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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Entre as Nymphéas + +Author: João Marques de Carvalho + +Release Date: June 19, 2009 [EBook #29161] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENTRE AS NYMPHÉAS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + OBRAS DE MARQUES DE CARVALHO + + VII + + ENTRE AS NYMPHEAS + + + DO MESMO AUCTOR + + O SONHO DO MONARCHA Opusculo + LAVAS Opusculo + PAULINO DE BRITO Opusculo + HORTENCIA 1 volume + O LIVRO DE JUDITH 1 volume + CONTOS PARAENSES 1 volume + + + + + J. MARQUES DE CARVALHO + + ENTRE AS NYMPHEAS + + + + + BUENOS AIRES + Arnoldo Moen,--editor + Calle Florida N.º 314 + 1896 + + + + +PRIMEIRA PARTE + +SUBJECTIVISMO + + + + +A minha esposa + + + + +_Esta parte do volume é intima, subjectiva._ + +_Suas paginas constituem o trabalho d'um artista apaixonado e d'um homem +de coração, durante uma viagem entre as nympheas, na região dos +nenuphares e da Victoria Regia, pelos rios Amazonas, Negro e Madeira, ha +seis annos._ + +_O labutar objectivo do auctor em busca da expressão naturalista da arte +encontra aqui uma occasião de pausa roborante, emquanto fala a alma, na +livre expansão da sua illimitada sinceridade e de todas as forças +affectivas que possue._ + +_Eu devia esta homenagem ao amparo dos meus desanimos, ao jubilo dos +meus dias prazenteiros,--á insubstituivel companheira a quem dedico esta +metade do volume. Doze annos de intensíssimo affecto necessitavam de uma +commemoração._ + +Buenos Aires, 1895. + + Marques de Carvalho. + + + + +O ISOLAMENTO + + + + +O ISOLAMENTO + + A Coelho Netto + + +I + +Ergui-me com a estrella d'alva, esta manhã. + +Oppresso pela atmosphera pesada do aposento, saí logo ao terraço, a +receber em cheio na face a brisa que, desde o interior da casa, eu ouvia +sacudir valentemente as grandes arvores da floresta, ali perto. + +Logo bebi, sôfrego, esse ar embalsamado que enchia o ambiente. + +Uma alegria sem par empolgou-me o espirito, sem duvida suscitada pela +grandiosa belleza circumdante. Embrenhei-me na matta, seguindo uma +azinhaga. Começava a amanhecer. Havia no ar esse murmurio das aves que +despertam,--bulicio tepido que só podem avaliar os madrugadores na +roça,--um como roçar voluptuoso do frouxel suavíssimo que exorna as +innumeras legiões canoras do Amazonas. + +Não sei o tempo que andei quasi ás apalpadelas, ao longo do carreiro. +Interessava-me tanto pelo duplo acordar dos ninhos e das plantas, que só +reparei em mim mesmo quando, já dia claro, encontrei-me no cantro de uma +bella clareira. Por cima de mim, balbuciava a brisa dulcíssimos +rumorejos, agitando as copas verdejantes. Em derredor, porém, era, ás +vezes, absoluta a tranquillidade das coisas. Por intermittencias, +nem mesmo um ciciar de passarinho, ou esse mysterioso, farfalhante +correr de lagarto, que parece suscitar não sei que extranhos sobresaltos +nas florestas do meu paiz. + +Formava a clareira como um salão circular preparado pela natureza para +receber-me. E, para que nada faltasse, havia, ao fundo, extendido como +um luctador exhausto, um grande tronco secular, que alguma tremenda +tempestade derribara. Amplo, coberto do limo que arremedava a fôfa +disposição dos estôfos valiosos, esse gigante vencido offerecia-me +commodo assento rustico. Entretanto, não utilisei-me d'elle: sentindo-me +bem, sentindo-me feliz, estava longe da fatiga. Por insensivel movimento +de dominio orgulhoso, apenas puz-lhe o pé no dorso, vencedoramente. + +Na mesma occasião, porém, penetrou-me o pavor: uma grande ave, um +inhambú graciosíssimo emergiu d'entre as toiças de verdura fresca, de +sob o tronco abatido e ergueu o vôo para o interior do matto, n'um largo +ruflar d'azas com indubitaveis entonações zombeteiras, intoleravelmente +escarninhas. + + +II + +Quedei-me ali muito tempo, a seguir esta ordem de pensamentos. + +No entanto, o ceu fôra devassado pelo hilariante clarão com que este +bemdito sol da minha terra doira todas as coisas, em sua +munificencia de soberano insupplantavel. Por toda a parte, só uma coisa +via: luz, luz, luz, esse alastrar de claridade que penetra tudo, que dá +aos objectos uma apparencia de alegria, d'intenso jubilo paradisiaco! + +Pelo ar, cantavam sempre a brisa e as aves, estas menos talvez do que +aquella, compromettida a fazer a larga harmonia da alígera volata. + +A clareira formava agora um salão redondo alcatifado de velludo +esmeraldino, illuminado d'uma orgia de raios, vibrante da deliciosa +bacchanal dos passarinhos. + +Minha alma dilatava-se mais no goso, até ali inexperimentado, de tamanha +quietude, de tão profunda sensação do que é grato na liberdade. + +O isolamento! Quanta paz na situação que esta phrase traduz! Que suaves +delicias que meigo langôr frue o espirito no socego completo, +divorciado dos cuidados da vida commum, senhor emfim de sondar a +consciencia propria, com a qual anda, ás vezes, semanas inteiras sem ter +um só instante para escutar-lhe as impressões, para confabular com ella, +extremado dos sêres banaes e falsos que formam a nossa róda habitual! + +Haverá porventura alguém que não preze esses momentos de silencio, nos +quaes a alma fala comsigo propria, dizendo coisas ha muito sentidas e +que, entretanto, parecem-lhe,--quando examinadas,--extranhas novidades +jamais ouvidas? + +Lembro-me agora da attenta concentração em que surprehendo, algumas +vezes, no alto das ramarias, esses folgazões alados que garganteiam a +todo instante crystallinas fiorituras sonoras. Dir-se-ia +monologarem, resolvendo ponderoso assumpto, tal a profunda gravidade com +que pendem a cabecinha, como recolhidos ao mais intimo de si mesmos. + +Conheci um canario ao qual este genero de melancolia era habitual. +Valente cantor, adorado em toda a vizinhança pelo talento com que +desferia os seus bellíssimos gorgeios, valia a pena vel-o, quando +espanejava-se ao sol, muito arripiado e gracioso, revolvendo com o bico, +em rápida immersão, a agua do pequenino tanque de crystal da gaiola +doirada onde vivia. + +Tirava horas inteiras para cantar, saltitante e feliz! Podia dizer-se +que empenhava-se em fazer um impossivel, ou que pretendia matar-se n'um +excesso melodico e genial, superior ás forças de seu mesquinho sêr de +passarito delicado! + +Porém detinha-se de repente, entre um trinado e um silvo: detinha-se, +interrompendo os elegantes pulinhos e, immovel na travéssa principal, +ficava ali demorados momentos, a curvar a loira cabeça para um e outro +lado, com uma sériedade que poderia fazer sorrir a quem, superficial e +leviano, não ponderasse no mysterio d'aquelle inesperado recolhimento em +que uma alma sonhadora e romantica parecia despertar n'elle com +intercadencias fataes. + +Terão também os passaros o prazer do soliloquio, a volupia da meditação? +Terão também a percepção dos gosos inebriantes que provém da certeza de +estarmos sós,--absolutamente sós, que ventura!--emfim libertados da +tyrannia das convenções, capazes de desafivelar a mascara que atam-nos á +face os respeitos mundanos?... + +Bem quizera crêr na existencia, n'elles, de um poder de reflexão, pois +d'outro modo não sei explicar aquella postura tão extranha, aquelle ar +philosopho, essa expressão quasi humana,--tão humana, que surprehende! + +É que, de certo, sentem o valor do socego, da paz completa, do +tranquillizador influxo da solidão, cujos ineffaveis encantos fascinam, +penetram o organismo d'uma tepidez emolliente, dão este balsamo +incomparavel:--a alegria de viver! + +E como assim não acontecer, visto que as aves são as dominadoras do +espaço, os habitantes da matta, onde é de todo sensivel o poder do +isolamento, d'esta situação, que póde ser considerada egoista e +destruidora, porém que o meu espirito acaba de começar a comprehender, a +reverenciar, a amar com descompassados enthusiasmos, porque vae-lhe +perscrutando os largos arcanos de poesia e alento philosophico, o vigor +que insufla a mente para aprofundar-se no estudo subjectivo, no +conhecimento do _eu_, a desillusão a que arrasta-nos em relação ás +pequenas miserias odientas do mundo postiço dos falsos e dos pretensos +civilizados?... + +Gloria ao isolamento! Bemdita sejas, ó grande floresta amazonica, +osculada pela ardente paixão do sol, toda sonora dos folguedos da +passarada chilreante, rica de estranhos mysterios e de mysteriosas +riquezas inestimaveis! + + + + +GAIVOTAS + + + + +GAIVOTAS + + +I + +Um bando de gaivotas, aos pares amoravelmente aproximados, ergueu o vôo +do mattagal e, cortando o espaço por de sobre o borbulhante estirão do +rio, veiu seguindo o vapor, a poucos metros de distancia da pôpa, ora +alteando-se á ponta do mastro, ora descendo rapido, de olhar incisivo e +lesto bico, até esfrolar levemente a agua com as cendradas pennas da aza +desfraldada. + +O marulho da agua parecia excital-as, espicaçar-lhes a actividade em +céleres convites de festiva digressão a ignotas paragens, onde o ceu +fosse azul,--muito azul,--e a verdura das ilhas tivesse os tenros e +alegres tons que apresentavam os aningaes das margens defronte das quaes +passavamos n'aquelle instante. + +Revoavam jubilosamente, as gaivotas, aproximavam-se do vapor, +descrevendo elegantes circulos, n'uma palpitação d'azas similhante ao +ruflar do leque entre os dedos d'uma bella mulher, quando impéra, +deslumbrante de graça, nos salões selectos. Vinham, parecia quererem +invadir a coberta, participar da ruidosa vida que sobre ella +apresentavam os passageiros, reunidos em intimas palestras. + +Sentado á pôpa, eu silenciosamente fitava aquelles aquaticos +viageiros ignorados. Seguia-lhes os caprichosos folguedos sob a limpidez +do ceu, com o olhar perdido traz elles, emprestando-lhes idéas, dando a +mim proprio as razões d'esse livre gaudio perante a pompa triumphal da +tarde moribunda. + +Formavam as margens visiveis do rio largas ilhas meio submersas, de que +apenas se viam emergindo da agua,--como braços erguidos para o espaço +n'um enthusiasmo viril de canticos de louvor,--milhares d'arvores +variadíssimas, esparzindo perfumes resinosos e estalando as cascas sob a +demasiada affluencia das tepidas seivas vivificadoras. Como grandes +açafates de caprichosas fórmas espalhados por toda a latíssima extensão +do rio, essas ilhas balouçavam as farfalhantes cômas glaucas, onde os +pássaros, papeando, entreteciam previdentes os diminutos ninhos e a +robustez dos merityzeiros erguia pendentes os pesados cachos de fructos +granadinos. + +Pelas margens, começavam a acordar os innominados animaes noctivagos e +um arruido extranho, abafado, levantava-se em surdina sob o machucamento +das folhagens ondulantes. + +E a tarde morria a pouco e pouco. + +Depois, ao fundo da paizagem, recortaram-se escuras, encobrindo o sol, +as longas montanhas sobre as quaes está erecta Monte-Alegre. + +Um dos mais bellos crepusculos vespertinos começou então. + +Quadro verdadeiramente formoso! O ceu, entestando com essas montanhas, +apresentava todas as tonalidades do iris, n'uma pujança complexa de +matizes prismaticos, e o sol,--como apertado entre ellas e a brunida +cupula sideral,--disseminava pelo espaço crystalino feixes de raios +luminosos em gigántea expansão que lembrava uma aurora boreal, um enorme +clarão d'apothéose empyrea. + +Pelo nascente, subiam gradativas trevas, como poderosíssimo senhor que +sae a combate sem precipitações, na sua convicção d'inilludivel victoria. + +Ao mesmo tempo, perto do zenith, un crescentesinho de lua e a estrella +da tarde,--esta quasi tão luminosa como um raio do teu olhar, querida +amiga,--scintillavam merencorios, como annuviados por incognoscivel +saudade, entre longas nuvens delgadas, côr de pérola e lyrio, +rendilhando-se no azul ferrete do firmamento. + +As gaivotas, então, que tinham vindo a seguir-nos,--emquanto o meu +olhar, da pôpa do navio, parecia desejar attraíl-as poderoso,--grasnaram +freneticas e, de subito, descrevendo rapido circulo elegantíssimo, +regressaram á terra d'onde tinham partido e fugiram veloces, n'uma +actividade de movimentação d'azas perdendo-se ao longe, na meia +escuridade do crepusculo. + +Fiquei sosinho á ré, a fital-as...--a fital-as, oh! não!--a mirar o +ponto do aningal onde se haviam perdido aquelles inconscientes sêres, +que tanto me tinham enleiado o espirito nas invisiveis malhas dos seus +largos circulos graciosos, descriptos no espaço, em reflexões movediças +sobre as gorgolejantes aguas amazonicas. + + +II + +Assim também fugiram-me precipitadas do seio as niveas alegrias, quando, +levado pela embarcação, ausentei-me saudoso da terra onde ficaram as +candidas inflorescencias do meu amor. + +Como aquellas gaivotas, preguiçosas e sympathicas, os doces prazeres +familiares deixaram-me seguir sosinho, breve regressaram á terra que +idolátro na minha apaixonada effervescencia de enthusiasmo pela grande +patria digna das maiores dedicações. + +Vou-me rio acima, isolado e desconhecido, entre pessôas estranhas, +separado de vossos enlevadores affagos, ó queridos entes cuja +ternura deslaça-me a vida em loiras espadanas de luz puríssima e gentil! +Sigo meditabundo, sem receber na alma entenebrecida um raio do vosso +olhar,--um só raio que me illuminasse o peito, para pôr em relevo dentro +d'elle toda a somma de santos sentimentos para vós,--sómente para +vós--guardados alí! + +A abafada canção da agua babujando os flancos do navio faz a surdina +dolente que acompanha as mestas lamentações do meu espirito obsidiado +pela afflicção das saudades. + +Ás vezes, a deshoras da noite, quando o firmamento escuro apresenta-se +deserto das suas luzentes tauxiações risonhas, e só a floresta da margem +rebôa agitada pelo cadenciado barulho da possante machina, embalde busco +pelo ceu do meu espirito certo par de estrellinhas annejas,--que são +os doces olhos petulantes de minha filha, fanaes da vida minha. + +E só a luminosa palpitação phosphorescente dos pyrilampos tremeluze +rápida no tenebroso velludo dos aningaes da beira. + +A solidão augmenta-me os pezares, quando a hora do crepusculo da tarde +vem descaíndo vaga pela terra, deslisando do inflexivel pendulo do tempo +com a dura impassibilidade d'uma desgraça tremenda. + +Gaivotas, alegrias do rio! Alegrias, gaivotas do pélago da minha vida! +Porque fugís tão velozes, sem vos deixardes agarrar por estas mãos, que +vagam sem um apoio amoroso, sem vos deixardes aprisionar n'este peito, +fremente de meigas paixões santíssimas? + +Rio Madeira, abril. + + + + +O Naufragio do Purus + + + + +O Naufragio do Purus + + A H. Inglez de Souza + + +I + +Este é o sitio em que, ha vinte annos quasi, afundou-se o _Purús_, +arrastando para o leito do rio algumas dezenas de cadaveres colhidos de +surpreza. + +O Amazonas aqui, como conservando ainda a triste memoria do luctulento +successo, rola silencioso as suas aguas, cobre-se eternamente com o +intenso crepe, accentuado e mesto, do vasto rio Negro. + +Têm as margens a apparencia de um recinto de funeral: socegadas e +desertas, monotonisam o quadro com a ininterrupta ostentação das suas +ramalhudas verduras densíssimas. + +Nenhum gorgeio de passaro percebo na larga mudez circumdante. + +No alto, o ceu, apinhado de nuvens escuras, encobre-me aos olhos a +risonha alegria do seu puríssimo azul, adoravel como as pupillas d'uma +imagemzinha da Virgem, que minha Mae, em pequenino, ensinou-me a +reverenciar com o contemplativo respeito das creanças absôrtas! + +Passamos n'este mesmo instante sobre o logar onde atufou-se a elegante +embarcação aventureira. + +Um pensamento de saudade assalta-me o espirito, agora que deslisei +rápido por cima do líquido sapulchro de tantos infelizes. + +Relembro, com a forçosa evocação do meu passado, as confusas recordações +da primeira edade e reproduzo na mente, consoante ás narrações da época, +o pasmoso entrécho do hórrido espectaculo. + +Vejo pessôas de todos os sexos e edades, em meio á densa escuridão da +noite, bramindo apavorados gritos, impetrando o auxilio do ceu +impassivel, amaldiçoando o momento final com o tôrvo desespéro das +grandes afflições. + +A bracejar contra a correnteza, lobrigo um ou outro naufrago n'aquelle +pégo, quasi tão vasto como o do mantuano cantor. Uns, redobrando de +esforços, conseguirão alcançar a margem anhelada; a mór parte, +porém, certo fraquejará impotente na violencia das aguas e rolará +inanimada aos profundos antros dos caimões! + +N'um camarote, vencida, dominada por tredo somno, uma joven mulher +angelical, esposa extremecida e extremosíssima, é surprehendida pelas +aguas em sua descuidosa seminudez inconsciente e logo suffocada sem +haver tempo de reconhecer o perigo por que passa com os seus,--com os +parentes affectuosos e com o infeliz marido, o commandante austero, de +quem separa-a, sem transigencias, a comprehensão do cumprimento do dever. + +E ali morre, com o pobre coração retalhado de angustias e amaríssimas +saudades, uma valente mulher de temperamento e actividade virís, guia e +ama de muitos d'aquelles naufragos. É a heroica exploradora d'uma +parte do rio Madeira, a veneranda mãe d'um punhado de homens honrados e +de honestíssimas mulheres,--a idolatrada mãe d'aquella excelsa creatura +que deu-me luz aos olhos e piedosos sentimentos ao coração! + + +II + +Comprehendo agora perfeitamente a dôr que rasgou-te os puros seios +d'alma, querida Mãe, quando correram a referir-te o hórrido successo. + +Creança quasi irresponsavel, eu não tinha a percepção completa +d'aquelles affligidíssimos desespêros em que te lançaste, com os olhos +amarados de lágrymas adamantinas. + +Entrei a brincar-te com os longos cabellos pretos, minha adoravel amiga, +e um beijo tão sincero como a tua dôr deposeram-te na fronte ensombreada +meus labios deslaçados em simples phrases sem valor. + +Hoje, porém, ó Mãe, avalío com justeza a afflicção que em ti causou tão +deshumano flagicio da sorte inclemente. Sondo, linha por linha, todos os +arcanos do teu seio, ausculto-lhe as precipitadas palpitações soluçantes +e lamentosas. + +Choravas, inconsolavel e dolentíssima, porque deixaras de ter mãe. + +Sinto conhecer-te a intensidade das penas, porque também perdi-te para +sempre e só minha alma pode saber a força de toda a violenta dôr que, ha +seis annos, confrange-a impiedosa, minuto a minuto, persistentemente, +tantas são as vezes que de ti me lembro, inolvidavel mulher que foste a +guia da minha infancia e a amiga insubstituivel da minha adolescencia! + +Rio Amazonas--Rio Negro. + + + + +Brinde a minha Filha + + + + +Brinde a minha filha + +Hoje é o dia do teu primeiro anniversario, querida filha. + +És pequenina de mais, tens o espirito ainda cerrado á comprehensão +exterior das cousas, para poderes penetrar o jubilo immenso de que devo +estar saturado por esse acontecimento, sobre a vastidão d'esta valente +arteria amazonica, ao tempo que as perspectivas das verdes paizagens +apraziveis se vão succedendo gradativamente, n'uma suavidade que deslisa +tranquilla a meus olhos enlevados nas florituras das folhagens +ramalhudas. + +Entretanto, devo escrever estas linhas que, no futuro, destinarei a teus +olhos e a tua alma,--sobretudo á tua alma, querido amor! Intima força +propelle-me a esta communicação silenciosa dos nossos dois espiritos,--o +meu ainda novo, porém já prestes a declinar para as florescencias da +edade madura e o teu velado ainda á vida do espirito, aos sentimentos +santos, pequenino botão de bogary transcendental, que nem sequer pensa +em desabotoar as cerradas corollas aos largos folguedos d'uma existencia +feliz! + +E porque não falar-te hoje? + +Quem sabe o que o dia de amanhã,--soturno cairel dos arcanos do +tempo,--não guarda para nós envolto nas iriadas roupagens do futuro? + +A distancia que entre nós presentemente existe não é motivo bastante +forte para recusar-me ao desejo de escrever estas palavras simples, +destinadas á perfeita simplicidade do teu espirito.... d'aqui a meia +duzia d'annos, quando estejas no caso de entendel-as, meu amôr. + +Nem tu sabes que multidão de alegres pensamentos vaga-me no cerebro, +hoje que um anno se completa que pela vez primeira te vi, rosada e +pequenina, quasi imperceptivel átomo-flôr d' uma existencia tão almejada +e bemdita pelo meu espirito milhares de vezes rejubilado! + +Como estuava-me o coração, alargado em seus ambitos pelo prazer, todo +aberto ás santas paixões amoraveis de quem começa a gosar as grandes, as +mellifluas, as inebriantes sensações vitaes da paternidade! Com que +ternura immensa não te fitavam meus olhos, rasos d'agua, abertos como +n'um sorriso, revendo a tua pequenina imagem atravez da nervosa +palpitação imperceptivel dos cílios orvalhados das puras lágrymas do +contentamento! + +Um mundo de pensamentos risonhos e transcendentaes produzia-se-me no +espirito, em luzida cohorte de festivas alegrias benéficas. Sentia-me +pequeno demais para creal-os, bastante insignificante para soletrar +tramando de emoção todo aquelle mirífico alphabeto enorme da mais santa +das paixões. + +Era a completa alegria que manifestava-se d'ess'arte em minha alma, +porque pela primeira vez te via deante de mim, envolta em candidas +faixas, ao collo de tua mãe, que desabrochava o rosto n'um sorriso meio +doloroso e quasi todo espiritualisado já, como n'um altar immaculado, +erguido á tua innocencia pela ternura da Mulher que te deu á luz, +regenerada da culpa da especie pelo immanente martyrio da maternidade! + +Hoje, que taes factos completam um anno, dia a dia, os mesmos +sentimentos revoam-me festivos pelo espirito, com egual força de +vitalidade. + +Inscrevo-os n'esta folha, registro-os em tua alma, ó flôr, para +offerecer-t'os como presente d'annos em penhor do largo affecto de teu +pae, emquanto, separado de ti por grande distancia, levanto á sorte mil +votos pela tua felicidade futura, por tua existencia, por tua saude, +pela tua angelica pureza de donzella e pela tua inquebrantavel virtude +de esposa. + +É bem possivel que não mais exista o auctor d'estas linhas e da tua +existencia quando possas lêr as palavras aqui traçadas. + +Não importa! Servirão para lembrar-te que possuiste um pae +amorosíssimo, que teve para ti os pensamentos todos da sua vida e, por +certo, ainda mesmo o pensamento final da hora derradeira! + +Rio Madeira, abril. + + + + +O cemiterio da floresta + + + + +O cemiterio da floresta + +Hontem pela tarde o meu espirito confrangeu-se inteiro perante +inesperado espectaculo, cuja reminiscencia me faz pensar ainda e +arrasta-me tremula a mão, na tarefa de consignal-o no papel. + +Vou referir-te, meu amor, o que viram meus olhos, e o que meu coração +sentiu n'aquelle instante d'íntimas reflexões maguadas. + +Cortada em rapido declive sobre a beira da agua, em meio á floresta +densa, abandonada de todos, uma clareira fazia-se abrupta e essa +clareira era um cemiterio, um pequeno campo santo solitario e +melancholico,--sympathico todavia,--salpicado de cruzes toscas e negras! + +A bordo, alegres conversações travavam-se aqui e ali, sob o oiro +refulgente do sol no estivo desabrochar das claras horas diurnas. +Ninguém parecia attentar n'esse triste sitio de repouso, sobre o qual a +tripudiante passarada das mattas volitava cheia de inconsciencia, +garridamente estrepitosa e jovial. + +Alargava-se o rio ali defronte, muito socegado, todo brunido das +reflexões solares, como se recebido houvesse um grande banho de prata +fundida. + +E um rumorejar da folhagem, dos dois lados do cemiterio e ao fundo, +fechando o horisonte do quadro, cerrando a escarpa, como que parecia +entoar a langorosa monotonia d'uma surdina risonha do prazer, +sacudida em amplas vibrações de volupia. + +Entretanto, o meu espirito entenebrecia-se pouco a pouco. Uma tristeza +empolgou-o forte e minha alma deslisou para as mudas divagações dos +sonhos acordados, das reflexões abstractas em que os olhos voltam a +força objectiva para o interior e, eliminando o seu poder observador do +mundo externo, nada comprehendem do que vem, porque só o cerebro +trabalha dentro da materia e o seu meio de acção anniquila-se perante o +vigor do espirito. + +De quem aquelles despojos materiaes ali inhumados, longe dos centros de +povoação, roubados ao conhecimento mundano, subtraídos á vaidade dos +homens, entregues á terra com toda a simpleza das grandes devoluções +pungentes, restituidos á obscuridade do nada para sempre, para +sempre furtados á ultima recordação marmorea que lhes lembrasse o nome +na derradeira falsidade dos epitaphios campanudos? + +Quantos heróes ignorados se não occultariam n'aquelle recinto, sob a +leve camada de terra ás pressas lançada pelos vivos por cima de seus +cadaveres meio decompostos? + +Ali não vinham os falsos amigos ostentar o seu fingido pezar, com o +recolhimento das feições e a compostura do trajo que predominam pelas +cidades, onde até a inhumação é um luxo mais ou menos apurado. O marido +infiel, respirando emfim livremente após a quebra do fio que prendia-lhe +o alvedrio, não viria ali mais uma vez insultar com uma dôr não sentida +a lamentavel memoria da doce esposa traída, nem a joven viuva leviana, +já com o espirito occupado por amorosos pensares--adulterio +posthumo!--appareceria a ostentar o fingimento d'uma paixão que não +possuia e que depressa esqueceu na elaboração de cartinhas piégas ao +primeiro janota impudico que lhe deparou a sorte ironica. + +Ali, sim, ao homem honesto e severo, á mulher virtuosa e amante, á +innocente creancinha levada ao descanso perennal após breve apparição na +terra, grato, gratíssimo seria inteiriçar os membros lassos e repousar +alfim, descuidosos na eterna immobilidade dissolvente da ultima +pacificação,--separados de toda a phantasia ephêmera e das convenções +banaes da fallaciosa hypocrisia social. + +Para quê ser lembrado após a morte? De que serve um marmore a reproduzir +o nome d'um sêr cuja existencia o tempo consumiu,--candeia extincta, +apagado fanal do pelago da vida? Recordar o nome d'um morto, +perpetual-o petreamente, é ainda uma fórma de insulto, é uma violação +que põe o finado na emergencia de se lembrarem d'elle os maus, os +pérfidos, aquelles que não o comprehenderam em vida e que mais uma vez +negar-se-ão a fazer-lhe a justiça de que tão sedento estava o seu espirito. + +Estaes bem ahi, desconhecidos heróes do labutar quotidiano, ó martyres +das privações no meio d'essa esplendida orgia de verduras amazonicas! +Tão bem vos acho, que até sinto inveja ao ver-vos no pequenino cemiterio +escalvado na rapida ribanceira. + +A sorte restituiu-vos ao pó com a mais austera simplicidade. Voltastes á +terra na modesta elaboração d'um acto naturalíssimo e a vida que +fermenta entre as raizes d'essas bellas e grandes arvores viridantes +vae buscar nos vossos cadaveres aquillo que lhe podeis dar:--a cada +minuto um átomo de seiva, tirado á tépida fermentação da vosa carne, +outr'ora palpitante, porém banal, agora repousada, mas operadora do +beneficio que a lei natural do transformismo obriga-vos a prestar-lhe. + +Apraz-me sentir que o meu espirito se consolaria quando, após á +extincção da minha vida, algum ente querido, depois do ultimo beijo, +enterrasse-me o corpo em vossa companhia, ó eternos moradores do +cemiterio da selva! Julgar-me-ia feliz, com a satisfação e o orgulho +d'este ultimo capricho realisado. + +Teria, como vós, o supremo _requiem_ dos trillos dos passaros, do +farfalhar das ramarias densas, do desprezo dos raros viajantes n'estas +longinquas regiões do Madeira e dos murmurosos beijos do +gorgolejante listrão aquoso que incessantemente corre, ora envolto no +denso velludo tenebroso da noite, ora ostenta-se brunido pelas amplas +disseminações de prata fundida que o sol por cima d'elle parece lançar +ás vezes, quando o ceu, sempre misericordioso, não verte sobre vós, +lugubremente, paternalmente, as piedosas orvalhadas dos seus largos +prantos pluviaes. + +Salvè, desconhecidos martyres da familia amazonica, eternos habitadores +do cemiterio da floresta! + +Rio Madeira, abril. + + + + +UM ANNIVERSARIO + + + + +UM ANNIVERSARIO + + Á memoria de minhã irmã + A meu irmão. + +Seis annos, hoje, que finou-se a mais santa das creaturas, a mais +querida e amoravel das mães. + +Perante a emotividade profundíssima do meu ser, não tem hoje poder as +largas pompas magestosas d'este romper de dia sereno sobre a paizagem +Assoalhada, vibrante de esplendor, fremente de canções d'aves +silvestres. Ao contrario, tudo me parece melancholico, monotono, quasi +hostil, porque recebo as impressões externas atravez dos meus +sentimentos e estes concentram-se nas amaríssimas dôres excitadas pela +inapagavel recordação da morte de minha mãe! + + * + +Ha d'estas originalidades no fragil espirito humano: diz alegres os dias +pluviosos, encontra-lhes graça, apraz-se em aspirar humidade na +meia-sombra dos nevoeiros,--se algum prazer abala-o jubiloso; +entretanto, encara indifferente ou raivoso as glorias da natureza; não +tem um olhar para as galas triumphaes do espaço azul rutilante, +acolchoado d'alvas nuvens pannejadas harmonicamente; enfastia-se e +agasta-se até com a passiva tranquilidade das coisas, com o chilrear +dos passarinhos,--quando algum desgosto lateja-lhe no coração +encarquilhado ao peso das grandes dores supremas! + + * + +Estou a recordar-me das funebres e tremendas peripecias d'aquella +inolvidavel tarde de 21 de abril, ha seis annos. + +Uma pequenina alcova de matrona,--grave aposento destituido de luxo +banal, apenas confortavel. Ao lado d'um guarda-vestidos, pesado e bom, +uma mesa coberta de frascos de medicamentos com etiquetas multicôres, +borradas de receitas pretenciosamente escriptas em termos barbaros, +chocantes de ouvir, indicando venenos medidos aos millesimos, com +mysterio. + +Ao fundo, uma cama austera, toda branca em seus lençóes e colchas, sob +os quaes desenhava-se um corpo longo, pouco amplo, de que apenas via-se, +repoisada em grandes travesseiras alvas, uma cabeça de mulher, +encaixilhada em bastos cabellos negros, lustrosos, apenas aqui e ali, de +longe em longe, irisados de fios brancos que desprendiam o brilho +metallico da prata polida. + +Os olhos, semi cerrados, fitavam um ponto unico da parede fronteira, +onde um pequeno raio de sol, atravessando o arco de uma janella da sala, +fixava-se insistente, como receioso de desapparecer além, atraz das +casas da praça, ou desejoso de não abandonar, no meio-tom confuso d'um +crepusculo precoce, aquelle quarto mortuario, em que estava para começar +uma agonia. O olhar de minha mãe persistia fito no luminoso +circulosinho, que accendia de amarello a brancura da parede nua. + +Quem sabe o que vém os moribundos nos seus derradeiros momentos lúcidos? +Que visões obsidiam-lhes os ultimos, instantes, subjugando-lhes o +espirito já tão enfraquecido, dominando-os poderosamente? Vêm pela +ultima vez o goso de alguma ventura occulta, entristecem-se pela proxima +separação do encanto da vida ou entrevem já o beatifico descanso +interminavel que aguarda-os no pó da sepultura? + + * + +Quasi seis horas. Continuavam os olhos presos ao circulo luminoso, que +subira mais, approximando-se do tecto, n'um deslisar de vida que se +extingue suave. + +Pelo rosto emaciado de minha mãe não corria sombra de soffrimento. As +faces cavavam-se levemente, o nariz afilava-se, com a transparencia de +cêra dos entes que vão morrer. Entreabertos, os labios deixavam passar a +respiração com um offêjo ciciante e molesto, brandamente. Dir-se-ia +dormitar a enferma, a não serem os olhos, agora um pouco mais abertos do +que antes... + +Em torno, alguns parentes vigiavam immoveis, com a expressão +contristada, transida, que temos ao esperar a morte. Á cabeceira, de pé, +encostada ao espaldar do leito, minha irmãsinha chorava em silencio, +enxugava as incessantes lágrymas, suffocava os soluços, para não trair-se. + +Quem atrever-se-ia a mostrar que soffria, perante aquelle resignado +soffrimento que tão bem continha-se? + +Meu irmão egualmente quedava-se perfilado, os olhos cravados n'esse +rosto pállido, n'essa bemdita fronte eburnea que a virtude aureolava, +n'esses doces labios que presentiamos frios, frigidíssimos, não obstante +o ardente halito que esfrolava-os, ja osculados pela morte!... + +Aquelles labios sonorosos, aquelles labios cantantes de mãe +brazileira,--quem poderia mais galvanizal-os, fazel-os vibrar com o +dulcíssimo affecto maternal que era o nosso ineffavel enlevo na quadra +festiva da meninice descuidosa? + +Onde iriamos beber os prudentes conselhos que esses puríssimos labios +proferiram, deixaram cair em nossas almas como um desfiar de pérolas +raras em taças de cristal?... + +Quem seria, d'ali em deante, a amiga incomparavel, a santa companheira +da nossa adolescencia ardente, a meiga representante d'esse encanecido +vulto,--heroico prototypo da affeição familiar, da honra, da dignidade, +de todos os boníssimos sentimentos,--que foi o nosso Pae?.... + +Oh! desgraçados que eramos! N'aquelle impassivel expirar de tarde +equatorial pomposa e abrazadora, iamos perder para sempre,--_para +sempre!_--o nosso mais valioso dote, a vida de nossa Mãe!... + + * + +Seis horas e poucos minutos, Desapparecera do tecto, sempre seguido +pelos olhos da moribunda, o circulo luminoso, a despedida do sol á vida +periclitante. Desmaiara mais, tornara-se apenas uma tênue mancha +amarella, breve transformada em sombra quasi imperceptivel. Depois, +esbatendo-se gradualmente, fôra supprimida. Desappareceu: começou a +agonia na enferma. + +É doloroso assistir ao estertor dos moribundos. Terriveis embates +soffremos na alma. Primeiro, o egoismo natural no homem, excitado pela +lembrança de ir perder um ente amado; depois, a constatação de que nunca +mais poderá gosar-lhe do convivio, ouvir-lhe a fala affectuosa, +oscular-lhe a fronte calma, as faces sorridentes com a immensa candura +da virtude. Porém onde haverá mais requintado, mais vivo e agudo +soffrer, do que na propria sensação que experimentamos da agonia do +moribundo amado? Em que série de martyrios archi-excruciantes +classificar esse desespero tôrvo, enlouquecedor, vibrante, que em +nós erguem a comprehensão das dôres a que assistimos e a impotencia de +não podermos participar d'ellas, tomar para nós a maior porção, +attenual-as um pouco, com o osculo das mãos acariciantes e com a ternura +emolliente dos beijos ultra-expressivos dos ultimos, dos supremos +adeuses?... + +Vinham-me ao espirito idéas estonteadoras, que levavam-me á meta da dôr. +Ver soffrer a santa mulher que deu-me a vida, que tão feliz foi sempre +em possuir nos braços enlaçantes os filhos queridos e amoraveis, era uma +provação capaz de abalar-me a solidez da razão. E depois, ha sempre, á +beira do tumulo de um ente que viveu em ligação intima comnosco, uma +evocação, rapidíssima porém muito minuciosa, de todo o nosso passado. + +E o meu passado... quão unido estava ao d'aquella moribunda, que em vão +buscava, ao vaguear a vista já vidrada pelo aposento, o raio de sol que +viera despedil-a da vida, dar-lhe á alma, por um momento, na hora +extrema, a claridade immaculavel que ella sempre teve na consciencia, na +honra! + +Vi-me creança, buliçoso e festivo, sem um desprazer além do provocado +pelas privações dos brinquedos. Vi-me em todas as situações da +existencia, em todas as phases d'uma juventude agitada, em todas as +peripecias das nossas viagens, das nossas diversões, dos nossos gosos. +Em toda a parte, de qualquer modo que manejasse aquellas scenas +retrospectivas, ella apparecia-me sempre como o misericordioso +interprete dos meus votos de felicidade, o meu anjo tutellar, o +amparo inilludivel da minha inexperiencia, o meu aconselhador +ajuizado como todas as boas mães. + +Quanta saudade, quanta, do meu passado extincto!... + + * + +Alguém tinha ido á egreja proxima,--a dez passos d'ali, no lado opposto +do largo,--pedir o soccorro da religião e um levita acudiu, balbuciando +preces indistinctas, a ungir quem ia morrer. + +A apparição d'um sacerdote que traz o extremo sacramento a um enfermo +apavora sempre. Ante similhante visita, eu e meu irmão principiamos de +novo a chorar,--nós que pensavamos já ter exgottado as lágrymas, tão +abundante fôra, desde trez dias, o nosso pranto. + +Retirando-se o padre,--sempre murmurando orações em latim,--a agonia +augmentou. Vizinhos tinham acudido, serviçaes e bisbilhoteiros. +Causaram-me raiva, quasi molesto-os com uma demonstração mais evidente +do meu enfado pela sua presença, quando desejara, a sós com os meus, +receber o derradeiro alento da querida alma adoravel. + +Porque ha de prender-nos a educação n'um circulo igneo, impondo-nos +dominio, heroicos fingimentos, até nos mais tremendos instantes da vida?... + +Soluços mais rapidos de minha irmã fizeram-me esquecer esta série de +reflexões, voltaram-me para o leito onde estertorava já a doce +companheira da minha innocencia. + +Acabei de comprehender este redobramento de chôro, vendo acercar-se +alguém com uma véla accesa, que foi posta entre as mãos afusadas e +lividas da moribunda. + +Minha mae ia morrer! Oh dilacerante, immensa dôr trazida por esta +convicção! + +Lancei-me de chôfre a beijar-lhe a fronte camarinhada de suor, os +cabellos sedosos, negros como a afflicção de minha alma, as faces +encovadas, os labios crispados, álgidos, por entre os quaes +esgueirava-se um lancinante estertor crescente, que dizia demasiado a +aproximação do momento fatal... Allucinado, pensei que a minha +vitalidade, a minha florida juventude poderia reanimar, devolver á vida +aquelle espirito immensamente amado e em vão tentava aquecer-lhe o +involucro com o ardentíssimo, impotente contacto dos meus beijos filiaes! + +Mas, de subito, houve uma cessação na agonia... Estarreci... Iria minha +alma incrédula defrontar um milagre?... Oh! Deus era bom, Deus +existia então, além da lenda biblica!... O rosto de minha mãe serenara, +conservando, todavia, uma expressão retrahida, grave, como quem escuta a +voz interior d'uma interessante evocação da existencia inteira. + +Os cilios palpitaram longos, n'uma projecção calma de sombra nas faces. +Brilharam os olhos, tranquillos de expressão e, vagaroso, subiu o olhar +para o sitio onde cravara-se antes o raio de sol extincto agora. + +Logo, porém, desceu, afim de erguer-se ainda, para minha irmã, para meu +irmão, para mim... Demorou-se fito em minhas pupillas lacrymantes esse +inolvidavel olhar, tão sereno como a tranquillidade da sua alma sem +mácula, translucido n'uma expressão de quem medira o alcance do +grande minuto final. + +Quem poderá estereotypar o ultimo olhar das mães aos filhos extremecidos? + +Attonito, baixei-me a receber o afago d'esse olhar tão expressivo como +um beijo mudo. O milagre providencial ia operar-se, de certo. Eu +abençoava já o eterno Bemfeitor da humanidade... ingênuo no egoismo do +meu almejo. + +Os labios, no entanto, descerraram-se. E, emquanto os olhos, um nada +mais vitreos, vagavam sobre os trez rostos dos filhos surprezos, +transidos de admiração e esperança, aquella bôcca lívida moveu-se no +balbucio inextrincavel d'uma phrase indistincta que, certo, era uma +prece, um conselho bom, uma benção, um adeus! + +E os olhos fecharam-se, no mesmo calmo palpitar dos longos cilios, +os labios contrahiram-se á passagem d'um suspiro mais longo,--um soluço +dolentíssimo,--e a cabeça pendeu á direita, buscando o meu primeiro +beijo a um cadaver amado, quente do ultimo esforço para dizer-nos com a +vista a intensidade insondavel do seu carinhoso affecto! + + * + +Ha seis annos passou o horrendo transe que prostrou-me louco sobre os +despojos funebres da mais santa e querida das Mães. + +Dura sempre a dôr d'um filho amantíssimo? Creio bem que sim. +Investigando a incalculavel profundez dos meus pezares, cotejando as +impressões de hoje com as do anno passado, com as do outro anno, do +outro e do dia em que estalou sobre mim a grande fatalidade, +verifico a persistencia da mesma dôr molesta, intima, enorme, +saudosamente triste, que levanta-me no espirito uma raiva contra a +gloriosa expansão d'esta manhã rutilante e contra o gorgeio sonoro das +aves, que estão, agora mesmo, a lembrar-me os doces cantos simples da +infancia, quando, todo prazer e venturas, meu coração acolhia-se no +tépido sacrario de affectos e caricias que era para mim o colo amigo e +protector da mais amoravel de todas as mães! + +Onde estão os meus deliciosos sorrisos infantis de outr'ora?... + +Rio Madeira, 21 de abril. + + + + +SEGUNDA PARTE + +OBJECTIVISMO + + + + +A pesca do Deodato + + + + +A pesca do Deodato + +Ao Sr. J. T. Lobato de Castro + +O tenente-coronel Fernandes salivou com estrépito para longe, afim de +salvar a esteira que se estendia por baixo da maqueira e, ageitando no +longo taquary pintalgado a cabeça de barro topetada de tabaco legitimo +do Acará, proseguiu: + +--É como lhes digo. A desobediencia aos preceitos da egreja traz sempre +após si a necessaria e indefectivel punição. Bem o affirma o +ditado:--Deus castiga sem pau nem pedra. É certo que, quasi sempre, a +consequencia lógica da culpa atraza-se tanto, que o peccador impenitente +prolonga uma existencia criminosa no meio da mais impassivel +tranquillidade, como se possivel fôsse á justiça do ceu esquecer. Muitas +vezes, porém, a pena succede-se á culpa sem notavel intermissão e, em +todo o caso, o espirito prudente só tem novo ensejo para arrenegar do +instincto maldoso do homem e colher no exemplo nova convicção da +sabedoria celestial. + +Calou-se, pigarreou, fitando com tenacidade, d'um modo quasi severo, o +auditorio resumido e conspicuo: o Antonio Narceja, portuguez enriquecido +n'um barracão á entrada do furo do Pagé; o Dr. Polycarpo Varella, +juiz de direito, cuja recente remoção para Salinas filiava-se a +memoraveis façanhas eleitoraes, nos confins do Paraná, ao expirar a +situação conservadora, havia poucos mezes e Felix Jacaré, um cabôclo +muito republicano, sapateiro de officio, avô do pequenito que +dormitava-lhe ao cólo, esgaravatando machinalmente o nariz com o dedo +titubeante, a cara suja, os labios breiados de assahy, como breiado +estava o peito do camisão de riscadinho azul e branco. + +Bateram nove horas n'um relogio pendente da parede caiada. Fóra, bramia +o mar. Pela janella aberta entravam, com a brisa, exhalações salinas e +esse borborinho confuso e melancholico das noites em plena roça. No +tecto de vigamento visivel, trilavam grilos. E, por intercadencias, a +luz do candieiro de porcelana pestanejava de leve, como se também +por ella passasse o arripio mysterioso das coisas tragicas que ali se +falava ou se o apavorasse o tom soturno das considerações philosophicas +do tenente-coronel Fernandes. + +--Tem muita razão, acudiu Antonio Narceja, offerecendo obsequiosamente +um phosphoro acceso ao Dr. Varella, que sacára um cigarro de tauary. + +--Conforme... obtemperou o Jacaré, cujo espirito de contradição era +conhecido na villa. + +--Vou dar-lhe um exemplo, compadre, retorquiu Fernandes, risonho e sereno. + +Pigarreou de novo, tornou a salivar. Depois, ageitando-se na rede, +emquanto os companheiros aproximavam curiosos os bancos, principiou. + + * + +Ha coisa de uns 25 ou 30 annos, vivia no Magoary um preto corpulento e +encanecido, cuja edade ninguém poderia calcular e que toda a redondeza +conhecia como sendo o mais ousado e feliz pescador da localidade. + +Methodico, não passava um dia sem ir á pesca; afortunado, não atirava a +tarrafinha sem depois puxal-a repleta de peixes! Era um assombro, um +gosto admiral-o em acção! Parece que rejuvenescia-o o mar. Qualquer que +fôsse o estado do tempo, era infallivel encontral-o todas as noites, +pelas duas horas, descendo ao pequeno porto do barracão, a desencalhar a +canôa e logo fazer-se ao largo. + +E que saúde de ferro tinha elle! Jamais conhecera um incommodo, uma dôr +de cabeça! Rijo como o acapú, afrontava os temporaes com a impavidez do +fatalista. E pela madrugada, quem saisse á praia, não deixaria de +descortinar muito ao largo, no mar alto, a pequenina luz intercadente da +canôa do Deodato. + +Era rendoso o officio. Quando voltava á casa, depois do nascer do sol, o +pescador trazía atopetado o fundo da embarcação. Ninguém o vencia na +arte da salga, de tal modo que o seu peixe encontrava sempre melhores +offertas do que o dos demais pescadores da costa do Magoary, quando os +procuravam os compradores que iam revender em Belém. + +Mas tinha um defeito o Deodato:--era um impio. Deveria possuir a alma +egual á cutis, porque desprezava as leis de Deus e zombava impertinente +de todos os mysterios da religião e de todos os actos do culto catholico. + +Em balde buscara algumas vezes o padre +Simplicio--conheceram?--trazei-o á reflexão e demovel-o ao respeito pelo +Senhor. De tudo escarnecia o infeliz e, o que é mais revoltante, possuia +phrases curiosas, sophismas fustigantes, objecções irrespondiveis, para +combater os conselhos do sacerdote. Tudo era inutil. Não havia razão que +o impedisse de ir á pesca ao domingo e dia santificado como em qualquer +outro de trabalho. + +--Você ha de acabar mal,--avisava o padre, entre carinhoso e recriminativo. + +--Milhor p'ra mim,--retorquia o hereje, sarcastico. + + * + +Ora, uma tarde, era vespera de não sei que dia santo grande. Creio que a +Egreja rendia culto á Virgem sob a invocação de Senhora de Belém. Fazia +um calor enorme. O ceu estava claro, limpo, muito azul e tranquillo, +como tranquillo estava o mar. Na praia arenosa, as ondas vinham +desdobrar-se preguiçosamente, n'uma languidez ineffavel. Mas, ali perto, +nos mattos, estalavam os galhos, causticados pelo sol. E muito ao longe, +na linha do horizonte, alguns pontos sombrios, a custo avistados a olhos +nus, pareciam nuvens vagabundas no espaço ou podiam ser barcas de pesca +paralysadas á mingua de brisa. + +No barracão, Deodato, semi nu, fumava, destrançando as redes. De vez em +quando, assomava a cabeça á porta, a inspeccionar o ceu. + +Com a grande pratica que possuia, adivinhava, pressentia calma quasi +completa para toda a noite. Era isto de certo que lhe dava esse pequeno +rictus á commissura dos labios e lhe encrespava levemente a retinta +fronte. Maior trabalho seria o seu, pois far-se-ia necessario o remar +por longo tempo. Emfim, nem tudo podia ser feito á mercê dos desejos +humanos... E volvia á faina, de todo absôrto, fumando sempre. + +Á boquinha da noite, appareceu um visitante inesperado á porta do Deodato: + +--Póde-se entrar? + +Era o padre Simplicio. + +Sob o pretexto d'uma visita casual, pelo facto de passar ali proximo, ao +regressar da roça do Xico Sette, o sacerdote penetrava com o intuito de +verificar se o pescador iria aquella madrugada entregar-so ao costumado +trabalho. + +A occupação do Deodato mudou-lhe a supposição em certeza. + +--Não faça isso, homem de Deus; olhe que a festa é da padroeira da +cidade. Nossa Senhora não lhe perdoará a falta de respeito... + +--Ella bem que s'importa co'a minha vida!--respondeu o preto, com um +encolher de hombros que também poderia significar ao padre Simplicio o +fastio que as suas observações lhe causavam. + +--E se eu lhe pedisse que ficasse em casa, que viesse á minha missa, em +vez de ir amanhã á pesca; se eu invocasse a nossa amizade, afim de ser +attendido... + +Teve Deodato um sorriso franco, dilatado, apresentando entre a dupla +polpa dos labios os largos dentes alvos e disse com uma convicção +profunda, com um tom sarcastico e decidido: + +--Eu ia mesmo, sim, senhor!... + +Não houve razões logicas, pedidos, ameaças de penas eternas que o +demovessem. O negro era teimoso. Retirou-se o padre amuado, quasi +colerico, benzendo-se repetidas vezes no meio da escuridão do caminho, +tauxiada de pyrilampos loucos e murmurosa do longinquo coaxar de rãs, +nos lameiros. + + * + +Ficando só, Deodato franziu a testa e, mordendo o labio, lançou contra o +padre a reprovação tacita d'um gesto energico dos braços. O diabo do +padréca que tratasse dos seus negocios. E esta! + +Depois, comeu frugalmente, como de costume, um pouco de tainha moqueada +e logo atirou-se á rede, vencido pelo somno. + +Aquella alma de incredulo estava entorpecida inteiramente. Do contrario, +teria tempo de reflectir nas observações do sacerdote e quiçá algum +sonho o prevenisse da sorte que aguardava a sua irreligiosidade. Mas o +infeliz dormiu como uma pedra até que os gallos das roças proximas +soltaram no ar socegado os seus cantos da madrugada, despertando-o. + +Levantou-se o negro e, accendendo o farol, saíu com direcção á praia. + +Trilavam grilos, como n'este momento em que lhes falo. Na noite calma, +rebrilhavam estrellas, espelhando na superficie lisa do mar as suas +cabecinhas irrequietas. Nenhuma aragem movia os arbustos, as arvores do +mattagal. Coaxavam sempre as rãs, emquanto os sapos cururús dialogavam +com enthusiasmo. E, ao longe, dominando esses mil arruidos da noite, +vibrava ainda o cantar dos gallos, com um não sei que de +profundamente triste, n'uma plangencia de alma condemnada. + +Instantes depois, a canôa do Deodato fazia-se ao largo. Não havia sôpro +de brisa. A calmaria era completa. Elle, desde a tarde, esperava aquillo +mesmo. + +Mas, apezar da edade, tinha ainda bons musculos o velho pescador. Remava +á direita, remava á esquerda e o seu barquinho a pouco e pouco se +afastava, impávido, cortando a vaga indolente. + +Á pôpa, como de alcatéa, velava o farol, ia deixando pela esteira da +embarcação um rastro luminoso, que se prolongava desmesuradamente, em +direcção á terra. + +Além d'este, nenhum outro signal de vida poderia enxergar-se mais em +toda aquella extensão de costa nem sobre a linha do horisonte, do lado +do mar alto. Quem se atreveria a ir pescar na madrugada do dia +festivo consagrado á padroeira de Belém? + +D'isto mesmo deveria recordar-se o Deodato, quando se achava já a mais +de duas milhas de distancia, porque, fazendo meia volta ao corpo, olhou +para traz e teve no rosto renegrido uma suprema expressão de ironia +sorridente. + +--Tolos!--rosnou, volvendo logo a remar com furia, cravando a vista nas +redes colhidas ao fundo da canôa. + + * + +Meia hora depois, algumas pequenas nuvens sombrias tinham-se erguido lá +muito ao longe, escalavam o ceu, vinham galgando distancias, +desdobravam-se assombrosamente. Fitou-as o pescador, desconfiado. + +--Ué!--exclamou. Vento ou trovoada? + +Apezar da incerteza, ergueu o mastro, preparou a diminuta vela de +muruxy. E estava contente, porque já não precisaria de empregar maior +esforço. O remo já começava a cansal-o, que diabo... + +Mas convinha aproveitar o tempo. Levantou-se ainda, tomou uma das rêdes +e, com um gesto largo e facil, fel-a descrever um circulo por sobre a +cabeça, lançando-a depois á distancia que reputou conveniente. + +Colhendo-a, sentiu-a leve sobremaneira e não tardou em verificar que a +estréa fôra de todo improductiva. Não viéra um só peixe! + +Era estranho, porque aquelle sitio já tinha fama de rico em cardumes. + +Longinqua fulguração de relampago fel-o erguer o olhar. As nuvens +tinham subido ainda mais, haviam-se estendido em quasi dois terços do +espaço, pareciam agora as pesadas colgaduras de uma camara ardente. +Segundo relampago, muito distante, scintilou então. E uma pequena aragem +soprou fresca do lado do poente. + +Decididamente, ia cair a trovoada. Não podia Deodato perder um segundo: +içou a véla, manobrou no sentido de aproveitar o vento. E assim +afastou-se ainda mais de terra. Iria experimentar o mar a meia milha d'ali. + +Quando, depois de lançar a rêde em outro sitio, se dispunha a puxal-a, +pareceu-lhe estar extremamente pesada. Um sorriso de alegria +entreabriu-lhe os grossos labios. E então? Elle bem sabia que aquillo +era infallivel! + +Mas imaginem o seu assombro quando, depois de longos esforços, +conseguiu trazer á flôr da agua a rêde que julgava repleta e de repente +sentiu-a tornar-se completamente leve, encontrando-a logo de todo vasia, +sem uma unica pescada! + +Deodato não era homem para impressionar-se, porém não deixou de achar +bastante extranho similhante facto. + +N'esse momento, o espaço illuminou-se com um grande relampago, seguido +do estrugir medonho do trovão. + +O vento augmentara, passava agora sibilando nas cordas do pequeno +mastro, enfunando a véla com raiva, arrastando a canôa n'uma furia, +n'uma vertigem, á luz dos relampagos successivos, no meio de coriscos +que esfusiavam caprichosos por todos os lados. + +Comprehendeu o negro que a trovoada ia ter maiores proporções do que as +que lhe attribuira ao principio. Nada mais poderia fazer n'essa +noite. Aquillo era praga do Simplicio, pensava. Bem descontente, +resolveu regressar. Quiz passar o panno para bombordo, porém não teve a +precisa ligeireza e o vento, já de todo impetuoso, quasi invencivel, +arrancou-lhe das mãos o chicote da espia e n'um momento arrebatou a vela +em farrapos, n'um redemoinho sibilante pelo espaço. + +Só lhe restava o alvitre da resignação. E elle, habituado ás +inclemencias, affeito a mil e uma tempestades, sentou-se sereno á pôpa, +depois de abaixar o mastro: resolvera esperar o desenlace da crise. + +O que presenceou então foi horrivel. Choviam raios á direita, á +esquerda, por toda a parte. O ceu estava negro, agitado de ribombos +infernaes, a cada minuto illuminado tetricamente, deixando a +descoberto as grossas massas das nuvens fugidías. + +E o preto, longe de assustar-se, ali estava na barca, de braços +cruzados, sorrindo com cynismo. O mar tinha um aspecto que se casava com +a attitude hostil do espaço. Por toda a parte erguiam-se compactas +collinas liquidas, escancaravam-se horriveis, hiantes valles +phosphorescentes. Não chovia ainda, mas o vento, que zunia aos ouvidos +do negro incredulo, cuspia sobre elle milhares de gottas salitrosas +tiradas ás ondas freneticas, trementes. + +De subito, a amplidão toda se convulsionou, vibrou n'um estrepito +pavoroso, repercutindo um som innominado, jamais percebido pelo Deodato +em situações identicas. Avermelhado clarão illuminou tudo, revelou aos +olhos do negro toda a magestade d'aquella scena para a pintura da +qual, meus amigos, não tenho senão palavras inexpressivas e phrases sem +colorido. + +Ficou estarrecido o pescador. Sentira que a fragil embarcação era com +vigor sacudida! Mas a força que assim operava não vinha decerto do +embate das ondas. E a canôa tremia toda, rangia, vibrava +incessantemente, como se um braço de Adamastor a agitasse n'uns empuxões +cyclopicos e interminaveis. + +--Que diabo é is... + +Não pôde continuar. Deante d'elle, rodeado d'uma auréola de chammas, +tresandando a enxofre, emergia Satanaz! Levantou-se indizivel alarido: +os raios duplicaram o faiscar, ribombos estalaram mais cavernosos. Por +seu turno, o vento engrossou ainda mais as vagas, que chegaram +quasi a cobrir o barquinho. + +Porém só durou um segundo o estupôr de Deodato. Qualquer outro homem +succumbiria de medo. Elle, entretanto, como envergonhado d'esse instante +de susto que tivéra ha pouco, arrastou-se com esforço, ergueu a meio o +corpo ensopado e transido. Depois, levantando o olhar e o punho para o +ceu, proferiu, ou antes bramiu feroz imprecação satanica. + +O diabo,--porque era elle em pessoa que assim surgira do mar,--empunhara +uma espia e, correndo, cabriolando por cima das ondas loucas, entrou a +puxar o batel para o lado de terra. + +Aquella corrida frenetica durou um momento. D'ali a pouco, barco e +tripolante desfaziam-se de encontro ás pedras d'uma enseada, perto +da capellinha do logar. Viram os meus amigos a acção da justiça de Deus? + + ---- + +Calou-se o tenente coronel Fernandes. Estava offegante, com os labios +sêccos, o olhar animado. + +Mas resoou no aposento uma gargalhada stentorica, que despertou o +molequito no cólo do avô. + +Era este proprio, o Felix Jacaré, quem zombara d'aquelle modo. Logo, com +entonação escarninha, ponderou: + +--Não creiam n'essa balela de seu c'roné. O tar Deodato não foi pescá, +ficou na rêde muito socegado e despois sonhô essas coisa, 'hi 'sta. Seu +padre Simpricio, antão, arranjô o resto... + + + + +MATER DOLOROSA + + + + +MATER DOLOROSA + +A Bellarmino Carneiro. + +Ante-manhã. + +O vapor seguia rio acima, bem perto da margem, tão perto que, ás vezes, +as ramarias sussurrantes da floresta roçavam na coberta, estendiam +galhos sombrios por de sobre a borda. + +Ainda não haviam despertado as aves. O rio estava ali muito socegado, +reflectindo o mattagal, banhando os aningaes avelludados. Não +começára o arruido de passaros com que a alvorada é recebida, mas +persistiam, comtudo, os derradeiros murmurios dos animaes e insectos +noctivagos. + +A bordo mesmo, á ré, tudo parecia descansar ainda. + +Só o compassado resfolegar da machina denunciava que alguns entes +velavam a meia-nau, attentos aos avisos do pratico de quarto. + +Ao nascente, começava a desenhar-se uma tenue claridade,--o início do +fugaz crepusculo amazonico. A sombria noite diluia o negrume n'um suave +frouxel cinzento, muito mal esboçado, indeciso quasi. Estavam longe as +meias tintas côr de pérola e lyrio, precursoras das tonalidades rosadas +e azues, que a seu turno precedem as estridencias rubras e alaranjadas, +em breve esbatidas na tranquillidade definitiva dos aspectos mais +claros do dia adeantado. + +Ia amanhecer. + +Em uma porta de camarote, á pôpa, assomara um vulto sombrio de mulher. +Esteve ali um momento. Logo encaminhou-se á borda, perscrutando a +escuridão, por um lado, por outro, attentamente. + +Aquelle vulto vestia um trajo simples, de rigoroso lucto. + +Saudou-o da matta um silvo de passaro,--a primeira manifestação do +despertar das aves. + +O ambiente reacendia. Vinham da floresta virgem aromas capitosos de +cumarú e baunilhas. Pelos cipós que desciam dos galhos, formando +emmaranhamentos caprichosos, deviam escorrer as preciosas resinas que +trescalavam tão fortes effluvios. + +A mulher inspirou com força. Queria banhar os pulmões n'aquella +olencia. Em seguida, suspirou um suspiro triste; suspiro de viuva? +suspiro de mãe inconsolavel? + +Clareara um pouco mais. Ja se percebia todo o labyrintho de braços +folhudos que as arvores estendiam no ar, em contorsões. Uma suavidade +paradisíaca se diffundia na meia tinta da luz crepuscular. Era quasi sol +nado. Os passarinhos já haviam encetado o canoro certamen, volitavam +céleres. Á beira-rio, nenuphares ostentavam-se opulentos por de sobre as +polposas folhas que pareciam caprichos de esculptura em marmore verde. +Mil flôresinhas silvestres salpicavam a vegetação das margens, sem +nenhum acanhamento de uma ou outra victoria-régia que se dignava +mostrar-se entre os massiços dos mururés, os quaes recebiam da +correnteza um brando movimento de balouço. E, de um a outro lado do rio, +eram grandes bandos altíssimos d'aves aquaticas,--patos grasnadores, +pavõesinhos gemebundos, garças, cegonhas, toda a migração alada dos +desertos amazonicos. Estava ali a natureza intacta, no seu inalterado +aspecto milionario, tal como a viram os primeiros habitantes, as tribus +lacustres que fôram as raças autochtones. + +O vapor seguia sempre adeante, rente a terra, na mesma monotonia. +Aquella ascensão parecia o desvirginamento d'um éden. + +Iniciou-se a bordo a tarefa quotidiana. Alguns marinheiros appareceram +trazendo baldes, desdobrando mangas para irrigação. Rompeu a subitas o +sol, por além das mattas, n'um deslumbramento. + +Fugiu veloz para o camarote a madrugadora passageira. + + * + +Horas mais tarde, o commandante atravessou o tombadilho, foi bater-lhe á +porta. Seguiam-n'o trez ou quatro pessôas, que se conservaram a curta +distancia, dissimulando a custo grande curiosidade. + +Era de certo esperada a visita, porque, immediatamente, a mulher saíu a +recebel-a. Com a luz do dia, via-se que era uma anciã, de rosto enrugado +e fronte encanecida. Não tinha aquella physionomia outra expressão que a +do mais fundo soffrimento. E os olhos brilhavam extranhos, muito negros +e dilatados, entre longos cilios sedosos. + +--Já estamos,--disse-lhe o commandante. + +Ella penetrou de novo no aposento, mas volveu passado um instante. +Trazia uma corôa de saudades,--uma corôa tosca, evidentemente barata. E, +com o sorriso triste, murmurou ao capitão uma palavra de agradecimento. + +Depois, apertando com as mãos crispadas a humilde corôa sobre o coração, +foi ajoelhar-se junto á borda, suspirando, soluçando, toda desfeita em +pranto. + +Ali perto, na floresta, rebrilhavam flôres de sonho,--extranhas +orchídeas gigantes, catléas variegadas, osculadas de coleopteros +zumbidores. Crescia triumphal o canto dos passarinhos. + + * + +O grupo de passageiros arredára-se, n'um movimento de involuntario +respeito por aquella sincera dôr ignorada. No meio d'elles, o +commandante sentou-se taciturno e falou: + +--Não notam? Estou emocionado. Ha doze annos que vejo, em cada viagem, +duas vezes repetir-se este espectaculo e, no entanto, até aqui me não +familiarisei com elle. A prova é que abala-me ainda, como da vez +primeira que a elle assisti. Onde encontrar explicação para isto? De +certo que no immenso impulso d'essa dôr, na grandeza do sentimento que a +provoca e que ha de haver compungido o coração dos senhores todos, não é +verdade? + +O grupo teve um movimento egual de assentimento. Em algumas physionomias +brilhava uma curiosidade inequivoca. Mas o capitão proseguia: + +--Vou referir-lhes a causa d'este espectaculo com que não contavam +certamente os meus amigos. Esta senhora é a viuva do antigo +commerciante C. A., de Belém. O marido possuia seringaes no alto +Madeira, administrados por um primo. Raras vazes vinha a estas paragens: +a escala dos seus negocios no Pará impedia-o de visitar a propriedade, +perto da fronteira boliviana. + +Tinham um filho unico,--o pequenito Anselmo,--um mimo de creança, que os +senhores haviam de estimar se o vissem, uma só vez bastava. Moreno, +olhos negros e vivazes, tinha na franca physionomia alegre a +manifestação exacta d'um espirito aberto e elevado. Sympathico a valer, +bem educado aos onze annos, todos o queriam sobremaneira. + +Esta creança, um dia, perdeu o pae. Aquella senhora que ali está em +pouco tempo soube que os seus haveres se achavam reduzidos. Ella, +que sempre vivera na abundancia, não teve uma palavra de queixa. +Abençoando á memoria do eterno ausente, resolveu retirar-se para o +seringal, trabalhar como o ultimo cabôclo, afim de attender á instrucção +do pequeno. Para este voltaram-se todos os seus affectos. Quem ignora +ahi como sabem amar as dôces mães amazonicas? + +Dona Maria não tinha parentes proximos. Emprehendeu a viagem sem +saudades, n'este mesmo vapor. Trazia comsigo o retrato vivo do morto, +cuja existencia era continuada na louçania dos onze annos risonhos da +creança. + +A bordo, corriam felizes os dias. O Anselmito brincava sem pezares, +tinha em cada passageiro um camarada. E a bôa senhora quedava-se horas +esquecidas a fital-o de longe, no enlêvo da sua alma reflexiva, +folheando recordações posthumas, revendo saudades discretas. + +Foi ha doze annos. Uma tarde, não sei que passara ao menino: estava mais +brincalhão do que nunca. Ia por toda a parte, correndo, risonho, amavel +com toda a gente. De subito, um grito resoou, acompanhado d'um brado +d'alma, indescriptivelmente lancinante! Olhem, ainda o tenho aqui, a +vibrar-me nos ouvidos, esse grito de mãe desesperada! + +O Anselmo cavalgara o parapeito, n'um instante de descuido de todos nós +e, perdendo o equilibrio, rolara para o abysmo. Foi além, defronte +d'aquella immensa sapupêma. Em breves minutos lá estaremos. Parou o +vapor, desceram escaleres, fez-se inuteis pesquizas durante vinte e +quatro horas seguidas. + +O cadaver adorado não appareceu. + +De então para cá--e quantas viagens tenho eu feito?--a infeliz mãe não +deixa o _Mahissy_. O seu affecto retempera-se em passar incessantemente +por sobre o sitio onde as aguas caudalosas do Madeira tragaram aquelle +corpinho tão fragil e tão querido. De cada vez que por aqui singramos, +dona Maria ajoelha-se lacrimosa e, ao chegar ao logar fatídico, arroja +piedosamente ao rio uma corôa de saudades artificiaes. Não tem aqui +flôres naturaes, a pobre; mas acaso não são bem viridantes as flôres do +seu coração, as tristes flôres do pezar eterno? + +Nunca mais foi a terra. O seringal, vendeu-o logo, pela metade do preço, +Gasta o dinheiro em passagens para si, e corôas para o anjinho. Já devem +estar bem reduzidos os capitaes da desgraçada. Causa-me isto uma +lastima profunda. Mas attendam... + + * + +Dona Maria erguera-se, n'um impulso desvairado. Levantou por cima da +cabeça a mesquinha corôa toda banhada de sol e arrojou-a á agua. + +O rio tragou a funebre contribuição, fechou-se murmuroso, em circulos +concentricos. A anciã tornara a cair genuflexa, soluçante e +transfigurada no seu apaixonado desespero. + +Em terra, bem á orla da floresta ancestral, mil aves garrulavam na copa +gigante d'uma feroz sapupema secular. + + + + +Yaras paraenses + + +YARAS PARAENSES + +No copiar da chacara, aquella noite, haviam-se reunido alguns vizinhos +do commendador Esteves, o principal proprietario do Pinheiro. + +Rêdes fechavam os angulos, pendentes dos esteios. Era uma roda de +homens. Todos balouçavam-se, acalorados, aguardando o assahy que n'esse +momento a mulata Josepha amassava na cosinha. + +O luar de agosto penetrava em diagonal, diaphano, trazendo toda a +melancholia profundíssima das incomparaveis noites equatoriaes. Da +matta pouco distante, lavada de luar, vinha o monotono arruido dos +insectos nocturnos, o alarido dos cururús teimosos. Na gaiola pendente +do tecto sem fôrro, um caraxué silvava. E do rio, que corria ali perto, +ao fundo da ribanceira, subiam com a brisa refrigerante os rumores dos +barcos de pesca fazendo-se ao largo, para a foz. + +Fumava-se, conversava-se. Haviam já discutido os negocios do dia, na +capital. Esteves encetara mesmo um poucochinho de politica. Portuguez de +nascimento, não queria immiscuir-se em assumptos partidarios; mas tinha +por elles sua predilecção e nunca deixava de externar uma ou outra +opinião, sempre muito conservador e ordeiro. + +N'essa tarde, viera com elle passar a noite na rocinha o velho Barriga, +seu aviado do alto Xingú. Era um cabôclo adiposo, de ventre +proeminente e face larga. Apparencia insignificante, matreirice innata: +o typo commum do seringueiro indígena. Trouxera a mulher, que já estava +recolhida ao quarto destinado ao casal. + +Achava-se também presente o subdelegado Fonseca, antigo solicitador dos +auditorios, agora enviado ao Pinheiro afim de preparar recursos para uma +eleição proxima. Era esta a sua especialidade, ao que parecia. Em todo o +caso, rendia mais do que a primitiva profissão. Um presidente vindo da +Côrte não tivéra extraordinaria difficuldade para convencel-o d'isto. + +Mas a palestra veiu naturalmente a versar sobre assumptos do sertão. A +um quint'annista de direito, que villegiaturava todo o anno, +explicara já o Barriga a pesca do pirarucú e o preparo da grude de +gurijuba. O quint'annista era, n'este ponto, d'uma ignorancia absoluta: +não admirava a sua curiosidade. + +Os demais circumstantes escutavam n'um silencio discreto, bocejando. Nas +intercadencias da narrativa, apenas se ouvia o ranger das escápulas pelo +movimento das rêdes e o farfalhar dos galhos, matta fóra. + +Uma voz reclamou um conto indígena, uma lenda amazonica. Não +comprehendeu a phrase o Barriga. Quedara-se a olhar o interlocutor, +cortado. + +--Historias de bôto, do curupira, da mãe d'agua,--explicou o subdelegado. + +--Han!--rosnou o cabôclo. Tudo isso é mentira, acredite! + +--Como! Pois o senhor atreve-se a negar o que todos no sertão +asseguram ser verdade evidentíssima? + +Sorriu o velho, superiormente. Tinha no rosto uma profunda piedade, pela +bôa fé do cidadão. Ergueu-se, afivelou o cós da calça e, espreitando +para o lado do quarto da mulher, congregou os companheiros em circulo +diminuto. Estava transfigurado: era um philosopho stoico. + +--Vocês ouviram já falar em yaras, não?--perguntou. Pois é tudo mentira +também. + +E abaixando a voz: + +--Só ha uma especie de yaras,--proseguiu. Essas, porém, não vivem no +fundo dos rios da minha terra, estão, ahi, na cidade; vi hoje á tarde +uma porção, quando fui com seu Esteves tomar o vapor. São as mulatinhas +cheirosas a periperioca e jasmins, sabem? as verdadeiras yaras +encantadas. Mas precisamente não é para o abysmo das aguas que +arrastam a gente!... + +--Seu Barriga, venha dormir!--gritou no outro extremo do copiar a +encanecida e rotunda esposa do velho cabôclo do Xingú. + + + + +Uma historia de amor + +(DOCUMENTOS HUMANOS) + + + + +Uma historia de amor + +(DOCUMENTOS HUMANOS) + + +PRIMEIRA QUINZENA + + +I + +Senhor,-- + +Não posso attendel-o. Tenho deveres sagrados a cumprir, uma posição +social a zelar. Esqueça-me. + + (_Sem assignatura_). + + +II + +Senhor,-- + +Julgo-o um cavalheiro e acredito-o sincero, por causa da assiduidade com +que me procura. Acceito o seu convite para jantar,--mas somente no +intuito de o dissuadir d'essa loucura que nunca poderá ser +correspondida. Até logo. + + ELISA. + + +III + +Sympathico amigo,-- + +Porque insiste? Estimo-o como um camarada, quasi como a um irmão. Não +posso, entretanto, perdoar-lhe a impertinencia:--meu marido nunca será +enganado. + + ELISA. + + +SEGUNDA QUINZENA + + +I + +Bom amigo,-- + +Exactamento como o senhor, estou bastante incommodada por tremenda +enxaqueca, que obrigou-me a ficar deitada até agora. A sua amavel carta, +cheia de phrases tão meigas, traz-me certo lenitivo e me dá a energia +necessaria para tomar a penna. Demais d'isto, a satisfação de +escrever-lhe faz-me esquecer os proprios soffrimentos. + +Não me agradeça tanto o serão de hontem, ao jantar. Se o sr. +comprazeu-se com a minha companhia, o mesmo aconteceu commigo; não +tenho, pois, merito algum em fazer o que ditam os meus mais caros +desejos. + +Quanto mais conversamos, mais vou eu descobrindo no meu bom amigo +sentimentos e gostos que correspondem aos meus. A surpreza rejubila-me; +similhante analogia de caracter e de idéas é demasiado rara para que eu +deixe de admirar-me, sobretudo se encarar as barreiras sociaes que nos +separam e a differença de classe a que pertencemos.--A sua cartinha de +hoje é uma pequena obra-prima de cariciosas phrases. Quero crel-o, +desejo acredital-o. Já não posso duvidar do senhor. Julgo-o sincero, +porque _nada_ o obriga a ter procedimento egual ao seu. O sr. é +demasiado superior de espirito para ligar tanta importancia a uma vulgar +questão de materialismo. Por consequencia, a logica me compeliu a +suppol-o franco em seus sentimentos apparentes. Quanto a mim, +entrego-me toda ao senhor, intellectualmente. Juro-lhe que sou sincera, +mesmo--e sobretudo--nas minhas ingenuidades. + +O sr. é sceptico, já m'o disse; isto é, preveniu-me do trabalho que eu +teria para fazer-me acreditar. Não ignoro as prevenções que têm os +homens pelos sentimentos affectados. Todas as mulheres são enganadoras, +voluveis, mentirosas, mas todas têm, comtudo, momentos de real +sinceridade. Encontro-me em um d'esses momentos. E note, meu caro Jorge, +que não digo isto para differençar-me das demais mulheres e tornar-me +importante aos seus olhos. Não, porque possúo todos os defeitos acima +enumerados. Melhor do que ningúem, sabe-o o senhor, porque estou prestes +a enganar o homem com quem vivo. Verdade é que esse homem é um +imbecil e que nunca sympathisarei com tal cathegoria de caracter. Não +digo isto para desculpar-me aos meus proprios olhos, pois só me importo +com a minha consciencia e não com alheias opiniões. Digo-o, sim, á laia +de informações a respeito dos meus sentimentos reaes, no intuito de +fazer-lhe comprehender que, do senhor para mim e reciprocamente, deve +estabelecer-se uma corrente de escrupulosa sinceridade, pela simples +razão de que eu e o sr. não somos impellidos um para o outro por outro +interesse que não seja o nosso capricho,--ou, se mais lhe apraz e para +falar mais exactamente, pela especie de correlação que existe entre os +nossos dois espiritos. + +Como vê, sou mais franca do que o sr. É talvez um mal. Por +principio, uma mulher, posto que enamorada, nunca deve revelar +inteiramente a sua alma. Eu, porém, tenho-o na conta do mais leal dos +homens, do mais generoso dos corações. Serei algum dia despertada +cruelmente d'este adoravel sonho? + +Percebo que tenho ainda muitas coisas a dizer-lhe: tomo, pois, outra +folha de papel. Ha de fazel-o sorrir tamanha expansão. Que quer? Tenho +tantas phrases agitando-se-me na cabeça.... Emfim, perdôe-me. Desejo que +o sr. me conheça bem e saiba completamente o que sou e o que quero. + +Não imagina até que ponto aprecio a attenção tão firme mostrada para +commigo, vae fazer um mez. Agradeço-lh'o deveras, porque isto me +satisfaz immenso. Lembra-se da carta em que lhe pedia que me +esquecesse? Pois bem; hoje tem o meu querido amigo a razão por que lhe +dizia essas palavras. Não o conhecia bem e receiava affeiçoar-me +demasiado a um homem cujas apparencias eram as de um aristocratico +_viveur_.--Sinto que hei de amal-o, que hei de amal-o talvez mais do que +o sr. deseja e o amor é, ás vezes, cruel tyranno intransigente e +molesto. O sr. agora está prevenido: póde defender-se. Não venha um dia +lamentar-se pelo facto de haverem-se tornado demasiado serios os meus +sentimentos. + +Tenho o genio tranquillo. De temperamento frio, difficilmente me +enthusiasmo. Com respeito a questões graves, nada emprehendo sem antes +prever os resultados do acaso ou do imprevisto. Nunca foi meu fraco a +leviandade. É por isso que faço questão de patentear-lhe a alma da +mulher que o senhor tem deante dos olhos e que espero nunca será +considerada com volubilidade. + +Conhece-me agora, querido amigo. Esta carta é uma confissão: nunca fiz +outra egual. Sem falsa vergonha revelo os meus defeitos e fraquezas, +sabendo a quem os confio. + +Falemos agora de coisas que interessam á vida physica. Nada tenho a +dizer-lhe sobre o ponto que trata do aposento em questão: approvo o que +fez. Veja que o ninho seja bem discreto, bem mysterioso, para esconder +perfeitamente a felicidade que vae abrigar. + +Até amanhã. + + ELISA. + + +II + +Jorge,-- + +Volto do passeio n'este instante com meu marido e encontro a tua carta. +Então, meu querido, já estás mau e injusto sem motivo! + +Em primeiro logar, dizes--_a senhora_, o que, na correspondencia, é um +matiz bem accentuado de frieza. Não é bonito isso. + +Depois, agastas-te sem razão. Não conheces acaso a minha existencia? Não +ignoras que goso de uma liberdade limitada. Além d'isso, não temos +ambos, eu e tu, as nossas respectivas obrigações? Differentes, sem +duvida, dir-me-ás, porém isso não impede que seja imprescindivel +cumpril-as todas. + +Tens graça affirmando que eu podia arranjar um pretexto! Invento-os +todos os dias, mas lá vem um instante em que os argumentos minguam e +mistér se faz pagar o tributo da propria presença, como hoje aconteceu. + +Não sejas, pois, injusto:--eu soffreria bastante. + +A vida que levo não tem alegrias para mim, acredita-me. E, se vens ainda +augmentar-me os desgostos com recriminações que não mereço, ainda mais +me entristecerás. + +Amo-te, bem o sabes. Se não o crês, é porque impede-te o teu +scepticismo. Como provar-te, entretanto, o meu amor? + +Vê se sou corajosa: escrevo esta carta (e bem notas com que +tranquillidade), deante de quem sabes. Não posso mostrar mais audacia, +mais temeridade, parece-me. _Elle_ anda ao redor de mim, com +olhares atravessados, que me encolerisariam se eu já não estivesse tão +predisposta contra elle. + +Até logo. Não sejas tão mau com a tua + + ELISA. + + +TERCEIRA QUINZENA + + +I + +Meu querido,-- + +Vou mais uma vez enfastiar-te com a minha prosa quotidiana, porém agora +tenho uma desculpa:--estás doente. + +Como te encontras hoje? Cada vez melhor, presumo-o e desejo-o com toda a +minha alma. + +O tempo está mau, trata-te bem, não faças imprudencias nem +affrontes o ar humido e doentio das ruas lamacentas depois da chuva +d'esta noite. + +Muito penso em ti e soffro extraordinariamente por te não ver ha longos +dias. Tu, meu amigo, que tão bem conheces o coração das mulheres, ainda +desconheces o meu, que, no emtanto, possues inteiramente... ou antes, +conheces demasiado a esse pobre musculo e é por isso que ás vezes o +fazes soffrer bastante. + +Adeus, meu amor. Trata-te com cuidado e recebe toda a ternura da tua + + ELISA. + + +II + +Jorge,-- + +Depois do que se passou hontem á noite entre nós, tomo a prudente +resolução de libertal-o da minha presença, que o importuna de certo +tempo para cá. Esta carta é a da sua alforria: sae ao encontro das suas +intenções, que, mais hoje, mais amanhã, seriam propostas de certo. + +Não me surprehende a sua conducta. Sinto não haver-me equivocado, porque +amava-o. O sr. é muito caprichoso e nunca teve affeição por mim. Nunca +houve no mundo caracteres tão deseguaes como os nossos. Os nossos gostos +e sentimentos andavam em regiões absolutamente oppostas, bastante tarde +o comprehendo. + +Adeus, por tanto. Cure-se, restabeleça depressa a saúde, que eu desejara +saber completa, mesmo sem nunca tornar a vel-o. Adeus. + + ELISA. + + ---- + +Conforme. + + + + +A filha do pagé + + + + +A filha do pagé + + A Martin Garcia Mérou + + +I + +No rio Negro. + +Das margens, nenhum som da vida animal perturbava a tranquillidade das +coisas. A pino, o sol mordia as densas vegetações sombrias, fustigava +tenaz uma ou outra borboleta vagabunda sobre os nenuphares exhaustos. O +rio seguia monotono, n'um esvaimento; apenas pelo meio, lá ao +largo, a correnteza fervia em cachões, borbulhava entre escumas +alaranjadas, depurava-se de todos os residuos que acarreta a grande +arteria aquatica. + +Pela beirada, aproveitando o remanso, ia subindo vagarosa, impellida +pelo remo de pá, a canôa de pae Francisco, o velho pagé de Curralinho. + +Vinha de longe, o solitario viajante. Emprehendêra a operosa navegação, +que almejava fôsse a sua ultima ascensão para o centro, em busca do +absoluto socego onde podesse sondar a sua dôr e dar largas ao pranto que +não seccava ha seis mezes. Fugia do logar onde fôra feliz e poderoso. +Além, no mysterio das florestas intactas, na grandiosidade da natureza +virgem, havia de encontrar o lenitivo para as amarguras da alma +lacerada. + +Uma ternura afagava-lhe o espirito, onde renasciam vislumbres de +esperança. Esquecer o passado, não o desejava. Seria buscar o +impossivel. A que ousava aspirar, n'uma humildade de supersticioso, era +á pacificação circumdante, para rever a seu gosto agridoces saudades, +resuscitar as reminiscencias, fruir as meigas recordações dolorosas dos +tempos idos. Era isto querer em demasia? + +Remava sempre, semi-nú ao centro da embarcação, com o dorso exposto á +soalheira, suarento, a cabeça ora para deante, ora erguida, no movimento +dado ao remo. Nada via do lado da terra. A vegetação crescia opulenta, +emmaranhara glaucas barreiras invenciveis de raizes, troncos, ramagens e +lianas. Por cima de tudo isto, palmeiras carregadas de tractos +trapejavam brandamente e dos galhos, d'entre massiços mais claros +de folhagens tenras, pendiam as orchídeas, na gala aristocratica dos +seus caprichosos matizes. + +Ás vezes, adeante da canôa, pinchava um peixe assustado, levantava +innumeras gottas, achamalotava de arripios fugitivos a negrura do +remanso. Mas o velho quedava-se impassivel, remando sempre, fixo na idéa +de fugir de Curralinho. O aspecto exterior do mundo não o interessava; +debatiam-se-lhe tumultuosamente no espirito milhares de pensamentos +retrospectivos, um só dos quaes era bastante para dominar-lhe a attenção +inteira. + + +II + +Era simples a historia d'esse homem. + +Nascêra e crescêra em Curralinho. Filho d'um antigo cabano, fizera-se +pagé quando lhe morrêra o pae. + +Desconhecido ao principio, teve de esperar paciente que os seus feitos o +acreditassem na população, trazendo a pouco e pouco o exito que tamanha +fama lhe grangeou depois. Ao chegar á edade madura,--estava +definitivamente consolidada a sua reputação. De muitas leguas ao redor, +vinham durante o anno centenas de pessôas recorrer-lhe ao talento com a +fé cega dos supersticiosos e dos crentes. + +Uns,--a nata da gente culta de Curralinho,--tinham-n'o na conta de +brégeiro especulador. Mas a parteira Eudoxia proclamava convicta o +sincero devotamento de pae Francisco áquillo a que ella, com um pouco +menos de propriedade na expressão, chamava o seu sacerdocio. Levava +mesmo o espirito justiceiro a assegurar, com a responsabilidade do +testemunho evidente de cem pessôas, que, para resolver uma situação +difficil de puerperio, mais valiam as imposições cabalísticas da dextra +do apregoado pagé, do que toda a sua longa pratica, d'ella depoente +insuspeita, associada á infallivel interferencia de São Raymundo Nonato. + +Especulador ou convicto,--não vem a pêllo esmerilhar o fundo d'aquelle +caracter. Talvez mesmo tivesse ella as duas qualidades que são, quasi +sempre, o acúleo do seu e de identicos mestéres. O que havia de positivo +era a adoração que sentia pela filha,--um encanto de caboclinha +rechonchuda e capitosa, que lhe déra a companheira, momentos antes +de morrer. Fôra essa a unica vez que falhara a sua sciencia de mago. +Será verdadeiro o aphorismo de que santos de casa não fazem +milagres?--perguntava, benzendo-se trez vezes, a velha Eudoxia. + +Toda a villa conhecia e estimava a repariguita. O pae tinha-a fóra de +casa, com a gente d'um amigo intimo. Ia vel-a todos os dias e passavam +longas horas sem que elle interrompesse o affectuosíssimo colloquio, que +tão deliciosamente banhava de inenarraveis venturas o seu singelo coração. + +Que gloria valia a de ser pae de similhante creatura? + + +III + +Creara-a elle proprio, desde os primeiros dias da dupla viuvez do seu +corpo e da sua alma. Descrever toda a serie de cuidados, de attenções, +esperanças e sustos desenvolvidos por pae Francisco, seria traçar o +poema de um heroismo commum no bemdito solo amazonico. + +Fôra elle a sua ama secca,--mas disvelado como nenhuma. Tinha um geito +especial para amimar a pequenita creatura, apaparical-a com terna +bondade, que era um gosto espreital-o no desempenho d'essa funcção +providencial. Havia, assim, n'aquelle extranho ser, duas entidades +heterogeneas, uma dualidade admiravel, que tão profundo contraste +estabelecia entre o terrivel feiticeiro abracadabrante e o pae melifluo, +de olhos deslavados em sorrisos de adoravel meiguice. + +Quedava-se o cabôclo, a cada instante, longo tempo a rever na face +inexpressiva da creancinha as feições d'um ente estremecido, para sempre +entregue á dissolvencia definitiva, no sombreado cemiterio da villa. O +seu affecto fazia ricochete na muralha da morte e volvia inflorado de +carinhos, fúlgido de enternecidas esperanças, a formar a aureola +transcendente que exalçava o futuro da creancinha. + +Felicia chamara-a, n'um augurio de ventura. Quantas horas não ficava +absôrto, á beira rio, sonhando acordado mil felicidades para o +enlevo da sua alma solitaria, para a filha idolatrada que ali +medrava a seu lado, na força da vida ao ar livre, sem peias physicas a +entorpecer-lhe a pujança da infancia? + +Vieram, mais tarde, outros cuidados. Necessario se tornava dar fórma a +um espirito vivo, a uma intelligencia agil e vigorosa. Já não bastavam +as attenções materiaes. A _ama sêcca_ devia tornar-se n'um educador +perfeito e elle soube sel-o com exito, no seu meio, nos limites da +propria visualidade espiritual. Não têm as almas, ainda as mais simples, +um mundo de idéas sãs, um thesouro de sentimentos puros, tão efficazes +na comprehensão dos deveres moraes? + +A philosophia do pagé de Curralinho era singela como a simplicidade da +sua existencia, vigorosa como a pujante natureza circumdante. + +Mas a creança da vespera tornara-se mulher. Novos sobresaltos para o +pae. Não lhe bastava a convicção de lhe haver insuflado á alma os mais +sãos conselhos. Uma nuvem de desconfiança lhe entenebrecia o coração. Os +sustos perseguiam-n'o sempre, mesmo no meio dos somnos agitados. A sua +preoccupação constante era esta: amparar a filha contra o assalto da +concupiscencia. Se houvesse necessidade de comparal-o a algum personagem +do romantismo, nenhum vulto era mais adequado ao símile do que o do +apaixonado truão de Francisco I. + +Pozera-se de má catadura, encanecêra, tornara-se rispido e intolerante +com todo o mundo. Em cada individuo via um ladrão da sua felicidade. E, +nos dialogos com a filha, ao luar, ao longo da ribanceira, dominando o +Amazonas, tinha encantadoras expressões de meiguice, phrases cariciosas +como osculos de creança amimada,--admiraveis esforços para prender e +enleiar definitivamente um affecto que elle receiava--ou +adivinhava?--perder um dia. Esta unica idéa lhe dava febre. Era, então, +n'uma languidez voluptuosa e pura, que recebia os beijos filiaes da +virgem, perfumada a periperioca, agitada n'uma ternura reconhecida. + + +IV + +Este encanto durou pouco. Felicia amara, alfim, outro sêr extranho, com +um novo sentimento cuja diversidade reconheceu tão grande, que não teve +animo para confessal-o. + +Ignorando tudo, o pagé contemplava satisfeito, na apparente +tranquillidade da caboclinha, o são producto dos seus conselhos. + +Um regatão de longe--lá das bandas de Macapá--fôra o perturbador +d'aquelle singelo coração. Era moço, valente, um bello typo de tapuia +varonil. A sympathia da rapariga fez-se primeiro enthusiasmo doidivanas, +assumiu depois as proporções de violenta paixão. + +Felicia não tinha já a mesma fixidez attenta no olhar quando a encarava +o pagé. Distrahida, oppressa por vago mal estar, buscava a solidão, +isolava-se por gosto. O pae attribuia esse estado a causas puramente +physicas. Entretanto, quem surgisse, alta noite, por perto do copiar da +casa onde vivia a moça, havia de enxergal-a nos braços do regatão, +soluçante de amor, gemente de desejos. + +Não podia prolongar-se o novo estado de coisas. Um dia, ao amanhecer, +foi o pagé avisado que lhe fugira a filha. Por uma reveladora +coincidencia, desapparecêra também do portosinho da villa a canôa do +regatão. + +O velho cambaleara, caíra sem sentidos. Trez semanas esteve á morte, +ardendo em febre, delirando entre pesadêlos horriveis. Todo o +povoado emocionou-se á narração de tamanha dôr. Os mais endurecidos +corações, aquelles que chamavam feiticeiro e perverso a pae Francisco, +tiveram para elle um movimento de sympathia, uma pontinha de dó. + +Eudoxia, entretanto, não ficara socegada. Varonil, resoluta, organisou, +com o auxilio de dois amigos que equivaliam a duas dedicações poderosas, +uma expedição em busca de Felicia. + +Alguém disséra que o regatão tomara o caminho de Gurupá. Na mesma +direcção seguiram a parteira e seus auxiliares. Dois mezes depois--nem +tanto, talvez--estavam de volta. Rocebeu-os o velho n'um desanimo, com +um sorriso triste, quasi idiota, na face desfigurada. + +Tudo inutil. Felicia morrêra em viagem. Havia-a destruido a +variola. O regatão enterrara-a n'uma escarpa e ficara louco, ao +abandonal-a para sempre á orla da floresta, sob uma chuva interminavel +de flôres capitosas. + +Pae Francisco manteve-se calado, imperturbavel; só dois grandes fios de +lagrymas deslisaram-lhe pelas faces, cortando o rictus que a immensa dôr +formava em cada commissura dos labios. + +Meia hora depois, elle também partia, sem despedidas, n'uma canoinha +leve, subindo o Amazonas. + +Eis porque, ha pouco, o encontramos, lavado em suor, a cabeça ora para +deante, ora erguida, no movimento dado ao remo. Ha alguns mezes já que +saíu de Curralinho. Segue pela beirada, aproveitando o remanso do rio +Negro. + +Foge do logar onde fôra feliz. Não terá direito a aspirar ao +lenitivo para a alma lacerada? + +Como nenhum som de vida animal perturba a tranquillidade das coisas, +está perscrutando a intensidade dos proprios pezares, sopesando a agonia +do coração encarquilhado. + +Vae sempre para o centro, n'uma ascensão dolorosa, martyr da bôa fé. No +espirito, afagado por indefinida ternura, renascem-lhe vislumbres de +esperança. Não é que pretenda esquecer o passado. Busca apenas o socego +absoluto das florestas intactas, para dar largas ao pranto que não secca +ha seis mezes. + +Demais, no meio da pacificação circumdante, não poderá elle rever a seu +gosto agridoces saudades e convulsar baixinho, muito baixinho, com a sua +querida Felicia,--não a fugitiva,--mas a outra, a pequenita, a que +o preferia sempre, aquella que elle creara como ama secca e ainda +conservava pura e infantil no fundo do amantíssimo coração? + + + + +INDICE + + +PRIMEIRA PARTE + +Subjectivismo + Paginas + O isolamento 15 + Gaivotas 27 + O Naufragio do Purus 39 + Brinde a minha Filha 49 + O cemiterio da floresta 57 + Um anniversario 67 + +SEGUNDA PARTE + +Objectivismo + + A pesca do Deodato 89 + Mater dolorosa 113 + Yaras paraenses 129 + Uma historia de amor 137 + A filha do pagé 153 + + + + +ESTE VOLUME +foi impresso, gravado e brochado +para Arnoldo Moen, editor, +314, Florida, 314 +BUENOS AIRES +10 de fevereiro de 1896 + + + + + +End of Project Gutenberg's Entre as Nymphéas, by João Marques de Carvalho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENTRE AS NYMPHÉAS *** + +***** This file should be named 29161-8.txt or 29161-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/9/1/6/29161/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Entre as Nymphéas + +Author: João Marques de Carvalho + +Release Date: June 19, 2009 [EBook #29161] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENTRE AS NYMPHÉAS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + +<p> </p> +<p> </p> + +<div style="text-align:center;"> +<p style="font-size: 1.2em;">OBRAS DE MARQUES DE CARVALHO</p> + +<p>VII</p> + +<p style="font-size: 1.5em;">ENTRE AS NYMPHEAS</p> +</div> +<p> </p> +<p> </p> + +<table align="center" summary="Obras do autor"> +<tr><th colspan="2">DO MESMO AUCTOR</th></tr> + +<tr><td>O S<small>ONHO DO </small>M<small>ONARCHA</small></td><td>Opusculo</td></tr> + +<tr><td>L<small>AVAS</small></td><td>Opusculo</td></tr> + +<tr><td>P<small>AULINO DE </small>B<small>RITO</small></td><td>Opusculo</td></tr> + +<tr><td>H<small>ORTENCIA</small></td><td>1 volume</td></tr> + +<tr><td>O L<small>IVRO DE </small>J<small>UDITH</small></td><td>1 volume</td></tr> + +<tr><td>C<small>ONTOS </small>P<small>ARAENSES</small></td><td>1 volume</td></tr> +</table> + +<p> </p> + +<div style="text-align:center; border: solid 1px #000;"> +<p> </p> +<p style="font-size: 1.2em;">J. MARQUES DE CARVALHO</p> + + +<p> </p> + +<p style="font-size: 2em;"><span style="margin-right: 3em">ENTRE AS</span><br> +<span style="margin-left: 3em">NYMPHEAS</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p><img src="images/capa.png" width="50%" border="0" alt="Ilustração da capa"></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>B<small>UENOS </small>A<small>IRES</small><br> +Arnoldo Moen,—editor<br> +Calle Florida N.º 314<br> +1896</p> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + + +<h3>INDICE</h3> + +<table align="center" border="0" summary="Indice"> + <tbody> + <tr> + <th colspan="2">PRIMEIRA PARTE</th> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Subjectivismo</th> + </tr> + <tr> + <td> </td> + <td style="text-align:right;">Paginas</td> + </tr> + <tr> + <td>O isolamento</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_15">15</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Gaivotas</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_27">27</a></td> + </tr> + <tr> + <td>O Naufragio do Purus</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_39">39</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Brinde a minha Filha</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_49">49</a></td> + </tr> + <tr> + <td>O cemiterio da floresta</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_57">57</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Um anniversario</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_67">67</a></td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">SEGUNDA PARTE</th> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Objectivismo</th> + </tr> + <tr> + <td>A pesca do Deodato</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_89">89</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Mater dolorosa</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_113">113</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Yaras paraenses</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_129">129</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Uma historia de amor</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_137">137</a></td> + </tr> + <tr> + <td>A filha do pagé</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_153">153</a></td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div id="corpo"> +<h1>PRIMEIRA PARTE <br> +SUBJECTIVISMO</h1> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">A minha esposa</p> + +<p> </p> + +<p><em>Esta parte do volume é intima, subjectiva.</em></p> + +<p><em>Suas paginas constituem o trabalho d'um artista apaixonado e d'um homem +de coração, durante uma viagem entre as nympheas, na região dos nenuphares e da +Victoria Regia, pelos rios Amazonas, Negro e Madeira, ha seis annos.</em></p> + +<p><em>O labutar objectivo do auctor em busca da expressão naturalista da arte +encontra aqui uma occasião de pausa roborante, emquanto fala a alma, na livre +expansão da sua illimitada sinceridade e de todas as forças affectivas que +possue.</em></p> + +<p><em>Eu devia esta homenagem ao amparo dos meus desanimos, ao jubilo dos meus +dias prazenteiros,—á insubstituivel companheira a quem dedico esta metade do +volume. Doze annos de intensíssimo affecto necessitavam de uma +commemoração.</em></p> + +<p> </p> + +<p>Buenos Aires, 1895.</p> + +<p style="text-align:right;">Marques de Carvalho.<span class="pn"><a name="pg_15">{15}</a></span></p> + +<p> </p> + +<h1>O ISOLAMENTO</h1> + +<p> </p> + +<h2>O ISOLAMENTO</h2> + +<p style="text-align:right;">A Coelho Netto</p> + +<h3>I</h3> + +<p>Ergui-me com a estrella d'alva, esta manhã.</p> + +<p>Oppresso pela atmosphera pesada do aposento, saí logo ao terraço, a receber +em cheio na face a brisa que, desde o interior da casa, eu ouvia sacudir +valentemente as grandes arvores da floresta, ali perto.</p> + +<p>Logo bebi, sôfrego, esse ar embalsamado que enchia o ambiente.<span +class="pn"><a name="pg_18">{18}</a></span></p> + +<p>Uma alegria sem par empolgou-me o espirito, sem duvida suscitada pela +grandiosa belleza circumdante. Embrenhei-me na matta, seguindo uma azinhaga. +Começava a amanhecer. Havia no ar esse murmurio das aves que +despertam,—bulicio tepido que só podem avaliar os madrugadores na roça,—um +como roçar voluptuoso do frouxel suavíssimo que exorna as innumeras legiões +canoras do Amazonas.</p> + +<p>Não sei o tempo que andei quasi ás apalpadelas, ao longo do carreiro. +Interessava-me tanto pelo duplo acordar dos ninhos e das plantas, que só +reparei em mim mesmo quando, já dia claro, encontrei-me no cantro de uma bella +clareira. Por cima de mim, balbuciava a brisa dulcíssimos rumorejos, agitando +as copas verdejantes. Em derredor, porém, era, ás vezes, absoluta a +tranquillidade das coisas.<span class="pn"><a name="pg_19">{19}</a></span> Por +intermittencias, nem mesmo um ciciar de passarinho, ou esse mysterioso, +farfalhante correr de lagarto, que parece suscitar não sei que extranhos +sobresaltos nas florestas do meu paiz.</p> + +<p>Formava a clareira como um salão circular preparado pela natureza para +receber-me. E, para que nada faltasse, havia, ao fundo, extendido como um +luctador exhausto, um grande tronco secular, que alguma tremenda tempestade +derribara. Amplo, coberto do limo que arremedava a fôfa disposição dos estôfos +valiosos, esse gigante vencido offerecia-me commodo assento rustico. +Entretanto, não utilisei-me d'elle: sentindo-me bem, sentindo-me feliz, estava +longe da fatiga. Por insensivel movimento de dominio orgulhoso, apenas puz-lhe +o pé no dorso, vencedoramente.</p> + +<p>Na mesma occasião, porém,<span class="pn"><a +name="pg_20">{20}</a></span> penetrou-me o pavor: uma grande ave, um inhambú +graciosíssimo emergiu d'entre as toiças de verdura fresca, de sob o tronco +abatido e ergueu o vôo para o interior do matto, n'um largo ruflar d'azas com +indubitaveis entonações zombeteiras, intoleravelmente escarninhas. </p> + +<h3>II</h3> + +<p>Quedei-me ali muito tempo, a seguir esta ordem de pensamentos.</p> + +<p>No entanto, o ceu fôra devassado pelo hilariante clarão com que este bemdito +sol da minha terra doira todas as coisas,<span class="pn"><a +name="pg_21">{21}</a></span> em sua munificencia de soberano insupplantavel. +Por toda a parte, só uma coisa via: luz, luz, luz, esse alastrar de claridade +que penetra tudo, que dá aos objectos uma apparencia de alegria, d'intenso +jubilo paradisiaco!</p> + +<p>Pelo ar, cantavam sempre a brisa e as aves, estas menos talvez do que +aquella, compromettida a fazer a larga harmonia da alígera volata.</p> + +<p>A clareira formava agora um salão redondo alcatifado de velludo esmeraldino, +illuminado d'uma orgia de raios, vibrante da deliciosa bacchanal dos +passarinhos.</p> + +<p>Minha alma dilatava-se mais no goso, até ali inexperimentado, de tamanha +quietude, de tão profunda sensação do que é grato na liberdade.</p> + +<p>O isolamento! Quanta paz na situação que esta phrase traduz! Que suaves +delicias<span class="pn"><a name="pg_22">{22}</a></span> que meigo langôr frue +o espirito no socego completo, divorciado dos cuidados da vida commum, senhor +emfim de sondar a consciencia propria, com a qual anda, ás vezes, semanas +inteiras sem ter um só instante para escutar-lhe as impressões, para confabular +com ella, extremado dos sêres banaes e falsos que formam a nossa róda +habitual!</p> + +<p>Haverá porventura alguém que não preze esses momentos de silencio, nos quaes +a alma fala comsigo propria, dizendo coisas ha muito sentidas e que, +entretanto, parecem-lhe,—quando examinadas,—extranhas novidades jamais +ouvidas?</p> + +<p>Lembro-me agora da attenta concentração em que surprehendo, algumas vezes, +no alto das ramarias, esses folgazões alados que garganteiam a todo instante +crystallinas fiorituras sonoras.<span class="pn"><a +name="pg_23">{23}</a></span> Dir-se-ia monologarem, resolvendo ponderoso +assumpto, tal a profunda gravidade com que pendem a cabecinha, como recolhidos +ao mais intimo de si mesmos.</p> + +<p>Conheci um canario ao qual este genero de melancolia era habitual. Valente +cantor, adorado em toda a vizinhança pelo talento com que desferia os seus +bellíssimos gorgeios, valia a pena vel-o, quando espanejava-se ao sol, muito +arripiado e gracioso, revolvendo com o bico, em rápida immersão, a agua do +pequenino tanque de crystal da gaiola doirada onde vivia.</p> + +<p>Tirava horas inteiras para cantar, saltitante e feliz! Podia dizer-se que +empenhava-se em fazer um impossivel, ou que pretendia matar-se n'um excesso +melodico e genial, superior ás forças de seu mesquinho sêr de passarito +delicado!<span class="pn"><a name="pg_24">{24}</a></span></p> + +<p>Porém detinha-se de repente, entre um trinado e um silvo: detinha-se, +interrompendo os elegantes pulinhos e, immovel na travéssa principal, ficava +ali demorados momentos, a curvar a loira cabeça para um e outro lado, com uma +sériedade que poderia fazer sorrir a quem, superficial e leviano, não +ponderasse no mysterio d'aquelle inesperado recolhimento em que uma alma +sonhadora e romantica parecia despertar n'elle com intercadencias fataes.</p> + +<p>Terão também os passaros o prazer do soliloquio, a volupia da meditação? +Terão também a percepção dos gosos inebriantes que provém da certeza de +estarmos sós,—absolutamente sós, que ventura!—emfim libertados da tyrannia +das convenções, capazes de desafivelar a mascara que atam-nos á face os<span +class="pn"><a name="pg_25">{25}</a></span> respeitos mundanos?...</p> + +<p>Bem quizera crêr na existencia, n'elles, de um poder de reflexão, pois +d'outro modo não sei explicar aquella postura tão extranha, aquelle ar +philosopho, essa expressão quasi humana,—tão humana, que surprehende!</p> + +<p>É que, de certo, sentem o valor do socego, da paz completa, do +tranquillizador influxo da solidão, cujos ineffaveis encantos fascinam, +penetram o organismo d'uma tepidez emolliente, dão este balsamo +incomparavel:—a alegria de viver!</p> + +<p>E como assim não acontecer, visto que as aves são as dominadoras do espaço, +os habitantes da matta, onde é de todo sensivel o poder do isolamento, d'esta +situação, que póde ser considerada egoista e destruidora, porém que o meu +espirito acaba de começar a comprehender, a reverenciar,<span class="pn"><a +name="pg_26">{26}</a></span> a amar com descompassados enthusiasmos, porque +vae-lhe perscrutando os largos arcanos de poesia e alento philosophico, o vigor +que insufla a mente para aprofundar-se no estudo subjectivo, no conhecimento do +<em>eu</em>, a desillusão a que arrasta-nos em relação ás pequenas miserias +odientas do mundo postiço dos falsos e dos pretensos civilizados?...</p> + +<p>Gloria ao isolamento! Bemdita sejas, ó grande floresta amazonica, osculada +pela ardente paixão do sol, toda sonora dos folguedos da passarada chilreante, +rica de estranhos mysterios e de mysteriosas riquezas inestimaveis!<span +class="pn"><a name="pg_27">{27}</a></span></p> + +<p> </p> + +<h1>GAIVOTAS</h1> + +<p> </p> + +<h2>GAIVOTAS</h2> + +<h3>I</h3> + +<p>Um bando de gaivotas, aos pares amoravelmente aproximados, ergueu o vôo do +mattagal e, cortando o espaço por de sobre o borbulhante estirão do rio, veiu +seguindo o vapor, a poucos metros de distancia da pôpa, ora alteando-se á ponta +do mastro, ora descendo rapido, de olhar incisivo e lesto bico, até esfrolar +levemente a agua com as cendradas pennas da aza desfraldada.<span class="pn"><a +name="pg_30">{30}</a></span></p> + +<p>O marulho da agua parecia excital-as, espicaçar-lhes a actividade em céleres +convites de festiva digressão a ignotas paragens, onde o ceu fosse azul,—muito +azul,—e a verdura das ilhas tivesse os tenros e alegres tons que apresentavam +os aningaes das margens defronte das quaes passavamos n'aquelle instante.</p> + +<p>Revoavam jubilosamente, as gaivotas, aproximavam-se do vapor, descrevendo +elegantes circulos, n'uma palpitação d'azas similhante ao ruflar do leque entre +os dedos d'uma bella mulher, quando impéra, deslumbrante de graça, nos salões +selectos. Vinham, parecia quererem invadir a coberta, participar da ruidosa +vida que sobre ella apresentavam os passageiros, reunidos em intimas palestras. +</p> + +<p>Sentado á pôpa, eu silenciosamente fitava aquelles<span class="pn"><a +name="pg_31">{31}</a></span> aquaticos viageiros ignorados. Seguia-lhes os +caprichosos folguedos sob a limpidez do ceu, com o olhar perdido traz elles, +emprestando-lhes idéas, dando a mim proprio as razões d'esse livre gaudio +perante a pompa triumphal da tarde moribunda.</p> + +<p>Formavam as margens visiveis do rio largas ilhas meio submersas, de que +apenas se viam emergindo da agua,—como braços erguidos para o espaço n'um +enthusiasmo viril de canticos de louvor,—milhares d'arvores variadíssimas, +esparzindo perfumes resinosos e estalando as cascas sob a demasiada affluencia +das tepidas seivas vivificadoras. Como grandes açafates de caprichosas fórmas +espalhados por toda a latíssima extensão do rio, essas ilhas balouçavam as +farfalhantes cômas glaucas, onde os pássaros, papeando, entreteciam<span +class="pn"><a name="pg_32">{32}</a></span> previdentes os diminutos ninhos e a +robustez dos merityzeiros erguia pendentes os pesados cachos de fructos +granadinos.</p> + +<p>Pelas margens, começavam a acordar os innominados animaes noctivagos e um +arruido extranho, abafado, levantava-se em surdina sob o machucamento das +folhagens ondulantes.</p> + +<p>E a tarde morria a pouco e pouco.</p> + +<p>Depois, ao fundo da paizagem, recortaram-se escuras, encobrindo o sol, as +longas montanhas sobre as quaes está erecta Monte-Alegre.</p> + +<p>Um dos mais bellos crepusculos vespertinos começou então.</p> + +<p>Quadro verdadeiramente formoso! O ceu, entestando com essas montanhas, +apresentava todas as tonalidades do iris, n'uma pujança complexa de matizes +prismaticos,<span class="pn"><a name="pg_33">{33}</a></span> e o sol,—como +apertado entre ellas e a brunida cupula sideral,—disseminava pelo espaço +crystalino feixes de raios luminosos em gigántea expansão que lembrava uma +aurora boreal, um enorme clarão d'apothéose empyrea.</p> + +<p>Pelo nascente, subiam gradativas trevas, como poderosíssimo senhor que sae a +combate sem precipitações, na sua convicção d'inilludivel victoria.</p> + +<p>Ao mesmo tempo, perto do zenith, un crescentesinho de lua e a estrella da +tarde,—esta quasi tão luminosa como um raio do teu olhar, querida +amiga,—scintillavam merencorios, como annuviados por incognoscivel saudade, +entre longas nuvens delgadas, côr de pérola e lyrio, rendilhando-se no azul +ferrete do firmamento.</p> + +<p>As gaivotas, então, que tinham vindo a seguir-nos,—emquanto<span +class="pn"><a name="pg_34">{34}</a></span> o meu olhar, da pôpa do navio, +parecia desejar attraíl-as poderoso,—grasnaram freneticas e, de subito, +descrevendo rapido circulo elegantíssimo, regressaram á terra d'onde tinham +partido e fugiram veloces, n'uma actividade de movimentação d'azas perdendo-se +ao longe, na meia escuridade do crepusculo.</p> + +<p>Fiquei sosinho á ré, a fital-as...—a fital-as, oh! não!—a mirar o ponto do +aningal onde se haviam perdido aquelles inconscientes sêres, que tanto me +tinham enleiado o espirito nas invisiveis malhas dos seus largos circulos +graciosos, descriptos no espaço, em reflexões movediças sobre as gorgolejantes +aguas amazonicas.<span class="pn"><a name="pg_35">{35}</a></span></p> + +<h3>II</h3> + +<p>Assim também fugiram-me precipitadas do seio as niveas alegrias, quando, +levado pela embarcação, ausentei-me saudoso da terra onde ficaram as candidas +inflorescencias do meu amor.</p> + +<p>Como aquellas gaivotas, preguiçosas e sympathicas, os doces prazeres +familiares deixaram-me seguir sosinho, breve regressaram á terra que idolátro +na minha apaixonada effervescencia de enthusiasmo pela grande patria digna das +maiores dedicações.</p> + +<p>Vou-me rio acima, isolado e desconhecido, entre pessôas estranhas, separado +de vossos enlevadores affagos, ó<span class="pn"><a +name="pg_36">{36}</a></span> queridos entes cuja ternura deslaça-me a vida em +loiras espadanas de luz puríssima e gentil! Sigo meditabundo, sem receber na +alma entenebrecida um raio do vosso olhar,—um só raio que me illuminasse o +peito, para pôr em relevo dentro d'elle toda a somma de santos sentimentos para +vós,—sómente para vós—guardados alí!</p> + +<p>A abafada canção da agua babujando os flancos do navio faz a surdina dolente +que acompanha as mestas lamentações do meu espirito obsidiado pela afflicção +das saudades.</p> + +<p>Ás vezes, a deshoras da noite, quando o firmamento escuro apresenta-se +deserto das suas luzentes tauxiações risonhas, e só a floresta da margem rebôa +agitada pelo cadenciado barulho da possante machina, embalde busco pelo ceu do +meu espirito<span class="pn"><a name="pg_37">{37}</a></span> certo par de +estrellinhas annejas,—que são os doces olhos petulantes de minha filha, fanaes +da vida minha.</p> + +<p>E só a luminosa palpitação phosphorescente dos pyrilampos tremeluze rápida +no tenebroso velludo dos aningaes da beira.</p> + +<p>A solidão augmenta-me os pezares, quando a hora do crepusculo da tarde vem +descaíndo vaga pela terra, deslisando do inflexivel pendulo do tempo com a dura +impassibilidade d'uma desgraça tremenda.</p> + +<p>Gaivotas, alegrias do rio! Alegrias, gaivotas do pélago da minha vida! +Porque fugís tão velozes, sem vos deixardes agarrar por estas mãos, que vagam +sem um apoio amoroso, sem vos deixardes aprisionar n'este peito, fremente de +meigas paixões santíssimas?</p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:right;">Rio Madeira, abril.<span class="pn"><a +name="pg_38">{38}</a><br><a name="pg_39">{39}</a></span></p> + +<p> </p> + +<h1>O Naufragio do Purus</h1> + +<p> </p> + +<h2>O Naufragio do Purus</h2> + +<p style="text-align:right;">A H. Inglez de Souza</p> + +<h3>I</h3> + +<p>Este é o sitio em que, ha vinte annos quasi, afundou-se o <em>Purús</em>, +arrastando para o leito do rio algumas dezenas de cadaveres colhidos de +surpreza.</p> + +<p>O Amazonas aqui, como conservando ainda a triste memoria do luctulento +successo, rola silencioso as suas aguas, cobre-se eternamente<span +class="pn"><a name="pg_42">{42}</a></span> com o intenso crepe, accentuado e +mesto, do vasto rio Negro.</p> + +<p>Têm as margens a apparencia de um recinto de funeral: socegadas e desertas, +monotonisam o quadro com a ininterrupta ostentação das suas ramalhudas verduras +densíssimas.</p> + +<p>Nenhum gorgeio de passaro percebo na larga mudez circumdante.</p> + +<p>No alto, o ceu, apinhado de nuvens escuras, encobre-me aos olhos a risonha +alegria do seu puríssimo azul, adoravel como as pupillas d'uma imagemzinha da +Virgem, que minha Mae, em pequenino, ensinou-me a reverenciar com o +contemplativo respeito das creanças absôrtas!</p> + +<p>Passamos n'este mesmo instante sobre o logar onde atufou-se a elegante +embarcação aventureira.</p> + +<p>Um pensamento de saudade<span class="pn"><a name="pg_43">{43}</a></span> +assalta-me o espirito, agora que deslisei rápido por cima do líquido sapulchro +de tantos infelizes.</p> + +<p>Relembro, com a forçosa evocação do meu passado, as confusas recordações da +primeira edade e reproduzo na mente, consoante ás narrações da época, o pasmoso +entrécho do hórrido espectaculo.</p> + +<p>Vejo pessôas de todos os sexos e edades, em meio á densa escuridão da noite, +bramindo apavorados gritos, impetrando o auxilio do ceu impassivel, +amaldiçoando o momento final com o tôrvo desespéro das grandes afflições.</p> + +<p>A bracejar contra a correnteza, lobrigo um ou outro naufrago n'aquelle pégo, +quasi tão vasto como o do mantuano cantor. Uns, redobrando de esforços, +conseguirão alcançar a margem anhelada;<span class="pn"><a +name="pg_44">{44}</a></span> a mór parte, porém, certo fraquejará impotente na +violencia das aguas e rolará inanimada aos profundos antros dos caimões!</p> + +<p>N'um camarote, vencida, dominada por tredo somno, uma joven mulher +angelical, esposa extremecida e extremosíssima, é surprehendida pelas aguas em +sua descuidosa seminudez inconsciente e logo suffocada sem haver tempo de +reconhecer o perigo por que passa com os seus,—com os parentes affectuosos e +com o infeliz marido, o commandante austero, de quem separa-a, sem +transigencias, a comprehensão do cumprimento do dever.</p> + +<p>E ali morre, com o pobre coração retalhado de angustias e amaríssimas +saudades, uma valente mulher de temperamento e actividade virís, guia e ama de +muitos d'aquelles naufragos. É a heroica<span class="pn"><a +name="pg_45">{45}</a></span> exploradora d'uma parte do rio Madeira, a +veneranda mãe d'um punhado de homens honrados e de honestíssimas mulheres,—a +idolatrada mãe d'aquella excelsa creatura que deu-me luz aos olhos e piedosos +sentimentos ao coração!</p> + +<h3>II</h3> + +<p>Comprehendo agora perfeitamente a dôr que rasgou-te os puros seios d'alma, +querida Mãe, quando correram a referir-te o hórrido successo.</p> + +<p>Creança quasi irresponsavel, eu não tinha a percepção completa d'aquelles +affligidíssimos desespêros em que te lançaste, com os olhos amarados<span +class="pn"><a name="pg_46">{46}</a></span> de lágrymas adamantinas.</p> + +<p>Entrei a brincar-te com os longos cabellos pretos, minha adoravel amiga, e +um beijo tão sincero como a tua dôr deposeram-te na fronte ensombreada meus +labios deslaçados em simples phrases sem valor.</p> + +<p>Hoje, porém, ó Mãe, avalío com justeza a afflicção que em ti causou tão +deshumano flagicio da sorte inclemente. Sondo, linha por linha, todos os +arcanos do teu seio, ausculto-lhe as precipitadas palpitações soluçantes e +lamentosas.</p> + +<p>Choravas, inconsolavel e dolentíssima, porque deixaras de ter mãe.</p> + +<p>Sinto conhecer-te a intensidade das penas, porque também perdi-te para +sempre e só minha alma pode saber a força de toda a violenta dôr que, ha seis +annos, confrange-a<span class="pn"><a name="pg_47">{47}</a></span> impiedosa, +minuto a minuto, persistentemente, tantas são as vezes que de ti me lembro, +inolvidavel mulher que foste a guia da minha infancia e a amiga insubstituivel +da minha adolescencia!</p> + +<p> </p> + +<p>Rio Amazonas—Rio Negro.<span class="pn"><a +name="pg_48">{48}</a><br><a name="pg_49">{49}</a></span></p> + +<p> </p> + +<h1>Brinde a minha Filha</h1> + +<p> </p> + +<h2>Brinde a minha filha</h2> + +<p>Hoje é o dia do teu primeiro anniversario, querida filha.</p> + +<p>És pequenina de mais, tens o espirito ainda cerrado á comprehensão exterior +das cousas, para poderes penetrar o jubilo immenso de que devo estar saturado +por esse acontecimento, sobre a vastidão d'esta valente arteria amazonica, ao +tempo que as perspectivas das verdes paizagens apraziveis se vão succedendo +gradativamente, n'uma suavidade que deslisa tranquilla a meus olhos enlevados +nas florituras das folhagens ramalhudas.<span class="pn"><a +name="pg_52">{52}</a></span></p> + +<p>Entretanto, devo escrever estas linhas que, no futuro, destinarei a teus +olhos e a tua alma,—sobretudo á tua alma, querido amor! Intima força +propelle-me a esta communicação silenciosa dos nossos dois espiritos,—o meu +ainda novo, porém já prestes a declinar para as florescencias da edade madura e +o teu velado ainda á vida do espirito, aos sentimentos santos, pequenino botão +de bogary transcendental, que nem sequer pensa em desabotoar as cerradas +corollas aos largos folguedos d'uma existencia feliz!</p> + +<p>E porque não falar-te hoje?</p> + +<p>Quem sabe o que o dia de amanhã,—soturno cairel dos arcanos do tempo,—não +guarda para nós envolto nas iriadas roupagens do futuro?</p> + +<p>A distancia que entre nós presentemente existe não é motivo bastante forte +para<span class="pn"><a name="pg_53">{53}</a></span> recusar-me ao desejo de +escrever estas palavras simples, destinadas á perfeita simplicidade do teu +espirito.... d'aqui a meia duzia d'annos, quando estejas no caso de +entendel-as, meu amôr.</p> + +<p>Nem tu sabes que multidão de alegres pensamentos vaga-me no cerebro, hoje +que um anno se completa que pela vez primeira te vi, rosada e pequenina, quasi +imperceptivel átomo-flôr d' uma existencia tão almejada e bemdita pelo meu +espirito milhares de vezes rejubilado!</p> + +<p>Como estuava-me o coração, alargado em seus ambitos pelo prazer, todo aberto +ás santas paixões amoraveis de quem começa a gosar as grandes, as mellifluas, +as inebriantes sensações vitaes da paternidade! Com que ternura immensa não te +fitavam meus olhos, rasos d'agua, abertos como n'um sorriso,<span class="pn"><a +name="pg_54">{54}</a></span> revendo a tua pequenina imagem atravez da nervosa +palpitação imperceptivel dos cílios orvalhados das puras lágrymas do +contentamento!</p> + +<p>Um mundo de pensamentos risonhos e transcendentaes produzia-se-me no +espirito, em luzida cohorte de festivas alegrias benéficas. Sentia-me pequeno +demais para creal-os, bastante insignificante para soletrar tramando de emoção +todo aquelle mirífico alphabeto enorme da mais santa das paixões.</p> + +<p>Era a completa alegria que manifestava-se d'ess'arte em minha alma, porque +pela primeira vez te via deante de mim, envolta em candidas faixas, ao collo de +tua mãe, que desabrochava o rosto n'um sorriso meio doloroso e quasi todo +espiritualisado já, como n'um altar immaculado, erguido á tua innocencia pela +ternura da Mulher que te deu<span class="pn"><a name="pg_55">{55}</a></span> á +luz, regenerada da culpa da especie pelo immanente martyrio da maternidade!</p> + +<p>Hoje, que taes factos completam um anno, dia a dia, os mesmos sentimentos +revoam-me festivos pelo espirito, com egual força de vitalidade.</p> + +<p>Inscrevo-os n'esta folha, registro-os em tua alma, ó flôr, para +offerecer-t'os como presente d'annos em penhor do largo affecto de teu pae, +emquanto, separado de ti por grande distancia, levanto á sorte mil votos pela +tua felicidade futura, por tua existencia, por tua saude, pela tua angelica +pureza de donzella e pela tua inquebrantavel virtude de esposa.</p> + +<p>É bem possivel que não mais exista o auctor d'estas linhas e da tua +existencia quando possas lêr as palavras aqui traçadas.</p> + +<p>Não importa! Servirão para<span class="pn"><a name="pg_56">{56}</a></span> +lembrar-te que possuiste um pae amorosíssimo, que teve para ti os pensamentos +todos da sua vida e, por certo, ainda mesmo o pensamento final da hora +derradeira!</p> + +<p> </p> + +<p>Rio Madeira, abril.<span class="pn"><a name="pg_57">{57}</a></span></p> + +<p> </p> + +<h1>O cemiterio da floresta</h1> + +<p> </p> + +<h2>O cemiterio da floresta</h2> + +<p>Hontem pela tarde o meu espirito confrangeu-se inteiro perante inesperado +espectaculo, cuja reminiscencia me faz pensar ainda e arrasta-me tremula a mão, +na tarefa de consignal-o no papel.</p> + +<p>Vou referir-te, meu amor, o que viram meus olhos, e o que meu coração sentiu +n'aquelle instante d'íntimas reflexões maguadas.</p> + +<p>Cortada em rapido declive sobre a beira da agua, em meio á floresta densa, +abandonada de todos, uma clareira fazia-se abrupta e essa clareira era um +cemiterio, um pequeno<span class="pn"><a name="pg_60">{60}</a></span> campo +santo solitario e melancholico,—sympathico todavia,—salpicado de cruzes +toscas e negras!</p> + +<p>A bordo, alegres conversações travavam-se aqui e ali, sob o oiro refulgente +do sol no estivo desabrochar das claras horas diurnas. Ninguém parecia attentar +n'esse triste sitio de repouso, sobre o qual a tripudiante passarada das mattas +volitava cheia de inconsciencia, garridamente estrepitosa e jovial.</p> + +<p>Alargava-se o rio ali defronte, muito socegado, todo brunido das reflexões +solares, como se recebido houvesse um grande banho de prata fundida.</p> + +<p>E um rumorejar da folhagem, dos dois lados do cemiterio e ao fundo, fechando +o horisonte do quadro, cerrando a escarpa, como que parecia entoar a langorosa +monotonia d'uma surdina risonha do<span class="pn"><a +name="pg_61">{61}</a></span> prazer, sacudida em amplas vibrações de +volupia.</p> + +<p>Entretanto, o meu espirito entenebrecia-se pouco a pouco. Uma tristeza +empolgou-o forte e minha alma deslisou para as mudas divagações dos sonhos +acordados, das reflexões abstractas em que os olhos voltam a força objectiva +para o interior e, eliminando o seu poder observador do mundo externo, nada +comprehendem do que vem, porque só o cerebro trabalha dentro da materia e o seu +meio de acção anniquila-se perante o vigor do espirito.</p> + +<p>De quem aquelles despojos materiaes ali inhumados, longe dos centros de +povoação, roubados ao conhecimento mundano, subtraídos á vaidade dos homens, +entregues á terra com toda a simpleza das grandes devoluções pungentes, +restituidos á obscuridade do nada para sempre,<span class="pn"><a +name="pg_62">{62}</a></span> para sempre furtados á ultima recordação marmorea +que lhes lembrasse o nome na derradeira falsidade dos epitaphios campanudos?</p> + +<p>Quantos heróes ignorados se não occultariam n'aquelle recinto, sob a leve +camada de terra ás pressas lançada pelos vivos por cima de seus cadaveres meio +decompostos?</p> + +<p>Ali não vinham os falsos amigos ostentar o seu fingido pezar, com o +recolhimento das feições e a compostura do trajo que predominam pelas cidades, +onde até a inhumação é um luxo mais ou menos apurado. O marido infiel, +respirando emfim livremente após a quebra do fio que prendia-lhe o alvedrio, +não viria ali mais uma vez insultar com uma dôr não sentida a lamentavel +memoria da doce esposa traída, nem a joven viuva leviana, já com o espirito +occupado por<span class="pn"><a name="pg_63">{63}</a></span> amorosos +pensares—adulterio posthumo!—appareceria a ostentar o fingimento d'uma paixão +que não possuia e que depressa esqueceu na elaboração de cartinhas piégas ao +primeiro janota impudico que lhe deparou a sorte ironica.</p> + +<p>Ali, sim, ao homem honesto e severo, á mulher virtuosa e amante, á innocente +creancinha levada ao descanso perennal após breve apparição na terra, grato, +gratíssimo seria inteiriçar os membros lassos e repousar alfim, descuidosos na +eterna immobilidade dissolvente da ultima pacificação,—separados de toda a +phantasia ephêmera e das convenções banaes da fallaciosa hypocrisia social.</p> + +<p>Para quê ser lembrado após a morte? De que serve um marmore a reproduzir o +nome d'um sêr cuja existencia o tempo consumiu,—candeia extincta, apagado +fanal do<span class="pn"><a name="pg_64">{64}</a></span> pelago da vida? +Recordar o nome d'um morto, perpetual-o petreamente, é ainda uma fórma de +insulto, é uma violação que põe o finado na emergencia de se lembrarem d'elle +os maus, os pérfidos, aquelles que não o comprehenderam em vida e que mais uma +vez negar-se-ão a fazer-lhe a justiça de que tão sedento estava o seu +espirito.</p> + +<p>Estaes bem ahi, desconhecidos heróes do labutar quotidiano, ó martyres das +privações no meio d'essa esplendida orgia de verduras amazonicas! Tão bem vos +acho, que até sinto inveja ao ver-vos no pequenino cemiterio escalvado na +rapida ribanceira.</p> + +<p>A sorte restituiu-vos ao pó com a mais austera simplicidade. Voltastes á +terra na modesta elaboração d'um acto naturalíssimo e a vida que fermenta entre +as raizes d'essas bellas e grandes arvores<span class="pn"><a +name="pg_65">{65}</a></span> viridantes vae buscar nos vossos cadaveres aquillo +que lhe podeis dar:—a cada minuto um átomo de seiva, tirado á tépida +fermentação da vosa carne, outr'ora palpitante, porém banal, agora repousada, +mas operadora do beneficio que a lei natural do transformismo obriga-vos a +prestar-lhe.</p> + +<p>Apraz-me sentir que o meu espirito se consolaria quando, após á extincção da +minha vida, algum ente querido, depois do ultimo beijo, enterrasse-me o corpo +em vossa companhia, ó eternos moradores do cemiterio da selva! Julgar-me-ia +feliz, com a satisfação e o orgulho d'este ultimo capricho realisado.</p> + +<p>Teria, como vós, o supremo <em>requiem</em> dos trillos dos passaros, do +farfalhar das ramarias densas, do desprezo dos raros viajantes n'estas +longinquas regiões do Madeira<span class="pn"><a name="pg_66">{66}</a></span> e +dos murmurosos beijos do gorgolejante listrão aquoso que incessantemente corre, +ora envolto no denso velludo tenebroso da noite, ora ostenta-se brunido pelas +amplas disseminações de prata fundida que o sol por cima d'elle parece lançar +ás vezes, quando o ceu, sempre misericordioso, não verte sobre vós, +lugubremente, paternalmente, as piedosas orvalhadas dos seus largos prantos +pluviaes.</p> + +<p>Salvè, desconhecidos martyres da familia amazonica, eternos habitadores do +cemiterio da floresta!</p> + +<p>Rio Madeira, abril.<span class="pn"><a +name="pg_67">{67}</a></span></p> + +<p> </p> + +<h1>UM ANNIVERSARIO</h1> + +<p> </p> + +<h2>UM ANNIVERSARIO</h2> + +<blockquote style="margin-left: 30%;"> + Á memoria de minhã irmã<br> + A meu irmão.</blockquote> + +<p> </p> + +<p>Seis annos, hoje, que finou-se a mais santa das creaturas, a mais querida e +amoravel das mães.</p> + +<p>Perante a emotividade profundíssima do meu ser, não tem hoje poder as largas +pompas magestosas d'este romper de dia sereno sobre a paizagem Assoalhada, +vibrante de esplendor, fremente de<span class="pn"><a +name="pg_70">{70}</a></span> canções d'aves silvestres. Ao contrario, tudo me +parece melancholico, monotono, quasi hostil, porque recebo as impressões +externas atravez dos meus sentimentos e estes concentram-se nas amaríssimas +dôres excitadas pela inapagavel recordação da morte de minha mãe! </p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Ha d'estas originalidades no fragil espirito humano: diz alegres os dias +pluviosos, encontra-lhes graça, apraz-se em aspirar humidade na meia-sombra dos +nevoeiros,—se algum prazer abala-o jubiloso; entretanto, encara indifferente +ou raivoso as glorias da natureza; não tem um olhar para as galas triumphaes do +espaço azul rutilante, acolchoado d'alvas nuvens pannejadas harmonicamente; +enfastia-se e agasta-se<span class="pn"><a name="pg_71">{71}</a></span> até com +a passiva tranquilidade das coisas, com o chilrear dos passarinhos,—quando +algum desgosto lateja-lhe no coração encarquilhado ao peso das grandes dores +supremas!</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Estou a recordar-me das funebres e tremendas peripecias d'aquella +inolvidavel tarde de 21 de abril, ha seis annos.</p> + +<p>Uma pequenina alcova de matrona,—grave aposento destituido de luxo banal, +apenas confortavel. Ao lado d'um guarda-vestidos, pesado e bom, uma mesa +coberta de frascos de medicamentos com etiquetas multicôres, borradas de +receitas pretenciosamente escriptas em termos barbaros, chocantes de ouvir, +indicando venenos medidos aos millesimos, com mysterio.<span class="pn"><a +name="pg_72">{72}</a></span></p> + +<p>Ao fundo, uma cama austera, toda branca em seus lençóes e colchas, sob os +quaes desenhava-se um corpo longo, pouco amplo, de que apenas via-se, repoisada +em grandes travesseiras alvas, uma cabeça de mulher, encaixilhada em bastos +cabellos negros, lustrosos, apenas aqui e ali, de longe em longe, irisados de +fios brancos que desprendiam o brilho metallico da prata polida.</p> + +<p>Os olhos, semi cerrados, fitavam um ponto unico da parede fronteira, onde um +pequeno raio de sol, atravessando o arco de uma janella da sala, fixava-se +insistente, como receioso de desapparecer além, atraz das casas da praça, ou +desejoso de não abandonar, no meio-tom confuso d'um crepusculo precoce, aquelle +quarto mortuario, em que estava para começar uma agonia. O olhar de minha<span +class="pn"><a name="pg_73">{73}</a></span> mãe persistia fito no luminoso +circulosinho, que accendia de amarello a brancura da parede nua.</p> + +<p>Quem sabe o que vém os moribundos nos seus derradeiros momentos lúcidos? Que +visões obsidiam-lhes os ultimos, instantes, subjugando-lhes o espirito já tão +enfraquecido, dominando-os poderosamente? Vêm pela ultima vez o goso de alguma +ventura occulta, entristecem-se pela proxima separação do encanto da vida ou +entrevem já o beatifico descanso interminavel que aguarda-os no pó da +sepultura?</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Quasi seis horas. Continuavam os olhos presos ao circulo luminoso, que +subira mais, approximando-se do tecto, n'um deslisar de vida que se extingue +suave.<span class="pn"><a name="pg_74">{74}</a></span></p> + +<p>Pelo rosto emaciado de minha mãe não corria sombra de soffrimento. As faces +cavavam-se levemente, o nariz afilava-se, com a transparencia de cêra dos entes +que vão morrer. Entreabertos, os labios deixavam passar a respiração com um +offêjo ciciante e molesto, brandamente. Dir-se-ia dormitar a enferma, a não +serem os olhos, agora um pouco mais abertos do que antes...</p> + +<p>Em torno, alguns parentes vigiavam immoveis, com a expressão contristada, +transida, que temos ao esperar a morte. Á cabeceira, de pé, encostada ao +espaldar do leito, minha irmãsinha chorava em silencio, enxugava as incessantes +lágrymas, suffocava os soluços, para não trair-se.</p> + +<p>Quem atrever-se-ia a mostrar que soffria, perante aquelle<span class="pn"><a +name="pg_75">{75}</a></span> resignado soffrimento que tão bem continha-se?</p> + +<p>Meu irmão egualmente quedava-se perfilado, os olhos cravados n'esse rosto +pállido, n'essa bemdita fronte eburnea que a virtude aureolava, n'esses doces +labios que presentiamos frios, frigidíssimos, não obstante o ardente halito que +esfrolava-os, ja osculados pela morte!...</p> + +<p>Aquelles labios sonorosos, aquelles labios cantantes de mãe +brazileira,—quem poderia mais galvanizal-os, fazel-os vibrar com o dulcíssimo +affecto maternal que era o nosso ineffavel enlevo na quadra festiva da meninice +descuidosa?</p> + +<p>Onde iriamos beber os prudentes conselhos que esses puríssimos labios +proferiram, deixaram cair em nossas almas como um desfiar de pérolas raras em +taças de cristal?...<span class="pn"><a name="pg_76">{76}</a></span></p> + +<p>Quem seria, d'ali em deante, a amiga incomparavel, a santa companheira da +nossa adolescencia ardente, a meiga representante d'esse encanecido +vulto,—heroico prototypo da affeição familiar, da honra, da dignidade, de +todos os boníssimos sentimentos,—que foi o nosso Pae?....</p> + +<p>Oh! desgraçados que eramos! N'aquelle impassivel expirar de tarde equatorial +pomposa e abrazadora, iamos perder para sempre,—<em>para sempre!</em>—o nosso +mais valioso dote, a vida de nossa Mãe!...</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Seis horas e poucos minutos, Desapparecera do tecto, sempre seguido pelos +olhos da moribunda, o circulo luminoso, a despedida do sol á vida periclitante. +Desmaiara mais, tornara-se apenas uma tênue mancha amarella, breve<span +class="pn"><a name="pg_77">{77}</a></span> transformada em sombra quasi +imperceptivel. Depois, esbatendo-se gradualmente, fôra supprimida. +Desappareceu: começou a agonia na enferma.</p> + +<p>É doloroso assistir ao estertor dos moribundos. Terriveis embates soffremos +na alma. Primeiro, o egoismo natural no homem, excitado pela lembrança de ir +perder um ente amado; depois, a constatação de que nunca mais poderá gosar-lhe +do convivio, ouvir-lhe a fala affectuosa, oscular-lhe a fronte calma, as faces +sorridentes com a immensa candura da virtude. Porém onde haverá mais +requintado, mais vivo e agudo soffrer, do que na propria sensação que +experimentamos da agonia do moribundo amado? Em que série de martyrios +archi-excruciantes classificar esse desespero tôrvo, enlouquecedor,<span +class="pn"><a name="pg_78">{78}</a></span> vibrante, que em nós erguem a +comprehensão das dôres a que assistimos e a impotencia de não podermos +participar d'ellas, tomar para nós a maior porção, attenual-as um pouco, com o +osculo das mãos acariciantes e com a ternura emolliente dos beijos +ultra-expressivos dos ultimos, dos supremos adeuses?... </p> + +<p>Vinham-me ao espirito idéas estonteadoras, que levavam-me á meta da dôr. Ver +soffrer a santa mulher que deu-me a vida, que tão feliz foi sempre em possuir +nos braços enlaçantes os filhos queridos e amoraveis, era uma provação capaz de +abalar-me a solidez da razão. E depois, ha sempre, á beira do tumulo de um ente +que viveu em ligação intima comnosco, uma evocação, rapidíssima porém muito +minuciosa, de todo o nosso passado.<span class="pn"><a +name="pg_79">{79}</a></span></p> + +<p>E o meu passado... quão unido estava ao d'aquella moribunda, que em vão +buscava, ao vaguear a vista já vidrada pelo aposento, o raio de sol que viera +despedil-a da vida, dar-lhe á alma, por um momento, na hora extrema, a +claridade immaculavel que ella sempre teve na consciencia, na honra!</p> + +<p>Vi-me creança, buliçoso e festivo, sem um desprazer além do provocado pelas +privações dos brinquedos. Vi-me em todas as situações da existencia, em todas +as phases d'uma juventude agitada, em todas as peripecias das nossas viagens, +das nossas diversões, dos nossos gosos. Em toda a parte, de qualquer modo que +manejasse aquellas scenas retrospectivas, ella apparecia-me sempre como o +misericordioso interprete dos meus votos de felicidade, o meu anjo tutellar, o +amparo<span class="pn"><a name="pg_80">{80}</a></span> inilludivel da minha +inexperiencia, o meu aconselhador ajuizado como todas as boas mães.</p> + +<p>Quanta saudade, quanta, do meu passado extincto!...</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Alguém tinha ido á egreja proxima,—a dez passos d'ali, no lado opposto do +largo,—pedir o soccorro da religião e um levita acudiu, balbuciando preces +indistinctas, a ungir quem ia morrer.</p> + +<p>A apparição d'um sacerdote que traz o extremo sacramento a um enfermo +apavora sempre. Ante similhante visita, eu e meu irmão principiamos de novo a +chorar,—nós que pensavamos já ter exgottado as lágrymas, tão abundante fôra, +desde trez dias, o nosso pranto.</p> + +<p>Retirando-se o padre,—sempre murmurando orações<span class="pn"><a +name="pg_81">{81}</a></span> em latim,—a agonia augmentou. Vizinhos tinham +acudido, serviçaes e bisbilhoteiros. Causaram-me raiva, quasi molesto-os com +uma demonstração mais evidente do meu enfado pela sua presença, quando +desejara, a sós com os meus, receber o derradeiro alento da querida alma +adoravel.</p> + +<p>Porque ha de prender-nos a educação n'um circulo igneo, impondo-nos dominio, +heroicos fingimentos, até nos mais tremendos instantes da vida?...</p> + +<p>Soluços mais rapidos de minha irmã fizeram-me esquecer esta série de +reflexões, voltaram-me para o leito onde estertorava já a doce companheira da +minha innocencia.</p> + +<p>Acabei de comprehender este redobramento de chôro, vendo acercar-se alguém +com uma véla accesa, que foi<span class="pn"><a name="pg_82">{82}</a></span> +posta entre as mãos afusadas e lividas da moribunda.</p> + +<p>Minha mae ia morrer! Oh dilacerante, immensa dôr trazida por esta convicção! +</p> + +<p>Lancei-me de chôfre a beijar-lhe a fronte camarinhada de suor, os cabellos +sedosos, negros como a afflicção de minha alma, as faces encovadas, os labios +crispados, álgidos, por entre os quaes esgueirava-se um lancinante estertor +crescente, que dizia demasiado a aproximação do momento fatal... Allucinado, +pensei que a minha vitalidade, a minha florida juventude poderia reanimar, +devolver á vida aquelle espirito immensamente amado e em vão tentava +aquecer-lhe o involucro com o ardentíssimo, impotente contacto dos meus beijos +filiaes!</p> + +<p>Mas, de subito, houve uma cessação na agonia... Estarreci... Iria minha alma +incrédula<span class="pn"><a name="pg_83">{83}</a></span> defrontar um +milagre?... Oh! Deus era bom, Deus existia então, além da lenda biblica!... O +rosto de minha mãe serenara, conservando, todavia, uma expressão retrahida, +grave, como quem escuta a voz interior d'uma interessante evocação da +existencia inteira.</p> + +<p>Os cilios palpitaram longos, n'uma projecção calma de sombra nas faces. +Brilharam os olhos, tranquillos de expressão e, vagaroso, subiu o olhar para o +sitio onde cravara-se antes o raio de sol extincto agora.</p> + +<p>Logo, porém, desceu, afim de erguer-se ainda, para minha irmã, para meu +irmão, para mim... Demorou-se fito em minhas pupillas lacrymantes esse +inolvidavel olhar, tão sereno como a tranquillidade da sua alma sem mácula, +translucido n'uma expressão de quem medira o<span class="pn"><a +name="pg_84">{84}</a></span> alcance do grande minuto final.</p> + +<p>Quem poderá estereotypar o ultimo olhar das mães aos filhos extremecidos? +</p> + +<p>Attonito, baixei-me a receber o afago d'esse olhar tão expressivo como um +beijo mudo. O milagre providencial ia operar-se, de certo. Eu abençoava já o +eterno Bemfeitor da humanidade... ingênuo no egoismo do meu almejo.</p> + +<p>Os labios, no entanto, descerraram-se. E, emquanto os olhos, um nada mais +vitreos, vagavam sobre os trez rostos dos filhos surprezos, transidos de +admiração e esperança, aquella bôcca lívida moveu-se no balbucio inextrincavel +d'uma phrase indistincta que, certo, era uma prece, um conselho bom, uma +benção, um adeus!</p> + +<p>E os olhos fecharam-se, no mesmo calmo palpitar dos<span class="pn"><a +name="pg_85">{85}</a></span> longos cilios, os labios contrahiram-se á passagem +d'um suspiro mais longo,—um soluço dolentíssimo,—e a cabeça pendeu á direita, +buscando o meu primeiro beijo a um cadaver amado, quente do ultimo esforço para +dizer-nos com a vista a intensidade insondavel do seu carinhoso affecto!</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Ha seis annos passou o horrendo transe que prostrou-me louco sobre os +despojos funebres da mais santa e querida das Mães.</p> + +<p>Dura sempre a dôr d'um filho amantíssimo? Creio bem que sim. Investigando a +incalculavel profundez dos meus pezares, cotejando as impressões de hoje com as +do anno passado, com as do outro anno, do outro e do dia em que estalou sobre +mim a<span class="pn"><a name="pg_86">{86}</a></span> grande fatalidade, +verifico a persistencia da mesma dôr molesta, intima, enorme, saudosamente +triste, que levanta-me no espirito uma raiva contra a gloriosa expansão d'esta +manhã rutilante e contra o gorgeio sonoro das aves, que estão, agora mesmo, a +lembrar-me os doces cantos simples da infancia, quando, todo prazer e venturas, +meu coração acolhia-se no tépido sacrario de affectos e caricias que era para +mim o colo amigo e protector da mais amoravel de todas as mães!</p> + +<p>Onde estão os meus deliciosos sorrisos infantis de outr'ora?...</p> + +<p> </p> + +<p>Rio Madeira, 21 de abril.<span class="pn"><a name="pg_87">{87}</a></span></p> + +<p><span class="pn"><a name="pg_88">{88}</a><br> +<a name="pg_89">{89}</a></span></p> + +<h1>SEGUNDA PARTE <br> +OBJECTIVISMO</h1> + +<p><span class="pn"><a name="pg_90">{90}</a><br> +<a name="pg_91">{91}</a></span></p> + +<h1>A pesca do Deodato</h1> + +<h2>A pesca do Deodato</h2> + +<p style="text-align:right;">Ao Sr. J. T. Lobato de Castro</p> + +<p>O tenente-coronel Fernandes salivou com estrépito para longe, afim de salvar +a esteira que se estendia por baixo da maqueira e, ageitando no longo taquary +pintalgado a cabeça de barro topetada de tabaco legitimo do Acará, proseguiu: +</p> + +<p>—É como lhes digo. A desobediencia aos preceitos da egreja traz sempre após +si a necessaria e indefectivel punição.<span class="pn"><a +name="pg_92">{92}</a></span> Bem o affirma o ditado:—Deus castiga sem pau nem +pedra. É certo que, quasi sempre, a consequencia lógica da culpa atraza-se +tanto, que o peccador impenitente prolonga uma existencia criminosa no meio da +mais impassivel tranquillidade, como se possivel fôsse á justiça do ceu +esquecer. Muitas vezes, porém, a pena succede-se á culpa sem notavel +intermissão e, em todo o caso, o espirito prudente só tem novo ensejo para +arrenegar do instincto maldoso do homem e colher no exemplo nova convicção da +sabedoria celestial.</p> + +<p>Calou-se, pigarreou, fitando com tenacidade, d'um modo quasi severo, o +auditorio resumido e conspicuo: o Antonio Narceja, portuguez enriquecido n'um +barracão á entrada do furo do Pagé; o Dr. Polycarpo Varella, juiz<span +class="pn"><a name="pg_93">{93}</a></span> de direito, cuja recente remoção +para Salinas filiava-se a memoraveis façanhas eleitoraes, nos confins do +Paraná, ao expirar a situação conservadora, havia poucos mezes e Felix Jacaré, +um cabôclo muito republicano, sapateiro de officio, avô do pequenito que +dormitava-lhe ao cólo, esgaravatando machinalmente o nariz com o dedo +titubeante, a cara suja, os labios breiados de assahy, como breiado estava o +peito do camisão de riscadinho azul e branco.</p> + +<p>Bateram nove horas n'um relogio pendente da parede caiada. Fóra, bramia o +mar. Pela janella aberta entravam, com a brisa, exhalações salinas e esse +borborinho confuso e melancholico das noites em plena roça. No tecto de +vigamento visivel, trilavam grilos. E, por intercadencias, a luz do +candieiro<span class="pn"><a name="pg_94">{94}</a></span> de porcelana +pestanejava de leve, como se também por ella passasse o arripio mysterioso das +coisas tragicas que ali se falava ou se o apavorasse o tom soturno das +considerações philosophicas do tenente-coronel Fernandes.</p> + +<p>—Tem muita razão, acudiu Antonio Narceja, offerecendo obsequiosamente um +phosphoro acceso ao Dr. Varella, que sacára um cigarro de tauary.</p> + +<p>—Conforme... obtemperou o Jacaré, cujo espirito de contradição era +conhecido na villa.</p> + +<p>—Vou dar-lhe um exemplo, compadre, retorquiu Fernandes, risonho e sereno. +</p> + +<p>Pigarreou de novo, tornou a salivar. Depois, ageitando-se na rede, emquanto +os companheiros aproximavam curiosos os bancos, principiou.<span class="pn"><a +name="pg_95">{95}</a></span></p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Ha coisa de uns 25 ou 30 annos, vivia no Magoary um preto corpulento e +encanecido, cuja edade ninguém poderia calcular e que toda a redondeza conhecia +como sendo o mais ousado e feliz pescador da localidade.</p> + +<p>Methodico, não passava um dia sem ir á pesca; afortunado, não atirava a +tarrafinha sem depois puxal-a repleta de peixes! Era um assombro, um gosto +admiral-o em acção! Parece que rejuvenescia-o o mar. Qualquer que fôsse o +estado do tempo, era infallivel encontral-o todas as noites, pelas duas horas, +descendo ao pequeno porto do barracão, a desencalhar a canôa e logo fazer-se ao +largo.</p> + +<p>E que saúde de ferro tinha elle! Jamais conhecera um incommodo, uma dôr de +cabeça! Rijo como o acapú, afrontava os temporaes com a impavidez do fatalista. +E<span class="pn"><a name="pg_96">{96}</a></span> pela madrugada, quem saisse á +praia, não deixaria de descortinar muito ao largo, no mar alto, a pequenina luz +intercadente da canôa do Deodato.</p> + +<p>Era rendoso o officio. Quando voltava á casa, depois do nascer do sol, o +pescador trazía atopetado o fundo da embarcação. Ninguém o vencia na arte da +salga, de tal modo que o seu peixe encontrava sempre melhores offertas do que o +dos demais pescadores da costa do Magoary, quando os procuravam os compradores +que iam revender em Belém.</p> + +<p>Mas tinha um defeito o Deodato:—era um impio. Deveria possuir a alma egual +á cutis, porque desprezava as leis de Deus e zombava impertinente de todos os +mysterios da religião e de todos os actos do culto catholico.</p> + +<p>Em balde buscara algumas<span class="pn"><a name="pg_97">{97}</a></span> +vezes o padre Simplicio—conheceram?—trazei-o á reflexão e demovel-o ao +respeito pelo Senhor. De tudo escarnecia o infeliz e, o que é mais revoltante, +possuia phrases curiosas, sophismas fustigantes, objecções irrespondiveis, para +combater os conselhos do sacerdote. Tudo era inutil. Não havia razão que o +impedisse de ir á pesca ao domingo e dia santificado como em qualquer outro de +trabalho.</p> + +<p>—Você ha de acabar mal,—avisava o padre, entre carinhoso e recriminativo. +</p> + +<p>—Milhor p'ra mim,—retorquia o hereje, sarcastico.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Ora, uma tarde, era vespera de não sei que dia santo grande. Creio que a +Egreja rendia culto á Virgem sob a invocação de Senhora de Belém. Fazia um +calor enorme.<span class="pn"><a name="pg_98">{98}</a></span> O ceu estava +claro, limpo, muito azul e tranquillo, como tranquillo estava o mar. Na praia +arenosa, as ondas vinham desdobrar-se preguiçosamente, n'uma languidez +ineffavel. Mas, ali perto, nos mattos, estalavam os galhos, causticados pelo +sol. E muito ao longe, na linha do horizonte, alguns pontos sombrios, a custo +avistados a olhos nus, pareciam nuvens vagabundas no espaço ou podiam ser +barcas de pesca paralysadas á mingua de brisa.</p> + +<p>No barracão, Deodato, semi nu, fumava, destrançando as redes. De vez em +quando, assomava a cabeça á porta, a inspeccionar o ceu.</p> + +<p>Com a grande pratica que possuia, adivinhava, pressentia calma quasi +completa para toda a noite. Era isto de certo que lhe dava esse pequeno rictus +á commissura<span class="pn"><a name="pg_99">{99}</a></span> dos labios e lhe +encrespava levemente a retinta fronte. Maior trabalho seria o seu, pois +far-se-ia necessario o remar por longo tempo. Emfim, nem tudo podia ser feito á +mercê dos desejos humanos... E volvia á faina, de todo absôrto, fumando +sempre.</p> + +<p>Á boquinha da noite, appareceu um visitante inesperado á porta do Deodato: +</p> + +<p>—Póde-se entrar?</p> + +<p>Era o padre Simplicio.</p> + +<p>Sob o pretexto d'uma visita casual, pelo facto de passar ali proximo, ao +regressar da roça do Xico Sette, o sacerdote penetrava com o intuito de +verificar se o pescador iria aquella madrugada entregar-so ao costumado +trabalho.</p> + +<p>A occupação do Deodato mudou-lhe a supposição em certeza.</p> + +<p>—Não faça isso, homem de<span class="pn"><a name="pg_100">{100}</a></span> +Deus; olhe que a festa é da padroeira da cidade. Nossa Senhora não lhe perdoará +a falta de respeito...</p> + +<p>—Ella bem que s'importa co'a minha vida!—respondeu o preto, com um +encolher de hombros que também poderia significar ao padre Simplicio o fastio +que as suas observações lhe causavam.</p> + +<p>—E se eu lhe pedisse que ficasse em casa, que viesse á minha missa, em vez +de ir amanhã á pesca; se eu invocasse a nossa amizade, afim de ser attendido... +</p> + +<p>Teve Deodato um sorriso franco, dilatado, apresentando entre a dupla polpa +dos labios os largos dentes alvos e disse com uma convicção profunda, com um +tom sarcastico e decidido:</p> + +<p>—Eu ia mesmo, sim, senhor!...</p> + +<p>Não houve razões logicas, pedidos, ameaças de penas<span class="pn"><a +name="pg_101">{101}</a></span> eternas que o demovessem. O negro era teimoso. +Retirou-se o padre amuado, quasi colerico, benzendo-se repetidas vezes no meio +da escuridão do caminho, tauxiada de pyrilampos loucos e murmurosa do longinquo +coaxar de rãs, nos lameiros.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Ficando só, Deodato franziu a testa e, mordendo o labio, lançou contra o +padre a reprovação tacita d'um gesto energico dos braços. O diabo do padréca +que tratasse dos seus negocios. E esta!</p> + +<p>Depois, comeu frugalmente, como de costume, um pouco de tainha moqueada e +logo atirou-se á rede, vencido pelo somno.</p> + +<p>Aquella alma de incredulo estava entorpecida inteiramente. Do contrario, +teria<span class="pn"><a name="pg_102">{102}</a></span> tempo de reflectir nas +observações do sacerdote e quiçá algum sonho o prevenisse da sorte que +aguardava a sua irreligiosidade. Mas o infeliz dormiu como uma pedra até que os +gallos das roças proximas soltaram no ar socegado os seus cantos da madrugada, +despertando-o.</p> + +<p>Levantou-se o negro e, accendendo o farol, saíu com direcção á praia.</p> + +<p>Trilavam grilos, como n'este momento em que lhes falo. Na noite calma, +rebrilhavam estrellas, espelhando na superficie lisa do mar as suas cabecinhas +irrequietas. Nenhuma aragem movia os arbustos, as arvores do mattagal. Coaxavam +sempre as rãs, emquanto os sapos cururús dialogavam com enthusiasmo. E, ao +longe, dominando esses mil arruidos da noite, vibrava ainda o cantar dos +gallos, com um não sei<span class="pn"><a name="pg_103">{103}</a></span> que de +profundamente triste, n'uma plangencia de alma condemnada.</p> + +<p>Instantes depois, a canôa do Deodato fazia-se ao largo. Não havia sôpro de +brisa. A calmaria era completa. Elle, desde a tarde, esperava aquillo mesmo. +</p> + +<p>Mas, apezar da edade, tinha ainda bons musculos o velho pescador. Remava á +direita, remava á esquerda e o seu barquinho a pouco e pouco se afastava, +impávido, cortando a vaga indolente.</p> + +<p>Á pôpa, como de alcatéa, velava o farol, ia deixando pela esteira da +embarcação um rastro luminoso, que se prolongava desmesuradamente, em direcção +á terra.</p> + +<p>Além d'este, nenhum outro signal de vida poderia enxergar-se mais em toda +aquella extensão de costa nem sobre a linha do horisonte, do lado do mar alto. +Quem<span class="pn"><a name="pg_104">{104}</a></span> se atreveria a ir pescar +na madrugada do dia festivo consagrado á padroeira de Belém?</p> + +<p>D'isto mesmo deveria recordar-se o Deodato, quando se achava já a mais de +duas milhas de distancia, porque, fazendo meia volta ao corpo, olhou para traz +e teve no rosto renegrido uma suprema expressão de ironia sorridente.</p> + +<p>—Tolos!—rosnou, volvendo logo a remar com furia, cravando a vista nas +redes colhidas ao fundo da canôa.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Meia hora depois, algumas pequenas nuvens sombrias tinham-se erguido lá +muito ao longe, escalavam o ceu, vinham galgando distancias, desdobravam-se +assombrosamente. Fitou-as o pescador, desconfiado.<span class="pn"><a +name="pg_105">{105}</a></span></p> + +<p>—Ué!—exclamou. Vento ou trovoada?</p> + +<p>Apezar da incerteza, ergueu o mastro, preparou a diminuta vela de muruxy. E +estava contente, porque já não precisaria de empregar maior esforço. O remo já +começava a cansal-o, que diabo...</p> + +<p>Mas convinha aproveitar o tempo. Levantou-se ainda, tomou uma das rêdes e, +com um gesto largo e facil, fel-a descrever um circulo por sobre a cabeça, +lançando-a depois á distancia que reputou conveniente.</p> + +<p>Colhendo-a, sentiu-a leve sobremaneira e não tardou em verificar que a +estréa fôra de todo improductiva. Não viéra um só peixe!</p> + +<p>Era estranho, porque aquelle sitio já tinha fama de rico em cardumes.</p> + +<p>Longinqua fulguração de relampago fel-o erguer o<span class="pn"><a +name="pg_106">{106}</a></span> olhar. As nuvens tinham subido ainda mais, +haviam-se estendido em quasi dois terços do espaço, pareciam agora as pesadas +colgaduras de uma camara ardente. Segundo relampago, muito distante, scintilou +então. E uma pequena aragem soprou fresca do lado do poente.</p> + +<p>Decididamente, ia cair a trovoada. Não podia Deodato perder um segundo: içou +a véla, manobrou no sentido de aproveitar o vento. E assim afastou-se ainda +mais de terra. Iria experimentar o mar a meia milha d'ali.</p> + +<p>Quando, depois de lançar a rêde em outro sitio, se dispunha a puxal-a, +pareceu-lhe estar extremamente pesada. Um sorriso de alegria entreabriu-lhe os +grossos labios. E então? Elle bem sabia que aquillo era infallivel!</p> + +<p>Mas imaginem o seu assombro quando, depois de longos<span class="pn"><a +name="pg_107">{107}</a></span> esforços, conseguiu trazer á flôr da agua a rêde +que julgava repleta e de repente sentiu-a tornar-se completamente leve, +encontrando-a logo de todo vasia, sem uma unica pescada!</p> + +<p>Deodato não era homem para impressionar-se, porém não deixou de achar +bastante extranho similhante facto.</p> + +<p>N'esse momento, o espaço illuminou-se com um grande relampago, seguido do +estrugir medonho do trovão.</p> + +<p>O vento augmentara, passava agora sibilando nas cordas do pequeno mastro, +enfunando a véla com raiva, arrastando a canôa n'uma furia, n'uma vertigem, á +luz dos relampagos successivos, no meio de coriscos que esfusiavam caprichosos +por todos os lados.</p> + +<p>Comprehendeu o negro que a trovoada ia ter maiores proporções do que as que +lhe<span class="pn"><a name="pg_108">{108}</a></span> attribuira ao principio. +Nada mais poderia fazer n'essa noite. Aquillo era praga do Simplicio, pensava. +Bem descontente, resolveu regressar. Quiz passar o panno para bombordo, porém +não teve a precisa ligeireza e o vento, já de todo impetuoso, quasi invencivel, +arrancou-lhe das mãos o chicote da espia e n'um momento arrebatou a vela em +farrapos, n'um redemoinho sibilante pelo espaço.</p> + +<p>Só lhe restava o alvitre da resignação. E elle, habituado ás inclemencias, +affeito a mil e uma tempestades, sentou-se sereno á pôpa, depois de abaixar o +mastro: resolvera esperar o desenlace da crise.</p> + +<p>O que presenceou então foi horrivel. Choviam raios á direita, á esquerda, +por toda a parte. O ceu estava negro, agitado de ribombos infernaes, a cada +minuto illuminado<span class="pn"><a name="pg_109">{109}</a></span> +tetricamente, deixando a descoberto as grossas massas das nuvens fugidías.</p> + +<p>E o preto, longe de assustar-se, ali estava na barca, de braços cruzados, +sorrindo com cynismo. O mar tinha um aspecto que se casava com a attitude +hostil do espaço. Por toda a parte erguiam-se compactas collinas liquidas, +escancaravam-se horriveis, hiantes valles phosphorescentes. Não chovia ainda, +mas o vento, que zunia aos ouvidos do negro incredulo, cuspia sobre elle +milhares de gottas salitrosas tiradas ás ondas freneticas, trementes.</p> + +<p>De subito, a amplidão toda se convulsionou, vibrou n'um estrepito pavoroso, +repercutindo um som innominado, jamais percebido pelo Deodato em situações +identicas. Avermelhado clarão illuminou tudo, revelou aos olhos<span +class="pn"><a name="pg_110">{110}</a></span> do negro toda a magestade +d'aquella scena para a pintura da qual, meus amigos, não tenho senão palavras +inexpressivas e phrases sem colorido.</p> + +<p>Ficou estarrecido o pescador. Sentira que a fragil embarcação era com vigor +sacudida! Mas a força que assim operava não vinha decerto do embate das ondas. +E a canôa tremia toda, rangia, vibrava incessantemente, como se um braço de +Adamastor a agitasse n'uns empuxões cyclopicos e interminaveis.</p> + +<p>—Que diabo é is...</p> + +<p>Não pôde continuar. Deante d'elle, rodeado d'uma auréola de chammas, +tresandando a enxofre, emergia Satanaz! Levantou-se indizivel alarido: os raios +duplicaram o faiscar, ribombos estalaram mais cavernosos. Por seu turno, o +vento engrossou<span class="pn"><a name="pg_111">{111}</a></span> ainda mais as +vagas, que chegaram quasi a cobrir o barquinho.</p> + +<p>Porém só durou um segundo o estupôr de Deodato. Qualquer outro homem +succumbiria de medo. Elle, entretanto, como envergonhado d'esse instante de +susto que tivéra ha pouco, arrastou-se com esforço, ergueu a meio o corpo +ensopado e transido. Depois, levantando o olhar e o punho para o ceu, proferiu, +ou antes bramiu feroz imprecação satanica.</p> + +<p>O diabo,—porque era elle em pessoa que assim surgira do mar,—empunhara uma +espia e, correndo, cabriolando por cima das ondas loucas, entrou a puxar o +batel para o lado de terra.</p> + +<p>Aquella corrida frenetica durou um momento. D'ali a pouco, barco e +tripolante desfaziam-se de encontro ás pedras d'uma enseada,<span class="pn"><a +name="pg_112">{112}</a></span> perto da capellinha do logar. Viram os meus +amigos a acção da justiça de Deus?</p> + +<p style="text-align: center;">—</p> + +<p>Calou-se o tenente coronel Fernandes. Estava offegante, com os labios +sêccos, o olhar animado.</p> + +<p>Mas resoou no aposento uma gargalhada stentorica, que despertou o molequito +no cólo do avô.</p> + +<p>Era este proprio, o Felix Jacaré, quem zombara d'aquelle modo. Logo, com +entonação escarninha, ponderou:</p> + +<p>—Não creiam n'essa balela de seu c'roné. O tar Deodato não foi pescá, ficou +na rêde muito socegado e despois sonhô essas coisa, 'hi 'sta. Seu padre +Simpricio, antão, arranjô o resto...<span class="pn"><a +name="pg_113">{113}</a></span></p> + +<p> </p> + +<h1>MATER DOLOROSA</h1> + +<p> </p> + +<h2>MATER DOLOROSA</h2> + +<p style="text-align:right;">A Bellarmino Carneiro.</p> + +<p> </p> + +<p>Ante-manhã.</p> + +<p>O vapor seguia rio acima, bem perto da margem, tão perto que, ás vezes, as +ramarias sussurrantes da floresta roçavam na coberta, estendiam galhos sombrios +por de sobre a borda.</p> + +<p>Ainda não haviam despertado as aves. O rio estava ali muito socegado, +reflectindo o mattagal, banhando os aningaes avelludados. Não<span +class="pn"><a name="pg_116">{116}</a></span> começára o arruido de passaros com +que a alvorada é recebida, mas persistiam, comtudo, os derradeiros murmurios +dos animaes e insectos noctivagos.</p> + +<p>A bordo mesmo, á ré, tudo parecia descansar ainda.</p> + +<p>Só o compassado resfolegar da machina denunciava que alguns entes velavam a +meia-nau, attentos aos avisos do pratico de quarto.</p> + +<p>Ao nascente, começava a desenhar-se uma tenue claridade,—o início do fugaz +crepusculo amazonico. A sombria noite diluia o negrume n'um suave frouxel +cinzento, muito mal esboçado, indeciso quasi. Estavam longe as meias tintas côr +de pérola e lyrio, precursoras das tonalidades rosadas e azues, que a seu turno +precedem as estridencias rubras e alaranjadas, em breve esbatidas na +tranquillidade definitiva dos<span class="pn"><a name="pg_117">{117}</a></span> +aspectos mais claros do dia adeantado.</p> + +<p>Ia amanhecer.</p> + +<p>Em uma porta de camarote, á pôpa, assomara um vulto sombrio de mulher. +Esteve ali um momento. Logo encaminhou-se á borda, perscrutando a escuridão, +por um lado, por outro, attentamente.</p> + +<p>Aquelle vulto vestia um trajo simples, de rigoroso lucto.</p> + +<p>Saudou-o da matta um silvo de passaro,—a primeira manifestação do despertar +das aves.</p> + +<p>O ambiente reacendia. Vinham da floresta virgem aromas capitosos de cumarú e +baunilhas. Pelos cipós que desciam dos galhos, formando emmaranhamentos +caprichosos, deviam escorrer as preciosas resinas que trescalavam tão fortes +effluvios.</p> + +<p>A mulher inspirou com<span class="pn"><a name="pg_118">{118}</a></span> +força. Queria banhar os pulmões n'aquella olencia. Em seguida, suspirou um +suspiro triste; suspiro de viuva? suspiro de mãe inconsolavel?</p> + +<p>Clareara um pouco mais. Ja se percebia todo o labyrintho de braços folhudos +que as arvores estendiam no ar, em contorsões. Uma suavidade paradisíaca se +diffundia na meia tinta da luz crepuscular. Era quasi sol nado. Os passarinhos +já haviam encetado o canoro certamen, volitavam céleres. Á beira-rio, +nenuphares ostentavam-se opulentos por de sobre as polposas folhas que pareciam +caprichos de esculptura em marmore verde. Mil flôresinhas silvestres salpicavam +a vegetação das margens, sem nenhum acanhamento de uma ou outra victoria-régia +que se dignava mostrar-se entre os massiços dos mururés, os quaes recebiam<span +class="pn"><a name="pg_119">{119}</a></span> da correnteza um brando movimento +de balouço. E, de um a outro lado do rio, eram grandes bandos altíssimos d'aves +aquaticas,—patos grasnadores, pavõesinhos gemebundos, garças, cegonhas, toda a +migração alada dos desertos amazonicos. Estava ali a natureza intacta, no seu +inalterado aspecto milionario, tal como a viram os primeiros habitantes, as +tribus lacustres que fôram as raças autochtones.</p> + +<p>O vapor seguia sempre adeante, rente a terra, na mesma monotonia. Aquella +ascensão parecia o desvirginamento d'um éden.</p> + +<p>Iniciou-se a bordo a tarefa quotidiana. Alguns marinheiros appareceram +trazendo baldes, desdobrando mangas para irrigação. Rompeu a subitas o sol, por +além das mattas, n'um deslumbramento.</p> + +<p>Fugiu veloz para o camarote<span class="pn"><a +name="pg_120">{120}</a></span> a madrugadora passageira.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Horas mais tarde, o commandante atravessou o tombadilho, foi bater-lhe á +porta. Seguiam-n'o trez ou quatro pessôas, que se conservaram a curta +distancia, dissimulando a custo grande curiosidade.</p> + +<p>Era de certo esperada a visita, porque, immediatamente, a mulher saíu a +recebel-a. Com a luz do dia, via-se que era uma anciã, de rosto enrugado e +fronte encanecida. Não tinha aquella physionomia outra expressão que a do mais +fundo soffrimento. E os olhos brilhavam extranhos, muito negros e dilatados, +entre longos cilios sedosos.</p> + +<p>—Já estamos,—disse-lhe o commandante.<span class="pn"><a +name="pg_121">{121}</a></span></p> + +<p>Ella penetrou de novo no aposento, mas volveu passado um instante. Trazia +uma corôa de saudades,—uma corôa tosca, evidentemente barata. E, com o sorriso +triste, murmurou ao capitão uma palavra de agradecimento.</p> + +<p>Depois, apertando com as mãos crispadas a humilde corôa sobre o coração, foi +ajoelhar-se junto á borda, suspirando, soluçando, toda desfeita em pranto.</p> + +<p>Ali perto, na floresta, rebrilhavam flôres de sonho,—extranhas orchídeas +gigantes, catléas variegadas, osculadas de coleopteros zumbidores. Crescia +triumphal o canto dos passarinhos.</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>O grupo de passageiros arredára-se, n'um movimento de involuntario respeito +por aquella sincera dôr ignorada.<span class="pn"><a +name="pg_122">{122}</a></span> No meio d'elles, o commandante sentou-se +taciturno e falou:</p> + +<p>—Não notam? Estou emocionado. Ha doze annos que vejo, em cada viagem, duas +vezes repetir-se este espectaculo e, no entanto, até aqui me não familiarisei +com elle. A prova é que abala-me ainda, como da vez primeira que a elle +assisti. Onde encontrar explicação para isto? De certo que no immenso impulso +d'essa dôr, na grandeza do sentimento que a provoca e que ha de haver +compungido o coração dos senhores todos, não é verdade?</p> + +<p>O grupo teve um movimento egual de assentimento. Em algumas physionomias +brilhava uma curiosidade inequivoca. Mas o capitão proseguia:</p> + +<p>—Vou referir-lhes a causa d'este espectaculo com que não contavam +certamente os<span class="pn"><a name="pg_123">{123}</a></span> meus amigos. +Esta senhora é a viuva do antigo commerciante C. A., de Belém. O marido possuia +seringaes no alto Madeira, administrados por um primo. Raras vazes vinha a +estas paragens: a escala dos seus negocios no Pará impedia-o de visitar a +propriedade, perto da fronteira boliviana.</p> + +<p>Tinham um filho unico,—o pequenito Anselmo,—um mimo de creança, que os +senhores haviam de estimar se o vissem, uma só vez bastava. Moreno, olhos +negros e vivazes, tinha na franca physionomia alegre a manifestação exacta d'um +espirito aberto e elevado. Sympathico a valer, bem educado aos onze annos, +todos o queriam sobremaneira.</p> + +<p>Esta creança, um dia, perdeu o pae. Aquella senhora que ali está em pouco +tempo soube que os seus haveres se<span class="pn"><a +name="pg_124">{124}</a></span> achavam reduzidos. Ella, que sempre vivera na +abundancia, não teve uma palavra de queixa. Abençoando á memoria do eterno +ausente, resolveu retirar-se para o seringal, trabalhar como o ultimo cabôclo, +afim de attender á instrucção do pequeno. Para este voltaram-se todos os seus +affectos. Quem ignora ahi como sabem amar as dôces mães amazonicas?</p> + +<p>Dona Maria não tinha parentes proximos. Emprehendeu a viagem sem saudades, +n'este mesmo vapor. Trazia comsigo o retrato vivo do morto, cuja existencia era +continuada na louçania dos onze annos risonhos da creança.</p> + +<p>A bordo, corriam felizes os dias. O Anselmito brincava sem pezares, tinha em +cada passageiro um camarada. E a bôa senhora quedava-se horas esquecidas a +fital-o de<span class="pn"><a name="pg_125">{125}</a></span> longe, no enlêvo +da sua alma reflexiva, folheando recordações posthumas, revendo saudades +discretas.</p> + +<p>Foi ha doze annos. Uma tarde, não sei que passara ao menino: estava mais +brincalhão do que nunca. Ia por toda a parte, correndo, risonho, amavel com +toda a gente. De subito, um grito resoou, acompanhado d'um brado d'alma, +indescriptivelmente lancinante! Olhem, ainda o tenho aqui, a vibrar-me nos +ouvidos, esse grito de mãe desesperada!</p> + +<p>O Anselmo cavalgara o parapeito, n'um instante de descuido de todos nós e, +perdendo o equilibrio, rolara para o abysmo. Foi além, defronte d'aquella +immensa sapupêma. Em breves minutos lá estaremos. Parou o vapor, desceram +escaleres, fez-se inuteis pesquizas durante vinte e quatro horas seguidas.<span +class="pn"><a name="pg_126">{126}</a></span></p> + +<p>O cadaver adorado não appareceu.</p> + +<p>De então para cá—e quantas viagens tenho eu feito?—a infeliz mãe não deixa +o <em>Mahissy</em>. O seu affecto retempera-se em passar incessantemente por +sobre o sitio onde as aguas caudalosas do Madeira tragaram aquelle corpinho tão +fragil e tão querido. De cada vez que por aqui singramos, dona Maria ajoelha-se +lacrimosa e, ao chegar ao logar fatídico, arroja piedosamente ao rio uma corôa +de saudades artificiaes. Não tem aqui flôres naturaes, a pobre; mas acaso não +são bem viridantes as flôres do seu coração, as tristes flôres do pezar eterno? +</p> + +<p>Nunca mais foi a terra. O seringal, vendeu-o logo, pela metade do preço, +Gasta o dinheiro em passagens para si, e corôas para o anjinho. Já devem estar +bem reduzidos<span class="pn"><a name="pg_127">{127}</a></span> os capitaes da +desgraçada. Causa-me isto uma lastima profunda. Mas attendam...</p> + +<p style="text-align: center;">*</p> + +<p>Dona Maria erguera-se, n'um impulso desvairado. Levantou por cima da cabeça +a mesquinha corôa toda banhada de sol e arrojou-a á agua.</p> + +<p>O rio tragou a funebre contribuição, fechou-se murmuroso, em circulos +concentricos. A anciã tornara a cair genuflexa, soluçante e transfigurada no +seu apaixonado desespero.</p> + +<p>Em terra, bem á orla da floresta ancestral, mil aves garrulavam na copa +gigante d'uma feroz sapupema secular.<span class="pn"><a +name="pg_128">{128}</a><br><a +name="pg_129">{129}</a></span></p> + +<p> </p> + +<h1>Yaras paraenses</h1> + +<p> </p> + +<h2>YARAS PARAENSES</h2> + +<p>No copiar da chacara, aquella noite, haviam-se reunido alguns vizinhos do +commendador Esteves, o principal proprietario do Pinheiro.</p> + +<p>Rêdes fechavam os angulos, pendentes dos esteios. Era uma roda de homens. +Todos balouçavam-se, acalorados, aguardando o assahy que n'esse momento a +mulata Josepha amassava na cosinha.</p> + +<p>O luar de agosto penetrava em diagonal, diaphano, trazendo toda a +melancholia profundíssima das incomparaveis noites equatoriaes. Da<span +class="pn"><a name="pg_132">{132}</a></span> matta pouco distante, lavada de +luar, vinha o monotono arruido dos insectos nocturnos, o alarido dos cururús +teimosos. Na gaiola pendente do tecto sem fôrro, um caraxué silvava. E do rio, +que corria ali perto, ao fundo da ribanceira, subiam com a brisa refrigerante +os rumores dos barcos de pesca fazendo-se ao largo, para a foz.</p> + +<p>Fumava-se, conversava-se. Haviam já discutido os negocios do dia, na +capital. Esteves encetara mesmo um poucochinho de politica. Portuguez de +nascimento, não queria immiscuir-se em assumptos partidarios; mas tinha por +elles sua predilecção e nunca deixava de externar uma ou outra opinião, sempre +muito conservador e ordeiro.</p> + +<p>N'essa tarde, viera com elle passar a noite na rocinha o velho Barriga, seu +aviado do<span class="pn"><a name="pg_133">{133}</a></span> alto Xingú. Era um +cabôclo adiposo, de ventre proeminente e face larga. Apparencia insignificante, +matreirice innata: o typo commum do seringueiro indígena. Trouxera a mulher, +que já estava recolhida ao quarto destinado ao casal.</p> + +<p>Achava-se também presente o subdelegado Fonseca, antigo solicitador dos +auditorios, agora enviado ao Pinheiro afim de preparar recursos para uma +eleição proxima. Era esta a sua especialidade, ao que parecia. Em todo o caso, +rendia mais do que a primitiva profissão. Um presidente vindo da Côrte não +tivéra extraordinaria difficuldade para convencel-o d'isto.</p> + +<p>Mas a palestra veiu naturalmente a versar sobre assumptos do sertão. A um +quint'annista de direito, que villegiaturava todo o anno,<span class="pn"><a +name="pg_134">{134}</a></span> explicara já o Barriga a pesca do pirarucú e o +preparo da grude de gurijuba. O quint'annista era, n'este ponto, d'uma +ignorancia absoluta: não admirava a sua curiosidade. </p> + +<p>Os demais circumstantes escutavam n'um silencio discreto, bocejando. Nas +intercadencias da narrativa, apenas se ouvia o ranger das escápulas pelo +movimento das rêdes e o farfalhar dos galhos, matta fóra.</p> + +<p>Uma voz reclamou um conto indígena, uma lenda amazonica. Não comprehendeu a +phrase o Barriga. Quedara-se a olhar o interlocutor, cortado.</p> + +<p>—Historias de bôto, do curupira, da mãe d'agua,—explicou o subdelegado. +</p> + +<p>—Han!—rosnou o cabôclo. Tudo isso é mentira, acredite!</p> + +<p>—Como! Pois o senhor atreve-se a negar o que todos<span class="pn"><a +name="pg_135">{135}</a></span> no sertão asseguram ser verdade +evidentíssima?</p> + +<p>Sorriu o velho, superiormente. Tinha no rosto uma profunda piedade, pela bôa +fé do cidadão. Ergueu-se, afivelou o cós da calça e, espreitando para o lado do +quarto da mulher, congregou os companheiros em circulo diminuto. Estava +transfigurado: era um philosopho stoico.</p> + +<p>—Vocês ouviram já falar em yaras, não?—perguntou. Pois é tudo mentira +também.</p> + +<p>E abaixando a voz:</p> + +<p>—Só ha uma especie de yaras,—proseguiu. Essas, porém, não vivem no fundo +dos rios da minha terra, estão, ahi, na cidade; vi hoje á tarde uma porção, +quando fui com seu Esteves tomar o vapor. São as mulatinhas cheirosas a +periperioca e jasmins, sabem? as verdadeiras yaras encantadas. Mas +precisamente<span class="pn"><a name="pg_136">{136}</a></span> não é para o +abysmo das aguas que arrastam a gente!...</p> + +<p>—Seu Barriga, venha dormir!—gritou no outro extremo do copiar a encanecida +e rotunda esposa do velho cabôclo do Xingú.<span class="pn"><a +name="pg_137">{137}</a></span></p> + +<p> </p> + +<h1>Uma historia de amor</h1> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;">(DOCUMENTOS HUMANOS)<span class="pn"><a +name="pg_138">{138}</a><br><a +name="pg_139">{139}</a></span></p> + +<h1>Uma historia de amor</h1> + +<p style="text-align: center;">(DOCUMENTOS HUMANOS)</p> + +<h3>PRIMEIRA QUINZENA</h3> + +<h4>I</h4> + +<p>Senhor,—</p> + +<p>Não posso attendel-o. Tenho deveres sagrados a cumprir, uma posição social a +zelar. Esqueça-me.</p> + +<p style="text-align:right;">(<em>Sem assignatura</em>).<span +class="pn"><a name="pg_140">{140}</a></span></p> + +<h4>II</h4> + +<p>Senhor,—</p> + +<p>Julgo-o um cavalheiro e acredito-o sincero, por causa da assiduidade com que +me procura. Acceito o seu convite para jantar,—mas somente no intuito de o +dissuadir d'essa loucura que nunca poderá ser correspondida. Até logo.</p> + +<p style="text-align:right;">E<small>LISA.</small></p> + +<h4>III</h4> + +<p>Sympathico amigo,—</p> + +<p>Porque insiste? Estimo-o como um camarada, quasi como a um irmão. Não posso, +entretanto, perdoar-lhe a impertinencia:—meu marido nunca será enganado.</p> + +<p style="text-align:right;">E<small>LISA.</small><span +class="pn"><a name="pg_141">{141}</a></span></p> + +<h3>SEGUNDA QUINZENA</h3> + +<h4>I</h4> + +<p>Bom amigo,—</p> + +<p>Exactamento como o senhor, estou bastante incommodada por tremenda +enxaqueca, que obrigou-me a ficar deitada até agora. A sua amavel carta, cheia +de phrases tão meigas, traz-me certo lenitivo e me dá a energia necessaria para +tomar a penna. Demais d'isto, a satisfação de escrever-lhe faz-me esquecer os +proprios soffrimentos.</p> + +<p>Não me agradeça tanto o serão de hontem, ao jantar. Se o sr. comprazeu-se +com a minha companhia, o mesmo aconteceu commigo; não tenho, pois, merito +algum<span class="pn"><a name="pg_142">{142}</a></span> em fazer o que ditam os +meus mais caros desejos.</p> + +<p>Quanto mais conversamos, mais vou eu descobrindo no meu bom amigo +sentimentos e gostos que correspondem aos meus. A surpreza rejubila-me; +similhante analogia de caracter e de idéas é demasiado rara para que eu deixe +de admirar-me, sobretudo se encarar as barreiras sociaes que nos separam e a +differença de classe a que pertencemos.—A sua cartinha de hoje é uma pequena +obra-prima de cariciosas phrases. Quero crel-o, desejo acredital-o. Já não +posso duvidar do senhor. Julgo-o sincero, porque <em>nada</em> o obriga a ter +procedimento egual ao seu. O sr. é demasiado superior de espirito para ligar +tanta importancia a uma vulgar questão de materialismo. Por consequencia, a +logica me compeliu a suppol-o franco<span class="pn"><a +name="pg_143">{143}</a></span> em seus sentimentos apparentes. Quanto a mim, +entrego-me toda ao senhor, intellectualmente. Juro-lhe que sou sincera, +mesmo—e sobretudo—nas minhas ingenuidades.</p> + +<p>O sr. é sceptico, já m'o disse; isto é, preveniu-me do trabalho que eu teria +para fazer-me acreditar. Não ignoro as prevenções que têm os homens pelos +sentimentos affectados. Todas as mulheres são enganadoras, voluveis, +mentirosas, mas todas têm, comtudo, momentos de real sinceridade. Encontro-me +em um d'esses momentos. E note, meu caro Jorge, que não digo isto para +differençar-me das demais mulheres e tornar-me importante aos seus olhos. Não, +porque possúo todos os defeitos acima enumerados. Melhor do que ningúem, sabe-o +o senhor, porque estou prestes a<span class="pn"><a +name="pg_144">{144}</a></span> enganar o homem com quem vivo. Verdade é que +esse homem é um imbecil e que nunca sympathisarei com tal cathegoria de +caracter. Não digo isto para desculpar-me aos meus proprios olhos, pois só me +importo com a minha consciencia e não com alheias opiniões. Digo-o, sim, á laia +de informações a respeito dos meus sentimentos reaes, no intuito de fazer-lhe +comprehender que, do senhor para mim e reciprocamente, deve estabelecer-se uma +corrente de escrupulosa sinceridade, pela simples razão de que eu e o sr. não +somos impellidos um para o outro por outro interesse que não seja o nosso +capricho,—ou, se mais lhe apraz e para falar mais exactamente, pela especie de +correlação que existe entre os nossos dois espiritos.</p> + +<p>Como vê, sou mais franca<span class="pn"><a name="pg_145">{145}</a></span> +do que o sr. É talvez um mal. Por principio, uma mulher, posto que enamorada, +nunca deve revelar inteiramente a sua alma. Eu, porém, tenho-o na conta do mais +leal dos homens, do mais generoso dos corações. Serei algum dia despertada +cruelmente d'este adoravel sonho?</p> + +<p>Percebo que tenho ainda muitas coisas a dizer-lhe: tomo, pois, outra folha +de papel. Ha de fazel-o sorrir tamanha expansão. Que quer? Tenho tantas phrases +agitando-se-me na cabeça.... Emfim, perdôe-me. Desejo que o sr. me conheça bem +e saiba completamente o que sou e o que quero.</p> + +<p>Não imagina até que ponto aprecio a attenção tão firme mostrada para +commigo, vae fazer um mez. Agradeço-lh'o deveras, porque isto me satisfaz +immenso.<span class="pn"><a name="pg_146">{146}</a></span> Lembra-se da carta +em que lhe pedia que me esquecesse? Pois bem; hoje tem o meu querido amigo a +razão por que lhe dizia essas palavras. Não o conhecia bem e receiava +affeiçoar-me demasiado a um homem cujas apparencias eram as de um aristocratico +<em>viveur</em>.—Sinto que hei de amal-o, que hei de amal-o talvez mais do que +o sr. deseja e o amor é, ás vezes, cruel tyranno intransigente e molesto. O sr. +agora está prevenido: póde defender-se. Não venha um dia lamentar-se pelo facto +de haverem-se tornado demasiado serios os meus sentimentos.</p> + +<p>Tenho o genio tranquillo. De temperamento frio, difficilmente me +enthusiasmo. Com respeito a questões graves, nada emprehendo sem antes prever +os resultados do acaso ou do imprevisto. Nunca foi meu fraco a leviandade.<span +class="pn"><a name="pg_147">{147}</a></span> É por isso que faço questão de +patentear-lhe a alma da mulher que o senhor tem deante dos olhos e que espero +nunca será considerada com volubilidade.</p> + +<p>Conhece-me agora, querido amigo. Esta carta é uma confissão: nunca fiz outra +egual. Sem falsa vergonha revelo os meus defeitos e fraquezas, sabendo a quem +os confio.</p> + +<p>Falemos agora de coisas que interessam á vida physica. Nada tenho a +dizer-lhe sobre o ponto que trata do aposento em questão: approvo o que fez. +Veja que o ninho seja bem discreto, bem mysterioso, para esconder perfeitamente +a felicidade que vae abrigar.</p> + +<p>Até amanhã.</p> + +<p style="text-align:right;">E<small>LISA.</small><span +class="pn"><a name="pg_148">{148}</a></span></p> + +<h4>II</h4> + +<p>Jorge,—</p> + +<p>Volto do passeio n'este instante com meu marido e encontro a tua carta. +Então, meu querido, já estás mau e injusto sem motivo!</p> + +<p>Em primeiro logar, dizes—<em>a senhora</em>, o que, na correspondencia, é +um matiz bem accentuado de frieza. Não é bonito isso.</p> + +<p>Depois, agastas-te sem razão. Não conheces acaso a minha existencia? Não +ignoras que goso de uma liberdade limitada. Além d'isso, não temos ambos, eu e +tu, as nossas respectivas obrigações? Differentes, sem duvida, dir-me-ás, porém +isso não impede que seja imprescindivel cumpril-as todas.</p> + +<p>Tens graça affirmando que<span class="pn"><a name="pg_149">{149}</a></span> +eu podia arranjar um pretexto! Invento-os todos os dias, mas lá vem um instante +em que os argumentos minguam e mistér se faz pagar o tributo da propria +presença, como hoje aconteceu.</p> + +<p>Não sejas, pois, injusto:—eu soffreria bastante.</p> + +<p>A vida que levo não tem alegrias para mim, acredita-me. E, se vens ainda +augmentar-me os desgostos com recriminações que não mereço, ainda mais me +entristecerás.</p> + +<p>Amo-te, bem o sabes. Se não o crês, é porque impede-te o teu scepticismo. +Como provar-te, entretanto, o meu amor?</p> + +<p>Vê se sou corajosa: escrevo esta carta (e bem notas com que tranquillidade), +deante de quem sabes. Não posso mostrar mais audacia, mais temeridade, +parece-me. <em>Elle</em> anda ao redor de mim,<span class="pn"><a +name="pg_150">{150}</a></span> com olhares atravessados, que me encolerisariam +se eu já não estivesse tão predisposta contra elle.</p> + +<p>Até logo. Não sejas tão mau com a tua</p> + +<p style="text-align:right;">E<small>LISA.</small></p> + +<h3>TERCEIRA QUINZENA</h3> + +<h4>I</h4> + +<p>Meu querido,—</p> + +<p>Vou mais uma vez enfastiar-te com a minha prosa quotidiana, porém agora +tenho uma desculpa:—estás doente.</p> + +<p>Como te encontras hoje? Cada vez melhor, presumo-o e desejo-o com toda a +minha alma.</p> + +<p>O tempo está mau, trata-te bem, não faças imprudencias<span class="pn"><a +name="pg_151">{151}</a></span> nem affrontes o ar humido e doentio das ruas +lamacentas depois da chuva d'esta noite.</p> + +<p>Muito penso em ti e soffro extraordinariamente por te não ver ha longos +dias. Tu, meu amigo, que tão bem conheces o coração das mulheres, ainda +desconheces o meu, que, no emtanto, possues inteiramente... ou antes, conheces +demasiado a esse pobre musculo e é por isso que ás vezes o fazes soffrer +bastante.</p> + +<p>Adeus, meu amor. Trata-te com cuidado e recebe toda a ternura da tua</p> + +<p style="text-align:right;">E<small>LISA.</small></p> + +<h4>II</h4> + +<p>Jorge,—</p> + +<p>Depois do que se passou hontem á noite entre nós, tomo a prudente resolução +de libertal-o da minha presença,<span class="pn"><a +name="pg_152">{152}</a></span> que o importuna de certo tempo para cá. Esta +carta é a da sua alforria: sae ao encontro das suas intenções, que, mais hoje, +mais amanhã, seriam propostas de certo.</p> + +<p>Não me surprehende a sua conducta. Sinto não haver-me equivocado, porque +amava-o. O sr. é muito caprichoso e nunca teve affeição por mim. Nunca houve no +mundo caracteres tão deseguaes como os nossos. Os nossos gostos e sentimentos +andavam em regiões absolutamente oppostas, bastante tarde o comprehendo.</p> + +<p>Adeus, por tanto. Cure-se, restabeleça depressa a saúde, que eu desejara +saber completa, mesmo sem nunca tornar a vel-o. Adeus.</p> + +<p style="text-align:right;">E<small>LISA.</small></p> + +<p style="text-align:center;">—</p> + +<p>Conforme.<span class="pn"><a name="pg_153">{153}</a></span></p> + +<p> </p> + +<h1>A filha do pagé</h1> + +<p> </p> + +<h2>A filha do pagé</h2> + +<p style="text-align:right;">A Martin Garcia Mérou</p> + +<h3>I</h3> + +<p>No rio Negro.</p> + +<p>Das margens, nenhum som da vida animal perturbava a tranquillidade das +coisas. A pino, o sol mordia as densas vegetações sombrias, fustigava tenaz uma +ou outra borboleta vagabunda sobre os nenuphares exhaustos. O rio seguia +monotono, n'um esvaimento; apenas pelo meio,<span class="pn"><a +name="pg_156">{156}</a></span> lá ao largo, a correnteza fervia em cachões, +borbulhava entre escumas alaranjadas, depurava-se de todos os residuos que +acarreta a grande arteria aquatica.</p> + +<p>Pela beirada, aproveitando o remanso, ia subindo vagarosa, impellida pelo +remo de pá, a canôa de pae Francisco, o velho pagé de Curralinho.</p> + +<p>Vinha de longe, o solitario viajante. Emprehendêra a operosa navegação, que +almejava fôsse a sua ultima ascensão para o centro, em busca do absoluto socego +onde podesse sondar a sua dôr e dar largas ao pranto que não seccava ha seis +mezes. Fugia do logar onde fôra feliz e poderoso. Além, no mysterio das +florestas intactas, na grandiosidade da natureza virgem, havia de encontrar o +lenitivo para as amarguras da alma lacerada.<span class="pn"><a +name="pg_157">{157}</a></span></p> + +<p>Uma ternura afagava-lhe o espirito, onde renasciam vislumbres de esperança. +Esquecer o passado, não o desejava. Seria buscar o impossivel. A que ousava +aspirar, n'uma humildade de supersticioso, era á pacificação circumdante, para +rever a seu gosto agridoces saudades, resuscitar as reminiscencias, fruir as +meigas recordações dolorosas dos tempos idos. Era isto querer em demasia?</p> + +<p>Remava sempre, semi-nú ao centro da embarcação, com o dorso exposto á +soalheira, suarento, a cabeça ora para deante, ora erguida, no movimento dado +ao remo. Nada via do lado da terra. A vegetação crescia opulenta, emmaranhara +glaucas barreiras invenciveis de raizes, troncos, ramagens e lianas. Por cima +de tudo isto, palmeiras carregadas de tractos trapejavam<span class="pn"><a +name="pg_158">{158}</a></span> brandamente e dos galhos, d'entre massiços mais +claros de folhagens tenras, pendiam as orchídeas, na gala aristocratica dos +seus caprichosos matizes.</p> + +<p>Ás vezes, adeante da canôa, pinchava um peixe assustado, levantava innumeras +gottas, achamalotava de arripios fugitivos a negrura do remanso. Mas o velho +quedava-se impassivel, remando sempre, fixo na idéa de fugir de Curralinho. O +aspecto exterior do mundo não o interessava; debatiam-se-lhe tumultuosamente no +espirito milhares de pensamentos retrospectivos, um só dos quaes era bastante +para dominar-lhe a attenção inteira.<span class="pn"><a +name="pg_159">{159}</a></span></p> + +<h3>II</h3> + +<p>Era simples a historia d'esse homem.</p> + +<p>Nascêra e crescêra em Curralinho. Filho d'um antigo cabano, fizera-se pagé +quando lhe morrêra o pae.</p> + +<p>Desconhecido ao principio, teve de esperar paciente que os seus feitos o +acreditassem na população, trazendo a pouco e pouco o exito que tamanha fama +lhe grangeou depois. Ao chegar á edade madura,—estava definitivamente +consolidada a sua reputação. De muitas leguas ao redor, vinham durante o anno +centenas de pessôas recorrer-lhe ao talento com a fé cega dos supersticiosos e +dos crentes.<span class="pn"><a name="pg_160">{160}</a></span></p> + +<p>Uns,—a nata da gente culta de Curralinho,—tinham-n'o na conta de brégeiro +especulador. Mas a parteira Eudoxia proclamava convicta o sincero devotamento +de pae Francisco áquillo a que ella, com um pouco menos de propriedade na +expressão, chamava o seu sacerdocio. Levava mesmo o espirito justiceiro a +assegurar, com a responsabilidade do testemunho evidente de cem pessôas, que, +para resolver uma situação difficil de puerperio, mais valiam as imposições +cabalísticas da dextra do apregoado pagé, do que toda a sua longa pratica, +d'ella depoente insuspeita, associada á infallivel interferencia de São +Raymundo Nonato.</p> + +<p>Especulador ou convicto,—não vem a pêllo esmerilhar o fundo d'aquelle +caracter. Talvez mesmo tivesse ella as duas qualidades que são,<span +class="pn"><a name="pg_161">{161}</a></span> quasi sempre, o acúleo do seu e de +identicos mestéres. O que havia de positivo era a adoração que sentia pela +filha,—um encanto de caboclinha rechonchuda e capitosa, que lhe déra a +companheira, momentos antes de morrer. Fôra essa a unica vez que falhara a sua +sciencia de mago. Será verdadeiro o aphorismo de que santos de casa não fazem +milagres?—perguntava, benzendo-se trez vezes, a velha Eudoxia.</p> + +<p>Toda a villa conhecia e estimava a repariguita. O pae tinha-a fóra de casa, +com a gente d'um amigo intimo. Ia vel-a todos os dias e passavam longas horas +sem que elle interrompesse o affectuosíssimo colloquio, que tão deliciosamente +banhava de inenarraveis venturas o seu singelo coração.</p> + +<p>Que gloria valia a de ser pae de similhante creatura?<span class="pn"><a +name="pg_162">{162}</a></span><span class="pn"><a +name="pg_163">{163}</a></span></p> + +<h3>III</h3> + +<p>Creara-a elle proprio, desde os primeiros dias da dupla viuvez do seu corpo +e da sua alma. Descrever toda a serie de cuidados, de attenções, esperanças e +sustos desenvolvidos por pae Francisco, seria traçar o poema de um heroismo +commum no bemdito solo amazonico.</p> + +<p>Fôra elle a sua ama secca,—mas disvelado como nenhuma. Tinha um geito +especial para amimar a pequenita creatura, apaparical-a com terna bondade, que +era um gosto espreital-o no desempenho d'essa funcção providencial. Havia, +assim, n'aquelle extranho ser, duas<span class="pn"><a +name="pg_164">{164}</a></span> entidades heterogeneas, uma dualidade admiravel, +que tão profundo contraste estabelecia entre o terrivel feiticeiro +abracadabrante e o pae melifluo, de olhos deslavados em sorrisos de adoravel +meiguice.</p> + +<p>Quedava-se o cabôclo, a cada instante, longo tempo a rever na face +inexpressiva da creancinha as feições d'um ente estremecido, para sempre +entregue á dissolvencia definitiva, no sombreado cemiterio da villa. O seu +affecto fazia ricochete na muralha da morte e volvia inflorado de carinhos, +fúlgido de enternecidas esperanças, a formar a aureola transcendente que +exalçava o futuro da creancinha.</p> + +<p>Felicia chamara-a, n'um augurio de ventura. Quantas horas não ficava +absôrto, á beira rio, sonhando acordado mil felicidades para o enlevo<span +class="pn"><a name="pg_165">{165}</a></span> da sua alma solitaria, para a +filha idolatrada que ali medrava a seu lado, na força da vida ao ar livre, sem +peias physicas a entorpecer-lhe a pujança da infancia?</p> + +<p>Vieram, mais tarde, outros cuidados. Necessario se tornava dar fórma a um +espirito vivo, a uma intelligencia agil e vigorosa. Já não bastavam as +attenções materiaes. A <em>ama sêcca</em> devia tornar-se n'um educador +perfeito e elle soube sel-o com exito, no seu meio, nos limites da propria +visualidade espiritual. Não têm as almas, ainda as mais simples, um mundo de +idéas sãs, um thesouro de sentimentos puros, tão efficazes na comprehensão dos +deveres moraes?</p> + +<p>A philosophia do pagé de Curralinho era singela como a simplicidade da sua +existencia, vigorosa como a pujante natureza circumdante.<span class="pn"><a +name="pg_166">{166}</a></span></p> + +<p>Mas a creança da vespera tornara-se mulher. Novos sobresaltos para o pae. +Não lhe bastava a convicção de lhe haver insuflado á alma os mais sãos +conselhos. Uma nuvem de desconfiança lhe entenebrecia o coração. Os sustos +perseguiam-n'o sempre, mesmo no meio dos somnos agitados. A sua preoccupação +constante era esta: amparar a filha contra o assalto da concupiscencia. Se +houvesse necessidade de comparal-o a algum personagem do romantismo, nenhum +vulto era mais adequado ao símile do que o do apaixonado truão de Francisco I. +</p> + +<p>Pozera-se de má catadura, encanecêra, tornara-se rispido e intolerante com +todo o mundo. Em cada individuo via um ladrão da sua felicidade. E, nos +dialogos com a filha, ao luar, ao longo da ribanceira, dominando o<span +class="pn"><a name="pg_167">{167}</a></span> Amazonas, tinha encantadoras +expressões de meiguice, phrases cariciosas como osculos de creança +amimada,—admiraveis esforços para prender e enleiar definitivamente um affecto +que elle receiava—ou adivinhava?—perder um dia. Esta unica idéa lhe dava +febre. Era, então, n'uma languidez voluptuosa e pura, que recebia os beijos +filiaes da virgem, perfumada a periperioca, agitada n'uma ternura +reconhecida.<span class="pn"><a name="pg_168">{168}</a></span><span +class="pn"><a name="pg_169">{169}</a></span></p> + +<h3>IV</h3> + +<p>Este encanto durou pouco. Felicia amara, alfim, outro sêr extranho, com um +novo sentimento cuja diversidade reconheceu tão grande, que não teve animo para +confessal-o.</p> + +<p>Ignorando tudo, o pagé contemplava satisfeito, na apparente tranquillidade +da caboclinha, o são producto dos seus conselhos.</p> + +<p>Um regatão de longe—lá das bandas de Macapá—fôra o perturbador d'aquelle +singelo coração. Era moço, valente, um bello typo de tapuia varonil. A +sympathia da rapariga fez-se primeiro enthusiasmo doidivanas, assumiu<span +class="pn"><a name="pg_170">{170}</a></span> depois as proporções de violenta +paixão.</p> + +<p>Felicia não tinha já a mesma fixidez attenta no olhar quando a encarava o +pagé. Distrahida, oppressa por vago mal estar, buscava a solidão, isolava-se +por gosto. O pae attribuia esse estado a causas puramente physicas. Entretanto, +quem surgisse, alta noite, por perto do copiar da casa onde vivia a moça, havia +de enxergal-a nos braços do regatão, soluçante de amor, gemente de desejos.</p> + +<p>Não podia prolongar-se o novo estado de coisas. Um dia, ao amanhecer, foi o +pagé avisado que lhe fugira a filha. Por uma reveladora coincidencia, +desapparecêra também do portosinho da villa a canôa do regatão.</p> + +<p>O velho cambaleara, caíra sem sentidos. Trez semanas esteve á morte, ardendo +em<span class="pn"><a name="pg_171">{171}</a></span> febre, delirando entre +pesadêlos horriveis. Todo o povoado emocionou-se á narração de tamanha dôr. Os +mais endurecidos corações, aquelles que chamavam feiticeiro e perverso a pae +Francisco, tiveram para elle um movimento de sympathia, uma pontinha de dó.</p> + +<p>Eudoxia, entretanto, não ficara socegada. Varonil, resoluta, organisou, com +o auxilio de dois amigos que equivaliam a duas dedicações poderosas, uma +expedição em busca de Felicia.</p> + +<p>Alguém disséra que o regatão tomara o caminho de Gurupá. Na mesma direcção +seguiram a parteira e seus auxiliares. Dois mezes depois—nem tanto, +talvez—estavam de volta. Rocebeu-os o velho n'um desanimo, com um sorriso +triste, quasi idiota, na face desfigurada.</p> + +<p>Tudo inutil. Felicia morrêra<span class="pn"><a +name="pg_172">{172}</a></span> em viagem. Havia-a destruido a variola. O +regatão enterrara-a n'uma escarpa e ficara louco, ao abandonal-a para sempre á +orla da floresta, sob uma chuva interminavel de flôres capitosas.</p> + +<p>Pae Francisco manteve-se calado, imperturbavel; só dois grandes fios de +lagrymas deslisaram-lhe pelas faces, cortando o rictus que a immensa dôr +formava em cada commissura dos labios.</p> + +<p>Meia hora depois, elle também partia, sem despedidas, n'uma canoinha leve, +subindo o Amazonas.</p> + +<p>Eis porque, ha pouco, o encontramos, lavado em suor, a cabeça ora para +deante, ora erguida, no movimento dado ao remo. Ha alguns mezes já que saíu de +Curralinho. Segue pela beirada, aproveitando o remanso do rio Negro.</p> + +<p>Foge do logar onde fôra<span class="pn"><a name="pg_173">{173}</a></span> +feliz. Não terá direito a aspirar ao lenitivo para a alma lacerada?</p> + +<p>Como nenhum som de vida animal perturba a tranquillidade das coisas, está +perscrutando a intensidade dos proprios pezares, sopesando a agonia do coração +encarquilhado.</p> + +<p>Vae sempre para o centro, n'uma ascensão dolorosa, martyr da bôa fé. No +espirito, afagado por indefinida ternura, renascem-lhe vislumbres de esperança. +Não é que pretenda esquecer o passado. Busca apenas o socego absoluto das +florestas intactas, para dar largas ao pranto que não secca ha seis mezes.</p> + +<p>Demais, no meio da pacificação circumdante, não poderá elle rever a seu +gosto agridoces saudades e convulsar baixinho, muito baixinho, com a sua +querida Felicia,—não<span class="pn"><a name="pg_174">{174}</a></span> a +fugitiva,—mas a outra, a pequenita, a que o preferia sempre, aquella que elle +creara como ama secca e ainda conservava pura e infantil no fundo do +amantíssimo coração?<span class="pn"><a name="pg_175">{175}</a></span></p> +</div> + +<h3>INDICE</h3> + +<table align="center" border="0" summary="Indice"> + <tbody> + <tr> + <th colspan="2">PRIMEIRA PARTE</th> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Subjectivismo</th> + </tr> + <tr> + <td> </td> + <td style="text-align:right;">Paginas</td> + </tr> + <tr> + <td>O isolamento</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_15">15</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Gaivotas</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_27">27</a></td> + </tr> + <tr> + <td>O Naufragio do Purus</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_39">39</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Brinde a minha Filha</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_49">49</a></td> + </tr> + <tr> + <td>O cemiterio da floresta</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_57">57</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Um anniversario</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_67">67</a></td> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">SEGUNDA PARTE</th> + </tr> + <tr> + <th colspan="2">Objectivismo</th> + </tr> + <tr> + <td>A pesca do Deodato</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_89">89</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Mater dolorosa</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_113">113</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Yaras paraenses</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_129">129</a></td> + </tr> + <tr> + <td>Uma historia de amor</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_137">137</a></td> + </tr> + <tr> + <td>A filha do pagé</td> + <td style="text-align:right;"><a href="#pg_153">153</a></td> + </tr> + </tbody> +</table> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align: center;"><small>ESTE VOLUME<br> +foi impresso, gravado e brochado<br> +para Arnoldo Moen, editor,<br> +314, Florida, 314<br> +BUENOS AIRES<br> +10 de fevereiro de 1896</small></p> +<p> </p> + + +<div style="font-size: 0.8em; margin: 10%; border: dotted 1px #222222; padding: 1em;"> +<p>N<small>OTAS DE TRANSCRIÇÃO:</small></p> +<p>A grafia original usada no livro impresso foi mantida nesta edição.</p> +<p>Foram corrigidos alguns erros de impressão, onde não havia dúvidas +sobre a intenção do autor.</p> +<p>O índice foi replicado no inicio do livro para facilitar a consulta.</p> +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Entre as Nymphéas, by João Marques de Carvalho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK ENTRE AS NYMPHÉAS *** + +***** This file should be named 29161-h.htm or 29161-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/9/1/6/29161/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/29161-h/images/capa.png b/29161-h/images/capa.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..0f8e162 --- /dev/null +++ b/29161-h/images/capa.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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