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+The Project Gutenberg EBook of O que fazem mulheres, by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O que fazem mulheres
+ Romance philosophico - Quarta edição
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: July 18, 2009 [EBook #29435]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O QUE FAZEM MULHERES ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+
+
+
+ OBRAS
+
+ DE
+
+ CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+ EDIÇÃO POPULAR
+
+ LVII
+
+ O QUE FAZEM MULHERES
+
+
+
+
+ VOLUMES PUBLICADOS
+
+ N.º 1--Coisas espantosas.
+ N.º 2--As tres irmans.
+ N.º 3--A engeitada.
+ N.º 4--Doze casamentos felizes.
+ N.º 5--O esqueleto.
+ N.º 6--O bem e o mal.
+ N.º 7--O senhor do Paço de Ninães.
+ N.º 8--Anathema.
+ N.º 9--A mulher fatal.
+ N.º 10--Cavar em ruinas.
+ N.os 11 e 12--Correspondencia epistolar.
+ N.º 13--Divindade de Jesus.
+ N.º 14--A doida do Candal.
+ N.º 15--Duas horas de leitura.
+ N.º 16--Fanny.
+ N.os 17, 18 e 19--Novellas do Minho.
+ N.os 20 e 21--Horas de paz.
+ N.º 22--Agulha em palheiro.
+ N.º 23--O olho de vidro.
+ N.º 24--Annos de prosa.
+ N.º 25--Os brilhantes do brasileiro.
+ N.º 26--A bruxa do Monte-Cordova.
+ N.º 27--Carlota Angela.
+ N.º 28--Quatro horas innocentes.
+ N.º 29--As virtudes antigas--Um poeta portuguez... rico!
+ N.º 30--A filha do Doutor Negro.
+ N.º 31--Estrellas propicias.
+ N.º 32--A filha do regicida.
+ N.os 33 e 34--O demonio do ouro.
+ N.º 35--O regicida.
+ N.º 36--A filha do arcediago.
+ N.º 37--A neta do arcediago.
+ N.º 38--Delictos da Mocidade.
+ N.º 39--Onde está a felicidade?
+ N.º 40--Um homem de brios.
+ N.º 41--Memorias de Guilherme do Amaral.
+ N.os 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa.
+ N.os 45 e 46--Livro negro de padre Diniz.
+ N.os 47 e 48--O judeu.
+ N.º 49--Duas épocas da vida.
+ N.º 50--Estrellas funestas.
+ N.º 51--Lagrimas abençoadas.
+ N.º 52--Lucta de gigantes.
+ N.os 53 e 54--Memorias do carcere.
+ N.º 55--Mysterios de Fafe.
+ N.º 56--Coração, cabeça e estomago.
+ N.º 57--O que fazem mulheres.
+
+
+
+
+ _CAMILLO CASTELLO BRANCO_
+
+ O QUE FAZEM
+
+ MULHERES
+
+
+ ROMANCE PHILOSOPHICO
+
+
+ QUARTA EDIÇÃO
+
+
+ 1907
+ PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
+ Livraria editora e Officinas Typographica e de Encadernação
+ Movidas a electricidade
+ _Rua Augusta--44 a 54_
+ LISBOA
+
+
+
+
+1907
+OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO
+MOVIDAS A ELECTRICIDADE
+Da Parceria Antonio Maria Pereira
+_Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.º e 2.º andar_
+LISBOA
+
+
+
+
+A TODOS OS QUE LEREM
+
+
+É uma historia que faz arripiar os cabellos.
+
+Ha aqui bacamartes e pistolas, lagrimas e sangue, gemidos e berros,
+anjos e demonios.
+
+É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juizo!
+
+Isto sim que é romance!
+
+Não é romance; é um soalheiro, mas tragico, mas horrivel, soalheiro em
+que o sol esconde a cara.
+
+ Como da seva mesa de Thyestes
+ Quando os filhos por mão de Atreu comia.
+
+Escreve-se esta chronica em quanto as imagens dos algozes e victimas me
+cruzam por diante da phantasia, como bando de aves agoureiras, que
+espirram de pardieiro esboroado, se as acossa o archote de um phantasma.
+
+Tenebroso e medonho! É uma dança macabra! um tripudio infernal! cousa só
+semelhante a uma novella pavorosa das que aterram um editor, e se
+perpetuam nas estantes, como espectros immoveis.
+
+Ha ahi almas de pedra, corações de zinco, olhos de vidro, peitos de
+asphalto?
+
+Que venham para cá.
+
+Aqui ha cebola para todos os olhos;
+
+Broca para todas as almas;
+
+Cadinhos de fundição metallurgica para todos os peitos.
+
+Não se resiste a isto. Ha-de chorar toda a gente, ou eu vou contar aos
+peixes, como o padre Vieira, este miserando conto.
+
+Os dias actuaes são melancolicos; a humanidade quer rir-se; muita gente,
+séria e sisuda, se compra um romance, é para dar treguas ás
+despoetisadas e pêcas realidades da vida.
+
+Sei-o de mais. Eu tambem compro os livros dos meus amigos, para
+espairecer de meditações serumbaticas em que me anda trabalhado o espirito.
+
+Sei quantos devo, e que favores impagaveis me deveria, leitor bilioso,
+se eu lhe encurtasse as horas com paginas galhofeiras, picarescas,
+salitrosas, travando bem á malagueta, nos beiços de toda a gente, afóra
+os seus.
+
+Tenha paciencia: ha de chorar ainda que lhe custe.
+
+Se respeita a sua sensibilidade, fique por aqui; não leia o resto, que
+está ahi adiante uma, ou duas são ellas, as scenas das que se não levam
+ao cabo, sem destillar em lagrimas todos os liquidos da economia animal.
+
+Este romance foi escripto n'um subterraneo, ao bruxolear sinistro de uma
+lampada.
+
+Alfredo de Vigny não diz que escreveu um drama, ás escuras, em vinte
+dias? E Frederico Soulié não se rodeava de esqueletos e esquifes?
+
+E outros não se espertaram com todos os estimulos imaginaveis de terror?
+Menos o do subterraneo... este é meu, se me dão licença.
+
+Pois foi lá que eu desentranhei do seio estes lobregos lamentos.
+
+No fim de cada capitulo, vinha ao ar puro sorver alguns átomos de
+oxigenio, e todos me perguntavam se eu tinha pacto com o diabo.
+
+Almas plebeias! não sabem o que é a fidalguia do talento, que tem
+alcaçar nos astros, e nos antros lobregos da terra; não entendem este
+fadario do «genio», que elles chamam «excentricidade», como se não
+houvesse um nome portuguez que dar a isto.
+
+O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar de um caustico?
+Excruciaram-no, alguma vez, os flagellos da inspiração corrosiva, como
+duas onças de _sublimado_?
+
+Se não sabe o que isto é, estude pharmacia, abra um expositor de chimica
+mineral, e verá.
+
+Não cuidem que podem ler um romance, logo que soletram. Precisam-se mais
+conhecimentos para o ler que para o escrever. Ao auctor basta-lhe a
+inspiração, que é uma cousa que dispensa tudo, até o siso e a
+grammatica. O leitor, esse precisa mais alguma cousa: intelligencia;--e,
+se não bastar esta, valha-se da resignação.
+
+Ora, está dito tudo.
+
+Leiam isto, que é verdadeiro como o «Agiologio» de Ribadaneira, como as
+«Peregrinações» de Fernão Mendes, como todos os livros legados de
+geração a geração com o sinete da crença universal.
+
+
+
+
+A ALGUNS DOS QUE LEREM
+
+
+Não será uma acção meritoria amoldurar em fórmas verosimeis a virtude,
+que os pessimistas acoimam de impraticavel n'este mundo? Hão de só crer
+nas façanhas do crime, nas hyperboles da maldade humana, e negar as
+perfeições do espirito, descrêr o que ultrapassa as balisas de uma certa
+virtude convencional, que não custa dores a quem a usa?
+
+Se os espanta as excellencias da mulher que vou debuxar, antes de m'as
+impugnarem, afiram-se pela natureza, interroguem-se, concentrem-se no
+arcano immaculado da sua consciencia. Se me rejeitam a verdade de
+Ludovina, se me dizem que a este inferno do mundo não podia baixar tal
+anjo, sabem o que é esse descrer? é apoucamento de alma para idear o
+bello; é o regelo do coração que rebate as imagens ainda aquecidas do
+halito puro da divindade.
+
+Se a mulher assim fosse impossivel, o romancista que a inventou, seria
+mais que Deus.
+
+
+
+
+CAPITULO AVULSO
+
+PARA SER COLLOCADO ONDE O LEITOR QUIZER
+
+
+Francisco Nunes...
+
+Que nome tão peco e charro! _Francisco Nunes!_
+
+Pois se o homem chamava-se assim!?
+
+Deus sabe que tristezas eram as d'elle por causa deste _Nunes_. O rapaz
+tinha talento de mais para escrever folhetins lyricos, e outras cousas.
+Pois nunca escreveu por que não queria assignar-se _Nunes_.
+
+Ha appellidos que parecem os epitaphios dos talentos.
+
+Um escriptor _Nunes_ morre ao nascer.
+
+Bem o sabia elle.
+
+Houve em Portugal um escriptor chamado _Antonio José_. Se a inquisição o
+não queima, ninguem se lembrava hoje d'elle.
+
+Francisco Nunes só poderia viver na memoria da posteridade, se S.
+Domingos fizesse o milagre de reaccender as fogueiras nos subterraneos
+do theatro de D. Maria.
+
+Outros lá soffrem tractos agora, mas é em cima, no palco... Se, ao
+menos, Francisco Nunes escrevesse uma comedia...
+
+Não escrevia nada; mas falava muito, e, quasi sempre, sósinho, em casa,
+e na rua. Não incommodava ninguem; era um anjo; tinha só a perversidade
+de chamar-se _Francisco Nunes_.
+
+Elle ahi vae, faz agora tres annos, por uma rua do Porto, vizinha da de
+Cedofeita, falando só, e falando, ao que parece, enraivecido. Ninguem o
+escuta, se não eu, porque lhe vou na alheta, com subtis sapatos de
+borracha.
+
+Esta rua, por um lado, tem raros edificios; pelo outro é marginada por
+um comprido muro de quintaes que pertencem ás casas da rua parallela.
+
+Nunes, de tempo a tempo, sustem o monologo para puxar com sorvos
+sibilantes o vapor de um charuto. Depois, faz um tregeito iracundo, com
+o pé com sanha, e prorompe na imprecação interrompida, do seguinte theor:
+
+«Arado pelo fogo do inferno seja o torrão maldito onde nasceu a folha
+d'este charuto!
+
+«A chuva candente de Sodoma e Gomorrha tisne a folha do tojo e do
+carrasco que nascer no terreno que te produziu!
+
+«Frieiras, gotta, paralysia, e morte tolham os dedos que te colheram!
+
+«O sol, que te seccou, morra nos olhos de quem te trouxe aqui!
+
+«As mãos que te enrolaram, charuto infame, sequem-se e mirrem-se
+como as das mumias de Memphis.
+
+«E para vós, contractadores, caixas, comarqueiros, e estanqueiros do
+contracto do tabaco, para vós o inferno illimitado, a região tenebrosa
+dos condemnados, onde ha o ranger dos dentes, e o sempiterno horror!
+
+«Para vós, Borgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para
+vós, envenenadores impunes, o patibulo n'este mundo, d'onde fugiu
+espavorida a vergonha e a justiça; e as caudaes de sulphur em combustão
+eterna nas furnas tartareas, onde é de fé que dá urros medonhos um
+condemnado chamado _Nicot_, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a
+impudencia de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de
+França.[1]
+
+«Porque os vossos charutos, propinadores de venenos, ennegrecem as
+substancias organicas, como o acido sulphurico.
+
+«São amargos e causticos como o acido nitrico.
+
+«Calcinam os beiços como o acido hydrochlorico.
+
+«Queimam a laringe como o acido phosphorico.
+
+«Laceram o esophago como o acetato de chumbo.
+
+«Fulminam e despedaçam como o acido hydrocianico.»
+
+Em quanto elle repuxava o vapor do incombustivel rôlo de erva-santa (que
+blasfemia! _santa!_) façamos tremendas reflexões:
+
+Um «manual de chimica para uso dos leitores de romances» é instantemente
+reclamado. Sente-se na litteratura este vazio desde que a novella é um
+extendal da sciencia humana; e esta póde, sem immodestia, graduar-se assim.
+
+Quando se escreviam bacamartes para as gerações soffredoras, que os
+lêram, o sabio repunha ahi em azedo vomito as indigestas massas, que
+ainda agora resistem ao dente roaz da carcoma e da ratazana, nos lotes
+esboroados das bibliothecas.
+
+O in-folio era uma crença, uma religião, uma faculdade d'aquellas gordas
+almas, que resumavam pingue chorume por tres mil paginas em typo-breviario.
+
+Não vos faz melancolia vêr a lombada d'esses enormes volumes aprumados
+n'uma estante? Não ha n'aquelle aspeito triste alguma cousa que vos faz
+crer que o in-folio chora pelo frade?
+
+Agora não se escreve d'aquillo, posto que o saber humano seja mais
+vasto, e opulentado com as vigilias de dois seculos laboriosos. Reina o
+romancista, que é o successor do frade, na ordem das intelligencias
+productivas.
+
+Ora, o romancista ha-de, por força de sua natureza scientifica, despejar
+no romance a sciencia que lhe traz intumecido o estomago intellectual; e
+o romance, assim, deixará de ser lido, se o conselho superior de
+instrucção publica não organisar os estudos de modo que as sciencias
+transcendentes, em consorcio com as da natureza physica, desbravem o
+espirito-charneca de muito leitor sandio, que não póde entender a
+iracundia chimica de Francisco Nunes.
+
+O qual continuou assim:
+
+«Ha cinco seculos que a raça proscripta de Israel soffreu em Pariz uma
+perseguição sanguinolenta. Morreram milhares de judeus entre labaredas,
+porque a calumnia, infamando a religião do Messias, disse que o povo
+judaico tentára envenenar as fontes e poços de França.
+
+«E vós, judeus christianisados, caixas do tabaco, derramaes o veneno á
+luz do meio dia, abris as vossas tendas, vendeis pelo preço de vossas
+carroagens a droga homicida; mataes a mocidade de uma nação, que asfixia
+ás mãos dos velhos: a vós, que alimentaes o vicio alheio com o crime
+proprio, quem vos obriga a fumar um charuto de vintem?
+
+«Portugal, tu queimavas os judeus industriosos, a quem deveste os
+melhores livros de sciencia, as obras primas da arte, os dinheiros
+extorquidos á pobre raça, que tão caros pagou os trinta dinheiros que
+Judas não comeu! Queimavas o povo inoffensivo, nação de cafres, e dás
+refrescos, e condecorações, e honrarias, e montes de ouro aos
+envenenadores publicos, aos sicarios de charuto, que te desentranham a
+alma n'um rôlo de fumo negro.
+
+«Que é dos vestígios da civilisação christã? Que é da egide que protege
+o fraco dos affrontamentos do forte? Em que lapide está escripta a lei
+que assegura a vida do homem?
+
+«A Roma pagã era o sanctuario da justiça. Ahi os propinadores de venenos
+eram clandestinos. A mão cruenta do verdugo ia arranca'-los ao segredo
+das suas fornalhas, e mandava-os de presente ao diabo. «Lucius Cornelius
+Sylla, a tua lei de supplicio para os empeçonhadores vale só de per si
+uma legislatura d'esta horda de togados rotos, que nos espremem da
+algibeira 1$960 réis diarios, por cabeça.
+
+«Aqui, ha o morrer sem recurso de revista, o expirar em vomitos negros,
+o tossir rispido da bronchyte, as asthmas offegantes, o ronco profundo
+da pieira laringea, os deliquios da cabeça atordoada, a podridão dos
+dentes, as fendas carboniformes dos beiços, os abcessos pulmonares, as
+hemorrhagias de sangue apostemado:--ha tudo isto, debaixo d'este céo
+impassivel, na presença do codigo criminal, n'um paiz, onde trabalha a
+electricidade por arames, onde se comem _omelettes sucrées_ e
+_soufflées_, e d'onde se mandam rapazes para o extrangeiro estudar
+BENEFICENCIA «Mentira! Mentira e escarneo!
+
+«Se quereis beneficiar este paiz, não mandeis lá fóra, oh parvos
+governadores da Barataria, não mandeis lá fóra estudar o processo do
+bem-fazer.
+
+«Vêde-me este moço, que apenas tem vinte e dois annos, e já precoces
+sulcos da doença lhe enrugam a fronte. A cutis macilenta, onde deviam
+vicejar as rosas da adolescencia, adhere aos ossos desmedulados e
+cariados; uma tosse violenta lhe reteza os musculos do pescoço,
+expedindo das glandulas salivares um pus granuloso, pardo, e
+alcalino. As faculdades intellectuaes estão entorpecidas n'esse mancebo.
+Estimulando-se com cognac e absynto, esta especie de cretino,
+bestificado por uma enfermidade incuravel, apenas consegue dizer tres
+tolices ácerca de Donizetti, sentado n'um mocho de botiquim, encostando
+o corpo enervado á banca dos licores incitantes.
+
+«Sabeis quem reduziu esse vegetal a tão quebrantado estiolamento?
+
+«Foi o charuto!
+
+«O contracto do tabaco empeçonhára a seiva d'esse moço, que os fados,
+menos poderosos que os caixas, talvez tivessem destinado para exercer o
+magisterio do folhetim, maximo esforço de intelligencia, n'uma época, e
+n'um paiz, cujo amor ás letras não vale a correspondencia de uma local
+bem poetica como a do baile do sr. fulano.
+
+«Voltae para esse corpo achacadiço e apodrentado o vosso animo
+beneficente, Sanchos-Panças lerdos, pantalões administrativos!
+
+«Chamae a juizo os vampiros que sugaram o soro d'esse sangue aguado que
+o faz tolhiço para tudo.
+
+«Fazei a autopsia de um charuto como este--proseguia Francisco Nunes,
+parando e contemplando as nervuras negras do rôlo de folha, que
+semelhava uma rolha de cortiça queimada--e vereis que ha aqui dentro um
+talo de couve lombarda, uma carocha secca, uma folha de leituga, uma
+casca de bolota, e tres grãositos excrementicios de rato ou coelho.
+
+«Horrivel, e sujamente infernal!
+
+«Senhores deputados! não se mata assim impunemente um povo![2]
+
+«As nações tyrannisadas, quando a oppressão requinta, erguem-se como um
+só homem, e fogem para o Aventino.
+
+«Os envenenadores congregaram-se em conciliabulo de abutres, e crearam o
+charuto de vintem, a pitada do meio grosso, e o cigarro onde cresce o
+musgo como em parede velha. Cadafalso para os envenenadores!
+
+«O conselho de saude, bandeado n'este tripudio de canibaes, forma o
+cortejo scientifico das parcas que nos arrebanham para a região dos
+suicidas. Morte ao conselho!
+
+«Não ha typhos, nem cholera, nem febre amarella, senhores deputados! Ha
+charutos, ha o meio-grosso, e o cigarro. A epidemia não está nos canos,
+senhores; está n'estes canudos, por onde os contractadores cospem
+affronta e morte na face do povo!
+
+«Que elles sejam malditos setenta vezes sete vezes, como se dizia no
+Oriente!
+
+«Na hora do trespasse, a alma d'elles, tisnada pelo remorso, será negra
+como este charuto, d'onde eu sorvi um pus que me requeima os bofes...
+Vae-te, infame!»
+
+E, assim rugindo, n'uma como inprecação do moribundo atormentado,
+arremessou o charuto por cima do muro para o quintal.
+
+ [1] É para espantar a memoria de Francisco Nunes, em crise de
+ tamanha angustia! Aquella nesga de historia destoava da virulencia
+ da apostrophe; mas foi dita com sanhudo entono.
+
+ [2] É ordinario este estylo; aqui não ha unidade; o impeto afrouxa,
+ e descáe na vulgaridade tacanha do artigo de fundo. É defeito de
+ todos os nossos oradores de inspiração: remontam-se; a gente está a
+ ve'-los luctar com as aguias; e, quando mal se precata, vê-os cahir,
+ a disputarem a presa do escaravelho que se rola no chão. Francisco
+ Nunes tem lastimaveis desegualdades n'esta apostrophe.
+
+
+
+
+I
+
+
+--Ludovina, já pensaste a resposta que has-de dar a teu pae?
+
+Pergunta que faz a sua filha uma senhora de nobre presença, quarenta
+annos, ainda frescal, chamada Angelica, e casada com o sr. Melchior
+Pimenta, empregado na alfandega do Porto.
+
+Ludovina respondeu:
+
+«Como hei-de eu responder, se ainda não vi o homem?
+
+--É um homem como os outros;--replicou D. Angelica--são todos o mesmo,
+menina. Teu pae sabe o que faz. Um homem é quem melhor conhece outro
+homem. Se elle te disse que achou um bom marido, não póde enganar-se.
+
+«Ora essa, mãe! E se eu antipathisar com elle?
+
+--Deves casar, como se sympathisasses.
+
+«Bravo!... e depois?
+
+--E depois, virá a sympathia. Imaginas lá com que repugnancia eu casei?
+Casaram-me, deixei-me levar porque era uma creança, vivia na aldeia, e
+sonhava com os vestidos e os bailes, e os theatros do Porto. Depois, teu
+pae... teu pae adorava-me, dava-me mais do que eu ambicionava, e sem
+saber como, nem porque, contentei-me tanto com a minha sorte, que não
+invejava a de ninguem. Tinha vaidade em ser bonita, vestir com gosto, e
+chegar onde as mais ricas não podiam chegar. Via homens elegantes,
+reconhecia a differença que os fazia superiores a teu pae, e, comtudo,
+nunca me passou pela cabeça a loucura, a ingratidão, o crime da
+infidelidade.[3] Posso dizer que principiei a amar meu marido, quando as
+outras mulheres se enfastiam. Aqui tens o que nunca te disse. Não ha
+homem nenhum que seja indigno da estima de uma mulher.
+
+«Mas a mãe sabe que eu... amo outro homem.
+
+--Eu não sei se amas outro homem... Sei que namoras outro homem, e entre
+namorar e amar está o reflectir, menina. Esse rapaz que te manda
+romances e cartas entre as paginas... (não te inquietes, que sei tudo, e
+tudo pouco vale...) esse rapaz quem é? Um filho-familia, sem posição,
+sem modo de vida, que te ama, que será teu marido, se tu quizeres; que
+viverá das tuas sopas, se as tiveres para ti, que se envergonhará da sua
+dependencia, quando o amor obedecer á razão; que se enfastiará dos teus
+carinhos, se quizeres prende'-lo com elles a ti, ou ao berço de teu
+filho. Se quizesses exemplos, dava'-tos. Tens ouvido censurar duas
+ou tres amigas, que tens, casadas com homens ricos de cabellos brancos?
+
+«Ainda hontem li um folhetim contra as mulheres que se deixam seduzir
+pela «fortuna» de estupidas creaturas...
+
+--Lêste? De quem era o folhetim? Se o auctor fôr rico, e tiver quarenta
+annos, o auctor é insuspeito, e, n'esse caso, digo-te que sujeites o teu
+destino á determinação do folhetim. Escreve uma carta ao auctor, e
+conta-lhe que és uma menina pobre, virtuosa, com excellentes joias de
+espirito. Offerece-lhe o teu coração, e promette que has-de levar-lhe a
+felicidade com a pobreza. Se elle te vier buscar, peso-te a ouro ao
+santo que fizer o milagre. Ora, se o folhetinista é um talento raro, um
+elegante de grande bigode e luneta, mas pobre, faz-lhe o mesmo
+offerecimento, prevenindo-o de que és tão pobre como elle. Se o
+folhetinista te vier pedir, é um dia de festa n'esta casa...
+
+Aprende, creança. Os rapazes pobres, se vivem na boa sociedade, criam
+ahi ambições, que uma menina sem riqueza não satisfaz. Pois não os
+conheces tu, Ludovina? Não os vês no baile e no theatro namorando um
+dote como quem namora uma mulher? Não és tu a mesma que censuras a
+indignidade de certos homens, que recebem resignados todas as repulsas,
+e teimam sempre em esquadrinhar um dote, como se fizessem voto de
+casarem ricos, ainda á custa de vergonhas? Vê lá se entre os
+folhetinistas aspirantes ao casamento de especulação se te depara o
+nome que hontem lêste... Talvez ainda não reparasses em outra injustiça
+que se faz ás mulheres pobres, se a fortuna lhes dá maridos ricos. Não
+ha por ahi rapazes com grandes patrimonios? Recebem elles, por ventura,
+em casamento meninas virtuosas e pobres? Não. Procuram-nas ricas, e
+fiscalisam menos a vida honesta da noiva, que o numero de acções do
+banco, ou o valor da propriedade paterna. Os moralistas de gazeta que
+dizem d'isto? Sacrificam, talvez, a sua indignação ao amor do sexo: não
+dizem nada, e rebentam por outro lado em imprecações contra a mulher,
+que os elegantes ricos rejeitam, e os ricos sem elegancia procuram.
+
+Olha, filha, se te não fosse penosa a experiencia, deixava-te casar por
+paixão, como se diz, com o primeiro moço pobre que te encantasse.
+Depois, quando saísses a passeio com teu marido, levarias um vestidinho
+de chita, por não poderes levar um de _glacé_. Os taes censores de
+folhetim ver-te-iam mal trajada, e diriam, no auge da sua pena: «pobre
+rapariga, fez um casamento infeliz!» Ao teu lado passaria uma das tuas
+amigas, ricamente vestida, pelo braço de um velho com quem a casaram as
+conveniencias. Os mesmos censores diriam: «Que mal empregada mulher em
+semelhante alarve!» Já vês que o estimulo da compaixão, que fizeste, era
+o teu vestido de chita; e o estimulo de inveja, que fez a tua amiga, era
+o vestido de seda.
+
+«Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu
+coração?
+
+--Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a mulher
+que tem amigas com vestidos de seda. Hoje reina a opinião publica,
+Ludovina, não é a consciencia de cada um. O agente principal do espirito
+de uma mulher é a modista. Se ha casadas que envelhecem disputando ás
+netas a melhor eleição de um talhe de vestido, que farão as solteiras?
+
+Basta de razões insignificantes, que devem humilhar a tua razão,
+Ludovina. Eu nunca embaracei esse ligeiro conhecimento que tens com o
+Ricardo de Sá, por saber que nunca seriam tardias as reflexões que te
+faço agora. Não pódes casar com esse homem sem desgostar teus paes, e
+grangear para ti o infortunio, e para elle o arrependimento. Se
+soubesses o que deve ser o arrependimento entre casados, a maior prova
+de amor que podias dar a esse rapaz, seria esquece'-lo. Tu sabes que
+vivemos do ordenado de teu pae: temos podido manter a decencia e o luxo
+até dos teus caprichos de formosa; porém, nada mais podemos. Se tivesses
+um grande dote, a primeira a diligenciar o teu casamento com Ricardo de
+Sá, seria eu. Assim, reprovo-o, opponho-me, e serei eu a encarregada de
+dizer a esse cavalheiro que a tua vontade não é livre, ou que a tua
+escolha foi outra.
+
+«Não diga tal, mamã. Se casar com o homem que me destinam, a escolha não
+é minha. Deixem-me, ao menos, este desforço... Fique a responsabilidade
+da acção a quem me obriga.
+
+--Pois teus paes acceitam a responsabilidade, Ludovina.
+
+O dialogo rematára assim, quando se fez annunciar Ricardo de Sá.
+
+D. Ludovina, com os olhos humedecidos, e desconcertado o semblante,
+disse á mãe que não podia ir á sala, e recolheu-se ao seu quarto. Foi D.
+Angelica receber a visita.
+
+Ricardo esperava-a na sala, correndo o teclado do piano, com a
+sem-cerimonia de um visitante habitual. Apertou-lhe a mão, beijando-a ao
+estylo da França, cousa que elle vira fazer a quatro ou cinco viajantes
+distinctos do Porto, que tinham conhecido, em Pariz, a «mesa-redonda»
+dos hoteis onde estiveram. Ahi vão á pressa dois traços d'este Ricardo
+de Sá. É um bacharel formado em direito, filho de outro bacharel que faz
+requerimentos, em quanto o filho, reservado para a magistratura, destino
+em que se dispensa vocação, faz cartas de namoro com letra ingleza, e
+timbra em comprar no _Moré_ os mais anilados _enveloppes_, e o melhor
+papel-setim de fimbria dourada.
+
+Lê, e empresta os romances aos namoros; commenta-os na margem das
+paginas, e addiciona-lhes appendices manuscriptos de lavra sua, quando a
+catastrophe merece ser corrigida.
+
+Além d'isto, o bacharel tem tres bengalinhas, que reveza, todas muito
+bonitas, com os punhos de massa de marfim, formando uma o grupo das
+graças, outra o das musas, e a mais embrincada é uma Suzana a saír do
+banho, espreitada pelo olho lascivo dos arreitados juizes de Israel.
+Ricardo de Sá consome as manhãs, que principiam para elle ás onze
+horas, dividindo os cabellos em delgados fasciculos, e lustrando cada um
+d'elles com um cylindro de cera. Aguça, quanto possivel, as guias do
+bigode, encerando-as, e enverniza a pera com um oleo contido no decimo
+nono frasco da terceira serie. Depois, o laço da gravata, e a collocação
+symetrica do pseudo camapheu é obra de fôlego que lhe dá tempo de
+assobiar dois actos do _Trovador_, a aria valida do _Rigoletto_, e o
+acto final da _Lucia_. De seguida, a compostura airosa das lapellas do
+fraque, a ultima demão de escova, e o aprumo do chapéo onde não ha um
+fio erriçado, tolhem muitas vezes a saída do peralta, que se encontra
+com a terrina da sopa do jantar.
+
+O bacharel nutre-se de ar puro, e d'alguns escropulos de carne de boi. O
+pae, homem roliço e respeitador das immunidades do estomago, suppõe que
+seu filho desbarata a pequena mezada nas casas de pasto, e não se
+assusta da inappetencia.
+
+Ricardo crê que o seu estomago destacou tecidos para o coração,
+reservando para o funccionalismo alimenticio um estomago-miniatura, o
+_quantum satis_ das compleições sylphidicas. Convicto da excrecencia
+espiritual, crê-se dotado de fluidos nêrveos, magnetismo, electricidade,
+etherisação. Julga-se em fim anestesico, espasmodico, dynamico, em fim
+tudo o mais que não se entende.
+
+Não ama as mulheres, pranteia-as como victimas do seu poder fascinante.
+Algumas vezes, tem a piedade de as não encarar para as não abysmar.
+Outras, exerce a crueza da experiencia, fitando-as com o olho
+carregado de electricidade, fala-lhes com um timbre magnetico que
+elle sabe, e, não ha que vêr, o somnambulismo é prompto, a attracção é
+irresistivel como a da cobra-cascavel do Canadá apoz o tangedor da flauta.
+
+Crê tudo isto o bacharel, e ha velhacos que lh'o ouvem com a sisudeza da
+crença, e lhe não receitam um curativo de causticos.
+
+D. Ludovina Pimenta é uma das suas somnambulas, e a menos victima de
+todas. Ricardo distingue-a, impondo-se a obrigação cavalheirosa de
+corresponder-lhe quanto em si cabe para que a infeliz desilludida não
+tente contra a existencia. Vae ve-la todos os dias, conversa litteratura
+com a mãe, toma uma chavena de chá sem assucar, e despede-se ás onze
+horas, dizendo que vae esperar no seu quarto a hora da inspiração
+matinal para continuar a sua obra intitulada: O SECULO PERANTE A SCIENCIA.
+
+É o que podemos esquadrinhar ácerca do bacharel Ricardo de Sá.
+
+Os homens assim não se pintam; a zombaria não os enxerga na profundeza
+da sua toleima... são o Rubicon do folhetim, a desesperação da comedia
+desde Aristophanes até Molière.
+
+O original anda por ahi. Tenho-lhe assestado tres vezes a machina
+photographica, de rosto; sahiu-me sempre aquillo.
+
+ [3] Perdoem-lhe a mentira pela intenção boa com que a diz...
+
+
+
+
+II
+
+
+«Ludovina fica hoje no quarto--disse D. Angelica, respondendo á pergunta
+admirada do bacharel.
+
+--Doente?
+
+--Sim, passageiramente doente; mas é tão debil a pequena, tão melindrosa...
+
+--É um corpo que não póde com o espirito... Eu comprehendo o que são
+esses desfallecimentos d'alma. A filha de v. ex.ª tem uma organisação
+muito semelhante á minha. As minhas enfermidades são sempre quebrantos,
+estherismos, lethargia, procedentes das fadigas intellectuaes, ou dos
+anceios do coração. Compleições infelizes, não acha, minha senhora?
+
+--Oh! infelicissimas, de certo...
+
+--Se, todavia, v. ex.ª tivesse a bondade de dizer a sua filha que
+fizesse um esforço para me vir contar os seus padecimentos, talvez que
+uma medicina toda espiritual...
+
+--A curasse?... talvez...
+
+--Sorriso de incredulidade, não é assim? V. ex.ª é sobejamente
+espirituosa para desconhecer a influencia que exerce uma alma sobre
+outra, quando as correntes magneticas...
+
+--Não lhe dá treguas a sua paixão magnetica, sr. Sá!... A Ludovinasinha
+queixa-se de enxaqueca... Eu voto, d'esta vez, por medicamentos
+caseiros... Talvez que uns sinapismos...--proseguiu ella, rindo, sem
+ferir o orgão maniaco do bacharel--dispensem uma descarga electrica.
+
+--V. ex.ª não quiz entender-me, ou eu tenho sido confuso na exposição
+das minhas convicções.
+
+--É clarissimo sempre, sr. Sá; mas desconfio da inefficacia da sua
+vontade sobre a enxaqueca de Ludovina. E depois, convém-nos que ella
+esteja doente por um quarto de hora. Vamos falar a respeito d'ella.
+
+--Tenho razões para suspeitar que minha filha não é indifferente a v. s.ª.
+
+--De certo, não.
+
+--Póde dizer-me até que ponto me devo lisonjear com a affeição que
+Ludovina lhe merece?
+
+--Voto á sr.ª D. Ludovina um sentimento profundamente respeitoso...
+
+--Só?
+
+--Uma affeição nobre e desinteressada...
+
+--Amor?
+
+--De certo... amor... reflectido, e bem intencionado...
+
+--Uma paixão verdadeira, não é verdade?
+
+--Quanto em mim cabe, minha senhora... quanto é possivel
+apaixonar-se um homem de vinte e oito annos, apalpado já pelas
+desillusões, e esterilisado tanto ou quanto pelos ventos contrarios dos
+revezes da alma...
+
+D. Angelica fez um geito de quem ouvia chamar; ergueu-se com a mais
+destra simulação, dizendo:
+
+--Minha filha tocou a campainha... As creadas não a ouvem de certo, eu
+volto já...
+
+Ricardo de Sá fez mentalmente o seguinte monologo:
+
+--D. Angelica vae propôr-me o casamento da filha. Eis-me entalado n'uma
+crise imprevista! Está explicado o enygma da carta que Ludovina me
+escreveu hoje. Receia que eu me esquive á proposta; e tem razão. Eu não
+caso. Esta mulher está abaixo dos meus calculos. Lisonjeia um amante,
+mas não póde satisfazer as complicadas necessidades de um marido... É
+horrorosa a minha posição!... Sei que faço uma victima... de certo a
+mato... Estudemos uma evasiva, não obstante...
+
+O monologo continuava, quando Ludovina, conduzida machinalmente por sua
+mãe, se collocava atraz de uma vidraça da alcova immediata á sala.
+
+D. Angelica era um assombro de esperteza. A leitora já admirou a
+eloquencia persuasiva com que ella abalou o coração da filha; já disse,
+de si para si, que, com tal mãe, não ha filha que rejeite o casamento de
+um brasileiro rico; já leu as paginas que ahi ficam á mãesinha para que
+ella saiba os argumentos com que se vence a desobediencia das filhas, em
+casos identicos. Pois, se gostou e admirou as palavras de D. Angelica,
+ha de tambem admirar-lhe as obras.
+
+D. Angelica viu o mais secreto do animo do bacharel; previu o
+desenvolvimento da conversação, e quiz dar á filha o mais rude, mas
+tambem o mais proveitoso desengano.
+
+--Nada era... ou era muito... Queria saber como v. s.ª estava--disse a
+matreira esposa do sr. Pimenta.
+
+--E ella como está agora?
+
+--Soffre bastante... Falei-lhe no seu magnetismo, e a tolinha córou...
+Era talvez o clarão da descarga electrica, seria?
+
+--V. ex.ª sempre «fazendo espirito» com os axiomas da sciencia... Ha de
+convencer-se... A experiencia lhe apontará as evidencias...
+
+--A mim? ora essa! Terá v. s.ª a infausta idéa de me magnetisar?
+Adormecer-me... isso é facil; bastam os livros que tratam da sciencia,
+não é precisa a acção... Não «faço mais espirito» como v. s.ª diz...
+Vamos á nossa pratica interrompida que é muito séria:
+
+Disse o sr. Sá que minha filha lhe merecia um sentimento profundamente
+respeitador, uma affeição nobre e desinteressada, um amor reflectido e
+bem intencionado, e finalmente uma paixão, que não era bem uma paixão,
+por quanto desillusões, revezes, _et coetera_, lhe haviam... não me
+recordo...
+
+--Esterilisado a alma...
+
+--Foi isso... Em toda a sua resposta só ha de desagradavel essa
+esterilidade de alma; todavia, eu creio que tão boa alma ha de sempre
+florescer e fructificar, quando a cultura fôr confiada a uma mulher de
+bom coração, meiga, docil, maviosa, em fim, a uma que não inveje as
+boas qualidades de minha filha.
+
+--De certo... assim o penso, minha senhora--balbuciou o bacharel,
+forçado pelo silencio interrogador de D. Angelica.
+
+--Minha filha ama-o, sr. Sá. Ama-o delirantemente, perdidamente, quer
+ser sua ou da sepultura, não acceita admoestações nem esperanças
+tardias, quer unir-se ao esposo da sua alma, mas já, já, senão... diz
+que, mais tarde, será victima da sua paixão. Sabia v. s.ª que era
+tamanho o seu dominio n'aquella innocente alma?
+
+--Sabia... desgraçadamente sabia.
+
+--_Desgraçadamente!_... essa palavra faz tristeza! Pois nem sequer o
+orgulho de ser assim amado o alegra?
+
+--Sim, minha senhora--tartamudeou o bacharel, afagando as guias do
+bigode--tenho orgulho de ser assim amado... _Desgraçadamente_ disse eu,
+porque me doem os soffrimentos da sr.ª D. Ludovina...
+
+--Estando na sua vontade o mais facil e desejado remedio d'elles? é
+singular!
+
+--Ainda assim... ha situações na vida...
+
+--Sei o que quer dizer--atalhou a zombeteira senhora--ha situações em
+que quizeramos immediatamente felicitar as pessoas que soffrem por nossa
+causa. Isso é assim... Pois bem. Tratemos definitivamente da felicidade
+da nossa Ludovina. Minha filha, como v. s.ª sabe, não tem dote. É pobre,
+supposto que o fausto com que vive queira desmentir esta triste verdade.
+Em riquezas de espirito é millionaria. Nas do coração, sabemos nós o
+que ella é. A «fortuna» porém, é muitas vezes a inimiga da verdadeira
+felicidade, não é assim?
+
+--De certo, minha senhora...
+
+--V. s.ª tem uma habilitação, tem uma vasta intelligencia, sobram-lhe
+expedientes para grangear o sufficiente para duas almas venturosas;
+agouro a ambos uma felicidade duradoura. Entrego-lhe minha filha, na
+certeza de que nunca me será turvado o prazer d'este instante de
+expansão maternal pelo arrependimento da minha leviandade. Dê-me um
+abraço, que já começo a consideral'-o meu filho.
+
+--Minha senhora--disse o enfiado bacharel, extendendo a mão a D.
+Angelica--eu estou cordealmente penhorado pela confiança que mereço a v.
+ex.ª. Cumpre, porém, reflectir n'um passo tão momentoso. Eu amo em
+extremo a sr.ª D. Ludovina, toda a minha ambição é identifica'-la ao meu
+destino sobre a terra, mas, minha senhora, eu não posso dispôr da parte
+de obediencia que devo a meu velho e respeitavel pae, sem consulta'-lo,
+porque dependo d'elle, em quanto não entrar na carreira da magistratura,
+e o cabedal dos meus estudos não me abona tanto quanto v. ex.ª imagina
+que póde proporcionar-me a intelligencia.
+
+--Pensa mui judiciosamente--redarguiu D. Angelica formando com a
+prolongação dos beiços, e o abrimento dos olhos, um tregeito de mui
+sisuda approvação--e qual conjectura v. s.ª que seja a resposta de seu pae?
+
+--Não sei, minha prezada senhora...
+
+--Se fôr negativa?
+
+--Se fôr negativa...
+
+--Obedece?
+
+--Como filho dependente; mas os dias da minha existencia serão poucos, e
+attribulados...
+
+--Mas isso é horrivel, sr. Sá! Minha pobre filha succumbe... V. s.ª mata
+a mulher que mais o amou, a unica n'este mundo que o compreendeu, um
+anjo que não viu outro homem digno d'ella... Que diz a uma mãe
+consternada, sr. Sá?
+
+--Minha senhora... a nossa posição é desgraçadissima.
+
+«Remedeie-a, que póde. Se seu pae o não acceitar casado, tem a casa de
+sua mulher, onde será recebido como filho... Oh! que insensibilidade! o
+senhor não ama Ludovina!
+
+--Se a não amo! Isso mata-me, snr.ª D. Angelica!
+
+«V. s.ª é que mata uma santa, uma martyr...
+
+--Segui'-la-hei na morte...
+
+«Pois o melhor é viverem ambos!--disse D. Angelica, desafivelando a
+mascara da amargura, e abrindo o riso mais galhofeiro e fulminante que
+imaginardes, leitores phantasiosos--V. sr.ª tem sido logrado
+desapiedadamente, snr. Ricardo de Sá. Peço-lhe que viva muito tempo,
+porque uma pessoa como v. s.ª não deve morrer, em quanto a tristeza, que
+foge ao riso, andar por este mundo. Snr. Sá, é preciso dizer-lhe que
+minha filha ouviu esta nossa scena comica, e acredite que o magnetismo
+não operou a approximação. Eu comecei a falar-lhe em minha filha
+para pedir ao seu cavalheirismo que não a inquietasse, porque vae
+esposar um homem que seu pae lhe escolheu. V. s.ª alumiou-me o
+entendimento, deu-me um alegrão inapreciavel; e voltou as minhas idéas
+para o lado opposto. Fui buscar minha filha, para assistir ao
+espectaculo do coração de v. s.ª, e dei-lhe um bello espectaculo. Snr.
+Sá, a sua posição é desagradavel, e faz-me pena, por não dizer tedio. Um
+homem como v. s.ª nunca devera erguer os olhos para uma menina honesta.
+
+D. Angelica retirou-se da sala, soberba como uma rainha na descida do
+throno.
+
+O auctor possivel do SECULO PERANTE A SCIENCIA, emergindo do estupor
+momentaneo, procurou a bengalinha de Suzana a saír do banho, e caminhava
+atordoado para a porta, quando entravam Melchior Pimenta, e um sujeito
+desconhecido ao bacharel.
+
+--Ólá, por cá, snr. Sá?
+
+«É verdade, snr. Pimenta.
+
+--Ninguem lhe falou?! estava sósinho?!
+
+«Saiu da sala, n'este instante, a snr.ª D. Angelica.
+
+--E Ludovina?
+
+«Está de cama, creio eu.
+
+--De cama!? ella ficou boa quando eu saí... Alguma dôr de cabeça...
+
+«Creio que sim... Dá-me as suas ordens, snr. Pimenta?
+
+--Saude, meu amigo, appareça á noite, que lhe quero dar o
+conhecimento d'este meu amigo, que será provavelmente o marido de minha
+filha...
+
+«Sim?... estimo muito conhecer... Ás suas ordens, meus senhores.
+
+Saíu; e o snr. João José Dias (que é o tal), franzindo a testa, disse ao
+pae da esposa promettida:
+
+--Que diabo de cousa é isto? Cuidei que me picava o bom do homem com os
+galhos do bigode! Eu corto as orelhas ambas e duas, se aquillo não fôr
+um patarata!
+
+«É um pobre diabo que lê novellas, e não é mau rapaz--respondeu o snr.
+Melchior, limpando o suor da testa.
+
+--Novellas!... hum!--este _hum_ do snr. João José Dias é uma cousa
+semelhante a um grunhido roufenho; aquelle _hum_ é a these de uma
+dissertação que elle, em tempo opportuno, ha de fazer contra a leitura
+immoral dos romances--A sua filha lê novellas, snr. Melchior?--continuou
+elle pondo os olhos de esguelha, como molosso desconfiado.
+
+«Entretem-se com a mãe, ás vezes, n'essa leitura; mas lê sómente as que
+a mãe já tem lido.
+
+--Pois não faz bem. As novellas são a perdição das mulheres. Lá no Rio
+está aquillo mal de religião e virtude desde que pegaram a ler romances
+as moças. Em minha casa é sujidade que não entra. Eu já uma vez, para
+ver o que era aquillo, puz-me a lêr uma novella, chamada... chamada...
+era de um tal... d'um tal _Kocles_, ou _Koques_, e, meu amiguinho, era
+maroteira de ferver bicho.
+
+A snr.ª D. Angelica interrompeu a parlenda acrimoniosa de João José
+contra os romances.
+
+«Aqui t'o apresento--disse Melchior.
+
+D. Angelica mirou-o de alto a baixo, e fez-lhe uma ligeira cortezia. No
+rosto expressivo da sympathica senhora, liam-se estas dolorosas
+palavras: _Minha pobre filha, que impressão vaes receber!_
+
+
+
+
+III
+
+
+João José Dias devia orçar pelos seus quarenta e cinco annos. Era de
+estatura menos que mean, adiposa, sem proeminencias angulares,
+essencialmente pansuda, porque João José tinha uma serie descendente de
+panças, desde a papeira côr de rosa até ás buchas das canellas ventrudas.
+
+Nas faldas de uma testa estreita, chata, e rugosa, como um elytro da
+concha de um cágado, luziam os olhos pequenos e esverdinhados de João
+José. As palpebras tumidas e pillosas como a casca da fava,
+enviezavam-se para dentro, formando á raiz das pestanas um rebordo
+purpurino. O nariz, sem base nem ossos, nem cartilagens, devia ser a
+desesperação de Falopio e de Bichat: rompiam-lhe d'entre os olhos as
+ventas já formadas, com a ponta arregaçada e as azas convexas,
+dilatando-se até ás alturas dos ossos malares, entupidos nas bochechas
+gordurentas. Os beiços eram bicolores; nacarinos no centro, e rôxos para
+as extremidades quasi invisiveis sob os refegos relachados dos musculos
+limitrophes. João José tinha quatro dentes incisivos de brilhante
+esmalte, entalados nos outros quatro, formando de commum accordo as
+saliencias irregulares de um pedaço de crystal bruto. Os dentes laniares
+ou caninos tinham uma crusta de carie, e algumas luras chumbadas. Os
+vinte malares estavam no goso das suas funcções triturantes, com quanto
+amarellados de saes terreos, e regorgitamentos do bolo indigesto.
+
+João José não tinha pescoço: as espaduas ladeavam-lhe os bocios da
+garganta, alteando-se ao nivel das orelhas escarlates, com bolbos da
+mesma côr, e não sei que excrescencias no lobulo, simulando pingentes de
+coral.
+
+Disse-se que era todo barriga o homem, já que Buffon e Cuvier asseveram
+que é homem, feito á imagem e semelhança de... não ousamos escrever a
+blasphemia. O que se não sabe é que a barriga lhe marinhava peito acima,
+até levar de assalto o campo onde fôra pescoço.
+
+As pernas de João José eram dois cepos, postos em peanha a uma esphera
+armilar. Tão curtas eram ellas, e tão desmesurados os pés, que me não
+seria difficultoso convencer-vos de que a natureza, em hora de
+travessura, fez da porção de materia, destinada para perna e pé, duas
+partes eguaes, juntou-as e o ponto de juncção denominou-o calcanhar.
+
+As botas de João José tinham incriveis expansões de couro: eram um
+oceano de bezerro cortado de ilhas. Os joanetes do pé direito formavam
+um archipelago. No remanescente das milhas despovoadas, o pé era raso e
+chão como uma lousa de mercieiro.
+
+Deram-se uns longes para auxiliar a phantasia de quem não conhece o snr.
+João José Dias. Para os que o viram, a pintura, vae tacanha e inhabil,
+aqui o confesso, envergonhado do meu descredito.
+
+Vamos á biographia da pessoa, e veremos que boa alma se nichou n'este
+hediondo envolucro.
+
+João foi cachôpo para o Brasil, e estreou-se n'uma loja de molhados,
+onde grangeou renome de rapaz videiro e possante. Abraçava uma talha de
+azeite de tres almudes, e aguentava com ella do armazem para a loja, sem
+impar. Levantava do sobrado para o balcão o peso das tres arrobas com os
+dentes. Punha a prumo meia pipa de cachaça, e levava á bôca, sem gemer,
+um barril de dois almudes, com o braço testo na aza. Isto constou na rua
+dos Pescadores, e, ao terceiro anno, João era alliciado por varios
+patrões, que disputavam o lanço.
+
+Não pertencem á alma estes esclarecimentos, bem o sei; mas a alma de
+João José formou-se então. A probidade, a lisura, a honradez do boçal
+caixeiro nunca foram desmentidas pela gaveta do patrão. Os convites,
+feitos á sua cubiça de melhores ordenados, repelliu-os sempre, dizendo
+que nunca deixaria a casa onde comera o primeiro bocado de pão. O
+augmento de ordenado vinha sempre espontaneo dos patrões: podendo
+inculcar-se com as propostas dos vizinhos, nunca João José se queixou
+dos pequenos ganhos.
+
+Os paes de João eram uns pobres fazendeiros de Celorico de Basto, que se
+desfizeram do unico cevado e de uma vitella para pagarem a passagem do
+rapaz. João não esqueceu estes sacrificios nem as lagrimas que vira
+no rosto da mãe, quando, em Miragaia, lhe deu um quartinho em ouro
+embrulhado em seis camadas de papel.
+
+Os lucros dos tres primeiros annos foram quasi todos enviados a seus
+paes, e, d'ahi em diante, metade do ordenado vinha repartido em pequenas
+mesadas para os velhos, que lh'os devolviam em roupas brancas.
+
+João José, morrendo um socio da casa, achou-se herdeiro da terça parte
+do negocio. Pudera então retirar-se com haveres sobejos para viver
+descançado na patria; mas, para obviar os desarranjos da liquidação,
+continuou na sociedade.
+
+Veiu a Portugal em 1835, comprou no Minho a cerca de um convento, e,
+deixando o uso-fructo aos paes para que vivessem regalados, voltou ao
+Rio de Janeiro, onde achou fallida a sua casa commercial, e
+compromettida a compra que fizera na terra.
+
+Tinha sido escandalosamente roubado o pobre homem.
+
+Aconselharam-no que intentasse acção judiciaria contra os socios.
+Rejeitou o alvitre, dizendo que Deus os julgaria. Acceitou os enormes
+creditos que lhe offereceram, estabeleceu-se, e dentro de doze ou treze
+annos pagou as dividas de seus socios, e liquidou cem contos de réis
+fortes, entre os quaes, diz elle, e dizem todos os que o conheceram, não
+havia cinco réis adquiridos deshonrosamente.
+
+Chegou a Portugal em 1848. O pae era morto e a mãe octogenaria estava
+entrevadinha, pedindo ao Senhor que a não remisse das penas d'este
+mundo sem ver seu filho.
+
+João José Dias assistiu seis annos aos longos paroxismos de sua mãe,
+adoçados com as lagrimas da felicidade. Em 1854 finou-se a velha nos
+braços do filho, dizendo-lhe que fizesse feliz uma moça pobre, casando
+com ella já que Deus lhe déra a riqueza.
+
+Passado o luto, o capitalista veiu ao Porto, e conheceu casualmente, na
+alfandega, Melchior Pimenta, que lhe fez um pequeno serviço na brevidade
+de uns despachos.
+
+Alguns dias depois, encontrou o empregado da alfandega com uma formosa
+menina pelo braço, e perguntou-lhe se era sua filha. No dia immediato
+foi á praça, e colheu de alguns negociantes informações ácerca da filha
+de Melchior.
+
+Todos á uma lhe disseram que a menina gosava de excellente opinião; mas
+tinha só o defeito de querer hombrear em luxo com as filhas dos
+negociantes mais abastados. Um dos informadores accrescentou que os
+tafetás, as rendas, e as pelliças da filha do empregado da alfandega não
+pagavam direitos.
+
+Esta mordedura dos malevolos não magoou João José Dias.
+
+Fez-se encontradiço com Melchior, e falou-lhe dos seus teres, e da
+tenção que tinha de mudar de estado, até para cumprir uma promessa que
+fizera a sua mãe. Disse-lhe Melchior que era acertada a resolução, e
+muito facil o realisa'-la. Replicou o brazileiro pedindo que lhe
+indicasse alguma menina honesta. Pimenta pediu tempo para pensar, e o
+capitalista, com a rude franqueza de uma boa alma, disse que a sua
+escolha estava feita. Averiguada a cousa, a escolhida era a filha do sr.
+Melchior Pimenta, que não cabia n'um sino.
+
+--Isto é um modo de falar...--observou João José--Sem que sua filha dê o
+sim, nada feito. Eu sei que estou no calçado velho, e não trajo cá á
+moda dos janotas, como por ahi dizem. A sua filha é muito nova, e
+quererá um rapaz. Fale com ella, diga-lhe a verdade, eu irei lá se o
+senhor quizer; se ella quiz, muito bem; se não quiz, ficamos amiguinhos
+como d'antes.
+
+--A minha filha é docil e ajuizada: ha-de querer o que eu quizer. Foi
+educada por uma mãe, que teve melhores principios que eu, e faz com que
+ella lhe obedeça, tractando-a como irmã. Posso dizer-lhe que minha filha
+será sua esposa; mas bom é que o senhor nos dê o prazer de frequentar a
+nossa casa, para conhecer o coração da minha Ludovina.
+
+É este o resumo do grande dialogo que precedeu a apresentação do sr.
+João José Dias a D. Angelica.
+
+ * * * * *
+
+Não querendo eu, nem por sombras, indispôr contra os meus fieis
+escriptos o imperio do Brazil, peço ao meu sisudo editor que faça
+estampar o seguinte epilogo d'este capitulo:
+
+João José Dias adquiriu com exemplar probidade os seus bens de fortuna.
+
+Foi bom filho.
+
+Levou a honra commercial ao primor de embolsar credores roubados pelos
+socios que o roubaram a elle.
+
+Foi trabalhador, quando precisava acreditar-se pelo trabalho; e foi-o
+tambem, na opulencia, como o ultimo dos seus servos.
+
+Nunca teve escravos, comprados ou alugados: remiu alguns na decrepitude,
+e deu-lhes uma cama onde o ultimo instante da vida lhes fosse o primeiro
+de bem-estar.
+
+Que mais virtudes, ou maiores encomios a um bom caracter? Se pintei João
+José Dias feio, não é d'elle a culpa, nem minha. João José Dias era
+realmente muito feio.
+
+Do Brasil vem muita gente galante.
+
+Tenho na pasta um esboço de romances onde figuram quatro brasileiros
+bonitos.
+
+Hão-de ver com que isenção de animo se escreve n'esta provincia das
+lettras.
+
+Acabou-se o epilogo, e preveniu-se uma crise litteraria no Brasil.
+
+
+
+
+IV
+
+
+--Então a pequena está incommodada?--perguntou Melchior a sua mulher,
+que não declinava os olhos do cepo informe do sr. João José Dias.
+
+--Um pouco incommodada.
+
+--Vaes dizer-lhe que venha á sala, menina?
+
+--Irei.
+
+--Estou boa, papá--disse Ludovina entrando subitamente, e cortejando o
+hospede, que ella reconhecera de o ter visto outra vez.
+
+--Tem a bondade de sentar-se, snr. Dias?--disse Melchior ao acanhado
+brasileiro, que mal pudera gaguejar um «creado de vossa senhoria» que
+corrigiu bruscamente em «vossa excellencia.»--Minha filha, quando hontem
+te disse que a Providencia me deparára para ti um digno marido, era
+d'este senhor que te falava.
+
+--Tenho muito prazer em conhece'-lo--atalhou Ludovina com uma
+affabilidade e desembaraço que espantou a mãe, alegrou o pae, e
+lisonjeou o noivo.
+
+--Para satisfazer a uma exigencia d'este cavalheiro--continuou
+Melchior--é preciso que tu digas se acceitas livremente a minha
+escolha, ou direi melhor a escolha com que te distinguiu o sr. Dias.
+
+--Acceito muito de minha livre vontade--respondeu com firmeza D. Ludovina.
+
+--Não lhe restam escrupulos?--tornou Melchior inclinando-se para o
+brasileiro.
+
+--Não, senhor--disse elle--Estou satisfeito; o que eu não queria era que
+a menina viesse um dia a arrepender-se... e...
+
+--Não espero tal desgraça...--interrompeu Ludovina, sem fitar os olhos
+no brasileiro.
+
+--Da minha parte, hei-de fazer o possivel por lhe não dar desgosto,
+porque o meu natural é bom, e ninguem, até hoje, se deu mal comigo.
+
+Ludovina ergueu-se, e pediu licença de retirar-se por um instante. D.
+Angelica entendeu-a, e seguiu-a pouco depois. Foi encontra'-la no
+quarto, afogada em soluços, curvada sobre o leito.
+
+--Que é isto, filha?
+
+--Nada, minha mãe...
+
+--É muito, Ludovina; que tens?
+
+--Precisão de desabafar assim. Estas lagrimas não fazem mal a ninguem. É
+uma victima que se entrega ao sacrificio, mas deixem-a chorar... Que
+vida, que futuro, meu Deus!
+
+--Ludovina, não chores, e escuta-me. Eu não imaginava que teu pae te
+dera a semelhante homem. Tens razão... É repugnante, e horroroso. Não
+casarás com elle, menina.
+
+--Hei-de casar, minha mãe. Mal o vi ainda; não tive ainda tempo de
+sentir repugnancia ou horror... Choro como victima, mas não d'elle; é do
+outro que me matou.
+
+--Isso é que é cobardia, Ludovina! Pois não te fez nojo esse miseravel?
+
+--Fez, fez; mais que nojo... É preciso que elle se não persuada que
+minha mãe lhe mentiu, quando lhe disse que a sua intenção era dar-lhe
+parte do meu casamento. Devo casar muito depressa, o mais breve que seja
+possivel.
+
+--Casar por vingança?... Isto é um desforço desgraçado...
+
+--Não caso por vingança, que elle não vale o odio. Caso para salvar a
+nossa dignidade, minha mãe. Hei-de simular quanto possa o contentamento
+da mais feliz mulher. Não tenho já coração para sentir desgostos. Será
+tudo estupidamente alegria na minha vida. Toda a gente dirá que eu
+amo... meu marido. As pessoas que souberem do meu namoro com esse
+infame, dirão que devia ama'-lo muito pouco a mulher que se deixou casar
+com um homem ridiculo. Quero que se diga isto; quero que me assaquem a
+calumnia de que eu sou mais uma das mulheres que se venderam á riqueza.
+O que nunca ninguem dirá é que eu infamei o homem que me comprou...
+nunca, meu Deus!... Pois a mãe está chorando agora, depois de me ter
+ensinado a ver o mundo como elle é? Não se arrependa, minha boa mãe.
+Deu--me a maior prova de amor fazendo-me escutar o que esse homem
+disse... palavras de tanta afflicção como vergonha para mim... Fiquei
+bem, estou desopprimida... vê? já não choro.
+
+D. Angelica abraçou com vehemencia a filha, beijou-a como beijaria a
+creancinha de peito, e saíu, enxugando as lagrimas. Entretanto,
+conversavam assim, na sala, os snrs. João José Dias e Melchior Pimenta:
+
+--Gostou dos modos da pequena, snr. Dias?
+
+--Gostei muito; mas, a falar-lhe a verdade, pareceu-me que ella não
+olhava direita para mim!
+
+--Recato de moça, pejo, e acanhamento, não acha que é muito natural?
+
+--Isso sim; mas dava aquellas respostas tão... tão... tão desenganadas,
+que parecia ter por mim sympathia de mais tempo...
+
+--Minha filha tem muito juizo, snr. Dias...
+
+--Não duvido.
+
+--E então quiz desde logo agradar a seu pae e a seu futuro marido.
+
+--Ora, olhe; o senhor não se lhe dá que eu tenha com sua filha, cá em
+particular, uma conversasita?
+
+--Pois não, snr. Dias! todas as vezes que quizer. Eu mesmo desejo que
+sonde o coração de Ludovina, e reconsidere a sua tenção, se vir que ella
+o não merece. Eu vou manda'-la.
+
+--Faça-me esse favor.
+
+Melchior procurou a filha, reparou nos indicios das lagrimas, e fingiu
+que os não percebia. Dizendo-lhe que viesse á sala, accrescentou:
+
+--Lembra-te que fazes a tua felicidade e a de tua familia. Esse homem
+não será só teu marido, será um protector de todos os teus, e fará a tua
+independencia n'uma sociedade onde a formosura se estima como um meio de
+alcançar «fortuna», e a «fortuna» como um meio de se alcançar tudo.
+Entendeste-me, filha?
+
+--Entendi, meu pae.
+
+Ludovina entrou jovialmente na sala.
+
+--Minha senhora,--disse o brasileiro, gaguejando--Eu fui toda a minha
+vida negociante, apenas sei ler e escrever, e digo as cousas assim como
+ellas me vem á idéa. Ora bem; a menina está resolvida a ser minha
+companheira de toda a vida?
+
+--Sim, senhor, disse ainda ha pouco que sim.
+
+--É verdade que disse; mas póde ser que o dissesse para contentar seu
+pae, e lá no interior sentisse outra cousa.
+
+--Disse o que sentia, e repito o que disse.
+
+--Quem sabe se a senhora tinha alguma sympathia por ahi, e que lá por eu
+ter alguns vintens seu pae a fizesse voltar-se para outro lado?
+
+--Não, senhor, eu não tenho affeição a alguem.
+
+--Porque depois eramos ambos desgraçados; e eu devo dizer-lhe, que tudo
+o que eu mais tenho estimado n'este mundo é a minha honra; até hoje,
+louvado Deus, ninguem lhe pôz o dedo sujo; e seria mais facil eu deixar
+que me tirassem a vida do que a honra. Trabalhei muito anno para a
+conservar, cheguei até esta edade sem ser offendido, e assim d'estes
+cabellos brancos que me vê, se alguem me atacasse a minha honra,
+tornava aos meus vinte e cinco annos. A menina entende-me?
+
+--Creio que entendi, e sinto que v. s.ª me esteja offendendo com as suas
+supposições injuriosas.
+
+--Isto é um modo de falar, sr.ª D. Ludovina, e perdoará se a offendi.
+Tudo o que lhe digo é em bem seu, e meu. Eu sou o que está vendo; a
+menina é nova e linda; se vê que se ha de arrepender, diga-me a verdade
+do seu coração, que eu arranjarei as cousas de modo que seu pae se
+queixe de mim e não da senhora.
+
+--Já disse a v. s.ª que desejo ser sua esposa; não sei que mais deva
+dizer-lhe. Não me hei de arrepender, porque espero merecer sempre a sua
+estima e confiança; mas tenho um favor a pedir-lhe.
+
+--Diga lá, seja o que fôr.
+
+--Desejava que ficassemos na companhia de meus paes.
+
+--Ficaremos; e quando formos passar algum tempo á nossa casa de
+Celorico, a nossa familia irá comnosco. Era só isso?
+
+--Não tenho outra ambição.
+
+--Isso pouco é... Ha-se de fazer tudo que a menina quizer: graças a
+Deus, temos mais que o preciso para satisfazer as nossas vontades.
+Agora, se quizer dizer a seu pae que já lhe disse o que tinha a dizer,
+vá lá, que eu fico á espera d'elle e de sua mãesinha para me despedir,
+até á noite.
+
+D. Ludovina chamou o pae, sem saír da sala. Melchior, lendo o bom
+resultado das suas reflexões na cara jubilosa do radioso
+capitalista, convidou-o a jantar, quando elle se despedia. João José
+disse que jantára tres horas antes, e jantaria segunda vez com tão
+amavel companhia. Estava inspirado!
+
+E cumpriu a promessa. Jantou, fez muitos brindes, e o ultimo, e mais
+solenne que fez foi o seguinte:
+
+_Á saude de quem de hoje a um anno ha de ser meu compadre, e minha
+comadre!_
+
+Melchior Pimenta agradeceu.
+
+D. Angelica franziu a testa, fez-se branca de cera, e levou o calix aos
+labios.
+
+D. Ludovina córou até ás orelhas.
+
+A leitora faça o que quizer.
+
+Eu não ri, nem córei: deu-me para chorar como uma vide, quando me
+contaram isto.
+
+
+
+
+V
+
+
+Inventou-se uma lua para os casados.
+
+Os irracionaes teem uma lua; essa entende-se, sabe-se o que é. Mas o
+aluarem-se, á força, os casados, é uma idéa ingrata á decencia, feia, e
+deshonesta.
+
+Uma senhora innocente que diz: «lua de mel» suja os labios, se preza a
+pureza n'elles; se, porém, sabe o que diz, se sabe o que é o favo, o
+_mel_ da lua, desdenha o pudor, e despreza-se.
+
+Os noticiaristas das gazetas aforaram a phrase, sem saberem, talvez, que
+desaforavam as palavras. Os diarios do Porto, em 1856, noticiaram assim
+um casamento:
+
+
+«Hontem ás nove horas da manhã, contraíram o sacramento do matrimonio o
+ill.mo sr. João José Dias, rico negociante que foi no Rio de Janeiro,
+com a ex.ma sr.ª D. Ludovina da Gloria Pimenta, filha do nosso amigo
+Melchior Pimenta. O sr. Dias deve á fortuna a escolha de uma noiva tão
+rica de prendas moraes como de formosura angelica. A gentil menina
+encontrou um honrado protector, cuja fortuna, sendo immensa, vale menos
+que a briosa reputação que tem. Os esposos vão passar a LUA DE MEL á sua
+quinta de Celorico de Basto, para onde partiram hontem de manhã
+acompanhados dos numerosos amigos dos ditosos consortes. Diz-se que o
+sr. Dias vae mandar construir um palacete no Porto, onde tenciona fixar
+a sua residencia. Damos os parabens á cidade invicta por tão valiosa
+acquisição.
+
+
+A local está redigida a primor, como lá se faz sempre nas gazetas; mas
+aquella LUA DE MEL indigna-me.
+
+Se querem que haja por força uma lua para os que se casam, façamos umas
+poucas de luas:
+
+Lua de mel;
+
+Lua de cicuta;
+
+Lua de laudanum;
+
+Lua de tartaro emetico;
+
+Lua de mostarda ingleza;
+
+Lua de oleo de ricino;
+
+Lua de fel da terra;
+
+Lua de salsa-parrilha;
+
+Lua de raspa de veado;
+
+Lua de jalapa;
+
+Luas tónicas, luas antiphologisticas, luas irritantes, luas vomitas,
+luas drastricas, etc.
+
+Convém, de seguida, observar, que a lua não influe por egual nos dois
+noivos. Cada um deve ter sua, nos casos exceptuados de casamento por
+paixão reciproca.
+
+Tal marido é aluado em ovos molles, e sua mulher em jalapa.
+
+Tal noiva saboreia-se nos dulcissimos favos da colmeia lunar, e o homem
+enjoa um cozimento salobro de raspa de veado, animal que muitas vezes
+lhe lembra, por causa das virtudes medicinaes, e outras causas.
+
+Qual d'essas luas influiria em João José Dias, e qual em D. Ludovina da
+Gloria?
+
+Eu não decido, porque sou supinamente ignorante em astrologia
+judiciaria. Conto os factos, e deixo as luas ao arbitrio do leitor.
+
+Fez-se o casamento, e effectivamente partiram os conjuges para Celorico
+de Basto. D. Angelica tambem foi. Melchior Pimenta ficou para comprar
+terreno, e contractar o architecto e alveneis que deviam fazer o
+palacete, a toda a pressa.
+
+Os cavalheiros de Basto receberam cartão do casamento. Esta usança das
+familias de bem, desconhecida a João José Dias, fôra lembrança da
+previdente D. Angelica: o fim era relacionar sua filha com as familias
+mais tractaveis de Basto, para que estas visitando-a, segundo o
+ceremonial, a distrahissem das melancolias do noivado.
+
+Tudo lhe saíu ao pintar dos seus projectos. A fidalguia circumvizinha
+não desdenhou as relações do capitalista. O cartão enviado ás senhoras
+dizia:
+
+
+ D. ANGELICA THEODORINA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA
+ PINTO CASTRO LEITE E LEMOS
+ TEM A HONRA DE PARTICIPAR A V. EX.ª
+ O CASAMENTO DE SUA FILHA
+ A EX.MA SR.ª
+ D. LUDOVINA DA GLORIA PIMENTA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA
+ PINTO CASTRO LEITE E LEMOS
+ COM O ILL.MO SR.
+ JOÃO JOSÉ DIAS
+
+
+Os appellidos heraldicos abalaram os espiritos pechosos d'aquella
+fidalguia de travessão que por alli enxamêa.
+
+Devia ser filha segunda de casa muito distincta a que descera até aos
+fabulosos milhões do João da Chan-de-Cima: diziam-n'o assim os que
+d'aquelle modo chasqueavam o brasileiro, pouco dado com fidalgos.
+
+Consentiram algumas familias em visitar os noivos. Um dos fidalgos,
+esmerilhando a procedencia genealogica de D. Angelica, descobriu que um
+seu tio-visavô sahira da casa dos Ciprestes para ir entroncar na
+nobilissima familia dos Pereiras e Sousas, em Paços de Gaiôlo, d'onde
+era oriunda a avó de D. Angelica. Feito o descobrimento, D. Ludovina
+achou-se prima de tudo que faz o lustre e ornamento de Celorico,
+Cabeceiras, Arco, e terras de Barroso.
+
+João José Dias tambem era primo dos primos de sua mulher; e, de si para
+si, ao bom do homem dava-lhe para rir-se á socapa da parentella. A
+lingua não se lhe ageitava a chamar primos aos fidalgos da casa dos
+Ciprestes, aos do Reguengo, aos da Capella, e outros que
+frequentavam, mais do que elle queria, a casa e o espirito attrahente da
+sua sogra, espanto das fidalgas analphabetas.
+
+Sem embargo, o capitalista simulava affectuosa estima aos hospedes, e
+contentamento com o ar festivo que sua mulher mostrava, tendo visitas.
+
+D. Ludovina pagava as visitas, passava as noites em sociedade, primava
+em tafularia, ensinava as primas a vestirem-se, cuidava dos seus
+enfeites com desvelo, e gastava com seu marido o tempo necessario para
+projectarem passeios, romarias, e saraus por aquellas redondezas.
+
+Annuia o conjuge, folgazão no rosto, e zangado por dentro. O bom siso
+dizia-lhe que sua mulher era uma creança, vezada a bailes, e ainda verde
+para gostar da quietação domestica. Bem via elle a innocente alegria com
+que Ludovina andava nos honestos brinquedos, e o desapercebimento, se
+não desprezo, com que ella acceitava as louvaminhas dos primos.
+
+D. Angelica entendia o que o seu genro calava; conhecia a violencia que
+elle fazia ao genio e aos annos ronceiros, para andar n'aquella
+lufa-lufa de visita em visita, bifurcado n'um macho, que lhe contundia
+as carnes com o chouto ingrato. Receosa de que a impaciencia rebentasse
+em fim por algum dito menos delicado á mulher, quiz ella prevenir o
+desgosto de ambos, dizendo uma vez á filha:
+
+«Convém conformarmo-nos um pouco aos costumes de teu marido,
+Ludovina. Teu homem não foi assim educado, e os annos extranham esta
+transição.
+
+--Que quer a mãe que eu faça?
+
+«Que espaces os teus passeios e visitas, que vivas mais em tua casa, que
+tenhas com elle algumas horas mais de convivencia.
+
+--Que hei de eu dizer-lhe?!
+
+«O que has-de tu dizer-lhe?!...
+
+--Sim, mamã. Temos occasiões de estar duas horas juntos sem trocarmos
+tres palavras. Sou amiga d'elle; mas não sei como hei-de mostrar-lh'o de
+outro modo. Se querem que eu não receba visitas, nem vá a casa de quem
+me visitou, estarei em casa, contemplando os carvalhos e os
+castanheiros; mas eu não creio que se possa viver assim na aldeia. Se
+elle ainda me não disse nada, porque ha de a minha mãe censurar-me este
+desabafo que eu preciso? Eu a fugir de falar na minha situação, e a mãe
+a lembrar-m'a! Cuida que sou feliz? Diga, mãe, está persuadida que eu
+devo estar extasiada de contentamento deante de meu marido?
+
+«Não creio que te devas extasiar, mas tambem não approvo que te
+arrependas. Como explicas tu a consideração, o respeito com que és
+tractada? Pensas que o seres casada com este homem te desmerecesse aos
+olhos d'esta gente, que lhe chama parente?
+
+--E a felicidade é isso, mãe?!
+
+«A felicidade não é cousa nenhuma d'esta vida, e, se alguma existe cá, é
+a que dá á consciencia da mulher casada o prazer de não envergonhar seu
+marido.
+
+--Que palavras! Isso que quer dizer, minha mãe?
+
+«Não t'as applico, Ludovina: respondi á tua pergunta. A felicidade no
+amor é um creancice dos quinze annos, e ás vezes dos quarenta; mas o
+desengano vem com todos os homens e com todas as edades. Não te
+persuadas que a vida te seria aqui mais risonha, por muito tempo, com um
+marido de tua escolha. Este homem, d'aqui a tres mezes, has-de ama'-lo
+como se ama um amigo. O outro, d'aqui a tres mezes, ama'-lo-ias com o
+afflictivo amor da mulher que enfastia, que se vê cada vez mais
+aborrecida, e compara os ardores dos primeiros mezes de casada com a
+fria sequidão dos que traz o cansaço. Poupaste-te ao maior dos
+infortunios, que é esse para a mulher que não quer curar a chaga do amor
+a seu marido com a peçonha da infidelidade, comprehendes-me, Ludovina?
+Eu não consinto que tu, sequer, recordes alguns exemplos de mulheres
+casadas que viste conciliadas com o despreso dos maridos, acceitando a
+adoração de outros, como vingança, e fazendo do crime uma necessidade.
+Lembra-te só d'ellas como mulheres que casaram apaixonadas, que
+doudejaram de alegria nos primeiros tempos, e pareciam cheias de
+felicidade para toda a vida. Não te recommendo paciencia, Ludovina,
+porque ninguem te dá causa de soffrimento; recommendo-te juizo. Este
+homem ha-de merecer a tua amizade: logo que a tenha, viverás da melhor
+affeição, da que mais dura n'este mundo; terás o bem que raras vezes
+fica de um amor ardente.
+
+Estas e outras palavras modificaram a força motriz de D. Ludovina.
+Os passeios rarearam-se, os convites para reuniões foram esquecendo á
+mingua de estimulo e as massas amollecidas do sr. João José Dias
+recobraram vigor, com não menos gaudio do velho macho que as caminhadas
+traziam desmedrado e manhoso.
+
+Estava já a lua de mel em quarto minguante, quando os noivos, voltando
+para o Porto, foram hospedar-se na casa paterna, em quanto não alugavam
+casa provisoria, onde esperassem que o palacete se fizesse.
+
+João José Dias foi agradavelmente surprehendido em casa de seu sogro.
+
+Convidado para um baile, em que Ludovina ia ostentar preciosissimos
+recamos de brilhantes, que seu marido lhe déra na vespera do casamento,
+João José Dias ao vestir a casaca nova, que seu sogro lhe mandava ao
+quarto n'uma bandeja, viu uma commenda pregada n'ella, e sobre uma salva
+de prata um collar com a cruz da ordem de Christo, pendente de um
+vistoso laço de fita.
+
+--Que diabo é isto?--disse elle ao creado no requinte do pasmo.
+
+«É um presente que faz a v. exc.ª o sr. Melchior.
+
+--Diz-lhe que venha cá, e pega lá para cigarros--dizendo isto, o
+commendador lançou á salva... sete centos e vinte.
+
+Não vos assombre este lance dadivoso de grandeza. Em successos de menor
+estimulo á munificencia, sei de outros arrojos de liberalidade, que
+desbancam João José Dias.
+
+Ahi vão de passagem dois exemplos:
+
+Um visconde, opulento pelos dons de uma bestial fortuna que o ama como a
+cousa sua, compra um quarto de bilhete da loteria hespanhola. O rapaz
+que, á custa de muito teimar, lh'o vendera, vae dar-lhe a nova de que a
+cautela fôra premiada com quatro mil duros. O visconde manda esperar o
+alviçareiro moço e traz-lhe umas calças de cutim sem fundilhos.
+
+Outro, na passagem do rio Douro, escorrega do barco para a corrente, e
+mergulha; passados instantes, emerge á tona d'agua resfolegando, e
+pedindo soccorro. Travam-no os braços robustos do barqueiro que, em
+risco de morte, consegue salva'-lo, Vae leva'-lo á familia, mandam-no
+esperar á porta da rua, e recebe, como salvador d'uma vida cara aos
+seus, uma vida que os jornaes pranteariam com tarjas da grossura de um
+dedo, e vinhetas das mais funebres da typographia, recebe, finalmente,
+setecentos e vinte em cobre.
+
+Isto é publico e notorio; mas não estava em chronica. Receio maguar a
+modestia dos generosos cavalheiros, por isso resalvo os nomes. Na quinta
+edição d'este livro, havidos os consentimentos respectivos, serão postos
+em estampa, para inveja de miseraveis sovinas, e estimulo á profusão da
+presente raça.
+
+O commendador não era fona. Esse caínho feito não desluz os bizarros
+presentes que fazia á esposa e aos sogros. Ludovina era o primor da
+casquilhice, e do mais rico em gosto e droga. Para cada baile, para cada
+exposição do theatro lyrico, um vestido não visto, só comparavel aos
+que trajára antes, e inferiores aos que trazia depois.
+
+Os _leões_ sertanejos, estes cinco ou seis pataratas, senhores de uma
+gloria tão productiva, que faz lembrar a dos dominios da corôa
+portugueza na Ethiopia, Arabia e Persia, os leões honorificos do Porto,
+se assestavam pertinazes os oculos na peregrina esposa do commendador, o
+mais que conseguiam era realisar o anexim nacional: «--viam-na por um
+oculo.»
+
+João José Dias envesgava o olho de soslaio por sobre as feras; e, a meu
+ver, seria elle homem bastante para realisar, já não com um, mas com
+todos, a fabula do leão espinotado pelo orelhudo.
+
+O commendador tinha em sua mulher inteira confiança, nada lhe alterava o
+conceito bem merecido; todavia era accessivel ao ciume sem causa. Nos
+bailes, andava o pobre homem sempre assustado. Não tinha socego, nem
+póro que não estilasse o suor da apoquentação. As affabilidades mais
+triviaes e innocentes da cortezia, um sorriso de Ludovina ao par
+dançante que a deliciava com ensosso palavrorio, o menor gesto de
+attenção a que a delicadeza obrigava a festejada dama, isso era um
+adstringente doloroso que apertava as entranhas do commendador.
+
+N'um d'esses bailes, em que João José Dias emagreceu duas polegadas na
+circumferencia, appareceu Ricardo de Sá, que nunca mais vira Ludovina
+desde a vespera da sua derrota.
+
+Audacioso até ao desatino, teve a petulancia de aprumar-se diante de
+Ludovina, com a luneta insultante. A filha de D. Angelica pediu o braço
+a uma amiga e saíu d'aquella para outra sala. O commendador não fôra
+extranho ao acto, e seguiu-a com disfarce. Ricardo, brincando com os
+berloques do relogio, e tregeitando o habitual sorriso do homem tragico
+de romance, seguiu de longe as duas amigas, simulou um encontro casual,
+estacou diante d'ellas, e montou a luneta.
+
+D. Ludovina rodou sobre o calcanhar e voltou-lhe as costas. Á cabeça do
+commendador subiu um repuxo de sangue, e os lobulos das orelhas
+fizeram-se-lhe escarlates como ginjas.
+
+D. Angelica, que espiava o successo da sala proxima, acercou-se de
+Ricardo de Sá, fitou-o com fulminante soberania, e disse-lhe a meia voz:
+
+--O senhor é um miseravel tolo, que incommoda. Se se estima alguma
+cousa, não me obrigue a encarregar o boleeiro de minha filha de
+responder ás suas provocações.
+
+--Mude de sexo como Theresias, e falle-me depois--disse Ricardo, dando á
+perna direita o costumado repuxão dos elegantes.
+
+O commendador veio ao encontro de D. Angelica, e disse-lhe:
+
+--«Aquelle sujeito com quem a senhora falou agora, não é um homem que eu
+encontrei em sua casa a primeira vez que lá fui?
+
+--É.
+
+--Que diabo anda elle a prantar-se diante de Ludovina?
+
+--Já reparei n'essa acção repetida. Eu lhe conto, dê um passeio
+comigo--E tomando-lhe o braço, D. Angelica continuou:--Este homem foi
+uma afeição innocente de minha filha, e é hoje um ente desprezivel para
+ella e para mim.
+
+--Escreviam cartas um ao outro?--interrompeu o commendador, bufando.
+
+--Escreviam, sim...
+
+--Porque me não disse isso a senhora?!
+
+--Porque não merecia a pena dizer-lh'o. Que é escreverem-se cartas?
+
+--Não é pouco, acho eu... E como acabou isso?
+
+--Acabou, dizendo eu a esse homem que não voltasse a minha casa.
+
+--E que quer elle agora?
+
+--Vingar-se da unica maneira que póde: affligir minha filha... Ella ahi
+vem... não falemos n'isto.
+
+D. Ludovina disse affectuosamente ao marido:
+
+--Vamos embora? eu estou incommodada.
+
+--Vamos, disse a mãe.
+
+--N'esse caso, vou chamar a carruagem; esperem um pouco, que eu venho
+já--disse o commendador.
+
+As senhoras foram esperar na sala menos concorrida. D. Ludovina
+arquejava em ancias, e falava aceleradamente a sua mãe.
+
+Entretanto, João José Dias entrou na sala onde se dançava, e viu na
+porta fronteira Ricardo de Sá encostado, com a luneta em acção, e o
+cotovello direito apoiado na mão esquerda.
+
+Foi ao pé d'elle e disse-lhe:
+
+--O senhor sabe quem eu sou?
+
+--Creio que já o vi em alguma parte.
+
+--Faz favor de vir aqui que lhe quero fallar.
+
+Ricardo seguiu-o machinalmente, atravessou um corredor, e parou n'um
+patamar deserto:
+
+--Eu sou o marido d'aquella senhora que vocemecê insultou lá dentro.
+
+--Essa é muito boa! Eu não insultei senhora alguma!
+
+--Se insultou ou não, sei eu. Fique-lhe de aviso que a sr.ª Ludovina tem
+um marido de quarenta e tantos annos, isso é verdade, mas capaz de pegar
+n'uma orelha dos pandilhas como vocemecê, e dar-lhe com a cabeça n'uma
+esquina, tem percebido?
+
+O commendador desceu as escadas, e Ricardo de Sá, estupefacto e
+aturdido, atravessou o corredor, e entrou nas salas.
+
+Pouco depois, entravam na carruagem D. Ludovina e sua mãe. O commendador
+não lhes disse palavra com referencia ao desforço solenne que tirára do
+bacharel.
+
+Isto, se eu o não contasse, era cousa que morria ignorada porque o
+auctor embrionario do SECULO PERANTE A SCIENCIA nunca a diria.
+
+
+
+
+VI
+
+
+Esta inquietação damnificou a vida menos má do commendador, e o socego,
+apparentemente feliz, de Ludovina. A paz existia; era, porém, como a
+serenidade presagiosa de trovoada.
+
+O marido recebia os convites para bailes, e queimava, á surrelfa, as
+cartas. Ludovina admirava o esquecimento, sem aventurar uma pergunta.
+Estes rebuços são a desgraça das familias, e o rastilho de polvora que
+espera uma faisca.
+
+Ao theatro iam raras vezes. O commendador adoecendo quasi sempre no dia
+da recita, supportou no estomago muitas papas de linhaça, sem precisão.
+O seu achaque postiço era uma inflammação intestinal.
+
+D. Angelica censurava o procedimento do genro; mas calava-se, para não
+dar anso á filha de romper em queixumes, que abafava com a esperança de
+melhor vida, ou desafogava em carpir-se sósinha. Melchior Pimenta achava
+que tudo ia bem, e dava-lhe mais cuidado a esperançosa apparição de
+um neto que a irritação de entranhas do capitalista.
+
+Acabára-se o palacete, e fez-se a mudança. O commendador não convidava
+os sogros para viverem com elle. Ludovina, reagindo contra a tyrannia
+simulada disse que não saía da casa onde nascera, sem levar seus paes.
+João José acreditou na resolução, e disfarçou o intento, dizendo que
+nunca tivera outro.
+
+Ludovina queixava-se á mãe da reclusão em que vivia cheia de
+aborrecimento e tedio; perguntava se era aquella a felicidade que dava o
+dinheiro; dizia que a pobreza e o ar livre eram preferiveis ao goso de
+cincoenta vestidos que se traçavam no guarda roupa, e da luxuosa mobilia
+que ninguem admirava.
+
+D. Angelica, já aborrecida tambem, prometteu á filha entender-se com o
+genro, e muda'-lo por meios suaves.
+
+--Que motivo ha, snr. commendador--disse D. Angelica--para se encerrar
+n'esta casa, cortando as suas relações com a sociedade que tão bem o
+tratava?
+
+«Eu vivo assim melhor.
+
+--Viverá!... não creio. O senhor, quando estivemos em Celorico,
+divertia-se nas sociedades, e já no Porto parece que folgava de que o
+vissem com sua mulher em toda a parte...
+
+«Estou velho para andar a perder as noites. Esta minha inflammação de
+entranhas não me deixa. A saude está em primeiro logar.
+
+--Tem razão; mas n'este mundo só se vive bem, sacrificando-se a gente
+uma á outra. O senhor é casado com uma menina habituada aos
+innocentes prazeres da sociedade, e eu, se me dá licença, dir-lhe-hei
+que não consentiria um casamento entre genios tão contrarios, se
+previsse o que está acontecendo.
+
+«Então que é?
+
+--É que minha filha não póde assim viver contente.
+
+«Agora não! ella não se queixa: a senhora é que toma as dôres por ella.
+
+--Não se queixa porque é muito delicada, muito soberba, ou uma sancta. O
+peor será quando ella se queixar... Isto assim vae mal, sr. Dias; mude
+de vida, confie em sua mulher que é um anjo de virtude, incapaz de
+offender a sua dignidade.
+
+«Não duvido; mas estou melhor assim, e ella tambem não está mal, acho
+eu. Quem casa vive para seu marido, e para os filhos, se os tem. Isso de
+andar de bailarico em bailarico é bom para as raparigas solteiras que
+andam á pesca de marido. Até parece mal uma mulher casada a saltarilhar
+com um homem que lhe pega pela cinta, e anda alli com a cara ao pé da
+d'ella. Nada de bailes, sr.ª D. Angelica. Minha mulher, se quer passear
+tem ahi uma carruagem e eu estou prompto a acompanha'-la para toda a parte.
+
+--Pois bem, não se frequentem os bailes, mas conservem-se as relações da
+nossa casa. Ludovina tem amigas, que extranham muito a vida encarcerada
+que ella passa. Porque não ha-de sua mulher visitar e receber as visitas
+de suas amigas?
+
+«E isso de que livra? Isto de mulheres umas com as outras não dizem
+cousa boa. O melhor é cada um em sua casa.
+
+--Que razão essa tão... tão singular!
+
+«A final de contas, sr.ª D. Angelica, eu estou em minha casa, e entendo
+que faço bem. Não se lucra nada em apparecer. O mundo está uma pouca
+vergonha. Eu já sei como está o Porto, e como se vive por ahi. Não quero
+que minha mulher ande nas bôcas do mundo. Se Ludovina não fosse ao
+baile, onde lhe appareceu o tal namorado que ella teve, não tinhamos
+todos a zanga com que sahimos de lá. Em casa, em casa é onde se está
+melhor.
+
+--Eu não me responsabiliso pelas consequencias, sr. Dias. Ludovina tem
+brios e pundonor; se ella desconfia que v. s.ª a encerra em casa, por
+suspeitar da lealdade d'ella, teremos grandes desordens e não terei
+poder para accomoda'-las.
+
+«Eu não desconfio de minha mulher; se não vou aos bailes, é porque não
+quero que os outros desconfiem, e acabou-se.
+
+O dialogo ficou aqui; mas ha ahi duas linhas que fazem honra á
+intelligencia equivoca de João José. Merecem ter segunda edição de
+versaletes:
+
+EU NÃO DESCONFIO DE MINHA MULHER; SE NÃO VOU AOS BAILES É PORQUE NÃO
+QUERO QUE OS OUTROS DESCONFIEM.
+
+Isto é uma grande idéa, das quatro idéas grandes que apparecem em cada
+seculo, e que, por engano, entrou na cabeça inhospita do commendador.
+
+Pesem bem o quilate das duas linhas, que me ministrou João José, e verão
+que as melhores d'este livro são ellas.
+
+O marido, que me está lendo, se tem cincoenta annos, e espreita os vinte
+de sua mulher, através do vidro embaciado que a experiencia lhe vendeu
+caro, não deve já agora perder a esperança de dizer, no auge do seu
+ciume, alguma cousa que possa ler-se em lettra redonda.
+
+A indignação fazia os versos de Juvenal; porque não ha de o ciume fazer
+as prosas toleraveis dos maridos?
+
+A idéa de João José, se fosse minha, ninguem me aturava a vaidade. Rogo
+aos escriptores contemporaneos, e aos futuros sabios, alinhavadores de
+remendos alheios, que se escreverem a seguinte maxima:
+
+_Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes para
+que os outros não desconfiem;_ escrevam por baixo--_O commendador_ JOÃO
+JOSÉ DIAS.
+
+As pessoas que melhores idéas engendraram, não teem sido as mais
+felizes. O commendador pertence ao martyrologio dos grandes pensadores.
+Os fados, os estupidos fados hão de castiga'-lo por essas poucas
+palavras com que elle arranjou um nicho, pôdre de barato, no templo da
+memoria.
+
+O castigo começa.
+
+
+
+
+VII
+
+
+Ludovina disse um dia a sua mãe:
+
+--Estou casada ha treze mezes, e sinto-me velha. Até aqui obedeci como
+creança, a minha mãe, a meu pae, e a esse homem, que entrou na nossa
+familia com certa auctoridade que me intimidava. Eu fui sempre docil,
+docil até á pusillanimidade. Se a violencia não fosse tamanha, este
+homem que chamam meu marido, teria feito a escravidão da minha alma para
+sempre. Assim não póde ser. Sinto-me outra; perdi os costumes de
+creança; envelheceram-me com os desgostos continuos, e por isso hão de
+soffrer-me agora emancipada.
+
+--Que vem tudo isso a dizer, Ludovina?
+
+--Que quero a minha liberdade, que hei de passar por cima da oppressão á
+custa de tudo.
+
+--Ludovina! que linguagem é essa?
+
+--É a da desesperação, e da justiça. Não pratiquei sombra de mau acto,
+por onde mereça este amargo viver que me dão. Quero saber porque vivo
+apartada das minhas amigas, e dos recreios, d'onde a minha reputação
+saíu sempre sem mancha.
+
+--A quem o perguntas, a mim?
+
+--Sim, á mãe, ao pae, e depois pergunta'-lo-hei ao dono d'esta casa, ao
+dono dos meus vestidos e dos meus braceletes. Se este me disser que a
+minha liberdade é o preço d'essas cousas, deixo-lh'as, e peço a meu pae
+a subsistencia que me dava d'antes. Se m'a negarem, Deus me inspirará o
+destino que me convém. Isto ha de decidir-se hoje. Ninguem soffria tanto
+tempo, por amor proprio, ou pela virtude da paciencia.
+
+--Tens direito a interrogar teu marido, Ludovina; mas sê prudente;
+vence-o com razões moderadas, por não dizer humildes.
+
+--E se elle, por maldade ou por ignorancia, suspeitar da pureza das
+minhas intenções?
+
+--Fala-lhe como deve falar uma senhora, e confundi'-lo-has.
+
+Veiu o commendador cortar o colloquio. Nunca tão achamboada e trombuda
+se mostrára a lerda physionomia do personagem. N'essa occasião, o
+achaque intestinal era veridico, segundo o testemunho do semblante. Era
+o ideal da fealdade, então, o sr. Dias!
+
+D. Angelica, instada por um gesto da filha, deixára-os sós.
+
+--É a primeira vez--disse Ludovina, sentada n'uma cadeira de braços
+estofada, com a formosa face encostada á palma da mão direita, e uma
+perna sobre a outra balouçando-se, deixando ver o pé de fada,
+através do rendilhado da saia que a velava.--É a primeira vez que
+falo a meu marido como se deve falar a um marido. Até aqui tratei-o como
+se trata um amigo que se respeita, um tio, um pae d'esses com quem se
+não tem muita confiança.
+
+O snr. Dias abriu a bôca para entender melhor. D. Ludovina proseguiu:
+
+--Poucas filhas ha tão respeitadoras como eu lhe tenho sido na qualidade
+de mulher. Tudo que ha n'esta casa, snr. Dias, seu tem sido, como seria,
+se eu aqui não fosse mais que uma pessoa extranha, sujeita á sua
+generosidade. A sua vontade é o movel das minhas acções. Em quanto o
+senhor me concedeu a liberdade honesta, que meus paes me concediam,
+acceitei-a, sem lh'a agradecer, porque achei isso tão natural como
+absurdo e impossivel o contrario. Logo que o senhor, sem me explicar a
+causa da sua mudança, de repente me afastou da sociedade, como se faz ás
+pessoas incapazes de viverem n'ella, acceitei tambem, sem me queixar, o
+captiveiro, e supportei-o seis mezes como uma mulher culpada que expia a
+culpa com a paciencia muda. O snr. Dias, sem saber o que fez, expoz sua
+mulher aos commentarios offensivos que a sociedade ha de ter feito á
+minha ausencia repentina. Deu um escandalo, sem necessidade de evitar
+outro. Disse á sociedade que não tinha bastante confiança em mim para me
+levar onde ha o bom e o mau.
+
+«Estás enganada, menina, eu não disse isso a ninguem--interrompeu o
+commendador, que andou ás aranhas muito tempo antes que traduzisse
+para vulgar o estylo sentencioso da filha e discipula de D. Angela.
+
+--Não o disse com a palavra; mas disse-o com as acções. Privando-me de
+ir aos bailes, de frequentar o theatro, de receber as minhas amigas de
+collegio, e as relações de minha familia, o que diria a sociedade?
+
+«Lá o que ella quizer, menina...
+
+--O que ella quizer, não, snr. Dias! Não consinto que se façam de mim
+conjecturas desairosas. Requeiro que o senhor me explique o motivo
+d'esta separação injusta a que me fórça.
+
+«Não te zangues, Ludovina... Foi tua mãe que te metteu na cabeça essas
+palavras? Bem diz lá o ditado: «Livra-te da sogra, que eu te livrarei do
+diabo.»
+
+--Respeite minha mãe, senhor! Eu não falo pela bôca de minha mãe; o meu
+silencio até hoje não era estupidez nem insensibilidade: era amor
+proprio, e outro sentimento mais nobre que o senhor não entende. Vamos
+ao essencial, snr. Dias. Teve alguma razão para me privar de viver como
+vivem todas as mulheres casadas da boa sociedade?
+
+«Não, já disse que não. A cousa é outra...
+
+--Qual é essa outra cousa?
+
+«As boas pagam pelas más, e não ha mulher honrada para certa gente que
+vae aos bailes e aos theatros.
+
+--Pois eu não estou disposta a sacrificar-me ás mulheres indignas. A
+minha consciencia é o meu juiz. Não me importa o que se diz de mim.
+
+«Essa é de cabo de esquadra! Pois não se te importa o que se diz de ti?
+
+--Que se diz, snr. Dias?
+
+«Não sei; mas... elles lá sabem o que dizem.
+
+--Elles quem? accuse-me sem piedade; repita as affrontas que me fazem;
+tenha a coragem de calumniar-me, se lhe é preciso inventar os meus crimes.
+
+«Tu estás fóra de ti, Ludovina! Isso não é assim! Ahi anda
+espirito-santo de orelha... O teu genio não é esse...
+
+--O meu genio é a minha dignidade, n'este caso. Responda-me: Offendi a
+sua honra?
+
+«Não, já disse duas vezes que não.
+
+--Faltei aos meus deveres de esposa?
+
+«E ella a dar-lhe!
+
+--Pois bem: quero viver como vivi nos primeiros seis mezes da nossa
+união. Quero ir ao theatro, aos bailes, ás visitas, como ia em solteira.
+Quero receber as minhas relações, como as recebi antes de ter metade da
+sua riqueza. Quero uma inteira liberdade como premio do meu procedimento
+para comsigo. Quero...
+
+«Então isto, pelos modos, é «nós, el-rei, e justiça de Fafe!» Aqui não
+ha rei nem roque n'esta casa? é quero, e mais nada?
+
+--Quero, sim, porque é de justiça o que já não tenho a baixeza de pedir;
+mas quando não, snr. Dias, meus paes teem uma casa estabelecida, e
+sobejos meios para eu me declarar independente d'essas riquezas com que
+o senhor me dotou, e que eu, de todo o meu coração, rejeito, porque
+não acceito o preço porque fui vendida.
+
+Ludovina, já de pé, com o rosto inflammado, e os bellos olhos
+coruscantes de cólera, sahiu de um impeto, deixando o commendador
+attonito na mais palerma immobilidade. D. Angelica ouvira tudo;
+
+--Excedeste-te, Ludovina--disse ella--mas fizeste-me orgulhosa de ser
+tua mãe. Acceito, de hora em diante, a responsabilidade das tuas
+palavras, seja ella qual fôr.
+
+João José Dias nem palavra n'aquelle dia e no seguinte. Ao terceiro
+havia theatro lyrico. D. Ludovina mandou buscar camarote. Ás sete horas
+e meia mandou pôr os cavallos á sege, e disse a seu marido se a
+acompanhava ao theatro. O commendador fez-se verde-garrafa, desenrugou
+as palpebras quanto poude, e pasmou os olhos suinos na attitude
+imperiosa de Ludovina, que apertava o botão da luva, e enroscava no
+collo as marthas.
+
+--Vem, ou não?--repetiu ella.
+
+«Espera, que eu visto-me--disse o commendador, tomado d'uma especie de
+susto irreflectido, que em muitos maridos é o corollario de demorados
+raciocinios.
+
+Fez impressão o apparecimento de Ludovina. Acharam-n'a mais donosa os
+amadores do pallido. O viço da florescencia tinha murchado ao lento
+deseccar da melancolia. Ficára a pelle assetinada, com as alvuras do
+desmaio, realçando o vivido fulgor dos olhos negros, assombrados da
+côr-violeta, que tanto encarece o rosto dolorido. Ponderaram os
+analystas que os tecidos cellulares do commendador estavam cada vez
+mais chorumentos e luzidios. Segredaram-se, ácerca das medranças d'elle,
+pilherias que incitam o riso, e ferem o melindre de ouvidos pudibundos.
+
+Estes colloquios, que a estampa rejeita, ciciavam, por entre frouxos de
+riso, nos camarotes, onde estava a propria virtude, com cabellos á
+Stuart, e despeitorada á Aspasia.
+
+Ludovina falava com meiguice ao marido, explicando-lhe o entrecho do
+_Trovador_, e aguçando-lhe a compuncção nas lamentações finaes da Ponti,
+que o commendador denominava uma «comedianta de mão cheia.» O ar de
+felicidade que se mutuavam, era o espanto dos observadores, e o castigo
+da maledicencia desapontada.
+
+Seguiu-se um baile. A carta de convite não ficou, d'esta vez, no
+escriptorio do commendador. Ludovina primou mais que nunca em enfeites.
+A inflammação deu treguas ás entranhas de João José Dias. Era para ver
+como elle se tornava, sadio e durazio, aos prazeres do mundo.
+
+Mas o interior de João José? Era um incendio para que a philosophia
+humana não inventou ainda bomba efficaz! Era o inferno do mouro de
+Veneza chorriscando aquelle humano torresmo!
+
+Que via elle para se moer assim? Nada. Ludovina nem, sequer, dançava já
+danças de roda, de contacto, de aperto, e raras contradanças acceitava.
+Os cavalheiros, que se avizinhavam d'ella, com liberdade, eram os amigos
+de seu pae, ou de seu marido. Os outros, repellidos pela sisudez e
+gravidade com que os ella recebia, denominavam-na uma virtuosa
+grosseira, e apostavam que andava alli influencia de capellão incognito.
+
+Que sandeus ciumes, eram, pois, os do commendador, que a fortuna poupava
+á sorte de pessoas tão conspicuas, e bem ageitadas de corpo e alma?
+
+Batei n'esta sáphara, entendedores do coração humano, esmerilhadores do
+intimo dos _predestinados_ e _minothauros_ e _Sganarellos_ ao alcance da
+sciencia humana.
+
+Cançar-vos-heis sem achar a razão da cousa. O axioma foi proferido ha
+quatro annos, e já tem tres edições com esta:
+
+
+
+_Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes,
+para que os outros não desconfiem._
+
+_O commendador_ JOÃO JOSÉ DIAS _(passim)_.
+
+
+
+
+VIII
+
+
+Raivando contra si proprio, o barão de Celorico...
+
+_O barão de Celorico!_ Personagem novo no conto?
+
+Novo! pois eu não disse já que João José Dias dera cinco mil cruzados ás
+urgencias do Estado, e seiscentos mil réis ao official maior da
+secretaria onde se fabricam os barões, e cincoenta moedas ao agente
+secreto das urgencias do Estado, e das urgencias dos estadistas?
+
+Se não lêram isto já, perderam-se na typographia quatro tiras de
+composição a mais rendilhada a buril classico, a mais puritana de
+linguagem, com recheio de idéas substanciosas, e gordura de pensamentos!
+
+Finalisava o capitulo VII por um baile de regosijo, que o novo titular
+estimulado pelo sogro, resolvera dar aos seus collegas, e mais amigos,
+que o felicitaram da mercê.
+
+Esse baile correra amargurado para o barão de Celorico.
+
+Ao caír da noite, recebera elle uma carta anonyma, da qual não pude
+haver copia, e, podendo inventar uma, não o faço, que m'o veda o
+proposito de fidelidade.
+
+É certo, porém, que o contheudo d'essa carta entendia com Ludovina,
+meiga creatura, organisação melindrosa, que tanto a pesar meu hei de
+nomear baroneza de Celorico.
+
+Não se póde aferir o grau de calumnia d'essa carta pelas carantonhas do
+barão, que a lia. Em carantonha perenne estava elle sempre, lastimoso
+Amphitryão, desde que a sombra de um Jupiter de casaca lhe assombrava os
+encantos da innocente Alcmena. Qual seria o espirito rasteiro que se
+quizesse vasar nas fórmas de João José para enganar-lhe a esposa? Esta
+pergunta faço-a aos que leram Plauto, Molière, e Camões. Nem ella, com
+tantos mimos e promessas de delicias, vos faria a vós, leitores
+sedentos, acceitar a transfiguração hedionda.
+
+O barão tragou a affronta em quanto o bojo o comportava; depois,
+rebentou, chamando a sogra ao mais escuro do palacete, e dando-lhe a ler
+a torpe carta.
+
+D. Angelica disse conhecer a mal disfarçada letra de Ricardo de Sá;
+convenceu-o de que o despeito de uma alma vil devia vir áquella infamia;
+appellou da calumnia para a consciencia do barão; obrigou-o a confessar
+que nunca sua mulher saíra de casa sem elle; fez, finalmente, resolver o
+pestilencial tumor que ameaçava, n'aquella noite, uma supuração
+escandalosa.
+
+Raivando contra si proprio, (cá estamos na cabeça do capitulo) o barão
+de Celorico, não podia transigir com as razões da sogra. Terminado o
+baile, duas ou tres vezes amaxucára a carta na mão convulsa, para a
+lançar ao toucador de Ludovina, que desenfeitava as tranças e o pescoço.
+
+--Que tens, meu amiguinho?--disse ella, que o vira, no espelho, fazendo
+esgares com os beiços--parece-me que está agitado!
+
+«Estou bom, muito obrigado, estou como se quer.
+
+--Que modo é esse de responder?--tornou ella, voltando-se de subito para
+o barão, que passeava, ou antes se rolava de parede a parede com
+achavascada impetuosidade.
+
+«Está bom; deixe-me, que eu não estou bom, e qualquer dia dou um estoiro
+como uma castanha.
+
+--O senhor está disparatando! explique-se.
+
+«Foi o diabo o nosso casamento, sr.ª D. Ludovina.
+
+--Nada de exclamações; clareza e franqueza, meu amigo! Que é isso?
+
+«É os meus peccados; é o que eu lhe tenho dito duzentas vezes, e a
+senhora não quer crer que a sociedade do Porto está corrompida, e quem
+aqui estiver não póde dar boa conta de si.
+
+--Vamos aos factos; applique... diga a que vem isso?
+
+«Ahi tem o que é.
+
+E arremeçou-lhe ao regaço a carta amarfanhada, que parecia uma pela.
+
+A baroneza abriu-a serenamente, amaciou-lhe os vincos, e leu, sem signal
+de inquietar-se.
+
+«Diz-se aqui que eu tenho um amante--disse ella sorrindo--que se
+corresponde comigo. O senhor crê isto? Responda, senhor; crê que eu
+tenho um amante?
+
+--Não, senhora; mas, pelos modos, dizem-no, e a minha honra soffre com
+isso.
+
+«Como soffreria com a verdade do aviso?
+
+--Que é? não entendi.
+
+«Se as suas suspeitas condissessem com este aviso, não soffreria mais?
+
+--Matava-a, sr.ª D. Ludovina, dou-lhe a minha palavra de honrado, que a
+matava, e tiraria os figados pela bôca ao proprio diabo do inferno, e
+tinha alma de metter uma faca no peito para morrer ao pé de si!
+
+Esta rajada sacudiu todas as fibras bambas do barão. Não teve remedio se
+não sentar-se, a resumar camarinhas de suor, impando, e arfando como
+folle de forja.
+
+Ludovina, mais assustada que compadecida, tomou-lhe a mão, e com a outra
+enxugou-lhe a face.
+
+«Soffre porque me não ama, porque me não crê...--disse ella.
+
+--Não faças caso d'isto, não é nada... não é nada--regougou elle.
+
+«Seja superior aos infames que nos invejam, meu amigo. Não lhes dê o
+prazer da vingança. A pessoa que lhe escreve, é um miseravel inferior ao
+meu desprezo.
+
+--Já sei tudo... não falemos n'isso mais. Deite-se, que eu preciso de
+tomar ar.
+
+«Onde vae?
+
+--Vou ao jardim.
+
+«Eu vou comsigo... espere um bocadinho.
+
+--Não venhas cá, deita-te, que está fria a madrugada.
+
+Foi.
+
+Eram tres horas e meia da manhã. As trevas descondensavam-se. A nebrina
+do mar serpenteava por entre as ribas marginaes do Douro. O clarão da
+lua ia-se descórando ao arraiar do crepusculo. Era a hora menos poetica
+das vinte e quatro da rotação d'este planeta, onde ás tres horas e meia
+da manhã, dorme toda a gente que tem juizo, e sabe um pouco de hygiene.
+
+O barão de Celorico não dava fé das bellezas matutinas que o rodeavam.
+Atravessou, sorvendo haustos de ar fresco, o passeio central do seu
+jardim, até parar no muro, que o extremava de outra rua. Esta rua é
+justamente aquella por onde vimos passar Francisco Nunes, raivando
+imprecações garrafaes contra o charuto incombustivel. N'esse muro havia
+uma gradaria de ferro, e portadas interiores. O barão abriu
+machinalmente a janella, e viu approximar-se d'ella um vulto embuçado,
+que lhe disse:
+
+--Cuidei que tinhas adormecido! que demora foi essa?
+
+--O que é?--exclamou o barão atordoado.
+
+O vulto coseu-se com a parede, e, a passo rapido, desappareceu na meia
+escuridão.
+
+Longo tempo, agarrado ás grades, o barão de Celorico, parecia ter
+perdido a memoria, a sensibilidade, o senso intimo. A patrulha, que
+recolhia ao quartel, vendo aquelle immovel espectaculo, através das
+grades, imaginou primeiro seria estatua do jardim; reparando
+attentivamente, ouviu o sussurro da respiração cavernosa, e decidiu que
+estava alli um homem.
+
+--Olá!--disse um soldado.
+
+«Que é?--respondeu o barão, espertando da lethargia.
+
+--É d'ahi d'essa casa?
+
+«Sou o dono d'ella.
+
+--Então perdoará. Fizemos esta pergunta, porque ha de haver cinco dias
+que vimos saír ás quatro horas da manhã um encapotado d'aquella porta
+que alli está abaixo, chamamo'-lo, elle deu á canella, e sumiu-se-nos lá
+em baixo na travessa.
+
+«D'esta porta que está na parede d'este jardim?--exclamou o barão.
+
+--É como diz.
+
+«A que horas?
+
+--A estas horas, pouco mais ou menos.
+
+«Um homem de capote?
+
+--Tal e qual.
+
+«E não viram mais ninguem?
+
+--Parece-me que vi ahi n'essa grade uma figura de mulher, com lenço
+branco na cabeça.
+
+«Obrigado, camaradas, muito obrigado, e boas noites.
+
+O barão arremessou as portadas, e, levando as mãos á cabeça, atirou-se
+com brutal frenesi a um banco de pedra. Ao tempo que cáe em cheio, vê ao
+pé de si um objecto escuro. Apalpa, repara, examina: era o projectil
+fatal do charuto que Francisco Ennes, na vespera, arrojára para dentro.
+
+O barão contempla o charuto na mão convulsa, e desentranha um rugido
+fremente, apertando-a, rábido e sanhudo.
+
+--Eis a prova da minha deshonra!--exclama, e ergue-se vacillante e
+cambaio. Entra em casa, e vê correr um vulto de mulher através de um
+passadiço. Corre impetuoso, e já o não alcança. Tresvariando, grita que
+ha ladroes em casa. Affluem os creados, buscam e rebuscam todos os
+cantos inutilmente. Ludovina e sua mãe acodem espavoridas, e encontram o
+barão, debatendo-se nos braços de dois creados, com um ataque de nervos.
+Ministram-lhe soccorros, conduzem-n'o á cama, querem vêr o que elle
+fecha na mão direita, e podem apenas lobrigar a ponta queimada de um
+charuto. Ludovina inquire com meiguice e pena o que é aquillo, e o
+desgraçado, maior e mais eloquente na sua angustia, responde:
+
+«É a nossa morte!
+
+Instam na explicação das respostas, e elle troveja:
+
+--Não quero aqui ninguem!
+
+Pasmam; e retiram-se, atemorisados.
+
+«Estará elle doudo, meu pae?--dizia a baroneza, tremula de medo,
+apoiando-se nos braços do espavorido Melchior.
+
+--Parece que sim, minha filha. Chamem-se medicos já. Este homem deve ter
+demasiado sangue. É ameaça de doudice, não póde ser outra cousa.
+«Que sorte a minha!--disse Ludovina lagrimosa. E foi para o pé do leito
+de seu marido.
+
+ * * * * *
+
+--Se se verificar a demencia--dizia Melchior a D. Angelica, de modo que
+só todos nós pudemos ouvir--a administração da casa passa immediatamente
+para Ludovina, e Rilhafolles com elle. Este homem saíu muito outro do
+que eu imaginava. Ainda me não disse que deixasse o logar da alfandega,
+nem me offereceu um emprestimo com que eu possa tentar demanda contra os
+possuidores da minha casa. Tenho remorsos de ter dado a este alarve uma
+creatura tão perfeita como a nossa Ludovina!
+
+D. Angelica não respondeu.
+
+«Ainda te doe a cabeça, Angelica?
+
+--Bastante.
+
+«Já estavas a dormir, quando o barão gritou?
+
+--Dormitava.
+
+«Mas eu fui ao teu quarto, e já te não encontrei lá!
+
+--Tinha corrido sobresaltada.
+
+«Então pelo que eu vejo tinhas-te deitado vestida...
+
+--É verdade, nem forças tive para desapertar os colchetes.
+
+«Porque me não chamaste, filha?
+
+--Não quiz incommodar-te.
+
+«Ora essa!...
+
+--Até logo, filho, vou ver se descanço um instante
+
+«Vae, vae, menina.
+
+..........................................................................
+..........................................................................
+..........................................................................
+
+Ha reticencias que não dizem nada.
+
+A litteratura merceeira, para justificar o adjectivo, inventou as
+carreiras de reticencias, as quaes correspondem aos pesos roubados da
+mercearia.
+
+Eu abri loja, e vou com os outros.
+
+Não me entrem, pois, a desconfiar que os pontinhos juntos fazem borrão
+n'este painel de bons costumes.
+
+A sr.ª D. Angelica é excellente mãe, no meu conceito; e, no conceito do
+sr. Melchior Pimenta, é excellente esposa.
+
+Póde morrer, que o necrologio já não coxeia.
+
+
+
+
+IX
+
+
+Não averiguei miudamente o que disse Ludovina a seu marido. Um dos dois
+medicos chamados ás sete horas da manhã para examinarem a supposta
+demencia, a pedido do Melchior Pimenta, disse-me que encontrára o barão
+febricitante, mas sem o menor suspeito symptoma de loucura. Accrescentou
+que o enfermo lhes dissera, que bebessem elles a tizana que receitaram;
+e lhes mandára pagar a visita, com recommendação de o darem por curado.
+
+Ás nove horas já o barão tinha sahido, sem dizer a Ludovina o seu
+destino, nem acceitar o almoço.
+
+Saíra pela porta principal, e entrára na rua para onde olhava a janella
+do jardim. Em frente d'essa janella, na margem esquerda da rua, estava
+com escriptos uma casa terrea. O barão perguntou, na vizinhança, quem
+era o proprietario da casinha, encontrou-o perto, alugou, pagou a casa,
+e recebeu a chave.
+
+D'alli foi ao largo de S. Bento. Entrou n'uma loja de ferragem, e
+comprou uma clavina trochada, e um par de pistolas de coldres; e,
+n'outra parte, as munições de fogo.
+
+Tornou a casa ao meio dia, pediu o almoço, e comeu á tripa fôrra. A
+baroneza, e D. Angelica assistiram ao almoço, e não conseguiram
+arrancar-lhe tres palavras. Quem o servia era o negro, que o acompanhára
+do Rio, e o adorava com o fervor nativo da sua raça. O barão chamou-o no
+fim do almoço, e disse em segredo:
+
+«Esta chave é d'aquella casa baixa que tem o numero doze, defronte da
+janella do jardim. Vae á loja de ferragem no largo de S. Bento, com este
+bilhete. Hão-de entregar-te umas armas, e um embrulho. Pega em tudo
+isso, de modo que ninguem cá de casa te veja, fecha-o no tal casebre, e
+entrega-me a chave depois.
+
+O barão foi passear no jardim, e recolheu o seu espirito em meditabundas
+reflexões.
+
+Poucos dias antes, tinha elle ouvido uma historia que toda a gente sabe.
+Era aquelle conto de uma mulher adultera, que o marido inexoravel matára
+sem pau nem pedra, pondo-lhe diante dos olhos uma moeda de prata ao
+almoço, ao jantar, á cêa, a toda a hora, em todas as situações, até que
+a matou. Esta historia entalhára-se na memoria do barão com indeleveis
+traços. Contou-a a sua sogra, que a classificou de indecente para se
+dizer a senhoras. Contou-a a sua mulher, que não desculpou a victima,
+mas reprovou a fereza do verdugo. João José Dias fez a apologia do
+verdugo, e disse que «a honra de um homem só assim se vingava.» Ludovina
+fitou-o com espanto, e acreditou que o ciume seria capaz de
+desenvolver os instinctos ferozes de seu marido.
+
+Era aquella historia o ponto convergente das meditações que o
+reconcentraram, por espaço de tres horas. D'esta longa e dolorosa
+encubação do pensamento deve-se esperar um parto, um monstro, uma
+façanha, mais ou menos plagiaria, da medonha expiação da adultera.
+
+Chamaram-n'o para jantar: disse que jantaria em mesa á parte com sua
+mulher. Desceu ao jardim a baroneza, e perguntou-lhe a causa de tal
+exquisitice.
+
+--Não dou satisfações--respondeu--Quero jantar, e almoçar sósinho comsigo.
+
+--Isso é o mesmo que...
+
+--Não me replique! tenho dito.
+
+Fazia medo a cara do homem. Esverdinharam-se os refegos da papeira; as
+ventas fumegavam soluçando; testa e palpebras, tinham o escarlate da
+penca do perú assanhado.
+
+Ludovina estava atterrada, e julgou-se em risco, ali, sósinha. Recuára
+para se evadir com dignidade, honrando a retirada, quando o barão lhe
+disse:
+
+--Olhe, senhora!
+
+A baroneza voltou-se, e viu o braço do barão erguido em attitude
+prophetica; e lá em cima no cucuruto da mão cebácea... o CHARUTO!...
+
+--Que é isso?!--perguntou ella com mais curiosidade que espanto.
+
+--Não sabe o que isto é? chegue-se cá!
+
+Ludovina, indo receosa, disse:
+
+--É um charuto... pois não é?!
+
+--É um charuto! é um charuto! mulher traidora!--ululou o bordalengo com
+a grenha irriçada.
+
+Ludovina recuou tres passos, tolhida de medo. O barão crescia sobre
+ella, com o braço no ar, arvorando o charuto. A pobre menina temeu as
+furias de um doudo, e chamou com afflictivo grito a mãe.
+
+Acudiu D. Angelica, já quando o barão, mettendo as mãos nas portinholas
+da japona, á laia de idolo chinez, voltava as costas a sua mulher.
+
+--Isto que é?!--exclamou D. Angelica.
+
+--Está doudo rematado, minha mãe!--disse, a meia voz, a baroneza.
+
+--Vae-se chamar teu pae, que chegou agora. Nós não podemos viver com um
+demente...
+
+--Janta-se, ou não se janta?--disse o barão, caminhando para ellas com
+socegado semblante.
+
+--Que desordem foi esta, sr. barão?
+
+--Desordem! ora essa é fresca! Aqui, que eu saiba, não houve desordem
+nenhuma... Foi sua filha que viu uma cousa que a fez gritar... A culpa é
+d'ella.
+
+--Que viste, Ludovina?
+
+--Eu vi um charuto na mão d'este senhor; mas gritei porque elle me deu
+berros medonhos, e correu para mim com ares ameaçadores.
+
+--Deixe-a falar, sr.ª D. Angelica--replicou o barão, sorrindo de um modo
+que confirmava a demencia--A cousa é outra... Vamos jantar, e, se minha
+mulher tem medo de mim, jantaremos todos juntos á mesma mesa.
+
+Melchior Pimenta, informado da desordem, foi ao encontro do grupo que
+entrava em casa. D. Angelica, com um só dedo, fez-lhe dois gestos: um ao
+longo do nariz, para que se calasse, outro no centro da testa, para que
+as protegesse de um doudo furioso.
+
+Sentaram-se á mesa, espionando os menores movimentos do barão. Viram-no
+tirar a mão da algibeira, extender o braço por sobre a mesa, e deixar
+caír, ao pé do prato da baroneza o charuto.
+
+Ludovina lançou-o ao chão com a faca, dizendo:
+
+--Olhem que porcaria!--E voltando-se para o creado que servia a sôpa:
+
+--Atire isto lá fóra!
+
+--Não atires!--bradou o barão.
+
+--Porque não ha de atirar?!--Disse Melchior Pimenta.
+
+--Porque não quero! e porque sou dono d'esta casa! e porque quero
+despicar a minha honra!... e porque vae tudo com mil diabos, ouviu?
+
+Os talheres, os calices, as bandejas, e os pratos, resaltaram duas
+pollegadas acima da superficie: tamanho fôra o murro que o barão baixára
+sobre a mesa.
+
+Ergueram-se todos. D. Ludovina fugiu por uma porta; D. Angelica por
+outra; Melchior Pimenta, enfiado, amarello, sem gota de sangue,
+antevendo um violento embate na sua cara com a terrina, seguiu a mulher,
+colorindo a retirada com a prudencia.
+
+O barão embolsou o charuto, chamou o preto, e disse-lhe:
+
+--Senta-te ahi, Simão; janta ao pé de mim, que és o unico amigo que eu
+tenho.
+
+Ha, n'este lance, motivo para nos condoermos.
+
+O barão não come, apesar do esforço. O bocado entala-se-lhe na garganta,
+comprimida pelos soluços. Depõe o garfo, e descáe o rosto, coberto de
+lagrimas, sobre as mãos. O preto, que não ousára sentar-se, vendo chorar
+o amo, cujo pão comera em liberdade, no espaço de vinte annos, chora
+tambem, e pergunta a medo a causa d'aquella afflicção. Responde-lhe em
+gemidos o bemfeitor, e ergue-se extenuado, e vacillante, como se os
+sentidos o desamparassem. O preto quer conduzi-lo ao quarto; mas o
+barão, um momento indeciso, pede o chapéo e sae.
+
+As angustias d'este homem condemnam Ludovina?
+
+Não. Ludovina é innocente como os anjos.
+
+A peçonha mortal, que espedaça o coração d'este homem, tem-na elle na
+algibeira: é o charuto de Francisco Nunes.
+
+
+
+
+X
+
+
+É meia noite e um quarto no relogio da Lapa.
+
+A casta lua dá a sua luz poetica a muitas impudicicias, e tolera o
+escandalo resignada. Casta lhe chamam os poetas, e é bem posto o
+epitheto. Só ella seria capaz de manter-se pura com tantos exemplos de
+corrupção. De mim creio que a tem salvado a distancia que a separa dos
+bardos que a namoram; e, se não é a distancia, é a impertinencia das
+cartas rimadas que lhe mandam. Muitas mulheres, menos castas que a lua,
+teem sido salvas pelo mesmo theor. Os poetas, que amam em verso, são uns
+puros desinfectantes da putrida impureza. Se todos fizessemos versos, e
+nos amassemos em oitava rima, eu lhes asseguro que este globo era um
+viveiro de anjos. A theoria de Hobbes seria uma calumnia, e a de Maltus
+um absurdo. Não andariamos travados em permanente lucta, nem a
+exuberancia da propagação assustaria os economistas. Havia só o risco de
+nos matar a fome; mas cada cysne teria um canto derradeiro com que
+esforçar a guerra á prosa que inventou os cereaes, o boi cozido, as
+acções do banco e a troca de um romance por quinhentos réis.
+
+Isto occorreu naturalmente da castidade da lua.
+
+Era, pois, meia noite e um quarto no relogio da Lapa, e fazia luar como
+de dia.
+
+Ás dez horas e meia, tinha entrado para a casa numero 12, da rua *** um
+vulto sinistramente rebuçado: era o barão de Celorico de Basto. A casa
+tinha uma janella tosca de madeira, que se abriu cousa de meio palmo,
+depois que o encapotado entrou. De vez em quando, um raio da luz, caíndo
+sobre a fresta das duas portadas, resvalava no nariz do barão, dando-lhe
+o colorido de uma cidra avelada.
+
+Soára o quarto depois da meia noite, quando a janella interior da grade
+do jardim se abriu cautelosamente.
+
+Um objecto branco sobresaía na sombra: devia ser o lenço de uma mulher.
+
+Cinco minutos, depois, n'uma extrema da rua appareceu um vulto
+encapotado, que fumava, caminhando cosido com o muro do jardim. A figura
+da janella desappareceu, e em seguida ouviu-se o ranger subtil da
+lingueta de uma chave. Era a porta do jardim que se abria ao
+avizinhar-se o vulto.
+
+A distancia de tres passos da porta, o homem que fumava ouviu o ruido de
+uma janella que se abria, e parou, voltando-se para a janella. O que
+elle viu foi o lampejo da detonação de um tiro, e levou a mão ao hombro
+esquerdo. Seguiu-se um pulo incrivel do barão fóra da janella, a fuga
+precipitada do vulto, e um segundo tiro, que redobrou a força
+motriz do fugitivo.
+
+Apitára uma patrulha ao cabo da rua, duas, tres, vinte patrulhas
+apitaram. A cem passos de distancia do local dos tiros, encontraram um
+homem extendido na rua, e disseram em voz alta, que o barão
+ouvira:--parece que está morto.
+
+O barão, sem apressar o passo, entrou na porta do muro, e deu volta á
+chave. Olhou ao longo do jardim, e viu, por entre as sombras dos
+arbustos, contiguos á casa, perpassar um vulto, e sumir-se.
+
+Abriu-se outra vez a janella da grade, ao tempo que as janellas das
+casinhas fronteiras se abriam. Alguns soldados perguntavam onde se deram
+os tiros. Respondiam unanimemente que foram dados alli, e mostrava-se
+uma bucha ainda fumegando, no meio da rua.
+
+--Quem está ahi n'essa janella?--bradou um soldado ao barão, que
+estivera calado.
+
+--Sou eu, sou o dono d'esta casa.
+
+--E quem é o senhor?
+
+--É o senhor barão--responderam os vizinhos.--Não, d'alli de certo não foi.
+
+--Os tiros?--perguntou o barão.
+
+--Sim, senhor, dois tiros que se deram aqui agora.
+
+--Eu tambem, os ouvi, e por isso cá vim. Mataram alguem, ou foi patuscada?
+
+--Não foi má a patuscada! Está alli adiante um sujeito extendido nas
+pedras, e, se não está morto, pouco lhe falta.
+
+--Quem é? conhecem?
+
+--Estão lá dois camaradas que o conhecem. Dizem que é um doutor de uma
+casa rica, chamado... lembras-te, 38?
+
+--Acho que elle disse... Almeida.
+
+--É isso, Almeida. O sr. barão conhece-o?
+
+--Não me lembro d'esse nome. Elle ainda lá está? Eu vou lá ver se o
+conheço...
+
+O barão seguiu a patrulha, até parar n'um grupo de soldados e paizanos,
+que rodeavam uma cadeira, onde estava assentado o ferido. Era coragem de
+cynico, ou desatino de demente? Mais que tudo isso: era o ciume!
+
+--Eu conheço este sujeito--disse o barão com admiravel placidez.--E elle
+tambem me ha de conhecer, se estiver vivo. Olé, sr. doutor! Está aqui o
+barão de Celorico, conhece-me?
+
+O ferido abriu a custo os olhos, e fez um aceno affirmativo,
+
+--Eu offerecia-lhe a minha casa, mas a d'elle é perto d'aqui, acho eu.
+
+--Nós sabemos--disseram os soldados.
+
+--Pobre homem!--proseguiu o barão em tom compadecido.--Ainda a noite
+passada elle esteve n'um baile que eu dei...
+
+Agglomeravam-se na rua os curiosos, quando o barão entrou em casa. Não
+ouviu o mais leve rumor. Entrou no quarto de sua mulher, e viu-a dormindo.
+
+Parou ao pé do leito, e vascolejou nas mandibulas, alvares uma
+gargalhada estrondosa. A baroneza acordou, sentou-se no leito
+estremunhada sem saber o que ouvira, nem o que via.
+
+O barão tirou da algibeira o charuto, chegou-lh'o ao pé dos olhos, e
+bradou:
+
+--O tal patife não fuma outro.
+
+--Que diz?--exclamou Ludovina.
+
+--Faz-te de novas, mulher perdida! resa-lhe por alma, que a minha honra
+está vingada. Agora que digam o que quizerem.
+
+E saíu do quarto, deixando apavorada a pobre senhora, que o julgou n'um
+terceiro ataque de loucura.
+
+Ludovina vestiu-se apressadamente, e correu ao quarto da mãe.
+
+Encontrou-a vestida, prostrada sobre o tapete do guarda cama, com a face
+caída sobre os degraus do leito. Ajoelhou ao pé d'ella, chamou-a,
+ergueu-a, agitou-a com a força da afflicção, e caíu com ella sobre a cama.
+
+D. Angelica abriu os olhos pavidos, e vendo a filha, escondeu a face nas
+mãos, exclamando:
+
+--Jesus, meu Deus!
+
+--Que teve, mãesinha, isto que foi
+
+--Nada, infeliz; foi um accidente...
+
+--Por causa dos meus desgostos? ouviu o que aquelle homem me disse?
+
+--Não, minha pobre martyr... imagino o que te diria... Oh... deixa-me
+ver se consigo chorar, senão estalo... mas não chores tu, filha, não
+quero que nos ouçam... É preciso que eu te salve, antes que a morte me
+leve com o encargo da tua reputação infamada...
+
+--Eu não a entendo, minha mãe!
+
+--Não pódes entender-me, Ludovina, não pódes... ai! deixa-me respirar,
+que eu não vivo uma hora assim...
+
+A baroneza amparou a mãe até á janella, que abriu. D. Angelica rasgava
+com as mãos os espartilhos compressores do collete, e fincava entre os
+cabellos os dedos com vertiginoso desespero. N'este frenesi, susteve-se,
+comprimindo a respiração, para escutar as vozes que vinham da rua
+contigua ao muro do jardim.
+
+Uma dizia:
+
+--Ia morto.
+
+Outra:
+
+--A bala entrou-lhe no peito.
+
+Outra:
+
+--Pobre familia, que bocado tão amargo!
+
+--Aquillo que é?--perguntou D. Angelica espavorida.
+
+--Eu não sei, mãe!
+
+--Esse malvado que te disse?
+
+--Chamou-me mulher perdida; mostrou-me o charuto, dizendo que o patife
+não fumava outro; e que lhe resasse por alma...
+
+D. Angelica expediu um grito, um ai vibrante, de uns que o seio
+arremessa de si, como se n'esse esforço expellisse um espinho arrancado
+ao coração.
+
+Ao grito de Angelica succedeu o terror confuso de Ludovina.
+
+N'este intervallo de silencio a lastimavel mãe concebeu um designio
+atroz. Deu um salto para precipitar-se da janella, e achou-se travada
+nos braços da filha, que pedia soccorro, a altos brados, repuxando-a
+para o interior do quarto, com a força miraculosa da angustia.
+
+Ouviram-se passos no corredor. Ludovina exclamou:
+
+--Entre quem é.
+
+Abriu-se a porta, e surgiu o barão.
+
+D. Angelica lançou-lhe um olhar torvo, e fulminante; fugiu, de um
+repellão, aos braços da filha; correu para elle com a sanha de uma
+possessa, e atirou-o fóra do quarto com o choque dos punhos furiosos,
+exclamando:
+
+«Assassino! assassino!
+
+Ninguem me soube dizer a qual genero do sublime truanesco pertencia,
+n'este conflicto, o barão de Celorico. Eu tambem me não cancei em
+averiguações, porque o resultado d'ellas seria sujar com salmouras
+despicientes um quadro de angustias, que não é novo na vida, mas
+afouto-me a dize'-lo que é novo no romance. Melchior Pimenta não
+apparecia, sendo o seu quarto paredes meias com o de sua mulher.
+Deliciava-se nas profundezas de um somno do qual só podia emergir,
+quando a ultima molecula de tres grãos de morphina se perdesse através
+dos philtros nervosos. O dormir do somnolento empregado da alfandega
+explica-se com as vigilias aturadas de D. Angelica. Vá sem reticencias.
+
+Para nós é mais comprehensivel o espanto da baroneza do que estava sendo
+para ella o desespero de sua mãe. Se a pobre senhora suspeitasse que a
+demencia do marido era contagiosa; tinha desculpa. Tamanha
+afflição, descompostura tal de contorsões, de gemidos, de
+arremessos para a janella, chamando a morte, não podia ser procedente do
+amor maternal exaltado até á ira da leôa.
+
+Ludovina ajuizava assim; mas não atinava com a razão possivel de
+effeitos tão extraordinarios no caracter inalteravel, e quasi duro de
+sua mãe.
+
+Instava, supplicando-lhe o desafogo da sua agonia. D. Angelica
+apertava-a contra o seio com arrebatada e insolita ternura. Promettia
+dizer-lhe tudo, quando pudesse falar, na certeza de que a sua ultima
+palavra fosse um adeus a este mundo, e uma confissão de que dependia o
+credito de sua filha.
+
+Foi um raio de luz para Ludovina estas palavras, cortadas por gemidos;
+esse raio de luz, porém, queimou-lhe o coração. Se Angelica reparasse na
+pallidez da filha, demasiado castigo seria da sua falta essa mudança. A
+parte da sua dôr, que até alli fôra remorso, seria depois vergonha, e
+vergonha de sua filha, tortura mil vezes mais pungente que a mordedura
+do remorso para a que soube ser mãe, e affrontou os deveres de esposa.
+
+A baroneza mudou de semblante e de carinho, sentiu-se gelada e inerte ao
+pé da mãe, logo que meia luz do enygma lhe aclarou o entendimento.
+
+«A mãe precisa descançar--disse ella com affectado gesto de
+carinho--Deite-se, que eu ajudo-a a despir-se, e ficarei ao pé da sua cama.
+
+--Não, filha; eu não tenho descanço n'este mundo, nem no outro. Se ainda
+tenho algum direito á tua obediencia, deixa-me só; preciso de
+chorar lagrimas que nunca Deus permitta o teu coração as chore. Não
+pódes respeitar esta agonia, porque não a comprehendes, innocente
+martyr. Se soubesses... poderias abominar-me agora, para te compadeceres
+depois.
+
+«Sei, mãe.
+
+--Que sabes tu, Ludovina?! exclamou Angelica, abraçando-a convulsivamente.
+
+«O meu silencio responde-lhe, mãe... Não soffra pela minha deshonra.
+Deus sabe tudo; não me importa o mundo; a Providencia fará vêr a verdade
+a meu marido, sem que o nome de minha mãe seja sacrificado. Cale-se, por
+quem é. Não diga nada ao barão, e poupe meu pae. Eu sinto-me com forças
+para não vergar a um peso de infamação que me não cáe sobre a
+consciencia. Se o meu amor a póde consolar, não diga o seu segredo a
+ninguem; não diga porque eu não sei qual dos dois descreditos é mais
+afflictivo para mim...
+
+D. Angelica resvalou dos braços da filha, querendo ajoelhar-se-lhe aos pés.
+
+Ludovina ajoelhou com ella, e n'este momento abriu-se a porta.
+
+Era o barão de Celorico.
+
+--Ouvi tudo--exclamou elle--Perdôa-me, Ludovina, pelas cinco chagas de
+Christo. E foge d'essa mulher, que é a causa de eu ser um matador.
+
+--Tem razão; vae, minha filha--disse D. Angelica, afastando-a de si.
+
+--Sr. barão--disse Ludovina--eu não deixo uma mãe culpada para
+seguir um assassino. Saia da minha presença, que o detesto. Apenas
+romper a manhã, deixo esta casa, deixo-lh'a para que o senhor caiba
+n'ella com o seu remorso. Matou um homem, sr. barão, um homem que não
+conhecia; matou-o a sangue frio, e será capaz de praticar uma crueldade
+menor matando-me a mim.
+
+D. Angelica arrancou-se aos braços da filha com furioso impeto, e
+postou-se terrivel diante do barão, exclamando com uma toada de voz
+soturna e tremula:
+
+--Com que direito assassinou um homem, scelerado, carniceiro?
+
+O barão tremeu, recuou, e pendeu o queixo inferior relaxado pelo espasmo.
+
+--Responda á amante do homem que matou; á mulher que acceita
+voluntariamente a infamia da sua culpa, para ter o direito de pedir
+contas ao assassino de Antonio d'Almeida. Querias, com essas mãos tintas
+de sangue, tocar em minha filha, miseravel algoz, que és tão estupido
+como sanguinario!
+
+Ludovina, cingindo a cintura da mãe, arrastou-a para longe do barão, que
+parecia, ao passo que ella falava, ir-se petrificando.
+
+A vehemencia da ira decaíu subitamente em syncope. D. Angelica encostou
+a face desfallecida ao seio da filha, que a levantou nos braços, e
+deitou no leito.
+
+E voltando-se para o miserando homem, cujo rosto confrangido accusava os
+pungimentos do remorso, a baroneza, em tom de cólera mal reprimida, disse:
+
+--O senhor não ha de ser mais feliz que as pessoas a quem deu a
+morte, e a eterna vida de lagrimas. Pediu-me perdão? eu já lhe havia
+perdoado as suspeitas, as desconfianças, os insultos, as vergonhas a que
+hontem me expoz na presença dos seus creados. Tudo lhe perdoei, em
+quanto o suppuz demente; hoje, que o considero um criminoso de morte, e
+que não tenho quem me defenda das suas mãos póde matar-me, que o não
+chamarei á presença de Deus para ser julgado.
+
+--Ludovina--balbuciou o barão, com o rosto coberto de lagrimas--eu matei
+esse homem cuidando que era elle o teu amante...
+
+--Era a mim que devia matar-me, senhor.
+
+--Não podia ainda que quizesse, porque a minha tenção era matar-me e
+deixar-te viva, para que tu ao menos te lembrasses de mim com pena,
+quando já me não visses n'este mundo. Esse homem ainda não morreu,
+Ludovina; póde ser que se cure, e eu vou-me ajoelhar aos pés d'elle a
+pedir-lhe perdão, e, se tu quizeres, pedirei tambem perdão a tua mãe.
+
+--Não fale n'essa infeliz a ninguem, snr. Dias, a ninguem. Aqui a
+deshonrada sou eu. Se o descobrirem como assassino de Antonio de
+Almeida, diga, se quer que eu o não amaldiçôe, diga que esse homem era o
+meu amante; mas não fale em minha pobre mãe...
+
+«Que dizes tu, Ludovina? Pois tu queres que se diga que eu fui
+deshonrado por ti?
+
+--Deshonrado está o senhor, desde já, desde que matou, ou quiz matar por
+uma suspeita um vulto desconhecido...
+
+«Elle vinha entrando para o jardim, Ludovina, e tua mãe estava na
+janella...
+
+--Cale-se! isso é mentira! minha mãe estava deitada na sua cama...
+
+«Não estava, Ludovina...
+
+--Estava, snr. Dias; não me contradiga, que eu juro contra as suas
+palavras em toda a parte.
+
+«Então quem estava na janella, senão tua mãe?
+
+--Era eu; já lhe disse que a deshonrada sou eu; esse homem que matou era
+o meu amante; sabe-o todo o mundo; sabia-o o senhor quando o matou; sou
+eu a causa de meu amante ser um cadaver, e meu marido um assassino. Sou,
+portanto, uma infame mulher que deve saír debaixo d'estas telhas.
+Ámanhã, ámanhã ha de fazer-se uma separação eterna entre nós. A sua
+honra fica assim completamente desaffrontada. Todos dirão que meu marido
+me expulsou com a ponta do pé de sua casa. Todos hão de admirar os brios
+do snr. barão que matou o rival, e não desceu á cobardia de matar uma
+mulher... Esta resolução é inalteravel; acabou-se tudo entre nós, menos
+a vergonha, a infamia, o escandalo que vae fazer dos nossos nomes um
+espectaculo para a irrisão de uns, e para a piedade de outros. Eis aqui
+a sua obra; a mim, como sua mulher, compete-me acceitar metade da
+responsabilidade...
+
+D. Angelica sentou-se no leito, afastou, como em delirio, os cabellos
+que lhe cobriam as faces, e pediu uma gota d'agua, com supplicante
+instancia, proferindo os nomes das creadas da casa. Ludovina
+ministrava-lhe a agua, que ella repelliu com ira. Permaneceu
+estarrecida alguns segundos, com os joelhos a prumo entre as mãos;
+depois, caíu de chofre sobre o travesseiro, e murmurou longo tempo
+palavras inintelligiveis.
+
+O barão tinha saído imperceptivel. D. Ludovina debruçou-se, debulhada em
+lagrimas, sobre o leito.
+
+Melchior Pimenta, no quarto immediato, espreguiçando-se fazia com os
+abrimentos de boca uma toada em falsete, rispida como o uivar do mastim.
+
+Abençoados quatro grãos de morphina que lhe povoastes o somno de
+deleitosas visões!
+
+Melchior Pimenta, eu, quando quero phantasiar um marido bemaventurado,
+lembras-me tu.
+
+Se vejo algum, desconcertado como as velleidades da metade que se
+despega, para entrar como excrescencia no complemento de outras
+existencias, que se reputam inteiras, dá-me vontade de lhes perguntar se
+já experimentaram a morphina.
+
+Eu tenho visto a suprema felicidade dos minotauros.
+
+Havia dois que espiritavam a galhofa de Melchior Pimenta; um, que
+repudiando, timbroso e austero, a esposa tentada pela cobra d'este
+paraizo terreal, onde as cobras inçam como em matagal bravio, recebe uma
+carta de dama d'alta estirpe, onde se lhe censura o burguez despique de
+peccadilho tão corrente em gente fina. O marido acceitára a correcção e
+a mulher incorrigivel. Melchior ria até caír.
+
+Outro, amante da paz caseira e fricassés acirrantes, conhece no aspecto
+carrancudo da mulher, e no aguado dos molhos, os desvios do amante:
+inventa pretextos para aproxima'-los e ameiga os arrufos com um jantar
+campestre.
+
+Outro... Melchior conhecia outro, e eu conheço-o a elle, e mais dez
+exemplares que Brantome não archivou,[4] todos aporfiando em
+delicias sublunares.
+
+Mas o ditosissimo, o que vive e morre sem sentir na consciencia o toque
+despertador, o _momento_ da predestinação cumprida, esse é um só no meu
+catalogo.
+
+Melchior Pimenta, se quizeres um dia erigir estatuas aos deuses
+tutelares da tua prosperidade, lembra-te de Ludwig que farejou no opio a
+morphina; de Seguin que a descreveu; e de Sertuerner que aperfeiçoou o
+processo da extracção.
+
+Sem a morphina, não serias mais feliz que Octavio, que Cicero, que
+Domiciano, e tantos grandes e sabios do paganismo que podem, sem
+vergonha, apparecer diante de outros não menos sabios, e grandes
+senhores da christandade.
+
+Nasceste n'um folle, Melchior Pimenta!
+
+ [4] Veja _Vies des dames galantes_, por le Seigneur _de
+ Brantome--Discours premier_.
+
+
+
+
+XI
+
+
+Mulheres são os melhores juizes de mulheres.
+
+Disseram philosophos e moralistas, uns, grandes santos como S. Paulo, e
+outros, grandes atheus como Voltaire, que a mulher é um ser exuberante
+de sensibilidade, e apoucado de raciocinio.
+
+D'ahi vem o denegarem-lhes accesso ás sciencias abstractas, ás
+politicas, aos parlamentos, ao magisterio, ás regiões intellectivas do
+machinismo social, e mandarem-nas cuidar dos filhos, e fiar na roca.
+
+Se o absurdo vinga, se, por alvitre grosseiro do mais forte, a mulher é
+um ente inepto para exercitar a razão, com que direito as julgamos e
+sentenciamos, segundo a razão, sendo as suas culpas demasias de sentimento?
+
+A injustiça é flagrante e odiosa.
+
+Privam-nas de razão para as excluirem das funcções que a requerem;
+sentenceiam-nas pela razão, se o sentimento, seu dom essencial, as
+desvia do piso demarcado por ella.
+
+Isto é uma tyrannia, uma inquisição, uma crueza turca.
+
+A mulher não pode ser julgada por nós. Somos os senhores feudaes da
+razão. A nossa alçada respira a prepotencia do baraço e cutello. Estamos
+em insurreição permanente contra o santissimo apostolado de Jesus, que
+baixou seu divino braço por igual sobre o homem e mulher.
+
+Não podemos superintender no fôro do coração, porque a nossa
+jurisprudencia é toda de cabeça, e o nosso codigo em pleitos da alma é
+estupido ou hypocrita.
+
+Quem é o juiz da mulher? O homem que a despenha do abysmo, onde a lançou
+o amor, ao abysmo do opprobrio.
+
+É o homem, que lhe entalha o ferrete da ignominia na face onde imprimira
+o beijo da perdição.
+
+O altar onde se adora uma mulher é ao mesmo tempo a ara onde ella se dá
+em holocausto. Peccadora por muito sentir e chorar, amar e crer, quando
+nos abre céos e céos de alegria e gloria, abrimos-lhe nós o inferno dos
+desenganos, e o supplicio extremo do descredito. O mundo não as exila,
+mas affronta-as; o coração não as encrimina, mas agonisa na horrivel
+soledade para onde a razão o desterra.
+
+E somos nós os juizes, porque entramos n'uma herança usurpada pela força
+primeiro, e legalisada depois pelo sophisma escripto.
+
+A mulher foi escrava do braço, antes de o ser da superioridade moral.
+
+Quando o homem chamou a sciencia a dar um testemunho falso da sua
+primazia, a mulher, quebrantada pela escravidão do braço, não pôde
+remir-se com as forças do espirito.
+
+Ainda assim, o tyranno, receoso da emancipação, fez em redor da escrava
+as trevas da ignorancia, para que a razão da mulher não pudesse conceber
+da luz o germen que a rehabilitasse.
+
+Pegou de formosa flor, cercou-a de estevas, cobriu-a de sombras por onde
+o sol não podia coar uma restea reanimadora.
+
+Esta machinação arteira sobreviveu a todas as borrascas sociaes. Os
+fautores, e ainda os martyres da egualdade perante Deus e perante a lei,
+nunca proferiram uma palavra, nem verteram gotta de sangue para o
+resgate moral da mulher.
+
+O Filho de Maria disse que a mulher era egual ao homem, e levou para o
+céo o segredo da sua emancipação.
+
+Ficamos nós cá, os açambarcadores do entendimento escrevendo livros, que
+sacrilegamente denominamos de moral derivada do Evangelho, e n'elles
+demarcamos a profunda raia que extrema RAZÃO de SENTIMENTO. A razão para
+nós, o sentimento para ellas. Se, todavia, o sentimento claudica nos
+preceitos da razão pautada e insoffrida, condemnamos a mulher pela culpa
+de se deixar perder na escuridade, á mingua de uma lampada que lhe
+negáramos.
+
+..........................................................................
+
+Não sei se rasgue estas cinco paginas do manuscripto. Se alguem me
+assegura que entre vinte mil leitoras (orça por isto o numero das
+senhoras que compram livros em Portugal) se me asseguram que entre as
+vinte mil ha duas que me entenderam a parlenda, e me ficam desejando
+muita saude e graça para servir a Deus, não rasgo as paginas, embora os
+homens me mandem, em portuguezissima phrase, bugiar.
+
+Quando comecei o capitulo, tinha de olho dizer, á quarta linha, que,
+ácerca de culpas de mulheres, já mais consulto homens.
+
+Mulheres são os melhores juizes de mulheres.
+
+A respeito de D. Angelica, consultei uma sua amiga de infancia, tão
+virtuosa como indulgente; mas virtuosa--não me afiram lá a palavra pelo
+elucidario caseiro--virtuosa amando muito e com muito despego de pecos
+empecilhos, atravancados pela impostura.
+
+Disse-me ella o seguinte:
+
+«D. Angelica é das poucas mulheres que podem fazer do seu crime um
+titulo ao respeito das mulheres que sentem o coração pela dôr.
+
+--Ao respeito!--atalhei eu, com fumos de juiz, vicio do sexo ingrato,
+onde por desventura me encontro.
+
+«Sim, ao respeito, porque D. Angelica amando vinte annos um homem,
+juro-lhe que não teve uma hora de consciencia quieta, nem intrepidez
+para sacrificar o coração ao repouso da consciencia.
+
+--Vinte annos! pois era amor de vinte annos o do tal Almeida que o barão
+de Celorico arcobuzou?
+
+«Mais seria, talvez. Angelica era filha segunda de um fidalgo pobre do
+Minho. Foi educada comigo, no Porto, no recolhimento de S. Lazaro.
+Passava as festas do anno em casa de um doutor, que tinha filhas, e um
+filho que se formava n'esse tempo. Esse filho era o Antonio de Almeida,
+que o senhor conhece, e D. Angelica amou desde os quinze annos, com o
+amor immenso das sympathias contrariadas.
+
+O doutor descobriu a affeição do filho, e impoz-lhe um violento termo,
+prohibindo-o de vir ao Porto nos dois ultimos annos da formatura.
+
+As cartas de Antonio de Almeida recebia-as eu, e Angelica relia-as, ao
+cabo de dois annos de ausencia, com paixão cada vez mais entranhada.
+
+O fidalgo pobre resolveu casar a filha com um rapaz que se dizia rico.
+Melchior Pimenta era filho bastardo de um conego opulento, e litigava a
+herança paterna, com a certeza do vencimento.
+
+Angelica saíu do recolhimento sem saber para que fim saía. Friamente
+avisada de que havia de casar com Melchior Pimenta, embruteceu, ficou
+como tolhida, e desmemoriada do amor que alimentára tres annos.
+
+Quando o coração reviveu do lethargo, a indiscreta menina escreveu ao
+pae de Antonio de Almeida, pedindo-lhe que a pedisse ao pae para casar
+com seu filho. Que innocencia!
+
+Escreveu ao marido que lhe destinavam, confessando que não podia dar-lhe
+o coração.
+
+O doutor, se ella lhe conviesse te'-la ía. Angelica era pobre.
+Melchior Pimenta não respondeu á carta, nem deminuiu as instancias.
+
+O fidalgo, informado pelo doutor, agradeceu-lhe a probidade da denuncia,
+e accelerou o desfecho.
+
+Angelica não soltou um gemido na presença do pae; sei que apenas lhe
+disse: «A historia de muitas mulheres desgraçadas começa como a minha.»
+Disse, e pôz a cabeça no altar do sacrificio. Ao marido apenas perguntou
+se recebera uma carta d'ella...
+
+Participei a Almeida o casamento de Angelica. Respondeu-me elle que não
+acreditava a infamia emquanto a perfida não tivesse o cynismo de lh'a
+dizer. Modifiquei as palavras d'esta carta, contando-as á minha amiga.
+Ella soluçou nos meus braços muito tempo, e disse com vehemente
+resolução: «Pois sou eu que lhe vou dar parte do meu casamento, e
+offerecer-lhe a minha casa.» Que fazes tu, menina?--repliquei eu, longe
+de suspeitar a resposta: «Faço á prepotencia de meu pae o sacrificio da
+minha dignidade, e castigo um homem que me comprou.»
+
+Julguei-a desvairada pela angustia, e reservei para melhor ensejo os
+conselhos que os meus vinte e cinco annos, já apalpados por amarguras de
+coração, podiam dar-lhe.
+
+Effectivamente, Antonio de Almeida voltou formado, e frequentou a casa
+de Melchior Pimenta, que dava bailes, e figurava na primeira plana a
+favor de antecipações que fazia sobre o penhor do seu patrimonio.
+
+Deixei de ser a confidente de Angelica, mezes depois. As suas
+cartas não eram confidencias: eram lagrimas, queixumes vagos contra a
+sua sorte, chagas de consciencia que só a morte podia cicatrisar.
+Entendi tudo, e fiz o que faz, ou o que raras vezes faz uma amiga:
+consolei-a na queda, como a aconselhára á beira do abysmo. Disse-lhe que
+mandasse a consciencia ao pae, e que ficasse ella com o coração. Não lhe
+falei em Deus, nem na Virgem, porque no infortunio de Angelica, não
+havia que vêr com cousas sobrehumanas.
+
+O doutor farejava um casamento rico para o filho; achou-o, e marcou-lhe
+o prazo para se realisar. Antonio de Almeida rejeitou-o com toda a
+ousadia da desobediencia. Choveram maldições ás duzias, abriram-se os
+cancellos do inferno aos pés do obstinado moço. Peor que tudo isso, o
+castigo de Almeida foi ser expulso de casa, sem pão, nem habilitações
+promptas para ganha'-lo.
+
+Angelica soube tudo por mim, e por uma carta do doutor, que a
+responsabilisava pela desgraça do filho. Vendeu algumas joias que tinha
+de sua mãe, e pediu-me a entrega do producto, como dadiva minha, a
+Almeida. O brioso moço, não sei como, soubera onde as joias paravam.
+Acceitou o dinheiro, comprou as joias e pediu-me que as entregasse a
+Angelica.
+
+Duas almas assim nunca se separam. As ligações mais duradouras são as do
+crime, quando as virtudes do sacrificio reciproco chegam a esquecer-se
+da sua má origem.
+
+Antonio de Almeida trabalhou dia e noite, até ser um advogado de fama.
+
+Melchior Pimenta, ao cabo de quatro annos de casado, tinha perdido a
+demanda, e estava pobre. Antonio de Almeida cortou ás suas primeiras
+necessidades para emprestar a Melchior o fausto da casa. Angelica
+soube-o tarde; mas, sabendo-o, conheceu a pobreza de seu marido, e a
+delicada generosidade do seu amigo.
+
+Fecharam-se as portas da sala, acabaram bailes e theatros, resumiu-se a
+vida de Angelica ao amor a sua filha, á adoração mais intima do amante,
+e aos respeitos affectuosos por seu marido.
+
+Antonio de Almeida acatou o melindre de Angelica. Inventou pretextos
+para melhorar-lhe a vida, que ella não desejava melhor. Conseguiu fazer
+despachar Melchior Pimenta para a alfandega, comprando o despacho por
+alto preço.
+
+Nem este mesmo sacrificio desconheceu Angelica. Os jornaes annunciaram a
+corrupção, e a minha atilada amiga adivinhou a causa. Melchior Pimenta,
+não. Esse perguntava se os seus merecimentos não eram demasiada
+recommendação para o despacho.
+
+Sabe agora a vida de Angelica?
+
+Se alguma vez o seu sestro linguareiro o levar a pôr em romance esta
+historia, accrescente que D. Angelica, ao despedir-se de Almeida para
+visitar o berço da filha, lavou-lhe muitas vezes o rosto com lagrimas.
+Diga que, outras muitas, o amante de Angelica, farto de a esperar na
+sala, e já receoso de algum successo triste, procurando-a, ia
+encontra'-la ajoelhada ao pé d'esse berço. E, depois que Ludovina se
+lançava aos braços de Almeida, com fervor mais de filha que de
+creança affeita a mimos e carinhos, o rosto de Angelica incendiava-se de
+pejo, como se o affecto e a virgindade do coração travassem peleja.
+
+Em resumo, snr. romancista, acabo por onde principiei, e do que vou
+repetir faça uma maxima, por minha conta; mas não a enfileire a par da
+do commendador João José Dias:
+
+HA MULHERES QUE PODEM FAZER DO SEU CRIME UM TÍTULO AO RESPEITO DAS
+MULHERES QUE SENTEM O CORAÇÃO PELA DOR.
+
+D. Angelica está julgada e punida.........................................
+..........................................................................
+
+Entretanto foi Jesus para o monte Olivete:
+
+..........................................................................
+
+Então lhe trouxeram os escribas e os phariseus uma mulher que fôra
+apanhada em adulterio: e a puzeram no meio.
+
+E lhe disseram: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adulterio.
+
+E Moisés, na lei, mandou-nos apedrejar estas taes. Que dizes tu logo?
+
+..........................................................................
+
+Jesus, inclinando-se, escreveu com o dedo na terra.
+
+E, como elles teimavam em interroga'-lo, ergueu-se Jesus, e disse-lhes:
+O que de entre vós está sem peccado seja o primeiro a apedreja'-la.
+
+E, tornando a curvar-se, escrevia na terra.
+
+Elles, porém, ouvindo-o, saíram um a um, sendo os mais velhos os
+primeiros; e ficou só Jesus e a mulher que permanecia, no meio, em pé.
+
+Então ergueu-se Jesus, e disse-lhe: Mulher, onde estão os que te
+accusavam? ninguem te condemnou?
+
+Ninguem, Senhor;--respondeu ella. Então, disse Jesus: Nem eu tão pouco
+te condemnarei: vae e não peques mais.
+
+O SANTO EVANGELHO DE JESUS CHRISTO, SEGUNDO S. JOÃO--Capitulo VIII.
+
+
+
+
+XII
+
+
+Em quanto D. Angelica dormita os somnos curtos e sobresaltados da febre,
+a baroneza despertou o pae, chamando-o á ante-camara.
+
+Melchior Pimenta, estremunhado e como ebrio dos aturdimentos da
+morphina, extranhou á filha a extraordinaria madrugada, e perguntou se o
+barão fizera alguma nova loucura.
+
+--Não podemos continuar a existir n'esta casa, meu pae--disse Ludovina,
+sem saber ainda como sahir-se bem de lance tão perigoso para sua mãe.
+
+«Então que houve? esse alarve que fez? será necessario amarra'-lo?
+
+--O necessario é sahirmos; mas a mãe está muito incommodada...
+
+«Que tem ella?!
+
+--Os meus desgostos affligiram-n'a a tal ponto que está ardendo em
+febre, e não sei se poderá transportar-se.
+
+«Vamos vê'-la.
+
+--Pois sim vamos, mas não perca tempo. Um medico é o mais urgente
+agora. Veja-a; se ella estiver descançando, não a desperte, e vá dispôr
+as cousas em nossa casa para nos mudarmos logo, sim, meu pae?
+
+«Mas que fez o bruto?! A gente ha de sair d'aqui sem dar uma satisfação
+á opinião publica? Não vês que esta saida precipitada auctorisa a
+maledicencia a calumniar-te como o barão te calumnia?
+
+--Não tratemos agora da opinião publica, nem do barão. O pae saberá
+tudo. Venha ver a mãe, e vá depressinha, sim?
+
+Melchior Pimenta entrou na camara de sua mulher. Tateou-lhe a testa que
+transpirava o suor da febre, sondou-lhe o pulso, afastou-lhe os cabellos
+dos olhos, e murmurou:
+
+«Isto é doença séria, Ludovina!...
+
+--Talvez não, meu pae... São afflicções que se curam com o socego da
+nossa casa. Não se demore. Vá por casa do medico e mande-o já. Se vir o
+barão não lhe diga nada, promette-me?
+
+«Eu sei cá o que farei! Ao despedir-me, tenciono dizer-lhe que me não
+codilhou. Tu tens escriptura de dote. Quando quizeres, levantas vinte
+contos de réis...
+
+--Pois sim, meu pae, esses negocios não são para agora. O que eu quero é
+a saude de minha mãe. Vamo-nos d'aqui embora, que eu torno a ser
+feliz... Se é meu amigo, não se demore; tire-nos d'este purgatorio.
+
+Melchior Pimenta ia scismando no divorcio, e nos vinte contos, quando o
+barão lhe surgiu na extremidade do corredor.
+
+--Bons dias, sr. Melchior.
+
+«Bons dias, sr. barão.
+
+--Isso hoje foi madrugar!
+
+«Assim é preciso.
+
+--Se não tem muita pressa, dê-me aqui uma palavra.
+
+«Não posso, sr. barão, vou com pressa.
+
+--Olhe cá, sr. Melchior, é preciso que nos entendamos.
+
+«A que respeito?
+
+--A respeito d'estas poucas vergonhas que aqui vão.
+
+«Que chama o senhor poucas vergonhas?
+
+--Homem! vamos falar claro; eu sei tudo, e o senhor, se o não sabe,
+saiba-o, e tome tento na sua vida.
+
+«O sr. barão é que já perdeu o tento da sua. Essa cabeça está desmanchada.
+
+--Desmanchada está a sua, e bem desmanchada, sr. Melchior. Entre cá, e
+ha de agradecer-me o que eu fiz, vingando a sua honra.
+
+«A minha honra não póde ser offendida nem vingada pelo sr. barão.
+
+--Estou a ter pena do sr. Melchior! Venha aqui dentro que eu conto-lhe
+tudo.
+
+«Que ha de o senhor contar?!--disse Melchior entrando na sala.--Quer
+contar-me a historia do charuto?
+
+--O charuto! o charuto agora já me não serve a mim; é ao senhor; veja lá
+se o quer, que eu dou-lh'o de boa vontade.
+
+«É para isso que me chama, sr. barão? De que me serve a mim esse
+ridiculo instrumento com que o senhor está representando perfeitamente o
+papel de doudo?!
+
+--Doudo quer o senhor fazer-me, mas ha-de-lhe custar... digo-lh'o eu...
+Sente-se ahi, e dê-me attenção, que o caso é muito serio...
+
+Melchior Pimenta sentou-se impacientado. O barão de Celorico proseguiu,
+cerrando a porta da sala:
+
+--O senhor tem vivido enganado com minha sogra, acho eu.
+
+«O que?
+
+--Tenha mão, não se atrigue, sr. Melchior. As desgraças são para os
+homens, e o remedio é atura'-las quando ellas chegam. Sua mulher não lhe
+tem sido fiel.
+
+«O senhor está doudo, e, se não está doudo, é um infame
+malvado!--exclamou Melchior erguendo-se com arrebatamento.
+
+--Sente-se, homem; eu não lhe tenho medo, nem metto a fala no bucho.
+Ouça, e faça o que quizer; creia ou não, saiba ou não saiba, o que eu
+lhe digo é que sua mulher tinha um amante, e eu dei esta noite um tiro
+n'esse homem cuidando que era o amante de minha mulher.
+
+«O sr. barão sabe o que está dizendo? Se tem algum resto de juizo,
+desdiga-se da affronta que fez á minha honra.
+
+--Affronta?! essa não é má! Pois eu vinguei a sua honra, sem saber o que
+fazia, e o senhor ainda diz que o affronto! Ora, meu amigo, o senhor é
+que me parece doudo! Acredite o que lhe digo, sr. Melchior. Este
+charuto era do amante de sua mulher, que entrava no meu jardim pela
+porta do muro, e vinha a esta casa todas as vezes que queria.
+
+«Quem, sr. barão? diga quem, quando não um de nós ha de morrer.
+
+Ludovina entrou precipitadamente na sala.
+
+«Quem?! então não diz quem é o amante de minha mulher--repetiu Melchior,
+em quanto a baroneza cravava os olhos no semblante subitamente
+desfigurado do marido.
+
+--Que indecentes palavras escuto, meu pae!
+
+«Primeiro as ouvi eu a este miseravel que m'as disse!
+
+--A meu marido? Desculpe-o que elle tem o juizo perturbado. O sr. barão
+não disse taes palavras com intenção de offender os pais de sua mulher,
+não é verdade? Essa calumnia foi, um desatino, uma irreflexão, não foi
+meu amigo? Dê uma satisfação a meu pae, que está afflicto como vê, ou
+então crave-se um punhal no seio, antes de repetir na minha presença que
+minha pobre mãe está infamada.
+
+«Tens razão, Ludovina--murmurou o barão, com as lagrimas nos olhos--Eu
+estou doudo; o que disse é uma mentira; se fôr necessario, eu peço
+perdão ao sr. Melchior, e á sr.ª D. Angelica.
+
+--Ouviu, meu pae? Vá, agora vá. Assim fez o que lhe pedi?
+
+«Foi elle que me arrastou para esta sala... Sabe que mais, sr. barão? O
+senhor o que deve fazer é recolher-se a um hospital, antes que as
+auctoridades o amarrem. Eu vou requerer um exame ás suas faculdades
+intellectuaes...
+
+--Meu pae!--murmurou afflictivamente Ludovina--pelo amor de Deus lhe
+peço que se retire, quando não, vê-me cahir aqui morta.
+
+«Eu vou, menina.
+
+E sahiu, reatando a meditação no divorcio e nos vinte contos.
+
+--Não lhe disse eu já, sr. Dias--continuou Ludovina baixando a voz com
+maviosa brandura, e assumindo ares de penitente--não lhe disse eu já que
+o homem ferido pelo senhor era meu amante? que a mulher da janella do
+jardim era eu? que a culpada, a adultera, a infame, a digna de morte ou
+do seu desprezo é sua mulher?
+
+«Mentes, mentes, Ludovina! eu ouvi tudo o que tua mãe te disse no quarto.
+
+--Que importa o que o senhor ouviu? Tudo quanto meu marido disser contra
+mim, tudo o que a sociedade inventar contra a minha dignidade, hei-de
+certifica'-lo com o meu silencio, e com o meu divorcio. Tudo o que o
+senhor disser contra minha mãe, hei-de desmenti'-lo em publico, pondo em
+mim as nodoas que o senhor puzer na reputação d'ella. De maneira que meu
+marido, quando cuida salvar a sua honra, sacrifica-a, e provoca o
+escarneo do publico. Vê quaes são as minhas tenções, meu amigo?
+
+«Tu não fazes isso, Ludovina!--rugiu iracundo o deploravel homem--Se
+fazes tal... Ludovina, se fazes tal...
+
+--Que se ha-de seguir?
+
+«Eu sei!... tu queres matar-me, mulher! mata-me, mas deixa-me a honra,
+que eu estimo mais que tudo. Dou-te tudo quanto tenho, deixo-te em
+liberdade, torno para o Brazil; mas não digas que me foste infiel; não
+digas que esse homem era teu amante. Peço-te isto de joelhos, Ludovina.
+
+Era feio o espectaculo, mas fazia dó a postura humilde do barão.
+Ludovina, apiedada ou aborrecida da attitude, pôz-lhe as mãos nas
+espaduas, pedindo-lhe, affectuosa, que não estivesse assim.
+
+E continuou:
+
+--Entre nós ha só uma reconciliação possivel. Vou fazer-lhe uma
+proposta: se o senhor a acceita, retiro-me contente de sair por um
+contracto; se a não acceita, vou de sua casa como fugitiva. O sr. Dias
+não dirá a alguem que deu um tiro em Antonio de Almeida; não fará
+suspeitar pelo mais pequeno indicio que Antonio de Almeida foi ferido,
+quando entrava no jardim d'esta casa; não proferirá o nome de minha mãe,
+contando ou ouvindo contar essa desgraça acontecida esta noite. Estas
+são as suas obrigações do contracto que lhe proponho; as minhas são as
+seguintes: sairei de sua casa, com minha mãe, porque o amor que tenho a
+minha mãe é incomparavel ao simples respeito que o sr. Dias me inspira;
+sairei, calando o segredo do seu crime, para que ninguem desconfie de
+que o senhor me surprehendeu com um amante. Auctoriso e quero que meu
+marido diga ás pessoas admiradas da nossa separação que o meu genio
+era intractavel, que a minha educação era pessima, que as minhas
+impertinencias de rapariga eram insoffriveis. Diga tudo o que lhe
+lembrar, em meu desabono, que eu com o meu procedimento desmentirei
+alguma desconfiança injuriosa que possa haver. Eu não levo d'esta casa o
+valor de um ceitil. Os meus bahus irão como saíram do meu guarda-roupa
+de solteira. O senhor fica na posse livre de tudo que tinha, menos de
+uma mulher que o ha-de infallivelmente flagellar. Essa mulher sou eu,
+sr. Dias, porque o não amo, nem se quer estimo. Respeito-o, temo-o,
+d'aqui a pouco hei-de odia'-lo. O homem que o senhor feriu ou matou
+creou-me nos braços, foi o primeiro rosto extranho que vi ao pé do meu
+berço, ha quinze annos que o via todos os dias, da amizade que lhe tinha
+ao amor que se pode ter a um homem delicado, generoso, e confidente das
+alegrias e maguas da minha familia, não ia grande distancia. Eu choro
+esse homem, sr. Dias, não é só a minha desgraçada mãe que o chora. Se
+ella era amante d'elle, eu, como filha, não tenho direito a censura'-la;
+como mulher de coração creio que lhe perdoaria. Tenho dito mais do que
+devo, e importa ao sr. Dias. Entendeu-me bem, quer que eu repita por
+outras palavras o que disse?
+
+--Não é preciso... entendi bem...
+
+--Qual é a sua resposta?
+
+--É necessario pensar, Ludovina.
+
+--Não lhe dou tempo a demoradas reflexões. Eu hei-de sair d'aqui logo
+que meu pae volte.
+
+--N'esse caso, faz o que quizeres; mas eu hei-de dizer em toda a parte
+que Antonio de Almeida era o amante de tua mãe.
+
+--E eu direi que era o meu amante; darei em publico quantas provas puder
+dar para o desmentir; hoje mesmo irei ser a enfermeira d'esse homem, se
+elle não tiver morrido. O sr. Dias será tido na conta de assassino, e
+assassino ridiculo, que mata o amante de sua mulher, e denuncia adultera
+sua sogra, para que se supponha que os seus merecimentos não podiam ser
+vencidos por um rival.
+
+--Tu és uma serpente, mulher!--bradou o barão, fazendo com os braços e a
+cabeça as azas d'um alambique--És um dragão! foste o demonio que me
+appareceste em corpo e alma! Vae-te para as profundas do inferno, e
+nunca descanço tenhas noite e dia em quanto me não vieres pedir perdão
+de quereres deshonrar teu marido, que te deu palacios, e quintas, e
+carruagens, e tudo quanto cobre o sol. Vae-te para onde quizeres,
+ingrata mulher, e quando souberes que eu morri doudo vem tomar conta de
+tudo isto que é teu, porque o que vocês querem todos é acabar comigo,
+para ficarem com isto que eu ganhei com honra a trabalhar como um mouro!
+
+Ludovina voltára as costas ao berreiro virulento de João José Dias.
+
+Entrou no quarto de sua mãe, que não resurgira ainda do torpor febril. A
+creada, que lhe assistia, entregou á baroneza uma carta, sobrescriptada
+a D. Angelica. Era-lhe conhecida a letra de Antonio de Almeida.
+Alvoroçada com a aprazivel certeza de que Almeida vivia, Ludovina abriu
+a carta sem reflectir. Apenas viu no topo do papel «Angelica»,
+simplesmente «Angelica», estremeceu, caindo em si. Era uma carta do
+amante, do amante de sua mãe. Repugnava-lhe o le'-la, mas a amizade
+instigava-a, desprezando os escrupulos de uma virtude intempestiva.
+
+Leu o seguinte:
+
+
+«Angelica, fui ferido com um tiro quando entrava no jardim d'essa casa.
+O segredo do meu assassino morrerá comigo. O meu ferimento dizem ser
+mortal. Não importa. Morro amando-te. Esperava assim morrer. Mas a tua
+honra, minha amiga? Não bastará a minha vida para salva'-la? Dá um beijo
+a tua filha, ao nosso anjo que eu não verei jámais. Sacrificamo'-la
+ambos, ao verdugo de... A febre deu-me este intervallo. Adeus, até ao
+céo dos desgraçados.--_A. de A._»
+
+
+Ludovina rompeu em gemidos, e caíu de joelhos orando com o fervor da
+desesperação. Nada mais triste n'este mundo que o espectaculo d'aquelle
+quarto! Não é preciso grande coração e poder de phantasia para acceitar
+um quinhão de tamanha angustia. A alma de pedra estala de encontro a
+este conflicto que esmorece na pintura. Cada lagrima ardente de Ludovina
+bastaria a reaccender a luz de piedade apagada no coração humano. Já
+imaginastes uma vida com este immenso horto de agonia? Na previsão
+de todos os infortunios, concebeu alguem as torturas d'aquella mãe, e da
+filha que acceita a deshonra para salvar-lhe o nome? Desamparados da
+esperança e de Deus, cobrae alento nas dores com que não podeis,
+agradecei ao vosso anjo mau os supplicios vindos, pedi-lhe mais,
+pedi-lh'os todos, menos o calix de Angelica, e Ludovina, porque ha ahi o
+succo de todos os venenos provados n'este inferno da vida, obra prima de
+uma causa eterna, obra que mais me espanta a mim que a creação dos
+astros, do mar, e do homem.
+
+A minha grande prova de Deus, da justiça, e da condemnação é este
+inferno. O outro... é inferior á Omnipotencia que deixou, no seio da
+creatura, aberta a garganta do abysmo, onde a alma se despenha a
+devorar-se.
+
+
+
+
+XIII
+
+
+Eu costumo reunir alguns peritos em letras magras como estas, e
+leio-lhes alguns capitulos dos meus romances, com adoravel modestia e
+exemplar submissão. Recito-lhes sempre um preambulo improvisado que
+estudo cinco horas, no qual os convido, com humildade de aprendiz
+inexperto, a que me corrijam as hyperboles desgrenhadas, me desbastem as
+excrescencias da taramelice a que sou atreito, e me recomponham os
+desatavios da fórma em que me descuido, se a imaginação desfila comigo
+pelos prados floridos do inverosimil.
+
+Tão atilado é o arrolamento que faço dos meus arbitros, que raro de
+entre elles se desacredita admoestando ou corrigindo as perfeições que
+me escorregam do bico da penna, com primores de fundição esmerada. Esse
+raro, porém, se encalha em elegancia que não percebe e deturpa, cá o
+inscrevo no meu canhenho de pascacios, e nem sequer desaggravo o meu
+talento offendido com resposta comedida. A minha docilidade chega até
+este ponto, e não ha ahi que ver mais lhano e brando do que eu sou
+á opinião cortada dos meus amigos, que me fazem o obsequio de trazer da
+rua quatro superlativos encomiastas, antes de saberem que pabulo vou
+dar-lhes á sua admiração faminta.
+
+Ha pouco acabei eu de ler os doze capitulos passados a quatro luzeiros
+do orbe litterario, e um d'elles, acabada a girandola dos elogios, teve
+a descocada impertinencia de me dizer uma cousa assim:
+
+--Os teus romances do meio em diante adivinham-se.
+
+--Ora essa!
+
+--Adivinham-se, e coxeiam por isso. O sexto sentido do romancista é o
+invento da surpresa. A concatenação logica e natural dos successos
+damnifica a peripecia, e aguarenta a curiosidade do leitor.
+
+--O leitor é que não é capaz de entender-te essa linguagem
+assaralhopada. Tu calumnias o gosto dos meus leitores. Sou informado
+pelo orgão da opinião publica, o orgão que eu mais respeito, o meu
+editor, que o bomsiso dos consumidores escolhe o romance verosimil,
+amalgamado com arte e discernimento, escripto de modo que seja o reflexo
+da sociedade, e que possa de per si reflectir tambem na sociedade,
+amoldurando-se nas fórmas costumeiras e exequiveis.
+
+--Enfreia lá os impetos, modesto escriptor! não soltes a parlenda
+inexoravel. Concordo com o bom senso publico. O natural e o reflectido
+da vida apraz e captiva o leitor; mas a previdencia dos capitulos
+advenientes esfria o empenho, e dessabora a curiosidade.
+
+--Acceito a correcção, e tu acceita a aposta. Se adivinhares o
+enredo dos capitulos subsequentes, eu prescindo dos meus titulos de
+Henri Heine, Alphonse Karr portuguez, e escrevo repertorios de hoje em
+diante. Se não adivinhares, escreve-me uma critica litteraria em que
+has-de provar aos incredulos basbaques que eu alojo na cabeça um d'esses
+lobinhos cerebraes que chamam «genio» os galiparlas da nossa terra.
+
+«Acceito, e ahi vae o desenvolvimento do teu romance, nos pontos
+essenciaes: D. Angelica póde morrer de uma congestão cerebral, ou de um
+typho. Não questiono a morte; é certo que a matas brevemente, e a fazes
+pedir, na hora derradeira, perdão do escandalo á filha, e da traição ao
+marido. Antonio de Almeida já nos disse que morria, e elle que o diz é
+porque o sabe, e tu já o sabias antes d'elle. D. Ludovina vae para a
+casa paterna, e, a pedido de Melchior Pimenta, enxuga as torrentes
+caudaes do pranto que a saudade maternal lhe arranca, mas teima em não
+querer nada do abominado marido. O barão de Celorico, atassalhado pelo
+remorso, dispara apostrophes sem grammatica ao espectro de Antonio de
+Almeida, pega-lhe a febre socia predilecta dos romancistas pathologicos,
+solta quatro urros estridulos ao despegar-se-lhe a alma do sêbo
+corporal, e vê'-lo que morre boçalmente, sem deixar nada ao _Hospital do
+Terço_, nem ás _Velhas da Cordoaria_! A tua crueldade para com este
+homem irá ao extremo de lhe negares até um necrologio na gazeta,
+ignominia posthuma com que rematarás a biographia de um homem que teve o
+infortunio de ser cevado de enxundias, em quanto tu espirras ossos
+por todos os póros. D. Ludovina toma conta da herança, e...
+
+--E, sabendo que tu és um portento de esperteza--atalhei eu--digno de
+substituir João José Dias, manda-te convidar pelo seu procurador para
+tomar chá ás quartas feiras; namora-te, casa comtigo, e o auctor é
+padrinho de primeiro pequeno. Ora, meu amigo, outro officio. Desquito-te
+da promessa do elogio; já nem «genio» quero ser á custa do teu estylo
+assoprado. Eu já disse em mais de um livro que não escrevo de phantasia.
+A verdade e a observação dispoem-me as situações como tu as não
+inventas. A natureza, que tu conheces, é tôla, meu amigo.
+
+Disse.
+
+
+
+
+XIV
+
+
+Antonio de Almeida esperava em ancias a apparição de D. Angelica. Não
+lhe pedira, como vimos, essa derradeira e afflictissima prova de um amor
+de vinte e dois annos; mas ve'-la, apertar-lhe a mão, expirar nos braços
+d'ella, egualar o escandalo ao flagello de lance tal, isso
+alvoroçava-lhe o espirito, attrahindo-lh'o para a unica visão aprazivel
+e ao mesmo tempo angustiada que o detinha entre a vida e a morte.
+
+As irmãs de Almeida ignoravam tudo o que se passára, excepto o ferimento
+mortal de seu irmão. A denuncia do barão de Celorico fôra segredada ao
+enfermo pelo proprietario da casa, seu antigo creado. A policia
+devassára do crime, e nada averiguára das respostas concisas e obscuras
+de Almeida. Suspeitavam as attribuladas irmãs que seu irmão tivesse
+tentado um suicidio, por desgostos desconhecidos, e calasse o desastre
+para occultar a fraqueza, e obviar a presumpções nocivas á honra de
+alguem, e á propria memoria.
+
+N'estas conjecturas, annunciou-se o barão de Celorico de Basto.
+Almeida recebeu a parte d'esta visita com excitamento prejudicial ao seu
+estado. Os facultativos conheceram a exaltação inconveniente, e
+perguntaram-lhe se a presença do barão lhe era penosa.
+
+--Não é--disse elle--que entre, e venha só, porque é necessario assim.
+
+Entrou o livido barão, fechando a porta. Chegou-se ao leito do enfermo,
+e estacou silencioso, com os olhos rasos de lagrimas. Esteve assim
+instantes, ergueu as mãos, e ajoelhou sem proferir palavra.
+
+--Que é isso, senhor?--disse Almeida.
+
+«É um desgraçado que vem pedir perdão, snr. Almeida. Quem lhe deu o tiro
+foi este malvado infeliz que aqui está diante da sua vista. Eu cuidava
+que minha mulher me era infiel, e me deshonrava. Tive uma carta em que
+me avisavam d'isso. Encontrei um charuto no meu jardim. Disse-me a
+patrulha que do meu quintal saíra um homem fóra de horas. Tentou-me o
+demonio a tirar vingança de quem me deshonrava. Vi-o a v. sr.ª, e, sem
+pensar no que fazia, dei-lhe dois tiros. Depois soube tudo o que havia;
+minha mulher está innocente, e o senhor nunca me fez mal nenhum, e está
+ferido por mim. Se me quer entregar á justiça, aqui estou, snr. Almeida;
+chame toda essa gente que está em sua casa para ouvir a confissão.
+
+--Levante-se, snr. barão--atalhou Almeida--Não diga a ninguem que me
+feriu; fique entre nós esse segredo para sempre. Eu depressa morrerei
+com elle, e o senhor viva sem se denunciar a pessoa alguma. Eu sabia
+que o meu assassino fôra o senhor. Se quer mitigar o seu remorso,
+respeite... a mãe de sua mulher. Se ella um dia precisar dos seus
+favores, faça-lh'os como os faria á viuva do homem que matou. Agora, vá
+em paz.
+
+O barão retirou, enxugando as lagrimas. Entrou furtivamente em casa, e
+escreveu uma carta. Sahiu com o preto, e montou a cavallo á porta de um
+alquilador.
+
+A carta, que escrevera, era sobrescriptada á baroneza; da qual carta se
+dá o texto viciado com as perdoaveis infidelidades da correcção
+ortographica:
+
+«Ludovina, quando receberes esta, teu infeliz esposo já não está no
+Porto!!!! Vou por esses mundos de Christo penar o meu crime, até que o
+remorso dê cabo de mim!!!! que não tardará!! Fica n'esta casa, que é
+tua, minha amada Ludovina; para mim me basta um bocado de terra onde
+enterrar os meus ossos!!! Quando souberes o meu triste fim então
+perdoarás a teu infeliz e desgraçado marido!! Fui já pedir perdão ao
+Antonio de Almeida, e oxalá que eu morresse ao pé d'elle. Pela tua honra
+e vida te peço que trates tua mãe com todo o amor e carinho. Faz com que
+ella me perdôe o mal que lhe fiz. Não tive animo de ir onde a ella,
+pedir-lhe que fosse tão boa como foi para mim aquelle honrado homem, que
+Deus permitta não morra. Adeus Ludovina, desgraçada Ludovina!!! para
+sempre, adeus! Não me tenhas odio; tem antes compaixão de teu marido,
+que te escreveu esta com a cara coberta de lagrimas e o coração
+acabrunhado de remorsos. Adeus para nunca mais!!!!!»
+
+Afóra a sobejidão de pontos admirativos, que são talvez signaes
+symbolicos da dôr indizivel do barão de Celorico de Basto, o que se nos
+depara n'essa carta é a simplicidade, a mudez, a phrase chan de uma
+verdadeira angustia. Em lance identico um marido letrado, e concedo até
+que romancista, não escreveria cousa mais pathetica e pungitiva.
+
+Ludovina leu esta carta ao pé de sua mãe, que authomaticamente se
+deixava vestir para ser transportada n'uma cadeirinha, nem ella sabia
+para onde.
+
+Melchior Pimenta trouxera de fóra a noticia do perigoso ferimento de
+Antonio de Almeida, e vendo que sua filha não se espantava da nova,
+porque não era então maré de fingimentos, ficou perplexo, e scismou no
+caso alguns minutos.
+
+Uma idéa, entre muitas idéas (se o leitor concede que Melchior tivesse
+muitas idéas) o incommodava. Seria Antonio de Almeida amante de sua
+filha, e o barão, por consequencia, quem lhe dera o tiro? Era esta a
+conjectura que o preoccupava, quando Ludovina lhe disse que não podia
+fazer-se a mudança n'aquelle dia porque a receava perigosa para sua mãe.
+
+«Vem cá, Ludovina--disse o sr. Pimenta, franzindo a testa sobrecarregada
+de cuidados--fallemos de espaço, e desembrulha-me este novello. O barão
+disse-me, ha pouco, que dera esta noite um tiro n'um homem que era o
+amante de tua mãe. Acabo de saber que Antonio de Almeida está ferido.
+Contei-te este acontecimento, que te não espantou. Vejo tua mãe doente.
+Lembra-me o que teu marido me disse... Quero explicações d'este
+mysterio.
+
+--São muito dolorosas para mim as explicações, meu pae.
+
+«Como dolorosas?!
+
+--E muito, meu pae; vergonhosas até para que uma filha se atreva a
+dize'-las. Queira ignorar tudo, meu pae, ou tudo saber de outra pessoa
+que não seja eu...
+
+«Porque não has de ser tu?
+
+--Porque sou criminosa.
+
+«Criminosa! mas o barão disse que estavas innocente.
+
+--Foi a minha querida mãe que me salvou á custa da sua dignidade.
+
+«Não entendo...
+
+--Entende, meu pae. A amante de Antonio de Almeida era eu.
+
+«Tu! pois tu!...
+
+--Não me culpe, ou culpe-me, mas perdoe-me. Obedeci, quando me casaram
+com este homem, obedeci cegamente; mas o coração negou-se ao sacrificio.
+
+«E Antonio de Almeida, meu amigo de vinte annos, que te viu nascer, teve
+a ingratidão e a infamia de te fazer a côrte, sendo tu casada?! Foi bem
+dado o tiro! Bem hajas tu, barão, que me desaffrontaste, e procedeste
+como homem de bem!
+
+--Isso é improprio da sua nobre alma, meu pae. A culpa é minha só. Amei
+desde creança Antonio de Almeida, era amiga d'elle até o julgar superior
+a todos os homens. Pedi-lhe a felicidade do coração, que só elle
+podia dar-me. Amava-me por piedade; fazia-me esmola do seu amor. Fui eu
+que o matei. Já que me forçou a esta confissão, dir-lhe-hei mais que, na
+posição em que estou, considero-me responsavel das minhas acções más
+perante Deus e meu marido. O pae perdeu o direito de me injuriar na
+desgraça que lhe devo. Minha mãe foi mais generosa comigo. Fez, não sei
+de que modo, convencer-se o barão de que a amante de Antonio de Almeida
+era ella. Aqui tem a explicação das palavras que meu marido lhe disse, e
+não poude sustentar na minha presença. Minha pobre mãe, depois de
+victimar a sua honra á minha salvação, succumbiu á vergonha de si, e á
+dôr, talvez, de me ver indigna d'ella. Basta de explicações, meu pae.
+Estas palavras tem-me custado annos de vida. Se a minha deshonra
+reflecte no seu pundonor, perdoe-me; se me não quer perdoar,
+amaldiçoe-me, mas não profira na presença de minha mãe o nome de Antonio
+de Almeida. Mereço isto á sua compaixão?
+
+«Não falarei mais n'esse homem por minha honra propria.
+
+--Assim o deve á sua dignidade.
+
+Ludovina foi chamada com urgencia ao quarto de D. Angelica. Encontrou-a
+vestida, disposta a sair, com o rosto escarlate do crescimento febril, e
+gestos de quem delira.
+
+«Onde quer ir, minha mãe?
+
+--Morrer em qualquer parte, Ludovina... Quero ar...
+
+«Não ha de sair d'aqui; supplico-lhe que não saia, minha mãe.
+
+--Não me dês esse nome... Eu não quero já ser mãe nem esposa...
+
+Ludovina fez sair a creada, que testemunhava este dialogo.
+
+«Não quer ser mãe nem esposa?
+
+--Não. Sou amante de um homem que está moribundo ou morto. Quero que
+todo o mundo saiba, que o fui e que o sou. Desprezo tudo, não ha para
+mim deveres nem respeitos agora. Se elle está vivo, quero dar-lhe os
+meus ultimos instantes. Se morreu, quero chorar e morrer ao pé do seu
+cadaver.
+
+«Fale baixo, por misericordia, minha mãe!
+
+--Podem todos ouvir-me, não me escondo d'alguem, agradeço as affrontas,
+os desprezos, as injurias, agradeço tudo que fôr martyrisarem-me, com
+tanto que me matem depressa.
+
+«Mas, minha mãe, attenda-me por piedade. Vou-lhe contar tudo, se me
+escuta... Sente-se, e ouça-me...
+
+--Diz, anjo, diz...
+
+«Antonio de Almeida não morreu, e talvez não morra. O barão escreveu-me
+uma carta em que se despede de mim, e me recommenda que lhe peça o
+perdão para elle. N'esta casa ignora-se tudo. Meu pae está convencido
+que sou eu a amante de Antonio de Almeida...
+
+--Jesus! exclamou D. Angelica.--Como tu me castigas, Ludovina!
+
+«Como eu a castigo, mãe?! por quem é, deixe-me ser boa para o meu
+coração, e indigna para todo o mundo. Sinto na alma alegrias tamanhas
+d'este meu procedimento!... isto é Deus que me premeia, minha mãe, é
+Deus que me dá em consolações do céo as amarguras, que o mundo me possa
+dar. Ora, se a mãe me envenena este prazer, mata-me... Deixe-me ser
+senhora de uma parte do seu coração e da sua vida. Obedeça-me, sim? não
+saia de casa; não saia, que talvez me não encontre viva quando voltar.
+
+Ludovina abraçou-se, a chorar, em D. Angelica. Choravam ambas, com os
+rostos unidos, apertando-se cada vez mais. O seio da mãe desafogava de
+angustias soffocantes n'aquelle pranto. O da filha fortalecia-se de
+animo para arcar com a ignominia do seu descredito.
+
+D. Angelica recaíu no entorpecimento. Ludovina chamou creadas para lhe
+assistirem, e executarem as prescripções dos medicos. Melchior Pimenta
+esperou que a filha saísse do quarto, e foi sentar-se, meditabundo e
+sombrio, ao pé do leito da enferma, tateando-lhe o pulso, e chamando-a
+com os maviosos epithetos do carinho. Angelica abria os olhos pávidos,
+encarava-o por momentos, e recaía na somnolencia.
+
+Ludovina entrou na carruagem, deu ordem ao boleeiro, e apeou na Lapa. A
+trezentos passos d'ahi, morava Antonio de Almeida. Velando o rosto com
+um véo negro impenetravel á vista, a baroneza de Celorico, sósinha,
+subiu as escadas do amante de sua mãe.
+
+Descia um medico ao qual ella perguntou o estado do enfermo.
+Respondeu-lhe que havia esperanças de salva'-lo. A noticia feliz
+alvoroçou-a. Receberam-n'a as irmãs de Almeida, maravilhadas de tamanha
+prova de estima. O doente conheceu-lhe a voz, agitou-se, quasi desfez o
+apparelho do curativo, e chamou-a com ancia.
+
+Ludovina entrou no quarto, só, que assim o pedira ás amigas. Almeida
+apertou-lhe a mão, orvalhou-a de lagrimas, e murmurou balbuciante:
+
+«É a boa nova... agora creio que vencerei a morte, minha amiga, filha do
+meu coração.
+
+A baroneza ficou muda e convulsa. _Filha do meu coração_ foram palavras
+que lhe entraram como fogo no recesso da alma, fogo, porém, que, de
+repente, se mudára em sensação de intima doçura. Passados minutos de
+mudo anceio, Ludovina curvou-se para o seio de Almeida, e disse:
+
+--A mãe está muito doente; mas sem perigo. A sua carta não lh'a
+entreguei, lia-a eu, e occultei-lh'a para a não matar.
+
+--O barão denunciou tudo?
+
+--Nada: tudo se ignora, e toda a gente ignora, só eu sei que ella o
+estima tanto como eu. É necessario que o nosso amigo concorra quanto
+puder para lhe dar allivio. Tem esperanças, não tem?
+
+--Tenho. Os facultativos disseram agora que o ferimento não é mortal. Já
+não morro, minha... minha querida amiga, não quero morrer...
+
+--Escreva a minha mãe, se pode. Diga-lhe isso, que eu levo a carta. Não
+fale em mim, não diga que eu vim cá.
+
+Antonio de Almeida escreveu. Ao despedir-se beijou Ludovina na face, e
+disse soluçando:
+
+«Será o beijo de um moribundo?
+
+«Não diga tal, sr. Almeida.
+
+«Se fôr...» e desentalando a voz dos gemidos que lh'a embargavam,
+proseguiu «se fôr... Ludovina... lembra-te sempre da situação em que te
+deu o seu ultimo beijo... teu pae.
+
+A baroneza tremeu uma sezão de instantes. Quiz saír, mas o abalo
+quebrantou-lhe as forças, coando-lhe nos nervos o desfallecimento, e a
+perda quasi dos sentidos.
+
+Almeida tocou a campainha, e disse á irmã que primeiro chegou:
+
+--O ar d'este quarto fez mal a esta senhora: levem-n'a para a sala, e vá
+uma das manas acompanha'la.
+
+Ludovina pediu que lhe mandassem buscar a sua sege, que a esperava na
+Lapa.
+
+
+
+
+Cinco paginas que é melhor não se lerem
+
+
+Este capitulo mira a alvo transcendental.
+
+Nem mais nem menos, quer provar que o Codigo do Imperador
+Justiniano--corpo de leis que uma falsa piedade chama «Digesto», sendo
+elle a causa indigesta de muitas gastralgias intellectuaes--quer provar,
+digo, que o Digesto, entre muitas que não conheço, traz, uma lei de
+tamanho absurdo e insensatez, quanta é a indignação com que para aqui a
+traslado:
+
+_Pater is est quem nuptiæ demonstrant._
+
+Em portuguez comezinho:
+
+_O pai é aquelle que se diz pae no assento do baptismo._
+
+A versão é de christão catholico, entenda-se.
+
+Aquella regra de jurisprudencia pagã não fala em assento baptismal. Se o
+legislador fosse baptisado, como estes de agora, a lei não saía assim.
+
+Contra a qual lei temos a articular:
+
+1.º Que o pae é uma entidade muito mais nobre, efficiente, cathegorica,
+e circumspecta. E demonstra-se:
+
+Quem leu a physiologia da geração sabe que ha cinco phenomenos
+caracteristicos d'essa funcção de mysteriosa origem. O primeiro d'esses
+phenomenos, cuja confusa theoria os imperitos podem lêr nas fontes
+respectivas, é influido pela acção de um ser directo e immediato, que os
+latinos denominam _pater_, os inglezes _father_, os allemães _watter_,
+os francezes _père_, os hespanhoes _padre_, e nós, com mais suavidade
+que todos os outros idiomas, _pae_.
+
+_Pae_ quer dizer «productor, gerador» _Parens qui aliquem genuit_--isto
+a meu vêr, é claro como tudo o que se diz em latim.
+
+Conclusão: Pae é aquelle que é pae.
+
+2.º Ha paes postiços, paes contra-natura, paes testas de... ferro, paes
+_in mente legis_, na presumpção da lei, e na fé dos padrinhos de quem
+são compadres, por obra e graça de um sacramento.
+
+Os homens, reconhecendo a inconveniencia de acceitar a natureza feia
+como ella ás vezes se apresenta deliberaram, de commum concerto, pôr-lhe
+mascara.
+
+E como a natureza paterna era uma das que mais a miudo saía á gente com
+as suas deformidades medonhas, resolveram os desvelados reformadores
+corrigir os aleijões d'essa natureza, inventando o pae civil, o pae do
+assento baptismal, o pae da arvore de geração escripta em pergaminho, o
+pae que transmitte os bens e os appellidos, o pae, finalmente, que tem
+tudo que é paternal, mas não é pae.
+
+Este invento honra a sagacidade humana; mas a causa que o incitou
+deturpa a humanidade, e opprime agramente os corações dos individuos
+virtuosos. Todavia, a mascara foi necessaria, logo que as fealdades
+deram nos olhos. Hoje acceita-se o remedio do mesmo modo que o travor da
+quina se tolera para combater a sezão. Os paladares mais melindrosos
+affazem-se á peçonha, e estomago ha ahi de pae postiço, que disputa a
+Mithridates a invulnerabilidade.
+
+Eu não applaudo a _Sandice_ como Desiderius Erasmus; mas observo que o
+famoso theologo chamava «sandice» o que nós cá, gente bemaventurada da
+civilisação, denominamos «Cultura.»
+
+Erasmus não deu pela theoria das mascaras. Pasmado da bonacheirona paz
+d'alguns paes impossiveis, exclama o mestre de Bolonha:
+
+«Grande Jupiter! O que ahi não iria de divorcios, e peor do que
+divorcios, se a união do homem e mulher não fosse corroborada pela
+lisonja, pela complacencia, pelo esquecimento, e pela dissimulação, que
+formam o meu cortejo! Que raros não seriam os matrimoniamentos, se o
+homem de ante-mão esquadrinhasse os brinquedos da innocentinha noiva!
+Que rompimentos conjugaes, se o descuido ou a inepcia, não cegassem o
+bom do marido, para não enxergar os tregeitos e os feitios da
+companheira querida! Dizem que é toleima isto; deixa'-la ser; mas o
+grande caso é que marido e mulher vivem ás mil maravilhas, que reina a
+santa paz em casa, e os vinculos da alliança estão rijos. Isto é que é o
+essencial. Se ao pascacio dão nomes feios, que se lhe dá elle
+d'isso? Ve'-la a infiel a choramingar; para logo o pobre marido lhe
+sorve as lagrimas enternecidamente. Qual é melhor, ser assim bom, ou
+andar atormentado pelas furias do ciume?»
+
+É boa a pergunta do theologo! O melhor é ser assim bom, ser assim
+illustrado, ser assim desbravado das velharias pundonorosas que
+obrigaram Cicero e Sulpicio Gallo a divorciarem-se das mulheres, um
+porque a sua lhe não respondeu a todas as cartas enviadas do exilio,
+outro porque a d'elle teve a impudicicia de saír um dia, sem coifa, á rua.
+
+Aconteceu isto muito depois do reinado de Saturno, quando o pudor, como
+pondera Juvenal, já não morava nas primitivas cavernas onde os dois
+sexos se luravam sobre colchões de folhagem.
+
+ _Credo Pudicitiam, Saturno rege, moratam_
+ _In terris_...
+
+já quando o genio tutelar do hymeneu andava corrido das
+pseudo-paternidades que se enxertavam, á sombra d'elle, nos illustres
+troncos de Roma:
+
+ _Antiquum et vetus est alienum, Postume, lectum._
+ _Concutere, atque sacri genium contemnere fuclri._
+
+«Ó Postumo!--exclama o poeta--pois tu eras, até aqui, escorreito e
+atilado, e vaes casar
+
+ _Certe sanus eras: uxorem, Postume, ducis!_
+
+Por esses tempos, a balbuciante civilisação dos espiritos engendrou a
+lei contra a qual se escreve este capitulo. As nupcias indicavam o pae:
+_pater is est quem nuptiæ demonstrant_. Agora, em pleno seculo de luz,
+somos mais romanos que os proprios romanos, tresandamos ao paganismo
+fetido, e difficultamos o divorcio para sellar o escandalo com o cunho
+sacramental da lei nova.
+
+Como quer que seja, pae é aquelle que é pae, apesar do Direito Romano, e
+das Instituições de Direito Civil de Coelho da Rocha.
+
+Não se adduzem os 3.º, 4.º e 5.º artigos da refutação, porque ninguem
+supporta um embrechado arripiante de textos latinos: e o auctor, com
+quanto assim grangeasse voga de romancista sumarento e condimentoso,
+seria lido apenas por tres ou quatro mestres de latinidade.
+
+
+COROLLARIO
+
+Melchior Pimenta era um dos paes presumidos na intenção do _Digesto_, na
+lei citada, do L. 5.º _de in jus voc_, e C. da Rocha no cap.
+_Paternidade e filiação legitima_.
+
+
+
+
+XV
+
+
+D. Angelica, afflicta com a longa ausencia de Ludovina, pedira ao marido
+que procurasse a filha. Melchior Pimenta correra a casa, alarmando os
+creados, que francamente lhe disseram que a senhora baroneza saíra na
+sege. Melchior suspeitou que a destemida Ludovina descera ao infimo
+degrau da desenvoltura, visitando o amante á hora do dia, no momento em
+que seu marido a abandonava aos terriveis juizos da sociedade. Com as
+mãos agarradas á cabeça, entrou o consternado pae no quarto da mulher,
+abafando de vergonha, como elle dizia.
+
+D. Angelica, receosa de que tudo já fosse notorio a seu marido,
+apavorou-se, e quiz fugir do quarto.
+
+«Que queres tu fazer agora, santa mulher?!--exclamou elle, sustendo-a
+com meiga brandura.--Deixa'-la perder-se de todo, já que ella assim o
+quer... Ahi tens como Ludovina te paga o sacrificio que fizeste da tua
+dignidade e da minha para a salvares. Ainda bem que o procedimento
+d'ella te ha de desmentir, Angelica...
+
+--Que dizes?--atalhou a perplexa senhora.
+
+«Que digo? pois eu não sei já tudo? Não me contou ella o que tu fizeste
+para capacitar o barão de que Antonio de Almeida era teu amante, e não
+d'essa desgraçada que tão mal aproveitou as tuas lições? O que tu
+fizeste, não devias faze'-lo sem tomar o meu parecer; porque, a falar
+verdade, se corresse o boato de que o escandalo era cousa tua, a minha
+honra soffria tanto como a de minha mulher. O que vale é que o barão não
+dirá nada, e o falatorio ha de acabar como acabam todos os escandalos,
+quando os faladores se cançarem. Mas, Ludovina! Ludovina! onde está esta
+mulher que nos anda envergonhando por lá?
+
+«Estou aqui, meu pae--disse a baroneza com angelica serenidade, e
+sorriso de meiguice para sua mãe.
+
+--Minha filha, minha santa filha, minha providencia!--exclamou D.
+Angelica abraçando-a com arrebatamento.
+
+«Isso não é assim, Angelica!--disse carrancudo Melchior
+Pimenta.--Pergunta-lhe de onde vem, e reprehende-a, já que tão boa moral
+lhe ensinaste em solteira.
+
+--Silencio, meu amigo. Vae...--atalhou com azedume D. Angelica--vae, e
+deixa-nos sós.
+
+«Não tem geito nenhum!--accrescentou o austero pae.--É preciso saber-se
+para onde foi teu marido, Ludovina, e ir pedir-lhe perdão, perdão, antes
+que a sociedade saiba que elle te abandonou.
+
+--Irei, meu pae.
+
+«Irás; mas entretanto sáes de carruagem, e não dizes onde vaes... Onde
+foste tu, diz?
+
+Ludovina abaixou os olhos, e não respondeu.
+
+«Vês, Angelica?--proseguiu com virulencia Melchior--Não respondeu; já
+sabes d'onde ella vem... Já se viu no mundo um descaramento assim?
+
+--Nem mais uma palavra a minha filha!--exclamou com impetuosa arrogancia
+D. Angelica--Nem mais uma palavra, porque se não, Melchior...
+
+«Se não, o que?--interrompeu elle.
+
+--Minha mãe, pelo seu amor lhe peço...--murmurou a baroneza, apertando-a
+ao seio, como se quizesse comprimir-lhe as palavras no coração.
+
+Pimenta sahiu, como entrára, com as mãos agarradas á cabeça. D.
+Angelica, beijando soffrega a face da filha, dizia, soluçando:
+
+«Ao que eu te expuz, minha querida victima! ao que tu quizeste
+sujeitar-te, Ludovina! Pesa-me mais a tua innocencia diffamada que o meu
+proprio descredito. Não, filha, isto não póde continuar assim. Deixa-me
+ser virtuosa no crime, deixa-me expiar a minha culpa com menos amargura.
+Esta expiação é a maior de todas, Ludovina. O meu coração está cheio de
+fel. Tu queres salvar tua mãe e matas-me, anjo do meu coração. É-me
+muito mais dolorosa a vergonha que tenho de ti, que da sociedade. Que o
+mundo todo me culpe, mas perdôa-me tu, filha!
+
+--Mãe, por piedade... não me turve a satisfação d'esta pequena virtude.
+Olhe que não é heroismo isto, não, é a crença, a esperança de que a
+felicidade ha-de vir para todos nós, se me não desviarem do caminho por
+onde eu a busco...
+
+«Para todos nós, filha! que innocencia, que illusão a tua! D'esta queda
+ninguem mais se ergue, e menos eu.
+
+--Ergue, mãe. Verá que o desenlace d'este desgraçado enredo não ha-de
+ser o que a mãe espera.
+
+«Oh, filha! tu queres que eu sobreviva a esse infeliz que mataram...
+
+--Ninguem morreu, minha mãe. Olhe... aqui tem uma carta do sr. Almeida;
+escreveu-a elle com o proprio punho; está livre de perigo... Veja, veja
+o que elle diz...
+
+D. Angelica abriu a carta com fervente soffreguidão, e leu o seguinte:
+
+«Minha prezada amiga. Sei quanto deve ser-lhe penosa a noticia do triste
+acontecimento, que hontem se deu. Apresso-me a dar-lhe a certeza do
+nenhum risco da ferida, e rogo-lhe que se convença d'esta verdade, para
+ser mais suave a cura. De v. exc.ª amigo verdadeiro.--_Antonio de
+Almeida._»
+
+«Isto é verdade, Ludovina?--exclamou ella erguendo as mãos, e apertando
+a carta ao coração--Isto é verdade, minha filha?
+
+--É, juro-lhe que é...
+
+«Como podes tu jura'-lo? quem o viu?
+
+--Eu, mãe.
+
+«Tu! viste-o, Ludovina? sem repugnancia, minha filha? Que
+inspiração tiveste de o visitar? O coração impellia-te? era o coração?
+diz, diz, que eu preciso acreditar n'uma influencia divina em tua nobre
+alma! Não me respondes, filha! Não queres dar-me a alegria completa! Foi
+só por caridade, por compaixão, que o visitaste?
+
+--Foi por amor de minha mãe que o visitei.
+
+«E elle? que fez quando te viu? abraçou-te? beijou-te? chorou nos teus
+braços, Ludovina? Disse-te alguma palavra que te espantou, augmentando a
+tua piedade? Fala, fala sem pejo. Aqui a vergonha é toda minha. A
+reserva já agora é impossivel entre nós, filha. Que te disse? responde...
+
+--Nada, minha mãe...--balbuciou a baroneza.
+
+«Nada?
+
+--Que poderia elle dizer-me... para augmentar a minha piedade? bastava
+ser nosso amigo de tantos annos... lembrar-me eu que o vi sempre ao pé
+de minha mãe... recordo-me dos affagos que elle me fazia, dos bons
+conselhos que me deu sempre, das consolações affectuosas com que
+alliviava as minhas maguas, desde que infelizmente casei. Tanto como
+isto era sobejo estimulo á minha pena. E, depois, vêr quanto a mãe
+soffria... porque o prezava tanto como eu o estimava...
+
+«Basta, minha filha, eu mortifico-te... Ha de custar-te amarguras
+terriveis essa delicadeza... Comprehendo-te, minha amiga... Agora vaes
+tu dizer-me por que meio has de restaurar o teu credito perante teu
+marido... Não me atrevo a aconselhar-te, Ludovina, por que ha em ti
+fortaleza de juizo que confunde a minha timidez e fraqueza... Faz o que
+quizeres de mim; eu obedeço-te, sigo-te cegamente; acceito conselhos de
+ti como do meu anjo da guarda.
+
+--Eu não a aconselho, minha mãe... pelo contrario, supplico-lhe que me
+advirta, se eu me desencaminhar do bom caminho onde a consciencia me diz
+que estou agora. Toda a minha confiança está posta em Deus, que protege
+a innocencia e é misericordioso com a culpa. O mundo será cruel
+comnosco; seja, muito embora; nós supportaremos as cruezas do mundo, sem
+nos curvarmos aos seus juizos. Minha mãe ha de ajudar-me a vencer os
+dissabores passageiros da maledicencia, pensando em me fazer cada vez
+mais digna do seu amor. No tocante ao que ha de vir melhorar a nossa
+sorte, espero que virá, mas os meios não os sei. Hei de a este respeito
+consultar o nosso amigo Antonio de Almeida.
+
+
+
+
+XVI
+
+
+Consta-me que é geral o cuidado que está dando aos leitores o barão de
+Celorico de Basto.
+
+Como este homem captou a benevolencia publica, mórmente a dos maridos,
+isso não sei eu.
+
+Caprichos.
+
+Commiseração, lastima e dó, não a faz decerto o marido de Ludovina. Eu
+de mim, apesar de quem me forneceu os apontamentos d'esta lugubre
+historia, mais de uma vez tenho dulcificado com as amenidades da
+linguagem o travor das informações insuspeitas. Faz-me zanga a
+felicidade d'este marido, se o confronto com outros «minotaurisados»
+iniquamente.
+
+Não transijo com o estupido acaso que travou as relações de João José
+Dias e Melchior Pimenta. Rebello-me contra a Providencia, se me dizem
+que a Providencia entregára de mão beijada a rara joia de entre as
+mulheres a João José Dias.
+
+Riquezas amontoadas pelo acaso, pelo trabalho, pela economia, pelo
+latrocinio, pelo talisman do buril, pelo fornecimento dos açougues
+humanos na America, essas riquezas, vejo-as, entendo-as, explico-as;
+porém, mulheres como Ludovina, corpos e almas de tanta perfeição,
+creaturas que privam com os anjos, assim sacrificadas a um Baal
+repulsivo de sandice e gordura, isto faz-me materialista, incredulo, e
+atheu; ou remontado em assomos de espiritualista, confesso a
+Providencia, mas tão sublime, tão ao longe das pequenezas d'este ponto
+do mundo, que não cura de saber se o zoupeiro João José casa ou não casa
+com a sylphidica Ludovina.
+
+Não vou de encontro ás crenças de ninguem; Deus me livre. Todavia,
+raciocinemos, em quanto a razão de si apoucada, não contender com os
+dogmas indisputaveis da fé.
+
+Saibamos, pois, o que é feito da sympathica personagem do barão de
+Celorico de Basto.
+
+Pesquizei miudamente o itinerário de s. ex.ª, e colhi as seguintes
+informações, que podem auxiliar os alienistas no estudo das faculdades
+intellectuaes de muitos barões, no primeiro periodo do seu desmancho.
+
+Sei que chegou a Baltar bifurcado n'um garrano, e o preto n'outro.
+Apeou-se ahi para reanimar o animo quebrantado da ensuada cavalgadura,
+cuja pulmoeira recrudesceu na subida da serra de Vallongo.
+
+Simão, vendo que seu amo rejeitava a vitela proverbial da estalagem da
+terra, e, sabendo qual era o prato favorito d'elle, frigiu quatro ovos
+com rodelas de cebola, e poz-lhe deante a fritada provocante, cuidando
+que o acepipe mimoso abriria o apetite do melancolico barão.
+Baldado empenho, perdidos desvelos, mas não perdidos ovos, que os comeu
+o contristado preto, asseverando, a cada garfada, que os podiam comer os
+anjos, para ver se assim estimulava o jejum de seu amo impassivel.
+
+Reparou o preto, em quanto encovava o almoço, que o barão, de vez em
+quando, sacava da algibeira o charuto horrendo, e resmungava em tom
+soturno:
+
+--Foste a minha desgraça, tição negro do inferno!
+
+E contemplando-o com os olhos coruscantes de terror, arremessava-o com
+frenesis impetuosos, e apanhava-o de novo para o esconder na algibeira!
+
+«Que diabo é isto, senhor?--perguntára timidamente o preto.
+
+--Não vês? é um charuto, que me ha de matar!
+
+«Pois v. ex.ª fuma isso! Bote-o fóra, que tem má cara esse demonio!
+
+N'estas e n'outras praticas semsaboronas, que não prestam para a
+tragedia, nem para a farça, chegaram á villa de Torrão, onde o nobre
+viajeiro apeou outra vez, e escreveu uma longa carta a sua mulher, na
+qual carta entre muitos outros periodos lamuriantes, dizia que não lhe
+era possivel fazer passar nada dos gorgomilos para dentro, e protestava
+deixar-se morrer de fraqueza para acabar mais depressa com o seu
+remorso. Pedia novamente perdão a D. Angelica, e rogava a sua mulher que
+tornasse a supplicar em nome d'elle o perdão de Antonio de Almeida.
+Outro sim, pedia á baronesa que mandasse dizer trezentas missas por alma
+do defunto Almeida, e outras tantas por alma d'elle testador,
+quando Deus fosse servido leva'-los á sua presença. O principal da carta
+guardava as fórmas testamentarias: faltava-lhe, porém, a condicional
+prescripta do «perfeito juizo e claro entendimento», posse de que o
+preto duvidava muito, e os da estalagem não duvidaram menos, quando o
+barão entrou a gritar que era um assassino, e estava já vestido e
+calçado nas profundas do inferno. Almas boas que o ouviram, tiveram-n'o
+em conta de possesso, e, se o barão não sáe, era filado pelo padre
+Anacleto da Sacra Familia, egresso arrabido, que a piedade da
+estalajadeira chamára para resar os exorcismos ao demoniaco.
+
+O barão foi pernoitar na villa chamada Arco: (notem a paciencia de um
+romancista que sabe do seu officio.)
+
+O cirurgião da villa, chamado por deliberação do preto para ver o amo,
+receitou um cozimento de fel da terra, tomado de manhã, e esfregações de
+oleo de amendoas na circumferencia do abdomen.
+
+O barão mandou-o á fava com louvavel discernimento, e escreveu quatro
+folhas de papel almaço, que sobrescriptou a sua mulher. O contheudo do
+aranzel tremendo era o disparate lastimoso de uma cabeça febril,
+apavorada de visões sangrentas, que o forçavam a estropiar a syntaxe de
+um modo lastimavel, e a desbancar o methodo do imaginoso Castilho no
+invento da orthographia.
+
+No dia seguinte, ás onze horas da manhã, chegou o barão á sua quinta de
+Celorico, onde, creio que já se disse, viveram frades n'outro tempo. A
+entrada do proprietario nos seus dominios foi assignalada pelo
+primeiro accesso de loucura formal.
+
+Á entrada da antiga claustra, estava um S. Francisco de pau com o seu
+habito venerando.
+
+O barão soltou medonhos gritos, clamando que o santo era o phantasma de
+Antonio de Almeida. A logica do preto foi insufficiente para
+convence'-lo de que o phantasma era o patriarca S. Francisco. Teimando
+aquelle em conduzi-lo pela mão ao pé da imagem, afim de convence'-lo com
+o tacto, o barão assentou-lhe na carapinha dois murros puxados d'alma,
+com os quaes o paciente preto tambem viu phantasmas luminosos.
+
+Os primos circumvizinhos começaram a visitar o genro de D. Angelica, e
+saíam espantados do disparatar do barão, que descaía de uma conversação
+atilada para a historia do phantasma infesto, que apparecia na casa que
+fôra convento.
+
+Fechado e trancado no seu quarto, o infeliz maniaco recitava monologos
+estirados em tom cavernoso. O charuto andava sempre á baila nas
+apostrophes descompostas, e recebia epithetos que esqueceram a Francisco
+Nunes.
+
+Eram decorridas setenta e duas horas de jejum estreme, quando o barão
+pediu de comer a altos brados, e comeu porções incriveis de carneiro
+guizado com batatas, facilitando o transito d'estas com emborcados
+picheis do verdasco, predilecto seu.
+
+Emergindo de uma especie de lethargia de leão sazonatico, o barão urrava
+como d'antes, recuando ao phantasma, que já não era S. Francisco
+sómente. Qualquer sombra se lhe afigurava aventesma, ou avejão como elle
+a denominava. O proprio preto, se lhe assumava de repente á porta do
+quarto, ou por entre as arvores da quinta, fugia espavorido á gritaria
+rouquenha de seu amo.
+
+Os facultativos chamados pela parentella compadecida capitularam de
+demencia a cousa, e receitaram as sangrias e os vesicatorios. Os meios
+persuasivos para o levarem á cama nada conseguiram; os da força seriam
+inuteis, por que o preto espadaudo e possante, invocava o testemunho da
+sua cabeça confusa contra o projecto da violencia. Ninguem se queria
+arriscar ao perigo certo de um murro secco do barão.
+
+Contava elle a toda a gente a historia do charuto que já trazia meio
+desenrolado n'um canudo de papel...
+
+Se porém acontecia proferir o nome da sogra, vinham-lhe convulsões, e
+não acabava o conto. A historia, como elle a contava, fazia rir os
+ouvintes. Aquelle charuto fôra-lhe enviado pelo diabo em troca da sua
+alma. O charuto infernal obedecia á sua vontade, e despejava uma bala
+como uma clavina, em consequencia do que, elle barão, matára um homem,
+desfechando-lhe o charuto no peito. Acabada a historia entravam as
+larvas a rodea'-lo, e elle a esconder-se de cócoras atraz dos
+circumstantes.
+
+Entenderam os cavalheiros de Basto que o barão fugira doudo á sua
+familia, e avisaram a baroneza, lembrando-lhe a conveniencia de o
+passarem a Rilhafolles, antes que a demencia se tornasse incuravel.
+Chegou o aviso já quando Ludovina, avaliando pelas cartas a
+desorganisação mental de seu marido tinha partido para Celorico de Basto.
+
+Melchior Pimenta e D. Angelica julgavam temeraria a ida de Ludovina. O
+pae (_Pater is est etc._) queria acompanha'-la, receoso de que a
+presença d'ella enfurecesse o doudo. A baroneza recusou a protecção do
+pae, e respondeu á mãe com palavras que a fizeram córar, posto que
+adoçadas pelo respeito filial.
+
+«Quando me casaram com este homem--disse ella--não se estipulou a
+condição de que eu o desampararia, se elle enlouquecesse. Augmentam os
+meus deveres, agora que elle mais precisa de uma amiga. A consciencia da
+minha boa mãe manda-me ir; o coração deseja que eu não vá. Devo obedecer
+á sua consciencia, para ser cada vez mais digna do seu coração.»
+
+
+
+
+XVII
+
+
+Ao cabo de tres semanas, Antonio de Almeida ergueu-se convalescente. As
+melhoras de D. Angelica augmentavam por egual com as d'elle; mas uma
+outra qualidade de soffrimento lhe amargurava a alma: era a saudade, o
+anceio de falar-lhe, a necessidade de recompensa'-lo dos perigos da
+morte com as suas lagrimas.
+
+Almeida, porém, não lhe escrevia, não lhe dizia, ao menos, que o seu
+amor não succumbira á terrivel catastrophe, que a sua amizade, ao menos,
+venceria todos os estorvos.
+
+«Que mal te fiz?
+
+Diz D. Angelica em uma carta que lhe escreve.
+
+«Uma grande desgraça aconteceu; mas essa desgraça foi de nós ambos,
+Almeida.
+
+«A bala que te matasse, matar-me-ia. O risco em que a tua vida esteve,
+queres tu que eu t'o pague com a minha? A morte repelle-me.
+
+«Quem me dera, meu Deus, quem me dera morrer, se ainda posso
+deixar-te de mim uma lembrança triste, meu amigo!
+
+«Este teu silencio dóe-me tanto como se te houvesse perdido, e chorado
+na sepultura. Assemelha-se ao desprezo a tua frialdade. Bem sei que não
+pódes vir a esta casa, á casa de minha filha; mas que não faria eu para
+te encontrar, Almeida?
+
+«Pois é possivel este desfecho de uma paixão que tantas lagrimas me ha
+custado! Soffrer vinte e dois annos, envelhecer agradecendo-te os
+tormentos e os remorsos que me empeçonharam a mocidade, para agora assim
+ser despedida da tua alma, sem que ao menos me digas até que ponto sou
+culpada no teu infortunio?
+
+«Oh meu amigo, que infortunios seriam necessarios, que flagellos
+inventaria o inferno para me fazer deixar-te!
+
+«Eu tinha d'antes noites desveladas de continuos remorsos--se tinha!...
+vós o sabeis, Deus meu!--e, ao cabo d'esse martyrio, sondando-me,
+Almeida, sentia-te mais dentro do meu coração, mais senhor da minha alma!
+
+«Conspirassem todas as forças d'este mundo contra mim, fosse eu chamada
+para dar conta da minha honra, proferiria o teu nome com orgulho,
+offerecendo o rosto para todos os ferretes da ignominia. Isto assim era
+amor, amor insensato de mulher que faz da sua deshonra um heroismo!
+
+«E tu pagas-me tão cruelmente, meu amigo! Adivinhas que em tres semanas
+os meus cabellos se fizeram brancos? Assusta-te a presumpção de que
+a minha face envelheceu? Não pódes já ver em mim signaes desvanecidos da
+Angelica dos dezoito annos? Tens razão, Almeida; estou velha, mas o
+coração, unica belleza que eu tinha, unico dote que fazia a minha
+vaidade de merecer-te, esse, meu amigo, aperfeiçoou-se através de vinte
+e dois annos, está hoje como não estava quando te assenhoreaste d'elle,
+aperfeiçoou-se em contacto com os dons sublimes do teu, encheu-se de
+amor que o ha-de matar, porque já não tenho peito que possa conter tanto
+fel!
+
+«Não estou assim repulsiva que te afugente, Almeida. Não imagines o que
+fui, nem repares no que sou. Lembra-te só do perdido amor que te dei,
+mova-te só a lembrança do muito que a minha alma te quiz; acceita-me na
+velhice uma amizade, que te não será pesada agora, nem embaraçosa para
+tua felicidade. Diz-me só que o teu silencio não é desprezo nem
+esquecimento. Poupa-me á horrivel morte que me faz tremer. Se tudo
+perdi, resta-me o recurso da tua commiseração. Imploro-a de joelhos.
+Amor, esse sei eu que se não supplica; mas engana-me, Almeida,
+engana-me, por piedade. Diz-me que uma dedicação de tantos annos não
+póde acabar com o desprezo.»
+
+_Ingrato homem!_ é a exclamação natural com que as leitoras sensiveis
+exprimem o seu dó.
+
+Pois decidem de leve, e accusam com a costumada injustiça. Antonio de
+Almeida é tão digno de lastima como Angelica. Ora, vejam a seguinte
+carta que Ludovina lhe escreveu, antes da sua partida para Celorico:
+
+«Lembra-me que, sendo eu creancinha, sentava-me no collo do meu amigo,
+anediava-lhe os cabellos, fazia-lhe muitas meiguices de coração e de
+astucia, para no fim lhe pedir um brinquedo, um passeio, uma qualquer
+cousa que o meu amiguinho me não sabia negar.
+
+«A creança fez-se mulher, já não sabe ameigar antes de pedir; mas essa
+falta vem de eu me esquecer das maviosas e candidas palavras que sabia
+então. O coração é bom como era, a affeição maior e mais entranhada, a
+confiança de ser bem recebida em meus rogos é mais solida: o que me
+falta, como já disse, é o tom carinhoso, a meiguice seductora da
+innocencia.
+
+«Não importa. Eu vou pedir ao meu amigo um favor, favor immenso; empenho
+para alcança'-lo da sua generosa alma todo o amor que me teve, todas as
+recordações doces que o trazem desde o berço de Ludovina até estes dias
+tristes que vamos vivendo.
+
+«Peço-lhe, meu amigo, que tire da sua virtude as forças que o coração
+não tiver para cumprir uma supplica que vou fazer-lhe em poucas palavras.
+
+«Seja mais forte que a minha pobre mãe. Se vir que ella cáe, sustente-a.
+Trabalhe comigo para que o segredo d'aquella noite horrivel se não
+descubra á curiosidade infamadora do publico. Não peço que lhe dê
+consolações frivolas. Lições de virtude, suspeito que não aproveitam a
+minha mãe, sendo dadas pelo meu amigo. A razão está muito longe do
+coração. Penso que minha mãe tomaria como esquecimento, ou
+desamparo os seus conselhos.
+
+«Conhece bem a situação de minha mãe, sr. Almeida? Siga o que a sua
+honra lhe inspirar. Veja que novas desgraças podem seguir-se. Avalie o
+que eu tenho feito por ella, e medite na extensão da minha dôr se tudo o
+que fiz e faço fôr perdido.
+
+«Não sei dizer o que me está na alma. Pode ser que eu dissesse o mais
+confusamente que é possivel o meu pensamento. Lá está o seu nobre
+espirito para aclarar a obscuridade d'essas palavras.
+
+«É necessario grande animo para me obedecer? Soffra, meu amigo, soffra
+comigo. Olhe que me ha de abençoar, e gloriar-se do seu sacrificio.
+
+«Eu parto hoje para Celorico. Meu marido é digno de pena. Vou ajuda'-lo
+a combater os remorsos que o tem levado ao infortunio da demencia.
+
+«Olhe que vida esta, meu amigo! Sirva-lhe o meu exemplo para a
+paciencia, e para o heroismo. Adeus. Sua amiga _Ludovina_.»
+
+Esta carta explica o silencio de Antonio de Almeida. Comprehendeu-a com
+o juizo prudencial dos quarenta annos. Meditou-a com tanto respeito como
+admiração. Recolheu as palavras d'ella com religiosa austeridade, e
+violentou a alma a aceitar o juramento da observancia, com pena de
+deshonra e villania, se rescindisse alguma vez a alliança que fizera com
+a que elle, no intimo de seu coração, chamava filha.
+
+Eu sei de mais que os amadores, em romance de boa escola, não
+costumam assim accommodar-se, e obedecer aos ditames da razão. Estas
+cousas, como ahi se contam, são naturaes e observadas, e sentidas; por
+isso mesmo desagradaveis, em novella, onde o bom é o inverosimil, e o
+que mais captiva é o que mais repelle o coração bem formado.
+
+Estes amores de Antonio de Almeida e D. Angelica, tractados por
+imaginação de mais pulso, davam para muito brilhar. Estou a ve'-lo a
+elle, pelo prisma phantastico dos mestres, erguer-se da cama com a mecha
+ainda na aberta chaga, um par de pistolas de doze tiros, nas algibeiras,
+entrar, entrar de cabellos hirtos e rosto livido, no quarto de Angelica,
+e semi-desfallecido nos braços d'ella, dar largas á parlenda, e
+vociferar, por entre amorosas phrases, esconjuros odientos contra o
+genero humano, contra a instituição do matrimonio, e contra os deveres
+conjugaes! Agora se me afigura vêr Melchior Pimenta assumar no limiar da
+porta, e embasbacar petrificado diante do grupo escandaloso. Ha gritos,
+injurias, investidas, até que alfim, levados á puridade para um recanto
+da casa, ahi combinam um duello de morte, no dia seguinte. Medonha
+figuração me avulta agora na imaginação de emprestimo Melchior Pimenta,
+após a detonação de dois tiros, cambaleia sobre as pernas, leva a mão ao
+seio que espirra golfos de sangue, põe os olhos annuviados no céo
+impassivel, que contempla o quadro feio, e expede o derradeiro halito,
+nos braços dos padrinhos.
+
+Quantos capitulos desgrenhados cuida o leitor que dava esta
+parvoiçada imaginativa? Dois volumes em oitavo com seiscentas paginas,
+afóra o subsidio das reticencias, que, na minha opinião d'outro tempo,
+foram inventadas para definir a mulher; e na minha opinião d'agora,
+inventou-as o primeiro litteratico ôco de idéas.
+
+Ora, que fiquem com Deus os mestres que tão vistosos de zarandalhas nos
+embelecam; e, pelo caminho direito, mas escabroso da verdade, vamos
+entrar na ultima jornada d'esta historia.
+
+
+
+
+CONCLUSÃO
+
+
+O barão de Celorico parecia uma creança atemorisada ao pé de Ludovina.
+Se a perdia um momento, davam os espectros com elle, e lá ia o pobre
+homem gritando, até se acocorar ao pé d'ella, escondendo-se com a roda
+do vestido.
+
+Bastava a presença de Ludovina para socegar-lhe os accessos de loucura,
+manifestados em exclamações desatadas, quasi sempre seguidas da
+apparição do charuto cuja historia elle contava a sua mulher, pelo theor
+ridiculo que já lhe ouvimos.
+
+Acudia Ludovina com o inutil remedio da razão, despersuadindo-o da morte
+de Almeida. O barão abria a bocca attenciosa, parecia dar mostras de
+entender e acreditar; o desfecho, porém, do silencio sereno com que a
+escutava, era ver um novo avejão, que o vinha aterrar por cima do hombro
+da mulher.
+
+Os primos compadecidos, e os facultativos aconselhavam á baroneza o
+emprego dos meios violentos para o curarem. A grande idéa therapeutica
+era o caustico e a sangria. A contristada senhora annuiu. Por sua
+parte, fez-lhe até carinhos para o induzir a deixar-se sangrar. O barão
+replicava que o queriam matar, e de joelhos pedia á mulher que não o
+deixasse morrer ás mãos dos seus inimigos, que o perseguiam para lhe
+roubarem a esposa.
+
+Resolveram empregar a força. Dois robustos camponios tomaram a peito a
+ardua empresa. O cirurgião armado de lanceta esperava o ensejo propicio.
+O officioso abbade da freguezia encarregára-se de cingir-lhe um lenço
+sobre os olhos. O juiz ordinario pegava na bacia. Varios primos formavam
+o corpo de reserva, e a baroneza fugira para não presenciar os
+extrebuxamentos do infeliz.
+
+--Agora!--disse o facultativo.
+
+Á palavra _agora_ o barão estava entalado entre quatro braços
+cabelludos, e o abbade, á rectaguarda do preso, lançava o lenço com mão
+certeira. O barão arquejava, sem comtudo barafustar entre os membrudos
+braços. Tudo promettia um propicio resultado, quando o antigo hercules
+da rua dos Pescadores sacode um solavanco, e dispara dois murros
+simultaneos nas ventas vizinhas. Umas eram as do abbade, o proprietario
+infeliz das outras ventas era o juiz ordinario. Investiram de novo
+contra elle os athletas: cara lhes foi a façanha, porque apararam um
+choveiro de sôcos tremebundos, indo um d'elles por engano, estoirar na
+lombada do cirurgião. Rarearam as fileiras. O abbade, o juiz, e os
+homens de péga, parte dos primos, e o cirurgião coaram-se
+cabisbaixos pela primeira porta que lhes franqueou a fuga atropellada.
+
+N'esse conflicto appareceu Ludovina. O doudo baixou as armas
+contundentes, os braços iteriçados que vibravam o ar como duas
+mangueiras de malho. Correu para ella, como a pedir-lhe soccorro,
+ouviu-lhe as reprehensões com o tremor do medo, e cahiu prostrado da
+lucta sobre uma cadeira, apegando-se á saia da baroneza.
+
+Aqui está o viver da deploravel senhora, no espaço de um mez, em
+Celorico de Basto. Aquella vida, e as dôres profundas de outras causas,
+eram o preço por que se fizera, ou a fizeram opulenta aos olhos da
+sociedade, que, ainda assim, a invejava.
+
+O barão desmedrára a olhos vistos. Do antigo João José Dias restava o
+arcabouço proeminente de angulos osseos. A panda physionomia, tão rubida
+de nediez chorumenta, chupára-se, entanguira-se, cousa de fazer lastima.
+Diziam todos que a baroneza, um mez depois, seria uma formosa e rica
+viuva. Já dois dos primos, morgados empenhados, botavam suas medidas, e
+porfiavam a conquista. As damas, com palavras francamente grosseiras,
+iam dando os parabens á baroneza. As que ousaram feri'-la assim, ouviram
+resposta que lhes fechou para sempre as portas de sua casa.
+
+A idéa que dominava o barão era a morte de Antonio de Almeida. Ludovina
+perdera a esperança de afugentar o phantasma, empregando razões tão
+convincentes da vida de Almeida como eram mostrar-lhe cartas
+d'elle, que o barão ouvia ler com o sorriso do idiotismo, percursor de
+nova berraria.
+
+A ultima que Ludovina lera, quasi certa de que seu marido não a
+percebia, foi a seguinte:
+
+«Minha amiga. É já bastante o numero dos infelizes que põem os olhos
+lagrimosos no abrigo consolador de Ludovina. Somos já muitos os
+desamparados da esperança e da alegria. D'aqui até ao fim da vida é
+soffrer, e chorar de modo que o mundo nos não veja as lagrimas: é
+preciso que o coração as verta e as absorva; é necessario suffocar os
+gemidos, e entreter as dôres, cavando a sepultura.
+
+«Curta será a minha existencia. Quarenta e quatro annos, e a saude
+alquebrada, e o coração feito pedaços, é um bom agouro, não é? Mas, para
+Ludovina será extensa a estrada da amargura. Tem vinte annos, minha
+amiga; vejo-a na aresta do precipicio, a contemplar-lhe a profundeza, e
+ahi se lhe hão de prolongar as horas como as do desterrado. Meu pobre
+anjo! quem lhe vaticinaria ha dez annos este infortunio?
+
+«A santidade do seu viver devia ser recompensada aqui; mas a fé, a
+religião dos desgraçados, ensina que o premio das grandes virtudes não
+póde ser dado n'este mundo porque não ha mãos puras que possam tecer a
+corôa do martyrio. Espere, Ludovina, com os olhos no céo, e a mão sobre
+o seio para esmagar os impetos do coração, que tem accessos de raiva
+blasfema.
+
+«Obedeci-lhe, Ludovina.
+
+«Comprimi, abafei, matei a essencia da minha vida, o sentir que m'a
+fazia preciosa. Sou para sua mãe uma memoria. D'ella tenho só o nome
+escripto no coração, como o epitaphio do affecto que ali morreu recalcado.
+
+«Deu-me um calix, Ludovina. Bebi-o de um trago. Se tem outro,
+offereça-m'o; toma'-lo-hei de joelhos.
+
+«Pergunta-me qual é o meu viver?
+
+«É isto, minha amiga. Não sei dizer-lhe que turbação afflictiva me
+embaça o animo. Em redor, todos os meus horisontes são tenebrosos. A
+mesma sepultura perdeu para mim os encantos de repouso, esse acabar que
+é o porto seguro de todos os naufragos d'este horroroso pego.
+
+«Poderei fazer-lhe entender, Ludovina, um quadro triste da minha
+imaginação cançada de soffrer? Vejo dois vultos em pé, taciturnos,
+sombrios, com os olhos cerrados, travando-se as mãos com a gelida
+immobilidade de duas estatuas. Parou a vida externa n'estes dois entes.
+Uma tremenda agonia lhes despedaçou a maior parte do coração; o
+remanescente são fibras de ferro que resistem ao veneno e á morte. Ao pé
+d'elles está a sepultura de ambos, e o anjo da consolação, sentado
+n'ella, alimenta ahi a alampada da esperança.
+
+«Adeus, minha santa amiga.»
+
+Esta carta reclamaria notas explicativas, se o entendimento do leitor
+não traduzisse a singelo o que ahi se esconde no figurado da linguagem.
+A alliança de Antonio de Almeida e Ludovina, sobre um contracto de honra
+tão melindrosa, não podia ser tractada com mais recato e pejo, de ambas
+as partes. Entende-se o melancolico debuxo que attribulava o
+espirito de Almeida. Angelica era a companheira d'esse homem que lhe
+dava as mãos á borda da sepultura. A alampada da esperança alimentada
+pelo anjo da consolação, era o fito da morte d'onde ambos não desfitavam
+os olhos, como a naufragos succede, se no horisonte se lhes recorta um
+rochedo salvador.
+
+Ludovina entendeu o viver de sua mãe, e pungidas lagrimas essa carta lhe
+desentranhou do coração. Chamou-a para si com grandes demonstrações de
+saudade. Pediu-lhe que fosse alliviar-lhe o peso da cruz á qual já não
+bastavam seus hombros. Dava-lhe paciente conta do seu viver ao pé do
+barão que noite e dia bramava contra os espectros, e já dava aos
+facultativos receio de morrer desvariado, a mais acerba de todas as mortes.
+
+D. Angelica, fechada em seu quarto, realisava a imagem que a phantasia
+de Almeida adivinhára. Sombria, inerte, reconcentrada, impassivel a
+cuidados, carinhos, e desvelos de Melchior Pimenta, apenas dizia que
+estava esperando a morte, e repellia com desabrido enfado os lenitivos
+de quem quer que fosse.
+
+Nunca mais escrevera a Almeida, e á filha eram mais as lagrimas que as
+lettras. Não era a sua uma d'essas dôres que desabafam. Sentia-se tomada
+de vergonha, se o coração a mandava abrir-se em desafogados prantos com
+Ludovina. Sentia-se ferida de aborrecimento, se não odio, quando o
+marido, mais simulado que dorido, lhe repetia as consolações frivolas de
+quem não comparte as penas.
+
+Á saudosa carta que a chamava a Celorico, D. Angelica respondera que já
+não tinha vigor que a levantasse do seu leito. Supplicava a Ludovina que
+lhe perdoasse a ella como causa dos seus tormentos, e lhe acceitasse
+como reparo do seu pouco amor maternal os amargos transes que lhe
+estavam desfazendo o coração fibra por fibra.
+
+No entanto, disseram os medicos á baroneza que a apparição d'esse homem,
+que o barão julgava sua victima, poderia recobrar-lhe a razão,
+desopprimindo-a de phantasmas e remorsos, causas principaes da demencia.
+
+Ludovina communicou a Almeida as esperanças dos medicos, sem pedir-lhe o
+sacrificio de se verem.
+
+Almeida foi a Celorico de Basto, e encontrou ao pé da baroneza Melchior
+Pimenta.
+
+Ludovina turvou-se da surpresa, e assim denunciou aos olhos do pae o
+sobresalto em que a puzera a apparição do amante.
+
+Melchior Pimenta, forte da sua indignação, insultou Almeida,
+exprobrando-lhe a pertinacia da infamia, e ameaçando-o com a morte, se
+elle não sahisse immediatamente d'aquella casa.
+
+Ludovina cobrando forças, disse que só ella tinha direito de expulsar
+alguem d'aquella casa. Encruou-se a sanha de Melchior, vociferando
+injurias contra a filha, e provocações ao hospede silencioso. E saíu
+escandecido de raiva. Almeida quiz segui'-lo, com sereno gesto, sem
+assomos de colera, nem proposito de vingança. Impediu-o Ludovina com
+lagrimas e gemidos que irritavam as iras paternas. Bem se via que
+não estava ali um pae; e, se estava, não era por certo Melchior Pimenta.
+
+Este conflicto atalhou-o o barão. Seguiu-se uma scena de effeito
+dramatico. O barão recuava diante de Almeida que lhe extendia a mão.
+Ludovina segurava o marido, pedindo-lhe que acceitasse a reconciliação
+que Almeida lhe offerecia. Este com palavras afectuosas lhe pedia a sua
+estima, e o esquecimento da passada offensa. O barão, ora espavorido,
+ora risonho, alternava os olhos entre Almeida e Ludovina.
+
+O leitor já sabe como no theatro se recupera o juizo. Se é mulher a
+douda, rigorosamente desgrenhada esfrega os olhos, atira com as madeixas
+para traz, e dá fricções seccas ás fontes com frenesi; se, homem, abre a
+bocca, espanta os olhos, soleva o peito em arquejantes haustos, despede
+o grito agudo obrigado a ambos os sexos, e está pessoa de juizo, capaz
+de casar, que é quasi sempre a peor das doudices em que os auctores
+fazem cahir os seus doudos, restaurados para a razão.
+
+Pois o barão de Celorico não se curou por esse theor. Os áditos da razão
+estavam cerrados de modo que levou longo tempo a despedaça'-los. A
+continua assistencia de Almeida ao pé do leito, e as continuadas
+insinuações de Ludovina, conseguiram rehabilitar-lhe o juizo, mas
+vagarosamente. O barão parecia emergir d'um pesadello atroz quando
+reconheceu Almeida. Não houve exclamações nem abraços de pé atraz,
+_secundam artem_. Lagrimas, sim, as da baroneza, cujo contentamento
+desmentia as conjecturas dos primos que a imaginavam lograda nas
+suas ancias de viuvez. O custoso, depois, foi rebocar os estragos que a
+demencia fizera no corpo do barão. Foi longa a convalescença. Almeida
+quiz despedir-se; mas o enfermo erguia as mãos supplicantes pedindo-lhe
+que o não deixasse.
+
+Melchior Pimenta, de volta de Celorico, contou a sua mulher o escandalo
+que presenceára. Repetiu contra Ludovina as injurias que lhe dissera em
+face. Protestou esbofetear e apunhalar Almeida na presença de
+testemunhas que depuzessem no processo da sua honra, e impoz, com
+auctoridade, a sua mulher a sahida immediata da casa da adultera.
+
+D. Angelica ergueu-se impetuosa e terrivel, exclamando:
+
+--A adultera sou eu!
+
+--Que dizes, Angelica?!--bradou Melchior.
+
+--Adultera sou eu. Ludovina encobriu a minha deshonra com a sua virtude.
+Os nomes insultuosos que lhe dás, repara bem, Melchior, e ve'-los-has
+estampados no meu rosto. Se queres lavar com sangue estas manchas,
+arranca-m'o do seio!
+
+E assim falando, tirava o lenço que lhe velava os hombros, offerecendo o
+peito.
+
+--Endoudeceste, minha querida Angelica?--exclamou Pimenta--Faltava-nos
+esta desgraça! Estás douda! maldita seja tua filha que te levou a esta
+situação!
+
+«Não estou douda, Melchior! não estou douda! Estou moribunda, e não
+quero deixar infamada a teus olhos a minha filha. Se eu te pedisse
+perdão do meu crime, acreditar-me-ias?
+
+--Não, não. Tu és uma esposa virtuosa, Angelica! Diz o que quizeres para
+salvar Ludovina, que eu não te creio. Reprovo essas demasias de amor,
+que ella te está pagando com o amante ao pé de si.
+
+«Melchior!--disse Angelica com firmeza e gravidade--A tua filha está
+innocente; a amante de Antonio de Almeida sou eu! Não me perdôes, vinga
+em mim a tua deshonra, porque o perdão não t'o peço. Sabias, quando me
+acceitaste como tua, que eu não podia pertencer-te. Collocaste ao meu
+lado o homem que me fazia odiosa a tua baixeza. Nunca me perguntaste se
+era verdadeira a carta que te escrevi em solteira, pedindo á tua
+commiseração que me deixasses. A mulher que fez isto, não pede perdão.
+Revolta-se com a coragem do desespero, e deixa-se morrer. Confesso o
+crime para salvar minha filha. Julga-me tu agora, mas vae pedir perdão
+áquella santa que quiz poupar tambem a tua dignidade.
+
+Melchior Pimenta saíu do quarto de sua mulher.
+
+Para se armar do punhal de D. Jayme de Bragança, e do infante D. João?
+
+Para se dar um tiro no ouvido?
+
+Para mergulhar da ponte-pensil, ou despenhar-se dos Arcos-das-Virtudes?
+
+Para scismar e endoudecer?
+
+Não, senhores.
+
+Melchior Pimenta foi para a Alfandega, jantou no hotel de Miss
+Mery, e jogou o voltarete até ás onze horas na Assembléa Portuense.
+
+No dia immediato, visitou sua mulher, e recommendou-lhe que desse um
+passeio no jardim que estava o dia agradavel. Ás tres horas procurou-a
+para jantar ao pé d'ella. Disseram-lhe que a senhora tinha sahido n'uma
+cadeirinha, e deixára uma carta para seu marido.
+
+Não vi esta carta, mas infiro o contheudo pelos successos subsequentes.
+
+D. Angelica obteve, vinte e quatro horas depois, licença de seu marido
+para entrar n'um convento, situado n'um ermo do Minho. D'ahi escreveu a
+sua filha, pedindo-lhe uma esmola para sustentar-se, visto que o
+trabalho não bastava para as suas pequenas necessidades.
+
+Ludovina apressou a sua volta para o Porto. Obteve licença para visitar
+sua mãe, e demorar-se no mosteiro por tempo indeterminado. Acompanhou-a
+o marido e deixou-a com a certeza de a trazer comsigo passados dias.
+
+São decorridas dois annos. A baroneza de Celorico ainda não sahiu do
+convento. O barão soffre resignado a certeza de que sua mulher não
+sahirá jámais.
+
+A opinião publica diz que Ludovina merece louvores por não ter o
+descaramento petulante de apresentar-se como outras muitas, incursas no
+mesmo peccado, e declara a alta virtude de D. Angelica, mãe amorosa que
+deixa a sociedade para se inclausurar com a filha desamparada.
+
+Melchior Pimenta está bom, e é commensal do barão.
+
+Antonio de Almeida encetou, ha dois annos, uma longa viagem d'onde não
+voltou ainda.
+
+O bacharel Ricardo de Sá comprou mais tres bengalinhas, e dá a ultima
+demão ao seu SECULO PERANTE A SCIENCIA.
+
+São hoje 15 de fevereiro de 1858.
+
+O unico personagem morto d'esta historia é Francisco Nunes. Expirou ao
+cabo de uma violenta apostrophe, expedindo o derradeiro golfo de sangue
+com o epitheto mais fulminante que a sua cólera lhe suggeria. Matou-o o
+contracto do tabaco.
+
+
+FIM
+
+
+
+
+SUPPLEMENTO
+
+
+PREFACIO
+
+O romance estava acabado. Os meus numerosos admiradores, que
+eu regalára com a leitura d'essas duzentas paginas, haviam asseverado,
+com a costumada franqueza, que este volume era a flor da virtude a
+rescender perfumes de deleitosa aspiração para as almas. Um d'esses,
+cujo voto muito respeito pela _massa_ de conhecimentos que _amassou_ em
+Frederico Soulié e Alexandre Dumas, accrescentou que o romance _O que
+fazem mulheres_ era a flor do meu talento. Cheio de encantadora
+modestia, perguntei se a virtude da minha heroina precisaria de mais
+tres ou quatro capitulos para ser vista a toda a luz celestial com que a
+Providencia lhe irradiára o espirito. Disseram-me, á uma, que não
+escrevesse mais uma só linha, que deixasse á perspicacia das leitoras o
+desvelarem mysterios do coração, que eu não saberia illuminar sem
+profana'-los, que deixasse ás lagrimas das almas sensiveis o fecho
+d'esta historia, que esperasse, finalmente, alguns annos, para então
+escrever a segunda parte da biographia da baroneza de Celorico de
+Basto, que talvez os collegios de meninas adoptassem para uso das
+educandas.
+
+Convenci-me d'isto, e mandei ao meu editor o romance, com a prophecia de
+ser este um livro cuja decima edição apenas bastaria para aquietar as
+ancias d'um terço do paiz. Disse-me em linguagem fria o meu editor que
+uma virtude em duzentas paginas por quinhentos réis era, pequena de mais
+para o comprador que prefere um livro em trezentas. Redargui-lhe, com
+argumentos de grande calibre logico e moral, que a unidade da acção era
+inatacavel no romance.
+
+_Item_: que o estirar uma idéa para avolumar a lombada de um livro era
+chatinar a mercancia litteraria.
+
+_Item_: que muitas capacidades largas e agudas, ás quaes eu submettera o
+meu manuscripto, se compromettiam a dizerem que este livro era a quinta
+essencia de tudo que se tem escripto acerca das mulheres virtuosas desde
+Sancta Agatha até ás Virgens do Thirol.
+
+Chamei em meu abono Aristoteles, Longino, e mais alguns legisladores que
+eu não conhecia, para convencer o interprete do publico de que as raias
+do meu trabalho de chronista não podiam transpôr as da realidade. Por
+quanto:
+
+Não é inventada esta historia;
+
+Não quadram os incidentes imaginados com o essencial de um conto
+verdadeiro;
+
+Não tolera um leitor sisudo que se lhe encampe á credulidade enfadonhas
+narrativas que agorentam a verosimilhança, ou enfastiam a attenção
+benevola.
+
+Após uma renhida desavença da qual ia resultando a perda do manuscripto,
+que eu insensatamente sacrificaria ao meu bem entendido orgulho, viemos
+ao accordo de se publicar o magro volume com grandes margens, grandes
+entrelinhas, exuberancia de reticencias, e alguns juizos criticos dos
+meus amigos que serviriam de indigitar ao leitor em que paginas estão as
+bellezas que elle não viu.
+
+Concertados assim, estava o typographo com a ultima pagina, quando eu
+fiz uma excursão ao Minho, e encontrei no Senhor do Monte o cavalheiro
+que me contára o contexto d'este romance, nos ultimos dias do mez de
+janeiro proximo passado.
+
+A nossa conversação de algumas horas vae ser trasladada em paginas
+supplementares.
+
+Antes, porém, de entrar n'essa tarefa que realmente me dóe, seja-me
+permitido verter uma lagrima no degrau do altar onde eu collocára
+Ludovina, onde ella se collocára, e de onde se me afigura que...
+
+Não dou ansa a juizos temerarios do leitor. Leiam, e decidam se a
+virtude perfeita não é uma utopia impossivel n'um livro que tiver mais
+de duzentas paginas.
+
+Cumpre dizer quem é a pessoa, destinada pela providencia dos romances a
+figurar n'este supplemento.
+
+V. ex.as de certo a conhecem. Viram-na já muitas vezes no theatro, nos
+bailes, e na missa dos Congregados, na dos Clerigos, na do Carmo, em
+todas as missas classicas em que se vê tudo, e se ouve tudo, menos o
+padre e a missa.
+
+Eu dou os signaes do homem.
+
+Tem uma bella cabeça, uns bellos cabellos, uns bellos olhos... Já
+conheceram?
+
+De vinte leitoras, dez estão na duvida. Se v. ex.ª é uma das dez
+perplexas, desperte as suas reminiscencias com os seguintes traços:
+
+O nariz é a feição mais caracteristica d'este homem. Na base tem um
+promontorio, no centro uma protuberancia, na ponta uma recurva como o
+bico de um passaro. Chamam-se estes narizes _Bourbons_. Agora
+conheceram-no todas. Na escola dos physionomistas, este nariz tem
+significações espantosas. É um nariz que individualisa um homem; é um
+livro aberto; é o porta-voz dos segredos da alma; é em summa, uma
+biographia.
+
+Foi o que me approximou d'este homem. Se a natureza lhe désse a elle um
+nariz vulgar, o leitor não se decidiria na leitura d'este romance. Vejam
+de onde eu tirei um livro! O nariz de Cyrano de Bergerac foi causa de
+vinte duellos de morte. Do nariz do meu amigo podem pender vinte volumes.
+
+Fascinou-me, e fui eu que me offereci á sua amizade. Achei-o um homem
+raro, sabendo profundamente a vida de v. ex.as, quero dizer, todas as
+virtudes que v. ex.as escondem, todas as perfeições que a sociedade não
+vê, sem lh'as explicarem.
+
+É provinciano o sr. Marcos Leite: dê-se-lhe este nome. Visita o Porto
+duas vezes cada anno, uma no carnaval, outra na estação do theatro
+italiano.
+
+Consta que nunca teve namoro que o entretivesse nas duas estações.
+O nome da mulher, que adora, até á demencia, no carnaval, quasi sempre
+lhe esquece na Paschoa seguinte. Em compensação, as mulheres rejeitadas,
+quando o leão volta das suas selvas nataes, apenas dão fé que Marcos
+está no theatro das suas façanhas pelo estrupído extraordinario do
+cavallo, que elle atira em arremettidas e sacões pelas ruas mais sonoras
+da cidade eterna. A não serem as mulheres o que providencialmente são,
+Marcos Leite seria prea dos dentes do remorso, ha muito tempo. Não ha
+uma só das esquecidas damas, que lhe não incendiasse no mais intimo do
+peito um amor eterno... de tres semanas.
+
+Algumas possuem cartas de uma paixão tão frenetica, que as exclamações
+de Werther, comparadas com ellas, são frias e chatas como um rol de
+roupa suja.
+
+Foi, pois, este cavalheiro, respeitavel em todos os sentidos, que me
+contou o essencial da historia do barão de Celorico, accrescentando que
+tinha visto duas vezes de relance, n'uma grade d'um mosteiro do Minho,
+proximo ao seu solar, a figura celestial da baroneza, e a sympathica e
+ainda juvenil physionomia de D. Angelica.
+
+Por essa occasião, lhe perguntei eu se traçava alguma rede á virtude
+heroica de Ludovina. Respondeu-me o narrador, que não ousava escalar uma
+fortaleza em cujo assalto era forçoso triumphar, ou morrer.
+Accrescentou, que, nem ainda cooperado por duas primas que tinha no tal
+convento, elle se animava a revelar a Ludovina uma affeição, que,
+desprezada, se tornaria em loucura furiosa.
+
+Pareceu-me sensata a resposta de Marcos. Que homem conseguiria alvoroçar
+aquelle coração, que eu imaginava esmagado sob a pressão de uma virtude
+exaltada?
+
+Decorreram quatro mezes, e, como disse no prefacio, fui, ha dias,
+surprehendido no Senhor do Monte por Marcos.
+
+Conhecem aquelle saudosissimo arvoredo, que rumoreja na sumidade da
+serra, e aquella fresca alameda que está tapetando a entrada para a _mãe
+d'agua_? Foi alli que o encontrei, encostado á mesa de pedra, lendo LES
+REVERIES de Senancourt; leitura que eu aconselho a todas as pessoas que
+precisam idealisar um mundo medio entre o asquerosamente lôrpa em que
+vivemos, e o absurdamente inintelligivel que nos promettem as religiões.
+
+Quando me viu, Marcos Leite correu a abraçar-me, exclamando:
+
+«O meu coração tinha-te invocado. Abominaria quantos homens e mulheres
+me apparecessem aqui, menos tu, e ella...
+
+--Temos ELLA!
+
+«E tu vieste para este sitio com o coração vazio?!
+
+--Graças a Deus, não, meu poeta. Trago tecidos, membranas, valvulas,
+ventriculos, veias, arterias, nervos, sangue, etc. O meu coração está
+funccionando com a mais physiologica das regularidades. Respiro
+desafogadamente, e completo a digestão de uns succulentos pedaços de
+boi, que triturei _sub tegmine fagi_.
+
+«Se vens assim, melhor fôra que não viesses. Eu queria que me
+entendesses, como creio que me entendem, ha tres dias, estes rumores da
+floresta. Escuta! Vê tu se este ermo, se este sussurro, que parece o
+echo esvaido de um mundo remoto, não te está dizendo que o amor é a
+vida, que a esperança é a felicidade, que debaixo do céo ha só tres
+cousas grandiosas, o homem e a mulher um para o outro, e a soledade para
+ambos! Não digas alguma blasphemia! Esse sorriso offende, e é um
+sacrilegio aqui. Agradece ao Senhor que nos dá isto, esta fontinha, a
+fresquidão d'estas sombras, o murmurio d'estas arvores, o azul do céo,
+lá em baixo a melancolia poetica do valle, o som do campanario rural que
+repercute na alma...
+
+Marcos Leite tinha razão. Não pude contrafazer, por mais tempo, a minha
+indole triste. Entrou-me a saudade no coração, aninhando-se no pequeno
+recinto não tomado ainda pela desesperança. Lancei os olhos ao livro em
+que lia Marcos, e recolhi á alma as seguintes linhas:
+
+_La paix jointe aux lumières sera le partage d'un homme dans toute une
+province. Quant au contentement, on le cherche, on l'espère même;
+peut-être l'obtiendrait-on, si la mort ou la décrépitude ne survenaient
+auparavant... La vie était bonne, et on lui trouve encore des douceurs
+que la raison ne saurait méconnaître. Mais il importe que l'imagination,
+renonçant aux écarts, et servant elle-même d'asile contre les peines,
+anime seulement le repos que l'âme peut conserver quand elle est restée
+pure._
+
+«Que é isto?--perguntei eu tomando de sobre a mesa um papel escripto a
+lapis.
+
+--Versos, meu caro; linhas, é melhor dizer linhas. O coração mais poeta
+creio que é o menos metrificador.
+
+«Póde saber-se que anjo te roçou a fronte com a aza?
+
+--Não adivinhas quem eu poderei amar assim? Ha uma só mulher n'este mundo.
+
+«A baroneza?
+
+--Com que frialdade proferes esse nome! Chama-lhe antes Ludovina...
+
+«Lê os versos.
+
+Marcos declamou com as mais maviosas modulações do sentimento a seguinte
+poesia:
+
+ A LUDOVINA
+
+ Quem ha ahi que possa o calix
+ De meus labios apartar?
+ Quem, n'esta vida de penas,
+ Poderá mudar as scenas
+ Que ninguem pôde mudar?
+
+ Quem possue n'alma o segredo
+ De salvar-me pelo amor?
+ Quem me dará gotta de agua
+ N'esta angustiosa fragua
+ D'um deserto abrasador?
+
+ Se alguem existe na terra
+ Que tanto possa, és tu só!
+ Tu só, mulher, que eu adoro,
+ Quando a Deus piedade imploro,
+ E a ti peço amor e dó.
+
+ Se soubesses que tristeza
+ Enlucta meu coração,
+ Terias nobre vaidade,
+ Em me dar felicidade
+ Que eu busquei no mundo em vão.
+
+ Busquei-a em tudo na terra,
+ Tudo na terra mentiu!
+ Essa estrella carinhosa
+ Que luz á infancia ditosa
+ Para mim nunca luziu.
+
+ Infeliz desde creança,
+ Nem me foi risonha a fé;
+ Quando a terra nos maltrata,
+ Caprichosa, acerba, e ingrata,
+ Céo e esp'rança nada é.
+
+ Pois a ventura busquei-a
+ No vivo anceio do amor.
+ Era ardente a minha alma;
+ Conquistei mais d'uma palma
+ Á custa de muita dôr.
+
+ Mas estas palmas taes eram
+ Que, postas no coração,
+ Fundas raizes lançavam,
+ E nas lagrimas medravam
+ Com fructos de maldição.
+
+ Em ancias d'alma, a ventura
+ Nos dons da sciencia busquei.
+ Tudo mentira! A sciencia
+ Era um signal de impotencia
+ Da vã razão que invoquei...
+
+ Era um brado, um testemunho
+ Do nada que o mundo é.
+ Quanto a minha mente erguia
+ Tudo por terra cahia,
+ Só ficava Deus e a fé.
+
+ Lancei-me aos braços do
+ Eterno Com o fervor de infeliz;
+ Senti mais fundas as dôres,
+ Mais agros os dissabores...
+ O proprio Deus não me quiz!
+
+ Depois, no mundo, cercado,
+ Só de angustias, divaguei
+ De um abysmo a outro abysmo
+ Pedindo ao louco cynismo
+ O prazer que não achei.
+
+ Tristes correram meus annos
+ Na infancia que em todos é
+ Bella de crenças e amores,
+ Terna de risos e flores,
+ Santa de esperança e de fé.
+
+ Assim negra me era a vida
+ Quando, ó luz d'alma, te vi
+ Baixar do céo, onde, outr'ora,
+ Te busquei mão redemptora
+ Procurando amparo em ti.
+
+ Serás tu a mão piedosa,
+ Que se estende entre escarcéos
+ Ao perdido naufragado?
+ Serás tu, ser adorado,
+ Um premio vindo dos céos?
+
+ E eu mereço-te, que immenso
+ Tem já sido o meu quinhão
+ De torturas não sabidas,
+ Com resignação soffridas
+ Nos seios do coração.
+
+ Que ternura e amor e afagos
+ Toda a vida te darei!
+ Com que jubilo e delirio,
+ Nova dôr, novo martyrio,
+ De ti vindo, acceitarei!
+
+ Se na terra um céo desejas
+ Como o céo que eu tanto quiz,
+ Se d'um anjo a gloria queres,
+ Serás anjo, se fizeres,
+ Contra o destino, um feliz.
+
+ Faz que eu veja n'estas trevas
+ Um relampago d'amor,
+ Que eu não morra sem que diga:
+ «Tive no mundo uma amiga,
+ Que entendeu a minha dôr.
+
+ «Deu-me ella o estro grande
+ Das memoraveis canções;
+ Accendeu-me a extincta chamma
+ Da inspiração que inflamma
+ Regelados corações.
+
+ «Os segredos dos affectos
+ Que mais puros Deus nos deu,
+ Ensinou-m'os ella um dia
+ Que d'entre archanjos descia
+ Com linguagem do céo.
+
+ «Os mimosos pensamentos
+ Que, de mim soberbo, leio,
+ Inspirou-m'os, deu-m'os ella
+ Recostando a fronte bella
+ Sobre o meu ardente seio.
+
+ «Morta estava a phantasia
+ Que o gêlo d'alma esfriou;
+ Tinha o espirito dormente,
+ Só no peito um fogo ardente,
+ Quando o céo m'a deparou.
+
+ «Agora morro no gôso
+ D'uma saudade immortal.
+ Foi ditosa a minha sorte;
+ Amei, vivi: venha a morte,
+ Que morte ou vida é-me igual.
+
+ «Igual, sim, que o amor profundo,
+ Como foi na terra o meu,
+ Não expira, é sempre vivo,
+ Sempre ardente, e progressivo
+ Em perpetuo amor do céo.»
+
+ Assim, querida, meus labios,
+ Já moribundos, dirão,
+ Nas agonias supremas,
+ Essas palavras extremas,
+ Do meu ao teu coração.
+
+ Sabes quem é, n'este mundo,
+ Quasi igual ao Redemptor?
+ É quem diz: «Sou adorada
+ Pela alma resgatada,
+ Por mim, das ancias da dôr.»
+
+«Por ora, vejo que supplicas amor--disse eu.--A tua poesia é um
+requerimento que póde ficar _esperado_ muito tempo no gabinete do despacho.
+
+--Fala d'outra maneira... Eu soffro demais para te achar graça. Não é um
+requerimento esta poesia, meu amigo, é uma expansão de reconhecimento. O
+amor ditoso chega a entristecer. Tenho a segurança, a segurança que nos
+dá o coração, de que a alma de Ludovina me pertence.
+
+«Por consequencia tens tudo... Enganei o publico...
+
+--Como enganaste o publico?!
+
+«Puz em romance a historia que me contaste, e disse que a baroneza era
+uma rocha inabalavel de virtude.
+
+--E receias mentir?!
+
+«Eu já sabia que me não acreditavam... Pois tenho pena, palavra de
+honra! A meiga imagem de Ludovina havia de ser sempre nova e pura na
+minha imaginação, como o eterno typo das duas formosuras enlaçadas, a do
+corpo e a da alma. Rasgava o romance, se elle não estivesse já no prelo,
+e o dinheiro d'elle transformado n'um cavallo. É tarde para reivindicar
+a minha honra de romancista ingenuo ou palerma, que anda n'este mundo a
+querer provar, que as onze mil virgens nunca de cá sahiram.
+
+--Pois que esperavas tu de Ludovina?
+
+«Que morresse abraçada á sua cruz, que désse o exemplo da esposa martyr,
+da filha sacrificada ao bom nome de sua mãe; que sahisse apenas da sua
+cella para redobrar de paciencia aos pés do altar; que nunca
+consentisse que corações degenerados como o teu, e o meu, concebessem a
+esperança de profana'-la.
+
+--Estás a fazer a alta comedia, ou crês sinceramente que Ludovina
+degenera? Põe de parte a consciencia de romancista, e deixa fallar a do
+ente pensante e racional,--e se tu e eu somos indignos de aspirar ao
+amor da baroneza, crês que um outro, cahindo das nuvens determinadamente
+por ella, a absolveria do crime horrivel de ter coração?
+
+«O coração de Ludovina estava cheio de sensações, que o faziam
+participante do amor divino. Que precisão tinha ella do amor dos homens?
+Estragou uma bella biographia, essa mulher. Talvez fosse unica, e
+apontada á posteridade como molde. Era uma virtude original;
+converteu-se em um vicio vulgar. A minha heroina fez bancarrota, falliu,
+e deixou-me em hypotheca a palavra que eu dei a paginas 170, pouco mais
+ou menos, de que eram solidos os fundos em virtude, e grandes os haveres
+em creditos d'esta mulher inimitavel, typica, e biblica, deixa-me dizer
+assim, porque ella merecia todos os epithetos levantados e grandiosos.
+
+--Mas que fez a pobre senhora para descredito tamanho?
+
+--O que fez?! é boa! auctorisou-te a canta'-la em quintilhas! Um homem
+de mais alma que tu és, vasaria a inspiração em versos endecasyllabos.
+Uma mulher assim amada em redondilha maior! É horrivel e immoral!
+
+--Bem! Ainda agora te comprehendi. Estás zombando com ella e comigo, e
+não sei se com o publico, a quem prometteste uma virtude enfadonha e
+monotona, como deve ser o teu romance, se te não salvares com a rapida
+narração que te vou fazer da mais sublime virtude, da virtude por
+excellencia de Ludovina.
+
+--Qual virtude?
+
+--A de me receber dez cartas, escriptas com o sangue do coração, e...
+não me responder a nenhuma.
+
+--Mas tu disseste-me ainda agora que tinhas a segurança de que a alma de
+Ludovina te pertence.
+
+--E tenho.
+
+--Não te respondendo ás tuas cartas? Não entendo.
+
+--Não me respondeu a dez cartas...
+
+--Bem.
+
+--Mas eu escrevi-lhe vinte, e ella respondeu á ultima.
+
+--Ah! isso então muda de figura... E a resposta foi tal que te deu a
+segurança de seres o proprietario do coração da baroneza!...
+
+--Queres ver a resposta? Franqueza e confiança. Lê lá.
+
+Era um bilhete que rezava assim:
+
+
+«Tenho recebido por delicadeza as suas cartas. Basta dar-me v. ex.ª o
+nome de amiga para que eu as aprecie. Não me julgava na obrigação de
+responder. Hoje, porém, que v. ex.ª me lembra esse dever, peço perdão da
+falta, e castigo-me devolvendo-lhe as suas vinte cartas, de cuja
+posse sou indigna, porque não soube corresponder-lhe.
+
+«Com verdadeira estima, attenciosa veneradora de v. ex.ª--_Ludovina
+Pimenta_.»
+
+
+--Isto é lisongeiro!--disse eu sorrindo.--Com um documento d'estes, é
+indispensavel a posse que tomaste do coração da baroneza. Eu creio que
+podia ser assim o proprietario mais abastado do genero...
+
+--Espera lá.. Ainda tenho outros titulos da propriedade. Já agora has-de
+examina'-los todos, e dizer-me no fim se os meus direitos serão
+litigiosos. Recebi as vinte cartas, e escrevi mais dez. Que dez cartas!
+Que estylo! que dez causticos para fazerem supurar um coração!
+
+--Deixas ver a resposta?
+
+--A resposta foram dez cartas.
+
+--Incendiarias?
+
+--Que duvida? Eram as minhas, lacradas, sem um vinco, direitinhas como
+foram!
+
+--E teimaste?! Seria necessario muito despejo e indignidade!
+
+--Não teimei: cahi doente, tive febre, assustei a minha familia, e fiz
+que me chorassem as minhas primas, companheiras conventuaes da baroneza.
+Ao nono dia de enfermidade, a medicina suspeitou que o sangue me refluía
+á cabeça. Correu que eu enlouqueceria, ou morreria. A baroneza mandou
+saber de mim duas vezes n'um dia.
+
+--Oh! isso é muito! No dia immediato foste agradecer-lhe o cuidado...
+
+--Não fui, não podia ir. O abalo, a certeza, de que era amado,
+exacerbou-me a febre, escaldou-me a imaginação a ponto de delirar.
+Durante um curto intervallo de tranquilidade de espirito, escrevi á
+baroneza uma duzia de linhas quando muito. Dava-lhe parte de que tinha a
+morte sentada á cabeceira do meu leito de agonias; dizia-lhe que pediria
+por ella ao Senhor, se a gloria celestial me fosse dada como premio do
+muito que soffrera, e da muita paciencia com que soffrera na terra os
+rigores de uma alma que não quiz comprehender-me; perdoava-lhe com a
+mais evangelica generosidade de moribundo, e emprazava-a para me
+restituir o coração na eternidade.
+
+--Isso devia fundir em lagrimas de remorso a pobre senhora.
+
+--Estás ludibriando a minha angustia?--interrogou Marcos Leite com
+ironico enfado.
+
+--Não ludibrio a tua angustia, faço a apologia da tua astucia. Tu não
+tinhas febre, nem vias a morte á cabeceira do teu leito, fala a verdade.
+
+«Tinha febre, palavra de honra, porque sou muito nervoso; e se me
+persuado que tenho uma ponta de febre, sinto-me logo em labaredas. Tenho
+tido vinte e tantos d'esses typhos, com as vinte e tantas mulheres que
+tu sabes. O que vale é ser rapida e segura a convalescença.
+
+--Convalesceste depressa? Já vejo que o teu bilhete conseguiu...
+
+«Um triumpho!
+
+--Como um triumpho?!
+
+«Uma gloria imprevista, um lance tão arrojado de venturas, que ainda
+agora me salta o coração no peito.
+
+--Guarda os extases para o fim, e vamos ao ponto.
+
+«Mandou-me visitar por um medico do Porto, que fôra de proposito medicar
+D. Angelica.
+
+--Consiste n'isso o triumpho?!
+
+«Que mais querias tu!
+
+--Mais nada... A um doente a maior prova de estima que póde dar-se é
+mandar-lhe um medico.
+
+«O peor foi dizer o doutor que a minha enfermidade era imaginaria.
+Mandou-me dar longos passeios a cavallo, e a pé, comer alimentos pouco
+volumosos e muito substanciaes, e dormir o maximo numero de horas que
+pudesse. Reflecti-lhe que sentia a morte no coração; a isto redarguiu,
+sorrindo, o medico matreiro, que verificando-se a morte d'esta viscera,
+entregasse ao estomago o exercicio das attribuições do coração. Não sei
+o que elle foi dizer á baroneza: é certo que os cuidados da parte d'ella
+não esfriaram, e eu, melhor avisado, entendi que não precisava morrer
+para ser amado. Logo que me ergui do leito...
+
+--Da agonia, ou da dôr para variar...
+
+«Nada de chacóta. D'aqui em diante fala-se serio. Logo que sahi fui ao
+convento. Era por uma bella tarde de maio. Soprava de leste uma viração
+suavissima, que, sacudindo as urnas das flôres, embalsamava a
+atmosphera de fragrantes aromas. No horisonte...
+
+--Se me pudesses dispensar do idyllio!... Guarda as reminiscencias
+bucolicas para o inverno, quando estivermos ao fogão. Por mais que
+phantasies não deslumbras a realidade do bello espectaculo que nos está
+dando aqui a natureza em primeira mão. Descarna as descripções, e diz o
+que passaste no convento com a baroneza.
+
+«Estás materialmente estupido, homem. Foi-se-te a poesia toda no fabrico
+dos romances. Vocês, os que trabalham no coração humano com o escalpello
+sanguinario da analyse, tornam-se áridos, brutaes, e famulentos de
+sensações rijas...
+
+--É assim; todavia, prefiro a descripção da tarde de maio á catilinaria
+insolente que vaes disparar-me.
+
+«Nem uma nem outra. Vou abreviar o conto, para que a inveja mais
+depressa te castigue. A baroneza mandou-me entrar n'uma grade, e
+appareceu sósinha. Era a primeira vez que me recebia a visita sem vir
+acompanhada das minhas primas ou de D. Angelica.
+
+--Esse facto é profundamente significativo! Vou gosar o prazer de ouvir
+um dialogo de amorosas finezas, cortado de suspiros maviosos... Já
+principiam as disciplinas da inveja a verberar-me...
+
+«Saberás tu o que se passou?!
+
+--Se sei o que se passou!?
+
+«Sim... dizes com tão ironica zombaria o prospecto do dialogo...
+
+--Nada, não: é que me vou aquecendo ao teu enthusiasmo, e o estylo
+principia a aquecer tambem.
+
+«Ahi vae lealmente, a scena final do definitivo triumpho. Eu tinha posto
+grandes esperanças na minha pallidez. Tres semanas de cama seriam
+capazes de fazer amarello um camarão cosido. A primeira decepção, que
+recebi ao entrar na grade, foi dizer-me a baroneza:
+
+«Ninguem dirá que esteve doente, sr. Marcos! A vida socegada de tres
+semanas deu-lhe um colorido de saude, que d'antes não tinha.
+
+--Como assim, sr.ª baroneza! Pois a minha pallidez...
+
+«Está enganado; pelo contrario, está côr de rosa, acredite. Eu chamo as
+suas primas, e verá se ellas não dizem o mesmo.
+
+--Não chame as minhas primas, sr.ª baroneza. Eu preciso que v. ex.ª me
+escute. Este é o momento solemne da vida ou morte. Hei-de hoje ouvir
+aqui a minha sentença. A pedra da sepultura já está erguida para mim; o
+seu braço suspendeu-a; o seu braço ha-de afastal-a de sobre o peito, que
+me esmaga, ou deixa'-la abafar o meu derradeiro gemido.
+
+«Que linguagem, sr. Marcos!--disse ella--Pelo amor de Deus, faça-me a
+justiça de me não julgar creança. O infortunio emancipou-me. Não posso
+ser illudida, nem illudir-me. Tenho aquella dolorosa penetração que
+adquire o espirito á medida que a boa fé do coração se perde. Com que
+fim emprega tantos esforços baldados para inquietar-me?
+
+--Eu queria fazer a sua felicidade pelo amor.
+
+«A intenção é generosa, e eu não sou ingrata. Mil vezes agradecida, sr.
+Leite; mas o amor não póde dar-me felicidade. Imagino que elle possa ser
+a alegria de muitas almas puras e impuras; dou credito a tudo o que se
+diz de sublime e celeste ácerca d'esse sentimento, o mais mavioso de
+todos: mas sem coração essa flor não póde dar perfumes de uma hora. O
+meu coração desfez-se em lagrimas, cuja historia não é nova para o sr.
+Marcos Leite. Eu não o amo, não o posso amar, apenas lhe vejo todas as
+boas qualidades que se podem desejar n'um amigo. Quadra-lhe esta
+affeição? quer-me para sua amiga? está decidido a acceitar deveras este
+offerecimento que tantas vezes acceitou, e outras tantas desprezou?
+
+--Desprezei?
+
+«Sim; pois que outro nome se deve dar ás suas cartas escriptas com um
+fogo que me deslumbra sem me queimar, instantes depois que me promettia
+respeitar a minha posição, compadecer-se dos meus infortunios, e
+acolher-me á sua estima como uma alma quebrantada de enfermidades, que
+só os melindres d'uma verdadeira amizade podem suavisar? Não é meu
+amigo, sr. Marcos. O senhor imaginou que eu tinha uma fibra do coração
+capaz de sustentar o peso de alguma grande desgraça, e quiz parti'-la.
+
+«Enganou-se; nem essa já tenho. Que mais quer que eu lhe diga?
+
+--Mais alguma cousa: disse-me v. ex.ª que me não amava; agora diga que
+me despreza.
+
+--Não posso. Sou sua amiga: não ha n'este mundo outro homem a quem eu
+possa dizer o mesmo. Sou para si, apesar da minha inutilidade, o mais
+que posso ser... Agora, se me dá licença, vou ao quarto de minha mãe,
+que está doente e só.»
+
+O meu amigo Marcos Leite, fechando assim o dialogo com a esposa de João
+José Dias, fixou-me de um modo que parecia perguntar-me a razão porque
+eu me não ria.
+
+--Esses triumphos são parecidos com as minhas derrotas--disse-lhe eu.
+
+--É que tu não sabes nada do coração humano!--replicou o singular
+provinciano, com um sorriso, que poderia ser definido infatuamento tolo
+por quem não conhecesse a intelligencia clara de Marcos Leite.
+
+Vaes agora ver que todos estes atalhos conduzem á estrada real da terra
+da promissão--proseguiu elle;--Josué está defronte das muralhas de
+Jericó. A trombeta da anniquillação vae soar. A virtude de Ludovina está
+abalada desde os alicerces, e desabará como todas as virtudes possiveis
+no romance, e impossiveis na vida qual ella é, e como bom é que ella
+seja para que este mundo se supporte desde o amanhecer até que o sol
+refresca a sua fronte abrasada nas aguas do oceano.. Deleitei-te com
+esta nesga de estylo? Até os olhos se te riem quando ouves tolices
+euphonicas!... Vou concluir.
+
+--Já?!
+
+--Achas que é cedo?
+
+--Parece-me que o triumpho está muito longe ainda para concluires tão
+depressa.
+
+--Lê esta carta, e prova-me que conheces alguma cousa do coração, dando
+como infallivel a minha victoria.
+
+Comecei a lêr com ávida curiosidade a seguinte carta de Ludovina:
+
+
+«Eu procurei este abrigo, cuidando que encontrava n'elle paz,
+esquecimento, anceios para Deus, balsamo de piedade para as chagas de
+minha mãe e minhas, o desejo suave de morrer com ella, e um acabar a
+vida melhor que o principio.
+
+«Gosei alguns mezes, se não a realidade, ao menos a esperança d'estes
+bens. Por que infortunio estava confiada ao sr. Marcos a missão de
+inquietar-me até me affligir com a mortificação das suas instancias
+impertinentes, perdoe-me a clareza da idéa...?»
+
+
+--Que amabilidade!--disse eu, interrompendo a leitura.
+
+--Lê, e não commentes por ora.
+
+Prosegui, lendo:
+
+
+«Muito egoistas são os homens, santo Deus! Ha uma infeliz mulher, como
+eu, que impressiona um homem como o sr. Marcos. Sou procurada na minha
+solidão por v. s.ª que me offerece o seu amor. Respondo-lhe que o
+não posso acceitar, porque a infelicidade me tornou dura e insensivel
+aos prazeres dos affectos do coração. Conto-lhe a minha vida com aquelle
+desabafo e confidencia que fórma as amizades immorredouras. V. s.ª
+escuta-me, admira-me, lamenta-me, e faz-me acreditar que a minha dôr é
+para si tão respeitavel que não ousará mais despertar-me o desejo de
+alegrias impossiveis para mim. Apenas decorridas algumas horas, abro uma
+carta sua, em que espero encontrar a linguagem consoladora de um amigo,
+e leio um longo queixume contra a minha insensibilidade, e a ameaça de
+se matar, porque a sua mortificação é insupportavel.
+
+«Egoismo, e tyrannia!
+
+«Faltava-me a tortura da responsabilidade da sua vida, sr. Marcos! Quem
+me dera ser o que creio que se é no grande mundo, que eu não tive tempo
+de estudar! Lá, as mulheres experimentadas nas tempestades do coração,
+sabem, creio eu, que nenhum homem morre em naufragio. Eu tenho a
+innocencia de crêr que o mortifico, que o incommodo com a minha frieza,
+que o não satisfaço com o grande affecto de amiga que lhe dou.
+
+«Que futuro me queria dar, sr. Marcos? Pois não conhece a minha posição?
+Não adivinha que vivo toda e exclusivamente no amor de minha mãe? Que
+entrei n'um caminho de amarguras voluntarias d'onde não posso desviar-me
+uma linha, sem converter em remorsos a consciencia das boas acções que
+pratiquei até hoje? Deixe-me tambem ser egoista das minhas
+virtudes, porque não tenho outro amparo que me sustente a coragem
+para soffrer o pouco de vida que me resta.
+
+«Eu avalio o seu coração. Confesso que, ha tres annos, o encontrarmo-nos
+seria um designio da Providencia divina. Creio que seriamos felizes; que
+teriamos a bemaventurança na terra.
+
+«Agora, porém, não ha futuro para nós, nenhum futuro, meu amigo.
+
+«São as ultimas palavras que lhe dirige a sua sempre amiga _Ludovina_.
+
+
+--Que esperas agora, Marcos?--perguntei eu.
+
+--Espero que ella se compadeça da minha humildade.
+
+--Humildade não entendo...
+
+--Essa carta é um esforço extremo de quem se quer segurar á aresta do
+abysmo. A baroneza é mulher.
+
+--Já sei.
+
+--Cuidei que não sabias, e de certo não sabes o que é uma mulher.
+
+--Então, já não aprendo.
+
+--Vou-te ensinar o que são todas, definindo-te Ludovina.
+
+--Escuto, sem respirar.
+
+--A baroneza ama-me.
+
+--Isso é bem positivo e claro? Vê lá...
+
+--Tenho visto. Ama-me, e está sem forças para manter uma isenção
+contrafeita. A mulher, quando se sente enfraquecer, revolta-se contra o
+homem que a subjuga.
+
+--E depois?
+
+--Se esse homem acceita humildemente a revolta, é ella mesma a que se
+revolta contra si, incriminando-se de ingrata e insensivel.
+
+--É pelos modos uma enfiada de revoltas, de _bernardas_ do coração...
+
+--Estás hoje intractavel!!
+
+--Estou intolerante com os absurdos. Esperas que ella te mande chamar á
+grade do mosteiro para assistires á queima d'esta carta na pyra do amor?
+
+--Talvez... Tu és uma creança velha. Não sabes nada. Morres ignorante
+dos segredos do coração feminino... Que lastima!
+
+--Não me chores, responde: tiveste o cuidado de avisa'-la que te vinhas
+suicidar nas florestas do Senhor do Monte? Meu caro Marcos, eu acredito
+que conheces todas as mulheres menos Ludovina. Ha um Waterloo para cada
+Napoleão d'estas conquistas incruentas. O teu é a baroneza de Celorico
+de Basto. Queres poupar-te a um desgosto de amor proprio? Esquece-a.
+
+--E a omnipotencia da vontade o que é? Hei de triumphar, ou Ludovina é
+uma natureza superior á humanidade...
+
+Sahi de Braga. O meu amigo ficou á espera da segunda «revolta» rimando a
+quarta poesia em quintilhas, e os primeiros duzentos versos de uma
+elegia que elle intitulava o seu epitaphio.
+
+ * * * * *
+
+Um mez depois encontrei no Porto Marcos Leite.
+
+--Então?--exclamei eu a custo, com as costellas apertadas n'um abraço
+homicida.
+
+--A baroneza?
+
+--Sim... diz-me alguma cousa da ultima «revolta».
+
+--A baroneza... cahiu miseravelmente.
+
+--Cahiu?!
+
+--Não o sabias? que estupida espionagem tu trazes nas casas alheias!
+
+--Venceste, pois. Marcos! Oh minha pobre Ludovina! onde eu te havia
+posto! O que dirá o publico! Despenhou-se aquelle anjo! Quando
+encontrarei eu outro para o throno que ficou vago?!
+
+--E em que lodaçal ella cahiu!...
+
+--Creio...
+
+--Esse _creio_ é uma affronta...
+
+--A ella...
+
+--Querem ver o romancista com ciumes!...
+
+--É compaixão d'ella, e de ti...
+
+--De mim!--tornou elle soltando uma estridente risada--de mim! Pois
+cuidas que o lodaçal sou eu!? Restitue-me a minha innocencia na terrivel
+torpeza que ella praticou.
+
+--Depressa... que fez ella?
+
+--Cahiu nos braços asquerosos de...
+
+--De quem!
+
+--Do marido! Não te espantas da perversidade!? Estás corrupto!
+
+--Por consequencia está coroada a virtude da minha heroina com o
+extremo supplicio.
+
+--Pelo que ouço, denominas resignação o que no meu vocabulario equivale
+a baixeza de alma! São tantas as martyres que sorriem á sucapa da tua
+compaixão... Confessa que Ludovina não podia dar mais insignificante
+testemunho de um espirito menos de trivial. Entregar-se de novo a João
+José Dias!
+
+--Cala-te, impio! não cuspas na face da martyr! Conta-me os promenores
+d'essa reconciliação. Palpita-me que a promoveu algum grande infortunio...
+
+--Qual? adivinha lá...
+
+--A morte de D. Angelica.
+
+--Justamente: morreu ha tres semanas.
+
+--Atormentada de saudades... pobre mulher!
+
+--Creio que sim. Disseram-me minhas primas que lhe encontraram um
+retrato no seio, ainda embaciado pelo ultimo respiro que ella exhalou.
+Devia ser o retrato de Antonio de Almeida. Tambem me disseram que viram
+ajoelhar Ludovina ao pé do cadaver, e lhe ouviram dizer: «A sua memoria
+fica sem mancha, minha mãe!»
+
+--Isso é triste, Marcos! Comprehendes tu a santidade d'essas palavras?
+
+--Comprehendo; mas abomino a melancolia. O mundo acceita estes heroismos
+como exquisitices. Eu pertenço a este mundo, dei-lhe o que tinha de bom
+no coração, e quero ter grande partilha no cynismo que elle dá em
+paga.
+
+--Não importa. Ludovina continua a ser um anjo, confessa.
+
+--Parece-me que o seria, se não sahisse de ao pé do tumulo de sua mãe.
+Se João José Dias avilta uma creatura que é só humana, com o seu
+contacto, como ha-de elle sustentar as qualidades de um anjo?
+
+--E se Ludovina acceita as torturas da convivencia com tal homem, como
+provocações á morte?
+
+--Morrerá estupidamente. Será indigna d'um necrologio, e terá apenas uma
+magra local chamando os amigos do marido a assistirem-lhe aos funeraes.
+
+ * * * * *
+
+Deixemos falar este homem sem alma, leitores!
+
+Ludovina continua a ser a flôr da creação, o espelho de infelizes, o élo
+que prende a creatura ao Creador, o anjo que chora, esperando que os
+anjos a levem d'este desterro.
+
+
+FIM
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's O que fazem mulheres, by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O QUE FAZEM MULHERES ***
+
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+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
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+ <title>O que fazem mulheres, por Camilo Castelo Branco</title>
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+The Project Gutenberg EBook of O que fazem mulheres, by Camilo Castelo Branco
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O que fazem mulheres
+ Romance philosophico - Quarta edição
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: July 18, 2009 [EBook #29435]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O QUE FAZEM MULHERES ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
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+</pre>
+
+
+<div style="text-align:center;">
+<p>OBRAS<br>
+<span style="font-size: 0.8em;">DE</span><br>
+CAMILLO CASTELLO BRANCO<br>
+&mdash;&mdash;<br>
+<span style="font-size: 0.8em;">EDIÇÃO POPULAR</span><br>
+&mdash;&mdash;<br>
+LVII</p>
+
+<p><span style="font-size: 1.6em;">O QUE FAZEM MULHERES</span></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="font-size: 0.8em;; margin: 10%;">
+<p><span style="font-size: 0.8em;">VOLUMES PUBLICADOS</span></p>
+
+<p>N.º 1&mdash;Coisas espantosas.</p>
+
+<p>N.º 2&mdash;As tres irmans.</p>
+
+<p>N.º 3&mdash;A engeitada.</p>
+
+<p>N.º 4&mdash;Doze casamentos felizes.</p>
+
+<p>N.º 5&mdash;O esqueleto.</p>
+
+<p>N.º 6&mdash;O bem e o mal.</p>
+
+<p>N.º 7&mdash;O senhor do Paço de Ninães.</p>
+
+<p>N.º 8&mdash;Anathema.</p>
+
+<p>N.º 9&mdash;A mulher fatal.</p>
+
+<p>N.º 10&mdash;Cavar em ruinas.</p>
+
+<p>N.<sup>os</sup> 11 e 12&mdash;Correspondencia epistolar.</p>
+
+<p>N.º 13&mdash;Divindade de Jesus.</p>
+
+<p>N.º 14&mdash;A doida do Candal.</p>
+
+<p>N.º 15&mdash;Duas horas de leitura.</p>
+
+<p>N.º 16&mdash;Fanny.</p>
+
+<p>N.<sup>os</sup> 17, 18 e 19&mdash;Novellas do Minho.</p>
+
+<p>N.<sup>os</sup> 20 e 21&mdash;Horas de paz.</p>
+
+<p>N.º 22&mdash;Agulha em palheiro.</p>
+
+<p>N.º 23&mdash;O olho de vidro.</p>
+
+<p>N.º 24&mdash;Annos de prosa.</p>
+
+<p>N.º 25&mdash;Os brilhantes do brasileiro.</p>
+
+<p>N.º 26&mdash;A bruxa do Monte-Cordova.</p>
+
+<p>N.º 27&mdash;Carlota Angela.</p>
+
+<p>N.º 28&mdash;Quatro horas innocentes.</p>
+
+<p>N.º 29&mdash;As virtudes antigas&mdash;Um poeta portuguez... rico!</p>
+
+<p>N.º 30&mdash;A filha do Doutor Negro.</p>
+
+<p>N.º 31&mdash;Estrellas propicias.</p>
+
+<p>N.º 32&mdash;A filha do regicida.</p>
+
+<p>N.<sup>os</sup> 33 e 34&mdash;O demonio do ouro.</p>
+
+<p>N.º 35&mdash;O regicida.</p>
+
+<p>N.º 36&mdash;A filha do arcediago.</p>
+
+<p>N.º 37&mdash;A neta do arcediago.</p>
+
+<p>N.º 38&mdash;Delictos da Mocidade.</p>
+
+<p>N.º 39&mdash;Onde está a felicidade?</p>
+
+<p>N.º 40&mdash;Um homem de brios.</p>
+
+<p>N.º 41&mdash;Memorias de Guilherme do Amaral.</p>
+
+<p>N.<sup>os</sup> 42, 43 e 44&mdash;Mysterios de Lisboa.</p>
+
+<p>N.<sup>os</sup> 45 e 46&mdash;Livro negro de padre Diniz.</p>
+
+<p>N.<sup>os</sup> 47 e 48&mdash;O judeu.</p>
+
+<p>N.º 49&mdash;Duas épocas da vida.</p>
+
+<p>N.º 50&mdash;Estrellas funestas.</p>
+
+<p>N.º 51&mdash;Lagrimas abençoadas.</p>
+
+<p>N.º 52&mdash;Lucta de gigantes.</p>
+
+<p>N.<sup>os</sup> 53 e 54&mdash;Memorias do carcere.</p>
+
+<p>N.º 55&mdash;Mysterios de Fafe.</p>
+
+<p>N.º 56&mdash;Coração, cabeça e estomago.</p>
+
+<p>N.º 57&mdash;O que fazem mulheres.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: double 4px #000; padding: 1em;">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>CAMILLO CASTELLO BRANCO</em></p>
+<hr style="width: 80%;">
+
+<p><span style="font-size: 1.6em;">O QUE FAZEM</span></p>
+
+<p><span style="font-size: 3em;">MULHERES</span></p>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>ROMANCE PHILOSOPHICO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>QUARTA EDIÇÃO</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>1907<br>
+P<small>ARCERIA </small>A<small>NTONIO </small>M<small>ARIA
+</small>P<small>EREIRA</small><br>
+Livraria editora e Officinas Typographica e de Encadernação<br>
+<span style="font-size: 0.8em;">Movidas a electricidade</span><em></em><br>
+<em>Rua Augusta&mdash;44 a 54</em><br>
+LISBOA</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border-top: solid 2px #000;font-size: 0.8em;">
+<p>1907<br>
+O<small>FFICINAS </small>T<small>YPOGRAPHICA E DE
+</small>E<small>NCADERNAÇÃO</small><br>
+<span style="font-size: 0.8em;">MOVIDAS A ELECTRICIDADE</span><br>
+Da Parceria Antonio Maria Pereira<em></em><br>
+<em>Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.º e 2.º andar</em><br>
+LISBOA</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{5}</span></p>
+
+<div id="corpo">
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>A TODOS OS QUE LEREM</h1>
+
+<p>É uma historia que faz arripiar os cabellos.</p>
+
+<p>Ha aqui bacamartes e pistolas, lagrimas e sangue, gemidos e berros, anjos e
+demonios.</p>
+
+<p>É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juizo!</p>
+
+<p>Isto sim que é romance!</p>
+
+<p>Não é romance; é um soalheiro, mas tragico, mas horrivel, soalheiro em que o
+sol esconde a cara.</p>
+
+<blockquote>
+ Como da seva mesa de Thyestes<br>
+ Quando os filhos por mão de Atreu comia. </blockquote>
+
+<p>Escreve-se esta chronica em quanto as imagens dos algozes e victimas me
+cruzam por diante da phantasia, como bando de aves agoureiras, que espirram de
+pardieiro esboroado, se as acossa o archote de um phantasma.</p>
+
+<p>Tenebroso e medonho! É uma dança macabra! um tripudio infernal! cousa só
+semelhante a uma novella<span class="pn">{6}</span> pavorosa das que aterram um
+editor, e se perpetuam nas estantes, como espectros immoveis.</p>
+
+<p>Ha ahi almas de pedra, corações de zinco, olhos de vidro, peitos de
+asphalto?</p>
+
+<p>Que venham para cá.</p>
+
+<p>Aqui ha cebola para todos os olhos;</p>
+
+<p>Broca para todas as almas;</p>
+
+<p>Cadinhos de fundição metallurgica para todos os peitos.</p>
+
+<p>Não se resiste a isto. Ha-de chorar toda a gente, ou eu vou contar aos
+peixes, como o padre Vieira, este miserando conto.</p>
+
+<p>Os dias actuaes são melancolicos; a humanidade quer rir-se; muita gente,
+séria e sisuda, se compra um romance, é para dar treguas ás despoetisadas e
+pêcas realidades da vida.</p>
+
+<p>Sei-o de mais. Eu tambem compro os livros dos meus amigos, para espairecer
+de meditações serumbaticas em que me anda trabalhado o espirito.</p>
+
+<p>Sei quantos devo, e que favores impagaveis me deveria, leitor bilioso, se eu
+lhe encurtasse as horas com paginas galhofeiras, picarescas, salitrosas,
+travando bem á malagueta, nos beiços de toda a gente, afóra os seus.</p>
+
+<p>Tenha paciencia: ha de chorar ainda que lhe custe.</p>
+
+<p>Se respeita a sua sensibilidade, fique por aqui; não leia o resto, que está
+ahi adiante uma, ou duas são ellas, as scenas das que se não levam ao cabo, sem
+destillar em lagrimas todos os liquidos da economia animal.<span
+class="pn">{7}</span></p>
+
+<p>Este romance foi escripto n'um subterraneo, ao bruxolear sinistro de uma
+lampada.</p>
+
+<p>Alfredo de Vigny não diz que escreveu um drama, ás escuras, em vinte dias? E
+Frederico Soulié não se rodeava de esqueletos e esquifes?</p>
+
+<p>E outros não se espertaram com todos os estimulos imaginaveis de terror?
+Menos o do subterraneo... este é meu, se me dão licença.</p>
+
+<p>Pois foi lá que eu desentranhei do seio estes lobregos lamentos.</p>
+
+<p>No fim de cada capitulo, vinha ao ar puro sorver alguns átomos de oxigenio,
+e todos me perguntavam se eu tinha pacto com o diabo.</p>
+
+<p>Almas plebeias! não sabem o que é a fidalguia do talento, que tem alcaçar
+nos astros, e nos antros lobregos da terra; não entendem este fadario do
+«genio», que elles chamam «excentricidade», como se não houvesse um nome
+portuguez que dar a isto.</p>
+
+<p>O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar de um caustico?
+Excruciaram-no, alguma vez, os flagellos da inspiração corrosiva, como duas
+onças de <em>sublimado</em>?</p>
+
+<p>Se não sabe o que isto é, estude pharmacia, abra um expositor de chimica
+mineral, e verá.</p>
+
+<p>Não cuidem que podem ler um romance, logo que soletram. Precisam-se mais
+conhecimentos para o ler que para o escrever. Ao auctor basta-lhe a inspiração,
+que é uma cousa que dispensa tudo, até o siso e a grammatica. O leitor, esse
+precisa mais alguma cousa: intelligencia;&mdash;e,<span class="pn">{8}</span>
+se não bastar esta, valha-se da resignação.</p>
+
+<p>Ora, está dito tudo.</p>
+
+<p>Leiam isto, que é verdadeiro como o «Agiologio» de Ribadaneira, como as
+«Peregrinações» de Fernão Mendes, como todos os livros legados de geração a
+geração com o sinete da crença universal.<span class="pn">{9}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>A ALGUNS DOS QUE LEREM</h1>
+
+<p>Não será uma acção meritoria amoldurar em fórmas verosimeis a virtude, que
+os pessimistas acoimam de impraticavel n'este mundo? Hão de só crer nas
+façanhas do crime, nas hyperboles da maldade humana, e negar as perfeições do
+espirito, descrêr o que ultrapassa as balisas de uma certa virtude
+convencional, que não custa dores a quem a usa?</p>
+
+<p>Se os espanta as excellencias da mulher que vou debuxar, antes de m'as
+impugnarem, afiram-se pela natureza, interroguem-se, concentrem-se no arcano
+immaculado da sua consciencia. Se me rejeitam a verdade de Ludovina, se me
+dizem que a este inferno do mundo não podia baixar tal anjo, sabem o que é esse
+descrer? é apoucamento de alma para idear o bello; é o regelo do coração que
+rebate as imagens ainda aquecidas do halito puro da divindade.</p>
+
+<p>Se a mulher assim fosse impossivel, o romancista que a inventou, seria mais
+que Deus.<span class="pn">{10}<br>{11}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>CAPITULO AVULSO</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>PARA SER COLLOCADO ONDE O LEITOR QUIZER</h2>
+
+<p>Francisco Nunes...</p>
+
+<p>Que nome tão peco e charro! <em>Francisco Nunes!</em></p>
+
+<p>Pois se o homem chamava-se assim!?</p>
+
+<p>Deus sabe que tristezas eram as d'elle por causa deste <em>Nunes</em>. O
+rapaz tinha talento de mais para escrever folhetins lyricos, e outras cousas.
+Pois nunca escreveu por que não queria assignar-se <em>Nunes</em>.</p>
+
+<p>Ha appellidos que parecem os epitaphios dos talentos.</p>
+
+<p>Um escriptor <em>Nunes</em> morre ao nascer.</p>
+
+<p>Bem o sabia elle.</p>
+
+<p>Houve em Portugal um escriptor chamado <em>Antonio José</em>. Se a
+inquisição o não queima, ninguem se lembrava hoje d'elle.</p>
+
+<p>Francisco Nunes só poderia viver na memoria da posteridade, se S. Domingos
+fizesse o milagre de reaccender as fogueiras nos subterraneos do theatro de D.
+Maria.<span class="pn">{12}</span></p>
+
+<p>Outros lá soffrem tractos agora, mas é em cima, no palco... Se, ao menos,
+Francisco Nunes escrevesse uma comedia...</p>
+
+<p>Não escrevia nada; mas falava muito, e, quasi sempre, sósinho, em casa, e na
+rua. Não incommodava ninguem; era um anjo; tinha só a perversidade de chamar-se
+<em>Francisco Nunes</em>.</p>
+
+<p>Elle ahi vae, faz agora tres annos, por uma rua do Porto, vizinha da de
+Cedofeita, falando só, e falando, ao que parece, enraivecido. Ninguem o escuta,
+se não eu, porque lhe vou na alheta, com subtis sapatos de borracha.</p>
+
+<p>Esta rua, por um lado, tem raros edificios; pelo outro é marginada por um
+comprido muro de quintaes que pertencem ás casas da rua parallela.</p>
+
+<p>Nunes, de tempo a tempo, sustem o monologo para puxar com sorvos sibilantes
+o vapor de um charuto. Depois, faz um tregeito iracundo, com o pé com sanha, e
+prorompe na imprecação interrompida, do seguinte theor:</p>
+
+<p>«Arado pelo fogo do inferno seja o torrão maldito onde nasceu a folha d'este
+charuto!</p>
+
+<p>«A chuva candente de Sodoma e Gomorrha tisne a folha do tojo e do carrasco
+que nascer no terreno que te produziu!</p>
+
+<p>«Frieiras, gotta, paralysia, e morte tolham os dedos que te colheram!</p>
+
+<p>«O sol, que te seccou, morra nos olhos de quem te trouxe aqui!</p>
+
+<p>«As mãos que te enrolaram, charuto infame, sequem-se<span
+class="pn">{13}</span> e mirrem-se como as das mumias de Memphis.</p>
+
+<p>«E para vós, contractadores, caixas, comarqueiros, e estanqueiros do
+contracto do tabaco, para vós o inferno illimitado, a região tenebrosa dos
+condemnados, onde ha o ranger dos dentes, e o sempiterno horror!</p>
+
+<p>«Para vós, Borgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para vós,
+envenenadores impunes, o patibulo n'este mundo, d'onde fugiu espavorida a
+vergonha e a justiça; e as caudaes de sulphur em combustão eterna nas furnas
+tartareas, onde é de fé que dá urros medonhos um condemnado chamado
+<em>Nicot</em>, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a impudencia de o
+trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de França.<a
+name="tex2html1" href="#foot95"><sup>[1]</sup></a></p>
+
+<p>«Porque os vossos charutos, propinadores de venenos, ennegrecem as
+substancias organicas, como o acido sulphurico.</p>
+
+<p>«São amargos e causticos como o acido nitrico.</p>
+
+<p>«Calcinam os beiços como o acido hydrochlorico.</p>
+
+<p>«Queimam a laringe como o acido phosphorico.</p>
+
+<p>«Laceram o esophago como o acetato de chumbo.</p>
+
+<p>«Fulminam e despedaçam como o acido hydrocianico.»</p>
+
+<p>Em quanto elle repuxava o vapor do incombustivel rôlo de erva-santa (que
+blasfemia! <em>santa!</em>) façamos tremendas reflexões:<span
+class="pn">{14}</span></p>
+
+<p>Um «manual de chimica para uso dos leitores de romances» é instantemente
+reclamado. Sente-se na litteratura este vazio desde que a novella é um extendal
+da sciencia humana; e esta póde, sem immodestia, graduar-se assim.</p>
+
+<p>Quando se escreviam bacamartes para as gerações soffredoras, que os lêram, o
+sabio repunha ahi em azedo vomito as indigestas massas, que ainda agora
+resistem ao dente roaz da carcoma e da ratazana, nos lotes esboroados das
+bibliothecas.</p>
+
+<p>O in-folio era uma crença, uma religião, uma faculdade d'aquellas gordas
+almas, que resumavam pingue chorume por tres mil paginas em typo-breviario.</p>
+
+<p>Não vos faz melancolia vêr a lombada d'esses enormes volumes aprumados n'uma
+estante? Não ha n'aquelle aspeito triste alguma cousa que vos faz crer que o
+in-folio chora pelo frade?</p>
+
+<p>Agora não se escreve d'aquillo, posto que o saber humano seja mais vasto, e
+opulentado com as vigilias de dois seculos laboriosos. Reina o romancista, que
+é o successor do frade, na ordem das intelligencias productivas.</p>
+
+<p>Ora, o romancista ha-de, por força de sua natureza scientifica, despejar no
+romance a sciencia que lhe traz intumecido o estomago intellectual; e o
+romance, assim, deixará de ser lido, se o conselho superior de instrucção
+publica não organisar os estudos de modo que as sciencias transcendentes, em
+consorcio com as da natureza physica, desbravem o espirito-charneca de<span
+class="pn">{15}</span> muito leitor sandio, que não póde entender a iracundia
+chimica de Francisco Nunes.</p>
+
+<p>O qual continuou assim:</p>
+
+<p>«Ha cinco seculos que a raça proscripta de Israel soffreu em Pariz uma
+perseguição sanguinolenta. Morreram milhares de judeus entre labaredas, porque
+a calumnia, infamando a religião do Messias, disse que o povo judaico tentára
+envenenar as fontes e poços de França.</p>
+
+<p>«E vós, judeus christianisados, caixas do tabaco, derramaes o veneno á luz
+do meio dia, abris as vossas tendas, vendeis pelo preço de vossas carroagens a
+droga homicida; mataes a mocidade de uma nação, que asfixia ás mãos dos velhos:
+a vós, que alimentaes o vicio alheio com o crime proprio, quem vos obriga a
+fumar um charuto de vintem?</p>
+
+<p>«Portugal, tu queimavas os judeus industriosos, a quem deveste os melhores
+livros de sciencia, as obras primas da arte, os dinheiros extorquidos á pobre
+raça, que tão caros pagou os trinta dinheiros que Judas não comeu! Queimavas o
+povo inoffensivo, nação de cafres, e dás refrescos, e condecorações, e
+honrarias, e montes de ouro aos envenenadores publicos, aos sicarios de
+charuto, que te desentranham a alma n'um rôlo de fumo negro.</p>
+
+<p>«Que é dos vestígios da civilisação christã? Que é da egide que protege o
+fraco dos affrontamentos do forte? Em que lapide está escripta a lei que
+assegura a vida do homem?<span class="pn">{16}</span></p>
+
+<p>«A Roma pagã era o sanctuario da justiça. Ahi os propinadores de venenos
+eram clandestinos. A mão cruenta do verdugo ia arranca'-los ao segredo das suas
+fornalhas, e mandava-os de presente ao diabo. «Lucius Cornelius Sylla, a tua
+lei de supplicio para os empeçonhadores vale só de per si uma legislatura
+d'esta horda de togados rotos, que nos espremem da algibeira 1$960 réis
+diarios, por cabeça.</p>
+
+<p>«Aqui, ha o morrer sem recurso de revista, o expirar em vomitos negros, o
+tossir rispido da bronchyte, as asthmas offegantes, o ronco profundo da pieira
+laringea, os deliquios da cabeça atordoada, a podridão dos dentes, as fendas
+carboniformes dos beiços, os abcessos pulmonares, as hemorrhagias de sangue
+apostemado:&mdash;ha tudo isto, debaixo d'este céo impassivel, na presença do
+codigo criminal, n'um paiz, onde trabalha a electricidade por arames, onde se
+comem <em>omelettes sucrées</em> e <em>soufflées</em>, e d'onde se mandam
+rapazes para o extrangeiro estudar <small>BENEFICENCIA</small> «Mentira!
+Mentira e escarneo!</p>
+
+<p>«Se quereis beneficiar este paiz, não mandeis lá fóra, oh parvos
+governadores da Barataria, não mandeis lá fóra estudar o processo do bem-fazer.
+</p>
+
+<p>«Vêde-me este moço, que apenas tem vinte e dois annos, e já precoces sulcos
+da doença lhe enrugam a fronte. A cutis macilenta, onde deviam vicejar as rosas
+da adolescencia, adhere aos ossos desmedulados e cariados; uma tosse violenta
+lhe reteza os musculos do pescoço, expedindo das glandulas salivares um
+pus<span class="pn">{17}</span> granuloso, pardo, e alcalino. As faculdades
+intellectuaes estão entorpecidas n'esse mancebo. Estimulando-se com cognac e
+absynto, esta especie de cretino, bestificado por uma enfermidade incuravel,
+apenas consegue dizer tres tolices ácerca de Donizetti, sentado n'um mocho de
+botiquim, encostando o corpo enervado á banca dos licores incitantes.</p>
+
+<p>«Sabeis quem reduziu esse vegetal a tão quebrantado estiolamento?</p>
+
+<p>«Foi o charuto!</p>
+
+<p>«O contracto do tabaco empeçonhára a seiva d'esse moço, que os fados, menos
+poderosos que os caixas, talvez tivessem destinado para exercer o magisterio do
+folhetim, maximo esforço de intelligencia, n'uma época, e n'um paiz, cujo amor
+ás letras não vale a correspondencia de uma local bem poetica como a do baile
+do sr. fulano.</p>
+
+<p>«Voltae para esse corpo achacadiço e apodrentado o vosso animo beneficente,
+Sanchos-Panças lerdos, pantalões administrativos!</p>
+
+<p>«Chamae a juizo os vampiros que sugaram o soro d'esse sangue aguado que o
+faz tolhiço para tudo.</p>
+
+<p>«Fazei a autopsia de um charuto como este&mdash;proseguia Francisco Nunes,
+parando e contemplando as nervuras negras do rôlo de folha, que semelhava uma
+rolha de cortiça queimada&mdash;e vereis que ha aqui dentro um talo de couve
+lombarda, uma carocha secca, uma folha de leituga, uma casca de bolota, e tres
+grãositos excrementicios de rato ou coelho.<span class="pn">{18}</span></p>
+
+<p>«Horrivel, e sujamente infernal!</p>
+
+<p>«Senhores deputados! não se mata assim impunemente um povo!<a
+name="tex2html2" href="#foot106"><sup>[2]</sup></a></p>
+
+<p>«As nações tyrannisadas, quando a oppressão requinta, erguem-se como um só
+homem, e fogem para o Aventino.</p>
+
+<p>«Os envenenadores congregaram-se em conciliabulo de abutres, e crearam o
+charuto de vintem, a pitada do meio grosso, e o cigarro onde cresce o musgo
+como em parede velha. Cadafalso para os envenenadores!</p>
+
+<p>«O conselho de saude, bandeado n'este tripudio de canibaes, forma o cortejo
+scientifico das parcas que nos arrebanham para a região dos suicidas. Morte ao
+conselho!</p>
+
+<p>«Não ha typhos, nem cholera, nem febre amarella, senhores deputados! Ha
+charutos, ha o meio-grosso, e o cigarro. A epidemia não está nos canos,
+senhores; está n'estes canudos, por onde os contractadores cospem affronta e
+morte na face do povo!</p>
+
+<p>«Que elles sejam malditos setenta vezes sete vezes, como se dizia no
+Oriente!<span class="pn">{19}</span></p>
+
+<p>«Na hora do trespasse, a alma d'elles, tisnada pelo remorso, será negra como
+este charuto, d'onde eu sorvi um pus que me requeima os bofes... Vae-te,
+infame!»</p>
+
+<p>E, assim rugindo, n'uma como inprecação do moribundo atormentado, arremessou
+o charuto por cima do muro para o quintal.<span class="pn">{20}<br>{21}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>I</h1>
+
+<p>&mdash;Ludovina, já pensaste a resposta que has-de dar a teu pae?</p>
+
+<p>Pergunta que faz a sua filha uma senhora de nobre presença, quarenta annos,
+ainda frescal, chamada Angelica, e casada com o sr. Melchior Pimenta, empregado
+na alfandega do Porto.</p>
+
+<p>Ludovina respondeu:</p>
+
+<p>«Como hei-de eu responder, se ainda não vi o homem?</p>
+
+<p>&mdash;É um homem como os outros;&mdash;replicou D. Angelica&mdash;são todos
+o mesmo, menina. Teu pae sabe o que faz. Um homem é quem melhor conhece outro
+homem. Se elle te disse que achou um bom marido, não póde enganar-se.</p>
+
+<p>«Ora essa, mãe! E se eu antipathisar com elle?</p>
+
+<p>&mdash;Deves casar, como se sympathisasses.</p>
+
+<p>«Bravo!... e depois?</p>
+
+<p>&mdash;E depois, virá a sympathia. Imaginas lá com que repugnancia eu casei?
+Casaram-me, deixei-me levar porque<span class="pn">{22}</span> era uma creança,
+vivia na aldeia, e sonhava com os vestidos e os bailes, e os theatros do Porto.
+Depois, teu pae... teu pae adorava-me, dava-me mais do que eu ambicionava, e
+sem saber como, nem porque, contentei-me tanto com a minha sorte, que não
+invejava a de ninguem. Tinha vaidade em ser bonita, vestir com gosto, e chegar
+onde as mais ricas não podiam chegar. Via homens elegantes, reconhecia a
+differença que os fazia superiores a teu pae, e, comtudo, nunca me passou pela
+cabeça a loucura, a ingratidão, o crime da infidelidade.<a name="tex2html3"
+href="#foot112"><sup>[3]</sup></a> Posso dizer que principiei a amar meu
+marido, quando as outras mulheres se enfastiam. Aqui tens o que nunca te disse.
+Não ha homem nenhum que seja indigno da estima de uma mulher.</p>
+
+<p>«Mas a mãe sabe que eu... amo outro homem.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não sei se amas outro homem... Sei que namoras outro homem, e
+entre namorar e amar está o reflectir, menina. Esse rapaz que te manda romances
+e cartas entre as paginas... (não te inquietes, que sei tudo, e tudo pouco
+vale...) esse rapaz quem é? Um filho-familia, sem posição, sem modo de vida,
+que te ama, que será teu marido, se tu quizeres; que viverá das tuas sopas, se
+as tiveres para ti, que se envergonhará da sua dependencia, quando o amor
+obedecer á razão; que se enfastiará dos teus carinhos, se quizeres prende'-lo
+com elles a ti, ou ao berço de teu filho. Se quizesses exemplos,<span
+class="pn">{23}</span> dava'-tos. Tens ouvido censurar duas ou tres amigas, que
+tens, casadas com homens ricos de cabellos brancos?</p>
+
+<p>«Ainda hontem li um folhetim contra as mulheres que se deixam seduzir pela
+«fortuna» de estupidas creaturas...</p>
+
+<p>&mdash;Lêste? De quem era o folhetim? Se o auctor fôr rico, e tiver quarenta
+annos, o auctor é insuspeito, e, n'esse caso, digo-te que sujeites o teu
+destino á determinação do folhetim. Escreve uma carta ao auctor, e conta-lhe
+que és uma menina pobre, virtuosa, com excellentes joias de espirito.
+Offerece-lhe o teu coração, e promette que has-de levar-lhe a felicidade com a
+pobreza. Se elle te vier buscar, peso-te a ouro ao santo que fizer o milagre.
+Ora, se o folhetinista é um talento raro, um elegante de grande bigode e
+luneta, mas pobre, faz-lhe o mesmo offerecimento, prevenindo-o de que és tão
+pobre como elle. Se o folhetinista te vier pedir, é um dia de festa n'esta
+casa...</p>
+
+<p>Aprende, creança. Os rapazes pobres, se vivem na boa sociedade, criam ahi
+ambições, que uma menina sem riqueza não satisfaz. Pois não os conheces tu,
+Ludovina? Não os vês no baile e no theatro namorando um dote como quem namora
+uma mulher? Não és tu a mesma que censuras a indignidade de certos homens, que
+recebem resignados todas as repulsas, e teimam sempre em esquadrinhar um dote,
+como se fizessem voto de casarem ricos, ainda á custa de vergonhas? Vê lá se
+entre os folhetinistas aspirantes ao casamento de especulação<span
+class="pn">{24}</span> se te depara o nome que hontem lêste... Talvez ainda não
+reparasses em outra injustiça que se faz ás mulheres pobres, se a fortuna lhes
+dá maridos ricos. Não ha por ahi rapazes com grandes patrimonios? Recebem
+elles, por ventura, em casamento meninas virtuosas e pobres? Não. Procuram-nas
+ricas, e fiscalisam menos a vida honesta da noiva, que o numero de acções do
+banco, ou o valor da propriedade paterna. Os moralistas de gazeta que dizem
+d'isto? Sacrificam, talvez, a sua indignação ao amor do sexo: não dizem nada, e
+rebentam por outro lado em imprecações contra a mulher, que os elegantes ricos
+rejeitam, e os ricos sem elegancia procuram.</p>
+
+<p>Olha, filha, se te não fosse penosa a experiencia, deixava-te casar por
+paixão, como se diz, com o primeiro moço pobre que te encantasse. Depois,
+quando saísses a passeio com teu marido, levarias um vestidinho de chita, por
+não poderes levar um de <em>glacé</em>. Os taes censores de folhetim ver-te-iam
+mal trajada, e diriam, no auge da sua pena: «pobre rapariga, fez um casamento
+infeliz!» Ao teu lado passaria uma das tuas amigas, ricamente vestida, pelo
+braço de um velho com quem a casaram as conveniencias. Os mesmos censores
+diriam: «Que mal empregada mulher em semelhante alarve!» Já vês que o estimulo
+da compaixão, que fizeste, era o teu vestido de chita; e o estimulo de inveja,
+que fez a tua amiga, era o vestido de seda.</p>
+
+<p>«Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu
+coração?<span class="pn">{25}</span></p>
+
+<p>&mdash;Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a
+mulher que tem amigas com vestidos de seda. Hoje reina a opinião publica,
+Ludovina, não é a consciencia de cada um. O agente principal do espirito de uma
+mulher é a modista. Se ha casadas que envelhecem disputando ás netas a melhor
+eleição de um talhe de vestido, que farão as solteiras?</p>
+
+<p>Basta de razões insignificantes, que devem humilhar a tua razão, Ludovina.
+Eu nunca embaracei esse ligeiro conhecimento que tens com o Ricardo de Sá, por
+saber que nunca seriam tardias as reflexões que te faço agora. Não pódes casar
+com esse homem sem desgostar teus paes, e grangear para ti o infortunio, e para
+elle o arrependimento. Se soubesses o que deve ser o arrependimento entre
+casados, a maior prova de amor que podias dar a esse rapaz, seria esquece'-lo.
+Tu sabes que vivemos do ordenado de teu pae: temos podido manter a decencia e o
+luxo até dos teus caprichos de formosa; porém, nada mais podemos. Se tivesses
+um grande dote, a primeira a diligenciar o teu casamento com Ricardo de Sá,
+seria eu. Assim, reprovo-o, opponho-me, e serei eu a encarregada de dizer a
+esse cavalheiro que a tua vontade não é livre, ou que a tua escolha foi outra.
+</p>
+
+<p>«Não diga tal, mamã. Se casar com o homem que me destinam, a escolha não é
+minha. Deixem-me, ao menos, este desforço... Fique a responsabilidade da acção
+a quem me obriga.</p>
+
+<p>&mdash;Pois teus paes acceitam a responsabilidade, Ludovina.<span
+class="pn">{26}</span></p>
+
+<p>O dialogo rematára assim, quando se fez annunciar Ricardo de Sá.</p>
+
+<p>D. Ludovina, com os olhos humedecidos, e desconcertado o semblante, disse á
+mãe que não podia ir á sala, e recolheu-se ao seu quarto. Foi D. Angelica
+receber a visita.</p>
+
+<p>Ricardo esperava-a na sala, correndo o teclado do piano, com a sem-cerimonia
+de um visitante habitual. Apertou-lhe a mão, beijando-a ao estylo da França,
+cousa que elle vira fazer a quatro ou cinco viajantes distinctos do Porto, que
+tinham conhecido, em Pariz, a «mesa-redonda» dos hoteis onde estiveram. Ahi vão
+á pressa dois traços d'este Ricardo de Sá. É um bacharel formado em direito,
+filho de outro bacharel que faz requerimentos, em quanto o filho, reservado
+para a magistratura, destino em que se dispensa vocação, faz cartas de namoro
+com letra ingleza, e timbra em comprar no <em>Moré</em> os mais anilados
+<em>enveloppes</em>, e o melhor papel-setim de fimbria dourada.</p>
+
+<p>Lê, e empresta os romances aos namoros; commenta-os na margem das paginas, e
+addiciona-lhes appendices manuscriptos de lavra sua, quando a catastrophe
+merece ser corrigida.</p>
+
+<p>Além d'isto, o bacharel tem tres bengalinhas, que reveza, todas muito
+bonitas, com os punhos de massa de marfim, formando uma o grupo das graças,
+outra o das musas, e a mais embrincada é uma Suzana a saír do banho, espreitada
+pelo olho lascivo dos arreitados juizes de Israel. Ricardo de Sá consome as
+manhãs, que principiam<span class="pn">{27}</span> para elle ás onze horas,
+dividindo os cabellos em delgados fasciculos, e lustrando cada um d'elles com
+um cylindro de cera. Aguça, quanto possivel, as guias do bigode, encerando-as,
+e enverniza a pera com um oleo contido no decimo nono frasco da terceira serie.
+Depois, o laço da gravata, e a collocação symetrica do pseudo camapheu é obra
+de fôlego que lhe dá tempo de assobiar dois actos do <em>Trovador</em>, a aria
+valida do <em>Rigoletto</em>, e o acto final da <em>Lucia</em>. De seguida, a
+compostura airosa das lapellas do fraque, a ultima demão de escova, e o aprumo
+do chapéo onde não ha um fio erriçado, tolhem muitas vezes a saída do peralta,
+que se encontra com a terrina da sopa do jantar.</p>
+
+<p>O bacharel nutre-se de ar puro, e d'alguns escropulos de carne de boi. O
+pae, homem roliço e respeitador das immunidades do estomago, suppõe que seu
+filho desbarata a pequena mezada nas casas de pasto, e não se assusta da
+inappetencia.</p>
+
+<p>Ricardo crê que o seu estomago destacou tecidos para o coração, reservando
+para o funccionalismo alimenticio um estomago-miniatura, o <em>quantum
+satis</em> das compleições sylphidicas. Convicto da excrecencia espiritual,
+crê-se dotado de fluidos nêrveos, magnetismo, electricidade, etherisação.
+Julga-se em fim anestesico, espasmodico, dynamico, em fim tudo o mais que não
+se entende.</p>
+
+<p>Não ama as mulheres, pranteia-as como victimas do seu poder fascinante.
+Algumas vezes, tem a piedade de as não encarar para as não abysmar. Outras,
+exerce a crueza da experiencia, fitando-as com o olho carregado<span
+class="pn">{28}</span> de electricidade, fala-lhes com um timbre magnetico que
+elle sabe, e, não ha que vêr, o somnambulismo é prompto, a attracção é
+irresistivel como a da cobra-cascavel do Canadá apoz o tangedor da flauta.</p>
+
+<p>Crê tudo isto o bacharel, e ha velhacos que lh'o ouvem com a sisudeza da
+crença, e lhe não receitam um curativo de causticos.</p>
+
+<p>D. Ludovina Pimenta é uma das suas somnambulas, e a menos victima de todas.
+Ricardo distingue-a, impondo-se a obrigação cavalheirosa de corresponder-lhe
+quanto em si cabe para que a infeliz desilludida não tente contra a existencia.
+Vae ve-la todos os dias, conversa litteratura com a mãe, toma uma chavena de
+chá sem assucar, e despede-se ás onze horas, dizendo que vae esperar no seu
+quarto a hora da inspiração matinal para continuar a sua obra intitulada:
+<small>O SECULO PERANTE A SCIENCIA</small>.</p>
+
+<p>É o que podemos esquadrinhar ácerca do bacharel Ricardo de Sá.</p>
+
+<p>Os homens assim não se pintam; a zombaria não os enxerga na profundeza da
+sua toleima... são o Rubicon do folhetim, a desesperação da comedia desde
+Aristophanes até Molière.</p>
+
+<p>O original anda por ahi. Tenho-lhe assestado tres vezes a machina
+photographica, de rosto; sahiu-me sempre aquillo.<span class="pn">{29}</span>
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>II</h1>
+
+<p>«Ludovina fica hoje no quarto&mdash;disse D. Angelica, respondendo á
+pergunta admirada do bacharel.</p>
+
+<p>&mdash;Doente?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, passageiramente doente; mas é tão debil a pequena, tão
+melindrosa... </p>
+
+<p>&mdash;É um corpo que não póde com o espirito... Eu comprehendo o que são
+esses desfallecimentos d'alma. A filha de v. ex.ª tem uma organisação muito
+semelhante á minha. As minhas enfermidades são sempre quebrantos, estherismos,
+lethargia, procedentes das fadigas intellectuaes, ou dos anceios do coração.
+Compleições infelizes, não acha, minha senhora?</p>
+
+<p>&mdash;Oh! infelicissimas, de certo...</p>
+
+<p>&mdash;Se, todavia, v. ex.ª tivesse a bondade de dizer a sua filha que
+fizesse um esforço para me vir contar os seus padecimentos, talvez que uma
+medicina toda espiritual...</p>
+
+<p>&mdash;A curasse?... talvez...</p>
+
+<p>&mdash;Sorriso de incredulidade, não é assim? V. ex.ª é<span
+class="pn">{30}</span> sobejamente espirituosa para desconhecer a influencia
+que exerce uma alma sobre outra, quando as correntes magneticas...</p>
+
+<p>&mdash;Não lhe dá treguas a sua paixão magnetica, sr. Sá!... A Ludovinasinha
+queixa-se de enxaqueca... Eu voto, d'esta vez, por medicamentos caseiros...
+Talvez que uns sinapismos...&mdash;proseguiu ella, rindo, sem ferir o orgão
+maniaco do bacharel&mdash;dispensem uma descarga electrica.</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª não quiz entender-me, ou eu tenho sido confuso na exposição
+das minhas convicções.</p>
+
+<p>&mdash;É clarissimo sempre, sr. Sá; mas desconfio da inefficacia da sua
+vontade sobre a enxaqueca de Ludovina. E depois, convém-nos que ella esteja
+doente por um quarto de hora. Vamos falar a respeito d'ella.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho razões para suspeitar que minha filha não é indifferente a v.
+s.ª. </p>
+
+<p>&mdash;De certo, não.</p>
+
+<p>&mdash;Póde dizer-me até que ponto me devo lisonjear com a affeição que
+Ludovina lhe merece?</p>
+
+<p>&mdash;Voto á sr.ª D. Ludovina um sentimento profundamente respeitoso...</p>
+
+<p>&mdash;Só?</p>
+
+<p>&mdash;Uma affeição nobre e desinteressada...</p>
+
+<p>&mdash;Amor?</p>
+
+<p>&mdash;De certo... amor... reflectido, e bem intencionado...</p>
+
+<p>&mdash;Uma paixão verdadeira, não é verdade?</p>
+
+<p>&mdash;Quanto em mim cabe, minha senhora... quanto<span
+class="pn">{31}</span> é possivel apaixonar-se um homem de vinte e oito annos,
+apalpado já pelas desillusões, e esterilisado tanto ou quanto pelos ventos
+contrarios dos revezes da alma...</p>
+
+<p>D. Angelica fez um geito de quem ouvia chamar; ergueu-se com a mais destra
+simulação, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Minha filha tocou a campainha... As creadas não a ouvem de certo, eu
+volto já...</p>
+
+<p>Ricardo de Sá fez mentalmente o seguinte monologo:</p>
+
+<p>&mdash;D. Angelica vae propôr-me o casamento da filha. Eis-me entalado n'uma
+crise imprevista! Está explicado o enygma da carta que Ludovina me escreveu
+hoje. Receia que eu me esquive á proposta; e tem razão. Eu não caso. Esta
+mulher está abaixo dos meus calculos. Lisonjeia um amante, mas não póde
+satisfazer as complicadas necessidades de um marido... É horrorosa a minha
+posição!... Sei que faço uma victima... de certo a mato... Estudemos uma
+evasiva, não obstante...</p>
+
+<p>O monologo continuava, quando Ludovina, conduzida machinalmente por sua mãe,
+se collocava atraz de uma vidraça da alcova immediata á sala.</p>
+
+<p>D. Angelica era um assombro de esperteza. A leitora já admirou a eloquencia
+persuasiva com que ella abalou o coração da filha; já disse, de si para si,
+que, com tal mãe, não ha filha que rejeite o casamento de um brasileiro rico;
+já leu as paginas que ahi ficam á mãesinha para que ella saiba os argumentos
+com que se vence a desobediencia das filhas, em casos identicos. Pois, se
+gostou e admirou as palavras de D. Angelica, ha de tambem admirar-lhe as
+obras.<span class="pn">{32}</span></p>
+
+<p>D. Angelica viu o mais secreto do animo do bacharel; previu o
+desenvolvimento da conversação, e quiz dar á filha o mais rude, mas tambem o
+mais proveitoso desengano.</p>
+
+<p>&mdash;Nada era... ou era muito... Queria saber como v. s.ª
+estava&mdash;disse a matreira esposa do sr. Pimenta.</p>
+
+<p>&mdash;E ella como está agora?</p>
+
+<p>&mdash;Soffre bastante... Falei-lhe no seu magnetismo, e a tolinha córou...
+Era talvez o clarão da descarga electrica, seria?</p>
+
+<p>&mdash;V. ex.ª sempre «fazendo espirito» com os axiomas da sciencia... Ha de
+convencer-se... A experiencia lhe apontará as evidencias...</p>
+
+<p>&mdash;A mim? ora essa! Terá v. s.ª a infausta idéa de me magnetisar?
+Adormecer-me... isso é facil; bastam os livros que tratam da sciencia, não é
+precisa a acção... Não «faço mais espirito» como v. s.ª diz... Vamos á nossa
+pratica interrompida que é muito séria:</p>
+
+<p>Disse o sr. Sá que minha filha lhe merecia um sentimento profundamente
+respeitador, uma affeição nobre e desinteressada, um amor reflectido e bem
+intencionado, e finalmente uma paixão, que não era bem uma paixão, por quanto
+desillusões, revezes, <em>et c½tera</em>, lhe haviam... não me recordo...</p>
+
+<p>&mdash;Esterilisado a alma...</p>
+
+<p>&mdash;Foi isso... Em toda a sua resposta só ha de desagradavel essa
+esterilidade de alma; todavia, eu creio que tão boa alma ha de sempre florescer
+e fructificar, quando a cultura fôr confiada a uma mulher de bom<span
+class="pn">{33}</span> coração, meiga, docil, maviosa, em fim, a uma que não
+inveje as boas qualidades de minha filha.</p>
+
+<p>&mdash;De certo... assim o penso, minha senhora&mdash;balbuciou o bacharel,
+forçado pelo silencio interrogador de D. Angelica.</p>
+
+<p>&mdash;Minha filha ama-o, sr. Sá. Ama-o delirantemente, perdidamente, quer
+ser sua ou da sepultura, não acceita admoestações nem esperanças tardias, quer
+unir-se ao esposo da sua alma, mas já, já, senão... diz que, mais tarde, será
+victima da sua paixão. Sabia v. s.ª que era tamanho o seu dominio n'aquella
+innocente alma?</p>
+
+<p>&mdash;Sabia... desgraçadamente sabia.</p>
+
+<p>&mdash;<em>Desgraçadamente!</em>... essa palavra faz tristeza! Pois nem
+sequer o orgulho de ser assim amado o alegra?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha senhora&mdash;tartamudeou o bacharel, afagando as guias do
+bigode&mdash;tenho orgulho de ser assim amado... <em>Desgraçadamente</em> disse
+eu, porque me doem os soffrimentos da sr.ª D. Ludovina...</p>
+
+<p>&mdash;Estando na sua vontade o mais facil e desejado remedio d'elles? é
+singular!</p>
+
+<p>&mdash;Ainda assim... ha situações na vida...</p>
+
+<p>&mdash;Sei o que quer dizer&mdash;atalhou a zombeteira senhora&mdash;ha
+situações em que quizeramos immediatamente felicitar as pessoas que soffrem por
+nossa causa. Isso é assim... Pois bem. Tratemos definitivamente da felicidade
+da nossa Ludovina. Minha filha, como v. s.ª sabe, não tem dote. É pobre,
+supposto que o fausto com que vive queira desmentir esta triste verdade. Em
+riquezas<span class="pn">{34}</span> de espirito é millionaria. Nas do coração,
+sabemos nós o que ella é. A «fortuna» porém, é muitas vezes a inimiga da
+verdadeira felicidade, não é assim?</p>
+
+<p>&mdash;De certo, minha senhora...</p>
+
+<p>&mdash;V. s.ª tem uma habilitação, tem uma vasta intelligencia, sobram-lhe
+expedientes para grangear o sufficiente para duas almas venturosas; agouro a
+ambos uma felicidade duradoura. Entrego-lhe minha filha, na certeza de que
+nunca me será turvado o prazer d'este instante de expansão maternal pelo
+arrependimento da minha leviandade. Dê-me um abraço, que já começo a
+consideral'-o meu filho.</p>
+
+<p>&mdash;Minha senhora&mdash;disse o enfiado bacharel, extendendo a mão a D.
+Angelica&mdash;eu estou cordealmente penhorado pela confiança que mereço a v.
+ex.ª. Cumpre, porém, reflectir n'um passo tão momentoso. Eu amo em extremo a
+sr.ª D. Ludovina, toda a minha ambição é identifica'-la ao meu destino sobre a
+terra, mas, minha senhora, eu não posso dispôr da parte de obediencia que devo
+a meu velho e respeitavel pae, sem consulta'-lo, porque dependo d'elle, em
+quanto não entrar na carreira da magistratura, e o cabedal dos meus estudos não
+me abona tanto quanto v. ex.ª imagina que póde proporcionar-me a
+intelligencia.</p>
+
+<p>&mdash;Pensa mui judiciosamente&mdash;redarguiu D. Angelica formando com a
+prolongação dos beiços, e o abrimento dos olhos, um tregeito de mui sisuda
+approvação&mdash;e qual conjectura v. s.ª que seja a resposta de seu pae?</p>
+
+<p>&mdash;Não sei, minha prezada senhora...<span class="pn">{35}</span></p>
+
+<p>&mdash;Se fôr negativa?</p>
+
+<p>&mdash;Se fôr negativa...</p>
+
+<p>&mdash;Obedece?</p>
+
+<p>&mdash;Como filho dependente; mas os dias da minha existencia serão poucos,
+e attribulados...</p>
+
+<p>&mdash;Mas isso é horrivel, sr. Sá! Minha pobre filha succumbe... V. s.ª
+mata a mulher que mais o amou, a unica n'este mundo que o compreendeu, um anjo
+que não viu outro homem digno d'ella... Que diz a uma mãe consternada, sr.
+Sá?</p>
+
+<p>&mdash;Minha senhora... a nossa posição é desgraçadissima.</p>
+
+<p>«Remedeie-a, que póde. Se seu pae o não acceitar casado, tem a casa de sua
+mulher, onde será recebido como filho... Oh! que insensibilidade! o senhor não
+ama Ludovina!</p>
+
+<p>&mdash;Se a não amo! Isso mata-me, snr.ª D. Angelica!</p>
+
+<p>«V. s.ª é que mata uma santa, uma martyr...</p>
+
+<p>&mdash;Segui'-la-hei na morte...</p>
+
+<p>«Pois o melhor é viverem ambos!&mdash;disse D. Angelica, desafivelando a
+mascara da amargura, e abrindo o riso mais galhofeiro e fulminante que
+imaginardes, leitores phantasiosos&mdash;V. sr.ª tem sido logrado
+desapiedadamente, snr. Ricardo de Sá. Peço-lhe que viva muito tempo, porque uma
+pessoa como v. s.ª não deve morrer, em quanto a tristeza, que foge ao riso,
+andar por este mundo. Snr. Sá, é preciso dizer-lhe que minha filha ouviu esta
+nossa scena comica, e acredite que o magnetismo não operou a approximação. Eu
+comecei a falar-lhe<span class="pn">{36}</span> em minha filha para pedir ao
+seu cavalheirismo que não a inquietasse, porque vae esposar um homem que seu
+pae lhe escolheu. V. s.ª alumiou-me o entendimento, deu-me um alegrão
+inapreciavel; e voltou as minhas idéas para o lado opposto. Fui buscar minha
+filha, para assistir ao espectaculo do coração de v. s.ª, e dei-lhe um bello
+espectaculo. Snr. Sá, a sua posição é desagradavel, e faz-me pena, por não
+dizer tedio. Um homem como v. s.ª nunca devera erguer os olhos para uma menina
+honesta.</p>
+
+<p>D. Angelica retirou-se da sala, soberba como uma rainha na descida do
+throno.</p>
+
+<p>O auctor possivel do <small>SECULO PERANTE A SCIENCIA</small>, emergindo do
+estupor momentaneo, procurou a bengalinha de Suzana a saír do banho, e
+caminhava atordoado para a porta, quando entravam Melchior Pimenta, e um
+sujeito desconhecido ao bacharel.</p>
+
+<p>&mdash;Ólá, por cá, snr. Sá?</p>
+
+<p>«É verdade, snr. Pimenta.</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem lhe falou?! estava sósinho?!</p>
+
+<p>«Saiu da sala, n'este instante, a snr.ª D. Angelica.</p>
+
+<p>&mdash;E Ludovina?</p>
+
+<p>«Está de cama, creio eu.</p>
+
+<p>&mdash;De cama!? ella ficou boa quando eu saí... Alguma dôr de cabeça...</p>
+
+<p>«Creio que sim... Dá-me as suas ordens, snr. Pimenta?</p>
+
+<p>&mdash;Saude, meu amigo, appareça á noite, que lhe quero<span
+class="pn">{37}</span> dar o conhecimento d'este meu amigo, que será
+provavelmente o marido de minha filha...</p>
+
+<p>«Sim?... estimo muito conhecer... Ás suas ordens, meus senhores.</p>
+
+<p>Saíu; e o snr. João José Dias (que é o tal), franzindo a testa, disse ao pae
+da esposa promettida:</p>
+
+<p>&mdash;Que diabo de cousa é isto? Cuidei que me picava o bom do homem com os
+galhos do bigode! Eu corto as orelhas ambas e duas, se aquillo não fôr um
+patarata!</p>
+
+<p>«É um pobre diabo que lê novellas, e não é mau rapaz&mdash;respondeu o snr.
+Melchior, limpando o suor da testa.</p>
+
+<p>&mdash;Novellas!... hum!&mdash;este <em>hum</em> do snr. João José Dias é
+uma cousa semelhante a um grunhido roufenho; aquelle <em>hum</em> é a these de
+uma dissertação que elle, em tempo opportuno, ha de fazer contra a leitura
+immoral dos romances&mdash;A sua filha lê novellas, snr.
+Melchior?&mdash;continuou elle pondo os olhos de esguelha, como molosso
+desconfiado.</p>
+
+<p>«Entretem-se com a mãe, ás vezes, n'essa leitura; mas lê sómente as que a
+mãe já tem lido.</p>
+
+<p>&mdash;Pois não faz bem. As novellas são a perdição das mulheres. Lá no Rio
+está aquillo mal de religião e virtude desde que pegaram a ler romances as
+moças. Em minha casa é sujidade que não entra. Eu já uma vez, para ver o que
+era aquillo, puz-me a lêr uma novella, chamada... chamada... era de um tal...
+d'um tal <em>Kocles</em>, ou <em>Koques</em>, e, meu amiguinho, era maroteira
+de ferver bicho.<span class="pn">{38}</span></p>
+
+<p>A snr.ª D. Angelica interrompeu a parlenda acrimoniosa de João José contra
+os romances.</p>
+
+<p>«Aqui t'o apresento&mdash;disse Melchior.</p>
+
+<p>D. Angelica mirou-o de alto a baixo, e fez-lhe uma ligeira cortezia. No
+rosto expressivo da sympathica senhora, liam-se estas dolorosas palavras:
+<em>Minha pobre filha, que impressão vaes receber!</em><span
+class="pn">{39}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>III</h1>
+
+<p>João José Dias devia orçar pelos seus quarenta e cinco annos. Era de
+estatura menos que mean, adiposa, sem proeminencias angulares, essencialmente
+pansuda, porque João José tinha uma serie descendente de panças, desde a
+papeira côr de rosa até ás buchas das canellas ventrudas.</p>
+
+<p>Nas faldas de uma testa estreita, chata, e rugosa, como um elytro da concha
+de um cágado, luziam os olhos pequenos e esverdinhados de João José. As
+palpebras tumidas e pillosas como a casca da fava, enviezavam-se para dentro,
+formando á raiz das pestanas um rebordo purpurino. O nariz, sem base nem ossos,
+nem cartilagens, devia ser a desesperação de Falopio e de Bichat: rompiam-lhe
+d'entre os olhos as ventas já formadas, com a ponta arregaçada e as azas
+convexas, dilatando-se até ás alturas dos ossos malares, entupidos nas
+bochechas gordurentas. Os beiços eram bicolores; nacarinos no centro, e rôxos
+para as extremidades quasi invisiveis sob os refegos relachados dos musculos
+limitrophes.<span class="pn">{40}</span> João José tinha quatro dentes
+incisivos de brilhante esmalte, entalados nos outros quatro, formando de commum
+accordo as saliencias irregulares de um pedaço de crystal bruto. Os dentes
+laniares ou caninos tinham uma crusta de carie, e algumas luras chumbadas. Os
+vinte malares estavam no goso das suas funcções triturantes, com quanto
+amarellados de saes terreos, e regorgitamentos do bolo indigesto.</p>
+
+<p>João José não tinha pescoço: as espaduas ladeavam-lhe os bocios da garganta,
+alteando-se ao nivel das orelhas escarlates, com bolbos da mesma côr, e não sei
+que excrescencias no lobulo, simulando pingentes de coral.</p>
+
+<p>Disse-se que era todo barriga o homem, já que Buffon e Cuvier asseveram que
+é homem, feito á imagem e semelhança de... não ousamos escrever a blasphemia. O
+que se não sabe é que a barriga lhe marinhava peito acima, até levar de assalto
+o campo onde fôra pescoço.</p>
+
+<p>As pernas de João José eram dois cepos, postos em peanha a uma esphera
+armilar. Tão curtas eram ellas, e tão desmesurados os pés, que me não seria
+difficultoso convencer-vos de que a natureza, em hora de travessura, fez da
+porção de materia, destinada para perna e pé, duas partes eguaes, juntou-as e o
+ponto de juncção denominou-o calcanhar.</p>
+
+<p>As botas de João José tinham incriveis expansões de couro: eram um oceano de
+bezerro cortado de ilhas. Os joanetes do pé direito formavam um archipelago. No
+remanescente das milhas despovoadas, o pé era raso e chão como uma lousa de
+mercieiro.<span class="pn">{41}</span></p>
+
+<p>Deram-se uns longes para auxiliar a phantasia de quem não conhece o snr.
+João José Dias. Para os que o viram, a pintura, vae tacanha e inhabil, aqui o
+confesso, envergonhado do meu descredito.</p>
+
+<p>Vamos á biographia da pessoa, e veremos que boa alma se nichou n'este
+hediondo envolucro.</p>
+
+<p>João foi cachôpo para o Brasil, e estreou-se n'uma loja de molhados, onde
+grangeou renome de rapaz videiro e possante. Abraçava uma talha de azeite de
+tres almudes, e aguentava com ella do armazem para a loja, sem impar. Levantava
+do sobrado para o balcão o peso das tres arrobas com os dentes. Punha a prumo
+meia pipa de cachaça, e levava á bôca, sem gemer, um barril de dois almudes,
+com o braço testo na aza. Isto constou na rua dos Pescadores, e, ao terceiro
+anno, João era alliciado por varios patrões, que disputavam o lanço.</p>
+
+<p>Não pertencem á alma estes esclarecimentos, bem o sei; mas a alma de João
+José formou-se então. A probidade, a lisura, a honradez do boçal caixeiro nunca
+foram desmentidas pela gaveta do patrão. Os convites, feitos á sua cubiça de
+melhores ordenados, repelliu-os sempre, dizendo que nunca deixaria a casa onde
+comera o primeiro bocado de pão. O augmento de ordenado vinha sempre espontaneo
+dos patrões: podendo inculcar-se com as propostas dos vizinhos, nunca João José
+se queixou dos pequenos ganhos.</p>
+
+<p>Os paes de João eram uns pobres fazendeiros de Celorico de Basto, que se
+desfizeram do unico cevado e de uma vitella para pagarem a passagem do rapaz.
+João<span class="pn">{42}</span> não esqueceu estes sacrificios nem as lagrimas
+que vira no rosto da mãe, quando, em Miragaia, lhe deu um quartinho em ouro
+embrulhado em seis camadas de papel.</p>
+
+<p>Os lucros dos tres primeiros annos foram quasi todos enviados a seus paes,
+e, d'ahi em diante, metade do ordenado vinha repartido em pequenas mesadas para
+os velhos, que lh'os devolviam em roupas brancas.</p>
+
+<p>João José, morrendo um socio da casa, achou-se herdeiro da terça parte do
+negocio. Pudera então retirar-se com haveres sobejos para viver descançado na
+patria; mas, para obviar os desarranjos da liquidação, continuou na sociedade.
+</p>
+
+<p>Veiu a Portugal em 1835, comprou no Minho a cerca de um convento, e,
+deixando o uso-fructo aos paes para que vivessem regalados, voltou ao Rio de
+Janeiro, onde achou fallida a sua casa commercial, e compromettida a compra que
+fizera na terra.</p>
+
+<p>Tinha sido escandalosamente roubado o pobre homem.</p>
+
+<p>Aconselharam-no que intentasse acção judiciaria contra os socios. Rejeitou o
+alvitre, dizendo que Deus os julgaria. Acceitou os enormes creditos que lhe
+offereceram, estabeleceu-se, e dentro de doze ou treze annos pagou as dividas
+de seus socios, e liquidou cem contos de réis fortes, entre os quaes, diz elle,
+e dizem todos os que o conheceram, não havia cinco réis adquiridos
+deshonrosamente.</p>
+
+<p>Chegou a Portugal em 1848. O pae era morto e a mãe octogenaria estava
+entrevadinha, pedindo ao Senhor<span class="pn">{43}</span> que a não remisse
+das penas d'este mundo sem ver seu filho.</p>
+
+<p>João José Dias assistiu seis annos aos longos paroxismos de sua mãe,
+adoçados com as lagrimas da felicidade. Em 1854 finou-se a velha nos braços do
+filho, dizendo-lhe que fizesse feliz uma moça pobre, casando com ella já que
+Deus lhe déra a riqueza.</p>
+
+<p>Passado o luto, o capitalista veiu ao Porto, e conheceu casualmente, na
+alfandega, Melchior Pimenta, que lhe fez um pequeno serviço na brevidade de uns
+despachos.</p>
+
+<p>Alguns dias depois, encontrou o empregado da alfandega com uma formosa
+menina pelo braço, e perguntou-lhe se era sua filha. No dia immediato foi á
+praça, e colheu de alguns negociantes informações ácerca da filha de Melchior.
+</p>
+
+<p>Todos á uma lhe disseram que a menina gosava de excellente opinião; mas
+tinha só o defeito de querer hombrear em luxo com as filhas dos negociantes
+mais abastados. Um dos informadores accrescentou que os tafetás, as rendas, e
+as pelliças da filha do empregado da alfandega não pagavam direitos.</p>
+
+<p>Esta mordedura dos malevolos não magoou João José Dias.</p>
+
+<p>Fez-se encontradiço com Melchior, e falou-lhe dos seus teres, e da tenção
+que tinha de mudar de estado, até para cumprir uma promessa que fizera a sua
+mãe. Disse-lhe Melchior que era acertada a resolução, e muito facil o
+realisa'-la. Replicou o brazileiro pedindo que lhe<span class="pn">{44}</span>
+indicasse alguma menina honesta. Pimenta pediu tempo para pensar, e o
+capitalista, com a rude franqueza de uma boa alma, disse que a sua escolha
+estava feita. Averiguada a cousa, a escolhida era a filha do sr. Melchior
+Pimenta, que não cabia n'um sino.</p>
+
+<p>&mdash;Isto é um modo de falar...&mdash;observou João José&mdash;Sem que sua
+filha dê o sim, nada feito. Eu sei que estou no calçado velho, e não trajo cá á
+moda dos janotas, como por ahi dizem. A sua filha é muito nova, e quererá um
+rapaz. Fale com ella, diga-lhe a verdade, eu irei lá se o senhor quizer; se
+ella quiz, muito bem; se não quiz, ficamos amiguinhos como d'antes.</p>
+
+<p>&mdash;A minha filha é docil e ajuizada: ha-de querer o que eu quizer. Foi
+educada por uma mãe, que teve melhores principios que eu, e faz com que ella
+lhe obedeça, tractando-a como irmã. Posso dizer-lhe que minha filha será sua
+esposa; mas bom é que o senhor nos dê o prazer de frequentar a nossa casa, para
+conhecer o coração da minha Ludovina.</p>
+
+<p>É este o resumo do grande dialogo que precedeu a apresentação do sr. João
+José Dias a D. Angelica.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Não querendo eu, nem por sombras, indispôr contra os meus fieis escriptos o
+imperio do Brazil, peço ao meu sisudo editor que faça estampar o seguinte
+epilogo d'este capitulo:</p>
+
+<p>João José Dias adquiriu com exemplar probidade os seus bens de fortuna.<span
+class="pn">{45}</span></p>
+
+<p>Foi bom filho.</p>
+
+<p>Levou a honra commercial ao primor de embolsar credores roubados pelos
+socios que o roubaram a elle.</p>
+
+<p>Foi trabalhador, quando precisava acreditar-se pelo trabalho; e foi-o
+tambem, na opulencia, como o ultimo dos seus servos.</p>
+
+<p>Nunca teve escravos, comprados ou alugados: remiu alguns na decrepitude, e
+deu-lhes uma cama onde o ultimo instante da vida lhes fosse o primeiro de
+bem-estar.</p>
+
+<p>Que mais virtudes, ou maiores encomios a um bom caracter? Se pintei João
+José Dias feio, não é d'elle a culpa, nem minha. João José Dias era realmente
+muito feio.</p>
+
+<p>Do Brasil vem muita gente galante.</p>
+
+<p>Tenho na pasta um esboço de romances onde figuram quatro brasileiros
+bonitos.</p>
+
+<p>Hão-de ver com que isenção de animo se escreve n'esta provincia das lettras.
+</p>
+
+<p>Acabou-se o epilogo, e preveniu-se uma crise litteraria no Brasil.<span
+class="pn">{46}<br>{47}</span></p>
+
+<h1>IV</h1>
+
+<p>&mdash;Então a pequena está incommodada?&mdash;perguntou Melchior a sua
+mulher, que não declinava os olhos do cepo informe do sr. João José Dias.</p>
+
+<p>&mdash;Um pouco incommodada.</p>
+
+<p>&mdash;Vaes dizer-lhe que venha á sala, menina?</p>
+
+<p>&mdash;Irei.</p>
+
+<p>&mdash;Estou boa, papá&mdash;disse Ludovina entrando subitamente, e
+cortejando o hospede, que ella reconhecera de o ter visto outra vez.</p>
+
+<p>&mdash;Tem a bondade de sentar-se, snr. Dias?&mdash;disse Melchior ao
+acanhado brasileiro, que mal pudera gaguejar um «creado de vossa senhoria» que
+corrigiu bruscamente em «vossa excellencia.»&mdash;Minha filha, quando hontem
+te disse que a Providencia me deparára para ti um digno marido, era d'este
+senhor que te falava.</p>
+
+<p>&mdash;Tenho muito prazer em conhece'-lo&mdash;atalhou Ludovina com uma
+affabilidade e desembaraço que espantou a mãe, alegrou o pae, e lisonjeou o
+noivo.</p>
+
+<p>&mdash;Para satisfazer a uma exigencia d'este cavalheiro&mdash;continuou
+Melchior&mdash;é preciso que tu digas se acceitas<span class="pn">{48}</span>
+livremente a minha escolha, ou direi melhor a escolha com que te distinguiu o
+sr. Dias.</p>
+
+<p>&mdash;Acceito muito de minha livre vontade&mdash;respondeu com firmeza D.
+Ludovina. </p>
+
+<p>&mdash;Não lhe restam escrupulos?&mdash;tornou Melchior inclinando-se para o
+brasileiro.</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor&mdash;disse elle&mdash;Estou satisfeito; o que eu não
+queria era que a menina viesse um dia a arrepender-se... e...</p>
+
+<p>&mdash;Não espero tal desgraça...&mdash;interrompeu Ludovina, sem fitar os
+olhos no brasileiro.</p>
+
+<p>&mdash;Da minha parte, hei-de fazer o possivel por lhe não dar desgosto,
+porque o meu natural é bom, e ninguem, até hoje, se deu mal comigo.</p>
+
+<p>Ludovina ergueu-se, e pediu licença de retirar-se por um instante. D.
+Angelica entendeu-a, e seguiu-a pouco depois. Foi encontra'-la no quarto,
+afogada em soluços, curvada sobre o leito.</p>
+
+<p>&mdash;Que é isto, filha?</p>
+
+<p>&mdash;Nada, minha mãe...</p>
+
+<p>&mdash;É muito, Ludovina; que tens?</p>
+
+<p>&mdash;Precisão de desabafar assim. Estas lagrimas não fazem mal a ninguem.
+É uma victima que se entrega ao sacrificio, mas deixem-a chorar... Que vida,
+que futuro, meu Deus!</p>
+
+<p>&mdash;Ludovina, não chores, e escuta-me. Eu não imaginava que teu pae te
+dera a semelhante homem. Tens razão... É repugnante, e horroroso. Não casarás
+com elle, menina.<span class="pn">{49}</span></p>
+
+<p>&mdash;Hei-de casar, minha mãe. Mal o vi ainda; não tive ainda tempo de
+sentir repugnancia ou horror... Choro como victima, mas não d'elle; é do outro
+que me matou.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é que é cobardia, Ludovina! Pois não te fez nojo esse
+miseravel?</p>
+
+<p>&mdash;Fez, fez; mais que nojo... É preciso que elle se não persuada que
+minha mãe lhe mentiu, quando lhe disse que a sua intenção era dar-lhe parte do
+meu casamento. Devo casar muito depressa, o mais breve que seja possivel.</p>
+
+<p>&mdash;Casar por vingança?... Isto é um desforço desgraçado...</p>
+
+<p>&mdash;Não caso por vingança, que elle não vale o odio. Caso para salvar a
+nossa dignidade, minha mãe. Hei-de simular quanto possa o contentamento da mais
+feliz mulher. Não tenho já coração para sentir desgostos. Será tudo
+estupidamente alegria na minha vida. Toda a gente dirá que eu amo... meu
+marido. As pessoas que souberem do meu namoro com esse infame, dirão que devia
+ama'-lo muito pouco a mulher que se deixou casar com um homem ridiculo. Quero
+que se diga isto; quero que me assaquem a calumnia de que eu sou mais uma das
+mulheres que se venderam á riqueza. O que nunca ninguem dirá é que eu infamei o
+homem que me comprou... nunca, meu Deus!... Pois a mãe está chorando agora,
+depois de me ter ensinado a ver o mundo como elle é? Não se arrependa, minha
+boa mãe. Deu&mdash;me a maior prova de amor fazendo-me escutar o que<span
+class="pn">{50}</span> esse homem disse... palavras de tanta afflicção como
+vergonha para mim... Fiquei bem, estou desopprimida... vê? já não choro.</p>
+
+<p>D. Angelica abraçou com vehemencia a filha, beijou-a como beijaria a
+creancinha de peito, e saíu, enxugando as lagrimas. Entretanto, conversavam
+assim, na sala, os snrs. João José Dias e Melchior Pimenta:</p>
+
+<p>&mdash;Gostou dos modos da pequena, snr. Dias?</p>
+
+<p>&mdash;Gostei muito; mas, a falar-lhe a verdade, pareceu-me que ella não
+olhava direita para mim!</p>
+
+<p>&mdash;Recato de moça, pejo, e acanhamento, não acha que é muito natural?</p>
+
+<p>&mdash;Isso sim; mas dava aquellas respostas tão... tão... tão desenganadas,
+que parecia ter por mim sympathia de mais tempo...</p>
+
+<p>&mdash;Minha filha tem muito juizo, snr. Dias...</p>
+
+<p>&mdash;Não duvido.</p>
+
+<p>&mdash;E então quiz desde logo agradar a seu pae e a seu futuro marido.</p>
+
+<p>&mdash;Ora, olhe; o senhor não se lhe dá que eu tenha com sua filha, cá em
+particular, uma conversasita?</p>
+
+<p>&mdash;Pois não, snr. Dias! todas as vezes que quizer. Eu mesmo desejo que
+sonde o coração de Ludovina, e reconsidere a sua tenção, se vir que ella o não
+merece. Eu vou manda'-la.</p>
+
+<p>&mdash;Faça-me esse favor.</p>
+
+<p>Melchior procurou a filha, reparou nos indicios das lagrimas, e fingiu que
+os não percebia. Dizendo-lhe que viesse á sala, accrescentou:<span
+class="pn">{51}</span></p>
+
+<p>&mdash;Lembra-te que fazes a tua felicidade e a de tua familia. Esse homem
+não será só teu marido, será um protector de todos os teus, e fará a tua
+independencia n'uma sociedade onde a formosura se estima como um meio de
+alcançar «fortuna», e a «fortuna» como um meio de se alcançar tudo.
+Entendeste-me, filha?</p>
+
+<p>&mdash;Entendi, meu pae.</p>
+
+<p>Ludovina entrou jovialmente na sala.</p>
+
+<p>&mdash;Minha senhora,&mdash;disse o brasileiro, gaguejando&mdash;Eu fui toda
+a minha vida negociante, apenas sei ler e escrever, e digo as cousas assim como
+ellas me vem á idéa. Ora bem; a menina está resolvida a ser minha companheira
+de toda a vida?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, disse ainda ha pouco que sim.</p>
+
+<p>&mdash;É verdade que disse; mas póde ser que o dissesse para contentar seu
+pae, e lá no interior sentisse outra cousa.</p>
+
+<p>&mdash;Disse o que sentia, e repito o que disse.</p>
+
+<p>&mdash;Quem sabe se a senhora tinha alguma sympathia por ahi, e que lá por
+eu ter alguns vintens seu pae a fizesse voltar-se para outro lado?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor, eu não tenho affeição a alguem.</p>
+
+<p>&mdash;Porque depois eramos ambos desgraçados; e eu devo dizer-lhe, que tudo
+o que eu mais tenho estimado n'este mundo é a minha honra; até hoje, louvado
+Deus, ninguem lhe pôz o dedo sujo; e seria mais facil eu deixar que me tirassem
+a vida do que a honra. Trabalhei muito anno para a conservar, cheguei até esta
+edade sem ser offendido, e assim d'estes cabellos brancos que<span
+class="pn">{52}</span> me vê, se alguem me atacasse a minha honra, tornava aos
+meus vinte e cinco annos. A menina entende-me?</p>
+
+<p>&mdash;Creio que entendi, e sinto que v. s.ª me esteja offendendo com as
+suas supposições injuriosas.</p>
+
+<p>&mdash;Isto é um modo de falar, sr.ª D. Ludovina, e perdoará se a offendi.
+Tudo o que lhe digo é em bem seu, e meu. Eu sou o que está vendo; a menina é
+nova e linda; se vê que se ha de arrepender, diga-me a verdade do seu coração,
+que eu arranjarei as cousas de modo que seu pae se queixe de mim e não da
+senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Já disse a v. s.ª que desejo ser sua esposa; não sei que mais deva
+dizer-lhe. Não me hei de arrepender, porque espero merecer sempre a sua estima
+e confiança; mas tenho um favor a pedir-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Diga lá, seja o que fôr.</p>
+
+<p>&mdash;Desejava que ficassemos na companhia de meus paes.</p>
+
+<p>&mdash;Ficaremos; e quando formos passar algum tempo á nossa casa de
+Celorico, a nossa familia irá comnosco. Era só isso?</p>
+
+<p>&mdash;Não tenho outra ambição.</p>
+
+<p>&mdash;Isso pouco é... Ha-se de fazer tudo que a menina quizer: graças a
+Deus, temos mais que o preciso para satisfazer as nossas vontades. Agora, se
+quizer dizer a seu pae que já lhe disse o que tinha a dizer, vá lá, que eu fico
+á espera d'elle e de sua mãesinha para me despedir, até á noite.</p>
+
+<p>D. Ludovina chamou o pae, sem saír da sala. Melchior, lendo o bom resultado
+das suas reflexões na cara<span class="pn">{53}</span> jubilosa do radioso
+capitalista, convidou-o a jantar, quando elle se despedia. João José disse que
+jantára tres horas antes, e jantaria segunda vez com tão amavel companhia.
+Estava inspirado!</p>
+
+<p>E cumpriu a promessa. Jantou, fez muitos brindes, e o ultimo, e mais solenne
+que fez foi o seguinte:</p>
+
+<p><em>Á saude de quem de hoje a um anno ha de ser meu compadre, e minha
+comadre!</em></p>
+
+<p>Melchior Pimenta agradeceu.</p>
+
+<p>D. Angelica franziu a testa, fez-se branca de cera, e levou o calix aos
+labios.</p>
+
+<p>D. Ludovina córou até ás orelhas.</p>
+
+<p>A leitora faça o que quizer.</p>
+
+<p>Eu não ri, nem córei: deu-me para chorar como uma vide, quando me contaram
+isto.<span class="pn">{54}<br>{55}</span></p>
+
+<h1>V</h1>
+
+<p>Inventou-se uma lua para os casados.</p>
+
+<p>Os irracionaes teem uma lua; essa entende-se, sabe-se o que é. Mas o
+aluarem-se, á força, os casados, é uma idéa ingrata á decencia, feia, e
+deshonesta.</p>
+
+<p>Uma senhora innocente que diz: «lua de mel» suja os labios, se preza a
+pureza n'elles; se, porém, sabe o que diz, se sabe o que é o favo, o
+<em>mel</em> da lua, desdenha o pudor, e despreza-se.</p>
+
+<p>Os noticiaristas das gazetas aforaram a phrase, sem saberem, talvez, que
+desaforavam as palavras. Os diarios do Porto, em 1856, noticiaram assim um
+casamento:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Hontem ás nove horas da manhã, contraíram o sacramento do matrimonio o
+ill.<sup>mo</sup> sr. João José Dias, rico negociante que foi no Rio de
+Janeiro, com a ex.<sup>ma</sup> sr.ª D. Ludovina da Gloria Pimenta, filha do
+nosso amigo Melchior Pimenta. O sr. Dias deve á fortuna a escolha de uma noiva
+tão rica de prendas moraes como de formosura<span class="pn">{56}</span>
+angelica. A gentil menina encontrou um honrado protector, cuja fortuna, sendo
+immensa, vale menos que a briosa reputação que tem. Os esposos vão passar a
+<small>LUA DE MEL</small> á sua quinta de Celorico de Basto, para onde partiram
+hontem de manhã acompanhados dos numerosos amigos dos ditosos consortes. Diz-se
+que o sr. Dias vae mandar construir um palacete no Porto, onde tenciona fixar a
+sua residencia. Damos os parabens á cidade invicta por tão valiosa acquisição.
+</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>A local está redigida a primor, como lá se faz sempre nas gazetas; mas
+aquella <small>LUA DE MEL</small> indigna-me.</p>
+
+<p>Se querem que haja por força uma lua para os que se casam, façamos umas
+poucas de luas:</p>
+
+<p>Lua de mel;</p>
+
+<p>Lua de cicuta;</p>
+
+<p>Lua de laudanum;</p>
+
+<p>Lua de tartaro emetico;</p>
+
+<p>Lua de mostarda ingleza;</p>
+
+<p>Lua de oleo de ricino;</p>
+
+<p>Lua de fel da terra;</p>
+
+<p>Lua de salsa-parrilha;</p>
+
+<p>Lua de raspa de veado;</p>
+
+<p>Lua de jalapa;</p>
+
+<p>Luas tónicas, luas antiphologisticas, luas irritantes, luas vomitas, luas
+drastricas, etc.</p>
+
+<p>Convém, de seguida, observar, que a lua não influe por egual nos dois
+noivos. Cada um deve ter sua, nos casos exceptuados de casamento por paixão
+reciproca.<span class="pn">{57}</span></p>
+
+<p>Tal marido é aluado em ovos molles, e sua mulher em jalapa.</p>
+
+<p>Tal noiva saboreia-se nos dulcissimos favos da colmeia lunar, e o homem
+enjoa um cozimento salobro de raspa de veado, animal que muitas vezes lhe
+lembra, por causa das virtudes medicinaes, e outras causas.</p>
+
+<p>Qual d'essas luas influiria em João José Dias, e qual em D. Ludovina da
+Gloria?</p>
+
+<p>Eu não decido, porque sou supinamente ignorante em astrologia judiciaria.
+Conto os factos, e deixo as luas ao arbitrio do leitor.</p>
+
+<p>Fez-se o casamento, e effectivamente partiram os conjuges para Celorico de
+Basto. D. Angelica tambem foi. Melchior Pimenta ficou para comprar terreno, e
+contractar o architecto e alveneis que deviam fazer o palacete, a toda a
+pressa.</p>
+
+<p>Os cavalheiros de Basto receberam cartão do casamento. Esta usança das
+familias de bem, desconhecida a João José Dias, fôra lembrança da previdente D.
+Angelica: o fim era relacionar sua filha com as familias mais tractaveis de
+Basto, para que estas visitando-a, segundo o ceremonial, a distrahissem das
+melancolias do noivado.</p>
+
+<p>Tudo lhe saíu ao pintar dos seus projectos. A fidalguia circumvizinha não
+desdenhou as relações do capitalista. O cartão enviado ás senhoras dizia:<span
+class="pn">{58}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center; font-size: small;"><small>D. ANGELICA THEODORINA
+DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO LEITE E LEMOS</small><br>
+<small>TEM A HONRA DE PARTICIPAR A V. EX.ª</small><br>
+<small>O CASAMENTO DE SUA FILHA</small><br>
+<small>A EX.<sup>MA</sup> SR.ª</small><br>
+<small>D. LUDOVINA DA GLORIA PIMENTA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO
+LEITE E LEMOS</small><br>
+<small>COM O ILL.<sup>MO</sup> SR.</small><br>
+<small>JOÃO JOSÉ DIAS</small></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Os appellidos heraldicos abalaram os espiritos pechosos d'aquella fidalguia
+de travessão que por alli enxamêa.</p>
+
+<p>Devia ser filha segunda de casa muito distincta a que descera até aos
+fabulosos milhões do João da Chan-de-Cima: diziam-n'o assim os que d'aquelle
+modo chasqueavam o brasileiro, pouco dado com fidalgos.</p>
+
+<p>Consentiram algumas familias em visitar os noivos. Um dos fidalgos,
+esmerilhando a procedencia genealogica de D. Angelica, descobriu que um seu
+tio-visavô sahira da casa dos Ciprestes para ir entroncar na nobilissima
+familia dos Pereiras e Sousas, em Paços de Gaiôlo, d'onde era oriunda a avó de
+D. Angelica. Feito o descobrimento, D. Ludovina achou-se prima de tudo que faz
+o lustre e ornamento de Celorico, Cabeceiras, Arco, e terras de Barroso.</p>
+
+<p>João José Dias tambem era primo dos primos de sua mulher; e, de si para si,
+ao bom do homem dava-lhe para rir-se á socapa da parentella. A lingua não se
+lhe ageitava a chamar primos aos fidalgos da casa dos Ciprestes,<span
+class="pn">{59}</span> aos do Reguengo, aos da Capella, e outros que
+frequentavam, mais do que elle queria, a casa e o espirito attrahente da sua
+sogra, espanto das fidalgas analphabetas.</p>
+
+<p>Sem embargo, o capitalista simulava affectuosa estima aos hospedes, e
+contentamento com o ar festivo que sua mulher mostrava, tendo visitas.</p>
+
+<p>D. Ludovina pagava as visitas, passava as noites em sociedade, primava em
+tafularia, ensinava as primas a vestirem-se, cuidava dos seus enfeites com
+desvelo, e gastava com seu marido o tempo necessario para projectarem passeios,
+romarias, e saraus por aquellas redondezas.</p>
+
+<p>Annuia o conjuge, folgazão no rosto, e zangado por dentro. O bom siso
+dizia-lhe que sua mulher era uma creança, vezada a bailes, e ainda verde para
+gostar da quietação domestica. Bem via elle a innocente alegria com que
+Ludovina andava nos honestos brinquedos, e o desapercebimento, se não desprezo,
+com que ella acceitava as louvaminhas dos primos.</p>
+
+<p>D. Angelica entendia o que o seu genro calava; conhecia a violencia que elle
+fazia ao genio e aos annos ronceiros, para andar n'aquella lufa-lufa de visita
+em visita, bifurcado n'um macho, que lhe contundia as carnes com o chouto
+ingrato. Receosa de que a impaciencia rebentasse em fim por algum dito menos
+delicado á mulher, quiz ella prevenir o desgosto de ambos, dizendo uma vez á
+filha:</p>
+
+<p>«Convém conformarmo-nos um pouco aos costumes<span class="pn">{60}</span> de
+teu marido, Ludovina. Teu homem não foi assim educado, e os annos extranham
+esta transição.</p>
+
+<p>&mdash;Que quer a mãe que eu faça?</p>
+
+<p>«Que espaces os teus passeios e visitas, que vivas mais em tua casa, que
+tenhas com elle algumas horas mais de convivencia.</p>
+
+<p>&mdash;Que hei de eu dizer-lhe?!</p>
+
+<p>«O que has-de tu dizer-lhe?!...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, mamã. Temos occasiões de estar duas horas juntos sem trocarmos
+tres palavras. Sou amiga d'elle; mas não sei como hei-de mostrar-lh'o de outro
+modo. Se querem que eu não receba visitas, nem vá a casa de quem me visitou,
+estarei em casa, contemplando os carvalhos e os castanheiros; mas eu não creio
+que se possa viver assim na aldeia. Se elle ainda me não disse nada, porque ha
+de a minha mãe censurar-me este desabafo que eu preciso? Eu a fugir de falar na
+minha situação, e a mãe a lembrar-m'a! Cuida que sou feliz? Diga, mãe, está
+persuadida que eu devo estar extasiada de contentamento deante de meu marido?
+</p>
+
+<p>«Não creio que te devas extasiar, mas tambem não approvo que te arrependas.
+Como explicas tu a consideração, o respeito com que és tractada? Pensas que o
+seres casada com este homem te desmerecesse aos olhos d'esta gente, que lhe
+chama parente?</p>
+
+<p>&mdash;E a felicidade é isso, mãe?!</p>
+
+<p>«A felicidade não é cousa nenhuma d'esta vida, e, se alguma existe cá, é a
+que dá á consciencia da mulher casada o prazer de não envergonhar seu
+marido.<span class="pn">{61}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que palavras! Isso que quer dizer, minha mãe?</p>
+
+<p>«Não t'as applico, Ludovina: respondi á tua pergunta. A felicidade no amor é
+um creancice dos quinze annos, e ás vezes dos quarenta; mas o desengano vem com
+todos os homens e com todas as edades. Não te persuadas que a vida te seria
+aqui mais risonha, por muito tempo, com um marido de tua escolha. Este homem,
+d'aqui a tres mezes, has-de ama'-lo como se ama um amigo. O outro, d'aqui a
+tres mezes, ama'-lo-ias com o afflictivo amor da mulher que enfastia, que se vê
+cada vez mais aborrecida, e compara os ardores dos primeiros mezes de casada
+com a fria sequidão dos que traz o cansaço. Poupaste-te ao maior dos
+infortunios, que é esse para a mulher que não quer curar a chaga do amor a seu
+marido com a peçonha da infidelidade, comprehendes-me, Ludovina? Eu não
+consinto que tu, sequer, recordes alguns exemplos de mulheres casadas que viste
+conciliadas com o despreso dos maridos, acceitando a adoração de outros, como
+vingança, e fazendo do crime uma necessidade. Lembra-te só d'ellas como
+mulheres que casaram apaixonadas, que doudejaram de alegria nos primeiros
+tempos, e pareciam cheias de felicidade para toda a vida. Não te recommendo
+paciencia, Ludovina, porque ninguem te dá causa de soffrimento; recommendo-te
+juizo. Este homem ha-de merecer a tua amizade: logo que a tenha, viverás da
+melhor affeição, da que mais dura n'este mundo; terás o bem que raras vezes
+fica de um amor ardente.</p>
+
+<p>Estas e outras palavras modificaram a força motriz<span
+class="pn">{62}</span> de D. Ludovina. Os passeios rarearam-se, os convites
+para reuniões foram esquecendo á mingua de estimulo e as massas amollecidas do
+sr. João José Dias recobraram vigor, com não menos gaudio do velho macho que as
+caminhadas traziam desmedrado e manhoso.</p>
+
+<p>Estava já a lua de mel em quarto minguante, quando os noivos, voltando para
+o Porto, foram hospedar-se na casa paterna, em quanto não alugavam casa
+provisoria, onde esperassem que o palacete se fizesse.</p>
+
+<p>João José Dias foi agradavelmente surprehendido em casa de seu sogro.</p>
+
+<p>Convidado para um baile, em que Ludovina ia ostentar preciosissimos recamos
+de brilhantes, que seu marido lhe déra na vespera do casamento, João José Dias
+ao vestir a casaca nova, que seu sogro lhe mandava ao quarto n'uma bandeja, viu
+uma commenda pregada n'ella, e sobre uma salva de prata um collar com a cruz da
+ordem de Christo, pendente de um vistoso laço de fita.</p>
+
+<p>&mdash;Que diabo é isto?&mdash;disse elle ao creado no requinte do pasmo.</p>
+
+<p>«É um presente que faz a v. exc.ª o sr. Melchior.</p>
+
+<p>&mdash;Diz-lhe que venha cá, e pega lá para cigarros&mdash;dizendo isto, o
+commendador lançou á salva... sete centos e vinte.</p>
+
+<p>Não vos assombre este lance dadivoso de grandeza. Em successos de menor
+estimulo á munificencia, sei de outros arrojos de liberalidade, que desbancam
+João José Dias.<span class="pn">{63}</span></p>
+
+<p>Ahi vão de passagem dois exemplos:</p>
+
+<p>Um visconde, opulento pelos dons de uma bestial fortuna que o ama como a
+cousa sua, compra um quarto de bilhete da loteria hespanhola. O rapaz que, á
+custa de muito teimar, lh'o vendera, vae dar-lhe a nova de que a cautela fôra
+premiada com quatro mil duros. O visconde manda esperar o alviçareiro moço e
+traz-lhe umas calças de cutim sem fundilhos.</p>
+
+<p>Outro, na passagem do rio Douro, escorrega do barco para a corrente, e
+mergulha; passados instantes, emerge á tona d'agua resfolegando, e pedindo
+soccorro. Travam-no os braços robustos do barqueiro que, em risco de morte,
+consegue salva'-lo, Vae leva'-lo á familia, mandam-no esperar á porta da rua, e
+recebe, como salvador d'uma vida cara aos seus, uma vida que os jornaes
+pranteariam com tarjas da grossura de um dedo, e vinhetas das mais funebres da
+typographia, recebe, finalmente, setecentos e vinte em cobre.</p>
+
+<p>Isto é publico e notorio; mas não estava em chronica. Receio maguar a
+modestia dos generosos cavalheiros, por isso resalvo os nomes. Na quinta edição
+d'este livro, havidos os consentimentos respectivos, serão postos em estampa,
+para inveja de miseraveis sovinas, e estimulo á profusão da presente raça.</p>
+
+<p>O commendador não era fona. Esse caínho feito não desluz os bizarros
+presentes que fazia á esposa e aos sogros. Ludovina era o primor da
+casquilhice, e do mais rico em gosto e droga. Para cada baile, para cada
+exposição do theatro lyrico, um vestido não visto, só comparavel<span
+class="pn">{64}</span> aos que trajára antes, e inferiores aos que trazia
+depois.</p>
+
+<p>Os <em>leões</em> sertanejos, estes cinco ou seis pataratas, senhores de uma
+gloria tão productiva, que faz lembrar a dos dominios da corôa portugueza na
+Ethiopia, Arabia e Persia, os leões honorificos do Porto, se assestavam
+pertinazes os oculos na peregrina esposa do commendador, o mais que conseguiam
+era realisar o anexim nacional: «&mdash;viam-na por um oculo.»</p>
+
+<p>João José Dias envesgava o olho de soslaio por sobre as feras; e, a meu ver,
+seria elle homem bastante para realisar, já não com um, mas com todos, a fabula
+do leão espinotado pelo orelhudo.</p>
+
+<p>O commendador tinha em sua mulher inteira confiança, nada lhe alterava o
+conceito bem merecido; todavia era accessivel ao ciume sem causa. Nos bailes,
+andava o pobre homem sempre assustado. Não tinha socego, nem póro que não
+estilasse o suor da apoquentação. As affabilidades mais triviaes e innocentes
+da cortezia, um sorriso de Ludovina ao par dançante que a deliciava com ensosso
+palavrorio, o menor gesto de attenção a que a delicadeza obrigava a festejada
+dama, isso era um adstringente doloroso que apertava as entranhas do
+commendador.</p>
+
+<p>N'um d'esses bailes, em que João José Dias emagreceu duas polegadas na
+circumferencia, appareceu Ricardo de Sá, que nunca mais vira Ludovina desde a
+vespera da sua derrota.</p>
+
+<p>Audacioso até ao desatino, teve a petulancia de aprumar-se<span
+class="pn">{65}</span> diante de Ludovina, com a luneta insultante. A filha de
+D. Angelica pediu o braço a uma amiga e saíu d'aquella para outra sala. O
+commendador não fôra extranho ao acto, e seguiu-a com disfarce. Ricardo,
+brincando com os berloques do relogio, e tregeitando o habitual sorriso do
+homem tragico de romance, seguiu de longe as duas amigas, simulou um encontro
+casual, estacou diante d'ellas, e montou a luneta.</p>
+
+<p>D. Ludovina rodou sobre o calcanhar e voltou-lhe as costas. Á cabeça do
+commendador subiu um repuxo de sangue, e os lobulos das orelhas fizeram-se-lhe
+escarlates como ginjas.</p>
+
+<p>D. Angelica, que espiava o successo da sala proxima, acercou-se de Ricardo
+de Sá, fitou-o com fulminante soberania, e disse-lhe a meia voz:</p>
+
+<p>&mdash;O senhor é um miseravel tolo, que incommoda. Se se estima alguma
+cousa, não me obrigue a encarregar o boleeiro de minha filha de responder ás
+suas provocações.</p>
+
+<p>&mdash;Mude de sexo como Theresias, e falle-me depois&mdash;disse Ricardo,
+dando á perna direita o costumado repuxão dos elegantes.</p>
+
+<p>O commendador veio ao encontro de D. Angelica, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;«Aquelle sujeito com quem a senhora falou agora, não é um homem que
+eu encontrei em sua casa a primeira vez que lá fui?</p>
+
+<p>&mdash;É.</p>
+
+<p>&mdash;Que diabo anda elle a prantar-se diante de Ludovina?<span
+class="pn">{66}</span></p>
+
+<p>&mdash;Já reparei n'essa acção repetida. Eu lhe conto, dê um passeio
+comigo&mdash;E tomando-lhe o braço, D. Angelica continuou:&mdash;Este homem foi
+uma afeição innocente de minha filha, e é hoje um ente desprezivel para ella e
+para mim. </p>
+
+<p>&mdash;Escreviam cartas um ao outro?&mdash;interrompeu o commendador,
+bufando.</p>
+
+<p>&mdash;Escreviam, sim...</p>
+
+<p>&mdash;Porque me não disse isso a senhora?!</p>
+
+<p>&mdash;Porque não merecia a pena dizer-lh'o. Que é escreverem-se cartas?</p>
+
+<p>&mdash;Não é pouco, acho eu... E como acabou isso?</p>
+
+<p>&mdash;Acabou, dizendo eu a esse homem que não voltasse a minha casa.</p>
+
+<p>&mdash;E que quer elle agora?</p>
+
+<p>&mdash;Vingar-se da unica maneira que póde: affligir minha filha... Ella ahi
+vem... não falemos n'isto.</p>
+
+<p>D. Ludovina disse affectuosamente ao marido:</p>
+
+<p>&mdash;Vamos embora? eu estou incommodada.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos, disse a mãe.</p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso, vou chamar a carruagem; esperem um pouco, que eu venho
+já&mdash;disse o commendador.</p>
+
+<p>As senhoras foram esperar na sala menos concorrida. D. Ludovina arquejava em
+ancias, e falava aceleradamente a sua mãe.</p>
+
+<p>Entretanto, João José Dias entrou na sala onde se dançava, e viu na porta
+fronteira Ricardo de Sá encostado, com a luneta em acção, e o cotovello direito
+apoiado na mão esquerda.<span class="pn">{67}</span></p>
+
+<p>Foi ao pé d'elle e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;O senhor sabe quem eu sou?</p>
+
+<p>&mdash;Creio que já o vi em alguma parte.</p>
+
+<p>&mdash;Faz favor de vir aqui que lhe quero fallar.</p>
+
+<p>Ricardo seguiu-o machinalmente, atravessou um corredor, e parou n'um patamar
+deserto:</p>
+
+<p>&mdash;Eu sou o marido d'aquella senhora que vocemecê insultou lá dentro.</p>
+
+<p>&mdash;Essa é muito boa! Eu não insultei senhora alguma!</p>
+
+<p>&mdash;Se insultou ou não, sei eu. Fique-lhe de aviso que a sr.ª Ludovina
+tem um marido de quarenta e tantos annos, isso é verdade, mas capaz de pegar
+n'uma orelha dos pandilhas como vocemecê, e dar-lhe com a cabeça n'uma esquina,
+tem percebido?</p>
+
+<p>O commendador desceu as escadas, e Ricardo de Sá, estupefacto e aturdido,
+atravessou o corredor, e entrou nas salas.</p>
+
+<p>Pouco depois, entravam na carruagem D. Ludovina e sua mãe. O commendador não
+lhes disse palavra com referencia ao desforço solenne que tirára do bacharel.
+</p>
+
+<p>Isto, se eu o não contasse, era cousa que morria ignorada porque o auctor
+embrionario do <small>SECULO PERANTE A SCIENCIA</small> nunca a diria.<span
+class="pn">{68}<br>{69}</span></p>
+
+<h1>VI</h1>
+
+<p>Esta inquietação damnificou a vida menos má do commendador, e o socego,
+apparentemente feliz, de Ludovina. A paz existia; era, porém, como a serenidade
+presagiosa de trovoada.</p>
+
+<p>O marido recebia os convites para bailes, e queimava, á surrelfa, as cartas.
+Ludovina admirava o esquecimento, sem aventurar uma pergunta. Estes rebuços são
+a desgraça das familias, e o rastilho de polvora que espera uma faisca.</p>
+
+<p>Ao theatro iam raras vezes. O commendador adoecendo quasi sempre no dia da
+recita, supportou no estomago muitas papas de linhaça, sem precisão. O seu
+achaque postiço era uma inflammação intestinal.</p>
+
+<p>D. Angelica censurava o procedimento do genro; mas calava-se, para não dar
+anso á filha de romper em queixumes, que abafava com a esperança de melhor
+vida, ou desafogava em carpir-se sósinha. Melchior Pimenta achava que tudo ia
+bem, e dava-lhe mais cuidado a esperançosa<span class="pn">{70}</span>
+apparição de um neto que a irritação de entranhas do capitalista.</p>
+
+<p>Acabára-se o palacete, e fez-se a mudança. O commendador não convidava os
+sogros para viverem com elle. Ludovina, reagindo contra a tyrannia simulada
+disse que não saía da casa onde nascera, sem levar seus paes. João José
+acreditou na resolução, e disfarçou o intento, dizendo que nunca tivera outro.
+</p>
+
+<p>Ludovina queixava-se á mãe da reclusão em que vivia cheia de aborrecimento e
+tedio; perguntava se era aquella a felicidade que dava o dinheiro; dizia que a
+pobreza e o ar livre eram preferiveis ao goso de cincoenta vestidos que se
+traçavam no guarda roupa, e da luxuosa mobilia que ninguem admirava.</p>
+
+<p>D. Angelica, já aborrecida tambem, prometteu á filha entender-se com o
+genro, e muda'-lo por meios suaves.</p>
+
+<p>&mdash;Que motivo ha, snr. commendador&mdash;disse D. Angelica&mdash;para se
+encerrar n'esta casa, cortando as suas relações com a sociedade que tão bem o
+tratava? </p>
+
+<p>«Eu vivo assim melhor.</p>
+
+<p>&mdash;Viverá!... não creio. O senhor, quando estivemos em Celorico,
+divertia-se nas sociedades, e já no Porto parece que folgava de que o vissem
+com sua mulher em toda a parte...</p>
+
+<p>«Estou velho para andar a perder as noites. Esta minha inflammação de
+entranhas não me deixa. A saude está em primeiro logar.</p>
+
+<p>&mdash;Tem razão; mas n'este mundo só se vive bem, sacrificando-se a gente
+uma á outra. O senhor é casado<span class="pn">{71}</span> com uma menina
+habituada aos innocentes prazeres da sociedade, e eu, se me dá licença,
+dir-lhe-hei que não consentiria um casamento entre genios tão contrarios, se
+previsse o que está acontecendo.</p>
+
+<p>«Então que é?</p>
+
+<p>&mdash;É que minha filha não póde assim viver contente.</p>
+
+<p>«Agora não! ella não se queixa: a senhora é que toma as dôres por ella.</p>
+
+<p>&mdash;Não se queixa porque é muito delicada, muito soberba, ou uma sancta.
+O peor será quando ella se queixar... Isto assim vae mal, sr. Dias; mude de
+vida, confie em sua mulher que é um anjo de virtude, incapaz de offender a sua
+dignidade.</p>
+
+<p>«Não duvido; mas estou melhor assim, e ella tambem não está mal, acho eu.
+Quem casa vive para seu marido, e para os filhos, se os tem. Isso de andar de
+bailarico em bailarico é bom para as raparigas solteiras que andam á pesca de
+marido. Até parece mal uma mulher casada a saltarilhar com um homem que lhe
+pega pela cinta, e anda alli com a cara ao pé da d'ella. Nada de bailes, sr.ª
+D. Angelica. Minha mulher, se quer passear tem ahi uma carruagem e eu estou
+prompto a acompanha'-la para toda a parte.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem, não se frequentem os bailes, mas conservem-se as relações
+da nossa casa. Ludovina tem amigas, que extranham muito a vida encarcerada que
+ella passa. Porque não ha-de sua mulher visitar e receber as visitas de suas
+amigas?</p>
+
+<p>«E isso de que livra? Isto de mulheres umas com as<span
+class="pn">{72}</span> outras não dizem cousa boa. O melhor é cada um em sua
+casa.</p>
+
+<p>&mdash;Que razão essa tão... tão singular!</p>
+
+<p>«A final de contas, sr.ª D. Angelica, eu estou em minha casa, e entendo que
+faço bem. Não se lucra nada em apparecer. O mundo está uma pouca vergonha. Eu
+já sei como está o Porto, e como se vive por ahi. Não quero que minha mulher
+ande nas bôcas do mundo. Se Ludovina não fosse ao baile, onde lhe appareceu o
+tal namorado que ella teve, não tinhamos todos a zanga com que sahimos de lá.
+Em casa, em casa é onde se está melhor.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não me responsabiliso pelas consequencias, sr. Dias. Ludovina tem
+brios e pundonor; se ella desconfia que v. s.ª a encerra em casa, por suspeitar
+da lealdade d'ella, teremos grandes desordens e não terei poder para
+accomoda'-las.</p>
+
+<p>«Eu não desconfio de minha mulher; se não vou aos bailes, é porque não quero
+que os outros desconfiem, e acabou-se.</p>
+
+<p>O dialogo ficou aqui; mas ha ahi duas linhas que fazem honra á intelligencia
+equivoca de João José. Merecem ter segunda edição de versaletes:</p>
+
+<p>E<small>U NÃO DESCONFIO DE MINHA MULHER; SE NÃO VOU AOS BAILES É PORQUE NÃO
+QUERO QUE OS OUTROS DESCONFIEM.</small></p>
+
+<p>Isto é uma grande idéa, das quatro idéas grandes que apparecem em cada
+seculo, e que, por engano, entrou na cabeça inhospita do commendador.<span
+class="pn">{73}</span></p>
+
+<p>Pesem bem o quilate das duas linhas, que me ministrou João José, e verão que
+as melhores d'este livro são ellas.</p>
+
+<p>O marido, que me está lendo, se tem cincoenta annos, e espreita os vinte de
+sua mulher, através do vidro embaciado que a experiencia lhe vendeu caro, não
+deve já agora perder a esperança de dizer, no auge do seu ciume, alguma cousa
+que possa ler-se em lettra redonda.</p>
+
+<p>A indignação fazia os versos de Juvenal; porque não ha de o ciume fazer as
+prosas toleraveis dos maridos?</p>
+
+<p>A idéa de João José, se fosse minha, ninguem me aturava a vaidade. Rogo aos
+escriptores contemporaneos, e aos futuros sabios, alinhavadores de remendos
+alheios, que se escreverem a seguinte maxima:</p>
+
+<p><em>Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes para
+que os outros não desconfiem;</em> escrevam por baixo &mdash;<em>O
+commendador</em> J<small>OÃO </small>J<small>OSÉ
+</small>D<small>IAS</small>.</p>
+
+<p>As pessoas que melhores idéas engendraram, não teem sido as mais felizes. O
+commendador pertence ao martyrologio dos grandes pensadores. Os fados, os
+estupidos fados hão de castiga'-lo por essas poucas palavras com que elle
+arranjou um nicho, pôdre de barato, no templo da memoria.</p>
+
+<p>O castigo começa.<span class="pn">{74}<br>{75}</span></p>
+
+<h1>VII</h1>
+
+<p>Ludovina disse um dia a sua mãe:</p>
+
+<p>&mdash;Estou casada ha treze mezes, e sinto-me velha. Até aqui obedeci como
+creança, a minha mãe, a meu pae, e a esse homem, que entrou na nossa familia
+com certa auctoridade que me intimidava. Eu fui sempre docil, docil até á
+pusillanimidade. Se a violencia não fosse tamanha, este homem que chamam meu
+marido, teria feito a escravidão da minha alma para sempre. Assim não póde ser.
+Sinto-me outra; perdi os costumes de creança; envelheceram-me com os desgostos
+continuos, e por isso hão de soffrer-me agora emancipada.</p>
+
+<p>&mdash;Que vem tudo isso a dizer, Ludovina?</p>
+
+<p>&mdash;Que quero a minha liberdade, que hei de passar por cima da oppressão
+á custa de tudo.</p>
+
+<p>&mdash;Ludovina! que linguagem é essa?</p>
+
+<p>&mdash;É a da desesperação, e da justiça. Não pratiquei sombra de mau acto,
+por onde mereça este amargo viver que me dão. Quero saber porque vivo apartada
+das<span class="pn">{76}</span> minhas amigas, e dos recreios, d'onde a minha
+reputação saíu sempre sem mancha.</p>
+
+<p>&mdash;A quem o perguntas, a mim?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, á mãe, ao pae, e depois pergunta'-lo-hei ao dono d'esta casa, ao
+dono dos meus vestidos e dos meus braceletes. Se este me disser que a minha
+liberdade é o preço d'essas cousas, deixo-lh'as, e peço a meu pae a
+subsistencia que me dava d'antes. Se m'a negarem, Deus me inspirará o destino
+que me convém. Isto ha de decidir-se hoje. Ninguem soffria tanto tempo, por
+amor proprio, ou pela virtude da paciencia.</p>
+
+<p>&mdash;Tens direito a interrogar teu marido, Ludovina; mas sê prudente;
+vence-o com razões moderadas, por não dizer humildes.</p>
+
+<p>&mdash;E se elle, por maldade ou por ignorancia, suspeitar da pureza das
+minhas intenções?</p>
+
+<p>&mdash;Fala-lhe como deve falar uma senhora, e confundi'-lo-has.</p>
+
+<p>Veiu o commendador cortar o colloquio. Nunca tão achamboada e trombuda se
+mostrára a lerda physionomia do personagem. N'essa occasião, o achaque
+intestinal era veridico, segundo o testemunho do semblante. Era o ideal da
+fealdade, então, o sr. Dias!</p>
+
+<p>D. Angelica, instada por um gesto da filha, deixára-os sós.</p>
+
+<p>&mdash;É a primeira vez&mdash;disse Ludovina, sentada n'uma cadeira de
+braços estofada, com a formosa face encostada á palma da mão direita, e uma
+perna sobre a outra balouçando-se, deixando ver o pé de fada, através<span
+class="pn">{77}</span> do rendilhado da saia que a velava.&mdash;É a primeira
+vez que falo a meu marido como se deve falar a um marido. Até aqui tratei-o
+como se trata um amigo que se respeita, um tio, um pae d'esses com quem se não
+tem muita confiança.</p>
+
+<p>O snr. Dias abriu a bôca para entender melhor. D. Ludovina proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Poucas filhas ha tão respeitadoras como eu lhe tenho sido na
+qualidade de mulher. Tudo que ha n'esta casa, snr. Dias, seu tem sido, como
+seria, se eu aqui não fosse mais que uma pessoa extranha, sujeita á sua
+generosidade. A sua vontade é o movel das minhas acções. Em quanto o senhor me
+concedeu a liberdade honesta, que meus paes me concediam, acceitei-a, sem lh'a
+agradecer, porque achei isso tão natural como absurdo e impossivel o contrario.
+Logo que o senhor, sem me explicar a causa da sua mudança, de repente me
+afastou da sociedade, como se faz ás pessoas incapazes de viverem n'ella,
+acceitei tambem, sem me queixar, o captiveiro, e supportei-o seis mezes como
+uma mulher culpada que expia a culpa com a paciencia muda. O snr. Dias, sem
+saber o que fez, expoz sua mulher aos commentarios offensivos que a sociedade
+ha de ter feito á minha ausencia repentina. Deu um escandalo, sem necessidade
+de evitar outro. Disse á sociedade que não tinha bastante confiança em mim para
+me levar onde ha o bom e o mau.</p>
+
+<p>«Estás enganada, menina, eu não disse isso a ninguem&mdash;interrompeu o
+commendador, que andou ás aranhas<span class="pn">{78}</span> muito tempo antes
+que traduzisse para vulgar o estylo sentencioso da filha e discipula de D.
+Angela.</p>
+
+<p>&mdash;Não o disse com a palavra; mas disse-o com as acções. Privando-me de
+ir aos bailes, de frequentar o theatro, de receber as minhas amigas de
+collegio, e as relações de minha familia, o que diria a sociedade?</p>
+
+<p>«Lá o que ella quizer, menina...</p>
+
+<p>&mdash;O que ella quizer, não, snr. Dias! Não consinto que se façam de mim
+conjecturas desairosas. Requeiro que o senhor me explique o motivo d'esta
+separação injusta a que me fórça.</p>
+
+<p>«Não te zangues, Ludovina... Foi tua mãe que te metteu na cabeça essas
+palavras? Bem diz lá o ditado: «Livra-te da sogra, que eu te livrarei do
+diabo.»</p>
+
+<p>&mdash;Respeite minha mãe, senhor! Eu não falo pela bôca de minha mãe; o meu
+silencio até hoje não era estupidez nem insensibilidade: era amor proprio, e
+outro sentimento mais nobre que o senhor não entende. Vamos ao essencial, snr.
+Dias. Teve alguma razão para me privar de viver como vivem todas as mulheres
+casadas da boa sociedade?</p>
+
+<p>«Não, já disse que não. A cousa é outra...</p>
+
+<p>&mdash;Qual é essa outra cousa?</p>
+
+<p>«As boas pagam pelas más, e não ha mulher honrada para certa gente que vae
+aos bailes e aos theatros.</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu não estou disposta a sacrificar-me ás mulheres indignas. A
+minha consciencia é o meu juiz. Não me importa o que se diz de mim.<span
+class="pn">{79}</span></p>
+
+<p>«Essa é de cabo de esquadra! Pois não se te importa o que se diz de ti?</p>
+
+<p>&mdash;Que se diz, snr. Dias?</p>
+
+<p>«Não sei; mas... elles lá sabem o que dizem.</p>
+
+<p>&mdash;Elles quem? accuse-me sem piedade; repita as affrontas que me fazem;
+tenha a coragem de calumniar-me, se lhe é preciso inventar os meus crimes.</p>
+
+<p>«Tu estás fóra de ti, Ludovina! Isso não é assim! Ahi anda espirito-santo de
+orelha... O teu genio não é esse...</p>
+
+<p>&mdash;O meu genio é a minha dignidade, n'este caso. Responda-me: Offendi a
+sua honra?</p>
+
+<p>«Não, já disse duas vezes que não.</p>
+
+<p>&mdash;Faltei aos meus deveres de esposa?</p>
+
+<p>«E ella a dar-lhe!</p>
+
+<p>&mdash;Pois bem: quero viver como vivi nos primeiros seis mezes da nossa
+união. Quero ir ao theatro, aos bailes, ás visitas, como ia em solteira. Quero
+receber as minhas relações, como as recebi antes de ter metade da sua riqueza.
+Quero uma inteira liberdade como premio do meu procedimento para comsigo.
+Quero... </p>
+
+<p>«Então isto, pelos modos, é «nós, el-rei, e justiça de Fafe!» Aqui não ha
+rei nem roque n'esta casa? é quero, e mais nada?</p>
+
+<p>&mdash;Quero, sim, porque é de justiça o que já não tenho a baixeza de
+pedir; mas quando não, snr. Dias, meus paes teem uma casa estabelecida, e
+sobejos meios para eu me declarar independente d'essas riquezas com que o
+senhor me dotou, e que eu, de todo o meu coração,<span class="pn">{80}</span>
+rejeito, porque não acceito o preço porque fui vendida.</p>
+
+<p>Ludovina, já de pé, com o rosto inflammado, e os bellos olhos coruscantes de
+cólera, sahiu de um impeto, deixando o commendador attonito na mais palerma
+immobilidade. D. Angelica ouvira tudo;</p>
+
+<p>&mdash;Excedeste-te, Ludovina&mdash;disse ella&mdash;mas fizeste-me
+orgulhosa de ser tua mãe. Acceito, de hora em diante, a responsabilidade das
+tuas palavras, seja ella qual fôr.</p>
+
+<p>João José Dias nem palavra n'aquelle dia e no seguinte. Ao terceiro havia
+theatro lyrico. D. Ludovina mandou buscar camarote. Ás sete horas e meia mandou
+pôr os cavallos á sege, e disse a seu marido se a acompanhava ao theatro. O
+commendador fez-se verde-garrafa, desenrugou as palpebras quanto poude, e
+pasmou os olhos suinos na attitude imperiosa de Ludovina, que apertava o botão
+da luva, e enroscava no collo as marthas.</p>
+
+<p>&mdash;Vem, ou não?&mdash;repetiu ella.</p>
+
+<p>«Espera, que eu visto-me&mdash;disse o commendador, tomado d'uma especie de
+susto irreflectido, que em muitos maridos é o corollario de demorados
+raciocinios. </p>
+
+<p>Fez impressão o apparecimento de Ludovina. Acharam-n'a mais donosa os
+amadores do pallido. O viço da florescencia tinha murchado ao lento deseccar da
+melancolia. Ficára a pelle assetinada, com as alvuras do desmaio, realçando o
+vivido fulgor dos olhos negros, assombrados da côr-violeta, que tanto encarece
+o rosto dolorido. Ponderaram os analystas que os tecidos cellulares<span
+class="pn">{81}</span> do commendador estavam cada vez mais chorumentos e
+luzidios. Segredaram-se, ácerca das medranças d'elle, pilherias que incitam o
+riso, e ferem o melindre de ouvidos pudibundos.</p>
+
+<p>Estes colloquios, que a estampa rejeita, ciciavam, por entre frouxos de
+riso, nos camarotes, onde estava a propria virtude, com cabellos á Stuart, e
+despeitorada á Aspasia.</p>
+
+<p>Ludovina falava com meiguice ao marido, explicando-lhe o entrecho do
+<em>Trovador</em>, e aguçando-lhe a compuncção nas lamentações finaes da Ponti,
+que o commendador denominava uma «comedianta de mão cheia.» O ar de felicidade
+que se mutuavam, era o espanto dos observadores, e o castigo da maledicencia
+desapontada.</p>
+
+<p>Seguiu-se um baile. A carta de convite não ficou, d'esta vez, no escriptorio
+do commendador. Ludovina primou mais que nunca em enfeites. A inflammação deu
+treguas ás entranhas de João José Dias. Era para ver como elle se tornava,
+sadio e durazio, aos prazeres do mundo.</p>
+
+<p>Mas o interior de João José? Era um incendio para que a philosophia humana
+não inventou ainda bomba efficaz! Era o inferno do mouro de Veneza chorriscando
+aquelle humano torresmo!</p>
+
+<p>Que via elle para se moer assim? Nada. Ludovina nem, sequer, dançava já
+danças de roda, de contacto, de aperto, e raras contradanças acceitava. Os
+cavalheiros, que se avizinhavam d'ella, com liberdade, eram os amigos de seu
+pae, ou de seu marido. Os outros, repellidos<span class="pn">{82}</span> pela
+sisudez e gravidade com que os ella recebia, denominavam-na uma virtuosa
+grosseira, e apostavam que andava alli influencia de capellão incognito.</p>
+
+<p>Que sandeus ciumes, eram, pois, os do commendador, que a fortuna poupava á
+sorte de pessoas tão conspicuas, e bem ageitadas de corpo e alma?</p>
+
+<p>Batei n'esta sáphara, entendedores do coração humano, esmerilhadores do
+intimo dos <em>predestinados</em> e <em>minothauros</em> e <em>Sganarellos</em>
+ao alcance da sciencia humana.</p>
+
+<p>Cançar-vos-heis sem achar a razão da cousa. O axioma foi proferido ha quatro
+annos, e já tem tres edições com esta:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes, para
+que os outros não desconfiem.</em></p>
+
+<p><em>O commendador</em> J<small>OÃO </small>J<small>OSÉ
+</small>D<small>IAS</small> <em>(passim)</em>.<span class="pn">{83}</span></p>
+
+<h1>VIII</h1>
+
+<p>Raivando contra si proprio, o barão de Celorico...</p>
+
+<p><em>O barão de Celorico!</em> Personagem novo no conto?</p>
+
+<p>Novo! pois eu não disse já que João José Dias dera cinco mil cruzados ás
+urgencias do Estado, e seiscentos mil réis ao official maior da secretaria onde
+se fabricam os barões, e cincoenta moedas ao agente secreto das urgencias do
+Estado, e das urgencias dos estadistas?</p>
+
+<p>Se não lêram isto já, perderam-se na typographia quatro tiras de composição
+a mais rendilhada a buril classico, a mais puritana de linguagem, com recheio
+de idéas substanciosas, e gordura de pensamentos!</p>
+
+<p>Finalisava o capitulo VII por um baile de regosijo, que o novo titular
+estimulado pelo sogro, resolvera dar aos seus collegas, e mais amigos, que o
+felicitaram da mercê.</p>
+
+<p>Esse baile correra amargurado para o barão de Celorico.</p>
+
+<p>Ao caír da noite, recebera elle uma carta anonyma,<span
+class="pn">{84}</span> da qual não pude haver copia, e, podendo inventar uma,
+não o faço, que m'o veda o proposito de fidelidade.</p>
+
+<p>É certo, porém, que o contheudo d'essa carta entendia com Ludovina, meiga
+creatura, organisação melindrosa, que tanto a pesar meu hei de nomear baroneza
+de Celorico.</p>
+
+<p>Não se póde aferir o grau de calumnia d'essa carta pelas carantonhas do
+barão, que a lia. Em carantonha perenne estava elle sempre, lastimoso
+Amphitryão, desde que a sombra de um Jupiter de casaca lhe assombrava os
+encantos da innocente Alcmena. Qual seria o espirito rasteiro que se quizesse
+vasar nas fórmas de João José para enganar-lhe a esposa? Esta pergunta faço-a
+aos que leram Plauto, Molière, e Camões. Nem ella, com tantos mimos e promessas
+de delicias, vos faria a vós, leitores sedentos, acceitar a transfiguração
+hedionda.</p>
+
+<p>O barão tragou a affronta em quanto o bojo o comportava; depois, rebentou,
+chamando a sogra ao mais escuro do palacete, e dando-lhe a ler a torpe carta.
+</p>
+
+<p>D. Angelica disse conhecer a mal disfarçada letra de Ricardo de Sá;
+convenceu-o de que o despeito de uma alma vil devia vir áquella infamia;
+appellou da calumnia para a consciencia do barão; obrigou-o a confessar que
+nunca sua mulher saíra de casa sem elle; fez, finalmente, resolver o
+pestilencial tumor que ameaçava, n'aquella noite, uma supuração escandalosa.
+</p>
+
+<p>Raivando contra si proprio, (cá estamos na cabeça do capitulo) o barão de
+Celorico, não podia transigir com<span class="pn">{85}</span> as razões da
+sogra. Terminado o baile, duas ou tres vezes amaxucára a carta na mão convulsa,
+para a lançar ao toucador de Ludovina, que desenfeitava as tranças e o pescoço.
+</p>
+
+<p>&mdash;Que tens, meu amiguinho?&mdash;disse ella, que o vira, no espelho,
+fazendo esgares com os beiços&mdash;parece-me que está agitado!</p>
+
+<p>«Estou bom, muito obrigado, estou como se quer.</p>
+
+<p>&mdash;Que modo é esse de responder?&mdash;tornou ella, voltando-se de
+subito para o barão, que passeava, ou antes se rolava de parede a parede com
+achavascada impetuosidade.</p>
+
+<p>«Está bom; deixe-me, que eu não estou bom, e qualquer dia dou um estoiro
+como uma castanha.</p>
+
+<p>&mdash;O senhor está disparatando! explique-se.</p>
+
+<p>«Foi o diabo o nosso casamento, sr.ª D. Ludovina.</p>
+
+<p>&mdash;Nada de exclamações; clareza e franqueza, meu amigo! Que é isso?</p>
+
+<p>«É os meus peccados; é o que eu lhe tenho dito duzentas vezes, e a senhora
+não quer crer que a sociedade do Porto está corrompida, e quem aqui estiver não
+póde dar boa conta de si.</p>
+
+<p>&mdash;Vamos aos factos; applique... diga a que vem isso?</p>
+
+<p>«Ahi tem o que é.</p>
+
+<p>E arremeçou-lhe ao regaço a carta amarfanhada, que parecia uma pela.</p>
+
+<p>A baroneza abriu-a serenamente, amaciou-lhe os vincos, e leu, sem signal de
+inquietar-se.<span class="pn">{86}</span></p>
+
+<p>«Diz-se aqui que eu tenho um amante&mdash;disse ella sorrindo&mdash;que se
+corresponde comigo. O senhor crê isto? Responda, senhor; crê que eu tenho um
+amante?</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhora; mas, pelos modos, dizem-no, e a minha honra soffre com
+isso. </p>
+
+<p>«Como soffreria com a verdade do aviso?</p>
+
+<p>&mdash;Que é? não entendi.</p>
+
+<p>«Se as suas suspeitas condissessem com este aviso, não soffreria mais?</p>
+
+<p>&mdash;Matava-a, sr.ª D. Ludovina, dou-lhe a minha palavra de honrado, que a
+matava, e tiraria os figados pela bôca ao proprio diabo do inferno, e tinha
+alma de metter uma faca no peito para morrer ao pé de si!</p>
+
+<p>Esta rajada sacudiu todas as fibras bambas do barão. Não teve remedio se não
+sentar-se, a resumar camarinhas de suor, impando, e arfando como folle de
+forja.</p>
+
+<p>Ludovina, mais assustada que compadecida, tomou-lhe a mão, e com a outra
+enxugou-lhe a face.</p>
+
+<p>«Soffre porque me não ama, porque me não crê...&mdash;disse ella.</p>
+
+<p>&mdash;Não faças caso d'isto, não é nada... não é nada&mdash;regougou
+elle.</p>
+
+<p>«Seja superior aos infames que nos invejam, meu amigo. Não lhes dê o prazer
+da vingança. A pessoa que lhe escreve, é um miseravel inferior ao meu desprezo.
+</p>
+
+<p>&mdash;Já sei tudo... não falemos n'isso mais. Deite-se, que eu preciso de
+tomar ar.</p>
+
+<p>«Onde vae?</p>
+
+<p>&mdash;Vou ao jardim.<span class="pn">{87}</span></p>
+
+<p>«Eu vou comsigo... espere um bocadinho.</p>
+
+<p>&mdash;Não venhas cá, deita-te, que está fria a madrugada.</p>
+
+<p>Foi.</p>
+
+<p>Eram tres horas e meia da manhã. As trevas descondensavam-se. A nebrina do
+mar serpenteava por entre as ribas marginaes do Douro. O clarão da lua ia-se
+descórando ao arraiar do crepusculo. Era a hora menos poetica das vinte e
+quatro da rotação d'este planeta, onde ás tres horas e meia da manhã, dorme
+toda a gente que tem juizo, e sabe um pouco de hygiene.</p>
+
+<p>O barão de Celorico não dava fé das bellezas matutinas que o rodeavam.
+Atravessou, sorvendo haustos de ar fresco, o passeio central do seu jardim, até
+parar no muro, que o extremava de outra rua. Esta rua é justamente aquella por
+onde vimos passar Francisco Nunes, raivando imprecações garrafaes contra o
+charuto incombustivel. N'esse muro havia uma gradaria de ferro, e portadas
+interiores. O barão abriu machinalmente a janella, e viu approximar-se d'ella
+um vulto embuçado, que lhe disse:</p>
+
+<p>&mdash;Cuidei que tinhas adormecido! que demora foi essa?</p>
+
+<p>&mdash;O que é?&mdash;exclamou o barão atordoado.</p>
+
+<p>O vulto coseu-se com a parede, e, a passo rapido, desappareceu na meia
+escuridão.</p>
+
+<p>Longo tempo, agarrado ás grades, o barão de Celorico, parecia ter perdido a
+memoria, a sensibilidade, o senso intimo. A patrulha, que recolhia ao quartel,
+vendo<span class="pn">{88}</span> aquelle immovel espectaculo, através das
+grades, imaginou primeiro seria estatua do jardim; reparando attentivamente,
+ouviu o sussurro da respiração cavernosa, e decidiu que estava alli um homem.
+</p>
+
+<p>&mdash;Olá!&mdash;disse um soldado.</p>
+
+<p>«Que é?&mdash;respondeu o barão, espertando da lethargia.</p>
+
+<p>&mdash;É d'ahi d'essa casa?</p>
+
+<p>«Sou o dono d'ella.</p>
+
+<p>&mdash;Então perdoará. Fizemos esta pergunta, porque ha de haver cinco dias
+que vimos saír ás quatro horas da manhã um encapotado d'aquella porta que alli
+está abaixo, chamamo'-lo, elle deu á canella, e sumiu-se-nos lá em baixo na
+travessa.</p>
+
+<p>«D'esta porta que está na parede d'este jardim?&mdash;exclamou o barão.</p>
+
+<p>&mdash;É como diz.</p>
+
+<p>«A que horas?</p>
+
+<p>&mdash;A estas horas, pouco mais ou menos.</p>
+
+<p>«Um homem de capote?</p>
+
+<p>&mdash;Tal e qual.</p>
+
+<p>«E não viram mais ninguem?</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que vi ahi n'essa grade uma figura de mulher, com lenço
+branco na cabeça.</p>
+
+<p>«Obrigado, camaradas, muito obrigado, e boas noites.</p>
+
+<p>O barão arremessou as portadas, e, levando as mãos á cabeça, atirou-se com
+brutal frenesi a um banco de pedra. Ao tempo que cáe em cheio, vê ao pé de si
+um objecto escuro. Apalpa, repara, examina: era o projectil<span
+class="pn">{89}</span> fatal do charuto que Francisco Ennes, na vespera,
+arrojára para dentro.</p>
+
+<p>O barão contempla o charuto na mão convulsa, e desentranha um rugido
+fremente, apertando-a, rábido e sanhudo.</p>
+
+<p>&mdash;Eis a prova da minha deshonra!&mdash;exclama, e ergue-se vacillante e
+cambaio. Entra em casa, e vê correr um vulto de mulher através de um passadiço.
+Corre impetuoso, e já o não alcança. Tresvariando, grita que ha ladroes em
+casa. Affluem os creados, buscam e rebuscam todos os cantos inutilmente.
+Ludovina e sua mãe acodem espavoridas, e encontram o barão, debatendo-se nos
+braços de dois creados, com um ataque de nervos. Ministram-lhe soccorros,
+conduzem-n'o á cama, querem vêr o que elle fecha na mão direita, e podem apenas
+lobrigar a ponta queimada de um charuto. Ludovina inquire com meiguice e pena o
+que é aquillo, e o desgraçado, maior e mais eloquente na sua angustia,
+responde:</p>
+
+<p>«É a nossa morte!</p>
+
+<p>Instam na explicação das respostas, e elle troveja:</p>
+
+<p>&mdash;Não quero aqui ninguem!</p>
+
+<p>Pasmam; e retiram-se, atemorisados.</p>
+
+<p>«Estará elle doudo, meu pae?&mdash;dizia a baroneza, tremula de medo,
+apoiando-se nos braços do espavorido Melchior.</p>
+
+<p>&mdash;Parece que sim, minha filha. Chamem-se medicos já. Este homem deve
+ter demasiado sangue. É ameaça de doudice, não póde ser outra cousa.<span
+class="pn">{90}</span> «Que sorte a minha!&mdash;disse Ludovina lagrimosa. E
+foi para o pé do leito de seu marido.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Se se verificar a demencia&mdash;dizia Melchior a D. Angelica, de
+modo que só todos nós pudemos ouvir&mdash;a administração da casa passa
+immediatamente para Ludovina, e Rilhafolles com elle. Este homem saíu muito
+outro do que eu imaginava. Ainda me não disse que deixasse o logar da
+alfandega, nem me offereceu um emprestimo com que eu possa tentar demanda
+contra os possuidores da minha casa. Tenho remorsos de ter dado a este alarve
+uma creatura tão perfeita como a nossa Ludovina!</p>
+
+<p>D. Angelica não respondeu.</p>
+
+<p>«Ainda te doe a cabeça, Angelica?</p>
+
+<p>&mdash;Bastante.</p>
+
+<p>«Já estavas a dormir, quando o barão gritou?</p>
+
+<p>&mdash;Dormitava.</p>
+
+<p>«Mas eu fui ao teu quarto, e já te não encontrei lá!</p>
+
+<p>&mdash;Tinha corrido sobresaltada.</p>
+
+<p>«Então pelo que eu vejo tinhas-te deitado vestida...</p>
+
+<p>&mdash;É verdade, nem forças tive para desapertar os colchetes.</p>
+
+<p>«Porque me não chamaste, filha?</p>
+
+<p>&mdash;Não quiz incommodar-te.</p>
+
+<p>«Ora essa!...</p>
+
+<p>&mdash;Até logo, filho, vou ver se descanço um instante<span
+class="pn">{91}</span></p>
+
+<p>«Vae, vae, menina.</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<hr class="dotted">
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Ha reticencias que não dizem nada.</p>
+
+<p>A litteratura merceeira, para justificar o adjectivo, inventou as carreiras
+de reticencias, as quaes correspondem aos pesos roubados da mercearia.</p>
+
+<p>Eu abri loja, e vou com os outros.</p>
+
+<p>Não me entrem, pois, a desconfiar que os pontinhos juntos fazem borrão
+n'este painel de bons costumes.</p>
+
+<p>A sr.ª D. Angelica é excellente mãe, no meu conceito; e, no conceito do sr.
+Melchior Pimenta, é excellente esposa.</p>
+
+<p>Póde morrer, que o necrologio já não coxeia.<span
+class="pn">{92}<br>{93}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>IX</h1>
+
+<p>Não averiguei miudamente o que disse Ludovina a seu marido. Um dos dois
+medicos chamados ás sete horas da manhã para examinarem a supposta demencia, a
+pedido do Melchior Pimenta, disse-me que encontrára o barão febricitante, mas
+sem o menor suspeito symptoma de loucura. Accrescentou que o enfermo lhes
+dissera, que bebessem elles a tizana que receitaram; e lhes mandára pagar a
+visita, com recommendação de o darem por curado.</p>
+
+<p>Ás nove horas já o barão tinha sahido, sem dizer a Ludovina o seu destino,
+nem acceitar o almoço.</p>
+
+<p>Saíra pela porta principal, e entrára na rua para onde olhava a janella do
+jardim. Em frente d'essa janella, na margem esquerda da rua, estava com
+escriptos uma casa terrea. O barão perguntou, na vizinhança, quem era o
+proprietario da casinha, encontrou-o perto, alugou, pagou a casa, e recebeu a
+chave.</p>
+
+<p>D'alli foi ao largo de S. Bento. Entrou n'uma loja de<span
+class="pn">{94}</span> ferragem, e comprou uma clavina trochada, e um par de
+pistolas de coldres; e, n'outra parte, as munições de fogo.</p>
+
+<p>Tornou a casa ao meio dia, pediu o almoço, e comeu á tripa fôrra. A
+baroneza, e D. Angelica assistiram ao almoço, e não conseguiram arrancar-lhe
+tres palavras. Quem o servia era o negro, que o acompanhára do Rio, e o adorava
+com o fervor nativo da sua raça. O barão chamou-o no fim do almoço, e disse em
+segredo:</p>
+
+<p>«Esta chave é d'aquella casa baixa que tem o numero doze, defronte da
+janella do jardim. Vae á loja de ferragem no largo de S. Bento, com este
+bilhete. Hão-de entregar-te umas armas, e um embrulho. Pega em tudo isso, de
+modo que ninguem cá de casa te veja, fecha-o no tal casebre, e entrega-me a
+chave depois.</p>
+
+<p>O barão foi passear no jardim, e recolheu o seu espirito em meditabundas
+reflexões.</p>
+
+<p>Poucos dias antes, tinha elle ouvido uma historia que toda a gente sabe. Era
+aquelle conto de uma mulher adultera, que o marido inexoravel matára sem pau
+nem pedra, pondo-lhe diante dos olhos uma moeda de prata ao almoço, ao jantar,
+á cêa, a toda a hora, em todas as situações, até que a matou. Esta historia
+entalhára-se na memoria do barão com indeleveis traços. Contou-a a sua sogra,
+que a classificou de indecente para se dizer a senhoras. Contou-a a sua mulher,
+que não desculpou a victima, mas reprovou a fereza do verdugo. João José Dias
+fez a apologia do verdugo, e disse que «a honra de um homem só assim se
+vingava.» Ludovina fitou-o<span class="pn">{95}</span> com espanto, e acreditou
+que o ciume seria capaz de desenvolver os instinctos ferozes de seu marido.</p>
+
+<p>Era aquella historia o ponto convergente das meditações que o
+reconcentraram, por espaço de tres horas. D'esta longa e dolorosa encubação do
+pensamento deve-se esperar um parto, um monstro, uma façanha, mais ou menos
+plagiaria, da medonha expiação da adultera.</p>
+
+<p>Chamaram-n'o para jantar: disse que jantaria em mesa á parte com sua mulher.
+Desceu ao jardim a baroneza, e perguntou-lhe a causa de tal exquisitice.</p>
+
+<p>&mdash;Não dou satisfações&mdash;respondeu&mdash;Quero jantar, e almoçar
+sósinho comsigo. </p>
+
+<p>&mdash;Isso é o mesmo que...</p>
+
+<p>&mdash;Não me replique! tenho dito.</p>
+
+<p>Fazia medo a cara do homem. Esverdinharam-se os refegos da papeira; as
+ventas fumegavam soluçando; testa e palpebras, tinham o escarlate da penca do
+perú assanhado.</p>
+
+<p>Ludovina estava atterrada, e julgou-se em risco, ali, sósinha. Recuára para
+se evadir com dignidade, honrando a retirada, quando o barão lhe disse:</p>
+
+<p>&mdash;Olhe, senhora!</p>
+
+<p>A baroneza voltou-se, e viu o braço do barão erguido em attitude prophetica;
+e lá em cima no cucuruto da mão cebácea... o <small>CHARUTO</small>!...</p>
+
+<p>&mdash;Que é isso?!&mdash;perguntou ella com mais curiosidade que
+espanto.</p>
+
+<p>&mdash;Não sabe o que isto é? chegue-se cá!</p>
+
+<p>Ludovina, indo receosa, disse:<span class="pn">{96}</span></p>
+
+<p>&mdash;É um charuto... pois não é?!</p>
+
+<p>&mdash;É um charuto! é um charuto! mulher traidora!&mdash;ululou o
+bordalengo com a grenha irriçada.</p>
+
+<p>Ludovina recuou tres passos, tolhida de medo. O barão crescia sobre ella,
+com o braço no ar, arvorando o charuto. A pobre menina temeu as furias de um
+doudo, e chamou com afflictivo grito a mãe.</p>
+
+<p>Acudiu D. Angelica, já quando o barão, mettendo as mãos nas portinholas da
+japona, á laia de idolo chinez, voltava as costas a sua mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Isto que é?!&mdash;exclamou D. Angelica.</p>
+
+<p>&mdash;Está doudo rematado, minha mãe!&mdash;disse, a meia voz, a
+baroneza.</p>
+
+<p>&mdash;Vae-se chamar teu pae, que chegou agora. Nós não podemos viver com um
+demente...</p>
+
+<p>&mdash;Janta-se, ou não se janta?&mdash;disse o barão, caminhando para ellas
+com socegado semblante.</p>
+
+<p>&mdash;Que desordem foi esta, sr. barão?</p>
+
+<p>&mdash;Desordem! ora essa é fresca! Aqui, que eu saiba, não houve desordem
+nenhuma... Foi sua filha que viu uma cousa que a fez gritar... A culpa é
+d'ella.</p>
+
+<p>&mdash;Que viste, Ludovina?</p>
+
+<p>&mdash;Eu vi um charuto na mão d'este senhor; mas gritei porque elle me deu
+berros medonhos, e correu para mim com ares ameaçadores.</p>
+
+<p>&mdash;Deixe-a falar, sr.ª D. Angelica&mdash;replicou o barão, sorrindo de
+um modo que confirmava a demencia&mdash;A cousa é outra... Vamos jantar, e, se
+minha mulher tem medo de mim, jantaremos todos juntos á mesma mesa.<span
+class="pn">{97}</span> </p>
+
+<p>Melchior Pimenta, informado da desordem, foi ao encontro do grupo que
+entrava em casa. D. Angelica, com um só dedo, fez-lhe dois gestos: um ao longo
+do nariz, para que se calasse, outro no centro da testa, para que as protegesse
+de um doudo furioso.</p>
+
+<p>Sentaram-se á mesa, espionando os menores movimentos do barão. Viram-no
+tirar a mão da algibeira, extender o braço por sobre a mesa, e deixar caír, ao
+pé do prato da baroneza o charuto.</p>
+
+<p>Ludovina lançou-o ao chão com a faca, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Olhem que porcaria!&mdash;E voltando-se para o creado que servia a
+sôpa:</p>
+
+<p>&mdash;Atire isto lá fóra!</p>
+
+<p>&mdash;Não atires!&mdash;bradou o barão.</p>
+
+<p>&mdash;Porque não ha de atirar?!&mdash;Disse Melchior Pimenta.</p>
+
+<p>&mdash;Porque não quero! e porque sou dono d'esta casa! e porque quero
+despicar a minha honra!... e porque vae tudo com mil diabos, ouviu?</p>
+
+<p>Os talheres, os calices, as bandejas, e os pratos, resaltaram duas
+pollegadas acima da superficie: tamanho fôra o murro que o barão baixára sobre
+a mesa.</p>
+
+<p>Ergueram-se todos. D. Ludovina fugiu por uma porta; D. Angelica por outra;
+Melchior Pimenta, enfiado, amarello, sem gota de sangue, antevendo um violento
+embate na sua cara com a terrina, seguiu a mulher, colorindo a retirada com a
+prudencia.</p>
+
+<p>O barão embolsou o charuto, chamou o preto, e disse-lhe:<span
+class="pn">{98}</span></p>
+
+<p>&mdash;Senta-te ahi, Simão; janta ao pé de mim, que és o unico amigo que eu
+tenho.</p>
+
+<p>Ha, n'este lance, motivo para nos condoermos.</p>
+
+<p>O barão não come, apesar do esforço. O bocado entala-se-lhe na garganta,
+comprimida pelos soluços. Depõe o garfo, e descáe o rosto, coberto de lagrimas,
+sobre as mãos. O preto, que não ousára sentar-se, vendo chorar o amo, cujo pão
+comera em liberdade, no espaço de vinte annos, chora tambem, e pergunta a medo
+a causa d'aquella afflicção. Responde-lhe em gemidos o bemfeitor, e ergue-se
+extenuado, e vacillante, como se os sentidos o desamparassem. O preto quer
+conduzi-lo ao quarto; mas o barão, um momento indeciso, pede o chapéo e sae.
+</p>
+
+<p>As angustias d'este homem condemnam Ludovina?</p>
+
+<p>Não. Ludovina é innocente como os anjos.</p>
+
+<p>A peçonha mortal, que espedaça o coração d'este homem, tem-na elle na
+algibeira: é o charuto de Francisco Nunes.<span class="pn">{99}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>X</h1>
+
+<p>É meia noite e um quarto no relogio da Lapa.</p>
+
+<p>A casta lua dá a sua luz poetica a muitas impudicicias, e tolera o escandalo
+resignada. Casta lhe chamam os poetas, e é bem posto o epitheto. Só ella seria
+capaz de manter-se pura com tantos exemplos de corrupção. De mim creio que a
+tem salvado a distancia que a separa dos bardos que a namoram; e, se não é a
+distancia, é a impertinencia das cartas rimadas que lhe mandam. Muitas
+mulheres, menos castas que a lua, teem sido salvas pelo mesmo theor. Os poetas,
+que amam em verso, são uns puros desinfectantes da putrida impureza. Se todos
+fizessemos versos, e nos amassemos em oitava rima, eu lhes asseguro que este
+globo era um viveiro de anjos. A theoria de Hobbes seria uma calumnia, e a de
+Maltus um absurdo. Não andariamos travados em permanente lucta, nem a
+exuberancia da propagação assustaria os economistas. Havia só o risco de nos
+matar a fome; mas cada cysne teria um canto derradeiro com que esforçar a
+guerra á prosa que inventou<span class="pn">{100}</span> os cereaes, o boi
+cozido, as acções do banco e a troca de um romance por quinhentos réis.</p>
+
+<p>Isto occorreu naturalmente da castidade da lua.</p>
+
+<p>Era, pois, meia noite e um quarto no relogio da Lapa, e fazia luar como de
+dia.</p>
+
+<p>Ás dez horas e meia, tinha entrado para a casa numero 12, da rua *** um
+vulto sinistramente rebuçado: era o barão de Celorico de Basto. A casa tinha
+uma janella tosca de madeira, que se abriu cousa de meio palmo, depois que o
+encapotado entrou. De vez em quando, um raio da luz, caíndo sobre a fresta das
+duas portadas, resvalava no nariz do barão, dando-lhe o colorido de uma cidra
+avelada.</p>
+
+<p>Soára o quarto depois da meia noite, quando a janella interior da grade do
+jardim se abriu cautelosamente.</p>
+
+<p>Um objecto branco sobresaía na sombra: devia ser o lenço de uma mulher.</p>
+
+<p>Cinco minutos, depois, n'uma extrema da rua appareceu um vulto encapotado,
+que fumava, caminhando cosido com o muro do jardim. A figura da janella
+desappareceu, e em seguida ouviu-se o ranger subtil da lingueta de uma chave.
+Era a porta do jardim que se abria ao avizinhar-se o vulto.</p>
+
+<p>A distancia de tres passos da porta, o homem que fumava ouviu o ruido de uma
+janella que se abria, e parou, voltando-se para a janella. O que elle viu foi o
+lampejo da detonação de um tiro, e levou a mão ao hombro esquerdo. Seguiu-se um
+pulo incrivel do barão fóra da janella, a fuga precipitada do vulto, e um
+segundo<span class="pn">{101}</span> tiro, que redobrou a força motriz do
+fugitivo.</p>
+
+<p>Apitára uma patrulha ao cabo da rua, duas, tres, vinte patrulhas apitaram. A
+cem passos de distancia do local dos tiros, encontraram um homem extendido na
+rua, e disseram em voz alta, que o barão ouvira:&mdash;parece que está
+morto.</p>
+
+<p>O barão, sem apressar o passo, entrou na porta do muro, e deu volta á chave.
+Olhou ao longo do jardim, e viu, por entre as sombras dos arbustos, contiguos á
+casa, perpassar um vulto, e sumir-se.</p>
+
+<p>Abriu-se outra vez a janella da grade, ao tempo que as janellas das casinhas
+fronteiras se abriam. Alguns soldados perguntavam onde se deram os tiros.
+Respondiam unanimemente que foram dados alli, e mostrava-se uma bucha ainda
+fumegando, no meio da rua.</p>
+
+<p>&mdash;Quem está ahi n'essa janella?&mdash;bradou um soldado ao barão, que
+estivera calado.</p>
+
+<p>&mdash;Sou eu, sou o dono d'esta casa.</p>
+
+<p>&mdash;E quem é o senhor?</p>
+
+<p>&mdash;É o senhor barão&mdash;responderam os vizinhos.&mdash;Não, d'alli de
+certo não foi. </p>
+
+<p>&mdash;Os tiros?&mdash;perguntou o barão.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor, dois tiros que se deram aqui agora.</p>
+
+<p>&mdash;Eu tambem, os ouvi, e por isso cá vim. Mataram alguem, ou foi
+patuscada? </p>
+
+<p>&mdash;Não foi má a patuscada! Está alli adiante um sujeito extendido nas
+pedras, e, se não está morto, pouco lhe falta.</p>
+
+<p>&mdash;Quem é? conhecem?<span class="pn">{102}</span></p>
+
+<p>&mdash;Estão lá dois camaradas que o conhecem. Dizem que é um doutor de uma
+casa rica, chamado... lembras-te, 38?</p>
+
+<p>&mdash;Acho que elle disse... Almeida.</p>
+
+<p>&mdash;É isso, Almeida. O sr. barão conhece-o?</p>
+
+<p>&mdash;Não me lembro d'esse nome. Elle ainda lá está? Eu vou lá ver se o
+conheço...</p>
+
+<p>O barão seguiu a patrulha, até parar n'um grupo de soldados e paizanos, que
+rodeavam uma cadeira, onde estava assentado o ferido. Era coragem de cynico, ou
+desatino de demente? Mais que tudo isso: era o ciume!</p>
+
+<p>&mdash;Eu conheço este sujeito&mdash;disse o barão com admiravel
+placidez.&mdash;E elle tambem me ha de conhecer, se estiver vivo. Olé, sr.
+doutor! Está aqui o barão de Celorico, conhece-me?</p>
+
+<p>O ferido abriu a custo os olhos, e fez um aceno affirmativo,</p>
+
+<p>&mdash;Eu offerecia-lhe a minha casa, mas a d'elle é perto d'aqui, acho
+eu.</p>
+
+<p>&mdash;Nós sabemos&mdash;disseram os soldados.</p>
+
+<p>&mdash;Pobre homem!&mdash;proseguiu o barão em tom compadecido.&mdash;Ainda
+a noite passada elle esteve n'um baile que eu dei...</p>
+
+<p>Agglomeravam-se na rua os curiosos, quando o barão entrou em casa. Não ouviu
+o mais leve rumor. Entrou no quarto de sua mulher, e viu-a dormindo.</p>
+
+<p>Parou ao pé do leito, e vascolejou nas mandibulas, alvares uma gargalhada
+estrondosa. A baroneza acordou,<span class="pn">{103}</span> sentou-se no leito
+estremunhada sem saber o que ouvira, nem o que via.</p>
+
+<p>O barão tirou da algibeira o charuto, chegou-lh'o ao pé dos olhos, e bradou:
+</p>
+
+<p>&mdash;O tal patife não fuma outro.</p>
+
+<p>&mdash;Que diz?&mdash;exclamou Ludovina.</p>
+
+<p>&mdash;Faz-te de novas, mulher perdida! resa-lhe por alma, que a minha honra
+está vingada. Agora que digam o que quizerem.</p>
+
+<p>E saíu do quarto, deixando apavorada a pobre senhora, que o julgou n'um
+terceiro ataque de loucura.</p>
+
+<p>Ludovina vestiu-se apressadamente, e correu ao quarto da mãe.</p>
+
+<p>Encontrou-a vestida, prostrada sobre o tapete do guarda cama, com a face
+caída sobre os degraus do leito. Ajoelhou ao pé d'ella, chamou-a, ergueu-a,
+agitou-a com a força da afflicção, e caíu com ella sobre a cama.</p>
+
+<p>D. Angelica abriu os olhos pavidos, e vendo a filha, escondeu a face nas
+mãos, exclamando:</p>
+
+<p>&mdash;Jesus, meu Deus!</p>
+
+<p>&mdash;Que teve, mãesinha, isto que foi</p>
+
+<p>&mdash;Nada, infeliz; foi um accidente...</p>
+
+<p>&mdash;Por causa dos meus desgostos? ouviu o que aquelle homem me disse?</p>
+
+<p>&mdash;Não, minha pobre martyr... imagino o que te diria... Oh... deixa-me
+ver se consigo chorar, senão estalo... mas não chores tu, filha, não quero que
+nos ouçam... É preciso que eu te salve, antes que a morte me leve com o encargo
+da tua reputação infamada...<span class="pn">{104}</span></p>
+
+<p>&mdash;Eu não a entendo, minha mãe!</p>
+
+<p>&mdash;Não pódes entender-me, Ludovina, não pódes... ai! deixa-me respirar,
+que eu não vivo uma hora assim...</p>
+
+<p>A baroneza amparou a mãe até á janella, que abriu. D. Angelica rasgava com
+as mãos os espartilhos compressores do collete, e fincava entre os cabellos os
+dedos com vertiginoso desespero. N'este frenesi, susteve-se, comprimindo a
+respiração, para escutar as vozes que vinham da rua contigua ao muro do jardim.
+</p>
+
+<p>Uma dizia:</p>
+
+<p>&mdash;Ia morto.</p>
+
+<p>Outra:</p>
+
+<p>&mdash;A bala entrou-lhe no peito.</p>
+
+<p>Outra:</p>
+
+<p>&mdash;Pobre familia, que bocado tão amargo!</p>
+
+<p>&mdash;Aquillo que é?&mdash;perguntou D. Angelica espavorida.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não sei, mãe!</p>
+
+<p>&mdash;Esse malvado que te disse?</p>
+
+<p>&mdash;Chamou-me mulher perdida; mostrou-me o charuto, dizendo que o patife
+não fumava outro; e que lhe resasse por alma...</p>
+
+<p>D. Angelica expediu um grito, um ai vibrante, de uns que o seio arremessa de
+si, como se n'esse esforço expellisse um espinho arrancado ao coração.</p>
+
+<p>Ao grito de Angelica succedeu o terror confuso de Ludovina.</p>
+
+<p>N'este intervallo de silencio a lastimavel mãe concebeu<span
+class="pn">{105}</span> um designio atroz. Deu um salto para precipitar-se da
+janella, e achou-se travada nos braços da filha, que pedia soccorro, a altos
+brados, repuxando-a para o interior do quarto, com a força miraculosa da
+angustia.</p>
+
+<p>Ouviram-se passos no corredor. Ludovina exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Entre quem é.</p>
+
+<p>Abriu-se a porta, e surgiu o barão.</p>
+
+<p>D. Angelica lançou-lhe um olhar torvo, e fulminante; fugiu, de um repellão,
+aos braços da filha; correu para elle com a sanha de uma possessa, e atirou-o
+fóra do quarto com o choque dos punhos furiosos, exclamando:</p>
+
+<p>«Assassino! assassino!</p>
+
+<p>Ninguem me soube dizer a qual genero do sublime truanesco pertencia, n'este
+conflicto, o barão de Celorico. Eu tambem me não cancei em averiguações, porque
+o resultado d'ellas seria sujar com salmouras despicientes um quadro de
+angustias, que não é novo na vida, mas afouto-me a dize'-lo que é novo no
+romance. Melchior Pimenta não apparecia, sendo o seu quarto paredes meias com o
+de sua mulher. Deliciava-se nas profundezas de um somno do qual só podia
+emergir, quando a ultima molecula de tres grãos de morphina se perdesse através
+dos philtros nervosos. O dormir do somnolento empregado da alfandega explica-se
+com as vigilias aturadas de D. Angelica. Vá sem reticencias.</p>
+
+<p>Para nós é mais comprehensivel o espanto da baroneza do que estava sendo
+para ella o desespero de sua mãe. Se a pobre senhora suspeitasse que a demencia
+do marido era contagiosa; tinha desculpa. Tamanha afflição,<span
+class="pn">{106}</span> descompostura tal de contorsões, de gemidos, de
+arremessos para a janella, chamando a morte, não podia ser procedente do amor
+maternal exaltado até á ira da leôa.</p>
+
+<p>Ludovina ajuizava assim; mas não atinava com a razão possivel de effeitos
+tão extraordinarios no caracter inalteravel, e quasi duro de sua mãe.</p>
+
+<p>Instava, supplicando-lhe o desafogo da sua agonia. D. Angelica apertava-a
+contra o seio com arrebatada e insolita ternura. Promettia dizer-lhe tudo,
+quando pudesse falar, na certeza de que a sua ultima palavra fosse um adeus a
+este mundo, e uma confissão de que dependia o credito de sua filha.</p>
+
+<p>Foi um raio de luz para Ludovina estas palavras, cortadas por gemidos; esse
+raio de luz, porém, queimou-lhe o coração. Se Angelica reparasse na pallidez da
+filha, demasiado castigo seria da sua falta essa mudança. A parte da sua dôr,
+que até alli fôra remorso, seria depois vergonha, e vergonha de sua filha,
+tortura mil vezes mais pungente que a mordedura do remorso para a que soube ser
+mãe, e affrontou os deveres de esposa.</p>
+
+<p>A baroneza mudou de semblante e de carinho, sentiu-se gelada e inerte ao pé
+da mãe, logo que meia luz do enygma lhe aclarou o entendimento.</p>
+
+<p>«A mãe precisa descançar&mdash;disse ella com affectado gesto de
+carinho&mdash;Deite-se, que eu ajudo-a a despir-se, e ficarei ao pé da sua
+cama.</p>
+
+<p>&mdash;Não, filha; eu não tenho descanço n'este mundo, nem no outro. Se
+ainda tenho algum direito á tua obediencia,<span class="pn">{107}</span>
+deixa-me só; preciso de chorar lagrimas que nunca Deus permitta o teu coração
+as chore. Não pódes respeitar esta agonia, porque não a comprehendes, innocente
+martyr. Se soubesses... poderias abominar-me agora, para te compadeceres
+depois.</p>
+
+<p>«Sei, mãe.</p>
+
+<p>&mdash;Que sabes tu, Ludovina?! exclamou Angelica, abraçando-a
+convulsivamente. </p>
+
+<p>«O meu silencio responde-lhe, mãe... Não soffra pela minha deshonra. Deus
+sabe tudo; não me importa o mundo; a Providencia fará vêr a verdade a meu
+marido, sem que o nome de minha mãe seja sacrificado. Cale-se, por quem é. Não
+diga nada ao barão, e poupe meu pae. Eu sinto-me com forças para não vergar a
+um peso de infamação que me não cáe sobre a consciencia. Se o meu amor a póde
+consolar, não diga o seu segredo a ninguem; não diga porque eu não sei qual dos
+dois descreditos é mais afflictivo para mim...</p>
+
+<p>D. Angelica resvalou dos braços da filha, querendo ajoelhar-se-lhe aos pés.
+</p>
+
+<p>Ludovina ajoelhou com ella, e n'este momento abriu-se a porta.</p>
+
+<p>Era o barão de Celorico.</p>
+
+<p>&mdash;Ouvi tudo&mdash;exclamou elle&mdash;Perdôa-me, Ludovina, pelas cinco
+chagas de Christo. E foge d'essa mulher, que é a causa de eu ser um matador.</p>
+
+<p>&mdash;Tem razão; vae, minha filha&mdash;disse D. Angelica, afastando-a de
+si.</p>
+
+<p>&mdash;Sr. barão&mdash;disse Ludovina&mdash;eu não deixo uma mãe<span
+class="pn">{108}</span> culpada para seguir um assassino. Saia da minha
+presença, que o detesto. Apenas romper a manhã, deixo esta casa, deixo-lh'a
+para que o senhor caiba n'ella com o seu remorso. Matou um homem, sr. barão, um
+homem que não conhecia; matou-o a sangue frio, e será capaz de praticar uma
+crueldade menor matando-me a mim.</p>
+
+<p>D. Angelica arrancou-se aos braços da filha com furioso impeto, e postou-se
+terrivel diante do barão, exclamando com uma toada de voz soturna e tremula:
+</p>
+
+<p>&mdash;Com que direito assassinou um homem, scelerado, carniceiro?</p>
+
+<p>O barão tremeu, recuou, e pendeu o queixo inferior relaxado pelo espasmo.
+</p>
+
+<p>&mdash;Responda á amante do homem que matou; á mulher que acceita
+voluntariamente a infamia da sua culpa, para ter o direito de pedir contas ao
+assassino de Antonio d'Almeida. Querias, com essas mãos tintas de sangue, tocar
+em minha filha, miseravel algoz, que és tão estupido como sanguinario!</p>
+
+<p>Ludovina, cingindo a cintura da mãe, arrastou-a para longe do barão, que
+parecia, ao passo que ella falava, ir-se petrificando.</p>
+
+<p>A vehemencia da ira decaíu subitamente em syncope. D. Angelica encostou a
+face desfallecida ao seio da filha, que a levantou nos braços, e deitou no
+leito.</p>
+
+<p>E voltando-se para o miserando homem, cujo rosto confrangido accusava os
+pungimentos do remorso, a baroneza, em tom de cólera mal reprimida, disse:</p>
+
+<p>&mdash;O senhor não ha de ser mais feliz que as pessoas<span
+class="pn">{109}</span> a quem deu a morte, e a eterna vida de lagrimas.
+Pediu-me perdão? eu já lhe havia perdoado as suspeitas, as desconfianças, os
+insultos, as vergonhas a que hontem me expoz na presença dos seus creados. Tudo
+lhe perdoei, em quanto o suppuz demente; hoje, que o considero um criminoso de
+morte, e que não tenho quem me defenda das suas mãos póde matar-me, que o não
+chamarei á presença de Deus para ser julgado.</p>
+
+<p>&mdash;Ludovina&mdash;balbuciou o barão, com o rosto coberto de
+lagrimas&mdash;eu matei esse homem cuidando que era elle o teu amante...</p>
+
+<p>&mdash;Era a mim que devia matar-me, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Não podia ainda que quizesse, porque a minha tenção era matar-me e
+deixar-te viva, para que tu ao menos te lembrasses de mim com pena, quando já
+me não visses n'este mundo. Esse homem ainda não morreu, Ludovina; póde ser que
+se cure, e eu vou-me ajoelhar aos pés d'elle a pedir-lhe perdão, e, se tu
+quizeres, pedirei tambem perdão a tua mãe.</p>
+
+<p>&mdash;Não fale n'essa infeliz a ninguem, snr. Dias, a ninguem. Aqui a
+deshonrada sou eu. Se o descobrirem como assassino de Antonio de Almeida, diga,
+se quer que eu o não amaldiçôe, diga que esse homem era o meu amante; mas não
+fale em minha pobre mãe...</p>
+
+<p>«Que dizes tu, Ludovina? Pois tu queres que se diga que eu fui deshonrado
+por ti?</p>
+
+<p>&mdash;Deshonrado está o senhor, desde já, desde que matou, ou quiz matar
+por uma suspeita um vulto desconhecido...<span class="pn">{110}</span></p>
+
+<p>«Elle vinha entrando para o jardim, Ludovina, e tua mãe estava na janella...
+</p>
+
+<p>&mdash;Cale-se! isso é mentira! minha mãe estava deitada na sua cama...</p>
+
+<p>«Não estava, Ludovina...</p>
+
+<p>&mdash;Estava, snr. Dias; não me contradiga, que eu juro contra as suas
+palavras em toda a parte.</p>
+
+<p>«Então quem estava na janella, senão tua mãe?</p>
+
+<p>&mdash;Era eu; já lhe disse que a deshonrada sou eu; esse homem que matou
+era o meu amante; sabe-o todo o mundo; sabia-o o senhor quando o matou; sou eu
+a causa de meu amante ser um cadaver, e meu marido um assassino. Sou, portanto,
+uma infame mulher que deve saír debaixo d'estas telhas. Ámanhã, ámanhã ha de
+fazer-se uma separação eterna entre nós. A sua honra fica assim completamente
+desaffrontada. Todos dirão que meu marido me expulsou com a ponta do pé de sua
+casa. Todos hão de admirar os brios do snr. barão que matou o rival, e não
+desceu á cobardia de matar uma mulher... Esta resolução é inalteravel;
+acabou-se tudo entre nós, menos a vergonha, a infamia, o escandalo que vae
+fazer dos nossos nomes um espectaculo para a irrisão de uns, e para a piedade
+de outros. Eis aqui a sua obra; a mim, como sua mulher, compete-me acceitar
+metade da responsabilidade...</p>
+
+<p>D. Angelica sentou-se no leito, afastou, como em delirio, os cabellos que
+lhe cobriam as faces, e pediu uma gota d'agua, com supplicante instancia,
+proferindo os nomes das creadas da casa. Ludovina ministrava-lhe a<span
+class="pn">{111}</span> agua, que ella repelliu com ira. Permaneceu estarrecida
+alguns segundos, com os joelhos a prumo entre as mãos; depois, caíu de chofre
+sobre o travesseiro, e murmurou longo tempo palavras inintelligiveis.</p>
+
+<p>O barão tinha saído imperceptivel. D. Ludovina debruçou-se, debulhada em
+lagrimas, sobre o leito.</p>
+
+<p>Melchior Pimenta, no quarto immediato, espreguiçando-se fazia com os
+abrimentos de boca uma toada em falsete, rispida como o uivar do mastim.</p>
+
+<p>Abençoados quatro grãos de morphina que lhe povoastes o somno de deleitosas
+visões!</p>
+
+<p>Melchior Pimenta, eu, quando quero phantasiar um marido bemaventurado,
+lembras-me tu.</p>
+
+<p>Se vejo algum, desconcertado como as velleidades da metade que se despega,
+para entrar como excrescencia no complemento de outras existencias, que se
+reputam inteiras, dá-me vontade de lhes perguntar se já experimentaram a
+morphina.</p>
+
+<p>Eu tenho visto a suprema felicidade dos minotauros.</p>
+
+<p>Havia dois que espiritavam a galhofa de Melchior Pimenta; um, que
+repudiando, timbroso e austero, a esposa tentada pela cobra d'este paraizo
+terreal, onde as cobras inçam como em matagal bravio, recebe uma carta de dama
+d'alta estirpe, onde se lhe censura o burguez despique de peccadilho tão
+corrente em gente fina. O marido acceitára a correcção e a mulher incorrigivel.
+Melchior ria até caír.</p>
+
+<p>Outro, amante da paz caseira e fricassés acirrantes, conhece no aspecto
+carrancudo da mulher, e no aguado<span class="pn">{112}</span> dos molhos, os
+desvios do amante: inventa pretextos para aproxima'-los e ameiga os arrufos com
+um jantar campestre.</p>
+
+<p>Outro... Melchior conhecia outro, e eu conheço-o a elle, e mais dez
+exemplares que Brantome não archivou,<a name="tex2html4"
+href="#foot486"><sup>[4]</sup></a> todos aporfiando em delicias sublunares.</p>
+
+<p>Mas o ditosissimo, o que vive e morre sem sentir na consciencia o toque
+despertador, o <em>momento</em> da predestinação cumprida, esse é um só no meu
+catalogo.</p>
+
+<p>Melchior Pimenta, se quizeres um dia erigir estatuas aos deuses tutelares da
+tua prosperidade, lembra-te de Ludwig que farejou no opio a morphina; de Seguin
+que a descreveu; e de Sertuerner que aperfeiçoou o processo da extracção.</p>
+
+<p>Sem a morphina, não serias mais feliz que Octavio, que Cicero, que
+Domiciano, e tantos grandes e sabios do paganismo que podem, sem vergonha,
+apparecer diante de outros não menos sabios, e grandes senhores da
+christandade.</p>
+
+<p>Nasceste n'um folle, Melchior Pimenta!<span class="pn">{113}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>XI</h1>
+
+<p>Mulheres são os melhores juizes de mulheres.</p>
+
+<p>Disseram philosophos e moralistas, uns, grandes santos como S. Paulo, e
+outros, grandes atheus como Voltaire, que a mulher é um ser exuberante de
+sensibilidade, e apoucado de raciocinio.</p>
+
+<p>D'ahi vem o denegarem-lhes accesso ás sciencias abstractas, ás politicas,
+aos parlamentos, ao magisterio, ás regiões intellectivas do machinismo social,
+e mandarem-nas cuidar dos filhos, e fiar na roca.</p>
+
+<p>Se o absurdo vinga, se, por alvitre grosseiro do mais forte, a mulher é um
+ente inepto para exercitar a razão, com que direito as julgamos e sentenciamos,
+segundo a razão, sendo as suas culpas demasias de sentimento?</p>
+
+<p>A injustiça é flagrante e odiosa.</p>
+
+<p>Privam-nas de razão para as excluirem das funcções que a requerem;
+sentenceiam-nas pela razão, se o sentimento, seu dom essencial, as desvia do
+piso demarcado por ella.<span class="pn">{114}</span></p>
+
+<p>Isto é uma tyrannia, uma inquisição, uma crueza turca.</p>
+
+<p>A mulher não pode ser julgada por nós. Somos os senhores feudaes da razão. A
+nossa alçada respira a prepotencia do baraço e cutello. Estamos em insurreição
+permanente contra o santissimo apostolado de Jesus, que baixou seu divino braço
+por igual sobre o homem e mulher.</p>
+
+<p>Não podemos superintender no fôro do coração, porque a nossa jurisprudencia
+é toda de cabeça, e o nosso codigo em pleitos da alma é estupido ou hypocrita.
+</p>
+
+<p>Quem é o juiz da mulher? O homem que a despenha do abysmo, onde a lançou o
+amor, ao abysmo do opprobrio.</p>
+
+<p>É o homem, que lhe entalha o ferrete da ignominia na face onde imprimira o
+beijo da perdição.</p>
+
+<p>O altar onde se adora uma mulher é ao mesmo tempo a ara onde ella se dá em
+holocausto. Peccadora por muito sentir e chorar, amar e crer, quando nos abre
+céos e céos de alegria e gloria, abrimos-lhe nós o inferno dos desenganos, e o
+supplicio extremo do descredito. O mundo não as exila, mas affronta-as; o
+coração não as encrimina, mas agonisa na horrivel soledade para onde a razão o
+desterra.</p>
+
+<p>E somos nós os juizes, porque entramos n'uma herança usurpada pela força
+primeiro, e legalisada depois pelo sophisma escripto.</p>
+
+<p>A mulher foi escrava do braço, antes de o ser da superioridade moral.<span
+class="pn">{115}</span></p>
+
+<p>Quando o homem chamou a sciencia a dar um testemunho falso da sua primazia,
+a mulher, quebrantada pela escravidão do braço, não pôde remir-se com as forças
+do espirito.</p>
+
+<p>Ainda assim, o tyranno, receoso da emancipação, fez em redor da escrava as
+trevas da ignorancia, para que a razão da mulher não pudesse conceber da luz o
+germen que a rehabilitasse.</p>
+
+<p>Pegou de formosa flor, cercou-a de estevas, cobriu-a de sombras por onde o
+sol não podia coar uma restea reanimadora.</p>
+
+<p>Esta machinação arteira sobreviveu a todas as borrascas sociaes. Os
+fautores, e ainda os martyres da egualdade perante Deus e perante a lei, nunca
+proferiram uma palavra, nem verteram gotta de sangue para o resgate moral da
+mulher.</p>
+
+<p>O Filho de Maria disse que a mulher era egual ao homem, e levou para o céo o
+segredo da sua emancipação.</p>
+
+<p>Ficamos nós cá, os açambarcadores do entendimento escrevendo livros, que
+sacrilegamente denominamos de moral derivada do Evangelho, e n'elles demarcamos
+a profunda raia que extrema <small>RAZÃO</small> de <small>SENTIMENTO</small>.
+A razão para nós, o sentimento para ellas. Se, todavia, o sentimento claudica
+nos preceitos da razão pautada e insoffrida, condemnamos a mulher pela culpa de
+se deixar perder na escuridade, á mingua de uma lampada que lhe negáramos.<span class="pn">{116}</span> </p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Não sei se rasgue estas cinco paginas do manuscripto. Se alguem me assegura
+que entre vinte mil leitoras (orça por isto o numero das senhoras que compram
+livros em Portugal) se me asseguram que entre as vinte mil ha duas que me
+entenderam a parlenda, e me ficam desejando muita saude e graça para servir a
+Deus, não rasgo as paginas, embora os homens me mandem, em portuguezissima
+phrase, bugiar.</p>
+
+<p>Quando comecei o capitulo, tinha de olho dizer, á quarta linha, que, ácerca
+de culpas de mulheres, já mais consulto homens.</p>
+
+<p>Mulheres são os melhores juizes de mulheres.</p>
+
+<p>A respeito de D. Angelica, consultei uma sua amiga de infancia, tão virtuosa
+como indulgente; mas virtuosa&mdash;não me afiram lá a palavra pelo elucidario
+caseiro&mdash;virtuosa amando muito e com muito despego de pecos empecilhos,
+atravancados pela impostura.</p>
+
+<p>Disse-me ella o seguinte:</p>
+
+<p>«D. Angelica é das poucas mulheres que podem fazer do seu crime um titulo ao
+respeito das mulheres que sentem o coração pela dôr.</p>
+
+<p>&mdash;Ao respeito!&mdash;atalhei eu, com fumos de juiz, vicio do sexo
+ingrato, onde por desventura me encontro.</p>
+
+<p>«Sim, ao respeito, porque D. Angelica amando vinte annos um homem, juro-lhe
+que não teve uma hora de consciencia quieta, nem intrepidez para sacrificar o
+coração ao repouso da consciencia.</p>
+
+<p>&mdash;Vinte annos! pois era amor de vinte annos o do tal Almeida que o
+barão de Celorico arcobuzou?<span class="pn">{117}</span></p>
+
+<p>«Mais seria, talvez. Angelica era filha segunda de um fidalgo pobre do
+Minho. Foi educada comigo, no Porto, no recolhimento de S. Lazaro. Passava as
+festas do anno em casa de um doutor, que tinha filhas, e um filho que se
+formava n'esse tempo. Esse filho era o Antonio de Almeida, que o senhor
+conhece, e D. Angelica amou desde os quinze annos, com o amor immenso das
+sympathias contrariadas.</p>
+
+<p>O doutor descobriu a affeição do filho, e impoz-lhe um violento termo,
+prohibindo-o de vir ao Porto nos dois ultimos annos da formatura.</p>
+
+<p>As cartas de Antonio de Almeida recebia-as eu, e Angelica relia-as, ao cabo
+de dois annos de ausencia, com paixão cada vez mais entranhada.</p>
+
+<p>O fidalgo pobre resolveu casar a filha com um rapaz que se dizia rico.
+Melchior Pimenta era filho bastardo de um conego opulento, e litigava a herança
+paterna, com a certeza do vencimento.</p>
+
+<p>Angelica saíu do recolhimento sem saber para que fim saía. Friamente avisada
+de que havia de casar com Melchior Pimenta, embruteceu, ficou como tolhida, e
+desmemoriada do amor que alimentára tres annos.</p>
+
+<p>Quando o coração reviveu do lethargo, a indiscreta menina escreveu ao pae de
+Antonio de Almeida, pedindo-lhe que a pedisse ao pae para casar com seu filho.
+Que innocencia!</p>
+
+<p>Escreveu ao marido que lhe destinavam, confessando que não podia dar-lhe o
+coração.</p>
+
+<p>O doutor, se ella lhe conviesse te'-la ía. Angelica era<span
+class="pn">{118}</span> pobre. Melchior Pimenta não respondeu á carta, nem
+deminuiu as instancias.</p>
+
+<p>O fidalgo, informado pelo doutor, agradeceu-lhe a probidade da denuncia, e
+accelerou o desfecho.</p>
+
+<p>Angelica não soltou um gemido na presença do pae; sei que apenas lhe disse:
+«A historia de muitas mulheres desgraçadas começa como a minha.» Disse, e pôz a
+cabeça no altar do sacrificio. Ao marido apenas perguntou se recebera uma carta
+d'ella...</p>
+
+<p>Participei a Almeida o casamento de Angelica. Respondeu-me elle que não
+acreditava a infamia emquanto a perfida não tivesse o cynismo de lh'a dizer.
+Modifiquei as palavras d'esta carta, contando-as á minha amiga. Ella soluçou
+nos meus braços muito tempo, e disse com vehemente resolução: «Pois sou eu que
+lhe vou dar parte do meu casamento, e offerecer-lhe a minha casa.» Que fazes
+tu, menina?&mdash;repliquei eu, longe de suspeitar a resposta: «Faço á
+prepotencia de meu pae o sacrificio da minha dignidade, e castigo um homem que
+me comprou.» </p>
+
+<p>Julguei-a desvairada pela angustia, e reservei para melhor ensejo os
+conselhos que os meus vinte e cinco annos, já apalpados por amarguras de
+coração, podiam dar-lhe.</p>
+
+<p>Effectivamente, Antonio de Almeida voltou formado, e frequentou a casa de
+Melchior Pimenta, que dava bailes, e figurava na primeira plana a favor de
+antecipações que fazia sobre o penhor do seu patrimonio.</p>
+
+<p>Deixei de ser a confidente de Angelica, mezes depois.<span
+class="pn">{119}</span> As suas cartas não eram confidencias: eram lagrimas,
+queixumes vagos contra a sua sorte, chagas de consciencia que só a morte podia
+cicatrisar. Entendi tudo, e fiz o que faz, ou o que raras vezes faz uma amiga:
+consolei-a na queda, como a aconselhára á beira do abysmo. Disse-lhe que
+mandasse a consciencia ao pae, e que ficasse ella com o coração. Não lhe falei
+em Deus, nem na Virgem, porque no infortunio de Angelica, não havia que vêr com
+cousas sobrehumanas.</p>
+
+<p>O doutor farejava um casamento rico para o filho; achou-o, e marcou-lhe o
+prazo para se realisar. Antonio de Almeida rejeitou-o com toda a ousadia da
+desobediencia. Choveram maldições ás duzias, abriram-se os cancellos do inferno
+aos pés do obstinado moço. Peor que tudo isso, o castigo de Almeida foi ser
+expulso de casa, sem pão, nem habilitações promptas para ganha'-lo.</p>
+
+<p>Angelica soube tudo por mim, e por uma carta do doutor, que a
+responsabilisava pela desgraça do filho. Vendeu algumas joias que tinha de sua
+mãe, e pediu-me a entrega do producto, como dadiva minha, a Almeida. O brioso
+moço, não sei como, soubera onde as joias paravam. Acceitou o dinheiro, comprou
+as joias e pediu-me que as entregasse a Angelica.</p>
+
+<p>Duas almas assim nunca se separam. As ligações mais duradouras são as do
+crime, quando as virtudes do sacrificio reciproco chegam a esquecer-se da sua
+má origem.</p>
+
+<p>Antonio de Almeida trabalhou dia e noite, até ser um advogado de fama.<span
+class="pn">{120}</span></p>
+
+<p>Melchior Pimenta, ao cabo de quatro annos de casado, tinha perdido a
+demanda, e estava pobre. Antonio de Almeida cortou ás suas primeiras
+necessidades para emprestar a Melchior o fausto da casa. Angelica soube-o
+tarde; mas, sabendo-o, conheceu a pobreza de seu marido, e a delicada
+generosidade do seu amigo.</p>
+
+<p>Fecharam-se as portas da sala, acabaram bailes e theatros, resumiu-se a vida
+de Angelica ao amor a sua filha, á adoração mais intima do amante, e aos
+respeitos affectuosos por seu marido.</p>
+
+<p>Antonio de Almeida acatou o melindre de Angelica. Inventou pretextos para
+melhorar-lhe a vida, que ella não desejava melhor. Conseguiu fazer despachar
+Melchior Pimenta para a alfandega, comprando o despacho por alto preço.</p>
+
+<p>Nem este mesmo sacrificio desconheceu Angelica. Os jornaes annunciaram a
+corrupção, e a minha atilada amiga adivinhou a causa. Melchior Pimenta, não.
+Esse perguntava se os seus merecimentos não eram demasiada recommendação para o
+despacho.</p>
+
+<p>Sabe agora a vida de Angelica?</p>
+
+<p>Se alguma vez o seu sestro linguareiro o levar a pôr em romance esta
+historia, accrescente que D. Angelica, ao despedir-se de Almeida para visitar o
+berço da filha, lavou-lhe muitas vezes o rosto com lagrimas. Diga que, outras
+muitas, o amante de Angelica, farto de a esperar na sala, e já receoso de algum
+successo triste, procurando-a, ia encontra'-la ajoelhada ao pé d'esse berço. E,
+depois que Ludovina se lançava aos braços de Almeida,<span
+class="pn">{121}</span> com fervor mais de filha que de creança affeita a mimos
+e carinhos, o rosto de Angelica incendiava-se de pejo, como se o affecto e a
+virgindade do coração travassem peleja.</p>
+
+<p>Em resumo, snr. romancista, acabo por onde principiei, e do que vou repetir
+faça uma maxima, por minha conta; mas não a enfileire a par da do commendador
+João José Dias:</p>
+
+<p>H<small>A MULHERES QUE PODEM FAZER DO SEU CRIME UM TÍTULO AO RESPEITO DAS
+MULHERES QUE SENTEM O CORAÇÃO PELA DOR.</small></p>
+
+<p>D. Angelica está julgada e punida.................</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Entretanto foi Jesus para o monte Olivete:</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Então lhe trouxeram os escribas e os phariseus uma mulher que fôra apanhada
+em adulterio: e a puzeram no meio.</p>
+
+<p>E lhe disseram: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adulterio.</p>
+
+<p>E Moisés, na lei, mandou-nos apedrejar estas taes. Que dizes tu logo?</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>Jesus, inclinando-se, escreveu com o dedo na terra.</p>
+
+<p>E, como elles teimavam em interroga'-lo, ergueu-se Jesus, e disse-lhes: O
+que de entre vós está sem peccado seja o primeiro a apedreja'-la.</p>
+
+<p>E, tornando a curvar-se, escrevia na terra.</p>
+
+<p>Elles, porém, ouvindo-o, saíram um a um, sendo os<span
+class="pn">{122}</span> mais velhos os primeiros; e ficou só Jesus e a mulher
+que permanecia, no meio, em pé.</p>
+
+<p>Então ergueu-se Jesus, e disse-lhe: Mulher, onde estão os que te accusavam?
+ninguem te condemnou?</p>
+
+<p>Ninguem, Senhor;&mdash;respondeu ella. Então, disse Jesus: Nem eu tão pouco
+te condemnarei: vae e não peques mais.</p>
+
+<p>O S<small>ANTO </small>E<small>VANGELHO DE </small>J<small>ESUS
+</small>C<small>HRISTO, SEGUNDO </small>S. J<small>OÃO</small>&mdash;Capitulo
+VIII.<span class="pn">{123}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>XII</h1>
+
+<p>Em quanto D. Angelica dormita os somnos curtos e sobresaltados da febre, a
+baroneza despertou o pae, chamando-o á ante-camara.</p>
+
+<p>Melchior Pimenta, estremunhado e como ebrio dos aturdimentos da morphina,
+extranhou á filha a extraordinaria madrugada, e perguntou se o barão fizera
+alguma nova loucura.</p>
+
+<p>&mdash;Não podemos continuar a existir n'esta casa, meu pae&mdash;disse
+Ludovina, sem saber ainda como sahir-se bem de lance tão perigoso para sua
+mãe.</p>
+
+<p>«Então que houve? esse alarve que fez? será necessario amarra'-lo?</p>
+
+<p>&mdash;O necessario é sahirmos; mas a mãe está muito incommodada...</p>
+
+<p>«Que tem ella?!</p>
+
+<p>&mdash;Os meus desgostos affligiram-n'a a tal ponto que está ardendo em
+febre, e não sei se poderá transportar-se.</p>
+
+<p>«Vamos vê'-la.</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim vamos, mas não perca tempo. Um medico<span
+class="pn">{124}</span> é o mais urgente agora. Veja-a; se ella estiver
+descançando, não a desperte, e vá dispôr as cousas em nossa casa para nos
+mudarmos logo, sim, meu pae?</p>
+
+<p>«Mas que fez o bruto?! A gente ha de sair d'aqui sem dar uma satisfação á
+opinião publica? Não vês que esta saida precipitada auctorisa a maledicencia a
+calumniar-te como o barão te calumnia?</p>
+
+<p>&mdash;Não tratemos agora da opinião publica, nem do barão. O pae saberá
+tudo. Venha ver a mãe, e vá depressinha, sim?</p>
+
+<p>Melchior Pimenta entrou na camara de sua mulher. Tateou-lhe a testa que
+transpirava o suor da febre, sondou-lhe o pulso, afastou-lhe os cabellos dos
+olhos, e murmurou:</p>
+
+<p>«Isto é doença séria, Ludovina!...</p>
+
+<p>&mdash;Talvez não, meu pae... São afflicções que se curam com o socego da
+nossa casa. Não se demore. Vá por casa do medico e mande-o já. Se vir o barão
+não lhe diga nada, promette-me?</p>
+
+<p>«Eu sei cá o que farei! Ao despedir-me, tenciono dizer-lhe que me não
+codilhou. Tu tens escriptura de dote. Quando quizeres, levantas vinte contos de
+réis...</p>
+
+<p>&mdash;Pois sim, meu pae, esses negocios não são para agora. O que eu quero
+é a saude de minha mãe. Vamo-nos d'aqui embora, que eu torno a ser feliz... Se
+é meu amigo, não se demore; tire-nos d'este purgatorio.</p>
+
+<p>Melchior Pimenta ia scismando no divorcio, e nos vinte contos, quando o
+barão lhe surgiu na extremidade do corredor.<span class="pn">{125}</span></p>
+
+<p>&mdash;Bons dias, sr. Melchior.</p>
+
+<p>«Bons dias, sr. barão.</p>
+
+<p>&mdash;Isso hoje foi madrugar!</p>
+
+<p>«Assim é preciso.</p>
+
+<p>&mdash;Se não tem muita pressa, dê-me aqui uma palavra.</p>
+
+<p>«Não posso, sr. barão, vou com pressa.</p>
+
+<p>&mdash;Olhe cá, sr. Melchior, é preciso que nos entendamos.</p>
+
+<p>«A que respeito?</p>
+
+<p>&mdash;A respeito d'estas poucas vergonhas que aqui vão.</p>
+
+<p>«Que chama o senhor poucas vergonhas?</p>
+
+<p>&mdash;Homem! vamos falar claro; eu sei tudo, e o senhor, se o não sabe,
+saiba-o, e tome tento na sua vida.</p>
+
+<p>«O sr. barão é que já perdeu o tento da sua. Essa cabeça está desmanchada.
+</p>
+
+<p>&mdash;Desmanchada está a sua, e bem desmanchada, sr. Melchior. Entre cá, e
+ha de agradecer-me o que eu fiz, vingando a sua honra.</p>
+
+<p>«A minha honra não póde ser offendida nem vingada pelo sr. barão.</p>
+
+<p>&mdash;Estou a ter pena do sr. Melchior! Venha aqui dentro que eu conto-lhe
+tudo. </p>
+
+<p>«Que ha de o senhor contar?!&mdash;disse Melchior entrando na
+sala.&mdash;Quer contar-me a historia do charuto?</p>
+
+<p>&mdash;O charuto! o charuto agora já me não serve a mim; é ao senhor; veja
+lá se o quer, que eu dou-lh'o de boa vontade.</p>
+
+<p>«É para isso que me chama, sr. barão? De que me<span class="pn">{126}</span>
+serve a mim esse ridiculo instrumento com que o senhor está representando
+perfeitamente o papel de doudo?!</p>
+
+<p>&mdash;Doudo quer o senhor fazer-me, mas ha-de-lhe custar... digo-lh'o eu...
+Sente-se ahi, e dê-me attenção, que o caso é muito serio...</p>
+
+<p>Melchior Pimenta sentou-se impacientado. O barão de Celorico proseguiu,
+cerrando a porta da sala:</p>
+
+<p>&mdash;O senhor tem vivido enganado com minha sogra, acho eu.</p>
+
+<p>«O que?</p>
+
+<p>&mdash;Tenha mão, não se atrigue, sr. Melchior. As desgraças são para os
+homens, e o remedio é atura'-las quando ellas chegam. Sua mulher não lhe tem
+sido fiel. </p>
+
+<p>«O senhor está doudo, e, se não está doudo, é um infame
+malvado!&mdash;exclamou Melchior erguendo-se com arrebatamento.</p>
+
+<p>&mdash;Sente-se, homem; eu não lhe tenho medo, nem metto a fala no bucho.
+Ouça, e faça o que quizer; creia ou não, saiba ou não saiba, o que eu lhe digo
+é que sua mulher tinha um amante, e eu dei esta noite um tiro n'esse homem
+cuidando que era o amante de minha mulher.</p>
+
+<p>«O sr. barão sabe o que está dizendo? Se tem algum resto de juizo,
+desdiga-se da affronta que fez á minha honra.</p>
+
+<p>&mdash;Affronta?! essa não é má! Pois eu vinguei a sua honra, sem saber o
+que fazia, e o senhor ainda diz que o affronto! Ora, meu amigo, o senhor é que
+me parece<span class="pn">{127}</span> doudo! Acredite o que lhe digo, sr.
+Melchior. Este charuto era do amante de sua mulher, que entrava no meu jardim
+pela porta do muro, e vinha a esta casa todas as vezes que queria.</p>
+
+<p>«Quem, sr. barão? diga quem, quando não um de nós ha de morrer.</p>
+
+<p>Ludovina entrou precipitadamente na sala.</p>
+
+<p>«Quem?! então não diz quem é o amante de minha mulher&mdash;repetiu
+Melchior, em quanto a baroneza cravava os olhos no semblante subitamente
+desfigurado do marido.</p>
+
+<p>&mdash;Que indecentes palavras escuto, meu pae!</p>
+
+<p>«Primeiro as ouvi eu a este miseravel que m'as disse!</p>
+
+<p>&mdash;A meu marido? Desculpe-o que elle tem o juizo perturbado. O sr. barão
+não disse taes palavras com intenção de offender os pais de sua mulher, não é
+verdade? Essa calumnia foi, um desatino, uma irreflexão, não foi meu amigo? Dê
+uma satisfação a meu pae, que está afflicto como vê, ou então crave-se um
+punhal no seio, antes de repetir na minha presença que minha pobre mãe está
+infamada.</p>
+
+<p>«Tens razão, Ludovina&mdash;murmurou o barão, com as lagrimas nos
+olhos&mdash;Eu estou doudo; o que disse é uma mentira; se fôr necessario, eu
+peço perdão ao sr. Melchior, e á sr.ª D. Angelica.</p>
+
+<p>&mdash;Ouviu, meu pae? Vá, agora vá. Assim fez o que lhe pedi?</p>
+
+<p>«Foi elle que me arrastou para esta sala... Sabe que mais, sr. barão? O
+senhor o que deve fazer é recolher-se<span class="pn">{128}</span> a um
+hospital, antes que as auctoridades o amarrem. Eu vou requerer um exame ás suas
+faculdades intellectuaes...</p>
+
+<p>&mdash;Meu pae!&mdash;murmurou afflictivamente Ludovina&mdash;pelo amor de
+Deus lhe peço que se retire, quando não, vê-me cahir aqui morta.</p>
+
+<p>«Eu vou, menina.</p>
+
+<p>E sahiu, reatando a meditação no divorcio e nos vinte contos.</p>
+
+<p>&mdash;Não lhe disse eu já, sr. Dias&mdash;continuou Ludovina baixando a voz
+com maviosa brandura, e assumindo ares de penitente&mdash;não lhe disse eu já
+que o homem ferido pelo senhor era meu amante? que a mulher da janella do
+jardim era eu? que a culpada, a adultera, a infame, a digna de morte ou do seu
+desprezo é sua mulher?</p>
+
+<p>«Mentes, mentes, Ludovina! eu ouvi tudo o que tua mãe te disse no quarto.
+</p>
+
+<p>&mdash;Que importa o que o senhor ouviu? Tudo quanto meu marido disser
+contra mim, tudo o que a sociedade inventar contra a minha dignidade, hei-de
+certifica'-lo com o meu silencio, e com o meu divorcio. Tudo o que o senhor
+disser contra minha mãe, hei-de desmenti'-lo em publico, pondo em mim as nodoas
+que o senhor puzer na reputação d'ella. De maneira que meu marido, quando cuida
+salvar a sua honra, sacrifica-a, e provoca o escarneo do publico. Vê quaes são
+as minhas tenções, meu amigo?</p>
+
+<p>«Tu não fazes isso, Ludovina!&mdash;rugiu iracundo o deploravel
+homem&mdash;Se fazes tal... Ludovina, se fazes tal...<span
+class="pn">{129}</span></p>
+
+<p>&mdash;Que se ha-de seguir?</p>
+
+<p>«Eu sei!... tu queres matar-me, mulher! mata-me, mas deixa-me a honra, que
+eu estimo mais que tudo. Dou-te tudo quanto tenho, deixo-te em liberdade, torno
+para o Brazil; mas não digas que me foste infiel; não digas que esse homem era
+teu amante. Peço-te isto de joelhos, Ludovina.</p>
+
+<p>Era feio o espectaculo, mas fazia dó a postura humilde do barão. Ludovina,
+apiedada ou aborrecida da attitude, pôz-lhe as mãos nas espaduas, pedindo-lhe,
+affectuosa, que não estivesse assim.</p>
+
+<p>E continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Entre nós ha só uma reconciliação possivel. Vou fazer-lhe uma
+proposta: se o senhor a acceita, retiro-me contente de sair por um contracto;
+se a não acceita, vou de sua casa como fugitiva. O sr. Dias não dirá a alguem
+que deu um tiro em Antonio de Almeida; não fará suspeitar pelo mais pequeno
+indicio que Antonio de Almeida foi ferido, quando entrava no jardim d'esta
+casa; não proferirá o nome de minha mãe, contando ou ouvindo contar essa
+desgraça acontecida esta noite. Estas são as suas obrigações do contracto que
+lhe proponho; as minhas são as seguintes: sairei de sua casa, com minha mãe,
+porque o amor que tenho a minha mãe é incomparavel ao simples respeito que o
+sr. Dias me inspira; sairei, calando o segredo do seu crime, para que ninguem
+desconfie de que o senhor me surprehendeu com um amante. Auctoriso e quero que
+meu marido diga ás pessoas admiradas da nossa separação que o<span
+class="pn">{130}</span> meu genio era intractavel, que a minha educação era
+pessima, que as minhas impertinencias de rapariga eram insoffriveis. Diga tudo
+o que lhe lembrar, em meu desabono, que eu com o meu procedimento desmentirei
+alguma desconfiança injuriosa que possa haver. Eu não levo d'esta casa o valor
+de um ceitil. Os meus bahus irão como saíram do meu guarda-roupa de solteira. O
+senhor fica na posse livre de tudo que tinha, menos de uma mulher que o ha-de
+infallivelmente flagellar. Essa mulher sou eu, sr. Dias, porque o não amo, nem
+se quer estimo. Respeito-o, temo-o, d'aqui a pouco hei-de odia'-lo. O homem que
+o senhor feriu ou matou creou-me nos braços, foi o primeiro rosto extranho que
+vi ao pé do meu berço, ha quinze annos que o via todos os dias, da amizade que
+lhe tinha ao amor que se pode ter a um homem delicado, generoso, e confidente
+das alegrias e maguas da minha familia, não ia grande distancia. Eu choro esse
+homem, sr. Dias, não é só a minha desgraçada mãe que o chora. Se ella era
+amante d'elle, eu, como filha, não tenho direito a censura'-la; como mulher de
+coração creio que lhe perdoaria. Tenho dito mais do que devo, e importa ao sr.
+Dias. Entendeu-me bem, quer que eu repita por outras palavras o que disse?</p>
+
+<p>&mdash;Não é preciso... entendi bem...</p>
+
+<p>&mdash;Qual é a sua resposta?</p>
+
+<p>&mdash;É necessario pensar, Ludovina.</p>
+
+<p>&mdash;Não lhe dou tempo a demoradas reflexões. Eu hei-de sair d'aqui logo
+que meu pae volte.<span class="pn">{131}</span></p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso, faz o que quizeres; mas eu hei-de dizer em toda a parte
+que Antonio de Almeida era o amante de tua mãe.</p>
+
+<p>&mdash;E eu direi que era o meu amante; darei em publico quantas provas
+puder dar para o desmentir; hoje mesmo irei ser a enfermeira d'esse homem, se
+elle não tiver morrido. O sr. Dias será tido na conta de assassino, e assassino
+ridiculo, que mata o amante de sua mulher, e denuncia adultera sua sogra, para
+que se supponha que os seus merecimentos não podiam ser vencidos por um rival.
+</p>
+
+<p>&mdash;Tu és uma serpente, mulher!&mdash;bradou o barão, fazendo com os
+braços e a cabeça as azas d'um alambique&mdash;És um dragão! foste o demonio
+que me appareceste em corpo e alma! Vae-te para as profundas do inferno, e
+nunca descanço tenhas noite e dia em quanto me não vieres pedir perdão de
+quereres deshonrar teu marido, que te deu palacios, e quintas, e carruagens, e
+tudo quanto cobre o sol. Vae-te para onde quizeres, ingrata mulher, e quando
+souberes que eu morri doudo vem tomar conta de tudo isto que é teu, porque o
+que vocês querem todos é acabar comigo, para ficarem com isto que eu ganhei com
+honra a trabalhar como um mouro!</p>
+
+<p>Ludovina voltára as costas ao berreiro virulento de João José Dias.</p>
+
+<p>Entrou no quarto de sua mãe, que não resurgira ainda do torpor febril. A
+creada, que lhe assistia, entregou á baroneza uma carta, sobrescriptada a D.
+Angelica. Era-lhe<span class="pn">{132}</span> conhecida a letra de Antonio de
+Almeida. Alvoroçada com a aprazivel certeza de que Almeida vivia, Ludovina
+abriu a carta sem reflectir. Apenas viu no topo do papel «Angelica»,
+simplesmente «Angelica», estremeceu, caindo em si. Era uma carta do amante, do
+amante de sua mãe. Repugnava-lhe o le'-la, mas a amizade instigava-a,
+desprezando os escrupulos de uma virtude intempestiva.</p>
+
+<p>Leu o seguinte:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Angelica, fui ferido com um tiro quando entrava no jardim d'essa casa. O
+segredo do meu assassino morrerá comigo. O meu ferimento dizem ser mortal. Não
+importa. Morro amando-te. Esperava assim morrer. Mas a tua honra, minha amiga?
+Não bastará a minha vida para salva'-la? Dá um beijo a tua filha, ao nosso anjo
+que eu não verei jámais. Sacrificamo'-la ambos, ao verdugo de... A febre deu-me
+este intervallo. Adeus, até ao céo dos desgraçados.&mdash;<em>A. de A.</em>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Ludovina rompeu em gemidos, e caíu de joelhos orando com o fervor da
+desesperação. Nada mais triste n'este mundo que o espectaculo d'aquelle quarto!
+Não é preciso grande coração e poder de phantasia para acceitar um quinhão de
+tamanha angustia. A alma de pedra estala de encontro a este conflicto que
+esmorece na pintura. Cada lagrima ardente de Ludovina bastaria a reaccender a
+luz de piedade apagada no coração humano. Já imaginastes uma vida com este
+immenso horto de<span class="pn">{133}</span> agonia? Na previsão de todos os
+infortunios, concebeu alguem as torturas d'aquella mãe, e da filha que acceita
+a deshonra para salvar-lhe o nome? Desamparados da esperança e de Deus, cobrae
+alento nas dores com que não podeis, agradecei ao vosso anjo mau os supplicios
+vindos, pedi-lhe mais, pedi-lh'os todos, menos o calix de Angelica, e Ludovina,
+porque ha ahi o succo de todos os venenos provados n'este inferno da vida, obra
+prima de uma causa eterna, obra que mais me espanta a mim que a creação dos
+astros, do mar, e do homem.</p>
+
+<p>A minha grande prova de Deus, da justiça, e da condemnação é este inferno. O
+outro... é inferior á Omnipotencia que deixou, no seio da creatura, aberta a
+garganta do abysmo, onde a alma se despenha a devorar-se.<span
+class="pn">{134}<br>{135}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>XIII</h1>
+
+<p>Eu costumo reunir alguns peritos em letras magras como estas, e leio-lhes
+alguns capitulos dos meus romances, com adoravel modestia e exemplar submissão.
+Recito-lhes sempre um preambulo improvisado que estudo cinco horas, no qual os
+convido, com humildade de aprendiz inexperto, a que me corrijam as hyperboles
+desgrenhadas, me desbastem as excrescencias da taramelice a que sou atreito, e
+me recomponham os desatavios da fórma em que me descuido, se a imaginação
+desfila comigo pelos prados floridos do inverosimil.</p>
+
+<p>Tão atilado é o arrolamento que faço dos meus arbitros, que raro de entre
+elles se desacredita admoestando ou corrigindo as perfeições que me escorregam
+do bico da penna, com primores de fundição esmerada. Esse raro, porém, se
+encalha em elegancia que não percebe e deturpa, cá o inscrevo no meu canhenho
+de pascacios, e nem sequer desaggravo o meu talento offendido com resposta
+comedida. A minha docilidade chega até este ponto, e não ha ahi que ver mais
+lhano e brando do<span class="pn">{136}</span> que eu sou á opinião cortada dos
+meus amigos, que me fazem o obsequio de trazer da rua quatro superlativos
+encomiastas, antes de saberem que pabulo vou dar-lhes á sua admiração faminta.
+</p>
+
+<p>Ha pouco acabei eu de ler os doze capitulos passados a quatro luzeiros do
+orbe litterario, e um d'elles, acabada a girandola dos elogios, teve a
+descocada impertinencia de me dizer uma cousa assim:</p>
+
+<p>&mdash;Os teus romances do meio em diante adivinham-se.</p>
+
+<p>&mdash;Ora essa!</p>
+
+<p>&mdash;Adivinham-se, e coxeiam por isso. O sexto sentido do romancista é o
+invento da surpresa. A concatenação logica e natural dos successos damnifica a
+peripecia, e aguarenta a curiosidade do leitor.</p>
+
+<p>&mdash;O leitor é que não é capaz de entender-te essa linguagem
+assaralhopada. Tu calumnias o gosto dos meus leitores. Sou informado pelo orgão
+da opinião publica, o orgão que eu mais respeito, o meu editor, que o bomsiso
+dos consumidores escolhe o romance verosimil, amalgamado com arte e
+discernimento, escripto de modo que seja o reflexo da sociedade, e que possa de
+per si reflectir tambem na sociedade, amoldurando-se nas fórmas costumeiras e
+exequiveis.</p>
+
+<p>&mdash;Enfreia lá os impetos, modesto escriptor! não soltes a parlenda
+inexoravel. Concordo com o bom senso publico. O natural e o reflectido da vida
+apraz e captiva o leitor; mas a previdencia dos capitulos advenientes esfria o
+empenho, e dessabora a curiosidade.</p>
+
+<p>&mdash;Acceito a correcção, e tu acceita a aposta. Se adivinhares<span
+class="pn">{137}</span> o enredo dos capitulos subsequentes, eu prescindo dos
+meus titulos de Henri Heine, Alphonse Karr portuguez, e escrevo repertorios de
+hoje em diante. Se não adivinhares, escreve-me uma critica litteraria em que
+has-de provar aos incredulos basbaques que eu alojo na cabeça um d'esses
+lobinhos cerebraes que chamam «genio» os galiparlas da nossa terra.</p>
+
+<p>«Acceito, e ahi vae o desenvolvimento do teu romance, nos pontos essenciaes:
+D. Angelica póde morrer de uma congestão cerebral, ou de um typho. Não
+questiono a morte; é certo que a matas brevemente, e a fazes pedir, na hora
+derradeira, perdão do escandalo á filha, e da traição ao marido. Antonio de
+Almeida já nos disse que morria, e elle que o diz é porque o sabe, e tu já o
+sabias antes d'elle. D. Ludovina vae para a casa paterna, e, a pedido de
+Melchior Pimenta, enxuga as torrentes caudaes do pranto que a saudade maternal
+lhe arranca, mas teima em não querer nada do abominado marido. O barão de
+Celorico, atassalhado pelo remorso, dispara apostrophes sem grammatica ao
+espectro de Antonio de Almeida, pega-lhe a febre socia predilecta dos
+romancistas pathologicos, solta quatro urros estridulos ao despegar-se-lhe a
+alma do sêbo corporal, e vê'-lo que morre boçalmente, sem deixar nada ao
+<em>Hospital do Terço</em>, nem ás <em>Velhas da Cordoaria</em>! A tua
+crueldade para com este homem irá ao extremo de lhe negares até um necrologio
+na gazeta, ignominia posthuma com que rematarás a biographia de um homem que
+teve o infortunio de ser cevado de enxundias, em quanto tu espirras<span
+class="pn">{138}</span> ossos por todos os póros. D. Ludovina toma conta da
+herança, e...</p>
+
+<p>&mdash;E, sabendo que tu és um portento de esperteza&mdash;atalhei
+eu&mdash;digno de substituir João José Dias, manda-te convidar pelo seu
+procurador para tomar chá ás quartas feiras; namora-te, casa comtigo, e o
+auctor é padrinho de primeiro pequeno. Ora, meu amigo, outro officio.
+Desquito-te da promessa do elogio; já nem «genio» quero ser á custa do teu
+estylo assoprado. Eu já disse em mais de um livro que não escrevo de phantasia.
+A verdade e a observação dispoem-me as situações como tu as não inventas. A
+natureza, que tu conheces, é tôla, meu amigo.</p>
+
+<p>Disse.<span class="pn">{139}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>XIV</h1>
+
+<p>Antonio de Almeida esperava em ancias a apparição de D. Angelica. Não lhe
+pedira, como vimos, essa derradeira e afflictissima prova de um amor de vinte e
+dois annos; mas ve'-la, apertar-lhe a mão, expirar nos braços d'ella, egualar o
+escandalo ao flagello de lance tal, isso alvoroçava-lhe o espirito,
+attrahindo-lh'o para a unica visão aprazivel e ao mesmo tempo angustiada que o
+detinha entre a vida e a morte.</p>
+
+<p>As irmãs de Almeida ignoravam tudo o que se passára, excepto o ferimento
+mortal de seu irmão. A denuncia do barão de Celorico fôra segredada ao enfermo
+pelo proprietario da casa, seu antigo creado. A policia devassára do crime, e
+nada averiguára das respostas concisas e obscuras de Almeida. Suspeitavam as
+attribuladas irmãs que seu irmão tivesse tentado um suicidio, por desgostos
+desconhecidos, e calasse o desastre para occultar a fraqueza, e obviar a
+presumpções nocivas á honra de alguem, e á propria memoria.</p>
+
+<p>N'estas conjecturas, annunciou-se o barão de Celorico<span
+class="pn">{140}</span> de Basto. Almeida recebeu a parte d'esta visita com
+excitamento prejudicial ao seu estado. Os facultativos conheceram a exaltação
+inconveniente, e perguntaram-lhe se a presença do barão lhe era penosa.</p>
+
+<p>&mdash;Não é&mdash;disse elle&mdash;que entre, e venha só, porque é
+necessario assim.</p>
+
+<p>Entrou o livido barão, fechando a porta. Chegou-se ao leito do enfermo, e
+estacou silencioso, com os olhos rasos de lagrimas. Esteve assim instantes,
+ergueu as mãos, e ajoelhou sem proferir palavra.</p>
+
+<p>&mdash;Que é isso, senhor?&mdash;disse Almeida.</p>
+
+<p>«É um desgraçado que vem pedir perdão, snr. Almeida. Quem lhe deu o tiro foi
+este malvado infeliz que aqui está diante da sua vista. Eu cuidava que minha
+mulher me era infiel, e me deshonrava. Tive uma carta em que me avisavam
+d'isso. Encontrei um charuto no meu jardim. Disse-me a patrulha que do meu
+quintal saíra um homem fóra de horas. Tentou-me o demonio a tirar vingança de
+quem me deshonrava. Vi-o a v. sr.ª, e, sem pensar no que fazia, dei-lhe dois
+tiros. Depois soube tudo o que havia; minha mulher está innocente, e o senhor
+nunca me fez mal nenhum, e está ferido por mim. Se me quer entregar á justiça,
+aqui estou, snr. Almeida; chame toda essa gente que está em sua casa para ouvir
+a confissão.</p>
+
+<p>&mdash;Levante-se, snr. barão&mdash;atalhou Almeida&mdash;Não diga a ninguem
+que me feriu; fique entre nós esse segredo para sempre. Eu depressa morrerei
+com elle, e o senhor viva sem se denunciar a pessoa alguma. Eu sabia que<span
+class="pn">{141}</span> o meu assassino fôra o senhor. Se quer mitigar o seu
+remorso, respeite... a mãe de sua mulher. Se ella um dia precisar dos seus
+favores, faça-lh'os como os faria á viuva do homem que matou. Agora, vá em paz.
+</p>
+
+<p>O barão retirou, enxugando as lagrimas. Entrou furtivamente em casa, e
+escreveu uma carta. Sahiu com o preto, e montou a cavallo á porta de um
+alquilador.</p>
+
+<p>A carta, que escrevera, era sobrescriptada á baroneza; da qual carta se dá o
+texto viciado com as perdoaveis infidelidades da correcção ortographica:</p>
+
+<p>«Ludovina, quando receberes esta, teu infeliz esposo já não está no
+Porto!!!! Vou por esses mundos de Christo penar o meu crime, até que o remorso
+dê cabo de mim!!!! que não tardará!! Fica n'esta casa, que é tua, minha amada
+Ludovina; para mim me basta um bocado de terra onde enterrar os meus ossos!!!
+Quando souberes o meu triste fim então perdoarás a teu infeliz e desgraçado
+marido!! Fui já pedir perdão ao Antonio de Almeida, e oxalá que eu morresse ao
+pé d'elle. Pela tua honra e vida te peço que trates tua mãe com todo o amor e
+carinho. Faz com que ella me perdôe o mal que lhe fiz. Não tive animo de ir
+onde a ella, pedir-lhe que fosse tão boa como foi para mim aquelle honrado
+homem, que Deus permitta não morra. Adeus Ludovina, desgraçada Ludovina!!! para
+sempre, adeus! Não me tenhas odio; tem antes compaixão de teu marido, que te
+escreveu esta com a cara coberta de lagrimas e o coração acabrunhado de
+remorsos. Adeus para nunca mais!!!!!»<span class="pn">{142}</span></p>
+
+<p>Afóra a sobejidão de pontos admirativos, que são talvez signaes symbolicos
+da dôr indizivel do barão de Celorico de Basto, o que se nos depara n'essa
+carta é a simplicidade, a mudez, a phrase chan de uma verdadeira angustia. Em
+lance identico um marido letrado, e concedo até que romancista, não escreveria
+cousa mais pathetica e pungitiva.</p>
+
+<p>Ludovina leu esta carta ao pé de sua mãe, que authomaticamente se deixava
+vestir para ser transportada n'uma cadeirinha, nem ella sabia para onde.</p>
+
+<p>Melchior Pimenta trouxera de fóra a noticia do perigoso ferimento de Antonio
+de Almeida, e vendo que sua filha não se espantava da nova, porque não era
+então maré de fingimentos, ficou perplexo, e scismou no caso alguns minutos.
+</p>
+
+<p>Uma idéa, entre muitas idéas (se o leitor concede que Melchior tivesse
+muitas idéas) o incommodava. Seria Antonio de Almeida amante de sua filha, e o
+barão, por consequencia, quem lhe dera o tiro? Era esta a conjectura que o
+preoccupava, quando Ludovina lhe disse que não podia fazer-se a mudança
+n'aquelle dia porque a receava perigosa para sua mãe.</p>
+
+<p>«Vem cá, Ludovina&mdash;disse o sr. Pimenta, franzindo a testa
+sobrecarregada de cuidados&mdash;fallemos de espaço, e desembrulha-me este
+novello. O barão disse-me, ha pouco, que dera esta noite um tiro n'um homem que
+era o amante de tua mãe. Acabo de saber que Antonio de Almeida está ferido.
+Contei-te este acontecimento, que te não espantou. Vejo tua mãe doente.
+Lembra-me<span class="pn">{143}</span> o que teu marido me disse... Quero
+explicações d'este mysterio.</p>
+
+<p>&mdash;São muito dolorosas para mim as explicações, meu pae.</p>
+
+<p>«Como dolorosas?!</p>
+
+<p>&mdash;E muito, meu pae; vergonhosas até para que uma filha se atreva a
+dize'-las. Queira ignorar tudo, meu pae, ou tudo saber de outra pessoa que não
+seja eu...</p>
+
+<p>«Porque não has de ser tu?</p>
+
+<p>&mdash;Porque sou criminosa.</p>
+
+<p>«Criminosa! mas o barão disse que estavas innocente.</p>
+
+<p>&mdash;Foi a minha querida mãe que me salvou á custa da sua dignidade.</p>
+
+<p>«Não entendo...</p>
+
+<p>&mdash;Entende, meu pae. A amante de Antonio de Almeida era eu.</p>
+
+<p>«Tu! pois tu!...</p>
+
+<p>&mdash;Não me culpe, ou culpe-me, mas perdoe-me. Obedeci, quando me casaram
+com este homem, obedeci cegamente; mas o coração negou-se ao sacrificio.</p>
+
+<p>«E Antonio de Almeida, meu amigo de vinte annos, que te viu nascer, teve a
+ingratidão e a infamia de te fazer a côrte, sendo tu casada?! Foi bem dado o
+tiro! Bem hajas tu, barão, que me desaffrontaste, e procedeste como homem de
+bem!</p>
+
+<p>&mdash;Isso é improprio da sua nobre alma, meu pae. A culpa é minha só. Amei
+desde creança Antonio de Almeida, era amiga d'elle até o julgar superior a
+todos os<span class="pn">{144}</span> homens. Pedi-lhe a felicidade do coração,
+que só elle podia dar-me. Amava-me por piedade; fazia-me esmola do seu amor.
+Fui eu que o matei. Já que me forçou a esta confissão, dir-lhe-hei mais que, na
+posição em que estou, considero-me responsavel das minhas acções más perante
+Deus e meu marido. O pae perdeu o direito de me injuriar na desgraça que lhe
+devo. Minha mãe foi mais generosa comigo. Fez, não sei de que modo,
+convencer-se o barão de que a amante de Antonio de Almeida era ella. Aqui tem a
+explicação das palavras que meu marido lhe disse, e não poude sustentar na
+minha presença. Minha pobre mãe, depois de victimar a sua honra á minha
+salvação, succumbiu á vergonha de si, e á dôr, talvez, de me ver indigna
+d'ella. Basta de explicações, meu pae. Estas palavras tem-me custado annos de
+vida. Se a minha deshonra reflecte no seu pundonor, perdoe-me; se me não quer
+perdoar, amaldiçoe-me, mas não profira na presença de minha mãe o nome de
+Antonio de Almeida. Mereço isto á sua compaixão?</p>
+
+<p>«Não falarei mais n'esse homem por minha honra propria.</p>
+
+<p>&mdash;Assim o deve á sua dignidade.</p>
+
+<p>Ludovina foi chamada com urgencia ao quarto de D. Angelica. Encontrou-a
+vestida, disposta a sair, com o rosto escarlate do crescimento febril, e gestos
+de quem delira.</p>
+
+<p>«Onde quer ir, minha mãe?</p>
+
+<p>&mdash;Morrer em qualquer parte, Ludovina... Quero ar...<span
+class="pn">{145}</span></p>
+
+<p>«Não ha de sair d'aqui; supplico-lhe que não saia, minha mãe.</p>
+
+<p>&mdash;Não me dês esse nome... Eu não quero já ser mãe nem esposa...</p>
+
+<p>Ludovina fez sair a creada, que testemunhava este dialogo.</p>
+
+<p>«Não quer ser mãe nem esposa?</p>
+
+<p>&mdash;Não. Sou amante de um homem que está moribundo ou morto. Quero que
+todo o mundo saiba, que o fui e que o sou. Desprezo tudo, não ha para mim
+deveres nem respeitos agora. Se elle está vivo, quero dar-lhe os meus ultimos
+instantes. Se morreu, quero chorar e morrer ao pé do seu cadaver.</p>
+
+<p>«Fale baixo, por misericordia, minha mãe!</p>
+
+<p>&mdash;Podem todos ouvir-me, não me escondo d'alguem, agradeço as affrontas,
+os desprezos, as injurias, agradeço tudo que fôr martyrisarem-me, com tanto que
+me matem depressa.</p>
+
+<p>«Mas, minha mãe, attenda-me por piedade. Vou-lhe contar tudo, se me
+escuta... Sente-se, e ouça-me...</p>
+
+<p>&mdash;Diz, anjo, diz...</p>
+
+<p>«Antonio de Almeida não morreu, e talvez não morra. O barão escreveu-me uma
+carta em que se despede de mim, e me recommenda que lhe peça o perdão para
+elle. N'esta casa ignora-se tudo. Meu pae está convencido que sou eu a amante
+de Antonio de Almeida...</p>
+
+<p>&mdash;Jesus! exclamou D. Angelica.&mdash;Como tu me castigas, Ludovina!</p>
+
+<p>«Como eu a castigo, mãe?! por quem é, deixe-me<span class="pn">{146}</span>
+ser boa para o meu coração, e indigna para todo o mundo. Sinto na alma alegrias
+tamanhas d'este meu procedimento!... isto é Deus que me premeia, minha mãe, é
+Deus que me dá em consolações do céo as amarguras, que o mundo me possa dar.
+Ora, se a mãe me envenena este prazer, mata-me... Deixe-me ser senhora de uma
+parte do seu coração e da sua vida. Obedeça-me, sim? não saia de casa; não
+saia, que talvez me não encontre viva quando voltar.</p>
+
+<p>Ludovina abraçou-se, a chorar, em D. Angelica. Choravam ambas, com os rostos
+unidos, apertando-se cada vez mais. O seio da mãe desafogava de angustias
+soffocantes n'aquelle pranto. O da filha fortalecia-se de animo para arcar com
+a ignominia do seu descredito.</p>
+
+<p>D. Angelica recaíu no entorpecimento. Ludovina chamou creadas para lhe
+assistirem, e executarem as prescripções dos medicos. Melchior Pimenta esperou
+que a filha saísse do quarto, e foi sentar-se, meditabundo e sombrio, ao pé do
+leito da enferma, tateando-lhe o pulso, e chamando-a com os maviosos epithetos
+do carinho. Angelica abria os olhos pávidos, encarava-o por momentos, e recaía
+na somnolencia.</p>
+
+<p>Ludovina entrou na carruagem, deu ordem ao boleeiro, e apeou na Lapa. A
+trezentos passos d'ahi, morava Antonio de Almeida. Velando o rosto com um véo
+negro impenetravel á vista, a baroneza de Celorico, sósinha, subiu as escadas
+do amante de sua mãe.</p>
+
+<p>Descia um medico ao qual ella perguntou o estado do enfermo. Respondeu-lhe
+que havia esperanças de<span class="pn">{147}</span> salva'-lo. A noticia feliz
+alvoroçou-a. Receberam-n'a as irmãs de Almeida, maravilhadas de tamanha prova
+de estima. O doente conheceu-lhe a voz, agitou-se, quasi desfez o apparelho do
+curativo, e chamou-a com ancia.</p>
+
+<p>Ludovina entrou no quarto, só, que assim o pedira ás amigas. Almeida
+apertou-lhe a mão, orvalhou-a de lagrimas, e murmurou balbuciante:</p>
+
+<p>«É a boa nova... agora creio que vencerei a morte, minha amiga, filha do meu
+coração.</p>
+
+<p>A baroneza ficou muda e convulsa. <em>Filha do meu coração</em> foram
+palavras que lhe entraram como fogo no recesso da alma, fogo, porém, que, de
+repente, se mudára em sensação de intima doçura. Passados minutos de mudo
+anceio, Ludovina curvou-se para o seio de Almeida, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;A mãe está muito doente; mas sem perigo. A sua carta não lh'a
+entreguei, lia-a eu, e occultei-lh'a para a não matar.</p>
+
+<p>&mdash;O barão denunciou tudo?</p>
+
+<p>&mdash;Nada: tudo se ignora, e toda a gente ignora, só eu sei que ella o
+estima tanto como eu. É necessario que o nosso amigo concorra quanto puder para
+lhe dar allivio. Tem esperanças, não tem?</p>
+
+<p>&mdash;Tenho. Os facultativos disseram agora que o ferimento não é mortal.
+Já não morro, minha... minha querida amiga, não quero morrer...</p>
+
+<p>&mdash;Escreva a minha mãe, se pode. Diga-lhe isso, que eu levo a carta. Não
+fale em mim, não diga que eu vim cá.<span class="pn">{148}</span></p>
+
+<p>Antonio de Almeida escreveu. Ao despedir-se beijou Ludovina na face, e disse
+soluçando:</p>
+
+<p>«Será o beijo de um moribundo?</p>
+
+<p>«Não diga tal, sr. Almeida.</p>
+
+<p>«Se fôr...» e desentalando a voz dos gemidos que lh'a embargavam, proseguiu
+«se fôr... Ludovina... lembra-te sempre da situação em que te deu o seu ultimo
+beijo... teu pae.</p>
+
+<p>A baroneza tremeu uma sezão de instantes. Quiz saír, mas o abalo
+quebrantou-lhe as forças, coando-lhe nos nervos o desfallecimento, e a perda
+quasi dos sentidos.</p>
+
+<p>Almeida tocou a campainha, e disse á irmã que primeiro chegou:</p>
+
+<p>&mdash;O ar d'este quarto fez mal a esta senhora: levem-n'a para a sala, e
+vá uma das manas acompanha'la.</p>
+
+<p>Ludovina pediu que lhe mandassem buscar a sua sege, que a esperava na
+Lapa.<span class="pn">{149}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>Cinco paginas que é melhor não se lerem</h1>
+
+<p>Este capitulo mira a alvo transcendental.</p>
+
+<p>Nem mais nem menos, quer provar que o Codigo do Imperador
+Justiniano&mdash;corpo de leis que uma falsa piedade chama «Digesto», sendo
+elle a causa indigesta de muitas gastralgias intellectuaes&mdash;quer provar,
+digo, que o Digesto, entre muitas que não conheço, traz, uma lei de tamanho
+absurdo e insensatez, quanta é a indignação com que para aqui a traslado:</p>
+
+<p><em>Pater is est quem nuptiæ demonstrant.</em></p>
+
+<p>Em portuguez comezinho:</p>
+
+<p><em>O pai é aquelle que se diz pae no assento do baptismo.</em></p>
+
+<p>A versão é de christão catholico, entenda-se.</p>
+
+<p>Aquella regra de jurisprudencia pagã não fala em assento baptismal. Se o
+legislador fosse baptisado, como estes de agora, a lei não saía assim.</p>
+
+<p>Contra a qual lei temos a articular:</p>
+
+<p>1.º Que o pae é uma entidade muito mais nobre, efficiente, cathegorica, e
+circumspecta. E demonstra-se:<span class="pn">{150}</span></p>
+
+<p>Quem leu a physiologia da geração sabe que ha cinco phenomenos
+caracteristicos d'essa funcção de mysteriosa origem. O primeiro d'esses
+phenomenos, cuja confusa theoria os imperitos podem lêr nas fontes respectivas,
+é influido pela acção de um ser directo e immediato, que os latinos denominam
+<em>pater</em>, os inglezes <em>father</em>, os allemães <em>watter</em>, os
+francezes <em>père</em>, os hespanhoes <em>padre</em>, e nós, com mais
+suavidade que todos os outros idiomas, <em>pae</em>.</p>
+
+<p><em>Pae</em> quer dizer «productor, gerador» <em>Parens qui aliquem
+genuit</em>&mdash;isto a meu vêr, é claro como tudo o que se diz em latim.</p>
+
+<p>Conclusão: Pae é aquelle que é pae.</p>
+
+<p>2.º Ha paes postiços, paes contra-natura, paes testas de... ferro, paes
+<em>in mente legis</em>, na presumpção da lei, e na fé dos padrinhos de quem
+são compadres, por obra e graça de um sacramento.</p>
+
+<p>Os homens, reconhecendo a inconveniencia de acceitar a natureza feia como
+ella ás vezes se apresenta deliberaram, de commum concerto, pôr-lhe mascara.
+</p>
+
+<p>E como a natureza paterna era uma das que mais a miudo saía á gente com as
+suas deformidades medonhas, resolveram os desvelados reformadores corrigir os
+aleijões d'essa natureza, inventando o pae civil, o pae do assento baptismal, o
+pae da arvore de geração escripta em pergaminho, o pae que transmitte os bens e
+os appellidos, o pae, finalmente, que tem tudo que é paternal, mas não é pae.
+</p>
+
+<p>Este invento honra a sagacidade humana; mas a causa<span
+class="pn">{151}</span> que o incitou deturpa a humanidade, e opprime agramente
+os corações dos individuos virtuosos. Todavia, a mascara foi necessaria, logo
+que as fealdades deram nos olhos. Hoje acceita-se o remedio do mesmo modo que o
+travor da quina se tolera para combater a sezão. Os paladares mais melindrosos
+affazem-se á peçonha, e estomago ha ahi de pae postiço, que disputa a
+Mithridates a invulnerabilidade.</p>
+
+<p>Eu não applaudo a <em>Sandice</em> como Desiderius Erasmus; mas observo que
+o famoso theologo chamava «sandice» o que nós cá, gente bemaventurada da
+civilisação, denominamos «Cultura.»</p>
+
+<p>Erasmus não deu pela theoria das mascaras. Pasmado da bonacheirona paz
+d'alguns paes impossiveis, exclama o mestre de Bolonha:</p>
+
+<p>«Grande Jupiter! O que ahi não iria de divorcios, e peor do que divorcios,
+se a união do homem e mulher não fosse corroborada pela lisonja, pela
+complacencia, pelo esquecimento, e pela dissimulação, que formam o meu cortejo!
+Que raros não seriam os matrimoniamentos, se o homem de ante-mão esquadrinhasse
+os brinquedos da innocentinha noiva! Que rompimentos conjugaes, se o descuido
+ou a inepcia, não cegassem o bom do marido, para não enxergar os tregeitos e os
+feitios da companheira querida! Dizem que é toleima isto; deixa'-la ser; mas o
+grande caso é que marido e mulher vivem ás mil maravilhas, que reina a santa
+paz em casa, e os vinculos da alliança estão rijos. Isto é que é o essencial.
+Se ao pascacio dão nomes feios, que se lhe dá<span class="pn">{152}</span> elle
+d'isso? Ve'-la a infiel a choramingar; para logo o pobre marido lhe sorve as
+lagrimas enternecidamente. Qual é melhor, ser assim bom, ou andar atormentado
+pelas furias do ciume?»</p>
+
+<p>É boa a pergunta do theologo! O melhor é ser assim bom, ser assim
+illustrado, ser assim desbravado das velharias pundonorosas que obrigaram
+Cicero e Sulpicio Gallo a divorciarem-se das mulheres, um porque a sua lhe não
+respondeu a todas as cartas enviadas do exilio, outro porque a d'elle teve a
+impudicicia de saír um dia, sem coifa, á rua.</p>
+
+<p>Aconteceu isto muito depois do reinado de Saturno, quando o pudor, como
+pondera Juvenal, já não morava nas primitivas cavernas onde os dois sexos se
+luravam sobre colchões de folhagem.</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Credo Pudicitiam, Saturno rege, moratam</em><br>
+ <em>In terris</em>... </blockquote>
+
+<p style="text-indent: 0;">já quando o genio tutelar do hymeneu andava corrido
+das pseudo-paternidades que se enxertavam, á sombra d'elle, nos illustres
+troncos de Roma:</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Antiquum et vetus est alienum, Postume, lectum.</em><br>
+ <em>Concutere, atque sacri genium contemnere fuclri.</em> </blockquote>
+
+<p>«Ó Postumo!&mdash;exclama o poeta&mdash;pois tu eras, até aqui, escorreito e
+atilado, e vaes casar</p>
+
+<blockquote>
+ <em>Certe sanus eras: uxorem, Postume, ducis!</em><span
+ class="pn">{153}</span> </blockquote>
+
+<p>Por esses tempos, a balbuciante civilisação dos espiritos engendrou a lei
+contra a qual se escreve este capitulo. As nupcias indicavam o pae: <em>pater
+is est quem nuptiæ demonstrant</em>. Agora, em pleno seculo de luz, somos mais
+romanos que os proprios romanos, tresandamos ao paganismo fetido, e
+difficultamos o divorcio para sellar o escandalo com o cunho sacramental da lei
+nova.</p>
+
+<p>Como quer que seja, pae é aquelle que é pae, apesar do Direito Romano, e das
+Instituições de Direito Civil de Coelho da Rocha.</p>
+
+<p>Não se adduzem os 3.º, 4.º e 5.º artigos da refutação, porque ninguem
+supporta um embrechado arripiante de textos latinos: e o auctor, com quanto
+assim grangeasse voga de romancista sumarento e condimentoso, seria lido apenas
+por tres ou quatro mestres de latinidade.</p>
+
+<h2>COROLLARIO</h2>
+
+<p>Melchior Pimenta era um dos paes presumidos na intenção do <em>Digesto</em>,
+na lei citada, do L. 5.º <em>de in jus voc</em>, e C. da Rocha no cap.
+<em>Paternidade e filiação legitima</em>.<span class="pn">{154}<br>{155}</span></p>
+
+<h1>XV</h1>
+
+<p>D. Angelica, afflicta com a longa ausencia de Ludovina, pedira ao marido que
+procurasse a filha. Melchior Pimenta correra a casa, alarmando os creados, que
+francamente lhe disseram que a senhora baroneza saíra na sege. Melchior
+suspeitou que a destemida Ludovina descera ao infimo degrau da desenvoltura,
+visitando o amante á hora do dia, no momento em que seu marido a abandonava aos
+terriveis juizos da sociedade. Com as mãos agarradas á cabeça, entrou o
+consternado pae no quarto da mulher, abafando de vergonha, como elle dizia.</p>
+
+<p>D. Angelica, receosa de que tudo já fosse notorio a seu marido, apavorou-se,
+e quiz fugir do quarto.</p>
+
+<p>«Que queres tu fazer agora, santa mulher?!&mdash;exclamou elle, sustendo-a
+com meiga brandura.&mdash;Deixa'-la perder-se de todo, já que ella assim o
+quer... Ahi tens como Ludovina te paga o sacrificio que fizeste da tua
+dignidade e da minha para a salvares. Ainda bem que<span
+class="pn">{156}</span> o procedimento d'ella te ha de desmentir,
+Angelica...</p>
+
+<p>&mdash;Que dizes?&mdash;atalhou a perplexa senhora.</p>
+
+<p>«Que digo? pois eu não sei já tudo? Não me contou ella o que tu fizeste para
+capacitar o barão de que Antonio de Almeida era teu amante, e não d'essa
+desgraçada que tão mal aproveitou as tuas lições? O que tu fizeste, não devias
+faze'-lo sem tomar o meu parecer; porque, a falar verdade, se corresse o boato
+de que o escandalo era cousa tua, a minha honra soffria tanto como a de minha
+mulher. O que vale é que o barão não dirá nada, e o falatorio ha de acabar como
+acabam todos os escandalos, quando os faladores se cançarem. Mas, Ludovina!
+Ludovina! onde está esta mulher que nos anda envergonhando por lá?</p>
+
+<p>«Estou aqui, meu pae&mdash;disse a baroneza com angelica serenidade, e
+sorriso de meiguice para sua mãe.</p>
+
+<p>&mdash;Minha filha, minha santa filha, minha providencia!&mdash;exclamou D.
+Angelica abraçando-a com arrebatamento.</p>
+
+<p>«Isso não é assim, Angelica!&mdash;disse carrancudo Melchior
+Pimenta.&mdash;Pergunta-lhe de onde vem, e reprehende-a, já que tão boa moral
+lhe ensinaste em solteira.</p>
+
+<p>&mdash;Silencio, meu amigo. Vae...&mdash;atalhou com azedume D.
+Angelica&mdash;vae, e deixa-nos sós.</p>
+
+<p>«Não tem geito nenhum!&mdash;accrescentou o austero pae.&mdash;É preciso
+saber-se para onde foi teu marido, Ludovina, e ir pedir-lhe perdão, perdão,
+antes que a sociedade saiba que elle te abandonou.</p>
+
+<p>&mdash;Irei, meu pae.<span class="pn">{157}</span></p>
+
+<p>«Irás; mas entretanto sáes de carruagem, e não dizes onde vaes... Onde foste
+tu, diz?</p>
+
+<p>Ludovina abaixou os olhos, e não respondeu.</p>
+
+<p>«Vês, Angelica?&mdash;proseguiu com virulencia Melchior&mdash;Não respondeu;
+já sabes d'onde ella vem... Já se viu no mundo um descaramento assim?</p>
+
+<p>&mdash;Nem mais uma palavra a minha filha!&mdash;exclamou com impetuosa
+arrogancia D. Angelica&mdash;Nem mais uma palavra, porque se não,
+Melchior...</p>
+
+<p>«Se não, o que?&mdash;interrompeu elle.</p>
+
+<p>&mdash;Minha mãe, pelo seu amor lhe peço...&mdash;murmurou a baroneza,
+apertando-a ao seio, como se quizesse comprimir-lhe as palavras no coração.</p>
+
+<p>Pimenta sahiu, como entrára, com as mãos agarradas á cabeça. D. Angelica,
+beijando soffrega a face da filha, dizia, soluçando:</p>
+
+<p>«Ao que eu te expuz, minha querida victima! ao que tu quizeste sujeitar-te,
+Ludovina! Pesa-me mais a tua innocencia diffamada que o meu proprio descredito.
+Não, filha, isto não póde continuar assim. Deixa-me ser virtuosa no crime,
+deixa-me expiar a minha culpa com menos amargura. Esta expiação é a maior de
+todas, Ludovina. O meu coração está cheio de fel. Tu queres salvar tua mãe e
+matas-me, anjo do meu coração. É-me muito mais dolorosa a vergonha que tenho de
+ti, que da sociedade. Que o mundo todo me culpe, mas perdôa-me tu, filha!</p>
+
+<p>&mdash;Mãe, por piedade... não me turve a satisfação d'esta pequena virtude.
+Olhe que não é heroismo isto,<span class="pn">{158}</span> não, é a crença, a
+esperança de que a felicidade ha-de vir para todos nós, se me não desviarem do
+caminho por onde eu a busco...</p>
+
+<p>«Para todos nós, filha! que innocencia, que illusão a tua! D'esta queda
+ninguem mais se ergue, e menos eu.</p>
+
+<p>&mdash;Ergue, mãe. Verá que o desenlace d'este desgraçado enredo não ha-de
+ser o que a mãe espera.</p>
+
+<p>«Oh, filha! tu queres que eu sobreviva a esse infeliz que mataram...</p>
+
+<p>&mdash;Ninguem morreu, minha mãe. Olhe... aqui tem uma carta do sr. Almeida;
+escreveu-a elle com o proprio punho; está livre de perigo... Veja, veja o que
+elle diz...</p>
+
+<p>D. Angelica abriu a carta com fervente soffreguidão, e leu o seguinte:</p>
+
+<p>«Minha prezada amiga. Sei quanto deve ser-lhe penosa a noticia do triste
+acontecimento, que hontem se deu. Apresso-me a dar-lhe a certeza do nenhum
+risco da ferida, e rogo-lhe que se convença d'esta verdade, para ser mais suave
+a cura. De v. exc.ª amigo verdadeiro.&mdash;<em>Antonio de Almeida.</em>»</p>
+
+<p>«Isto é verdade, Ludovina?&mdash;exclamou ella erguendo as mãos, e apertando
+a carta ao coração&mdash;Isto é verdade, minha filha?</p>
+
+<p>&mdash;É, juro-lhe que é...</p>
+
+<p>«Como podes tu jura'-lo? quem o viu?</p>
+
+<p>&mdash;Eu, mãe.</p>
+
+<p>«Tu! viste-o, Ludovina? sem repugnancia, minha filha?<span
+class="pn">{159}</span> Que inspiração tiveste de o visitar? O coração
+impellia-te? era o coração? diz, diz, que eu preciso acreditar n'uma influencia
+divina em tua nobre alma! Não me respondes, filha! Não queres dar-me a alegria
+completa! Foi só por caridade, por compaixão, que o visitaste?</p>
+
+<p>&mdash;Foi por amor de minha mãe que o visitei.</p>
+
+<p>«E elle? que fez quando te viu? abraçou-te? beijou-te? chorou nos teus
+braços, Ludovina? Disse-te alguma palavra que te espantou, augmentando a tua
+piedade? Fala, fala sem pejo. Aqui a vergonha é toda minha. A reserva já agora
+é impossivel entre nós, filha. Que te disse? responde...</p>
+
+<p>&mdash;Nada, minha mãe...&mdash;balbuciou a baroneza.</p>
+
+<p>«Nada?</p>
+
+<p>&mdash;Que poderia elle dizer-me... para augmentar a minha piedade? bastava
+ser nosso amigo de tantos annos... lembrar-me eu que o vi sempre ao pé de minha
+mãe... recordo-me dos affagos que elle me fazia, dos bons conselhos que me deu
+sempre, das consolações affectuosas com que alliviava as minhas maguas, desde
+que infelizmente casei. Tanto como isto era sobejo estimulo á minha pena. E,
+depois, vêr quanto a mãe soffria... porque o prezava tanto como eu o
+estimava...</p>
+
+<p>«Basta, minha filha, eu mortifico-te... Ha de custar-te amarguras terriveis
+essa delicadeza... Comprehendo-te, minha amiga... Agora vaes tu dizer-me por
+que meio has de restaurar o teu credito perante teu marido... Não me atrevo a
+aconselhar-te, Ludovina, por<span class="pn">{160}</span> que ha em ti
+fortaleza de juizo que confunde a minha timidez e fraqueza... Faz o que
+quizeres de mim; eu obedeço-te, sigo-te cegamente; acceito conselhos de ti como
+do meu anjo da guarda.</p>
+
+<p>&mdash;Eu não a aconselho, minha mãe... pelo contrario, supplico-lhe que me
+advirta, se eu me desencaminhar do bom caminho onde a consciencia me diz que
+estou agora. Toda a minha confiança está posta em Deus, que protege a
+innocencia e é misericordioso com a culpa. O mundo será cruel comnosco; seja,
+muito embora; nós supportaremos as cruezas do mundo, sem nos curvarmos aos seus
+juizos. Minha mãe ha de ajudar-me a vencer os dissabores passageiros da
+maledicencia, pensando em me fazer cada vez mais digna do seu amor. No tocante
+ao que ha de vir melhorar a nossa sorte, espero que virá, mas os meios não os
+sei. Hei de a este respeito consultar o nosso amigo Antonio de Almeida.<span
+class="pn">{161}</span></p>
+
+<h1>XVI</h1>
+
+<p>Consta-me que é geral o cuidado que está dando aos leitores o barão de
+Celorico de Basto.</p>
+
+<p>Como este homem captou a benevolencia publica, mórmente a dos maridos, isso
+não sei eu.</p>
+
+<p>Caprichos.</p>
+
+<p>Commiseração, lastima e dó, não a faz decerto o marido de Ludovina. Eu de
+mim, apesar de quem me forneceu os apontamentos d'esta lugubre historia, mais
+de uma vez tenho dulcificado com as amenidades da linguagem o travor das
+informações insuspeitas. Faz-me zanga a felicidade d'este marido, se o
+confronto com outros «minotaurisados» iniquamente.</p>
+
+<p>Não transijo com o estupido acaso que travou as relações de João José Dias e
+Melchior Pimenta. Rebello-me contra a Providencia, se me dizem que a
+Providencia entregára de mão beijada a rara joia de entre as mulheres a João
+José Dias.</p>
+
+<p>Riquezas amontoadas pelo acaso, pelo trabalho, pela economia, pelo
+latrocinio, pelo talisman do buril, pelo<span class="pn">{162}</span>
+fornecimento dos açougues humanos na America, essas riquezas, vejo-as,
+entendo-as, explico-as; porém, mulheres como Ludovina, corpos e almas de tanta
+perfeição, creaturas que privam com os anjos, assim sacrificadas a um Baal
+repulsivo de sandice e gordura, isto faz-me materialista, incredulo, e atheu;
+ou remontado em assomos de espiritualista, confesso a Providencia, mas tão
+sublime, tão ao longe das pequenezas d'este ponto do mundo, que não cura de
+saber se o zoupeiro João José casa ou não casa com a sylphidica Ludovina.</p>
+
+<p>Não vou de encontro ás crenças de ninguem; Deus me livre. Todavia,
+raciocinemos, em quanto a razão de si apoucada, não contender com os dogmas
+indisputaveis da fé.</p>
+
+<p>Saibamos, pois, o que é feito da sympathica personagem do barão de Celorico
+de Basto.</p>
+
+<p>Pesquizei miudamente o itinerário de s. ex.ª, e colhi as seguintes
+informações, que podem auxiliar os alienistas no estudo das faculdades
+intellectuaes de muitos barões, no primeiro periodo do seu desmancho.</p>
+
+<p>Sei que chegou a Baltar bifurcado n'um garrano, e o preto n'outro. Apeou-se
+ahi para reanimar o animo quebrantado da ensuada cavalgadura, cuja pulmoeira
+recrudesceu na subida da serra de Vallongo.</p>
+
+<p>Simão, vendo que seu amo rejeitava a vitela proverbial da estalagem da
+terra, e, sabendo qual era o prato favorito d'elle, frigiu quatro ovos com
+rodelas de cebola, e poz-lhe deante a fritada provocante, cuidando que o
+acepipe mimoso abriria o apetite do melancolico barão.<span
+class="pn">{163}</span> Baldado empenho, perdidos desvelos, mas não perdidos
+ovos, que os comeu o contristado preto, asseverando, a cada garfada, que os
+podiam comer os anjos, para ver se assim estimulava o jejum de seu amo
+impassivel.</p>
+
+<p>Reparou o preto, em quanto encovava o almoço, que o barão, de vez em quando,
+sacava da algibeira o charuto horrendo, e resmungava em tom soturno:</p>
+
+<p>&mdash;Foste a minha desgraça, tição negro do inferno!</p>
+
+<p>E contemplando-o com os olhos coruscantes de terror, arremessava-o com
+frenesis impetuosos, e apanhava-o de novo para o esconder na algibeira!</p>
+
+<p>«Que diabo é isto, senhor?&mdash;perguntára timidamente o preto.</p>
+
+<p>&mdash;Não vês? é um charuto, que me ha de matar!</p>
+
+<p>«Pois v. ex.ª fuma isso! Bote-o fóra, que tem má cara esse demonio!</p>
+
+<p>N'estas e n'outras praticas semsaboronas, que não prestam para a tragedia,
+nem para a farça, chegaram á villa de Torrão, onde o nobre viajeiro apeou outra
+vez, e escreveu uma longa carta a sua mulher, na qual carta entre muitos outros
+periodos lamuriantes, dizia que não lhe era possivel fazer passar nada dos
+gorgomilos para dentro, e protestava deixar-se morrer de fraqueza para acabar
+mais depressa com o seu remorso. Pedia novamente perdão a D. Angelica, e rogava
+a sua mulher que tornasse a supplicar em nome d'elle o perdão de Antonio de
+Almeida. Outro sim, pedia á baronesa que mandasse dizer trezentas missas por
+alma do defunto Almeida, e outras tantas por alma d'elle<span
+class="pn">{164}</span> testador, quando Deus fosse servido leva'-los á sua
+presença. O principal da carta guardava as fórmas testamentarias: faltava-lhe,
+porém, a condicional prescripta do «perfeito juizo e claro entendimento», posse
+de que o preto duvidava muito, e os da estalagem não duvidaram menos, quando o
+barão entrou a gritar que era um assassino, e estava já vestido e calçado nas
+profundas do inferno. Almas boas que o ouviram, tiveram-n'o em conta de
+possesso, e, se o barão não sáe, era filado pelo padre Anacleto da Sacra
+Familia, egresso arrabido, que a piedade da estalajadeira chamára para resar os
+exorcismos ao demoniaco.</p>
+
+<p>O barão foi pernoitar na villa chamada Arco: (notem a paciencia de um
+romancista que sabe do seu officio.)</p>
+
+<p>O cirurgião da villa, chamado por deliberação do preto para ver o amo,
+receitou um cozimento de fel da terra, tomado de manhã, e esfregações de oleo
+de amendoas na circumferencia do abdomen.</p>
+
+<p>O barão mandou-o á fava com louvavel discernimento, e escreveu quatro folhas
+de papel almaço, que sobrescriptou a sua mulher. O contheudo do aranzel
+tremendo era o disparate lastimoso de uma cabeça febril, apavorada de visões
+sangrentas, que o forçavam a estropiar a syntaxe de um modo lastimavel, e a
+desbancar o methodo do imaginoso Castilho no invento da orthographia.</p>
+
+<p>No dia seguinte, ás onze horas da manhã, chegou o barão á sua quinta de
+Celorico, onde, creio que já se disse, viveram frades n'outro tempo. A entrada
+do proprietario<span class="pn">{165}</span> nos seus dominios foi assignalada
+pelo primeiro accesso de loucura formal.</p>
+
+<p>Á entrada da antiga claustra, estava um S. Francisco de pau com o seu habito
+venerando.</p>
+
+<p>O barão soltou medonhos gritos, clamando que o santo era o phantasma de
+Antonio de Almeida. A logica do preto foi insufficiente para convence'-lo de
+que o phantasma era o patriarca S. Francisco. Teimando aquelle em conduzi-lo
+pela mão ao pé da imagem, afim de convence'-lo com o tacto, o barão
+assentou-lhe na carapinha dois murros puxados d'alma, com os quaes o paciente
+preto tambem viu phantasmas luminosos.</p>
+
+<p>Os primos circumvizinhos começaram a visitar o genro de D. Angelica, e saíam
+espantados do disparatar do barão, que descaía de uma conversação atilada para
+a historia do phantasma infesto, que apparecia na casa que fôra convento.</p>
+
+<p>Fechado e trancado no seu quarto, o infeliz maniaco recitava monologos
+estirados em tom cavernoso. O charuto andava sempre á baila nas apostrophes
+descompostas, e recebia epithetos que esqueceram a Francisco Nunes.</p>
+
+<p>Eram decorridas setenta e duas horas de jejum estreme, quando o barão pediu
+de comer a altos brados, e comeu porções incriveis de carneiro guizado com
+batatas, facilitando o transito d'estas com emborcados picheis do verdasco,
+predilecto seu.</p>
+
+<p>Emergindo de uma especie de lethargia de leão sazonatico, o barão urrava
+como d'antes, recuando ao<span class="pn">{166}</span> phantasma, que já não
+era S. Francisco sómente. Qualquer sombra se lhe afigurava aventesma, ou avejão
+como elle a denominava. O proprio preto, se lhe assumava de repente á porta do
+quarto, ou por entre as arvores da quinta, fugia espavorido á gritaria
+rouquenha de seu amo.</p>
+
+<p>Os facultativos chamados pela parentella compadecida capitularam de demencia
+a cousa, e receitaram as sangrias e os vesicatorios. Os meios persuasivos para
+o levarem á cama nada conseguiram; os da força seriam inuteis, por que o preto
+espadaudo e possante, invocava o testemunho da sua cabeça confusa contra o
+projecto da violencia. Ninguem se queria arriscar ao perigo certo de um murro
+secco do barão.</p>
+
+<p>Contava elle a toda a gente a historia do charuto que já trazia meio
+desenrolado n'um canudo de papel...</p>
+
+<p>Se porém acontecia proferir o nome da sogra, vinham-lhe convulsões, e não
+acabava o conto. A historia, como elle a contava, fazia rir os ouvintes.
+Aquelle charuto fôra-lhe enviado pelo diabo em troca da sua alma. O charuto
+infernal obedecia á sua vontade, e despejava uma bala como uma clavina, em
+consequencia do que, elle barão, matára um homem, desfechando-lhe o charuto no
+peito. Acabada a historia entravam as larvas a rodea'-lo, e elle a esconder-se
+de cócoras atraz dos circumstantes.</p>
+
+<p>Entenderam os cavalheiros de Basto que o barão fugira doudo á sua familia, e
+avisaram a baroneza, lembrando-lhe a conveniencia de o passarem a
+Rilhafolles,<span class="pn">{167}</span> antes que a demencia se tornasse
+incuravel. Chegou o aviso já quando Ludovina, avaliando pelas cartas a
+desorganisação mental de seu marido tinha partido para Celorico de Basto.</p>
+
+<p>Melchior Pimenta e D. Angelica julgavam temeraria a ida de Ludovina. O pae
+(<em>Pater is est etc.</em>) queria acompanha'-la, receoso de que a presença
+d'ella enfurecesse o doudo. A baroneza recusou a protecção do pae, e respondeu
+á mãe com palavras que a fizeram córar, posto que adoçadas pelo respeito
+filial.</p>
+
+<p>«Quando me casaram com este homem&mdash;disse ella&mdash;não se estipulou a
+condição de que eu o desampararia, se elle enlouquecesse. Augmentam os meus
+deveres, agora que elle mais precisa de uma amiga. A consciencia da minha boa
+mãe manda-me ir; o coração deseja que eu não vá. Devo obedecer á sua
+consciencia, para ser cada vez mais digna do seu coração.»<span
+class="pn">{168}<br>{169}</span></p>
+
+<h1>XVII</h1>
+
+<p>Ao cabo de tres semanas, Antonio de Almeida ergueu-se convalescente. As
+melhoras de D. Angelica augmentavam por egual com as d'elle; mas uma outra
+qualidade de soffrimento lhe amargurava a alma: era a saudade, o anceio de
+falar-lhe, a necessidade de recompensa'-lo dos perigos da morte com as suas
+lagrimas.</p>
+
+<p>Almeida, porém, não lhe escrevia, não lhe dizia, ao menos, que o seu amor
+não succumbira á terrivel catastrophe, que a sua amizade, ao menos, venceria
+todos os estorvos.</p>
+
+<p>«Que mal te fiz?</p>
+
+<p>Diz D. Angelica em uma carta que lhe escreve.</p>
+
+<p>«Uma grande desgraça aconteceu; mas essa desgraça foi de nós ambos, Almeida.
+</p>
+
+<p>«A bala que te matasse, matar-me-ia. O risco em que a tua vida esteve,
+queres tu que eu t'o pague com a minha? A morte repelle-me.</p>
+
+<p>«Quem me dera, meu Deus, quem me dera morrer,<span class="pn">{170}</span>
+se ainda posso deixar-te de mim uma lembrança triste, meu amigo!</p>
+
+<p>«Este teu silencio dóe-me tanto como se te houvesse perdido, e chorado na
+sepultura. Assemelha-se ao desprezo a tua frialdade. Bem sei que não pódes vir
+a esta casa, á casa de minha filha; mas que não faria eu para te encontrar,
+Almeida?</p>
+
+<p>«Pois é possivel este desfecho de uma paixão que tantas lagrimas me ha
+custado! Soffrer vinte e dois annos, envelhecer agradecendo-te os tormentos e
+os remorsos que me empeçonharam a mocidade, para agora assim ser despedida da
+tua alma, sem que ao menos me digas até que ponto sou culpada no teu
+infortunio?</p>
+
+<p>«Oh meu amigo, que infortunios seriam necessarios, que flagellos inventaria
+o inferno para me fazer deixar-te!</p>
+
+<p>«Eu tinha d'antes noites desveladas de continuos remorsos&mdash;se tinha!...
+vós o sabeis, Deus meu!&mdash;e, ao cabo d'esse martyrio, sondando-me, Almeida,
+sentia-te mais dentro do meu coração, mais senhor da minha alma!</p>
+
+<p>«Conspirassem todas as forças d'este mundo contra mim, fosse eu chamada para
+dar conta da minha honra, proferiria o teu nome com orgulho, offerecendo o
+rosto para todos os ferretes da ignominia. Isto assim era amor, amor insensato
+de mulher que faz da sua deshonra um heroismo!</p>
+
+<p>«E tu pagas-me tão cruelmente, meu amigo! Adivinhas que em tres semanas os
+meus cabellos se fizeram<span class="pn">{171}</span> brancos? Assusta-te a
+presumpção de que a minha face envelheceu? Não pódes já ver em mim signaes
+desvanecidos da Angelica dos dezoito annos? Tens razão, Almeida; estou velha,
+mas o coração, unica belleza que eu tinha, unico dote que fazia a minha vaidade
+de merecer-te, esse, meu amigo, aperfeiçoou-se através de vinte e dois annos,
+está hoje como não estava quando te assenhoreaste d'elle, aperfeiçoou-se em
+contacto com os dons sublimes do teu, encheu-se de amor que o ha-de matar,
+porque já não tenho peito que possa conter tanto fel!</p>
+
+<p>«Não estou assim repulsiva que te afugente, Almeida. Não imagines o que fui,
+nem repares no que sou. Lembra-te só do perdido amor que te dei, mova-te só a
+lembrança do muito que a minha alma te quiz; acceita-me na velhice uma amizade,
+que te não será pesada agora, nem embaraçosa para tua felicidade. Diz-me só que
+o teu silencio não é desprezo nem esquecimento. Poupa-me á horrivel morte que
+me faz tremer. Se tudo perdi, resta-me o recurso da tua commiseração. Imploro-a
+de joelhos. Amor, esse sei eu que se não supplica; mas engana-me, Almeida,
+engana-me, por piedade. Diz-me que uma dedicação de tantos annos não póde
+acabar com o desprezo.»</p>
+
+<p><em>Ingrato homem!</em> é a exclamação natural com que as leitoras sensiveis
+exprimem o seu dó.</p>
+
+<p>Pois decidem de leve, e accusam com a costumada injustiça. Antonio de
+Almeida é tão digno de lastima como Angelica. Ora, vejam a seguinte carta que
+Ludovina<span class="pn">{172}</span> lhe escreveu, antes da sua partida para
+Celorico:</p>
+
+<p>«Lembra-me que, sendo eu creancinha, sentava-me no collo do meu amigo,
+anediava-lhe os cabellos, fazia-lhe muitas meiguices de coração e de astucia,
+para no fim lhe pedir um brinquedo, um passeio, uma qualquer cousa que o meu
+amiguinho me não sabia negar.</p>
+
+<p>«A creança fez-se mulher, já não sabe ameigar antes de pedir; mas essa falta
+vem de eu me esquecer das maviosas e candidas palavras que sabia então. O
+coração é bom como era, a affeição maior e mais entranhada, a confiança de ser
+bem recebida em meus rogos é mais solida: o que me falta, como já disse, é o
+tom carinhoso, a meiguice seductora da innocencia.</p>
+
+<p>«Não importa. Eu vou pedir ao meu amigo um favor, favor immenso; empenho
+para alcança'-lo da sua generosa alma todo o amor que me teve, todas as
+recordações doces que o trazem desde o berço de Ludovina até estes dias tristes
+que vamos vivendo.</p>
+
+<p>«Peço-lhe, meu amigo, que tire da sua virtude as forças que o coração não
+tiver para cumprir uma supplica que vou fazer-lhe em poucas palavras.</p>
+
+<p>«Seja mais forte que a minha pobre mãe. Se vir que ella cáe, sustente-a.
+Trabalhe comigo para que o segredo d'aquella noite horrivel se não descubra á
+curiosidade infamadora do publico. Não peço que lhe dê consolações frivolas.
+Lições de virtude, suspeito que não aproveitam a minha mãe, sendo dadas pelo
+meu amigo. A razão está muito longe do coração. Penso que<span
+class="pn">{173}</span> minha mãe tomaria como esquecimento, ou desamparo os
+seus conselhos.</p>
+
+<p>«Conhece bem a situação de minha mãe, sr. Almeida? Siga o que a sua honra
+lhe inspirar. Veja que novas desgraças podem seguir-se. Avalie o que eu tenho
+feito por ella, e medite na extensão da minha dôr se tudo o que fiz e faço fôr
+perdido.</p>
+
+<p>«Não sei dizer o que me está na alma. Pode ser que eu dissesse o mais
+confusamente que é possivel o meu pensamento. Lá está o seu nobre espirito para
+aclarar a obscuridade d'essas palavras.</p>
+
+<p>«É necessario grande animo para me obedecer? Soffra, meu amigo, soffra
+comigo. Olhe que me ha de abençoar, e gloriar-se do seu sacrificio.</p>
+
+<p>«Eu parto hoje para Celorico. Meu marido é digno de pena. Vou ajuda'-lo a
+combater os remorsos que o tem levado ao infortunio da demencia.</p>
+
+<p>«Olhe que vida esta, meu amigo! Sirva-lhe o meu exemplo para a paciencia, e
+para o heroismo. Adeus. Sua amiga <em>Ludovina</em>.»</p>
+
+<p>Esta carta explica o silencio de Antonio de Almeida. Comprehendeu-a com o
+juizo prudencial dos quarenta annos. Meditou-a com tanto respeito como
+admiração. Recolheu as palavras d'ella com religiosa austeridade, e violentou a
+alma a aceitar o juramento da observancia, com pena de deshonra e villania, se
+rescindisse alguma vez a alliança que fizera com a que elle, no intimo de seu
+coração, chamava filha.</p>
+
+<p>Eu sei de mais que os amadores, em romance de boa<span
+class="pn">{174}</span> escola, não costumam assim accommodar-se, e obedecer
+aos ditames da razão. Estas cousas, como ahi se contam, são naturaes e
+observadas, e sentidas; por isso mesmo desagradaveis, em novella, onde o bom é
+o inverosimil, e o que mais captiva é o que mais repelle o coração bem formado.
+</p>
+
+<p>Estes amores de Antonio de Almeida e D. Angelica, tractados por imaginação
+de mais pulso, davam para muito brilhar. Estou a ve'-lo a elle, pelo prisma
+phantastico dos mestres, erguer-se da cama com a mecha ainda na aberta chaga,
+um par de pistolas de doze tiros, nas algibeiras, entrar, entrar de cabellos
+hirtos e rosto livido, no quarto de Angelica, e semi-desfallecido nos braços
+d'ella, dar largas á parlenda, e vociferar, por entre amorosas phrases,
+esconjuros odientos contra o genero humano, contra a instituição do matrimonio,
+e contra os deveres conjugaes! Agora se me afigura vêr Melchior Pimenta assumar
+no limiar da porta, e embasbacar petrificado diante do grupo escandaloso. Ha
+gritos, injurias, investidas, até que alfim, levados á puridade para um recanto
+da casa, ahi combinam um duello de morte, no dia seguinte. Medonha figuração me
+avulta agora na imaginação de emprestimo Melchior Pimenta, após a detonação de
+dois tiros, cambaleia sobre as pernas, leva a mão ao seio que espirra golfos de
+sangue, põe os olhos annuviados no céo impassivel, que contempla o quadro feio,
+e expede o derradeiro halito, nos braços dos padrinhos.</p>
+
+<p>Quantos capitulos desgrenhados cuida o leitor que<span
+class="pn">{175}</span> dava esta parvoiçada imaginativa? Dois volumes em
+oitavo com seiscentas paginas, afóra o subsidio das reticencias, que, na minha
+opinião d'outro tempo, foram inventadas para definir a mulher; e na minha
+opinião d'agora, inventou-as o primeiro litteratico ôco de idéas.</p>
+
+<p>Ora, que fiquem com Deus os mestres que tão vistosos de zarandalhas nos
+embelecam; e, pelo caminho direito, mas escabroso da verdade, vamos entrar na
+ultima jornada d'esta historia.<span class="pn">{176}<br>{177}</span></p>
+
+<h1>CONCLUSÃO</h1>
+
+<p>O barão de Celorico parecia uma creança atemorisada ao pé de Ludovina. Se a
+perdia um momento, davam os espectros com elle, e lá ia o pobre homem gritando,
+até se acocorar ao pé d'ella, escondendo-se com a roda do vestido.</p>
+
+<p>Bastava a presença de Ludovina para socegar-lhe os accessos de loucura,
+manifestados em exclamações desatadas, quasi sempre seguidas da apparição do
+charuto cuja historia elle contava a sua mulher, pelo theor ridiculo que já lhe
+ouvimos.</p>
+
+<p>Acudia Ludovina com o inutil remedio da razão, despersuadindo-o da morte de
+Almeida. O barão abria a bocca attenciosa, parecia dar mostras de entender e
+acreditar; o desfecho, porém, do silencio sereno com que a escutava, era ver um
+novo avejão, que o vinha aterrar por cima do hombro da mulher.</p>
+
+<p>Os primos compadecidos, e os facultativos aconselhavam á baroneza o emprego
+dos meios violentos para o curarem. A grande idéa therapeutica era o caustico e
+a<span class="pn">{178}</span> sangria. A contristada senhora annuiu. Por sua
+parte, fez-lhe até carinhos para o induzir a deixar-se sangrar. O barão
+replicava que o queriam matar, e de joelhos pedia á mulher que não o deixasse
+morrer ás mãos dos seus inimigos, que o perseguiam para lhe roubarem a esposa.
+</p>
+
+<p>Resolveram empregar a força. Dois robustos camponios tomaram a peito a ardua
+empresa. O cirurgião armado de lanceta esperava o ensejo propicio. O officioso
+abbade da freguezia encarregára-se de cingir-lhe um lenço sobre os olhos. O
+juiz ordinario pegava na bacia. Varios primos formavam o corpo de reserva, e a
+baroneza fugira para não presenciar os extrebuxamentos do infeliz.</p>
+
+<p>&mdash;Agora!&mdash;disse o facultativo.</p>
+
+<p>Á palavra <em>agora</em> o barão estava entalado entre quatro braços
+cabelludos, e o abbade, á rectaguarda do preso, lançava o lenço com mão
+certeira. O barão arquejava, sem comtudo barafustar entre os membrudos braços.
+Tudo promettia um propicio resultado, quando o antigo hercules da rua dos
+Pescadores sacode um solavanco, e dispara dois murros simultaneos nas ventas
+vizinhas. Umas eram as do abbade, o proprietario infeliz das outras ventas era
+o juiz ordinario. Investiram de novo contra elle os athletas: cara lhes foi a
+façanha, porque apararam um choveiro de sôcos tremebundos, indo um d'elles por
+engano, estoirar na lombada do cirurgião. Rarearam as fileiras. O abbade, o
+juiz, e os homens de péga, parte dos primos, e o cirurgião coaram-se<span
+class="pn">{179}</span> cabisbaixos pela primeira porta que lhes franqueou a
+fuga atropellada.</p>
+
+<p>N'esse conflicto appareceu Ludovina. O doudo baixou as armas contundentes,
+os braços iteriçados que vibravam o ar como duas mangueiras de malho. Correu
+para ella, como a pedir-lhe soccorro, ouviu-lhe as reprehensões com o tremor do
+medo, e cahiu prostrado da lucta sobre uma cadeira, apegando-se á saia da
+baroneza.</p>
+
+<p>Aqui está o viver da deploravel senhora, no espaço de um mez, em Celorico de
+Basto. Aquella vida, e as dôres profundas de outras causas, eram o preço por
+que se fizera, ou a fizeram opulenta aos olhos da sociedade, que, ainda assim,
+a invejava.</p>
+
+<p>O barão desmedrára a olhos vistos. Do antigo João José Dias restava o
+arcabouço proeminente de angulos osseos. A panda physionomia, tão rubida de
+nediez chorumenta, chupára-se, entanguira-se, cousa de fazer lastima. Diziam
+todos que a baroneza, um mez depois, seria uma formosa e rica viuva. Já dois
+dos primos, morgados empenhados, botavam suas medidas, e porfiavam a conquista.
+As damas, com palavras francamente grosseiras, iam dando os parabens á
+baroneza. As que ousaram feri'-la assim, ouviram resposta que lhes fechou para
+sempre as portas de sua casa.</p>
+
+<p>A idéa que dominava o barão era a morte de Antonio de Almeida. Ludovina
+perdera a esperança de afugentar o phantasma, empregando razões tão
+convincentes da vida de Almeida como eram mostrar-lhe cartas<span
+class="pn">{180}</span> d'elle, que o barão ouvia ler com o sorriso do
+idiotismo, percursor de nova berraria.</p>
+
+<p>A ultima que Ludovina lera, quasi certa de que seu marido não a percebia,
+foi a seguinte:</p>
+
+<p>«Minha amiga. É já bastante o numero dos infelizes que põem os olhos
+lagrimosos no abrigo consolador de Ludovina. Somos já muitos os desamparados da
+esperança e da alegria. D'aqui até ao fim da vida é soffrer, e chorar de modo
+que o mundo nos não veja as lagrimas: é preciso que o coração as verta e as
+absorva; é necessario suffocar os gemidos, e entreter as dôres, cavando a
+sepultura.</p>
+
+<p>«Curta será a minha existencia. Quarenta e quatro annos, e a saude
+alquebrada, e o coração feito pedaços, é um bom agouro, não é? Mas, para
+Ludovina será extensa a estrada da amargura. Tem vinte annos, minha amiga;
+vejo-a na aresta do precipicio, a contemplar-lhe a profundeza, e ahi se lhe hão
+de prolongar as horas como as do desterrado. Meu pobre anjo! quem lhe
+vaticinaria ha dez annos este infortunio?</p>
+
+<p>«A santidade do seu viver devia ser recompensada aqui; mas a fé, a religião
+dos desgraçados, ensina que o premio das grandes virtudes não póde ser dado
+n'este mundo porque não ha mãos puras que possam tecer a corôa do martyrio.
+Espere, Ludovina, com os olhos no céo, e a mão sobre o seio para esmagar os
+impetos do coração, que tem accessos de raiva blasfema.</p>
+
+<p>«Obedeci-lhe, Ludovina.</p>
+
+<p>«Comprimi, abafei, matei a essencia da minha vida,<span
+class="pn">{181}</span> o sentir que m'a fazia preciosa. Sou para sua mãe uma
+memoria. D'ella tenho só o nome escripto no coração, como o epitaphio do
+affecto que ali morreu recalcado.</p>
+
+<p>«Deu-me um calix, Ludovina. Bebi-o de um trago. Se tem outro, offereça-m'o;
+toma'-lo-hei de joelhos.</p>
+
+<p>«Pergunta-me qual é o meu viver?</p>
+
+<p>«É isto, minha amiga. Não sei dizer-lhe que turbação afflictiva me embaça o
+animo. Em redor, todos os meus horisontes são tenebrosos. A mesma sepultura
+perdeu para mim os encantos de repouso, esse acabar que é o porto seguro de
+todos os naufragos d'este horroroso pego.</p>
+
+<p>«Poderei fazer-lhe entender, Ludovina, um quadro triste da minha imaginação
+cançada de soffrer? Vejo dois vultos em pé, taciturnos, sombrios, com os olhos
+cerrados, travando-se as mãos com a gelida immobilidade de duas estatuas. Parou
+a vida externa n'estes dois entes. Uma tremenda agonia lhes despedaçou a maior
+parte do coração; o remanescente são fibras de ferro que resistem ao veneno e á
+morte. Ao pé d'elles está a sepultura de ambos, e o anjo da consolação, sentado
+n'ella, alimenta ahi a alampada da esperança.</p>
+
+<p>«Adeus, minha santa amiga.»</p>
+
+<p>Esta carta reclamaria notas explicativas, se o entendimento do leitor não
+traduzisse a singelo o que ahi se esconde no figurado da linguagem. A alliança
+de Antonio de Almeida e Ludovina, sobre um contracto de honra tão melindrosa,
+não podia ser tractada com mais recato e pejo, de ambas as partes. Entende-se o
+melancolico<span class="pn">{182}</span> debuxo que attribulava o espirito de
+Almeida. Angelica era a companheira d'esse homem que lhe dava as mãos á borda
+da sepultura. A alampada da esperança alimentada pelo anjo da consolação, era o
+fito da morte d'onde ambos não desfitavam os olhos, como a naufragos succede,
+se no horisonte se lhes recorta um rochedo salvador.</p>
+
+<p>Ludovina entendeu o viver de sua mãe, e pungidas lagrimas essa carta lhe
+desentranhou do coração. Chamou-a para si com grandes demonstrações de saudade.
+Pediu-lhe que fosse alliviar-lhe o peso da cruz á qual já não bastavam seus
+hombros. Dava-lhe paciente conta do seu viver ao pé do barão que noite e dia
+bramava contra os espectros, e já dava aos facultativos receio de morrer
+desvariado, a mais acerba de todas as mortes.</p>
+
+<p>D. Angelica, fechada em seu quarto, realisava a imagem que a phantasia de
+Almeida adivinhára. Sombria, inerte, reconcentrada, impassivel a cuidados,
+carinhos, e desvelos de Melchior Pimenta, apenas dizia que estava esperando a
+morte, e repellia com desabrido enfado os lenitivos de quem quer que fosse.</p>
+
+<p>Nunca mais escrevera a Almeida, e á filha eram mais as lagrimas que as
+lettras. Não era a sua uma d'essas dôres que desabafam. Sentia-se tomada de
+vergonha, se o coração a mandava abrir-se em desafogados prantos com Ludovina.
+Sentia-se ferida de aborrecimento, se não odio, quando o marido, mais simulado
+que dorido, lhe repetia as consolações frivolas de quem não comparte as
+penas.<span class="pn">{183}</span></p>
+
+<p>Á saudosa carta que a chamava a Celorico, D. Angelica respondera que já não
+tinha vigor que a levantasse do seu leito. Supplicava a Ludovina que lhe
+perdoasse a ella como causa dos seus tormentos, e lhe acceitasse como reparo do
+seu pouco amor maternal os amargos transes que lhe estavam desfazendo o coração
+fibra por fibra.</p>
+
+<p>No entanto, disseram os medicos á baroneza que a apparição d'esse homem, que
+o barão julgava sua victima, poderia recobrar-lhe a razão, desopprimindo-a de
+phantasmas e remorsos, causas principaes da demencia.</p>
+
+<p>Ludovina communicou a Almeida as esperanças dos medicos, sem pedir-lhe o
+sacrificio de se verem.</p>
+
+<p>Almeida foi a Celorico de Basto, e encontrou ao pé da baroneza Melchior
+Pimenta.</p>
+
+<p>Ludovina turvou-se da surpresa, e assim denunciou aos olhos do pae o
+sobresalto em que a puzera a apparição do amante.</p>
+
+<p>Melchior Pimenta, forte da sua indignação, insultou Almeida, exprobrando-lhe
+a pertinacia da infamia, e ameaçando-o com a morte, se elle não sahisse
+immediatamente d'aquella casa.</p>
+
+<p>Ludovina cobrando forças, disse que só ella tinha direito de expulsar alguem
+d'aquella casa. Encruou-se a sanha de Melchior, vociferando injurias contra a
+filha, e provocações ao hospede silencioso. E saíu escandecido de raiva.
+Almeida quiz segui'-lo, com sereno gesto, sem assomos de colera, nem proposito
+de vingança. Impediu-o Ludovina com lagrimas e gemidos que irritavam<span
+class="pn">{184}</span> as iras paternas. Bem se via que não estava ali um pae;
+e, se estava, não era por certo Melchior Pimenta.</p>
+
+<p>Este conflicto atalhou-o o barão. Seguiu-se uma scena de effeito dramatico.
+O barão recuava diante de Almeida que lhe extendia a mão. Ludovina segurava o
+marido, pedindo-lhe que acceitasse a reconciliação que Almeida lhe offerecia.
+Este com palavras afectuosas lhe pedia a sua estima, e o esquecimento da
+passada offensa. O barão, ora espavorido, ora risonho, alternava os olhos entre
+Almeida e Ludovina.</p>
+
+<p>O leitor já sabe como no theatro se recupera o juizo. Se é mulher a douda,
+rigorosamente desgrenhada esfrega os olhos, atira com as madeixas para traz, e
+dá fricções seccas ás fontes com frenesi; se, homem, abre a bocca, espanta os
+olhos, soleva o peito em arquejantes haustos, despede o grito agudo obrigado a
+ambos os sexos, e está pessoa de juizo, capaz de casar, que é quasi sempre a
+peor das doudices em que os auctores fazem cahir os seus doudos, restaurados
+para a razão.</p>
+
+<p>Pois o barão de Celorico não se curou por esse theor. Os áditos da razão
+estavam cerrados de modo que levou longo tempo a despedaça'-los. A continua
+assistencia de Almeida ao pé do leito, e as continuadas insinuações de
+Ludovina, conseguiram rehabilitar-lhe o juizo, mas vagarosamente. O barão
+parecia emergir d'um pesadello atroz quando reconheceu Almeida. Não houve
+exclamações nem abraços de pé atraz, <em>secundam artem</em>. Lagrimas, sim, as
+da baroneza, cujo contentamento desmentia as conjecturas dos primos que a
+imaginavam lograda<span class="pn">{185}</span> nas suas ancias de viuvez. O
+custoso, depois, foi rebocar os estragos que a demencia fizera no corpo do
+barão. Foi longa a convalescença. Almeida quiz despedir-se; mas o enfermo
+erguia as mãos supplicantes pedindo-lhe que o não deixasse.</p>
+
+<p>Melchior Pimenta, de volta de Celorico, contou a sua mulher o escandalo que
+presenceára. Repetiu contra Ludovina as injurias que lhe dissera em face.
+Protestou esbofetear e apunhalar Almeida na presença de testemunhas que
+depuzessem no processo da sua honra, e impoz, com auctoridade, a sua mulher a
+sahida immediata da casa da adultera.</p>
+
+<p>D. Angelica ergueu-se impetuosa e terrivel, exclamando:</p>
+
+<p>&mdash;A adultera sou eu!</p>
+
+<p>&mdash;Que dizes, Angelica?!&mdash;bradou Melchior.</p>
+
+<p>&mdash;Adultera sou eu. Ludovina encobriu a minha deshonra com a sua
+virtude. Os nomes insultuosos que lhe dás, repara bem, Melchior, e ve'-los-has
+estampados no meu rosto. Se queres lavar com sangue estas manchas, arranca-m'o
+do seio! </p>
+
+<p>E assim falando, tirava o lenço que lhe velava os hombros, offerecendo o
+peito.</p>
+
+<p>&mdash;Endoudeceste, minha querida Angelica?&mdash;exclamou
+Pimenta&mdash;Faltava-nos esta desgraça! Estás douda! maldita seja tua filha
+que te levou a esta situação!</p>
+
+<p>«Não estou douda, Melchior! não estou douda! Estou moribunda, e não quero
+deixar infamada a teus<span class="pn">{186}</span> olhos a minha filha. Se eu
+te pedisse perdão do meu crime, acreditar-me-ias?</p>
+
+<p>&mdash;Não, não. Tu és uma esposa virtuosa, Angelica! Diz o que quizeres
+para salvar Ludovina, que eu não te creio. Reprovo essas demasias de amor, que
+ella te está pagando com o amante ao pé de si.</p>
+
+<p>«Melchior!&mdash;disse Angelica com firmeza e gravidade&mdash;A tua filha
+está innocente; a amante de Antonio de Almeida sou eu! Não me perdôes, vinga em
+mim a tua deshonra, porque o perdão não t'o peço. Sabias, quando me acceitaste
+como tua, que eu não podia pertencer-te. Collocaste ao meu lado o homem que me
+fazia odiosa a tua baixeza. Nunca me perguntaste se era verdadeira a carta que
+te escrevi em solteira, pedindo á tua commiseração que me deixasses. A mulher
+que fez isto, não pede perdão. Revolta-se com a coragem do desespero, e
+deixa-se morrer. Confesso o crime para salvar minha filha. Julga-me tu agora,
+mas vae pedir perdão áquella santa que quiz poupar tambem a tua dignidade.</p>
+
+<p>Melchior Pimenta saíu do quarto de sua mulher.</p>
+
+<p>Para se armar do punhal de D. Jayme de Bragança, e do infante D. João?</p>
+
+<p>Para se dar um tiro no ouvido?</p>
+
+<p>Para mergulhar da ponte-pensil, ou despenhar-se dos Arcos-das-Virtudes?</p>
+
+<p>Para scismar e endoudecer?</p>
+
+<p>Não, senhores.</p>
+
+<p>Melchior Pimenta foi para a Alfandega, jantou no<span
+class="pn">{187}</span> hotel de Miss Mery, e jogou o voltarete até ás onze
+horas na Assembléa Portuense.</p>
+
+<p>No dia immediato, visitou sua mulher, e recommendou-lhe que desse um passeio
+no jardim que estava o dia agradavel. Ás tres horas procurou-a para jantar ao
+pé d'ella. Disseram-lhe que a senhora tinha sahido n'uma cadeirinha, e deixára
+uma carta para seu marido.</p>
+
+<p>Não vi esta carta, mas infiro o contheudo pelos successos subsequentes.</p>
+
+<p>D. Angelica obteve, vinte e quatro horas depois, licença de seu marido para
+entrar n'um convento, situado n'um ermo do Minho. D'ahi escreveu a sua filha,
+pedindo-lhe uma esmola para sustentar-se, visto que o trabalho não bastava para
+as suas pequenas necessidades.</p>
+
+<p>Ludovina apressou a sua volta para o Porto. Obteve licença para visitar sua
+mãe, e demorar-se no mosteiro por tempo indeterminado. Acompanhou-a o marido e
+deixou-a com a certeza de a trazer comsigo passados dias.</p>
+
+<p>São decorridas dois annos. A baroneza de Celorico ainda não sahiu do
+convento. O barão soffre resignado a certeza de que sua mulher não sahirá
+jámais.</p>
+
+<p>A opinião publica diz que Ludovina merece louvores por não ter o
+descaramento petulante de apresentar-se como outras muitas, incursas no mesmo
+peccado, e declara a alta virtude de D. Angelica, mãe amorosa que deixa a
+sociedade para se inclausurar com a filha desamparada.<span
+class="pn">{188}</span></p>
+
+<p>Melchior Pimenta está bom, e é commensal do barão.</p>
+
+<p>Antonio de Almeida encetou, ha dois annos, uma longa viagem d'onde não
+voltou ainda.</p>
+
+<p>O bacharel Ricardo de Sá comprou mais tres bengalinhas, e dá a ultima demão
+ao seu <small>SECULO PERANTE A SCIENCIA</small>.</p>
+
+<p>São hoje 15 de fevereiro de 1858.</p>
+
+<p>O unico personagem morto d'esta historia é Francisco Nunes. Expirou ao cabo
+de uma violenta apostrophe, expedindo o derradeiro golfo de sangue com o
+epitheto mais fulminante que a sua cólera lhe suggeria. Matou-o o contracto do
+tabaco.</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM<span class="pn">{189}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{190}<br>{191}</span></p>
+
+<h1>SUPPLEMENTO</h1>
+
+<h2>PREFACIO</h2>
+
+<p>O romance estava acabado. Os meus numerosos admiradores, que eu regalára com
+a leitura d'essas duzentas paginas, haviam asseverado, com a costumada
+franqueza, que este volume era a flor da virtude a rescender perfumes de
+deleitosa aspiração para as almas. Um d'esses, cujo voto muito respeito pela
+<em>massa</em> de conhecimentos que <em>amassou</em> em Frederico Soulié e
+Alexandre Dumas, accrescentou que o romance <em>O que fazem mulheres</em> era a
+flor do meu talento. Cheio de encantadora modestia, perguntei se a virtude da
+minha heroina precisaria de mais tres ou quatro capitulos para ser vista a toda
+a luz celestial com que a Providencia lhe irradiára o espirito. Disseram-me, á
+uma, que não escrevesse mais uma só linha, que deixasse á perspicacia das
+leitoras o desvelarem mysterios do coração, que eu não saberia illuminar sem
+profana'-los, que deixasse ás lagrimas das almas sensiveis o fecho d'esta
+historia, que esperasse, finalmente, alguns annos, para então escrever a
+segunda parte da biographia da baroneza de<span class="pn">{192}</span>
+Celorico de Basto, que talvez os collegios de meninas adoptassem para uso das
+educandas.</p>
+
+<p>Convenci-me d'isto, e mandei ao meu editor o romance, com a prophecia de ser
+este um livro cuja decima edição apenas bastaria para aquietar as ancias d'um
+terço do paiz. Disse-me em linguagem fria o meu editor que uma virtude em
+duzentas paginas por quinhentos réis era, pequena de mais para o comprador que
+prefere um livro em trezentas. Redargui-lhe, com argumentos de grande calibre
+logico e moral, que a unidade da acção era inatacavel no romance.</p>
+
+<p><em>Item</em>: que o estirar uma idéa para avolumar a lombada de um livro
+era chatinar a mercancia litteraria.</p>
+
+<p><em>Item</em>: que muitas capacidades largas e agudas, ás quaes eu
+submettera o meu manuscripto, se compromettiam a dizerem que este livro era a
+quinta essencia de tudo que se tem escripto acerca das mulheres virtuosas desde
+Sancta Agatha até ás Virgens do Thirol.</p>
+
+<p>Chamei em meu abono Aristoteles, Longino, e mais alguns legisladores que eu
+não conhecia, para convencer o interprete do publico de que as raias do meu
+trabalho de chronista não podiam transpôr as da realidade. Por quanto:</p>
+
+<p>Não é inventada esta historia;</p>
+
+<p>Não quadram os incidentes imaginados com o essencial de um conto verdadeiro;
+</p>
+
+<p>Não tolera um leitor sisudo que se lhe encampe á credulidade enfadonhas
+narrativas que agorentam a verosimilhança, ou enfastiam a attenção
+benevola.<span class="pn">{193}</span></p>
+
+<p>Após uma renhida desavença da qual ia resultando a perda do manuscripto, que
+eu insensatamente sacrificaria ao meu bem entendido orgulho, viemos ao accordo
+de se publicar o magro volume com grandes margens, grandes entrelinhas,
+exuberancia de reticencias, e alguns juizos criticos dos meus amigos que
+serviriam de indigitar ao leitor em que paginas estão as bellezas que elle não
+viu.</p>
+
+<p>Concertados assim, estava o typographo com a ultima pagina, quando eu fiz
+uma excursão ao Minho, e encontrei no Senhor do Monte o cavalheiro que me
+contára o contexto d'este romance, nos ultimos dias do mez de janeiro proximo
+passado.</p>
+
+<p>A nossa conversação de algumas horas vae ser trasladada em paginas
+supplementares.</p>
+
+<p>Antes, porém, de entrar n'essa tarefa que realmente me dóe, seja-me
+permitido verter uma lagrima no degrau do altar onde eu collocára Ludovina,
+onde ella se collocára, e de onde se me afigura que...</p>
+
+<p>Não dou ansa a juizos temerarios do leitor. Leiam, e decidam se a virtude
+perfeita não é uma utopia impossivel n'um livro que tiver mais de duzentas
+paginas.</p>
+
+<p>Cumpre dizer quem é a pessoa, destinada pela providencia dos romances a
+figurar n'este supplemento.</p>
+
+<p>V. ex.<sup>as</sup> de certo a conhecem. Viram-na já muitas vezes no
+theatro, nos bailes, e na missa dos Congregados, na dos Clerigos, na do Carmo,
+em todas as missas classicas em que se vê tudo, e se ouve tudo, menos o padre e
+a missa.<span class="pn">{194}</span></p>
+
+<p>Eu dou os signaes do homem.</p>
+
+<p>Tem uma bella cabeça, uns bellos cabellos, uns bellos olhos... Já
+conheceram?</p>
+
+<p>De vinte leitoras, dez estão na duvida. Se v. ex.ª é uma das dez perplexas,
+desperte as suas reminiscencias com os seguintes traços:</p>
+
+<p>O nariz é a feição mais caracteristica d'este homem. Na base tem um
+promontorio, no centro uma protuberancia, na ponta uma recurva como o bico de
+um passaro. Chamam-se estes narizes <em>Bourbons</em>. Agora conheceram-no
+todas. Na escola dos physionomistas, este nariz tem significações espantosas. É
+um nariz que individualisa um homem; é um livro aberto; é o porta-voz dos
+segredos da alma; é em summa, uma biographia.</p>
+
+<p>Foi o que me approximou d'este homem. Se a natureza lhe désse a elle um
+nariz vulgar, o leitor não se decidiria na leitura d'este romance. Vejam de
+onde eu tirei um livro! O nariz de Cyrano de Bergerac foi causa de vinte
+duellos de morte. Do nariz do meu amigo podem pender vinte volumes.</p>
+
+<p>Fascinou-me, e fui eu que me offereci á sua amizade. Achei-o um homem raro,
+sabendo profundamente a vida de v. ex.<sup>as</sup>, quero dizer, todas as
+virtudes que v. ex.<sup>as</sup> escondem, todas as perfeições que a sociedade
+não vê, sem lh'as explicarem.</p>
+
+<p>É provinciano o sr. Marcos Leite: dê-se-lhe este nome. Visita o Porto duas
+vezes cada anno, uma no carnaval, outra na estação do theatro italiano.</p>
+
+<p>Consta que nunca teve namoro que o entretivesse<span class="pn">{195}</span>
+nas duas estações. O nome da mulher, que adora, até á demencia, no carnaval,
+quasi sempre lhe esquece na Paschoa seguinte. Em compensação, as mulheres
+rejeitadas, quando o leão volta das suas selvas nataes, apenas dão fé que
+Marcos está no theatro das suas façanhas pelo estrupído extraordinario do
+cavallo, que elle atira em arremettidas e sacões pelas ruas mais sonoras da
+cidade eterna. A não serem as mulheres o que providencialmente são, Marcos
+Leite seria prea dos dentes do remorso, ha muito tempo. Não ha uma só das
+esquecidas damas, que lhe não incendiasse no mais intimo do peito um amor
+eterno... de tres semanas.</p>
+
+<p>Algumas possuem cartas de uma paixão tão frenetica, que as exclamações de
+Werther, comparadas com ellas, são frias e chatas como um rol de roupa suja.
+</p>
+
+<p>Foi, pois, este cavalheiro, respeitavel em todos os sentidos, que me contou
+o essencial da historia do barão de Celorico, accrescentando que tinha visto
+duas vezes de relance, n'uma grade d'um mosteiro do Minho, proximo ao seu
+solar, a figura celestial da baroneza, e a sympathica e ainda juvenil
+physionomia de D. Angelica.</p>
+
+<p>Por essa occasião, lhe perguntei eu se traçava alguma rede á virtude heroica
+de Ludovina. Respondeu-me o narrador, que não ousava escalar uma fortaleza em
+cujo assalto era forçoso triumphar, ou morrer. Accrescentou, que, nem ainda
+cooperado por duas primas que tinha no tal convento, elle se animava a revelar
+a Ludovina uma affeição, que, desprezada, se tornaria em loucura furiosa.<span
+class="pn">{196}</span></p>
+
+<p>Pareceu-me sensata a resposta de Marcos. Que homem conseguiria alvoroçar
+aquelle coração, que eu imaginava esmagado sob a pressão de uma virtude
+exaltada?</p>
+
+<p>Decorreram quatro mezes, e, como disse no prefacio, fui, ha dias,
+surprehendido no Senhor do Monte por Marcos.</p>
+
+<p>Conhecem aquelle saudosissimo arvoredo, que rumoreja na sumidade da serra, e
+aquella fresca alameda que está tapetando a entrada para a <em>mãe d'agua</em>?
+Foi alli que o encontrei, encostado á mesa de pedra, lendo <small>LES
+REVERIES</small> de Senancourt; leitura que eu aconselho a todas as pessoas que
+precisam idealisar um mundo medio entre o asquerosamente lôrpa em que vivemos,
+e o absurdamente inintelligivel que nos promettem as religiões.</p>
+
+<p>Quando me viu, Marcos Leite correu a abraçar-me, exclamando:</p>
+
+<p>«O meu coração tinha-te invocado. Abominaria quantos homens e mulheres me
+apparecessem aqui, menos tu, e ella...</p>
+
+<p>&mdash;Temos <small>ELLA</small>!</p>
+
+<p>«E tu vieste para este sitio com o coração vazio?!</p>
+
+<p>&mdash;Graças a Deus, não, meu poeta. Trago tecidos, membranas, valvulas,
+ventriculos, veias, arterias, nervos, sangue, etc. O meu coração está
+funccionando com a mais physiologica das regularidades. Respiro
+desafogadamente, e completo a digestão de uns succulentos pedaços de boi, que
+triturei <em>sub tegmine fagi</em>.<span class="pn">{197}</span></p>
+
+<p>«Se vens assim, melhor fôra que não viesses. Eu queria que me entendesses,
+como creio que me entendem, ha tres dias, estes rumores da floresta. Escuta! Vê
+tu se este ermo, se este sussurro, que parece o echo esvaido de um mundo
+remoto, não te está dizendo que o amor é a vida, que a esperança é a
+felicidade, que debaixo do céo ha só tres cousas grandiosas, o homem e a mulher
+um para o outro, e a soledade para ambos! Não digas alguma blasphemia! Esse
+sorriso offende, e é um sacrilegio aqui. Agradece ao Senhor que nos dá isto,
+esta fontinha, a fresquidão d'estas sombras, o murmurio d'estas arvores, o azul
+do céo, lá em baixo a melancolia poetica do valle, o som do campanario rural
+que repercute na alma...</p>
+
+<p>Marcos Leite tinha razão. Não pude contrafazer, por mais tempo, a minha
+indole triste. Entrou-me a saudade no coração, aninhando-se no pequeno recinto
+não tomado ainda pela desesperança. Lancei os olhos ao livro em que lia Marcos,
+e recolhi á alma as seguintes linhas:</p>
+
+<p><em>La paix jointe aux lumières sera le partage d'un homme dans toute une
+province. Quant au contentement, on le cherche, on l'espère même; peut-être
+l'obtiendrait-on, si la mort ou la décrépitude ne survenaient auparavant... La
+vie était bonne, et on lui trouve encore des douceurs que la raison ne saurait
+méconnaître. Mais il importe que l'imagination, renonçant aux écarts, et
+servant elle-même d'asile contre les peines, anime seulement le repos que l'âme
+peut conserver quand elle est restée pure.</em><span class="pn">{198}</span>
+</p>
+
+<p>«Que é isto?&mdash;perguntei eu tomando de sobre a mesa um papel escripto a
+lapis.</p>
+
+<p>&mdash;Versos, meu caro; linhas, é melhor dizer linhas. O coração mais poeta
+creio que é o menos metrificador.</p>
+
+<p>«Póde saber-se que anjo te roçou a fronte com a aza?</p>
+
+<p>&mdash;Não adivinhas quem eu poderei amar assim? Ha uma só mulher n'este
+mundo. </p>
+
+<p>«A baroneza?</p>
+
+<p>&mdash;Com que frialdade proferes esse nome! Chama-lhe antes Ludovina...</p>
+
+<p>«Lê os versos.</p>
+
+<p>Marcos declamou com as mais maviosas modulações do sentimento a seguinte
+poesia:</p>
+
+<blockquote>
+       A LUDOVINA<br>
+  <br>
+ Quem ha ahi que possa o calix<br>
+ De meus labios apartar?<br>
+ Quem, n'esta vida de penas,<br>
+ Poderá mudar as scenas<br>
+ Que ninguem pôde mudar?<br>
+  <br>
+ Quem possue n'alma o segredo<br>
+ De salvar-me pelo amor?<br>
+ Quem me dará gotta de agua<br>
+ N'esta angustiosa fragua<br>
+ D'um deserto abrasador?<span class="pn">{199}</span><br>
+  <br>
+ Se alguem existe na terra<br>
+ Que tanto possa, és tu só!<br>
+ Tu só, mulher, que eu adoro,<br>
+ Quando a Deus piedade imploro,<br>
+ E a ti peço amor e dó.<br>
+  <br>
+ Se soubesses que tristeza<br>
+ Enlucta meu coração,<br>
+ Terias nobre vaidade,<br>
+ Em me dar felicidade<br>
+ Que eu busquei no mundo em vão.<br>
+  <br>
+ Busquei-a em tudo na terra,<br>
+ Tudo na terra mentiu!<br>
+ Essa estrella carinhosa<br>
+ Que luz á infancia ditosa<br>
+ Para mim nunca luziu.<br>
+  <br>
+ Infeliz desde creança,<br>
+ Nem me foi risonha a fé;<br>
+ Quando a terra nos maltrata,<br>
+ Caprichosa, acerba, e ingrata,<br>
+ Céo e esp'rança nada é.<br>
+  <br>
+ Pois a ventura busquei-a<br>
+ No vivo anceio do amor.<br>
+ Era ardente a minha alma;<br>
+ Conquistei mais d'uma palma<br>
+ Á custa de muita dôr.<span class="pn">{200}</span><br>
+  <br>
+ Mas estas palmas taes eram<br>
+ Que, postas no coração,<br>
+ Fundas raizes lançavam,<br>
+ E nas lagrimas medravam<br>
+ Com fructos de maldição.<br>
+  <br>
+ Em ancias d'alma, a ventura<br>
+ Nos dons da sciencia busquei.<br>
+ Tudo mentira! A sciencia<br>
+ Era um signal de impotencia<br>
+ Da vã razão que invoquei...<br>
+  <br>
+ Era um brado, um testemunho<br>
+ Do nada que o mundo é.<br>
+ Quanto a minha mente erguia<br>
+ Tudo por terra cahia,<br>
+ Só ficava Deus e a fé.<br>
+  <br>
+ Lancei-me aos braços do<br>
+ Eterno Com o fervor de infeliz;<br>
+ Senti mais fundas as dôres,<br>
+ Mais agros os dissabores...<br>
+ O proprio Deus não me quiz!<br>
+  <br>
+ Depois, no mundo, cercado,<br>
+ Só de angustias, divaguei<br>
+ De um abysmo a outro abysmo<br>
+ Pedindo ao louco cynismo<br>
+ O prazer que não achei.<span class="pn">{201}</span><br>
+  <br>
+ Tristes correram meus annos<br>
+ Na infancia que em todos é<br>
+ Bella de crenças e amores,<br>
+ Terna de risos e flores,<br>
+ Santa de esperança e de fé.<br>
+  <br>
+ Assim negra me era a vida<br>
+ Quando, ó luz d'alma, te vi<br>
+ Baixar do céo, onde, outr'ora,<br>
+ Te busquei mão redemptora<br>
+ Procurando amparo em ti.<br>
+  <br>
+ Serás tu a mão piedosa,<br>
+ Que se estende entre escarcéos<br>
+ Ao perdido naufragado?<br>
+ Serás tu, ser adorado,<br>
+ Um premio vindo dos céos?<br>
+  <br>
+ E eu mereço-te, que immenso<br>
+ Tem já sido o meu quinhão<br>
+ De torturas não sabidas,<br>
+ Com resignação soffridas<br>
+ Nos seios do coração.<br>
+  <br>
+ Que ternura e amor e afagos<br>
+ Toda a vida te darei!<br>
+ Com que jubilo e delirio,<br>
+ Nova dôr, novo martyrio,<br>
+ De ti vindo, acceitarei!<span class="pn">{202}</span><br>
+  <br>
+ Se na terra um céo desejas<br>
+ Como o céo que eu tanto quiz,<br>
+ Se d'um anjo a gloria queres,<br>
+ Serás anjo, se fizeres,<br>
+ Contra o destino, um feliz.<br>
+  <br>
+ Faz que eu veja n'estas trevas<br>
+ Um relampago d'amor,<br>
+ Que eu não morra sem que diga:<br>
+ «Tive no mundo uma amiga,<br>
+ Que entendeu a minha dôr.<br>
+  <br>
+ «Deu-me ella o estro grande<br>
+ Das memoraveis canções;<br>
+ Accendeu-me a extincta chamma<br>
+ Da inspiração que inflamma<br>
+ Regelados corações.<br>
+  <br>
+ «Os segredos dos affectos<br>
+ Que mais puros Deus nos deu,<br>
+ Ensinou-m'os ella um dia<br>
+ Que d'entre archanjos descia<br>
+ Com linguagem do céo.<br>
+  <br>
+ «Os mimosos pensamentos<br>
+ Que, de mim soberbo, leio,<br>
+ Inspirou-m'os, deu-m'os ella<br>
+ Recostando a fronte bella<br>
+ Sobre o meu ardente seio.<span class="pn">{203}</span><br>
+  <br>
+ «Morta estava a phantasia<br>
+ Que o gêlo d'alma esfriou;<br>
+ Tinha o espirito dormente,<br>
+ Só no peito um fogo ardente,<br>
+ Quando o céo m'a deparou.<br>
+  <br>
+ «Agora morro no gôso<br>
+ D'uma saudade immortal.<br>
+ Foi ditosa a minha sorte;<br>
+ Amei, vivi: venha a morte,<br>
+ Que morte ou vida é-me igual.<br>
+  <br>
+ «Igual, sim, que o amor profundo,<br>
+ Como foi na terra o meu,<br>
+ Não expira, é sempre vivo,<br>
+ Sempre ardente, e progressivo<br>
+ Em perpetuo amor do céo.»<br>
+  <br>
+ Assim, querida, meus labios,<br>
+ Já moribundos, dirão,<br>
+ Nas agonias supremas,<br>
+ Essas palavras extremas,<br>
+ Do meu ao teu coração.<br>
+  <br>
+ Sabes quem é, n'este mundo,<br>
+ Quasi igual ao Redemptor?<br>
+ É quem diz: «Sou adorada<br>
+ Pela alma resgatada,<br>
+ Por mim, das ancias da dôr.»<span class="pn">{204}</span> </blockquote>
+
+<p>«Por ora, vejo que supplicas amor&mdash;disse eu.&mdash;A tua poesia é um
+requerimento que póde ficar <em>esperado</em> muito tempo no gabinete do
+despacho. </p>
+
+<p>&mdash;Fala d'outra maneira... Eu soffro demais para te achar graça. Não é
+um requerimento esta poesia, meu amigo, é uma expansão de reconhecimento. O
+amor ditoso chega a entristecer. Tenho a segurança, a segurança que nos dá o
+coração, de que a alma de Ludovina me pertence.</p>
+
+<p>«Por consequencia tens tudo... Enganei o publico...</p>
+
+<p>&mdash;Como enganaste o publico?!</p>
+
+<p>«Puz em romance a historia que me contaste, e disse que a baroneza era uma
+rocha inabalavel de virtude.</p>
+
+<p>&mdash;E receias mentir?!</p>
+
+<p>«Eu já sabia que me não acreditavam... Pois tenho pena, palavra de honra! A
+meiga imagem de Ludovina havia de ser sempre nova e pura na minha imaginação,
+como o eterno typo das duas formosuras enlaçadas, a do corpo e a da alma.
+Rasgava o romance, se elle não estivesse já no prelo, e o dinheiro d'elle
+transformado n'um cavallo. É tarde para reivindicar a minha honra de romancista
+ingenuo ou palerma, que anda n'este mundo a querer provar, que as onze mil
+virgens nunca de cá sahiram.</p>
+
+<p>&mdash;Pois que esperavas tu de Ludovina?</p>
+
+<p>«Que morresse abraçada á sua cruz, que désse o exemplo da esposa martyr, da
+filha sacrificada ao bom nome de sua mãe; que sahisse apenas da sua cella<span
+class="pn">{205}</span> para redobrar de paciencia aos pés do altar; que nunca
+consentisse que corações degenerados como o teu, e o meu, concebessem a
+esperança de profana'-la.</p>
+
+<p>&mdash;Estás a fazer a alta comedia, ou crês sinceramente que Ludovina
+degenera? Põe de parte a consciencia de romancista, e deixa fallar a do ente
+pensante e racional,&mdash;e se tu e eu somos indignos de aspirar ao amor da
+baroneza, crês que um outro, cahindo das nuvens determinadamente por ella, a
+absolveria do crime horrivel de ter coração?</p>
+
+<p>«O coração de Ludovina estava cheio de sensações, que o faziam participante
+do amor divino. Que precisão tinha ella do amor dos homens? Estragou uma bella
+biographia, essa mulher. Talvez fosse unica, e apontada á posteridade como
+molde. Era uma virtude original; converteu-se em um vicio vulgar. A minha
+heroina fez bancarrota, falliu, e deixou-me em hypotheca a palavra que eu dei a
+paginas 170, pouco mais ou menos, de que eram solidos os fundos em virtude, e
+grandes os haveres em creditos d'esta mulher inimitavel, typica, e biblica,
+deixa-me dizer assim, porque ella merecia todos os epithetos levantados e
+grandiosos.</p>
+
+<p>&mdash;Mas que fez a pobre senhora para descredito tamanho?</p>
+
+<p>&mdash;O que fez?! é boa! auctorisou-te a canta'-la em quintilhas! Um homem
+de mais alma que tu és, vasaria a inspiração em versos endecasyllabos. Uma
+mulher assim amada em redondilha maior! É horrivel e immoral!<span
+class="pn">{206}</span></p>
+
+<p>&mdash;Bem! Ainda agora te comprehendi. Estás zombando com ella e comigo, e
+não sei se com o publico, a quem prometteste uma virtude enfadonha e monotona,
+como deve ser o teu romance, se te não salvares com a rapida narração que te
+vou fazer da mais sublime virtude, da virtude por excellencia de Ludovina.</p>
+
+<p>&mdash;Qual virtude?</p>
+
+<p>&mdash;A de me receber dez cartas, escriptas com o sangue do coração, e...
+não me responder a nenhuma.</p>
+
+<p>&mdash;Mas tu disseste-me ainda agora que tinhas a segurança de que a alma
+de Ludovina te pertence.</p>
+
+<p>&mdash;E tenho.</p>
+
+<p>&mdash;Não te respondendo ás tuas cartas? Não entendo.</p>
+
+<p>&mdash;Não me respondeu a dez cartas...</p>
+
+<p>&mdash;Bem.</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu escrevi-lhe vinte, e ella respondeu á ultima.</p>
+
+<p>&mdash;Ah! isso então muda de figura... E a resposta foi tal que te deu a
+segurança de seres o proprietario do coração da baroneza!...</p>
+
+<p>&mdash;Queres ver a resposta? Franqueza e confiança. Lê lá.</p>
+
+<p>Era um bilhete que rezava assim:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Tenho recebido por delicadeza as suas cartas. Basta dar-me v. ex.ª o nome
+de amiga para que eu as aprecie. Não me julgava na obrigação de responder.
+Hoje, porém, que v. ex.ª me lembra esse dever, peço perdão da falta, e
+castigo-me devolvendo-lhe as suas vinte cartas,<span class="pn">{207}</span> de
+cuja posse sou indigna, porque não soube corresponder-lhe.</p>
+
+<p>«Com verdadeira estima, attenciosa veneradora de v. ex.ª&mdash;<em>Ludovina
+Pimenta</em>.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Isto é lisongeiro!&mdash;disse eu sorrindo.&mdash;Com um documento
+d'estes, é indispensavel a posse que tomaste do coração da baroneza. Eu creio
+que podia ser assim o proprietario mais abastado do genero...</p>
+
+<p>&mdash;Espera lá.. Ainda tenho outros titulos da propriedade. Já agora
+has-de examina'-los todos, e dizer-me no fim se os meus direitos serão
+litigiosos. Recebi as vinte cartas, e escrevi mais dez. Que dez cartas! Que
+estylo! que dez causticos para fazerem supurar um coração!</p>
+
+<p>&mdash;Deixas ver a resposta?</p>
+
+<p>&mdash;A resposta foram dez cartas.</p>
+
+<p>&mdash;Incendiarias?</p>
+
+<p>&mdash;Que duvida? Eram as minhas, lacradas, sem um vinco, direitinhas como
+foram!</p>
+
+<p>&mdash;E teimaste?! Seria necessario muito despejo e indignidade!</p>
+
+<p>&mdash;Não teimei: cahi doente, tive febre, assustei a minha familia, e fiz
+que me chorassem as minhas primas, companheiras conventuaes da baroneza. Ao
+nono dia de enfermidade, a medicina suspeitou que o sangue me refluía á cabeça.
+Correu que eu enlouqueceria, ou morreria. A baroneza mandou saber de mim duas
+vezes n'um dia.<span class="pn">{208}</span></p>
+
+<p>&mdash;Oh! isso é muito! No dia immediato foste agradecer-lhe o
+cuidado...</p>
+
+<p>&mdash;Não fui, não podia ir. O abalo, a certeza, de que era amado,
+exacerbou-me a febre, escaldou-me a imaginação a ponto de delirar. Durante um
+curto intervallo de tranquilidade de espirito, escrevi á baroneza uma duzia de
+linhas quando muito. Dava-lhe parte de que tinha a morte sentada á cabeceira do
+meu leito de agonias; dizia-lhe que pediria por ella ao Senhor, se a gloria
+celestial me fosse dada como premio do muito que soffrera, e da muita paciencia
+com que soffrera na terra os rigores de uma alma que não quiz comprehender-me;
+perdoava-lhe com a mais evangelica generosidade de moribundo, e emprazava-a
+para me restituir o coração na eternidade.</p>
+
+<p>&mdash;Isso devia fundir em lagrimas de remorso a pobre senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Estás ludibriando a minha angustia?&mdash;interrogou Marcos Leite com
+ironico enfado.</p>
+
+<p>&mdash;Não ludibrio a tua angustia, faço a apologia da tua astucia. Tu não
+tinhas febre, nem vias a morte á cabeceira do teu leito, fala a verdade.</p>
+
+<p>«Tinha febre, palavra de honra, porque sou muito nervoso; e se me persuado
+que tenho uma ponta de febre, sinto-me logo em labaredas. Tenho tido vinte e
+tantos d'esses typhos, com as vinte e tantas mulheres que tu sabes. O que vale
+é ser rapida e segura a convalescença.<span class="pn">{209}</span></p>
+
+<p>&mdash;Convalesceste depressa? Já vejo que o teu bilhete conseguiu...</p>
+
+<p>«Um triumpho!</p>
+
+<p>&mdash;Como um triumpho?!</p>
+
+<p>«Uma gloria imprevista, um lance tão arrojado de venturas, que ainda agora
+me salta o coração no peito.</p>
+
+<p>&mdash;Guarda os extases para o fim, e vamos ao ponto.</p>
+
+<p>«Mandou-me visitar por um medico do Porto, que fôra de proposito medicar D.
+Angelica.</p>
+
+<p>&mdash;Consiste n'isso o triumpho?!</p>
+
+<p>«Que mais querias tu!</p>
+
+<p>&mdash;Mais nada... A um doente a maior prova de estima que póde dar-se é
+mandar-lhe um medico.</p>
+
+<p>«O peor foi dizer o doutor que a minha enfermidade era imaginaria. Mandou-me
+dar longos passeios a cavallo, e a pé, comer alimentos pouco volumosos e muito
+substanciaes, e dormir o maximo numero de horas que pudesse. Reflecti-lhe que
+sentia a morte no coração; a isto redarguiu, sorrindo, o medico matreiro, que
+verificando-se a morte d'esta viscera, entregasse ao estomago o exercicio das
+attribuições do coração. Não sei o que elle foi dizer á baroneza: é certo que
+os cuidados da parte d'ella não esfriaram, e eu, melhor avisado, entendi que
+não precisava morrer para ser amado. Logo que me ergui do leito...</p>
+
+<p>&mdash;Da agonia, ou da dôr para variar...</p>
+
+<p>«Nada de chacóta. D'aqui em diante fala-se serio. Logo que sahi fui ao
+convento. Era por uma bella tarde de maio. Soprava de leste uma viração
+suavissima,<span class="pn">{210}</span> que, sacudindo as urnas das flôres,
+embalsamava a atmosphera de fragrantes aromas. No horisonte...</p>
+
+<p>&mdash;Se me pudesses dispensar do idyllio!... Guarda as reminiscencias
+bucolicas para o inverno, quando estivermos ao fogão. Por mais que phantasies
+não deslumbras a realidade do bello espectaculo que nos está dando aqui a
+natureza em primeira mão. Descarna as descripções, e diz o que passaste no
+convento com a baroneza.</p>
+
+<p>«Estás materialmente estupido, homem. Foi-se-te a poesia toda no fabrico dos
+romances. Vocês, os que trabalham no coração humano com o escalpello
+sanguinario da analyse, tornam-se áridos, brutaes, e famulentos de sensações
+rijas...</p>
+
+<p>&mdash;É assim; todavia, prefiro a descripção da tarde de maio á catilinaria
+insolente que vaes disparar-me.</p>
+
+<p>«Nem uma nem outra. Vou abreviar o conto, para que a inveja mais depressa te
+castigue. A baroneza mandou-me entrar n'uma grade, e appareceu sósinha. Era a
+primeira vez que me recebia a visita sem vir acompanhada das minhas primas ou
+de D. Angelica.</p>
+
+<p>&mdash;Esse facto é profundamente significativo! Vou gosar o prazer de ouvir
+um dialogo de amorosas finezas, cortado de suspiros maviosos... Já principiam
+as disciplinas da inveja a verberar-me...</p>
+
+<p>«Saberás tu o que se passou?!</p>
+
+<p>&mdash;Se sei o que se passou!?</p>
+
+<p>«Sim... dizes com tão ironica zombaria o prospecto do dialogo...<span
+class="pn">{211}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nada, não: é que me vou aquecendo ao teu enthusiasmo, e o estylo
+principia a aquecer tambem.</p>
+
+<p>«Ahi vae lealmente, a scena final do definitivo triumpho. Eu tinha posto
+grandes esperanças na minha pallidez. Tres semanas de cama seriam capazes de
+fazer amarello um camarão cosido. A primeira decepção, que recebi ao entrar na
+grade, foi dizer-me a baroneza:</p>
+
+<p>«Ninguem dirá que esteve doente, sr. Marcos! A vida socegada de tres semanas
+deu-lhe um colorido de saude, que d'antes não tinha.</p>
+
+<p>&mdash;Como assim, sr.ª baroneza! Pois a minha pallidez...</p>
+
+<p>«Está enganado; pelo contrario, está côr de rosa, acredite. Eu chamo as suas
+primas, e verá se ellas não dizem o mesmo.</p>
+
+<p>&mdash;Não chame as minhas primas, sr.ª baroneza. Eu preciso que v. ex.ª me
+escute. Este é o momento solemne da vida ou morte. Hei-de hoje ouvir aqui a
+minha sentença. A pedra da sepultura já está erguida para mim; o seu braço
+suspendeu-a; o seu braço ha-de afastal-a de sobre o peito, que me esmaga, ou
+deixa'-la abafar o meu derradeiro gemido.</p>
+
+<p>«Que linguagem, sr. Marcos!&mdash;disse ella&mdash;Pelo amor de Deus,
+faça-me a justiça de me não julgar creança. O infortunio emancipou-me. Não
+posso ser illudida, nem illudir-me. Tenho aquella dolorosa penetração que
+adquire o espirito á medida que a boa fé do coração se perde. Com que fim
+emprega tantos esforços baldados para inquietar-me?<span
+class="pn">{212}</span></p>
+
+<p>&mdash;Eu queria fazer a sua felicidade pelo amor.</p>
+
+<p>«A intenção é generosa, e eu não sou ingrata. Mil vezes agradecida, sr.
+Leite; mas o amor não póde dar-me felicidade. Imagino que elle possa ser a
+alegria de muitas almas puras e impuras; dou credito a tudo o que se diz de
+sublime e celeste ácerca d'esse sentimento, o mais mavioso de todos: mas sem
+coração essa flor não póde dar perfumes de uma hora. O meu coração desfez-se em
+lagrimas, cuja historia não é nova para o sr. Marcos Leite. Eu não o amo, não o
+posso amar, apenas lhe vejo todas as boas qualidades que se podem desejar n'um
+amigo. Quadra-lhe esta affeição? quer-me para sua amiga? está decidido a
+acceitar deveras este offerecimento que tantas vezes acceitou, e outras tantas
+desprezou?</p>
+
+<p>&mdash;Desprezei?</p>
+
+<p>«Sim; pois que outro nome se deve dar ás suas cartas escriptas com um fogo
+que me deslumbra sem me queimar, instantes depois que me promettia respeitar a
+minha posição, compadecer-se dos meus infortunios, e acolher-me á sua estima
+como uma alma quebrantada de enfermidades, que só os melindres d'uma verdadeira
+amizade podem suavisar? Não é meu amigo, sr. Marcos. O senhor imaginou que eu
+tinha uma fibra do coração capaz de sustentar o peso de alguma grande desgraça,
+e quiz parti'-la.</p>
+
+<p>«Enganou-se; nem essa já tenho. Que mais quer que eu lhe diga?<span
+class="pn">{213}</span></p>
+
+<p>&mdash;Mais alguma cousa: disse-me v. ex.ª que me não amava; agora diga que
+me despreza.</p>
+
+<p>&mdash;Não posso. Sou sua amiga: não ha n'este mundo outro homem a quem eu
+possa dizer o mesmo. Sou para si, apesar da minha inutilidade, o mais que posso
+ser... Agora, se me dá licença, vou ao quarto de minha mãe, que está doente e
+só.»</p>
+
+<p>O meu amigo Marcos Leite, fechando assim o dialogo com a esposa de João José
+Dias, fixou-me de um modo que parecia perguntar-me a razão porque eu me não
+ria.</p>
+
+<p>&mdash;Esses triumphos são parecidos com as minhas derrotas&mdash;disse-lhe
+eu.</p>
+
+<p>&mdash;É que tu não sabes nada do coração humano!&mdash;replicou o singular
+provinciano, com um sorriso, que poderia ser definido infatuamento tolo por
+quem não conhecesse a intelligencia clara de Marcos Leite.</p>
+
+<p>Vaes agora ver que todos estes atalhos conduzem á estrada real da terra da
+promissão&mdash;proseguiu elle;&mdash;Josué está defronte das muralhas de
+Jericó. A trombeta da anniquillação vae soar. A virtude de Ludovina está
+abalada desde os alicerces, e desabará como todas as virtudes possiveis no
+romance, e impossiveis na vida qual ella é, e como bom é que ella seja para que
+este mundo se supporte desde o amanhecer até que o sol refresca a sua fronte
+abrasada nas aguas do oceano.. Deleitei-te com esta nesga de estylo? Até os
+olhos se te riem quando ouves tolices euphonicas!... Vou concluir.</p>
+
+<p>&mdash;Já?!<span class="pn">{214}</span></p>
+
+<p>&mdash;Achas que é cedo?</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que o triumpho está muito longe ainda para concluires tão
+depressa.</p>
+
+<p>&mdash;Lê esta carta, e prova-me que conheces alguma cousa do coração, dando
+como infallivel a minha victoria.</p>
+
+<p>Comecei a lêr com ávida curiosidade a seguinte carta de Ludovina:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Eu procurei este abrigo, cuidando que encontrava n'elle paz, esquecimento,
+anceios para Deus, balsamo de piedade para as chagas de minha mãe e minhas, o
+desejo suave de morrer com ella, e um acabar a vida melhor que o principio.</p>
+
+<p>«Gosei alguns mezes, se não a realidade, ao menos a esperança d'estes bens.
+Por que infortunio estava confiada ao sr. Marcos a missão de inquietar-me até
+me affligir com a mortificação das suas instancias impertinentes, perdoe-me a
+clareza da idéa...?»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Que amabilidade!&mdash;disse eu, interrompendo a leitura.</p>
+
+<p>&mdash;Lê, e não commentes por ora.</p>
+
+<p>Prosegui, lendo:</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Muito egoistas são os homens, santo Deus! Ha uma infeliz mulher, como eu,
+que impressiona um homem como o sr. Marcos. Sou procurada na minha solidão por
+v. s.ª que me offerece o seu amor. Respondo-lhe<span class="pn">{215}</span>
+que o não posso acceitar, porque a infelicidade me tornou dura e insensivel aos
+prazeres dos affectos do coração. Conto-lhe a minha vida com aquelle desabafo e
+confidencia que fórma as amizades immorredouras. V. s.ª escuta-me, admira-me,
+lamenta-me, e faz-me acreditar que a minha dôr é para si tão respeitavel que
+não ousará mais despertar-me o desejo de alegrias impossiveis para mim. Apenas
+decorridas algumas horas, abro uma carta sua, em que espero encontrar a
+linguagem consoladora de um amigo, e leio um longo queixume contra a minha
+insensibilidade, e a ameaça de se matar, porque a sua mortificação é
+insupportavel.</p>
+
+<p>«Egoismo, e tyrannia!</p>
+
+<p>«Faltava-me a tortura da responsabilidade da sua vida, sr. Marcos! Quem me
+dera ser o que creio que se é no grande mundo, que eu não tive tempo de
+estudar! Lá, as mulheres experimentadas nas tempestades do coração, sabem,
+creio eu, que nenhum homem morre em naufragio. Eu tenho a innocencia de crêr
+que o mortifico, que o incommodo com a minha frieza, que o não satisfaço com o
+grande affecto de amiga que lhe dou.</p>
+
+<p>«Que futuro me queria dar, sr. Marcos? Pois não conhece a minha posição? Não
+adivinha que vivo toda e exclusivamente no amor de minha mãe? Que entrei n'um
+caminho de amarguras voluntarias d'onde não posso desviar-me uma linha, sem
+converter em remorsos a consciencia das boas acções que pratiquei até hoje?
+Deixe-me tambem ser egoista das minhas virtudes,<span class="pn">{216}</span>
+porque não tenho outro amparo que me sustente a coragem para soffrer o pouco de
+vida que me resta.</p>
+
+<p>«Eu avalio o seu coração. Confesso que, ha tres annos, o encontrarmo-nos
+seria um designio da Providencia divina. Creio que seriamos felizes; que
+teriamos a bemaventurança na terra.</p>
+
+<p>«Agora, porém, não ha futuro para nós, nenhum futuro, meu amigo.</p>
+
+<p>«São as ultimas palavras que lhe dirige a sua sempre amiga
+<em>Ludovina</em>.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&mdash;Que esperas agora, Marcos?&mdash;perguntei eu.</p>
+
+<p>&mdash;Espero que ella se compadeça da minha humildade.</p>
+
+<p>&mdash;Humildade não entendo...</p>
+
+<p>&mdash;Essa carta é um esforço extremo de quem se quer segurar á aresta do
+abysmo. A baroneza é mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Já sei.</p>
+
+<p>&mdash;Cuidei que não sabias, e de certo não sabes o que é uma mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Então, já não aprendo.</p>
+
+<p>&mdash;Vou-te ensinar o que são todas, definindo-te Ludovina.</p>
+
+<p>&mdash;Escuto, sem respirar.</p>
+
+<p>&mdash;A baroneza ama-me.</p>
+
+<p>&mdash;Isso é bem positivo e claro? Vê lá...</p>
+
+<p>&mdash;Tenho visto. Ama-me, e está sem forças para manter uma isenção
+contrafeita. A mulher, quando se sente enfraquecer, revolta-se contra o homem
+que a subjuga.<span class="pn">{217}</span></p>
+
+<p>&mdash;E depois?</p>
+
+<p>&mdash;Se esse homem acceita humildemente a revolta, é ella mesma a que se
+revolta contra si, incriminando-se de ingrata e insensivel.</p>
+
+<p>&mdash;É pelos modos uma enfiada de revoltas, de <em>bernardas</em> do
+coração... </p>
+
+<p>&mdash;Estás hoje intractavel!!</p>
+
+<p>&mdash;Estou intolerante com os absurdos. Esperas que ella te mande chamar á
+grade do mosteiro para assistires á queima d'esta carta na pyra do amor?</p>
+
+<p>&mdash;Talvez... Tu és uma creança velha. Não sabes nada. Morres ignorante
+dos segredos do coração feminino... Que lastima!</p>
+
+<p>&mdash;Não me chores, responde: tiveste o cuidado de avisa'-la que te vinhas
+suicidar nas florestas do Senhor do Monte? Meu caro Marcos, eu acredito que
+conheces todas as mulheres menos Ludovina. Ha um Waterloo para cada Napoleão
+d'estas conquistas incruentas. O teu é a baroneza de Celorico de Basto. Queres
+poupar-te a um desgosto de amor proprio? Esquece-a.</p>
+
+<p>&mdash;E a omnipotencia da vontade o que é? Hei de triumphar, ou Ludovina é
+uma natureza superior á humanidade...</p>
+
+<p>Sahi de Braga. O meu amigo ficou á espera da segunda «revolta» rimando a
+quarta poesia em quintilhas, e os primeiros duzentos versos de uma elegia que
+elle intitulava o seu epitaphio.<span class="pn">{218}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Um mez depois encontrei no Porto Marcos Leite.</p>
+
+<p>&mdash;Então?&mdash;exclamei eu a custo, com as costellas apertadas n'um
+abraço homicida.</p>
+
+<p>&mdash;A baroneza?</p>
+
+<p>&mdash;Sim... diz-me alguma cousa da ultima «revolta».</p>
+
+<p>&mdash;A baroneza... cahiu miseravelmente.</p>
+
+<p>&mdash;Cahiu?!</p>
+
+<p>&mdash;Não o sabias? que estupida espionagem tu trazes nas casas alheias!</p>
+
+<p>&mdash;Venceste, pois. Marcos! Oh minha pobre Ludovina! onde eu te havia
+posto! O que dirá o publico! Despenhou-se aquelle anjo! Quando encontrarei eu
+outro para o throno que ficou vago?!</p>
+
+<p>&mdash;E em que lodaçal ella cahiu!...</p>
+
+<p>&mdash;Creio...</p>
+
+<p>&mdash;Esse <em>creio</em> é uma affronta...</p>
+
+<p>&mdash;A ella...</p>
+
+<p>&mdash;Querem ver o romancista com ciumes!...</p>
+
+<p>&mdash;É compaixão d'ella, e de ti...</p>
+
+<p>&mdash;De mim!&mdash;tornou elle soltando uma estridente risada&mdash;de
+mim! Pois cuidas que o lodaçal sou eu!? Restitue-me a minha innocencia na
+terrivel torpeza que ella praticou.</p>
+
+<p>&mdash;Depressa... que fez ella?</p>
+
+<p>&mdash;Cahiu nos braços asquerosos de...</p>
+
+<p>&mdash;De quem!</p>
+
+<p>&mdash;Do marido! Não te espantas da perversidade!? Estás corrupto!<span
+class="pn">{219}</span> </p>
+
+<p>&mdash;Por consequencia está coroada a virtude da minha heroina com o
+extremo supplicio.</p>
+
+<p>&mdash;Pelo que ouço, denominas resignação o que no meu vocabulario equivale
+a baixeza de alma! São tantas as martyres que sorriem á sucapa da tua
+compaixão... Confessa que Ludovina não podia dar mais insignificante testemunho
+de um espirito menos de trivial. Entregar-se de novo a João José Dias!</p>
+
+<p>&mdash;Cala-te, impio! não cuspas na face da martyr! Conta-me os promenores
+d'essa reconciliação. Palpita-me que a promoveu algum grande infortunio...</p>
+
+<p>&mdash;Qual? adivinha lá...</p>
+
+<p>&mdash;A morte de D. Angelica.</p>
+
+<p>&mdash;Justamente: morreu ha tres semanas.</p>
+
+<p>&mdash;Atormentada de saudades... pobre mulher!</p>
+
+<p>&mdash;Creio que sim. Disseram-me minhas primas que lhe encontraram um
+retrato no seio, ainda embaciado pelo ultimo respiro que ella exhalou. Devia
+ser o retrato de Antonio de Almeida. Tambem me disseram que viram ajoelhar
+Ludovina ao pé do cadaver, e lhe ouviram dizer: «A sua memoria fica sem mancha,
+minha mãe!»</p>
+
+<p>&mdash;Isso é triste, Marcos! Comprehendes tu a santidade d'essas
+palavras?</p>
+
+<p>&mdash;Comprehendo; mas abomino a melancolia. O mundo acceita estes
+heroismos como exquisitices. Eu pertenço a este mundo, dei-lhe o que tinha de
+bom no coração, e quero ter grande partilha no cynismo que elle dá em
+paga.<span class="pn">{220}</span></p>
+
+<p>&mdash;Não importa. Ludovina continua a ser um anjo, confessa.</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que o seria, se não sahisse de ao pé do tumulo de sua mãe.
+Se João José Dias avilta uma creatura que é só humana, com o seu contacto, como
+ha-de elle sustentar as qualidades de um anjo?</p>
+
+<p>&mdash;E se Ludovina acceita as torturas da convivencia com tal homem, como
+provocações á morte?</p>
+
+<p>&mdash;Morrerá estupidamente. Será indigna d'um necrologio, e terá apenas
+uma magra local chamando os amigos do marido a assistirem-lhe aos funeraes.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<hr style="width: 30%;">
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Deixemos falar este homem sem alma, leitores!</p>
+
+<p>Ludovina continua a ser a flôr da creação, o espelho de infelizes, o élo que
+prende a creatura ao Creador, o anjo que chora, esperando que os anjos a levem
+d'este desterro.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><a name="foot95" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> É para espantar a
+memoria de Francisco Nunes, em crise de tamanha angustia! Aquella nesga de
+historia destoava da virulencia da apostrophe; mas foi dita com sanhudo entono.
+</p>
+
+<p><a name="foot106" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> É ordinario este
+estylo; aqui não ha unidade; o impeto afrouxa, e descáe na vulgaridade tacanha
+do artigo de fundo. É defeito de todos os nossos oradores de inspiração:
+remontam-se; a gente está a ve'-los luctar com as aguias; e, quando mal se
+precata, vê-os cahir, a disputarem a presa do escaravelho que se rola no chão.
+Francisco Nunes tem lastimaveis desegualdades n'esta apostrophe.</p>
+
+<p><a name="foot112" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Perdoem-lhe a mentira
+pela intenção boa com que a diz...</p>
+
+<p><a name="foot486" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Veja <em>Vies des
+dames galantes</em>, por le Seigneur <em>de Brantome&mdash;Discours
+premier</em>. </p>
+</div>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's O que fazem mulheres, by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O QUE FAZEM MULHERES ***
+
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+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
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+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+where we have not received written confirmation of compliance. To
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+particular state visit http://pglaf.org
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
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+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
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+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
+
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+
+ http://www.gutenberg.org
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+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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+
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+
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+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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