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+Project Gutenberg's Rogações de Eremita, by Jaime de Magalhães Lima
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Rogações de Eremita
+
+Author: Jaime de Magalhães Lima
+
+Release Date: September 1, 2009 [EBook #29884]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ROGAÇÕES DE EREMITA ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano
+
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+
+ JAIME DE MAGALHÃES LIMA
+
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+ Rogações de Eremita
+
+
+ CASA EDITORA
+ DE
+ A. FIGUEIRINHAS
+
+ PORTO
+
+
+ Empresa Gráfica "A Universal".--Porto.
+
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+
+HOMENAGEM DO EDITOR
+
+Rogações de Eremita
+
+
+ Composição e impressão
+ Empresa Gráfica «A UNIVERSAL»
+ de Figueirinhas & Mota Ribeiro, Lda.
+ --Rua Duque de Loulé, 111--Porto.--
+
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+
+Jaime de Magalhães Lima
+
+
+Rogações de Eremita
+
+
+ CASA EDITORA de A. FIGUEIRINHAS
+ Deposito geral:
+ Livraria Portuense de Lopes & C.ª--Suc.
+ 119, Rua do Almada, 123--Porto.
+
+
+
+
+_No ermo que eu percorro neste mundo,--ermo de corações cativos dos meus
+sonhos--ao suplicar dos céus a claridade na qual a alma habite e se
+engrandeça, deixei na terra gotas do meu sangue, onde a dor o soltou do
+peito ansiado por abundância de erros e de culpas e por amargura de
+infinitas mágoas, e onde jorrou seus cantos de alegria em louvor e
+contemplação da beleza eterna._
+
+_E, como assim vulnerável tenha sido, misteriosa comunhão uniu-me
+àqueles, solitários e crentes, que na cruz da aspiração também sofreram.
+Muitas vezes me guiou o rasto estranho, se porventura o vi ensanguentado
+de sangue igual ao meu pela paixão que o derramou em oferenda a altares
+de amor. São rogações de todos esses passos as que neste livro traduzi e
+confesso para quem no mesmo error se houver perdido ou se tiver remido
+em iguais enlevos._
+
+
+
+
+ROSAS DO MEU CAMINHO
+
+
+I
+
+Parei no meu caminho a colher rosas. No doce esplendor da sua gloria,
+brotavam purpurinas entre o cômoro renovado no viço pelo outono. E o sol
+brando que vinha do nascente, e a palidez do céu já esmorecido do seu
+fulgor candente do Estio, e a atmosfera quieta e orvalhada, e o silencio
+do campo onde desponta o prado que no inverno o cobre e é a sua
+túnica,--cantavam com as rosas a doçura e em minha alma infundiam
+subtilmente os salutares enlêvos dos seus sonhos.
+
+Acordou-me de encantos a pobreza. Alguém, passando, me estendeu a mão,
+mirrada e pálida de fadiga e fome. Ouvi um brando murmurar de suplica; e
+o coração turvado de piedade transmudou em misericórdia o seu deleite.
+Um resplendor mais alto escurecera a cintilação da terra em seu fulgor.
+
+Levei comigo as rosas que colhi, para me alentarem de um sorrir ingénuo
+meu peito ferido na jornada agreste em que dolorosamente se consome
+sangrando magoado de perversidade, de ódios, de mentira, de quanto
+avilta os homens desvairando-os nos seus cruéis infernos de cobiças. Mas
+sempre que senti a rosa bafejar-me, senti perpassar também vozes
+mendigas. Por singular magia, confundi em uma só aspiração e um só amor
+as rosas e a pobreza.
+
+
+II
+
+Senhor! No meu caminho entretecei as rosas na pobreza, para que,
+adorando em extasi vosso encanto, eu adore também as vossas dores e o
+meu peito comungue da miséria! Que todo o meu coração se enleie e prenda
+nas grinaldas, Senhor, com que coroais de espinhos e de rosas vossos
+servos; e que, enquanto sentir deleite infindo na doçura que sobre a
+terra semeastes, eu vos seja fiel inteiramente sentindo ao mesmo tempo e
+em igual fervor toda a infinita agrura da desgraça.
+
+
+
+
+AS TAÇAS DO BANQUETE
+
+
+I
+
+No banquete da vida em que o destino me deu lugar onde os prazeres
+abundam e os regalos são o pão quotidiano, provei das suas taças mais
+queridas e vi meus companheiros de igual sorte ora erguidos na sua
+embriaguez ora prostrados pelos seus travores.
+
+Riquezas, ambições, paixões, gloria, amor, as taças mais cobiçadas do
+banquete, a todas eu senti o seu sabor, todas vi disputadas com ardor e
+todas continham gotas de amargura, os traiçoeiros bens das alegrias cedo
+mudadas em desengano e dor.
+
+Vi a riqueza inútil perante a morte, assistindo impotente à corrupção do
+corpo que no seu ser trazia os filtros de fatal caducidade inexorável.
+Vi ambições gerando em seus triunfos ambições maiores ainda,
+insaciáveis, de contínuo torturando suas vitimas, de degrau em degrau as
+elevando até que do mais alto as precipitam no torvo abismo das
+desilusões. Vi as paixões mirrando-se exauridas, em vergonha, em remorso
+e inanidade, o orgulho aviltado nas fraquezas; vi a gloria a desfazer-se
+em fumo e apedrejando hoje por infames os que ontem beijara por heróis e
+em seus altares pusera como deuses. Vi transmudar-se amor numa mentira,
+a sua fé perjura na traição; vi a ternura magoada em lágrimas. E até a
+própria humildade, desprendida dos enganos do mundo, a mais pura das
+taças que anjos bons dos céus trazem à terra para remir quantos na terra
+penam suas penas, até a própria humildade eu vi chorar porque, salvando
+os bem-aventurados em cujo coração habita e resplandece, não lhes pôde
+poupar a compaixão de quantos desfalecem no martírio, pois,
+desventurados, não partilham das bênçãos da alegria no Senhor, naquela
+conformidade austera e santa que é a nossa redenção suprema e única.
+
+
+II
+
+Senhor! Sê piedoso! Socorram-me os teus anjos. Reanimem-me em cálices de
+vida; humedeçam-me os lábios na tua paz; iluminem-me o mundo na tua luz.
+
+Afasta dos meus passos esse espectro que me enegrece de terrores as
+noites, essa sombra de gélidas vigílias que me murmura o desespero e
+a dúvida, e, rindo dos meus sonhos piedosos, repete escarnecendo
+cruelmente:
+
+Doçura! louco, só na morte a encontras!
+
+
+
+
+A DOR E A VIDA
+
+ Na mão de Deus, na sua mão direita,
+ Descançou afinal meu coração.
+
+ ANTERO DE QUENTAL.
+
+
+I
+
+Turvou-se de amargura a alma do poeta quando, sentindo o vento do outono
+anunciar tormenta e escuridão, viu as aves felizes, cautelosas,
+abandonarem campos e florestas e partirem velozes à procura de terras
+sorridentes, animadas pelos carinhos tépidos do sol.
+
+Já não tardava a cerração das neves, mortalha e sepultura dessas vidas
+que ao poeta exaltavam o espírito e o corpo, pelo rumor, verduras e
+perfume, pela graça, pela força e pela opulência, pelo florir de
+impulsos da sua seiva.
+
+Vai a esconder-se tudo o que o inspira. A esperança do peregrino
+desfalece à mingua do sustento e do conforto sorvido a jorros no calor
+do Estio, incensado de aromas e reflectindo os delírios da cor
+pulverizada. Onde irá saciar a sede ardente de intenso resplendor que
+lhe alimente as cobiças profundas do seu ser? Porque foi acorrentado
+à imobilidade, porque não foge, como a ave foge, àquilo que o oprime e o
+ameaça? Porque não lhe foi dada a asa vibrante que percorresse espaços
+infinitos, de céu em céu, sem nunca se afastar dum translucido puríssimo
+azul? Que culpa lhe forjou essas cadeias que sujeitaram o mísero forçado
+a rastejar exposto à contingência das estações altivas, sem piedade,
+queimando sob o sol canicular, sufocando nos gelos a expansão,
+inflexíveis, mudas, ignorando o desejo dos homens e as suas mágoas, para
+prosseguirem no combate austero da suprema beleza que sonharam? Porque,
+liberta, a ave se eximiu a padecer igual escravidão?!...
+
+Sucumbido, cismando tristemente, ao escutar o sibilante agoiro da
+tormenta, vendo o bando das aves em demanda de benignas terras generosas
+que aos seus amores lhes dessem agasalho e em doçura fecunda fossem
+pátria aos ninhos embalados pelo canto de pequeninos peitos ansiados, o
+poeta chorou a sorte negra que o entregava às penas do inverno.
+
+
+II
+
+E dentre brumas frias, apressando precocemente a noite de Novembro, veio
+beija-lo cândida e singela, na palidez etérea que é o seu manto, a
+Dor, a companheira do poeta.
+
+E disse:
+
+--«Nunca ninguém te amou como eu te amei! Nunca ninguém te deu ao
+coração inquieto mais alto arrojo e mais sagrado êxtase. Só por mim
+alcançaste renascer naquele renascimento do Apostolo em que o sangue se
+isenta de veneno e se converte em filtro do amor. Quantas rosas colheste
+no caminho, quanto perfume te turvou os sentidos, visões do paraíso,
+toda a atracção, toda a harmonia, todo o laço, felicidade, risos e
+ternuras, tudo para ti foi breve e se afogou nos abismos mortais donde
+surgira, abandonando-te errante, ao desamparo, no louco vaguear do
+coração. Só por mim fez sacrário no teu seio, numa aurora perene, sem
+poente, esse facho de ardor que te consome e é a suprema gloria, a
+eternidade.
+
+«E sabes, meu irmão e meu amigo, que o silêncio é o levita nosso eleito
+cuja bênção nos liga e arrebata; e os altares em que oramos são
+sombrios, duma sombra celeste, benfazeja, tal qual, no inverno, essa
+outra sombra que por erro temeste e será sempre confessionário e templo
+da minha alma.
+
+«Nunca ninguém te amou como eu te amei!... Deixa que a ave siga no seu
+rumo, em busca de ilusões da vida efémera. Une-te a mim e, desprendido
+então de quanto foge e passa na incerteza, redimido em meu peito
+hás-de subir à divina presença do Senhor!»
+
+Libertado, o poeta ergueu-se ouvindo a Dor.
+
+Por sua vez beijou a mensageira.
+
+--«Bendita sejas!» disse.
+
+E nesse instante passou na treva estranho clarão.
+
+
+III
+
+Segue a sua jornada paciente o poeta cuja fronte a Dor beijou. A
+macerada face da visão jamais se apaga nos seus doces olhos,
+humildemente isentos de desanimo, suavemente escravos dum poder que sem
+cessar o fortalece e ampara nas provações mais ásperas do mundo.
+
+Onde uma aspiração palpita e cresce, palpita e cresce a dor que a
+atormenta e nega, ou seja um gérmen que gelou na terra, ingrata e fria,
+surda ao seu anseio ou seja um coração crucificado do seu amor traído e
+profanado.
+
+Sentiu o poeta a Dor nas rosas que decaem; sentiu sofrer os astros que
+desmaiam no frio alvor de brancas madrugadas. Na haste quebrada entre
+iras das rajadas, na inquietação das águas despenhando-se, nos alcantis
+rasgados pelas neves, na criança a que o soluço corta o riso, no peito
+ferido por paixões humanas, onde quer que o destino cegamente
+castigue, mortifique e desengane, onde quer que proíba ou estrangule um
+arrojo, um impulso, uma vontade, ou desfaça os rochedos na mudez dos
+seus combates loucos da montanha, ou escarneça a suplica do mísero,
+redobrando de ardor em atormentá-lo--a Dor foi companheira do poeta, no
+seu seio chorou divinas lágrimas, em seus braços buscou acolhimento.
+
+Foi assim que o poeta amou a Dor. Foi assim que, curvado, ela o levou a
+ungir de piedade as agonias de todo o ser que os olhos contemplassem
+caído em desventura ou malfadado. Fielmente a adorou no seu mistério!
+Fielmente a serviu nos seus mandados!
+
+
+IV
+
+Exangue do pungir da Dor que nunca o abandona, ou na solidão dos montes
+o encontre ou, perdido, vagueie entre o tumulto das multidões humanas
+desvairadas, o poeta parou no seu caminho e contemplando a serrania e o
+prado que a seus pés se alargavam repousados em sereno esplendor, deixou
+cerrar seus olhos deslumbrados e adormeceu, dormindo o torpor magoado
+dos vencidos.
+
+Cantava o sol o «cântico» do Santo, o ressurgir de toda a criação
+resgatada para a terra e para os céus em um só Deus. Cantava os seus
+louvores ao «altíssimo, omnipotente, bom Senhor», a quem «toda a honra e
+bênção são devidas». Por todas as criaturas o louvava! Por sua própria
+luz que o iluminava; pela «irmã lua» que no firmamento tão «preciosa e
+bela» se formara; pelo «irmão vento e pelo ar e pela nuvem e todo o
+tempo» no qual as criaturas têm sustento; pela «irmã água» que é
+«humilde e casta», e também pelo «irmão fogo corajoso, e por nossa mãe a
+terra e por seus frutos, e pela «irmã morte» que à sua paz nos arrebata.
+
+Desusada carícia o seduziu; ignorada ternura o fascinou! Gloriosa visão
+despertou o poeta e, beijando-o, o exalta naquela divina luz que em
+torno ela espargia.
+
+E disse-lhe a visão:
+
+«Desterrado da ventura que com o sangue marcaste o teu caminho e em cada
+passo feriste o teu coração! Onde um espinho te rasgar a carne, o
+perfume das rosas a embalsama. Onde o vento derruba a floresta,
+exultaram renovos na verdura. Onde o ódio, a mentira e o desespero te
+entenebrecem de terror e dúvida, a bondade e a fé virão salvar-te em sua
+luz bendita. Onde cai uma lágrima, a mão de Deus a enxuga. Ergue os teus
+olhos! Beija a minha fronte! Aviventa teu ser mortificado na salutar
+candura que me alenta!
+
+E dos lábios vermelhos transfundindo a alegria e a vida e a
+exaltação em lábios pálidos de sofrer e mágoas, enlevado seu peito em
+caridade e possuído de doçura infinda, a visão benfazeja do poeta
+restituiu à terra e seus paraísos, à luz do sol e a quanto ele ilumina,
+aquele que à Dor votara todo o ser e só a Dor servia sequestrado desse
+supremo amor que na bondade se libertou de toda a contingência.
+
+
+V
+
+Tal qual o poeta que a Dor e a Vida, vossos mensageiros, encaminharam,
+Senhor, à vossa presença, mandai-me, a mim também, os vossos sonhos,
+visitem-me as visões do vosso reino, para que me guardem e guiem e me
+conduzam, para na Vida me exaltar convosco e para na Dor sofrer as
+vossas penas, «na mão de Deus, na sua mão direita, descansando afinal
+meu coração!»
+
+
+
+
+MAIS FORTE QUE O MAR
+
+
+I
+
+Sonhei que o peregrino ao apartar-se dos lugares em que amara e fora
+amado no benigno lar onde abrigara o corpo enfermo e o coração sequioso
+de carinho, afectos e de graças, passou ondas do mar escuro e turvo, e
+ao passá-las deixou nas vagas fundas um sulco ténue, vermelho,
+coruscante entre o negrume da cerração ambiente.
+
+Longos anos, por séculos infindos, na esteira do peregrino o mar cavou
+suas iradas vagas espumantes de espumas alvas, claras, diamantinas; e
+iluminaram-nas pálidos luares; e a tempestade atroz escureceu-as; e
+pairaram sobre elas sorridentes as primaveras brandas incitando toda a
+terra a renascer em alegria.
+
+Em vão, em vão! Bafejo algum dos astros, ou propício trouxesse a
+exaltação da vida triunfante, ou inclemente derramasse a dor, jamais
+pôde apagar esse sulco vermelho sobre o mar que ali deixara o
+peregrino ferido. Mais forte que as ondas, a saudade traçou nas águas
+lúgubre derrota. Em vão os poderes da terra as agitaram provocando-lhes
+a fúria temerosa! Em vão as repousaram em cristalina calma suavíssima!
+Em vão ali passaram combatendo seus raivosos combates os titãs! Em vão
+tentaram afundar na voragem aquele sangue que do coração brotara por
+saudade!
+
+Em séculos infindos, para sempre, esse rasto de angústia ali ficou.
+
+
+II
+
+Senhor! Se misericórdia vos merece a fé de quem no amor espera a
+salvação e lhe confia a vida miseranda, erguendo-a dos seus erros para a
+remir na consagração ao ser que é a vossa própria essência, a essa
+etérea bondade omnipotente que a Deus vos une e nele vos confunde,
+concedei-me, Senhor, aquela bênção que ao peregrino ferido concedeste,
+permitindo-lhe a graça de traçar nas ondas com o seu sangue a dor
+pungente, esvaindo-se em puríssima saudade. Onde quer que o destino o
+dilacere, onde quer que, infeliz ou louco, se atormente, que o meu
+coração desmaie por saudade, que por saudade verta todo o sangue, que em
+saudade amortalhe os seus anseios!...
+
+Mais pura exaltação não conheceu! Mais próximo de ti jamais se sente!
+
+
+
+
+HUMILHAÇÃO
+
+
+I
+
+Vi sair da prisão o criminoso e encaminhar-se ao lobrego covil onde
+deixara a companheira e os filhos a estorcer-se de fome nos andrajos.
+Macilento, esquálido, trémulo nos passos, espectro erguido duma
+sepultura, atravessa a cidade entre inimigos. A aversão, o desprezo e o
+desamparo são o seu cortejo e com horror o escoltam; tomando por pureza
+a inanidade, arrogantes se afastam a tremer de macular o orgulho na
+miséria dum corpo pestilento de seus erros.
+
+Nem os filhos nem a companheira se atrevem a sair do seu tugúrio para
+beijar o mísero e o proscrito que volta a consumir-se na desgraça, na
+treva da embriaguez em que se afoita para a sinistra aventura dos seus
+crimes.
+
+De súbito, quebrou-se o trágico silencio. Um grito de alegria ecoa nas
+choupanas. Saltando da morada um cão exulta em seu bradar duma
+ferina ânsia; e louco de carinho afaga o homem que outros homens
+maldizem, como se esse não fosse o filho infeliz da mesma podridão que a
+todos gera e por igual corrompe.
+
+Estranha aberração! Cruel estigma! Humilhação fatal dum ente eleito em
+que Deus fez morada e se revela!... Coube a um cão parasita dos monturos
+a ternura generosa, esse perdão que os homens atraiçoam negando a
+piedade ao criminoso, não sabendo sorrir à sua face e tendo por
+dignidade a cobardia que os privou de ver irmãos, os seus iguais, em
+quantos seres a criação produz, para que o nosso coração todos confunda
+numa só luz de amor e de bondade.
+
+
+II
+
+Senhor! Porque me roubas, a mim a quem mandaste o teu Espírito para eu
+sentir claramente o teu império, a quem tu deste um coração ardente para
+abrigar-te e a voz para louvar teu nome e o repetir,--porque me roubas
+aquele ingénuo anseio de indulgencia, esse perdão tecido de caricias com
+que dotaste inconscientes servos, obreiros mudos da tua vontade?!...
+Porque, Senhor, me privas desse bem de esquecer toda a injuria, todo o
+mal, e de cobrir de afectos todo o crime e em carinhos dissipar sua
+lembrança?!...
+
+Isenta-me, Senhor, desse tormento da consciência algoz que até perdoando
+volta a julgar os homens e os condena! Pois que lhe deste entrada no meu
+peito, salvai-a do martírio em que adorando-te te veja distinguindo nos
+homens bem e mal em vez de os confundir no teu sagrado amor
+omnisciente.
+
+
+
+
+BÊNÇÃO DO POENTE
+
+
+I
+
+Foi calmo o dia. A rosa húmida, que desabrochando saudou no descerrar do
+seio a madrugada, prateou ao sol as cetinosas pétalas sem que a brisa
+lhe ferisse a formosura; e o vento adormecido nos seus antros, vencido
+por estranha letargia, inerte e mudo não blasfemou suas ímpias cóleras
+contra o ardor do sol. Os milheirais tardios e o medronheiro, tão lento
+no crescer como moroso no arrastado fabricar da sua doçura, sazonaram
+seus frutos generosos na paz dessa propícia quietação. Ao redor do
+casal, ao cimo da encosta onde o horizonte é largo e os céus são amplos,
+esvai-se na calmaria toda a forma, agora que o sol perdido ao poente se
+escondeu para lá da cerração austera dos pinhais. Descoram as urzes
+roxas na charneca, não mais lobrigo a ténue palidez da flor da estêva,
+já não distingo no silvado o aderno: tudo o crepúsculo vem tingindo em
+sombras.
+
+Ao longe, os montes altos da serrania e o manto das florestas nas
+quebradas e os campos verdes à beira dos regatos e os pomares e os
+vinhedos e as aldeias e a inquietação da água nas jornadas, eterna
+aventureira,--todos vão a dissolver-se nessa neblina, duma inundante
+alvura caprichosa, caótica, erradia, absorvente e mansa na avidez, como
+afagando o mundo e resumindo-o em um só sonho incerto, indefinível.
+
+Olho, e nem um tremor diviso em todo o ambiente. Escuto, e nem um rumor
+pressinto próximo ou distante. Por sua calmaria a atmosfera adormeceu a
+vida em serenidade, e quantas divindades a interpretam e a regulam e a
+movem em seu anseio, desde a arrogância da montanha austera até à
+pequenez da célula mais ínfima, consagraram juntas numa paz divina a
+trégua religiosa de seus feitos, talvez a consciência da inanidade final
+de todo o esforço, porventura uma dúvida, uma céptica interrogação dos
+seus destinos, senão o antegozo da morte experimentada em passageiro
+cessar das energias.
+
+Porque, não o sei nem jamais, pobre enfermo arrastado em vale de
+lágrimas, o poderei saber; pois a fraqueza é o nosso eterno anátema, é
+irrevogável maldição do orgulho. Mas na olímpica mansidão desse
+crepúsculo em que a vastidão da terra adormeceu sorridente e benigna,
+alguém, ser de bondade, um alado eco fugitivo, um murmúrio de
+esperança, me segreda a confiança e a fé, robusta crença na libertação
+final de toda a angústia, na fatal paralisia dos tumultos da nossa alma
+e do mundo, tarde ou cedo remidos, confundidos em amorosa quietação de
+penas, amortalhados em mortalha branca como esta que eu vi crepuscular,
+vestindo em alva neblina a terra e os astros.
+
+
+II
+
+Então, comovido e grato, reconhecendo a esmola que me alegrava o
+coração, quis dizer ao Senhor a minha prece, quis confessar-lhe a
+exaltação da minha alma pela serena luz que ele acendia no meu peito
+turvado de combates. Loucamente balbuciei palavras loucas, e todas se
+perdiam apagadas! Tão alto e tão profundo o meu sentir, não souberam
+dizê-lo esses murmúrios frouxos e mortais de lábios débeis que mortais
+nasceram.
+
+Cessou minha oração nesse momento. Pressenti sombras de orgulho,
+desvairado, na tentação de ver e penetrar a omnipotência de harmonia e
+ordem que é a razão de ser de quanto existe. E humildemente apenas repeti:
+
+--Senhor! Senhor! Senhor!...
+
+
+
+
+O SONO DO TRIGAL
+
+
+I
+
+Crepúsculo de Maio! O céu baixo e sombrio, revolvendo nuvens pesadas,
+violáceas, lentas, promete dentro em breve as chuvas tépidas, pelas
+quais a verdura espera e anseia, na cobiça de crescer e renovar-se.
+
+As seivas abundantes, criadoras, na túrbida estação em que se elevam, a
+modelar os lírios e os salgueiros, latejam silenciosas; não as tenta a
+cantar o voo da brisa. Desde a cerração escura da floresta à humilde
+melancolia da campina, as legiões das frechas dos pinhais, a coma
+faustosa dos carvalhos, o arrelvado extenso em desafogo, livre de
+manchas das plantas altas, e o que se alarga na espessura umbrosa, todos
+repousam quietos e calados, pressentindo a visita salutar que dos céus
+lhes trará toda a opulência, a abençoar a terra de humidade, alimento e
+riqueza das ervagens, onde despontam frutos e sementes, e das
+vergônteas frágeis, ainda tenras, em cuidados de robustecer-se, para
+suportarem calmas estivais.
+
+E o trigal, como os irmãos, dorme também, se em temor ou na prece é o
+seu segredo!
+
+Imóvel, na firmeza imperturbável dos fieis que crêem no Senhor e sem
+lamentos todo o destino aceitam por ser justo, a toda a sorte querem
+igualmente, em qualquer perfazendo obra de amor;--aquele que ao mais
+leve passar do vento respondia, cedendo fácil ao bulício alado das ondas
+repetidas sussurrantes, sempre agitado dum sonhar sem fim, em delírio
+incessante rumoroso, recordando carinhos e promessas da abastança e
+fortuna que concede aos casais bem providos do seu grão, esse mesmo
+trigal se sujeitou à extática mudez de todo o ambiente.
+
+Já parece esquecido do inverno! Parece atraiçoar a aspiração de gerar em
+leite doce o pão dos míseros que por caridade santa ele sustenta.
+
+
+II
+
+Não te iludas, porém, oh Sonhador! tu que procuras ler, na contingência
+de impulsos vagos e caducas formas, a perene oferta do mover dos mundos
+à lei suprema do supremo amor. Não te engane o torpor em que o trigal se
+abandonou à paz da atmosfera. Não cuides porque o vês assim submisso
+que deixou de elaborar fartas sementes.
+
+De contínuo escutará vozes divinas, e há-de segui-las, destilando os
+sucos, que pela raiz beber na aspereza fria. Das entranhas do chão tira
+e semeia, constantemente, ou se mova ou pare, a rescendente esmola das
+doçuras com que suaviza a fome a quem trabalha e descerra em sorrisos de
+alegria, flores sanguíneas! os lábios das crianças.
+
+Também passaste um dia ao pé do leito em que a mãe aquecia o filho ao
+seio. Não sentiste rumor que confessasse quanto afecto em silencio se
+derrama, transfundindo a quentura do sangue em outro sangue. E
+entretanto, fervorosa e muda, uma vida se consumia ali em outra vida.
+
+Assim vi o trigal quando dormia, tal qual como em vigília, consagrando à
+paixão do seu ser inquebrantável aquele amor que é nosso alento e
+força.
+
+
+
+
+TERRA LACRIMOSA
+
+
+I
+
+Conheci os cativos da vaidade, sorrindo, se por acaso conquistavam os
+ouropéis e fama e o espanto de multidões atónitas, turvadas, ignorantes
+cegas no caminho, que da desgraça nunca se libertam para banhar-se em
+luz de eternidade. Na vertigem do orgulho e da soberba, julgando
+erguer-se por entumecida inanidade, ao verem rastejantes a seus pés os
+aviltados míseros do mundo, passaram sobranceiros, desdenhosos; e
+porque, desvanecidos, contemplando-se, só da própria grandeza iam
+sonhando, sem baixarem seus olhos aos humildes, desconheceram a alegria,
+beleza e formosura que os pequeninos têm por seu quinhão.
+
+Conheci o avaro entesourando, na obsessão de transformar em ouro a
+opressão, a fome e o martírio de quantos por astúcia ou pela força
+subjugasse. As riquezas cresciam, construindo a fortaleza em que,
+confiado e firme, seria poderoso e invencível; e entretanto o seu
+corpo definhava nas penas da velhice, desditoso, como se a ordem cósmica
+dos astros castigasse, escarnecendo, as ambições.
+
+Insaciados de domínio efémero, porque, efémero, mal se criou e logo se
+arruína, avaros, orgulhosos e soberbos morreram entre pompas clamorosas,
+envolto o seu cadáver corrompido nas vestes recamadas que o cobriam,
+quando ainda o sangue nele palpitava e cria deslumbrar túrbidas gentes,
+ocultando em bordados fulgurantes a carne de contínuo apodrecida no
+decair fatal do seu destino. E a terra de infinita misericórdia deixou
+cerrar na campa esse cadáver, sem que de luto se vestisse um ramo, sem
+que uma folha desmaiasse murcha, em lembrança ou saudade do amigo que a
+alentava e, estremecido, dela recebia recompensa de fadigas carinhosas.
+
+Na morte desses loucos condenados ao pó estéril de estéreis sepulturas,
+entre a dureza fria dos bronzes e a rigidez do mármore impenetrável, as
+palavras dos homens lamentavam a ruína da grandeza mentirosa, tão cedo
+ali desfeita e aniquilada. Mas de tais lágrimas não partilha a terra.
+Indiferente ao rumor do falso pranto, não cessou de brilhar e de cantar.
+Nem um só veio de água emudeceu, perdido o murmurar da sua lida! Nem uma
+só flor do prado se estiolou à míngua de cuidado e de sustento! Nem um
+só átomo de fecundidade se atrofiou em toda a criação! Aos cativos
+da vaidade e da avareza, perdoou-lhes a terra piedosa; mas não soube
+chorar quem, transviado, ingratamente a desamou, traindo amor materno, o
+leite gerador.
+
+
+II
+
+E conheci também o cavador, que para morada e leito de repouso, não
+encontrando um tecto hospitaleiro nos vilares, foi levantar a mísera
+cabana, de colmos de centeio e frágeis varas, no pousio comum inculto e
+virgem, despido, tosquiado de contínuo por ovelhas bravias, únicos gados
+que a gente pobre ali ia soltar, aproveitando esse pascigo escasso.
+
+Rasgou a leiva dura, empedernida; lançou no pó sequioso a semente leve e
+todo o manancial de vida que ela encerra; e fez brotar a água das
+prisões em que a guardava o peso dos rochedos. A cavar, a regar e a
+semear, banhando sempre a terra com o suor do rosto, despertando-lhe a
+férvida energia com os arrancos heróicos do seu braço e o pulsar
+gigantesco do seu peito, o cavador criou verde abundância onde fora a
+infecunda e negra gândara, e tirou o pão e os frutos do chão áspero onde
+nem os silvados já medravam.
+
+Foram passados anos nessa faina. Ao fim, surgiu ali a mancha branca duma
+casita estreita, ávida de sol. A cabana alargou-se. Transformada,
+anunciou nos fumos da lareira o agasalho, o sustento e o tépido conforto
+dum benigno casal, servido e amado pela esposa do servo da gleba; e o
+embalar do berço acompanhou com o rumor alado duma esperança essa
+vitoria que em torno se espraiava, dilatando-se na infatigável ânsia de
+remir pela seara farta e latejante os longuíssimos tempos de indigência,
+a que a ingratidão humana, criminosa, abandonara aquelas pequenas geiras
+devastadas. Mais tarde, em horas negras, tenebrosas, as ambições e a
+guerra assoladoras vieram separar o cavador dos filhos que criou para
+companheiros, e um sinistro poder arremessara para longe, labutando
+dispersados. Escravos uns do rei e seus ministros, por seu mandado e
+força coagidos a ensanguentar o mundo, combatendo pelo ódio apaixonado e
+latrocínios em malditas pelejas mentirosas, que na suprema infâmia ousam
+sem pejo invocar o amor da pátria e atraiçoá-lo, foram-se a derramar a
+morte sobre os campos, que o Senhor nos ofereceu para a vida, e a
+prostrar atrozmente o nosso irmão, ao qual por lei divina só devemos
+afecto, protecção e piedade, o auxílio compassivo na desgraça e o sorrir
+de simpatia, quando a ventura ao passar o bafeja generosa. Outros, não
+mais felizes, seduzidos pela visão da cidade e seu engano, enfermos
+das demências do tumulto, perderam-se entre os fumos da oficina, pela
+própria vontade escravizados dos lúgubres dragões que guardam o ouro e
+de contínuo o movem e entesouram, fundindo num só cadinho incandescente
+a fome e o ferro, minério bruto e corações humanos, lubrificando
+maquinas com lágrimas e fundando o palácio em sepulturas, pondo a
+brilhar em pedras preciosas, por alquimia da sua crueldade, as ossadas
+dos que apodreceram, transitando da pobreza à vala comum, sem algum dia
+terem experimentado a alegria, a abastança ou o desafogo.
+
+Assim desamparado, entre ruínas do seu próprio sonho dissipado nas vagas
+da agonia como uma aparição de luz que apenas rompe e subitamente se
+esvai na tempestade, o cavador ficou-se a envelhecer, no silencio da
+gândara, amando todavia o seu casal e querendo sempre à terra, com a fé
+que à terra o consagrara submisso, quando pela primeira vez a fecundou e
+renovou no repetir das estações a verdura e o pão e a sombra e o
+refrigério, sem lamento ou desânimo, curvado a trabalhar, desde o romper
+da aurora ao cair da noite.
+
+
+III
+
+A terra que ele amou, amou-o também!...
+
+Quando morreu, calaram-se no ermo os seixos que cantavam, rolando
+alegremente pela enxada; murchou endurecido o prado à míngua do
+sustento que alimentava as ávidas raízes, entumecida a erva verdejante,
+quando, pelas madrugadas calmas do Estio, o cavador se erguia a
+socorrê-las, atento, diligente, cortando breve o sono, para que por sua
+culpa não sofressem as miríades de seres sob sua guarda, mudos para os
+demais mas eloquentes para quem lhes conhecia a aspiração. Não mais ao
+despontar da aurora respondeu o jorro da água límpida tirada entre o
+mover estrídulo das rodas pelo jugo robusto que a elevava da frescura
+dos poços obscuros à claridade rútila dos céus.
+
+Foram essas as lágrimas que a terra, lacrimosa e viúva, chorou pelo
+criador humilde do seu viço,--aquela mesma terra desdenhosa que,
+indiferente, sepulta os orgulhosos, degenerados do seu culto e crença.
+
+
+
+
+CULTO DE QUIMERAS
+
+
+I
+
+Onde começam áridos incultos, que os gados, sem cessar, têm
+devastado,--quase ao cimo da encosta--, voltei-me a olhar o vale e os
+montes que o formavam, as aldeias perdidas nas ramagens, e os
+campanários que as protegiam. Não sei se fatigado, se encantado, por
+necessidade instante de repouso, cedendo a quebranto estranho, parei; e
+ao prazer de esforçado caminhar preferi essa delícia calma de contemplar.
+
+E, quando atentei bem no turbilhão de seres que ao redor e a meus pés
+pulsavam o seu pulsar olímpico, indomável, infinito, eterno, achei-me
+enleado e preso em multidões de divindades, todas poderosas, que dos
+céus de claríssima gloria, e das profundezas infernais do orbe, e do
+frescor das sombras da floresta corriam a arrebatar-me no tropel em que
+cada qual se agita e é seu delírio.
+
+Então, na turbação confusa de um neófito, converteu-se-me a caverna
+em santuário, e, no lugar consagrado pelo raio ou sobre a pedra que caiu
+dos astros, ouvi oráculos, e o sacerdote orava. Um deus protegia os
+lares e sua fortuna; outro firmava os marcos que repartem os campos
+entre o povo dos vilares; e os mortos e os heróis erguiam-se das cinzas
+a ditar seu conselho e a impor os seus mandados, prolongando, em uma
+vida só, vidas diversas. Na forma nobre como na mesquinha, em todas se
+ocultava uma vontade, consciente e grande, e inflexível. Apolo e Juno,
+Hércules e Ceres, Afrodite e Plutão, e Pã, deus dos pastores, e as
+Amadriades que viviam nos rios e nas árvores, todos tinham na terra seu
+quinhão, onde reinavam livres; e todos, nessa hora de visões, por mim
+passaram, severos ou folgando, rindo ou chorando, tristes e majestosos
+uns, outros alados, dizendo seus mistérios e incitando-me a que,
+adorando-os, eu lhes tributasse o incenso devido ao seu poder.
+
+Guerreiros incansáveis, triunfantes, povoaram os espaços de deidades e o
+coração de graças e favores. Negaram a solidão em todo o universo,
+confiado ao império sempiterno de demónios e anjos que encarnavam na
+poeira, no vento, na folha e na neblina, em rochedos e águas e no
+murmúrio da asa mais leve do menor insecto, sorrindo, consolando e
+castigando, soltando com igual prodigalidade afagos e ameaças,
+esperanças e terrores, a indulgencia, a ira e o escárnio, a abundância e
+a fome, o mal e o bem, toda a infinda vibração das nossas almas.
+
+Que mundo radiante de aparições, capricho e formosura, não tentou
+derruir, aquele ímpio sectário do saber que pensando, e dissecando, e
+inquirindo friamente, quis dissipar, num ímpeto de orgulho, esses entes
+celestes, benfazejos, que andavam entre os homens e lhes vertiam no
+sangue fraco e impuro a firmeza, a coragem, a gratidão, salutares
+alegrias e a serenidade, a exaltação suprema, a mais sublime, a
+consagração plena dos mortais em altares de religiosa poesia e de um
+dever mais forte do que a mísera carne transitória!
+
+Que demência julgou virtude haver privado de magnânimo amparo de seus
+religiosos filhos a imaginação fecunda e inquieta que jamais sofrerá os
+cativeiros da razão, altiva e austera, sem piedade?!...
+
+Ah! não morreram! Esses filtros da nossa fantasia todos vivem ainda e
+nos seguem, ocultamente, semeando de rosas os caminhos que os fados nos
+traçaram.
+
+
+II
+
+No silêncio dessa tarde em que comovidamente os invoquei, ouvi-os; e a
+sua voz, de mansidão dulcíssima, trouxe-me ao corpo como um refrigério,
+sacudindo a letífera inércia e o torpor em que a venenosa sede de
+saber desvaira e mata, inquirindo sem amor, só por orgulho--senão, pior
+ainda!, por cobiça--, da aspiração ingénua dos fraguedos, das fontes e
+das ervas, das nuvens e dos sóis, da natureza inteira no seu frémito.
+
+Pedi-te então, Senhor, que me concedas a quimera, a ilusão, esse cismar
+que a qualquer forma deu energia e vontade igual à nossa. Pedi-te então
+que ampares os meus passos dos companheiros bons que uma ciência vã
+afugentou.
+
+Não me abandoneis, Senhor, nesse deserto em que espíritos cruéis nos
+atormentam roubando aos nossos olhos a beleza! Dá-me, Senhor, os sonhos
+criadores! Possa eu ver as ninfas das nascentes, os faunos das
+florestas, e os tritões lançando à praia as ondas arrojadas. Se da vida
+me tiras as quimeras, irisada espuma capitosa da taça que gota a gota
+vou bebendo,--que lhe encontrarei no fundo senão o sal de abrasada e
+mortífera amargura?!
+
+
+
+
+ANSEIO DA MANHÃ
+
+
+I
+
+Sobre as negras montanhas do horizonte, indolente rebanho fabuloso, de
+peregrinas formas em desordem, de prodígios, quimeras e abantesmas,
+domados uns em dócil mansidão, outros soltando fúrias e ameaças; sobre
+essa multidão tumultuosa que pela manhã tardia do outono alongara o
+dormir a custo afugentado;--crescia o rubor da aurora iluminando-a, sem
+que no céu, pouco a pouco embranquecido, uma só nuvem lhe lançasse um
+véu, embargando o pregão da claridade.
+
+Apenas no poente, sobre o mar, ocultando o limite das suas águas,
+vagueavam em sonhos, arrastadas, nesse perpétuo e incerto devaneio, que
+é seu destino e glória, as comas violáceas das neblinas. Mas, humildes,
+deixavam conquistar-se pelos fachos da luz que além rompia.
+
+Era a hora consagrada a esse culto, que ao Senhor os homens prestam no
+trabalho, reconhecendo toda a sua fraqueza e sujeição. No bronze
+solene que difunde os mandados austeros da oração, segredando-a, igual e
+única, aos indigentes míseros e aos ricos, a sãos e enfermos, à fera e à
+borboleta, aos orvalhos e rios, ao vale e à encosta, ao mais timorato
+musgo e ao maior roble, à pulverizada argila solta ao vento e à firmeza
+invencível dos penhascos, sem escolher nem distinguir no seu vibrar, em
+mística insinuação de súplica indeclinável; no caminhar heróico desses
+servos que, enxada ao ombro, deixam seu lar e vão servir a terra nossa
+mãe, banhando-a com o suor do rosto, unção sagrada, para que a sua
+bênção nos proteja e ampare; no palpitar do jugo aureolado pela própria
+exalação do espesso hálito condensando-se em frescores de Novembro, que
+a leiva bebe enquanto o ferro a rasga para os trigais:--em todo o
+ambiente cantava uma só voz religiosa, como nenhuma outra tão pura e
+casta e tão fecunda e pródiga, jamais poderá ouvir-se nos apertados
+templos mesquinhos que somente por ilusões de orgulho foram grandes
+perante o louco imaginar dos seus obreiros.
+
+E o sol rubro da aurora ia-se erguendo, pausado e lento, seguro da sua
+força e omnipotência, sorrindo ao esforço humano e afagando-o, latejante
+de brilhos sanguíneos, porventura misteriosamente repassados do mesmo
+filtro que repassa o coração e o inunda de amor quando o anima.
+
+Mas, de súbito, a luz esmoreceu no seu triunfo. Apressadas, correram-lhe
+ao encontro as névoas que dormiam sobre o mar. Cercam-na, ocultam-na, e,
+mal a têm vencida, logo a soltam e fogem dispersadas, por momentos
+vestidas de ouropéis que imediatamente deixam, por preferirem a doçura
+do manto lutuoso que em sorte coube à sua condição. Sem tardar, ei-las
+que voltam, prosseguindo na indecisa jornada flutuante; e--suave castigo
+dum orgulho ingénuo, bem de perto seguido de indulgência ou talvez de
+remorso ou contrição! as névoas renovavam seus combates, turvando a cada
+instante a opalina transparência da manhã.
+
+Ao fim, o sol venceu. Quando ia alto, a luz avassalara o espaço inteiro,
+isenta de todo o anseio e hesitação. E assim soberana se manteve sempre,
+até que o véu da noite a submergiu na limpidez das ondas diamantinas,
+depois de haver semeado sobre a terra a alegria e o pão, suprema esmola.
+
+
+II
+
+Senhor! Fazei que a minha vida seja espelho do anseio divino da manhã,
+tal qual o vi nesse romper da aurora! Possa eu dissipar sombras funestas
+que me escureçam o céu fundo e claro, onde a alma se expande e voa,
+resgatada, a eternos reinos de bem-aventurança! Que a ténue
+irradiação do meu sonhar fortalecesse os homens no trabalho e lhes
+abrandasse as dores e as fadigas, assim como o calor do dia os aviventa!
+E que ao fim em mortalha de pureza eu dormisse também, à semelhança de
+luz perdida em águas cristalinas!
+
+
+
+
+A ASA DO REMORSO
+
+
+I
+
+Em êxtase de luz rompe a manhã. Seus clarins sonoros de alvorada
+despertam o povoado, a serra e as águas. Dos salgueirais curvados sobre
+o rio erguem-se mansas neblinas, castas, sacrificando ao sol toda a
+pureza. Os píncaros severos da montanha desprendem da escuridão da noite
+a fortaleza. E na oficina e nos lares acordam fumos de carinhos e penas
+e trabalho.
+
+E acordando também desse torpor em que, cansada, dorme a consciência
+exausta de torturas e de dúvidas, pensei, mísero e fraco, nas fadigas a
+que a luz da manhã me convidava. Por tenebrosa perversão da alma
+senti-me o escravo do ardor mundano, das cobiças, dos ódios, das
+vaidades, da cegueira que me oculta um irmão em cada homem e que me
+arroja a disputar-lhe o pão e que me afoita a exprobrar-lhe os erros, a
+mim que ouvi no peito voz divina de amor, de caridade e de perdão e
+que ouvindo-a a deixei esmorecer, de culpa em culpa, traindo-lhe os
+mandados.
+
+Enquanto à maldição desses infernos descia meu turvado pensamento,
+cantou a toutinegra na oliveira e ergueu seu doce canto à madrugada.
+Comungava na taça da alegria que na luz o Senhor oferece à terra. Isenta
+das cobiças e dos ódios, sem conhecer espinhos da ambição, confiando na
+suprema misericórdia que lhe alimente o sangue e o ninho e lhe module o
+inspirado enlevo dos seus hinos e a cada mágoa traga seu consolo,
+imaculada voz dum peito inocente, turíbulo sagrado, a toutinegra depunha
+no altar de Deus a sua oferenda, antes de partir em busca de sustento.
+
+Então uma asa negra de remorso me fustigou o orgulho; e tremendo da
+própria impiedade, compungido de dor, eu perguntei que destino fatal e
+tão cruel me induzia em perjúrio à minha fé, sufocando em meus lábios,
+cerrados para o louvor da madrugada, essas canções benditas que a ave
+cantava e eram uma oração, que eu esquecera e eram redenção.
+
+
+II
+
+Minha mãe que do seu sangue me gerou, deu-me com o leite haustos de amor
+por ti, Senhor. Enquanto me criava o corpo e a forma, toda esta
+ilusão da vida efémera, em seu último termo inexorável predestinada à
+consumpção dos vermes, ardentemente me ensinou a ver-te, ensinou-me a
+invocar-te, e em teu puro espírito renascer, liberto de corrupção, para
+a vida eterna. Ensinou-me a adorar-te em teu poder, a implorar humilde a
+tua graça, e prostrado sofrer tua vontade, contente por servir-te e em
+ti buscando a suprema alegria. E queria em sua fé, que dela recebi e é
+também minha, queria que ao despertar da minha consciência após suas
+horas de repouso e inércia, fosse teu nome o primeiro proferido por meus
+lábios; que para me sentir erguido à tua presença esquecesse eu o mundo
+e o seu tumulto e assim purificado, assim armado desse escudo
+inviolável, fortalecido contra todas as tentações de desvario,
+atravessasse a via dolorosa e de toda a fraqueza me isentasse.
+
+Nessa manhã clara, entenebrecida em um momento fugaz e aflitivo pelo
+perpassar da asa do remorso, pequei, Senhor, porque transviado, perdido
+o meu espírito no tropel das cobiças orgulhosas, assaltou-me a miséria o
+pensamento e outro nome proferi que não o teu, antes que a ave me
+lembrasse a culpa cantando os teus louvores e a tua grandeza.
+
+Perdoa-me, Senhor, se então traí essa fé que é o melhor dos meus
+tesoiros e me incendeia o peito em teu amor! Amparem-me as tuas
+aves, teus arautos, mensageiros fieis da tua glória! Em cada aurora
+que os meus olhos vejam despontar nos céus, fazei, Senhor, que a
+toutinegra volte e me venha ensinar a repetir essas divinas orações de
+infância que à minha mãe ouvi no seu regaço!
+
+
+
+
+SERVAS DA LUZ
+
+
+I
+
+Logo após a cerração da noite, voltam-se para o oriente aquelas flores,
+servas da luz, cujo rosto olha o sol constantemente e por condição
+estranha o segue sempre no resplendente percurso da sua órbita. Ainda a
+escuridão é densa e vem distante o mais tímido alvor da madrugada, mal o
+poente se toldou de sombras, começam essas flores a volver sua face para
+os lugares onde o sol há-de romper. Por um segredo seu que nos perturba,
+subtil inspiração as ensinou a serem fieis à luz tão firmemente que nem
+a treva nem a tempestade nem a alvura do luar e a imensidade de astros
+brilhantes povoando o espaço puderam transviá-las e perdê-las naquela
+adoração do sol que é sua crença. Enquanto o sol se afasta divagando por
+ignotos mares, aprestam-se a servi-lo. O seu primeiro alento, o raiar da
+aurora, há-de aquecer-lhes o seio ávido de receber seus fogos.
+
+
+II
+
+Porque, Senhor, assim inspiraste mudas flores, singelas e felizes, e
+deixas que os homens vão de treva em treva, rasgando o coração até à
+morte, ignorando donde a luz se ergue--aqueles mesmos homens aos quais
+deste a consciência do amor da luz?!...
+
+Nas trevas da ruindade que escurecem a alegria e o riso e a bondade,
+divina aspiração da luz da nossa alma, possa eu, Senhor, como a flor em
+tua graça, pressentir constantemente a tua presença e só para a tua luz
+voltar a minha face, mortificada, ensanguentada, enferma dos tormentos
+fatais da escuridão!
+
+
+
+
+TROFÉUS DO ESTIO
+
+
+I
+
+Como gotas candentes destiladas de cristalinas urnas de safira que
+vertessem sobre a terra o azul dos céus para converter em luz a inércia
+e a treva, o Estio derrama sobre os campos queimaduras adustas dos seus
+fogos incendiando-lhes a fecundidade.
+
+Mirrou-se a leiva. A fonte emudeceu. Endureceu-se o pâmpano na vide. O
+viço converteu-se em austeridade, denegrindo a espessura da floresta.
+Murcharam os prados e ali, onde exalaram suave embriaguez do seu
+frescor, levanta agora o vento nuvens ásperas de calcinado pó da terra
+nua. Rolam no chão as palhas trituradas como restos de vidas insepultas.
+
+São troféus do Estio em sua glória. São os despojos que arrasta na
+vitória, na ufania cruel do seu triunfo. São mistérios duma maternidade
+santa e dolorosa.
+
+Para fecundar a terra e nos deixar o seu sagrado leite, o nosso pão,
+para lhe enriquecer os filhos de sustento, de calor, de abrigo e de
+doçura, para madurar os pomos e as searas e para criar o lenho que nos
+salve dos golpes traiçoeiros do inverno, abrasou o Estio em seus ardores
+aquela mesma terra que por amor beijou, vestindo-a de opulência, ao
+despertar-lhe sua paixão constante de abundância, o seu fascinante arfar
+de formosura e a pródiga caridade do seu seio.
+
+
+II
+
+Abrase-me, Senhor, o teu ardor! Que se me converta em pó o mísero
+invólucro deste ser que nasceu para servir-te, e desfeito em teus
+férvidos alentos crie uma gota desse imenso amor que é o teu eterno
+cálice de vida!--Tal qual o Estio abrasa e queima a terra para
+transmudar em pão a rocha árida e fria, incendeia de amor meu coração
+para em tua fé remir os infiéis!
+
+
+
+
+LOUCOS DE HUMILDADE
+
+
+I
+
+Á beira do paul, onde ele se estreita e recebe do vale o seu ribeiro,
+sobre a arcada da ponte que o transpõe, unindo e prolongando caminhos
+ensombrados das suas margens, quedei-me a ouvir o marulhar das águas,
+batidas pelas lufadas de Dezembro e, sombrias, reflectindo o céu sombrio.
+
+Vindo do mar o rouco sudoeste, gerado na violência das tormentas,
+turvava a atmosfera escurecendo-a. Baniu do céu o azul, de todo oculto
+sob bandos de nuvens violáceas, fugidias, mudáveis como fumos, almas
+errantes, cinzas dispersas de apagados lares.
+
+Crescidas pelo despenhar das águas da montanha que verteram nos rios as
+suas neves, as lagunas cavavam funda a vaga, nessa agonia que a inquieta
+e é seu destino. E incessantemente a repetiam--assim como no coração
+volta a saudade, sem fim, a repetir-se e sem desanimo, renovando
+dorida a aspiração que uma estrela sinistra lhe converte no repetir da
+mágoa, no infortúnio de se sentir privado dos seus bens.
+
+Inconsistentes algas sonhadoras, dos sonhos dessas ninfas que as
+protegem e gentilmente as levam no toucado, frouxamente flutuavam
+enleadas nas hastes de robustos nenúfares, em cuja espessura habitam
+mais isentas da mortal violência das correntes.
+
+Também elas, imagem da nossa alma, naquela tão minguada vida que as
+anima, chorariam ilusões de liberdade e em desengano igual aos que
+sofremos, pensando haver nascido para expandir-se e seguirem erradias
+seus caprichos na luz de mansas águas transparentes, também elas
+sentiriam afinal um cativeiro na dureza das hastes que as amparam e
+enquanto lhes são arrimo as sujeitaram à própria imobilidade e à própria
+sorte?!...
+
+Além, vai inundado o salgueiral. Parece naufragado, entregue às ondas,
+arrancado da terra em que medrou. Até despido e nu, de todo despojado da
+graça que no Estio lhe agitava sua abundante coma viridente, paira sobre
+ele um sonho, um palpitar de afago e de brandura. Ainda no mais áspero
+rigor, sob o queimar das neves, nos seus cinéreos gomos veludosos e nos
+ramos banhados em alvuras vagueia uma carícia que consola, uma tímida
+promessa de doçura, alentos da primavera que suspeita e de cujas
+primícias de alegria será para nós o portador bem-vindo.
+
+Para que na terra sempre permaneça uma esperança, um refúgio de toda a
+ira e toda a tempestade, a redenção de todo o desalento e toda a treva,
+sorri na encosta o prado. Serenamente, ignora a tormenta e os seus
+combates. Rebelde ao vento, unido ao chão e a salvo do transbordar das
+águas mais subido, repousa os nossos olhos, já fatigados desse tropel de
+lutas de extermínio, essa mancha de deleitosa cor e de brandura.
+Tranquila, em sua mansidão firme e piedosa, afronta e vence a túrbida
+violência em que astros funestos dilaceram, fúnebremente, a terra desolada.
+
+
+II
+
+Em andrajos, curvada, carregando o parco e mesquinho feixe de caruma,
+vem recolhendo ao lar da sua choupana, uma pobre velhinha. No rosto
+emaciado estão marcadas por fundas rugas, restos de agonias, as
+canseiras, velhice e privações. Nem uma só faúlha já lhe resta do fogo
+que algum dia entumeceu as veias duma face enamorada de ventura e
+prazer, e em ventura enlevando os que a buscavam. Aqueles sadios braços
+que acudiam a recolher o pão no sol do eirado, são mal definidas sombras
+esqueléticas de formosuras que passaram breves. E os olhos que brilharam
+amorosos, em zelos inflamando e fascinando os turbulentos moços do
+arraial, esmoreceram todo o seu calor, amortecidos em descorados véus,
+quase sem luz.
+
+Mansamente, quando eu cismava no turbilhão de vidas tão diversas que ali
+contemplava, no mistério sem fim dos seus combates para expandirem na
+luz os seus anseios, a velhinha, arrastando seus passos no caminho em
+que resignada arrasta a sua pobreza, saudou-me e disse, interrompendo o
+sonho e outros sonhos trazendo em sua voz:
+
+--«Boa tarde, meu senhor, salve-o Deus!»
+
+
+III
+
+Delira de humildade esta velhinha que em seu santo delírio desvairada,
+aureolada de fulgores angélicos, me dá teu nome, Senhor, só porque a
+sorte cega em seu capricho me envaideceu com os falsos bens do mundo,
+enquanto a enriquecia de pobreza e me induzia, a mim, a ser soberbo, e a
+me esquecer de ti no meu orgulho? Foi por isso, por ser a mais humilde,
+por ser abençoada desse delírio santo de humildade que a enlouquece,
+mostrando-lhe os seus senhores nos desgarrados da tua larga senda de
+bondade, perdidos nos infernos das cobiças, foi por isso, Senhor, que a
+escolheste para a enviar dizer-me que além desse outro mundo que ali
+contemplava em confusão de esperanças, formosuras e terrores, mortal,
+incerto, atormentado e turvo, além desse outro mundo um outro existe
+onde Deus tem seu reino e onde nos salva?!...
+
+Possa eu sempre ouvir a sua voz! Resgate-me essa fé, essa humildade que
+no mais pervertido vê um senhor e o saúda e o serve obediente, e
+suplicante, por ele erguendo aos céus a sua súplica, fraternamente para
+ele implora a graça de salvação em Deus!...
+
+
+
+
+ORAÇÃO DOS LARES
+
+ _Et jam summa procul villarum culmina fumant,_
+ _Majores-que cadunt altis de montibus umbrae._
+
+
+I
+
+«Começam a fumegar ao longe os tectos dos vilares e lá dos montes altos
+vem crescendo as sombras que se alastram sobre a terra». Tingiu-se de
+ametistas o poente. O campo adormeceu. Calaram-se as enxadas na deveza.
+Entre rumores dos gados que recolhem, caminha para a morada o cavador.
+Erguem-se aos céus os fumos dos casais e, desprendidos da pureza do fogo
+em que se geram, em vespertinos cantos abençoam o repouso da noite a
+aproximar-se.
+
+São sacramento que une os lares da vida humana à luz infinita. São
+oração, anelo, um palpitar, um voo, anseio de brandura transportando ao
+espaço sem fim aspirações que os nossos corações mal balbuciam, que
+palavras algumas traduziram. Confundem seu mistério de beleza, um tímido
+mistério que se abriga sob a pobre nudeza das choupanas, em um outro
+mistério ainda mais alto que tem por templo a abobada celeste, por voz a
+voz de Deus e por fieis miríades de seres que se dispersam na vastidão
+do cosmos insondável.
+
+
+II
+
+Assim seja, Senhor, minha oração! Tão alto ela se erga e tão suave se
+eleve em vosso amor e o sinta e adore, como o fumo dos casais quando
+anoitece levando aos céus as orações dos lares.
+
+
+
+
+CANTARES DAS SEBES
+
+
+I
+
+Ao longo do caminho da jornada na qual, dorido, vou calcando a terra,
+ouvi o cantar das sebes nas vigílias em que constantemente nos defendem
+e nos guardam os pomos, as searas e os lírios, todo o bendito pão que
+nos anima de vigor o sangue e nos enleva em alegria a alma.
+
+Valos fundos em volta do pinhal, tosco acervo de pedras que circunda o
+campo onde o trigal vem a brotar, viridentes cômoros abrigando os ninhos
+sob grinaldas de rosais floridos, ramos espinhosos protegendo o alfobre
+para que as sementes desabrochem e vinguem, os silvados que escondem os
+vinhedos,--se uma vida despontando teme a avidez ingénua dos rebanhos e
+de aves diligentes em buscar sustento tenro para mimosos filhos; ou se a
+cegueira humana pervertida pode quebrar a árvore que nasce ou
+desrespeitar ruimmente o suor alheio, ergue-se a sebe e entoa os seus
+mandados, e cobre de fortalezas todo o chão traçando os seus limites
+à cobiça, à imprevidência, à malvadez e ao próprio dano da inocência
+instigada por amor--como um gládio de justiça austera repartindo toda a
+terra entre os seus filhos. Ora severa e rude na mudez, ora coroada de
+verdura errante, murmurando o agreste murmúrio desprendido pelo beijar
+de brisas fugidias, pacientemente a sebe nos protege a selva, o prado, o
+pão e as açucenas, quanto pode amparar os nossos braços e encantar
+nossos olhos em beleza.
+
+
+II
+
+Se para nos guardar na terra a formosura e alimentar nas veias o calor
+elegeste na sebe um missionário, servidor desvelado da tua graça, se nem
+esses teus bens mais preciosos viveram sem o abrigo e a caridade dos
+companheiros que lhes destinaste, como poderei eu, Senhor, criar no
+peito, neste peito gerado da fraqueza, o amor fecundo em que ele se
+arrebate, florindo em bondade e mansidão, se em tua misericórdia não
+mandares anjos bons que me guardem e dos teus inimigos me defendam?!...
+
+Sinta eu sempre a meu lado, protegendo-me, o doce abrigo de filhos teus,
+Senhor, daqueles teus eleitos e inspirados que na tua bondade e em
+teu amor souberam redimir-se! Que por sua voz e sua fortaleza
+arranquem meu coração ao sinistro abutre da descrença, do ódio e da
+avareza a que lugubremente se entregaram os que em solitário orgulho te
+ignoram!
+
+
+
+
+COMPANHEIRO E GUARDA
+
+
+Do vale aos cerros onde me encontrei, vai minguando a vida. Lentamente,
+a solidão alarga o seu domínio até que ao cimo, pela planura extensa que
+remata o encastelar de montes sobre montes, de todo impera na aridez
+ingrata que despiu de verdura a terra rasa e a adormeceu, estéril,
+semi-morta de avareza e silêncio.
+
+No deserto severo a que subi, apagou-se distante e emudeceu quanto na
+veiga fértil me fascina, esse fremente rebrilhar de vidas irrompendo da
+terra alegremente que por seus anseios vinham demandando seu lugar e
+glória à luz do sol--a carícia agitada das ramagens, mugidos da manada
+no pascigo, o argentino rebater da forja, a espessura ondeante das
+searas, a viveza das rosas nos jardins, a murmurante faina dos casais,
+toda a abundância, toda a flor e toda a lida que no vale se expandiram
+opulentas, na abrigada largueza dos seus campos e nos bastos vilares que
+ela alimenta.
+
+Eis que, porém, no árido silêncio dessa terra sem viço, devastada, se
+ergueu um casebre humilde, o mais humilde, e dali se elevou um ténue
+fumo! E logo se povoou e foi amena a solidão austera desse chão que o
+desamor dos homens e dos astros asperamente votara ao abandono. Foi como
+se uma afeição dali emanasse e banisse, amorável, por encanto, todo o
+ermo da gândara desolada.
+
+É a morada singela dum pastor. Recolhe agora ao aprisco o seu rebanho, o
+seu pobre rebanho, filho e imagem da pobreza da urze endurecida na terra
+recalcada dos invernos que nunca conheceu o arado e o jugo. E protegidas
+do rigor da noite as ovelhas, seu único tesoiro, por sua vez procura
+acautelar-se da aragem fria que lhe tolhe os membros, acendendo a
+fogueira mal nutrida das escassas giestas que juntou.
+
+Outro alento de vida não pressinto em redor do bravio solitário. Mas só
+por magia desse ténue fumo, companheiro e conforto do pastor no ríspido
+exílio em que perfaz sua missão de amor servindo a terra, senti que até
+ali mesmo me guardava das sombrias visões do desamparo não sei que voz
+estranha e poderosa.
+
+E pedi ao Senhor que recebesse em sua bondade eterna e eterna glória
+este infinito anseio da minha alma que sem cessar o vê e ao seu amor, na
+opulência da terra e na aridez, na maior chama como em débil fumo.
+
+
+
+
+REINO INFINITO
+
+ _Dico vobis quod quemcumque locum calcaverit pes vester, vester erit._
+
+ (SACRUM COMMERCIUM, cap. III)
+
+
+I
+
+«Eu digo-te que é teu todo e qualquer lugar que os teus calquem»--assim o
+ensinava o Santo aos seus irmãos, voltando em puro espírito a
+ilumina-los, daquela eternidade em que resplendia o seu amor ardente, o
+mais sublime que ao mundo trouxe a vida e a salvação, depois que alguém
+morrendo no Calvário derramou por amor todo o seu sangue.
+
+É nossa toda a terra que pisamos, toda aquela vastidão que nós sentimos,
+em seu alento respirando a fortaleza e em sua formosura extasiando os
+olhos e a nossa alma. E só é nossa aquela que sentirmos e enquanto o
+nosso coração a adora e louva; e é alheia, muda, estéril toda a terra
+que o nosso amor em tudo desconhece, ou distante dos olhos a não veja
+ou, estando a nossos pés, a não sintamos enchendo o nosso peito de
+bênçãos e alegrias. As boninas, os lírios e os rosais não são dessa
+avareza pervertida que lhes pôs em redor um muro alto, para privar os
+homens de os tocarem, e só por isso julga possui-los como escravos do
+orgulho e da vaidade; são desse peregrino pobre e semi-nu que na estrada
+os sentiu e, cantando e bem-dizendo o seu enlevo, prosseguiu na jornada,
+iluminada a vida e exaltada na fragrância e frescor de formosura e na
+divina crença que ela inspira em tua fé, Senhor, em teu poder de eterna
+graça e beleza. Esse foi rico e, na verdade, teve na terra que os seus
+pés calcaram um reino infinito--tão rico quanto foi miserável,
+indigente, esse outro que quis contar os bens pela demência cega e
+malfazeja com que privara da terra quem a ama e nessa sinistra força
+resumiu seu ser e aspiração. Este foi pobre, tudo perdeu do salutar
+alento que lhe mostrou um Deus em cada flor, o resplendor duma essência
+divina imperscrutável; por mais terra que seus pés possam calcar, jamais
+possui um só e estreito palmo do chão bendito que as flores orvalhadas
+consagraram. Possuir é admirar e comungar, e só é nossa a terra e tudo
+aquilo em cujo amor sentimos consumir-nos.
+
+
+II
+
+Bens da terra, Senhor, também os quero! Também instantemente vo-los
+peço! Também avidamente os apeteço! E reconheço os muitos,
+gloriosos, com que prodigamente enriqueceste os que têm como sua toda a
+terra que os seus pés vão calcando e os olhos vêem, enquanto a sua alma
+se extasia na beleza da vossa criação.
+
+Riqueza é o coração que vós tocaste na perene harmonia incorruptível que
+é o vosso ser e vibra em todo o espaço e se espelha em luares e na açucena.
+
+Dai-me, Senhor, a graça de a sentir, e nessa graça os reinos infinitos a
+que ela e só ela nos conduz! Para que então eu possua toda a terra e
+seja meu todo e qualquer lugar que os meus pés calquem.
+
+
+
+
+PODERES DA TERRA
+
+
+I
+
+Rolam fundas as águas nos caudais. Fundiu-se em torrente a neve que
+cobria de doce alvura a aspereza da montanha. Nuvens negras do sul que o
+vento apressa, jorraram o seu dilúvio sobre os campos. A inundação
+cobriu sebes e vales, e a seara, o prado e o burgo que agasalha o
+cavador, os jugos e as enxadas. De outeiro a outeiro, onde ontem
+perpassava o suave esplendor de mansas vidas,--em tímidas boninas, em
+rebanhos, pascendo repousados a abundância, e nesse fecundo arranco
+heróico e hercúleo dos servos da gleba generosa--a devastação das águas
+desapiedadas estende turvamente uma mortalha. E onde se ouvia murmurar a
+paz, o embalar dos berços carinhosos e estrídulos descantes de
+ceifeiras, felizes e esforçadas na sua faina, lançou a inundação roucos
+pregões de ameaça e terror, tumultuosa e lúgubre no ímpeto. Dia e noite,
+ou brilhe o sol vencendo a tempestade ou a escuridão se cerre
+impenetrável, rugem no vale horrendos clamores de morte, de ruína e de
+crueza.
+
+Ouviram-nos ao longe os povoados; os montes e as quebradas
+repetiram-nos. E, sentindo como um grito de aves fúnebres que dos céus
+nos mandassem seus agoiros, um sombrio pavor me subjuga. Seus lívidos
+espectros de desgraça escurecem-me em mágoa o pensamento, mostrando-me
+os infernos neste mundo entregue sem resgate às suas penas.
+
+
+II
+
+Não me culpes, Senhor, se eu esquecendo, em momentos mortais de
+desalento, a sabedoria infinda do teu ser que o orbe rege e funde em
+harmonia, sucumbi de fraqueza e de descrença perante os poderes da terra
+no seu auge! Não me culpes, Senhor, se assim vencido, atónito de espanto
+e de terror, senti passar a cólera das águas e tremi de sofrer sua
+inclemência! Não me culpes, Senhor, se um instante de assombro me
+oprimiu perante as iras da vossa criação e nelas vi tiranias indómitas
+cruéis! Logo me emenda o erro, crê, e me resgata de vãos temores e de
+fraquezas ímpias a inteira fé na suprema perfeição de quanto é teu. Mais
+alta que os clamores da inundação, uma outra voz me ergue no desejo de
+que a «tua vontade seja feita, quer nos céus, quer na terra»,
+eternamente.
+
+
+
+
+PERPETUAS DO ROMEIRO
+
+
+I
+
+Entardecer de outono tépido e quieto!.... O sol baixa ao poente,
+brandamente, em seu rubor velado de neblinas. A soberba do Estio
+esmoreceu. Há manchas desbotadas sobre os campos; empalidecem vinhas e
+pomares. A ceifeira já ergueu da terra a seara e deixou cor de cinza
+todo o chão. Os frutos coram derradeiras cores nas hastes semi-nuas e
+vergadas, e os mostos, refervendo capitosos seus túrbidos perfumes
+traiçoeiros, semeiam nos vilares visões pagãs de bacantes e faunos em
+delírio.
+
+Descem do monte os bandos dos romeiros. A essa orgia da terra generosa,
+embalsamando a aldeia em seu deleite e remindo-a da fome com o seu pão,
+responderam na ermida da montanha descantes amorosos, plangentes,
+orvalhados da noite e abençoados do sereno fulgor de astros propícios.
+
+Rebeldes à fadiga, alegremente, voltam à paz da aldeia e ao seu
+trabalho os romeiros que foram à capela a confessar as penas e paixões,
+implorando do bem-aventurado santo que lá mora, nessa agreste pureza do
+seu ermo, que às suas penas lhes mandasse alívio e que às paixões lhes
+desse horas fagueiras. E para que dilatadamente se prolonguem confissões
+e promessas murmuradas candidamente em estos de ternura, para que jamais
+se apague a sua lembrança nos lares em que se abriga o coração cativo do
+juramento bafejado pelo resplendor do santo do altar que entre lírios e
+rosas lhe sorriu, trazem no peito um ramo de perpetuas os romeiros
+saudosos da vigília em que sonharam o céu e o paraíso. Querem que um tão
+breve instante de ventura, por magia de amor, se torne eterno e que
+perpétuamente o guarde a flor em que sempre o verão como em sacrário.
+
+
+II
+
+O mais rude como o mais experimentado adorou neste mundo a eternidade.
+Na hora mais breve que se esvai e passa, no sorrir e nos olhos dos que
+amou, quis ver e quis sentir luz que não morre; e fielmente, talvez para
+não cair em tentação de perjúrio ou fraqueza, quis encarnar a crença na
+flor, dar um cálice à fé e o seu quinhão da formosura que na terra a
+louva.
+
+A vida só é vida enquanto ama e traduz e adora a eternidade na beleza do
+mundo e da nossa alma. É a tua lei, Senhor!
+
+Possa eu servi-la e fosse este meu peito perpetua do romeiro onde
+abrigasse um infinito amor e eterna graça!
+
+
+
+
+PODER DO VERBO
+
+
+I
+
+No apolíneo sonho do poeta, à beira da torrente, sobre os montes, o
+pastor que além viu a moça linda e ingénua, revestida de viço e de
+frescura tão perfeitos como os da primavera em torno que o afagava,
+cativo o coração e confundindo no mesmo vago enlevo a graça e a
+formosura, cantou assim ternuras do seu peito:
+
+«A erva cresce agora livremente. Há lírios sobre os prados. A maré verde
+de Abril transborda no seu crescer. E para traz, muito longe, perdeu-se
+cego o inverno.
+
+«Assim como a primavera surge da tormenta, assim da morada escura surges
+tu.
+
+«Em ti reside a luz, e qual espraiada no contorno dos lírios a primavera
+brilha, assim do teu coração, pelos lábios vermelhos entreabertos, vem
+palavras e amor aos feixes erguidos do acónito. E aquele que o movimento
+agita lança à terra a bênção, pelo suspirar ardente e pelo amor,
+pelo desejo bom e pela alegria.»
+
+«Quando tu partires, no inverno incerto, entre os fumos da morada e no
+rumor dos homens, então verei sempre os teus cabelos de oiro e os teus
+pés brancos ágeis no volteio. E do limiar da porta até ao lar, canções
+vindas do sul, as palavras da tua boca hão-de esvoaçar, aqui e além, a
+repetir-se em todo o espaço.»[1]
+
+ [1] William Morris. _The Sundering Flood._
+
+
+II
+
+Oh, magia do verbo que converte passageiro murmúrio em eternidade!...
+
+Por que subtil poder e invencível palavras dum instante, etéreamente
+aladas e fugazes, voltam do infinito espaço em que as lançou a vibração
+dum peito comovido, para de novo as ouvirmos tão altas e claras e
+tocantes como da vez primeira que as sentimos?!... Por que energia
+oculta se renovam, e nos povoam de visões os sonhos, e nos amparam os
+passos com o conselho, e nos fazem sangrar o coração, e nos desprendem o
+sorriso e o canto, e nos elevam na oração divina, as palavras que
+alguém, um pequenino ser mortal e fraco, mínimo átomo no volver dos
+mundos, um dia segredou timidamente na mansidão dos seus lábios
+mortais?!...
+
+São anjos teus, Senhor, são anjos teus! Pastores do teu rebanho louco e
+débil, os enviados bons do teu amor que vem a encaminhar nossa fraqueza
+no caminho da tua salvação!
+
+Antes, Senhor, a inconsciência, a morte, o infindo dormir da própria
+alma, do que o errar no mundo ao desamparo, sem a bendita voz dessas
+palavras que de contínuo ouvimos repetir-se, «aqui e além,
+perpétuamente, em todo o espaço», e nos renovam quantas visões de amor
+nos enlevaram, quanta beleza e graça nos mostraram para além deste mundo
+os céus e os anjos!
+
+
+
+
+UNÇÃO DE GLORIA
+
+
+I
+
+Nasce para vida curta e breve passa seu sonho de candura e de beleza a
+flor que a primavera descerrou. Brisas ligeiras que lhe baloiçaram ao
+sol do meio dia o seu turíbulo de dulcíssima seiva perfumada, essas
+mesmas virão rasgar-lhe as pétalas antes que o vento abrande no crepúsculo.
+
+Foi um celeste instante de brancura aquela que poisou sobre o espinheiro
+florido entre a pálida verdura. Os oiros reluzentes do ranúnculo
+brilharam curtos dias entre os prados; e a desmaiada púrpura da olaia,
+no suave rubor que nos fascina, parece ter nascido para uma hora, tão
+cedo ela decai e junca o chão e se dissolve e perde emurchecida. E as
+rosas--é seu fatal destino, bem o sabem! «nasceram para viver uma
+manhã». O seu frescor é o beijo duma aurora e uma só vez na vida hão-de
+senti-lo.
+
+Entretanto, na sombra, humildemente, a hera sempre verde, persistente,
+de contínuo cresceu sobre a ruína, e ou a neve embranqueça no trigal
+a verdura da terra requeimando-a, ou o sol alente as seivas dos
+vinhedos, ou o inverno a castigue rudemente, ou o Estio sequioso a
+abrase, vai urdindo, incansável, esse manto de viço túmido e quente com
+que protege feridas da ruína e, remoçando-a, a veste de grinaldas. E
+caem desfeitas sobre as heras as flores que a primavera desfolhou, na
+vida curta e breve em que viveram seu sonho de candura e de beleza.
+
+
+II
+
+Ah! Bem feliz, Senhor, seria o filho teu cuja sorte escutando o seu
+desejo lhe deixasse escolher para seu quinhão a frescura das rosas
+passageira vivendo longa vida prolongada na robustez das heras
+caridosas; porque esse seria a tua imagem, bebendo sobre a terra dum só
+cálice a suprema beleza e o teu poder. Mas, pois que à imperfeição eu
+fui votado e nela hei-de cumprir o teu querer, vivesse eu como as rosas
+um momento de candura e de graça e de perfume, e morresse incensando
+heras robustas de caridade e viço imarcescível!... Passasse assim na
+terra, como passa, numa tarde de Abril embalsamada, a unção de gloria
+que os rosais verteram sobre o vigor das eras persistente!... E seria
+feliz, abençoado, tendo sonhado a tua eternidade envolta num alento de
+doçura.
+
+
+
+
+SACRO HOLOCAUSTO
+
+
+I
+
+O outono palpita nos orvalhos. Já a manhã é tardia em despontar e o
+cavador trabalha em bem prover seu refúgio para a aspereza do inverno.
+Antes que rasgue a terra para o trigal, há-de juntar em torno do seu lar
+a provisão de lenhas que alimentem calor e vida em noites de Dezembro, a
+alegre e rubra chama da fogueira.
+
+No pinheiral da gândara, que dormiu prolongados silêncios abrasados
+quando o sol ia alto, fulminando verdes searas a beber seu leite da
+terra criadora, entre cantares dos filhos do seu seio e seus escravos
+que em suor a banhavam fecundando-a--no pinheiral da gândara, a árvore
+ferida, decepada do chão pelo aço luzente que o lenheiro vibrou em
+hercúleo arranco, solta tombando clamores tremendos; e a paz da floresta
+repetiu-os em ecos de saudade compassiva.
+
+
+II
+
+Oh, sagrado holocausto duma vida austera e solitária, corajosa, vivida a
+todo o tempo, paciente labor de muitos sóis, de rudes provações que
+experimentaram a tempestade, a calma, a noite e o dia, águas violentas
+que flagelavam e águas de brandura, salutar afago, luares calados, doces
+sonhadores, e o desalento do ardor do Estio e a branca inércia das
+manhãs do inverno, toda a luz, todo o tumulto e toda a paz, todo o
+infinito ser de infinitos mundos!... Tu morreste bendita dando aos
+homens todo o calor que guardas nas entranhas, para agasalhares os
+berços e o trabalho, para retemperares os seios que amamentam e para
+aquecer os braços que se tisnam na escravidão da terra redentora!
+
+Eu não sei se é de dor, se de gloria, se é louvor ou lamento que te
+envia, a ti, Senhor, que lhe traçaste a sorte, esse grito que ouvi no
+pinheiral quando ao cair da árvore bradou seu ansiado brado a sonorosa
+haste que cantara a mansidão das brisas que a tangiam. Mas ouvindo-o,
+Senhor, ouvi tua voz; e, turvado da abundância da tua caridade,
+implorei-a--não me abandonasse, como não me abandona a fé que eu tenho
+em teu mistério de bondade e amor.
+
+
+
+
+SAGRAÇÃO DO ESCRAVO
+
+
+I
+
+No alto da montanha, ao romper de alva, já moureja no campo o cavador a
+alentar essa terra de que é escravo, seu sonho e seu tirano, e sempre
+amada, fidelíssimamente obedecida, ou a sonhe feliz dando-lhe frutos
+entre rosais corados olorosos, ou a sinta opressiva, insaciável,
+bebendo-lhe no suor do rosto todo o sangue. O tépido conforto do seu
+lar, o dormir sorridente dos seus filhos, o desvelado afã da companheira
+no seu mudo lidar e em seus carinhos, quanto lhe afaga o coração e o
+tenta a esquecer na ternura a escravidão, tudo deixou por essa tirania,
+para fecundar a terra à qual o prende o rigor de apaixonada sujeição.
+Mal ao nascente a luz embranqueceu, ei-lo que parte, erguido e corajoso,
+a pelejar a peleja bendita de criar!
+
+Dorme além a cidade ainda prostrada da tenebrosa orgia que a desvaira.
+No dissipar de pálidas neblinas, que a madrugada rasga pouco a
+pouco, irrompem, lentamente, as sombras orgulhosas dos palácios em que o
+luxo entorpece seus filhos corrompidos e enfermos, de alma e do corpo,
+por suas vãs loucuras tão cruéis.
+
+Surgem a par as torres das igrejas, onde a fé, a mentira e a hipocrisia
+lançaram de tropel em um só templo a cruz de Cristo, a mais santa das
+crenças, e a mais torpe traição, essa que oculta sob véus da pureza e na
+oração toda a cobiça sórdida de mundos que em podridões sustentam o seu
+deleite.
+
+É frouxo ainda o fumo da oficina. Nos seus leitos de ferro e de granito
+mal despertaram os monstros que, rugindo pelos lúgubres antros
+denegridos, convertem todo o sangue em alavanca ou em um numero, como se
+fora a haste fria e rígida do mais frio aço endurecido. Toda a emanação
+de Deus que anime um ser em Deus criado e nele engrandecido, coração,
+formosura, o próprio seio que amamenta um filho, supremo alento dum
+supremo amor, qualquer impulso duma consciência iluminado por visões dos
+céus, o mais leve passar duma alegria,--morrem, são nada à porta da
+oficina, escoria inútil que os dragões arrastam àquelas profundezas
+tenebrosas em que ter alma é um crime, e o pensar e o sentir são uma
+traição, um erro, um prejuízo dos argênteos tesouros mercantis.
+
+No declive estreito dos outeiros e na sombra mais húmida das suas
+pregas, ao redor dos palácios e dos templos, como varridos em monturo
+abjecto para longe das grandezas que afrontavam, confundem-se e
+amontoam-se os casebres onde a fome e a sua negra corte de vícios, de
+loucura, de enfermidade e morte e blasfémia têm seus covís e dilaceram
+os mártires que a crueza dos ricos lhes votou.
+
+O próprio rio que regara os prados e os tingira em verdura e macieza,
+que adoçara vinhedos das encostas e orvalhara os vergéis alcandorados na
+ribanceira que a pervenca esmalta, o próprio rio onde foi espelhar-se o
+rosto lindo da donzela ingénua cativada dos olhos que respondem
+comungando nos seus o seu anseio, o rio que serviu a obra de Deus, sua
+pura beleza salutar,--tristemente se roja na cidade, turvado por as suas
+maldições e servindo a avareza despiedosa que roubou o pão de míseros
+humildes para em opulências cobrir de oiro a soberba.
+
+E perante a cidade em seu letargo, atormentada e pálida de dores,
+sucumbida nas suas maldições, o sol rompendo ao longe sobre os montes,
+na resplendente luz do seu nascer, aureolou de gloria o cavador,
+sagrando-lhe a sua crença e o seu vigor, a robustez hercúlea do seu
+peito e a consagração bendita de sua alma a esse tributo infindo,
+heróico e santo, de em suor pagar à terra o nosso pão.
+
+
+II
+
+Senhor! Em vossa caridade reparti vossos bens por quantos, infelizes, a
+fraqueza condena a mendigar dos fortes o seu pão, embora o orgulho os
+traga confiados em pérfidas grandezas traiçoeiras! Por esses que o
+destino arrasta na tristeza, no cansaço e desgosto de viver, porque em
+hora sinistra se apartaram do caminho da vossa salvação!... Deixai que
+chorem sua desventura, e em seu queixume ouvi a minha voz!... Deixai que
+chorem em doloroso exílio esses proscritos que jamais comungam com o
+cavador na bênção de criar na terra o nosso pão com o suor do rosto! À
+luz da aurora que o beijou no monte, juntai as lágrimas dos que vão
+chorando sua desgraça, sua perversão!... Fossem elas incenso e ouro e
+mirra que os débeis reis do mundo tributassem à sagração divina do
+escravo!... Resgatassem humildes todo o erro que os desprendeu da
+escravidão da terra!...
+
+
+
+
+MALDIÇÃO
+
+
+I
+
+Entenebrecidas noites de tristeza afastaram-me da via iluminada para
+lugares distantes, desprezados dos escravos das seduções mundanas,
+prisioneiros fieis dos seus regalos.
+
+Passei pelas vielas lobregas, estreitas, onde se acoitam multidões
+abjectas, que os ricos aviltaram condenando-as à ignorância, à fome, aos
+vícios do infortúnio, à loucura e ao crime, a epilépticas convulsões da
+embriaguez, à indigência, ora prostrada ou insolente, ora mendiga
+lacrimosa e tímida, ora cuspindo pragas e blasfémias em sua altivez
+irada, revoltada. Vi os negros covís dos desgraçados que a opulência
+arrojou longe dos olhos para os monturos humanos da cidade,--não fossem
+os andrajos e os vermes confundir-se entre vestes de purpura manchando-as!
+
+Dos gemidos que vinham desses antros, tantas vezes castigando as nossas
+faces como um viperino jacto de veneno, a procurar vingança; do
+rugido da miséria nos seus transes nenhum me tocou mais o coração do que
+o grito das crianças açoitadas, entre imprecações raivosas de possessos,
+flageladas com desprezo e ódio vermelho, somente por chorarem doloridas
+de fome e frio e ínfima indigência, sem carinho e sem pão, sem um leve
+consolo, que conforte e que alegre e vivifique dum reflexo de divina
+essência o corpo enfermo e a empedernida e bruta animalidade.
+
+Longas horas depois de ter deixado os coitos dessa escoria penitente que
+sofre e geme em vão nos seus infernos, sem alcançar mover à misericórdia
+os soberbos e grandes que em seu fausto, emudecida e cega a consciência,
+lhe negaram justiça, ainda ouvia insistente o clamor desse tormento
+louco das crianças.
+
+E nenhum mais cruel tenho encontrado!
+
+Em nenhum--e são muitos entre os homens! encontrei maior dor e perversão.
+
+
+II
+
+Se o Estio esgotou fontes e rios e secou a campina, a ave infeliz, que
+tem filhos no ninho a sustentar, e em vão moureja, diligente e muda, por
+todo o abrasado e ingrato espaço, tem de voltar ao poiso desprovida.
+Mas não castiga essas famintas bocas que a esperam, gritando e
+atribuladas, a pedir-lhe o alimento que não pode dar-lhes, pois lho
+recusam os calcinados campos adversos. Sofreu resignada o suplício, a
+fome, a sede, e a amarga invocação dos que um mau sestro confiou ao seu
+amparo.
+
+Se o leite seca ao animal bravio, por qualquer contingência da sua
+sorte, oferece o peito exausto ao filho débil, todo o seu sangue
+quereria dar-lhe; e sentindo-o a morrer de inanição, responde com os
+carinhos ao queixume da vergontea que vai a definhar, aquece-a junto ao
+corpo, mas jamais se abandona a ímpetos de cólera, só porque um ser
+amado lhe suplicou, inquieto, angustiado e lacrimoso, o mantimento que
+carece para viver.
+
+
+III
+
+Que estranha aberração induziu o homem a negar a robusta caridade,
+comum, vulgar, no peito inconsciente?!... Que estranha perversão o fez
+acrescentar à indigência a crueldade, torturando, somente por lhes
+sentir as agonias, aquelas mesmas vidas que criou, carne da sua carne,
+almas da sua alma?!...
+
+Discípulo de Cristo a quem adoras, por comunhão na sua vontade e
+anseio erguido à plena luz do entendimento que te mostrou irmãos nas
+ínfimas partículas, na argila e na poeira, como no coração, na rosa e em
+tudo quanto existe! Senhor soberano dessas forças terrenas formidáveis
+que dominaste e trazes por escravas em proveito do teu gozo e teu
+triunfo, convertendo-as do terror à mansidão, dócilmente vergadas ao
+capricho!... Por maldição de trágico império, em tenebrosa queda
+degradado, foste sujeito, louco, em teu orgulho de virtude e de crença e
+de isenção, a repassar de fel a dor dos próprios filhos!
+
+
+
+
+PROFISSÃO DE FÉ
+
+
+I
+
+Não ajoelhei no adito do templo e, como o filho querido do poeta, fiquei
+também de pé, rebelde e incrédulo, «quando um povo fiel na sombra das
+abobadas se curvava ao passar de cânticos celestes, tal qual se verga a
+multidão das canas quando sobre elas sopra o vento norte.»
+
+Irreverente e altivo, passei coberta a fronte por monumentos altos,
+insensatos, em que orgulhosa demência de grandezas, poluindo com o
+fausto a divindade, num estranho tumulto de blasfémia e súplica, de
+mentira e verdade, de confissão ingénua e de impostura, pôs o sinal da
+cruz e da oração ao sagrado retiro em que confunde religião, vaidade,
+amor e ódio, fanatismo e doçura, mansidão, crueldade, perdão, vingança,
+cobardia e coragem, o nobre e o mísero, o sacripanta e o santo.
+
+Muita vez me afastei desse desvairo, satânica traição, em que o
+resplendor de Deus no cálice e na hóstia se empana esmorecendo em
+nuvens de vileza que derramam em torno a escuridão da impiedade e das
+paixões mundanas.
+
+
+II
+
+Mas não te desamei, Senhor, porque assim fiz!...
+
+Sempre que o coração tentou seus voos de candura, sempre que se sentiu
+sujeito a forças sobre-humanas para as servir guardando os seus
+mandados, no remorso e na dúvida, em todo o penar de angustia e em toda
+a esperança, em afecto e ternura, em sonhos de pureza, aspirando ao
+enlevo no Eterno, cansado deste mundo de fraqueza, ergui olhos chorosos
+ao azul, onde cintilam astros diamantinos, e invoquei-te, Senhor, meu
+Deus e Pai, a ti «que estás nos céus, nome santíssimo, para que tu me
+acolhas no teu reino e eu fielmente cumpra a tua vontade; para que me
+dês o pão de cada dia e me perdões quanto te dever, assim como aos meus
+devedores também perdoo; para que afastes de mim a tentação e de todo o
+mal me livres para sempre.»
+
+E fui humilde então!... Nesses altares me despi totalmente da soberba e
+ajoelhei prostrado, submisso, a escutar tua voz e a adorá-la, religioso,
+confiado e crente, curvado como o canavial vergado ao vento.
+
+
+
+
+DRÍADE ENFERMA
+
+
+I
+
+Pelo musgoso atalho da floresta, entre o tojo bravio e urzes austeras,
+fui saciar meus olhos na beleza e reanimar o corpo na carícia que o sol
+esquivo e brando de Dezembro frouxamente derrama através da espessura do
+pinhal.
+
+A custo ia abrandando o frio da manhã. São curtas nesse tempo as horas
+tépidas. Mal se fundiram os gelos da derradeira noite, logo vem
+renová-los mais profundos a palidez de frígidos crepúsculos.
+
+Experiente, já certo dessa lei que dos astros nos vem e é impreterível,
+sorvia com avidez a delícia breve que eu sentia fugaz, quase uma ilusão
+de transitórios sonhos luminosos.
+
+E lembrava o Estio e a primavera!... Ali, naquela mesma floresta, ali
+busquei abrigo da violência dos abrasados dias inflamados pela calma do
+mês de Santiago. Ali me defenderam dos seus fogos as vastidões
+umbrosas impenetráveis. Ali ouvi passar no vale vizinho o sussurrar das
+águas que corriam a reanimar o prado emurchecido por aturadas horas
+refulgentes. Ali senti esse leve sorrir vindo da terra, desprendido dos
+borbotões das fontes do seu seio para redimir a vida extenuada,
+desfalecida à míngua de frescor.
+
+Ali encontrei passando ao entardecer, em sua plena graça juvenil, como
+se alada rosa eu entrevisse, a moça que subia das lenturas fecundas do
+juncal a regalar seus gados com o pascigo, entre cantares ceifado
+alegremente, vibrando firme a foice, despiedosa, a traçar nos seus
+dentes a bonina mais branca, e o malmequer, e a mais esbelta haste do
+azevém onde já despontavam as palmas rígidas em que guarda a semente.
+
+E eis que de novo a encontro agora na floresta, a essa mesma dríade que
+outrora, em perfumadas horas estivais, passou por mim turvando-me os
+sentidos de súbito embebidos, cativados, na gentil maravilha de seus
+gestos.
+
+Mas quanto vem diferente e vem mudada!...
+
+Que é da graça subtil que a envolvia, envolvendo na sua formosura os
+olhos confundidos, fascinados do latejar sadio que igualava o florir
+ingénuo da açucena?!...
+
+Filha da terra e sua humilde serva, também ela conhece o outono e o
+inverno; também arrasta penas e fraquezas; também se empobreceu de
+seus enleios. Não fugiu ao rigor da lei comum. Enferma, traz
+enfermo o seu encanto; vai quebrada a magia do seu poder divino. Curvada
+sob o feixe de duros ramos secos que para seu conforto esforçada colheu
+de orgulhosos robles, castigada a frescura rosada dos seus braços pelos
+espinhos ímpios dos silvados, tisnada a face pela aspereza cortante das
+manhãs, é agora a lenheira paciente, mortificada e débil, imagem do
+trabalho e do sofrer, aquela ceifeira airosa que ainda há pouco foi para
+mim missionário feliz da alegria sagrada de viver, afortunada voz e alto
+pregão das seduções da terra, claro espelho de todo o seu amor.
+
+
+II
+
+Se em toda a vida passa a enfermidade, se a formosura é incerta, e se o
+lírio e a estrela e a nuvem e o mármore mais duro, e a alegria e o riso
+e a doçura infinita da bondade e a própria luz do sol são perecíveis; se
+a criação inteira que os olhos vêem e que a nossa alma sente, toda a
+beleza íntima e a do mundo, decai e desfalece, sofre e se apaga: se só
+tu és eterno, Senhor! em tua caridade e teu saber, e se a suprema
+harmonia, que é o teu sonho, não distingue o prazer e a dor, a caricia,
+o flagelo, a rosa e o cardo, por igual divinos em teu divino
+ser--se é esse o teu querer, bendita seja a hora em que encontrei a
+dríade enferma do inverno que em seu dissipado encanto e em sua mágoa
+correu a ensinar-me a crer em teus desígnios e me segredou louvor e
+obediência, a inteira abdicação em teu mistério!
+
+
+
+
+MONJAS DO OUTONO
+
+
+I
+
+Ouvi cantar no monte as urzes roxas.
+
+Cantavam ao romper de alva, ainda banhadas do cintilante orvalho da
+manhã que pela noite calada e arrefecida as estrelas pousaram nos seus
+braços, trigueiros como a terra onde se criam.
+
+Cantaram ao cair da tarde, iluminadas por brazeiros corados do poente
+que o tumultuar das nuvens inflamou, ao longe, sobre o mar, no extremo
+horizonte.
+
+E enquanto assim cantavam nos seus bandos, vagabundos das fragas e dos
+seixos, cobriam toda a terra da sua purpura, esmorecida e branda, tímido
+murmúrio da vermelhidão que hesita em seu clamor e teme ferir quando só
+quer dar vida.
+
+Cantavam livres percorrendo a gândara rasa onde nem um desgarrado
+arbusto se afoitou a erguer mais alto o ramo castigado, sem remissão
+votado a rastejar porque o pascer contínuo dos rebanhos mais não
+consente. Pelos recessos húmidos das grutas, sob a curvada abobada do
+roble, entre ogivas audazes dos pinheiros, na alumiada encosta que
+conduz à azenha encastelada sobre o rio, ou adornando frígidos penhascos
+que só conhecem os rigores do norte--cantaram sempre e com a mesma voz
+as urzes roxas, monjas do outono.
+
+Conformada doçura bem casada com o declinar das pompas do Estio,
+renuncia da opulência, resignação entre a pobreza árdua do inverno que o
+encurtar do dia já promete, um sereno caminhar para a austeridade,
+aquele desprendimento sobre-humano que descreu das grandezas deste
+mundo, da ansiosa tormenta da ambição, e procura o resgate em
+singeleza--tudo eu ouvi cantar às urzes roxas, monjas do outono
+bem-aventuradas, que aos olhos me trouxeram suavidade entre ameaças
+ríspidas da aspereza e a minha alma engrandecem conduzindo-a aos reinos
+religiosos da sua paz.
+
+
+II
+
+Senhor! Tu que me consentiste a graça de escutar a voz bendita com que
+no outono as urzes roxas vem a libertar-nos das dores de embriaguez
+obcecada que pôs sua ambição em querer muito, em vez de a consagrar
+à fortaleza de se sujeitar à lei que em teu mistério deste ao universo,
+não permitas, Senhor, que eu desfaleça! Enquanto a minha jornada não
+findar, que eu não deixe jamais de te escutar no canto benfazejo das
+urzes roxas, monjas do outono!
+
+Possa eu beber com elas no seu cálice a suave resignação da sua pobreza,
+seu valoroso animo que afronta, cantando e derramando suavidade,
+pressentimentos que aos demais oprimem, esse cair da noite do inverno,
+seus flagelos, suas privações, o gelo, a morte, todo o seu cortejo de
+crueldades sem fim, inexoráveis!
+
+
+
+
+A TERRA ESCRAVA
+
+
+I
+
+Esta terra que no homem tem o escravo e, toda poderosa, o traz curvado a
+amá-la, essa mesma por sua vez foi também escrava quando, obediente e
+humilde, serve o esposo ao qual sorri ansiosa e abre o seu seio.
+
+Há-de rasgá-la o aço da charrua para que a seara acorde nos seus sulcos;
+e há-de a foice resplender, ceifando o pão, para que ela aos servos dê o
+seu sustento. Se esse beijo de amor a não alenta, jaz infecunda,
+endurecida e nua, como triste proscrita da alegria, desamparada à beira
+do caminho, em vão sonhando caridade e gloria.
+
+
+II
+
+A escravidão é a tua lei, Senhor! A ninguém que tu ames a ocultaste. É o
+mantimento e guia da jornada que à tua fé nos leva. Nem a estrela
+mais rútila dos céus deixou de ser escrava de outra estrela. Sintam os
+meus pulsos todas as algemas que me acorrentem a esse teu querer de
+fecunda bondade, sujeitando o meu ser a outro ser e perfazendo assim a
+vida eterna do amor e da humildade! Sirva-as o sangue, dê-lhes o
+calor!... Adore-as meu coração!... Por elas se resgate da treva das
+tristezas e das dores em que o solitário orgulho pena a culpa!
+
+
+
+
+MISTÉRIOS DE CERES
+
+
+I
+
+O nocturno ulular do negro inverno solta no pinheiral espectros
+clamorosos. Abrigam-se refugiados nos casais, em volta da viva chama que
+os aquece, os tímidos foragidos da tormenta e os colos que acalentam
+criancinhas.
+
+E, heroicamente, afrontando a rudeza da inclemência, despontam nas
+campinas os trigais. E, alegremente, esvoaçam na levada alvas farinhas,
+bailando o seu delírio sob os colmos que protegem a azenha sonorosa. E,
+ardentemente, o brazido dos fornos vigilantes fabrica no seu fogo o doce
+pão que, quando alvorecer, nos reanime para seguirmos na terra essa
+jornada da via dolorosa, via ingrata.
+
+São os mistérios de Ceres que do seu seio destila o abençoado leite que
+amamenta os infinitos bandos dos seus filhos.
+
+A terra, o fogo, a água e o nosso braço, quanto a criação sonhou de
+grande e belo e santo e generoso, desde a fecundidade casta duma leiva
+até ao nosso alento, consumido pela consciência do dever
+cumprido,--todos Ceres arrastou em seu mistério, todos são seus
+escravos, obreiros dóceis, servos diligentes da sua caridade. E a sua
+esmola, o pão, que por igual aviventa nos berços a inocência, renova a
+energia ao cavador, e piedosamente desce às geenas túrbidas dos míseros
+proscritos que em desgraça e no crime resvalaram--o pão gerado para
+criar o sangue é também sacramento que une a alma a todas as divinas
+forças que o geraram, partícula de insondáveis mundos e infinitos de
+poder e de amor.
+
+O inspirado rude plebeu que, se o pão caiu no chão, o ergue e o beija,
+consagrou na candura religiosa esse mistério que une a nossa alma à
+terra e aos céus e só a religião suspeita e adora.
+
+
+II
+
+Conduzi-me, Senhor, ao altar de Ceres! Ensinai-me sua graça e os seus
+mistérios! Assim como o pão renova no meu sangue o calor que o agita e o
+move e o fortalece, fazei, Senhor, que ele nutra também meu coração para
+sentir, prostrado em gratidão, tua eterna bondade generosa! Que por
+meu braço o louve e engrandeça!... Que, curvado, lhe tribute o suor do
+rosto!...
+
+É o teu mensageiro o mais fiel. Seja eu o seu servo o mais humilde! Pois
+que, servindo-o, Senhor, te glorifico e em ti resgato a miseranda
+vida.
+
+
+
+
+HORAS DO MEU PEITO
+
+
+I
+
+Fica à beira do rio o campanário que do alto da sua fortaleza conta as
+horas da vida passageira em que ao redor se agitam ou repousam os campos
+remansosos e os vilares, afadigados na fadiga humana. E quantas horas
+caem do bronze, lento e sonoro, que as solta ao vento, ou tormentosas
+sejam ou benignas, leva-as o rio para o mar profundo, na sua imensidade
+vão perder-se.
+
+
+II
+
+Assim caudais de amor, e esses somente, me recebessem horas do meu
+peito, quantas meu coração puder contar, ou na mágoa e na dor ou na
+alegria, e todas elas as levassem celeres, na candidez das águas
+baptizando-as, a perder-se, Senhor, na imensidade da bondade infinita do
+teu seio!
+
+
+
+
+ÁGUAS VIÚVAS
+
+
+I
+
+Não distantes do mar, entre rochedos, brotam as águas que, em seu breve
+curso, desoladas se internam na aridez, até que de todo as bebe o areal
+adusto e as confunde perdidas na amargura de ondas salgadas que destroem
+e queimam.
+
+Foi-lhes árduo o caminho. Apenas surgem da terra e viram o dia,
+encontraram a fragura impenetrável, madrasta avara de mirrados líquenes.
+Depois, como cativos escoltados por alcantis que os cingem ao caminho
+apertado no sombrio vale estreito, nem sequer por momentos gloriosos
+sentiram a liberdade das campinas que amorosas quisessem e se exaltassem
+em seu fecundante afago. Por fim, engolfando-se em mares insaciáveis,
+estéril se dissipa para sempre esse anseio de amor que prometia a rosa e
+o trigal e a sombra viridente e que, infeliz, nasceu só para sofrer, por
+negra sorte cedo condenado a jamais se expandir em formosura e
+nunca amassar o pão que mata a fome. Malfadadas, essas águas das fontes
+junto ao mar beijaram o pequenino campo minguado entre rochas rebeldes e
+soberbas, e eis que o mar as vem beber e logo as lança nas suas
+profundezas insondáveis.
+
+Foi seu destino serem infecundas!
+
+
+II
+
+«Águas viúvas!» disse o cavador. «Na vida não tiveram quem as ame. São
+viúvas do chão que as recebesse no seu seio profundo e generoso para as
+restituir á luz em flores e em frutos, para vestirem de doçura a terra,
+para salvarem da fome os que a padecem, para se alargarem em lagos dos
+açudes e para cantarem na levada alegre seu louco impulso, todo o seu
+folgar».
+
+E o cavador cismava na sua leiva, naquela que rasgara no bravio, e era
+regada só do suor do rosto e pelos orvalhos breves da manhã, e em dias
+tormentosos dilacerada pela rispidez de invernos inclementes, severos,
+tanto ou mais que o sol de Julho. Por que erro ou mistério chorava ali a
+água a viuvez dum benigno chão que a desposasse, e lá no cimo do monte o
+campo pobre desfalecia à mingua da lentura que lhe acordasse os
+germes e os trouxesse a viverem a gloria de crescer?!...
+
+E o poeta, ao ouvir o cavador, pensou na viuvez das almas que no mundo,
+nascidas para a bondade e para o amor, voam seus voos na ruindade
+agreste dos egoísmos míseros dos homens e, à mingua de almas irmãs que
+lhes recebam seus anseios fecundos de carinhos, mirram-se estéreis entre
+desenganos, e do mundo se apartam dissolvido o seu desditoso anseio
+benfazejo nas profundezas da desilusão.
+
+Por sua vez incerto e compungido, tremendo da desgraça dos infernos onde
+penam os corações desamparados que em desventura nunca sentem irmãos
+pulsando a par do seu pulsar de amor, o poeta responde ao cavador:
+
+«Por que erro ou mistério do destino, andam perdidos e, chorando, sofrem
+a viuvez duma ternura irmã da que os alenta e ampara e os ergue a Deus,
+os corações que amam sem encontrarem amor que o seu fecunde e alimente
+para o florir em bênçãos e consolo dos que em desdita esmolam esses
+bens?!...»
+
+
+III
+
+Isentai-me, Senhor, do atroz martírio que o coração sedento de bondade
+padece nesta vida quando à sua voz só responde a dureza das paixões
+e uma cobiça ardente, insaciável! Roubai-o a essa cruz, toda de
+espinhos, em que rasgado se desfaz e muda um infinito amor em amarguras!
+Ensinai-lhe, Senhor, a fortaleza e que, entre o desamor que o perseguir,
+saiba ao menos amar a desventura!
+
+
+
+
+PUREZA AMARGA
+
+
+I
+
+A pureza que a neve da montanha desprendeu gota a gota em claro fio, era
+doce nas pedras do regato onde o pastor bebia o refrigério das canseiras
+do monte e do rebanho.
+
+E correu, correu sempre clara e doce, enquanto se despenhou de fraga em
+fraga, apressada, descendo ao horizonte que distante a chamava e a seduzia.
+
+E foi doce ainda quando se juntou ao largo rio em que os cinceirais
+encaminhavam brandamente ao mar, entre verduras tenras rumorosas, as
+diamantinas, fúlgidas, correntes de peregrinas águas caudalosas.
+
+Até que ao fim entregue à imensidade, porque ansiava louca de paixão, e
+a que corria desde o seu nascer, na pureza de neve assim lançada às
+convulsões das vagas sem repouso, transmudou-se em travoso amargor de
+ondas salgadas quanta doçura tinha no seu cálice--como se por
+vontade e obra divina essa pureza que nos foi doçura, irmãmente nos dê
+sua amargura.
+
+
+II
+
+Senhor! Fosse a amargura o preço da pureza!... E eu quereria que quanta
+amargura em todo o mar se encerra, toda ela coubesse no meu peito, se
+por ela pudesse converter meu coração, turvado de paixões, na virgínia
+pureza que se gera da neve cristalina da montanha.
+
+
+
+
+TIRANIA DO FOGO
+
+
+I
+
+Após um breve e pálido crescente perdido além, ao longe, sobre o mar, na
+cerrada treva que se lhe seguiu, fulguram tragicamente as labaredas do
+incêndio que se ateia na montanha e enegrece o pousio, raso e nu, em
+toda a vastidão onde implacável o fogo apascentou os mortíferos rebanhos
+das suas chamas. É cinza a urze que tingiu de púrpura a aspereza mais
+ingrata dos fraguedos. É cinza o tojo que arrojadamente floriu doirando,
+de oiro precioso, o chão ainda gelado de Dezembro. E os renovos do sobro
+e o pinheiral, que entre os seixos avaros despontavam, em cinzas
+converteram a curta e tenra vida das suas hastes.
+
+A tirania do fogo em sua gloria toda a beleza esquece e todo o bem. Em
+sua austeridade e em seu mistério, enquanto nos fascina e nos subjuga,
+ou nos avivente e exalte em manso alento ou em delírio lavre devastando,
+tem por escrava toda a formosura, dissipa-a sem piedade em seus
+altares. A flor que canta a aurora e é o seu sacrário, a árvore que ao
+peregrino deu sombras e pomos, sumas riquezas, sumas alegrias desta vida
+mortal dos nossos olhos--são pó e em pó se volvem, se a pureza do fogo
+as inflamou.
+
+
+II
+
+Ser escravo, Senhor, é o meu anseio! Libertai-me o meu peito da miséria
+dos mundos vãos de vãs aspirações da vaidosa existência corruptível, e
+convertei-me em cinza o coração, na tirania de um amor ardente, por ele
+purificado e consumido--assim como o fogo abrasa o cedro e o roble, em
+chamas gloriosas redimindo na luz, que é vida eterna, do transitório
+orgulho da opulência que se nutriu das seivas da floresta!
+
+
+FIM
+
+
+
+
+ÍNDICE
+
+ ROSAS DO MEU CAMINHO
+ AS TAÇAS DO BANQUETE
+ A DOR E A VIDA
+ MAIS FORTE QUE O MAR
+ HUMILHAÇÃO
+ BÊNÇÃO DO POENTE
+ O SONO DO TRIGAL
+ TERRA LACRIMOSA
+ CULTO DE QUIMERAS
+ ANSEIO DA MANHÃ
+ A ASA DO REMORSO
+ SERVAS DA LUZ
+ TROFÉUS DO ESTIO
+ LOUCOS DE HUMILDADE
+ ORAÇÃO DOS LARES
+ CANTARES DAS SEBES
+ COMPANHEIRO E GUARDA
+ REINO INFINITO
+ PODERES DA TERRA
+ PERPETUAS DO ROMEIRO
+ PODER DO VERBO
+ UNÇÃO DE GLORIA
+ SACRO HOLOCAUSTO
+ SAGRAÇÃO DO ESCRAVO
+ MALDIÇÃO
+ PROFISSÃO DE FÉ
+ DRÍADE ENFERMA
+ MONJAS DO OUTONO
+ A TERRA ESCRAVA
+ MISTÉRIOS DE CERES
+ HORAS DO MEU PEITO
+ ÁGUAS VIÚVAS
+ PUREZA AMARGA
+ TIRANIA DO FOGO
+
+
+
+
+Casa Editora de A. Figueirinhas
+
+PORTO
+
+
+Paulo Combes
+
+O Livro da Esposa, br. 500, enc. 700
+
+O Livro da Dona-de-Casa, br. 500, enc. 700
+
+O Livro da Mãe, br. 500, enc. 700
+
+O Livro da Educadora, br. 500, enc. 700
+
+
+Jaime de Magalhães Lima
+
+Rogações de Eremita, br. 300
+
+
+José Agostinho
+
+A Mulher em Portugal, br. 500, enc. 700
+
+O Caminho das Lágrimas, br. 600, enc. 800
+
+Cristo (Poema), 1.º vol. br. 500
+
+A Religião e a Arte, br. 100
+
+
+Frederico Mistral
+
+Mireia--Tradução de João Aires de Azevedo e Manuel Teles--br. 500, enc. 700
+
+
+Bossuet
+
+Sermões, vol. I, br. 500, enc. 700
+
+Sermões, vol. II, br. 500, enc. 700
+
+
+Maria Pinto Figueirinhas
+
+Contos das Crianças, br. 300, enc. 500
+
+O Livro das Maravilhas, br. 300, enc. 500
+
+Os Serões das Crianças, br. 100
+
+
+Pedir Catálogos da Casa Editora de A. Figueirinhas--Porto
+
+DEPOSITÁRIO GERAL:
+
+Livraria Portuense LOPES & C.ª--Sucessor
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Rogações de Eremita, by Jaime de Magalhães Lima
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ROGAÇÕES DE EREMITA ***
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+Produced by Pedro Saborano
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
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+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
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+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
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+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
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+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+Project Gutenberg's Rogações de Eremita, by Jaime de Magalhães Lima
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Rogações de Eremita
+
+Author: Jaime de Magalhães Lima
+
+Release Date: September 1, 2009 [EBook #29884]
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+Language: Portuguese
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ROGAÇÕES DE EREMITA ***
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+
+Produced by Pedro Saborano
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+
+
+<div style="border: double 10px #000; padding: 1em;">
+<p style="text-align:center;">JAIME DE MAGALHÃES LIMA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
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+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 2.5em;">Rogações de Eremita</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">CASA EDITORA                 <br>
+DE<br>
+                      A. FIGUEIRINHAS<br>
+                                          PORTO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">Empresa Gráfica "A Universal".&mdash;Porto.</p>
+</div>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<div>
+<p style="text-align:center;">HOMENAGEM DO EDITOR</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center; font-size: 1.5em;">Rogações de Eremita</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; font-size: 0.8em; margin-left: 30%; width: 60%;">
+<p>Composição e impressão</p>
+
+<p>Empresa Gráfica «A UNIVERSAL»</p>
+
+<p>&mdash;Rua Duque de Loulé, 111&mdash;Porto.&mdash;</p>
+</div>
+</div>
+
+<p> </p>
+
+<p> </p>
+
+<div>
+
+<div>
+<p style="text-decoration: underline; font-size: 1.5em;">Jaime de Magalhães
+Lima</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right; font-size: 3em; margin-right: 20%;">Rogações<br>
+de Eremita</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-decoration: underline; font-size: 0.8em;">CASA EDITORA de A.
+FIGUEIRINHAS</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em; margin-left: 20%;">Deposito geral:<br>
+Livraria Portuense de Lopes &amp; C.ª&mdash;Suc.<br>
+119, Rua do Almada, 123&mdash;Porto.</p>
+</div>
+</div>
+
+<div id="corpo">
+<p><span class="pn">{5}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>No ermo que eu percorro neste mundo,&mdash;ermo de corações cativos dos
+meus sonhos&mdash;ao suplicar dos céus a claridade na qual a alma habite e se
+engrandeça, deixei na terra gotas do meu sangue, onde a dor o soltou do peito
+ansiado por abundância de erros e de culpas e por amargura de infinitas mágoas,
+e onde jorrou seus cantos de alegria em louvor e contemplação da beleza
+eterna.</em></p>
+
+<p><em>E, como assim vulnerável tenha sido, misteriosa comunhão uniu-me
+àqueles, solitários e crentes, que na cruz da aspiração também sofreram. Muitas
+vezes me guiou o rasto estranho, se porventura o vi ensanguentado de sangue
+igual ao meu pela paixão que o derramou em oferenda a altares de amor. São
+rogações de todos esses passos as que neste livro traduzi e confesso para quem
+no mesmo error se houver perdido ou se tiver remido em iguais
+enlevos.</em><span class="pn">{6}</span><span class="pn">{7}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0010">ROSAS DO MEU CAMINHO</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION0011">I</a></h2>
+
+<p>Parei no meu caminho a colher rosas. No doce esplendor da sua gloria,
+brotavam purpurinas entre o cômoro renovado no viço pelo outono. E o sol brando
+que vinha do nascente, e a palidez do céu já esmorecido do seu fulgor candente
+do Estio, e a atmosfera quieta e orvalhada, e o silencio do campo onde desponta
+o prado que no inverno o cobre e é a sua túnica,&mdash;cantavam com as rosas a
+doçura e em minha alma infundiam subtilmente os salutares enlêvos dos seus
+sonhos.</p>
+
+<p>Acordou-me de encantos a pobreza. Alguém, passando, me estendeu a mão,
+mirrada e pálida de fadiga e fome. Ouvi um brando murmurar de suplica; e o
+coração turvado de piedade transmudou em misericórdia o seu deleite. Um
+resplendor mais alto escurecera a cintilação da terra em seu fulgor.</p>
+
+<p>Levei comigo as rosas que colhi, para me alentarem de um sorrir ingénuo meu
+peito ferido na<span class="pn">{8}</span> jornada agreste em que dolorosamente
+se consome sangrando magoado de perversidade, de ódios, de mentira, de quanto
+avilta os homens desvairando-os nos seus cruéis infernos de cobiças. Mas sempre
+que senti a rosa bafejar-me, senti perpassar também vozes mendigas. Por
+singular magia, confundi em uma só aspiração e um só amor as rosas e a
+pobreza.</p>
+
+<h2><a name="SECTION0012">II</a></h2>
+
+<p>Senhor! No meu caminho entretecei as rosas na pobreza, para que, adorando em
+extasi vosso encanto, eu adore também as vossas dores e o meu peito comungue da
+miséria! Que todo o meu coração se enleie e prenda nas grinaldas, Senhor, com
+que coroais de espinhos e de rosas vossos servos; e que, enquanto sentir
+deleite infindo na doçura que sobre a terra semeastes, eu vos seja fiel
+inteiramente sentindo ao mesmo tempo e em igual fervor toda a infinita agrura
+da desgraça.<span class="pn">{9}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0020">AS TAÇAS DO BANQUETE</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION0021">I</a></h2>
+
+<p>No banquete da vida em que o destino me deu lugar onde os prazeres abundam e
+os regalos são o pão quotidiano, provei das suas taças mais queridas e vi meus
+companheiros de igual sorte ora erguidos na sua embriaguez ora prostrados pelos
+seus travores.</p>
+
+<p>Riquezas, ambições, paixões, gloria, amor, as taças mais cobiçadas do
+banquete, a todas eu senti o seu sabor, todas vi disputadas com ardor e todas
+continham gotas de amargura, os traiçoeiros bens das alegrias cedo mudadas em
+desengano e dor.</p>
+
+<p>Vi a riqueza inútil perante a morte, assistindo impotente à corrupção do
+corpo que no seu ser trazia os filtros de fatal caducidade inexorável. Vi
+ambições gerando em seus triunfos ambições maiores ainda, insaciáveis, de
+contínuo torturando suas vitimas, de degrau em degrau as elevando até que do
+mais alto as precipitam no torvo abismo das<span class="pn">{10}</span>
+desilusões. Vi as paixões mirrando-se exauridas, em vergonha, em remorso e
+inanidade, o orgulho aviltado nas fraquezas; vi a gloria a desfazer-se em fumo
+e apedrejando hoje por infames os que ontem beijara por heróis e em seus
+altares pusera como deuses. Vi transmudar-se amor numa mentira, a sua fé
+perjura na traição; vi a ternura magoada em lágrimas. E até a própria
+humildade, desprendida dos enganos do mundo, a mais pura das taças que anjos
+bons dos céus trazem à terra para remir quantos na terra penam suas penas, até
+a própria humildade eu vi chorar porque, salvando os bem-aventurados em cujo
+coração habita e resplandece, não lhes pôde poupar a compaixão de quantos
+desfalecem no martírio, pois, desventurados, não partilham das bênçãos da
+alegria no Senhor, naquela conformidade austera e santa que é a nossa redenção
+suprema e única.</p>
+
+<h2><a name="SECTION0022">II</a></h2>
+
+<p>Senhor! Sê piedoso! Socorram-me os teus anjos. Reanimem-me em cálices de
+vida; humedeçam-me os lábios na tua paz; iluminem-me o mundo na tua luz.</p>
+
+<p>Afasta dos meus passos esse espectro que me enegrece de terrores as noites,
+essa sombra de gélidas<span class="pn">{11}</span> vigílias que me murmura o
+desespero e a dúvida, e, rindo dos meus sonhos piedosos, repete escarnecendo
+cruelmente:</p>
+
+<p>Doçura! louco, só na morte a encontras!<span class="pn">{12}</span><span
+class="pn">{13}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0030">A DOR E A VIDA</a></h1>
+
+<blockquote>
+ Na mão de Deus, na sua mão direita, <br>
+ Descançou afinal meu coração. </blockquote>
+
+<blockquote>
+           A<small>NTERO DE </small>Q<small>UENTAL</small>. </blockquote>
+
+<h2><a name="SECTION0031">I</a></h2>
+
+<p>Turvou-se de amargura a alma do poeta quando, sentindo o vento do outono
+anunciar tormenta e escuridão, viu as aves felizes, cautelosas, abandonarem
+campos e florestas e partirem velozes à procura de terras sorridentes, animadas
+pelos carinhos tépidos do sol.</p>
+
+<p>Já não tardava a cerração das neves, mortalha e sepultura dessas vidas que
+ao poeta exaltavam o espírito e o corpo, pelo rumor, verduras e perfume, pela
+graça, pela força e pela opulência, pelo florir de impulsos da sua seiva.</p>
+
+<p>Vai a esconder-se tudo o que o inspira. A esperança do peregrino desfalece à
+mingua do sustento e do conforto sorvido a jorros no calor do Estio, incensado
+de aromas e reflectindo os delírios da cor pulverizada. Onde irá saciar a sede
+ardente de intenso resplendor que lhe alimente as cobiças<span
+class="pn">{14}</span> profundas do seu ser? Porque foi acorrentado à
+imobilidade, porque não foge, como a ave foge, àquilo que o oprime e o ameaça?
+Porque não lhe foi dada a asa vibrante que percorresse espaços infinitos, de
+céu em céu, sem nunca se afastar dum translucido puríssimo azul? Que culpa lhe
+forjou essas cadeias que sujeitaram o mísero forçado a rastejar exposto à
+contingência das estações altivas, sem piedade, queimando sob o sol canicular,
+sufocando nos gelos a expansão, inflexíveis, mudas, ignorando o desejo dos
+homens e as suas mágoas, para prosseguirem no combate austero da suprema beleza
+que sonharam? Porque, liberta, a ave se eximiu a padecer igual
+escravidão?!...</p>
+
+<p>Sucumbido, cismando tristemente, ao escutar o sibilante agoiro da tormenta,
+vendo o bando das aves em demanda de benignas terras generosas que aos seus
+amores lhes dessem agasalho e em doçura fecunda fossem pátria aos ninhos
+embalados pelo canto de pequeninos peitos ansiados, o poeta chorou a sorte
+negra que o entregava às penas do inverno.</p>
+
+<h2><a name="SECTION0032">II</a></h2>
+
+<p>E dentre brumas frias, apressando precocemente a noite de Novembro, veio
+beija-lo cândida<span class="pn">{15}</span> e singela, na palidez etérea que é
+o seu manto, a Dor, a companheira do poeta.</p>
+
+<p>E disse:</p>
+
+<p>&mdash;«Nunca ninguém te amou como eu te amei! Nunca ninguém te deu ao
+coração inquieto mais alto arrojo e mais sagrado êxtase. Só por mim alcançaste
+renascer naquele renascimento do Apostolo em que o sangue se isenta de veneno e
+se converte em filtro do amor. Quantas rosas colheste no caminho, quanto
+perfume te turvou os sentidos, visões do paraíso, toda a atracção, toda a
+harmonia, todo o laço, felicidade, risos e ternuras, tudo para ti foi breve e
+se afogou nos abismos mortais donde surgira, abandonando-te errante, ao
+desamparo, no louco vaguear do coração. Só por mim fez sacrário no teu seio,
+numa aurora perene, sem poente, esse facho de ardor que te consome e é a
+suprema gloria, a eternidade.</p>
+
+<p>«E sabes, meu irmão e meu amigo, que o silêncio é o levita nosso eleito cuja
+bênção nos liga e arrebata; e os altares em que oramos são sombrios, duma
+sombra celeste, benfazeja, tal qual, no inverno, essa outra sombra que por erro
+temeste e será sempre confessionário e templo da minha alma.</p>
+
+<p>«Nunca ninguém te amou como eu te amei!... Deixa que a ave siga no seu rumo,
+em busca de ilusões da vida efémera. Une-te a mim e, desprendido então de
+quanto foge e passa na incerteza,<span class="pn">{16}</span> redimido em meu
+peito hás-de subir à divina presença do Senhor!»</p>
+
+<p>Libertado, o poeta ergueu-se ouvindo a Dor.</p>
+
+<p>Por sua vez beijou a mensageira.</p>
+
+<p>&mdash;«Bendita sejas!» disse.</p>
+
+<p>E nesse instante passou na treva estranho clarão.</p>
+
+<h2><a name="SECTION0033">III</a></h2>
+
+<p>Segue a sua jornada paciente o poeta cuja fronte a Dor beijou. A macerada
+face da visão jamais se apaga nos seus doces olhos, humildemente isentos de
+desanimo, suavemente escravos dum poder que sem cessar o fortalece e ampara nas
+provações mais ásperas do mundo.</p>
+
+<p>Onde uma aspiração palpita e cresce, palpita e cresce a dor que a atormenta
+e nega, ou seja um gérmen que gelou na terra, ingrata e fria, surda ao seu
+anseio ou seja um coração crucificado do seu amor traído e profanado.</p>
+
+<p>Sentiu o poeta a Dor nas rosas que decaem; sentiu sofrer os astros que
+desmaiam no frio alvor de brancas madrugadas. Na haste quebrada entre iras das
+rajadas, na inquietação das águas despenhando-se, nos alcantis rasgados pelas
+neves, na criança a que o soluço corta o riso, no peito ferido por paixões
+humanas, onde quer que o destino<span class="pn">{17}</span> cegamente
+castigue, mortifique e desengane, onde quer que proíba ou estrangule um arrojo,
+um impulso, uma vontade, ou desfaça os rochedos na mudez dos seus combates
+loucos da montanha, ou escarneça a suplica do mísero, redobrando de ardor em
+atormentá-lo&mdash;a Dor foi companheira do poeta, no seu seio chorou divinas
+lágrimas, em seus braços buscou acolhimento.</p>
+
+<p>Foi assim que o poeta amou a Dor. Foi assim que, curvado, ela o levou a
+ungir de piedade as agonias de todo o ser que os olhos contemplassem caído em
+desventura ou malfadado. Fielmente a adorou no seu mistério! Fielmente a serviu
+nos seus mandados!</p>
+
+<h2><a name="SECTION0034">IV</a></h2>
+
+<p>Exangue do pungir da Dor que nunca o abandona, ou na solidão dos montes o
+encontre ou, perdido, vagueie entre o tumulto das multidões humanas
+desvairadas, o poeta parou no seu caminho e contemplando a serrania e o prado
+que a seus pés se alargavam repousados em sereno esplendor, deixou cerrar seus
+olhos deslumbrados e adormeceu, dormindo o torpor magoado dos vencidos.</p>
+
+<p>Cantava o sol o «cântico» do Santo, o ressurgir de toda a criação resgatada
+para a terra e para os<span class="pn">{18}</span> céus em um só Deus. Cantava
+os seus louvores ao «altíssimo, omnipotente, bom Senhor», a quem «toda a honra
+e bênção são devidas». Por todas as criaturas o louvava! Por sua própria luz
+que o iluminava; pela «irmã lua» que no firmamento tão «preciosa e bela» se
+formara; pelo «irmão vento e pelo ar e pela nuvem e todo o tempo» no qual as
+criaturas têm sustento; pela «irmã água» que é «humilde e casta», e também pelo
+«irmão fogo corajoso, e por nossa mãe a terra e por seus frutos, e pela «irmã
+morte» que à sua paz nos arrebata.</p>
+
+<p>Desusada carícia o seduziu; ignorada ternura o fascinou! Gloriosa visão
+despertou o poeta e, beijando-o, o exalta naquela divina luz que em torno ela
+espargia.</p>
+
+<p>E disse-lhe a visão:</p>
+
+<p>«Desterrado da ventura que com o sangue marcaste o teu caminho e em cada
+passo feriste o teu coração! Onde um espinho te rasgar a carne, o perfume das
+rosas a embalsama. Onde o vento derruba a floresta, exultaram renovos na
+verdura. Onde o ódio, a mentira e o desespero te entenebrecem de terror e
+dúvida, a bondade e a fé virão salvar-te em sua luz bendita. Onde cai uma
+lágrima, a mão de Deus a enxuga. Ergue os teus olhos! Beija a minha fronte!
+Aviventa teu ser mortificado na salutar candura que me alenta!</p>
+
+<p>E dos lábios vermelhos transfundindo a alegria<span class="pn">{19}</span> e
+a vida e a exaltação em lábios pálidos de sofrer e mágoas, enlevado seu peito
+em caridade e possuído de doçura infinda, a visão benfazeja do poeta restituiu
+à terra e seus paraísos, à luz do sol e a quanto ele ilumina, aquele que à Dor
+votara todo o ser e só a Dor servia sequestrado desse supremo amor que na
+bondade se libertou de toda a contingência.</p>
+
+<h2><a name="SECTION0035">V</a></h2>
+
+<p>Tal qual o poeta que a Dor e a Vida, vossos mensageiros, encaminharam,
+Senhor, à vossa presença, mandai-me, a mim também, os vossos sonhos, visitem-me
+as visões do vosso reino, para que me guardem e guiem e me conduzam, para na
+Vida me exaltar convosco e para na Dor sofrer as vossas penas, «na mão de Deus,
+na sua mão direita, descansando afinal meu coração!»<span
+class="pn">{20}</span><span class="pn">{21}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0040">MAIS FORTE QUE O MAR</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION0041">I</a></h2>
+
+<p>Sonhei que o peregrino ao apartar-se dos lugares em que amara e fora amado
+no benigno lar onde abrigara o corpo enfermo e o coração sequioso de carinho,
+afectos e de graças, passou ondas do mar escuro e turvo, e ao passá-las deixou
+nas vagas fundas um sulco ténue, vermelho, coruscante entre o negrume da
+cerração ambiente.</p>
+
+<p>Longos anos, por séculos infindos, na esteira do peregrino o mar cavou suas
+iradas vagas espumantes de espumas alvas, claras, diamantinas; e iluminaram-nas
+pálidos luares; e a tempestade atroz escureceu-as; e pairaram sobre elas
+sorridentes as primaveras brandas incitando toda a terra a renascer em
+alegria.</p>
+
+<p>Em vão, em vão! Bafejo algum dos astros, ou propício trouxesse a exaltação
+da vida triunfante, ou inclemente derramasse a dor, jamais pôde apagar esse
+sulco vermelho sobre o mar que ali deixara<span class="pn">{22}</span> o
+peregrino ferido. Mais forte que as ondas, a saudade traçou nas águas lúgubre
+derrota. Em vão os poderes da terra as agitaram provocando-lhes a fúria
+temerosa! Em vão as repousaram em cristalina calma suavíssima! Em vão ali
+passaram combatendo seus raivosos combates os titãs! Em vão tentaram afundar na
+voragem aquele sangue que do coração brotara por saudade!</p>
+
+<p>Em séculos infindos, para sempre, esse rasto de angústia ali ficou.</p>
+
+<h2><a name="SECTION0042">II</a></h2>
+
+<p>Senhor! Se misericórdia vos merece a fé de quem no amor espera a salvação e
+lhe confia a vida miseranda, erguendo-a dos seus erros para a remir na
+consagração ao ser que é a vossa própria essência, a essa etérea bondade
+omnipotente que a Deus vos une e nele vos confunde, concedei-me, Senhor, aquela
+bênção que ao peregrino ferido concedeste, permitindo-lhe a graça de traçar nas
+ondas com o seu sangue a dor pungente, esvaindo-se em puríssima saudade. Onde
+quer que o destino o dilacere, onde quer que, infeliz ou louco, se atormente,
+que o meu coração desmaie por saudade, que por saudade verta todo o sangue, que
+em saudade amortalhe os seus anseios!...</p>
+
+<p>Mais pura exaltação não conheceu! Mais próximo de ti jamais se sente!<span
+class="pn">{23}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0043">HUMILHAÇÃO</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION0044">I</a></h2>
+
+<p>Vi sair da prisão o criminoso e encaminhar-se ao lobrego covil onde deixara
+a companheira e os filhos a estorcer-se de fome nos andrajos. Macilento,
+esquálido, trémulo nos passos, espectro erguido duma sepultura, atravessa a
+cidade entre inimigos. A aversão, o desprezo e o desamparo são o seu cortejo e
+com horror o escoltam; tomando por pureza a inanidade, arrogantes se afastam a
+tremer de macular o orgulho na miséria dum corpo pestilento de seus erros.</p>
+
+<p>Nem os filhos nem a companheira se atrevem a sair do seu tugúrio para beijar
+o mísero e o proscrito que volta a consumir-se na desgraça, na treva da
+embriaguez em que se afoita para a sinistra aventura dos seus crimes.</p>
+
+<p>De súbito, quebrou-se o trágico silencio. Um grito de alegria ecoa nas
+choupanas. Saltando da morada um cão exulta em seu bradar duma ferina<span
+class="pn">{24}</span> ânsia; e louco de carinho afaga o homem que outros
+homens maldizem, como se esse não fosse o filho infeliz da mesma podridão que a
+todos gera e por igual corrompe.</p>
+
+<p>Estranha aberração! Cruel estigma! Humilhação fatal dum ente eleito em que
+Deus fez morada e se revela!... Coube a um cão parasita dos monturos a ternura
+generosa, esse perdão que os homens atraiçoam negando a piedade ao criminoso,
+não sabendo sorrir à sua face e tendo por dignidade a cobardia que os privou de
+ver irmãos, os seus iguais, em quantos seres a criação produz, para que o nosso
+coração todos confunda numa só luz de amor e de bondade.</p>
+
+<h2><a name="SECTION0045">II</a></h2>
+
+<p>Senhor! Porque me roubas, a mim a quem mandaste o teu Espírito para eu
+sentir claramente o teu império, a quem tu deste um coração ardente para
+abrigar-te e a voz para louvar teu nome e o repetir,&mdash;porque me roubas
+aquele ingénuo anseio de indulgencia, esse perdão tecido de caricias com que
+dotaste inconscientes servos, obreiros mudos da tua vontade?!... Porque,
+Senhor, me privas desse bem de esquecer toda a injuria, todo o mal, e de cobrir
+de afectos todo o crime e em carinhos dissipar sua lembrança?!...<span
+class="pn">{25}</span></p>
+
+<p>Isenta-me, Senhor, desse tormento da consciência algoz que até perdoando
+volta a julgar os homens e os condena! Pois que lhe deste entrada no meu peito,
+salvai-a do martírio em que adorando-te te veja distinguindo nos homens bem e
+mal em vez de os confundir no teu sagrado amor omnisciente.<span
+class="pn">{26}</span><span class="pn">{27}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0050">BÊNÇÃO DO POENTE</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION0051">I</a></h2>
+
+<p>Foi calmo o dia. A rosa húmida, que desabrochando saudou no descerrar do
+seio a madrugada, prateou ao sol as cetinosas pétalas sem que a brisa lhe
+ferisse a formosura; e o vento adormecido nos seus antros, vencido por estranha
+letargia, inerte e mudo não blasfemou suas ímpias cóleras contra o ardor do
+sol. Os milheirais tardios e o medronheiro, tão lento no crescer como moroso no
+arrastado fabricar da sua doçura, sazonaram seus frutos generosos na paz dessa
+propícia quietação. Ao redor do casal, ao cimo da encosta onde o horizonte é
+largo e os céus são amplos, esvai-se na calmaria toda a forma, agora que o sol
+perdido ao poente se escondeu para lá da cerração austera dos pinhais. Descoram
+as urzes roxas na charneca, não mais lobrigo a ténue palidez da flor da estêva,
+já não distingo no silvado o aderno: tudo o crepúsculo vem tingindo em
+sombras.<span class="pn">{28}</span></p>
+
+<p>Ao longe, os montes altos da serrania e o manto das florestas nas quebradas
+e os campos verdes à beira dos regatos e os pomares e os vinhedos e as aldeias
+e a inquietação da água nas jornadas, eterna aventureira,&mdash;todos vão a
+dissolver-se nessa neblina, duma inundante alvura caprichosa, caótica, erradia,
+absorvente e mansa na avidez, como afagando o mundo e resumindo-o em um só
+sonho incerto, indefinível.</p>
+
+<p>Olho, e nem um tremor diviso em todo o ambiente. Escuto, e nem um rumor
+pressinto próximo ou distante. Por sua calmaria a atmosfera adormeceu a vida em
+serenidade, e quantas divindades a interpretam e a regulam e a movem em seu
+anseio, desde a arrogância da montanha austera até à pequenez da célula mais
+ínfima, consagraram juntas numa paz divina a trégua religiosa de seus feitos,
+talvez a consciência da inanidade final de todo o esforço, porventura uma
+dúvida, uma céptica interrogação dos seus destinos, senão o antegozo da morte
+experimentada em passageiro cessar das energias.</p>
+
+<p>Porque, não o sei nem jamais, pobre enfermo arrastado em vale de lágrimas, o
+poderei saber; pois a fraqueza é o nosso eterno anátema, é irrevogável maldição
+do orgulho. Mas na olímpica mansidão desse crepúsculo em que a vastidão da
+terra adormeceu sorridente e benigna, alguém, ser de bondade, um alado eco
+fugitivo, um murmúrio<span class="pn">{29}</span> de esperança, me segreda a
+confiança e a fé, robusta crença na libertação final de toda a angústia, na
+fatal paralisia dos tumultos da nossa alma e do mundo, tarde ou cedo remidos,
+confundidos em amorosa quietação de penas, amortalhados em mortalha branca como
+esta que eu vi crepuscular, vestindo em alva neblina a terra e os astros.</p>
+
+<h2><a name="SECTION0052">II</a></h2>
+
+<p>Então, comovido e grato, reconhecendo a esmola que me alegrava o coração,
+quis dizer ao Senhor a minha prece, quis confessar-lhe a exaltação da minha
+alma pela serena luz que ele acendia no meu peito turvado de combates.
+Loucamente balbuciei palavras loucas, e todas se perdiam apagadas! Tão alto e
+tão profundo o meu sentir, não souberam dizê-lo esses murmúrios frouxos e
+mortais de lábios débeis que mortais nasceram.</p>
+
+<p>Cessou minha oração nesse momento. Pressenti sombras de orgulho, desvairado,
+na tentação de ver e penetrar a omnipotência de harmonia e ordem que é a razão
+de ser de quanto existe. E humildemente apenas repeti:</p>
+
+<p>&mdash;Senhor! Senhor! Senhor!...<span class="pn">{30}</span><span
+class="pn">{31}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0060">O SONO DO TRIGAL</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION0061">I</a></h2>
+
+<p>Crepúsculo de Maio! O céu baixo e sombrio, revolvendo nuvens pesadas,
+violáceas, lentas, promete dentro em breve as chuvas tépidas, pelas quais a
+verdura espera e anseia, na cobiça de crescer e renovar-se.</p>
+
+<p>As seivas abundantes, criadoras, na túrbida estação em que se elevam, a
+modelar os lírios e os salgueiros, latejam silenciosas; não as tenta a cantar o
+voo da brisa. Desde a cerração escura da floresta à humilde melancolia da
+campina, as legiões das frechas dos pinhais, a coma faustosa dos carvalhos, o
+arrelvado extenso em desafogo, livre de manchas das plantas altas, e o que se
+alarga na espessura umbrosa, todos repousam quietos e calados, pressentindo a
+visita salutar que dos céus lhes trará toda a opulência, a abençoar a terra de
+humidade, alimento e riqueza das ervagens, onde despontam frutos e sementes, e
+das vergônteas<span class="pn">{32}</span> frágeis, ainda tenras, em cuidados
+de robustecer-se, para suportarem calmas estivais.</p>
+
+<p>E o trigal, como os irmãos, dorme também, se em temor ou na prece é o seu
+segredo!</p>
+
+<p>Imóvel, na firmeza imperturbável dos fieis que crêem no Senhor e sem
+lamentos todo o destino aceitam por ser justo, a toda a sorte querem
+igualmente, em qualquer perfazendo obra de amor;&mdash;aquele que ao mais leve
+passar do vento respondia, cedendo fácil ao bulício alado das ondas repetidas
+sussurrantes, sempre agitado dum sonhar sem fim, em delírio incessante
+rumoroso, recordando carinhos e promessas da abastança e fortuna que concede
+aos casais bem providos do seu grão, esse mesmo trigal se sujeitou à extática
+mudez de todo o ambiente.</p>
+
+<p>Já parece esquecido do inverno! Parece atraiçoar a aspiração de gerar em
+leite doce o pão dos míseros que por caridade santa ele sustenta.</p>
+
+<h2><a name="SECTION0062">II</a></h2>
+
+<p>Não te iludas, porém, oh Sonhador! tu que procuras ler, na contingência de
+impulsos vagos e caducas formas, a perene oferta do mover dos mundos à lei
+suprema do supremo amor. Não te engane o torpor em que o trigal se abandonou
+à<span class="pn">{33}</span> paz da atmosfera. Não cuides porque o vês assim
+submisso que deixou de elaborar fartas sementes.</p>
+
+<p>De contínuo escutará vozes divinas, e há-de segui-las, destilando os sucos,
+que pela raiz beber na aspereza fria. Das entranhas do chão tira e semeia,
+constantemente, ou se mova ou pare, a rescendente esmola das doçuras com que
+suaviza a fome a quem trabalha e descerra em sorrisos de alegria, flores
+sanguíneas! os lábios das crianças.</p>
+
+<p>Também passaste um dia ao pé do leito em que a mãe aquecia o filho ao seio.
+Não sentiste rumor que confessasse quanto afecto em silencio se derrama,
+transfundindo a quentura do sangue em outro sangue. E entretanto, fervorosa e
+muda, uma vida se consumia ali em outra vida.</p>
+
+<p>Assim vi o trigal quando dormia, tal qual como em vigília, consagrando à
+paixão do seu ser inquebrantável aquele amor que é nosso alento e força.<span
+class="pn">{34}</span><span class="pn">{35}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0070">TERRA LACRIMOSA</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION0071">I</a></h2>
+
+<p>Conheci os cativos da vaidade, sorrindo, se por acaso conquistavam os
+ouropéis e fama e o espanto de multidões atónitas, turvadas, ignorantes cegas
+no caminho, que da desgraça nunca se libertam para banhar-se em luz de
+eternidade. Na vertigem do orgulho e da soberba, julgando erguer-se por
+entumecida inanidade, ao verem rastejantes a seus pés os aviltados míseros do
+mundo, passaram sobranceiros, desdenhosos; e porque, desvanecidos,
+contemplando-se, só da própria grandeza iam sonhando, sem baixarem seus olhos
+aos humildes, desconheceram a alegria, beleza e formosura que os pequeninos têm
+por seu quinhão.</p>
+
+<p>Conheci o avaro entesourando, na obsessão de transformar em ouro a opressão,
+a fome e o martírio de quantos por astúcia ou pela força subjugasse. As
+riquezas cresciam, construindo a fortaleza em que, confiado e firme, seria
+poderoso<span class="pn">{36}</span> e invencível; e entretanto o seu corpo
+definhava nas penas da velhice, desditoso, como se a ordem cósmica dos astros
+castigasse, escarnecendo, as ambições.</p>
+
+<p>Insaciados de domínio efémero, porque, efémero, mal se criou e logo se
+arruína, avaros, orgulhosos e soberbos morreram entre pompas clamorosas,
+envolto o seu cadáver corrompido nas vestes recamadas que o cobriam, quando
+ainda o sangue nele palpitava e cria deslumbrar túrbidas gentes, ocultando em
+bordados fulgurantes a carne de contínuo apodrecida no decair fatal do seu
+destino. E a terra de infinita misericórdia deixou cerrar na campa esse
+cadáver, sem que de luto se vestisse um ramo, sem que uma folha desmaiasse
+murcha, em lembrança ou saudade do amigo que a alentava e, estremecido, dela
+recebia recompensa de fadigas carinhosas.</p>
+
+<p>Na morte desses loucos condenados ao pó estéril de estéreis sepulturas,
+entre a dureza fria dos bronzes e a rigidez do mármore impenetrável, as
+palavras dos homens lamentavam a ruína da grandeza mentirosa, tão cedo ali
+desfeita e aniquilada. Mas de tais lágrimas não partilha a terra. Indiferente
+ao rumor do falso pranto, não cessou de brilhar e de cantar. Nem um só veio de
+água emudeceu, perdido o murmurar da sua lida! Nem uma só flor do prado se
+estiolou à míngua de cuidado e de sustento! Nem um só átomo de fecundidade<span
+class="pn">{37}</span> se atrofiou em toda a criação! Aos cativos da vaidade e
+da avareza, perdoou-lhes a terra piedosa; mas não soube chorar quem,
+transviado, ingratamente a desamou, traindo amor materno, o leite gerador.</p>
+
+<h2><a name="SECTION0072">II</a></h2>
+
+<p>E conheci também o cavador, que para morada e leito de repouso, não
+encontrando um tecto hospitaleiro nos vilares, foi levantar a mísera cabana, de
+colmos de centeio e frágeis varas, no pousio comum inculto e virgem, despido,
+tosquiado de contínuo por ovelhas bravias, únicos gados que a gente pobre ali
+ia soltar, aproveitando esse pascigo escasso.</p>
+
+<p>Rasgou a leiva dura, empedernida; lançou no pó sequioso a semente leve e
+todo o manancial de vida que ela encerra; e fez brotar a água das prisões em
+que a guardava o peso dos rochedos. A cavar, a regar e a semear, banhando
+sempre a terra com o suor do rosto, despertando-lhe a férvida energia com os
+arrancos heróicos do seu braço e o pulsar gigantesco do seu peito, o cavador
+criou verde abundância onde fora a infecunda e negra gândara, e tirou o pão e
+os frutos do chão áspero onde nem os silvados já medravam.<span
+class="pn">{38}</span></p>
+
+<p>Foram passados anos nessa faina. Ao fim, surgiu ali a mancha branca duma
+casita estreita, ávida de sol. A cabana alargou-se. Transformada, anunciou nos
+fumos da lareira o agasalho, o sustento e o tépido conforto dum benigno casal,
+servido e amado pela esposa do servo da gleba; e o embalar do berço acompanhou
+com o rumor alado duma esperança essa vitoria que em torno se espraiava,
+dilatando-se na infatigável ânsia de remir pela seara farta e latejante os
+longuíssimos tempos de indigência, a que a ingratidão humana, criminosa,
+abandonara aquelas pequenas geiras devastadas. Mais tarde, em horas negras,
+tenebrosas, as ambições e a guerra assoladoras vieram separar o cavador dos
+filhos que criou para companheiros, e um sinistro poder arremessara para longe,
+labutando dispersados. Escravos uns do rei e seus ministros, por seu mandado e
+força coagidos a ensanguentar o mundo, combatendo pelo ódio apaixonado e
+latrocínios em malditas pelejas mentirosas, que na suprema infâmia ousam sem
+pejo invocar o amor da pátria e atraiçoá-lo, foram-se a derramar a morte sobre
+os campos, que o Senhor nos ofereceu para a vida, e a prostrar atrozmente o
+nosso irmão, ao qual por lei divina só devemos afecto, protecção e piedade, o
+auxílio compassivo na desgraça e o sorrir de simpatia, quando a ventura ao
+passar o bafeja generosa. Outros, não mais felizes, seduzidos pela visão da
+cidade e seu engano, enfermos<span class="pn">{39}</span> das demências do
+tumulto, perderam-se entre os fumos da oficina, pela própria vontade
+escravizados dos lúgubres dragões que guardam o ouro e de contínuo o movem e
+entesouram, fundindo num só cadinho incandescente a fome e o ferro, minério
+bruto e corações humanos, lubrificando maquinas com lágrimas e fundando o
+palácio em sepulturas, pondo a brilhar em pedras preciosas, por alquimia da sua
+crueldade, as ossadas dos que apodreceram, transitando da pobreza à vala comum,
+sem algum dia terem experimentado a alegria, a abastança ou o desafogo.</p>
+
+<p>Assim desamparado, entre ruínas do seu próprio sonho dissipado nas vagas da
+agonia como uma aparição de luz que apenas rompe e subitamente se esvai na
+tempestade, o cavador ficou-se a envelhecer, no silencio da gândara, amando
+todavia o seu casal e querendo sempre à terra, com a fé que à terra o
+consagrara submisso, quando pela primeira vez a fecundou e renovou no repetir
+das estações a verdura e o pão e a sombra e o refrigério, sem lamento ou
+desânimo, curvado a trabalhar, desde o romper da aurora ao cair da noite.</p>
+
+<h2><a name="SECTION0073">III</a></h2>
+
+<p>A terra que ele amou, amou-o também!...</p>
+
+<p>Quando morreu, calaram-se no ermo os seixos que cantavam, rolando
+alegremente pela enxada;<span class="pn">{40}</span> murchou endurecido o prado
+à míngua do sustento que alimentava as ávidas raízes, entumecida a erva
+verdejante, quando, pelas madrugadas calmas do Estio, o cavador se erguia a
+socorrê-las, atento, diligente, cortando breve o sono, para que por sua culpa
+não sofressem as miríades de seres sob sua guarda, mudos para os demais mas
+eloquentes para quem lhes conhecia a aspiração. Não mais ao despontar da aurora
+respondeu o jorro da água límpida tirada entre o mover estrídulo das rodas pelo
+jugo robusto que a elevava da frescura dos poços obscuros à claridade rútila
+dos céus.</p>
+
+<p>Foram essas as lágrimas que a terra, lacrimosa e viúva, chorou pelo criador
+humilde do seu viço,&mdash;aquela mesma terra desdenhosa que, indiferente,
+sepulta os orgulhosos, degenerados do seu culto e crença.<span
+class="pn">{41}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0080">CULTO DE QUIMERAS</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION0081">I</a></h2>
+
+<p>Onde começam áridos incultos, que os gados, sem cessar, têm
+devastado,&mdash;quase ao cimo da encosta&mdash;, voltei-me a olhar o vale e os
+montes que o formavam, as aldeias perdidas nas ramagens, e os campanários que
+as protegiam. Não sei se fatigado, se encantado, por necessidade instante de
+repouso, cedendo a quebranto estranho, parei; e ao prazer de esforçado caminhar
+preferi essa delícia calma de contemplar.</p>
+
+<p>E, quando atentei bem no turbilhão de seres que ao redor e a meus pés
+pulsavam o seu pulsar olímpico, indomável, infinito, eterno, achei-me enleado e
+preso em multidões de divindades, todas poderosas, que dos céus de claríssima
+gloria, e das profundezas infernais do orbe, e do frescor das sombras da
+floresta corriam a arrebatar-me no tropel em que cada qual se agita e é seu
+delírio.</p>
+
+<p>Então, na turbação confusa de um neófito, converteu-se-me<span
+class="pn">{42}</span> a caverna em santuário, e, no lugar consagrado pelo raio
+ou sobre a pedra que caiu dos astros, ouvi oráculos, e o sacerdote orava. Um
+deus protegia os lares e sua fortuna; outro firmava os marcos que repartem os
+campos entre o povo dos vilares; e os mortos e os heróis erguiam-se das cinzas
+a ditar seu conselho e a impor os seus mandados, prolongando, em uma vida só,
+vidas diversas. Na forma nobre como na mesquinha, em todas se ocultava uma
+vontade, consciente e grande, e inflexível. Apolo e Juno, Hércules e Ceres,
+Afrodite e Plutão, e Pã, deus dos pastores, e as Amadriades que viviam nos rios
+e nas árvores, todos tinham na terra seu quinhão, onde reinavam livres; e
+todos, nessa hora de visões, por mim passaram, severos ou folgando, rindo ou
+chorando, tristes e majestosos uns, outros alados, dizendo seus mistérios e
+incitando-me a que, adorando-os, eu lhes tributasse o incenso devido ao seu
+poder.</p>
+
+<p>Guerreiros incansáveis, triunfantes, povoaram os espaços de deidades e o
+coração de graças e favores. Negaram a solidão em todo o universo, confiado ao
+império sempiterno de demónios e anjos que encarnavam na poeira, no vento, na
+folha e na neblina, em rochedos e águas e no murmúrio da asa mais leve do menor
+insecto, sorrindo, consolando e castigando, soltando com igual prodigalidade
+afagos e ameaças, esperanças e terrores, a indulgencia, a ira e o escárnio, a
+abundância e a<span class="pn">{43}</span> fome, o mal e o bem, toda a infinda
+vibração das nossas almas.</p>
+
+<p>Que mundo radiante de aparições, capricho e formosura, não tentou derruir,
+aquele ímpio sectário do saber que pensando, e dissecando, e inquirindo
+friamente, quis dissipar, num ímpeto de orgulho, esses entes celestes,
+benfazejos, que andavam entre os homens e lhes vertiam no sangue fraco e impuro
+a firmeza, a coragem, a gratidão, salutares alegrias e a serenidade, a
+exaltação suprema, a mais sublime, a consagração plena dos mortais em altares
+de religiosa poesia e de um dever mais forte do que a mísera carne
+transitória!</p>
+
+<p>Que demência julgou virtude haver privado de magnânimo amparo de seus
+religiosos filhos a imaginação fecunda e inquieta que jamais sofrerá os
+cativeiros da razão, altiva e austera, sem piedade?!...</p>
+
+<p>Ah! não morreram! Esses filtros da nossa fantasia todos vivem ainda e nos
+seguem, ocultamente, semeando de rosas os caminhos que os fados nos
+traçaram.</p>
+
+<h2><a name="SECTION0082">II</a></h2>
+
+<p>No silêncio dessa tarde em que comovidamente os invoquei, ouvi-os; e a sua
+voz, de mansidão dulcíssima, trouxe-me ao corpo como um refrigério, sacudindo a
+letífera inércia e o torpor em que<span class="pn">{44}</span> a venenosa sede
+de saber desvaira e mata, inquirindo sem amor, só por orgulho&mdash;senão, pior
+ainda!, por cobiça&mdash;, da aspiração ingénua dos fraguedos, das fontes e das
+ervas, das nuvens e dos sóis, da natureza inteira no seu frémito.</p>
+
+<p>Pedi-te então, Senhor, que me concedas a quimera, a ilusão, esse cismar que
+a qualquer forma deu energia e vontade igual à nossa. Pedi-te então que ampares
+os meus passos dos companheiros bons que uma ciência vã afugentou.</p>
+
+<p>Não me abandoneis, Senhor, nesse deserto em que espíritos cruéis nos
+atormentam roubando aos nossos olhos a beleza! Dá-me, Senhor, os sonhos
+criadores! Possa eu ver as ninfas das nascentes, os faunos das florestas, e os
+tritões lançando à praia as ondas arrojadas. Se da vida me tiras as quimeras,
+irisada espuma capitosa da taça que gota a gota vou bebendo,&mdash;que lhe
+encontrarei no fundo senão o sal de abrasada e mortífera amargura?!<span
+class="pn">{45}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION0090">ANSEIO DA MANHÃ</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION0091">I</a></h2>
+
+<p>Sobre as negras montanhas do horizonte, indolente rebanho fabuloso, de
+peregrinas formas em desordem, de prodígios, quimeras e abantesmas, domados uns
+em dócil mansidão, outros soltando fúrias e ameaças; sobre essa multidão
+tumultuosa que pela manhã tardia do outono alongara o dormir a custo
+afugentado;&mdash;crescia o rubor da aurora iluminando-a, sem que no céu, pouco
+a pouco embranquecido, uma só nuvem lhe lançasse um véu, embargando o pregão da
+claridade.</p>
+
+<p>Apenas no poente, sobre o mar, ocultando o limite das suas águas, vagueavam
+em sonhos, arrastadas, nesse perpétuo e incerto devaneio, que é seu destino e
+glória, as comas violáceas das neblinas. Mas, humildes, deixavam conquistar-se
+pelos fachos da luz que além rompia.</p>
+
+<p>Era a hora consagrada a esse culto, que ao Senhor os homens prestam no
+trabalho, reconhecendo<span class="pn">{46}</span> toda a sua fraqueza e
+sujeição. No bronze solene que difunde os mandados austeros da oração,
+segredando-a, igual e única, aos indigentes míseros e aos ricos, a sãos e
+enfermos, à fera e à borboleta, aos orvalhos e rios, ao vale e à encosta, ao
+mais timorato musgo e ao maior roble, à pulverizada argila solta ao vento e à
+firmeza invencível dos penhascos, sem escolher nem distinguir no seu vibrar, em
+mística insinuação de súplica indeclinável; no caminhar heróico desses servos
+que, enxada ao ombro, deixam seu lar e vão servir a terra nossa mãe, banhando-a
+com o suor do rosto, unção sagrada, para que a sua bênção nos proteja e ampare;
+no palpitar do jugo aureolado pela própria exalação do espesso hálito
+condensando-se em frescores de Novembro, que a leiva bebe enquanto o ferro a
+rasga para os trigais:&mdash;em todo o ambiente cantava uma só voz religiosa,
+como nenhuma outra tão pura e casta e tão fecunda e pródiga, jamais poderá
+ouvir-se nos apertados templos mesquinhos que somente por ilusões de orgulho
+foram grandes perante o louco imaginar dos seus obreiros.</p>
+
+<p>E o sol rubro da aurora ia-se erguendo, pausado e lento, seguro da sua força
+e omnipotência, sorrindo ao esforço humano e afagando-o, latejante de brilhos
+sanguíneos, porventura misteriosamente repassados do mesmo filtro que repassa o
+coração e o inunda de amor quando o anima.<span class="pn">{47}</span></p>
+
+<p>Mas, de súbito, a luz esmoreceu no seu triunfo. Apressadas, correram-lhe ao
+encontro as névoas que dormiam sobre o mar. Cercam-na, ocultam-na, e, mal a têm
+vencida, logo a soltam e fogem dispersadas, por momentos vestidas de ouropéis
+que imediatamente deixam, por preferirem a doçura do manto lutuoso que em sorte
+coube à sua condição. Sem tardar, ei-las que voltam, prosseguindo na indecisa
+jornada flutuante; e&mdash;suave castigo dum orgulho ingénuo, bem de perto
+seguido de indulgência ou talvez de remorso ou contrição! as névoas renovavam
+seus combates, turvando a cada instante a opalina transparência da manhã.</p>
+
+<p>Ao fim, o sol venceu. Quando ia alto, a luz avassalara o espaço inteiro,
+isenta de todo o anseio e hesitação. E assim soberana se manteve sempre, até
+que o véu da noite a submergiu na limpidez das ondas diamantinas, depois de
+haver semeado sobre a terra a alegria e o pão, suprema esmola.</p>
+
+<h2><a name="SECTION0092">II</a></h2>
+
+<p>Senhor! Fazei que a minha vida seja espelho do anseio divino da manhã, tal
+qual o vi nesse romper da aurora! Possa eu dissipar sombras funestas que me
+escureçam o céu fundo e claro, onde a alma se expande e voa, resgatada, a
+eternos<span class="pn">{48}</span> reinos de bem-aventurança! Que a ténue
+irradiação do meu sonhar fortalecesse os homens no trabalho e lhes abrandasse
+as dores e as fadigas, assim como o calor do dia os aviventa! E que ao fim em
+mortalha de pureza eu dormisse também, à semelhança de luz perdida em águas
+cristalinas!<span class="pn">{49}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00100">A ASA DO REMORSO</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00101">I</a></h2>
+
+<p>Em êxtase de luz rompe a manhã. Seus clarins sonoros de alvorada despertam o
+povoado, a serra e as águas. Dos salgueirais curvados sobre o rio erguem-se
+mansas neblinas, castas, sacrificando ao sol toda a pureza. Os píncaros severos
+da montanha desprendem da escuridão da noite a fortaleza. E na oficina e nos
+lares acordam fumos de carinhos e penas e trabalho.</p>
+
+<p>E acordando também desse torpor em que, cansada, dorme a consciência exausta
+de torturas e de dúvidas, pensei, mísero e fraco, nas fadigas a que a luz da
+manhã me convidava. Por tenebrosa perversão da alma senti-me o escravo do ardor
+mundano, das cobiças, dos ódios, das vaidades, da cegueira que me oculta um
+irmão em cada homem e que me arroja a disputar-lhe o pão e que me afoita a
+exprobrar-lhe os erros, a mim que ouvi no peito voz divina de amor, de caridade
+e de perdão<span class="pn">{50}</span> e que ouvindo-a a deixei esmorecer, de
+culpa em culpa, traindo-lhe os mandados.</p>
+
+<p>Enquanto à maldição desses infernos descia meu turvado pensamento, cantou a
+toutinegra na oliveira e ergueu seu doce canto à madrugada. Comungava na taça
+da alegria que na luz o Senhor oferece à terra. Isenta das cobiças e dos ódios,
+sem conhecer espinhos da ambição, confiando na suprema misericórdia que lhe
+alimente o sangue e o ninho e lhe module o inspirado enlevo dos seus hinos e a
+cada mágoa traga seu consolo, imaculada voz dum peito inocente, turíbulo
+sagrado, a toutinegra depunha no altar de Deus a sua oferenda, antes de partir
+em busca de sustento.</p>
+
+<p>Então uma asa negra de remorso me fustigou o orgulho; e tremendo da própria
+impiedade, compungido de dor, eu perguntei que destino fatal e tão cruel me
+induzia em perjúrio à minha fé, sufocando em meus lábios, cerrados para o
+louvor da madrugada, essas canções benditas que a ave cantava e eram uma
+oração, que eu esquecera e eram redenção.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00102">II</a></h2>
+
+<p>Minha mãe que do seu sangue me gerou, deu-me com o leite haustos de amor por
+ti, Senhor. Enquanto me criava o corpo e a forma, toda esta<span
+class="pn">{51}</span> ilusão da vida efémera, em seu último termo inexorável
+predestinada à consumpção dos vermes, ardentemente me ensinou a ver-te,
+ensinou-me a invocar-te, e em teu puro espírito renascer, liberto de corrupção,
+para a vida eterna. Ensinou-me a adorar-te em teu poder, a implorar humilde a
+tua graça, e prostrado sofrer tua vontade, contente por servir-te e em ti
+buscando a suprema alegria. E queria em sua fé, que dela recebi e é também
+minha, queria que ao despertar da minha consciência após suas horas de repouso
+e inércia, fosse teu nome o primeiro proferido por meus lábios; que para me
+sentir erguido à tua presença esquecesse eu o mundo e o seu tumulto e assim
+purificado, assim armado desse escudo inviolável, fortalecido contra todas as
+tentações de desvario, atravessasse a via dolorosa e de toda a fraqueza me
+isentasse.</p>
+
+<p>Nessa manhã clara, entenebrecida em um momento fugaz e aflitivo pelo
+perpassar da asa do remorso, pequei, Senhor, porque transviado, perdido o meu
+espírito no tropel das cobiças orgulhosas, assaltou-me a miséria o pensamento e
+outro nome proferi que não o teu, antes que a ave me lembrasse a culpa cantando
+os teus louvores e a tua grandeza.</p>
+
+<p>Perdoa-me, Senhor, se então traí essa fé que é o melhor dos meus tesoiros e
+me incendeia o peito em teu amor! Amparem-me as tuas aves,<span
+class="pn">{52}</span> teus arautos, mensageiros fieis da tua glória! Em cada
+aurora que os meus olhos vejam despontar nos céus, fazei, Senhor, que a
+toutinegra volte e me venha ensinar a repetir essas divinas orações de infância
+que à minha mãe ouvi no seu regaço!<span class="pn">{53}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00110">SERVAS DA LUZ</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00111">I</a></h2>
+
+<p>Logo após a cerração da noite, voltam-se para o oriente aquelas flores,
+servas da luz, cujo rosto olha o sol constantemente e por condição estranha o
+segue sempre no resplendente percurso da sua órbita. Ainda a escuridão é densa
+e vem distante o mais tímido alvor da madrugada, mal o poente se toldou de
+sombras, começam essas flores a volver sua face para os lugares onde o sol
+há-de romper. Por um segredo seu que nos perturba, subtil inspiração as ensinou
+a serem fieis à luz tão firmemente que nem a treva nem a tempestade nem a
+alvura do luar e a imensidade de astros brilhantes povoando o espaço puderam
+transviá-las e perdê-las naquela adoração do sol que é sua crença. Enquanto o
+sol se afasta divagando por ignotos mares, aprestam-se a servi-lo. O seu
+primeiro alento, o raiar da aurora, há-de aquecer-lhes o seio ávido de receber
+seus fogos.<span class="pn">{54}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00112">II</a></h2>
+
+<p>Porque, Senhor, assim inspiraste mudas flores, singelas e felizes, e deixas
+que os homens vão de treva em treva, rasgando o coração até à morte, ignorando
+donde a luz se ergue&mdash;aqueles mesmos homens aos quais deste a consciência
+do amor da luz?!...</p>
+
+<p>Nas trevas da ruindade que escurecem a alegria e o riso e a bondade, divina
+aspiração da luz da nossa alma, possa eu, Senhor, como a flor em tua graça,
+pressentir constantemente a tua presença e só para a tua luz voltar a minha
+face, mortificada, ensanguentada, enferma dos tormentos fatais da
+escuridão!<span class="pn">{55}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00120">TROFÉUS DO ESTIO</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00121">I</a></h2>
+
+<p>Como gotas candentes destiladas de cristalinas urnas de safira que vertessem
+sobre a terra o azul dos céus para converter em luz a inércia e a treva, o
+Estio derrama sobre os campos queimaduras adustas dos seus fogos
+incendiando-lhes a fecundidade.</p>
+
+<p>Mirrou-se a leiva. A fonte emudeceu. Endureceu-se o pâmpano na vide. O viço
+converteu-se em austeridade, denegrindo a espessura da floresta. Murcharam os
+prados e ali, onde exalaram suave embriaguez do seu frescor, levanta agora o
+vento nuvens ásperas de calcinado pó da terra nua. Rolam no chão as palhas
+trituradas como restos de vidas insepultas.</p>
+
+<p>São troféus do Estio em sua glória. São os despojos que arrasta na vitória,
+na ufania cruel do seu triunfo. São mistérios duma maternidade santa e
+dolorosa.<span class="pn">{56}</span></p>
+
+<p>Para fecundar a terra e nos deixar o seu sagrado leite, o nosso pão, para
+lhe enriquecer os filhos de sustento, de calor, de abrigo e de doçura, para
+madurar os pomos e as searas e para criar o lenho que nos salve dos golpes
+traiçoeiros do inverno, abrasou o Estio em seus ardores aquela mesma terra que
+por amor beijou, vestindo-a de opulência, ao despertar-lhe sua paixão constante
+de abundância, o seu fascinante arfar de formosura e a pródiga caridade do seu
+seio.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00122">II</a></h2>
+
+<p>Abrase-me, Senhor, o teu ardor! Que se me converta em pó o mísero invólucro
+deste ser que nasceu para servir-te, e desfeito em teus férvidos alentos crie
+uma gota desse imenso amor que é o teu eterno cálice de vida!&mdash;Tal qual o
+Estio abrasa e queima a terra para transmudar em pão a rocha árida e fria,
+incendeia de amor meu coração para em tua fé remir os infiéis!<span
+class="pn">{57}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00130">LOUCOS DE HUMILDADE</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00131">I</a></h2>
+
+<p>Á beira do paul, onde ele se estreita e recebe do vale o seu ribeiro, sobre
+a arcada da ponte que o transpõe, unindo e prolongando caminhos ensombrados das
+suas margens, quedei-me a ouvir o marulhar das águas, batidas pelas lufadas de
+Dezembro e, sombrias, reflectindo o céu sombrio.</p>
+
+<p>Vindo do mar o rouco sudoeste, gerado na violência das tormentas, turvava a
+atmosfera escurecendo-a. Baniu do céu o azul, de todo oculto sob bandos de
+nuvens violáceas, fugidias, mudáveis como fumos, almas errantes, cinzas
+dispersas de apagados lares.</p>
+
+<p>Crescidas pelo despenhar das águas da montanha que verteram nos rios as suas
+neves, as lagunas cavavam funda a vaga, nessa agonia que a inquieta e é seu
+destino. E incessantemente a repetiam&mdash;assim como no coração volta a
+saudade, sem fim, a repetir-se e sem desanimo, renovando<span
+class="pn">{58}</span> dorida a aspiração que uma estrela sinistra lhe converte
+no repetir da mágoa, no infortúnio de se sentir privado dos seus bens.</p>
+
+<p>Inconsistentes algas sonhadoras, dos sonhos dessas ninfas que as protegem e
+gentilmente as levam no toucado, frouxamente flutuavam enleadas nas hastes de
+robustos nenúfares, em cuja espessura habitam mais isentas da mortal violência
+das correntes.</p>
+
+<p>Também elas, imagem da nossa alma, naquela tão minguada vida que as anima,
+chorariam ilusões de liberdade e em desengano igual aos que sofremos, pensando
+haver nascido para expandir-se e seguirem erradias seus caprichos na luz de
+mansas águas transparentes, também elas sentiriam afinal um cativeiro na dureza
+das hastes que as amparam e enquanto lhes são arrimo as sujeitaram à própria
+imobilidade e à própria sorte?!...</p>
+
+<p>Além, vai inundado o salgueiral. Parece naufragado, entregue às ondas,
+arrancado da terra em que medrou. Até despido e nu, de todo despojado da graça
+que no Estio lhe agitava sua abundante coma viridente, paira sobre ele um
+sonho, um palpitar de afago e de brandura. Ainda no mais áspero rigor, sob o
+queimar das neves, nos seus cinéreos gomos veludosos e nos ramos banhados em
+alvuras vagueia uma carícia que consola, uma tímida promessa de doçura, alentos
+da primavera que suspeita e de cujas primícias de alegria será para nós o
+portador bem-vindo.<span class="pn">{59}</span></p>
+
+<p>Para que na terra sempre permaneça uma esperança, um refúgio de toda a ira e
+toda a tempestade, a redenção de todo o desalento e toda a treva, sorri na
+encosta o prado. Serenamente, ignora a tormenta e os seus combates. Rebelde ao
+vento, unido ao chão e a salvo do transbordar das águas mais subido, repousa os
+nossos olhos, já fatigados desse tropel de lutas de extermínio, essa mancha de
+deleitosa cor e de brandura. Tranquila, em sua mansidão firme e piedosa,
+afronta e vence a túrbida violência em que astros funestos dilaceram,
+fúnebremente, a terra desolada.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00132">II</a></h2>
+
+<p>Em andrajos, curvada, carregando o parco e mesquinho feixe de caruma, vem
+recolhendo ao lar da sua choupana, uma pobre velhinha. No rosto emaciado estão
+marcadas por fundas rugas, restos de agonias, as canseiras, velhice e
+privações. Nem uma só faúlha já lhe resta do fogo que algum dia entumeceu as
+veias duma face enamorada de ventura e prazer, e em ventura enlevando os que a
+buscavam. Aqueles sadios braços que acudiam a recolher o pão no sol do eirado,
+são mal definidas sombras esqueléticas de formosuras que passaram breves. E os
+olhos que brilharam amorosos, em zelos inflamando e fascinando os turbulentos
+moços<span class="pn">{60}</span> do arraial, esmoreceram todo o seu calor,
+amortecidos em descorados véus, quase sem luz.</p>
+
+<p>Mansamente, quando eu cismava no turbilhão de vidas tão diversas que ali
+contemplava, no mistério sem fim dos seus combates para expandirem na luz os
+seus anseios, a velhinha, arrastando seus passos no caminho em que resignada
+arrasta a sua pobreza, saudou-me e disse, interrompendo o sonho e outros sonhos
+trazendo em sua voz:</p>
+
+<p>&mdash;«Boa tarde, meu senhor, salve-o Deus!»</p>
+
+<h2><a name="SECTION00133">III</a></h2>
+
+<p>Delira de humildade esta velhinha que em seu santo delírio desvairada,
+aureolada de fulgores angélicos, me dá teu nome, Senhor, só porque a sorte cega
+em seu capricho me envaideceu com os falsos bens do mundo, enquanto a
+enriquecia de pobreza e me induzia, a mim, a ser soberbo, e a me esquecer de ti
+no meu orgulho? Foi por isso, por ser a mais humilde, por ser abençoada desse
+delírio santo de humildade que a enlouquece, mostrando-lhe os seus senhores nos
+desgarrados da tua larga senda de bondade, perdidos nos infernos das cobiças,
+foi por isso, Senhor, que a escolheste para a enviar dizer-me que além desse
+outro mundo que ali contemplava em confusão de esperanças, formosuras e
+terrores, mortal, incerto, atormentado<span class="pn">{61}</span> e turvo,
+além desse outro mundo um outro existe onde Deus tem seu reino e onde nos
+salva?!...</p>
+
+<p>Possa eu sempre ouvir a sua voz! Resgate-me essa fé, essa humildade que no
+mais pervertido vê um senhor e o saúda e o serve obediente, e suplicante, por
+ele erguendo aos céus a sua súplica, fraternamente para ele implora a graça de
+salvação em Deus!...<span class="pn">{62}</span><span class="pn">{63}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00140">ORAÇÃO DOS LARES</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <em>Et jam summa procul villarum culmina fumant,</em> <br>
+ <em>Majores-que cadunt altis de montibus umbrae.</em> </blockquote>
+
+<h2><a name="SECTION00141">I</a></h2>
+
+<p>«Começam a fumegar ao longe os tectos dos vilares e lá dos montes altos vem
+crescendo as sombras que se alastram sobre a terra». Tingiu-se de ametistas o
+poente. O campo adormeceu. Calaram-se as enxadas na deveza. Entre rumores dos
+gados que recolhem, caminha para a morada o cavador. Erguem-se aos céus os
+fumos dos casais e, desprendidos da pureza do fogo em que se geram, em
+vespertinos cantos abençoam o repouso da noite a aproximar-se.</p>
+
+<p>São sacramento que une os lares da vida humana à luz infinita. São oração,
+anelo, um palpitar, um voo, anseio de brandura transportando ao espaço sem fim
+aspirações que os nossos corações mal balbuciam, que palavras algumas
+traduziram. Confundem seu mistério de beleza, um tímido mistério que se abriga
+sob a pobre nudeza<span class="pn">{64}</span> das choupanas, em um outro
+mistério ainda mais alto que tem por templo a abobada celeste, por voz a voz de
+Deus e por fieis miríades de seres que se dispersam na vastidão do cosmos
+insondável.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00142">II</a></h2>
+
+<p>Assim seja, Senhor, minha oração! Tão alto ela se erga e tão suave se eleve
+em vosso amor e o sinta e adore, como o fumo dos casais quando anoitece levando
+aos céus as orações dos lares.<span class="pn">{65}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00150">CANTARES DAS SEBES</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00151">I</a></h2>
+
+<p>Ao longo do caminho da jornada na qual, dorido, vou calcando a terra, ouvi o
+cantar das sebes nas vigílias em que constantemente nos defendem e nos guardam
+os pomos, as searas e os lírios, todo o bendito pão que nos anima de vigor o
+sangue e nos enleva em alegria a alma.</p>
+
+<p>Valos fundos em volta do pinhal, tosco acervo de pedras que circunda o campo
+onde o trigal vem a brotar, viridentes cômoros abrigando os ninhos sob
+grinaldas de rosais floridos, ramos espinhosos protegendo o alfobre para que as
+sementes desabrochem e vinguem, os silvados que escondem os vinhedos,&mdash;se
+uma vida despontando teme a avidez ingénua dos rebanhos e de aves diligentes em
+buscar sustento tenro para mimosos filhos; ou se a cegueira humana pervertida
+pode quebrar a árvore que nasce ou desrespeitar ruimmente o suor alheio,
+ergue-se a sebe e entoa os seus mandados,<span class="pn">{66}</span> e cobre
+de fortalezas todo o chão traçando os seus limites à cobiça, à imprevidência, à
+malvadez e ao próprio dano da inocência instigada por amor&mdash;como um gládio
+de justiça austera repartindo toda a terra entre os seus filhos. Ora severa e
+rude na mudez, ora coroada de verdura errante, murmurando o agreste murmúrio
+desprendido pelo beijar de brisas fugidias, pacientemente a sebe nos protege a
+selva, o prado, o pão e as açucenas, quanto pode amparar os nossos braços e
+encantar nossos olhos em beleza.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00152">II</a></h2>
+
+<p>Se para nos guardar na terra a formosura e alimentar nas veias o calor
+elegeste na sebe um missionário, servidor desvelado da tua graça, se nem esses
+teus bens mais preciosos viveram sem o abrigo e a caridade dos companheiros que
+lhes destinaste, como poderei eu, Senhor, criar no peito, neste peito gerado da
+fraqueza, o amor fecundo em que ele se arrebate, florindo em bondade e
+mansidão, se em tua misericórdia não mandares anjos bons que me guardem e dos
+teus inimigos me defendam?!...</p>
+
+<p>Sinta eu sempre a meu lado, protegendo-me, o doce abrigo de filhos teus,
+Senhor, daqueles teus eleitos e inspirados que na tua bondade e em teu<span
+class="pn">{67}</span> amor souberam redimir-se! Que por sua voz e sua
+fortaleza arranquem meu coração ao sinistro abutre da descrença, do ódio e da
+avareza a que lugubremente se entregaram os que em solitário orgulho te
+ignoram!<span class="pn">{68}</span><span class="pn">{69}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00160">COMPANHEIRO E GUARDA</a></h1>
+
+<p>Do vale aos cerros onde me encontrei, vai minguando a vida. Lentamente, a
+solidão alarga o seu domínio até que ao cimo, pela planura extensa que remata o
+encastelar de montes sobre montes, de todo impera na aridez ingrata que despiu
+de verdura a terra rasa e a adormeceu, estéril, semi-morta de avareza e
+silêncio.</p>
+
+<p>No deserto severo a que subi, apagou-se distante e emudeceu quanto na veiga
+fértil me fascina, esse fremente rebrilhar de vidas irrompendo da terra
+alegremente que por seus anseios vinham demandando seu lugar e glória à luz do
+sol&mdash;a carícia agitada das ramagens, mugidos da manada no pascigo, o
+argentino rebater da forja, a espessura ondeante das searas, a viveza das rosas
+nos jardins, a murmurante faina dos casais, toda a abundância, toda a flor e
+toda a lida que no vale se expandiram opulentas, na abrigada largueza dos seus
+campos e nos bastos vilares que ela alimenta.<span class="pn">{70}</span></p>
+
+<p>Eis que, porém, no árido silêncio dessa terra sem viço, devastada, se ergueu
+um casebre humilde, o mais humilde, e dali se elevou um ténue fumo! E logo se
+povoou e foi amena a solidão austera desse chão que o desamor dos homens e dos
+astros asperamente votara ao abandono. Foi como se uma afeição dali emanasse e
+banisse, amorável, por encanto, todo o ermo da gândara desolada.</p>
+
+<p>É a morada singela dum pastor. Recolhe agora ao aprisco o seu rebanho, o seu
+pobre rebanho, filho e imagem da pobreza da urze endurecida na terra recalcada
+dos invernos que nunca conheceu o arado e o jugo. E protegidas do rigor da
+noite as ovelhas, seu único tesoiro, por sua vez procura acautelar-se da aragem
+fria que lhe tolhe os membros, acendendo a fogueira mal nutrida das escassas
+giestas que juntou.</p>
+
+<p>Outro alento de vida não pressinto em redor do bravio solitário. Mas só por
+magia desse ténue fumo, companheiro e conforto do pastor no ríspido exílio em
+que perfaz sua missão de amor servindo a terra, senti que até ali mesmo me
+guardava das sombrias visões do desamparo não sei que voz estranha e
+poderosa.</p>
+
+<p>E pedi ao Senhor que recebesse em sua bondade eterna e eterna glória este
+infinito anseio da minha alma que sem cessar o vê e ao seu amor, na opulência
+da terra e na aridez, na maior chama como em débil fumo.<span
+class="pn">{71}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00170">REINO INFINITO</a></h1>
+
+<blockquote>
+ <em>Dico vobis quod quemcumque locum calcaverit pes vester, vester erit.</em>
+</blockquote>
+
+<blockquote>
+      (<small>SACRUM COMMERCIUM</small>, cap. <small>III</small>) </blockquote>
+
+<h2><a name="SECTION00171">I</a></h2>
+
+<p>«Eu digo-te que é teu todo e qualquer lugar que os teus calquem»&mdash;assim
+o ensinava o Santo aos seus irmãos, voltando em puro espírito a ilumina-los,
+daquela eternidade em que resplendia o seu amor ardente, o mais sublime que ao
+mundo trouxe a vida e a salvação, depois que alguém morrendo no Calvário
+derramou por amor todo o seu sangue.</p>
+
+<p>É nossa toda a terra que pisamos, toda aquela vastidão que nós sentimos, em
+seu alento respirando a fortaleza e em sua formosura extasiando os olhos e a
+nossa alma. E só é nossa aquela que sentirmos e enquanto o nosso coração a
+adora e louva; e é alheia, muda, estéril toda a terra que o nosso amor em tudo
+desconhece, ou distante dos olhos a não veja ou, estando a nossos pés, a não
+sintamos enchendo o nosso peito de bênçãos e<span class="pn">{72}</span>
+alegrias. As boninas, os lírios e os rosais não são dessa avareza pervertida
+que lhes pôs em redor um muro alto, para privar os homens de os tocarem, e só
+por isso julga possui-los como escravos do orgulho e da vaidade; são desse
+peregrino pobre e semi-nu que na estrada os sentiu e, cantando e bem-dizendo o
+seu enlevo, prosseguiu na jornada, iluminada a vida e exaltada na fragrância e
+frescor de formosura e na divina crença que ela inspira em tua fé, Senhor, em
+teu poder de eterna graça e beleza. Esse foi rico e, na verdade, teve na terra
+que os seus pés calcaram um reino infinito&mdash;tão rico quanto foi miserável,
+indigente, esse outro que quis contar os bens pela demência cega e malfazeja
+com que privara da terra quem a ama e nessa sinistra força resumiu seu ser e
+aspiração. Este foi pobre, tudo perdeu do salutar alento que lhe mostrou um
+Deus em cada flor, o resplendor duma essência divina imperscrutável; por mais
+terra que seus pés possam calcar, jamais possui um só e estreito palmo do chão
+bendito que as flores orvalhadas consagraram. Possuir é admirar e comungar, e
+só é nossa a terra e tudo aquilo em cujo amor sentimos consumir-nos.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00172">II</a></h2>
+
+<p>Bens da terra, Senhor, também os quero! Também instantemente vo-los peço!
+Também avidamente<span class="pn">{73}</span> os apeteço! E reconheço os
+muitos, gloriosos, com que prodigamente enriqueceste os que têm como sua toda a
+terra que os seus pés vão calcando e os olhos vêem, enquanto a sua alma se
+extasia na beleza da vossa criação.</p>
+
+<p>Riqueza é o coração que vós tocaste na perene harmonia incorruptível que é o
+vosso ser e vibra em todo o espaço e se espelha em luares e na açucena.</p>
+
+<p>Dai-me, Senhor, a graça de a sentir, e nessa graça os reinos infinitos a que
+ela e só ela nos conduz! Para que então eu possua toda a terra e seja meu todo
+e qualquer lugar que os meus pés calquem.<span class="pn">{74}</span><span
+class="pn">{75}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00180">PODERES DA TERRA</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00181">I</a></h2>
+
+<p>Rolam fundas as águas nos caudais. Fundiu-se em torrente a neve que cobria
+de doce alvura a aspereza da montanha. Nuvens negras do sul que o vento
+apressa, jorraram o seu dilúvio sobre os campos. A inundação cobriu sebes e
+vales, e a seara, o prado e o burgo que agasalha o cavador, os jugos e as
+enxadas. De outeiro a outeiro, onde ontem perpassava o suave esplendor de
+mansas vidas,&mdash;em tímidas boninas, em rebanhos, pascendo repousados a
+abundância, e nesse fecundo arranco heróico e hercúleo dos servos da gleba
+generosa&mdash;a devastação das águas desapiedadas estende turvamente uma
+mortalha. E onde se ouvia murmurar a paz, o embalar dos berços carinhosos e
+estrídulos descantes de ceifeiras, felizes e esforçadas na sua faina, lançou a
+inundação roucos pregões de ameaça e terror, tumultuosa e lúgubre no ímpeto.
+Dia e noite, ou brilhe o sol vencendo<span class="pn">{76}</span> a tempestade
+ou a escuridão se cerre impenetrável, rugem no vale horrendos clamores de
+morte, de ruína e de crueza.</p>
+
+<p>Ouviram-nos ao longe os povoados; os montes e as quebradas repetiram-nos. E,
+sentindo como um grito de aves fúnebres que dos céus nos mandassem seus
+agoiros, um sombrio pavor me subjuga. Seus lívidos espectros de desgraça
+escurecem-me em mágoa o pensamento, mostrando-me os infernos neste mundo
+entregue sem resgate às suas penas.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00182">II</a></h2>
+
+<p>Não me culpes, Senhor, se eu esquecendo, em momentos mortais de desalento, a
+sabedoria infinda do teu ser que o orbe rege e funde em harmonia, sucumbi de
+fraqueza e de descrença perante os poderes da terra no seu auge! Não me culpes,
+Senhor, se assim vencido, atónito de espanto e de terror, senti passar a cólera
+das águas e tremi de sofrer sua inclemência! Não me culpes, Senhor, se um
+instante de assombro me oprimiu perante as iras da vossa criação e nelas vi
+tiranias indómitas cruéis! Logo me emenda o erro, crê, e me resgata de vãos
+temores e de fraquezas ímpias a inteira fé na suprema perfeição de quanto é
+teu. Mais alta que os clamores da inundação, uma outra voz me ergue no desejo
+de que a «tua vontade seja feita, quer nos céus, quer na terra»,
+eternamente.<span class="pn">{77}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00190">PERPETUAS DO ROMEIRO</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00191">I</a></h2>
+
+<p>Entardecer de outono tépido e quieto!.... O sol baixa ao poente,
+brandamente, em seu rubor velado de neblinas. A soberba do Estio esmoreceu. Há
+manchas desbotadas sobre os campos; empalidecem vinhas e pomares. A ceifeira já
+ergueu da terra a seara e deixou cor de cinza todo o chão. Os frutos coram
+derradeiras cores nas hastes semi-nuas e vergadas, e os mostos, refervendo
+capitosos seus túrbidos perfumes traiçoeiros, semeiam nos vilares visões pagãs
+de bacantes e faunos em delírio.</p>
+
+<p>Descem do monte os bandos dos romeiros. A essa orgia da terra generosa,
+embalsamando a aldeia em seu deleite e remindo-a da fome com o seu pão,
+responderam na ermida da montanha descantes amorosos, plangentes, orvalhados da
+noite e abençoados do sereno fulgor de astros propícios.</p>
+
+<p>Rebeldes à fadiga, alegremente, voltam à paz da<span class="pn">{78}</span>
+aldeia e ao seu trabalho os romeiros que foram à capela a confessar as penas e
+paixões, implorando do bem-aventurado santo que lá mora, nessa agreste pureza
+do seu ermo, que às suas penas lhes mandasse alívio e que às paixões lhes desse
+horas fagueiras. E para que dilatadamente se prolonguem confissões e promessas
+murmuradas candidamente em estos de ternura, para que jamais se apague a sua
+lembrança nos lares em que se abriga o coração cativo do juramento bafejado
+pelo resplendor do santo do altar que entre lírios e rosas lhe sorriu, trazem
+no peito um ramo de perpetuas os romeiros saudosos da vigília em que sonharam o
+céu e o paraíso. Querem que um tão breve instante de ventura, por magia de
+amor, se torne eterno e que perpétuamente o guarde a flor em que sempre o verão
+como em sacrário.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00192">II</a></h2>
+
+<p>O mais rude como o mais experimentado adorou neste mundo a eternidade. Na
+hora mais breve que se esvai e passa, no sorrir e nos olhos dos que amou, quis
+ver e quis sentir luz que não morre; e fielmente, talvez para não cair em
+tentação de perjúrio ou fraqueza, quis encarnar a crença na flor, dar um cálice
+à fé e o seu quinhão da formosura que na terra a louva.<span
+class="pn">{79}</span></p>
+
+<p>A vida só é vida enquanto ama e traduz e adora a eternidade na beleza do
+mundo e da nossa alma. É a tua lei, Senhor!</p>
+
+<p>Possa eu servi-la e fosse este meu peito perpetua do romeiro onde abrigasse
+um infinito amor e eterna graça!<span class="pn">{80}</span><span
+class="pn">{81}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00200">PODER DO VERBO</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00201">I</a></h2>
+
+<p>No apolíneo sonho do poeta, à beira da torrente, sobre os montes, o pastor
+que além viu a moça linda e ingénua, revestida de viço e de frescura tão
+perfeitos como os da primavera em torno que o afagava, cativo o coração e
+confundindo no mesmo vago enlevo a graça e a formosura, cantou assim ternuras
+do seu peito:</p>
+
+<p>«A erva cresce agora livremente. Há lírios sobre os prados. A maré verde de
+Abril transborda no seu crescer. E para traz, muito longe, perdeu-se cego o
+inverno.</p>
+
+<p>«Assim como a primavera surge da tormenta, assim da morada escura surges
+tu.</p>
+
+<p>«Em ti reside a luz, e qual espraiada no contorno dos lírios a primavera
+brilha, assim do teu coração, pelos lábios vermelhos entreabertos, vem palavras
+e amor aos feixes erguidos do acónito. E aquele que o movimento agita lança à
+terra a bênção,<span class="pn">{82}</span> pelo suspirar ardente e pelo amor,
+pelo desejo bom e pela alegria.»</p>
+
+<p>«Quando tu partires, no inverno incerto, entre os fumos da morada e no rumor
+dos homens, então verei sempre os teus cabelos de oiro e os teus pés brancos
+ágeis no volteio. E do limiar da porta até ao lar, canções vindas do sul, as
+palavras da tua boca hão-de esvoaçar, aqui e além, a repetir-se em todo o
+espaço.»<a name="tex2html1" href="#foot270"><sup>[1]</sup></a></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot270" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> William Morris.
+<em>The Sundering Flood.</em></p>
+</div>
+
+<h2><a name="SECTION00202">II</a></h2>
+
+<p>Oh, magia do verbo que converte passageiro murmúrio em eternidade!...</p>
+
+<p>Por que subtil poder e invencível palavras dum instante, etéreamente aladas
+e fugazes, voltam do infinito espaço em que as lançou a vibração dum peito
+comovido, para de novo as ouvirmos tão altas e claras e tocantes como da vez
+primeira que as sentimos?!... Por que energia oculta se renovam, e nos povoam
+de visões os sonhos, e nos amparam os passos com o conselho, e nos fazem
+sangrar o coração, e nos desprendem o sorriso e o canto, e nos elevam na oração
+divina, as palavras que alguém,<span class="pn">{83}</span> um pequenino ser
+mortal e fraco, mínimo átomo no volver dos mundos, um dia segredou timidamente
+na mansidão dos seus lábios mortais?!...</p>
+
+<p>São anjos teus, Senhor, são anjos teus! Pastores do teu rebanho louco e
+débil, os enviados bons do teu amor que vem a encaminhar nossa fraqueza no
+caminho da tua salvação!</p>
+
+<p>Antes, Senhor, a inconsciência, a morte, o infindo dormir da própria alma,
+do que o errar no mundo ao desamparo, sem a bendita voz dessas palavras que de
+contínuo ouvimos repetir-se, «aqui e além, perpétuamente, em todo o espaço», e
+nos renovam quantas visões de amor nos enlevaram, quanta beleza e graça nos
+mostraram para além deste mundo os céus e os anjos!<span
+class="pn">{84}</span><span class="pn">{85}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00210">UNÇÃO DE GLORIA</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00211">I</a></h2>
+
+<p>Nasce para vida curta e breve passa seu sonho de candura e de beleza a flor
+que a primavera descerrou. Brisas ligeiras que lhe baloiçaram ao sol do meio
+dia o seu turíbulo de dulcíssima seiva perfumada, essas mesmas virão rasgar-lhe
+as pétalas antes que o vento abrande no crepúsculo.</p>
+
+<p>Foi um celeste instante de brancura aquela que poisou sobre o espinheiro
+florido entre a pálida verdura. Os oiros reluzentes do ranúnculo brilharam
+curtos dias entre os prados; e a desmaiada púrpura da olaia, no suave rubor que
+nos fascina, parece ter nascido para uma hora, tão cedo ela decai e junca o
+chão e se dissolve e perde emurchecida. E as rosas&mdash;é seu fatal destino,
+bem o sabem! «nasceram para viver uma manhã». O seu frescor é o beijo duma
+aurora e uma só vez na vida hão-de senti-lo.</p>
+
+<p>Entretanto, na sombra, humildemente, a hera sempre verde, persistente, de
+contínuo cresceu sobre<span class="pn">{86}</span> a ruína, e ou a neve
+embranqueça no trigal a verdura da terra requeimando-a, ou o sol alente as
+seivas dos vinhedos, ou o inverno a castigue rudemente, ou o Estio sequioso a
+abrase, vai urdindo, incansável, esse manto de viço túmido e quente com que
+protege feridas da ruína e, remoçando-a, a veste de grinaldas. E caem desfeitas
+sobre as heras as flores que a primavera desfolhou, na vida curta e breve em
+que viveram seu sonho de candura e de beleza.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00212">II</a></h2>
+
+<p>Ah! Bem feliz, Senhor, seria o filho teu cuja sorte escutando o seu desejo
+lhe deixasse escolher para seu quinhão a frescura das rosas passageira vivendo
+longa vida prolongada na robustez das heras caridosas; porque esse seria a tua
+imagem, bebendo sobre a terra dum só cálice a suprema beleza e o teu poder.
+Mas, pois que à imperfeição eu fui votado e nela hei-de cumprir o teu querer,
+vivesse eu como as rosas um momento de candura e de graça e de perfume, e
+morresse incensando heras robustas de caridade e viço imarcescível!... Passasse
+assim na terra, como passa, numa tarde de Abril embalsamada, a unção de gloria
+que os rosais verteram sobre o vigor das eras persistente!... E seria feliz,
+abençoado, tendo sonhado a tua eternidade envolta num alento de doçura.<span
+class="pn">{87}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00220">SACRO HOLOCAUSTO</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00221">I</a></h2>
+
+<p>O outono palpita nos orvalhos. Já a manhã é tardia em despontar e o cavador
+trabalha em bem prover seu refúgio para a aspereza do inverno. Antes que rasgue
+a terra para o trigal, há-de juntar em torno do seu lar a provisão de lenhas
+que alimentem calor e vida em noites de Dezembro, a alegre e rubra chama da
+fogueira.</p>
+
+<p>No pinheiral da gândara, que dormiu prolongados silêncios abrasados quando o
+sol ia alto, fulminando verdes searas a beber seu leite da terra criadora,
+entre cantares dos filhos do seu seio e seus escravos que em suor a banhavam
+fecundando-a&mdash;no pinheiral da gândara, a árvore ferida, decepada do chão
+pelo aço luzente que o lenheiro vibrou em hercúleo arranco, solta tombando
+clamores tremendos; e a paz da floresta repetiu-os em ecos de saudade
+compassiva.<span class="pn">{88}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00222">II</a></h2>
+
+<p>Oh, sagrado holocausto duma vida austera e solitária, corajosa, vivida a
+todo o tempo, paciente labor de muitos sóis, de rudes provações que
+experimentaram a tempestade, a calma, a noite e o dia, águas violentas que
+flagelavam e águas de brandura, salutar afago, luares calados, doces
+sonhadores, e o desalento do ardor do Estio e a branca inércia das manhãs do
+inverno, toda a luz, todo o tumulto e toda a paz, todo o infinito ser de
+infinitos mundos!... Tu morreste bendita dando aos homens todo o calor que
+guardas nas entranhas, para agasalhares os berços e o trabalho, para
+retemperares os seios que amamentam e para aquecer os braços que se tisnam na
+escravidão da terra redentora!</p>
+
+<p>Eu não sei se é de dor, se de gloria, se é louvor ou lamento que te envia, a
+ti, Senhor, que lhe traçaste a sorte, esse grito que ouvi no pinheiral quando
+ao cair da árvore bradou seu ansiado brado a sonorosa haste que cantara a
+mansidão das brisas que a tangiam. Mas ouvindo-o, Senhor, ouvi tua voz; e,
+turvado da abundância da tua caridade, implorei-a&mdash;não me abandonasse,
+como não me abandona a fé que eu tenho em teu mistério de bondade e amor.<span
+class="pn">{89}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00230">SAGRAÇÃO DO ESCRAVO</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00231">I</a></h2>
+
+<p>No alto da montanha, ao romper de alva, já moureja no campo o cavador a
+alentar essa terra de que é escravo, seu sonho e seu tirano, e sempre amada,
+fidelíssimamente obedecida, ou a sonhe feliz dando-lhe frutos entre rosais
+corados olorosos, ou a sinta opressiva, insaciável, bebendo-lhe no suor do
+rosto todo o sangue. O tépido conforto do seu lar, o dormir sorridente dos seus
+filhos, o desvelado afã da companheira no seu mudo lidar e em seus carinhos,
+quanto lhe afaga o coração e o tenta a esquecer na ternura a escravidão, tudo
+deixou por essa tirania, para fecundar a terra à qual o prende o rigor de
+apaixonada sujeição. Mal ao nascente a luz embranqueceu, ei-lo que parte,
+erguido e corajoso, a pelejar a peleja bendita de criar!</p>
+
+<p>Dorme além a cidade ainda prostrada da tenebrosa orgia que a desvaira. No
+dissipar de pálidas<span class="pn">{90}</span> neblinas, que a madrugada rasga
+pouco a pouco, irrompem, lentamente, as sombras orgulhosas dos palácios em que
+o luxo entorpece seus filhos corrompidos e enfermos, de alma e do corpo, por
+suas vãs loucuras tão cruéis.</p>
+
+<p>Surgem a par as torres das igrejas, onde a fé, a mentira e a hipocrisia
+lançaram de tropel em um só templo a cruz de Cristo, a mais santa das crenças,
+e a mais torpe traição, essa que oculta sob véus da pureza e na oração toda a
+cobiça sórdida de mundos que em podridões sustentam o seu deleite.</p>
+
+<p>É frouxo ainda o fumo da oficina. Nos seus leitos de ferro e de granito mal
+despertaram os monstros que, rugindo pelos lúgubres antros denegridos,
+convertem todo o sangue em alavanca ou em um numero, como se fora a haste fria
+e rígida do mais frio aço endurecido. Toda a emanação de Deus que anime um ser
+em Deus criado e nele engrandecido, coração, formosura, o próprio seio que
+amamenta um filho, supremo alento dum supremo amor, qualquer impulso duma
+consciência iluminado por visões dos céus, o mais leve passar duma
+alegria,&mdash;morrem, são nada à porta da oficina, escoria inútil que os
+dragões arrastam àquelas profundezas tenebrosas em que ter alma é um crime, e o
+pensar e o sentir são uma traição, um erro, um prejuízo dos argênteos tesouros
+mercantis.</p>
+
+<p>No declive estreito dos outeiros e na sombra<span class="pn">{91}</span>
+mais húmida das suas pregas, ao redor dos palácios e dos templos, como varridos
+em monturo abjecto para longe das grandezas que afrontavam, confundem-se e
+amontoam-se os casebres onde a fome e a sua negra corte de vícios, de loucura,
+de enfermidade e morte e blasfémia têm seus covís e dilaceram os mártires que a
+crueza dos ricos lhes votou.</p>
+
+<p>O próprio rio que regara os prados e os tingira em verdura e macieza, que
+adoçara vinhedos das encostas e orvalhara os vergéis alcandorados na ribanceira
+que a pervenca esmalta, o próprio rio onde foi espelhar-se o rosto lindo da
+donzela ingénua cativada dos olhos que respondem comungando nos seus o seu
+anseio, o rio que serviu a obra de Deus, sua pura beleza
+salutar,&mdash;tristemente se roja na cidade, turvado por as suas maldições e
+servindo a avareza despiedosa que roubou o pão de míseros humildes para em
+opulências cobrir de oiro a soberba.</p>
+
+<p>E perante a cidade em seu letargo, atormentada e pálida de dores, sucumbida
+nas suas maldições, o sol rompendo ao longe sobre os montes, na resplendente
+luz do seu nascer, aureolou de gloria o cavador, sagrando-lhe a sua crença e o
+seu vigor, a robustez hercúlea do seu peito e a consagração bendita de sua alma
+a esse tributo infindo, heróico e santo, de em suor pagar à terra o nosso
+pão.<span class="pn">{92}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00232">II</a></h2>
+
+<p>Senhor! Em vossa caridade reparti vossos bens por quantos, infelizes, a
+fraqueza condena a mendigar dos fortes o seu pão, embora o orgulho os traga
+confiados em pérfidas grandezas traiçoeiras! Por esses que o destino arrasta na
+tristeza, no cansaço e desgosto de viver, porque em hora sinistra se apartaram
+do caminho da vossa salvação!... Deixai que chorem sua desventura, e em seu
+queixume ouvi a minha voz!... Deixai que chorem em doloroso exílio esses
+proscritos que jamais comungam com o cavador na bênção de criar na terra o
+nosso pão com o suor do rosto! À luz da aurora que o beijou no monte, juntai as
+lágrimas dos que vão chorando sua desgraça, sua perversão!... Fossem elas
+incenso e ouro e mirra que os débeis reis do mundo tributassem à sagração
+divina do escravo!... Resgatassem humildes todo o erro que os desprendeu da
+escravidão da terra!...<span class="pn">{93}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00240">MALDIÇÃO</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00241">I</a></h2>
+
+<p>Entenebrecidas noites de tristeza afastaram-me da via iluminada para lugares
+distantes, desprezados dos escravos das seduções mundanas, prisioneiros fieis
+dos seus regalos.</p>
+
+<p>Passei pelas vielas lobregas, estreitas, onde se acoitam multidões abjectas,
+que os ricos aviltaram condenando-as à ignorância, à fome, aos vícios do
+infortúnio, à loucura e ao crime, a epilépticas convulsões da embriaguez, à
+indigência, ora prostrada ou insolente, ora mendiga lacrimosa e tímida, ora
+cuspindo pragas e blasfémias em sua altivez irada, revoltada. Vi os negros
+covís dos desgraçados que a opulência arrojou longe dos olhos para os monturos
+humanos da cidade,&mdash;não fossem os andrajos e os vermes confundir-se entre
+vestes de purpura manchando-as!</p>
+
+<p>Dos gemidos que vinham desses antros, tantas vezes castigando as nossas
+faces como um<span class="pn">{94}</span> viperino jacto de veneno, a procurar
+vingança; do rugido da miséria nos seus transes nenhum me tocou mais o coração
+do que o grito das crianças açoitadas, entre imprecações raivosas de possessos,
+flageladas com desprezo e ódio vermelho, somente por chorarem doloridas de fome
+e frio e ínfima indigência, sem carinho e sem pão, sem um leve consolo, que
+conforte e que alegre e vivifique dum reflexo de divina essência o corpo
+enfermo e a empedernida e bruta animalidade.</p>
+
+<p>Longas horas depois de ter deixado os coitos dessa escoria penitente que
+sofre e geme em vão nos seus infernos, sem alcançar mover à misericórdia os
+soberbos e grandes que em seu fausto, emudecida e cega a consciência, lhe
+negaram justiça, ainda ouvia insistente o clamor desse tormento louco das
+crianças.</p>
+
+<p>E nenhum mais cruel tenho encontrado!</p>
+
+<p>Em nenhum&mdash;e são muitos entre os homens! encontrei maior dor e
+perversão.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00242">II</a></h2>
+
+<p>Se o Estio esgotou fontes e rios e secou a campina, a ave infeliz, que tem
+filhos no ninho a sustentar, e em vão moureja, diligente e muda, por todo o
+abrasado e ingrato espaço, tem de voltar<span class="pn">{95}</span> ao poiso
+desprovida. Mas não castiga essas famintas bocas que a esperam, gritando e
+atribuladas, a pedir-lhe o alimento que não pode dar-lhes, pois lho recusam os
+calcinados campos adversos. Sofreu resignada o suplício, a fome, a sede, e a
+amarga invocação dos que um mau sestro confiou ao seu amparo.</p>
+
+<p>Se o leite seca ao animal bravio, por qualquer contingência da sua sorte,
+oferece o peito exausto ao filho débil, todo o seu sangue quereria dar-lhe; e
+sentindo-o a morrer de inanição, responde com os carinhos ao queixume da
+vergontea que vai a definhar, aquece-a junto ao corpo, mas jamais se abandona a
+ímpetos de cólera, só porque um ser amado lhe suplicou, inquieto, angustiado e
+lacrimoso, o mantimento que carece para viver.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00243">III</a></h2>
+
+<p>Que estranha aberração induziu o homem a negar a robusta caridade, comum,
+vulgar, no peito inconsciente?!... Que estranha perversão o fez acrescentar à
+indigência a crueldade, torturando, somente por lhes sentir as agonias, aquelas
+mesmas vidas que criou, carne da sua carne, almas da sua alma?!...</p>
+
+<p>Discípulo de Cristo a quem adoras, por comunhão<span class="pn">{96}</span>
+na sua vontade e anseio erguido à plena luz do entendimento que te mostrou
+irmãos nas ínfimas partículas, na argila e na poeira, como no coração, na rosa
+e em tudo quanto existe! Senhor soberano dessas forças terrenas formidáveis que
+dominaste e trazes por escravas em proveito do teu gozo e teu triunfo,
+convertendo-as do terror à mansidão, dócilmente vergadas ao capricho!... Por
+maldição de trágico império, em tenebrosa queda degradado, foste sujeito,
+louco, em teu orgulho de virtude e de crença e de isenção, a repassar de fel a
+dor dos próprios filhos!<span class="pn">{97}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00250">PROFISSÃO DE FÉ</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00251">I</a></h2>
+
+<p>Não ajoelhei no adito do templo e, como o filho querido do poeta, fiquei
+também de pé, rebelde e incrédulo, «quando um povo fiel na sombra das abobadas
+se curvava ao passar de cânticos celestes, tal qual se verga a multidão das
+canas quando sobre elas sopra o vento norte.»</p>
+
+<p>Irreverente e altivo, passei coberta a fronte por monumentos altos,
+insensatos, em que orgulhosa demência de grandezas, poluindo com o fausto a
+divindade, num estranho tumulto de blasfémia e súplica, de mentira e verdade,
+de confissão ingénua e de impostura, pôs o sinal da cruz e da oração ao sagrado
+retiro em que confunde religião, vaidade, amor e ódio, fanatismo e doçura,
+mansidão, crueldade, perdão, vingança, cobardia e coragem, o nobre e o mísero,
+o sacripanta e o santo.</p>
+
+<p>Muita vez me afastei desse desvairo, satânica traição, em que o resplendor
+de Deus no cálice e<span class="pn">{98}</span> na hóstia se empana esmorecendo
+em nuvens de vileza que derramam em torno a escuridão da impiedade e das
+paixões mundanas.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00252">II</a></h2>
+
+<p>Mas não te desamei, Senhor, porque assim fiz!...</p>
+
+<p>Sempre que o coração tentou seus voos de candura, sempre que se sentiu
+sujeito a forças sobre-humanas para as servir guardando os seus mandados, no
+remorso e na dúvida, em todo o penar de angustia e em toda a esperança, em
+afecto e ternura, em sonhos de pureza, aspirando ao enlevo no Eterno, cansado
+deste mundo de fraqueza, ergui olhos chorosos ao azul, onde cintilam astros
+diamantinos, e invoquei-te, Senhor, meu Deus e Pai, a ti «que estás nos céus,
+nome santíssimo, para que tu me acolhas no teu reino e eu fielmente cumpra a
+tua vontade; para que me dês o pão de cada dia e me perdões quanto te dever,
+assim como aos meus devedores também perdoo; para que afastes de mim a tentação
+e de todo o mal me livres para sempre.»</p>
+
+<p>E fui humilde então!... Nesses altares me despi totalmente da soberba e
+ajoelhei prostrado, submisso, a escutar tua voz e a adorá-la, religioso,
+confiado e crente, curvado como o canavial vergado ao vento.<span
+class="pn">{99}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00260">DRÍADE ENFERMA</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00261">I</a></h2>
+
+<p>Pelo musgoso atalho da floresta, entre o tojo bravio e urzes austeras, fui
+saciar meus olhos na beleza e reanimar o corpo na carícia que o sol esquivo e
+brando de Dezembro frouxamente derrama através da espessura do pinhal.</p>
+
+<p>A custo ia abrandando o frio da manhã. São curtas nesse tempo as horas
+tépidas. Mal se fundiram os gelos da derradeira noite, logo vem renová-los mais
+profundos a palidez de frígidos crepúsculos.</p>
+
+<p>Experiente, já certo dessa lei que dos astros nos vem e é impreterível,
+sorvia com avidez a delícia breve que eu sentia fugaz, quase uma ilusão de
+transitórios sonhos luminosos.</p>
+
+<p>E lembrava o Estio e a primavera!... Ali, naquela mesma floresta, ali
+busquei abrigo da violência dos abrasados dias inflamados pela calma do mês de
+Santiago. Ali me defenderam dos seus<span class="pn">{100}</span> fogos as
+vastidões umbrosas impenetráveis. Ali ouvi passar no vale vizinho o sussurrar
+das águas que corriam a reanimar o prado emurchecido por aturadas horas
+refulgentes. Ali senti esse leve sorrir vindo da terra, desprendido dos
+borbotões das fontes do seu seio para redimir a vida extenuada, desfalecida à
+míngua de frescor.</p>
+
+<p>Ali encontrei passando ao entardecer, em sua plena graça juvenil, como se
+alada rosa eu entrevisse, a moça que subia das lenturas fecundas do juncal a
+regalar seus gados com o pascigo, entre cantares ceifado alegremente, vibrando
+firme a foice, despiedosa, a traçar nos seus dentes a bonina mais branca, e o
+malmequer, e a mais esbelta haste do azevém onde já despontavam as palmas
+rígidas em que guarda a semente.</p>
+
+<p>E eis que de novo a encontro agora na floresta, a essa mesma dríade que
+outrora, em perfumadas horas estivais, passou por mim turvando-me os sentidos
+de súbito embebidos, cativados, na gentil maravilha de seus gestos.</p>
+
+<p>Mas quanto vem diferente e vem mudada!...</p>
+
+<p>Que é da graça subtil que a envolvia, envolvendo na sua formosura os olhos
+confundidos, fascinados do latejar sadio que igualava o florir ingénuo da
+açucena?!...</p>
+
+<p>Filha da terra e sua humilde serva, também ela conhece o outono e o inverno;
+também arrasta penas e fraquezas; também se empobreceu de seus<span
+class="pn">{101}</span> enleios. Não fugiu ao rigor da lei comum. Enferma, traz
+enfermo o seu encanto; vai quebrada a magia do seu poder divino. Curvada sob o
+feixe de duros ramos secos que para seu conforto esforçada colheu de orgulhosos
+robles, castigada a frescura rosada dos seus braços pelos espinhos ímpios dos
+silvados, tisnada a face pela aspereza cortante das manhãs, é agora a lenheira
+paciente, mortificada e débil, imagem do trabalho e do sofrer, aquela ceifeira
+airosa que ainda há pouco foi para mim missionário feliz da alegria sagrada de
+viver, afortunada voz e alto pregão das seduções da terra, claro espelho de
+todo o seu amor.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00262">II</a></h2>
+
+<p>Se em toda a vida passa a enfermidade, se a formosura é incerta, e se o
+lírio e a estrela e a nuvem e o mármore mais duro, e a alegria e o riso e a
+doçura infinita da bondade e a própria luz do sol são perecíveis; se a criação
+inteira que os olhos vêem e que a nossa alma sente, toda a beleza íntima e a do
+mundo, decai e desfalece, sofre e se apaga: se só tu és eterno, Senhor! em tua
+caridade e teu saber, e se a suprema harmonia, que é o teu sonho, não distingue
+o prazer e a dor, a caricia, o flagelo, a rosa e o cardo, por igual
+divinos<span class="pn">{102}</span> em teu divino ser&mdash;se é esse o teu
+querer, bendita seja a hora em que encontrei a dríade enferma do inverno que em
+seu dissipado encanto e em sua mágoa correu a ensinar-me a crer em teus
+desígnios e me segredou louvor e obediência, a inteira abdicação em teu
+mistério!<span class="pn">{103}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00270">MONJAS DO OUTONO</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00271">I</a></h2>
+
+<p>Ouvi cantar no monte as urzes roxas.</p>
+
+<p>Cantavam ao romper de alva, ainda banhadas do cintilante orvalho da manhã
+que pela noite calada e arrefecida as estrelas pousaram nos seus braços,
+trigueiros como a terra onde se criam.</p>
+
+<p>Cantaram ao cair da tarde, iluminadas por brazeiros corados do poente que o
+tumultuar das nuvens inflamou, ao longe, sobre o mar, no extremo horizonte.</p>
+
+<p>E enquanto assim cantavam nos seus bandos, vagabundos das fragas e dos
+seixos, cobriam toda a terra da sua purpura, esmorecida e branda, tímido
+murmúrio da vermelhidão que hesita em seu clamor e teme ferir quando só quer
+dar vida.</p>
+
+<p>Cantavam livres percorrendo a gândara rasa onde nem um desgarrado arbusto se
+afoitou a erguer mais alto o ramo castigado, sem remissão votado a rastejar
+porque o pascer contínuo dos<span class="pn">{104}</span> rebanhos mais não
+consente. Pelos recessos húmidos das grutas, sob a curvada abobada do roble,
+entre ogivas audazes dos pinheiros, na alumiada encosta que conduz à azenha
+encastelada sobre o rio, ou adornando frígidos penhascos que só conhecem os
+rigores do norte&mdash;cantaram sempre e com a mesma voz as urzes roxas, monjas
+do outono.</p>
+
+<p>Conformada doçura bem casada com o declinar das pompas do Estio, renuncia da
+opulência, resignação entre a pobreza árdua do inverno que o encurtar do dia já
+promete, um sereno caminhar para a austeridade, aquele desprendimento
+sobre-humano que descreu das grandezas deste mundo, da ansiosa tormenta da
+ambição, e procura o resgate em singeleza&mdash;tudo eu ouvi cantar às urzes
+roxas, monjas do outono bem-aventuradas, que aos olhos me trouxeram suavidade
+entre ameaças ríspidas da aspereza e a minha alma engrandecem conduzindo-a aos
+reinos religiosos da sua paz.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00272">II</a></h2>
+
+<p>Senhor! Tu que me consentiste a graça de escutar a voz bendita com que no
+outono as urzes roxas vem a libertar-nos das dores de embriaguez obcecada que
+pôs sua ambição em querer<span class="pn">{105}</span> muito, em vez de a
+consagrar à fortaleza de se sujeitar à lei que em teu mistério deste ao
+universo, não permitas, Senhor, que eu desfaleça! Enquanto a minha jornada não
+findar, que eu não deixe jamais de te escutar no canto benfazejo das urzes
+roxas, monjas do outono!</p>
+
+<p>Possa eu beber com elas no seu cálice a suave resignação da sua pobreza, seu
+valoroso animo que afronta, cantando e derramando suavidade, pressentimentos
+que aos demais oprimem, esse cair da noite do inverno, seus flagelos, suas
+privações, o gelo, a morte, todo o seu cortejo de crueldades sem fim,
+inexoráveis!<span class="pn">{106}</span><span class="pn">{107}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00280">A TERRA ESCRAVA</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00281">I</a></h2>
+
+<p>Esta terra que no homem tem o escravo e, toda poderosa, o traz curvado a
+amá-la, essa mesma por sua vez foi também escrava quando, obediente e humilde,
+serve o esposo ao qual sorri ansiosa e abre o seu seio.</p>
+
+<p>Há-de rasgá-la o aço da charrua para que a seara acorde nos seus sulcos; e
+há-de a foice resplender, ceifando o pão, para que ela aos servos dê o seu
+sustento. Se esse beijo de amor a não alenta, jaz infecunda, endurecida e nua,
+como triste proscrita da alegria, desamparada à beira do caminho, em vão
+sonhando caridade e gloria.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00282">II</a></h2>
+
+<p>A escravidão é a tua lei, Senhor! A ninguém que tu ames a ocultaste. É o
+mantimento e guia<span class="pn">{108}</span> da jornada que à tua fé nos
+leva. Nem a estrela mais rútila dos céus deixou de ser escrava de outra
+estrela. Sintam os meus pulsos todas as algemas que me acorrentem a esse teu
+querer de fecunda bondade, sujeitando o meu ser a outro ser e perfazendo assim
+a vida eterna do amor e da humildade! Sirva-as o sangue, dê-lhes o calor!...
+Adore-as meu coração!... Por elas se resgate da treva das tristezas e das dores
+em que o solitário orgulho pena a culpa!<span class="pn">{109}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00290">MISTÉRIOS DE CERES</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00291">I</a></h2>
+
+<p>O nocturno ulular do negro inverno solta no pinheiral espectros clamorosos.
+Abrigam-se refugiados nos casais, em volta da viva chama que os aquece, os
+tímidos foragidos da tormenta e os colos que acalentam criancinhas.</p>
+
+<p>E, heroicamente, afrontando a rudeza da inclemência, despontam nas campinas
+os trigais. E, alegremente, esvoaçam na levada alvas farinhas, bailando o seu
+delírio sob os colmos que protegem a azenha sonorosa. E, ardentemente, o
+brazido dos fornos vigilantes fabrica no seu fogo o doce pão que, quando
+alvorecer, nos reanime para seguirmos na terra essa jornada da via dolorosa,
+via ingrata.</p>
+
+<p>São os mistérios de Ceres que do seu seio destila o abençoado leite que
+amamenta os infinitos bandos dos seus filhos.</p>
+
+<p>A terra, o fogo, a água e o nosso braço, quanto<span class="pn">{110}</span>
+a criação sonhou de grande e belo e santo e generoso, desde a fecundidade casta
+duma leiva até ao nosso alento, consumido pela consciência do dever
+cumprido,&mdash;todos Ceres arrastou em seu mistério, todos são seus escravos,
+obreiros dóceis, servos diligentes da sua caridade. E a sua esmola, o pão, que
+por igual aviventa nos berços a inocência, renova a energia ao cavador, e
+piedosamente desce às geenas túrbidas dos míseros proscritos que em desgraça e
+no crime resvalaram&mdash;o pão gerado para criar o sangue é também sacramento
+que une a alma a todas as divinas forças que o geraram, partícula de
+insondáveis mundos e infinitos de poder e de amor.</p>
+
+<p>O inspirado rude plebeu que, se o pão caiu no chão, o ergue e o beija,
+consagrou na candura religiosa esse mistério que une a nossa alma à terra e aos
+céus e só a religião suspeita e adora.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00292">II</a></h2>
+
+<p>Conduzi-me, Senhor, ao altar de Ceres! Ensinai-me sua graça e os seus
+mistérios! Assim como o pão renova no meu sangue o calor que o agita e o move e
+o fortalece, fazei, Senhor, que ele nutra também meu coração para sentir,
+prostrado em<span class="pn">{111}</span> gratidão, tua eterna bondade
+generosa! Que por meu braço o louve e engrandeça!... Que, curvado, lhe tribute
+o suor do rosto!...</p>
+
+<p>É o teu mensageiro o mais fiel. Seja eu o seu servo o mais humilde! Pois
+que, servindo-o, Senhor, te glorifico e em ti resgato a miseranda vida.<span
+class="pn">{112}</span><span class="pn">{113}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00300">HORAS DO MEU PEITO</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00301">I</a></h2>
+
+<p>Fica à beira do rio o campanário que do alto da sua fortaleza conta as horas
+da vida passageira em que ao redor se agitam ou repousam os campos remansosos e
+os vilares, afadigados na fadiga humana. E quantas horas caem do bronze, lento
+e sonoro, que as solta ao vento, ou tormentosas sejam ou benignas, leva-as o
+rio para o mar profundo, na sua imensidade vão perder-se.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00302">II</a></h2>
+
+<p>Assim caudais de amor, e esses somente, me recebessem horas do meu peito,
+quantas meu coração puder contar, ou na mágoa e na dor ou na alegria, e todas
+elas as levassem celeres, na candidez das águas baptizando-as, a perder-se,
+Senhor, na imensidade da bondade infinita do teu seio!<span
+class="pn">{114}</span><span class="pn">{115}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00310">ÁGUAS VIÚVAS</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00311">I</a></h2>
+
+<p>Não distantes do mar, entre rochedos, brotam as águas que, em seu breve
+curso, desoladas se internam na aridez, até que de todo as bebe o areal adusto
+e as confunde perdidas na amargura de ondas salgadas que destroem e queimam.</p>
+
+<p>Foi-lhes árduo o caminho. Apenas surgem da terra e viram o dia, encontraram
+a fragura impenetrável, madrasta avara de mirrados líquenes. Depois, como
+cativos escoltados por alcantis que os cingem ao caminho apertado no sombrio
+vale estreito, nem sequer por momentos gloriosos sentiram a liberdade das
+campinas que amorosas quisessem e se exaltassem em seu fecundante afago. Por
+fim, engolfando-se em mares insaciáveis, estéril se dissipa para sempre esse
+anseio de amor que prometia a rosa e o trigal e a sombra viridente e que,
+infeliz, nasceu só para sofrer, por negra sorte cedo condenado a jamais se
+expandir<span class="pn">{116}</span> em formosura e nunca amassar o pão que
+mata a fome. Malfadadas, essas águas das fontes junto ao mar beijaram o
+pequenino campo minguado entre rochas rebeldes e soberbas, e eis que o mar as
+vem beber e logo as lança nas suas profundezas insondáveis.</p>
+
+<p>Foi seu destino serem infecundas!</p>
+
+<h2><a name="SECTION00312">II</a></h2>
+
+<p>«Águas viúvas!» disse o cavador. «Na vida não tiveram quem as ame. São
+viúvas do chão que as recebesse no seu seio profundo e generoso para as
+restituir á luz em flores e em frutos, para vestirem de doçura a terra, para
+salvarem da fome os que a padecem, para se alargarem em lagos dos açudes e para
+cantarem na levada alegre seu louco impulso, todo o seu folgar».</p>
+
+<p>E o cavador cismava na sua leiva, naquela que rasgara no bravio, e era
+regada só do suor do rosto e pelos orvalhos breves da manhã, e em dias
+tormentosos dilacerada pela rispidez de invernos inclementes, severos, tanto ou
+mais que o sol de Julho. Por que erro ou mistério chorava ali a água a viuvez
+dum benigno chão que a desposasse, e lá no cimo do monte o campo pobre
+desfalecia à mingua da lentura que lhe acordasse<span class="pn">{117}</span>
+os germes e os trouxesse a viverem a gloria de crescer?!...</p>
+
+<p>E o poeta, ao ouvir o cavador, pensou na viuvez das almas que no mundo,
+nascidas para a bondade e para o amor, voam seus voos na ruindade agreste dos
+egoísmos míseros dos homens e, à mingua de almas irmãs que lhes recebam seus
+anseios fecundos de carinhos, mirram-se estéreis entre desenganos, e do mundo
+se apartam dissolvido o seu desditoso anseio benfazejo nas profundezas da
+desilusão.</p>
+
+<p>Por sua vez incerto e compungido, tremendo da desgraça dos infernos onde
+penam os corações desamparados que em desventura nunca sentem irmãos pulsando a
+par do seu pulsar de amor, o poeta responde ao cavador:</p>
+
+<p>«Por que erro ou mistério do destino, andam perdidos e, chorando, sofrem a
+viuvez duma ternura irmã da que os alenta e ampara e os ergue a Deus, os
+corações que amam sem encontrarem amor que o seu fecunde e alimente para o
+florir em bênçãos e consolo dos que em desdita esmolam esses bens?!...»</p>
+
+<h2><a name="SECTION00313">III</a></h2>
+
+<p>Isentai-me, Senhor, do atroz martírio que o coração sedento de bondade
+padece nesta vida<span class="pn">{118}</span> quando à sua voz só responde a
+dureza das paixões e uma cobiça ardente, insaciável! Roubai-o a essa cruz, toda
+de espinhos, em que rasgado se desfaz e muda um infinito amor em amarguras!
+Ensinai-lhe, Senhor, a fortaleza e que, entre o desamor que o perseguir, saiba
+ao menos amar a desventura!<span class="pn">{119}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00320">PUREZA AMARGA</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00321">I</a></h2>
+
+<p>A pureza que a neve da montanha desprendeu gota a gota em claro fio, era
+doce nas pedras do regato onde o pastor bebia o refrigério das canseiras do
+monte e do rebanho.</p>
+
+<p>E correu, correu sempre clara e doce, enquanto se despenhou de fraga em
+fraga, apressada, descendo ao horizonte que distante a chamava e a seduzia.</p>
+
+<p>E foi doce ainda quando se juntou ao largo rio em que os cinceirais
+encaminhavam brandamente ao mar, entre verduras tenras rumorosas, as
+diamantinas, fúlgidas, correntes de peregrinas águas caudalosas.</p>
+
+<p>Até que ao fim entregue à imensidade, porque ansiava louca de paixão, e a
+que corria desde o seu nascer, na pureza de neve assim lançada às convulsões
+das vagas sem repouso, transmudou-se em travoso amargor de ondas salgadas<span
+class="pn">{120}</span> quanta doçura tinha no seu cálice&mdash;como se por
+vontade e obra divina essa pureza que nos foi doçura, irmãmente nos dê sua
+amargura.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00322">II</a></h2>
+
+<p>Senhor! Fosse a amargura o preço da pureza!... E eu quereria que quanta
+amargura em todo o mar se encerra, toda ela coubesse no meu peito, se por ela
+pudesse converter meu coração, turvado de paixões, na virgínia pureza que se
+gera da neve cristalina da montanha.<span class="pn">{121}</span></p>
+
+<h1><a name="SECTION00330">TIRANIA DO FOGO</a></h1>
+
+<h2><a name="SECTION00331">I</a></h2>
+
+<p>Após um breve e pálido crescente perdido além, ao longe, sobre o mar, na
+cerrada treva que se lhe seguiu, fulguram tragicamente as labaredas do incêndio
+que se ateia na montanha e enegrece o pousio, raso e nu, em toda a vastidão
+onde implacável o fogo apascentou os mortíferos rebanhos das suas chamas. É
+cinza a urze que tingiu de púrpura a aspereza mais ingrata dos fraguedos. É
+cinza o tojo que arrojadamente floriu doirando, de oiro precioso, o chão ainda
+gelado de Dezembro. E os renovos do sobro e o pinheiral, que entre os seixos
+avaros despontavam, em cinzas converteram a curta e tenra vida das suas
+hastes.</p>
+
+<p>A tirania do fogo em sua gloria toda a beleza esquece e todo o bem. Em sua
+austeridade e em seu mistério, enquanto nos fascina e nos subjuga, ou nos
+avivente e exalte em manso alento ou em delírio lavre devastando, tem por
+escrava<span class="pn">{122}</span> toda a formosura, dissipa-a sem piedade em
+seus altares. A flor que canta a aurora e é o seu sacrário, a árvore que ao
+peregrino deu sombras e pomos, sumas riquezas, sumas alegrias desta vida mortal
+dos nossos olhos&mdash;são pó e em pó se volvem, se a pureza do fogo as
+inflamou.</p>
+
+<h2><a name="SECTION00332">II</a></h2>
+
+<p>Ser escravo, Senhor, é o meu anseio! Libertai-me o meu peito da miséria dos
+mundos vãos de vãs aspirações da vaidosa existência corruptível, e convertei-me
+em cinza o coração, na tirania de um amor ardente, por ele purificado e
+consumido&mdash;assim como o fogo abrasa o cedro e o roble, em chamas gloriosas
+redimindo na luz, que é vida eterna, do transitório orgulho da opulência que se
+nutriu das seivas da floresta!</p>
+
+<p style="text-align: center;">FIM</p>
+
+<p> </p>
+</div>
+
+<p> </p>
+
+<p><span class="pn">{123}</span></p>
+
+<h2><a name="SECTION00340">ÍNDICE</a></h2>
+<ul class="TofC">
+ <li><a name="tex2html110" href="#SECTION0010">ROSAS DO MEU CAMINHO</a></li>
+ <li><a name="tex2html113" href="#SECTION0020">AS TAÇAS DO BANQUETE</a></li>
+ <li><a name="tex2html116" href="#SECTION0030">A DOR E A VIDA</a></li>
+ <li><a name="tex2html122" href="#SECTION0040" id="tex2html122">MAIS FORTE QUE
+ O MAR</a><a name="tex2html125" href="#SECTION0043"
+ id="tex2html125"></a></li>
+ <li><a name="tex2html1251" href="#SECTION0043"
+ id="tex2html1251">HUMILHAÇÃO</a></li>
+ <li><a name="tex2html128" href="#SECTION0050">BÊNÇÃO DO POENTE</a></li>
+ <li><a name="tex2html131" href="#SECTION0060">O SONO DO TRIGAL</a></li>
+ <li><a name="tex2html134" href="#SECTION0070">TERRA LACRIMOSA</a></li>
+ <li><a name="tex2html138" href="#SECTION0080">CULTO DE QUIMERAS</a></li>
+ <li><a name="tex2html141" href="#SECTION0090">ANSEIO DA MANHÃ</a></li>
+ <li><a name="tex2html144" href="#SECTION00100">A ASA DO REMORSO</a></li>
+ <li><a name="tex2html147" href="#SECTION00110">SERVAS DA LUZ</a></li>
+ <li><a name="tex2html150" href="#SECTION00120">TROFÉUS DO ESTIO</a></li>
+ <li><a name="tex2html153" href="#SECTION00130">LOUCOS DE HUMILDADE</a></li>
+ <li><a name="tex2html157" href="#SECTION00140">ORAÇÃO DOS LARES</a></li>
+ <li><a name="tex2html160" href="#SECTION00150">CANTARES DAS SEBES</a></li>
+ <li><a name="tex2html162" href="#SECTION00160">COMPANHEIRO E GUARDA</a> </li>
+ <li><a name="tex2html163" href="#SECTION00170">REINO INFINITO</a></li>
+ <li><a name="tex2html166" href="#SECTION00180">PODERES DA TERRA</a></li>
+ <li><a name="tex2html169" href="#SECTION00190">PERPETUAS DO ROMEIRO</a></li>
+ <li><a name="tex2html172" href="#SECTION00200">PODER DO VERBO</a></li>
+ <li><a name="tex2html175" href="#SECTION00210">UNÇÃO DE GLORIA</a></li>
+ <li><a name="tex2html178" href="#SECTION00220">SACRO HOLOCAUSTO</a></li>
+ <li><a name="tex2html181" href="#SECTION00230">SAGRAÇÃO DO ESCRAVO</a></li>
+ <li><a name="tex2html184" href="#SECTION00240">MALDIÇÃO</a></li>
+ <li><a name="tex2html188" href="#SECTION00250">PROFISSÃO DE FÉ</a></li>
+ <li><a name="tex2html191" href="#SECTION00260">DRÍADE ENFERMA</a> </li>
+ <li><a name="tex2html194" href="#SECTION00270">MONJAS DO OUTONO</a> </li>
+ <li><a name="tex2html197" href="#SECTION00280">A TERRA ESCRAVA</a> </li>
+ <li><a name="tex2html200" href="#SECTION00290">MISTÉRIOS DE CERES</a> </li>
+ <li><a name="tex2html203" href="#SECTION00300">HORAS DO MEU PEITO</a> </li>
+ <li><a name="tex2html206" href="#SECTION00310">ÁGUAS VIÚVAS</a> </li>
+ <li><a name="tex2html210" href="#SECTION00320">PUREZA AMARGA</a> </li>
+ <li><a name="tex2html213" href="#SECTION00330">TIRANIA DO FOGO</a> </li>
+</ul>
+
+<p><span class="pn">{124}</span></p>
+
+<p> </p>
+
+<table summary="Obras publicadas pelo editor.">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <th colspan="2">Casa Editora de A. Figueirinhas</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2">PORTO</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2">Paulo Combes</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><strong>O Livro da Esposa</strong>, br. 500, enc.</td>
+ <td>700</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><strong>O Livro da Dona-de-Casa</strong>, br. 500, enc.</td>
+ <td>700</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><strong>O Livro da Mãe</strong>, br. 500, enc.</td>
+ <td>700</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><strong>O Livro da Educadora</strong>, br. 500, enc.</td>
+ <td>700</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2">Jaime de Magalhães Lima</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><strong>Rogações de Eremita</strong>, br.</td>
+ <td>300</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2">José Agostinho</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><strong>A Mulher em Portugal</strong>, br. 500, enc.</td>
+ <td>700</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><strong>O Caminho das Lágrimas</strong>, br. 600, enc.</td>
+ <td>800</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><strong>Cristo</strong> (Poema), 1.º vol. br.</td>
+ <td>500</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><strong>A Religião e a Arte</strong>, br.</td>
+ <td>100</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2">Frederico Mistral</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><strong>Mireia</strong>&mdash;Tradução de João Aires de Azevedo e
+ Manuel Teles&mdash;br. 500, enc.</td>
+ <td>700</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2">Bossuet</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><strong>Sermões</strong>, vol. I, br. 500, enc.</td>
+ <td>700</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><strong>Sermões</strong>, vol. II, br. 500, enc.</td>
+ <td>700</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2">Maria Pinto Figueirinhas</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><strong>Contos das Crianças</strong>, br. 300, enc.</td>
+ <td>500</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><strong>O Livro das Maravilhas</strong>, br. 300, enc.</td>
+ <td>500</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td><strong>Os Serões das Crianças</strong>, br.</td>
+ <td>100</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2">Pedir Catálogos da Casa Editora de A.
+ Figueirinhas&mdash;Porto</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2" style="font-size: 0.8em;">DEPOSITÁRIO GERAL:</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2">Livraria Portuense LOPES &amp; C.ª&mdash;Sucessor</th>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Rogações de Eremita, by Jaime de Magalhães Lima
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ROGAÇÕES DE EREMITA ***
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
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+approach us with offers to donate.
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+
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+works.
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+
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