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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:48:24 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Rogações de Eremita + +Author: Jaime de Magalhães Lima + +Release Date: September 1, 2009 [EBook #29884] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ROGAÇÕES DE EREMITA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + JAIME DE MAGALHÃES LIMA + + + Rogações de Eremita + + + CASA EDITORA + DE + A. FIGUEIRINHAS + + PORTO + + + Empresa Gráfica "A Universal".--Porto. + + + + +HOMENAGEM DO EDITOR + +Rogações de Eremita + + + Composição e impressão + Empresa Gráfica «A UNIVERSAL» + de Figueirinhas & Mota Ribeiro, Lda. + --Rua Duque de Loulé, 111--Porto.-- + + + + +Jaime de Magalhães Lima + + +Rogações de Eremita + + + CASA EDITORA de A. FIGUEIRINHAS + Deposito geral: + Livraria Portuense de Lopes & C.ª--Suc. + 119, Rua do Almada, 123--Porto. + + + + +_No ermo que eu percorro neste mundo,--ermo de corações cativos dos meus +sonhos--ao suplicar dos céus a claridade na qual a alma habite e se +engrandeça, deixei na terra gotas do meu sangue, onde a dor o soltou do +peito ansiado por abundância de erros e de culpas e por amargura de +infinitas mágoas, e onde jorrou seus cantos de alegria em louvor e +contemplação da beleza eterna._ + +_E, como assim vulnerável tenha sido, misteriosa comunhão uniu-me +àqueles, solitários e crentes, que na cruz da aspiração também sofreram. +Muitas vezes me guiou o rasto estranho, se porventura o vi ensanguentado +de sangue igual ao meu pela paixão que o derramou em oferenda a altares +de amor. São rogações de todos esses passos as que neste livro traduzi e +confesso para quem no mesmo error se houver perdido ou se tiver remido +em iguais enlevos._ + + + + +ROSAS DO MEU CAMINHO + + +I + +Parei no meu caminho a colher rosas. No doce esplendor da sua gloria, +brotavam purpurinas entre o cômoro renovado no viço pelo outono. E o sol +brando que vinha do nascente, e a palidez do céu já esmorecido do seu +fulgor candente do Estio, e a atmosfera quieta e orvalhada, e o silencio +do campo onde desponta o prado que no inverno o cobre e é a sua +túnica,--cantavam com as rosas a doçura e em minha alma infundiam +subtilmente os salutares enlêvos dos seus sonhos. + +Acordou-me de encantos a pobreza. Alguém, passando, me estendeu a mão, +mirrada e pálida de fadiga e fome. Ouvi um brando murmurar de suplica; e +o coração turvado de piedade transmudou em misericórdia o seu deleite. +Um resplendor mais alto escurecera a cintilação da terra em seu fulgor. + +Levei comigo as rosas que colhi, para me alentarem de um sorrir ingénuo +meu peito ferido na jornada agreste em que dolorosamente se consome +sangrando magoado de perversidade, de ódios, de mentira, de quanto +avilta os homens desvairando-os nos seus cruéis infernos de cobiças. Mas +sempre que senti a rosa bafejar-me, senti perpassar também vozes +mendigas. Por singular magia, confundi em uma só aspiração e um só amor +as rosas e a pobreza. + + +II + +Senhor! No meu caminho entretecei as rosas na pobreza, para que, +adorando em extasi vosso encanto, eu adore também as vossas dores e o +meu peito comungue da miséria! Que todo o meu coração se enleie e prenda +nas grinaldas, Senhor, com que coroais de espinhos e de rosas vossos +servos; e que, enquanto sentir deleite infindo na doçura que sobre a +terra semeastes, eu vos seja fiel inteiramente sentindo ao mesmo tempo e +em igual fervor toda a infinita agrura da desgraça. + + + + +AS TAÇAS DO BANQUETE + + +I + +No banquete da vida em que o destino me deu lugar onde os prazeres +abundam e os regalos são o pão quotidiano, provei das suas taças mais +queridas e vi meus companheiros de igual sorte ora erguidos na sua +embriaguez ora prostrados pelos seus travores. + +Riquezas, ambições, paixões, gloria, amor, as taças mais cobiçadas do +banquete, a todas eu senti o seu sabor, todas vi disputadas com ardor e +todas continham gotas de amargura, os traiçoeiros bens das alegrias cedo +mudadas em desengano e dor. + +Vi a riqueza inútil perante a morte, assistindo impotente à corrupção do +corpo que no seu ser trazia os filtros de fatal caducidade inexorável. +Vi ambições gerando em seus triunfos ambições maiores ainda, +insaciáveis, de contínuo torturando suas vitimas, de degrau em degrau as +elevando até que do mais alto as precipitam no torvo abismo das +desilusões. Vi as paixões mirrando-se exauridas, em vergonha, em remorso +e inanidade, o orgulho aviltado nas fraquezas; vi a gloria a desfazer-se +em fumo e apedrejando hoje por infames os que ontem beijara por heróis e +em seus altares pusera como deuses. Vi transmudar-se amor numa mentira, +a sua fé perjura na traição; vi a ternura magoada em lágrimas. E até a +própria humildade, desprendida dos enganos do mundo, a mais pura das +taças que anjos bons dos céus trazem à terra para remir quantos na terra +penam suas penas, até a própria humildade eu vi chorar porque, salvando +os bem-aventurados em cujo coração habita e resplandece, não lhes pôde +poupar a compaixão de quantos desfalecem no martírio, pois, +desventurados, não partilham das bênçãos da alegria no Senhor, naquela +conformidade austera e santa que é a nossa redenção suprema e única. + + +II + +Senhor! Sê piedoso! Socorram-me os teus anjos. Reanimem-me em cálices de +vida; humedeçam-me os lábios na tua paz; iluminem-me o mundo na tua luz. + +Afasta dos meus passos esse espectro que me enegrece de terrores as +noites, essa sombra de gélidas vigílias que me murmura o desespero e +a dúvida, e, rindo dos meus sonhos piedosos, repete escarnecendo +cruelmente: + +Doçura! louco, só na morte a encontras! + + + + +A DOR E A VIDA + + Na mão de Deus, na sua mão direita, + Descançou afinal meu coração. + + ANTERO DE QUENTAL. + + +I + +Turvou-se de amargura a alma do poeta quando, sentindo o vento do outono +anunciar tormenta e escuridão, viu as aves felizes, cautelosas, +abandonarem campos e florestas e partirem velozes à procura de terras +sorridentes, animadas pelos carinhos tépidos do sol. + +Já não tardava a cerração das neves, mortalha e sepultura dessas vidas +que ao poeta exaltavam o espírito e o corpo, pelo rumor, verduras e +perfume, pela graça, pela força e pela opulência, pelo florir de +impulsos da sua seiva. + +Vai a esconder-se tudo o que o inspira. A esperança do peregrino +desfalece à mingua do sustento e do conforto sorvido a jorros no calor +do Estio, incensado de aromas e reflectindo os delírios da cor +pulverizada. Onde irá saciar a sede ardente de intenso resplendor que +lhe alimente as cobiças profundas do seu ser? Porque foi acorrentado +à imobilidade, porque não foge, como a ave foge, àquilo que o oprime e o +ameaça? Porque não lhe foi dada a asa vibrante que percorresse espaços +infinitos, de céu em céu, sem nunca se afastar dum translucido puríssimo +azul? Que culpa lhe forjou essas cadeias que sujeitaram o mísero forçado +a rastejar exposto à contingência das estações altivas, sem piedade, +queimando sob o sol canicular, sufocando nos gelos a expansão, +inflexíveis, mudas, ignorando o desejo dos homens e as suas mágoas, para +prosseguirem no combate austero da suprema beleza que sonharam? Porque, +liberta, a ave se eximiu a padecer igual escravidão?!... + +Sucumbido, cismando tristemente, ao escutar o sibilante agoiro da +tormenta, vendo o bando das aves em demanda de benignas terras generosas +que aos seus amores lhes dessem agasalho e em doçura fecunda fossem +pátria aos ninhos embalados pelo canto de pequeninos peitos ansiados, o +poeta chorou a sorte negra que o entregava às penas do inverno. + + +II + +E dentre brumas frias, apressando precocemente a noite de Novembro, veio +beija-lo cândida e singela, na palidez etérea que é o seu manto, a +Dor, a companheira do poeta. + +E disse: + +--«Nunca ninguém te amou como eu te amei! Nunca ninguém te deu ao +coração inquieto mais alto arrojo e mais sagrado êxtase. Só por mim +alcançaste renascer naquele renascimento do Apostolo em que o sangue se +isenta de veneno e se converte em filtro do amor. Quantas rosas colheste +no caminho, quanto perfume te turvou os sentidos, visões do paraíso, +toda a atracção, toda a harmonia, todo o laço, felicidade, risos e +ternuras, tudo para ti foi breve e se afogou nos abismos mortais donde +surgira, abandonando-te errante, ao desamparo, no louco vaguear do +coração. Só por mim fez sacrário no teu seio, numa aurora perene, sem +poente, esse facho de ardor que te consome e é a suprema gloria, a +eternidade. + +«E sabes, meu irmão e meu amigo, que o silêncio é o levita nosso eleito +cuja bênção nos liga e arrebata; e os altares em que oramos são +sombrios, duma sombra celeste, benfazeja, tal qual, no inverno, essa +outra sombra que por erro temeste e será sempre confessionário e templo +da minha alma. + +«Nunca ninguém te amou como eu te amei!... Deixa que a ave siga no seu +rumo, em busca de ilusões da vida efémera. Une-te a mim e, desprendido +então de quanto foge e passa na incerteza, redimido em meu peito +hás-de subir à divina presença do Senhor!» + +Libertado, o poeta ergueu-se ouvindo a Dor. + +Por sua vez beijou a mensageira. + +--«Bendita sejas!» disse. + +E nesse instante passou na treva estranho clarão. + + +III + +Segue a sua jornada paciente o poeta cuja fronte a Dor beijou. A +macerada face da visão jamais se apaga nos seus doces olhos, +humildemente isentos de desanimo, suavemente escravos dum poder que sem +cessar o fortalece e ampara nas provações mais ásperas do mundo. + +Onde uma aspiração palpita e cresce, palpita e cresce a dor que a +atormenta e nega, ou seja um gérmen que gelou na terra, ingrata e fria, +surda ao seu anseio ou seja um coração crucificado do seu amor traído e +profanado. + +Sentiu o poeta a Dor nas rosas que decaem; sentiu sofrer os astros que +desmaiam no frio alvor de brancas madrugadas. Na haste quebrada entre +iras das rajadas, na inquietação das águas despenhando-se, nos alcantis +rasgados pelas neves, na criança a que o soluço corta o riso, no peito +ferido por paixões humanas, onde quer que o destino cegamente +castigue, mortifique e desengane, onde quer que proíba ou estrangule um +arrojo, um impulso, uma vontade, ou desfaça os rochedos na mudez dos +seus combates loucos da montanha, ou escarneça a suplica do mísero, +redobrando de ardor em atormentá-lo--a Dor foi companheira do poeta, no +seu seio chorou divinas lágrimas, em seus braços buscou acolhimento. + +Foi assim que o poeta amou a Dor. Foi assim que, curvado, ela o levou a +ungir de piedade as agonias de todo o ser que os olhos contemplassem +caído em desventura ou malfadado. Fielmente a adorou no seu mistério! +Fielmente a serviu nos seus mandados! + + +IV + +Exangue do pungir da Dor que nunca o abandona, ou na solidão dos montes +o encontre ou, perdido, vagueie entre o tumulto das multidões humanas +desvairadas, o poeta parou no seu caminho e contemplando a serrania e o +prado que a seus pés se alargavam repousados em sereno esplendor, deixou +cerrar seus olhos deslumbrados e adormeceu, dormindo o torpor magoado +dos vencidos. + +Cantava o sol o «cântico» do Santo, o ressurgir de toda a criação +resgatada para a terra e para os céus em um só Deus. Cantava os seus +louvores ao «altíssimo, omnipotente, bom Senhor», a quem «toda a honra e +bênção são devidas». Por todas as criaturas o louvava! Por sua própria +luz que o iluminava; pela «irmã lua» que no firmamento tão «preciosa e +bela» se formara; pelo «irmão vento e pelo ar e pela nuvem e todo o +tempo» no qual as criaturas têm sustento; pela «irmã água» que é +«humilde e casta», e também pelo «irmão fogo corajoso, e por nossa mãe a +terra e por seus frutos, e pela «irmã morte» que à sua paz nos arrebata. + +Desusada carícia o seduziu; ignorada ternura o fascinou! Gloriosa visão +despertou o poeta e, beijando-o, o exalta naquela divina luz que em +torno ela espargia. + +E disse-lhe a visão: + +«Desterrado da ventura que com o sangue marcaste o teu caminho e em cada +passo feriste o teu coração! Onde um espinho te rasgar a carne, o +perfume das rosas a embalsama. Onde o vento derruba a floresta, +exultaram renovos na verdura. Onde o ódio, a mentira e o desespero te +entenebrecem de terror e dúvida, a bondade e a fé virão salvar-te em sua +luz bendita. Onde cai uma lágrima, a mão de Deus a enxuga. Ergue os teus +olhos! Beija a minha fronte! Aviventa teu ser mortificado na salutar +candura que me alenta! + +E dos lábios vermelhos transfundindo a alegria e a vida e a +exaltação em lábios pálidos de sofrer e mágoas, enlevado seu peito em +caridade e possuído de doçura infinda, a visão benfazeja do poeta +restituiu à terra e seus paraísos, à luz do sol e a quanto ele ilumina, +aquele que à Dor votara todo o ser e só a Dor servia sequestrado desse +supremo amor que na bondade se libertou de toda a contingência. + + +V + +Tal qual o poeta que a Dor e a Vida, vossos mensageiros, encaminharam, +Senhor, à vossa presença, mandai-me, a mim também, os vossos sonhos, +visitem-me as visões do vosso reino, para que me guardem e guiem e me +conduzam, para na Vida me exaltar convosco e para na Dor sofrer as +vossas penas, «na mão de Deus, na sua mão direita, descansando afinal +meu coração!» + + + + +MAIS FORTE QUE O MAR + + +I + +Sonhei que o peregrino ao apartar-se dos lugares em que amara e fora +amado no benigno lar onde abrigara o corpo enfermo e o coração sequioso +de carinho, afectos e de graças, passou ondas do mar escuro e turvo, e +ao passá-las deixou nas vagas fundas um sulco ténue, vermelho, +coruscante entre o negrume da cerração ambiente. + +Longos anos, por séculos infindos, na esteira do peregrino o mar cavou +suas iradas vagas espumantes de espumas alvas, claras, diamantinas; e +iluminaram-nas pálidos luares; e a tempestade atroz escureceu-as; e +pairaram sobre elas sorridentes as primaveras brandas incitando toda a +terra a renascer em alegria. + +Em vão, em vão! Bafejo algum dos astros, ou propício trouxesse a +exaltação da vida triunfante, ou inclemente derramasse a dor, jamais +pôde apagar esse sulco vermelho sobre o mar que ali deixara o +peregrino ferido. Mais forte que as ondas, a saudade traçou nas águas +lúgubre derrota. Em vão os poderes da terra as agitaram provocando-lhes +a fúria temerosa! Em vão as repousaram em cristalina calma suavíssima! +Em vão ali passaram combatendo seus raivosos combates os titãs! Em vão +tentaram afundar na voragem aquele sangue que do coração brotara por +saudade! + +Em séculos infindos, para sempre, esse rasto de angústia ali ficou. + + +II + +Senhor! Se misericórdia vos merece a fé de quem no amor espera a +salvação e lhe confia a vida miseranda, erguendo-a dos seus erros para a +remir na consagração ao ser que é a vossa própria essência, a essa +etérea bondade omnipotente que a Deus vos une e nele vos confunde, +concedei-me, Senhor, aquela bênção que ao peregrino ferido concedeste, +permitindo-lhe a graça de traçar nas ondas com o seu sangue a dor +pungente, esvaindo-se em puríssima saudade. Onde quer que o destino o +dilacere, onde quer que, infeliz ou louco, se atormente, que o meu +coração desmaie por saudade, que por saudade verta todo o sangue, que em +saudade amortalhe os seus anseios!... + +Mais pura exaltação não conheceu! Mais próximo de ti jamais se sente! + + + + +HUMILHAÇÃO + + +I + +Vi sair da prisão o criminoso e encaminhar-se ao lobrego covil onde +deixara a companheira e os filhos a estorcer-se de fome nos andrajos. +Macilento, esquálido, trémulo nos passos, espectro erguido duma +sepultura, atravessa a cidade entre inimigos. A aversão, o desprezo e o +desamparo são o seu cortejo e com horror o escoltam; tomando por pureza +a inanidade, arrogantes se afastam a tremer de macular o orgulho na +miséria dum corpo pestilento de seus erros. + +Nem os filhos nem a companheira se atrevem a sair do seu tugúrio para +beijar o mísero e o proscrito que volta a consumir-se na desgraça, na +treva da embriaguez em que se afoita para a sinistra aventura dos seus +crimes. + +De súbito, quebrou-se o trágico silencio. Um grito de alegria ecoa nas +choupanas. Saltando da morada um cão exulta em seu bradar duma +ferina ânsia; e louco de carinho afaga o homem que outros homens +maldizem, como se esse não fosse o filho infeliz da mesma podridão que a +todos gera e por igual corrompe. + +Estranha aberração! Cruel estigma! Humilhação fatal dum ente eleito em +que Deus fez morada e se revela!... Coube a um cão parasita dos monturos +a ternura generosa, esse perdão que os homens atraiçoam negando a +piedade ao criminoso, não sabendo sorrir à sua face e tendo por +dignidade a cobardia que os privou de ver irmãos, os seus iguais, em +quantos seres a criação produz, para que o nosso coração todos confunda +numa só luz de amor e de bondade. + + +II + +Senhor! Porque me roubas, a mim a quem mandaste o teu Espírito para eu +sentir claramente o teu império, a quem tu deste um coração ardente para +abrigar-te e a voz para louvar teu nome e o repetir,--porque me roubas +aquele ingénuo anseio de indulgencia, esse perdão tecido de caricias com +que dotaste inconscientes servos, obreiros mudos da tua vontade?!... +Porque, Senhor, me privas desse bem de esquecer toda a injuria, todo o +mal, e de cobrir de afectos todo o crime e em carinhos dissipar sua +lembrança?!... + +Isenta-me, Senhor, desse tormento da consciência algoz que até perdoando +volta a julgar os homens e os condena! Pois que lhe deste entrada no meu +peito, salvai-a do martírio em que adorando-te te veja distinguindo nos +homens bem e mal em vez de os confundir no teu sagrado amor +omnisciente. + + + + +BÊNÇÃO DO POENTE + + +I + +Foi calmo o dia. A rosa húmida, que desabrochando saudou no descerrar do +seio a madrugada, prateou ao sol as cetinosas pétalas sem que a brisa +lhe ferisse a formosura; e o vento adormecido nos seus antros, vencido +por estranha letargia, inerte e mudo não blasfemou suas ímpias cóleras +contra o ardor do sol. Os milheirais tardios e o medronheiro, tão lento +no crescer como moroso no arrastado fabricar da sua doçura, sazonaram +seus frutos generosos na paz dessa propícia quietação. Ao redor do +casal, ao cimo da encosta onde o horizonte é largo e os céus são amplos, +esvai-se na calmaria toda a forma, agora que o sol perdido ao poente se +escondeu para lá da cerração austera dos pinhais. Descoram as urzes +roxas na charneca, não mais lobrigo a ténue palidez da flor da estêva, +já não distingo no silvado o aderno: tudo o crepúsculo vem tingindo em +sombras. + +Ao longe, os montes altos da serrania e o manto das florestas nas +quebradas e os campos verdes à beira dos regatos e os pomares e os +vinhedos e as aldeias e a inquietação da água nas jornadas, eterna +aventureira,--todos vão a dissolver-se nessa neblina, duma inundante +alvura caprichosa, caótica, erradia, absorvente e mansa na avidez, como +afagando o mundo e resumindo-o em um só sonho incerto, indefinível. + +Olho, e nem um tremor diviso em todo o ambiente. Escuto, e nem um rumor +pressinto próximo ou distante. Por sua calmaria a atmosfera adormeceu a +vida em serenidade, e quantas divindades a interpretam e a regulam e a +movem em seu anseio, desde a arrogância da montanha austera até à +pequenez da célula mais ínfima, consagraram juntas numa paz divina a +trégua religiosa de seus feitos, talvez a consciência da inanidade final +de todo o esforço, porventura uma dúvida, uma céptica interrogação dos +seus destinos, senão o antegozo da morte experimentada em passageiro +cessar das energias. + +Porque, não o sei nem jamais, pobre enfermo arrastado em vale de +lágrimas, o poderei saber; pois a fraqueza é o nosso eterno anátema, é +irrevogável maldição do orgulho. Mas na olímpica mansidão desse +crepúsculo em que a vastidão da terra adormeceu sorridente e benigna, +alguém, ser de bondade, um alado eco fugitivo, um murmúrio de +esperança, me segreda a confiança e a fé, robusta crença na libertação +final de toda a angústia, na fatal paralisia dos tumultos da nossa alma +e do mundo, tarde ou cedo remidos, confundidos em amorosa quietação de +penas, amortalhados em mortalha branca como esta que eu vi crepuscular, +vestindo em alva neblina a terra e os astros. + + +II + +Então, comovido e grato, reconhecendo a esmola que me alegrava o +coração, quis dizer ao Senhor a minha prece, quis confessar-lhe a +exaltação da minha alma pela serena luz que ele acendia no meu peito +turvado de combates. Loucamente balbuciei palavras loucas, e todas se +perdiam apagadas! Tão alto e tão profundo o meu sentir, não souberam +dizê-lo esses murmúrios frouxos e mortais de lábios débeis que mortais +nasceram. + +Cessou minha oração nesse momento. Pressenti sombras de orgulho, +desvairado, na tentação de ver e penetrar a omnipotência de harmonia e +ordem que é a razão de ser de quanto existe. E humildemente apenas repeti: + +--Senhor! Senhor! Senhor!... + + + + +O SONO DO TRIGAL + + +I + +Crepúsculo de Maio! O céu baixo e sombrio, revolvendo nuvens pesadas, +violáceas, lentas, promete dentro em breve as chuvas tépidas, pelas +quais a verdura espera e anseia, na cobiça de crescer e renovar-se. + +As seivas abundantes, criadoras, na túrbida estação em que se elevam, a +modelar os lírios e os salgueiros, latejam silenciosas; não as tenta a +cantar o voo da brisa. Desde a cerração escura da floresta à humilde +melancolia da campina, as legiões das frechas dos pinhais, a coma +faustosa dos carvalhos, o arrelvado extenso em desafogo, livre de +manchas das plantas altas, e o que se alarga na espessura umbrosa, todos +repousam quietos e calados, pressentindo a visita salutar que dos céus +lhes trará toda a opulência, a abençoar a terra de humidade, alimento e +riqueza das ervagens, onde despontam frutos e sementes, e das +vergônteas frágeis, ainda tenras, em cuidados de robustecer-se, para +suportarem calmas estivais. + +E o trigal, como os irmãos, dorme também, se em temor ou na prece é o +seu segredo! + +Imóvel, na firmeza imperturbável dos fieis que crêem no Senhor e sem +lamentos todo o destino aceitam por ser justo, a toda a sorte querem +igualmente, em qualquer perfazendo obra de amor;--aquele que ao mais +leve passar do vento respondia, cedendo fácil ao bulício alado das ondas +repetidas sussurrantes, sempre agitado dum sonhar sem fim, em delírio +incessante rumoroso, recordando carinhos e promessas da abastança e +fortuna que concede aos casais bem providos do seu grão, esse mesmo +trigal se sujeitou à extática mudez de todo o ambiente. + +Já parece esquecido do inverno! Parece atraiçoar a aspiração de gerar em +leite doce o pão dos míseros que por caridade santa ele sustenta. + + +II + +Não te iludas, porém, oh Sonhador! tu que procuras ler, na contingência +de impulsos vagos e caducas formas, a perene oferta do mover dos mundos +à lei suprema do supremo amor. Não te engane o torpor em que o trigal se +abandonou à paz da atmosfera. Não cuides porque o vês assim submisso +que deixou de elaborar fartas sementes. + +De contínuo escutará vozes divinas, e há-de segui-las, destilando os +sucos, que pela raiz beber na aspereza fria. Das entranhas do chão tira +e semeia, constantemente, ou se mova ou pare, a rescendente esmola das +doçuras com que suaviza a fome a quem trabalha e descerra em sorrisos de +alegria, flores sanguíneas! os lábios das crianças. + +Também passaste um dia ao pé do leito em que a mãe aquecia o filho ao +seio. Não sentiste rumor que confessasse quanto afecto em silencio se +derrama, transfundindo a quentura do sangue em outro sangue. E +entretanto, fervorosa e muda, uma vida se consumia ali em outra vida. + +Assim vi o trigal quando dormia, tal qual como em vigília, consagrando à +paixão do seu ser inquebrantável aquele amor que é nosso alento e +força. + + + + +TERRA LACRIMOSA + + +I + +Conheci os cativos da vaidade, sorrindo, se por acaso conquistavam os +ouropéis e fama e o espanto de multidões atónitas, turvadas, ignorantes +cegas no caminho, que da desgraça nunca se libertam para banhar-se em +luz de eternidade. Na vertigem do orgulho e da soberba, julgando +erguer-se por entumecida inanidade, ao verem rastejantes a seus pés os +aviltados míseros do mundo, passaram sobranceiros, desdenhosos; e +porque, desvanecidos, contemplando-se, só da própria grandeza iam +sonhando, sem baixarem seus olhos aos humildes, desconheceram a alegria, +beleza e formosura que os pequeninos têm por seu quinhão. + +Conheci o avaro entesourando, na obsessão de transformar em ouro a +opressão, a fome e o martírio de quantos por astúcia ou pela força +subjugasse. As riquezas cresciam, construindo a fortaleza em que, +confiado e firme, seria poderoso e invencível; e entretanto o seu +corpo definhava nas penas da velhice, desditoso, como se a ordem cósmica +dos astros castigasse, escarnecendo, as ambições. + +Insaciados de domínio efémero, porque, efémero, mal se criou e logo se +arruína, avaros, orgulhosos e soberbos morreram entre pompas clamorosas, +envolto o seu cadáver corrompido nas vestes recamadas que o cobriam, +quando ainda o sangue nele palpitava e cria deslumbrar túrbidas gentes, +ocultando em bordados fulgurantes a carne de contínuo apodrecida no +decair fatal do seu destino. E a terra de infinita misericórdia deixou +cerrar na campa esse cadáver, sem que de luto se vestisse um ramo, sem +que uma folha desmaiasse murcha, em lembrança ou saudade do amigo que a +alentava e, estremecido, dela recebia recompensa de fadigas carinhosas. + +Na morte desses loucos condenados ao pó estéril de estéreis sepulturas, +entre a dureza fria dos bronzes e a rigidez do mármore impenetrável, as +palavras dos homens lamentavam a ruína da grandeza mentirosa, tão cedo +ali desfeita e aniquilada. Mas de tais lágrimas não partilha a terra. +Indiferente ao rumor do falso pranto, não cessou de brilhar e de cantar. +Nem um só veio de água emudeceu, perdido o murmurar da sua lida! Nem uma +só flor do prado se estiolou à míngua de cuidado e de sustento! Nem um +só átomo de fecundidade se atrofiou em toda a criação! Aos cativos +da vaidade e da avareza, perdoou-lhes a terra piedosa; mas não soube +chorar quem, transviado, ingratamente a desamou, traindo amor materno, o +leite gerador. + + +II + +E conheci também o cavador, que para morada e leito de repouso, não +encontrando um tecto hospitaleiro nos vilares, foi levantar a mísera +cabana, de colmos de centeio e frágeis varas, no pousio comum inculto e +virgem, despido, tosquiado de contínuo por ovelhas bravias, únicos gados +que a gente pobre ali ia soltar, aproveitando esse pascigo escasso. + +Rasgou a leiva dura, empedernida; lançou no pó sequioso a semente leve e +todo o manancial de vida que ela encerra; e fez brotar a água das +prisões em que a guardava o peso dos rochedos. A cavar, a regar e a +semear, banhando sempre a terra com o suor do rosto, despertando-lhe a +férvida energia com os arrancos heróicos do seu braço e o pulsar +gigantesco do seu peito, o cavador criou verde abundância onde fora a +infecunda e negra gândara, e tirou o pão e os frutos do chão áspero onde +nem os silvados já medravam. + +Foram passados anos nessa faina. Ao fim, surgiu ali a mancha branca duma +casita estreita, ávida de sol. A cabana alargou-se. Transformada, +anunciou nos fumos da lareira o agasalho, o sustento e o tépido conforto +dum benigno casal, servido e amado pela esposa do servo da gleba; e o +embalar do berço acompanhou com o rumor alado duma esperança essa +vitoria que em torno se espraiava, dilatando-se na infatigável ânsia de +remir pela seara farta e latejante os longuíssimos tempos de indigência, +a que a ingratidão humana, criminosa, abandonara aquelas pequenas geiras +devastadas. Mais tarde, em horas negras, tenebrosas, as ambições e a +guerra assoladoras vieram separar o cavador dos filhos que criou para +companheiros, e um sinistro poder arremessara para longe, labutando +dispersados. Escravos uns do rei e seus ministros, por seu mandado e +força coagidos a ensanguentar o mundo, combatendo pelo ódio apaixonado e +latrocínios em malditas pelejas mentirosas, que na suprema infâmia ousam +sem pejo invocar o amor da pátria e atraiçoá-lo, foram-se a derramar a +morte sobre os campos, que o Senhor nos ofereceu para a vida, e a +prostrar atrozmente o nosso irmão, ao qual por lei divina só devemos +afecto, protecção e piedade, o auxílio compassivo na desgraça e o sorrir +de simpatia, quando a ventura ao passar o bafeja generosa. Outros, não +mais felizes, seduzidos pela visão da cidade e seu engano, enfermos +das demências do tumulto, perderam-se entre os fumos da oficina, pela +própria vontade escravizados dos lúgubres dragões que guardam o ouro e +de contínuo o movem e entesouram, fundindo num só cadinho incandescente +a fome e o ferro, minério bruto e corações humanos, lubrificando +maquinas com lágrimas e fundando o palácio em sepulturas, pondo a +brilhar em pedras preciosas, por alquimia da sua crueldade, as ossadas +dos que apodreceram, transitando da pobreza à vala comum, sem algum dia +terem experimentado a alegria, a abastança ou o desafogo. + +Assim desamparado, entre ruínas do seu próprio sonho dissipado nas vagas +da agonia como uma aparição de luz que apenas rompe e subitamente se +esvai na tempestade, o cavador ficou-se a envelhecer, no silencio da +gândara, amando todavia o seu casal e querendo sempre à terra, com a fé +que à terra o consagrara submisso, quando pela primeira vez a fecundou e +renovou no repetir das estações a verdura e o pão e a sombra e o +refrigério, sem lamento ou desânimo, curvado a trabalhar, desde o romper +da aurora ao cair da noite. + + +III + +A terra que ele amou, amou-o também!... + +Quando morreu, calaram-se no ermo os seixos que cantavam, rolando +alegremente pela enxada; murchou endurecido o prado à míngua do +sustento que alimentava as ávidas raízes, entumecida a erva verdejante, +quando, pelas madrugadas calmas do Estio, o cavador se erguia a +socorrê-las, atento, diligente, cortando breve o sono, para que por sua +culpa não sofressem as miríades de seres sob sua guarda, mudos para os +demais mas eloquentes para quem lhes conhecia a aspiração. Não mais ao +despontar da aurora respondeu o jorro da água límpida tirada entre o +mover estrídulo das rodas pelo jugo robusto que a elevava da frescura +dos poços obscuros à claridade rútila dos céus. + +Foram essas as lágrimas que a terra, lacrimosa e viúva, chorou pelo +criador humilde do seu viço,--aquela mesma terra desdenhosa que, +indiferente, sepulta os orgulhosos, degenerados do seu culto e crença. + + + + +CULTO DE QUIMERAS + + +I + +Onde começam áridos incultos, que os gados, sem cessar, têm +devastado,--quase ao cimo da encosta--, voltei-me a olhar o vale e os +montes que o formavam, as aldeias perdidas nas ramagens, e os +campanários que as protegiam. Não sei se fatigado, se encantado, por +necessidade instante de repouso, cedendo a quebranto estranho, parei; e +ao prazer de esforçado caminhar preferi essa delícia calma de contemplar. + +E, quando atentei bem no turbilhão de seres que ao redor e a meus pés +pulsavam o seu pulsar olímpico, indomável, infinito, eterno, achei-me +enleado e preso em multidões de divindades, todas poderosas, que dos +céus de claríssima gloria, e das profundezas infernais do orbe, e do +frescor das sombras da floresta corriam a arrebatar-me no tropel em que +cada qual se agita e é seu delírio. + +Então, na turbação confusa de um neófito, converteu-se-me a caverna +em santuário, e, no lugar consagrado pelo raio ou sobre a pedra que caiu +dos astros, ouvi oráculos, e o sacerdote orava. Um deus protegia os +lares e sua fortuna; outro firmava os marcos que repartem os campos +entre o povo dos vilares; e os mortos e os heróis erguiam-se das cinzas +a ditar seu conselho e a impor os seus mandados, prolongando, em uma +vida só, vidas diversas. Na forma nobre como na mesquinha, em todas se +ocultava uma vontade, consciente e grande, e inflexível. Apolo e Juno, +Hércules e Ceres, Afrodite e Plutão, e Pã, deus dos pastores, e as +Amadriades que viviam nos rios e nas árvores, todos tinham na terra seu +quinhão, onde reinavam livres; e todos, nessa hora de visões, por mim +passaram, severos ou folgando, rindo ou chorando, tristes e majestosos +uns, outros alados, dizendo seus mistérios e incitando-me a que, +adorando-os, eu lhes tributasse o incenso devido ao seu poder. + +Guerreiros incansáveis, triunfantes, povoaram os espaços de deidades e o +coração de graças e favores. Negaram a solidão em todo o universo, +confiado ao império sempiterno de demónios e anjos que encarnavam na +poeira, no vento, na folha e na neblina, em rochedos e águas e no +murmúrio da asa mais leve do menor insecto, sorrindo, consolando e +castigando, soltando com igual prodigalidade afagos e ameaças, +esperanças e terrores, a indulgencia, a ira e o escárnio, a abundância e +a fome, o mal e o bem, toda a infinda vibração das nossas almas. + +Que mundo radiante de aparições, capricho e formosura, não tentou +derruir, aquele ímpio sectário do saber que pensando, e dissecando, e +inquirindo friamente, quis dissipar, num ímpeto de orgulho, esses entes +celestes, benfazejos, que andavam entre os homens e lhes vertiam no +sangue fraco e impuro a firmeza, a coragem, a gratidão, salutares +alegrias e a serenidade, a exaltação suprema, a mais sublime, a +consagração plena dos mortais em altares de religiosa poesia e de um +dever mais forte do que a mísera carne transitória! + +Que demência julgou virtude haver privado de magnânimo amparo de seus +religiosos filhos a imaginação fecunda e inquieta que jamais sofrerá os +cativeiros da razão, altiva e austera, sem piedade?!... + +Ah! não morreram! Esses filtros da nossa fantasia todos vivem ainda e +nos seguem, ocultamente, semeando de rosas os caminhos que os fados nos +traçaram. + + +II + +No silêncio dessa tarde em que comovidamente os invoquei, ouvi-os; e a +sua voz, de mansidão dulcíssima, trouxe-me ao corpo como um refrigério, +sacudindo a letífera inércia e o torpor em que a venenosa sede de +saber desvaira e mata, inquirindo sem amor, só por orgulho--senão, pior +ainda!, por cobiça--, da aspiração ingénua dos fraguedos, das fontes e +das ervas, das nuvens e dos sóis, da natureza inteira no seu frémito. + +Pedi-te então, Senhor, que me concedas a quimera, a ilusão, esse cismar +que a qualquer forma deu energia e vontade igual à nossa. Pedi-te então +que ampares os meus passos dos companheiros bons que uma ciência vã +afugentou. + +Não me abandoneis, Senhor, nesse deserto em que espíritos cruéis nos +atormentam roubando aos nossos olhos a beleza! Dá-me, Senhor, os sonhos +criadores! Possa eu ver as ninfas das nascentes, os faunos das +florestas, e os tritões lançando à praia as ondas arrojadas. Se da vida +me tiras as quimeras, irisada espuma capitosa da taça que gota a gota +vou bebendo,--que lhe encontrarei no fundo senão o sal de abrasada e +mortífera amargura?! + + + + +ANSEIO DA MANHÃ + + +I + +Sobre as negras montanhas do horizonte, indolente rebanho fabuloso, de +peregrinas formas em desordem, de prodígios, quimeras e abantesmas, +domados uns em dócil mansidão, outros soltando fúrias e ameaças; sobre +essa multidão tumultuosa que pela manhã tardia do outono alongara o +dormir a custo afugentado;--crescia o rubor da aurora iluminando-a, sem +que no céu, pouco a pouco embranquecido, uma só nuvem lhe lançasse um +véu, embargando o pregão da claridade. + +Apenas no poente, sobre o mar, ocultando o limite das suas águas, +vagueavam em sonhos, arrastadas, nesse perpétuo e incerto devaneio, que +é seu destino e glória, as comas violáceas das neblinas. Mas, humildes, +deixavam conquistar-se pelos fachos da luz que além rompia. + +Era a hora consagrada a esse culto, que ao Senhor os homens prestam no +trabalho, reconhecendo toda a sua fraqueza e sujeição. No bronze +solene que difunde os mandados austeros da oração, segredando-a, igual e +única, aos indigentes míseros e aos ricos, a sãos e enfermos, à fera e à +borboleta, aos orvalhos e rios, ao vale e à encosta, ao mais timorato +musgo e ao maior roble, à pulverizada argila solta ao vento e à firmeza +invencível dos penhascos, sem escolher nem distinguir no seu vibrar, em +mística insinuação de súplica indeclinável; no caminhar heróico desses +servos que, enxada ao ombro, deixam seu lar e vão servir a terra nossa +mãe, banhando-a com o suor do rosto, unção sagrada, para que a sua +bênção nos proteja e ampare; no palpitar do jugo aureolado pela própria +exalação do espesso hálito condensando-se em frescores de Novembro, que +a leiva bebe enquanto o ferro a rasga para os trigais:--em todo o +ambiente cantava uma só voz religiosa, como nenhuma outra tão pura e +casta e tão fecunda e pródiga, jamais poderá ouvir-se nos apertados +templos mesquinhos que somente por ilusões de orgulho foram grandes +perante o louco imaginar dos seus obreiros. + +E o sol rubro da aurora ia-se erguendo, pausado e lento, seguro da sua +força e omnipotência, sorrindo ao esforço humano e afagando-o, latejante +de brilhos sanguíneos, porventura misteriosamente repassados do mesmo +filtro que repassa o coração e o inunda de amor quando o anima. + +Mas, de súbito, a luz esmoreceu no seu triunfo. Apressadas, correram-lhe +ao encontro as névoas que dormiam sobre o mar. Cercam-na, ocultam-na, e, +mal a têm vencida, logo a soltam e fogem dispersadas, por momentos +vestidas de ouropéis que imediatamente deixam, por preferirem a doçura +do manto lutuoso que em sorte coube à sua condição. Sem tardar, ei-las +que voltam, prosseguindo na indecisa jornada flutuante; e--suave castigo +dum orgulho ingénuo, bem de perto seguido de indulgência ou talvez de +remorso ou contrição! as névoas renovavam seus combates, turvando a cada +instante a opalina transparência da manhã. + +Ao fim, o sol venceu. Quando ia alto, a luz avassalara o espaço inteiro, +isenta de todo o anseio e hesitação. E assim soberana se manteve sempre, +até que o véu da noite a submergiu na limpidez das ondas diamantinas, +depois de haver semeado sobre a terra a alegria e o pão, suprema esmola. + + +II + +Senhor! Fazei que a minha vida seja espelho do anseio divino da manhã, +tal qual o vi nesse romper da aurora! Possa eu dissipar sombras funestas +que me escureçam o céu fundo e claro, onde a alma se expande e voa, +resgatada, a eternos reinos de bem-aventurança! Que a ténue +irradiação do meu sonhar fortalecesse os homens no trabalho e lhes +abrandasse as dores e as fadigas, assim como o calor do dia os aviventa! +E que ao fim em mortalha de pureza eu dormisse também, à semelhança de +luz perdida em águas cristalinas! + + + + +A ASA DO REMORSO + + +I + +Em êxtase de luz rompe a manhã. Seus clarins sonoros de alvorada +despertam o povoado, a serra e as águas. Dos salgueirais curvados sobre +o rio erguem-se mansas neblinas, castas, sacrificando ao sol toda a +pureza. Os píncaros severos da montanha desprendem da escuridão da noite +a fortaleza. E na oficina e nos lares acordam fumos de carinhos e penas +e trabalho. + +E acordando também desse torpor em que, cansada, dorme a consciência +exausta de torturas e de dúvidas, pensei, mísero e fraco, nas fadigas a +que a luz da manhã me convidava. Por tenebrosa perversão da alma +senti-me o escravo do ardor mundano, das cobiças, dos ódios, das +vaidades, da cegueira que me oculta um irmão em cada homem e que me +arroja a disputar-lhe o pão e que me afoita a exprobrar-lhe os erros, a +mim que ouvi no peito voz divina de amor, de caridade e de perdão e +que ouvindo-a a deixei esmorecer, de culpa em culpa, traindo-lhe os +mandados. + +Enquanto à maldição desses infernos descia meu turvado pensamento, +cantou a toutinegra na oliveira e ergueu seu doce canto à madrugada. +Comungava na taça da alegria que na luz o Senhor oferece à terra. Isenta +das cobiças e dos ódios, sem conhecer espinhos da ambição, confiando na +suprema misericórdia que lhe alimente o sangue e o ninho e lhe module o +inspirado enlevo dos seus hinos e a cada mágoa traga seu consolo, +imaculada voz dum peito inocente, turíbulo sagrado, a toutinegra depunha +no altar de Deus a sua oferenda, antes de partir em busca de sustento. + +Então uma asa negra de remorso me fustigou o orgulho; e tremendo da +própria impiedade, compungido de dor, eu perguntei que destino fatal e +tão cruel me induzia em perjúrio à minha fé, sufocando em meus lábios, +cerrados para o louvor da madrugada, essas canções benditas que a ave +cantava e eram uma oração, que eu esquecera e eram redenção. + + +II + +Minha mãe que do seu sangue me gerou, deu-me com o leite haustos de amor +por ti, Senhor. Enquanto me criava o corpo e a forma, toda esta +ilusão da vida efémera, em seu último termo inexorável predestinada à +consumpção dos vermes, ardentemente me ensinou a ver-te, ensinou-me a +invocar-te, e em teu puro espírito renascer, liberto de corrupção, para +a vida eterna. Ensinou-me a adorar-te em teu poder, a implorar humilde a +tua graça, e prostrado sofrer tua vontade, contente por servir-te e em +ti buscando a suprema alegria. E queria em sua fé, que dela recebi e é +também minha, queria que ao despertar da minha consciência após suas +horas de repouso e inércia, fosse teu nome o primeiro proferido por meus +lábios; que para me sentir erguido à tua presença esquecesse eu o mundo +e o seu tumulto e assim purificado, assim armado desse escudo +inviolável, fortalecido contra todas as tentações de desvario, +atravessasse a via dolorosa e de toda a fraqueza me isentasse. + +Nessa manhã clara, entenebrecida em um momento fugaz e aflitivo pelo +perpassar da asa do remorso, pequei, Senhor, porque transviado, perdido +o meu espírito no tropel das cobiças orgulhosas, assaltou-me a miséria o +pensamento e outro nome proferi que não o teu, antes que a ave me +lembrasse a culpa cantando os teus louvores e a tua grandeza. + +Perdoa-me, Senhor, se então traí essa fé que é o melhor dos meus +tesoiros e me incendeia o peito em teu amor! Amparem-me as tuas +aves, teus arautos, mensageiros fieis da tua glória! Em cada aurora +que os meus olhos vejam despontar nos céus, fazei, Senhor, que a +toutinegra volte e me venha ensinar a repetir essas divinas orações de +infância que à minha mãe ouvi no seu regaço! + + + + +SERVAS DA LUZ + + +I + +Logo após a cerração da noite, voltam-se para o oriente aquelas flores, +servas da luz, cujo rosto olha o sol constantemente e por condição +estranha o segue sempre no resplendente percurso da sua órbita. Ainda a +escuridão é densa e vem distante o mais tímido alvor da madrugada, mal o +poente se toldou de sombras, começam essas flores a volver sua face para +os lugares onde o sol há-de romper. Por um segredo seu que nos perturba, +subtil inspiração as ensinou a serem fieis à luz tão firmemente que nem +a treva nem a tempestade nem a alvura do luar e a imensidade de astros +brilhantes povoando o espaço puderam transviá-las e perdê-las naquela +adoração do sol que é sua crença. Enquanto o sol se afasta divagando por +ignotos mares, aprestam-se a servi-lo. O seu primeiro alento, o raiar da +aurora, há-de aquecer-lhes o seio ávido de receber seus fogos. + + +II + +Porque, Senhor, assim inspiraste mudas flores, singelas e felizes, e +deixas que os homens vão de treva em treva, rasgando o coração até à +morte, ignorando donde a luz se ergue--aqueles mesmos homens aos quais +deste a consciência do amor da luz?!... + +Nas trevas da ruindade que escurecem a alegria e o riso e a bondade, +divina aspiração da luz da nossa alma, possa eu, Senhor, como a flor em +tua graça, pressentir constantemente a tua presença e só para a tua luz +voltar a minha face, mortificada, ensanguentada, enferma dos tormentos +fatais da escuridão! + + + + +TROFÉUS DO ESTIO + + +I + +Como gotas candentes destiladas de cristalinas urnas de safira que +vertessem sobre a terra o azul dos céus para converter em luz a inércia +e a treva, o Estio derrama sobre os campos queimaduras adustas dos seus +fogos incendiando-lhes a fecundidade. + +Mirrou-se a leiva. A fonte emudeceu. Endureceu-se o pâmpano na vide. O +viço converteu-se em austeridade, denegrindo a espessura da floresta. +Murcharam os prados e ali, onde exalaram suave embriaguez do seu +frescor, levanta agora o vento nuvens ásperas de calcinado pó da terra +nua. Rolam no chão as palhas trituradas como restos de vidas insepultas. + +São troféus do Estio em sua glória. São os despojos que arrasta na +vitória, na ufania cruel do seu triunfo. São mistérios duma maternidade +santa e dolorosa. + +Para fecundar a terra e nos deixar o seu sagrado leite, o nosso pão, +para lhe enriquecer os filhos de sustento, de calor, de abrigo e de +doçura, para madurar os pomos e as searas e para criar o lenho que nos +salve dos golpes traiçoeiros do inverno, abrasou o Estio em seus ardores +aquela mesma terra que por amor beijou, vestindo-a de opulência, ao +despertar-lhe sua paixão constante de abundância, o seu fascinante arfar +de formosura e a pródiga caridade do seu seio. + + +II + +Abrase-me, Senhor, o teu ardor! Que se me converta em pó o mísero +invólucro deste ser que nasceu para servir-te, e desfeito em teus +férvidos alentos crie uma gota desse imenso amor que é o teu eterno +cálice de vida!--Tal qual o Estio abrasa e queima a terra para +transmudar em pão a rocha árida e fria, incendeia de amor meu coração +para em tua fé remir os infiéis! + + + + +LOUCOS DE HUMILDADE + + +I + +Á beira do paul, onde ele se estreita e recebe do vale o seu ribeiro, +sobre a arcada da ponte que o transpõe, unindo e prolongando caminhos +ensombrados das suas margens, quedei-me a ouvir o marulhar das águas, +batidas pelas lufadas de Dezembro e, sombrias, reflectindo o céu sombrio. + +Vindo do mar o rouco sudoeste, gerado na violência das tormentas, +turvava a atmosfera escurecendo-a. Baniu do céu o azul, de todo oculto +sob bandos de nuvens violáceas, fugidias, mudáveis como fumos, almas +errantes, cinzas dispersas de apagados lares. + +Crescidas pelo despenhar das águas da montanha que verteram nos rios as +suas neves, as lagunas cavavam funda a vaga, nessa agonia que a inquieta +e é seu destino. E incessantemente a repetiam--assim como no coração +volta a saudade, sem fim, a repetir-se e sem desanimo, renovando +dorida a aspiração que uma estrela sinistra lhe converte no repetir da +mágoa, no infortúnio de se sentir privado dos seus bens. + +Inconsistentes algas sonhadoras, dos sonhos dessas ninfas que as +protegem e gentilmente as levam no toucado, frouxamente flutuavam +enleadas nas hastes de robustos nenúfares, em cuja espessura habitam +mais isentas da mortal violência das correntes. + +Também elas, imagem da nossa alma, naquela tão minguada vida que as +anima, chorariam ilusões de liberdade e em desengano igual aos que +sofremos, pensando haver nascido para expandir-se e seguirem erradias +seus caprichos na luz de mansas águas transparentes, também elas +sentiriam afinal um cativeiro na dureza das hastes que as amparam e +enquanto lhes são arrimo as sujeitaram à própria imobilidade e à própria +sorte?!... + +Além, vai inundado o salgueiral. Parece naufragado, entregue às ondas, +arrancado da terra em que medrou. Até despido e nu, de todo despojado da +graça que no Estio lhe agitava sua abundante coma viridente, paira sobre +ele um sonho, um palpitar de afago e de brandura. Ainda no mais áspero +rigor, sob o queimar das neves, nos seus cinéreos gomos veludosos e nos +ramos banhados em alvuras vagueia uma carícia que consola, uma tímida +promessa de doçura, alentos da primavera que suspeita e de cujas +primícias de alegria será para nós o portador bem-vindo. + +Para que na terra sempre permaneça uma esperança, um refúgio de toda a +ira e toda a tempestade, a redenção de todo o desalento e toda a treva, +sorri na encosta o prado. Serenamente, ignora a tormenta e os seus +combates. Rebelde ao vento, unido ao chão e a salvo do transbordar das +águas mais subido, repousa os nossos olhos, já fatigados desse tropel de +lutas de extermínio, essa mancha de deleitosa cor e de brandura. +Tranquila, em sua mansidão firme e piedosa, afronta e vence a túrbida +violência em que astros funestos dilaceram, fúnebremente, a terra desolada. + + +II + +Em andrajos, curvada, carregando o parco e mesquinho feixe de caruma, +vem recolhendo ao lar da sua choupana, uma pobre velhinha. No rosto +emaciado estão marcadas por fundas rugas, restos de agonias, as +canseiras, velhice e privações. Nem uma só faúlha já lhe resta do fogo +que algum dia entumeceu as veias duma face enamorada de ventura e +prazer, e em ventura enlevando os que a buscavam. Aqueles sadios braços +que acudiam a recolher o pão no sol do eirado, são mal definidas sombras +esqueléticas de formosuras que passaram breves. E os olhos que brilharam +amorosos, em zelos inflamando e fascinando os turbulentos moços do +arraial, esmoreceram todo o seu calor, amortecidos em descorados véus, +quase sem luz. + +Mansamente, quando eu cismava no turbilhão de vidas tão diversas que ali +contemplava, no mistério sem fim dos seus combates para expandirem na +luz os seus anseios, a velhinha, arrastando seus passos no caminho em +que resignada arrasta a sua pobreza, saudou-me e disse, interrompendo o +sonho e outros sonhos trazendo em sua voz: + +--«Boa tarde, meu senhor, salve-o Deus!» + + +III + +Delira de humildade esta velhinha que em seu santo delírio desvairada, +aureolada de fulgores angélicos, me dá teu nome, Senhor, só porque a +sorte cega em seu capricho me envaideceu com os falsos bens do mundo, +enquanto a enriquecia de pobreza e me induzia, a mim, a ser soberbo, e a +me esquecer de ti no meu orgulho? Foi por isso, por ser a mais humilde, +por ser abençoada desse delírio santo de humildade que a enlouquece, +mostrando-lhe os seus senhores nos desgarrados da tua larga senda de +bondade, perdidos nos infernos das cobiças, foi por isso, Senhor, que a +escolheste para a enviar dizer-me que além desse outro mundo que ali +contemplava em confusão de esperanças, formosuras e terrores, mortal, +incerto, atormentado e turvo, além desse outro mundo um outro existe +onde Deus tem seu reino e onde nos salva?!... + +Possa eu sempre ouvir a sua voz! Resgate-me essa fé, essa humildade que +no mais pervertido vê um senhor e o saúda e o serve obediente, e +suplicante, por ele erguendo aos céus a sua súplica, fraternamente para +ele implora a graça de salvação em Deus!... + + + + +ORAÇÃO DOS LARES + + _Et jam summa procul villarum culmina fumant,_ + _Majores-que cadunt altis de montibus umbrae._ + + +I + +«Começam a fumegar ao longe os tectos dos vilares e lá dos montes altos +vem crescendo as sombras que se alastram sobre a terra». Tingiu-se de +ametistas o poente. O campo adormeceu. Calaram-se as enxadas na deveza. +Entre rumores dos gados que recolhem, caminha para a morada o cavador. +Erguem-se aos céus os fumos dos casais e, desprendidos da pureza do fogo +em que se geram, em vespertinos cantos abençoam o repouso da noite a +aproximar-se. + +São sacramento que une os lares da vida humana à luz infinita. São +oração, anelo, um palpitar, um voo, anseio de brandura transportando ao +espaço sem fim aspirações que os nossos corações mal balbuciam, que +palavras algumas traduziram. Confundem seu mistério de beleza, um tímido +mistério que se abriga sob a pobre nudeza das choupanas, em um outro +mistério ainda mais alto que tem por templo a abobada celeste, por voz a +voz de Deus e por fieis miríades de seres que se dispersam na vastidão +do cosmos insondável. + + +II + +Assim seja, Senhor, minha oração! Tão alto ela se erga e tão suave se +eleve em vosso amor e o sinta e adore, como o fumo dos casais quando +anoitece levando aos céus as orações dos lares. + + + + +CANTARES DAS SEBES + + +I + +Ao longo do caminho da jornada na qual, dorido, vou calcando a terra, +ouvi o cantar das sebes nas vigílias em que constantemente nos defendem +e nos guardam os pomos, as searas e os lírios, todo o bendito pão que +nos anima de vigor o sangue e nos enleva em alegria a alma. + +Valos fundos em volta do pinhal, tosco acervo de pedras que circunda o +campo onde o trigal vem a brotar, viridentes cômoros abrigando os ninhos +sob grinaldas de rosais floridos, ramos espinhosos protegendo o alfobre +para que as sementes desabrochem e vinguem, os silvados que escondem os +vinhedos,--se uma vida despontando teme a avidez ingénua dos rebanhos e +de aves diligentes em buscar sustento tenro para mimosos filhos; ou se a +cegueira humana pervertida pode quebrar a árvore que nasce ou +desrespeitar ruimmente o suor alheio, ergue-se a sebe e entoa os seus +mandados, e cobre de fortalezas todo o chão traçando os seus limites +à cobiça, à imprevidência, à malvadez e ao próprio dano da inocência +instigada por amor--como um gládio de justiça austera repartindo toda a +terra entre os seus filhos. Ora severa e rude na mudez, ora coroada de +verdura errante, murmurando o agreste murmúrio desprendido pelo beijar +de brisas fugidias, pacientemente a sebe nos protege a selva, o prado, o +pão e as açucenas, quanto pode amparar os nossos braços e encantar +nossos olhos em beleza. + + +II + +Se para nos guardar na terra a formosura e alimentar nas veias o calor +elegeste na sebe um missionário, servidor desvelado da tua graça, se nem +esses teus bens mais preciosos viveram sem o abrigo e a caridade dos +companheiros que lhes destinaste, como poderei eu, Senhor, criar no +peito, neste peito gerado da fraqueza, o amor fecundo em que ele se +arrebate, florindo em bondade e mansidão, se em tua misericórdia não +mandares anjos bons que me guardem e dos teus inimigos me defendam?!... + +Sinta eu sempre a meu lado, protegendo-me, o doce abrigo de filhos teus, +Senhor, daqueles teus eleitos e inspirados que na tua bondade e em +teu amor souberam redimir-se! Que por sua voz e sua fortaleza +arranquem meu coração ao sinistro abutre da descrença, do ódio e da +avareza a que lugubremente se entregaram os que em solitário orgulho te +ignoram! + + + + +COMPANHEIRO E GUARDA + + +Do vale aos cerros onde me encontrei, vai minguando a vida. Lentamente, +a solidão alarga o seu domínio até que ao cimo, pela planura extensa que +remata o encastelar de montes sobre montes, de todo impera na aridez +ingrata que despiu de verdura a terra rasa e a adormeceu, estéril, +semi-morta de avareza e silêncio. + +No deserto severo a que subi, apagou-se distante e emudeceu quanto na +veiga fértil me fascina, esse fremente rebrilhar de vidas irrompendo da +terra alegremente que por seus anseios vinham demandando seu lugar e +glória à luz do sol--a carícia agitada das ramagens, mugidos da manada +no pascigo, o argentino rebater da forja, a espessura ondeante das +searas, a viveza das rosas nos jardins, a murmurante faina dos casais, +toda a abundância, toda a flor e toda a lida que no vale se expandiram +opulentas, na abrigada largueza dos seus campos e nos bastos vilares que +ela alimenta. + +Eis que, porém, no árido silêncio dessa terra sem viço, devastada, se +ergueu um casebre humilde, o mais humilde, e dali se elevou um ténue +fumo! E logo se povoou e foi amena a solidão austera desse chão que o +desamor dos homens e dos astros asperamente votara ao abandono. Foi como +se uma afeição dali emanasse e banisse, amorável, por encanto, todo o +ermo da gândara desolada. + +É a morada singela dum pastor. Recolhe agora ao aprisco o seu rebanho, o +seu pobre rebanho, filho e imagem da pobreza da urze endurecida na terra +recalcada dos invernos que nunca conheceu o arado e o jugo. E protegidas +do rigor da noite as ovelhas, seu único tesoiro, por sua vez procura +acautelar-se da aragem fria que lhe tolhe os membros, acendendo a +fogueira mal nutrida das escassas giestas que juntou. + +Outro alento de vida não pressinto em redor do bravio solitário. Mas só +por magia desse ténue fumo, companheiro e conforto do pastor no ríspido +exílio em que perfaz sua missão de amor servindo a terra, senti que até +ali mesmo me guardava das sombrias visões do desamparo não sei que voz +estranha e poderosa. + +E pedi ao Senhor que recebesse em sua bondade eterna e eterna glória +este infinito anseio da minha alma que sem cessar o vê e ao seu amor, na +opulência da terra e na aridez, na maior chama como em débil fumo. + + + + +REINO INFINITO + + _Dico vobis quod quemcumque locum calcaverit pes vester, vester erit._ + + (SACRUM COMMERCIUM, cap. III) + + +I + +«Eu digo-te que é teu todo e qualquer lugar que os teus calquem»--assim o +ensinava o Santo aos seus irmãos, voltando em puro espírito a +ilumina-los, daquela eternidade em que resplendia o seu amor ardente, o +mais sublime que ao mundo trouxe a vida e a salvação, depois que alguém +morrendo no Calvário derramou por amor todo o seu sangue. + +É nossa toda a terra que pisamos, toda aquela vastidão que nós sentimos, +em seu alento respirando a fortaleza e em sua formosura extasiando os +olhos e a nossa alma. E só é nossa aquela que sentirmos e enquanto o +nosso coração a adora e louva; e é alheia, muda, estéril toda a terra +que o nosso amor em tudo desconhece, ou distante dos olhos a não veja +ou, estando a nossos pés, a não sintamos enchendo o nosso peito de +bênçãos e alegrias. As boninas, os lírios e os rosais não são dessa +avareza pervertida que lhes pôs em redor um muro alto, para privar os +homens de os tocarem, e só por isso julga possui-los como escravos do +orgulho e da vaidade; são desse peregrino pobre e semi-nu que na estrada +os sentiu e, cantando e bem-dizendo o seu enlevo, prosseguiu na jornada, +iluminada a vida e exaltada na fragrância e frescor de formosura e na +divina crença que ela inspira em tua fé, Senhor, em teu poder de eterna +graça e beleza. Esse foi rico e, na verdade, teve na terra que os seus +pés calcaram um reino infinito--tão rico quanto foi miserável, +indigente, esse outro que quis contar os bens pela demência cega e +malfazeja com que privara da terra quem a ama e nessa sinistra força +resumiu seu ser e aspiração. Este foi pobre, tudo perdeu do salutar +alento que lhe mostrou um Deus em cada flor, o resplendor duma essência +divina imperscrutável; por mais terra que seus pés possam calcar, jamais +possui um só e estreito palmo do chão bendito que as flores orvalhadas +consagraram. Possuir é admirar e comungar, e só é nossa a terra e tudo +aquilo em cujo amor sentimos consumir-nos. + + +II + +Bens da terra, Senhor, também os quero! Também instantemente vo-los +peço! Também avidamente os apeteço! E reconheço os muitos, +gloriosos, com que prodigamente enriqueceste os que têm como sua toda a +terra que os seus pés vão calcando e os olhos vêem, enquanto a sua alma +se extasia na beleza da vossa criação. + +Riqueza é o coração que vós tocaste na perene harmonia incorruptível que +é o vosso ser e vibra em todo o espaço e se espelha em luares e na açucena. + +Dai-me, Senhor, a graça de a sentir, e nessa graça os reinos infinitos a +que ela e só ela nos conduz! Para que então eu possua toda a terra e +seja meu todo e qualquer lugar que os meus pés calquem. + + + + +PODERES DA TERRA + + +I + +Rolam fundas as águas nos caudais. Fundiu-se em torrente a neve que +cobria de doce alvura a aspereza da montanha. Nuvens negras do sul que o +vento apressa, jorraram o seu dilúvio sobre os campos. A inundação +cobriu sebes e vales, e a seara, o prado e o burgo que agasalha o +cavador, os jugos e as enxadas. De outeiro a outeiro, onde ontem +perpassava o suave esplendor de mansas vidas,--em tímidas boninas, em +rebanhos, pascendo repousados a abundância, e nesse fecundo arranco +heróico e hercúleo dos servos da gleba generosa--a devastação das águas +desapiedadas estende turvamente uma mortalha. E onde se ouvia murmurar a +paz, o embalar dos berços carinhosos e estrídulos descantes de +ceifeiras, felizes e esforçadas na sua faina, lançou a inundação roucos +pregões de ameaça e terror, tumultuosa e lúgubre no ímpeto. Dia e noite, +ou brilhe o sol vencendo a tempestade ou a escuridão se cerre +impenetrável, rugem no vale horrendos clamores de morte, de ruína e de +crueza. + +Ouviram-nos ao longe os povoados; os montes e as quebradas +repetiram-nos. E, sentindo como um grito de aves fúnebres que dos céus +nos mandassem seus agoiros, um sombrio pavor me subjuga. Seus lívidos +espectros de desgraça escurecem-me em mágoa o pensamento, mostrando-me +os infernos neste mundo entregue sem resgate às suas penas. + + +II + +Não me culpes, Senhor, se eu esquecendo, em momentos mortais de +desalento, a sabedoria infinda do teu ser que o orbe rege e funde em +harmonia, sucumbi de fraqueza e de descrença perante os poderes da terra +no seu auge! Não me culpes, Senhor, se assim vencido, atónito de espanto +e de terror, senti passar a cólera das águas e tremi de sofrer sua +inclemência! Não me culpes, Senhor, se um instante de assombro me +oprimiu perante as iras da vossa criação e nelas vi tiranias indómitas +cruéis! Logo me emenda o erro, crê, e me resgata de vãos temores e de +fraquezas ímpias a inteira fé na suprema perfeição de quanto é teu. Mais +alta que os clamores da inundação, uma outra voz me ergue no desejo de +que a «tua vontade seja feita, quer nos céus, quer na terra», +eternamente. + + + + +PERPETUAS DO ROMEIRO + + +I + +Entardecer de outono tépido e quieto!.... O sol baixa ao poente, +brandamente, em seu rubor velado de neblinas. A soberba do Estio +esmoreceu. Há manchas desbotadas sobre os campos; empalidecem vinhas e +pomares. A ceifeira já ergueu da terra a seara e deixou cor de cinza +todo o chão. Os frutos coram derradeiras cores nas hastes semi-nuas e +vergadas, e os mostos, refervendo capitosos seus túrbidos perfumes +traiçoeiros, semeiam nos vilares visões pagãs de bacantes e faunos em +delírio. + +Descem do monte os bandos dos romeiros. A essa orgia da terra generosa, +embalsamando a aldeia em seu deleite e remindo-a da fome com o seu pão, +responderam na ermida da montanha descantes amorosos, plangentes, +orvalhados da noite e abençoados do sereno fulgor de astros propícios. + +Rebeldes à fadiga, alegremente, voltam à paz da aldeia e ao seu +trabalho os romeiros que foram à capela a confessar as penas e paixões, +implorando do bem-aventurado santo que lá mora, nessa agreste pureza do +seu ermo, que às suas penas lhes mandasse alívio e que às paixões lhes +desse horas fagueiras. E para que dilatadamente se prolonguem confissões +e promessas murmuradas candidamente em estos de ternura, para que jamais +se apague a sua lembrança nos lares em que se abriga o coração cativo do +juramento bafejado pelo resplendor do santo do altar que entre lírios e +rosas lhe sorriu, trazem no peito um ramo de perpetuas os romeiros +saudosos da vigília em que sonharam o céu e o paraíso. Querem que um tão +breve instante de ventura, por magia de amor, se torne eterno e que +perpétuamente o guarde a flor em que sempre o verão como em sacrário. + + +II + +O mais rude como o mais experimentado adorou neste mundo a eternidade. +Na hora mais breve que se esvai e passa, no sorrir e nos olhos dos que +amou, quis ver e quis sentir luz que não morre; e fielmente, talvez para +não cair em tentação de perjúrio ou fraqueza, quis encarnar a crença na +flor, dar um cálice à fé e o seu quinhão da formosura que na terra a +louva. + +A vida só é vida enquanto ama e traduz e adora a eternidade na beleza do +mundo e da nossa alma. É a tua lei, Senhor! + +Possa eu servi-la e fosse este meu peito perpetua do romeiro onde +abrigasse um infinito amor e eterna graça! + + + + +PODER DO VERBO + + +I + +No apolíneo sonho do poeta, à beira da torrente, sobre os montes, o +pastor que além viu a moça linda e ingénua, revestida de viço e de +frescura tão perfeitos como os da primavera em torno que o afagava, +cativo o coração e confundindo no mesmo vago enlevo a graça e a +formosura, cantou assim ternuras do seu peito: + +«A erva cresce agora livremente. Há lírios sobre os prados. A maré verde +de Abril transborda no seu crescer. E para traz, muito longe, perdeu-se +cego o inverno. + +«Assim como a primavera surge da tormenta, assim da morada escura surges +tu. + +«Em ti reside a luz, e qual espraiada no contorno dos lírios a primavera +brilha, assim do teu coração, pelos lábios vermelhos entreabertos, vem +palavras e amor aos feixes erguidos do acónito. E aquele que o movimento +agita lança à terra a bênção, pelo suspirar ardente e pelo amor, +pelo desejo bom e pela alegria.» + +«Quando tu partires, no inverno incerto, entre os fumos da morada e no +rumor dos homens, então verei sempre os teus cabelos de oiro e os teus +pés brancos ágeis no volteio. E do limiar da porta até ao lar, canções +vindas do sul, as palavras da tua boca hão-de esvoaçar, aqui e além, a +repetir-se em todo o espaço.»[1] + + [1] William Morris. _The Sundering Flood._ + + +II + +Oh, magia do verbo que converte passageiro murmúrio em eternidade!... + +Por que subtil poder e invencível palavras dum instante, etéreamente +aladas e fugazes, voltam do infinito espaço em que as lançou a vibração +dum peito comovido, para de novo as ouvirmos tão altas e claras e +tocantes como da vez primeira que as sentimos?!... Por que energia +oculta se renovam, e nos povoam de visões os sonhos, e nos amparam os +passos com o conselho, e nos fazem sangrar o coração, e nos desprendem o +sorriso e o canto, e nos elevam na oração divina, as palavras que +alguém, um pequenino ser mortal e fraco, mínimo átomo no volver dos +mundos, um dia segredou timidamente na mansidão dos seus lábios +mortais?!... + +São anjos teus, Senhor, são anjos teus! Pastores do teu rebanho louco e +débil, os enviados bons do teu amor que vem a encaminhar nossa fraqueza +no caminho da tua salvação! + +Antes, Senhor, a inconsciência, a morte, o infindo dormir da própria +alma, do que o errar no mundo ao desamparo, sem a bendita voz dessas +palavras que de contínuo ouvimos repetir-se, «aqui e além, +perpétuamente, em todo o espaço», e nos renovam quantas visões de amor +nos enlevaram, quanta beleza e graça nos mostraram para além deste mundo +os céus e os anjos! + + + + +UNÇÃO DE GLORIA + + +I + +Nasce para vida curta e breve passa seu sonho de candura e de beleza a +flor que a primavera descerrou. Brisas ligeiras que lhe baloiçaram ao +sol do meio dia o seu turíbulo de dulcíssima seiva perfumada, essas +mesmas virão rasgar-lhe as pétalas antes que o vento abrande no crepúsculo. + +Foi um celeste instante de brancura aquela que poisou sobre o espinheiro +florido entre a pálida verdura. Os oiros reluzentes do ranúnculo +brilharam curtos dias entre os prados; e a desmaiada púrpura da olaia, +no suave rubor que nos fascina, parece ter nascido para uma hora, tão +cedo ela decai e junca o chão e se dissolve e perde emurchecida. E as +rosas--é seu fatal destino, bem o sabem! «nasceram para viver uma +manhã». O seu frescor é o beijo duma aurora e uma só vez na vida hão-de +senti-lo. + +Entretanto, na sombra, humildemente, a hera sempre verde, persistente, +de contínuo cresceu sobre a ruína, e ou a neve embranqueça no trigal +a verdura da terra requeimando-a, ou o sol alente as seivas dos +vinhedos, ou o inverno a castigue rudemente, ou o Estio sequioso a +abrase, vai urdindo, incansável, esse manto de viço túmido e quente com +que protege feridas da ruína e, remoçando-a, a veste de grinaldas. E +caem desfeitas sobre as heras as flores que a primavera desfolhou, na +vida curta e breve em que viveram seu sonho de candura e de beleza. + + +II + +Ah! Bem feliz, Senhor, seria o filho teu cuja sorte escutando o seu +desejo lhe deixasse escolher para seu quinhão a frescura das rosas +passageira vivendo longa vida prolongada na robustez das heras +caridosas; porque esse seria a tua imagem, bebendo sobre a terra dum só +cálice a suprema beleza e o teu poder. Mas, pois que à imperfeição eu +fui votado e nela hei-de cumprir o teu querer, vivesse eu como as rosas +um momento de candura e de graça e de perfume, e morresse incensando +heras robustas de caridade e viço imarcescível!... Passasse assim na +terra, como passa, numa tarde de Abril embalsamada, a unção de gloria +que os rosais verteram sobre o vigor das eras persistente!... E seria +feliz, abençoado, tendo sonhado a tua eternidade envolta num alento de +doçura. + + + + +SACRO HOLOCAUSTO + + +I + +O outono palpita nos orvalhos. Já a manhã é tardia em despontar e o +cavador trabalha em bem prover seu refúgio para a aspereza do inverno. +Antes que rasgue a terra para o trigal, há-de juntar em torno do seu lar +a provisão de lenhas que alimentem calor e vida em noites de Dezembro, a +alegre e rubra chama da fogueira. + +No pinheiral da gândara, que dormiu prolongados silêncios abrasados +quando o sol ia alto, fulminando verdes searas a beber seu leite da +terra criadora, entre cantares dos filhos do seu seio e seus escravos +que em suor a banhavam fecundando-a--no pinheiral da gândara, a árvore +ferida, decepada do chão pelo aço luzente que o lenheiro vibrou em +hercúleo arranco, solta tombando clamores tremendos; e a paz da floresta +repetiu-os em ecos de saudade compassiva. + + +II + +Oh, sagrado holocausto duma vida austera e solitária, corajosa, vivida a +todo o tempo, paciente labor de muitos sóis, de rudes provações que +experimentaram a tempestade, a calma, a noite e o dia, águas violentas +que flagelavam e águas de brandura, salutar afago, luares calados, doces +sonhadores, e o desalento do ardor do Estio e a branca inércia das +manhãs do inverno, toda a luz, todo o tumulto e toda a paz, todo o +infinito ser de infinitos mundos!... Tu morreste bendita dando aos +homens todo o calor que guardas nas entranhas, para agasalhares os +berços e o trabalho, para retemperares os seios que amamentam e para +aquecer os braços que se tisnam na escravidão da terra redentora! + +Eu não sei se é de dor, se de gloria, se é louvor ou lamento que te +envia, a ti, Senhor, que lhe traçaste a sorte, esse grito que ouvi no +pinheiral quando ao cair da árvore bradou seu ansiado brado a sonorosa +haste que cantara a mansidão das brisas que a tangiam. Mas ouvindo-o, +Senhor, ouvi tua voz; e, turvado da abundância da tua caridade, +implorei-a--não me abandonasse, como não me abandona a fé que eu tenho +em teu mistério de bondade e amor. + + + + +SAGRAÇÃO DO ESCRAVO + + +I + +No alto da montanha, ao romper de alva, já moureja no campo o cavador a +alentar essa terra de que é escravo, seu sonho e seu tirano, e sempre +amada, fidelíssimamente obedecida, ou a sonhe feliz dando-lhe frutos +entre rosais corados olorosos, ou a sinta opressiva, insaciável, +bebendo-lhe no suor do rosto todo o sangue. O tépido conforto do seu +lar, o dormir sorridente dos seus filhos, o desvelado afã da companheira +no seu mudo lidar e em seus carinhos, quanto lhe afaga o coração e o +tenta a esquecer na ternura a escravidão, tudo deixou por essa tirania, +para fecundar a terra à qual o prende o rigor de apaixonada sujeição. +Mal ao nascente a luz embranqueceu, ei-lo que parte, erguido e corajoso, +a pelejar a peleja bendita de criar! + +Dorme além a cidade ainda prostrada da tenebrosa orgia que a desvaira. +No dissipar de pálidas neblinas, que a madrugada rasga pouco a +pouco, irrompem, lentamente, as sombras orgulhosas dos palácios em que o +luxo entorpece seus filhos corrompidos e enfermos, de alma e do corpo, +por suas vãs loucuras tão cruéis. + +Surgem a par as torres das igrejas, onde a fé, a mentira e a hipocrisia +lançaram de tropel em um só templo a cruz de Cristo, a mais santa das +crenças, e a mais torpe traição, essa que oculta sob véus da pureza e na +oração toda a cobiça sórdida de mundos que em podridões sustentam o seu +deleite. + +É frouxo ainda o fumo da oficina. Nos seus leitos de ferro e de granito +mal despertaram os monstros que, rugindo pelos lúgubres antros +denegridos, convertem todo o sangue em alavanca ou em um numero, como se +fora a haste fria e rígida do mais frio aço endurecido. Toda a emanação +de Deus que anime um ser em Deus criado e nele engrandecido, coração, +formosura, o próprio seio que amamenta um filho, supremo alento dum +supremo amor, qualquer impulso duma consciência iluminado por visões dos +céus, o mais leve passar duma alegria,--morrem, são nada à porta da +oficina, escoria inútil que os dragões arrastam àquelas profundezas +tenebrosas em que ter alma é um crime, e o pensar e o sentir são uma +traição, um erro, um prejuízo dos argênteos tesouros mercantis. + +No declive estreito dos outeiros e na sombra mais húmida das suas +pregas, ao redor dos palácios e dos templos, como varridos em monturo +abjecto para longe das grandezas que afrontavam, confundem-se e +amontoam-se os casebres onde a fome e a sua negra corte de vícios, de +loucura, de enfermidade e morte e blasfémia têm seus covís e dilaceram +os mártires que a crueza dos ricos lhes votou. + +O próprio rio que regara os prados e os tingira em verdura e macieza, +que adoçara vinhedos das encostas e orvalhara os vergéis alcandorados na +ribanceira que a pervenca esmalta, o próprio rio onde foi espelhar-se o +rosto lindo da donzela ingénua cativada dos olhos que respondem +comungando nos seus o seu anseio, o rio que serviu a obra de Deus, sua +pura beleza salutar,--tristemente se roja na cidade, turvado por as suas +maldições e servindo a avareza despiedosa que roubou o pão de míseros +humildes para em opulências cobrir de oiro a soberba. + +E perante a cidade em seu letargo, atormentada e pálida de dores, +sucumbida nas suas maldições, o sol rompendo ao longe sobre os montes, +na resplendente luz do seu nascer, aureolou de gloria o cavador, +sagrando-lhe a sua crença e o seu vigor, a robustez hercúlea do seu +peito e a consagração bendita de sua alma a esse tributo infindo, +heróico e santo, de em suor pagar à terra o nosso pão. + + +II + +Senhor! Em vossa caridade reparti vossos bens por quantos, infelizes, a +fraqueza condena a mendigar dos fortes o seu pão, embora o orgulho os +traga confiados em pérfidas grandezas traiçoeiras! Por esses que o +destino arrasta na tristeza, no cansaço e desgosto de viver, porque em +hora sinistra se apartaram do caminho da vossa salvação!... Deixai que +chorem sua desventura, e em seu queixume ouvi a minha voz!... Deixai que +chorem em doloroso exílio esses proscritos que jamais comungam com o +cavador na bênção de criar na terra o nosso pão com o suor do rosto! À +luz da aurora que o beijou no monte, juntai as lágrimas dos que vão +chorando sua desgraça, sua perversão!... Fossem elas incenso e ouro e +mirra que os débeis reis do mundo tributassem à sagração divina do +escravo!... Resgatassem humildes todo o erro que os desprendeu da +escravidão da terra!... + + + + +MALDIÇÃO + + +I + +Entenebrecidas noites de tristeza afastaram-me da via iluminada para +lugares distantes, desprezados dos escravos das seduções mundanas, +prisioneiros fieis dos seus regalos. + +Passei pelas vielas lobregas, estreitas, onde se acoitam multidões +abjectas, que os ricos aviltaram condenando-as à ignorância, à fome, aos +vícios do infortúnio, à loucura e ao crime, a epilépticas convulsões da +embriaguez, à indigência, ora prostrada ou insolente, ora mendiga +lacrimosa e tímida, ora cuspindo pragas e blasfémias em sua altivez +irada, revoltada. Vi os negros covís dos desgraçados que a opulência +arrojou longe dos olhos para os monturos humanos da cidade,--não fossem +os andrajos e os vermes confundir-se entre vestes de purpura manchando-as! + +Dos gemidos que vinham desses antros, tantas vezes castigando as nossas +faces como um viperino jacto de veneno, a procurar vingança; do +rugido da miséria nos seus transes nenhum me tocou mais o coração do que +o grito das crianças açoitadas, entre imprecações raivosas de possessos, +flageladas com desprezo e ódio vermelho, somente por chorarem doloridas +de fome e frio e ínfima indigência, sem carinho e sem pão, sem um leve +consolo, que conforte e que alegre e vivifique dum reflexo de divina +essência o corpo enfermo e a empedernida e bruta animalidade. + +Longas horas depois de ter deixado os coitos dessa escoria penitente que +sofre e geme em vão nos seus infernos, sem alcançar mover à misericórdia +os soberbos e grandes que em seu fausto, emudecida e cega a consciência, +lhe negaram justiça, ainda ouvia insistente o clamor desse tormento +louco das crianças. + +E nenhum mais cruel tenho encontrado! + +Em nenhum--e são muitos entre os homens! encontrei maior dor e perversão. + + +II + +Se o Estio esgotou fontes e rios e secou a campina, a ave infeliz, que +tem filhos no ninho a sustentar, e em vão moureja, diligente e muda, por +todo o abrasado e ingrato espaço, tem de voltar ao poiso desprovida. +Mas não castiga essas famintas bocas que a esperam, gritando e +atribuladas, a pedir-lhe o alimento que não pode dar-lhes, pois lho +recusam os calcinados campos adversos. Sofreu resignada o suplício, a +fome, a sede, e a amarga invocação dos que um mau sestro confiou ao seu +amparo. + +Se o leite seca ao animal bravio, por qualquer contingência da sua +sorte, oferece o peito exausto ao filho débil, todo o seu sangue +quereria dar-lhe; e sentindo-o a morrer de inanição, responde com os +carinhos ao queixume da vergontea que vai a definhar, aquece-a junto ao +corpo, mas jamais se abandona a ímpetos de cólera, só porque um ser +amado lhe suplicou, inquieto, angustiado e lacrimoso, o mantimento que +carece para viver. + + +III + +Que estranha aberração induziu o homem a negar a robusta caridade, +comum, vulgar, no peito inconsciente?!... Que estranha perversão o fez +acrescentar à indigência a crueldade, torturando, somente por lhes +sentir as agonias, aquelas mesmas vidas que criou, carne da sua carne, +almas da sua alma?!... + +Discípulo de Cristo a quem adoras, por comunhão na sua vontade e +anseio erguido à plena luz do entendimento que te mostrou irmãos nas +ínfimas partículas, na argila e na poeira, como no coração, na rosa e em +tudo quanto existe! Senhor soberano dessas forças terrenas formidáveis +que dominaste e trazes por escravas em proveito do teu gozo e teu +triunfo, convertendo-as do terror à mansidão, dócilmente vergadas ao +capricho!... Por maldição de trágico império, em tenebrosa queda +degradado, foste sujeito, louco, em teu orgulho de virtude e de crença e +de isenção, a repassar de fel a dor dos próprios filhos! + + + + +PROFISSÃO DE FÉ + + +I + +Não ajoelhei no adito do templo e, como o filho querido do poeta, fiquei +também de pé, rebelde e incrédulo, «quando um povo fiel na sombra das +abobadas se curvava ao passar de cânticos celestes, tal qual se verga a +multidão das canas quando sobre elas sopra o vento norte.» + +Irreverente e altivo, passei coberta a fronte por monumentos altos, +insensatos, em que orgulhosa demência de grandezas, poluindo com o +fausto a divindade, num estranho tumulto de blasfémia e súplica, de +mentira e verdade, de confissão ingénua e de impostura, pôs o sinal da +cruz e da oração ao sagrado retiro em que confunde religião, vaidade, +amor e ódio, fanatismo e doçura, mansidão, crueldade, perdão, vingança, +cobardia e coragem, o nobre e o mísero, o sacripanta e o santo. + +Muita vez me afastei desse desvairo, satânica traição, em que o +resplendor de Deus no cálice e na hóstia se empana esmorecendo em +nuvens de vileza que derramam em torno a escuridão da impiedade e das +paixões mundanas. + + +II + +Mas não te desamei, Senhor, porque assim fiz!... + +Sempre que o coração tentou seus voos de candura, sempre que se sentiu +sujeito a forças sobre-humanas para as servir guardando os seus +mandados, no remorso e na dúvida, em todo o penar de angustia e em toda +a esperança, em afecto e ternura, em sonhos de pureza, aspirando ao +enlevo no Eterno, cansado deste mundo de fraqueza, ergui olhos chorosos +ao azul, onde cintilam astros diamantinos, e invoquei-te, Senhor, meu +Deus e Pai, a ti «que estás nos céus, nome santíssimo, para que tu me +acolhas no teu reino e eu fielmente cumpra a tua vontade; para que me +dês o pão de cada dia e me perdões quanto te dever, assim como aos meus +devedores também perdoo; para que afastes de mim a tentação e de todo o +mal me livres para sempre.» + +E fui humilde então!... Nesses altares me despi totalmente da soberba e +ajoelhei prostrado, submisso, a escutar tua voz e a adorá-la, religioso, +confiado e crente, curvado como o canavial vergado ao vento. + + + + +DRÍADE ENFERMA + + +I + +Pelo musgoso atalho da floresta, entre o tojo bravio e urzes austeras, +fui saciar meus olhos na beleza e reanimar o corpo na carícia que o sol +esquivo e brando de Dezembro frouxamente derrama através da espessura do +pinhal. + +A custo ia abrandando o frio da manhã. São curtas nesse tempo as horas +tépidas. Mal se fundiram os gelos da derradeira noite, logo vem +renová-los mais profundos a palidez de frígidos crepúsculos. + +Experiente, já certo dessa lei que dos astros nos vem e é impreterível, +sorvia com avidez a delícia breve que eu sentia fugaz, quase uma ilusão +de transitórios sonhos luminosos. + +E lembrava o Estio e a primavera!... Ali, naquela mesma floresta, ali +busquei abrigo da violência dos abrasados dias inflamados pela calma do +mês de Santiago. Ali me defenderam dos seus fogos as vastidões +umbrosas impenetráveis. Ali ouvi passar no vale vizinho o sussurrar das +águas que corriam a reanimar o prado emurchecido por aturadas horas +refulgentes. Ali senti esse leve sorrir vindo da terra, desprendido dos +borbotões das fontes do seu seio para redimir a vida extenuada, +desfalecida à míngua de frescor. + +Ali encontrei passando ao entardecer, em sua plena graça juvenil, como +se alada rosa eu entrevisse, a moça que subia das lenturas fecundas do +juncal a regalar seus gados com o pascigo, entre cantares ceifado +alegremente, vibrando firme a foice, despiedosa, a traçar nos seus +dentes a bonina mais branca, e o malmequer, e a mais esbelta haste do +azevém onde já despontavam as palmas rígidas em que guarda a semente. + +E eis que de novo a encontro agora na floresta, a essa mesma dríade que +outrora, em perfumadas horas estivais, passou por mim turvando-me os +sentidos de súbito embebidos, cativados, na gentil maravilha de seus +gestos. + +Mas quanto vem diferente e vem mudada!... + +Que é da graça subtil que a envolvia, envolvendo na sua formosura os +olhos confundidos, fascinados do latejar sadio que igualava o florir +ingénuo da açucena?!... + +Filha da terra e sua humilde serva, também ela conhece o outono e o +inverno; também arrasta penas e fraquezas; também se empobreceu de +seus enleios. Não fugiu ao rigor da lei comum. Enferma, traz +enfermo o seu encanto; vai quebrada a magia do seu poder divino. Curvada +sob o feixe de duros ramos secos que para seu conforto esforçada colheu +de orgulhosos robles, castigada a frescura rosada dos seus braços pelos +espinhos ímpios dos silvados, tisnada a face pela aspereza cortante das +manhãs, é agora a lenheira paciente, mortificada e débil, imagem do +trabalho e do sofrer, aquela ceifeira airosa que ainda há pouco foi para +mim missionário feliz da alegria sagrada de viver, afortunada voz e alto +pregão das seduções da terra, claro espelho de todo o seu amor. + + +II + +Se em toda a vida passa a enfermidade, se a formosura é incerta, e se o +lírio e a estrela e a nuvem e o mármore mais duro, e a alegria e o riso +e a doçura infinita da bondade e a própria luz do sol são perecíveis; se +a criação inteira que os olhos vêem e que a nossa alma sente, toda a +beleza íntima e a do mundo, decai e desfalece, sofre e se apaga: se só +tu és eterno, Senhor! em tua caridade e teu saber, e se a suprema +harmonia, que é o teu sonho, não distingue o prazer e a dor, a caricia, +o flagelo, a rosa e o cardo, por igual divinos em teu divino +ser--se é esse o teu querer, bendita seja a hora em que encontrei a +dríade enferma do inverno que em seu dissipado encanto e em sua mágoa +correu a ensinar-me a crer em teus desígnios e me segredou louvor e +obediência, a inteira abdicação em teu mistério! + + + + +MONJAS DO OUTONO + + +I + +Ouvi cantar no monte as urzes roxas. + +Cantavam ao romper de alva, ainda banhadas do cintilante orvalho da +manhã que pela noite calada e arrefecida as estrelas pousaram nos seus +braços, trigueiros como a terra onde se criam. + +Cantaram ao cair da tarde, iluminadas por brazeiros corados do poente +que o tumultuar das nuvens inflamou, ao longe, sobre o mar, no extremo +horizonte. + +E enquanto assim cantavam nos seus bandos, vagabundos das fragas e dos +seixos, cobriam toda a terra da sua purpura, esmorecida e branda, tímido +murmúrio da vermelhidão que hesita em seu clamor e teme ferir quando só +quer dar vida. + +Cantavam livres percorrendo a gândara rasa onde nem um desgarrado +arbusto se afoitou a erguer mais alto o ramo castigado, sem remissão +votado a rastejar porque o pascer contínuo dos rebanhos mais não +consente. Pelos recessos húmidos das grutas, sob a curvada abobada do +roble, entre ogivas audazes dos pinheiros, na alumiada encosta que +conduz à azenha encastelada sobre o rio, ou adornando frígidos penhascos +que só conhecem os rigores do norte--cantaram sempre e com a mesma voz +as urzes roxas, monjas do outono. + +Conformada doçura bem casada com o declinar das pompas do Estio, +renuncia da opulência, resignação entre a pobreza árdua do inverno que o +encurtar do dia já promete, um sereno caminhar para a austeridade, +aquele desprendimento sobre-humano que descreu das grandezas deste +mundo, da ansiosa tormenta da ambição, e procura o resgate em +singeleza--tudo eu ouvi cantar às urzes roxas, monjas do outono +bem-aventuradas, que aos olhos me trouxeram suavidade entre ameaças +ríspidas da aspereza e a minha alma engrandecem conduzindo-a aos reinos +religiosos da sua paz. + + +II + +Senhor! Tu que me consentiste a graça de escutar a voz bendita com que +no outono as urzes roxas vem a libertar-nos das dores de embriaguez +obcecada que pôs sua ambição em querer muito, em vez de a consagrar +à fortaleza de se sujeitar à lei que em teu mistério deste ao universo, +não permitas, Senhor, que eu desfaleça! Enquanto a minha jornada não +findar, que eu não deixe jamais de te escutar no canto benfazejo das +urzes roxas, monjas do outono! + +Possa eu beber com elas no seu cálice a suave resignação da sua pobreza, +seu valoroso animo que afronta, cantando e derramando suavidade, +pressentimentos que aos demais oprimem, esse cair da noite do inverno, +seus flagelos, suas privações, o gelo, a morte, todo o seu cortejo de +crueldades sem fim, inexoráveis! + + + + +A TERRA ESCRAVA + + +I + +Esta terra que no homem tem o escravo e, toda poderosa, o traz curvado a +amá-la, essa mesma por sua vez foi também escrava quando, obediente e +humilde, serve o esposo ao qual sorri ansiosa e abre o seu seio. + +Há-de rasgá-la o aço da charrua para que a seara acorde nos seus sulcos; +e há-de a foice resplender, ceifando o pão, para que ela aos servos dê o +seu sustento. Se esse beijo de amor a não alenta, jaz infecunda, +endurecida e nua, como triste proscrita da alegria, desamparada à beira +do caminho, em vão sonhando caridade e gloria. + + +II + +A escravidão é a tua lei, Senhor! A ninguém que tu ames a ocultaste. É o +mantimento e guia da jornada que à tua fé nos leva. Nem a estrela +mais rútila dos céus deixou de ser escrava de outra estrela. Sintam os +meus pulsos todas as algemas que me acorrentem a esse teu querer de +fecunda bondade, sujeitando o meu ser a outro ser e perfazendo assim a +vida eterna do amor e da humildade! Sirva-as o sangue, dê-lhes o +calor!... Adore-as meu coração!... Por elas se resgate da treva das +tristezas e das dores em que o solitário orgulho pena a culpa! + + + + +MISTÉRIOS DE CERES + + +I + +O nocturno ulular do negro inverno solta no pinheiral espectros +clamorosos. Abrigam-se refugiados nos casais, em volta da viva chama que +os aquece, os tímidos foragidos da tormenta e os colos que acalentam +criancinhas. + +E, heroicamente, afrontando a rudeza da inclemência, despontam nas +campinas os trigais. E, alegremente, esvoaçam na levada alvas farinhas, +bailando o seu delírio sob os colmos que protegem a azenha sonorosa. E, +ardentemente, o brazido dos fornos vigilantes fabrica no seu fogo o doce +pão que, quando alvorecer, nos reanime para seguirmos na terra essa +jornada da via dolorosa, via ingrata. + +São os mistérios de Ceres que do seu seio destila o abençoado leite que +amamenta os infinitos bandos dos seus filhos. + +A terra, o fogo, a água e o nosso braço, quanto a criação sonhou de +grande e belo e santo e generoso, desde a fecundidade casta duma leiva +até ao nosso alento, consumido pela consciência do dever +cumprido,--todos Ceres arrastou em seu mistério, todos são seus +escravos, obreiros dóceis, servos diligentes da sua caridade. E a sua +esmola, o pão, que por igual aviventa nos berços a inocência, renova a +energia ao cavador, e piedosamente desce às geenas túrbidas dos míseros +proscritos que em desgraça e no crime resvalaram--o pão gerado para +criar o sangue é também sacramento que une a alma a todas as divinas +forças que o geraram, partícula de insondáveis mundos e infinitos de +poder e de amor. + +O inspirado rude plebeu que, se o pão caiu no chão, o ergue e o beija, +consagrou na candura religiosa esse mistério que une a nossa alma à +terra e aos céus e só a religião suspeita e adora. + + +II + +Conduzi-me, Senhor, ao altar de Ceres! Ensinai-me sua graça e os seus +mistérios! Assim como o pão renova no meu sangue o calor que o agita e o +move e o fortalece, fazei, Senhor, que ele nutra também meu coração para +sentir, prostrado em gratidão, tua eterna bondade generosa! Que por +meu braço o louve e engrandeça!... Que, curvado, lhe tribute o suor do +rosto!... + +É o teu mensageiro o mais fiel. Seja eu o seu servo o mais humilde! Pois +que, servindo-o, Senhor, te glorifico e em ti resgato a miseranda +vida. + + + + +HORAS DO MEU PEITO + + +I + +Fica à beira do rio o campanário que do alto da sua fortaleza conta as +horas da vida passageira em que ao redor se agitam ou repousam os campos +remansosos e os vilares, afadigados na fadiga humana. E quantas horas +caem do bronze, lento e sonoro, que as solta ao vento, ou tormentosas +sejam ou benignas, leva-as o rio para o mar profundo, na sua imensidade +vão perder-se. + + +II + +Assim caudais de amor, e esses somente, me recebessem horas do meu +peito, quantas meu coração puder contar, ou na mágoa e na dor ou na +alegria, e todas elas as levassem celeres, na candidez das águas +baptizando-as, a perder-se, Senhor, na imensidade da bondade infinita do +teu seio! + + + + +ÁGUAS VIÚVAS + + +I + +Não distantes do mar, entre rochedos, brotam as águas que, em seu breve +curso, desoladas se internam na aridez, até que de todo as bebe o areal +adusto e as confunde perdidas na amargura de ondas salgadas que destroem +e queimam. + +Foi-lhes árduo o caminho. Apenas surgem da terra e viram o dia, +encontraram a fragura impenetrável, madrasta avara de mirrados líquenes. +Depois, como cativos escoltados por alcantis que os cingem ao caminho +apertado no sombrio vale estreito, nem sequer por momentos gloriosos +sentiram a liberdade das campinas que amorosas quisessem e se exaltassem +em seu fecundante afago. Por fim, engolfando-se em mares insaciáveis, +estéril se dissipa para sempre esse anseio de amor que prometia a rosa e +o trigal e a sombra viridente e que, infeliz, nasceu só para sofrer, por +negra sorte cedo condenado a jamais se expandir em formosura e +nunca amassar o pão que mata a fome. Malfadadas, essas águas das fontes +junto ao mar beijaram o pequenino campo minguado entre rochas rebeldes e +soberbas, e eis que o mar as vem beber e logo as lança nas suas +profundezas insondáveis. + +Foi seu destino serem infecundas! + + +II + +«Águas viúvas!» disse o cavador. «Na vida não tiveram quem as ame. São +viúvas do chão que as recebesse no seu seio profundo e generoso para as +restituir á luz em flores e em frutos, para vestirem de doçura a terra, +para salvarem da fome os que a padecem, para se alargarem em lagos dos +açudes e para cantarem na levada alegre seu louco impulso, todo o seu +folgar». + +E o cavador cismava na sua leiva, naquela que rasgara no bravio, e era +regada só do suor do rosto e pelos orvalhos breves da manhã, e em dias +tormentosos dilacerada pela rispidez de invernos inclementes, severos, +tanto ou mais que o sol de Julho. Por que erro ou mistério chorava ali a +água a viuvez dum benigno chão que a desposasse, e lá no cimo do monte o +campo pobre desfalecia à mingua da lentura que lhe acordasse os +germes e os trouxesse a viverem a gloria de crescer?!... + +E o poeta, ao ouvir o cavador, pensou na viuvez das almas que no mundo, +nascidas para a bondade e para o amor, voam seus voos na ruindade +agreste dos egoísmos míseros dos homens e, à mingua de almas irmãs que +lhes recebam seus anseios fecundos de carinhos, mirram-se estéreis entre +desenganos, e do mundo se apartam dissolvido o seu desditoso anseio +benfazejo nas profundezas da desilusão. + +Por sua vez incerto e compungido, tremendo da desgraça dos infernos onde +penam os corações desamparados que em desventura nunca sentem irmãos +pulsando a par do seu pulsar de amor, o poeta responde ao cavador: + +«Por que erro ou mistério do destino, andam perdidos e, chorando, sofrem +a viuvez duma ternura irmã da que os alenta e ampara e os ergue a Deus, +os corações que amam sem encontrarem amor que o seu fecunde e alimente +para o florir em bênçãos e consolo dos que em desdita esmolam esses +bens?!...» + + +III + +Isentai-me, Senhor, do atroz martírio que o coração sedento de bondade +padece nesta vida quando à sua voz só responde a dureza das paixões +e uma cobiça ardente, insaciável! Roubai-o a essa cruz, toda de +espinhos, em que rasgado se desfaz e muda um infinito amor em amarguras! +Ensinai-lhe, Senhor, a fortaleza e que, entre o desamor que o perseguir, +saiba ao menos amar a desventura! + + + + +PUREZA AMARGA + + +I + +A pureza que a neve da montanha desprendeu gota a gota em claro fio, era +doce nas pedras do regato onde o pastor bebia o refrigério das canseiras +do monte e do rebanho. + +E correu, correu sempre clara e doce, enquanto se despenhou de fraga em +fraga, apressada, descendo ao horizonte que distante a chamava e a seduzia. + +E foi doce ainda quando se juntou ao largo rio em que os cinceirais +encaminhavam brandamente ao mar, entre verduras tenras rumorosas, as +diamantinas, fúlgidas, correntes de peregrinas águas caudalosas. + +Até que ao fim entregue à imensidade, porque ansiava louca de paixão, e +a que corria desde o seu nascer, na pureza de neve assim lançada às +convulsões das vagas sem repouso, transmudou-se em travoso amargor de +ondas salgadas quanta doçura tinha no seu cálice--como se por +vontade e obra divina essa pureza que nos foi doçura, irmãmente nos dê +sua amargura. + + +II + +Senhor! Fosse a amargura o preço da pureza!... E eu quereria que quanta +amargura em todo o mar se encerra, toda ela coubesse no meu peito, se +por ela pudesse converter meu coração, turvado de paixões, na virgínia +pureza que se gera da neve cristalina da montanha. + + + + +TIRANIA DO FOGO + + +I + +Após um breve e pálido crescente perdido além, ao longe, sobre o mar, na +cerrada treva que se lhe seguiu, fulguram tragicamente as labaredas do +incêndio que se ateia na montanha e enegrece o pousio, raso e nu, em +toda a vastidão onde implacável o fogo apascentou os mortíferos rebanhos +das suas chamas. É cinza a urze que tingiu de púrpura a aspereza mais +ingrata dos fraguedos. É cinza o tojo que arrojadamente floriu doirando, +de oiro precioso, o chão ainda gelado de Dezembro. E os renovos do sobro +e o pinheiral, que entre os seixos avaros despontavam, em cinzas +converteram a curta e tenra vida das suas hastes. + +A tirania do fogo em sua gloria toda a beleza esquece e todo o bem. Em +sua austeridade e em seu mistério, enquanto nos fascina e nos subjuga, +ou nos avivente e exalte em manso alento ou em delírio lavre devastando, +tem por escrava toda a formosura, dissipa-a sem piedade em seus +altares. A flor que canta a aurora e é o seu sacrário, a árvore que ao +peregrino deu sombras e pomos, sumas riquezas, sumas alegrias desta vida +mortal dos nossos olhos--são pó e em pó se volvem, se a pureza do fogo +as inflamou. + + +II + +Ser escravo, Senhor, é o meu anseio! Libertai-me o meu peito da miséria +dos mundos vãos de vãs aspirações da vaidosa existência corruptível, e +convertei-me em cinza o coração, na tirania de um amor ardente, por ele +purificado e consumido--assim como o fogo abrasa o cedro e o roble, em +chamas gloriosas redimindo na luz, que é vida eterna, do transitório +orgulho da opulência que se nutriu das seivas da floresta! + + +FIM + + + + +ÍNDICE + + ROSAS DO MEU CAMINHO + AS TAÇAS DO BANQUETE + A DOR E A VIDA + MAIS FORTE QUE O MAR + HUMILHAÇÃO + BÊNÇÃO DO POENTE + O SONO DO TRIGAL + TERRA LACRIMOSA + CULTO DE QUIMERAS + ANSEIO DA MANHÃ + A ASA DO REMORSO + SERVAS DA LUZ + TROFÉUS DO ESTIO + LOUCOS DE HUMILDADE + ORAÇÃO DOS LARES + CANTARES DAS SEBES + COMPANHEIRO E GUARDA + REINO INFINITO + PODERES DA TERRA + PERPETUAS DO ROMEIRO + PODER DO VERBO + UNÇÃO DE GLORIA + SACRO HOLOCAUSTO + SAGRAÇÃO DO ESCRAVO + MALDIÇÃO + PROFISSÃO DE FÉ + DRÍADE ENFERMA + MONJAS DO OUTONO + A TERRA ESCRAVA + MISTÉRIOS DE CERES + HORAS DO MEU PEITO + ÁGUAS VIÚVAS + PUREZA AMARGA + TIRANIA DO FOGO + + + + +Casa Editora de A. Figueirinhas + +PORTO + + +Paulo Combes + +O Livro da Esposa, br. 500, enc. 700 + +O Livro da Dona-de-Casa, br. 500, enc. 700 + +O Livro da Mãe, br. 500, enc. 700 + +O Livro da Educadora, br. 500, enc. 700 + + +Jaime de Magalhães Lima + +Rogações de Eremita, br. 300 + + +José Agostinho + +A Mulher em Portugal, br. 500, enc. 700 + +O Caminho das Lágrimas, br. 600, enc. 800 + +Cristo (Poema), 1.º vol. br. 500 + +A Religião e a Arte, br. 100 + + +Frederico Mistral + +Mireia--Tradução de João Aires de Azevedo e Manuel Teles--br. 500, enc. 700 + + +Bossuet + +Sermões, vol. I, br. 500, enc. 700 + +Sermões, vol. II, br. 500, enc. 700 + + +Maria Pinto Figueirinhas + +Contos das Crianças, br. 300, enc. 500 + +O Livro das Maravilhas, br. 300, enc. 500 + +Os Serões das Crianças, br. 100 + + +Pedir Catálogos da Casa Editora de A. Figueirinhas--Porto + +DEPOSITÁRIO GERAL: + +Livraria Portuense LOPES & C.ª--Sucessor + + + + + +End of Project Gutenberg's Rogações de Eremita, by Jaime de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ROGAÇÕES DE EREMITA *** + +***** This file should be named 29884-8.txt or 29884-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/9/8/8/29884/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Figueirinhas"> + <meta name="Date" content="1860"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1 {text-align: left; margin-top: 4em; margin-bottom: 2em; text-decoration: underline;} + h2 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + blockquote {margin-left: 40%; font-size: small;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's Rogações de Eremita, by Jaime de Magalhães Lima + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Rogações de Eremita + +Author: Jaime de Magalhães Lima + +Release Date: September 1, 2009 [EBook #29884] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ROGAÇÕES DE EREMITA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + + +<div style="border: double 10px #000; padding: 1em;"> +<p style="text-align:center;">JAIME DE MAGALHÃES LIMA</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: 2.5em;">Rogações de Eremita</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">CASA EDITORA <br> +DE<br> + A. FIGUEIRINHAS<br> + PORTO</p> + +<p> </p> + +<p style="font-size: 0.8em;">Empresa Gráfica "A Universal".—Porto.</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div> +<p style="text-align:center;">HOMENAGEM DO EDITOR</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">Rogações de Eremita</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; font-size: 0.8em; margin-left: 30%; width: 60%;"> +<p>Composição e impressão</p> + +<p>Empresa Gráfica «A UNIVERSAL»</p> + +<p>—Rua Duque de Loulé, 111—Porto.—</p> +</div> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div> + +<div> +<p style="text-decoration: underline; font-size: 1.5em;">Jaime de Magalhães +Lima</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right; font-size: 3em; margin-right: 20%;">Rogações<br> +de Eremita</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-decoration: underline; font-size: 0.8em;">CASA EDITORA de A. +FIGUEIRINHAS</p> + +<p style="font-size: 0.8em; margin-left: 20%;">Deposito geral:<br> +Livraria Portuense de Lopes & C.ª—Suc.<br> +119, Rua do Almada, 123—Porto.</p> +</div> +</div> + +<div id="corpo"> +<p><span class="pn">{5}</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><em>No ermo que eu percorro neste mundo,—ermo de corações cativos dos +meus sonhos—ao suplicar dos céus a claridade na qual a alma habite e se +engrandeça, deixei na terra gotas do meu sangue, onde a dor o soltou do peito +ansiado por abundância de erros e de culpas e por amargura de infinitas mágoas, +e onde jorrou seus cantos de alegria em louvor e contemplação da beleza +eterna.</em></p> + +<p><em>E, como assim vulnerável tenha sido, misteriosa comunhão uniu-me +àqueles, solitários e crentes, que na cruz da aspiração também sofreram. Muitas +vezes me guiou o rasto estranho, se porventura o vi ensanguentado de sangue +igual ao meu pela paixão que o derramou em oferenda a altares de amor. São +rogações de todos esses passos as que neste livro traduzi e confesso para quem +no mesmo error se houver perdido ou se tiver remido em iguais +enlevos.</em><span class="pn">{6}</span><span class="pn">{7}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0010">ROSAS DO MEU CAMINHO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0011">I</a></h2> + +<p>Parei no meu caminho a colher rosas. No doce esplendor da sua gloria, +brotavam purpurinas entre o cômoro renovado no viço pelo outono. E o sol brando +que vinha do nascente, e a palidez do céu já esmorecido do seu fulgor candente +do Estio, e a atmosfera quieta e orvalhada, e o silencio do campo onde desponta +o prado que no inverno o cobre e é a sua túnica,—cantavam com as rosas a +doçura e em minha alma infundiam subtilmente os salutares enlêvos dos seus +sonhos.</p> + +<p>Acordou-me de encantos a pobreza. Alguém, passando, me estendeu a mão, +mirrada e pálida de fadiga e fome. Ouvi um brando murmurar de suplica; e o +coração turvado de piedade transmudou em misericórdia o seu deleite. Um +resplendor mais alto escurecera a cintilação da terra em seu fulgor.</p> + +<p>Levei comigo as rosas que colhi, para me alentarem de um sorrir ingénuo meu +peito ferido na<span class="pn">{8}</span> jornada agreste em que dolorosamente +se consome sangrando magoado de perversidade, de ódios, de mentira, de quanto +avilta os homens desvairando-os nos seus cruéis infernos de cobiças. Mas sempre +que senti a rosa bafejar-me, senti perpassar também vozes mendigas. Por +singular magia, confundi em uma só aspiração e um só amor as rosas e a +pobreza.</p> + +<h2><a name="SECTION0012">II</a></h2> + +<p>Senhor! No meu caminho entretecei as rosas na pobreza, para que, adorando em +extasi vosso encanto, eu adore também as vossas dores e o meu peito comungue da +miséria! Que todo o meu coração se enleie e prenda nas grinaldas, Senhor, com +que coroais de espinhos e de rosas vossos servos; e que, enquanto sentir +deleite infindo na doçura que sobre a terra semeastes, eu vos seja fiel +inteiramente sentindo ao mesmo tempo e em igual fervor toda a infinita agrura +da desgraça.<span class="pn">{9}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0020">AS TAÇAS DO BANQUETE</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0021">I</a></h2> + +<p>No banquete da vida em que o destino me deu lugar onde os prazeres abundam e +os regalos são o pão quotidiano, provei das suas taças mais queridas e vi meus +companheiros de igual sorte ora erguidos na sua embriaguez ora prostrados pelos +seus travores.</p> + +<p>Riquezas, ambições, paixões, gloria, amor, as taças mais cobiçadas do +banquete, a todas eu senti o seu sabor, todas vi disputadas com ardor e todas +continham gotas de amargura, os traiçoeiros bens das alegrias cedo mudadas em +desengano e dor.</p> + +<p>Vi a riqueza inútil perante a morte, assistindo impotente à corrupção do +corpo que no seu ser trazia os filtros de fatal caducidade inexorável. Vi +ambições gerando em seus triunfos ambições maiores ainda, insaciáveis, de +contínuo torturando suas vitimas, de degrau em degrau as elevando até que do +mais alto as precipitam no torvo abismo das<span class="pn">{10}</span> +desilusões. Vi as paixões mirrando-se exauridas, em vergonha, em remorso e +inanidade, o orgulho aviltado nas fraquezas; vi a gloria a desfazer-se em fumo +e apedrejando hoje por infames os que ontem beijara por heróis e em seus +altares pusera como deuses. Vi transmudar-se amor numa mentira, a sua fé +perjura na traição; vi a ternura magoada em lágrimas. E até a própria +humildade, desprendida dos enganos do mundo, a mais pura das taças que anjos +bons dos céus trazem à terra para remir quantos na terra penam suas penas, até +a própria humildade eu vi chorar porque, salvando os bem-aventurados em cujo +coração habita e resplandece, não lhes pôde poupar a compaixão de quantos +desfalecem no martírio, pois, desventurados, não partilham das bênçãos da +alegria no Senhor, naquela conformidade austera e santa que é a nossa redenção +suprema e única.</p> + +<h2><a name="SECTION0022">II</a></h2> + +<p>Senhor! Sê piedoso! Socorram-me os teus anjos. Reanimem-me em cálices de +vida; humedeçam-me os lábios na tua paz; iluminem-me o mundo na tua luz.</p> + +<p>Afasta dos meus passos esse espectro que me enegrece de terrores as noites, +essa sombra de gélidas<span class="pn">{11}</span> vigílias que me murmura o +desespero e a dúvida, e, rindo dos meus sonhos piedosos, repete escarnecendo +cruelmente:</p> + +<p>Doçura! louco, só na morte a encontras!<span class="pn">{12}</span><span +class="pn">{13}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0030">A DOR E A VIDA</a></h1> + +<blockquote> + Na mão de Deus, na sua mão direita, <br> + Descançou afinal meu coração. </blockquote> + +<blockquote> + A<small>NTERO DE </small>Q<small>UENTAL</small>. </blockquote> + +<h2><a name="SECTION0031">I</a></h2> + +<p>Turvou-se de amargura a alma do poeta quando, sentindo o vento do outono +anunciar tormenta e escuridão, viu as aves felizes, cautelosas, abandonarem +campos e florestas e partirem velozes à procura de terras sorridentes, animadas +pelos carinhos tépidos do sol.</p> + +<p>Já não tardava a cerração das neves, mortalha e sepultura dessas vidas que +ao poeta exaltavam o espírito e o corpo, pelo rumor, verduras e perfume, pela +graça, pela força e pela opulência, pelo florir de impulsos da sua seiva.</p> + +<p>Vai a esconder-se tudo o que o inspira. A esperança do peregrino desfalece à +mingua do sustento e do conforto sorvido a jorros no calor do Estio, incensado +de aromas e reflectindo os delírios da cor pulverizada. Onde irá saciar a sede +ardente de intenso resplendor que lhe alimente as cobiças<span +class="pn">{14}</span> profundas do seu ser? Porque foi acorrentado à +imobilidade, porque não foge, como a ave foge, àquilo que o oprime e o ameaça? +Porque não lhe foi dada a asa vibrante que percorresse espaços infinitos, de +céu em céu, sem nunca se afastar dum translucido puríssimo azul? Que culpa lhe +forjou essas cadeias que sujeitaram o mísero forçado a rastejar exposto à +contingência das estações altivas, sem piedade, queimando sob o sol canicular, +sufocando nos gelos a expansão, inflexíveis, mudas, ignorando o desejo dos +homens e as suas mágoas, para prosseguirem no combate austero da suprema beleza +que sonharam? Porque, liberta, a ave se eximiu a padecer igual +escravidão?!...</p> + +<p>Sucumbido, cismando tristemente, ao escutar o sibilante agoiro da tormenta, +vendo o bando das aves em demanda de benignas terras generosas que aos seus +amores lhes dessem agasalho e em doçura fecunda fossem pátria aos ninhos +embalados pelo canto de pequeninos peitos ansiados, o poeta chorou a sorte +negra que o entregava às penas do inverno.</p> + +<h2><a name="SECTION0032">II</a></h2> + +<p>E dentre brumas frias, apressando precocemente a noite de Novembro, veio +beija-lo cândida<span class="pn">{15}</span> e singela, na palidez etérea que é +o seu manto, a Dor, a companheira do poeta.</p> + +<p>E disse:</p> + +<p>—«Nunca ninguém te amou como eu te amei! Nunca ninguém te deu ao +coração inquieto mais alto arrojo e mais sagrado êxtase. Só por mim alcançaste +renascer naquele renascimento do Apostolo em que o sangue se isenta de veneno e +se converte em filtro do amor. Quantas rosas colheste no caminho, quanto +perfume te turvou os sentidos, visões do paraíso, toda a atracção, toda a +harmonia, todo o laço, felicidade, risos e ternuras, tudo para ti foi breve e +se afogou nos abismos mortais donde surgira, abandonando-te errante, ao +desamparo, no louco vaguear do coração. Só por mim fez sacrário no teu seio, +numa aurora perene, sem poente, esse facho de ardor que te consome e é a +suprema gloria, a eternidade.</p> + +<p>«E sabes, meu irmão e meu amigo, que o silêncio é o levita nosso eleito cuja +bênção nos liga e arrebata; e os altares em que oramos são sombrios, duma +sombra celeste, benfazeja, tal qual, no inverno, essa outra sombra que por erro +temeste e será sempre confessionário e templo da minha alma.</p> + +<p>«Nunca ninguém te amou como eu te amei!... Deixa que a ave siga no seu rumo, +em busca de ilusões da vida efémera. Une-te a mim e, desprendido então de +quanto foge e passa na incerteza,<span class="pn">{16}</span> redimido em meu +peito hás-de subir à divina presença do Senhor!»</p> + +<p>Libertado, o poeta ergueu-se ouvindo a Dor.</p> + +<p>Por sua vez beijou a mensageira.</p> + +<p>—«Bendita sejas!» disse.</p> + +<p>E nesse instante passou na treva estranho clarão.</p> + +<h2><a name="SECTION0033">III</a></h2> + +<p>Segue a sua jornada paciente o poeta cuja fronte a Dor beijou. A macerada +face da visão jamais se apaga nos seus doces olhos, humildemente isentos de +desanimo, suavemente escravos dum poder que sem cessar o fortalece e ampara nas +provações mais ásperas do mundo.</p> + +<p>Onde uma aspiração palpita e cresce, palpita e cresce a dor que a atormenta +e nega, ou seja um gérmen que gelou na terra, ingrata e fria, surda ao seu +anseio ou seja um coração crucificado do seu amor traído e profanado.</p> + +<p>Sentiu o poeta a Dor nas rosas que decaem; sentiu sofrer os astros que +desmaiam no frio alvor de brancas madrugadas. Na haste quebrada entre iras das +rajadas, na inquietação das águas despenhando-se, nos alcantis rasgados pelas +neves, na criança a que o soluço corta o riso, no peito ferido por paixões +humanas, onde quer que o destino<span class="pn">{17}</span> cegamente +castigue, mortifique e desengane, onde quer que proíba ou estrangule um arrojo, +um impulso, uma vontade, ou desfaça os rochedos na mudez dos seus combates +loucos da montanha, ou escarneça a suplica do mísero, redobrando de ardor em +atormentá-lo—a Dor foi companheira do poeta, no seu seio chorou divinas +lágrimas, em seus braços buscou acolhimento.</p> + +<p>Foi assim que o poeta amou a Dor. Foi assim que, curvado, ela o levou a +ungir de piedade as agonias de todo o ser que os olhos contemplassem caído em +desventura ou malfadado. Fielmente a adorou no seu mistério! Fielmente a serviu +nos seus mandados!</p> + +<h2><a name="SECTION0034">IV</a></h2> + +<p>Exangue do pungir da Dor que nunca o abandona, ou na solidão dos montes o +encontre ou, perdido, vagueie entre o tumulto das multidões humanas +desvairadas, o poeta parou no seu caminho e contemplando a serrania e o prado +que a seus pés se alargavam repousados em sereno esplendor, deixou cerrar seus +olhos deslumbrados e adormeceu, dormindo o torpor magoado dos vencidos.</p> + +<p>Cantava o sol o «cântico» do Santo, o ressurgir de toda a criação resgatada +para a terra e para os<span class="pn">{18}</span> céus em um só Deus. Cantava +os seus louvores ao «altíssimo, omnipotente, bom Senhor», a quem «toda a honra +e bênção são devidas». Por todas as criaturas o louvava! Por sua própria luz +que o iluminava; pela «irmã lua» que no firmamento tão «preciosa e bela» se +formara; pelo «irmão vento e pelo ar e pela nuvem e todo o tempo» no qual as +criaturas têm sustento; pela «irmã água» que é «humilde e casta», e também pelo +«irmão fogo corajoso, e por nossa mãe a terra e por seus frutos, e pela «irmã +morte» que à sua paz nos arrebata.</p> + +<p>Desusada carícia o seduziu; ignorada ternura o fascinou! Gloriosa visão +despertou o poeta e, beijando-o, o exalta naquela divina luz que em torno ela +espargia.</p> + +<p>E disse-lhe a visão:</p> + +<p>«Desterrado da ventura que com o sangue marcaste o teu caminho e em cada +passo feriste o teu coração! Onde um espinho te rasgar a carne, o perfume das +rosas a embalsama. Onde o vento derruba a floresta, exultaram renovos na +verdura. Onde o ódio, a mentira e o desespero te entenebrecem de terror e +dúvida, a bondade e a fé virão salvar-te em sua luz bendita. Onde cai uma +lágrima, a mão de Deus a enxuga. Ergue os teus olhos! Beija a minha fronte! +Aviventa teu ser mortificado na salutar candura que me alenta!</p> + +<p>E dos lábios vermelhos transfundindo a alegria<span class="pn">{19}</span> e +a vida e a exaltação em lábios pálidos de sofrer e mágoas, enlevado seu peito +em caridade e possuído de doçura infinda, a visão benfazeja do poeta restituiu +à terra e seus paraísos, à luz do sol e a quanto ele ilumina, aquele que à Dor +votara todo o ser e só a Dor servia sequestrado desse supremo amor que na +bondade se libertou de toda a contingência.</p> + +<h2><a name="SECTION0035">V</a></h2> + +<p>Tal qual o poeta que a Dor e a Vida, vossos mensageiros, encaminharam, +Senhor, à vossa presença, mandai-me, a mim também, os vossos sonhos, visitem-me +as visões do vosso reino, para que me guardem e guiem e me conduzam, para na +Vida me exaltar convosco e para na Dor sofrer as vossas penas, «na mão de Deus, +na sua mão direita, descansando afinal meu coração!»<span +class="pn">{20}</span><span class="pn">{21}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0040">MAIS FORTE QUE O MAR</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0041">I</a></h2> + +<p>Sonhei que o peregrino ao apartar-se dos lugares em que amara e fora amado +no benigno lar onde abrigara o corpo enfermo e o coração sequioso de carinho, +afectos e de graças, passou ondas do mar escuro e turvo, e ao passá-las deixou +nas vagas fundas um sulco ténue, vermelho, coruscante entre o negrume da +cerração ambiente.</p> + +<p>Longos anos, por séculos infindos, na esteira do peregrino o mar cavou suas +iradas vagas espumantes de espumas alvas, claras, diamantinas; e iluminaram-nas +pálidos luares; e a tempestade atroz escureceu-as; e pairaram sobre elas +sorridentes as primaveras brandas incitando toda a terra a renascer em +alegria.</p> + +<p>Em vão, em vão! Bafejo algum dos astros, ou propício trouxesse a exaltação +da vida triunfante, ou inclemente derramasse a dor, jamais pôde apagar esse +sulco vermelho sobre o mar que ali deixara<span class="pn">{22}</span> o +peregrino ferido. Mais forte que as ondas, a saudade traçou nas águas lúgubre +derrota. Em vão os poderes da terra as agitaram provocando-lhes a fúria +temerosa! Em vão as repousaram em cristalina calma suavíssima! Em vão ali +passaram combatendo seus raivosos combates os titãs! Em vão tentaram afundar na +voragem aquele sangue que do coração brotara por saudade!</p> + +<p>Em séculos infindos, para sempre, esse rasto de angústia ali ficou.</p> + +<h2><a name="SECTION0042">II</a></h2> + +<p>Senhor! Se misericórdia vos merece a fé de quem no amor espera a salvação e +lhe confia a vida miseranda, erguendo-a dos seus erros para a remir na +consagração ao ser que é a vossa própria essência, a essa etérea bondade +omnipotente que a Deus vos une e nele vos confunde, concedei-me, Senhor, aquela +bênção que ao peregrino ferido concedeste, permitindo-lhe a graça de traçar nas +ondas com o seu sangue a dor pungente, esvaindo-se em puríssima saudade. Onde +quer que o destino o dilacere, onde quer que, infeliz ou louco, se atormente, +que o meu coração desmaie por saudade, que por saudade verta todo o sangue, que +em saudade amortalhe os seus anseios!...</p> + +<p>Mais pura exaltação não conheceu! Mais próximo de ti jamais se sente!<span +class="pn">{23}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0043">HUMILHAÇÃO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0044">I</a></h2> + +<p>Vi sair da prisão o criminoso e encaminhar-se ao lobrego covil onde deixara +a companheira e os filhos a estorcer-se de fome nos andrajos. Macilento, +esquálido, trémulo nos passos, espectro erguido duma sepultura, atravessa a +cidade entre inimigos. A aversão, o desprezo e o desamparo são o seu cortejo e +com horror o escoltam; tomando por pureza a inanidade, arrogantes se afastam a +tremer de macular o orgulho na miséria dum corpo pestilento de seus erros.</p> + +<p>Nem os filhos nem a companheira se atrevem a sair do seu tugúrio para beijar +o mísero e o proscrito que volta a consumir-se na desgraça, na treva da +embriaguez em que se afoita para a sinistra aventura dos seus crimes.</p> + +<p>De súbito, quebrou-se o trágico silencio. Um grito de alegria ecoa nas +choupanas. Saltando da morada um cão exulta em seu bradar duma ferina<span +class="pn">{24}</span> ânsia; e louco de carinho afaga o homem que outros +homens maldizem, como se esse não fosse o filho infeliz da mesma podridão que a +todos gera e por igual corrompe.</p> + +<p>Estranha aberração! Cruel estigma! Humilhação fatal dum ente eleito em que +Deus fez morada e se revela!... Coube a um cão parasita dos monturos a ternura +generosa, esse perdão que os homens atraiçoam negando a piedade ao criminoso, +não sabendo sorrir à sua face e tendo por dignidade a cobardia que os privou de +ver irmãos, os seus iguais, em quantos seres a criação produz, para que o nosso +coração todos confunda numa só luz de amor e de bondade.</p> + +<h2><a name="SECTION0045">II</a></h2> + +<p>Senhor! Porque me roubas, a mim a quem mandaste o teu Espírito para eu +sentir claramente o teu império, a quem tu deste um coração ardente para +abrigar-te e a voz para louvar teu nome e o repetir,—porque me roubas +aquele ingénuo anseio de indulgencia, esse perdão tecido de caricias com que +dotaste inconscientes servos, obreiros mudos da tua vontade?!... Porque, +Senhor, me privas desse bem de esquecer toda a injuria, todo o mal, e de cobrir +de afectos todo o crime e em carinhos dissipar sua lembrança?!...<span +class="pn">{25}</span></p> + +<p>Isenta-me, Senhor, desse tormento da consciência algoz que até perdoando +volta a julgar os homens e os condena! Pois que lhe deste entrada no meu peito, +salvai-a do martírio em que adorando-te te veja distinguindo nos homens bem e +mal em vez de os confundir no teu sagrado amor omnisciente.<span +class="pn">{26}</span><span class="pn">{27}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0050">BÊNÇÃO DO POENTE</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0051">I</a></h2> + +<p>Foi calmo o dia. A rosa húmida, que desabrochando saudou no descerrar do +seio a madrugada, prateou ao sol as cetinosas pétalas sem que a brisa lhe +ferisse a formosura; e o vento adormecido nos seus antros, vencido por estranha +letargia, inerte e mudo não blasfemou suas ímpias cóleras contra o ardor do +sol. Os milheirais tardios e o medronheiro, tão lento no crescer como moroso no +arrastado fabricar da sua doçura, sazonaram seus frutos generosos na paz dessa +propícia quietação. Ao redor do casal, ao cimo da encosta onde o horizonte é +largo e os céus são amplos, esvai-se na calmaria toda a forma, agora que o sol +perdido ao poente se escondeu para lá da cerração austera dos pinhais. Descoram +as urzes roxas na charneca, não mais lobrigo a ténue palidez da flor da estêva, +já não distingo no silvado o aderno: tudo o crepúsculo vem tingindo em +sombras.<span class="pn">{28}</span></p> + +<p>Ao longe, os montes altos da serrania e o manto das florestas nas quebradas +e os campos verdes à beira dos regatos e os pomares e os vinhedos e as aldeias +e a inquietação da água nas jornadas, eterna aventureira,—todos vão a +dissolver-se nessa neblina, duma inundante alvura caprichosa, caótica, erradia, +absorvente e mansa na avidez, como afagando o mundo e resumindo-o em um só +sonho incerto, indefinível.</p> + +<p>Olho, e nem um tremor diviso em todo o ambiente. Escuto, e nem um rumor +pressinto próximo ou distante. Por sua calmaria a atmosfera adormeceu a vida em +serenidade, e quantas divindades a interpretam e a regulam e a movem em seu +anseio, desde a arrogância da montanha austera até à pequenez da célula mais +ínfima, consagraram juntas numa paz divina a trégua religiosa de seus feitos, +talvez a consciência da inanidade final de todo o esforço, porventura uma +dúvida, uma céptica interrogação dos seus destinos, senão o antegozo da morte +experimentada em passageiro cessar das energias.</p> + +<p>Porque, não o sei nem jamais, pobre enfermo arrastado em vale de lágrimas, o +poderei saber; pois a fraqueza é o nosso eterno anátema, é irrevogável maldição +do orgulho. Mas na olímpica mansidão desse crepúsculo em que a vastidão da +terra adormeceu sorridente e benigna, alguém, ser de bondade, um alado eco +fugitivo, um murmúrio<span class="pn">{29}</span> de esperança, me segreda a +confiança e a fé, robusta crença na libertação final de toda a angústia, na +fatal paralisia dos tumultos da nossa alma e do mundo, tarde ou cedo remidos, +confundidos em amorosa quietação de penas, amortalhados em mortalha branca como +esta que eu vi crepuscular, vestindo em alva neblina a terra e os astros.</p> + +<h2><a name="SECTION0052">II</a></h2> + +<p>Então, comovido e grato, reconhecendo a esmola que me alegrava o coração, +quis dizer ao Senhor a minha prece, quis confessar-lhe a exaltação da minha +alma pela serena luz que ele acendia no meu peito turvado de combates. +Loucamente balbuciei palavras loucas, e todas se perdiam apagadas! Tão alto e +tão profundo o meu sentir, não souberam dizê-lo esses murmúrios frouxos e +mortais de lábios débeis que mortais nasceram.</p> + +<p>Cessou minha oração nesse momento. Pressenti sombras de orgulho, desvairado, +na tentação de ver e penetrar a omnipotência de harmonia e ordem que é a razão +de ser de quanto existe. E humildemente apenas repeti:</p> + +<p>—Senhor! Senhor! Senhor!...<span class="pn">{30}</span><span +class="pn">{31}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0060">O SONO DO TRIGAL</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0061">I</a></h2> + +<p>Crepúsculo de Maio! O céu baixo e sombrio, revolvendo nuvens pesadas, +violáceas, lentas, promete dentro em breve as chuvas tépidas, pelas quais a +verdura espera e anseia, na cobiça de crescer e renovar-se.</p> + +<p>As seivas abundantes, criadoras, na túrbida estação em que se elevam, a +modelar os lírios e os salgueiros, latejam silenciosas; não as tenta a cantar o +voo da brisa. Desde a cerração escura da floresta à humilde melancolia da +campina, as legiões das frechas dos pinhais, a coma faustosa dos carvalhos, o +arrelvado extenso em desafogo, livre de manchas das plantas altas, e o que se +alarga na espessura umbrosa, todos repousam quietos e calados, pressentindo a +visita salutar que dos céus lhes trará toda a opulência, a abençoar a terra de +humidade, alimento e riqueza das ervagens, onde despontam frutos e sementes, e +das vergônteas<span class="pn">{32}</span> frágeis, ainda tenras, em cuidados +de robustecer-se, para suportarem calmas estivais.</p> + +<p>E o trigal, como os irmãos, dorme também, se em temor ou na prece é o seu +segredo!</p> + +<p>Imóvel, na firmeza imperturbável dos fieis que crêem no Senhor e sem +lamentos todo o destino aceitam por ser justo, a toda a sorte querem +igualmente, em qualquer perfazendo obra de amor;—aquele que ao mais leve +passar do vento respondia, cedendo fácil ao bulício alado das ondas repetidas +sussurrantes, sempre agitado dum sonhar sem fim, em delírio incessante +rumoroso, recordando carinhos e promessas da abastança e fortuna que concede +aos casais bem providos do seu grão, esse mesmo trigal se sujeitou à extática +mudez de todo o ambiente.</p> + +<p>Já parece esquecido do inverno! Parece atraiçoar a aspiração de gerar em +leite doce o pão dos míseros que por caridade santa ele sustenta.</p> + +<h2><a name="SECTION0062">II</a></h2> + +<p>Não te iludas, porém, oh Sonhador! tu que procuras ler, na contingência de +impulsos vagos e caducas formas, a perene oferta do mover dos mundos à lei +suprema do supremo amor. Não te engane o torpor em que o trigal se abandonou +à<span class="pn">{33}</span> paz da atmosfera. Não cuides porque o vês assim +submisso que deixou de elaborar fartas sementes.</p> + +<p>De contínuo escutará vozes divinas, e há-de segui-las, destilando os sucos, +que pela raiz beber na aspereza fria. Das entranhas do chão tira e semeia, +constantemente, ou se mova ou pare, a rescendente esmola das doçuras com que +suaviza a fome a quem trabalha e descerra em sorrisos de alegria, flores +sanguíneas! os lábios das crianças.</p> + +<p>Também passaste um dia ao pé do leito em que a mãe aquecia o filho ao seio. +Não sentiste rumor que confessasse quanto afecto em silencio se derrama, +transfundindo a quentura do sangue em outro sangue. E entretanto, fervorosa e +muda, uma vida se consumia ali em outra vida.</p> + +<p>Assim vi o trigal quando dormia, tal qual como em vigília, consagrando à +paixão do seu ser inquebrantável aquele amor que é nosso alento e força.<span +class="pn">{34}</span><span class="pn">{35}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0070">TERRA LACRIMOSA</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0071">I</a></h2> + +<p>Conheci os cativos da vaidade, sorrindo, se por acaso conquistavam os +ouropéis e fama e o espanto de multidões atónitas, turvadas, ignorantes cegas +no caminho, que da desgraça nunca se libertam para banhar-se em luz de +eternidade. Na vertigem do orgulho e da soberba, julgando erguer-se por +entumecida inanidade, ao verem rastejantes a seus pés os aviltados míseros do +mundo, passaram sobranceiros, desdenhosos; e porque, desvanecidos, +contemplando-se, só da própria grandeza iam sonhando, sem baixarem seus olhos +aos humildes, desconheceram a alegria, beleza e formosura que os pequeninos têm +por seu quinhão.</p> + +<p>Conheci o avaro entesourando, na obsessão de transformar em ouro a opressão, +a fome e o martírio de quantos por astúcia ou pela força subjugasse. As +riquezas cresciam, construindo a fortaleza em que, confiado e firme, seria +poderoso<span class="pn">{36}</span> e invencível; e entretanto o seu corpo +definhava nas penas da velhice, desditoso, como se a ordem cósmica dos astros +castigasse, escarnecendo, as ambições.</p> + +<p>Insaciados de domínio efémero, porque, efémero, mal se criou e logo se +arruína, avaros, orgulhosos e soberbos morreram entre pompas clamorosas, +envolto o seu cadáver corrompido nas vestes recamadas que o cobriam, quando +ainda o sangue nele palpitava e cria deslumbrar túrbidas gentes, ocultando em +bordados fulgurantes a carne de contínuo apodrecida no decair fatal do seu +destino. E a terra de infinita misericórdia deixou cerrar na campa esse +cadáver, sem que de luto se vestisse um ramo, sem que uma folha desmaiasse +murcha, em lembrança ou saudade do amigo que a alentava e, estremecido, dela +recebia recompensa de fadigas carinhosas.</p> + +<p>Na morte desses loucos condenados ao pó estéril de estéreis sepulturas, +entre a dureza fria dos bronzes e a rigidez do mármore impenetrável, as +palavras dos homens lamentavam a ruína da grandeza mentirosa, tão cedo ali +desfeita e aniquilada. Mas de tais lágrimas não partilha a terra. Indiferente +ao rumor do falso pranto, não cessou de brilhar e de cantar. Nem um só veio de +água emudeceu, perdido o murmurar da sua lida! Nem uma só flor do prado se +estiolou à míngua de cuidado e de sustento! Nem um só átomo de fecundidade<span +class="pn">{37}</span> se atrofiou em toda a criação! Aos cativos da vaidade e +da avareza, perdoou-lhes a terra piedosa; mas não soube chorar quem, +transviado, ingratamente a desamou, traindo amor materno, o leite gerador.</p> + +<h2><a name="SECTION0072">II</a></h2> + +<p>E conheci também o cavador, que para morada e leito de repouso, não +encontrando um tecto hospitaleiro nos vilares, foi levantar a mísera cabana, de +colmos de centeio e frágeis varas, no pousio comum inculto e virgem, despido, +tosquiado de contínuo por ovelhas bravias, únicos gados que a gente pobre ali +ia soltar, aproveitando esse pascigo escasso.</p> + +<p>Rasgou a leiva dura, empedernida; lançou no pó sequioso a semente leve e +todo o manancial de vida que ela encerra; e fez brotar a água das prisões em +que a guardava o peso dos rochedos. A cavar, a regar e a semear, banhando +sempre a terra com o suor do rosto, despertando-lhe a férvida energia com os +arrancos heróicos do seu braço e o pulsar gigantesco do seu peito, o cavador +criou verde abundância onde fora a infecunda e negra gândara, e tirou o pão e +os frutos do chão áspero onde nem os silvados já medravam.<span +class="pn">{38}</span></p> + +<p>Foram passados anos nessa faina. Ao fim, surgiu ali a mancha branca duma +casita estreita, ávida de sol. A cabana alargou-se. Transformada, anunciou nos +fumos da lareira o agasalho, o sustento e o tépido conforto dum benigno casal, +servido e amado pela esposa do servo da gleba; e o embalar do berço acompanhou +com o rumor alado duma esperança essa vitoria que em torno se espraiava, +dilatando-se na infatigável ânsia de remir pela seara farta e latejante os +longuíssimos tempos de indigência, a que a ingratidão humana, criminosa, +abandonara aquelas pequenas geiras devastadas. Mais tarde, em horas negras, +tenebrosas, as ambições e a guerra assoladoras vieram separar o cavador dos +filhos que criou para companheiros, e um sinistro poder arremessara para longe, +labutando dispersados. Escravos uns do rei e seus ministros, por seu mandado e +força coagidos a ensanguentar o mundo, combatendo pelo ódio apaixonado e +latrocínios em malditas pelejas mentirosas, que na suprema infâmia ousam sem +pejo invocar o amor da pátria e atraiçoá-lo, foram-se a derramar a morte sobre +os campos, que o Senhor nos ofereceu para a vida, e a prostrar atrozmente o +nosso irmão, ao qual por lei divina só devemos afecto, protecção e piedade, o +auxílio compassivo na desgraça e o sorrir de simpatia, quando a ventura ao +passar o bafeja generosa. Outros, não mais felizes, seduzidos pela visão da +cidade e seu engano, enfermos<span class="pn">{39}</span> das demências do +tumulto, perderam-se entre os fumos da oficina, pela própria vontade +escravizados dos lúgubres dragões que guardam o ouro e de contínuo o movem e +entesouram, fundindo num só cadinho incandescente a fome e o ferro, minério +bruto e corações humanos, lubrificando maquinas com lágrimas e fundando o +palácio em sepulturas, pondo a brilhar em pedras preciosas, por alquimia da sua +crueldade, as ossadas dos que apodreceram, transitando da pobreza à vala comum, +sem algum dia terem experimentado a alegria, a abastança ou o desafogo.</p> + +<p>Assim desamparado, entre ruínas do seu próprio sonho dissipado nas vagas da +agonia como uma aparição de luz que apenas rompe e subitamente se esvai na +tempestade, o cavador ficou-se a envelhecer, no silencio da gândara, amando +todavia o seu casal e querendo sempre à terra, com a fé que à terra o +consagrara submisso, quando pela primeira vez a fecundou e renovou no repetir +das estações a verdura e o pão e a sombra e o refrigério, sem lamento ou +desânimo, curvado a trabalhar, desde o romper da aurora ao cair da noite.</p> + +<h2><a name="SECTION0073">III</a></h2> + +<p>A terra que ele amou, amou-o também!...</p> + +<p>Quando morreu, calaram-se no ermo os seixos que cantavam, rolando +alegremente pela enxada;<span class="pn">{40}</span> murchou endurecido o prado +à míngua do sustento que alimentava as ávidas raízes, entumecida a erva +verdejante, quando, pelas madrugadas calmas do Estio, o cavador se erguia a +socorrê-las, atento, diligente, cortando breve o sono, para que por sua culpa +não sofressem as miríades de seres sob sua guarda, mudos para os demais mas +eloquentes para quem lhes conhecia a aspiração. Não mais ao despontar da aurora +respondeu o jorro da água límpida tirada entre o mover estrídulo das rodas pelo +jugo robusto que a elevava da frescura dos poços obscuros à claridade rútila +dos céus.</p> + +<p>Foram essas as lágrimas que a terra, lacrimosa e viúva, chorou pelo criador +humilde do seu viço,—aquela mesma terra desdenhosa que, indiferente, +sepulta os orgulhosos, degenerados do seu culto e crença.<span +class="pn">{41}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0080">CULTO DE QUIMERAS</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0081">I</a></h2> + +<p>Onde começam áridos incultos, que os gados, sem cessar, têm +devastado,—quase ao cimo da encosta—, voltei-me a olhar o vale e os +montes que o formavam, as aldeias perdidas nas ramagens, e os campanários que +as protegiam. Não sei se fatigado, se encantado, por necessidade instante de +repouso, cedendo a quebranto estranho, parei; e ao prazer de esforçado caminhar +preferi essa delícia calma de contemplar.</p> + +<p>E, quando atentei bem no turbilhão de seres que ao redor e a meus pés +pulsavam o seu pulsar olímpico, indomável, infinito, eterno, achei-me enleado e +preso em multidões de divindades, todas poderosas, que dos céus de claríssima +gloria, e das profundezas infernais do orbe, e do frescor das sombras da +floresta corriam a arrebatar-me no tropel em que cada qual se agita e é seu +delírio.</p> + +<p>Então, na turbação confusa de um neófito, converteu-se-me<span +class="pn">{42}</span> a caverna em santuário, e, no lugar consagrado pelo raio +ou sobre a pedra que caiu dos astros, ouvi oráculos, e o sacerdote orava. Um +deus protegia os lares e sua fortuna; outro firmava os marcos que repartem os +campos entre o povo dos vilares; e os mortos e os heróis erguiam-se das cinzas +a ditar seu conselho e a impor os seus mandados, prolongando, em uma vida só, +vidas diversas. Na forma nobre como na mesquinha, em todas se ocultava uma +vontade, consciente e grande, e inflexível. Apolo e Juno, Hércules e Ceres, +Afrodite e Plutão, e Pã, deus dos pastores, e as Amadriades que viviam nos rios +e nas árvores, todos tinham na terra seu quinhão, onde reinavam livres; e +todos, nessa hora de visões, por mim passaram, severos ou folgando, rindo ou +chorando, tristes e majestosos uns, outros alados, dizendo seus mistérios e +incitando-me a que, adorando-os, eu lhes tributasse o incenso devido ao seu +poder.</p> + +<p>Guerreiros incansáveis, triunfantes, povoaram os espaços de deidades e o +coração de graças e favores. Negaram a solidão em todo o universo, confiado ao +império sempiterno de demónios e anjos que encarnavam na poeira, no vento, na +folha e na neblina, em rochedos e águas e no murmúrio da asa mais leve do menor +insecto, sorrindo, consolando e castigando, soltando com igual prodigalidade +afagos e ameaças, esperanças e terrores, a indulgencia, a ira e o escárnio, a +abundância e a<span class="pn">{43}</span> fome, o mal e o bem, toda a infinda +vibração das nossas almas.</p> + +<p>Que mundo radiante de aparições, capricho e formosura, não tentou derruir, +aquele ímpio sectário do saber que pensando, e dissecando, e inquirindo +friamente, quis dissipar, num ímpeto de orgulho, esses entes celestes, +benfazejos, que andavam entre os homens e lhes vertiam no sangue fraco e impuro +a firmeza, a coragem, a gratidão, salutares alegrias e a serenidade, a +exaltação suprema, a mais sublime, a consagração plena dos mortais em altares +de religiosa poesia e de um dever mais forte do que a mísera carne +transitória!</p> + +<p>Que demência julgou virtude haver privado de magnânimo amparo de seus +religiosos filhos a imaginação fecunda e inquieta que jamais sofrerá os +cativeiros da razão, altiva e austera, sem piedade?!...</p> + +<p>Ah! não morreram! Esses filtros da nossa fantasia todos vivem ainda e nos +seguem, ocultamente, semeando de rosas os caminhos que os fados nos +traçaram.</p> + +<h2><a name="SECTION0082">II</a></h2> + +<p>No silêncio dessa tarde em que comovidamente os invoquei, ouvi-os; e a sua +voz, de mansidão dulcíssima, trouxe-me ao corpo como um refrigério, sacudindo a +letífera inércia e o torpor em que<span class="pn">{44}</span> a venenosa sede +de saber desvaira e mata, inquirindo sem amor, só por orgulho—senão, pior +ainda!, por cobiça—, da aspiração ingénua dos fraguedos, das fontes e das +ervas, das nuvens e dos sóis, da natureza inteira no seu frémito.</p> + +<p>Pedi-te então, Senhor, que me concedas a quimera, a ilusão, esse cismar que +a qualquer forma deu energia e vontade igual à nossa. Pedi-te então que ampares +os meus passos dos companheiros bons que uma ciência vã afugentou.</p> + +<p>Não me abandoneis, Senhor, nesse deserto em que espíritos cruéis nos +atormentam roubando aos nossos olhos a beleza! Dá-me, Senhor, os sonhos +criadores! Possa eu ver as ninfas das nascentes, os faunos das florestas, e os +tritões lançando à praia as ondas arrojadas. Se da vida me tiras as quimeras, +irisada espuma capitosa da taça que gota a gota vou bebendo,—que lhe +encontrarei no fundo senão o sal de abrasada e mortífera amargura?!<span +class="pn">{45}</span></p> + +<h1><a name="SECTION0090">ANSEIO DA MANHÃ</a></h1> + +<h2><a name="SECTION0091">I</a></h2> + +<p>Sobre as negras montanhas do horizonte, indolente rebanho fabuloso, de +peregrinas formas em desordem, de prodígios, quimeras e abantesmas, domados uns +em dócil mansidão, outros soltando fúrias e ameaças; sobre essa multidão +tumultuosa que pela manhã tardia do outono alongara o dormir a custo +afugentado;—crescia o rubor da aurora iluminando-a, sem que no céu, pouco +a pouco embranquecido, uma só nuvem lhe lançasse um véu, embargando o pregão da +claridade.</p> + +<p>Apenas no poente, sobre o mar, ocultando o limite das suas águas, vagueavam +em sonhos, arrastadas, nesse perpétuo e incerto devaneio, que é seu destino e +glória, as comas violáceas das neblinas. Mas, humildes, deixavam conquistar-se +pelos fachos da luz que além rompia.</p> + +<p>Era a hora consagrada a esse culto, que ao Senhor os homens prestam no +trabalho, reconhecendo<span class="pn">{46}</span> toda a sua fraqueza e +sujeição. No bronze solene que difunde os mandados austeros da oração, +segredando-a, igual e única, aos indigentes míseros e aos ricos, a sãos e +enfermos, à fera e à borboleta, aos orvalhos e rios, ao vale e à encosta, ao +mais timorato musgo e ao maior roble, à pulverizada argila solta ao vento e à +firmeza invencível dos penhascos, sem escolher nem distinguir no seu vibrar, em +mística insinuação de súplica indeclinável; no caminhar heróico desses servos +que, enxada ao ombro, deixam seu lar e vão servir a terra nossa mãe, banhando-a +com o suor do rosto, unção sagrada, para que a sua bênção nos proteja e ampare; +no palpitar do jugo aureolado pela própria exalação do espesso hálito +condensando-se em frescores de Novembro, que a leiva bebe enquanto o ferro a +rasga para os trigais:—em todo o ambiente cantava uma só voz religiosa, +como nenhuma outra tão pura e casta e tão fecunda e pródiga, jamais poderá +ouvir-se nos apertados templos mesquinhos que somente por ilusões de orgulho +foram grandes perante o louco imaginar dos seus obreiros.</p> + +<p>E o sol rubro da aurora ia-se erguendo, pausado e lento, seguro da sua força +e omnipotência, sorrindo ao esforço humano e afagando-o, latejante de brilhos +sanguíneos, porventura misteriosamente repassados do mesmo filtro que repassa o +coração e o inunda de amor quando o anima.<span class="pn">{47}</span></p> + +<p>Mas, de súbito, a luz esmoreceu no seu triunfo. Apressadas, correram-lhe ao +encontro as névoas que dormiam sobre o mar. Cercam-na, ocultam-na, e, mal a têm +vencida, logo a soltam e fogem dispersadas, por momentos vestidas de ouropéis +que imediatamente deixam, por preferirem a doçura do manto lutuoso que em sorte +coube à sua condição. Sem tardar, ei-las que voltam, prosseguindo na indecisa +jornada flutuante; e—suave castigo dum orgulho ingénuo, bem de perto +seguido de indulgência ou talvez de remorso ou contrição! as névoas renovavam +seus combates, turvando a cada instante a opalina transparência da manhã.</p> + +<p>Ao fim, o sol venceu. Quando ia alto, a luz avassalara o espaço inteiro, +isenta de todo o anseio e hesitação. E assim soberana se manteve sempre, até +que o véu da noite a submergiu na limpidez das ondas diamantinas, depois de +haver semeado sobre a terra a alegria e o pão, suprema esmola.</p> + +<h2><a name="SECTION0092">II</a></h2> + +<p>Senhor! Fazei que a minha vida seja espelho do anseio divino da manhã, tal +qual o vi nesse romper da aurora! Possa eu dissipar sombras funestas que me +escureçam o céu fundo e claro, onde a alma se expande e voa, resgatada, a +eternos<span class="pn">{48}</span> reinos de bem-aventurança! Que a ténue +irradiação do meu sonhar fortalecesse os homens no trabalho e lhes abrandasse +as dores e as fadigas, assim como o calor do dia os aviventa! E que ao fim em +mortalha de pureza eu dormisse também, à semelhança de luz perdida em águas +cristalinas!<span class="pn">{49}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00100">A ASA DO REMORSO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00101">I</a></h2> + +<p>Em êxtase de luz rompe a manhã. Seus clarins sonoros de alvorada despertam o +povoado, a serra e as águas. Dos salgueirais curvados sobre o rio erguem-se +mansas neblinas, castas, sacrificando ao sol toda a pureza. Os píncaros severos +da montanha desprendem da escuridão da noite a fortaleza. E na oficina e nos +lares acordam fumos de carinhos e penas e trabalho.</p> + +<p>E acordando também desse torpor em que, cansada, dorme a consciência exausta +de torturas e de dúvidas, pensei, mísero e fraco, nas fadigas a que a luz da +manhã me convidava. Por tenebrosa perversão da alma senti-me o escravo do ardor +mundano, das cobiças, dos ódios, das vaidades, da cegueira que me oculta um +irmão em cada homem e que me arroja a disputar-lhe o pão e que me afoita a +exprobrar-lhe os erros, a mim que ouvi no peito voz divina de amor, de caridade +e de perdão<span class="pn">{50}</span> e que ouvindo-a a deixei esmorecer, de +culpa em culpa, traindo-lhe os mandados.</p> + +<p>Enquanto à maldição desses infernos descia meu turvado pensamento, cantou a +toutinegra na oliveira e ergueu seu doce canto à madrugada. Comungava na taça +da alegria que na luz o Senhor oferece à terra. Isenta das cobiças e dos ódios, +sem conhecer espinhos da ambição, confiando na suprema misericórdia que lhe +alimente o sangue e o ninho e lhe module o inspirado enlevo dos seus hinos e a +cada mágoa traga seu consolo, imaculada voz dum peito inocente, turíbulo +sagrado, a toutinegra depunha no altar de Deus a sua oferenda, antes de partir +em busca de sustento.</p> + +<p>Então uma asa negra de remorso me fustigou o orgulho; e tremendo da própria +impiedade, compungido de dor, eu perguntei que destino fatal e tão cruel me +induzia em perjúrio à minha fé, sufocando em meus lábios, cerrados para o +louvor da madrugada, essas canções benditas que a ave cantava e eram uma +oração, que eu esquecera e eram redenção.</p> + +<h2><a name="SECTION00102">II</a></h2> + +<p>Minha mãe que do seu sangue me gerou, deu-me com o leite haustos de amor por +ti, Senhor. Enquanto me criava o corpo e a forma, toda esta<span +class="pn">{51}</span> ilusão da vida efémera, em seu último termo inexorável +predestinada à consumpção dos vermes, ardentemente me ensinou a ver-te, +ensinou-me a invocar-te, e em teu puro espírito renascer, liberto de corrupção, +para a vida eterna. Ensinou-me a adorar-te em teu poder, a implorar humilde a +tua graça, e prostrado sofrer tua vontade, contente por servir-te e em ti +buscando a suprema alegria. E queria em sua fé, que dela recebi e é também +minha, queria que ao despertar da minha consciência após suas horas de repouso +e inércia, fosse teu nome o primeiro proferido por meus lábios; que para me +sentir erguido à tua presença esquecesse eu o mundo e o seu tumulto e assim +purificado, assim armado desse escudo inviolável, fortalecido contra todas as +tentações de desvario, atravessasse a via dolorosa e de toda a fraqueza me +isentasse.</p> + +<p>Nessa manhã clara, entenebrecida em um momento fugaz e aflitivo pelo +perpassar da asa do remorso, pequei, Senhor, porque transviado, perdido o meu +espírito no tropel das cobiças orgulhosas, assaltou-me a miséria o pensamento e +outro nome proferi que não o teu, antes que a ave me lembrasse a culpa cantando +os teus louvores e a tua grandeza.</p> + +<p>Perdoa-me, Senhor, se então traí essa fé que é o melhor dos meus tesoiros e +me incendeia o peito em teu amor! Amparem-me as tuas aves,<span +class="pn">{52}</span> teus arautos, mensageiros fieis da tua glória! Em cada +aurora que os meus olhos vejam despontar nos céus, fazei, Senhor, que a +toutinegra volte e me venha ensinar a repetir essas divinas orações de infância +que à minha mãe ouvi no seu regaço!<span class="pn">{53}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00110">SERVAS DA LUZ</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00111">I</a></h2> + +<p>Logo após a cerração da noite, voltam-se para o oriente aquelas flores, +servas da luz, cujo rosto olha o sol constantemente e por condição estranha o +segue sempre no resplendente percurso da sua órbita. Ainda a escuridão é densa +e vem distante o mais tímido alvor da madrugada, mal o poente se toldou de +sombras, começam essas flores a volver sua face para os lugares onde o sol +há-de romper. Por um segredo seu que nos perturba, subtil inspiração as ensinou +a serem fieis à luz tão firmemente que nem a treva nem a tempestade nem a +alvura do luar e a imensidade de astros brilhantes povoando o espaço puderam +transviá-las e perdê-las naquela adoração do sol que é sua crença. Enquanto o +sol se afasta divagando por ignotos mares, aprestam-se a servi-lo. O seu +primeiro alento, o raiar da aurora, há-de aquecer-lhes o seio ávido de receber +seus fogos.<span class="pn">{54}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00112">II</a></h2> + +<p>Porque, Senhor, assim inspiraste mudas flores, singelas e felizes, e deixas +que os homens vão de treva em treva, rasgando o coração até à morte, ignorando +donde a luz se ergue—aqueles mesmos homens aos quais deste a consciência +do amor da luz?!...</p> + +<p>Nas trevas da ruindade que escurecem a alegria e o riso e a bondade, divina +aspiração da luz da nossa alma, possa eu, Senhor, como a flor em tua graça, +pressentir constantemente a tua presença e só para a tua luz voltar a minha +face, mortificada, ensanguentada, enferma dos tormentos fatais da +escuridão!<span class="pn">{55}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00120">TROFÉUS DO ESTIO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00121">I</a></h2> + +<p>Como gotas candentes destiladas de cristalinas urnas de safira que vertessem +sobre a terra o azul dos céus para converter em luz a inércia e a treva, o +Estio derrama sobre os campos queimaduras adustas dos seus fogos +incendiando-lhes a fecundidade.</p> + +<p>Mirrou-se a leiva. A fonte emudeceu. Endureceu-se o pâmpano na vide. O viço +converteu-se em austeridade, denegrindo a espessura da floresta. Murcharam os +prados e ali, onde exalaram suave embriaguez do seu frescor, levanta agora o +vento nuvens ásperas de calcinado pó da terra nua. Rolam no chão as palhas +trituradas como restos de vidas insepultas.</p> + +<p>São troféus do Estio em sua glória. São os despojos que arrasta na vitória, +na ufania cruel do seu triunfo. São mistérios duma maternidade santa e +dolorosa.<span class="pn">{56}</span></p> + +<p>Para fecundar a terra e nos deixar o seu sagrado leite, o nosso pão, para +lhe enriquecer os filhos de sustento, de calor, de abrigo e de doçura, para +madurar os pomos e as searas e para criar o lenho que nos salve dos golpes +traiçoeiros do inverno, abrasou o Estio em seus ardores aquela mesma terra que +por amor beijou, vestindo-a de opulência, ao despertar-lhe sua paixão constante +de abundância, o seu fascinante arfar de formosura e a pródiga caridade do seu +seio.</p> + +<h2><a name="SECTION00122">II</a></h2> + +<p>Abrase-me, Senhor, o teu ardor! Que se me converta em pó o mísero invólucro +deste ser que nasceu para servir-te, e desfeito em teus férvidos alentos crie +uma gota desse imenso amor que é o teu eterno cálice de vida!—Tal qual o +Estio abrasa e queima a terra para transmudar em pão a rocha árida e fria, +incendeia de amor meu coração para em tua fé remir os infiéis!<span +class="pn">{57}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00130">LOUCOS DE HUMILDADE</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00131">I</a></h2> + +<p>Á beira do paul, onde ele se estreita e recebe do vale o seu ribeiro, sobre +a arcada da ponte que o transpõe, unindo e prolongando caminhos ensombrados das +suas margens, quedei-me a ouvir o marulhar das águas, batidas pelas lufadas de +Dezembro e, sombrias, reflectindo o céu sombrio.</p> + +<p>Vindo do mar o rouco sudoeste, gerado na violência das tormentas, turvava a +atmosfera escurecendo-a. Baniu do céu o azul, de todo oculto sob bandos de +nuvens violáceas, fugidias, mudáveis como fumos, almas errantes, cinzas +dispersas de apagados lares.</p> + +<p>Crescidas pelo despenhar das águas da montanha que verteram nos rios as suas +neves, as lagunas cavavam funda a vaga, nessa agonia que a inquieta e é seu +destino. E incessantemente a repetiam—assim como no coração volta a +saudade, sem fim, a repetir-se e sem desanimo, renovando<span +class="pn">{58}</span> dorida a aspiração que uma estrela sinistra lhe converte +no repetir da mágoa, no infortúnio de se sentir privado dos seus bens.</p> + +<p>Inconsistentes algas sonhadoras, dos sonhos dessas ninfas que as protegem e +gentilmente as levam no toucado, frouxamente flutuavam enleadas nas hastes de +robustos nenúfares, em cuja espessura habitam mais isentas da mortal violência +das correntes.</p> + +<p>Também elas, imagem da nossa alma, naquela tão minguada vida que as anima, +chorariam ilusões de liberdade e em desengano igual aos que sofremos, pensando +haver nascido para expandir-se e seguirem erradias seus caprichos na luz de +mansas águas transparentes, também elas sentiriam afinal um cativeiro na dureza +das hastes que as amparam e enquanto lhes são arrimo as sujeitaram à própria +imobilidade e à própria sorte?!...</p> + +<p>Além, vai inundado o salgueiral. Parece naufragado, entregue às ondas, +arrancado da terra em que medrou. Até despido e nu, de todo despojado da graça +que no Estio lhe agitava sua abundante coma viridente, paira sobre ele um +sonho, um palpitar de afago e de brandura. Ainda no mais áspero rigor, sob o +queimar das neves, nos seus cinéreos gomos veludosos e nos ramos banhados em +alvuras vagueia uma carícia que consola, uma tímida promessa de doçura, alentos +da primavera que suspeita e de cujas primícias de alegria será para nós o +portador bem-vindo.<span class="pn">{59}</span></p> + +<p>Para que na terra sempre permaneça uma esperança, um refúgio de toda a ira e +toda a tempestade, a redenção de todo o desalento e toda a treva, sorri na +encosta o prado. Serenamente, ignora a tormenta e os seus combates. Rebelde ao +vento, unido ao chão e a salvo do transbordar das águas mais subido, repousa os +nossos olhos, já fatigados desse tropel de lutas de extermínio, essa mancha de +deleitosa cor e de brandura. Tranquila, em sua mansidão firme e piedosa, +afronta e vence a túrbida violência em que astros funestos dilaceram, +fúnebremente, a terra desolada.</p> + +<h2><a name="SECTION00132">II</a></h2> + +<p>Em andrajos, curvada, carregando o parco e mesquinho feixe de caruma, vem +recolhendo ao lar da sua choupana, uma pobre velhinha. No rosto emaciado estão +marcadas por fundas rugas, restos de agonias, as canseiras, velhice e +privações. Nem uma só faúlha já lhe resta do fogo que algum dia entumeceu as +veias duma face enamorada de ventura e prazer, e em ventura enlevando os que a +buscavam. Aqueles sadios braços que acudiam a recolher o pão no sol do eirado, +são mal definidas sombras esqueléticas de formosuras que passaram breves. E os +olhos que brilharam amorosos, em zelos inflamando e fascinando os turbulentos +moços<span class="pn">{60}</span> do arraial, esmoreceram todo o seu calor, +amortecidos em descorados véus, quase sem luz.</p> + +<p>Mansamente, quando eu cismava no turbilhão de vidas tão diversas que ali +contemplava, no mistério sem fim dos seus combates para expandirem na luz os +seus anseios, a velhinha, arrastando seus passos no caminho em que resignada +arrasta a sua pobreza, saudou-me e disse, interrompendo o sonho e outros sonhos +trazendo em sua voz:</p> + +<p>—«Boa tarde, meu senhor, salve-o Deus!»</p> + +<h2><a name="SECTION00133">III</a></h2> + +<p>Delira de humildade esta velhinha que em seu santo delírio desvairada, +aureolada de fulgores angélicos, me dá teu nome, Senhor, só porque a sorte cega +em seu capricho me envaideceu com os falsos bens do mundo, enquanto a +enriquecia de pobreza e me induzia, a mim, a ser soberbo, e a me esquecer de ti +no meu orgulho? Foi por isso, por ser a mais humilde, por ser abençoada desse +delírio santo de humildade que a enlouquece, mostrando-lhe os seus senhores nos +desgarrados da tua larga senda de bondade, perdidos nos infernos das cobiças, +foi por isso, Senhor, que a escolheste para a enviar dizer-me que além desse +outro mundo que ali contemplava em confusão de esperanças, formosuras e +terrores, mortal, incerto, atormentado<span class="pn">{61}</span> e turvo, +além desse outro mundo um outro existe onde Deus tem seu reino e onde nos +salva?!...</p> + +<p>Possa eu sempre ouvir a sua voz! Resgate-me essa fé, essa humildade que no +mais pervertido vê um senhor e o saúda e o serve obediente, e suplicante, por +ele erguendo aos céus a sua súplica, fraternamente para ele implora a graça de +salvação em Deus!...<span class="pn">{62}</span><span class="pn">{63}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00140">ORAÇÃO DOS LARES</a></h1> + +<blockquote> + <em>Et jam summa procul villarum culmina fumant,</em> <br> + <em>Majores-que cadunt altis de montibus umbrae.</em> </blockquote> + +<h2><a name="SECTION00141">I</a></h2> + +<p>«Começam a fumegar ao longe os tectos dos vilares e lá dos montes altos vem +crescendo as sombras que se alastram sobre a terra». Tingiu-se de ametistas o +poente. O campo adormeceu. Calaram-se as enxadas na deveza. Entre rumores dos +gados que recolhem, caminha para a morada o cavador. Erguem-se aos céus os +fumos dos casais e, desprendidos da pureza do fogo em que se geram, em +vespertinos cantos abençoam o repouso da noite a aproximar-se.</p> + +<p>São sacramento que une os lares da vida humana à luz infinita. São oração, +anelo, um palpitar, um voo, anseio de brandura transportando ao espaço sem fim +aspirações que os nossos corações mal balbuciam, que palavras algumas +traduziram. Confundem seu mistério de beleza, um tímido mistério que se abriga +sob a pobre nudeza<span class="pn">{64}</span> das choupanas, em um outro +mistério ainda mais alto que tem por templo a abobada celeste, por voz a voz de +Deus e por fieis miríades de seres que se dispersam na vastidão do cosmos +insondável.</p> + +<h2><a name="SECTION00142">II</a></h2> + +<p>Assim seja, Senhor, minha oração! Tão alto ela se erga e tão suave se eleve +em vosso amor e o sinta e adore, como o fumo dos casais quando anoitece levando +aos céus as orações dos lares.<span class="pn">{65}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00150">CANTARES DAS SEBES</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00151">I</a></h2> + +<p>Ao longo do caminho da jornada na qual, dorido, vou calcando a terra, ouvi o +cantar das sebes nas vigílias em que constantemente nos defendem e nos guardam +os pomos, as searas e os lírios, todo o bendito pão que nos anima de vigor o +sangue e nos enleva em alegria a alma.</p> + +<p>Valos fundos em volta do pinhal, tosco acervo de pedras que circunda o campo +onde o trigal vem a brotar, viridentes cômoros abrigando os ninhos sob +grinaldas de rosais floridos, ramos espinhosos protegendo o alfobre para que as +sementes desabrochem e vinguem, os silvados que escondem os vinhedos,—se +uma vida despontando teme a avidez ingénua dos rebanhos e de aves diligentes em +buscar sustento tenro para mimosos filhos; ou se a cegueira humana pervertida +pode quebrar a árvore que nasce ou desrespeitar ruimmente o suor alheio, +ergue-se a sebe e entoa os seus mandados,<span class="pn">{66}</span> e cobre +de fortalezas todo o chão traçando os seus limites à cobiça, à imprevidência, à +malvadez e ao próprio dano da inocência instigada por amor—como um gládio +de justiça austera repartindo toda a terra entre os seus filhos. Ora severa e +rude na mudez, ora coroada de verdura errante, murmurando o agreste murmúrio +desprendido pelo beijar de brisas fugidias, pacientemente a sebe nos protege a +selva, o prado, o pão e as açucenas, quanto pode amparar os nossos braços e +encantar nossos olhos em beleza.</p> + +<h2><a name="SECTION00152">II</a></h2> + +<p>Se para nos guardar na terra a formosura e alimentar nas veias o calor +elegeste na sebe um missionário, servidor desvelado da tua graça, se nem esses +teus bens mais preciosos viveram sem o abrigo e a caridade dos companheiros que +lhes destinaste, como poderei eu, Senhor, criar no peito, neste peito gerado da +fraqueza, o amor fecundo em que ele se arrebate, florindo em bondade e +mansidão, se em tua misericórdia não mandares anjos bons que me guardem e dos +teus inimigos me defendam?!...</p> + +<p>Sinta eu sempre a meu lado, protegendo-me, o doce abrigo de filhos teus, +Senhor, daqueles teus eleitos e inspirados que na tua bondade e em teu<span +class="pn">{67}</span> amor souberam redimir-se! Que por sua voz e sua +fortaleza arranquem meu coração ao sinistro abutre da descrença, do ódio e da +avareza a que lugubremente se entregaram os que em solitário orgulho te +ignoram!<span class="pn">{68}</span><span class="pn">{69}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00160">COMPANHEIRO E GUARDA</a></h1> + +<p>Do vale aos cerros onde me encontrei, vai minguando a vida. Lentamente, a +solidão alarga o seu domínio até que ao cimo, pela planura extensa que remata o +encastelar de montes sobre montes, de todo impera na aridez ingrata que despiu +de verdura a terra rasa e a adormeceu, estéril, semi-morta de avareza e +silêncio.</p> + +<p>No deserto severo a que subi, apagou-se distante e emudeceu quanto na veiga +fértil me fascina, esse fremente rebrilhar de vidas irrompendo da terra +alegremente que por seus anseios vinham demandando seu lugar e glória à luz do +sol—a carícia agitada das ramagens, mugidos da manada no pascigo, o +argentino rebater da forja, a espessura ondeante das searas, a viveza das rosas +nos jardins, a murmurante faina dos casais, toda a abundância, toda a flor e +toda a lida que no vale se expandiram opulentas, na abrigada largueza dos seus +campos e nos bastos vilares que ela alimenta.<span class="pn">{70}</span></p> + +<p>Eis que, porém, no árido silêncio dessa terra sem viço, devastada, se ergueu +um casebre humilde, o mais humilde, e dali se elevou um ténue fumo! E logo se +povoou e foi amena a solidão austera desse chão que o desamor dos homens e dos +astros asperamente votara ao abandono. Foi como se uma afeição dali emanasse e +banisse, amorável, por encanto, todo o ermo da gândara desolada.</p> + +<p>É a morada singela dum pastor. Recolhe agora ao aprisco o seu rebanho, o seu +pobre rebanho, filho e imagem da pobreza da urze endurecida na terra recalcada +dos invernos que nunca conheceu o arado e o jugo. E protegidas do rigor da +noite as ovelhas, seu único tesoiro, por sua vez procura acautelar-se da aragem +fria que lhe tolhe os membros, acendendo a fogueira mal nutrida das escassas +giestas que juntou.</p> + +<p>Outro alento de vida não pressinto em redor do bravio solitário. Mas só por +magia desse ténue fumo, companheiro e conforto do pastor no ríspido exílio em +que perfaz sua missão de amor servindo a terra, senti que até ali mesmo me +guardava das sombrias visões do desamparo não sei que voz estranha e +poderosa.</p> + +<p>E pedi ao Senhor que recebesse em sua bondade eterna e eterna glória este +infinito anseio da minha alma que sem cessar o vê e ao seu amor, na opulência +da terra e na aridez, na maior chama como em débil fumo.<span +class="pn">{71}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00170">REINO INFINITO</a></h1> + +<blockquote> + <em>Dico vobis quod quemcumque locum calcaverit pes vester, vester erit.</em> +</blockquote> + +<blockquote> + (<small>SACRUM COMMERCIUM</small>, cap. <small>III</small>) </blockquote> + +<h2><a name="SECTION00171">I</a></h2> + +<p>«Eu digo-te que é teu todo e qualquer lugar que os teus calquem»—assim +o ensinava o Santo aos seus irmãos, voltando em puro espírito a ilumina-los, +daquela eternidade em que resplendia o seu amor ardente, o mais sublime que ao +mundo trouxe a vida e a salvação, depois que alguém morrendo no Calvário +derramou por amor todo o seu sangue.</p> + +<p>É nossa toda a terra que pisamos, toda aquela vastidão que nós sentimos, em +seu alento respirando a fortaleza e em sua formosura extasiando os olhos e a +nossa alma. E só é nossa aquela que sentirmos e enquanto o nosso coração a +adora e louva; e é alheia, muda, estéril toda a terra que o nosso amor em tudo +desconhece, ou distante dos olhos a não veja ou, estando a nossos pés, a não +sintamos enchendo o nosso peito de bênçãos e<span class="pn">{72}</span> +alegrias. As boninas, os lírios e os rosais não são dessa avareza pervertida +que lhes pôs em redor um muro alto, para privar os homens de os tocarem, e só +por isso julga possui-los como escravos do orgulho e da vaidade; são desse +peregrino pobre e semi-nu que na estrada os sentiu e, cantando e bem-dizendo o +seu enlevo, prosseguiu na jornada, iluminada a vida e exaltada na fragrância e +frescor de formosura e na divina crença que ela inspira em tua fé, Senhor, em +teu poder de eterna graça e beleza. Esse foi rico e, na verdade, teve na terra +que os seus pés calcaram um reino infinito—tão rico quanto foi miserável, +indigente, esse outro que quis contar os bens pela demência cega e malfazeja +com que privara da terra quem a ama e nessa sinistra força resumiu seu ser e +aspiração. Este foi pobre, tudo perdeu do salutar alento que lhe mostrou um +Deus em cada flor, o resplendor duma essência divina imperscrutável; por mais +terra que seus pés possam calcar, jamais possui um só e estreito palmo do chão +bendito que as flores orvalhadas consagraram. Possuir é admirar e comungar, e +só é nossa a terra e tudo aquilo em cujo amor sentimos consumir-nos.</p> + +<h2><a name="SECTION00172">II</a></h2> + +<p>Bens da terra, Senhor, também os quero! Também instantemente vo-los peço! +Também avidamente<span class="pn">{73}</span> os apeteço! E reconheço os +muitos, gloriosos, com que prodigamente enriqueceste os que têm como sua toda a +terra que os seus pés vão calcando e os olhos vêem, enquanto a sua alma se +extasia na beleza da vossa criação.</p> + +<p>Riqueza é o coração que vós tocaste na perene harmonia incorruptível que é o +vosso ser e vibra em todo o espaço e se espelha em luares e na açucena.</p> + +<p>Dai-me, Senhor, a graça de a sentir, e nessa graça os reinos infinitos a que +ela e só ela nos conduz! Para que então eu possua toda a terra e seja meu todo +e qualquer lugar que os meus pés calquem.<span class="pn">{74}</span><span +class="pn">{75}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00180">PODERES DA TERRA</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00181">I</a></h2> + +<p>Rolam fundas as águas nos caudais. Fundiu-se em torrente a neve que cobria +de doce alvura a aspereza da montanha. Nuvens negras do sul que o vento +apressa, jorraram o seu dilúvio sobre os campos. A inundação cobriu sebes e +vales, e a seara, o prado e o burgo que agasalha o cavador, os jugos e as +enxadas. De outeiro a outeiro, onde ontem perpassava o suave esplendor de +mansas vidas,—em tímidas boninas, em rebanhos, pascendo repousados a +abundância, e nesse fecundo arranco heróico e hercúleo dos servos da gleba +generosa—a devastação das águas desapiedadas estende turvamente uma +mortalha. E onde se ouvia murmurar a paz, o embalar dos berços carinhosos e +estrídulos descantes de ceifeiras, felizes e esforçadas na sua faina, lançou a +inundação roucos pregões de ameaça e terror, tumultuosa e lúgubre no ímpeto. +Dia e noite, ou brilhe o sol vencendo<span class="pn">{76}</span> a tempestade +ou a escuridão se cerre impenetrável, rugem no vale horrendos clamores de +morte, de ruína e de crueza.</p> + +<p>Ouviram-nos ao longe os povoados; os montes e as quebradas repetiram-nos. E, +sentindo como um grito de aves fúnebres que dos céus nos mandassem seus +agoiros, um sombrio pavor me subjuga. Seus lívidos espectros de desgraça +escurecem-me em mágoa o pensamento, mostrando-me os infernos neste mundo +entregue sem resgate às suas penas.</p> + +<h2><a name="SECTION00182">II</a></h2> + +<p>Não me culpes, Senhor, se eu esquecendo, em momentos mortais de desalento, a +sabedoria infinda do teu ser que o orbe rege e funde em harmonia, sucumbi de +fraqueza e de descrença perante os poderes da terra no seu auge! Não me culpes, +Senhor, se assim vencido, atónito de espanto e de terror, senti passar a cólera +das águas e tremi de sofrer sua inclemência! Não me culpes, Senhor, se um +instante de assombro me oprimiu perante as iras da vossa criação e nelas vi +tiranias indómitas cruéis! Logo me emenda o erro, crê, e me resgata de vãos +temores e de fraquezas ímpias a inteira fé na suprema perfeição de quanto é +teu. Mais alta que os clamores da inundação, uma outra voz me ergue no desejo +de que a «tua vontade seja feita, quer nos céus, quer na terra», +eternamente.<span class="pn">{77}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00190">PERPETUAS DO ROMEIRO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00191">I</a></h2> + +<p>Entardecer de outono tépido e quieto!.... O sol baixa ao poente, +brandamente, em seu rubor velado de neblinas. A soberba do Estio esmoreceu. Há +manchas desbotadas sobre os campos; empalidecem vinhas e pomares. A ceifeira já +ergueu da terra a seara e deixou cor de cinza todo o chão. Os frutos coram +derradeiras cores nas hastes semi-nuas e vergadas, e os mostos, refervendo +capitosos seus túrbidos perfumes traiçoeiros, semeiam nos vilares visões pagãs +de bacantes e faunos em delírio.</p> + +<p>Descem do monte os bandos dos romeiros. A essa orgia da terra generosa, +embalsamando a aldeia em seu deleite e remindo-a da fome com o seu pão, +responderam na ermida da montanha descantes amorosos, plangentes, orvalhados da +noite e abençoados do sereno fulgor de astros propícios.</p> + +<p>Rebeldes à fadiga, alegremente, voltam à paz da<span class="pn">{78}</span> +aldeia e ao seu trabalho os romeiros que foram à capela a confessar as penas e +paixões, implorando do bem-aventurado santo que lá mora, nessa agreste pureza +do seu ermo, que às suas penas lhes mandasse alívio e que às paixões lhes desse +horas fagueiras. E para que dilatadamente se prolonguem confissões e promessas +murmuradas candidamente em estos de ternura, para que jamais se apague a sua +lembrança nos lares em que se abriga o coração cativo do juramento bafejado +pelo resplendor do santo do altar que entre lírios e rosas lhe sorriu, trazem +no peito um ramo de perpetuas os romeiros saudosos da vigília em que sonharam o +céu e o paraíso. Querem que um tão breve instante de ventura, por magia de +amor, se torne eterno e que perpétuamente o guarde a flor em que sempre o verão +como em sacrário.</p> + +<h2><a name="SECTION00192">II</a></h2> + +<p>O mais rude como o mais experimentado adorou neste mundo a eternidade. Na +hora mais breve que se esvai e passa, no sorrir e nos olhos dos que amou, quis +ver e quis sentir luz que não morre; e fielmente, talvez para não cair em +tentação de perjúrio ou fraqueza, quis encarnar a crença na flor, dar um cálice +à fé e o seu quinhão da formosura que na terra a louva.<span +class="pn">{79}</span></p> + +<p>A vida só é vida enquanto ama e traduz e adora a eternidade na beleza do +mundo e da nossa alma. É a tua lei, Senhor!</p> + +<p>Possa eu servi-la e fosse este meu peito perpetua do romeiro onde abrigasse +um infinito amor e eterna graça!<span class="pn">{80}</span><span +class="pn">{81}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00200">PODER DO VERBO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00201">I</a></h2> + +<p>No apolíneo sonho do poeta, à beira da torrente, sobre os montes, o pastor +que além viu a moça linda e ingénua, revestida de viço e de frescura tão +perfeitos como os da primavera em torno que o afagava, cativo o coração e +confundindo no mesmo vago enlevo a graça e a formosura, cantou assim ternuras +do seu peito:</p> + +<p>«A erva cresce agora livremente. Há lírios sobre os prados. A maré verde de +Abril transborda no seu crescer. E para traz, muito longe, perdeu-se cego o +inverno.</p> + +<p>«Assim como a primavera surge da tormenta, assim da morada escura surges +tu.</p> + +<p>«Em ti reside a luz, e qual espraiada no contorno dos lírios a primavera +brilha, assim do teu coração, pelos lábios vermelhos entreabertos, vem palavras +e amor aos feixes erguidos do acónito. E aquele que o movimento agita lança à +terra a bênção,<span class="pn">{82}</span> pelo suspirar ardente e pelo amor, +pelo desejo bom e pela alegria.»</p> + +<p>«Quando tu partires, no inverno incerto, entre os fumos da morada e no rumor +dos homens, então verei sempre os teus cabelos de oiro e os teus pés brancos +ágeis no volteio. E do limiar da porta até ao lar, canções vindas do sul, as +palavras da tua boca hão-de esvoaçar, aqui e além, a repetir-se em todo o +espaço.»<a name="tex2html1" href="#foot270"><sup>[1]</sup></a></p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot270" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> William Morris. +<em>The Sundering Flood.</em></p> +</div> + +<h2><a name="SECTION00202">II</a></h2> + +<p>Oh, magia do verbo que converte passageiro murmúrio em eternidade!...</p> + +<p>Por que subtil poder e invencível palavras dum instante, etéreamente aladas +e fugazes, voltam do infinito espaço em que as lançou a vibração dum peito +comovido, para de novo as ouvirmos tão altas e claras e tocantes como da vez +primeira que as sentimos?!... Por que energia oculta se renovam, e nos povoam +de visões os sonhos, e nos amparam os passos com o conselho, e nos fazem +sangrar o coração, e nos desprendem o sorriso e o canto, e nos elevam na oração +divina, as palavras que alguém,<span class="pn">{83}</span> um pequenino ser +mortal e fraco, mínimo átomo no volver dos mundos, um dia segredou timidamente +na mansidão dos seus lábios mortais?!...</p> + +<p>São anjos teus, Senhor, são anjos teus! Pastores do teu rebanho louco e +débil, os enviados bons do teu amor que vem a encaminhar nossa fraqueza no +caminho da tua salvação!</p> + +<p>Antes, Senhor, a inconsciência, a morte, o infindo dormir da própria alma, +do que o errar no mundo ao desamparo, sem a bendita voz dessas palavras que de +contínuo ouvimos repetir-se, «aqui e além, perpétuamente, em todo o espaço», e +nos renovam quantas visões de amor nos enlevaram, quanta beleza e graça nos +mostraram para além deste mundo os céus e os anjos!<span +class="pn">{84}</span><span class="pn">{85}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00210">UNÇÃO DE GLORIA</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00211">I</a></h2> + +<p>Nasce para vida curta e breve passa seu sonho de candura e de beleza a flor +que a primavera descerrou. Brisas ligeiras que lhe baloiçaram ao sol do meio +dia o seu turíbulo de dulcíssima seiva perfumada, essas mesmas virão rasgar-lhe +as pétalas antes que o vento abrande no crepúsculo.</p> + +<p>Foi um celeste instante de brancura aquela que poisou sobre o espinheiro +florido entre a pálida verdura. Os oiros reluzentes do ranúnculo brilharam +curtos dias entre os prados; e a desmaiada púrpura da olaia, no suave rubor que +nos fascina, parece ter nascido para uma hora, tão cedo ela decai e junca o +chão e se dissolve e perde emurchecida. E as rosas—é seu fatal destino, +bem o sabem! «nasceram para viver uma manhã». O seu frescor é o beijo duma +aurora e uma só vez na vida hão-de senti-lo.</p> + +<p>Entretanto, na sombra, humildemente, a hera sempre verde, persistente, de +contínuo cresceu sobre<span class="pn">{86}</span> a ruína, e ou a neve +embranqueça no trigal a verdura da terra requeimando-a, ou o sol alente as +seivas dos vinhedos, ou o inverno a castigue rudemente, ou o Estio sequioso a +abrase, vai urdindo, incansável, esse manto de viço túmido e quente com que +protege feridas da ruína e, remoçando-a, a veste de grinaldas. E caem desfeitas +sobre as heras as flores que a primavera desfolhou, na vida curta e breve em +que viveram seu sonho de candura e de beleza.</p> + +<h2><a name="SECTION00212">II</a></h2> + +<p>Ah! Bem feliz, Senhor, seria o filho teu cuja sorte escutando o seu desejo +lhe deixasse escolher para seu quinhão a frescura das rosas passageira vivendo +longa vida prolongada na robustez das heras caridosas; porque esse seria a tua +imagem, bebendo sobre a terra dum só cálice a suprema beleza e o teu poder. +Mas, pois que à imperfeição eu fui votado e nela hei-de cumprir o teu querer, +vivesse eu como as rosas um momento de candura e de graça e de perfume, e +morresse incensando heras robustas de caridade e viço imarcescível!... Passasse +assim na terra, como passa, numa tarde de Abril embalsamada, a unção de gloria +que os rosais verteram sobre o vigor das eras persistente!... E seria feliz, +abençoado, tendo sonhado a tua eternidade envolta num alento de doçura.<span +class="pn">{87}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00220">SACRO HOLOCAUSTO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00221">I</a></h2> + +<p>O outono palpita nos orvalhos. Já a manhã é tardia em despontar e o cavador +trabalha em bem prover seu refúgio para a aspereza do inverno. Antes que rasgue +a terra para o trigal, há-de juntar em torno do seu lar a provisão de lenhas +que alimentem calor e vida em noites de Dezembro, a alegre e rubra chama da +fogueira.</p> + +<p>No pinheiral da gândara, que dormiu prolongados silêncios abrasados quando o +sol ia alto, fulminando verdes searas a beber seu leite da terra criadora, +entre cantares dos filhos do seu seio e seus escravos que em suor a banhavam +fecundando-a—no pinheiral da gândara, a árvore ferida, decepada do chão +pelo aço luzente que o lenheiro vibrou em hercúleo arranco, solta tombando +clamores tremendos; e a paz da floresta repetiu-os em ecos de saudade +compassiva.<span class="pn">{88}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00222">II</a></h2> + +<p>Oh, sagrado holocausto duma vida austera e solitária, corajosa, vivida a +todo o tempo, paciente labor de muitos sóis, de rudes provações que +experimentaram a tempestade, a calma, a noite e o dia, águas violentas que +flagelavam e águas de brandura, salutar afago, luares calados, doces +sonhadores, e o desalento do ardor do Estio e a branca inércia das manhãs do +inverno, toda a luz, todo o tumulto e toda a paz, todo o infinito ser de +infinitos mundos!... Tu morreste bendita dando aos homens todo o calor que +guardas nas entranhas, para agasalhares os berços e o trabalho, para +retemperares os seios que amamentam e para aquecer os braços que se tisnam na +escravidão da terra redentora!</p> + +<p>Eu não sei se é de dor, se de gloria, se é louvor ou lamento que te envia, a +ti, Senhor, que lhe traçaste a sorte, esse grito que ouvi no pinheiral quando +ao cair da árvore bradou seu ansiado brado a sonorosa haste que cantara a +mansidão das brisas que a tangiam. Mas ouvindo-o, Senhor, ouvi tua voz; e, +turvado da abundância da tua caridade, implorei-a—não me abandonasse, +como não me abandona a fé que eu tenho em teu mistério de bondade e amor.<span +class="pn">{89}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00230">SAGRAÇÃO DO ESCRAVO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00231">I</a></h2> + +<p>No alto da montanha, ao romper de alva, já moureja no campo o cavador a +alentar essa terra de que é escravo, seu sonho e seu tirano, e sempre amada, +fidelíssimamente obedecida, ou a sonhe feliz dando-lhe frutos entre rosais +corados olorosos, ou a sinta opressiva, insaciável, bebendo-lhe no suor do +rosto todo o sangue. O tépido conforto do seu lar, o dormir sorridente dos seus +filhos, o desvelado afã da companheira no seu mudo lidar e em seus carinhos, +quanto lhe afaga o coração e o tenta a esquecer na ternura a escravidão, tudo +deixou por essa tirania, para fecundar a terra à qual o prende o rigor de +apaixonada sujeição. Mal ao nascente a luz embranqueceu, ei-lo que parte, +erguido e corajoso, a pelejar a peleja bendita de criar!</p> + +<p>Dorme além a cidade ainda prostrada da tenebrosa orgia que a desvaira. No +dissipar de pálidas<span class="pn">{90}</span> neblinas, que a madrugada rasga +pouco a pouco, irrompem, lentamente, as sombras orgulhosas dos palácios em que +o luxo entorpece seus filhos corrompidos e enfermos, de alma e do corpo, por +suas vãs loucuras tão cruéis.</p> + +<p>Surgem a par as torres das igrejas, onde a fé, a mentira e a hipocrisia +lançaram de tropel em um só templo a cruz de Cristo, a mais santa das crenças, +e a mais torpe traição, essa que oculta sob véus da pureza e na oração toda a +cobiça sórdida de mundos que em podridões sustentam o seu deleite.</p> + +<p>É frouxo ainda o fumo da oficina. Nos seus leitos de ferro e de granito mal +despertaram os monstros que, rugindo pelos lúgubres antros denegridos, +convertem todo o sangue em alavanca ou em um numero, como se fora a haste fria +e rígida do mais frio aço endurecido. Toda a emanação de Deus que anime um ser +em Deus criado e nele engrandecido, coração, formosura, o próprio seio que +amamenta um filho, supremo alento dum supremo amor, qualquer impulso duma +consciência iluminado por visões dos céus, o mais leve passar duma +alegria,—morrem, são nada à porta da oficina, escoria inútil que os +dragões arrastam àquelas profundezas tenebrosas em que ter alma é um crime, e o +pensar e o sentir são uma traição, um erro, um prejuízo dos argênteos tesouros +mercantis.</p> + +<p>No declive estreito dos outeiros e na sombra<span class="pn">{91}</span> +mais húmida das suas pregas, ao redor dos palácios e dos templos, como varridos +em monturo abjecto para longe das grandezas que afrontavam, confundem-se e +amontoam-se os casebres onde a fome e a sua negra corte de vícios, de loucura, +de enfermidade e morte e blasfémia têm seus covís e dilaceram os mártires que a +crueza dos ricos lhes votou.</p> + +<p>O próprio rio que regara os prados e os tingira em verdura e macieza, que +adoçara vinhedos das encostas e orvalhara os vergéis alcandorados na ribanceira +que a pervenca esmalta, o próprio rio onde foi espelhar-se o rosto lindo da +donzela ingénua cativada dos olhos que respondem comungando nos seus o seu +anseio, o rio que serviu a obra de Deus, sua pura beleza +salutar,—tristemente se roja na cidade, turvado por as suas maldições e +servindo a avareza despiedosa que roubou o pão de míseros humildes para em +opulências cobrir de oiro a soberba.</p> + +<p>E perante a cidade em seu letargo, atormentada e pálida de dores, sucumbida +nas suas maldições, o sol rompendo ao longe sobre os montes, na resplendente +luz do seu nascer, aureolou de gloria o cavador, sagrando-lhe a sua crença e o +seu vigor, a robustez hercúlea do seu peito e a consagração bendita de sua alma +a esse tributo infindo, heróico e santo, de em suor pagar à terra o nosso +pão.<span class="pn">{92}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00232">II</a></h2> + +<p>Senhor! Em vossa caridade reparti vossos bens por quantos, infelizes, a +fraqueza condena a mendigar dos fortes o seu pão, embora o orgulho os traga +confiados em pérfidas grandezas traiçoeiras! Por esses que o destino arrasta na +tristeza, no cansaço e desgosto de viver, porque em hora sinistra se apartaram +do caminho da vossa salvação!... Deixai que chorem sua desventura, e em seu +queixume ouvi a minha voz!... Deixai que chorem em doloroso exílio esses +proscritos que jamais comungam com o cavador na bênção de criar na terra o +nosso pão com o suor do rosto! À luz da aurora que o beijou no monte, juntai as +lágrimas dos que vão chorando sua desgraça, sua perversão!... Fossem elas +incenso e ouro e mirra que os débeis reis do mundo tributassem à sagração +divina do escravo!... Resgatassem humildes todo o erro que os desprendeu da +escravidão da terra!...<span class="pn">{93}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00240">MALDIÇÃO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00241">I</a></h2> + +<p>Entenebrecidas noites de tristeza afastaram-me da via iluminada para lugares +distantes, desprezados dos escravos das seduções mundanas, prisioneiros fieis +dos seus regalos.</p> + +<p>Passei pelas vielas lobregas, estreitas, onde se acoitam multidões abjectas, +que os ricos aviltaram condenando-as à ignorância, à fome, aos vícios do +infortúnio, à loucura e ao crime, a epilépticas convulsões da embriaguez, à +indigência, ora prostrada ou insolente, ora mendiga lacrimosa e tímida, ora +cuspindo pragas e blasfémias em sua altivez irada, revoltada. Vi os negros +covís dos desgraçados que a opulência arrojou longe dos olhos para os monturos +humanos da cidade,—não fossem os andrajos e os vermes confundir-se entre +vestes de purpura manchando-as!</p> + +<p>Dos gemidos que vinham desses antros, tantas vezes castigando as nossas +faces como um<span class="pn">{94}</span> viperino jacto de veneno, a procurar +vingança; do rugido da miséria nos seus transes nenhum me tocou mais o coração +do que o grito das crianças açoitadas, entre imprecações raivosas de possessos, +flageladas com desprezo e ódio vermelho, somente por chorarem doloridas de fome +e frio e ínfima indigência, sem carinho e sem pão, sem um leve consolo, que +conforte e que alegre e vivifique dum reflexo de divina essência o corpo +enfermo e a empedernida e bruta animalidade.</p> + +<p>Longas horas depois de ter deixado os coitos dessa escoria penitente que +sofre e geme em vão nos seus infernos, sem alcançar mover à misericórdia os +soberbos e grandes que em seu fausto, emudecida e cega a consciência, lhe +negaram justiça, ainda ouvia insistente o clamor desse tormento louco das +crianças.</p> + +<p>E nenhum mais cruel tenho encontrado!</p> + +<p>Em nenhum—e são muitos entre os homens! encontrei maior dor e +perversão.</p> + +<h2><a name="SECTION00242">II</a></h2> + +<p>Se o Estio esgotou fontes e rios e secou a campina, a ave infeliz, que tem +filhos no ninho a sustentar, e em vão moureja, diligente e muda, por todo o +abrasado e ingrato espaço, tem de voltar<span class="pn">{95}</span> ao poiso +desprovida. Mas não castiga essas famintas bocas que a esperam, gritando e +atribuladas, a pedir-lhe o alimento que não pode dar-lhes, pois lho recusam os +calcinados campos adversos. Sofreu resignada o suplício, a fome, a sede, e a +amarga invocação dos que um mau sestro confiou ao seu amparo.</p> + +<p>Se o leite seca ao animal bravio, por qualquer contingência da sua sorte, +oferece o peito exausto ao filho débil, todo o seu sangue quereria dar-lhe; e +sentindo-o a morrer de inanição, responde com os carinhos ao queixume da +vergontea que vai a definhar, aquece-a junto ao corpo, mas jamais se abandona a +ímpetos de cólera, só porque um ser amado lhe suplicou, inquieto, angustiado e +lacrimoso, o mantimento que carece para viver.</p> + +<h2><a name="SECTION00243">III</a></h2> + +<p>Que estranha aberração induziu o homem a negar a robusta caridade, comum, +vulgar, no peito inconsciente?!... Que estranha perversão o fez acrescentar à +indigência a crueldade, torturando, somente por lhes sentir as agonias, aquelas +mesmas vidas que criou, carne da sua carne, almas da sua alma?!...</p> + +<p>Discípulo de Cristo a quem adoras, por comunhão<span class="pn">{96}</span> +na sua vontade e anseio erguido à plena luz do entendimento que te mostrou +irmãos nas ínfimas partículas, na argila e na poeira, como no coração, na rosa +e em tudo quanto existe! Senhor soberano dessas forças terrenas formidáveis que +dominaste e trazes por escravas em proveito do teu gozo e teu triunfo, +convertendo-as do terror à mansidão, dócilmente vergadas ao capricho!... Por +maldição de trágico império, em tenebrosa queda degradado, foste sujeito, +louco, em teu orgulho de virtude e de crença e de isenção, a repassar de fel a +dor dos próprios filhos!<span class="pn">{97}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00250">PROFISSÃO DE FÉ</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00251">I</a></h2> + +<p>Não ajoelhei no adito do templo e, como o filho querido do poeta, fiquei +também de pé, rebelde e incrédulo, «quando um povo fiel na sombra das abobadas +se curvava ao passar de cânticos celestes, tal qual se verga a multidão das +canas quando sobre elas sopra o vento norte.»</p> + +<p>Irreverente e altivo, passei coberta a fronte por monumentos altos, +insensatos, em que orgulhosa demência de grandezas, poluindo com o fausto a +divindade, num estranho tumulto de blasfémia e súplica, de mentira e verdade, +de confissão ingénua e de impostura, pôs o sinal da cruz e da oração ao sagrado +retiro em que confunde religião, vaidade, amor e ódio, fanatismo e doçura, +mansidão, crueldade, perdão, vingança, cobardia e coragem, o nobre e o mísero, +o sacripanta e o santo.</p> + +<p>Muita vez me afastei desse desvairo, satânica traição, em que o resplendor +de Deus no cálice e<span class="pn">{98}</span> na hóstia se empana esmorecendo +em nuvens de vileza que derramam em torno a escuridão da impiedade e das +paixões mundanas.</p> + +<h2><a name="SECTION00252">II</a></h2> + +<p>Mas não te desamei, Senhor, porque assim fiz!...</p> + +<p>Sempre que o coração tentou seus voos de candura, sempre que se sentiu +sujeito a forças sobre-humanas para as servir guardando os seus mandados, no +remorso e na dúvida, em todo o penar de angustia e em toda a esperança, em +afecto e ternura, em sonhos de pureza, aspirando ao enlevo no Eterno, cansado +deste mundo de fraqueza, ergui olhos chorosos ao azul, onde cintilam astros +diamantinos, e invoquei-te, Senhor, meu Deus e Pai, a ti «que estás nos céus, +nome santíssimo, para que tu me acolhas no teu reino e eu fielmente cumpra a +tua vontade; para que me dês o pão de cada dia e me perdões quanto te dever, +assim como aos meus devedores também perdoo; para que afastes de mim a tentação +e de todo o mal me livres para sempre.»</p> + +<p>E fui humilde então!... Nesses altares me despi totalmente da soberba e +ajoelhei prostrado, submisso, a escutar tua voz e a adorá-la, religioso, +confiado e crente, curvado como o canavial vergado ao vento.<span +class="pn">{99}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00260">DRÍADE ENFERMA</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00261">I</a></h2> + +<p>Pelo musgoso atalho da floresta, entre o tojo bravio e urzes austeras, fui +saciar meus olhos na beleza e reanimar o corpo na carícia que o sol esquivo e +brando de Dezembro frouxamente derrama através da espessura do pinhal.</p> + +<p>A custo ia abrandando o frio da manhã. São curtas nesse tempo as horas +tépidas. Mal se fundiram os gelos da derradeira noite, logo vem renová-los mais +profundos a palidez de frígidos crepúsculos.</p> + +<p>Experiente, já certo dessa lei que dos astros nos vem e é impreterível, +sorvia com avidez a delícia breve que eu sentia fugaz, quase uma ilusão de +transitórios sonhos luminosos.</p> + +<p>E lembrava o Estio e a primavera!... Ali, naquela mesma floresta, ali +busquei abrigo da violência dos abrasados dias inflamados pela calma do mês de +Santiago. Ali me defenderam dos seus<span class="pn">{100}</span> fogos as +vastidões umbrosas impenetráveis. Ali ouvi passar no vale vizinho o sussurrar +das águas que corriam a reanimar o prado emurchecido por aturadas horas +refulgentes. Ali senti esse leve sorrir vindo da terra, desprendido dos +borbotões das fontes do seu seio para redimir a vida extenuada, desfalecida à +míngua de frescor.</p> + +<p>Ali encontrei passando ao entardecer, em sua plena graça juvenil, como se +alada rosa eu entrevisse, a moça que subia das lenturas fecundas do juncal a +regalar seus gados com o pascigo, entre cantares ceifado alegremente, vibrando +firme a foice, despiedosa, a traçar nos seus dentes a bonina mais branca, e o +malmequer, e a mais esbelta haste do azevém onde já despontavam as palmas +rígidas em que guarda a semente.</p> + +<p>E eis que de novo a encontro agora na floresta, a essa mesma dríade que +outrora, em perfumadas horas estivais, passou por mim turvando-me os sentidos +de súbito embebidos, cativados, na gentil maravilha de seus gestos.</p> + +<p>Mas quanto vem diferente e vem mudada!...</p> + +<p>Que é da graça subtil que a envolvia, envolvendo na sua formosura os olhos +confundidos, fascinados do latejar sadio que igualava o florir ingénuo da +açucena?!...</p> + +<p>Filha da terra e sua humilde serva, também ela conhece o outono e o inverno; +também arrasta penas e fraquezas; também se empobreceu de seus<span +class="pn">{101}</span> enleios. Não fugiu ao rigor da lei comum. Enferma, traz +enfermo o seu encanto; vai quebrada a magia do seu poder divino. Curvada sob o +feixe de duros ramos secos que para seu conforto esforçada colheu de orgulhosos +robles, castigada a frescura rosada dos seus braços pelos espinhos ímpios dos +silvados, tisnada a face pela aspereza cortante das manhãs, é agora a lenheira +paciente, mortificada e débil, imagem do trabalho e do sofrer, aquela ceifeira +airosa que ainda há pouco foi para mim missionário feliz da alegria sagrada de +viver, afortunada voz e alto pregão das seduções da terra, claro espelho de +todo o seu amor.</p> + +<h2><a name="SECTION00262">II</a></h2> + +<p>Se em toda a vida passa a enfermidade, se a formosura é incerta, e se o +lírio e a estrela e a nuvem e o mármore mais duro, e a alegria e o riso e a +doçura infinita da bondade e a própria luz do sol são perecíveis; se a criação +inteira que os olhos vêem e que a nossa alma sente, toda a beleza íntima e a do +mundo, decai e desfalece, sofre e se apaga: se só tu és eterno, Senhor! em tua +caridade e teu saber, e se a suprema harmonia, que é o teu sonho, não distingue +o prazer e a dor, a caricia, o flagelo, a rosa e o cardo, por igual +divinos<span class="pn">{102}</span> em teu divino ser—se é esse o teu +querer, bendita seja a hora em que encontrei a dríade enferma do inverno que em +seu dissipado encanto e em sua mágoa correu a ensinar-me a crer em teus +desígnios e me segredou louvor e obediência, a inteira abdicação em teu +mistério!<span class="pn">{103}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00270">MONJAS DO OUTONO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00271">I</a></h2> + +<p>Ouvi cantar no monte as urzes roxas.</p> + +<p>Cantavam ao romper de alva, ainda banhadas do cintilante orvalho da manhã +que pela noite calada e arrefecida as estrelas pousaram nos seus braços, +trigueiros como a terra onde se criam.</p> + +<p>Cantaram ao cair da tarde, iluminadas por brazeiros corados do poente que o +tumultuar das nuvens inflamou, ao longe, sobre o mar, no extremo horizonte.</p> + +<p>E enquanto assim cantavam nos seus bandos, vagabundos das fragas e dos +seixos, cobriam toda a terra da sua purpura, esmorecida e branda, tímido +murmúrio da vermelhidão que hesita em seu clamor e teme ferir quando só quer +dar vida.</p> + +<p>Cantavam livres percorrendo a gândara rasa onde nem um desgarrado arbusto se +afoitou a erguer mais alto o ramo castigado, sem remissão votado a rastejar +porque o pascer contínuo dos<span class="pn">{104}</span> rebanhos mais não +consente. Pelos recessos húmidos das grutas, sob a curvada abobada do roble, +entre ogivas audazes dos pinheiros, na alumiada encosta que conduz à azenha +encastelada sobre o rio, ou adornando frígidos penhascos que só conhecem os +rigores do norte—cantaram sempre e com a mesma voz as urzes roxas, monjas +do outono.</p> + +<p>Conformada doçura bem casada com o declinar das pompas do Estio, renuncia da +opulência, resignação entre a pobreza árdua do inverno que o encurtar do dia já +promete, um sereno caminhar para a austeridade, aquele desprendimento +sobre-humano que descreu das grandezas deste mundo, da ansiosa tormenta da +ambição, e procura o resgate em singeleza—tudo eu ouvi cantar às urzes +roxas, monjas do outono bem-aventuradas, que aos olhos me trouxeram suavidade +entre ameaças ríspidas da aspereza e a minha alma engrandecem conduzindo-a aos +reinos religiosos da sua paz.</p> + +<h2><a name="SECTION00272">II</a></h2> + +<p>Senhor! Tu que me consentiste a graça de escutar a voz bendita com que no +outono as urzes roxas vem a libertar-nos das dores de embriaguez obcecada que +pôs sua ambição em querer<span class="pn">{105}</span> muito, em vez de a +consagrar à fortaleza de se sujeitar à lei que em teu mistério deste ao +universo, não permitas, Senhor, que eu desfaleça! Enquanto a minha jornada não +findar, que eu não deixe jamais de te escutar no canto benfazejo das urzes +roxas, monjas do outono!</p> + +<p>Possa eu beber com elas no seu cálice a suave resignação da sua pobreza, seu +valoroso animo que afronta, cantando e derramando suavidade, pressentimentos +que aos demais oprimem, esse cair da noite do inverno, seus flagelos, suas +privações, o gelo, a morte, todo o seu cortejo de crueldades sem fim, +inexoráveis!<span class="pn">{106}</span><span class="pn">{107}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00280">A TERRA ESCRAVA</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00281">I</a></h2> + +<p>Esta terra que no homem tem o escravo e, toda poderosa, o traz curvado a +amá-la, essa mesma por sua vez foi também escrava quando, obediente e humilde, +serve o esposo ao qual sorri ansiosa e abre o seu seio.</p> + +<p>Há-de rasgá-la o aço da charrua para que a seara acorde nos seus sulcos; e +há-de a foice resplender, ceifando o pão, para que ela aos servos dê o seu +sustento. Se esse beijo de amor a não alenta, jaz infecunda, endurecida e nua, +como triste proscrita da alegria, desamparada à beira do caminho, em vão +sonhando caridade e gloria.</p> + +<h2><a name="SECTION00282">II</a></h2> + +<p>A escravidão é a tua lei, Senhor! A ninguém que tu ames a ocultaste. É o +mantimento e guia<span class="pn">{108}</span> da jornada que à tua fé nos +leva. Nem a estrela mais rútila dos céus deixou de ser escrava de outra +estrela. Sintam os meus pulsos todas as algemas que me acorrentem a esse teu +querer de fecunda bondade, sujeitando o meu ser a outro ser e perfazendo assim +a vida eterna do amor e da humildade! Sirva-as o sangue, dê-lhes o calor!... +Adore-as meu coração!... Por elas se resgate da treva das tristezas e das dores +em que o solitário orgulho pena a culpa!<span class="pn">{109}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00290">MISTÉRIOS DE CERES</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00291">I</a></h2> + +<p>O nocturno ulular do negro inverno solta no pinheiral espectros clamorosos. +Abrigam-se refugiados nos casais, em volta da viva chama que os aquece, os +tímidos foragidos da tormenta e os colos que acalentam criancinhas.</p> + +<p>E, heroicamente, afrontando a rudeza da inclemência, despontam nas campinas +os trigais. E, alegremente, esvoaçam na levada alvas farinhas, bailando o seu +delírio sob os colmos que protegem a azenha sonorosa. E, ardentemente, o +brazido dos fornos vigilantes fabrica no seu fogo o doce pão que, quando +alvorecer, nos reanime para seguirmos na terra essa jornada da via dolorosa, +via ingrata.</p> + +<p>São os mistérios de Ceres que do seu seio destila o abençoado leite que +amamenta os infinitos bandos dos seus filhos.</p> + +<p>A terra, o fogo, a água e o nosso braço, quanto<span class="pn">{110}</span> +a criação sonhou de grande e belo e santo e generoso, desde a fecundidade casta +duma leiva até ao nosso alento, consumido pela consciência do dever +cumprido,—todos Ceres arrastou em seu mistério, todos são seus escravos, +obreiros dóceis, servos diligentes da sua caridade. E a sua esmola, o pão, que +por igual aviventa nos berços a inocência, renova a energia ao cavador, e +piedosamente desce às geenas túrbidas dos míseros proscritos que em desgraça e +no crime resvalaram—o pão gerado para criar o sangue é também sacramento +que une a alma a todas as divinas forças que o geraram, partícula de +insondáveis mundos e infinitos de poder e de amor.</p> + +<p>O inspirado rude plebeu que, se o pão caiu no chão, o ergue e o beija, +consagrou na candura religiosa esse mistério que une a nossa alma à terra e aos +céus e só a religião suspeita e adora.</p> + +<h2><a name="SECTION00292">II</a></h2> + +<p>Conduzi-me, Senhor, ao altar de Ceres! Ensinai-me sua graça e os seus +mistérios! Assim como o pão renova no meu sangue o calor que o agita e o move e +o fortalece, fazei, Senhor, que ele nutra também meu coração para sentir, +prostrado em<span class="pn">{111}</span> gratidão, tua eterna bondade +generosa! Que por meu braço o louve e engrandeça!... Que, curvado, lhe tribute +o suor do rosto!...</p> + +<p>É o teu mensageiro o mais fiel. Seja eu o seu servo o mais humilde! Pois +que, servindo-o, Senhor, te glorifico e em ti resgato a miseranda vida.<span +class="pn">{112}</span><span class="pn">{113}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00300">HORAS DO MEU PEITO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00301">I</a></h2> + +<p>Fica à beira do rio o campanário que do alto da sua fortaleza conta as horas +da vida passageira em que ao redor se agitam ou repousam os campos remansosos e +os vilares, afadigados na fadiga humana. E quantas horas caem do bronze, lento +e sonoro, que as solta ao vento, ou tormentosas sejam ou benignas, leva-as o +rio para o mar profundo, na sua imensidade vão perder-se.</p> + +<h2><a name="SECTION00302">II</a></h2> + +<p>Assim caudais de amor, e esses somente, me recebessem horas do meu peito, +quantas meu coração puder contar, ou na mágoa e na dor ou na alegria, e todas +elas as levassem celeres, na candidez das águas baptizando-as, a perder-se, +Senhor, na imensidade da bondade infinita do teu seio!<span +class="pn">{114}</span><span class="pn">{115}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00310">ÁGUAS VIÚVAS</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00311">I</a></h2> + +<p>Não distantes do mar, entre rochedos, brotam as águas que, em seu breve +curso, desoladas se internam na aridez, até que de todo as bebe o areal adusto +e as confunde perdidas na amargura de ondas salgadas que destroem e queimam.</p> + +<p>Foi-lhes árduo o caminho. Apenas surgem da terra e viram o dia, encontraram +a fragura impenetrável, madrasta avara de mirrados líquenes. Depois, como +cativos escoltados por alcantis que os cingem ao caminho apertado no sombrio +vale estreito, nem sequer por momentos gloriosos sentiram a liberdade das +campinas que amorosas quisessem e se exaltassem em seu fecundante afago. Por +fim, engolfando-se em mares insaciáveis, estéril se dissipa para sempre esse +anseio de amor que prometia a rosa e o trigal e a sombra viridente e que, +infeliz, nasceu só para sofrer, por negra sorte cedo condenado a jamais se +expandir<span class="pn">{116}</span> em formosura e nunca amassar o pão que +mata a fome. Malfadadas, essas águas das fontes junto ao mar beijaram o +pequenino campo minguado entre rochas rebeldes e soberbas, e eis que o mar as +vem beber e logo as lança nas suas profundezas insondáveis.</p> + +<p>Foi seu destino serem infecundas!</p> + +<h2><a name="SECTION00312">II</a></h2> + +<p>«Águas viúvas!» disse o cavador. «Na vida não tiveram quem as ame. São +viúvas do chão que as recebesse no seu seio profundo e generoso para as +restituir á luz em flores e em frutos, para vestirem de doçura a terra, para +salvarem da fome os que a padecem, para se alargarem em lagos dos açudes e para +cantarem na levada alegre seu louco impulso, todo o seu folgar».</p> + +<p>E o cavador cismava na sua leiva, naquela que rasgara no bravio, e era +regada só do suor do rosto e pelos orvalhos breves da manhã, e em dias +tormentosos dilacerada pela rispidez de invernos inclementes, severos, tanto ou +mais que o sol de Julho. Por que erro ou mistério chorava ali a água a viuvez +dum benigno chão que a desposasse, e lá no cimo do monte o campo pobre +desfalecia à mingua da lentura que lhe acordasse<span class="pn">{117}</span> +os germes e os trouxesse a viverem a gloria de crescer?!...</p> + +<p>E o poeta, ao ouvir o cavador, pensou na viuvez das almas que no mundo, +nascidas para a bondade e para o amor, voam seus voos na ruindade agreste dos +egoísmos míseros dos homens e, à mingua de almas irmãs que lhes recebam seus +anseios fecundos de carinhos, mirram-se estéreis entre desenganos, e do mundo +se apartam dissolvido o seu desditoso anseio benfazejo nas profundezas da +desilusão.</p> + +<p>Por sua vez incerto e compungido, tremendo da desgraça dos infernos onde +penam os corações desamparados que em desventura nunca sentem irmãos pulsando a +par do seu pulsar de amor, o poeta responde ao cavador:</p> + +<p>«Por que erro ou mistério do destino, andam perdidos e, chorando, sofrem a +viuvez duma ternura irmã da que os alenta e ampara e os ergue a Deus, os +corações que amam sem encontrarem amor que o seu fecunde e alimente para o +florir em bênçãos e consolo dos que em desdita esmolam esses bens?!...»</p> + +<h2><a name="SECTION00313">III</a></h2> + +<p>Isentai-me, Senhor, do atroz martírio que o coração sedento de bondade +padece nesta vida<span class="pn">{118}</span> quando à sua voz só responde a +dureza das paixões e uma cobiça ardente, insaciável! Roubai-o a essa cruz, toda +de espinhos, em que rasgado se desfaz e muda um infinito amor em amarguras! +Ensinai-lhe, Senhor, a fortaleza e que, entre o desamor que o perseguir, saiba +ao menos amar a desventura!<span class="pn">{119}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00320">PUREZA AMARGA</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00321">I</a></h2> + +<p>A pureza que a neve da montanha desprendeu gota a gota em claro fio, era +doce nas pedras do regato onde o pastor bebia o refrigério das canseiras do +monte e do rebanho.</p> + +<p>E correu, correu sempre clara e doce, enquanto se despenhou de fraga em +fraga, apressada, descendo ao horizonte que distante a chamava e a seduzia.</p> + +<p>E foi doce ainda quando se juntou ao largo rio em que os cinceirais +encaminhavam brandamente ao mar, entre verduras tenras rumorosas, as +diamantinas, fúlgidas, correntes de peregrinas águas caudalosas.</p> + +<p>Até que ao fim entregue à imensidade, porque ansiava louca de paixão, e a +que corria desde o seu nascer, na pureza de neve assim lançada às convulsões +das vagas sem repouso, transmudou-se em travoso amargor de ondas salgadas<span +class="pn">{120}</span> quanta doçura tinha no seu cálice—como se por +vontade e obra divina essa pureza que nos foi doçura, irmãmente nos dê sua +amargura.</p> + +<h2><a name="SECTION00322">II</a></h2> + +<p>Senhor! Fosse a amargura o preço da pureza!... E eu quereria que quanta +amargura em todo o mar se encerra, toda ela coubesse no meu peito, se por ela +pudesse converter meu coração, turvado de paixões, na virgínia pureza que se +gera da neve cristalina da montanha.<span class="pn">{121}</span></p> + +<h1><a name="SECTION00330">TIRANIA DO FOGO</a></h1> + +<h2><a name="SECTION00331">I</a></h2> + +<p>Após um breve e pálido crescente perdido além, ao longe, sobre o mar, na +cerrada treva que se lhe seguiu, fulguram tragicamente as labaredas do incêndio +que se ateia na montanha e enegrece o pousio, raso e nu, em toda a vastidão +onde implacável o fogo apascentou os mortíferos rebanhos das suas chamas. É +cinza a urze que tingiu de púrpura a aspereza mais ingrata dos fraguedos. É +cinza o tojo que arrojadamente floriu doirando, de oiro precioso, o chão ainda +gelado de Dezembro. E os renovos do sobro e o pinheiral, que entre os seixos +avaros despontavam, em cinzas converteram a curta e tenra vida das suas +hastes.</p> + +<p>A tirania do fogo em sua gloria toda a beleza esquece e todo o bem. Em sua +austeridade e em seu mistério, enquanto nos fascina e nos subjuga, ou nos +avivente e exalte em manso alento ou em delírio lavre devastando, tem por +escrava<span class="pn">{122}</span> toda a formosura, dissipa-a sem piedade em +seus altares. A flor que canta a aurora e é o seu sacrário, a árvore que ao +peregrino deu sombras e pomos, sumas riquezas, sumas alegrias desta vida mortal +dos nossos olhos—são pó e em pó se volvem, se a pureza do fogo as +inflamou.</p> + +<h2><a name="SECTION00332">II</a></h2> + +<p>Ser escravo, Senhor, é o meu anseio! Libertai-me o meu peito da miséria dos +mundos vãos de vãs aspirações da vaidosa existência corruptível, e convertei-me +em cinza o coração, na tirania de um amor ardente, por ele purificado e +consumido—assim como o fogo abrasa o cedro e o roble, em chamas gloriosas +redimindo na luz, que é vida eterna, do transitório orgulho da opulência que se +nutriu das seivas da floresta!</p> + +<p style="text-align: center;">FIM</p> + +<p> </p> +</div> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{123}</span></p> + +<h2><a name="SECTION00340">ÍNDICE</a></h2> +<ul class="TofC"> + <li><a name="tex2html110" href="#SECTION0010">ROSAS DO MEU CAMINHO</a></li> + <li><a name="tex2html113" href="#SECTION0020">AS TAÇAS DO BANQUETE</a></li> + <li><a name="tex2html116" href="#SECTION0030">A DOR E A VIDA</a></li> + <li><a name="tex2html122" href="#SECTION0040" id="tex2html122">MAIS FORTE QUE + O MAR</a><a name="tex2html125" href="#SECTION0043" + id="tex2html125"></a></li> + <li><a name="tex2html1251" href="#SECTION0043" + id="tex2html1251">HUMILHAÇÃO</a></li> + <li><a name="tex2html128" href="#SECTION0050">BÊNÇÃO DO POENTE</a></li> + <li><a name="tex2html131" href="#SECTION0060">O SONO DO TRIGAL</a></li> + <li><a name="tex2html134" href="#SECTION0070">TERRA LACRIMOSA</a></li> + <li><a name="tex2html138" href="#SECTION0080">CULTO DE QUIMERAS</a></li> + <li><a name="tex2html141" href="#SECTION0090">ANSEIO DA MANHÃ</a></li> + <li><a name="tex2html144" href="#SECTION00100">A ASA DO REMORSO</a></li> + <li><a name="tex2html147" href="#SECTION00110">SERVAS DA LUZ</a></li> + <li><a name="tex2html150" href="#SECTION00120">TROFÉUS DO ESTIO</a></li> + <li><a name="tex2html153" href="#SECTION00130">LOUCOS DE HUMILDADE</a></li> + <li><a name="tex2html157" href="#SECTION00140">ORAÇÃO DOS LARES</a></li> + <li><a name="tex2html160" href="#SECTION00150">CANTARES DAS SEBES</a></li> + <li><a name="tex2html162" href="#SECTION00160">COMPANHEIRO E GUARDA</a> </li> + <li><a name="tex2html163" href="#SECTION00170">REINO INFINITO</a></li> + <li><a name="tex2html166" href="#SECTION00180">PODERES DA TERRA</a></li> + <li><a name="tex2html169" href="#SECTION00190">PERPETUAS DO ROMEIRO</a></li> + <li><a name="tex2html172" href="#SECTION00200">PODER DO VERBO</a></li> + <li><a name="tex2html175" href="#SECTION00210">UNÇÃO DE GLORIA</a></li> + <li><a name="tex2html178" href="#SECTION00220">SACRO HOLOCAUSTO</a></li> + <li><a name="tex2html181" href="#SECTION00230">SAGRAÇÃO DO ESCRAVO</a></li> + <li><a name="tex2html184" href="#SECTION00240">MALDIÇÃO</a></li> + <li><a name="tex2html188" href="#SECTION00250">PROFISSÃO DE FÉ</a></li> + <li><a name="tex2html191" href="#SECTION00260">DRÍADE ENFERMA</a> </li> + <li><a name="tex2html194" href="#SECTION00270">MONJAS DO OUTONO</a> </li> + <li><a name="tex2html197" href="#SECTION00280">A TERRA ESCRAVA</a> </li> + <li><a name="tex2html200" href="#SECTION00290">MISTÉRIOS DE CERES</a> </li> + <li><a name="tex2html203" href="#SECTION00300">HORAS DO MEU PEITO</a> </li> + <li><a name="tex2html206" href="#SECTION00310">ÁGUAS VIÚVAS</a> </li> + <li><a name="tex2html210" href="#SECTION00320">PUREZA AMARGA</a> </li> + <li><a name="tex2html213" href="#SECTION00330">TIRANIA DO FOGO</a> </li> +</ul> + +<p><span class="pn">{124}</span></p> + +<p> </p> + +<table summary="Obras publicadas pelo editor."> + <tbody> + <tr> + <th colspan="2">Casa Editora de A. Figueirinhas</th> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">PORTO</th> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Paulo Combes</th> + </tr> + <tr> + <td><strong>O Livro da Esposa</strong>, br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>O Livro da Dona-de-Casa</strong>, br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>O Livro da Mãe</strong>, br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>O Livro da Educadora</strong>, br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Jaime de Magalhães Lima</th> + </tr> + <tr> + <td><strong>Rogações de Eremita</strong>, br.</td> + <td>300</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">José Agostinho</th> + </tr> + <tr> + <td><strong>A Mulher em Portugal</strong>, br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>O Caminho das Lágrimas</strong>, br. 600, enc.</td> + <td>800</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>Cristo</strong> (Poema), 1.º vol. br.</td> + <td>500</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>A Religião e a Arte</strong>, br.</td> + <td>100</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Frederico Mistral</th> + </tr> + <tr> + <td><strong>Mireia</strong>—Tradução de João Aires de Azevedo e + Manuel Teles—br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Bossuet</th> + </tr> + <tr> + <td><strong>Sermões</strong>, vol. I, br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>Sermões</strong>, vol. II, br. 500, enc.</td> + <td>700</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Maria Pinto Figueirinhas</th> + </tr> + <tr> + <td><strong>Contos das Crianças</strong>, br. 300, enc.</td> + <td>500</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>O Livro das Maravilhas</strong>, br. 300, enc.</td> + <td>500</td> + </tr> + <tr> + <td><strong>Os Serões das Crianças</strong>, br.</td> + <td>100</td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Pedir Catálogos da Casa Editora de A. + Figueirinhas—Porto</th> + </tr> + <tr> + <th colspan="2" style="font-size: 0.8em;">DEPOSITÁRIO GERAL:</th> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Livraria Portuense LOPES & C.ª—Sucessor</th> + </tr> + </tbody> +</table> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Rogações de Eremita, by Jaime de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ROGAÇÕES DE EREMITA *** + +***** This file should be named 29884-h.htm or 29884-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/9/8/8/29884/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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