella respiram todos os animaes terrestres, racionaes e irracionaes. A segunda +região é summamente fria mais pura que a primeira, em tanto que as aves subindo +a ella não se poderão ter nem respirar no principio d'esta região, estão em +deposito as aguas que chovem, que sobem do mar vapores da terra, aguas sobem, +até ao meio da dita região, congelam-se em neve, e se mais acima forem, +congelam-se em pedra, assim como esta primeira e segunda região occupam para o +alto oito leguas e meia, as mais que faltam para trinta e quatro leguas, dous +terços occupa a terceira região, a qual pela parte proxima a segunda é fria, e +pela parte de cima por estar á região do fogo é calidosissima; n'esta se fazem +todos os trovões, raios e cometas. Assim tambem a terra se parte em tres +regiões, para que não pareça desordem brotaremos o gosto d'ella, proval-o-hemos +por regras grammaticaes, as quaes são pela circumferencia ou superficie de um +globo, saber-se a grossura d'elle, quero dizer seu diametro, ou peso diametro +de uma cousa, vir em conhecimento da superficie d'ella guardando a regra +seguinte.</p> + +<p>Que sabido o diametro de qualquer circulo, este multiplicando partes, um +setimo; o que tudo sommado terá de circumferencia a superficie, por conseguinte +sabendo a circumferencia, esta, partida por tres um setimo, o que vier á +partição fará o diametro, assim, vinte e dous palmos de diametro, nos dão sete +palmos de circumferencia, pois temos sabido assim pelas dimensões geometricas, +como das experiencias de homens<span class="pn">{52}</span> do mar ter a terra +em redondeza, seis mil e trezentas leguas; iremos á regra de tres, dizendo se +vinte e duas leguas de circumferencia nos dão sete de diametro, seis mil e +trezentas de circumferencia da terra quantas nos darão de diametro, virá a +partição de duas mil e quatro leguas e meia, assim diremos ter a terra de +grosso, duas mil quatro leguas e meia que partidas pelo meio vem duas mil duas +leguas e um quarto de legua, tanto ha da superficie ao centro da terra, que é o +meio de toda a grossura.</p> + +<p>Estas mil duas leguas e um quarto se repartem em tres regiões, a primeira +das quaes a da superficie para o centro duas leguas e um quarto, ou posto que a +terra em si seja summamente fria, secca e pesada, esta primeira região é +temperada pela razão que temos dado da impressão que fazem os raios do sol +n'ella, n'esta região se criam as exhalações que com a força do sol chamadas +para cima se acertam de cahir por terra, pela resistencia que lhe põem ao cair, +causa para ella tremer que é haver em algumas ilhas e outras partes tanta +calidade na terra que no verão com a força do sol abrem grandes concavidades, +as quaes vindo o inverno, pela razão que acima dissemos, se tornam a fechar. +</p> + +<p>A segunda região que é de duas leguas e um quarto, seis leguas para baixo +n'esta região, a superficie d'ella é o principio da creação do ouro e mais +metaes mineraes, d'ahi vem botando para cima por veias canos a modo de arvores, +assim a raiz do ouro principia n'elle e na segunda região.</p> + +<p>A terceira região é de oito leguas e um quarto, que occupam a primeira e +segunda região para baixo até ao centro, esta ultima região, é summamente +pesada, fria e secca; é incapaz de criar cousa alguma,<span +class="pn">{53}</span> no intimo interior da qual está o inferno de que Deus +nos livre.</p> + +<h2>Segredo 58.º</h2> + +<h3>De dous medicamentos que se usam entre os rusticos </h3> + +<p>Quando alguma pessoa do campo se sente com qualquer mal que seja, cose um +bocado de carqueija e bebem aquella agua, e deitados na cama se abafam para +suar, e com isto lhe faz Deus algumas vezes de lhe abrandar o mal.</p> + +<p>O segundo é que para maleitas dizem ao enfermo que dê a ourina para mostrar +ao medico, com ella dão uma volta fingindo que vão buscar um xarope e em lugar +d'elle lhe dão a beber a mesma ourina e com este remedio continuam oito dias, e +é com este mesmo remedio que se lhe vão embora as maleitas.</p> + +<h2>Segredo 59.º</h2> + +<h3>Para fazer acreditar aos presentes que conhecemos as cartas de jogar pelo +cheiro</h3> + +<p>Ha-de vir a terceira pessoa, a quem tenhamos dado conta d'isto, logo faremos +pôr a mesa e diremos que nos tapem os olhos, e nos sentaremos, e defronte<span +class="pn">{54}</span> de nós a pessoa em que nos fiamos, e logo pediremos +cartas, perguntando que é o que querem que d'alli se tire, se a primeira de +quatro ou o que quizerem, logo indo tirando carta por carta, e cheirando cada +uma d'ellas pelas costas de modo que o que ha-de avisar veja que cartas são, +assim tirando-as iremos pondo uma por uma na meza em tanto que nos venha alguma +das que nos tem pedido a pessoa a que temos communicado o segredo, porá o pé +sobre o nosso, assim poremos aquella carta de parte e iremos continuando até +tirar todas as pedidas, da mesma sorte que acima fica dito e quem estiver +fazendo este segredo acautelar-se-ha para os assistentes não darem fé do que se +está fazendo por baixo da meza.</p> + +<h2>Segredo 60.º</h2> + +<h3>Virtudes do jacintho</h3> + +<p>O jacintho é de muitas côres, porém o verde ou roxo mui brilhante é o +melhor, o qual feito em pó e tomado pela bocca, é cordial, e serve contra as +febres malignas: defende a quem o traz dos raios e temporaes.</p> + +<p>Trazendo o jacintho comsigo, que toque ao corpo, conforta o coração, e aviva +o engenho.</p> + +<p>Defende o jacintho, a quem o trouxer comsigo, de venenos e ares corruptos. +</p> + +<p>Tem virtude o jacintho de refrear a loucura, e evitar a melancolia; e não +soffre representações de fantasmas, nem visões.<span class="pn">{55}</span></p> + +<p>Meia legua de Toledo junto a um mosteiro de Bernardos, ha uma fonte pegada á +ribeira do rio Tejo que chamam dos jacinthos, porque ali ha tantos, que sae a +agua e corre por cima d'elles.</p> + +<h2>Segredo 61.º</h2> + +<h3>Virtudes das pedras da andorinha</h3> + +<p>Diz o experimentador Alberto, e ainda outros, que na cabeça da andorinha se +acham duas pedrinhas mui pequenas, e que uma é branca, e outra vermelha, cujas +virtudes são as seguintes.</p> + +<p>Dizem que quem trouxer comsigo a pedra branca da andorinha, não será +molestado de sêde, e que se a tiver na bocca, sempre a terá fresca.</p> + +<p>Dizem mais, que se alguem tiver fluxo de sangue e trouxer a mesma pedrinha +branca ao pescoço, logo se lhe estancará o sangue.</p> + +<p>Tambem dizem que tem virtude para ajudar as mulheres no parto, como a pedra +da aguia.</p> + +<p>Dizem mais, que lançada a mesma pedrinha branca em uma vasilha de agua por +espaço de uma noite, e bebida a agua, provoca a cursos, e tira o mal da gotta, +e ainda a febre se a tiver.</p> + +<p>Tambem dizem que quem trouxer comsigo a pedra vermelha da andorinha se +livrará de muitas doenças.<span class="pn">{56}</span></p> + +<h2>Segredo 62.º</h2> + +<h3>Virtudes da pelle que a cobra costuma despir</h3> + +<p>A pelle da cobra queimada, e posta em cima de alguma ferida, a deixa sã; e +se houver bico, ou ferro mettido dentro na carne costuma attrahil-o a si, até o +tirar fóra.</p> + +<p>Notem uma e outra vez, advirtam, que quem trouxer comsigo os pós d'esta +pelle de cobra será preservado de lepra, e de qualquer peçonha. E saibam, que +os ditos pós tem grandes virtudes, e muitas propriedades: porém, ha de se +queimar a dita pelle, estando o sol no signo de Aries, que é de 12 de março até +26 de abril.</p> + +<h2>Segredo 63.º</h2> + +<h3>Para tornar doce a agua do mar, que se possa beber</h3> + +<p>Diz Aristoteles, que para fazer a agua do mar doce que se possa beber, façam +uma vasilha de cêra bem tapada, e a mettam no mar, que fique coberta de agua, e +toda a que fôr entrando pelos poros da cera perderá o sal e ficará doce. O +mesmo succederá, se metterem no mar uma vasilha nova de barro com tanto que +tenha a bocca bem tapada.<span class="pn">{57}</span></p> + +<h2>Segredo 64.º</h2> + +<h3>Para conservar a castidade, e reprimir os estimulos da carne</h3> + +<p>Escreve Macencio, que o summo da erva chamada sagunta, bebido em jejum +reprime os estimulos da carne, e as suas folhas postas sobre os genitaes, diz, +que tem virtude de applacar os incentivos da luxuria.</p> + +<p>Avicena escreve, que a arruda comida, mitiga os ardores da carne no homem; e +na mulher pelo contrario, porque os aviva com excesso.</p> + +<p>O mestre João diz, que o orjavão tem mui grande virtude, e efficacia para +reprimir a luxuria, porque applicado aos lombos mitiga, e applaca grandemente +os estimulos da carne. Diz mais o mesmo author, que o sumo do orjavão bebido +causa impotencia, a quem o toma, por espaço de sete dias. Escreve Dioscorides, +que a fructa, que produz o cedro, pizada, ou o sumo de suas folhas posto nos +genitaes, desterra a appetencia de actos venereos. Michael Escoto diz com muito +fundamento que todas as cousas agras, frias e azedas se accomodam bem com a +castidade, conservando-a: e pelo contrario as cousas doces, quentes e +odoriferas, a destroem, e estragam de todo. Porém fallando espiritual e +catholicamente, o que mais conserva, e defende a castidade é o jejum, a +disciplina e a oração frequente e com muita devoção.<span +class="pn">{58}</span></p> + +<h2>Segredo 65.º</h2> + +<h3>Para conservar as camas sem persevejos, os aposentos sem pulgas, as casas +sem moscas, e ainda sem mosquitos nem ratos</h3> + +<p>Tomarão cóla feita de retalhos de couro, e desfeita em agua ao fogo, que +fique bem clara e rala, lhe misturem azeite, e assim quente, molharão e +esfregarão as taboas e pés do leito, de sorte que toda a madeira fique lavada +com este cosimento, e resultarão dois effeitos muito bons. O primeiro será que +o leito todo parecerá de nogueira. E o segundo, que não se crearão n'elle +persevejos, como tenho bem experimentado.</p> + +<h2>Segredo 66.º</h2> + +<h3>Contra pulgas</h3> + +<p>Ponham uma panella de agoa ao lume, e lançar-lhe-hão dois vintens de +solimão, e deixando-a ferver bem, borrifarão o aposento depois de bem varrido, +e tenham por certo que morrerão, e se não crearão outras. Mas isto se ha de +fazer duas vezes na semana.<span class="pn">{59}</span></p> + +<h2>Segredo 67.º</h2> + +<h3>Contra moscas</h3> + +<p>Tomem um pouco de mel e farinha, mechida com uma pouca de agoa clara, lhe +lancem arsenico ou rosalgar, e ponham esta mistura em caqueiros, aonde cheguem +as moscas, e vêr-se-ha quantas vão caindo, porque em provando ficam mortas. O +mesmo effeito faz o ouro e pimenta moida, e desfeito em agoa e posto em algumas +vasilhas pela casa; mas vigiem que não chegue cão ou galinha a provar, porque +ficarão mortos.</p> + +<h2>Segredo 68.º</h2> + +<h3>Contra mosquitos</h3> + +<p>Queimarão cominhos rusticos no aposento aonde houver mosquitos, e logo +cairão mortos ou se irão; tambem quem molhar o rosto com agoa, na qual +estivessem cominhos rusticos de infusão, não lhe hão de chegar os mosquitos ao +rosto. Em outro logar se dirão outros segredos mais ácerca d'isto; mui notaveis +e difficultosos de crer, e por tanto cito ali os auctores que o dizem.<span +class="pn">{60}</span></p> + +<h2>Segredo 69.º</h2> + +<h3>Contra ratos</h3> + +<p>Façam por apanhar um rato vivo, já grande ou mediano, e façam uma de duas +cousas. Ou lhe esfolem a cabeça e lhe ponham na abertura da pelle um pouco de +sal moido e deixem-no vivo, que elle com o ardor e raiva affugentará os outros: +ou façam outra cousa, se lhes parecer mais facil, e é atar ao pescoço do rato +um cascavel pequeno, que tenha o tenido mui vivo, com o que fará fugir os +outros; e assim ficarão livres d'estes inimigos caseiros, poupando gastos e +molestias. Outro segredo melhor e mais facil. Tomarão gesso novo, e passado por +peneira o misturarão com queijo ralado subtilmente, e misturado tudo o ponham +em diversas partes da casa, e será cousa entretida vêr os ratos que comerem da +iguaria andarem inchados por casa, e se tiverem agua que beber, morrerão mais +depressa; porque o gesso tanto que chega á agua ou cousa humida, logo se torna +em massa, e é segredo sem perigo.</p> + +<h2>Segredo 70.º</h2> + +<h3>Para fazer durar o azeite da candêa</h3> + +<p>Tomarão giesta da mais pequena e de folhas mais miudas; (porque ha duas +castas d'ellas) queimal-a-hão,<span class="pn">{61}</span> e da cinza farão +decoada; e pondo esta a cozer, se converterá em sal, o qual lançado nas +candêas, conservará e fará durar o azeite mais do terço. A pedra hume de rosa e +o sal commum, que serve para o comer, tem a mesma propriedade, porém não tanto +como o sal da giesta.</p> + +<h2>Segredo 71.º</h2> + +<h3>Para fazer augmentar o azeite das candêas</h3> + +<p>Tomarão uma canada de azeite e pôr-se-ha ao fogo, e logo lançarão quatro +onças de pêz grego e um vintem de pedra hume de rosa; tudo bem moido primeiro, +e mechendo-o muito bem, até que esteja de todo misturado, logo se poderão +servir d'elle nas candêas, poder-se-ha fazer mais ou menos seguindo a mesma +ordem com proporção dos materiaes.</p> + +<h2>Segredo 72.º</h2> + +<h3>Para fazer vinagre bom e forte multiplicando-o com pouco custo</h3> + +<p>No tempo da vindima tomarão um pé de bagaço no patamal do lagar, depois de +espremido e estendido lhe lançarão cem potes de agua e quatro arrateis de<span +class="pn">{62}</span> perrexil verde, dois de flor de sabugo verde, e um bom +cantaro de vinagre do melhor e mais forte, e deixal-o estar vinte ou trinta +dias, e no fim se esprema tudo, e recolherão vinagre mui forte e odorifero; e +proporcionando os materiaes, podem fazer mais ou menos.</p> + +<h2>Segredo 73.º</h2> + +<h3>Para multiplicar a cera</h3> + +<p>Tomarão uma arroba de cebo de bode e uma duzia de ovos de adem, só as gemas, +meias cozidas, desfeitas e bem batidas, se lancem no cebo com outra arroba de +cera, e tudo posto ao fogo se mecherá, até que fique derretido e bem misturado; +e ficará tudo convertido em cera mui amarella, para se fazer d'ella toda a obra +que quizerem.</p> + +<h2>Segredo 74.º</h2> + +<h3>Para saber se o vinho tem agua ou não</h3> + +<p>Diz Creponte, que para saber se o vinho tem agua, lhe lançarão umas talhadas +de pera brava aparada, e se nadarem em cima, signal que está o vinho puro; mas +se forem ao fundo, se conhecerá que o vinho está aguado.<span +class="pn">{63}</span> Outra advertencia. Tomarão um junco ou uma palha de avêa +bem lisa, e untada com cebo a metterão na vasilha do vinho; e se este tiver +agua, sairão pegadas umas pingas mui subtis de agua. Outra. Encherão de vinho +uma panella nova, e deixando-a estar dois dias, se sumirá toda a agua, se a +tiver. Outra. Tomarão uma pedrinha de cal virgem, e molhando-a com elle, vinho, +se tiver agua logo se desfará a cal; e se estiver puro, se apertará mais. +Outra. Lançarão um pouco de vinho em azeite que esteja bem quente, e se tiver +agua, espirrará e saltará, o que não hade acontecer se fôr puro.</p> + +<h2>Segredo 75.º</h2> + +<h3>Para se não embebedar</h3> + +<p>Diz Filonio, que para se não embebedar são bons os bofes de ovelhas assados, +e comidos antes de jantar, ou que, antes que bebam vinho, comam verças com +vinagre, e d'este modo lhe não fará mal o vinho, posto que bebam mais do +ordinario. Porém o melhor remedio para se não embebedar é o que eu uso ha +sessenta e tres annos que hoje faço de idade, e nunca bebi vinho, e acho tanto +regalo na agua, que é para mim a melhor iguaria que vejo na mais explendida +meza: e oxalá se praticára isto que digo, que o vinho se havia de vender na +botica e usar por medicina. Se alguem reconhecer o descredito, que causa o +vicio de destemperança no beber, e quizer livrar-se de se embebedar<span +class="pn">{64}</span> e aborrecel-o de todo, note o que escreve Plinio, e é +que mettam duas enguias vivas e grossas dentro em um cantaro de vinho, e que +depois de estarem affogadas, dêem este vinho aos que se costumam embebedar, e +virão a aborrecer o vinho de todo; porque causa um raro tedio e aversão. Para o +mesmo serve a bretonica feita em pó e bebida.</p> + +<h2>Segredo 76.º</h2> + +<h3>Para tirar a agua do vinho</h3> + +<p>Escreve Catão e Plinio, que para tirar a agua do vinho, se fará uma vasilha +de páo de hera, lançando o vinho n'ella, se tiver agua, todo o vinho se irá +coando e ficará só a agua na mesma vasilha: e se não tiver agua, ficará a +vasilha completamente vazia.</p> + +<h2>Segredo 77.º</h2> + +<h3>Uma redoma que estando cheia de agua, e posta com a bocca destapada para +baixo, se não entorne</h3> + +<p>Ponham uma redoma ou garrafa cheia de agua ou vinho dentro em um cubosinho +ou balde de madeira ou de cobre que é melhor, e lançarão sobre a garrafa<span +class="pn">{65}</span> ou redoma, e por baixo quantidade de neve bem desfeita, +e por cima da neve se deitarão bastante sal moido e pouco a pouco irão virando +a garrafa, até que de todo esteja a neve desfeita, e escorrerão a agua da neve +e lançar-lhe-hão outra tanta neve desfeita com sal moido; e assim se deixará +estar até que de todo se desfaça, sem mover a garrafa: e farão o mesmo terceira +vez, e tirará a agua congelada ou o vinho que estiver na garrafa. E isto se +póde fazer na força do verão, e parecerá cousa impossivel, sendo tão facil; e +pondo a garrafa com a bocca destapada para baixo, é certo que se não entornará. +Como experimentou o duque de Gandia, D. Francisco de Borja, que mandou uma +cheia de agua congelada no verão, ao patriarcha D. João de Ribeira, arcebispo +de Valença, o qual em retorno de tão curioso segredo, lhe mandou outra garrafa +cheia de vinho congelado, que foi maior maravilha.</p> + +<h2>Segredo 78.º</h2> + +<h3>Para tornar uma rosa e um cravo de vermelho em branco</h3> + +<p>Defumarão o cravo e a rosa em enxofre, e logo se tornarão brancos de +encarnados; e podem fazer todo o craveiro branco, de vermelho, como eu fiz a +experiencia em uma occasião, tornando brancos mais de vinte cravos encarnados, +com admiração do dono do craveiro, por não saber a causa.<span +class="pn">{66}</span></p> + +<h2>Segredo 79.º</h2> + +<h3>Curioso e de entretenimento</h3> + +<p>Recolherão uma pequena porção de azougue em um canudinho de penna e muito +bem tapado, o metterão dentro em um pedaço de pão quente, e ver-se-ha, tanto +que o azougue aquecer, que começará o pão a dar saltos pela meza. O mesmo verão +que fará uma avelã, se a encheram de azougue, e bem tapada com um torno que +atoche bem, lançada em agua quente, porque tanto que o azougue aquecer, fará +saltar a avelã.</p> + +<h2>Segredo 80.º</h2> + +<h3>Garrafa ou redoma</h3> + +<p>Se quizerem fazer subir a agua por uma redoma vasia ou garrafa, +aquentar-se-ha muito bem e por-se-ha com a bocca para baixo na agua, e verão +subir a agua pela redoma acima em quanto esta estiver quente, e para que o +esteja, irão queimando papel sobre o fundo da mesma vasilha, e não ha de parar +até que encha de todo, e é provado.<span class="pn">{67}</span></p> + +<h2>Segredo 81.º</h2> + +<h3>Do ovo e da sanguexuga</h3> + +<p>Se quizeres que um ovo ande pela casa, tomarão um ovo vasio, de sorte que +fique a casca quasi inteira, e pelo buraco por onde o vasarem, lhe mettam uma +sanguexuga viva, e tapar-se-ha o buraco com cera, e tomarão uma tigella de agua +e a irão movendo junto ao ovo, e como a sanguexuga do instincto natural conhece +e sente o rumor da agua, vae seguindo aquelle rumor, e o ovo rebolando, a quem +não sabe o segredo fica confuso, e é provado, e nota que a sanguexuga ha de ser +de paul e de umas que ha mui negras e grossas.</p> + +<h2>Segredo 82.º</h2> + +<h3>Raro do ovo e da linha</h3> + +<p>Atarão uma linha ao redor de um ovo, e pondo-o a assar no meio do borralho +que esteja bem coberto do lume mais vivo, e ver-se-ha que o ovo se assa e não +se queima a linha nem se quebra, e é provado.<span class="pn">{68}</span></p> + +<h2>Segredo 83.º</h2> + +<h3>Incrivel para quem o não viu nem provou</h3> + +<p>Se quizerem frigir peixe ou ovos em papel em logar de certã, tomem um pedaço +de papel feito a modo de barrete de quatro cantos, e deitar-lhe-hão azeite, e +pondo-o sobre uma vela ou candeia accésa, irá fervendo o azeite sem que o papel +se queime e frigindo o peixe ou ovos, é provado.</p> + +<h2>Segredo 84.º</h2> + +<h3>De duas caras pintadas na parede que apaguem e accendam uma vela</h3> + +<p>Pintarão na parede duas caras grandes, e no meio das boccas lhe farão duas +covinhas; em uma ponham salitre moido bem enxuto, e na outra enxofre em pó; e +se chegarem o lume da vela á boca ou covinha do salitre, se ha de apagar, e no +mesmo instante chegarão o pavio da vela que fica fumegando, á outra bocca do +enxofre, se accenderá e é provado; mas hão de tocar o pavio no salitre e no +enxofre.<span class="pn">{69}</span></p> + +<h2>Segredo 85.º</h2> + +<h3>Para que um frangão, estando vivo, pareça morto e assado na meza, e para o +fazer saltar e fugir</h3> + +<p>Tomarão sumo de aipo e misturem-no com aguardente refinada, e deitarão de +molho umas migalhas de pão n'esta agua misturada com sumo do aipo, e darão de +comer ao frangão em jejum d'estas migalhas, e d'ali a pouco cairá o mesmo +frangão no chão amortecido, e no mesmo instante tirar-lhe toda a penna e +untal-o com mel branco, misturado com açafrão, de sorte que fique bem córado, e +pondo o frangão em um prato, na meza, parecerá assado. E quando o quizerem +fazer tornar em si e saltar fóra da meza, molhar-lhe-hão o bico com um pouco de +vinagre forte, de sorte que lhe chegue á garganta, e de repente se levantará e +fugirá da meza, e é provado.</p> + +<h2>Segredo 86.º</h2> + +<h3>Maravilha rara</h3> + +<p>Escrevem S. Basilio e S. Ambrosio, de uma ave que se chama Alcião, da fórma +do maçarico, a qual cria junto ao mar na area e no inverno; a qual em 14 dias +se tira e cria, até poderem voar. E dizem estes Santos Doutores, que em todos +estes 14 dias, que esta<span class="pn">{70}</span> ave gasta em criar seus +filhos, nunca o mar se altera, pouco nem muito, antes se conserva mui sereno e +socegado. Esta maravilha e prodigio tem bem observado os marinheiros, e chamam +a estes dias alcionicos; e estão mui certos que em todos estes 14 dias não ha +tormenta no mar.</p> + +<h2>Segredo 87.º</h2> + +<h3>Do olho do cão </h3> + +<p>Baptista Aranda, escreve em um livro de seus conceitos, que quem trouxer +comsigo um olho de cão negro, não lhe ladrarão os outros cães; por que diz que +o dito olho lança de si tão grande fartum e cheiro, que os cães o sentem logo +pelo grande faro que teem; e não só se não atrevem a ladrar, mas ainda nem a +bolir comsigo.</p> + +<h2>Segredo 88.º</h2> + +<h3>Importante para a memoria</h3> + +<p>Se quizerem augmentar a memoria, tomarão a banha do urso e cera branca, e +derreterão a cera com a banha, sendo esta dois tantos de cera; tomarão a herva +que se chama Valeriana, e outra que se chama Eufragia, frescas ou seccas, e +pizadas muito bem, as<span class="pn">{71}</span> misturem com a banha e cera +derretida, e tornando ao fogo, deixarão ferver até que fique grosso, mechendo +com um páo, e com este unguento untarão o toutiço e testa, de quando em quando, +e se augmentará notavelmente a memoria, e é provado.</p> + +<h2>Segredo 89.º</h2> + +<h3>Dos dois casados que não tem filhos</h3> + +<p>Para saber, de dois casados que não tem filhos, em qual dos dois está o +defeito natural, tomem a ourina de ambos, marido e mulher, cada uma em sua +vasilha, e em cada qual d'ellas lançarão uns poucos de farellos de trigo, e +n'aquella ourina em que se crearem bichos, está o defeito natural de não poder +procrear ou conceber.</p> + +<h2>Segredo 90.º</h2> + +<h3>Para ter boa voz e clara</h3> + +<p>Tomarão a flor do sabugueiro, e seccando-a ao sol, moida, lançarão os pós em +vinho branco e os tomarão em jejum, e causará boa voz e clara.</p> + +<p>O sumo do aipo e orjavão, bebidos, aclara muito<span class="pn">{72}</span> +a voz; mas advirtam, que o sumo do orjavão resfria os genitaes.</p> + +<h2>Segredo 91.º</h2> + +<h3>Para que se não coza a carne na panella posta ao lume em todo o dia</h3> + +<p>Tomem uma pasta de chumbo delgada, e pondo-a no fundo da panella, não se +cozerá a carne por mais fogo que tenha em todo o dia, e é provado.</p> + +<h2>Segredo 92.º</h2> + +<h3>Provado contra o mal dos queixos</h3> + +<p>Tomem duas duzias de folhas de hera, outras tantas de sabugo e outros tantos +grãos de pimenta, e ponham tudo a ferver em vinho bem tinto e velho com um +pouco de sal, e depois de ferver bem, tirado do fogo, tomarão bochechos de +vinho quente, fazendo-se tres ou quatro vezes, se tirará a dor sem falta.<span +class="pn">{73}</span></p> + +<h2>Segredo 93.º</h2> + +<h3>Para fazer espirrar por baixo e por cima a quantos estiverem em uma casa +</h3> + +<p>Tomarão tres ou quatro pimentos ou malaguetas, e as porão em um brazeiro, +cobertas de cinza, de sorte que as brazas não cheguem aos pimentos, porém que +haja muitas brazas em cima e ao redor da cinza, e tanto que forem aquecendo os +pimentos, pouco a pouco sairá um fumo tão subtil e delgado, que se não sente, +até causar o sobredito effeito, com tanto que a casa esteja bem fechada, e é +provado.</p> + +<h2>Segredo 94.º</h2> + +<h3>Provado para que não nasçam nem cresçam cabellos</h3> + +<p>Raparão mui bem com uma navalha os cabellos que quizerem, e untarão aquelle +logar com gomma-arabia, desfeita com o sumo de herva molerinha ou sangue de +morcego, que é melhor, e não lhe crescerão mais. O mesmo effeito fará o esterco +de gato desfeito com vinagre.<span class="pn">{74}</span></p> + +<h2>Segredo 95.º</h2> + +<h3>Para que a barba e cabellos sempre se conservem negros</h3> + +<p>Mandarão fazer um pente de chumbo mui basto, com o qual pentearão a barba e +cabellos a miudo e sempre se conservarão negros.</p> + +<h2>Segredo 96.º</h2> + +<h3>Para conservar a barba e cabellos loiros</h3> + +<p>Tomarão folhas de nogueira e cascas de romã, distillado tudo por lambique de +vidro, e com esta agua lavarão mui bem, por quinze dias, a barba e cabellos, e +conservar-se-hão loiros.</p> + +<h2>Segredo 97.º</h2> + +<h3>Para que a barba e cabellos de brancos se tornem negros</h3> + +<p>Tomem folhas de figueira negra bem seccas, e feitas em pó as misturarão com +azeite de macella gallega,<span class="pn">{75}</span> e com isto untarão os +cabellos e barba muitas vezes, e se farão negros.</p> + +<h2>Segredo 98.º</h2> + +<h3>Para que as unhas e cabellos cresçam pouco</h3> + +<p>Cortarão as unhas e cabellos em minguante da lua, com tanto que se ache a +lua no signo de Cancer, Pisces ou Escorpião, e crescerão mui pouco.</p> + +<h2>Segredo 99.º</h2> + +<h3>Para que as unhas e cabellos cresçam depressa</h3> + +<p>Cortarão as unhas e cabello em crescence de lua no signo de Tauro, Virgo ou +Libra, e verão como tornam a crescer depressa.<span class="pn">{76}</span></p> + +<h2>Segredo 100.º</h2> + +<h3>Aviso importante e proveitoso para os lavradores</h3> + +<p>Para que as sementeiras saiam boas, e a colheita melhor, observará o +lavrador, quando semear, que seja em lua nova, e que se ache no Signo de Tauro, +Cancer, Virgo, Libra ou Capricornio, e achará uma grande e rara differença na +seara e na colheita.</p> + +<h2>Segredo 101.º</h2> + +<h3>Para ferir fogo sem pederneira nem isca</h3> + +<p>Tomarão um páo de louro secco, e outro de amoreira, ou de hera, que é +melhor, e roçando rijamente um contra outro, aquecerão tanto que sé accenderá +fogo como polvora, ou mecha. D'este segredo usavam as espias no campo de Cesar, +por não serem sentidas dos inimigos.</p> + +<h2>Segredo 102.º</h2> + +<h3>Para seccar o leite dos peitos das mulheres</h3> + +<p>Notem este segredo: as mulheres para se lhes seccar<span +class="pn">{77}</span> o leite dos peitos, por mais cheios e duros que os +tenham, tomarão as folhas do sabugueiro e as ponham estendidas e enxutas sobre +os peitos, e logo se irão abrandando e seccando; e é provado muitas vezes. +Outro segredo mui importante para o mesmo, e é que tomem uma herva que se chama +melcoraje, e pondo-a ao fogo em uma tigella com um pouco de azeite rosado, +assim que estiver quente a ponham aos peitos, cobrindo-os bem com pannos em +cima, e aos tres dias não sentirão leite nem molestia alguma; e tambem é +provado e experimentado muitas vezes.</p> + +<h2>Segredo 103.º</h2> + +<h3>Para saber antecipadamente se ha de haver abundancia de vinho</h3> + +<p>Escreve Missaldo, se a poupa (que é uma ave pintada como um periquito na +cabeça) cantar antes que as vinhas rebentem, é signal mui certo que haverá +abundancia de vinho n'aquelle anno.<span class="pn">{78}</span></p> + +<h2>Segredo 104.º</h2> + +<h3>Para que os novilhos sigam a um homem</h3> + +<p>Diz Aristoteles, livro de <em>Animalibus</em>, que se pozerem uns pedacinhos +de cera benta nas pontas do novilho, ha de seguir a quem lh'os pozer.</p> + +<h2>Segredo 105.º</h2> + +<h3>Para que as bestas tornem para casa de seus donos</h3> + +<p>Escreve Santo Alberto Magno, que untem a testa da besta com sumo de cebolla +alvarrã, e não temam que se perca se a não furtarem.</p> + +<h2>Segredo 106.º</h2> + +<h3>Para fazer que uma besta não possa comer</h3> + +<p>Untar-lhe-hão a lingua toda com cebo, e antes se deixará estalar que comer +cousa alguma, se lhe não tirarem o cebo com sal e vinagre, lavando-lhe muito +bem a lingua.<span class="pn">{79}</span></p> + +<h2>Segredo 107.º</h2> + +<h3>Para não poderem passar por uma rua cavallos nem outro gado</h3> + +<p>Escreve Santo Alberto Magno, que façam uma cordinha de tripa de lobo, e +pondo-a atravessada na rua, coberta de arêa ou pó, verão que não passará por +ella cavallo ou gado, ainda que os matem ás pancadas; e dizem que fez a +experiencia S. Thomaz de Aquino, discipulo de Santo Alberto Magno.</p> + +<h2>Segredo 108.º</h2> + +<h3>Para descanço das bestas que caminham</h3> + +<p>Escreve Plinio, que tomem os dentes maiores dos lobos e que os atem ao +pescoço das cavalgaduras, e não se molestarão nem cançarão muito no caminho. +</p> + +<h2>FIM DA TERCEIRA PARTE</h2> +</div> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 30462 ***</div> +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Oraculo do Passado, do presente e do Futuro (3/7) + Parte Terceira: O oraculo dos Segredos + +Author: Bento Serrano + +Release Date: November 13, 2009 [EBook #30462] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ORACULO DO PASSADO (3/7) *** + + + + +Produced by M. Silva (produced from scanned images of +public domain material from Google Book Search) + + + + + +O ORACULO + +DO + +PASSADO, DO PRESENTE E DO FUTURO + +OU O + +Verdadeiro modo de aprender no passado +a prevenir o presente, e a adivinhar o futuro + +POR + +BENTO SERRANO + +ASTROLOGO DA SERRA DA ESTRELLA, + +_Onde reside ha perto de trinta annos, sendo a sua habitação uma estreita +gruta que lhe serve de gabinete dos seus assiduos estudos astronomicos_ + + +OBRA DIVIDIDA EM SETE PARTES, CONTENDO CADA UMA O SEGUINTE: + +Parte primeira--O ORACULO DA NOITE +Parte Segunda--O ORACULO DAS SALAS +Parte Terceira--O ORACULO DOS SEGREDOS +Parte Quarta--O ORACULO DAS FLORES +Parte Quinta--O ORACULO DAS SINAS +Parte Sexta--O ORACULO DA MAGICA +Parte Setima--O ORACULO DOS ASTROS + + +PORTO +LIVRARIA PORTUGUEZA--EDITORA +55, Largo dos Loyos, 56 +1883 + + + + +PARTE TERCEIRA + +O ORACULO DOS SEGREDOS + +OU + +Collecção de muitos segredos uteis a todas as pessoas, e para a cura +radical de muitas molestias conhecidas e desconhecidas + + + + +PORTO +LIVRARIA PORTUGUEZA--EDITORA +55, Largo dos Loyos, 56 +1883 + + + + +Porto: 1883--Imprensa Commercial--Lavadouros, 16. + + + + +O ORACULO DOS SEGREDOS + + + + +Segredo 1.º + + +Tirado do livro de S. Cypriano (o feiticeiro) para fazer subir um +homem ao ar e andar nas alturas 30 minutos, sem lhe acontecer mal +algum. + +Deita-se um homem estendido no chão, depois ponham-se dois homens aos +pés e outros dois á cabeceira. Feito isto digam as palavras seguintes, +principiando por um e acabando por outros: + +1.º homem--Aqui cheira a corpo morto. + +2.º--Pezado como um chumbo. + +3.º--Leve como uma penna. + +4.º--Levanta-te na hora de Deus. + +No fim de ditas as palavras acima mencionadas, apontae-lhe com os dedos, +que elle logo sobe ao ar, tal qual como um passaro; no fim de 30 +minutos, cáe ao chão sem lhe acontecer mal algum. + +Este segredo foi descoberto por Lucifer, o principe do Inferno. + + + + +Segredo 2.º + + +Para um homem conhecer se a mulher lhe é infiel ou não + +A qualquer hora da noute, quando observarem que a mulher está dormindo e +sonhando, põe-se-lhe devagarinho uma mão sobre o coração, que d'essa +maneira conhecem logo se é sonho; se o fôr ella por sua propria bocca +vos começará a descobrir tudo o que fôr de verdade, e o homem vae +observando o que ella lhe diz e vae tirando a mão de pouco a pouco por +que esta operação não póde durar mais que 10 minutos, para não acontecer +que a mulher acorde e observe o que se está fazendo. + +Sendo assim tudo descobrirão, e ella nada fica sabendo do que disse. +Depois de feito isto devem guardar segredo para evitar questões. + + + + +Segredo 3.º + + +Effeitos do vinagre e da ourina + +Logo que uma pessoa dê qualquer cortadella e queira vêr-se sã em 8 +horas, botem-lhe em cima vinagre ou ourina. Este remedio é approvado, +assim o tenho experimentado e sempre com bom resultado. + + + + +Segredo 4.º + + +Para tirar as dores de cabeça + +Se alguns dos meus leitores tiverem dores de cabeça e se em pouco tempo +as quizerem alliviar façam o remedio seguinte: uma cabeça de alhos, +tirar as cascas aos dentes, botal-os em um almofariz e moêl-os bem +moídos, pegar em um bocadinho de massa e esfregar a testa e fontes bem +esfregadas que, depois, em pouco tempo passará a dita dôr. + +Se no fim da esfregação o paciente se poder deitar melhor será que +depois de se levantar nada ha de sentir. + + + + +Segredo 5.º + + +Para quem quizer beber o vinho simples sem agua + +Para tirar a agua do vinho, se fará uma vazilha de pau de hera, lançando +o vinho n'ella; se tiver agua, todo o vinho se irá coando, e ficará só a +agua na mesma vazilha; e se não tiver agua ficará a vazilha escorrida de +todo o vinho. + + + + +Segredo 6.º + + +Para que uma pessoa indo pela rua em noute escura leve luz adiante +de si que allumie toda a rua sem se conhecer que qualidade de luz é + +Quebre-se uma noz em duas, de modo que fiquem os miolos inteiros; estes +mettidos sem os quebrar na ponta de uma verga de arame, que tenha uma +vara que seja grossa, pondo o lume no miolo das nozes, tendo a outra +ponta de arame na mão, farão tanto lume como uma tocha, sem se vêr mais +que o mesmo lume. + + + + +Segredo 7.º + + +Para fazer que a comida pareça estar cheia de bichos + +Secretamente partiremos duas cordas de viola uma grossa outra delgada em +bocadinhos, se fôr assado sendo gallinha se lhe metterão pela abertura; +sendo outra cousa se lhe dará um golpe em que se lhe mettem; sendo +cozido se botarão na panella ao tirar do lume e assim virão pegados na +carne com a quentura que em si levam, e com a fresquidão do ar que lhes +dá se encolherão e estenderão como bichos, e quem estiver comendo fica +enganado. + + + + +Segredo 8.º + + +Para aquelles que caminham não sentirem a calma, nem o cansaço do +caminho + +Saindo eu de Alcoy para S. Thiago, á porta de uma aldeia, encontrei tres +peregrinos, com os quaes acompanhei até ao meu destino, e segundo o que +n'elles observei deviam ser virtuosos, e aos mesmos vi que levavam +pendurado no cinto, um pequeno raminho de bella-luz. Perguntei-lhe o que +aquillo representava, e tive de resposta: Pois vós ainda não sabeis o +segredo? Tiraram do seio cada um sua mancheia de artemija, dizendo-me +que com aquillo pouco se sentia a calma e o cansaço do caminho. D'ahi +por diante me aproveitei d'isso e achei ser verdade, o segredo que me +ensinaram. + + + + +Segredo 9.º + + +Para não criar pulgas e para evitar persevejos + +Tomem quatro folhas de herva santa, um ramo de arreçã com flor, outro de +herva sedagoza partes iguaes frigam-se em azeite simples, misture-se +tres onças de cêra amarella, untando tres dias successivos não sómente +os mata, mas tambem a pessoa que com isto se untar nunca mais os criará. +E para evitar pulgas bote-se pela casa mentastros e folhas de amieiro, +estas hervas tem virtude para as matar e não criarem outras. E +qualquer d'ellas fará o mesmo effeito, botando com abundancia pela casa. + + + + +Segredo 10.º + + +Para fazer letras nas costas da mão com cinza de papel + +Se quizerem fazer com que os assistentes, fiquem admirados sem saberem +de que modo veio essa letra, secretamente, com a propria ourina e a +ponta de um pausinho, escrevem as letras que quizerem que appareçam, e +depois se deixará seccar, e se mostra a quem quizer vêr a mão limpa; +queimem um papel tendo escripto as mesmas letras (isto com tinta, preta) +que se escreveram na mão, e com o mesmo papel queimado, se esfregará a +parte onde se fizeram as letras com a ourina, que conforme foram feitas +assim saírão pintadas de preto, por isso quem não souber o segredo se +admirará. + + + + +Segredo 11.º + + +Para crianças que teem lombrigas e tosse + +Provavel remedio para quem tem crianças com essa doença. Se fôr tosse +lancem-lhe uma esponja ao pescoço, que logo lhes abrandará. E se forem +lombrigas, botem uma pequena mancheia de farinha centeia, em uma +pouca de agua, que fique tingida como sôro de leite, assim dada a beber +em jejum, todas as manhãs, mata as lombrigas. + + + + +Segredo 12.º + + + + +Segredo para os cabellos nunca cahirem e conservarem-se pretos + +Tomarão folhas de azinheiro, e cascas de pepino sêccas, depois de +misturado em partes iguaes, bem pizado e espremido, botar-se-ha o sumo +em meio quartilho de agua-ardente camphorada, e bem mechida, se porá ao +orvalho da noute, por espaço de 8 dias. Com esta mistura lavarão a +cabeça pelo menos de tres em tres annos, que o cabello não cahirá. + + + + +Segredo 13.º + + + + +Segredo para quando forem tirar o mel das colmeias não serem +mordidos pelas abelhas + +Tomem o malvaisco, e untem bem as mãos e rosto com o sumo d'esta planta, +depois untem-se com azeite que tenha servido já nas candeias, com que se +allumiam, que indo bem untado podem fazer o serviço sem receio, que +ellas não farão mal algum. E se por acaso te picar alguma vespa, +unta bem a parte com azeite liquido, que brevemente está são. + + + + +Segredo 14.º + + +Para evitar formigas, mosquitos e persevejos + +Aquella parte onde quizermos que não entrem n'ella formigas, cercaremos +com um risco de carvão grosso, ou com cinza, ou com salmoura, ou com sal +molhado, que não passarão este limite para dentro. E se pozerem estas +cousas todas misturadas melhor será. + +E para mosquitos não virem de noute á cama dependurarão á cabeceira uns +poucos de pregos, que não chegarão alli. E para persevejos, tome-se uma +pouca de palha estrangeira, cozida n'um tacho, e botem-lhe uma quarta de +pedra hume, e em fervendo tudo depois da agua estar fria lavem a barra +da cama; ou a qualidade que lhe pertença com a dita agua. Na cama, ou +casa onde se criarem persevejos, tomando um pimento em um fogareiro que +se queime, posto debaixo da cama todos os persevejos que houver onde +chegar o fumo do brazeiro morrerão. + + + + +Segredo 15.º + + +Para se conhecer a sarna e o meio de a curar + +Para se conhecer a doença da sarna, basta vêr entre os dedos das mãos +umas bolhinhas, que estão quasi constantemente em comichões; mas com +este segredo, cura-se facilmente, dentro em pouco tempo: basta deitar +sobre a parte doente, umas pingas de oleo de petroleo. Mas não se deve +esfregar. + +Deixe-se o oleo na parte durante uma hora. Continua-se no dia seguinte e +mesmo nos outros emquanto não sarar. Este remedio que está ao alcance de +todos, é muito approvado, e seu emprego tem sido adoptado em immensos +casos. + +Um outro consiste em lavar com licor concentrado de alcatrão, por que +produz muito bom effeito. + + + + +Segredo 16.º + + +Para os que costumam enjoar + +Um verdadeiro serviço, que com este segredo presto aos viajantes, +principalmente aos embarcadiços. Dou-lhes a saber este segredo que de +tanto lhe póde servir: logo que o mal se começa a sentir, e quando a +cabeça anda á roda e o estomago enfraquecido deve-se tomar 2 até 5 +perolas de chloroformio, que o mal desapparece logo. E não havendo +as ditas perolas, tomarão perolas de ether, que fazem o mesmo effeito. +Tanto umas, como as outras vendem-se em quasi todas as pharmacias, e o +viajante se munirá d'ellas antes de embarcar, porque o enjôo é um mal +que causa sempre bem á creatura que vae no mar. + + + + +Segredo 17.º + + +Para curar os catarrhos que nos costumam apoquentar + +Tenho observado já muitas vezes que este segredo dá sempre bom +resultado, n'esta doença tão massadora, e custosa de soffrer. Para essa +cura tomem: essencia de therebentina, que dá bom resultado; com um gosto +detestavel é impossivel o poder tomal-a pura, ou em mistura. Mas tomae +em fórma de perolas. As perolas de therebentina tomam-se de 6 até 12 na +occasião das comidas. Dentro em pouco tempo, os catarrhos, mesmo os +antigos, melhoram-se e curam-se. Por muito que explique, nunca são +muitas as explicações, dignas do elogio d'este segredo. + + + + +Segredo 18.º + + +Para os enganos que ha em pezos e medidas + +Antes de outra cousa se note, que o gado vaccum quanto mais está depois +de morto mais peza, pelo contrario o gado miudo, assim tambem para +dar o seu a seu dono assim no pezo da carne, como de outro qualquer +hade-se pôr primeiro o pezo, depois a carne, ou o que fôr, por que se a +carne se põe em a mesma parte, requer muita força de pezo para outra +parte para se endireitar. + +E assim tambem nas medidas de vara, ou covado para se medir seda, ou +linho, ou panno de côr, se ha de medir sobre a meza, ou caixa, não nas +mãos, porque estira, e se faz mais copia de varas, ou covados, do que são. + +Quanto á medida do vinho, ou azeite que se mede em armazens e lojas +baixas leva mais que nas altas, a razão é por que toda a cousa se +pretende igualar, com o globo da terra, assim nas partes baixas faz o +azeite, ou vinho, cobril-o para cima, nas altas não; tanto é assim, que +para prova d'isto ponham um vaso que leve meia canada, ou mais sobre uma +meza, este cheio de vinho ou agua, ou azeite, da meza posto no chão, lhe +podem botar um vintém em moedas, moeda mansamente, todas levará sem +derramar gotta pelo motivo que temos dito. + + + + +Segredo 19.º + + +Remedio para persevejos, piolhos e pulgas + +Para persevejos, tomem-se umas poucas de brazas em um têsto, bota-se-lhe +dois ou trez pimentos vermelhos; posto o têsto no meio da casa onde +os houver, ou morrerão ou se ausentarão. + +Para piolhos, basta o summo da erva santa, untar com ellas trez noutes a +parte onde se elles criarem, que desapparecerão. + +E para pulgas, na casa onde andarem se botará uma pouca de hortelã pela +casa, logo morrerão ou se ausentarão. + + + + +Segredo 20.º + + +Como se devem curtir as azeitonas de conserva para durarem + +Devem ser as azeitonas mais sobre o verde, que sobre o maduro, é preciso +serem colhidas á mão da oliveira, nem varejadas, nem encorrilhadas, +deitadas na vasilha, se lhe botará agua simples, de modo que fiquem +todas cobertas; aos tres dias tira-se-lhe essa agua e deita-se-lhe +outra; assim continuando todos os tres dias na outra agua, se lhe botará +pouco sal, ouregãos, cascas de limão sem amargo algum, porque o amargo +corrompe; ao tirar d'ellas será com colher, não com a mão, e assim se +sustentarão por largo tempo. + + + + +Segredo 21.º + + +De varias qualidades que ha no ovo + +A primeira propriedade que tem, é ser a gema fresca e substancial, a +clara cálida, e reimosa; cura humores viscosos. + +O ovo é neutral, porque se o comer uma pessoa estando colerica e +agastada converte-se-lhe em outra tanta cólera; se a pessoa está alegre, +converte-se em outra tanta alegria; e tanto é assim, que escreve um +auctor grave, que se um furioso continuar dois mezes pela manhã, e á +noite, comendo duas gemas de ovos crus, tornará ao seu juizo; a razão é +porque o furioso é tão contente de si que imagina que tudo é seu. + +Para mais, o ovo que é cozido, de modo que fique duro ou forte, é +cálido; em cru é frio, tão frio, que bebendo-o pela manhã, no verão, vai +contra a calma, e contra a enfermidade do figado. + + + + +Segredo 22.º + + +Para fazer com que a agua do mar não seja salgada e poder beber-se + +Tenho observado que para fazer a agua do mar dôce, a pontos de se poder +beber, farão uma vasilha de cêra branca bem tapada, e a metterão no mar, +que fique toda coberta, e a que fôr entrando para dentro da vasilha, +perde o sal e fica dôce, e o mesmo acontece se metterem uma vasilha nova +de barro, mas que tenha a boca bem tapada; com a mesma será, porque a +agua tanto dá que de pouco em pouco, lá vae entrando para a vasilha até +estar cheia. + + + + +Segredo 23.º + + +Para em pouco tempo se curar a diarrhea e dysentheria + +Contra esta terrivel doença, tenho um segredo que vou dizer aos meus +leitores: ás pessoas que depois de serem apoquentadas por este mal, +fazem remedios que de nada valem, por isso, se quizerem vêr esse mal +fóra do corpo, existe um meio de o fazer que é approvado: é o carvão do +doutor Belloc; tomar cada dia de tres a seis colheres de sôpa d'este +carvão, que em pouco tempo estarão livres do mal que os apoquentava. + +Ao principio, parece impossivel que o carvão possa curar a diarrhea, mas +por muitos está experimentado, e sempre com bom effeito, por isso vos +recommendo este segredo. + + + + +Segredo 24.º + + +De nossos concebimentos, da causa e porque os nascidos do oitavo +mez não vivem + +O primeiro planeta chamado Saturno, é de sua natureza frio, secco, +melancolico, terreno; por isso os Astronomos o chamam _infortuna maior_, +porque a qualidade frio, e sêcco, é contraria á criação de todas as +cousas, supposto que seja por esta razão inimigo da natureza humana +emquanto terreno; acharam os philosophos o primeiro mez de nossos +concebimentos ser do dominio de Saturno, o qual não prejudica o geral, +porque ainda a materia não tem vida a qual, nos possa empecer. + +O segundo mez é dedicado a Jupiter, o qual por ser de compleição +sanguinea e cria quente e humido, o qual sendo bom, e que convém á +creacão das cousas, chamaram-lhe os Astronomos _fortuna maior_; assim em +seu mez a materia se une, incorpora, e orna de espiritos vitaes. + +O terceiro mez é dedicado a Marte, que é de compleição colerica, quente, +e sêcco; porque como a quentura é conveniente á creação das cousas, e +por outra parte a seccura a impedia, chamaram-lhe os Astronomos +_infortuna_; assim no terceiro mez a mãe sempre padece achaques porque a +creatura os padece. + +O quarto mez é dedicado ao Sol, que supposto que seja cálido, e sêcco, +comtudo é _luminaria maior_; emquanto luminaria, cria, augmenta e +corrobora. + +O quinto mez é dedicado a Venus, que supposto seja de per si humida, +fleumatica, e fria, tem de certa participação de quentura, com a qual +favorece a humidade; por isso os Astronomos a chamaram _fortuna menor_; +porque ainda que não seja tão favoravel como Jupiter, é comtudo +ajudadoura da creação de todas as cousas, por isso em seu mez, a mãe e a +creança estão livres de achaques. + +O sexto mez é dedicado a Mercurio, que é planeta natural, participante +de todas as compleições, pelo qual em seu mez supposto que a creatura +está perfeita, capaz de vida, comtudo se n'este mez nascer, morrerá +logo, porque como Mercurio seja neutral acommoda-se ao primeiro +principio que é Saturno assim--_mata_. + +O septimo mez é dedicado á Lua, que supposto que seja planeta frio, +humido, fleumatico, e aquatico, comtudo emquanto _luminaria_ é +conveniente á creação de todas as cousas, assim vemos que os nascidos de +sete mezes vivem. + +O oitavo mez torna a dominar Saturno o qual como temos dito é contrario +á natureza humana; assim não temos visto até hoje que o nascido, até ao +oitavo mez resista. + +Ao nono mez torna a entrar Jupiter, o qual como temos dito é bom +planeta, em geral todos os que nascem n'este mez vivem. + + + + +Segredo 25.º + + +Para sabermos dos meninos pequenos, a estatura que virão a ter +depois de grandes + +O Sol divide os outros seis planetas em duas partes: tres acima, tres +abaixo; os tres de cima chamam-se _tardos_, por serem mais vagarosos em +seu movimento, assim tambem são chamados _masculinos_. Os tres de baixo +são chamados _femeninos velozes_, porque em seu movimento são mais +ligeiros, supposto que Mercurio, que está abaixo por ser masculino, +planeta natural e applicar-se com quem se acha, por ficar entre a Lua, e +Venus que são planetas femeninos, se conte tambem femenino como elles; +assim pois a Lua, Mercurio, Venus, que estão abaixo do Sol, por serem +_velozes_, representam os tres annos primeiros de nossa vida, tambem +Marte, Jupiter e Saturno, por serem _masculinos-tardos_, e estarem acima +do Sol, representam o resto da nossa vida, pelo que quem quizer saber a +estatura, que qualquer creança virá a ter depois de grande, na edade de +tres annos perfeitos, tomem-lhe a medida com uma fita estando a creança +com o corpo direito, o comprimento da fita que tiver da ponta da cabeça, +até aos pés dobra-se, o que se achar, que faz a dita fita dobrada, será +a estatura que a tal creança virá a ter depois de grande. + + + + +Segredo 26.º + + +Para deitar fogo a uma pouca de estopa e não se queimar + +Peguem na estopa, deitem-lhe um pouco de espirito de vinho, e ao mesmo +tempo deitem-lhe o fogo, que começa a arder e acabando-se o espirito se +apagará, e a estopa ficará sem se queimar. Mas devem ter cautella antes +do espirito arder todo, por causa de se não inflammar á estopa, que é +mais verdadeiro. + + + + +Segredo 27.º + + +Para fazer estalar por baixo--divertimento de travessos + +Tomarão folhas de espirradeira, cascas de castanhas, tudo muito queimado +e desfeito em pó lhe juntarão pimentos que estivessem de calda de +vinagre, isto tudo em vinho branco: quem o beber não poderá estar +calado. + + + + +Segredo 28.º + + +Tambem de entertenimento e travessura + +Se os leitores se quizerem rir e entreter, os que estiverem presentes +farão o segredo seguinte: Agarrarão um rato vivo, e secretamente (para +ninguem lhes vêr) deitarão agua-raz sobre o lombo e por todo esse bixo +menos nas pernas e cabeça; depois apparecerão diante de quem quizerem e +pondo o rato no chão agarrado pelo rabo, se lhe lançará o fogo com um +lume e o deixarão que começará a correr todo cheio de lume, e quem não +souber este segredo se admirará por vêr uma pouca de lavareda a fugir de +umas partes para outras. + +Depois de a agua-raz se gastar, acabará tambem a vida do rato. + + + + +Segredo 29.º + + +Como se póde conhecer as enfermidades pelas ourinas + +Todos os que na medicina tem escripto, fazem mais duvida em saber +conhecer doenças, do que em applicar os remedios, e a razão é que mal se +póde applicar medicamento salutiphero á doença que não é conhecida. É +porque nem todos os medicos, sabem este grande fundamento. Dos mesmos +authores de Villa-Nova tiramos a receita seguinte, que é tão boa +como n'ella se verá, a qual é a seguinte: + +A ourina de côr rosada demonstra saude, estado do corpo são, e boa +digestão. + +Se a ourina fôr menos rosada, supposto que demonstre saude, com tudo +isto não é tão perfeito como se propriamente fôra rosada. + +A ourina de côr de cidra, quando o circulo d'ella é da mesma côr, é boa. +Tambem o é, ainda que não seja de todo côr de cidra. + +A ourina de côr vermelha significa febre simples que dura 24 horas; +salvo se o doente cuja tal ourina fôr ourinar a miudo que é signal de +febre continuada. + +A ourina acêsa de côr de sangue demonstra sangue sobejo; logo é bom +sangrar-se, salvo se estiver a lua em signo _Feminis_, que domina nos +braços, pois será prejudicial a sangria. + +A ourina de côr verde quando sahe depois de vermelha, demonstra +inflammação; é perigosa e quasi mortal. + +A ourina de côr vermelha escura demonstra declinação na doença. + +A ourina vermelha misturada com algum pouco de negro, demonstra +esfalfamento e outros vicios do figado. + +A ourina de côr amarella, demonstra fraqueza do estomago, impedimento de +segunda indigestão. + +A ourina branca de côr da agua da fonte, demonstra aos sãos, ter humores +crus; nas febres agudas é signal de morte. + +A ourina côr de leite com a substancia espessa, se fôr de mulher não é +tão perigosa como a do homem pela indisposição da madre. E se acontecer +em febres agudas é signal de morte. + +A ourina de côr de leite, escura em cima e clara debaixo da região do +meio, demonstra hydropesia. + +A ourina no hydropico, rosada, ou meio rosada, é signal de morte. + +A ourina de côr azulada demonstra multidão de humores corruptos no +fleugmatico e hydropico. + +A ourina negra póde acontecer algumas vezes que a natureza é gastada ao +doente, o calor natural n'este caso é mortal, em outra maneira póde +acontecer expulsão de materia venenosa que sahe pelas veias ourinaes. + +A ourina que traz luz como lanterna, denota indisposição no baço, boa +disposição no que tiver quartans. + +A ourina côr de açafrão, quando está espessa, meia negra, que tem mau +cheiro e alguma espuma, demonstra etericia. + +A ourina rosada, ou meio rosada, que na região inferior traz umas +resoluções redondas, brancas em cima, e um tanto grossas, é signal de +febre hectica. + +A ourina clara no fundo do ourinol até ao meio d'ella, e a de cima mais +espessa, demonstra dôr e inchação nos peitos. + +A ourina escumosa clara, quasi meio vermelha, demonstra maior dôr da +parte direita, do que da esquerda. Porém se a ourina fôr escumosa +branca, demonstra maior dôr na parte esquerda que na direita. + +Se o circulo da ourina não bolindo com ella, parecer que bole de si +mesmo, demonstra decurso de fleugma, n'outros humores da cabeça pelo +pescoço, n'outros nos membros. + +A ourina delgada, amarella-clara, demonstra humor fleugmatico e grosso. + +A ourina espessa de côr de chumbo, negra da região do meio, demonstra +paralysia. + +A ourina espessa de côr de leite, pouca em quantidade, grossas com +algumas espumas na parte inferior do ourinol demonstra dôr de pedra, se +fôr sem espumas espessas de côr de leite podre demonstra ventosidade. + +A ourina espessa de côr de leite, em muita quantidade, demonstra gota +nas partes inferiores. + +A ourina amarella na parte inferior, demonstra nos homens dôr de rins, e +nas mulheres dôr de madre. + +Na ourina em que apparecerem alguns pedaços de leite, se fôr pouco +turbada, demonstra rotura de veia junto aos rins da bexiga. + +A ourina que no fundo do ourinol mostra sangue podre, demonstra podridão +dos rins e bexiga; se juntamente toda a ourina estiver tal, demonstra +podridão de todo o corpo. + +A ourina onde se veem pedaços estreitos-compridos, demonstra desolamento +de bexiga. + +A ourina que sae de vagar, cheia de argueiros como faz o sol, demonstra +pedra nos rins. + +A ourina branca sem febre, demonstra nos homens dôr de rins, nas +mulheres estarem prenhas. + +A ourina de mulher prenha de um mez até trez deve ser mui clara, branca; +se fôr de quatro mezes ha de ser parda, branca e grossa no fundo. + +A ourina espumosa nas mulheres demonstra ventosidade no estomago, ardor +no ventre até á garganta. + +E devem entender que as significações das aguas, são mais válidas +tomadas, vistas logo, do que depois que arrefecem, porque mudam a +substancia, mórmente no tempo do inverno, que com o frio se colham. + + + + +Segredo 30.º + + +Das virtudes e effeitos da genebra + +A genebra tem muitas virtudes, mas especialmente para quem se costuma a +agoniar do estomago, e nas indigestões. Logo que qualquer pessoa se ache +incommodada com qualquer d'estas doenças, tomem meio quarteirão de +genebra, mas para melhor effeito será da hollandeza, porque é mais +approvada, e com isso logo ficarão livres d'essa afflicção, porque além +de vos parecer que não tiram resultado, vos affianço que é engano; +porque eu que vos descubro este segredo, em diversas occasiões tenho +feito uso d'essa bebida e sempre com bom resultado, segredo este que +nunca me esquecerá porque me tem valido á minha vida, e as suas +virtudes, para todos são proveitosas, por isso todos os elogios são +poucos para remedio tão efficaz. + + + + +Segredo 31.º + + +Os effeitos do alecrim da India + +Estou informado de um segredo muito prestavel, para quem padece dôres de +cabeça que é remedio que dou por approvado e muito economico. + +Em um testo botarão umas poucas de brasas acezas, e depois pegarão em +umas poucas de folhas de alecrim da India, e botarão as folhas em +cima das brasas; depois de ellas botarem bastante fumo lhes deitarão uma +onça de assucar; põe-se a cabeça do paciente a tomar aquelle fumo, isto +é dous palmos acima das brasas para evitar da muita quentura, que +fazendo isto oito noutes ao deitar da cama, se acharão melhor, porque +assim como eu fiz e achei bom resultado, tambem me parece que o meu +semelhante que padecer da mesma doença tambem o achará se isto fizer +como explico. + + + + +Segredo 32.º + + +Para que o vinho estragado torne ao seu ser + +Pegarão em uma duzia de laranjas maduras, darão em cada uma tres ou +quatro golpes como quem retalha azeitonas, assim as botarão pelo batoque +da pipa, botal-as-hão em pedaços, e d'ahi por oito dias botarão uma +canada d'agua-ardente fina, e depois d'isto feito em passando 15 dias +vão proval-o que estará bom vinho; mas advirto que a pipa deverá estar +em sitio fresco, porque os vinhos para se conservarem não querem lugares +abafados. + + + + +Segredo 33.º + + +Para tirar o mau cheiro ás vasilhas de madeira e dar cheiro ao +vinho que n'ellas botarem + +Tira-se um tampo á vasilha e mette-se dentro um testo cheio de brasas e +depois bota-se-lhe nas brasas um vintem de cravo da India, dez reis de +canella e um bocado de pês, abafa-se a vasilha com o tampo para que este +fumo se entranhe na madeira, e sair-lhe-ha o mau cheiro, e a vasilha +ficará cheirando sempre bem. + +E para que o vinho que se recolher n'estas vasilhas seja bom de cheiro, +ao tempo que quizerem recolher o vinho coserão uma pouca de palha de +cevada em uma caldeira de agoa, e assim fervendo se bota sómente a agoa +na vasilha, enxuga-se-lhe, tapa-se com o batoque para que tome esse +soadouro, que depois o vinho que n'essa vasilha se recolher terá bom +cheiro. + + + + +Segredo 34.º + + +Para fazer o vinagre forte + +Faz-se um molhinho de ortelã, que peze uma quarta, atado com um cordel +mette-se pela boca da pipa que tiver o vinagre de modo que a ortelã +fique mettida dentro no vinagre ficando o cordel de fóra, e d'ahi a +sete ou oito dias tirem-lhe a ortelã e ficará o vinagre fortissimo. + +Se ainda não tiver a fortaleza que queriam, tornarão a fazer igual +operação, que ao fim dos segundos oito dias estará mais forte. + + + + +Segredo 35.º + + +Para fazer vellas de sebo que não cheirem a elle + +Para as vellas de sebo não cheirarem a elle e parecerem de cêra e que +durem mais, ao fazel-as se terá uma pouca de cal virgem bem peneirada, +cada camada de sebo que se botar na fôrma se lhe botará duas mãos ou um +punhado de cal accesa por toda a forma; as vellas que assim se fizerem +parecerão de cêra, sem terem cheiro de sebo, e durarão muito mais porque +a cal tem a virtude de lhe dar a côr como a de cêra, e conservar o sebo +a arder sem se desfazer tão facilmente. + + + + +Segredo 36.º + + +Para o vinho não fazer mal ao homem + +Este segredo vos vou descobrir, mas será bom que vos não seja preciso, +porque o entendimento da creatura bastará para o evitar. Porém se +acontecer essa bebida a fazer-vos mal á cabeça será bom comer os boxes +assados de uma ovelha, antes de comerem mais cousa alguma. Se quizerem +antes de beber o vinho que elle lhe não faça mal comerão berças com +vinagre, que assim não lhe fará mal, mas eu entendo que será bom não +seja preciso estas cousas; e quando se beber o vinho não se bebe +demasiado, para não arruinar a saude, um dos bens que o vivente tem +n'esta vida. Se ha quem diga que bebem vinho porque não podem deixar de +o fazer, porque é um vicio, ahi vae um segredo tambem para perder esse +vicio: Metam duas enguias vivas dentro de uma canada de vinho, e tapem a +vasilha e quando estiverem mortas tirem-as, e os que costumam tomar-se +da pinga bebam d'este vinho que depois o aborrecerão completamente. +Tambem serve para este effeito a bretonica feita em pó e bebida em vinho. + + + + +Segredo 37.º + + +Para que um cavallo pareça manco sendo são + +Secretamente arrancar-lhe-hão uma seda do rabo dobrada atal-a-hão entre +o casco e os cabellos aonde chamam os machinhos, ficando mettida entre a +seda e os machinhos um grão ou dous de cevada estando bem apertada, +farão andar o cavallo que elle irá a mancar de um pé ou de uma mão, +porque o grão de cevada causa-lhe incommodo nas juntas das pernas e o +animal mancará porque o não póde deixar de fazer. Depois d'este +segredo assim feito, tirarão o grão da cevada que o cavallo tem, que +ficará andando direito e causará admiração a quem o viu manco e em pouco +tempo andar são. + + + + +Segredo 38.º + + +Para refinar a polvora + +Muitos costumam refinar a polvora com limão e outras cousas, mas em vez +de a refinar quasi que a estragam; porque a prova d'isto, tenho visto +fazer uso de polvora ordinaria; o melhor segredo para a refinar é, tanto +de verão como de inverno, borrifal-a com agua-ardente muito fina, +secando-a depois, que este espirito dá-lhe toda a força precisa para que +ella produza bom effeito. Sei isto por a experimentar e tirar bom +resultado. + + + + +Segredo 39.º + + +Para quando uma mulher parir se conhecer se o parto seguinte, se o +houver, é macho ou femea + +Quando uma mulher parir, se quizerem saber o que a mesma mulher parirá +no parto seguinte, pela criança que teve o podem conhecer; nada mais é +preciso do que vêr a corôa do nascido; se o redemoinho que trazemos +de cabellos estiver bem no meio da cabeça, sendo um só redemoinho o +parto que se seguir será macho, e sendo dous os redemoinhos, ou sendo um +só e declinar para qualquer dos lados, o parto que se seguir será femea. + + + + +Segredo 40.º + + +Para se saber das virtudes da ortemija + +A ortemija é uma herva, que quem fizer um molhinho d'ella e a trouxer ao +pescoço, junto ao coração, terá mais animo e maiores forças. E esta +herva, moída e bem desfeita, deitada em um pouco de vinho e bebida, para +a pessoa que estiver cançada dá-lhe logo muito mais forças por ser uma +bebida muito mais substancial; qualquer caminhante que fizer uma jornada +a levará tambem comsigo porque tem a virtude de se não cançar tanto e +andar mais caminho, que essa virtude é um dos astros que a concede a +esta herva, assim como tambem serve para espantar as moscas de qualquer +casa, se a cozerem com leite de cabras, e depois de bem cozida untarão +as paredes com esse leite, que ellas por causa do cheiro fugirão. + + + + +Segredo 41.º + + +Da monstruosidade da natureza + +A monstruosidade da natureza é de duas maneiras: uma d'ellas é aquella +que se deixa logo vêr em nascendo a creatura, e a outra a que se +descobre por tempo. A que se deixa logo vêr, é quando a creatura vem com +mais ou menos abundancia de membros dos ordinarios, ou trazendo dos +ordinarios, é algum d'elles semelhante ao de algum animal irracional; +aquelles que trazem mais ou menos membros, de ordinario póde acontecer +pela geração ser feita no bicorporeo, como são Geminis, Virgo, +Sagitario, Piscis, assim tambem aos faltos de membros póde acontecer, +por falta de materia, ou pelos signos moveis estarem infortunados, os +quaes são: Aries, Cancer, Libra, Capricornio; os que trazem de algum +animal tambem póde ser de duas maneiras ou de ajuntamento com o mesmo, +ou no tempo do concebimento concorrer a mãe com o pensamento em algum +animal. + +Da monstruosidade que a natureza descobre com o tempo, se ha-de entender +d'aquelles que são demasiadamente grandes do corpo, ou demasiadamente +pequenos, fóra da proporção que adiante se dirá, ou tendo grande corpo +tem disforme a cabeça de pequena, ou sendo pequeno tem a cabeça +demasiadamente grande, ou sendo demasiadamente grande do corpo, +demasiadamente pequeno com demasiada grossura, porque d'estas +montruosidades se póde conhecer a differença que ha dos compostos em +proporção perfeita; da natureza temos a seguinte: + +Tres cousas ha por onde isto se conhece; a primeira é, que a verdadeira +proporção do homem tem na estatura sete palmos e meio de vicio da +natureza, o mais que se dá são sete palmos a maior, o menor seis palmos, +que a estatura do maior de nove palmos, e o menor de seis se tem por +monstruosidade. + +A segunda cousa por onde se conhece a verdadeira proporção é, que posto +um compasso com uma ponta entre as sobrancelhas e outra na ponta do +nariz tornando o compasso para baixo chegará á superficie da testa na +raiz do cabello, com o mesmo compasso sem mais fechar nem abrir, posta +uma ponta no nariz por baixo das sobrancelhas tornando-o a uma e outra +parte chegará aos lagrimaes dos olhos de cada um d'elles, dando volta +chegará a orelha, advertindo que os dous compassos dos lagrimaes ás +orelhas, da ponta do nariz á ponta da barba, estes tres são eguaes, mas +são maiores do que os outros de que temos tratado, que é de entre as +sobrancelhas á raiz do cabello, á ponta do nariz d'estes ha-de haver em +todo o corpo desde a raiz do cabello até aos pés vinte e sete compassos +dando ao rosto tres, e ao demais corpo vinte e quatro; esta é a regra +que guardam os imaginarios que é dar a um corpo quantidade de nove +rostos, contando inclusivè o mesmo. + +A terceira é: que em ausencia da mesma pessoa se lhe possa fazer todo o +genero de vestidos, calçado, tão justo como se estivesse presente, o +qual se fará d'esta maneira: vêr-se-ha uma luva, que a pessoa calce +justa com uma fita se tomará a grossura do dedo polegar pela raiz do +dito dedo, a qual medida dobrada fará o bocal da manga do casaco ou +roupa, a medida do bocal da manga será dobrada, a medida do cabeção +dobrado, faz a medida da cintura; a da cintura dobrada em tres +terços, um terço até ao comprimento de um quarto do casaco, o outro +terço com uma mão atravessada da mesma luva, faz o comprimento da manga; +o mesmo terço com a mesma mão atravez, faz o comprimento da calça, o +ultimo terço faz todo o comprimento da bota, cujo pé será de um palmo da +mesma luva, juntando-lhe mais o que houver do dito dedo polegar da luva, +da junta do meio até á extremidade, isto do pé; dois terços dos ditos +pés fazem capa até ao joelho, os mesmos dois terços, sendo mulher lhe +faz a casaquinha e os tres terços lhe fazem a saia, os mesmos tres +terços com mais tres palmos de luva lhe fazem manto e casaquinha, manga +e corpinho, e o mesmo que acima temos dito. A pessoa que com estas +medidas lhe fizerem a roupa que venha conforme e justo, poderá dizer que +é conforme a proporção da natureza, sem que falte cousa alguma, sendo a +proporção de sua estatura o que temos dito; resta pois que suas obras +sejam taes, quaes convem para ser mais perfeito. Os que carecem d'esta +composição lhes convem fazerem taes obras, que com a perfeição d'ellas +fique satisfeito, á proporção do corpo. + + + + +Segredo 42.º + + +Bons effeitos do alecrim + +O alecrim tem uma natureza que é quente, secco e cheiroso, e por isso +fortalece todas as partes e membros de dentro e de fóra do corpo, alegra +e fortalece os sentidos, consome as humidades, frialdades, e todos +os males contagiosos. + +O alecrim não consente melancholias, tremores nem desmaios no coração, +cujas raizes, ramos, cascas e flores d'essa excellente herva tem todas +as virtudes, as quaes diremos com ajuda de Nosso Senhor Jesus Christo e +proveito da humanidade. + +Os olhinhos mais tenros do alecrim, comidos pela manhã, com pão e sal, +fortalece a cabeça, conserva a vista clara, aguda e forte. + +A flor e folhas da mesma herva feitas em pó e trazida no seio, afugenta +os tres inimigos do corpo, que tanto affligem o coração, que são elles: +as pulgas, piolhos e persevejos. + +Os mesmos pós no seio do lado esquerdo, espantam a melancholia e ao +coração fazem-lhe muita alegria. + +As folhas da mesma herva bem mastigadas e postas sobre uma chaga fresca, +a curam, e fecha maravilhosamente. + +A flor da mesma, comida pela manhã com mel da mesma flor e um bocado de +pão quente, faz muito bem á saude: nem deixa gerar sangue podre, nem o +mal da gota; e se alguem tiver mal, essa herva lh'o tirará. + +O alecrim serve para afugentar todo o animal venenoso, e o seu fumo +serve contra todo o mal e pestes. + +Os ramos do mesmo, tambem servem para depois de queimados e feitos em +pó, fortalecer dentes e não lhe deixar criar bicho, nem constipações. + +Toda a mulher que tenha uso de comer a flor do alecrim em jejum com pão +de centeio, não padecerá mal da madre, porque lhe reprime os maus +humores, gasta as humidades, e cura os achaques a todas as pessoas que +assim usarem. + +A flor da mesma herva, mettida em qualquer sitio onde estiver roupa, não +deixa entrar a traça na mesma, e dá-lhe muito bom cheiro. + +Se lavarem o corpo com a agua, devem cozer muito bem o alecrim e se +conservarão com boa saude. + +As casas que são escuras e muito humidas, se as defumarem com alecrim a +miudo, conservar-se-hão enxutas. + +Um segredo para as quebraduras, já experimentado, são as alfarrobas +verdes, pizadas e applicadas sobre as quebraduras, que as curam e soldam. + +Se tiverem dôres nas juntas por causa de algum refriado e as lavarem com +agua onde se cozesse alecrim, lhe tirará a dor. + +No tempo da peste é muito proveitoso queimar alecrim pelas casas e nas +ruas, por que afina o ar e faz fugir a peste. + +Estas virtudes do alecrim, acabarei de ser tão extenso como pede este +bem para a natureza e tudo deixarei dito da maneira seguinte: + +Mel virgem de alecrim serve, tira nevoas dos olhos. + +O summo do alecrim lançado nos ouvidos, tira a dôr. + +O summo do mesmo tomado pelos narizes, tira o mau cheiro e sana todos os +males que dentro d'elles estiver. + +Um segredo provado e experimentado, a agoa do alecrim pôr-se ao sol, +será para os olhos que tem belidas, cataratas, ou que estão ennevoados. +Faz-se esta agua da maneira seguinte: um bom mólho de alecrim verde e +colhido de fresco, põe-se dentro de um ourinol novo de vidro com as +pontas para baixo, não devem chegar ao fundo, tapa-se com um panno de +linho dobrado, e em cima d'este panno põe-se um bocado de fermento +que tome toda a boca do ourinol, e em cima do formento põe-se outro +panno dobrado, e ata-se muito para que não saia bafo algum, põe-se o +ourinol ao sol em tempo de calor 6 até 8 dias e d'alli se fará uma agua +muito importante para os olhos. Quando essa agua estiver prompta, +deve-se lançar em uma vazilha pequena e se terá ao sol e ao sereno +outros tantos dias, que depois a agua que era branca, torna-se amarella +e grossa, na qual se desfará um pouco de assucar de pedra e d'esta agua +se lançarão nos olhos tres pingas, em cada um uma vez pela manhã, outras +ao meio dia, e outra á noute, e por favor de Deus sararão. + +Mulher que tiver pouco leite, não póde criar os filhos com as folhas e +flores de alecrim, que lhe causará abundancia de leite bom, porque +purifica o sangue. + +O summo do alecrim misturado com assucar e tomado de manhã e ao deitar +da cama faz bem ás afflicções do peito, ajuda a digestão e mitiga o +apetite de comer. + +A flor e as folhas em pós servem para a dôr do baço e do figado +tomando-as em vinho e mel. + +As folhas e flores da mesma herva fervidas em vinho tinto e bebido faz +muito bem á dôr de tripas, tira a cobiça e a dezinteria. + +Tambem servem os mesmos pós bebidos no mesmo vinho para quem padecer +defluxo da ourina, por debilitação ou fraqueza, isto é approvado mas +devem ser cozidas as folhas e flores em vinho do mais velho que fôr +encontrado. + +Para quem não tiver apetite de comer, tome pela manhã duas ou tres +colheres de sopa, de vinho fervido com alecrim, que lhe abrirá a vontade +de comer e lhe fará fortaleza no estomago. + +Alguns auctores são de opinião, que a triaga é o remedio da peçonha; +mas o alecrim cozido lhe faz o mesmo effeito. + +Finalmente o alecrim cozido em agua tem todas estas virtudes que se +seguem tomando bastantes banhos d'essa agua, chama-se o banho da vida, +porque tira a dôr das juntas e de todas as mais partes do corpo, é +remedio para a canceira, para a suffocação do coração, dá alento e vigor +á velhice, conserva a mocidade, fortalece os membros e aviva os sentidos. + +Aqui deixo por isso escripto aos meus leitores, em estas poucas linhas +todas as virtudes d'esta planta chamada alecrim, que tão bom proveito +tenho tirado d'ella e estou por certo que quem d'ella fizer uso como eu +o tirará e se conservará limpo, de tantos achaques que affligem o corpo +humano. + + + + +Segredo 43.º + + +Para a azia + +A azia, além de ser uma molestia pouco impertinente quando ataca a +creatura causa-lhe um pouco de desarranjo na garganta, e é o que basta +para nos incommodar, e como não ha quem goste de incommodos, temos um +segredo pelo qual em um instante fiquemos alliviados da garganta, é +segredo economico, barato, pois se algum de vós tiver azia é só pegar em +uma cebolla: tem poder para a fazer sahir. Se houver quem não goste +d'este objecto dou-lhe tambem por approvado: comerão amendoas +amargosas que tambem ficam livres d'esse mal. + +Assim tenho feito sempre e encontrei bom resultado, por isso d'estes +dois segredos o que primeiro me apparece, é d'esse que eu faço uso. + + + + +Segredo 44.º + + +Para os meninos pequenos se criarem, de modo que sejam mais +encorpados e de mais forças + +Muitos homens ficam pequenos de corpo e de poucas forças, porque as mães +e amas lhes tiram os braços de fóra antes do tempo, e assim como são +tenros, bolindo com os braços se relaxam os membros e assim ficam mais +fracos e debilitados, por isso quem quizer criar a criança, de modo que +fique largo das espaduas e com muita força nos braços não lh'os deve +tirar fóra, quero dizer vestidos, senão de trez mezes por diante, assim +ficarão sendo mais corpolentos e forçosos, porque se vão criando com +todas as forças da sua natureza, cujas forças não lhe abrandam tanto, +como se forem criados como acima disse. + + + + +Segredo 45.º + + +Para conhecermos se qualquer homem nasceu de dia, ou de noute, ou +no crepusculo + +A pessoa que tiver as orelhas despegadas da cabeça pela extremidade de +baixo, fazendo as pontas rombas, despegadas ou levantando os olhos +direitamente, se levantar mais o olho esquerdo que o direito, diremos +que nasceu de dia; se as orelhas pela parte debaixo forem ponteagudas +sempre pegadas no casco da cabeça ou levantando os olhos direitamente, e +se levantar mais o direito que o esquerdo, assim diremos que nasceu de +noite. + +Se um d'estes signaes mostrar que nasceu de dia, outro que nasceu de +noute, o tal diremos que nasceu no crepusculo: chamamos crepusculo de +pela manhã tanto que vem rompendo a alva, e dura até que nasce o sol, o +crepusculo da noite conta-se desde que se põe o sol, até que se cerra a +noute. + + + + +Segredo 46.º + + +Da ethmologia dos dedos das mãos + +O dedo mais curto e grosso da mão chama-se polex, de que se deriva +poder, porque sem elle não se póde apertar cousa alguma na mão, que +firme fique, n'este costumam os mercadores trazerem os anneis, dando +a entender o muito que podem valer com seus reales. + +O dedo logo seguido se chama index, que quer dizer amostrador, porque +nos serve de mostrarmos aquillo que queremos; n'este costumam os medicos +trazer os anneis, dando-nos a entender que elles são index, pelos quaes +nossa saude se governa. + +O terceiro dedo se chama médio, ou maior, pelo ser, médio por estar no +meio de todos, n'estes costumam os soldados trazer os anneis, +significando fortaleza e esforço. + +O quarto dedo se chama annular ou dedo do coração, porque elle vem a ter +uma veia que passa pelo coração. Como o ouro é metal agradavel á vista +de todas as pessoas, em geral é costume pôr os anneis n'este dedo para +evitar a melancholia e outras paixões que acodem ao coração. Muitas +pessoas costumam usar de anneis, mais pela tradição antiga, que pela +razão atraz escripta. Quem trouxer n'este dedo um annel com uma pedra de +Jacintho fina, que a toque na carne, não é tão sómente bom para a +melancholia, pois tambem tem outras propriedades boas. + +O quinto dedo se chama minimo ou auricular: minimo, pelo ser, auricular, +porque com elle costumamos limpar as orelhas. N'este dedo costumam +trazer os anneis as pessoas illustres, dando assim a entender quem são, +e não pela valia do ouro. + + + + +Segredo 47.º + + +Da causa das nossas enfermidades, e com a ajuda de Nosso Senhor as +podemos remediar + +As quatro compleições de que fomos formados comnosco, assim como uma +meza com quatro pés, que sendo todos eguaes e direitos, em plano, está +quieta e segura, porém se algum d'elles se levanta ou quebra e é mais +comprido, isto só é bastante para que os outros tres com a meza venham +ao chão, da mesma maneira a cólera, sangue, fleuma, e melancholia, cujas +quatro compleições de que somos compostos estão eguaes conforme á saude +no corpo, porém tanto, que alguma d'ellas se altera ou sobrepuja ás +outras, causa no corpo a doença conforme sua qualidade. Porque da cólera +se causam tabardilhos, frenesis, febres malignas, e outras enfermidades +semelhantes. + +E do sangue se geram dôres de costas, de cabeça, pontadas e outras +semelhantes da fleuma, dôres de tripas, humidades no estomago, dôres de +madre, colicas, apostemas, e outras semelhantes. E da melancholia se +geram tristezas, humores viscosos, tremulos, gota e outros semelhantes. + +E supposto que segundo nossa santa fé aos sonhos não se póde dar +credito, por não terem razão nem fundamento algum, são sómente +phantasmas que se representam no entendimento, estando uma pessoa dormindo. + +Todavia se alguma das quatro compleições se altera do corpo, causa que +os taes phantasmas tenham alguma correspondencia, a qualidade da dita +compleicão, assim sabendo que seja se póde remediar com defensivos, +que á tal compleição alterada applicam. + +Pelo que se a pessoa sonhar com o fogo ou arma e outras cousas que +incitam a cólera, é signal que a cólera predomina, segundo ella se lhe +póde dar remedio. + +E se o sonho fôr de pescarias ou embarcações, cousas que pertençam á +agua predomina a fleuma. + +E se sonhar com prisões, mortes, ou outras cousas que incitem tristezas, +perdomina melancholia conforme a ella se lhe applicará remedio. + + + + +Segredo 48.º + + +Para o fogo não queimar + +Pegarão em 20 reis de alteia e depois de a fazer em pó a botarão com uma +clara de ovo em uma tigela e com essa mistura untarão as mãos ou outra +qualquer parte que quizerem, que depois d'isto feito não se queimarão. + + + + +Segredo 49.º + + +Do tempo que é salutifero cada um dormir segundo a compleição que +tiver + +Temos a notar que as compleições atraz declaradas tem aquelles +effeitos em quanto distinctas, mas pela mistura d'ellas formam outras +quatro compleições, que são as do temperamento, colerica, sanguinea, +fleumatica, melancholica. Da do temperamento não trataremos, porque não +é possivel havel-a, que onde ha temperamento não ha alteração e não póde +haver doença. Assim tambem se ha de notar, que o dormir é parte mui +essencial para o cosimento do estomago: porém convém a cada um para sua +saude tomar o somno conforme a qualidade da sua compleição. Porque os +puramente colericos pela muita quentura que tem, basta-lhes dormir cinco +a seis horas: os colericos sanguineos basta-lhes cinco e meia a seis e +meia; os puramente sanguineos basta-lhes seis a sete; os fleumaticos +bastam-lhe seis e meia a sete; os puramente fleumaticos, bastam-lhe sete +a oito, os fleumaticos melancholicos bastam-lhe sete e meia a oito e +meia; os puramente melancholicos bastam-lhe oito a nove. + +E tudo o que passa d'esta regra é prejudicial á saude, porque tanto se +perde por carta de menos, porque assim como não dormir inquieta o corpo, +o móe e debilita, assim o dormir muito causa gota e outras enfermidades. +Note-se tambem que os colericos, pela muita quentura que teem, lhes é +prejudicial á saude soffrer fome; mais ou menos, comer é melhor. + + + + +Segredo 50.º + + +Para fazer levantar um ovo ao ar deante de gente + +No mez de maio colherão em uma horta uma ambula de orvalho, guarda-se em +parte onde lhe não dê o sol, e quando quizermos fazer o que acima fica +dito, com um alfinete grosso fura-se um ovo e chupando-o pelo mesmo +buraco, o encherão de orvalho, e taparão o dito buraco com um bocadinho +de cêra branca, collocando-se o dito ovo á vista de todos em parte onde +lhe dê o sol, e assim como o ovo fôr aquecendo se irá levantando e +subindo até desapparecer. Quem quizer que este mesmo ovo lhe sirva para +mais vezes, ate-o a um cordel na ponta de uma lança, e que seja o cordel +tão comprido como ella, ficando a lança no chão. Com uma linha atarão o +ovo no cordel, posto ao pé da banca em parte onde lhe dê o sol, e quando +aquecer subirá pela lança acima e assim estará no ar, até o tirarem, +emquanto estiver quente, porque quando o sol d'aquelle sitio fôr +desapparecendo, o ovo vae arrefecendo, e conforme fôr arrefecendo assim +vae cahindo para o chão; por isso lhe devem acudir a tempo para se não +quebrar. + + + + +Segredo 51.º + + +Para queimar um lenço e ficar são + +Secretamente molharemos um lenço em aguardente de cabeça; trazendo-o +diante dos circumstantes mandaremos vir uma candeia acesa e tomando o +lenço por duas pontas para ficar estendido lhe mandaremos deitar fogo, e +como fôr inflammando andaremos com elle ao redor por espaço de um minuto +á vista dos circumstantes e logo o sacudiremos e apertaremos entre as +mãos para que se apague o lume; tornando-o a estender o mostraremos aos +circumstantes tão são como era antes de se lhe botar fogo. + + + + +Segredo 52.º + + +Para que as mulheres sem postura pareçam melhor e tenham melhor +cara com menos custo + +Entre outras cousas que entre nós ha mal feitas são duas, as quaes nos +dão notavel prejuizo á saude: a primeira é quererem os homens mostrar +que calçam pequeno pé, mandando fazer menor sapato, do que pede o +pé, assim continuando vem a ser gotosos; por conseguinte as mulheres que +usam posturas perdem os dentes, mais depressa se arusgam e outras muitas +desgraças se seguem d'aqui. + + + + +Segredo 53.º + + +Para mostrar aos circumstantes um braço atravessado com uma faca +sem prejuizo algum + +Faz-se uma faca de duas metades ligadas uma á outra com uma mola e será +feita de tempera branda, que se alargue e aparte o que a pessoa quizer; +esta mola mettida pelo braço acima por baixo do casaco ou camisa, +apertada a manga junto á faca, e feito isto secretamente sahir aos +circumstantes, mostrar-lh'a, parecerá o braço estar passado pelo collo +da mão. + +Adverte-se que a feitoria da mola d'esta faca é necessario seja de modo +que se aperte e alargue. + + + + +Segredo 54.º + + +Para fazer tinta de qualquer côr com facilidade, e as letras que +estão em papel quasi safadas se acharem a ponto de se lerem + +Deve haver tinteiro separado para cada tinta, para que uma não corrompa +a outra. + +Para fazer tinta vermelha, pizam-se flores de papoula, espremidas, o +sumo que deitarem, coado, posto um pouco ao sol, para que engrosse e não +corra tanto, se faz tinta vermelha bastantemente. + +Para fazer tinta verde, faz-se a mesma operação com os concelleiros que +nascem pelas paredes, e da mesma maneira ficará tinta verde. + +Para a tinta roxa, do mesmo modo se fará da flor do lyrio. + +Para tinta amarella, egualmente se faz com flôr do pampiro. + +E assim para qualquer outra tinta que quizermos fazer, buscaremos a +herva da côr da tinta que quizermos fazer, e do mesmo modo que fica dito +se fará. + +E para fazer que as letras que estão em papel que mal se enxerguem por +estarem gastas pelo tempo se possam lêr, se molhará um panno de baeta em +ourina fresca, levemente se esfregam as letras com elle, que depois se +poderão lêr. + + + + +Segredo 55.º + + +Para tirar nodoas de azeite e pingos de cêra de toda a qualidade +de pannos + +Para tirar nodoas de azeite amassarão um bocado de barro vermelho, que +não fique muito espesso, e da parte do avêsso que quizerem tirar as +nodoas, cubra-se toda a nodoa com este barro, e da parte direita se +ponha sobre a nodoa uma folha de papel alinhavada, de modo que se chegue +o papel ao panno, e posto a enxugar até o barro estar bem secco, logo se +esfrega, e tirando-se-lhe o papel ficará a nodoa fóra. Este remedio é +bom principalmente para panno de côr; é bom lavar em agua de pescada. + +E tambem para tirar a nodoa do panno se cobrirá a nodoa com sabão e por +cima do sabão botar um pouco de sal, pondo ao sol por espaço de um +quarto de hora e lavando a nodoa, logo se tirará. + +Para tirar pingos de cêra, estando em sêda, tosta-se uma fatia de pão +trigo, e assim quente se põe em cima da cera que a attrahirá a si. + +Se fôr em panno de côr, bota-se um testinho no lume, e estando bem +quente se tira, embrulha-se em um papel, esfrega-se com elle no lugar +onde está a cêra, e assim logo sahirá e o panno ficará limpo. + + + + +Segredo 56.º + + +Do modo mais facil de fazer dôce a agua do mar + +Se quizerem fazer uma canada em pouco tempo, de agua do mar para ficar +dôce, tome-se um pote novo, metta-se-lhe dentro uma pedra que peze +quatro ou cinco arrateis, tapa-se-lhe a bocca com uma rolha de cortiça, +bem justa, atando o pote por um cordel, se botará o dito pote no mar, +mansamente, para que a pedra não quebre, e d'ahi a tres ou quatro horas +o tirarão, tirando a rolha ao pote, acharão dentro d'elle uma canada de +agua dôce como a da fonte; a razão por que a pedra se mette é para que o +pote vá ao fundo do mar, para a agua tomar a virtude que se pretende. + + + + +Segredo 57.º + + +Das regiões do ar e da terra + +Como no segredo adiante havemos de tratar das qualidades da agua dôce, +necessariamente é tratarmos primeiro da terra, por cuja razão se faz +dôce, e do ar a que ella sobe. + +Os mathematicos que tenham observado cometas, os quaes se fazem entre a +região do fogo e do ar, acham ter este corpo aereo, trinta e quatro +leguas, dous terços, estes se repartem em tres regiões; a primeira +que é esta que gozamos temperada por razão dos raios do sol que dão na +terra, reverberando para cima aquentam, temperam até duas leguas e meia +para cima, esta região é mais palpavel, porque n'ella andam as aves, e +n'ella respiram todos os animaes terrestres, racionaes e irracionaes. A +segunda região é summamente fria mais pura que a primeira, em tanto que +as aves subindo a ella não se poderão ter nem respirar no principio +d'esta região, estão em deposito as aguas que chovem, que sobem do mar +vapores da terra, aguas sobem, até ao meio da dita região, congelam-se +em neve, e se mais acima forem, congelam-se em pedra, assim como esta +primeira e segunda região occupam para o alto oito leguas e meia, as +mais que faltam para trinta e quatro leguas, dous terços occupa a +terceira região, a qual pela parte proxima a segunda é fria, e pela +parte de cima por estar á região do fogo é calidosissima; n'esta se +fazem todos os trovões, raios e cometas. Assim tambem a terra se parte +em tres regiões, para que não pareça desordem brotaremos o gosto d'ella, +proval-o-hemos por regras grammaticaes, as quaes são pela circumferencia +ou superficie de um globo, saber-se a grossura d'elle, quero dizer seu +diametro, ou peso diametro de uma cousa, vir em conhecimento da +superficie d'ella guardando a regra seguinte. + +Que sabido o diametro de qualquer circulo, este multiplicando partes, um +setimo; o que tudo sommado terá de circumferencia a superficie, por +conseguinte sabendo a circumferencia, esta, partida por tres um setimo, +o que vier á partição fará o diametro, assim, vinte e dous palmos de +diametro, nos dão sete palmos de circumferencia, pois temos sabido assim +pelas dimensões geometricas, como das experiencias de homens do mar +ter a terra em redondeza, seis mil e trezentas leguas; iremos á regra de +tres, dizendo se vinte e duas leguas de circumferencia nos dão sete de +diametro, seis mil e trezentas de circumferencia da terra quantas nos +darão de diametro, virá a partição de duas mil e quatro leguas e meia, +assim diremos ter a terra de grosso, duas mil quatro leguas e meia que +partidas pelo meio vem duas mil duas leguas e um quarto de legua, tanto +ha da superficie ao centro da terra, que é o meio de toda a grossura. + +Estas mil duas leguas e um quarto se repartem em tres regiões, a +primeira das quaes a da superficie para o centro duas leguas e um +quarto, ou posto que a terra em si seja summamente fria, secca e pesada, +esta primeira região é temperada pela razão que temos dado da impressão +que fazem os raios do sol n'ella, n'esta região se criam as exhalações +que com a força do sol chamadas para cima se acertam de cahir por terra, +pela resistencia que lhe põem ao cair, causa para ella tremer que é +haver em algumas ilhas e outras partes tanta calidade na terra que no +verão com a força do sol abrem grandes concavidades, as quaes vindo o +inverno, pela razão que acima dissemos, se tornam a fechar. + +A segunda região que é de duas leguas e um quarto, seis leguas para +baixo n'esta região, a superficie d'ella é o principio da creação do +ouro e mais metaes mineraes, d'ahi vem botando para cima por veias canos +a modo de arvores, assim a raiz do ouro principia n'elle e na segunda +região. + +A terceira região é de oito leguas e um quarto, que occupam a primeira e +segunda região para baixo até ao centro, esta ultima região, é +summamente pesada, fria e secca; é incapaz de criar cousa alguma, no +intimo interior da qual está o inferno de que Deus nos livre. + + + + +Segredo 58.º + + +De dous medicamentos que se usam entre os rusticos + +Quando alguma pessoa do campo se sente com qualquer mal que seja, cose +um bocado de carqueija e bebem aquella agua, e deitados na cama se +abafam para suar, e com isto lhe faz Deus algumas vezes de lhe abrandar +o mal. + +O segundo é que para maleitas dizem ao enfermo que dê a ourina para +mostrar ao medico, com ella dão uma volta fingindo que vão buscar um +xarope e em lugar d'elle lhe dão a beber a mesma ourina e com este +remedio continuam oito dias, e é com este mesmo remedio que se lhe vão +embora as maleitas. + + + + +Segredo 59.º + + +Para fazer acreditar aos presentes que conhecemos as cartas de +jogar pelo cheiro + +Ha-de vir a terceira pessoa, a quem tenhamos dado conta d'isto, logo +faremos pôr a mesa e diremos que nos tapem os olhos, e nos sentaremos, e +defronte de nós a pessoa em que nos fiamos, e logo pediremos cartas, +perguntando que é o que querem que d'alli se tire, se a primeira de +quatro ou o que quizerem, logo indo tirando carta por carta, e cheirando +cada uma d'ellas pelas costas de modo que o que ha-de avisar veja que +cartas são, assim tirando-as iremos pondo uma por uma na meza em tanto +que nos venha alguma das que nos tem pedido a pessoa a que temos +communicado o segredo, porá o pé sobre o nosso, assim poremos aquella +carta de parte e iremos continuando até tirar todas as pedidas, da mesma +sorte que acima fica dito e quem estiver fazendo este segredo +acautelar-se-ha para os assistentes não darem fé do que se está fazendo +por baixo da meza. + + + + +Segredo 60.º + + +Virtudes do jacintho + +O jacintho é de muitas côres, porém o verde ou roxo mui brilhante é o +melhor, o qual feito em pó e tomado pela bocca, é cordial, e serve +contra as febres malignas: defende a quem o traz dos raios e temporaes. + +Trazendo o jacintho comsigo, que toque ao corpo, conforta o coração, e +aviva o engenho. + +Defende o jacintho, a quem o trouxer comsigo, de venenos e ares corruptos. + +Tem virtude o jacintho de refrear a loucura, e evitar a melancolia; e +não soffre representações de fantasmas, nem visões. + +Meia legua de Toledo junto a um mosteiro de Bernardos, ha uma fonte +pegada á ribeira do rio Tejo que chamam dos jacinthos, porque ali ha +tantos, que sae a agua e corre por cima d'elles. + + + + +Segredo 61.º + + +Virtudes das pedras da andorinha + +Diz o experimentador Alberto, e ainda outros, que na cabeça da andorinha +se acham duas pedrinhas mui pequenas, e que uma é branca, e outra +vermelha, cujas virtudes são as seguintes. + +Dizem que quem trouxer comsigo a pedra branca da andorinha, não será +molestado de sêde, e que se a tiver na bocca, sempre a terá fresca. + +Dizem mais, que se alguem tiver fluxo de sangue e trouxer a mesma +pedrinha branca ao pescoço, logo se lhe estancará o sangue. + +Tambem dizem que tem virtude para ajudar as mulheres no parto, como a +pedra da aguia. + +Dizem mais, que lançada a mesma pedrinha branca em uma vasilha de agua +por espaço de uma noite, e bebida a agua, provoca a cursos, e tira o mal +da gotta, e ainda a febre se a tiver. + +Tambem dizem que quem trouxer comsigo a pedra vermelha da andorinha se +livrará de muitas doenças. + + + + +Segredo 62.º + + +Virtudes da pelle que a cobra costuma despir + +A pelle da cobra queimada, e posta em cima de alguma ferida, a deixa sã; +e se houver bico, ou ferro mettido dentro na carne costuma attrahil-o a +si, até o tirar fóra. + +Notem uma e outra vez, advirtam, que quem trouxer comsigo os pós d'esta +pelle de cobra será preservado de lepra, e de qualquer peçonha. E +saibam, que os ditos pós tem grandes virtudes, e muitas propriedades: +porém, ha de se queimar a dita pelle, estando o sol no signo de Aries, +que é de 12 de março até 26 de abril. + + + + +Segredo 63.º + + +Para tornar doce a agua do mar, que se possa beber + +Diz Aristoteles, que para fazer a agua do mar doce que se possa beber, +façam uma vasilha de cêra bem tapada, e a mettam no mar, que fique +coberta de agua, e toda a que fôr entrando pelos poros da cera perderá o +sal e ficará doce. O mesmo succederá, se metterem no mar uma vasilha +nova de barro com tanto que tenha a bocca bem tapada. + + + + +Segredo 64.º + + +Para conservar a castidade, e reprimir os estimulos da carne + +Escreve Macencio, que o summo da erva chamada sagunta, bebido em jejum +reprime os estimulos da carne, e as suas folhas postas sobre os +genitaes, diz, que tem virtude de applacar os incentivos da luxuria. + +Avicena escreve, que a arruda comida, mitiga os ardores da carne no +homem; e na mulher pelo contrario, porque os aviva com excesso. + +O mestre João diz, que o orjavão tem mui grande virtude, e efficacia +para reprimir a luxuria, porque applicado aos lombos mitiga, e applaca +grandemente os estimulos da carne. Diz mais o mesmo author, que o sumo +do orjavão bebido causa impotencia, a quem o toma, por espaço de sete +dias. Escreve Dioscorides, que a fructa, que produz o cedro, pizada, ou +o sumo de suas folhas posto nos genitaes, desterra a appetencia de actos +venereos. Michael Escoto diz com muito fundamento que todas as cousas +agras, frias e azedas se accomodam bem com a castidade, conservando-a: e +pelo contrario as cousas doces, quentes e odoriferas, a destroem, e +estragam de todo. Porém fallando espiritual e catholicamente, o que mais +conserva, e defende a castidade é o jejum, a disciplina e a oração +frequente e com muita devoção. + + + + +Segredo 65.º + + +Para conservar as camas sem persevejos, os aposentos sem pulgas, +as casas sem moscas, e ainda sem mosquitos nem ratos + +Tomarão cóla feita de retalhos de couro, e desfeita em agua ao fogo, que +fique bem clara e rala, lhe misturem azeite, e assim quente, molharão e +esfregarão as taboas e pés do leito, de sorte que toda a madeira fique +lavada com este cosimento, e resultarão dois effeitos muito bons. O +primeiro será que o leito todo parecerá de nogueira. E o segundo, que +não se crearão n'elle persevejos, como tenho bem experimentado. + + + + +Segredo 66.º + + +Contra pulgas + +Ponham uma panella de agoa ao lume, e lançar-lhe-hão dois vintens de +solimão, e deixando-a ferver bem, borrifarão o aposento depois de bem +varrido, e tenham por certo que morrerão, e se não crearão outras. Mas +isto se ha de fazer duas vezes na semana. + + + + +Segredo 67.º + + +Contra moscas + +Tomem um pouco de mel e farinha, mechida com uma pouca de agoa clara, +lhe lancem arsenico ou rosalgar, e ponham esta mistura em caqueiros, +aonde cheguem as moscas, e vêr-se-ha quantas vão caindo, porque em +provando ficam mortas. O mesmo effeito faz o ouro e pimenta moida, e +desfeito em agoa e posto em algumas vasilhas pela casa; mas vigiem que +não chegue cão ou galinha a provar, porque ficarão mortos. + + + + +Segredo 68.º + + +Contra mosquitos + +Queimarão cominhos rusticos no aposento aonde houver mosquitos, e logo +cairão mortos ou se irão; tambem quem molhar o rosto com agoa, na qual +estivessem cominhos rusticos de infusão, não lhe hão de chegar os +mosquitos ao rosto. Em outro logar se dirão outros segredos mais ácerca +d'isto; mui notaveis e difficultosos de crer, e por tanto cito ali os +auctores que o dizem. + + + + +Segredo 69.º + + +Contra ratos + +Façam por apanhar um rato vivo, já grande ou mediano, e façam uma de +duas cousas. Ou lhe esfolem a cabeça e lhe ponham na abertura da pelle +um pouco de sal moido e deixem-no vivo, que elle com o ardor e raiva +affugentará os outros: ou façam outra cousa, se lhes parecer mais facil, +e é atar ao pescoço do rato um cascavel pequeno, que tenha o tenido mui +vivo, com o que fará fugir os outros; e assim ficarão livres d'estes +inimigos caseiros, poupando gastos e molestias. Outro segredo melhor e +mais facil. Tomarão gesso novo, e passado por peneira o misturarão com +queijo ralado subtilmente, e misturado tudo o ponham em diversas partes +da casa, e será cousa entretida vêr os ratos que comerem da iguaria +andarem inchados por casa, e se tiverem agua que beber, morrerão mais +depressa; porque o gesso tanto que chega á agua ou cousa humida, logo se +torna em massa, e é segredo sem perigo. + + + + +Segredo 70.º + + +Para fazer durar o azeite da candêa + +Tomarão giesta da mais pequena e de folhas mais miudas; (porque ha duas +castas d'ellas) queimal-a-hão, e da cinza farão decoada; e pondo +esta a cozer, se converterá em sal, o qual lançado nas candêas, +conservará e fará durar o azeite mais do terço. A pedra hume de rosa e o +sal commum, que serve para o comer, tem a mesma propriedade, porém não +tanto como o sal da giesta. + + + + +Segredo 71.º + + +Para fazer augmentar o azeite das candêas + +Tomarão uma canada de azeite e pôr-se-ha ao fogo, e logo lançarão quatro +onças de pêz grego e um vintem de pedra hume de rosa; tudo bem moido +primeiro, e mechendo-o muito bem, até que esteja de todo misturado, logo +se poderão servir d'elle nas candêas, poder-se-ha fazer mais ou menos +seguindo a mesma ordem com proporção dos materiaes. + + + + +Segredo 72.º + + +Para fazer vinagre bom e forte multiplicando-o com pouco custo + +No tempo da vindima tomarão um pé de bagaço no patamal do lagar, depois +de espremido e estendido lhe lançarão cem potes de agua e quatro +arrateis de perrexil verde, dois de flor de sabugo verde, e um bom +cantaro de vinagre do melhor e mais forte, e deixal-o estar vinte ou +trinta dias, e no fim se esprema tudo, e recolherão vinagre mui forte e +odorifero; e proporcionando os materiaes, podem fazer mais ou menos. + + + + +Segredo 73.º + + +Para multiplicar a cera + +Tomarão uma arroba de cebo de bode e uma duzia de ovos de adem, só as +gemas, meias cozidas, desfeitas e bem batidas, se lancem no cebo com +outra arroba de cera, e tudo posto ao fogo se mecherá, até que fique +derretido e bem misturado; e ficará tudo convertido em cera mui +amarella, para se fazer d'ella toda a obra que quizerem. + + + + +Segredo 74.º + + +Para saber se o vinho tem agua ou não + +Diz Creponte, que para saber se o vinho tem agua, lhe lançarão umas +talhadas de pera brava aparada, e se nadarem em cima, signal que está o +vinho puro; mas se forem ao fundo, se conhecerá que o vinho está +aguado. Outra advertencia. Tomarão um junco ou uma palha de avêa bem +lisa, e untada com cebo a metterão na vasilha do vinho; e se este tiver +agua, sairão pegadas umas pingas mui subtis de agua. Outra. Encherão de +vinho uma panella nova, e deixando-a estar dois dias, se sumirá toda a +agua, se a tiver. Outra. Tomarão uma pedrinha de cal virgem, e +molhando-a com elle, vinho, se tiver agua logo se desfará a cal; e se +estiver puro, se apertará mais. Outra. Lançarão um pouco de vinho em +azeite que esteja bem quente, e se tiver agua, espirrará e saltará, o +que não hade acontecer se fôr puro. + + + + +Segredo 75.º + + +Para se não embebedar + +Diz Filonio, que para se não embebedar são bons os bofes de ovelhas +assados, e comidos antes de jantar, ou que, antes que bebam vinho, comam +verças com vinagre, e d'este modo lhe não fará mal o vinho, posto que +bebam mais do ordinario. Porém o melhor remedio para se não embebedar é +o que eu uso ha sessenta e tres annos que hoje faço de idade, e nunca +bebi vinho, e acho tanto regalo na agua, que é para mim a melhor iguaria +que vejo na mais explendida meza: e oxalá se praticára isto que digo, +que o vinho se havia de vender na botica e usar por medicina. Se alguem +reconhecer o descredito, que causa o vicio de destemperança no beber, e +quizer livrar-se de se embebedar e aborrecel-o de todo, note o que +escreve Plinio, e é que mettam duas enguias vivas e grossas dentro em um +cantaro de vinho, e que depois de estarem affogadas, dêem este vinho aos +que se costumam embebedar, e virão a aborrecer o vinho de todo; porque +causa um raro tedio e aversão. Para o mesmo serve a bretonica feita em +pó e bebida. + + + + +Segredo 76.º + + +Para tirar a agua do vinho + +Escreve Catão e Plinio, que para tirar a agua do vinho, se fará uma +vasilha de páo de hera, lançando o vinho n'ella, se tiver agua, todo o +vinho se irá coando e ficará só a agua na mesma vasilha: e se não tiver +agua, ficará a vasilha completamente vazia. + + + + +Segredo 77.º + + +Uma redoma que estando cheia de agua, e posta com a bocca +destapada para baixo, se não entorne + +Ponham uma redoma ou garrafa cheia de agua ou vinho dentro em um +cubosinho ou balde de madeira ou de cobre que é melhor, e lançarão sobre +a garrafa ou redoma, e por baixo quantidade de neve bem desfeita, e +por cima da neve se deitarão bastante sal moido e pouco a pouco irão +virando a garrafa, até que de todo esteja a neve desfeita, e escorrerão +a agua da neve e lançar-lhe-hão outra tanta neve desfeita com sal moido; +e assim se deixará estar até que de todo se desfaça, sem mover a +garrafa: e farão o mesmo terceira vez, e tirará a agua congelada ou o +vinho que estiver na garrafa. E isto se póde fazer na força do verão, e +parecerá cousa impossivel, sendo tão facil; e pondo a garrafa com a +bocca destapada para baixo, é certo que se não entornará. Como +experimentou o duque de Gandia, D. Francisco de Borja, que mandou uma +cheia de agua congelada no verão, ao patriarcha D. João de Ribeira, +arcebispo de Valença, o qual em retorno de tão curioso segredo, lhe +mandou outra garrafa cheia de vinho congelado, que foi maior maravilha. + + + + +Segredo 78.º + + +Para tornar uma rosa e um cravo de vermelho em branco + +Defumarão o cravo e a rosa em enxofre, e logo se tornarão brancos de +encarnados; e podem fazer todo o craveiro branco, de vermelho, como eu +fiz a experiencia em uma occasião, tornando brancos mais de vinte cravos +encarnados, com admiração do dono do craveiro, por não saber a causa. + + + + +Segredo 79.º + + +Curioso e de entretenimento + +Recolherão uma pequena porção de azougue em um canudinho de penna e +muito bem tapado, o metterão dentro em um pedaço de pão quente, e +ver-se-ha, tanto que o azougue aquecer, que começará o pão a dar saltos +pela meza. O mesmo verão que fará uma avelã, se a encheram de azougue, e +bem tapada com um torno que atoche bem, lançada em agua quente, porque +tanto que o azougue aquecer, fará saltar a avelã. + + + + +Segredo 80.º + + +Garrafa ou redoma + +Se quizerem fazer subir a agua por uma redoma vasia ou garrafa, +aquentar-se-ha muito bem e por-se-ha com a bocca para baixo na agua, e +verão subir a agua pela redoma acima em quanto esta estiver quente, e +para que o esteja, irão queimando papel sobre o fundo da mesma vasilha, +e não ha de parar até que encha de todo, e é provado. + + + + +Segredo 81.º + + +Do ovo e da sanguexuga + +Se quizeres que um ovo ande pela casa, tomarão um ovo vasio, de sorte +que fique a casca quasi inteira, e pelo buraco por onde o vasarem, lhe +mettam uma sanguexuga viva, e tapar-se-ha o buraco com cera, e tomarão +uma tigella de agua e a irão movendo junto ao ovo, e como a sanguexuga +do instincto natural conhece e sente o rumor da agua, vae seguindo +aquelle rumor, e o ovo rebolando, a quem não sabe o segredo fica +confuso, e é provado, e nota que a sanguexuga ha de ser de paul e de +umas que ha mui negras e grossas. + + + + +Segredo 82.º + + +Raro do ovo e da linha + +Atarão uma linha ao redor de um ovo, e pondo-o a assar no meio do +borralho que esteja bem coberto do lume mais vivo, e ver-se-ha que o ovo +se assa e não se queima a linha nem se quebra, e é provado. + + + + +Segredo 83.º + + +Incrivel para quem o não viu nem provou + +Se quizerem frigir peixe ou ovos em papel em logar de certã, tomem um +pedaço de papel feito a modo de barrete de quatro cantos, e +deitar-lhe-hão azeite, e pondo-o sobre uma vela ou candeia accésa, irá +fervendo o azeite sem que o papel se queime e frigindo o peixe ou ovos, +é provado. + + + + +Segredo 84.º + + +De duas caras pintadas na parede que apaguem e accendam uma vela + +Pintarão na parede duas caras grandes, e no meio das boccas lhe farão +duas covinhas; em uma ponham salitre moido bem enxuto, e na outra +enxofre em pó; e se chegarem o lume da vela á boca ou covinha do +salitre, se ha de apagar, e no mesmo instante chegarão o pavio da vela +que fica fumegando, á outra bocca do enxofre, se accenderá e é provado; +mas hão de tocar o pavio no salitre e no enxofre. + + + + +Segredo 85.º + + +Para que um frangão, estando vivo, pareça morto e assado na meza, +e para o fazer saltar e fugir + +Tomarão sumo de aipo e misturem-no com aguardente refinada, e deitarão +de molho umas migalhas de pão n'esta agua misturada com sumo do aipo, e +darão de comer ao frangão em jejum d'estas migalhas, e d'ali a pouco +cairá o mesmo frangão no chão amortecido, e no mesmo instante tirar-lhe +toda a penna e untal-o com mel branco, misturado com açafrão, de +sorte que fique bem córado, e pondo o frangão em um prato, na meza, +parecerá assado. E quando o quizerem fazer tornar em si e saltar fóra da +meza, molhar-lhe-hão o bico com um pouco de vinagre forte, de sorte que +lhe chegue á garganta, e de repente se levantará e fugirá da meza, e é +provado. + + + + +Segredo 86.º + + +Maravilha rara + +Escrevem S. Basilio e S. Ambrosio, de uma ave que se chama Alcião, da +fórma do maçarico, a qual cria junto ao mar na area e no inverno; a qual +em 14 dias se tira e cria, até poderem voar. E dizem estes Santos +Doutores, que em todos estes 14 dias, que esta ave gasta em criar +seus filhos, nunca o mar se altera, pouco nem muito, antes se conserva +mui sereno e socegado. Esta maravilha e prodigio tem bem observado os +marinheiros, e chamam a estes dias alcionicos; e estão mui certos que em +todos estes 14 dias não ha tormenta no mar. + + + + +Segredo 87.º + + +Do olho do cão + +Baptista Aranda, escreve em um livro de seus conceitos, que quem trouxer +comsigo um olho de cão negro, não lhe ladrarão os outros cães; por que +diz que o dito olho lança de si tão grande fartum e cheiro, que os cães +o sentem logo pelo grande faro que teem; e não só se não atrevem a +ladrar, mas ainda nem a bolir comsigo. + + + + +Segredo 88.º + + +Importante para a memoria + +Se quizerem augmentar a memoria, tomarão a banha do urso e cera branca, +e derreterão a cera com a banha, sendo esta dois tantos de cera; tomarão +a herva que se chama Valeriana, e outra que se chama Eufragia, frescas +ou seccas, e pizadas muito bem, as misturem com a banha e cera +derretida, e tornando ao fogo, deixarão ferver até que fique grosso, +mechendo com um páo, e com este unguento untarão o toutiço e testa, de +quando em quando, e se augmentará notavelmente a memoria, e é provado. + + + + +Segredo 89.º + + +Dos dois casados que não tem filhos + +Para saber, de dois casados que não tem filhos, em qual dos dois está o +defeito natural, tomem a ourina de ambos, marido e mulher, cada uma em +sua vasilha, e em cada qual d'ellas lançarão uns poucos de farellos de +trigo, e n'aquella ourina em que se crearem bichos, está o defeito +natural de não poder procrear ou conceber. + + + + +Segredo 90.º + + +Para ter boa voz e clara + +Tomarão a flor do sabugueiro, e seccando-a ao sol, moida, lançarão os +pós em vinho branco e os tomarão em jejum, e causará boa voz e clara. + +O sumo do aipo e orjavão, bebidos, aclara muito a voz; mas advirtam, +que o sumo do orjavão resfria os genitaes. + + + + +Segredo 91.º + + +Para que se não coza a carne na panella posta ao lume em todo o dia + +Tomem uma pasta de chumbo delgada, e pondo-a no fundo da panella, não se +cozerá a carne por mais fogo que tenha em todo o dia, e é provado. + + + + +Segredo 92.º + + +Provado contra o mal dos queixos + +Tomem duas duzias de folhas de hera, outras tantas de sabugo e outros +tantos grãos de pimenta, e ponham tudo a ferver em vinho bem tinto e +velho com um pouco de sal, e depois de ferver bem, tirado do fogo, +tomarão bochechos de vinho quente, fazendo-se tres ou quatro vezes, se +tirará a dor sem falta. + + + + +Segredo 93.º + + +Para fazer espirrar por baixo e por cima a quantos estiverem em +uma casa + +Tomarão tres ou quatro pimentos ou malaguetas, e as porão em um +brazeiro, cobertas de cinza, de sorte que as brazas não cheguem aos +pimentos, porém que haja muitas brazas em cima e ao redor da cinza, e +tanto que forem aquecendo os pimentos, pouco a pouco sairá um fumo tão +subtil e delgado, que se não sente, até causar o sobredito effeito, com +tanto que a casa esteja bem fechada, e é provado. + + + + +Segredo 94.º + + +Provado para que não nasçam nem cresçam cabellos + +Raparão mui bem com uma navalha os cabellos que quizerem, e untarão +aquelle logar com gomma-arabia, desfeita com o sumo de herva molerinha +ou sangue de morcego, que é melhor, e não lhe crescerão mais. O mesmo +effeito fará o esterco de gato desfeito com vinagre. + + + + +Segredo 95.º + + +Para que a barba e cabellos sempre se conservem negros + +Mandarão fazer um pente de chumbo mui basto, com o qual pentearão a +barba e cabellos a miudo e sempre se conservarão negros. + + + + +Segredo 96.º + + +Para conservar a barba e cabellos loiros + +Tomarão folhas de nogueira e cascas de romã, distillado tudo por +lambique de vidro, e com esta agua lavarão mui bem, por quinze dias, a +barba e cabellos, e conservar-se-hão loiros. + + + + +Segredo 97.º + + +Para que a barba e cabellos de brancos se tornem negros + +Tomem folhas de figueira negra bem seccas, e feitas em pó as misturarão +com azeite de macella gallega, e com isto untarão os cabellos e +barba muitas vezes, e se farão negros. + + + + +Segredo 98.º + + +Para que as unhas e cabellos cresçam pouco + +Cortarão as unhas e cabellos em minguante da lua, com tanto que se ache +a lua no signo de Cancer, Pisces ou Escorpião, e crescerão mui pouco. + + + + +Segredo 99.º + + +Para que as unhas e cabellos cresçam depressa + +Cortarão as unhas e cabello em crescence de lua no signo de Tauro, Virgo +ou Libra, e verão como tornam a crescer depressa. + + + + +Segredo 100.º + + +Aviso importante e proveitoso para os lavradores + +Para que as sementeiras saiam boas, e a colheita melhor, observará o +lavrador, quando semear, que seja em lua nova, e que se ache no Signo de +Tauro, Cancer, Virgo, Libra ou Capricornio, e achará uma grande e rara +differença na seara e na colheita. + + + + +Segredo 101.º + + +Para ferir fogo sem pederneira nem isca + +Tomarão um páo de louro secco, e outro de amoreira, ou de hera, que é +melhor, e roçando rijamente um contra outro, aquecerão tanto que sé +accenderá fogo como polvora, ou mecha. D'este segredo usavam as espias +no campo de Cesar, por não serem sentidas dos inimigos. + + + + +Segredo 102.º + + +Para seccar o leite dos peitos das mulheres + +Notem este segredo: as mulheres para se lhes seccar o leite dos +peitos, por mais cheios e duros que os tenham, tomarão as folhas do +sabugueiro e as ponham estendidas e enxutas sobre os peitos, e logo se +irão abrandando e seccando; e é provado muitas vezes. Outro segredo mui +importante para o mesmo, e é que tomem uma herva que se chama melcoraje, +e pondo-a ao fogo em uma tigella com um pouco de azeite rosado, assim +que estiver quente a ponham aos peitos, cobrindo-os bem com pannos em +cima, e aos tres dias não sentirão leite nem molestia alguma; e tambem é +provado e experimentado muitas vezes. + + + + +Segredo 103.º + + +Para saber antecipadamente se ha de haver abundancia de vinho + +Escreve Missaldo, se a poupa (que é uma ave pintada como um periquito na +cabeça) cantar antes que as vinhas rebentem, é signal mui certo que +haverá abundancia de vinho n'aquelle anno. + + + + +Segredo 104.º + + +Para que os novilhos sigam a um homem + +Diz Aristoteles, livro de _Animalibus_, que se pozerem uns pedacinhos de +cera benta nas pontas do novilho, ha de seguir a quem lh'os pozer. + + + + +Segredo 105.º + + +Para que as bestas tornem para casa de seus donos + +Escreve Santo Alberto Magno, que untem a testa da besta com sumo de +cebolla alvarrã, e não temam que se perca se a não furtarem. + + + + +Segredo 106.º + + +Para fazer que uma besta não possa comer + +Untar-lhe-hão a lingua toda com cebo, e antes se deixará estalar que +comer cousa alguma, se lhe não tirarem o cebo com sal e vinagre, +lavando-lhe muito bem a lingua. + + + + +Segredo 107.º + + +Para não poderem passar por uma rua cavallos nem outro gado + +Escreve Santo Alberto Magno, que façam uma cordinha de tripa de lobo, e +pondo-a atravessada na rua, coberta de arêa ou pó, verão que não passará +por ella cavallo ou gado, ainda que os matem ás pancadas; e dizem que +fez a experiencia S. Thomaz de Aquino, discipulo de Santo Alberto Magno. + + + + +Segredo 108.º + + +Para descanço das bestas que caminham + +Escreve Plinio, que tomem os dentes maiores dos lobos e que os atem ao +pescoço das cavalgaduras, e não se molestarão nem cançarão muito no +caminho. + + +FIM DA TERCEIRA PARTE + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Oraculo do Passado, do presente e do +Futuro (3/7), by Bento Serrano + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ORACULO DO PASSADO (3/7) *** + +***** This file should be named 30462-8.txt or 30462-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/0/4/6/30462/ + +Produced by M. Silva (produced from scanned images of +public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. 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By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/30462-8.zip b/old/30462-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..0bb0a9e --- /dev/null +++ b/old/30462-8.zip diff --git a/old/30462-h.zip b/old/30462-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..fbdea70 --- /dev/null +++ b/old/30462-h.zip diff --git a/old/30462-h/30462-h.htm b/old/30462-h/30462-h.htm new file mode 100644 index 0000000..df798d1 --- /dev/null +++ b/old/30462-h/30462-h.htm @@ -0,0 +1,2354 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" + "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>O Oráculo dos Segredos</title> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + h1, h2, h3 {margin-top: 3em; margin-bottom: 2em; text-align: center;} + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: #cccccc; + } + .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;padding: 0.5em;} + .capa p{margin: 0;} + #corpo p { text-align: justify; text-indent: 1em;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of O Oraculo do Passado, do presente e do +Futuro (3/7), by Bento Serrano + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Oraculo do Passado, do presente e do Futuro (3/7) + Parte Terceira: O oraculo dos Segredos + +Author: Bento Serrano + +Release Date: November 13, 2009 [EBook #30462] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ORACULO DO PASSADO (3/7) *** + + + + +Produced by M. Silva (produced from scanned images of +public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + + +<div class="capa"> +<p style="font-size: 3em;">O ORACULO</p> + +<p>DO</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">PASSADO, DO PRESENTE E DO FUTURO</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">OU O</p> + +<p>Verdadeiro modo de aprender no passado a prevenir o presente, e a adivinhar +o futuro</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">BENTO SERRANO</p> + +<p> </p> + +<p>ASTROLOGO DA SERRA DA ESTRELLA,</p> + +<p><i>Onde reside ha perto de trinta annos, sendo a sua habitação uma estreita +gruta que lhe serve de gabinete dos seus assiduos estudos astronomicos</i></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div +style="font-size: 0.9em;margin-left:20%; text-align: left; width: 60%; border: solid 2px #000000;padding: 0.5em;"> +<h4>OBRA DIVIDIDA EM SETE PARTES, CONTENDO CADA UMA O SEGUINTE:</h4> + +<p>Parte primeira—O ORACULO DA NOITE<br> +Parte Segunda—O ORACULO DAS SALAS<br> +Parte Terceira—O ORACULO DOS SEGREDOS<br> +Parte Quarta—O ORACULO DAS FLORES<br> +Parte Quinta—O ORACULO DAS SINAS<br> +Parte Sexta—O ORACULO DA MAGICA<br> +Parte Setima—O ORACULO DOS ASTROS</p> +</div> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em;">PORTO<br> +LIVRARIA PORTUGUEZA—EDITORA<br> +55, Largo dos Loyos, 56<br> +1883</p> +</div> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.5em;">PARTE TERCEIRA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 3em;">O ORACULO DOS SEGREDOS</p> + +<p> </p> + +<p>OU</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 1.5em;">Collecção de muitos segredos uteis a todas as +pessoas, e para a cura radical de muitas molestias conhecidas e +desconhecidas</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em;">PORTO</p> + +<p>LIVRARIA PORTUGUEZA—EDITORA<br> +55, Largo dos Loyos, 56<br> +1883</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p align="center">Porto: 1883—Imprensa Commercial—Lavadouros, +16.</p> +</div> + +<div id="corpo"> +<h1>O ORACULO DOS SEGREDOS</h1> + +<h2>Segredo 1.º</h2> + +<h3>Tirado do livro de S. Cypriano (o feiticeiro) para fazer subir um homem ao +ar e andar nas alturas 30 minutos, sem lhe acontecer mal algum.</h3> + +<p>Deita-se um homem estendido no chão, depois ponham-se dois homens aos pés e +outros dois á cabeceira. Feito isto digam as palavras seguintes, principiando +por um e acabando por outros:</p> + +<p>1.º homem—Aqui cheira a corpo morto.</p> + +<p>2.º—Pezado como um chumbo.</p> + +<p>3.º—Leve como uma penna.</p> + +<p>4.º—Levanta-te na hora de Deus.</p> + +<p>No fim de ditas as palavras acima mencionadas, apontae-lhe com os dedos, que +elle logo sobe ao ar, tal qual como um passaro; no fim de 30 minutos, cáe ao +chão sem lhe acontecer mal algum.</p> + +<p>Este segredo foi descoberto por Lucifer, o principe do Inferno.<span +class="pn">{4}</span></p> + +<h2>Segredo 2.º</h2> + +<h3>Para um homem conhecer se a mulher lhe é infiel ou não</h3> + +<p>A qualquer hora da noute, quando observarem que a mulher está dormindo e +sonhando, põe-se-lhe devagarinho uma mão sobre o coração, que d'essa maneira +conhecem logo se é sonho; se o fôr ella por sua propria bocca vos começará a +descobrir tudo o que fôr de verdade, e o homem vae observando o que ella lhe +diz e vae tirando a mão de pouco a pouco por que esta operação não póde durar +mais que 10 minutos, para não acontecer que a mulher acorde e observe o que se +está fazendo.</p> + +<p>Sendo assim tudo descobrirão, e ella nada fica sabendo do que disse. Depois +de feito isto devem guardar segredo para evitar questões.</p> + +<h2>Segredo 3.º</h2> + +<h3>Effeitos do vinagre e da ourina</h3> + +<p>Logo que uma pessoa dê qualquer cortadella e queira vêr-se sã em 8 horas, +botem-lhe em cima vinagre ou ourina. Este remedio é approvado, assim o tenho +experimentado e sempre com bom resultado.<span class="pn">{5}</span></p> + +<h2>Segredo 4.º</h2> + +<h3>Para tirar as dores de cabeça</h3> + +<p>Se alguns dos meus leitores tiverem dores de cabeça e se em pouco tempo as +quizerem alliviar façam o remedio seguinte: uma cabeça de alhos, tirar as +cascas aos dentes, botal-os em um almofariz e moêl-os bem moídos, pegar em um +bocadinho de massa e esfregar a testa e fontes bem esfregadas que, depois, em +pouco tempo passará a dita dôr.</p> + +<p>Se no fim da esfregação o paciente se poder deitar melhor será que depois de +se levantar nada ha de sentir.</p> + +<h2>Segredo 5.º</h2> + +<h3>Para quem quizer beber o vinho simples sem agua</h3> + +<p>Para tirar a agua do vinho, se fará uma vazilha de pau de hera, lançando o +vinho n'ella; se tiver agua, todo o vinho se irá coando, e ficará só a agua na +mesma vazilha; e se não tiver agua ficará a vazilha escorrida de todo o +vinho.<span class="pn">{6}</span></p> + +<h2>Segredo 6.º</h2> + +<h3>Para que uma pessoa indo pela rua em noute escura leve luz adiante de si +que allumie toda a rua sem se conhecer que qualidade de luz é</h3> + +<p>Quebre-se uma noz em duas, de modo que fiquem os miolos inteiros; estes +mettidos sem os quebrar na ponta de uma verga de arame, que tenha uma vara que +seja grossa, pondo o lume no miolo das nozes, tendo a outra ponta de arame na +mão, farão tanto lume como uma tocha, sem se vêr mais que o mesmo lume.</p> + +<h2>Segredo 7.º</h2> + +<h3>Para fazer que a comida pareça estar cheia de bichos</h3> + +<p>Secretamente partiremos duas cordas de viola uma grossa outra delgada em +bocadinhos, se fôr assado sendo gallinha se lhe metterão pela abertura; sendo +outra cousa se lhe dará um golpe em que se lhe mettem; sendo cozido se botarão +na panella ao tirar do lume e assim virão pegados na carne com a quentura que +em si levam, e com a fresquidão do ar que lhes dá se encolherão e estenderão +como bichos, e quem estiver comendo fica enganado.<span class="pn">{7}</span> +</p> + +<h2>Segredo 8.º</h2> + +<h3>Para aquelles que caminham não sentirem a calma, nem o cansaço do +caminho</h3> + +<p>Saindo eu de Alcoy para S. Thiago, á porta de uma aldeia, encontrei tres +peregrinos, com os quaes acompanhei até ao meu destino, e segundo o que n'elles +observei deviam ser virtuosos, e aos mesmos vi que levavam pendurado no cinto, +um pequeno raminho de bella-luz. Perguntei-lhe o que aquillo representava, e +tive de resposta: Pois vós ainda não sabeis o segredo? Tiraram do seio cada um +sua mancheia de artemija, dizendo-me que com aquillo pouco se sentia a calma e +o cansaço do caminho. D'ahi por diante me aproveitei d'isso e achei ser +verdade, o segredo que me ensinaram.</p> + +<h2>Segredo 9.º</h2> + +<h3>Para não criar pulgas e para evitar persevejos</h3> + +<p>Tomem quatro folhas de herva santa, um ramo de arreçã com flor, outro de +herva sedagoza partes iguaes frigam-se em azeite simples, misture-se tres onças +de cêra amarella, untando tres dias successivos não sómente os mata, mas tambem +a pessoa que com isto se untar nunca mais os criará. E para evitar pulgas +bote-se pela casa mentastros e folhas de amieiro, estas hervas tem virtude para +as matar e não criarem<span class="pn">{8}</span> outras. E qualquer d'ellas +fará o mesmo effeito, botando com abundancia pela casa.</p> + +<h2>Segredo 10.º</h2> + +<h3>Para fazer letras nas costas da mão com cinza de papel</h3> + +<p>Se quizerem fazer com que os assistentes, fiquem admirados sem saberem de +que modo veio essa letra, secretamente, com a propria ourina e a ponta de um +pausinho, escrevem as letras que quizerem que appareçam, e depois se deixará +seccar, e se mostra a quem quizer vêr a mão limpa; queimem um papel tendo +escripto as mesmas letras (isto com tinta, preta) que se escreveram na mão, e +com o mesmo papel queimado, se esfregará a parte onde se fizeram as letras com +a ourina, que conforme foram feitas assim saírão pintadas de preto, por isso +quem não souber o segredo se admirará.</p> + +<h2>Segredo 11.º</h2> + +<h3>Para crianças que teem lombrigas e tosse</h3> + +<p>Provavel remedio para quem tem crianças com essa doença. Se fôr tosse +lancem-lhe uma esponja ao pescoço, que logo lhes abrandará. E se forem +lombrigas, botem uma pequena mancheia de farinha centeia, em<span +class="pn">{9}</span> uma pouca de agua, que fique tingida como sôro de leite, +assim dada a beber em jejum, todas as manhãs, mata as lombrigas.</p> + +<h2>Segredo 12.º</h2> + +<h3>Segredo para os cabellos nunca cahirem e conservarem-se pretos</h3> + +<p>Tomarão folhas de azinheiro, e cascas de pepino sêccas, depois de misturado +em partes iguaes, bem pizado e espremido, botar-se-ha o sumo em meio quartilho +de agua-ardente camphorada, e bem mechida, se porá ao orvalho da noute, por +espaço de 8 dias. Com esta mistura lavarão a cabeça pelo menos de tres em tres +annos, que o cabello não cahirá.</p> + +<h2>Segredo 13.º</h2> + +<h3>Segredo para quando forem tirar o mel das colmeias não serem mordidos pelas +abelhas</h3> + +<p>Tomem o malvaisco, e untem bem as mãos e rosto com o sumo d'esta planta, +depois untem-se com azeite que tenha servido já nas candeias, com que se +allumiam, que indo bem untado podem fazer o serviço sem receio, que ellas não +farão mal algum. E se por<span class="pn">{10}</span> acaso te picar alguma +vespa, unta bem a parte com azeite liquido, que brevemente está são.</p> + +<h2>Segredo 14.º</h2> + +<h3>Para evitar formigas, mosquitos e persevejos</h3> + +<p>Aquella parte onde quizermos que não entrem n'ella formigas, cercaremos com +um risco de carvão grosso, ou com cinza, ou com salmoura, ou com sal molhado, +que não passarão este limite para dentro. E se pozerem estas cousas todas +misturadas melhor será.</p> + +<p>E para mosquitos não virem de noute á cama dependurarão á cabeceira uns +poucos de pregos, que não chegarão alli. E para persevejos, tome-se uma pouca +de palha estrangeira, cozida n'um tacho, e botem-lhe uma quarta de pedra hume, +e em fervendo tudo depois da agua estar fria lavem a barra da cama; ou a +qualidade que lhe pertença com a dita agua. Na cama, ou casa onde se criarem +persevejos, tomando um pimento em um fogareiro que se queime, posto debaixo da +cama todos os persevejos que houver onde chegar o fumo do brazeiro +morrerão.<span class="pn">{11}</span></p> + +<h2>Segredo 15.º</h2> + +<h3>Para se conhecer a sarna e o meio de a curar</h3> + +<p>Para se conhecer a doença da sarna, basta vêr entre os dedos das mãos umas +bolhinhas, que estão quasi constantemente em comichões; mas com este segredo, +cura-se facilmente, dentro em pouco tempo: basta deitar sobre a parte doente, +umas pingas de oleo de petroleo. Mas não se deve esfregar.</p> + +<p>Deixe-se o oleo na parte durante uma hora. Continua-se no dia seguinte e +mesmo nos outros emquanto não sarar. Este remedio que está ao alcance de todos, +é muito approvado, e seu emprego tem sido adoptado em immensos casos.</p> + +<p>Um outro consiste em lavar com licor concentrado de alcatrão, por que produz +muito bom effeito.</p> + +<h2>Segredo 16.º</h2> + +<h3>Para os que costumam enjoar</h3> + +<p>Um verdadeiro serviço, que com este segredo presto aos viajantes, +principalmente aos embarcadiços. Dou-lhes a saber este segredo que de tanto lhe +póde servir: logo que o mal se começa a sentir, e quando a cabeça anda á roda e +o estomago enfraquecido deve-se tomar 2 até 5 perolas de chloroformio, que +o<span class="pn">{12}</span> mal desapparece logo. E não havendo as ditas +perolas, tomarão perolas de ether, que fazem o mesmo effeito. Tanto umas, como +as outras vendem-se em quasi todas as pharmacias, e o viajante se munirá +d'ellas antes de embarcar, porque o enjôo é um mal que causa sempre bem á +creatura que vae no mar.</p> + +<h2>Segredo 17.º</h2> + +<h3>Para curar os catarrhos que nos costumam apoquentar</h3> + +<p>Tenho observado já muitas vezes que este segredo dá sempre bom resultado, +n'esta doença tão massadora, e custosa de soffrer. Para essa cura tomem: +essencia de therebentina, que dá bom resultado; com um gosto detestavel é +impossivel o poder tomal-a pura, ou em mistura. Mas tomae em fórma de perolas. +As perolas de therebentina tomam-se de 6 até 12 na occasião das comidas. Dentro +em pouco tempo, os catarrhos, mesmo os antigos, melhoram-se e curam-se. Por +muito que explique, nunca são muitas as explicações, dignas do elogio d'este +segredo.</p> + +<h2>Segredo 18.º</h2> + +<h3>Para os enganos que ha em pezos e medidas</h3> + +<p>Antes de outra cousa se note, que o gado vaccum quanto mais está depois de +morto mais peza, pelo<span class="pn">{13}</span> contrario o gado miudo, assim +tambem para dar o seu a seu dono assim no pezo da carne, como de outro qualquer +hade-se pôr primeiro o pezo, depois a carne, ou o que fôr, por que se a carne +se põe em a mesma parte, requer muita força de pezo para outra parte para se +endireitar.</p> + +<p>E assim tambem nas medidas de vara, ou covado para se medir seda, ou linho, +ou panno de côr, se ha de medir sobre a meza, ou caixa, não nas mãos, porque +estira, e se faz mais copia de varas, ou covados, do que são.</p> + +<p>Quanto á medida do vinho, ou azeite que se mede em armazens e lojas baixas +leva mais que nas altas, a razão é por que toda a cousa se pretende igualar, +com o globo da terra, assim nas partes baixas faz o azeite, ou vinho, cobril-o +para cima, nas altas não; tanto é assim, que para prova d'isto ponham um vaso +que leve meia canada, ou mais sobre uma meza, este cheio de vinho ou agua, ou +azeite, da meza posto no chão, lhe podem botar um vintém em moedas, moeda +mansamente, todas levará sem derramar gotta pelo motivo que temos dito.</p> + +<h2>Segredo 19.º</h2> + +<h3>Remedio para persevejos, piolhos e pulgas</h3> + +<p>Para persevejos, tomem-se umas poucas de brazas em um têsto, bota-se-lhe +dois ou trez pimentos vermelhos;<span class="pn">{14}</span> posto o têsto no +meio da casa onde os houver, ou morrerão ou se ausentarão.</p> + +<p>Para piolhos, basta o summo da erva santa, untar com ellas trez noutes a +parte onde se elles criarem, que desapparecerão.</p> + +<p>E para pulgas, na casa onde andarem se botará uma pouca de hortelã pela +casa, logo morrerão ou se ausentarão.</p> + +<h2>Segredo 20.º</h2> + +<h3>Como se devem curtir as azeitonas de conserva para durarem</h3> + +<p>Devem ser as azeitonas mais sobre o verde, que sobre o maduro, é preciso +serem colhidas á mão da oliveira, nem varejadas, nem encorrilhadas, deitadas na +vasilha, se lhe botará agua simples, de modo que fiquem todas cobertas; aos +tres dias tira-se-lhe essa agua e deita-se-lhe outra; assim continuando todos +os tres dias na outra agua, se lhe botará pouco sal, ouregãos, cascas de limão +sem amargo algum, porque o amargo corrompe; ao tirar d'ellas será com colher, +não com a mão, e assim se sustentarão por largo tempo.<span +class="pn">{15}</span></p> + +<h2>Segredo 21.º</h2> + +<h3>De varias qualidades que ha no ovo</h3> + +<p>A primeira propriedade que tem, é ser a gema fresca e substancial, a clara +cálida, e reimosa; cura humores viscosos.</p> + +<p>O ovo é neutral, porque se o comer uma pessoa estando colerica e agastada +converte-se-lhe em outra tanta cólera; se a pessoa está alegre, converte-se em +outra tanta alegria; e tanto é assim, que escreve um auctor grave, que se um +furioso continuar dois mezes pela manhã, e á noite, comendo duas gemas de ovos +crus, tornará ao seu juizo; a razão é porque o furioso é tão contente de si que +imagina que tudo é seu.</p> + +<p>Para mais, o ovo que é cozido, de modo que fique duro ou forte, é cálido; em +cru é frio, tão frio, que bebendo-o pela manhã, no verão, vai contra a calma, e +contra a enfermidade do figado.</p> + +<h2>Segredo 22.º</h2> + +<h3>Para fazer com que a agua do mar não seja salgada e poder beber-se</h3> + +<p>Tenho observado que para fazer a agua do mar dôce, a pontos de se poder +beber, farão uma vasilha de cêra branca bem tapada, e a metterão no mar, +que<span class="pn">{16}</span> fique toda coberta, e a que fôr entrando para +dentro da vasilha, perde o sal e fica dôce, e o mesmo acontece se metterem uma +vasilha nova de barro, mas que tenha a boca bem tapada; com a mesma será, +porque a agua tanto dá que de pouco em pouco, lá vae entrando para a vasilha +até estar cheia.</p> + +<h2>Segredo 23.º</h2> + +<h3>Para em pouco tempo se curar a diarrhea e dysentheria</h3> + +<p>Contra esta terrivel doença, tenho um segredo que vou dizer aos meus +leitores: ás pessoas que depois de serem apoquentadas por este mal, fazem +remedios que de nada valem, por isso, se quizerem vêr esse mal fóra do corpo, +existe um meio de o fazer que é approvado: é o carvão do doutor Belloc; tomar +cada dia de tres a seis colheres de sôpa d'este carvão, que em pouco tempo +estarão livres do mal que os apoquentava.</p> + +<p>Ao principio, parece impossivel que o carvão possa curar a diarrhea, mas por +muitos está experimentado, e sempre com bom effeito, por isso vos recommendo +este segredo.<span class="pn">{17}</span></p> + +<h2>Segredo 24.º</h2> + +<h3>De nossos concebimentos, da causa e porque os nascidos do oitavo mez não +vivem</h3> + +<p>O primeiro planeta chamado Saturno, é de sua natureza frio, secco, +melancolico, terreno; por isso os Astronomos o chamam <em>infortuna maior</em>, +porque a qualidade frio, e sêcco, é contraria á criação de todas as cousas, +supposto que seja por esta razão inimigo da natureza humana emquanto terreno; +acharam os philosophos o primeiro mez de nossos concebimentos ser do dominio de +Saturno, o qual não prejudica o geral, porque ainda a materia não tem vida a +qual, nos possa empecer.</p> + +<p>O segundo mez é dedicado a Jupiter, o qual por ser de compleição sanguinea e +cria quente e humido, o qual sendo bom, e que convém á creacão das cousas, +chamaram-lhe os Astronomos <em>fortuna maior</em>; assim em seu mez a materia +se une, incorpora, e orna de espiritos vitaes.</p> + +<p>O terceiro mez é dedicado a Marte, que é de compleição colerica, quente, e +sêcco; porque como a quentura é conveniente á creação das cousas, e por outra +parte a seccura a impedia, chamaram-lhe os Astronomos <em>infortuna</em>; assim +no terceiro mez a mãe sempre padece achaques porque a creatura os padece.</p> + +<p>O quarto mez é dedicado ao Sol, que supposto que seja cálido, e sêcco, +comtudo é <em>luminaria maior</em>; emquanto luminaria, cria, augmenta e +corrobora.</p> + +<p>O quinto mez é dedicado a Venus, que supposto<span class="pn">{18}</span> +seja de per si humida, fleumatica, e fria, tem de certa participação de +quentura, com a qual favorece a humidade; por isso os Astronomos a chamaram +<em>fortuna menor</em>; porque ainda que não seja tão favoravel como Jupiter, é +comtudo ajudadoura da creação de todas as cousas, por isso em seu mez, a mãe e +a creança estão livres de achaques.</p> + +<p>O sexto mez é dedicado a Mercurio, que é planeta natural, participante de +todas as compleições, pelo qual em seu mez supposto que a creatura está +perfeita, capaz de vida, comtudo se n'este mez nascer, morrerá logo, porque +como Mercurio seja neutral acommoda-se ao primeiro principio que é Saturno +assim—<em>mata</em>.</p> + +<p>O septimo mez é dedicado á Lua, que supposto que seja planeta frio, humido, +fleumatico, e aquatico, comtudo emquanto <em>luminaria</em> é conveniente á +creação de todas as cousas, assim vemos que os nascidos de sete mezes vivem. +</p> + +<p>O oitavo mez torna a dominar Saturno o qual como temos dito é contrario á +natureza humana; assim não temos visto até hoje que o nascido, até ao oitavo +mez resista.</p> + +<p>Ao nono mez torna a entrar Jupiter, o qual como temos dito é bom planeta, em +geral todos os que nascem n'este mez vivem.<span class="pn">{19}</span></p> + +<h2>Segredo 25.º</h2> + +<h3>Para sabermos dos meninos pequenos, a estatura que virão a ter depois de +grandes</h3> + +<p>O Sol divide os outros seis planetas em duas partes: tres acima, tres +abaixo; os tres de cima chamam-se <em>tardos</em>, por serem mais vagarosos em +seu movimento, assim tambem são chamados <em>masculinos</em>. Os tres de baixo +são chamados <em>femeninos velozes</em>, porque em seu movimento são mais +ligeiros, supposto que Mercurio, que está abaixo por ser masculino, planeta +natural e applicar-se com quem se acha, por ficar entre a Lua, e Venus que são +planetas femeninos, se conte tambem femenino como elles; assim pois a Lua, +Mercurio, Venus, que estão abaixo do Sol, por serem <em>velozes</em>, +representam os tres annos primeiros de nossa vida, tambem Marte, Jupiter e +Saturno, por serem <em>masculinos-tardos</em>, e estarem acima do Sol, +representam o resto da nossa vida, pelo que quem quizer saber a estatura, que +qualquer creança virá a ter depois de grande, na edade de tres annos perfeitos, +tomem-lhe a medida com uma fita estando a creança com o corpo direito, o +comprimento da fita que tiver da ponta da cabeça, até aos pés dobra-se, o que +se achar, que faz a dita fita dobrada, será a estatura que a tal creança virá a +ter depois de grande.<span class="pn">{20}</span></p> + +<h2>Segredo 26.º</h2> + +<h3>Para deitar fogo a uma pouca de estopa e não se queimar</h3> + +<p>Peguem na estopa, deitem-lhe um pouco de espirito de vinho, e ao mesmo tempo +deitem-lhe o fogo, que começa a arder e acabando-se o espirito se apagará, e a +estopa ficará sem se queimar. Mas devem ter cautella antes do espirito arder +todo, por causa de se não inflammar á estopa, que é mais verdadeiro.</p> + +<h2>Segredo 27.º</h2> + +<h3>Para fazer estalar por baixo—divertimento de travessos</h3> + +<p>Tomarão folhas de espirradeira, cascas de castanhas, tudo muito queimado e +desfeito em pó lhe juntarão pimentos que estivessem de calda de vinagre, isto +tudo em vinho branco: quem o beber não poderá estar calado.<span +class="pn">{21}</span></p> + +<h2>Segredo 28.º</h2> + +<h3>Tambem de entertenimento e travessura</h3> + +<p>Se os leitores se quizerem rir e entreter, os que estiverem presentes farão +o segredo seguinte: Agarrarão um rato vivo, e secretamente (para ninguem lhes +vêr) deitarão agua-raz sobre o lombo e por todo esse bixo menos nas pernas e +cabeça; depois apparecerão diante de quem quizerem e pondo o rato no chão +agarrado pelo rabo, se lhe lançará o fogo com um lume e o deixarão que começará +a correr todo cheio de lume, e quem não souber este segredo se admirará por vêr +uma pouca de lavareda a fugir de umas partes para outras.</p> + +<p>Depois de a agua-raz se gastar, acabará tambem a vida do rato.</p> + +<h2>Segredo 29.º</h2> + +<h3>Como se póde conhecer as enfermidades pelas ourinas</h3> + +<p>Todos os que na medicina tem escripto, fazem mais duvida em saber conhecer +doenças, do que em applicar os remedios, e a razão é que mal se póde applicar +medicamento salutiphero á doença que não é conhecida. É porque nem todos os +medicos, sabem este grande fundamento. Dos mesmos authores de Villa-Nova<span +class="pn">{22}</span> tiramos a receita seguinte, que é tão boa como n'ella se +verá, a qual é a seguinte:</p> + +<p>A ourina de côr rosada demonstra saude, estado do corpo são, e boa digestão. +</p> + +<p>Se a ourina fôr menos rosada, supposto que demonstre saude, com tudo isto +não é tão perfeito como se propriamente fôra rosada.</p> + +<p>A ourina de côr de cidra, quando o circulo d'ella é da mesma côr, é boa. +Tambem o é, ainda que não seja de todo côr de cidra.</p> + +<p>A ourina de côr vermelha significa febre simples que dura 24 horas; salvo se +o doente cuja tal ourina fôr ourinar a miudo que é signal de febre continuada. +</p> + +<p>A ourina acêsa de côr de sangue demonstra sangue sobejo; logo é bom +sangrar-se, salvo se estiver a lua em signo <em>Feminis</em>, que domina nos +braços, pois será prejudicial a sangria.</p> + +<p>A ourina de côr verde quando sahe depois de vermelha, demonstra inflammação; +é perigosa e quasi mortal.</p> + +<p>A ourina de côr vermelha escura demonstra declinação na doença.</p> + +<p>A ourina vermelha misturada com algum pouco de negro, demonstra esfalfamento +e outros vicios do figado.</p> + +<p>A ourina de côr amarella, demonstra fraqueza do estomago, impedimento de +segunda indigestão.</p> + +<p>A ourina branca de côr da agua da fonte, demonstra aos sãos, ter humores +crus; nas febres agudas é signal de morte.</p> + +<p>A ourina côr de leite com a substancia espessa, se fôr de mulher não é tão +perigosa como a do homem pela indisposição da madre. E se acontecer em febres +agudas é signal de morte.<span class="pn">{23}</span></p> + +<p>A ourina de côr de leite, escura em cima e clara debaixo da região do meio, +demonstra hydropesia.</p> + +<p>A ourina no hydropico, rosada, ou meio rosada, é signal de morte.</p> + +<p>A ourina de côr azulada demonstra multidão de humores corruptos no +fleugmatico e hydropico.</p> + +<p>A ourina negra póde acontecer algumas vezes que a natureza é gastada ao +doente, o calor natural n'este caso é mortal, em outra maneira póde acontecer +expulsão de materia venenosa que sahe pelas veias ourinaes.</p> + +<p>A ourina que traz luz como lanterna, denota indisposição no baço, boa +disposição no que tiver quartans.</p> + +<p>A ourina côr de açafrão, quando está espessa, meia negra, que tem mau cheiro +e alguma espuma, demonstra etericia.</p> + +<p>A ourina rosada, ou meio rosada, que na região inferior traz umas resoluções +redondas, brancas em cima, e um tanto grossas, é signal de febre hectica.</p> + +<p>A ourina clara no fundo do ourinol até ao meio d'ella, e a de cima mais +espessa, demonstra dôr e inchação nos peitos.</p> + +<p>A ourina escumosa clara, quasi meio vermelha, demonstra maior dôr da parte +direita, do que da esquerda. Porém se a ourina fôr escumosa branca, demonstra +maior dôr na parte esquerda que na direita.</p> + +<p>Se o circulo da ourina não bolindo com ella, parecer que bole de si mesmo, +demonstra decurso de fleugma, n'outros humores da cabeça pelo pescoço, n'outros +nos membros.</p> + +<p>A ourina delgada, amarella-clara, demonstra humor fleugmatico e grosso.</p> + +<p>A ourina espessa de côr de chumbo, negra da região do meio, demonstra +paralysia.<span class="pn">{24}</span></p> + +<p>A ourina espessa de côr de leite, pouca em quantidade, grossas com algumas +espumas na parte inferior do ourinol demonstra dôr de pedra, se fôr sem espumas +espessas de côr de leite podre demonstra ventosidade.</p> + +<p>A ourina espessa de côr de leite, em muita quantidade, demonstra gota nas +partes inferiores.</p> + +<p>A ourina amarella na parte inferior, demonstra nos homens dôr de rins, e nas +mulheres dôr de madre.</p> + +<p>Na ourina em que apparecerem alguns pedaços de leite, se fôr pouco turbada, +demonstra rotura de veia junto aos rins da bexiga.</p> + +<p>A ourina que no fundo do ourinol mostra sangue podre, demonstra podridão dos +rins e bexiga; se juntamente toda a ourina estiver tal, demonstra podridão de +todo o corpo.</p> + +<p>A ourina onde se veem pedaços estreitos-compridos, demonstra desolamento de +bexiga.</p> + +<p>A ourina que sae de vagar, cheia de argueiros como faz o sol, demonstra +pedra nos rins.</p> + +<p>A ourina branca sem febre, demonstra nos homens dôr de rins, nas mulheres +estarem prenhas.</p> + +<p>A ourina de mulher prenha de um mez até trez deve ser mui clara, branca; se +fôr de quatro mezes ha de ser parda, branca e grossa no fundo.</p> + +<p>A ourina espumosa nas mulheres demonstra ventosidade no estomago, ardor no +ventre até á garganta.</p> + +<p>E devem entender que as significações das aguas, são mais válidas tomadas, +vistas logo, do que depois que arrefecem, porque mudam a substancia, mórmente +no tempo do inverno, que com o frio se colham.<span class="pn">{25}</span></p> + +<h2>Segredo 30.º</h2> + +<h3>Das virtudes e effeitos da genebra</h3> + +<p>A genebra tem muitas virtudes, mas especialmente para quem se costuma a +agoniar do estomago, e nas indigestões. Logo que qualquer pessoa se ache +incommodada com qualquer d'estas doenças, tomem meio quarteirão de genebra, mas +para melhor effeito será da hollandeza, porque é mais approvada, e com isso +logo ficarão livres d'essa afflicção, porque além de vos parecer que não tiram +resultado, vos affianço que é engano; porque eu que vos descubro este segredo, +em diversas occasiões tenho feito uso d'essa bebida e sempre com bom resultado, +segredo este que nunca me esquecerá porque me tem valido á minha vida, e as +suas virtudes, para todos são proveitosas, por isso todos os elogios são poucos +para remedio tão efficaz.</p> + +<h2>Segredo 31.º</h2> + +<h3>Os effeitos do alecrim da India</h3> + +<p>Estou informado de um segredo muito prestavel, para quem padece dôres de +cabeça que é remedio que dou por approvado e muito economico.</p> + +<p>Em um testo botarão umas poucas de brasas acezas, e depois pegarão em umas +poucas de folhas de<span class="pn">{26}</span> alecrim da India, e botarão as +folhas em cima das brasas; depois de ellas botarem bastante fumo lhes deitarão +uma onça de assucar; põe-se a cabeça do paciente a tomar aquelle fumo, isto é +dous palmos acima das brasas para evitar da muita quentura, que fazendo isto +oito noutes ao deitar da cama, se acharão melhor, porque assim como eu fiz e +achei bom resultado, tambem me parece que o meu semelhante que padecer da mesma +doença tambem o achará se isto fizer como explico.</p> + +<h2>Segredo 32.º</h2> + +<h3>Para que o vinho estragado torne ao seu ser</h3> + +<p>Pegarão em uma duzia de laranjas maduras, darão em cada uma tres ou quatro +golpes como quem retalha azeitonas, assim as botarão pelo batoque da pipa, +botal-as-hão em pedaços, e d'ahi por oito dias botarão uma canada +d'agua-ardente fina, e depois d'isto feito em passando 15 dias vão proval-o que +estará bom vinho; mas advirto que a pipa deverá estar em sitio fresco, porque +os vinhos para se conservarem não querem lugares abafados.<span +class="pn">{27}</span></p> + +<h2>Segredo 33.º</h2> + +<h3>Para tirar o mau cheiro ás vasilhas de madeira e dar cheiro ao vinho que +n'ellas botarem</h3> + +<p>Tira-se um tampo á vasilha e mette-se dentro um testo cheio de brasas e +depois bota-se-lhe nas brasas um vintem de cravo da India, dez reis de canella +e um bocado de pês, abafa-se a vasilha com o tampo para que este fumo se +entranhe na madeira, e sair-lhe-ha o mau cheiro, e a vasilha ficará cheirando +sempre bem.</p> + +<p>E para que o vinho que se recolher n'estas vasilhas seja bom de cheiro, ao +tempo que quizerem recolher o vinho coserão uma pouca de palha de cevada em uma +caldeira de agoa, e assim fervendo se bota sómente a agoa na vasilha, +enxuga-se-lhe, tapa-se com o batoque para que tome esse soadouro, que depois o +vinho que n'essa vasilha se recolher terá bom cheiro.</p> + +<h2>Segredo 34.º</h2> + +<h3>Para fazer o vinagre forte</h3> + +<p>Faz-se um molhinho de ortelã, que peze uma quarta, atado com um cordel +mette-se pela boca da pipa que tiver o vinagre de modo que a ortelã fique +mettida dentro no vinagre ficando o cordel de fóra, e<span +class="pn">{28}</span> d'ahi a sete ou oito dias tirem-lhe a ortelã e ficará o +vinagre fortissimo.</p> + +<p>Se ainda não tiver a fortaleza que queriam, tornarão a fazer igual operação, +que ao fim dos segundos oito dias estará mais forte.</p> + +<h2>Segredo 35.º</h2> + +<h3>Para fazer vellas de sebo que não cheirem a elle</h3> + +<p>Para as vellas de sebo não cheirarem a elle e parecerem de cêra e que durem +mais, ao fazel-as se terá uma pouca de cal virgem bem peneirada, cada camada de +sebo que se botar na fôrma se lhe botará duas mãos ou um punhado de cal accesa +por toda a forma; as vellas que assim se fizerem parecerão de cêra, sem terem +cheiro de sebo, e durarão muito mais porque a cal tem a virtude de lhe dar a +côr como a de cêra, e conservar o sebo a arder sem se desfazer tão facilmente. +</p> + +<h2>Segredo 36.º</h2> + +<h3>Para o vinho não fazer mal ao homem</h3> + +<p>Este segredo vos vou descobrir, mas será bom que vos não seja preciso, +porque o entendimento da creatura<span class="pn">{29}</span> bastará para o +evitar. Porém se acontecer essa bebida a fazer-vos mal á cabeça será bom comer +os boxes assados de uma ovelha, antes de comerem mais cousa alguma. Se quizerem +antes de beber o vinho que elle lhe não faça mal comerão berças com vinagre, +que assim não lhe fará mal, mas eu entendo que será bom não seja preciso estas +cousas; e quando se beber o vinho não se bebe demasiado, para não arruinar a +saude, um dos bens que o vivente tem n'esta vida. Se ha quem diga que bebem +vinho porque não podem deixar de o fazer, porque é um vicio, ahi vae um segredo +tambem para perder esse vicio: Metam duas enguias vivas dentro de uma canada de +vinho, e tapem a vasilha e quando estiverem mortas tirem-as, e os que costumam +tomar-se da pinga bebam d'este vinho que depois o aborrecerão completamente. +Tambem serve para este effeito a bretonica feita em pó e bebida em vinho.</p> + +<h2>Segredo 37.º</h2> + +<h3>Para que um cavallo pareça manco sendo são</h3> + +<p>Secretamente arrancar-lhe-hão uma seda do rabo dobrada atal-a-hão entre o +casco e os cabellos aonde chamam os machinhos, ficando mettida entre a seda e +os machinhos um grão ou dous de cevada estando bem apertada, farão andar o +cavallo que elle irá a mancar de um pé ou de uma mão, porque o grão de cevada +causa-lhe incommodo nas juntas das pernas e o animal mancará porque o não póde +deixar de fazer.<span class="pn">{30}</span> Depois d'este segredo assim feito, +tirarão o grão da cevada que o cavallo tem, que ficará andando direito e +causará admiração a quem o viu manco e em pouco tempo andar são.</p> + +<h2>Segredo 38.º</h2> + +<h3>Para refinar a polvora</h3> + +<p>Muitos costumam refinar a polvora com limão e outras cousas, mas em vez de a +refinar quasi que a estragam; porque a prova d'isto, tenho visto fazer uso de +polvora ordinaria; o melhor segredo para a refinar é, tanto de verão como de +inverno, borrifal-a com agua-ardente muito fina, secando-a depois, que este +espirito dá-lhe toda a força precisa para que ella produza bom effeito. Sei +isto por a experimentar e tirar bom resultado.</p> + +<h2>Segredo 39.º</h2> + +<h3>Para quando uma mulher parir se conhecer se o parto seguinte, se o houver, +é macho ou femea</h3> + +<p>Quando uma mulher parir, se quizerem saber o que a mesma mulher parirá no +parto seguinte, pela criança que teve o podem conhecer; nada mais é +preciso<span class="pn">{31}</span> do que vêr a corôa do nascido; se o +redemoinho que trazemos de cabellos estiver bem no meio da cabeça, sendo um só +redemoinho o parto que se seguir será macho, e sendo dous os redemoinhos, ou +sendo um só e declinar para qualquer dos lados, o parto que se seguir será +femea.</p> + +<h2>Segredo 40.º</h2> + +<h3>Para se saber das virtudes da ortemija</h3> + +<p>A ortemija é uma herva, que quem fizer um molhinho d'ella e a trouxer ao +pescoço, junto ao coração, terá mais animo e maiores forças. E esta herva, +moída e bem desfeita, deitada em um pouco de vinho e bebida, para a pessoa que +estiver cançada dá-lhe logo muito mais forças por ser uma bebida muito mais +substancial; qualquer caminhante que fizer uma jornada a levará tambem comsigo +porque tem a virtude de se não cançar tanto e andar mais caminho, que essa +virtude é um dos astros que a concede a esta herva, assim como tambem serve +para espantar as moscas de qualquer casa, se a cozerem com leite de cabras, e +depois de bem cozida untarão as paredes com esse leite, que ellas por causa do +cheiro fugirão.<span class="pn">{32}</span></p> + +<h2>Segredo 41.º</h2> + +<h3>Da monstruosidade da natureza</h3> + +<p>A monstruosidade da natureza é de duas maneiras: uma d'ellas é aquella que +se deixa logo vêr em nascendo a creatura, e a outra a que se descobre por +tempo. A que se deixa logo vêr, é quando a creatura vem com mais ou menos +abundancia de membros dos ordinarios, ou trazendo dos ordinarios, é algum +d'elles semelhante ao de algum animal irracional; aquelles que trazem mais ou +menos membros, de ordinario póde acontecer pela geração ser feita no +bicorporeo, como são Geminis, Virgo, Sagitario, Piscis, assim tambem aos faltos +de membros póde acontecer, por falta de materia, ou pelos signos moveis estarem +infortunados, os quaes são: Aries, Cancer, Libra, Capricornio; os que trazem de +algum animal tambem póde ser de duas maneiras ou de ajuntamento com o mesmo, ou +no tempo do concebimento concorrer a mãe com o pensamento em algum animal.</p> + +<p>Da monstruosidade que a natureza descobre com o tempo, se ha-de entender +d'aquelles que são demasiadamente grandes do corpo, ou demasiadamente pequenos, +fóra da proporção que adiante se dirá, ou tendo grande corpo tem disforme a +cabeça de pequena, ou sendo pequeno tem a cabeça demasiadamente grande, ou +sendo demasiadamente grande do corpo, demasiadamente pequeno com demasiada +grossura, porque d'estas montruosidades se póde conhecer a differença que ha +dos compostos em proporção perfeita; da natureza temos a seguinte:<span +class="pn">{33}</span></p> + +<p>Tres cousas ha por onde isto se conhece; a primeira é, que a verdadeira +proporção do homem tem na estatura sete palmos e meio de vicio da natureza, o +mais que se dá são sete palmos a maior, o menor seis palmos, que a estatura do +maior de nove palmos, e o menor de seis se tem por monstruosidade.</p> + +<p>A segunda cousa por onde se conhece a verdadeira proporção é, que posto um +compasso com uma ponta entre as sobrancelhas e outra na ponta do nariz tornando +o compasso para baixo chegará á superficie da testa na raiz do cabello, com o +mesmo compasso sem mais fechar nem abrir, posta uma ponta no nariz por baixo +das sobrancelhas tornando-o a uma e outra parte chegará aos lagrimaes dos olhos +de cada um d'elles, dando volta chegará a orelha, advertindo que os dous +compassos dos lagrimaes ás orelhas, da ponta do nariz á ponta da barba, estes +tres são eguaes, mas são maiores do que os outros de que temos tratado, que é +de entre as sobrancelhas á raiz do cabello, á ponta do nariz d'estes ha-de +haver em todo o corpo desde a raiz do cabello até aos pés vinte e sete +compassos dando ao rosto tres, e ao demais corpo vinte e quatro; esta é a regra +que guardam os imaginarios que é dar a um corpo quantidade de nove rostos, +contando inclusivè o mesmo.</p> + +<p>A terceira é: que em ausencia da mesma pessoa se lhe possa fazer todo o +genero de vestidos, calçado, tão justo como se estivesse presente, o qual se +fará d'esta maneira: vêr-se-ha uma luva, que a pessoa calce justa com uma fita +se tomará a grossura do dedo polegar pela raiz do dito dedo, a qual medida +dobrada fará o bocal da manga do casaco ou roupa, a medida do bocal da manga +será dobrada, a medida do cabeção dobrado, faz a medida da cintura; a da +cintura<span class="pn">{34}</span> dobrada em tres terços, um terço até ao +comprimento de um quarto do casaco, o outro terço com uma mão atravessada da +mesma luva, faz o comprimento da manga; o mesmo terço com a mesma mão atravez, +faz o comprimento da calça, o ultimo terço faz todo o comprimento da bota, cujo +pé será de um palmo da mesma luva, juntando-lhe mais o que houver do dito dedo +polegar da luva, da junta do meio até á extremidade, isto do pé; dois terços +dos ditos pés fazem capa até ao joelho, os mesmos dois terços, sendo mulher lhe +faz a casaquinha e os tres terços lhe fazem a saia, os mesmos tres terços com +mais tres palmos de luva lhe fazem manto e casaquinha, manga e corpinho, e o +mesmo que acima temos dito. A pessoa que com estas medidas lhe fizerem a roupa +que venha conforme e justo, poderá dizer que é conforme a proporção da +natureza, sem que falte cousa alguma, sendo a proporção de sua estatura o que +temos dito; resta pois que suas obras sejam taes, quaes convem para ser mais +perfeito. Os que carecem d'esta composição lhes convem fazerem taes obras, que +com a perfeição d'ellas fique satisfeito, á proporção do corpo.</p> + +<h2>Segredo 42.º</h2> + +<h3>Bons effeitos do alecrim</h3> + +<p>O alecrim tem uma natureza que é quente, secco e cheiroso, e por isso +fortalece todas as partes e membros de dentro e de fóra do corpo, alegra e +fortalece<span class="pn">{35}</span> os sentidos, consome as humidades, +frialdades, e todos os males contagiosos.</p> + +<p>O alecrim não consente melancholias, tremores nem desmaios no coração, cujas +raizes, ramos, cascas e flores d'essa excellente herva tem todas as virtudes, +as quaes diremos com ajuda de Nosso Senhor Jesus Christo e proveito da +humanidade.</p> + +<p>Os olhinhos mais tenros do alecrim, comidos pela manhã, com pão e sal, +fortalece a cabeça, conserva a vista clara, aguda e forte.</p> + +<p>A flor e folhas da mesma herva feitas em pó e trazida no seio, afugenta os +tres inimigos do corpo, que tanto affligem o coração, que são elles: as pulgas, +piolhos e persevejos.</p> + +<p>Os mesmos pós no seio do lado esquerdo, espantam a melancholia e ao coração +fazem-lhe muita alegria.</p> + +<p>As folhas da mesma herva bem mastigadas e postas sobre uma chaga fresca, a +curam, e fecha maravilhosamente.</p> + +<p>A flor da mesma, comida pela manhã com mel da mesma flor e um bocado de pão +quente, faz muito bem á saude: nem deixa gerar sangue podre, nem o mal da gota; +e se alguem tiver mal, essa herva lh'o tirará.</p> + +<p>O alecrim serve para afugentar todo o animal venenoso, e o seu fumo serve +contra todo o mal e pestes.</p> + +<p>Os ramos do mesmo, tambem servem para depois de queimados e feitos em pó, +fortalecer dentes e não lhe deixar criar bicho, nem constipações.</p> + +<p>Toda a mulher que tenha uso de comer a flor do alecrim em jejum com pão de +centeio, não padecerá mal da madre, porque lhe reprime os maus humores, gasta +as humidades, e cura os achaques a todas as pessoas que assim usarem.<span +class="pn">{36}</span></p> + +<p>A flor da mesma herva, mettida em qualquer sitio onde estiver roupa, não +deixa entrar a traça na mesma, e dá-lhe muito bom cheiro.</p> + +<p>Se lavarem o corpo com a agua, devem cozer muito bem o alecrim e se +conservarão com boa saude.</p> + +<p>As casas que são escuras e muito humidas, se as defumarem com alecrim a +miudo, conservar-se-hão enxutas.</p> + +<p>Um segredo para as quebraduras, já experimentado, são as alfarrobas verdes, +pizadas e applicadas sobre as quebraduras, que as curam e soldam.</p> + +<p>Se tiverem dôres nas juntas por causa de algum refriado e as lavarem com +agua onde se cozesse alecrim, lhe tirará a dor.</p> + +<p>No tempo da peste é muito proveitoso queimar alecrim pelas casas e nas ruas, +por que afina o ar e faz fugir a peste.</p> + +<p>Estas virtudes do alecrim, acabarei de ser tão extenso como pede este bem +para a natureza e tudo deixarei dito da maneira seguinte:</p> + +<p>Mel virgem de alecrim serve, tira nevoas dos olhos.</p> + +<p>O summo do alecrim lançado nos ouvidos, tira a dôr.</p> + +<p>O summo do mesmo tomado pelos narizes, tira o mau cheiro e sana todos os +males que dentro d'elles estiver.</p> + +<p>Um segredo provado e experimentado, a agoa do alecrim pôr-se ao sol, será +para os olhos que tem belidas, cataratas, ou que estão ennevoados. Faz-se esta +agua da maneira seguinte: um bom mólho de alecrim verde e colhido de fresco, +põe-se dentro de um ourinol novo de vidro com as pontas para baixo, não devem +chegar ao fundo, tapa-se com um panno de linho dobrado, e em cima d'este panno +põe-se um bocado<span class="pn">{37}</span> de fermento que tome toda a boca +do ourinol, e em cima do formento põe-se outro panno dobrado, e ata-se muito +para que não saia bafo algum, põe-se o ourinol ao sol em tempo de calor 6 até 8 +dias e d'alli se fará uma agua muito importante para os olhos. Quando essa agua +estiver prompta, deve-se lançar em uma vazilha pequena e se terá ao sol e ao +sereno outros tantos dias, que depois a agua que era branca, torna-se amarella +e grossa, na qual se desfará um pouco de assucar de pedra e d'esta agua se +lançarão nos olhos tres pingas, em cada um uma vez pela manhã, outras ao meio +dia, e outra á noute, e por favor de Deus sararão.</p> + +<p>Mulher que tiver pouco leite, não póde criar os filhos com as folhas e +flores de alecrim, que lhe causará abundancia de leite bom, porque purifica o +sangue.</p> + +<p>O summo do alecrim misturado com assucar e tomado de manhã e ao deitar da +cama faz bem ás afflicções do peito, ajuda a digestão e mitiga o apetite de +comer.</p> + +<p>A flor e as folhas em pós servem para a dôr do baço e do figado tomando-as +em vinho e mel.</p> + +<p>As folhas e flores da mesma herva fervidas em vinho tinto e bebido faz muito +bem á dôr de tripas, tira a cobiça e a dezinteria.</p> + +<p>Tambem servem os mesmos pós bebidos no mesmo vinho para quem padecer defluxo +da ourina, por debilitação ou fraqueza, isto é approvado mas devem ser cozidas +as folhas e flores em vinho do mais velho que fôr encontrado.</p> + +<p>Para quem não tiver apetite de comer, tome pela manhã duas ou tres colheres +de sopa, de vinho fervido com alecrim, que lhe abrirá a vontade de comer e lhe +fará fortaleza no estomago.</p> + +<p>Alguns auctores são de opinião, que a triaga é o<span class="pn">{38}</span> +remedio da peçonha; mas o alecrim cozido lhe faz o mesmo effeito.</p> + +<p>Finalmente o alecrim cozido em agua tem todas estas virtudes que se seguem +tomando bastantes banhos d'essa agua, chama-se o banho da vida, porque tira a +dôr das juntas e de todas as mais partes do corpo, é remedio para a canceira, +para a suffocação do coração, dá alento e vigor á velhice, conserva a mocidade, +fortalece os membros e aviva os sentidos.</p> + +<p>Aqui deixo por isso escripto aos meus leitores, em estas poucas linhas todas +as virtudes d'esta planta chamada alecrim, que tão bom proveito tenho tirado +d'ella e estou por certo que quem d'ella fizer uso como eu o tirará e se +conservará limpo, de tantos achaques que affligem o corpo humano.</p> + +<h2>Segredo 43.º</h2> + +<h3>Para a azia</h3> + +<p>A azia, além de ser uma molestia pouco impertinente quando ataca a creatura +causa-lhe um pouco de desarranjo na garganta, e é o que basta para nos +incommodar, e como não ha quem goste de incommodos, temos um segredo pelo qual +em um instante fiquemos alliviados da garganta, é segredo economico, barato, +pois se algum de vós tiver azia é só pegar em uma cebolla: tem poder para a +fazer sahir. Se houver quem não goste d'este objecto dou-lhe tambem por +approvado:<span class="pn">{39}</span> comerão amendoas amargosas que tambem +ficam livres d'esse mal.</p> + +<p>Assim tenho feito sempre e encontrei bom resultado, por isso d'estes dois +segredos o que primeiro me apparece, é d'esse que eu faço uso.</p> + +<h2>Segredo 44.º</h2> + +<h3>Para os meninos pequenos se criarem, de modo que sejam mais encorpados e de +mais forças</h3> + +<p>Muitos homens ficam pequenos de corpo e de poucas forças, porque as mães e +amas lhes tiram os braços de fóra antes do tempo, e assim como são tenros, +bolindo com os braços se relaxam os membros e assim ficam mais fracos e +debilitados, por isso quem quizer criar a criança, de modo que fique largo das +espaduas e com muita força nos braços não lh'os deve tirar fóra, quero dizer +vestidos, senão de trez mezes por diante, assim ficarão sendo mais corpolentos +e forçosos, porque se vão criando com todas as forças da sua natureza, cujas +forças não lhe abrandam tanto, como se forem criados como acima disse.<span +class="pn">{40}</span></p> + +<h2>Segredo 45.º</h2> + +<h3>Para conhecermos se qualquer homem nasceu de dia, ou de noute, ou no +crepusculo</h3> + +<p>A pessoa que tiver as orelhas despegadas da cabeça pela extremidade de +baixo, fazendo as pontas rombas, despegadas ou levantando os olhos +direitamente, se levantar mais o olho esquerdo que o direito, diremos que +nasceu de dia; se as orelhas pela parte debaixo forem ponteagudas sempre +pegadas no casco da cabeça ou levantando os olhos direitamente, e se levantar +mais o direito que o esquerdo, assim diremos que nasceu de noite.</p> + +<p>Se um d'estes signaes mostrar que nasceu de dia, outro que nasceu de noute, +o tal diremos que nasceu no crepusculo: chamamos crepusculo de pela manhã tanto +que vem rompendo a alva, e dura até que nasce o sol, o crepusculo da noite +conta-se desde que se põe o sol, até que se cerra a noute.</p> + +<h2>Segredo 46.º</h2> + +<h3>Da ethmologia dos dedos das mãos</h3> + +<p>O dedo mais curto e grosso da mão chama-se polex, de que se deriva poder, +porque sem elle não se póde apertar cousa alguma na mão, que firme fique,<span +class="pn">{41}</span> n'este costumam os mercadores trazerem os anneis, dando +a entender o muito que podem valer com seus reales.</p> + +<p>O dedo logo seguido se chama index, que quer dizer amostrador, porque nos +serve de mostrarmos aquillo que queremos; n'este costumam os medicos trazer os +anneis, dando-nos a entender que elles são index, pelos quaes nossa saude se +governa.</p> + +<p>O terceiro dedo se chama médio, ou maior, pelo ser, médio por estar no meio +de todos, n'estes costumam os soldados trazer os anneis, significando fortaleza +e esforço.</p> + +<p>O quarto dedo se chama annular ou dedo do coração, porque elle vem a ter uma +veia que passa pelo coração. Como o ouro é metal agradavel á vista de todas as +pessoas, em geral é costume pôr os anneis n'este dedo para evitar a melancholia +e outras paixões que acodem ao coração. Muitas pessoas costumam usar de anneis, +mais pela tradição antiga, que pela razão atraz escripta. Quem trouxer n'este +dedo um annel com uma pedra de Jacintho fina, que a toque na carne, não é tão +sómente bom para a melancholia, pois tambem tem outras propriedades boas.</p> + +<p>O quinto dedo se chama minimo ou auricular: minimo, pelo ser, auricular, +porque com elle costumamos limpar as orelhas. N'este dedo costumam trazer os +anneis as pessoas illustres, dando assim a entender quem são, e não pela valia +do ouro.<span class="pn">{42}</span></p> + +<h2>Segredo 47.º</h2> + +<h3>Da causa das nossas enfermidades, e com a ajuda de Nosso Senhor as podemos +remediar</h3> + +<p>As quatro compleições de que fomos formados comnosco, assim como uma meza +com quatro pés, que sendo todos eguaes e direitos, em plano, está quieta e +segura, porém se algum d'elles se levanta ou quebra e é mais comprido, isto só +é bastante para que os outros tres com a meza venham ao chão, da mesma maneira +a cólera, sangue, fleuma, e melancholia, cujas quatro compleições de que somos +compostos estão eguaes conforme á saude no corpo, porém tanto, que alguma +d'ellas se altera ou sobrepuja ás outras, causa no corpo a doença conforme sua +qualidade. Porque da cólera se causam tabardilhos, frenesis, febres malignas, e +outras enfermidades semelhantes.</p> + +<p>E do sangue se geram dôres de costas, de cabeça, pontadas e outras +semelhantes da fleuma, dôres de tripas, humidades no estomago, dôres de madre, +colicas, apostemas, e outras semelhantes. E da melancholia se geram tristezas, +humores viscosos, tremulos, gota e outros semelhantes.</p> + +<p>E supposto que segundo nossa santa fé aos sonhos não se póde dar credito, +por não terem razão nem fundamento algum, são sómente phantasmas que se +representam no entendimento, estando uma pessoa dormindo.</p> + +<p>Todavia se alguma das quatro compleições se altera do corpo, causa que os +taes phantasmas tenham alguma correspondencia, a qualidade da dita +compleicão,<span class="pn">{43}</span> assim sabendo que seja se póde remediar +com defensivos, que á tal compleição alterada applicam.</p> + +<p>Pelo que se a pessoa sonhar com o fogo ou arma e outras cousas que incitam a +cólera, é signal que a cólera predomina, segundo ella se lhe póde dar remedio. +</p> + +<p>E se o sonho fôr de pescarias ou embarcações, cousas que pertençam á agua +predomina a fleuma.</p> + +<p>E se sonhar com prisões, mortes, ou outras cousas que incitem tristezas, +perdomina melancholia conforme a ella se lhe applicará remedio.</p> + +<h2>Segredo 48.º</h2> + +<h3>Para o fogo não queimar </h3> + +<p>Pegarão em 20 reis de alteia e depois de a fazer em pó a botarão com uma +clara de ovo em uma tigela e com essa mistura untarão as mãos ou outra qualquer +parte que quizerem, que depois d'isto feito não se queimarão.</p> + +<h2>Segredo 49.º</h2> + +<h3>Do tempo que é salutifero cada um dormir segundo a compleição que tiver</h3> + +<p>Temos a notar que as compleições atraz declaradas<span +class="pn">{44}</span> tem aquelles effeitos em quanto distinctas, mas pela +mistura d'ellas formam outras quatro compleições, que são as do temperamento, +colerica, sanguinea, fleumatica, melancholica. Da do temperamento não +trataremos, porque não é possivel havel-a, que onde ha temperamento não ha +alteração e não póde haver doença. Assim tambem se ha de notar, que o dormir é +parte mui essencial para o cosimento do estomago: porém convém a cada um para +sua saude tomar o somno conforme a qualidade da sua compleição. Porque os +puramente colericos pela muita quentura que tem, basta-lhes dormir cinco a seis +horas: os colericos sanguineos basta-lhes cinco e meia a seis e meia; os +puramente sanguineos basta-lhes seis a sete; os fleumaticos bastam-lhe seis e +meia a sete; os puramente fleumaticos, bastam-lhe sete a oito, os fleumaticos +melancholicos bastam-lhe sete e meia a oito e meia; os puramente melancholicos +bastam-lhe oito a nove.</p> + +<p>E tudo o que passa d'esta regra é prejudicial á saude, porque tanto se perde +por carta de menos, porque assim como não dormir inquieta o corpo, o móe e +debilita, assim o dormir muito causa gota e outras enfermidades. Note-se tambem +que os colericos, pela muita quentura que teem, lhes é prejudicial á saude +soffrer fome; mais ou menos, comer é melhor.<span class="pn">{45}</span></p> + +<h2>Segredo 50.º</h2> + +<h3>Para fazer levantar um ovo ao ar deante de gente</h3> + +<p>No mez de maio colherão em uma horta uma ambula de orvalho, guarda-se em +parte onde lhe não dê o sol, e quando quizermos fazer o que acima fica dito, +com um alfinete grosso fura-se um ovo e chupando-o pelo mesmo buraco, o +encherão de orvalho, e taparão o dito buraco com um bocadinho de cêra branca, +collocando-se o dito ovo á vista de todos em parte onde lhe dê o sol, e assim +como o ovo fôr aquecendo se irá levantando e subindo até desapparecer. Quem +quizer que este mesmo ovo lhe sirva para mais vezes, ate-o a um cordel na ponta +de uma lança, e que seja o cordel tão comprido como ella, ficando a lança no +chão. Com uma linha atarão o ovo no cordel, posto ao pé da banca em parte onde +lhe dê o sol, e quando aquecer subirá pela lança acima e assim estará no ar, +até o tirarem, emquanto estiver quente, porque quando o sol d'aquelle sitio fôr +desapparecendo, o ovo vae arrefecendo, e conforme fôr arrefecendo assim vae +cahindo para o chão; por isso lhe devem acudir a tempo para se não +quebrar.<span class="pn">{46}</span></p> + +<h2>Segredo 51.º</h2> + +<h3>Para queimar um lenço e ficar são</h3> + +<p>Secretamente molharemos um lenço em aguardente de cabeça; trazendo-o diante +dos circumstantes mandaremos vir uma candeia acesa e tomando o lenço por duas +pontas para ficar estendido lhe mandaremos deitar fogo, e como fôr inflammando +andaremos com elle ao redor por espaço de um minuto á vista dos circumstantes e +logo o sacudiremos e apertaremos entre as mãos para que se apague o lume; +tornando-o a estender o mostraremos aos circumstantes tão são como era antes de +se lhe botar fogo.</p> + +<h2>Segredo 52.º</h2> + +<h3>Para que as mulheres sem postura pareçam melhor e tenham melhor cara com +menos custo</h3> + +<p>Entre outras cousas que entre nós ha mal feitas são duas, as quaes nos dão +notavel prejuizo á saude: a primeira é quererem os homens mostrar que calçam +pequeno pé, mandando fazer menor sapato, do que<span class="pn">{47}</span> +pede o pé, assim continuando vem a ser gotosos; por conseguinte as mulheres que +usam posturas perdem os dentes, mais depressa se arusgam e outras muitas +desgraças se seguem d'aqui.</p> + +<h2>Segredo 53.º</h2> + +<h3>Para mostrar aos circumstantes um braço atravessado com uma faca sem +prejuizo algum</h3> + +<p>Faz-se uma faca de duas metades ligadas uma á outra com uma mola e será +feita de tempera branda, que se alargue e aparte o que a pessoa quizer; esta +mola mettida pelo braço acima por baixo do casaco ou camisa, apertada a manga +junto á faca, e feito isto secretamente sahir aos circumstantes, mostrar-lh'a, +parecerá o braço estar passado pelo collo da mão.</p> + +<p>Adverte-se que a feitoria da mola d'esta faca é necessario seja de modo que +se aperte e alargue.<span class="pn">{48}</span></p> + +<h2>Segredo 54.º</h2> + +<h3>Para fazer tinta de qualquer côr com facilidade, e as letras que estão em +papel quasi safadas se acharem a ponto de se lerem</h3> + +<p>Deve haver tinteiro separado para cada tinta, para que uma não corrompa a +outra.</p> + +<p>Para fazer tinta vermelha, pizam-se flores de papoula, espremidas, o sumo +que deitarem, coado, posto um pouco ao sol, para que engrosse e não corra +tanto, se faz tinta vermelha bastantemente.</p> + +<p>Para fazer tinta verde, faz-se a mesma operação com os concelleiros que +nascem pelas paredes, e da mesma maneira ficará tinta verde.</p> + +<p>Para a tinta roxa, do mesmo modo se fará da flor do lyrio.</p> + +<p>Para tinta amarella, egualmente se faz com flôr do pampiro.</p> + +<p>E assim para qualquer outra tinta que quizermos fazer, buscaremos a herva da +côr da tinta que quizermos fazer, e do mesmo modo que fica dito se fará.</p> + +<p>E para fazer que as letras que estão em papel que mal se enxerguem por +estarem gastas pelo tempo se possam lêr, se molhará um panno de baeta em ourina +fresca, levemente se esfregam as letras com elle, que depois se poderão +lêr.<span class="pn">{49}</span></p> + +<h2>Segredo 55.º</h2> + +<h3>Para tirar nodoas de azeite e pingos de cêra de toda a qualidade de +pannos</h3> + +<p>Para tirar nodoas de azeite amassarão um bocado de barro vermelho, que não +fique muito espesso, e da parte do avêsso que quizerem tirar as nodoas, +cubra-se toda a nodoa com este barro, e da parte direita se ponha sobre a nodoa +uma folha de papel alinhavada, de modo que se chegue o papel ao panno, e posto +a enxugar até o barro estar bem secco, logo se esfrega, e tirando-se-lhe o +papel ficará a nodoa fóra. Este remedio é bom principalmente para panno de côr; +é bom lavar em agua de pescada.</p> + +<p>E tambem para tirar a nodoa do panno se cobrirá a nodoa com sabão e por cima +do sabão botar um pouco de sal, pondo ao sol por espaço de um quarto de hora e +lavando a nodoa, logo se tirará.</p> + +<p>Para tirar pingos de cêra, estando em sêda, tosta-se uma fatia de pão trigo, +e assim quente se põe em cima da cera que a attrahirá a si.</p> + +<p>Se fôr em panno de côr, bota-se um testinho no lume, e estando bem quente se +tira, embrulha-se em um papel, esfrega-se com elle no lugar onde está a cêra, e +assim logo sahirá e o panno ficará limpo.<span class="pn">{50}</span></p> + +<h2>Segredo 56.º</h2> + +<h3>Do modo mais facil de fazer dôce a agua do mar</h3> + +<p>Se quizerem fazer uma canada em pouco tempo, de agua do mar para ficar dôce, +tome-se um pote novo, metta-se-lhe dentro uma pedra que peze quatro ou cinco +arrateis, tapa-se-lhe a bocca com uma rolha de cortiça, bem justa, atando o +pote por um cordel, se botará o dito pote no mar, mansamente, para que a pedra +não quebre, e d'ahi a tres ou quatro horas o tirarão, tirando a rolha ao pote, +acharão dentro d'elle uma canada de agua dôce como a da fonte; a razão por que +a pedra se mette é para que o pote vá ao fundo do mar, para a agua tomar a +virtude que se pretende.</p> + +<h2>Segredo 57.º</h2> + +<h3>Das regiões do ar e da terra</h3> + +<p>Como no segredo adiante havemos de tratar das qualidades da agua dôce, +necessariamente é tratarmos primeiro da terra, por cuja razão se faz dôce, e do +ar a que ella sobe.</p> + +<p>Os mathematicos que tenham observado cometas, os quaes se fazem entre a +região do fogo e do ar, acham ter este corpo aereo, trinta e quatro leguas, +dous terços, estes se repartem em tres regiões; a primeira<span +class="pn">{51}</span> que é esta que gozamos temperada por razão dos raios do +sol que dão na terra, reverberando para cima aquentam, temperam até duas leguas +e meia para cima, esta região é mais palpavel, porque n'ella andam as aves, e +n'ella respiram todos os animaes terrestres, racionaes e irracionaes. A segunda +região é summamente fria mais pura que a primeira, em tanto que as aves subindo +a ella não se poderão ter nem respirar no principio d'esta região, estão em +deposito as aguas que chovem, que sobem do mar vapores da terra, aguas sobem, +até ao meio da dita região, congelam-se em neve, e se mais acima forem, +congelam-se em pedra, assim como esta primeira e segunda região occupam para o +alto oito leguas e meia, as mais que faltam para trinta e quatro leguas, dous +terços occupa a terceira região, a qual pela parte proxima a segunda é fria, e +pela parte de cima por estar á região do fogo é calidosissima; n'esta se fazem +todos os trovões, raios e cometas. Assim tambem a terra se parte em tres +regiões, para que não pareça desordem brotaremos o gosto d'ella, proval-o-hemos +por regras grammaticaes, as quaes são pela circumferencia ou superficie de um +globo, saber-se a grossura d'elle, quero dizer seu diametro, ou peso diametro +de uma cousa, vir em conhecimento da superficie d'ella guardando a regra +seguinte.</p> + +<p>Que sabido o diametro de qualquer circulo, este multiplicando partes, um +setimo; o que tudo sommado terá de circumferencia a superficie, por conseguinte +sabendo a circumferencia, esta, partida por tres um setimo, o que vier á +partição fará o diametro, assim, vinte e dous palmos de diametro, nos dão sete +palmos de circumferencia, pois temos sabido assim pelas dimensões geometricas, +como das experiencias de homens<span class="pn">{52}</span> do mar ter a terra +em redondeza, seis mil e trezentas leguas; iremos á regra de tres, dizendo se +vinte e duas leguas de circumferencia nos dão sete de diametro, seis mil e +trezentas de circumferencia da terra quantas nos darão de diametro, virá a +partição de duas mil e quatro leguas e meia, assim diremos ter a terra de +grosso, duas mil quatro leguas e meia que partidas pelo meio vem duas mil duas +leguas e um quarto de legua, tanto ha da superficie ao centro da terra, que é o +meio de toda a grossura.</p> + +<p>Estas mil duas leguas e um quarto se repartem em tres regiões, a primeira +das quaes a da superficie para o centro duas leguas e um quarto, ou posto que a +terra em si seja summamente fria, secca e pesada, esta primeira região é +temperada pela razão que temos dado da impressão que fazem os raios do sol +n'ella, n'esta região se criam as exhalações que com a força do sol chamadas +para cima se acertam de cahir por terra, pela resistencia que lhe põem ao cair, +causa para ella tremer que é haver em algumas ilhas e outras partes tanta +calidade na terra que no verão com a força do sol abrem grandes concavidades, +as quaes vindo o inverno, pela razão que acima dissemos, se tornam a fechar. +</p> + +<p>A segunda região que é de duas leguas e um quarto, seis leguas para baixo +n'esta região, a superficie d'ella é o principio da creação do ouro e mais +metaes mineraes, d'ahi vem botando para cima por veias canos a modo de arvores, +assim a raiz do ouro principia n'elle e na segunda região.</p> + +<p>A terceira região é de oito leguas e um quarto, que occupam a primeira e +segunda região para baixo até ao centro, esta ultima região, é summamente +pesada, fria e secca; é incapaz de criar cousa alguma,<span +class="pn">{53}</span> no intimo interior da qual está o inferno de que Deus +nos livre.</p> + +<h2>Segredo 58.º</h2> + +<h3>De dous medicamentos que se usam entre os rusticos </h3> + +<p>Quando alguma pessoa do campo se sente com qualquer mal que seja, cose um +bocado de carqueija e bebem aquella agua, e deitados na cama se abafam para +suar, e com isto lhe faz Deus algumas vezes de lhe abrandar o mal.</p> + +<p>O segundo é que para maleitas dizem ao enfermo que dê a ourina para mostrar +ao medico, com ella dão uma volta fingindo que vão buscar um xarope e em lugar +d'elle lhe dão a beber a mesma ourina e com este remedio continuam oito dias, e +é com este mesmo remedio que se lhe vão embora as maleitas.</p> + +<h2>Segredo 59.º</h2> + +<h3>Para fazer acreditar aos presentes que conhecemos as cartas de jogar pelo +cheiro</h3> + +<p>Ha-de vir a terceira pessoa, a quem tenhamos dado conta d'isto, logo faremos +pôr a mesa e diremos que nos tapem os olhos, e nos sentaremos, e defronte<span +class="pn">{54}</span> de nós a pessoa em que nos fiamos, e logo pediremos +cartas, perguntando que é o que querem que d'alli se tire, se a primeira de +quatro ou o que quizerem, logo indo tirando carta por carta, e cheirando cada +uma d'ellas pelas costas de modo que o que ha-de avisar veja que cartas são, +assim tirando-as iremos pondo uma por uma na meza em tanto que nos venha alguma +das que nos tem pedido a pessoa a que temos communicado o segredo, porá o pé +sobre o nosso, assim poremos aquella carta de parte e iremos continuando até +tirar todas as pedidas, da mesma sorte que acima fica dito e quem estiver +fazendo este segredo acautelar-se-ha para os assistentes não darem fé do que se +está fazendo por baixo da meza.</p> + +<h2>Segredo 60.º</h2> + +<h3>Virtudes do jacintho</h3> + +<p>O jacintho é de muitas côres, porém o verde ou roxo mui brilhante é o +melhor, o qual feito em pó e tomado pela bocca, é cordial, e serve contra as +febres malignas: defende a quem o traz dos raios e temporaes.</p> + +<p>Trazendo o jacintho comsigo, que toque ao corpo, conforta o coração, e aviva +o engenho.</p> + +<p>Defende o jacintho, a quem o trouxer comsigo, de venenos e ares corruptos. +</p> + +<p>Tem virtude o jacintho de refrear a loucura, e evitar a melancolia; e não +soffre representações de fantasmas, nem visões.<span class="pn">{55}</span></p> + +<p>Meia legua de Toledo junto a um mosteiro de Bernardos, ha uma fonte pegada á +ribeira do rio Tejo que chamam dos jacinthos, porque ali ha tantos, que sae a +agua e corre por cima d'elles.</p> + +<h2>Segredo 61.º</h2> + +<h3>Virtudes das pedras da andorinha</h3> + +<p>Diz o experimentador Alberto, e ainda outros, que na cabeça da andorinha se +acham duas pedrinhas mui pequenas, e que uma é branca, e outra vermelha, cujas +virtudes são as seguintes.</p> + +<p>Dizem que quem trouxer comsigo a pedra branca da andorinha, não será +molestado de sêde, e que se a tiver na bocca, sempre a terá fresca.</p> + +<p>Dizem mais, que se alguem tiver fluxo de sangue e trouxer a mesma pedrinha +branca ao pescoço, logo se lhe estancará o sangue.</p> + +<p>Tambem dizem que tem virtude para ajudar as mulheres no parto, como a pedra +da aguia.</p> + +<p>Dizem mais, que lançada a mesma pedrinha branca em uma vasilha de agua por +espaço de uma noite, e bebida a agua, provoca a cursos, e tira o mal da gotta, +e ainda a febre se a tiver.</p> + +<p>Tambem dizem que quem trouxer comsigo a pedra vermelha da andorinha se +livrará de muitas doenças.<span class="pn">{56}</span></p> + +<h2>Segredo 62.º</h2> + +<h3>Virtudes da pelle que a cobra costuma despir</h3> + +<p>A pelle da cobra queimada, e posta em cima de alguma ferida, a deixa sã; e +se houver bico, ou ferro mettido dentro na carne costuma attrahil-o a si, até o +tirar fóra.</p> + +<p>Notem uma e outra vez, advirtam, que quem trouxer comsigo os pós d'esta +pelle de cobra será preservado de lepra, e de qualquer peçonha. E saibam, que +os ditos pós tem grandes virtudes, e muitas propriedades: porém, ha de se +queimar a dita pelle, estando o sol no signo de Aries, que é de 12 de março até +26 de abril.</p> + +<h2>Segredo 63.º</h2> + +<h3>Para tornar doce a agua do mar, que se possa beber</h3> + +<p>Diz Aristoteles, que para fazer a agua do mar doce que se possa beber, façam +uma vasilha de cêra bem tapada, e a mettam no mar, que fique coberta de agua, e +toda a que fôr entrando pelos poros da cera perderá o sal e ficará doce. O +mesmo succederá, se metterem no mar uma vasilha nova de barro com tanto que +tenha a bocca bem tapada.<span class="pn">{57}</span></p> + +<h2>Segredo 64.º</h2> + +<h3>Para conservar a castidade, e reprimir os estimulos da carne</h3> + +<p>Escreve Macencio, que o summo da erva chamada sagunta, bebido em jejum +reprime os estimulos da carne, e as suas folhas postas sobre os genitaes, diz, +que tem virtude de applacar os incentivos da luxuria.</p> + +<p>Avicena escreve, que a arruda comida, mitiga os ardores da carne no homem; e +na mulher pelo contrario, porque os aviva com excesso.</p> + +<p>O mestre João diz, que o orjavão tem mui grande virtude, e efficacia para +reprimir a luxuria, porque applicado aos lombos mitiga, e applaca grandemente +os estimulos da carne. Diz mais o mesmo author, que o sumo do orjavão bebido +causa impotencia, a quem o toma, por espaço de sete dias. Escreve Dioscorides, +que a fructa, que produz o cedro, pizada, ou o sumo de suas folhas posto nos +genitaes, desterra a appetencia de actos venereos. Michael Escoto diz com muito +fundamento que todas as cousas agras, frias e azedas se accomodam bem com a +castidade, conservando-a: e pelo contrario as cousas doces, quentes e +odoriferas, a destroem, e estragam de todo. Porém fallando espiritual e +catholicamente, o que mais conserva, e defende a castidade é o jejum, a +disciplina e a oração frequente e com muita devoção.<span +class="pn">{58}</span></p> + +<h2>Segredo 65.º</h2> + +<h3>Para conservar as camas sem persevejos, os aposentos sem pulgas, as casas +sem moscas, e ainda sem mosquitos nem ratos</h3> + +<p>Tomarão cóla feita de retalhos de couro, e desfeita em agua ao fogo, que +fique bem clara e rala, lhe misturem azeite, e assim quente, molharão e +esfregarão as taboas e pés do leito, de sorte que toda a madeira fique lavada +com este cosimento, e resultarão dois effeitos muito bons. O primeiro será que +o leito todo parecerá de nogueira. E o segundo, que não se crearão n'elle +persevejos, como tenho bem experimentado.</p> + +<h2>Segredo 66.º</h2> + +<h3>Contra pulgas</h3> + +<p>Ponham uma panella de agoa ao lume, e lançar-lhe-hão dois vintens de +solimão, e deixando-a ferver bem, borrifarão o aposento depois de bem varrido, +e tenham por certo que morrerão, e se não crearão outras. Mas isto se ha de +fazer duas vezes na semana.<span class="pn">{59}</span></p> + +<h2>Segredo 67.º</h2> + +<h3>Contra moscas</h3> + +<p>Tomem um pouco de mel e farinha, mechida com uma pouca de agoa clara, lhe +lancem arsenico ou rosalgar, e ponham esta mistura em caqueiros, aonde cheguem +as moscas, e vêr-se-ha quantas vão caindo, porque em provando ficam mortas. O +mesmo effeito faz o ouro e pimenta moida, e desfeito em agoa e posto em algumas +vasilhas pela casa; mas vigiem que não chegue cão ou galinha a provar, porque +ficarão mortos.</p> + +<h2>Segredo 68.º</h2> + +<h3>Contra mosquitos</h3> + +<p>Queimarão cominhos rusticos no aposento aonde houver mosquitos, e logo +cairão mortos ou se irão; tambem quem molhar o rosto com agoa, na qual +estivessem cominhos rusticos de infusão, não lhe hão de chegar os mosquitos ao +rosto. Em outro logar se dirão outros segredos mais ácerca d'isto; mui notaveis +e difficultosos de crer, e por tanto cito ali os auctores que o dizem.<span +class="pn">{60}</span></p> + +<h2>Segredo 69.º</h2> + +<h3>Contra ratos</h3> + +<p>Façam por apanhar um rato vivo, já grande ou mediano, e façam uma de duas +cousas. Ou lhe esfolem a cabeça e lhe ponham na abertura da pelle um pouco de +sal moido e deixem-no vivo, que elle com o ardor e raiva affugentará os outros: +ou façam outra cousa, se lhes parecer mais facil, e é atar ao pescoço do rato +um cascavel pequeno, que tenha o tenido mui vivo, com o que fará fugir os +outros; e assim ficarão livres d'estes inimigos caseiros, poupando gastos e +molestias. Outro segredo melhor e mais facil. Tomarão gesso novo, e passado por +peneira o misturarão com queijo ralado subtilmente, e misturado tudo o ponham +em diversas partes da casa, e será cousa entretida vêr os ratos que comerem da +iguaria andarem inchados por casa, e se tiverem agua que beber, morrerão mais +depressa; porque o gesso tanto que chega á agua ou cousa humida, logo se torna +em massa, e é segredo sem perigo.</p> + +<h2>Segredo 70.º</h2> + +<h3>Para fazer durar o azeite da candêa</h3> + +<p>Tomarão giesta da mais pequena e de folhas mais miudas; (porque ha duas +castas d'ellas) queimal-a-hão,<span class="pn">{61}</span> e da cinza farão +decoada; e pondo esta a cozer, se converterá em sal, o qual lançado nas +candêas, conservará e fará durar o azeite mais do terço. A pedra hume de rosa e +o sal commum, que serve para o comer, tem a mesma propriedade, porém não tanto +como o sal da giesta.</p> + +<h2>Segredo 71.º</h2> + +<h3>Para fazer augmentar o azeite das candêas</h3> + +<p>Tomarão uma canada de azeite e pôr-se-ha ao fogo, e logo lançarão quatro +onças de pêz grego e um vintem de pedra hume de rosa; tudo bem moido primeiro, +e mechendo-o muito bem, até que esteja de todo misturado, logo se poderão +servir d'elle nas candêas, poder-se-ha fazer mais ou menos seguindo a mesma +ordem com proporção dos materiaes.</p> + +<h2>Segredo 72.º</h2> + +<h3>Para fazer vinagre bom e forte multiplicando-o com pouco custo</h3> + +<p>No tempo da vindima tomarão um pé de bagaço no patamal do lagar, depois de +espremido e estendido lhe lançarão cem potes de agua e quatro arrateis de<span +class="pn">{62}</span> perrexil verde, dois de flor de sabugo verde, e um bom +cantaro de vinagre do melhor e mais forte, e deixal-o estar vinte ou trinta +dias, e no fim se esprema tudo, e recolherão vinagre mui forte e odorifero; e +proporcionando os materiaes, podem fazer mais ou menos.</p> + +<h2>Segredo 73.º</h2> + +<h3>Para multiplicar a cera</h3> + +<p>Tomarão uma arroba de cebo de bode e uma duzia de ovos de adem, só as gemas, +meias cozidas, desfeitas e bem batidas, se lancem no cebo com outra arroba de +cera, e tudo posto ao fogo se mecherá, até que fique derretido e bem misturado; +e ficará tudo convertido em cera mui amarella, para se fazer d'ella toda a obra +que quizerem.</p> + +<h2>Segredo 74.º</h2> + +<h3>Para saber se o vinho tem agua ou não</h3> + +<p>Diz Creponte, que para saber se o vinho tem agua, lhe lançarão umas talhadas +de pera brava aparada, e se nadarem em cima, signal que está o vinho puro; mas +se forem ao fundo, se conhecerá que o vinho está aguado.<span +class="pn">{63}</span> Outra advertencia. Tomarão um junco ou uma palha de avêa +bem lisa, e untada com cebo a metterão na vasilha do vinho; e se este tiver +agua, sairão pegadas umas pingas mui subtis de agua. Outra. Encherão de vinho +uma panella nova, e deixando-a estar dois dias, se sumirá toda a agua, se a +tiver. Outra. Tomarão uma pedrinha de cal virgem, e molhando-a com elle, vinho, +se tiver agua logo se desfará a cal; e se estiver puro, se apertará mais. +Outra. Lançarão um pouco de vinho em azeite que esteja bem quente, e se tiver +agua, espirrará e saltará, o que não hade acontecer se fôr puro.</p> + +<h2>Segredo 75.º</h2> + +<h3>Para se não embebedar</h3> + +<p>Diz Filonio, que para se não embebedar são bons os bofes de ovelhas assados, +e comidos antes de jantar, ou que, antes que bebam vinho, comam verças com +vinagre, e d'este modo lhe não fará mal o vinho, posto que bebam mais do +ordinario. Porém o melhor remedio para se não embebedar é o que eu uso ha +sessenta e tres annos que hoje faço de idade, e nunca bebi vinho, e acho tanto +regalo na agua, que é para mim a melhor iguaria que vejo na mais explendida +meza: e oxalá se praticára isto que digo, que o vinho se havia de vender na +botica e usar por medicina. Se alguem reconhecer o descredito, que causa o +vicio de destemperança no beber, e quizer livrar-se de se embebedar<span +class="pn">{64}</span> e aborrecel-o de todo, note o que escreve Plinio, e é +que mettam duas enguias vivas e grossas dentro em um cantaro de vinho, e que +depois de estarem affogadas, dêem este vinho aos que se costumam embebedar, e +virão a aborrecer o vinho de todo; porque causa um raro tedio e aversão. Para o +mesmo serve a bretonica feita em pó e bebida.</p> + +<h2>Segredo 76.º</h2> + +<h3>Para tirar a agua do vinho</h3> + +<p>Escreve Catão e Plinio, que para tirar a agua do vinho, se fará uma vasilha +de páo de hera, lançando o vinho n'ella, se tiver agua, todo o vinho se irá +coando e ficará só a agua na mesma vasilha: e se não tiver agua, ficará a +vasilha completamente vazia.</p> + +<h2>Segredo 77.º</h2> + +<h3>Uma redoma que estando cheia de agua, e posta com a bocca destapada para +baixo, se não entorne</h3> + +<p>Ponham uma redoma ou garrafa cheia de agua ou vinho dentro em um cubosinho +ou balde de madeira ou de cobre que é melhor, e lançarão sobre a garrafa<span +class="pn">{65}</span> ou redoma, e por baixo quantidade de neve bem desfeita, +e por cima da neve se deitarão bastante sal moido e pouco a pouco irão virando +a garrafa, até que de todo esteja a neve desfeita, e escorrerão a agua da neve +e lançar-lhe-hão outra tanta neve desfeita com sal moido; e assim se deixará +estar até que de todo se desfaça, sem mover a garrafa: e farão o mesmo terceira +vez, e tirará a agua congelada ou o vinho que estiver na garrafa. E isto se +póde fazer na força do verão, e parecerá cousa impossivel, sendo tão facil; e +pondo a garrafa com a bocca destapada para baixo, é certo que se não entornará. +Como experimentou o duque de Gandia, D. Francisco de Borja, que mandou uma +cheia de agua congelada no verão, ao patriarcha D. João de Ribeira, arcebispo +de Valença, o qual em retorno de tão curioso segredo, lhe mandou outra garrafa +cheia de vinho congelado, que foi maior maravilha.</p> + +<h2>Segredo 78.º</h2> + +<h3>Para tornar uma rosa e um cravo de vermelho em branco</h3> + +<p>Defumarão o cravo e a rosa em enxofre, e logo se tornarão brancos de +encarnados; e podem fazer todo o craveiro branco, de vermelho, como eu fiz a +experiencia em uma occasião, tornando brancos mais de vinte cravos encarnados, +com admiração do dono do craveiro, por não saber a causa.<span +class="pn">{66}</span></p> + +<h2>Segredo 79.º</h2> + +<h3>Curioso e de entretenimento</h3> + +<p>Recolherão uma pequena porção de azougue em um canudinho de penna e muito +bem tapado, o metterão dentro em um pedaço de pão quente, e ver-se-ha, tanto +que o azougue aquecer, que começará o pão a dar saltos pela meza. O mesmo verão +que fará uma avelã, se a encheram de azougue, e bem tapada com um torno que +atoche bem, lançada em agua quente, porque tanto que o azougue aquecer, fará +saltar a avelã.</p> + +<h2>Segredo 80.º</h2> + +<h3>Garrafa ou redoma</h3> + +<p>Se quizerem fazer subir a agua por uma redoma vasia ou garrafa, +aquentar-se-ha muito bem e por-se-ha com a bocca para baixo na agua, e verão +subir a agua pela redoma acima em quanto esta estiver quente, e para que o +esteja, irão queimando papel sobre o fundo da mesma vasilha, e não ha de parar +até que encha de todo, e é provado.<span class="pn">{67}</span></p> + +<h2>Segredo 81.º</h2> + +<h3>Do ovo e da sanguexuga</h3> + +<p>Se quizeres que um ovo ande pela casa, tomarão um ovo vasio, de sorte que +fique a casca quasi inteira, e pelo buraco por onde o vasarem, lhe mettam uma +sanguexuga viva, e tapar-se-ha o buraco com cera, e tomarão uma tigella de agua +e a irão movendo junto ao ovo, e como a sanguexuga do instincto natural conhece +e sente o rumor da agua, vae seguindo aquelle rumor, e o ovo rebolando, a quem +não sabe o segredo fica confuso, e é provado, e nota que a sanguexuga ha de ser +de paul e de umas que ha mui negras e grossas.</p> + +<h2>Segredo 82.º</h2> + +<h3>Raro do ovo e da linha</h3> + +<p>Atarão uma linha ao redor de um ovo, e pondo-o a assar no meio do borralho +que esteja bem coberto do lume mais vivo, e ver-se-ha que o ovo se assa e não +se queima a linha nem se quebra, e é provado.<span class="pn">{68}</span></p> + +<h2>Segredo 83.º</h2> + +<h3>Incrivel para quem o não viu nem provou</h3> + +<p>Se quizerem frigir peixe ou ovos em papel em logar de certã, tomem um pedaço +de papel feito a modo de barrete de quatro cantos, e deitar-lhe-hão azeite, e +pondo-o sobre uma vela ou candeia accésa, irá fervendo o azeite sem que o papel +se queime e frigindo o peixe ou ovos, é provado.</p> + +<h2>Segredo 84.º</h2> + +<h3>De duas caras pintadas na parede que apaguem e accendam uma vela</h3> + +<p>Pintarão na parede duas caras grandes, e no meio das boccas lhe farão duas +covinhas; em uma ponham salitre moido bem enxuto, e na outra enxofre em pó; e +se chegarem o lume da vela á boca ou covinha do salitre, se ha de apagar, e no +mesmo instante chegarão o pavio da vela que fica fumegando, á outra bocca do +enxofre, se accenderá e é provado; mas hão de tocar o pavio no salitre e no +enxofre.<span class="pn">{69}</span></p> + +<h2>Segredo 85.º</h2> + +<h3>Para que um frangão, estando vivo, pareça morto e assado na meza, e para o +fazer saltar e fugir</h3> + +<p>Tomarão sumo de aipo e misturem-no com aguardente refinada, e deitarão de +molho umas migalhas de pão n'esta agua misturada com sumo do aipo, e darão de +comer ao frangão em jejum d'estas migalhas, e d'ali a pouco cairá o mesmo +frangão no chão amortecido, e no mesmo instante tirar-lhe toda a penna e +untal-o com mel branco, misturado com açafrão, de sorte que fique bem córado, e +pondo o frangão em um prato, na meza, parecerá assado. E quando o quizerem +fazer tornar em si e saltar fóra da meza, molhar-lhe-hão o bico com um pouco de +vinagre forte, de sorte que lhe chegue á garganta, e de repente se levantará e +fugirá da meza, e é provado.</p> + +<h2>Segredo 86.º</h2> + +<h3>Maravilha rara</h3> + +<p>Escrevem S. Basilio e S. Ambrosio, de uma ave que se chama Alcião, da fórma +do maçarico, a qual cria junto ao mar na area e no inverno; a qual em 14 dias +se tira e cria, até poderem voar. E dizem estes Santos Doutores, que em todos +estes 14 dias, que esta<span class="pn">{70}</span> ave gasta em criar seus +filhos, nunca o mar se altera, pouco nem muito, antes se conserva mui sereno e +socegado. Esta maravilha e prodigio tem bem observado os marinheiros, e chamam +a estes dias alcionicos; e estão mui certos que em todos estes 14 dias não ha +tormenta no mar.</p> + +<h2>Segredo 87.º</h2> + +<h3>Do olho do cão </h3> + +<p>Baptista Aranda, escreve em um livro de seus conceitos, que quem trouxer +comsigo um olho de cão negro, não lhe ladrarão os outros cães; por que diz que +o dito olho lança de si tão grande fartum e cheiro, que os cães o sentem logo +pelo grande faro que teem; e não só se não atrevem a ladrar, mas ainda nem a +bolir comsigo.</p> + +<h2>Segredo 88.º</h2> + +<h3>Importante para a memoria</h3> + +<p>Se quizerem augmentar a memoria, tomarão a banha do urso e cera branca, e +derreterão a cera com a banha, sendo esta dois tantos de cera; tomarão a herva +que se chama Valeriana, e outra que se chama Eufragia, frescas ou seccas, e +pizadas muito bem, as<span class="pn">{71}</span> misturem com a banha e cera +derretida, e tornando ao fogo, deixarão ferver até que fique grosso, mechendo +com um páo, e com este unguento untarão o toutiço e testa, de quando em quando, +e se augmentará notavelmente a memoria, e é provado.</p> + +<h2>Segredo 89.º</h2> + +<h3>Dos dois casados que não tem filhos</h3> + +<p>Para saber, de dois casados que não tem filhos, em qual dos dois está o +defeito natural, tomem a ourina de ambos, marido e mulher, cada uma em sua +vasilha, e em cada qual d'ellas lançarão uns poucos de farellos de trigo, e +n'aquella ourina em que se crearem bichos, está o defeito natural de não poder +procrear ou conceber.</p> + +<h2>Segredo 90.º</h2> + +<h3>Para ter boa voz e clara</h3> + +<p>Tomarão a flor do sabugueiro, e seccando-a ao sol, moida, lançarão os pós em +vinho branco e os tomarão em jejum, e causará boa voz e clara.</p> + +<p>O sumo do aipo e orjavão, bebidos, aclara muito<span class="pn">{72}</span> +a voz; mas advirtam, que o sumo do orjavão resfria os genitaes.</p> + +<h2>Segredo 91.º</h2> + +<h3>Para que se não coza a carne na panella posta ao lume em todo o dia</h3> + +<p>Tomem uma pasta de chumbo delgada, e pondo-a no fundo da panella, não se +cozerá a carne por mais fogo que tenha em todo o dia, e é provado.</p> + +<h2>Segredo 92.º</h2> + +<h3>Provado contra o mal dos queixos</h3> + +<p>Tomem duas duzias de folhas de hera, outras tantas de sabugo e outros tantos +grãos de pimenta, e ponham tudo a ferver em vinho bem tinto e velho com um +pouco de sal, e depois de ferver bem, tirado do fogo, tomarão bochechos de +vinho quente, fazendo-se tres ou quatro vezes, se tirará a dor sem falta.<span +class="pn">{73}</span></p> + +<h2>Segredo 93.º</h2> + +<h3>Para fazer espirrar por baixo e por cima a quantos estiverem em uma casa +</h3> + +<p>Tomarão tres ou quatro pimentos ou malaguetas, e as porão em um brazeiro, +cobertas de cinza, de sorte que as brazas não cheguem aos pimentos, porém que +haja muitas brazas em cima e ao redor da cinza, e tanto que forem aquecendo os +pimentos, pouco a pouco sairá um fumo tão subtil e delgado, que se não sente, +até causar o sobredito effeito, com tanto que a casa esteja bem fechada, e é +provado.</p> + +<h2>Segredo 94.º</h2> + +<h3>Provado para que não nasçam nem cresçam cabellos</h3> + +<p>Raparão mui bem com uma navalha os cabellos que quizerem, e untarão aquelle +logar com gomma-arabia, desfeita com o sumo de herva molerinha ou sangue de +morcego, que é melhor, e não lhe crescerão mais. O mesmo effeito fará o esterco +de gato desfeito com vinagre.<span class="pn">{74}</span></p> + +<h2>Segredo 95.º</h2> + +<h3>Para que a barba e cabellos sempre se conservem negros</h3> + +<p>Mandarão fazer um pente de chumbo mui basto, com o qual pentearão a barba e +cabellos a miudo e sempre se conservarão negros.</p> + +<h2>Segredo 96.º</h2> + +<h3>Para conservar a barba e cabellos loiros</h3> + +<p>Tomarão folhas de nogueira e cascas de romã, distillado tudo por lambique de +vidro, e com esta agua lavarão mui bem, por quinze dias, a barba e cabellos, e +conservar-se-hão loiros.</p> + +<h2>Segredo 97.º</h2> + +<h3>Para que a barba e cabellos de brancos se tornem negros</h3> + +<p>Tomem folhas de figueira negra bem seccas, e feitas em pó as misturarão com +azeite de macella gallega,<span class="pn">{75}</span> e com isto untarão os +cabellos e barba muitas vezes, e se farão negros.</p> + +<h2>Segredo 98.º</h2> + +<h3>Para que as unhas e cabellos cresçam pouco</h3> + +<p>Cortarão as unhas e cabellos em minguante da lua, com tanto que se ache a +lua no signo de Cancer, Pisces ou Escorpião, e crescerão mui pouco.</p> + +<h2>Segredo 99.º</h2> + +<h3>Para que as unhas e cabellos cresçam depressa</h3> + +<p>Cortarão as unhas e cabello em crescence de lua no signo de Tauro, Virgo ou +Libra, e verão como tornam a crescer depressa.<span class="pn">{76}</span></p> + +<h2>Segredo 100.º</h2> + +<h3>Aviso importante e proveitoso para os lavradores</h3> + +<p>Para que as sementeiras saiam boas, e a colheita melhor, observará o +lavrador, quando semear, que seja em lua nova, e que se ache no Signo de Tauro, +Cancer, Virgo, Libra ou Capricornio, e achará uma grande e rara differença na +seara e na colheita.</p> + +<h2>Segredo 101.º</h2> + +<h3>Para ferir fogo sem pederneira nem isca</h3> + +<p>Tomarão um páo de louro secco, e outro de amoreira, ou de hera, que é +melhor, e roçando rijamente um contra outro, aquecerão tanto que sé accenderá +fogo como polvora, ou mecha. D'este segredo usavam as espias no campo de Cesar, +por não serem sentidas dos inimigos.</p> + +<h2>Segredo 102.º</h2> + +<h3>Para seccar o leite dos peitos das mulheres</h3> + +<p>Notem este segredo: as mulheres para se lhes seccar<span +class="pn">{77}</span> o leite dos peitos, por mais cheios e duros que os +tenham, tomarão as folhas do sabugueiro e as ponham estendidas e enxutas sobre +os peitos, e logo se irão abrandando e seccando; e é provado muitas vezes. +Outro segredo mui importante para o mesmo, e é que tomem uma herva que se chama +melcoraje, e pondo-a ao fogo em uma tigella com um pouco de azeite rosado, +assim que estiver quente a ponham aos peitos, cobrindo-os bem com pannos em +cima, e aos tres dias não sentirão leite nem molestia alguma; e tambem é +provado e experimentado muitas vezes.</p> + +<h2>Segredo 103.º</h2> + +<h3>Para saber antecipadamente se ha de haver abundancia de vinho</h3> + +<p>Escreve Missaldo, se a poupa (que é uma ave pintada como um periquito na +cabeça) cantar antes que as vinhas rebentem, é signal mui certo que haverá +abundancia de vinho n'aquelle anno.<span class="pn">{78}</span></p> + +<h2>Segredo 104.º</h2> + +<h3>Para que os novilhos sigam a um homem</h3> + +<p>Diz Aristoteles, livro de <em>Animalibus</em>, que se pozerem uns pedacinhos +de cera benta nas pontas do novilho, ha de seguir a quem lh'os pozer.</p> + +<h2>Segredo 105.º</h2> + +<h3>Para que as bestas tornem para casa de seus donos</h3> + +<p>Escreve Santo Alberto Magno, que untem a testa da besta com sumo de cebolla +alvarrã, e não temam que se perca se a não furtarem.</p> + +<h2>Segredo 106.º</h2> + +<h3>Para fazer que uma besta não possa comer</h3> + +<p>Untar-lhe-hão a lingua toda com cebo, e antes se deixará estalar que comer +cousa alguma, se lhe não tirarem o cebo com sal e vinagre, lavando-lhe muito +bem a lingua.<span class="pn">{79}</span></p> + +<h2>Segredo 107.º</h2> + +<h3>Para não poderem passar por uma rua cavallos nem outro gado</h3> + +<p>Escreve Santo Alberto Magno, que façam uma cordinha de tripa de lobo, e +pondo-a atravessada na rua, coberta de arêa ou pó, verão que não passará por +ella cavallo ou gado, ainda que os matem ás pancadas; e dizem que fez a +experiencia S. Thomaz de Aquino, discipulo de Santo Alberto Magno.</p> + +<h2>Segredo 108.º</h2> + +<h3>Para descanço das bestas que caminham</h3> + +<p>Escreve Plinio, que tomem os dentes maiores dos lobos e que os atem ao +pescoço das cavalgaduras, e não se molestarão nem cançarão muito no caminho. +</p> + +<h2>FIM DA TERCEIRA PARTE</h2> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Oraculo do Passado, do presente e do +Futuro (3/7), by Bento Serrano + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ORACULO DO PASSADO (3/7) *** + +***** This file should be named 30462-h.htm or 30462-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/3/0/4/6/30462/ + +Produced by M. Silva (produced from scanned images of +public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. 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