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+The Project Gutenberg EBook of Entre as Nymphéas, by João Marques de Carvalho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Entre as Nymphéas
+
+Author: João Marques de Carvalho
+
+Release Date: June 19, 2009 [EBook #29161]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENTRE AS NYMPHÉAS ***
+
+
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
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+
+ OBRAS DE MARQUES DE CARVALHO
+
+ VII
+
+ ENTRE AS NYMPHEAS
+
+
+ DO MESMO AUCTOR
+
+ O SONHO DO MONARCHA Opusculo
+ LAVAS Opusculo
+ PAULINO DE BRITO Opusculo
+ HORTENCIA 1 volume
+ O LIVRO DE JUDITH 1 volume
+ CONTOS PARAENSES 1 volume
+
+
+
+
+ J. MARQUES DE CARVALHO
+
+ ENTRE AS NYMPHEAS
+
+
+
+
+ BUENOS AIRES
+ Arnoldo Moen,--editor
+ Calle Florida N.º 314
+ 1896
+
+
+
+
+PRIMEIRA PARTE
+
+SUBJECTIVISMO
+
+
+
+
+A minha esposa
+
+
+
+
+_Esta parte do volume é intima, subjectiva._
+
+_Suas paginas constituem o trabalho d'um artista apaixonado e d'um homem
+de coração, durante uma viagem entre as nympheas, na região dos
+nenuphares e da Victoria Regia, pelos rios Amazonas, Negro e Madeira, ha
+seis annos._
+
+_O labutar objectivo do auctor em busca da expressão naturalista da arte
+encontra aqui uma occasião de pausa roborante, emquanto fala a alma, na
+livre expansão da sua illimitada sinceridade e de todas as forças
+affectivas que possue._
+
+_Eu devia esta homenagem ao amparo dos meus desanimos, ao jubilo dos
+meus dias prazenteiros,--á insubstituivel companheira a quem dedico esta
+metade do volume. Doze annos de intensíssimo affecto necessitavam de uma
+commemoração._
+
+Buenos Aires, 1895.
+
+ Marques de Carvalho.
+
+
+
+
+O ISOLAMENTO
+
+
+
+
+O ISOLAMENTO
+
+ A Coelho Netto
+
+
+I
+
+Ergui-me com a estrella d'alva, esta manhã.
+
+Oppresso pela atmosphera pesada do aposento, saí logo ao terraço, a
+receber em cheio na face a brisa que, desde o interior da casa, eu ouvia
+sacudir valentemente as grandes arvores da floresta, ali perto.
+
+Logo bebi, sôfrego, esse ar embalsamado que enchia o ambiente.
+
+Uma alegria sem par empolgou-me o espirito, sem duvida suscitada pela
+grandiosa belleza circumdante. Embrenhei-me na matta, seguindo uma
+azinhaga. Começava a amanhecer. Havia no ar esse murmurio das aves que
+despertam,--bulicio tepido que só podem avaliar os madrugadores na
+roça,--um como roçar voluptuoso do frouxel suavíssimo que exorna as
+innumeras legiões canoras do Amazonas.
+
+Não sei o tempo que andei quasi ás apalpadelas, ao longo do carreiro.
+Interessava-me tanto pelo duplo acordar dos ninhos e das plantas, que só
+reparei em mim mesmo quando, já dia claro, encontrei-me no cantro de uma
+bella clareira. Por cima de mim, balbuciava a brisa dulcíssimos
+rumorejos, agitando as copas verdejantes. Em derredor, porém, era, ás
+vezes, absoluta a tranquillidade das coisas. Por intermittencias,
+nem mesmo um ciciar de passarinho, ou esse mysterioso, farfalhante
+correr de lagarto, que parece suscitar não sei que extranhos sobresaltos
+nas florestas do meu paiz.
+
+Formava a clareira como um salão circular preparado pela natureza para
+receber-me. E, para que nada faltasse, havia, ao fundo, extendido como
+um luctador exhausto, um grande tronco secular, que alguma tremenda
+tempestade derribara. Amplo, coberto do limo que arremedava a fôfa
+disposição dos estôfos valiosos, esse gigante vencido offerecia-me
+commodo assento rustico. Entretanto, não utilisei-me d'elle: sentindo-me
+bem, sentindo-me feliz, estava longe da fatiga. Por insensivel movimento
+de dominio orgulhoso, apenas puz-lhe o pé no dorso, vencedoramente.
+
+Na mesma occasião, porém, penetrou-me o pavor: uma grande ave, um
+inhambú graciosíssimo emergiu d'entre as toiças de verdura fresca, de
+sob o tronco abatido e ergueu o vôo para o interior do matto, n'um largo
+ruflar d'azas com indubitaveis entonações zombeteiras, intoleravelmente
+escarninhas.
+
+
+II
+
+Quedei-me ali muito tempo, a seguir esta ordem de pensamentos.
+
+No entanto, o ceu fôra devassado pelo hilariante clarão com que este
+bemdito sol da minha terra doira todas as coisas, em sua
+munificencia de soberano insupplantavel. Por toda a parte, só uma coisa
+via: luz, luz, luz, esse alastrar de claridade que penetra tudo, que dá
+aos objectos uma apparencia de alegria, d'intenso jubilo paradisiaco!
+
+Pelo ar, cantavam sempre a brisa e as aves, estas menos talvez do que
+aquella, compromettida a fazer a larga harmonia da alígera volata.
+
+A clareira formava agora um salão redondo alcatifado de velludo
+esmeraldino, illuminado d'uma orgia de raios, vibrante da deliciosa
+bacchanal dos passarinhos.
+
+Minha alma dilatava-se mais no goso, até ali inexperimentado, de tamanha
+quietude, de tão profunda sensação do que é grato na liberdade.
+
+O isolamento! Quanta paz na situação que esta phrase traduz! Que suaves
+delicias que meigo langôr frue o espirito no socego completo,
+divorciado dos cuidados da vida commum, senhor emfim de sondar a
+consciencia propria, com a qual anda, ás vezes, semanas inteiras sem ter
+um só instante para escutar-lhe as impressões, para confabular com ella,
+extremado dos sêres banaes e falsos que formam a nossa róda habitual!
+
+Haverá porventura alguém que não preze esses momentos de silencio, nos
+quaes a alma fala comsigo propria, dizendo coisas ha muito sentidas e
+que, entretanto, parecem-lhe,--quando examinadas,--extranhas novidades
+jamais ouvidas?
+
+Lembro-me agora da attenta concentração em que surprehendo, algumas
+vezes, no alto das ramarias, esses folgazões alados que garganteiam a
+todo instante crystallinas fiorituras sonoras. Dir-se-ia
+monologarem, resolvendo ponderoso assumpto, tal a profunda gravidade com
+que pendem a cabecinha, como recolhidos ao mais intimo de si mesmos.
+
+Conheci um canario ao qual este genero de melancolia era habitual.
+Valente cantor, adorado em toda a vizinhança pelo talento com que
+desferia os seus bellíssimos gorgeios, valia a pena vel-o, quando
+espanejava-se ao sol, muito arripiado e gracioso, revolvendo com o bico,
+em rápida immersão, a agua do pequenino tanque de crystal da gaiola
+doirada onde vivia.
+
+Tirava horas inteiras para cantar, saltitante e feliz! Podia dizer-se
+que empenhava-se em fazer um impossivel, ou que pretendia matar-se n'um
+excesso melodico e genial, superior ás forças de seu mesquinho sêr de
+passarito delicado!
+
+Porém detinha-se de repente, entre um trinado e um silvo: detinha-se,
+interrompendo os elegantes pulinhos e, immovel na travéssa principal,
+ficava ali demorados momentos, a curvar a loira cabeça para um e outro
+lado, com uma sériedade que poderia fazer sorrir a quem, superficial e
+leviano, não ponderasse no mysterio d'aquelle inesperado recolhimento em
+que uma alma sonhadora e romantica parecia despertar n'elle com
+intercadencias fataes.
+
+Terão também os passaros o prazer do soliloquio, a volupia da meditação?
+Terão também a percepção dos gosos inebriantes que provém da certeza de
+estarmos sós,--absolutamente sós, que ventura!--emfim libertados da
+tyrannia das convenções, capazes de desafivelar a mascara que atam-nos á
+face os respeitos mundanos?...
+
+Bem quizera crêr na existencia, n'elles, de um poder de reflexão, pois
+d'outro modo não sei explicar aquella postura tão extranha, aquelle ar
+philosopho, essa expressão quasi humana,--tão humana, que surprehende!
+
+É que, de certo, sentem o valor do socego, da paz completa, do
+tranquillizador influxo da solidão, cujos ineffaveis encantos fascinam,
+penetram o organismo d'uma tepidez emolliente, dão este balsamo
+incomparavel:--a alegria de viver!
+
+E como assim não acontecer, visto que as aves são as dominadoras do
+espaço, os habitantes da matta, onde é de todo sensivel o poder do
+isolamento, d'esta situação, que póde ser considerada egoista e
+destruidora, porém que o meu espirito acaba de começar a comprehender, a
+reverenciar, a amar com descompassados enthusiasmos, porque vae-lhe
+perscrutando os largos arcanos de poesia e alento philosophico, o vigor
+que insufla a mente para aprofundar-se no estudo subjectivo, no
+conhecimento do _eu_, a desillusão a que arrasta-nos em relação ás
+pequenas miserias odientas do mundo postiço dos falsos e dos pretensos
+civilizados?...
+
+Gloria ao isolamento! Bemdita sejas, ó grande floresta amazonica,
+osculada pela ardente paixão do sol, toda sonora dos folguedos da
+passarada chilreante, rica de estranhos mysterios e de mysteriosas
+riquezas inestimaveis!
+
+
+
+
+GAIVOTAS
+
+
+
+
+GAIVOTAS
+
+
+I
+
+Um bando de gaivotas, aos pares amoravelmente aproximados, ergueu o vôo
+do mattagal e, cortando o espaço por de sobre o borbulhante estirão do
+rio, veiu seguindo o vapor, a poucos metros de distancia da pôpa, ora
+alteando-se á ponta do mastro, ora descendo rapido, de olhar incisivo e
+lesto bico, até esfrolar levemente a agua com as cendradas pennas da aza
+desfraldada.
+
+O marulho da agua parecia excital-as, espicaçar-lhes a actividade em
+céleres convites de festiva digressão a ignotas paragens, onde o ceu
+fosse azul,--muito azul,--e a verdura das ilhas tivesse os tenros e
+alegres tons que apresentavam os aningaes das margens defronte das quaes
+passavamos n'aquelle instante.
+
+Revoavam jubilosamente, as gaivotas, aproximavam-se do vapor,
+descrevendo elegantes circulos, n'uma palpitação d'azas similhante ao
+ruflar do leque entre os dedos d'uma bella mulher, quando impéra,
+deslumbrante de graça, nos salões selectos. Vinham, parecia quererem
+invadir a coberta, participar da ruidosa vida que sobre ella
+apresentavam os passageiros, reunidos em intimas palestras.
+
+Sentado á pôpa, eu silenciosamente fitava aquelles aquaticos
+viageiros ignorados. Seguia-lhes os caprichosos folguedos sob a limpidez
+do ceu, com o olhar perdido traz elles, emprestando-lhes idéas, dando a
+mim proprio as razões d'esse livre gaudio perante a pompa triumphal da
+tarde moribunda.
+
+Formavam as margens visiveis do rio largas ilhas meio submersas, de que
+apenas se viam emergindo da agua,--como braços erguidos para o espaço
+n'um enthusiasmo viril de canticos de louvor,--milhares d'arvores
+variadíssimas, esparzindo perfumes resinosos e estalando as cascas sob a
+demasiada affluencia das tepidas seivas vivificadoras. Como grandes
+açafates de caprichosas fórmas espalhados por toda a latíssima extensão
+do rio, essas ilhas balouçavam as farfalhantes cômas glaucas, onde os
+pássaros, papeando, entreteciam previdentes os diminutos ninhos e a
+robustez dos merityzeiros erguia pendentes os pesados cachos de fructos
+granadinos.
+
+Pelas margens, começavam a acordar os innominados animaes noctivagos e
+um arruido extranho, abafado, levantava-se em surdina sob o machucamento
+das folhagens ondulantes.
+
+E a tarde morria a pouco e pouco.
+
+Depois, ao fundo da paizagem, recortaram-se escuras, encobrindo o sol,
+as longas montanhas sobre as quaes está erecta Monte-Alegre.
+
+Um dos mais bellos crepusculos vespertinos começou então.
+
+Quadro verdadeiramente formoso! O ceu, entestando com essas montanhas,
+apresentava todas as tonalidades do iris, n'uma pujança complexa de
+matizes prismaticos, e o sol,--como apertado entre ellas e a brunida
+cupula sideral,--disseminava pelo espaço crystalino feixes de raios
+luminosos em gigántea expansão que lembrava uma aurora boreal, um enorme
+clarão d'apothéose empyrea.
+
+Pelo nascente, subiam gradativas trevas, como poderosíssimo senhor que
+sae a combate sem precipitações, na sua convicção d'inilludivel victoria.
+
+Ao mesmo tempo, perto do zenith, un crescentesinho de lua e a estrella
+da tarde,--esta quasi tão luminosa como um raio do teu olhar, querida
+amiga,--scintillavam merencorios, como annuviados por incognoscivel
+saudade, entre longas nuvens delgadas, côr de pérola e lyrio,
+rendilhando-se no azul ferrete do firmamento.
+
+As gaivotas, então, que tinham vindo a seguir-nos,--emquanto o meu
+olhar, da pôpa do navio, parecia desejar attraíl-as poderoso,--grasnaram
+freneticas e, de subito, descrevendo rapido circulo elegantíssimo,
+regressaram á terra d'onde tinham partido e fugiram veloces, n'uma
+actividade de movimentação d'azas perdendo-se ao longe, na meia
+escuridade do crepusculo.
+
+Fiquei sosinho á ré, a fital-as...--a fital-as, oh! não!--a mirar o
+ponto do aningal onde se haviam perdido aquelles inconscientes sêres,
+que tanto me tinham enleiado o espirito nas invisiveis malhas dos seus
+largos circulos graciosos, descriptos no espaço, em reflexões movediças
+sobre as gorgolejantes aguas amazonicas.
+
+
+II
+
+Assim também fugiram-me precipitadas do seio as niveas alegrias, quando,
+levado pela embarcação, ausentei-me saudoso da terra onde ficaram as
+candidas inflorescencias do meu amor.
+
+Como aquellas gaivotas, preguiçosas e sympathicas, os doces prazeres
+familiares deixaram-me seguir sosinho, breve regressaram á terra que
+idolátro na minha apaixonada effervescencia de enthusiasmo pela grande
+patria digna das maiores dedicações.
+
+Vou-me rio acima, isolado e desconhecido, entre pessôas estranhas,
+separado de vossos enlevadores affagos, ó queridos entes cuja
+ternura deslaça-me a vida em loiras espadanas de luz puríssima e gentil!
+Sigo meditabundo, sem receber na alma entenebrecida um raio do vosso
+olhar,--um só raio que me illuminasse o peito, para pôr em relevo dentro
+d'elle toda a somma de santos sentimentos para vós,--sómente para
+vós--guardados alí!
+
+A abafada canção da agua babujando os flancos do navio faz a surdina
+dolente que acompanha as mestas lamentações do meu espirito obsidiado
+pela afflicção das saudades.
+
+Ás vezes, a deshoras da noite, quando o firmamento escuro apresenta-se
+deserto das suas luzentes tauxiações risonhas, e só a floresta da margem
+rebôa agitada pelo cadenciado barulho da possante machina, embalde busco
+pelo ceu do meu espirito certo par de estrellinhas annejas,--que são
+os doces olhos petulantes de minha filha, fanaes da vida minha.
+
+E só a luminosa palpitação phosphorescente dos pyrilampos tremeluze
+rápida no tenebroso velludo dos aningaes da beira.
+
+A solidão augmenta-me os pezares, quando a hora do crepusculo da tarde
+vem descaíndo vaga pela terra, deslisando do inflexivel pendulo do tempo
+com a dura impassibilidade d'uma desgraça tremenda.
+
+Gaivotas, alegrias do rio! Alegrias, gaivotas do pélago da minha vida!
+Porque fugís tão velozes, sem vos deixardes agarrar por estas mãos, que
+vagam sem um apoio amoroso, sem vos deixardes aprisionar n'este peito,
+fremente de meigas paixões santíssimas?
+
+Rio Madeira, abril.
+
+
+
+
+O Naufragio do Purus
+
+
+
+
+O Naufragio do Purus
+
+ A H. Inglez de Souza
+
+
+I
+
+Este é o sitio em que, ha vinte annos quasi, afundou-se o _Purús_,
+arrastando para o leito do rio algumas dezenas de cadaveres colhidos de
+surpreza.
+
+O Amazonas aqui, como conservando ainda a triste memoria do luctulento
+successo, rola silencioso as suas aguas, cobre-se eternamente com o
+intenso crepe, accentuado e mesto, do vasto rio Negro.
+
+Têm as margens a apparencia de um recinto de funeral: socegadas e
+desertas, monotonisam o quadro com a ininterrupta ostentação das suas
+ramalhudas verduras densíssimas.
+
+Nenhum gorgeio de passaro percebo na larga mudez circumdante.
+
+No alto, o ceu, apinhado de nuvens escuras, encobre-me aos olhos a
+risonha alegria do seu puríssimo azul, adoravel como as pupillas d'uma
+imagemzinha da Virgem, que minha Mae, em pequenino, ensinou-me a
+reverenciar com o contemplativo respeito das creanças absôrtas!
+
+Passamos n'este mesmo instante sobre o logar onde atufou-se a elegante
+embarcação aventureira.
+
+Um pensamento de saudade assalta-me o espirito, agora que deslisei
+rápido por cima do líquido sapulchro de tantos infelizes.
+
+Relembro, com a forçosa evocação do meu passado, as confusas recordações
+da primeira edade e reproduzo na mente, consoante ás narrações da época,
+o pasmoso entrécho do hórrido espectaculo.
+
+Vejo pessôas de todos os sexos e edades, em meio á densa escuridão da
+noite, bramindo apavorados gritos, impetrando o auxilio do ceu
+impassivel, amaldiçoando o momento final com o tôrvo desespéro das
+grandes afflições.
+
+A bracejar contra a correnteza, lobrigo um ou outro naufrago n'aquelle
+pégo, quasi tão vasto como o do mantuano cantor. Uns, redobrando de
+esforços, conseguirão alcançar a margem anhelada; a mór parte,
+porém, certo fraquejará impotente na violencia das aguas e rolará
+inanimada aos profundos antros dos caimões!
+
+N'um camarote, vencida, dominada por tredo somno, uma joven mulher
+angelical, esposa extremecida e extremosíssima, é surprehendida pelas
+aguas em sua descuidosa seminudez inconsciente e logo suffocada sem
+haver tempo de reconhecer o perigo por que passa com os seus,--com os
+parentes affectuosos e com o infeliz marido, o commandante austero, de
+quem separa-a, sem transigencias, a comprehensão do cumprimento do dever.
+
+E ali morre, com o pobre coração retalhado de angustias e amaríssimas
+saudades, uma valente mulher de temperamento e actividade virís, guia e
+ama de muitos d'aquelles naufragos. É a heroica exploradora d'uma
+parte do rio Madeira, a veneranda mãe d'um punhado de homens honrados e
+de honestíssimas mulheres,--a idolatrada mãe d'aquella excelsa creatura
+que deu-me luz aos olhos e piedosos sentimentos ao coração!
+
+
+II
+
+Comprehendo agora perfeitamente a dôr que rasgou-te os puros seios
+d'alma, querida Mãe, quando correram a referir-te o hórrido successo.
+
+Creança quasi irresponsavel, eu não tinha a percepção completa
+d'aquelles affligidíssimos desespêros em que te lançaste, com os olhos
+amarados de lágrymas adamantinas.
+
+Entrei a brincar-te com os longos cabellos pretos, minha adoravel amiga,
+e um beijo tão sincero como a tua dôr deposeram-te na fronte ensombreada
+meus labios deslaçados em simples phrases sem valor.
+
+Hoje, porém, ó Mãe, avalío com justeza a afflicção que em ti causou tão
+deshumano flagicio da sorte inclemente. Sondo, linha por linha, todos os
+arcanos do teu seio, ausculto-lhe as precipitadas palpitações soluçantes
+e lamentosas.
+
+Choravas, inconsolavel e dolentíssima, porque deixaras de ter mãe.
+
+Sinto conhecer-te a intensidade das penas, porque também perdi-te para
+sempre e só minha alma pode saber a força de toda a violenta dôr que, ha
+seis annos, confrange-a impiedosa, minuto a minuto, persistentemente,
+tantas são as vezes que de ti me lembro, inolvidavel mulher que foste a
+guia da minha infancia e a amiga insubstituivel da minha adolescencia!
+
+Rio Amazonas--Rio Negro.
+
+
+
+
+Brinde a minha Filha
+
+
+
+
+Brinde a minha filha
+
+Hoje é o dia do teu primeiro anniversario, querida filha.
+
+És pequenina de mais, tens o espirito ainda cerrado á comprehensão
+exterior das cousas, para poderes penetrar o jubilo immenso de que devo
+estar saturado por esse acontecimento, sobre a vastidão d'esta valente
+arteria amazonica, ao tempo que as perspectivas das verdes paizagens
+apraziveis se vão succedendo gradativamente, n'uma suavidade que deslisa
+tranquilla a meus olhos enlevados nas florituras das folhagens
+ramalhudas.
+
+Entretanto, devo escrever estas linhas que, no futuro, destinarei a teus
+olhos e a tua alma,--sobretudo á tua alma, querido amor! Intima força
+propelle-me a esta communicação silenciosa dos nossos dois espiritos,--o
+meu ainda novo, porém já prestes a declinar para as florescencias da
+edade madura e o teu velado ainda á vida do espirito, aos sentimentos
+santos, pequenino botão de bogary transcendental, que nem sequer pensa
+em desabotoar as cerradas corollas aos largos folguedos d'uma existencia
+feliz!
+
+E porque não falar-te hoje?
+
+Quem sabe o que o dia de amanhã,--soturno cairel dos arcanos do
+tempo,--não guarda para nós envolto nas iriadas roupagens do futuro?
+
+A distancia que entre nós presentemente existe não é motivo bastante
+forte para recusar-me ao desejo de escrever estas palavras simples,
+destinadas á perfeita simplicidade do teu espirito.... d'aqui a meia
+duzia d'annos, quando estejas no caso de entendel-as, meu amôr.
+
+Nem tu sabes que multidão de alegres pensamentos vaga-me no cerebro,
+hoje que um anno se completa que pela vez primeira te vi, rosada e
+pequenina, quasi imperceptivel átomo-flôr d' uma existencia tão almejada
+e bemdita pelo meu espirito milhares de vezes rejubilado!
+
+Como estuava-me o coração, alargado em seus ambitos pelo prazer, todo
+aberto ás santas paixões amoraveis de quem começa a gosar as grandes, as
+mellifluas, as inebriantes sensações vitaes da paternidade! Com que
+ternura immensa não te fitavam meus olhos, rasos d'agua, abertos como
+n'um sorriso, revendo a tua pequenina imagem atravez da nervosa
+palpitação imperceptivel dos cílios orvalhados das puras lágrymas do
+contentamento!
+
+Um mundo de pensamentos risonhos e transcendentaes produzia-se-me no
+espirito, em luzida cohorte de festivas alegrias benéficas. Sentia-me
+pequeno demais para creal-os, bastante insignificante para soletrar
+tramando de emoção todo aquelle mirífico alphabeto enorme da mais santa
+das paixões.
+
+Era a completa alegria que manifestava-se d'ess'arte em minha alma,
+porque pela primeira vez te via deante de mim, envolta em candidas
+faixas, ao collo de tua mãe, que desabrochava o rosto n'um sorriso meio
+doloroso e quasi todo espiritualisado já, como n'um altar immaculado,
+erguido á tua innocencia pela ternura da Mulher que te deu á luz,
+regenerada da culpa da especie pelo immanente martyrio da maternidade!
+
+Hoje, que taes factos completam um anno, dia a dia, os mesmos
+sentimentos revoam-me festivos pelo espirito, com egual força de
+vitalidade.
+
+Inscrevo-os n'esta folha, registro-os em tua alma, ó flôr, para
+offerecer-t'os como presente d'annos em penhor do largo affecto de teu
+pae, emquanto, separado de ti por grande distancia, levanto á sorte mil
+votos pela tua felicidade futura, por tua existencia, por tua saude,
+pela tua angelica pureza de donzella e pela tua inquebrantavel virtude
+de esposa.
+
+É bem possivel que não mais exista o auctor d'estas linhas e da tua
+existencia quando possas lêr as palavras aqui traçadas.
+
+Não importa! Servirão para lembrar-te que possuiste um pae
+amorosíssimo, que teve para ti os pensamentos todos da sua vida e, por
+certo, ainda mesmo o pensamento final da hora derradeira!
+
+Rio Madeira, abril.
+
+
+
+
+O cemiterio da floresta
+
+
+
+
+O cemiterio da floresta
+
+Hontem pela tarde o meu espirito confrangeu-se inteiro perante
+inesperado espectaculo, cuja reminiscencia me faz pensar ainda e
+arrasta-me tremula a mão, na tarefa de consignal-o no papel.
+
+Vou referir-te, meu amor, o que viram meus olhos, e o que meu coração
+sentiu n'aquelle instante d'íntimas reflexões maguadas.
+
+Cortada em rapido declive sobre a beira da agua, em meio á floresta
+densa, abandonada de todos, uma clareira fazia-se abrupta e essa
+clareira era um cemiterio, um pequeno campo santo solitario e
+melancholico,--sympathico todavia,--salpicado de cruzes toscas e negras!
+
+A bordo, alegres conversações travavam-se aqui e ali, sob o oiro
+refulgente do sol no estivo desabrochar das claras horas diurnas.
+Ninguém parecia attentar n'esse triste sitio de repouso, sobre o qual a
+tripudiante passarada das mattas volitava cheia de inconsciencia,
+garridamente estrepitosa e jovial.
+
+Alargava-se o rio ali defronte, muito socegado, todo brunido das
+reflexões solares, como se recebido houvesse um grande banho de prata
+fundida.
+
+E um rumorejar da folhagem, dos dois lados do cemiterio e ao fundo,
+fechando o horisonte do quadro, cerrando a escarpa, como que parecia
+entoar a langorosa monotonia d'uma surdina risonha do prazer,
+sacudida em amplas vibrações de volupia.
+
+Entretanto, o meu espirito entenebrecia-se pouco a pouco. Uma tristeza
+empolgou-o forte e minha alma deslisou para as mudas divagações dos
+sonhos acordados, das reflexões abstractas em que os olhos voltam a
+força objectiva para o interior e, eliminando o seu poder observador do
+mundo externo, nada comprehendem do que vem, porque só o cerebro
+trabalha dentro da materia e o seu meio de acção anniquila-se perante o
+vigor do espirito.
+
+De quem aquelles despojos materiaes ali inhumados, longe dos centros de
+povoação, roubados ao conhecimento mundano, subtraídos á vaidade dos
+homens, entregues á terra com toda a simpleza das grandes devoluções
+pungentes, restituidos á obscuridade do nada para sempre, para
+sempre furtados á ultima recordação marmorea que lhes lembrasse o nome
+na derradeira falsidade dos epitaphios campanudos?
+
+Quantos heróes ignorados se não occultariam n'aquelle recinto, sob a
+leve camada de terra ás pressas lançada pelos vivos por cima de seus
+cadaveres meio decompostos?
+
+Ali não vinham os falsos amigos ostentar o seu fingido pezar, com o
+recolhimento das feições e a compostura do trajo que predominam pelas
+cidades, onde até a inhumação é um luxo mais ou menos apurado. O marido
+infiel, respirando emfim livremente após a quebra do fio que prendia-lhe
+o alvedrio, não viria ali mais uma vez insultar com uma dôr não sentida
+a lamentavel memoria da doce esposa traída, nem a joven viuva leviana,
+já com o espirito occupado por amorosos pensares--adulterio
+posthumo!--appareceria a ostentar o fingimento d'uma paixão que não
+possuia e que depressa esqueceu na elaboração de cartinhas piégas ao
+primeiro janota impudico que lhe deparou a sorte ironica.
+
+Ali, sim, ao homem honesto e severo, á mulher virtuosa e amante, á
+innocente creancinha levada ao descanso perennal após breve apparição na
+terra, grato, gratíssimo seria inteiriçar os membros lassos e repousar
+alfim, descuidosos na eterna immobilidade dissolvente da ultima
+pacificação,--separados de toda a phantasia ephêmera e das convenções
+banaes da fallaciosa hypocrisia social.
+
+Para quê ser lembrado após a morte? De que serve um marmore a reproduzir
+o nome d'um sêr cuja existencia o tempo consumiu,--candeia extincta,
+apagado fanal do pelago da vida? Recordar o nome d'um morto,
+perpetual-o petreamente, é ainda uma fórma de insulto, é uma violação
+que põe o finado na emergencia de se lembrarem d'elle os maus, os
+pérfidos, aquelles que não o comprehenderam em vida e que mais uma vez
+negar-se-ão a fazer-lhe a justiça de que tão sedento estava o seu espirito.
+
+Estaes bem ahi, desconhecidos heróes do labutar quotidiano, ó martyres
+das privações no meio d'essa esplendida orgia de verduras amazonicas!
+Tão bem vos acho, que até sinto inveja ao ver-vos no pequenino cemiterio
+escalvado na rapida ribanceira.
+
+A sorte restituiu-vos ao pó com a mais austera simplicidade. Voltastes á
+terra na modesta elaboração d'um acto naturalíssimo e a vida que
+fermenta entre as raizes d'essas bellas e grandes arvores viridantes
+vae buscar nos vossos cadaveres aquillo que lhe podeis dar:--a cada
+minuto um átomo de seiva, tirado á tépida fermentação da vosa carne,
+outr'ora palpitante, porém banal, agora repousada, mas operadora do
+beneficio que a lei natural do transformismo obriga-vos a prestar-lhe.
+
+Apraz-me sentir que o meu espirito se consolaria quando, após á
+extincção da minha vida, algum ente querido, depois do ultimo beijo,
+enterrasse-me o corpo em vossa companhia, ó eternos moradores do
+cemiterio da selva! Julgar-me-ia feliz, com a satisfação e o orgulho
+d'este ultimo capricho realisado.
+
+Teria, como vós, o supremo _requiem_ dos trillos dos passaros, do
+farfalhar das ramarias densas, do desprezo dos raros viajantes n'estas
+longinquas regiões do Madeira e dos murmurosos beijos do
+gorgolejante listrão aquoso que incessantemente corre, ora envolto no
+denso velludo tenebroso da noite, ora ostenta-se brunido pelas amplas
+disseminações de prata fundida que o sol por cima d'elle parece lançar
+ás vezes, quando o ceu, sempre misericordioso, não verte sobre vós,
+lugubremente, paternalmente, as piedosas orvalhadas dos seus largos
+prantos pluviaes.
+
+Salvè, desconhecidos martyres da familia amazonica, eternos habitadores
+do cemiterio da floresta!
+
+Rio Madeira, abril.
+
+
+
+
+UM ANNIVERSARIO
+
+
+
+
+UM ANNIVERSARIO
+
+ Á memoria de minhã irmã
+ A meu irmão.
+
+Seis annos, hoje, que finou-se a mais santa das creaturas, a mais
+querida e amoravel das mães.
+
+Perante a emotividade profundíssima do meu ser, não tem hoje poder as
+largas pompas magestosas d'este romper de dia sereno sobre a paizagem
+Assoalhada, vibrante de esplendor, fremente de canções d'aves
+silvestres. Ao contrario, tudo me parece melancholico, monotono, quasi
+hostil, porque recebo as impressões externas atravez dos meus
+sentimentos e estes concentram-se nas amaríssimas dôres excitadas pela
+inapagavel recordação da morte de minha mãe!
+
+ *
+
+Ha d'estas originalidades no fragil espirito humano: diz alegres os dias
+pluviosos, encontra-lhes graça, apraz-se em aspirar humidade na
+meia-sombra dos nevoeiros,--se algum prazer abala-o jubiloso;
+entretanto, encara indifferente ou raivoso as glorias da natureza; não
+tem um olhar para as galas triumphaes do espaço azul rutilante,
+acolchoado d'alvas nuvens pannejadas harmonicamente; enfastia-se e
+agasta-se até com a passiva tranquilidade das coisas, com o chilrear
+dos passarinhos,--quando algum desgosto lateja-lhe no coração
+encarquilhado ao peso das grandes dores supremas!
+
+ *
+
+Estou a recordar-me das funebres e tremendas peripecias d'aquella
+inolvidavel tarde de 21 de abril, ha seis annos.
+
+Uma pequenina alcova de matrona,--grave aposento destituido de luxo
+banal, apenas confortavel. Ao lado d'um guarda-vestidos, pesado e bom,
+uma mesa coberta de frascos de medicamentos com etiquetas multicôres,
+borradas de receitas pretenciosamente escriptas em termos barbaros,
+chocantes de ouvir, indicando venenos medidos aos millesimos, com
+mysterio.
+
+Ao fundo, uma cama austera, toda branca em seus lençóes e colchas, sob
+os quaes desenhava-se um corpo longo, pouco amplo, de que apenas via-se,
+repoisada em grandes travesseiras alvas, uma cabeça de mulher,
+encaixilhada em bastos cabellos negros, lustrosos, apenas aqui e ali, de
+longe em longe, irisados de fios brancos que desprendiam o brilho
+metallico da prata polida.
+
+Os olhos, semi cerrados, fitavam um ponto unico da parede fronteira,
+onde um pequeno raio de sol, atravessando o arco de uma janella da sala,
+fixava-se insistente, como receioso de desapparecer além, atraz das
+casas da praça, ou desejoso de não abandonar, no meio-tom confuso d'um
+crepusculo precoce, aquelle quarto mortuario, em que estava para começar
+uma agonia. O olhar de minha mãe persistia fito no luminoso
+circulosinho, que accendia de amarello a brancura da parede nua.
+
+Quem sabe o que vém os moribundos nos seus derradeiros momentos lúcidos?
+Que visões obsidiam-lhes os ultimos, instantes, subjugando-lhes o
+espirito já tão enfraquecido, dominando-os poderosamente? Vêm pela
+ultima vez o goso de alguma ventura occulta, entristecem-se pela proxima
+separação do encanto da vida ou entrevem já o beatifico descanso
+interminavel que aguarda-os no pó da sepultura?
+
+ *
+
+Quasi seis horas. Continuavam os olhos presos ao circulo luminoso, que
+subira mais, approximando-se do tecto, n'um deslisar de vida que se
+extingue suave.
+
+Pelo rosto emaciado de minha mãe não corria sombra de soffrimento. As
+faces cavavam-se levemente, o nariz afilava-se, com a transparencia de
+cêra dos entes que vão morrer. Entreabertos, os labios deixavam passar a
+respiração com um offêjo ciciante e molesto, brandamente. Dir-se-ia
+dormitar a enferma, a não serem os olhos, agora um pouco mais abertos do
+que antes...
+
+Em torno, alguns parentes vigiavam immoveis, com a expressão
+contristada, transida, que temos ao esperar a morte. Á cabeceira, de pé,
+encostada ao espaldar do leito, minha irmãsinha chorava em silencio,
+enxugava as incessantes lágrymas, suffocava os soluços, para não trair-se.
+
+Quem atrever-se-ia a mostrar que soffria, perante aquelle resignado
+soffrimento que tão bem continha-se?
+
+Meu irmão egualmente quedava-se perfilado, os olhos cravados n'esse
+rosto pállido, n'essa bemdita fronte eburnea que a virtude aureolava,
+n'esses doces labios que presentiamos frios, frigidíssimos, não obstante
+o ardente halito que esfrolava-os, ja osculados pela morte!...
+
+Aquelles labios sonorosos, aquelles labios cantantes de mãe
+brazileira,--quem poderia mais galvanizal-os, fazel-os vibrar com o
+dulcíssimo affecto maternal que era o nosso ineffavel enlevo na quadra
+festiva da meninice descuidosa?
+
+Onde iriamos beber os prudentes conselhos que esses puríssimos labios
+proferiram, deixaram cair em nossas almas como um desfiar de pérolas
+raras em taças de cristal?...
+
+Quem seria, d'ali em deante, a amiga incomparavel, a santa companheira
+da nossa adolescencia ardente, a meiga representante d'esse encanecido
+vulto,--heroico prototypo da affeição familiar, da honra, da dignidade,
+de todos os boníssimos sentimentos,--que foi o nosso Pae?....
+
+Oh! desgraçados que eramos! N'aquelle impassivel expirar de tarde
+equatorial pomposa e abrazadora, iamos perder para sempre,--_para
+sempre!_--o nosso mais valioso dote, a vida de nossa Mãe!...
+
+ *
+
+Seis horas e poucos minutos, Desapparecera do tecto, sempre seguido
+pelos olhos da moribunda, o circulo luminoso, a despedida do sol á vida
+periclitante. Desmaiara mais, tornara-se apenas uma tênue mancha
+amarella, breve transformada em sombra quasi imperceptivel. Depois,
+esbatendo-se gradualmente, fôra supprimida. Desappareceu: começou a
+agonia na enferma.
+
+É doloroso assistir ao estertor dos moribundos. Terriveis embates
+soffremos na alma. Primeiro, o egoismo natural no homem, excitado pela
+lembrança de ir perder um ente amado; depois, a constatação de que nunca
+mais poderá gosar-lhe do convivio, ouvir-lhe a fala affectuosa,
+oscular-lhe a fronte calma, as faces sorridentes com a immensa candura
+da virtude. Porém onde haverá mais requintado, mais vivo e agudo
+soffrer, do que na propria sensação que experimentamos da agonia do
+moribundo amado? Em que série de martyrios archi-excruciantes
+classificar esse desespero tôrvo, enlouquecedor, vibrante, que em
+nós erguem a comprehensão das dôres a que assistimos e a impotencia de
+não podermos participar d'ellas, tomar para nós a maior porção,
+attenual-as um pouco, com o osculo das mãos acariciantes e com a ternura
+emolliente dos beijos ultra-expressivos dos ultimos, dos supremos
+adeuses?...
+
+Vinham-me ao espirito idéas estonteadoras, que levavam-me á meta da dôr.
+Ver soffrer a santa mulher que deu-me a vida, que tão feliz foi sempre
+em possuir nos braços enlaçantes os filhos queridos e amoraveis, era uma
+provação capaz de abalar-me a solidez da razão. E depois, ha sempre, á
+beira do tumulo de um ente que viveu em ligação intima comnosco, uma
+evocação, rapidíssima porém muito minuciosa, de todo o nosso passado.
+
+E o meu passado... quão unido estava ao d'aquella moribunda, que em vão
+buscava, ao vaguear a vista já vidrada pelo aposento, o raio de sol que
+viera despedil-a da vida, dar-lhe á alma, por um momento, na hora
+extrema, a claridade immaculavel que ella sempre teve na consciencia, na
+honra!
+
+Vi-me creança, buliçoso e festivo, sem um desprazer além do provocado
+pelas privações dos brinquedos. Vi-me em todas as situações da
+existencia, em todas as phases d'uma juventude agitada, em todas as
+peripecias das nossas viagens, das nossas diversões, dos nossos gosos.
+Em toda a parte, de qualquer modo que manejasse aquellas scenas
+retrospectivas, ella apparecia-me sempre como o misericordioso
+interprete dos meus votos de felicidade, o meu anjo tutellar, o
+amparo inilludivel da minha inexperiencia, o meu aconselhador
+ajuizado como todas as boas mães.
+
+Quanta saudade, quanta, do meu passado extincto!...
+
+ *
+
+Alguém tinha ido á egreja proxima,--a dez passos d'ali, no lado opposto
+do largo,--pedir o soccorro da religião e um levita acudiu, balbuciando
+preces indistinctas, a ungir quem ia morrer.
+
+A apparição d'um sacerdote que traz o extremo sacramento a um enfermo
+apavora sempre. Ante similhante visita, eu e meu irmão principiamos de
+novo a chorar,--nós que pensavamos já ter exgottado as lágrymas, tão
+abundante fôra, desde trez dias, o nosso pranto.
+
+Retirando-se o padre,--sempre murmurando orações em latim,--a agonia
+augmentou. Vizinhos tinham acudido, serviçaes e bisbilhoteiros.
+Causaram-me raiva, quasi molesto-os com uma demonstração mais evidente
+do meu enfado pela sua presença, quando desejara, a sós com os meus,
+receber o derradeiro alento da querida alma adoravel.
+
+Porque ha de prender-nos a educação n'um circulo igneo, impondo-nos
+dominio, heroicos fingimentos, até nos mais tremendos instantes da vida?...
+
+Soluços mais rapidos de minha irmã fizeram-me esquecer esta série de
+reflexões, voltaram-me para o leito onde estertorava já a doce
+companheira da minha innocencia.
+
+Acabei de comprehender este redobramento de chôro, vendo acercar-se
+alguém com uma véla accesa, que foi posta entre as mãos afusadas e
+lividas da moribunda.
+
+Minha mae ia morrer! Oh dilacerante, immensa dôr trazida por esta
+convicção!
+
+Lancei-me de chôfre a beijar-lhe a fronte camarinhada de suor, os
+cabellos sedosos, negros como a afflicção de minha alma, as faces
+encovadas, os labios crispados, álgidos, por entre os quaes
+esgueirava-se um lancinante estertor crescente, que dizia demasiado a
+aproximação do momento fatal... Allucinado, pensei que a minha
+vitalidade, a minha florida juventude poderia reanimar, devolver á vida
+aquelle espirito immensamente amado e em vão tentava aquecer-lhe o
+involucro com o ardentíssimo, impotente contacto dos meus beijos filiaes!
+
+Mas, de subito, houve uma cessação na agonia... Estarreci... Iria minha
+alma incrédula defrontar um milagre?... Oh! Deus era bom, Deus
+existia então, além da lenda biblica!... O rosto de minha mãe serenara,
+conservando, todavia, uma expressão retrahida, grave, como quem escuta a
+voz interior d'uma interessante evocação da existencia inteira.
+
+Os cilios palpitaram longos, n'uma projecção calma de sombra nas faces.
+Brilharam os olhos, tranquillos de expressão e, vagaroso, subiu o olhar
+para o sitio onde cravara-se antes o raio de sol extincto agora.
+
+Logo, porém, desceu, afim de erguer-se ainda, para minha irmã, para meu
+irmão, para mim... Demorou-se fito em minhas pupillas lacrymantes esse
+inolvidavel olhar, tão sereno como a tranquillidade da sua alma sem
+mácula, translucido n'uma expressão de quem medira o alcance do
+grande minuto final.
+
+Quem poderá estereotypar o ultimo olhar das mães aos filhos extremecidos?
+
+Attonito, baixei-me a receber o afago d'esse olhar tão expressivo como
+um beijo mudo. O milagre providencial ia operar-se, de certo. Eu
+abençoava já o eterno Bemfeitor da humanidade... ingênuo no egoismo do
+meu almejo.
+
+Os labios, no entanto, descerraram-se. E, emquanto os olhos, um nada
+mais vitreos, vagavam sobre os trez rostos dos filhos surprezos,
+transidos de admiração e esperança, aquella bôcca lívida moveu-se no
+balbucio inextrincavel d'uma phrase indistincta que, certo, era uma
+prece, um conselho bom, uma benção, um adeus!
+
+E os olhos fecharam-se, no mesmo calmo palpitar dos longos cilios,
+os labios contrahiram-se á passagem d'um suspiro mais longo,--um soluço
+dolentíssimo,--e a cabeça pendeu á direita, buscando o meu primeiro
+beijo a um cadaver amado, quente do ultimo esforço para dizer-nos com a
+vista a intensidade insondavel do seu carinhoso affecto!
+
+ *
+
+Ha seis annos passou o horrendo transe que prostrou-me louco sobre os
+despojos funebres da mais santa e querida das Mães.
+
+Dura sempre a dôr d'um filho amantíssimo? Creio bem que sim.
+Investigando a incalculavel profundez dos meus pezares, cotejando as
+impressões de hoje com as do anno passado, com as do outro anno, do
+outro e do dia em que estalou sobre mim a grande fatalidade,
+verifico a persistencia da mesma dôr molesta, intima, enorme,
+saudosamente triste, que levanta-me no espirito uma raiva contra a
+gloriosa expansão d'esta manhã rutilante e contra o gorgeio sonoro das
+aves, que estão, agora mesmo, a lembrar-me os doces cantos simples da
+infancia, quando, todo prazer e venturas, meu coração acolhia-se no
+tépido sacrario de affectos e caricias que era para mim o colo amigo e
+protector da mais amoravel de todas as mães!
+
+Onde estão os meus deliciosos sorrisos infantis de outr'ora?...
+
+Rio Madeira, 21 de abril.
+
+
+
+
+SEGUNDA PARTE
+
+OBJECTIVISMO
+
+
+
+
+A pesca do Deodato
+
+
+
+
+A pesca do Deodato
+
+Ao Sr. J. T. Lobato de Castro
+
+O tenente-coronel Fernandes salivou com estrépito para longe, afim de
+salvar a esteira que se estendia por baixo da maqueira e, ageitando no
+longo taquary pintalgado a cabeça de barro topetada de tabaco legitimo
+do Acará, proseguiu:
+
+--É como lhes digo. A desobediencia aos preceitos da egreja traz sempre
+após si a necessaria e indefectivel punição. Bem o affirma o
+ditado:--Deus castiga sem pau nem pedra. É certo que, quasi sempre, a
+consequencia lógica da culpa atraza-se tanto, que o peccador impenitente
+prolonga uma existencia criminosa no meio da mais impassivel
+tranquillidade, como se possivel fôsse á justiça do ceu esquecer. Muitas
+vezes, porém, a pena succede-se á culpa sem notavel intermissão e, em
+todo o caso, o espirito prudente só tem novo ensejo para arrenegar do
+instincto maldoso do homem e colher no exemplo nova convicção da
+sabedoria celestial.
+
+Calou-se, pigarreou, fitando com tenacidade, d'um modo quasi severo, o
+auditorio resumido e conspicuo: o Antonio Narceja, portuguez enriquecido
+n'um barracão á entrada do furo do Pagé; o Dr. Polycarpo Varella,
+juiz de direito, cuja recente remoção para Salinas filiava-se a
+memoraveis façanhas eleitoraes, nos confins do Paraná, ao expirar a
+situação conservadora, havia poucos mezes e Felix Jacaré, um cabôclo
+muito republicano, sapateiro de officio, avô do pequenito que
+dormitava-lhe ao cólo, esgaravatando machinalmente o nariz com o dedo
+titubeante, a cara suja, os labios breiados de assahy, como breiado
+estava o peito do camisão de riscadinho azul e branco.
+
+Bateram nove horas n'um relogio pendente da parede caiada. Fóra, bramia
+o mar. Pela janella aberta entravam, com a brisa, exhalações salinas e
+esse borborinho confuso e melancholico das noites em plena roça. No
+tecto de vigamento visivel, trilavam grilos. E, por intercadencias, a
+luz do candieiro de porcelana pestanejava de leve, como se também
+por ella passasse o arripio mysterioso das coisas tragicas que ali se
+falava ou se o apavorasse o tom soturno das considerações philosophicas
+do tenente-coronel Fernandes.
+
+--Tem muita razão, acudiu Antonio Narceja, offerecendo obsequiosamente
+um phosphoro acceso ao Dr. Varella, que sacára um cigarro de tauary.
+
+--Conforme... obtemperou o Jacaré, cujo espirito de contradição era
+conhecido na villa.
+
+--Vou dar-lhe um exemplo, compadre, retorquiu Fernandes, risonho e sereno.
+
+Pigarreou de novo, tornou a salivar. Depois, ageitando-se na rede,
+emquanto os companheiros aproximavam curiosos os bancos, principiou.
+
+ *
+
+Ha coisa de uns 25 ou 30 annos, vivia no Magoary um preto corpulento e
+encanecido, cuja edade ninguém poderia calcular e que toda a redondeza
+conhecia como sendo o mais ousado e feliz pescador da localidade.
+
+Methodico, não passava um dia sem ir á pesca; afortunado, não atirava a
+tarrafinha sem depois puxal-a repleta de peixes! Era um assombro, um
+gosto admiral-o em acção! Parece que rejuvenescia-o o mar. Qualquer que
+fôsse o estado do tempo, era infallivel encontral-o todas as noites,
+pelas duas horas, descendo ao pequeno porto do barracão, a desencalhar a
+canôa e logo fazer-se ao largo.
+
+E que saúde de ferro tinha elle! Jamais conhecera um incommodo, uma dôr
+de cabeça! Rijo como o acapú, afrontava os temporaes com a impavidez do
+fatalista. E pela madrugada, quem saisse á praia, não deixaria de
+descortinar muito ao largo, no mar alto, a pequenina luz intercadente da
+canôa do Deodato.
+
+Era rendoso o officio. Quando voltava á casa, depois do nascer do sol, o
+pescador trazía atopetado o fundo da embarcação. Ninguém o vencia na
+arte da salga, de tal modo que o seu peixe encontrava sempre melhores
+offertas do que o dos demais pescadores da costa do Magoary, quando os
+procuravam os compradores que iam revender em Belém.
+
+Mas tinha um defeito o Deodato:--era um impio. Deveria possuir a alma
+egual á cutis, porque desprezava as leis de Deus e zombava impertinente
+de todos os mysterios da religião e de todos os actos do culto catholico.
+
+Em balde buscara algumas vezes o padre
+Simplicio--conheceram?--trazei-o á reflexão e demovel-o ao respeito pelo
+Senhor. De tudo escarnecia o infeliz e, o que é mais revoltante, possuia
+phrases curiosas, sophismas fustigantes, objecções irrespondiveis, para
+combater os conselhos do sacerdote. Tudo era inutil. Não havia razão que
+o impedisse de ir á pesca ao domingo e dia santificado como em qualquer
+outro de trabalho.
+
+--Você ha de acabar mal,--avisava o padre, entre carinhoso e recriminativo.
+
+--Milhor p'ra mim,--retorquia o hereje, sarcastico.
+
+ *
+
+Ora, uma tarde, era vespera de não sei que dia santo grande. Creio que a
+Egreja rendia culto á Virgem sob a invocação de Senhora de Belém. Fazia
+um calor enorme. O ceu estava claro, limpo, muito azul e tranquillo,
+como tranquillo estava o mar. Na praia arenosa, as ondas vinham
+desdobrar-se preguiçosamente, n'uma languidez ineffavel. Mas, ali perto,
+nos mattos, estalavam os galhos, causticados pelo sol. E muito ao longe,
+na linha do horizonte, alguns pontos sombrios, a custo avistados a olhos
+nus, pareciam nuvens vagabundas no espaço ou podiam ser barcas de pesca
+paralysadas á mingua de brisa.
+
+No barracão, Deodato, semi nu, fumava, destrançando as redes. De vez em
+quando, assomava a cabeça á porta, a inspeccionar o ceu.
+
+Com a grande pratica que possuia, adivinhava, pressentia calma quasi
+completa para toda a noite. Era isto de certo que lhe dava esse pequeno
+rictus á commissura dos labios e lhe encrespava levemente a retinta
+fronte. Maior trabalho seria o seu, pois far-se-ia necessario o remar
+por longo tempo. Emfim, nem tudo podia ser feito á mercê dos desejos
+humanos... E volvia á faina, de todo absôrto, fumando sempre.
+
+Á boquinha da noite, appareceu um visitante inesperado á porta do Deodato:
+
+--Póde-se entrar?
+
+Era o padre Simplicio.
+
+Sob o pretexto d'uma visita casual, pelo facto de passar ali proximo, ao
+regressar da roça do Xico Sette, o sacerdote penetrava com o intuito de
+verificar se o pescador iria aquella madrugada entregar-so ao costumado
+trabalho.
+
+A occupação do Deodato mudou-lhe a supposição em certeza.
+
+--Não faça isso, homem de Deus; olhe que a festa é da padroeira da
+cidade. Nossa Senhora não lhe perdoará a falta de respeito...
+
+--Ella bem que s'importa co'a minha vida!--respondeu o preto, com um
+encolher de hombros que também poderia significar ao padre Simplicio o
+fastio que as suas observações lhe causavam.
+
+--E se eu lhe pedisse que ficasse em casa, que viesse á minha missa, em
+vez de ir amanhã á pesca; se eu invocasse a nossa amizade, afim de ser
+attendido...
+
+Teve Deodato um sorriso franco, dilatado, apresentando entre a dupla
+polpa dos labios os largos dentes alvos e disse com uma convicção
+profunda, com um tom sarcastico e decidido:
+
+--Eu ia mesmo, sim, senhor!...
+
+Não houve razões logicas, pedidos, ameaças de penas eternas que o
+demovessem. O negro era teimoso. Retirou-se o padre amuado, quasi
+colerico, benzendo-se repetidas vezes no meio da escuridão do caminho,
+tauxiada de pyrilampos loucos e murmurosa do longinquo coaxar de rãs,
+nos lameiros.
+
+ *
+
+Ficando só, Deodato franziu a testa e, mordendo o labio, lançou contra o
+padre a reprovação tacita d'um gesto energico dos braços. O diabo do
+padréca que tratasse dos seus negocios. E esta!
+
+Depois, comeu frugalmente, como de costume, um pouco de tainha moqueada
+e logo atirou-se á rede, vencido pelo somno.
+
+Aquella alma de incredulo estava entorpecida inteiramente. Do contrario,
+teria tempo de reflectir nas observações do sacerdote e quiçá algum
+sonho o prevenisse da sorte que aguardava a sua irreligiosidade. Mas o
+infeliz dormiu como uma pedra até que os gallos das roças proximas
+soltaram no ar socegado os seus cantos da madrugada, despertando-o.
+
+Levantou-se o negro e, accendendo o farol, saíu com direcção á praia.
+
+Trilavam grilos, como n'este momento em que lhes falo. Na noite calma,
+rebrilhavam estrellas, espelhando na superficie lisa do mar as suas
+cabecinhas irrequietas. Nenhuma aragem movia os arbustos, as arvores do
+mattagal. Coaxavam sempre as rãs, emquanto os sapos cururús dialogavam
+com enthusiasmo. E, ao longe, dominando esses mil arruidos da noite,
+vibrava ainda o cantar dos gallos, com um não sei que de
+profundamente triste, n'uma plangencia de alma condemnada.
+
+Instantes depois, a canôa do Deodato fazia-se ao largo. Não havia sôpro
+de brisa. A calmaria era completa. Elle, desde a tarde, esperava aquillo
+mesmo.
+
+Mas, apezar da edade, tinha ainda bons musculos o velho pescador. Remava
+á direita, remava á esquerda e o seu barquinho a pouco e pouco se
+afastava, impávido, cortando a vaga indolente.
+
+Á pôpa, como de alcatéa, velava o farol, ia deixando pela esteira da
+embarcação um rastro luminoso, que se prolongava desmesuradamente, em
+direcção á terra.
+
+Além d'este, nenhum outro signal de vida poderia enxergar-se mais em
+toda aquella extensão de costa nem sobre a linha do horisonte, do lado
+do mar alto. Quem se atreveria a ir pescar na madrugada do dia
+festivo consagrado á padroeira de Belém?
+
+D'isto mesmo deveria recordar-se o Deodato, quando se achava já a mais
+de duas milhas de distancia, porque, fazendo meia volta ao corpo, olhou
+para traz e teve no rosto renegrido uma suprema expressão de ironia
+sorridente.
+
+--Tolos!--rosnou, volvendo logo a remar com furia, cravando a vista nas
+redes colhidas ao fundo da canôa.
+
+ *
+
+Meia hora depois, algumas pequenas nuvens sombrias tinham-se erguido lá
+muito ao longe, escalavam o ceu, vinham galgando distancias,
+desdobravam-se assombrosamente. Fitou-as o pescador, desconfiado.
+
+--Ué!--exclamou. Vento ou trovoada?
+
+Apezar da incerteza, ergueu o mastro, preparou a diminuta vela de
+muruxy. E estava contente, porque já não precisaria de empregar maior
+esforço. O remo já começava a cansal-o, que diabo...
+
+Mas convinha aproveitar o tempo. Levantou-se ainda, tomou uma das rêdes
+e, com um gesto largo e facil, fel-a descrever um circulo por sobre a
+cabeça, lançando-a depois á distancia que reputou conveniente.
+
+Colhendo-a, sentiu-a leve sobremaneira e não tardou em verificar que a
+estréa fôra de todo improductiva. Não viéra um só peixe!
+
+Era estranho, porque aquelle sitio já tinha fama de rico em cardumes.
+
+Longinqua fulguração de relampago fel-o erguer o olhar. As nuvens
+tinham subido ainda mais, haviam-se estendido em quasi dois terços do
+espaço, pareciam agora as pesadas colgaduras de uma camara ardente.
+Segundo relampago, muito distante, scintilou então. E uma pequena aragem
+soprou fresca do lado do poente.
+
+Decididamente, ia cair a trovoada. Não podia Deodato perder um segundo:
+içou a véla, manobrou no sentido de aproveitar o vento. E assim
+afastou-se ainda mais de terra. Iria experimentar o mar a meia milha d'ali.
+
+Quando, depois de lançar a rêde em outro sitio, se dispunha a puxal-a,
+pareceu-lhe estar extremamente pesada. Um sorriso de alegria
+entreabriu-lhe os grossos labios. E então? Elle bem sabia que aquillo
+era infallivel!
+
+Mas imaginem o seu assombro quando, depois de longos esforços,
+conseguiu trazer á flôr da agua a rêde que julgava repleta e de repente
+sentiu-a tornar-se completamente leve, encontrando-a logo de todo vasia,
+sem uma unica pescada!
+
+Deodato não era homem para impressionar-se, porém não deixou de achar
+bastante extranho similhante facto.
+
+N'esse momento, o espaço illuminou-se com um grande relampago, seguido
+do estrugir medonho do trovão.
+
+O vento augmentara, passava agora sibilando nas cordas do pequeno
+mastro, enfunando a véla com raiva, arrastando a canôa n'uma furia,
+n'uma vertigem, á luz dos relampagos successivos, no meio de coriscos
+que esfusiavam caprichosos por todos os lados.
+
+Comprehendeu o negro que a trovoada ia ter maiores proporções do que as
+que lhe attribuira ao principio. Nada mais poderia fazer n'essa
+noite. Aquillo era praga do Simplicio, pensava. Bem descontente,
+resolveu regressar. Quiz passar o panno para bombordo, porém não teve a
+precisa ligeireza e o vento, já de todo impetuoso, quasi invencivel,
+arrancou-lhe das mãos o chicote da espia e n'um momento arrebatou a vela
+em farrapos, n'um redemoinho sibilante pelo espaço.
+
+Só lhe restava o alvitre da resignação. E elle, habituado ás
+inclemencias, affeito a mil e uma tempestades, sentou-se sereno á pôpa,
+depois de abaixar o mastro: resolvera esperar o desenlace da crise.
+
+O que presenceou então foi horrivel. Choviam raios á direita, á
+esquerda, por toda a parte. O ceu estava negro, agitado de ribombos
+infernaes, a cada minuto illuminado tetricamente, deixando a
+descoberto as grossas massas das nuvens fugidías.
+
+E o preto, longe de assustar-se, ali estava na barca, de braços
+cruzados, sorrindo com cynismo. O mar tinha um aspecto que se casava com
+a attitude hostil do espaço. Por toda a parte erguiam-se compactas
+collinas liquidas, escancaravam-se horriveis, hiantes valles
+phosphorescentes. Não chovia ainda, mas o vento, que zunia aos ouvidos
+do negro incredulo, cuspia sobre elle milhares de gottas salitrosas
+tiradas ás ondas freneticas, trementes.
+
+De subito, a amplidão toda se convulsionou, vibrou n'um estrepito
+pavoroso, repercutindo um som innominado, jamais percebido pelo Deodato
+em situações identicas. Avermelhado clarão illuminou tudo, revelou aos
+olhos do negro toda a magestade d'aquella scena para a pintura da
+qual, meus amigos, não tenho senão palavras inexpressivas e phrases sem
+colorido.
+
+Ficou estarrecido o pescador. Sentira que a fragil embarcação era com
+vigor sacudida! Mas a força que assim operava não vinha decerto do
+embate das ondas. E a canôa tremia toda, rangia, vibrava
+incessantemente, como se um braço de Adamastor a agitasse n'uns empuxões
+cyclopicos e interminaveis.
+
+--Que diabo é is...
+
+Não pôde continuar. Deante d'elle, rodeado d'uma auréola de chammas,
+tresandando a enxofre, emergia Satanaz! Levantou-se indizivel alarido:
+os raios duplicaram o faiscar, ribombos estalaram mais cavernosos. Por
+seu turno, o vento engrossou ainda mais as vagas, que chegaram
+quasi a cobrir o barquinho.
+
+Porém só durou um segundo o estupôr de Deodato. Qualquer outro homem
+succumbiria de medo. Elle, entretanto, como envergonhado d'esse instante
+de susto que tivéra ha pouco, arrastou-se com esforço, ergueu a meio o
+corpo ensopado e transido. Depois, levantando o olhar e o punho para o
+ceu, proferiu, ou antes bramiu feroz imprecação satanica.
+
+O diabo,--porque era elle em pessoa que assim surgira do mar,--empunhara
+uma espia e, correndo, cabriolando por cima das ondas loucas, entrou a
+puxar o batel para o lado de terra.
+
+Aquella corrida frenetica durou um momento. D'ali a pouco, barco e
+tripolante desfaziam-se de encontro ás pedras d'uma enseada, perto
+da capellinha do logar. Viram os meus amigos a acção da justiça de Deus?
+
+ ----
+
+Calou-se o tenente coronel Fernandes. Estava offegante, com os labios
+sêccos, o olhar animado.
+
+Mas resoou no aposento uma gargalhada stentorica, que despertou o
+molequito no cólo do avô.
+
+Era este proprio, o Felix Jacaré, quem zombara d'aquelle modo. Logo, com
+entonação escarninha, ponderou:
+
+--Não creiam n'essa balela de seu c'roné. O tar Deodato não foi pescá,
+ficou na rêde muito socegado e despois sonhô essas coisa, 'hi 'sta. Seu
+padre Simpricio, antão, arranjô o resto...
+
+
+
+
+MATER DOLOROSA
+
+
+
+
+MATER DOLOROSA
+
+A Bellarmino Carneiro.
+
+Ante-manhã.
+
+O vapor seguia rio acima, bem perto da margem, tão perto que, ás vezes,
+as ramarias sussurrantes da floresta roçavam na coberta, estendiam
+galhos sombrios por de sobre a borda.
+
+Ainda não haviam despertado as aves. O rio estava ali muito socegado,
+reflectindo o mattagal, banhando os aningaes avelludados. Não
+começára o arruido de passaros com que a alvorada é recebida, mas
+persistiam, comtudo, os derradeiros murmurios dos animaes e insectos
+noctivagos.
+
+A bordo mesmo, á ré, tudo parecia descansar ainda.
+
+Só o compassado resfolegar da machina denunciava que alguns entes
+velavam a meia-nau, attentos aos avisos do pratico de quarto.
+
+Ao nascente, começava a desenhar-se uma tenue claridade,--o início do
+fugaz crepusculo amazonico. A sombria noite diluia o negrume n'um suave
+frouxel cinzento, muito mal esboçado, indeciso quasi. Estavam longe as
+meias tintas côr de pérola e lyrio, precursoras das tonalidades rosadas
+e azues, que a seu turno precedem as estridencias rubras e alaranjadas,
+em breve esbatidas na tranquillidade definitiva dos aspectos mais
+claros do dia adeantado.
+
+Ia amanhecer.
+
+Em uma porta de camarote, á pôpa, assomara um vulto sombrio de mulher.
+Esteve ali um momento. Logo encaminhou-se á borda, perscrutando a
+escuridão, por um lado, por outro, attentamente.
+
+Aquelle vulto vestia um trajo simples, de rigoroso lucto.
+
+Saudou-o da matta um silvo de passaro,--a primeira manifestação do
+despertar das aves.
+
+O ambiente reacendia. Vinham da floresta virgem aromas capitosos de
+cumarú e baunilhas. Pelos cipós que desciam dos galhos, formando
+emmaranhamentos caprichosos, deviam escorrer as preciosas resinas que
+trescalavam tão fortes effluvios.
+
+A mulher inspirou com força. Queria banhar os pulmões n'aquella
+olencia. Em seguida, suspirou um suspiro triste; suspiro de viuva?
+suspiro de mãe inconsolavel?
+
+Clareara um pouco mais. Ja se percebia todo o labyrintho de braços
+folhudos que as arvores estendiam no ar, em contorsões. Uma suavidade
+paradisíaca se diffundia na meia tinta da luz crepuscular. Era quasi sol
+nado. Os passarinhos já haviam encetado o canoro certamen, volitavam
+céleres. Á beira-rio, nenuphares ostentavam-se opulentos por de sobre as
+polposas folhas que pareciam caprichos de esculptura em marmore verde.
+Mil flôresinhas silvestres salpicavam a vegetação das margens, sem
+nenhum acanhamento de uma ou outra victoria-régia que se dignava
+mostrar-se entre os massiços dos mururés, os quaes recebiam da
+correnteza um brando movimento de balouço. E, de um a outro lado do rio,
+eram grandes bandos altíssimos d'aves aquaticas,--patos grasnadores,
+pavõesinhos gemebundos, garças, cegonhas, toda a migração alada dos
+desertos amazonicos. Estava ali a natureza intacta, no seu inalterado
+aspecto milionario, tal como a viram os primeiros habitantes, as tribus
+lacustres que fôram as raças autochtones.
+
+O vapor seguia sempre adeante, rente a terra, na mesma monotonia.
+Aquella ascensão parecia o desvirginamento d'um éden.
+
+Iniciou-se a bordo a tarefa quotidiana. Alguns marinheiros appareceram
+trazendo baldes, desdobrando mangas para irrigação. Rompeu a subitas o
+sol, por além das mattas, n'um deslumbramento.
+
+Fugiu veloz para o camarote a madrugadora passageira.
+
+ *
+
+Horas mais tarde, o commandante atravessou o tombadilho, foi bater-lhe á
+porta. Seguiam-n'o trez ou quatro pessôas, que se conservaram a curta
+distancia, dissimulando a custo grande curiosidade.
+
+Era de certo esperada a visita, porque, immediatamente, a mulher saíu a
+recebel-a. Com a luz do dia, via-se que era uma anciã, de rosto enrugado
+e fronte encanecida. Não tinha aquella physionomia outra expressão que a
+do mais fundo soffrimento. E os olhos brilhavam extranhos, muito negros
+e dilatados, entre longos cilios sedosos.
+
+--Já estamos,--disse-lhe o commandante.
+
+Ella penetrou de novo no aposento, mas volveu passado um instante.
+Trazia uma corôa de saudades,--uma corôa tosca, evidentemente barata. E,
+com o sorriso triste, murmurou ao capitão uma palavra de agradecimento.
+
+Depois, apertando com as mãos crispadas a humilde corôa sobre o coração,
+foi ajoelhar-se junto á borda, suspirando, soluçando, toda desfeita em
+pranto.
+
+Ali perto, na floresta, rebrilhavam flôres de sonho,--extranhas
+orchídeas gigantes, catléas variegadas, osculadas de coleopteros
+zumbidores. Crescia triumphal o canto dos passarinhos.
+
+ *
+
+O grupo de passageiros arredára-se, n'um movimento de involuntario
+respeito por aquella sincera dôr ignorada. No meio d'elles, o
+commandante sentou-se taciturno e falou:
+
+--Não notam? Estou emocionado. Ha doze annos que vejo, em cada viagem,
+duas vezes repetir-se este espectaculo e, no entanto, até aqui me não
+familiarisei com elle. A prova é que abala-me ainda, como da vez
+primeira que a elle assisti. Onde encontrar explicação para isto? De
+certo que no immenso impulso d'essa dôr, na grandeza do sentimento que a
+provoca e que ha de haver compungido o coração dos senhores todos, não é
+verdade?
+
+O grupo teve um movimento egual de assentimento. Em algumas physionomias
+brilhava uma curiosidade inequivoca. Mas o capitão proseguia:
+
+--Vou referir-lhes a causa d'este espectaculo com que não contavam
+certamente os meus amigos. Esta senhora é a viuva do antigo
+commerciante C. A., de Belém. O marido possuia seringaes no alto
+Madeira, administrados por um primo. Raras vazes vinha a estas paragens:
+a escala dos seus negocios no Pará impedia-o de visitar a propriedade,
+perto da fronteira boliviana.
+
+Tinham um filho unico,--o pequenito Anselmo,--um mimo de creança, que os
+senhores haviam de estimar se o vissem, uma só vez bastava. Moreno,
+olhos negros e vivazes, tinha na franca physionomia alegre a
+manifestação exacta d'um espirito aberto e elevado. Sympathico a valer,
+bem educado aos onze annos, todos o queriam sobremaneira.
+
+Esta creança, um dia, perdeu o pae. Aquella senhora que ali está em
+pouco tempo soube que os seus haveres se achavam reduzidos. Ella,
+que sempre vivera na abundancia, não teve uma palavra de queixa.
+Abençoando á memoria do eterno ausente, resolveu retirar-se para o
+seringal, trabalhar como o ultimo cabôclo, afim de attender á instrucção
+do pequeno. Para este voltaram-se todos os seus affectos. Quem ignora
+ahi como sabem amar as dôces mães amazonicas?
+
+Dona Maria não tinha parentes proximos. Emprehendeu a viagem sem
+saudades, n'este mesmo vapor. Trazia comsigo o retrato vivo do morto,
+cuja existencia era continuada na louçania dos onze annos risonhos da
+creança.
+
+A bordo, corriam felizes os dias. O Anselmito brincava sem pezares,
+tinha em cada passageiro um camarada. E a bôa senhora quedava-se horas
+esquecidas a fital-o de longe, no enlêvo da sua alma reflexiva,
+folheando recordações posthumas, revendo saudades discretas.
+
+Foi ha doze annos. Uma tarde, não sei que passara ao menino: estava mais
+brincalhão do que nunca. Ia por toda a parte, correndo, risonho, amavel
+com toda a gente. De subito, um grito resoou, acompanhado d'um brado
+d'alma, indescriptivelmente lancinante! Olhem, ainda o tenho aqui, a
+vibrar-me nos ouvidos, esse grito de mãe desesperada!
+
+O Anselmo cavalgara o parapeito, n'um instante de descuido de todos nós
+e, perdendo o equilibrio, rolara para o abysmo. Foi além, defronte
+d'aquella immensa sapupêma. Em breves minutos lá estaremos. Parou o
+vapor, desceram escaleres, fez-se inuteis pesquizas durante vinte e
+quatro horas seguidas.
+
+O cadaver adorado não appareceu.
+
+De então para cá--e quantas viagens tenho eu feito?--a infeliz mãe não
+deixa o _Mahissy_. O seu affecto retempera-se em passar incessantemente
+por sobre o sitio onde as aguas caudalosas do Madeira tragaram aquelle
+corpinho tão fragil e tão querido. De cada vez que por aqui singramos,
+dona Maria ajoelha-se lacrimosa e, ao chegar ao logar fatídico, arroja
+piedosamente ao rio uma corôa de saudades artificiaes. Não tem aqui
+flôres naturaes, a pobre; mas acaso não são bem viridantes as flôres do
+seu coração, as tristes flôres do pezar eterno?
+
+Nunca mais foi a terra. O seringal, vendeu-o logo, pela metade do preço,
+Gasta o dinheiro em passagens para si, e corôas para o anjinho. Já devem
+estar bem reduzidos os capitaes da desgraçada. Causa-me isto uma
+lastima profunda. Mas attendam...
+
+ *
+
+Dona Maria erguera-se, n'um impulso desvairado. Levantou por cima da
+cabeça a mesquinha corôa toda banhada de sol e arrojou-a á agua.
+
+O rio tragou a funebre contribuição, fechou-se murmuroso, em circulos
+concentricos. A anciã tornara a cair genuflexa, soluçante e
+transfigurada no seu apaixonado desespero.
+
+Em terra, bem á orla da floresta ancestral, mil aves garrulavam na copa
+gigante d'uma feroz sapupema secular.
+
+
+
+
+Yaras paraenses
+
+
+YARAS PARAENSES
+
+No copiar da chacara, aquella noite, haviam-se reunido alguns vizinhos
+do commendador Esteves, o principal proprietario do Pinheiro.
+
+Rêdes fechavam os angulos, pendentes dos esteios. Era uma roda de
+homens. Todos balouçavam-se, acalorados, aguardando o assahy que n'esse
+momento a mulata Josepha amassava na cosinha.
+
+O luar de agosto penetrava em diagonal, diaphano, trazendo toda a
+melancholia profundíssima das incomparaveis noites equatoriaes. Da
+matta pouco distante, lavada de luar, vinha o monotono arruido dos
+insectos nocturnos, o alarido dos cururús teimosos. Na gaiola pendente
+do tecto sem fôrro, um caraxué silvava. E do rio, que corria ali perto,
+ao fundo da ribanceira, subiam com a brisa refrigerante os rumores dos
+barcos de pesca fazendo-se ao largo, para a foz.
+
+Fumava-se, conversava-se. Haviam já discutido os negocios do dia, na
+capital. Esteves encetara mesmo um poucochinho de politica. Portuguez de
+nascimento, não queria immiscuir-se em assumptos partidarios; mas tinha
+por elles sua predilecção e nunca deixava de externar uma ou outra
+opinião, sempre muito conservador e ordeiro.
+
+N'essa tarde, viera com elle passar a noite na rocinha o velho Barriga,
+seu aviado do alto Xingú. Era um cabôclo adiposo, de ventre
+proeminente e face larga. Apparencia insignificante, matreirice innata:
+o typo commum do seringueiro indígena. Trouxera a mulher, que já estava
+recolhida ao quarto destinado ao casal.
+
+Achava-se também presente o subdelegado Fonseca, antigo solicitador dos
+auditorios, agora enviado ao Pinheiro afim de preparar recursos para uma
+eleição proxima. Era esta a sua especialidade, ao que parecia. Em todo o
+caso, rendia mais do que a primitiva profissão. Um presidente vindo da
+Côrte não tivéra extraordinaria difficuldade para convencel-o d'isto.
+
+Mas a palestra veiu naturalmente a versar sobre assumptos do sertão. A
+um quint'annista de direito, que villegiaturava todo o anno,
+explicara já o Barriga a pesca do pirarucú e o preparo da grude de
+gurijuba. O quint'annista era, n'este ponto, d'uma ignorancia absoluta:
+não admirava a sua curiosidade.
+
+Os demais circumstantes escutavam n'um silencio discreto, bocejando. Nas
+intercadencias da narrativa, apenas se ouvia o ranger das escápulas pelo
+movimento das rêdes e o farfalhar dos galhos, matta fóra.
+
+Uma voz reclamou um conto indígena, uma lenda amazonica. Não
+comprehendeu a phrase o Barriga. Quedara-se a olhar o interlocutor,
+cortado.
+
+--Historias de bôto, do curupira, da mãe d'agua,--explicou o subdelegado.
+
+--Han!--rosnou o cabôclo. Tudo isso é mentira, acredite!
+
+--Como! Pois o senhor atreve-se a negar o que todos no sertão
+asseguram ser verdade evidentíssima?
+
+Sorriu o velho, superiormente. Tinha no rosto uma profunda piedade, pela
+bôa fé do cidadão. Ergueu-se, afivelou o cós da calça e, espreitando
+para o lado do quarto da mulher, congregou os companheiros em circulo
+diminuto. Estava transfigurado: era um philosopho stoico.
+
+--Vocês ouviram já falar em yaras, não?--perguntou. Pois é tudo mentira
+também.
+
+E abaixando a voz:
+
+--Só ha uma especie de yaras,--proseguiu. Essas, porém, não vivem no
+fundo dos rios da minha terra, estão, ahi, na cidade; vi hoje á tarde
+uma porção, quando fui com seu Esteves tomar o vapor. São as mulatinhas
+cheirosas a periperioca e jasmins, sabem? as verdadeiras yaras
+encantadas. Mas precisamente não é para o abysmo das aguas que
+arrastam a gente!...
+
+--Seu Barriga, venha dormir!--gritou no outro extremo do copiar a
+encanecida e rotunda esposa do velho cabôclo do Xingú.
+
+
+
+
+Uma historia de amor
+
+(DOCUMENTOS HUMANOS)
+
+
+
+
+Uma historia de amor
+
+(DOCUMENTOS HUMANOS)
+
+
+PRIMEIRA QUINZENA
+
+
+I
+
+Senhor,--
+
+Não posso attendel-o. Tenho deveres sagrados a cumprir, uma posição
+social a zelar. Esqueça-me.
+
+ (_Sem assignatura_).
+
+
+II
+
+Senhor,--
+
+Julgo-o um cavalheiro e acredito-o sincero, por causa da assiduidade com
+que me procura. Acceito o seu convite para jantar,--mas somente no
+intuito de o dissuadir d'essa loucura que nunca poderá ser
+correspondida. Até logo.
+
+ ELISA.
+
+
+III
+
+Sympathico amigo,--
+
+Porque insiste? Estimo-o como um camarada, quasi como a um irmão. Não
+posso, entretanto, perdoar-lhe a impertinencia:--meu marido nunca será
+enganado.
+
+ ELISA.
+
+
+SEGUNDA QUINZENA
+
+
+I
+
+Bom amigo,--
+
+Exactamento como o senhor, estou bastante incommodada por tremenda
+enxaqueca, que obrigou-me a ficar deitada até agora. A sua amavel carta,
+cheia de phrases tão meigas, traz-me certo lenitivo e me dá a energia
+necessaria para tomar a penna. Demais d'isto, a satisfação de
+escrever-lhe faz-me esquecer os proprios soffrimentos.
+
+Não me agradeça tanto o serão de hontem, ao jantar. Se o sr.
+comprazeu-se com a minha companhia, o mesmo aconteceu commigo; não
+tenho, pois, merito algum em fazer o que ditam os meus mais caros
+desejos.
+
+Quanto mais conversamos, mais vou eu descobrindo no meu bom amigo
+sentimentos e gostos que correspondem aos meus. A surpreza rejubila-me;
+similhante analogia de caracter e de idéas é demasiado rara para que eu
+deixe de admirar-me, sobretudo se encarar as barreiras sociaes que nos
+separam e a differença de classe a que pertencemos.--A sua cartinha de
+hoje é uma pequena obra-prima de cariciosas phrases. Quero crel-o,
+desejo acredital-o. Já não posso duvidar do senhor. Julgo-o sincero,
+porque _nada_ o obriga a ter procedimento egual ao seu. O sr. é
+demasiado superior de espirito para ligar tanta importancia a uma vulgar
+questão de materialismo. Por consequencia, a logica me compeliu a
+suppol-o franco em seus sentimentos apparentes. Quanto a mim,
+entrego-me toda ao senhor, intellectualmente. Juro-lhe que sou sincera,
+mesmo--e sobretudo--nas minhas ingenuidades.
+
+O sr. é sceptico, já m'o disse; isto é, preveniu-me do trabalho que eu
+teria para fazer-me acreditar. Não ignoro as prevenções que têm os
+homens pelos sentimentos affectados. Todas as mulheres são enganadoras,
+voluveis, mentirosas, mas todas têm, comtudo, momentos de real
+sinceridade. Encontro-me em um d'esses momentos. E note, meu caro Jorge,
+que não digo isto para differençar-me das demais mulheres e tornar-me
+importante aos seus olhos. Não, porque possúo todos os defeitos acima
+enumerados. Melhor do que ningúem, sabe-o o senhor, porque estou prestes
+a enganar o homem com quem vivo. Verdade é que esse homem é um
+imbecil e que nunca sympathisarei com tal cathegoria de caracter. Não
+digo isto para desculpar-me aos meus proprios olhos, pois só me importo
+com a minha consciencia e não com alheias opiniões. Digo-o, sim, á laia
+de informações a respeito dos meus sentimentos reaes, no intuito de
+fazer-lhe comprehender que, do senhor para mim e reciprocamente, deve
+estabelecer-se uma corrente de escrupulosa sinceridade, pela simples
+razão de que eu e o sr. não somos impellidos um para o outro por outro
+interesse que não seja o nosso capricho,--ou, se mais lhe apraz e para
+falar mais exactamente, pela especie de correlação que existe entre os
+nossos dois espiritos.
+
+Como vê, sou mais franca do que o sr. É talvez um mal. Por
+principio, uma mulher, posto que enamorada, nunca deve revelar
+inteiramente a sua alma. Eu, porém, tenho-o na conta do mais leal dos
+homens, do mais generoso dos corações. Serei algum dia despertada
+cruelmente d'este adoravel sonho?
+
+Percebo que tenho ainda muitas coisas a dizer-lhe: tomo, pois, outra
+folha de papel. Ha de fazel-o sorrir tamanha expansão. Que quer? Tenho
+tantas phrases agitando-se-me na cabeça.... Emfim, perdôe-me. Desejo que
+o sr. me conheça bem e saiba completamente o que sou e o que quero.
+
+Não imagina até que ponto aprecio a attenção tão firme mostrada para
+commigo, vae fazer um mez. Agradeço-lh'o deveras, porque isto me
+satisfaz immenso. Lembra-se da carta em que lhe pedia que me
+esquecesse? Pois bem; hoje tem o meu querido amigo a razão por que lhe
+dizia essas palavras. Não o conhecia bem e receiava affeiçoar-me
+demasiado a um homem cujas apparencias eram as de um aristocratico
+_viveur_.--Sinto que hei de amal-o, que hei de amal-o talvez mais do que
+o sr. deseja e o amor é, ás vezes, cruel tyranno intransigente e
+molesto. O sr. agora está prevenido: póde defender-se. Não venha um dia
+lamentar-se pelo facto de haverem-se tornado demasiado serios os meus
+sentimentos.
+
+Tenho o genio tranquillo. De temperamento frio, difficilmente me
+enthusiasmo. Com respeito a questões graves, nada emprehendo sem antes
+prever os resultados do acaso ou do imprevisto. Nunca foi meu fraco a
+leviandade. É por isso que faço questão de patentear-lhe a alma da
+mulher que o senhor tem deante dos olhos e que espero nunca será
+considerada com volubilidade.
+
+Conhece-me agora, querido amigo. Esta carta é uma confissão: nunca fiz
+outra egual. Sem falsa vergonha revelo os meus defeitos e fraquezas,
+sabendo a quem os confio.
+
+Falemos agora de coisas que interessam á vida physica. Nada tenho a
+dizer-lhe sobre o ponto que trata do aposento em questão: approvo o que
+fez. Veja que o ninho seja bem discreto, bem mysterioso, para esconder
+perfeitamente a felicidade que vae abrigar.
+
+Até amanhã.
+
+ ELISA.
+
+
+II
+
+Jorge,--
+
+Volto do passeio n'este instante com meu marido e encontro a tua carta.
+Então, meu querido, já estás mau e injusto sem motivo!
+
+Em primeiro logar, dizes--_a senhora_, o que, na correspondencia, é um
+matiz bem accentuado de frieza. Não é bonito isso.
+
+Depois, agastas-te sem razão. Não conheces acaso a minha existencia? Não
+ignoras que goso de uma liberdade limitada. Além d'isso, não temos
+ambos, eu e tu, as nossas respectivas obrigações? Differentes, sem
+duvida, dir-me-ás, porém isso não impede que seja imprescindivel
+cumpril-as todas.
+
+Tens graça affirmando que eu podia arranjar um pretexto! Invento-os
+todos os dias, mas lá vem um instante em que os argumentos minguam e
+mistér se faz pagar o tributo da propria presença, como hoje aconteceu.
+
+Não sejas, pois, injusto:--eu soffreria bastante.
+
+A vida que levo não tem alegrias para mim, acredita-me. E, se vens ainda
+augmentar-me os desgostos com recriminações que não mereço, ainda mais
+me entristecerás.
+
+Amo-te, bem o sabes. Se não o crês, é porque impede-te o teu
+scepticismo. Como provar-te, entretanto, o meu amor?
+
+Vê se sou corajosa: escrevo esta carta (e bem notas com que
+tranquillidade), deante de quem sabes. Não posso mostrar mais audacia,
+mais temeridade, parece-me. _Elle_ anda ao redor de mim, com
+olhares atravessados, que me encolerisariam se eu já não estivesse tão
+predisposta contra elle.
+
+Até logo. Não sejas tão mau com a tua
+
+ ELISA.
+
+
+TERCEIRA QUINZENA
+
+
+I
+
+Meu querido,--
+
+Vou mais uma vez enfastiar-te com a minha prosa quotidiana, porém agora
+tenho uma desculpa:--estás doente.
+
+Como te encontras hoje? Cada vez melhor, presumo-o e desejo-o com toda a
+minha alma.
+
+O tempo está mau, trata-te bem, não faças imprudencias nem
+affrontes o ar humido e doentio das ruas lamacentas depois da chuva
+d'esta noite.
+
+Muito penso em ti e soffro extraordinariamente por te não ver ha longos
+dias. Tu, meu amigo, que tão bem conheces o coração das mulheres, ainda
+desconheces o meu, que, no emtanto, possues inteiramente... ou antes,
+conheces demasiado a esse pobre musculo e é por isso que ás vezes o
+fazes soffrer bastante.
+
+Adeus, meu amor. Trata-te com cuidado e recebe toda a ternura da tua
+
+ ELISA.
+
+
+II
+
+Jorge,--
+
+Depois do que se passou hontem á noite entre nós, tomo a prudente
+resolução de libertal-o da minha presença, que o importuna de certo
+tempo para cá. Esta carta é a da sua alforria: sae ao encontro das suas
+intenções, que, mais hoje, mais amanhã, seriam propostas de certo.
+
+Não me surprehende a sua conducta. Sinto não haver-me equivocado, porque
+amava-o. O sr. é muito caprichoso e nunca teve affeição por mim. Nunca
+houve no mundo caracteres tão deseguaes como os nossos. Os nossos gostos
+e sentimentos andavam em regiões absolutamente oppostas, bastante tarde
+o comprehendo.
+
+Adeus, por tanto. Cure-se, restabeleça depressa a saúde, que eu desejara
+saber completa, mesmo sem nunca tornar a vel-o. Adeus.
+
+ ELISA.
+
+ ----
+
+Conforme.
+
+
+
+
+A filha do pagé
+
+
+
+
+A filha do pagé
+
+ A Martin Garcia Mérou
+
+
+I
+
+No rio Negro.
+
+Das margens, nenhum som da vida animal perturbava a tranquillidade das
+coisas. A pino, o sol mordia as densas vegetações sombrias, fustigava
+tenaz uma ou outra borboleta vagabunda sobre os nenuphares exhaustos. O
+rio seguia monotono, n'um esvaimento; apenas pelo meio, lá ao
+largo, a correnteza fervia em cachões, borbulhava entre escumas
+alaranjadas, depurava-se de todos os residuos que acarreta a grande
+arteria aquatica.
+
+Pela beirada, aproveitando o remanso, ia subindo vagarosa, impellida
+pelo remo de pá, a canôa de pae Francisco, o velho pagé de Curralinho.
+
+Vinha de longe, o solitario viajante. Emprehendêra a operosa navegação,
+que almejava fôsse a sua ultima ascensão para o centro, em busca do
+absoluto socego onde podesse sondar a sua dôr e dar largas ao pranto que
+não seccava ha seis mezes. Fugia do logar onde fôra feliz e poderoso.
+Além, no mysterio das florestas intactas, na grandiosidade da natureza
+virgem, havia de encontrar o lenitivo para as amarguras da alma
+lacerada.
+
+Uma ternura afagava-lhe o espirito, onde renasciam vislumbres de
+esperança. Esquecer o passado, não o desejava. Seria buscar o
+impossivel. A que ousava aspirar, n'uma humildade de supersticioso, era
+á pacificação circumdante, para rever a seu gosto agridoces saudades,
+resuscitar as reminiscencias, fruir as meigas recordações dolorosas dos
+tempos idos. Era isto querer em demasia?
+
+Remava sempre, semi-nú ao centro da embarcação, com o dorso exposto á
+soalheira, suarento, a cabeça ora para deante, ora erguida, no movimento
+dado ao remo. Nada via do lado da terra. A vegetação crescia opulenta,
+emmaranhara glaucas barreiras invenciveis de raizes, troncos, ramagens e
+lianas. Por cima de tudo isto, palmeiras carregadas de tractos
+trapejavam brandamente e dos galhos, d'entre massiços mais claros
+de folhagens tenras, pendiam as orchídeas, na gala aristocratica dos
+seus caprichosos matizes.
+
+Ás vezes, adeante da canôa, pinchava um peixe assustado, levantava
+innumeras gottas, achamalotava de arripios fugitivos a negrura do
+remanso. Mas o velho quedava-se impassivel, remando sempre, fixo na idéa
+de fugir de Curralinho. O aspecto exterior do mundo não o interessava;
+debatiam-se-lhe tumultuosamente no espirito milhares de pensamentos
+retrospectivos, um só dos quaes era bastante para dominar-lhe a attenção
+inteira.
+
+
+II
+
+Era simples a historia d'esse homem.
+
+Nascêra e crescêra em Curralinho. Filho d'um antigo cabano, fizera-se
+pagé quando lhe morrêra o pae.
+
+Desconhecido ao principio, teve de esperar paciente que os seus feitos o
+acreditassem na população, trazendo a pouco e pouco o exito que tamanha
+fama lhe grangeou depois. Ao chegar á edade madura,--estava
+definitivamente consolidada a sua reputação. De muitas leguas ao redor,
+vinham durante o anno centenas de pessôas recorrer-lhe ao talento com a
+fé cega dos supersticiosos e dos crentes.
+
+Uns,--a nata da gente culta de Curralinho,--tinham-n'o na conta de
+brégeiro especulador. Mas a parteira Eudoxia proclamava convicta o
+sincero devotamento de pae Francisco áquillo a que ella, com um pouco
+menos de propriedade na expressão, chamava o seu sacerdocio. Levava
+mesmo o espirito justiceiro a assegurar, com a responsabilidade do
+testemunho evidente de cem pessôas, que, para resolver uma situação
+difficil de puerperio, mais valiam as imposições cabalísticas da dextra
+do apregoado pagé, do que toda a sua longa pratica, d'ella depoente
+insuspeita, associada á infallivel interferencia de São Raymundo Nonato.
+
+Especulador ou convicto,--não vem a pêllo esmerilhar o fundo d'aquelle
+caracter. Talvez mesmo tivesse ella as duas qualidades que são, quasi
+sempre, o acúleo do seu e de identicos mestéres. O que havia de positivo
+era a adoração que sentia pela filha,--um encanto de caboclinha
+rechonchuda e capitosa, que lhe déra a companheira, momentos antes
+de morrer. Fôra essa a unica vez que falhara a sua sciencia de mago.
+Será verdadeiro o aphorismo de que santos de casa não fazem
+milagres?--perguntava, benzendo-se trez vezes, a velha Eudoxia.
+
+Toda a villa conhecia e estimava a repariguita. O pae tinha-a fóra de
+casa, com a gente d'um amigo intimo. Ia vel-a todos os dias e passavam
+longas horas sem que elle interrompesse o affectuosíssimo colloquio, que
+tão deliciosamente banhava de inenarraveis venturas o seu singelo coração.
+
+Que gloria valia a de ser pae de similhante creatura?
+
+
+III
+
+Creara-a elle proprio, desde os primeiros dias da dupla viuvez do seu
+corpo e da sua alma. Descrever toda a serie de cuidados, de attenções,
+esperanças e sustos desenvolvidos por pae Francisco, seria traçar o
+poema de um heroismo commum no bemdito solo amazonico.
+
+Fôra elle a sua ama secca,--mas disvelado como nenhuma. Tinha um geito
+especial para amimar a pequenita creatura, apaparical-a com terna
+bondade, que era um gosto espreital-o no desempenho d'essa funcção
+providencial. Havia, assim, n'aquelle extranho ser, duas entidades
+heterogeneas, uma dualidade admiravel, que tão profundo contraste
+estabelecia entre o terrivel feiticeiro abracadabrante e o pae melifluo,
+de olhos deslavados em sorrisos de adoravel meiguice.
+
+Quedava-se o cabôclo, a cada instante, longo tempo a rever na face
+inexpressiva da creancinha as feições d'um ente estremecido, para sempre
+entregue á dissolvencia definitiva, no sombreado cemiterio da villa. O
+seu affecto fazia ricochete na muralha da morte e volvia inflorado de
+carinhos, fúlgido de enternecidas esperanças, a formar a aureola
+transcendente que exalçava o futuro da creancinha.
+
+Felicia chamara-a, n'um augurio de ventura. Quantas horas não ficava
+absôrto, á beira rio, sonhando acordado mil felicidades para o
+enlevo da sua alma solitaria, para a filha idolatrada que ali
+medrava a seu lado, na força da vida ao ar livre, sem peias physicas a
+entorpecer-lhe a pujança da infancia?
+
+Vieram, mais tarde, outros cuidados. Necessario se tornava dar fórma a
+um espirito vivo, a uma intelligencia agil e vigorosa. Já não bastavam
+as attenções materiaes. A _ama sêcca_ devia tornar-se n'um educador
+perfeito e elle soube sel-o com exito, no seu meio, nos limites da
+propria visualidade espiritual. Não têm as almas, ainda as mais simples,
+um mundo de idéas sãs, um thesouro de sentimentos puros, tão efficazes
+na comprehensão dos deveres moraes?
+
+A philosophia do pagé de Curralinho era singela como a simplicidade da
+sua existencia, vigorosa como a pujante natureza circumdante.
+
+Mas a creança da vespera tornara-se mulher. Novos sobresaltos para o
+pae. Não lhe bastava a convicção de lhe haver insuflado á alma os mais
+sãos conselhos. Uma nuvem de desconfiança lhe entenebrecia o coração. Os
+sustos perseguiam-n'o sempre, mesmo no meio dos somnos agitados. A sua
+preoccupação constante era esta: amparar a filha contra o assalto da
+concupiscencia. Se houvesse necessidade de comparal-o a algum personagem
+do romantismo, nenhum vulto era mais adequado ao símile do que o do
+apaixonado truão de Francisco I.
+
+Pozera-se de má catadura, encanecêra, tornara-se rispido e intolerante
+com todo o mundo. Em cada individuo via um ladrão da sua felicidade. E,
+nos dialogos com a filha, ao luar, ao longo da ribanceira, dominando o
+Amazonas, tinha encantadoras expressões de meiguice, phrases cariciosas
+como osculos de creança amimada,--admiraveis esforços para prender e
+enleiar definitivamente um affecto que elle receiava--ou
+adivinhava?--perder um dia. Esta unica idéa lhe dava febre. Era, então,
+n'uma languidez voluptuosa e pura, que recebia os beijos filiaes da
+virgem, perfumada a periperioca, agitada n'uma ternura reconhecida.
+
+
+IV
+
+Este encanto durou pouco. Felicia amara, alfim, outro sêr extranho, com
+um novo sentimento cuja diversidade reconheceu tão grande, que não teve
+animo para confessal-o.
+
+Ignorando tudo, o pagé contemplava satisfeito, na apparente
+tranquillidade da caboclinha, o são producto dos seus conselhos.
+
+Um regatão de longe--lá das bandas de Macapá--fôra o perturbador
+d'aquelle singelo coração. Era moço, valente, um bello typo de tapuia
+varonil. A sympathia da rapariga fez-se primeiro enthusiasmo doidivanas,
+assumiu depois as proporções de violenta paixão.
+
+Felicia não tinha já a mesma fixidez attenta no olhar quando a encarava
+o pagé. Distrahida, oppressa por vago mal estar, buscava a solidão,
+isolava-se por gosto. O pae attribuia esse estado a causas puramente
+physicas. Entretanto, quem surgisse, alta noite, por perto do copiar da
+casa onde vivia a moça, havia de enxergal-a nos braços do regatão,
+soluçante de amor, gemente de desejos.
+
+Não podia prolongar-se o novo estado de coisas. Um dia, ao amanhecer,
+foi o pagé avisado que lhe fugira a filha. Por uma reveladora
+coincidencia, desapparecêra também do portosinho da villa a canôa do
+regatão.
+
+O velho cambaleara, caíra sem sentidos. Trez semanas esteve á morte,
+ardendo em febre, delirando entre pesadêlos horriveis. Todo o
+povoado emocionou-se á narração de tamanha dôr. Os mais endurecidos
+corações, aquelles que chamavam feiticeiro e perverso a pae Francisco,
+tiveram para elle um movimento de sympathia, uma pontinha de dó.
+
+Eudoxia, entretanto, não ficara socegada. Varonil, resoluta, organisou,
+com o auxilio de dois amigos que equivaliam a duas dedicações poderosas,
+uma expedição em busca de Felicia.
+
+Alguém disséra que o regatão tomara o caminho de Gurupá. Na mesma
+direcção seguiram a parteira e seus auxiliares. Dois mezes depois--nem
+tanto, talvez--estavam de volta. Rocebeu-os o velho n'um desanimo, com
+um sorriso triste, quasi idiota, na face desfigurada.
+
+Tudo inutil. Felicia morrêra em viagem. Havia-a destruido a
+variola. O regatão enterrara-a n'uma escarpa e ficara louco, ao
+abandonal-a para sempre á orla da floresta, sob uma chuva interminavel
+de flôres capitosas.
+
+Pae Francisco manteve-se calado, imperturbavel; só dois grandes fios de
+lagrymas deslisaram-lhe pelas faces, cortando o rictus que a immensa dôr
+formava em cada commissura dos labios.
+
+Meia hora depois, elle também partia, sem despedidas, n'uma canoinha
+leve, subindo o Amazonas.
+
+Eis porque, ha pouco, o encontramos, lavado em suor, a cabeça ora para
+deante, ora erguida, no movimento dado ao remo. Ha alguns mezes já que
+saíu de Curralinho. Segue pela beirada, aproveitando o remanso do rio
+Negro.
+
+Foge do logar onde fôra feliz. Não terá direito a aspirar ao
+lenitivo para a alma lacerada?
+
+Como nenhum som de vida animal perturba a tranquillidade das coisas,
+está perscrutando a intensidade dos proprios pezares, sopesando a agonia
+do coração encarquilhado.
+
+Vae sempre para o centro, n'uma ascensão dolorosa, martyr da bôa fé. No
+espirito, afagado por indefinida ternura, renascem-lhe vislumbres de
+esperança. Não é que pretenda esquecer o passado. Busca apenas o socego
+absoluto das florestas intactas, para dar largas ao pranto que não secca
+ha seis mezes.
+
+Demais, no meio da pacificação circumdante, não poderá elle rever a seu
+gosto agridoces saudades e convulsar baixinho, muito baixinho, com a sua
+querida Felicia,--não a fugitiva,--mas a outra, a pequenita, a que
+o preferia sempre, aquella que elle creara como ama secca e ainda
+conservava pura e infantil no fundo do amantíssimo coração?
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+PRIMEIRA PARTE
+
+Subjectivismo
+ Paginas
+ O isolamento 15
+ Gaivotas 27
+ O Naufragio do Purus 39
+ Brinde a minha Filha 49
+ O cemiterio da floresta 57
+ Um anniversario 67
+
+SEGUNDA PARTE
+
+Objectivismo
+
+ A pesca do Deodato 89
+ Mater dolorosa 113
+ Yaras paraenses 129
+ Uma historia de amor 137
+ A filha do pagé 153
+
+
+
+
+ESTE VOLUME
+foi impresso, gravado e brochado
+para Arnoldo Moen, editor,
+314, Florida, 314
+BUENOS AIRES
+10 de fevereiro de 1896
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Entre as Nymphéas, by João Marques de Carvalho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENTRE AS NYMPHÉAS ***
+
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.0 Transitional//EN">
+<html lang="pt">
+<head>
+ <title>Entre as Nympheas, por Marques de Carvalho</title>
+ <meta name="Author" content="Marques de Carvalho">
+ <meta name="Publisher" content="Arnoldo Moen,&mdash;editor, Buenos Aires">
+ <meta name="Date" content="1896">
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+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Entre as Nymphéas, by João Marques de Carvalho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Entre as Nymphéas
+
+Author: João Marques de Carvalho
+
+Release Date: June 19, 2009 [EBook #29161]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENTRE AS NYMPHÉAS ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 1.2em;">OBRAS DE MARQUES DE CARVALHO</p>
+
+<p>VII</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;">ENTRE AS NYMPHEAS</p>
+</div>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<table align="center" summary="Obras do autor">
+<tr><th colspan="2">DO MESMO AUCTOR</th></tr>
+
+<tr><td>O S<small>ONHO DO </small>M<small>ONARCHA</small></td><td>Opusculo</td></tr>
+
+<tr><td>L<small>AVAS</small></td><td>Opusculo</td></tr>
+
+<tr><td>P<small>AULINO DE </small>B<small>RITO</small></td><td>Opusculo</td></tr>
+
+<tr><td>H<small>ORTENCIA</small></td><td>1 volume</td></tr>
+
+<tr><td>O L<small>IVRO DE </small>J<small>UDITH</small></td><td>1 volume</td></tr>
+
+<tr><td>C<small>ONTOS </small>P<small>ARAENSES</small></td><td>1 volume</td></tr>
+</table>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 1px #000;">
+<p>&nbsp;</p>
+<p style="font-size: 1.2em;">J. MARQUES DE CARVALHO</p>
+
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 2em;"><span style="margin-right: 3em">ENTRE AS</span><br>
+<span style="margin-left: 3em">NYMPHEAS</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><img src="images/capa.png" width="50%" border="0" alt="Ilustração da capa"></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>B<small>UENOS </small>A<small>IRES</small><br>
+Arnoldo Moen,&mdash;editor<br>
+Calle Florida N.º 314<br>
+1896</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<h3>INDICE</h3>
+
+<table align="center" border="0" summary="Indice">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <th colspan="2">PRIMEIRA PARTE</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2">Subjectivismo</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td> </td>
+ <td style="text-align:right;">Paginas</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O isolamento</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_15">15</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Gaivotas</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_27">27</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O Naufragio do Purus</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_39">39</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Brinde a minha Filha</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_49">49</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O cemiterio da floresta</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_57">57</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Um anniversario</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_67">67</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2">SEGUNDA PARTE</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2">Objectivismo</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>A pesca do Deodato</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_89">89</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Mater dolorosa</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_113">113</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Yaras paraenses</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_129">129</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Uma historia de amor</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_137">137</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>A filha do pagé</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_153">153</a></td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h1>PRIMEIRA PARTE <br>
+SUBJECTIVISMO</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">A minha esposa</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><em>Esta parte do volume é intima, subjectiva.</em></p>
+
+<p><em>Suas paginas constituem o trabalho d'um artista apaixonado e d'um homem
+de coração, durante uma viagem entre as nympheas, na região dos nenuphares e da
+Victoria Regia, pelos rios Amazonas, Negro e Madeira, ha seis annos.</em></p>
+
+<p><em>O labutar objectivo do auctor em busca da expressão naturalista da arte
+encontra aqui uma occasião de pausa roborante, emquanto fala a alma, na livre
+expansão da sua illimitada sinceridade e de todas as forças affectivas que
+possue.</em></p>
+
+<p><em>Eu devia esta homenagem ao amparo dos meus desanimos, ao jubilo dos meus
+dias prazenteiros,&mdash;á insubstituivel companheira a quem dedico esta metade do
+volume. Doze annos de intensíssimo affecto necessitavam de uma
+commemoração.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Buenos Aires, 1895.</p>
+
+<p style="text-align:right;">Marques de Carvalho.<span class="pn"><a name="pg_15">{15}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>O ISOLAMENTO</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>O ISOLAMENTO</h2>
+
+<p style="text-align:right;">A Coelho Netto</p>
+
+<h3>I</h3>
+
+<p>Ergui-me com a estrella d'alva, esta manhã.</p>
+
+<p>Oppresso pela atmosphera pesada do aposento, saí logo ao terraço, a receber
+em cheio na face a brisa que, desde o interior da casa, eu ouvia sacudir
+valentemente as grandes arvores da floresta, ali perto.</p>
+
+<p>Logo bebi, sôfrego, esse ar embalsamado que enchia o ambiente.<span
+class="pn"><a name="pg_18">{18}</a></span></p>
+
+<p>Uma alegria sem par empolgou-me o espirito, sem duvida suscitada pela
+grandiosa belleza circumdante. Embrenhei-me na matta, seguindo uma azinhaga.
+Começava a amanhecer. Havia no ar esse murmurio das aves que
+despertam,&mdash;bulicio tepido que só podem avaliar os madrugadores na roça,&mdash;um
+como roçar voluptuoso do frouxel suavíssimo que exorna as innumeras legiões
+canoras do Amazonas.</p>
+
+<p>Não sei o tempo que andei quasi ás apalpadelas, ao longo do carreiro.
+Interessava-me tanto pelo duplo acordar dos ninhos e das plantas, que só
+reparei em mim mesmo quando, já dia claro, encontrei-me no cantro de uma bella
+clareira. Por cima de mim, balbuciava a brisa dulcíssimos rumorejos, agitando
+as copas verdejantes. Em derredor, porém, era, ás vezes, absoluta a
+tranquillidade das coisas.<span class="pn"><a name="pg_19">{19}</a></span> Por
+intermittencias, nem mesmo um ciciar de passarinho, ou esse mysterioso,
+farfalhante correr de lagarto, que parece suscitar não sei que extranhos
+sobresaltos nas florestas do meu paiz.</p>
+
+<p>Formava a clareira como um salão circular preparado pela natureza para
+receber-me. E, para que nada faltasse, havia, ao fundo, extendido como um
+luctador exhausto, um grande tronco secular, que alguma tremenda tempestade
+derribara. Amplo, coberto do limo que arremedava a fôfa disposição dos estôfos
+valiosos, esse gigante vencido offerecia-me commodo assento rustico.
+Entretanto, não utilisei-me d'elle: sentindo-me bem, sentindo-me feliz, estava
+longe da fatiga. Por insensivel movimento de dominio orgulhoso, apenas puz-lhe
+o pé no dorso, vencedoramente.</p>
+
+<p>Na mesma occasião, porém,<span class="pn"><a
+name="pg_20">{20}</a></span> penetrou-me o pavor: uma grande ave, um inhambú
+graciosíssimo emergiu d'entre as toiças de verdura fresca, de sob o tronco
+abatido e ergueu o vôo para o interior do matto, n'um largo ruflar d'azas com
+indubitaveis entonações zombeteiras, intoleravelmente escarninhas. </p>
+
+<h3>II</h3>
+
+<p>Quedei-me ali muito tempo, a seguir esta ordem de pensamentos.</p>
+
+<p>No entanto, o ceu fôra devassado pelo hilariante clarão com que este bemdito
+sol da minha terra doira todas as coisas,<span class="pn"><a
+name="pg_21">{21}</a></span> em sua munificencia de soberano insupplantavel.
+Por toda a parte, só uma coisa via: luz, luz, luz, esse alastrar de claridade
+que penetra tudo, que dá aos objectos uma apparencia de alegria, d'intenso
+jubilo paradisiaco!</p>
+
+<p>Pelo ar, cantavam sempre a brisa e as aves, estas menos talvez do que
+aquella, compromettida a fazer a larga harmonia da alígera volata.</p>
+
+<p>A clareira formava agora um salão redondo alcatifado de velludo esmeraldino,
+illuminado d'uma orgia de raios, vibrante da deliciosa bacchanal dos
+passarinhos.</p>
+
+<p>Minha alma dilatava-se mais no goso, até ali inexperimentado, de tamanha
+quietude, de tão profunda sensação do que é grato na liberdade.</p>
+
+<p>O isolamento! Quanta paz na situação que esta phrase traduz! Que suaves
+delicias<span class="pn"><a name="pg_22">{22}</a></span> que meigo langôr frue
+o espirito no socego completo, divorciado dos cuidados da vida commum, senhor
+emfim de sondar a consciencia propria, com a qual anda, ás vezes, semanas
+inteiras sem ter um só instante para escutar-lhe as impressões, para confabular
+com ella, extremado dos sêres banaes e falsos que formam a nossa róda
+habitual!</p>
+
+<p>Haverá porventura alguém que não preze esses momentos de silencio, nos quaes
+a alma fala comsigo propria, dizendo coisas ha muito sentidas e que,
+entretanto, parecem-lhe,&mdash;quando examinadas,&mdash;extranhas novidades jamais
+ouvidas?</p>
+
+<p>Lembro-me agora da attenta concentração em que surprehendo, algumas vezes,
+no alto das ramarias, esses folgazões alados que garganteiam a todo instante
+crystallinas fiorituras sonoras.<span class="pn"><a
+name="pg_23">{23}</a></span> Dir-se-ia monologarem, resolvendo ponderoso
+assumpto, tal a profunda gravidade com que pendem a cabecinha, como recolhidos
+ao mais intimo de si mesmos.</p>
+
+<p>Conheci um canario ao qual este genero de melancolia era habitual. Valente
+cantor, adorado em toda a vizinhança pelo talento com que desferia os seus
+bellíssimos gorgeios, valia a pena vel-o, quando espanejava-se ao sol, muito
+arripiado e gracioso, revolvendo com o bico, em rápida immersão, a agua do
+pequenino tanque de crystal da gaiola doirada onde vivia.</p>
+
+<p>Tirava horas inteiras para cantar, saltitante e feliz! Podia dizer-se que
+empenhava-se em fazer um impossivel, ou que pretendia matar-se n'um excesso
+melodico e genial, superior ás forças de seu mesquinho sêr de passarito
+delicado!<span class="pn"><a name="pg_24">{24}</a></span></p>
+
+<p>Porém detinha-se de repente, entre um trinado e um silvo: detinha-se,
+interrompendo os elegantes pulinhos e, immovel na travéssa principal, ficava
+ali demorados momentos, a curvar a loira cabeça para um e outro lado, com uma
+sériedade que poderia fazer sorrir a quem, superficial e leviano, não
+ponderasse no mysterio d'aquelle inesperado recolhimento em que uma alma
+sonhadora e romantica parecia despertar n'elle com intercadencias fataes.</p>
+
+<p>Terão também os passaros o prazer do soliloquio, a volupia da meditação?
+Terão também a percepção dos gosos inebriantes que provém da certeza de
+estarmos sós,&mdash;absolutamente sós, que ventura!&mdash;emfim libertados da tyrannia
+das convenções, capazes de desafivelar a mascara que atam-nos á face os<span
+class="pn"><a name="pg_25">{25}</a></span> respeitos mundanos?...</p>
+
+<p>Bem quizera crêr na existencia, n'elles, de um poder de reflexão, pois
+d'outro modo não sei explicar aquella postura tão extranha, aquelle ar
+philosopho, essa expressão quasi humana,&mdash;tão humana, que surprehende!</p>
+
+<p>É que, de certo, sentem o valor do socego, da paz completa, do
+tranquillizador influxo da solidão, cujos ineffaveis encantos fascinam,
+penetram o organismo d'uma tepidez emolliente, dão este balsamo
+incomparavel:&mdash;a alegria de viver!</p>
+
+<p>E como assim não acontecer, visto que as aves são as dominadoras do espaço,
+os habitantes da matta, onde é de todo sensivel o poder do isolamento, d'esta
+situação, que póde ser considerada egoista e destruidora, porém que o meu
+espirito acaba de começar a comprehender, a reverenciar,<span class="pn"><a
+name="pg_26">{26}</a></span> a amar com descompassados enthusiasmos, porque
+vae-lhe perscrutando os largos arcanos de poesia e alento philosophico, o vigor
+que insufla a mente para aprofundar-se no estudo subjectivo, no conhecimento do
+<em>eu</em>, a desillusão a que arrasta-nos em relação ás pequenas miserias
+odientas do mundo postiço dos falsos e dos pretensos civilizados?...</p>
+
+<p>Gloria ao isolamento! Bemdita sejas, ó grande floresta amazonica, osculada
+pela ardente paixão do sol, toda sonora dos folguedos da passarada chilreante,
+rica de estranhos mysterios e de mysteriosas riquezas inestimaveis!<span
+class="pn"><a name="pg_27">{27}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>GAIVOTAS</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>GAIVOTAS</h2>
+
+<h3>I</h3>
+
+<p>Um bando de gaivotas, aos pares amoravelmente aproximados, ergueu o vôo do
+mattagal e, cortando o espaço por de sobre o borbulhante estirão do rio, veiu
+seguindo o vapor, a poucos metros de distancia da pôpa, ora alteando-se á ponta
+do mastro, ora descendo rapido, de olhar incisivo e lesto bico, até esfrolar
+levemente a agua com as cendradas pennas da aza desfraldada.<span class="pn"><a
+name="pg_30">{30}</a></span></p>
+
+<p>O marulho da agua parecia excital-as, espicaçar-lhes a actividade em céleres
+convites de festiva digressão a ignotas paragens, onde o ceu fosse azul,&mdash;muito
+azul,&mdash;e a verdura das ilhas tivesse os tenros e alegres tons que apresentavam
+os aningaes das margens defronte das quaes passavamos n'aquelle instante.</p>
+
+<p>Revoavam jubilosamente, as gaivotas, aproximavam-se do vapor, descrevendo
+elegantes circulos, n'uma palpitação d'azas similhante ao ruflar do leque entre
+os dedos d'uma bella mulher, quando impéra, deslumbrante de graça, nos salões
+selectos. Vinham, parecia quererem invadir a coberta, participar da ruidosa
+vida que sobre ella apresentavam os passageiros, reunidos em intimas palestras.
+</p>
+
+<p>Sentado á pôpa, eu silenciosamente fitava aquelles<span class="pn"><a
+name="pg_31">{31}</a></span> aquaticos viageiros ignorados. Seguia-lhes os
+caprichosos folguedos sob a limpidez do ceu, com o olhar perdido traz elles,
+emprestando-lhes idéas, dando a mim proprio as razões d'esse livre gaudio
+perante a pompa triumphal da tarde moribunda.</p>
+
+<p>Formavam as margens visiveis do rio largas ilhas meio submersas, de que
+apenas se viam emergindo da agua,&mdash;como braços erguidos para o espaço n'um
+enthusiasmo viril de canticos de louvor,&mdash;milhares d'arvores variadíssimas,
+esparzindo perfumes resinosos e estalando as cascas sob a demasiada affluencia
+das tepidas seivas vivificadoras. Como grandes açafates de caprichosas fórmas
+espalhados por toda a latíssima extensão do rio, essas ilhas balouçavam as
+farfalhantes cômas glaucas, onde os pássaros, papeando, entreteciam<span
+class="pn"><a name="pg_32">{32}</a></span> previdentes os diminutos ninhos e a
+robustez dos merityzeiros erguia pendentes os pesados cachos de fructos
+granadinos.</p>
+
+<p>Pelas margens, começavam a acordar os innominados animaes noctivagos e um
+arruido extranho, abafado, levantava-se em surdina sob o machucamento das
+folhagens ondulantes.</p>
+
+<p>E a tarde morria a pouco e pouco.</p>
+
+<p>Depois, ao fundo da paizagem, recortaram-se escuras, encobrindo o sol, as
+longas montanhas sobre as quaes está erecta Monte-Alegre.</p>
+
+<p>Um dos mais bellos crepusculos vespertinos começou então.</p>
+
+<p>Quadro verdadeiramente formoso! O ceu, entestando com essas montanhas,
+apresentava todas as tonalidades do iris, n'uma pujança complexa de matizes
+prismaticos,<span class="pn"><a name="pg_33">{33}</a></span> e o sol,&mdash;como
+apertado entre ellas e a brunida cupula sideral,&mdash;disseminava pelo espaço
+crystalino feixes de raios luminosos em gigántea expansão que lembrava uma
+aurora boreal, um enorme clarão d'apothéose empyrea.</p>
+
+<p>Pelo nascente, subiam gradativas trevas, como poderosíssimo senhor que sae a
+combate sem precipitações, na sua convicção d'inilludivel victoria.</p>
+
+<p>Ao mesmo tempo, perto do zenith, un crescentesinho de lua e a estrella da
+tarde,&mdash;esta quasi tão luminosa como um raio do teu olhar, querida
+amiga,&mdash;scintillavam merencorios, como annuviados por incognoscivel saudade,
+entre longas nuvens delgadas, côr de pérola e lyrio, rendilhando-se no azul
+ferrete do firmamento.</p>
+
+<p>As gaivotas, então, que tinham vindo a seguir-nos,&mdash;emquanto<span
+class="pn"><a name="pg_34">{34}</a></span> o meu olhar, da pôpa do navio,
+parecia desejar attraíl-as poderoso,&mdash;grasnaram freneticas e, de subito,
+descrevendo rapido circulo elegantíssimo, regressaram á terra d'onde tinham
+partido e fugiram veloces, n'uma actividade de movimentação d'azas perdendo-se
+ao longe, na meia escuridade do crepusculo.</p>
+
+<p>Fiquei sosinho á ré, a fital-as...&mdash;a fital-as, oh! não!&mdash;a mirar o ponto do
+aningal onde se haviam perdido aquelles inconscientes sêres, que tanto me
+tinham enleiado o espirito nas invisiveis malhas dos seus largos circulos
+graciosos, descriptos no espaço, em reflexões movediças sobre as gorgolejantes
+aguas amazonicas.<span class="pn"><a name="pg_35">{35}</a></span></p>
+
+<h3>II</h3>
+
+<p>Assim também fugiram-me precipitadas do seio as niveas alegrias, quando,
+levado pela embarcação, ausentei-me saudoso da terra onde ficaram as candidas
+inflorescencias do meu amor.</p>
+
+<p>Como aquellas gaivotas, preguiçosas e sympathicas, os doces prazeres
+familiares deixaram-me seguir sosinho, breve regressaram á terra que idolátro
+na minha apaixonada effervescencia de enthusiasmo pela grande patria digna das
+maiores dedicações.</p>
+
+<p>Vou-me rio acima, isolado e desconhecido, entre pessôas estranhas, separado
+de vossos enlevadores affagos, ó<span class="pn"><a
+name="pg_36">{36}</a></span> queridos entes cuja ternura deslaça-me a vida em
+loiras espadanas de luz puríssima e gentil! Sigo meditabundo, sem receber na
+alma entenebrecida um raio do vosso olhar,&mdash;um só raio que me illuminasse o
+peito, para pôr em relevo dentro d'elle toda a somma de santos sentimentos para
+vós,&mdash;sómente para vós&mdash;guardados alí!</p>
+
+<p>A abafada canção da agua babujando os flancos do navio faz a surdina dolente
+que acompanha as mestas lamentações do meu espirito obsidiado pela afflicção
+das saudades.</p>
+
+<p>Ás vezes, a deshoras da noite, quando o firmamento escuro apresenta-se
+deserto das suas luzentes tauxiações risonhas, e só a floresta da margem rebôa
+agitada pelo cadenciado barulho da possante machina, embalde busco pelo ceu do
+meu espirito<span class="pn"><a name="pg_37">{37}</a></span> certo par de
+estrellinhas annejas,&mdash;que são os doces olhos petulantes de minha filha, fanaes
+da vida minha.</p>
+
+<p>E só a luminosa palpitação phosphorescente dos pyrilampos tremeluze rápida
+no tenebroso velludo dos aningaes da beira.</p>
+
+<p>A solidão augmenta-me os pezares, quando a hora do crepusculo da tarde vem
+descaíndo vaga pela terra, deslisando do inflexivel pendulo do tempo com a dura
+impassibilidade d'uma desgraça tremenda.</p>
+
+<p>Gaivotas, alegrias do rio! Alegrias, gaivotas do pélago da minha vida!
+Porque fugís tão velozes, sem vos deixardes agarrar por estas mãos, que vagam
+sem um apoio amoroso, sem vos deixardes aprisionar n'este peito, fremente de
+meigas paixões santíssimas?</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:right;">Rio Madeira, abril.<span class="pn"><a
+name="pg_38">{38}</a><br><a name="pg_39">{39}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>O Naufragio do Purus</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>O Naufragio do Purus</h2>
+
+<p style="text-align:right;">A H. Inglez de Souza</p>
+
+<h3>I</h3>
+
+<p>Este é o sitio em que, ha vinte annos quasi, afundou-se o <em>Purús</em>,
+arrastando para o leito do rio algumas dezenas de cadaveres colhidos de
+surpreza.</p>
+
+<p>O Amazonas aqui, como conservando ainda a triste memoria do luctulento
+successo, rola silencioso as suas aguas, cobre-se eternamente<span
+class="pn"><a name="pg_42">{42}</a></span> com o intenso crepe, accentuado e
+mesto, do vasto rio Negro.</p>
+
+<p>Têm as margens a apparencia de um recinto de funeral: socegadas e desertas,
+monotonisam o quadro com a ininterrupta ostentação das suas ramalhudas verduras
+densíssimas.</p>
+
+<p>Nenhum gorgeio de passaro percebo na larga mudez circumdante.</p>
+
+<p>No alto, o ceu, apinhado de nuvens escuras, encobre-me aos olhos a risonha
+alegria do seu puríssimo azul, adoravel como as pupillas d'uma imagemzinha da
+Virgem, que minha Mae, em pequenino, ensinou-me a reverenciar com o
+contemplativo respeito das creanças absôrtas!</p>
+
+<p>Passamos n'este mesmo instante sobre o logar onde atufou-se a elegante
+embarcação aventureira.</p>
+
+<p>Um pensamento de saudade<span class="pn"><a name="pg_43">{43}</a></span>
+assalta-me o espirito, agora que deslisei rápido por cima do líquido sapulchro
+de tantos infelizes.</p>
+
+<p>Relembro, com a forçosa evocação do meu passado, as confusas recordações da
+primeira edade e reproduzo na mente, consoante ás narrações da época, o pasmoso
+entrécho do hórrido espectaculo.</p>
+
+<p>Vejo pessôas de todos os sexos e edades, em meio á densa escuridão da noite,
+bramindo apavorados gritos, impetrando o auxilio do ceu impassivel,
+amaldiçoando o momento final com o tôrvo desespéro das grandes afflições.</p>
+
+<p>A bracejar contra a correnteza, lobrigo um ou outro naufrago n'aquelle pégo,
+quasi tão vasto como o do mantuano cantor. Uns, redobrando de esforços,
+conseguirão alcançar a margem anhelada;<span class="pn"><a
+name="pg_44">{44}</a></span> a mór parte, porém, certo fraquejará impotente na
+violencia das aguas e rolará inanimada aos profundos antros dos caimões!</p>
+
+<p>N'um camarote, vencida, dominada por tredo somno, uma joven mulher
+angelical, esposa extremecida e extremosíssima, é surprehendida pelas aguas em
+sua descuidosa seminudez inconsciente e logo suffocada sem haver tempo de
+reconhecer o perigo por que passa com os seus,&mdash;com os parentes affectuosos e
+com o infeliz marido, o commandante austero, de quem separa-a, sem
+transigencias, a comprehensão do cumprimento do dever.</p>
+
+<p>E ali morre, com o pobre coração retalhado de angustias e amaríssimas
+saudades, uma valente mulher de temperamento e actividade virís, guia e ama de
+muitos d'aquelles naufragos. É a heroica<span class="pn"><a
+name="pg_45">{45}</a></span> exploradora d'uma parte do rio Madeira, a
+veneranda mãe d'um punhado de homens honrados e de honestíssimas mulheres,&mdash;a
+idolatrada mãe d'aquella excelsa creatura que deu-me luz aos olhos e piedosos
+sentimentos ao coração!</p>
+
+<h3>II</h3>
+
+<p>Comprehendo agora perfeitamente a dôr que rasgou-te os puros seios d'alma,
+querida Mãe, quando correram a referir-te o hórrido successo.</p>
+
+<p>Creança quasi irresponsavel, eu não tinha a percepção completa d'aquelles
+affligidíssimos desespêros em que te lançaste, com os olhos amarados<span
+class="pn"><a name="pg_46">{46}</a></span> de lágrymas adamantinas.</p>
+
+<p>Entrei a brincar-te com os longos cabellos pretos, minha adoravel amiga, e
+um beijo tão sincero como a tua dôr deposeram-te na fronte ensombreada meus
+labios deslaçados em simples phrases sem valor.</p>
+
+<p>Hoje, porém, ó Mãe, avalío com justeza a afflicção que em ti causou tão
+deshumano flagicio da sorte inclemente. Sondo, linha por linha, todos os
+arcanos do teu seio, ausculto-lhe as precipitadas palpitações soluçantes e
+lamentosas.</p>
+
+<p>Choravas, inconsolavel e dolentíssima, porque deixaras de ter mãe.</p>
+
+<p>Sinto conhecer-te a intensidade das penas, porque também perdi-te para
+sempre e só minha alma pode saber a força de toda a violenta dôr que, ha seis
+annos, confrange-a<span class="pn"><a name="pg_47">{47}</a></span> impiedosa,
+minuto a minuto, persistentemente, tantas são as vezes que de ti me lembro,
+inolvidavel mulher que foste a guia da minha infancia e a amiga insubstituivel
+da minha adolescencia!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Rio Amazonas&mdash;Rio Negro.<span class="pn"><a
+name="pg_48">{48}</a><br><a name="pg_49">{49}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>Brinde a minha Filha</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>Brinde a minha filha</h2>
+
+<p>Hoje é o dia do teu primeiro anniversario, querida filha.</p>
+
+<p>És pequenina de mais, tens o espirito ainda cerrado á comprehensão exterior
+das cousas, para poderes penetrar o jubilo immenso de que devo estar saturado
+por esse acontecimento, sobre a vastidão d'esta valente arteria amazonica, ao
+tempo que as perspectivas das verdes paizagens apraziveis se vão succedendo
+gradativamente, n'uma suavidade que deslisa tranquilla a meus olhos enlevados
+nas florituras das folhagens ramalhudas.<span class="pn"><a
+name="pg_52">{52}</a></span></p>
+
+<p>Entretanto, devo escrever estas linhas que, no futuro, destinarei a teus
+olhos e a tua alma,&mdash;sobretudo á tua alma, querido amor! Intima força
+propelle-me a esta communicação silenciosa dos nossos dois espiritos,&mdash;o meu
+ainda novo, porém já prestes a declinar para as florescencias da edade madura e
+o teu velado ainda á vida do espirito, aos sentimentos santos, pequenino botão
+de bogary transcendental, que nem sequer pensa em desabotoar as cerradas
+corollas aos largos folguedos d'uma existencia feliz!</p>
+
+<p>E porque não falar-te hoje?</p>
+
+<p>Quem sabe o que o dia de amanhã,&mdash;soturno cairel dos arcanos do tempo,&mdash;não
+guarda para nós envolto nas iriadas roupagens do futuro?</p>
+
+<p>A distancia que entre nós presentemente existe não é motivo bastante forte
+para<span class="pn"><a name="pg_53">{53}</a></span> recusar-me ao desejo de
+escrever estas palavras simples, destinadas á perfeita simplicidade do teu
+espirito.... d'aqui a meia duzia d'annos, quando estejas no caso de
+entendel-as, meu amôr.</p>
+
+<p>Nem tu sabes que multidão de alegres pensamentos vaga-me no cerebro, hoje
+que um anno se completa que pela vez primeira te vi, rosada e pequenina, quasi
+imperceptivel átomo-flôr d' uma existencia tão almejada e bemdita pelo meu
+espirito milhares de vezes rejubilado!</p>
+
+<p>Como estuava-me o coração, alargado em seus ambitos pelo prazer, todo aberto
+ás santas paixões amoraveis de quem começa a gosar as grandes, as mellifluas,
+as inebriantes sensações vitaes da paternidade! Com que ternura immensa não te
+fitavam meus olhos, rasos d'agua, abertos como n'um sorriso,<span class="pn"><a
+name="pg_54">{54}</a></span> revendo a tua pequenina imagem atravez da nervosa
+palpitação imperceptivel dos cílios orvalhados das puras lágrymas do
+contentamento!</p>
+
+<p>Um mundo de pensamentos risonhos e transcendentaes produzia-se-me no
+espirito, em luzida cohorte de festivas alegrias benéficas. Sentia-me pequeno
+demais para creal-os, bastante insignificante para soletrar tramando de emoção
+todo aquelle mirífico alphabeto enorme da mais santa das paixões.</p>
+
+<p>Era a completa alegria que manifestava-se d'ess'arte em minha alma, porque
+pela primeira vez te via deante de mim, envolta em candidas faixas, ao collo de
+tua mãe, que desabrochava o rosto n'um sorriso meio doloroso e quasi todo
+espiritualisado já, como n'um altar immaculado, erguido á tua innocencia pela
+ternura da Mulher que te deu<span class="pn"><a name="pg_55">{55}</a></span> á
+luz, regenerada da culpa da especie pelo immanente martyrio da maternidade!</p>
+
+<p>Hoje, que taes factos completam um anno, dia a dia, os mesmos sentimentos
+revoam-me festivos pelo espirito, com egual força de vitalidade.</p>
+
+<p>Inscrevo-os n'esta folha, registro-os em tua alma, ó flôr, para
+offerecer-t'os como presente d'annos em penhor do largo affecto de teu pae,
+emquanto, separado de ti por grande distancia, levanto á sorte mil votos pela
+tua felicidade futura, por tua existencia, por tua saude, pela tua angelica
+pureza de donzella e pela tua inquebrantavel virtude de esposa.</p>
+
+<p>É bem possivel que não mais exista o auctor d'estas linhas e da tua
+existencia quando possas lêr as palavras aqui traçadas.</p>
+
+<p>Não importa! Servirão para<span class="pn"><a name="pg_56">{56}</a></span>
+lembrar-te que possuiste um pae amorosíssimo, que teve para ti os pensamentos
+todos da sua vida e, por certo, ainda mesmo o pensamento final da hora
+derradeira!</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Rio Madeira, abril.<span class="pn"><a name="pg_57">{57}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>O cemiterio da floresta</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>O cemiterio da floresta</h2>
+
+<p>Hontem pela tarde o meu espirito confrangeu-se inteiro perante inesperado
+espectaculo, cuja reminiscencia me faz pensar ainda e arrasta-me tremula a mão,
+na tarefa de consignal-o no papel.</p>
+
+<p>Vou referir-te, meu amor, o que viram meus olhos, e o que meu coração sentiu
+n'aquelle instante d'íntimas reflexões maguadas.</p>
+
+<p>Cortada em rapido declive sobre a beira da agua, em meio á floresta densa,
+abandonada de todos, uma clareira fazia-se abrupta e essa clareira era um
+cemiterio, um pequeno<span class="pn"><a name="pg_60">{60}</a></span> campo
+santo solitario e melancholico,&mdash;sympathico todavia,&mdash;salpicado de cruzes
+toscas e negras!</p>
+
+<p>A bordo, alegres conversações travavam-se aqui e ali, sob o oiro refulgente
+do sol no estivo desabrochar das claras horas diurnas. Ninguém parecia attentar
+n'esse triste sitio de repouso, sobre o qual a tripudiante passarada das mattas
+volitava cheia de inconsciencia, garridamente estrepitosa e jovial.</p>
+
+<p>Alargava-se o rio ali defronte, muito socegado, todo brunido das reflexões
+solares, como se recebido houvesse um grande banho de prata fundida.</p>
+
+<p>E um rumorejar da folhagem, dos dois lados do cemiterio e ao fundo, fechando
+o horisonte do quadro, cerrando a escarpa, como que parecia entoar a langorosa
+monotonia d'uma surdina risonha do<span class="pn"><a
+name="pg_61">{61}</a></span> prazer, sacudida em amplas vibrações de
+volupia.</p>
+
+<p>Entretanto, o meu espirito entenebrecia-se pouco a pouco. Uma tristeza
+empolgou-o forte e minha alma deslisou para as mudas divagações dos sonhos
+acordados, das reflexões abstractas em que os olhos voltam a força objectiva
+para o interior e, eliminando o seu poder observador do mundo externo, nada
+comprehendem do que vem, porque só o cerebro trabalha dentro da materia e o seu
+meio de acção anniquila-se perante o vigor do espirito.</p>
+
+<p>De quem aquelles despojos materiaes ali inhumados, longe dos centros de
+povoação, roubados ao conhecimento mundano, subtraídos á vaidade dos homens,
+entregues á terra com toda a simpleza das grandes devoluções pungentes,
+restituidos á obscuridade do nada para sempre,<span class="pn"><a
+name="pg_62">{62}</a></span> para sempre furtados á ultima recordação marmorea
+que lhes lembrasse o nome na derradeira falsidade dos epitaphios campanudos?</p>
+
+<p>Quantos heróes ignorados se não occultariam n'aquelle recinto, sob a leve
+camada de terra ás pressas lançada pelos vivos por cima de seus cadaveres meio
+decompostos?</p>
+
+<p>Ali não vinham os falsos amigos ostentar o seu fingido pezar, com o
+recolhimento das feições e a compostura do trajo que predominam pelas cidades,
+onde até a inhumação é um luxo mais ou menos apurado. O marido infiel,
+respirando emfim livremente após a quebra do fio que prendia-lhe o alvedrio,
+não viria ali mais uma vez insultar com uma dôr não sentida a lamentavel
+memoria da doce esposa traída, nem a joven viuva leviana, já com o espirito
+occupado por<span class="pn"><a name="pg_63">{63}</a></span> amorosos
+pensares&mdash;adulterio posthumo!&mdash;appareceria a ostentar o fingimento d'uma paixão
+que não possuia e que depressa esqueceu na elaboração de cartinhas piégas ao
+primeiro janota impudico que lhe deparou a sorte ironica.</p>
+
+<p>Ali, sim, ao homem honesto e severo, á mulher virtuosa e amante, á innocente
+creancinha levada ao descanso perennal após breve apparição na terra, grato,
+gratíssimo seria inteiriçar os membros lassos e repousar alfim, descuidosos na
+eterna immobilidade dissolvente da ultima pacificação,&mdash;separados de toda a
+phantasia ephêmera e das convenções banaes da fallaciosa hypocrisia social.</p>
+
+<p>Para quê ser lembrado após a morte? De que serve um marmore a reproduzir o
+nome d'um sêr cuja existencia o tempo consumiu,&mdash;candeia extincta, apagado
+fanal do<span class="pn"><a name="pg_64">{64}</a></span> pelago da vida?
+Recordar o nome d'um morto, perpetual-o petreamente, é ainda uma fórma de
+insulto, é uma violação que põe o finado na emergencia de se lembrarem d'elle
+os maus, os pérfidos, aquelles que não o comprehenderam em vida e que mais uma
+vez negar-se-ão a fazer-lhe a justiça de que tão sedento estava o seu
+espirito.</p>
+
+<p>Estaes bem ahi, desconhecidos heróes do labutar quotidiano, ó martyres das
+privações no meio d'essa esplendida orgia de verduras amazonicas! Tão bem vos
+acho, que até sinto inveja ao ver-vos no pequenino cemiterio escalvado na
+rapida ribanceira.</p>
+
+<p>A sorte restituiu-vos ao pó com a mais austera simplicidade. Voltastes á
+terra na modesta elaboração d'um acto naturalíssimo e a vida que fermenta entre
+as raizes d'essas bellas e grandes arvores<span class="pn"><a
+name="pg_65">{65}</a></span> viridantes vae buscar nos vossos cadaveres aquillo
+que lhe podeis dar:&mdash;a cada minuto um átomo de seiva, tirado á tépida
+fermentação da vosa carne, outr'ora palpitante, porém banal, agora repousada,
+mas operadora do beneficio que a lei natural do transformismo obriga-vos a
+prestar-lhe.</p>
+
+<p>Apraz-me sentir que o meu espirito se consolaria quando, após á extincção da
+minha vida, algum ente querido, depois do ultimo beijo, enterrasse-me o corpo
+em vossa companhia, ó eternos moradores do cemiterio da selva! Julgar-me-ia
+feliz, com a satisfação e o orgulho d'este ultimo capricho realisado.</p>
+
+<p>Teria, como vós, o supremo <em>requiem</em> dos trillos dos passaros, do
+farfalhar das ramarias densas, do desprezo dos raros viajantes n'estas
+longinquas regiões do Madeira<span class="pn"><a name="pg_66">{66}</a></span> e
+dos murmurosos beijos do gorgolejante listrão aquoso que incessantemente corre,
+ora envolto no denso velludo tenebroso da noite, ora ostenta-se brunido pelas
+amplas disseminações de prata fundida que o sol por cima d'elle parece lançar
+ás vezes, quando o ceu, sempre misericordioso, não verte sobre vós,
+lugubremente, paternalmente, as piedosas orvalhadas dos seus largos prantos
+pluviaes.</p>
+
+<p>Salvè, desconhecidos martyres da familia amazonica, eternos habitadores do
+cemiterio da floresta!</p>
+
+<p>Rio Madeira, abril.<span class="pn"><a
+name="pg_67">{67}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>UM ANNIVERSARIO</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>UM ANNIVERSARIO</h2>
+
+<blockquote style="margin-left: 30%;">
+ Á memoria de minhã irmã<br>
+ A meu irmão.</blockquote>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Seis annos, hoje, que finou-se a mais santa das creaturas, a mais querida e
+amoravel das mães.</p>
+
+<p>Perante a emotividade profundíssima do meu ser, não tem hoje poder as largas
+pompas magestosas d'este romper de dia sereno sobre a paizagem Assoalhada,
+vibrante de esplendor, fremente de<span class="pn"><a
+name="pg_70">{70}</a></span> canções d'aves silvestres. Ao contrario, tudo me
+parece melancholico, monotono, quasi hostil, porque recebo as impressões
+externas atravez dos meus sentimentos e estes concentram-se nas amaríssimas
+dôres excitadas pela inapagavel recordação da morte de minha mãe! </p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Ha d'estas originalidades no fragil espirito humano: diz alegres os dias
+pluviosos, encontra-lhes graça, apraz-se em aspirar humidade na meia-sombra dos
+nevoeiros,&mdash;se algum prazer abala-o jubiloso; entretanto, encara indifferente
+ou raivoso as glorias da natureza; não tem um olhar para as galas triumphaes do
+espaço azul rutilante, acolchoado d'alvas nuvens pannejadas harmonicamente;
+enfastia-se e agasta-se<span class="pn"><a name="pg_71">{71}</a></span> até com
+a passiva tranquilidade das coisas, com o chilrear dos passarinhos,&mdash;quando
+algum desgosto lateja-lhe no coração encarquilhado ao peso das grandes dores
+supremas!</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Estou a recordar-me das funebres e tremendas peripecias d'aquella
+inolvidavel tarde de 21 de abril, ha seis annos.</p>
+
+<p>Uma pequenina alcova de matrona,&mdash;grave aposento destituido de luxo banal,
+apenas confortavel. Ao lado d'um guarda-vestidos, pesado e bom, uma mesa
+coberta de frascos de medicamentos com etiquetas multicôres, borradas de
+receitas pretenciosamente escriptas em termos barbaros, chocantes de ouvir,
+indicando venenos medidos aos millesimos, com mysterio.<span class="pn"><a
+name="pg_72">{72}</a></span></p>
+
+<p>Ao fundo, uma cama austera, toda branca em seus lençóes e colchas, sob os
+quaes desenhava-se um corpo longo, pouco amplo, de que apenas via-se, repoisada
+em grandes travesseiras alvas, uma cabeça de mulher, encaixilhada em bastos
+cabellos negros, lustrosos, apenas aqui e ali, de longe em longe, irisados de
+fios brancos que desprendiam o brilho metallico da prata polida.</p>
+
+<p>Os olhos, semi cerrados, fitavam um ponto unico da parede fronteira, onde um
+pequeno raio de sol, atravessando o arco de uma janella da sala, fixava-se
+insistente, como receioso de desapparecer além, atraz das casas da praça, ou
+desejoso de não abandonar, no meio-tom confuso d'um crepusculo precoce, aquelle
+quarto mortuario, em que estava para começar uma agonia. O olhar de minha<span
+class="pn"><a name="pg_73">{73}</a></span> mãe persistia fito no luminoso
+circulosinho, que accendia de amarello a brancura da parede nua.</p>
+
+<p>Quem sabe o que vém os moribundos nos seus derradeiros momentos lúcidos? Que
+visões obsidiam-lhes os ultimos, instantes, subjugando-lhes o espirito já tão
+enfraquecido, dominando-os poderosamente? Vêm pela ultima vez o goso de alguma
+ventura occulta, entristecem-se pela proxima separação do encanto da vida ou
+entrevem já o beatifico descanso interminavel que aguarda-os no pó da
+sepultura?</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Quasi seis horas. Continuavam os olhos presos ao circulo luminoso, que
+subira mais, approximando-se do tecto, n'um deslisar de vida que se extingue
+suave.<span class="pn"><a name="pg_74">{74}</a></span></p>
+
+<p>Pelo rosto emaciado de minha mãe não corria sombra de soffrimento. As faces
+cavavam-se levemente, o nariz afilava-se, com a transparencia de cêra dos entes
+que vão morrer. Entreabertos, os labios deixavam passar a respiração com um
+offêjo ciciante e molesto, brandamente. Dir-se-ia dormitar a enferma, a não
+serem os olhos, agora um pouco mais abertos do que antes...</p>
+
+<p>Em torno, alguns parentes vigiavam immoveis, com a expressão contristada,
+transida, que temos ao esperar a morte. Á cabeceira, de pé, encostada ao
+espaldar do leito, minha irmãsinha chorava em silencio, enxugava as incessantes
+lágrymas, suffocava os soluços, para não trair-se.</p>
+
+<p>Quem atrever-se-ia a mostrar que soffria, perante aquelle<span class="pn"><a
+name="pg_75">{75}</a></span> resignado soffrimento que tão bem continha-se?</p>
+
+<p>Meu irmão egualmente quedava-se perfilado, os olhos cravados n'esse rosto
+pállido, n'essa bemdita fronte eburnea que a virtude aureolava, n'esses doces
+labios que presentiamos frios, frigidíssimos, não obstante o ardente halito que
+esfrolava-os, ja osculados pela morte!...</p>
+
+<p>Aquelles labios sonorosos, aquelles labios cantantes de mãe
+brazileira,&mdash;quem poderia mais galvanizal-os, fazel-os vibrar com o dulcíssimo
+affecto maternal que era o nosso ineffavel enlevo na quadra festiva da meninice
+descuidosa?</p>
+
+<p>Onde iriamos beber os prudentes conselhos que esses puríssimos labios
+proferiram, deixaram cair em nossas almas como um desfiar de pérolas raras em
+taças de cristal?...<span class="pn"><a name="pg_76">{76}</a></span></p>
+
+<p>Quem seria, d'ali em deante, a amiga incomparavel, a santa companheira da
+nossa adolescencia ardente, a meiga representante d'esse encanecido
+vulto,&mdash;heroico prototypo da affeição familiar, da honra, da dignidade, de
+todos os boníssimos sentimentos,&mdash;que foi o nosso Pae?....</p>
+
+<p>Oh! desgraçados que eramos! N'aquelle impassivel expirar de tarde equatorial
+pomposa e abrazadora, iamos perder para sempre,&mdash;<em>para sempre!</em>&mdash;o nosso
+mais valioso dote, a vida de nossa Mãe!...</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Seis horas e poucos minutos, Desapparecera do tecto, sempre seguido pelos
+olhos da moribunda, o circulo luminoso, a despedida do sol á vida periclitante.
+Desmaiara mais, tornara-se apenas uma tênue mancha amarella, breve<span
+class="pn"><a name="pg_77">{77}</a></span> transformada em sombra quasi
+imperceptivel. Depois, esbatendo-se gradualmente, fôra supprimida.
+Desappareceu: começou a agonia na enferma.</p>
+
+<p>É doloroso assistir ao estertor dos moribundos. Terriveis embates soffremos
+na alma. Primeiro, o egoismo natural no homem, excitado pela lembrança de ir
+perder um ente amado; depois, a constatação de que nunca mais poderá gosar-lhe
+do convivio, ouvir-lhe a fala affectuosa, oscular-lhe a fronte calma, as faces
+sorridentes com a immensa candura da virtude. Porém onde haverá mais
+requintado, mais vivo e agudo soffrer, do que na propria sensação que
+experimentamos da agonia do moribundo amado? Em que série de martyrios
+archi-excruciantes classificar esse desespero tôrvo, enlouquecedor,<span
+class="pn"><a name="pg_78">{78}</a></span> vibrante, que em nós erguem a
+comprehensão das dôres a que assistimos e a impotencia de não podermos
+participar d'ellas, tomar para nós a maior porção, attenual-as um pouco, com o
+osculo das mãos acariciantes e com a ternura emolliente dos beijos
+ultra-expressivos dos ultimos, dos supremos adeuses?... </p>
+
+<p>Vinham-me ao espirito idéas estonteadoras, que levavam-me á meta da dôr. Ver
+soffrer a santa mulher que deu-me a vida, que tão feliz foi sempre em possuir
+nos braços enlaçantes os filhos queridos e amoraveis, era uma provação capaz de
+abalar-me a solidez da razão. E depois, ha sempre, á beira do tumulo de um ente
+que viveu em ligação intima comnosco, uma evocação, rapidíssima porém muito
+minuciosa, de todo o nosso passado.<span class="pn"><a
+name="pg_79">{79}</a></span></p>
+
+<p>E o meu passado... quão unido estava ao d'aquella moribunda, que em vão
+buscava, ao vaguear a vista já vidrada pelo aposento, o raio de sol que viera
+despedil-a da vida, dar-lhe á alma, por um momento, na hora extrema, a
+claridade immaculavel que ella sempre teve na consciencia, na honra!</p>
+
+<p>Vi-me creança, buliçoso e festivo, sem um desprazer além do provocado pelas
+privações dos brinquedos. Vi-me em todas as situações da existencia, em todas
+as phases d'uma juventude agitada, em todas as peripecias das nossas viagens,
+das nossas diversões, dos nossos gosos. Em toda a parte, de qualquer modo que
+manejasse aquellas scenas retrospectivas, ella apparecia-me sempre como o
+misericordioso interprete dos meus votos de felicidade, o meu anjo tutellar, o
+amparo<span class="pn"><a name="pg_80">{80}</a></span> inilludivel da minha
+inexperiencia, o meu aconselhador ajuizado como todas as boas mães.</p>
+
+<p>Quanta saudade, quanta, do meu passado extincto!...</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Alguém tinha ido á egreja proxima,&mdash;a dez passos d'ali, no lado opposto do
+largo,&mdash;pedir o soccorro da religião e um levita acudiu, balbuciando preces
+indistinctas, a ungir quem ia morrer.</p>
+
+<p>A apparição d'um sacerdote que traz o extremo sacramento a um enfermo
+apavora sempre. Ante similhante visita, eu e meu irmão principiamos de novo a
+chorar,&mdash;nós que pensavamos já ter exgottado as lágrymas, tão abundante fôra,
+desde trez dias, o nosso pranto.</p>
+
+<p>Retirando-se o padre,&mdash;sempre murmurando orações<span class="pn"><a
+name="pg_81">{81}</a></span> em latim,&mdash;a agonia augmentou. Vizinhos tinham
+acudido, serviçaes e bisbilhoteiros. Causaram-me raiva, quasi molesto-os com
+uma demonstração mais evidente do meu enfado pela sua presença, quando
+desejara, a sós com os meus, receber o derradeiro alento da querida alma
+adoravel.</p>
+
+<p>Porque ha de prender-nos a educação n'um circulo igneo, impondo-nos dominio,
+heroicos fingimentos, até nos mais tremendos instantes da vida?...</p>
+
+<p>Soluços mais rapidos de minha irmã fizeram-me esquecer esta série de
+reflexões, voltaram-me para o leito onde estertorava já a doce companheira da
+minha innocencia.</p>
+
+<p>Acabei de comprehender este redobramento de chôro, vendo acercar-se alguém
+com uma véla accesa, que foi<span class="pn"><a name="pg_82">{82}</a></span>
+posta entre as mãos afusadas e lividas da moribunda.</p>
+
+<p>Minha mae ia morrer! Oh dilacerante, immensa dôr trazida por esta convicção!
+</p>
+
+<p>Lancei-me de chôfre a beijar-lhe a fronte camarinhada de suor, os cabellos
+sedosos, negros como a afflicção de minha alma, as faces encovadas, os labios
+crispados, álgidos, por entre os quaes esgueirava-se um lancinante estertor
+crescente, que dizia demasiado a aproximação do momento fatal... Allucinado,
+pensei que a minha vitalidade, a minha florida juventude poderia reanimar,
+devolver á vida aquelle espirito immensamente amado e em vão tentava
+aquecer-lhe o involucro com o ardentíssimo, impotente contacto dos meus beijos
+filiaes!</p>
+
+<p>Mas, de subito, houve uma cessação na agonia... Estarreci... Iria minha alma
+incrédula<span class="pn"><a name="pg_83">{83}</a></span> defrontar um
+milagre?... Oh! Deus era bom, Deus existia então, além da lenda biblica!... O
+rosto de minha mãe serenara, conservando, todavia, uma expressão retrahida,
+grave, como quem escuta a voz interior d'uma interessante evocação da
+existencia inteira.</p>
+
+<p>Os cilios palpitaram longos, n'uma projecção calma de sombra nas faces.
+Brilharam os olhos, tranquillos de expressão e, vagaroso, subiu o olhar para o
+sitio onde cravara-se antes o raio de sol extincto agora.</p>
+
+<p>Logo, porém, desceu, afim de erguer-se ainda, para minha irmã, para meu
+irmão, para mim... Demorou-se fito em minhas pupillas lacrymantes esse
+inolvidavel olhar, tão sereno como a tranquillidade da sua alma sem mácula,
+translucido n'uma expressão de quem medira o<span class="pn"><a
+name="pg_84">{84}</a></span> alcance do grande minuto final.</p>
+
+<p>Quem poderá estereotypar o ultimo olhar das mães aos filhos extremecidos?
+</p>
+
+<p>Attonito, baixei-me a receber o afago d'esse olhar tão expressivo como um
+beijo mudo. O milagre providencial ia operar-se, de certo. Eu abençoava já o
+eterno Bemfeitor da humanidade... ingênuo no egoismo do meu almejo.</p>
+
+<p>Os labios, no entanto, descerraram-se. E, emquanto os olhos, um nada mais
+vitreos, vagavam sobre os trez rostos dos filhos surprezos, transidos de
+admiração e esperança, aquella bôcca lívida moveu-se no balbucio inextrincavel
+d'uma phrase indistincta que, certo, era uma prece, um conselho bom, uma
+benção, um adeus!</p>
+
+<p>E os olhos fecharam-se, no mesmo calmo palpitar dos<span class="pn"><a
+name="pg_85">{85}</a></span> longos cilios, os labios contrahiram-se á passagem
+d'um suspiro mais longo,&mdash;um soluço dolentíssimo,&mdash;e a cabeça pendeu á direita,
+buscando o meu primeiro beijo a um cadaver amado, quente do ultimo esforço para
+dizer-nos com a vista a intensidade insondavel do seu carinhoso affecto!</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Ha seis annos passou o horrendo transe que prostrou-me louco sobre os
+despojos funebres da mais santa e querida das Mães.</p>
+
+<p>Dura sempre a dôr d'um filho amantíssimo? Creio bem que sim. Investigando a
+incalculavel profundez dos meus pezares, cotejando as impressões de hoje com as
+do anno passado, com as do outro anno, do outro e do dia em que estalou sobre
+mim a<span class="pn"><a name="pg_86">{86}</a></span> grande fatalidade,
+verifico a persistencia da mesma dôr molesta, intima, enorme, saudosamente
+triste, que levanta-me no espirito uma raiva contra a gloriosa expansão d'esta
+manhã rutilante e contra o gorgeio sonoro das aves, que estão, agora mesmo, a
+lembrar-me os doces cantos simples da infancia, quando, todo prazer e venturas,
+meu coração acolhia-se no tépido sacrario de affectos e caricias que era para
+mim o colo amigo e protector da mais amoravel de todas as mães!</p>
+
+<p>Onde estão os meus deliciosos sorrisos infantis de outr'ora?...</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Rio Madeira, 21 de abril.<span class="pn"><a name="pg_87">{87}</a></span></p>
+
+<p><span class="pn"><a name="pg_88">{88}</a><br>
+<a name="pg_89">{89}</a></span></p>
+
+<h1>SEGUNDA PARTE <br>
+OBJECTIVISMO</h1>
+
+<p><span class="pn"><a name="pg_90">{90}</a><br>
+<a name="pg_91">{91}</a></span></p>
+
+<h1>A pesca do Deodato</h1>
+
+<h2>A pesca do Deodato</h2>
+
+<p style="text-align:right;">Ao Sr. J. T. Lobato de Castro</p>
+
+<p>O tenente-coronel Fernandes salivou com estrépito para longe, afim de salvar
+a esteira que se estendia por baixo da maqueira e, ageitando no longo taquary
+pintalgado a cabeça de barro topetada de tabaco legitimo do Acará, proseguiu:
+</p>
+
+<p>&mdash;É como lhes digo. A desobediencia aos preceitos da egreja traz sempre após
+si a necessaria e indefectivel punição.<span class="pn"><a
+name="pg_92">{92}</a></span> Bem o affirma o ditado:&mdash;Deus castiga sem pau nem
+pedra. É certo que, quasi sempre, a consequencia lógica da culpa atraza-se
+tanto, que o peccador impenitente prolonga uma existencia criminosa no meio da
+mais impassivel tranquillidade, como se possivel fôsse á justiça do ceu
+esquecer. Muitas vezes, porém, a pena succede-se á culpa sem notavel
+intermissão e, em todo o caso, o espirito prudente só tem novo ensejo para
+arrenegar do instincto maldoso do homem e colher no exemplo nova convicção da
+sabedoria celestial.</p>
+
+<p>Calou-se, pigarreou, fitando com tenacidade, d'um modo quasi severo, o
+auditorio resumido e conspicuo: o Antonio Narceja, portuguez enriquecido n'um
+barracão á entrada do furo do Pagé; o Dr. Polycarpo Varella, juiz<span
+class="pn"><a name="pg_93">{93}</a></span> de direito, cuja recente remoção
+para Salinas filiava-se a memoraveis façanhas eleitoraes, nos confins do
+Paraná, ao expirar a situação conservadora, havia poucos mezes e Felix Jacaré,
+um cabôclo muito republicano, sapateiro de officio, avô do pequenito que
+dormitava-lhe ao cólo, esgaravatando machinalmente o nariz com o dedo
+titubeante, a cara suja, os labios breiados de assahy, como breiado estava o
+peito do camisão de riscadinho azul e branco.</p>
+
+<p>Bateram nove horas n'um relogio pendente da parede caiada. Fóra, bramia o
+mar. Pela janella aberta entravam, com a brisa, exhalações salinas e esse
+borborinho confuso e melancholico das noites em plena roça. No tecto de
+vigamento visivel, trilavam grilos. E, por intercadencias, a luz do
+candieiro<span class="pn"><a name="pg_94">{94}</a></span> de porcelana
+pestanejava de leve, como se também por ella passasse o arripio mysterioso das
+coisas tragicas que ali se falava ou se o apavorasse o tom soturno das
+considerações philosophicas do tenente-coronel Fernandes.</p>
+
+<p>&mdash;Tem muita razão, acudiu Antonio Narceja, offerecendo obsequiosamente um
+phosphoro acceso ao Dr. Varella, que sacára um cigarro de tauary.</p>
+
+<p>&mdash;Conforme... obtemperou o Jacaré, cujo espirito de contradição era
+conhecido na villa.</p>
+
+<p>&mdash;Vou dar-lhe um exemplo, compadre, retorquiu Fernandes, risonho e sereno.
+</p>
+
+<p>Pigarreou de novo, tornou a salivar. Depois, ageitando-se na rede, emquanto
+os companheiros aproximavam curiosos os bancos, principiou.<span class="pn"><a
+name="pg_95">{95}</a></span></p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Ha coisa de uns 25 ou 30 annos, vivia no Magoary um preto corpulento e
+encanecido, cuja edade ninguém poderia calcular e que toda a redondeza conhecia
+como sendo o mais ousado e feliz pescador da localidade.</p>
+
+<p>Methodico, não passava um dia sem ir á pesca; afortunado, não atirava a
+tarrafinha sem depois puxal-a repleta de peixes! Era um assombro, um gosto
+admiral-o em acção! Parece que rejuvenescia-o o mar. Qualquer que fôsse o
+estado do tempo, era infallivel encontral-o todas as noites, pelas duas horas,
+descendo ao pequeno porto do barracão, a desencalhar a canôa e logo fazer-se ao
+largo.</p>
+
+<p>E que saúde de ferro tinha elle! Jamais conhecera um incommodo, uma dôr de
+cabeça! Rijo como o acapú, afrontava os temporaes com a impavidez do fatalista.
+E<span class="pn"><a name="pg_96">{96}</a></span> pela madrugada, quem saisse á
+praia, não deixaria de descortinar muito ao largo, no mar alto, a pequenina luz
+intercadente da canôa do Deodato.</p>
+
+<p>Era rendoso o officio. Quando voltava á casa, depois do nascer do sol, o
+pescador trazía atopetado o fundo da embarcação. Ninguém o vencia na arte da
+salga, de tal modo que o seu peixe encontrava sempre melhores offertas do que o
+dos demais pescadores da costa do Magoary, quando os procuravam os compradores
+que iam revender em Belém.</p>
+
+<p>Mas tinha um defeito o Deodato:&mdash;era um impio. Deveria possuir a alma egual
+á cutis, porque desprezava as leis de Deus e zombava impertinente de todos os
+mysterios da religião e de todos os actos do culto catholico.</p>
+
+<p>Em balde buscara algumas<span class="pn"><a name="pg_97">{97}</a></span>
+vezes o padre Simplicio&mdash;conheceram?&mdash;trazei-o á reflexão e demovel-o ao
+respeito pelo Senhor. De tudo escarnecia o infeliz e, o que é mais revoltante,
+possuia phrases curiosas, sophismas fustigantes, objecções irrespondiveis, para
+combater os conselhos do sacerdote. Tudo era inutil. Não havia razão que o
+impedisse de ir á pesca ao domingo e dia santificado como em qualquer outro de
+trabalho.</p>
+
+<p>&mdash;Você ha de acabar mal,&mdash;avisava o padre, entre carinhoso e recriminativo.
+</p>
+
+<p>&mdash;Milhor p'ra mim,&mdash;retorquia o hereje, sarcastico.</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Ora, uma tarde, era vespera de não sei que dia santo grande. Creio que a
+Egreja rendia culto á Virgem sob a invocação de Senhora de Belém. Fazia um
+calor enorme.<span class="pn"><a name="pg_98">{98}</a></span> O ceu estava
+claro, limpo, muito azul e tranquillo, como tranquillo estava o mar. Na praia
+arenosa, as ondas vinham desdobrar-se preguiçosamente, n'uma languidez
+ineffavel. Mas, ali perto, nos mattos, estalavam os galhos, causticados pelo
+sol. E muito ao longe, na linha do horizonte, alguns pontos sombrios, a custo
+avistados a olhos nus, pareciam nuvens vagabundas no espaço ou podiam ser
+barcas de pesca paralysadas á mingua de brisa.</p>
+
+<p>No barracão, Deodato, semi nu, fumava, destrançando as redes. De vez em
+quando, assomava a cabeça á porta, a inspeccionar o ceu.</p>
+
+<p>Com a grande pratica que possuia, adivinhava, pressentia calma quasi
+completa para toda a noite. Era isto de certo que lhe dava esse pequeno rictus
+á commissura<span class="pn"><a name="pg_99">{99}</a></span> dos labios e lhe
+encrespava levemente a retinta fronte. Maior trabalho seria o seu, pois
+far-se-ia necessario o remar por longo tempo. Emfim, nem tudo podia ser feito á
+mercê dos desejos humanos... E volvia á faina, de todo absôrto, fumando
+sempre.</p>
+
+<p>Á boquinha da noite, appareceu um visitante inesperado á porta do Deodato:
+</p>
+
+<p>&mdash;Póde-se entrar?</p>
+
+<p>Era o padre Simplicio.</p>
+
+<p>Sob o pretexto d'uma visita casual, pelo facto de passar ali proximo, ao
+regressar da roça do Xico Sette, o sacerdote penetrava com o intuito de
+verificar se o pescador iria aquella madrugada entregar-so ao costumado
+trabalho.</p>
+
+<p>A occupação do Deodato mudou-lhe a supposição em certeza.</p>
+
+<p>&mdash;Não faça isso, homem de<span class="pn"><a name="pg_100">{100}</a></span>
+Deus; olhe que a festa é da padroeira da cidade. Nossa Senhora não lhe perdoará
+a falta de respeito...</p>
+
+<p>&mdash;Ella bem que s'importa co'a minha vida!&mdash;respondeu o preto, com um
+encolher de hombros que também poderia significar ao padre Simplicio o fastio
+que as suas observações lhe causavam.</p>
+
+<p>&mdash;E se eu lhe pedisse que ficasse em casa, que viesse á minha missa, em vez
+de ir amanhã á pesca; se eu invocasse a nossa amizade, afim de ser attendido...
+</p>
+
+<p>Teve Deodato um sorriso franco, dilatado, apresentando entre a dupla polpa
+dos labios os largos dentes alvos e disse com uma convicção profunda, com um
+tom sarcastico e decidido:</p>
+
+<p>&mdash;Eu ia mesmo, sim, senhor!...</p>
+
+<p>Não houve razões logicas, pedidos, ameaças de penas<span class="pn"><a
+name="pg_101">{101}</a></span> eternas que o demovessem. O negro era teimoso.
+Retirou-se o padre amuado, quasi colerico, benzendo-se repetidas vezes no meio
+da escuridão do caminho, tauxiada de pyrilampos loucos e murmurosa do longinquo
+coaxar de rãs, nos lameiros.</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Ficando só, Deodato franziu a testa e, mordendo o labio, lançou contra o
+padre a reprovação tacita d'um gesto energico dos braços. O diabo do padréca
+que tratasse dos seus negocios. E esta!</p>
+
+<p>Depois, comeu frugalmente, como de costume, um pouco de tainha moqueada e
+logo atirou-se á rede, vencido pelo somno.</p>
+
+<p>Aquella alma de incredulo estava entorpecida inteiramente. Do contrario,
+teria<span class="pn"><a name="pg_102">{102}</a></span> tempo de reflectir nas
+observações do sacerdote e quiçá algum sonho o prevenisse da sorte que
+aguardava a sua irreligiosidade. Mas o infeliz dormiu como uma pedra até que os
+gallos das roças proximas soltaram no ar socegado os seus cantos da madrugada,
+despertando-o.</p>
+
+<p>Levantou-se o negro e, accendendo o farol, saíu com direcção á praia.</p>
+
+<p>Trilavam grilos, como n'este momento em que lhes falo. Na noite calma,
+rebrilhavam estrellas, espelhando na superficie lisa do mar as suas cabecinhas
+irrequietas. Nenhuma aragem movia os arbustos, as arvores do mattagal. Coaxavam
+sempre as rãs, emquanto os sapos cururús dialogavam com enthusiasmo. E, ao
+longe, dominando esses mil arruidos da noite, vibrava ainda o cantar dos
+gallos, com um não sei<span class="pn"><a name="pg_103">{103}</a></span> que de
+profundamente triste, n'uma plangencia de alma condemnada.</p>
+
+<p>Instantes depois, a canôa do Deodato fazia-se ao largo. Não havia sôpro de
+brisa. A calmaria era completa. Elle, desde a tarde, esperava aquillo mesmo.
+</p>
+
+<p>Mas, apezar da edade, tinha ainda bons musculos o velho pescador. Remava á
+direita, remava á esquerda e o seu barquinho a pouco e pouco se afastava,
+impávido, cortando a vaga indolente.</p>
+
+<p>Á pôpa, como de alcatéa, velava o farol, ia deixando pela esteira da
+embarcação um rastro luminoso, que se prolongava desmesuradamente, em direcção
+á terra.</p>
+
+<p>Além d'este, nenhum outro signal de vida poderia enxergar-se mais em toda
+aquella extensão de costa nem sobre a linha do horisonte, do lado do mar alto.
+Quem<span class="pn"><a name="pg_104">{104}</a></span> se atreveria a ir pescar
+na madrugada do dia festivo consagrado á padroeira de Belém?</p>
+
+<p>D'isto mesmo deveria recordar-se o Deodato, quando se achava já a mais de
+duas milhas de distancia, porque, fazendo meia volta ao corpo, olhou para traz
+e teve no rosto renegrido uma suprema expressão de ironia sorridente.</p>
+
+<p>&mdash;Tolos!&mdash;rosnou, volvendo logo a remar com furia, cravando a vista nas
+redes colhidas ao fundo da canôa.</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Meia hora depois, algumas pequenas nuvens sombrias tinham-se erguido lá
+muito ao longe, escalavam o ceu, vinham galgando distancias, desdobravam-se
+assombrosamente. Fitou-as o pescador, desconfiado.<span class="pn"><a
+name="pg_105">{105}</a></span></p>
+
+<p>&mdash;Ué!&mdash;exclamou. Vento ou trovoada?</p>
+
+<p>Apezar da incerteza, ergueu o mastro, preparou a diminuta vela de muruxy. E
+estava contente, porque já não precisaria de empregar maior esforço. O remo já
+começava a cansal-o, que diabo...</p>
+
+<p>Mas convinha aproveitar o tempo. Levantou-se ainda, tomou uma das rêdes e,
+com um gesto largo e facil, fel-a descrever um circulo por sobre a cabeça,
+lançando-a depois á distancia que reputou conveniente.</p>
+
+<p>Colhendo-a, sentiu-a leve sobremaneira e não tardou em verificar que a
+estréa fôra de todo improductiva. Não viéra um só peixe!</p>
+
+<p>Era estranho, porque aquelle sitio já tinha fama de rico em cardumes.</p>
+
+<p>Longinqua fulguração de relampago fel-o erguer o<span class="pn"><a
+name="pg_106">{106}</a></span> olhar. As nuvens tinham subido ainda mais,
+haviam-se estendido em quasi dois terços do espaço, pareciam agora as pesadas
+colgaduras de uma camara ardente. Segundo relampago, muito distante, scintilou
+então. E uma pequena aragem soprou fresca do lado do poente.</p>
+
+<p>Decididamente, ia cair a trovoada. Não podia Deodato perder um segundo: içou
+a véla, manobrou no sentido de aproveitar o vento. E assim afastou-se ainda
+mais de terra. Iria experimentar o mar a meia milha d'ali.</p>
+
+<p>Quando, depois de lançar a rêde em outro sitio, se dispunha a puxal-a,
+pareceu-lhe estar extremamente pesada. Um sorriso de alegria entreabriu-lhe os
+grossos labios. E então? Elle bem sabia que aquillo era infallivel!</p>
+
+<p>Mas imaginem o seu assombro quando, depois de longos<span class="pn"><a
+name="pg_107">{107}</a></span> esforços, conseguiu trazer á flôr da agua a rêde
+que julgava repleta e de repente sentiu-a tornar-se completamente leve,
+encontrando-a logo de todo vasia, sem uma unica pescada!</p>
+
+<p>Deodato não era homem para impressionar-se, porém não deixou de achar
+bastante extranho similhante facto.</p>
+
+<p>N'esse momento, o espaço illuminou-se com um grande relampago, seguido do
+estrugir medonho do trovão.</p>
+
+<p>O vento augmentara, passava agora sibilando nas cordas do pequeno mastro,
+enfunando a véla com raiva, arrastando a canôa n'uma furia, n'uma vertigem, á
+luz dos relampagos successivos, no meio de coriscos que esfusiavam caprichosos
+por todos os lados.</p>
+
+<p>Comprehendeu o negro que a trovoada ia ter maiores proporções do que as que
+lhe<span class="pn"><a name="pg_108">{108}</a></span> attribuira ao principio.
+Nada mais poderia fazer n'essa noite. Aquillo era praga do Simplicio, pensava.
+Bem descontente, resolveu regressar. Quiz passar o panno para bombordo, porém
+não teve a precisa ligeireza e o vento, já de todo impetuoso, quasi invencivel,
+arrancou-lhe das mãos o chicote da espia e n'um momento arrebatou a vela em
+farrapos, n'um redemoinho sibilante pelo espaço.</p>
+
+<p>Só lhe restava o alvitre da resignação. E elle, habituado ás inclemencias,
+affeito a mil e uma tempestades, sentou-se sereno á pôpa, depois de abaixar o
+mastro: resolvera esperar o desenlace da crise.</p>
+
+<p>O que presenceou então foi horrivel. Choviam raios á direita, á esquerda,
+por toda a parte. O ceu estava negro, agitado de ribombos infernaes, a cada
+minuto illuminado<span class="pn"><a name="pg_109">{109}</a></span>
+tetricamente, deixando a descoberto as grossas massas das nuvens fugidías.</p>
+
+<p>E o preto, longe de assustar-se, ali estava na barca, de braços cruzados,
+sorrindo com cynismo. O mar tinha um aspecto que se casava com a attitude
+hostil do espaço. Por toda a parte erguiam-se compactas collinas liquidas,
+escancaravam-se horriveis, hiantes valles phosphorescentes. Não chovia ainda,
+mas o vento, que zunia aos ouvidos do negro incredulo, cuspia sobre elle
+milhares de gottas salitrosas tiradas ás ondas freneticas, trementes.</p>
+
+<p>De subito, a amplidão toda se convulsionou, vibrou n'um estrepito pavoroso,
+repercutindo um som innominado, jamais percebido pelo Deodato em situações
+identicas. Avermelhado clarão illuminou tudo, revelou aos olhos<span
+class="pn"><a name="pg_110">{110}</a></span> do negro toda a magestade
+d'aquella scena para a pintura da qual, meus amigos, não tenho senão palavras
+inexpressivas e phrases sem colorido.</p>
+
+<p>Ficou estarrecido o pescador. Sentira que a fragil embarcação era com vigor
+sacudida! Mas a força que assim operava não vinha decerto do embate das ondas.
+E a canôa tremia toda, rangia, vibrava incessantemente, como se um braço de
+Adamastor a agitasse n'uns empuxões cyclopicos e interminaveis.</p>
+
+<p>&mdash;Que diabo é is...</p>
+
+<p>Não pôde continuar. Deante d'elle, rodeado d'uma auréola de chammas,
+tresandando a enxofre, emergia Satanaz! Levantou-se indizivel alarido: os raios
+duplicaram o faiscar, ribombos estalaram mais cavernosos. Por seu turno, o
+vento engrossou<span class="pn"><a name="pg_111">{111}</a></span> ainda mais as
+vagas, que chegaram quasi a cobrir o barquinho.</p>
+
+<p>Porém só durou um segundo o estupôr de Deodato. Qualquer outro homem
+succumbiria de medo. Elle, entretanto, como envergonhado d'esse instante de
+susto que tivéra ha pouco, arrastou-se com esforço, ergueu a meio o corpo
+ensopado e transido. Depois, levantando o olhar e o punho para o ceu, proferiu,
+ou antes bramiu feroz imprecação satanica.</p>
+
+<p>O diabo,&mdash;porque era elle em pessoa que assim surgira do mar,&mdash;empunhara uma
+espia e, correndo, cabriolando por cima das ondas loucas, entrou a puxar o
+batel para o lado de terra.</p>
+
+<p>Aquella corrida frenetica durou um momento. D'ali a pouco, barco e
+tripolante desfaziam-se de encontro ás pedras d'uma enseada,<span class="pn"><a
+name="pg_112">{112}</a></span> perto da capellinha do logar. Viram os meus
+amigos a acção da justiça de Deus?</p>
+
+<p style="text-align: center;">&mdash;</p>
+
+<p>Calou-se o tenente coronel Fernandes. Estava offegante, com os labios
+sêccos, o olhar animado.</p>
+
+<p>Mas resoou no aposento uma gargalhada stentorica, que despertou o molequito
+no cólo do avô.</p>
+
+<p>Era este proprio, o Felix Jacaré, quem zombara d'aquelle modo. Logo, com
+entonação escarninha, ponderou:</p>
+
+<p>&mdash;Não creiam n'essa balela de seu c'roné. O tar Deodato não foi pescá, ficou
+na rêde muito socegado e despois sonhô essas coisa, 'hi 'sta. Seu padre
+Simpricio, antão, arranjô o resto...<span class="pn"><a
+name="pg_113">{113}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>MATER DOLOROSA</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>MATER DOLOROSA</h2>
+
+<p style="text-align:right;">A Bellarmino Carneiro.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Ante-manhã.</p>
+
+<p>O vapor seguia rio acima, bem perto da margem, tão perto que, ás vezes, as
+ramarias sussurrantes da floresta roçavam na coberta, estendiam galhos sombrios
+por de sobre a borda.</p>
+
+<p>Ainda não haviam despertado as aves. O rio estava ali muito socegado,
+reflectindo o mattagal, banhando os aningaes avelludados. Não<span
+class="pn"><a name="pg_116">{116}</a></span> começára o arruido de passaros com
+que a alvorada é recebida, mas persistiam, comtudo, os derradeiros murmurios
+dos animaes e insectos noctivagos.</p>
+
+<p>A bordo mesmo, á ré, tudo parecia descansar ainda.</p>
+
+<p>Só o compassado resfolegar da machina denunciava que alguns entes velavam a
+meia-nau, attentos aos avisos do pratico de quarto.</p>
+
+<p>Ao nascente, começava a desenhar-se uma tenue claridade,&mdash;o início do fugaz
+crepusculo amazonico. A sombria noite diluia o negrume n'um suave frouxel
+cinzento, muito mal esboçado, indeciso quasi. Estavam longe as meias tintas côr
+de pérola e lyrio, precursoras das tonalidades rosadas e azues, que a seu turno
+precedem as estridencias rubras e alaranjadas, em breve esbatidas na
+tranquillidade definitiva dos<span class="pn"><a name="pg_117">{117}</a></span>
+aspectos mais claros do dia adeantado.</p>
+
+<p>Ia amanhecer.</p>
+
+<p>Em uma porta de camarote, á pôpa, assomara um vulto sombrio de mulher.
+Esteve ali um momento. Logo encaminhou-se á borda, perscrutando a escuridão,
+por um lado, por outro, attentamente.</p>
+
+<p>Aquelle vulto vestia um trajo simples, de rigoroso lucto.</p>
+
+<p>Saudou-o da matta um silvo de passaro,&mdash;a primeira manifestação do despertar
+das aves.</p>
+
+<p>O ambiente reacendia. Vinham da floresta virgem aromas capitosos de cumarú e
+baunilhas. Pelos cipós que desciam dos galhos, formando emmaranhamentos
+caprichosos, deviam escorrer as preciosas resinas que trescalavam tão fortes
+effluvios.</p>
+
+<p>A mulher inspirou com<span class="pn"><a name="pg_118">{118}</a></span>
+força. Queria banhar os pulmões n'aquella olencia. Em seguida, suspirou um
+suspiro triste; suspiro de viuva? suspiro de mãe inconsolavel?</p>
+
+<p>Clareara um pouco mais. Ja se percebia todo o labyrintho de braços folhudos
+que as arvores estendiam no ar, em contorsões. Uma suavidade paradisíaca se
+diffundia na meia tinta da luz crepuscular. Era quasi sol nado. Os passarinhos
+já haviam encetado o canoro certamen, volitavam céleres. Á beira-rio,
+nenuphares ostentavam-se opulentos por de sobre as polposas folhas que pareciam
+caprichos de esculptura em marmore verde. Mil flôresinhas silvestres salpicavam
+a vegetação das margens, sem nenhum acanhamento de uma ou outra victoria-régia
+que se dignava mostrar-se entre os massiços dos mururés, os quaes recebiam<span
+class="pn"><a name="pg_119">{119}</a></span> da correnteza um brando movimento
+de balouço. E, de um a outro lado do rio, eram grandes bandos altíssimos d'aves
+aquaticas,&mdash;patos grasnadores, pavõesinhos gemebundos, garças, cegonhas, toda a
+migração alada dos desertos amazonicos. Estava ali a natureza intacta, no seu
+inalterado aspecto milionario, tal como a viram os primeiros habitantes, as
+tribus lacustres que fôram as raças autochtones.</p>
+
+<p>O vapor seguia sempre adeante, rente a terra, na mesma monotonia. Aquella
+ascensão parecia o desvirginamento d'um éden.</p>
+
+<p>Iniciou-se a bordo a tarefa quotidiana. Alguns marinheiros appareceram
+trazendo baldes, desdobrando mangas para irrigação. Rompeu a subitas o sol, por
+além das mattas, n'um deslumbramento.</p>
+
+<p>Fugiu veloz para o camarote<span class="pn"><a
+name="pg_120">{120}</a></span> a madrugadora passageira.</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Horas mais tarde, o commandante atravessou o tombadilho, foi bater-lhe á
+porta. Seguiam-n'o trez ou quatro pessôas, que se conservaram a curta
+distancia, dissimulando a custo grande curiosidade.</p>
+
+<p>Era de certo esperada a visita, porque, immediatamente, a mulher saíu a
+recebel-a. Com a luz do dia, via-se que era uma anciã, de rosto enrugado e
+fronte encanecida. Não tinha aquella physionomia outra expressão que a do mais
+fundo soffrimento. E os olhos brilhavam extranhos, muito negros e dilatados,
+entre longos cilios sedosos.</p>
+
+<p>&mdash;Já estamos,&mdash;disse-lhe o commandante.<span class="pn"><a
+name="pg_121">{121}</a></span></p>
+
+<p>Ella penetrou de novo no aposento, mas volveu passado um instante. Trazia
+uma corôa de saudades,&mdash;uma corôa tosca, evidentemente barata. E, com o sorriso
+triste, murmurou ao capitão uma palavra de agradecimento.</p>
+
+<p>Depois, apertando com as mãos crispadas a humilde corôa sobre o coração, foi
+ajoelhar-se junto á borda, suspirando, soluçando, toda desfeita em pranto.</p>
+
+<p>Ali perto, na floresta, rebrilhavam flôres de sonho,&mdash;extranhas orchídeas
+gigantes, catléas variegadas, osculadas de coleopteros zumbidores. Crescia
+triumphal o canto dos passarinhos.</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>O grupo de passageiros arredára-se, n'um movimento de involuntario respeito
+por aquella sincera dôr ignorada.<span class="pn"><a
+name="pg_122">{122}</a></span> No meio d'elles, o commandante sentou-se
+taciturno e falou:</p>
+
+<p>&mdash;Não notam? Estou emocionado. Ha doze annos que vejo, em cada viagem, duas
+vezes repetir-se este espectaculo e, no entanto, até aqui me não familiarisei
+com elle. A prova é que abala-me ainda, como da vez primeira que a elle
+assisti. Onde encontrar explicação para isto? De certo que no immenso impulso
+d'essa dôr, na grandeza do sentimento que a provoca e que ha de haver
+compungido o coração dos senhores todos, não é verdade?</p>
+
+<p>O grupo teve um movimento egual de assentimento. Em algumas physionomias
+brilhava uma curiosidade inequivoca. Mas o capitão proseguia:</p>
+
+<p>&mdash;Vou referir-lhes a causa d'este espectaculo com que não contavam
+certamente os<span class="pn"><a name="pg_123">{123}</a></span> meus amigos.
+Esta senhora é a viuva do antigo commerciante C. A., de Belém. O marido possuia
+seringaes no alto Madeira, administrados por um primo. Raras vazes vinha a
+estas paragens: a escala dos seus negocios no Pará impedia-o de visitar a
+propriedade, perto da fronteira boliviana.</p>
+
+<p>Tinham um filho unico,&mdash;o pequenito Anselmo,&mdash;um mimo de creança, que os
+senhores haviam de estimar se o vissem, uma só vez bastava. Moreno, olhos
+negros e vivazes, tinha na franca physionomia alegre a manifestação exacta d'um
+espirito aberto e elevado. Sympathico a valer, bem educado aos onze annos,
+todos o queriam sobremaneira.</p>
+
+<p>Esta creança, um dia, perdeu o pae. Aquella senhora que ali está em pouco
+tempo soube que os seus haveres se<span class="pn"><a
+name="pg_124">{124}</a></span> achavam reduzidos. Ella, que sempre vivera na
+abundancia, não teve uma palavra de queixa. Abençoando á memoria do eterno
+ausente, resolveu retirar-se para o seringal, trabalhar como o ultimo cabôclo,
+afim de attender á instrucção do pequeno. Para este voltaram-se todos os seus
+affectos. Quem ignora ahi como sabem amar as dôces mães amazonicas?</p>
+
+<p>Dona Maria não tinha parentes proximos. Emprehendeu a viagem sem saudades,
+n'este mesmo vapor. Trazia comsigo o retrato vivo do morto, cuja existencia era
+continuada na louçania dos onze annos risonhos da creança.</p>
+
+<p>A bordo, corriam felizes os dias. O Anselmito brincava sem pezares, tinha em
+cada passageiro um camarada. E a bôa senhora quedava-se horas esquecidas a
+fital-o de<span class="pn"><a name="pg_125">{125}</a></span> longe, no enlêvo
+da sua alma reflexiva, folheando recordações posthumas, revendo saudades
+discretas.</p>
+
+<p>Foi ha doze annos. Uma tarde, não sei que passara ao menino: estava mais
+brincalhão do que nunca. Ia por toda a parte, correndo, risonho, amavel com
+toda a gente. De subito, um grito resoou, acompanhado d'um brado d'alma,
+indescriptivelmente lancinante! Olhem, ainda o tenho aqui, a vibrar-me nos
+ouvidos, esse grito de mãe desesperada!</p>
+
+<p>O Anselmo cavalgara o parapeito, n'um instante de descuido de todos nós e,
+perdendo o equilibrio, rolara para o abysmo. Foi além, defronte d'aquella
+immensa sapupêma. Em breves minutos lá estaremos. Parou o vapor, desceram
+escaleres, fez-se inuteis pesquizas durante vinte e quatro horas seguidas.<span
+class="pn"><a name="pg_126">{126}</a></span></p>
+
+<p>O cadaver adorado não appareceu.</p>
+
+<p>De então para cá&mdash;e quantas viagens tenho eu feito?&mdash;a infeliz mãe não deixa
+o <em>Mahissy</em>. O seu affecto retempera-se em passar incessantemente por
+sobre o sitio onde as aguas caudalosas do Madeira tragaram aquelle corpinho tão
+fragil e tão querido. De cada vez que por aqui singramos, dona Maria ajoelha-se
+lacrimosa e, ao chegar ao logar fatídico, arroja piedosamente ao rio uma corôa
+de saudades artificiaes. Não tem aqui flôres naturaes, a pobre; mas acaso não
+são bem viridantes as flôres do seu coração, as tristes flôres do pezar eterno?
+</p>
+
+<p>Nunca mais foi a terra. O seringal, vendeu-o logo, pela metade do preço,
+Gasta o dinheiro em passagens para si, e corôas para o anjinho. Já devem estar
+bem reduzidos<span class="pn"><a name="pg_127">{127}</a></span> os capitaes da
+desgraçada. Causa-me isto uma lastima profunda. Mas attendam...</p>
+
+<p style="text-align: center;">*</p>
+
+<p>Dona Maria erguera-se, n'um impulso desvairado. Levantou por cima da cabeça
+a mesquinha corôa toda banhada de sol e arrojou-a á agua.</p>
+
+<p>O rio tragou a funebre contribuição, fechou-se murmuroso, em circulos
+concentricos. A anciã tornara a cair genuflexa, soluçante e transfigurada no
+seu apaixonado desespero.</p>
+
+<p>Em terra, bem á orla da floresta ancestral, mil aves garrulavam na copa
+gigante d'uma feroz sapupema secular.<span class="pn"><a
+name="pg_128">{128}</a><br><a
+name="pg_129">{129}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>Yaras paraenses</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>YARAS PARAENSES</h2>
+
+<p>No copiar da chacara, aquella noite, haviam-se reunido alguns vizinhos do
+commendador Esteves, o principal proprietario do Pinheiro.</p>
+
+<p>Rêdes fechavam os angulos, pendentes dos esteios. Era uma roda de homens.
+Todos balouçavam-se, acalorados, aguardando o assahy que n'esse momento a
+mulata Josepha amassava na cosinha.</p>
+
+<p>O luar de agosto penetrava em diagonal, diaphano, trazendo toda a
+melancholia profundíssima das incomparaveis noites equatoriaes. Da<span
+class="pn"><a name="pg_132">{132}</a></span> matta pouco distante, lavada de
+luar, vinha o monotono arruido dos insectos nocturnos, o alarido dos cururús
+teimosos. Na gaiola pendente do tecto sem fôrro, um caraxué silvava. E do rio,
+que corria ali perto, ao fundo da ribanceira, subiam com a brisa refrigerante
+os rumores dos barcos de pesca fazendo-se ao largo, para a foz.</p>
+
+<p>Fumava-se, conversava-se. Haviam já discutido os negocios do dia, na
+capital. Esteves encetara mesmo um poucochinho de politica. Portuguez de
+nascimento, não queria immiscuir-se em assumptos partidarios; mas tinha por
+elles sua predilecção e nunca deixava de externar uma ou outra opinião, sempre
+muito conservador e ordeiro.</p>
+
+<p>N'essa tarde, viera com elle passar a noite na rocinha o velho Barriga, seu
+aviado do<span class="pn"><a name="pg_133">{133}</a></span> alto Xingú. Era um
+cabôclo adiposo, de ventre proeminente e face larga. Apparencia insignificante,
+matreirice innata: o typo commum do seringueiro indígena. Trouxera a mulher,
+que já estava recolhida ao quarto destinado ao casal.</p>
+
+<p>Achava-se também presente o subdelegado Fonseca, antigo solicitador dos
+auditorios, agora enviado ao Pinheiro afim de preparar recursos para uma
+eleição proxima. Era esta a sua especialidade, ao que parecia. Em todo o caso,
+rendia mais do que a primitiva profissão. Um presidente vindo da Côrte não
+tivéra extraordinaria difficuldade para convencel-o d'isto.</p>
+
+<p>Mas a palestra veiu naturalmente a versar sobre assumptos do sertão. A um
+quint'annista de direito, que villegiaturava todo o anno,<span class="pn"><a
+name="pg_134">{134}</a></span> explicara já o Barriga a pesca do pirarucú e o
+preparo da grude de gurijuba. O quint'annista era, n'este ponto, d'uma
+ignorancia absoluta: não admirava a sua curiosidade. </p>
+
+<p>Os demais circumstantes escutavam n'um silencio discreto, bocejando. Nas
+intercadencias da narrativa, apenas se ouvia o ranger das escápulas pelo
+movimento das rêdes e o farfalhar dos galhos, matta fóra.</p>
+
+<p>Uma voz reclamou um conto indígena, uma lenda amazonica. Não comprehendeu a
+phrase o Barriga. Quedara-se a olhar o interlocutor, cortado.</p>
+
+<p>&mdash;Historias de bôto, do curupira, da mãe d'agua,&mdash;explicou o subdelegado.
+</p>
+
+<p>&mdash;Han!&mdash;rosnou o cabôclo. Tudo isso é mentira, acredite!</p>
+
+<p>&mdash;Como! Pois o senhor atreve-se a negar o que todos<span class="pn"><a
+name="pg_135">{135}</a></span> no sertão asseguram ser verdade
+evidentíssima?</p>
+
+<p>Sorriu o velho, superiormente. Tinha no rosto uma profunda piedade, pela bôa
+fé do cidadão. Ergueu-se, afivelou o cós da calça e, espreitando para o lado do
+quarto da mulher, congregou os companheiros em circulo diminuto. Estava
+transfigurado: era um philosopho stoico.</p>
+
+<p>&mdash;Vocês ouviram já falar em yaras, não?&mdash;perguntou. Pois é tudo mentira
+também.</p>
+
+<p>E abaixando a voz:</p>
+
+<p>&mdash;Só ha uma especie de yaras,&mdash;proseguiu. Essas, porém, não vivem no fundo
+dos rios da minha terra, estão, ahi, na cidade; vi hoje á tarde uma porção,
+quando fui com seu Esteves tomar o vapor. São as mulatinhas cheirosas a
+periperioca e jasmins, sabem? as verdadeiras yaras encantadas. Mas
+precisamente<span class="pn"><a name="pg_136">{136}</a></span> não é para o
+abysmo das aguas que arrastam a gente!...</p>
+
+<p>&mdash;Seu Barriga, venha dormir!&mdash;gritou no outro extremo do copiar a encanecida
+e rotunda esposa do velho cabôclo do Xingú.<span class="pn"><a
+name="pg_137">{137}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>Uma historia de amor</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;">(DOCUMENTOS HUMANOS)<span class="pn"><a
+name="pg_138">{138}</a><br><a
+name="pg_139">{139}</a></span></p>
+
+<h1>Uma historia de amor</h1>
+
+<p style="text-align: center;">(DOCUMENTOS HUMANOS)</p>
+
+<h3>PRIMEIRA QUINZENA</h3>
+
+<h4>I</h4>
+
+<p>Senhor,&mdash;</p>
+
+<p>Não posso attendel-o. Tenho deveres sagrados a cumprir, uma posição social a
+zelar. Esqueça-me.</p>
+
+<p style="text-align:right;">(<em>Sem assignatura</em>).<span
+class="pn"><a name="pg_140">{140}</a></span></p>
+
+<h4>II</h4>
+
+<p>Senhor,&mdash;</p>
+
+<p>Julgo-o um cavalheiro e acredito-o sincero, por causa da assiduidade com que
+me procura. Acceito o seu convite para jantar,&mdash;mas somente no intuito de o
+dissuadir d'essa loucura que nunca poderá ser correspondida. Até logo.</p>
+
+<p style="text-align:right;">E<small>LISA.</small></p>
+
+<h4>III</h4>
+
+<p>Sympathico amigo,&mdash;</p>
+
+<p>Porque insiste? Estimo-o como um camarada, quasi como a um irmão. Não posso,
+entretanto, perdoar-lhe a impertinencia:&mdash;meu marido nunca será enganado.</p>
+
+<p style="text-align:right;">E<small>LISA.</small><span
+class="pn"><a name="pg_141">{141}</a></span></p>
+
+<h3>SEGUNDA QUINZENA</h3>
+
+<h4>I</h4>
+
+<p>Bom amigo,&mdash;</p>
+
+<p>Exactamento como o senhor, estou bastante incommodada por tremenda
+enxaqueca, que obrigou-me a ficar deitada até agora. A sua amavel carta, cheia
+de phrases tão meigas, traz-me certo lenitivo e me dá a energia necessaria para
+tomar a penna. Demais d'isto, a satisfação de escrever-lhe faz-me esquecer os
+proprios soffrimentos.</p>
+
+<p>Não me agradeça tanto o serão de hontem, ao jantar. Se o sr. comprazeu-se
+com a minha companhia, o mesmo aconteceu commigo; não tenho, pois, merito
+algum<span class="pn"><a name="pg_142">{142}</a></span> em fazer o que ditam os
+meus mais caros desejos.</p>
+
+<p>Quanto mais conversamos, mais vou eu descobrindo no meu bom amigo
+sentimentos e gostos que correspondem aos meus. A surpreza rejubila-me;
+similhante analogia de caracter e de idéas é demasiado rara para que eu deixe
+de admirar-me, sobretudo se encarar as barreiras sociaes que nos separam e a
+differença de classe a que pertencemos.&mdash;A sua cartinha de hoje é uma pequena
+obra-prima de cariciosas phrases. Quero crel-o, desejo acredital-o. Já não
+posso duvidar do senhor. Julgo-o sincero, porque <em>nada</em> o obriga a ter
+procedimento egual ao seu. O sr. é demasiado superior de espirito para ligar
+tanta importancia a uma vulgar questão de materialismo. Por consequencia, a
+logica me compeliu a suppol-o franco<span class="pn"><a
+name="pg_143">{143}</a></span> em seus sentimentos apparentes. Quanto a mim,
+entrego-me toda ao senhor, intellectualmente. Juro-lhe que sou sincera,
+mesmo&mdash;e sobretudo&mdash;nas minhas ingenuidades.</p>
+
+<p>O sr. é sceptico, já m'o disse; isto é, preveniu-me do trabalho que eu teria
+para fazer-me acreditar. Não ignoro as prevenções que têm os homens pelos
+sentimentos affectados. Todas as mulheres são enganadoras, voluveis,
+mentirosas, mas todas têm, comtudo, momentos de real sinceridade. Encontro-me
+em um d'esses momentos. E note, meu caro Jorge, que não digo isto para
+differençar-me das demais mulheres e tornar-me importante aos seus olhos. Não,
+porque possúo todos os defeitos acima enumerados. Melhor do que ningúem, sabe-o
+o senhor, porque estou prestes a<span class="pn"><a
+name="pg_144">{144}</a></span> enganar o homem com quem vivo. Verdade é que
+esse homem é um imbecil e que nunca sympathisarei com tal cathegoria de
+caracter. Não digo isto para desculpar-me aos meus proprios olhos, pois só me
+importo com a minha consciencia e não com alheias opiniões. Digo-o, sim, á laia
+de informações a respeito dos meus sentimentos reaes, no intuito de fazer-lhe
+comprehender que, do senhor para mim e reciprocamente, deve estabelecer-se uma
+corrente de escrupulosa sinceridade, pela simples razão de que eu e o sr. não
+somos impellidos um para o outro por outro interesse que não seja o nosso
+capricho,&mdash;ou, se mais lhe apraz e para falar mais exactamente, pela especie de
+correlação que existe entre os nossos dois espiritos.</p>
+
+<p>Como vê, sou mais franca<span class="pn"><a name="pg_145">{145}</a></span>
+do que o sr. É talvez um mal. Por principio, uma mulher, posto que enamorada,
+nunca deve revelar inteiramente a sua alma. Eu, porém, tenho-o na conta do mais
+leal dos homens, do mais generoso dos corações. Serei algum dia despertada
+cruelmente d'este adoravel sonho?</p>
+
+<p>Percebo que tenho ainda muitas coisas a dizer-lhe: tomo, pois, outra folha
+de papel. Ha de fazel-o sorrir tamanha expansão. Que quer? Tenho tantas phrases
+agitando-se-me na cabeça.... Emfim, perdôe-me. Desejo que o sr. me conheça bem
+e saiba completamente o que sou e o que quero.</p>
+
+<p>Não imagina até que ponto aprecio a attenção tão firme mostrada para
+commigo, vae fazer um mez. Agradeço-lh'o deveras, porque isto me satisfaz
+immenso.<span class="pn"><a name="pg_146">{146}</a></span> Lembra-se da carta
+em que lhe pedia que me esquecesse? Pois bem; hoje tem o meu querido amigo a
+razão por que lhe dizia essas palavras. Não o conhecia bem e receiava
+affeiçoar-me demasiado a um homem cujas apparencias eram as de um aristocratico
+<em>viveur</em>.&mdash;Sinto que hei de amal-o, que hei de amal-o talvez mais do que
+o sr. deseja e o amor é, ás vezes, cruel tyranno intransigente e molesto. O sr.
+agora está prevenido: póde defender-se. Não venha um dia lamentar-se pelo facto
+de haverem-se tornado demasiado serios os meus sentimentos.</p>
+
+<p>Tenho o genio tranquillo. De temperamento frio, difficilmente me
+enthusiasmo. Com respeito a questões graves, nada emprehendo sem antes prever
+os resultados do acaso ou do imprevisto. Nunca foi meu fraco a leviandade.<span
+class="pn"><a name="pg_147">{147}</a></span> É por isso que faço questão de
+patentear-lhe a alma da mulher que o senhor tem deante dos olhos e que espero
+nunca será considerada com volubilidade.</p>
+
+<p>Conhece-me agora, querido amigo. Esta carta é uma confissão: nunca fiz outra
+egual. Sem falsa vergonha revelo os meus defeitos e fraquezas, sabendo a quem
+os confio.</p>
+
+<p>Falemos agora de coisas que interessam á vida physica. Nada tenho a
+dizer-lhe sobre o ponto que trata do aposento em questão: approvo o que fez.
+Veja que o ninho seja bem discreto, bem mysterioso, para esconder perfeitamente
+a felicidade que vae abrigar.</p>
+
+<p>Até amanhã.</p>
+
+<p style="text-align:right;">E<small>LISA.</small><span
+class="pn"><a name="pg_148">{148}</a></span></p>
+
+<h4>II</h4>
+
+<p>Jorge,&mdash;</p>
+
+<p>Volto do passeio n'este instante com meu marido e encontro a tua carta.
+Então, meu querido, já estás mau e injusto sem motivo!</p>
+
+<p>Em primeiro logar, dizes&mdash;<em>a senhora</em>, o que, na correspondencia, é
+um matiz bem accentuado de frieza. Não é bonito isso.</p>
+
+<p>Depois, agastas-te sem razão. Não conheces acaso a minha existencia? Não
+ignoras que goso de uma liberdade limitada. Além d'isso, não temos ambos, eu e
+tu, as nossas respectivas obrigações? Differentes, sem duvida, dir-me-ás, porém
+isso não impede que seja imprescindivel cumpril-as todas.</p>
+
+<p>Tens graça affirmando que<span class="pn"><a name="pg_149">{149}</a></span>
+eu podia arranjar um pretexto! Invento-os todos os dias, mas lá vem um instante
+em que os argumentos minguam e mistér se faz pagar o tributo da propria
+presença, como hoje aconteceu.</p>
+
+<p>Não sejas, pois, injusto:&mdash;eu soffreria bastante.</p>
+
+<p>A vida que levo não tem alegrias para mim, acredita-me. E, se vens ainda
+augmentar-me os desgostos com recriminações que não mereço, ainda mais me
+entristecerás.</p>
+
+<p>Amo-te, bem o sabes. Se não o crês, é porque impede-te o teu scepticismo.
+Como provar-te, entretanto, o meu amor?</p>
+
+<p>Vê se sou corajosa: escrevo esta carta (e bem notas com que tranquillidade),
+deante de quem sabes. Não posso mostrar mais audacia, mais temeridade,
+parece-me. <em>Elle</em> anda ao redor de mim,<span class="pn"><a
+name="pg_150">{150}</a></span> com olhares atravessados, que me encolerisariam
+se eu já não estivesse tão predisposta contra elle.</p>
+
+<p>Até logo. Não sejas tão mau com a tua</p>
+
+<p style="text-align:right;">E<small>LISA.</small></p>
+
+<h3>TERCEIRA QUINZENA</h3>
+
+<h4>I</h4>
+
+<p>Meu querido,&mdash;</p>
+
+<p>Vou mais uma vez enfastiar-te com a minha prosa quotidiana, porém agora
+tenho uma desculpa:&mdash;estás doente.</p>
+
+<p>Como te encontras hoje? Cada vez melhor, presumo-o e desejo-o com toda a
+minha alma.</p>
+
+<p>O tempo está mau, trata-te bem, não faças imprudencias<span class="pn"><a
+name="pg_151">{151}</a></span> nem affrontes o ar humido e doentio das ruas
+lamacentas depois da chuva d'esta noite.</p>
+
+<p>Muito penso em ti e soffro extraordinariamente por te não ver ha longos
+dias. Tu, meu amigo, que tão bem conheces o coração das mulheres, ainda
+desconheces o meu, que, no emtanto, possues inteiramente... ou antes, conheces
+demasiado a esse pobre musculo e é por isso que ás vezes o fazes soffrer
+bastante.</p>
+
+<p>Adeus, meu amor. Trata-te com cuidado e recebe toda a ternura da tua</p>
+
+<p style="text-align:right;">E<small>LISA.</small></p>
+
+<h4>II</h4>
+
+<p>Jorge,&mdash;</p>
+
+<p>Depois do que se passou hontem á noite entre nós, tomo a prudente resolução
+de libertal-o da minha presença,<span class="pn"><a
+name="pg_152">{152}</a></span> que o importuna de certo tempo para cá. Esta
+carta é a da sua alforria: sae ao encontro das suas intenções, que, mais hoje,
+mais amanhã, seriam propostas de certo.</p>
+
+<p>Não me surprehende a sua conducta. Sinto não haver-me equivocado, porque
+amava-o. O sr. é muito caprichoso e nunca teve affeição por mim. Nunca houve no
+mundo caracteres tão deseguaes como os nossos. Os nossos gostos e sentimentos
+andavam em regiões absolutamente oppostas, bastante tarde o comprehendo.</p>
+
+<p>Adeus, por tanto. Cure-se, restabeleça depressa a saúde, que eu desejara
+saber completa, mesmo sem nunca tornar a vel-o. Adeus.</p>
+
+<p style="text-align:right;">E<small>LISA.</small></p>
+
+<p style="text-align:center;">&mdash;</p>
+
+<p>Conforme.<span class="pn"><a name="pg_153">{153}</a></span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h1>A filha do pagé</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>A filha do pagé</h2>
+
+<p style="text-align:right;">A Martin Garcia Mérou</p>
+
+<h3>I</h3>
+
+<p>No rio Negro.</p>
+
+<p>Das margens, nenhum som da vida animal perturbava a tranquillidade das
+coisas. A pino, o sol mordia as densas vegetações sombrias, fustigava tenaz uma
+ou outra borboleta vagabunda sobre os nenuphares exhaustos. O rio seguia
+monotono, n'um esvaimento; apenas pelo meio,<span class="pn"><a
+name="pg_156">{156}</a></span> lá ao largo, a correnteza fervia em cachões,
+borbulhava entre escumas alaranjadas, depurava-se de todos os residuos que
+acarreta a grande arteria aquatica.</p>
+
+<p>Pela beirada, aproveitando o remanso, ia subindo vagarosa, impellida pelo
+remo de pá, a canôa de pae Francisco, o velho pagé de Curralinho.</p>
+
+<p>Vinha de longe, o solitario viajante. Emprehendêra a operosa navegação, que
+almejava fôsse a sua ultima ascensão para o centro, em busca do absoluto socego
+onde podesse sondar a sua dôr e dar largas ao pranto que não seccava ha seis
+mezes. Fugia do logar onde fôra feliz e poderoso. Além, no mysterio das
+florestas intactas, na grandiosidade da natureza virgem, havia de encontrar o
+lenitivo para as amarguras da alma lacerada.<span class="pn"><a
+name="pg_157">{157}</a></span></p>
+
+<p>Uma ternura afagava-lhe o espirito, onde renasciam vislumbres de esperança.
+Esquecer o passado, não o desejava. Seria buscar o impossivel. A que ousava
+aspirar, n'uma humildade de supersticioso, era á pacificação circumdante, para
+rever a seu gosto agridoces saudades, resuscitar as reminiscencias, fruir as
+meigas recordações dolorosas dos tempos idos. Era isto querer em demasia?</p>
+
+<p>Remava sempre, semi-nú ao centro da embarcação, com o dorso exposto á
+soalheira, suarento, a cabeça ora para deante, ora erguida, no movimento dado
+ao remo. Nada via do lado da terra. A vegetação crescia opulenta, emmaranhara
+glaucas barreiras invenciveis de raizes, troncos, ramagens e lianas. Por cima
+de tudo isto, palmeiras carregadas de tractos trapejavam<span class="pn"><a
+name="pg_158">{158}</a></span> brandamente e dos galhos, d'entre massiços mais
+claros de folhagens tenras, pendiam as orchídeas, na gala aristocratica dos
+seus caprichosos matizes.</p>
+
+<p>Ás vezes, adeante da canôa, pinchava um peixe assustado, levantava innumeras
+gottas, achamalotava de arripios fugitivos a negrura do remanso. Mas o velho
+quedava-se impassivel, remando sempre, fixo na idéa de fugir de Curralinho. O
+aspecto exterior do mundo não o interessava; debatiam-se-lhe tumultuosamente no
+espirito milhares de pensamentos retrospectivos, um só dos quaes era bastante
+para dominar-lhe a attenção inteira.<span class="pn"><a
+name="pg_159">{159}</a></span></p>
+
+<h3>II</h3>
+
+<p>Era simples a historia d'esse homem.</p>
+
+<p>Nascêra e crescêra em Curralinho. Filho d'um antigo cabano, fizera-se pagé
+quando lhe morrêra o pae.</p>
+
+<p>Desconhecido ao principio, teve de esperar paciente que os seus feitos o
+acreditassem na população, trazendo a pouco e pouco o exito que tamanha fama
+lhe grangeou depois. Ao chegar á edade madura,&mdash;estava definitivamente
+consolidada a sua reputação. De muitas leguas ao redor, vinham durante o anno
+centenas de pessôas recorrer-lhe ao talento com a fé cega dos supersticiosos e
+dos crentes.<span class="pn"><a name="pg_160">{160}</a></span></p>
+
+<p>Uns,&mdash;a nata da gente culta de Curralinho,&mdash;tinham-n'o na conta de brégeiro
+especulador. Mas a parteira Eudoxia proclamava convicta o sincero devotamento
+de pae Francisco áquillo a que ella, com um pouco menos de propriedade na
+expressão, chamava o seu sacerdocio. Levava mesmo o espirito justiceiro a
+assegurar, com a responsabilidade do testemunho evidente de cem pessôas, que,
+para resolver uma situação difficil de puerperio, mais valiam as imposições
+cabalísticas da dextra do apregoado pagé, do que toda a sua longa pratica,
+d'ella depoente insuspeita, associada á infallivel interferencia de São
+Raymundo Nonato.</p>
+
+<p>Especulador ou convicto,&mdash;não vem a pêllo esmerilhar o fundo d'aquelle
+caracter. Talvez mesmo tivesse ella as duas qualidades que são,<span
+class="pn"><a name="pg_161">{161}</a></span> quasi sempre, o acúleo do seu e de
+identicos mestéres. O que havia de positivo era a adoração que sentia pela
+filha,&mdash;um encanto de caboclinha rechonchuda e capitosa, que lhe déra a
+companheira, momentos antes de morrer. Fôra essa a unica vez que falhara a sua
+sciencia de mago. Será verdadeiro o aphorismo de que santos de casa não fazem
+milagres?&mdash;perguntava, benzendo-se trez vezes, a velha Eudoxia.</p>
+
+<p>Toda a villa conhecia e estimava a repariguita. O pae tinha-a fóra de casa,
+com a gente d'um amigo intimo. Ia vel-a todos os dias e passavam longas horas
+sem que elle interrompesse o affectuosíssimo colloquio, que tão deliciosamente
+banhava de inenarraveis venturas o seu singelo coração.</p>
+
+<p>Que gloria valia a de ser pae de similhante creatura?<span class="pn"><a
+name="pg_162">{162}</a></span><span class="pn"><a
+name="pg_163">{163}</a></span></p>
+
+<h3>III</h3>
+
+<p>Creara-a elle proprio, desde os primeiros dias da dupla viuvez do seu corpo
+e da sua alma. Descrever toda a serie de cuidados, de attenções, esperanças e
+sustos desenvolvidos por pae Francisco, seria traçar o poema de um heroismo
+commum no bemdito solo amazonico.</p>
+
+<p>Fôra elle a sua ama secca,&mdash;mas disvelado como nenhuma. Tinha um geito
+especial para amimar a pequenita creatura, apaparical-a com terna bondade, que
+era um gosto espreital-o no desempenho d'essa funcção providencial. Havia,
+assim, n'aquelle extranho ser, duas<span class="pn"><a
+name="pg_164">{164}</a></span> entidades heterogeneas, uma dualidade admiravel,
+que tão profundo contraste estabelecia entre o terrivel feiticeiro
+abracadabrante e o pae melifluo, de olhos deslavados em sorrisos de adoravel
+meiguice.</p>
+
+<p>Quedava-se o cabôclo, a cada instante, longo tempo a rever na face
+inexpressiva da creancinha as feições d'um ente estremecido, para sempre
+entregue á dissolvencia definitiva, no sombreado cemiterio da villa. O seu
+affecto fazia ricochete na muralha da morte e volvia inflorado de carinhos,
+fúlgido de enternecidas esperanças, a formar a aureola transcendente que
+exalçava o futuro da creancinha.</p>
+
+<p>Felicia chamara-a, n'um augurio de ventura. Quantas horas não ficava
+absôrto, á beira rio, sonhando acordado mil felicidades para o enlevo<span
+class="pn"><a name="pg_165">{165}</a></span> da sua alma solitaria, para a
+filha idolatrada que ali medrava a seu lado, na força da vida ao ar livre, sem
+peias physicas a entorpecer-lhe a pujança da infancia?</p>
+
+<p>Vieram, mais tarde, outros cuidados. Necessario se tornava dar fórma a um
+espirito vivo, a uma intelligencia agil e vigorosa. Já não bastavam as
+attenções materiaes. A <em>ama sêcca</em> devia tornar-se n'um educador
+perfeito e elle soube sel-o com exito, no seu meio, nos limites da propria
+visualidade espiritual. Não têm as almas, ainda as mais simples, um mundo de
+idéas sãs, um thesouro de sentimentos puros, tão efficazes na comprehensão dos
+deveres moraes?</p>
+
+<p>A philosophia do pagé de Curralinho era singela como a simplicidade da sua
+existencia, vigorosa como a pujante natureza circumdante.<span class="pn"><a
+name="pg_166">{166}</a></span></p>
+
+<p>Mas a creança da vespera tornara-se mulher. Novos sobresaltos para o pae.
+Não lhe bastava a convicção de lhe haver insuflado á alma os mais sãos
+conselhos. Uma nuvem de desconfiança lhe entenebrecia o coração. Os sustos
+perseguiam-n'o sempre, mesmo no meio dos somnos agitados. A sua preoccupação
+constante era esta: amparar a filha contra o assalto da concupiscencia. Se
+houvesse necessidade de comparal-o a algum personagem do romantismo, nenhum
+vulto era mais adequado ao símile do que o do apaixonado truão de Francisco I.
+</p>
+
+<p>Pozera-se de má catadura, encanecêra, tornara-se rispido e intolerante com
+todo o mundo. Em cada individuo via um ladrão da sua felicidade. E, nos
+dialogos com a filha, ao luar, ao longo da ribanceira, dominando o<span
+class="pn"><a name="pg_167">{167}</a></span> Amazonas, tinha encantadoras
+expressões de meiguice, phrases cariciosas como osculos de creança
+amimada,&mdash;admiraveis esforços para prender e enleiar definitivamente um affecto
+que elle receiava&mdash;ou adivinhava?&mdash;perder um dia. Esta unica idéa lhe dava
+febre. Era, então, n'uma languidez voluptuosa e pura, que recebia os beijos
+filiaes da virgem, perfumada a periperioca, agitada n'uma ternura
+reconhecida.<span class="pn"><a name="pg_168">{168}</a></span><span
+class="pn"><a name="pg_169">{169}</a></span></p>
+
+<h3>IV</h3>
+
+<p>Este encanto durou pouco. Felicia amara, alfim, outro sêr extranho, com um
+novo sentimento cuja diversidade reconheceu tão grande, que não teve animo para
+confessal-o.</p>
+
+<p>Ignorando tudo, o pagé contemplava satisfeito, na apparente tranquillidade
+da caboclinha, o são producto dos seus conselhos.</p>
+
+<p>Um regatão de longe&mdash;lá das bandas de Macapá&mdash;fôra o perturbador d'aquelle
+singelo coração. Era moço, valente, um bello typo de tapuia varonil. A
+sympathia da rapariga fez-se primeiro enthusiasmo doidivanas, assumiu<span
+class="pn"><a name="pg_170">{170}</a></span> depois as proporções de violenta
+paixão.</p>
+
+<p>Felicia não tinha já a mesma fixidez attenta no olhar quando a encarava o
+pagé. Distrahida, oppressa por vago mal estar, buscava a solidão, isolava-se
+por gosto. O pae attribuia esse estado a causas puramente physicas. Entretanto,
+quem surgisse, alta noite, por perto do copiar da casa onde vivia a moça, havia
+de enxergal-a nos braços do regatão, soluçante de amor, gemente de desejos.</p>
+
+<p>Não podia prolongar-se o novo estado de coisas. Um dia, ao amanhecer, foi o
+pagé avisado que lhe fugira a filha. Por uma reveladora coincidencia,
+desapparecêra também do portosinho da villa a canôa do regatão.</p>
+
+<p>O velho cambaleara, caíra sem sentidos. Trez semanas esteve á morte, ardendo
+em<span class="pn"><a name="pg_171">{171}</a></span> febre, delirando entre
+pesadêlos horriveis. Todo o povoado emocionou-se á narração de tamanha dôr. Os
+mais endurecidos corações, aquelles que chamavam feiticeiro e perverso a pae
+Francisco, tiveram para elle um movimento de sympathia, uma pontinha de dó.</p>
+
+<p>Eudoxia, entretanto, não ficara socegada. Varonil, resoluta, organisou, com
+o auxilio de dois amigos que equivaliam a duas dedicações poderosas, uma
+expedição em busca de Felicia.</p>
+
+<p>Alguém disséra que o regatão tomara o caminho de Gurupá. Na mesma direcção
+seguiram a parteira e seus auxiliares. Dois mezes depois&mdash;nem tanto,
+talvez&mdash;estavam de volta. Rocebeu-os o velho n'um desanimo, com um sorriso
+triste, quasi idiota, na face desfigurada.</p>
+
+<p>Tudo inutil. Felicia morrêra<span class="pn"><a
+name="pg_172">{172}</a></span> em viagem. Havia-a destruido a variola. O
+regatão enterrara-a n'uma escarpa e ficara louco, ao abandonal-a para sempre á
+orla da floresta, sob uma chuva interminavel de flôres capitosas.</p>
+
+<p>Pae Francisco manteve-se calado, imperturbavel; só dois grandes fios de
+lagrymas deslisaram-lhe pelas faces, cortando o rictus que a immensa dôr
+formava em cada commissura dos labios.</p>
+
+<p>Meia hora depois, elle também partia, sem despedidas, n'uma canoinha leve,
+subindo o Amazonas.</p>
+
+<p>Eis porque, ha pouco, o encontramos, lavado em suor, a cabeça ora para
+deante, ora erguida, no movimento dado ao remo. Ha alguns mezes já que saíu de
+Curralinho. Segue pela beirada, aproveitando o remanso do rio Negro.</p>
+
+<p>Foge do logar onde fôra<span class="pn"><a name="pg_173">{173}</a></span>
+feliz. Não terá direito a aspirar ao lenitivo para a alma lacerada?</p>
+
+<p>Como nenhum som de vida animal perturba a tranquillidade das coisas, está
+perscrutando a intensidade dos proprios pezares, sopesando a agonia do coração
+encarquilhado.</p>
+
+<p>Vae sempre para o centro, n'uma ascensão dolorosa, martyr da bôa fé. No
+espirito, afagado por indefinida ternura, renascem-lhe vislumbres de esperança.
+Não é que pretenda esquecer o passado. Busca apenas o socego absoluto das
+florestas intactas, para dar largas ao pranto que não secca ha seis mezes.</p>
+
+<p>Demais, no meio da pacificação circumdante, não poderá elle rever a seu
+gosto agridoces saudades e convulsar baixinho, muito baixinho, com a sua
+querida Felicia,&mdash;não<span class="pn"><a name="pg_174">{174}</a></span> a
+fugitiva,&mdash;mas a outra, a pequenita, a que o preferia sempre, aquella que elle
+creara como ama secca e ainda conservava pura e infantil no fundo do
+amantíssimo coração?<span class="pn"><a name="pg_175">{175}</a></span></p>
+</div>
+
+<h3>INDICE</h3>
+
+<table align="center" border="0" summary="Indice">
+ <tbody>
+ <tr>
+ <th colspan="2">PRIMEIRA PARTE</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2">Subjectivismo</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td> </td>
+ <td style="text-align:right;">Paginas</td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O isolamento</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_15">15</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Gaivotas</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_27">27</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O Naufragio do Purus</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_39">39</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Brinde a minha Filha</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_49">49</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>O cemiterio da floresta</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_57">57</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Um anniversario</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_67">67</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2">SEGUNDA PARTE</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <th colspan="2">Objectivismo</th>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>A pesca do Deodato</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_89">89</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Mater dolorosa</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_113">113</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Yaras paraenses</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_129">129</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>Uma historia de amor</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_137">137</a></td>
+ </tr>
+ <tr>
+ <td>A filha do pagé</td>
+ <td style="text-align:right;"><a href="#pg_153">153</a></td>
+ </tr>
+ </tbody>
+</table>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align: center;"><small>ESTE VOLUME<br>
+foi impresso, gravado e brochado<br>
+para Arnoldo Moen, editor,<br>
+314, Florida, 314<br>
+BUENOS AIRES<br>
+10 de fevereiro de 1896</small></p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+
+<div style="font-size: 0.8em; margin: 10%; border: dotted 1px #222222; padding: 1em;">
+<p>N<small>OTAS DE TRANSCRIÇÃO:</small></p>
+<p>A grafia original usada no livro impresso foi mantida nesta edição.</p>
+<p>Foram corrigidos alguns erros de impressão, onde não havia dúvidas
+sobre a intenção do autor.</p>
+<p>O índice foi replicado no inicio do livro para facilitar a consulta.</p>
+</div>
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+<pre>
+
+
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+
+End of Project Gutenberg's Entre as Nymphéas, by João Marques de Carvalho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENTRE AS NYMPHÉAS ***
+
+***** This file should be named 29161-h.htm or 29161-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+
+Creating the works from public domain print editions means that no
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+
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+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
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+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
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+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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