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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:47:33 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O que fazem mulheres + Romance philosophico - Quarta edição + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: July 18, 2009 [EBook #29435] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O QUE FAZEM MULHERES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + OBRAS + + DE + + CAMILLO CASTELLO BRANCO + + EDIÇÃO POPULAR + + LVII + + O QUE FAZEM MULHERES + + + + + VOLUMES PUBLICADOS + + N.º 1--Coisas espantosas. + N.º 2--As tres irmans. + N.º 3--A engeitada. + N.º 4--Doze casamentos felizes. + N.º 5--O esqueleto. + N.º 6--O bem e o mal. + N.º 7--O senhor do Paço de Ninães. + N.º 8--Anathema. + N.º 9--A mulher fatal. + N.º 10--Cavar em ruinas. + N.os 11 e 12--Correspondencia epistolar. + N.º 13--Divindade de Jesus. + N.º 14--A doida do Candal. + N.º 15--Duas horas de leitura. + N.º 16--Fanny. + N.os 17, 18 e 19--Novellas do Minho. + N.os 20 e 21--Horas de paz. + N.º 22--Agulha em palheiro. + N.º 23--O olho de vidro. + N.º 24--Annos de prosa. + N.º 25--Os brilhantes do brasileiro. + N.º 26--A bruxa do Monte-Cordova. + N.º 27--Carlota Angela. + N.º 28--Quatro horas innocentes. + N.º 29--As virtudes antigas--Um poeta portuguez... rico! + N.º 30--A filha do Doutor Negro. + N.º 31--Estrellas propicias. + N.º 32--A filha do regicida. + N.os 33 e 34--O demonio do ouro. + N.º 35--O regicida. + N.º 36--A filha do arcediago. + N.º 37--A neta do arcediago. + N.º 38--Delictos da Mocidade. + N.º 39--Onde está a felicidade? + N.º 40--Um homem de brios. + N.º 41--Memorias de Guilherme do Amaral. + N.os 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa. + N.os 45 e 46--Livro negro de padre Diniz. + N.os 47 e 48--O judeu. + N.º 49--Duas épocas da vida. + N.º 50--Estrellas funestas. + N.º 51--Lagrimas abençoadas. + N.º 52--Lucta de gigantes. + N.os 53 e 54--Memorias do carcere. + N.º 55--Mysterios de Fafe. + N.º 56--Coração, cabeça e estomago. + N.º 57--O que fazem mulheres. + + + + + _CAMILLO CASTELLO BRANCO_ + + O QUE FAZEM + + MULHERES + + + ROMANCE PHILOSOPHICO + + + QUARTA EDIÇÃO + + + 1907 + PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA + Livraria editora e Officinas Typographica e de Encadernação + Movidas a electricidade + _Rua Augusta--44 a 54_ + LISBOA + + + + +1907 +OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO +MOVIDAS A ELECTRICIDADE +Da Parceria Antonio Maria Pereira +_Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.º e 2.º andar_ +LISBOA + + + + +A TODOS OS QUE LEREM + + +É uma historia que faz arripiar os cabellos. + +Ha aqui bacamartes e pistolas, lagrimas e sangue, gemidos e berros, +anjos e demonios. + +É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juizo! + +Isto sim que é romance! + +Não é romance; é um soalheiro, mas tragico, mas horrivel, soalheiro em +que o sol esconde a cara. + + Como da seva mesa de Thyestes + Quando os filhos por mão de Atreu comia. + +Escreve-se esta chronica em quanto as imagens dos algozes e victimas me +cruzam por diante da phantasia, como bando de aves agoureiras, que +espirram de pardieiro esboroado, se as acossa o archote de um phantasma. + +Tenebroso e medonho! É uma dança macabra! um tripudio infernal! cousa só +semelhante a uma novella pavorosa das que aterram um editor, e se +perpetuam nas estantes, como espectros immoveis. + +Ha ahi almas de pedra, corações de zinco, olhos de vidro, peitos de +asphalto? + +Que venham para cá. + +Aqui ha cebola para todos os olhos; + +Broca para todas as almas; + +Cadinhos de fundição metallurgica para todos os peitos. + +Não se resiste a isto. Ha-de chorar toda a gente, ou eu vou contar aos +peixes, como o padre Vieira, este miserando conto. + +Os dias actuaes são melancolicos; a humanidade quer rir-se; muita gente, +séria e sisuda, se compra um romance, é para dar treguas ás +despoetisadas e pêcas realidades da vida. + +Sei-o de mais. Eu tambem compro os livros dos meus amigos, para +espairecer de meditações serumbaticas em que me anda trabalhado o espirito. + +Sei quantos devo, e que favores impagaveis me deveria, leitor bilioso, +se eu lhe encurtasse as horas com paginas galhofeiras, picarescas, +salitrosas, travando bem á malagueta, nos beiços de toda a gente, afóra +os seus. + +Tenha paciencia: ha de chorar ainda que lhe custe. + +Se respeita a sua sensibilidade, fique por aqui; não leia o resto, que +está ahi adiante uma, ou duas são ellas, as scenas das que se não levam +ao cabo, sem destillar em lagrimas todos os liquidos da economia animal. + +Este romance foi escripto n'um subterraneo, ao bruxolear sinistro de uma +lampada. + +Alfredo de Vigny não diz que escreveu um drama, ás escuras, em vinte +dias? E Frederico Soulié não se rodeava de esqueletos e esquifes? + +E outros não se espertaram com todos os estimulos imaginaveis de terror? +Menos o do subterraneo... este é meu, se me dão licença. + +Pois foi lá que eu desentranhei do seio estes lobregos lamentos. + +No fim de cada capitulo, vinha ao ar puro sorver alguns átomos de +oxigenio, e todos me perguntavam se eu tinha pacto com o diabo. + +Almas plebeias! não sabem o que é a fidalguia do talento, que tem +alcaçar nos astros, e nos antros lobregos da terra; não entendem este +fadario do «genio», que elles chamam «excentricidade», como se não +houvesse um nome portuguez que dar a isto. + +O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar de um caustico? +Excruciaram-no, alguma vez, os flagellos da inspiração corrosiva, como +duas onças de _sublimado_? + +Se não sabe o que isto é, estude pharmacia, abra um expositor de chimica +mineral, e verá. + +Não cuidem que podem ler um romance, logo que soletram. Precisam-se mais +conhecimentos para o ler que para o escrever. Ao auctor basta-lhe a +inspiração, que é uma cousa que dispensa tudo, até o siso e a +grammatica. O leitor, esse precisa mais alguma cousa: intelligencia;--e, +se não bastar esta, valha-se da resignação. + +Ora, está dito tudo. + +Leiam isto, que é verdadeiro como o «Agiologio» de Ribadaneira, como as +«Peregrinações» de Fernão Mendes, como todos os livros legados de +geração a geração com o sinete da crença universal. + + + + +A ALGUNS DOS QUE LEREM + + +Não será uma acção meritoria amoldurar em fórmas verosimeis a virtude, +que os pessimistas acoimam de impraticavel n'este mundo? Hão de só crer +nas façanhas do crime, nas hyperboles da maldade humana, e negar as +perfeições do espirito, descrêr o que ultrapassa as balisas de uma certa +virtude convencional, que não custa dores a quem a usa? + +Se os espanta as excellencias da mulher que vou debuxar, antes de m'as +impugnarem, afiram-se pela natureza, interroguem-se, concentrem-se no +arcano immaculado da sua consciencia. Se me rejeitam a verdade de +Ludovina, se me dizem que a este inferno do mundo não podia baixar tal +anjo, sabem o que é esse descrer? é apoucamento de alma para idear o +bello; é o regelo do coração que rebate as imagens ainda aquecidas do +halito puro da divindade. + +Se a mulher assim fosse impossivel, o romancista que a inventou, seria +mais que Deus. + + + + +CAPITULO AVULSO + +PARA SER COLLOCADO ONDE O LEITOR QUIZER + + +Francisco Nunes... + +Que nome tão peco e charro! _Francisco Nunes!_ + +Pois se o homem chamava-se assim!? + +Deus sabe que tristezas eram as d'elle por causa deste _Nunes_. O rapaz +tinha talento de mais para escrever folhetins lyricos, e outras cousas. +Pois nunca escreveu por que não queria assignar-se _Nunes_. + +Ha appellidos que parecem os epitaphios dos talentos. + +Um escriptor _Nunes_ morre ao nascer. + +Bem o sabia elle. + +Houve em Portugal um escriptor chamado _Antonio José_. Se a inquisição o +não queima, ninguem se lembrava hoje d'elle. + +Francisco Nunes só poderia viver na memoria da posteridade, se S. +Domingos fizesse o milagre de reaccender as fogueiras nos subterraneos +do theatro de D. Maria. + +Outros lá soffrem tractos agora, mas é em cima, no palco... Se, ao +menos, Francisco Nunes escrevesse uma comedia... + +Não escrevia nada; mas falava muito, e, quasi sempre, sósinho, em casa, +e na rua. Não incommodava ninguem; era um anjo; tinha só a perversidade +de chamar-se _Francisco Nunes_. + +Elle ahi vae, faz agora tres annos, por uma rua do Porto, vizinha da de +Cedofeita, falando só, e falando, ao que parece, enraivecido. Ninguem o +escuta, se não eu, porque lhe vou na alheta, com subtis sapatos de +borracha. + +Esta rua, por um lado, tem raros edificios; pelo outro é marginada por +um comprido muro de quintaes que pertencem ás casas da rua parallela. + +Nunes, de tempo a tempo, sustem o monologo para puxar com sorvos +sibilantes o vapor de um charuto. Depois, faz um tregeito iracundo, com +o pé com sanha, e prorompe na imprecação interrompida, do seguinte theor: + +«Arado pelo fogo do inferno seja o torrão maldito onde nasceu a folha +d'este charuto! + +«A chuva candente de Sodoma e Gomorrha tisne a folha do tojo e do +carrasco que nascer no terreno que te produziu! + +«Frieiras, gotta, paralysia, e morte tolham os dedos que te colheram! + +«O sol, que te seccou, morra nos olhos de quem te trouxe aqui! + +«As mãos que te enrolaram, charuto infame, sequem-se e mirrem-se +como as das mumias de Memphis. + +«E para vós, contractadores, caixas, comarqueiros, e estanqueiros do +contracto do tabaco, para vós o inferno illimitado, a região tenebrosa +dos condemnados, onde ha o ranger dos dentes, e o sempiterno horror! + +«Para vós, Borgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para +vós, envenenadores impunes, o patibulo n'este mundo, d'onde fugiu +espavorida a vergonha e a justiça; e as caudaes de sulphur em combustão +eterna nas furnas tartareas, onde é de fé que dá urros medonhos um +condemnado chamado _Nicot_, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a +impudencia de o trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de +França.[1] + +«Porque os vossos charutos, propinadores de venenos, ennegrecem as +substancias organicas, como o acido sulphurico. + +«São amargos e causticos como o acido nitrico. + +«Calcinam os beiços como o acido hydrochlorico. + +«Queimam a laringe como o acido phosphorico. + +«Laceram o esophago como o acetato de chumbo. + +«Fulminam e despedaçam como o acido hydrocianico.» + +Em quanto elle repuxava o vapor do incombustivel rôlo de erva-santa (que +blasfemia! _santa!_) façamos tremendas reflexões: + +Um «manual de chimica para uso dos leitores de romances» é instantemente +reclamado. Sente-se na litteratura este vazio desde que a novella é um +extendal da sciencia humana; e esta póde, sem immodestia, graduar-se assim. + +Quando se escreviam bacamartes para as gerações soffredoras, que os +lêram, o sabio repunha ahi em azedo vomito as indigestas massas, que +ainda agora resistem ao dente roaz da carcoma e da ratazana, nos lotes +esboroados das bibliothecas. + +O in-folio era uma crença, uma religião, uma faculdade d'aquellas gordas +almas, que resumavam pingue chorume por tres mil paginas em typo-breviario. + +Não vos faz melancolia vêr a lombada d'esses enormes volumes aprumados +n'uma estante? Não ha n'aquelle aspeito triste alguma cousa que vos faz +crer que o in-folio chora pelo frade? + +Agora não se escreve d'aquillo, posto que o saber humano seja mais +vasto, e opulentado com as vigilias de dois seculos laboriosos. Reina o +romancista, que é o successor do frade, na ordem das intelligencias +productivas. + +Ora, o romancista ha-de, por força de sua natureza scientifica, despejar +no romance a sciencia que lhe traz intumecido o estomago intellectual; e +o romance, assim, deixará de ser lido, se o conselho superior de +instrucção publica não organisar os estudos de modo que as sciencias +transcendentes, em consorcio com as da natureza physica, desbravem o +espirito-charneca de muito leitor sandio, que não póde entender a +iracundia chimica de Francisco Nunes. + +O qual continuou assim: + +«Ha cinco seculos que a raça proscripta de Israel soffreu em Pariz uma +perseguição sanguinolenta. Morreram milhares de judeus entre labaredas, +porque a calumnia, infamando a religião do Messias, disse que o povo +judaico tentára envenenar as fontes e poços de França. + +«E vós, judeus christianisados, caixas do tabaco, derramaes o veneno á +luz do meio dia, abris as vossas tendas, vendeis pelo preço de vossas +carroagens a droga homicida; mataes a mocidade de uma nação, que asfixia +ás mãos dos velhos: a vós, que alimentaes o vicio alheio com o crime +proprio, quem vos obriga a fumar um charuto de vintem? + +«Portugal, tu queimavas os judeus industriosos, a quem deveste os +melhores livros de sciencia, as obras primas da arte, os dinheiros +extorquidos á pobre raça, que tão caros pagou os trinta dinheiros que +Judas não comeu! Queimavas o povo inoffensivo, nação de cafres, e dás +refrescos, e condecorações, e honrarias, e montes de ouro aos +envenenadores publicos, aos sicarios de charuto, que te desentranham a +alma n'um rôlo de fumo negro. + +«Que é dos vestígios da civilisação christã? Que é da egide que protege +o fraco dos affrontamentos do forte? Em que lapide está escripta a lei +que assegura a vida do homem? + +«A Roma pagã era o sanctuario da justiça. Ahi os propinadores de venenos +eram clandestinos. A mão cruenta do verdugo ia arranca'-los ao segredo +das suas fornalhas, e mandava-os de presente ao diabo. «Lucius Cornelius +Sylla, a tua lei de supplicio para os empeçonhadores vale só de per si +uma legislatura d'esta horda de togados rotos, que nos espremem da +algibeira 1$960 réis diarios, por cabeça. + +«Aqui, ha o morrer sem recurso de revista, o expirar em vomitos negros, +o tossir rispido da bronchyte, as asthmas offegantes, o ronco profundo +da pieira laringea, os deliquios da cabeça atordoada, a podridão dos +dentes, as fendas carboniformes dos beiços, os abcessos pulmonares, as +hemorrhagias de sangue apostemado:--ha tudo isto, debaixo d'este céo +impassivel, na presença do codigo criminal, n'um paiz, onde trabalha a +electricidade por arames, onde se comem _omelettes sucrées_ e +_soufflées_, e d'onde se mandam rapazes para o extrangeiro estudar +BENEFICENCIA «Mentira! Mentira e escarneo! + +«Se quereis beneficiar este paiz, não mandeis lá fóra, oh parvos +governadores da Barataria, não mandeis lá fóra estudar o processo do +bem-fazer. + +«Vêde-me este moço, que apenas tem vinte e dois annos, e já precoces +sulcos da doença lhe enrugam a fronte. A cutis macilenta, onde deviam +vicejar as rosas da adolescencia, adhere aos ossos desmedulados e +cariados; uma tosse violenta lhe reteza os musculos do pescoço, +expedindo das glandulas salivares um pus granuloso, pardo, e +alcalino. As faculdades intellectuaes estão entorpecidas n'esse mancebo. +Estimulando-se com cognac e absynto, esta especie de cretino, +bestificado por uma enfermidade incuravel, apenas consegue dizer tres +tolices ácerca de Donizetti, sentado n'um mocho de botiquim, encostando +o corpo enervado á banca dos licores incitantes. + +«Sabeis quem reduziu esse vegetal a tão quebrantado estiolamento? + +«Foi o charuto! + +«O contracto do tabaco empeçonhára a seiva d'esse moço, que os fados, +menos poderosos que os caixas, talvez tivessem destinado para exercer o +magisterio do folhetim, maximo esforço de intelligencia, n'uma época, e +n'um paiz, cujo amor ás letras não vale a correspondencia de uma local +bem poetica como a do baile do sr. fulano. + +«Voltae para esse corpo achacadiço e apodrentado o vosso animo +beneficente, Sanchos-Panças lerdos, pantalões administrativos! + +«Chamae a juizo os vampiros que sugaram o soro d'esse sangue aguado que +o faz tolhiço para tudo. + +«Fazei a autopsia de um charuto como este--proseguia Francisco Nunes, +parando e contemplando as nervuras negras do rôlo de folha, que +semelhava uma rolha de cortiça queimada--e vereis que ha aqui dentro um +talo de couve lombarda, uma carocha secca, uma folha de leituga, uma +casca de bolota, e tres grãositos excrementicios de rato ou coelho. + +«Horrivel, e sujamente infernal! + +«Senhores deputados! não se mata assim impunemente um povo![2] + +«As nações tyrannisadas, quando a oppressão requinta, erguem-se como um +só homem, e fogem para o Aventino. + +«Os envenenadores congregaram-se em conciliabulo de abutres, e crearam o +charuto de vintem, a pitada do meio grosso, e o cigarro onde cresce o +musgo como em parede velha. Cadafalso para os envenenadores! + +«O conselho de saude, bandeado n'este tripudio de canibaes, forma o +cortejo scientifico das parcas que nos arrebanham para a região dos +suicidas. Morte ao conselho! + +«Não ha typhos, nem cholera, nem febre amarella, senhores deputados! Ha +charutos, ha o meio-grosso, e o cigarro. A epidemia não está nos canos, +senhores; está n'estes canudos, por onde os contractadores cospem +affronta e morte na face do povo! + +«Que elles sejam malditos setenta vezes sete vezes, como se dizia no +Oriente! + +«Na hora do trespasse, a alma d'elles, tisnada pelo remorso, será negra +como este charuto, d'onde eu sorvi um pus que me requeima os bofes... +Vae-te, infame!» + +E, assim rugindo, n'uma como inprecação do moribundo atormentado, +arremessou o charuto por cima do muro para o quintal. + + [1] É para espantar a memoria de Francisco Nunes, em crise de + tamanha angustia! Aquella nesga de historia destoava da virulencia + da apostrophe; mas foi dita com sanhudo entono. + + [2] É ordinario este estylo; aqui não ha unidade; o impeto afrouxa, + e descáe na vulgaridade tacanha do artigo de fundo. É defeito de + todos os nossos oradores de inspiração: remontam-se; a gente está a + ve'-los luctar com as aguias; e, quando mal se precata, vê-os cahir, + a disputarem a presa do escaravelho que se rola no chão. Francisco + Nunes tem lastimaveis desegualdades n'esta apostrophe. + + + + +I + + +--Ludovina, já pensaste a resposta que has-de dar a teu pae? + +Pergunta que faz a sua filha uma senhora de nobre presença, quarenta +annos, ainda frescal, chamada Angelica, e casada com o sr. Melchior +Pimenta, empregado na alfandega do Porto. + +Ludovina respondeu: + +«Como hei-de eu responder, se ainda não vi o homem? + +--É um homem como os outros;--replicou D. Angelica--são todos o mesmo, +menina. Teu pae sabe o que faz. Um homem é quem melhor conhece outro +homem. Se elle te disse que achou um bom marido, não póde enganar-se. + +«Ora essa, mãe! E se eu antipathisar com elle? + +--Deves casar, como se sympathisasses. + +«Bravo!... e depois? + +--E depois, virá a sympathia. Imaginas lá com que repugnancia eu casei? +Casaram-me, deixei-me levar porque era uma creança, vivia na aldeia, e +sonhava com os vestidos e os bailes, e os theatros do Porto. Depois, teu +pae... teu pae adorava-me, dava-me mais do que eu ambicionava, e sem +saber como, nem porque, contentei-me tanto com a minha sorte, que não +invejava a de ninguem. Tinha vaidade em ser bonita, vestir com gosto, e +chegar onde as mais ricas não podiam chegar. Via homens elegantes, +reconhecia a differença que os fazia superiores a teu pae, e, comtudo, +nunca me passou pela cabeça a loucura, a ingratidão, o crime da +infidelidade.[3] Posso dizer que principiei a amar meu marido, quando as +outras mulheres se enfastiam. Aqui tens o que nunca te disse. Não ha +homem nenhum que seja indigno da estima de uma mulher. + +«Mas a mãe sabe que eu... amo outro homem. + +--Eu não sei se amas outro homem... Sei que namoras outro homem, e entre +namorar e amar está o reflectir, menina. Esse rapaz que te manda +romances e cartas entre as paginas... (não te inquietes, que sei tudo, e +tudo pouco vale...) esse rapaz quem é? Um filho-familia, sem posição, +sem modo de vida, que te ama, que será teu marido, se tu quizeres; que +viverá das tuas sopas, se as tiveres para ti, que se envergonhará da sua +dependencia, quando o amor obedecer á razão; que se enfastiará dos teus +carinhos, se quizeres prende'-lo com elles a ti, ou ao berço de teu +filho. Se quizesses exemplos, dava'-tos. Tens ouvido censurar duas +ou tres amigas, que tens, casadas com homens ricos de cabellos brancos? + +«Ainda hontem li um folhetim contra as mulheres que se deixam seduzir +pela «fortuna» de estupidas creaturas... + +--Lêste? De quem era o folhetim? Se o auctor fôr rico, e tiver quarenta +annos, o auctor é insuspeito, e, n'esse caso, digo-te que sujeites o teu +destino á determinação do folhetim. Escreve uma carta ao auctor, e +conta-lhe que és uma menina pobre, virtuosa, com excellentes joias de +espirito. Offerece-lhe o teu coração, e promette que has-de levar-lhe a +felicidade com a pobreza. Se elle te vier buscar, peso-te a ouro ao +santo que fizer o milagre. Ora, se o folhetinista é um talento raro, um +elegante de grande bigode e luneta, mas pobre, faz-lhe o mesmo +offerecimento, prevenindo-o de que és tão pobre como elle. Se o +folhetinista te vier pedir, é um dia de festa n'esta casa... + +Aprende, creança. Os rapazes pobres, se vivem na boa sociedade, criam +ahi ambições, que uma menina sem riqueza não satisfaz. Pois não os +conheces tu, Ludovina? Não os vês no baile e no theatro namorando um +dote como quem namora uma mulher? Não és tu a mesma que censuras a +indignidade de certos homens, que recebem resignados todas as repulsas, +e teimam sempre em esquadrinhar um dote, como se fizessem voto de +casarem ricos, ainda á custa de vergonhas? Vê lá se entre os +folhetinistas aspirantes ao casamento de especulação se te depara o +nome que hontem lêste... Talvez ainda não reparasses em outra injustiça +que se faz ás mulheres pobres, se a fortuna lhes dá maridos ricos. Não +ha por ahi rapazes com grandes patrimonios? Recebem elles, por ventura, +em casamento meninas virtuosas e pobres? Não. Procuram-nas ricas, e +fiscalisam menos a vida honesta da noiva, que o numero de acções do +banco, ou o valor da propriedade paterna. Os moralistas de gazeta que +dizem d'isto? Sacrificam, talvez, a sua indignação ao amor do sexo: não +dizem nada, e rebentam por outro lado em imprecações contra a mulher, +que os elegantes ricos rejeitam, e os ricos sem elegancia procuram. + +Olha, filha, se te não fosse penosa a experiencia, deixava-te casar por +paixão, como se diz, com o primeiro moço pobre que te encantasse. +Depois, quando saísses a passeio com teu marido, levarias um vestidinho +de chita, por não poderes levar um de _glacé_. Os taes censores de +folhetim ver-te-iam mal trajada, e diriam, no auge da sua pena: «pobre +rapariga, fez um casamento infeliz!» Ao teu lado passaria uma das tuas +amigas, ricamente vestida, pelo braço de um velho com quem a casaram as +conveniencias. Os mesmos censores diriam: «Que mal empregada mulher em +semelhante alarve!» Já vês que o estimulo da compaixão, que fizeste, era +o teu vestido de chita; e o estimulo de inveja, que fez a tua amiga, era +o vestido de seda. + +«Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu +coração? + +--Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a mulher +que tem amigas com vestidos de seda. Hoje reina a opinião publica, +Ludovina, não é a consciencia de cada um. O agente principal do espirito +de uma mulher é a modista. Se ha casadas que envelhecem disputando ás +netas a melhor eleição de um talhe de vestido, que farão as solteiras? + +Basta de razões insignificantes, que devem humilhar a tua razão, +Ludovina. Eu nunca embaracei esse ligeiro conhecimento que tens com o +Ricardo de Sá, por saber que nunca seriam tardias as reflexões que te +faço agora. Não pódes casar com esse homem sem desgostar teus paes, e +grangear para ti o infortunio, e para elle o arrependimento. Se +soubesses o que deve ser o arrependimento entre casados, a maior prova +de amor que podias dar a esse rapaz, seria esquece'-lo. Tu sabes que +vivemos do ordenado de teu pae: temos podido manter a decencia e o luxo +até dos teus caprichos de formosa; porém, nada mais podemos. Se tivesses +um grande dote, a primeira a diligenciar o teu casamento com Ricardo de +Sá, seria eu. Assim, reprovo-o, opponho-me, e serei eu a encarregada de +dizer a esse cavalheiro que a tua vontade não é livre, ou que a tua +escolha foi outra. + +«Não diga tal, mamã. Se casar com o homem que me destinam, a escolha não +é minha. Deixem-me, ao menos, este desforço... Fique a responsabilidade +da acção a quem me obriga. + +--Pois teus paes acceitam a responsabilidade, Ludovina. + +O dialogo rematára assim, quando se fez annunciar Ricardo de Sá. + +D. Ludovina, com os olhos humedecidos, e desconcertado o semblante, +disse á mãe que não podia ir á sala, e recolheu-se ao seu quarto. Foi D. +Angelica receber a visita. + +Ricardo esperava-a na sala, correndo o teclado do piano, com a +sem-cerimonia de um visitante habitual. Apertou-lhe a mão, beijando-a ao +estylo da França, cousa que elle vira fazer a quatro ou cinco viajantes +distinctos do Porto, que tinham conhecido, em Pariz, a «mesa-redonda» +dos hoteis onde estiveram. Ahi vão á pressa dois traços d'este Ricardo +de Sá. É um bacharel formado em direito, filho de outro bacharel que faz +requerimentos, em quanto o filho, reservado para a magistratura, destino +em que se dispensa vocação, faz cartas de namoro com letra ingleza, e +timbra em comprar no _Moré_ os mais anilados _enveloppes_, e o melhor +papel-setim de fimbria dourada. + +Lê, e empresta os romances aos namoros; commenta-os na margem das +paginas, e addiciona-lhes appendices manuscriptos de lavra sua, quando a +catastrophe merece ser corrigida. + +Além d'isto, o bacharel tem tres bengalinhas, que reveza, todas muito +bonitas, com os punhos de massa de marfim, formando uma o grupo das +graças, outra o das musas, e a mais embrincada é uma Suzana a saír do +banho, espreitada pelo olho lascivo dos arreitados juizes de Israel. +Ricardo de Sá consome as manhãs, que principiam para elle ás onze +horas, dividindo os cabellos em delgados fasciculos, e lustrando cada um +d'elles com um cylindro de cera. Aguça, quanto possivel, as guias do +bigode, encerando-as, e enverniza a pera com um oleo contido no decimo +nono frasco da terceira serie. Depois, o laço da gravata, e a collocação +symetrica do pseudo camapheu é obra de fôlego que lhe dá tempo de +assobiar dois actos do _Trovador_, a aria valida do _Rigoletto_, e o +acto final da _Lucia_. De seguida, a compostura airosa das lapellas do +fraque, a ultima demão de escova, e o aprumo do chapéo onde não ha um +fio erriçado, tolhem muitas vezes a saída do peralta, que se encontra +com a terrina da sopa do jantar. + +O bacharel nutre-se de ar puro, e d'alguns escropulos de carne de boi. O +pae, homem roliço e respeitador das immunidades do estomago, suppõe que +seu filho desbarata a pequena mezada nas casas de pasto, e não se +assusta da inappetencia. + +Ricardo crê que o seu estomago destacou tecidos para o coração, +reservando para o funccionalismo alimenticio um estomago-miniatura, o +_quantum satis_ das compleições sylphidicas. Convicto da excrecencia +espiritual, crê-se dotado de fluidos nêrveos, magnetismo, electricidade, +etherisação. Julga-se em fim anestesico, espasmodico, dynamico, em fim +tudo o mais que não se entende. + +Não ama as mulheres, pranteia-as como victimas do seu poder fascinante. +Algumas vezes, tem a piedade de as não encarar para as não abysmar. +Outras, exerce a crueza da experiencia, fitando-as com o olho +carregado de electricidade, fala-lhes com um timbre magnetico que +elle sabe, e, não ha que vêr, o somnambulismo é prompto, a attracção é +irresistivel como a da cobra-cascavel do Canadá apoz o tangedor da flauta. + +Crê tudo isto o bacharel, e ha velhacos que lh'o ouvem com a sisudeza da +crença, e lhe não receitam um curativo de causticos. + +D. Ludovina Pimenta é uma das suas somnambulas, e a menos victima de +todas. Ricardo distingue-a, impondo-se a obrigação cavalheirosa de +corresponder-lhe quanto em si cabe para que a infeliz desilludida não +tente contra a existencia. Vae ve-la todos os dias, conversa litteratura +com a mãe, toma uma chavena de chá sem assucar, e despede-se ás onze +horas, dizendo que vae esperar no seu quarto a hora da inspiração +matinal para continuar a sua obra intitulada: O SECULO PERANTE A SCIENCIA. + +É o que podemos esquadrinhar ácerca do bacharel Ricardo de Sá. + +Os homens assim não se pintam; a zombaria não os enxerga na profundeza +da sua toleima... são o Rubicon do folhetim, a desesperação da comedia +desde Aristophanes até Molière. + +O original anda por ahi. Tenho-lhe assestado tres vezes a machina +photographica, de rosto; sahiu-me sempre aquillo. + + [3] Perdoem-lhe a mentira pela intenção boa com que a diz... + + + + +II + + +«Ludovina fica hoje no quarto--disse D. Angelica, respondendo á pergunta +admirada do bacharel. + +--Doente? + +--Sim, passageiramente doente; mas é tão debil a pequena, tão melindrosa... + +--É um corpo que não póde com o espirito... Eu comprehendo o que são +esses desfallecimentos d'alma. A filha de v. ex.ª tem uma organisação +muito semelhante á minha. As minhas enfermidades são sempre quebrantos, +estherismos, lethargia, procedentes das fadigas intellectuaes, ou dos +anceios do coração. Compleições infelizes, não acha, minha senhora? + +--Oh! infelicissimas, de certo... + +--Se, todavia, v. ex.ª tivesse a bondade de dizer a sua filha que +fizesse um esforço para me vir contar os seus padecimentos, talvez que +uma medicina toda espiritual... + +--A curasse?... talvez... + +--Sorriso de incredulidade, não é assim? V. ex.ª é sobejamente +espirituosa para desconhecer a influencia que exerce uma alma sobre +outra, quando as correntes magneticas... + +--Não lhe dá treguas a sua paixão magnetica, sr. Sá!... A Ludovinasinha +queixa-se de enxaqueca... Eu voto, d'esta vez, por medicamentos +caseiros... Talvez que uns sinapismos...--proseguiu ella, rindo, sem +ferir o orgão maniaco do bacharel--dispensem uma descarga electrica. + +--V. ex.ª não quiz entender-me, ou eu tenho sido confuso na exposição +das minhas convicções. + +--É clarissimo sempre, sr. Sá; mas desconfio da inefficacia da sua +vontade sobre a enxaqueca de Ludovina. E depois, convém-nos que ella +esteja doente por um quarto de hora. Vamos falar a respeito d'ella. + +--Tenho razões para suspeitar que minha filha não é indifferente a v. s.ª. + +--De certo, não. + +--Póde dizer-me até que ponto me devo lisonjear com a affeição que +Ludovina lhe merece? + +--Voto á sr.ª D. Ludovina um sentimento profundamente respeitoso... + +--Só? + +--Uma affeição nobre e desinteressada... + +--Amor? + +--De certo... amor... reflectido, e bem intencionado... + +--Uma paixão verdadeira, não é verdade? + +--Quanto em mim cabe, minha senhora... quanto é possivel +apaixonar-se um homem de vinte e oito annos, apalpado já pelas +desillusões, e esterilisado tanto ou quanto pelos ventos contrarios dos +revezes da alma... + +D. Angelica fez um geito de quem ouvia chamar; ergueu-se com a mais +destra simulação, dizendo: + +--Minha filha tocou a campainha... As creadas não a ouvem de certo, eu +volto já... + +Ricardo de Sá fez mentalmente o seguinte monologo: + +--D. Angelica vae propôr-me o casamento da filha. Eis-me entalado n'uma +crise imprevista! Está explicado o enygma da carta que Ludovina me +escreveu hoje. Receia que eu me esquive á proposta; e tem razão. Eu não +caso. Esta mulher está abaixo dos meus calculos. Lisonjeia um amante, +mas não póde satisfazer as complicadas necessidades de um marido... É +horrorosa a minha posição!... Sei que faço uma victima... de certo a +mato... Estudemos uma evasiva, não obstante... + +O monologo continuava, quando Ludovina, conduzida machinalmente por sua +mãe, se collocava atraz de uma vidraça da alcova immediata á sala. + +D. Angelica era um assombro de esperteza. A leitora já admirou a +eloquencia persuasiva com que ella abalou o coração da filha; já disse, +de si para si, que, com tal mãe, não ha filha que rejeite o casamento de +um brasileiro rico; já leu as paginas que ahi ficam á mãesinha para que +ella saiba os argumentos com que se vence a desobediencia das filhas, em +casos identicos. Pois, se gostou e admirou as palavras de D. Angelica, +ha de tambem admirar-lhe as obras. + +D. Angelica viu o mais secreto do animo do bacharel; previu o +desenvolvimento da conversação, e quiz dar á filha o mais rude, mas +tambem o mais proveitoso desengano. + +--Nada era... ou era muito... Queria saber como v. s.ª estava--disse a +matreira esposa do sr. Pimenta. + +--E ella como está agora? + +--Soffre bastante... Falei-lhe no seu magnetismo, e a tolinha córou... +Era talvez o clarão da descarga electrica, seria? + +--V. ex.ª sempre «fazendo espirito» com os axiomas da sciencia... Ha de +convencer-se... A experiencia lhe apontará as evidencias... + +--A mim? ora essa! Terá v. s.ª a infausta idéa de me magnetisar? +Adormecer-me... isso é facil; bastam os livros que tratam da sciencia, +não é precisa a acção... Não «faço mais espirito» como v. s.ª diz... +Vamos á nossa pratica interrompida que é muito séria: + +Disse o sr. Sá que minha filha lhe merecia um sentimento profundamente +respeitador, uma affeição nobre e desinteressada, um amor reflectido e +bem intencionado, e finalmente uma paixão, que não era bem uma paixão, +por quanto desillusões, revezes, _et coetera_, lhe haviam... não me +recordo... + +--Esterilisado a alma... + +--Foi isso... Em toda a sua resposta só ha de desagradavel essa +esterilidade de alma; todavia, eu creio que tão boa alma ha de sempre +florescer e fructificar, quando a cultura fôr confiada a uma mulher de +bom coração, meiga, docil, maviosa, em fim, a uma que não inveje as +boas qualidades de minha filha. + +--De certo... assim o penso, minha senhora--balbuciou o bacharel, +forçado pelo silencio interrogador de D. Angelica. + +--Minha filha ama-o, sr. Sá. Ama-o delirantemente, perdidamente, quer +ser sua ou da sepultura, não acceita admoestações nem esperanças +tardias, quer unir-se ao esposo da sua alma, mas já, já, senão... diz +que, mais tarde, será victima da sua paixão. Sabia v. s.ª que era +tamanho o seu dominio n'aquella innocente alma? + +--Sabia... desgraçadamente sabia. + +--_Desgraçadamente!_... essa palavra faz tristeza! Pois nem sequer o +orgulho de ser assim amado o alegra? + +--Sim, minha senhora--tartamudeou o bacharel, afagando as guias do +bigode--tenho orgulho de ser assim amado... _Desgraçadamente_ disse eu, +porque me doem os soffrimentos da sr.ª D. Ludovina... + +--Estando na sua vontade o mais facil e desejado remedio d'elles? é +singular! + +--Ainda assim... ha situações na vida... + +--Sei o que quer dizer--atalhou a zombeteira senhora--ha situações em +que quizeramos immediatamente felicitar as pessoas que soffrem por nossa +causa. Isso é assim... Pois bem. Tratemos definitivamente da felicidade +da nossa Ludovina. Minha filha, como v. s.ª sabe, não tem dote. É pobre, +supposto que o fausto com que vive queira desmentir esta triste verdade. +Em riquezas de espirito é millionaria. Nas do coração, sabemos nós o +que ella é. A «fortuna» porém, é muitas vezes a inimiga da verdadeira +felicidade, não é assim? + +--De certo, minha senhora... + +--V. s.ª tem uma habilitação, tem uma vasta intelligencia, sobram-lhe +expedientes para grangear o sufficiente para duas almas venturosas; +agouro a ambos uma felicidade duradoura. Entrego-lhe minha filha, na +certeza de que nunca me será turvado o prazer d'este instante de +expansão maternal pelo arrependimento da minha leviandade. Dê-me um +abraço, que já começo a consideral'-o meu filho. + +--Minha senhora--disse o enfiado bacharel, extendendo a mão a D. +Angelica--eu estou cordealmente penhorado pela confiança que mereço a v. +ex.ª. Cumpre, porém, reflectir n'um passo tão momentoso. Eu amo em +extremo a sr.ª D. Ludovina, toda a minha ambição é identifica'-la ao meu +destino sobre a terra, mas, minha senhora, eu não posso dispôr da parte +de obediencia que devo a meu velho e respeitavel pae, sem consulta'-lo, +porque dependo d'elle, em quanto não entrar na carreira da magistratura, +e o cabedal dos meus estudos não me abona tanto quanto v. ex.ª imagina +que póde proporcionar-me a intelligencia. + +--Pensa mui judiciosamente--redarguiu D. Angelica formando com a +prolongação dos beiços, e o abrimento dos olhos, um tregeito de mui +sisuda approvação--e qual conjectura v. s.ª que seja a resposta de seu pae? + +--Não sei, minha prezada senhora... + +--Se fôr negativa? + +--Se fôr negativa... + +--Obedece? + +--Como filho dependente; mas os dias da minha existencia serão poucos, e +attribulados... + +--Mas isso é horrivel, sr. Sá! Minha pobre filha succumbe... V. s.ª mata +a mulher que mais o amou, a unica n'este mundo que o compreendeu, um +anjo que não viu outro homem digno d'ella... Que diz a uma mãe +consternada, sr. Sá? + +--Minha senhora... a nossa posição é desgraçadissima. + +«Remedeie-a, que póde. Se seu pae o não acceitar casado, tem a casa de +sua mulher, onde será recebido como filho... Oh! que insensibilidade! o +senhor não ama Ludovina! + +--Se a não amo! Isso mata-me, snr.ª D. Angelica! + +«V. s.ª é que mata uma santa, uma martyr... + +--Segui'-la-hei na morte... + +«Pois o melhor é viverem ambos!--disse D. Angelica, desafivelando a +mascara da amargura, e abrindo o riso mais galhofeiro e fulminante que +imaginardes, leitores phantasiosos--V. sr.ª tem sido logrado +desapiedadamente, snr. Ricardo de Sá. Peço-lhe que viva muito tempo, +porque uma pessoa como v. s.ª não deve morrer, em quanto a tristeza, que +foge ao riso, andar por este mundo. Snr. Sá, é preciso dizer-lhe que +minha filha ouviu esta nossa scena comica, e acredite que o magnetismo +não operou a approximação. Eu comecei a falar-lhe em minha filha +para pedir ao seu cavalheirismo que não a inquietasse, porque vae +esposar um homem que seu pae lhe escolheu. V. s.ª alumiou-me o +entendimento, deu-me um alegrão inapreciavel; e voltou as minhas idéas +para o lado opposto. Fui buscar minha filha, para assistir ao +espectaculo do coração de v. s.ª, e dei-lhe um bello espectaculo. Snr. +Sá, a sua posição é desagradavel, e faz-me pena, por não dizer tedio. Um +homem como v. s.ª nunca devera erguer os olhos para uma menina honesta. + +D. Angelica retirou-se da sala, soberba como uma rainha na descida do +throno. + +O auctor possivel do SECULO PERANTE A SCIENCIA, emergindo do estupor +momentaneo, procurou a bengalinha de Suzana a saír do banho, e caminhava +atordoado para a porta, quando entravam Melchior Pimenta, e um sujeito +desconhecido ao bacharel. + +--Ólá, por cá, snr. Sá? + +«É verdade, snr. Pimenta. + +--Ninguem lhe falou?! estava sósinho?! + +«Saiu da sala, n'este instante, a snr.ª D. Angelica. + +--E Ludovina? + +«Está de cama, creio eu. + +--De cama!? ella ficou boa quando eu saí... Alguma dôr de cabeça... + +«Creio que sim... Dá-me as suas ordens, snr. Pimenta? + +--Saude, meu amigo, appareça á noite, que lhe quero dar o +conhecimento d'este meu amigo, que será provavelmente o marido de minha +filha... + +«Sim?... estimo muito conhecer... Ás suas ordens, meus senhores. + +Saíu; e o snr. João José Dias (que é o tal), franzindo a testa, disse ao +pae da esposa promettida: + +--Que diabo de cousa é isto? Cuidei que me picava o bom do homem com os +galhos do bigode! Eu corto as orelhas ambas e duas, se aquillo não fôr +um patarata! + +«É um pobre diabo que lê novellas, e não é mau rapaz--respondeu o snr. +Melchior, limpando o suor da testa. + +--Novellas!... hum!--este _hum_ do snr. João José Dias é uma cousa +semelhante a um grunhido roufenho; aquelle _hum_ é a these de uma +dissertação que elle, em tempo opportuno, ha de fazer contra a leitura +immoral dos romances--A sua filha lê novellas, snr. Melchior?--continuou +elle pondo os olhos de esguelha, como molosso desconfiado. + +«Entretem-se com a mãe, ás vezes, n'essa leitura; mas lê sómente as que +a mãe já tem lido. + +--Pois não faz bem. As novellas são a perdição das mulheres. Lá no Rio +está aquillo mal de religião e virtude desde que pegaram a ler romances +as moças. Em minha casa é sujidade que não entra. Eu já uma vez, para +ver o que era aquillo, puz-me a lêr uma novella, chamada... chamada... +era de um tal... d'um tal _Kocles_, ou _Koques_, e, meu amiguinho, era +maroteira de ferver bicho. + +A snr.ª D. Angelica interrompeu a parlenda acrimoniosa de João José +contra os romances. + +«Aqui t'o apresento--disse Melchior. + +D. Angelica mirou-o de alto a baixo, e fez-lhe uma ligeira cortezia. No +rosto expressivo da sympathica senhora, liam-se estas dolorosas +palavras: _Minha pobre filha, que impressão vaes receber!_ + + + + +III + + +João José Dias devia orçar pelos seus quarenta e cinco annos. Era de +estatura menos que mean, adiposa, sem proeminencias angulares, +essencialmente pansuda, porque João José tinha uma serie descendente de +panças, desde a papeira côr de rosa até ás buchas das canellas ventrudas. + +Nas faldas de uma testa estreita, chata, e rugosa, como um elytro da +concha de um cágado, luziam os olhos pequenos e esverdinhados de João +José. As palpebras tumidas e pillosas como a casca da fava, +enviezavam-se para dentro, formando á raiz das pestanas um rebordo +purpurino. O nariz, sem base nem ossos, nem cartilagens, devia ser a +desesperação de Falopio e de Bichat: rompiam-lhe d'entre os olhos as +ventas já formadas, com a ponta arregaçada e as azas convexas, +dilatando-se até ás alturas dos ossos malares, entupidos nas bochechas +gordurentas. Os beiços eram bicolores; nacarinos no centro, e rôxos para +as extremidades quasi invisiveis sob os refegos relachados dos musculos +limitrophes. João José tinha quatro dentes incisivos de brilhante +esmalte, entalados nos outros quatro, formando de commum accordo as +saliencias irregulares de um pedaço de crystal bruto. Os dentes laniares +ou caninos tinham uma crusta de carie, e algumas luras chumbadas. Os +vinte malares estavam no goso das suas funcções triturantes, com quanto +amarellados de saes terreos, e regorgitamentos do bolo indigesto. + +João José não tinha pescoço: as espaduas ladeavam-lhe os bocios da +garganta, alteando-se ao nivel das orelhas escarlates, com bolbos da +mesma côr, e não sei que excrescencias no lobulo, simulando pingentes de +coral. + +Disse-se que era todo barriga o homem, já que Buffon e Cuvier asseveram +que é homem, feito á imagem e semelhança de... não ousamos escrever a +blasphemia. O que se não sabe é que a barriga lhe marinhava peito acima, +até levar de assalto o campo onde fôra pescoço. + +As pernas de João José eram dois cepos, postos em peanha a uma esphera +armilar. Tão curtas eram ellas, e tão desmesurados os pés, que me não +seria difficultoso convencer-vos de que a natureza, em hora de +travessura, fez da porção de materia, destinada para perna e pé, duas +partes eguaes, juntou-as e o ponto de juncção denominou-o calcanhar. + +As botas de João José tinham incriveis expansões de couro: eram um +oceano de bezerro cortado de ilhas. Os joanetes do pé direito formavam +um archipelago. No remanescente das milhas despovoadas, o pé era raso e +chão como uma lousa de mercieiro. + +Deram-se uns longes para auxiliar a phantasia de quem não conhece o snr. +João José Dias. Para os que o viram, a pintura, vae tacanha e inhabil, +aqui o confesso, envergonhado do meu descredito. + +Vamos á biographia da pessoa, e veremos que boa alma se nichou n'este +hediondo envolucro. + +João foi cachôpo para o Brasil, e estreou-se n'uma loja de molhados, +onde grangeou renome de rapaz videiro e possante. Abraçava uma talha de +azeite de tres almudes, e aguentava com ella do armazem para a loja, sem +impar. Levantava do sobrado para o balcão o peso das tres arrobas com os +dentes. Punha a prumo meia pipa de cachaça, e levava á bôca, sem gemer, +um barril de dois almudes, com o braço testo na aza. Isto constou na rua +dos Pescadores, e, ao terceiro anno, João era alliciado por varios +patrões, que disputavam o lanço. + +Não pertencem á alma estes esclarecimentos, bem o sei; mas a alma de +João José formou-se então. A probidade, a lisura, a honradez do boçal +caixeiro nunca foram desmentidas pela gaveta do patrão. Os convites, +feitos á sua cubiça de melhores ordenados, repelliu-os sempre, dizendo +que nunca deixaria a casa onde comera o primeiro bocado de pão. O +augmento de ordenado vinha sempre espontaneo dos patrões: podendo +inculcar-se com as propostas dos vizinhos, nunca João José se queixou +dos pequenos ganhos. + +Os paes de João eram uns pobres fazendeiros de Celorico de Basto, que se +desfizeram do unico cevado e de uma vitella para pagarem a passagem do +rapaz. João não esqueceu estes sacrificios nem as lagrimas que vira +no rosto da mãe, quando, em Miragaia, lhe deu um quartinho em ouro +embrulhado em seis camadas de papel. + +Os lucros dos tres primeiros annos foram quasi todos enviados a seus +paes, e, d'ahi em diante, metade do ordenado vinha repartido em pequenas +mesadas para os velhos, que lh'os devolviam em roupas brancas. + +João José, morrendo um socio da casa, achou-se herdeiro da terça parte +do negocio. Pudera então retirar-se com haveres sobejos para viver +descançado na patria; mas, para obviar os desarranjos da liquidação, +continuou na sociedade. + +Veiu a Portugal em 1835, comprou no Minho a cerca de um convento, e, +deixando o uso-fructo aos paes para que vivessem regalados, voltou ao +Rio de Janeiro, onde achou fallida a sua casa commercial, e +compromettida a compra que fizera na terra. + +Tinha sido escandalosamente roubado o pobre homem. + +Aconselharam-no que intentasse acção judiciaria contra os socios. +Rejeitou o alvitre, dizendo que Deus os julgaria. Acceitou os enormes +creditos que lhe offereceram, estabeleceu-se, e dentro de doze ou treze +annos pagou as dividas de seus socios, e liquidou cem contos de réis +fortes, entre os quaes, diz elle, e dizem todos os que o conheceram, não +havia cinco réis adquiridos deshonrosamente. + +Chegou a Portugal em 1848. O pae era morto e a mãe octogenaria estava +entrevadinha, pedindo ao Senhor que a não remisse das penas d'este +mundo sem ver seu filho. + +João José Dias assistiu seis annos aos longos paroxismos de sua mãe, +adoçados com as lagrimas da felicidade. Em 1854 finou-se a velha nos +braços do filho, dizendo-lhe que fizesse feliz uma moça pobre, casando +com ella já que Deus lhe déra a riqueza. + +Passado o luto, o capitalista veiu ao Porto, e conheceu casualmente, na +alfandega, Melchior Pimenta, que lhe fez um pequeno serviço na brevidade +de uns despachos. + +Alguns dias depois, encontrou o empregado da alfandega com uma formosa +menina pelo braço, e perguntou-lhe se era sua filha. No dia immediato +foi á praça, e colheu de alguns negociantes informações ácerca da filha +de Melchior. + +Todos á uma lhe disseram que a menina gosava de excellente opinião; mas +tinha só o defeito de querer hombrear em luxo com as filhas dos +negociantes mais abastados. Um dos informadores accrescentou que os +tafetás, as rendas, e as pelliças da filha do empregado da alfandega não +pagavam direitos. + +Esta mordedura dos malevolos não magoou João José Dias. + +Fez-se encontradiço com Melchior, e falou-lhe dos seus teres, e da +tenção que tinha de mudar de estado, até para cumprir uma promessa que +fizera a sua mãe. Disse-lhe Melchior que era acertada a resolução, e +muito facil o realisa'-la. Replicou o brazileiro pedindo que lhe +indicasse alguma menina honesta. Pimenta pediu tempo para pensar, e o +capitalista, com a rude franqueza de uma boa alma, disse que a sua +escolha estava feita. Averiguada a cousa, a escolhida era a filha do sr. +Melchior Pimenta, que não cabia n'um sino. + +--Isto é um modo de falar...--observou João José--Sem que sua filha dê o +sim, nada feito. Eu sei que estou no calçado velho, e não trajo cá á +moda dos janotas, como por ahi dizem. A sua filha é muito nova, e +quererá um rapaz. Fale com ella, diga-lhe a verdade, eu irei lá se o +senhor quizer; se ella quiz, muito bem; se não quiz, ficamos amiguinhos +como d'antes. + +--A minha filha é docil e ajuizada: ha-de querer o que eu quizer. Foi +educada por uma mãe, que teve melhores principios que eu, e faz com que +ella lhe obedeça, tractando-a como irmã. Posso dizer-lhe que minha filha +será sua esposa; mas bom é que o senhor nos dê o prazer de frequentar a +nossa casa, para conhecer o coração da minha Ludovina. + +É este o resumo do grande dialogo que precedeu a apresentação do sr. +João José Dias a D. Angelica. + + * * * * * + +Não querendo eu, nem por sombras, indispôr contra os meus fieis +escriptos o imperio do Brazil, peço ao meu sisudo editor que faça +estampar o seguinte epilogo d'este capitulo: + +João José Dias adquiriu com exemplar probidade os seus bens de fortuna. + +Foi bom filho. + +Levou a honra commercial ao primor de embolsar credores roubados pelos +socios que o roubaram a elle. + +Foi trabalhador, quando precisava acreditar-se pelo trabalho; e foi-o +tambem, na opulencia, como o ultimo dos seus servos. + +Nunca teve escravos, comprados ou alugados: remiu alguns na decrepitude, +e deu-lhes uma cama onde o ultimo instante da vida lhes fosse o primeiro +de bem-estar. + +Que mais virtudes, ou maiores encomios a um bom caracter? Se pintei João +José Dias feio, não é d'elle a culpa, nem minha. João José Dias era +realmente muito feio. + +Do Brasil vem muita gente galante. + +Tenho na pasta um esboço de romances onde figuram quatro brasileiros +bonitos. + +Hão-de ver com que isenção de animo se escreve n'esta provincia das +lettras. + +Acabou-se o epilogo, e preveniu-se uma crise litteraria no Brasil. + + + + +IV + + +--Então a pequena está incommodada?--perguntou Melchior a sua mulher, +que não declinava os olhos do cepo informe do sr. João José Dias. + +--Um pouco incommodada. + +--Vaes dizer-lhe que venha á sala, menina? + +--Irei. + +--Estou boa, papá--disse Ludovina entrando subitamente, e cortejando o +hospede, que ella reconhecera de o ter visto outra vez. + +--Tem a bondade de sentar-se, snr. Dias?--disse Melchior ao acanhado +brasileiro, que mal pudera gaguejar um «creado de vossa senhoria» que +corrigiu bruscamente em «vossa excellencia.»--Minha filha, quando hontem +te disse que a Providencia me deparára para ti um digno marido, era +d'este senhor que te falava. + +--Tenho muito prazer em conhece'-lo--atalhou Ludovina com uma +affabilidade e desembaraço que espantou a mãe, alegrou o pae, e +lisonjeou o noivo. + +--Para satisfazer a uma exigencia d'este cavalheiro--continuou +Melchior--é preciso que tu digas se acceitas livremente a minha +escolha, ou direi melhor a escolha com que te distinguiu o sr. Dias. + +--Acceito muito de minha livre vontade--respondeu com firmeza D. Ludovina. + +--Não lhe restam escrupulos?--tornou Melchior inclinando-se para o +brasileiro. + +--Não, senhor--disse elle--Estou satisfeito; o que eu não queria era que +a menina viesse um dia a arrepender-se... e... + +--Não espero tal desgraça...--interrompeu Ludovina, sem fitar os olhos +no brasileiro. + +--Da minha parte, hei-de fazer o possivel por lhe não dar desgosto, +porque o meu natural é bom, e ninguem, até hoje, se deu mal comigo. + +Ludovina ergueu-se, e pediu licença de retirar-se por um instante. D. +Angelica entendeu-a, e seguiu-a pouco depois. Foi encontra'-la no +quarto, afogada em soluços, curvada sobre o leito. + +--Que é isto, filha? + +--Nada, minha mãe... + +--É muito, Ludovina; que tens? + +--Precisão de desabafar assim. Estas lagrimas não fazem mal a ninguem. É +uma victima que se entrega ao sacrificio, mas deixem-a chorar... Que +vida, que futuro, meu Deus! + +--Ludovina, não chores, e escuta-me. Eu não imaginava que teu pae te +dera a semelhante homem. Tens razão... É repugnante, e horroroso. Não +casarás com elle, menina. + +--Hei-de casar, minha mãe. Mal o vi ainda; não tive ainda tempo de +sentir repugnancia ou horror... Choro como victima, mas não d'elle; é do +outro que me matou. + +--Isso é que é cobardia, Ludovina! Pois não te fez nojo esse miseravel? + +--Fez, fez; mais que nojo... É preciso que elle se não persuada que +minha mãe lhe mentiu, quando lhe disse que a sua intenção era dar-lhe +parte do meu casamento. Devo casar muito depressa, o mais breve que seja +possivel. + +--Casar por vingança?... Isto é um desforço desgraçado... + +--Não caso por vingança, que elle não vale o odio. Caso para salvar a +nossa dignidade, minha mãe. Hei-de simular quanto possa o contentamento +da mais feliz mulher. Não tenho já coração para sentir desgostos. Será +tudo estupidamente alegria na minha vida. Toda a gente dirá que eu +amo... meu marido. As pessoas que souberem do meu namoro com esse +infame, dirão que devia ama'-lo muito pouco a mulher que se deixou casar +com um homem ridiculo. Quero que se diga isto; quero que me assaquem a +calumnia de que eu sou mais uma das mulheres que se venderam á riqueza. +O que nunca ninguem dirá é que eu infamei o homem que me comprou... +nunca, meu Deus!... Pois a mãe está chorando agora, depois de me ter +ensinado a ver o mundo como elle é? Não se arrependa, minha boa mãe. +Deu--me a maior prova de amor fazendo-me escutar o que esse homem +disse... palavras de tanta afflicção como vergonha para mim... Fiquei +bem, estou desopprimida... vê? já não choro. + +D. Angelica abraçou com vehemencia a filha, beijou-a como beijaria a +creancinha de peito, e saíu, enxugando as lagrimas. Entretanto, +conversavam assim, na sala, os snrs. João José Dias e Melchior Pimenta: + +--Gostou dos modos da pequena, snr. Dias? + +--Gostei muito; mas, a falar-lhe a verdade, pareceu-me que ella não +olhava direita para mim! + +--Recato de moça, pejo, e acanhamento, não acha que é muito natural? + +--Isso sim; mas dava aquellas respostas tão... tão... tão desenganadas, +que parecia ter por mim sympathia de mais tempo... + +--Minha filha tem muito juizo, snr. Dias... + +--Não duvido. + +--E então quiz desde logo agradar a seu pae e a seu futuro marido. + +--Ora, olhe; o senhor não se lhe dá que eu tenha com sua filha, cá em +particular, uma conversasita? + +--Pois não, snr. Dias! todas as vezes que quizer. Eu mesmo desejo que +sonde o coração de Ludovina, e reconsidere a sua tenção, se vir que ella +o não merece. Eu vou manda'-la. + +--Faça-me esse favor. + +Melchior procurou a filha, reparou nos indicios das lagrimas, e fingiu +que os não percebia. Dizendo-lhe que viesse á sala, accrescentou: + +--Lembra-te que fazes a tua felicidade e a de tua familia. Esse homem +não será só teu marido, será um protector de todos os teus, e fará a tua +independencia n'uma sociedade onde a formosura se estima como um meio de +alcançar «fortuna», e a «fortuna» como um meio de se alcançar tudo. +Entendeste-me, filha? + +--Entendi, meu pae. + +Ludovina entrou jovialmente na sala. + +--Minha senhora,--disse o brasileiro, gaguejando--Eu fui toda a minha +vida negociante, apenas sei ler e escrever, e digo as cousas assim como +ellas me vem á idéa. Ora bem; a menina está resolvida a ser minha +companheira de toda a vida? + +--Sim, senhor, disse ainda ha pouco que sim. + +--É verdade que disse; mas póde ser que o dissesse para contentar seu +pae, e lá no interior sentisse outra cousa. + +--Disse o que sentia, e repito o que disse. + +--Quem sabe se a senhora tinha alguma sympathia por ahi, e que lá por eu +ter alguns vintens seu pae a fizesse voltar-se para outro lado? + +--Não, senhor, eu não tenho affeição a alguem. + +--Porque depois eramos ambos desgraçados; e eu devo dizer-lhe, que tudo +o que eu mais tenho estimado n'este mundo é a minha honra; até hoje, +louvado Deus, ninguem lhe pôz o dedo sujo; e seria mais facil eu deixar +que me tirassem a vida do que a honra. Trabalhei muito anno para a +conservar, cheguei até esta edade sem ser offendido, e assim d'estes +cabellos brancos que me vê, se alguem me atacasse a minha honra, +tornava aos meus vinte e cinco annos. A menina entende-me? + +--Creio que entendi, e sinto que v. s.ª me esteja offendendo com as suas +supposições injuriosas. + +--Isto é um modo de falar, sr.ª D. Ludovina, e perdoará se a offendi. +Tudo o que lhe digo é em bem seu, e meu. Eu sou o que está vendo; a +menina é nova e linda; se vê que se ha de arrepender, diga-me a verdade +do seu coração, que eu arranjarei as cousas de modo que seu pae se +queixe de mim e não da senhora. + +--Já disse a v. s.ª que desejo ser sua esposa; não sei que mais deva +dizer-lhe. Não me hei de arrepender, porque espero merecer sempre a sua +estima e confiança; mas tenho um favor a pedir-lhe. + +--Diga lá, seja o que fôr. + +--Desejava que ficassemos na companhia de meus paes. + +--Ficaremos; e quando formos passar algum tempo á nossa casa de +Celorico, a nossa familia irá comnosco. Era só isso? + +--Não tenho outra ambição. + +--Isso pouco é... Ha-se de fazer tudo que a menina quizer: graças a +Deus, temos mais que o preciso para satisfazer as nossas vontades. +Agora, se quizer dizer a seu pae que já lhe disse o que tinha a dizer, +vá lá, que eu fico á espera d'elle e de sua mãesinha para me despedir, +até á noite. + +D. Ludovina chamou o pae, sem saír da sala. Melchior, lendo o bom +resultado das suas reflexões na cara jubilosa do radioso +capitalista, convidou-o a jantar, quando elle se despedia. João José +disse que jantára tres horas antes, e jantaria segunda vez com tão +amavel companhia. Estava inspirado! + +E cumpriu a promessa. Jantou, fez muitos brindes, e o ultimo, e mais +solenne que fez foi o seguinte: + +_Á saude de quem de hoje a um anno ha de ser meu compadre, e minha +comadre!_ + +Melchior Pimenta agradeceu. + +D. Angelica franziu a testa, fez-se branca de cera, e levou o calix aos +labios. + +D. Ludovina córou até ás orelhas. + +A leitora faça o que quizer. + +Eu não ri, nem córei: deu-me para chorar como uma vide, quando me +contaram isto. + + + + +V + + +Inventou-se uma lua para os casados. + +Os irracionaes teem uma lua; essa entende-se, sabe-se o que é. Mas o +aluarem-se, á força, os casados, é uma idéa ingrata á decencia, feia, e +deshonesta. + +Uma senhora innocente que diz: «lua de mel» suja os labios, se preza a +pureza n'elles; se, porém, sabe o que diz, se sabe o que é o favo, o +_mel_ da lua, desdenha o pudor, e despreza-se. + +Os noticiaristas das gazetas aforaram a phrase, sem saberem, talvez, que +desaforavam as palavras. Os diarios do Porto, em 1856, noticiaram assim +um casamento: + + +«Hontem ás nove horas da manhã, contraíram o sacramento do matrimonio o +ill.mo sr. João José Dias, rico negociante que foi no Rio de Janeiro, +com a ex.ma sr.ª D. Ludovina da Gloria Pimenta, filha do nosso amigo +Melchior Pimenta. O sr. Dias deve á fortuna a escolha de uma noiva tão +rica de prendas moraes como de formosura angelica. A gentil menina +encontrou um honrado protector, cuja fortuna, sendo immensa, vale menos +que a briosa reputação que tem. Os esposos vão passar a LUA DE MEL á sua +quinta de Celorico de Basto, para onde partiram hontem de manhã +acompanhados dos numerosos amigos dos ditosos consortes. Diz-se que o +sr. Dias vae mandar construir um palacete no Porto, onde tenciona fixar +a sua residencia. Damos os parabens á cidade invicta por tão valiosa +acquisição. + + +A local está redigida a primor, como lá se faz sempre nas gazetas; mas +aquella LUA DE MEL indigna-me. + +Se querem que haja por força uma lua para os que se casam, façamos umas +poucas de luas: + +Lua de mel; + +Lua de cicuta; + +Lua de laudanum; + +Lua de tartaro emetico; + +Lua de mostarda ingleza; + +Lua de oleo de ricino; + +Lua de fel da terra; + +Lua de salsa-parrilha; + +Lua de raspa de veado; + +Lua de jalapa; + +Luas tónicas, luas antiphologisticas, luas irritantes, luas vomitas, +luas drastricas, etc. + +Convém, de seguida, observar, que a lua não influe por egual nos dois +noivos. Cada um deve ter sua, nos casos exceptuados de casamento por +paixão reciproca. + +Tal marido é aluado em ovos molles, e sua mulher em jalapa. + +Tal noiva saboreia-se nos dulcissimos favos da colmeia lunar, e o homem +enjoa um cozimento salobro de raspa de veado, animal que muitas vezes +lhe lembra, por causa das virtudes medicinaes, e outras causas. + +Qual d'essas luas influiria em João José Dias, e qual em D. Ludovina da +Gloria? + +Eu não decido, porque sou supinamente ignorante em astrologia +judiciaria. Conto os factos, e deixo as luas ao arbitrio do leitor. + +Fez-se o casamento, e effectivamente partiram os conjuges para Celorico +de Basto. D. Angelica tambem foi. Melchior Pimenta ficou para comprar +terreno, e contractar o architecto e alveneis que deviam fazer o +palacete, a toda a pressa. + +Os cavalheiros de Basto receberam cartão do casamento. Esta usança das +familias de bem, desconhecida a João José Dias, fôra lembrança da +previdente D. Angelica: o fim era relacionar sua filha com as familias +mais tractaveis de Basto, para que estas visitando-a, segundo o +ceremonial, a distrahissem das melancolias do noivado. + +Tudo lhe saíu ao pintar dos seus projectos. A fidalguia circumvizinha +não desdenhou as relações do capitalista. O cartão enviado ás senhoras +dizia: + + + D. ANGELICA THEODORINA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA + PINTO CASTRO LEITE E LEMOS + TEM A HONRA DE PARTICIPAR A V. EX.ª + O CASAMENTO DE SUA FILHA + A EX.MA SR.ª + D. LUDOVINA DA GLORIA PIMENTA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA + PINTO CASTRO LEITE E LEMOS + COM O ILL.MO SR. + JOÃO JOSÉ DIAS + + +Os appellidos heraldicos abalaram os espiritos pechosos d'aquella +fidalguia de travessão que por alli enxamêa. + +Devia ser filha segunda de casa muito distincta a que descera até aos +fabulosos milhões do João da Chan-de-Cima: diziam-n'o assim os que +d'aquelle modo chasqueavam o brasileiro, pouco dado com fidalgos. + +Consentiram algumas familias em visitar os noivos. Um dos fidalgos, +esmerilhando a procedencia genealogica de D. Angelica, descobriu que um +seu tio-visavô sahira da casa dos Ciprestes para ir entroncar na +nobilissima familia dos Pereiras e Sousas, em Paços de Gaiôlo, d'onde +era oriunda a avó de D. Angelica. Feito o descobrimento, D. Ludovina +achou-se prima de tudo que faz o lustre e ornamento de Celorico, +Cabeceiras, Arco, e terras de Barroso. + +João José Dias tambem era primo dos primos de sua mulher; e, de si para +si, ao bom do homem dava-lhe para rir-se á socapa da parentella. A +lingua não se lhe ageitava a chamar primos aos fidalgos da casa dos +Ciprestes, aos do Reguengo, aos da Capella, e outros que +frequentavam, mais do que elle queria, a casa e o espirito attrahente da +sua sogra, espanto das fidalgas analphabetas. + +Sem embargo, o capitalista simulava affectuosa estima aos hospedes, e +contentamento com o ar festivo que sua mulher mostrava, tendo visitas. + +D. Ludovina pagava as visitas, passava as noites em sociedade, primava +em tafularia, ensinava as primas a vestirem-se, cuidava dos seus +enfeites com desvelo, e gastava com seu marido o tempo necessario para +projectarem passeios, romarias, e saraus por aquellas redondezas. + +Annuia o conjuge, folgazão no rosto, e zangado por dentro. O bom siso +dizia-lhe que sua mulher era uma creança, vezada a bailes, e ainda verde +para gostar da quietação domestica. Bem via elle a innocente alegria com +que Ludovina andava nos honestos brinquedos, e o desapercebimento, se +não desprezo, com que ella acceitava as louvaminhas dos primos. + +D. Angelica entendia o que o seu genro calava; conhecia a violencia que +elle fazia ao genio e aos annos ronceiros, para andar n'aquella +lufa-lufa de visita em visita, bifurcado n'um macho, que lhe contundia +as carnes com o chouto ingrato. Receosa de que a impaciencia rebentasse +em fim por algum dito menos delicado á mulher, quiz ella prevenir o +desgosto de ambos, dizendo uma vez á filha: + +«Convém conformarmo-nos um pouco aos costumes de teu marido, +Ludovina. Teu homem não foi assim educado, e os annos extranham esta +transição. + +--Que quer a mãe que eu faça? + +«Que espaces os teus passeios e visitas, que vivas mais em tua casa, que +tenhas com elle algumas horas mais de convivencia. + +--Que hei de eu dizer-lhe?! + +«O que has-de tu dizer-lhe?!... + +--Sim, mamã. Temos occasiões de estar duas horas juntos sem trocarmos +tres palavras. Sou amiga d'elle; mas não sei como hei-de mostrar-lh'o de +outro modo. Se querem que eu não receba visitas, nem vá a casa de quem +me visitou, estarei em casa, contemplando os carvalhos e os +castanheiros; mas eu não creio que se possa viver assim na aldeia. Se +elle ainda me não disse nada, porque ha de a minha mãe censurar-me este +desabafo que eu preciso? Eu a fugir de falar na minha situação, e a mãe +a lembrar-m'a! Cuida que sou feliz? Diga, mãe, está persuadida que eu +devo estar extasiada de contentamento deante de meu marido? + +«Não creio que te devas extasiar, mas tambem não approvo que te +arrependas. Como explicas tu a consideração, o respeito com que és +tractada? Pensas que o seres casada com este homem te desmerecesse aos +olhos d'esta gente, que lhe chama parente? + +--E a felicidade é isso, mãe?! + +«A felicidade não é cousa nenhuma d'esta vida, e, se alguma existe cá, é +a que dá á consciencia da mulher casada o prazer de não envergonhar seu +marido. + +--Que palavras! Isso que quer dizer, minha mãe? + +«Não t'as applico, Ludovina: respondi á tua pergunta. A felicidade no +amor é um creancice dos quinze annos, e ás vezes dos quarenta; mas o +desengano vem com todos os homens e com todas as edades. Não te +persuadas que a vida te seria aqui mais risonha, por muito tempo, com um +marido de tua escolha. Este homem, d'aqui a tres mezes, has-de ama'-lo +como se ama um amigo. O outro, d'aqui a tres mezes, ama'-lo-ias com o +afflictivo amor da mulher que enfastia, que se vê cada vez mais +aborrecida, e compara os ardores dos primeiros mezes de casada com a +fria sequidão dos que traz o cansaço. Poupaste-te ao maior dos +infortunios, que é esse para a mulher que não quer curar a chaga do amor +a seu marido com a peçonha da infidelidade, comprehendes-me, Ludovina? +Eu não consinto que tu, sequer, recordes alguns exemplos de mulheres +casadas que viste conciliadas com o despreso dos maridos, acceitando a +adoração de outros, como vingança, e fazendo do crime uma necessidade. +Lembra-te só d'ellas como mulheres que casaram apaixonadas, que +doudejaram de alegria nos primeiros tempos, e pareciam cheias de +felicidade para toda a vida. Não te recommendo paciencia, Ludovina, +porque ninguem te dá causa de soffrimento; recommendo-te juizo. Este +homem ha-de merecer a tua amizade: logo que a tenha, viverás da melhor +affeição, da que mais dura n'este mundo; terás o bem que raras vezes +fica de um amor ardente. + +Estas e outras palavras modificaram a força motriz de D. Ludovina. +Os passeios rarearam-se, os convites para reuniões foram esquecendo á +mingua de estimulo e as massas amollecidas do sr. João José Dias +recobraram vigor, com não menos gaudio do velho macho que as caminhadas +traziam desmedrado e manhoso. + +Estava já a lua de mel em quarto minguante, quando os noivos, voltando +para o Porto, foram hospedar-se na casa paterna, em quanto não alugavam +casa provisoria, onde esperassem que o palacete se fizesse. + +João José Dias foi agradavelmente surprehendido em casa de seu sogro. + +Convidado para um baile, em que Ludovina ia ostentar preciosissimos +recamos de brilhantes, que seu marido lhe déra na vespera do casamento, +João José Dias ao vestir a casaca nova, que seu sogro lhe mandava ao +quarto n'uma bandeja, viu uma commenda pregada n'ella, e sobre uma salva +de prata um collar com a cruz da ordem de Christo, pendente de um +vistoso laço de fita. + +--Que diabo é isto?--disse elle ao creado no requinte do pasmo. + +«É um presente que faz a v. exc.ª o sr. Melchior. + +--Diz-lhe que venha cá, e pega lá para cigarros--dizendo isto, o +commendador lançou á salva... sete centos e vinte. + +Não vos assombre este lance dadivoso de grandeza. Em successos de menor +estimulo á munificencia, sei de outros arrojos de liberalidade, que +desbancam João José Dias. + +Ahi vão de passagem dois exemplos: + +Um visconde, opulento pelos dons de uma bestial fortuna que o ama como a +cousa sua, compra um quarto de bilhete da loteria hespanhola. O rapaz +que, á custa de muito teimar, lh'o vendera, vae dar-lhe a nova de que a +cautela fôra premiada com quatro mil duros. O visconde manda esperar o +alviçareiro moço e traz-lhe umas calças de cutim sem fundilhos. + +Outro, na passagem do rio Douro, escorrega do barco para a corrente, e +mergulha; passados instantes, emerge á tona d'agua resfolegando, e +pedindo soccorro. Travam-no os braços robustos do barqueiro que, em +risco de morte, consegue salva'-lo, Vae leva'-lo á familia, mandam-no +esperar á porta da rua, e recebe, como salvador d'uma vida cara aos +seus, uma vida que os jornaes pranteariam com tarjas da grossura de um +dedo, e vinhetas das mais funebres da typographia, recebe, finalmente, +setecentos e vinte em cobre. + +Isto é publico e notorio; mas não estava em chronica. Receio maguar a +modestia dos generosos cavalheiros, por isso resalvo os nomes. Na quinta +edição d'este livro, havidos os consentimentos respectivos, serão postos +em estampa, para inveja de miseraveis sovinas, e estimulo á profusão da +presente raça. + +O commendador não era fona. Esse caínho feito não desluz os bizarros +presentes que fazia á esposa e aos sogros. Ludovina era o primor da +casquilhice, e do mais rico em gosto e droga. Para cada baile, para cada +exposição do theatro lyrico, um vestido não visto, só comparavel aos +que trajára antes, e inferiores aos que trazia depois. + +Os _leões_ sertanejos, estes cinco ou seis pataratas, senhores de uma +gloria tão productiva, que faz lembrar a dos dominios da corôa +portugueza na Ethiopia, Arabia e Persia, os leões honorificos do Porto, +se assestavam pertinazes os oculos na peregrina esposa do commendador, o +mais que conseguiam era realisar o anexim nacional: «--viam-na por um +oculo.» + +João José Dias envesgava o olho de soslaio por sobre as feras; e, a meu +ver, seria elle homem bastante para realisar, já não com um, mas com +todos, a fabula do leão espinotado pelo orelhudo. + +O commendador tinha em sua mulher inteira confiança, nada lhe alterava o +conceito bem merecido; todavia era accessivel ao ciume sem causa. Nos +bailes, andava o pobre homem sempre assustado. Não tinha socego, nem +póro que não estilasse o suor da apoquentação. As affabilidades mais +triviaes e innocentes da cortezia, um sorriso de Ludovina ao par +dançante que a deliciava com ensosso palavrorio, o menor gesto de +attenção a que a delicadeza obrigava a festejada dama, isso era um +adstringente doloroso que apertava as entranhas do commendador. + +N'um d'esses bailes, em que João José Dias emagreceu duas polegadas na +circumferencia, appareceu Ricardo de Sá, que nunca mais vira Ludovina +desde a vespera da sua derrota. + +Audacioso até ao desatino, teve a petulancia de aprumar-se diante de +Ludovina, com a luneta insultante. A filha de D. Angelica pediu o braço +a uma amiga e saíu d'aquella para outra sala. O commendador não fôra +extranho ao acto, e seguiu-a com disfarce. Ricardo, brincando com os +berloques do relogio, e tregeitando o habitual sorriso do homem tragico +de romance, seguiu de longe as duas amigas, simulou um encontro casual, +estacou diante d'ellas, e montou a luneta. + +D. Ludovina rodou sobre o calcanhar e voltou-lhe as costas. Á cabeça do +commendador subiu um repuxo de sangue, e os lobulos das orelhas +fizeram-se-lhe escarlates como ginjas. + +D. Angelica, que espiava o successo da sala proxima, acercou-se de +Ricardo de Sá, fitou-o com fulminante soberania, e disse-lhe a meia voz: + +--O senhor é um miseravel tolo, que incommoda. Se se estima alguma +cousa, não me obrigue a encarregar o boleeiro de minha filha de +responder ás suas provocações. + +--Mude de sexo como Theresias, e falle-me depois--disse Ricardo, dando á +perna direita o costumado repuxão dos elegantes. + +O commendador veio ao encontro de D. Angelica, e disse-lhe: + +--«Aquelle sujeito com quem a senhora falou agora, não é um homem que eu +encontrei em sua casa a primeira vez que lá fui? + +--É. + +--Que diabo anda elle a prantar-se diante de Ludovina? + +--Já reparei n'essa acção repetida. Eu lhe conto, dê um passeio +comigo--E tomando-lhe o braço, D. Angelica continuou:--Este homem foi +uma afeição innocente de minha filha, e é hoje um ente desprezivel para +ella e para mim. + +--Escreviam cartas um ao outro?--interrompeu o commendador, bufando. + +--Escreviam, sim... + +--Porque me não disse isso a senhora?! + +--Porque não merecia a pena dizer-lh'o. Que é escreverem-se cartas? + +--Não é pouco, acho eu... E como acabou isso? + +--Acabou, dizendo eu a esse homem que não voltasse a minha casa. + +--E que quer elle agora? + +--Vingar-se da unica maneira que póde: affligir minha filha... Ella ahi +vem... não falemos n'isto. + +D. Ludovina disse affectuosamente ao marido: + +--Vamos embora? eu estou incommodada. + +--Vamos, disse a mãe. + +--N'esse caso, vou chamar a carruagem; esperem um pouco, que eu venho +já--disse o commendador. + +As senhoras foram esperar na sala menos concorrida. D. Ludovina +arquejava em ancias, e falava aceleradamente a sua mãe. + +Entretanto, João José Dias entrou na sala onde se dançava, e viu na +porta fronteira Ricardo de Sá encostado, com a luneta em acção, e o +cotovello direito apoiado na mão esquerda. + +Foi ao pé d'elle e disse-lhe: + +--O senhor sabe quem eu sou? + +--Creio que já o vi em alguma parte. + +--Faz favor de vir aqui que lhe quero fallar. + +Ricardo seguiu-o machinalmente, atravessou um corredor, e parou n'um +patamar deserto: + +--Eu sou o marido d'aquella senhora que vocemecê insultou lá dentro. + +--Essa é muito boa! Eu não insultei senhora alguma! + +--Se insultou ou não, sei eu. Fique-lhe de aviso que a sr.ª Ludovina tem +um marido de quarenta e tantos annos, isso é verdade, mas capaz de pegar +n'uma orelha dos pandilhas como vocemecê, e dar-lhe com a cabeça n'uma +esquina, tem percebido? + +O commendador desceu as escadas, e Ricardo de Sá, estupefacto e +aturdido, atravessou o corredor, e entrou nas salas. + +Pouco depois, entravam na carruagem D. Ludovina e sua mãe. O commendador +não lhes disse palavra com referencia ao desforço solenne que tirára do +bacharel. + +Isto, se eu o não contasse, era cousa que morria ignorada porque o +auctor embrionario do SECULO PERANTE A SCIENCIA nunca a diria. + + + + +VI + + +Esta inquietação damnificou a vida menos má do commendador, e o socego, +apparentemente feliz, de Ludovina. A paz existia; era, porém, como a +serenidade presagiosa de trovoada. + +O marido recebia os convites para bailes, e queimava, á surrelfa, as +cartas. Ludovina admirava o esquecimento, sem aventurar uma pergunta. +Estes rebuços são a desgraça das familias, e o rastilho de polvora que +espera uma faisca. + +Ao theatro iam raras vezes. O commendador adoecendo quasi sempre no dia +da recita, supportou no estomago muitas papas de linhaça, sem precisão. +O seu achaque postiço era uma inflammação intestinal. + +D. Angelica censurava o procedimento do genro; mas calava-se, para não +dar anso á filha de romper em queixumes, que abafava com a esperança de +melhor vida, ou desafogava em carpir-se sósinha. Melchior Pimenta achava +que tudo ia bem, e dava-lhe mais cuidado a esperançosa apparição de +um neto que a irritação de entranhas do capitalista. + +Acabára-se o palacete, e fez-se a mudança. O commendador não convidava +os sogros para viverem com elle. Ludovina, reagindo contra a tyrannia +simulada disse que não saía da casa onde nascera, sem levar seus paes. +João José acreditou na resolução, e disfarçou o intento, dizendo que +nunca tivera outro. + +Ludovina queixava-se á mãe da reclusão em que vivia cheia de +aborrecimento e tedio; perguntava se era aquella a felicidade que dava o +dinheiro; dizia que a pobreza e o ar livre eram preferiveis ao goso de +cincoenta vestidos que se traçavam no guarda roupa, e da luxuosa mobilia +que ninguem admirava. + +D. Angelica, já aborrecida tambem, prometteu á filha entender-se com o +genro, e muda'-lo por meios suaves. + +--Que motivo ha, snr. commendador--disse D. Angelica--para se encerrar +n'esta casa, cortando as suas relações com a sociedade que tão bem o +tratava? + +«Eu vivo assim melhor. + +--Viverá!... não creio. O senhor, quando estivemos em Celorico, +divertia-se nas sociedades, e já no Porto parece que folgava de que o +vissem com sua mulher em toda a parte... + +«Estou velho para andar a perder as noites. Esta minha inflammação de +entranhas não me deixa. A saude está em primeiro logar. + +--Tem razão; mas n'este mundo só se vive bem, sacrificando-se a gente +uma á outra. O senhor é casado com uma menina habituada aos +innocentes prazeres da sociedade, e eu, se me dá licença, dir-lhe-hei +que não consentiria um casamento entre genios tão contrarios, se +previsse o que está acontecendo. + +«Então que é? + +--É que minha filha não póde assim viver contente. + +«Agora não! ella não se queixa: a senhora é que toma as dôres por ella. + +--Não se queixa porque é muito delicada, muito soberba, ou uma sancta. O +peor será quando ella se queixar... Isto assim vae mal, sr. Dias; mude +de vida, confie em sua mulher que é um anjo de virtude, incapaz de +offender a sua dignidade. + +«Não duvido; mas estou melhor assim, e ella tambem não está mal, acho +eu. Quem casa vive para seu marido, e para os filhos, se os tem. Isso de +andar de bailarico em bailarico é bom para as raparigas solteiras que +andam á pesca de marido. Até parece mal uma mulher casada a saltarilhar +com um homem que lhe pega pela cinta, e anda alli com a cara ao pé da +d'ella. Nada de bailes, sr.ª D. Angelica. Minha mulher, se quer passear +tem ahi uma carruagem e eu estou prompto a acompanha'-la para toda a parte. + +--Pois bem, não se frequentem os bailes, mas conservem-se as relações da +nossa casa. Ludovina tem amigas, que extranham muito a vida encarcerada +que ella passa. Porque não ha-de sua mulher visitar e receber as visitas +de suas amigas? + +«E isso de que livra? Isto de mulheres umas com as outras não dizem +cousa boa. O melhor é cada um em sua casa. + +--Que razão essa tão... tão singular! + +«A final de contas, sr.ª D. Angelica, eu estou em minha casa, e entendo +que faço bem. Não se lucra nada em apparecer. O mundo está uma pouca +vergonha. Eu já sei como está o Porto, e como se vive por ahi. Não quero +que minha mulher ande nas bôcas do mundo. Se Ludovina não fosse ao +baile, onde lhe appareceu o tal namorado que ella teve, não tinhamos +todos a zanga com que sahimos de lá. Em casa, em casa é onde se está +melhor. + +--Eu não me responsabiliso pelas consequencias, sr. Dias. Ludovina tem +brios e pundonor; se ella desconfia que v. s.ª a encerra em casa, por +suspeitar da lealdade d'ella, teremos grandes desordens e não terei +poder para accomoda'-las. + +«Eu não desconfio de minha mulher; se não vou aos bailes, é porque não +quero que os outros desconfiem, e acabou-se. + +O dialogo ficou aqui; mas ha ahi duas linhas que fazem honra á +intelligencia equivoca de João José. Merecem ter segunda edição de +versaletes: + +EU NÃO DESCONFIO DE MINHA MULHER; SE NÃO VOU AOS BAILES É PORQUE NÃO +QUERO QUE OS OUTROS DESCONFIEM. + +Isto é uma grande idéa, das quatro idéas grandes que apparecem em cada +seculo, e que, por engano, entrou na cabeça inhospita do commendador. + +Pesem bem o quilate das duas linhas, que me ministrou João José, e verão +que as melhores d'este livro são ellas. + +O marido, que me está lendo, se tem cincoenta annos, e espreita os vinte +de sua mulher, através do vidro embaciado que a experiencia lhe vendeu +caro, não deve já agora perder a esperança de dizer, no auge do seu +ciume, alguma cousa que possa ler-se em lettra redonda. + +A indignação fazia os versos de Juvenal; porque não ha de o ciume fazer +as prosas toleraveis dos maridos? + +A idéa de João José, se fosse minha, ninguem me aturava a vaidade. Rogo +aos escriptores contemporaneos, e aos futuros sabios, alinhavadores de +remendos alheios, que se escreverem a seguinte maxima: + +_Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes para +que os outros não desconfiem;_ escrevam por baixo--_O commendador_ JOÃO +JOSÉ DIAS. + +As pessoas que melhores idéas engendraram, não teem sido as mais +felizes. O commendador pertence ao martyrologio dos grandes pensadores. +Os fados, os estupidos fados hão de castiga'-lo por essas poucas +palavras com que elle arranjou um nicho, pôdre de barato, no templo da +memoria. + +O castigo começa. + + + + +VII + + +Ludovina disse um dia a sua mãe: + +--Estou casada ha treze mezes, e sinto-me velha. Até aqui obedeci como +creança, a minha mãe, a meu pae, e a esse homem, que entrou na nossa +familia com certa auctoridade que me intimidava. Eu fui sempre docil, +docil até á pusillanimidade. Se a violencia não fosse tamanha, este +homem que chamam meu marido, teria feito a escravidão da minha alma para +sempre. Assim não póde ser. Sinto-me outra; perdi os costumes de +creança; envelheceram-me com os desgostos continuos, e por isso hão de +soffrer-me agora emancipada. + +--Que vem tudo isso a dizer, Ludovina? + +--Que quero a minha liberdade, que hei de passar por cima da oppressão á +custa de tudo. + +--Ludovina! que linguagem é essa? + +--É a da desesperação, e da justiça. Não pratiquei sombra de mau acto, +por onde mereça este amargo viver que me dão. Quero saber porque vivo +apartada das minhas amigas, e dos recreios, d'onde a minha reputação +saíu sempre sem mancha. + +--A quem o perguntas, a mim? + +--Sim, á mãe, ao pae, e depois pergunta'-lo-hei ao dono d'esta casa, ao +dono dos meus vestidos e dos meus braceletes. Se este me disser que a +minha liberdade é o preço d'essas cousas, deixo-lh'as, e peço a meu pae +a subsistencia que me dava d'antes. Se m'a negarem, Deus me inspirará o +destino que me convém. Isto ha de decidir-se hoje. Ninguem soffria tanto +tempo, por amor proprio, ou pela virtude da paciencia. + +--Tens direito a interrogar teu marido, Ludovina; mas sê prudente; +vence-o com razões moderadas, por não dizer humildes. + +--E se elle, por maldade ou por ignorancia, suspeitar da pureza das +minhas intenções? + +--Fala-lhe como deve falar uma senhora, e confundi'-lo-has. + +Veiu o commendador cortar o colloquio. Nunca tão achamboada e trombuda +se mostrára a lerda physionomia do personagem. N'essa occasião, o +achaque intestinal era veridico, segundo o testemunho do semblante. Era +o ideal da fealdade, então, o sr. Dias! + +D. Angelica, instada por um gesto da filha, deixára-os sós. + +--É a primeira vez--disse Ludovina, sentada n'uma cadeira de braços +estofada, com a formosa face encostada á palma da mão direita, e uma +perna sobre a outra balouçando-se, deixando ver o pé de fada, +através do rendilhado da saia que a velava.--É a primeira vez que +falo a meu marido como se deve falar a um marido. Até aqui tratei-o como +se trata um amigo que se respeita, um tio, um pae d'esses com quem se +não tem muita confiança. + +O snr. Dias abriu a bôca para entender melhor. D. Ludovina proseguiu: + +--Poucas filhas ha tão respeitadoras como eu lhe tenho sido na qualidade +de mulher. Tudo que ha n'esta casa, snr. Dias, seu tem sido, como seria, +se eu aqui não fosse mais que uma pessoa extranha, sujeita á sua +generosidade. A sua vontade é o movel das minhas acções. Em quanto o +senhor me concedeu a liberdade honesta, que meus paes me concediam, +acceitei-a, sem lh'a agradecer, porque achei isso tão natural como +absurdo e impossivel o contrario. Logo que o senhor, sem me explicar a +causa da sua mudança, de repente me afastou da sociedade, como se faz ás +pessoas incapazes de viverem n'ella, acceitei tambem, sem me queixar, o +captiveiro, e supportei-o seis mezes como uma mulher culpada que expia a +culpa com a paciencia muda. O snr. Dias, sem saber o que fez, expoz sua +mulher aos commentarios offensivos que a sociedade ha de ter feito á +minha ausencia repentina. Deu um escandalo, sem necessidade de evitar +outro. Disse á sociedade que não tinha bastante confiança em mim para me +levar onde ha o bom e o mau. + +«Estás enganada, menina, eu não disse isso a ninguem--interrompeu o +commendador, que andou ás aranhas muito tempo antes que traduzisse +para vulgar o estylo sentencioso da filha e discipula de D. Angela. + +--Não o disse com a palavra; mas disse-o com as acções. Privando-me de +ir aos bailes, de frequentar o theatro, de receber as minhas amigas de +collegio, e as relações de minha familia, o que diria a sociedade? + +«Lá o que ella quizer, menina... + +--O que ella quizer, não, snr. Dias! Não consinto que se façam de mim +conjecturas desairosas. Requeiro que o senhor me explique o motivo +d'esta separação injusta a que me fórça. + +«Não te zangues, Ludovina... Foi tua mãe que te metteu na cabeça essas +palavras? Bem diz lá o ditado: «Livra-te da sogra, que eu te livrarei do +diabo.» + +--Respeite minha mãe, senhor! Eu não falo pela bôca de minha mãe; o meu +silencio até hoje não era estupidez nem insensibilidade: era amor +proprio, e outro sentimento mais nobre que o senhor não entende. Vamos +ao essencial, snr. Dias. Teve alguma razão para me privar de viver como +vivem todas as mulheres casadas da boa sociedade? + +«Não, já disse que não. A cousa é outra... + +--Qual é essa outra cousa? + +«As boas pagam pelas más, e não ha mulher honrada para certa gente que +vae aos bailes e aos theatros. + +--Pois eu não estou disposta a sacrificar-me ás mulheres indignas. A +minha consciencia é o meu juiz. Não me importa o que se diz de mim. + +«Essa é de cabo de esquadra! Pois não se te importa o que se diz de ti? + +--Que se diz, snr. Dias? + +«Não sei; mas... elles lá sabem o que dizem. + +--Elles quem? accuse-me sem piedade; repita as affrontas que me fazem; +tenha a coragem de calumniar-me, se lhe é preciso inventar os meus crimes. + +«Tu estás fóra de ti, Ludovina! Isso não é assim! Ahi anda +espirito-santo de orelha... O teu genio não é esse... + +--O meu genio é a minha dignidade, n'este caso. Responda-me: Offendi a +sua honra? + +«Não, já disse duas vezes que não. + +--Faltei aos meus deveres de esposa? + +«E ella a dar-lhe! + +--Pois bem: quero viver como vivi nos primeiros seis mezes da nossa +união. Quero ir ao theatro, aos bailes, ás visitas, como ia em solteira. +Quero receber as minhas relações, como as recebi antes de ter metade da +sua riqueza. Quero uma inteira liberdade como premio do meu procedimento +para comsigo. Quero... + +«Então isto, pelos modos, é «nós, el-rei, e justiça de Fafe!» Aqui não +ha rei nem roque n'esta casa? é quero, e mais nada? + +--Quero, sim, porque é de justiça o que já não tenho a baixeza de pedir; +mas quando não, snr. Dias, meus paes teem uma casa estabelecida, e +sobejos meios para eu me declarar independente d'essas riquezas com que +o senhor me dotou, e que eu, de todo o meu coração, rejeito, porque +não acceito o preço porque fui vendida. + +Ludovina, já de pé, com o rosto inflammado, e os bellos olhos +coruscantes de cólera, sahiu de um impeto, deixando o commendador +attonito na mais palerma immobilidade. D. Angelica ouvira tudo; + +--Excedeste-te, Ludovina--disse ella--mas fizeste-me orgulhosa de ser +tua mãe. Acceito, de hora em diante, a responsabilidade das tuas +palavras, seja ella qual fôr. + +João José Dias nem palavra n'aquelle dia e no seguinte. Ao terceiro +havia theatro lyrico. D. Ludovina mandou buscar camarote. Ás sete horas +e meia mandou pôr os cavallos á sege, e disse a seu marido se a +acompanhava ao theatro. O commendador fez-se verde-garrafa, desenrugou +as palpebras quanto poude, e pasmou os olhos suinos na attitude +imperiosa de Ludovina, que apertava o botão da luva, e enroscava no +collo as marthas. + +--Vem, ou não?--repetiu ella. + +«Espera, que eu visto-me--disse o commendador, tomado d'uma especie de +susto irreflectido, que em muitos maridos é o corollario de demorados +raciocinios. + +Fez impressão o apparecimento de Ludovina. Acharam-n'a mais donosa os +amadores do pallido. O viço da florescencia tinha murchado ao lento +deseccar da melancolia. Ficára a pelle assetinada, com as alvuras do +desmaio, realçando o vivido fulgor dos olhos negros, assombrados da +côr-violeta, que tanto encarece o rosto dolorido. Ponderaram os +analystas que os tecidos cellulares do commendador estavam cada vez +mais chorumentos e luzidios. Segredaram-se, ácerca das medranças d'elle, +pilherias que incitam o riso, e ferem o melindre de ouvidos pudibundos. + +Estes colloquios, que a estampa rejeita, ciciavam, por entre frouxos de +riso, nos camarotes, onde estava a propria virtude, com cabellos á +Stuart, e despeitorada á Aspasia. + +Ludovina falava com meiguice ao marido, explicando-lhe o entrecho do +_Trovador_, e aguçando-lhe a compuncção nas lamentações finaes da Ponti, +que o commendador denominava uma «comedianta de mão cheia.» O ar de +felicidade que se mutuavam, era o espanto dos observadores, e o castigo +da maledicencia desapontada. + +Seguiu-se um baile. A carta de convite não ficou, d'esta vez, no +escriptorio do commendador. Ludovina primou mais que nunca em enfeites. +A inflammação deu treguas ás entranhas de João José Dias. Era para ver +como elle se tornava, sadio e durazio, aos prazeres do mundo. + +Mas o interior de João José? Era um incendio para que a philosophia +humana não inventou ainda bomba efficaz! Era o inferno do mouro de +Veneza chorriscando aquelle humano torresmo! + +Que via elle para se moer assim? Nada. Ludovina nem, sequer, dançava já +danças de roda, de contacto, de aperto, e raras contradanças acceitava. +Os cavalheiros, que se avizinhavam d'ella, com liberdade, eram os amigos +de seu pae, ou de seu marido. Os outros, repellidos pela sisudez e +gravidade com que os ella recebia, denominavam-na uma virtuosa +grosseira, e apostavam que andava alli influencia de capellão incognito. + +Que sandeus ciumes, eram, pois, os do commendador, que a fortuna poupava +á sorte de pessoas tão conspicuas, e bem ageitadas de corpo e alma? + +Batei n'esta sáphara, entendedores do coração humano, esmerilhadores do +intimo dos _predestinados_ e _minothauros_ e _Sganarellos_ ao alcance da +sciencia humana. + +Cançar-vos-heis sem achar a razão da cousa. O axioma foi proferido ha +quatro annos, e já tem tres edições com esta: + + + +_Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes, +para que os outros não desconfiem._ + +_O commendador_ JOÃO JOSÉ DIAS _(passim)_. + + + + +VIII + + +Raivando contra si proprio, o barão de Celorico... + +_O barão de Celorico!_ Personagem novo no conto? + +Novo! pois eu não disse já que João José Dias dera cinco mil cruzados ás +urgencias do Estado, e seiscentos mil réis ao official maior da +secretaria onde se fabricam os barões, e cincoenta moedas ao agente +secreto das urgencias do Estado, e das urgencias dos estadistas? + +Se não lêram isto já, perderam-se na typographia quatro tiras de +composição a mais rendilhada a buril classico, a mais puritana de +linguagem, com recheio de idéas substanciosas, e gordura de pensamentos! + +Finalisava o capitulo VII por um baile de regosijo, que o novo titular +estimulado pelo sogro, resolvera dar aos seus collegas, e mais amigos, +que o felicitaram da mercê. + +Esse baile correra amargurado para o barão de Celorico. + +Ao caír da noite, recebera elle uma carta anonyma, da qual não pude +haver copia, e, podendo inventar uma, não o faço, que m'o veda o +proposito de fidelidade. + +É certo, porém, que o contheudo d'essa carta entendia com Ludovina, +meiga creatura, organisação melindrosa, que tanto a pesar meu hei de +nomear baroneza de Celorico. + +Não se póde aferir o grau de calumnia d'essa carta pelas carantonhas do +barão, que a lia. Em carantonha perenne estava elle sempre, lastimoso +Amphitryão, desde que a sombra de um Jupiter de casaca lhe assombrava os +encantos da innocente Alcmena. Qual seria o espirito rasteiro que se +quizesse vasar nas fórmas de João José para enganar-lhe a esposa? Esta +pergunta faço-a aos que leram Plauto, Molière, e Camões. Nem ella, com +tantos mimos e promessas de delicias, vos faria a vós, leitores +sedentos, acceitar a transfiguração hedionda. + +O barão tragou a affronta em quanto o bojo o comportava; depois, +rebentou, chamando a sogra ao mais escuro do palacete, e dando-lhe a ler +a torpe carta. + +D. Angelica disse conhecer a mal disfarçada letra de Ricardo de Sá; +convenceu-o de que o despeito de uma alma vil devia vir áquella infamia; +appellou da calumnia para a consciencia do barão; obrigou-o a confessar +que nunca sua mulher saíra de casa sem elle; fez, finalmente, resolver o +pestilencial tumor que ameaçava, n'aquella noite, uma supuração +escandalosa. + +Raivando contra si proprio, (cá estamos na cabeça do capitulo) o barão +de Celorico, não podia transigir com as razões da sogra. Terminado o +baile, duas ou tres vezes amaxucára a carta na mão convulsa, para a +lançar ao toucador de Ludovina, que desenfeitava as tranças e o pescoço. + +--Que tens, meu amiguinho?--disse ella, que o vira, no espelho, fazendo +esgares com os beiços--parece-me que está agitado! + +«Estou bom, muito obrigado, estou como se quer. + +--Que modo é esse de responder?--tornou ella, voltando-se de subito para +o barão, que passeava, ou antes se rolava de parede a parede com +achavascada impetuosidade. + +«Está bom; deixe-me, que eu não estou bom, e qualquer dia dou um estoiro +como uma castanha. + +--O senhor está disparatando! explique-se. + +«Foi o diabo o nosso casamento, sr.ª D. Ludovina. + +--Nada de exclamações; clareza e franqueza, meu amigo! Que é isso? + +«É os meus peccados; é o que eu lhe tenho dito duzentas vezes, e a +senhora não quer crer que a sociedade do Porto está corrompida, e quem +aqui estiver não póde dar boa conta de si. + +--Vamos aos factos; applique... diga a que vem isso? + +«Ahi tem o que é. + +E arremeçou-lhe ao regaço a carta amarfanhada, que parecia uma pela. + +A baroneza abriu-a serenamente, amaciou-lhe os vincos, e leu, sem signal +de inquietar-se. + +«Diz-se aqui que eu tenho um amante--disse ella sorrindo--que se +corresponde comigo. O senhor crê isto? Responda, senhor; crê que eu +tenho um amante? + +--Não, senhora; mas, pelos modos, dizem-no, e a minha honra soffre com +isso. + +«Como soffreria com a verdade do aviso? + +--Que é? não entendi. + +«Se as suas suspeitas condissessem com este aviso, não soffreria mais? + +--Matava-a, sr.ª D. Ludovina, dou-lhe a minha palavra de honrado, que a +matava, e tiraria os figados pela bôca ao proprio diabo do inferno, e +tinha alma de metter uma faca no peito para morrer ao pé de si! + +Esta rajada sacudiu todas as fibras bambas do barão. Não teve remedio se +não sentar-se, a resumar camarinhas de suor, impando, e arfando como +folle de forja. + +Ludovina, mais assustada que compadecida, tomou-lhe a mão, e com a outra +enxugou-lhe a face. + +«Soffre porque me não ama, porque me não crê...--disse ella. + +--Não faças caso d'isto, não é nada... não é nada--regougou elle. + +«Seja superior aos infames que nos invejam, meu amigo. Não lhes dê o +prazer da vingança. A pessoa que lhe escreve, é um miseravel inferior ao +meu desprezo. + +--Já sei tudo... não falemos n'isso mais. Deite-se, que eu preciso de +tomar ar. + +«Onde vae? + +--Vou ao jardim. + +«Eu vou comsigo... espere um bocadinho. + +--Não venhas cá, deita-te, que está fria a madrugada. + +Foi. + +Eram tres horas e meia da manhã. As trevas descondensavam-se. A nebrina +do mar serpenteava por entre as ribas marginaes do Douro. O clarão da +lua ia-se descórando ao arraiar do crepusculo. Era a hora menos poetica +das vinte e quatro da rotação d'este planeta, onde ás tres horas e meia +da manhã, dorme toda a gente que tem juizo, e sabe um pouco de hygiene. + +O barão de Celorico não dava fé das bellezas matutinas que o rodeavam. +Atravessou, sorvendo haustos de ar fresco, o passeio central do seu +jardim, até parar no muro, que o extremava de outra rua. Esta rua é +justamente aquella por onde vimos passar Francisco Nunes, raivando +imprecações garrafaes contra o charuto incombustivel. N'esse muro havia +uma gradaria de ferro, e portadas interiores. O barão abriu +machinalmente a janella, e viu approximar-se d'ella um vulto embuçado, +que lhe disse: + +--Cuidei que tinhas adormecido! que demora foi essa? + +--O que é?--exclamou o barão atordoado. + +O vulto coseu-se com a parede, e, a passo rapido, desappareceu na meia +escuridão. + +Longo tempo, agarrado ás grades, o barão de Celorico, parecia ter +perdido a memoria, a sensibilidade, o senso intimo. A patrulha, que +recolhia ao quartel, vendo aquelle immovel espectaculo, através das +grades, imaginou primeiro seria estatua do jardim; reparando +attentivamente, ouviu o sussurro da respiração cavernosa, e decidiu que +estava alli um homem. + +--Olá!--disse um soldado. + +«Que é?--respondeu o barão, espertando da lethargia. + +--É d'ahi d'essa casa? + +«Sou o dono d'ella. + +--Então perdoará. Fizemos esta pergunta, porque ha de haver cinco dias +que vimos saír ás quatro horas da manhã um encapotado d'aquella porta +que alli está abaixo, chamamo'-lo, elle deu á canella, e sumiu-se-nos lá +em baixo na travessa. + +«D'esta porta que está na parede d'este jardim?--exclamou o barão. + +--É como diz. + +«A que horas? + +--A estas horas, pouco mais ou menos. + +«Um homem de capote? + +--Tal e qual. + +«E não viram mais ninguem? + +--Parece-me que vi ahi n'essa grade uma figura de mulher, com lenço +branco na cabeça. + +«Obrigado, camaradas, muito obrigado, e boas noites. + +O barão arremessou as portadas, e, levando as mãos á cabeça, atirou-se +com brutal frenesi a um banco de pedra. Ao tempo que cáe em cheio, vê ao +pé de si um objecto escuro. Apalpa, repara, examina: era o projectil +fatal do charuto que Francisco Ennes, na vespera, arrojára para dentro. + +O barão contempla o charuto na mão convulsa, e desentranha um rugido +fremente, apertando-a, rábido e sanhudo. + +--Eis a prova da minha deshonra!--exclama, e ergue-se vacillante e +cambaio. Entra em casa, e vê correr um vulto de mulher através de um +passadiço. Corre impetuoso, e já o não alcança. Tresvariando, grita que +ha ladroes em casa. Affluem os creados, buscam e rebuscam todos os +cantos inutilmente. Ludovina e sua mãe acodem espavoridas, e encontram o +barão, debatendo-se nos braços de dois creados, com um ataque de nervos. +Ministram-lhe soccorros, conduzem-n'o á cama, querem vêr o que elle +fecha na mão direita, e podem apenas lobrigar a ponta queimada de um +charuto. Ludovina inquire com meiguice e pena o que é aquillo, e o +desgraçado, maior e mais eloquente na sua angustia, responde: + +«É a nossa morte! + +Instam na explicação das respostas, e elle troveja: + +--Não quero aqui ninguem! + +Pasmam; e retiram-se, atemorisados. + +«Estará elle doudo, meu pae?--dizia a baroneza, tremula de medo, +apoiando-se nos braços do espavorido Melchior. + +--Parece que sim, minha filha. Chamem-se medicos já. Este homem deve ter +demasiado sangue. É ameaça de doudice, não póde ser outra cousa. +«Que sorte a minha!--disse Ludovina lagrimosa. E foi para o pé do leito +de seu marido. + + * * * * * + +--Se se verificar a demencia--dizia Melchior a D. Angelica, de modo que +só todos nós pudemos ouvir--a administração da casa passa immediatamente +para Ludovina, e Rilhafolles com elle. Este homem saíu muito outro do +que eu imaginava. Ainda me não disse que deixasse o logar da alfandega, +nem me offereceu um emprestimo com que eu possa tentar demanda contra os +possuidores da minha casa. Tenho remorsos de ter dado a este alarve uma +creatura tão perfeita como a nossa Ludovina! + +D. Angelica não respondeu. + +«Ainda te doe a cabeça, Angelica? + +--Bastante. + +«Já estavas a dormir, quando o barão gritou? + +--Dormitava. + +«Mas eu fui ao teu quarto, e já te não encontrei lá! + +--Tinha corrido sobresaltada. + +«Então pelo que eu vejo tinhas-te deitado vestida... + +--É verdade, nem forças tive para desapertar os colchetes. + +«Porque me não chamaste, filha? + +--Não quiz incommodar-te. + +«Ora essa!... + +--Até logo, filho, vou ver se descanço um instante + +«Vae, vae, menina. + +.......................................................................... +.......................................................................... +.......................................................................... + +Ha reticencias que não dizem nada. + +A litteratura merceeira, para justificar o adjectivo, inventou as +carreiras de reticencias, as quaes correspondem aos pesos roubados da +mercearia. + +Eu abri loja, e vou com os outros. + +Não me entrem, pois, a desconfiar que os pontinhos juntos fazem borrão +n'este painel de bons costumes. + +A sr.ª D. Angelica é excellente mãe, no meu conceito; e, no conceito do +sr. Melchior Pimenta, é excellente esposa. + +Póde morrer, que o necrologio já não coxeia. + + + + +IX + + +Não averiguei miudamente o que disse Ludovina a seu marido. Um dos dois +medicos chamados ás sete horas da manhã para examinarem a supposta +demencia, a pedido do Melchior Pimenta, disse-me que encontrára o barão +febricitante, mas sem o menor suspeito symptoma de loucura. Accrescentou +que o enfermo lhes dissera, que bebessem elles a tizana que receitaram; +e lhes mandára pagar a visita, com recommendação de o darem por curado. + +Ás nove horas já o barão tinha sahido, sem dizer a Ludovina o seu +destino, nem acceitar o almoço. + +Saíra pela porta principal, e entrára na rua para onde olhava a janella +do jardim. Em frente d'essa janella, na margem esquerda da rua, estava +com escriptos uma casa terrea. O barão perguntou, na vizinhança, quem +era o proprietario da casinha, encontrou-o perto, alugou, pagou a casa, +e recebeu a chave. + +D'alli foi ao largo de S. Bento. Entrou n'uma loja de ferragem, e +comprou uma clavina trochada, e um par de pistolas de coldres; e, +n'outra parte, as munições de fogo. + +Tornou a casa ao meio dia, pediu o almoço, e comeu á tripa fôrra. A +baroneza, e D. Angelica assistiram ao almoço, e não conseguiram +arrancar-lhe tres palavras. Quem o servia era o negro, que o acompanhára +do Rio, e o adorava com o fervor nativo da sua raça. O barão chamou-o no +fim do almoço, e disse em segredo: + +«Esta chave é d'aquella casa baixa que tem o numero doze, defronte da +janella do jardim. Vae á loja de ferragem no largo de S. Bento, com este +bilhete. Hão-de entregar-te umas armas, e um embrulho. Pega em tudo +isso, de modo que ninguem cá de casa te veja, fecha-o no tal casebre, e +entrega-me a chave depois. + +O barão foi passear no jardim, e recolheu o seu espirito em meditabundas +reflexões. + +Poucos dias antes, tinha elle ouvido uma historia que toda a gente sabe. +Era aquelle conto de uma mulher adultera, que o marido inexoravel matára +sem pau nem pedra, pondo-lhe diante dos olhos uma moeda de prata ao +almoço, ao jantar, á cêa, a toda a hora, em todas as situações, até que +a matou. Esta historia entalhára-se na memoria do barão com indeleveis +traços. Contou-a a sua sogra, que a classificou de indecente para se +dizer a senhoras. Contou-a a sua mulher, que não desculpou a victima, +mas reprovou a fereza do verdugo. João José Dias fez a apologia do +verdugo, e disse que «a honra de um homem só assim se vingava.» Ludovina +fitou-o com espanto, e acreditou que o ciume seria capaz de +desenvolver os instinctos ferozes de seu marido. + +Era aquella historia o ponto convergente das meditações que o +reconcentraram, por espaço de tres horas. D'esta longa e dolorosa +encubação do pensamento deve-se esperar um parto, um monstro, uma +façanha, mais ou menos plagiaria, da medonha expiação da adultera. + +Chamaram-n'o para jantar: disse que jantaria em mesa á parte com sua +mulher. Desceu ao jardim a baroneza, e perguntou-lhe a causa de tal +exquisitice. + +--Não dou satisfações--respondeu--Quero jantar, e almoçar sósinho comsigo. + +--Isso é o mesmo que... + +--Não me replique! tenho dito. + +Fazia medo a cara do homem. Esverdinharam-se os refegos da papeira; as +ventas fumegavam soluçando; testa e palpebras, tinham o escarlate da +penca do perú assanhado. + +Ludovina estava atterrada, e julgou-se em risco, ali, sósinha. Recuára +para se evadir com dignidade, honrando a retirada, quando o barão lhe +disse: + +--Olhe, senhora! + +A baroneza voltou-se, e viu o braço do barão erguido em attitude +prophetica; e lá em cima no cucuruto da mão cebácea... o CHARUTO!... + +--Que é isso?!--perguntou ella com mais curiosidade que espanto. + +--Não sabe o que isto é? chegue-se cá! + +Ludovina, indo receosa, disse: + +--É um charuto... pois não é?! + +--É um charuto! é um charuto! mulher traidora!--ululou o bordalengo com +a grenha irriçada. + +Ludovina recuou tres passos, tolhida de medo. O barão crescia sobre +ella, com o braço no ar, arvorando o charuto. A pobre menina temeu as +furias de um doudo, e chamou com afflictivo grito a mãe. + +Acudiu D. Angelica, já quando o barão, mettendo as mãos nas portinholas +da japona, á laia de idolo chinez, voltava as costas a sua mulher. + +--Isto que é?!--exclamou D. Angelica. + +--Está doudo rematado, minha mãe!--disse, a meia voz, a baroneza. + +--Vae-se chamar teu pae, que chegou agora. Nós não podemos viver com um +demente... + +--Janta-se, ou não se janta?--disse o barão, caminhando para ellas com +socegado semblante. + +--Que desordem foi esta, sr. barão? + +--Desordem! ora essa é fresca! Aqui, que eu saiba, não houve desordem +nenhuma... Foi sua filha que viu uma cousa que a fez gritar... A culpa é +d'ella. + +--Que viste, Ludovina? + +--Eu vi um charuto na mão d'este senhor; mas gritei porque elle me deu +berros medonhos, e correu para mim com ares ameaçadores. + +--Deixe-a falar, sr.ª D. Angelica--replicou o barão, sorrindo de um modo +que confirmava a demencia--A cousa é outra... Vamos jantar, e, se minha +mulher tem medo de mim, jantaremos todos juntos á mesma mesa. + +Melchior Pimenta, informado da desordem, foi ao encontro do grupo que +entrava em casa. D. Angelica, com um só dedo, fez-lhe dois gestos: um ao +longo do nariz, para que se calasse, outro no centro da testa, para que +as protegesse de um doudo furioso. + +Sentaram-se á mesa, espionando os menores movimentos do barão. Viram-no +tirar a mão da algibeira, extender o braço por sobre a mesa, e deixar +caír, ao pé do prato da baroneza o charuto. + +Ludovina lançou-o ao chão com a faca, dizendo: + +--Olhem que porcaria!--E voltando-se para o creado que servia a sôpa: + +--Atire isto lá fóra! + +--Não atires!--bradou o barão. + +--Porque não ha de atirar?!--Disse Melchior Pimenta. + +--Porque não quero! e porque sou dono d'esta casa! e porque quero +despicar a minha honra!... e porque vae tudo com mil diabos, ouviu? + +Os talheres, os calices, as bandejas, e os pratos, resaltaram duas +pollegadas acima da superficie: tamanho fôra o murro que o barão baixára +sobre a mesa. + +Ergueram-se todos. D. Ludovina fugiu por uma porta; D. Angelica por +outra; Melchior Pimenta, enfiado, amarello, sem gota de sangue, +antevendo um violento embate na sua cara com a terrina, seguiu a mulher, +colorindo a retirada com a prudencia. + +O barão embolsou o charuto, chamou o preto, e disse-lhe: + +--Senta-te ahi, Simão; janta ao pé de mim, que és o unico amigo que eu +tenho. + +Ha, n'este lance, motivo para nos condoermos. + +O barão não come, apesar do esforço. O bocado entala-se-lhe na garganta, +comprimida pelos soluços. Depõe o garfo, e descáe o rosto, coberto de +lagrimas, sobre as mãos. O preto, que não ousára sentar-se, vendo chorar +o amo, cujo pão comera em liberdade, no espaço de vinte annos, chora +tambem, e pergunta a medo a causa d'aquella afflicção. Responde-lhe em +gemidos o bemfeitor, e ergue-se extenuado, e vacillante, como se os +sentidos o desamparassem. O preto quer conduzi-lo ao quarto; mas o +barão, um momento indeciso, pede o chapéo e sae. + +As angustias d'este homem condemnam Ludovina? + +Não. Ludovina é innocente como os anjos. + +A peçonha mortal, que espedaça o coração d'este homem, tem-na elle na +algibeira: é o charuto de Francisco Nunes. + + + + +X + + +É meia noite e um quarto no relogio da Lapa. + +A casta lua dá a sua luz poetica a muitas impudicicias, e tolera o +escandalo resignada. Casta lhe chamam os poetas, e é bem posto o +epitheto. Só ella seria capaz de manter-se pura com tantos exemplos de +corrupção. De mim creio que a tem salvado a distancia que a separa dos +bardos que a namoram; e, se não é a distancia, é a impertinencia das +cartas rimadas que lhe mandam. Muitas mulheres, menos castas que a lua, +teem sido salvas pelo mesmo theor. Os poetas, que amam em verso, são uns +puros desinfectantes da putrida impureza. Se todos fizessemos versos, e +nos amassemos em oitava rima, eu lhes asseguro que este globo era um +viveiro de anjos. A theoria de Hobbes seria uma calumnia, e a de Maltus +um absurdo. Não andariamos travados em permanente lucta, nem a +exuberancia da propagação assustaria os economistas. Havia só o risco de +nos matar a fome; mas cada cysne teria um canto derradeiro com que +esforçar a guerra á prosa que inventou os cereaes, o boi cozido, as +acções do banco e a troca de um romance por quinhentos réis. + +Isto occorreu naturalmente da castidade da lua. + +Era, pois, meia noite e um quarto no relogio da Lapa, e fazia luar como +de dia. + +Ás dez horas e meia, tinha entrado para a casa numero 12, da rua *** um +vulto sinistramente rebuçado: era o barão de Celorico de Basto. A casa +tinha uma janella tosca de madeira, que se abriu cousa de meio palmo, +depois que o encapotado entrou. De vez em quando, um raio da luz, caíndo +sobre a fresta das duas portadas, resvalava no nariz do barão, dando-lhe +o colorido de uma cidra avelada. + +Soára o quarto depois da meia noite, quando a janella interior da grade +do jardim se abriu cautelosamente. + +Um objecto branco sobresaía na sombra: devia ser o lenço de uma mulher. + +Cinco minutos, depois, n'uma extrema da rua appareceu um vulto +encapotado, que fumava, caminhando cosido com o muro do jardim. A figura +da janella desappareceu, e em seguida ouviu-se o ranger subtil da +lingueta de uma chave. Era a porta do jardim que se abria ao +avizinhar-se o vulto. + +A distancia de tres passos da porta, o homem que fumava ouviu o ruido de +uma janella que se abria, e parou, voltando-se para a janella. O que +elle viu foi o lampejo da detonação de um tiro, e levou a mão ao hombro +esquerdo. Seguiu-se um pulo incrivel do barão fóra da janella, a fuga +precipitada do vulto, e um segundo tiro, que redobrou a força +motriz do fugitivo. + +Apitára uma patrulha ao cabo da rua, duas, tres, vinte patrulhas +apitaram. A cem passos de distancia do local dos tiros, encontraram um +homem extendido na rua, e disseram em voz alta, que o barão +ouvira:--parece que está morto. + +O barão, sem apressar o passo, entrou na porta do muro, e deu volta á +chave. Olhou ao longo do jardim, e viu, por entre as sombras dos +arbustos, contiguos á casa, perpassar um vulto, e sumir-se. + +Abriu-se outra vez a janella da grade, ao tempo que as janellas das +casinhas fronteiras se abriam. Alguns soldados perguntavam onde se deram +os tiros. Respondiam unanimemente que foram dados alli, e mostrava-se +uma bucha ainda fumegando, no meio da rua. + +--Quem está ahi n'essa janella?--bradou um soldado ao barão, que +estivera calado. + +--Sou eu, sou o dono d'esta casa. + +--E quem é o senhor? + +--É o senhor barão--responderam os vizinhos.--Não, d'alli de certo não foi. + +--Os tiros?--perguntou o barão. + +--Sim, senhor, dois tiros que se deram aqui agora. + +--Eu tambem, os ouvi, e por isso cá vim. Mataram alguem, ou foi patuscada? + +--Não foi má a patuscada! Está alli adiante um sujeito extendido nas +pedras, e, se não está morto, pouco lhe falta. + +--Quem é? conhecem? + +--Estão lá dois camaradas que o conhecem. Dizem que é um doutor de uma +casa rica, chamado... lembras-te, 38? + +--Acho que elle disse... Almeida. + +--É isso, Almeida. O sr. barão conhece-o? + +--Não me lembro d'esse nome. Elle ainda lá está? Eu vou lá ver se o +conheço... + +O barão seguiu a patrulha, até parar n'um grupo de soldados e paizanos, +que rodeavam uma cadeira, onde estava assentado o ferido. Era coragem de +cynico, ou desatino de demente? Mais que tudo isso: era o ciume! + +--Eu conheço este sujeito--disse o barão com admiravel placidez.--E elle +tambem me ha de conhecer, se estiver vivo. Olé, sr. doutor! Está aqui o +barão de Celorico, conhece-me? + +O ferido abriu a custo os olhos, e fez um aceno affirmativo, + +--Eu offerecia-lhe a minha casa, mas a d'elle é perto d'aqui, acho eu. + +--Nós sabemos--disseram os soldados. + +--Pobre homem!--proseguiu o barão em tom compadecido.--Ainda a noite +passada elle esteve n'um baile que eu dei... + +Agglomeravam-se na rua os curiosos, quando o barão entrou em casa. Não +ouviu o mais leve rumor. Entrou no quarto de sua mulher, e viu-a dormindo. + +Parou ao pé do leito, e vascolejou nas mandibulas, alvares uma +gargalhada estrondosa. A baroneza acordou, sentou-se no leito +estremunhada sem saber o que ouvira, nem o que via. + +O barão tirou da algibeira o charuto, chegou-lh'o ao pé dos olhos, e +bradou: + +--O tal patife não fuma outro. + +--Que diz?--exclamou Ludovina. + +--Faz-te de novas, mulher perdida! resa-lhe por alma, que a minha honra +está vingada. Agora que digam o que quizerem. + +E saíu do quarto, deixando apavorada a pobre senhora, que o julgou n'um +terceiro ataque de loucura. + +Ludovina vestiu-se apressadamente, e correu ao quarto da mãe. + +Encontrou-a vestida, prostrada sobre o tapete do guarda cama, com a face +caída sobre os degraus do leito. Ajoelhou ao pé d'ella, chamou-a, +ergueu-a, agitou-a com a força da afflicção, e caíu com ella sobre a cama. + +D. Angelica abriu os olhos pavidos, e vendo a filha, escondeu a face nas +mãos, exclamando: + +--Jesus, meu Deus! + +--Que teve, mãesinha, isto que foi + +--Nada, infeliz; foi um accidente... + +--Por causa dos meus desgostos? ouviu o que aquelle homem me disse? + +--Não, minha pobre martyr... imagino o que te diria... Oh... deixa-me +ver se consigo chorar, senão estalo... mas não chores tu, filha, não +quero que nos ouçam... É preciso que eu te salve, antes que a morte me +leve com o encargo da tua reputação infamada... + +--Eu não a entendo, minha mãe! + +--Não pódes entender-me, Ludovina, não pódes... ai! deixa-me respirar, +que eu não vivo uma hora assim... + +A baroneza amparou a mãe até á janella, que abriu. D. Angelica rasgava +com as mãos os espartilhos compressores do collete, e fincava entre os +cabellos os dedos com vertiginoso desespero. N'este frenesi, susteve-se, +comprimindo a respiração, para escutar as vozes que vinham da rua +contigua ao muro do jardim. + +Uma dizia: + +--Ia morto. + +Outra: + +--A bala entrou-lhe no peito. + +Outra: + +--Pobre familia, que bocado tão amargo! + +--Aquillo que é?--perguntou D. Angelica espavorida. + +--Eu não sei, mãe! + +--Esse malvado que te disse? + +--Chamou-me mulher perdida; mostrou-me o charuto, dizendo que o patife +não fumava outro; e que lhe resasse por alma... + +D. Angelica expediu um grito, um ai vibrante, de uns que o seio +arremessa de si, como se n'esse esforço expellisse um espinho arrancado +ao coração. + +Ao grito de Angelica succedeu o terror confuso de Ludovina. + +N'este intervallo de silencio a lastimavel mãe concebeu um designio +atroz. Deu um salto para precipitar-se da janella, e achou-se travada +nos braços da filha, que pedia soccorro, a altos brados, repuxando-a +para o interior do quarto, com a força miraculosa da angustia. + +Ouviram-se passos no corredor. Ludovina exclamou: + +--Entre quem é. + +Abriu-se a porta, e surgiu o barão. + +D. Angelica lançou-lhe um olhar torvo, e fulminante; fugiu, de um +repellão, aos braços da filha; correu para elle com a sanha de uma +possessa, e atirou-o fóra do quarto com o choque dos punhos furiosos, +exclamando: + +«Assassino! assassino! + +Ninguem me soube dizer a qual genero do sublime truanesco pertencia, +n'este conflicto, o barão de Celorico. Eu tambem me não cancei em +averiguações, porque o resultado d'ellas seria sujar com salmouras +despicientes um quadro de angustias, que não é novo na vida, mas +afouto-me a dize'-lo que é novo no romance. Melchior Pimenta não +apparecia, sendo o seu quarto paredes meias com o de sua mulher. +Deliciava-se nas profundezas de um somno do qual só podia emergir, +quando a ultima molecula de tres grãos de morphina se perdesse através +dos philtros nervosos. O dormir do somnolento empregado da alfandega +explica-se com as vigilias aturadas de D. Angelica. Vá sem reticencias. + +Para nós é mais comprehensivel o espanto da baroneza do que estava sendo +para ella o desespero de sua mãe. Se a pobre senhora suspeitasse que a +demencia do marido era contagiosa; tinha desculpa. Tamanha +afflição, descompostura tal de contorsões, de gemidos, de +arremessos para a janella, chamando a morte, não podia ser procedente do +amor maternal exaltado até á ira da leôa. + +Ludovina ajuizava assim; mas não atinava com a razão possivel de +effeitos tão extraordinarios no caracter inalteravel, e quasi duro de +sua mãe. + +Instava, supplicando-lhe o desafogo da sua agonia. D. Angelica +apertava-a contra o seio com arrebatada e insolita ternura. Promettia +dizer-lhe tudo, quando pudesse falar, na certeza de que a sua ultima +palavra fosse um adeus a este mundo, e uma confissão de que dependia o +credito de sua filha. + +Foi um raio de luz para Ludovina estas palavras, cortadas por gemidos; +esse raio de luz, porém, queimou-lhe o coração. Se Angelica reparasse na +pallidez da filha, demasiado castigo seria da sua falta essa mudança. A +parte da sua dôr, que até alli fôra remorso, seria depois vergonha, e +vergonha de sua filha, tortura mil vezes mais pungente que a mordedura +do remorso para a que soube ser mãe, e affrontou os deveres de esposa. + +A baroneza mudou de semblante e de carinho, sentiu-se gelada e inerte ao +pé da mãe, logo que meia luz do enygma lhe aclarou o entendimento. + +«A mãe precisa descançar--disse ella com affectado gesto de +carinho--Deite-se, que eu ajudo-a a despir-se, e ficarei ao pé da sua cama. + +--Não, filha; eu não tenho descanço n'este mundo, nem no outro. Se ainda +tenho algum direito á tua obediencia, deixa-me só; preciso de +chorar lagrimas que nunca Deus permitta o teu coração as chore. Não +pódes respeitar esta agonia, porque não a comprehendes, innocente +martyr. Se soubesses... poderias abominar-me agora, para te compadeceres +depois. + +«Sei, mãe. + +--Que sabes tu, Ludovina?! exclamou Angelica, abraçando-a convulsivamente. + +«O meu silencio responde-lhe, mãe... Não soffra pela minha deshonra. +Deus sabe tudo; não me importa o mundo; a Providencia fará vêr a verdade +a meu marido, sem que o nome de minha mãe seja sacrificado. Cale-se, por +quem é. Não diga nada ao barão, e poupe meu pae. Eu sinto-me com forças +para não vergar a um peso de infamação que me não cáe sobre a +consciencia. Se o meu amor a póde consolar, não diga o seu segredo a +ninguem; não diga porque eu não sei qual dos dois descreditos é mais +afflictivo para mim... + +D. Angelica resvalou dos braços da filha, querendo ajoelhar-se-lhe aos pés. + +Ludovina ajoelhou com ella, e n'este momento abriu-se a porta. + +Era o barão de Celorico. + +--Ouvi tudo--exclamou elle--Perdôa-me, Ludovina, pelas cinco chagas de +Christo. E foge d'essa mulher, que é a causa de eu ser um matador. + +--Tem razão; vae, minha filha--disse D. Angelica, afastando-a de si. + +--Sr. barão--disse Ludovina--eu não deixo uma mãe culpada para +seguir um assassino. Saia da minha presença, que o detesto. Apenas +romper a manhã, deixo esta casa, deixo-lh'a para que o senhor caiba +n'ella com o seu remorso. Matou um homem, sr. barão, um homem que não +conhecia; matou-o a sangue frio, e será capaz de praticar uma crueldade +menor matando-me a mim. + +D. Angelica arrancou-se aos braços da filha com furioso impeto, e +postou-se terrivel diante do barão, exclamando com uma toada de voz +soturna e tremula: + +--Com que direito assassinou um homem, scelerado, carniceiro? + +O barão tremeu, recuou, e pendeu o queixo inferior relaxado pelo espasmo. + +--Responda á amante do homem que matou; á mulher que acceita +voluntariamente a infamia da sua culpa, para ter o direito de pedir +contas ao assassino de Antonio d'Almeida. Querias, com essas mãos tintas +de sangue, tocar em minha filha, miseravel algoz, que és tão estupido +como sanguinario! + +Ludovina, cingindo a cintura da mãe, arrastou-a para longe do barão, que +parecia, ao passo que ella falava, ir-se petrificando. + +A vehemencia da ira decaíu subitamente em syncope. D. Angelica encostou +a face desfallecida ao seio da filha, que a levantou nos braços, e +deitou no leito. + +E voltando-se para o miserando homem, cujo rosto confrangido accusava os +pungimentos do remorso, a baroneza, em tom de cólera mal reprimida, disse: + +--O senhor não ha de ser mais feliz que as pessoas a quem deu a +morte, e a eterna vida de lagrimas. Pediu-me perdão? eu já lhe havia +perdoado as suspeitas, as desconfianças, os insultos, as vergonhas a que +hontem me expoz na presença dos seus creados. Tudo lhe perdoei, em +quanto o suppuz demente; hoje, que o considero um criminoso de morte, e +que não tenho quem me defenda das suas mãos póde matar-me, que o não +chamarei á presença de Deus para ser julgado. + +--Ludovina--balbuciou o barão, com o rosto coberto de lagrimas--eu matei +esse homem cuidando que era elle o teu amante... + +--Era a mim que devia matar-me, senhor. + +--Não podia ainda que quizesse, porque a minha tenção era matar-me e +deixar-te viva, para que tu ao menos te lembrasses de mim com pena, +quando já me não visses n'este mundo. Esse homem ainda não morreu, +Ludovina; póde ser que se cure, e eu vou-me ajoelhar aos pés d'elle a +pedir-lhe perdão, e, se tu quizeres, pedirei tambem perdão a tua mãe. + +--Não fale n'essa infeliz a ninguem, snr. Dias, a ninguem. Aqui a +deshonrada sou eu. Se o descobrirem como assassino de Antonio de +Almeida, diga, se quer que eu o não amaldiçôe, diga que esse homem era o +meu amante; mas não fale em minha pobre mãe... + +«Que dizes tu, Ludovina? Pois tu queres que se diga que eu fui +deshonrado por ti? + +--Deshonrado está o senhor, desde já, desde que matou, ou quiz matar por +uma suspeita um vulto desconhecido... + +«Elle vinha entrando para o jardim, Ludovina, e tua mãe estava na +janella... + +--Cale-se! isso é mentira! minha mãe estava deitada na sua cama... + +«Não estava, Ludovina... + +--Estava, snr. Dias; não me contradiga, que eu juro contra as suas +palavras em toda a parte. + +«Então quem estava na janella, senão tua mãe? + +--Era eu; já lhe disse que a deshonrada sou eu; esse homem que matou era +o meu amante; sabe-o todo o mundo; sabia-o o senhor quando o matou; sou +eu a causa de meu amante ser um cadaver, e meu marido um assassino. Sou, +portanto, uma infame mulher que deve saír debaixo d'estas telhas. +Ámanhã, ámanhã ha de fazer-se uma separação eterna entre nós. A sua +honra fica assim completamente desaffrontada. Todos dirão que meu marido +me expulsou com a ponta do pé de sua casa. Todos hão de admirar os brios +do snr. barão que matou o rival, e não desceu á cobardia de matar uma +mulher... Esta resolução é inalteravel; acabou-se tudo entre nós, menos +a vergonha, a infamia, o escandalo que vae fazer dos nossos nomes um +espectaculo para a irrisão de uns, e para a piedade de outros. Eis aqui +a sua obra; a mim, como sua mulher, compete-me acceitar metade da +responsabilidade... + +D. Angelica sentou-se no leito, afastou, como em delirio, os cabellos +que lhe cobriam as faces, e pediu uma gota d'agua, com supplicante +instancia, proferindo os nomes das creadas da casa. Ludovina +ministrava-lhe a agua, que ella repelliu com ira. Permaneceu +estarrecida alguns segundos, com os joelhos a prumo entre as mãos; +depois, caíu de chofre sobre o travesseiro, e murmurou longo tempo +palavras inintelligiveis. + +O barão tinha saído imperceptivel. D. Ludovina debruçou-se, debulhada em +lagrimas, sobre o leito. + +Melchior Pimenta, no quarto immediato, espreguiçando-se fazia com os +abrimentos de boca uma toada em falsete, rispida como o uivar do mastim. + +Abençoados quatro grãos de morphina que lhe povoastes o somno de +deleitosas visões! + +Melchior Pimenta, eu, quando quero phantasiar um marido bemaventurado, +lembras-me tu. + +Se vejo algum, desconcertado como as velleidades da metade que se +despega, para entrar como excrescencia no complemento de outras +existencias, que se reputam inteiras, dá-me vontade de lhes perguntar se +já experimentaram a morphina. + +Eu tenho visto a suprema felicidade dos minotauros. + +Havia dois que espiritavam a galhofa de Melchior Pimenta; um, que +repudiando, timbroso e austero, a esposa tentada pela cobra d'este +paraizo terreal, onde as cobras inçam como em matagal bravio, recebe uma +carta de dama d'alta estirpe, onde se lhe censura o burguez despique de +peccadilho tão corrente em gente fina. O marido acceitára a correcção e +a mulher incorrigivel. Melchior ria até caír. + +Outro, amante da paz caseira e fricassés acirrantes, conhece no aspecto +carrancudo da mulher, e no aguado dos molhos, os desvios do amante: +inventa pretextos para aproxima'-los e ameiga os arrufos com um jantar +campestre. + +Outro... Melchior conhecia outro, e eu conheço-o a elle, e mais dez +exemplares que Brantome não archivou,[4] todos aporfiando em +delicias sublunares. + +Mas o ditosissimo, o que vive e morre sem sentir na consciencia o toque +despertador, o _momento_ da predestinação cumprida, esse é um só no meu +catalogo. + +Melchior Pimenta, se quizeres um dia erigir estatuas aos deuses +tutelares da tua prosperidade, lembra-te de Ludwig que farejou no opio a +morphina; de Seguin que a descreveu; e de Sertuerner que aperfeiçoou o +processo da extracção. + +Sem a morphina, não serias mais feliz que Octavio, que Cicero, que +Domiciano, e tantos grandes e sabios do paganismo que podem, sem +vergonha, apparecer diante de outros não menos sabios, e grandes +senhores da christandade. + +Nasceste n'um folle, Melchior Pimenta! + + [4] Veja _Vies des dames galantes_, por le Seigneur _de + Brantome--Discours premier_. + + + + +XI + + +Mulheres são os melhores juizes de mulheres. + +Disseram philosophos e moralistas, uns, grandes santos como S. Paulo, e +outros, grandes atheus como Voltaire, que a mulher é um ser exuberante +de sensibilidade, e apoucado de raciocinio. + +D'ahi vem o denegarem-lhes accesso ás sciencias abstractas, ás +politicas, aos parlamentos, ao magisterio, ás regiões intellectivas do +machinismo social, e mandarem-nas cuidar dos filhos, e fiar na roca. + +Se o absurdo vinga, se, por alvitre grosseiro do mais forte, a mulher é +um ente inepto para exercitar a razão, com que direito as julgamos e +sentenciamos, segundo a razão, sendo as suas culpas demasias de sentimento? + +A injustiça é flagrante e odiosa. + +Privam-nas de razão para as excluirem das funcções que a requerem; +sentenceiam-nas pela razão, se o sentimento, seu dom essencial, as +desvia do piso demarcado por ella. + +Isto é uma tyrannia, uma inquisição, uma crueza turca. + +A mulher não pode ser julgada por nós. Somos os senhores feudaes da +razão. A nossa alçada respira a prepotencia do baraço e cutello. Estamos +em insurreição permanente contra o santissimo apostolado de Jesus, que +baixou seu divino braço por igual sobre o homem e mulher. + +Não podemos superintender no fôro do coração, porque a nossa +jurisprudencia é toda de cabeça, e o nosso codigo em pleitos da alma é +estupido ou hypocrita. + +Quem é o juiz da mulher? O homem que a despenha do abysmo, onde a lançou +o amor, ao abysmo do opprobrio. + +É o homem, que lhe entalha o ferrete da ignominia na face onde imprimira +o beijo da perdição. + +O altar onde se adora uma mulher é ao mesmo tempo a ara onde ella se dá +em holocausto. Peccadora por muito sentir e chorar, amar e crer, quando +nos abre céos e céos de alegria e gloria, abrimos-lhe nós o inferno dos +desenganos, e o supplicio extremo do descredito. O mundo não as exila, +mas affronta-as; o coração não as encrimina, mas agonisa na horrivel +soledade para onde a razão o desterra. + +E somos nós os juizes, porque entramos n'uma herança usurpada pela força +primeiro, e legalisada depois pelo sophisma escripto. + +A mulher foi escrava do braço, antes de o ser da superioridade moral. + +Quando o homem chamou a sciencia a dar um testemunho falso da sua +primazia, a mulher, quebrantada pela escravidão do braço, não pôde +remir-se com as forças do espirito. + +Ainda assim, o tyranno, receoso da emancipação, fez em redor da escrava +as trevas da ignorancia, para que a razão da mulher não pudesse conceber +da luz o germen que a rehabilitasse. + +Pegou de formosa flor, cercou-a de estevas, cobriu-a de sombras por onde +o sol não podia coar uma restea reanimadora. + +Esta machinação arteira sobreviveu a todas as borrascas sociaes. Os +fautores, e ainda os martyres da egualdade perante Deus e perante a lei, +nunca proferiram uma palavra, nem verteram gotta de sangue para o +resgate moral da mulher. + +O Filho de Maria disse que a mulher era egual ao homem, e levou para o +céo o segredo da sua emancipação. + +Ficamos nós cá, os açambarcadores do entendimento escrevendo livros, que +sacrilegamente denominamos de moral derivada do Evangelho, e n'elles +demarcamos a profunda raia que extrema RAZÃO de SENTIMENTO. A razão para +nós, o sentimento para ellas. Se, todavia, o sentimento claudica nos +preceitos da razão pautada e insoffrida, condemnamos a mulher pela culpa +de se deixar perder na escuridade, á mingua de uma lampada que lhe +negáramos. + +.......................................................................... + +Não sei se rasgue estas cinco paginas do manuscripto. Se alguem me +assegura que entre vinte mil leitoras (orça por isto o numero das +senhoras que compram livros em Portugal) se me asseguram que entre as +vinte mil ha duas que me entenderam a parlenda, e me ficam desejando +muita saude e graça para servir a Deus, não rasgo as paginas, embora os +homens me mandem, em portuguezissima phrase, bugiar. + +Quando comecei o capitulo, tinha de olho dizer, á quarta linha, que, +ácerca de culpas de mulheres, já mais consulto homens. + +Mulheres são os melhores juizes de mulheres. + +A respeito de D. Angelica, consultei uma sua amiga de infancia, tão +virtuosa como indulgente; mas virtuosa--não me afiram lá a palavra pelo +elucidario caseiro--virtuosa amando muito e com muito despego de pecos +empecilhos, atravancados pela impostura. + +Disse-me ella o seguinte: + +«D. Angelica é das poucas mulheres que podem fazer do seu crime um +titulo ao respeito das mulheres que sentem o coração pela dôr. + +--Ao respeito!--atalhei eu, com fumos de juiz, vicio do sexo ingrato, +onde por desventura me encontro. + +«Sim, ao respeito, porque D. Angelica amando vinte annos um homem, +juro-lhe que não teve uma hora de consciencia quieta, nem intrepidez +para sacrificar o coração ao repouso da consciencia. + +--Vinte annos! pois era amor de vinte annos o do tal Almeida que o barão +de Celorico arcobuzou? + +«Mais seria, talvez. Angelica era filha segunda de um fidalgo pobre do +Minho. Foi educada comigo, no Porto, no recolhimento de S. Lazaro. +Passava as festas do anno em casa de um doutor, que tinha filhas, e um +filho que se formava n'esse tempo. Esse filho era o Antonio de Almeida, +que o senhor conhece, e D. Angelica amou desde os quinze annos, com o +amor immenso das sympathias contrariadas. + +O doutor descobriu a affeição do filho, e impoz-lhe um violento termo, +prohibindo-o de vir ao Porto nos dois ultimos annos da formatura. + +As cartas de Antonio de Almeida recebia-as eu, e Angelica relia-as, ao +cabo de dois annos de ausencia, com paixão cada vez mais entranhada. + +O fidalgo pobre resolveu casar a filha com um rapaz que se dizia rico. +Melchior Pimenta era filho bastardo de um conego opulento, e litigava a +herança paterna, com a certeza do vencimento. + +Angelica saíu do recolhimento sem saber para que fim saía. Friamente +avisada de que havia de casar com Melchior Pimenta, embruteceu, ficou +como tolhida, e desmemoriada do amor que alimentára tres annos. + +Quando o coração reviveu do lethargo, a indiscreta menina escreveu ao +pae de Antonio de Almeida, pedindo-lhe que a pedisse ao pae para casar +com seu filho. Que innocencia! + +Escreveu ao marido que lhe destinavam, confessando que não podia dar-lhe +o coração. + +O doutor, se ella lhe conviesse te'-la ía. Angelica era pobre. +Melchior Pimenta não respondeu á carta, nem deminuiu as instancias. + +O fidalgo, informado pelo doutor, agradeceu-lhe a probidade da denuncia, +e accelerou o desfecho. + +Angelica não soltou um gemido na presença do pae; sei que apenas lhe +disse: «A historia de muitas mulheres desgraçadas começa como a minha.» +Disse, e pôz a cabeça no altar do sacrificio. Ao marido apenas perguntou +se recebera uma carta d'ella... + +Participei a Almeida o casamento de Angelica. Respondeu-me elle que não +acreditava a infamia emquanto a perfida não tivesse o cynismo de lh'a +dizer. Modifiquei as palavras d'esta carta, contando-as á minha amiga. +Ella soluçou nos meus braços muito tempo, e disse com vehemente +resolução: «Pois sou eu que lhe vou dar parte do meu casamento, e +offerecer-lhe a minha casa.» Que fazes tu, menina?--repliquei eu, longe +de suspeitar a resposta: «Faço á prepotencia de meu pae o sacrificio da +minha dignidade, e castigo um homem que me comprou.» + +Julguei-a desvairada pela angustia, e reservei para melhor ensejo os +conselhos que os meus vinte e cinco annos, já apalpados por amarguras de +coração, podiam dar-lhe. + +Effectivamente, Antonio de Almeida voltou formado, e frequentou a casa +de Melchior Pimenta, que dava bailes, e figurava na primeira plana a +favor de antecipações que fazia sobre o penhor do seu patrimonio. + +Deixei de ser a confidente de Angelica, mezes depois. As suas +cartas não eram confidencias: eram lagrimas, queixumes vagos contra a +sua sorte, chagas de consciencia que só a morte podia cicatrisar. +Entendi tudo, e fiz o que faz, ou o que raras vezes faz uma amiga: +consolei-a na queda, como a aconselhára á beira do abysmo. Disse-lhe que +mandasse a consciencia ao pae, e que ficasse ella com o coração. Não lhe +falei em Deus, nem na Virgem, porque no infortunio de Angelica, não +havia que vêr com cousas sobrehumanas. + +O doutor farejava um casamento rico para o filho; achou-o, e marcou-lhe +o prazo para se realisar. Antonio de Almeida rejeitou-o com toda a +ousadia da desobediencia. Choveram maldições ás duzias, abriram-se os +cancellos do inferno aos pés do obstinado moço. Peor que tudo isso, o +castigo de Almeida foi ser expulso de casa, sem pão, nem habilitações +promptas para ganha'-lo. + +Angelica soube tudo por mim, e por uma carta do doutor, que a +responsabilisava pela desgraça do filho. Vendeu algumas joias que tinha +de sua mãe, e pediu-me a entrega do producto, como dadiva minha, a +Almeida. O brioso moço, não sei como, soubera onde as joias paravam. +Acceitou o dinheiro, comprou as joias e pediu-me que as entregasse a +Angelica. + +Duas almas assim nunca se separam. As ligações mais duradouras são as do +crime, quando as virtudes do sacrificio reciproco chegam a esquecer-se +da sua má origem. + +Antonio de Almeida trabalhou dia e noite, até ser um advogado de fama. + +Melchior Pimenta, ao cabo de quatro annos de casado, tinha perdido a +demanda, e estava pobre. Antonio de Almeida cortou ás suas primeiras +necessidades para emprestar a Melchior o fausto da casa. Angelica +soube-o tarde; mas, sabendo-o, conheceu a pobreza de seu marido, e a +delicada generosidade do seu amigo. + +Fecharam-se as portas da sala, acabaram bailes e theatros, resumiu-se a +vida de Angelica ao amor a sua filha, á adoração mais intima do amante, +e aos respeitos affectuosos por seu marido. + +Antonio de Almeida acatou o melindre de Angelica. Inventou pretextos +para melhorar-lhe a vida, que ella não desejava melhor. Conseguiu fazer +despachar Melchior Pimenta para a alfandega, comprando o despacho por +alto preço. + +Nem este mesmo sacrificio desconheceu Angelica. Os jornaes annunciaram a +corrupção, e a minha atilada amiga adivinhou a causa. Melchior Pimenta, +não. Esse perguntava se os seus merecimentos não eram demasiada +recommendação para o despacho. + +Sabe agora a vida de Angelica? + +Se alguma vez o seu sestro linguareiro o levar a pôr em romance esta +historia, accrescente que D. Angelica, ao despedir-se de Almeida para +visitar o berço da filha, lavou-lhe muitas vezes o rosto com lagrimas. +Diga que, outras muitas, o amante de Angelica, farto de a esperar na +sala, e já receoso de algum successo triste, procurando-a, ia +encontra'-la ajoelhada ao pé d'esse berço. E, depois que Ludovina se +lançava aos braços de Almeida, com fervor mais de filha que de +creança affeita a mimos e carinhos, o rosto de Angelica incendiava-se de +pejo, como se o affecto e a virgindade do coração travassem peleja. + +Em resumo, snr. romancista, acabo por onde principiei, e do que vou +repetir faça uma maxima, por minha conta; mas não a enfileire a par da +do commendador João José Dias: + +HA MULHERES QUE PODEM FAZER DO SEU CRIME UM TÍTULO AO RESPEITO DAS +MULHERES QUE SENTEM O CORAÇÃO PELA DOR. + +D. Angelica está julgada e punida......................................... +.......................................................................... + +Entretanto foi Jesus para o monte Olivete: + +.......................................................................... + +Então lhe trouxeram os escribas e os phariseus uma mulher que fôra +apanhada em adulterio: e a puzeram no meio. + +E lhe disseram: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adulterio. + +E Moisés, na lei, mandou-nos apedrejar estas taes. Que dizes tu logo? + +.......................................................................... + +Jesus, inclinando-se, escreveu com o dedo na terra. + +E, como elles teimavam em interroga'-lo, ergueu-se Jesus, e disse-lhes: +O que de entre vós está sem peccado seja o primeiro a apedreja'-la. + +E, tornando a curvar-se, escrevia na terra. + +Elles, porém, ouvindo-o, saíram um a um, sendo os mais velhos os +primeiros; e ficou só Jesus e a mulher que permanecia, no meio, em pé. + +Então ergueu-se Jesus, e disse-lhe: Mulher, onde estão os que te +accusavam? ninguem te condemnou? + +Ninguem, Senhor;--respondeu ella. Então, disse Jesus: Nem eu tão pouco +te condemnarei: vae e não peques mais. + +O SANTO EVANGELHO DE JESUS CHRISTO, SEGUNDO S. JOÃO--Capitulo VIII. + + + + +XII + + +Em quanto D. Angelica dormita os somnos curtos e sobresaltados da febre, +a baroneza despertou o pae, chamando-o á ante-camara. + +Melchior Pimenta, estremunhado e como ebrio dos aturdimentos da +morphina, extranhou á filha a extraordinaria madrugada, e perguntou se o +barão fizera alguma nova loucura. + +--Não podemos continuar a existir n'esta casa, meu pae--disse Ludovina, +sem saber ainda como sahir-se bem de lance tão perigoso para sua mãe. + +«Então que houve? esse alarve que fez? será necessario amarra'-lo? + +--O necessario é sahirmos; mas a mãe está muito incommodada... + +«Que tem ella?! + +--Os meus desgostos affligiram-n'a a tal ponto que está ardendo em +febre, e não sei se poderá transportar-se. + +«Vamos vê'-la. + +--Pois sim vamos, mas não perca tempo. Um medico é o mais urgente +agora. Veja-a; se ella estiver descançando, não a desperte, e vá dispôr +as cousas em nossa casa para nos mudarmos logo, sim, meu pae? + +«Mas que fez o bruto?! A gente ha de sair d'aqui sem dar uma satisfação +á opinião publica? Não vês que esta saida precipitada auctorisa a +maledicencia a calumniar-te como o barão te calumnia? + +--Não tratemos agora da opinião publica, nem do barão. O pae saberá +tudo. Venha ver a mãe, e vá depressinha, sim? + +Melchior Pimenta entrou na camara de sua mulher. Tateou-lhe a testa que +transpirava o suor da febre, sondou-lhe o pulso, afastou-lhe os cabellos +dos olhos, e murmurou: + +«Isto é doença séria, Ludovina!... + +--Talvez não, meu pae... São afflicções que se curam com o socego da +nossa casa. Não se demore. Vá por casa do medico e mande-o já. Se vir o +barão não lhe diga nada, promette-me? + +«Eu sei cá o que farei! Ao despedir-me, tenciono dizer-lhe que me não +codilhou. Tu tens escriptura de dote. Quando quizeres, levantas vinte +contos de réis... + +--Pois sim, meu pae, esses negocios não são para agora. O que eu quero é +a saude de minha mãe. Vamo-nos d'aqui embora, que eu torno a ser +feliz... Se é meu amigo, não se demore; tire-nos d'este purgatorio. + +Melchior Pimenta ia scismando no divorcio, e nos vinte contos, quando o +barão lhe surgiu na extremidade do corredor. + +--Bons dias, sr. Melchior. + +«Bons dias, sr. barão. + +--Isso hoje foi madrugar! + +«Assim é preciso. + +--Se não tem muita pressa, dê-me aqui uma palavra. + +«Não posso, sr. barão, vou com pressa. + +--Olhe cá, sr. Melchior, é preciso que nos entendamos. + +«A que respeito? + +--A respeito d'estas poucas vergonhas que aqui vão. + +«Que chama o senhor poucas vergonhas? + +--Homem! vamos falar claro; eu sei tudo, e o senhor, se o não sabe, +saiba-o, e tome tento na sua vida. + +«O sr. barão é que já perdeu o tento da sua. Essa cabeça está desmanchada. + +--Desmanchada está a sua, e bem desmanchada, sr. Melchior. Entre cá, e +ha de agradecer-me o que eu fiz, vingando a sua honra. + +«A minha honra não póde ser offendida nem vingada pelo sr. barão. + +--Estou a ter pena do sr. Melchior! Venha aqui dentro que eu conto-lhe +tudo. + +«Que ha de o senhor contar?!--disse Melchior entrando na sala.--Quer +contar-me a historia do charuto? + +--O charuto! o charuto agora já me não serve a mim; é ao senhor; veja lá +se o quer, que eu dou-lh'o de boa vontade. + +«É para isso que me chama, sr. barão? De que me serve a mim esse +ridiculo instrumento com que o senhor está representando perfeitamente o +papel de doudo?! + +--Doudo quer o senhor fazer-me, mas ha-de-lhe custar... digo-lh'o eu... +Sente-se ahi, e dê-me attenção, que o caso é muito serio... + +Melchior Pimenta sentou-se impacientado. O barão de Celorico proseguiu, +cerrando a porta da sala: + +--O senhor tem vivido enganado com minha sogra, acho eu. + +«O que? + +--Tenha mão, não se atrigue, sr. Melchior. As desgraças são para os +homens, e o remedio é atura'-las quando ellas chegam. Sua mulher não lhe +tem sido fiel. + +«O senhor está doudo, e, se não está doudo, é um infame +malvado!--exclamou Melchior erguendo-se com arrebatamento. + +--Sente-se, homem; eu não lhe tenho medo, nem metto a fala no bucho. +Ouça, e faça o que quizer; creia ou não, saiba ou não saiba, o que eu +lhe digo é que sua mulher tinha um amante, e eu dei esta noite um tiro +n'esse homem cuidando que era o amante de minha mulher. + +«O sr. barão sabe o que está dizendo? Se tem algum resto de juizo, +desdiga-se da affronta que fez á minha honra. + +--Affronta?! essa não é má! Pois eu vinguei a sua honra, sem saber o que +fazia, e o senhor ainda diz que o affronto! Ora, meu amigo, o senhor é +que me parece doudo! Acredite o que lhe digo, sr. Melchior. Este +charuto era do amante de sua mulher, que entrava no meu jardim pela +porta do muro, e vinha a esta casa todas as vezes que queria. + +«Quem, sr. barão? diga quem, quando não um de nós ha de morrer. + +Ludovina entrou precipitadamente na sala. + +«Quem?! então não diz quem é o amante de minha mulher--repetiu Melchior, +em quanto a baroneza cravava os olhos no semblante subitamente +desfigurado do marido. + +--Que indecentes palavras escuto, meu pae! + +«Primeiro as ouvi eu a este miseravel que m'as disse! + +--A meu marido? Desculpe-o que elle tem o juizo perturbado. O sr. barão +não disse taes palavras com intenção de offender os pais de sua mulher, +não é verdade? Essa calumnia foi, um desatino, uma irreflexão, não foi +meu amigo? Dê uma satisfação a meu pae, que está afflicto como vê, ou +então crave-se um punhal no seio, antes de repetir na minha presença que +minha pobre mãe está infamada. + +«Tens razão, Ludovina--murmurou o barão, com as lagrimas nos olhos--Eu +estou doudo; o que disse é uma mentira; se fôr necessario, eu peço +perdão ao sr. Melchior, e á sr.ª D. Angelica. + +--Ouviu, meu pae? Vá, agora vá. Assim fez o que lhe pedi? + +«Foi elle que me arrastou para esta sala... Sabe que mais, sr. barão? O +senhor o que deve fazer é recolher-se a um hospital, antes que as +auctoridades o amarrem. Eu vou requerer um exame ás suas faculdades +intellectuaes... + +--Meu pae!--murmurou afflictivamente Ludovina--pelo amor de Deus lhe +peço que se retire, quando não, vê-me cahir aqui morta. + +«Eu vou, menina. + +E sahiu, reatando a meditação no divorcio e nos vinte contos. + +--Não lhe disse eu já, sr. Dias--continuou Ludovina baixando a voz com +maviosa brandura, e assumindo ares de penitente--não lhe disse eu já que +o homem ferido pelo senhor era meu amante? que a mulher da janella do +jardim era eu? que a culpada, a adultera, a infame, a digna de morte ou +do seu desprezo é sua mulher? + +«Mentes, mentes, Ludovina! eu ouvi tudo o que tua mãe te disse no quarto. + +--Que importa o que o senhor ouviu? Tudo quanto meu marido disser contra +mim, tudo o que a sociedade inventar contra a minha dignidade, hei-de +certifica'-lo com o meu silencio, e com o meu divorcio. Tudo o que o +senhor disser contra minha mãe, hei-de desmenti'-lo em publico, pondo em +mim as nodoas que o senhor puzer na reputação d'ella. De maneira que meu +marido, quando cuida salvar a sua honra, sacrifica-a, e provoca o +escarneo do publico. Vê quaes são as minhas tenções, meu amigo? + +«Tu não fazes isso, Ludovina!--rugiu iracundo o deploravel homem--Se +fazes tal... Ludovina, se fazes tal... + +--Que se ha-de seguir? + +«Eu sei!... tu queres matar-me, mulher! mata-me, mas deixa-me a honra, +que eu estimo mais que tudo. Dou-te tudo quanto tenho, deixo-te em +liberdade, torno para o Brazil; mas não digas que me foste infiel; não +digas que esse homem era teu amante. Peço-te isto de joelhos, Ludovina. + +Era feio o espectaculo, mas fazia dó a postura humilde do barão. +Ludovina, apiedada ou aborrecida da attitude, pôz-lhe as mãos nas +espaduas, pedindo-lhe, affectuosa, que não estivesse assim. + +E continuou: + +--Entre nós ha só uma reconciliação possivel. Vou fazer-lhe uma +proposta: se o senhor a acceita, retiro-me contente de sair por um +contracto; se a não acceita, vou de sua casa como fugitiva. O sr. Dias +não dirá a alguem que deu um tiro em Antonio de Almeida; não fará +suspeitar pelo mais pequeno indicio que Antonio de Almeida foi ferido, +quando entrava no jardim d'esta casa; não proferirá o nome de minha mãe, +contando ou ouvindo contar essa desgraça acontecida esta noite. Estas +são as suas obrigações do contracto que lhe proponho; as minhas são as +seguintes: sairei de sua casa, com minha mãe, porque o amor que tenho a +minha mãe é incomparavel ao simples respeito que o sr. Dias me inspira; +sairei, calando o segredo do seu crime, para que ninguem desconfie de +que o senhor me surprehendeu com um amante. Auctoriso e quero que meu +marido diga ás pessoas admiradas da nossa separação que o meu genio +era intractavel, que a minha educação era pessima, que as minhas +impertinencias de rapariga eram insoffriveis. Diga tudo o que lhe +lembrar, em meu desabono, que eu com o meu procedimento desmentirei +alguma desconfiança injuriosa que possa haver. Eu não levo d'esta casa o +valor de um ceitil. Os meus bahus irão como saíram do meu guarda-roupa +de solteira. O senhor fica na posse livre de tudo que tinha, menos de +uma mulher que o ha-de infallivelmente flagellar. Essa mulher sou eu, +sr. Dias, porque o não amo, nem se quer estimo. Respeito-o, temo-o, +d'aqui a pouco hei-de odia'-lo. O homem que o senhor feriu ou matou +creou-me nos braços, foi o primeiro rosto extranho que vi ao pé do meu +berço, ha quinze annos que o via todos os dias, da amizade que lhe tinha +ao amor que se pode ter a um homem delicado, generoso, e confidente das +alegrias e maguas da minha familia, não ia grande distancia. Eu choro +esse homem, sr. Dias, não é só a minha desgraçada mãe que o chora. Se +ella era amante d'elle, eu, como filha, não tenho direito a censura'-la; +como mulher de coração creio que lhe perdoaria. Tenho dito mais do que +devo, e importa ao sr. Dias. Entendeu-me bem, quer que eu repita por +outras palavras o que disse? + +--Não é preciso... entendi bem... + +--Qual é a sua resposta? + +--É necessario pensar, Ludovina. + +--Não lhe dou tempo a demoradas reflexões. Eu hei-de sair d'aqui logo +que meu pae volte. + +--N'esse caso, faz o que quizeres; mas eu hei-de dizer em toda a parte +que Antonio de Almeida era o amante de tua mãe. + +--E eu direi que era o meu amante; darei em publico quantas provas puder +dar para o desmentir; hoje mesmo irei ser a enfermeira d'esse homem, se +elle não tiver morrido. O sr. Dias será tido na conta de assassino, e +assassino ridiculo, que mata o amante de sua mulher, e denuncia adultera +sua sogra, para que se supponha que os seus merecimentos não podiam ser +vencidos por um rival. + +--Tu és uma serpente, mulher!--bradou o barão, fazendo com os braços e a +cabeça as azas d'um alambique--És um dragão! foste o demonio que me +appareceste em corpo e alma! Vae-te para as profundas do inferno, e +nunca descanço tenhas noite e dia em quanto me não vieres pedir perdão +de quereres deshonrar teu marido, que te deu palacios, e quintas, e +carruagens, e tudo quanto cobre o sol. Vae-te para onde quizeres, +ingrata mulher, e quando souberes que eu morri doudo vem tomar conta de +tudo isto que é teu, porque o que vocês querem todos é acabar comigo, +para ficarem com isto que eu ganhei com honra a trabalhar como um mouro! + +Ludovina voltára as costas ao berreiro virulento de João José Dias. + +Entrou no quarto de sua mãe, que não resurgira ainda do torpor febril. A +creada, que lhe assistia, entregou á baroneza uma carta, sobrescriptada +a D. Angelica. Era-lhe conhecida a letra de Antonio de Almeida. +Alvoroçada com a aprazivel certeza de que Almeida vivia, Ludovina abriu +a carta sem reflectir. Apenas viu no topo do papel «Angelica», +simplesmente «Angelica», estremeceu, caindo em si. Era uma carta do +amante, do amante de sua mãe. Repugnava-lhe o le'-la, mas a amizade +instigava-a, desprezando os escrupulos de uma virtude intempestiva. + +Leu o seguinte: + + +«Angelica, fui ferido com um tiro quando entrava no jardim d'essa casa. +O segredo do meu assassino morrerá comigo. O meu ferimento dizem ser +mortal. Não importa. Morro amando-te. Esperava assim morrer. Mas a tua +honra, minha amiga? Não bastará a minha vida para salva'-la? Dá um beijo +a tua filha, ao nosso anjo que eu não verei jámais. Sacrificamo'-la +ambos, ao verdugo de... A febre deu-me este intervallo. Adeus, até ao +céo dos desgraçados.--_A. de A._» + + +Ludovina rompeu em gemidos, e caíu de joelhos orando com o fervor da +desesperação. Nada mais triste n'este mundo que o espectaculo d'aquelle +quarto! Não é preciso grande coração e poder de phantasia para acceitar +um quinhão de tamanha angustia. A alma de pedra estala de encontro a +este conflicto que esmorece na pintura. Cada lagrima ardente de Ludovina +bastaria a reaccender a luz de piedade apagada no coração humano. Já +imaginastes uma vida com este immenso horto de agonia? Na previsão +de todos os infortunios, concebeu alguem as torturas d'aquella mãe, e da +filha que acceita a deshonra para salvar-lhe o nome? Desamparados da +esperança e de Deus, cobrae alento nas dores com que não podeis, +agradecei ao vosso anjo mau os supplicios vindos, pedi-lhe mais, +pedi-lh'os todos, menos o calix de Angelica, e Ludovina, porque ha ahi o +succo de todos os venenos provados n'este inferno da vida, obra prima de +uma causa eterna, obra que mais me espanta a mim que a creação dos +astros, do mar, e do homem. + +A minha grande prova de Deus, da justiça, e da condemnação é este +inferno. O outro... é inferior á Omnipotencia que deixou, no seio da +creatura, aberta a garganta do abysmo, onde a alma se despenha a +devorar-se. + + + + +XIII + + +Eu costumo reunir alguns peritos em letras magras como estas, e +leio-lhes alguns capitulos dos meus romances, com adoravel modestia e +exemplar submissão. Recito-lhes sempre um preambulo improvisado que +estudo cinco horas, no qual os convido, com humildade de aprendiz +inexperto, a que me corrijam as hyperboles desgrenhadas, me desbastem as +excrescencias da taramelice a que sou atreito, e me recomponham os +desatavios da fórma em que me descuido, se a imaginação desfila comigo +pelos prados floridos do inverosimil. + +Tão atilado é o arrolamento que faço dos meus arbitros, que raro de +entre elles se desacredita admoestando ou corrigindo as perfeições que +me escorregam do bico da penna, com primores de fundição esmerada. Esse +raro, porém, se encalha em elegancia que não percebe e deturpa, cá o +inscrevo no meu canhenho de pascacios, e nem sequer desaggravo o meu +talento offendido com resposta comedida. A minha docilidade chega até +este ponto, e não ha ahi que ver mais lhano e brando do que eu sou +á opinião cortada dos meus amigos, que me fazem o obsequio de trazer da +rua quatro superlativos encomiastas, antes de saberem que pabulo vou +dar-lhes á sua admiração faminta. + +Ha pouco acabei eu de ler os doze capitulos passados a quatro luzeiros +do orbe litterario, e um d'elles, acabada a girandola dos elogios, teve +a descocada impertinencia de me dizer uma cousa assim: + +--Os teus romances do meio em diante adivinham-se. + +--Ora essa! + +--Adivinham-se, e coxeiam por isso. O sexto sentido do romancista é o +invento da surpresa. A concatenação logica e natural dos successos +damnifica a peripecia, e aguarenta a curiosidade do leitor. + +--O leitor é que não é capaz de entender-te essa linguagem +assaralhopada. Tu calumnias o gosto dos meus leitores. Sou informado +pelo orgão da opinião publica, o orgão que eu mais respeito, o meu +editor, que o bomsiso dos consumidores escolhe o romance verosimil, +amalgamado com arte e discernimento, escripto de modo que seja o reflexo +da sociedade, e que possa de per si reflectir tambem na sociedade, +amoldurando-se nas fórmas costumeiras e exequiveis. + +--Enfreia lá os impetos, modesto escriptor! não soltes a parlenda +inexoravel. Concordo com o bom senso publico. O natural e o reflectido +da vida apraz e captiva o leitor; mas a previdencia dos capitulos +advenientes esfria o empenho, e dessabora a curiosidade. + +--Acceito a correcção, e tu acceita a aposta. Se adivinhares o +enredo dos capitulos subsequentes, eu prescindo dos meus titulos de +Henri Heine, Alphonse Karr portuguez, e escrevo repertorios de hoje em +diante. Se não adivinhares, escreve-me uma critica litteraria em que +has-de provar aos incredulos basbaques que eu alojo na cabeça um d'esses +lobinhos cerebraes que chamam «genio» os galiparlas da nossa terra. + +«Acceito, e ahi vae o desenvolvimento do teu romance, nos pontos +essenciaes: D. Angelica póde morrer de uma congestão cerebral, ou de um +typho. Não questiono a morte; é certo que a matas brevemente, e a fazes +pedir, na hora derradeira, perdão do escandalo á filha, e da traição ao +marido. Antonio de Almeida já nos disse que morria, e elle que o diz é +porque o sabe, e tu já o sabias antes d'elle. D. Ludovina vae para a +casa paterna, e, a pedido de Melchior Pimenta, enxuga as torrentes +caudaes do pranto que a saudade maternal lhe arranca, mas teima em não +querer nada do abominado marido. O barão de Celorico, atassalhado pelo +remorso, dispara apostrophes sem grammatica ao espectro de Antonio de +Almeida, pega-lhe a febre socia predilecta dos romancistas pathologicos, +solta quatro urros estridulos ao despegar-se-lhe a alma do sêbo +corporal, e vê'-lo que morre boçalmente, sem deixar nada ao _Hospital do +Terço_, nem ás _Velhas da Cordoaria_! A tua crueldade para com este +homem irá ao extremo de lhe negares até um necrologio na gazeta, +ignominia posthuma com que rematarás a biographia de um homem que teve o +infortunio de ser cevado de enxundias, em quanto tu espirras ossos +por todos os póros. D. Ludovina toma conta da herança, e... + +--E, sabendo que tu és um portento de esperteza--atalhei eu--digno de +substituir João José Dias, manda-te convidar pelo seu procurador para +tomar chá ás quartas feiras; namora-te, casa comtigo, e o auctor é +padrinho de primeiro pequeno. Ora, meu amigo, outro officio. Desquito-te +da promessa do elogio; já nem «genio» quero ser á custa do teu estylo +assoprado. Eu já disse em mais de um livro que não escrevo de phantasia. +A verdade e a observação dispoem-me as situações como tu as não +inventas. A natureza, que tu conheces, é tôla, meu amigo. + +Disse. + + + + +XIV + + +Antonio de Almeida esperava em ancias a apparição de D. Angelica. Não +lhe pedira, como vimos, essa derradeira e afflictissima prova de um amor +de vinte e dois annos; mas ve'-la, apertar-lhe a mão, expirar nos braços +d'ella, egualar o escandalo ao flagello de lance tal, isso +alvoroçava-lhe o espirito, attrahindo-lh'o para a unica visão aprazivel +e ao mesmo tempo angustiada que o detinha entre a vida e a morte. + +As irmãs de Almeida ignoravam tudo o que se passára, excepto o ferimento +mortal de seu irmão. A denuncia do barão de Celorico fôra segredada ao +enfermo pelo proprietario da casa, seu antigo creado. A policia +devassára do crime, e nada averiguára das respostas concisas e obscuras +de Almeida. Suspeitavam as attribuladas irmãs que seu irmão tivesse +tentado um suicidio, por desgostos desconhecidos, e calasse o desastre +para occultar a fraqueza, e obviar a presumpções nocivas á honra de +alguem, e á propria memoria. + +N'estas conjecturas, annunciou-se o barão de Celorico de Basto. +Almeida recebeu a parte d'esta visita com excitamento prejudicial ao seu +estado. Os facultativos conheceram a exaltação inconveniente, e +perguntaram-lhe se a presença do barão lhe era penosa. + +--Não é--disse elle--que entre, e venha só, porque é necessario assim. + +Entrou o livido barão, fechando a porta. Chegou-se ao leito do enfermo, +e estacou silencioso, com os olhos rasos de lagrimas. Esteve assim +instantes, ergueu as mãos, e ajoelhou sem proferir palavra. + +--Que é isso, senhor?--disse Almeida. + +«É um desgraçado que vem pedir perdão, snr. Almeida. Quem lhe deu o tiro +foi este malvado infeliz que aqui está diante da sua vista. Eu cuidava +que minha mulher me era infiel, e me deshonrava. Tive uma carta em que +me avisavam d'isso. Encontrei um charuto no meu jardim. Disse-me a +patrulha que do meu quintal saíra um homem fóra de horas. Tentou-me o +demonio a tirar vingança de quem me deshonrava. Vi-o a v. sr.ª, e, sem +pensar no que fazia, dei-lhe dois tiros. Depois soube tudo o que havia; +minha mulher está innocente, e o senhor nunca me fez mal nenhum, e está +ferido por mim. Se me quer entregar á justiça, aqui estou, snr. Almeida; +chame toda essa gente que está em sua casa para ouvir a confissão. + +--Levante-se, snr. barão--atalhou Almeida--Não diga a ninguem que me +feriu; fique entre nós esse segredo para sempre. Eu depressa morrerei +com elle, e o senhor viva sem se denunciar a pessoa alguma. Eu sabia +que o meu assassino fôra o senhor. Se quer mitigar o seu remorso, +respeite... a mãe de sua mulher. Se ella um dia precisar dos seus +favores, faça-lh'os como os faria á viuva do homem que matou. Agora, vá +em paz. + +O barão retirou, enxugando as lagrimas. Entrou furtivamente em casa, e +escreveu uma carta. Sahiu com o preto, e montou a cavallo á porta de um +alquilador. + +A carta, que escrevera, era sobrescriptada á baroneza; da qual carta se +dá o texto viciado com as perdoaveis infidelidades da correcção +ortographica: + +«Ludovina, quando receberes esta, teu infeliz esposo já não está no +Porto!!!! Vou por esses mundos de Christo penar o meu crime, até que o +remorso dê cabo de mim!!!! que não tardará!! Fica n'esta casa, que é +tua, minha amada Ludovina; para mim me basta um bocado de terra onde +enterrar os meus ossos!!! Quando souberes o meu triste fim então +perdoarás a teu infeliz e desgraçado marido!! Fui já pedir perdão ao +Antonio de Almeida, e oxalá que eu morresse ao pé d'elle. Pela tua honra +e vida te peço que trates tua mãe com todo o amor e carinho. Faz com que +ella me perdôe o mal que lhe fiz. Não tive animo de ir onde a ella, +pedir-lhe que fosse tão boa como foi para mim aquelle honrado homem, que +Deus permitta não morra. Adeus Ludovina, desgraçada Ludovina!!! para +sempre, adeus! Não me tenhas odio; tem antes compaixão de teu marido, +que te escreveu esta com a cara coberta de lagrimas e o coração +acabrunhado de remorsos. Adeus para nunca mais!!!!!» + +Afóra a sobejidão de pontos admirativos, que são talvez signaes +symbolicos da dôr indizivel do barão de Celorico de Basto, o que se nos +depara n'essa carta é a simplicidade, a mudez, a phrase chan de uma +verdadeira angustia. Em lance identico um marido letrado, e concedo até +que romancista, não escreveria cousa mais pathetica e pungitiva. + +Ludovina leu esta carta ao pé de sua mãe, que authomaticamente se +deixava vestir para ser transportada n'uma cadeirinha, nem ella sabia +para onde. + +Melchior Pimenta trouxera de fóra a noticia do perigoso ferimento de +Antonio de Almeida, e vendo que sua filha não se espantava da nova, +porque não era então maré de fingimentos, ficou perplexo, e scismou no +caso alguns minutos. + +Uma idéa, entre muitas idéas (se o leitor concede que Melchior tivesse +muitas idéas) o incommodava. Seria Antonio de Almeida amante de sua +filha, e o barão, por consequencia, quem lhe dera o tiro? Era esta a +conjectura que o preoccupava, quando Ludovina lhe disse que não podia +fazer-se a mudança n'aquelle dia porque a receava perigosa para sua mãe. + +«Vem cá, Ludovina--disse o sr. Pimenta, franzindo a testa sobrecarregada +de cuidados--fallemos de espaço, e desembrulha-me este novello. O barão +disse-me, ha pouco, que dera esta noite um tiro n'um homem que era o +amante de tua mãe. Acabo de saber que Antonio de Almeida está ferido. +Contei-te este acontecimento, que te não espantou. Vejo tua mãe doente. +Lembra-me o que teu marido me disse... Quero explicações d'este +mysterio. + +--São muito dolorosas para mim as explicações, meu pae. + +«Como dolorosas?! + +--E muito, meu pae; vergonhosas até para que uma filha se atreva a +dize'-las. Queira ignorar tudo, meu pae, ou tudo saber de outra pessoa +que não seja eu... + +«Porque não has de ser tu? + +--Porque sou criminosa. + +«Criminosa! mas o barão disse que estavas innocente. + +--Foi a minha querida mãe que me salvou á custa da sua dignidade. + +«Não entendo... + +--Entende, meu pae. A amante de Antonio de Almeida era eu. + +«Tu! pois tu!... + +--Não me culpe, ou culpe-me, mas perdoe-me. Obedeci, quando me casaram +com este homem, obedeci cegamente; mas o coração negou-se ao sacrificio. + +«E Antonio de Almeida, meu amigo de vinte annos, que te viu nascer, teve +a ingratidão e a infamia de te fazer a côrte, sendo tu casada?! Foi bem +dado o tiro! Bem hajas tu, barão, que me desaffrontaste, e procedeste +como homem de bem! + +--Isso é improprio da sua nobre alma, meu pae. A culpa é minha só. Amei +desde creança Antonio de Almeida, era amiga d'elle até o julgar superior +a todos os homens. Pedi-lhe a felicidade do coração, que só elle +podia dar-me. Amava-me por piedade; fazia-me esmola do seu amor. Fui eu +que o matei. Já que me forçou a esta confissão, dir-lhe-hei mais que, na +posição em que estou, considero-me responsavel das minhas acções más +perante Deus e meu marido. O pae perdeu o direito de me injuriar na +desgraça que lhe devo. Minha mãe foi mais generosa comigo. Fez, não sei +de que modo, convencer-se o barão de que a amante de Antonio de Almeida +era ella. Aqui tem a explicação das palavras que meu marido lhe disse, e +não poude sustentar na minha presença. Minha pobre mãe, depois de +victimar a sua honra á minha salvação, succumbiu á vergonha de si, e á +dôr, talvez, de me ver indigna d'ella. Basta de explicações, meu pae. +Estas palavras tem-me custado annos de vida. Se a minha deshonra +reflecte no seu pundonor, perdoe-me; se me não quer perdoar, +amaldiçoe-me, mas não profira na presença de minha mãe o nome de Antonio +de Almeida. Mereço isto á sua compaixão? + +«Não falarei mais n'esse homem por minha honra propria. + +--Assim o deve á sua dignidade. + +Ludovina foi chamada com urgencia ao quarto de D. Angelica. Encontrou-a +vestida, disposta a sair, com o rosto escarlate do crescimento febril, e +gestos de quem delira. + +«Onde quer ir, minha mãe? + +--Morrer em qualquer parte, Ludovina... Quero ar... + +«Não ha de sair d'aqui; supplico-lhe que não saia, minha mãe. + +--Não me dês esse nome... Eu não quero já ser mãe nem esposa... + +Ludovina fez sair a creada, que testemunhava este dialogo. + +«Não quer ser mãe nem esposa? + +--Não. Sou amante de um homem que está moribundo ou morto. Quero que +todo o mundo saiba, que o fui e que o sou. Desprezo tudo, não ha para +mim deveres nem respeitos agora. Se elle está vivo, quero dar-lhe os +meus ultimos instantes. Se morreu, quero chorar e morrer ao pé do seu +cadaver. + +«Fale baixo, por misericordia, minha mãe! + +--Podem todos ouvir-me, não me escondo d'alguem, agradeço as affrontas, +os desprezos, as injurias, agradeço tudo que fôr martyrisarem-me, com +tanto que me matem depressa. + +«Mas, minha mãe, attenda-me por piedade. Vou-lhe contar tudo, se me +escuta... Sente-se, e ouça-me... + +--Diz, anjo, diz... + +«Antonio de Almeida não morreu, e talvez não morra. O barão escreveu-me +uma carta em que se despede de mim, e me recommenda que lhe peça o +perdão para elle. N'esta casa ignora-se tudo. Meu pae está convencido +que sou eu a amante de Antonio de Almeida... + +--Jesus! exclamou D. Angelica.--Como tu me castigas, Ludovina! + +«Como eu a castigo, mãe?! por quem é, deixe-me ser boa para o meu +coração, e indigna para todo o mundo. Sinto na alma alegrias tamanhas +d'este meu procedimento!... isto é Deus que me premeia, minha mãe, é +Deus que me dá em consolações do céo as amarguras, que o mundo me possa +dar. Ora, se a mãe me envenena este prazer, mata-me... Deixe-me ser +senhora de uma parte do seu coração e da sua vida. Obedeça-me, sim? não +saia de casa; não saia, que talvez me não encontre viva quando voltar. + +Ludovina abraçou-se, a chorar, em D. Angelica. Choravam ambas, com os +rostos unidos, apertando-se cada vez mais. O seio da mãe desafogava de +angustias soffocantes n'aquelle pranto. O da filha fortalecia-se de +animo para arcar com a ignominia do seu descredito. + +D. Angelica recaíu no entorpecimento. Ludovina chamou creadas para lhe +assistirem, e executarem as prescripções dos medicos. Melchior Pimenta +esperou que a filha saísse do quarto, e foi sentar-se, meditabundo e +sombrio, ao pé do leito da enferma, tateando-lhe o pulso, e chamando-a +com os maviosos epithetos do carinho. Angelica abria os olhos pávidos, +encarava-o por momentos, e recaía na somnolencia. + +Ludovina entrou na carruagem, deu ordem ao boleeiro, e apeou na Lapa. A +trezentos passos d'ahi, morava Antonio de Almeida. Velando o rosto com +um véo negro impenetravel á vista, a baroneza de Celorico, sósinha, +subiu as escadas do amante de sua mãe. + +Descia um medico ao qual ella perguntou o estado do enfermo. +Respondeu-lhe que havia esperanças de salva'-lo. A noticia feliz +alvoroçou-a. Receberam-n'a as irmãs de Almeida, maravilhadas de tamanha +prova de estima. O doente conheceu-lhe a voz, agitou-se, quasi desfez o +apparelho do curativo, e chamou-a com ancia. + +Ludovina entrou no quarto, só, que assim o pedira ás amigas. Almeida +apertou-lhe a mão, orvalhou-a de lagrimas, e murmurou balbuciante: + +«É a boa nova... agora creio que vencerei a morte, minha amiga, filha do +meu coração. + +A baroneza ficou muda e convulsa. _Filha do meu coração_ foram palavras +que lhe entraram como fogo no recesso da alma, fogo, porém, que, de +repente, se mudára em sensação de intima doçura. Passados minutos de +mudo anceio, Ludovina curvou-se para o seio de Almeida, e disse: + +--A mãe está muito doente; mas sem perigo. A sua carta não lh'a +entreguei, lia-a eu, e occultei-lh'a para a não matar. + +--O barão denunciou tudo? + +--Nada: tudo se ignora, e toda a gente ignora, só eu sei que ella o +estima tanto como eu. É necessario que o nosso amigo concorra quanto +puder para lhe dar allivio. Tem esperanças, não tem? + +--Tenho. Os facultativos disseram agora que o ferimento não é mortal. Já +não morro, minha... minha querida amiga, não quero morrer... + +--Escreva a minha mãe, se pode. Diga-lhe isso, que eu levo a carta. Não +fale em mim, não diga que eu vim cá. + +Antonio de Almeida escreveu. Ao despedir-se beijou Ludovina na face, e +disse soluçando: + +«Será o beijo de um moribundo? + +«Não diga tal, sr. Almeida. + +«Se fôr...» e desentalando a voz dos gemidos que lh'a embargavam, +proseguiu «se fôr... Ludovina... lembra-te sempre da situação em que te +deu o seu ultimo beijo... teu pae. + +A baroneza tremeu uma sezão de instantes. Quiz saír, mas o abalo +quebrantou-lhe as forças, coando-lhe nos nervos o desfallecimento, e a +perda quasi dos sentidos. + +Almeida tocou a campainha, e disse á irmã que primeiro chegou: + +--O ar d'este quarto fez mal a esta senhora: levem-n'a para a sala, e vá +uma das manas acompanha'la. + +Ludovina pediu que lhe mandassem buscar a sua sege, que a esperava na +Lapa. + + + + +Cinco paginas que é melhor não se lerem + + +Este capitulo mira a alvo transcendental. + +Nem mais nem menos, quer provar que o Codigo do Imperador +Justiniano--corpo de leis que uma falsa piedade chama «Digesto», sendo +elle a causa indigesta de muitas gastralgias intellectuaes--quer provar, +digo, que o Digesto, entre muitas que não conheço, traz, uma lei de +tamanho absurdo e insensatez, quanta é a indignação com que para aqui a +traslado: + +_Pater is est quem nuptiæ demonstrant._ + +Em portuguez comezinho: + +_O pai é aquelle que se diz pae no assento do baptismo._ + +A versão é de christão catholico, entenda-se. + +Aquella regra de jurisprudencia pagã não fala em assento baptismal. Se o +legislador fosse baptisado, como estes de agora, a lei não saía assim. + +Contra a qual lei temos a articular: + +1.º Que o pae é uma entidade muito mais nobre, efficiente, cathegorica, +e circumspecta. E demonstra-se: + +Quem leu a physiologia da geração sabe que ha cinco phenomenos +caracteristicos d'essa funcção de mysteriosa origem. O primeiro d'esses +phenomenos, cuja confusa theoria os imperitos podem lêr nas fontes +respectivas, é influido pela acção de um ser directo e immediato, que os +latinos denominam _pater_, os inglezes _father_, os allemães _watter_, +os francezes _père_, os hespanhoes _padre_, e nós, com mais suavidade +que todos os outros idiomas, _pae_. + +_Pae_ quer dizer «productor, gerador» _Parens qui aliquem genuit_--isto +a meu vêr, é claro como tudo o que se diz em latim. + +Conclusão: Pae é aquelle que é pae. + +2.º Ha paes postiços, paes contra-natura, paes testas de... ferro, paes +_in mente legis_, na presumpção da lei, e na fé dos padrinhos de quem +são compadres, por obra e graça de um sacramento. + +Os homens, reconhecendo a inconveniencia de acceitar a natureza feia +como ella ás vezes se apresenta deliberaram, de commum concerto, pôr-lhe +mascara. + +E como a natureza paterna era uma das que mais a miudo saía á gente com +as suas deformidades medonhas, resolveram os desvelados reformadores +corrigir os aleijões d'essa natureza, inventando o pae civil, o pae do +assento baptismal, o pae da arvore de geração escripta em pergaminho, o +pae que transmitte os bens e os appellidos, o pae, finalmente, que tem +tudo que é paternal, mas não é pae. + +Este invento honra a sagacidade humana; mas a causa que o incitou +deturpa a humanidade, e opprime agramente os corações dos individuos +virtuosos. Todavia, a mascara foi necessaria, logo que as fealdades +deram nos olhos. Hoje acceita-se o remedio do mesmo modo que o travor da +quina se tolera para combater a sezão. Os paladares mais melindrosos +affazem-se á peçonha, e estomago ha ahi de pae postiço, que disputa a +Mithridates a invulnerabilidade. + +Eu não applaudo a _Sandice_ como Desiderius Erasmus; mas observo que o +famoso theologo chamava «sandice» o que nós cá, gente bemaventurada da +civilisação, denominamos «Cultura.» + +Erasmus não deu pela theoria das mascaras. Pasmado da bonacheirona paz +d'alguns paes impossiveis, exclama o mestre de Bolonha: + +«Grande Jupiter! O que ahi não iria de divorcios, e peor do que +divorcios, se a união do homem e mulher não fosse corroborada pela +lisonja, pela complacencia, pelo esquecimento, e pela dissimulação, que +formam o meu cortejo! Que raros não seriam os matrimoniamentos, se o +homem de ante-mão esquadrinhasse os brinquedos da innocentinha noiva! +Que rompimentos conjugaes, se o descuido ou a inepcia, não cegassem o +bom do marido, para não enxergar os tregeitos e os feitios da +companheira querida! Dizem que é toleima isto; deixa'-la ser; mas o +grande caso é que marido e mulher vivem ás mil maravilhas, que reina a +santa paz em casa, e os vinculos da alliança estão rijos. Isto é que é o +essencial. Se ao pascacio dão nomes feios, que se lhe dá elle +d'isso? Ve'-la a infiel a choramingar; para logo o pobre marido lhe +sorve as lagrimas enternecidamente. Qual é melhor, ser assim bom, ou +andar atormentado pelas furias do ciume?» + +É boa a pergunta do theologo! O melhor é ser assim bom, ser assim +illustrado, ser assim desbravado das velharias pundonorosas que +obrigaram Cicero e Sulpicio Gallo a divorciarem-se das mulheres, um +porque a sua lhe não respondeu a todas as cartas enviadas do exilio, +outro porque a d'elle teve a impudicicia de saír um dia, sem coifa, á rua. + +Aconteceu isto muito depois do reinado de Saturno, quando o pudor, como +pondera Juvenal, já não morava nas primitivas cavernas onde os dois +sexos se luravam sobre colchões de folhagem. + + _Credo Pudicitiam, Saturno rege, moratam_ + _In terris_... + +já quando o genio tutelar do hymeneu andava corrido das +pseudo-paternidades que se enxertavam, á sombra d'elle, nos illustres +troncos de Roma: + + _Antiquum et vetus est alienum, Postume, lectum._ + _Concutere, atque sacri genium contemnere fuclri._ + +«Ó Postumo!--exclama o poeta--pois tu eras, até aqui, escorreito e +atilado, e vaes casar + + _Certe sanus eras: uxorem, Postume, ducis!_ + +Por esses tempos, a balbuciante civilisação dos espiritos engendrou a +lei contra a qual se escreve este capitulo. As nupcias indicavam o pae: +_pater is est quem nuptiæ demonstrant_. Agora, em pleno seculo de luz, +somos mais romanos que os proprios romanos, tresandamos ao paganismo +fetido, e difficultamos o divorcio para sellar o escandalo com o cunho +sacramental da lei nova. + +Como quer que seja, pae é aquelle que é pae, apesar do Direito Romano, e +das Instituições de Direito Civil de Coelho da Rocha. + +Não se adduzem os 3.º, 4.º e 5.º artigos da refutação, porque ninguem +supporta um embrechado arripiante de textos latinos: e o auctor, com +quanto assim grangeasse voga de romancista sumarento e condimentoso, +seria lido apenas por tres ou quatro mestres de latinidade. + + +COROLLARIO + +Melchior Pimenta era um dos paes presumidos na intenção do _Digesto_, na +lei citada, do L. 5.º _de in jus voc_, e C. da Rocha no cap. +_Paternidade e filiação legitima_. + + + + +XV + + +D. Angelica, afflicta com a longa ausencia de Ludovina, pedira ao marido +que procurasse a filha. Melchior Pimenta correra a casa, alarmando os +creados, que francamente lhe disseram que a senhora baroneza saíra na +sege. Melchior suspeitou que a destemida Ludovina descera ao infimo +degrau da desenvoltura, visitando o amante á hora do dia, no momento em +que seu marido a abandonava aos terriveis juizos da sociedade. Com as +mãos agarradas á cabeça, entrou o consternado pae no quarto da mulher, +abafando de vergonha, como elle dizia. + +D. Angelica, receosa de que tudo já fosse notorio a seu marido, +apavorou-se, e quiz fugir do quarto. + +«Que queres tu fazer agora, santa mulher?!--exclamou elle, sustendo-a +com meiga brandura.--Deixa'-la perder-se de todo, já que ella assim o +quer... Ahi tens como Ludovina te paga o sacrificio que fizeste da tua +dignidade e da minha para a salvares. Ainda bem que o procedimento +d'ella te ha de desmentir, Angelica... + +--Que dizes?--atalhou a perplexa senhora. + +«Que digo? pois eu não sei já tudo? Não me contou ella o que tu fizeste +para capacitar o barão de que Antonio de Almeida era teu amante, e não +d'essa desgraçada que tão mal aproveitou as tuas lições? O que tu +fizeste, não devias faze'-lo sem tomar o meu parecer; porque, a falar +verdade, se corresse o boato de que o escandalo era cousa tua, a minha +honra soffria tanto como a de minha mulher. O que vale é que o barão não +dirá nada, e o falatorio ha de acabar como acabam todos os escandalos, +quando os faladores se cançarem. Mas, Ludovina! Ludovina! onde está esta +mulher que nos anda envergonhando por lá? + +«Estou aqui, meu pae--disse a baroneza com angelica serenidade, e +sorriso de meiguice para sua mãe. + +--Minha filha, minha santa filha, minha providencia!--exclamou D. +Angelica abraçando-a com arrebatamento. + +«Isso não é assim, Angelica!--disse carrancudo Melchior +Pimenta.--Pergunta-lhe de onde vem, e reprehende-a, já que tão boa moral +lhe ensinaste em solteira. + +--Silencio, meu amigo. Vae...--atalhou com azedume D. Angelica--vae, e +deixa-nos sós. + +«Não tem geito nenhum!--accrescentou o austero pae.--É preciso saber-se +para onde foi teu marido, Ludovina, e ir pedir-lhe perdão, perdão, antes +que a sociedade saiba que elle te abandonou. + +--Irei, meu pae. + +«Irás; mas entretanto sáes de carruagem, e não dizes onde vaes... Onde +foste tu, diz? + +Ludovina abaixou os olhos, e não respondeu. + +«Vês, Angelica?--proseguiu com virulencia Melchior--Não respondeu; já +sabes d'onde ella vem... Já se viu no mundo um descaramento assim? + +--Nem mais uma palavra a minha filha!--exclamou com impetuosa arrogancia +D. Angelica--Nem mais uma palavra, porque se não, Melchior... + +«Se não, o que?--interrompeu elle. + +--Minha mãe, pelo seu amor lhe peço...--murmurou a baroneza, apertando-a +ao seio, como se quizesse comprimir-lhe as palavras no coração. + +Pimenta sahiu, como entrára, com as mãos agarradas á cabeça. D. +Angelica, beijando soffrega a face da filha, dizia, soluçando: + +«Ao que eu te expuz, minha querida victima! ao que tu quizeste +sujeitar-te, Ludovina! Pesa-me mais a tua innocencia diffamada que o meu +proprio descredito. Não, filha, isto não póde continuar assim. Deixa-me +ser virtuosa no crime, deixa-me expiar a minha culpa com menos amargura. +Esta expiação é a maior de todas, Ludovina. O meu coração está cheio de +fel. Tu queres salvar tua mãe e matas-me, anjo do meu coração. É-me +muito mais dolorosa a vergonha que tenho de ti, que da sociedade. Que o +mundo todo me culpe, mas perdôa-me tu, filha! + +--Mãe, por piedade... não me turve a satisfação d'esta pequena virtude. +Olhe que não é heroismo isto, não, é a crença, a esperança de que a +felicidade ha-de vir para todos nós, se me não desviarem do caminho por +onde eu a busco... + +«Para todos nós, filha! que innocencia, que illusão a tua! D'esta queda +ninguem mais se ergue, e menos eu. + +--Ergue, mãe. Verá que o desenlace d'este desgraçado enredo não ha-de +ser o que a mãe espera. + +«Oh, filha! tu queres que eu sobreviva a esse infeliz que mataram... + +--Ninguem morreu, minha mãe. Olhe... aqui tem uma carta do sr. Almeida; +escreveu-a elle com o proprio punho; está livre de perigo... Veja, veja +o que elle diz... + +D. Angelica abriu a carta com fervente soffreguidão, e leu o seguinte: + +«Minha prezada amiga. Sei quanto deve ser-lhe penosa a noticia do triste +acontecimento, que hontem se deu. Apresso-me a dar-lhe a certeza do +nenhum risco da ferida, e rogo-lhe que se convença d'esta verdade, para +ser mais suave a cura. De v. exc.ª amigo verdadeiro.--_Antonio de +Almeida._» + +«Isto é verdade, Ludovina?--exclamou ella erguendo as mãos, e apertando +a carta ao coração--Isto é verdade, minha filha? + +--É, juro-lhe que é... + +«Como podes tu jura'-lo? quem o viu? + +--Eu, mãe. + +«Tu! viste-o, Ludovina? sem repugnancia, minha filha? Que +inspiração tiveste de o visitar? O coração impellia-te? era o coração? +diz, diz, que eu preciso acreditar n'uma influencia divina em tua nobre +alma! Não me respondes, filha! Não queres dar-me a alegria completa! Foi +só por caridade, por compaixão, que o visitaste? + +--Foi por amor de minha mãe que o visitei. + +«E elle? que fez quando te viu? abraçou-te? beijou-te? chorou nos teus +braços, Ludovina? Disse-te alguma palavra que te espantou, augmentando a +tua piedade? Fala, fala sem pejo. Aqui a vergonha é toda minha. A +reserva já agora é impossivel entre nós, filha. Que te disse? responde... + +--Nada, minha mãe...--balbuciou a baroneza. + +«Nada? + +--Que poderia elle dizer-me... para augmentar a minha piedade? bastava +ser nosso amigo de tantos annos... lembrar-me eu que o vi sempre ao pé +de minha mãe... recordo-me dos affagos que elle me fazia, dos bons +conselhos que me deu sempre, das consolações affectuosas com que +alliviava as minhas maguas, desde que infelizmente casei. Tanto como +isto era sobejo estimulo á minha pena. E, depois, vêr quanto a mãe +soffria... porque o prezava tanto como eu o estimava... + +«Basta, minha filha, eu mortifico-te... Ha de custar-te amarguras +terriveis essa delicadeza... Comprehendo-te, minha amiga... Agora vaes +tu dizer-me por que meio has de restaurar o teu credito perante teu +marido... Não me atrevo a aconselhar-te, Ludovina, por que ha em ti +fortaleza de juizo que confunde a minha timidez e fraqueza... Faz o que +quizeres de mim; eu obedeço-te, sigo-te cegamente; acceito conselhos de +ti como do meu anjo da guarda. + +--Eu não a aconselho, minha mãe... pelo contrario, supplico-lhe que me +advirta, se eu me desencaminhar do bom caminho onde a consciencia me diz +que estou agora. Toda a minha confiança está posta em Deus, que protege +a innocencia e é misericordioso com a culpa. O mundo será cruel +comnosco; seja, muito embora; nós supportaremos as cruezas do mundo, sem +nos curvarmos aos seus juizos. Minha mãe ha de ajudar-me a vencer os +dissabores passageiros da maledicencia, pensando em me fazer cada vez +mais digna do seu amor. No tocante ao que ha de vir melhorar a nossa +sorte, espero que virá, mas os meios não os sei. Hei de a este respeito +consultar o nosso amigo Antonio de Almeida. + + + + +XVI + + +Consta-me que é geral o cuidado que está dando aos leitores o barão de +Celorico de Basto. + +Como este homem captou a benevolencia publica, mórmente a dos maridos, +isso não sei eu. + +Caprichos. + +Commiseração, lastima e dó, não a faz decerto o marido de Ludovina. Eu +de mim, apesar de quem me forneceu os apontamentos d'esta lugubre +historia, mais de uma vez tenho dulcificado com as amenidades da +linguagem o travor das informações insuspeitas. Faz-me zanga a +felicidade d'este marido, se o confronto com outros «minotaurisados» +iniquamente. + +Não transijo com o estupido acaso que travou as relações de João José +Dias e Melchior Pimenta. Rebello-me contra a Providencia, se me dizem +que a Providencia entregára de mão beijada a rara joia de entre as +mulheres a João José Dias. + +Riquezas amontoadas pelo acaso, pelo trabalho, pela economia, pelo +latrocinio, pelo talisman do buril, pelo fornecimento dos açougues +humanos na America, essas riquezas, vejo-as, entendo-as, explico-as; +porém, mulheres como Ludovina, corpos e almas de tanta perfeição, +creaturas que privam com os anjos, assim sacrificadas a um Baal +repulsivo de sandice e gordura, isto faz-me materialista, incredulo, e +atheu; ou remontado em assomos de espiritualista, confesso a +Providencia, mas tão sublime, tão ao longe das pequenezas d'este ponto +do mundo, que não cura de saber se o zoupeiro João José casa ou não casa +com a sylphidica Ludovina. + +Não vou de encontro ás crenças de ninguem; Deus me livre. Todavia, +raciocinemos, em quanto a razão de si apoucada, não contender com os +dogmas indisputaveis da fé. + +Saibamos, pois, o que é feito da sympathica personagem do barão de +Celorico de Basto. + +Pesquizei miudamente o itinerário de s. ex.ª, e colhi as seguintes +informações, que podem auxiliar os alienistas no estudo das faculdades +intellectuaes de muitos barões, no primeiro periodo do seu desmancho. + +Sei que chegou a Baltar bifurcado n'um garrano, e o preto n'outro. +Apeou-se ahi para reanimar o animo quebrantado da ensuada cavalgadura, +cuja pulmoeira recrudesceu na subida da serra de Vallongo. + +Simão, vendo que seu amo rejeitava a vitela proverbial da estalagem da +terra, e, sabendo qual era o prato favorito d'elle, frigiu quatro ovos +com rodelas de cebola, e poz-lhe deante a fritada provocante, cuidando +que o acepipe mimoso abriria o apetite do melancolico barão. +Baldado empenho, perdidos desvelos, mas não perdidos ovos, que os comeu +o contristado preto, asseverando, a cada garfada, que os podiam comer os +anjos, para ver se assim estimulava o jejum de seu amo impassivel. + +Reparou o preto, em quanto encovava o almoço, que o barão, de vez em +quando, sacava da algibeira o charuto horrendo, e resmungava em tom +soturno: + +--Foste a minha desgraça, tição negro do inferno! + +E contemplando-o com os olhos coruscantes de terror, arremessava-o com +frenesis impetuosos, e apanhava-o de novo para o esconder na algibeira! + +«Que diabo é isto, senhor?--perguntára timidamente o preto. + +--Não vês? é um charuto, que me ha de matar! + +«Pois v. ex.ª fuma isso! Bote-o fóra, que tem má cara esse demonio! + +N'estas e n'outras praticas semsaboronas, que não prestam para a +tragedia, nem para a farça, chegaram á villa de Torrão, onde o nobre +viajeiro apeou outra vez, e escreveu uma longa carta a sua mulher, na +qual carta entre muitos outros periodos lamuriantes, dizia que não lhe +era possivel fazer passar nada dos gorgomilos para dentro, e protestava +deixar-se morrer de fraqueza para acabar mais depressa com o seu +remorso. Pedia novamente perdão a D. Angelica, e rogava a sua mulher que +tornasse a supplicar em nome d'elle o perdão de Antonio de Almeida. +Outro sim, pedia á baronesa que mandasse dizer trezentas missas por alma +do defunto Almeida, e outras tantas por alma d'elle testador, +quando Deus fosse servido leva'-los á sua presença. O principal da carta +guardava as fórmas testamentarias: faltava-lhe, porém, a condicional +prescripta do «perfeito juizo e claro entendimento», posse de que o +preto duvidava muito, e os da estalagem não duvidaram menos, quando o +barão entrou a gritar que era um assassino, e estava já vestido e +calçado nas profundas do inferno. Almas boas que o ouviram, tiveram-n'o +em conta de possesso, e, se o barão não sáe, era filado pelo padre +Anacleto da Sacra Familia, egresso arrabido, que a piedade da +estalajadeira chamára para resar os exorcismos ao demoniaco. + +O barão foi pernoitar na villa chamada Arco: (notem a paciencia de um +romancista que sabe do seu officio.) + +O cirurgião da villa, chamado por deliberação do preto para ver o amo, +receitou um cozimento de fel da terra, tomado de manhã, e esfregações de +oleo de amendoas na circumferencia do abdomen. + +O barão mandou-o á fava com louvavel discernimento, e escreveu quatro +folhas de papel almaço, que sobrescriptou a sua mulher. O contheudo do +aranzel tremendo era o disparate lastimoso de uma cabeça febril, +apavorada de visões sangrentas, que o forçavam a estropiar a syntaxe de +um modo lastimavel, e a desbancar o methodo do imaginoso Castilho no +invento da orthographia. + +No dia seguinte, ás onze horas da manhã, chegou o barão á sua quinta de +Celorico, onde, creio que já se disse, viveram frades n'outro tempo. A +entrada do proprietario nos seus dominios foi assignalada pelo +primeiro accesso de loucura formal. + +Á entrada da antiga claustra, estava um S. Francisco de pau com o seu +habito venerando. + +O barão soltou medonhos gritos, clamando que o santo era o phantasma de +Antonio de Almeida. A logica do preto foi insufficiente para +convence'-lo de que o phantasma era o patriarca S. Francisco. Teimando +aquelle em conduzi-lo pela mão ao pé da imagem, afim de convence'-lo com +o tacto, o barão assentou-lhe na carapinha dois murros puxados d'alma, +com os quaes o paciente preto tambem viu phantasmas luminosos. + +Os primos circumvizinhos começaram a visitar o genro de D. Angelica, e +saíam espantados do disparatar do barão, que descaía de uma conversação +atilada para a historia do phantasma infesto, que apparecia na casa que +fôra convento. + +Fechado e trancado no seu quarto, o infeliz maniaco recitava monologos +estirados em tom cavernoso. O charuto andava sempre á baila nas +apostrophes descompostas, e recebia epithetos que esqueceram a Francisco +Nunes. + +Eram decorridas setenta e duas horas de jejum estreme, quando o barão +pediu de comer a altos brados, e comeu porções incriveis de carneiro +guizado com batatas, facilitando o transito d'estas com emborcados +picheis do verdasco, predilecto seu. + +Emergindo de uma especie de lethargia de leão sazonatico, o barão urrava +como d'antes, recuando ao phantasma, que já não era S. Francisco +sómente. Qualquer sombra se lhe afigurava aventesma, ou avejão como elle +a denominava. O proprio preto, se lhe assumava de repente á porta do +quarto, ou por entre as arvores da quinta, fugia espavorido á gritaria +rouquenha de seu amo. + +Os facultativos chamados pela parentella compadecida capitularam de +demencia a cousa, e receitaram as sangrias e os vesicatorios. Os meios +persuasivos para o levarem á cama nada conseguiram; os da força seriam +inuteis, por que o preto espadaudo e possante, invocava o testemunho da +sua cabeça confusa contra o projecto da violencia. Ninguem se queria +arriscar ao perigo certo de um murro secco do barão. + +Contava elle a toda a gente a historia do charuto que já trazia meio +desenrolado n'um canudo de papel... + +Se porém acontecia proferir o nome da sogra, vinham-lhe convulsões, e +não acabava o conto. A historia, como elle a contava, fazia rir os +ouvintes. Aquelle charuto fôra-lhe enviado pelo diabo em troca da sua +alma. O charuto infernal obedecia á sua vontade, e despejava uma bala +como uma clavina, em consequencia do que, elle barão, matára um homem, +desfechando-lhe o charuto no peito. Acabada a historia entravam as +larvas a rodea'-lo, e elle a esconder-se de cócoras atraz dos +circumstantes. + +Entenderam os cavalheiros de Basto que o barão fugira doudo á sua +familia, e avisaram a baroneza, lembrando-lhe a conveniencia de o +passarem a Rilhafolles, antes que a demencia se tornasse incuravel. +Chegou o aviso já quando Ludovina, avaliando pelas cartas a +desorganisação mental de seu marido tinha partido para Celorico de Basto. + +Melchior Pimenta e D. Angelica julgavam temeraria a ida de Ludovina. O +pae (_Pater is est etc._) queria acompanha'-la, receoso de que a +presença d'ella enfurecesse o doudo. A baroneza recusou a protecção do +pae, e respondeu á mãe com palavras que a fizeram córar, posto que +adoçadas pelo respeito filial. + +«Quando me casaram com este homem--disse ella--não se estipulou a +condição de que eu o desampararia, se elle enlouquecesse. Augmentam os +meus deveres, agora que elle mais precisa de uma amiga. A consciencia da +minha boa mãe manda-me ir; o coração deseja que eu não vá. Devo obedecer +á sua consciencia, para ser cada vez mais digna do seu coração.» + + + + +XVII + + +Ao cabo de tres semanas, Antonio de Almeida ergueu-se convalescente. As +melhoras de D. Angelica augmentavam por egual com as d'elle; mas uma +outra qualidade de soffrimento lhe amargurava a alma: era a saudade, o +anceio de falar-lhe, a necessidade de recompensa'-lo dos perigos da +morte com as suas lagrimas. + +Almeida, porém, não lhe escrevia, não lhe dizia, ao menos, que o seu +amor não succumbira á terrivel catastrophe, que a sua amizade, ao menos, +venceria todos os estorvos. + +«Que mal te fiz? + +Diz D. Angelica em uma carta que lhe escreve. + +«Uma grande desgraça aconteceu; mas essa desgraça foi de nós ambos, +Almeida. + +«A bala que te matasse, matar-me-ia. O risco em que a tua vida esteve, +queres tu que eu t'o pague com a minha? A morte repelle-me. + +«Quem me dera, meu Deus, quem me dera morrer, se ainda posso +deixar-te de mim uma lembrança triste, meu amigo! + +«Este teu silencio dóe-me tanto como se te houvesse perdido, e chorado +na sepultura. Assemelha-se ao desprezo a tua frialdade. Bem sei que não +pódes vir a esta casa, á casa de minha filha; mas que não faria eu para +te encontrar, Almeida? + +«Pois é possivel este desfecho de uma paixão que tantas lagrimas me ha +custado! Soffrer vinte e dois annos, envelhecer agradecendo-te os +tormentos e os remorsos que me empeçonharam a mocidade, para agora assim +ser despedida da tua alma, sem que ao menos me digas até que ponto sou +culpada no teu infortunio? + +«Oh meu amigo, que infortunios seriam necessarios, que flagellos +inventaria o inferno para me fazer deixar-te! + +«Eu tinha d'antes noites desveladas de continuos remorsos--se tinha!... +vós o sabeis, Deus meu!--e, ao cabo d'esse martyrio, sondando-me, +Almeida, sentia-te mais dentro do meu coração, mais senhor da minha alma! + +«Conspirassem todas as forças d'este mundo contra mim, fosse eu chamada +para dar conta da minha honra, proferiria o teu nome com orgulho, +offerecendo o rosto para todos os ferretes da ignominia. Isto assim era +amor, amor insensato de mulher que faz da sua deshonra um heroismo! + +«E tu pagas-me tão cruelmente, meu amigo! Adivinhas que em tres semanas +os meus cabellos se fizeram brancos? Assusta-te a presumpção de que +a minha face envelheceu? Não pódes já ver em mim signaes desvanecidos da +Angelica dos dezoito annos? Tens razão, Almeida; estou velha, mas o +coração, unica belleza que eu tinha, unico dote que fazia a minha +vaidade de merecer-te, esse, meu amigo, aperfeiçoou-se através de vinte +e dois annos, está hoje como não estava quando te assenhoreaste d'elle, +aperfeiçoou-se em contacto com os dons sublimes do teu, encheu-se de +amor que o ha-de matar, porque já não tenho peito que possa conter tanto +fel! + +«Não estou assim repulsiva que te afugente, Almeida. Não imagines o que +fui, nem repares no que sou. Lembra-te só do perdido amor que te dei, +mova-te só a lembrança do muito que a minha alma te quiz; acceita-me na +velhice uma amizade, que te não será pesada agora, nem embaraçosa para +tua felicidade. Diz-me só que o teu silencio não é desprezo nem +esquecimento. Poupa-me á horrivel morte que me faz tremer. Se tudo +perdi, resta-me o recurso da tua commiseração. Imploro-a de joelhos. +Amor, esse sei eu que se não supplica; mas engana-me, Almeida, +engana-me, por piedade. Diz-me que uma dedicação de tantos annos não +póde acabar com o desprezo.» + +_Ingrato homem!_ é a exclamação natural com que as leitoras sensiveis +exprimem o seu dó. + +Pois decidem de leve, e accusam com a costumada injustiça. Antonio de +Almeida é tão digno de lastima como Angelica. Ora, vejam a seguinte +carta que Ludovina lhe escreveu, antes da sua partida para Celorico: + +«Lembra-me que, sendo eu creancinha, sentava-me no collo do meu amigo, +anediava-lhe os cabellos, fazia-lhe muitas meiguices de coração e de +astucia, para no fim lhe pedir um brinquedo, um passeio, uma qualquer +cousa que o meu amiguinho me não sabia negar. + +«A creança fez-se mulher, já não sabe ameigar antes de pedir; mas essa +falta vem de eu me esquecer das maviosas e candidas palavras que sabia +então. O coração é bom como era, a affeição maior e mais entranhada, a +confiança de ser bem recebida em meus rogos é mais solida: o que me +falta, como já disse, é o tom carinhoso, a meiguice seductora da +innocencia. + +«Não importa. Eu vou pedir ao meu amigo um favor, favor immenso; empenho +para alcança'-lo da sua generosa alma todo o amor que me teve, todas as +recordações doces que o trazem desde o berço de Ludovina até estes dias +tristes que vamos vivendo. + +«Peço-lhe, meu amigo, que tire da sua virtude as forças que o coração +não tiver para cumprir uma supplica que vou fazer-lhe em poucas palavras. + +«Seja mais forte que a minha pobre mãe. Se vir que ella cáe, sustente-a. +Trabalhe comigo para que o segredo d'aquella noite horrivel se não +descubra á curiosidade infamadora do publico. Não peço que lhe dê +consolações frivolas. Lições de virtude, suspeito que não aproveitam a +minha mãe, sendo dadas pelo meu amigo. A razão está muito longe do +coração. Penso que minha mãe tomaria como esquecimento, ou +desamparo os seus conselhos. + +«Conhece bem a situação de minha mãe, sr. Almeida? Siga o que a sua +honra lhe inspirar. Veja que novas desgraças podem seguir-se. Avalie o +que eu tenho feito por ella, e medite na extensão da minha dôr se tudo o +que fiz e faço fôr perdido. + +«Não sei dizer o que me está na alma. Pode ser que eu dissesse o mais +confusamente que é possivel o meu pensamento. Lá está o seu nobre +espirito para aclarar a obscuridade d'essas palavras. + +«É necessario grande animo para me obedecer? Soffra, meu amigo, soffra +comigo. Olhe que me ha de abençoar, e gloriar-se do seu sacrificio. + +«Eu parto hoje para Celorico. Meu marido é digno de pena. Vou ajuda'-lo +a combater os remorsos que o tem levado ao infortunio da demencia. + +«Olhe que vida esta, meu amigo! Sirva-lhe o meu exemplo para a +paciencia, e para o heroismo. Adeus. Sua amiga _Ludovina_.» + +Esta carta explica o silencio de Antonio de Almeida. Comprehendeu-a com +o juizo prudencial dos quarenta annos. Meditou-a com tanto respeito como +admiração. Recolheu as palavras d'ella com religiosa austeridade, e +violentou a alma a aceitar o juramento da observancia, com pena de +deshonra e villania, se rescindisse alguma vez a alliança que fizera com +a que elle, no intimo de seu coração, chamava filha. + +Eu sei de mais que os amadores, em romance de boa escola, não +costumam assim accommodar-se, e obedecer aos ditames da razão. Estas +cousas, como ahi se contam, são naturaes e observadas, e sentidas; por +isso mesmo desagradaveis, em novella, onde o bom é o inverosimil, e o +que mais captiva é o que mais repelle o coração bem formado. + +Estes amores de Antonio de Almeida e D. Angelica, tractados por +imaginação de mais pulso, davam para muito brilhar. Estou a ve'-lo a +elle, pelo prisma phantastico dos mestres, erguer-se da cama com a mecha +ainda na aberta chaga, um par de pistolas de doze tiros, nas algibeiras, +entrar, entrar de cabellos hirtos e rosto livido, no quarto de Angelica, +e semi-desfallecido nos braços d'ella, dar largas á parlenda, e +vociferar, por entre amorosas phrases, esconjuros odientos contra o +genero humano, contra a instituição do matrimonio, e contra os deveres +conjugaes! Agora se me afigura vêr Melchior Pimenta assumar no limiar da +porta, e embasbacar petrificado diante do grupo escandaloso. Ha gritos, +injurias, investidas, até que alfim, levados á puridade para um recanto +da casa, ahi combinam um duello de morte, no dia seguinte. Medonha +figuração me avulta agora na imaginação de emprestimo Melchior Pimenta, +após a detonação de dois tiros, cambaleia sobre as pernas, leva a mão ao +seio que espirra golfos de sangue, põe os olhos annuviados no céo +impassivel, que contempla o quadro feio, e expede o derradeiro halito, +nos braços dos padrinhos. + +Quantos capitulos desgrenhados cuida o leitor que dava esta +parvoiçada imaginativa? Dois volumes em oitavo com seiscentas paginas, +afóra o subsidio das reticencias, que, na minha opinião d'outro tempo, +foram inventadas para definir a mulher; e na minha opinião d'agora, +inventou-as o primeiro litteratico ôco de idéas. + +Ora, que fiquem com Deus os mestres que tão vistosos de zarandalhas nos +embelecam; e, pelo caminho direito, mas escabroso da verdade, vamos +entrar na ultima jornada d'esta historia. + + + + +CONCLUSÃO + + +O barão de Celorico parecia uma creança atemorisada ao pé de Ludovina. +Se a perdia um momento, davam os espectros com elle, e lá ia o pobre +homem gritando, até se acocorar ao pé d'ella, escondendo-se com a roda +do vestido. + +Bastava a presença de Ludovina para socegar-lhe os accessos de loucura, +manifestados em exclamações desatadas, quasi sempre seguidas da +apparição do charuto cuja historia elle contava a sua mulher, pelo theor +ridiculo que já lhe ouvimos. + +Acudia Ludovina com o inutil remedio da razão, despersuadindo-o da morte +de Almeida. O barão abria a bocca attenciosa, parecia dar mostras de +entender e acreditar; o desfecho, porém, do silencio sereno com que a +escutava, era ver um novo avejão, que o vinha aterrar por cima do hombro +da mulher. + +Os primos compadecidos, e os facultativos aconselhavam á baroneza o +emprego dos meios violentos para o curarem. A grande idéa therapeutica +era o caustico e a sangria. A contristada senhora annuiu. Por sua +parte, fez-lhe até carinhos para o induzir a deixar-se sangrar. O barão +replicava que o queriam matar, e de joelhos pedia á mulher que não o +deixasse morrer ás mãos dos seus inimigos, que o perseguiam para lhe +roubarem a esposa. + +Resolveram empregar a força. Dois robustos camponios tomaram a peito a +ardua empresa. O cirurgião armado de lanceta esperava o ensejo propicio. +O officioso abbade da freguezia encarregára-se de cingir-lhe um lenço +sobre os olhos. O juiz ordinario pegava na bacia. Varios primos formavam +o corpo de reserva, e a baroneza fugira para não presenciar os +extrebuxamentos do infeliz. + +--Agora!--disse o facultativo. + +Á palavra _agora_ o barão estava entalado entre quatro braços +cabelludos, e o abbade, á rectaguarda do preso, lançava o lenço com mão +certeira. O barão arquejava, sem comtudo barafustar entre os membrudos +braços. Tudo promettia um propicio resultado, quando o antigo hercules +da rua dos Pescadores sacode um solavanco, e dispara dois murros +simultaneos nas ventas vizinhas. Umas eram as do abbade, o proprietario +infeliz das outras ventas era o juiz ordinario. Investiram de novo +contra elle os athletas: cara lhes foi a façanha, porque apararam um +choveiro de sôcos tremebundos, indo um d'elles por engano, estoirar na +lombada do cirurgião. Rarearam as fileiras. O abbade, o juiz, e os +homens de péga, parte dos primos, e o cirurgião coaram-se +cabisbaixos pela primeira porta que lhes franqueou a fuga atropellada. + +N'esse conflicto appareceu Ludovina. O doudo baixou as armas +contundentes, os braços iteriçados que vibravam o ar como duas +mangueiras de malho. Correu para ella, como a pedir-lhe soccorro, +ouviu-lhe as reprehensões com o tremor do medo, e cahiu prostrado da +lucta sobre uma cadeira, apegando-se á saia da baroneza. + +Aqui está o viver da deploravel senhora, no espaço de um mez, em +Celorico de Basto. Aquella vida, e as dôres profundas de outras causas, +eram o preço por que se fizera, ou a fizeram opulenta aos olhos da +sociedade, que, ainda assim, a invejava. + +O barão desmedrára a olhos vistos. Do antigo João José Dias restava o +arcabouço proeminente de angulos osseos. A panda physionomia, tão rubida +de nediez chorumenta, chupára-se, entanguira-se, cousa de fazer lastima. +Diziam todos que a baroneza, um mez depois, seria uma formosa e rica +viuva. Já dois dos primos, morgados empenhados, botavam suas medidas, e +porfiavam a conquista. As damas, com palavras francamente grosseiras, +iam dando os parabens á baroneza. As que ousaram feri'-la assim, ouviram +resposta que lhes fechou para sempre as portas de sua casa. + +A idéa que dominava o barão era a morte de Antonio de Almeida. Ludovina +perdera a esperança de afugentar o phantasma, empregando razões tão +convincentes da vida de Almeida como eram mostrar-lhe cartas +d'elle, que o barão ouvia ler com o sorriso do idiotismo, percursor de +nova berraria. + +A ultima que Ludovina lera, quasi certa de que seu marido não a +percebia, foi a seguinte: + +«Minha amiga. É já bastante o numero dos infelizes que põem os olhos +lagrimosos no abrigo consolador de Ludovina. Somos já muitos os +desamparados da esperança e da alegria. D'aqui até ao fim da vida é +soffrer, e chorar de modo que o mundo nos não veja as lagrimas: é +preciso que o coração as verta e as absorva; é necessario suffocar os +gemidos, e entreter as dôres, cavando a sepultura. + +«Curta será a minha existencia. Quarenta e quatro annos, e a saude +alquebrada, e o coração feito pedaços, é um bom agouro, não é? Mas, para +Ludovina será extensa a estrada da amargura. Tem vinte annos, minha +amiga; vejo-a na aresta do precipicio, a contemplar-lhe a profundeza, e +ahi se lhe hão de prolongar as horas como as do desterrado. Meu pobre +anjo! quem lhe vaticinaria ha dez annos este infortunio? + +«A santidade do seu viver devia ser recompensada aqui; mas a fé, a +religião dos desgraçados, ensina que o premio das grandes virtudes não +póde ser dado n'este mundo porque não ha mãos puras que possam tecer a +corôa do martyrio. Espere, Ludovina, com os olhos no céo, e a mão sobre +o seio para esmagar os impetos do coração, que tem accessos de raiva +blasfema. + +«Obedeci-lhe, Ludovina. + +«Comprimi, abafei, matei a essencia da minha vida, o sentir que m'a +fazia preciosa. Sou para sua mãe uma memoria. D'ella tenho só o nome +escripto no coração, como o epitaphio do affecto que ali morreu recalcado. + +«Deu-me um calix, Ludovina. Bebi-o de um trago. Se tem outro, +offereça-m'o; toma'-lo-hei de joelhos. + +«Pergunta-me qual é o meu viver? + +«É isto, minha amiga. Não sei dizer-lhe que turbação afflictiva me +embaça o animo. Em redor, todos os meus horisontes são tenebrosos. A +mesma sepultura perdeu para mim os encantos de repouso, esse acabar que +é o porto seguro de todos os naufragos d'este horroroso pego. + +«Poderei fazer-lhe entender, Ludovina, um quadro triste da minha +imaginação cançada de soffrer? Vejo dois vultos em pé, taciturnos, +sombrios, com os olhos cerrados, travando-se as mãos com a gelida +immobilidade de duas estatuas. Parou a vida externa n'estes dois entes. +Uma tremenda agonia lhes despedaçou a maior parte do coração; o +remanescente são fibras de ferro que resistem ao veneno e á morte. Ao pé +d'elles está a sepultura de ambos, e o anjo da consolação, sentado +n'ella, alimenta ahi a alampada da esperança. + +«Adeus, minha santa amiga.» + +Esta carta reclamaria notas explicativas, se o entendimento do leitor +não traduzisse a singelo o que ahi se esconde no figurado da linguagem. +A alliança de Antonio de Almeida e Ludovina, sobre um contracto de honra +tão melindrosa, não podia ser tractada com mais recato e pejo, de ambas +as partes. Entende-se o melancolico debuxo que attribulava o +espirito de Almeida. Angelica era a companheira d'esse homem que lhe +dava as mãos á borda da sepultura. A alampada da esperança alimentada +pelo anjo da consolação, era o fito da morte d'onde ambos não desfitavam +os olhos, como a naufragos succede, se no horisonte se lhes recorta um +rochedo salvador. + +Ludovina entendeu o viver de sua mãe, e pungidas lagrimas essa carta lhe +desentranhou do coração. Chamou-a para si com grandes demonstrações de +saudade. Pediu-lhe que fosse alliviar-lhe o peso da cruz á qual já não +bastavam seus hombros. Dava-lhe paciente conta do seu viver ao pé do +barão que noite e dia bramava contra os espectros, e já dava aos +facultativos receio de morrer desvariado, a mais acerba de todas as mortes. + +D. Angelica, fechada em seu quarto, realisava a imagem que a phantasia +de Almeida adivinhára. Sombria, inerte, reconcentrada, impassivel a +cuidados, carinhos, e desvelos de Melchior Pimenta, apenas dizia que +estava esperando a morte, e repellia com desabrido enfado os lenitivos +de quem quer que fosse. + +Nunca mais escrevera a Almeida, e á filha eram mais as lagrimas que as +lettras. Não era a sua uma d'essas dôres que desabafam. Sentia-se tomada +de vergonha, se o coração a mandava abrir-se em desafogados prantos com +Ludovina. Sentia-se ferida de aborrecimento, se não odio, quando o +marido, mais simulado que dorido, lhe repetia as consolações frivolas de +quem não comparte as penas. + +Á saudosa carta que a chamava a Celorico, D. Angelica respondera que já +não tinha vigor que a levantasse do seu leito. Supplicava a Ludovina que +lhe perdoasse a ella como causa dos seus tormentos, e lhe acceitasse +como reparo do seu pouco amor maternal os amargos transes que lhe +estavam desfazendo o coração fibra por fibra. + +No entanto, disseram os medicos á baroneza que a apparição d'esse homem, +que o barão julgava sua victima, poderia recobrar-lhe a razão, +desopprimindo-a de phantasmas e remorsos, causas principaes da demencia. + +Ludovina communicou a Almeida as esperanças dos medicos, sem pedir-lhe o +sacrificio de se verem. + +Almeida foi a Celorico de Basto, e encontrou ao pé da baroneza Melchior +Pimenta. + +Ludovina turvou-se da surpresa, e assim denunciou aos olhos do pae o +sobresalto em que a puzera a apparição do amante. + +Melchior Pimenta, forte da sua indignação, insultou Almeida, +exprobrando-lhe a pertinacia da infamia, e ameaçando-o com a morte, se +elle não sahisse immediatamente d'aquella casa. + +Ludovina cobrando forças, disse que só ella tinha direito de expulsar +alguem d'aquella casa. Encruou-se a sanha de Melchior, vociferando +injurias contra a filha, e provocações ao hospede silencioso. E saíu +escandecido de raiva. Almeida quiz segui'-lo, com sereno gesto, sem +assomos de colera, nem proposito de vingança. Impediu-o Ludovina com +lagrimas e gemidos que irritavam as iras paternas. Bem se via que +não estava ali um pae; e, se estava, não era por certo Melchior Pimenta. + +Este conflicto atalhou-o o barão. Seguiu-se uma scena de effeito +dramatico. O barão recuava diante de Almeida que lhe extendia a mão. +Ludovina segurava o marido, pedindo-lhe que acceitasse a reconciliação +que Almeida lhe offerecia. Este com palavras afectuosas lhe pedia a sua +estima, e o esquecimento da passada offensa. O barão, ora espavorido, +ora risonho, alternava os olhos entre Almeida e Ludovina. + +O leitor já sabe como no theatro se recupera o juizo. Se é mulher a +douda, rigorosamente desgrenhada esfrega os olhos, atira com as madeixas +para traz, e dá fricções seccas ás fontes com frenesi; se, homem, abre a +bocca, espanta os olhos, soleva o peito em arquejantes haustos, despede +o grito agudo obrigado a ambos os sexos, e está pessoa de juizo, capaz +de casar, que é quasi sempre a peor das doudices em que os auctores +fazem cahir os seus doudos, restaurados para a razão. + +Pois o barão de Celorico não se curou por esse theor. Os áditos da razão +estavam cerrados de modo que levou longo tempo a despedaça'-los. A +continua assistencia de Almeida ao pé do leito, e as continuadas +insinuações de Ludovina, conseguiram rehabilitar-lhe o juizo, mas +vagarosamente. O barão parecia emergir d'um pesadello atroz quando +reconheceu Almeida. Não houve exclamações nem abraços de pé atraz, +_secundam artem_. Lagrimas, sim, as da baroneza, cujo contentamento +desmentia as conjecturas dos primos que a imaginavam lograda nas +suas ancias de viuvez. O custoso, depois, foi rebocar os estragos que a +demencia fizera no corpo do barão. Foi longa a convalescença. Almeida +quiz despedir-se; mas o enfermo erguia as mãos supplicantes pedindo-lhe +que o não deixasse. + +Melchior Pimenta, de volta de Celorico, contou a sua mulher o escandalo +que presenceára. Repetiu contra Ludovina as injurias que lhe dissera em +face. Protestou esbofetear e apunhalar Almeida na presença de +testemunhas que depuzessem no processo da sua honra, e impoz, com +auctoridade, a sua mulher a sahida immediata da casa da adultera. + +D. Angelica ergueu-se impetuosa e terrivel, exclamando: + +--A adultera sou eu! + +--Que dizes, Angelica?!--bradou Melchior. + +--Adultera sou eu. Ludovina encobriu a minha deshonra com a sua virtude. +Os nomes insultuosos que lhe dás, repara bem, Melchior, e ve'-los-has +estampados no meu rosto. Se queres lavar com sangue estas manchas, +arranca-m'o do seio! + +E assim falando, tirava o lenço que lhe velava os hombros, offerecendo o +peito. + +--Endoudeceste, minha querida Angelica?--exclamou Pimenta--Faltava-nos +esta desgraça! Estás douda! maldita seja tua filha que te levou a esta +situação! + +«Não estou douda, Melchior! não estou douda! Estou moribunda, e não +quero deixar infamada a teus olhos a minha filha. Se eu te pedisse +perdão do meu crime, acreditar-me-ias? + +--Não, não. Tu és uma esposa virtuosa, Angelica! Diz o que quizeres para +salvar Ludovina, que eu não te creio. Reprovo essas demasias de amor, +que ella te está pagando com o amante ao pé de si. + +«Melchior!--disse Angelica com firmeza e gravidade--A tua filha está +innocente; a amante de Antonio de Almeida sou eu! Não me perdôes, vinga +em mim a tua deshonra, porque o perdão não t'o peço. Sabias, quando me +acceitaste como tua, que eu não podia pertencer-te. Collocaste ao meu +lado o homem que me fazia odiosa a tua baixeza. Nunca me perguntaste se +era verdadeira a carta que te escrevi em solteira, pedindo á tua +commiseração que me deixasses. A mulher que fez isto, não pede perdão. +Revolta-se com a coragem do desespero, e deixa-se morrer. Confesso o +crime para salvar minha filha. Julga-me tu agora, mas vae pedir perdão +áquella santa que quiz poupar tambem a tua dignidade. + +Melchior Pimenta saíu do quarto de sua mulher. + +Para se armar do punhal de D. Jayme de Bragança, e do infante D. João? + +Para se dar um tiro no ouvido? + +Para mergulhar da ponte-pensil, ou despenhar-se dos Arcos-das-Virtudes? + +Para scismar e endoudecer? + +Não, senhores. + +Melchior Pimenta foi para a Alfandega, jantou no hotel de Miss +Mery, e jogou o voltarete até ás onze horas na Assembléa Portuense. + +No dia immediato, visitou sua mulher, e recommendou-lhe que desse um +passeio no jardim que estava o dia agradavel. Ás tres horas procurou-a +para jantar ao pé d'ella. Disseram-lhe que a senhora tinha sahido n'uma +cadeirinha, e deixára uma carta para seu marido. + +Não vi esta carta, mas infiro o contheudo pelos successos subsequentes. + +D. Angelica obteve, vinte e quatro horas depois, licença de seu marido +para entrar n'um convento, situado n'um ermo do Minho. D'ahi escreveu a +sua filha, pedindo-lhe uma esmola para sustentar-se, visto que o +trabalho não bastava para as suas pequenas necessidades. + +Ludovina apressou a sua volta para o Porto. Obteve licença para visitar +sua mãe, e demorar-se no mosteiro por tempo indeterminado. Acompanhou-a +o marido e deixou-a com a certeza de a trazer comsigo passados dias. + +São decorridas dois annos. A baroneza de Celorico ainda não sahiu do +convento. O barão soffre resignado a certeza de que sua mulher não +sahirá jámais. + +A opinião publica diz que Ludovina merece louvores por não ter o +descaramento petulante de apresentar-se como outras muitas, incursas no +mesmo peccado, e declara a alta virtude de D. Angelica, mãe amorosa que +deixa a sociedade para se inclausurar com a filha desamparada. + +Melchior Pimenta está bom, e é commensal do barão. + +Antonio de Almeida encetou, ha dois annos, uma longa viagem d'onde não +voltou ainda. + +O bacharel Ricardo de Sá comprou mais tres bengalinhas, e dá a ultima +demão ao seu SECULO PERANTE A SCIENCIA. + +São hoje 15 de fevereiro de 1858. + +O unico personagem morto d'esta historia é Francisco Nunes. Expirou ao +cabo de uma violenta apostrophe, expedindo o derradeiro golfo de sangue +com o epitheto mais fulminante que a sua cólera lhe suggeria. Matou-o o +contracto do tabaco. + + +FIM + + + + +SUPPLEMENTO + + +PREFACIO + +O romance estava acabado. Os meus numerosos admiradores, que +eu regalára com a leitura d'essas duzentas paginas, haviam asseverado, +com a costumada franqueza, que este volume era a flor da virtude a +rescender perfumes de deleitosa aspiração para as almas. Um d'esses, +cujo voto muito respeito pela _massa_ de conhecimentos que _amassou_ em +Frederico Soulié e Alexandre Dumas, accrescentou que o romance _O que +fazem mulheres_ era a flor do meu talento. Cheio de encantadora +modestia, perguntei se a virtude da minha heroina precisaria de mais +tres ou quatro capitulos para ser vista a toda a luz celestial com que a +Providencia lhe irradiára o espirito. Disseram-me, á uma, que não +escrevesse mais uma só linha, que deixasse á perspicacia das leitoras o +desvelarem mysterios do coração, que eu não saberia illuminar sem +profana'-los, que deixasse ás lagrimas das almas sensiveis o fecho +d'esta historia, que esperasse, finalmente, alguns annos, para então +escrever a segunda parte da biographia da baroneza de Celorico de +Basto, que talvez os collegios de meninas adoptassem para uso das +educandas. + +Convenci-me d'isto, e mandei ao meu editor o romance, com a prophecia de +ser este um livro cuja decima edição apenas bastaria para aquietar as +ancias d'um terço do paiz. Disse-me em linguagem fria o meu editor que +uma virtude em duzentas paginas por quinhentos réis era, pequena de mais +para o comprador que prefere um livro em trezentas. Redargui-lhe, com +argumentos de grande calibre logico e moral, que a unidade da acção era +inatacavel no romance. + +_Item_: que o estirar uma idéa para avolumar a lombada de um livro era +chatinar a mercancia litteraria. + +_Item_: que muitas capacidades largas e agudas, ás quaes eu submettera o +meu manuscripto, se compromettiam a dizerem que este livro era a quinta +essencia de tudo que se tem escripto acerca das mulheres virtuosas desde +Sancta Agatha até ás Virgens do Thirol. + +Chamei em meu abono Aristoteles, Longino, e mais alguns legisladores que +eu não conhecia, para convencer o interprete do publico de que as raias +do meu trabalho de chronista não podiam transpôr as da realidade. Por +quanto: + +Não é inventada esta historia; + +Não quadram os incidentes imaginados com o essencial de um conto +verdadeiro; + +Não tolera um leitor sisudo que se lhe encampe á credulidade enfadonhas +narrativas que agorentam a verosimilhança, ou enfastiam a attenção +benevola. + +Após uma renhida desavença da qual ia resultando a perda do manuscripto, +que eu insensatamente sacrificaria ao meu bem entendido orgulho, viemos +ao accordo de se publicar o magro volume com grandes margens, grandes +entrelinhas, exuberancia de reticencias, e alguns juizos criticos dos +meus amigos que serviriam de indigitar ao leitor em que paginas estão as +bellezas que elle não viu. + +Concertados assim, estava o typographo com a ultima pagina, quando eu +fiz uma excursão ao Minho, e encontrei no Senhor do Monte o cavalheiro +que me contára o contexto d'este romance, nos ultimos dias do mez de +janeiro proximo passado. + +A nossa conversação de algumas horas vae ser trasladada em paginas +supplementares. + +Antes, porém, de entrar n'essa tarefa que realmente me dóe, seja-me +permitido verter uma lagrima no degrau do altar onde eu collocára +Ludovina, onde ella se collocára, e de onde se me afigura que... + +Não dou ansa a juizos temerarios do leitor. Leiam, e decidam se a +virtude perfeita não é uma utopia impossivel n'um livro que tiver mais +de duzentas paginas. + +Cumpre dizer quem é a pessoa, destinada pela providencia dos romances a +figurar n'este supplemento. + +V. ex.as de certo a conhecem. Viram-na já muitas vezes no theatro, nos +bailes, e na missa dos Congregados, na dos Clerigos, na do Carmo, em +todas as missas classicas em que se vê tudo, e se ouve tudo, menos o +padre e a missa. + +Eu dou os signaes do homem. + +Tem uma bella cabeça, uns bellos cabellos, uns bellos olhos... Já +conheceram? + +De vinte leitoras, dez estão na duvida. Se v. ex.ª é uma das dez +perplexas, desperte as suas reminiscencias com os seguintes traços: + +O nariz é a feição mais caracteristica d'este homem. Na base tem um +promontorio, no centro uma protuberancia, na ponta uma recurva como o +bico de um passaro. Chamam-se estes narizes _Bourbons_. Agora +conheceram-no todas. Na escola dos physionomistas, este nariz tem +significações espantosas. É um nariz que individualisa um homem; é um +livro aberto; é o porta-voz dos segredos da alma; é em summa, uma +biographia. + +Foi o que me approximou d'este homem. Se a natureza lhe désse a elle um +nariz vulgar, o leitor não se decidiria na leitura d'este romance. Vejam +de onde eu tirei um livro! O nariz de Cyrano de Bergerac foi causa de +vinte duellos de morte. Do nariz do meu amigo podem pender vinte volumes. + +Fascinou-me, e fui eu que me offereci á sua amizade. Achei-o um homem +raro, sabendo profundamente a vida de v. ex.as, quero dizer, todas as +virtudes que v. ex.as escondem, todas as perfeições que a sociedade não +vê, sem lh'as explicarem. + +É provinciano o sr. Marcos Leite: dê-se-lhe este nome. Visita o Porto +duas vezes cada anno, uma no carnaval, outra na estação do theatro +italiano. + +Consta que nunca teve namoro que o entretivesse nas duas estações. +O nome da mulher, que adora, até á demencia, no carnaval, quasi sempre +lhe esquece na Paschoa seguinte. Em compensação, as mulheres rejeitadas, +quando o leão volta das suas selvas nataes, apenas dão fé que Marcos +está no theatro das suas façanhas pelo estrupído extraordinario do +cavallo, que elle atira em arremettidas e sacões pelas ruas mais sonoras +da cidade eterna. A não serem as mulheres o que providencialmente são, +Marcos Leite seria prea dos dentes do remorso, ha muito tempo. Não ha +uma só das esquecidas damas, que lhe não incendiasse no mais intimo do +peito um amor eterno... de tres semanas. + +Algumas possuem cartas de uma paixão tão frenetica, que as exclamações +de Werther, comparadas com ellas, são frias e chatas como um rol de +roupa suja. + +Foi, pois, este cavalheiro, respeitavel em todos os sentidos, que me +contou o essencial da historia do barão de Celorico, accrescentando que +tinha visto duas vezes de relance, n'uma grade d'um mosteiro do Minho, +proximo ao seu solar, a figura celestial da baroneza, e a sympathica e +ainda juvenil physionomia de D. Angelica. + +Por essa occasião, lhe perguntei eu se traçava alguma rede á virtude +heroica de Ludovina. Respondeu-me o narrador, que não ousava escalar uma +fortaleza em cujo assalto era forçoso triumphar, ou morrer. +Accrescentou, que, nem ainda cooperado por duas primas que tinha no tal +convento, elle se animava a revelar a Ludovina uma affeição, que, +desprezada, se tornaria em loucura furiosa. + +Pareceu-me sensata a resposta de Marcos. Que homem conseguiria alvoroçar +aquelle coração, que eu imaginava esmagado sob a pressão de uma virtude +exaltada? + +Decorreram quatro mezes, e, como disse no prefacio, fui, ha dias, +surprehendido no Senhor do Monte por Marcos. + +Conhecem aquelle saudosissimo arvoredo, que rumoreja na sumidade da +serra, e aquella fresca alameda que está tapetando a entrada para a _mãe +d'agua_? Foi alli que o encontrei, encostado á mesa de pedra, lendo LES +REVERIES de Senancourt; leitura que eu aconselho a todas as pessoas que +precisam idealisar um mundo medio entre o asquerosamente lôrpa em que +vivemos, e o absurdamente inintelligivel que nos promettem as religiões. + +Quando me viu, Marcos Leite correu a abraçar-me, exclamando: + +«O meu coração tinha-te invocado. Abominaria quantos homens e mulheres +me apparecessem aqui, menos tu, e ella... + +--Temos ELLA! + +«E tu vieste para este sitio com o coração vazio?! + +--Graças a Deus, não, meu poeta. Trago tecidos, membranas, valvulas, +ventriculos, veias, arterias, nervos, sangue, etc. O meu coração está +funccionando com a mais physiologica das regularidades. Respiro +desafogadamente, e completo a digestão de uns succulentos pedaços de +boi, que triturei _sub tegmine fagi_. + +«Se vens assim, melhor fôra que não viesses. Eu queria que me +entendesses, como creio que me entendem, ha tres dias, estes rumores da +floresta. Escuta! Vê tu se este ermo, se este sussurro, que parece o +echo esvaido de um mundo remoto, não te está dizendo que o amor é a +vida, que a esperança é a felicidade, que debaixo do céo ha só tres +cousas grandiosas, o homem e a mulher um para o outro, e a soledade para +ambos! Não digas alguma blasphemia! Esse sorriso offende, e é um +sacrilegio aqui. Agradece ao Senhor que nos dá isto, esta fontinha, a +fresquidão d'estas sombras, o murmurio d'estas arvores, o azul do céo, +lá em baixo a melancolia poetica do valle, o som do campanario rural que +repercute na alma... + +Marcos Leite tinha razão. Não pude contrafazer, por mais tempo, a minha +indole triste. Entrou-me a saudade no coração, aninhando-se no pequeno +recinto não tomado ainda pela desesperança. Lancei os olhos ao livro em +que lia Marcos, e recolhi á alma as seguintes linhas: + +_La paix jointe aux lumières sera le partage d'un homme dans toute une +province. Quant au contentement, on le cherche, on l'espère même; +peut-être l'obtiendrait-on, si la mort ou la décrépitude ne survenaient +auparavant... La vie était bonne, et on lui trouve encore des douceurs +que la raison ne saurait méconnaître. Mais il importe que l'imagination, +renonçant aux écarts, et servant elle-même d'asile contre les peines, +anime seulement le repos que l'âme peut conserver quand elle est restée +pure._ + +«Que é isto?--perguntei eu tomando de sobre a mesa um papel escripto a +lapis. + +--Versos, meu caro; linhas, é melhor dizer linhas. O coração mais poeta +creio que é o menos metrificador. + +«Póde saber-se que anjo te roçou a fronte com a aza? + +--Não adivinhas quem eu poderei amar assim? Ha uma só mulher n'este mundo. + +«A baroneza? + +--Com que frialdade proferes esse nome! Chama-lhe antes Ludovina... + +«Lê os versos. + +Marcos declamou com as mais maviosas modulações do sentimento a seguinte +poesia: + + A LUDOVINA + + Quem ha ahi que possa o calix + De meus labios apartar? + Quem, n'esta vida de penas, + Poderá mudar as scenas + Que ninguem pôde mudar? + + Quem possue n'alma o segredo + De salvar-me pelo amor? + Quem me dará gotta de agua + N'esta angustiosa fragua + D'um deserto abrasador? + + Se alguem existe na terra + Que tanto possa, és tu só! + Tu só, mulher, que eu adoro, + Quando a Deus piedade imploro, + E a ti peço amor e dó. + + Se soubesses que tristeza + Enlucta meu coração, + Terias nobre vaidade, + Em me dar felicidade + Que eu busquei no mundo em vão. + + Busquei-a em tudo na terra, + Tudo na terra mentiu! + Essa estrella carinhosa + Que luz á infancia ditosa + Para mim nunca luziu. + + Infeliz desde creança, + Nem me foi risonha a fé; + Quando a terra nos maltrata, + Caprichosa, acerba, e ingrata, + Céo e esp'rança nada é. + + Pois a ventura busquei-a + No vivo anceio do amor. + Era ardente a minha alma; + Conquistei mais d'uma palma + Á custa de muita dôr. + + Mas estas palmas taes eram + Que, postas no coração, + Fundas raizes lançavam, + E nas lagrimas medravam + Com fructos de maldição. + + Em ancias d'alma, a ventura + Nos dons da sciencia busquei. + Tudo mentira! A sciencia + Era um signal de impotencia + Da vã razão que invoquei... + + Era um brado, um testemunho + Do nada que o mundo é. + Quanto a minha mente erguia + Tudo por terra cahia, + Só ficava Deus e a fé. + + Lancei-me aos braços do + Eterno Com o fervor de infeliz; + Senti mais fundas as dôres, + Mais agros os dissabores... + O proprio Deus não me quiz! + + Depois, no mundo, cercado, + Só de angustias, divaguei + De um abysmo a outro abysmo + Pedindo ao louco cynismo + O prazer que não achei. + + Tristes correram meus annos + Na infancia que em todos é + Bella de crenças e amores, + Terna de risos e flores, + Santa de esperança e de fé. + + Assim negra me era a vida + Quando, ó luz d'alma, te vi + Baixar do céo, onde, outr'ora, + Te busquei mão redemptora + Procurando amparo em ti. + + Serás tu a mão piedosa, + Que se estende entre escarcéos + Ao perdido naufragado? + Serás tu, ser adorado, + Um premio vindo dos céos? + + E eu mereço-te, que immenso + Tem já sido o meu quinhão + De torturas não sabidas, + Com resignação soffridas + Nos seios do coração. + + Que ternura e amor e afagos + Toda a vida te darei! + Com que jubilo e delirio, + Nova dôr, novo martyrio, + De ti vindo, acceitarei! + + Se na terra um céo desejas + Como o céo que eu tanto quiz, + Se d'um anjo a gloria queres, + Serás anjo, se fizeres, + Contra o destino, um feliz. + + Faz que eu veja n'estas trevas + Um relampago d'amor, + Que eu não morra sem que diga: + «Tive no mundo uma amiga, + Que entendeu a minha dôr. + + «Deu-me ella o estro grande + Das memoraveis canções; + Accendeu-me a extincta chamma + Da inspiração que inflamma + Regelados corações. + + «Os segredos dos affectos + Que mais puros Deus nos deu, + Ensinou-m'os ella um dia + Que d'entre archanjos descia + Com linguagem do céo. + + «Os mimosos pensamentos + Que, de mim soberbo, leio, + Inspirou-m'os, deu-m'os ella + Recostando a fronte bella + Sobre o meu ardente seio. + + «Morta estava a phantasia + Que o gêlo d'alma esfriou; + Tinha o espirito dormente, + Só no peito um fogo ardente, + Quando o céo m'a deparou. + + «Agora morro no gôso + D'uma saudade immortal. + Foi ditosa a minha sorte; + Amei, vivi: venha a morte, + Que morte ou vida é-me igual. + + «Igual, sim, que o amor profundo, + Como foi na terra o meu, + Não expira, é sempre vivo, + Sempre ardente, e progressivo + Em perpetuo amor do céo.» + + Assim, querida, meus labios, + Já moribundos, dirão, + Nas agonias supremas, + Essas palavras extremas, + Do meu ao teu coração. + + Sabes quem é, n'este mundo, + Quasi igual ao Redemptor? + É quem diz: «Sou adorada + Pela alma resgatada, + Por mim, das ancias da dôr.» + +«Por ora, vejo que supplicas amor--disse eu.--A tua poesia é um +requerimento que póde ficar _esperado_ muito tempo no gabinete do despacho. + +--Fala d'outra maneira... Eu soffro demais para te achar graça. Não é um +requerimento esta poesia, meu amigo, é uma expansão de reconhecimento. O +amor ditoso chega a entristecer. Tenho a segurança, a segurança que nos +dá o coração, de que a alma de Ludovina me pertence. + +«Por consequencia tens tudo... Enganei o publico... + +--Como enganaste o publico?! + +«Puz em romance a historia que me contaste, e disse que a baroneza era +uma rocha inabalavel de virtude. + +--E receias mentir?! + +«Eu já sabia que me não acreditavam... Pois tenho pena, palavra de +honra! A meiga imagem de Ludovina havia de ser sempre nova e pura na +minha imaginação, como o eterno typo das duas formosuras enlaçadas, a do +corpo e a da alma. Rasgava o romance, se elle não estivesse já no prelo, +e o dinheiro d'elle transformado n'um cavallo. É tarde para reivindicar +a minha honra de romancista ingenuo ou palerma, que anda n'este mundo a +querer provar, que as onze mil virgens nunca de cá sahiram. + +--Pois que esperavas tu de Ludovina? + +«Que morresse abraçada á sua cruz, que désse o exemplo da esposa martyr, +da filha sacrificada ao bom nome de sua mãe; que sahisse apenas da sua +cella para redobrar de paciencia aos pés do altar; que nunca +consentisse que corações degenerados como o teu, e o meu, concebessem a +esperança de profana'-la. + +--Estás a fazer a alta comedia, ou crês sinceramente que Ludovina +degenera? Põe de parte a consciencia de romancista, e deixa fallar a do +ente pensante e racional,--e se tu e eu somos indignos de aspirar ao +amor da baroneza, crês que um outro, cahindo das nuvens determinadamente +por ella, a absolveria do crime horrivel de ter coração? + +«O coração de Ludovina estava cheio de sensações, que o faziam +participante do amor divino. Que precisão tinha ella do amor dos homens? +Estragou uma bella biographia, essa mulher. Talvez fosse unica, e +apontada á posteridade como molde. Era uma virtude original; +converteu-se em um vicio vulgar. A minha heroina fez bancarrota, falliu, +e deixou-me em hypotheca a palavra que eu dei a paginas 170, pouco mais +ou menos, de que eram solidos os fundos em virtude, e grandes os haveres +em creditos d'esta mulher inimitavel, typica, e biblica, deixa-me dizer +assim, porque ella merecia todos os epithetos levantados e grandiosos. + +--Mas que fez a pobre senhora para descredito tamanho? + +--O que fez?! é boa! auctorisou-te a canta'-la em quintilhas! Um homem +de mais alma que tu és, vasaria a inspiração em versos endecasyllabos. +Uma mulher assim amada em redondilha maior! É horrivel e immoral! + +--Bem! Ainda agora te comprehendi. Estás zombando com ella e comigo, e +não sei se com o publico, a quem prometteste uma virtude enfadonha e +monotona, como deve ser o teu romance, se te não salvares com a rapida +narração que te vou fazer da mais sublime virtude, da virtude por +excellencia de Ludovina. + +--Qual virtude? + +--A de me receber dez cartas, escriptas com o sangue do coração, e... +não me responder a nenhuma. + +--Mas tu disseste-me ainda agora que tinhas a segurança de que a alma de +Ludovina te pertence. + +--E tenho. + +--Não te respondendo ás tuas cartas? Não entendo. + +--Não me respondeu a dez cartas... + +--Bem. + +--Mas eu escrevi-lhe vinte, e ella respondeu á ultima. + +--Ah! isso então muda de figura... E a resposta foi tal que te deu a +segurança de seres o proprietario do coração da baroneza!... + +--Queres ver a resposta? Franqueza e confiança. Lê lá. + +Era um bilhete que rezava assim: + + +«Tenho recebido por delicadeza as suas cartas. Basta dar-me v. ex.ª o +nome de amiga para que eu as aprecie. Não me julgava na obrigação de +responder. Hoje, porém, que v. ex.ª me lembra esse dever, peço perdão da +falta, e castigo-me devolvendo-lhe as suas vinte cartas, de cuja +posse sou indigna, porque não soube corresponder-lhe. + +«Com verdadeira estima, attenciosa veneradora de v. ex.ª--_Ludovina +Pimenta_.» + + +--Isto é lisongeiro!--disse eu sorrindo.--Com um documento d'estes, é +indispensavel a posse que tomaste do coração da baroneza. Eu creio que +podia ser assim o proprietario mais abastado do genero... + +--Espera lá.. Ainda tenho outros titulos da propriedade. Já agora has-de +examina'-los todos, e dizer-me no fim se os meus direitos serão +litigiosos. Recebi as vinte cartas, e escrevi mais dez. Que dez cartas! +Que estylo! que dez causticos para fazerem supurar um coração! + +--Deixas ver a resposta? + +--A resposta foram dez cartas. + +--Incendiarias? + +--Que duvida? Eram as minhas, lacradas, sem um vinco, direitinhas como +foram! + +--E teimaste?! Seria necessario muito despejo e indignidade! + +--Não teimei: cahi doente, tive febre, assustei a minha familia, e fiz +que me chorassem as minhas primas, companheiras conventuaes da baroneza. +Ao nono dia de enfermidade, a medicina suspeitou que o sangue me refluía +á cabeça. Correu que eu enlouqueceria, ou morreria. A baroneza mandou +saber de mim duas vezes n'um dia. + +--Oh! isso é muito! No dia immediato foste agradecer-lhe o cuidado... + +--Não fui, não podia ir. O abalo, a certeza, de que era amado, +exacerbou-me a febre, escaldou-me a imaginação a ponto de delirar. +Durante um curto intervallo de tranquilidade de espirito, escrevi á +baroneza uma duzia de linhas quando muito. Dava-lhe parte de que tinha a +morte sentada á cabeceira do meu leito de agonias; dizia-lhe que pediria +por ella ao Senhor, se a gloria celestial me fosse dada como premio do +muito que soffrera, e da muita paciencia com que soffrera na terra os +rigores de uma alma que não quiz comprehender-me; perdoava-lhe com a +mais evangelica generosidade de moribundo, e emprazava-a para me +restituir o coração na eternidade. + +--Isso devia fundir em lagrimas de remorso a pobre senhora. + +--Estás ludibriando a minha angustia?--interrogou Marcos Leite com +ironico enfado. + +--Não ludibrio a tua angustia, faço a apologia da tua astucia. Tu não +tinhas febre, nem vias a morte á cabeceira do teu leito, fala a verdade. + +«Tinha febre, palavra de honra, porque sou muito nervoso; e se me +persuado que tenho uma ponta de febre, sinto-me logo em labaredas. Tenho +tido vinte e tantos d'esses typhos, com as vinte e tantas mulheres que +tu sabes. O que vale é ser rapida e segura a convalescença. + +--Convalesceste depressa? Já vejo que o teu bilhete conseguiu... + +«Um triumpho! + +--Como um triumpho?! + +«Uma gloria imprevista, um lance tão arrojado de venturas, que ainda +agora me salta o coração no peito. + +--Guarda os extases para o fim, e vamos ao ponto. + +«Mandou-me visitar por um medico do Porto, que fôra de proposito medicar +D. Angelica. + +--Consiste n'isso o triumpho?! + +«Que mais querias tu! + +--Mais nada... A um doente a maior prova de estima que póde dar-se é +mandar-lhe um medico. + +«O peor foi dizer o doutor que a minha enfermidade era imaginaria. +Mandou-me dar longos passeios a cavallo, e a pé, comer alimentos pouco +volumosos e muito substanciaes, e dormir o maximo numero de horas que +pudesse. Reflecti-lhe que sentia a morte no coração; a isto redarguiu, +sorrindo, o medico matreiro, que verificando-se a morte d'esta viscera, +entregasse ao estomago o exercicio das attribuições do coração. Não sei +o que elle foi dizer á baroneza: é certo que os cuidados da parte d'ella +não esfriaram, e eu, melhor avisado, entendi que não precisava morrer +para ser amado. Logo que me ergui do leito... + +--Da agonia, ou da dôr para variar... + +«Nada de chacóta. D'aqui em diante fala-se serio. Logo que sahi fui ao +convento. Era por uma bella tarde de maio. Soprava de leste uma viração +suavissima, que, sacudindo as urnas das flôres, embalsamava a +atmosphera de fragrantes aromas. No horisonte... + +--Se me pudesses dispensar do idyllio!... Guarda as reminiscencias +bucolicas para o inverno, quando estivermos ao fogão. Por mais que +phantasies não deslumbras a realidade do bello espectaculo que nos está +dando aqui a natureza em primeira mão. Descarna as descripções, e diz o +que passaste no convento com a baroneza. + +«Estás materialmente estupido, homem. Foi-se-te a poesia toda no fabrico +dos romances. Vocês, os que trabalham no coração humano com o escalpello +sanguinario da analyse, tornam-se áridos, brutaes, e famulentos de +sensações rijas... + +--É assim; todavia, prefiro a descripção da tarde de maio á catilinaria +insolente que vaes disparar-me. + +«Nem uma nem outra. Vou abreviar o conto, para que a inveja mais +depressa te castigue. A baroneza mandou-me entrar n'uma grade, e +appareceu sósinha. Era a primeira vez que me recebia a visita sem vir +acompanhada das minhas primas ou de D. Angelica. + +--Esse facto é profundamente significativo! Vou gosar o prazer de ouvir +um dialogo de amorosas finezas, cortado de suspiros maviosos... Já +principiam as disciplinas da inveja a verberar-me... + +«Saberás tu o que se passou?! + +--Se sei o que se passou!? + +«Sim... dizes com tão ironica zombaria o prospecto do dialogo... + +--Nada, não: é que me vou aquecendo ao teu enthusiasmo, e o estylo +principia a aquecer tambem. + +«Ahi vae lealmente, a scena final do definitivo triumpho. Eu tinha posto +grandes esperanças na minha pallidez. Tres semanas de cama seriam +capazes de fazer amarello um camarão cosido. A primeira decepção, que +recebi ao entrar na grade, foi dizer-me a baroneza: + +«Ninguem dirá que esteve doente, sr. Marcos! A vida socegada de tres +semanas deu-lhe um colorido de saude, que d'antes não tinha. + +--Como assim, sr.ª baroneza! Pois a minha pallidez... + +«Está enganado; pelo contrario, está côr de rosa, acredite. Eu chamo as +suas primas, e verá se ellas não dizem o mesmo. + +--Não chame as minhas primas, sr.ª baroneza. Eu preciso que v. ex.ª me +escute. Este é o momento solemne da vida ou morte. Hei-de hoje ouvir +aqui a minha sentença. A pedra da sepultura já está erguida para mim; o +seu braço suspendeu-a; o seu braço ha-de afastal-a de sobre o peito, que +me esmaga, ou deixa'-la abafar o meu derradeiro gemido. + +«Que linguagem, sr. Marcos!--disse ella--Pelo amor de Deus, faça-me a +justiça de me não julgar creança. O infortunio emancipou-me. Não posso +ser illudida, nem illudir-me. Tenho aquella dolorosa penetração que +adquire o espirito á medida que a boa fé do coração se perde. Com que +fim emprega tantos esforços baldados para inquietar-me? + +--Eu queria fazer a sua felicidade pelo amor. + +«A intenção é generosa, e eu não sou ingrata. Mil vezes agradecida, sr. +Leite; mas o amor não póde dar-me felicidade. Imagino que elle possa ser +a alegria de muitas almas puras e impuras; dou credito a tudo o que se +diz de sublime e celeste ácerca d'esse sentimento, o mais mavioso de +todos: mas sem coração essa flor não póde dar perfumes de uma hora. O +meu coração desfez-se em lagrimas, cuja historia não é nova para o sr. +Marcos Leite. Eu não o amo, não o posso amar, apenas lhe vejo todas as +boas qualidades que se podem desejar n'um amigo. Quadra-lhe esta +affeição? quer-me para sua amiga? está decidido a acceitar deveras este +offerecimento que tantas vezes acceitou, e outras tantas desprezou? + +--Desprezei? + +«Sim; pois que outro nome se deve dar ás suas cartas escriptas com um +fogo que me deslumbra sem me queimar, instantes depois que me promettia +respeitar a minha posição, compadecer-se dos meus infortunios, e +acolher-me á sua estima como uma alma quebrantada de enfermidades, que +só os melindres d'uma verdadeira amizade podem suavisar? Não é meu +amigo, sr. Marcos. O senhor imaginou que eu tinha uma fibra do coração +capaz de sustentar o peso de alguma grande desgraça, e quiz parti'-la. + +«Enganou-se; nem essa já tenho. Que mais quer que eu lhe diga? + +--Mais alguma cousa: disse-me v. ex.ª que me não amava; agora diga que +me despreza. + +--Não posso. Sou sua amiga: não ha n'este mundo outro homem a quem eu +possa dizer o mesmo. Sou para si, apesar da minha inutilidade, o mais +que posso ser... Agora, se me dá licença, vou ao quarto de minha mãe, +que está doente e só.» + +O meu amigo Marcos Leite, fechando assim o dialogo com a esposa de João +José Dias, fixou-me de um modo que parecia perguntar-me a razão porque +eu me não ria. + +--Esses triumphos são parecidos com as minhas derrotas--disse-lhe eu. + +--É que tu não sabes nada do coração humano!--replicou o singular +provinciano, com um sorriso, que poderia ser definido infatuamento tolo +por quem não conhecesse a intelligencia clara de Marcos Leite. + +Vaes agora ver que todos estes atalhos conduzem á estrada real da terra +da promissão--proseguiu elle;--Josué está defronte das muralhas de +Jericó. A trombeta da anniquillação vae soar. A virtude de Ludovina está +abalada desde os alicerces, e desabará como todas as virtudes possiveis +no romance, e impossiveis na vida qual ella é, e como bom é que ella +seja para que este mundo se supporte desde o amanhecer até que o sol +refresca a sua fronte abrasada nas aguas do oceano.. Deleitei-te com +esta nesga de estylo? Até os olhos se te riem quando ouves tolices +euphonicas!... Vou concluir. + +--Já?! + +--Achas que é cedo? + +--Parece-me que o triumpho está muito longe ainda para concluires tão +depressa. + +--Lê esta carta, e prova-me que conheces alguma cousa do coração, dando +como infallivel a minha victoria. + +Comecei a lêr com ávida curiosidade a seguinte carta de Ludovina: + + +«Eu procurei este abrigo, cuidando que encontrava n'elle paz, +esquecimento, anceios para Deus, balsamo de piedade para as chagas de +minha mãe e minhas, o desejo suave de morrer com ella, e um acabar a +vida melhor que o principio. + +«Gosei alguns mezes, se não a realidade, ao menos a esperança d'estes +bens. Por que infortunio estava confiada ao sr. Marcos a missão de +inquietar-me até me affligir com a mortificação das suas instancias +impertinentes, perdoe-me a clareza da idéa...?» + + +--Que amabilidade!--disse eu, interrompendo a leitura. + +--Lê, e não commentes por ora. + +Prosegui, lendo: + + +«Muito egoistas são os homens, santo Deus! Ha uma infeliz mulher, como +eu, que impressiona um homem como o sr. Marcos. Sou procurada na minha +solidão por v. s.ª que me offerece o seu amor. Respondo-lhe que o +não posso acceitar, porque a infelicidade me tornou dura e insensivel +aos prazeres dos affectos do coração. Conto-lhe a minha vida com aquelle +desabafo e confidencia que fórma as amizades immorredouras. V. s.ª +escuta-me, admira-me, lamenta-me, e faz-me acreditar que a minha dôr é +para si tão respeitavel que não ousará mais despertar-me o desejo de +alegrias impossiveis para mim. Apenas decorridas algumas horas, abro uma +carta sua, em que espero encontrar a linguagem consoladora de um amigo, +e leio um longo queixume contra a minha insensibilidade, e a ameaça de +se matar, porque a sua mortificação é insupportavel. + +«Egoismo, e tyrannia! + +«Faltava-me a tortura da responsabilidade da sua vida, sr. Marcos! Quem +me dera ser o que creio que se é no grande mundo, que eu não tive tempo +de estudar! Lá, as mulheres experimentadas nas tempestades do coração, +sabem, creio eu, que nenhum homem morre em naufragio. Eu tenho a +innocencia de crêr que o mortifico, que o incommodo com a minha frieza, +que o não satisfaço com o grande affecto de amiga que lhe dou. + +«Que futuro me queria dar, sr. Marcos? Pois não conhece a minha posição? +Não adivinha que vivo toda e exclusivamente no amor de minha mãe? Que +entrei n'um caminho de amarguras voluntarias d'onde não posso desviar-me +uma linha, sem converter em remorsos a consciencia das boas acções que +pratiquei até hoje? Deixe-me tambem ser egoista das minhas +virtudes, porque não tenho outro amparo que me sustente a coragem +para soffrer o pouco de vida que me resta. + +«Eu avalio o seu coração. Confesso que, ha tres annos, o encontrarmo-nos +seria um designio da Providencia divina. Creio que seriamos felizes; que +teriamos a bemaventurança na terra. + +«Agora, porém, não ha futuro para nós, nenhum futuro, meu amigo. + +«São as ultimas palavras que lhe dirige a sua sempre amiga _Ludovina_. + + +--Que esperas agora, Marcos?--perguntei eu. + +--Espero que ella se compadeça da minha humildade. + +--Humildade não entendo... + +--Essa carta é um esforço extremo de quem se quer segurar á aresta do +abysmo. A baroneza é mulher. + +--Já sei. + +--Cuidei que não sabias, e de certo não sabes o que é uma mulher. + +--Então, já não aprendo. + +--Vou-te ensinar o que são todas, definindo-te Ludovina. + +--Escuto, sem respirar. + +--A baroneza ama-me. + +--Isso é bem positivo e claro? Vê lá... + +--Tenho visto. Ama-me, e está sem forças para manter uma isenção +contrafeita. A mulher, quando se sente enfraquecer, revolta-se contra o +homem que a subjuga. + +--E depois? + +--Se esse homem acceita humildemente a revolta, é ella mesma a que se +revolta contra si, incriminando-se de ingrata e insensivel. + +--É pelos modos uma enfiada de revoltas, de _bernardas_ do coração... + +--Estás hoje intractavel!! + +--Estou intolerante com os absurdos. Esperas que ella te mande chamar á +grade do mosteiro para assistires á queima d'esta carta na pyra do amor? + +--Talvez... Tu és uma creança velha. Não sabes nada. Morres ignorante +dos segredos do coração feminino... Que lastima! + +--Não me chores, responde: tiveste o cuidado de avisa'-la que te vinhas +suicidar nas florestas do Senhor do Monte? Meu caro Marcos, eu acredito +que conheces todas as mulheres menos Ludovina. Ha um Waterloo para cada +Napoleão d'estas conquistas incruentas. O teu é a baroneza de Celorico +de Basto. Queres poupar-te a um desgosto de amor proprio? Esquece-a. + +--E a omnipotencia da vontade o que é? Hei de triumphar, ou Ludovina é +uma natureza superior á humanidade... + +Sahi de Braga. O meu amigo ficou á espera da segunda «revolta» rimando a +quarta poesia em quintilhas, e os primeiros duzentos versos de uma +elegia que elle intitulava o seu epitaphio. + + * * * * * + +Um mez depois encontrei no Porto Marcos Leite. + +--Então?--exclamei eu a custo, com as costellas apertadas n'um abraço +homicida. + +--A baroneza? + +--Sim... diz-me alguma cousa da ultima «revolta». + +--A baroneza... cahiu miseravelmente. + +--Cahiu?! + +--Não o sabias? que estupida espionagem tu trazes nas casas alheias! + +--Venceste, pois. Marcos! Oh minha pobre Ludovina! onde eu te havia +posto! O que dirá o publico! Despenhou-se aquelle anjo! Quando +encontrarei eu outro para o throno que ficou vago?! + +--E em que lodaçal ella cahiu!... + +--Creio... + +--Esse _creio_ é uma affronta... + +--A ella... + +--Querem ver o romancista com ciumes!... + +--É compaixão d'ella, e de ti... + +--De mim!--tornou elle soltando uma estridente risada--de mim! Pois +cuidas que o lodaçal sou eu!? Restitue-me a minha innocencia na terrivel +torpeza que ella praticou. + +--Depressa... que fez ella? + +--Cahiu nos braços asquerosos de... + +--De quem! + +--Do marido! Não te espantas da perversidade!? Estás corrupto! + +--Por consequencia está coroada a virtude da minha heroina com o +extremo supplicio. + +--Pelo que ouço, denominas resignação o que no meu vocabulario equivale +a baixeza de alma! São tantas as martyres que sorriem á sucapa da tua +compaixão... Confessa que Ludovina não podia dar mais insignificante +testemunho de um espirito menos de trivial. Entregar-se de novo a João +José Dias! + +--Cala-te, impio! não cuspas na face da martyr! Conta-me os promenores +d'essa reconciliação. Palpita-me que a promoveu algum grande infortunio... + +--Qual? adivinha lá... + +--A morte de D. Angelica. + +--Justamente: morreu ha tres semanas. + +--Atormentada de saudades... pobre mulher! + +--Creio que sim. Disseram-me minhas primas que lhe encontraram um +retrato no seio, ainda embaciado pelo ultimo respiro que ella exhalou. +Devia ser o retrato de Antonio de Almeida. Tambem me disseram que viram +ajoelhar Ludovina ao pé do cadaver, e lhe ouviram dizer: «A sua memoria +fica sem mancha, minha mãe!» + +--Isso é triste, Marcos! Comprehendes tu a santidade d'essas palavras? + +--Comprehendo; mas abomino a melancolia. O mundo acceita estes heroismos +como exquisitices. Eu pertenço a este mundo, dei-lhe o que tinha de bom +no coração, e quero ter grande partilha no cynismo que elle dá em +paga. + +--Não importa. Ludovina continua a ser um anjo, confessa. + +--Parece-me que o seria, se não sahisse de ao pé do tumulo de sua mãe. +Se João José Dias avilta uma creatura que é só humana, com o seu +contacto, como ha-de elle sustentar as qualidades de um anjo? + +--E se Ludovina acceita as torturas da convivencia com tal homem, como +provocações á morte? + +--Morrerá estupidamente. Será indigna d'um necrologio, e terá apenas uma +magra local chamando os amigos do marido a assistirem-lhe aos funeraes. + + * * * * * + +Deixemos falar este homem sem alma, leitores! + +Ludovina continua a ser a flôr da creação, o espelho de infelizes, o élo +que prende a creatura ao Creador, o anjo que chora, esperando que os +anjos a levem d'este desterro. + + +FIM + + + + + +End of Project Gutenberg's O que fazem mulheres, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O QUE FAZEM MULHERES *** + +***** This file should be named 29435-8.txt or 29435-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/9/4/3/29435/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/29435-8.zip b/29435-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..c0a4485 --- /dev/null +++ b/29435-8.zip diff --git a/29435-h.zip b/29435-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..eb6d34a --- /dev/null +++ b/29435-h.zip diff --git a/29435-h/29435-h.htm b/29435-h/29435-h.htm new file mode 100644 index 0000000..0587b32 --- /dev/null +++ b/29435-h/29435-h.htm @@ -0,0 +1,6322 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN"> +<html lang="pt"> +<head> + <title>O que fazem mulheres, por Camilo Castelo Branco</title> + <meta name="Author" content="Camilo Castelo Branco"> + <meta name="Publisher" content="Parceria Antonio Maria Pereira"> + <meta name="Date" content="1907"> + <meta http-equiv="content-type" content="text/html; charset=iso-8859-15"> + <style type="text/css"> + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pn { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + h1,h2 {text-align: center; margin-top: 3em; margin-bottom: 2em;} + #corpo p.sinopse {margin: 0; font-size: small; text-indent: 0;} + hr.dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000;} + hr {border: 0; border-bottom: solid 2px;} + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of O que fazem mulheres, by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O que fazem mulheres + Romance philosophico - Quarta edição + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: July 18, 2009 [EBook #29435] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O QUE FAZEM MULHERES *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +</pre> + + +<div style="text-align:center;"> +<p>OBRAS<br> +<span style="font-size: 0.8em;">DE</span><br> +CAMILLO CASTELLO BRANCO<br> +——<br> +<span style="font-size: 0.8em;">EDIÇÃO POPULAR</span><br> +——<br> +LVII</p> + +<p><span style="font-size: 1.6em;">O QUE FAZEM MULHERES</span></p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="font-size: 0.8em;; margin: 10%;"> +<p><span style="font-size: 0.8em;">VOLUMES PUBLICADOS</span></p> + +<p>N.º 1—Coisas espantosas.</p> + +<p>N.º 2—As tres irmans.</p> + +<p>N.º 3—A engeitada.</p> + +<p>N.º 4—Doze casamentos felizes.</p> + +<p>N.º 5—O esqueleto.</p> + +<p>N.º 6—O bem e o mal.</p> + +<p>N.º 7—O senhor do Paço de Ninães.</p> + +<p>N.º 8—Anathema.</p> + +<p>N.º 9—A mulher fatal.</p> + +<p>N.º 10—Cavar em ruinas.</p> + +<p>N.<sup>os</sup> 11 e 12—Correspondencia epistolar.</p> + +<p>N.º 13—Divindade de Jesus.</p> + +<p>N.º 14—A doida do Candal.</p> + +<p>N.º 15—Duas horas de leitura.</p> + +<p>N.º 16—Fanny.</p> + +<p>N.<sup>os</sup> 17, 18 e 19—Novellas do Minho.</p> + +<p>N.<sup>os</sup> 20 e 21—Horas de paz.</p> + +<p>N.º 22—Agulha em palheiro.</p> + +<p>N.º 23—O olho de vidro.</p> + +<p>N.º 24—Annos de prosa.</p> + +<p>N.º 25—Os brilhantes do brasileiro.</p> + +<p>N.º 26—A bruxa do Monte-Cordova.</p> + +<p>N.º 27—Carlota Angela.</p> + +<p>N.º 28—Quatro horas innocentes.</p> + +<p>N.º 29—As virtudes antigas—Um poeta portuguez... rico!</p> + +<p>N.º 30—A filha do Doutor Negro.</p> + +<p>N.º 31—Estrellas propicias.</p> + +<p>N.º 32—A filha do regicida.</p> + +<p>N.<sup>os</sup> 33 e 34—O demonio do ouro.</p> + +<p>N.º 35—O regicida.</p> + +<p>N.º 36—A filha do arcediago.</p> + +<p>N.º 37—A neta do arcediago.</p> + +<p>N.º 38—Delictos da Mocidade.</p> + +<p>N.º 39—Onde está a felicidade?</p> + +<p>N.º 40—Um homem de brios.</p> + +<p>N.º 41—Memorias de Guilherme do Amaral.</p> + +<p>N.<sup>os</sup> 42, 43 e 44—Mysterios de Lisboa.</p> + +<p>N.<sup>os</sup> 45 e 46—Livro negro de padre Diniz.</p> + +<p>N.<sup>os</sup> 47 e 48—O judeu.</p> + +<p>N.º 49—Duas épocas da vida.</p> + +<p>N.º 50—Estrellas funestas.</p> + +<p>N.º 51—Lagrimas abençoadas.</p> + +<p>N.º 52—Lucta de gigantes.</p> + +<p>N.<sup>os</sup> 53 e 54—Memorias do carcere.</p> + +<p>N.º 55—Mysterios de Fafe.</p> + +<p>N.º 56—Coração, cabeça e estomago.</p> + +<p>N.º 57—O que fazem mulheres.</p> +</div> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: double 4px #000; padding: 1em;"> +<p> </p> + +<p><em>CAMILLO CASTELLO BRANCO</em></p> +<hr style="width: 80%;"> + +<p><span style="font-size: 1.6em;">O QUE FAZEM</span></p> + +<p><span style="font-size: 3em;">MULHERES</span></p> +<hr style="width: 30%;"> + +<p> </p> + +<p>ROMANCE PHILOSOPHICO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>QUARTA EDIÇÃO</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>1907<br> +P<small>ARCERIA </small>A<small>NTONIO </small>M<small>ARIA +</small>P<small>EREIRA</small><br> +Livraria editora e Officinas Typographica e de Encadernação<br> +<span style="font-size: 0.8em;">Movidas a electricidade</span><em></em><br> +<em>Rua Augusta—44 a 54</em><br> +LISBOA</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border-top: solid 2px #000;font-size: 0.8em;"> +<p>1907<br> +O<small>FFICINAS </small>T<small>YPOGRAPHICA E DE +</small>E<small>NCADERNAÇÃO</small><br> +<span style="font-size: 0.8em;">MOVIDAS A ELECTRICIDADE</span><br> +Da Parceria Antonio Maria Pereira<em></em><br> +<em>Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.º e 2.º andar</em><br> +LISBOA</p> + +<p> </p> +</div> + +<p><span class="pn">{5}</span></p> + +<div id="corpo"> +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h1>A TODOS OS QUE LEREM</h1> + +<p>É uma historia que faz arripiar os cabellos.</p> + +<p>Ha aqui bacamartes e pistolas, lagrimas e sangue, gemidos e berros, anjos e +demonios.</p> + +<p>É um arsenal, uma sarrabulhada, e um dia de juizo!</p> + +<p>Isto sim que é romance!</p> + +<p>Não é romance; é um soalheiro, mas tragico, mas horrivel, soalheiro em que o +sol esconde a cara.</p> + +<blockquote> + Como da seva mesa de Thyestes<br> + Quando os filhos por mão de Atreu comia. </blockquote> + +<p>Escreve-se esta chronica em quanto as imagens dos algozes e victimas me +cruzam por diante da phantasia, como bando de aves agoureiras, que espirram de +pardieiro esboroado, se as acossa o archote de um phantasma.</p> + +<p>Tenebroso e medonho! É uma dança macabra! um tripudio infernal! cousa só +semelhante a uma novella<span class="pn">{6}</span> pavorosa das que aterram um +editor, e se perpetuam nas estantes, como espectros immoveis.</p> + +<p>Ha ahi almas de pedra, corações de zinco, olhos de vidro, peitos de +asphalto?</p> + +<p>Que venham para cá.</p> + +<p>Aqui ha cebola para todos os olhos;</p> + +<p>Broca para todas as almas;</p> + +<p>Cadinhos de fundição metallurgica para todos os peitos.</p> + +<p>Não se resiste a isto. Ha-de chorar toda a gente, ou eu vou contar aos +peixes, como o padre Vieira, este miserando conto.</p> + +<p>Os dias actuaes são melancolicos; a humanidade quer rir-se; muita gente, +séria e sisuda, se compra um romance, é para dar treguas ás despoetisadas e +pêcas realidades da vida.</p> + +<p>Sei-o de mais. Eu tambem compro os livros dos meus amigos, para espairecer +de meditações serumbaticas em que me anda trabalhado o espirito.</p> + +<p>Sei quantos devo, e que favores impagaveis me deveria, leitor bilioso, se eu +lhe encurtasse as horas com paginas galhofeiras, picarescas, salitrosas, +travando bem á malagueta, nos beiços de toda a gente, afóra os seus.</p> + +<p>Tenha paciencia: ha de chorar ainda que lhe custe.</p> + +<p>Se respeita a sua sensibilidade, fique por aqui; não leia o resto, que está +ahi adiante uma, ou duas são ellas, as scenas das que se não levam ao cabo, sem +destillar em lagrimas todos os liquidos da economia animal.<span +class="pn">{7}</span></p> + +<p>Este romance foi escripto n'um subterraneo, ao bruxolear sinistro de uma +lampada.</p> + +<p>Alfredo de Vigny não diz que escreveu um drama, ás escuras, em vinte dias? E +Frederico Soulié não se rodeava de esqueletos e esquifes?</p> + +<p>E outros não se espertaram com todos os estimulos imaginaveis de terror? +Menos o do subterraneo... este é meu, se me dão licença.</p> + +<p>Pois foi lá que eu desentranhei do seio estes lobregos lamentos.</p> + +<p>No fim de cada capitulo, vinha ao ar puro sorver alguns átomos de oxigenio, +e todos me perguntavam se eu tinha pacto com o diabo.</p> + +<p>Almas plebeias! não sabem o que é a fidalguia do talento, que tem alcaçar +nos astros, e nos antros lobregos da terra; não entendem este fadario do +«genio», que elles chamam «excentricidade», como se não houvesse um nome +portuguez que dar a isto.</p> + +<p>O leitor sabe o que isto é? Já sentiu na alma o apertar de um caustico? +Excruciaram-no, alguma vez, os flagellos da inspiração corrosiva, como duas +onças de <em>sublimado</em>?</p> + +<p>Se não sabe o que isto é, estude pharmacia, abra um expositor de chimica +mineral, e verá.</p> + +<p>Não cuidem que podem ler um romance, logo que soletram. Precisam-se mais +conhecimentos para o ler que para o escrever. Ao auctor basta-lhe a inspiração, +que é uma cousa que dispensa tudo, até o siso e a grammatica. O leitor, esse +precisa mais alguma cousa: intelligencia;—e,<span class="pn">{8}</span> +se não bastar esta, valha-se da resignação.</p> + +<p>Ora, está dito tudo.</p> + +<p>Leiam isto, que é verdadeiro como o «Agiologio» de Ribadaneira, como as +«Peregrinações» de Fernão Mendes, como todos os livros legados de geração a +geração com o sinete da crença universal.<span class="pn">{9}</span></p> + +<p> </p> + +<h1>A ALGUNS DOS QUE LEREM</h1> + +<p>Não será uma acção meritoria amoldurar em fórmas verosimeis a virtude, que +os pessimistas acoimam de impraticavel n'este mundo? Hão de só crer nas +façanhas do crime, nas hyperboles da maldade humana, e negar as perfeições do +espirito, descrêr o que ultrapassa as balisas de uma certa virtude +convencional, que não custa dores a quem a usa?</p> + +<p>Se os espanta as excellencias da mulher que vou debuxar, antes de m'as +impugnarem, afiram-se pela natureza, interroguem-se, concentrem-se no arcano +immaculado da sua consciencia. Se me rejeitam a verdade de Ludovina, se me +dizem que a este inferno do mundo não podia baixar tal anjo, sabem o que é esse +descrer? é apoucamento de alma para idear o bello; é o regelo do coração que +rebate as imagens ainda aquecidas do halito puro da divindade.</p> + +<p>Se a mulher assim fosse impossivel, o romancista que a inventou, seria mais +que Deus.<span class="pn">{10}<br>{11}</span></p> + +<p> </p> + +<h1>CAPITULO AVULSO</h1> + +<p> </p> + +<h2>PARA SER COLLOCADO ONDE O LEITOR QUIZER</h2> + +<p>Francisco Nunes...</p> + +<p>Que nome tão peco e charro! <em>Francisco Nunes!</em></p> + +<p>Pois se o homem chamava-se assim!?</p> + +<p>Deus sabe que tristezas eram as d'elle por causa deste <em>Nunes</em>. O +rapaz tinha talento de mais para escrever folhetins lyricos, e outras cousas. +Pois nunca escreveu por que não queria assignar-se <em>Nunes</em>.</p> + +<p>Ha appellidos que parecem os epitaphios dos talentos.</p> + +<p>Um escriptor <em>Nunes</em> morre ao nascer.</p> + +<p>Bem o sabia elle.</p> + +<p>Houve em Portugal um escriptor chamado <em>Antonio José</em>. Se a +inquisição o não queima, ninguem se lembrava hoje d'elle.</p> + +<p>Francisco Nunes só poderia viver na memoria da posteridade, se S. Domingos +fizesse o milagre de reaccender as fogueiras nos subterraneos do theatro de D. +Maria.<span class="pn">{12}</span></p> + +<p>Outros lá soffrem tractos agora, mas é em cima, no palco... Se, ao menos, +Francisco Nunes escrevesse uma comedia...</p> + +<p>Não escrevia nada; mas falava muito, e, quasi sempre, sósinho, em casa, e na +rua. Não incommodava ninguem; era um anjo; tinha só a perversidade de chamar-se +<em>Francisco Nunes</em>.</p> + +<p>Elle ahi vae, faz agora tres annos, por uma rua do Porto, vizinha da de +Cedofeita, falando só, e falando, ao que parece, enraivecido. Ninguem o escuta, +se não eu, porque lhe vou na alheta, com subtis sapatos de borracha.</p> + +<p>Esta rua, por um lado, tem raros edificios; pelo outro é marginada por um +comprido muro de quintaes que pertencem ás casas da rua parallela.</p> + +<p>Nunes, de tempo a tempo, sustem o monologo para puxar com sorvos sibilantes +o vapor de um charuto. Depois, faz um tregeito iracundo, com o pé com sanha, e +prorompe na imprecação interrompida, do seguinte theor:</p> + +<p>«Arado pelo fogo do inferno seja o torrão maldito onde nasceu a folha d'este +charuto!</p> + +<p>«A chuva candente de Sodoma e Gomorrha tisne a folha do tojo e do carrasco +que nascer no terreno que te produziu!</p> + +<p>«Frieiras, gotta, paralysia, e morte tolham os dedos que te colheram!</p> + +<p>«O sol, que te seccou, morra nos olhos de quem te trouxe aqui!</p> + +<p>«As mãos que te enrolaram, charuto infame, sequem-se<span +class="pn">{13}</span> e mirrem-se como as das mumias de Memphis.</p> + +<p>«E para vós, contractadores, caixas, comarqueiros, e estanqueiros do +contracto do tabaco, para vós o inferno illimitado, a região tenebrosa dos +condemnados, onde ha o ranger dos dentes, e o sempiterno horror!</p> + +<p>«Para vós, Borgias, para vós, raça de Locusta, e de Brinvilliers, para vós, +envenenadores impunes, o patibulo n'este mundo, d'onde fugiu espavorida a +vergonha e a justiça; e as caudaes de sulphur em combustão eterna nas furnas +tartareas, onde é de fé que dá urros medonhos um condemnado chamado +<em>Nicot</em>, que trouxe para a Europa o tabaco, e teve a impudencia de o +trazer a Portugal em 1560, onde viera com embaixada de França.<a +name="tex2html1" href="#foot95"><sup>[1]</sup></a></p> + +<p>«Porque os vossos charutos, propinadores de venenos, ennegrecem as +substancias organicas, como o acido sulphurico.</p> + +<p>«São amargos e causticos como o acido nitrico.</p> + +<p>«Calcinam os beiços como o acido hydrochlorico.</p> + +<p>«Queimam a laringe como o acido phosphorico.</p> + +<p>«Laceram o esophago como o acetato de chumbo.</p> + +<p>«Fulminam e despedaçam como o acido hydrocianico.»</p> + +<p>Em quanto elle repuxava o vapor do incombustivel rôlo de erva-santa (que +blasfemia! <em>santa!</em>) façamos tremendas reflexões:<span +class="pn">{14}</span></p> + +<p>Um «manual de chimica para uso dos leitores de romances» é instantemente +reclamado. Sente-se na litteratura este vazio desde que a novella é um extendal +da sciencia humana; e esta póde, sem immodestia, graduar-se assim.</p> + +<p>Quando se escreviam bacamartes para as gerações soffredoras, que os lêram, o +sabio repunha ahi em azedo vomito as indigestas massas, que ainda agora +resistem ao dente roaz da carcoma e da ratazana, nos lotes esboroados das +bibliothecas.</p> + +<p>O in-folio era uma crença, uma religião, uma faculdade d'aquellas gordas +almas, que resumavam pingue chorume por tres mil paginas em typo-breviario.</p> + +<p>Não vos faz melancolia vêr a lombada d'esses enormes volumes aprumados n'uma +estante? Não ha n'aquelle aspeito triste alguma cousa que vos faz crer que o +in-folio chora pelo frade?</p> + +<p>Agora não se escreve d'aquillo, posto que o saber humano seja mais vasto, e +opulentado com as vigilias de dois seculos laboriosos. Reina o romancista, que +é o successor do frade, na ordem das intelligencias productivas.</p> + +<p>Ora, o romancista ha-de, por força de sua natureza scientifica, despejar no +romance a sciencia que lhe traz intumecido o estomago intellectual; e o +romance, assim, deixará de ser lido, se o conselho superior de instrucção +publica não organisar os estudos de modo que as sciencias transcendentes, em +consorcio com as da natureza physica, desbravem o espirito-charneca de<span +class="pn">{15}</span> muito leitor sandio, que não póde entender a iracundia +chimica de Francisco Nunes.</p> + +<p>O qual continuou assim:</p> + +<p>«Ha cinco seculos que a raça proscripta de Israel soffreu em Pariz uma +perseguição sanguinolenta. Morreram milhares de judeus entre labaredas, porque +a calumnia, infamando a religião do Messias, disse que o povo judaico tentára +envenenar as fontes e poços de França.</p> + +<p>«E vós, judeus christianisados, caixas do tabaco, derramaes o veneno á luz +do meio dia, abris as vossas tendas, vendeis pelo preço de vossas carroagens a +droga homicida; mataes a mocidade de uma nação, que asfixia ás mãos dos velhos: +a vós, que alimentaes o vicio alheio com o crime proprio, quem vos obriga a +fumar um charuto de vintem?</p> + +<p>«Portugal, tu queimavas os judeus industriosos, a quem deveste os melhores +livros de sciencia, as obras primas da arte, os dinheiros extorquidos á pobre +raça, que tão caros pagou os trinta dinheiros que Judas não comeu! Queimavas o +povo inoffensivo, nação de cafres, e dás refrescos, e condecorações, e +honrarias, e montes de ouro aos envenenadores publicos, aos sicarios de +charuto, que te desentranham a alma n'um rôlo de fumo negro.</p> + +<p>«Que é dos vestígios da civilisação christã? Que é da egide que protege o +fraco dos affrontamentos do forte? Em que lapide está escripta a lei que +assegura a vida do homem?<span class="pn">{16}</span></p> + +<p>«A Roma pagã era o sanctuario da justiça. Ahi os propinadores de venenos +eram clandestinos. A mão cruenta do verdugo ia arranca'-los ao segredo das suas +fornalhas, e mandava-os de presente ao diabo. «Lucius Cornelius Sylla, a tua +lei de supplicio para os empeçonhadores vale só de per si uma legislatura +d'esta horda de togados rotos, que nos espremem da algibeira 1$960 réis +diarios, por cabeça.</p> + +<p>«Aqui, ha o morrer sem recurso de revista, o expirar em vomitos negros, o +tossir rispido da bronchyte, as asthmas offegantes, o ronco profundo da pieira +laringea, os deliquios da cabeça atordoada, a podridão dos dentes, as fendas +carboniformes dos beiços, os abcessos pulmonares, as hemorrhagias de sangue +apostemado:—ha tudo isto, debaixo d'este céo impassivel, na presença do +codigo criminal, n'um paiz, onde trabalha a electricidade por arames, onde se +comem <em>omelettes sucrées</em> e <em>soufflées</em>, e d'onde se mandam +rapazes para o extrangeiro estudar <small>BENEFICENCIA</small> «Mentira! +Mentira e escarneo!</p> + +<p>«Se quereis beneficiar este paiz, não mandeis lá fóra, oh parvos +governadores da Barataria, não mandeis lá fóra estudar o processo do bem-fazer. +</p> + +<p>«Vêde-me este moço, que apenas tem vinte e dois annos, e já precoces sulcos +da doença lhe enrugam a fronte. A cutis macilenta, onde deviam vicejar as rosas +da adolescencia, adhere aos ossos desmedulados e cariados; uma tosse violenta +lhe reteza os musculos do pescoço, expedindo das glandulas salivares um +pus<span class="pn">{17}</span> granuloso, pardo, e alcalino. As faculdades +intellectuaes estão entorpecidas n'esse mancebo. Estimulando-se com cognac e +absynto, esta especie de cretino, bestificado por uma enfermidade incuravel, +apenas consegue dizer tres tolices ácerca de Donizetti, sentado n'um mocho de +botiquim, encostando o corpo enervado á banca dos licores incitantes.</p> + +<p>«Sabeis quem reduziu esse vegetal a tão quebrantado estiolamento?</p> + +<p>«Foi o charuto!</p> + +<p>«O contracto do tabaco empeçonhára a seiva d'esse moço, que os fados, menos +poderosos que os caixas, talvez tivessem destinado para exercer o magisterio do +folhetim, maximo esforço de intelligencia, n'uma época, e n'um paiz, cujo amor +ás letras não vale a correspondencia de uma local bem poetica como a do baile +do sr. fulano.</p> + +<p>«Voltae para esse corpo achacadiço e apodrentado o vosso animo beneficente, +Sanchos-Panças lerdos, pantalões administrativos!</p> + +<p>«Chamae a juizo os vampiros que sugaram o soro d'esse sangue aguado que o +faz tolhiço para tudo.</p> + +<p>«Fazei a autopsia de um charuto como este—proseguia Francisco Nunes, +parando e contemplando as nervuras negras do rôlo de folha, que semelhava uma +rolha de cortiça queimada—e vereis que ha aqui dentro um talo de couve +lombarda, uma carocha secca, uma folha de leituga, uma casca de bolota, e tres +grãositos excrementicios de rato ou coelho.<span class="pn">{18}</span></p> + +<p>«Horrivel, e sujamente infernal!</p> + +<p>«Senhores deputados! não se mata assim impunemente um povo!<a +name="tex2html2" href="#foot106"><sup>[2]</sup></a></p> + +<p>«As nações tyrannisadas, quando a oppressão requinta, erguem-se como um só +homem, e fogem para o Aventino.</p> + +<p>«Os envenenadores congregaram-se em conciliabulo de abutres, e crearam o +charuto de vintem, a pitada do meio grosso, e o cigarro onde cresce o musgo +como em parede velha. Cadafalso para os envenenadores!</p> + +<p>«O conselho de saude, bandeado n'este tripudio de canibaes, forma o cortejo +scientifico das parcas que nos arrebanham para a região dos suicidas. Morte ao +conselho!</p> + +<p>«Não ha typhos, nem cholera, nem febre amarella, senhores deputados! Ha +charutos, ha o meio-grosso, e o cigarro. A epidemia não está nos canos, +senhores; está n'estes canudos, por onde os contractadores cospem affronta e +morte na face do povo!</p> + +<p>«Que elles sejam malditos setenta vezes sete vezes, como se dizia no +Oriente!<span class="pn">{19}</span></p> + +<p>«Na hora do trespasse, a alma d'elles, tisnada pelo remorso, será negra como +este charuto, d'onde eu sorvi um pus que me requeima os bofes... Vae-te, +infame!»</p> + +<p>E, assim rugindo, n'uma como inprecação do moribundo atormentado, arremessou +o charuto por cima do muro para o quintal.<span class="pn">{20}<br>{21}</span></p> + +<p> </p> + +<h1>I</h1> + +<p>—Ludovina, já pensaste a resposta que has-de dar a teu pae?</p> + +<p>Pergunta que faz a sua filha uma senhora de nobre presença, quarenta annos, +ainda frescal, chamada Angelica, e casada com o sr. Melchior Pimenta, empregado +na alfandega do Porto.</p> + +<p>Ludovina respondeu:</p> + +<p>«Como hei-de eu responder, se ainda não vi o homem?</p> + +<p>—É um homem como os outros;—replicou D. Angelica—são todos +o mesmo, menina. Teu pae sabe o que faz. Um homem é quem melhor conhece outro +homem. Se elle te disse que achou um bom marido, não póde enganar-se.</p> + +<p>«Ora essa, mãe! E se eu antipathisar com elle?</p> + +<p>—Deves casar, como se sympathisasses.</p> + +<p>«Bravo!... e depois?</p> + +<p>—E depois, virá a sympathia. Imaginas lá com que repugnancia eu casei? +Casaram-me, deixei-me levar porque<span class="pn">{22}</span> era uma creança, +vivia na aldeia, e sonhava com os vestidos e os bailes, e os theatros do Porto. +Depois, teu pae... teu pae adorava-me, dava-me mais do que eu ambicionava, e +sem saber como, nem porque, contentei-me tanto com a minha sorte, que não +invejava a de ninguem. Tinha vaidade em ser bonita, vestir com gosto, e chegar +onde as mais ricas não podiam chegar. Via homens elegantes, reconhecia a +differença que os fazia superiores a teu pae, e, comtudo, nunca me passou pela +cabeça a loucura, a ingratidão, o crime da infidelidade.<a name="tex2html3" +href="#foot112"><sup>[3]</sup></a> Posso dizer que principiei a amar meu +marido, quando as outras mulheres se enfastiam. Aqui tens o que nunca te disse. +Não ha homem nenhum que seja indigno da estima de uma mulher.</p> + +<p>«Mas a mãe sabe que eu... amo outro homem.</p> + +<p>—Eu não sei se amas outro homem... Sei que namoras outro homem, e +entre namorar e amar está o reflectir, menina. Esse rapaz que te manda romances +e cartas entre as paginas... (não te inquietes, que sei tudo, e tudo pouco +vale...) esse rapaz quem é? Um filho-familia, sem posição, sem modo de vida, +que te ama, que será teu marido, se tu quizeres; que viverá das tuas sopas, se +as tiveres para ti, que se envergonhará da sua dependencia, quando o amor +obedecer á razão; que se enfastiará dos teus carinhos, se quizeres prende'-lo +com elles a ti, ou ao berço de teu filho. Se quizesses exemplos,<span +class="pn">{23}</span> dava'-tos. Tens ouvido censurar duas ou tres amigas, que +tens, casadas com homens ricos de cabellos brancos?</p> + +<p>«Ainda hontem li um folhetim contra as mulheres que se deixam seduzir pela +«fortuna» de estupidas creaturas...</p> + +<p>—Lêste? De quem era o folhetim? Se o auctor fôr rico, e tiver quarenta +annos, o auctor é insuspeito, e, n'esse caso, digo-te que sujeites o teu +destino á determinação do folhetim. Escreve uma carta ao auctor, e conta-lhe +que és uma menina pobre, virtuosa, com excellentes joias de espirito. +Offerece-lhe o teu coração, e promette que has-de levar-lhe a felicidade com a +pobreza. Se elle te vier buscar, peso-te a ouro ao santo que fizer o milagre. +Ora, se o folhetinista é um talento raro, um elegante de grande bigode e +luneta, mas pobre, faz-lhe o mesmo offerecimento, prevenindo-o de que és tão +pobre como elle. Se o folhetinista te vier pedir, é um dia de festa n'esta +casa...</p> + +<p>Aprende, creança. Os rapazes pobres, se vivem na boa sociedade, criam ahi +ambições, que uma menina sem riqueza não satisfaz. Pois não os conheces tu, +Ludovina? Não os vês no baile e no theatro namorando um dote como quem namora +uma mulher? Não és tu a mesma que censuras a indignidade de certos homens, que +recebem resignados todas as repulsas, e teimam sempre em esquadrinhar um dote, +como se fizessem voto de casarem ricos, ainda á custa de vergonhas? Vê lá se +entre os folhetinistas aspirantes ao casamento de especulação<span +class="pn">{24}</span> se te depara o nome que hontem lêste... Talvez ainda não +reparasses em outra injustiça que se faz ás mulheres pobres, se a fortuna lhes +dá maridos ricos. Não ha por ahi rapazes com grandes patrimonios? Recebem +elles, por ventura, em casamento meninas virtuosas e pobres? Não. Procuram-nas +ricas, e fiscalisam menos a vida honesta da noiva, que o numero de acções do +banco, ou o valor da propriedade paterna. Os moralistas de gazeta que dizem +d'isto? Sacrificam, talvez, a sua indignação ao amor do sexo: não dizem nada, e +rebentam por outro lado em imprecações contra a mulher, que os elegantes ricos +rejeitam, e os ricos sem elegancia procuram.</p> + +<p>Olha, filha, se te não fosse penosa a experiencia, deixava-te casar por +paixão, como se diz, com o primeiro moço pobre que te encantasse. Depois, +quando saísses a passeio com teu marido, levarias um vestidinho de chita, por +não poderes levar um de <em>glacé</em>. Os taes censores de folhetim ver-te-iam +mal trajada, e diriam, no auge da sua pena: «pobre rapariga, fez um casamento +infeliz!» Ao teu lado passaria uma das tuas amigas, ricamente vestida, pelo +braço de um velho com quem a casaram as conveniencias. Os mesmos censores +diriam: «Que mal empregada mulher em semelhante alarve!» Já vês que o estimulo +da compaixão, que fizeste, era o teu vestido de chita; e o estimulo de inveja, +que fez a tua amiga, era o vestido de seda.</p> + +<p>«Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu +coração?<span class="pn">{25}</span></p> + +<p>—Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a +mulher que tem amigas com vestidos de seda. Hoje reina a opinião publica, +Ludovina, não é a consciencia de cada um. O agente principal do espirito de uma +mulher é a modista. Se ha casadas que envelhecem disputando ás netas a melhor +eleição de um talhe de vestido, que farão as solteiras?</p> + +<p>Basta de razões insignificantes, que devem humilhar a tua razão, Ludovina. +Eu nunca embaracei esse ligeiro conhecimento que tens com o Ricardo de Sá, por +saber que nunca seriam tardias as reflexões que te faço agora. Não pódes casar +com esse homem sem desgostar teus paes, e grangear para ti o infortunio, e para +elle o arrependimento. Se soubesses o que deve ser o arrependimento entre +casados, a maior prova de amor que podias dar a esse rapaz, seria esquece'-lo. +Tu sabes que vivemos do ordenado de teu pae: temos podido manter a decencia e o +luxo até dos teus caprichos de formosa; porém, nada mais podemos. Se tivesses +um grande dote, a primeira a diligenciar o teu casamento com Ricardo de Sá, +seria eu. Assim, reprovo-o, opponho-me, e serei eu a encarregada de dizer a +esse cavalheiro que a tua vontade não é livre, ou que a tua escolha foi outra. +</p> + +<p>«Não diga tal, mamã. Se casar com o homem que me destinam, a escolha não é +minha. Deixem-me, ao menos, este desforço... Fique a responsabilidade da acção +a quem me obriga.</p> + +<p>—Pois teus paes acceitam a responsabilidade, Ludovina.<span +class="pn">{26}</span></p> + +<p>O dialogo rematára assim, quando se fez annunciar Ricardo de Sá.</p> + +<p>D. Ludovina, com os olhos humedecidos, e desconcertado o semblante, disse á +mãe que não podia ir á sala, e recolheu-se ao seu quarto. Foi D. Angelica +receber a visita.</p> + +<p>Ricardo esperava-a na sala, correndo o teclado do piano, com a sem-cerimonia +de um visitante habitual. Apertou-lhe a mão, beijando-a ao estylo da França, +cousa que elle vira fazer a quatro ou cinco viajantes distinctos do Porto, que +tinham conhecido, em Pariz, a «mesa-redonda» dos hoteis onde estiveram. Ahi vão +á pressa dois traços d'este Ricardo de Sá. É um bacharel formado em direito, +filho de outro bacharel que faz requerimentos, em quanto o filho, reservado +para a magistratura, destino em que se dispensa vocação, faz cartas de namoro +com letra ingleza, e timbra em comprar no <em>Moré</em> os mais anilados +<em>enveloppes</em>, e o melhor papel-setim de fimbria dourada.</p> + +<p>Lê, e empresta os romances aos namoros; commenta-os na margem das paginas, e +addiciona-lhes appendices manuscriptos de lavra sua, quando a catastrophe +merece ser corrigida.</p> + +<p>Além d'isto, o bacharel tem tres bengalinhas, que reveza, todas muito +bonitas, com os punhos de massa de marfim, formando uma o grupo das graças, +outra o das musas, e a mais embrincada é uma Suzana a saír do banho, espreitada +pelo olho lascivo dos arreitados juizes de Israel. Ricardo de Sá consome as +manhãs, que principiam<span class="pn">{27}</span> para elle ás onze horas, +dividindo os cabellos em delgados fasciculos, e lustrando cada um d'elles com +um cylindro de cera. Aguça, quanto possivel, as guias do bigode, encerando-as, +e enverniza a pera com um oleo contido no decimo nono frasco da terceira serie. +Depois, o laço da gravata, e a collocação symetrica do pseudo camapheu é obra +de fôlego que lhe dá tempo de assobiar dois actos do <em>Trovador</em>, a aria +valida do <em>Rigoletto</em>, e o acto final da <em>Lucia</em>. De seguida, a +compostura airosa das lapellas do fraque, a ultima demão de escova, e o aprumo +do chapéo onde não ha um fio erriçado, tolhem muitas vezes a saída do peralta, +que se encontra com a terrina da sopa do jantar.</p> + +<p>O bacharel nutre-se de ar puro, e d'alguns escropulos de carne de boi. O +pae, homem roliço e respeitador das immunidades do estomago, suppõe que seu +filho desbarata a pequena mezada nas casas de pasto, e não se assusta da +inappetencia.</p> + +<p>Ricardo crê que o seu estomago destacou tecidos para o coração, reservando +para o funccionalismo alimenticio um estomago-miniatura, o <em>quantum +satis</em> das compleições sylphidicas. Convicto da excrecencia espiritual, +crê-se dotado de fluidos nêrveos, magnetismo, electricidade, etherisação. +Julga-se em fim anestesico, espasmodico, dynamico, em fim tudo o mais que não +se entende.</p> + +<p>Não ama as mulheres, pranteia-as como victimas do seu poder fascinante. +Algumas vezes, tem a piedade de as não encarar para as não abysmar. Outras, +exerce a crueza da experiencia, fitando-as com o olho carregado<span +class="pn">{28}</span> de electricidade, fala-lhes com um timbre magnetico que +elle sabe, e, não ha que vêr, o somnambulismo é prompto, a attracção é +irresistivel como a da cobra-cascavel do Canadá apoz o tangedor da flauta.</p> + +<p>Crê tudo isto o bacharel, e ha velhacos que lh'o ouvem com a sisudeza da +crença, e lhe não receitam um curativo de causticos.</p> + +<p>D. Ludovina Pimenta é uma das suas somnambulas, e a menos victima de todas. +Ricardo distingue-a, impondo-se a obrigação cavalheirosa de corresponder-lhe +quanto em si cabe para que a infeliz desilludida não tente contra a existencia. +Vae ve-la todos os dias, conversa litteratura com a mãe, toma uma chavena de +chá sem assucar, e despede-se ás onze horas, dizendo que vae esperar no seu +quarto a hora da inspiração matinal para continuar a sua obra intitulada: +<small>O SECULO PERANTE A SCIENCIA</small>.</p> + +<p>É o que podemos esquadrinhar ácerca do bacharel Ricardo de Sá.</p> + +<p>Os homens assim não se pintam; a zombaria não os enxerga na profundeza da +sua toleima... são o Rubicon do folhetim, a desesperação da comedia desde +Aristophanes até Molière.</p> + +<p>O original anda por ahi. Tenho-lhe assestado tres vezes a machina +photographica, de rosto; sahiu-me sempre aquillo.<span class="pn">{29}</span> +</p> + +<p> </p> + +<h1>II</h1> + +<p>«Ludovina fica hoje no quarto—disse D. Angelica, respondendo á +pergunta admirada do bacharel.</p> + +<p>—Doente?</p> + +<p>—Sim, passageiramente doente; mas é tão debil a pequena, tão +melindrosa... </p> + +<p>—É um corpo que não póde com o espirito... Eu comprehendo o que são +esses desfallecimentos d'alma. A filha de v. ex.ª tem uma organisação muito +semelhante á minha. As minhas enfermidades são sempre quebrantos, estherismos, +lethargia, procedentes das fadigas intellectuaes, ou dos anceios do coração. +Compleições infelizes, não acha, minha senhora?</p> + +<p>—Oh! infelicissimas, de certo...</p> + +<p>—Se, todavia, v. ex.ª tivesse a bondade de dizer a sua filha que +fizesse um esforço para me vir contar os seus padecimentos, talvez que uma +medicina toda espiritual...</p> + +<p>—A curasse?... talvez...</p> + +<p>—Sorriso de incredulidade, não é assim? V. ex.ª é<span +class="pn">{30}</span> sobejamente espirituosa para desconhecer a influencia +que exerce uma alma sobre outra, quando as correntes magneticas...</p> + +<p>—Não lhe dá treguas a sua paixão magnetica, sr. Sá!... A Ludovinasinha +queixa-se de enxaqueca... Eu voto, d'esta vez, por medicamentos caseiros... +Talvez que uns sinapismos...—proseguiu ella, rindo, sem ferir o orgão +maniaco do bacharel—dispensem uma descarga electrica.</p> + +<p>—V. ex.ª não quiz entender-me, ou eu tenho sido confuso na exposição +das minhas convicções.</p> + +<p>—É clarissimo sempre, sr. Sá; mas desconfio da inefficacia da sua +vontade sobre a enxaqueca de Ludovina. E depois, convém-nos que ella esteja +doente por um quarto de hora. Vamos falar a respeito d'ella.</p> + +<p>—Tenho razões para suspeitar que minha filha não é indifferente a v. +s.ª. </p> + +<p>—De certo, não.</p> + +<p>—Póde dizer-me até que ponto me devo lisonjear com a affeição que +Ludovina lhe merece?</p> + +<p>—Voto á sr.ª D. Ludovina um sentimento profundamente respeitoso...</p> + +<p>—Só?</p> + +<p>—Uma affeição nobre e desinteressada...</p> + +<p>—Amor?</p> + +<p>—De certo... amor... reflectido, e bem intencionado...</p> + +<p>—Uma paixão verdadeira, não é verdade?</p> + +<p>—Quanto em mim cabe, minha senhora... quanto<span +class="pn">{31}</span> é possivel apaixonar-se um homem de vinte e oito annos, +apalpado já pelas desillusões, e esterilisado tanto ou quanto pelos ventos +contrarios dos revezes da alma...</p> + +<p>D. Angelica fez um geito de quem ouvia chamar; ergueu-se com a mais destra +simulação, dizendo:</p> + +<p>—Minha filha tocou a campainha... As creadas não a ouvem de certo, eu +volto já...</p> + +<p>Ricardo de Sá fez mentalmente o seguinte monologo:</p> + +<p>—D. Angelica vae propôr-me o casamento da filha. Eis-me entalado n'uma +crise imprevista! Está explicado o enygma da carta que Ludovina me escreveu +hoje. Receia que eu me esquive á proposta; e tem razão. Eu não caso. Esta +mulher está abaixo dos meus calculos. Lisonjeia um amante, mas não póde +satisfazer as complicadas necessidades de um marido... É horrorosa a minha +posição!... Sei que faço uma victima... de certo a mato... Estudemos uma +evasiva, não obstante...</p> + +<p>O monologo continuava, quando Ludovina, conduzida machinalmente por sua mãe, +se collocava atraz de uma vidraça da alcova immediata á sala.</p> + +<p>D. Angelica era um assombro de esperteza. A leitora já admirou a eloquencia +persuasiva com que ella abalou o coração da filha; já disse, de si para si, +que, com tal mãe, não ha filha que rejeite o casamento de um brasileiro rico; +já leu as paginas que ahi ficam á mãesinha para que ella saiba os argumentos +com que se vence a desobediencia das filhas, em casos identicos. Pois, se +gostou e admirou as palavras de D. Angelica, ha de tambem admirar-lhe as +obras.<span class="pn">{32}</span></p> + +<p>D. Angelica viu o mais secreto do animo do bacharel; previu o +desenvolvimento da conversação, e quiz dar á filha o mais rude, mas tambem o +mais proveitoso desengano.</p> + +<p>—Nada era... ou era muito... Queria saber como v. s.ª +estava—disse a matreira esposa do sr. Pimenta.</p> + +<p>—E ella como está agora?</p> + +<p>—Soffre bastante... Falei-lhe no seu magnetismo, e a tolinha córou... +Era talvez o clarão da descarga electrica, seria?</p> + +<p>—V. ex.ª sempre «fazendo espirito» com os axiomas da sciencia... Ha de +convencer-se... A experiencia lhe apontará as evidencias...</p> + +<p>—A mim? ora essa! Terá v. s.ª a infausta idéa de me magnetisar? +Adormecer-me... isso é facil; bastam os livros que tratam da sciencia, não é +precisa a acção... Não «faço mais espirito» como v. s.ª diz... Vamos á nossa +pratica interrompida que é muito séria:</p> + +<p>Disse o sr. Sá que minha filha lhe merecia um sentimento profundamente +respeitador, uma affeição nobre e desinteressada, um amor reflectido e bem +intencionado, e finalmente uma paixão, que não era bem uma paixão, por quanto +desillusões, revezes, <em>et c½tera</em>, lhe haviam... não me recordo...</p> + +<p>—Esterilisado a alma...</p> + +<p>—Foi isso... Em toda a sua resposta só ha de desagradavel essa +esterilidade de alma; todavia, eu creio que tão boa alma ha de sempre florescer +e fructificar, quando a cultura fôr confiada a uma mulher de bom<span +class="pn">{33}</span> coração, meiga, docil, maviosa, em fim, a uma que não +inveje as boas qualidades de minha filha.</p> + +<p>—De certo... assim o penso, minha senhora—balbuciou o bacharel, +forçado pelo silencio interrogador de D. Angelica.</p> + +<p>—Minha filha ama-o, sr. Sá. Ama-o delirantemente, perdidamente, quer +ser sua ou da sepultura, não acceita admoestações nem esperanças tardias, quer +unir-se ao esposo da sua alma, mas já, já, senão... diz que, mais tarde, será +victima da sua paixão. Sabia v. s.ª que era tamanho o seu dominio n'aquella +innocente alma?</p> + +<p>—Sabia... desgraçadamente sabia.</p> + +<p>—<em>Desgraçadamente!</em>... essa palavra faz tristeza! Pois nem +sequer o orgulho de ser assim amado o alegra?</p> + +<p>—Sim, minha senhora—tartamudeou o bacharel, afagando as guias do +bigode—tenho orgulho de ser assim amado... <em>Desgraçadamente</em> disse +eu, porque me doem os soffrimentos da sr.ª D. Ludovina...</p> + +<p>—Estando na sua vontade o mais facil e desejado remedio d'elles? é +singular!</p> + +<p>—Ainda assim... ha situações na vida...</p> + +<p>—Sei o que quer dizer—atalhou a zombeteira senhora—ha +situações em que quizeramos immediatamente felicitar as pessoas que soffrem por +nossa causa. Isso é assim... Pois bem. Tratemos definitivamente da felicidade +da nossa Ludovina. Minha filha, como v. s.ª sabe, não tem dote. É pobre, +supposto que o fausto com que vive queira desmentir esta triste verdade. Em +riquezas<span class="pn">{34}</span> de espirito é millionaria. Nas do coração, +sabemos nós o que ella é. A «fortuna» porém, é muitas vezes a inimiga da +verdadeira felicidade, não é assim?</p> + +<p>—De certo, minha senhora...</p> + +<p>—V. s.ª tem uma habilitação, tem uma vasta intelligencia, sobram-lhe +expedientes para grangear o sufficiente para duas almas venturosas; agouro a +ambos uma felicidade duradoura. Entrego-lhe minha filha, na certeza de que +nunca me será turvado o prazer d'este instante de expansão maternal pelo +arrependimento da minha leviandade. Dê-me um abraço, que já começo a +consideral'-o meu filho.</p> + +<p>—Minha senhora—disse o enfiado bacharel, extendendo a mão a D. +Angelica—eu estou cordealmente penhorado pela confiança que mereço a v. +ex.ª. Cumpre, porém, reflectir n'um passo tão momentoso. Eu amo em extremo a +sr.ª D. Ludovina, toda a minha ambição é identifica'-la ao meu destino sobre a +terra, mas, minha senhora, eu não posso dispôr da parte de obediencia que devo +a meu velho e respeitavel pae, sem consulta'-lo, porque dependo d'elle, em +quanto não entrar na carreira da magistratura, e o cabedal dos meus estudos não +me abona tanto quanto v. ex.ª imagina que póde proporcionar-me a +intelligencia.</p> + +<p>—Pensa mui judiciosamente—redarguiu D. Angelica formando com a +prolongação dos beiços, e o abrimento dos olhos, um tregeito de mui sisuda +approvação—e qual conjectura v. s.ª que seja a resposta de seu pae?</p> + +<p>—Não sei, minha prezada senhora...<span class="pn">{35}</span></p> + +<p>—Se fôr negativa?</p> + +<p>—Se fôr negativa...</p> + +<p>—Obedece?</p> + +<p>—Como filho dependente; mas os dias da minha existencia serão poucos, +e attribulados...</p> + +<p>—Mas isso é horrivel, sr. Sá! Minha pobre filha succumbe... V. s.ª +mata a mulher que mais o amou, a unica n'este mundo que o compreendeu, um anjo +que não viu outro homem digno d'ella... Que diz a uma mãe consternada, sr. +Sá?</p> + +<p>—Minha senhora... a nossa posição é desgraçadissima.</p> + +<p>«Remedeie-a, que póde. Se seu pae o não acceitar casado, tem a casa de sua +mulher, onde será recebido como filho... Oh! que insensibilidade! o senhor não +ama Ludovina!</p> + +<p>—Se a não amo! Isso mata-me, snr.ª D. Angelica!</p> + +<p>«V. s.ª é que mata uma santa, uma martyr...</p> + +<p>—Segui'-la-hei na morte...</p> + +<p>«Pois o melhor é viverem ambos!—disse D. Angelica, desafivelando a +mascara da amargura, e abrindo o riso mais galhofeiro e fulminante que +imaginardes, leitores phantasiosos—V. sr.ª tem sido logrado +desapiedadamente, snr. Ricardo de Sá. Peço-lhe que viva muito tempo, porque uma +pessoa como v. s.ª não deve morrer, em quanto a tristeza, que foge ao riso, +andar por este mundo. Snr. Sá, é preciso dizer-lhe que minha filha ouviu esta +nossa scena comica, e acredite que o magnetismo não operou a approximação. Eu +comecei a falar-lhe<span class="pn">{36}</span> em minha filha para pedir ao +seu cavalheirismo que não a inquietasse, porque vae esposar um homem que seu +pae lhe escolheu. V. s.ª alumiou-me o entendimento, deu-me um alegrão +inapreciavel; e voltou as minhas idéas para o lado opposto. Fui buscar minha +filha, para assistir ao espectaculo do coração de v. s.ª, e dei-lhe um bello +espectaculo. Snr. Sá, a sua posição é desagradavel, e faz-me pena, por não +dizer tedio. Um homem como v. s.ª nunca devera erguer os olhos para uma menina +honesta.</p> + +<p>D. Angelica retirou-se da sala, soberba como uma rainha na descida do +throno.</p> + +<p>O auctor possivel do <small>SECULO PERANTE A SCIENCIA</small>, emergindo do +estupor momentaneo, procurou a bengalinha de Suzana a saír do banho, e +caminhava atordoado para a porta, quando entravam Melchior Pimenta, e um +sujeito desconhecido ao bacharel.</p> + +<p>—Ólá, por cá, snr. Sá?</p> + +<p>«É verdade, snr. Pimenta.</p> + +<p>—Ninguem lhe falou?! estava sósinho?!</p> + +<p>«Saiu da sala, n'este instante, a snr.ª D. Angelica.</p> + +<p>—E Ludovina?</p> + +<p>«Está de cama, creio eu.</p> + +<p>—De cama!? ella ficou boa quando eu saí... Alguma dôr de cabeça...</p> + +<p>«Creio que sim... Dá-me as suas ordens, snr. Pimenta?</p> + +<p>—Saude, meu amigo, appareça á noite, que lhe quero<span +class="pn">{37}</span> dar o conhecimento d'este meu amigo, que será +provavelmente o marido de minha filha...</p> + +<p>«Sim?... estimo muito conhecer... Ás suas ordens, meus senhores.</p> + +<p>Saíu; e o snr. João José Dias (que é o tal), franzindo a testa, disse ao pae +da esposa promettida:</p> + +<p>—Que diabo de cousa é isto? Cuidei que me picava o bom do homem com os +galhos do bigode! Eu corto as orelhas ambas e duas, se aquillo não fôr um +patarata!</p> + +<p>«É um pobre diabo que lê novellas, e não é mau rapaz—respondeu o snr. +Melchior, limpando o suor da testa.</p> + +<p>—Novellas!... hum!—este <em>hum</em> do snr. João José Dias é +uma cousa semelhante a um grunhido roufenho; aquelle <em>hum</em> é a these de +uma dissertação que elle, em tempo opportuno, ha de fazer contra a leitura +immoral dos romances—A sua filha lê novellas, snr. +Melchior?—continuou elle pondo os olhos de esguelha, como molosso +desconfiado.</p> + +<p>«Entretem-se com a mãe, ás vezes, n'essa leitura; mas lê sómente as que a +mãe já tem lido.</p> + +<p>—Pois não faz bem. As novellas são a perdição das mulheres. Lá no Rio +está aquillo mal de religião e virtude desde que pegaram a ler romances as +moças. Em minha casa é sujidade que não entra. Eu já uma vez, para ver o que +era aquillo, puz-me a lêr uma novella, chamada... chamada... era de um tal... +d'um tal <em>Kocles</em>, ou <em>Koques</em>, e, meu amiguinho, era maroteira +de ferver bicho.<span class="pn">{38}</span></p> + +<p>A snr.ª D. Angelica interrompeu a parlenda acrimoniosa de João José contra +os romances.</p> + +<p>«Aqui t'o apresento—disse Melchior.</p> + +<p>D. Angelica mirou-o de alto a baixo, e fez-lhe uma ligeira cortezia. No +rosto expressivo da sympathica senhora, liam-se estas dolorosas palavras: +<em>Minha pobre filha, que impressão vaes receber!</em><span +class="pn">{39}</span></p> + +<p> </p> + +<h1>III</h1> + +<p>João José Dias devia orçar pelos seus quarenta e cinco annos. Era de +estatura menos que mean, adiposa, sem proeminencias angulares, essencialmente +pansuda, porque João José tinha uma serie descendente de panças, desde a +papeira côr de rosa até ás buchas das canellas ventrudas.</p> + +<p>Nas faldas de uma testa estreita, chata, e rugosa, como um elytro da concha +de um cágado, luziam os olhos pequenos e esverdinhados de João José. As +palpebras tumidas e pillosas como a casca da fava, enviezavam-se para dentro, +formando á raiz das pestanas um rebordo purpurino. O nariz, sem base nem ossos, +nem cartilagens, devia ser a desesperação de Falopio e de Bichat: rompiam-lhe +d'entre os olhos as ventas já formadas, com a ponta arregaçada e as azas +convexas, dilatando-se até ás alturas dos ossos malares, entupidos nas +bochechas gordurentas. Os beiços eram bicolores; nacarinos no centro, e rôxos +para as extremidades quasi invisiveis sob os refegos relachados dos musculos +limitrophes.<span class="pn">{40}</span> João José tinha quatro dentes +incisivos de brilhante esmalte, entalados nos outros quatro, formando de commum +accordo as saliencias irregulares de um pedaço de crystal bruto. Os dentes +laniares ou caninos tinham uma crusta de carie, e algumas luras chumbadas. Os +vinte malares estavam no goso das suas funcções triturantes, com quanto +amarellados de saes terreos, e regorgitamentos do bolo indigesto.</p> + +<p>João José não tinha pescoço: as espaduas ladeavam-lhe os bocios da garganta, +alteando-se ao nivel das orelhas escarlates, com bolbos da mesma côr, e não sei +que excrescencias no lobulo, simulando pingentes de coral.</p> + +<p>Disse-se que era todo barriga o homem, já que Buffon e Cuvier asseveram que +é homem, feito á imagem e semelhança de... não ousamos escrever a blasphemia. O +que se não sabe é que a barriga lhe marinhava peito acima, até levar de assalto +o campo onde fôra pescoço.</p> + +<p>As pernas de João José eram dois cepos, postos em peanha a uma esphera +armilar. Tão curtas eram ellas, e tão desmesurados os pés, que me não seria +difficultoso convencer-vos de que a natureza, em hora de travessura, fez da +porção de materia, destinada para perna e pé, duas partes eguaes, juntou-as e o +ponto de juncção denominou-o calcanhar.</p> + +<p>As botas de João José tinham incriveis expansões de couro: eram um oceano de +bezerro cortado de ilhas. Os joanetes do pé direito formavam um archipelago. No +remanescente das milhas despovoadas, o pé era raso e chão como uma lousa de +mercieiro.<span class="pn">{41}</span></p> + +<p>Deram-se uns longes para auxiliar a phantasia de quem não conhece o snr. +João José Dias. Para os que o viram, a pintura, vae tacanha e inhabil, aqui o +confesso, envergonhado do meu descredito.</p> + +<p>Vamos á biographia da pessoa, e veremos que boa alma se nichou n'este +hediondo envolucro.</p> + +<p>João foi cachôpo para o Brasil, e estreou-se n'uma loja de molhados, onde +grangeou renome de rapaz videiro e possante. Abraçava uma talha de azeite de +tres almudes, e aguentava com ella do armazem para a loja, sem impar. Levantava +do sobrado para o balcão o peso das tres arrobas com os dentes. Punha a prumo +meia pipa de cachaça, e levava á bôca, sem gemer, um barril de dois almudes, +com o braço testo na aza. Isto constou na rua dos Pescadores, e, ao terceiro +anno, João era alliciado por varios patrões, que disputavam o lanço.</p> + +<p>Não pertencem á alma estes esclarecimentos, bem o sei; mas a alma de João +José formou-se então. A probidade, a lisura, a honradez do boçal caixeiro nunca +foram desmentidas pela gaveta do patrão. Os convites, feitos á sua cubiça de +melhores ordenados, repelliu-os sempre, dizendo que nunca deixaria a casa onde +comera o primeiro bocado de pão. O augmento de ordenado vinha sempre espontaneo +dos patrões: podendo inculcar-se com as propostas dos vizinhos, nunca João José +se queixou dos pequenos ganhos.</p> + +<p>Os paes de João eram uns pobres fazendeiros de Celorico de Basto, que se +desfizeram do unico cevado e de uma vitella para pagarem a passagem do rapaz. +João<span class="pn">{42}</span> não esqueceu estes sacrificios nem as lagrimas +que vira no rosto da mãe, quando, em Miragaia, lhe deu um quartinho em ouro +embrulhado em seis camadas de papel.</p> + +<p>Os lucros dos tres primeiros annos foram quasi todos enviados a seus paes, +e, d'ahi em diante, metade do ordenado vinha repartido em pequenas mesadas para +os velhos, que lh'os devolviam em roupas brancas.</p> + +<p>João José, morrendo um socio da casa, achou-se herdeiro da terça parte do +negocio. Pudera então retirar-se com haveres sobejos para viver descançado na +patria; mas, para obviar os desarranjos da liquidação, continuou na sociedade. +</p> + +<p>Veiu a Portugal em 1835, comprou no Minho a cerca de um convento, e, +deixando o uso-fructo aos paes para que vivessem regalados, voltou ao Rio de +Janeiro, onde achou fallida a sua casa commercial, e compromettida a compra que +fizera na terra.</p> + +<p>Tinha sido escandalosamente roubado o pobre homem.</p> + +<p>Aconselharam-no que intentasse acção judiciaria contra os socios. Rejeitou o +alvitre, dizendo que Deus os julgaria. Acceitou os enormes creditos que lhe +offereceram, estabeleceu-se, e dentro de doze ou treze annos pagou as dividas +de seus socios, e liquidou cem contos de réis fortes, entre os quaes, diz elle, +e dizem todos os que o conheceram, não havia cinco réis adquiridos +deshonrosamente.</p> + +<p>Chegou a Portugal em 1848. O pae era morto e a mãe octogenaria estava +entrevadinha, pedindo ao Senhor<span class="pn">{43}</span> que a não remisse +das penas d'este mundo sem ver seu filho.</p> + +<p>João José Dias assistiu seis annos aos longos paroxismos de sua mãe, +adoçados com as lagrimas da felicidade. Em 1854 finou-se a velha nos braços do +filho, dizendo-lhe que fizesse feliz uma moça pobre, casando com ella já que +Deus lhe déra a riqueza.</p> + +<p>Passado o luto, o capitalista veiu ao Porto, e conheceu casualmente, na +alfandega, Melchior Pimenta, que lhe fez um pequeno serviço na brevidade de uns +despachos.</p> + +<p>Alguns dias depois, encontrou o empregado da alfandega com uma formosa +menina pelo braço, e perguntou-lhe se era sua filha. No dia immediato foi á +praça, e colheu de alguns negociantes informações ácerca da filha de Melchior. +</p> + +<p>Todos á uma lhe disseram que a menina gosava de excellente opinião; mas +tinha só o defeito de querer hombrear em luxo com as filhas dos negociantes +mais abastados. Um dos informadores accrescentou que os tafetás, as rendas, e +as pelliças da filha do empregado da alfandega não pagavam direitos.</p> + +<p>Esta mordedura dos malevolos não magoou João José Dias.</p> + +<p>Fez-se encontradiço com Melchior, e falou-lhe dos seus teres, e da tenção +que tinha de mudar de estado, até para cumprir uma promessa que fizera a sua +mãe. Disse-lhe Melchior que era acertada a resolução, e muito facil o +realisa'-la. Replicou o brazileiro pedindo que lhe<span class="pn">{44}</span> +indicasse alguma menina honesta. Pimenta pediu tempo para pensar, e o +capitalista, com a rude franqueza de uma boa alma, disse que a sua escolha +estava feita. Averiguada a cousa, a escolhida era a filha do sr. Melchior +Pimenta, que não cabia n'um sino.</p> + +<p>—Isto é um modo de falar...—observou João José—Sem que sua +filha dê o sim, nada feito. Eu sei que estou no calçado velho, e não trajo cá á +moda dos janotas, como por ahi dizem. A sua filha é muito nova, e quererá um +rapaz. Fale com ella, diga-lhe a verdade, eu irei lá se o senhor quizer; se +ella quiz, muito bem; se não quiz, ficamos amiguinhos como d'antes.</p> + +<p>—A minha filha é docil e ajuizada: ha-de querer o que eu quizer. Foi +educada por uma mãe, que teve melhores principios que eu, e faz com que ella +lhe obedeça, tractando-a como irmã. Posso dizer-lhe que minha filha será sua +esposa; mas bom é que o senhor nos dê o prazer de frequentar a nossa casa, para +conhecer o coração da minha Ludovina.</p> + +<p>É este o resumo do grande dialogo que precedeu a apresentação do sr. João +José Dias a D. Angelica.</p> + +<p> </p> +<hr style="width: 30%;"> + +<p> </p> + +<p>Não querendo eu, nem por sombras, indispôr contra os meus fieis escriptos o +imperio do Brazil, peço ao meu sisudo editor que faça estampar o seguinte +epilogo d'este capitulo:</p> + +<p>João José Dias adquiriu com exemplar probidade os seus bens de fortuna.<span +class="pn">{45}</span></p> + +<p>Foi bom filho.</p> + +<p>Levou a honra commercial ao primor de embolsar credores roubados pelos +socios que o roubaram a elle.</p> + +<p>Foi trabalhador, quando precisava acreditar-se pelo trabalho; e foi-o +tambem, na opulencia, como o ultimo dos seus servos.</p> + +<p>Nunca teve escravos, comprados ou alugados: remiu alguns na decrepitude, e +deu-lhes uma cama onde o ultimo instante da vida lhes fosse o primeiro de +bem-estar.</p> + +<p>Que mais virtudes, ou maiores encomios a um bom caracter? Se pintei João +José Dias feio, não é d'elle a culpa, nem minha. João José Dias era realmente +muito feio.</p> + +<p>Do Brasil vem muita gente galante.</p> + +<p>Tenho na pasta um esboço de romances onde figuram quatro brasileiros +bonitos.</p> + +<p>Hão-de ver com que isenção de animo se escreve n'esta provincia das lettras. +</p> + +<p>Acabou-se o epilogo, e preveniu-se uma crise litteraria no Brasil.<span +class="pn">{46}<br>{47}</span></p> + +<h1>IV</h1> + +<p>—Então a pequena está incommodada?—perguntou Melchior a sua +mulher, que não declinava os olhos do cepo informe do sr. João José Dias.</p> + +<p>—Um pouco incommodada.</p> + +<p>—Vaes dizer-lhe que venha á sala, menina?</p> + +<p>—Irei.</p> + +<p>—Estou boa, papá—disse Ludovina entrando subitamente, e +cortejando o hospede, que ella reconhecera de o ter visto outra vez.</p> + +<p>—Tem a bondade de sentar-se, snr. Dias?—disse Melchior ao +acanhado brasileiro, que mal pudera gaguejar um «creado de vossa senhoria» que +corrigiu bruscamente em «vossa excellencia.»—Minha filha, quando hontem +te disse que a Providencia me deparára para ti um digno marido, era d'este +senhor que te falava.</p> + +<p>—Tenho muito prazer em conhece'-lo—atalhou Ludovina com uma +affabilidade e desembaraço que espantou a mãe, alegrou o pae, e lisonjeou o +noivo.</p> + +<p>—Para satisfazer a uma exigencia d'este cavalheiro—continuou +Melchior—é preciso que tu digas se acceitas<span class="pn">{48}</span> +livremente a minha escolha, ou direi melhor a escolha com que te distinguiu o +sr. Dias.</p> + +<p>—Acceito muito de minha livre vontade—respondeu com firmeza D. +Ludovina. </p> + +<p>—Não lhe restam escrupulos?—tornou Melchior inclinando-se para o +brasileiro.</p> + +<p>—Não, senhor—disse elle—Estou satisfeito; o que eu não +queria era que a menina viesse um dia a arrepender-se... e...</p> + +<p>—Não espero tal desgraça...—interrompeu Ludovina, sem fitar os +olhos no brasileiro.</p> + +<p>—Da minha parte, hei-de fazer o possivel por lhe não dar desgosto, +porque o meu natural é bom, e ninguem, até hoje, se deu mal comigo.</p> + +<p>Ludovina ergueu-se, e pediu licença de retirar-se por um instante. D. +Angelica entendeu-a, e seguiu-a pouco depois. Foi encontra'-la no quarto, +afogada em soluços, curvada sobre o leito.</p> + +<p>—Que é isto, filha?</p> + +<p>—Nada, minha mãe...</p> + +<p>—É muito, Ludovina; que tens?</p> + +<p>—Precisão de desabafar assim. Estas lagrimas não fazem mal a ninguem. +É uma victima que se entrega ao sacrificio, mas deixem-a chorar... Que vida, +que futuro, meu Deus!</p> + +<p>—Ludovina, não chores, e escuta-me. Eu não imaginava que teu pae te +dera a semelhante homem. Tens razão... É repugnante, e horroroso. Não casarás +com elle, menina.<span class="pn">{49}</span></p> + +<p>—Hei-de casar, minha mãe. Mal o vi ainda; não tive ainda tempo de +sentir repugnancia ou horror... Choro como victima, mas não d'elle; é do outro +que me matou.</p> + +<p>—Isso é que é cobardia, Ludovina! Pois não te fez nojo esse +miseravel?</p> + +<p>—Fez, fez; mais que nojo... É preciso que elle se não persuada que +minha mãe lhe mentiu, quando lhe disse que a sua intenção era dar-lhe parte do +meu casamento. Devo casar muito depressa, o mais breve que seja possivel.</p> + +<p>—Casar por vingança?... Isto é um desforço desgraçado...</p> + +<p>—Não caso por vingança, que elle não vale o odio. Caso para salvar a +nossa dignidade, minha mãe. Hei-de simular quanto possa o contentamento da mais +feliz mulher. Não tenho já coração para sentir desgostos. Será tudo +estupidamente alegria na minha vida. Toda a gente dirá que eu amo... meu +marido. As pessoas que souberem do meu namoro com esse infame, dirão que devia +ama'-lo muito pouco a mulher que se deixou casar com um homem ridiculo. Quero +que se diga isto; quero que me assaquem a calumnia de que eu sou mais uma das +mulheres que se venderam á riqueza. O que nunca ninguem dirá é que eu infamei o +homem que me comprou... nunca, meu Deus!... Pois a mãe está chorando agora, +depois de me ter ensinado a ver o mundo como elle é? Não se arrependa, minha +boa mãe. Deu—me a maior prova de amor fazendo-me escutar o que<span +class="pn">{50}</span> esse homem disse... palavras de tanta afflicção como +vergonha para mim... Fiquei bem, estou desopprimida... vê? já não choro.</p> + +<p>D. Angelica abraçou com vehemencia a filha, beijou-a como beijaria a +creancinha de peito, e saíu, enxugando as lagrimas. Entretanto, conversavam +assim, na sala, os snrs. João José Dias e Melchior Pimenta:</p> + +<p>—Gostou dos modos da pequena, snr. Dias?</p> + +<p>—Gostei muito; mas, a falar-lhe a verdade, pareceu-me que ella não +olhava direita para mim!</p> + +<p>—Recato de moça, pejo, e acanhamento, não acha que é muito natural?</p> + +<p>—Isso sim; mas dava aquellas respostas tão... tão... tão desenganadas, +que parecia ter por mim sympathia de mais tempo...</p> + +<p>—Minha filha tem muito juizo, snr. Dias...</p> + +<p>—Não duvido.</p> + +<p>—E então quiz desde logo agradar a seu pae e a seu futuro marido.</p> + +<p>—Ora, olhe; o senhor não se lhe dá que eu tenha com sua filha, cá em +particular, uma conversasita?</p> + +<p>—Pois não, snr. Dias! todas as vezes que quizer. Eu mesmo desejo que +sonde o coração de Ludovina, e reconsidere a sua tenção, se vir que ella o não +merece. Eu vou manda'-la.</p> + +<p>—Faça-me esse favor.</p> + +<p>Melchior procurou a filha, reparou nos indicios das lagrimas, e fingiu que +os não percebia. Dizendo-lhe que viesse á sala, accrescentou:<span +class="pn">{51}</span></p> + +<p>—Lembra-te que fazes a tua felicidade e a de tua familia. Esse homem +não será só teu marido, será um protector de todos os teus, e fará a tua +independencia n'uma sociedade onde a formosura se estima como um meio de +alcançar «fortuna», e a «fortuna» como um meio de se alcançar tudo. +Entendeste-me, filha?</p> + +<p>—Entendi, meu pae.</p> + +<p>Ludovina entrou jovialmente na sala.</p> + +<p>—Minha senhora,—disse o brasileiro, gaguejando—Eu fui toda +a minha vida negociante, apenas sei ler e escrever, e digo as cousas assim como +ellas me vem á idéa. Ora bem; a menina está resolvida a ser minha companheira +de toda a vida?</p> + +<p>—Sim, senhor, disse ainda ha pouco que sim.</p> + +<p>—É verdade que disse; mas póde ser que o dissesse para contentar seu +pae, e lá no interior sentisse outra cousa.</p> + +<p>—Disse o que sentia, e repito o que disse.</p> + +<p>—Quem sabe se a senhora tinha alguma sympathia por ahi, e que lá por +eu ter alguns vintens seu pae a fizesse voltar-se para outro lado?</p> + +<p>—Não, senhor, eu não tenho affeição a alguem.</p> + +<p>—Porque depois eramos ambos desgraçados; e eu devo dizer-lhe, que tudo +o que eu mais tenho estimado n'este mundo é a minha honra; até hoje, louvado +Deus, ninguem lhe pôz o dedo sujo; e seria mais facil eu deixar que me tirassem +a vida do que a honra. Trabalhei muito anno para a conservar, cheguei até esta +edade sem ser offendido, e assim d'estes cabellos brancos que<span +class="pn">{52}</span> me vê, se alguem me atacasse a minha honra, tornava aos +meus vinte e cinco annos. A menina entende-me?</p> + +<p>—Creio que entendi, e sinto que v. s.ª me esteja offendendo com as +suas supposições injuriosas.</p> + +<p>—Isto é um modo de falar, sr.ª D. Ludovina, e perdoará se a offendi. +Tudo o que lhe digo é em bem seu, e meu. Eu sou o que está vendo; a menina é +nova e linda; se vê que se ha de arrepender, diga-me a verdade do seu coração, +que eu arranjarei as cousas de modo que seu pae se queixe de mim e não da +senhora.</p> + +<p>—Já disse a v. s.ª que desejo ser sua esposa; não sei que mais deva +dizer-lhe. Não me hei de arrepender, porque espero merecer sempre a sua estima +e confiança; mas tenho um favor a pedir-lhe.</p> + +<p>—Diga lá, seja o que fôr.</p> + +<p>—Desejava que ficassemos na companhia de meus paes.</p> + +<p>—Ficaremos; e quando formos passar algum tempo á nossa casa de +Celorico, a nossa familia irá comnosco. Era só isso?</p> + +<p>—Não tenho outra ambição.</p> + +<p>—Isso pouco é... Ha-se de fazer tudo que a menina quizer: graças a +Deus, temos mais que o preciso para satisfazer as nossas vontades. Agora, se +quizer dizer a seu pae que já lhe disse o que tinha a dizer, vá lá, que eu fico +á espera d'elle e de sua mãesinha para me despedir, até á noite.</p> + +<p>D. Ludovina chamou o pae, sem saír da sala. Melchior, lendo o bom resultado +das suas reflexões na cara<span class="pn">{53}</span> jubilosa do radioso +capitalista, convidou-o a jantar, quando elle se despedia. João José disse que +jantára tres horas antes, e jantaria segunda vez com tão amavel companhia. +Estava inspirado!</p> + +<p>E cumpriu a promessa. Jantou, fez muitos brindes, e o ultimo, e mais solenne +que fez foi o seguinte:</p> + +<p><em>Á saude de quem de hoje a um anno ha de ser meu compadre, e minha +comadre!</em></p> + +<p>Melchior Pimenta agradeceu.</p> + +<p>D. Angelica franziu a testa, fez-se branca de cera, e levou o calix aos +labios.</p> + +<p>D. Ludovina córou até ás orelhas.</p> + +<p>A leitora faça o que quizer.</p> + +<p>Eu não ri, nem córei: deu-me para chorar como uma vide, quando me contaram +isto.<span class="pn">{54}<br>{55}</span></p> + +<h1>V</h1> + +<p>Inventou-se uma lua para os casados.</p> + +<p>Os irracionaes teem uma lua; essa entende-se, sabe-se o que é. Mas o +aluarem-se, á força, os casados, é uma idéa ingrata á decencia, feia, e +deshonesta.</p> + +<p>Uma senhora innocente que diz: «lua de mel» suja os labios, se preza a +pureza n'elles; se, porém, sabe o que diz, se sabe o que é o favo, o +<em>mel</em> da lua, desdenha o pudor, e despreza-se.</p> + +<p>Os noticiaristas das gazetas aforaram a phrase, sem saberem, talvez, que +desaforavam as palavras. Os diarios do Porto, em 1856, noticiaram assim um +casamento:</p> + +<p> </p> + +<p>«Hontem ás nove horas da manhã, contraíram o sacramento do matrimonio o +ill.<sup>mo</sup> sr. João José Dias, rico negociante que foi no Rio de +Janeiro, com a ex.<sup>ma</sup> sr.ª D. Ludovina da Gloria Pimenta, filha do +nosso amigo Melchior Pimenta. O sr. Dias deve á fortuna a escolha de uma noiva +tão rica de prendas moraes como de formosura<span class="pn">{56}</span> +angelica. A gentil menina encontrou um honrado protector, cuja fortuna, sendo +immensa, vale menos que a briosa reputação que tem. Os esposos vão passar a +<small>LUA DE MEL</small> á sua quinta de Celorico de Basto, para onde partiram +hontem de manhã acompanhados dos numerosos amigos dos ditosos consortes. Diz-se +que o sr. Dias vae mandar construir um palacete no Porto, onde tenciona fixar a +sua residencia. Damos os parabens á cidade invicta por tão valiosa acquisição. +</p> + +<p> </p> + +<p>A local está redigida a primor, como lá se faz sempre nas gazetas; mas +aquella <small>LUA DE MEL</small> indigna-me.</p> + +<p>Se querem que haja por força uma lua para os que se casam, façamos umas +poucas de luas:</p> + +<p>Lua de mel;</p> + +<p>Lua de cicuta;</p> + +<p>Lua de laudanum;</p> + +<p>Lua de tartaro emetico;</p> + +<p>Lua de mostarda ingleza;</p> + +<p>Lua de oleo de ricino;</p> + +<p>Lua de fel da terra;</p> + +<p>Lua de salsa-parrilha;</p> + +<p>Lua de raspa de veado;</p> + +<p>Lua de jalapa;</p> + +<p>Luas tónicas, luas antiphologisticas, luas irritantes, luas vomitas, luas +drastricas, etc.</p> + +<p>Convém, de seguida, observar, que a lua não influe por egual nos dois +noivos. Cada um deve ter sua, nos casos exceptuados de casamento por paixão +reciproca.<span class="pn">{57}</span></p> + +<p>Tal marido é aluado em ovos molles, e sua mulher em jalapa.</p> + +<p>Tal noiva saboreia-se nos dulcissimos favos da colmeia lunar, e o homem +enjoa um cozimento salobro de raspa de veado, animal que muitas vezes lhe +lembra, por causa das virtudes medicinaes, e outras causas.</p> + +<p>Qual d'essas luas influiria em João José Dias, e qual em D. Ludovina da +Gloria?</p> + +<p>Eu não decido, porque sou supinamente ignorante em astrologia judiciaria. +Conto os factos, e deixo as luas ao arbitrio do leitor.</p> + +<p>Fez-se o casamento, e effectivamente partiram os conjuges para Celorico de +Basto. D. Angelica tambem foi. Melchior Pimenta ficou para comprar terreno, e +contractar o architecto e alveneis que deviam fazer o palacete, a toda a +pressa.</p> + +<p>Os cavalheiros de Basto receberam cartão do casamento. Esta usança das +familias de bem, desconhecida a João José Dias, fôra lembrança da previdente D. +Angelica: o fim era relacionar sua filha com as familias mais tractaveis de +Basto, para que estas visitando-a, segundo o ceremonial, a distrahissem das +melancolias do noivado.</p> + +<p>Tudo lhe saíu ao pintar dos seus projectos. A fidalguia circumvizinha não +desdenhou as relações do capitalista. O cartão enviado ás senhoras dizia:<span +class="pn">{58}</span></p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center; font-size: small;"><small>D. ANGELICA THEODORINA +DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO LEITE E LEMOS</small><br> +<small>TEM A HONRA DE PARTICIPAR A V. EX.ª</small><br> +<small>O CASAMENTO DE SUA FILHA</small><br> +<small>A EX.<sup>MA</sup> SR.ª</small><br> +<small>D. LUDOVINA DA GLORIA PIMENTA DA MESQUITA PEREIRA SOUSA PINTO CASTRO +LEITE E LEMOS</small><br> +<small>COM O ILL.<sup>MO</sup> SR.</small><br> +<small>JOÃO JOSÉ DIAS</small></p> + +<p> </p> + +<p>Os appellidos heraldicos abalaram os espiritos pechosos d'aquella fidalguia +de travessão que por alli enxamêa.</p> + +<p>Devia ser filha segunda de casa muito distincta a que descera até aos +fabulosos milhões do João da Chan-de-Cima: diziam-n'o assim os que d'aquelle +modo chasqueavam o brasileiro, pouco dado com fidalgos.</p> + +<p>Consentiram algumas familias em visitar os noivos. Um dos fidalgos, +esmerilhando a procedencia genealogica de D. Angelica, descobriu que um seu +tio-visavô sahira da casa dos Ciprestes para ir entroncar na nobilissima +familia dos Pereiras e Sousas, em Paços de Gaiôlo, d'onde era oriunda a avó de +D. Angelica. Feito o descobrimento, D. Ludovina achou-se prima de tudo que faz +o lustre e ornamento de Celorico, Cabeceiras, Arco, e terras de Barroso.</p> + +<p>João José Dias tambem era primo dos primos de sua mulher; e, de si para si, +ao bom do homem dava-lhe para rir-se á socapa da parentella. A lingua não se +lhe ageitava a chamar primos aos fidalgos da casa dos Ciprestes,<span +class="pn">{59}</span> aos do Reguengo, aos da Capella, e outros que +frequentavam, mais do que elle queria, a casa e o espirito attrahente da sua +sogra, espanto das fidalgas analphabetas.</p> + +<p>Sem embargo, o capitalista simulava affectuosa estima aos hospedes, e +contentamento com o ar festivo que sua mulher mostrava, tendo visitas.</p> + +<p>D. Ludovina pagava as visitas, passava as noites em sociedade, primava em +tafularia, ensinava as primas a vestirem-se, cuidava dos seus enfeites com +desvelo, e gastava com seu marido o tempo necessario para projectarem passeios, +romarias, e saraus por aquellas redondezas.</p> + +<p>Annuia o conjuge, folgazão no rosto, e zangado por dentro. O bom siso +dizia-lhe que sua mulher era uma creança, vezada a bailes, e ainda verde para +gostar da quietação domestica. Bem via elle a innocente alegria com que +Ludovina andava nos honestos brinquedos, e o desapercebimento, se não desprezo, +com que ella acceitava as louvaminhas dos primos.</p> + +<p>D. Angelica entendia o que o seu genro calava; conhecia a violencia que elle +fazia ao genio e aos annos ronceiros, para andar n'aquella lufa-lufa de visita +em visita, bifurcado n'um macho, que lhe contundia as carnes com o chouto +ingrato. Receosa de que a impaciencia rebentasse em fim por algum dito menos +delicado á mulher, quiz ella prevenir o desgosto de ambos, dizendo uma vez á +filha:</p> + +<p>«Convém conformarmo-nos um pouco aos costumes<span class="pn">{60}</span> de +teu marido, Ludovina. Teu homem não foi assim educado, e os annos extranham +esta transição.</p> + +<p>—Que quer a mãe que eu faça?</p> + +<p>«Que espaces os teus passeios e visitas, que vivas mais em tua casa, que +tenhas com elle algumas horas mais de convivencia.</p> + +<p>—Que hei de eu dizer-lhe?!</p> + +<p>«O que has-de tu dizer-lhe?!...</p> + +<p>—Sim, mamã. Temos occasiões de estar duas horas juntos sem trocarmos +tres palavras. Sou amiga d'elle; mas não sei como hei-de mostrar-lh'o de outro +modo. Se querem que eu não receba visitas, nem vá a casa de quem me visitou, +estarei em casa, contemplando os carvalhos e os castanheiros; mas eu não creio +que se possa viver assim na aldeia. Se elle ainda me não disse nada, porque ha +de a minha mãe censurar-me este desabafo que eu preciso? Eu a fugir de falar na +minha situação, e a mãe a lembrar-m'a! Cuida que sou feliz? Diga, mãe, está +persuadida que eu devo estar extasiada de contentamento deante de meu marido? +</p> + +<p>«Não creio que te devas extasiar, mas tambem não approvo que te arrependas. +Como explicas tu a consideração, o respeito com que és tractada? Pensas que o +seres casada com este homem te desmerecesse aos olhos d'esta gente, que lhe +chama parente?</p> + +<p>—E a felicidade é isso, mãe?!</p> + +<p>«A felicidade não é cousa nenhuma d'esta vida, e, se alguma existe cá, é a +que dá á consciencia da mulher casada o prazer de não envergonhar seu +marido.<span class="pn">{61}</span></p> + +<p>—Que palavras! Isso que quer dizer, minha mãe?</p> + +<p>«Não t'as applico, Ludovina: respondi á tua pergunta. A felicidade no amor é +um creancice dos quinze annos, e ás vezes dos quarenta; mas o desengano vem com +todos os homens e com todas as edades. Não te persuadas que a vida te seria +aqui mais risonha, por muito tempo, com um marido de tua escolha. Este homem, +d'aqui a tres mezes, has-de ama'-lo como se ama um amigo. O outro, d'aqui a +tres mezes, ama'-lo-ias com o afflictivo amor da mulher que enfastia, que se vê +cada vez mais aborrecida, e compara os ardores dos primeiros mezes de casada +com a fria sequidão dos que traz o cansaço. Poupaste-te ao maior dos +infortunios, que é esse para a mulher que não quer curar a chaga do amor a seu +marido com a peçonha da infidelidade, comprehendes-me, Ludovina? Eu não +consinto que tu, sequer, recordes alguns exemplos de mulheres casadas que viste +conciliadas com o despreso dos maridos, acceitando a adoração de outros, como +vingança, e fazendo do crime uma necessidade. Lembra-te só d'ellas como +mulheres que casaram apaixonadas, que doudejaram de alegria nos primeiros +tempos, e pareciam cheias de felicidade para toda a vida. Não te recommendo +paciencia, Ludovina, porque ninguem te dá causa de soffrimento; recommendo-te +juizo. Este homem ha-de merecer a tua amizade: logo que a tenha, viverás da +melhor affeição, da que mais dura n'este mundo; terás o bem que raras vezes +fica de um amor ardente.</p> + +<p>Estas e outras palavras modificaram a força motriz<span +class="pn">{62}</span> de D. Ludovina. Os passeios rarearam-se, os convites +para reuniões foram esquecendo á mingua de estimulo e as massas amollecidas do +sr. João José Dias recobraram vigor, com não menos gaudio do velho macho que as +caminhadas traziam desmedrado e manhoso.</p> + +<p>Estava já a lua de mel em quarto minguante, quando os noivos, voltando para +o Porto, foram hospedar-se na casa paterna, em quanto não alugavam casa +provisoria, onde esperassem que o palacete se fizesse.</p> + +<p>João José Dias foi agradavelmente surprehendido em casa de seu sogro.</p> + +<p>Convidado para um baile, em que Ludovina ia ostentar preciosissimos recamos +de brilhantes, que seu marido lhe déra na vespera do casamento, João José Dias +ao vestir a casaca nova, que seu sogro lhe mandava ao quarto n'uma bandeja, viu +uma commenda pregada n'ella, e sobre uma salva de prata um collar com a cruz da +ordem de Christo, pendente de um vistoso laço de fita.</p> + +<p>—Que diabo é isto?—disse elle ao creado no requinte do pasmo.</p> + +<p>«É um presente que faz a v. exc.ª o sr. Melchior.</p> + +<p>—Diz-lhe que venha cá, e pega lá para cigarros—dizendo isto, o +commendador lançou á salva... sete centos e vinte.</p> + +<p>Não vos assombre este lance dadivoso de grandeza. Em successos de menor +estimulo á munificencia, sei de outros arrojos de liberalidade, que desbancam +João José Dias.<span class="pn">{63}</span></p> + +<p>Ahi vão de passagem dois exemplos:</p> + +<p>Um visconde, opulento pelos dons de uma bestial fortuna que o ama como a +cousa sua, compra um quarto de bilhete da loteria hespanhola. O rapaz que, á +custa de muito teimar, lh'o vendera, vae dar-lhe a nova de que a cautela fôra +premiada com quatro mil duros. O visconde manda esperar o alviçareiro moço e +traz-lhe umas calças de cutim sem fundilhos.</p> + +<p>Outro, na passagem do rio Douro, escorrega do barco para a corrente, e +mergulha; passados instantes, emerge á tona d'agua resfolegando, e pedindo +soccorro. Travam-no os braços robustos do barqueiro que, em risco de morte, +consegue salva'-lo, Vae leva'-lo á familia, mandam-no esperar á porta da rua, e +recebe, como salvador d'uma vida cara aos seus, uma vida que os jornaes +pranteariam com tarjas da grossura de um dedo, e vinhetas das mais funebres da +typographia, recebe, finalmente, setecentos e vinte em cobre.</p> + +<p>Isto é publico e notorio; mas não estava em chronica. Receio maguar a +modestia dos generosos cavalheiros, por isso resalvo os nomes. Na quinta edição +d'este livro, havidos os consentimentos respectivos, serão postos em estampa, +para inveja de miseraveis sovinas, e estimulo á profusão da presente raça.</p> + +<p>O commendador não era fona. Esse caínho feito não desluz os bizarros +presentes que fazia á esposa e aos sogros. Ludovina era o primor da +casquilhice, e do mais rico em gosto e droga. Para cada baile, para cada +exposição do theatro lyrico, um vestido não visto, só comparavel<span +class="pn">{64}</span> aos que trajára antes, e inferiores aos que trazia +depois.</p> + +<p>Os <em>leões</em> sertanejos, estes cinco ou seis pataratas, senhores de uma +gloria tão productiva, que faz lembrar a dos dominios da corôa portugueza na +Ethiopia, Arabia e Persia, os leões honorificos do Porto, se assestavam +pertinazes os oculos na peregrina esposa do commendador, o mais que conseguiam +era realisar o anexim nacional: «—viam-na por um oculo.»</p> + +<p>João José Dias envesgava o olho de soslaio por sobre as feras; e, a meu ver, +seria elle homem bastante para realisar, já não com um, mas com todos, a fabula +do leão espinotado pelo orelhudo.</p> + +<p>O commendador tinha em sua mulher inteira confiança, nada lhe alterava o +conceito bem merecido; todavia era accessivel ao ciume sem causa. Nos bailes, +andava o pobre homem sempre assustado. Não tinha socego, nem póro que não +estilasse o suor da apoquentação. As affabilidades mais triviaes e innocentes +da cortezia, um sorriso de Ludovina ao par dançante que a deliciava com ensosso +palavrorio, o menor gesto de attenção a que a delicadeza obrigava a festejada +dama, isso era um adstringente doloroso que apertava as entranhas do +commendador.</p> + +<p>N'um d'esses bailes, em que João José Dias emagreceu duas polegadas na +circumferencia, appareceu Ricardo de Sá, que nunca mais vira Ludovina desde a +vespera da sua derrota.</p> + +<p>Audacioso até ao desatino, teve a petulancia de aprumar-se<span +class="pn">{65}</span> diante de Ludovina, com a luneta insultante. A filha de +D. Angelica pediu o braço a uma amiga e saíu d'aquella para outra sala. O +commendador não fôra extranho ao acto, e seguiu-a com disfarce. Ricardo, +brincando com os berloques do relogio, e tregeitando o habitual sorriso do +homem tragico de romance, seguiu de longe as duas amigas, simulou um encontro +casual, estacou diante d'ellas, e montou a luneta.</p> + +<p>D. Ludovina rodou sobre o calcanhar e voltou-lhe as costas. Á cabeça do +commendador subiu um repuxo de sangue, e os lobulos das orelhas fizeram-se-lhe +escarlates como ginjas.</p> + +<p>D. Angelica, que espiava o successo da sala proxima, acercou-se de Ricardo +de Sá, fitou-o com fulminante soberania, e disse-lhe a meia voz:</p> + +<p>—O senhor é um miseravel tolo, que incommoda. Se se estima alguma +cousa, não me obrigue a encarregar o boleeiro de minha filha de responder ás +suas provocações.</p> + +<p>—Mude de sexo como Theresias, e falle-me depois—disse Ricardo, +dando á perna direita o costumado repuxão dos elegantes.</p> + +<p>O commendador veio ao encontro de D. Angelica, e disse-lhe:</p> + +<p>—«Aquelle sujeito com quem a senhora falou agora, não é um homem que +eu encontrei em sua casa a primeira vez que lá fui?</p> + +<p>—É.</p> + +<p>—Que diabo anda elle a prantar-se diante de Ludovina?<span +class="pn">{66}</span></p> + +<p>—Já reparei n'essa acção repetida. Eu lhe conto, dê um passeio +comigo—E tomando-lhe o braço, D. Angelica continuou:—Este homem foi +uma afeição innocente de minha filha, e é hoje um ente desprezivel para ella e +para mim. </p> + +<p>—Escreviam cartas um ao outro?—interrompeu o commendador, +bufando.</p> + +<p>—Escreviam, sim...</p> + +<p>—Porque me não disse isso a senhora?!</p> + +<p>—Porque não merecia a pena dizer-lh'o. Que é escreverem-se cartas?</p> + +<p>—Não é pouco, acho eu... E como acabou isso?</p> + +<p>—Acabou, dizendo eu a esse homem que não voltasse a minha casa.</p> + +<p>—E que quer elle agora?</p> + +<p>—Vingar-se da unica maneira que póde: affligir minha filha... Ella ahi +vem... não falemos n'isto.</p> + +<p>D. Ludovina disse affectuosamente ao marido:</p> + +<p>—Vamos embora? eu estou incommodada.</p> + +<p>—Vamos, disse a mãe.</p> + +<p>—N'esse caso, vou chamar a carruagem; esperem um pouco, que eu venho +já—disse o commendador.</p> + +<p>As senhoras foram esperar na sala menos concorrida. D. Ludovina arquejava em +ancias, e falava aceleradamente a sua mãe.</p> + +<p>Entretanto, João José Dias entrou na sala onde se dançava, e viu na porta +fronteira Ricardo de Sá encostado, com a luneta em acção, e o cotovello direito +apoiado na mão esquerda.<span class="pn">{67}</span></p> + +<p>Foi ao pé d'elle e disse-lhe:</p> + +<p>—O senhor sabe quem eu sou?</p> + +<p>—Creio que já o vi em alguma parte.</p> + +<p>—Faz favor de vir aqui que lhe quero fallar.</p> + +<p>Ricardo seguiu-o machinalmente, atravessou um corredor, e parou n'um patamar +deserto:</p> + +<p>—Eu sou o marido d'aquella senhora que vocemecê insultou lá dentro.</p> + +<p>—Essa é muito boa! Eu não insultei senhora alguma!</p> + +<p>—Se insultou ou não, sei eu. Fique-lhe de aviso que a sr.ª Ludovina +tem um marido de quarenta e tantos annos, isso é verdade, mas capaz de pegar +n'uma orelha dos pandilhas como vocemecê, e dar-lhe com a cabeça n'uma esquina, +tem percebido?</p> + +<p>O commendador desceu as escadas, e Ricardo de Sá, estupefacto e aturdido, +atravessou o corredor, e entrou nas salas.</p> + +<p>Pouco depois, entravam na carruagem D. Ludovina e sua mãe. O commendador não +lhes disse palavra com referencia ao desforço solenne que tirára do bacharel. +</p> + +<p>Isto, se eu o não contasse, era cousa que morria ignorada porque o auctor +embrionario do <small>SECULO PERANTE A SCIENCIA</small> nunca a diria.<span +class="pn">{68}<br>{69}</span></p> + +<h1>VI</h1> + +<p>Esta inquietação damnificou a vida menos má do commendador, e o socego, +apparentemente feliz, de Ludovina. A paz existia; era, porém, como a serenidade +presagiosa de trovoada.</p> + +<p>O marido recebia os convites para bailes, e queimava, á surrelfa, as cartas. +Ludovina admirava o esquecimento, sem aventurar uma pergunta. Estes rebuços são +a desgraça das familias, e o rastilho de polvora que espera uma faisca.</p> + +<p>Ao theatro iam raras vezes. O commendador adoecendo quasi sempre no dia da +recita, supportou no estomago muitas papas de linhaça, sem precisão. O seu +achaque postiço era uma inflammação intestinal.</p> + +<p>D. Angelica censurava o procedimento do genro; mas calava-se, para não dar +anso á filha de romper em queixumes, que abafava com a esperança de melhor +vida, ou desafogava em carpir-se sósinha. Melchior Pimenta achava que tudo ia +bem, e dava-lhe mais cuidado a esperançosa<span class="pn">{70}</span> +apparição de um neto que a irritação de entranhas do capitalista.</p> + +<p>Acabára-se o palacete, e fez-se a mudança. O commendador não convidava os +sogros para viverem com elle. Ludovina, reagindo contra a tyrannia simulada +disse que não saía da casa onde nascera, sem levar seus paes. João José +acreditou na resolução, e disfarçou o intento, dizendo que nunca tivera outro. +</p> + +<p>Ludovina queixava-se á mãe da reclusão em que vivia cheia de aborrecimento e +tedio; perguntava se era aquella a felicidade que dava o dinheiro; dizia que a +pobreza e o ar livre eram preferiveis ao goso de cincoenta vestidos que se +traçavam no guarda roupa, e da luxuosa mobilia que ninguem admirava.</p> + +<p>D. Angelica, já aborrecida tambem, prometteu á filha entender-se com o +genro, e muda'-lo por meios suaves.</p> + +<p>—Que motivo ha, snr. commendador—disse D. Angelica—para se +encerrar n'esta casa, cortando as suas relações com a sociedade que tão bem o +tratava? </p> + +<p>«Eu vivo assim melhor.</p> + +<p>—Viverá!... não creio. O senhor, quando estivemos em Celorico, +divertia-se nas sociedades, e já no Porto parece que folgava de que o vissem +com sua mulher em toda a parte...</p> + +<p>«Estou velho para andar a perder as noites. Esta minha inflammação de +entranhas não me deixa. A saude está em primeiro logar.</p> + +<p>—Tem razão; mas n'este mundo só se vive bem, sacrificando-se a gente +uma á outra. O senhor é casado<span class="pn">{71}</span> com uma menina +habituada aos innocentes prazeres da sociedade, e eu, se me dá licença, +dir-lhe-hei que não consentiria um casamento entre genios tão contrarios, se +previsse o que está acontecendo.</p> + +<p>«Então que é?</p> + +<p>—É que minha filha não póde assim viver contente.</p> + +<p>«Agora não! ella não se queixa: a senhora é que toma as dôres por ella.</p> + +<p>—Não se queixa porque é muito delicada, muito soberba, ou uma sancta. +O peor será quando ella se queixar... Isto assim vae mal, sr. Dias; mude de +vida, confie em sua mulher que é um anjo de virtude, incapaz de offender a sua +dignidade.</p> + +<p>«Não duvido; mas estou melhor assim, e ella tambem não está mal, acho eu. +Quem casa vive para seu marido, e para os filhos, se os tem. Isso de andar de +bailarico em bailarico é bom para as raparigas solteiras que andam á pesca de +marido. Até parece mal uma mulher casada a saltarilhar com um homem que lhe +pega pela cinta, e anda alli com a cara ao pé da d'ella. Nada de bailes, sr.ª +D. Angelica. Minha mulher, se quer passear tem ahi uma carruagem e eu estou +prompto a acompanha'-la para toda a parte.</p> + +<p>—Pois bem, não se frequentem os bailes, mas conservem-se as relações +da nossa casa. Ludovina tem amigas, que extranham muito a vida encarcerada que +ella passa. Porque não ha-de sua mulher visitar e receber as visitas de suas +amigas?</p> + +<p>«E isso de que livra? Isto de mulheres umas com as<span +class="pn">{72}</span> outras não dizem cousa boa. O melhor é cada um em sua +casa.</p> + +<p>—Que razão essa tão... tão singular!</p> + +<p>«A final de contas, sr.ª D. Angelica, eu estou em minha casa, e entendo que +faço bem. Não se lucra nada em apparecer. O mundo está uma pouca vergonha. Eu +já sei como está o Porto, e como se vive por ahi. Não quero que minha mulher +ande nas bôcas do mundo. Se Ludovina não fosse ao baile, onde lhe appareceu o +tal namorado que ella teve, não tinhamos todos a zanga com que sahimos de lá. +Em casa, em casa é onde se está melhor.</p> + +<p>—Eu não me responsabiliso pelas consequencias, sr. Dias. Ludovina tem +brios e pundonor; se ella desconfia que v. s.ª a encerra em casa, por suspeitar +da lealdade d'ella, teremos grandes desordens e não terei poder para +accomoda'-las.</p> + +<p>«Eu não desconfio de minha mulher; se não vou aos bailes, é porque não quero +que os outros desconfiem, e acabou-se.</p> + +<p>O dialogo ficou aqui; mas ha ahi duas linhas que fazem honra á intelligencia +equivoca de João José. Merecem ter segunda edição de versaletes:</p> + +<p>E<small>U NÃO DESCONFIO DE MINHA MULHER; SE NÃO VOU AOS BAILES É PORQUE NÃO +QUERO QUE OS OUTROS DESCONFIEM.</small></p> + +<p>Isto é uma grande idéa, das quatro idéas grandes que apparecem em cada +seculo, e que, por engano, entrou na cabeça inhospita do commendador.<span +class="pn">{73}</span></p> + +<p>Pesem bem o quilate das duas linhas, que me ministrou João José, e verão que +as melhores d'este livro são ellas.</p> + +<p>O marido, que me está lendo, se tem cincoenta annos, e espreita os vinte de +sua mulher, através do vidro embaciado que a experiencia lhe vendeu caro, não +deve já agora perder a esperança de dizer, no auge do seu ciume, alguma cousa +que possa ler-se em lettra redonda.</p> + +<p>A indignação fazia os versos de Juvenal; porque não ha de o ciume fazer as +prosas toleraveis dos maridos?</p> + +<p>A idéa de João José, se fosse minha, ninguem me aturava a vaidade. Rogo aos +escriptores contemporaneos, e aos futuros sabios, alinhavadores de remendos +alheios, que se escreverem a seguinte maxima:</p> + +<p><em>Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes para +que os outros não desconfiem;</em> escrevam por baixo —<em>O +commendador</em> J<small>OÃO </small>J<small>OSÉ +</small>D<small>IAS</small>.</p> + +<p>As pessoas que melhores idéas engendraram, não teem sido as mais felizes. O +commendador pertence ao martyrologio dos grandes pensadores. Os fados, os +estupidos fados hão de castiga'-lo por essas poucas palavras com que elle +arranjou um nicho, pôdre de barato, no templo da memoria.</p> + +<p>O castigo começa.<span class="pn">{74}<br>{75}</span></p> + +<h1>VII</h1> + +<p>Ludovina disse um dia a sua mãe:</p> + +<p>—Estou casada ha treze mezes, e sinto-me velha. Até aqui obedeci como +creança, a minha mãe, a meu pae, e a esse homem, que entrou na nossa familia +com certa auctoridade que me intimidava. Eu fui sempre docil, docil até á +pusillanimidade. Se a violencia não fosse tamanha, este homem que chamam meu +marido, teria feito a escravidão da minha alma para sempre. Assim não póde ser. +Sinto-me outra; perdi os costumes de creança; envelheceram-me com os desgostos +continuos, e por isso hão de soffrer-me agora emancipada.</p> + +<p>—Que vem tudo isso a dizer, Ludovina?</p> + +<p>—Que quero a minha liberdade, que hei de passar por cima da oppressão +á custa de tudo.</p> + +<p>—Ludovina! que linguagem é essa?</p> + +<p>—É a da desesperação, e da justiça. Não pratiquei sombra de mau acto, +por onde mereça este amargo viver que me dão. Quero saber porque vivo apartada +das<span class="pn">{76}</span> minhas amigas, e dos recreios, d'onde a minha +reputação saíu sempre sem mancha.</p> + +<p>—A quem o perguntas, a mim?</p> + +<p>—Sim, á mãe, ao pae, e depois pergunta'-lo-hei ao dono d'esta casa, ao +dono dos meus vestidos e dos meus braceletes. Se este me disser que a minha +liberdade é o preço d'essas cousas, deixo-lh'as, e peço a meu pae a +subsistencia que me dava d'antes. Se m'a negarem, Deus me inspirará o destino +que me convém. Isto ha de decidir-se hoje. Ninguem soffria tanto tempo, por +amor proprio, ou pela virtude da paciencia.</p> + +<p>—Tens direito a interrogar teu marido, Ludovina; mas sê prudente; +vence-o com razões moderadas, por não dizer humildes.</p> + +<p>—E se elle, por maldade ou por ignorancia, suspeitar da pureza das +minhas intenções?</p> + +<p>—Fala-lhe como deve falar uma senhora, e confundi'-lo-has.</p> + +<p>Veiu o commendador cortar o colloquio. Nunca tão achamboada e trombuda se +mostrára a lerda physionomia do personagem. N'essa occasião, o achaque +intestinal era veridico, segundo o testemunho do semblante. Era o ideal da +fealdade, então, o sr. Dias!</p> + +<p>D. Angelica, instada por um gesto da filha, deixára-os sós.</p> + +<p>—É a primeira vez—disse Ludovina, sentada n'uma cadeira de +braços estofada, com a formosa face encostada á palma da mão direita, e uma +perna sobre a outra balouçando-se, deixando ver o pé de fada, através<span +class="pn">{77}</span> do rendilhado da saia que a velava.—É a primeira +vez que falo a meu marido como se deve falar a um marido. Até aqui tratei-o +como se trata um amigo que se respeita, um tio, um pae d'esses com quem se não +tem muita confiança.</p> + +<p>O snr. Dias abriu a bôca para entender melhor. D. Ludovina proseguiu:</p> + +<p>—Poucas filhas ha tão respeitadoras como eu lhe tenho sido na +qualidade de mulher. Tudo que ha n'esta casa, snr. Dias, seu tem sido, como +seria, se eu aqui não fosse mais que uma pessoa extranha, sujeita á sua +generosidade. A sua vontade é o movel das minhas acções. Em quanto o senhor me +concedeu a liberdade honesta, que meus paes me concediam, acceitei-a, sem lh'a +agradecer, porque achei isso tão natural como absurdo e impossivel o contrario. +Logo que o senhor, sem me explicar a causa da sua mudança, de repente me +afastou da sociedade, como se faz ás pessoas incapazes de viverem n'ella, +acceitei tambem, sem me queixar, o captiveiro, e supportei-o seis mezes como +uma mulher culpada que expia a culpa com a paciencia muda. O snr. Dias, sem +saber o que fez, expoz sua mulher aos commentarios offensivos que a sociedade +ha de ter feito á minha ausencia repentina. Deu um escandalo, sem necessidade +de evitar outro. Disse á sociedade que não tinha bastante confiança em mim para +me levar onde ha o bom e o mau.</p> + +<p>«Estás enganada, menina, eu não disse isso a ninguem—interrompeu o +commendador, que andou ás aranhas<span class="pn">{78}</span> muito tempo antes +que traduzisse para vulgar o estylo sentencioso da filha e discipula de D. +Angela.</p> + +<p>—Não o disse com a palavra; mas disse-o com as acções. Privando-me de +ir aos bailes, de frequentar o theatro, de receber as minhas amigas de +collegio, e as relações de minha familia, o que diria a sociedade?</p> + +<p>«Lá o que ella quizer, menina...</p> + +<p>—O que ella quizer, não, snr. Dias! Não consinto que se façam de mim +conjecturas desairosas. Requeiro que o senhor me explique o motivo d'esta +separação injusta a que me fórça.</p> + +<p>«Não te zangues, Ludovina... Foi tua mãe que te metteu na cabeça essas +palavras? Bem diz lá o ditado: «Livra-te da sogra, que eu te livrarei do +diabo.»</p> + +<p>—Respeite minha mãe, senhor! Eu não falo pela bôca de minha mãe; o meu +silencio até hoje não era estupidez nem insensibilidade: era amor proprio, e +outro sentimento mais nobre que o senhor não entende. Vamos ao essencial, snr. +Dias. Teve alguma razão para me privar de viver como vivem todas as mulheres +casadas da boa sociedade?</p> + +<p>«Não, já disse que não. A cousa é outra...</p> + +<p>—Qual é essa outra cousa?</p> + +<p>«As boas pagam pelas más, e não ha mulher honrada para certa gente que vae +aos bailes e aos theatros.</p> + +<p>—Pois eu não estou disposta a sacrificar-me ás mulheres indignas. A +minha consciencia é o meu juiz. Não me importa o que se diz de mim.<span +class="pn">{79}</span></p> + +<p>«Essa é de cabo de esquadra! Pois não se te importa o que se diz de ti?</p> + +<p>—Que se diz, snr. Dias?</p> + +<p>«Não sei; mas... elles lá sabem o que dizem.</p> + +<p>—Elles quem? accuse-me sem piedade; repita as affrontas que me fazem; +tenha a coragem de calumniar-me, se lhe é preciso inventar os meus crimes.</p> + +<p>«Tu estás fóra de ti, Ludovina! Isso não é assim! Ahi anda espirito-santo de +orelha... O teu genio não é esse...</p> + +<p>—O meu genio é a minha dignidade, n'este caso. Responda-me: Offendi a +sua honra?</p> + +<p>«Não, já disse duas vezes que não.</p> + +<p>—Faltei aos meus deveres de esposa?</p> + +<p>«E ella a dar-lhe!</p> + +<p>—Pois bem: quero viver como vivi nos primeiros seis mezes da nossa +união. Quero ir ao theatro, aos bailes, ás visitas, como ia em solteira. Quero +receber as minhas relações, como as recebi antes de ter metade da sua riqueza. +Quero uma inteira liberdade como premio do meu procedimento para comsigo. +Quero... </p> + +<p>«Então isto, pelos modos, é «nós, el-rei, e justiça de Fafe!» Aqui não ha +rei nem roque n'esta casa? é quero, e mais nada?</p> + +<p>—Quero, sim, porque é de justiça o que já não tenho a baixeza de +pedir; mas quando não, snr. Dias, meus paes teem uma casa estabelecida, e +sobejos meios para eu me declarar independente d'essas riquezas com que o +senhor me dotou, e que eu, de todo o meu coração,<span class="pn">{80}</span> +rejeito, porque não acceito o preço porque fui vendida.</p> + +<p>Ludovina, já de pé, com o rosto inflammado, e os bellos olhos coruscantes de +cólera, sahiu de um impeto, deixando o commendador attonito na mais palerma +immobilidade. D. Angelica ouvira tudo;</p> + +<p>—Excedeste-te, Ludovina—disse ella—mas fizeste-me +orgulhosa de ser tua mãe. Acceito, de hora em diante, a responsabilidade das +tuas palavras, seja ella qual fôr.</p> + +<p>João José Dias nem palavra n'aquelle dia e no seguinte. Ao terceiro havia +theatro lyrico. D. Ludovina mandou buscar camarote. Ás sete horas e meia mandou +pôr os cavallos á sege, e disse a seu marido se a acompanhava ao theatro. O +commendador fez-se verde-garrafa, desenrugou as palpebras quanto poude, e +pasmou os olhos suinos na attitude imperiosa de Ludovina, que apertava o botão +da luva, e enroscava no collo as marthas.</p> + +<p>—Vem, ou não?—repetiu ella.</p> + +<p>«Espera, que eu visto-me—disse o commendador, tomado d'uma especie de +susto irreflectido, que em muitos maridos é o corollario de demorados +raciocinios. </p> + +<p>Fez impressão o apparecimento de Ludovina. Acharam-n'a mais donosa os +amadores do pallido. O viço da florescencia tinha murchado ao lento deseccar da +melancolia. Ficára a pelle assetinada, com as alvuras do desmaio, realçando o +vivido fulgor dos olhos negros, assombrados da côr-violeta, que tanto encarece +o rosto dolorido. Ponderaram os analystas que os tecidos cellulares<span +class="pn">{81}</span> do commendador estavam cada vez mais chorumentos e +luzidios. Segredaram-se, ácerca das medranças d'elle, pilherias que incitam o +riso, e ferem o melindre de ouvidos pudibundos.</p> + +<p>Estes colloquios, que a estampa rejeita, ciciavam, por entre frouxos de +riso, nos camarotes, onde estava a propria virtude, com cabellos á Stuart, e +despeitorada á Aspasia.</p> + +<p>Ludovina falava com meiguice ao marido, explicando-lhe o entrecho do +<em>Trovador</em>, e aguçando-lhe a compuncção nas lamentações finaes da Ponti, +que o commendador denominava uma «comedianta de mão cheia.» O ar de felicidade +que se mutuavam, era o espanto dos observadores, e o castigo da maledicencia +desapontada.</p> + +<p>Seguiu-se um baile. A carta de convite não ficou, d'esta vez, no escriptorio +do commendador. Ludovina primou mais que nunca em enfeites. A inflammação deu +treguas ás entranhas de João José Dias. Era para ver como elle se tornava, +sadio e durazio, aos prazeres do mundo.</p> + +<p>Mas o interior de João José? Era um incendio para que a philosophia humana +não inventou ainda bomba efficaz! Era o inferno do mouro de Veneza chorriscando +aquelle humano torresmo!</p> + +<p>Que via elle para se moer assim? Nada. Ludovina nem, sequer, dançava já +danças de roda, de contacto, de aperto, e raras contradanças acceitava. Os +cavalheiros, que se avizinhavam d'ella, com liberdade, eram os amigos de seu +pae, ou de seu marido. Os outros, repellidos<span class="pn">{82}</span> pela +sisudez e gravidade com que os ella recebia, denominavam-na uma virtuosa +grosseira, e apostavam que andava alli influencia de capellão incognito.</p> + +<p>Que sandeus ciumes, eram, pois, os do commendador, que a fortuna poupava á +sorte de pessoas tão conspicuas, e bem ageitadas de corpo e alma?</p> + +<p>Batei n'esta sáphara, entendedores do coração humano, esmerilhadores do +intimo dos <em>predestinados</em> e <em>minothauros</em> e <em>Sganarellos</em> +ao alcance da sciencia humana.</p> + +<p>Cançar-vos-heis sem achar a razão da cousa. O axioma foi proferido ha quatro +annos, e já tem tres edições com esta:</p> + +<p> </p> + +<p><em>Ha maridos que não desconfiam das mulheres; mas não vão aos bailes, para +que os outros não desconfiem.</em></p> + +<p><em>O commendador</em> J<small>OÃO </small>J<small>OSÉ +</small>D<small>IAS</small> <em>(passim)</em>.<span class="pn">{83}</span></p> + +<h1>VIII</h1> + +<p>Raivando contra si proprio, o barão de Celorico...</p> + +<p><em>O barão de Celorico!</em> Personagem novo no conto?</p> + +<p>Novo! pois eu não disse já que João José Dias dera cinco mil cruzados ás +urgencias do Estado, e seiscentos mil réis ao official maior da secretaria onde +se fabricam os barões, e cincoenta moedas ao agente secreto das urgencias do +Estado, e das urgencias dos estadistas?</p> + +<p>Se não lêram isto já, perderam-se na typographia quatro tiras de composição +a mais rendilhada a buril classico, a mais puritana de linguagem, com recheio +de idéas substanciosas, e gordura de pensamentos!</p> + +<p>Finalisava o capitulo VII por um baile de regosijo, que o novo titular +estimulado pelo sogro, resolvera dar aos seus collegas, e mais amigos, que o +felicitaram da mercê.</p> + +<p>Esse baile correra amargurado para o barão de Celorico.</p> + +<p>Ao caír da noite, recebera elle uma carta anonyma,<span +class="pn">{84}</span> da qual não pude haver copia, e, podendo inventar uma, +não o faço, que m'o veda o proposito de fidelidade.</p> + +<p>É certo, porém, que o contheudo d'essa carta entendia com Ludovina, meiga +creatura, organisação melindrosa, que tanto a pesar meu hei de nomear baroneza +de Celorico.</p> + +<p>Não se póde aferir o grau de calumnia d'essa carta pelas carantonhas do +barão, que a lia. Em carantonha perenne estava elle sempre, lastimoso +Amphitryão, desde que a sombra de um Jupiter de casaca lhe assombrava os +encantos da innocente Alcmena. Qual seria o espirito rasteiro que se quizesse +vasar nas fórmas de João José para enganar-lhe a esposa? Esta pergunta faço-a +aos que leram Plauto, Molière, e Camões. Nem ella, com tantos mimos e promessas +de delicias, vos faria a vós, leitores sedentos, acceitar a transfiguração +hedionda.</p> + +<p>O barão tragou a affronta em quanto o bojo o comportava; depois, rebentou, +chamando a sogra ao mais escuro do palacete, e dando-lhe a ler a torpe carta. +</p> + +<p>D. Angelica disse conhecer a mal disfarçada letra de Ricardo de Sá; +convenceu-o de que o despeito de uma alma vil devia vir áquella infamia; +appellou da calumnia para a consciencia do barão; obrigou-o a confessar que +nunca sua mulher saíra de casa sem elle; fez, finalmente, resolver o +pestilencial tumor que ameaçava, n'aquella noite, uma supuração escandalosa. +</p> + +<p>Raivando contra si proprio, (cá estamos na cabeça do capitulo) o barão de +Celorico, não podia transigir com<span class="pn">{85}</span> as razões da +sogra. Terminado o baile, duas ou tres vezes amaxucára a carta na mão convulsa, +para a lançar ao toucador de Ludovina, que desenfeitava as tranças e o pescoço. +</p> + +<p>—Que tens, meu amiguinho?—disse ella, que o vira, no espelho, +fazendo esgares com os beiços—parece-me que está agitado!</p> + +<p>«Estou bom, muito obrigado, estou como se quer.</p> + +<p>—Que modo é esse de responder?—tornou ella, voltando-se de +subito para o barão, que passeava, ou antes se rolava de parede a parede com +achavascada impetuosidade.</p> + +<p>«Está bom; deixe-me, que eu não estou bom, e qualquer dia dou um estoiro +como uma castanha.</p> + +<p>—O senhor está disparatando! explique-se.</p> + +<p>«Foi o diabo o nosso casamento, sr.ª D. Ludovina.</p> + +<p>—Nada de exclamações; clareza e franqueza, meu amigo! Que é isso?</p> + +<p>«É os meus peccados; é o que eu lhe tenho dito duzentas vezes, e a senhora +não quer crer que a sociedade do Porto está corrompida, e quem aqui estiver não +póde dar boa conta de si.</p> + +<p>—Vamos aos factos; applique... diga a que vem isso?</p> + +<p>«Ahi tem o que é.</p> + +<p>E arremeçou-lhe ao regaço a carta amarfanhada, que parecia uma pela.</p> + +<p>A baroneza abriu-a serenamente, amaciou-lhe os vincos, e leu, sem signal de +inquietar-se.<span class="pn">{86}</span></p> + +<p>«Diz-se aqui que eu tenho um amante—disse ella sorrindo—que se +corresponde comigo. O senhor crê isto? Responda, senhor; crê que eu tenho um +amante?</p> + +<p>—Não, senhora; mas, pelos modos, dizem-no, e a minha honra soffre com +isso. </p> + +<p>«Como soffreria com a verdade do aviso?</p> + +<p>—Que é? não entendi.</p> + +<p>«Se as suas suspeitas condissessem com este aviso, não soffreria mais?</p> + +<p>—Matava-a, sr.ª D. Ludovina, dou-lhe a minha palavra de honrado, que a +matava, e tiraria os figados pela bôca ao proprio diabo do inferno, e tinha +alma de metter uma faca no peito para morrer ao pé de si!</p> + +<p>Esta rajada sacudiu todas as fibras bambas do barão. Não teve remedio se não +sentar-se, a resumar camarinhas de suor, impando, e arfando como folle de +forja.</p> + +<p>Ludovina, mais assustada que compadecida, tomou-lhe a mão, e com a outra +enxugou-lhe a face.</p> + +<p>«Soffre porque me não ama, porque me não crê...—disse ella.</p> + +<p>—Não faças caso d'isto, não é nada... não é nada—regougou +elle.</p> + +<p>«Seja superior aos infames que nos invejam, meu amigo. Não lhes dê o prazer +da vingança. A pessoa que lhe escreve, é um miseravel inferior ao meu desprezo. +</p> + +<p>—Já sei tudo... não falemos n'isso mais. Deite-se, que eu preciso de +tomar ar.</p> + +<p>«Onde vae?</p> + +<p>—Vou ao jardim.<span class="pn">{87}</span></p> + +<p>«Eu vou comsigo... espere um bocadinho.</p> + +<p>—Não venhas cá, deita-te, que está fria a madrugada.</p> + +<p>Foi.</p> + +<p>Eram tres horas e meia da manhã. As trevas descondensavam-se. A nebrina do +mar serpenteava por entre as ribas marginaes do Douro. O clarão da lua ia-se +descórando ao arraiar do crepusculo. Era a hora menos poetica das vinte e +quatro da rotação d'este planeta, onde ás tres horas e meia da manhã, dorme +toda a gente que tem juizo, e sabe um pouco de hygiene.</p> + +<p>O barão de Celorico não dava fé das bellezas matutinas que o rodeavam. +Atravessou, sorvendo haustos de ar fresco, o passeio central do seu jardim, até +parar no muro, que o extremava de outra rua. Esta rua é justamente aquella por +onde vimos passar Francisco Nunes, raivando imprecações garrafaes contra o +charuto incombustivel. N'esse muro havia uma gradaria de ferro, e portadas +interiores. O barão abriu machinalmente a janella, e viu approximar-se d'ella +um vulto embuçado, que lhe disse:</p> + +<p>—Cuidei que tinhas adormecido! que demora foi essa?</p> + +<p>—O que é?—exclamou o barão atordoado.</p> + +<p>O vulto coseu-se com a parede, e, a passo rapido, desappareceu na meia +escuridão.</p> + +<p>Longo tempo, agarrado ás grades, o barão de Celorico, parecia ter perdido a +memoria, a sensibilidade, o senso intimo. A patrulha, que recolhia ao quartel, +vendo<span class="pn">{88}</span> aquelle immovel espectaculo, através das +grades, imaginou primeiro seria estatua do jardim; reparando attentivamente, +ouviu o sussurro da respiração cavernosa, e decidiu que estava alli um homem. +</p> + +<p>—Olá!—disse um soldado.</p> + +<p>«Que é?—respondeu o barão, espertando da lethargia.</p> + +<p>—É d'ahi d'essa casa?</p> + +<p>«Sou o dono d'ella.</p> + +<p>—Então perdoará. Fizemos esta pergunta, porque ha de haver cinco dias +que vimos saír ás quatro horas da manhã um encapotado d'aquella porta que alli +está abaixo, chamamo'-lo, elle deu á canella, e sumiu-se-nos lá em baixo na +travessa.</p> + +<p>«D'esta porta que está na parede d'este jardim?—exclamou o barão.</p> + +<p>—É como diz.</p> + +<p>«A que horas?</p> + +<p>—A estas horas, pouco mais ou menos.</p> + +<p>«Um homem de capote?</p> + +<p>—Tal e qual.</p> + +<p>«E não viram mais ninguem?</p> + +<p>—Parece-me que vi ahi n'essa grade uma figura de mulher, com lenço +branco na cabeça.</p> + +<p>«Obrigado, camaradas, muito obrigado, e boas noites.</p> + +<p>O barão arremessou as portadas, e, levando as mãos á cabeça, atirou-se com +brutal frenesi a um banco de pedra. Ao tempo que cáe em cheio, vê ao pé de si +um objecto escuro. Apalpa, repara, examina: era o projectil<span +class="pn">{89}</span> fatal do charuto que Francisco Ennes, na vespera, +arrojára para dentro.</p> + +<p>O barão contempla o charuto na mão convulsa, e desentranha um rugido +fremente, apertando-a, rábido e sanhudo.</p> + +<p>—Eis a prova da minha deshonra!—exclama, e ergue-se vacillante e +cambaio. Entra em casa, e vê correr um vulto de mulher através de um passadiço. +Corre impetuoso, e já o não alcança. Tresvariando, grita que ha ladroes em +casa. Affluem os creados, buscam e rebuscam todos os cantos inutilmente. +Ludovina e sua mãe acodem espavoridas, e encontram o barão, debatendo-se nos +braços de dois creados, com um ataque de nervos. Ministram-lhe soccorros, +conduzem-n'o á cama, querem vêr o que elle fecha na mão direita, e podem apenas +lobrigar a ponta queimada de um charuto. Ludovina inquire com meiguice e pena o +que é aquillo, e o desgraçado, maior e mais eloquente na sua angustia, +responde:</p> + +<p>«É a nossa morte!</p> + +<p>Instam na explicação das respostas, e elle troveja:</p> + +<p>—Não quero aqui ninguem!</p> + +<p>Pasmam; e retiram-se, atemorisados.</p> + +<p>«Estará elle doudo, meu pae?—dizia a baroneza, tremula de medo, +apoiando-se nos braços do espavorido Melchior.</p> + +<p>—Parece que sim, minha filha. Chamem-se medicos já. Este homem deve +ter demasiado sangue. É ameaça de doudice, não póde ser outra cousa.<span +class="pn">{90}</span> «Que sorte a minha!—disse Ludovina lagrimosa. E +foi para o pé do leito de seu marido.</p> + +<p> </p> +<hr style="width: 30%;"> + +<p> </p> + +<p>—Se se verificar a demencia—dizia Melchior a D. Angelica, de +modo que só todos nós pudemos ouvir—a administração da casa passa +immediatamente para Ludovina, e Rilhafolles com elle. Este homem saíu muito +outro do que eu imaginava. Ainda me não disse que deixasse o logar da +alfandega, nem me offereceu um emprestimo com que eu possa tentar demanda +contra os possuidores da minha casa. Tenho remorsos de ter dado a este alarve +uma creatura tão perfeita como a nossa Ludovina!</p> + +<p>D. Angelica não respondeu.</p> + +<p>«Ainda te doe a cabeça, Angelica?</p> + +<p>—Bastante.</p> + +<p>«Já estavas a dormir, quando o barão gritou?</p> + +<p>—Dormitava.</p> + +<p>«Mas eu fui ao teu quarto, e já te não encontrei lá!</p> + +<p>—Tinha corrido sobresaltada.</p> + +<p>«Então pelo que eu vejo tinhas-te deitado vestida...</p> + +<p>—É verdade, nem forças tive para desapertar os colchetes.</p> + +<p>«Porque me não chamaste, filha?</p> + +<p>—Não quiz incommodar-te.</p> + +<p>«Ora essa!...</p> + +<p>—Até logo, filho, vou ver se descanço um instante<span +class="pn">{91}</span></p> + +<p>«Vae, vae, menina.</p> + +<hr class="dotted"> + +<hr class="dotted"> + +<hr class="dotted"> + +<p>Ha reticencias que não dizem nada.</p> + +<p>A litteratura merceeira, para justificar o adjectivo, inventou as carreiras +de reticencias, as quaes correspondem aos pesos roubados da mercearia.</p> + +<p>Eu abri loja, e vou com os outros.</p> + +<p>Não me entrem, pois, a desconfiar que os pontinhos juntos fazem borrão +n'este painel de bons costumes.</p> + +<p>A sr.ª D. Angelica é excellente mãe, no meu conceito; e, no conceito do sr. +Melchior Pimenta, é excellente esposa.</p> + +<p>Póde morrer, que o necrologio já não coxeia.<span +class="pn">{92}<br>{93}</span></p> + +<p> </p> + +<h1>IX</h1> + +<p>Não averiguei miudamente o que disse Ludovina a seu marido. Um dos dois +medicos chamados ás sete horas da manhã para examinarem a supposta demencia, a +pedido do Melchior Pimenta, disse-me que encontrára o barão febricitante, mas +sem o menor suspeito symptoma de loucura. Accrescentou que o enfermo lhes +dissera, que bebessem elles a tizana que receitaram; e lhes mandára pagar a +visita, com recommendação de o darem por curado.</p> + +<p>Ás nove horas já o barão tinha sahido, sem dizer a Ludovina o seu destino, +nem acceitar o almoço.</p> + +<p>Saíra pela porta principal, e entrára na rua para onde olhava a janella do +jardim. Em frente d'essa janella, na margem esquerda da rua, estava com +escriptos uma casa terrea. O barão perguntou, na vizinhança, quem era o +proprietario da casinha, encontrou-o perto, alugou, pagou a casa, e recebeu a +chave.</p> + +<p>D'alli foi ao largo de S. Bento. Entrou n'uma loja de<span +class="pn">{94}</span> ferragem, e comprou uma clavina trochada, e um par de +pistolas de coldres; e, n'outra parte, as munições de fogo.</p> + +<p>Tornou a casa ao meio dia, pediu o almoço, e comeu á tripa fôrra. A +baroneza, e D. Angelica assistiram ao almoço, e não conseguiram arrancar-lhe +tres palavras. Quem o servia era o negro, que o acompanhára do Rio, e o adorava +com o fervor nativo da sua raça. O barão chamou-o no fim do almoço, e disse em +segredo:</p> + +<p>«Esta chave é d'aquella casa baixa que tem o numero doze, defronte da +janella do jardim. Vae á loja de ferragem no largo de S. Bento, com este +bilhete. Hão-de entregar-te umas armas, e um embrulho. Pega em tudo isso, de +modo que ninguem cá de casa te veja, fecha-o no tal casebre, e entrega-me a +chave depois.</p> + +<p>O barão foi passear no jardim, e recolheu o seu espirito em meditabundas +reflexões.</p> + +<p>Poucos dias antes, tinha elle ouvido uma historia que toda a gente sabe. Era +aquelle conto de uma mulher adultera, que o marido inexoravel matára sem pau +nem pedra, pondo-lhe diante dos olhos uma moeda de prata ao almoço, ao jantar, +á cêa, a toda a hora, em todas as situações, até que a matou. Esta historia +entalhára-se na memoria do barão com indeleveis traços. Contou-a a sua sogra, +que a classificou de indecente para se dizer a senhoras. Contou-a a sua mulher, +que não desculpou a victima, mas reprovou a fereza do verdugo. João José Dias +fez a apologia do verdugo, e disse que «a honra de um homem só assim se +vingava.» Ludovina fitou-o<span class="pn">{95}</span> com espanto, e acreditou +que o ciume seria capaz de desenvolver os instinctos ferozes de seu marido.</p> + +<p>Era aquella historia o ponto convergente das meditações que o +reconcentraram, por espaço de tres horas. D'esta longa e dolorosa encubação do +pensamento deve-se esperar um parto, um monstro, uma façanha, mais ou menos +plagiaria, da medonha expiação da adultera.</p> + +<p>Chamaram-n'o para jantar: disse que jantaria em mesa á parte com sua mulher. +Desceu ao jardim a baroneza, e perguntou-lhe a causa de tal exquisitice.</p> + +<p>—Não dou satisfações—respondeu—Quero jantar, e almoçar +sósinho comsigo. </p> + +<p>—Isso é o mesmo que...</p> + +<p>—Não me replique! tenho dito.</p> + +<p>Fazia medo a cara do homem. Esverdinharam-se os refegos da papeira; as +ventas fumegavam soluçando; testa e palpebras, tinham o escarlate da penca do +perú assanhado.</p> + +<p>Ludovina estava atterrada, e julgou-se em risco, ali, sósinha. Recuára para +se evadir com dignidade, honrando a retirada, quando o barão lhe disse:</p> + +<p>—Olhe, senhora!</p> + +<p>A baroneza voltou-se, e viu o braço do barão erguido em attitude prophetica; +e lá em cima no cucuruto da mão cebácea... o <small>CHARUTO</small>!...</p> + +<p>—Que é isso?!—perguntou ella com mais curiosidade que +espanto.</p> + +<p>—Não sabe o que isto é? chegue-se cá!</p> + +<p>Ludovina, indo receosa, disse:<span class="pn">{96}</span></p> + +<p>—É um charuto... pois não é?!</p> + +<p>—É um charuto! é um charuto! mulher traidora!—ululou o +bordalengo com a grenha irriçada.</p> + +<p>Ludovina recuou tres passos, tolhida de medo. O barão crescia sobre ella, +com o braço no ar, arvorando o charuto. A pobre menina temeu as furias de um +doudo, e chamou com afflictivo grito a mãe.</p> + +<p>Acudiu D. Angelica, já quando o barão, mettendo as mãos nas portinholas da +japona, á laia de idolo chinez, voltava as costas a sua mulher.</p> + +<p>—Isto que é?!—exclamou D. Angelica.</p> + +<p>—Está doudo rematado, minha mãe!—disse, a meia voz, a +baroneza.</p> + +<p>—Vae-se chamar teu pae, que chegou agora. Nós não podemos viver com um +demente...</p> + +<p>—Janta-se, ou não se janta?—disse o barão, caminhando para ellas +com socegado semblante.</p> + +<p>—Que desordem foi esta, sr. barão?</p> + +<p>—Desordem! ora essa é fresca! Aqui, que eu saiba, não houve desordem +nenhuma... Foi sua filha que viu uma cousa que a fez gritar... A culpa é +d'ella.</p> + +<p>—Que viste, Ludovina?</p> + +<p>—Eu vi um charuto na mão d'este senhor; mas gritei porque elle me deu +berros medonhos, e correu para mim com ares ameaçadores.</p> + +<p>—Deixe-a falar, sr.ª D. Angelica—replicou o barão, sorrindo de +um modo que confirmava a demencia—A cousa é outra... Vamos jantar, e, se +minha mulher tem medo de mim, jantaremos todos juntos á mesma mesa.<span +class="pn">{97}</span> </p> + +<p>Melchior Pimenta, informado da desordem, foi ao encontro do grupo que +entrava em casa. D. Angelica, com um só dedo, fez-lhe dois gestos: um ao longo +do nariz, para que se calasse, outro no centro da testa, para que as protegesse +de um doudo furioso.</p> + +<p>Sentaram-se á mesa, espionando os menores movimentos do barão. Viram-no +tirar a mão da algibeira, extender o braço por sobre a mesa, e deixar caír, ao +pé do prato da baroneza o charuto.</p> + +<p>Ludovina lançou-o ao chão com a faca, dizendo:</p> + +<p>—Olhem que porcaria!—E voltando-se para o creado que servia a +sôpa:</p> + +<p>—Atire isto lá fóra!</p> + +<p>—Não atires!—bradou o barão.</p> + +<p>—Porque não ha de atirar?!—Disse Melchior Pimenta.</p> + +<p>—Porque não quero! e porque sou dono d'esta casa! e porque quero +despicar a minha honra!... e porque vae tudo com mil diabos, ouviu?</p> + +<p>Os talheres, os calices, as bandejas, e os pratos, resaltaram duas +pollegadas acima da superficie: tamanho fôra o murro que o barão baixára sobre +a mesa.</p> + +<p>Ergueram-se todos. D. Ludovina fugiu por uma porta; D. Angelica por outra; +Melchior Pimenta, enfiado, amarello, sem gota de sangue, antevendo um violento +embate na sua cara com a terrina, seguiu a mulher, colorindo a retirada com a +prudencia.</p> + +<p>O barão embolsou o charuto, chamou o preto, e disse-lhe:<span +class="pn">{98}</span></p> + +<p>—Senta-te ahi, Simão; janta ao pé de mim, que és o unico amigo que eu +tenho.</p> + +<p>Ha, n'este lance, motivo para nos condoermos.</p> + +<p>O barão não come, apesar do esforço. O bocado entala-se-lhe na garganta, +comprimida pelos soluços. Depõe o garfo, e descáe o rosto, coberto de lagrimas, +sobre as mãos. O preto, que não ousára sentar-se, vendo chorar o amo, cujo pão +comera em liberdade, no espaço de vinte annos, chora tambem, e pergunta a medo +a causa d'aquella afflicção. Responde-lhe em gemidos o bemfeitor, e ergue-se +extenuado, e vacillante, como se os sentidos o desamparassem. O preto quer +conduzi-lo ao quarto; mas o barão, um momento indeciso, pede o chapéo e sae. +</p> + +<p>As angustias d'este homem condemnam Ludovina?</p> + +<p>Não. Ludovina é innocente como os anjos.</p> + +<p>A peçonha mortal, que espedaça o coração d'este homem, tem-na elle na +algibeira: é o charuto de Francisco Nunes.<span class="pn">{99}</span></p> + +<p> </p> + +<h1>X</h1> + +<p>É meia noite e um quarto no relogio da Lapa.</p> + +<p>A casta lua dá a sua luz poetica a muitas impudicicias, e tolera o escandalo +resignada. Casta lhe chamam os poetas, e é bem posto o epitheto. Só ella seria +capaz de manter-se pura com tantos exemplos de corrupção. De mim creio que a +tem salvado a distancia que a separa dos bardos que a namoram; e, se não é a +distancia, é a impertinencia das cartas rimadas que lhe mandam. Muitas +mulheres, menos castas que a lua, teem sido salvas pelo mesmo theor. Os poetas, +que amam em verso, são uns puros desinfectantes da putrida impureza. Se todos +fizessemos versos, e nos amassemos em oitava rima, eu lhes asseguro que este +globo era um viveiro de anjos. A theoria de Hobbes seria uma calumnia, e a de +Maltus um absurdo. Não andariamos travados em permanente lucta, nem a +exuberancia da propagação assustaria os economistas. Havia só o risco de nos +matar a fome; mas cada cysne teria um canto derradeiro com que esforçar a +guerra á prosa que inventou<span class="pn">{100}</span> os cereaes, o boi +cozido, as acções do banco e a troca de um romance por quinhentos réis.</p> + +<p>Isto occorreu naturalmente da castidade da lua.</p> + +<p>Era, pois, meia noite e um quarto no relogio da Lapa, e fazia luar como de +dia.</p> + +<p>Ás dez horas e meia, tinha entrado para a casa numero 12, da rua *** um +vulto sinistramente rebuçado: era o barão de Celorico de Basto. A casa tinha +uma janella tosca de madeira, que se abriu cousa de meio palmo, depois que o +encapotado entrou. De vez em quando, um raio da luz, caíndo sobre a fresta das +duas portadas, resvalava no nariz do barão, dando-lhe o colorido de uma cidra +avelada.</p> + +<p>Soára o quarto depois da meia noite, quando a janella interior da grade do +jardim se abriu cautelosamente.</p> + +<p>Um objecto branco sobresaía na sombra: devia ser o lenço de uma mulher.</p> + +<p>Cinco minutos, depois, n'uma extrema da rua appareceu um vulto encapotado, +que fumava, caminhando cosido com o muro do jardim. A figura da janella +desappareceu, e em seguida ouviu-se o ranger subtil da lingueta de uma chave. +Era a porta do jardim que se abria ao avizinhar-se o vulto.</p> + +<p>A distancia de tres passos da porta, o homem que fumava ouviu o ruido de uma +janella que se abria, e parou, voltando-se para a janella. O que elle viu foi o +lampejo da detonação de um tiro, e levou a mão ao hombro esquerdo. Seguiu-se um +pulo incrivel do barão fóra da janella, a fuga precipitada do vulto, e um +segundo<span class="pn">{101}</span> tiro, que redobrou a força motriz do +fugitivo.</p> + +<p>Apitára uma patrulha ao cabo da rua, duas, tres, vinte patrulhas apitaram. A +cem passos de distancia do local dos tiros, encontraram um homem extendido na +rua, e disseram em voz alta, que o barão ouvira:—parece que está +morto.</p> + +<p>O barão, sem apressar o passo, entrou na porta do muro, e deu volta á chave. +Olhou ao longo do jardim, e viu, por entre as sombras dos arbustos, contiguos á +casa, perpassar um vulto, e sumir-se.</p> + +<p>Abriu-se outra vez a janella da grade, ao tempo que as janellas das casinhas +fronteiras se abriam. Alguns soldados perguntavam onde se deram os tiros. +Respondiam unanimemente que foram dados alli, e mostrava-se uma bucha ainda +fumegando, no meio da rua.</p> + +<p>—Quem está ahi n'essa janella?—bradou um soldado ao barão, que +estivera calado.</p> + +<p>—Sou eu, sou o dono d'esta casa.</p> + +<p>—E quem é o senhor?</p> + +<p>—É o senhor barão—responderam os vizinhos.—Não, d'alli de +certo não foi. </p> + +<p>—Os tiros?—perguntou o barão.</p> + +<p>—Sim, senhor, dois tiros que se deram aqui agora.</p> + +<p>—Eu tambem, os ouvi, e por isso cá vim. Mataram alguem, ou foi +patuscada? </p> + +<p>—Não foi má a patuscada! Está alli adiante um sujeito extendido nas +pedras, e, se não está morto, pouco lhe falta.</p> + +<p>—Quem é? conhecem?<span class="pn">{102}</span></p> + +<p>—Estão lá dois camaradas que o conhecem. Dizem que é um doutor de uma +casa rica, chamado... lembras-te, 38?</p> + +<p>—Acho que elle disse... Almeida.</p> + +<p>—É isso, Almeida. O sr. barão conhece-o?</p> + +<p>—Não me lembro d'esse nome. Elle ainda lá está? Eu vou lá ver se o +conheço...</p> + +<p>O barão seguiu a patrulha, até parar n'um grupo de soldados e paizanos, que +rodeavam uma cadeira, onde estava assentado o ferido. Era coragem de cynico, ou +desatino de demente? Mais que tudo isso: era o ciume!</p> + +<p>—Eu conheço este sujeito—disse o barão com admiravel +placidez.—E elle tambem me ha de conhecer, se estiver vivo. Olé, sr. +doutor! Está aqui o barão de Celorico, conhece-me?</p> + +<p>O ferido abriu a custo os olhos, e fez um aceno affirmativo,</p> + +<p>—Eu offerecia-lhe a minha casa, mas a d'elle é perto d'aqui, acho +eu.</p> + +<p>—Nós sabemos—disseram os soldados.</p> + +<p>—Pobre homem!—proseguiu o barão em tom compadecido.—Ainda +a noite passada elle esteve n'um baile que eu dei...</p> + +<p>Agglomeravam-se na rua os curiosos, quando o barão entrou em casa. Não ouviu +o mais leve rumor. Entrou no quarto de sua mulher, e viu-a dormindo.</p> + +<p>Parou ao pé do leito, e vascolejou nas mandibulas, alvares uma gargalhada +estrondosa. A baroneza acordou,<span class="pn">{103}</span> sentou-se no leito +estremunhada sem saber o que ouvira, nem o que via.</p> + +<p>O barão tirou da algibeira o charuto, chegou-lh'o ao pé dos olhos, e bradou: +</p> + +<p>—O tal patife não fuma outro.</p> + +<p>—Que diz?—exclamou Ludovina.</p> + +<p>—Faz-te de novas, mulher perdida! resa-lhe por alma, que a minha honra +está vingada. Agora que digam o que quizerem.</p> + +<p>E saíu do quarto, deixando apavorada a pobre senhora, que o julgou n'um +terceiro ataque de loucura.</p> + +<p>Ludovina vestiu-se apressadamente, e correu ao quarto da mãe.</p> + +<p>Encontrou-a vestida, prostrada sobre o tapete do guarda cama, com a face +caída sobre os degraus do leito. Ajoelhou ao pé d'ella, chamou-a, ergueu-a, +agitou-a com a força da afflicção, e caíu com ella sobre a cama.</p> + +<p>D. Angelica abriu os olhos pavidos, e vendo a filha, escondeu a face nas +mãos, exclamando:</p> + +<p>—Jesus, meu Deus!</p> + +<p>—Que teve, mãesinha, isto que foi</p> + +<p>—Nada, infeliz; foi um accidente...</p> + +<p>—Por causa dos meus desgostos? ouviu o que aquelle homem me disse?</p> + +<p>—Não, minha pobre martyr... imagino o que te diria... Oh... deixa-me +ver se consigo chorar, senão estalo... mas não chores tu, filha, não quero que +nos ouçam... É preciso que eu te salve, antes que a morte me leve com o encargo +da tua reputação infamada...<span class="pn">{104}</span></p> + +<p>—Eu não a entendo, minha mãe!</p> + +<p>—Não pódes entender-me, Ludovina, não pódes... ai! deixa-me respirar, +que eu não vivo uma hora assim...</p> + +<p>A baroneza amparou a mãe até á janella, que abriu. D. Angelica rasgava com +as mãos os espartilhos compressores do collete, e fincava entre os cabellos os +dedos com vertiginoso desespero. N'este frenesi, susteve-se, comprimindo a +respiração, para escutar as vozes que vinham da rua contigua ao muro do jardim. +</p> + +<p>Uma dizia:</p> + +<p>—Ia morto.</p> + +<p>Outra:</p> + +<p>—A bala entrou-lhe no peito.</p> + +<p>Outra:</p> + +<p>—Pobre familia, que bocado tão amargo!</p> + +<p>—Aquillo que é?—perguntou D. Angelica espavorida.</p> + +<p>—Eu não sei, mãe!</p> + +<p>—Esse malvado que te disse?</p> + +<p>—Chamou-me mulher perdida; mostrou-me o charuto, dizendo que o patife +não fumava outro; e que lhe resasse por alma...</p> + +<p>D. Angelica expediu um grito, um ai vibrante, de uns que o seio arremessa de +si, como se n'esse esforço expellisse um espinho arrancado ao coração.</p> + +<p>Ao grito de Angelica succedeu o terror confuso de Ludovina.</p> + +<p>N'este intervallo de silencio a lastimavel mãe concebeu<span +class="pn">{105}</span> um designio atroz. Deu um salto para precipitar-se da +janella, e achou-se travada nos braços da filha, que pedia soccorro, a altos +brados, repuxando-a para o interior do quarto, com a força miraculosa da +angustia.</p> + +<p>Ouviram-se passos no corredor. Ludovina exclamou:</p> + +<p>—Entre quem é.</p> + +<p>Abriu-se a porta, e surgiu o barão.</p> + +<p>D. Angelica lançou-lhe um olhar torvo, e fulminante; fugiu, de um repellão, +aos braços da filha; correu para elle com a sanha de uma possessa, e atirou-o +fóra do quarto com o choque dos punhos furiosos, exclamando:</p> + +<p>«Assassino! assassino!</p> + +<p>Ninguem me soube dizer a qual genero do sublime truanesco pertencia, n'este +conflicto, o barão de Celorico. Eu tambem me não cancei em averiguações, porque +o resultado d'ellas seria sujar com salmouras despicientes um quadro de +angustias, que não é novo na vida, mas afouto-me a dize'-lo que é novo no +romance. Melchior Pimenta não apparecia, sendo o seu quarto paredes meias com o +de sua mulher. Deliciava-se nas profundezas de um somno do qual só podia +emergir, quando a ultima molecula de tres grãos de morphina se perdesse através +dos philtros nervosos. O dormir do somnolento empregado da alfandega explica-se +com as vigilias aturadas de D. Angelica. Vá sem reticencias.</p> + +<p>Para nós é mais comprehensivel o espanto da baroneza do que estava sendo +para ella o desespero de sua mãe. Se a pobre senhora suspeitasse que a demencia +do marido era contagiosa; tinha desculpa. Tamanha afflição,<span +class="pn">{106}</span> descompostura tal de contorsões, de gemidos, de +arremessos para a janella, chamando a morte, não podia ser procedente do amor +maternal exaltado até á ira da leôa.</p> + +<p>Ludovina ajuizava assim; mas não atinava com a razão possivel de effeitos +tão extraordinarios no caracter inalteravel, e quasi duro de sua mãe.</p> + +<p>Instava, supplicando-lhe o desafogo da sua agonia. D. Angelica apertava-a +contra o seio com arrebatada e insolita ternura. Promettia dizer-lhe tudo, +quando pudesse falar, na certeza de que a sua ultima palavra fosse um adeus a +este mundo, e uma confissão de que dependia o credito de sua filha.</p> + +<p>Foi um raio de luz para Ludovina estas palavras, cortadas por gemidos; esse +raio de luz, porém, queimou-lhe o coração. Se Angelica reparasse na pallidez da +filha, demasiado castigo seria da sua falta essa mudança. A parte da sua dôr, +que até alli fôra remorso, seria depois vergonha, e vergonha de sua filha, +tortura mil vezes mais pungente que a mordedura do remorso para a que soube ser +mãe, e affrontou os deveres de esposa.</p> + +<p>A baroneza mudou de semblante e de carinho, sentiu-se gelada e inerte ao pé +da mãe, logo que meia luz do enygma lhe aclarou o entendimento.</p> + +<p>«A mãe precisa descançar—disse ella com affectado gesto de +carinho—Deite-se, que eu ajudo-a a despir-se, e ficarei ao pé da sua +cama.</p> + +<p>—Não, filha; eu não tenho descanço n'este mundo, nem no outro. Se +ainda tenho algum direito á tua obediencia,<span class="pn">{107}</span> +deixa-me só; preciso de chorar lagrimas que nunca Deus permitta o teu coração +as chore. Não pódes respeitar esta agonia, porque não a comprehendes, innocente +martyr. Se soubesses... poderias abominar-me agora, para te compadeceres +depois.</p> + +<p>«Sei, mãe.</p> + +<p>—Que sabes tu, Ludovina?! exclamou Angelica, abraçando-a +convulsivamente. </p> + +<p>«O meu silencio responde-lhe, mãe... Não soffra pela minha deshonra. Deus +sabe tudo; não me importa o mundo; a Providencia fará vêr a verdade a meu +marido, sem que o nome de minha mãe seja sacrificado. Cale-se, por quem é. Não +diga nada ao barão, e poupe meu pae. Eu sinto-me com forças para não vergar a +um peso de infamação que me não cáe sobre a consciencia. Se o meu amor a póde +consolar, não diga o seu segredo a ninguem; não diga porque eu não sei qual dos +dois descreditos é mais afflictivo para mim...</p> + +<p>D. Angelica resvalou dos braços da filha, querendo ajoelhar-se-lhe aos pés. +</p> + +<p>Ludovina ajoelhou com ella, e n'este momento abriu-se a porta.</p> + +<p>Era o barão de Celorico.</p> + +<p>—Ouvi tudo—exclamou elle—Perdôa-me, Ludovina, pelas cinco +chagas de Christo. E foge d'essa mulher, que é a causa de eu ser um matador.</p> + +<p>—Tem razão; vae, minha filha—disse D. Angelica, afastando-a de +si.</p> + +<p>—Sr. barão—disse Ludovina—eu não deixo uma mãe<span +class="pn">{108}</span> culpada para seguir um assassino. Saia da minha +presença, que o detesto. Apenas romper a manhã, deixo esta casa, deixo-lh'a +para que o senhor caiba n'ella com o seu remorso. Matou um homem, sr. barão, um +homem que não conhecia; matou-o a sangue frio, e será capaz de praticar uma +crueldade menor matando-me a mim.</p> + +<p>D. Angelica arrancou-se aos braços da filha com furioso impeto, e postou-se +terrivel diante do barão, exclamando com uma toada de voz soturna e tremula: +</p> + +<p>—Com que direito assassinou um homem, scelerado, carniceiro?</p> + +<p>O barão tremeu, recuou, e pendeu o queixo inferior relaxado pelo espasmo. +</p> + +<p>—Responda á amante do homem que matou; á mulher que acceita +voluntariamente a infamia da sua culpa, para ter o direito de pedir contas ao +assassino de Antonio d'Almeida. Querias, com essas mãos tintas de sangue, tocar +em minha filha, miseravel algoz, que és tão estupido como sanguinario!</p> + +<p>Ludovina, cingindo a cintura da mãe, arrastou-a para longe do barão, que +parecia, ao passo que ella falava, ir-se petrificando.</p> + +<p>A vehemencia da ira decaíu subitamente em syncope. D. Angelica encostou a +face desfallecida ao seio da filha, que a levantou nos braços, e deitou no +leito.</p> + +<p>E voltando-se para o miserando homem, cujo rosto confrangido accusava os +pungimentos do remorso, a baroneza, em tom de cólera mal reprimida, disse:</p> + +<p>—O senhor não ha de ser mais feliz que as pessoas<span +class="pn">{109}</span> a quem deu a morte, e a eterna vida de lagrimas. +Pediu-me perdão? eu já lhe havia perdoado as suspeitas, as desconfianças, os +insultos, as vergonhas a que hontem me expoz na presença dos seus creados. Tudo +lhe perdoei, em quanto o suppuz demente; hoje, que o considero um criminoso de +morte, e que não tenho quem me defenda das suas mãos póde matar-me, que o não +chamarei á presença de Deus para ser julgado.</p> + +<p>—Ludovina—balbuciou o barão, com o rosto coberto de +lagrimas—eu matei esse homem cuidando que era elle o teu amante...</p> + +<p>—Era a mim que devia matar-me, senhor.</p> + +<p>—Não podia ainda que quizesse, porque a minha tenção era matar-me e +deixar-te viva, para que tu ao menos te lembrasses de mim com pena, quando já +me não visses n'este mundo. Esse homem ainda não morreu, Ludovina; póde ser que +se cure, e eu vou-me ajoelhar aos pés d'elle a pedir-lhe perdão, e, se tu +quizeres, pedirei tambem perdão a tua mãe.</p> + +<p>—Não fale n'essa infeliz a ninguem, snr. Dias, a ninguem. Aqui a +deshonrada sou eu. Se o descobrirem como assassino de Antonio de Almeida, diga, +se quer que eu o não amaldiçôe, diga que esse homem era o meu amante; mas não +fale em minha pobre mãe...</p> + +<p>«Que dizes tu, Ludovina? Pois tu queres que se diga que eu fui deshonrado +por ti?</p> + +<p>—Deshonrado está o senhor, desde já, desde que matou, ou quiz matar +por uma suspeita um vulto desconhecido...<span class="pn">{110}</span></p> + +<p>«Elle vinha entrando para o jardim, Ludovina, e tua mãe estava na janella... +</p> + +<p>—Cale-se! isso é mentira! minha mãe estava deitada na sua cama...</p> + +<p>«Não estava, Ludovina...</p> + +<p>—Estava, snr. Dias; não me contradiga, que eu juro contra as suas +palavras em toda a parte.</p> + +<p>«Então quem estava na janella, senão tua mãe?</p> + +<p>—Era eu; já lhe disse que a deshonrada sou eu; esse homem que matou +era o meu amante; sabe-o todo o mundo; sabia-o o senhor quando o matou; sou eu +a causa de meu amante ser um cadaver, e meu marido um assassino. Sou, portanto, +uma infame mulher que deve saír debaixo d'estas telhas. Ámanhã, ámanhã ha de +fazer-se uma separação eterna entre nós. A sua honra fica assim completamente +desaffrontada. Todos dirão que meu marido me expulsou com a ponta do pé de sua +casa. Todos hão de admirar os brios do snr. barão que matou o rival, e não +desceu á cobardia de matar uma mulher... Esta resolução é inalteravel; +acabou-se tudo entre nós, menos a vergonha, a infamia, o escandalo que vae +fazer dos nossos nomes um espectaculo para a irrisão de uns, e para a piedade +de outros. Eis aqui a sua obra; a mim, como sua mulher, compete-me acceitar +metade da responsabilidade...</p> + +<p>D. Angelica sentou-se no leito, afastou, como em delirio, os cabellos que +lhe cobriam as faces, e pediu uma gota d'agua, com supplicante instancia, +proferindo os nomes das creadas da casa. Ludovina ministrava-lhe a<span +class="pn">{111}</span> agua, que ella repelliu com ira. Permaneceu estarrecida +alguns segundos, com os joelhos a prumo entre as mãos; depois, caíu de chofre +sobre o travesseiro, e murmurou longo tempo palavras inintelligiveis.</p> + +<p>O barão tinha saído imperceptivel. D. Ludovina debruçou-se, debulhada em +lagrimas, sobre o leito.</p> + +<p>Melchior Pimenta, no quarto immediato, espreguiçando-se fazia com os +abrimentos de boca uma toada em falsete, rispida como o uivar do mastim.</p> + +<p>Abençoados quatro grãos de morphina que lhe povoastes o somno de deleitosas +visões!</p> + +<p>Melchior Pimenta, eu, quando quero phantasiar um marido bemaventurado, +lembras-me tu.</p> + +<p>Se vejo algum, desconcertado como as velleidades da metade que se despega, +para entrar como excrescencia no complemento de outras existencias, que se +reputam inteiras, dá-me vontade de lhes perguntar se já experimentaram a +morphina.</p> + +<p>Eu tenho visto a suprema felicidade dos minotauros.</p> + +<p>Havia dois que espiritavam a galhofa de Melchior Pimenta; um, que +repudiando, timbroso e austero, a esposa tentada pela cobra d'este paraizo +terreal, onde as cobras inçam como em matagal bravio, recebe uma carta de dama +d'alta estirpe, onde se lhe censura o burguez despique de peccadilho tão +corrente em gente fina. O marido acceitára a correcção e a mulher incorrigivel. +Melchior ria até caír.</p> + +<p>Outro, amante da paz caseira e fricassés acirrantes, conhece no aspecto +carrancudo da mulher, e no aguado<span class="pn">{112}</span> dos molhos, os +desvios do amante: inventa pretextos para aproxima'-los e ameiga os arrufos com +um jantar campestre.</p> + +<p>Outro... Melchior conhecia outro, e eu conheço-o a elle, e mais dez +exemplares que Brantome não archivou,<a name="tex2html4" +href="#foot486"><sup>[4]</sup></a> todos aporfiando em delicias sublunares.</p> + +<p>Mas o ditosissimo, o que vive e morre sem sentir na consciencia o toque +despertador, o <em>momento</em> da predestinação cumprida, esse é um só no meu +catalogo.</p> + +<p>Melchior Pimenta, se quizeres um dia erigir estatuas aos deuses tutelares da +tua prosperidade, lembra-te de Ludwig que farejou no opio a morphina; de Seguin +que a descreveu; e de Sertuerner que aperfeiçoou o processo da extracção.</p> + +<p>Sem a morphina, não serias mais feliz que Octavio, que Cicero, que +Domiciano, e tantos grandes e sabios do paganismo que podem, sem vergonha, +apparecer diante de outros não menos sabios, e grandes senhores da +christandade.</p> + +<p>Nasceste n'um folle, Melchior Pimenta!<span class="pn">{113}</span></p> + +<p> </p> + +<h1>XI</h1> + +<p>Mulheres são os melhores juizes de mulheres.</p> + +<p>Disseram philosophos e moralistas, uns, grandes santos como S. Paulo, e +outros, grandes atheus como Voltaire, que a mulher é um ser exuberante de +sensibilidade, e apoucado de raciocinio.</p> + +<p>D'ahi vem o denegarem-lhes accesso ás sciencias abstractas, ás politicas, +aos parlamentos, ao magisterio, ás regiões intellectivas do machinismo social, +e mandarem-nas cuidar dos filhos, e fiar na roca.</p> + +<p>Se o absurdo vinga, se, por alvitre grosseiro do mais forte, a mulher é um +ente inepto para exercitar a razão, com que direito as julgamos e sentenciamos, +segundo a razão, sendo as suas culpas demasias de sentimento?</p> + +<p>A injustiça é flagrante e odiosa.</p> + +<p>Privam-nas de razão para as excluirem das funcções que a requerem; +sentenceiam-nas pela razão, se o sentimento, seu dom essencial, as desvia do +piso demarcado por ella.<span class="pn">{114}</span></p> + +<p>Isto é uma tyrannia, uma inquisição, uma crueza turca.</p> + +<p>A mulher não pode ser julgada por nós. Somos os senhores feudaes da razão. A +nossa alçada respira a prepotencia do baraço e cutello. Estamos em insurreição +permanente contra o santissimo apostolado de Jesus, que baixou seu divino braço +por igual sobre o homem e mulher.</p> + +<p>Não podemos superintender no fôro do coração, porque a nossa jurisprudencia +é toda de cabeça, e o nosso codigo em pleitos da alma é estupido ou hypocrita. +</p> + +<p>Quem é o juiz da mulher? O homem que a despenha do abysmo, onde a lançou o +amor, ao abysmo do opprobrio.</p> + +<p>É o homem, que lhe entalha o ferrete da ignominia na face onde imprimira o +beijo da perdição.</p> + +<p>O altar onde se adora uma mulher é ao mesmo tempo a ara onde ella se dá em +holocausto. Peccadora por muito sentir e chorar, amar e crer, quando nos abre +céos e céos de alegria e gloria, abrimos-lhe nós o inferno dos desenganos, e o +supplicio extremo do descredito. O mundo não as exila, mas affronta-as; o +coração não as encrimina, mas agonisa na horrivel soledade para onde a razão o +desterra.</p> + +<p>E somos nós os juizes, porque entramos n'uma herança usurpada pela força +primeiro, e legalisada depois pelo sophisma escripto.</p> + +<p>A mulher foi escrava do braço, antes de o ser da superioridade moral.<span +class="pn">{115}</span></p> + +<p>Quando o homem chamou a sciencia a dar um testemunho falso da sua primazia, +a mulher, quebrantada pela escravidão do braço, não pôde remir-se com as forças +do espirito.</p> + +<p>Ainda assim, o tyranno, receoso da emancipação, fez em redor da escrava as +trevas da ignorancia, para que a razão da mulher não pudesse conceber da luz o +germen que a rehabilitasse.</p> + +<p>Pegou de formosa flor, cercou-a de estevas, cobriu-a de sombras por onde o +sol não podia coar uma restea reanimadora.</p> + +<p>Esta machinação arteira sobreviveu a todas as borrascas sociaes. Os +fautores, e ainda os martyres da egualdade perante Deus e perante a lei, nunca +proferiram uma palavra, nem verteram gotta de sangue para o resgate moral da +mulher.</p> + +<p>O Filho de Maria disse que a mulher era egual ao homem, e levou para o céo o +segredo da sua emancipação.</p> + +<p>Ficamos nós cá, os açambarcadores do entendimento escrevendo livros, que +sacrilegamente denominamos de moral derivada do Evangelho, e n'elles demarcamos +a profunda raia que extrema <small>RAZÃO</small> de <small>SENTIMENTO</small>. +A razão para nós, o sentimento para ellas. Se, todavia, o sentimento claudica +nos preceitos da razão pautada e insoffrida, condemnamos a mulher pela culpa de +se deixar perder na escuridade, á mingua de uma lampada que lhe negáramos.<span class="pn">{116}</span> </p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Não sei se rasgue estas cinco paginas do manuscripto. Se alguem me assegura +que entre vinte mil leitoras (orça por isto o numero das senhoras que compram +livros em Portugal) se me asseguram que entre as vinte mil ha duas que me +entenderam a parlenda, e me ficam desejando muita saude e graça para servir a +Deus, não rasgo as paginas, embora os homens me mandem, em portuguezissima +phrase, bugiar.</p> + +<p>Quando comecei o capitulo, tinha de olho dizer, á quarta linha, que, ácerca +de culpas de mulheres, já mais consulto homens.</p> + +<p>Mulheres são os melhores juizes de mulheres.</p> + +<p>A respeito de D. Angelica, consultei uma sua amiga de infancia, tão virtuosa +como indulgente; mas virtuosa—não me afiram lá a palavra pelo elucidario +caseiro—virtuosa amando muito e com muito despego de pecos empecilhos, +atravancados pela impostura.</p> + +<p>Disse-me ella o seguinte:</p> + +<p>«D. Angelica é das poucas mulheres que podem fazer do seu crime um titulo ao +respeito das mulheres que sentem o coração pela dôr.</p> + +<p>—Ao respeito!—atalhei eu, com fumos de juiz, vicio do sexo +ingrato, onde por desventura me encontro.</p> + +<p>«Sim, ao respeito, porque D. Angelica amando vinte annos um homem, juro-lhe +que não teve uma hora de consciencia quieta, nem intrepidez para sacrificar o +coração ao repouso da consciencia.</p> + +<p>—Vinte annos! pois era amor de vinte annos o do tal Almeida que o +barão de Celorico arcobuzou?<span class="pn">{117}</span></p> + +<p>«Mais seria, talvez. Angelica era filha segunda de um fidalgo pobre do +Minho. Foi educada comigo, no Porto, no recolhimento de S. Lazaro. Passava as +festas do anno em casa de um doutor, que tinha filhas, e um filho que se +formava n'esse tempo. Esse filho era o Antonio de Almeida, que o senhor +conhece, e D. Angelica amou desde os quinze annos, com o amor immenso das +sympathias contrariadas.</p> + +<p>O doutor descobriu a affeição do filho, e impoz-lhe um violento termo, +prohibindo-o de vir ao Porto nos dois ultimos annos da formatura.</p> + +<p>As cartas de Antonio de Almeida recebia-as eu, e Angelica relia-as, ao cabo +de dois annos de ausencia, com paixão cada vez mais entranhada.</p> + +<p>O fidalgo pobre resolveu casar a filha com um rapaz que se dizia rico. +Melchior Pimenta era filho bastardo de um conego opulento, e litigava a herança +paterna, com a certeza do vencimento.</p> + +<p>Angelica saíu do recolhimento sem saber para que fim saía. Friamente avisada +de que havia de casar com Melchior Pimenta, embruteceu, ficou como tolhida, e +desmemoriada do amor que alimentára tres annos.</p> + +<p>Quando o coração reviveu do lethargo, a indiscreta menina escreveu ao pae de +Antonio de Almeida, pedindo-lhe que a pedisse ao pae para casar com seu filho. +Que innocencia!</p> + +<p>Escreveu ao marido que lhe destinavam, confessando que não podia dar-lhe o +coração.</p> + +<p>O doutor, se ella lhe conviesse te'-la ía. Angelica era<span +class="pn">{118}</span> pobre. Melchior Pimenta não respondeu á carta, nem +deminuiu as instancias.</p> + +<p>O fidalgo, informado pelo doutor, agradeceu-lhe a probidade da denuncia, e +accelerou o desfecho.</p> + +<p>Angelica não soltou um gemido na presença do pae; sei que apenas lhe disse: +«A historia de muitas mulheres desgraçadas começa como a minha.» Disse, e pôz a +cabeça no altar do sacrificio. Ao marido apenas perguntou se recebera uma carta +d'ella...</p> + +<p>Participei a Almeida o casamento de Angelica. Respondeu-me elle que não +acreditava a infamia emquanto a perfida não tivesse o cynismo de lh'a dizer. +Modifiquei as palavras d'esta carta, contando-as á minha amiga. Ella soluçou +nos meus braços muito tempo, e disse com vehemente resolução: «Pois sou eu que +lhe vou dar parte do meu casamento, e offerecer-lhe a minha casa.» Que fazes +tu, menina?—repliquei eu, longe de suspeitar a resposta: «Faço á +prepotencia de meu pae o sacrificio da minha dignidade, e castigo um homem que +me comprou.» </p> + +<p>Julguei-a desvairada pela angustia, e reservei para melhor ensejo os +conselhos que os meus vinte e cinco annos, já apalpados por amarguras de +coração, podiam dar-lhe.</p> + +<p>Effectivamente, Antonio de Almeida voltou formado, e frequentou a casa de +Melchior Pimenta, que dava bailes, e figurava na primeira plana a favor de +antecipações que fazia sobre o penhor do seu patrimonio.</p> + +<p>Deixei de ser a confidente de Angelica, mezes depois.<span +class="pn">{119}</span> As suas cartas não eram confidencias: eram lagrimas, +queixumes vagos contra a sua sorte, chagas de consciencia que só a morte podia +cicatrisar. Entendi tudo, e fiz o que faz, ou o que raras vezes faz uma amiga: +consolei-a na queda, como a aconselhára á beira do abysmo. Disse-lhe que +mandasse a consciencia ao pae, e que ficasse ella com o coração. Não lhe falei +em Deus, nem na Virgem, porque no infortunio de Angelica, não havia que vêr com +cousas sobrehumanas.</p> + +<p>O doutor farejava um casamento rico para o filho; achou-o, e marcou-lhe o +prazo para se realisar. Antonio de Almeida rejeitou-o com toda a ousadia da +desobediencia. Choveram maldições ás duzias, abriram-se os cancellos do inferno +aos pés do obstinado moço. Peor que tudo isso, o castigo de Almeida foi ser +expulso de casa, sem pão, nem habilitações promptas para ganha'-lo.</p> + +<p>Angelica soube tudo por mim, e por uma carta do doutor, que a +responsabilisava pela desgraça do filho. Vendeu algumas joias que tinha de sua +mãe, e pediu-me a entrega do producto, como dadiva minha, a Almeida. O brioso +moço, não sei como, soubera onde as joias paravam. Acceitou o dinheiro, comprou +as joias e pediu-me que as entregasse a Angelica.</p> + +<p>Duas almas assim nunca se separam. As ligações mais duradouras são as do +crime, quando as virtudes do sacrificio reciproco chegam a esquecer-se da sua +má origem.</p> + +<p>Antonio de Almeida trabalhou dia e noite, até ser um advogado de fama.<span +class="pn">{120}</span></p> + +<p>Melchior Pimenta, ao cabo de quatro annos de casado, tinha perdido a +demanda, e estava pobre. Antonio de Almeida cortou ás suas primeiras +necessidades para emprestar a Melchior o fausto da casa. Angelica soube-o +tarde; mas, sabendo-o, conheceu a pobreza de seu marido, e a delicada +generosidade do seu amigo.</p> + +<p>Fecharam-se as portas da sala, acabaram bailes e theatros, resumiu-se a vida +de Angelica ao amor a sua filha, á adoração mais intima do amante, e aos +respeitos affectuosos por seu marido.</p> + +<p>Antonio de Almeida acatou o melindre de Angelica. Inventou pretextos para +melhorar-lhe a vida, que ella não desejava melhor. Conseguiu fazer despachar +Melchior Pimenta para a alfandega, comprando o despacho por alto preço.</p> + +<p>Nem este mesmo sacrificio desconheceu Angelica. Os jornaes annunciaram a +corrupção, e a minha atilada amiga adivinhou a causa. Melchior Pimenta, não. +Esse perguntava se os seus merecimentos não eram demasiada recommendação para o +despacho.</p> + +<p>Sabe agora a vida de Angelica?</p> + +<p>Se alguma vez o seu sestro linguareiro o levar a pôr em romance esta +historia, accrescente que D. Angelica, ao despedir-se de Almeida para visitar o +berço da filha, lavou-lhe muitas vezes o rosto com lagrimas. Diga que, outras +muitas, o amante de Angelica, farto de a esperar na sala, e já receoso de algum +successo triste, procurando-a, ia encontra'-la ajoelhada ao pé d'esse berço. E, +depois que Ludovina se lançava aos braços de Almeida,<span +class="pn">{121}</span> com fervor mais de filha que de creança affeita a mimos +e carinhos, o rosto de Angelica incendiava-se de pejo, como se o affecto e a +virgindade do coração travassem peleja.</p> + +<p>Em resumo, snr. romancista, acabo por onde principiei, e do que vou repetir +faça uma maxima, por minha conta; mas não a enfileire a par da do commendador +João José Dias:</p> + +<p>H<small>A MULHERES QUE PODEM FAZER DO SEU CRIME UM TÍTULO AO RESPEITO DAS +MULHERES QUE SENTEM O CORAÇÃO PELA DOR.</small></p> + +<p>D. Angelica está julgada e punida.................</p> +<hr class="dotted"> + +<p>Entretanto foi Jesus para o monte Olivete:</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Então lhe trouxeram os escribas e os phariseus uma mulher que fôra apanhada +em adulterio: e a puzeram no meio.</p> + +<p>E lhe disseram: Mestre, esta mulher foi agora mesmo apanhada em adulterio.</p> + +<p>E Moisés, na lei, mandou-nos apedrejar estas taes. Que dizes tu logo?</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>Jesus, inclinando-se, escreveu com o dedo na terra.</p> + +<p>E, como elles teimavam em interroga'-lo, ergueu-se Jesus, e disse-lhes: O +que de entre vós está sem peccado seja o primeiro a apedreja'-la.</p> + +<p>E, tornando a curvar-se, escrevia na terra.</p> + +<p>Elles, porém, ouvindo-o, saíram um a um, sendo os<span +class="pn">{122}</span> mais velhos os primeiros; e ficou só Jesus e a mulher +que permanecia, no meio, em pé.</p> + +<p>Então ergueu-se Jesus, e disse-lhe: Mulher, onde estão os que te accusavam? +ninguem te condemnou?</p> + +<p>Ninguem, Senhor;—respondeu ella. Então, disse Jesus: Nem eu tão pouco +te condemnarei: vae e não peques mais.</p> + +<p>O S<small>ANTO </small>E<small>VANGELHO DE </small>J<small>ESUS +</small>C<small>HRISTO, SEGUNDO </small>S. J<small>OÃO</small>—Capitulo +VIII.<span class="pn">{123}</span></p> + +<p> </p> + +<h1>XII</h1> + +<p>Em quanto D. Angelica dormita os somnos curtos e sobresaltados da febre, a +baroneza despertou o pae, chamando-o á ante-camara.</p> + +<p>Melchior Pimenta, estremunhado e como ebrio dos aturdimentos da morphina, +extranhou á filha a extraordinaria madrugada, e perguntou se o barão fizera +alguma nova loucura.</p> + +<p>—Não podemos continuar a existir n'esta casa, meu pae—disse +Ludovina, sem saber ainda como sahir-se bem de lance tão perigoso para sua +mãe.</p> + +<p>«Então que houve? esse alarve que fez? será necessario amarra'-lo?</p> + +<p>—O necessario é sahirmos; mas a mãe está muito incommodada...</p> + +<p>«Que tem ella?!</p> + +<p>—Os meus desgostos affligiram-n'a a tal ponto que está ardendo em +febre, e não sei se poderá transportar-se.</p> + +<p>«Vamos vê'-la.</p> + +<p>—Pois sim vamos, mas não perca tempo. Um medico<span +class="pn">{124}</span> é o mais urgente agora. Veja-a; se ella estiver +descançando, não a desperte, e vá dispôr as cousas em nossa casa para nos +mudarmos logo, sim, meu pae?</p> + +<p>«Mas que fez o bruto?! A gente ha de sair d'aqui sem dar uma satisfação á +opinião publica? Não vês que esta saida precipitada auctorisa a maledicencia a +calumniar-te como o barão te calumnia?</p> + +<p>—Não tratemos agora da opinião publica, nem do barão. O pae saberá +tudo. Venha ver a mãe, e vá depressinha, sim?</p> + +<p>Melchior Pimenta entrou na camara de sua mulher. Tateou-lhe a testa que +transpirava o suor da febre, sondou-lhe o pulso, afastou-lhe os cabellos dos +olhos, e murmurou:</p> + +<p>«Isto é doença séria, Ludovina!...</p> + +<p>—Talvez não, meu pae... São afflicções que se curam com o socego da +nossa casa. Não se demore. Vá por casa do medico e mande-o já. Se vir o barão +não lhe diga nada, promette-me?</p> + +<p>«Eu sei cá o que farei! Ao despedir-me, tenciono dizer-lhe que me não +codilhou. Tu tens escriptura de dote. Quando quizeres, levantas vinte contos de +réis...</p> + +<p>—Pois sim, meu pae, esses negocios não são para agora. O que eu quero +é a saude de minha mãe. Vamo-nos d'aqui embora, que eu torno a ser feliz... Se +é meu amigo, não se demore; tire-nos d'este purgatorio.</p> + +<p>Melchior Pimenta ia scismando no divorcio, e nos vinte contos, quando o +barão lhe surgiu na extremidade do corredor.<span class="pn">{125}</span></p> + +<p>—Bons dias, sr. Melchior.</p> + +<p>«Bons dias, sr. barão.</p> + +<p>—Isso hoje foi madrugar!</p> + +<p>«Assim é preciso.</p> + +<p>—Se não tem muita pressa, dê-me aqui uma palavra.</p> + +<p>«Não posso, sr. barão, vou com pressa.</p> + +<p>—Olhe cá, sr. Melchior, é preciso que nos entendamos.</p> + +<p>«A que respeito?</p> + +<p>—A respeito d'estas poucas vergonhas que aqui vão.</p> + +<p>«Que chama o senhor poucas vergonhas?</p> + +<p>—Homem! vamos falar claro; eu sei tudo, e o senhor, se o não sabe, +saiba-o, e tome tento na sua vida.</p> + +<p>«O sr. barão é que já perdeu o tento da sua. Essa cabeça está desmanchada. +</p> + +<p>—Desmanchada está a sua, e bem desmanchada, sr. Melchior. Entre cá, e +ha de agradecer-me o que eu fiz, vingando a sua honra.</p> + +<p>«A minha honra não póde ser offendida nem vingada pelo sr. barão.</p> + +<p>—Estou a ter pena do sr. Melchior! Venha aqui dentro que eu conto-lhe +tudo. </p> + +<p>«Que ha de o senhor contar?!—disse Melchior entrando na +sala.—Quer contar-me a historia do charuto?</p> + +<p>—O charuto! o charuto agora já me não serve a mim; é ao senhor; veja +lá se o quer, que eu dou-lh'o de boa vontade.</p> + +<p>«É para isso que me chama, sr. barão? De que me<span class="pn">{126}</span> +serve a mim esse ridiculo instrumento com que o senhor está representando +perfeitamente o papel de doudo?!</p> + +<p>—Doudo quer o senhor fazer-me, mas ha-de-lhe custar... digo-lh'o eu... +Sente-se ahi, e dê-me attenção, que o caso é muito serio...</p> + +<p>Melchior Pimenta sentou-se impacientado. O barão de Celorico proseguiu, +cerrando a porta da sala:</p> + +<p>—O senhor tem vivido enganado com minha sogra, acho eu.</p> + +<p>«O que?</p> + +<p>—Tenha mão, não se atrigue, sr. Melchior. As desgraças são para os +homens, e o remedio é atura'-las quando ellas chegam. Sua mulher não lhe tem +sido fiel. </p> + +<p>«O senhor está doudo, e, se não está doudo, é um infame +malvado!—exclamou Melchior erguendo-se com arrebatamento.</p> + +<p>—Sente-se, homem; eu não lhe tenho medo, nem metto a fala no bucho. +Ouça, e faça o que quizer; creia ou não, saiba ou não saiba, o que eu lhe digo +é que sua mulher tinha um amante, e eu dei esta noite um tiro n'esse homem +cuidando que era o amante de minha mulher.</p> + +<p>«O sr. barão sabe o que está dizendo? Se tem algum resto de juizo, +desdiga-se da affronta que fez á minha honra.</p> + +<p>—Affronta?! essa não é má! Pois eu vinguei a sua honra, sem saber o +que fazia, e o senhor ainda diz que o affronto! Ora, meu amigo, o senhor é que +me parece<span class="pn">{127}</span> doudo! Acredite o que lhe digo, sr. +Melchior. Este charuto era do amante de sua mulher, que entrava no meu jardim +pela porta do muro, e vinha a esta casa todas as vezes que queria.</p> + +<p>«Quem, sr. barão? diga quem, quando não um de nós ha de morrer.</p> + +<p>Ludovina entrou precipitadamente na sala.</p> + +<p>«Quem?! então não diz quem é o amante de minha mulher—repetiu +Melchior, em quanto a baroneza cravava os olhos no semblante subitamente +desfigurado do marido.</p> + +<p>—Que indecentes palavras escuto, meu pae!</p> + +<p>«Primeiro as ouvi eu a este miseravel que m'as disse!</p> + +<p>—A meu marido? Desculpe-o que elle tem o juizo perturbado. O sr. barão +não disse taes palavras com intenção de offender os pais de sua mulher, não é +verdade? Essa calumnia foi, um desatino, uma irreflexão, não foi meu amigo? Dê +uma satisfação a meu pae, que está afflicto como vê, ou então crave-se um +punhal no seio, antes de repetir na minha presença que minha pobre mãe está +infamada.</p> + +<p>«Tens razão, Ludovina—murmurou o barão, com as lagrimas nos +olhos—Eu estou doudo; o que disse é uma mentira; se fôr necessario, eu +peço perdão ao sr. Melchior, e á sr.ª D. Angelica.</p> + +<p>—Ouviu, meu pae? Vá, agora vá. Assim fez o que lhe pedi?</p> + +<p>«Foi elle que me arrastou para esta sala... Sabe que mais, sr. barão? O +senhor o que deve fazer é recolher-se<span class="pn">{128}</span> a um +hospital, antes que as auctoridades o amarrem. Eu vou requerer um exame ás suas +faculdades intellectuaes...</p> + +<p>—Meu pae!—murmurou afflictivamente Ludovina—pelo amor de +Deus lhe peço que se retire, quando não, vê-me cahir aqui morta.</p> + +<p>«Eu vou, menina.</p> + +<p>E sahiu, reatando a meditação no divorcio e nos vinte contos.</p> + +<p>—Não lhe disse eu já, sr. Dias—continuou Ludovina baixando a voz +com maviosa brandura, e assumindo ares de penitente—não lhe disse eu já +que o homem ferido pelo senhor era meu amante? que a mulher da janella do +jardim era eu? que a culpada, a adultera, a infame, a digna de morte ou do seu +desprezo é sua mulher?</p> + +<p>«Mentes, mentes, Ludovina! eu ouvi tudo o que tua mãe te disse no quarto. +</p> + +<p>—Que importa o que o senhor ouviu? Tudo quanto meu marido disser +contra mim, tudo o que a sociedade inventar contra a minha dignidade, hei-de +certifica'-lo com o meu silencio, e com o meu divorcio. Tudo o que o senhor +disser contra minha mãe, hei-de desmenti'-lo em publico, pondo em mim as nodoas +que o senhor puzer na reputação d'ella. De maneira que meu marido, quando cuida +salvar a sua honra, sacrifica-a, e provoca o escarneo do publico. Vê quaes são +as minhas tenções, meu amigo?</p> + +<p>«Tu não fazes isso, Ludovina!—rugiu iracundo o deploravel +homem—Se fazes tal... Ludovina, se fazes tal...<span +class="pn">{129}</span></p> + +<p>—Que se ha-de seguir?</p> + +<p>«Eu sei!... tu queres matar-me, mulher! mata-me, mas deixa-me a honra, que +eu estimo mais que tudo. Dou-te tudo quanto tenho, deixo-te em liberdade, torno +para o Brazil; mas não digas que me foste infiel; não digas que esse homem era +teu amante. Peço-te isto de joelhos, Ludovina.</p> + +<p>Era feio o espectaculo, mas fazia dó a postura humilde do barão. Ludovina, +apiedada ou aborrecida da attitude, pôz-lhe as mãos nas espaduas, pedindo-lhe, +affectuosa, que não estivesse assim.</p> + +<p>E continuou:</p> + +<p>—Entre nós ha só uma reconciliação possivel. Vou fazer-lhe uma +proposta: se o senhor a acceita, retiro-me contente de sair por um contracto; +se a não acceita, vou de sua casa como fugitiva. O sr. Dias não dirá a alguem +que deu um tiro em Antonio de Almeida; não fará suspeitar pelo mais pequeno +indicio que Antonio de Almeida foi ferido, quando entrava no jardim d'esta +casa; não proferirá o nome de minha mãe, contando ou ouvindo contar essa +desgraça acontecida esta noite. Estas são as suas obrigações do contracto que +lhe proponho; as minhas são as seguintes: sairei de sua casa, com minha mãe, +porque o amor que tenho a minha mãe é incomparavel ao simples respeito que o +sr. Dias me inspira; sairei, calando o segredo do seu crime, para que ninguem +desconfie de que o senhor me surprehendeu com um amante. Auctoriso e quero que +meu marido diga ás pessoas admiradas da nossa separação que o<span +class="pn">{130}</span> meu genio era intractavel, que a minha educação era +pessima, que as minhas impertinencias de rapariga eram insoffriveis. Diga tudo +o que lhe lembrar, em meu desabono, que eu com o meu procedimento desmentirei +alguma desconfiança injuriosa que possa haver. Eu não levo d'esta casa o valor +de um ceitil. Os meus bahus irão como saíram do meu guarda-roupa de solteira. O +senhor fica na posse livre de tudo que tinha, menos de uma mulher que o ha-de +infallivelmente flagellar. Essa mulher sou eu, sr. Dias, porque o não amo, nem +se quer estimo. Respeito-o, temo-o, d'aqui a pouco hei-de odia'-lo. O homem que +o senhor feriu ou matou creou-me nos braços, foi o primeiro rosto extranho que +vi ao pé do meu berço, ha quinze annos que o via todos os dias, da amizade que +lhe tinha ao amor que se pode ter a um homem delicado, generoso, e confidente +das alegrias e maguas da minha familia, não ia grande distancia. Eu choro esse +homem, sr. Dias, não é só a minha desgraçada mãe que o chora. Se ella era +amante d'elle, eu, como filha, não tenho direito a censura'-la; como mulher de +coração creio que lhe perdoaria. Tenho dito mais do que devo, e importa ao sr. +Dias. Entendeu-me bem, quer que eu repita por outras palavras o que disse?</p> + +<p>—Não é preciso... entendi bem...</p> + +<p>—Qual é a sua resposta?</p> + +<p>—É necessario pensar, Ludovina.</p> + +<p>—Não lhe dou tempo a demoradas reflexões. Eu hei-de sair d'aqui logo +que meu pae volte.<span class="pn">{131}</span></p> + +<p>—N'esse caso, faz o que quizeres; mas eu hei-de dizer em toda a parte +que Antonio de Almeida era o amante de tua mãe.</p> + +<p>—E eu direi que era o meu amante; darei em publico quantas provas +puder dar para o desmentir; hoje mesmo irei ser a enfermeira d'esse homem, se +elle não tiver morrido. O sr. Dias será tido na conta de assassino, e assassino +ridiculo, que mata o amante de sua mulher, e denuncia adultera sua sogra, para +que se supponha que os seus merecimentos não podiam ser vencidos por um rival. +</p> + +<p>—Tu és uma serpente, mulher!—bradou o barão, fazendo com os +braços e a cabeça as azas d'um alambique—És um dragão! foste o demonio +que me appareceste em corpo e alma! Vae-te para as profundas do inferno, e +nunca descanço tenhas noite e dia em quanto me não vieres pedir perdão de +quereres deshonrar teu marido, que te deu palacios, e quintas, e carruagens, e +tudo quanto cobre o sol. Vae-te para onde quizeres, ingrata mulher, e quando +souberes que eu morri doudo vem tomar conta de tudo isto que é teu, porque o +que vocês querem todos é acabar comigo, para ficarem com isto que eu ganhei com +honra a trabalhar como um mouro!</p> + +<p>Ludovina voltára as costas ao berreiro virulento de João José Dias.</p> + +<p>Entrou no quarto de sua mãe, que não resurgira ainda do torpor febril. A +creada, que lhe assistia, entregou á baroneza uma carta, sobrescriptada a D. +Angelica. Era-lhe<span class="pn">{132}</span> conhecida a letra de Antonio de +Almeida. Alvoroçada com a aprazivel certeza de que Almeida vivia, Ludovina +abriu a carta sem reflectir. Apenas viu no topo do papel «Angelica», +simplesmente «Angelica», estremeceu, caindo em si. Era uma carta do amante, do +amante de sua mãe. Repugnava-lhe o le'-la, mas a amizade instigava-a, +desprezando os escrupulos de uma virtude intempestiva.</p> + +<p>Leu o seguinte:</p> + +<p> </p> + +<p>«Angelica, fui ferido com um tiro quando entrava no jardim d'essa casa. O +segredo do meu assassino morrerá comigo. O meu ferimento dizem ser mortal. Não +importa. Morro amando-te. Esperava assim morrer. Mas a tua honra, minha amiga? +Não bastará a minha vida para salva'-la? Dá um beijo a tua filha, ao nosso anjo +que eu não verei jámais. Sacrificamo'-la ambos, ao verdugo de... A febre deu-me +este intervallo. Adeus, até ao céo dos desgraçados.—<em>A. de A.</em>»</p> + +<p> </p> + +<p>Ludovina rompeu em gemidos, e caíu de joelhos orando com o fervor da +desesperação. Nada mais triste n'este mundo que o espectaculo d'aquelle quarto! +Não é preciso grande coração e poder de phantasia para acceitar um quinhão de +tamanha angustia. A alma de pedra estala de encontro a este conflicto que +esmorece na pintura. Cada lagrima ardente de Ludovina bastaria a reaccender a +luz de piedade apagada no coração humano. Já imaginastes uma vida com este +immenso horto de<span class="pn">{133}</span> agonia? Na previsão de todos os +infortunios, concebeu alguem as torturas d'aquella mãe, e da filha que acceita +a deshonra para salvar-lhe o nome? Desamparados da esperança e de Deus, cobrae +alento nas dores com que não podeis, agradecei ao vosso anjo mau os supplicios +vindos, pedi-lhe mais, pedi-lh'os todos, menos o calix de Angelica, e Ludovina, +porque ha ahi o succo de todos os venenos provados n'este inferno da vida, obra +prima de uma causa eterna, obra que mais me espanta a mim que a creação dos +astros, do mar, e do homem.</p> + +<p>A minha grande prova de Deus, da justiça, e da condemnação é este inferno. O +outro... é inferior á Omnipotencia que deixou, no seio da creatura, aberta a +garganta do abysmo, onde a alma se despenha a devorar-se.<span +class="pn">{134}<br>{135}</span></p> + +<p> </p> + +<h1>XIII</h1> + +<p>Eu costumo reunir alguns peritos em letras magras como estas, e leio-lhes +alguns capitulos dos meus romances, com adoravel modestia e exemplar submissão. +Recito-lhes sempre um preambulo improvisado que estudo cinco horas, no qual os +convido, com humildade de aprendiz inexperto, a que me corrijam as hyperboles +desgrenhadas, me desbastem as excrescencias da taramelice a que sou atreito, e +me recomponham os desatavios da fórma em que me descuido, se a imaginação +desfila comigo pelos prados floridos do inverosimil.</p> + +<p>Tão atilado é o arrolamento que faço dos meus arbitros, que raro de entre +elles se desacredita admoestando ou corrigindo as perfeições que me escorregam +do bico da penna, com primores de fundição esmerada. Esse raro, porém, se +encalha em elegancia que não percebe e deturpa, cá o inscrevo no meu canhenho +de pascacios, e nem sequer desaggravo o meu talento offendido com resposta +comedida. A minha docilidade chega até este ponto, e não ha ahi que ver mais +lhano e brando do<span class="pn">{136}</span> que eu sou á opinião cortada dos +meus amigos, que me fazem o obsequio de trazer da rua quatro superlativos +encomiastas, antes de saberem que pabulo vou dar-lhes á sua admiração faminta. +</p> + +<p>Ha pouco acabei eu de ler os doze capitulos passados a quatro luzeiros do +orbe litterario, e um d'elles, acabada a girandola dos elogios, teve a +descocada impertinencia de me dizer uma cousa assim:</p> + +<p>—Os teus romances do meio em diante adivinham-se.</p> + +<p>—Ora essa!</p> + +<p>—Adivinham-se, e coxeiam por isso. O sexto sentido do romancista é o +invento da surpresa. A concatenação logica e natural dos successos damnifica a +peripecia, e aguarenta a curiosidade do leitor.</p> + +<p>—O leitor é que não é capaz de entender-te essa linguagem +assaralhopada. Tu calumnias o gosto dos meus leitores. Sou informado pelo orgão +da opinião publica, o orgão que eu mais respeito, o meu editor, que o bomsiso +dos consumidores escolhe o romance verosimil, amalgamado com arte e +discernimento, escripto de modo que seja o reflexo da sociedade, e que possa de +per si reflectir tambem na sociedade, amoldurando-se nas fórmas costumeiras e +exequiveis.</p> + +<p>—Enfreia lá os impetos, modesto escriptor! não soltes a parlenda +inexoravel. Concordo com o bom senso publico. O natural e o reflectido da vida +apraz e captiva o leitor; mas a previdencia dos capitulos advenientes esfria o +empenho, e dessabora a curiosidade.</p> + +<p>—Acceito a correcção, e tu acceita a aposta. Se adivinhares<span +class="pn">{137}</span> o enredo dos capitulos subsequentes, eu prescindo dos +meus titulos de Henri Heine, Alphonse Karr portuguez, e escrevo repertorios de +hoje em diante. Se não adivinhares, escreve-me uma critica litteraria em que +has-de provar aos incredulos basbaques que eu alojo na cabeça um d'esses +lobinhos cerebraes que chamam «genio» os galiparlas da nossa terra.</p> + +<p>«Acceito, e ahi vae o desenvolvimento do teu romance, nos pontos essenciaes: +D. Angelica póde morrer de uma congestão cerebral, ou de um typho. Não +questiono a morte; é certo que a matas brevemente, e a fazes pedir, na hora +derradeira, perdão do escandalo á filha, e da traição ao marido. Antonio de +Almeida já nos disse que morria, e elle que o diz é porque o sabe, e tu já o +sabias antes d'elle. D. Ludovina vae para a casa paterna, e, a pedido de +Melchior Pimenta, enxuga as torrentes caudaes do pranto que a saudade maternal +lhe arranca, mas teima em não querer nada do abominado marido. O barão de +Celorico, atassalhado pelo remorso, dispara apostrophes sem grammatica ao +espectro de Antonio de Almeida, pega-lhe a febre socia predilecta dos +romancistas pathologicos, solta quatro urros estridulos ao despegar-se-lhe a +alma do sêbo corporal, e vê'-lo que morre boçalmente, sem deixar nada ao +<em>Hospital do Terço</em>, nem ás <em>Velhas da Cordoaria</em>! A tua +crueldade para com este homem irá ao extremo de lhe negares até um necrologio +na gazeta, ignominia posthuma com que rematarás a biographia de um homem que +teve o infortunio de ser cevado de enxundias, em quanto tu espirras<span +class="pn">{138}</span> ossos por todos os póros. D. Ludovina toma conta da +herança, e...</p> + +<p>—E, sabendo que tu és um portento de esperteza—atalhei +eu—digno de substituir João José Dias, manda-te convidar pelo seu +procurador para tomar chá ás quartas feiras; namora-te, casa comtigo, e o +auctor é padrinho de primeiro pequeno. Ora, meu amigo, outro officio. +Desquito-te da promessa do elogio; já nem «genio» quero ser á custa do teu +estylo assoprado. Eu já disse em mais de um livro que não escrevo de phantasia. +A verdade e a observação dispoem-me as situações como tu as não inventas. A +natureza, que tu conheces, é tôla, meu amigo.</p> + +<p>Disse.<span class="pn">{139}</span></p> + +<p> </p> + +<h1>XIV</h1> + +<p>Antonio de Almeida esperava em ancias a apparição de D. Angelica. Não lhe +pedira, como vimos, essa derradeira e afflictissima prova de um amor de vinte e +dois annos; mas ve'-la, apertar-lhe a mão, expirar nos braços d'ella, egualar o +escandalo ao flagello de lance tal, isso alvoroçava-lhe o espirito, +attrahindo-lh'o para a unica visão aprazivel e ao mesmo tempo angustiada que o +detinha entre a vida e a morte.</p> + +<p>As irmãs de Almeida ignoravam tudo o que se passára, excepto o ferimento +mortal de seu irmão. A denuncia do barão de Celorico fôra segredada ao enfermo +pelo proprietario da casa, seu antigo creado. A policia devassára do crime, e +nada averiguára das respostas concisas e obscuras de Almeida. Suspeitavam as +attribuladas irmãs que seu irmão tivesse tentado um suicidio, por desgostos +desconhecidos, e calasse o desastre para occultar a fraqueza, e obviar a +presumpções nocivas á honra de alguem, e á propria memoria.</p> + +<p>N'estas conjecturas, annunciou-se o barão de Celorico<span +class="pn">{140}</span> de Basto. Almeida recebeu a parte d'esta visita com +excitamento prejudicial ao seu estado. Os facultativos conheceram a exaltação +inconveniente, e perguntaram-lhe se a presença do barão lhe era penosa.</p> + +<p>—Não é—disse elle—que entre, e venha só, porque é +necessario assim.</p> + +<p>Entrou o livido barão, fechando a porta. Chegou-se ao leito do enfermo, e +estacou silencioso, com os olhos rasos de lagrimas. Esteve assim instantes, +ergueu as mãos, e ajoelhou sem proferir palavra.</p> + +<p>—Que é isso, senhor?—disse Almeida.</p> + +<p>«É um desgraçado que vem pedir perdão, snr. Almeida. Quem lhe deu o tiro foi +este malvado infeliz que aqui está diante da sua vista. Eu cuidava que minha +mulher me era infiel, e me deshonrava. Tive uma carta em que me avisavam +d'isso. Encontrei um charuto no meu jardim. Disse-me a patrulha que do meu +quintal saíra um homem fóra de horas. Tentou-me o demonio a tirar vingança de +quem me deshonrava. Vi-o a v. sr.ª, e, sem pensar no que fazia, dei-lhe dois +tiros. Depois soube tudo o que havia; minha mulher está innocente, e o senhor +nunca me fez mal nenhum, e está ferido por mim. Se me quer entregar á justiça, +aqui estou, snr. Almeida; chame toda essa gente que está em sua casa para ouvir +a confissão.</p> + +<p>—Levante-se, snr. barão—atalhou Almeida—Não diga a ninguem +que me feriu; fique entre nós esse segredo para sempre. Eu depressa morrerei +com elle, e o senhor viva sem se denunciar a pessoa alguma. Eu sabia que<span +class="pn">{141}</span> o meu assassino fôra o senhor. Se quer mitigar o seu +remorso, respeite... a mãe de sua mulher. Se ella um dia precisar dos seus +favores, faça-lh'os como os faria á viuva do homem que matou. Agora, vá em paz. +</p> + +<p>O barão retirou, enxugando as lagrimas. Entrou furtivamente em casa, e +escreveu uma carta. Sahiu com o preto, e montou a cavallo á porta de um +alquilador.</p> + +<p>A carta, que escrevera, era sobrescriptada á baroneza; da qual carta se dá o +texto viciado com as perdoaveis infidelidades da correcção ortographica:</p> + +<p>«Ludovina, quando receberes esta, teu infeliz esposo já não está no +Porto!!!! Vou por esses mundos de Christo penar o meu crime, até que o remorso +dê cabo de mim!!!! que não tardará!! Fica n'esta casa, que é tua, minha amada +Ludovina; para mim me basta um bocado de terra onde enterrar os meus ossos!!! +Quando souberes o meu triste fim então perdoarás a teu infeliz e desgraçado +marido!! Fui já pedir perdão ao Antonio de Almeida, e oxalá que eu morresse ao +pé d'elle. Pela tua honra e vida te peço que trates tua mãe com todo o amor e +carinho. Faz com que ella me perdôe o mal que lhe fiz. Não tive animo de ir +onde a ella, pedir-lhe que fosse tão boa como foi para mim aquelle honrado +homem, que Deus permitta não morra. Adeus Ludovina, desgraçada Ludovina!!! para +sempre, adeus! Não me tenhas odio; tem antes compaixão de teu marido, que te +escreveu esta com a cara coberta de lagrimas e o coração acabrunhado de +remorsos. Adeus para nunca mais!!!!!»<span class="pn">{142}</span></p> + +<p>Afóra a sobejidão de pontos admirativos, que são talvez signaes symbolicos +da dôr indizivel do barão de Celorico de Basto, o que se nos depara n'essa +carta é a simplicidade, a mudez, a phrase chan de uma verdadeira angustia. Em +lance identico um marido letrado, e concedo até que romancista, não escreveria +cousa mais pathetica e pungitiva.</p> + +<p>Ludovina leu esta carta ao pé de sua mãe, que authomaticamente se deixava +vestir para ser transportada n'uma cadeirinha, nem ella sabia para onde.</p> + +<p>Melchior Pimenta trouxera de fóra a noticia do perigoso ferimento de Antonio +de Almeida, e vendo que sua filha não se espantava da nova, porque não era +então maré de fingimentos, ficou perplexo, e scismou no caso alguns minutos. +</p> + +<p>Uma idéa, entre muitas idéas (se o leitor concede que Melchior tivesse +muitas idéas) o incommodava. Seria Antonio de Almeida amante de sua filha, e o +barão, por consequencia, quem lhe dera o tiro? Era esta a conjectura que o +preoccupava, quando Ludovina lhe disse que não podia fazer-se a mudança +n'aquelle dia porque a receava perigosa para sua mãe.</p> + +<p>«Vem cá, Ludovina—disse o sr. Pimenta, franzindo a testa +sobrecarregada de cuidados—fallemos de espaço, e desembrulha-me este +novello. O barão disse-me, ha pouco, que dera esta noite um tiro n'um homem que +era o amante de tua mãe. Acabo de saber que Antonio de Almeida está ferido. +Contei-te este acontecimento, que te não espantou. Vejo tua mãe doente. +Lembra-me<span class="pn">{143}</span> o que teu marido me disse... Quero +explicações d'este mysterio.</p> + +<p>—São muito dolorosas para mim as explicações, meu pae.</p> + +<p>«Como dolorosas?!</p> + +<p>—E muito, meu pae; vergonhosas até para que uma filha se atreva a +dize'-las. Queira ignorar tudo, meu pae, ou tudo saber de outra pessoa que não +seja eu...</p> + +<p>«Porque não has de ser tu?</p> + +<p>—Porque sou criminosa.</p> + +<p>«Criminosa! mas o barão disse que estavas innocente.</p> + +<p>—Foi a minha querida mãe que me salvou á custa da sua dignidade.</p> + +<p>«Não entendo...</p> + +<p>—Entende, meu pae. A amante de Antonio de Almeida era eu.</p> + +<p>«Tu! pois tu!...</p> + +<p>—Não me culpe, ou culpe-me, mas perdoe-me. Obedeci, quando me casaram +com este homem, obedeci cegamente; mas o coração negou-se ao sacrificio.</p> + +<p>«E Antonio de Almeida, meu amigo de vinte annos, que te viu nascer, teve a +ingratidão e a infamia de te fazer a côrte, sendo tu casada?! Foi bem dado o +tiro! Bem hajas tu, barão, que me desaffrontaste, e procedeste como homem de +bem!</p> + +<p>—Isso é improprio da sua nobre alma, meu pae. A culpa é minha só. Amei +desde creança Antonio de Almeida, era amiga d'elle até o julgar superior a +todos os<span class="pn">{144}</span> homens. Pedi-lhe a felicidade do coração, +que só elle podia dar-me. Amava-me por piedade; fazia-me esmola do seu amor. +Fui eu que o matei. Já que me forçou a esta confissão, dir-lhe-hei mais que, na +posição em que estou, considero-me responsavel das minhas acções más perante +Deus e meu marido. O pae perdeu o direito de me injuriar na desgraça que lhe +devo. Minha mãe foi mais generosa comigo. Fez, não sei de que modo, +convencer-se o barão de que a amante de Antonio de Almeida era ella. Aqui tem a +explicação das palavras que meu marido lhe disse, e não poude sustentar na +minha presença. Minha pobre mãe, depois de victimar a sua honra á minha +salvação, succumbiu á vergonha de si, e á dôr, talvez, de me ver indigna +d'ella. Basta de explicações, meu pae. Estas palavras tem-me custado annos de +vida. Se a minha deshonra reflecte no seu pundonor, perdoe-me; se me não quer +perdoar, amaldiçoe-me, mas não profira na presença de minha mãe o nome de +Antonio de Almeida. Mereço isto á sua compaixão?</p> + +<p>«Não falarei mais n'esse homem por minha honra propria.</p> + +<p>—Assim o deve á sua dignidade.</p> + +<p>Ludovina foi chamada com urgencia ao quarto de D. Angelica. Encontrou-a +vestida, disposta a sair, com o rosto escarlate do crescimento febril, e gestos +de quem delira.</p> + +<p>«Onde quer ir, minha mãe?</p> + +<p>—Morrer em qualquer parte, Ludovina... Quero ar...<span +class="pn">{145}</span></p> + +<p>«Não ha de sair d'aqui; supplico-lhe que não saia, minha mãe.</p> + +<p>—Não me dês esse nome... Eu não quero já ser mãe nem esposa...</p> + +<p>Ludovina fez sair a creada, que testemunhava este dialogo.</p> + +<p>«Não quer ser mãe nem esposa?</p> + +<p>—Não. Sou amante de um homem que está moribundo ou morto. Quero que +todo o mundo saiba, que o fui e que o sou. Desprezo tudo, não ha para mim +deveres nem respeitos agora. Se elle está vivo, quero dar-lhe os meus ultimos +instantes. Se morreu, quero chorar e morrer ao pé do seu cadaver.</p> + +<p>«Fale baixo, por misericordia, minha mãe!</p> + +<p>—Podem todos ouvir-me, não me escondo d'alguem, agradeço as affrontas, +os desprezos, as injurias, agradeço tudo que fôr martyrisarem-me, com tanto que +me matem depressa.</p> + +<p>«Mas, minha mãe, attenda-me por piedade. Vou-lhe contar tudo, se me +escuta... Sente-se, e ouça-me...</p> + +<p>—Diz, anjo, diz...</p> + +<p>«Antonio de Almeida não morreu, e talvez não morra. O barão escreveu-me uma +carta em que se despede de mim, e me recommenda que lhe peça o perdão para +elle. N'esta casa ignora-se tudo. Meu pae está convencido que sou eu a amante +de Antonio de Almeida...</p> + +<p>—Jesus! exclamou D. Angelica.—Como tu me castigas, Ludovina!</p> + +<p>«Como eu a castigo, mãe?! por quem é, deixe-me<span class="pn">{146}</span> +ser boa para o meu coração, e indigna para todo o mundo. Sinto na alma alegrias +tamanhas d'este meu procedimento!... isto é Deus que me premeia, minha mãe, é +Deus que me dá em consolações do céo as amarguras, que o mundo me possa dar. +Ora, se a mãe me envenena este prazer, mata-me... Deixe-me ser senhora de uma +parte do seu coração e da sua vida. Obedeça-me, sim? não saia de casa; não +saia, que talvez me não encontre viva quando voltar.</p> + +<p>Ludovina abraçou-se, a chorar, em D. Angelica. Choravam ambas, com os rostos +unidos, apertando-se cada vez mais. O seio da mãe desafogava de angustias +soffocantes n'aquelle pranto. O da filha fortalecia-se de animo para arcar com +a ignominia do seu descredito.</p> + +<p>D. Angelica recaíu no entorpecimento. Ludovina chamou creadas para lhe +assistirem, e executarem as prescripções dos medicos. Melchior Pimenta esperou +que a filha saísse do quarto, e foi sentar-se, meditabundo e sombrio, ao pé do +leito da enferma, tateando-lhe o pulso, e chamando-a com os maviosos epithetos +do carinho. Angelica abria os olhos pávidos, encarava-o por momentos, e recaía +na somnolencia.</p> + +<p>Ludovina entrou na carruagem, deu ordem ao boleeiro, e apeou na Lapa. A +trezentos passos d'ahi, morava Antonio de Almeida. Velando o rosto com um véo +negro impenetravel á vista, a baroneza de Celorico, sósinha, subiu as escadas +do amante de sua mãe.</p> + +<p>Descia um medico ao qual ella perguntou o estado do enfermo. Respondeu-lhe +que havia esperanças de<span class="pn">{147}</span> salva'-lo. A noticia feliz +alvoroçou-a. Receberam-n'a as irmãs de Almeida, maravilhadas de tamanha prova +de estima. O doente conheceu-lhe a voz, agitou-se, quasi desfez o apparelho do +curativo, e chamou-a com ancia.</p> + +<p>Ludovina entrou no quarto, só, que assim o pedira ás amigas. Almeida +apertou-lhe a mão, orvalhou-a de lagrimas, e murmurou balbuciante:</p> + +<p>«É a boa nova... agora creio que vencerei a morte, minha amiga, filha do meu +coração.</p> + +<p>A baroneza ficou muda e convulsa. <em>Filha do meu coração</em> foram +palavras que lhe entraram como fogo no recesso da alma, fogo, porém, que, de +repente, se mudára em sensação de intima doçura. Passados minutos de mudo +anceio, Ludovina curvou-se para o seio de Almeida, e disse:</p> + +<p>—A mãe está muito doente; mas sem perigo. A sua carta não lh'a +entreguei, lia-a eu, e occultei-lh'a para a não matar.</p> + +<p>—O barão denunciou tudo?</p> + +<p>—Nada: tudo se ignora, e toda a gente ignora, só eu sei que ella o +estima tanto como eu. É necessario que o nosso amigo concorra quanto puder para +lhe dar allivio. Tem esperanças, não tem?</p> + +<p>—Tenho. Os facultativos disseram agora que o ferimento não é mortal. +Já não morro, minha... minha querida amiga, não quero morrer...</p> + +<p>—Escreva a minha mãe, se pode. Diga-lhe isso, que eu levo a carta. Não +fale em mim, não diga que eu vim cá.<span class="pn">{148}</span></p> + +<p>Antonio de Almeida escreveu. Ao despedir-se beijou Ludovina na face, e disse +soluçando:</p> + +<p>«Será o beijo de um moribundo?</p> + +<p>«Não diga tal, sr. Almeida.</p> + +<p>«Se fôr...» e desentalando a voz dos gemidos que lh'a embargavam, proseguiu +«se fôr... Ludovina... lembra-te sempre da situação em que te deu o seu ultimo +beijo... teu pae.</p> + +<p>A baroneza tremeu uma sezão de instantes. Quiz saír, mas o abalo +quebrantou-lhe as forças, coando-lhe nos nervos o desfallecimento, e a perda +quasi dos sentidos.</p> + +<p>Almeida tocou a campainha, e disse á irmã que primeiro chegou:</p> + +<p>—O ar d'este quarto fez mal a esta senhora: levem-n'a para a sala, e +vá uma das manas acompanha'la.</p> + +<p>Ludovina pediu que lhe mandassem buscar a sua sege, que a esperava na +Lapa.<span class="pn">{149}</span></p> + +<p> </p> + +<h1>Cinco paginas que é melhor não se lerem</h1> + +<p>Este capitulo mira a alvo transcendental.</p> + +<p>Nem mais nem menos, quer provar que o Codigo do Imperador +Justiniano—corpo de leis que uma falsa piedade chama «Digesto», sendo +elle a causa indigesta de muitas gastralgias intellectuaes—quer provar, +digo, que o Digesto, entre muitas que não conheço, traz, uma lei de tamanho +absurdo e insensatez, quanta é a indignação com que para aqui a traslado:</p> + +<p><em>Pater is est quem nuptiæ demonstrant.</em></p> + +<p>Em portuguez comezinho:</p> + +<p><em>O pai é aquelle que se diz pae no assento do baptismo.</em></p> + +<p>A versão é de christão catholico, entenda-se.</p> + +<p>Aquella regra de jurisprudencia pagã não fala em assento baptismal. Se o +legislador fosse baptisado, como estes de agora, a lei não saía assim.</p> + +<p>Contra a qual lei temos a articular:</p> + +<p>1.º Que o pae é uma entidade muito mais nobre, efficiente, cathegorica, e +circumspecta. E demonstra-se:<span class="pn">{150}</span></p> + +<p>Quem leu a physiologia da geração sabe que ha cinco phenomenos +caracteristicos d'essa funcção de mysteriosa origem. O primeiro d'esses +phenomenos, cuja confusa theoria os imperitos podem lêr nas fontes respectivas, +é influido pela acção de um ser directo e immediato, que os latinos denominam +<em>pater</em>, os inglezes <em>father</em>, os allemães <em>watter</em>, os +francezes <em>père</em>, os hespanhoes <em>padre</em>, e nós, com mais +suavidade que todos os outros idiomas, <em>pae</em>.</p> + +<p><em>Pae</em> quer dizer «productor, gerador» <em>Parens qui aliquem +genuit</em>—isto a meu vêr, é claro como tudo o que se diz em latim.</p> + +<p>Conclusão: Pae é aquelle que é pae.</p> + +<p>2.º Ha paes postiços, paes contra-natura, paes testas de... ferro, paes +<em>in mente legis</em>, na presumpção da lei, e na fé dos padrinhos de quem +são compadres, por obra e graça de um sacramento.</p> + +<p>Os homens, reconhecendo a inconveniencia de acceitar a natureza feia como +ella ás vezes se apresenta deliberaram, de commum concerto, pôr-lhe mascara. +</p> + +<p>E como a natureza paterna era uma das que mais a miudo saía á gente com as +suas deformidades medonhas, resolveram os desvelados reformadores corrigir os +aleijões d'essa natureza, inventando o pae civil, o pae do assento baptismal, o +pae da arvore de geração escripta em pergaminho, o pae que transmitte os bens e +os appellidos, o pae, finalmente, que tem tudo que é paternal, mas não é pae. +</p> + +<p>Este invento honra a sagacidade humana; mas a causa<span +class="pn">{151}</span> que o incitou deturpa a humanidade, e opprime agramente +os corações dos individuos virtuosos. Todavia, a mascara foi necessaria, logo +que as fealdades deram nos olhos. Hoje acceita-se o remedio do mesmo modo que o +travor da quina se tolera para combater a sezão. Os paladares mais melindrosos +affazem-se á peçonha, e estomago ha ahi de pae postiço, que disputa a +Mithridates a invulnerabilidade.</p> + +<p>Eu não applaudo a <em>Sandice</em> como Desiderius Erasmus; mas observo que +o famoso theologo chamava «sandice» o que nós cá, gente bemaventurada da +civilisação, denominamos «Cultura.»</p> + +<p>Erasmus não deu pela theoria das mascaras. Pasmado da bonacheirona paz +d'alguns paes impossiveis, exclama o mestre de Bolonha:</p> + +<p>«Grande Jupiter! O que ahi não iria de divorcios, e peor do que divorcios, +se a união do homem e mulher não fosse corroborada pela lisonja, pela +complacencia, pelo esquecimento, e pela dissimulação, que formam o meu cortejo! +Que raros não seriam os matrimoniamentos, se o homem de ante-mão esquadrinhasse +os brinquedos da innocentinha noiva! Que rompimentos conjugaes, se o descuido +ou a inepcia, não cegassem o bom do marido, para não enxergar os tregeitos e os +feitios da companheira querida! Dizem que é toleima isto; deixa'-la ser; mas o +grande caso é que marido e mulher vivem ás mil maravilhas, que reina a santa +paz em casa, e os vinculos da alliança estão rijos. Isto é que é o essencial. +Se ao pascacio dão nomes feios, que se lhe dá<span class="pn">{152}</span> elle +d'isso? Ve'-la a infiel a choramingar; para logo o pobre marido lhe sorve as +lagrimas enternecidamente. Qual é melhor, ser assim bom, ou andar atormentado +pelas furias do ciume?»</p> + +<p>É boa a pergunta do theologo! O melhor é ser assim bom, ser assim +illustrado, ser assim desbravado das velharias pundonorosas que obrigaram +Cicero e Sulpicio Gallo a divorciarem-se das mulheres, um porque a sua lhe não +respondeu a todas as cartas enviadas do exilio, outro porque a d'elle teve a +impudicicia de saír um dia, sem coifa, á rua.</p> + +<p>Aconteceu isto muito depois do reinado de Saturno, quando o pudor, como +pondera Juvenal, já não morava nas primitivas cavernas onde os dois sexos se +luravam sobre colchões de folhagem.</p> + +<blockquote> + <em>Credo Pudicitiam, Saturno rege, moratam</em><br> + <em>In terris</em>... </blockquote> + +<p style="text-indent: 0;">já quando o genio tutelar do hymeneu andava corrido +das pseudo-paternidades que se enxertavam, á sombra d'elle, nos illustres +troncos de Roma:</p> + +<blockquote> + <em>Antiquum et vetus est alienum, Postume, lectum.</em><br> + <em>Concutere, atque sacri genium contemnere fuclri.</em> </blockquote> + +<p>«Ó Postumo!—exclama o poeta—pois tu eras, até aqui, escorreito e +atilado, e vaes casar</p> + +<blockquote> + <em>Certe sanus eras: uxorem, Postume, ducis!</em><span + class="pn">{153}</span> </blockquote> + +<p>Por esses tempos, a balbuciante civilisação dos espiritos engendrou a lei +contra a qual se escreve este capitulo. As nupcias indicavam o pae: <em>pater +is est quem nuptiæ demonstrant</em>. Agora, em pleno seculo de luz, somos mais +romanos que os proprios romanos, tresandamos ao paganismo fetido, e +difficultamos o divorcio para sellar o escandalo com o cunho sacramental da lei +nova.</p> + +<p>Como quer que seja, pae é aquelle que é pae, apesar do Direito Romano, e das +Instituições de Direito Civil de Coelho da Rocha.</p> + +<p>Não se adduzem os 3.º, 4.º e 5.º artigos da refutação, porque ninguem +supporta um embrechado arripiante de textos latinos: e o auctor, com quanto +assim grangeasse voga de romancista sumarento e condimentoso, seria lido apenas +por tres ou quatro mestres de latinidade.</p> + +<h2>COROLLARIO</h2> + +<p>Melchior Pimenta era um dos paes presumidos na intenção do <em>Digesto</em>, +na lei citada, do L. 5.º <em>de in jus voc</em>, e C. da Rocha no cap. +<em>Paternidade e filiação legitima</em>.<span class="pn">{154}<br>{155}</span></p> + +<h1>XV</h1> + +<p>D. Angelica, afflicta com a longa ausencia de Ludovina, pedira ao marido que +procurasse a filha. Melchior Pimenta correra a casa, alarmando os creados, que +francamente lhe disseram que a senhora baroneza saíra na sege. Melchior +suspeitou que a destemida Ludovina descera ao infimo degrau da desenvoltura, +visitando o amante á hora do dia, no momento em que seu marido a abandonava aos +terriveis juizos da sociedade. Com as mãos agarradas á cabeça, entrou o +consternado pae no quarto da mulher, abafando de vergonha, como elle dizia.</p> + +<p>D. Angelica, receosa de que tudo já fosse notorio a seu marido, apavorou-se, +e quiz fugir do quarto.</p> + +<p>«Que queres tu fazer agora, santa mulher?!—exclamou elle, sustendo-a +com meiga brandura.—Deixa'-la perder-se de todo, já que ella assim o +quer... Ahi tens como Ludovina te paga o sacrificio que fizeste da tua +dignidade e da minha para a salvares. Ainda bem que<span +class="pn">{156}</span> o procedimento d'ella te ha de desmentir, +Angelica...</p> + +<p>—Que dizes?—atalhou a perplexa senhora.</p> + +<p>«Que digo? pois eu não sei já tudo? Não me contou ella o que tu fizeste para +capacitar o barão de que Antonio de Almeida era teu amante, e não d'essa +desgraçada que tão mal aproveitou as tuas lições? O que tu fizeste, não devias +faze'-lo sem tomar o meu parecer; porque, a falar verdade, se corresse o boato +de que o escandalo era cousa tua, a minha honra soffria tanto como a de minha +mulher. O que vale é que o barão não dirá nada, e o falatorio ha de acabar como +acabam todos os escandalos, quando os faladores se cançarem. Mas, Ludovina! +Ludovina! onde está esta mulher que nos anda envergonhando por lá?</p> + +<p>«Estou aqui, meu pae—disse a baroneza com angelica serenidade, e +sorriso de meiguice para sua mãe.</p> + +<p>—Minha filha, minha santa filha, minha providencia!—exclamou D. +Angelica abraçando-a com arrebatamento.</p> + +<p>«Isso não é assim, Angelica!—disse carrancudo Melchior +Pimenta.—Pergunta-lhe de onde vem, e reprehende-a, já que tão boa moral +lhe ensinaste em solteira.</p> + +<p>—Silencio, meu amigo. Vae...—atalhou com azedume D. +Angelica—vae, e deixa-nos sós.</p> + +<p>«Não tem geito nenhum!—accrescentou o austero pae.—É preciso +saber-se para onde foi teu marido, Ludovina, e ir pedir-lhe perdão, perdão, +antes que a sociedade saiba que elle te abandonou.</p> + +<p>—Irei, meu pae.<span class="pn">{157}</span></p> + +<p>«Irás; mas entretanto sáes de carruagem, e não dizes onde vaes... Onde foste +tu, diz?</p> + +<p>Ludovina abaixou os olhos, e não respondeu.</p> + +<p>«Vês, Angelica?—proseguiu com virulencia Melchior—Não respondeu; +já sabes d'onde ella vem... Já se viu no mundo um descaramento assim?</p> + +<p>—Nem mais uma palavra a minha filha!—exclamou com impetuosa +arrogancia D. Angelica—Nem mais uma palavra, porque se não, +Melchior...</p> + +<p>«Se não, o que?—interrompeu elle.</p> + +<p>—Minha mãe, pelo seu amor lhe peço...—murmurou a baroneza, +apertando-a ao seio, como se quizesse comprimir-lhe as palavras no coração.</p> + +<p>Pimenta sahiu, como entrára, com as mãos agarradas á cabeça. D. Angelica, +beijando soffrega a face da filha, dizia, soluçando:</p> + +<p>«Ao que eu te expuz, minha querida victima! ao que tu quizeste sujeitar-te, +Ludovina! Pesa-me mais a tua innocencia diffamada que o meu proprio descredito. +Não, filha, isto não póde continuar assim. Deixa-me ser virtuosa no crime, +deixa-me expiar a minha culpa com menos amargura. Esta expiação é a maior de +todas, Ludovina. O meu coração está cheio de fel. Tu queres salvar tua mãe e +matas-me, anjo do meu coração. É-me muito mais dolorosa a vergonha que tenho de +ti, que da sociedade. Que o mundo todo me culpe, mas perdôa-me tu, filha!</p> + +<p>—Mãe, por piedade... não me turve a satisfação d'esta pequena virtude. +Olhe que não é heroismo isto,<span class="pn">{158}</span> não, é a crença, a +esperança de que a felicidade ha-de vir para todos nós, se me não desviarem do +caminho por onde eu a busco...</p> + +<p>«Para todos nós, filha! que innocencia, que illusão a tua! D'esta queda +ninguem mais se ergue, e menos eu.</p> + +<p>—Ergue, mãe. Verá que o desenlace d'este desgraçado enredo não ha-de +ser o que a mãe espera.</p> + +<p>«Oh, filha! tu queres que eu sobreviva a esse infeliz que mataram...</p> + +<p>—Ninguem morreu, minha mãe. Olhe... aqui tem uma carta do sr. Almeida; +escreveu-a elle com o proprio punho; está livre de perigo... Veja, veja o que +elle diz...</p> + +<p>D. Angelica abriu a carta com fervente soffreguidão, e leu o seguinte:</p> + +<p>«Minha prezada amiga. Sei quanto deve ser-lhe penosa a noticia do triste +acontecimento, que hontem se deu. Apresso-me a dar-lhe a certeza do nenhum +risco da ferida, e rogo-lhe que se convença d'esta verdade, para ser mais suave +a cura. De v. exc.ª amigo verdadeiro.—<em>Antonio de Almeida.</em>»</p> + +<p>«Isto é verdade, Ludovina?—exclamou ella erguendo as mãos, e apertando +a carta ao coração—Isto é verdade, minha filha?</p> + +<p>—É, juro-lhe que é...</p> + +<p>«Como podes tu jura'-lo? quem o viu?</p> + +<p>—Eu, mãe.</p> + +<p>«Tu! viste-o, Ludovina? sem repugnancia, minha filha?<span +class="pn">{159}</span> Que inspiração tiveste de o visitar? O coração +impellia-te? era o coração? diz, diz, que eu preciso acreditar n'uma influencia +divina em tua nobre alma! Não me respondes, filha! Não queres dar-me a alegria +completa! Foi só por caridade, por compaixão, que o visitaste?</p> + +<p>—Foi por amor de minha mãe que o visitei.</p> + +<p>«E elle? que fez quando te viu? abraçou-te? beijou-te? chorou nos teus +braços, Ludovina? Disse-te alguma palavra que te espantou, augmentando a tua +piedade? Fala, fala sem pejo. Aqui a vergonha é toda minha. A reserva já agora +é impossivel entre nós, filha. Que te disse? responde...</p> + +<p>—Nada, minha mãe...—balbuciou a baroneza.</p> + +<p>«Nada?</p> + +<p>—Que poderia elle dizer-me... para augmentar a minha piedade? bastava +ser nosso amigo de tantos annos... lembrar-me eu que o vi sempre ao pé de minha +mãe... recordo-me dos affagos que elle me fazia, dos bons conselhos que me deu +sempre, das consolações affectuosas com que alliviava as minhas maguas, desde +que infelizmente casei. Tanto como isto era sobejo estimulo á minha pena. E, +depois, vêr quanto a mãe soffria... porque o prezava tanto como eu o +estimava...</p> + +<p>«Basta, minha filha, eu mortifico-te... Ha de custar-te amarguras terriveis +essa delicadeza... Comprehendo-te, minha amiga... Agora vaes tu dizer-me por +que meio has de restaurar o teu credito perante teu marido... Não me atrevo a +aconselhar-te, Ludovina, por<span class="pn">{160}</span> que ha em ti +fortaleza de juizo que confunde a minha timidez e fraqueza... Faz o que +quizeres de mim; eu obedeço-te, sigo-te cegamente; acceito conselhos de ti como +do meu anjo da guarda.</p> + +<p>—Eu não a aconselho, minha mãe... pelo contrario, supplico-lhe que me +advirta, se eu me desencaminhar do bom caminho onde a consciencia me diz que +estou agora. Toda a minha confiança está posta em Deus, que protege a +innocencia e é misericordioso com a culpa. O mundo será cruel comnosco; seja, +muito embora; nós supportaremos as cruezas do mundo, sem nos curvarmos aos seus +juizos. Minha mãe ha de ajudar-me a vencer os dissabores passageiros da +maledicencia, pensando em me fazer cada vez mais digna do seu amor. No tocante +ao que ha de vir melhorar a nossa sorte, espero que virá, mas os meios não os +sei. Hei de a este respeito consultar o nosso amigo Antonio de Almeida.<span +class="pn">{161}</span></p> + +<h1>XVI</h1> + +<p>Consta-me que é geral o cuidado que está dando aos leitores o barão de +Celorico de Basto.</p> + +<p>Como este homem captou a benevolencia publica, mórmente a dos maridos, isso +não sei eu.</p> + +<p>Caprichos.</p> + +<p>Commiseração, lastima e dó, não a faz decerto o marido de Ludovina. Eu de +mim, apesar de quem me forneceu os apontamentos d'esta lugubre historia, mais +de uma vez tenho dulcificado com as amenidades da linguagem o travor das +informações insuspeitas. Faz-me zanga a felicidade d'este marido, se o +confronto com outros «minotaurisados» iniquamente.</p> + +<p>Não transijo com o estupido acaso que travou as relações de João José Dias e +Melchior Pimenta. Rebello-me contra a Providencia, se me dizem que a +Providencia entregára de mão beijada a rara joia de entre as mulheres a João +José Dias.</p> + +<p>Riquezas amontoadas pelo acaso, pelo trabalho, pela economia, pelo +latrocinio, pelo talisman do buril, pelo<span class="pn">{162}</span> +fornecimento dos açougues humanos na America, essas riquezas, vejo-as, +entendo-as, explico-as; porém, mulheres como Ludovina, corpos e almas de tanta +perfeição, creaturas que privam com os anjos, assim sacrificadas a um Baal +repulsivo de sandice e gordura, isto faz-me materialista, incredulo, e atheu; +ou remontado em assomos de espiritualista, confesso a Providencia, mas tão +sublime, tão ao longe das pequenezas d'este ponto do mundo, que não cura de +saber se o zoupeiro João José casa ou não casa com a sylphidica Ludovina.</p> + +<p>Não vou de encontro ás crenças de ninguem; Deus me livre. Todavia, +raciocinemos, em quanto a razão de si apoucada, não contender com os dogmas +indisputaveis da fé.</p> + +<p>Saibamos, pois, o que é feito da sympathica personagem do barão de Celorico +de Basto.</p> + +<p>Pesquizei miudamente o itinerário de s. ex.ª, e colhi as seguintes +informações, que podem auxiliar os alienistas no estudo das faculdades +intellectuaes de muitos barões, no primeiro periodo do seu desmancho.</p> + +<p>Sei que chegou a Baltar bifurcado n'um garrano, e o preto n'outro. Apeou-se +ahi para reanimar o animo quebrantado da ensuada cavalgadura, cuja pulmoeira +recrudesceu na subida da serra de Vallongo.</p> + +<p>Simão, vendo que seu amo rejeitava a vitela proverbial da estalagem da +terra, e, sabendo qual era o prato favorito d'elle, frigiu quatro ovos com +rodelas de cebola, e poz-lhe deante a fritada provocante, cuidando que o +acepipe mimoso abriria o apetite do melancolico barão.<span +class="pn">{163}</span> Baldado empenho, perdidos desvelos, mas não perdidos +ovos, que os comeu o contristado preto, asseverando, a cada garfada, que os +podiam comer os anjos, para ver se assim estimulava o jejum de seu amo +impassivel.</p> + +<p>Reparou o preto, em quanto encovava o almoço, que o barão, de vez em quando, +sacava da algibeira o charuto horrendo, e resmungava em tom soturno:</p> + +<p>—Foste a minha desgraça, tição negro do inferno!</p> + +<p>E contemplando-o com os olhos coruscantes de terror, arremessava-o com +frenesis impetuosos, e apanhava-o de novo para o esconder na algibeira!</p> + +<p>«Que diabo é isto, senhor?—perguntára timidamente o preto.</p> + +<p>—Não vês? é um charuto, que me ha de matar!</p> + +<p>«Pois v. ex.ª fuma isso! Bote-o fóra, que tem má cara esse demonio!</p> + +<p>N'estas e n'outras praticas semsaboronas, que não prestam para a tragedia, +nem para a farça, chegaram á villa de Torrão, onde o nobre viajeiro apeou outra +vez, e escreveu uma longa carta a sua mulher, na qual carta entre muitos outros +periodos lamuriantes, dizia que não lhe era possivel fazer passar nada dos +gorgomilos para dentro, e protestava deixar-se morrer de fraqueza para acabar +mais depressa com o seu remorso. Pedia novamente perdão a D. Angelica, e rogava +a sua mulher que tornasse a supplicar em nome d'elle o perdão de Antonio de +Almeida. Outro sim, pedia á baronesa que mandasse dizer trezentas missas por +alma do defunto Almeida, e outras tantas por alma d'elle<span +class="pn">{164}</span> testador, quando Deus fosse servido leva'-los á sua +presença. O principal da carta guardava as fórmas testamentarias: faltava-lhe, +porém, a condicional prescripta do «perfeito juizo e claro entendimento», posse +de que o preto duvidava muito, e os da estalagem não duvidaram menos, quando o +barão entrou a gritar que era um assassino, e estava já vestido e calçado nas +profundas do inferno. Almas boas que o ouviram, tiveram-n'o em conta de +possesso, e, se o barão não sáe, era filado pelo padre Anacleto da Sacra +Familia, egresso arrabido, que a piedade da estalajadeira chamára para resar os +exorcismos ao demoniaco.</p> + +<p>O barão foi pernoitar na villa chamada Arco: (notem a paciencia de um +romancista que sabe do seu officio.)</p> + +<p>O cirurgião da villa, chamado por deliberação do preto para ver o amo, +receitou um cozimento de fel da terra, tomado de manhã, e esfregações de oleo +de amendoas na circumferencia do abdomen.</p> + +<p>O barão mandou-o á fava com louvavel discernimento, e escreveu quatro folhas +de papel almaço, que sobrescriptou a sua mulher. O contheudo do aranzel +tremendo era o disparate lastimoso de uma cabeça febril, apavorada de visões +sangrentas, que o forçavam a estropiar a syntaxe de um modo lastimavel, e a +desbancar o methodo do imaginoso Castilho no invento da orthographia.</p> + +<p>No dia seguinte, ás onze horas da manhã, chegou o barão á sua quinta de +Celorico, onde, creio que já se disse, viveram frades n'outro tempo. A entrada +do proprietario<span class="pn">{165}</span> nos seus dominios foi assignalada +pelo primeiro accesso de loucura formal.</p> + +<p>Á entrada da antiga claustra, estava um S. Francisco de pau com o seu habito +venerando.</p> + +<p>O barão soltou medonhos gritos, clamando que o santo era o phantasma de +Antonio de Almeida. A logica do preto foi insufficiente para convence'-lo de +que o phantasma era o patriarca S. Francisco. Teimando aquelle em conduzi-lo +pela mão ao pé da imagem, afim de convence'-lo com o tacto, o barão +assentou-lhe na carapinha dois murros puxados d'alma, com os quaes o paciente +preto tambem viu phantasmas luminosos.</p> + +<p>Os primos circumvizinhos começaram a visitar o genro de D. Angelica, e saíam +espantados do disparatar do barão, que descaía de uma conversação atilada para +a historia do phantasma infesto, que apparecia na casa que fôra convento.</p> + +<p>Fechado e trancado no seu quarto, o infeliz maniaco recitava monologos +estirados em tom cavernoso. O charuto andava sempre á baila nas apostrophes +descompostas, e recebia epithetos que esqueceram a Francisco Nunes.</p> + +<p>Eram decorridas setenta e duas horas de jejum estreme, quando o barão pediu +de comer a altos brados, e comeu porções incriveis de carneiro guizado com +batatas, facilitando o transito d'estas com emborcados picheis do verdasco, +predilecto seu.</p> + +<p>Emergindo de uma especie de lethargia de leão sazonatico, o barão urrava +como d'antes, recuando ao<span class="pn">{166}</span> phantasma, que já não +era S. Francisco sómente. Qualquer sombra se lhe afigurava aventesma, ou avejão +como elle a denominava. O proprio preto, se lhe assumava de repente á porta do +quarto, ou por entre as arvores da quinta, fugia espavorido á gritaria +rouquenha de seu amo.</p> + +<p>Os facultativos chamados pela parentella compadecida capitularam de demencia +a cousa, e receitaram as sangrias e os vesicatorios. Os meios persuasivos para +o levarem á cama nada conseguiram; os da força seriam inuteis, por que o preto +espadaudo e possante, invocava o testemunho da sua cabeça confusa contra o +projecto da violencia. Ninguem se queria arriscar ao perigo certo de um murro +secco do barão.</p> + +<p>Contava elle a toda a gente a historia do charuto que já trazia meio +desenrolado n'um canudo de papel...</p> + +<p>Se porém acontecia proferir o nome da sogra, vinham-lhe convulsões, e não +acabava o conto. A historia, como elle a contava, fazia rir os ouvintes. +Aquelle charuto fôra-lhe enviado pelo diabo em troca da sua alma. O charuto +infernal obedecia á sua vontade, e despejava uma bala como uma clavina, em +consequencia do que, elle barão, matára um homem, desfechando-lhe o charuto no +peito. Acabada a historia entravam as larvas a rodea'-lo, e elle a esconder-se +de cócoras atraz dos circumstantes.</p> + +<p>Entenderam os cavalheiros de Basto que o barão fugira doudo á sua familia, e +avisaram a baroneza, lembrando-lhe a conveniencia de o passarem a +Rilhafolles,<span class="pn">{167}</span> antes que a demencia se tornasse +incuravel. Chegou o aviso já quando Ludovina, avaliando pelas cartas a +desorganisação mental de seu marido tinha partido para Celorico de Basto.</p> + +<p>Melchior Pimenta e D. Angelica julgavam temeraria a ida de Ludovina. O pae +(<em>Pater is est etc.</em>) queria acompanha'-la, receoso de que a presença +d'ella enfurecesse o doudo. A baroneza recusou a protecção do pae, e respondeu +á mãe com palavras que a fizeram córar, posto que adoçadas pelo respeito +filial.</p> + +<p>«Quando me casaram com este homem—disse ella—não se estipulou a +condição de que eu o desampararia, se elle enlouquecesse. Augmentam os meus +deveres, agora que elle mais precisa de uma amiga. A consciencia da minha boa +mãe manda-me ir; o coração deseja que eu não vá. Devo obedecer á sua +consciencia, para ser cada vez mais digna do seu coração.»<span +class="pn">{168}<br>{169}</span></p> + +<h1>XVII</h1> + +<p>Ao cabo de tres semanas, Antonio de Almeida ergueu-se convalescente. As +melhoras de D. Angelica augmentavam por egual com as d'elle; mas uma outra +qualidade de soffrimento lhe amargurava a alma: era a saudade, o anceio de +falar-lhe, a necessidade de recompensa'-lo dos perigos da morte com as suas +lagrimas.</p> + +<p>Almeida, porém, não lhe escrevia, não lhe dizia, ao menos, que o seu amor +não succumbira á terrivel catastrophe, que a sua amizade, ao menos, venceria +todos os estorvos.</p> + +<p>«Que mal te fiz?</p> + +<p>Diz D. Angelica em uma carta que lhe escreve.</p> + +<p>«Uma grande desgraça aconteceu; mas essa desgraça foi de nós ambos, Almeida. +</p> + +<p>«A bala que te matasse, matar-me-ia. O risco em que a tua vida esteve, +queres tu que eu t'o pague com a minha? A morte repelle-me.</p> + +<p>«Quem me dera, meu Deus, quem me dera morrer,<span class="pn">{170}</span> +se ainda posso deixar-te de mim uma lembrança triste, meu amigo!</p> + +<p>«Este teu silencio dóe-me tanto como se te houvesse perdido, e chorado na +sepultura. Assemelha-se ao desprezo a tua frialdade. Bem sei que não pódes vir +a esta casa, á casa de minha filha; mas que não faria eu para te encontrar, +Almeida?</p> + +<p>«Pois é possivel este desfecho de uma paixão que tantas lagrimas me ha +custado! Soffrer vinte e dois annos, envelhecer agradecendo-te os tormentos e +os remorsos que me empeçonharam a mocidade, para agora assim ser despedida da +tua alma, sem que ao menos me digas até que ponto sou culpada no teu +infortunio?</p> + +<p>«Oh meu amigo, que infortunios seriam necessarios, que flagellos inventaria +o inferno para me fazer deixar-te!</p> + +<p>«Eu tinha d'antes noites desveladas de continuos remorsos—se tinha!... +vós o sabeis, Deus meu!—e, ao cabo d'esse martyrio, sondando-me, Almeida, +sentia-te mais dentro do meu coração, mais senhor da minha alma!</p> + +<p>«Conspirassem todas as forças d'este mundo contra mim, fosse eu chamada para +dar conta da minha honra, proferiria o teu nome com orgulho, offerecendo o +rosto para todos os ferretes da ignominia. Isto assim era amor, amor insensato +de mulher que faz da sua deshonra um heroismo!</p> + +<p>«E tu pagas-me tão cruelmente, meu amigo! Adivinhas que em tres semanas os +meus cabellos se fizeram<span class="pn">{171}</span> brancos? Assusta-te a +presumpção de que a minha face envelheceu? Não pódes já ver em mim signaes +desvanecidos da Angelica dos dezoito annos? Tens razão, Almeida; estou velha, +mas o coração, unica belleza que eu tinha, unico dote que fazia a minha vaidade +de merecer-te, esse, meu amigo, aperfeiçoou-se através de vinte e dois annos, +está hoje como não estava quando te assenhoreaste d'elle, aperfeiçoou-se em +contacto com os dons sublimes do teu, encheu-se de amor que o ha-de matar, +porque já não tenho peito que possa conter tanto fel!</p> + +<p>«Não estou assim repulsiva que te afugente, Almeida. Não imagines o que fui, +nem repares no que sou. Lembra-te só do perdido amor que te dei, mova-te só a +lembrança do muito que a minha alma te quiz; acceita-me na velhice uma amizade, +que te não será pesada agora, nem embaraçosa para tua felicidade. Diz-me só que +o teu silencio não é desprezo nem esquecimento. Poupa-me á horrivel morte que +me faz tremer. Se tudo perdi, resta-me o recurso da tua commiseração. Imploro-a +de joelhos. Amor, esse sei eu que se não supplica; mas engana-me, Almeida, +engana-me, por piedade. Diz-me que uma dedicação de tantos annos não póde +acabar com o desprezo.»</p> + +<p><em>Ingrato homem!</em> é a exclamação natural com que as leitoras sensiveis +exprimem o seu dó.</p> + +<p>Pois decidem de leve, e accusam com a costumada injustiça. Antonio de +Almeida é tão digno de lastima como Angelica. Ora, vejam a seguinte carta que +Ludovina<span class="pn">{172}</span> lhe escreveu, antes da sua partida para +Celorico:</p> + +<p>«Lembra-me que, sendo eu creancinha, sentava-me no collo do meu amigo, +anediava-lhe os cabellos, fazia-lhe muitas meiguices de coração e de astucia, +para no fim lhe pedir um brinquedo, um passeio, uma qualquer cousa que o meu +amiguinho me não sabia negar.</p> + +<p>«A creança fez-se mulher, já não sabe ameigar antes de pedir; mas essa falta +vem de eu me esquecer das maviosas e candidas palavras que sabia então. O +coração é bom como era, a affeição maior e mais entranhada, a confiança de ser +bem recebida em meus rogos é mais solida: o que me falta, como já disse, é o +tom carinhoso, a meiguice seductora da innocencia.</p> + +<p>«Não importa. Eu vou pedir ao meu amigo um favor, favor immenso; empenho +para alcança'-lo da sua generosa alma todo o amor que me teve, todas as +recordações doces que o trazem desde o berço de Ludovina até estes dias tristes +que vamos vivendo.</p> + +<p>«Peço-lhe, meu amigo, que tire da sua virtude as forças que o coração não +tiver para cumprir uma supplica que vou fazer-lhe em poucas palavras.</p> + +<p>«Seja mais forte que a minha pobre mãe. Se vir que ella cáe, sustente-a. +Trabalhe comigo para que o segredo d'aquella noite horrivel se não descubra á +curiosidade infamadora do publico. Não peço que lhe dê consolações frivolas. +Lições de virtude, suspeito que não aproveitam a minha mãe, sendo dadas pelo +meu amigo. A razão está muito longe do coração. Penso que<span +class="pn">{173}</span> minha mãe tomaria como esquecimento, ou desamparo os +seus conselhos.</p> + +<p>«Conhece bem a situação de minha mãe, sr. Almeida? Siga o que a sua honra +lhe inspirar. Veja que novas desgraças podem seguir-se. Avalie o que eu tenho +feito por ella, e medite na extensão da minha dôr se tudo o que fiz e faço fôr +perdido.</p> + +<p>«Não sei dizer o que me está na alma. Pode ser que eu dissesse o mais +confusamente que é possivel o meu pensamento. Lá está o seu nobre espirito para +aclarar a obscuridade d'essas palavras.</p> + +<p>«É necessario grande animo para me obedecer? Soffra, meu amigo, soffra +comigo. Olhe que me ha de abençoar, e gloriar-se do seu sacrificio.</p> + +<p>«Eu parto hoje para Celorico. Meu marido é digno de pena. Vou ajuda'-lo a +combater os remorsos que o tem levado ao infortunio da demencia.</p> + +<p>«Olhe que vida esta, meu amigo! Sirva-lhe o meu exemplo para a paciencia, e +para o heroismo. Adeus. Sua amiga <em>Ludovina</em>.»</p> + +<p>Esta carta explica o silencio de Antonio de Almeida. Comprehendeu-a com o +juizo prudencial dos quarenta annos. Meditou-a com tanto respeito como +admiração. Recolheu as palavras d'ella com religiosa austeridade, e violentou a +alma a aceitar o juramento da observancia, com pena de deshonra e villania, se +rescindisse alguma vez a alliança que fizera com a que elle, no intimo de seu +coração, chamava filha.</p> + +<p>Eu sei de mais que os amadores, em romance de boa<span +class="pn">{174}</span> escola, não costumam assim accommodar-se, e obedecer +aos ditames da razão. Estas cousas, como ahi se contam, são naturaes e +observadas, e sentidas; por isso mesmo desagradaveis, em novella, onde o bom é +o inverosimil, e o que mais captiva é o que mais repelle o coração bem formado. +</p> + +<p>Estes amores de Antonio de Almeida e D. Angelica, tractados por imaginação +de mais pulso, davam para muito brilhar. Estou a ve'-lo a elle, pelo prisma +phantastico dos mestres, erguer-se da cama com a mecha ainda na aberta chaga, +um par de pistolas de doze tiros, nas algibeiras, entrar, entrar de cabellos +hirtos e rosto livido, no quarto de Angelica, e semi-desfallecido nos braços +d'ella, dar largas á parlenda, e vociferar, por entre amorosas phrases, +esconjuros odientos contra o genero humano, contra a instituição do matrimonio, +e contra os deveres conjugaes! Agora se me afigura vêr Melchior Pimenta assumar +no limiar da porta, e embasbacar petrificado diante do grupo escandaloso. Ha +gritos, injurias, investidas, até que alfim, levados á puridade para um recanto +da casa, ahi combinam um duello de morte, no dia seguinte. Medonha figuração me +avulta agora na imaginação de emprestimo Melchior Pimenta, após a detonação de +dois tiros, cambaleia sobre as pernas, leva a mão ao seio que espirra golfos de +sangue, põe os olhos annuviados no céo impassivel, que contempla o quadro feio, +e expede o derradeiro halito, nos braços dos padrinhos.</p> + +<p>Quantos capitulos desgrenhados cuida o leitor que<span +class="pn">{175}</span> dava esta parvoiçada imaginativa? Dois volumes em +oitavo com seiscentas paginas, afóra o subsidio das reticencias, que, na minha +opinião d'outro tempo, foram inventadas para definir a mulher; e na minha +opinião d'agora, inventou-as o primeiro litteratico ôco de idéas.</p> + +<p>Ora, que fiquem com Deus os mestres que tão vistosos de zarandalhas nos +embelecam; e, pelo caminho direito, mas escabroso da verdade, vamos entrar na +ultima jornada d'esta historia.<span class="pn">{176}<br>{177}</span></p> + +<h1>CONCLUSÃO</h1> + +<p>O barão de Celorico parecia uma creança atemorisada ao pé de Ludovina. Se a +perdia um momento, davam os espectros com elle, e lá ia o pobre homem gritando, +até se acocorar ao pé d'ella, escondendo-se com a roda do vestido.</p> + +<p>Bastava a presença de Ludovina para socegar-lhe os accessos de loucura, +manifestados em exclamações desatadas, quasi sempre seguidas da apparição do +charuto cuja historia elle contava a sua mulher, pelo theor ridiculo que já lhe +ouvimos.</p> + +<p>Acudia Ludovina com o inutil remedio da razão, despersuadindo-o da morte de +Almeida. O barão abria a bocca attenciosa, parecia dar mostras de entender e +acreditar; o desfecho, porém, do silencio sereno com que a escutava, era ver um +novo avejão, que o vinha aterrar por cima do hombro da mulher.</p> + +<p>Os primos compadecidos, e os facultativos aconselhavam á baroneza o emprego +dos meios violentos para o curarem. A grande idéa therapeutica era o caustico e +a<span class="pn">{178}</span> sangria. A contristada senhora annuiu. Por sua +parte, fez-lhe até carinhos para o induzir a deixar-se sangrar. O barão +replicava que o queriam matar, e de joelhos pedia á mulher que não o deixasse +morrer ás mãos dos seus inimigos, que o perseguiam para lhe roubarem a esposa. +</p> + +<p>Resolveram empregar a força. Dois robustos camponios tomaram a peito a ardua +empresa. O cirurgião armado de lanceta esperava o ensejo propicio. O officioso +abbade da freguezia encarregára-se de cingir-lhe um lenço sobre os olhos. O +juiz ordinario pegava na bacia. Varios primos formavam o corpo de reserva, e a +baroneza fugira para não presenciar os extrebuxamentos do infeliz.</p> + +<p>—Agora!—disse o facultativo.</p> + +<p>Á palavra <em>agora</em> o barão estava entalado entre quatro braços +cabelludos, e o abbade, á rectaguarda do preso, lançava o lenço com mão +certeira. O barão arquejava, sem comtudo barafustar entre os membrudos braços. +Tudo promettia um propicio resultado, quando o antigo hercules da rua dos +Pescadores sacode um solavanco, e dispara dois murros simultaneos nas ventas +vizinhas. Umas eram as do abbade, o proprietario infeliz das outras ventas era +o juiz ordinario. Investiram de novo contra elle os athletas: cara lhes foi a +façanha, porque apararam um choveiro de sôcos tremebundos, indo um d'elles por +engano, estoirar na lombada do cirurgião. Rarearam as fileiras. O abbade, o +juiz, e os homens de péga, parte dos primos, e o cirurgião coaram-se<span +class="pn">{179}</span> cabisbaixos pela primeira porta que lhes franqueou a +fuga atropellada.</p> + +<p>N'esse conflicto appareceu Ludovina. O doudo baixou as armas contundentes, +os braços iteriçados que vibravam o ar como duas mangueiras de malho. Correu +para ella, como a pedir-lhe soccorro, ouviu-lhe as reprehensões com o tremor do +medo, e cahiu prostrado da lucta sobre uma cadeira, apegando-se á saia da +baroneza.</p> + +<p>Aqui está o viver da deploravel senhora, no espaço de um mez, em Celorico de +Basto. Aquella vida, e as dôres profundas de outras causas, eram o preço por +que se fizera, ou a fizeram opulenta aos olhos da sociedade, que, ainda assim, +a invejava.</p> + +<p>O barão desmedrára a olhos vistos. Do antigo João José Dias restava o +arcabouço proeminente de angulos osseos. A panda physionomia, tão rubida de +nediez chorumenta, chupára-se, entanguira-se, cousa de fazer lastima. Diziam +todos que a baroneza, um mez depois, seria uma formosa e rica viuva. Já dois +dos primos, morgados empenhados, botavam suas medidas, e porfiavam a conquista. +As damas, com palavras francamente grosseiras, iam dando os parabens á +baroneza. As que ousaram feri'-la assim, ouviram resposta que lhes fechou para +sempre as portas de sua casa.</p> + +<p>A idéa que dominava o barão era a morte de Antonio de Almeida. Ludovina +perdera a esperança de afugentar o phantasma, empregando razões tão +convincentes da vida de Almeida como eram mostrar-lhe cartas<span +class="pn">{180}</span> d'elle, que o barão ouvia ler com o sorriso do +idiotismo, percursor de nova berraria.</p> + +<p>A ultima que Ludovina lera, quasi certa de que seu marido não a percebia, +foi a seguinte:</p> + +<p>«Minha amiga. É já bastante o numero dos infelizes que põem os olhos +lagrimosos no abrigo consolador de Ludovina. Somos já muitos os desamparados da +esperança e da alegria. D'aqui até ao fim da vida é soffrer, e chorar de modo +que o mundo nos não veja as lagrimas: é preciso que o coração as verta e as +absorva; é necessario suffocar os gemidos, e entreter as dôres, cavando a +sepultura.</p> + +<p>«Curta será a minha existencia. Quarenta e quatro annos, e a saude +alquebrada, e o coração feito pedaços, é um bom agouro, não é? Mas, para +Ludovina será extensa a estrada da amargura. Tem vinte annos, minha amiga; +vejo-a na aresta do precipicio, a contemplar-lhe a profundeza, e ahi se lhe hão +de prolongar as horas como as do desterrado. Meu pobre anjo! quem lhe +vaticinaria ha dez annos este infortunio?</p> + +<p>«A santidade do seu viver devia ser recompensada aqui; mas a fé, a religião +dos desgraçados, ensina que o premio das grandes virtudes não póde ser dado +n'este mundo porque não ha mãos puras que possam tecer a corôa do martyrio. +Espere, Ludovina, com os olhos no céo, e a mão sobre o seio para esmagar os +impetos do coração, que tem accessos de raiva blasfema.</p> + +<p>«Obedeci-lhe, Ludovina.</p> + +<p>«Comprimi, abafei, matei a essencia da minha vida,<span +class="pn">{181}</span> o sentir que m'a fazia preciosa. Sou para sua mãe uma +memoria. D'ella tenho só o nome escripto no coração, como o epitaphio do +affecto que ali morreu recalcado.</p> + +<p>«Deu-me um calix, Ludovina. Bebi-o de um trago. Se tem outro, offereça-m'o; +toma'-lo-hei de joelhos.</p> + +<p>«Pergunta-me qual é o meu viver?</p> + +<p>«É isto, minha amiga. Não sei dizer-lhe que turbação afflictiva me embaça o +animo. Em redor, todos os meus horisontes são tenebrosos. A mesma sepultura +perdeu para mim os encantos de repouso, esse acabar que é o porto seguro de +todos os naufragos d'este horroroso pego.</p> + +<p>«Poderei fazer-lhe entender, Ludovina, um quadro triste da minha imaginação +cançada de soffrer? Vejo dois vultos em pé, taciturnos, sombrios, com os olhos +cerrados, travando-se as mãos com a gelida immobilidade de duas estatuas. Parou +a vida externa n'estes dois entes. Uma tremenda agonia lhes despedaçou a maior +parte do coração; o remanescente são fibras de ferro que resistem ao veneno e á +morte. Ao pé d'elles está a sepultura de ambos, e o anjo da consolação, sentado +n'ella, alimenta ahi a alampada da esperança.</p> + +<p>«Adeus, minha santa amiga.»</p> + +<p>Esta carta reclamaria notas explicativas, se o entendimento do leitor não +traduzisse a singelo o que ahi se esconde no figurado da linguagem. A alliança +de Antonio de Almeida e Ludovina, sobre um contracto de honra tão melindrosa, +não podia ser tractada com mais recato e pejo, de ambas as partes. Entende-se o +melancolico<span class="pn">{182}</span> debuxo que attribulava o espirito de +Almeida. Angelica era a companheira d'esse homem que lhe dava as mãos á borda +da sepultura. A alampada da esperança alimentada pelo anjo da consolação, era o +fito da morte d'onde ambos não desfitavam os olhos, como a naufragos succede, +se no horisonte se lhes recorta um rochedo salvador.</p> + +<p>Ludovina entendeu o viver de sua mãe, e pungidas lagrimas essa carta lhe +desentranhou do coração. Chamou-a para si com grandes demonstrações de saudade. +Pediu-lhe que fosse alliviar-lhe o peso da cruz á qual já não bastavam seus +hombros. Dava-lhe paciente conta do seu viver ao pé do barão que noite e dia +bramava contra os espectros, e já dava aos facultativos receio de morrer +desvariado, a mais acerba de todas as mortes.</p> + +<p>D. Angelica, fechada em seu quarto, realisava a imagem que a phantasia de +Almeida adivinhára. Sombria, inerte, reconcentrada, impassivel a cuidados, +carinhos, e desvelos de Melchior Pimenta, apenas dizia que estava esperando a +morte, e repellia com desabrido enfado os lenitivos de quem quer que fosse.</p> + +<p>Nunca mais escrevera a Almeida, e á filha eram mais as lagrimas que as +lettras. Não era a sua uma d'essas dôres que desabafam. Sentia-se tomada de +vergonha, se o coração a mandava abrir-se em desafogados prantos com Ludovina. +Sentia-se ferida de aborrecimento, se não odio, quando o marido, mais simulado +que dorido, lhe repetia as consolações frivolas de quem não comparte as +penas.<span class="pn">{183}</span></p> + +<p>Á saudosa carta que a chamava a Celorico, D. Angelica respondera que já não +tinha vigor que a levantasse do seu leito. Supplicava a Ludovina que lhe +perdoasse a ella como causa dos seus tormentos, e lhe acceitasse como reparo do +seu pouco amor maternal os amargos transes que lhe estavam desfazendo o coração +fibra por fibra.</p> + +<p>No entanto, disseram os medicos á baroneza que a apparição d'esse homem, que +o barão julgava sua victima, poderia recobrar-lhe a razão, desopprimindo-a de +phantasmas e remorsos, causas principaes da demencia.</p> + +<p>Ludovina communicou a Almeida as esperanças dos medicos, sem pedir-lhe o +sacrificio de se verem.</p> + +<p>Almeida foi a Celorico de Basto, e encontrou ao pé da baroneza Melchior +Pimenta.</p> + +<p>Ludovina turvou-se da surpresa, e assim denunciou aos olhos do pae o +sobresalto em que a puzera a apparição do amante.</p> + +<p>Melchior Pimenta, forte da sua indignação, insultou Almeida, exprobrando-lhe +a pertinacia da infamia, e ameaçando-o com a morte, se elle não sahisse +immediatamente d'aquella casa.</p> + +<p>Ludovina cobrando forças, disse que só ella tinha direito de expulsar alguem +d'aquella casa. Encruou-se a sanha de Melchior, vociferando injurias contra a +filha, e provocações ao hospede silencioso. E saíu escandecido de raiva. +Almeida quiz segui'-lo, com sereno gesto, sem assomos de colera, nem proposito +de vingança. Impediu-o Ludovina com lagrimas e gemidos que irritavam<span +class="pn">{184}</span> as iras paternas. Bem se via que não estava ali um pae; +e, se estava, não era por certo Melchior Pimenta.</p> + +<p>Este conflicto atalhou-o o barão. Seguiu-se uma scena de effeito dramatico. +O barão recuava diante de Almeida que lhe extendia a mão. Ludovina segurava o +marido, pedindo-lhe que acceitasse a reconciliação que Almeida lhe offerecia. +Este com palavras afectuosas lhe pedia a sua estima, e o esquecimento da +passada offensa. O barão, ora espavorido, ora risonho, alternava os olhos entre +Almeida e Ludovina.</p> + +<p>O leitor já sabe como no theatro se recupera o juizo. Se é mulher a douda, +rigorosamente desgrenhada esfrega os olhos, atira com as madeixas para traz, e +dá fricções seccas ás fontes com frenesi; se, homem, abre a bocca, espanta os +olhos, soleva o peito em arquejantes haustos, despede o grito agudo obrigado a +ambos os sexos, e está pessoa de juizo, capaz de casar, que é quasi sempre a +peor das doudices em que os auctores fazem cahir os seus doudos, restaurados +para a razão.</p> + +<p>Pois o barão de Celorico não se curou por esse theor. Os áditos da razão +estavam cerrados de modo que levou longo tempo a despedaça'-los. A continua +assistencia de Almeida ao pé do leito, e as continuadas insinuações de +Ludovina, conseguiram rehabilitar-lhe o juizo, mas vagarosamente. O barão +parecia emergir d'um pesadello atroz quando reconheceu Almeida. Não houve +exclamações nem abraços de pé atraz, <em>secundam artem</em>. Lagrimas, sim, as +da baroneza, cujo contentamento desmentia as conjecturas dos primos que a +imaginavam lograda<span class="pn">{185}</span> nas suas ancias de viuvez. O +custoso, depois, foi rebocar os estragos que a demencia fizera no corpo do +barão. Foi longa a convalescença. Almeida quiz despedir-se; mas o enfermo +erguia as mãos supplicantes pedindo-lhe que o não deixasse.</p> + +<p>Melchior Pimenta, de volta de Celorico, contou a sua mulher o escandalo que +presenceára. Repetiu contra Ludovina as injurias que lhe dissera em face. +Protestou esbofetear e apunhalar Almeida na presença de testemunhas que +depuzessem no processo da sua honra, e impoz, com auctoridade, a sua mulher a +sahida immediata da casa da adultera.</p> + +<p>D. Angelica ergueu-se impetuosa e terrivel, exclamando:</p> + +<p>—A adultera sou eu!</p> + +<p>—Que dizes, Angelica?!—bradou Melchior.</p> + +<p>—Adultera sou eu. Ludovina encobriu a minha deshonra com a sua +virtude. Os nomes insultuosos que lhe dás, repara bem, Melchior, e ve'-los-has +estampados no meu rosto. Se queres lavar com sangue estas manchas, arranca-m'o +do seio! </p> + +<p>E assim falando, tirava o lenço que lhe velava os hombros, offerecendo o +peito.</p> + +<p>—Endoudeceste, minha querida Angelica?—exclamou +Pimenta—Faltava-nos esta desgraça! Estás douda! maldita seja tua filha +que te levou a esta situação!</p> + +<p>«Não estou douda, Melchior! não estou douda! Estou moribunda, e não quero +deixar infamada a teus<span class="pn">{186}</span> olhos a minha filha. Se eu +te pedisse perdão do meu crime, acreditar-me-ias?</p> + +<p>—Não, não. Tu és uma esposa virtuosa, Angelica! Diz o que quizeres +para salvar Ludovina, que eu não te creio. Reprovo essas demasias de amor, que +ella te está pagando com o amante ao pé de si.</p> + +<p>«Melchior!—disse Angelica com firmeza e gravidade—A tua filha +está innocente; a amante de Antonio de Almeida sou eu! Não me perdôes, vinga em +mim a tua deshonra, porque o perdão não t'o peço. Sabias, quando me acceitaste +como tua, que eu não podia pertencer-te. Collocaste ao meu lado o homem que me +fazia odiosa a tua baixeza. Nunca me perguntaste se era verdadeira a carta que +te escrevi em solteira, pedindo á tua commiseração que me deixasses. A mulher +que fez isto, não pede perdão. Revolta-se com a coragem do desespero, e +deixa-se morrer. Confesso o crime para salvar minha filha. Julga-me tu agora, +mas vae pedir perdão áquella santa que quiz poupar tambem a tua dignidade.</p> + +<p>Melchior Pimenta saíu do quarto de sua mulher.</p> + +<p>Para se armar do punhal de D. Jayme de Bragança, e do infante D. João?</p> + +<p>Para se dar um tiro no ouvido?</p> + +<p>Para mergulhar da ponte-pensil, ou despenhar-se dos Arcos-das-Virtudes?</p> + +<p>Para scismar e endoudecer?</p> + +<p>Não, senhores.</p> + +<p>Melchior Pimenta foi para a Alfandega, jantou no<span +class="pn">{187}</span> hotel de Miss Mery, e jogou o voltarete até ás onze +horas na Assembléa Portuense.</p> + +<p>No dia immediato, visitou sua mulher, e recommendou-lhe que desse um passeio +no jardim que estava o dia agradavel. Ás tres horas procurou-a para jantar ao +pé d'ella. Disseram-lhe que a senhora tinha sahido n'uma cadeirinha, e deixára +uma carta para seu marido.</p> + +<p>Não vi esta carta, mas infiro o contheudo pelos successos subsequentes.</p> + +<p>D. Angelica obteve, vinte e quatro horas depois, licença de seu marido para +entrar n'um convento, situado n'um ermo do Minho. D'ahi escreveu a sua filha, +pedindo-lhe uma esmola para sustentar-se, visto que o trabalho não bastava para +as suas pequenas necessidades.</p> + +<p>Ludovina apressou a sua volta para o Porto. Obteve licença para visitar sua +mãe, e demorar-se no mosteiro por tempo indeterminado. Acompanhou-a o marido e +deixou-a com a certeza de a trazer comsigo passados dias.</p> + +<p>São decorridas dois annos. A baroneza de Celorico ainda não sahiu do +convento. O barão soffre resignado a certeza de que sua mulher não sahirá +jámais.</p> + +<p>A opinião publica diz que Ludovina merece louvores por não ter o +descaramento petulante de apresentar-se como outras muitas, incursas no mesmo +peccado, e declara a alta virtude de D. Angelica, mãe amorosa que deixa a +sociedade para se inclausurar com a filha desamparada.<span +class="pn">{188}</span></p> + +<p>Melchior Pimenta está bom, e é commensal do barão.</p> + +<p>Antonio de Almeida encetou, ha dois annos, uma longa viagem d'onde não +voltou ainda.</p> + +<p>O bacharel Ricardo de Sá comprou mais tres bengalinhas, e dá a ultima demão +ao seu <small>SECULO PERANTE A SCIENCIA</small>.</p> + +<p>São hoje 15 de fevereiro de 1858.</p> + +<p>O unico personagem morto d'esta historia é Francisco Nunes. Expirou ao cabo +de uma violenta apostrophe, expedindo o derradeiro golfo de sangue com o +epitheto mais fulminante que a sua cólera lhe suggeria. Matou-o o contracto do +tabaco.</p> + +<p style="text-align:center;">FIM<span class="pn">{189}</span></p> + +<p> </p> + +<p><span class="pn">{190}<br>{191}</span></p> + +<h1>SUPPLEMENTO</h1> + +<h2>PREFACIO</h2> + +<p>O romance estava acabado. Os meus numerosos admiradores, que eu regalára com +a leitura d'essas duzentas paginas, haviam asseverado, com a costumada +franqueza, que este volume era a flor da virtude a rescender perfumes de +deleitosa aspiração para as almas. Um d'esses, cujo voto muito respeito pela +<em>massa</em> de conhecimentos que <em>amassou</em> em Frederico Soulié e +Alexandre Dumas, accrescentou que o romance <em>O que fazem mulheres</em> era a +flor do meu talento. Cheio de encantadora modestia, perguntei se a virtude da +minha heroina precisaria de mais tres ou quatro capitulos para ser vista a toda +a luz celestial com que a Providencia lhe irradiára o espirito. Disseram-me, á +uma, que não escrevesse mais uma só linha, que deixasse á perspicacia das +leitoras o desvelarem mysterios do coração, que eu não saberia illuminar sem +profana'-los, que deixasse ás lagrimas das almas sensiveis o fecho d'esta +historia, que esperasse, finalmente, alguns annos, para então escrever a +segunda parte da biographia da baroneza de<span class="pn">{192}</span> +Celorico de Basto, que talvez os collegios de meninas adoptassem para uso das +educandas.</p> + +<p>Convenci-me d'isto, e mandei ao meu editor o romance, com a prophecia de ser +este um livro cuja decima edição apenas bastaria para aquietar as ancias d'um +terço do paiz. Disse-me em linguagem fria o meu editor que uma virtude em +duzentas paginas por quinhentos réis era, pequena de mais para o comprador que +prefere um livro em trezentas. Redargui-lhe, com argumentos de grande calibre +logico e moral, que a unidade da acção era inatacavel no romance.</p> + +<p><em>Item</em>: que o estirar uma idéa para avolumar a lombada de um livro +era chatinar a mercancia litteraria.</p> + +<p><em>Item</em>: que muitas capacidades largas e agudas, ás quaes eu +submettera o meu manuscripto, se compromettiam a dizerem que este livro era a +quinta essencia de tudo que se tem escripto acerca das mulheres virtuosas desde +Sancta Agatha até ás Virgens do Thirol.</p> + +<p>Chamei em meu abono Aristoteles, Longino, e mais alguns legisladores que eu +não conhecia, para convencer o interprete do publico de que as raias do meu +trabalho de chronista não podiam transpôr as da realidade. Por quanto:</p> + +<p>Não é inventada esta historia;</p> + +<p>Não quadram os incidentes imaginados com o essencial de um conto verdadeiro; +</p> + +<p>Não tolera um leitor sisudo que se lhe encampe á credulidade enfadonhas +narrativas que agorentam a verosimilhança, ou enfastiam a attenção +benevola.<span class="pn">{193}</span></p> + +<p>Após uma renhida desavença da qual ia resultando a perda do manuscripto, que +eu insensatamente sacrificaria ao meu bem entendido orgulho, viemos ao accordo +de se publicar o magro volume com grandes margens, grandes entrelinhas, +exuberancia de reticencias, e alguns juizos criticos dos meus amigos que +serviriam de indigitar ao leitor em que paginas estão as bellezas que elle não +viu.</p> + +<p>Concertados assim, estava o typographo com a ultima pagina, quando eu fiz +uma excursão ao Minho, e encontrei no Senhor do Monte o cavalheiro que me +contára o contexto d'este romance, nos ultimos dias do mez de janeiro proximo +passado.</p> + +<p>A nossa conversação de algumas horas vae ser trasladada em paginas +supplementares.</p> + +<p>Antes, porém, de entrar n'essa tarefa que realmente me dóe, seja-me +permitido verter uma lagrima no degrau do altar onde eu collocára Ludovina, +onde ella se collocára, e de onde se me afigura que...</p> + +<p>Não dou ansa a juizos temerarios do leitor. Leiam, e decidam se a virtude +perfeita não é uma utopia impossivel n'um livro que tiver mais de duzentas +paginas.</p> + +<p>Cumpre dizer quem é a pessoa, destinada pela providencia dos romances a +figurar n'este supplemento.</p> + +<p>V. ex.<sup>as</sup> de certo a conhecem. Viram-na já muitas vezes no +theatro, nos bailes, e na missa dos Congregados, na dos Clerigos, na do Carmo, +em todas as missas classicas em que se vê tudo, e se ouve tudo, menos o padre e +a missa.<span class="pn">{194}</span></p> + +<p>Eu dou os signaes do homem.</p> + +<p>Tem uma bella cabeça, uns bellos cabellos, uns bellos olhos... Já +conheceram?</p> + +<p>De vinte leitoras, dez estão na duvida. Se v. ex.ª é uma das dez perplexas, +desperte as suas reminiscencias com os seguintes traços:</p> + +<p>O nariz é a feição mais caracteristica d'este homem. Na base tem um +promontorio, no centro uma protuberancia, na ponta uma recurva como o bico de +um passaro. Chamam-se estes narizes <em>Bourbons</em>. Agora conheceram-no +todas. Na escola dos physionomistas, este nariz tem significações espantosas. É +um nariz que individualisa um homem; é um livro aberto; é o porta-voz dos +segredos da alma; é em summa, uma biographia.</p> + +<p>Foi o que me approximou d'este homem. Se a natureza lhe désse a elle um +nariz vulgar, o leitor não se decidiria na leitura d'este romance. Vejam de +onde eu tirei um livro! O nariz de Cyrano de Bergerac foi causa de vinte +duellos de morte. Do nariz do meu amigo podem pender vinte volumes.</p> + +<p>Fascinou-me, e fui eu que me offereci á sua amizade. Achei-o um homem raro, +sabendo profundamente a vida de v. ex.<sup>as</sup>, quero dizer, todas as +virtudes que v. ex.<sup>as</sup> escondem, todas as perfeições que a sociedade +não vê, sem lh'as explicarem.</p> + +<p>É provinciano o sr. Marcos Leite: dê-se-lhe este nome. Visita o Porto duas +vezes cada anno, uma no carnaval, outra na estação do theatro italiano.</p> + +<p>Consta que nunca teve namoro que o entretivesse<span class="pn">{195}</span> +nas duas estações. O nome da mulher, que adora, até á demencia, no carnaval, +quasi sempre lhe esquece na Paschoa seguinte. Em compensação, as mulheres +rejeitadas, quando o leão volta das suas selvas nataes, apenas dão fé que +Marcos está no theatro das suas façanhas pelo estrupído extraordinario do +cavallo, que elle atira em arremettidas e sacões pelas ruas mais sonoras da +cidade eterna. A não serem as mulheres o que providencialmente são, Marcos +Leite seria prea dos dentes do remorso, ha muito tempo. Não ha uma só das +esquecidas damas, que lhe não incendiasse no mais intimo do peito um amor +eterno... de tres semanas.</p> + +<p>Algumas possuem cartas de uma paixão tão frenetica, que as exclamações de +Werther, comparadas com ellas, são frias e chatas como um rol de roupa suja. +</p> + +<p>Foi, pois, este cavalheiro, respeitavel em todos os sentidos, que me contou +o essencial da historia do barão de Celorico, accrescentando que tinha visto +duas vezes de relance, n'uma grade d'um mosteiro do Minho, proximo ao seu +solar, a figura celestial da baroneza, e a sympathica e ainda juvenil +physionomia de D. Angelica.</p> + +<p>Por essa occasião, lhe perguntei eu se traçava alguma rede á virtude heroica +de Ludovina. Respondeu-me o narrador, que não ousava escalar uma fortaleza em +cujo assalto era forçoso triumphar, ou morrer. Accrescentou, que, nem ainda +cooperado por duas primas que tinha no tal convento, elle se animava a revelar +a Ludovina uma affeição, que, desprezada, se tornaria em loucura furiosa.<span +class="pn">{196}</span></p> + +<p>Pareceu-me sensata a resposta de Marcos. Que homem conseguiria alvoroçar +aquelle coração, que eu imaginava esmagado sob a pressão de uma virtude +exaltada?</p> + +<p>Decorreram quatro mezes, e, como disse no prefacio, fui, ha dias, +surprehendido no Senhor do Monte por Marcos.</p> + +<p>Conhecem aquelle saudosissimo arvoredo, que rumoreja na sumidade da serra, e +aquella fresca alameda que está tapetando a entrada para a <em>mãe d'agua</em>? +Foi alli que o encontrei, encostado á mesa de pedra, lendo <small>LES +REVERIES</small> de Senancourt; leitura que eu aconselho a todas as pessoas que +precisam idealisar um mundo medio entre o asquerosamente lôrpa em que vivemos, +e o absurdamente inintelligivel que nos promettem as religiões.</p> + +<p>Quando me viu, Marcos Leite correu a abraçar-me, exclamando:</p> + +<p>«O meu coração tinha-te invocado. Abominaria quantos homens e mulheres me +apparecessem aqui, menos tu, e ella...</p> + +<p>—Temos <small>ELLA</small>!</p> + +<p>«E tu vieste para este sitio com o coração vazio?!</p> + +<p>—Graças a Deus, não, meu poeta. Trago tecidos, membranas, valvulas, +ventriculos, veias, arterias, nervos, sangue, etc. O meu coração está +funccionando com a mais physiologica das regularidades. Respiro +desafogadamente, e completo a digestão de uns succulentos pedaços de boi, que +triturei <em>sub tegmine fagi</em>.<span class="pn">{197}</span></p> + +<p>«Se vens assim, melhor fôra que não viesses. Eu queria que me entendesses, +como creio que me entendem, ha tres dias, estes rumores da floresta. Escuta! Vê +tu se este ermo, se este sussurro, que parece o echo esvaido de um mundo +remoto, não te está dizendo que o amor é a vida, que a esperança é a +felicidade, que debaixo do céo ha só tres cousas grandiosas, o homem e a mulher +um para o outro, e a soledade para ambos! Não digas alguma blasphemia! Esse +sorriso offende, e é um sacrilegio aqui. Agradece ao Senhor que nos dá isto, +esta fontinha, a fresquidão d'estas sombras, o murmurio d'estas arvores, o azul +do céo, lá em baixo a melancolia poetica do valle, o som do campanario rural +que repercute na alma...</p> + +<p>Marcos Leite tinha razão. Não pude contrafazer, por mais tempo, a minha +indole triste. Entrou-me a saudade no coração, aninhando-se no pequeno recinto +não tomado ainda pela desesperança. Lancei os olhos ao livro em que lia Marcos, +e recolhi á alma as seguintes linhas:</p> + +<p><em>La paix jointe aux lumières sera le partage d'un homme dans toute une +province. Quant au contentement, on le cherche, on l'espère même; peut-être +l'obtiendrait-on, si la mort ou la décrépitude ne survenaient auparavant... La +vie était bonne, et on lui trouve encore des douceurs que la raison ne saurait +méconnaître. Mais il importe que l'imagination, renonçant aux écarts, et +servant elle-même d'asile contre les peines, anime seulement le repos que l'âme +peut conserver quand elle est restée pure.</em><span class="pn">{198}</span> +</p> + +<p>«Que é isto?—perguntei eu tomando de sobre a mesa um papel escripto a +lapis.</p> + +<p>—Versos, meu caro; linhas, é melhor dizer linhas. O coração mais poeta +creio que é o menos metrificador.</p> + +<p>«Póde saber-se que anjo te roçou a fronte com a aza?</p> + +<p>—Não adivinhas quem eu poderei amar assim? Ha uma só mulher n'este +mundo. </p> + +<p>«A baroneza?</p> + +<p>—Com que frialdade proferes esse nome! Chama-lhe antes Ludovina...</p> + +<p>«Lê os versos.</p> + +<p>Marcos declamou com as mais maviosas modulações do sentimento a seguinte +poesia:</p> + +<blockquote> + A LUDOVINA<br> + <br> + Quem ha ahi que possa o calix<br> + De meus labios apartar?<br> + Quem, n'esta vida de penas,<br> + Poderá mudar as scenas<br> + Que ninguem pôde mudar?<br> + <br> + Quem possue n'alma o segredo<br> + De salvar-me pelo amor?<br> + Quem me dará gotta de agua<br> + N'esta angustiosa fragua<br> + D'um deserto abrasador?<span class="pn">{199}</span><br> + <br> + Se alguem existe na terra<br> + Que tanto possa, és tu só!<br> + Tu só, mulher, que eu adoro,<br> + Quando a Deus piedade imploro,<br> + E a ti peço amor e dó.<br> + <br> + Se soubesses que tristeza<br> + Enlucta meu coração,<br> + Terias nobre vaidade,<br> + Em me dar felicidade<br> + Que eu busquei no mundo em vão.<br> + <br> + Busquei-a em tudo na terra,<br> + Tudo na terra mentiu!<br> + Essa estrella carinhosa<br> + Que luz á infancia ditosa<br> + Para mim nunca luziu.<br> + <br> + Infeliz desde creança,<br> + Nem me foi risonha a fé;<br> + Quando a terra nos maltrata,<br> + Caprichosa, acerba, e ingrata,<br> + Céo e esp'rança nada é.<br> + <br> + Pois a ventura busquei-a<br> + No vivo anceio do amor.<br> + Era ardente a minha alma;<br> + Conquistei mais d'uma palma<br> + Á custa de muita dôr.<span class="pn">{200}</span><br> + <br> + Mas estas palmas taes eram<br> + Que, postas no coração,<br> + Fundas raizes lançavam,<br> + E nas lagrimas medravam<br> + Com fructos de maldição.<br> + <br> + Em ancias d'alma, a ventura<br> + Nos dons da sciencia busquei.<br> + Tudo mentira! A sciencia<br> + Era um signal de impotencia<br> + Da vã razão que invoquei...<br> + <br> + Era um brado, um testemunho<br> + Do nada que o mundo é.<br> + Quanto a minha mente erguia<br> + Tudo por terra cahia,<br> + Só ficava Deus e a fé.<br> + <br> + Lancei-me aos braços do<br> + Eterno Com o fervor de infeliz;<br> + Senti mais fundas as dôres,<br> + Mais agros os dissabores...<br> + O proprio Deus não me quiz!<br> + <br> + Depois, no mundo, cercado,<br> + Só de angustias, divaguei<br> + De um abysmo a outro abysmo<br> + Pedindo ao louco cynismo<br> + O prazer que não achei.<span class="pn">{201}</span><br> + <br> + Tristes correram meus annos<br> + Na infancia que em todos é<br> + Bella de crenças e amores,<br> + Terna de risos e flores,<br> + Santa de esperança e de fé.<br> + <br> + Assim negra me era a vida<br> + Quando, ó luz d'alma, te vi<br> + Baixar do céo, onde, outr'ora,<br> + Te busquei mão redemptora<br> + Procurando amparo em ti.<br> + <br> + Serás tu a mão piedosa,<br> + Que se estende entre escarcéos<br> + Ao perdido naufragado?<br> + Serás tu, ser adorado,<br> + Um premio vindo dos céos?<br> + <br> + E eu mereço-te, que immenso<br> + Tem já sido o meu quinhão<br> + De torturas não sabidas,<br> + Com resignação soffridas<br> + Nos seios do coração.<br> + <br> + Que ternura e amor e afagos<br> + Toda a vida te darei!<br> + Com que jubilo e delirio,<br> + Nova dôr, novo martyrio,<br> + De ti vindo, acceitarei!<span class="pn">{202}</span><br> + <br> + Se na terra um céo desejas<br> + Como o céo que eu tanto quiz,<br> + Se d'um anjo a gloria queres,<br> + Serás anjo, se fizeres,<br> + Contra o destino, um feliz.<br> + <br> + Faz que eu veja n'estas trevas<br> + Um relampago d'amor,<br> + Que eu não morra sem que diga:<br> + «Tive no mundo uma amiga,<br> + Que entendeu a minha dôr.<br> + <br> + «Deu-me ella o estro grande<br> + Das memoraveis canções;<br> + Accendeu-me a extincta chamma<br> + Da inspiração que inflamma<br> + Regelados corações.<br> + <br> + «Os segredos dos affectos<br> + Que mais puros Deus nos deu,<br> + Ensinou-m'os ella um dia<br> + Que d'entre archanjos descia<br> + Com linguagem do céo.<br> + <br> + «Os mimosos pensamentos<br> + Que, de mim soberbo, leio,<br> + Inspirou-m'os, deu-m'os ella<br> + Recostando a fronte bella<br> + Sobre o meu ardente seio.<span class="pn">{203}</span><br> + <br> + «Morta estava a phantasia<br> + Que o gêlo d'alma esfriou;<br> + Tinha o espirito dormente,<br> + Só no peito um fogo ardente,<br> + Quando o céo m'a deparou.<br> + <br> + «Agora morro no gôso<br> + D'uma saudade immortal.<br> + Foi ditosa a minha sorte;<br> + Amei, vivi: venha a morte,<br> + Que morte ou vida é-me igual.<br> + <br> + «Igual, sim, que o amor profundo,<br> + Como foi na terra o meu,<br> + Não expira, é sempre vivo,<br> + Sempre ardente, e progressivo<br> + Em perpetuo amor do céo.»<br> + <br> + Assim, querida, meus labios,<br> + Já moribundos, dirão,<br> + Nas agonias supremas,<br> + Essas palavras extremas,<br> + Do meu ao teu coração.<br> + <br> + Sabes quem é, n'este mundo,<br> + Quasi igual ao Redemptor?<br> + É quem diz: «Sou adorada<br> + Pela alma resgatada,<br> + Por mim, das ancias da dôr.»<span class="pn">{204}</span> </blockquote> + +<p>«Por ora, vejo que supplicas amor—disse eu.—A tua poesia é um +requerimento que póde ficar <em>esperado</em> muito tempo no gabinete do +despacho. </p> + +<p>—Fala d'outra maneira... Eu soffro demais para te achar graça. Não é +um requerimento esta poesia, meu amigo, é uma expansão de reconhecimento. O +amor ditoso chega a entristecer. Tenho a segurança, a segurança que nos dá o +coração, de que a alma de Ludovina me pertence.</p> + +<p>«Por consequencia tens tudo... Enganei o publico...</p> + +<p>—Como enganaste o publico?!</p> + +<p>«Puz em romance a historia que me contaste, e disse que a baroneza era uma +rocha inabalavel de virtude.</p> + +<p>—E receias mentir?!</p> + +<p>«Eu já sabia que me não acreditavam... Pois tenho pena, palavra de honra! A +meiga imagem de Ludovina havia de ser sempre nova e pura na minha imaginação, +como o eterno typo das duas formosuras enlaçadas, a do corpo e a da alma. +Rasgava o romance, se elle não estivesse já no prelo, e o dinheiro d'elle +transformado n'um cavallo. É tarde para reivindicar a minha honra de romancista +ingenuo ou palerma, que anda n'este mundo a querer provar, que as onze mil +virgens nunca de cá sahiram.</p> + +<p>—Pois que esperavas tu de Ludovina?</p> + +<p>«Que morresse abraçada á sua cruz, que désse o exemplo da esposa martyr, da +filha sacrificada ao bom nome de sua mãe; que sahisse apenas da sua cella<span +class="pn">{205}</span> para redobrar de paciencia aos pés do altar; que nunca +consentisse que corações degenerados como o teu, e o meu, concebessem a +esperança de profana'-la.</p> + +<p>—Estás a fazer a alta comedia, ou crês sinceramente que Ludovina +degenera? Põe de parte a consciencia de romancista, e deixa fallar a do ente +pensante e racional,—e se tu e eu somos indignos de aspirar ao amor da +baroneza, crês que um outro, cahindo das nuvens determinadamente por ella, a +absolveria do crime horrivel de ter coração?</p> + +<p>«O coração de Ludovina estava cheio de sensações, que o faziam participante +do amor divino. Que precisão tinha ella do amor dos homens? Estragou uma bella +biographia, essa mulher. Talvez fosse unica, e apontada á posteridade como +molde. Era uma virtude original; converteu-se em um vicio vulgar. A minha +heroina fez bancarrota, falliu, e deixou-me em hypotheca a palavra que eu dei a +paginas 170, pouco mais ou menos, de que eram solidos os fundos em virtude, e +grandes os haveres em creditos d'esta mulher inimitavel, typica, e biblica, +deixa-me dizer assim, porque ella merecia todos os epithetos levantados e +grandiosos.</p> + +<p>—Mas que fez a pobre senhora para descredito tamanho?</p> + +<p>—O que fez?! é boa! auctorisou-te a canta'-la em quintilhas! Um homem +de mais alma que tu és, vasaria a inspiração em versos endecasyllabos. Uma +mulher assim amada em redondilha maior! É horrivel e immoral!<span +class="pn">{206}</span></p> + +<p>—Bem! Ainda agora te comprehendi. Estás zombando com ella e comigo, e +não sei se com o publico, a quem prometteste uma virtude enfadonha e monotona, +como deve ser o teu romance, se te não salvares com a rapida narração que te +vou fazer da mais sublime virtude, da virtude por excellencia de Ludovina.</p> + +<p>—Qual virtude?</p> + +<p>—A de me receber dez cartas, escriptas com o sangue do coração, e... +não me responder a nenhuma.</p> + +<p>—Mas tu disseste-me ainda agora que tinhas a segurança de que a alma +de Ludovina te pertence.</p> + +<p>—E tenho.</p> + +<p>—Não te respondendo ás tuas cartas? Não entendo.</p> + +<p>—Não me respondeu a dez cartas...</p> + +<p>—Bem.</p> + +<p>—Mas eu escrevi-lhe vinte, e ella respondeu á ultima.</p> + +<p>—Ah! isso então muda de figura... E a resposta foi tal que te deu a +segurança de seres o proprietario do coração da baroneza!...</p> + +<p>—Queres ver a resposta? Franqueza e confiança. Lê lá.</p> + +<p>Era um bilhete que rezava assim:</p> + +<p> </p> + +<p>«Tenho recebido por delicadeza as suas cartas. Basta dar-me v. ex.ª o nome +de amiga para que eu as aprecie. Não me julgava na obrigação de responder. +Hoje, porém, que v. ex.ª me lembra esse dever, peço perdão da falta, e +castigo-me devolvendo-lhe as suas vinte cartas,<span class="pn">{207}</span> de +cuja posse sou indigna, porque não soube corresponder-lhe.</p> + +<p>«Com verdadeira estima, attenciosa veneradora de v. ex.ª—<em>Ludovina +Pimenta</em>.»</p> + +<p> </p> + +<p>—Isto é lisongeiro!—disse eu sorrindo.—Com um documento +d'estes, é indispensavel a posse que tomaste do coração da baroneza. Eu creio +que podia ser assim o proprietario mais abastado do genero...</p> + +<p>—Espera lá.. Ainda tenho outros titulos da propriedade. Já agora +has-de examina'-los todos, e dizer-me no fim se os meus direitos serão +litigiosos. Recebi as vinte cartas, e escrevi mais dez. Que dez cartas! Que +estylo! que dez causticos para fazerem supurar um coração!</p> + +<p>—Deixas ver a resposta?</p> + +<p>—A resposta foram dez cartas.</p> + +<p>—Incendiarias?</p> + +<p>—Que duvida? Eram as minhas, lacradas, sem um vinco, direitinhas como +foram!</p> + +<p>—E teimaste?! Seria necessario muito despejo e indignidade!</p> + +<p>—Não teimei: cahi doente, tive febre, assustei a minha familia, e fiz +que me chorassem as minhas primas, companheiras conventuaes da baroneza. Ao +nono dia de enfermidade, a medicina suspeitou que o sangue me refluía á cabeça. +Correu que eu enlouqueceria, ou morreria. A baroneza mandou saber de mim duas +vezes n'um dia.<span class="pn">{208}</span></p> + +<p>—Oh! isso é muito! No dia immediato foste agradecer-lhe o +cuidado...</p> + +<p>—Não fui, não podia ir. O abalo, a certeza, de que era amado, +exacerbou-me a febre, escaldou-me a imaginação a ponto de delirar. Durante um +curto intervallo de tranquilidade de espirito, escrevi á baroneza uma duzia de +linhas quando muito. Dava-lhe parte de que tinha a morte sentada á cabeceira do +meu leito de agonias; dizia-lhe que pediria por ella ao Senhor, se a gloria +celestial me fosse dada como premio do muito que soffrera, e da muita paciencia +com que soffrera na terra os rigores de uma alma que não quiz comprehender-me; +perdoava-lhe com a mais evangelica generosidade de moribundo, e emprazava-a +para me restituir o coração na eternidade.</p> + +<p>—Isso devia fundir em lagrimas de remorso a pobre senhora.</p> + +<p>—Estás ludibriando a minha angustia?—interrogou Marcos Leite com +ironico enfado.</p> + +<p>—Não ludibrio a tua angustia, faço a apologia da tua astucia. Tu não +tinhas febre, nem vias a morte á cabeceira do teu leito, fala a verdade.</p> + +<p>«Tinha febre, palavra de honra, porque sou muito nervoso; e se me persuado +que tenho uma ponta de febre, sinto-me logo em labaredas. Tenho tido vinte e +tantos d'esses typhos, com as vinte e tantas mulheres que tu sabes. O que vale +é ser rapida e segura a convalescença.<span class="pn">{209}</span></p> + +<p>—Convalesceste depressa? Já vejo que o teu bilhete conseguiu...</p> + +<p>«Um triumpho!</p> + +<p>—Como um triumpho?!</p> + +<p>«Uma gloria imprevista, um lance tão arrojado de venturas, que ainda agora +me salta o coração no peito.</p> + +<p>—Guarda os extases para o fim, e vamos ao ponto.</p> + +<p>«Mandou-me visitar por um medico do Porto, que fôra de proposito medicar D. +Angelica.</p> + +<p>—Consiste n'isso o triumpho?!</p> + +<p>«Que mais querias tu!</p> + +<p>—Mais nada... A um doente a maior prova de estima que póde dar-se é +mandar-lhe um medico.</p> + +<p>«O peor foi dizer o doutor que a minha enfermidade era imaginaria. Mandou-me +dar longos passeios a cavallo, e a pé, comer alimentos pouco volumosos e muito +substanciaes, e dormir o maximo numero de horas que pudesse. Reflecti-lhe que +sentia a morte no coração; a isto redarguiu, sorrindo, o medico matreiro, que +verificando-se a morte d'esta viscera, entregasse ao estomago o exercicio das +attribuições do coração. Não sei o que elle foi dizer á baroneza: é certo que +os cuidados da parte d'ella não esfriaram, e eu, melhor avisado, entendi que +não precisava morrer para ser amado. Logo que me ergui do leito...</p> + +<p>—Da agonia, ou da dôr para variar...</p> + +<p>«Nada de chacóta. D'aqui em diante fala-se serio. Logo que sahi fui ao +convento. Era por uma bella tarde de maio. Soprava de leste uma viração +suavissima,<span class="pn">{210}</span> que, sacudindo as urnas das flôres, +embalsamava a atmosphera de fragrantes aromas. No horisonte...</p> + +<p>—Se me pudesses dispensar do idyllio!... Guarda as reminiscencias +bucolicas para o inverno, quando estivermos ao fogão. Por mais que phantasies +não deslumbras a realidade do bello espectaculo que nos está dando aqui a +natureza em primeira mão. Descarna as descripções, e diz o que passaste no +convento com a baroneza.</p> + +<p>«Estás materialmente estupido, homem. Foi-se-te a poesia toda no fabrico dos +romances. Vocês, os que trabalham no coração humano com o escalpello +sanguinario da analyse, tornam-se áridos, brutaes, e famulentos de sensações +rijas...</p> + +<p>—É assim; todavia, prefiro a descripção da tarde de maio á catilinaria +insolente que vaes disparar-me.</p> + +<p>«Nem uma nem outra. Vou abreviar o conto, para que a inveja mais depressa te +castigue. A baroneza mandou-me entrar n'uma grade, e appareceu sósinha. Era a +primeira vez que me recebia a visita sem vir acompanhada das minhas primas ou +de D. Angelica.</p> + +<p>—Esse facto é profundamente significativo! Vou gosar o prazer de ouvir +um dialogo de amorosas finezas, cortado de suspiros maviosos... Já principiam +as disciplinas da inveja a verberar-me...</p> + +<p>«Saberás tu o que se passou?!</p> + +<p>—Se sei o que se passou!?</p> + +<p>«Sim... dizes com tão ironica zombaria o prospecto do dialogo...<span +class="pn">{211}</span></p> + +<p>—Nada, não: é que me vou aquecendo ao teu enthusiasmo, e o estylo +principia a aquecer tambem.</p> + +<p>«Ahi vae lealmente, a scena final do definitivo triumpho. Eu tinha posto +grandes esperanças na minha pallidez. Tres semanas de cama seriam capazes de +fazer amarello um camarão cosido. A primeira decepção, que recebi ao entrar na +grade, foi dizer-me a baroneza:</p> + +<p>«Ninguem dirá que esteve doente, sr. Marcos! A vida socegada de tres semanas +deu-lhe um colorido de saude, que d'antes não tinha.</p> + +<p>—Como assim, sr.ª baroneza! Pois a minha pallidez...</p> + +<p>«Está enganado; pelo contrario, está côr de rosa, acredite. Eu chamo as suas +primas, e verá se ellas não dizem o mesmo.</p> + +<p>—Não chame as minhas primas, sr.ª baroneza. Eu preciso que v. ex.ª me +escute. Este é o momento solemne da vida ou morte. Hei-de hoje ouvir aqui a +minha sentença. A pedra da sepultura já está erguida para mim; o seu braço +suspendeu-a; o seu braço ha-de afastal-a de sobre o peito, que me esmaga, ou +deixa'-la abafar o meu derradeiro gemido.</p> + +<p>«Que linguagem, sr. Marcos!—disse ella—Pelo amor de Deus, +faça-me a justiça de me não julgar creança. O infortunio emancipou-me. Não +posso ser illudida, nem illudir-me. Tenho aquella dolorosa penetração que +adquire o espirito á medida que a boa fé do coração se perde. Com que fim +emprega tantos esforços baldados para inquietar-me?<span +class="pn">{212}</span></p> + +<p>—Eu queria fazer a sua felicidade pelo amor.</p> + +<p>«A intenção é generosa, e eu não sou ingrata. Mil vezes agradecida, sr. +Leite; mas o amor não póde dar-me felicidade. Imagino que elle possa ser a +alegria de muitas almas puras e impuras; dou credito a tudo o que se diz de +sublime e celeste ácerca d'esse sentimento, o mais mavioso de todos: mas sem +coração essa flor não póde dar perfumes de uma hora. O meu coração desfez-se em +lagrimas, cuja historia não é nova para o sr. Marcos Leite. Eu não o amo, não o +posso amar, apenas lhe vejo todas as boas qualidades que se podem desejar n'um +amigo. Quadra-lhe esta affeição? quer-me para sua amiga? está decidido a +acceitar deveras este offerecimento que tantas vezes acceitou, e outras tantas +desprezou?</p> + +<p>—Desprezei?</p> + +<p>«Sim; pois que outro nome se deve dar ás suas cartas escriptas com um fogo +que me deslumbra sem me queimar, instantes depois que me promettia respeitar a +minha posição, compadecer-se dos meus infortunios, e acolher-me á sua estima +como uma alma quebrantada de enfermidades, que só os melindres d'uma verdadeira +amizade podem suavisar? Não é meu amigo, sr. Marcos. O senhor imaginou que eu +tinha uma fibra do coração capaz de sustentar o peso de alguma grande desgraça, +e quiz parti'-la.</p> + +<p>«Enganou-se; nem essa já tenho. Que mais quer que eu lhe diga?<span +class="pn">{213}</span></p> + +<p>—Mais alguma cousa: disse-me v. ex.ª que me não amava; agora diga que +me despreza.</p> + +<p>—Não posso. Sou sua amiga: não ha n'este mundo outro homem a quem eu +possa dizer o mesmo. Sou para si, apesar da minha inutilidade, o mais que posso +ser... Agora, se me dá licença, vou ao quarto de minha mãe, que está doente e +só.»</p> + +<p>O meu amigo Marcos Leite, fechando assim o dialogo com a esposa de João José +Dias, fixou-me de um modo que parecia perguntar-me a razão porque eu me não +ria.</p> + +<p>—Esses triumphos são parecidos com as minhas derrotas—disse-lhe +eu.</p> + +<p>—É que tu não sabes nada do coração humano!—replicou o singular +provinciano, com um sorriso, que poderia ser definido infatuamento tolo por +quem não conhecesse a intelligencia clara de Marcos Leite.</p> + +<p>Vaes agora ver que todos estes atalhos conduzem á estrada real da terra da +promissão—proseguiu elle;—Josué está defronte das muralhas de +Jericó. A trombeta da anniquillação vae soar. A virtude de Ludovina está +abalada desde os alicerces, e desabará como todas as virtudes possiveis no +romance, e impossiveis na vida qual ella é, e como bom é que ella seja para que +este mundo se supporte desde o amanhecer até que o sol refresca a sua fronte +abrasada nas aguas do oceano.. Deleitei-te com esta nesga de estylo? Até os +olhos se te riem quando ouves tolices euphonicas!... Vou concluir.</p> + +<p>—Já?!<span class="pn">{214}</span></p> + +<p>—Achas que é cedo?</p> + +<p>—Parece-me que o triumpho está muito longe ainda para concluires tão +depressa.</p> + +<p>—Lê esta carta, e prova-me que conheces alguma cousa do coração, dando +como infallivel a minha victoria.</p> + +<p>Comecei a lêr com ávida curiosidade a seguinte carta de Ludovina:</p> + +<p> </p> + +<p>«Eu procurei este abrigo, cuidando que encontrava n'elle paz, esquecimento, +anceios para Deus, balsamo de piedade para as chagas de minha mãe e minhas, o +desejo suave de morrer com ella, e um acabar a vida melhor que o principio.</p> + +<p>«Gosei alguns mezes, se não a realidade, ao menos a esperança d'estes bens. +Por que infortunio estava confiada ao sr. Marcos a missão de inquietar-me até +me affligir com a mortificação das suas instancias impertinentes, perdoe-me a +clareza da idéa...?»</p> + +<p> </p> + +<p>—Que amabilidade!—disse eu, interrompendo a leitura.</p> + +<p>—Lê, e não commentes por ora.</p> + +<p>Prosegui, lendo:</p> + +<p> </p> + +<p>«Muito egoistas são os homens, santo Deus! Ha uma infeliz mulher, como eu, +que impressiona um homem como o sr. Marcos. Sou procurada na minha solidão por +v. s.ª que me offerece o seu amor. Respondo-lhe<span class="pn">{215}</span> +que o não posso acceitar, porque a infelicidade me tornou dura e insensivel aos +prazeres dos affectos do coração. Conto-lhe a minha vida com aquelle desabafo e +confidencia que fórma as amizades immorredouras. V. s.ª escuta-me, admira-me, +lamenta-me, e faz-me acreditar que a minha dôr é para si tão respeitavel que +não ousará mais despertar-me o desejo de alegrias impossiveis para mim. Apenas +decorridas algumas horas, abro uma carta sua, em que espero encontrar a +linguagem consoladora de um amigo, e leio um longo queixume contra a minha +insensibilidade, e a ameaça de se matar, porque a sua mortificação é +insupportavel.</p> + +<p>«Egoismo, e tyrannia!</p> + +<p>«Faltava-me a tortura da responsabilidade da sua vida, sr. Marcos! Quem me +dera ser o que creio que se é no grande mundo, que eu não tive tempo de +estudar! Lá, as mulheres experimentadas nas tempestades do coração, sabem, +creio eu, que nenhum homem morre em naufragio. Eu tenho a innocencia de crêr +que o mortifico, que o incommodo com a minha frieza, que o não satisfaço com o +grande affecto de amiga que lhe dou.</p> + +<p>«Que futuro me queria dar, sr. Marcos? Pois não conhece a minha posição? Não +adivinha que vivo toda e exclusivamente no amor de minha mãe? Que entrei n'um +caminho de amarguras voluntarias d'onde não posso desviar-me uma linha, sem +converter em remorsos a consciencia das boas acções que pratiquei até hoje? +Deixe-me tambem ser egoista das minhas virtudes,<span class="pn">{216}</span> +porque não tenho outro amparo que me sustente a coragem para soffrer o pouco de +vida que me resta.</p> + +<p>«Eu avalio o seu coração. Confesso que, ha tres annos, o encontrarmo-nos +seria um designio da Providencia divina. Creio que seriamos felizes; que +teriamos a bemaventurança na terra.</p> + +<p>«Agora, porém, não ha futuro para nós, nenhum futuro, meu amigo.</p> + +<p>«São as ultimas palavras que lhe dirige a sua sempre amiga +<em>Ludovina</em>.</p> + +<p> </p> + +<p>—Que esperas agora, Marcos?—perguntei eu.</p> + +<p>—Espero que ella se compadeça da minha humildade.</p> + +<p>—Humildade não entendo...</p> + +<p>—Essa carta é um esforço extremo de quem se quer segurar á aresta do +abysmo. A baroneza é mulher.</p> + +<p>—Já sei.</p> + +<p>—Cuidei que não sabias, e de certo não sabes o que é uma mulher.</p> + +<p>—Então, já não aprendo.</p> + +<p>—Vou-te ensinar o que são todas, definindo-te Ludovina.</p> + +<p>—Escuto, sem respirar.</p> + +<p>—A baroneza ama-me.</p> + +<p>—Isso é bem positivo e claro? Vê lá...</p> + +<p>—Tenho visto. Ama-me, e está sem forças para manter uma isenção +contrafeita. A mulher, quando se sente enfraquecer, revolta-se contra o homem +que a subjuga.<span class="pn">{217}</span></p> + +<p>—E depois?</p> + +<p>—Se esse homem acceita humildemente a revolta, é ella mesma a que se +revolta contra si, incriminando-se de ingrata e insensivel.</p> + +<p>—É pelos modos uma enfiada de revoltas, de <em>bernardas</em> do +coração... </p> + +<p>—Estás hoje intractavel!!</p> + +<p>—Estou intolerante com os absurdos. Esperas que ella te mande chamar á +grade do mosteiro para assistires á queima d'esta carta na pyra do amor?</p> + +<p>—Talvez... Tu és uma creança velha. Não sabes nada. Morres ignorante +dos segredos do coração feminino... Que lastima!</p> + +<p>—Não me chores, responde: tiveste o cuidado de avisa'-la que te vinhas +suicidar nas florestas do Senhor do Monte? Meu caro Marcos, eu acredito que +conheces todas as mulheres menos Ludovina. Ha um Waterloo para cada Napoleão +d'estas conquistas incruentas. O teu é a baroneza de Celorico de Basto. Queres +poupar-te a um desgosto de amor proprio? Esquece-a.</p> + +<p>—E a omnipotencia da vontade o que é? Hei de triumphar, ou Ludovina é +uma natureza superior á humanidade...</p> + +<p>Sahi de Braga. O meu amigo ficou á espera da segunda «revolta» rimando a +quarta poesia em quintilhas, e os primeiros duzentos versos de uma elegia que +elle intitulava o seu epitaphio.<span class="pn">{218}</span></p> + +<p> </p> + +<hr style="width: 30%;"> + +<p> </p> + +<p>Um mez depois encontrei no Porto Marcos Leite.</p> + +<p>—Então?—exclamei eu a custo, com as costellas apertadas n'um +abraço homicida.</p> + +<p>—A baroneza?</p> + +<p>—Sim... diz-me alguma cousa da ultima «revolta».</p> + +<p>—A baroneza... cahiu miseravelmente.</p> + +<p>—Cahiu?!</p> + +<p>—Não o sabias? que estupida espionagem tu trazes nas casas alheias!</p> + +<p>—Venceste, pois. Marcos! Oh minha pobre Ludovina! onde eu te havia +posto! O que dirá o publico! Despenhou-se aquelle anjo! Quando encontrarei eu +outro para o throno que ficou vago?!</p> + +<p>—E em que lodaçal ella cahiu!...</p> + +<p>—Creio...</p> + +<p>—Esse <em>creio</em> é uma affronta...</p> + +<p>—A ella...</p> + +<p>—Querem ver o romancista com ciumes!...</p> + +<p>—É compaixão d'ella, e de ti...</p> + +<p>—De mim!—tornou elle soltando uma estridente risada—de +mim! Pois cuidas que o lodaçal sou eu!? Restitue-me a minha innocencia na +terrivel torpeza que ella praticou.</p> + +<p>—Depressa... que fez ella?</p> + +<p>—Cahiu nos braços asquerosos de...</p> + +<p>—De quem!</p> + +<p>—Do marido! Não te espantas da perversidade!? Estás corrupto!<span +class="pn">{219}</span> </p> + +<p>—Por consequencia está coroada a virtude da minha heroina com o +extremo supplicio.</p> + +<p>—Pelo que ouço, denominas resignação o que no meu vocabulario equivale +a baixeza de alma! São tantas as martyres que sorriem á sucapa da tua +compaixão... Confessa que Ludovina não podia dar mais insignificante testemunho +de um espirito menos de trivial. Entregar-se de novo a João José Dias!</p> + +<p>—Cala-te, impio! não cuspas na face da martyr! Conta-me os promenores +d'essa reconciliação. Palpita-me que a promoveu algum grande infortunio...</p> + +<p>—Qual? adivinha lá...</p> + +<p>—A morte de D. Angelica.</p> + +<p>—Justamente: morreu ha tres semanas.</p> + +<p>—Atormentada de saudades... pobre mulher!</p> + +<p>—Creio que sim. Disseram-me minhas primas que lhe encontraram um +retrato no seio, ainda embaciado pelo ultimo respiro que ella exhalou. Devia +ser o retrato de Antonio de Almeida. Tambem me disseram que viram ajoelhar +Ludovina ao pé do cadaver, e lhe ouviram dizer: «A sua memoria fica sem mancha, +minha mãe!»</p> + +<p>—Isso é triste, Marcos! Comprehendes tu a santidade d'essas +palavras?</p> + +<p>—Comprehendo; mas abomino a melancolia. O mundo acceita estes +heroismos como exquisitices. Eu pertenço a este mundo, dei-lhe o que tinha de +bom no coração, e quero ter grande partilha no cynismo que elle dá em +paga.<span class="pn">{220}</span></p> + +<p>—Não importa. Ludovina continua a ser um anjo, confessa.</p> + +<p>—Parece-me que o seria, se não sahisse de ao pé do tumulo de sua mãe. +Se João José Dias avilta uma creatura que é só humana, com o seu contacto, como +ha-de elle sustentar as qualidades de um anjo?</p> + +<p>—E se Ludovina acceita as torturas da convivencia com tal homem, como +provocações á morte?</p> + +<p>—Morrerá estupidamente. Será indigna d'um necrologio, e terá apenas +uma magra local chamando os amigos do marido a assistirem-lhe aos funeraes.</p> + +<p> </p> + +<hr style="width: 30%;"> + +<p> </p> + +<p>Deixemos falar este homem sem alma, leitores!</p> + +<p>Ludovina continua a ser a flôr da creação, o espelho de infelizes, o élo que +prende a creatura ao Creador, o anjo que chora, esperando que os anjos a levem +d'este desterro.</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">FIM</p> + +<div class="rodape"> +<p><a name="foot95" href="#tex2html1"><sup>[1]</sup></a> É para espantar a +memoria de Francisco Nunes, em crise de tamanha angustia! Aquella nesga de +historia destoava da virulencia da apostrophe; mas foi dita com sanhudo entono. +</p> + +<p><a name="foot106" href="#tex2html2"><sup>[2]</sup></a> É ordinario este +estylo; aqui não ha unidade; o impeto afrouxa, e descáe na vulgaridade tacanha +do artigo de fundo. É defeito de todos os nossos oradores de inspiração: +remontam-se; a gente está a ve'-los luctar com as aguias; e, quando mal se +precata, vê-os cahir, a disputarem a presa do escaravelho que se rola no chão. +Francisco Nunes tem lastimaveis desegualdades n'esta apostrophe.</p> + +<p><a name="foot112" href="#tex2html3"><sup>[3]</sup></a> Perdoem-lhe a mentira +pela intenção boa com que a diz...</p> + +<p><a name="foot486" href="#tex2html4"><sup>[4]</sup></a> Veja <em>Vies des +dames galantes</em>, por le Seigneur <em>de Brantome—Discours +premier</em>. </p> +</div> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's O que fazem mulheres, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O QUE FAZEM MULHERES *** + +***** This file should be named 29435-h.htm or 29435-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/9/4/3/29435/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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