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+The Project Gutenberg EBook of Scenas da Foz, by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Scenas da Foz
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: March 11, 2009 [EBook #28310]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA FOZ ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
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+
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+
+
+
+ SCENAS DA FOZ
+
+ POR
+
+ CAMILLO CASTELLO BRANCO.
+
+
+
+
+ SOLEMNIA VERBA.
+
+ ULTIMA PALAVRA DA SCIENCIA.
+
+ O X DE TODOS OS PROBLEMAS DO CORAÇÃO.
+
+ OBRA IMPORTANTISSIMA PARA TODOS OS SEXOS, MASCULINO,
+ FEMININO, E NEUTRO,
+ E ESPECIALMENTE PARA AS COZINHEIRAS.
+
+ EM DOZE VOLUMES; SENDO O PRIMEIRO:
+
+
+ SCENAS DA FOZ
+
+ POR
+
+ JOÃO JUNIOR.
+
+ SOCIO DA PHILARMONICA, E IRMÃO DA ORDEM TERCEIRA DE S. FRANCISCO.
+
+ 2.ª EDIÇÃO.
+
+
+ PORTO:
+ EM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITOR,
+ Rua dos Caldeireiros, n.os 18 e 20.
+
+ 1860.
+
+
+ PORTO--TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA,
+
+ Largo do Laranjal n.º 4.
+
+
+
+
+JUIZO CRITICO.
+
+(DA PRIMEIRA EDIÇÃO.)
+
+
+Li, como editor, e reli, como critico, as SCENAS DA FOZ do snr. _João
+Junior_. Declaro que encontrei uma serie de scenas, que tanto podiam ser
+de S. João da Foz como de Freixo-de-Espada-á-Cinta. Entretanto, os
+quadros comicos são desenhados com um pouco mais sal que um artigo de
+fundo. Os episodios funebres estão escriptos em estylo de cavallo de
+carruagem, como dizia _Voltaire_.
+
+Outro sim declaro, que não vi neste livro doutrina, palavra, phrase, ou
+virgula, que destoe dos maus costumes da época em que é escripta. Como
+cousa offerecida á humanidade, a offerenda é digna da deusa e do
+sacerdote.
+
+Porto 2 de Junho de 1857.
+
+ O EDITOR,
+
+ _Camillo Castello Branco._
+
+
+
+
+DEDICATORIA.
+
+
+Á ESPECIE HUMANA INCLUSIVE OS BARÕES.
+
+Senhora! O sacerdocio da imprensa, cuja invenção se deve a um agiota do
+seculo XIV,[1] é a mais augusta das funcções, depois da «Arte de
+cozinha». Ocioso seria provar esta atrevida proposição, quando os
+exemplos saltam como camarões em terra secca. A rotundidade dos
+abdomens, e a estupidez prodigiosa dos proprietarios dos ditos, senhora,
+é a mais persuasiva prova de que a culinaria tem sobre a imprensa a
+primasia disputada por alguns sandeus que se deixaram morrer de fome,
+embebecidos, no paradoxo da sciencia.
+
+Sem embargo, porém, desta verdade, que palpita como um aneurysma, eu não
+posso deixar de reconhecer as grandes vantagens que podem provir a v.
+exc.ª da mirifica invenção dos typos.
+
+Senhora! eu sou um desses poucos bipedes que reagem, por instincto,
+contra os quadrupedes que gratuitamente se dizem meus irmãos. Saturado
+de estudos longos e substanciosos sobre a alveitaria, tenho querido
+organisar um _Manual de pharmacia_, dedicado ao utilissimo curativo de
+alguns desses meus irmãos, que me ameaçam as tibias, quando a dôr do
+alifafe moral os faz pinotear desencabrestadamente.
+
+Neste intuito, cuja extensão eu deixo á penetração de v. exc.ª,
+confeiçoei algumas receitas, que puz em systema pathologico,
+subordinadas a bases symptomatologicas, palavra grande que v. exc.ª
+soletrará de seu vagar.
+
+Senhora! A hygiene moral, depois de Broussais, tem feito progressos que
+demandam um compendio novo, e uma diversa iniciativa no systema de
+applical-os com aproveitamento.
+
+O romance, senhora, é a mais proficua das pharmacias, porque neste
+laboratorio douram-se as pilulas com maravilhosa limpesa. O romance,
+caldeado na forja onde Voltaire assacalou as armas com que feriu no
+coração o «ridiculo» de v. exc.ª, n'aquella época, será, se me não
+engana o muito amor da humanidade, um sodorifero por meio do qual
+faremos transpirar as muitas fezes que v. exc.ª traz no sangue, e das
+quaes se originam muitos miasmas de febre da pouca vergonha, para a qual
+não ha quarentena possivel, nem conselho de saude, por ventura o mais
+necessitado, na presente conjunctura, de ser esfregado com as baêtas da
+zombaria.
+
+Pelo que: considerando maduramente quão proveitosa devia ser a v. exc.ª
+a divulgação de trabalhos que o zelo da minha especie me impoz, ouso
+recorrer á egide da sua protecção, offertando-lhe o primeiro da serie de
+livros que vou atirar á humanidade.
+
+Senhora! Fiquemos aqui, se lhe parece.
+
+ [1] Preparo uma dissertação a este respeito.
+
+
+
+
+ SCENAS DA FOZ.
+
+ LIVRO PRIMEIRO.
+
+ A SORTE EM PRETO.
+
+
+I.
+
+Em 1825, morava na travessa do Caramujo, em S. João da Foz, uma familia
+de Amarante, que viera a banhos, e constava dos seguintes membros:
+
+Pantaleão de Cernache Tello Aboim de Lencastre Maldonado e Sousa Pinto
+de Penha e Almeida. Sua mulher, D. Amalia Victoria Rui da Nobrega
+Andrade Vasconcellos Tinoco dos Amaraes. Sua filha, Hermenigilda Clara,
+com todos os appellidos paternos, e cinco de sua mãi. Duas criadas
+graves. Uma cozinheira, casada com o lacaio. Um escudeiro preto. Um
+gallego adjuncto á cavallariça. Dous cães de lobo; e, finalmente, uma
+cadellinha atravessada de cão d'agua e galga.
+
+Eu, João Junior; que estas cousas ponho em escriptura para memoria
+eterna, morava na rua de Cima de Villa, e da minha janella vi muitas
+vezes na sua o snr. Pantaleão, homem côr de lagosta cozida, com
+cabelleira azulada pela acção do tempo, olhos refegados com debrum
+escarlate, papeira ampla como a dos _cretins_ nos Alpes, e nariz
+poliédro como uma castanha do Maranhão.
+
+A snr.ª D. Amalia, se bem me recordo, era uma serpente. Orelhas, nariz,
+queixo, e todos os districtos da cara (nesse tempo eram comarcas) era
+tudo aguçado e verrugoso, como uma mólhada de nabos velhos, em que as
+fitas amarellas da touca representassem a rama das nabiças.
+
+A menina Hermenigilda tinha cara de seraphim de côro d'aldeia: gorda e
+vermelha, cheia de vida estupida, olhos grandes como bogalhos, dentes
+anarchicos mas brancos como o seu nedio pescoço, braço rico de tecidos
+cellulares, rendilhado de tumidas veias vermelhas, onde borbulhava o
+sangue cruorico de felicissimas digestões de cabeça de porco com feijão
+branco.
+
+Os servos não me lembra bem como tinham a cara, excepto uma das criadas
+graves, que diziam ser filha bastarda d'um frade bernardo, irmão do snr.
+Pantaleão. Eu fiz tres dias descabellado namoro a esta rapariga, que
+tinha setenta e seis pollegadas. Ao quarto, vi-lhe um calcanhar aberto
+como ouriço velho, e desanimei.
+
+De quem me recordo muito é do escudeiro preto, que tinha a cara mais
+velhaca da raça de Ismael. Assobiava com perfeição a _Marìa Caxuxa_, e
+jogava a marrada magistralmente com o gallego, supplementar aos machos
+da liteira, deixando-o quasi sempre estatellado no chão em fórma de
+meia-lua. E muitas vezes vi eu com estes olhos invejosos a menina
+Hermenigilda a brincar com o preto na sala, onde eu podia devassar estes
+innocentes brinquedos. O gosto d'ella era puxar-lhe a carapinha, e o
+gosto d'elle era, ao que parece, dar-lhe surras, que terminavam sempre
+quando a mãi, ou o pai, ou alguma das criadas appareciam no limiar da
+porta da sala.
+
+Um meu amigo visitava esta familia, e d'ella soube eu que o snr.
+Pantaleão era senhor de casa vinculada, e a snr.ª D. Amalia tambem era
+morgada, e a snr.ª D Hermenigilda, por consequencia, uma opulenta
+herdeira. Soube mais que o snr. Pantaleão remontava a sua fidalguia a
+uma personagem importante na dynastia goda, e não me recordo bem se era
+Athanaulfo, ou Roderico.
+
+A genealogia da mulher diziam lá em casa que era a mais antiga da velha
+Lusitania, e contavam maravilhas de seus avós na India, e na Amarante. A
+herdeira, por segunda e inevitavel consequencia, tinha nas veias doze
+canadas bem medidas de sangue gothico, e por isso, a architectura
+externa fazia lembrar Orense ou S. Thiago de Compostella.
+
+Entre os rapazes meus conhecidos da provincia, o meu inseparavel
+companheiro dos passeios a Carreiros era um mancebo de trinta annos, que
+tem hoje os seus sessenta e um, e está litteralmente escangalhado, como
+eu que o digo. Então era elle esbelto, e galhardo, amigo de mulheres
+novas e vinho velho, como Byron, que elle vira no theatro de S. Carlos
+em 1813, e affirmava que bebeu com elle uma garrafa de aguardente de
+canna no _Nicóla_, botiquineiro do Rocio. Parece-me pêta, porque Byron,
+se emborcasse uma botelha de aguardente em Portugal, não nos chamava
+_barbaros_. Paiz onde um inglez se embebedar, será sempre um paiz
+civilisado.
+
+Como quer que seja, o meu amigo provinciano era homem do _grande mundo_.
+Chamava-se Bento de Castro da Gama, e não sei que mais. Era natural de
+Cabeceiras de Basto, filho segundo da casa denominada do _Olho-vivo_,
+não sei porque derivação.
+
+Seus pais mandaram-no estudar latim e logica no seminario de Braga.
+Bento corrompia o porteiro, e sahia de noite, a provar que a logica,
+sendo a arte de bem pensar, não exime um fraco mortal de pensar o peor
+que é possivel. D'essas envestidas nocturnas á moral, resultou um
+escandalo em casa d'um chapelleiro da _Senhora á branca_, e o seductor
+teve de fugir do seminario, onde estava debaixo de olho, pendurando-se
+para a rua nos lençoes.
+
+Contava elle que o pai lhe abanara as orelhas, em quanto a mãi lhe
+preparava algumas tigellinhas de gelêa de mão de vacca, para o
+indemnisar das succulentas bochechas que deixara no seminario,
+emmagrecidas sobre o Novo Methodo do Pereira; e o desabrido Genuense.
+
+A casa paterna era estreito horisonte para o nosso amigo. Uma bella
+manhã fugiu de casa, veio ao Porto, e assentou praça em infanteria. O
+pai, sabendo-o, mandou-lhe os documentos para se habilitar a cadete, e
+estabeleceu-lhe avultada pensão para se habilitar a exercer todas as
+travessuras e maroteiras de que o seu caracter era susceptivel. Em seis
+mezes de praça estivera tres na cadeia, por causa de varios sôcos com
+que mimoseou os sargentos do corpo. Pediu a baixa, deram-lh'a
+promptamente, e recolheu a casa, onde não encontrou já vivo o pai.
+
+Pouco depois, morreu a mãi. Bento de Castro pediu por conta da sua boa
+legitima alguns mil cruzados, foi gastal-os em Lisboa o melhor que pôde,
+e tornou para casa, onde o irmão morgado o recebeu de braços abertos.
+
+N'esse tempo é que eu o conheci na Foz, onde viera pela primeira vez a
+banhos, em 1825. Relacionei-me com elle na caça das gaivotas, e
+convivemos alguns mezes na sua casa de Cabeceiras de Basto. Passavamos
+ahi excellentes tardes no convento de Refojos, onde elle tinha tres
+tios, que eram santos varões, doutos, e alegres. Ahi conhecemos José
+Pacheco d'Andrade, morgado de uma casa illustre, que nos ensinou a jogar
+o pau, como bom mestre que era! Na feira do Arco vimol-o nós uma vez
+varrer a feira com admiravel limpeza! Saltava como um gamo, e apanhava
+pela cernelha com uma bordoada o mais lesto jogador de Barroso! Fui
+amigo d'este homem e vi-o morrer vinte annos depois n'um palheiro onde
+mendigando, pedira gasalhado. O que o levou a este extremo é uma
+historia muito longa, e que já vi fugitivamente esboçada nos versos de
+não sei que livro.
+
+Pergunta o leitor o que tem isto com as Scenas da Foz?
+
+Se me começam com perguntas, estamos mal aviados! Um homem na minha
+idade, com a reputação feita, escreve as cousas como ellas lhe
+escorregam dos bicos da penna. Nem acizelo o estylo, nem torneio o
+pensamento, nem traço plano. Não me apoquentem. Lá vamos á Foz.
+
+
+II.
+
+O meu amigo Bento de Castro veio, uma noite, de Mathosinhos, de casa do
+Brito, onde perdera, á banca portugueza, vinte moedas, um cavallo, um
+relogio, dous anneis com brilhante, e ficára a dever outro tanto. Ás 2
+horas, bateu-me á porta, sentou-se na minha cama, e começou assim um
+pathetico discurso:
+
+«Tenho dado cabo de mais de ametade da minha legitima. Não tardará o dia
+em que meu irmão me dê de comer como se dá uma esmola. O jogo tem sido o
+meu abysmo. Perco o dinheiro e perco a vergonha, quando o azar me é
+contrario. Hoje, vendi cavallo, relogio, anneis, e tudo: cheguei a pedir
+dinheiro ao moço de farda da casa onde joguei. Quando vinha para cá,
+alli no castello do Queijo, tive vontade de atirar ao mar com esta vida
+diabolica!... Se o não fiz, outra vez será. É no que ha-de parar este
+negro fado que me traz a pontapés da desgraça... Não me dirás tu que
+hei-de eu fazer para ser o que tu és?
+
+--E que achas tu que eu sou?--perguntei eu, porque não sabia ainda então
+o que era. «És homem de juizo. Tens ha dez annos um cavallo velho e
+magro, uma casinhola na provincia que te rende doze carros de pão e
+quinze pipas de vinho verde, uma sobrecasaca preta com os cotovellos
+rapados, e vives feliz.
+
+--Muito feliz.
+
+«Pois ahi está! E eu, com quarenta mil reis mensaes de rendimento, tenho
+gasto metade do capital, e desconfio que devo a outra metade.
+
+--Pois se queres ser homem de juizo, deixa cossar-se o teu casaco nos
+cotovellos, limita o teu luxo de equitação a um cavallo digno de ser
+cantado pelo Manoel Duarte Ferrão, faz de conta que colhes doze carros
+de pão e quinze pipas de vinho verde e serás feliz.
+
+«É tarde, meu caro João Junior, é tarde. Creei necessidades que não
+posso matar sem que ellas me matem. Preciso dinheiro, venha elle d'onde
+vier.
+
+--De mim, de certo não vai, meu amigo. Bem sabes que o pão e o vinho
+este anno não deram nada. Desde Março d'este anno, em que morreu o rei,
+parece que desappareceu de Portugal o estomago mais consumidor que
+tinhamos. Tu não tentaste ainda a fortuna pelo lado do casamento?
+
+«Ainda não. Tem-me lembrado algumas vezes essa asneira salvadora; mas,
+sou tão infeliz, que desconfio de tornar-me ridiculo, se o tentar.
+
+--Ridiculo é esse susto. A experiencia ainda te não amadureceu quanto é
+necessario para viver neste mundo. Ridiculo só conheço um homem neste
+planeta: é o que não tem dinheiro. As tentativas, que se fazem para
+alcançal-o, são sempre sérias, heroicas, e até épicas. Se fizeres namoro
+a uma rapariga rica, riem-se de ti os zombeteiros candidatos á rapariga,
+mas esse riso só póde ser penoso se a mulher te não indemnisar com o
+sorriso d'ella. A questão é _To be or not to be_: ser ou não ser amado.
+Sirvo-me deste fragmento de Shakspeare por que não está ainda estafado
+pelos folhetinistas.
+
+«_Folhetinistas_! que são _folhetinistas_?
+
+--Folhetinistas são uns pataratas que hão-de vir d'aqui a vinte annos,
+trazidos em uma nuvem de gazetas. Ainda a tresandar ao fartum dos
+coeiros, virão para a imprensa com seu cabedal de erudição empalmado nos
+romances de certo Dumas, que tem hoje quinze annos, e será então o
+primeiro corruptor da litteratura em França. Saberão menos latim do que
+tu quando saltaste pela janella do seminario de Braga, e dirão que o
+latim é uma cataplasma que mata a originalidade nativa, e a natividade
+original, e não sei que outras sandices usadas na linguagem delles
+pataratas. A respeito de logica e rhetorica dirão que antes do diluvio
+já estavam banidas das escólas mais illustradas. Hão-de provar que o
+talento não precisa desses causticos para ressumar a materia do
+espirito, e, provando-o, dirão tolices em que ficará salvo o Genuense e
+o Quintilliano, dos quaes tanto nos fallaram os teus tios frades de
+Refojos. Fallarão muito em linguas druidica, celtica, indica, sanscrito,
+e dirão dellas cousas maravilhosas que terão o superior merecimento de
+não serem ditas em portuguez. Ora, pois, fica tu sabendo que os
+folhetinistas serão...
+
+«Não me importa saber o que serão os folhetinistas, o que eu quero é
+saber o que serei d'hoje a vinte annos.
+
+--Serás folhetinista, visto que te não vejo com habilitações para seres
+cousa alguma. Se te parece, vai aprendendo de teu vagar a tocar guitarra
+para depois poderes fallar com criterio das primas-donas, e dos
+contraltos, e dos bassos, e deste Curti que hoje está creando uma
+reputação no Porto, e eu espero ouvir d'hoje a trinta annos com o mesmo
+timbre, o mesmo volume de voz, e a mesma precisão de notas graves em
+_sibmol_.
+
+«Que diabo de embrulhada é essa? Homem, falla-me direito. Que me dizes
+tu á tentativa d'um casamento rico?
+
+--Digo-te que conheço grandes alarves que tentaram e prosperaram. Quando
+um homem se diz: «hei-de casar rico, apesar de todos os contratempos»
+casa rico. O primeiro passo a dar é convencer-se de que a vergonha é uma
+excrescencia que nos magôa, e deve ser amputada da consciencia como quem
+corta um callo. O segundo é procurar a mulher, através de todas as
+torpesas, como o mineiro procura o ouro através do saibro e dos charcos
+lodacentos que lhe regorgitam debaixo dos pés. O terceiro é levar com a
+porta na cara, e ficar com a cara voltada para outra porta. O quarto é
+teimar. O quinto é teimar. O sexto...
+
+«É teimar. Tenho entendido. Mãos á empreza. Cobrei espirito novo. Dentro
+d'um anno hei-de estar casado com mulher rica, bonita, intelligente,
+virtuosa...
+
+--Alto lá! isso é muita cousa. Assim tambem o Bocage a queria, mas
+disseram-lhe que não... Rica? d'accordo: isso é possivel. Intelligente?
+Deixa-te d'isso: mulher intelligente não se deixa engodar por
+especuladores matrimoniaes: é-lhe mais facil ceder ao coração toda a
+liberdade dos seus desejos os menos puros, do que algemar-se com
+grilhões que ella parte facilmente no momento em que a razão illustrada
+lhe diga: «Entre ti e o homem são iguaes os direitos...» Formosa?
+Pieguice e contrasenso. Mulher formosa é sempre a mesma cousa, e aos
+olhos do marido perde pouco e pouco o prestigio da belleza. Mulher feia,
+pela continuação da convivencia, perde pouco e pouco a fealdade, e chega
+a parecer bonita. E deves saber que mulheres feias teem inspirado
+paixões ardentissimas. Dizem que ha uma compensação de graças ocultas as
+quaes fazem ganhar raizes no coração do homem. Eu não sei se é no
+coração, se no figado: o que posso asseverar-te é que tenho visto
+mulheres formosas apagarem muitos incendios, e as feias atearem-nos.
+Dido, Helena, e Cleopatra dizem que foram lindas mulheres, por terem
+apaixonado Eneas, Paris, e Antonio. O que de certo se não sabe é se eram
+feias. Verdadeiramente feio, meu amigo, é o diabo, como diz a ama de
+leite dos teus sobrinhos. Em quanto a virtuosa, meu caro Bento, a esse
+respeito tinhamos muito que dizer, se eu não tivesse somno. A virtude é
+o escolho de muitas posições sociaes. Felizmente que ella vai em
+decadencia, e por isso veremos, de hoje a trinta annos, muitas posições
+brilhantes com um pé no pescoço da virtude. Virtude é uma sociedade
+mercantil, em que a maior parte dos empresarios se sustentam á custa da
+pequena parte que se conserva fiel aos estatutos.
+
+Fóra com a palavra; e se promettes aspal-a do teu programma de
+casamento, indico-te uma mulher.
+
+«Qual?!
+
+--A minha visinha Hermenigilda, filha do Pantaleão.
+
+«Pois achas que está no caso?
+
+--Muito no caso.
+
+«Sei que é rica, não é feia, é estupida, é fidalga; mas... em quanto a
+virtude, não sei por que ella perca no teu conceito, para que eu deva
+aspar a palavra do meu programma!
+
+--É que eu desconfio do preto!
+
+«Do preto?! que preto?
+
+--Fallaremos ámanhã. Agora quero dormir.
+
+Bento de Castro sahiu, e eu, voltando-me para o outro lado, sonhei com o
+preto.
+
+..........................................................................
+
+Suaves recordações da mocidade, sêde a cebola destes olhos que já não
+podem chorar!
+
+
+III.
+
+No dia seguinte, fui obrigado pelo meu amigo a praticar o escandalo de
+acordar ao meio dia e vinte e sete minutos.
+
+Queria elle ser esclarecido sobre palavras enigmaticas, que eu proferira
+a respeito do preto.
+
+«Não valia a pena--disse eu--perturbares o meu somno da manhã por
+similhante insignificancia. A historia do preto é a mais innocente das
+historias. Não sei se o moleque conhece o Othello de Shakspeare. É certo
+que o Othello era preto, e sentiu a mais negra das paixões por uma
+branca. Não sei tambem se a filha de Brabante lhe puxava a elle a
+carapinha como faz a filha do snr. Pantaleão ao dito preto. Em todo o
+caso ha muito a recear do espirito de imitação, porque o plagiato do
+amor é de todos os plagiatos o mais nocivo. Por imitação, ama-se, por
+imitação, deshonra-se, por imitação, casa-se, por imitação, suicida-se.
+Quem sabe se a snr.ª D. Hermenigilda para imitar Desdemona, introduziu o
+preto no coração?
+
+--Estás a mangar!--respondeu o meu amigo Bento--Póde lá dar-se
+similhante asneira!
+
+«Dão-se asneiras maiores, meu caro, muito maiores. Eu tenho uma prima...
+dás licença que te conte a historia de minha prima?
+
+--Se não fôr muito estirada...
+
+«Laconica o mais possivel. Minha prima Rosa foi a mulher mais bonita de
+Villarinho de Cotas, Canellas, Sinfães, e povos circumvisinhos. Tinha um
+bom patrimonio, e foi muito pertendida. Regeitou propostas de vantajosos
+casamentos, e resistiu ás minhas tentações, quando eu era um homem
+perigoso em casa de primas. Uma bella manhã a priminha desapparece de
+casa. Partem emissarios para todas as partes do mundo em cata della, e
+depois de varejarem e farejarem todas as casas suspeitas, todas as
+igrejas onde o mysticismo a poderia ter em extasis, e até um poço onde
+uma allucinação a poderia ter precipitado... depois de muitas
+diligencias, e lagrimas, e gritos, e informações, minha prima
+apparece... imagina lá aonde?
+
+--Eu sei cá!...
+
+«N'um lagar d'uma quinta sua, escondida atraz d'uma pipa, no mais puro
+arrobamento do amor com...--meus illustres avós! perdoai-me a
+revelação!--com um dos gallegos que tinham vindo á vindima. E que pedaço
+de gallego!
+
+--Que se seguiu? mataram o bruto?
+
+«Qual matar o bruto! O bruto tinha um direito sagrado á sua existencia.
+Minha prima foi interrogada pelo irmão, seu tutor, e respondeu que havia
+de casar com o gallego.
+
+--E casou?
+
+«Casou, e vestiu-o de casaco, e botas de cano alto, e chapéo de sêda, e,
+o que mais é, meu primo gallego parecia depois um hespanhol. Se o vires
+hoje, não dirás o pessimo texto que está n'aquella encadernação.
+
+--E ella ama-o?!
+
+«Essa admiração é sufficientemente parva! Ama-o como o amou sempre, bebe
+a felicidade dos labios delle, pendura-se-lhe, em delirios de ternura,
+das largas espaduas, aperta ao coração a cabeça amante do conjuge
+inseparavel, não receia uma deslealdade, desconhece o ciume, produz o
+mais mechanicamente que se póde, rapazões robustos, vermelhos, e gordos
+como teixugos; em fim, para te dizer tudo d'uma vez, minha prima está
+gorda, come tanto como elle, e faz as suas digestões na suave beatitude
+da mulher ditosa, com os olhos postos no marido. Faltava-me dizer-te que
+esta creatura angelica, antes de ser encontrada no lagar, era d'um
+melindre d'orgãos, e d'uma susceptibilidade de emoções, que fazia
+receiar muito pela sua vida.
+
+Lia novellas de La-Calprenéde, Genlis, e Radcliffe. Chorava enternecida,
+fitava no céo os olhos lacrimosos, pendia a fronte, contristada, tomava
+parte nas dôres das suas heroinas, e muitas vezes me disse que a cópia
+do seu modêlo, a realisação das suas esperanças, estava no céo. Como
+diabo desceu do céo cá para baixo o gallego, isso é que eu não sei. Eu
+vivia persuadido de que o céo não importava aquelle genero.
+
+Seja o que fôr, esta historia vem apêlo para exemplificar um dos muitos
+casos em que a boa philosophia nos ensina que um preto é um rival
+temivel. Posso enganar-me, nem ouso aventar uma calumnia; porém, a minha
+visinha não dá ares de quem procura no céo a realização das suas
+esperanças; e, se procura, quem me diz a mim que o preto não desceu de
+lá pelo mesmo alcatruz que pôz cá em baixo o gallego? Que me dizes tu a
+isto?
+
+--Eu digo que não quero saber mais nada da tua visinha, e deixo-a ao
+preto em boa paz.
+
+«Não vou para ahi. Suspeitas não fazem prova.
+
+--Mas o que tens tu visto?
+
+«A pequena a brincar com o preto.
+
+--De que modo?
+
+«Jogam os cantinhos sem intervenção d'um terceiro: invenção rara que se
+deve á estrategia do amor, assim como o xadrez se deve á estrategia
+militar.
+
+--E que mais fazem?
+
+«A bagatela de se darem surras. Ella arrepella-o, elle dá-lhe duas
+palmadas bem sonoras, no mesmo local onde o patrão lhe dá a elle os
+pontapés. O preto perfila-se, a innocente menina vem para a janella, e a
+moral domestica folga do resultado. Já vês que não ha aqui bastante
+motivo para renunciar uma conquista de dez mil cruzados de renda, e uma
+mulher que promette estar contente dando-lhe o comer ás horas, e tres
+duzias de gallinhas para tratar... Das duas uma: ou a mulher ama o
+preto, e não te acceita a côrte, ou não ama o preto, e acceita. Que
+perdes tu na tentativa?
+
+--Dizes bem, eu não perco nada. Como não tenho melhor cousa em que
+esperdice o tempo... E como hei-de eu apresentar-me?
+
+«Apresenta-te ahi na minha janella, e faz-lhe saber, sem grandes
+rodeios, que estás ferido.
+
+--Será demasiada liberdade...
+
+«Deixa-te d'isso; demasiada liberdade acho eu que é a do preto. Certas
+mulheres só entendem o que se lhe diz; e em quanto a mim, a nossa
+visinha é d'aquellas que nem o que se lhe diz entende. Clareza no
+pensamento e na phrase. Imagina que fallas com a filha d'um teu caseiro.
+Põe o teu codigo de civilidade ao pé do Genuense e do Quintiliano. Nada
+de logica, nem de rhetorica. Os principiantes do amor cuidam que é da
+tarifa devorarem no silencio, antes de se revelarem, as melhores phrases
+que tinham para convencer. Grande contrasenso. Parecem-se com os
+caçadores novatos, que atiram á perdiz quando ella vai muito longe do
+alcance do chumbo. Fia-te em mim, Castro. A mulher que principia a amar
+tem oito dias de alienação moral. O espirito anda-lhe á solta, e um
+habil caçador apanha-lh'o, e depois... como sabes do teu Genuense, a
+alma é uma substancia acommodada para governar o corpo. Pilhada a alma,
+o corpo, sem governo, é uma nau desmastreada, sem leme, á mercê das
+ondas.
+
+Espera... ouço-a fallar... Olha...
+
+Ella lá está na janella.
+
+
+IV.
+
+O meu amigo chegou á janella, e tossiu a tosse especial dos namorados de
+1826, que era uma tosse secca, como a do ultimo periodo da tysica
+laryngéa. Hermenigilda acudiu ao reclamo catarrhoso, e viu risonha a
+cara do meu amigo Castro, que realmente era um perfeito homem. Retirou
+depressa os olhos, mas depressa obedeceu com elles ao magnetismo das
+olhadellas do visinho. Eu cá da minha alcova, por entre os farrapões das
+cortinas amarellas, estava presenceando o introito comico do acto mais
+solemne da vida dos povos, que era o casamento então, e hoje são as
+eleições.
+
+O meu amigo não se despegava do peitoril da janella. A pequena ia e
+vinha; olhava-o, como a disfarce, lá do fundo da sala, e trazia sempre
+um terço do olho esquerdo compromettido.
+
+Castro manifestava com o nariz o seu contentamento, empenhando-o na
+victoria. Assoando-se, trombeteava o som menos amoroso possivel. O
+nariz, considerado porta-voz do coração, ecco da poesia intima,
+interprete da linguagem muda da ternura, exerce a mais nobre das missões
+corporeas, e attinge um elevado grau de perfectibilidade nazal, depois
+do outro, mais elevado ainda, de espiraculo de defluxo, e absorvente de
+simonte.
+
+Fui almoçar, e deixei o meu amigo na janella. Quando voltei, estava elle
+radioso de gloria.
+
+«Então?--disse-lhe eu--quantos graus acima de zero marca o thermometro
+da visinha?
+
+--Está pegado o namoro.
+
+«Eu vi tudo.
+
+--Mas não viste o melhor. Offereci-lhe uma carta. Ella primeiro disse
+que não...
+
+«Que não sabia lêr?
+
+--Não, homem: disse que não acceitava. Instei, e, por fim, deu signal
+affirmativo com a cabeça, e fugiu da janella.
+
+«Oh! é tocante essa fuga! o que faz o pudor! A virginal menina não pôde
+mostrar a fronte á luz do sol, depois d'uma fraqueza a que a paixão a
+compelliu!
+
+--Tu estás caçoando!
+
+«Forte scisma a tua! Não póde a gente vestir as suas idéas com as pompas
+da linguagem! Ora vamos, Bento. É preciso escrever á pequena.
+
+--É um grande embaraço. Não sei como se escreve a esta mulher. Será
+muito estupida?
+
+«Parece-me que é, e, nesta hypothese, escreve-lhe uma carta muito tola.
+Queres tu ser o secretario? Eu entro no teu coração e fallo por ti.
+
+--Valeu! nota lá a carta.
+
+«Senta-te, e escreve.
+
+Eu accendi um cigarro, sentei-me de cocoras sobre a minha cama, entrei
+em espirito no espirito do meu amigo, e dictei a seguinte carta, que
+offereço como norma aos amadores das Hermenigildas:
+
+ «Meu adorado Bem.
+
+«Com o coração em viva brasa, lanço mão da penna tremula para expôr á
+vossa compaixão o triste sudario da minha alma.
+
+«Os vossos olhos são settas do deus implacavel, que não perdôa a rei nem
+a vassallos, que abranda o coração da panthera de Java, e enternece as
+melodias do rouxinol do salgueiro.
+
+«Ferido neste coração, que é vosso, tenho direito a pedir-vos balsamo
+para a chaga que vossos olhos me rasgaram no peito.
+
+«Ingrata serieis, amada Hermenigilda, se mostrasseis indifferentes á
+dôr, os olhos que tamanha dôr causaram! Não! é impossivel que nesse
+peito de alabastro, ninho dos prazeres, se aninhe a vibora da
+ingratidão!
+
+«No vosso angelico sorriso, ó cara amada, pousou a minha felicidade,
+que, ha muito, busco, por toda a parte, como andorinha que perdeu o
+trilho aerio da sua patria, e ficou erma e só na região das neves...»
+
+--Ella não entende isto!--exclamou o meu amigo!
+
+«É justamente o que nos convém. Se ella entendesse isto, faria da carta
+dous papelotes, e mandava-te á fava. Continúa:
+
+«Eu sou como o viajante nos desertos da Mezopotamia, ardente de sede,
+pedindo a cada miragem uma gotta de agua, e bebendo candeias accesas nos
+raios do sol oriental!
+
+--Isto parece-me asneira!--replicou o amanuense--_Bebendo candeias!_
+Viu-se já um similhante disparate!
+
+«Pois tu queres que ella te entenda, ou não?
+
+--Quero que entenda: é boa a pergunta!
+
+«Pois se tu lhe disseres que bebias no deserto linguas de fogo em logar
+de candeias accesas, entender-te-ha ella melhor? Candeias sabe ella
+perfeitamente o que são; e linguas, em quanto a mim, só conhece a de
+porco e a de vacca. Se me pões contraditas ao libello, recolho a
+inspiração, e deixo-te nas trevas. Escreve lá:
+
+«Nos meus sonhos...
+
+_Entre parenthesis._ Este estylo hoje é rançoso, e qualquer caixeiro o
+escreve sobre o mostrador, entre uma ceira de figos de comadre e tres
+achas de pau campeche; n'aquelle tempo, porém, em 1826, era necessario
+ter um talento creador para espetar a phrase na região do sublime. Eu
+fui um dos apostolos deste estylo; e glorio-me de ter feito escóla.
+Vieram depois os imitadores, sem critica nem gosto, e asnearam de modo
+que venceram o passo que vai do sublime ao ridiculo.
+
+«Escreve lá, Bento de Castro.
+
+«Nos meus sonhos, tenho visto muitas vezes uma visão vestida de nuvens
+coradas de luz, calçada de estrellas, coroada com o arco iris, sentada
+na lua, com o sol engastado no peito, e o globo terraqueo a seus pés.
+Ereis vós, Hermenigilda! Apenas vos vi, reconheci-vos como o molosso
+reconhece o dono, e a rola o ninho, e a lebre a cama, e a truta a
+acolheita.
+
+«Vêr-vos, e não amar-vos, seria morrer de vêr-vos; e amar-vos sem
+vêr-vos, só eu pude; e que faria eu depois ao vêr-vos, senão amar-vos!?
+
+--Acaba depressa com isto!--interrompeu o meu amigo--Vêr-vos, não
+vêr-vos, amar-vos, e vêr-vos, e não amar-vos... que diabo de embrulhada
+é esta!?
+
+«Tu és um tolo!--redargui eu--Está explicado o segredo da tua nullidade
+perante as mulheres. Tens trinta annos, e todas as tuas conquistas
+reduzem-se á filha do chapelleiro de Braga. Podias ter um nome em
+Portugal, se ao teu patrimonio, quasi dissipado, e á tua excellente
+figura, quasi em decadencia, juntasses um pouco de estylo. Todo a
+conquistador deve ter um arsenal bem fornecido de bombas phraseologicas.
+A idéa não é que persuade uma mulher, é a palavra. O que tu chamas
+_embrulhada_, meu patavina, é o melhor que se póde dizer quando não ha
+nada que se diga.
+
+--Suppomos---replicou elle--que esta mulher não me entende?
+
+«Certo disso estou eu.
+
+--O que se segue é não me responder, porque receia que eu me ria da sua
+ignorancia.
+
+«É justamente o que te convem, tolo.
+
+--Que me convem!
+
+«Sim; convem-te que não responda, porque não respondendo, falla-te. Que
+lucras tu com a correspondencia epistolar desta mulher?
+
+--Parece-me que pensas bem!... Tu és um grande homem! Ora anda lá, diz
+mais alguma asneira.
+
+«Onde estavamos nós?
+
+--Estavamos no _vêr-vos e não vêr-vos, amar-vos e não amar-vos_...
+
+«Ah! já sei... põe lá:
+
+«Cesar foi, viu, e venceu. Eu vim, vi, e fui vencido! Maravilhosa
+coincidencia de constrastes, Hermenigilda querida!
+
+«Mas é tão dôce ser escravo, subdito e fiel vassallo vosso! Quereis vós
+ser a rainha desta alma? Governai-a com o vosso sceptro de amor;
+subjeitai-a aos decretos e leis regias dos vossos soberanos olhos; regei
+esta monarchia com o absolutismo despotico da vossa augusta vontade.
+
+«Se não quereis responder-me, senhora, dai-me n'um sorriso o signal de
+que acceitaes preito e homenagem do vosso mais humilde feudatario,
+
+ _Bento de Castro da Gama._»
+
+O meu amigo, a meu pedido, fechou a carta em coração, e postou-se na
+janella. Hermenigilda appareceu. A carta foi-lhe mostrada; ella fez
+menção de recebel-a. Castro sahiu, roçou-se pela porta, lançou-a no
+pateo, e tornou para a minha janella.
+
+Hermenigilda não apparecia: estava naturalmente estudando os
+jeroglificos druidicos da carta.
+
+O preto, porém, veio á sala, e fez uma careta medonha ao meu amigo.
+
+
+V.
+
+A careta do preto fez pensar o meu amigo tão seriamente que desde logo
+resolveu imprimir-lhe em qualquer parte quatro pontapés homericos.
+
+Eu combati o projecto com a logica da prudencia, fazendo vêr ao
+pundonoroso Castro que a careta do preto era uma dessas innocentes
+caretas que a natureza patusca ensinava aos macacos. Convencido
+zoologicamente da aproximação das duas especies, visto que a careta era
+de instincto, o amante fogoso de Hermenigilda prometteu levantar de
+sobre a cabeça do negro, não direi a espada de Damocles, mas a bota de
+montar com espora de prateleira, seu calçado favorito.
+
+Mais do que as minhas razões, a presença da visinha aquietou os impetos
+cavalheirosos do meu amigo. Eu puz-me á espreita. Vinha jubilosa, com
+cara de paschoas, um ar de alegria lôrpa, e a expressão mais
+significativa de que não entendêra palavra da carta arripiada.
+
+Castro, sem ser acanhado, parecia um tolo, sorrindo com ella.
+
+«Pergunta-lhe se responde» disse-lhe eu cá de dentro.
+
+O meu amigo esperou o ensejo d'uma olhadura, fez menção de escrever na
+palma da mão esquerda, tregeitou com a cabeça uma pergunta, e ella de lá
+respondeu que não. Castro fez um bico de ternura dolorida, encolheu os
+hombros em ar de paciencia, e vestiu o semblante com uma visagem
+melancolicamente sandia.
+
+«Pergunta-lhe se falla» tornei eu cá do meu centro de operações.
+
+--Podeis fallar-me?--disse elle, improvisando com as mãos um ridiculo
+porta-voz.
+
+Ella fez-se desentendida, e o meu amigo levantou nota e meia á pergunta:
+
+--Se podeis fallar-me...
+
+Hermenigilda não respondeu ainda, e Castro ia de certo interrogal-a com
+toda a franqueza dos seus pulmões, quando viu, lá ao fundo da salêta,
+reluzirem os olhos do preto, como duas carochas em carvoeira. Como se
+não podesse supportar o magnetismo hediondo d'aquelles olhos,
+recolheu-se para dentro, murmurando:
+
+--Eu quebro a cara ao preto! La está o patife a espreitar-me.
+
+Eu estava de pachorra para tranquillisar a raiva do meu brioso amigo.
+Fiz-lhe vêr que os grandes triumphos custavam grandes heroismos de
+paciencia. Lembrei-lhe Annibal agatinhando as agruras dos Alpes; Colombo
+jogando o sopapo com a tripulação; Bonaparte comendo farinha de pau no
+deserto das piramides, etc. O meu amigo succumbiu perante os exemplos da
+historia, e resolveu tolerar com paciencia todas as caretas do preto.
+
+«A ti o que te convem--disse-lhe eu--é relacionares-te com o Pantaleão.
+Tu não conheces o Miguel das Infuzas?
+
+--Quem é o Miguel das Infuzas?
+
+«É um fidalgo do Porto, grande genealogico.
+
+--Não conheço na nobliarchia portugueza esse appellido _Infuzas_.
+
+«Tambem eu não; mas o appellido é acquisição feita pelo tal Miguel.
+Chamam-lhe o _das Infuzas_, porque elle, amador das artes, viu duas
+pequenas infuzas de prata n'uma ceia explendida dada ao general do
+Porto, e quando a occasião lhe foi propicia acondicionou-as o melhor que
+pôde nas algibeiras da casaca. Passado tempo, o proprietario das
+infelizes lobrigou-as em casa d'um usurario, e sabendo que o erudito
+genealogico as pozera no prego, divulgou o feito do illustre neto dos
+Teives e Couceiros e Moscosos. D'ahi em diante, a classe media associou
+as infuzas aos appellidos deslumbrantes do fidalgo, que continua a
+esmerilhar na genealogia do proximo um casamento desigual de quinto ou
+sexto avô, para, nos seus momentos de soberba aristocratica, mostrar aos
+primos uma nodoa na arvore deste ou d'aquelle que ousa chamar-lhe primo.
+
+«Aqui tens o maior amigo de Pantaleão. Eu não posso apresentar-te porque
+não pertenço á roda, como sabes; mas tu que és irmão de morgado,
+procura-o com o fim de esclareceres uma duvida sobre o teu oitavo avô.
+Logo que fallares em oitavo avô, o homem manda-te sentar, e pergunta-te
+onde estás hospedado.
+
+--E que diabo hei-de eu dizer-lhe do meu oitavo avô?!
+
+«Inventa qualquer toleima... por exemplo: queres saber se teu oitavo avô
+instituiu uma capellania; queres saber se teu oitavo avô casou com a
+segunda ou terceira filha dos senhores de Panoias; queres saber se o teu
+oitavo avô foi casado com a tua oitava avó. Ha trinta mil cousas a saber
+d'um oitavo avô, pois não ha!
+
+--Mas eu sei cá quem foi o meu oitavo avô?
+
+«Isso elle t'o dirá. É capaz de te descobrir um joanete que elle tinha
+no pé esquerdo. Conseguido o primeiro passo, pergunta-lhe se uma senhora
+da tua familia é exacto ter casado, ha 327 annos, na casa de Villar de
+Gaivotas, d'onde elle se diz muito parente. Consegue que elle te chame
+primo, e eu corto ambas as orelhas, se tu não casares com Hermenigilda,
+apesar de todas as caretas do preto.
+
+--Tu nunca fallas serio, João! Devéras entendes que eu falle ao homem?
+
+«Hoje, se é possivel. Isto são favas contadas. O Miguel das Infuzas vem
+jantar, todos os domingos, com o primo Pantaleão, e tu és apresentado no
+proximo domingo.
+
+Castro foi á janella dispensar um sorriso a Hermenigilda.
+
+Com grande espanto meu, a rubra menina, sem ser provocada a fallar,
+disse, affectando muito receio de ser ouvida:
+
+«Posso fallar-vos daqui da janella, depois que meu pai e minha mãi
+estiverem deitados.
+
+--A que horas?
+
+«Ás nove.
+
+--Ás nove!?--replicou elle maravilhado.
+
+«Sim, sim,» tornou ella, e desappareceu.
+
+--Isto vai bem!--exclamou Castro--Mas ás nove horas! tão cedo!
+
+«Teu futuro sogro, meu amigo, segundo me disse a creada dos calcanhares
+gretados, come o seu caldo requentado ás sete horas, arrota até ás oito,
+deita-se ás oito e um quarto, adormece ás oito e meia, e ás nove é uma
+massa bruta, inerte, inamovivel. Bom é que vás sabendo o programa do teu
+futuro em casa do fidalgo d'Amarante. Ás oito horas has-de estar no
+thalamo conjugal com o barrete de retroz por cima das orelhas, e ás nove
+has-de resonar o mais estupidamente possivel, fazendo um dueto com tua
+mulher.
+
+--Estás enganado!--replicou elle--Se eu casasse com ella, pensas que me
+ia degradar na Amarante? Isso sim! Eu quero viajar á custa de minha
+mulher, e dar-lhe-hei a honra de me acompanhar. Que póde viver a mãi de
+Hermenigilda? Dous ou tres annos, quando muito. Logo que ella se resgate
+da gotta, está a filha de posse d'uma excellente casa. A do pai ella
+virá quando vier, e virá sempre a tempo de me dourar as cadeias. Queres
+tu viajar comnosco?
+
+«Oh! pois não hei-de querer!? Havemos de ir a Vallongo, dia de Santo
+Antonio, e quando reunires ambas as casas de modo que possas cortar por
+largo, iremos a Vianna, á Senhora da Agonia! Que bello futuro!
+
+--És um pateta!--redarguiu lisongeiramente o meu amigo.--Não se póde
+fallar serio comtigo! Vamos ao caso: visto que ella me falla ás nove
+horas, é escusado procurar a protecção do Miguel das Infuzas.
+
+«Pateta és tu! Sem o Miguel das Infuzas não fazes nada. Se o teu fim
+fosse seduzir Hermenigilda, convinha-te sustentar o namoro
+clandestinamente, evitando relações com o pai. Mas tu queres casar, e
+casar com brevidade; precisas ser admittido ao gremio da familia; dar ao
+teu namoro um ar de honestidade boçal; cabecear com somno todos os dias,
+meia hora ao pé da noiva; jogar a bisca de nove com tua sogra, e
+representares, em fim, de palerma até ao dia em que se cruzarem
+definitivamente as raças. Não deixes, portanto, de procurar o Miguel das
+Infuzas. Vê o que ella te diz hoje, e ámanhã vai ao Porto saber alguma
+cousa do teu oitavo avô.»
+
+Castro foi á janella trocar com Hermenigilda dous gatimanhos alvares,
+como são todos os gatimanhos preliminares d'uma grande asneira.
+
+
+VI.
+
+Ás nove horas em ponto, Bento de Castro sahiu de minha casa, e
+plantou-se debaixo da janella do snr. Pantaleão. Eu apagára a luz, e
+espreitava pelos buracos da cortina o introito do _rendez-vous_.
+Espreitava, e escutava, não por mera curiosidade, porque não sou
+curioso, mas por utilidade propria, visto que me tinha encontrado em
+grandes apertos de eloquencia nos primeiros encontros com trinta e oito
+mulheres.
+
+O leitor casto--(para não ser sempre _pio_), que chegou aos cincoenta
+annos sem experimentar os apuros de namorado na sua primeira entrevista,
+está muito longe de imaginar o que é uma agonia séria!
+
+Eu, João Junior, em quem a Europa reconhece um espirito superior e mais
+um bocadinho, recordo hoje com vergonha a plangente figura que fiz, ha
+quarenta annos, diante dos meus namoros.
+
+A primeira mulher que amei era uma dama de alto nascimento, que tivera
+bastante influencia no quartel general de lord Wellington, e jogára, por
+causa d'um ajudante d'ordens do mesmo, o sopapo com uma viscondessa
+celebrada, cujos dentes, que foram bellos, passaram com os meus para o
+dominio da historia.
+
+Esta dama, com os seus quarenta annos bons, era ainda formosa, e fallava
+admiravelmente sobre quasi tudo, e com especialidade sobre a acção
+immoral que a revolução franceza exercera, por tabella, nos salões
+lisbonenses. Dizia ella, com um riso sarcastico nos finos labios, que os
+inglezes vieram executar em Portugal as theorias livres da França.
+Acrescentava que o fardamento dos officiaes de Beresford conseguira das
+mulheres lusitanas, raça das Brites, e das Vilhenas, o que os romances
+de Voltaire, não poderam fazer.
+
+Ora vejam que tal era a primeira mulher que me trouxe pela mão o
+travesso Cupido, que n'aquelle tempo estava no ministerio!
+
+Foi aqui justamente na Foz que eu a vi, rodeada de satellites
+sufficientemente parvoinhos para perderem o centro de gravidade e
+cahirem no espaço infinito dos conquistadores aleijados.
+
+Fiz-me importante aos seus olhos por lhe salvar uma cadellinha que
+escorregára do _penedo d'Apollo_ ao mar. Apenas a vi em ancias, despi o
+casaco, metti-me até ao peito na agua, apanhei a cadellinha, que a
+ressaca levava para o mar, e, como Camões,
+
+ Dos procellosos baixos escapado,
+
+vim lançar no regaço da afflicta dama a cadella gemebunda.
+
+Fui bonito, como vêem, para casa! A nobre senhora quiz recolher-me no
+seu quartel, e eu, sem dar tempo a reiterados rogos, nem
+agradecer-lh'os, porque os queixos faziam uma traquinada diabolica,
+metti-me á cama, onde transpirei tres dias, bebi dez garrafas de tizana;
+puz no peito um arnez de pez de Borgonha, e ao cabo d'uma semana fui
+deixar um bilhete á exc.ma dona da cadella, que mandára saber de mim
+todos os dias duas vezes.
+
+Encontrando-me na praia, disse-me ella com muito agrado:
+
+«Eu não me satisfaço com o seu bilhete. Sou mais ambiciosa. Quero que me
+dê o gosto de ir passar alguns momentos a minha casa, onde se joga, e
+ri, e conversa, depois d'um mau chá. Hoje poderei contar com a honra da
+sua visita?
+
+--Oh minha senhora!...
+
+«Não me deixe na duvida. Meus manos querem ter o gosto de o conhecer...
+(Em 1819 era assim que se dizia a um homem da minha roda. Hoje os manos
+de s. exc.ª, querendo conhecer-me, procuravam-me em minha casa. Que
+progresso immenso em quarenta annos!)
+
+«Não nos falte! (proseguiu ella gesticulando seductoramente). Por me ter
+feito um grande favor, não se segue que me prive d'outros.
+
+--Oh minha senhora!...
+
+«Um grande favor, sim! Mal sabe o amor que tenho a esta cadellinha. É
+ingleza... foi-me enviada por um general britannico das minhas relações
+de infancia. (_Nota_: s. exc.ª tinha recebido a cadella em 1812; tinha
+ella então _trinta e dous annos_... que _infancia_! e que relações!)
+Calcule o impagavel serviço que recebi...
+
+--Oh minha senhora!
+
+Nunca pude passar desta apostrophe palerma: _oh minha senhora!_
+
+Que idéa fará esta mulher da minha intelligencia? perguntava eu ao outro
+_eu_.
+
+Com effeito, na noite desse dia apresentei-me em casa da exc.ma snr.ª D.
+Vicencia dos Anjos Albergaria Raposo Cogominho etc.
+
+(Parece-me que vai sahindo grande estopada a historia! Já agora, leitor,
+não queiras que eu perca duas tiras de papel, escriptas debaixo da
+inspiração saudosa dos tempos ridiculos!) Apenas entrei, fui rodeado de
+caras desconhecidas. Vi muita velharia femea sentada a um canto da sala.
+Fui lá fazer os meus comprimentos, e apenas uma se dignou bamboar um
+pouco a cabeça. As outras perguntavam á dona da casa quem era eu. Este
+_quem é_ ignominioso passava de bocca em bocca, já depois que D.
+Vicencia dissera alto e bom som: «O snr. João Junior é o salvador
+intrepido da minha cadellinha.» Ser João, e salvar cadellas não era
+habilitação bastante para ser apresentado.
+
+Deu-se-me pouca importancia; apenas o capellão me veio perguntar quem
+era, d'onde era, que modo de vida tinha.
+
+O orgulho começou a picar-me, e eu respondi que era o que fôra antes de
+ser o que era. Que nascera em qualquer parte onde o acaso me fizera
+nascer. Que o meu modo de vida era viver de modo que podesse rir-me dos
+tolos que o acaso do nascimento fizesse mais tolos do que eu.
+
+O capellão ficou atonito deste trocadilho insulso, e fêl-o mais parvo do
+que era, revelando-o aos hospedes de D. Vicencia.
+
+Ella, porém, viera sentar-se ao meu lado, e animou-me a eloquencia com
+as liberdades da sua conversação.
+
+Fallou-me no amor, e parecia mais bella, acalorada com o enthusiasmo
+deste grande assumpto. Perguntou-me se tinha amado, e se lhe fizera a
+ella o sacrificio de privar a minha amante d'alguns instantes felizes.
+
+Respondi que apenas sahira da minha aldeia vinte dias antes, pela
+primeira vez, e não sentira ainda o que era amor.
+
+«Sim!?--atalhou ella, abrindo muito os olhos scintillantes.
+
+--Sim, minha senhora.
+
+«Um coração virgem! É crivel! Qual será a feliz mulher que se aqueça ás
+primeiras chammas da sua alma?
+
+Esta metaphora pareceu-me magnifica e fez-me impressão! Se lhe
+respondesse, diria necessariamente uma futilidade chôcha. Calei-me, e,
+se bem me recordo, córei.
+
+Se dispensam saber o resto, não leiam o capitulo seguinte.
+
+
+VII.
+
+Pouco depois, tres morgados das margens do Tamega vieram sentar-se ao pé
+de D. Vicencia, e começaram a fallar de cavallos. Discutiu-se a
+pulmoeira d'uma egua ingleza, e os alifafes d'um alasão de Alter. D.
+Vicencia fallou d'um urco inglez que era o mimo quadrupede do quartel
+general do Beresford, e datou precisamente que em metade do seculo XVIII
+florescera o tronco d'um cavallo pigarço que lhe morrera d'um aguamento
+na estalagem de Vallongo.
+
+Eu assisti estupidamente silencioso á pratica destes dignos Plutarcos de
+cavallos illustres. Se quizesse dar o meu obulo para a conversação,
+poderia apenas apresentar as minhas averiguações sobre quatro mataduras
+d'uma egua em que viera, graças á benevolencia prestante do meu abbade.
+
+Á meia noite, um tio de D. Vicencia, conego da sé patriarchal,
+principiou a resonar a um canto da sala. A trombeta nazal do distincto
+ornamento da igreja era o signal do despejo. A nobreza destes reinos
+principiou a sahir, e eu, depois de quatro curvaturas, correspondidas
+por quatro mesuras de alto a baixo, em que era soberanamente ridicula D.
+Vicencia, fui para o meu quartel, scismar na mulher, á luz d'uma bugia.
+
+Devo confessar que me não sahia das orelhas o ecco destas dulcissimas
+palavras: «qual será a primeira mulher que aqueça as primeiras chammas
+da sua alma?» Esta honra de fogareiro, concedida pelos melhores quarenta
+annos que meus olhos viram, alvoroçou-me o sangue, e tirou-me a vontade
+da ceia, dôce amiga que até então me embalava nos sonhos deliciosos d'um
+Vitellio de meia tigella.
+
+Vi duas vezes a mulher, em sonhos. Não sei porque, mas o sonho com a
+mulher que póde amar-se, essa casta idealisação em que o material do
+corpo não entra, faz que a gente accorde amando-a, revendo-a através da
+nuvem esvaecida do sonho, desfigurando-a por uns contornos vaporosos,
+que o leitor nunca viu, se Deus lhe fez o favor de lhe dar uma alma bem
+chata, do que lhe dou os meus sinceros parabens.
+
+Rompia a manhã no horisonte purpurino do mar, quando eu saltei do leito
+da insomnia para o meio da rua. Senti que era poeta: alvoreceu-me nessa
+madrugada o furor das rimas, e, sem vaidade, confesso que escrevi d'uma
+enfiada vinte e tantas quadras, terminando todas por:
+
+ Meu amante coração.
+
+É realmente um vacuo na historia da poesia moderna em Portugal a perda
+lastimavel do meu primeiro jacto metrico. Se bem me recordo, o meu poema
+poderia ter uma até duas, mas tres tolices em cada verso, isso posso eu
+asseverar que não aos poetas contemporaneos, que tem levado o seu
+talento creador a quatro, cinco, e mais. Como quer que fosse, eu
+glorio-me de ter feito obra que muitos annos depois encontrei executada,
+com pequenas correcções, ao som da viola, fazendo as delicias d'um
+arraial.
+
+Com a aurora da poesia veio a primeira nuvem das decepções amargas do
+poeta, e vem a ser que, estando eu persuadido que o poeta sahia do
+vulgar, entrava em convivencia com os sylphos, e, _ipso facto_,
+dispensava o almoço,--enganei-me redondamente. Ás nove horas e meia,
+quando o coração parecia ter feito monopolio da vida dos outros orgãos,
+começaram-me os intestinos a resoar uma symphonia de rugidos, que devia
+ser a da abertura d'uma opera muito séria. Fui a casa, e aquietei o
+motim intestinal, como os imperadores romanos aquietavam a canalha:
+_panem_, mas com manteiga, que os romanos não conheceram; o _et
+circenses_ traduzi-lh'o em café com leite.
+
+Consummada esta operação mixta, achei-me poeta em duplicado. Fiz um
+soneto excellente durante a digestão. Era um acrostico a _Vicencia_; mas
+como Vicencia tem só oito letras, e eu precisava de quatorze, venci a
+difficuldade, buscando entre os seus appellidos um com seis letras.
+Encontrei _Raposo_; por consequencia--VICENCIA RAPOSO!
+
+Era um bello soneto, que será publicado na 2.ª edição, para não alterar
+a ordem delineada da 1.ª Perfilei-me na praia, eram dez horas e vinte e
+cinco minutos. O coração dava-me cambalhotas no peito, quando a
+vanguarda de D. Vicencia, composta de paspalhões, appareceu na calçada.
+Nisto, desponta a cadellinha, que eu amava quanto é possivel amar-se uma
+cadella que nos proporciona o namoro com a dona. Depois... ELLA!
+
+Então é que foi! Eu já não sabia o que havia de fazer das mãos!
+Parecia-me que a perna direita era um membro incommodativo. Os hombros
+encolhiam-se-me, e os braços procuravam, entre todas, a postura mais
+desengraçada! D. Vicencia cortejou-me de longe, e eu, querendo
+corresponder-lhe, tirei o chapéo tanto á pressa que me ficou metade do
+forro em volta da testa, como uma aureola de marroquim vermelho.
+Attribulado com os sorrisos de quatro petimetres que me estavam ao lado,
+quiz dar-me uma compostura geral ao corpo para os encarar com
+sobresenho, e resvalou-me um pé na aresta d'uma fraga. Dobraram a risada
+os peralvilhos, e eu, emparvecido, cosi-me com uma barraca, desejando
+n'aquelle instante bifurcar-me na egua ulcerosa do abbade, e demandar o
+patrio ninho.
+
+Não o quiz assim a minha desventura.
+
+D. Vicencia não testemunhára a minha segunda catastrophe, graças ao
+cumprimento d'um adventicio. Quando eu me escoava subtilmente por entre
+as barracas, não pude deixar de envesgar um olho miserando sobre
+Vicencia. Viu-me! procurava-me com aquelle ar desdenhoso das mulheres
+espertas, que parecem não querer vêr o homem que mais procuram. Ora,
+Vicencia, além de esperta, tinha um uso!... Não fallemos disso!
+
+O magnetismo d'aquelle olhar collou-me os pés á areia como os da estatua
+do idiotismo! Sorriu-me com o mais amavel dos desleixos, brincando com
+as borlas do seu elegante casaco, roupão, ou como é que se chamava, de
+castorina côr de rato! Eu tomei a brincadeira das borlas como um acêno,
+e penso que me não enganei. Este espirito sagaz é uma cousa muito velha
+em mim!
+
+Fui-me aproximando disfarçadamente. Vicencia, com mais subtil disfarce,
+deixou o grupo dos senhores donatarios que regougavam as suas tolices
+habituaes. Foi sentar-se solitaria ao pé d'uma barraca, e eu, tremulo de
+susto, fingindo quanto pude um animo frio que mais me denunciava,
+avisinhei-me com o chapéo na mão.
+
+--Como passou a noite, snr. João Junior?--acudiu ella ao meu embaraço.
+
+«Muito obrigado, minha senhora...--gaguejei eu.
+
+--Passou bem, não é assim?
+
+Creio que fiz um tregeito parvo com os beiços, no qual tregeito queria
+eu significar-lhe que não passára lá grande cousa.
+
+--Então passou mal?--tornou ella.
+
+Uma idéa, distinctamente tola, me acudiu de improviso á mente. Julguei
+do meu dever não atraiçoar o legitimo sentimento de ternura que ella
+fizera nascer. Revesti-me da bravura moral que o amor inspira a todos os
+patetas bisonhos, e respondi bruscamente:
+
+«Quem sonha com o objecto amado não passa bem.»
+
+Nos labios de Vicencia esvoaçou um riso imperceptivel. Ainda hoje me dá
+muito que pensar aquelle riso! Acho, aqui para nós, que a generosa
+mulher satisfez com aquelle riso ao estimulo de uma conscienciosa
+gargalhada.
+
+--Pois o senhor não me disse ainda hontem que não amava?
+
+«É verdade, minha senhora... mas... lá vem a maré...
+
+--Vem a maré?! (disse ella) a que horas virá ella hoje? Tanto queria
+tomar banho cedo!
+
+Imaginem, pios leitores, com que cara eu ficaria!
+
+
+VIII.
+
+--Eu não fallava na maré do mar, minha senhora...
+
+«Ah... não? eu pensava...
+
+--Queria eu dizer que... o coração muda d'um instante para o outro.
+
+«Agora entendo! Ora sente-se...
+
+E eu sentei-me, resolvido a ser homem; mas a cadeira era baixinha e eu
+fiquei virtualmente sentado como um macaco. Quiz accommodar uma perna
+sobre a outra; mas o meu mestre de rhetorica tinha-me dito que era
+signal de má criação cruzar as pernas. Desejei n'aquelle momento
+angustiado ter nascido na Laponia, ou encurtar em corpo na razão directa
+da pequenez do espirito. Experimentei variadas attitudes: uma vez,
+ficava-me o pé direito em aleijão; outras, o joelho esquerdo formava com
+o direito o apice d'um triangulo isosceles. Resolvi, por fim, estender
+uma perna, e encurvar a outra em fórma de fateixa. Isto em quanto ás
+extremidades inferiores; mas a anathomia prova que o Creador tambem fez
+as extremidades superiores para castigo de amantes garraios. A mão
+direita andou longo tempo em busca de uma posição, desde o seio do
+collete até ao joelho; por fim, metti-a na algibeira. A esquerda
+inutilisei-a entre as costas e a cadeira. Definida a minha posição,
+immobilisei-me nesta caricatura, como se fosse de greda. Desviei as
+minhas attenções plasticas do corpo, e fiz-me todo espirito, para
+destruir o mau effeito do involucro.
+
+--Não toma banhos?--disse D. Vicencia, como se eu lhe tivesse aguado as
+bellas cousas que tencionava dizer-me.
+
+«Sim, minha senhora, já tenho vinte banhos.
+
+--Soffre dos nervos?... É um terrivel padecimento...
+
+«Eu tambem soffro bastante dos intestinos» atalhei eu com toda a
+ingenuidade.
+
+--Sim? Ainda ha peores enfermidades... As do coração é que não se curam.
+
+«E v. exc.ª padece do coração?--disse eu com sincera condolencia.
+
+--Muito...
+
+«Algum aneurisma?
+
+--Aneurisma moral... que é o peior de todos. O snr. João Junior ha-de
+soffrel-o tambem quando chegar a sua hora.
+
+«Por em quanto, não sinto dôres de peito, minha senhora. O meu mal é
+todo de intestinos.
+
+--O coração--tornou ella sorrindo de um modo celebre--o coração tambem é
+um intestino.
+
+«Ha-de perdoar, minha senhora; mas os intestinos estão por debaixo do
+estomago. Tenho um tio cirurgião que sabe perfeitamente a anatomia, e
+nunca lhe ouvi dizer que o coração era um intestino.
+
+D. Vicencia ria desafinadamente. Eu estava um pouco enfiado e corrido
+deste mau gosto de discutir ás gargalhadas.
+
+«De que se ri v. exc.ª?»--interpellei eu, desarranjando um pouco a minha
+attitude, que tanta arte me custára, e tanto me custou a restaurar.
+
+--Eu rio-me da boa fé com que o senhor enrista a lança em defesa da
+anatomia do seu tio. Eu tenho fallado em estylo allegorico. O snr. João
+Junior sabe perfeitamente o que é allegoria.
+
+«Pois não sei?--repliquei eu com ar de triumpho--_Allegoria est
+tropus_... V. exc.ª sabe latim?
+
+--Não, não sei.
+
+«Eu traduzo: Allegoria é o tropo, por meio do qual se mostra nas
+palavras uma cousa differente da que se tem no pensamento, empregando
+todavia, para designar esta ultima, outra que com ella se assemelhe. Ha
+duas especies de Allegoria, que são: a _total_, e a... V. exc.ª ri-se?
+Cuida que eu estou a mentir?
+
+--Não cuido; peço-lhe que não repare nos meus risos. Eu estou folgando
+de ouvir um sabio...
+
+«Sabio, não digo; mas ainda não ha tres mezes que eu estudei o meu
+Quintilliano...
+
+--E sabe-o de cór... Qual é o seu destino? tenciona ser frade?
+
+«Não, minha senhora... Eu parece-me que não sirvo para a vida
+ecclesiastica. Meu pai quer que eu seja frade Bernardo; mas eu... acho
+que não se póde ser bom frade, quando se fazem versos.
+
+--Pois o senhor é poeta?
+
+«Tenho minha tal ou qual inclinação para isso.
+
+--Ha-de dar-me uma amostra da sua musa. Tem algum poema escripto na Foz,
+cantando o Neptuno, e as deusas do mar?
+
+«Ainda não escrevi nada sobre Neptuno; mas se v. exc.ª ordena, farei uns
+versos a esse assumpto. Hoje escrevi eu umas quadras e um soneto, que
+deixei em casa.
+
+--Deixou em casa? que pena! Não se lembra de alguns versos?
+
+«Não, minha senhora.
+
+--Qual foi o motivo?
+
+«O motivo... o motivo...--gaguejei eu, esfregando os dedos da mão
+esquerda na palma da mão direita--O motivo... bem sabe v. exc.ª qual
+foi...
+
+--Eu!... não sei! Talvez a bravura com que o senhor salvou a minha
+cadellinha!...
+
+«Qual cadellinha!? Ora! não fallemos n'isso... Os versos foram feitos...
+a v. exc.ª
+
+--A mim?! Dobrada razão para lh'os pedir. O que me pertence não póde ser
+retido, em seu poder, sem meu consentimento. Vá já buscar os meus
+versos, snr. João Junior, e leve-m'os a minha casa, sim?
+
+Ergui-me da infernal cadeira radioso de gloria! Da praia a minha casa
+não vi ninguem. Caminhava sobre flores d'um perfume embriagante. Tudo me
+parecia azul-celeste. O coração dava encontrões na estreita bocêta do
+peito. Cheguei a persuadir-me que estava curado dos intestinos.
+
+Fatalidade! O extremo d'um grande prazer é um desgosto. Procurei os meus
+versos que deixára sobre a banca, e não os vi. Corro á cozinha, e
+interrogo uma velha, que me acompanhára de casa. Pergunto-lhe pelos meus
+poemas, e ella arregala os olhos enviezados de marroquim, sem saber o
+que eu procuro. Insto pelos meus papeis, e a incendiaria diz-me que, á
+mingua de carqueja, accendera o fogão com uns papellitos que achára
+sobre a mesa.
+
+Senti a cruenta precisão de matar esta velha! Injectaram-se-me os olhos
+de idéas assassinas. Traquinaram-me os queixos convulsivos de raiva.
+Entrou em mim o _delirium tremens_... Foi a imagem de Vicencia que me
+salvou... se não... ai da velha! e ai de mim tambem!
+
+Sahi, fui-me empoleirar no penedo mais hirsuto dos Carreiros, bebi a
+longos tragos a inspiração, reproduzi as idéas da poesia supplementar á
+carqueja, e outras novas suggeridas por um novo ardor. Ó poder do genio!
+Cento e vinte versos, repartidos em quadras, a inspiração ejaculou d'um
+vomito! Escriptos a lapis, trasladei-os em papel de peso na loja d'um
+tendeiro. Corri a casa de D. Vicencia. Annunciei-lhe a catastrophe da
+1.ª edição, que a fez rir muito. Deixei-a lêr mentalmente a segunda, e
+não ousei procurar no semblante d'ella a denuncia da sensação que lhe
+faziam.
+
+Lido o poema, D. Vicencia, séria, magestosa, e commovida, sentou-se,
+fez-me sentar, por um gesto, junto de si, e murmurou estas palavras que
+nunca, através de trinta annos, pude esquecer:
+
+--O senhor fez-me rir hoje; mas os seus versos fazem-me pensar com mais
+seriedade do que eu queria. O senhor é uma criança de coração,
+annunciando talento e infortunio. É um innocente que fará rir, antes que
+o ensinem a chorar... Agradeço os seus versos, os seus sentimentos, e o
+offerecimento do seu coração.
+
+Felizmente para mim entrou gente na sala.
+
+O capitulo seguinte não sei se terei a coragem de escrevêl-o! Vou lêr
+alguns das _Confissões de J. J. Rousseau_ para me animar.
+
+
+IX.
+
+Era em uma dessas noites em que o amor se pendura dos raios argentinos
+da lua-cheia. O dorso do mar, sereno e suspiroso, scintillava em escamas
+de prata. Na quebrada dos montes fronteiros, onde a lua não diffundia o
+seu clarão, perpassavam luzinhas magicas, tremulas e subitaneas, que, ao
+cabo de contas, vinham a ser as candeias dos lavradores que subiam do
+redil para os casebres, ou desciam dos casebres para onde elles queriam,
+cousa de que não faço questão.
+
+E eu fitára os olhos no horisonte do occeano, terrivel e magestoso;
+quadro indecifravel desde o cháos, provocação eterna ao orgulho do verme
+chamado homem; gigante inquieto que submerge no seio, d'um sorvo apenas,
+a taboinha juncada de soberbos tyrannos da terra, que lá se confundem
+com a folhagem das algas, boiantes sobre a garganta dos abysmos. E o meu
+espirito, desatado do poste vil chamado corpo, pairou nas alturas do
+céo, voejou de mundo para mundo, librou-se na paragem luminosa das
+chimeras, e desceu por fim sobre a imagem de D. Vicencia.
+
+Eram dez horas da noite.
+
+Sahi de minha casa, com a phantasia arrobada de delicias, e achei-me
+machinalmente debaixo d'um caramanchão de faias e loureiros que
+abobadavam uma janella aberta no angulo do jardim de D. Vicencia.
+
+Os raios da lua, dardejando sobre a copa do miradouro, matisavam-na de
+tremula folhagem de prata, e vinham, filtrando por entre os rotulos da
+janella, mosquear a relva como a pelle da zebelina. Era muito para
+ver-se tudo isto que eu, exacto retratista da natureza, vou pintando de
+modo que o leitor parece-lhe que o está vendo. É o que se quer.
+
+Sentei-me defronte desta como gruta de fadas, e imaginei o que ha mais
+bello em Ossian, em Hoffmann, e nos contos orientaes, que eu, com
+vergonha o confesso, não tinha visto, nem vi depois; mas, nestes ultimos
+tempos, é preciso ser grande alarve para não saber tudo isto e muitas
+cousas mais, lendo os folhetins dos meus amigos, sabedores de tudo,
+conhecedores de todos os nomes distinctos, á excepção do Lobato, e do
+Madureira, menos euphonicos que Macpherson, Goethe, Klopstock, e outros,
+que elles conhecem, como eu, dos catalogos da bibliotheca _Charpentier_.
+
+Estava eu, pois, nesta idealisação de todos os meus cinco sentidos,
+divinisando aquella gruta, onde de tarde vira Vicencia com a face
+voltada para o sol-poente, apoiada com geito encantador na mão eburnea.
+
+Devo, para desarmar a critica, protestar contra o epitheto _eburnea_.
+Entrou commigo a peste litteraria dos modernos torneiros de paragraphos.
+Arredondar o periodo é a condição imposta pela tyrannia do gosto ao
+escrevinhador laureado. Eu canto o que escrevo; e, se a toada me destoa
+no tympano, desmancho a oração em partes, ajusto-as de novo, calafeto-as
+de artigos, e pronomes, e conjunções, o mais afrancezadamente que posso,
+e sahe-me a cousa um pouco inintelligivel, mas harmoniosa como um
+clarinete de romeiro de S. Torquato de Guimarães.
+
+_Com geito encantador na mão eburnea_: reparem que é um verso
+hendecasyllabo. Quem ha ahi que arredonde melhor um periodo, sem
+desnaturar a lingua, nem alastrar o verso de cunhas que resabem a
+estrangeirice?
+
+Tudo isto veio adrêde (eu traduzo: _á-propos_) para dizer que, estando
+eu com os olhos embevecidos nas melenas das faias, abriu-se subitamente
+a janella, e a lua deu de chapa na radiosa cara de D. Vicencia.
+
+Viu-me, e não me conheceu: ia retirar-se quando eu, ainda absorto na
+apparição, tossi o mais melicamente que pude. Vicencia deu ares de
+conhecer-me. Eu, invocando todos os potentados da minha alma (não seja
+sempre _potencias_) para vencer o acanhamento, murmurei:
+
+«Sou eu...
+
+--É o snr. João?
+
+«É verdade, minha senhora.
+
+--Então que faz por aqui?! versos?
+
+«Estava a admirar a natureza, minha senhora.
+
+--E admiravel que ella está!
+
+«Muito admiravel, admirabilissima! muito bonita é a natureza!
+
+--Eu tambem quiz ver o mar onde a lua se espelha tão poeticamente! Mas a
+noite vai arrefecendo; e eu receio muito as constipações á beira-mar. Se
+me dá licença, recolho-me...
+
+«Pois eu ainda fico... Estou gostando muito desta encantadora noite...
+Quem ama, não tem medo ás constipações...
+
+Estas palavras proferi-as com certa entonação de despeito, e fiquei
+satisfeito da minha veia epigrammatica. Vicencia, porém, redarguiu:
+
+--O logar é incompetente para fallar d'amores. Quem nos visse aqui a
+deshoras suspeitaria de nós. Nada de escandalos, snr. João Junior. Venha
+cá ámanhã, e então me dirá o effeito que lhe fez o poetico espectaculo
+desta formosa noite; mas... se valho alguma cousa na sua vontade,
+peço-lhe que se recolha, e não queira privar-se de me ver ámanhã,
+constipando-se hoje... Promette ir?
+
+«Sim, minha senhora...
+
+--Então, boas noites.
+
+E fechou o rotulo, mais depressa, por sentir passos na extremidade da
+travessa, que era de pouquissima passagem.
+
+Eu permaneci quieto no meu sitio, meditando, triste, na indifferença
+gélida com que fôra recebido, em hora tão romantica, tão mysteriosa!
+N'isto, passou por mim um vulto. Era o homem, cujos passos a fizeram
+fugir com mais presteza.
+
+O tal vulto, ao perpassar por mim, mediu-me d'alto abaixo, afrouxando o
+piso. Olhou para a janella de Vicencia, e fixou-me de novo. Deu alguns
+passos, e retrocedeu... Confesso que já não estava contente!
+
+O encapotado foi até á extremidade do bêcco, e voltou. Parou diante de
+mim, e disse por debaixo do capote, em ar de tyranno de tragedia:
+
+--Que quer vossê aqui?
+
+«Não quero nada...--gaguejei eu.
+
+--Pois então, mude-se.
+
+Eu demorava um pouco a execução do mandado solemne de despejo, quando o
+homem recalcitrou:
+
+--Mude-se, ou eu o ajudo a mudar.
+
+A ajuda, pelos modos, era uma pranchada de chanfana, que o nosso amigo
+deixou vêr por debaixo da fimbria do capote. Dispensei o auxilio
+offerecido, e retirei-me cozido com a parede, scismando nas bellezas
+appensas a uma noite de lua cheia á beira mar.
+
+Ao cabo da viella parei, sustido por um pensamento negro. «Será aquelle
+homem um amante de Vicencia?!»
+
+O ciume deu-me intrepidez, quero dizer--a intrepidez de parar e
+esconder-me d'onde podesse espreitar a scena mais escandalosa de que o
+leitor tem noticia!
+
+A janella abriu-se. Era Vicencia... conheci-lhe a voz! Não sei o que
+ella disse que fez rir o meu rival. Ouvi o soido de ferro que raspava no
+peitoril da janella! eram os ganchos d'uma escada. Ouvi o som cavo do
+embrulho de cordas a cahir na terra. Vi o maldito subir, coar-se pela
+janella, recolher a corda... e... maldição! maldição!...
+
+..........................................................................
+
+E, desde essa noite nefasta, a minha fronte pendeu abatida como cabeça
+de estatua que um raio fulminou.
+
+Contei as minhas amarguras á vaga gemente, e acordei os eccos das
+solidões compadecidas.
+
+Como Fausto, como Manfredo, e como Werther, perguntei ao Creador se a
+vida não era uma grande patacuada.
+
+O demonio do suicidio segredou-me as delicias do aniquilamento.
+
+Quiz tentar contra a minha existencia, e vacillei longo tempo na escolha
+do instrumento.
+
+Queria um genero de morte novo, maravilhoso, inaudito, e memorando!
+
+A pistola, o punhal, o laço, a asfixia, o verdete eram já n'esse tempo
+expedientes muito safados.
+
+Em cata d'um morrer distincto, habituei-me á dôr. Vivi, se vida póde
+chamar-se este mixto de funcções animaes em que predomina o almoço, o
+jantar, e a ceia.
+
+Não se conhecia então o instrumento de suicidio que a sociedade actual
+inventou: O ARTIGO DE FUNDO.
+
+
+X.
+
+Eu, João Junior, não soffro os romancistas que pulam d'um capitulo para
+outro, de modo que o romance tanto faz principial-o detraz para diante
+como de diante para traz. Classico em toda a extensão da palavra,
+respeito a arte antiga, admiro a boa ordem das _Pastoris_ de _Longus_,
+do _Jumento_ de _Lucius de Patras_, e outros venerandos monumentos da
+arte adulta, cuja leitura não aconselho áquelles que dormem as suas
+horas, sem o recurso do láudanum. Com quanto Aristoteles, Horacio, Pope,
+e Boileau não legislassem para o romance, eu, sincero venerador da arte
+que ensina a fazer os primores d'arte, trabalho, quanto em mim cabe, por
+introduzir no romance as tres unidades de Aristoteles. E aproveito a
+occasião para certificar aos principiantes n'este esperançoso ramo de
+litteratura, que é bom saber um bocado de Aristoteles, depois de ter
+lido duas comedias de Scribe, a _Dama das Camelias_, e--se o
+principiante fôr extremamente estudioso--o _Chatterton_, o _Bug Jargal_,
+afóra a immensa erudição que vem no La Place. Com estes seis volumes,
+uma capacidade mediocre abrange todas as ramificações da sciencia
+humana, e póde, se um editor martyr o ajudar, aos quarenta annos, ter
+produzido quarenta volumes.
+
+Os meus quarenta annos já lá vão ha muito; mas, se Deus me der mais dez,
+prometto encher o vasio que sempre deixa na terra um grande nome. É este
+o primeiro livro com que brindo a humanidade; mas tão maduramente
+pensado elle vai, tanto tempo o choquei, antes do parto, no utero
+intellectual, que, se me não logra a vaidade, começo por onde muitos
+acabam.
+
+A logica com que os capitulos anteriores vão coordenados, a naturalidade
+das transições, o alinho das fórmas em harmonia com a substancia, a
+intima alliança da esthetica com a plastica, a artistica rigidez com que
+os caracteres se pintam, e, sobre tudo, a pureza, a elegancia, o
+atticismo, a propriedade da linguagem, portugueza de lei como os
+portuguezes d'esta nossa afortunada época, tudo isso, e outras louçanias
+que omitto, por preguiça, provam que eu, João Junior, conheço
+Aristoteles; e, se nunca o li, maior habilidade revelo; tenho o sexto
+sentido, o _illuminismo_, que tambem não sei bem o que é. Pelo que,
+muito importa que o leitor saiba
+
+ _Quem era o homem da escada de ferro, o que elle por lá fazia
+ áquellas horas, e de como o author, depois de trinta annos, chora
+ por D. Vicencia, e o mais que a este respeito se disser, como do
+ capitulo melhor se verá._
+
+Deveis de saber, leitores pudicos, que D. Vicencia Raposo, quando chegou
+á Foz, sentiu, na presença do occeano, rejuvenescer-se o coração,
+desenrugar-se-lhe a alma, e esvoaçarem-lhe de redor candidos amorinhos.
+_Souvent l'onde irrite la flamme_, disse Corneille, e D. Vicencia,
+aspirando o ar nitrico do mar, cobrou vigor de peito, e com o vigor novo
+readquiriu as necessidades velhas, as illusões de 1801, as realidades de
+1809, e até o amargo prazer de experimentar os desenganos de 1819, época
+da sua fatal decadencia.
+
+Resolvida a amar, Vicencia espartilhou-se o mais angustiosamente que
+pôde, distribuiu nas faces, um pouco encortiçadas, dous escropulos de
+alvaiade com outros tantos de carmim, e foi passear até Carreiros.
+
+O primeiro homem que viu geitoso era um cadete de cavallaria, bem
+apessoado, bizarro de cintura, sadio de bochechas, e lesto de maneiras,
+requebros, posturas, e varias outras momices que dão nos olhos da mulher
+disposta a amar.
+
+D. Vicencia era vistosa e farfalhuda. Meneava-se tregeitando com tamanha
+volupia, que eram poucos os dous olhos da cara para a vêrem! O cadete
+não podia ser indifferente á provocação, e azado era elle para segurar a
+fortuna pelos cabellos. Menos parvo que eu, sacou do peitilho da fardeta
+o seu lenço branco, e deu ao nariz notas diplomaticas para iniciar o
+namoro. Houve de parte a parte correspondencia nazal, e já n'essa tarde
+o afortunado cadete foi apresentado a D. Vicencia.
+
+Saibam desde já que o meu rival era... são lá capazes de adivinhar!...
+Bento de Castro.
+
+Depois d'aquella negregada scena do bêco, será ocioso dizer-lhes que o
+meu achaque de intestinos recrudesceu; aliás, para evitar os olhos da
+perfida, ter-me-hia retirado a curar o coração no abrigo dos meus
+velhos, que todas as semanas me recommendavam que rezasse as minhas
+contas, e não fizesse asneiras. A gravidade do mal não me deixava
+assentar no albardão, apesar de doze semicupios! Era-me forçoso
+testemunhar a minha derrota, assistir aos funeraes ignobeis do meu
+primeiro amor.
+
+Nunca mais fui a casa de D. Vicencia, nunca mais a vi; mas á hora em que
+o mocho pia no galho do azevinho, ia eu, cheio da minha amargura,
+sentar-me n'uma collina fronteira ás janellas d'ella, e d'ahi, com um
+enorme oculo de papelão, conseguia lobrigal-a através das vidraças.
+
+Se quereis saber qual era então a minha angustia, perguntai á onda
+porque geme, á fonte porque murmura, e á calhandra porque pipila entre
+as franças de avellanzeira! É que a minha angustia era vaga e mysteriosa
+como a da onda que geme, a da fonte que murmura, como a da calhandra, e
+a do calhandro, e de toda a variedade de animaes que tem bico, ou
+barbatanas, ou tromba, ou labios, ou qualquer orificio respiratorio por
+onde possam respirar e gemer.
+
+Entrou em mim o demonio do ciume! Quando, pela primeira vez, se hospedou
+em minha alma virgem esta paixão filha do inferno, como lhe chama
+Homero, fez-se uma subita mudança na minha natureza. Eu fôra incapaz de
+entalar o rabo d'um gato, e senti-me propenso a cercear as orelhas a um
+homem! Levaria tres sôcos sem resistencia para não levar o quarto, com
+heroismo, e achava-me animado d'esse furor das batalhas, que ceifa
+louros e cabeças!
+
+Quiz conhecer, encontrar face a face o meu rival, e, para isso, muni-me
+do cabo d'uma vassoura, estive quasi a experimental-o no cavername da
+velha, que me queria tolher o passo, guinchando desabridamente, e fui
+postar-me debaixo da janella por onde o vulto subira.
+
+Depois de duas noites mallogradas, á terceira apparece, entre uma hora e
+duas da manhã, o nosso homem.
+
+Aqui entre nós que ninguem nos ouve: quando o vi perto de mim, a minha
+coragem pareceu-me uma cousa muito duvidosa. Deram-me caimbras nas
+pernas, e senti-me mal do epygastrico! Cingi a mim quanto pude o cabo da
+vassoura, para que elle não denunciasse as minhas tenções
+reconsideradas, e, o mais subtilmente que é possivel, fiz uma pirueta,
+preparando-me para uma retirada honrosa, quando o sujeito me corta a
+vanguarda, e diz com voz soturna:
+
+«Que diabo estava o senhor alli fazendo?!
+
+--Nada...--regouguei eu.
+
+«Isso não é possivel. O senhor não estava alli para me vêr passar... Não
+se assuste que eu não lhe faço mal... Diga lá o que me quer.
+
+O timbre agradavel d'estas palavras animou-me.
+
+--Eu ao senhor não lhe quero nada.
+
+«Ora venha cá;--tornou elle--vamos passear e conversar. O senhor
+chama-se João Junior.
+
+--Seu criado.
+
+«Quiz namorar D. Vicencia.
+
+--Isso lá... é conforme...
+
+«Seja sincero. O senhor fez-lhe versos, versos que eu achei bonitos, e
+conservo-os na minha carteira, porque talvez ainda me valham se me vir
+apertado por alguma mulher com a mania de ser cantada em quadras. O
+senhor está muito verde... Estas mulheres não se conquistam com versos,
+nem se procuram no principio da vida. O snr. João é provinciano, vem lá
+da sua quinta com as bucolicas do Rodrigues Lobo na cabeça; e, como não
+encontrou zagalas toucadas de flores, imaginou que D. Vicencia era uma
+das tres Graças em uso de banhos. Redondamente enganado, meu amiguinho.
+Ora agora, façamos um convenio. Quer o senhor que eu lhe deixe livre o
+campo para as suas escaramuças? Com a melhor vontade...
+
+--Nada, muito obrigado, eu não quero saber de mais nada... O que eu
+tenho a pedir-lhe é os meus versos.
+
+«Ha-de ter paciencia; mas os seus versos acho-os muito bonitos, e não
+lh'os dou. Até lhe digo mais: depois que os li, fiquei sympathisando com
+o author, e tenho feito diligencias por encontral-o na praia, ou em casa
+de D. Vicencia. Queria dizer-lhe que se não deixe lograr por taes
+mulheres; queria ensinal-o a viver com esta gente, para o poupar aos
+desgostos que eu supportei, desde que sahi de minha casa; queria, em
+fim, ser seu amigo, se o senhor não tivesse n'isso antypathias que
+vencer.
+
+--Muito obrigado...--mastiguei eu, bem disposto a favor de homem tão
+franco.
+
+E voluntariamente me deixei ir pelo braço delle até sua casa. Subi, e
+era dia claro quando nos separamos, amigos para sempre.
+
+Dous annos depois, recebia elle de mim lições de _savoir-vivre_. O meu
+talento precoce predominou a experiencia d'elle. Um anno de tracto
+social, decifrou-me enigmas em que Bento de Castro ainda hoje sinca.
+
+Duas palavras mais ácerca de D. Vicencia, e serão ellas sérias e tiradas
+do coração n'um intervallo de negra tristeza.
+
+A mulher devia ser velha quando não sente o coração... quando já não
+ama. Vicencia amou até o fim da vida. Amargurado fim de vida devia ser o
+seu! Nem já flôres desmaiadas lhe escondiam a fronte encanecida. Perdido
+o brilho, amorteceram-se-lhe os olhos, franziram-se-lhe as palpebras,
+encorreou-se-lhe o collo, e as mãos, que tão lindas foram, tingiu-as a
+amarellidão do tempo.
+
+E o coração ainda vivo no involucro muribundo! Era como a flamma que não
+póde coar-se nos vidros embaciados da velha lampada.
+
+Foi, por fim, motivo de irrisão e mofa, aquella mulher, que, desde os
+doze até aos quarenta e cinco annos, arrancára coroas de quantas rivaes
+quiz supplantar!
+
+De todos os seus amantes, eu fui por ventura o mais nobre, e o mais
+vilipendiado. Embora! Nenhum outro lhe daria o _salve_ compassivo que eu
+lhe dou, depois de trinta annos.
+
+..........................................................................
+
+Oh vida! vida!............................................................
+
+..........................................................................
+
+Grandes devem ter sido as provações de quem souber tilintar os guizos do
+histrião para que lhe não ouçam os gemidos!...
+
+Chorar no coração, e rir no espirito...
+
+
+XI.
+
+Consta do final d'um capitulo, escripto em logar competente deste
+exemplar romance, que Bento de Castro sahiu de minha casa para entabolar
+com Hermenigilda o seu primeiro colloquio.
+
+Eu cerrei as portadas da janella, deixando apenas uma fresta onde
+podesse encaixilhar a orelha direita, sem denunciar a innocente
+espionagem. Alguns dos meus amigos, orelhudos como Midas, não poderiam
+fazer outro tanto com o mesmo recato.
+
+Bento foi quem primeiro teve a palavra, e disse:
+
+--É tal o prazer que me enche o coração, amada Hermenigilda, que não
+posso exprimir-vos quanto por vós sinto, desde o ditoso instante em que
+vêr-vos e adorar-vos foi obra d'um momento. O sentimento que meu terno
+peito nutre por vós, acaso ao vosso terá passado?
+
+ELLA.
+
+Eu passei bem, e o senhor?
+
+ELLE (_atordoado como se lhe despejassem de cima um balde_.)
+
+Como passará bem do corpo quem arde em vivas chammas de amor?
+
+ELLA.
+
+O senhor tambem sabe cantar a modinha das _vivas chammas d'amor?_
+
+ELLE.
+
+Nada, não sei.
+
+ELLA.
+
+Minha prima Carlota canta que é um regalinho ouvil-a.
+
+ Althea, mimosa Althea
+ Me maltractas com rigor,
+ E eu por ti ardendo sempre
+ Em vivas chammas d'amor.
+
+Pois o senhor não sabia este soneto?
+
+EU (_mentalmente_.)
+
+É d'uma estupidez fabulosa! Ó pobre Bento, como estará a tua alma!...
+Haverá d'estas mulheres, passados trinta annos? Digo que não, em honra
+do progresso. Alguns annos mais, e _Paulo de Kock_, e _Pigault Lebrun_,
+e outros directores espirituaes, traduzidos em vernaculo, darão aos
+namoros de nossas filhas occasião de ouvirem menos tolices. Os que
+amarem em 1856, devem passar horas muito agradaveis! As mulheres de
+então, ricas de prendas espirituaes, saberão dizer _toillette_,
+_rendez-vous_, _petit-point_, _crochet_, _soirée_, _boucles_,
+_papier-satin_, _enveloppe_, e outros ornamentos de lingua com que farão
+a sua maior, mais fecunda, mais grulha e tagarella. Com a
+superabundancia do idioma, augmentarão as idêas, na razão directa. A
+psycologia estará no auge. Mestre Spinosa e Kant encarnarão nas costas
+abauladas da prole de qualquer jarreta. A mulher saberá os escaninhos da
+alma como a abelha os do cortiço. Não haverá uma só que possa, com
+acerto, chamar-se tola. Perfeita de espirito, attenderá ás imperfeições
+corporeas, e descontente da massa insufficiente que o grande Artifice
+empregou na feitura d'ella, apropriar-se-ha o algodão necessario para
+que o Creador soffra um quinau. A mulher, correcta e augmentada, em alma
+e algodão, será o luxo da natureza, a boneca das creanças-decrepitas, o
+ouro cendrado no cadinho das humanas miserias, o melhor pedaço de carne
+e osso que Deus creou, a mais flacida aba de algodão e barbas de baleia
+que as manufacturas celestes podiam dar-nos.
+
+ELLE (_despeitado_).
+
+Não fallemos nas cantigas de vossa prima; o que importa é saber se me
+tendes um affecto igual ao meu.
+
+ELLA.
+
+Isso lá... veremos. Se meu pai disser que sim...
+
+ELLE.
+
+Pois vosso pái é que vos manda amar?
+
+ELLA.
+
+O que elle diz é o que se faz. Casamentos não me faltam. Tem-me pedido
+muitos senhores de casa, e se elle diz que não...
+
+ELLE.
+
+Mas, eu não pergunto se quereis casar commigo.
+
+ELLA.
+
+Então?! Se não quereis casar commigo, vindes enganado.
+
+ELLE.
+
+Quero casar comvosco; mas primeiro devo experimentar...
+
+ELLA.
+
+O que?
+
+ELLE.
+
+O vosso coração. Quero ser amado antes de ser vosso marido. Que sentis
+por mim?
+
+ELLA.
+
+Sinto muito bem, gosto de vos vêr, e se meu pai quizesse, eu de mim
+tambem queria ser vossa esposa.
+
+ELLE.
+
+A minha carta que impressão vos fez?
+
+ELLA.
+
+Fez-me muita: está muito bonita; parece mesmo que é cousa de livros de
+historias. Tenho lá em casa, na Amarante, um livro chamado os Cantos de
+Trancoso, e outro chamado as Aventuras de Theofilos, ou Theofanius, ou
+uma palavra assim, que trazem muitos palavriados assim.
+
+ELLE (_com a voz suffocada por um vomito moral_).
+
+Boas noites, menina.
+
+ELLA.
+
+Então passe muito bem, até ámanhã, se Deus quizer.
+
+Bento de Castro entrou no meu quarto com as mãos agarradas á cabeça. Eu
+estava sobre a cama, marinhando com as pernas parede acima, arquejando
+de riso, rebentando pelas ilhargas, quando o pobre homem entrou.
+
+«Pois tu ouviste?--disse elle.
+
+--Tudo! está vingada D. Vicencia, e eu tambem. Suicida-te, meu infeliz
+Bento! Um homem que encontrou similhante Hermenigilda, deve morrer de
+tedio, de vergonha, de raiva, de odio ao genero humano em geral, e ás
+mulheres em particular!
+
+«Estás enganado--atalhou elle--gosto assim de vêr a estupidez no seu
+estado de perfeição primitiva. Andava eu morto por encontrar a mulher
+como ella foi no tempo em que se comiam bolotas e medronhos. Pensas que
+arrefeci na empreza? Não tenhas medo. É uma mulher deliciosa para um
+homem que quer casar-se rico, e desligar-se das obrigações que se
+contrahem matrimonialmente com uma mulher que tem alma. Alli onde a vês,
+se eu tiver a duvidosa felicidade de a obter do pai, é a unica mulher
+que me convém. Ha-de ser uma excellente criadora de porcos, e se eu lhe
+disser que saia da Amarante para viajar commigo dá-lhe um desmaio.
+Tomaram muitos encontrar a innocencia d'ella! Aquillo é tudo materia
+pura e estreme como a dá a madre natureza. Eu corto o pescoço, se ella
+tem resquicio de maldade!
+
+Castro continuava o elogio de Hermenigilda, quando ouviu vozear alto em
+casa d'ella. Fomos á janella, e vimos Pantaleão embrulhado n'um cobertor
+com um toco de sêbo acceso na mão, chamando Hermenigilda a grandes
+berros. Vimol-o chegar, e o pai perguntou-lhe o que estivera ella
+fazendo n'aquella janella. Hermenigilda negou, e o preto foi chamado
+para dizer que a ouvira estar fallando com um homem que costumava
+fazer-lhe acenos da janella fronteira.
+
+Pantaleão, com o cobertor a rastos, solemne como um patriarcha do
+Levitico, aproximou-se da filha cabisbaixa, deu-lhe um sonoro pontapé, e
+perguntou-lhe quem era o sujeito que fallava. A desastrada moçoila
+tartamudeou, e, receosa da segunda carga, disse que elle lhe tinha
+escripto para o bom fim. O pai disse que queria vêr a carta.
+Hermenigilda sahiu d'alli; Pantaleão, no accesso da colera, deixou cahir
+o coto de sêbo, e ficou em trevas.
+
+Não podemos vêr nem ouvir o desenlace da scena.
+
+«O peor é que a minha carta está assignada!--disse Castro.
+
+No dia seguinte, disseram-me, quando me levantei, que Pantaleão estava
+na janella desde o romper do dia.
+
+Fui á janella, e fiz-lhe, como costumava, a minha cortezia, posto que
+elle correspondia com desagrado á minha civilidade, desde que me viu
+fazer á moça varias bugigangas.
+
+Fitou-me com terrivel catadura, e disse:
+
+«Ó su amigo, diga lá a esse borra-botas que por ahi vem, que eu sou
+homem de lhe tirar a collada pelas costas, ouviu?
+
+--Ouvi perfeitamente, porque o senhor tem um excellente
+pulmão--disse-lhe eu, disposto a jogar insolencias com o senhor de
+Fregim e coutos de Riba-Tamega.
+
+«Diga-lhe lá que se tornar a desinquietar minha filha, mando-lhe moer o
+espinhaço.
+
+--Faz o senhor muito bem... Com que então o tal maroto desinquieta-lhe a
+filha!
+
+«Vossê está a mangar commigo?
+
+--Deus me defenda! Eu estou protestando contra aquelle tratante que
+desinquieta meninas, e faz da minha casa o palladium das suas
+patifarias. O direito paternal é o mais sagrado de todos os direitos. V.
+exc.ª tem carros de razão em quanto sustentar o decoro dos lares, e
+mantiver immaculada a prosapia illustrissima de que borbulhou.
+
+Pantaleão olhava para mim, alongando os beiços e franzindo a testa. Eu
+prosegui:
+
+--Mas, a fallar a verdade, eu não sei se v. exc.ª tem razões assaz
+fortes para tamanha zanga. O sujeito que namora sua filha é filho
+segundo de uma illustre casa de Celorico de Basto. Por _Gamas_, pertence
+ao venerando tronco do que dobrou o cabo das Tormentas, como consta de
+João de Barros, Lucena, Camões, e da historia genealogica da casa real.
+Por _Castros_, descende por bastardia d'um irmão d'Ignez de Castro, que
+veio casar a Celorico, e houve quatro filhos de D. Mecia da Gama, um dos
+quaes foi dom abbade em Tibães, outro foi prior-mór de Christo, o
+terceiro morreu em Alcacer-Kibir, e o quarto morreu em cheiro de
+santidade, e está inteiro. Já vê v. exc.ª que o amante de sua filha não
+é qualquer borra-botas, como o senhor lhe chamou, no auge da sua
+iracundia paternal. O que o senhor deve é indagar se é honesto o intuito
+d'este amor: e caso o seja, apressar o enlace matrimonial.
+
+«Eu não preciso conselhos!--bradou irado Pantaleão--Se elle quer casar
+com minha filha, peça-m'a, e eu lhe direi o que me parecer; mas não me
+ande cá a rentar pela porta.
+
+--N'esse caso--redargui eu--direi ao meu amigo o que deve fazer para
+captivar a benevolencia de seu illustre sogro. Elle irá pedil-a,
+conforme o estylo, e v. exc.ª, depois de ratificar as informações que eu
+tive a honra de dar-lhe ácerca da celebrada genealogia do meu amigo,
+consentirá que elle entre no tronco da sua familia, como o regato no
+oceano.
+
+Parece incrivel, mas Pantaleão encarava-me com suave aspecto. A
+seriedade conspicua e grave com que eu solemnisei a galhofa, achou
+acolhimento digno na soez capacidade do mirifico ornamento da Amarante e
+povos adjacentes. Dignou-se perguntar-me quem eu era. Respondi que não
+podia apresentar-me com appellidos benemeritos da sua estima, por isso
+que descendia d'uma honesta familia de lavradores, a qual havia fundadas
+razões para suppôr-se que descendia do primeiro homem, e não tinha
+outros documentos, além de suspeitas, com que provar a sua antiguidade.
+
+Pantaleão achou-me razão, e disse-me que o rei Vamba fôra lavrador, para
+consolar-me da minha baixa condição, acrescentando que sua magestade
+el-rei D. Diniz, fôra amigo dos lavradores.
+
+Era para vêr-se a pratica affectuosa em que demoramos uma boa hora,
+finalmente interrompida pela apparição de Bento de Castro, que vinha
+espantado da cordura com que nos travamos.
+
+Pedi licença para receber o meu amigo. Contei a este o acontecido, e
+dei-lhe os emboras do bom andamento em que, tão imprevistamente, se
+achava o seu consorcio.
+
+Castro, palpitando d'alegria, a primeira cousa que lhe lembrou foi que
+não tinha casaca para solemnisar a sua primeira visita ao pai da noiva.
+Remediado com a do boticario da terra, que fizera uma para assistir ás
+exequias de D. João VI, o meu amigo, n'esse mesmo dia, ás quatro horas
+da tarde, procurou Pantaleão, com o fim tres vezes honesto de lhe pedir
+sua filha.
+
+Quando, porém, entrava no pateo, olhou machinalmente para dentro d'um
+postigo d'uma casa terrea, e viu Hermenigilda sentada n'uma caixa de pau
+de pinho, comendo figos. Ao pé d'ella estava o preto partindo uma
+melancia.
+
+Horrivel mysterio!
+
+
+XII.
+
+Não tarda, leitor pio, leitor indulgente, leitor benevolo, leitor
+honesto que paga, leitor honrado que não lê de emprestimo, não tarda ahi
+uma enfiada de lances estupendos, que lhe arranquem interjeições de
+pasmo, e lhe afervorem o desejo de abraçar o author!
+
+Deixei o seu espirito em tribulações de curiosidade, no anterior
+capitulo, onde Hermenigilda apparece comendo figos ao pé do preto, no
+momento em que o meu amigo Castro ia, escada acima, pedil-a ao pai.
+Chamei «horrivel mysterio» ao mais natural dos actos--uma mulher a comer
+figos!--Dei ao acontecimento uma importancia que tem feito pensar o
+leitor ancioso. Vão vêr porque. O que, por ora, posso acrescentar,
+porém, é que Bento de Castro recuou um passo, entreteve-se alguns
+instantes indeciso, e, por fim, resolveu espreitar o que se passava no
+quarto.
+
+Ao lado da pequena fresta havia no estuque esboroado uma greta propicia.
+O meu amigo espreitou, e viu o seguinte, de que lavro acta para eterna
+memoria:
+
+1.º Viu Hermenigilda acabar d'engolir um figo, e atirar o pé do mesmo á
+cara do preto.
+
+2.º Viu o preto tregeitar uma careta festiva, e atirar á cara rúbida de
+Hermenigilda um bocado do coração da melancia.
+
+3.º Viu a menina tomar do chão uma das rodellas de casca da dita
+melancia, e assentar com ella uma sonora sulipa na carapinha do preto.
+
+4.º Viu o preto, com as belfas gotejando sumo, aggredir a espadua da
+morgada, e vingar-se imprimindo-lhe uma palmada em cheio nas ultimas
+vertebras lombares.
+
+5.º Viu engadelharem-se, com grandes risadas, as innocentes creaturas, e
+teve a gloria de presenciar a victoria da sua amada, que atirou com o
+preto ao chão, e fugiu.
+
+Satisfeito d'estas cinco visões, por isso que lhe não faltaram receios
+d'uma sexta, setima, e oitava, o meu amigo, tranzido d'espanto, perdeu a
+cabeça, e se havia de subir, desceu os dous degraus que o separavam da
+rua, e entrou em minha casa.
+
+Contou-me as suas observações importantes, commentou-as com admiravel
+perspicacia, e acabou dizendo que renunciava o projecto do casamento, e
+me pedia encarecidamente que não divulgasse o seu louco intento, e
+dissesse ao pai da innocentinha que elle não queria casar.
+
+Cousa, porém, admiravel! Bento de Castro dissimulava uma zanga interior,
+que eu não ouso chamar ciume, porque não quero dar ao meu amigo um rival
+tão vilipendioso. É, porém, desgraçadamente certo que o pobre moço,
+vendo que eu não defendia a innocencia do espectaculo que elle vira,
+tentou defendêl-o, perguntando-me se aquelles brinquedos não seriam por
+ventura honestos e singelinhos. Eu, que sempre fui d'uma boa fé
+estupidamente santa, reforcei a conjectura do meu amigo, recordando-lhe
+umas passagens que já contei ao leitor, ácerca d'uma minha prima, que
+por ahi fica archivada a paginas....
+
+«Parece-me que não devo desamparar o meu posto, sem outras provas...»
+disse elle.
+
+--Eu tambem entendo que não... Tu nada tens que perder, se te
+conservares na espectativa.
+
+«E ha uma prova mathematica que eu posso conseguir, a unica
+verdadeiramente que desvanece ou confirma todas as minhas suspeitas.
+
+Eu não entendi, nem averiguei o genero de mathematicas applicaveis á
+questão; mas o meu amigo, confiado em seu systema, resolveu continuar
+namoro com Hermenigilda, ainda que tivesse de abonar-se ao pai com
+promessa de casamento.
+
+Apenas Pantaleão sahiu a tomar banho, Hermenigilda appareceu na salêta,
+e disse a Castro, por acenos, que o pai lhe tinha batido por causa
+delle; e convidava-o a ir fallar-lhe debaixo do muro do quintal, em
+quanto o pai estava fóra.
+
+Castro annuiu. Quando sahia, disse-me:
+
+«Estou quasi convencido de que aquella mulher tem um grande defeito, que
+é ser idiota. É tão innocentemente lorpa que não conhece o desaire de
+brincar com o preto. Este convite é prova da sua innocencia, não achas?
+
+--Acho que sim, meu amigo. Em todo o caso não te esqueças das tuas
+provas mathematicas, que eu não sei o que são; mas muito estimo que
+ellas te aproveitem, para eu ficar sabendo que as mathematicas servem de
+alguma cousa.
+
+Castro demorou-se, e veio dizer-me que a mulher parecia outra: e se me
+não disse que a achou espirituosa, quiz que eu me persuadisse de que era
+possivel educar aquelle espirito.
+
+Eu combinei na idéa do meu amigo, e elle, contente do meu accordo,
+contou-me o que passára com ella. Disse-lhe elle que, no acto de a ir
+pedir a seu pai, a vira brincar na loja com o preto. Respondeu ella que
+o preto fôra criado com ella, vindo pequenino d'um reino onde seu tio
+Simão fôra governador, bispo, ou não sei que me não lembra agora, mas é
+de presumir que fosse bispo do Congo. Acrescentou ella que seu pai lhe
+dissera que, se queria casar com o sujeito que a namorava, elle não se
+oppunha, porque estava cabalmente informado do illustre nascimento do
+noivo, e até desconfiava que fosse seu parente, por casamento de D.
+Urraca Munhóz, celebrado em 1121, ficando assim aparentados os Gamas de
+Celorico com os Viegas e Themudos da Amarante, como constava dos foraes
+de Cima-de-Villa, Ranhados, São Gonhedo, e Galafura: do qual consorcio
+nasceram D. Brites, que morrêra em Arouca, dama da rainha Santa Mafalda,
+e sua irmã Soror Violante, que morreu santa em Lorvão d'uma indigestão
+de toucinho, n'aquella celebre noite em que lá pernoitou a celebre
+abbadessa de Holgas, D. Branca. Em consequencia do que, o meu amigo
+Bento de Castro resolveu não entregar n'aquelle dia a casaca ao
+boticario, attenta a reconsideração do seu precipitado plano, por causa
+de umas suspeitas tão injuriosas para a mulher que lhe sahira ao
+encontro na carreira da vida.
+
+Já então se diziam estas tolices.
+
+
+XIII.
+
+Bento de Castro foi, finalmente, pedir a mulher ao pai. Pantaleão
+recebeu-o com agrado, e convenceu-se de que era seu remoto parente, em
+virtude do tal casamento celebrado sete seculos antes. Fallou-lhe na
+politica do dia, e arrancou-lhe o grato manifesto dos seus principios
+constantemente dedicados ao movimento de 30 d'Abril de 1824. Pantaleão
+prorompeu em elogios a D. Carlota Joaquina, e jurou pela espada de seu
+nono avô, governador de Masagão, que os constitucionaes haviam
+envenenado o rei, dizendo que recebêra de canal puro o segredo da morte
+do cirurgião Aguiar, do medico barão de Alvayasere, e do cosinheiro
+Caetano, todos envenenados pelos malhados. Acrescentou s. exc.ª, que seu
+primo, marquez de Chaves, fomentava em Traz-os-Montes, de combinação com
+Fernando VII, a queda da carta, e a restauração do throno e do altar,
+dos principes christãos, e extirpação das heresias. Como prova de ser
+informado por infalliveis oraculos, mostrou uma carta do seu particular
+amigo e primo visconde de Canellas, e outra, não menos convincente, do
+padre Albito Buela.
+
+Bento de Castro--digamol-o sem desdouro seu--era ardente correligionario
+de seu futuro sogro. O meu amigo era, n'essa época, extremamente chato
+do intellecto, e em negocios da republica não via meia pollegada adiante
+do nariz. Seus tios frades, e seu irmão morgado--aliás excellentes
+creaturas--uns em nome da religião, outros da ordem, e todos dos seus
+interesses, fizeram-lhe conceber odio á liberdade, á revolução, e aos
+principios subversivos da sociedade proclamados em 1820, por meia duzia
+de estupidos como Ferreira Borges, e Fernandes Thomaz.
+
+Eu, filho do povo, e Graccho em primeira edição nessa época, tinha lido
+o _Contracto social_ de João Jacques, o Espirito de Helvetius, e a
+Gazeta de Lisboa, das quaes leituras formei o meu espirito para as
+luctas tremendas das liberdades patrias, ás quaes fiz serviços de
+tamanha transcendencia, que, depois de vinte e oito annos de
+sacrificios, consegui ser nomeado escrivão substituto do juiz eleito na
+minha terra, de cujo exercicio fui demittido por decreto de vinte e nove
+de... Olhem que romance este! Já viram uma cousa assim? Se me não
+refreio o impeto, sahia-me aqui uma correspondencia de victima dos
+ultimos acontecimentos, mandando suspender o juizo do respeitavel
+publico!... O leitor, se continua a lêr-me, dá-me provas tão vivas da
+sua munificencia, tolerancia, e magnanimidade, que eu faltaria aos meus
+mais sagrados deveres, se, depois desta historia, lhe não contasse outra
+muito bonita, em que o heroe do romance, depois de amaldiçoar a
+sociedade que o não comprehende, tem o descoco de fazer-se eleger
+deputado, e brilha n'uma commissão encarregada de legislar para a
+importação dos cereaes, e exportação dos bois! Isso é que ha-de ser um
+romance! E, se lhes parece, comecemo-lo já... ou querem saber no que
+pararam as intimas sympathias dos nossos amigos Pantaleão, e Bento de
+Castro?
+
+A fallar-lhes a verdade de Epaminondas, e a do amigo de Platão,
+dir-lhes-hei que o romance, d'aqui em diante, é curiosamente estopador.
+Desde que a vida sahe das regiões sublimes do ideal e entra na esphera
+das mundanidades villãs, o romance espiritualista, como este meu se
+preza de ser, descahe indispensavelmente para o caustico, torna-se d'uma
+moralidade bastante equivoca, e não é o mais azado guindaste para içar
+espiritos de quinze annos ao setimo céo de Santa Thereza de Jesus. As
+heroinas e até os heroes de mad. de Genlis, se se encontrassem com os
+meus d'aqui em diante, tapavam olhos e ouvidos. É necessario um curso
+regular de Parny, de Crebillon, e Pyron, uma iniciação destes fachos
+precursores dos luminosos dias em que vivemos, para acceitar a
+philosophia dos seguintes capitulos, que pertencem mais ao homem da vara
+de cerdos de Epicuro que ao da legião de espiritos ethereos do immortal
+discipulo de Socrates.
+
+Ejaculado este arroto de erudição, saibamos como Bento de Castro
+esmerilhou mathematicamente os escaninhos do coração de Hermenigilda.
+
+É muito para saber-se que, desde esse dia, o fidalgo de Celorico de
+Basto, graças a D. Urraca Munhoz, visitava todos os dias sua prima; mas
+vinha tomar chá a minha casa, porque Pantaleão usava apenas chá da India
+quando as indigestões não cediam á terceira emborcadella d'uma botija
+d'aguardente _ad hoc_.
+
+Em honra d'aquella cabeça de familia, diga-se que a môça andava vigiada,
+posto que o meu amigo captasse a confiança do sogro, e, o que mais é, as
+sympathias do preto.
+
+Estavamos no mez d'Agosto de 1826, e o casamento, que devia ser em
+Amarante, aprazaram-no para o mez de Março.
+
+Bento de Castro contava-me maravilhas da noiva. Cada dia lhe descobria
+na testa uma estrella boreal de intelligencia. Hermenigilda resolvêra
+aprender a lêr correntemente, e havia já adverbios de sete e mais
+syllabas que ella conseguia soletrar melhor que o pai! Eu pasmava
+angelicamente dos progressos da moça; e devo confessar que, ou fosse
+resultado de vigilias litterarias, ou predominio do espirito sobre a
+materia, as carnes succulentas do rosto d'ella emmagreceram de massas
+pingues, e a epiderme, perdendo a antiga purpura de betarraba,
+regenerou-se n'um desmaiado meio romantico, meio espinhela-cahida.
+
+Em virtude do que, perguntei ao meu amigo se o calculo differencial e
+integral, com effeito exercitava e corrigia e rectificava o espirito
+como geralmente se dizia, e particularmente se demonstrava na pessoa da
+minha visinha.
+
+Bento de Castro, solemne d'uma continencia digna de melhor sorte,
+respondeu-me que a virtude era um attributo dos anjos, e os anjos
+escapam ao olho prescrutador das mathematicas puras e das mixtas. Fiquei
+nessa occasião sabendo que as mathematicas podiam ser puras e mixtas;
+mas desconfiando sempre que as do meu amigo eram impuras.
+
+Veremos.
+
+
+XIV.
+
+_Em que o author, depois de averiguar profundamente as conveniencias
+ inviolaveis, do melindre, resolve não leccionar o publico
+ em mathematicas, embora o seu amigo Bento de Castro
+ assim fique privado de catalogar-se na phalange
+ dos Newtons, Leibnitz, e Descartes; de
+ que resulta ficar o capitulo
+ aqui esganado pela mão
+ da moral._
+
+
+XV.
+
+O romance tem cousa má!
+
+É a primeira vez que os typos perpetuam o invento escandaloso d'um
+titulo sem texto! Um critico francez annunciou um romance que, em logar
+de principiar pelo principio, começava no 2.º volume. O author,
+respeitador do publico, explicava o contrasenso, dizendo que os romances
+eram escriptos de modo que tanto fazia ao caso começar do 1.º volume
+para diante, como do ultimo para traz.
+
+Isto é rasoavel e persuasivo. Porém, incoherencias deste tamanho não se
+desculpam n'um romance pensado, philosophico, haurido das fontes do
+coração, da experiencia, e feito expressamente para entrar em quinhão de
+gloria com as «Reflexões de Phocion» com o «Manual de Epicteto» com os
+«Excerptos gnomicos de Seneca» com os «Caracteres de la Bruyère»
+excellentes repositorios de philosophia pratica, que eu hei-de lêr na
+primeira occasião, porque me dizem que são livros de muito interesse,
+que ensinam a procurar a felicidade, como agulha em palheiro, na
+pobreza, na humildade, e na virtude. Mestres d'esta ordem teem sempre
+uma vida eivada de amarguras: isso é o que eu posso desde já affirmar,
+sem os ter lido. Phocion soffreu morte dolorosa. Seneca, preceptor de
+Nero, bem sabem que desastrado remate teve de vida. Epicteto é aquelle
+escravo do «Thesouro de meninos» que exclama, erguendo a canella partida
+por uma paulada: «não vos disse eu que m'a havieis de quebrar?» D'onde
+infiro que os preceptores da felicidade andam sempre de candeias ás
+avessas com o genero humano, e muitas vezes, com a arte de engranzar
+capitulos de romance, de modo que a historia vá bem contada, até ao fim,
+que deve ser onde casa o heroe, ou a heroina morre de tuberculos, no uso
+de oleo de figados de bacalhau.
+
+João Junior, summamente penhorado pelas attenciosas maneiras com que os
+seus numerosos amigos teem recebido esta sua primogenita creatura, tem a
+honra de declarar ao publico, e mais senhores, que o capitulo XIV foi
+eliminado deste quadro de costumes porque havia n'elle frescura de
+idêas, phantasia de côres, debuxos copiados da natureza viva, cousas, em
+fim, tão verdadeiras, tão patriarchaes, tão nuas, que o seu editor,
+depois de montar os oculos, e sorver duas pitadas conspicuas, disse que
+não patrocinava com o seu nome um capitulo em que o mencionado supra
+contava os factos como elles tiveram a impudencia de acontecer.
+
+Em virtude do que, entrei na minha consciencia d'artista, e vim a um
+accordo com a moral, aspando as doze paginas mais profundamente
+escriptas do meu romance: doze paginas em que eu fortalecia os habitos
+da natureza bruta com as doutrinas lucidas dos interpretes mais
+abalisados dos mysterios do coração; doze paginas salpicadas d'uma
+erudição exemplificativa que remontava á creação do globo, para provar
+que o homem e a mulher, sem o intermedio do merinaque, são dous entes
+homogeneos, duas substancias amalgamicas, dous tomos da mesma obra, duas
+creaturas em fim dos nossos peccados. N'esse capitulo, naufragado no
+cachôpo da moral, tinha eu uma gorda nota comprovativa da minha opinião
+ideologica a respeito de mulheres, rica de historia antiga, em que, sabe
+Deus com que vigilias, entravam Salomão e Dalila, Pericles e Aspazia,
+Tibullo e Lesbia, Ovidio e Corina, tudo pessoas que amaram como se ama
+d'uma até quarenta vezes na vida, com todo o ideal arrobado dos
+anhelitos da adolescencia, com a fé pura, candida, e immaterial do amor
+de Voltaire a madame du Châtelet, do amor de Larochefoucault a madame de
+Lafayete, do amor da minha visinha do terceiro andar, que, ás duas horas
+da noite, desce, com uma caixa de lumes-promptos, a desandar a chave,
+que teima em chiar, apesar do azeite prévio, quando um Romeu de capote
+de mangas lhe assobia a cavatina do «Trovador». Tudo isto, e muitas
+cousas mais, vinham na nota, que prometto embetesgar na primeira cousa
+que escrever, ainda que seja um artigo sobre o pulgão da batata.
+
+Fortissimas razões tinha eu para teimar em publicar o meu querido
+capitulo XIV, visto que era elle o relatorio das miudezas que se deram
+antes e depois do fatal acontecimento da noite de 25 d'Agosto de 1826,
+acontecimento grave e complicado, cujo conhecimento seria a chave do meu
+romance, se o editor ultra-honesto não teimasse em affirmar que o meu
+romance não precisa de chave para abrir as portas da eternidade.
+Pedi-lhe que me deixasse, ao menos, contar o facto em estylo levantado,
+allegorico, metaphorico, ao alcance, apenas, das intelligencias
+superiores. Nem isso. Estava escripto em estylo oriental, balsamico,
+todo perfumarias de subtil aroma d'alma, e elle teima em dizer que a
+alma não tem nariz.
+
+Era assim o meu fragmento:
+
+..........................................................................
+
+E a lua balouçava-se entre as estrellas, nas alturas do ether.
+
+E a brisa do oceano, perfumada de marisco, brincava na praia com a
+folhinha secca da alga.
+
+E o rouxinol do silvedo trinava a sua cavatina cadenciosa, e sacudia as
+plumas affagadas por um raio de lua.
+
+Porque era essa a hora augusta dos mysterios, em que nos adros das
+igrejas reina o terror do silencio, e nos esgalhos seccos do pinheiro
+assobia o noitibó, medonho de agouros; e nas aguas limpidas dos regatos
+cardumes de bruxas tomam semicupios e dão gargalhadas de risos maleficos
+e satanicos.
+
+E o homem de Celorico, sombrio e tetrico como avejão nocturno, roçou a
+espadua pela padieira da porta, que se abriu.
+
+Era da côr do jacintho o amiculo que lhe envolvia em largas dobras a
+haste melindrosa.
+
+E a viração da noite, voluptuosa e meiga, beijou-lhe a face como se
+quizesse disputar á da manhã o prazer de beijar mais frescas rosas.
+
+E a virgem d'alvas vestes transpoz o limiar do seu asylo, encostou a
+fronte incendida ao braço tremulo do senhor de sua alma, e foi!
+
+Anjo d'Amarante, porque assim te despenhas da tua angelica miryade?
+
+Flôr do Tamega, que nortada rija te desarreigou da balsa?
+
+..........................................................................
+
+E a lua passava no céo, velada e triste, como a Niobe antiga.
+
+E o homem de Celorico, de braço dado com a virgem, como qualquer
+caixeiro em baile d'Asylo de mendicidade, passou de fronte alta,
+meditando em seu coração um crime, e adoçando nos labios a tenção
+damnada que lhe fallava n'alma.
+
+E a vaga longinqua resoava um som cavo e lugubre, como gemido de leão.
+
+Homem! tu és forte como o carvalho gigante da encosta; mas o raio sahiu
+um dia das profundesas do céo, e o tronco, affronta dos seculos, vergou
+a fronte, e estalou pelas raizes.
+
+..........................................................................
+
+E a flôr, tocada por labios impuros, e aspirada com avidez sôffrega,
+pendeu as petalas desmaiadas, e elanguesceu no seio do maldito dos
+homens de Celorico.
+
+Fôra profundo e arquejante o suspirar d'aquella que as onze mil
+duvidosamente receberiam no seu gremio, ainda recommendada pelos
+jornaes!
+
+E a lua, segundo o seu costume, dava tanta importancia a estas cousas,
+como os dous habitantes mais felizes do globo lhe davam a ella............
+etc. etc.
+
+E pouco mais continha a minha descripção em estylo oriental.
+
+É realmente demasiado respeito ás conveniencias privar-se o publico d'um
+fragmento assim! Não obstante, rasguei-o, protestando jámais querer
+editor para as minhas obras.
+
+
+XVI.
+
+Palavras textuaes do meu amigo Bento de Castro da Gama:
+
+«João, arrepende-te de haveres maculado a pureza de Hermenigilda com uma
+suspeita menos casta.
+
+--Eu! santo nome! pois fui eu que a maculei!?
+
+«Sim, tu contavas-me a historia de tua prima, quando a innocente
+rapariga brincava com o preto puerilmente.
+
+--Valha-te o senso commum, amigo Bento!--repliquei eu--Que terrivel
+significação tu déste á minha historia! Poderia eu criminar a simplêza
+d'um brinquedo que desde creança respeito e absolvo, porque o vejo
+sanccionado na minha Arte do Pereira, livro didatico, escripto para
+andar entre mãos da mocidade!...
+
+«Mas o que faz a Arte do Pereira ao nosso caso?!
+
+--Faz muito: pois já te esqueceu o _pueri ludunt_? os meninos brincam? e
+posto que lá não diga _utriusque coloris_, d'ambas as côres, infiro que
+ser um branco e outro preto não destróe a regra da boa latinidade. Logo
+que se dá nominativo e verbo, tanto faz que os meninos sejam...
+
+«Cala-te, importuno!--atalhou o meu delicioso Bento, eliminando-me da
+alcôfa um pão e um canto de queijo Chester.--Fica na certeza de que a
+minha consciencia está socegada, tranquilla...
+
+--O mesmo não pódes dizer do estomago...--acudi eu, vendo o precipicio
+aberto ao meu queijo que descia, ao passo que da consciencia do meu
+amigo subia o protesto contra as suspeitas indignas da pureza de
+Hermenigilda.
+
+Bento de Castro proseguiu exarando provas que me não deixaram a menor
+suspeita de que a noiva podia, sem que o pudôr lhe carminasse o rosto,
+desapertar o cinto virginal, á laia das esposadas de Lacedemonia, ou
+entrar na camara nupcial sem o receio da lampada nocturna, que tantos
+sustos deu á primeira mulher de Jacob.
+
+Estava eu, pois, admirando a infallibilidade das mathematicas, quando
+Pantaleão, chamando-me da sua janella, perguntou-me se o meu amigo alli
+estava. Bento appareceu logo, um pouco sobresaltado--bem sabia elle
+porque, melhor que eu--e Pantaleão, com semblante rubicundo e
+prazenteiro, disse-lhe que tinha grandes cousas a contar-lhe.
+
+O meu amigo foi, contente do aspecto feliz do seu futuro sogro. Era o
+seguinte o que elle queria.
+
+Pantaleão acabava de receber carta d'um seu irmão, official superior do
+regimento 24 de Bragança, noticiando-lhe a acclamação do rei absoluto, e
+a prisão do bispo, e o triumpho certo da religião; recommendava-lhe que
+sahisse immediatamente da Foz, e fosse levantar guerrilhas em Amarante,
+que deviam unir-se em Villa Real ás forças do primo Silveira.
+
+Pantaleão estava ebrio de patriotismo! dava vivas ao rei absoluto, e
+chamou a filha para tomar parte do enthusiasmo do seu esposo.
+
+«Vamos a saber, continuou elle--aqui não ha que replicar! O primo Bento
+vem já comnosco para cima, e vai ajudar-me a levantar os povos, e fica
+sendo o capitão dos vassalos fieis! Se é realista ás direitas, vá
+amanhar a mala, e amanhã de manhã vamos embora. Que diz a isto, primo?
+
+--Eu digo que estou prompto. Já agora a nossa sorte é commum.
+
+«Pois então, eu vou dar ordens.
+
+Pantaleão sahiu da sala, e o meu amigo, tanto quanto pude enxergar,
+afagava as bochechas rosadas de Hermenigilda, que entrára na sala,
+escarlate como a flôr da romanzeira. Não seria facil decidir se fôra
+mais linda antes, se depois que o pejo lhe coloriu a tez.
+
+Um amante feliz gosa delicias, saborêa prazeres celestes n'essa
+encantadora vergonha! Bento de Castro, inclinado para o seio d'ella,
+devia dizer-lhe palavras de tal doçura que a pudibunda moça, requebrando
+o collo de puro jaspe, parecia, como a sensitiva, encolher-se ao beijo
+voluptuoso da borboleta! (Como isto sahiu engraçado e arredondadinho! É
+a minha especialidade, leitores.)
+
+O meu amigo deu-me parte da sua sahida, cheio de contentamento. Disse-me
+que me avisaria a tempo de eu ir assistir ao seu matrimoniamento.
+Prometteu-me arranjar-me em Amarante uma mulher com uma casa soffrivel
+para ficarmos visinhos. Partiu no dia seguinte, e realmente deixou-me
+saudades, que depois de trinta annos se conservam ainda em meu coração
+fistulado de desgostos, cheio de fezes agras, sujo do sarro das paixões,
+e coberto d'uma crusta de musgo petrificado pelo gêlo dos desenganos
+acerbos, sendo o mais pungente de todos a certeza, a que vim, de que o
+homem não é, como disse Platão, um animal implume, nem a sombra d'um
+sonho, como disse Pindaro, nem o rei da creação, como disse Moysés, nem
+animal racional, como dizem alguns philosophos, que se excluem, vistas
+as muitas irracionalidades que escrevem. O homem, em quanto a mim, é um
+pedaço d'asno! A ultima palavra da sciencia acabo eu de proferil-a
+agora.
+
+Eu tenho lido tudo quanto está escripto a respeito do homem, e, se não
+fosse o pequeno embaraço de me esquecer tudo o que li, tencionava
+explanar, com methodo e arranjo scientifico n'este capitulo, verdades
+eternas de que ninguem faz caso por isso que são eternas, e tudo que é
+eterno não quadra ao nosso gosto voluvel, irrequieto, e caprichoso.
+
+O homem, na minha opinião, é um cabide, e mais nada. O que a mão da boa
+ou má fortuna dependura n'elle é que distingue a creatura de Deus entre
+os seus irmãos. Não ha substancia de homem: ha só fórma de homem. Ora a
+fórma está no involucro, desde os andrajos inçados de herpes até aos
+arminhos recamados de brilhantes.
+
+Ahi fica debique para os philosophos. As grandes idéas encubam cincoenta
+annos, disse Napoleão. Em 1907 a minha idéa estará na consciencia da
+posteridade.
+
+Quando se perguntar o que é o homem, responder-se-ha: é um cabide.
+
+
+XVII.
+
+Sigamos Bento de Castro, á frente da sua guerrilha, composta de cento e
+tantos homens, erguidos como um só homem ao primeiro grito, e quasi
+todos caseiros e foreiros de Pantaleão.
+
+Bento de Castro, radioso de gloria, entrava em Villa Real, quando o
+primo Silveira, a quem ia recommendado, á frente d'um destacamento de
+caçadores 9, proclamava o snr. D. Miguel rei absoluto. O nosso amigo
+coadjuvava os gritos do marquez de Chaves, quando a soldadesca,
+instigada pelos officiaes, prorompeu em chufas e insultos ao commandante
+enthusiasta.
+
+Silveira, receoso de que o prendessem, porque os officiaes gritavam
+«amarrem esse doudo!» deu de esporas ao cavallo, e desamparou o meu
+pobre Bento, que se viu em pancas. Os bravos da sua hoste, era para vêr
+como elles largavam os tamancos por aquellas ladeiras da Senhora de
+Almudena! Os gritos animadores do chefe perdiam-se entre os apupos dos
+soldados, que arremeçavam pedradas ignominiosas ás canellas nuas dos
+fugitivos.
+
+Bento achou-se só, sobre uma possante egua do seu futuro sogro, e
+vacillou muito tempo entre seguir o marquez de Chaves, ou as suas
+tropas, que desappareciam por detraz das collinas de Mondrões, caminho
+do Marão.
+
+Venceu a honra; e o meu amigo, a toda a brida, pôde alcançar o Silveira
+a uma legua distante de Villa Real, na estrada de Chaves.
+
+O marquez era estupidamente corajoso. A derrota moral que vinha de
+soffrer, não lhe arrefecêra o animo!
+
+Queria elle chamar ás armas o povoleu das aldêas suburbanas de Villa
+Real, e accommetter de noite os soldados rebeldes. Bento de Castro,
+envergonhado da fuga, applaudiu o alvitre, e foi o primeiro a
+pendurar-se na sineta d'uma capella em Banagouro, tirando por ella com o
+frenesi das batalhas, e pedindo ao badalo a eloquencia do punhal de
+Bruto.
+
+Correram ao alarma o tio Francisco do Quinchoso, o tio Thimotheo da
+Fraga, João do Reguengo, e Zé da Brigida dos Chãos, alferes da bicha, e
+cavalleiro do habito, alcançado por ter morto na serra do Mesio dous
+francezes em 1812.
+
+Silveira sentou-se sobre o cabeçalho d'um carro, instaurou conselho
+militar, e, antes de proclamar, perguntou se seria possivel
+arranjarem-lhe um salpicão frito com ovos, e uma garrafa de vinho. João
+do Reguengo apressou-se a chamar sua mulher, que substituira o meu amigo
+na sineta, e mandou-a amanhar uma boa fritada de salpicões e ovos.
+
+N'este comenos chega um postilhão de Villa Pouca de Aguiar com um
+officio para o marquez. Silveira não entendia a letra de sua mulher, e
+pediu a Castro que lêsse. Era a marqueza de Chaves noticiando a
+revolução de caçadores 7, e chamando a toda a pressa seu marido para a
+coadjuvar no movimento revolucionario. O marquez deu vivas á marqueza,
+ao bravo batalhão, ao rei absoluto, e não esperou os salpicões, nem
+congratulou o patriotismo do padre Bento Tamanca que acabava de sahir da
+capella, de cruz alçada, chamando o povo ás armas.
+
+O meu amigo teve a honra de cumprimentar a marqueza de Chaves, que veio
+ao encontro de seu marido, sobre um valente murzello, floreando a
+espada, e latindo guinchos de sedicioso enthusiasmo.
+
+A marqueza era a mulher mais feia das cinco partes do mundo. Em França
+denominavam-na: «o panorama da fealdade.» Tinha um aspecto só comparavel
+a si mesmo. Rolavam-lhe nas orbitas dous olhos vêsgos, que não eram
+olhos quando os incendia em viva braza o ardor da guerra. O trom das
+espingardas, nas refregas a que delirantemente se arremeçava, faziam
+n'ella o effeito do zumbido na orelha do cerdo: silvava assobios
+terriveis de colera, e animava os soldados, umas vezes com um «arre p'ra
+diante» outras vezes chamava-lhes _filhos_.
+
+«Quem é este mocetão?--perguntou ella ao marido, fitando Castro.
+
+--É ainda nosso primo, pelo que me diz o nosso primo Pantaleão da
+Amarante.
+
+«É valente?--replicou ella.
+
+--Desejo mostrar valor--respondeu Castro.
+
+«Sabe jogar a espada?
+
+--Fui cadete de cavallaria.
+
+«Defenda-se lá d'um sexto!--disse a marqueza, e recocheteou com o
+cavallo para entrar em combate.
+
+Bento não ousou levar mão á espada; mas ella instou, fazendo parar o
+estado maior, que se compunha d'alguns capitães móres, e meia duzia de
+mancebos das principaes familias d'aquelles sitios. Castro obedeceu com
+repugnancia. A marqueza fez agilmente quatro botes, e, ao quinto, o meu
+desastrado amigo tinha uma solemne pranchada no pescoço, que foi motivo
+para que a marqueza, triumphante, especie, de Jeanne d'Arc, mais digna
+d'um Voltaire zombeteiro do que fôra a outra, mostrasse quatro ordens de
+dentes cahoticos, cariados, esqualidos, impossiveis! Os espectadores
+felicitaram-na pela sua destreza, e, o caso é que o ditoso Castro, por
+se deixar bater, recebeu da marqueza, com a lição d'esgrima, provas
+inequivocas da satanica sympathia da mestra.
+
+Tropa e guerrilhas acampadas em Villa Pouca d'Aguiar seguiram a estrada
+da fronteira, e internaram-se em Hespanha. Antes, porém, de sahirem,
+subiu ao pulpito da igreja parochial o padre Alvito Buela, e trovejou
+uma obra prima da eloquencia dos Chrysostomos e Athanasios, em que levou
+á evidencia quanto era grato a Deus cortar as orelhas aos jacobinos de
+1820, herpes venenosas que fermentaram no sangue putrido de Gomes
+Freire.
+
+Os revoltosos entraram em Hespanha com a marqueza á frente; e o inepto
+consorte d'esta amazona recebeu, por intervenção de D. Carlota Joaquina,
+abundante numerario para manter o animo perplexo dos desertores. Os
+soldados, quando o soldo se demorava, costumavam cantar esta copla:
+
+ Com dinheiro, pão, e vinho
+ Sustenta-se o Miguelzinho,
+ Sem dinheiro, vinho, e pão
+ Sustenta-se a Constituição.
+
+A _Megera_ de Queluz, como então os malhados denominavam a viuva de D.
+João VI, informada pela marqueza de Chaves, a quem ella chamava a sua
+_Jeanne d'Arc_, igualando o filho dilecto a Carlos VII, empenhava-se até
+ao extremo da usura para espalhar a mãos largas o preço porque tão caras
+ficaram á nação as refregas dos Silveiras, dos Varzeas, e dos
+Canellas.[2]
+
+O Silveira era doudo pela banca portugueza; e o meu amigo Bento de
+Castro, destro burlista n'este ramo dos conhecimentos humanos, empalmou
+em poucos dias ao marquez e aos fidalgos do quartel general uns seis mil
+cruzados com que resolveu ir viajar, se o _deus_ d'Ourique não
+favorecesse a causa do marquez de Chaves.
+
+Os revoltosos foram protegidos em Hespanha, e receberam armas, e auxilio
+de forças, para repassarem as fronteiras.
+
+Chegaram á Amarante em 15 de Dezembro, e foram repellidos ahi pelo
+brigadeiro Claudino.
+
+Em quanto, porém, se dava a sangrenta batalha, o meu intrepido Bento
+estava em casa do nosso amigo Pantaleão, no gôso da mais agradavel
+fogueira, e do mais saboroso lombo de porco, e da mais fresca moçoila
+que ainda viram estes olhos que a terra ha-de comer. Ahi se demorou um
+mez, por causa da convalescença da egua, e foi depois unir-se a Braga ao
+marquez de Chaves. O marquez d'Angeja sahiu do Porto na pista dos
+rebeldes, que se entrincheiraram na ponte do Prado, com duas peças
+d'artilheria. O conde de Villa Flor ataca a ponte, desaloja o inimigo,
+mata-lhe algumas duzias de homens, e persegue-o até á Ponte da Barca,
+onde soffre uma desesperada resistencia. Villa Flor dispersa, por fim, á
+baioneta callada, a divisão do Silveira, mata-lhe trezentos homens, e,
+entre os mortos, fica moribundo o meu amigo Bento de Castro, com duas
+baionetadas, salvo seja, no costado.
+
+Recolhido a casa d'um lavrador, foi caritativamente tratado, e de lá me
+escreveu contando-me as suas desventuras, e pedindo-me que as noticiasse
+a Pantaleão, visto que duas vezes lhe escrevera, e não houvera resposta.
+
+Fui á Amarante, e soube que o pai de Hermenigilda, desgostoso da funesta
+sorte das armas fieis, cahira doente de gôta sciatica, e retirára com a
+familia para uma quinta de Baião, onde não podiam chegar as cartas
+porque os malhados lh'as interceptavam no correio da Amarante.
+
+Fui a Baião, e, lendo a carta ao attribulado velho, fil-o chorar, e
+praguejar. Logo alli prometteu á Senhora da Rocha levantar-lhe um nicho
+no portão da quinta, se seu futuro genro tornasse sãosinho e escorreito
+para a sua companhia. Pediu-me com grande instancia que o acompanhasse
+da Ponte da Barca até sua casa, logo que elle se restabelecesse.
+
+Hermenigilda não me pareceu muito afflicta com a triste nova. Quando eu
+apeei no pateo, vi-a debaixo d'uma larangeira, apanhando no regaço
+laranjas que o preto, agatinhado na arvore, lhe lançava, e ella comia de
+cocoras. Dei-lhe, receiando algum desmaio, um ligeiro indicio da
+desventura do seu Bento, e ella abriu os olhos com a mais estupida
+impassibilidade, e disse:
+
+«Coitado d'elle! Melhor fôra que não andasse por lá a jogar a tapona com
+esses herejes!»
+
+Á vista d'isto, a minha vontade era escrever ao meu amigo, e dizer-lhe
+que seria ignobil o seu enlace com tão estupida creatura. Reservei, para
+mais tarde, poupal-o a tamanho infortunio, e disse-lhe que Pantaleão o
+receberia em sua casa como pai, se elle preferia a sua convivencia á de
+sua familia.
+
+Bento respondeu-me que tencionava convalescer em casa de seu irmão, e
+passados tres mezes iria definitivamente casar-se, porque havia para
+isso razões fortissimas.
+
+Estas fortissimas razões, leitor amigo, começou Hermenigilda a
+sentil-as, quatro mezes depois que sahiu da Foz.
+
+Eram as razões do amor immenso, amor que lhe inturgescia o coração,
+ampliando-lhe a cavidade thoracica, estendendo-se até ás regiões
+contiguas, e augmentando-lhe a grossura dos tecidos no local em que as
+hydropesias, oriundas do amor, perdem grande parte do morbus com o
+casamento, especie de cura homoeopatica.
+
+Na certeza de que ninguem me entendeu, dou graças á minha esperteza, e
+continuo a merecer a confiança dos pais de familia.
+
+ [2] D. Carlota Joaquina morreu devendo ao conde da Povoa 40 contos;
+ igual quantia a Antonio Esteves da Costa; 20 contos a João Paulo
+ Cordeiro; 40 contos a José Antonio Gomes Ribeiro; e igual quantia a
+ João Antonio d'Almeida. A usura d'estes capitaes pagou-a o
+ thesouro, e as graças em titulos e commendas. D. Carlota era
+ economica até á avareza nos gastos domesticos. Os seus rendimentos
+ da casa da rainha, e outros muitos, sob diversas denominações, eram
+ enormes. Consumiu tudo em tramar guerras civis de que foi alma. Nos
+ ultimos annos da sua vida, tão abstrahida estava no fito das
+ revoluções, que nem da sua propria limpeza curava. O seu trage
+ caseiro era um gibão de chita, e uma fota de musselina na cabeça.
+ Acocorada entre as beatas suas amigas, era costume seu cantar
+ muitas vezes esta quadra:
+
+ En porfias soy manchega,
+ Y en malicia soy gitana;
+ Mis intentos y mis planes
+ No se me quitan del alma.
+
+
+XVIII.
+
+Tudo nos leva a crer que não tarda ahi o desenlace d'este conto. A moral
+publica, ciosa das suas prerogativas, e dos deveres em que estamos para
+com ella, nós, os fabricantes de historias, contos, lendas, fabullarios,
+soláus, e varias outras feições do folhetim--a moral publica, dizia eu,
+quer que um romance acabe bem. Acabar bem é triumphar a virtude, punir o
+crime, incitando o coração do leitor á pratica do bem, e ao horror do
+mal. N'este romance, se tal nome é bem cabido n'uma biographia de
+personagens ainda vivas, excepto Pantaleão, não ha nada que seduza
+corações inexpertos, trajando o vicio de gallas seductoras, depravando o
+paladar com o uso do absyntho das paixões licenciosas. Aqui é tudo posto
+no seu logar, o vicio apresenta-se maltrapido, ascoso, lazarento de
+lepra, e parecido com o diabo, de quem é filho. A virtude, vestida com
+singelas louçanias, enamora as boas almas, amamentando-as no doce favo
+de seus seios, dulcificando-lhes os nectarios da candida flôr da
+virgindade, segredando-lhes em fim as delicias juvenis e puras de que
+tão farto e nedio trazia o coração de Hermenigilda, e outras creaturas
+da mesma tempera.
+
+SCENAS DA FOZ é um livro d'ouro. Peço licença para dar ácerca da minha
+obra o meu juizo independente, recto, desataviado de encomios
+immerecidos, e depurado de emulação mesquinha. O author é quem mais
+convincente testemunho póde dar da sua obra. Os nossos primeiros
+litteratos, desde 1830 até 1840, excepto A. Herculano--que escreve
+sempre com a mira posta na posteridade, e crê, como deve crer, na
+perpetua florencia da sua reputação--excepto esse, os nossos primeiros
+litteratos, para se pouparem ás avaliações incompletas das suas obras,
+escreviam elles as criticas. Os elogios appareciam ao mesmo tempo em
+quatro gazetas; e tão bem escriptos eram, tão portugueza e elegante a
+phrase, tão bonito para ver-se o guindaste que topetava com as nuvens a
+nomeada da obra, que, se os artigos fossem assignados, o thuribulario
+crear-se-hia uma reputação capaz de correr parelhas com a do idolo.
+Crearam-se assim muitas nomeadas, que, depois, o consenso universal
+consolidou; e, se os authores não tivessem o direito congenito de
+escrever e julgar, muitos dos nomes gloriosos de Portugal estariam hoje
+nos limbos da velha academia.
+
+Seja permittido a João Junior crear-se uma reputação tambem. O meu
+romance é a historia do coração humano. É um miudo exame das
+vicissitudes do espirito, e algumas vezes da materia. É o telescopio que
+alcança os astros do universo moral. É uma amalgama de historia, de
+philosophia racional e moral, de geographia e physiologia, a retina
+finalmente do grande olho da sciencia, que apanha n'um ponto os raios
+luminosos de todos os conhecimentos humanos. É esta a opinião do leitor
+illustrado, e tambem a minha.
+
+Sei que tenho detractores, belliscados da inveja, outros brutalmente
+soêzes, e outros hypocritamente pudibundos. Os primeiros dizem que o meu
+romance é uma trapalhice, sem nexo, sem logica, sem verosimilhança, nem
+idéa fundamental, ou nucleo philosophico. São uns pataratas.
+
+Outros, os segundos, acham que o conto está cheio de palavras
+estrangeiras, e não é tão bonito como as _historias proveitosas_ do
+Trancoso de que fallava Hermenigilda a Bento de Castro. Estes fazem-me
+pena.
+
+Os terceiros censuram as licenciosidades de phrase, a desnudez dos
+vicios, a descautella com que a parte carnal do idealismo humano se
+mostra aos olhos das leitoras incautas, menores de cincoenta e seis
+annos. Guardai-vos destes moralistas, pais de familias!
+
+Duas velhas já me disseram que eu sou pouco escrupuloso em revelar
+fraquezas que, postas em letra redonda, affligem a virtude, ou desvendam
+a innocencia. Valha-me Deus! Porque nos andamos nós a enganar uns aos
+outros com meia duzia de palavras convencionaes? _Alphonse Karr_ não
+conhece creanças; o que nós chamamos creanças chama elle _mulheres
+pequeninas_. A civilisação tem alterado muito o valor intrinseco de
+certas palavras antiquissimas, como, _verbi gratia_, pudôr, honra,
+amisade, amor, patriotismo, innocencia, e as demais que o leitor sabe.
+Eu creio na _innocencia_ das mulheres como synonimo de _pureza_; mas de
+_simplicidade_, não. O conhecimento precoce dos segredos mais rebuçados
+da vida é um segundo instincto com que vieram á luz as mulheres do
+seculo XIX. Eu tenho pedido aos pais que me deixem estudar, no collo, as
+suas filhas de oito annos, e tiro de seus caprichos pueris inducções que
+me levam á illusão de que tenho no meu collo as mulheres pequeninas do
+author de _Les Femmes_.
+
+Certo d'isto, experiente e feito nestas dissecações na alma, zango-me
+quando as meninas-velhas se picam nos espinhos da verdade--e mais se
+doem do pungir do espinho que já se lhes não esconde em flores...
+Lembram-me então aquelles versos de Béranger:
+
+
+ Prudes, qui ne criez plus
+     Lorsqu'on vous viole,
+ Pourquoi prendre un air confus
+     A chaque parole?
+
+Não obrigueis o romancista a escrever os fastos do coração como os
+chronistas escreviam a biographia dos reis. A historia está dispensada
+de ser caritativa.
+
+Antes querer, com as fraquezas do proximo, inflammar a phantasia com
+deslastres inexequiveis, do que premunir a razão contra as realidades;
+querer ignorar o mal verdadeiro, e ir com ancia através de oito volumes
+buscar o desfecho d'um romance, que extravasa a medida do mal possivel,
+é renunciar á verdade, perverter o gosto e a razão, crear um mundo que
+não existe, arriscar-se a todos os desatinos da excentricidade.
+
+O meu romance não fará mal a alguem, não concitará o fogo d'alguma
+paixão perigosa, não arrastará victimas ao abysmo, cavado por uma idéa,
+e coberto de flores pelas seducções do estylo, e sophismas d'uma
+irreligiosa philosophia.
+
+Não farei, como madame de Stael, pretenciosas Corinas, nem Oswalds
+melancolicamente piegas.
+
+Não verterei nas almas o nectar libidinoso do _Sophá_ de Crébillon.
+
+Não farei mulheres tão gárrulas, tão bacharelas, tão fortes da sua
+philosophia como a Heloisa de Rousseau; e ao cabo de contas, tão
+flexiveis, tão dadas aos lapsos da humanidade, como qualquer costureira
+que não leu o Plutarcho, nem o Tasso.
+
+Não direi, como Goethe, aos infelizes que se matem; e, se fôr
+necessario, provarei que Werther foi um tolo, se existiu; Gilbert,
+Malefilatre, Labras, Moreau, Escousse, Leopold Robert, Larra, Gerard e
+Nerval, Jorge Arthur[3], não foram mais espertos que o seu modêlo.
+
+O meu romance, em fim, aconselha a todo o mundo que coma e beba e durma
+o melhor que podér. Protesta contra as paixões sérias, e quer que a
+humanidade se submetta pouco mais ou menos aos artigos dos estatutos
+dados pelo Creador a todas as alimarias do universo. Detesta a
+philosophia que faz os homens maiores ou mais pequenos do que elles são.
+Abomina os escriptores que precisam enganal-os para engrandecel-os.
+Sejamos do tamanho que nos deu o primeiro barro: não nos persuadamos que
+o barro d'uns foi amassado em agua choca, e o d'outros em Champagne. As
+paixões são de todos; uns cahem n'um tremedal, outros n'um diwan de
+molas estofadas. Todos cahimos. Cahiu David e Sardanapalo, cahiu
+Cleopatra e Margarida de Cortona; depois da queda de Hermenigilda,
+nascida e baptisada em Amarante, não ha nada seguro n'este mundo.
+
+O leitor póde passar em claro este capitulo XVIII, que não diz nada
+importante. O que vem é de certo o melhor de todos.
+
+ [3] Jorge Arthur é um nome portuguez. Suicidou-se em Janeiro de
+ 1849, no Porto, precipitando-se da ponte-pensil sobre o Douro. Tem
+ um monumento no cemiterio do _Repouso_, com o seguinte epitaphio
+ que não diz nada:
+
+ Saudade perennal, geme, e avalia
+ Thesouro de que é cofre a sepultura.
+
+ Estou escrevendo sobre uma pasta que era a d'elle, e tenho aqui um
+ sinete com duas iniciaes: a sua, e a da mulher que lhe inspirava o
+ amor... da morte. Era um moço de trinta e tantos annos. Tinha
+ talento, e publicou poesias, propheticas do seu destino. Teve
+ muitas elegias; foi muito sentida pelos rimadores a sua morte.
+ Estou-o vendo quando o tiraram, já lacerado, da agua. Era de noite.
+ Eu tinha um archote que lhe projectava no rosto um clarão medonho.
+ Desabotoaram-lhe o casaco; entre o colete e a camisa tinha um boné
+ de velludo preto bordado a matiz. Era uma prenda que não podia
+ legar...
+
+
+XIX.
+
+Não se me desbotaram da memoria, com o envelhecer de mais de trinta
+annos, as cores vivissimas d'um quadro que o leitor vai contemplar. As
+palavras que então se disseram, ainda as ouço; os mais ligeiros gestos,
+as miudezas menos reparaveis de tal scena, ainda as vejo. Ai! quem me
+déra nesse tempo! É o caso:
+
+Pantaleão foi uma vez visitado por sua prima D. Mafalda, filha segunda
+da mui illustre casa dos Maldonados e Leites, de Cabeça de Veado, que
+tinha seis bispos na familia, todos fecundos, vindo, por consequencia,
+D. Mafalda a ser quarta neta de um filho sacrilego do ultimo bispo, o
+qual casou na dita casa de Cabeça de Veado, como consta da Chorographia
+de Carvalho, e da Historia Genealogica da Casa Real, e, mais miudamente,
+nas Nobliarchias ineditas de Alão de Moraes, no appellido «Maldonado».
+
+Pois, senhores, esta D. Mafalda, vindo visitar a perna gotosa de seu
+primo, reparou na nutrição de Hermenigilda, e fez uma carêta de pessoa
+que sabe de sciencia certa o que são legitimas nutrições, e quando o
+alargamento dos tecidos, accumulados n'uma região, com detrimento
+d'outras, é uma pseudo-gordura.
+
+Convicta pela experiencia dos seus annos productivos, D. Mafalda entrou
+em averiguações, e soube de seu primo que Hermenigilda ia brevemente
+casar-se com um illustre cavalheiro de Celorico de Basto. Contou-lhe o
+comêço, e o progresso das relações, excepto o que elle, ainda que
+quizesse, não poderia contar em estylo oriental.
+
+Iniciada com estes comêços, a velha fidalga chamou sua sobrinha a
+contas, fechando-se com ella na casa dos presuntos.
+
+«Com que então--disse a velha--tu vaes casar, e não me davas parte?!
+
+--O pai, assim comássim, diz que a tia havia de cá vir...
+
+«E gostas muito do teu noivo?
+
+--Podéra não! Tomára eu já que elle viesse.
+
+«Tambem eu queria que elle viesse em quanto eu cá estou para os deixar
+casados... Mas, diz-me cá, menina, tu fizeste uma grande loucura em te
+deixares vencer pela tua paixão...
+
+--Agora fiz! pois eu não havia d'amar com paixão céga meu marido?
+
+«Há cegueiras de cegueiras, Hermenigilda... Ora imagina tu que elle era
+um malvado que não tornava cá, e te deixava nesse estado?
+
+--Pois eu que tenho? disse Hermenigilda muito sobresaltada, descendo
+machinalmente os olhos sobre o corpo de delicto, ou delicto do corpo,
+como quizerem.
+
+«É isso, é isso, menina; não preciso dizer-te mais nada. Agora o remedio
+é apressar o casamento antes que teu pai vá para Amarante. Aqui ninguem
+vos visita; mas lá, que vergonha para a nossa familia! É a primeira que
+acontece na nossa linhagem!... Pois tu...--continuou a velha inexoravel,
+em quanto Hermenigilda fazia torcidas nas pontas do lenço do
+pescoço--pois tu cahiste nas fraquezas em que cahem as mulheres da baixa
+plebe?! Não te lembraste, nessa hora aziaga, que eras filha do fidalgo
+mais antigo d'Entre Douro e Minho?
+
+--O amor quando é de raiz...--balbuciou a pobre menina, purpuriada como
+a fèbra do presunto que lhe estava ao pé disputando o carmim.
+
+«Qual raiz nem meia raiz! Se teu pai--exclamou com violencia D.
+Mafalda--te tivesse mandado aprender commigo a ser uma senhora digna dos
+appellidos que tens, não cahirias nessa deshonra, que faz estremecer os
+ossos de teus ascendentes na propria campa! O que dirão os nossos primos
+da Carraça, e de Ranhados, e Lamas d'Orelhão, sabendo que tu fizeste
+similhante affronta á nossa jerarchia?
+
+D. Mafalda sahiu arrebatada, e no vivo impeto encalhou n'um torno da
+caranguejola onde estavam penduradas as brôas d'unto, que longo tempo
+ficaram badalando. Hermenigilda sahiu cabisbaixa, a procurar a tia para
+lhe pedir que não dissesse ao pai o mal que o seu _amor de raizes_ lhe
+fizera.
+
+Era tarde, porém. D. Mafalda, exprobrando amargamente a seu primo, a
+descautella, e liberdade com que educara a herdeira do seu nome, acabou
+por dizer-lhe que era urgentissimo o casamento, o mais depressa
+possivel, a fim de sanar o mais estrondoso escandalo que se tinha dado
+em nove seculos d'uma honradez a toda a prova na sua linhagem.
+
+Pantaleão, atordoado pelas invectivas, só depois de ouvir a cousa clara
+como ella era para todos, é que sahiu do torpor, e fez menção de pegar
+d'um bacamarte para arcabusar a filha.
+
+D. Mafalda susteve-lhe o rancoroso assômo, e pouco e pouco persuadiu-o
+de que o couce seria mais mortal que a queda. Disse-lhe que escrevesse a
+Bento de Castro para que immediatamente viesse esposar sua filha.
+Pantaleão preferiu escrever-me a mim chamando-me a Baião, onde cheguei
+cinco dias depois desta pathetica scena, que, de certo arrancou lagrimas
+aos que as podem ainda chorar por motivos de amargurada poesia.
+
+Eu ainda hoje as vêrto caudaes nas rugas da tez, quando me lembro a
+postura afflicta de Pantaleão no momento em que entrei no seu quarto.
+Estava de cocoras sobre a cama, lendo a gazeta de Lisboa, e vociferando
+pragas contra o Saldanha, em quanto o preto tirava os carrapatos d'uma
+cadella perdigueira que tinha a cabeça na travesseira do amo.
+
+O venerando ancião, quando me viu, mandou sahir o preto, e fallou assim:
+
+«Snr. João, saberá que o seu amigo Bento de Castro é nada menos que um
+bregeiro!
+
+--Como?! V. exc.ª dá similhante titulo a um cavalheiro que vai ser seu
+genro?
+
+«É um bregeiro, e se não, faz favor de olhar para minha filha.
+
+--Não entendo! Ja tive o gosto de a comprimentar, e ella nada me disse.
+
+«Repare-lhe n'aquellas ilhargas, snr. João!
+
+--Nas ilhargas! que quer isso dizer?!
+
+«Quer dizer que a minha filha, snr. João, ha-de casar-se já, senão o seu
+amigo é mandado para o inferno.
+
+--Pois, nesse caso... eu escrevo ao meu amigo...--repliquei eu, sentindo
+tambem nas ilhargas alguma cousa que poderia fazer-me rebentar na
+compressão do riso.
+
+Pantaleão, no auge da sua colera, saltou fóra do leito, e trilhou a
+cauda da cadella, que soltou um ganido funebre. Proseguiu em raiventas
+apostrophes a Bento de Castro. Accommodou-se um pouco por eu lhe
+prometter ir pessoalmente fallar-lhe a Celorico, e terminou por
+sentar-se, outra vez, na cama aparando com uma navalha de barba a
+callosidade de um enorme joanete do pé esquerdo.
+
+
+XX.
+
+Fui a Celorico, e descrevi o mais patheticamente que pude a scena
+lagrimosa que presenceara em casa de Pantaleão. O meu honrado amigo não
+hesitou, um momento, obedecer aos preceitos do dever. Disse-me que desde
+muito seria marido de Hermenigilda, se a má fortuna da guerra lhe não
+tolhesse o uso do corpo, pelos ferimentos graves que recebêra, e a
+morosa convalescença que lhe custaram. Acrescentou o meu brioso amigo
+que, obrigado a uma quasi solidão de quatro mezes, reflectira
+maduramente no que lhe convinha, e podera convencer-se de que o
+casamento com uma mulher supportavel de espirito, excellente de materia,
+e rica, era a posição que mais quadrava á sua alma, já desenganada das
+loucas illusões da mocidade. Com quanto o seu amor a Hermenigilda não
+fosse muito--disse elle--isso não importava, porque o amor-habito viria
+com o tempo encher o vacuo das grandes paixões. Louvei, como moralista e
+humanitario, tão acertado expediente, tão ajuizada philosophia, e
+fallamos largamente em planos de Bento de Castro, fundados sobre os
+haveres da noiva. É certo que uma imaginação creadora tanto póde erguer
+castellos no ar como em Amarante.
+
+N'um dos proximos dias, sahimos de Celorico, e viemos pernoitar a Baião,
+onde eramos esperados por um extraordinario successo.
+
+Quando chegamos, disse-nos o preto que a menina estava doente,
+berregando muito. Appareceu-nos D. Mafalda, e disse-me ao ouvido duas
+palavras, que eu communiquei ao meu amigo.
+
+Pantaleão sahiu do seu quarto, e apenas lobrigou Bento de Castro, que
+parecia ter-se commovido com a minha revelação, antes de mais nada,
+exclamou:
+
+«Não esperava isto d'um fidalgo, que ainda é meu parente, snr. Bento! V.
+s.ª portou-se muito mal, e não é digno de ser meu genro!»
+
+D. Mafalda, prevenida para serenar a colera de seu primo, acudiu aos
+berros, e disse com senhoril gravidade:
+
+--O mal feito não se remedeia, primo Pantaleão. Do que se tracta agora é
+de chamar cirurgiões, que a menina está muito doente. O snr. Bento está
+aqui para remediar o mal que fez.
+
+«De certo, minha senhora--murmurou o meu amigo.
+
+--Pois então--acudiu Pantaleão--trate-se já do casamento.
+
+«Já?! não é possivel!--redarguiu D. Mafalda--A menina está... pois tu
+não sabes como ella está?!
+
+--E então que tem lá isso?!--replicou o fidalgo--Chama-se ahi o abbade
+ao quarto, dizem-se as duas palavras, e arruma-se o negocio d'uma vez.
+
+«Eu estou prompto a obedecer-lhe--disse Bento;--mas eu muito queria que
+a minha noiva não estivesse a soffrer no momento mais feliz da nossa
+existencia. Se ella estivesse perigosa, em tão triste caso, de certo
+seria eu o primeiro a lembrar o cumprimento da minha palavra; mas, se
+por em quanto não ha receio, por que não ha-de o nosso casamento
+espaçar-se para um dia mais alegre?
+
+--Eu acho que diz muito bem, snr. Bento de Castro...--disse D. Mafalda.
+
+Pantaleão cedeu ás razões do genro, e ás minhas, que tiveram sempre uma
+tal ou qual preponderancia na opinião dos parvos. Serenou-se a
+tempestade, e Pantaleão, d'ahi a pouco, estava extasiado ouvindo da
+bocca eloquente de seu primo as proesas de Silveira, e as esperanças
+seguras da queda da constituição.
+
+D. Mafalda veio dizer a Bento que a menina, sabendo que elle tinha
+chegado, ficara em grande alvoroço de alegria, e pedira que lh'o
+levassem ao quarto, se isso não parecesse mal.
+
+Castro foi ao quarto de Hermenigilda. Parece que lhe deu algumas
+palavras animadoras e ouviu algumas queixas sentidas da sua demora, e da
+sua ingratidão. O momento, porém, era improprio para arguições e
+defezas. Hermenigilda estava pagando á natureza o doloroso preço dos
+gosos maternaes. Bento sahiu com semblante melancolico, e propoz-me um
+passeio no pinhal visinho.
+
+«Sabes tu, João, (disse-me elle com poetica ternura) que começo desde já
+a sentir o amor paternal?
+
+Agora conheço que os prazeres singelos da vida domestica são os unicos
+de que posso recobrar a minha felicidade perdida.
+
+--Pois, parabens, meu caro Bento!
+
+«Ha nada mais poetico--proseguiu elle, cada vez mais commovido--que o
+espectaculo dos soffrimentos da mulher amada, no momento em que se lhe
+desprende do seio o thesouro d'amor que será inexhaurivel de prazeres
+para mim?!
+
+--Oh! isso é arrebatadamente poetico! Eu pedirei sempre aos santos da
+minha particular devoção que me não dêem o prazer desse espectaculo; mas
+se um dia eu vier a ser pai, parece-me que hei-de ser um grande pai, e
+trarei sempre o meu gordo pequeno bifurcado no pescoço...
+
+«Não podes imaginar o jubilo que me enche o peito...--atalhou o meu
+amigo, que parecia não ter ouvido os doces prognosticos da minha
+paternidade--Quem diria que eu viria a ser isto que sou?! Posso hoje
+esperar metade da minha existencia menos infeliz que a outra. Se
+Hermenigilda não é a mulher que possa corresponder bem ás precisões da
+minha alma, o vacuo será preenchido com o amor de meus filhos. Se fôr
+menina o primogenito, hei-de mandal-a educar em Inglaterra; quero provar
+que se póde ser uma rica herdeira sem ser estupida. Se fôr um rapaz, oh!
+então... tu não imaginas o que ha-de ser meu filho!
+
+A pratica demorou-se uma hora nestas pieguices, que o leitor, se é pai
+de certo perdoa ao meu amigo.
+
+Ia alta a noite, e a brisa fria do norte, cantando nos pinhaes, fazia-me
+nas orelhas uma sensação desagradavel. Pedi ao contemplativo Castro que
+fôssemos continuar as doces _réveries_ no nosso quarto.
+
+Estavamos ainda a pé, duas horas depois. De instante, a instante,
+chegava-nos o ecco d'um gemido agudo. Eu sahia, de vez em quando, a
+informar-me, e voltava sempre com boas esperanças para o meu amigo.
+Assistiam ao acto solemnissimo d'um primogenito, um medico de Rezende,
+um cirurgião das Caldas d'Arêgos, uma parteira de Canavezes, e D.
+Mafalda, que parecia mais experiente que todos os outros.
+
+Já de madrugada, passeava eu n'um sobrado proximo do quarto em que
+Hermenigilda acabava de ter o seu feliz successo, como dizem os jornaes,
+quando annunciam á Europa o nascimento d'um menino gordo, robusto, filho
+de tal ou tal commendador, que nunca produz, em regra, meninos
+enfesadinhos.
+
+Tratei de perguntar o sexo do recem-nascido á primeira pessoa que sahiu
+do quarto: era D. Mafalda. Cousa extraordinaria! A velha fidalga sahiu
+como assombrada; e á pergunta que lhe fiz, respondeu: «Isto é da gente
+se benzer!»
+
+--Que diz v. exc.ª, minha senhora?--repliquei eu--É menino ou menina?
+
+«Eu sei cá... Santo nome de Deus!--balbuciou ella.
+
+Sabem o que então me lembrou, não podendo atinar com o spasmo de D.
+Mafalda? Se o recem-nascido seria um pequenino centauro, uma aberração
+da natureza, um monstro, um hermaphrodita! Instei com anciedade nas
+minhas perguntas, e imaginei que D. Mafalda estava douda, quando me
+disse que o nascido era rapaz, mas...
+
+«Mas o que, minha senhora, queira acabar...
+
+--Mas é preto!--disse ella, escondendo o rosto nas mãos.
+
+Bento de Castro appareceu n'este momento. Contempla a estupefacção de
+nós ambos. Pergunta se Hermenigilda está perigosa. Eu fico perplexo; mas
+o vilipendio do meu pobre amigo vexa-me, punge-me, indigna-me até ao
+fundo d'alma.
+
+Tomo-lhe o braço, tiro-o para o patim da casa, e digo-lhe:
+
+--Manda sellar immediatamente os nossos cavallos.
+
+«Pois que é?!
+
+--Já, já, é necessario sahir já d'aqui...
+
+«Por quem és, explica-te, João.
+
+--E eu pela tua honra te supplico que me não interrogues mais. Vamos
+apparelhar os cavallos.
+
+Bento de Castro seguiu-me como um somnambulo. Viu-me, na immobilidade do
+idiotismo, sellar as cavalgaduras. E quando eu lhe disse: «monta!» não
+se moveu. Era indispensavel tiral-o d'aquelle torpôr. Cobrei animo, e
+disse-lhe:
+
+«Estás disposto a adoptar o filho de Hermenigilda?...
+
+--Se elle é meu filho...--murmurou elle.
+
+«Qual teu filho?! vamos! monta a cavallo!
+
+--Pois de quem?! Tu queres enlouquecer-me!
+
+N'este instante uma criada dizia d'uma janella para o quinteiro a uma
+filha da caseira:
+
+«Nasceu um menino.
+
+E a caseira respondia:
+
+--Que seja para boa sorte.
+
+«E a SORTE EM PRETO é a melhor...--murmurei eu, segurando o estribo do
+cavallo de Bento.
+
+O infeliz comprehendeu-me. Não sei como dizer o que vi na cara de
+Castro. Partimos.
+
+
+EPILOGO.
+
+O preto levou sumiço. Eu creio que o esganaram, e enterraram no entulho
+d'uma mina, que está á esquerda, como quem sahe da porta da cozinha.
+Quem o esganou não sei, e eu sou muito escrupuloso em aventar
+supposições de tamanha responsabilidade. O filho do preto levou-o a
+parteira de Canavezes, e não se sabe o fim que lhe deram. Pantaleão
+morreu.
+
+Hermenigilda casou com o morgado de Costoias, e é hoje uma das mais
+respeitaveis senhoras da Amarante. Bento de Castro da Gama já foi tres
+vezes deputado pelo Minho, e está muito gordo. Eu vou vivendo, como Deus
+é servido, pasmado do muito que tenho visto.
+
+
+FIM DO LIVRO PRIMEIRO.
+
+
+
+
+ LIVRO SEGUNDO.
+
+
+ DINHEIRO.
+
+
+
+
+LIVRO SEGUNDO.
+
+
+DINHEIRO.
+
+
+I.
+
+Em 1835, a 22 d'Agosto, ás 7 horas da tarde, pouco mais ou menos,
+passeava eu, com a imaginação pelos mundos ideaes de Platão, e os pés
+sobre o terreno saibroso de um cerrado pinhal, no sitio do
+_Pastelleiro_, nos suburbios de S. João da Foz.
+
+Distrahidamente, de vez em quando, passeava a vista pelas cinco janellas
+hermeticamente fechadas d'uma casa de campo, pintada de fresco a ocre.
+Impressionava-me o silencio funebre que rodeava aquella casa, e d'essa
+impressão, metade poesia e metade curiosidade, nasceu-me o desejo de
+saber quem morava alli.
+
+Perto da noite, vi abrir-se uma das cinco janellas, e divisei um vulto
+de mulher, que se demorou alguns instantes olhando para o lado do mar.
+Ahi começa a phantasia a fazer-me travessuras!
+
+Receoso d'afugental-a, parei para que ella me não ouvisse os passos. O
+ar mysterioso de tudo aquillo, a hora, o sitio, e sobre tudo esta minha
+cabeça fertil de crendices visionarias, fizeram-me crêr que tal mulher
+apparecera então para não ser vista d'alguem, e fugiria se alguem a
+visse.
+
+Não me enganei. N'um lanço d'olhos, a amante do crepusculo lobrigou-me
+entre os pinheiros, e sahiu em sobresalto da janella.
+
+«Aquella mulher é necessariamente um romance completo!» disse eu commigo
+mesmo, e imaginei traça de tornar a vêl-a sem ser visto n'aquella noite.
+Sahi do pinhal, entrei na estrada que conduz á Foz, retrocedi, através
+d'uma charneca, e entrei outra vez no pinhal de modo que o ruido dos
+meus passos se perdesse na grilharia dos grillos e cigarras.
+
+A mulher da casa amarella estava outra vez olhando para o occidente, com
+a face encostada á palma da mão. D'ahi a pouco escureceu de modo que eu
+podia pouco avistal-a.
+
+Permaneci muito tempo immovel, encostado a um pinheiro, com os olhos
+cravados n'aquelle vulto, que eu estava amando, sem conhecer-lhe as
+feições. Os primeiros fulgores da lua, que se revia no seio do mar,
+vestiram-lhe o rosto d'um esplendor alvacento: julgal-a-hieis uma
+estatua de marmore na solidão silenciosa d'uma cidade assolada.
+
+Soaram onze horas no relogio parochial de Lordello. Que saudosa tristeza
+a d'aquelles sons em hora de tanta poesia! Que estimulo para um coração
+de cera flexivel a todos os caprichos da phantasia, qual era o meu, por
+esses tempos!
+
+Onze horas, e eu ainda alli fascinado por aquella mulher, que me não
+via, que nunca me vira, e eu não veria jámais!
+
+Não se riam da criança que eu era então. Tinham passado trinta annos por
+mim, mais ou menos tempestuosos, e o coração estava ainda viçoso,
+florido e esperançoso de fructos que por fim apodreceram antes de
+sazonarem.
+
+Era aquella a idade das paixões sérias, reflectidas, consideradas. São
+essas as paixões que lançam raizes, regadas por lagrimas, ao fundo do
+seio, d'onde só a mão da morte, quasi sempre prematura, póde
+desarreigal-as.
+
+E por isso aquella mulher do _Pastelleiro_ entrára em minha alma, vaga
+de tres mezes, porque houvera ahi na face da terra uma virgem reféce e
+treda que se vendera a um paparreta rico, vindo não sei d'onde, com
+anneis de brilhantes em todos os dedos das mãos, e joanetes enormes em
+todos os dedos dos pés... que pés, meu querido padre Santo Antonio! não
+eram pés; eram miniaturas da Roma das sete collinas gravadas em couro!
+
+Estive muito doente n'essa occasião. Dei sérios cuidados aos meus
+numerosos amigos, e recobrei lentamente a saude á custa de muita papa de
+linhaça e oleo d'amendoas doces.
+
+Assim atraiçoado, vilipendiado, ferido no meu amor, no meu orgulho de
+sabio, nas minhas aspirações de poeta, resolvêra abandonar o céo onde a
+perfida, nos braços d'um marido indecente, respirava o ar balsamico das
+flôres que eu cultivára para ella no seu proprio jardim. Viera á Foz
+fortalecer os nervos frouxos, contar ao oceano as minhas agonias, chorar
+com a lamentosa Alcione, e apiedar os mexilhões.
+
+N'este estado d'alma era perigoso provocar as sensações do amor. A chaga
+era d'aquellas que se curam homoeopathicamente, e eu de certo não
+conheço argumento que mais aproveite ao systema de Hahnemann. Os que
+dizem que a homoeopathia é a medicina que abrange ambos os dominios, o
+da materia e o do espirito, definiram-na de modo que só a má fé poderá
+ridiculisal-a, não lhe reconhecendo a efficacia em enfermidades d'alma
+tão graves como era então a minha. As mulheres são essencialmente
+homoeopathicas, e basta que ellas o sejam para que o novo apostolado
+se consolide. Ninguem como ellas se cura tão depressa das molestias
+d'alma por suppuração d'amor. Eu creio que as valvulas no coração da
+mulher não são simplesmente peças mechanicas da circulação sanguinea. Em
+breve tenciono dar á luz um livro de physiologia, em que prometto provar
+que o coração feminino tem uma valvula por onde sahe um amor, e outra
+que simultaneamente se abre á entrada d'outro. Com estas duas valvulas e
+um pouco d'impudor, fórma-se a mulher á laia d'aquella que me trahiu.
+
+Acabem as divagações.
+
+Ouvi ainda baterem as doze horas, sem poder furtar-me á prisão magica
+d'aquella mulher. Afigurou-se-me que ella se movera da attitude
+melancolica em que estivera tres horas. Não me enganei. Ouvi o ranger da
+porta no interior da casa, e um clarão subito illuminou o quarto. O
+vulto magestoso da mulher sobresahiu no horisonte de luz, em pé, com as
+costas voltadas para fóra. Escutei, apenas, o murmurio d'algumas
+palavras que duas pessoas trocavam, e pareceu-me, pelos ademanes, que a
+mysteriosa tambem fallára. A luz demorou-se dous minutos, se muito. Com
+a escuridade, a minha visão amada voltou á sua posição, na janella. Eu,
+espero que me creiam, estava idealmente tolo por tudo que via, e
+imaginava.
+
+Não pararam aqui as visões estupendas.
+
+D'ahi a pouco escondeu-se a lua. Da parte do mar soprava uma aragem que
+rumorejava nas ramas dos pinheiros um som soturno, que parecia o ecco da
+vaga longinqua. A frouxa claridade das estrellas dava aos montes
+magestade mais impressiva, um colorido mais triste, um encanto de mais
+para a minha alma, alli captiva do espectaculo mais grandioso que o
+acaso podia deparar a um espirito de poeta de força maior.
+
+Maravilha!
+
+Uma voz angelica, trémula como um longo gemido, mas melodiosa como o
+suspirar de brisa por entre flores, e o murmurar de fontinha no cristal
+da taça, uma voz que ainda hoje me entra no tympano da alma, uma voz que
+nunca mais sahiu da memoria do meu coração... foi a voz que ouvi... era
+ella cantando, era o anjo que segredava ás estrellas as magoas do seu
+exilio, era a fada que invocava as magicas apparições da noite, era o
+espirito aerio, como o não sonharam Wieland, Hoffmann, nem Goethe, a
+descer das regiões ethereas para encher a terra das harmonias santas que
+foram a linguagem humana antes da queda da primeira mulher.
+
+Extatico, alheado, eu não podia recolher ao coração, ao mesmo tempo, a
+letra e o canto. O hymno, variado de modulações divinas, talvez
+improvisado, musica para mim d'uma arrebatadora originalidade,
+continuava. Habituado ao spasmo da primeira sensação, tentei distinguir
+as palavras, e apenas pude recolher dous versos com ligação.
+
+ Dai esmola d'amor á desgraçada,
+ Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
+
+Houve uma longa suspensão. Os olhos da minha alma viram aquella mulher
+enxugando as lagrimas. Soou ainda outra vez a melodia triste, cada vez
+mais triste, mais trémula, mais ferida dos tons, ora brandos de adoravel
+melancolia, ora frementes como gritos abafados. Por fim, faltava a
+tristeza augusta do silencio da noite para proferir as ultimas notas
+d'aquella aria no gemido das selvas, no cicio da folhagem, no susurro
+das correntes, e no manso espriguiçar da onda sobre as algas dos
+rochedos.
+
+Calou-se o canto. Fugiu-me a visão. Fechou-se a janella. E eu pendi a
+cabeça triste sobre o seio, e perguntei aos espiritos da noite se não
+era aquella a mulher dos meus sonhos de trinta annos.
+
+A natureza ouviu-me em silencio.
+
+Porque não ha-de a natureza responder ás perguntas dos tolos que ella
+faz?!
+
+
+II.
+
+No qual tempo, tocava eu viola franceza, com alguma graça, e a minha
+mania creadora era compôr trovas elegiacas, ao sabor da minha amargura,
+e cantal-as acompanhadas de arpejos melancolicos. A minha voz, era um
+soffrivel _baritono sfogato_. Principiei cantando lições da semana
+santa, a duas vozes. Aprendi, depois, o cantochão, cheguei a cantar
+n'uma missa de cinco vozes em côro d'aldeia, e com estes rudimentos
+consegui tirar da viola franceza harmonicos de que ainda hoje se falla
+em S. Gonhedo, e Trabanca de Panellas.
+
+Era pois, lugubre o meu cantar como o do captivo de Israel, saudoso das
+margens do seu rio.
+
+E, na noite seguinte á da minha visão, eu fui sentar-me entre os
+pinheiros, com a harpa das angustias debaixo do braço, esperando a hora
+desejada em que os espiritos desciam a pousar nos labios daquella
+espiritual mulher.
+
+Presenciei o mesmo espectaculo da noite anterior: a mesma attitude, a
+mesma luz, e á mesma hora o canto funebre e as palavras dulcissimas de
+tristeza.
+
+Eu tambem fui poeta, e improvisava, na exuberancia do amor, endeixas
+sentidas, que nunca pude reproduzir com animo frio sobre uma tira de
+papel. A fada acabava de cantar os dous versos tão lindos:
+
+ Dai esmola d'amor á desgraçada,
+ Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
+
+E eu feri as cordas do meu alaúde nos tons mais lugubres d'um preludio,
+e cantei:
+
+ Neste ermo, triste, e só, e abandonada
+ Quem desta alma o gemer escutará?
+ Dai esmola d'amor á desgraçada,
+ Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
+
+A mulher estava de pé; erguera-se com impeto; buscara nas trevas o
+mysterio d'aquella surpresa. E eu continuei, tremendo com o receio de a
+ver:
+
+ São horas mortas; vem, ó meiga fada,
+ E um beijo para o céo leva de cá.
+ Dai esmola d'amor á desgraçada,
+ Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
+
+Ella estava immovel, ainda; e eu sentia a fronte calcinada ao fogo do
+estro. O _Deus_, _ecce Deus_ do famoso poeta, experimentei-o então.
+Tumultuavam-me n'alma os pensamentos radiosos. As cordas da cithara,
+febris como eu soltavam vertiginosas harmonias em melancolica toada. Era
+a hora das expansões e eu prosegui:
+
+ Teu canto amargo ouvi, sombra adorada!
+ Meu hymno, triste, como o teu dirá:
+ Dai esmola d'amor á desgraçada,
+ Ó anjos, que o seu anjo tendes lá.
+
+Á ultima palavra desta quadra, sumiu-se a visão; mas a janella ficou
+aberta. Decorreu uma longa hora. As orlas do mar arraiavam-se da luz da
+aurora. A flôr da giesta, as margaritas do prado, e a candida
+florescencia da urze recebiam nas suas urnas o aljofar do céo.
+
+E a janella ainda aberta.
+
+Aclarou-se a manhã: eu não despregava os olhos anciosos da janella
+vasia, da escuridão interior da casa. Na perplexidade de sahir do
+saudoso sitio, vi desenhar-se no fundo escuro um vulto vestido de
+branco, vaporoso como as tenues nuvens do oriente que se rarefaziam ás
+primeiras lufadas do sol que ia nascer.
+
+Ver-me-ia ella?
+
+Oh! de certo viu! O coração bateu-me no peito. Lancei-lhe um olhar de
+quem dá um adeus e pede uma piedosa saudade. Atravessei os pinhaes por
+longos desvios da estrada; entrei no meu quartel, onde tudo me parecia
+negro e indigno de mim.
+
+Que dia aquelle! Que côr tão linda a da atmosphera! que azul tão
+encantador o do mar!
+
+Como todas as mulheres me pareceram feias, e todos os homens importunos!
+
+Ó amor, fonte caudal de ephemeras alegrias, quando tornarás a orvalhar
+esta alma arida!
+
+
+III.
+
+O sol deitara-se no seu leito de purpura, quando eu entrei no pinhal do
+Pastelleiro. A anciedade não me deixava esperar a noite. As janellas
+estavam fechadas. O amor nascente é tão melindroso, pueril, e timido,
+que receia desagradar até com o pensamento ao idolo da sua concentrada
+adoração. Eu temia destruir o meu tal ou qual prestigio apparecendo de
+dia áquella mulher, que poderia adorar-me no silencio da noite, na hora
+das lagrimas, em presença das estrellas.
+
+Mas o amor arrebatado tem affoutesas que tiram animo da mesma timidez.
+
+A mulher não apparecia. O crepusculo da tarde vinha descendo das
+cumiadas das serras. Eu não podia reprimir a ancia do coração: precisava
+vêl-a, e dizer-lhe, no silencio da surpresa, que amor de vida ou morte
+ella me inspirava.
+
+Rodeei a pequena quinta da casa amarella. Achei, ao longe, uma pequena
+porta, que abria para um matagal. Buli tremendo no ferrolho, e a porta
+deixou-se abrir. Dei um passo vacillante dentro da quinta, e vi a
+fachada trazeira da casa, uma longa varanda de pedra, e duas mulheres,
+uma sentada, a lêr, outra fiando. Reconheci-a! era ella a que lia. As
+pernas senti-as tremer frouxas e como vergando ao peso do tronco. O
+sangue em lume subiu-me em borbotões ás fontes, quiz esconder-me, e não
+pude. O latido d'um cão denunciou-me aos olhos da mulher que fiava. Não
+sei o que ambas se disseram. É certo que a velha, sustendo o rodopio do
+fuso, perguntou-me, em sinistro falsete, quem procurava eu.
+
+Engasguei-me, tartamudeando não sei que desculpa. A velha redarguiu, em
+quanto a moça, já de pé, cravando-me os olhos immoveis, parecia
+increpar-me a audacia de profanar o seu santuario.
+
+Respondi:
+
+--Não procuro alguem; andava passeando, e cuidando que não incommodava,
+entrei por aquella porta com intenção de vêr esta quinta.
+
+«Então vocemece--tornou a velha--está a banhos?
+
+--Sim, senhora--respondi eu com muita meiguice, abençoando a curiosidade
+de todas as mulheres, e particularmente a d'aquella que me proporcionava
+uma demora justificada.
+
+«A quinta tem pouco que admirar... (disse a filha dos meus sonhos). Mas,
+tal qual é, está ás suas ordens.--
+
+Leitor, se tóma rapé, sôrva uma pitada, e dê-me attenção, que eu não
+lh'a dispenso na mais insignificante virgula do que vai lêr.
+
+A mulher que acaba de fallar, com um timbre de voz só comparavel ao seu
+canto, era um milagre de formosura, como eu a entendo, como eu a tinha
+sonhado, como eu a tinha organisado das bellesas dispersas em quantas
+mulheres bellas encontrára.
+
+Eram negros os cabellos, ornamentos dignos d'uma fronte larga.
+
+Negras as sobrancelhas, ajuntando-se na base do nariz mais fino e
+transparente que inventaram os pinceis famosos que, de seculo em seculo,
+apparecem para completar as formosuras que a natureza nos dá
+incorrectas.
+
+Olhos da côr dos cabellos, rasgados, nem morbidos nem vertiginosos,
+menos serenos que a limpidez do lago, e mais amortecidos que o vulgar
+dos olhos negros.
+
+Pallida, muito pallida, sem mancha de rubôr, sem beta d'outra luz que
+não seja a que os brandões mortuarios reflectem no crepe da eça.
+
+Era magra de faces, sem que se lhe vissem as proeminencias malares,
+especie de balisas que se levantam naturalmente onde acaba a formosura.
+
+Devia ser muito delicada e breve a construcção ossea d'aquella mulher,
+que no melindroso das fórmas exteriores, mostrava ser apenas o involucro
+material d'um grande espirito.
+
+A pequenina bocca era assombrada por um buço aveludado, que sobresahia a
+custo do fundo pallido em que parecêra plantal-o n'um beijo o amor das
+voluptuosidades, filhas do coração, e desconhecidas á sensualidade
+grosseira.
+
+Airosa, no primor da estatuaria, as largas vestes casavam ás fórmas as
+caprichosas ondulações, de modo que as bellezas occultas pareciam
+desafiar a imaginação mais fertil para vencel-a com a realidade.
+
+Estes fugitivos traços ficaram-me indeleveis na memoria. Creio que o
+leitor mais imaginoso não creará com elles no mundo dos phantasmas a
+sombra sequer da minha heroina. O pincel cahiria desanimado na presença
+della; que fará a penna, sempre desobediente ás vagas expressões da
+alma! Não sei pintal-a d'outro modo. Tenho-a ha tantos annos ao pé de
+mim, sempre no logar da minha sombra, rindo e chorando commigo,
+entoando-me sempre em voz sepulchral os dous fatidicos versos:
+
+ Dai esmola d'amor á desgraçada,
+ Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.
+
+Sempre a voz, sempre a imagem, em tudo, por toda a parte, e não sei
+descrevêl-a, nunca pude arrancal-a da palheta dos artistas mais lucidos,
+d'aquelles que comprehenderam o aspecto melancolico de Camões, e o
+adivinharam, d'aquelles que idealisam a formosura correcta,
+respingando-a nas Heloisas, nas Leonores, nas Fornarinas! Ai! o meu
+ideal foi deste mundo, e a arte não póde restituir-m'o!
+
+O que és tu, sciencia humana! Pintor, subtilisa a tua alma com a lucidez
+magnetica, e dá-me o retracto d'aquella mulher, que eu dou-te a
+immortalidade morrendo abraçado ao teu milagre, á tua segunda creação!....
+..........................................................................
+
+Não soube responder ao offerecimento de... Como se chamava aquella
+mulher? Vamos sabêl-o. D'alli perto, está uma camponeza segando herva.
+Vou fallar com esta mulher, de modo que me não vejam da varanda; receio
+magoal-a, se ella suspeita da minha indiscreta curiosidade... Ainda bem
+que não sou visto.
+
+«Pertence áquella familia que mora alli?» perguntei eu.
+
+--Não, senhor; sou caseira d'esta quinta, e aquella familia alugou esta
+casa pelo S. João.
+
+«D'onde é a tal familia, póde dizer-me?
+
+--Não lhe sei dizer. Parece-me que são lá de cima da provincia. Quem
+alugou a casa foi um senhor que veio cá sósinho, e não tornou a
+apparecer.
+
+«Seria marido d'ella?» interrompi com sobresalto.
+
+--Não tinha geito d'isso; e se fosse marido, a criada fallava-me d'elle.
+
+«E que diz a criada?!
+
+--Pouco mais de nada; e eu, como não sou intromettida, tambem não
+pergunto. Elles vivem na sua casa, e eu vivo na minha.
+
+«E como se chama a tal senhora?
+
+--É a snr.ª D. Felismina, e a criada é Thereza.
+
+«E ella não toma banhos?
+
+--Nunca sahe de casa de dia; algumas vezes sahe de noite, mas não passa
+do pinhal, ou vai até lá abaixo áquella moita de carvalhos.
+
+«Desculpe-me tanta pergunta, e em paga do seu bom modo ha-de ter a
+bondade de acceitar-me uma pequena quantia para um lenço.
+
+A mulher, maravilhada, acceitou não sei que, de que a amabilidade do
+rosto immediatamente se resentiu. Devo confessar que a minha
+generosidade foi tão interesseira quanto a seguinte pergunta vai
+denuncial-a:
+
+«V. m. vai áquella casa?
+
+--Só lá vou á tarde buscar a lavagem para os cevados.
+
+«E quem lhe faz os recados?
+
+--Vem todas as manhãs um homem do Porto trazer-lhe as compras; pouco se
+demora, e sahe sem vêr a senhora. Foi elle que me disse que nunca a
+vira, nem sabia quem era; mas que seu amo o mandava todos os dias trazer
+o mantimento, com ordem de não fallar a ninguem. Em quanto a
+mim--concluiu a informadora, pondo á cabeça o cesto da herva--em quanto
+a mim, anda aqui mandinga, por mais que me digam.--
+
+Disse adeus á mulher, e voltei pela mesma direcção até á pequena porta.
+Não vi Felismina, nem a criada.
+
+Era quasi noite. A minha existencia phantastica ia recomeçar.
+
+
+IV.
+
+Do poente desennovellavam-se rôlos de nuvens pardacentas que se
+acastellaram sobranceiras á Foz. Pouco a pouco, distenderam-se pela
+superficie do céo, formando uma abobada de chumbo, onde não luzia a
+crispação de uma estrella. Estava, pois, medonha a noite, e os urros do
+oceano vinham de longe a gemer na praia um lugubre lamento. Cruzavam-se
+de norte a sul successivos relampagos, e o trovão bramia do nascente,
+menos retumbante que o mugido das vagas. As franças dos pinheiros
+ramalhavam com impetuosas sacudidellas d'uma nortada supita.
+
+E eu, immovel e sereno como o archanjo das tempestades, contemplava este
+espectaculo grandioso, nos visos do Pastelleiro. De vez em quando
+observava a massa escura da casa de Felismina. Pareciam-me fechadas as
+janellas. Pobre cantora d'amarguras, não era aquelle o seu lindo céo,
+povoado d'estrellas, que lh'as ouviam! A brisa, que bebia dos labios
+d'ella as endeixas tristes, indo-se pelos valles a dizel-as aos eccos,
+fugira espavorida ao açoute do bulcão do mar. Talvez que a timida
+senhora, de joelhos com a aterrada Thereza, estivesse resando a
+_Magnificat_ e jaculatorias a Santa Barbara! Alli, sósinha, na crista de
+um monte, tão visinha dos raios, cercada de trovões, transida de
+pavôr... não a verei hoje!
+
+Assim pensava eu, resolvido a não esperar o aguaceiro da nuvem prenhe
+que, sobranceira a mim, superava em negrura as outras.
+
+Antes, porém, de deixar o saudoso sitio, quiz satisfazer a um desejo
+pueril, a uma d'essas criancices ditosas de que o coração se emancipa
+quando os cabellos alvejam, ou a alma amadurece temporamente,--o que é
+peor ainda... Fui ao pé da casa, muito ao pé, quasi rente com a parede,
+e... á luz d'um relampago... vi-a! vi-a... era ella, debruçada no
+peitoril da janella!
+
+Outro relampago... Estava ainda! não me fugiu, não se moveu, tinha os
+olhos mergulhados nas trevas onde me vira.
+
+Cahiam as primeiras gottas de chuva, e eu não as sentia. O que eu queria
+era relampagos; queria o facho sulfureo da tempestade; queria a erupção
+d'uma cratera; queria o incendio do mundo para vêl-a, maior do que a
+minha imaginação a creára, maior que o terror d'aquelle quadro!
+
+E a chuva cahia a torrentes. Eu recebi-a impassivel, inabalavel, na
+face, erguida para a janella, d'onde as trevas já não podiam roubar-me
+os traços d'ella. N'isto, pareceu-me ouvir a sua voz. O estrepito da
+chuva do furacão, e dos trovões não me deixavam entendel-a. Pensei que
+fôra um engano. Ai! não era, não!
+
+«Póde abrir--disse ella--esse portal grande, e recolher-se da chuva.
+
+--Não a sinto, minha senhora--balbuciei eu.
+
+«É impossivel que não esteja muito molhado! Recolha-se que a chuva não
+pára tão cedo--tornou ella.
+
+--As tempestades do coração não deixam ao corpo sentir as da natureza...
+
+«Como?!--interrompeu ella.
+
+Eu repeti, com medo, as mesmas palavras. Tinha razão para temer.
+Felismina sahiu da janella, e eu ouvi o descer vagaroso da vidraça.
+
+Estava eu, pois, molhado como um frango que sahiu d'um tanque. A agua
+encaleirava-se-me pelos canos das botas. Catarata humana, sacudi as
+jubas, limpei a cara a um lenço que a molhou ainda mais; e, perdida a
+esperança de tornar a vêl-a, fui para minha casa, estripando charcos, e
+scismando nas imprudentes palavras com que me denunciára.
+
+Tive uma noite d'insomnia, e um catarrho cujas consequencias ainda hoje
+sinto. Tomei apenas alguns xaropes de figos e ameixas. Transpirei
+suffocado entre seis cobertores; não fiz caso d'uma dôr tibio-tarsica,
+aurora do rheumatismo que hoje me tolhe, (aprendei, mancebos incautos!)
+e, no dia seguinte, apenas um bello sol mosqueou de betas douradas as
+costas carunchosas do meu leito de pinho, saltei de cuécas para o
+sobrado, e meditei de cócaras, no que devia fazer.
+
+A minha tratadeira (pessoa velha, já mencionada no LIVRO PRIMEIRO, a
+folhas...) veio encontrar-me n'esta attitude, senão romantica, ao menos
+desambiciosa.
+
+«Credo!---exclamou ella--o senhor está de menores! isso é feitio! Olha
+que preparo!
+
+--Não fuja, tia Poncia--disse-lhe eu, meditativo e funebre como o
+fidalgo manchêgo, depois da aventura dos ôdres--Venha cá, tia Poncia,
+que eu preciso das suas consolações.
+
+«Valha-o Deus!--tornou ella--Suou tres camisas, e pranta-se no meio do
+soalho com o _cadable_ ao ar!
+
+--Diz bem, tia Poncia, isto já não é senão um cadaver, lançado á margem,
+exposto aos corvos e abutres das paixões carnivoras.
+
+«Que está ahi a _alanzoar_ o snr. João? Se eu o percebo, cebo! Ora vá-se
+vestir, ande-me depressa, que está o café prompto, e toca a comer p'ra
+arrijar.
+
+--Comer, tia Poncia...! O que é comer, sobre a face da terra, quando a
+vida vegetal paralisou! O meu alimento é o absyntho das lagrimas. Sou o
+Ugolino da fome do espirito, o Tantalo, o Promotheu devorado pelo abutre
+incessante.
+
+«Que bruto está o snr. João ahi a dizer? A apostar que lhe fizeram
+alguma os brutos cá da Foz! Eu sempre tive zanga a esta gente! Está tudo
+caro pela hora da morte! O carniceiro manda-lhe a gente pedir carne da
+cernelha, e o berzabum de não sei que diga manda rabada, e quando Deus
+quer é cada osso que te parto! A lenha isso então é uma ladroeira que
+clama justiça ao céo! Quatro gravatos que não dão para aquecer uma agua
+é um patacão. Má breca os tolha!
+
+--Accommode-se lá, tia Poncia. Eu não fallo n'isso. V. m. é mulher
+experiente, e ha-de aconselhar-me a respeito de certa cousa... Chegue-me
+cá aquellas pantalonas, e fallaremos.
+
+«Ora diga lá... bacoreja-me que temos patavinice de namoricos. Ora
+queira Deus que não esteja por ahi alguma como a Vicencia do outro anno
+que lhe pôz o sal na moleira...
+
+--Ora olhe, tia Poncia... ha uma mulher que não pertence a este mundo.
+
+«Coitadinha! rezemos-lhe por alma! foi por ella que tocaram hontem os
+sinos a defuntos?
+
+--Não me córte o discurso. Esta mulher vive...
+
+«Ah! sim? inda bem, inda bem!
+
+--E V. m. a dar-lhe! Ouça, e falle quando dever responder. Esta mulher
+vive n'uma casa aqui perto da Foz; tem comsigo uma criada; não tem homem
+nenhum: não apparece de dia, só se vê de noite a fallar com as
+estrellas...
+
+«Anjo bento! isso é bruxêdo! Cruzes, canhoto! Terá ella fadario?
+
+--Fadario tem V. m. de toleima, tia Poncia! Vive commigo ha tantos
+annos, e parece que está cada vez mais tonta!
+
+«Quem? eu! tonta eu, porque lhe digo as verdades, snr. João! Eu não lhe
+disse que a Vicencia era uma trapalhona, que lhe dava volta ao miôlo!?
+Diga, snr. Joãosinho, quando V. m. andava atraz da filha do letrado, com
+a beiça cahida, não lhe disse eu que a rapariga, ás duas por tres, se
+lhe apparecesse marido com chelpa era como se nunca nos vissemos!? E
+agora queria que eu lhe dissesse mundos e fundos d'uma feiticeira que só
+apparece de noite a dizer anzonices ao sete-estrello!? Deixa-me benzer,
+e Deus me tenha da sua mão, e mais a V. m. que o vi nascer e desde que
+anda por cá á sua vontade arranja sempre bruxêdo que o tolhe. Sabe que
+mais, snr. João? Coma e beba e tome os seus banhos, que é ó que veio; o
+mais leve o diabo, Deus me perdôe, as mulheres, e quando houver de casar
+arranje filha de lavrador que saiba amanhar a vida, e não olhe para
+estas fuinhas da cidade que parecem mesmo o peccado!
+
+Tia Poncia disse muitas outras cousas razoaveis. Exhaurida a torrente,
+foi buscar o café, e pediu-me que pendurasse no pescoço uma figa de
+azeviche, e uma conta que fôra tocada no corpo do martyr S.
+Cyprianno--tudo para vencer os sortilegios da bruxa, contra quem a minha
+pobre Poncia, durante o almoço, proferiu um discurso, intermeado de
+orações _ad rem_.
+
+
+V.
+
+Fui, nas tres noites immediatas, ao pinhal do Pastelleiro, esperei a
+apparição até ás onze horas, mas nenhuma das janellas se abriu jámais!
+Pude, uma vez, encontrar a caseira: perguntei-lhe se a senhora se
+retirára, ou estava doente, respondeu-me que a tinha visto na varanda
+todas as tardes, acrescentando que a porta travessa, por onde eu entrára
+na quinta, uma tarde, fôra trancada por ordem da snr.ª D. Felismina.
+Esta providencia apertou-me o coração, e feriu a susceptibilidade do meu
+amor-proprio.
+
+Á quarta noite, demorei-me até depois da uma hora, suppondo que
+Felismina appareceria mais tarde, certa de não ser importunada no seu
+colloquio amoroso com as estrellas. Eu queria dizer-lhe que me perdoasse
+o atrevimento de ter sido indiscreta testemunha dos seus extasis:
+pedir-lhe-hia que não se privasse desse poetico prazer, porque eu não
+viria alli mais, ainda que essa privação me custasse torturas de
+saudade. O coração offendido tem destas generosidades. É sempre a fabula
+das uvas e da raposa... Nessa quarta noite, pois, seria hora e meia,
+quando tres vultos, vindos do lado de Lordello, passaram defronte da
+casa de Felismina, e fallaram baixo entre si. Abafei a respiração para
+me não denunciar, e senti o prazer de encontrar as minhas pistolas que
+machinalmente mettera nas algibeiras. Os vultos eram homens de jaqueta,
+e chapéo desabado. Um d'elles trazia uma escada de mão, e os outros
+pareceram-me armados de paus.
+
+Em quanto elles observavam, cosidos com a parede, a segurança das
+portas, avisinhei-me eu da estrada, e colloquei-me, sem ser sentido, a
+distancia d'um tiro de pistola. Vi pôr a escada a uma columnata do
+patim, que formava para o caminho uma pequena varanda. Vi um dos tres
+marinhar lestamente por ella; porém, resvalou da aresta do balaustre, e
+viria abaixo com o homem, se os companheiros a não sustentassem a prumo.
+Não obstante, este movimento fez rumor, e uma das janellas foi
+subitamente aberta.
+
+Eu estava em ancias por saber se estes homens eram ladrões. Felismina
+deu-me a certeza da minha suspeita, e inspirou-me arrojos de bravura.
+Apenas ella appareceu na janella, e bradou: «Thereza, Thereza, chama o
+caseiro!» eu saltei d'um pulo á estrada, e disparei sobre o grupo uma
+pistola. O resultado do tiro foi maravilhoso! Os ratoneiros davam saltos
+de corça por aquella estrada fóra, deixando a escada, e uma fouce
+encavada n'um pau.
+
+Em casa de Felismina ia grande reboliço. Ouviam-se os grasnidos de
+Thereza, os latidos dos cães, e os gritos ameaçadores do caseiro. Ella,
+porém, não sahira da janella, presenceando a fuga dos salteadores.
+
+Radioso de heroismo, fui debaixo da janella de Felismina, e disse-lhe:
+
+«Não se assuste, minha senhora; eram tres miseraveis ladrões que fugiram
+a um homem só.»
+
+A este tempo, abriu-se a porta-de-carro, e o caseiro appareceu em
+fralda, com um bacamarte engatilhado. Vendo-me, veio direito a mim na
+melhor disposição de m'o despejar na cabeça, quando Felismina bradou:
+«Os ladrões já fugiram; foi esse senhor que os fez fugir.»
+
+O bravo em fralda poz a arma em descanço. A mulher, com o saiote
+vermelho pelos hombros, reconheceu-me, e disse para a janella: «Este
+senhor é aquelle que andou outro dia na quinta.» O silencio de Felismina
+provava que ella não carecia d'esta novidade.
+
+Contei então o que presenciara do pinhal visinho. O caseiro
+interrompeu-me grosseiramente, perguntando-me o que fazia eu por alli
+áquella hora. Tartamudeei na resposta. Felismina, porém, atalhou,
+pedindo-me que não fizesse caso da rustica pergunta do caseiro. O boçal
+desfez-se em satisfações, e instou para que eu bebesse uma pinga
+d'aguardente porque estava fria a noite. Não respondi ao offerecimento,
+que fez rir Felismina; despedi-me com palavras muito delicadas da
+senhora; soceguei o animo aterrado de Thereza; e fui para minha casa,
+cheio de gloria, d'alegria, e de esperanças. A gloria era uma tolice:
+sou eu o primeiro a confessal-a; mas as esperanças alegres fundavam-se
+na opinião elevada que Felismina faria de mim. Não era só defendel-a dos
+salteadores; era estar alli, defronte da sua janella, ás duas horas da
+noite, como guarda vigilante da sua tranquillidade, com os olhos fitos
+na cupula celeste que a cobria, expiando a imprudencia de lhe haver dito
+algumas palavras apaixonadas. Isto devia impressional-a.
+
+Contei, em casa, esta aventura á minha Poncia, que me esperava ainda a
+pé. Aqui é que foi o benzer-se e tregeitar de mulher sábia em agouros e
+feitiços. Quiz-me convencer de que tudo aquillo eram artimanhas da
+bruxa; e saltou-me ao pescoço para vêr se eu tinha a figa de azeviche.
+Não a encontrando, chamou-me herege, e não me deixou sem eu pendurar o
+bento guizo no pescoço. Deitando-me, pareceu-me que o ar do quarto
+estava impregnado d'um cheiro acre, que era mais forte na cama. Erguendo
+o travesseiro, encontrei um mólho d'arruda, e um alho que tem na Flora
+popular, um adjectivo desgraçado. Eram exorcismos da tia Poncia, que
+tinha em menos conta o nariz quando se tractava de curar a alma d'um
+possesso de bruxedos. Atirei o deposito de hervanario á rua, e consegui
+adormecer embalado pelas minhas esperanças.
+
+No dia seguinte, seriam onze horas, estava eu na praia, esperando a
+maré, quando vi Thereza, procurando alguem entre os grupos. Palpitou-me
+o coração! Serei eu quem ella procura?... Sahi-lhe como por acaso ao
+encontro, e ella, que mal me vira na quinta, olhando-me perplexa,
+parecia esperar que eu a conhecesse. Dei-lhe um ar de riso, Thereza
+fez-me signal que a seguisse. Parou na praia dos Inglezes, olhou em
+redor com desconfiança, e disse-me:
+
+«Aquella senhora manda-lhe agradecer muito o que V... fez esta noite; e
+pede-lhe que faça o favor de lhe dizer que a porta travessa da quinta
+foi fechada porque não havia remedio senão fechal-a.»
+
+Eu fiquei-me a olhar para a velha, pasmado da segunda parte do recado!
+Thereza, sempre sobresaltada, ia retirar-se sem resposta, quando eu,
+caminhando com ella, lhe disse:
+
+--A porta da quinta foi fechada para eu lá não entrar?
+
+«Foi, sim, senhor, porque... não lhe posso dizer mais nada. A senhora o
+que quer é que V... saiba que por vontade d'ella não foi que a porta se
+fechou; em fim, ha cousas que se não podem dizer. A snr.ª D. Felismina
+custou-lhe bastante a mandar fechar a porta; mas, se se soubesse....
+Adeusinho, meu senhor... que tenho medo que me conheçam.--»
+
+Não esperou resposta.
+
+Fiz mil conjecturas, e nenhuma só que se aproximasse da verdade. Desafio
+o leitor mais esperto para que anteveja a solução deste problema.
+
+
+VI.
+
+O segredo picava-me a curiosidade; todavia, o coração era o que menos
+treguas dava á minha ancia.
+
+Ao escurecer desse mesmo dia passei no Pastelleiro. Vi, de relance,
+Felismina através da vidraça. Levei ainda a mão ao chapéo para
+cortejal-a; mas ella não esperou a cortezia. Estanciei nas visinhanças
+d'aquelle sitio, até alta noite; e só depois das onze horas pude vencer
+a resistencia magnetica que me lá prendia.
+
+Passando, outra vez, defronte da casa, vi uma janella corrida, e um
+vulto n'ella. Eu passava tão subtilmente que Felismina só me viu quando
+eu estava em frente d'ella. O encontro fôra uma surpreza para mim.
+Muitas cousas imaginára eu dizer-lhe, encontrando-a; mas esqueceram-me
+todas. Parecera-me facil e até natural perguntar-lhe a causa de me ser
+prohibida delicadamente a entrada na quinta; achava do meu dever, depois
+do recado pela criada, examinar o que fizera eu para merecer similhante
+prohibição; porém, chegado o ensejo feliz de saber tudo, pareceu-me
+atrevimento dirigir-lhe a palavra sem ella m'a consentir.
+
+A perplexidade durou alguns minutos, e Felismina esperava que eu me
+sahisse d'ella d'um modo muito contrario. Nada lhe disse, segui o meu
+caminho, e confesso que me sentia tremer. O coração tem cousas!...
+
+O arrependimento veio logo com a reflexão. Retrocedi por outro caminho,
+e entrei no pinhal. Estava ainda aberta a janella; mas desoccupada.
+Esperei muito tempo, animando-me a fallar-lhe, quando ella tornasse.
+Avistei dous vultos, e senti despegar-se-me o coração do peito. Não
+podia distinguir se um d'elles era homem; e receava, aproximando-me,
+causar-lhe desgosto, se por desgraça ao pé d'ella estivesse um amante.
+
+Que desafogo senti eu, quando conheci a voz gosmenta da criada! Escutei,
+e ouvi-as fallarem de ladrões. Thereza dizia que se não salvava se
+estivesse alli muito tempo, e promettia um arratel de cêra á Senhora da
+Luz, se os ladrões não tornassem a assaltar a casa. Acrescentou ella:
+«Se não fosse aquelle destemido rapaz, a estas horas estavamos nós
+feitas em pedaços, sem confissão, nem sacramentos.»
+
+Felismina fallava tão baixo, que toda a minha attenção foi baldada. Por
+fim, disse a criada: «Menina, não esteja muito tempo ao relento da
+noite. Eu vou-me deitar, que passei em branco a outra noite; se sentir
+alguma cousa, chame, que eu acordo logo, se Deus quizer, e o meu padre
+Santo Antonio, que nos tenha da sua benta mão.»
+
+Felismina sahiu com a criada, e o quarto illuminou-se de repente. Era a
+primeira vez que eu via tanta luz áquella hora. Conjecturei que a timida
+senhora, receando outra assaltada, quizera com a luz obstal-a. Eu
+contemplava-a a ella, que atravessava passando, por diante da luz, com
+ligeiros passos. Achava-me resolvido a fallar-lhe, fosse qual fosse o
+exito. Acerquei-me da casa, para encurtar á minha timidez o tempo da
+reflexão. É verdade que me não occorria uma só das bellas idéas com que
+de dia compozera o meu exordio; porém, atido ao improviso do coração,
+iria esperando que ella, com uma só palavra, esperançosa ou
+desanimadora, me sangrasse a veia da eloquencia.
+
+Effectivamente, apenas Felismina surgiu na janella, estava eu seis
+passos distante. Diga-se a verdade: formigaram-me umas caimbras nas
+pernas, e estive, vai não vai, a rodar sobre os calcanhares, e fugir
+antes de ser conhecido! Li, ha pouco tempo, em um romance de Alphonse
+Karr, uma imagem que pinta exactissimamente a minha situação n'aquelle
+instante. Um tal _Estevão_, em presença d'uma tal _Magdalena_, não
+podendo vencer o susto do primeiro encontro, _faz um esforço como um
+homem que fecha os olhos para saltar um fôsso_. É bem dito isto; não se
+diz melhor o arrebatado movimento que eu fiz para chegar debaixo da
+janella onde Felismina, immovel, parecia esperar-me como se tivesse a
+certeza da minha ida.
+
+«Boas noites, minha senhora» disse eu: era o mais frivolo que podia
+dizer, depois d'uma investida tão vehemente.
+
+--Boas noites--murmurou ella com voz abafada e tremula.
+
+«V. exc.ª conhece-me?--tornei eu, querendo dar á pergunta um tom
+melodioso, que o meu sobresalto tornava rispido e sêcco.
+
+--Parece-me que é a pessoa que hontem...
+
+«Sim, minha senhora, sou a pessoa que hontem teve a felicidade de estar
+perto desta casa... quando foi necessario livrar v. exc.ª d'um susto...
+
+--Devo-lhe um grande favor--atalhou ella, não menos agitada que eu--e
+por isso mesmo é que hoje mandei a minha criada...
+
+«Eu não pude entender a sua criada, minha senhora; e espero que v. exc.ª
+me diga se eu devo pedir-lhe perdão...
+
+--De que?!
+
+«Da imprudencia que fiz entrando sem licença na quinta...
+
+--A causa do meu recado não foi a sua imprudencia, foi, é, e será
+sempre... a minha desventura... Tem V. a bondade de espreitar á
+fechadura do portão, que não vão andar pelo quinteiro os caseiros...
+Seria uma desgraça, se o vissem, ou escutassem...
+
+Espreitei, e não vi nem ouvi signal de gente. Tornando, Felismina
+acabava de apagar a luz, e estava já na janella.
+
+Mal sabem que prazer me deu o ar de mysterio que ella dava assim á nossa
+entrevista nocturna! O amor, quanto mais recatado, mais amor. Ama-se
+mais n'um colloquio, por noites de completa negridão, que á luz das
+serpentinas dos bailes, e ao clarão d'um bico de gaz, que, nestes tempos
+malditos da poesia, vos dá á cara do namoro do primeiro andar uma côr
+sulphurea e phantasticamente prosaica.
+
+Não faço agora ácerca do gaz uma dissertação, porque me sinto abalado
+pela memoria das seguintes palavras que a mysteriosa mulher me disse,
+logo que eu voltei de espionar o quinteiro:
+
+--O senhor de certo me não conhece...
+
+«Não, minha senhora: apenas sei o seu nome; todavia, se me deixasse
+dizer como eu a conheço...
+
+--Queira dizer...
+
+«Conheço-a como se conhece a mulher que se ama ha muitos annos; como se
+conhece a omnipotencia de Deus sem se conhecer a sua essencia divina;
+como se confessa a existencia dos anjos, sem nunca se terem mostrado aos
+homens na sua fórma celestial; como se conhece a possibilidade de
+encontrar a perfeita ventura, sem nunca a ter experimentado; como se
+conhece, pela luz que derrama, a existencia do sol, sem poder fital-o
+nas alturas do céo.»
+
+Ainda disse muitas outras maneiras de conhecer sem conhecer; porém, não
+disse todas quantas sabia, e quantas estudára em casa (penso que foi no
+_Renegado_ de Arlincourt não estou bem certo), e lhe teria dito se ella
+me não interrompesse com vehemencia:
+
+--Bem se vê que não me conhece pela maneira que me falla...
+
+«Como?! explique-se por quem é, snr.ª D. Felismina!
+
+--_Felismina!_ (disse ella, sorrindo) Cada vez me convenço mais de que
+me não conhece... Sabe que me chamo Felismina, porque lh'o disse a
+caseira, não é verdade?
+
+«Sim, minha senhora.
+
+--Pois bom é que não saiba mais que o meu nome...
+
+«E não devo esperar outra revelação da sua boa alma? Não sou eu já o
+depositario d'alguns segredos que v. exc.ª confia das estrellas? A
+mulher que pedia aos anjos o anjo que elles lá tem...
+
+--Não me surprehende...--tornou ella vivamente commovida--Eu sei que me
+ouviu; ouvi tambem os seus versos; pareceu-me um sonho tudo o que
+n'aquella noite aconteceu. Se eu tivesse a certesa de que o homem que
+cantava era tão infeliz como eu sou, e vertia lagrimas de tão dolorosa
+saudade como as eu chorava então...
+
+«Que faria a esse homem?
+
+--Fizera-o meu confidente; dera-lhe o mais que posso dar-lhe: a minha
+fé... a amisade santa dos infelizes áquelles que se compadecem... Não
+queira saber quem sou; essa sua esteril curiosidade o mais que póde é
+trazer-me desgostos novos, e eu mal posso soffrer o peso dos que tenho
+sobre o meu coração para jámais se alliviarem...
+
+«E o coração não lhe diz que eu serei um homem digno das suas
+confidencias? e que, em troca, poderei fazer-lhe quantos serviços, até
+com risco da existencia, podem ser feitos a uma pessoa que soffre?
+
+--Nada póde. O circulo de ferro em que a minha vida está apertada, não
+póde ser quebrado por humanas forças. Podendo eu mover a sua compaixão,
+dar-lhe-hia grandes penas, por não poder valer-me. O coração diz-me que
+fallo com uma alma nobre e generosa; é o coração que lhe falla com tanta
+franquesa e simplicidade. Tambem eu estou conversando com V. como se o
+conhecesse, ha muito. Isto parece providencial; mas não vá a minha sina
+fatal enganar-me.
+
+«Enganal-a...--interrompi eu, com exaltado resentimento.
+
+--Enganar-me, sim, não se offenda, que não tem razão para isso. Eu posso
+julgar muito natural e innocente este curto conhecimento que temos; e
+d'aqui seguirem-se grandes desgostos, como se elles fossem a expiação
+d'um crime... Deixe-me pedir-lhe um favor, sim?... o senhor promette não
+voltar aqui?
+
+«Se prometto não voltar aqui?!» respondi eu, aturdido da voz segura com
+que a pergunta me era feita.
+
+--Sim, senhor: é necessario que acabem neste instante as nossas curtas
+relações. V. vai convencido de que encontrou uma mulher muito infeliz;
+eu fico tambem convencida de que encontrei um cavalheiro muito generoso.
+Não podemos ser nada um para o outro; e tão grande é a dôr que eu sinto
+desta certesa... que, por compaixão de mim propria, não quero
+habituar-me á sua voz.
+
+«Só por compaixão de si mesma?--atalhei eu, sinceramente commovido--Não
+será antes pena de mim?
+
+--De que? Se algum de nós ha-de soffrer... serei eu, pobre mulher, que
+não tenho distracções, e de qualquer pequena saudade faço uma grande
+dôr... tal é o condão da minha desgraçada sensibilidade.
+
+«E não podemos ser nada um para o outro... disse v. exc.ª... Nem sequer
+_irmãos_?
+
+--Deus sabe que precisão eu tenho d'um amigo... quantas vezes eu lhe
+peço uma alma sensivel, como premio do muito que tenho penado, muda e
+virtuosa... Desculpe-me esta fraquesa; será temeridade dizer tão
+afoutamente que a minha virtude é o unico esteio em que me amparo...
+Creia-me, se poder.
+
+«E porque não hei-de eu crêl-a, minha senhora? que fez v. exc.ª para que
+eu desconfie da sua virtude? Julgo-a infeliz, déra a minha vida para
+suavisar as penas da sua; presumo que a sua existencia aqui, tão erma da
+vida que se ama na sua idade, deve ser o desfecho d'um lance muito
+desventuroso. Podesse eu entrar no segredo do seu desgosto, snr.ª D.
+Felismina, e pediria á Providencia os dons que me faltassem para lhe
+acudir.
+
+--Não póde, não póde...--interrompeu ella soluçando--O mais que póde é
+compadecer-se.
+
+«E não é a compaixão um lenitivo?
+
+--É, nem eu já agora tenho direito a outras consolações; porém, não
+imagina os resultados tristes que póde dar esta nossa innocente
+entrevista, se fôr muitas vezes repetida. Creia que sou vigiada, e serei
+martyrisada se alguma vez se descobrir a sua vinda. Vá comprehendendo o
+melindre da minha infelicidade...
+
+«E por ventura, já me fiz suspeito aos olhos d'alguem?
+
+--Creio que não. A estas horas estaria eu amargamente punida do meu
+delicto... Creia que sobre o meu seio está suspenso um punhal ameaçador.
+
+«Como?!--interroguei eu, sentindo pela espinha dorsal os calafrios da
+bravura, e não sei que outros calafrios, metade de Amadis de Gaula, e
+metade de D. Quixote de la Mancha.--Como?! pois ha, para vergonha da
+minha especie, um braço de homem que ouse levantar um punhal sobre uma
+victima tão resignada!
+
+--Falle baixo, senhor... Tenho mêdo que o escutem... Repare que não haja
+luz n'uma casa que está ao fundo do quinteirão. Quem sabe se os caseiros
+estão comprados? Veja, veja.
+
+Eu fui vêr, não vi luz, mas ouvi um arruido singular. Eram umas pancadas
+rispidas e sêccas como o embate de duas taboas. Demorei-me na
+averiguação, e Felismina perguntou-me assustada se via alguma cousa. Vim
+dizer-lhe o que ouvia, e ella quiz logo fechar a janella, sem
+estabelecer ao menos uma hypothese ácerca da extraordinaria bulha.
+Pedi-lhe que suspendesse o seu juizo por instantes, tornei ao posto de
+observação, e voltei tranquillo por ter descoberto que o estrupido
+estranho era a simples brincadeira de duas cabras, que se divertiam a
+marrarem-se reciprocamente ao clarão da lua: recreio sobre-modo poetico
+para duas cabras prosaicas e estupidas como dizem que ellas são.
+
+A entrevista, leitores pios, demorou-se até ás tres horas da manhã.
+Banhavam-se as montanhas da frouxa luz do crepusculo, chilravam os
+passarinhos por aquelles silvedos e restolhos, quando Felismina, a
+disputar bellezas com a matinal estrella, sympathicamente pallida e como
+elanguescida do beijar incessante das brizas nocturnas, murmurou, em
+harmonia com o hymno festival dos passarinhos, estas palavras, que eu
+escrevera aqui em musica, se esta typographia tivesse colcheias e fuzas
+e sustenidos, e as outras garatujas tão necessarias a quem imprime
+romances cuja linguagem é a pura e genuina do coração. Foram estas as
+suas palavras:
+
+--É dia; e agora peço-lhe eu que se retire. Leve a certeza de que me
+deixa saudades, e tantas que só poderei consolal-as, vendo-o muitas
+vezes; mas não posso acceitar esta consolação. Seja meu amigo, sim? não
+me sacrifique, por quem é. Eu não sou d'aquellas mulheres que lhe querem
+persuadir que o amam muito, e, comtudo, incapazes de sacrificarem o seu
+bem-estar ao seu amor, pedem-lhe que respeite as suas posições, e não as
+colloque em desagrado do mundo. Se lhe digo que me não sacrifique, é
+porque o sacrificio seria inutil, e a pena injusta seria igual á pena
+d'um grande crime. Que lucra V. fazendo-me soffrer maiores afflicções? É
+preciso que eu lhe conte a minha vida; sem isso, tudo o que eu lhe digo
+deve parecer-lhe uma invenção de novella, um ar de mysterio com que
+muita gente quer armar á admiração. Ha-de saber a minha vida, se
+primeiro me jurar pela sua honra, e pelo bem das pessoas que mais préza,
+nunca, em quanto eu viva fôr, proferir uma só palavra das que eu lhe
+confiar. Não sei que sentimento de irmã é este que V. me inspira! Nunca
+esperei encontrar uma amiga a quem dissesse «aprende a soffrer commigo.»
+Menos ainda esperei encontrar um homem, quasi estranho, a quem dissesse,
+sem reserva, o resumo dos padecimentos de tres annos... Ámanhã, depois
+da meia noite, encontra-me aqui. Se quizer, venha, meu amigo; mas de
+tarde não passe aqui, porque eu receio toda a gente, menos a minha boa
+criada, que me viu nascer, e respeita as minhas acções, porque me julga
+incapaz de as praticar indignas de mim. Adeus.--
+
+Ora aqui têem como a cousa se passou, tal e qual.
+
+Entrei no quartel com o coração tumido de romances. Olhei-me d'alto a
+baixo, por uma intuscepção peculiar dos grandes tolos, e vi-me grande,
+extraordinario, e fadado para grandes lances.
+
+Chamado ao sanctuario dos segredos d'aquella mulher, eu não podia
+estremar a confiança do amor. De que natureza seriam esses segredos? Que
+Felismina era victima, isso estava provado. Cumpria-me resuscitar os
+brios cavalleirosos que o ominoso romance de Miguel Cervantes matára com
+a zombaria? Cumpria-me offerecer o meu braço, debil instrumento d'uma
+alma forte, á opprimida emparedada do Pastelleiro? Taes interrogações me
+fiz durante o dia, contemplativo sempre, sempre poeta scismador, não
+obstante as interrupções da minha Poncia, que vendo o meu fastio ao
+jantar, obrigou-me a tomar um chá de fel da terra para limpar o
+estomago.
+
+Poncia era uma creatura de singular chateza. Fallar-lhe nesse amor
+vulcanico, que ella trocava em mal de estomago, era forçal-a a
+esconjuros e benzedellas que me aguavam toda a poesia da expansão.
+Quando eu lhe disse que havia uma mulher, suffocada sob a pressão d'um
+tyranno, escondendo as lagrimas para não irritar a colera do seu
+verdugo, Poncia, depois de sorver uma pitada de esturrinho, exclamou:
+
+«Sabe V. m. o que essa rapariga ha-de fazer? que reze uma novena ás
+almas, e prometta uma romaria á Senhora da Guia, para que a guie bem; e
+o snr. João deixe-se de palanfrorios; não se metta na vida alheia, e
+tracte de comer bem e tomar os seus banhos em paz, que é o mais
+acertado.
+
+Dito isto, sentou-se de cocoras, e poz-se a torcer linhas.
+
+
+VII.
+
+
+Trato de afivelar já uma mordaça á maledicencia. Muita gente cuida que o
+meu namoro com a mysteriosa senhora do Pastelleiro ha-de ser um conto
+muito bonito, em que eu hei-de dizer cousas muito galantes, em que ella
+ha-de fazer tregeitos de pudicicia, até que finalmente acabemos ambos
+por nos adaptarmos ás formulas vulgares d'uma rotineira paixão das que
+morrem no inverno, se nascem no verão ao pé d'um pinhal, cuja poesia não
+resiste ás primeiras nortadas de Outubro. Agora tomem fôlego que o
+periodo é uma especie de machina pneumatica.
+
+Pois saberão que não tive namoro com a snr.ª dona... ia dizer Felismina;
+mas a mulher chamava-se Leocadia. A razão do pseudonimo virá em seu
+tempo. Por hora, saiba-se a figura que eu fiz, a figura que ambos
+fizemos. E o leitor, duro d'alma, o leitor-leão que retorce o bigode e
+enruga a fronte encarando com visos de tyranno todas as mulheres, suas
+imaginarias victimas--esse, que a maior parte das vezes é um pobre
+homem, não leia isto porque de certo não aprenderá aqui a receita com
+que se fascinam as mulheres.
+
+Declaro, pois, que não namorei a snr.ª D. Leocadia, moradora no logar do
+Pastelleiro, suburbios de S. João da Foz, em 1828.
+
+Declaro, outro sim, que nunca lhe disse cousa que duvida faça á virtuosa
+commemoração de sua memoria, nem consta que as más linguas sujassem a
+reputação desta senhora.
+
+D. Leocadia contou-me a sua vida, e, desde o preambulo de tão triste
+historia, confesso que senti abalar-se-me a alma de commoções que não
+eram isto vulgarmente chamado amor dos homens. Conheci que não estava no
+seio d'ella coração que podesse ser meu. Grande coração ella tinha; mas
+o amor de que extravasava era o amor espiritual dos anjos, o perfume
+continuo d'uma adoração, que não podia deixar cahir neste chão maldito
+um só bago de incenso. Depois de ouvil-a uma hora, sem ousar
+interrompêl-a, comecei a sentir não sei que terror de ter tentado
+disputar a alma d'aquella mulher a um homem que dormia o somno eterno,
+cujo espirito, porém, dizia ella, adejava entre nós, quando proferiamos
+o seu nome.
+
+Eu fui sempre criança n'isto de superstições. O ether para mim foi
+sempre, e ha-de sêl-o sempre, um infinito vacuo que os olhos d'alma
+contemplam cheio de espiritos. As almas das pessoas que amei, que
+estimei, que vi partirem-se d'aqui successivamente deixando em redor de
+mim o ermo do desterro, a insulação medonha do estrangeiro em solo de
+barbaros--essas almas revoam nas florestas, deslisam-se-me nos cabellos
+que o terror encrespa, gemem aos meus ouvidos como o suspiro do mar
+dormente... essas almas... perdoem-me a divagação... Eu cuidava agora
+que estava a escrever no meu album uma de muitas paginas que virão algum
+dia confirmar posthumamente a minha reputação de grande piegas, ou de
+grande pateta, legado unico que preestabelece e assegura a boa paz entre
+os meus herdeiros.
+
+Vinha eu dizendo, pois, que a vida de Leocadia foi uma triste vida. Vou
+contal-a; saibam, porém, que D. Leocadia morreu já. Este preliminar
+aviso é necessario para muitos effeitos, sendo o mais valioso ter-lhe eu
+promettido a ella sigillo de confissão durante a sua vida. Então,
+pensava eu ir primeiro a descançar das minhas fadigas; esperal-a a ella
+rodeada d'anjos lá, cortando a immensidão do céo, no dia do seu resgate.
+Enganei-me. Leocadia fugiu na idade em que os olhos descem a procurar na
+terra os vinculos que nol-a podem fazer querida. Voou deste baixo
+repositorio de escorias para a limpida estancia da sua patria; e eu,
+velho e enfermo, ralado de saudades do coração que consumi, vestida a
+alma dos andrajos que troquei pelas galas d'uma poesia que só eu tive, e
+toda a gente porfiou em destruir-me, eu, mytho d'outras eras, esphinge
+posta em altar de lama n'um templo de vendilhões torpissimos, eu,
+finalmente, fiquei por cá, quinze annos depois d'ella, sem poder atinar
+com a intenção providencial que por aqui me traz entregue aos baldões
+d'um destino, que umas vezes me parece cruel, e outras patusco.
+
+Ahi vai agora o conto:
+
+Leocadia nascêra em uma notavel villa de Traz-os-Montes. Seu pai era
+official de cavallaria, e senhor d'uma casa mediocre. De Bragança
+passára para Lisboa a commandar um regimento, e levára comsigo sua filha
+de nove annos já sem mãi. A menina entrou n'um collegio, onde esteve até
+aos dezenove annos. Sahiu para a companhia de seu pai reformado em
+coronel, e completou a sua educação na convivencia de algumas poucas
+familias exemplares.
+
+Leocadia, ainda no collegio, maravilhava-se de sentir no peito uma ancia
+como se não fosse o ar bastante para encher-lhe um vacuo oppressivo. Bem
+conhecia ella que a sua queixa era um singular achaque dos que o
+instincto ensina a curar. As mestras, que a viam scismadora a
+esconder-se entre as murtas e as tilias do jardim, graças á experiencia,
+entendiam melhor a molestia da discipula do que entenderam a sua dos
+dezenove annos.
+
+Nesta anciedade vaga, sahiu Leocadia do collegio, entrou na roda de
+pessoas bem procedidas, e viu que os dous sexos se misturavam nas salas,
+e conversavam sem desaire, muito a beneplacito da sã moral. Um dos dous
+sexos causou-lhe uma estranheza em que as faces davam o signal,
+rosando-se, pintando-se da mimosa purpura que, rara, em nossos dias,
+reçuma em rosto de dezenove annos, por uma razão que o leitor sabe, e
+mais eu.
+
+O sexo, porém, que mais a constrangia (sempre a natureza tem cousas!)
+era, quer m'o creiam quer não, o sexo que mais gratas scismas lhe dava
+nas suas contemplações, sósinha.
+
+Havia ahi na sua roda um rapaz, tão acanhado como ella, o que menos
+palavras lhe dizia, e essas palavras custavam-lhe tanto ao pobre do
+moço, e tão frivolas eram, que, se os olhos não dissessem mais que elle,
+Leocadia julgar-se-hia entre todas a mais indifferente ao timido
+Vasco--chamava-se elle Vasco, se bem me recordo.
+
+Amou-o ella: é o que não soffre duvida; e elle amou-a, como...
+deixemo-nos de metaphoras--amou-a como hão-de vêr que elle o prova,
+depois.
+
+O tal Vasco era pessoa de bem; quero dizer que tinha duas costellas, ou
+tres, parece-me que eram tres as costellas nobres que elle tinha. Não
+obstante, como as acções do Banco eram menos que as costellas nobres, o
+meu pobre Vasco andava por alli entre aquella gente, e ninguem dava fé
+se elle entrava ou sahia, excepto Leocadia, que o não perdia da vista
+dos olhos, e da outra vista do coração, de maior alcance ainda, se o
+coração não é myope, ou zarolho, peior mil vezes.
+
+Corações zarolhos, dou-lhes a minha palavra d'honra que os conheço até
+pelo cheiro. Descobriu-se ultimamente a operação do estrabismo para
+elles. É infallivel, nas mulheres que vieram com esse aleijão a este
+mundo. Havemos de fallar a este respeito no oitavo volume desta
+edificativa obra.
+
+Bom coração era o de Leocadia, coitadinha! Umas senhoras velhas, dando
+no segredo dos olhares que os dous se cambiavam com certa finura que o
+amor astucioso ensina, as taes velhas solteironas foram dizendo á menina
+que o rapazinho era bello moço e de boa familia; mas a respeito de
+haveres não tinha nada. Conclusão de velhas: «deixe-se a menina de
+gastar o seu tempo mal, porque a mocidade anda a galope, e quando a
+gente mal se precata, deixou perder a occasião de arranjar noivo
+conveniente, e acha-se velha.»
+
+Esta linguagem corruptora, hedionda, asquerosa, doutrina que prostitue a
+mulher, que a enfeita para se expôr em leilão torpe, esta linguagem fez
+córar Leocadia.
+
+Vasco cobrou animo com a familiaridade, e gaguejou o prologo d'uma
+declaração amorosa. Leocadia, que lhe havia adivinhado o segredo
+aprasivelmente, acceitou-o, corando e sorrindo de modo que nunca foi tão
+linda como então, nem houve sorriso e pudôr que tanto alindassem um
+rosto innocente.
+
+Reanimado pelo bom acolhimento, o nosso Vasco, pouco e pouco, deu
+liberdade ao coração, e disse quanto podia; mas quanto sentia, isso não
+se consegue aos dezoito annos. Escreviam-se todos os dias, davam-se
+reciprocamente uma edição diaria do seu amor em duas ou mais folhas de
+papel, e, depois da vigesima carta, escreviam o prospecto do seu futuro,
+com a riquesa de imaginação usual de todos os prospectos.
+
+Deviam ser formosissimas as perspectivas do magico amor d'aquellas
+almas, ambas poetas, innocentes ambas, desferindo na corda virgem do
+mesmo som o primeiro hymno de saudação á vida, cheia de nova luz,
+especie de bem-aventurança ephémera posta entre o dormir da razão na
+infancia, e o despertar desse terrivel dom na adolescencia! Bellas
+deviam ser essas esperanças, por que o pensamento de ambos era
+sanctificarem pelo casamento a sua identificação n'uma só alma, irem
+ambos n'essa alma unica habitar uma casinha campestre, rodeada de
+arvores, onde os passarinhos tivessem as suas luas-de-mel, e os seus
+ninhos, e os seus filhinhos pipilantes. Queriam ao pé dessa casinha uma
+fonte, derivando em fios de prata por sobre a relva as suas aguas, e
+nessa relva havia de pastar um cordeirinho branco, malhado de preto, com
+um laço escarlate no pescoço, o qual cordeirinho andaria sempre atraz de
+Leocadia, e daria cabeçadas no cão de Vasco, que havia de ser um cão do
+Monte de S. Bernardo, que se enroscaria (o cão) aos pés de sua ama,
+lambendo-lhe a ponta do sapato de carneira côr de flôr de alecrim.
+
+Que vida, que esperanças tão bonitas! Nas manhãs de estio, quando o
+pintasilgo, o pisco, a calhandra, o cochicho, e toda a orchestra dos
+musicos do bosque, dessem a alvorada d'um bello dia, Vasco e Leocadia,
+espriguiçando-se ainda de deliciosas insomnias, sahiriam para o ar
+livre, sorveriam abraçados o primeiro halito da atmosphera, perfumado de
+alecrim e rosmaninho, revesar-se-hiam em ir á fontinha buscar
+burrifadores de limpida agua, regariam os canteiros, as balsas, os
+vasos; e depois, botariam milho ás gallinhas, enxotariam a gata que se
+encarapitou n'um ramo de romanzeira para agadanhar um passarito que
+ensaia os primeiros vôos; depois, chamariam o cão e o cordeirinho, iriam
+para ao pé do rumorejar da fonte. Vasco leria os seus poetas italianos,
+o seu querido Petrarcha, e Leocadia, chorosa pelo tão mal recompensado
+amor do infeliz poeta, abraçaria o seu, tambem fadado das musas,
+exclamando: «que nos vejam do céo esses desgraçados amantes que não
+acharam cá em baixo o nosso paraizo.»
+
+Isto é bonito, digamos a verdade; e mais ainda se não disse tudo.
+
+Em quanto ao almoço, jantar, e ceia, e merenda nos dias grandes, (cá
+estou ao vosso alcance, sisudos leitores, que estaveis a adormecer no
+periodo anterior) em quanto a esses solemnissimos actos da vida ides por
+força vascolejar nas mandibulas a mais regalada das gargalhadas, que
+ainda estoirou de vossos alegres queixos! Deveis de saber que os pobres
+amantes projectavam estes grandes melhoramentos na sua vida como por cá
+se projectam os melhoramentos materiaes do paiz, isto é: não cuidavam da
+receita, nem do orçamento, nem do _deficit_, nem... eu sei cá como se
+chamam essas cousas que por ahi dizem os que sabem lá da salvação do
+paiz! O que eu sei é que este par de creaturas bemaventuradas, com
+quanto fossem muito anteriores ás importantes applicações do magnetismo,
+attribuiram ao magnetismo propriedades que os modernos ainda não
+sonharam, tendo sonhado quanto ha de tolice sub-lunar. Entenderam elles,
+pois, que o magnetismo era uma substancia nutritiva como vacca e arroz,
+como _roast-beef_ e almondegas, como esparregado e pudim de batata! Que
+parece esta sandice ao leitor circumspecto, que tem o seu estomago na
+devida consideração, e crê que isto de poesia e poetas, de idealismo e
+espiritualismo, são o que realmente são: _indróminas_? Pois é verdade,
+como lhe vinha contando, amigo, senhor meu, cuidavam elles que o trivial
+e velhissimo facto de se amarem os separaria dessa lei commum, lei
+estupida por isso mesmo que é para todos, praxe, tão velha como o amor,
+de attender ás justas reclamações deste ser intimo que faz os grandes
+estadistas, os eximios patriotas, os jornalistas preclaros, e
+particularmente os homens gordos: quero dizer--o estomago,
+viscera-rainha, orgão dos orgãos, potencia sempre discutida, sob um
+pseudonimo qualquer, no discurso do throno, aganipe das locaes mais
+chorudas do jornalismo, irmão gemeo da soberania do talento, o estomago,
+oito letras a cujo serviço estão as outras dezeseis, porção, em fim, do
+homem notavel, que mais se lhe venera, por isso que a chegada de uma
+summidade a qualquer terra é logo celebrada por tres, quatro, cinco
+jantares em que uma concava terrina de sôpa e uma pyramide de boi assado
+substituem os presentes d'ouro e pedrarias com que na antiguidade se
+regalavam os adventicios de longes terras.
+
+Era preciso todo este palavriado para saber-se que Leocadia e Vasco não
+scismavam com o que haviam de entreter o fogo sagrado d'essa mola por
+excellencia do machinismo humano. Dar-se-hia por injuriado o coração, se
+o torpe raciocinio lhes argumentasse _á priori_ com as villãs
+necessidades da materia, cousa de que elles tinham apenas a necessaria
+para se amarem.
+
+Não pensava, porém, assim, o snr. Gervasio Leite, pai de Leocadia, nem a
+snr.ª D. Fortunata Proença, madrasta da mesma menina, casada tambem em
+segundas nupcias com o militar, e mãi d'um rapaz estragado, senhor d'uma
+boa casa no Alem-Téjo de que sua mãi era uso-fructueira.
+
+D. Fortunata, casando com o coronel, promettêra-lhe empregar a sua
+authoridade maternal sobre o filho para que elle, ultimada a sua
+formatura na Universidade, casasse com Leocadia. Este casamento
+assegurava á enteada, se não um digno esposo, ao menos uma boa casa, e,
+a todo o tempo, um dote que ella poderia levantar, se os maus costumes
+do marido fossem incorregiveis.
+
+
+VIII.
+
+O coronel, informado dos amores da filha por suspeitas da madrasta,
+resolveu curar heroicamente a enfermidade moral da menina. Francisco de
+Proença, que estava a completar a formatura, annuira á proposta da mãi,
+conhecendo apenas de vista a noiva, e as necessarias dispensas estavam
+já em poder do coronel.
+
+Leocadia foi chamada ao quarto de seu pai, e recebeu a noticia do seu
+proximo casamento. Fez-se escarlate, faltou-lhe o ar, e nem se quer pôde
+balbuciar uma supplica a seu pai. Passados os momentos da offegante
+surpreza, Leocadia, cobrando animo do ar compassivo do coronel, ousou
+dizer que já não podia dispôr do seu coração, porque amava outro homem.
+
+O militar riu-se da infantil pieguice de sua filha, achando que não
+valia a pena zangar-se por uma criancice sem consequencias. A menina
+tomou o riso por carinho paternal, e lançou-se de joelhos aos pés do
+pai, suffocada pelas lagrimas que lhe sahiam do coração agradecido e
+venturoso.
+
+--Então que é isso? (disse o coronel, tomando-a nos braços, e sentando-a
+ao pé de si) Cuidas tu, criança, que eu sou tão criança como tu? Achas
+que eu deixarei á tua vontade inexperiente a escolha do destino da minha
+querida filha? Essa é boa! Eu riu-me d'esse amor patetinha que tens ao
+Vasco da Cunha, tão tôlo como tu, e que não sabe melhor do que tu o
+futuro que vos esperava. Olha, Leocadia, não se póde ser pobre n'esta
+sociedade. A nossa casa é muito pequena, bem o sabes; e Vasco é um filho
+segundo, sem habilitações para modo de vida algum. Estes fidalgos cuidam
+que ser fidalgo é uma profissão. Os filhos segundos, se lhes faltam as
+sopas do primogenito, não servem para nada, não tem em si recursos para
+subsistirem fidalgamente, e julgar-se-hiam réos de leso-brazão se
+pedissem uma occupação plebêa. Meus irmãos, Leocadia, foram para o
+Brazil, logo que a razão lhes disse que a pequena casa onde viviam era
+minha. Trabalharam como se nascessem do populacho, e estão ricos,
+riquissimos, e serão mais fidalgos na sua patria, se voltarem, do que o
+eram quando de cá sahiram. Quem saberá melhor o que te convém do que eu,
+minha filha? Sei em que tempo estamos, e quero deixar-te preparada para
+um tempo que ha-de vir, muito peior que este. Espero ainda vêr em minha
+vida desapparecer o rendimento da Commenda que faz a nossa casa mediana;
+ido esse, o resto bem sabes o que é. Se casas com esse rapaz, que não
+tem nada, quem vos sustentará? Eu não poderei, nem, se podesse,
+quereria. Para que reconheças quanto me tenho a ti sacrificado,
+lembra-te que por teu bem casei com esta senhora que te quer como a
+filha. A condição de casares com Francisco, acceite por ella, explica o
+meu casamento n'esta idade, em que ainda choro saudades de tua mãi, cuja
+memoria me não deixou jámais encarar com bons olhos outra mulher. Depois
+d'isto, dir-me-has se eu não devo esperar que tu espontaneamente
+acceites a sorte que eu te preparei. Serias má filha, se recusasses; e
+eu seria um pai muito infeliz, se me desobedecesses. Nunca o imaginei;
+e, tão firme estava na união das nossas vontades, que sem te consultar,
+pedi as dispensas necessarias para o teu casamento com o meu enteado.
+Enganar-me-hia eu, Leocadia?
+
+A menina soluçava com os labios collados na mão do pai, cobrindo-lh'a de
+lagrimas. O coronel apertou-a ao seio com amor, e tinha os olhos
+aguados. D'aquelle modo Leocadia fazia a seu pai o sacrificio do seu
+coração, o maior de todos, porque o menor era de certo a vida.
+
+--Não respondes, filha?--dizia o coronel, levantando-lhe a face que ella
+escondia no seio do pai.
+
+«Já respondi...» balbuciou ella.
+
+--O que? que respondeste, Leocadia?
+
+«Farei o que fôr da sua vontade, meu pai...
+
+--És a minha Leocadia...--disse elle com apaixonada meiguice--Reconheço
+a filha da minha chorada mulher... Agora, fallemos nos teus amores com
+Vasco... Senta-te, menina. Diz-me cá: ha que tempos andam vossês com
+essa brincadeira?
+
+«Brincadeira... não era brincadeira, meu pai... Nós amamo-nos muito...
+ha dous mezes.
+
+--Já ha dous mezes? Está feito! mas eu não tenho dado fé... Como se
+entendiam vossês? fallavam ás escondidas, ou...
+
+«Nunca fallámos ás escondidas...
+
+--Então, escreviam-se, sim?
+
+«Sim, senhor.
+
+--E as vossas tenções?
+
+«Eram sentar elle praça, e, quando fosse official, pedir-me ao pai.
+
+«Está bom... E porque me não fallaste d'esse teu namôro?... Diz, filha,
+tu guardavas de mim o segredo; é signal de que a tua consciencia não o
+approvava como digno de contar-se a um pai...
+
+--Foi porque algumas senhoras, que deram fé logo no principio, me
+disseram que eu não fazia bem em gostar de Vasco, porque elle não era
+rico, e eu só devia gostar de pessoas que tivessem um grande dote. Se
+não fosse isto, eu seria a primeira a dizer ao pai...
+
+--Está bom, filha. Agora é necessario que tu escrevas, e lhe digas que
+teu pai deseja fallar com elle.
+
+«O pai!?
+
+--Sim, menina. Quero eu fallar-lhe, porque, se até aqui o estimava pelas
+suas qualidades, e por elle ser filho de quem é, mais o estimo hoje por
+elle ser amigo de minha filha. Ingrato e villão seria eu se lhe quizesse
+mal porque minha filha o impressionou, inspirando-lhe a resolução de
+seguir uma carreira até ganhar a subsistencia d'ella. Poucos ou nenhuns
+pais assim pensam, bem o sei; mas eu, que devo a Deus uma filha docil,
+não quero esquecer-me de que sou o seu primeiro amigo pelo coração, e o
+seu primeiro conselheiro pelo dever. Vasco, depois de ouvir-me, ha-de
+transigir com as tuas circumstancias e com as d'elle. Ficará amando-nos
+ambos, e ficaremos todos amigos, de modo que jámais elle possa
+queixar-se da ingratidão de uma filha grata e submissa a seu pai.
+
+Leocadia beijou-lhe a mão, e retirou-se, obedecendo a um gesto do
+coronel. O velho militar ficou enxugando uma teimosa lagrima que lhe
+cahira sobre o bigode, no momento em que a filha, sahindo do quarto,
+desentalava a dôr oppressiva do seio por um ai.
+
+Na tarde desse dia, Vasco recebia um bilhete de Leocadia, assim conciso:
+«Meu pai quer fallar hoje ao amigo de sua filha. _Leocadia._»
+
+Que surprehendente, e que mysterioso bilhete! O pobre moço não podia
+imaginar o meio-termo entre a completa ventura, e absoluta desgraça.
+Faltava-lhe o animo, e o desembaraço para apresentar-se, á ventura,
+diante do pai de Leocadia.
+
+Não ir, porém, seria desobedecer ao homem que respeitava como pai, e
+ennegrecer aos olhos d'ella a candura das suas intenções.
+
+Foi; e o leitor, se é curioso, póde espreitar commigo a scena que vai
+passar-se na sala do coronel.
+
+
+IX.
+
+Vasco entrou na sala, encolhido, como se o frio o arrepiasse. Não viu
+alguem, e parou, ao segundo passo, com as mãos juntas na aba do chapéo,
+e os olhos fitos na porta por onde havia de entrar o coronel.
+
+A porta abriu-se, e Vasco estremeceu. O pai de Leocadia, com a mão
+direita estendida ao hospede, e com a outra indicando-lhe o canapé,
+entrou, affavelmente encarado, como Vasco o não vira nunca.
+
+«Sente-se aqui, snr. Vasco, e conversemos como dous rapazes, ou como
+dous homens velhos--disse o coronel, apertando um cigarro, e offerecendo
+outro ao mancebo.--Já toma o seu cigarrito? A apostar que sim?
+
+--Não senhor, não fumo.
+
+«Pois admira! Este sujo prazer de soldados e marinheiros começa a ter
+boa hospedagem nas classes mais limpas da nossa sociedade. Por ahi, a
+mocidade, apenas deixa o guizo que lhe deu a ama de leite, pega do
+cigarro, e aprende logo a resfolegar o fumo pelo nariz. É o tom, dizem
+elles, desde 1820 para cá. Parece-me que esta geração sahida do ovo, e a
+outra que está no chôco, hão-de ser, meu caro senhor, uma cousa assim a
+modo de nabal espigado. Não sei se me entende: quero dizer que a seiva
+forte de nossos pais, em vez de medrar as vergonteas, produzindo flores
+e fructos, cada cousa em tempo proprio, dará fructos temporãos,
+bichosos, desses que passam sem termo medio do verde ao podre. Não acha?
+
+--Ha-de haver, como sempre, o bom e o mau, penso eu--disse modestamente
+o moço.
+
+«E pensa bem para a sua idade. Os vicios são de todas as épocas, mas o
+do cigarro é muito moderno entre nós, ha-de confessar!
+
+Vasco sorriu involuntariamente á visagem comica do coronel, de proposito
+arranjada para se ajustar á solemnidade com que sorvia, deliciando-se,
+um d'aquelles sadios e gordos cigarros da herva santa de 1828, que não
+era de certo a herva satanica do contracto de 1857, congresso de
+Borgias, que envenenam a gente, reservando só para elles as explendidas
+orgias dos outros...
+
+«Está o meu caro snr. Vasco da Cunha morto por saber--disse Gervasio
+Leite--o que é que eu lhe quero. Lá vou já. Minha filha Leocadia...
+
+Vasco fez-se vermelho, côr de rosa, amarello, branco de marmore, tudo em
+menos tempo do que o necessario para articular as cinco syllabas desse
+nome.
+
+«Minha filha Leocadia--proseguiu o militar accendendo terceiro cigarro
+na ponta do segundo--tinha lá um segredo no coração, mas não segredo
+para o snr. Vasco; era-o só para mim, porque os pais parecem-se ás vezes
+muito com os maridos em serem os ultimos informados do que lhes toca
+pela roupa. Este ruim vêso da humanidade é que é muito mais antigo que o
+cigarro.
+
+O orador riu-se com militar modestia do seu gracejo; Vasco, porém, não
+tinha recuperado ainda o animo frio para saborear o chiste do equivoco,
+ou parecêra-lhe grosseiro de mais o confronto do segredo santo da filha
+com o perfido da adultera.
+
+Gervasio Leite, satisfeito com um aceno affirmativo do interlocutor,
+continuou:
+
+«Disseram-me que minha filha e o snr. Vasco se amavam. Não estranhei a
+cousa: achei-a mais humana e natural que o contrario disso, por duas
+razões respeitaveis e persuasivas ambas: Leocadia é rapariga, o senhor é
+rapaz, ambos sahidos do collegio, cegos ambos, conduzidos por outro
+cego, valha a verdade, que dizem ser cego o snr. Cupido, e eu quero que
+elle seja mais do que cego... em quanto a mim é surdo, por que não ouve
+razões, é cego por que não vê precipicios, é mudo por que só tem lingua
+para fallar a linguagem que não está nos diccionarios, nem póde
+applicar-se a estes objectos da vida real que se veem, e apalpam, e
+sentem, como, por exemplo, o vestir, o calçar, o ignobil cortejo da
+realesa despotica do estomago, e outras miserias adjunctas. Deixe-me
+cortar a direito, snr. Vasco, e dizer as cousas como eu sei. Isto resabe
+ao meu genero de estudos: formei-me em mathematica, e affiz-me a estudar
+a vida como se estuda uma raiz, problemas sobre problemas, e para todos
+o mesmo X, dinheiro, sempre dinheiro, com mil diabos!... desculpe-me
+esta rhetorica de tarimba.
+
+Quando, pois, me disseram que minha filha amava o snr. Vasco, o neto do
+meu general na guerra peninsular, e o filho do meu camarada no quartel
+do general Beresford, tive sincera pena de ambos! Não entende, não. É
+necessario ter cabellos brancos, e mais brancos ainda os cabellos da
+alma, para conciliar duas idêas contrarias: ter compaixão de duas
+pessoas que se julgam felizes unindo-se. Ora eu me explico, e, quando
+não entender o meu vocabulario cá debaixo do mundo real, falle.
+
+A minha casa é insignificantissima. Posso dizer que o rendimento d'ella,
+junto ao meu soldo, difficilmente tem chegado para a educação de
+Leocadia. Minha filha é pobre.
+
+--Oh senhor!--interrompeu Vasco agitadamente, e susteve-se.
+
+«Diga, diga, o que ia dizer.
+
+--Eu... não perguntei a v. exc.ª o que sua filha tinha.
+
+«Isso está claro. Quem é que se lembra de perguntar o que tem a mulher
+que se ama? O amor, meu amigo, recordo-me ainda do que elle é. Eu tambem
+amei uma mulher, casei, e, só depois de tres mezes de casado, é que me
+levantei uma bella manhã com a idéa de saber o que ella tinha. Soube que
+tinha umas leiras que renderiam, em anno de boa colheita, cincoenta mil
+reis, o maximo. Confessar-lhe-hei que não fiquei contente, por uma razão
+das mais racionaes que eu conheço. Minha mulher precisava vestir-se para
+apparecer n'um baile em Lisboa, e a minha gaveta estava ferida da
+esterilidade de Sara. Desde esse dia, meu caro snr. Vasco, quiz-me
+parecer que a minha situação de solteiro era melhor que a de casado.
+Entraram commigo receios de collocar minha mulher n'um posto inferior
+áquelle em que a encontrara na casa paterna, e as minhas doces chimeras
+de noivo fugiram como um bando de andorinhas quando as primeiras
+nortadas lhe embaraçam o vôo. Nunca minha mulher conheceu a tristeza que
+me descoroçoava por dentro, isso é verdade; mas o que lhe valeu para
+viver e morrer feliz foi eu ajuntar á delicadeza com que sempre a
+tractei, algumas dividas que ainda estou pagando hoje.
+
+Morreu minha mulher... attenda agora, snr. Vasco: morreu minha mulher; e
+eu, com quarenta e cinco annos d'idade, ralado por desgostos de todos os
+generos e feitios, herdava da mãi de minha filha o maior de todos: essa
+criança sem mãi, filha d'um major quasi pobre. Educal-a, ainda eu
+poderia; mas legar-lhe um patrimonio, como é preciso que uma senhora o
+tenha, para poder escolher um marido, não podia. Um pai, que ambiciona
+avaramente para seus filhos o bem-estar que elle não quer para si, é
+desculpavel, é victima do seu amor de pai. Sacrifiquei-me, snr. Vasco; e
+sabe como? Sacrifiquei-me como pai nenhum. Casei-me com uma mulher
+aborrecida, por que essa viuva, mais velha do que eu, tinha um filho,
+herdeiro de um grande casal, e além de todas as probabilidades
+favoraveis ao meu pensamento, estipulamos, eu e ella, a condição de que
+Leocadia seria mulher do meu enteado.»
+
+Vasco ergueu-se com sobresalto; encostou-se ao espaldar d'uma cadeira,
+branco de neve, tremulo, que até os cabellos se lhe irriçavam, pasmando
+os olhos nos olhos do coronel, que se erguêra tambem.
+
+«Então, snr. Vasco, isso que é?--disse Gervasio, tomando-lhe
+affectuosamente a mão--Sente-se. Eu sou seu amigo; tempo virá em que
+faça justiça ao pai da mulher que será sempre sua amiga. É preciso que
+sejamos tres no sacrificio.
+
+--Qual sacrificio?--balbuciou Vasco.
+
+«É preciso que o snr. Vasco, bem longe de contrariar os meus planos,
+seja o meu auxiliar para encaminharmos Leocadia ao destino que lhe
+tracei, convencendo-se um e outro de que serão infelizes,
+desobedecendo-me.
+
+Vasco levou o lenço aos olhos. Era o chorar sem pejo dos dezoito annos.
+Vencendo os soluços, que forcejava por esconder no lenço, disse com
+intimativa:
+
+--Eu obedeço, senhor... Creio que poderei obedecer.
+
+
+X.
+
+E, quando o coronel parecia ter muito que lhe dizer, Vasco sahiu da
+sala, e desceu tão precipitadamente as escadas, que não voltou a cabeça
+para agradecer ao dono da casa a consideração de acompanhal-o fóra da
+sala.
+
+No pateo encontrou o afflicto moço o aguadeiro que diariamente lhe
+levava as cartas de Leocadia. Estava o prestante gallego sentado no
+barril, examinando os pregos dos sapatos, e calculando talvez os
+emolumentos que cobrára da sua posição importantemente diplomatica entre
+dous corações rendidos.
+
+Quando viu Vasco, calçou o collossal sapato, sacou dos abysmos
+interiores da jaqueta uma carta que entregou ao nosso amigo, atirou com
+o barril para o hombro, e não esperou resposta.
+
+Vasco rompeu ainda a obreia para lêr a carta, mas susteve-o o receio de
+ser visto por algum familiar do coronel. Escondeu-a e desviou-se para um
+canto do pateo a limpar as lagrimas, que rebentavam, cada vez mais
+copiosas, debaixo da pressão do lenço.
+
+«Que dirá esta carta?»--perguntava elle ao seu coração--«Será o adeus de
+Leocadia?... Saberia ella para que me chamou a sua casa?...»
+
+Tirou-a ainda outra vez do bolso, resolvido a lêl-a, quando entrou no
+pateo um criado, e em seguida um cavalleiro, esporeando o cavallo, com
+grande tropel. Era Francisco de Proença que chegava de Coimbra. Vasco
+não o vira nunca; mas pelo trajar de jaqueta de guizos, barrete á
+campina, e bota branca de canhão alto, conheceu o enteado do coronel, em
+que Leocadia lhe fallára algumas vezes, porque sua madrasta lhe estava
+sempre elogiando o talento, e encarecendo o grande morgadio.
+
+Francisco de Proença viu um rapaz de casaca preta arrumado para um lado,
+e cortejou-o de passagem. O coronel descêra quasi até ao pateo para
+receber nos braços o enteado, e ainda viu sahir Vasco. Quiz perguntar ao
+recem-chegado se encontrára alli sósinho o cavalheiro da casaca preta;
+porém, lembrou-se de que a pergunta provocaria outras. A este tempo
+descia com grande alvoroço a mãi de Francisco, com os braços abertos; e
+o rapaz, depois de beijado e abraçado, deu o braço á mãi, que estava
+gorda de mais para enthusiasmo tão buliçoso.
+
+D'ahi a pouco, lia Vasco, fechado no seu quarto, este bilhete:
+
+«Em quanto fallas com meu pai, escrevo-te duas linhas. Já sabes que
+desgraça nos ameaça. Querem separar-nos, meu Vasco. Todas as nossas
+bellas esperanças não podemos deixar que nol-as matem assim. Respeito a
+vontade de meu pai; mas o juramento que fiz de amar-te eternamente é
+superior a tudo. Sou mais tua do que de mim propria, meu querido Vasco.
+Cuidei que poderia morrer sem desgostar meu pai; não posso; porque me
+lembro que te mato. Vê o que queres que eu faça. Não podemos esperar que
+o tempo destrua os planos de meu pai e minha madrasta, que só hontem me
+foram ditos. Hoje espera-se de Coimbra o tal homem. Decide, meu amigo.
+Em ultimo recurso, eu fujo de casa para ti; e depois... o que Deus
+quizer. Não seremos tão infelizes como meu pai diz, não achas, Vasco?
+Diz-me que não; dá-me animo para lhe desobedecer. Não sei se te
+demorarás pouco tempo com meu pai: vou dizer ao gallego, que te espere
+com esta carta.
+
+ Tua L.»
+
+Quando Leocadia (ahi vão reflexões philosophicas) me mostrou, entre
+outras, esta carta, pasmei, como a gente pasma, até certa idade, das
+maravilhas que se fazem no coração das raparigas! Aqui ha trinta annos,
+se me dissessem que uma donzellinha, a cheirar ainda ao esturrinho das
+mestras dos collegios de então, namorada pela primeira vez, pouco ou
+nada lida em novellas, e menos ainda experimentada nos romances ineditos
+de portas a dentro, se me dissessem que essa tal, contrariada pelo pai
+nas suas virginaes affeições, escrevera similhante carta ao namoro, eu
+não acreditaria, sem vêr a carta reconhecida pelo signal publico e razo
+d'um tabellião de provada moralidade.
+
+Pois não parece incrivel?
+
+Hoje que não ha anomalias para mim, que tudo se me afigura aleijões da
+alma--porque esta geração veio realmente estropeada e canhota do
+espirito--hoje, a menina iniciada no amor, embora creada e educada ao ar
+sereno e puro do collegio, comparo-a eu á rôla creada na gaiola, que
+nunca esvoaçou, nem sabe a serventia das suas azas, está contente do
+espaço, e da abundancia que tem, não sente o captiveiro... e, se, por
+descuido, deixaes aberta a porta da gaiola, a boa da rolinha mette
+primeiro a cabeça ao ar livre, sacode as pennas das azas virgens,
+desfere um vôo rasgado, sobe, sobe, e adeus!
+
+«Era o instincto!» dizia um philosopho pasmado para uma ave que lhe
+fugira. Pelo instincto é que eu, philosopho de toda a passarinhada,
+explico tambem, a respeito de mulheres, este bater de azas em que ellas
+se vão do ninho para as altas regiões dos açores e dos milhafres, onde,
+quando o diabo quer, dão grande banquete ás aves de rapina que são
+tantas como os nossos peccados, por esses céos d'anil, onde os poetas
+imaginam colonias de amantes felizes.
+
+Isto é hoje, que só me falta conhecer a vigesima-quarta variedade que
+Deus formou d'uma costella homogénea:--mas, ha vinte e oito annos,
+quando Leocadia me mostrou a carta escripta a Vasco, olhei-a com ar
+palerma, e disse-lhe:
+
+«V. exc.ª, quando escreveu esta carta, comprehendia bem toda a extensão
+da loucura que fazia, entregando-se assim á descripção d'outra criança,
+sem casa, sem vida, sem habilitações para o trabalho?
+
+--Então o senhor não sabe o que é uma paixão!...
+
+«É que eu cuidava, minha querida irmã...
+
+Entre-parenthesis: Um destes dias, um meu amigo, contando-lhe eu
+seriamente a intimidade limpa e immaculada que contrahira com duas ou
+tres pessoas ás quaes eu chamava irmãs, disse-me, sorrindo, que tinha
+dezesete irmãs assim. O meu amigo pertence á geração nova, em que estas
+fraternidades não tem provado bem, porque, ordinariamente, os
+parentescos complicam-se de modo que não é facil saber-se quando se é
+tio, ou outra cousa ainda mais respeitavel. O mundo está virado! No meu
+tempo amava a gente, por exemplo, uma destas almas que hoje se chamam
+_não-comprehendidas_ na terra, ou porque entre ellas e outras de eleição
+paternal e intervenção ecclesiastica não havia analogia de gostos, ou
+porque as posições sociaes não permittiam um enlace, ou, finalmente,
+porque era preciso fallar no amor d'um terceiro que devia lentamente
+desalojar-se--em qualquer dos casos essas pessoas inscreviam-se no
+catalogo dos parentescos honestos, e ficavam irmãos toda a vida. Eu hoje
+conheço netos das minhas irmãs de então, e glorio-me de ser tio-avô de
+creanças muito gordinhas, que puxam ás avós as rêpas escassas das
+tranças d'ebano e ouro dos meus bons tempos...
+
+As _irmãs_ de hoje...--diz muito bem o meu amigo--arranjam-se ás
+dezesete; e a maior prova de ser o titulo já ridiculo é que a sociedade
+não as reputa incestuosas...
+
+As _não-comprehendidas_ contam em estylo lamuriante o vasio das suas
+almas a confidentes denominados _irmãos_, em momentos de expansiva
+familiaridade. O typo que sonharam, a imagem que as anceia, está fóra
+d'este mundo, respira o ar balsamico dos jardins celestiaes, é um anjo.
+Ora, acontece quasi sempre uma cousa muito racional: o _irmão_
+apresenta-se com procuração bastante do _anjo_, com poderes
+_in-solidum_. Passado algum tempo, esquece-se o constituinte, e fica o
+procurador escandalosamente encartado no usu-fructo do dominio e acção
+d'uma propriedade, que (aqui entre nós) os anjos não quereriam, nem eu,
+só pela decima, os cinco por cento, e os mais impostos annexos ao
+merinaque.
+
+A gravidade d'estas reflexões veio para prevenir os leitores mal
+intencionados contra o abuso que por ahi se faz d'um parentesco de
+circumstancia. Irmão, mais que irmão, fui eu de Leocadia. Esse titulo,
+que ella me deu, conservo-o como um legitimo vinculo, mais que legitimo,
+talvez sanctificado pela angustia de ambos... e doer-me-hia que o
+sorriso parvo ou mau da suspeita correspondesse á melancolica saudade
+com que vou recordando palavras da minha pobre irmã.
+
+Atem agora o fio partido do dialogo.
+
+«É que eu cuidava, minha querida irmã--disse eu--que o amor na sua
+idade, e com a sua innocencia, ignorava certos desenlaces que elle tem
+humanos de mais, rasteiramente humanos...
+
+--Que quer dizer?
+
+«Pensava eu que uma menina, na sua posição recatada, não seria capaz de
+conceber o pensamento da fuga da casa paterna! Vasco propozera-lhe
+alguma vez esse acto?
+
+--Nunca, e eu mesma tive esta idéa quando me vi presa á vontade de meu
+pai, e fraca, miseravelmente fraca para resistir-lhe. Se bem me recordo,
+estava eu chorando no meu quarto, quando de repente me lembrei da fuga.
+Não senti aquecer-se-me o rosto de pêjo, porque me pareceu natural a
+acção de fugir á desgraça. O pesar da desobediencia, esse sim,
+mortificou-me; porém, entre o remorso e a paixão, a lucta decidiu-se
+pelo amor.
+
+«E a idéa do seu descredito?
+
+--Eu sabia lá então o que era descredito! O meu irmão não sabe o que se
+passa no coração puro. Terá experimentado muito; mas deixe-me dizer-lhe
+que as suas analyses tem sido feitas sobre corações muito
+experimentados. Uma mulher receia o descredito só depois que sabe a
+maneira como elle se alcança. Eu não sabia nada, meu amigo. Se me
+dissessem que eu corria risco de ser coberta de infamia por fugir para
+Vasco, rir-me-hia, ou pasmaria do absurdo. Se me dissessem que Vasco era
+capaz de abrir-me os olhos para eu vêr o abysmo em que me lançára
+cégamente, quem m'o dissesse tomal-o-hia por um demonio mau que zombava
+da minha ternura, e injuriava o meu Vasco. Uma rapariga innocente guarda
+tão santas no coração as idéas do bem, que não póde crêr-se victima
+jámais do homem a quem se entrega com amor, com mil vontades de o fazer
+feliz, com as veias abertas para lhe dar o seu sangue, contente da sua
+pureza para o galardoar com ella, anciosa por sacrificar-lhe a vida, e
+ficar ainda na obrigação de maiores sacrificios. O meu descredito, diz o
+senhor! As que fallam no seu descredito, se tem de rebater a instancia
+de sacrificios, essas são as que querem estar bem com a sociedade,
+conhecem-na, fazem parte d'ella, e lançaram já muitas favas pretas
+contra o credito de algumas infelizes, cujo amor as levou á abnegação
+dos diplomas de virtude, que a sociedade dá ás que sabem embuçar-se no
+manto da hypocrisia, ou mascarar o escandalo de qualquer modo.
+
+Eu estava de bocca aberta. Gostava tanto de ouvil-a, que não a
+interrompi. Discorreu meia hora boa neste assumpto, e disse maravilhas,
+que eu tive o descôco sandeu de alcunhar de romanticismo. Então não se
+dizia romanticismo, mas ás mulheres, que fallavam muito e bem,
+chamavam-lhes os alvares, pais dos que hoje vegetam, _pispontadas_, ou
+_pronosticas_.
+
+Não obstante, que sentir tão fino era o desta senhora! Que verdades tão
+axiomaticas a dôr, a desgraça, a reclusão, o entranhar-se em si propria,
+lhe tinha ensinado! Se esta mulher traspassasse em lagrimas ao papel o
+livro intimo, que o dedo do infortunio lhe folheára no coração, qual das
+minhas leitoras não faria esse livro o seu director espiritual, nestes
+calamitosos tempos em que não basta a alma que Deus lhe deu para
+luctarem com a materia que as traz abarbadas, e fóra do seu espiritual
+elemento!
+
+Cá estou outra vez encanhotado pela bruxaria das reflexões
+philosophicas! Resignem-se christãmente, leitores sensiveis. Não posso
+ser superior a este bacharellar de homem entendido na sciencia das almas
+dos outros, porque, lisamente o digo, da minha não entendo nada, e já
+agora morrerei com esta sphinge cá dentro não sei aonde.
+
+Vinha eu, pois, contando que Vasco lêra a carta de Leocadia tantas vezes
+quantas o leitor quizer, que eu não sei quantas foram, nem elle. É certo
+que as primeiras leituras fêl-as com os olhos scintillantes de alegria;
+e as ultimas com uma fonte de lagrimas a cahir-lhe no papel.
+
+Quer-se a razão da alegria e a das lagrimas. Pois sim.
+
+Vasco dera-se como perdida a mulher, o amor, a vida da sua alma. Sahira
+perturbado da entrevista com o coronel. De lá a sua casa lembrou-lhe o
+suicidio, o meio mais prompto de sacudir a farpa do coração. Convencido
+de que era irremediavel o perdêl-a, abriu a carta, leu-a, encontrou o
+remedio, alvoroçou-se, teve febre, delirou de felicidade, creu-se doudo:
+eis-aqui a alegria, a radiação da alma no semblante, o volver á
+existencia, o apegar-se á prancha de salvação segura, quando a garganta
+da morte estava aberta.
+
+Depois, a razão, essa vibora idolatrada, cravou-lhe de subito o dente
+mortal no coração, o sangue refluiu-lhe todo alli, á purpura do jubilo
+succedeu o pallor do desalento, e o chammejar do enthusiasmo apagaram-no
+as lagrimas.
+
+Que lhe disse, pois, a razão, essa divindade tão cantada, essa mestra da
+vida, essa filha do céo, que cahiu de lá á terra pela mesma razão que
+Lucifer cahiu? A razão disse-lhe que Leocadia, entregue á sua
+providencia, não teria um telhado que a cobrisse, porque em casa de
+Vasco dominava a razão da virtude que não acceitaria uma filha familia
+fugitiva, se ella não tinha um patrimonio, que absolvesse um filho
+segundo de tamanha immoralidade. Disse-lhe mais a razão que elle filho
+segundo, sem arte nem officio, nem ao menos poderia repartir com a pobre
+menina um prato de feijões adquiridos pelo seu trabalho. Disse-lhe mais
+a consoladora razão que Leocadia fugitiva seria perseguida por seu pai,
+conspurcada pela opinião publica, e fechada na cella d'um convento como
+leprosa de que todas fugiriam receosas de se contaminarem. Foi o que lhe
+disse a razão do mundo, formada pelo mundo, adaptada ás conveniencias
+vigentes da sociedade, austera para uns, tolerante para outros,
+draconiana para os desvalidos, venal para os poderosos.
+
+Vasco ergueu-se do lethargo em que o deixára a briga das duas sensações
+contrarias.
+
+Tomou a penna, e escreveu as seguintes linhas:
+
+«Deus não quer a nossa união, Leocadia. Perdeu-se tudo. Isto é tão atroz
+que parece impossivel. É verdade, Leocadia, é verdade que se abriu hoje
+a minha sepultura. Esperava morrer cêdo, mas tão depressa não queria.
+Vivia de esperanças, e agora é tudo negro diante de mim. Venha a morte,
+e seja já. Não sei o que te digo. Estou sem alma, nem forças. O que me
+dizes é impossivel. Eu não tenho um bocado de pão certo para cada dia.
+Contava com o meu trabalho no futuro; mas agora desfalleci de braço e de
+animo. Dous desgraçados é muito. Ninguem se compadeceria de nós.
+Perseguir-nos-hiam todos. Casa, Leocadia, casa com esse homem, mas
+espera alguns dias; eu quero morrer, e hei-de morrer antes. Faz-me este
+beneficio. Deixa-me dizer-te adeus, com a certeza de que me pódes chorar
+sósinha sem testemunhas, sem um... esposo que te diga: «escrava do meu
+ouro, porque choras?» Leocadia, eu previ sempre a desgraça, mas não
+assim. Isto é muito; e para estas agonias é que a morte sahiu das mãos
+de Deus. O Senhor te faça feliz, e a minha memoria te seja sempre
+saudosa e compassiva.
+
+ «_Vasco._»
+
+Acabára elle de fechar a carta, e sentiu um esvaimento de cabeça.
+Escondeu a face entre as mãos, porque o voltear dos objectos lhe causava
+a agonia do vomito. Um frouxo de tosse lhe sahiu do peito com dôr aguda
+e calafrios. Quiz respirar, e espirrou dos labios uma lufada de sangue
+que salpicou a carta. Lançou-se com impeto ao ar da janella, e viu na
+rua o aguadeiro que esperava a resposta. Desceu as escadas encostado ao
+corrimão, entregou a carta, quiz retroceder, e não pôde. Sentou-se n'um
+degrau, susteve o sangue no lenço, encostou a face á cantaria, e
+murmurou:
+
+«Se Deus quizesse que fosse já?...»
+
+--O que?!--perguntou uma voz perto d'elle.
+
+Era a mãi, que descia para sahir.
+
+--O que, meu filho?!--repetiu ella.
+
+«A morte.»
+
+A sobresaltada senhora tomou-o nos braços, soltando vozes de afflicção.
+Vasco pediu-lhe silencio, subiu com a mãi esforçando-se por occultar o
+sangue, entraram ambos no quarto d'ella; e, duas horas depois, quem os
+espreitasse veria o filho abraçado aos joelhos da mãi, exclamando:
+
+«Salvou-me!
+
+Salvou-o?! como?!
+
+Esperem.
+
+
+XI.
+
+Saiba-se o que tão extraordinariamente fizera respirar Vasco daquelle
+aperto d'alma, que não podia desafogar-se, sem que a mão bemdita de mãi
+lhe alargasse as angustias que a comprimiam.
+
+Entraram ambos, como disse, no quarto d'ella. Vasco, antes de responder
+ás perguntas amoraveis de sua mãi, encostou-lhe, como criança amimada, a
+cabeça ao hombro, e soluçou, chorando copiosamente.
+
+«Que é isto, meu Vasco?!--instou a impaciente senhora--Bem me parecia a
+mim que a tua melancolia vaticinava desgraça!... Falla filho...
+
+Neste momento, Vasco levou o lenço aos labios para esconder o sangue que
+espirrava da tosse suffocante. A mãi, vendo o lenço tinto de sangue
+fresco, soltou um grito.
+
+«Este sangue é teu, meu pobre filho?! exclamou ella.
+
+--Isso que importa, minha mãi?...--disse Vasco, sentindo diminuir a
+violencia da sua dôr, ao passo que o rosto da mãi dava signaes de
+afflicção e pasmo.
+
+«Que importa!?...--tornou ella, juntando as lagrimas ao sangue de seu
+filho, e cahindo quasi desanimada n'uma cadeira--Importa a minha morte,
+Vasco!...
+
+--Mas eu sou feliz, morrendo. Tenha pena de mim, se eu continuar a
+viver. Deus acceitará na sua presença um filho que nunca desgostou sua
+mãi, nem aos de fóra causou damno sabendo que o causava.
+
+«Jesus!--interrompeu a mãi arrependida da sua exaltação--estás-me
+matando com a serenidade das tuas palavras! E porque has-de tu morrer,
+meu pobre menino? Cuidas que não tem cura lançar sangue? Tem, meu filho,
+tem. Teu pai viveu assim trinta annos, e tuas manas, que Deus levou, se
+tomassem os meus conselhos, se não fossem as imprudencias dos bailes,
+recuperavam a saude... Choras por te vêres tão cedo ás portas da morte?
+Tens razão, meu querido filho; mas não te assustes; verás que o sangue
+cessa; vamos aos ares do campo; o que tu precisas é descanço. Não leias
+mais, pelo amor de Deus; não recebas o ar fresco da noite; não tornes a
+comer fóra d'horas, nem andes a passear no teu quarto até ser dia.
+Promettes isto tudo á tua afflicta mãi?
+
+--Sim, minha senhora, prometto tudo.
+
+«Com que desalento me respondes, Vasco. Esse teu sorriso é muito
+triste... antes quero vêr-te chorar.
+
+--E eu tambem queria chorar... tambem!...
+
+«Tu escondes-me o teu coração, Vasco. Tive agora um raio de luz...
+Dizes-me tudo, filho?
+
+--Tudo... tudo, minha santa amiga, ainda que m'o não pergunte.
+
+«A mim disseram-me que a filha do coronal Gervasio te trazia enganado...
+
+--Por quem é, minha mãi!--atalhou elle com as faces instantemente
+abrazadas--Leocadia é incapaz de me trazer enganado! Quem tal lhe disse,
+calumniou-a cruelmente...
+
+«Pois antes assim, meu filho: mas sempre é certo que vos amaveis?
+
+--Sim... é desgraçadamente certo que nos amavamos.
+
+«Não te afflijas, Vasco... Eu hei-de dizer o que ouvi. Disseram-me que
+ella estava destinada para um filho da madrasta.
+
+--Destinaram-na, minha mãi... Que culpa tem a infeliz de que vendessem o
+seu coração? Ella não sabia que estava vendida. Cuidou que podia
+amar-me, e por fim...
+
+«Diz, Vasco... prohibiram-na de fallar-te?
+
+--Vai ser casada, disseram-lh'o hontem...
+
+«E ella acceita?...
+
+--Se acceita!... a morte das mãos de Deus, como eu lh'a peço. Ha-de ser
+entregue ao marido como um corpo sem alma, um cadaver... O coração é
+meu, morre commigo... Vou bem pago de tudo que soffri e hei-de
+soffrer... que, já agora, pouco será; mas o que tenho curtido calado, e
+docil á desgraça, foi muito, minha querida mãi, só Deus sabe o que foi.
+A minha Leocadia morre... e então verá se ella não era digna d'este amor
+que me mata.
+
+«Jesus! tanto fallar de morte, filho! Fallemos da vida; procuremos
+remedio, que o ha-de haver.
+
+--Nenhum.
+
+«Pois nenhum?! ella já está casada?!
+
+--Não está; mas o mesmo é estar casada, ou sêl-o ámanhã ou depois.
+
+«Olha, filho, lembra-me ir fallar ao coronel...
+
+--Sou pobre, minha mãi... Poderá v. exc.ª dizer ao coronel que me dá um
+bom patrimonio?
+
+«Não, infelizmente, não; aqui é tudo d'um só, tu bem o sabes... essa dôr
+cá a tenho como um espinho cravado no coração. O meu melhor filho, o
+anjo que nunca me deu um pesar, não tem nada, e nada póde haver do amor
+de sua mãi!... Que barbaras leis, justo céo! O que os homens fazem! De
+todos os filhos que rodeam, á hora da morte, o leito de sua mãi, só um é
+rico, os outros... ficam á mercê do seu proprio trabalho, ou das sopas
+do irmão, que é sempre o mais ingrato...
+
+Vasco obstou á continuação dos soluços que embargavam estas palavras,
+com meiguice, tirando-lhe as mãos da face.
+
+«Isso agora a que vem! Não chore, que me faz mal. Eu não desejo a
+riqueza de meu irmão mais velho; queria alcançar uma mediania pelo meu
+trabalho, porque bem pouco me bastava a mim, e a ella, e a minha mãi, se
+Deus nos ajuntasse todos... Agora, nada desejo, porque sou de mais
+n'este mundo; houve uma força superior que destruiu a minha felicidade;
+não acharei outra... que faço eu agora aqui?!...
+
+--Espera, filho... se eu dissesse ao coronel...
+
+«O que, minha mãi?!
+
+--Que sua filha viria para nossa casa como tua esposa...
+
+«Está a querer tirar á força do seu coração esperanças para me dar...
+não estando ellas lá, minha mãi! É irremediavel... Não nos deixemos
+enganar, porque a realidade negra está perto de nós. É tarde para pensar
+nos meios de mudar a vontade do pai de Leocadia. O homem rico a quem a
+deram, já está com ella. Chegou hoje, e ella ainda hontem soube que não
+era senhora da sua alma. O coronel chamou-me, e disse-me: «faça que
+minha filha me obedeça; ajude-me a encaminhal-a ao destino que lhe dei;
+lembre-se que eu me sacrifiquei a uma mulher aborrecida, para assegurar
+a minha filha um futuro, casando-a com o meu enteado.»
+
+«E tu, filho...
+
+--Recebi o raio na cabeça, e sahi com o receio de cahir morto aos pés do
+homem que confiava a sorte de sua filha á minha generosidade. Isto
+parece-me um sonho... Quando eu me convencer completamente que perdi a
+minha Leocadia, morro n'esse instante. E que espero eu agora, meu Deus!
+
+A mãi de Vasco, com a barba apoiada na palma da mão direita, contemplava
+seu filho a olhos enxutos. Calara-se elle; e longo tempo silenciosa, e
+como em spasmo, ainda ella o contemplava. Por fim, ergue-se, vai com
+impeto ao pé de Vasco, aperta-lhe a mão com força, e diz:
+
+«Acredita, filho, o que te diz uma mulher que conhece o coração das
+outras: Leocadia não é digna d'esse amor; Leocadia não te ama.
+
+Vasco ergueu-se d'um pulo, vibrou ainda as primeiras syllabas d'uma
+palavra dura, levou a mão á fronte que revia um suor subito, e disse com
+pausa e brandura:
+
+--Minha mãi, peça perdão a Deus de ter injuriado uma martyr.
+
+E as lagrimas rebentaram ao mesmo tempo dos olhos de ambos. A
+solemnidade triste com que elle se queixára da injusta opinião, feriu o
+seio da mãi.
+
+«Pois sim, meu filho, eu peço perdão a Deus de ter calumniado a tua
+amiga; e pedir-lhe-hei tambem que me tire d'este mundo se não posso
+valer-vos a ambos, meus queridos filhos.
+
+Vasco, arrebatado pela compunção d'estas ultimas palavras, beijou com
+fervor a mão da lagrimosa senhora, que o tomou para o seio, e o beijou
+na face.
+
+«Nosso Senhor, e a Virgem Santissima--dizia ella, quasi ao ouvido de
+Vasco, como quem acarinha uma criança--hão-de dar-te uma esposa que seja
+o retrato das virtudes de Leocadia, meu filho. São poucos n'este mundo
+os corações bons; mas a Providencia faz que esses corações se encontrem.
+Ha-de vir um procurar-te, Vasco; e, quando elle vier, teremos ambos
+prevenido tudo, para que tu possas ter uma esposa sem dote. Eu começo
+desde hoje a pedir para ti um emprego digno do teu nascimento.
+Empenharei todas as minhas relações, todos os nossos parentes, com a
+regente, para tu seres bem collocado, sim, meu filho?
+
+--Não, minha senhora, não. V. exc.ª disse-me que iriamos para o campo;
+vamos quanto antes; parece-me que hei-de acabar lá mais tranquillamente.
+Veja quanto eu estou sendo infeliz! A unica esperança que me afaga, é a
+idéa de morrer n'um leito d'onde veja arvores, e céo, e flores. O tempo
+agora está bello para acabar assim...
+
+«Oh filho, que me estás despedaçando o coração...
+
+--Pois não fallemos em morrer... Olhe, mãi, diz-me uma cousa?
+
+«Que é, Vasco?
+
+--Porque duvidava ha pouco do amor de Leocadia? Que disse eu, ou que fez
+ella que désse causa á injusta suspeita de minha mãi?
+
+«Eu respondo, meu filho. Parecia-me que ella recebeu com frieza a
+noticia d'ir ser casada com um homem que não amava. O que tu estás
+soffrendo, é o que ella deveria soffrer, depois d'essa cruel violencia
+que o pai lhe fez. A paixão costuma mostrar-se d'outro modo, delira, é
+capaz de mil desatinos, em quanto dura a surpreza que Leocadia devia de
+receber. E que fez ella, meu filho? Que te disse ella, depois que o pai
+lhe disse: «não pódes ser esposa de Vasco, porque Vasco é pobre;
+sel-o-has d'um outro homem, que eu te destinei, sem consultar a tua
+vontade.» Que fez ella?
+
+--O que fez ella?--respondeu Vasco, desafogando sob o peso das
+accusações, que a mãi queria alliviar com a entonação branda da voz--O
+que fez ella?... Minha mãi... o que faria a senhora nas circumstancias
+de Leocadia?
+
+«Se amasse com a paixão ardente com que amei teu pai... das duas uma:
+morreria fulminada logo alli, ou...
+
+--Diga, diga, minha mãi, que eu preciso avaliar pelo seu coração o amor
+de Leocadia.
+
+«Direi, Vasco, direi o que mãi nenhuma deve dizer; mas o que eu faria,
+não morrendo logo alli, meu filho, era... desobedecer á tyrannia, fugir
+á violencia d'uma desgraça perpetua, seguir o destino prospero ou
+desgraçado do homem que me merecesse o sacrificio da minha reputação, da
+minha vida, de tudo!»
+
+A mãi de Vasco teria quarenta e cinco annos. A luz dos trinta
+irradiou-se-lhe no semblante. Dir-se-hia que o coração, rejuvenescido
+das forças que a viuvez e os dissabores domesticos alquebraram, revivera
+alguns minutos, apressando o giro do sangue que lá estivera estanque por
+falta d'estimulos. Vasco, fitava maravilhado a animação d'aquelle rosto,
+onde nunca vira o viço da adolescencia, porque, desde menino, vira
+n'elle sempre lagrimas.
+
+«Porque a mulher que ama--continuou ella, erguendo intencionalmente os
+olhos para o retracto de seu marido--porque a mulher que ama como eu
+amei teu pai, Vasco, faz o que fez tua mãi. Foge do convento onde a
+aferrolharam, e vai sósinha através cincoenta leguas procurar um militar
+que nesse tempo apenas cingia uma banda de alferes, e não tinha mais
+recursos para si e para mim que o seu soldo. Eu era filha unica, devia
+ser uma rica herdeira; e, comtudo, soffri necessidades durante dez
+annos. E sabes tu como eu acceitava das mãos de Deus a minha sorte?
+Cheia de alegria, seguindo teu pai na bagagem do exercito, pela França,
+pela Russia, com teu irmão mais velho deitado n'um berço de vêrga.
+Quando a força da lei me fez succeder na minha legitima, dir-te-hei,
+filho, que não senti melhorar a minha felicidade intima. Não era o
+dinheiro que a fazia, não; maior contentamento tinha quando via as
+feridas de teu pai remuneradas de patente em patente, até ser eu que,
+por minhas proprias mãos, lhe puz as dragonas de general, tendo elle
+apenas trinta e nove annos. Alli o tens a ouvir-nos, meu filho. Parece
+que lhe estou vendo ainda os olhos rasos de lagrimas de felicidade com
+que elle tantas vezes me contemplava. Repara filho...
+
+Trémula da commoção, que devia terminar pelo chorar angustioso da
+saudade, a arrebatada senhora conduziu seu filho pela mão ao pé do
+retracto.
+
+Tinha melancolica bellesa aquelle grupo! Ella, apontando para o
+retracto, com o braço erguido e convulsivo, dizia:
+
+«Aquelle homem deve estar na presença de Deus. Foi para todo o mundo o
+que foi para mim. As suas vistas devem estar postas no teu destino,
+Vasco. Entrega a tua sorte á sua protecção; pede-lhe, commigo, que
+implore ao Senhor o descanço do teu espirito, e o esquecimento da mulher
+que não é para ti o que tua mãi foi para elle.
+
+--Não posso fazer similhante supplica...--interrompeu Vasco.
+
+«Não podes, filho? por que não podes?
+
+--Rogar assim era mentir a Deus. Leocadia é para mim o que minha mãi foi
+para o homem que a fez desobedecer á vontade de seu pai.
+
+E, tirando do bolso a carta de Leocadia, apresentou-a aberta a sua mãi.
+
+Subiu de novo á face da viuva o ardor que as lagrimas começavam a
+desmaiar. Leu e re-leu a carta; dobrou-a vagarosamente; fitou um olhar
+supplicante no retracto, declinou-o para um crucifixo; permaneceu
+silenciosa em oração, talvez; entregou a carta a Vasco, e disse-lhe com
+energia:
+
+«Pois diz-lhe que venha... Vai buscar tua esposa para o quarto de tua
+mãi, vai, meu filho. É tua mãi que t'o diz.
+
+Vasco, todo tremulo, só immovel nos olhos, estendia os braços para ella
+como se precisasse abraçal-a, para convencer-se de que não era
+phantastica a visão de sua mãi.
+
+Neste momento, batem á porta do quarto; a mãi de Vasco recusa abrir, e
+dizem-lhe que está alli uma carta que deve ser immediatamente entregue
+ao menino.
+
+É ella que recebe a carta, e a entrega ao filho: Vasco reconhece o
+sinete, e diz a sua mãi que a leia.
+
+Continha isto:
+
+«Matas-me, Vasco. Se me não tiras d'aqui esta noite, amanhã suicido-me.
+És a causa da minha morte. Pelas chagas de Christo, diz-me que me salvas
+deste inferno. Responde-me já, já.
+
+ _Leocadia._»
+
+«Eu vou responder, meu filho--disse a viuva, correndo á escrivaninha.
+Vasco estava arquejante com a fronte reclinada sobre o travesseiro de
+sua mãi.
+
+Ella voltou, e leu o seguinte bilhete:
+
+«Minha filha. Hoje ás 11 horas da noite está uma sege defronte do
+convento de Sant'Anna, a cincoenta passos da sua porta. Nessa sege
+espera-a a mãi de Vasco, e sua mãi extremosa
+
+ _Maria Maldonado._»
+
+Foi então que Vasco se lançou aos pés de sua mãi, exclamando:
+
+«Salvou-me!
+
+
+XII.
+
+Leocadia narrou-me assim o proseguimento da sua historia:
+
+«Quando vi uma letra desconhecida, em resposta ao meu bilhete, fiquei
+passada de mêdo, e parece que a luz dos olhos se me toldára. Custou-me a
+lêr o nome da assignatura, que maior susto me incutiu. «A mãi de Vasco
+roubou-me a minha carta» foi logo a idéa que me assaltou. Refiz-me de
+coragem para lêr uma reprehensão... e que espanto, que alegria a minha
+ao passo que devorava aquellas palavras queridas! As lagrimas cahiam no
+papel duas a duas. Eu estava louca de prazer. Ajoelhei, agradecendo ao
+céo a inspiração que mandára á mãi do meu Vasco. A fuga, protegida por
+uma senhora de tanta virtude, parecia-me um passo digno de louvor.
+Congratulei-me até da minha idéa, e suppuz que o espirito de minha mãi,
+a quem eu pedira remedio, m'a tivesse suggerido da sua bemaventurança.
+
+«Eu não podia esconder o meu contentamento. Meu pai, que me deixára a
+chorar, voltando, reparou na repentina mudança, porque os meus olhos
+inquietos e ardentes seguiam a bella imagem da vida, que voejava diante
+de mim, chamando-me para um futuro que os meus labios abençoavam com um
+sorriso.
+
+«Minha madrasta, agourando o que mais lhe convinha desta alegria,
+pensava que duas ou tres palavras que seu filho me dirigira, ao jantar,
+operaram estranha mudança em mim.
+
+«Francisco de Proença enganado por sua mãi, e mais ainda pelo seu
+orgulho, julgou que o milagre da mudança se devia a essas palavras
+aborrecidas que me dera. Como quizesse convencer-se e convencer sua mãi
+e convencer-me a mim do poder fascinante da sua lingua, fallou muito,
+penso que contou muitas anedoctas de estudantes de Coimbra, e com tal
+affectação o fazia que me causava tedio, posto que eu, apenas por
+cortezia, dissimulava escutal-o. Eu estava d'alma e coração embebecida
+na minha fuga, e não tirava os olhos da assustada agulha do relogio.
+
+«Meu pai disse algumas vozes baixas a minha madrasta, e entre estas ouvi
+proferir a palavra «theatro.» Foi uma nuvem negra que escureceu toda a
+alegria da minha alma. Notou-se em mim a repentina transfiguração; e
+Francisco de Proença, que estava conversando commigo, perguntou-me se me
+sentia incommodada, chamando a attenção de meu pai. Expliquei o
+descóramento por uma vertigem costumada, e pedi licença para entrar no
+meu quarto.
+
+«Ahi, d'onde pouco antes sahira douda de jubilo, entrei afflictissima. A
+ida ao theatro vinha baldar os nossos planos. Estava a anoitecer e eu
+não tinha por quem avisar Vasco. Os criados de casa tinham a confiança
+de meu pai, e as criadas a da minha madrasta. Entre estas, porém, havia
+uma que se mostrava minha amiga. Foi essa a que mandaram para ao pé de
+mim, logo que minha madrasta me deixou deitada n'um canapé
+recommendando-me, logo que o incommodo me passasse, me fosse vestindo
+para irmos a S. Carlos. A minha angustia não me deixou reflectir. Eu
+disse á criada que estava muito attribulada, e só ella podia valer-me.
+Pedia-lhe que chegasse ella n'um instante a levar-me um escripto a D.
+Maria Maldonado, sem que ninguem de casa o soubesse. A criada
+respondeu-me que sim sem hesitação, e viu-me tirar d'entre os colchões
+uma escrivaninha. Escrevi algumas linhas apressadas, e ella sahiu,
+dando-me um beijo de Judas, quando eu, lavada em lagrimas de gratidão,
+lhe dava um abraço de infeliz soccorrida em extremos de afflicção.
+
+«Principiei a vestir-me, applicando o ouvido aos passos da criada, que
+eu esperava anciosamente. Passou-se uma hora, e ella sem chegar. Sahi do
+meu quarto, perguntei a outra criada por ella: disse-me que estava na
+cama com uma dôr de cabeça.
+
+«N'isto appareceu meu pai, e disse-me com ar mais grave que o seu
+costume:
+
+--Menina, vamos, que está sua madrasta já na sege.
+
+«Eu pretextei uma falta para entrar no meu quarto. O que eu queria era
+de fugida perguntar á criada se entregára o bilhete; meu pai, porém,
+acompanhou-me até ao meu quarto, viu-me pegar d'um lenço, e não me
+deixou sosinha um instante até me deixar na sege, onde depois entrou
+Francisco de Proença.
+
+«Meu pai disse que iria a pé, e só mais tarde, porque tinha de fazer uma
+inspecção ao quartel.
+
+«Que anciedade a minha até entrar no camarote! De lá procurei na platea
+Vasco. Se elle estivesse, ficava eu tranquilla: era signal de ter
+recebido o meu bilhete. Não estava, nem entrou jámais! Jesus! como me
+era custoso esconder as lagrimas e o alvorôço! Que horas de inferno
+aquellas! Logo que entrou em minha alma a suspeita de ter sido
+atraiçoada, tive a tentação de sahir do camarote, sob qualquer pretexto,
+e fugir.
+
+«Meu pai entrou ás onze horas e meia. Estava a findar o espectaculo.
+Procurei ver-lhe a alma nos olhos. Pareceu-me socegado, e sem reserva.
+
+«Fomos para casa. Vi a pé todas as criadas, menos a portadora do
+bilhete. Reviveram as minhas suspeitas. Entendi que a infame não tinha
+animo de confrontar-se commigo, depois da traição.
+
+«Procurei entre os colchões a escrivaninha. Lá estava tudo como eu o
+deixára, e ao pé os massos das cartas de Vasco.
+
+«Não me deitei. Estive toda a noite accumulando conjecturas, qual
+d'ellas mais desgraçada. Cheguei a abrir subtilmente a porta do meu
+quarto, para ir á cama da criada. Fui palpando ao longo d'um corredor;
+mas a porta que determinava este corredor, e nunca se fechara,
+encontrei-a fechada! Então, sim, comprehendi que meu pai soubera tudo; e
+d'ahi em diante estudei a maneira de fugir de dia. A ancia facilitava-me
+o passo. Resolvi sahir disfarçada com um capote de criada, até encontrar
+um rapaz que me ensinasse as ruas. N'esta esperança desafogou o meu
+coração. Esperei o dia; e, logo que senti passos, pedi que me abrissem a
+porta do corredor. Respondeu-me um criado que ia procurar a chave; e
+voltou, dizendo que a devia ter o snr. coronel porque ninguem dava
+noticia d'ella.
+
+«Senti-me capaz de tudo. Tive odio a meu pai nesse momento, odio foi
+esse que o tempo não conseguiu desvanecer em minha alma. É que desde
+esse dia tenho chorado sempre, e o meu odio nutre-se de lagrimas...
+Senti até o desejo de matar a criada, que me atraiçoara. Desconhecia-me!
+Vi-me casualmente a um espelho, e os meus olhos tinham um fulgor
+sinistro, os meus labios pareciam crestados pelas palavras de maldição
+que passaram n'elles contra o meu tyranno.
+
+«Abri a janella do meu quarto, com a intenção de fugir por ella.
+Morreria, se o tentasse. Recuei diante da idéa da morte sem justificação
+aos olhos de Vasco e de sua mãi, que me chamara _sua filha querida_.
+Lancei-me aos pés da Virgem, que fôra de minha mãi, e ergui-me sem
+esperança, sem o allivio que Deus concede aos que supplicam a sua
+misericordia.
+
+«Eram nove horas da manhã quando se abriu a porta, e entrou meu pai.
+
+«Não escondi as lagrimas, e elle, fingiu que as não via.
+
+--Leocadia, disse elle, vem ahi o almoço. Depois de almoçar, veste-te
+que vamos passar o dia a uma quinta de Campolide.
+
+«Meu pai!...» murmurei eu.
+
+--Que queres tu Leocadia?--disse elle com um ar de fria seriedade que me
+gelou as palavras, e sahiu.
+
+«Vesti-me, fazendo sahir o taboleiro do almoço. Minha madrasta entrou no
+meu quarto, com affectado sobresalto, perguntando-me por que não
+almoçava. Disse que não podia, e ella retirou-se, passando-me a mão pela
+face, e dizendo com abominavel meiguice: juizinho, minha filha,
+juizinho.
+
+«Indignou-me este carinho hypocrita como um insulto. Perguntei-lhe com
+altivez o que queria dizer a sua recommendação, e ella, carregando o
+sobr'olho, replicou: A culpa tem quem a quer fazer feliz, sua pobre
+soberba.
+
+«A raiva não me deixou articular senão sons inintelligiveis. Minha
+madrasta sahira com impeto, resmungando palavras, que eu não entendi.
+
+«Vieram dizer-me que esperava a sege. Sahi do meu quarto com a tenção de
+procurar de relance a criada; mas, ao cabo do corredor, estava meu pai,
+lançando-me um olhar severo.
+
+«Entrei n'uma sege com minha madrasta. Meu pai entrou n'outra com
+Proença.
+
+«Atravessamos Lisboa sem trocarmos uma palavra.
+
+«Apeamos no portão de uma quinta. Proença offereceu-me o braço, e
+perguntou-me que soffrimento era o meu que se denunciava no rubor dos
+olhos. Eu ia responder-lhe, com franqueza cruel, contando-lhe a minha
+vida em relação a elle, quando meu pai nos impoz silencio com a sua
+presença.
+
+«Passeamos uma hora entre os arvoredos da quinta. Ahi não lhe sei dizer
+que desesperada saudade me golpeava a pedaços o coração! No ruido da
+folhagem parecia-me ouvir o chorar gemente do meu Vasco. O fallar de
+Proença, e as risadas estupidas de minha madrasta, davam aos meus
+ouvidos o som infernal d'uma ironia de demonios á minha angustia.
+
+«Queria-me esconder sosinha por aquellas murtas; mas a comitiva
+amaldiçoada seguia-me constantemente, e as attenções delicadas de
+Proença provocavam-me sempre uma visagem de desdem.
+
+«Com elle só quizera eu estar para dizer-lhe que o aborrecia; porém, não
+nos deixavam juntos, porque meu pai receava isso mesmo.
+
+«Estive um instante sosinha á beira d'um tanque. Meu pai veio ahi
+encontrar-me a chorar. Sentou-se ao meu lado, e disse-me affavelmente,
+tomando-me a mão:
+
+--Leocadia, conspiraste contra teu pai. Cuspiste com feia ingratidão na
+face do amigo que tudo te sacrificou, e até a sua liberdade vendeu a
+preço do teu bem-estar. Antes de hontem, fallei-te como amigo,
+esquecendo que era pai. Cuidei que tocára o teu coração, e abençoei o
+céo por me ter dado um anjo d'amor onde eu poderia ter encontrado uma
+filha rebelde. A tua docilidade encheu-me de orgulho e alegria, orgulho
+por ter tal filha, e alegria por vêr tão galardoados os meus
+sacrificios. Deixáste o meu espirito em paz com as suas tenções. Vi que
+se realisava o bello futuro que eu planisara para ti, e tamanha
+confiança puz na tua razão, que eu iria jurar que ninguem teve uma filha
+mais virtuosa. Enganaste-me, Leocadia, ou eu me enganei com o teu
+silencio. A vibora, que eu creára no seio, e acabava de afagar,
+mordeu-me cruelmente, ferindo-me talvez de morte. Em quanto eu velava a
+tua felicidade, tramavas tu a minha deshonra e a tua... Não me
+interrompas... é teu pai que falla e te impõe silencio, Leocadia.
+Premeditavas a tua fugida; trocavas teu pai, que conheces ha dezoito
+annos, pelo homem que viste hontem; trocavas a tua invejada reputação
+pela fama que segue á mulher que deixa no limiar da casa paterna
+abandonada os diplomas da sua virtude. Estás já deshonrada por intenção,
+filha; mas eu, desgraçado pai, serei ainda a tabua de salvação para ti.
+Fiz a accusação. Agora vou condemnar-te: estás perdoada; beija a mão do
+teu juiz, porque a justiça d'um pai tem em si o reflexo da misericordia
+de Deus.
+
+«Estas palavras tinham-me sob o peso d'uma fascinação dolorosissima.
+Levei machinalmente aos labios a mão que se me offerecia, e banhei-a de
+lagrimas. E eu não podia fallar, suffocada por soluços. Fazia-me
+compaixão o olhar aguado de meu pai; porém... não saberei dizer que
+terrivel qualidade de sentimentos luctavam em minha alma!... Entre a
+cabeça e o coração havia uma barreira insuperavel. O coração regeitava o
+amoroso perdão d'um pai despotico. A cabeça curvava-se diante da
+magestade das suas cãs, e mais ainda dos seus queixumes. Quando, porém,
+nesse instante, não senti extinguir-se o odio que me abrasára na manhã
+desse dia, é porque elle seria eterno, é porque o meu amor a Vasco era
+immenso, superior ao instincto filial, aos vinculos de sangue, e até á
+minha propria reputação.
+
+«Não respondi. Cruzei as mãos na face, e não sei que tempo meu pai
+esperou a resposta. Elle tinha sahido de ao pé de mim, e voltou com um
+ramo de flores.
+
+«Aqui tens, minha filha--disse elle--o ramo de paz entre nós. Ha-de
+haver dez annos que te dei um ramo neste mesmo sitio. Foi quando vieste
+da provincia para entrares no collegio. Olha esse olmo que está atraz de
+ti e lá verás uma inicial e uma data. Já então scismei aqui muito no teu
+futuro. Prometti a mim mesmo trazer-te aqui, já senhora, para te mostrar
+essa data, que marca uma hora das horas attribuladas que só um pai,
+extremoso e pobre, sabe comprehender. Mal diria eu então que a minha
+segunda visita a este logar seria solemnisada pelas lagrimas de ambos
+nós! Repara que eu tambem choro, Leocadia.
+
+«Ergui os olhos timidos para meu pai, e não pude conter-me. O
+resentimento calou-se um instante. Abracei-o com devoção, e, nesse
+instante... só o via a elle, só sentia por elle... a imagem de Vasco
+fugira por não poder vencer as cãs d'um velho soldado chorando...»
+
+..........................................................................
+
+Neste momento, Leocadia suspendeu-se. A sua physionomia macilenta e
+descarnada pendeu para o seio. Uma lagrima das que vem ferventes do
+coração desceu-lhe na aridez da face, e sumiu-se logo como fio d'agua em
+terreno afogueado.
+
+E eu, que nem hoje ainda posso, com animo frio, contar uma vida que me
+hão-de receber como chimera, chorava tambem.
+
+
+XIII.
+
+O coronel, com palavras meigas, animára a filha a perguntar-lhe se o pai
+a violentava a casar com Francisco de Proença.
+
+A isto respondeu o pai, mudando de tom:
+
+«Eu, até aqui, empreguei todos os esforços da razão para convencer-te de
+que a docilidade ao querer d'um pai, que deseja dar-te um futuro certo,
+não é violencia, é juizo. Ora, se tu, minha filha, queres mudar o nome
+ás cousas, a obrigação d'um pai é ouvir a sua vontade experiente, e
+cerrar severamente os ouvidos ao querer irreflectido d'uma criança. Se
+ha um Deus, que julgue as tolerancias d'um pai com os caprichos d'uma
+filha, grandes contas eu daria, Leocadia, consentindo-te o alvedrio da
+escolha entre Vasco da Cunha e Francisco de Proença. Não quero o remorso
+de tamanha culpa, porque te amo muito, e muito preso a minha dignidade,
+e a minha palavra. Proença sabe que é teu noivo. Fui eu que lh'o disse,
+e basta.
+
+«Sou honrado, minha filha; e, como não tenho outra herança a legar-te,
+faço quanto posso por te deixar em posição de a receberes, e guardares,
+como eu a recebi e guardei. Á mulher pobre é mais difficultoso manter-se
+no decoro. Os appellidos de teu pai nada valerão, se os não fizeres
+resplandecer nesse invejado posto de honra, que se esteia nos bens da
+fortuna.
+
+«A virtude pobre é uma virtude obscura, que, nestes tempos de egoismo e
+pompa, se a não soffrea a rédea da religião, troca de bom grado os seus
+fóros de honra ignorada pela ostentação brilhante do vicio. O que eu
+tenho querido é rodear-te dos bens passageiros e miseraveis que o vulgo
+venera para que as tuas virtudes deem assim nos olhos das pessoas que
+não são vulgo.
+
+«Eu não sou d'aquelles pais, que aconselham a desobediencia aos filhos
+alheios, e lhes dão um logar na sua sege, cuidando que assim os poupam á
+deshonra e ao crime... Maria Maldonado...
+
+«Leocadia estremeceu, erguendo piedosamente os olhos para o coronel.
+Nesse olhar, disse ella que implorára o respeito de seu pai ao amor
+d'aquella mãi.
+
+«Maria Maldonado--proseguiu elle entendendo o olhar da filha--parece que
+renegou da virtude que foi até hontem a conselheira de todas as suas
+acções. Praticou um feito que a desabona, embora seu filho, por ser
+criança, tenha ido chorar no seio d'ella, como menino amuado pelas
+travessuras dos irmãos.
+
+«Leocadia, suffocada pelos soluços, apiedou o pai, que não teve animo de
+continuar. Dando-lhe o braço, passeou com ella, e as poucas palavras que
+lhe disse eram brandamente conciliadoras. Levou-a para longe da
+madrasta, cuja aproximação a fizera empallidecer. Pediu-lhe que se
+esforçasse por não denunciar a scena violenta que se dera entre elles.
+Leocadia fez quanto podem humanas forças. Mentiu ás averiguações de
+Proença com um sorriso, que tanto podia ser timidez, como ironia.
+Gervasio foi prodigo de carinhos a sua filha durante aquelle dia, e
+lançava um olhar de revez a sua mulher, quando esta, ferida de reflexo
+no amor proprio de seu filho notava a frieza com que Leocadia lhe
+acolhia os ditos arguciosos.
+
+Agora me ensina tu, ó musa, o que o coronel Gervasio disse a Maria
+Maldonado.
+
+Ás dez horas e meia entrou D. Maria na sua sege, e disse a seu filho,
+teimoso em acompanhal-a de longe, que a não seguisse.
+
+Juntamente com ella, entrou o capellão da casa, padre velho, que
+resmungára longo tempo contra a crueza de o não deixarem deitar ás nove
+horas, por causa d'uma expedição em que elle não fôra consultado.
+
+Eram trezentos passos da casa de Vasco á do coronel. D. Maria fez parar
+a sege defronte do mosteiro de Santa Anna, e foi com o padre collocar-se
+poucos passos distante da casa de Leocadia.
+
+Esperaram um quarto de hora, sem ouvirem rumor nas portas da casa.
+Precisamente ao soarem onze horas, um vulto se avisinhou de D. Maria, e
+ousou metter-lhe a cara, que ella procurava esconder nas costas do padre
+atrapalhado.
+
+«Não se esconda, snr.ª Dona... (disse o coronel) Não pronunciarei o seu
+nome, minha senhora, porque ouço sempre com reverencia pronunciar o nome
+de seu defunto marido, e não quero que possa alguem saber que a mulher
+do meu general está parada n'uma rua de Lisboa ás onze horas da noite.
+
+D. Maria estava em tremuras, como se a surprehendessem n'um crime. As
+palavras do coronel tinham só o tom urbano a neutralisar-lhes o agro da
+ironia, e o virulento da reprehensão. O padre estava naturalmente de
+bocca aberta, como quem diz «eu não dei para isto prego nem estopa.» Não
+lhe occorria idéa alguma á attribulada senhora, quando o coronel,
+offerecendo-lhe o braço, disse:
+
+«Não a convido a entrar em minha casa, snr.ª D. Maria, porque em minha
+casa não está senhora alguma. Se v. exc.ª, porém, me permitte
+acompanhal-a á sua, ou seguir a sua sege, receberei a honra de lhe dizer
+duas palavras.
+
+--Aceito o offerecimento...--disse D. Maria reanimada pela confiança que
+pôz no dom persuasivo das suas palavras sobre a vontade pertinaz do
+coronel.
+
+Na sege não cabiam tres pessoas. O coronel disse que iria a pé. O padre
+parecia, por seu silencio, consentir em ir como viera; D. Maria, porém,
+disse ao padre que cedesse o seu logar.
+
+O capellão sorveu uma pitada de simonte, puxou para as orelhas a gola do
+seu capote de castorina parda, e lá foi de seu vagar, ruminando
+philosophicamente aquella diabrura.
+
+Poucas palavras deram um ao outro, na sege. Quando esta parou,
+ouviram-se passos velozes saltando as escadas. O coronel apeára para dar
+a mão a D. Maria. Vasco surgia no limiar do portão justamente no
+instante que sua mãi entrava pelo braço do coronel.
+
+O nosso amigo recuou estupefacto, e soltou uma interjeição de espanto,
+que tanto podia ser _ah!_ como _oh!_ como _ui!_
+
+Gervasio levou a mão ao boné, e disse risonho:
+
+«Boas noites, snr. Vasco... Acha-me, talvez, muito barbado para noiva?!
+
+D. Maria apertou-lhe o braço, murmurando:
+
+--Não zombe do infortunio, snr. Gervasio... Eu tenho direito a esperar a
+continuação da sua delicadeza...
+
+«É um direito de que eu a não privarei, minha senhora. Serei delicado
+com o filho como o fui com a mãi... Por isso mesmo, rogo a v. exc.ª que
+mande seu filho assistir ás duas palavras que devo dizer-lhe.
+
+--Vem, filho...--murmurou D. Maria, ao mesmo tempo que o coronel
+estendia affectuosamente a mão a Vasco, bastante pundonoroso para
+regeital-a.
+
+«Recusa?!--disse o pai de Leocadia, franzindo a testa com sobranceria
+militar.
+
+--Então, Vasco?!--acudiu D. Maria, movendo o filho a curvar-se com
+humildade diante do coronel.
+
+«Quer que subamos, snr.ª D. Maria, ou mesmo aqui me escuta?--disse
+Gervasio com mal disfarçado azedume.
+
+--Não, senhor, subamos. Vens comnosco, Vasco?
+
+«Se minha mãi ordena...
+
+--Ordeno, sim.
+
+Já na sala de espera, o coronel, dispensando entrar na immediata, fallou
+assim:
+
+«Eu disse com cordial sinceridade ao snr. Vasco, em minha casa, que
+minha filha, pelo facto de ser minha filha, não podia ser sua mulher.
+Não lh'o disse com esta rudeza, porque o sentimento que seu filho dedica
+a Leocadia é respeitavel, em quanto está dentro dos limites que a honra
+prescreve a cavalheiros que se abonam de appellidos, synonimos da honra
+e da probidade.
+
+«O snr. Vasco sahiu de minha casa promettendo-me não desmerecer da
+opinião em que o tive. Maravilhou-me a coragem da virtude em annos tão
+verdes! Pareceu-me vêr n'este pequeno corpo a grande alma do bravo que
+lhe deu o nascimento.
+
+«Pesa-me dizer que me enganei, e o snr. Vasco deve esconder a face
+envergonhada diante de mim, e cortar essa mão que ainda agora hesitou
+apertar a minha, que lhe offereci com demasiada generosidade, ou pouco
+brio. Se o pundonor devesse aconselhar a algum de nós o despreso, o
+despresivel de certo não seria eu, porque o enganado, o atraiçoado não é
+v. exc.ª, snr. Vasco da Cunha.
+
+«Adiante: e não se estorça, escutando-me, snr.ª D. Maria: eu estou de
+certo contando a v. exc.ª uma novidade.
+
+--Duvido que meu filho...--interrompeu a pobre mãi.
+
+«Duvida que seu filho?...
+
+--Promettesse a v. exc.ª renunciar ao amor de sua filha...
+
+«Eu não disse tal. Quiz dizer que o filho de v. exc.ª me prometteu
+desviar as suas attenções de minha filha, de modo que ella não
+conspirasse contra a minha vontade. Snr. Vasco, isto é exacto?
+
+Vasco não respondeu: lançou a sua mãi um olhar de tortura intima, um
+olhar que pedia um pretexto para elle sahir d'alli. O que se passava no
+coração do infeliz moço não sei contal-o. Inferno?... inferno, sim, que
+nenhuma religião inventou ainda, devia de ser!
+
+Se o examinassem de perto, vêr-lhe-hiam coberta a fronte d'um glacial
+suor. Todo elle tremia como sacudido pelos embates que o coração lhe
+dava no peito. Uma só idéa, synthese horrivel de todas, o predominava
+então: o desejo de morrer logo alli.
+
+A infeliz mãi comprehendeu tudo, viu tudo, sentiu tudo!
+
+Pediu licença ao coronel, ergueu-se, tomou a mão do filho, e disse-lhe:
+
+--Vai para o teu quarto, Vasco. Eu não me demoro aqui... lá vou ter já.
+
+Vasco sahiu, curvando ligeiramente a cabeça, quando passava diante do
+coronel.
+
+«Pobre criança!...» disse comsigo o pai de Leocadia; e nestas palavras
+dissera tudo o que nós poderiamos dizer e sentir em largos commentarios.
+
+Pobre criança, sim, que não soube erguer a fronte, embora marcada com o
+stygma da deslealdade, e dizer ao seu accusador e juiz: «mentes» Pobre
+criança, que não sahiu d'alli a procurar duas testemunhas, que, no dia
+seguinte, o vissem morrer ás mãos do coronel, ou cravar um florete no
+seio onde se embalara Leocadia! Pobre criança, que succumbiu, como
+succumbe a honra ferida pelo remorso, á reprehensão do tyranno que lhe
+vem diante de sua mãi, lançar em rosto a ignominia da perfidia!
+
+Ausente Vasco, D. Maria voltando-se com senhoril altivez para o coronel
+disse:
+
+--Pouco mais terá que me dizer, creio eu.
+
+«Pouco mais, minha senhora; mas esse pouco é importante.
+
+--Se é uma censura ao meu procedimento, digne-se omittil-a, por que sou
+eu a propria que me censuro.
+
+«Então, snr.ª D. Maria, disse tudo. Faltava-me perguntar-lhe se posso
+viver em paz com a minha familia. Visto, porém, que v. exc.ª se
+reprehende pela parte inconveniente que tomou nos amores do snr. Vasco,
+posso retirar-me com a certeza de que fica suspensa a sua
+correspondencia com a minha filha.
+
+--A minha? interrompeu ella.
+
+«A de v. exc.ª, queria eu dizer.
+
+--E eu digo a v. exc.ª--replicou D. Maria sensivelmente agastada--que
+sou mulher, e não posso dar ás suas ironias uma resposta condigna.
+
+O coronel soltou um frouxo de riso, cuja intenção é difficil entender.
+Era um destes risos _subjectivos_, (concedam o epytheto) cuja imagem
+está dentro da pessoa que ri.
+
+D. Maria, enraivecida pela desconsideração, interrogava-o com um olhar
+soberbo. O coronel, erguendo do pavimento a espada, e sobraçando-a,
+inclinou profundamente a cabeça, recuou até á porta, e disse:
+
+«Muito boas noites, minha senhora.»
+
+Ora aqui está o que se passou, até que o coronel entrou no camarote.
+
+
+XIV.
+
+Quinze dias depois ha um convite para casa do coronel: janta-se, e
+dança-se; festeja-se o casamento da sympathica Leocadia com o morgado de
+Sinfães, Francisco de Proença.
+
+Alto lá, senhor romancista! Não se escreve assim um romance. Vossê assim
+desacredita-se, e ámanhã não tem quem o leia. Quando a gente cuida que
+está no melhor do romance, o bom do homem, mette-se em duas semanas n'um
+carril a vapor, e vêl-o ahi vai levado com a historia no sacco de noite,
+de maneira que uma pessoa, que lhe faz o favor de o lêr, pedindo o livro
+emprestado, fica sem saber o que fez Leocadia, o que fez Vasco, o que
+fez a mãi, a madrasta, o noivo, o que fizeram todos, durante quinze
+dias! Isto é uma escandalosa empalmação!
+
+Senhoras e senhores meus, v. exc.as de certo conhecem muitas meninas na
+posição de Leocadia. Posição trivialissima, aliás. É uma pobre rapariga
+a amar um homem pobre; mas tem um pai a querer casal-a com um homem
+rico. Chora, arrepella-se, promette matar-se, se a morte não vier
+espontaneamente. O pai teima, o homem rico teima, o homem pobre não póde
+teimar, ainda que queira. Por fim, a menina faz a vontade ao pai, ao
+noivo rico, á sociedade torpe, casa e dança por comprazer no dia em que
+casa, e almoça com pouco appetite, no dia seguinte, com mais algum no
+outro dia, e assim successivamente, até engordar. Isto é muito simples,
+e muito rotineiro, não é verdade?
+
+É. Então de que se espantam, se eu lhes digo que uma mulher, de carne e
+osso como v. exc.as, fez o que v. exc.as fizeram, viram fazer, ou farão?
+
+Alto lá! tambem eu digo. A minha pobre Leocadia, se hoje vivesse, e
+lesse essa pagina infanda que ahi fica, cobril-a-hia de lagrimas de
+remorso por me haver feito seu confidente. Perdôa-me, minha santa amiga!
+Eu tive-te um instante suspensa por uma hypothese cruel sobre o charco
+em que patinham muitas georgianas de chinellos, que por ahi se vendem
+para o harem de sujos pachás, que ao passarem a linha, lavaram a cara
+dos ferretes de sangue com que sahiram do açougue humano.
+
+Se eu fizesse uma criminosa omissão de tuas lagrimas, o mesmo seria
+pisal-as, Leocadia.
+
+Se eu te rebaixasse a transigires com o dinheiro de teu marido,
+mascarando-te com a obediencia filial, daria comtigo regalo e galardão a
+estas mulheres de almoeda, que, na alma, não valem mais que as de
+Babylonia, e no corpo não valem tanto.
+
+Não, espirito que me vês da tua gloria, eu contarei as tuas lagrimas; e,
+se não rasgo as paginas que escrevi, estremal-as-hei por um traço negro
+das que tu me segredaste nas fugitivas noites em que este gemer do mar,
+que ouço agora, vinha casar um murmurio melancolico á tua narração.
+
+
+XV.
+
+Leocadia era vigiada por toda a familia. Triste, sombria, e taciturna,
+causava suspeitas ao coronel, que postára militarmente o auxiliar, de
+sentinella, no pateo, de dia e de noite.
+
+Quasi sempre no seu quarto, Leocadia meditava fugir. Não achava, porém,
+o exito feliz dos seus planos. A fuga pela porta, unica evasiva que
+tinha, era impossivel. Desanimada, toda a sua valentia moral reservou-a
+para dizer «não quero» logo que seu pai a mandasse vestir-se para ir
+receber a benção nupcial. Firme neste proposito, esperava, com coragem e
+juramento de morrer, a hora da lucta horrivel, a formal desobediencia,
+todas as torturas que podesse inflingir-lhe o pai irritado.
+
+Tinham decorrido dous dias depois do passeio a Campolide, quando uma
+antiga criada, que já o fôra da primeira mulher de Gervasio, voltou da
+provincia, onde fôra visitar os seus parentes. Esta criada era aquella
+Thereza, que eu vi na Foz.
+
+A situação de Leocadia melhorou, porque Thereza chorava com ella,
+aconselhando-lhe ao mesmo tempo obediencia a seu pai. O coronel, tambem
+amigo da velha criada, pedia-lhe que desvanecesse com suavidade do
+coração de sua filha uma paixão que fazia a infelicidade de todos.
+
+Thereza não podia tanto. Conheceu as intenções da menina, e disse-as ao
+coronel, affirmando-lhe que ella se deixaria matar, mas casar, não.
+
+Depois de cinco dias de desgostos para o pobre pai, e de irritações
+orgulhosas da madrasta, e suspeitas más de Francisco de Proença, e
+continuadas lagrimas e reclusão de Leocadia, o coronel queixou-se de
+violentas dores de cabeça, e febre.
+
+Apenas se recolheu á cama, Leocadia foi sentar-se á cabeceira do seu
+leito. Quando os medicos disseram que se declarava uma febre maligna, o
+sobresalto operou uma subita mudança nas maneiras de Leocadia.
+
+O sentimento desvaneceu-se. Quantas caricias uma boa filha tem no
+coração todas ella empregou para adoçar as amarguras do pai enfermo.
+
+O coronel queixou-se de serem desgostos moraes, causados por ella, os
+que o tinham levado áquelle extremo. Leocadia lançou-se aos braços
+febris de seu pai, pedindo-lhe perdão, e voltou-se a Nossa Senhora,
+promettendo sacrificar-se ao homem que lhe destinavam se seu pai
+recuperasse a saude. O coronel não ouvira o voto, mas adivinhou o
+silencio de sua filha.
+
+Ao setimo dia a febre recrudesceu. Eram curtos os intervallos da lucidez
+que o delirio lhe consentia. N'um d'esses intervallos, o enfermo chamou
+sua filha, e disse aos assistentes que se retirassem.
+
+Pungentes palavras foram estas:
+
+«Leocadia, creio que morro. Deixo-te, minha filha, n'um mundo que não
+conheces. Parto, e tu ficas só. Quando eu fechar os olhos, fecharam-se
+para sempre os unicos olhos que te viam com amor. Ficas sem parentes. De
+tua mãi, ninguem já vive. De teu pai, tens dous tios no Brazil, que te
+não conhecem. Que farás tu, filha, quando me levantarem morto desta
+cama?
+
+--Meu pai!--exclamou Leocadia com vehemente afflicção--meu querido pai,
+não pense que morre...
+
+«Morro, filha, morro; e, se a minha agonia fôr trabalhosa, é o coração
+que se despedaça, separando-se de ti... Sem ti, morria tranquillamente.
+Estou cançado, porque nunca soube o que era a felicidade nesta vida; a
+da outra... a da outra, meu Deus, vós sabereis se eu a mereci com a
+paciencia... Leocadia, queres que eu acabe em paz, que eu expire
+abençoando-te?
+
+--Sim, sim, meu pai... quero que viva, abençoando-me!--bradou ella,
+beijando-lhe as mãos afogueadas.
+
+«Então, filha, cumpre a minha vontade. Liga-te a esse homem que te ha-de
+estimar, porque eu lh'o pedirei á minha ultima hora. Tu has-de ser feliz
+com elle; has-de olhal-o sempre como o amigo que teu pai moribundo te
+escolheu. Se elle te der algum motivo de soffrimento, quem os não tem
+neste mundo?! Se soffreres, offerece-me as tuas dores e eu virei em
+espirito agradecer-te o sacrificio. Serás então consolada, filha, pela
+memoria de teu pai, que pensava fazer-te venturosa, embora se enganasse.
+Responde-me, Leocadia... Casas com Francisco de Proença?
+
+Leocadia tirou das entranhas um gemido, um soluço suffocante, e com elle
+uma palavra que parecia a ultima da vida que vai n'ella:
+
+--Sim...--disse ella.
+
+O coronel, vencendo a fraqueza com grande esforço, pôde ainda sentar-se
+no leito, alongando os braços para ella. A filha sustentava no hombro a
+cabeça esvahida do enfermo, e refrigerava-lhe com lagrimas a mão
+convulsa.
+
+Seguiram-se minutos de silencio. Ouvia-se apenas o soluçar de ambos.
+
+O coronel desprendeu-se dos braços da filha, e pendeu a cabeça para o
+travesseiro. O sangue batia-lhe vertiginoso nas frontes. As palpebras
+cerraram-se. Phrases interrompidas sahiam-lhe dentre os labios seccos e
+quasi immoveis. Leocadia, assustada, chamou gente. A madrasta, vendo o
+lethargo do marido, voltou-se para a enteada e disse com rancor:
+
+«Quem mata meu marido é a senhora!
+
+Veja a que estado o reduziu! É uma parricida snr.ª D. Leocadia!
+
+Ha-de dar terriveis contas a Deus de ter arrastado seu pai á
+sepultura... É uma filha amaldiçoada!»
+
+Leocadia, não teve animo para responder-lhe. Pôz os olhos em seu pai, e
+disse-lhe em seu coração: «Vós bem sabeis que não é verdade o que ella
+diz!» e sahiu, apertando a cabeça com as mãos.
+
+A medicina cobriu de causticos o doente. Os tormentos deram-lhe com a
+irritabilidade uma vida de emprestimo. Dous dias se seguiram de
+esperanças, porque o delirio era menos frequente, e alguns instantes de
+dormir tranquillo vieram reparar-lhe as forças.
+
+O coronel chamou a filha, tendo ao pé de si Francisco de Proença, e sua
+mãi.
+
+Á cabeceira d'elle estava um crucifixo e duas luzes. Eram os
+preparatorios para o recebimento da extrema-uncção. O enfermo pedira um
+confessor, que se achava já no quarto.
+
+«Aproxima-te desta cruz, Leocadia--disse elle com energia--snr.
+Francisco de Proença, eu entrego-lhe, minha filha. Comprehende o senhor
+a valia deste thesouro que lhe entrego? Sabe como eu queria que o senhor
+amasse esta creatura?
+
+--Amal-a-hei quanto se póde amar nesta vida... disse Proença, sentindo
+eriçarem-se-lhe os cabellos, commovido pela religiosidade do acto.
+
+«Minha filha, ajoelha diante de Deus que nos escuta, e pede-lhe que faça
+duraveis os bons sentimentos no coração de teu esposo, e que te faça a
+ti sempre digna d'elles.
+
+Leocadia ajoelhou, e Francisco de Proença, arrebatado pelo bello funebre
+do lance, ajoelhou a par com ella.
+
+E oravam todos mudamente. O coronel tinha as mãos erguidas. O padre
+confessor, quebrou o silencio, erguendo-se, e tomando as mãos de
+Leocadia.
+
+«Estão accesas as luzes do altar.
+
+A menina prepare-se, que eu quero ter o jubilo de ser o ministro deste
+sacramento! Que união de tão bom agouro... Vamos, filhos.»
+
+O frade graciano enchia a poesia santa do grupo!
+
+Leocadia sahiu com sua madrasta.
+
+Parecia somnambula. Julgal-a-hieis sem idéa, sem vontade, sem
+consciencia do que fazia. Vestiram-na. Entrou n'uma sege, achou-se
+ajoelhada no arco d'uma igreja, respondeu umas palavras que lhe
+ensinaram, e viu-se sosinha com um homem, na sege, onde viera com sua
+madrasta.
+
+Conduziram-na ao quarto de seu pai. A vida então sahiu do lethargo.
+Leocadia achou abertos os braços paternaes para recebêl-a. Lançou-se a
+elles chorando, soluçando, arquejante, abafada por uma agonia, cuja
+intensidade ella não pôde explicar-me. O que me disse, para eu alcançar
+com os olhos d'alma a sombra da sua dôr, foi que, abraçando o pai na
+volta da igreja, se lhe figurara a imagem moribunda de Vasco, fitando-a
+com um olhar piedoso, em que parecia dizer-lhe: «perdoo-te a morte,
+Leocadia.»
+
+..........................................................................
+
+O coronel sobreviveu quatro dias aos desposorios de sua filha.
+
+O festim de nupcias foi um funeral.
+
+A noticia do casamento foram as cartas de enterro.
+
+A noiva despiu o vestido branco para se envolver no de crepe que nunca
+mais despiu.
+
+
+XVI.
+
+O pinhal do _Pastelleiro_ rumorejava brandamente, assoprado pelo ar da
+noite. O mar era uma immensa bacia d'aguas mortas. A lua mosqueava-lhe o
+dorso em escamas lucidas. O archanjo da poesia com o seu cortejo de
+chimeras volateis, brincava na alamêda das fontes murmurosas, gemia com
+o piar tristonho das aves queridas da noite, e sentava-se na peanha dos
+cruzeiros, que a projecção da luz assombrava no chão.
+
+Eu estava profundamente melancolico. E ao pé de mim viera sentar-se
+Leocadia, na pedra bruta, que ainda hoje vereis, servindo de tranqueira
+a uma cancella fronteira da casa.
+
+Acabára eu de ouvir o quadro que apenas esbocei no anterior capitulo.
+
+A narradora calara-se, e eu não ousára quebrar o seu religioso silencio.
+
+Eu bem vira que as suas palavras derradeiras eram um como tremulo
+gemido. Sentira vibrarem-lhe afflictivamente as fibras do coração, como
+se as ferisse a realidade dos successos que a gentil martyr recordava.
+
+E, por isso, o meu silencio era a expressão da pena, o pasmo em que nos
+deixa um espectaculo lugubre. Eu tinha em mim todas aquellas imagens,
+descriptas por ella como quem as entalhára com fogo no coração. Via o
+altar do tremendo sacrificio, via o leito do agonisante. As feições do
+coronel, apanhadas pelo regêlo do trespasse, essas, que eu nunca vira,
+todas se me desenharam na imaginação, sempre fertil de creações
+funebres. Ao pé de mim estava a heroina desta tragedia, ainda formosa,
+ainda opulenta de encantos, flôr orvalhada das lagrimas do céo para onde
+ella mandava continuamente o seu perfume.
+
+Que mulher é esta que eu encontrei na terra, para apertarmos as mãos
+n'um adeus para sempre?
+
+Que attribulada expiação a da minha alma que só póde chorar as penas
+d'ella!
+
+Não póde amar-me, não; eu sei que não póde, e offertar-lhe o meu amor
+seria injuriar a sua saudade!
+
+Para que te encontrei eu, santa!
+
+Estas ultimas palavras fugiram-me, como a revelação d'um sonho. Leocadia
+tocou-me ligeiramente no hombro, e disse:
+
+«Que é? Não sei o que disse...
+
+--Nada dizia--repliquei eu--Sonhava, minha querida irmã, sonhava. Sabe,
+minha amiga? Está-me pesando a vida. Não sei o que ha-de ser de mim...
+quando a perder. Abençoada seja a mão da morte, que baixou a apanhar de
+entre os felizes do mundo os que vieram com o condão da minha
+desventura.
+
+«Porque, meu amigo?!
+
+--Porque entre nós ha só de commum a confidencia d'algumas horas, a
+confidencia que não modera os impetos d'um desgraçado amor...
+
+«Oh! não diga, não diga isso outra vez...--atalhou Leocadia pondo-me a
+mão nos labios--Tenha pena de mim... Chame-me sua irmã, senão
+arrependo-me, sinto o primeiro remorso da minha vida...
+
+Beijei-lhe a mão, e murmurei:
+
+--Até ámanhã.
+
+«Sim? até ámanhã? quem sabe se nos veremos! De um momento para o outro
+posso ser mudada... E eu queria, meu irmão, queria acabar hoje a minha
+historia. Não sei que presagio me diz que não teremos outra noite
+assim... Mais alguns minutos... diz-se depressa o que falta... Quer?
+
+--Diga, diga, Leocadia; mas faça um juramento.
+
+«Juramento! qual?
+
+--Qualquer que seja o seu destino, se tiver vida, se tiver um instante
+seu, lembre-se de seu irmão, escreva-lhe uma palavra, uma só «vivo» só
+isto... jura?
+
+«Prometto, meu amigo, e não faltarei... E se lhe disser «morro» é que
+Deus me chamou para ao pé de Vasco...
+
+--Sim, sim, falle-me desse infeliz que a chama, desse amigo que a minha
+imaginação contrahiu... Morreu, sim?... e que morte!...
+
+«Eu quasi que o vi morrer.
+
+--Viu?! É horrivel, meu Deus!
+
+«Foi assim. Oito dias depois da morte de meu pai, Francisco de Proença
+perguntou-me se eu queria ir para o campo. Entreguei-me á sua vontade.
+Minha madrasta desejava sahir de Lisboa, para desafogar da sua saudade.
+Fomos para uma quinta entre Cintra e Collares.
+
+«Estavamos ahi havia um mez. Thereza, a meu pedido, escrevêra para
+Lisboa a quem a informasse de Vasco. Disseram-lhe que elle e a mãi
+estavam a ares em uma das quintas. Eu pedia por elle a Nossa Senhora
+todos os dias, muitas vezes, e com immensa fé.
+
+«Uma tarde, Francisco de Proença fôra á caça, e eu fui com Thereza
+passear para a banda de Collares. Havia no caminho uma azinheira, um
+sitio que respirava saudade, entrei por alli dentro, e fui ter a um
+portão de quinta, que tinha uma grande arvore. Sentei-me áquella sombra,
+vendo cahir as folhas, e comparando-as á queda de tantas, de todas as
+minhas esperanças. Estava assim absorvida, bebendo as doçuras do meu
+fel, quando o portão se abriu. Estremeci... Era um padre que sahia... o
+padre capellão de D. Maria Maldonado!
+
+«Elle fixou-me com espanto, e apenas me cortejou; esteve um pouco a
+olhar-me, e disse:
+
+--A menina não é a snr.ª D. Leocadia?
+
+«Sou, sim, senhor.
+
+--Então que faz por estes sitios?! disse elle admirado.
+
+«Vim a passeio... Moro n'uma quinta perto d'aqui.
+
+--Pois se quer entrar, eu dou parte á snr.ª D. Maria.
+
+«Como!?--exclamei eu--a snr.ª D. Maria Maldonado?!
+
+--Sim, minha senhora, está aqui com o snr. Vasco--disse-me elle--e o
+snr. Vasco vai dar contas a Deus brevemente.
+
+«Meu Deus! eu não posso lembrar-me do que então disse ou fiz. Entrei
+n'uma tremura de susto, de terror, de não sei que tormento novo para
+mim. Conheci que me fugia o entendimento, e a vista. Queria tirar-me
+d'alli, e não podia; ainda pedi a mão a Thereza, e já não pude dar
+passada. Desfalleci nos braços d'ella.
+
+«Voltando á vida, que a justiça de Deus não quiz levar-me, achei-me
+sentada n'um banco de pedra, n'um jardim. Ao pé de mim estava D. Maria.
+Fiz um esforço por ajoelhar-me aos pés d'ella. Susteve-me; e chorava,
+meu Deus, como chorava a pobre senhora!
+
+«É a vontade de Deus... disse-lhe eu, que aqui me trouxe. Queria vêl-o,
+minha querida mãi, diga-lhe que a mão do Senhor me conduziu aqui para
+receber o seu perdão... Mas eu não sou culpada... Meu pai estava a
+expirar... Morreria atormentado...» Ai... eu não sei o que disse, entre
+gemidos... D. Maria olhava-me com ar de compaixão, e consultava os olhos
+do padre. Este acenava negativamente. Não queria que eu visse Vasco... E
+eu estava de joelhos aos pés de D. Maria, quando ouvi proferir o meu
+nome, n'um grito. Olhei... era Vasco, abrindo uma vidraça. Era elle,
+livido como um espectro vestido de branco, com os olhos abrasados de
+delirio... A janella cahiu, Vasco desappareceu, e o padre subiu a correr
+umas escadas, em quanto D. Maria sustinha o meu arrebatamento.
+«Deixe-me, deixe-me vêl-o!» rogava eu, allucinada, louca de paixão,
+capaz de matar-me alli, se me não deixassem ir!
+
+«Ao cimo da escadaria, o padre encontrou-se com Vasco. Não o conteve;
+desceram ambos atropelladamente. E o meu infeliz anjo exclamou: «Vieste
+para mim, minha esposa?... Eu esperava-te, esperava-te, como se espera a
+salvação.»
+
+«E eu rompi n'um choro que era sentir-me morrer. O desgraçado não sabia
+que eu estava casada!
+
+--Falla, falla!--gritava elle--vens ser minha esposa? fugiste a teu pai?
+esse tyranno teve compaixão de nós?--Cala-te, meu filho!--exclamava D.
+Maria... Estás enganado! «Enganado! pois esta não é a minha esposa?!»
+
+«O padre tomou-o pelo braço, e exclamou:
+
+--Não, não é sua esposa... é esposa d'outro que seu pai lhe destinou!--
+
+«Vasco soltou um terrivel grito, levou as mãos á face, e foi cahir nos
+braços de sua mãi... «Matai-me, meu Deus!» exclamou elle.
+
+«Agora--proseguiu Leocadia arfando convulsivamente--peço-lhe eu que vá,
+meu amigo, não posso continuar... Estou doente... Adeus... Se eu não
+podér fallar-lhe, ha-de lêr o resto da minha historia.»
+
+Leocadia entrou encostada ao meu braço em sua casa. Eu fiquei alli não
+sei que tempo entorpecido. Quando me retirei, alvorecia a manhã.
+
+
+XVII.
+
+O CARACTER DE FRANCISCO DE PROENÇA.
+
+É preciso virmos procural-o aos nossos ultimos annos.
+
+Em 1828 o homem não era ainda feito á similhança do typo, que mais o
+encantára, no romance.
+
+Depois de 1834, é que as bibliothecas de novellas entraram por aqui
+dentro a fecundar este chão bravio, como extravasantes do Nilo.
+
+Era necessario ser-se excentrico, desde o ventre materno, para ser
+romantico em 1828.
+
+Francisco de Proença representa a vanguarda dos descabellados em
+Portugal.
+
+Desde criança, merecêra pelas suas escaramuças sanguinarias aos coelhos,
+o cognome de «Attila de coelheira.»
+
+Em Coimbra, chamavam-lhe o _chevalier sans peur et sans reproche_.
+
+A sua principal mania era o brasão. Estava apparentado com as primeiras
+casas da monarchia, por um tal Egas, filho de Mem, neto de Fuas, e
+bisneto de Ruy que acompanhára D. Henrique a Cárquere, a cumprir um voto
+d'uma perna torcida.
+
+Depois, e em consequencia d'esta mania, tinha um requinte de brios que
+lhe custou muito puxão d'orelha.
+
+Desafiava a espadão todo o mundo, e quiz mandar um cartel a um doutor
+octogenario que o reprovou em mathematica.
+
+Na primeira carta a um namoro que tivera assignava-se o _commendador
+Francisco de Proença_. A menina riu-se, e o fidalgo, no adro d'uma
+igreja, perguntou-lhe se os trabalhos da cozinha a não deixaram
+responder.
+
+Tinha destas cousas.
+
+Os seus bens de fortuna não eram o que elle precisava que fossem para
+sustentar o seu orgulho.
+
+Aceitou a mão da filha de seu padrasto, porque a paixão o acolheu de
+subito. Leocadia, com o seu desdém, pisára-lhe a soberba. Proença foi
+vencido pelo desprezo.
+
+Sua mãi, de mais a mais, dissera-lhe que Leocadia era a presumptiva
+herdeira de dous tios millionarios que tinha na America.
+
+O _dinheiro commercial_ não lisongeava o fidalgo; todavia, esta
+repugnancia pôde vencel-a o amor.
+
+Casou, e não se póde dizer se tractou bem ou mal sua esposa. Estas
+differenças são as mulheres que as notam, e Leocadia recebia com tedio
+disfarçado as amabilidades de seu marido.
+
+Para o não detestar, tinha sempre entre si e elle a imagem de seu pai
+moribundo, e o crucifixo do juramento.
+
+Leocadia habituára-se a viver fóra do seu corpo... A alma voava livre
+onde a chamava a saudade; a materia era a victima sacrificada. Deste
+modo, affazer-se-hia ao captiveiro, sem sondar a indole d'um homem que a
+chamava sua.
+
+O traço, porém, mais caracteristico da indole romanesca de Francisco de
+Proença, vai descobril-o um infeliz acontecimento.
+
+Quando Leocadia sahia, encostada ao braço do capellão, o portal da
+quinta dos Maldonados, Francisco de Proença, vindo da caça, atravessava
+a azinhaga, assobiando aos perdigueiros.
+
+Leocadia presente-o, e quer esconder-se; mas era tarde. Proença pára
+estupefacto, e Leocadia pára tambem. O fidalgo, que não conhecia o
+padre, interroga-o:
+
+«Quem é o senhor?! Como se acha aqui a senhora?!
+
+O padre tartamudeou:
+
+--Eu sou capellão d'esta casa.
+
+«Que casa é essa?
+
+--De uma minha amiga--balbuciou Leocadia.
+
+«É admiravel que eu não conheça as amigas da senhora! Como se chama essa
+amiga?
+
+O padre, aterrado pelo olhar soberano de Proença, disse:
+
+--É a snr.ª D. Maria Maldonado.
+
+O cavalheiro fixou attentamente sua mulher. Leocadia não levantava os
+olhos do chão. A surpreza reduziu-a ao silencio, que confessa o crime, e
+é já em si um principio de penitencia.
+
+«Vamos, senhora!--disse Proença.
+
+Decorreram tres dias, sem que Leocadia visse seu marido. Procurou-o,
+deliberada a convencêl-o da sua innocencia com a sincera historia do seu
+amor áquelle homem. Proença soubera tudo de sua mãi, e furtava-se ao
+encontro com sua mulher.
+
+Ao quarto dia, Leocadia foi avisada, da parte de seu marido, que
+preparasse o seu bahú para viajar, com elle, no dia seguinte. Ella pediu
+uma entrevista a Francisco de Proença. Respondeu-se-lhe que lá fóra
+teriam sobejas occasiões. Replicou a infeliz que não podia, que estava
+muito doente. Disse-se-lhe que em toda a parte havia uma sepultura.
+
+A comitiva dos viajantes era unicamente Thereza. Esta criada convinha ás
+intenções do marido.
+
+Desembarcaram na Madeira. Durante a passagem, Leocadia nunca pôde
+prender a attenção de seu marido dous segundos.
+
+Quinze dias depois do desembarque, Francisco de Proença apresenta-se,
+pela primeira vez, em rigoroso lucto diante de sua mulher.
+
+--Quem lhe morreu?!--perguntou ella.
+
+«A senhora!
+
+--Como?! está delirando!
+
+«Quem morreu foi minha mulher--» tornou elle com uma visagem
+ridiculamente tragica.
+
+--Pois se morri, eu vou morrer--disse ella com angelica mansidão--o
+Senhor receba a minha alma.
+
+«A sua alma condemnada ha-de continuar a existir n'um corpo impuro.
+
+--Não quero entender a injuria--disse ella com firmeza--Antes a morte.
+
+«Morreu para mim; mas ha-de viver para o remorso. Eu sou viuvo, senhora.
+Em Portugal ha-de saber-se que eu sou viuvo. A que foi mulher de
+Francisco de Proença, terá de hoje em diante outro nome. A senhora
+jámais dirá que eu sou seu marido: o punhal está sobre o seu seio
+esperando que essa palavra lhe passe os labios. Dou-lhe a vida, porque
+vejo o coronel moribundo que me supplica este heroismo...
+
+--E eu não aceito a graça--interrompeu Leocadia...
+
+«Pois então, ha-de supportal-a como castigo. A senhora tem uma mesada,
+para viver onde queira, com tanto que a sua companhia unica seja essa
+criada que foi de sua mãi. Tenho a generosidade de conceder-lh'a; mas,
+senhora, repare que eu vou mostrar em Portugal a certidão do seu obito.
+No dia em que me desmentir, matei-a!
+
+Leocadia pendeu a cabeça para o seio, e murmurou, sem lagrimas:
+
+--Como quizer, senhor. Agora deixe-me em paz.
+
+«Ainda não. Na provincia de Traz-os-Montes tenho um casal, situado entre
+quatro montanhas: Quer habital-o?
+
+--Sou sua escrava, senhor.
+
+«Sabe que de hora em diante perdeu o nome que tinha?
+
+--O que quizer, mas não posso ouvil-o.
+
+«Nem eu vêl-a mais; porque minha mulher morreu!»
+
+E retirou-se, solemne e sonoro nos passos, como a estatua de D. João
+Tenorio.
+
+Aqui está o que se chama um homem romantico e uma mulher desgraçada.
+
+
+XVIII.
+
+Se bem me lembro, já disse que Leocadia é o nome que a mulher de
+Francisco de Proença adoptou, desde a scena do anterior capitulo.
+
+No decurso do romance, conservei esse nome, e já agora conserva-lo-hei
+até final. Podéra ter-lhe dado pseudonimo; mas tão leal quero ser á
+verdade, que, a não poder, por melindre e respeito, dizer o seu
+verdadeiro nome, escrupulisei na invenção de outro.
+
+Leocadia, pois, sahiu da Madeira para Lisboa. No mesmo navio viera
+Francisco de Proença, que, em todo o tempo da viagem, não deu signal de
+ser ao menos relação de Leocadia. Sahiram para o Porto no primeiro
+hiate. D'aqui, D. Leocadia e Thereza foram para a provincia. O morgado
+de Sinfães appareceu-lhe na despedida. Terriveis e de eterna condemnação
+foram as suas palavras: «Vá, sombra da mulher morta! vá, e veja sempre
+diante de si o punhal, que lhe espera nos labios uma palavra só... o meu
+nome, o nome de seu marido viuvo!»
+
+A desgraçada quiz ajoelhar-se aos pés do seu verdugo. Proença repelliu-a
+com um tregeito de escarneo e asco.
+
+Leocadia foi viver no casal de seu marido. Era uma habitação mal
+reparada, sumida entre quatro montanhas.
+
+Apenas chegou, foi recebida respeitosamente por um caseiro, que a
+reputava irmã bastarda, ou rapariga das affeições de seu amo solteiro.
+Leocadia perguntou a este homem porque estava a pedra de armas coberta
+de negro: respondeu o caseiro, se ella ignorava que tivesse morrido a
+esposa do fidalgo! Leocadia abraçou-se á criada, chorando, e disse: «É
+verdade... essa desgraçada morreu...»
+
+O caseiro reparou n'isto, e disse á mulher que havia o quer que era de
+historia nos modos da senhora que viera lá de por ahi abaixo.
+
+Leocadia entrou na cama, que lhe mostraram, e disse a Thereza que a sua
+ultima paragem antes da sepultura era alli.
+
+Foi um chorar d'ambas de cortar o coração aos caseiros, que as
+escutavam.
+
+Era rapido o deperecer de Leocadia. Não se erguia do leito, e pedia a
+Deus um paroxismo curto. O caseiro communicava para o Porto ao patrão o
+estado da senhora. Não recebia resposta.
+
+Um dia, porém, appareceu na aldêa um homem que procurava D. Leocadia,
+com ordem de Francisco de Proença. Este homem diz ser medico. Examina a
+enferma, e diz-lhe que, por ordem da pessoa que alli a domina, deve
+immediatamente entrar n'uma liteira com a sua criada; e acompanhal-o.
+Leocadia, quasi exanime, obedece, sem saber a quem, nem para que fim.
+
+A liteira, depois de sete dias de jornada, parou no alto de S. João da
+Foz, no sitio do Pastelleiro, onde eu, João Junior, encontrei Leocadia
+para ouvir de seus labios convulsos de gemidos essa historia triste, que
+eu tive a impiedade de conspurcar com algumas facecias de estragado
+gosto.
+
+O que ella me não contou é o que me disse Thereza, alguns annos depois,
+quando sua ama já era defunta, e o acaso m'a deparou n'um recolhimento,
+em uma villa de Traz-os-Montes.
+
+Attendam agora, que ahi vai pendurar-se o romance no prégo philosophico
+com que o intitulei: DINHEIRO. Vai-se tractar de dinheiro, leitoras
+espirituosas; prestem-me a sua benevola attenção.
+
+Uma tarde passava eu no Pastelleiro; sahiu-me ao encontro a caseira da
+quinta, e deu-me a triste nova de ter sahido, na madrugada d'aquelle
+dia, a senhora para não tornar. Um homem novo, acrescentou a caseira,
+viera buscal-a, e descera com ella pelo braço a escada, fallando-lhe com
+muito bom modo. Agora vou fallar de mim um pouco.
+
+Eu fiquei esthetica e plasticamente parvo!
+
+Quem seria o homem?! O marido, de certo, não, porque o marido, até ao
+dia em que falláramos, estava viuvo, e não tratava de resuscitar a
+mulher. Seria a historia lamuriante uma logração á minha boa fé?! Seria
+ella uma visionaria, uma douda, ou, peor que tudo, uma destas mulheres
+desabusadas que mangam dos poetas da minha força?
+
+É impossivel! Leocadia deve ser necessariamente um anjo! É o marido que
+a arrasta pelos cabellos ao cepo do martyrio. Alguem lhe disse que eu
+vinha aqui, e o malvado não comprehendeu que eu era o sacerdote da mais
+santa das amisades.
+
+E, no afôgo da minha saudade, embrenhei-me por aquella bouça que lá
+verdeja ao fundo, enchi meu coração de tenebrosas angustias, e pedi aos
+meus olhos o chorar do desafôgo.
+
+Inutil, inutil foi o meu rogar, porque a minha dôr era como o encravar
+do estilete que não sangra; eu tinha dentro o brazido do deserto, sem
+gotta de pranto; era uma contricção de matar, uma abafação em que os
+pulmões, batendo contra o coração, pareciam espedaçar-se.
+
+E porque? É que eu amava muito aquella martyr, muito, com o amor tres
+vezes immaculado do poeta. Não esperava d'alli senão a religiosa
+affeição da victima paciente ao consolador que dera a sua vida inteira
+por um dia de ventura para ella. Mais nada; porém, este pouco é o ar, o
+tempo, a luz, a bemaventurança do desgraçado que encontrou na terra uma
+mulher como Leocadia, e uma paixão como a minha.
+
+Tu viste, saudosa Poncia, que pranto ardente arou as minhas faces, no
+estio da existencia!
+
+Nos tectos cavernosos do meu quartel reboaram longo tempo os eccos dos
+meus soluços.
+
+Os meus dentes cerraram-se, como os do condemnado nas trévas inferiores,
+e tres dias e tres noites a minha lingua não encanou o bolo alimenticio.
+
+A restea do sol de Setembro, mosqueando o taboado carunchoso do meu
+quarto, vinha pallida como a luz betuminosa dos infernos dantescos.
+
+A brisa da tarde nunca mais se retouçou louçã pelas corollas das boninas
+tremulas.
+
+Negra como a minha saudade, era negra a tunica funeraria de que a
+natureza se vestiu.
+
+Diz tu, ó Poncia, se me viste comer ou beber durante oito dias, contados
+da data em que a minha alma se despegou d'aquella alma gentil que se
+partiu do Pastelleiro.
+
+É verdade que passados esses oito dias, obedeci ao despotismo da
+natureza vegetativa, e ás instancias impertinentes da minha consternada
+Poncia.
+
+O resultado foi sinistro: sobre uma paixão calamitosa uma indigestão
+pertinaz!
+
+Convalesci com jejuns dignos d'um S. Simão Stelita, e depois... amei
+perdidamente uma tal Catharina... Isto é outra historia, que ha-de vir
+depois. Os meus continuados amores tem sido para mim um systema de
+medicina, por que diz o grande poeta:
+
+ Que o veneno espalhado pelas vêas
+ Curam-no ás vezes asperas triagas.
+
+Eu curo-me sempre assim. Em 1828 era eu mais homoeopatha que o proprio
+Hahnemann.
+
+
+XIX.
+
+Agora vai explicar-se tudo, e acaba-se o conto.
+
+É o caso:
+
+Lembre-se o leitor que o coronel Gervasio tinha dous irmãos ricos no
+Brazil, ambos solteiros. Estes homens negociavam em brilhantes, e, na
+ultima das suas excursões ao centro do imperio, foram assassinados por
+salteadores, deixando um grande capital sem testamento.
+
+Do Rio de Janeiro vieram logo averiguadores a Portugal para comprarem a
+opulenta herança. Souberam em Lisboa que os herdeiros proximos, o
+coronel, ou sua filha, tinham morrido sem successão.
+
+Francisco de Proença estava então no Porto, e mais d'um amigo lhe
+repetiu os pesames da fatal viuvez, que o privava d'alguns milhões.
+
+Aqui está o nosso homem em embaraços de uma terrivel originalidade, ao
+passo que uma chusma de parentes remotos de sua mulher se habilitam
+pressurosamente!
+
+A resurreição de Leocadia será possivel? A herança compensará a zombaria
+com que a sociedade vai entrar no segredo dos seus ridiculos brios?
+
+Não foi longo o interrogatorio que o tragico viuvo se fez. Feito o
+escrutinio, os votos a favor da resurreição tinham a maioria. Proença
+resolveu arrancar sua mulher dos limbos, e para isso mandou á provincia
+o medico e a liteira.
+
+Leocadia, como vimos, é conduzida ao Pastelleiro, e espera ahi tres
+mezes a primeira visita de seu marido, depois de ter assignado algumas
+procurações, cuja significação ella não entendeu. Francisco de Proença
+fôra a Lisboa tractar de habilitar sua mulher.
+
+Julgaram-no doudo porque a morte da filha do coronel era caso decidido
+para as relações de ambos; e como o viuvo teimava em affirmar que era
+casado, protestando apresentar sua mulher viva em presença de
+testemunhas que a conhecessem de vista, a opinião da justiça foi que
+viesse a Lisboa a supposta defunta, e ao mesmo tempo se averiguasse na
+ilha da Madeira se alli, em tal mez, d'aquelle anno de 1828, fallecera a
+mulher de Francisco de Proença.
+
+O estranho successo foi estimulo de estrondosas gargalhadas na capital.
+Havia grande ancia de conhecer o milagroso parvo, cujas anedoctas de
+Coimbra reviveram com salgadas ampliações.
+
+Os mais sisudos commentadores do estranho caso queriam, por amor da
+moralidade, que se devassasse o tumulo de Leocadia, e dissesse ella,
+visto que resuscitou, que morte fôra aquella de sete mezes, onde
+estivera, e de que supplicios viéra resgatal-a a herança de seus tios.
+
+O thaumaturgo não ousava apparecer na orda das suas relações. Ninguem,
+se o conhecia, podia encaral-o com os labios seriamente fechados. O
+apupado marido da mulher redeviva queria explicar a algum dos mais
+impertinentes averiguadores do mysterio, aquella especie de catalepsia
+de sete mezes, e então dizia:
+
+«Pensei que fôra deslealmente deshonrado por minha mulher. O meu coração
+cobriu-se de lucto, o punhal vingativo pedia o sangue da perfida, mas o
+meu espirito era nobre de mais para sanccionar o assassinio d'uma debil
+mulher. Quiz matal-a moralmente, e dei-a por morta moralmente para mim.
+Fiz-lhe graça da existencia, para que o remorso lento me vingasse.
+Vesti-me de lucto, disse que minha mulher morrêra; e, se alguem me
+perguntasse particularidades da sua morte, eu responderia que uma campa
+a separava de mim. O que hoje faz rir a sociedade seria então recebido
+como um rasgo de heroismo na desgraça. Os maridos atraiçoados achariam
+em fim a condigna penitencia da perfidia.
+
+--Mas...--alguem lhe disse--tua mulher estava innocente?
+
+A esta pergunta indiscreta Francisco de Proença titubeava, e não sabia
+se lhe convinha decidir-se pela absoluta innocencia de Leocadia.
+
+Lá se aveio como pôde com os importunos, até que um dia appareceu com
+sua mulher resuscitada, e encartada no nome e appellidos que teve quando
+foi viva.
+
+A presença desta pobre senhora foi, só em si, uma accusação contra seu
+marido. A desgraçada, quando lhe perguntaram, diante de testemunhas, se
+era mulher de Francisco de Proença, respondeu:
+
+«Dizem que sou.»
+
+--E a senhora não diz o mesmo?
+
+«Eu sou viuva» tornou ella.
+
+--Então qual dos senhores é viuvo? É original a mania d'ambos--replicou
+o jurisperito, rindo com os circumstantes, em quanto as lagrimas da
+herdeira millionaria lhe desciam na face purpurina de pejo.
+
+..........................................................................
+
+Não me souberam contar o resto.
+
+O que eu sei é que cinco mezes depois recebi uma carta datada em
+Londres.
+
+Resava assim:
+
+«Prometti-lhe uma palavra: ella ahi vai: E MORRO. Chore-me.»
+
+ _Leocadia._
+
+Em 1834 Francisco de Proença veio a Portugal. Viajára seis annos, e
+vinha casado, em segundas nupcias, ou terceiras, dizia alguem com a
+filha d'um correeiro de Manchester.
+
+Está vivo, e velho como eu.
+
+Acabou-se a historia.
+
+
+FIM.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Scenas da Foz, by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA FOZ ***
+
+***** This file should be named 28310-8.txt or 28310-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/2/8/3/1/28310/
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
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+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
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+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
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+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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+used on or associated in any way with an electronic work by people who
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
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+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
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+that
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+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
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+ and discontinue all use of and all access to other copies of
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Scenas da Foz, by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Scenas da Foz
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: March 11, 2009 [EBook #28310]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA FOZ ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
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+
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<div style="text-align:center;">
+<p style="font-size: 3em;">SCENAS DA FOZ</p>
+
+<p>POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">CAMILLO CASTELLO BRANCO.</p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p><span class="pn">{2}</span></p>
+
+<p><span class="pn">{3}</span></p>
+
+<div style="text-align:center; border: solid 2px #000000; padding: 1px;">
+<p style="font-size: 3em;">SOLEMNIA VERBA.</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">ULTIMA PALAVRA DA SCIENCIA.</p>
+
+<p style="font-size: 1.3em;">O X DE TODOS OS PROBLEMAS DO CORAÇÃO.</p>
+
+<p style="font-size: 0.9em;">OBRA IMPORTANTISSIMA PARA TODOS OS SEXOS, MASCULINO, FEMININO, E NEUTRO, E
+ESPECIALMENTE PARA AS COZINHEIRAS.</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">EM DOZE VOLUMES; SENDO O PRIMEIRO:</p>
+
+<p style="font-size: 3em;">SCENAS DA FOZ</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.5em;"><b>JOÃO JUNIOR.</b></p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">SOCIO DA PHILARMONICA, E IRMÃO DA ORDEM TERCEIRA DE S. FRANCISCO.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>2.ª EDIÇÃO.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">PORTO:<br>
+EM CASA DE CRUZ COUTINHO&mdash;EDITOR,<br>
+Rua dos Caldeireiros, n.<sup>os</sup> 18 e 20.</p>
+
+<p>1860.<span class="pn">{4}</span></p>
+</div>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em; text-align:center;">PORTO&mdash;TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA
+TEIXEIRA, <br>
+Largo do Laranjal n.º 4.<span class="pn">{5}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<div id="corpo">
+<h1>JUIZO CRITICO.</h1>
+
+<p style="text-align:center;">(DA PRIMEIRA EDIÇÃO.)</p>
+
+<p>Li, como editor, e reli, como critico, as S<small>CENAS DA</small>
+F<small>OZ</small> do snr. <em>João Junior</em>. Declaro que encontrei uma
+serie de scenas, que tanto podiam ser de S. João da Foz como de
+Freixo-de-Espada-á-Cinta. Entretanto, os quadros comicos são desenhados com um
+pouco mais sal que um artigo de fundo. Os episodios funebres estão escriptos em
+estylo de cavallo de carruagem, como dizia <em>Voltaire</em>.</p>
+
+<p>Outro sim declaro, que não vi neste livro doutrina, palavra, phrase, ou
+virgula, que destoe dos maus costumes da época em que é escripta. Como cousa
+offerecida á humanidade, a offerenda é digna da deusa e do sacerdote.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Porto 2 de Junho de 1857.</p>
+
+<p class="direita"><small>O EDITOR</small>,</p>
+
+<p class="direita"><em>Camillo Castello Branco.</em><span
+class="pn">{6}</span></p>
+
+<p><span class="pn">{7}</span></p>
+
+<h1>DEDICATORIA.</h1>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>Á ESPECIE HUMANA INCLUSIVE OS BARÕES.</h2>
+
+<p>Senhora! O sacerdocio da imprensa, cuja invenção se deve a um agiota do
+seculo XIV,<sup><a href="#fn1" name="mfn1">[1]</a></sup> é a mais augusta das
+funcções, depois da «Arte de cozinha». Ocioso seria provar esta atrevida
+proposição, quando os exemplos saltam como camarões em terra secca. A
+rotundidade dos abdomens, e a estupidez prodigiosa dos proprietarios dos ditos,
+senhora, é a mais persuasiva prova de que a culinaria tem sobre a imprensa a
+primasia disputada por alguns sandeus que se deixaram morrer de fome,
+embebecidos, no paradoxo da sciencia.<span class="pn">{8}</span></p>
+
+<p>Sem embargo, porém, desta verdade, que palpita como um aneurysma, eu não
+posso deixar de reconhecer as grandes vantagens que podem provir a v. exc.ª da
+mirifica invenção dos typos.</p>
+
+<p>Senhora! eu sou um desses poucos bipedes que reagem, por instincto, contra
+os quadrupedes que gratuitamente se dizem meus irmãos. Saturado de estudos
+longos e substanciosos sobre a alveitaria, tenho querido organisar um
+<em>Manual de pharmacia</em>, dedicado ao utilissimo curativo de alguns desses
+meus irmãos, que me ameaçam as tibias, quando a dôr do alifafe moral os faz
+pinotear desencabrestadamente.</p>
+
+<p>Neste intuito, cuja extensão eu deixo á penetração de v. exc.ª, confeiçoei
+algumas receitas, que puz em systema pathologico, subordinadas a bases
+symptomatologicas, palavra grande que v. exc.ª soletrará de seu vagar.</p>
+
+<p>Senhora! A hygiene moral, depois de Broussais, tem feito progressos que
+demandam um compendio novo, e uma diversa iniciativa no systema de applical-os
+com aproveitamento.</p>
+
+<p>O romance, senhora, é a mais proficua das pharmacias, porque neste
+laboratorio douram-se as pilulas com maravilhosa limpesa. O romance, caldeado
+na forja onde Voltaire assacalou as armas com que feriu no coração o «ridiculo»
+de<span class="pn">{9}</span> v. exc.ª, n'aquella época, será, se me não engana
+o muito amor da humanidade, um sodorifero por meio do qual faremos transpirar
+as muitas fezes que v. exc.ª traz no sangue, e das quaes se originam muitos
+miasmas de febre da pouca vergonha, para a qual não ha quarentena possivel, nem
+conselho de saude, por ventura o mais necessitado, na presente conjunctura, de
+ser esfregado com as baêtas da zombaria.</p>
+
+<p>Pelo que: considerando maduramente quão proveitosa devia ser a v. exc.ª a
+divulgação de trabalhos que o zelo da minha especie me impoz, ouso recorrer á
+egide da sua protecção, offertando-lhe o primeiro da serie de livros que vou
+atirar á humanidade.</p>
+
+<p>Senhora! Fiquemos aqui, se lhe parece.<span class="pn">{10}</span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#mfn1" name="fn1">[1]</a></sup> Preparo uma dissertação a este
+respeito.</p>
+</div>
+
+<p><span class="pn">{11}</span></p>
+
+<h1>SCENAS DA FOZ.</h1>
+
+<h3>LIVRO PRIMEIRO.</h3>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>A SORTE EM PRETO.</h2>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<h2>I.</h2>
+
+<p>Em 1825, morava na travessa do Caramujo, em S. João da Foz, uma familia de
+Amarante, que viera a banhos, e constava dos seguintes membros:</p>
+
+<p>Pantaleão de Cernache Tello Aboim de Lencastre Maldonado e Sousa Pinto de
+Penha e Almeida. Sua mulher, D. Amalia Victoria Rui da Nobrega Andrade
+Vasconcellos Tinoco dos Amaraes. Sua filha, Hermenigilda Clara, com todos os
+appellidos paternos, e cinco de sua mãi. Duas criadas graves. Uma cozinheira,
+casada com o lacaio. Um escudeiro preto. Um gallego adjuncto á cavallariça.
+Dous cães de lobo; e, finalmente, uma cadellinha atravessada de cão d'agua e
+galga.</p>
+
+<p>Eu, João Junior; que estas cousas ponho em escriptura para memoria eterna,
+morava na rua de Cima de Villa, e da minha janella vi muitas vezes na sua o
+snr. Pantaleão, homem côr de lagosta cozida, com cabelleira azulada pela acção
+do tempo, olhos refegados com debrum escarlate, papeira ampla como a dos
+<em>cretins</em> nos Alpes, e nariz poliédro como uma castanha do
+Maranhão.<span class="pn">{12}</span></p>
+
+<p>A snr.ª D. Amalia, se bem me recordo, era uma serpente. Orelhas, nariz,
+queixo, e todos os districtos da cara (nesse tempo eram comarcas) era tudo
+aguçado e verrugoso, como uma mólhada de nabos velhos, em que as fitas
+amarellas da touca representassem a rama das nabiças.</p>
+
+<p>A menina Hermenigilda tinha cara de seraphim de côro d'aldeia: gorda e
+vermelha, cheia de vida estupida, olhos grandes como bogalhos, dentes
+anarchicos mas brancos como o seu nedio pescoço, braço rico de tecidos
+cellulares, rendilhado de tumidas veias vermelhas, onde borbulhava o sangue
+cruorico de felicissimas digestões de cabeça de porco com feijão branco.</p>
+
+<p>Os servos não me lembra bem como tinham a cara, excepto uma das criadas
+graves, que diziam ser filha bastarda d'um frade bernardo, irmão do snr.
+Pantaleão. Eu fiz tres dias descabellado namoro a esta rapariga, que tinha
+setenta e seis pollegadas. Ao quarto, vi-lhe um calcanhar aberto como ouriço
+velho, e desanimei.</p>
+
+<p>De quem me recordo muito é do escudeiro preto, que tinha a cara mais velhaca
+da raça de Ismael. Assobiava com perfeição a <em>Marìa Caxuxa</em>, e jogava a
+marrada magistralmente com o gallego, supplementar aos machos da liteira,
+deixando-o quasi sempre estatellado no chão em fórma de meia-lua. E muitas
+vezes vi eu com estes olhos invejosos a menina Hermenigilda a brincar com o
+preto na sala, onde eu podia devassar estes innocentes brinquedos. O gosto
+d'ella era puxar-lhe a carapinha, e o gosto d'elle era, ao que parece, dar-lhe
+surras, que terminavam sempre quando a mãi, ou o pai, ou alguma das criadas
+appareciam no limiar da porta da sala.</p>
+
+<p>Um meu amigo visitava esta familia, e d'ella soube eu que o snr. Pantaleão
+era senhor de casa vinculada, e a snr.ª D. Amalia tambem era morgada, e a snr.ª
+D Hermenigilda, por consequencia, uma opulenta herdeira. Soube mais que o snr.
+Pantaleão remontava a sua fidalguia a uma<span class="pn">{13}</span>
+personagem importante na dynastia goda, e não me recordo bem se era Athanaulfo,
+ou Roderico.</p>
+
+<p>A genealogia da mulher diziam lá em casa que era a mais antiga da velha
+Lusitania, e contavam maravilhas de seus avós na India, e na Amarante. A
+herdeira, por segunda e inevitavel consequencia, tinha nas veias doze canadas
+bem medidas de sangue gothico, e por isso, a architectura externa fazia lembrar
+Orense ou S. Thiago de Compostella.</p>
+
+<p>Entre os rapazes meus conhecidos da provincia, o meu inseparavel companheiro
+dos passeios a Carreiros era um mancebo de trinta annos, que tem hoje os seus
+sessenta e um, e está litteralmente escangalhado, como eu que o digo. Então era
+elle esbelto, e galhardo, amigo de mulheres novas e vinho velho, como Byron,
+que elle vira no theatro de S. Carlos em 1813, e affirmava que bebeu com elle
+uma garrafa de aguardente de canna no <em>Nicóla</em>, botiquineiro do Rocio.
+Parece-me pêta, porque Byron, se emborcasse uma botelha de aguardente em
+Portugal, não nos chamava <em>barbaros</em>. Paiz onde um inglez se embebedar,
+será sempre um paiz civilisado.</p>
+
+<p>Como quer que seja, o meu amigo provinciano era homem do <em>grande
+mundo</em>. Chamava-se Bento de Castro da Gama, e não sei que mais. Era natural
+de Cabeceiras de Basto, filho segundo da casa denominada do <em>Olho-vivo</em>,
+não sei porque derivação.</p>
+
+<p>Seus pais mandaram-no estudar latim e logica no seminario de Braga. Bento
+corrompia o porteiro, e sahia de noite, a provar que a logica, sendo a arte de
+bem pensar, não exime um fraco mortal de pensar o peor que é possivel. D'essas
+envestidas nocturnas á moral, resultou um escandalo em casa d'um chapelleiro da
+<em>Senhora á branca</em>, e o seductor teve de fugir do seminario, onde estava
+debaixo de olho, pendurando-se para a rua nos lençoes.</p>
+
+<p>Contava elle que o pai lhe abanara as orelhas, em quanto a mãi lhe preparava
+algumas tigellinhas de gelêa<span class="pn">{14}</span> de mão de vacca, para
+o indemnisar das succulentas bochechas que deixara no seminario, emmagrecidas
+sobre o Novo Methodo do Pereira; e o desabrido Genuense.</p>
+
+<p>A casa paterna era estreito horisonte para o nosso amigo. Uma bella manhã
+fugiu de casa, veio ao Porto, e assentou praça em infanteria. O pai, sabendo-o,
+mandou-lhe os documentos para se habilitar a cadete, e estabeleceu-lhe avultada
+pensão para se habilitar a exercer todas as travessuras e maroteiras de que o
+seu caracter era susceptivel. Em seis mezes de praça estivera tres na cadeia,
+por causa de varios sôcos com que mimoseou os sargentos do corpo. Pediu a
+baixa, deram-lh'a promptamente, e recolheu a casa, onde não encontrou já vivo o
+pai.</p>
+
+<p>Pouco depois, morreu a mãi. Bento de Castro pediu por conta da sua boa
+legitima alguns mil cruzados, foi gastal-os em Lisboa o melhor que pôde, e
+tornou para casa, onde o irmão morgado o recebeu de braços abertos.</p>
+
+<p>N'esse tempo é que eu o conheci na Foz, onde viera pela primeira vez a
+banhos, em 1825. Relacionei-me com elle na caça das gaivotas, e convivemos
+alguns mezes na sua casa de Cabeceiras de Basto. Passavamos ahi excellentes
+tardes no convento de Refojos, onde elle tinha tres tios, que eram santos
+varões, doutos, e alegres. Ahi conhecemos José Pacheco d'Andrade, morgado de
+uma casa illustre, que nos ensinou a jogar o pau, como bom mestre que era! Na
+feira do Arco vimol-o nós uma vez varrer a feira com admiravel limpeza! Saltava
+como um gamo, e apanhava pela cernelha com uma bordoada o mais lesto jogador de
+Barroso! Fui amigo d'este homem e vi-o morrer vinte annos depois n'um palheiro
+onde mendigando, pedira gasalhado. O que o levou a este extremo é uma historia
+muito longa, e que já vi fugitivamente esboçada nos versos de não sei que
+livro.</p>
+
+<p>Pergunta o leitor o que tem isto com as Scenas da Foz?<span
+class="pn">{15}</span></p>
+
+<p>Se me começam com perguntas, estamos mal aviados! Um homem na minha idade,
+com a reputação feita, escreve as cousas como ellas lhe escorregam dos bicos da
+penna. Nem acizelo o estylo, nem torneio o pensamento, nem traço plano. Não me
+apoquentem. Lá vamos á Foz.<span class="pn">{16}</span></p>
+
+<h2>II.</h2>
+
+<p>O meu amigo Bento de Castro veio, uma noite, de Mathosinhos, de casa do
+Brito, onde perdera, á banca portugueza, vinte moedas, um cavallo, um relogio,
+dous anneis com brilhante, e ficára a dever outro tanto. Ás 2 horas, bateu-me á
+porta, sentou-se na minha cama, e começou assim um pathetico discurso:</p>
+
+<p>«Tenho dado cabo de mais de ametade da minha legitima. Não tardará o dia em
+que meu irmão me dê de comer como se dá uma esmola. O jogo tem sido o meu
+abysmo. Perco o dinheiro e perco a vergonha, quando o azar me é contrario.
+Hoje, vendi cavallo, relogio, anneis, e tudo: cheguei a pedir dinheiro ao moço
+de farda da casa onde joguei. Quando vinha para cá, alli no castello do Queijo,
+tive vontade de atirar ao mar com esta vida diabolica!... Se o não fiz, outra
+vez será. É no que ha-de parar este negro fado que me traz a pontapés da
+desgraça... Não me dirás tu que hei-de eu fazer para ser o que tu és?</p>
+
+<p>&mdash;E que achas tu que eu sou?&mdash;perguntei eu, porque não sabia ainda então o
+que era.<span class="pn">{17}</span> «És homem de juizo. Tens ha dez annos um
+cavallo velho e magro, uma casinhola na provincia que te rende doze carros de
+pão e quinze pipas de vinho verde, uma sobrecasaca preta com os cotovellos
+rapados, e vives feliz.</p>
+
+<p>&mdash;Muito feliz.</p>
+
+<p>«Pois ahi está! E eu, com quarenta mil reis mensaes de rendimento, tenho
+gasto metade do capital, e desconfio que devo a outra metade.</p>
+
+<p>&mdash;Pois se queres ser homem de juizo, deixa cossar-se o teu casaco nos
+cotovellos, limita o teu luxo de equitação a um cavallo digno de ser cantado
+pelo Manoel Duarte Ferrão, faz de conta que colhes doze carros de pão e quinze
+pipas de vinho verde e serás feliz.</p>
+
+<p>«É tarde, meu caro João Junior, é tarde. Creei necessidades que não posso
+matar sem que ellas me matem. Preciso dinheiro, venha elle d'onde vier.</p>
+
+<p>&mdash;De mim, de certo não vai, meu amigo. Bem sabes que o pão e o vinho este
+anno não deram nada. Desde Março d'este anno, em que morreu o rei, parece que
+desappareceu de Portugal o estomago mais consumidor que tinhamos. Tu não
+tentaste ainda a fortuna pelo lado do casamento?</p>
+
+<p>«Ainda não. Tem-me lembrado algumas vezes essa asneira salvadora; mas, sou
+tão infeliz, que desconfio de tornar-me ridiculo, se o tentar.</p>
+
+<p>&mdash;Ridiculo é esse susto. A experiencia ainda te não amadureceu quanto é
+necessario para viver neste mundo. Ridiculo só conheço um homem neste planeta:
+é o que não tem dinheiro. As tentativas, que se fazem para alcançal-o, são
+sempre sérias, heroicas, e até épicas. Se fizeres namoro a uma rapariga rica,
+riem-se de ti os zombeteiros candidatos á rapariga, mas esse riso só póde ser
+penoso se a mulher te não indemnisar com o sorriso d'ella. A questão é <em>To
+be or not to be</em>: ser ou não ser amado. Sirvo-me deste fragmento de
+Shakspeare por que não está ainda estafado pelos folhetinistas.<span
+class="pn">{18}</span></p>
+
+<p>«<em>Folhetinistas</em>! que são <em>folhetinistas</em>?</p>
+
+<p>&mdash;Folhetinistas são uns pataratas que hão-de vir d'aqui a vinte annos,
+trazidos em uma nuvem de gazetas. Ainda a tresandar ao fartum dos coeiros,
+virão para a imprensa com seu cabedal de erudição empalmado nos romances de
+certo Dumas, que tem hoje quinze annos, e será então o primeiro corruptor da
+litteratura em França. Saberão menos latim do que tu quando saltaste pela
+janella do seminario de Braga, e dirão que o latim é uma cataplasma que mata a
+originalidade nativa, e a natividade original, e não sei que outras sandices
+usadas na linguagem delles pataratas. A respeito de logica e rhetorica dirão
+que antes do diluvio já estavam banidas das escólas mais illustradas. Hão-de
+provar que o talento não precisa desses causticos para ressumar a materia do
+espirito, e, provando-o, dirão tolices em que ficará salvo o Genuense e o
+Quintilliano, dos quaes tanto nos fallaram os teus tios frades de Refojos.
+Fallarão muito em linguas druidica, celtica, indica, sanscrito, e dirão dellas
+cousas maravilhosas que terão o superior merecimento de não serem ditas em
+portuguez. Ora, pois, fica tu sabendo que os folhetinistas serão...</p>
+
+<p>«Não me importa saber o que serão os folhetinistas, o que eu quero é saber o
+que serei d'hoje a vinte annos.</p>
+
+<p>&mdash;Serás folhetinista, visto que te não vejo com habilitações para seres
+cousa alguma. Se te parece, vai aprendendo de teu vagar a tocar guitarra para
+depois poderes fallar com criterio das primas-donas, e dos contraltos, e dos
+bassos, e deste Curti que hoje está creando uma reputação no Porto, e eu espero
+ouvir d'hoje a trinta annos com o mesmo timbre, o mesmo volume de voz, e a
+mesma precisão de notas graves em <em>sibmol</em>.</p>
+
+<p>«Que diabo de embrulhada é essa? Homem, falla-me direito. Que me dizes tu á
+tentativa d'um casamento rico?</p>
+
+<p>&mdash;Digo-te que conheço grandes alarves que tentaram<span
+class="pn">{19}</span> e prosperaram. Quando um homem se diz: «hei-de casar
+rico, apesar de todos os contratempos» casa rico. O primeiro passo a dar é
+convencer-se de que a vergonha é uma excrescencia que nos magôa, e deve ser
+amputada da consciencia como quem corta um callo. O segundo é procurar a
+mulher, através de todas as torpesas, como o mineiro procura o ouro através do
+saibro e dos charcos lodacentos que lhe regorgitam debaixo dos pés. O terceiro
+é levar com a porta na cara, e ficar com a cara voltada para outra porta. O
+quarto é teimar. O quinto é teimar. O sexto...</p>
+
+<p>«É teimar. Tenho entendido. Mãos á empreza. Cobrei espirito novo. Dentro
+d'um anno hei-de estar casado com mulher rica, bonita, intelligente,
+virtuosa...</p>
+
+<p>&mdash;Alto lá! isso é muita cousa. Assim tambem o Bocage a queria, mas
+disseram-lhe que não... Rica? d'accordo: isso é possivel. Intelligente?
+Deixa-te d'isso: mulher intelligente não se deixa engodar por especuladores
+matrimoniaes: é-lhe mais facil ceder ao coração toda a liberdade dos seus
+desejos os menos puros, do que algemar-se com grilhões que ella parte
+facilmente no momento em que a razão illustrada lhe diga: «Entre ti e o homem
+são iguaes os direitos...» Formosa? Pieguice e contrasenso. Mulher formosa é
+sempre a mesma cousa, e aos olhos do marido perde pouco e pouco o prestigio da
+belleza. Mulher feia, pela continuação da convivencia, perde pouco e pouco a
+fealdade, e chega a parecer bonita. E deves saber que mulheres feias teem
+inspirado paixões ardentissimas. Dizem que ha uma compensação de graças ocultas
+as quaes fazem ganhar raizes no coração do homem. Eu não sei se é no coração,
+se no figado: o que posso asseverar-te é que tenho visto mulheres formosas
+apagarem muitos incendios, e as feias atearem-nos. Dido, Helena, e Cleopatra
+dizem que foram lindas mulheres, por terem apaixonado Eneas, Paris, e Antonio.
+O que de certo se não sabe é se eram feias. Verdadeiramente feio, meu amigo, é
+o diabo, como diz a<span class="pn">{20}</span> ama de leite dos teus
+sobrinhos. Em quanto a virtuosa, meu caro Bento, a esse respeito tinhamos muito
+que dizer, se eu não tivesse somno. A virtude é o escolho de muitas posições
+sociaes. Felizmente que ella vai em decadencia, e por isso veremos, de hoje a
+trinta annos, muitas posições brilhantes com um pé no pescoço da virtude.
+Virtude é uma sociedade mercantil, em que a maior parte dos empresarios se
+sustentam á custa da pequena parte que se conserva fiel aos estatutos.</p>
+
+<p>Fóra com a palavra; e se promettes aspal-a do teu programma de casamento,
+indico-te uma mulher.</p>
+
+<p>«Qual?!</p>
+
+<p>&mdash;A minha visinha Hermenigilda, filha do Pantaleão.</p>
+
+<p>«Pois achas que está no caso?</p>
+
+<p>&mdash;Muito no caso.</p>
+
+<p>«Sei que é rica, não é feia, é estupida, é fidalga; mas... em quanto a
+virtude, não sei por que ella perca no teu conceito, para que eu deva aspar a
+palavra do meu programma!</p>
+
+<p>&mdash;É que eu desconfio do preto!</p>
+
+<p>«Do preto?! que preto?</p>
+
+<p>&mdash;Fallaremos ámanhã. Agora quero dormir.</p>
+
+<p>Bento de Castro sahiu, e eu, voltando-me para o outro lado, sonhei com o
+preto.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Suaves recordações da mocidade, sêde a cebola destes olhos que já não podem
+chorar!<span class="pn">{21}</span></p>
+
+<h2>III.</h2>
+
+<p>No dia seguinte, fui obrigado pelo meu amigo a praticar o escandalo de
+acordar ao meio dia e vinte e sete minutos.</p>
+
+<p>Queria elle ser esclarecido sobre palavras enigmaticas, que eu proferira a
+respeito do preto.</p>
+
+<p>«Não valia a pena&mdash;disse eu&mdash;perturbares o meu somno da manhã por similhante
+insignificancia. A historia do preto é a mais innocente das historias. Não sei
+se o moleque conhece o Othello de Shakspeare. É certo que o Othello era preto,
+e sentiu a mais negra das paixões por uma branca. Não sei tambem se a filha de
+Brabante lhe puxava a elle a carapinha como faz a filha do snr. Pantaleão ao
+dito preto. Em todo o caso ha muito a recear do espirito de imitação, porque o
+plagiato do amor é de todos os plagiatos o mais nocivo. Por imitação, ama-se,
+por imitação, deshonra-se, por imitação, casa-se, por imitação, suicida-se.
+Quem sabe se a snr.ª D. Hermenigilda para imitar Desdemona, introduziu o preto
+no coração?</p>
+
+<p>&mdash;Estás a mangar!&mdash;respondeu o meu amigo Bento&mdash;Póde lá dar-se similhante
+asneira!<span class="pn">{22}</span></p>
+
+<p>«Dão-se asneiras maiores, meu caro, muito maiores. Eu tenho uma prima... dás
+licença que te conte a historia de minha prima?</p>
+
+<p>&mdash;Se não fôr muito estirada...</p>
+
+<p>«Laconica o mais possivel. Minha prima Rosa foi a mulher mais bonita de
+Villarinho de Cotas, Canellas, Sinfães, e povos circumvisinhos. Tinha um bom
+patrimonio, e foi muito pertendida. Regeitou propostas de vantajosos
+casamentos, e resistiu ás minhas tentações, quando eu era um homem perigoso em
+casa de primas. Uma bella manhã a priminha desapparece de casa. Partem
+emissarios para todas as partes do mundo em cata della, e depois de varejarem e
+farejarem todas as casas suspeitas, todas as igrejas onde o mysticismo a
+poderia ter em extasis, e até um poço onde uma allucinação a poderia ter
+precipitado... depois de muitas diligencias, e lagrimas, e gritos, e
+informações, minha prima apparece... imagina lá aonde?</p>
+
+<p>&mdash;Eu sei cá!...</p>
+
+<p>«N'um lagar d'uma quinta sua, escondida atraz d'uma pipa, no mais puro
+arrobamento do amor com...&mdash;meus illustres avós! perdoai-me a revelação!&mdash;com
+um dos gallegos que tinham vindo á vindima. E que pedaço de gallego!</p>
+
+<p>&mdash;Que se seguiu? mataram o bruto?</p>
+
+<p>«Qual matar o bruto! O bruto tinha um direito sagrado á sua existencia.
+Minha prima foi interrogada pelo irmão, seu tutor, e respondeu que havia de
+casar com o gallego.</p>
+
+<p>&mdash;E casou?</p>
+
+<p>«Casou, e vestiu-o de casaco, e botas de cano alto, e chapéo de sêda, e, o
+que mais é, meu primo gallego parecia depois um hespanhol. Se o vires hoje, não
+dirás o pessimo texto que está n'aquella encadernação.</p>
+
+<p>&mdash;E ella ama-o?!</p>
+
+<p>«Essa admiração é sufficientemente parva! Ama-o<span class="pn">{23}</span>
+como o amou sempre, bebe a felicidade dos labios delle, pendura-se-lhe, em
+delirios de ternura, das largas espaduas, aperta ao coração a cabeça amante do
+conjuge inseparavel, não receia uma deslealdade, desconhece o ciume, produz o
+mais mechanicamente que se póde, rapazões robustos, vermelhos, e gordos como
+teixugos; em fim, para te dizer tudo d'uma vez, minha prima está gorda, come
+tanto como elle, e faz as suas digestões na suave beatitude da mulher ditosa,
+com os olhos postos no marido. Faltava-me dizer-te que esta creatura angelica,
+antes de ser encontrada no lagar, era d'um melindre d'orgãos, e d'uma
+susceptibilidade de emoções, que fazia receiar muito pela sua vida.</p>
+
+<p>Lia novellas de La-Calprenéde, Genlis, e Radcliffe. Chorava enternecida,
+fitava no céo os olhos lacrimosos, pendia a fronte, contristada, tomava parte
+nas dôres das suas heroinas, e muitas vezes me disse que a cópia do seu modêlo,
+a realisação das suas esperanças, estava no céo. Como diabo desceu do céo cá
+para baixo o gallego, isso é que eu não sei. Eu vivia persuadido de que o céo
+não importava aquelle genero.</p>
+
+<p>Seja o que fôr, esta historia vem apêlo para exemplificar um dos muitos
+casos em que a boa philosophia nos ensina que um preto é um rival temivel.
+Posso enganar-me, nem ouso aventar uma calumnia; porém, a minha visinha não dá
+ares de quem procura no céo a realização das suas esperanças; e, se procura,
+quem me diz a mim que o preto não desceu de lá pelo mesmo alcatruz que pôz cá
+em baixo o gallego? Que me dizes tu a isto?</p>
+
+<p>&mdash;Eu digo que não quero saber mais nada da tua visinha, e deixo-a ao preto
+em boa paz.</p>
+
+<p>«Não vou para ahi. Suspeitas não fazem prova.</p>
+
+<p>&mdash;Mas o que tens tu visto?</p>
+
+<p>«A pequena a brincar com o preto.</p>
+
+<p>&mdash;De que modo?</p>
+
+<p>«Jogam os cantinhos sem intervenção d'um terceiro:<span
+class="pn">{24}</span> invenção rara que se deve á estrategia do amor, assim
+como o xadrez se deve á estrategia militar.</p>
+
+<p>&mdash;E que mais fazem?</p>
+
+<p>«A bagatela de se darem surras. Ella arrepella-o, elle dá-lhe duas palmadas
+bem sonoras, no mesmo local onde o patrão lhe dá a elle os pontapés. O preto
+perfila-se, a innocente menina vem para a janella, e a moral domestica folga do
+resultado. Já vês que não ha aqui bastante motivo para renunciar uma conquista
+de dez mil cruzados de renda, e uma mulher que promette estar contente
+dando-lhe o comer ás horas, e tres duzias de gallinhas para tratar... Das duas
+uma: ou a mulher ama o preto, e não te acceita a côrte, ou não ama o preto, e
+acceita. Que perdes tu na tentativa?</p>
+
+<p>&mdash;Dizes bem, eu não perco nada. Como não tenho melhor cousa em que esperdice
+o tempo... E como hei-de eu apresentar-me?</p>
+
+<p>«Apresenta-te ahi na minha janella, e faz-lhe saber, sem grandes rodeios,
+que estás ferido.</p>
+
+<p>&mdash;Será demasiada liberdade...</p>
+
+<p>«Deixa-te d'isso; demasiada liberdade acho eu que é a do preto. Certas
+mulheres só entendem o que se lhe diz; e em quanto a mim, a nossa visinha é
+d'aquellas que nem o que se lhe diz entende. Clareza no pensamento e na phrase.
+Imagina que fallas com a filha d'um teu caseiro. Põe o teu codigo de civilidade
+ao pé do Genuense e do Quintiliano. Nada de logica, nem de rhetorica. Os
+principiantes do amor cuidam que é da tarifa devorarem no silencio, antes de se
+revelarem, as melhores phrases que tinham para convencer. Grande contrasenso.
+Parecem-se com os caçadores novatos, que atiram á perdiz quando ella vai muito
+longe do alcance do chumbo. Fia-te em mim, Castro. A mulher que principia a
+amar tem oito dias de alienação moral. O espirito anda-lhe á solta, e um habil
+caçador apanha-lh'o, e depois... como sabes do teu<span class="pn">{25}</span>
+Genuense, a alma é uma substancia acommodada para governar o corpo. Pilhada a
+alma, o corpo, sem governo, é uma nau desmastreada, sem leme, á mercê das
+ondas.</p>
+
+<p>Espera... ouço-a fallar... Olha...</p>
+
+<p>Ella lá está na janella.<span class="pn">{26}</span></p>
+
+<h2>IV.</h2>
+
+<p>O meu amigo chegou á janella, e tossiu a tosse especial dos namorados de
+1826, que era uma tosse secca, como a do ultimo periodo da tysica laryngéa.
+Hermenigilda acudiu ao reclamo catarrhoso, e viu risonha a cara do meu amigo
+Castro, que realmente era um perfeito homem. Retirou depressa os olhos, mas
+depressa obedeceu com elles ao magnetismo das olhadellas do visinho. Eu cá da
+minha alcova, por entre os farrapões das cortinas amarellas, estava
+presenceando o introito comico do acto mais solemne da vida dos povos, que era
+o casamento então, e hoje são as eleições.</p>
+
+<p>O meu amigo não se despegava do peitoril da janella. A pequena ia e vinha;
+olhava-o, como a disfarce, lá do fundo da sala, e trazia sempre um terço do
+olho esquerdo compromettido.</p>
+
+<p>Castro manifestava com o nariz o seu contentamento, empenhando-o na
+victoria. Assoando-se, trombeteava o som menos amoroso possivel. O nariz,
+considerado porta-voz do coração, ecco da poesia intima, interprete da
+linguagem<span class="pn">{27}</span> muda da ternura, exerce a mais nobre das
+missões corporeas, e attinge um elevado grau de perfectibilidade nazal, depois
+do outro, mais elevado ainda, de espiraculo de defluxo, e absorvente de
+simonte.</p>
+
+<p>Fui almoçar, e deixei o meu amigo na janella. Quando voltei, estava elle
+radioso de gloria.</p>
+
+<p>«Então?&mdash;disse-lhe eu&mdash;quantos graus acima de zero marca o thermometro da
+visinha?</p>
+
+<p>&mdash;Está pegado o namoro.</p>
+
+<p>«Eu vi tudo.</p>
+
+<p>&mdash;Mas não viste o melhor. Offereci-lhe uma carta. Ella primeiro disse que
+não...</p>
+
+<p>«Que não sabia lêr?</p>
+
+<p>&mdash;Não, homem: disse que não acceitava. Instei, e, por fim, deu signal
+affirmativo com a cabeça, e fugiu da janella.</p>
+
+<p>«Oh! é tocante essa fuga! o que faz o pudor! A virginal menina não pôde
+mostrar a fronte á luz do sol, depois d'uma fraqueza a que a paixão a
+compelliu!</p>
+
+<p>&mdash;Tu estás caçoando!</p>
+
+<p>«Forte scisma a tua! Não póde a gente vestir as suas idéas com as pompas da
+linguagem! Ora vamos, Bento. É preciso escrever á pequena.</p>
+
+<p>&mdash;É um grande embaraço. Não sei como se escreve a esta mulher. Será muito
+estupida?</p>
+
+<p>«Parece-me que é, e, nesta hypothese, escreve-lhe uma carta muito tola.
+Queres tu ser o secretario? Eu entro no teu coração e fallo por ti.</p>
+
+<p>&mdash;Valeu! nota lá a carta.</p>
+
+<p>«Senta-te, e escreve.</p>
+
+<p>Eu accendi um cigarro, sentei-me de cocoras sobre a minha cama, entrei em
+espirito no espirito do meu amigo, e dictei a seguinte carta, que offereço como
+norma aos amadores das Hermenigildas:<span class="pn">{28}</span></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p class="direita">«Meu adorado Bem.</p>
+
+<p>«Com o coração em viva brasa, lanço mão da penna tremula para expôr á vossa
+compaixão o triste sudario da minha alma.</p>
+
+<p>«Os vossos olhos são settas do deus implacavel, que não perdôa a rei nem a
+vassallos, que abranda o coração da panthera de Java, e enternece as melodias
+do rouxinol do salgueiro.</p>
+
+<p>«Ferido neste coração, que é vosso, tenho direito a pedir-vos balsamo para a
+chaga que vossos olhos me rasgaram no peito.</p>
+
+<p>«Ingrata serieis, amada Hermenigilda, se mostrasseis indifferentes á dôr, os
+olhos que tamanha dôr causaram! Não! é impossivel que nesse peito de alabastro,
+ninho dos prazeres, se aninhe a vibora da ingratidão!</p>
+
+<p>«No vosso angelico sorriso, ó cara amada, pousou a minha felicidade, que, ha
+muito, busco, por toda a parte, como andorinha que perdeu o trilho aerio da sua
+patria, e ficou erma e só na região das neves...»</p>
+
+<p>&mdash;Ella não entende isto!&mdash;exclamou o meu amigo!</p>
+
+<p>«É justamente o que nos convém. Se ella entendesse isto, faria da carta dous
+papelotes, e mandava-te á fava. Continúa:</p>
+
+<p>«Eu sou como o viajante nos desertos da Mezopotamia, ardente de sede,
+pedindo a cada miragem uma gotta de agua, e bebendo candeias accesas nos raios
+do sol oriental!</p>
+
+<p>&mdash;Isto parece-me asneira!&mdash;replicou o amanuense&mdash;<em>Bebendo candeias!</em>
+Viu-se já um similhante disparate!</p>
+
+<p>«Pois tu queres que ella te entenda, ou não?</p>
+
+<p>&mdash;Quero que entenda: é boa a pergunta!</p>
+
+<p>«Pois se tu lhe disseres que bebias no deserto linguas de fogo em logar de
+candeias accesas, entender-te-ha ella melhor? Candeias sabe ella perfeitamente
+o que são; e<span class="pn">{29}</span> linguas, em quanto a mim, só conhece a
+de porco e a de vacca. Se me pões contraditas ao libello, recolho a inspiração,
+e deixo-te nas trevas. Escreve lá:</p>
+
+<p>«Nos meus sonhos...</p>
+
+<p><em>Entre parenthesis.</em> Este estylo hoje é rançoso, e qualquer caixeiro
+o escreve sobre o mostrador, entre uma ceira de figos de comadre e tres achas
+de pau campeche; n'aquelle tempo, porém, em 1826, era necessario ter um talento
+creador para espetar a phrase na região do sublime. Eu fui um dos apostolos
+deste estylo; e glorio-me de ter feito escóla. Vieram depois os imitadores, sem
+critica nem gosto, e asnearam de modo que venceram o passo que vai do sublime
+ao ridiculo.</p>
+
+<p>«Escreve lá, Bento de Castro.</p>
+
+<p>«Nos meus sonhos, tenho visto muitas vezes uma visão vestida de nuvens
+coradas de luz, calçada de estrellas, coroada com o arco iris, sentada na lua,
+com o sol engastado no peito, e o globo terraqueo a seus pés. Ereis vós,
+Hermenigilda! Apenas vos vi, reconheci-vos como o molosso reconhece o dono, e a
+rola o ninho, e a lebre a cama, e a truta a acolheita.</p>
+
+<p>«Vêr-vos, e não amar-vos, seria morrer de vêr-vos; e amar-vos sem vêr-vos,
+só eu pude; e que faria eu depois ao vêr-vos, senão amar-vos!?</p>
+
+<p>&mdash;Acaba depressa com isto!&mdash;interrompeu o meu amigo&mdash;Vêr-vos, não vêr-vos,
+amar-vos, e vêr-vos, e não amar-vos... que diabo de embrulhada é esta!?</p>
+
+<p>«Tu és um tolo!&mdash;redargui eu&mdash;Está explicado o segredo da tua nullidade
+perante as mulheres. Tens trinta annos, e todas as tuas conquistas reduzem-se á
+filha do chapelleiro de Braga. Podias ter um nome em Portugal, se ao teu
+patrimonio, quasi dissipado, e á tua excellente figura, quasi em decadencia,
+juntasses um pouco de estylo. Todo a conquistador deve ter um arsenal bem
+fornecido de bombas phraseologicas. A idéa não é que persuade<span
+class="pn">{30}</span> uma mulher, é a palavra. O que tu chamas
+<em>embrulhada</em>, meu patavina, é o melhor que se póde dizer quando não ha
+nada que se diga.</p>
+
+<p>&mdash;Suppomos&mdash;-replicou elle&mdash;que esta mulher não me entende?</p>
+
+<p>«Certo disso estou eu.</p>
+
+<p>&mdash;O que se segue é não me responder, porque receia que eu me ria da sua
+ignorancia.</p>
+
+<p>«É justamente o que te convem, tolo.</p>
+
+<p>&mdash;Que me convem!</p>
+
+<p>«Sim; convem-te que não responda, porque não respondendo, falla-te. Que
+lucras tu com a correspondencia epistolar desta mulher?</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que pensas bem!... Tu és um grande homem! Ora anda lá, diz mais
+alguma asneira.</p>
+
+<p>«Onde estavamos nós?</p>
+
+<p>&mdash;Estavamos no <em>vêr-vos e não vêr-vos, amar-vos e não amar-vos</em>...</p>
+
+<p>«Ah! já sei... põe lá:</p>
+
+<p>«Cesar foi, viu, e venceu. Eu vim, vi, e fui vencido! Maravilhosa
+coincidencia de constrastes, Hermenigilda querida!</p>
+
+<p>«Mas é tão dôce ser escravo, subdito e fiel vassallo vosso! Quereis vós ser
+a rainha desta alma? Governai-a com o vosso sceptro de amor; subjeitai-a aos
+decretos e leis regias dos vossos soberanos olhos; regei esta monarchia com o
+absolutismo despotico da vossa augusta vontade.</p>
+
+<p>«Se não quereis responder-me, senhora, dai-me n'um sorriso o signal de que
+acceitaes preito e homenagem do vosso mais humilde feudatario,</p>
+
+<p class="direita"><em>Bento de Castro da Gama.</em>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>O meu amigo, a meu pedido, fechou a carta em coração, e postou-se na
+janella. Hermenigilda appareceu. A<span class="pn">{31}</span> carta foi-lhe
+mostrada; ella fez menção de recebel-a. Castro sahiu, roçou-se pela porta,
+lançou-a no pateo, e tornou para a minha janella.</p>
+
+<p>Hermenigilda não apparecia: estava naturalmente estudando os jeroglificos
+druidicos da carta.</p>
+
+<p>O preto, porém, veio á sala, e fez uma careta medonha ao meu amigo.<span
+class="pn">{32}</span></p>
+
+<h2>V.</h2>
+
+<p>A careta do preto fez pensar o meu amigo tão seriamente que desde logo
+resolveu imprimir-lhe em qualquer parte quatro pontapés homericos.</p>
+
+<p>Eu combati o projecto com a logica da prudencia, fazendo vêr ao pundonoroso
+Castro que a careta do preto era uma dessas innocentes caretas que a natureza
+patusca ensinava aos macacos. Convencido zoologicamente da aproximação das duas
+especies, visto que a careta era de instincto, o amante fogoso de Hermenigilda
+prometteu levantar de sobre a cabeça do negro, não direi a espada de Damocles,
+mas a bota de montar com espora de prateleira, seu calçado favorito.</p>
+
+<p>Mais do que as minhas razões, a presença da visinha aquietou os impetos
+cavalheirosos do meu amigo. Eu puz-me á espreita. Vinha jubilosa, com cara de
+paschoas, um ar de alegria lôrpa, e a expressão mais significativa de que não
+entendêra palavra da carta arripiada.</p>
+
+<p>Castro, sem ser acanhado, parecia um tolo, sorrindo com ella.<span
+class="pn">{33}</span></p>
+
+<p>«Pergunta-lhe se responde» disse-lhe eu cá de dentro.</p>
+
+<p>O meu amigo esperou o ensejo d'uma olhadura, fez menção de escrever na palma
+da mão esquerda, tregeitou com a cabeça uma pergunta, e ella de lá respondeu
+que não. Castro fez um bico de ternura dolorida, encolheu os hombros em ar de
+paciencia, e vestiu o semblante com uma visagem melancolicamente sandia.</p>
+
+<p>«Pergunta-lhe se falla» tornei eu cá do meu centro de operações.</p>
+
+<p>&mdash;Podeis fallar-me?&mdash;disse elle, improvisando com as mãos um ridiculo
+porta-voz.</p>
+
+<p>Ella fez-se desentendida, e o meu amigo levantou nota e meia á pergunta:</p>
+
+<p>&mdash;Se podeis fallar-me...</p>
+
+<p>Hermenigilda não respondeu ainda, e Castro ia de certo interrogal-a com toda
+a franqueza dos seus pulmões, quando viu, lá ao fundo da salêta, reluzirem os
+olhos do preto, como duas carochas em carvoeira. Como se não podesse supportar
+o magnetismo hediondo d'aquelles olhos, recolheu-se para dentro, murmurando:</p>
+
+<p>&mdash;Eu quebro a cara ao preto! La está o patife a espreitar-me.</p>
+
+<p>Eu estava de pachorra para tranquillisar a raiva do meu brioso amigo.
+Fiz-lhe vêr que os grandes triumphos custavam grandes heroismos de paciencia.
+Lembrei-lhe Annibal agatinhando as agruras dos Alpes; Colombo jogando o sopapo
+com a tripulação; Bonaparte comendo farinha de pau no deserto das piramides,
+etc. O meu amigo succumbiu perante os exemplos da historia, e resolveu tolerar
+com paciencia todas as caretas do preto.</p>
+
+<p>«A ti o que te convem&mdash;disse-lhe eu&mdash;é relacionares-te com o Pantaleão. Tu
+não conheces o Miguel das Infuzas?</p>
+
+<p>&mdash;Quem é o Miguel das Infuzas?<span class="pn">{34}</span></p>
+
+<p>«É um fidalgo do Porto, grande genealogico.</p>
+
+<p>&mdash;Não conheço na nobliarchia portugueza esse appellido <em>Infuzas</em>.</p>
+
+<p>«Tambem eu não; mas o appellido é acquisição feita pelo tal Miguel.
+Chamam-lhe o <em>das Infuzas</em>, porque elle, amador das artes, viu duas
+pequenas infuzas de prata n'uma ceia explendida dada ao general do Porto, e
+quando a occasião lhe foi propicia acondicionou-as o melhor que pôde nas
+algibeiras da casaca. Passado tempo, o proprietario das infelizes lobrigou-as
+em casa d'um usurario, e sabendo que o erudito genealogico as pozera no prego,
+divulgou o feito do illustre neto dos Teives e Couceiros e Moscosos. D'ahi em
+diante, a classe media associou as infuzas aos appellidos deslumbrantes do
+fidalgo, que continua a esmerilhar na genealogia do proximo um casamento
+desigual de quinto ou sexto avô, para, nos seus momentos de soberba
+aristocratica, mostrar aos primos uma nodoa na arvore deste ou d'aquelle que
+ousa chamar-lhe primo.</p>
+
+<p>«Aqui tens o maior amigo de Pantaleão. Eu não posso apresentar-te porque não
+pertenço á roda, como sabes; mas tu que és irmão de morgado, procura-o com o
+fim de esclareceres uma duvida sobre o teu oitavo avô. Logo que fallares em
+oitavo avô, o homem manda-te sentar, e pergunta-te onde estás hospedado.</p>
+
+<p>&mdash;E que diabo hei-de eu dizer-lhe do meu oitavo avô?!</p>
+
+<p>«Inventa qualquer toleima... por exemplo: queres saber se teu oitavo avô
+instituiu uma capellania; queres saber se teu oitavo avô casou com a segunda ou
+terceira filha dos senhores de Panoias; queres saber se o teu oitavo avô foi
+casado com a tua oitava avó. Ha trinta mil cousas a saber d'um oitavo avô, pois
+não ha!</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu sei cá quem foi o meu oitavo avô?</p>
+
+<p>«Isso elle t'o dirá. É capaz de te descobrir um joanete<span
+class="pn">{35}</span> que elle tinha no pé esquerdo. Conseguido o primeiro
+passo, pergunta-lhe se uma senhora da tua familia é exacto ter casado, ha 327
+annos, na casa de Villar de Gaivotas, d'onde elle se diz muito parente.
+Consegue que elle te chame primo, e eu corto ambas as orelhas, se tu não
+casares com Hermenigilda, apesar de todas as caretas do preto.</p>
+
+<p>&mdash;Tu nunca fallas serio, João! Devéras entendes que eu falle ao homem?</p>
+
+<p>«Hoje, se é possivel. Isto são favas contadas. O Miguel das Infuzas vem
+jantar, todos os domingos, com o primo Pantaleão, e tu és apresentado no
+proximo domingo.</p>
+
+<p>Castro foi á janella dispensar um sorriso a Hermenigilda.</p>
+
+<p>Com grande espanto meu, a rubra menina, sem ser provocada a fallar, disse,
+affectando muito receio de ser ouvida:</p>
+
+<p>«Posso fallar-vos daqui da janella, depois que meu pai e minha mãi estiverem
+deitados.</p>
+
+<p>&mdash;A que horas?</p>
+
+<p>«Ás nove.</p>
+
+<p>&mdash;Ás nove!?&mdash;replicou elle maravilhado.</p>
+
+<p>«Sim, sim,» tornou ella, e desappareceu.</p>
+
+<p>&mdash;Isto vai bem!&mdash;exclamou Castro&mdash;Mas ás nove horas! tão cedo!</p>
+
+<p>«Teu futuro sogro, meu amigo, segundo me disse a creada dos calcanhares
+gretados, come o seu caldo requentado ás sete horas, arrota até ás oito,
+deita-se ás oito e um quarto, adormece ás oito e meia, e ás nove é uma massa
+bruta, inerte, inamovivel. Bom é que vás sabendo o programa do teu futuro em
+casa do fidalgo d'Amarante. Ás oito horas has-de estar no thalamo conjugal com
+o barrete de retroz por cima das orelhas, e ás nove has-de resonar o mais
+estupidamente possivel, fazendo um dueto com tua mulher.<span
+class="pn">{36}</span></p>
+
+<p>&mdash;Estás enganado!&mdash;replicou elle&mdash;Se eu casasse com ella, pensas que me ia
+degradar na Amarante? Isso sim! Eu quero viajar á custa de minha mulher, e
+dar-lhe-hei a honra de me acompanhar. Que póde viver a mãi de Hermenigilda?
+Dous ou tres annos, quando muito. Logo que ella se resgate da gotta, está a
+filha de posse d'uma excellente casa. A do pai ella virá quando vier, e virá
+sempre a tempo de me dourar as cadeias. Queres tu viajar comnosco?</p>
+
+<p>«Oh! pois não hei-de querer!? Havemos de ir a Vallongo, dia de Santo
+Antonio, e quando reunires ambas as casas de modo que possas cortar por largo,
+iremos a Vianna, á Senhora da Agonia! Que bello futuro!</p>
+
+<p>&mdash;És um pateta!&mdash;redarguiu lisongeiramente o meu amigo.&mdash;Não se póde fallar
+serio comtigo! Vamos ao caso: visto que ella me falla ás nove horas, é escusado
+procurar a protecção do Miguel das Infuzas.</p>
+
+<p>«Pateta és tu! Sem o Miguel das Infuzas não fazes nada. Se o teu fim fosse
+seduzir Hermenigilda, convinha-te sustentar o namoro clandestinamente, evitando
+relações com o pai. Mas tu queres casar, e casar com brevidade; precisas ser
+admittido ao gremio da familia; dar ao teu namoro um ar de honestidade boçal;
+cabecear com somno todos os dias, meia hora ao pé da noiva; jogar a bisca de
+nove com tua sogra, e representares, em fim, de palerma até ao dia em que se
+cruzarem definitivamente as raças. Não deixes, portanto, de procurar o Miguel
+das Infuzas. Vê o que ella te diz hoje, e ámanhã vai ao Porto saber alguma
+cousa do teu oitavo avô.»</p>
+
+<p>Castro foi á janella trocar com Hermenigilda dous gatimanhos alvares, como
+são todos os gatimanhos preliminares d'uma grande asneira.<span
+class="pn">{37}</span></p>
+
+<h2>VI.</h2>
+
+<p>Ás nove horas em ponto, Bento de Castro sahiu de minha casa, e plantou-se
+debaixo da janella do snr. Pantaleão. Eu apagára a luz, e espreitava pelos
+buracos da cortina o introito do <em>rendez-vous</em>. Espreitava, e escutava,
+não por mera curiosidade, porque não sou curioso, mas por utilidade propria,
+visto que me tinha encontrado em grandes apertos de eloquencia nos primeiros
+encontros com trinta e oito mulheres.</p>
+
+<p>O leitor casto&mdash;(para não ser sempre <em>pio</em>), que chegou aos cincoenta
+annos sem experimentar os apuros de namorado na sua primeira entrevista, está
+muito longe de imaginar o que é uma agonia séria!</p>
+
+<p>Eu, João Junior, em quem a Europa reconhece um espirito superior e mais um
+bocadinho, recordo hoje com vergonha a plangente figura que fiz, ha quarenta
+annos, diante dos meus namoros.</p>
+
+<p>A primeira mulher que amei era uma dama de alto nascimento, que tivera
+bastante influencia no quartel general de lord Wellington, e jogára, por causa
+d'um ajudante<span class="pn">{38}</span> d'ordens do mesmo, o sopapo com uma
+viscondessa celebrada, cujos dentes, que foram bellos, passaram com os meus
+para o dominio da historia.</p>
+
+<p>Esta dama, com os seus quarenta annos bons, era ainda formosa, e fallava
+admiravelmente sobre quasi tudo, e com especialidade sobre a acção immoral que
+a revolução franceza exercera, por tabella, nos salões lisbonenses. Dizia ella,
+com um riso sarcastico nos finos labios, que os inglezes vieram executar em
+Portugal as theorias livres da França. Acrescentava que o fardamento dos
+officiaes de Beresford conseguira das mulheres lusitanas, raça das Brites, e
+das Vilhenas, o que os romances de Voltaire, não poderam fazer.</p>
+
+<p>Ora vejam que tal era a primeira mulher que me trouxe pela mão o travesso
+Cupido, que n'aquelle tempo estava no ministerio!</p>
+
+<p>Foi aqui justamente na Foz que eu a vi, rodeada de satellites
+sufficientemente parvoinhos para perderem o centro de gravidade e cahirem no
+espaço infinito dos conquistadores aleijados.</p>
+
+<p>Fiz-me importante aos seus olhos por lhe salvar uma cadellinha que
+escorregára do <em>penedo d'Apollo</em> ao mar. Apenas a vi em ancias, despi o
+casaco, metti-me até ao peito na agua, apanhei a cadellinha, que a ressaca
+levava para o mar, e, como Camões,</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Dos procellosos baixos escapado,</p>
+</blockquote>
+
+<p class="reset">vim lançar no regaço da afflicta dama a cadella gemebunda.</p>
+
+<p>Fui bonito, como vêem, para casa! A nobre senhora quiz recolher-me no seu
+quartel, e eu, sem dar tempo a reiterados rogos, nem agradecer-lh'os, porque os
+queixos faziam uma traquinada diabolica, metti-me á cama, onde transpirei tres
+dias, bebi dez garrafas de tizana; puz no peito um arnez de pez de Borgonha, e
+ao cabo<span class="pn">{39}</span> d'uma semana fui deixar um bilhete á
+exc.<sup>ma</sup> dona da cadella, que mandára saber de mim todos os dias duas
+vezes.</p>
+
+<p>Encontrando-me na praia, disse-me ella com muito agrado:</p>
+
+<p>«Eu não me satisfaço com o seu bilhete. Sou mais ambiciosa. Quero que me dê
+o gosto de ir passar alguns momentos a minha casa, onde se joga, e ri, e
+conversa, depois d'um mau chá. Hoje poderei contar com a honra da sua
+visita?</p>
+
+<p>&mdash;Oh minha senhora!...</p>
+
+<p>«Não me deixe na duvida. Meus manos querem ter o gosto de o conhecer... (Em
+1819 era assim que se dizia a um homem da minha roda. Hoje os manos de s.
+exc.ª, querendo conhecer-me, procuravam-me em minha casa. Que progresso immenso
+em quarenta annos!)</p>
+
+<p>«Não nos falte! (proseguiu ella gesticulando seductoramente). Por me ter
+feito um grande favor, não se segue que me prive d'outros.</p>
+
+<p>&mdash;Oh minha senhora!...</p>
+
+<p>«Um grande favor, sim! Mal sabe o amor que tenho a esta cadellinha. É
+ingleza... foi-me enviada por um general britannico das minhas relações de
+infancia. (<em>Nota</em>: s. exc.ª tinha recebido a cadella em 1812; tinha ella
+então <em>trinta e dous annos</em>... que <em>infancia</em>! e que relações!)
+Calcule o impagavel serviço que recebi...</p>
+
+<p>&mdash;Oh minha senhora!</p>
+
+<p>Nunca pude passar desta apostrophe palerma: <em>oh minha senhora!</em></p>
+
+<p>Que idéa fará esta mulher da minha intelligencia? perguntava eu ao outro
+<em>eu</em>.</p>
+
+<p>Com effeito, na noite desse dia apresentei-me em casa da exc.<sup>ma</sup>
+snr.ª D. Vicencia dos Anjos Albergaria Raposo Cogominho etc.</p>
+
+<p>(Parece-me que vai sahindo grande estopada a historia!<span
+class="pn">{40}</span> Já agora, leitor, não queiras que eu perca duas tiras de
+papel, escriptas debaixo da inspiração saudosa dos tempos ridiculos!) Apenas
+entrei, fui rodeado de caras desconhecidas. Vi muita velharia femea sentada a
+um canto da sala. Fui lá fazer os meus comprimentos, e apenas uma se dignou
+bamboar um pouco a cabeça. As outras perguntavam á dona da casa quem era eu.
+Este <em>quem é</em> ignominioso passava de bocca em bocca, já depois que D.
+Vicencia dissera alto e bom som: «O snr. João Junior é o salvador intrepido da
+minha cadellinha.» Ser João, e salvar cadellas não era habilitação bastante
+para ser apresentado.</p>
+
+<p>Deu-se-me pouca importancia; apenas o capellão me veio perguntar quem era,
+d'onde era, que modo de vida tinha.</p>
+
+<p>O orgulho começou a picar-me, e eu respondi que era o que fôra antes de ser
+o que era. Que nascera em qualquer parte onde o acaso me fizera nascer. Que o
+meu modo de vida era viver de modo que podesse rir-me dos tolos que o acaso do
+nascimento fizesse mais tolos do que eu.</p>
+
+<p>O capellão ficou atonito deste trocadilho insulso, e fêl-o mais parvo do que
+era, revelando-o aos hospedes de D. Vicencia.</p>
+
+<p>Ella, porém, viera sentar-se ao meu lado, e animou-me a eloquencia com as
+liberdades da sua conversação.</p>
+
+<p>Fallou-me no amor, e parecia mais bella, acalorada com o enthusiasmo deste
+grande assumpto. Perguntou-me se tinha amado, e se lhe fizera a ella o
+sacrificio de privar a minha amante d'alguns instantes felizes.</p>
+
+<p>Respondi que apenas sahira da minha aldeia vinte dias antes, pela primeira
+vez, e não sentira ainda o que era amor.</p>
+
+<p>«Sim!?&mdash;atalhou ella, abrindo muito os olhos scintillantes.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha senhora.</p>
+
+<p>«Um coração virgem! É crivel! Qual será a feliz<span class="pn">{41}</span>
+mulher que se aqueça ás primeiras chammas da sua alma?</p>
+
+<p>Esta metaphora pareceu-me magnifica e fez-me impressão! Se lhe respondesse,
+diria necessariamente uma futilidade chôcha. Calei-me, e, se bem me recordo,
+córei.</p>
+
+<p>Se dispensam saber o resto, não leiam o capitulo seguinte.<span
+class="pn">{42}</span></p>
+
+<h2>VII.</h2>
+
+<p>Pouco depois, tres morgados das margens do Tamega vieram sentar-se ao pé de
+D. Vicencia, e começaram a fallar de cavallos. Discutiu-se a pulmoeira d'uma
+egua ingleza, e os alifafes d'um alasão de Alter. D. Vicencia fallou d'um urco
+inglez que era o mimo quadrupede do quartel general do Beresford, e datou
+precisamente que em metade do seculo XVIII florescera o tronco d'um cavallo
+pigarço que lhe morrera d'um aguamento na estalagem de Vallongo.</p>
+
+<p>Eu assisti estupidamente silencioso á pratica destes dignos Plutarcos de
+cavallos illustres. Se quizesse dar o meu obulo para a conversação, poderia
+apenas apresentar as minhas averiguações sobre quatro mataduras d'uma egua em
+que viera, graças á benevolencia prestante do meu abbade.</p>
+
+<p>Á meia noite, um tio de D. Vicencia, conego da sé patriarchal, principiou a
+resonar a um canto da sala. A trombeta nazal do distincto ornamento da igreja
+era o signal do despejo. A nobreza destes reinos principiou a sahir,<span
+class="pn">{43}</span> e eu, depois de quatro curvaturas, correspondidas por
+quatro mesuras de alto a baixo, em que era soberanamente ridicula D. Vicencia,
+fui para o meu quartel, scismar na mulher, á luz d'uma bugia.</p>
+
+<p>Devo confessar que me não sahia das orelhas o ecco destas dulcissimas
+palavras: «qual será a primeira mulher que aqueça as primeiras chammas da sua
+alma?» Esta honra de fogareiro, concedida pelos melhores quarenta annos que
+meus olhos viram, alvoroçou-me o sangue, e tirou-me a vontade da ceia, dôce
+amiga que até então me embalava nos sonhos deliciosos d'um Vitellio de meia
+tigella.</p>
+
+<p>Vi duas vezes a mulher, em sonhos. Não sei porque, mas o sonho com a mulher
+que póde amar-se, essa casta idealisação em que o material do corpo não entra,
+faz que a gente accorde amando-a, revendo-a através da nuvem esvaecida do
+sonho, desfigurando-a por uns contornos vaporosos, que o leitor nunca viu, se
+Deus lhe fez o favor de lhe dar uma alma bem chata, do que lhe dou os meus
+sinceros parabens.</p>
+
+<p>Rompia a manhã no horisonte purpurino do mar, quando eu saltei do leito da
+insomnia para o meio da rua. Senti que era poeta: alvoreceu-me nessa madrugada
+o furor das rimas, e, sem vaidade, confesso que escrevi d'uma enfiada vinte e
+tantas quadras, terminando todas por:</p>
+
+<blockquote>
+ <p>Meu amante coração.</p>
+</blockquote>
+
+<p>É realmente um vacuo na historia da poesia moderna em Portugal a perda
+lastimavel do meu primeiro jacto metrico. Se bem me recordo, o meu poema
+poderia ter uma até duas, mas tres tolices em cada verso, isso posso eu
+asseverar que não aos poetas contemporaneos, que tem levado o seu talento
+creador a quatro, cinco, e mais. Como quer que fosse, eu glorio-me de ter feito
+obra que<span class="pn">{44}</span> muitos annos depois encontrei executada,
+com pequenas correcções, ao som da viola, fazendo as delicias d'um arraial.</p>
+
+<p>Com a aurora da poesia veio a primeira nuvem das decepções amargas do poeta,
+e vem a ser que, estando eu persuadido que o poeta sahia do vulgar, entrava em
+convivencia com os sylphos, e, <em>ipso facto</em>, dispensava o
+almoço,&mdash;enganei-me redondamente. Ás nove horas e meia, quando o coração
+parecia ter feito monopolio da vida dos outros orgãos, começaram-me os
+intestinos a resoar uma symphonia de rugidos, que devia ser a da abertura d'uma
+opera muito séria. Fui a casa, e aquietei o motim intestinal, como os
+imperadores romanos aquietavam a canalha: <em>panem</em>, mas com manteiga, que
+os romanos não conheceram; o <em>et circenses</em> traduzi-lh'o em café com
+leite.</p>
+
+<p>Consummada esta operação mixta, achei-me poeta em duplicado. Fiz um soneto
+excellente durante a digestão. Era um acrostico a <em>Vicencia</em>; mas como
+Vicencia tem só oito letras, e eu precisava de quatorze, venci a difficuldade,
+buscando entre os seus appellidos um com seis letras. Encontrei
+<em>Raposo</em>; por consequencia&mdash;VICENCIA RAPOSO!</p>
+
+<p>Era um bello soneto, que será publicado na 2.ª edição, para não alterar a
+ordem delineada da 1.ª Perfilei-me na praia, eram dez horas e vinte e cinco
+minutos. O coração dava-me cambalhotas no peito, quando a vanguarda de D.
+Vicencia, composta de paspalhões, appareceu na calçada. Nisto, desponta a
+cadellinha, que eu amava quanto é possivel amar-se uma cadella que nos
+proporciona o namoro com a dona. Depois... <small>ELLA</small>!</p>
+
+<p>Então é que foi! Eu já não sabia o que havia de fazer das mãos! Parecia-me
+que a perna direita era um membro incommodativo. Os hombros encolhiam-se-me, e
+os braços procuravam, entre todas, a postura mais desengraçada!<span
+class="pn">{45}</span> D. Vicencia cortejou-me de longe, e eu, querendo
+corresponder-lhe, tirei o chapéo tanto á pressa que me ficou metade do forro em
+volta da testa, como uma aureola de marroquim vermelho. Attribulado com os
+sorrisos de quatro petimetres que me estavam ao lado, quiz dar-me uma
+compostura geral ao corpo para os encarar com sobresenho, e resvalou-me um pé
+na aresta d'uma fraga. Dobraram a risada os peralvilhos, e eu, emparvecido,
+cosi-me com uma barraca, desejando n'aquelle instante bifurcar-me na egua
+ulcerosa do abbade, e demandar o patrio ninho.</p>
+
+<p>Não o quiz assim a minha desventura.</p>
+
+<p>D. Vicencia não testemunhára a minha segunda catastrophe, graças ao
+cumprimento d'um adventicio. Quando eu me escoava subtilmente por entre as
+barracas, não pude deixar de envesgar um olho miserando sobre Vicencia. Viu-me!
+procurava-me com aquelle ar desdenhoso das mulheres espertas, que parecem não
+querer vêr o homem que mais procuram. Ora, Vicencia, além de esperta, tinha um
+uso!... Não fallemos disso!</p>
+
+<p>O magnetismo d'aquelle olhar collou-me os pés á areia como os da estatua do
+idiotismo! Sorriu-me com o mais amavel dos desleixos, brincando com as borlas
+do seu elegante casaco, roupão, ou como é que se chamava, de castorina côr de
+rato! Eu tomei a brincadeira das borlas como um acêno, e penso que me não
+enganei. Este espirito sagaz é uma cousa muito velha em mim!</p>
+
+<p>Fui-me aproximando disfarçadamente. Vicencia, com mais subtil disfarce,
+deixou o grupo dos senhores donatarios que regougavam as suas tolices
+habituaes. Foi sentar-se solitaria ao pé d'uma barraca, e eu, tremulo de susto,
+fingindo quanto pude um animo frio que mais me denunciava, avisinhei-me com o
+chapéo na mão.</p>
+
+<p>&mdash;Como passou a noite, snr. João Junior?&mdash;acudiu ella ao meu embaraço.</p>
+
+<p>«Muito obrigado, minha senhora...&mdash;gaguejei eu.<span
+class="pn">{46}</span></p>
+
+<p>&mdash;Passou bem, não é assim?</p>
+
+<p>Creio que fiz um tregeito parvo com os beiços, no qual tregeito queria eu
+significar-lhe que não passára lá grande cousa.</p>
+
+<p>&mdash;Então passou mal?&mdash;tornou ella.</p>
+
+<p>Uma idéa, distinctamente tola, me acudiu de improviso á mente. Julguei do
+meu dever não atraiçoar o legitimo sentimento de ternura que ella fizera
+nascer. Revesti-me da bravura moral que o amor inspira a todos os patetas
+bisonhos, e respondi bruscamente:</p>
+
+<p>«Quem sonha com o objecto amado não passa bem.»</p>
+
+<p>Nos labios de Vicencia esvoaçou um riso imperceptivel. Ainda hoje me dá
+muito que pensar aquelle riso! Acho, aqui para nós, que a generosa mulher
+satisfez com aquelle riso ao estimulo de uma conscienciosa gargalhada.</p>
+
+<p>&mdash;Pois o senhor não me disse ainda hontem que não amava?</p>
+
+<p>«É verdade, minha senhora... mas... lá vem a maré...</p>
+
+<p>&mdash;Vem a maré?! (disse ella) a que horas virá ella hoje? Tanto queria tomar
+banho cedo!</p>
+
+<p>Imaginem, pios leitores, com que cara eu ficaria!<span
+class="pn">{47}</span></p>
+
+<h2>VIII.</h2>
+
+<p>&mdash;Eu não fallava na maré do mar, minha senhora...</p>
+
+<p>«Ah... não? eu pensava...</p>
+
+<p>&mdash;Queria eu dizer que... o coração muda d'um instante para o outro.</p>
+
+<p>«Agora entendo! Ora sente-se...</p>
+
+<p>E eu sentei-me, resolvido a ser homem; mas a cadeira era baixinha e eu
+fiquei virtualmente sentado como um macaco. Quiz accommodar uma perna sobre a
+outra; mas o meu mestre de rhetorica tinha-me dito que era signal de má criação
+cruzar as pernas. Desejei n'aquelle momento angustiado ter nascido na Laponia,
+ou encurtar em corpo na razão directa da pequenez do espirito. Experimentei
+variadas attitudes: uma vez, ficava-me o pé direito em aleijão; outras, o
+joelho esquerdo formava com o direito o apice d'um triangulo isosceles.
+Resolvi, por fim, estender uma perna, e encurvar a outra em fórma de fateixa.
+Isto em quanto ás extremidades inferiores; mas a anathomia prova que o Creador
+tambem fez as extremidades superiores para castigo de amantes garraios. A mão
+direita andou<span class="pn">{48}</span> longo tempo em busca de uma posição,
+desde o seio do collete até ao joelho; por fim, metti-a na algibeira. A
+esquerda inutilisei-a entre as costas e a cadeira. Definida a minha posição,
+immobilisei-me nesta caricatura, como se fosse de greda. Desviei as minhas
+attenções plasticas do corpo, e fiz-me todo espirito, para destruir o mau
+effeito do involucro.</p>
+
+<p>&mdash;Não toma banhos?&mdash;disse D. Vicencia, como se eu lhe tivesse aguado as
+bellas cousas que tencionava dizer-me.</p>
+
+<p>«Sim, minha senhora, já tenho vinte banhos.</p>
+
+<p>&mdash;Soffre dos nervos?... É um terrivel padecimento...</p>
+
+<p>«Eu tambem soffro bastante dos intestinos» atalhei eu com toda a
+ingenuidade.</p>
+
+<p>&mdash;Sim? Ainda ha peores enfermidades... As do coração é que não se curam.</p>
+
+<p>«E v. exc.ª padece do coração?&mdash;disse eu com sincera condolencia.</p>
+
+<p>&mdash;Muito...</p>
+
+<p>«Algum aneurisma?</p>
+
+<p>&mdash;Aneurisma moral... que é o peior de todos. O snr. João Junior ha-de
+soffrel-o tambem quando chegar a sua hora.</p>
+
+<p>«Por em quanto, não sinto dôres de peito, minha senhora. O meu mal é todo de
+intestinos.</p>
+
+<p>&mdash;O coração&mdash;tornou ella sorrindo de um modo celebre&mdash;o coração tambem é um
+intestino.</p>
+
+<p>«Ha-de perdoar, minha senhora; mas os intestinos estão por debaixo do
+estomago. Tenho um tio cirurgião que sabe perfeitamente a anatomia, e nunca lhe
+ouvi dizer que o coração era um intestino.</p>
+
+<p>D. Vicencia ria desafinadamente. Eu estava um pouco enfiado e corrido deste
+mau gosto de discutir ás gargalhadas.</p>
+
+<p>«De que se ri v. exc.ª?»&mdash;interpellei eu, desarranjando<span
+class="pn">{49}</span> um pouco a minha attitude, que tanta arte me custára, e
+tanto me custou a restaurar.</p>
+
+<p>&mdash;Eu rio-me da boa fé com que o senhor enrista a lança em defesa da anatomia
+do seu tio. Eu tenho fallado em estylo allegorico. O snr. João Junior sabe
+perfeitamente o que é allegoria.</p>
+
+<p>«Pois não sei?&mdash;repliquei eu com ar de triumpho&mdash;<em>Allegoria est
+tropus</em>... V. exc.ª sabe latim?</p>
+
+<p>&mdash;Não, não sei.</p>
+
+<p>«Eu traduzo: Allegoria é o tropo, por meio do qual se mostra nas palavras
+uma cousa differente da que se tem no pensamento, empregando todavia, para
+designar esta ultima, outra que com ella se assemelhe. Ha duas especies de
+Allegoria, que são: a <em>total</em>, e a... V. exc.ª ri-se? Cuida que eu estou
+a mentir?</p>
+
+<p>&mdash;Não cuido; peço-lhe que não repare nos meus risos. Eu estou folgando de
+ouvir um sabio...</p>
+
+<p>«Sabio, não digo; mas ainda não ha tres mezes que eu estudei o meu
+Quintilliano...</p>
+
+<p>&mdash;E sabe-o de cór... Qual é o seu destino? tenciona ser frade?</p>
+
+<p>«Não, minha senhora... Eu parece-me que não sirvo para a vida ecclesiastica.
+Meu pai quer que eu seja frade Bernardo; mas eu... acho que não se póde ser bom
+frade, quando se fazem versos.</p>
+
+<p>&mdash;Pois o senhor é poeta?</p>
+
+<p>«Tenho minha tal ou qual inclinação para isso.</p>
+
+<p>&mdash;Ha-de dar-me uma amostra da sua musa. Tem algum poema escripto na Foz,
+cantando o Neptuno, e as deusas do mar?</p>
+
+<p>«Ainda não escrevi nada sobre Neptuno; mas se v. exc.ª ordena, farei uns
+versos a esse assumpto. Hoje escrevi eu umas quadras e um soneto, que deixei em
+casa.</p>
+
+<p>&mdash;Deixou em casa? que pena! Não se lembra de alguns versos?<span
+class="pn">{50}</span></p>
+
+<p>«Não, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Qual foi o motivo?</p>
+
+<p>«O motivo... o motivo...&mdash;gaguejei eu, esfregando os dedos da mão esquerda
+na palma da mão direita&mdash;O motivo... bem sabe v. exc.ª qual foi...</p>
+
+<p>&mdash;Eu!... não sei! Talvez a bravura com que o senhor salvou a minha
+cadellinha!...</p>
+
+<p>«Qual cadellinha!? Ora! não fallemos n'isso... Os versos foram feitos... a
+v. exc.ª</p>
+
+<p>&mdash;A mim?! Dobrada razão para lh'os pedir. O que me pertence não póde ser
+retido, em seu poder, sem meu consentimento. Vá já buscar os meus versos, snr.
+João Junior, e leve-m'os a minha casa, sim?</p>
+
+<p>Ergui-me da infernal cadeira radioso de gloria! Da praia a minha casa não vi
+ninguem. Caminhava sobre flores d'um perfume embriagante. Tudo me parecia
+azul-celeste. O coração dava encontrões na estreita bocêta do peito. Cheguei a
+persuadir-me que estava curado dos intestinos.</p>
+
+<p>Fatalidade! O extremo d'um grande prazer é um desgosto. Procurei os meus
+versos que deixára sobre a banca, e não os vi. Corro á cozinha, e interrogo uma
+velha, que me acompanhára de casa. Pergunto-lhe pelos meus poemas, e ella
+arregala os olhos enviezados de marroquim, sem saber o que eu procuro. Insto
+pelos meus papeis, e a incendiaria diz-me que, á mingua de carqueja, accendera
+o fogão com uns papellitos que achára sobre a mesa.</p>
+
+<p>Senti a cruenta precisão de matar esta velha! Injectaram-se-me os olhos de
+idéas assassinas. Traquinaram-me os queixos convulsivos de raiva. Entrou em mim
+o <em>delirium tremens</em>... Foi a imagem de Vicencia que me salvou... se
+não... ai da velha! e ai de mim tambem!</p>
+
+<p>Sahi, fui-me empoleirar no penedo mais hirsuto dos Carreiros, bebi a longos
+tragos a inspiração, reproduzi as idéas da poesia supplementar á carqueja, e
+outras novas<span class="pn">{51}</span> suggeridas por um novo ardor. Ó poder
+do genio! Cento e vinte versos, repartidos em quadras, a inspiração ejaculou
+d'um vomito! Escriptos a lapis, trasladei-os em papel de peso na loja d'um
+tendeiro. Corri a casa de D. Vicencia. Annunciei-lhe a catastrophe da 1.ª
+edição, que a fez rir muito. Deixei-a lêr mentalmente a segunda, e não ousei
+procurar no semblante d'ella a denuncia da sensação que lhe faziam.</p>
+
+<p>Lido o poema, D. Vicencia, séria, magestosa, e commovida, sentou-se, fez-me
+sentar, por um gesto, junto de si, e murmurou estas palavras que nunca, através
+de trinta annos, pude esquecer:</p>
+
+<p>&mdash;O senhor fez-me rir hoje; mas os seus versos fazem-me pensar com mais
+seriedade do que eu queria. O senhor é uma criança de coração, annunciando
+talento e infortunio. É um innocente que fará rir, antes que o ensinem a
+chorar... Agradeço os seus versos, os seus sentimentos, e o offerecimento do
+seu coração.</p>
+
+<p>Felizmente para mim entrou gente na sala.</p>
+
+<p>O capitulo seguinte não sei se terei a coragem de escrevêl-o! Vou lêr alguns
+das <em>Confissões de J. J. Rousseau</em> para me animar.<span
+class="pn">{52}</span></p>
+
+<h2>IX.</h2>
+
+<p>Era em uma dessas noites em que o amor se pendura dos raios argentinos da
+lua-cheia. O dorso do mar, sereno e suspiroso, scintillava em escamas de prata.
+Na quebrada dos montes fronteiros, onde a lua não diffundia o seu clarão,
+perpassavam luzinhas magicas, tremulas e subitaneas, que, ao cabo de contas,
+vinham a ser as candeias dos lavradores que subiam do redil para os casebres,
+ou desciam dos casebres para onde elles queriam, cousa de que não faço questão.</p>
+
+<p>E eu fitára os olhos no horisonte do occeano, terrivel e magestoso; quadro
+indecifravel desde o cháos, provocação eterna ao orgulho do verme chamado
+homem; gigante inquieto que submerge no seio, d'um sorvo apenas, a taboinha
+juncada de soberbos tyrannos da terra, que lá se confundem com a folhagem das
+algas, boiantes sobre a garganta dos abysmos. E o meu espirito, desatado do
+poste vil chamado corpo, pairou nas alturas do céo, voejou de mundo para mundo,
+librou-se na paragem luminosa das chimeras, e desceu por fim sobre a imagem de
+D. Vicencia.<span class="pn">{53}</span></p>
+
+<p>Eram dez horas da noite.</p>
+
+<p>Sahi de minha casa, com a phantasia arrobada de delicias, e achei-me
+machinalmente debaixo d'um caramanchão de faias e loureiros que abobadavam uma
+janella aberta no angulo do jardim de D. Vicencia.</p>
+
+<p>Os raios da lua, dardejando sobre a copa do miradouro, matisavam-na de
+tremula folhagem de prata, e vinham, filtrando por entre os rotulos da janella,
+mosquear a relva como a pelle da zebelina. Era muito para ver-se tudo isto que
+eu, exacto retratista da natureza, vou pintando de modo que o leitor parece-lhe
+que o está vendo. É o que se quer.</p>
+
+<p>Sentei-me defronte desta como gruta de fadas, e imaginei o que ha mais bello
+em Ossian, em Hoffmann, e nos contos orientaes, que eu, com vergonha o
+confesso, não tinha visto, nem vi depois; mas, nestes ultimos tempos, é preciso
+ser grande alarve para não saber tudo isto e muitas cousas mais, lendo os
+folhetins dos meus amigos, sabedores de tudo, conhecedores de todos os nomes
+distinctos, á excepção do Lobato, e do Madureira, menos euphonicos que
+Macpherson, Goethe, Klopstock, e outros, que elles conhecem, como eu, dos
+catalogos da bibliotheca <em>Charpentier</em>.</p>
+
+<p>Estava eu, pois, nesta idealisação de todos os meus cinco sentidos,
+divinisando aquella gruta, onde de tarde vira Vicencia com a face voltada para
+o sol-poente, apoiada com geito encantador na mão eburnea.</p>
+
+<p>Devo, para desarmar a critica, protestar contra o epitheto <em>eburnea</em>.
+Entrou commigo a peste litteraria dos modernos torneiros de paragraphos.
+Arredondar o periodo é a condição imposta pela tyrannia do gosto ao
+escrevinhador laureado. Eu canto o que escrevo; e, se a toada me destoa no
+tympano, desmancho a oração em partes, ajusto-as de novo, calafeto-as de
+artigos, e pronomes, e conjunções, o mais afrancezadamente que posso, e sahe-me
+a<span class="pn">{54}</span> cousa um pouco inintelligivel, mas harmoniosa
+como um clarinete de romeiro de S. Torquato de Guimarães.</p>
+
+<p><em>Com geito encantador na mão eburnea</em>: reparem que é um verso
+hendecasyllabo. Quem ha ahi que arredonde melhor um periodo, sem desnaturar a
+lingua, nem alastrar o verso de cunhas que resabem a estrangeirice?</p>
+
+<p>Tudo isto veio adrêde (eu traduzo: <em>á-propos</em>) para dizer que,
+estando eu com os olhos embevecidos nas melenas das faias, abriu-se subitamente
+a janella, e a lua deu de chapa na radiosa cara de D. Vicencia.</p>
+
+<p>Viu-me, e não me conheceu: ia retirar-se quando eu, ainda absorto na
+apparição, tossi o mais melicamente que pude. Vicencia deu ares de conhecer-me.
+Eu, invocando todos os potentados da minha alma (não seja sempre
+<em>potencias</em>) para vencer o acanhamento, murmurei:</p>
+
+<p>«Sou eu...</p>
+
+<p>&mdash;É o snr. João?</p>
+
+<p>«É verdade, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Então que faz por aqui?! versos?</p>
+
+<p>«Estava a admirar a natureza, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;E admiravel que ella está!</p>
+
+<p>«Muito admiravel, admirabilissima! muito bonita é a natureza!</p>
+
+<p>&mdash;Eu tambem quiz ver o mar onde a lua se espelha tão poeticamente! Mas a
+noite vai arrefecendo; e eu receio muito as constipações á beira-mar. Se me dá
+licença, recolho-me...</p>
+
+<p>«Pois eu ainda fico... Estou gostando muito desta encantadora noite... Quem
+ama, não tem medo ás constipações...</p>
+
+<p>Estas palavras proferi-as com certa entonação de despeito, e fiquei
+satisfeito da minha veia epigrammatica. Vicencia, porém, redarguiu:</p>
+
+<p>&mdash;O logar é incompetente para fallar d'amores. Quem nos visse aqui a
+deshoras suspeitaria de nós. Nada de escandalos,<span class="pn">{55}</span>
+snr. João Junior. Venha cá ámanhã, e então me dirá o effeito que lhe fez o
+poetico espectaculo desta formosa noite; mas... se valho alguma cousa na sua
+vontade, peço-lhe que se recolha, e não queira privar-se de me ver ámanhã,
+constipando-se hoje... Promette ir?</p>
+
+<p>«Sim, minha senhora...</p>
+
+<p>&mdash;Então, boas noites.</p>
+
+<p>E fechou o rotulo, mais depressa, por sentir passos na extremidade da
+travessa, que era de pouquissima passagem.</p>
+
+<p>Eu permaneci quieto no meu sitio, meditando, triste, na indifferença gélida
+com que fôra recebido, em hora tão romantica, tão mysteriosa! N'isto, passou
+por mim um vulto. Era o homem, cujos passos a fizeram fugir com mais presteza.</p>
+
+<p>O tal vulto, ao perpassar por mim, mediu-me d'alto abaixo, afrouxando o
+piso. Olhou para a janella de Vicencia, e fixou-me de novo. Deu alguns passos,
+e retrocedeu... Confesso que já não estava contente!</p>
+
+<p>O encapotado foi até á extremidade do bêcco, e voltou. Parou diante de mim,
+e disse por debaixo do capote, em ar de tyranno de tragedia:</p>
+
+<p>&mdash;Que quer vossê aqui?</p>
+
+<p>«Não quero nada...&mdash;gaguejei eu.</p>
+
+<p>&mdash;Pois então, mude-se.</p>
+
+<p>Eu demorava um pouco a execução do mandado solemne de despejo, quando o
+homem recalcitrou:</p>
+
+<p>&mdash;Mude-se, ou eu o ajudo a mudar.</p>
+
+<p>A ajuda, pelos modos, era uma pranchada de chanfana, que o nosso amigo
+deixou vêr por debaixo da fimbria do capote. Dispensei o auxilio offerecido, e
+retirei-me cozido com a parede, scismando nas bellezas appensas a uma noite de
+lua cheia á beira mar.</p>
+
+<p>Ao cabo da viella parei, sustido por um pensamento negro. «Será aquelle
+homem um amante de Vicencia?!»<span class="pn">{56}</span></p>
+
+<p>O ciume deu-me intrepidez, quero dizer&mdash;a intrepidez de parar e esconder-me
+d'onde podesse espreitar a scena mais escandalosa de que o leitor tem noticia!</p>
+
+<p>A janella abriu-se. Era Vicencia... conheci-lhe a voz! Não sei o que ella
+disse que fez rir o meu rival. Ouvi o soido de ferro que raspava no peitoril da
+janella! eram os ganchos d'uma escada. Ouvi o som cavo do embrulho de cordas a
+cahir na terra. Vi o maldito subir, coar-se pela janella, recolher a corda...
+e... maldição! maldição!...</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>E, desde essa noite nefasta, a minha fronte pendeu abatida como cabeça de
+estatua que um raio fulminou.</p>
+
+<p>Contei as minhas amarguras á vaga gemente, e acordei os eccos das solidões
+compadecidas.</p>
+
+<p>Como Fausto, como Manfredo, e como Werther, perguntei ao Creador se a vida
+não era uma grande patacuada.</p>
+
+<p>O demonio do suicidio segredou-me as delicias do aniquilamento.</p>
+
+<p>Quiz tentar contra a minha existencia, e vacillei longo tempo na escolha do
+instrumento.</p>
+
+<p>Queria um genero de morte novo, maravilhoso, inaudito, e memorando!</p>
+
+<p>A pistola, o punhal, o laço, a asfixia, o verdete eram já n'esse tempo
+expedientes muito safados.</p>
+
+<p>Em cata d'um morrer distincto, habituei-me á dôr. Vivi, se vida póde
+chamar-se este mixto de funcções animaes em que predomina o almoço, o jantar, e
+a ceia.</p>
+
+<p>Não se conhecia então o instrumento de suicidio que a sociedade actual
+inventou: O ARTIGO DE FUNDO.<span class="pn">{57}</span></p>
+
+<h2>X.</h2>
+
+<p>Eu, João Junior, não soffro os romancistas que pulam d'um capitulo para
+outro, de modo que o romance tanto faz principial-o detraz para diante como de
+diante para traz. Classico em toda a extensão da palavra, respeito a arte
+antiga, admiro a boa ordem das <em>Pastoris</em> de <em>Longus</em>, do
+<em>Jumento</em> de <em>Lucius de Patras</em>, e outros venerandos monumentos
+da arte adulta, cuja leitura não aconselho áquelles que dormem as suas horas,
+sem o recurso do láudanum. Com quanto Aristoteles, Horacio, Pope, e Boileau não
+legislassem para o romance, eu, sincero venerador da arte que ensina a fazer os
+primores d'arte, trabalho, quanto em mim cabe, por introduzir no romance as
+tres unidades de Aristoteles. E aproveito a occasião para certificar aos
+principiantes n'este esperançoso ramo de litteratura, que é bom saber um bocado
+de Aristoteles, depois de ter lido duas comedias de Scribe, a <em>Dama das
+Camelias</em>, e&mdash;se o principiante fôr extremamente estudioso&mdash;o
+<em>Chatterton</em>, o <em>Bug Jargal</em>, afóra a immensa erudição que vem no
+La Place. Com estes seis volumes, uma capacidade mediocre<span
+class="pn">{58}</span> abrange todas as ramificações da sciencia humana, e
+póde, se um editor martyr o ajudar, aos quarenta annos, ter produzido quarenta
+volumes.</p>
+
+<p>Os meus quarenta annos já lá vão ha muito; mas, se Deus me der mais dez,
+prometto encher o vasio que sempre deixa na terra um grande nome. É este o
+primeiro livro com que brindo a humanidade; mas tão maduramente pensado elle
+vai, tanto tempo o choquei, antes do parto, no utero intellectual, que, se me
+não logra a vaidade, começo por onde muitos acabam.</p>
+
+<p>A logica com que os capitulos anteriores vão coordenados, a naturalidade das
+transições, o alinho das fórmas em harmonia com a substancia, a intima alliança
+da esthetica com a plastica, a artistica rigidez com que os caracteres se
+pintam, e, sobre tudo, a pureza, a elegancia, o atticismo, a propriedade da
+linguagem, portugueza de lei como os portuguezes d'esta nossa afortunada época,
+tudo isso, e outras louçanias que omitto, por preguiça, provam que eu, João
+Junior, conheço Aristoteles; e, se nunca o li, maior habilidade revelo; tenho o
+sexto sentido, o <em>illuminismo</em>, que tambem não sei bem o que é. Pelo
+que, muito importa que o leitor saiba</p>
+
+<p style="text-indent: -1em; margin-left: 1em;"><em>Quem era o homem da escada
+de ferro, o que elle por lá fazia áquellas horas, e de como o author, depois de
+trinta annos, chora por D. Vicencia, e o mais que a este respeito se disser,
+como do capitulo melhor se verá.</em></p>
+
+<p>Deveis de saber, leitores pudicos, que D. Vicencia Raposo, quando chegou á
+Foz, sentiu, na presença do occeano, rejuvenescer-se o coração,
+desenrugar-se-lhe a alma, e esvoaçarem-lhe de redor candidos amorinhos.
+<em>Souvent l'onde irrite la flamme</em>, disse Corneille, e D. Vicencia,
+aspirando o ar nitrico do mar, cobrou vigor de peito, e com o vigor novo
+readquiriu as necessidades velhas, as illusões<span class="pn">{59}</span> de
+1801, as realidades de 1809, e até o amargo prazer de experimentar os
+desenganos de 1819, época da sua fatal decadencia.</p>
+
+<p>Resolvida a amar, Vicencia espartilhou-se o mais angustiosamente que pôde,
+distribuiu nas faces, um pouco encortiçadas, dous escropulos de alvaiade com
+outros tantos de carmim, e foi passear até Carreiros.</p>
+
+<p>O primeiro homem que viu geitoso era um cadete de cavallaria, bem apessoado,
+bizarro de cintura, sadio de bochechas, e lesto de maneiras, requebros,
+posturas, e varias outras momices que dão nos olhos da mulher disposta a amar.</p>
+
+<p>D. Vicencia era vistosa e farfalhuda. Meneava-se tregeitando com tamanha
+volupia, que eram poucos os dous olhos da cara para a vêrem! O cadete não podia
+ser indifferente á provocação, e azado era elle para segurar a fortuna pelos
+cabellos. Menos parvo que eu, sacou do peitilho da fardeta o seu lenço branco,
+e deu ao nariz notas diplomaticas para iniciar o namoro. Houve de parte a parte
+correspondencia nazal, e já n'essa tarde o afortunado cadete foi apresentado a
+D. Vicencia.</p>
+
+<p>Saibam desde já que o meu rival era... são lá capazes de adivinhar!... Bento
+de Castro.</p>
+
+<p>Depois d'aquella negregada scena do bêco, será ocioso dizer-lhes que o meu
+achaque de intestinos recrudesceu; aliás, para evitar os olhos da perfida,
+ter-me-hia retirado a curar o coração no abrigo dos meus velhos, que todas as
+semanas me recommendavam que rezasse as minhas contas, e não fizesse asneiras.
+A gravidade do mal não me deixava assentar no albardão, apesar de doze
+semicupios! Era-me forçoso testemunhar a minha derrota, assistir aos funeraes
+ignobeis do meu primeiro amor.</p>
+
+<p>Nunca mais fui a casa de D. Vicencia, nunca mais a vi; mas á hora em que o
+mocho pia no galho do azevinho, ia eu, cheio da minha amargura, sentar-me n'uma
+collina fronteira ás janellas d'ella, e d'ahi, com um enorme oculo<span
+class="pn">{60}</span> de papelão, conseguia lobrigal-a através das vidraças.</p>
+
+<p>Se quereis saber qual era então a minha angustia, perguntai á onda porque
+geme, á fonte porque murmura, e á calhandra porque pipila entre as franças de
+avellanzeira! É que a minha angustia era vaga e mysteriosa como a da onda que
+geme, a da fonte que murmura, como a da calhandra, e a do calhandro, e de toda
+a variedade de animaes que tem bico, ou barbatanas, ou tromba, ou labios, ou
+qualquer orificio respiratorio por onde possam respirar e gemer.</p>
+
+<p>Entrou em mim o demonio do ciume! Quando, pela primeira vez, se hospedou em
+minha alma virgem esta paixão filha do inferno, como lhe chama Homero, fez-se
+uma subita mudança na minha natureza. Eu fôra incapaz de entalar o rabo d'um
+gato, e senti-me propenso a cercear as orelhas a um homem! Levaria tres sôcos
+sem resistencia para não levar o quarto, com heroismo, e achava-me animado
+d'esse furor das batalhas, que ceifa louros e cabeças!</p>
+
+<p>Quiz conhecer, encontrar face a face o meu rival, e, para isso, muni-me do
+cabo d'uma vassoura, estive quasi a experimental-o no cavername da velha, que
+me queria tolher o passo, guinchando desabridamente, e fui postar-me debaixo da
+janella por onde o vulto subira.</p>
+
+<p>Depois de duas noites mallogradas, á terceira apparece, entre uma hora e
+duas da manhã, o nosso homem.</p>
+
+<p>Aqui entre nós que ninguem nos ouve: quando o vi perto de mim, a minha
+coragem pareceu-me uma cousa muito duvidosa. Deram-me caimbras nas pernas, e
+senti-me mal do epygastrico! Cingi a mim quanto pude o cabo da vassoura, para
+que elle não denunciasse as minhas tenções reconsideradas, e, o mais
+subtilmente que é possivel, fiz uma pirueta, preparando-me para uma retirada
+honrosa, quando o sujeito me corta a vanguarda, e diz com voz soturna:</p>
+
+<p>«Que diabo estava o senhor alli fazendo?!<span class="pn">{61}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nada...&mdash;regouguei eu.</p>
+
+<p>«Isso não é possivel. O senhor não estava alli para me vêr passar... Não se
+assuste que eu não lhe faço mal... Diga lá o que me quer.</p>
+
+<p>O timbre agradavel d'estas palavras animou-me.</p>
+
+<p>&mdash;Eu ao senhor não lhe quero nada.</p>
+
+<p>«Ora venha cá;&mdash;tornou elle&mdash;vamos passear e conversar. O senhor chama-se
+João Junior.</p>
+
+<p>&mdash;Seu criado.</p>
+
+<p>«Quiz namorar D. Vicencia.</p>
+
+<p>&mdash;Isso lá... é conforme...</p>
+
+<p>«Seja sincero. O senhor fez-lhe versos, versos que eu achei bonitos, e
+conservo-os na minha carteira, porque talvez ainda me valham se me vir apertado
+por alguma mulher com a mania de ser cantada em quadras. O senhor está muito
+verde... Estas mulheres não se conquistam com versos, nem se procuram no
+principio da vida. O snr. João é provinciano, vem lá da sua quinta com as
+bucolicas do Rodrigues Lobo na cabeça; e, como não encontrou zagalas toucadas
+de flores, imaginou que D. Vicencia era uma das tres Graças em uso de banhos.
+Redondamente enganado, meu amiguinho. Ora agora, façamos um convenio. Quer o
+senhor que eu lhe deixe livre o campo para as suas escaramuças? Com a melhor
+vontade...</p>
+
+<p>&mdash;Nada, muito obrigado, eu não quero saber de mais nada... O que eu tenho a
+pedir-lhe é os meus versos.</p>
+
+<p>«Ha-de ter paciencia; mas os seus versos acho-os muito bonitos, e não lh'os
+dou. Até lhe digo mais: depois que os li, fiquei sympathisando com o author, e
+tenho feito diligencias por encontral-o na praia, ou em casa de D. Vicencia.
+Queria dizer-lhe que se não deixe lograr por taes mulheres; queria ensinal-o a
+viver com esta gente, para o poupar aos desgostos que eu supportei, desde que
+sahi de minha casa; queria, em fim, ser seu amigo, se o senhor não tivesse
+n'isso antypathias que vencer.<span class="pn">{62}</span></p>
+
+<p>&mdash;Muito obrigado...&mdash;mastiguei eu, bem disposto a favor de homem tão franco.</p>
+
+<p>E voluntariamente me deixei ir pelo braço delle até sua casa. Subi, e era
+dia claro quando nos separamos, amigos para sempre.</p>
+
+<p>Dous annos depois, recebia elle de mim lições de <em>savoir-vivre</em>. O
+meu talento precoce predominou a experiencia d'elle. Um anno de tracto social,
+decifrou-me enigmas em que Bento de Castro ainda hoje sinca.</p>
+
+<p>Duas palavras mais ácerca de D. Vicencia, e serão ellas sérias e tiradas do
+coração n'um intervallo de negra tristeza.</p>
+
+<p>A mulher devia ser velha quando não sente o coração... quando já não ama.
+Vicencia amou até o fim da vida. Amargurado fim de vida devia ser o seu! Nem já
+flôres desmaiadas lhe escondiam a fronte encanecida. Perdido o brilho,
+amorteceram-se-lhe os olhos, franziram-se-lhe as palpebras, encorreou-se-lhe o
+collo, e as mãos, que tão lindas foram, tingiu-as a amarellidão do tempo.</p>
+
+<p>E o coração ainda vivo no involucro muribundo! Era como a flamma que não
+póde coar-se nos vidros embaciados da velha lampada.</p>
+
+<p>Foi, por fim, motivo de irrisão e mofa, aquella mulher, que, desde os doze
+até aos quarenta e cinco annos, arrancára coroas de quantas rivaes quiz
+supplantar!</p>
+
+<p>De todos os seus amantes, eu fui por ventura o mais nobre, e o mais
+vilipendiado. Embora! Nenhum outro lhe daria o <em>salve</em> compassivo que eu
+lhe dou, depois de trinta annos.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Oh vida! vida!.............................</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Grandes devem ter sido as provações de quem souber tilintar os guizos do
+histrião para que lhe não ouçam os gemidos!...</p>
+
+<p>Chorar no coração, e rir no espirito...<span class="pn">{63}</span></p>
+
+<h2>XI.</h2>
+
+<p>Consta do final d'um capitulo, escripto em logar competente deste exemplar
+romance, que Bento de Castro sahiu de minha casa para entabolar com
+Hermenigilda o seu primeiro colloquio.</p>
+
+<p>Eu cerrei as portadas da janella, deixando apenas uma fresta onde podesse
+encaixilhar a orelha direita, sem denunciar a innocente espionagem. Alguns dos
+meus amigos, orelhudos como Midas, não poderiam fazer outro tanto com o mesmo
+recato.</p>
+
+<p>Bento foi quem primeiro teve a palavra, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;É tal o prazer que me enche o coração, amada Hermenigilda, que não posso
+exprimir-vos quanto por vós sinto, desde o ditoso instante em que vêr-vos e
+adorar-vos foi obra d'um momento. O sentimento que meu terno peito nutre por
+vós, acaso ao vosso terá passado?</p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLA.</p>
+
+<p>Eu passei bem, e o senhor?<span class="pn">{64}</span></p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLE (<em>atordoado como se lhe despejassem de cima
+um balde</em>.)</p>
+
+<p>Como passará bem do corpo quem arde em vivas chammas de amor?</p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLA.</p>
+
+<p>O senhor tambem sabe cantar a modinha das <em>vivas chammas d'amor?</em></p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLE.</p>
+
+<p>Nada, não sei.</p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLA.</p>
+
+<p>Minha prima Carlota canta que é um regalinho ouvil-a.</p>
+
+<blockquote>
+ Althea, mimosa Althea<br>
+ Me maltractas com rigor,<br>
+ E eu por ti ardendo sempre<br>
+ Em vivas chammas d'amor. </blockquote>
+
+<p>Pois o senhor não sabia este soneto?</p>
+
+<p class="pseudocentrado">EU (<em>mentalmente</em>.)</p>
+
+<p>É d'uma estupidez fabulosa! Ó pobre Bento, como estará a tua alma!... Haverá
+d'estas mulheres, passados trinta annos? Digo que não, em honra do progresso.
+Alguns annos mais, e <em>Paulo de Kock</em>, e <em>Pigault Lebrun</em>, e
+outros directores espirituaes, traduzidos em vernaculo, darão aos namoros de
+nossas filhas occasião de ouvirem menos tolices. Os que amarem em 1856, devem
+passar horas muito agradaveis! As mulheres de então, ricas de prendas
+espirituaes, saberão dizer <em>toillette</em>, <em>rendez-vous</em>,
+<em>petit-point</em>,<span class="pn">{65}</span> <em>crochet</em>,
+<em>soirée</em>, <em>boucles</em>, <em>papier-satin</em>, <em>enveloppe</em>, e
+outros ornamentos de lingua com que farão a sua maior, mais fecunda, mais
+grulha e tagarella. Com a superabundancia do idioma, augmentarão as idêas, na
+razão directa. A psycologia estará no auge. Mestre Spinosa e Kant encarnarão
+nas costas abauladas da prole de qualquer jarreta. A mulher saberá os
+escaninhos da alma como a abelha os do cortiço. Não haverá uma só que possa,
+com acerto, chamar-se tola. Perfeita de espirito, attenderá ás imperfeições
+corporeas, e descontente da massa insufficiente que o grande Artifice empregou
+na feitura d'ella, apropriar-se-ha o algodão necessario para que o Creador
+soffra um quinau. A mulher, correcta e augmentada, em alma e algodão, será o
+luxo da natureza, a boneca das creanças-decrepitas, o ouro cendrado no cadinho
+das humanas miserias, o melhor pedaço de carne e osso que Deus creou, a mais
+flacida aba de algodão e barbas de baleia que as manufacturas celestes podiam
+dar-nos.</p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLE (<em>despeitado</em>).</p>
+
+<p>Não fallemos nas cantigas de vossa prima; o que importa é saber se me tendes
+um affecto igual ao meu.</p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLA.</p>
+
+<p>Isso lá... veremos. Se meu pai disser que sim...</p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLE.</p>
+
+<p>Pois vosso pái é que vos manda amar?</p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLA.</p>
+
+<p>O que elle diz é o que se faz. Casamentos não me faltam. Tem-me pedido
+muitos senhores de casa, e se elle diz que não...<span class="pn">{66}</span></p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLE.</p>
+
+<p>Mas, eu não pergunto se quereis casar commigo.</p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLA.</p>
+
+<p>Então?! Se não quereis casar commigo, vindes enganado.</p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLE.</p>
+
+<p>Quero casar comvosco; mas primeiro devo experimentar...</p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLA.</p>
+
+<p>O que?</p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLE.</p>
+
+<p>O vosso coração. Quero ser amado antes de ser vosso marido. Que sentis por
+mim?</p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLA.</p>
+
+<p>Sinto muito bem, gosto de vos vêr, e se meu pai quizesse, eu de mim tambem
+queria ser vossa esposa.</p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLE.</p>
+
+<p>A minha carta que impressão vos fez?</p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLA.</p>
+
+<p>Fez-me muita: está muito bonita; parece mesmo que é cousa de livros de
+historias. Tenho lá em casa, na Amarante, um livro chamado os Cantos de
+Trancoso, e outro chamado as Aventuras de Theofilos, ou Theofanius, ou uma
+palavra assim, que trazem muitos palavriados assim.</p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLE (<em>com a voz suffocada por um vomito
+moral</em>).</p>
+
+<p>Boas noites, menina.<span class="pn">{67}</span></p>
+
+<p class="pseudocentrado">ELLA.</p>
+
+<p>Então passe muito bem, até ámanhã, se Deus quizer.</p>
+
+<p>Bento de Castro entrou no meu quarto com as mãos agarradas á cabeça. Eu
+estava sobre a cama, marinhando com as pernas parede acima, arquejando de riso,
+rebentando pelas ilhargas, quando o pobre homem entrou.</p>
+
+<p>«Pois tu ouviste?&mdash;disse elle.</p>
+
+<p>&mdash;Tudo! está vingada D. Vicencia, e eu tambem. Suicida-te, meu infeliz
+Bento! Um homem que encontrou similhante Hermenigilda, deve morrer de tedio, de
+vergonha, de raiva, de odio ao genero humano em geral, e ás mulheres em
+particular!</p>
+
+<p>«Estás enganado&mdash;atalhou elle&mdash;gosto assim de vêr a estupidez no seu estado
+de perfeição primitiva. Andava eu morto por encontrar a mulher como ella foi no
+tempo em que se comiam bolotas e medronhos. Pensas que arrefeci na empreza? Não
+tenhas medo. É uma mulher deliciosa para um homem que quer casar-se rico, e
+desligar-se das obrigações que se contrahem matrimonialmente com uma mulher que
+tem alma. Alli onde a vês, se eu tiver a duvidosa felicidade de a obter do pai,
+é a unica mulher que me convém. Ha-de ser uma excellente criadora de porcos, e
+se eu lhe disser que saia da Amarante para viajar commigo dá-lhe um desmaio.
+Tomaram muitos encontrar a innocencia d'ella! Aquillo é tudo materia pura e
+estreme como a dá a madre natureza. Eu corto o pescoço, se ella tem resquicio
+de maldade!</p>
+
+<p>Castro continuava o elogio de Hermenigilda, quando ouviu vozear alto em casa
+d'ella. Fomos á janella, e vimos Pantaleão embrulhado n'um cobertor com um toco
+de sêbo acceso na mão, chamando Hermenigilda a grandes berros. Vimol-o chegar,
+e o pai perguntou-lhe o que estivera ella fazendo n'aquella janella.
+Hermenigilda negou, e o preto foi chamado para dizer que a ouvira estar
+fallando com<span class="pn">{68}</span> um homem que costumava fazer-lhe
+acenos da janella fronteira.</p>
+
+<p>Pantaleão, com o cobertor a rastos, solemne como um patriarcha do Levitico,
+aproximou-se da filha cabisbaixa, deu-lhe um sonoro pontapé, e perguntou-lhe
+quem era o sujeito que fallava. A desastrada moçoila tartamudeou, e, receosa da
+segunda carga, disse que elle lhe tinha escripto para o bom fim. O pai disse
+que queria vêr a carta. Hermenigilda sahiu d'alli; Pantaleão, no accesso da
+colera, deixou cahir o coto de sêbo, e ficou em trevas.</p>
+
+<p>Não podemos vêr nem ouvir o desenlace da scena.</p>
+
+<p>«O peor é que a minha carta está assignada!&mdash;disse Castro.</p>
+
+<p>No dia seguinte, disseram-me, quando me levantei, que Pantaleão estava na
+janella desde o romper do dia.</p>
+
+<p>Fui á janella, e fiz-lhe, como costumava, a minha cortezia, posto que elle
+correspondia com desagrado á minha civilidade, desde que me viu fazer á moça
+varias bugigangas.</p>
+
+<p>Fitou-me com terrivel catadura, e disse:</p>
+
+<p>«Ó su amigo, diga lá a esse borra-botas que por ahi vem, que eu sou homem de
+lhe tirar a collada pelas costas, ouviu?</p>
+
+<p>&mdash;Ouvi perfeitamente, porque o senhor tem um excellente pulmão&mdash;disse-lhe
+eu, disposto a jogar insolencias com o senhor de Fregim e coutos de
+Riba-Tamega.</p>
+
+<p>«Diga-lhe lá que se tornar a desinquietar minha filha, mando-lhe moer o
+espinhaço.</p>
+
+<p>&mdash;Faz o senhor muito bem... Com que então o tal maroto desinquieta-lhe a
+filha!</p>
+
+<p>«Vossê está a mangar commigo?</p>
+
+<p>&mdash;Deus me defenda! Eu estou protestando contra aquelle tratante que
+desinquieta meninas, e faz da minha casa o palladium das suas patifarias. O
+direito paternal é o mais sagrado de todos os direitos. V. exc.ª tem
+carros<span class="pn">{69}</span> de razão em quanto sustentar o decoro dos
+lares, e mantiver immaculada a prosapia illustrissima de que borbulhou.</p>
+
+<p>Pantaleão olhava para mim, alongando os beiços e franzindo a testa. Eu
+prosegui:</p>
+
+<p>&mdash;Mas, a fallar a verdade, eu não sei se v. exc.ª tem razões assaz fortes
+para tamanha zanga. O sujeito que namora sua filha é filho segundo de uma
+illustre casa de Celorico de Basto. Por <em>Gamas</em>, pertence ao venerando
+tronco do que dobrou o cabo das Tormentas, como consta de João de Barros,
+Lucena, Camões, e da historia genealogica da casa real. Por <em>Castros</em>,
+descende por bastardia d'um irmão d'Ignez de Castro, que veio casar a Celorico,
+e houve quatro filhos de D. Mecia da Gama, um dos quaes foi dom abbade em
+Tibães, outro foi prior-mór de Christo, o terceiro morreu em Alcacer-Kibir, e o
+quarto morreu em cheiro de santidade, e está inteiro. Já vê v. exc.ª que o
+amante de sua filha não é qualquer borra-botas, como o senhor lhe chamou, no
+auge da sua iracundia paternal. O que o senhor deve é indagar se é honesto o
+intuito d'este amor: e caso o seja, apressar o enlace matrimonial.</p>
+
+<p>«Eu não preciso conselhos!&mdash;bradou irado Pantaleão&mdash;Se elle quer casar com
+minha filha, peça-m'a, e eu lhe direi o que me parecer; mas não me ande cá a
+rentar pela porta.</p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso&mdash;redargui eu&mdash;direi ao meu amigo o que deve fazer para
+captivar a benevolencia de seu illustre sogro. Elle irá pedil-a, conforme o
+estylo, e v. exc.ª, depois de ratificar as informações que eu tive a honra de
+dar-lhe ácerca da celebrada genealogia do meu amigo, consentirá que elle entre
+no tronco da sua familia, como o regato no oceano.</p>
+
+<p>Parece incrivel, mas Pantaleão encarava-me com suave aspecto. A seriedade
+conspicua e grave com que eu solemnisei a galhofa, achou acolhimento digno na
+soez capacidade<span class="pn">{70}</span> do mirifico ornamento da Amarante e
+povos adjacentes. Dignou-se perguntar-me quem eu era. Respondi que não podia
+apresentar-me com appellidos benemeritos da sua estima, por isso que descendia
+d'uma honesta familia de lavradores, a qual havia fundadas razões para
+suppôr-se que descendia do primeiro homem, e não tinha outros documentos, além
+de suspeitas, com que provar a sua antiguidade.</p>
+
+<p>Pantaleão achou-me razão, e disse-me que o rei Vamba fôra lavrador, para
+consolar-me da minha baixa condição, acrescentando que sua magestade el-rei D.
+Diniz, fôra amigo dos lavradores.</p>
+
+<p>Era para vêr-se a pratica affectuosa em que demoramos uma boa hora,
+finalmente interrompida pela apparição de Bento de Castro, que vinha espantado
+da cordura com que nos travamos.</p>
+
+<p>Pedi licença para receber o meu amigo. Contei a este o acontecido, e dei-lhe
+os emboras do bom andamento em que, tão imprevistamente, se achava o seu
+consorcio.</p>
+
+<p>Castro, palpitando d'alegria, a primeira cousa que lhe lembrou foi que não
+tinha casaca para solemnisar a sua primeira visita ao pai da noiva. Remediado
+com a do boticario da terra, que fizera uma para assistir ás exequias de D.
+João VI, o meu amigo, n'esse mesmo dia, ás quatro horas da tarde, procurou
+Pantaleão, com o fim tres vezes honesto de lhe pedir sua filha.</p>
+
+<p>Quando, porém, entrava no pateo, olhou machinalmente para dentro d'um
+postigo d'uma casa terrea, e viu Hermenigilda sentada n'uma caixa de pau de
+pinho, comendo figos. Ao pé d'ella estava o preto partindo uma melancia.</p>
+
+<p>Horrivel mysterio!<span class="pn">{71}</span></p>
+
+<h2>XII.</h2>
+
+<p>Não tarda, leitor pio, leitor indulgente, leitor benevolo, leitor honesto
+que paga, leitor honrado que não lê de emprestimo, não tarda ahi uma enfiada de
+lances estupendos, que lhe arranquem interjeições de pasmo, e lhe afervorem o
+desejo de abraçar o author!</p>
+
+<p>Deixei o seu espirito em tribulações de curiosidade, no anterior capitulo,
+onde Hermenigilda apparece comendo figos ao pé do preto, no momento em que o
+meu amigo Castro ia, escada acima, pedil-a ao pai. Chamei «horrivel mysterio»
+ao mais natural dos actos&mdash;uma mulher a comer figos!&mdash;Dei ao acontecimento uma
+importancia que tem feito pensar o leitor ancioso. Vão vêr porque. O que, por
+ora, posso acrescentar, porém, é que Bento de Castro recuou um passo,
+entreteve-se alguns instantes indeciso, e, por fim, resolveu espreitar o que se
+passava no quarto.</p>
+
+<p>Ao lado da pequena fresta havia no estuque esboroado uma greta propicia. O
+meu amigo espreitou, e viu o seguinte, de que lavro acta para eterna
+memoria:<span class="pn">{72}</span></p>
+
+<p>1.º Viu Hermenigilda acabar d'engolir um figo, e atirar o pé do mesmo á cara
+do preto.</p>
+
+<p>2.º Viu o preto tregeitar uma careta festiva, e atirar á cara rúbida de
+Hermenigilda um bocado do coração da melancia.</p>
+
+<p>3.º Viu a menina tomar do chão uma das rodellas de casca da dita melancia, e
+assentar com ella uma sonora sulipa na carapinha do preto.</p>
+
+<p>4.º Viu o preto, com as belfas gotejando sumo, aggredir a espadua da morgada,
+e vingar-se imprimindo-lhe uma palmada em cheio nas ultimas vertebras lombares.</p>
+
+<p>5.º Viu engadelharem-se, com grandes risadas, as innocentes creaturas, e
+teve a gloria de presenciar a victoria da sua amada, que atirou com o preto ao
+chão, e fugiu.</p>
+
+<p>Satisfeito d'estas cinco visões, por isso que lhe não faltaram receios d'uma
+sexta, setima, e oitava, o meu amigo, tranzido d'espanto, perdeu a cabeça, e se
+havia de subir, desceu os dous degraus que o separavam da rua, e entrou em
+minha casa.</p>
+
+<p>Contou-me as suas observações importantes, commentou-as com admiravel
+perspicacia, e acabou dizendo que renunciava o projecto do casamento, e me
+pedia encarecidamente que não divulgasse o seu louco intento, e dissesse ao pai
+da innocentinha que elle não queria casar.</p>
+
+<p>Cousa, porém, admiravel! Bento de Castro dissimulava uma zanga interior, que
+eu não ouso chamar ciume, porque não quero dar ao meu amigo um rival tão
+vilipendioso. É, porém, desgraçadamente certo que o pobre moço, vendo que eu
+não defendia a innocencia do espectaculo que elle vira, tentou defendêl-o,
+perguntando-me se aquelles brinquedos não seriam por ventura honestos e
+singelinhos. Eu, que sempre fui d'uma boa fé estupidamente santa, reforcei a
+conjectura do meu amigo, recordando-lhe umas passagens que já contei ao leitor,
+ácerca d'uma minha prima, que por ahi fica archivada a paginas....<span
+class="pn">{73}</span></p>
+
+<p>«Parece-me que não devo desamparar o meu posto, sem outras provas...» disse
+elle.</p>
+
+<p>&mdash;Eu tambem entendo que não... Tu nada tens que perder, se te conservares na
+espectativa.</p>
+
+<p>«E ha uma prova mathematica que eu posso conseguir, a unica verdadeiramente
+que desvanece ou confirma todas as minhas suspeitas.</p>
+
+<p>Eu não entendi, nem averiguei o genero de mathematicas applicaveis á
+questão; mas o meu amigo, confiado em seu systema, resolveu continuar namoro
+com Hermenigilda, ainda que tivesse de abonar-se ao pai com promessa de
+casamento.</p>
+
+<p>Apenas Pantaleão sahiu a tomar banho, Hermenigilda appareceu na salêta, e
+disse a Castro, por acenos, que o pai lhe tinha batido por causa delle; e
+convidava-o a ir fallar-lhe debaixo do muro do quintal, em quanto o pai estava
+fóra.</p>
+
+<p>Castro annuiu. Quando sahia, disse-me:</p>
+
+<p>«Estou quasi convencido de que aquella mulher tem um grande defeito, que é
+ser idiota. É tão innocentemente lorpa que não conhece o desaire de brincar com
+o preto. Este convite é prova da sua innocencia, não achas?</p>
+
+<p>&mdash;Acho que sim, meu amigo. Em todo o caso não te esqueças das tuas provas
+mathematicas, que eu não sei o que são; mas muito estimo que ellas te
+aproveitem, para eu ficar sabendo que as mathematicas servem de alguma cousa.</p>
+
+<p>Castro demorou-se, e veio dizer-me que a mulher parecia outra: e se me não
+disse que a achou espirituosa, quiz que eu me persuadisse de que era possivel
+educar aquelle espirito.</p>
+
+<p>Eu combinei na idéa do meu amigo, e elle, contente do meu accordo, contou-me
+o que passára com ella. Disse-lhe elle que, no acto de a ir pedir a seu pai, a
+vira brincar na loja com o preto. Respondeu ella que o preto<span
+class="pn">{74}</span> fôra criado com ella, vindo pequenino d'um reino onde
+seu tio Simão fôra governador, bispo, ou não sei que me não lembra agora, mas é
+de presumir que fosse bispo do Congo. Acrescentou ella que seu pai lhe dissera
+que, se queria casar com o sujeito que a namorava, elle não se oppunha, porque
+estava cabalmente informado do illustre nascimento do noivo, e até desconfiava
+que fosse seu parente, por casamento de D. Urraca Munhóz, celebrado em 1121,
+ficando assim aparentados os Gamas de Celorico com os Viegas e Themudos da
+Amarante, como constava dos foraes de Cima-de-Villa, Ranhados, São Gonhedo, e
+Galafura: do qual consorcio nasceram D. Brites, que morrêra em Arouca, dama da
+rainha Santa Mafalda, e sua irmã Soror Violante, que morreu santa em Lorvão
+d'uma indigestão de toucinho, n'aquella celebre noite em que lá pernoitou a
+celebre abbadessa de Holgas, D. Branca. Em consequencia do que, o meu amigo
+Bento de Castro resolveu não entregar n'aquelle dia a casaca ao boticario,
+attenta a reconsideração do seu precipitado plano, por causa de umas suspeitas
+tão injuriosas para a mulher que lhe sahira ao encontro na carreira da vida.</p>
+
+<p>Já então se diziam estas tolices.<span class="pn">{75}</span></p>
+
+<h2>XIII.</h2>
+
+<p>Bento de Castro foi, finalmente, pedir a mulher ao pai. Pantaleão recebeu-o
+com agrado, e convenceu-se de que era seu remoto parente, em virtude do tal
+casamento celebrado sete seculos antes. Fallou-lhe na politica do dia, e
+arrancou-lhe o grato manifesto dos seus principios constantemente dedicados ao
+movimento de 30 d'Abril de 1824. Pantaleão prorompeu em elogios a D. Carlota
+Joaquina, e jurou pela espada de seu nono avô, governador de Masagão, que os
+constitucionaes haviam envenenado o rei, dizendo que recebêra de canal puro o
+segredo da morte do cirurgião Aguiar, do medico barão de Alvayasere, e do
+cosinheiro Caetano, todos envenenados pelos malhados. Acrescentou s. exc.ª, que
+seu primo, marquez de Chaves, fomentava em Traz-os-Montes, de combinação com
+Fernando VII, a queda da carta, e a restauração do throno e do altar, dos
+principes christãos, e extirpação das heresias. Como prova de ser informado por
+infalliveis oraculos, mostrou uma carta do seu particular amigo e<span
+class="pn">{76}</span> primo visconde de Canellas, e outra, não menos
+convincente, do padre Albito Buela.</p>
+
+<p>Bento de Castro&mdash;digamol-o sem desdouro seu&mdash;era ardente correligionario de
+seu futuro sogro. O meu amigo era, n'essa época, extremamente chato do
+intellecto, e em negocios da republica não via meia pollegada adiante do nariz.
+Seus tios frades, e seu irmão morgado&mdash;aliás excellentes creaturas&mdash;uns em nome
+da religião, outros da ordem, e todos dos seus interesses, fizeram-lhe conceber
+odio á liberdade, á revolução, e aos principios subversivos da sociedade
+proclamados em 1820, por meia duzia de estupidos como Ferreira Borges, e
+Fernandes Thomaz.</p>
+
+<p>Eu, filho do povo, e Graccho em primeira edição nessa época, tinha lido o
+<em>Contracto social</em> de João Jacques, o Espirito de Helvetius, e a Gazeta
+de Lisboa, das quaes leituras formei o meu espirito para as luctas tremendas
+das liberdades patrias, ás quaes fiz serviços de tamanha transcendencia, que,
+depois de vinte e oito annos de sacrificios, consegui ser nomeado escrivão
+substituto do juiz eleito na minha terra, de cujo exercicio fui demittido por
+decreto de vinte e nove de... Olhem que romance este! Já viram uma cousa assim?
+Se me não refreio o impeto, sahia-me aqui uma correspondencia de victima dos
+ultimos acontecimentos, mandando suspender o juizo do respeitavel publico!... O
+leitor, se continua a lêr-me, dá-me provas tão vivas da sua munificencia,
+tolerancia, e magnanimidade, que eu faltaria aos meus mais sagrados deveres,
+se, depois desta historia, lhe não contasse outra muito bonita, em que o heroe
+do romance, depois de amaldiçoar a sociedade que o não comprehende, tem o
+descoco de fazer-se eleger deputado, e brilha n'uma commissão encarregada de
+legislar para a importação dos cereaes, e exportação dos bois! Isso é que ha-de
+ser um romance! E, se lhes parece, comecemo-lo já... ou querem saber no que
+pararam<span class="pn">{77}</span> as intimas sympathias dos nossos amigos
+Pantaleão, e Bento de Castro?</p>
+
+<p>A fallar-lhes a verdade de Epaminondas, e a do amigo de Platão, dir-lhes-hei
+que o romance, d'aqui em diante, é curiosamente estopador. Desde que a vida
+sahe das regiões sublimes do ideal e entra na esphera das mundanidades villãs,
+o romance espiritualista, como este meu se preza de ser, descahe
+indispensavelmente para o caustico, torna-se d'uma moralidade bastante
+equivoca, e não é o mais azado guindaste para içar espiritos de quinze annos ao
+setimo céo de Santa Thereza de Jesus. As heroinas e até os heroes de mad. de
+Genlis, se se encontrassem com os meus d'aqui em diante, tapavam olhos e
+ouvidos. É necessario um curso regular de Parny, de Crebillon, e Pyron, uma
+iniciação destes fachos precursores dos luminosos dias em que vivemos, para
+acceitar a philosophia dos seguintes capitulos, que pertencem mais ao homem da
+vara de cerdos de Epicuro que ao da legião de espiritos ethereos do immortal
+discipulo de Socrates.</p>
+
+<p>Ejaculado este arroto de erudição, saibamos como Bento de Castro esmerilhou
+mathematicamente os escaninhos do coração de Hermenigilda.</p>
+
+<p>É muito para saber-se que, desde esse dia, o fidalgo de Celorico de Basto,
+graças a D. Urraca Munhoz, visitava todos os dias sua prima; mas vinha tomar
+chá a minha casa, porque Pantaleão usava apenas chá da India quando as
+indigestões não cediam á terceira emborcadella d'uma botija d'aguardente <em>ad
+hoc</em>.</p>
+
+<p>Em honra d'aquella cabeça de familia, diga-se que a môça andava vigiada,
+posto que o meu amigo captasse a confiança do sogro, e, o que mais é, as
+sympathias do preto.</p>
+
+<p>Estavamos no mez d'Agosto de 1826, e o casamento, que devia ser em Amarante,
+aprazaram-no para o mez de Março.<span class="pn">{78}</span></p>
+
+<p>Bento de Castro contava-me maravilhas da noiva. Cada dia lhe descobria na
+testa uma estrella boreal de intelligencia. Hermenigilda resolvêra aprender a
+lêr correntemente, e havia já adverbios de sete e mais syllabas que ella
+conseguia soletrar melhor que o pai! Eu pasmava angelicamente dos progressos da
+moça; e devo confessar que, ou fosse resultado de vigilias litterarias, ou
+predominio do espirito sobre a materia, as carnes succulentas do rosto d'ella
+emmagreceram de massas pingues, e a epiderme, perdendo a antiga purpura de
+betarraba, regenerou-se n'um desmaiado meio romantico, meio espinhela-cahida.</p>
+
+<p>Em virtude do que, perguntei ao meu amigo se o calculo differencial e
+integral, com effeito exercitava e corrigia e rectificava o espirito como
+geralmente se dizia, e particularmente se demonstrava na pessoa da minha
+visinha.</p>
+
+<p>Bento de Castro, solemne d'uma continencia digna de melhor sorte,
+respondeu-me que a virtude era um attributo dos anjos, e os anjos escapam ao
+olho prescrutador das mathematicas puras e das mixtas. Fiquei nessa occasião
+sabendo que as mathematicas podiam ser puras e mixtas; mas desconfiando sempre
+que as do meu amigo eram impuras.</p>
+
+<p>Veremos.<span class="pn">{79}</span></p>
+
+<h2>XIV.</h2>
+
+<p style="text-align:center; text-indent: 0em;"><em>Em que o author, depois de
+averiguar profundamente as<br>
+conveniencias inviolaveis, do melindre, resolve não<br>
+leccionar o publico em mathematicas, embora<br>
+o seu amigo Bento de Castro assim fique<br>
+privado de catalogar-se na phalange<br>
+dos Newtons, Leibnitz, e Descartes;<br>
+de que resulta ficar o capitulo<br>
+aqui esganado pela mão<br>
+da moral.</em><span class="pn">{80}</span></p>
+
+<h2>XV.</h2>
+
+<p>O romance tem cousa má!</p>
+
+<p>É a primeira vez que os typos perpetuam o invento escandaloso d'um titulo
+sem texto! Um critico francez annunciou um romance que, em logar de principiar
+pelo principio, começava no 2.º volume. O author, respeitador do publico,
+explicava o contrasenso, dizendo que os romances eram escriptos de modo que
+tanto fazia ao caso começar do 1.º volume para diante, como do ultimo para
+traz.</p>
+
+<p>Isto é rasoavel e persuasivo. Porém, incoherencias deste tamanho não se
+desculpam n'um romance pensado, philosophico, haurido das fontes do coração, da
+experiencia, e feito expressamente para entrar em quinhão de gloria com as
+«Reflexões de Phocion» com o «Manual de Epicteto» com os «Excerptos gnomicos de
+Seneca» com os «Caracteres de la Bruyère» excellentes repositorios de
+philosophia pratica, que eu hei-de lêr na primeira occasião, porque me dizem
+que são livros de muito interesse, que ensinam a procurar a felicidade, como
+agulha em palheiro, na pobreza, na humildade, e na virtude. Mestres d'esta
+ordem<span class="pn">{81}</span> teem sempre uma vida eivada de amarguras:
+isso é o que eu posso desde já affirmar, sem os ter lido. Phocion soffreu morte
+dolorosa. Seneca, preceptor de Nero, bem sabem que desastrado remate teve de
+vida. Epicteto é aquelle escravo do «Thesouro de meninos» que exclama, erguendo
+a canella partida por uma paulada: «não vos disse eu que m'a havieis de
+quebrar?» D'onde infiro que os preceptores da felicidade andam sempre de
+candeias ás avessas com o genero humano, e muitas vezes, com a arte de
+engranzar capitulos de romance, de modo que a historia vá bem contada, até ao
+fim, que deve ser onde casa o heroe, ou a heroina morre de tuberculos, no uso
+de oleo de figados de bacalhau.</p>
+
+<p>João Junior, summamente penhorado pelas attenciosas maneiras com que os seus
+numerosos amigos teem recebido esta sua primogenita creatura, tem a honra de
+declarar ao publico, e mais senhores, que o capitulo XIV foi eliminado deste
+quadro de costumes porque havia n'elle frescura de idêas, phantasia de côres,
+debuxos copiados da natureza viva, cousas, em fim, tão verdadeiras, tão
+patriarchaes, tão nuas, que o seu editor, depois de montar os oculos, e sorver
+duas pitadas conspicuas, disse que não patrocinava com o seu nome um capitulo
+em que o mencionado supra contava os factos como elles tiveram a impudencia de
+acontecer.</p>
+
+<p>Em virtude do que, entrei na minha consciencia d'artista, e vim a um accordo
+com a moral, aspando as doze paginas mais profundamente escriptas do meu
+romance: doze paginas em que eu fortalecia os habitos da natureza bruta com as
+doutrinas lucidas dos interpretes mais abalisados dos mysterios do coração;
+doze paginas salpicadas d'uma erudição exemplificativa que remontava á creação
+do globo, para provar que o homem e a mulher, sem o intermedio do merinaque,
+são dous entes homogeneos, duas substancias amalgamicas, dous tomos da mesma
+obra, duas<span class="pn">{82}</span> creaturas em fim dos nossos peccados.
+N'esse capitulo, naufragado no cachôpo da moral, tinha eu uma gorda nota
+comprovativa da minha opinião ideologica a respeito de mulheres, rica de
+historia antiga, em que, sabe Deus com que vigilias, entravam Salomão e Dalila,
+Pericles e Aspazia, Tibullo e Lesbia, Ovidio e Corina, tudo pessoas que amaram
+como se ama d'uma até quarenta vezes na vida, com todo o ideal arrobado dos
+anhelitos da adolescencia, com a fé pura, candida, e immaterial do amor de
+Voltaire a madame du Châtelet, do amor de Larochefoucault a madame de Lafayete,
+do amor da minha visinha do terceiro andar, que, ás duas horas da noite, desce,
+com uma caixa de lumes-promptos, a desandar a chave, que teima em chiar, apesar
+do azeite prévio, quando um Romeu de capote de mangas lhe assobia a cavatina do
+«Trovador». Tudo isto, e muitas cousas mais, vinham na nota, que prometto
+embetesgar na primeira cousa que escrever, ainda que seja um artigo sobre o
+pulgão da batata.</p>
+
+<p>Fortissimas razões tinha eu para teimar em publicar o meu querido capitulo
+XIV, visto que era elle o relatorio das miudezas que se deram antes e depois do
+fatal acontecimento da noite de 25 d'Agosto de 1826, acontecimento grave e
+complicado, cujo conhecimento seria a chave do meu romance, se o editor
+ultra-honesto não teimasse em affirmar que o meu romance não precisa de chave
+para abrir as portas da eternidade. Pedi-lhe que me deixasse, ao menos, contar
+o facto em estylo levantado, allegorico, metaphorico, ao alcance, apenas, das
+intelligencias superiores. Nem isso. Estava escripto em estylo oriental,
+balsamico, todo perfumarias de subtil aroma d'alma, e elle teima em dizer que a
+alma não tem nariz.</p>
+
+<p>Era assim o meu fragmento:</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>E a lua balouçava-se entre as estrellas, nas alturas do ether.<span
+class="pn">{83}</span></p>
+
+<p>E a brisa do oceano, perfumada de marisco, brincava na praia com a folhinha
+secca da alga.</p>
+
+<p>E o rouxinol do silvedo trinava a sua cavatina cadenciosa, e sacudia as
+plumas affagadas por um raio de lua.</p>
+
+<p>Porque era essa a hora augusta dos mysterios, em que nos adros das igrejas
+reina o terror do silencio, e nos esgalhos seccos do pinheiro assobia o
+noitibó, medonho de agouros; e nas aguas limpidas dos regatos cardumes de
+bruxas tomam semicupios e dão gargalhadas de risos maleficos e satanicos.</p>
+
+<p>E o homem de Celorico, sombrio e tetrico como avejão nocturno, roçou a
+espadua pela padieira da porta, que se abriu.</p>
+
+<p>Era da côr do jacintho o amiculo que lhe envolvia em largas dobras a haste
+melindrosa.</p>
+
+<p>E a viração da noite, voluptuosa e meiga, beijou-lhe a face como se quizesse
+disputar á da manhã o prazer de beijar mais frescas rosas.</p>
+
+<p>E a virgem d'alvas vestes transpoz o limiar do seu asylo, encostou a fronte
+incendida ao braço tremulo do senhor de sua alma, e foi!</p>
+
+<p>Anjo d'Amarante, porque assim te despenhas da tua angelica miryade?</p>
+
+<p>Flôr do Tamega, que nortada rija te desarreigou da balsa?</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>E a lua passava no céo, velada e triste, como a Niobe antiga.</p>
+
+<p>E o homem de Celorico, de braço dado com a virgem, como qualquer caixeiro em
+baile d'Asylo de mendicidade, passou de fronte alta, meditando em seu coração
+um crime, e adoçando nos labios a tenção damnada que lhe fallava n'alma.</p>
+
+<p>E a vaga longinqua resoava um som cavo e lugubre, como gemido de leão.<span
+class="pn">{84}</span></p>
+
+<p>Homem! tu és forte como o carvalho gigante da encosta; mas o raio sahiu um
+dia das profundesas do céo, e o tronco, affronta dos seculos, vergou a fronte,
+e estalou pelas raizes.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>E a flôr, tocada por labios impuros, e aspirada com avidez sôffrega, pendeu
+as petalas desmaiadas, e elanguesceu no seio do maldito dos homens de Celorico.</p>
+
+<p>Fôra profundo e arquejante o suspirar d'aquella que as onze mil
+duvidosamente receberiam no seu gremio, ainda recommendada pelos jornaes!</p>
+
+<p>E a lua, segundo o seu costume, dava tanta importancia a estas cousas, como
+os dous habitantes mais felizes do globo lhe davam a
+ella................................. etc. etc.</p>
+
+<p>E pouco mais continha a minha descripção em estylo oriental.</p>
+
+<p>É realmente demasiado respeito ás conveniencias privar-se o publico d'um
+fragmento assim! Não obstante, rasguei-o, protestando jámais querer editor para
+as minhas obras.<span class="pn">{85}</span></p>
+
+<h2>XVI.</h2>
+
+<p>Palavras textuaes do meu amigo Bento de Castro da Gama:</p>
+
+<p>«João, arrepende-te de haveres maculado a pureza de Hermenigilda com uma
+suspeita menos casta.</p>
+
+<p>&mdash;Eu! santo nome! pois fui eu que a maculei!?</p>
+
+<p>«Sim, tu contavas-me a historia de tua prima, quando a innocente rapariga
+brincava com o preto puerilmente.</p>
+
+<p>&mdash;Valha-te o senso commum, amigo Bento!&mdash;repliquei eu&mdash;Que terrivel
+significação tu déste á minha historia! Poderia eu criminar a simplêza d'um
+brinquedo que desde creança respeito e absolvo, porque o vejo sanccionado na
+minha Arte do Pereira, livro didatico, escripto para andar entre mãos da
+mocidade!...</p>
+
+<p>«Mas o que faz a Arte do Pereira ao nosso caso?!</p>
+
+<p>&mdash;Faz muito: pois já te esqueceu o <em>pueri ludunt</em>? os meninos
+brincam? e posto que lá não diga <em>utriusque coloris</em>, d'ambas as côres,
+infiro que ser um branco e outro preto não destróe a regra da boa latinidade.
+Logo que se<span class="pn">{86}</span> dá nominativo e verbo, tanto faz que os
+meninos sejam...</p>
+
+<p>«Cala-te, importuno!&mdash;atalhou o meu delicioso Bento, eliminando-me da alcôfa
+um pão e um canto de queijo Chester.&mdash;Fica na certeza de que a minha
+consciencia está socegada, tranquilla...</p>
+
+<p>&mdash;O mesmo não pódes dizer do estomago...&mdash;acudi eu, vendo o precipicio
+aberto ao meu queijo que descia, ao passo que da consciencia do meu amigo subia
+o protesto contra as suspeitas indignas da pureza de Hermenigilda.</p>
+
+<p>Bento de Castro proseguiu exarando provas que me não deixaram a menor
+suspeita de que a noiva podia, sem que o pudôr lhe carminasse o rosto,
+desapertar o cinto virginal, á laia das esposadas de Lacedemonia, ou entrar na
+camara nupcial sem o receio da lampada nocturna, que tantos sustos deu á
+primeira mulher de Jacob.</p>
+
+<p>Estava eu, pois, admirando a infallibilidade das mathematicas, quando
+Pantaleão, chamando-me da sua janella, perguntou-me se o meu amigo alli estava.
+Bento appareceu logo, um pouco sobresaltado&mdash;bem sabia elle porque, melhor que
+eu&mdash;e Pantaleão, com semblante rubicundo e prazenteiro, disse-lhe que tinha
+grandes cousas a contar-lhe.</p>
+
+<p>O meu amigo foi, contente do aspecto feliz do seu futuro sogro. Era o
+seguinte o que elle queria.</p>
+
+<p>Pantaleão acabava de receber carta d'um seu irmão, official superior do
+regimento 24 de Bragança, noticiando-lhe a acclamação do rei absoluto, e a
+prisão do bispo, e o triumpho certo da religião; recommendava-lhe que sahisse
+immediatamente da Foz, e fosse levantar guerrilhas em Amarante, que deviam
+unir-se em Villa Real ás forças do primo Silveira.</p>
+
+<p>Pantaleão estava ebrio de patriotismo! dava vivas ao rei absoluto, e chamou
+a filha para tomar parte do enthusiasmo do seu esposo.<span
+class="pn">{87}</span></p>
+
+<p>«Vamos a saber, continuou elle&mdash;aqui não ha que replicar! O primo Bento vem
+já comnosco para cima, e vai ajudar-me a levantar os povos, e fica sendo o
+capitão dos vassalos fieis! Se é realista ás direitas, vá amanhar a mala, e
+amanhã de manhã vamos embora. Que diz a isto, primo?</p>
+
+<p>&mdash;Eu digo que estou prompto. Já agora a nossa sorte é commum.</p>
+
+<p>«Pois então, eu vou dar ordens.</p>
+
+<p>Pantaleão sahiu da sala, e o meu amigo, tanto quanto pude enxergar, afagava
+as bochechas rosadas de Hermenigilda, que entrára na sala, escarlate como a
+flôr da romanzeira. Não seria facil decidir se fôra mais linda antes, se depois
+que o pejo lhe coloriu a tez.</p>
+
+<p>Um amante feliz gosa delicias, saborêa prazeres celestes n'essa encantadora
+vergonha! Bento de Castro, inclinado para o seio d'ella, devia dizer-lhe
+palavras de tal doçura que a pudibunda moça, requebrando o collo de puro jaspe,
+parecia, como a sensitiva, encolher-se ao beijo voluptuoso da borboleta! (Como
+isto sahiu engraçado e arredondadinho! É a minha especialidade, leitores.)</p>
+
+<p>O meu amigo deu-me parte da sua sahida, cheio de contentamento. Disse-me que
+me avisaria a tempo de eu ir assistir ao seu matrimoniamento. Prometteu-me
+arranjar-me em Amarante uma mulher com uma casa soffrivel para ficarmos
+visinhos. Partiu no dia seguinte, e realmente deixou-me saudades, que depois de
+trinta annos se conservam ainda em meu coração fistulado de desgostos, cheio de
+fezes agras, sujo do sarro das paixões, e coberto d'uma crusta de musgo
+petrificado pelo gêlo dos desenganos acerbos, sendo o mais pungente de todos a
+certeza, a que vim, de que o homem não é, como disse Platão, um animal implume,
+nem a sombra d'um sonho, como disse Pindaro, nem o rei da creação, como disse
+Moysés, nem animal racional, como dizem alguns philosophos, que se
+excluem,<span class="pn">{88}</span> vistas as muitas irracionalidades que
+escrevem. O homem, em quanto a mim, é um pedaço d'asno! A ultima palavra da
+sciencia acabo eu de proferil-a agora.</p>
+
+<p>Eu tenho lido tudo quanto está escripto a respeito do homem, e, se não fosse
+o pequeno embaraço de me esquecer tudo o que li, tencionava explanar, com
+methodo e arranjo scientifico n'este capitulo, verdades eternas de que ninguem
+faz caso por isso que são eternas, e tudo que é eterno não quadra ao nosso
+gosto voluvel, irrequieto, e caprichoso.</p>
+
+<p>O homem, na minha opinião, é um cabide, e mais nada. O que a mão da boa ou
+má fortuna dependura n'elle é que distingue a creatura de Deus entre os seus
+irmãos. Não ha substancia de homem: ha só fórma de homem. Ora a fórma está no
+involucro, desde os andrajos inçados de herpes até aos arminhos recamados de
+brilhantes.</p>
+
+<p>Ahi fica debique para os philosophos. As grandes idéas encubam cincoenta
+annos, disse Napoleão. Em 1907 a minha idéa estará na consciencia da
+posteridade.</p>
+
+<p>Quando se perguntar o que é o homem, responder-se-ha: é um cabide.<span
+class="pn">{89}</span></p>
+
+<h2>XVII.</h2>
+
+<p>Sigamos Bento de Castro, á frente da sua guerrilha, composta de cento e
+tantos homens, erguidos como um só homem ao primeiro grito, e quasi todos
+caseiros e foreiros de Pantaleão.</p>
+
+<p>Bento de Castro, radioso de gloria, entrava em Villa Real, quando o primo
+Silveira, a quem ia recommendado, á frente d'um destacamento de caçadores 9,
+proclamava o snr. D. Miguel rei absoluto. O nosso amigo coadjuvava os gritos do
+marquez de Chaves, quando a soldadesca, instigada pelos officiaes, prorompeu em
+chufas e insultos ao commandante enthusiasta.</p>
+
+<p>Silveira, receoso de que o prendessem, porque os officiaes gritavam «amarrem
+esse doudo!» deu de esporas ao cavallo, e desamparou o meu pobre Bento, que se
+viu em pancas. Os bravos da sua hoste, era para vêr como elles largavam os
+tamancos por aquellas ladeiras da Senhora de Almudena! Os gritos animadores do
+chefe perdiam-se entre os apupos dos soldados, que arremeçavam pedradas
+ignominiosas ás canellas nuas dos fugitivos.<span class="pn">{90}</span></p>
+
+<p>Bento achou-se só, sobre uma possante egua do seu futuro sogro, e vacillou
+muito tempo entre seguir o marquez de Chaves, ou as suas tropas, que
+desappareciam por detraz das collinas de Mondrões, caminho do Marão.</p>
+
+<p>Venceu a honra; e o meu amigo, a toda a brida, pôde alcançar o Silveira a
+uma legua distante de Villa Real, na estrada de Chaves.</p>
+
+<p>O marquez era estupidamente corajoso. A derrota moral que vinha de soffrer,
+não lhe arrefecêra o animo!</p>
+
+<p>Queria elle chamar ás armas o povoleu das aldêas suburbanas de Villa Real, e
+accommetter de noite os soldados rebeldes. Bento de Castro, envergonhado da
+fuga, applaudiu o alvitre, e foi o primeiro a pendurar-se na sineta d'uma
+capella em Banagouro, tirando por ella com o frenesi das batalhas, e pedindo ao
+badalo a eloquencia do punhal de Bruto.</p>
+
+<p>Correram ao alarma o tio Francisco do Quinchoso, o tio Thimotheo da Fraga,
+João do Reguengo, e Zé da Brigida dos Chãos, alferes da bicha, e cavalleiro do
+habito, alcançado por ter morto na serra do Mesio dous francezes em 1812.</p>
+
+<p>Silveira sentou-se sobre o cabeçalho d'um carro, instaurou conselho militar,
+e, antes de proclamar, perguntou se seria possivel arranjarem-lhe um salpicão
+frito com ovos, e uma garrafa de vinho. João do Reguengo apressou-se a chamar
+sua mulher, que substituira o meu amigo na sineta, e mandou-a amanhar uma boa
+fritada de salpicões e ovos.</p>
+
+<p>N'este comenos chega um postilhão de Villa Pouca de Aguiar com um officio
+para o marquez. Silveira não entendia a letra de sua mulher, e pediu a Castro
+que lêsse. Era a marqueza de Chaves noticiando a revolução de caçadores 7, e
+chamando a toda a pressa seu marido para a coadjuvar no movimento
+revolucionario. O marquez deu vivas á marqueza, ao bravo batalhão, ao rei
+absoluto, e<span class="pn">{91}</span> não esperou os salpicões, nem
+congratulou o patriotismo do padre Bento Tamanca que acabava de sahir da
+capella, de cruz alçada, chamando o povo ás armas.</p>
+
+<p>O meu amigo teve a honra de cumprimentar a marqueza de Chaves, que veio ao
+encontro de seu marido, sobre um valente murzello, floreando a espada, e
+latindo guinchos de sedicioso enthusiasmo.</p>
+
+<p>A marqueza era a mulher mais feia das cinco partes do mundo. Em França
+denominavam-na: «o panorama da fealdade.» Tinha um aspecto só comparavel a si
+mesmo. Rolavam-lhe nas orbitas dous olhos vêsgos, que não eram olhos quando os
+incendia em viva braza o ardor da guerra. O trom das espingardas, nas refregas
+a que delirantemente se arremeçava, faziam n'ella o effeito do zumbido na
+orelha do cerdo: silvava assobios terriveis de colera, e animava os soldados,
+umas vezes com um «arre p'ra diante» outras vezes chamava-lhes <em>filhos</em>.</p>
+
+<p>«Quem é este mocetão?&mdash;perguntou ella ao marido, fitando Castro.</p>
+
+<p>&mdash;É ainda nosso primo, pelo que me diz o nosso primo Pantaleão da Amarante.</p>
+
+<p>«É valente?&mdash;replicou ella.</p>
+
+<p>&mdash;Desejo mostrar valor&mdash;respondeu Castro.</p>
+
+<p>«Sabe jogar a espada?</p>
+
+<p>&mdash;Fui cadete de cavallaria.</p>
+
+<p>«Defenda-se lá d'um sexto!&mdash;disse a marqueza, e recocheteou com o cavallo
+para entrar em combate.</p>
+
+<p>Bento não ousou levar mão á espada; mas ella instou, fazendo parar o estado
+maior, que se compunha d'alguns capitães móres, e meia duzia de mancebos das
+principaes familias d'aquelles sitios. Castro obedeceu com repugnancia. A
+marqueza fez agilmente quatro botes, e, ao quinto, o meu desastrado amigo tinha
+uma solemne pranchada no pescoço, que foi motivo para que a marqueza,
+triumphante, especie, de Jeanne d'Arc, mais digna d'um Voltaire<span
+class="pn">{92}</span> zombeteiro do que fôra a outra, mostrasse quatro ordens
+de dentes cahoticos, cariados, esqualidos, impossiveis! Os espectadores
+felicitaram-na pela sua destreza, e, o caso é que o ditoso Castro, por se
+deixar bater, recebeu da marqueza, com a lição d'esgrima, provas inequivocas da
+satanica sympathia da mestra.</p>
+
+<p>Tropa e guerrilhas acampadas em Villa Pouca d'Aguiar seguiram a estrada da
+fronteira, e internaram-se em Hespanha. Antes, porém, de sahirem, subiu ao
+pulpito da igreja parochial o padre Alvito Buela, e trovejou uma obra prima da
+eloquencia dos Chrysostomos e Athanasios, em que levou á evidencia quanto era
+grato a Deus cortar as orelhas aos jacobinos de 1820, herpes venenosas que
+fermentaram no sangue putrido de Gomes Freire.</p>
+
+<p>Os revoltosos entraram em Hespanha com a marqueza á frente; e o inepto
+consorte d'esta amazona recebeu, por intervenção de D. Carlota Joaquina,
+abundante numerario para manter o animo perplexo dos desertores. Os soldados,
+quando o soldo se demorava, costumavam cantar esta copla:</p>
+
+<blockquote>
+ Com dinheiro, pão, e vinho<br>
+ Sustenta-se o Miguelzinho,<br>
+ Sem dinheiro, vinho, e pão<br>
+ Sustenta-se a Constituição. </blockquote>
+
+<p>A <em>Megera</em> de Queluz, como então os malhados denominavam a viuva de
+D. João VI, informada pela marqueza de Chaves, a quem ella chamava a sua
+<em>Jeanne d'Arc</em>, igualando o filho dilecto a Carlos VII, empenhava-se até
+ao extremo da usura para espalhar a mãos largas o preço porque tão caras
+ficaram á nação as refregas dos Silveiras, dos Varzeas, e dos Canellas.<sup><a
+href="#fn2" name="mfn2">[2]</a></sup><span class="pn">{93}</span></p>
+
+<p>O Silveira era doudo pela banca portugueza; e o meu amigo Bento de Castro,
+destro burlista n'este ramo dos conhecimentos humanos, empalmou em poucos dias
+ao marquez e aos fidalgos do quartel general uns seis mil cruzados com que
+resolveu ir viajar, se o <em>deus</em> d'Ourique não favorecesse a causa do
+marquez de Chaves.</p>
+
+<p>Os revoltosos foram protegidos em Hespanha, e receberam armas, e auxilio de
+forças, para repassarem as fronteiras.</p>
+
+<p>Chegaram á Amarante em 15 de Dezembro, e foram repellidos ahi pelo
+brigadeiro Claudino.</p>
+
+<p>Em quanto, porém, se dava a sangrenta batalha, o meu intrepido Bento estava
+em casa do nosso amigo Pantaleão, no gôso da mais agradavel fogueira, e do mais
+saboroso lombo de porco, e da mais fresca moçoila que ainda viram estes olhos
+que a terra ha-de comer. Ahi se demorou um mez, por causa da convalescença da
+egua, e foi depois unir-se a Braga ao marquez de Chaves. O marquez d'Angeja
+sahiu do Porto na pista dos rebeldes, que se entrincheiraram na ponte do Prado,
+com duas peças d'artilheria. O conde de Villa Flor ataca a ponte, desaloja o
+inimigo,<span class="pn">{94}</span> mata-lhe algumas duzias de homens, e
+persegue-o até á Ponte da Barca, onde soffre uma desesperada resistencia. Villa
+Flor dispersa, por fim, á baioneta callada, a divisão do Silveira, mata-lhe
+trezentos homens, e, entre os mortos, fica moribundo o meu amigo Bento de
+Castro, com duas baionetadas, salvo seja, no costado.</p>
+
+<p>Recolhido a casa d'um lavrador, foi caritativamente tratado, e de lá me
+escreveu contando-me as suas desventuras, e pedindo-me que as noticiasse a
+Pantaleão, visto que duas vezes lhe escrevera, e não houvera resposta.</p>
+
+<p>Fui á Amarante, e soube que o pai de Hermenigilda, desgostoso da funesta
+sorte das armas fieis, cahira doente de gôta sciatica, e retirára com a familia
+para uma quinta de Baião, onde não podiam chegar as cartas porque os malhados
+lh'as interceptavam no correio da Amarante.</p>
+
+<p>Fui a Baião, e, lendo a carta ao attribulado velho, fil-o chorar, e
+praguejar. Logo alli prometteu á Senhora da Rocha levantar-lhe um nicho no
+portão da quinta, se seu futuro genro tornasse sãosinho e escorreito para a sua
+companhia. Pediu-me com grande instancia que o acompanhasse da Ponte da Barca
+até sua casa, logo que elle se restabelecesse.</p>
+
+<p>Hermenigilda não me pareceu muito afflicta com a triste nova. Quando eu
+apeei no pateo, vi-a debaixo d'uma larangeira, apanhando no regaço laranjas que
+o preto, agatinhado na arvore, lhe lançava, e ella comia de cocoras. Dei-lhe,
+receiando algum desmaio, um ligeiro indicio da desventura do seu Bento, e ella
+abriu os olhos com a mais estupida impassibilidade, e disse:</p>
+
+<p>«Coitado d'elle! Melhor fôra que não andasse por lá a jogar a tapona com
+esses herejes!»</p>
+
+<p>Á vista d'isto, a minha vontade era escrever ao meu amigo, e dizer-lhe que
+seria ignobil o seu enlace com tão estupida creatura. Reservei, para mais
+tarde, poupal-o a tamanho infortunio, e disse-lhe que Pantaleão o
+receberia<span class="pn">{95}</span> em sua casa como pai, se elle preferia a
+sua convivencia á de sua familia.</p>
+
+<p>Bento respondeu-me que tencionava convalescer em casa de seu irmão, e
+passados tres mezes iria definitivamente casar-se, porque havia para isso
+razões fortissimas.</p>
+
+<p>Estas fortissimas razões, leitor amigo, começou Hermenigilda a sentil-as,
+quatro mezes depois que sahiu da Foz.</p>
+
+<p>Eram as razões do amor immenso, amor que lhe inturgescia o coração,
+ampliando-lhe a cavidade thoracica, estendendo-se até ás regiões contiguas, e
+augmentando-lhe a grossura dos tecidos no local em que as hydropesias, oriundas
+do amor, perdem grande parte do morbus com o casamento, especie de cura
+hom&oelig;opatica.</p>
+
+<p>Na certeza de que ninguem me entendeu, dou graças á minha esperteza, e
+continuo a merecer a confiança dos pais de familia.<span
+class="pn">{96}</span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#mfn2" name="fn2">[2]</a></sup> D. Carlota Joaquina morreu
+devendo ao conde da Povoa 40 contos; igual quantia a Antonio Esteves da Costa;
+20 contos a João Paulo Cordeiro; 40 contos a José Antonio Gomes Ribeiro; e
+igual quantia a João Antonio d'Almeida. A usura d'estes capitaes pagou-a o
+thesouro, e as graças em titulos e commendas. D. Carlota era economica até á
+avareza nos gastos domesticos. Os seus rendimentos da casa da rainha, e outros
+muitos, sob diversas denominações, eram enormes. Consumiu tudo em tramar
+guerras civis de que foi alma. Nos ultimos annos da sua vida, tão abstrahida
+estava no fito das revoluções, que nem da sua propria limpeza curava. O seu
+trage caseiro era um gibão de chita, e uma fota de musselina na cabeça.
+Acocorada entre as beatas suas amigas, era costume seu cantar muitas vezes esta
+quadra:</p>
+
+<blockquote>
+ En porfias soy manchega,<br>
+ Y en malicia soy gitana;<br>
+ Mis intentos y mis planes<br>
+ No se me quitan del alma.<br>
+</blockquote>
+</div>
+
+<h2>XVIII.</h2>
+
+<p>Tudo nos leva a crer que não tarda ahi o desenlace d'este conto. A moral
+publica, ciosa das suas prerogativas, e dos deveres em que estamos para com
+ella, nós, os fabricantes de historias, contos, lendas, fabullarios, soláus, e
+varias outras feições do folhetim&mdash;a moral publica, dizia eu, quer que um
+romance acabe bem. Acabar bem é triumphar a virtude, punir o crime, incitando o
+coração do leitor á pratica do bem, e ao horror do mal. N'este romance, se tal
+nome é bem cabido n'uma biographia de personagens ainda vivas, excepto
+Pantaleão, não ha nada que seduza corações inexpertos, trajando o vicio de
+gallas seductoras, depravando o paladar com o uso do absyntho das paixões
+licenciosas. Aqui é tudo posto no seu logar, o vicio apresenta-se maltrapido,
+ascoso, lazarento de lepra, e parecido com o diabo, de quem é filho. A virtude,
+vestida com singelas louçanias, enamora as boas almas, amamentando-as no doce
+favo de seus seios, dulcificando-lhes os nectarios da candida flôr da
+virgindade, segredando-lhes em fim as delicias juvenis e puras de que tão farto
+e nedio trazia o<span class="pn">{97}</span> coração de Hermenigilda, e outras
+creaturas da mesma tempera.</p>
+
+<p>S<small>CENAS DA</small> F<small>OZ</small> é um livro d'ouro. Peço licença
+para dar ácerca da minha obra o meu juizo independente, recto, desataviado de
+encomios immerecidos, e depurado de emulação mesquinha. O author é quem mais
+convincente testemunho póde dar da sua obra. Os nossos primeiros litteratos,
+desde 1830 até 1840, excepto A. Herculano&mdash;que escreve sempre com a mira posta
+na posteridade, e crê, como deve crer, na perpetua florencia da sua
+reputação&mdash;excepto esse, os nossos primeiros litteratos, para se pouparem ás
+avaliações incompletas das suas obras, escreviam elles as criticas. Os elogios
+appareciam ao mesmo tempo em quatro gazetas; e tão bem escriptos eram, tão
+portugueza e elegante a phrase, tão bonito para ver-se o guindaste que topetava
+com as nuvens a nomeada da obra, que, se os artigos fossem assignados, o
+thuribulario crear-se-hia uma reputação capaz de correr parelhas com a do
+idolo. Crearam-se assim muitas nomeadas, que, depois, o consenso universal
+consolidou; e, se os authores não tivessem o direito congenito de escrever e
+julgar, muitos dos nomes gloriosos de Portugal estariam hoje nos limbos da
+velha academia.</p>
+
+<p>Seja permittido a João Junior crear-se uma reputação tambem. O meu romance é
+a historia do coração humano. É um miudo exame das vicissitudes do espirito, e
+algumas vezes da materia. É o telescopio que alcança os astros do universo
+moral. É uma amalgama de historia, de philosophia racional e moral, de
+geographia e physiologia, a retina finalmente do grande olho da sciencia, que
+apanha n'um ponto os raios luminosos de todos os conhecimentos humanos. É esta
+a opinião do leitor illustrado, e tambem a minha.</p>
+
+<p>Sei que tenho detractores, belliscados da inveja, outros brutalmente soêzes,
+e outros hypocritamente pudibundos.<span class="pn">{98}</span> Os primeiros
+dizem que o meu romance é uma trapalhice, sem nexo, sem logica, sem
+verosimilhança, nem idéa fundamental, ou nucleo philosophico. São uns
+pataratas.</p>
+
+<p>Outros, os segundos, acham que o conto está cheio de palavras estrangeiras,
+e não é tão bonito como as <em>historias proveitosas</em> do Trancoso de que
+fallava Hermenigilda a Bento de Castro. Estes fazem-me pena.</p>
+
+<p>Os terceiros censuram as licenciosidades de phrase, a desnudez dos vicios, a
+descautella com que a parte carnal do idealismo humano se mostra aos olhos das
+leitoras incautas, menores de cincoenta e seis annos. Guardai-vos destes
+moralistas, pais de familias!</p>
+
+<p>Duas velhas já me disseram que eu sou pouco escrupuloso em revelar fraquezas
+que, postas em letra redonda, affligem a virtude, ou desvendam a innocencia.
+Valha-me Deus! Porque nos andamos nós a enganar uns aos outros com meia duzia
+de palavras convencionaes? <em>Alphonse Karr</em> não conhece creanças; o que
+nós chamamos creanças chama elle <em>mulheres pequeninas</em>. A civilisação
+tem alterado muito o valor intrinseco de certas palavras antiquissimas, como,
+<em>verbi gratia</em>, pudôr, honra, amisade, amor, patriotismo, innocencia, e
+as demais que o leitor sabe. Eu creio na <em>innocencia</em> das mulheres como
+synonimo de <em>pureza</em>; mas de <em>simplicidade</em>, não. O conhecimento
+precoce dos segredos mais rebuçados da vida é um segundo instincto com que
+vieram á luz as mulheres do seculo XIX. Eu tenho pedido aos pais que me deixem
+estudar, no collo, as suas filhas de oito annos, e tiro de seus caprichos
+pueris inducções que me levam á illusão de que tenho no meu collo as mulheres
+pequeninas do author de <em>Les Femmes</em>.</p>
+
+<p>Certo d'isto, experiente e feito nestas dissecações na alma, zango-me quando
+as meninas-velhas se picam nos espinhos da verdade&mdash;e mais se doem do pungir do
+espinho<span class="pn">{99}</span> que já se lhes não esconde em flores...
+Lembram-me então aquelles versos de Béranger:</p>
+
+<blockquote>
+ Prudes, qui ne criez plus<br>
+     Lorsqu'on vous viole,<br>
+ Pourquoi prendre un air confus<br>
+     A chaque parole? </blockquote>
+
+<p>Não obrigueis o romancista a escrever os fastos do coração como os
+chronistas escreviam a biographia dos reis. A historia está dispensada de ser
+caritativa.</p>
+
+<p>Antes querer, com as fraquezas do proximo, inflammar a phantasia com
+deslastres inexequiveis, do que premunir a razão contra as realidades; querer
+ignorar o mal verdadeiro, e ir com ancia através de oito volumes buscar o
+desfecho d'um romance, que extravasa a medida do mal possivel, é renunciar á
+verdade, perverter o gosto e a razão, crear um mundo que não existe,
+arriscar-se a todos os desatinos da excentricidade.</p>
+
+<p>O meu romance não fará mal a alguem, não concitará o fogo d'alguma paixão
+perigosa, não arrastará victimas ao abysmo, cavado por uma idéa, e coberto de
+flores pelas seducções do estylo, e sophismas d'uma irreligiosa philosophia.</p>
+
+<p>Não farei, como madame de Stael, pretenciosas Corinas, nem Oswalds
+melancolicamente piegas.</p>
+
+<p>Não verterei nas almas o nectar libidinoso do <em>Sophá</em> de Crébillon.</p>
+
+<p>Não farei mulheres tão gárrulas, tão bacharelas, tão fortes da sua
+philosophia como a Heloisa de Rousseau; e ao cabo de contas, tão flexiveis, tão
+dadas aos lapsos da humanidade, como qualquer costureira que não leu o
+Plutarcho, nem o Tasso.</p>
+
+<p>Não direi, como G&oelig;the, aos infelizes que se matem; e, se fôr necessario,
+provarei que Werther foi um tolo, se<span class="pn">{100}</span> existiu;
+Gilbert, Malefilatre, Labras, Moreau, Escousse, Leopold Robert, Larra, Gerard e
+Nerval, Jorge Arthur<sup><a href="#fn3" name="mfn3">[3]</a></sup>, não foram
+mais espertos que o seu modêlo.</p>
+
+<p>O meu romance, em fim, aconselha a todo o mundo que coma e beba e durma o
+melhor que podér. Protesta contra as paixões sérias, e quer que a humanidade se
+submetta pouco mais ou menos aos artigos dos estatutos dados pelo Creador a
+todas as alimarias do universo. Detesta a philosophia que faz os homens maiores
+ou mais pequenos do que elles são. Abomina os escriptores que precisam
+enganal-os para engrandecel-os. Sejamos do tamanho que nos deu o primeiro
+barro: não nos persuadamos que o barro d'uns foi amassado em agua choca, e o
+d'outros em Champagne. As paixões são de todos; uns cahem n'um tremedal, outros
+n'um diwan de molas estofadas. Todos cahimos. Cahiu David e Sardanapalo, cahiu
+Cleopatra e Margarida de Cortona; depois da queda de Hermenigilda, nascida e
+baptisada em Amarante, não ha nada seguro n'este mundo.</p>
+
+<p>O leitor póde passar em claro este capitulo XVIII, que não diz nada
+importante. O que vem é de certo o melhor de todos.<span
+class="pn">{101}</span></p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a href="#mfn3" name="fn3">[3]</a></sup> Jorge Arthur é um nome
+portuguez. Suicidou-se em Janeiro de 1849, no Porto, precipitando-se da
+ponte-pensil sobre o Douro. Tem um monumento no cemiterio do <em>Repouso</em>,
+com o seguinte epitaphio que não diz nada:</p>
+
+<blockquote>
+ Saudade perennal, geme, e avalia<br>
+ Thesouro de que é cofre a sepultura.<br>
+</blockquote>
+
+<p>Estou escrevendo sobre uma pasta que era a d'elle, e tenho aqui um sinete
+com duas iniciaes: a sua, e a da mulher que lhe inspirava o amor... da morte.
+Era um moço de trinta e tantos annos. Tinha talento, e publicou poesias,
+propheticas do seu destino. Teve muitas elegias; foi muito sentida pelos
+rimadores a sua morte. Estou-o vendo quando o tiraram, já lacerado, da agua.
+Era de noite. Eu tinha um archote que lhe projectava no rosto um clarão
+medonho. Desabotoaram-lhe o casaco; entre o colete e a camisa tinha um boné de
+velludo preto bordado a matiz. Era uma prenda que não podia legar...</p>
+</div>
+
+<h2>XIX.</h2>
+
+<p>Não se me desbotaram da memoria, com o envelhecer de mais de trinta annos,
+as cores vivissimas d'um quadro que o leitor vai contemplar. As palavras que
+então se disseram, ainda as ouço; os mais ligeiros gestos, as miudezas menos
+reparaveis de tal scena, ainda as vejo. Ai! quem me déra nesse tempo! É o caso:</p>
+
+<p>Pantaleão foi uma vez visitado por sua prima D. Mafalda, filha segunda da
+mui illustre casa dos Maldonados e Leites, de Cabeça de Veado, que tinha seis
+bispos na familia, todos fecundos, vindo, por consequencia, D. Mafalda a ser
+quarta neta de um filho sacrilego do ultimo bispo, o qual casou na dita casa de
+Cabeça de Veado, como consta da Chorographia de Carvalho, e da Historia
+Genealogica da Casa Real, e, mais miudamente, nas Nobliarchias ineditas de Alão
+de Moraes, no appellido «Maldonado».</p>
+
+<p>Pois, senhores, esta D. Mafalda, vindo visitar a perna gotosa de seu primo,
+reparou na nutrição de Hermenigilda, e fez uma carêta de pessoa que sabe de
+sciencia certa o que são legitimas nutrições, e quando o alargamento dos
+tecidos,<span class="pn">{102}</span> accumulados n'uma região, com detrimento
+d'outras, é uma pseudo-gordura.</p>
+
+<p>Convicta pela experiencia dos seus annos productivos, D. Mafalda entrou em
+averiguações, e soube de seu primo que Hermenigilda ia brevemente casar-se com
+um illustre cavalheiro de Celorico de Basto. Contou-lhe o comêço, e o progresso
+das relações, excepto o que elle, ainda que quizesse, não poderia contar em
+estylo oriental.</p>
+
+<p>Iniciada com estes comêços, a velha fidalga chamou sua sobrinha a contas,
+fechando-se com ella na casa dos presuntos.</p>
+
+<p>«Com que então&mdash;disse a velha&mdash;tu vaes casar, e não me davas parte?!</p>
+
+<p>&mdash;O pai, assim comássim, diz que a tia havia de cá vir...</p>
+
+<p>«E gostas muito do teu noivo?</p>
+
+<p>&mdash;Podéra não! Tomára eu já que elle viesse.</p>
+
+<p>«Tambem eu queria que elle viesse em quanto eu cá estou para os deixar
+casados... Mas, diz-me cá, menina, tu fizeste uma grande loucura em te deixares
+vencer pela tua paixão...</p>
+
+<p>&mdash;Agora fiz! pois eu não havia d'amar com paixão céga meu marido?</p>
+
+<p>«Há cegueiras de cegueiras, Hermenigilda... Ora imagina tu que elle era um
+malvado que não tornava cá, e te deixava nesse estado?</p>
+
+<p>&mdash;Pois eu que tenho? disse Hermenigilda muito sobresaltada, descendo
+machinalmente os olhos sobre o corpo de delicto, ou delicto do corpo, como
+quizerem.</p>
+
+<p>«É isso, é isso, menina; não preciso dizer-te mais nada. Agora o remedio é
+apressar o casamento antes que teu pai vá para Amarante. Aqui ninguem vos
+visita; mas lá, que vergonha para a nossa familia! É a primeira que acontece na
+nossa linhagem!... Pois tu...&mdash;continuou a velha inexoravel, em quanto
+Hermenigilda fazia torcidas<span class="pn">{103}</span> nas pontas do lenço do
+pescoço&mdash;pois tu cahiste nas fraquezas em que cahem as mulheres da baixa
+plebe?! Não te lembraste, nessa hora aziaga, que eras filha do fidalgo mais
+antigo d'Entre Douro e Minho?</p>
+
+<p>&mdash;O amor quando é de raiz...&mdash;balbuciou a pobre menina, purpuriada como a
+fèbra do presunto que lhe estava ao pé disputando o carmim.</p>
+
+<p>«Qual raiz nem meia raiz! Se teu pai&mdash;exclamou com violencia D. Mafalda&mdash;te
+tivesse mandado aprender commigo a ser uma senhora digna dos appellidos que
+tens, não cahirias nessa deshonra, que faz estremecer os ossos de teus
+ascendentes na propria campa! O que dirão os nossos primos da Carraça, e de
+Ranhados, e Lamas d'Orelhão, sabendo que tu fizeste similhante affronta á nossa
+jerarchia?</p>
+
+<p>D. Mafalda sahiu arrebatada, e no vivo impeto encalhou n'um torno da
+caranguejola onde estavam penduradas as brôas d'unto, que longo tempo ficaram
+badalando. Hermenigilda sahiu cabisbaixa, a procurar a tia para lhe pedir que
+não dissesse ao pai o mal que o seu <em>amor de raizes</em> lhe fizera.</p>
+
+<p>Era tarde, porém. D. Mafalda, exprobrando amargamente a seu primo, a
+descautella, e liberdade com que educara a herdeira do seu nome, acabou por
+dizer-lhe que era urgentissimo o casamento, o mais depressa possivel, a fim de
+sanar o mais estrondoso escandalo que se tinha dado em nove seculos d'uma
+honradez a toda a prova na sua linhagem.</p>
+
+<p>Pantaleão, atordoado pelas invectivas, só depois de ouvir a cousa clara como
+ella era para todos, é que sahiu do torpor, e fez menção de pegar d'um
+bacamarte para arcabusar a filha.</p>
+
+<p>D. Mafalda susteve-lhe o rancoroso assômo, e pouco e pouco persuadiu-o de
+que o couce seria mais mortal que a queda. Disse-lhe que escrevesse a Bento de
+Castro para que immediatamente viesse esposar sua filha. Pantaleão<span
+class="pn">{104}</span> preferiu escrever-me a mim chamando-me a Baião, onde
+cheguei cinco dias depois desta pathetica scena, que, de certo arrancou
+lagrimas aos que as podem ainda chorar por motivos de amargurada poesia.</p>
+
+<p>Eu ainda hoje as vêrto caudaes nas rugas da tez, quando me lembro a postura
+afflicta de Pantaleão no momento em que entrei no seu quarto. Estava de cocoras
+sobre a cama, lendo a gazeta de Lisboa, e vociferando pragas contra o Saldanha,
+em quanto o preto tirava os carrapatos d'uma cadella perdigueira que tinha a
+cabeça na travesseira do amo.</p>
+
+<p>O venerando ancião, quando me viu, mandou sahir o preto, e fallou assim:</p>
+
+<p>«Snr. João, saberá que o seu amigo Bento de Castro é nada menos que um
+bregeiro!</p>
+
+<p>&mdash;Como?! V. exc.ª dá similhante titulo a um cavalheiro que vai ser seu
+genro?</p>
+
+<p>«É um bregeiro, e se não, faz favor de olhar para minha filha.</p>
+
+<p>&mdash;Não entendo! Ja tive o gosto de a comprimentar, e ella nada me disse.</p>
+
+<p>«Repare-lhe n'aquellas ilhargas, snr. João!</p>
+
+<p>&mdash;Nas ilhargas! que quer isso dizer?!</p>
+
+<p>«Quer dizer que a minha filha, snr. João, ha-de casar-se já, senão o seu
+amigo é mandado para o inferno.</p>
+
+<p>&mdash;Pois, nesse caso... eu escrevo ao meu amigo...&mdash;repliquei eu, sentindo
+tambem nas ilhargas alguma cousa que poderia fazer-me rebentar na compressão do
+riso.</p>
+
+<p>Pantaleão, no auge da sua colera, saltou fóra do leito, e trilhou a cauda da
+cadella, que soltou um ganido funebre. Proseguiu em raiventas apostrophes a
+Bento de Castro. Accommodou-se um pouco por eu lhe prometter ir pessoalmente
+fallar-lhe a Celorico, e terminou por sentar-se, outra vez, na cama aparando
+com uma navalha de barba a callosidade de um enorme joanete do pé
+esquerdo.<span class="pn">{105}</span></p>
+
+<h2>XX.</h2>
+
+<p>Fui a Celorico, e descrevi o mais patheticamente que pude a scena lagrimosa
+que presenceara em casa de Pantaleão. O meu honrado amigo não hesitou, um
+momento, obedecer aos preceitos do dever. Disse-me que desde muito seria marido
+de Hermenigilda, se a má fortuna da guerra lhe não tolhesse o uso do corpo,
+pelos ferimentos graves que recebêra, e a morosa convalescença que lhe
+custaram. Acrescentou o meu brioso amigo que, obrigado a uma quasi solidão de
+quatro mezes, reflectira maduramente no que lhe convinha, e podera convencer-se
+de que o casamento com uma mulher supportavel de espirito, excellente de
+materia, e rica, era a posição que mais quadrava á sua alma, já desenganada das
+loucas illusões da mocidade. Com quanto o seu amor a Hermenigilda não fosse
+muito&mdash;disse elle&mdash;isso não importava, porque o amor-habito viria com o tempo
+encher o vacuo das grandes paixões. Louvei, como moralista e humanitario, tão
+acertado expediente, tão ajuizada philosophia, e fallamos largamente em planos
+de Bento de Castro, fundados sobre os haveres da noiva.<span
+class="pn">{106}</span> É certo que uma imaginação creadora tanto póde erguer
+castellos no ar como em Amarante.</p>
+
+<p>N'um dos proximos dias, sahimos de Celorico, e viemos pernoitar a Baião,
+onde eramos esperados por um extraordinario successo.</p>
+
+<p>Quando chegamos, disse-nos o preto que a menina estava doente, berregando
+muito. Appareceu-nos D. Mafalda, e disse-me ao ouvido duas palavras, que eu
+communiquei ao meu amigo.</p>
+
+<p>Pantaleão sahiu do seu quarto, e apenas lobrigou Bento de Castro, que
+parecia ter-se commovido com a minha revelação, antes de mais nada, exclamou:</p>
+
+<p>«Não esperava isto d'um fidalgo, que ainda é meu parente, snr. Bento! V. s.ª
+portou-se muito mal, e não é digno de ser meu genro!»</p>
+
+<p>D. Mafalda, prevenida para serenar a colera de seu primo, acudiu aos berros,
+e disse com senhoril gravidade:</p>
+
+<p>&mdash;O mal feito não se remedeia, primo Pantaleão. Do que se tracta agora é de
+chamar cirurgiões, que a menina está muito doente. O snr. Bento está aqui para
+remediar o mal que fez.</p>
+
+<p>«De certo, minha senhora&mdash;murmurou o meu amigo.</p>
+
+<p>&mdash;Pois então&mdash;acudiu Pantaleão&mdash;trate-se já do casamento.</p>
+
+<p>«Já?! não é possivel!&mdash;redarguiu D. Mafalda&mdash;A menina está... pois tu não
+sabes como ella está?!</p>
+
+<p>&mdash;E então que tem lá isso?!&mdash;replicou o fidalgo&mdash;Chama-se ahi o abbade ao
+quarto, dizem-se as duas palavras, e arruma-se o negocio d'uma vez.</p>
+
+<p>«Eu estou prompto a obedecer-lhe&mdash;disse Bento;&mdash;mas eu muito queria que a
+minha noiva não estivesse a soffrer no momento mais feliz da nossa existencia.
+Se ella estivesse perigosa, em tão triste caso, de certo seria eu o primeiro a
+lembrar o cumprimento da minha palavra; mas, se por em quanto não ha receio,
+por que não ha-de<span class="pn">{107}</span> o nosso casamento espaçar-se
+para um dia mais alegre?</p>
+
+<p>&mdash;Eu acho que diz muito bem, snr. Bento de Castro...&mdash;disse D. Mafalda.</p>
+
+<p>Pantaleão cedeu ás razões do genro, e ás minhas, que tiveram sempre uma tal
+ou qual preponderancia na opinião dos parvos. Serenou-se a tempestade, e
+Pantaleão, d'ahi a pouco, estava extasiado ouvindo da bocca eloquente de seu
+primo as proesas de Silveira, e as esperanças seguras da queda da constituição.</p>
+
+<p>D. Mafalda veio dizer a Bento que a menina, sabendo que elle tinha chegado,
+ficara em grande alvoroço de alegria, e pedira que lh'o levassem ao quarto, se
+isso não parecesse mal.</p>
+
+<p>Castro foi ao quarto de Hermenigilda. Parece que lhe deu algumas palavras
+animadoras e ouviu algumas queixas sentidas da sua demora, e da sua ingratidão.
+O momento, porém, era improprio para arguições e defezas. Hermenigilda estava
+pagando á natureza o doloroso preço dos gosos maternaes. Bento sahiu com
+semblante melancolico, e propoz-me um passeio no pinhal visinho.</p>
+
+<p>«Sabes tu, João, (disse-me elle com poetica ternura) que começo desde já a
+sentir o amor paternal?</p>
+
+<p>Agora conheço que os prazeres singelos da vida domestica são os unicos de
+que posso recobrar a minha felicidade perdida.</p>
+
+<p>&mdash;Pois, parabens, meu caro Bento!</p>
+
+<p>«Ha nada mais poetico&mdash;proseguiu elle, cada vez mais commovido&mdash;que o
+espectaculo dos soffrimentos da mulher amada, no momento em que se lhe
+desprende do seio o thesouro d'amor que será inexhaurivel de prazeres para
+mim?!</p>
+
+<p>&mdash;Oh! isso é arrebatadamente poetico! Eu pedirei sempre aos santos da minha
+particular devoção que me não dêem o prazer desse espectaculo; mas se um dia eu
+vier a ser pai, parece-me que hei-de ser um grande pai, e<span
+class="pn">{108}</span> trarei sempre o meu gordo pequeno bifurcado no
+pescoço...</p>
+
+<p>«Não podes imaginar o jubilo que me enche o peito...&mdash;atalhou o meu amigo,
+que parecia não ter ouvido os doces prognosticos da minha paternidade&mdash;Quem
+diria que eu viria a ser isto que sou?! Posso hoje esperar metade da minha
+existencia menos infeliz que a outra. Se Hermenigilda não é a mulher que possa
+corresponder bem ás precisões da minha alma, o vacuo será preenchido com o amor
+de meus filhos. Se fôr menina o primogenito, hei-de mandal-a educar em
+Inglaterra; quero provar que se póde ser uma rica herdeira sem ser estupida. Se
+fôr um rapaz, oh! então... tu não imaginas o que ha-de ser meu filho!</p>
+
+<p>A pratica demorou-se uma hora nestas pieguices, que o leitor, se é pai de
+certo perdoa ao meu amigo.</p>
+
+<p>Ia alta a noite, e a brisa fria do norte, cantando nos pinhaes, fazia-me nas
+orelhas uma sensação desagradavel. Pedi ao contemplativo Castro que fôssemos
+continuar as doces <em>réveries</em> no nosso quarto.</p>
+
+<p>Estavamos ainda a pé, duas horas depois. De instante, a instante,
+chegava-nos o ecco d'um gemido agudo. Eu sahia, de vez em quando, a
+informar-me, e voltava sempre com boas esperanças para o meu amigo. Assistiam
+ao acto solemnissimo d'um primogenito, um medico de Rezende, um cirurgião das
+Caldas d'Arêgos, uma parteira de Canavezes, e D. Mafalda, que parecia mais
+experiente que todos os outros.</p>
+
+<p>Já de madrugada, passeava eu n'um sobrado proximo do quarto em que
+Hermenigilda acabava de ter o seu feliz successo, como dizem os jornaes, quando
+annunciam á Europa o nascimento d'um menino gordo, robusto, filho de tal ou tal
+commendador, que nunca produz, em regra, meninos enfesadinhos.</p>
+
+<p>Tratei de perguntar o sexo do recem-nascido á primeira pessoa que sahiu do
+quarto: era D. Mafalda. Cousa<span class="pn">{109}</span> extraordinaria! A
+velha fidalga sahiu como assombrada; e á pergunta que lhe fiz, respondeu: «Isto
+é da gente se benzer!»</p>
+
+<p>&mdash;Que diz v. exc.ª, minha senhora?&mdash;repliquei eu&mdash;É menino ou menina?</p>
+
+<p>«Eu sei cá... Santo nome de Deus!&mdash;balbuciou ella.</p>
+
+<p>Sabem o que então me lembrou, não podendo atinar com o spasmo de D. Mafalda?
+Se o recem-nascido seria um pequenino centauro, uma aberração da natureza, um
+monstro, um hermaphrodita! Instei com anciedade nas minhas perguntas, e
+imaginei que D. Mafalda estava douda, quando me disse que o nascido era rapaz,
+mas...</p>
+
+<p>«Mas o que, minha senhora, queira acabar...</p>
+
+<p>&mdash;Mas é preto!&mdash;disse ella, escondendo o rosto nas mãos.</p>
+
+<p>Bento de Castro appareceu n'este momento. Contempla a estupefacção de nós
+ambos. Pergunta se Hermenigilda está perigosa. Eu fico perplexo; mas o
+vilipendio do meu pobre amigo vexa-me, punge-me, indigna-me até ao fundo
+d'alma.</p>
+
+<p>Tomo-lhe o braço, tiro-o para o patim da casa, e digo-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Manda sellar immediatamente os nossos cavallos.</p>
+
+<p>«Pois que é?!</p>
+
+<p>&mdash;Já, já, é necessario sahir já d'aqui...</p>
+
+<p>«Por quem és, explica-te, João.</p>
+
+<p>&mdash;E eu pela tua honra te supplico que me não interrogues mais. Vamos
+apparelhar os cavallos.</p>
+
+<p>Bento de Castro seguiu-me como um somnambulo. Viu-me, na immobilidade do
+idiotismo, sellar as cavalgaduras. E quando eu lhe disse: «monta!» não se
+moveu. Era indispensavel tiral-o d'aquelle torpôr. Cobrei animo, e disse-lhe:</p>
+
+<p>«Estás disposto a adoptar o filho de Hermenigilda?...</p>
+
+<p>&mdash;Se elle é meu filho...&mdash;murmurou elle.<span class="pn">{110}</span></p>
+
+<p>«Qual teu filho?! vamos! monta a cavallo!</p>
+
+<p>&mdash;Pois de quem?! Tu queres enlouquecer-me!</p>
+
+<p>N'este instante uma criada dizia d'uma janella para o quinteiro a uma filha
+da caseira:</p>
+
+<p>«Nasceu um menino.</p>
+
+<p>E a caseira respondia:</p>
+
+<p>&mdash;Que seja para boa sorte.</p>
+
+<p>«E a <small>SORTE EM PRETO</small> é a melhor...&mdash;murmurei eu, segurando o
+estribo do cavallo de Bento.</p>
+
+<p>O infeliz comprehendeu-me. Não sei como dizer o que vi na cara de Castro.
+Partimos.</p>
+
+<h3>EPILOGO.</h3>
+
+<p>O preto levou sumiço. Eu creio que o esganaram, e enterraram no entulho
+d'uma mina, que está á esquerda, como quem sahe da porta da cozinha. Quem o
+esganou não sei, e eu sou muito escrupuloso em aventar supposições de tamanha
+responsabilidade. O filho do preto levou-o a parteira de Canavezes, e não se
+sabe o fim que lhe deram. Pantaleão morreu.</p>
+
+<p>Hermenigilda casou com o morgado de Costoias, e é hoje uma das mais
+respeitaveis senhoras da Amarante. Bento de Castro da Gama já foi tres vezes
+deputado pelo Minho, e está muito gordo. Eu vou vivendo, como Deus é servido,
+pasmado do muito que tenho visto.</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM DO LIVRO PRIMEIRO.<span
+class="pn">{111}</span></p>
+
+<h3>LIVRO SEGUNDO.</h3>
+
+<h1>DINHEIRO.</h1>
+
+<p><span class="pn">{112}</span></p>
+
+<p><span class="pn">{113}</span></p>
+
+<h3>LIVRO SEGUNDO.</h3>
+
+<h1>DINHEIRO.</h1>
+
+<h2>I.</h2>
+
+<p>Em 1835, a 22 d'Agosto, ás 7 horas da tarde, pouco mais ou menos, passeava
+eu, com a imaginação pelos mundos ideaes de Platão, e os pés sobre o terreno
+saibroso de um cerrado pinhal, no sitio do <em>Pastelleiro</em>, nos suburbios
+de S. João da Foz.</p>
+
+<p>Distrahidamente, de vez em quando, passeava a vista pelas cinco janellas
+hermeticamente fechadas d'uma casa de campo, pintada de fresco a ocre.
+Impressionava-me o silencio funebre que rodeava aquella casa, e d'essa
+impressão, metade poesia e metade curiosidade, nasceu-me o desejo de saber quem
+morava alli.</p>
+
+<p>Perto da noite, vi abrir-se uma das cinco janellas, e divisei um vulto de
+mulher, que se demorou alguns instantes olhando para o lado do mar. Ahi começa
+a phantasia a fazer-me travessuras!</p>
+
+<p>Receoso d'afugental-a, parei para que ella me não ouvisse os passos. O ar
+mysterioso de tudo aquillo, a hora, o sitio, e sobre tudo esta minha cabeça
+fertil de crendices visionarias, fizeram-me crêr que tal mulher apparecera
+então<span class="pn">{114}</span> para não ser vista d'alguem, e fugiria se
+alguem a visse.</p>
+
+<p>Não me enganei. N'um lanço d'olhos, a amante do crepusculo lobrigou-me entre
+os pinheiros, e sahiu em sobresalto da janella.</p>
+
+<p>«Aquella mulher é necessariamente um romance completo!» disse eu commigo
+mesmo, e imaginei traça de tornar a vêl-a sem ser visto n'aquella noite. Sahi
+do pinhal, entrei na estrada que conduz á Foz, retrocedi, através d'uma
+charneca, e entrei outra vez no pinhal de modo que o ruido dos meus passos se
+perdesse na grilharia dos grillos e cigarras.</p>
+
+<p>A mulher da casa amarella estava outra vez olhando para o occidente, com a
+face encostada á palma da mão. D'ahi a pouco escureceu de modo que eu podia
+pouco avistal-a.</p>
+
+<p>Permaneci muito tempo immovel, encostado a um pinheiro, com os olhos
+cravados n'aquelle vulto, que eu estava amando, sem conhecer-lhe as feições. Os
+primeiros fulgores da lua, que se revia no seio do mar, vestiram-lhe o rosto
+d'um esplendor alvacento: julgal-a-hieis uma estatua de marmore na solidão
+silenciosa d'uma cidade assolada.</p>
+
+<p>Soaram onze horas no relogio parochial de Lordello. Que saudosa tristeza a
+d'aquelles sons em hora de tanta poesia! Que estimulo para um coração de cera
+flexivel a todos os caprichos da phantasia, qual era o meu, por esses tempos!</p>
+
+<p>Onze horas, e eu ainda alli fascinado por aquella mulher, que me não via,
+que nunca me vira, e eu não veria jámais!</p>
+
+<p>Não se riam da criança que eu era então. Tinham passado trinta annos por
+mim, mais ou menos tempestuosos, e o coração estava ainda viçoso, florido e
+esperançoso de fructos que por fim apodreceram antes de sazonarem.<span
+class="pn">{115}</span></p>
+
+<p>Era aquella a idade das paixões sérias, reflectidas, consideradas. São essas
+as paixões que lançam raizes, regadas por lagrimas, ao fundo do seio, d'onde só
+a mão da morte, quasi sempre prematura, póde desarreigal-as.</p>
+
+<p>E por isso aquella mulher do <em>Pastelleiro</em> entrára em minha alma,
+vaga de tres mezes, porque houvera ahi na face da terra uma virgem reféce e
+treda que se vendera a um paparreta rico, vindo não sei d'onde, com anneis de
+brilhantes em todos os dedos das mãos, e joanetes enormes em todos os dedos dos
+pés... que pés, meu querido padre Santo Antonio! não eram pés; eram miniaturas
+da Roma das sete collinas gravadas em couro!</p>
+
+<p>Estive muito doente n'essa occasião. Dei sérios cuidados aos meus numerosos
+amigos, e recobrei lentamente a saude á custa de muita papa de linhaça e oleo
+d'amendoas doces.</p>
+
+<p>Assim atraiçoado, vilipendiado, ferido no meu amor, no meu orgulho de sabio,
+nas minhas aspirações de poeta, resolvêra abandonar o céo onde a perfida, nos
+braços d'um marido indecente, respirava o ar balsamico das flôres que eu
+cultivára para ella no seu proprio jardim. Viera á Foz fortalecer os nervos
+frouxos, contar ao oceano as minhas agonias, chorar com a lamentosa Alcione, e
+apiedar os mexilhões.</p>
+
+<p>N'este estado d'alma era perigoso provocar as sensações do amor. A chaga era
+d'aquellas que se curam hom&oelig;opathicamente, e eu de certo não conheço
+argumento que mais aproveite ao systema de Hahnemann. Os que dizem que a
+hom&oelig;opathia é a medicina que abrange ambos os dominios, o da materia e o do
+espirito, definiram-na de modo que só a má fé poderá ridiculisal-a, não lhe
+reconhecendo a efficacia em enfermidades d'alma tão graves como era então a
+minha. As mulheres são essencialmente hom&oelig;opathicas, e basta que ellas o
+sejam para que o novo apostolado se consolide. Ninguem como ellas se cura
+tão<span class="pn">{116}</span> depressa das molestias d'alma por suppuração
+d'amor. Eu creio que as valvulas no coração da mulher não são simplesmente
+peças mechanicas da circulação sanguinea. Em breve tenciono dar á luz um livro
+de physiologia, em que prometto provar que o coração feminino tem uma valvula
+por onde sahe um amor, e outra que simultaneamente se abre á entrada d'outro.
+Com estas duas valvulas e um pouco d'impudor, fórma-se a mulher á laia
+d'aquella que me trahiu.</p>
+
+<p>Acabem as divagações.</p>
+
+<p>Ouvi ainda baterem as doze horas, sem poder furtar-me á prisão magica
+d'aquella mulher. Afigurou-se-me que ella se movera da attitude melancolica em
+que estivera tres horas. Não me enganei. Ouvi o ranger da porta no interior da
+casa, e um clarão subito illuminou o quarto. O vulto magestoso da mulher
+sobresahiu no horisonte de luz, em pé, com as costas voltadas para fóra.
+Escutei, apenas, o murmurio d'algumas palavras que duas pessoas trocavam, e
+pareceu-me, pelos ademanes, que a mysteriosa tambem fallára. A luz demorou-se
+dous minutos, se muito. Com a escuridade, a minha visão amada voltou á sua
+posição, na janella. Eu, espero que me creiam, estava idealmente tolo por tudo
+que via, e imaginava.</p>
+
+<p>Não pararam aqui as visões estupendas.</p>
+
+<p>D'ahi a pouco escondeu-se a lua. Da parte do mar soprava uma aragem que
+rumorejava nas ramas dos pinheiros um som soturno, que parecia o ecco da vaga
+longinqua. A frouxa claridade das estrellas dava aos montes magestade mais
+impressiva, um colorido mais triste, um encanto de mais para a minha alma, alli
+captiva do espectaculo mais grandioso que o acaso podia deparar a um espirito
+de poeta de força maior.</p>
+
+<p>Maravilha!</p>
+
+<p>Uma voz angelica, trémula como um longo gemido, mas melodiosa como o
+suspirar de brisa por entre flores,<span class="pn">{117}</span> e o murmurar
+de fontinha no cristal da taça, uma voz que ainda hoje me entra no tympano da
+alma, uma voz que nunca mais sahiu da memoria do meu coração... foi a voz que
+ouvi... era ella cantando, era o anjo que segredava ás estrellas as magoas do
+seu exilio, era a fada que invocava as magicas apparições da noite, era o
+espirito aerio, como o não sonharam Wieland, Hoffmann, nem G&oelig;the, a descer
+das regiões ethereas para encher a terra das harmonias santas que foram a
+linguagem humana antes da queda da primeira mulher.</p>
+
+<p>Extatico, alheado, eu não podia recolher ao coração, ao mesmo tempo, a letra
+e o canto. O hymno, variado de modulações divinas, talvez improvisado, musica
+para mim d'uma arrebatadora originalidade, continuava. Habituado ao spasmo da
+primeira sensação, tentei distinguir as palavras, e apenas pude recolher dous
+versos com ligação.</p>
+
+<blockquote>
+ Dai esmola d'amor á desgraçada,<br>
+ Ó anjos, que o meu anjo tendes lá. </blockquote>
+
+<p>Houve uma longa suspensão. Os olhos da minha alma viram aquella mulher
+enxugando as lagrimas. Soou ainda outra vez a melodia triste, cada vez mais
+triste, mais trémula, mais ferida dos tons, ora brandos de adoravel melancolia,
+ora frementes como gritos abafados. Por fim, faltava a tristeza augusta do
+silencio da noite para proferir as ultimas notas d'aquella aria no gemido das
+selvas, no cicio da folhagem, no susurro das correntes, e no manso espriguiçar
+da onda sobre as algas dos rochedos.</p>
+
+<p>Calou-se o canto. Fugiu-me a visão. Fechou-se a janella. E eu pendi a cabeça
+triste sobre o seio, e perguntei aos espiritos da noite se não era aquella a
+mulher dos meus sonhos de trinta annos.</p>
+
+<p>A natureza ouviu-me em silencio.</p>
+
+<p>Porque não ha-de a natureza responder ás perguntas dos tolos que ella
+faz?!<span class="pn">{118}</span></p>
+
+<h2>II.</h2>
+
+<p>No qual tempo, tocava eu viola franceza, com alguma graça, e a minha mania
+creadora era compôr trovas elegiacas, ao sabor da minha amargura, e cantal-as
+acompanhadas de arpejos melancolicos. A minha voz, era um soffrivel
+<em>baritono sfogato</em>. Principiei cantando lições da semana santa, a duas
+vozes. Aprendi, depois, o cantochão, cheguei a cantar n'uma missa de cinco
+vozes em côro d'aldeia, e com estes rudimentos consegui tirar da viola franceza
+harmonicos de que ainda hoje se falla em S. Gonhedo, e Trabanca de Panellas.</p>
+
+<p>Era pois, lugubre o meu cantar como o do captivo de Israel, saudoso das
+margens do seu rio.</p>
+
+<p>E, na noite seguinte á da minha visão, eu fui sentar-me entre os pinheiros,
+com a harpa das angustias debaixo do braço, esperando a hora desejada em que os
+espiritos desciam a pousar nos labios daquella espiritual mulher.</p>
+
+<p>Presenciei o mesmo espectaculo da noite anterior: a mesma attitude, a mesma
+luz, e á mesma hora o canto funebre e as palavras dulcissimas de tristeza.<span
+class="pn">{119}</span></p>
+
+<p>Eu tambem fui poeta, e improvisava, na exuberancia do amor, endeixas
+sentidas, que nunca pude reproduzir com animo frio sobre uma tira de papel. A
+fada acabava de cantar os dous versos tão lindos:</p>
+
+<blockquote>
+ Dai esmola d'amor á desgraçada,<br>
+ Ó anjos, que o meu anjo tendes lá. </blockquote>
+
+<p>E eu feri as cordas do meu alaúde nos tons mais lugubres d'um preludio, e
+cantei:</p>
+
+<blockquote>
+ Neste ermo, triste, e só, e abandonada<br>
+ Quem desta alma o gemer escutará?<br>
+ Dai esmola d'amor á desgraçada,<br>
+ Ó anjos, que o meu anjo tendes lá. </blockquote>
+
+<p>A mulher estava de pé; erguera-se com impeto; buscara nas trevas o mysterio
+d'aquella surpresa. E eu continuei, tremendo com o receio de a ver:</p>
+
+<blockquote>
+ São horas mortas; vem, ó meiga fada,<br>
+ E um beijo para o céo leva de cá.<br>
+ Dai esmola d'amor á desgraçada,<br>
+ Ó anjos, que o meu anjo tendes lá. </blockquote>
+
+<p>Ella estava immovel, ainda; e eu sentia a fronte calcinada ao fogo do estro.
+O <em>Deus</em>, <em>ecce Deus</em> do famoso poeta, experimentei-o então.
+Tumultuavam-me n'alma os pensamentos radiosos. As cordas da cithara, febris
+como eu soltavam vertiginosas harmonias em melancolica toada. Era a hora das
+expansões e eu prosegui:</p>
+
+<blockquote>
+ Teu canto amargo ouvi, sombra adorada!<br>
+ Meu hymno, triste, como o teu dirá:<br>
+ Dai esmola d'amor á desgraçada,<br>
+ Ó anjos, que o seu anjo tendes lá. </blockquote>
+
+<p>Á ultima palavra desta quadra, sumiu-se a visão; mas a janella ficou aberta.
+Decorreu uma longa hora. As<span class="pn">{120}</span> orlas do mar
+arraiavam-se da luz da aurora. A flôr da giesta, as margaritas do prado, e a
+candida florescencia da urze recebiam nas suas urnas o aljofar do céo.</p>
+
+<p>E a janella ainda aberta.</p>
+
+<p>Aclarou-se a manhã: eu não despregava os olhos anciosos da janella vasia, da
+escuridão interior da casa. Na perplexidade de sahir do saudoso sitio, vi
+desenhar-se no fundo escuro um vulto vestido de branco, vaporoso como as tenues
+nuvens do oriente que se rarefaziam ás primeiras lufadas do sol que ia nascer.</p>
+
+<p>Ver-me-ia ella?</p>
+
+<p>Oh! de certo viu! O coração bateu-me no peito. Lancei-lhe um olhar de quem
+dá um adeus e pede uma piedosa saudade. Atravessei os pinhaes por longos
+desvios da estrada; entrei no meu quartel, onde tudo me parecia negro e indigno
+de mim.</p>
+
+<p>Que dia aquelle! Que côr tão linda a da atmosphera! que azul tão encantador
+o do mar!</p>
+
+<p>Como todas as mulheres me pareceram feias, e todos os homens importunos!</p>
+
+<p>Ó amor, fonte caudal de ephemeras alegrias, quando tornarás a orvalhar esta
+alma arida!<span class="pn">{121}</span></p>
+
+<h2>III.</h2>
+
+<p>O sol deitara-se no seu leito de purpura, quando eu entrei no pinhal do
+Pastelleiro. A anciedade não me deixava esperar a noite. As janellas estavam
+fechadas. O amor nascente é tão melindroso, pueril, e timido, que receia
+desagradar até com o pensamento ao idolo da sua concentrada adoração. Eu temia
+destruir o meu tal ou qual prestigio apparecendo de dia áquella mulher, que
+poderia adorar-me no silencio da noite, na hora das lagrimas, em presença das
+estrellas.</p>
+
+<p>Mas o amor arrebatado tem affoutesas que tiram animo da mesma timidez.</p>
+
+<p>A mulher não apparecia. O crepusculo da tarde vinha descendo das cumiadas
+das serras. Eu não podia reprimir a ancia do coração: precisava vêl-a, e
+dizer-lhe, no silencio da surpresa, que amor de vida ou morte ella me
+inspirava.</p>
+
+<p>Rodeei a pequena quinta da casa amarella. Achei, ao longe, uma pequena
+porta, que abria para um matagal. Buli tremendo no ferrolho, e a porta
+deixou-se abrir. Dei um passo vacillante dentro da quinta, e vi a fachada
+trazeira<span class="pn">{122}</span> da casa, uma longa varanda de pedra, e
+duas mulheres, uma sentada, a lêr, outra fiando. Reconheci-a! era ella a que
+lia. As pernas senti-as tremer frouxas e como vergando ao peso do tronco. O
+sangue em lume subiu-me em borbotões ás fontes, quiz esconder-me, e não pude. O
+latido d'um cão denunciou-me aos olhos da mulher que fiava. Não sei o que ambas
+se disseram. É certo que a velha, sustendo o rodopio do fuso, perguntou-me, em
+sinistro falsete, quem procurava eu.</p>
+
+<p>Engasguei-me, tartamudeando não sei que desculpa. A velha redarguiu, em
+quanto a moça, já de pé, cravando-me os olhos immoveis, parecia increpar-me a
+audacia de profanar o seu santuario.</p>
+
+<p>Respondi:</p>
+
+<p>&mdash;Não procuro alguem; andava passeando, e cuidando que não incommodava,
+entrei por aquella porta com intenção de vêr esta quinta.</p>
+
+<p>«Então vocemece&mdash;tornou a velha&mdash;está a banhos?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhora&mdash;respondi eu com muita meiguice, abençoando a curiosidade de
+todas as mulheres, e particularmente a d'aquella que me proporcionava uma
+demora justificada.</p>
+
+<p>«A quinta tem pouco que admirar... (disse a filha dos meus sonhos). Mas, tal
+qual é, está ás suas ordens.&mdash;Leitor, se tóma rapé, sôrva uma pitada, e dê-me
+attenção, que eu não lh'a dispenso na mais insignificante virgula do que vai
+lêr.</p>
+
+<p>A mulher que acaba de fallar, com um timbre de voz só comparavel ao seu
+canto, era um milagre de formosura, como eu a entendo, como eu a tinha sonhado,
+como eu a tinha organisado das bellesas dispersas em quantas mulheres bellas
+encontrára.</p>
+
+<p>Eram negros os cabellos, ornamentos dignos d'uma fronte larga.</p>
+
+<p>Negras as sobrancelhas, ajuntando-se na base do nariz<span
+class="pn">{123}</span> mais fino e transparente que inventaram os pinceis
+famosos que, de seculo em seculo, apparecem para completar as formosuras que a
+natureza nos dá incorrectas.</p>
+
+<p>Olhos da côr dos cabellos, rasgados, nem morbidos nem vertiginosos, menos
+serenos que a limpidez do lago, e mais amortecidos que o vulgar dos olhos
+negros.</p>
+
+<p>Pallida, muito pallida, sem mancha de rubôr, sem beta d'outra luz que não
+seja a que os brandões mortuarios reflectem no crepe da eça.</p>
+
+<p>Era magra de faces, sem que se lhe vissem as proeminencias malares, especie
+de balisas que se levantam naturalmente onde acaba a formosura.</p>
+
+<p>Devia ser muito delicada e breve a construcção ossea d'aquella mulher, que
+no melindroso das fórmas exteriores, mostrava ser apenas o involucro material
+d'um grande espirito.</p>
+
+<p>A pequenina bocca era assombrada por um buço aveludado, que sobresahia a
+custo do fundo pallido em que parecêra plantal-o n'um beijo o amor das
+voluptuosidades, filhas do coração, e desconhecidas á sensualidade grosseira.</p>
+
+<p>Airosa, no primor da estatuaria, as largas vestes casavam ás fórmas as
+caprichosas ondulações, de modo que as bellezas occultas pareciam desafiar a
+imaginação mais fertil para vencel-a com a realidade.</p>
+
+<p>Estes fugitivos traços ficaram-me indeleveis na memoria. Creio que o leitor
+mais imaginoso não creará com elles no mundo dos phantasmas a sombra sequer da
+minha heroina. O pincel cahiria desanimado na presença della; que fará a penna,
+sempre desobediente ás vagas expressões da alma! Não sei pintal-a d'outro modo.
+Tenho-a ha tantos annos ao pé de mim, sempre no logar da minha sombra, rindo e
+chorando commigo, entoando-me sempre em voz sepulchral os dous fatidicos
+versos:</p>
+
+<blockquote>
+ Dai esmola d'amor á desgraçada,<br>
+ Ó anjos, que o meu anjo tendes lá.<span class="pn">{124}</span> </blockquote>
+
+<p>Sempre a voz, sempre a imagem, em tudo, por toda a parte, e não sei
+descrevêl-a, nunca pude arrancal-a da palheta dos artistas mais lucidos,
+d'aquelles que comprehenderam o aspecto melancolico de Camões, e o adivinharam,
+d'aquelles que idealisam a formosura correcta, respingando-a nas Heloisas, nas
+Leonores, nas Fornarinas! Ai! o meu ideal foi deste mundo, e a arte não póde
+restituir-m'o!</p>
+
+<p>O que és tu, sciencia humana! Pintor, subtilisa a tua alma com a lucidez
+magnetica, e dá-me o retracto d'aquella mulher, que eu dou-te a immortalidade
+morrendo abraçado ao teu milagre, á tua segunda creação!....................</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Não soube responder ao offerecimento de... Como se chamava aquella mulher?
+Vamos sabêl-o. D'alli perto, está uma camponeza segando herva. Vou fallar com
+esta mulher, de modo que me não vejam da varanda; receio magoal-a, se ella
+suspeita da minha indiscreta curiosidade... Ainda bem que não sou visto.</p>
+
+<p>«Pertence áquella familia que mora alli?» perguntei eu.</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor; sou caseira d'esta quinta, e aquella familia alugou esta casa
+pelo S. João.</p>
+
+<p>«D'onde é a tal familia, póde dizer-me?</p>
+
+<p>&mdash;Não lhe sei dizer. Parece-me que são lá de cima da provincia. Quem alugou
+a casa foi um senhor que veio cá sósinho, e não tornou a apparecer.</p>
+
+<p>«Seria marido d'ella?» interrompi com sobresalto.</p>
+
+<p>&mdash;Não tinha geito d'isso; e se fosse marido, a criada fallava-me d'elle.</p>
+
+<p>«E que diz a criada?!</p>
+
+<p>&mdash;Pouco mais de nada; e eu, como não sou intromettida, tambem não pergunto.
+Elles vivem na sua casa, e eu vivo na minha.</p>
+
+<p>«E como se chama a tal senhora?</p>
+
+<p>&mdash;É a snr.ª D. Felismina, e a criada é Thereza.<span class="pn">{125}</span></p>
+
+<p>«E ella não toma banhos?</p>
+
+<p>&mdash;Nunca sahe de casa de dia; algumas vezes sahe de noite, mas não passa do
+pinhal, ou vai até lá abaixo áquella moita de carvalhos.</p>
+
+<p>«Desculpe-me tanta pergunta, e em paga do seu bom modo ha-de ter a bondade
+de acceitar-me uma pequena quantia para um lenço.</p>
+
+<p>A mulher, maravilhada, acceitou não sei que, de que a amabilidade do rosto
+immediatamente se resentiu. Devo confessar que a minha generosidade foi tão
+interesseira quanto a seguinte pergunta vai denuncial-a:</p>
+
+<p>«V. m. vai áquella casa?</p>
+
+<p>&mdash;Só lá vou á tarde buscar a lavagem para os cevados.</p>
+
+<p>«E quem lhe faz os recados?</p>
+
+<p>&mdash;Vem todas as manhãs um homem do Porto trazer-lhe as compras; pouco se
+demora, e sahe sem vêr a senhora. Foi elle que me disse que nunca a vira, nem
+sabia quem era; mas que seu amo o mandava todos os dias trazer o mantimento,
+com ordem de não fallar a ninguem. Em quanto a mim&mdash;concluiu a informadora,
+pondo á cabeça o cesto da herva&mdash;em quanto a mim, anda aqui mandinga, por mais
+que me digam.&mdash;Disse adeus á mulher, e voltei pela mesma direcção até á pequena
+porta. Não vi Felismina, nem a criada.</p>
+
+<p>Era quasi noite. A minha existencia phantastica ia recomeçar.<span
+class="pn">{126}</span></p>
+
+<h2>IV.</h2>
+
+<p>Do poente desennovellavam-se rôlos de nuvens pardacentas que se acastellaram
+sobranceiras á Foz. Pouco a pouco, distenderam-se pela superficie do céo,
+formando uma abobada de chumbo, onde não luzia a crispação de uma estrella.
+Estava, pois, medonha a noite, e os urros do oceano vinham de longe a gemer na
+praia um lugubre lamento. Cruzavam-se de norte a sul successivos relampagos, e
+o trovão bramia do nascente, menos retumbante que o mugido das vagas. As
+franças dos pinheiros ramalhavam com impetuosas sacudidellas d'uma nortada
+supita.</p>
+
+<p>E eu, immovel e sereno como o archanjo das tempestades, contemplava este
+espectaculo grandioso, nos visos do Pastelleiro. De vez em quando observava a
+massa escura da casa de Felismina. Pareciam-me fechadas as janellas. Pobre
+cantora d'amarguras, não era aquelle o seu lindo céo, povoado d'estrellas, que
+lh'as ouviam! A brisa, que bebia dos labios d'ella as endeixas tristes, indo-se
+pelos valles a dizel-as aos eccos, fugira espavorida ao açoute do bulcão do
+mar. Talvez que a timida senhora, de joelhos<span class="pn">{127}</span> com a
+aterrada Thereza, estivesse resando a <em>Magnificat</em> e jaculatorias a
+Santa Barbara! Alli, sósinha, na crista de um monte, tão visinha dos raios,
+cercada de trovões, transida de pavôr... não a verei hoje!</p>
+
+<p>Assim pensava eu, resolvido a não esperar o aguaceiro da nuvem prenhe que,
+sobranceira a mim, superava em negrura as outras.</p>
+
+<p>Antes, porém, de deixar o saudoso sitio, quiz satisfazer a um desejo pueril,
+a uma d'essas criancices ditosas de que o coração se emancipa quando os
+cabellos alvejam, ou a alma amadurece temporamente,&mdash;o que é peor ainda... Fui
+ao pé da casa, muito ao pé, quasi rente com a parede, e... á luz d'um
+relampago... vi-a! vi-a... era ella, debruçada no peitoril da janella!</p>
+
+<p>Outro relampago... Estava ainda! não me fugiu, não se moveu, tinha os olhos
+mergulhados nas trevas onde me vira.</p>
+
+<p>Cahiam as primeiras gottas de chuva, e eu não as sentia. O que eu queria era
+relampagos; queria o facho sulfureo da tempestade; queria a erupção d'uma
+cratera; queria o incendio do mundo para vêl-a, maior do que a minha imaginação
+a creára, maior que o terror d'aquelle quadro!</p>
+
+<p>E a chuva cahia a torrentes. Eu recebi-a impassivel, inabalavel, na face,
+erguida para a janella, d'onde as trevas já não podiam roubar-me os traços
+d'ella. N'isto, pareceu-me ouvir a sua voz. O estrepito da chuva do furacão, e
+dos trovões não me deixavam entendel-a. Pensei que fôra um engano. Ai! não era,
+não!</p>
+
+<p>«Póde abrir&mdash;disse ella&mdash;esse portal grande, e recolher-se da chuva.</p>
+
+<p>&mdash;Não a sinto, minha senhora&mdash;balbuciei eu.</p>
+
+<p>«É impossivel que não esteja muito molhado! Recolha-se que a chuva não pára
+tão cedo&mdash;tornou ella.</p>
+
+<p>&mdash;As tempestades do coração não deixam ao corpo sentir as da
+natureza...<span class="pn">{128}</span></p>
+
+<p>«Como?!&mdash;interrompeu ella.</p>
+
+<p>Eu repeti, com medo, as mesmas palavras. Tinha razão para temer. Felismina
+sahiu da janella, e eu ouvi o descer vagaroso da vidraça.</p>
+
+<p>Estava eu, pois, molhado como um frango que sahiu d'um tanque. A agua
+encaleirava-se-me pelos canos das botas. Catarata humana, sacudi as jubas,
+limpei a cara a um lenço que a molhou ainda mais; e, perdida a esperança de
+tornar a vêl-a, fui para minha casa, estripando charcos, e scismando nas
+imprudentes palavras com que me denunciára.</p>
+
+<p>Tive uma noite d'insomnia, e um catarrho cujas consequencias ainda hoje
+sinto. Tomei apenas alguns xaropes de figos e ameixas. Transpirei suffocado
+entre seis cobertores; não fiz caso d'uma dôr tibio-tarsica, aurora do
+rheumatismo que hoje me tolhe, (aprendei, mancebos incautos!) e, no dia
+seguinte, apenas um bello sol mosqueou de betas douradas as costas carunchosas
+do meu leito de pinho, saltei de cuécas para o sobrado, e meditei de cócaras,
+no que devia fazer.</p>
+
+<p>A minha tratadeira (pessoa velha, já mencionada no <small>LIVRO
+PRIMEIRO</small>, a folhas...) veio encontrar-me n'esta attitude, senão
+romantica, ao menos desambiciosa.</p>
+
+<p>«Credo!&mdash;-exclamou ella&mdash;o senhor está de menores! isso é feitio! Olha que
+preparo!</p>
+
+<p>&mdash;Não fuja, tia Poncia&mdash;disse-lhe eu, meditativo e funebre como o fidalgo
+manchêgo, depois da aventura dos ôdres&mdash;Venha cá, tia Poncia, que eu preciso
+das suas consolações.</p>
+
+<p>«Valha-o Deus!&mdash;tornou ella&mdash;Suou tres camisas, e pranta-se no meio do
+soalho com o <em>cadable</em> ao ar!</p>
+
+<p>&mdash;Diz bem, tia Poncia, isto já não é senão um cadaver, lançado á margem,
+exposto aos corvos e abutres das paixões carnivoras.</p>
+
+<p>«Que está ahi a <em>alanzoar</em> o snr. João? Se eu o percebo,<span
+class="pn">{129}</span> cebo! Ora vá-se vestir, ande-me depressa, que está o
+café prompto, e toca a comer p'ra arrijar.</p>
+
+<p>&mdash;Comer, tia Poncia...! O que é comer, sobre a face da terra, quando a vida
+vegetal paralisou! O meu alimento é o absyntho das lagrimas. Sou o Ugolino da
+fome do espirito, o Tantalo, o Promotheu devorado pelo abutre incessante.</p>
+
+<p>«Que bruto está o snr. João ahi a dizer? A apostar que lhe fizeram alguma os
+brutos cá da Foz! Eu sempre tive zanga a esta gente! Está tudo caro pela hora
+da morte! O carniceiro manda-lhe a gente pedir carne da cernelha, e o berzabum
+de não sei que diga manda rabada, e quando Deus quer é cada osso que te parto!
+A lenha isso então é uma ladroeira que clama justiça ao céo! Quatro gravatos
+que não dão para aquecer uma agua é um patacão. Má breca os tolha!</p>
+
+<p>&mdash;Accommode-se lá, tia Poncia. Eu não fallo n'isso. V. m. é mulher
+experiente, e ha-de aconselhar-me a respeito de certa cousa... Chegue-me cá
+aquellas pantalonas, e fallaremos.</p>
+
+<p>«Ora diga lá... bacoreja-me que temos patavinice de namoricos. Ora queira
+Deus que não esteja por ahi alguma como a Vicencia do outro anno que lhe pôz o
+sal na moleira...</p>
+
+<p>&mdash;Ora olhe, tia Poncia... ha uma mulher que não pertence a este mundo.</p>
+
+<p>«Coitadinha! rezemos-lhe por alma! foi por ella que tocaram hontem os sinos
+a defuntos?</p>
+
+<p>&mdash;Não me córte o discurso. Esta mulher vive...</p>
+
+<p>«Ah! sim? inda bem, inda bem!</p>
+
+<p>&mdash;E V. m. a dar-lhe! Ouça, e falle quando dever responder. Esta mulher vive
+n'uma casa aqui perto da Foz; tem comsigo uma criada; não tem homem nenhum: não
+apparece de dia, só se vê de noite a fallar com as estrellas...<span
+class="pn">{130}</span></p>
+
+<p>«Anjo bento! isso é bruxêdo! Cruzes, canhoto! Terá ella fadario?</p>
+
+<p>&mdash;Fadario tem V. m. de toleima, tia Poncia! Vive commigo ha tantos annos, e
+parece que está cada vez mais tonta!</p>
+
+<p>«Quem? eu! tonta eu, porque lhe digo as verdades, snr. João! Eu não lhe
+disse que a Vicencia era uma trapalhona, que lhe dava volta ao miôlo!? Diga,
+snr. Joãosinho, quando V. m. andava atraz da filha do letrado, com a beiça
+cahida, não lhe disse eu que a rapariga, ás duas por tres, se lhe apparecesse
+marido com chelpa era como se nunca nos vissemos!? E agora queria que eu lhe
+dissesse mundos e fundos d'uma feiticeira que só apparece de noite a dizer
+anzonices ao sete-estrello!? Deixa-me benzer, e Deus me tenha da sua mão, e
+mais a V. m. que o vi nascer e desde que anda por cá á sua vontade arranja
+sempre bruxêdo que o tolhe. Sabe que mais, snr. João? Coma e beba e tome os
+seus banhos, que é ó que veio; o mais leve o diabo, Deus me perdôe, as
+mulheres, e quando houver de casar arranje filha de lavrador que saiba amanhar
+a vida, e não olhe para estas fuinhas da cidade que parecem mesmo o peccado!</p>
+
+<p>Tia Poncia disse muitas outras cousas razoaveis. Exhaurida a torrente, foi
+buscar o café, e pediu-me que pendurasse no pescoço uma figa de azeviche, e uma
+conta que fôra tocada no corpo do martyr S. Cyprianno&mdash;tudo para vencer os
+sortilegios da bruxa, contra quem a minha pobre Poncia, durante o almoço,
+proferiu um discurso, intermeado de orações <em>ad rem</em>.<span
+class="pn">{131}</span></p>
+
+<h2>V.</h2>
+
+<p>Fui, nas tres noites immediatas, ao pinhal do Pastelleiro, esperei a
+apparição até ás onze horas, mas nenhuma das janellas se abriu jámais! Pude,
+uma vez, encontrar a caseira: perguntei-lhe se a senhora se retirára, ou estava
+doente, respondeu-me que a tinha visto na varanda todas as tardes,
+acrescentando que a porta travessa, por onde eu entrára na quinta, uma tarde,
+fôra trancada por ordem da snr.ª D. Felismina. Esta providencia apertou-me o
+coração, e feriu a susceptibilidade do meu amor-proprio.</p>
+
+<p>Á quarta noite, demorei-me até depois da uma hora, suppondo que Felismina
+appareceria mais tarde, certa de não ser importunada no seu colloquio amoroso
+com as estrellas. Eu queria dizer-lhe que me perdoasse o atrevimento de ter
+sido indiscreta testemunha dos seus extasis: pedir-lhe-hia que não se privasse
+desse poetico prazer, porque eu não viria alli mais, ainda que essa privação me
+custasse torturas de saudade. O coração offendido tem destas generosidades. É
+sempre a fabula das uvas e da raposa... Nessa quarta noite, pois, seria hora e
+meia, quando tres vultos, vindos do<span class="pn">{132}</span> lado de
+Lordello, passaram defronte da casa de Felismina, e fallaram baixo entre si.
+Abafei a respiração para me não denunciar, e senti o prazer de encontrar as
+minhas pistolas que machinalmente mettera nas algibeiras. Os vultos eram homens
+de jaqueta, e chapéo desabado. Um d'elles trazia uma escada de mão, e os outros
+pareceram-me armados de paus.</p>
+
+<p>Em quanto elles observavam, cosidos com a parede, a segurança das portas,
+avisinhei-me eu da estrada, e colloquei-me, sem ser sentido, a distancia d'um
+tiro de pistola. Vi pôr a escada a uma columnata do patim, que formava para o
+caminho uma pequena varanda. Vi um dos tres marinhar lestamente por ella;
+porém, resvalou da aresta do balaustre, e viria abaixo com o homem, se os
+companheiros a não sustentassem a prumo. Não obstante, este movimento fez
+rumor, e uma das janellas foi subitamente aberta.</p>
+
+<p>Eu estava em ancias por saber se estes homens eram ladrões. Felismina deu-me
+a certeza da minha suspeita, e inspirou-me arrojos de bravura. Apenas ella
+appareceu na janella, e bradou: «Thereza, Thereza, chama o caseiro!» eu saltei
+d'um pulo á estrada, e disparei sobre o grupo uma pistola. O resultado do tiro
+foi maravilhoso! Os ratoneiros davam saltos de corça por aquella estrada fóra,
+deixando a escada, e uma fouce encavada n'um pau.</p>
+
+<p>Em casa de Felismina ia grande reboliço. Ouviam-se os grasnidos de Thereza,
+os latidos dos cães, e os gritos ameaçadores do caseiro. Ella, porém, não
+sahira da janella, presenceando a fuga dos salteadores.</p>
+
+<p>Radioso de heroismo, fui debaixo da janella de Felismina, e disse-lhe:</p>
+
+<p>«Não se assuste, minha senhora; eram tres miseraveis ladrões que fugiram a
+um homem só.»</p>
+
+<p>A este tempo, abriu-se a porta-de-carro, e o caseiro appareceu em fralda,
+com um bacamarte engatilhado.<span class="pn">{133}</span> Vendo-me, veio
+direito a mim na melhor disposição de m'o despejar na cabeça, quando Felismina
+bradou: «Os ladrões já fugiram; foi esse senhor que os fez fugir.»</p>
+
+<p>O bravo em fralda poz a arma em descanço. A mulher, com o saiote vermelho
+pelos hombros, reconheceu-me, e disse para a janella: «Este senhor é aquelle
+que andou outro dia na quinta.» O silencio de Felismina provava que ella não
+carecia d'esta novidade.</p>
+
+<p>Contei então o que presenciara do pinhal visinho. O caseiro interrompeu-me
+grosseiramente, perguntando-me o que fazia eu por alli áquella hora.
+Tartamudeei na resposta. Felismina, porém, atalhou, pedindo-me que não fizesse
+caso da rustica pergunta do caseiro. O boçal desfez-se em satisfações, e instou
+para que eu bebesse uma pinga d'aguardente porque estava fria a noite. Não
+respondi ao offerecimento, que fez rir Felismina; despedi-me com palavras muito
+delicadas da senhora; soceguei o animo aterrado de Thereza; e fui para minha
+casa, cheio de gloria, d'alegria, e de esperanças. A gloria era uma tolice: sou
+eu o primeiro a confessal-a; mas as esperanças alegres fundavam-se na opinião
+elevada que Felismina faria de mim. Não era só defendel-a dos salteadores; era
+estar alli, defronte da sua janella, ás duas horas da noite, como guarda
+vigilante da sua tranquillidade, com os olhos fitos na cupula celeste que a
+cobria, expiando a imprudencia de lhe haver dito algumas palavras apaixonadas.
+Isto devia impressional-a.</p>
+
+<p>Contei, em casa, esta aventura á minha Poncia, que me esperava ainda a pé.
+Aqui é que foi o benzer-se e tregeitar de mulher sábia em agouros e feitiços.
+Quiz-me convencer de que tudo aquillo eram artimanhas da bruxa; e saltou-me ao
+pescoço para vêr se eu tinha a figa de azeviche. Não a encontrando, chamou-me
+herege, e não me deixou sem eu pendurar o bento guizo no pescoço. Deitando-me,
+pareceu-me que o ar do quarto estava impregnado<span class="pn">{134}</span>
+d'um cheiro acre, que era mais forte na cama. Erguendo o travesseiro, encontrei
+um mólho d'arruda, e um alho que tem na Flora popular, um adjectivo desgraçado.
+Eram exorcismos da tia Poncia, que tinha em menos conta o nariz quando se
+tractava de curar a alma d'um possesso de bruxedos. Atirei o deposito de
+hervanario á rua, e consegui adormecer embalado pelas minhas esperanças.</p>
+
+<p>No dia seguinte, seriam onze horas, estava eu na praia, esperando a maré,
+quando vi Thereza, procurando alguem entre os grupos. Palpitou-me o coração!
+Serei eu quem ella procura?... Sahi-lhe como por acaso ao encontro, e ella, que
+mal me vira na quinta, olhando-me perplexa, parecia esperar que eu a
+conhecesse. Dei-lhe um ar de riso, Thereza fez-me signal que a seguisse. Parou
+na praia dos Inglezes, olhou em redor com desconfiança, e disse-me:</p>
+
+<p>«Aquella senhora manda-lhe agradecer muito o que V... fez esta noite; e
+pede-lhe que faça o favor de lhe dizer que a porta travessa da quinta foi
+fechada porque não havia remedio senão fechal-a.»</p>
+
+<p>Eu fiquei-me a olhar para a velha, pasmado da segunda parte do recado!
+Thereza, sempre sobresaltada, ia retirar-se sem resposta, quando eu, caminhando
+com ella, lhe disse:</p>
+
+<p>&mdash;A porta da quinta foi fechada para eu lá não entrar?</p>
+
+<p>«Foi, sim, senhor, porque... não lhe posso dizer mais nada. A senhora o que
+quer é que V... saiba que por vontade d'ella não foi que a porta se fechou; em
+fim, ha cousas que se não podem dizer. A snr.ª D. Felismina custou-lhe bastante
+a mandar fechar a porta; mas, se se soubesse.... Adeusinho, meu senhor... que
+tenho medo que me conheçam.&mdash;»</p>
+
+<p>Não esperou resposta.</p>
+
+<p>Fiz mil conjecturas, e nenhuma só que se aproximasse da verdade. Desafio o
+leitor mais esperto para que anteveja a solução deste problema.<span
+class="pn">{135}</span></p>
+
+<h2>VI.</h2>
+
+<p>O segredo picava-me a curiosidade; todavia, o coração era o que menos
+treguas dava á minha ancia.</p>
+
+<p>Ao escurecer desse mesmo dia passei no Pastelleiro. Vi, de relance,
+Felismina através da vidraça. Levei ainda a mão ao chapéo para cortejal-a; mas
+ella não esperou a cortezia. Estanciei nas visinhanças d'aquelle sitio, até
+alta noite; e só depois das onze horas pude vencer a resistencia magnetica que
+me lá prendia.</p>
+
+<p>Passando, outra vez, defronte da casa, vi uma janella corrida, e um vulto
+n'ella. Eu passava tão subtilmente que Felismina só me viu quando eu estava em
+frente d'ella. O encontro fôra uma surpreza para mim. Muitas cousas imaginára
+eu dizer-lhe, encontrando-a; mas esqueceram-me todas. Parecera-me facil e até
+natural perguntar-lhe a causa de me ser prohibida delicadamente a entrada na
+quinta; achava do meu dever, depois do recado pela criada, examinar o que
+fizera eu para merecer similhante prohibição; porém, chegado o ensejo feliz de
+saber tudo, pareceu-me atrevimento dirigir-lhe a palavra sem ella m'a
+consentir.<span class="pn">{136}</span></p>
+
+<p>A perplexidade durou alguns minutos, e Felismina esperava que eu me sahisse
+d'ella d'um modo muito contrario. Nada lhe disse, segui o meu caminho, e
+confesso que me sentia tremer. O coração tem cousas!...</p>
+
+<p>O arrependimento veio logo com a reflexão. Retrocedi por outro caminho, e
+entrei no pinhal. Estava ainda aberta a janella; mas desoccupada. Esperei muito
+tempo, animando-me a fallar-lhe, quando ella tornasse. Avistei dous vultos, e
+senti despegar-se-me o coração do peito. Não podia distinguir se um d'elles era
+homem; e receava, aproximando-me, causar-lhe desgosto, se por desgraça ao pé
+d'ella estivesse um amante.</p>
+
+<p>Que desafogo senti eu, quando conheci a voz gosmenta da criada! Escutei, e
+ouvi-as fallarem de ladrões. Thereza dizia que se não salvava se estivesse alli
+muito tempo, e promettia um arratel de cêra á Senhora da Luz, se os ladrões não
+tornassem a assaltar a casa. Acrescentou ella: «Se não fosse aquelle destemido
+rapaz, a estas horas estavamos nós feitas em pedaços, sem confissão, nem
+sacramentos.»</p>
+
+<p>Felismina fallava tão baixo, que toda a minha attenção foi baldada. Por fim,
+disse a criada: «Menina, não esteja muito tempo ao relento da noite. Eu vou-me
+deitar, que passei em branco a outra noite; se sentir alguma cousa, chame, que
+eu acordo logo, se Deus quizer, e o meu padre Santo Antonio, que nos tenha da
+sua benta mão.»</p>
+
+<p>Felismina sahiu com a criada, e o quarto illuminou-se de repente. Era a
+primeira vez que eu via tanta luz áquella hora. Conjecturei que a timida
+senhora, receando outra assaltada, quizera com a luz obstal-a. Eu contemplava-a
+a ella, que atravessava passando, por diante da luz, com ligeiros passos.
+Achava-me resolvido a fallar-lhe, fosse qual fosse o exito. Acerquei-me da
+casa, para encurtar á minha timidez o tempo da reflexão. É verdade que me não
+occorria uma só das bellas idéas com que de dia compozera o<span
+class="pn">{137}</span> meu exordio; porém, atido ao improviso do coração, iria
+esperando que ella, com uma só palavra, esperançosa ou desanimadora, me
+sangrasse a veia da eloquencia.</p>
+
+<p>Effectivamente, apenas Felismina surgiu na janella, estava eu seis passos
+distante. Diga-se a verdade: formigaram-me umas caimbras nas pernas, e estive,
+vai não vai, a rodar sobre os calcanhares, e fugir antes de ser conhecido! Li,
+ha pouco tempo, em um romance de Alphonse Karr, uma imagem que pinta
+exactissimamente a minha situação n'aquelle instante. Um tal <em>Estevão</em>,
+em presença d'uma tal <em>Magdalena</em>, não podendo vencer o susto do
+primeiro encontro, <em>faz um esforço como um homem que fecha os olhos para
+saltar um fôsso</em>. É bem dito isto; não se diz melhor o arrebatado movimento
+que eu fiz para chegar debaixo da janella onde Felismina, immovel, parecia
+esperar-me como se tivesse a certeza da minha ida.</p>
+
+<p>«Boas noites, minha senhora» disse eu: era o mais frivolo que podia dizer,
+depois d'uma investida tão vehemente.</p>
+
+<p>&mdash;Boas noites&mdash;murmurou ella com voz abafada e tremula.</p>
+
+<p>«V. exc.ª conhece-me?&mdash;tornei eu, querendo dar á pergunta um tom melodioso,
+que o meu sobresalto tornava rispido e sêcco.</p>
+
+<p>&mdash;Parece-me que é a pessoa que hontem...</p>
+
+<p>«Sim, minha senhora, sou a pessoa que hontem teve a felicidade de estar
+perto desta casa... quando foi necessario livrar v. exc.ª d'um susto...</p>
+
+<p>&mdash;Devo-lhe um grande favor&mdash;atalhou ella, não menos agitada que eu&mdash;e por
+isso mesmo é que hoje mandei a minha criada...</p>
+
+<p>«Eu não pude entender a sua criada, minha senhora; e espero que v. exc.ª me
+diga se eu devo pedir-lhe perdão...</p>
+
+<p>&mdash;De que?!<span class="pn">{138}</span></p>
+
+<p>«Da imprudencia que fiz entrando sem licença na quinta...</p>
+
+<p>&mdash;A causa do meu recado não foi a sua imprudencia, foi, é, e será sempre...
+a minha desventura... Tem V. a bondade de espreitar á fechadura do portão, que
+não vão andar pelo quinteiro os caseiros... Seria uma desgraça, se o vissem, ou
+escutassem...</p>
+
+<p>Espreitei, e não vi nem ouvi signal de gente. Tornando, Felismina acabava de
+apagar a luz, e estava já na janella.</p>
+
+<p>Mal sabem que prazer me deu o ar de mysterio que ella dava assim á nossa
+entrevista nocturna! O amor, quanto mais recatado, mais amor. Ama-se mais n'um
+colloquio, por noites de completa negridão, que á luz das serpentinas dos
+bailes, e ao clarão d'um bico de gaz, que, nestes tempos malditos da poesia,
+vos dá á cara do namoro do primeiro andar uma côr sulphurea e phantasticamente
+prosaica.</p>
+
+<p>Não faço agora ácerca do gaz uma dissertação, porque me sinto abalado pela
+memoria das seguintes palavras que a mysteriosa mulher me disse, logo que eu
+voltei de espionar o quinteiro:</p>
+
+<p>&mdash;O senhor de certo me não conhece...</p>
+
+<p>«Não, minha senhora: apenas sei o seu nome; todavia, se me deixasse dizer
+como eu a conheço...</p>
+
+<p>&mdash;Queira dizer...</p>
+
+<p>«Conheço-a como se conhece a mulher que se ama ha muitos annos; como se
+conhece a omnipotencia de Deus sem se conhecer a sua essencia divina; como se
+confessa a existencia dos anjos, sem nunca se terem mostrado aos homens na sua
+fórma celestial; como se conhece a possibilidade de encontrar a perfeita
+ventura, sem nunca a ter experimentado; como se conhece, pela luz que derrama,
+a existencia do sol, sem poder fital-o nas alturas do céo.»<span
+class="pn">{139}</span></p>
+
+<p>Ainda disse muitas outras maneiras de conhecer sem conhecer; porém, não
+disse todas quantas sabia, e quantas estudára em casa (penso que foi no
+<em>Renegado</em> de Arlincourt não estou bem certo), e lhe teria dito se ella
+me não interrompesse com vehemencia:</p>
+
+<p>&mdash;Bem se vê que não me conhece pela maneira que me falla...</p>
+
+<p>«Como?! explique-se por quem é, snr.ª D. Felismina!</p>
+
+<p>&mdash;<em>Felismina!</em> (disse ella, sorrindo) Cada vez me convenço mais de
+que me não conhece... Sabe que me chamo Felismina, porque lh'o disse a caseira,
+não é verdade?</p>
+
+<p>«Sim, minha senhora.</p>
+
+<p>&mdash;Pois bom é que não saiba mais que o meu nome...</p>
+
+<p>«E não devo esperar outra revelação da sua boa alma? Não sou eu já o
+depositario d'alguns segredos que v. exc.ª confia das estrellas? A mulher que
+pedia aos anjos o anjo que elles lá tem...</p>
+
+<p>&mdash;Não me surprehende...&mdash;tornou ella vivamente commovida&mdash;Eu sei que me
+ouviu; ouvi tambem os seus versos; pareceu-me um sonho tudo o que n'aquella
+noite aconteceu. Se eu tivesse a certesa de que o homem que cantava era tão
+infeliz como eu sou, e vertia lagrimas de tão dolorosa saudade como as eu
+chorava então...</p>
+
+<p>«Que faria a esse homem?</p>
+
+<p>&mdash;Fizera-o meu confidente; dera-lhe o mais que posso dar-lhe: a minha fé...
+a amisade santa dos infelizes áquelles que se compadecem... Não queira saber
+quem sou; essa sua esteril curiosidade o mais que póde é trazer-me desgostos
+novos, e eu mal posso soffrer o peso dos que tenho sobre o meu coração para
+jámais se alliviarem...</p>
+
+<p>«E o coração não lhe diz que eu serei um homem digno das suas confidencias?
+e que, em troca, poderei fazer-lhe quantos serviços, até com risco da
+existencia, podem ser feitos a uma pessoa que soffre?<span
+class="pn">{140}</span></p>
+
+<p>&mdash;Nada póde. O circulo de ferro em que a minha vida está apertada, não póde
+ser quebrado por humanas forças. Podendo eu mover a sua compaixão, dar-lhe-hia
+grandes penas, por não poder valer-me. O coração diz-me que fallo com uma alma
+nobre e generosa; é o coração que lhe falla com tanta franquesa e simplicidade.
+Tambem eu estou conversando com V. como se o conhecesse, ha muito. Isto parece
+providencial; mas não vá a minha sina fatal enganar-me.</p>
+
+<p>«Enganal-a...&mdash;interrompi eu, com exaltado resentimento.</p>
+
+<p>&mdash;Enganar-me, sim, não se offenda, que não tem razão para isso. Eu posso
+julgar muito natural e innocente este curto conhecimento que temos; e d'aqui
+seguirem-se grandes desgostos, como se elles fossem a expiação d'um crime...
+Deixe-me pedir-lhe um favor, sim?... o senhor promette não voltar aqui?</p>
+
+<p>«Se prometto não voltar aqui?!» respondi eu, aturdido da voz segura com que
+a pergunta me era feita.</p>
+
+<p>&mdash;Sim, senhor: é necessario que acabem neste instante as nossas curtas
+relações. V. vai convencido de que encontrou uma mulher muito infeliz; eu fico
+tambem convencida de que encontrei um cavalheiro muito generoso. Não podemos
+ser nada um para o outro; e tão grande é a dôr que eu sinto desta certesa...
+que, por compaixão de mim propria, não quero habituar-me á sua voz.</p>
+
+<p>«Só por compaixão de si mesma?&mdash;atalhei eu, sinceramente commovido&mdash;Não será
+antes pena de mim?</p>
+
+<p>&mdash;De que? Se algum de nós ha-de soffrer... serei eu, pobre mulher, que não
+tenho distracções, e de qualquer pequena saudade faço uma grande dôr... tal é o
+condão da minha desgraçada sensibilidade.</p>
+
+<p>«E não podemos ser nada um para o outro... disse v. exc.ª... Nem sequer
+<em>irmãos</em>?</p>
+
+<p>&mdash;Deus sabe que precisão eu tenho d'um amigo...<span class="pn">{141}</span>
+quantas vezes eu lhe peço uma alma sensivel, como premio do muito que tenho
+penado, muda e virtuosa... Desculpe-me esta fraquesa; será temeridade dizer tão
+afoutamente que a minha virtude é o unico esteio em que me amparo... Creia-me,
+se poder.</p>
+
+<p>«E porque não hei-de eu crêl-a, minha senhora? que fez v. exc.ª para que eu
+desconfie da sua virtude? Julgo-a infeliz, déra a minha vida para suavisar as
+penas da sua; presumo que a sua existencia aqui, tão erma da vida que se ama na
+sua idade, deve ser o desfecho d'um lance muito desventuroso. Podesse eu entrar
+no segredo do seu desgosto, snr.ª D. Felismina, e pediria á Providencia os dons
+que me faltassem para lhe acudir.</p>
+
+<p>&mdash;Não póde, não póde...&mdash;interrompeu ella soluçando&mdash;O mais que póde é
+compadecer-se.</p>
+
+<p>«E não é a compaixão um lenitivo?</p>
+
+<p>&mdash;É, nem eu já agora tenho direito a outras consolações; porém, não imagina
+os resultados tristes que póde dar esta nossa innocente entrevista, se fôr
+muitas vezes repetida. Creia que sou vigiada, e serei martyrisada se alguma vez
+se descobrir a sua vinda. Vá comprehendendo o melindre da minha infelicidade...</p>
+
+<p>«E por ventura, já me fiz suspeito aos olhos d'alguem?</p>
+
+<p>&mdash;Creio que não. A estas horas estaria eu amargamente punida do meu
+delicto... Creia que sobre o meu seio está suspenso um punhal ameaçador.</p>
+
+<p>«Como?!&mdash;interroguei eu, sentindo pela espinha dorsal os calafrios da
+bravura, e não sei que outros calafrios, metade de Amadis de Gaula, e metade de
+D. Quixote de la Mancha.&mdash;Como?! pois ha, para vergonha da minha especie, um
+braço de homem que ouse levantar um punhal sobre uma victima tão resignada!</p>
+
+<p>&mdash;Falle baixo, senhor... Tenho mêdo que o escutem... Repare que não haja luz
+n'uma casa que está ao fundo do<span class="pn">{142}</span> quinteirão. Quem
+sabe se os caseiros estão comprados? Veja, veja.</p>
+
+<p>Eu fui vêr, não vi luz, mas ouvi um arruido singular. Eram umas pancadas
+rispidas e sêccas como o embate de duas taboas. Demorei-me na averiguação, e
+Felismina perguntou-me assustada se via alguma cousa. Vim dizer-lhe o que
+ouvia, e ella quiz logo fechar a janella, sem estabelecer ao menos uma
+hypothese ácerca da extraordinaria bulha. Pedi-lhe que suspendesse o seu juizo
+por instantes, tornei ao posto de observação, e voltei tranquillo por ter
+descoberto que o estrupido estranho era a simples brincadeira de duas cabras,
+que se divertiam a marrarem-se reciprocamente ao clarão da lua: recreio
+sobre-modo poetico para duas cabras prosaicas e estupidas como dizem que ellas
+são.</p>
+
+<p>A entrevista, leitores pios, demorou-se até ás tres horas da manhã.
+Banhavam-se as montanhas da frouxa luz do crepusculo, chilravam os passarinhos
+por aquelles silvedos e restolhos, quando Felismina, a disputar bellezas com a
+matinal estrella, sympathicamente pallida e como elanguescida do beijar
+incessante das brizas nocturnas, murmurou, em harmonia com o hymno festival dos
+passarinhos, estas palavras, que eu escrevera aqui em musica, se esta
+typographia tivesse colcheias e fuzas e sustenidos, e as outras garatujas tão
+necessarias a quem imprime romances cuja linguagem é a pura e genuina do
+coração. Foram estas as suas palavras:</p>
+
+<p>&mdash;É dia; e agora peço-lhe eu que se retire. Leve a certeza de que me deixa
+saudades, e tantas que só poderei consolal-as, vendo-o muitas vezes; mas não
+posso acceitar esta consolação. Seja meu amigo, sim? não me sacrifique, por
+quem é. Eu não sou d'aquellas mulheres que lhe querem persuadir que o amam
+muito, e, comtudo, incapazes de sacrificarem o seu bem-estar ao seu amor,
+pedem-lhe que respeite as suas posições, e não as colloque<span
+class="pn">{143}</span> em desagrado do mundo. Se lhe digo que me não
+sacrifique, é porque o sacrificio seria inutil, e a pena injusta seria igual á
+pena d'um grande crime. Que lucra V. fazendo-me soffrer maiores afflicções? É
+preciso que eu lhe conte a minha vida; sem isso, tudo o que eu lhe digo deve
+parecer-lhe uma invenção de novella, um ar de mysterio com que muita gente quer
+armar á admiração. Ha-de saber a minha vida, se primeiro me jurar pela sua
+honra, e pelo bem das pessoas que mais préza, nunca, em quanto eu viva fôr,
+proferir uma só palavra das que eu lhe confiar. Não sei que sentimento de irmã
+é este que V. me inspira! Nunca esperei encontrar uma amiga a quem dissesse
+«aprende a soffrer commigo.» Menos ainda esperei encontrar um homem, quasi
+estranho, a quem dissesse, sem reserva, o resumo dos padecimentos de tres
+annos... Ámanhã, depois da meia noite, encontra-me aqui. Se quizer, venha, meu
+amigo; mas de tarde não passe aqui, porque eu receio toda a gente, menos a
+minha boa criada, que me viu nascer, e respeita as minhas acções, porque me
+julga incapaz de as praticar indignas de mim. Adeus.&mdash;Ora aqui têem como a
+cousa se passou, tal e qual.</p>
+
+<p>Entrei no quartel com o coração tumido de romances. Olhei-me d'alto a baixo,
+por uma intuscepção peculiar dos grandes tolos, e vi-me grande, extraordinario,
+e fadado para grandes lances.</p>
+
+<p>Chamado ao sanctuario dos segredos d'aquella mulher, eu não podia estremar a
+confiança do amor. De que natureza seriam esses segredos? Que Felismina era
+victima, isso estava provado. Cumpria-me resuscitar os brios cavalleirosos que
+o ominoso romance de Miguel Cervantes matára com a zombaria? Cumpria-me
+offerecer o meu braço, debil instrumento d'uma alma forte, á opprimida
+emparedada do Pastelleiro? Taes interrogações me fiz durante o dia,
+contemplativo sempre, sempre poeta scismador, não obstante as interrupções da
+minha Poncia, que vendo<span class="pn">{144}</span> o meu fastio ao jantar,
+obrigou-me a tomar um chá de fel da terra para limpar o estomago.</p>
+
+<p>Poncia era uma creatura de singular chateza. Fallar-lhe nesse amor
+vulcanico, que ella trocava em mal de estomago, era forçal-a a esconjuros e
+benzedellas que me aguavam toda a poesia da expansão. Quando eu lhe disse que
+havia uma mulher, suffocada sob a pressão d'um tyranno, escondendo as lagrimas
+para não irritar a colera do seu verdugo, Poncia, depois de sorver uma pitada
+de esturrinho, exclamou:</p>
+
+<p>«Sabe V. m. o que essa rapariga ha-de fazer? que reze uma novena ás almas, e
+prometta uma romaria á Senhora da Guia, para que a guie bem; e o snr. João
+deixe-se de palanfrorios; não se metta na vida alheia, e tracte de comer bem e
+tomar os seus banhos em paz, que é o mais acertado.</p>
+
+<p>Dito isto, sentou-se de cocoras, e poz-se a torcer linhas.<span
+class="pn">{145}</span></p>
+
+<h2>VII.</h2>
+
+<p>Trato de afivelar já uma mordaça á maledicencia. Muita gente cuida que o meu
+namoro com a mysteriosa senhora do Pastelleiro ha-de ser um conto muito bonito,
+em que eu hei-de dizer cousas muito galantes, em que ella ha-de fazer tregeitos
+de pudicicia, até que finalmente acabemos ambos por nos adaptarmos ás formulas
+vulgares d'uma rotineira paixão das que morrem no inverno, se nascem no verão
+ao pé d'um pinhal, cuja poesia não resiste ás primeiras nortadas de Outubro.
+Agora tomem fôlego que o periodo é uma especie de machina pneumatica.</p>
+
+<p>Pois saberão que não tive namoro com a snr.ª dona... ia dizer Felismina; mas
+a mulher chamava-se Leocadia. A razão do pseudonimo virá em seu tempo. Por
+hora, saiba-se a figura que eu fiz, a figura que ambos fizemos. E o leitor,
+duro d'alma, o leitor-leão que retorce o bigode e enruga a fronte encarando com
+visos de tyranno todas as mulheres, suas imaginarias victimas&mdash;esse, que a
+maior parte das vezes é um pobre homem, não leia isto porque de certo não
+aprenderá aqui a receita com que se fascinam as mulheres.<span
+class="pn">{146}</span></p>
+
+<p>Declaro, pois, que não namorei a snr.ª D. Leocadia, moradora no logar do
+Pastelleiro, suburbios de S. João da Foz, em 1828.</p>
+
+<p>Declaro, outro sim, que nunca lhe disse cousa que duvida faça á virtuosa
+commemoração de sua memoria, nem consta que as más linguas sujassem a reputação
+desta senhora.</p>
+
+<p>D. Leocadia contou-me a sua vida, e, desde o preambulo de tão triste
+historia, confesso que senti abalar-se-me a alma de commoções que não eram isto
+vulgarmente chamado amor dos homens. Conheci que não estava no seio d'ella
+coração que podesse ser meu. Grande coração ella tinha; mas o amor de que
+extravasava era o amor espiritual dos anjos, o perfume continuo d'uma adoração,
+que não podia deixar cahir neste chão maldito um só bago de incenso. Depois de
+ouvil-a uma hora, sem ousar interrompêl-a, comecei a sentir não sei que terror
+de ter tentado disputar a alma d'aquella mulher a um homem que dormia o somno
+eterno, cujo espirito, porém, dizia ella, adejava entre nós, quando proferiamos
+o seu nome.</p>
+
+<p>Eu fui sempre criança n'isto de superstições. O ether para mim foi sempre, e
+ha-de sêl-o sempre, um infinito vacuo que os olhos d'alma contemplam cheio de
+espiritos. As almas das pessoas que amei, que estimei, que vi partirem-se
+d'aqui successivamente deixando em redor de mim o ermo do desterro, a insulação
+medonha do estrangeiro em solo de barbaros&mdash;essas almas revoam nas florestas,
+deslisam-se-me nos cabellos que o terror encrespa, gemem aos meus ouvidos como
+o suspiro do mar dormente... essas almas... perdoem-me a divagação... Eu
+cuidava agora que estava a escrever no meu album uma de muitas paginas que
+virão algum dia confirmar posthumamente a minha reputação de grande piegas, ou
+de grande pateta, legado unico que preestabelece e assegura a boa paz entre os
+meus herdeiros.<span class="pn">{147}</span></p>
+
+<p>Vinha eu dizendo, pois, que a vida de Leocadia foi uma triste vida. Vou
+contal-a; saibam, porém, que D. Leocadia morreu já. Este preliminar aviso é
+necessario para muitos effeitos, sendo o mais valioso ter-lhe eu promettido a
+ella sigillo de confissão durante a sua vida. Então, pensava eu ir primeiro a
+descançar das minhas fadigas; esperal-a a ella rodeada d'anjos lá, cortando a
+immensidão do céo, no dia do seu resgate. Enganei-me. Leocadia fugiu na idade
+em que os olhos descem a procurar na terra os vinculos que nol-a podem fazer
+querida. Voou deste baixo repositorio de escorias para a limpida estancia da
+sua patria; e eu, velho e enfermo, ralado de saudades do coração que consumi,
+vestida a alma dos andrajos que troquei pelas galas d'uma poesia que só eu
+tive, e toda a gente porfiou em destruir-me, eu, mytho d'outras eras, esphinge
+posta em altar de lama n'um templo de vendilhões torpissimos, eu, finalmente,
+fiquei por cá, quinze annos depois d'ella, sem poder atinar com a intenção
+providencial que por aqui me traz entregue aos baldões d'um destino, que umas
+vezes me parece cruel, e outras patusco.</p>
+
+<p>Ahi vai agora o conto:</p>
+
+<p>Leocadia nascêra em uma notavel villa de Traz-os-Montes. Seu pai era
+official de cavallaria, e senhor d'uma casa mediocre. De Bragança passára para
+Lisboa a commandar um regimento, e levára comsigo sua filha de nove annos já
+sem mãi. A menina entrou n'um collegio, onde esteve até aos dezenove annos.
+Sahiu para a companhia de seu pai reformado em coronel, e completou a sua
+educação na convivencia de algumas poucas familias exemplares.</p>
+
+<p>Leocadia, ainda no collegio, maravilhava-se de sentir no peito uma ancia
+como se não fosse o ar bastante para encher-lhe um vacuo oppressivo. Bem
+conhecia ella que a sua queixa era um singular achaque dos que o instincto
+ensina a curar. As mestras, que a viam scismadora a esconder-se entre as murtas
+e as tilias do jardim, graças á experiencia,<span class="pn">{148}</span>
+entendiam melhor a molestia da discipula do que entenderam a sua dos dezenove
+annos.</p>
+
+<p>Nesta anciedade vaga, sahiu Leocadia do collegio, entrou na roda de pessoas
+bem procedidas, e viu que os dous sexos se misturavam nas salas, e conversavam
+sem desaire, muito a beneplacito da sã moral. Um dos dous sexos causou-lhe uma
+estranheza em que as faces davam o signal, rosando-se, pintando-se da mimosa
+purpura que, rara, em nossos dias, reçuma em rosto de dezenove annos, por uma
+razão que o leitor sabe, e mais eu.</p>
+
+<p>O sexo, porém, que mais a constrangia (sempre a natureza tem cousas!) era,
+quer m'o creiam quer não, o sexo que mais gratas scismas lhe dava nas suas
+contemplações, sósinha.</p>
+
+<p>Havia ahi na sua roda um rapaz, tão acanhado como ella, o que menos palavras
+lhe dizia, e essas palavras custavam-lhe tanto ao pobre do moço, e tão frivolas
+eram, que, se os olhos não dissessem mais que elle, Leocadia julgar-se-hia
+entre todas a mais indifferente ao timido Vasco&mdash;chamava-se elle Vasco, se bem
+me recordo.</p>
+
+<p>Amou-o ella: é o que não soffre duvida; e elle amou-a, como... deixemo-nos
+de metaphoras&mdash;amou-a como hão-de vêr que elle o prova, depois.</p>
+
+<p>O tal Vasco era pessoa de bem; quero dizer que tinha duas costellas, ou
+tres, parece-me que eram tres as costellas nobres que elle tinha. Não obstante,
+como as acções do Banco eram menos que as costellas nobres, o meu pobre Vasco
+andava por alli entre aquella gente, e ninguem dava fé se elle entrava ou
+sahia, excepto Leocadia, que o não perdia da vista dos olhos, e da outra vista
+do coração, de maior alcance ainda, se o coração não é myope, ou zarolho, peior
+mil vezes.</p>
+
+<p>Corações zarolhos, dou-lhes a minha palavra d'honra que os conheço até pelo
+cheiro. Descobriu-se ultimamente a operação do estrabismo para elles. É
+infallivel, nas mulheres<span class="pn">{149}</span> que vieram com esse
+aleijão a este mundo. Havemos de fallar a este respeito no oitavo volume desta
+edificativa obra.</p>
+
+<p>Bom coração era o de Leocadia, coitadinha! Umas senhoras velhas, dando no
+segredo dos olhares que os dous se cambiavam com certa finura que o amor
+astucioso ensina, as taes velhas solteironas foram dizendo á menina que o
+rapazinho era bello moço e de boa familia; mas a respeito de haveres não tinha
+nada. Conclusão de velhas: «deixe-se a menina de gastar o seu tempo mal, porque
+a mocidade anda a galope, e quando a gente mal se precata, deixou perder a
+occasião de arranjar noivo conveniente, e acha-se velha.»</p>
+
+<p>Esta linguagem corruptora, hedionda, asquerosa, doutrina que prostitue a
+mulher, que a enfeita para se expôr em leilão torpe, esta linguagem fez córar
+Leocadia.</p>
+
+<p>Vasco cobrou animo com a familiaridade, e gaguejou o prologo d'uma
+declaração amorosa. Leocadia, que lhe havia adivinhado o segredo
+aprasivelmente, acceitou-o, corando e sorrindo de modo que nunca foi tão linda
+como então, nem houve sorriso e pudôr que tanto alindassem um rosto innocente.</p>
+
+<p>Reanimado pelo bom acolhimento, o nosso Vasco, pouco e pouco, deu liberdade
+ao coração, e disse quanto podia; mas quanto sentia, isso não se consegue aos
+dezoito annos. Escreviam-se todos os dias, davam-se reciprocamente uma edição
+diaria do seu amor em duas ou mais folhas de papel, e, depois da vigesima
+carta, escreviam o prospecto do seu futuro, com a riquesa de imaginação usual
+de todos os prospectos.</p>
+
+<p>Deviam ser formosissimas as perspectivas do magico amor d'aquellas almas,
+ambas poetas, innocentes ambas, desferindo na corda virgem do mesmo som o
+primeiro hymno de saudação á vida, cheia de nova luz, especie de
+bem-aventurança ephémera posta entre o dormir da razão na<span
+class="pn">{150}</span> infancia, e o despertar desse terrivel dom na
+adolescencia! Bellas deviam ser essas esperanças, por que o pensamento de ambos
+era sanctificarem pelo casamento a sua identificação n'uma só alma, irem ambos
+n'essa alma unica habitar uma casinha campestre, rodeada de arvores, onde os
+passarinhos tivessem as suas luas-de-mel, e os seus ninhos, e os seus filhinhos
+pipilantes. Queriam ao pé dessa casinha uma fonte, derivando em fios de prata
+por sobre a relva as suas aguas, e nessa relva havia de pastar um cordeirinho
+branco, malhado de preto, com um laço escarlate no pescoço, o qual cordeirinho
+andaria sempre atraz de Leocadia, e daria cabeçadas no cão de Vasco, que havia
+de ser um cão do Monte de S. Bernardo, que se enroscaria (o cão) aos pés de sua
+ama, lambendo-lhe a ponta do sapato de carneira côr de flôr de alecrim.</p>
+
+<p>Que vida, que esperanças tão bonitas! Nas manhãs de estio, quando o
+pintasilgo, o pisco, a calhandra, o cochicho, e toda a orchestra dos musicos do
+bosque, dessem a alvorada d'um bello dia, Vasco e Leocadia, espriguiçando-se
+ainda de deliciosas insomnias, sahiriam para o ar livre, sorveriam abraçados o
+primeiro halito da atmosphera, perfumado de alecrim e rosmaninho,
+revesar-se-hiam em ir á fontinha buscar burrifadores de limpida agua, regariam
+os canteiros, as balsas, os vasos; e depois, botariam milho ás gallinhas,
+enxotariam a gata que se encarapitou n'um ramo de romanzeira para agadanhar um
+passarito que ensaia os primeiros vôos; depois, chamariam o cão e o
+cordeirinho, iriam para ao pé do rumorejar da fonte. Vasco leria os seus poetas
+italianos, o seu querido Petrarcha, e Leocadia, chorosa pelo tão mal
+recompensado amor do infeliz poeta, abraçaria o seu, tambem fadado das musas,
+exclamando: «que nos vejam do céo esses desgraçados amantes que não acharam cá
+em baixo o nosso paraizo.»</p>
+
+<p>Isto é bonito, digamos a verdade; e mais ainda se não disse tudo.<span
+class="pn">{151}</span></p>
+
+<p>Em quanto ao almoço, jantar, e ceia, e merenda nos dias grandes, (cá estou
+ao vosso alcance, sisudos leitores, que estaveis a adormecer no periodo
+anterior) em quanto a esses solemnissimos actos da vida ides por força
+vascolejar nas mandibulas a mais regalada das gargalhadas, que ainda estoirou
+de vossos alegres queixos! Deveis de saber que os pobres amantes projectavam
+estes grandes melhoramentos na sua vida como por cá se projectam os
+melhoramentos materiaes do paiz, isto é: não cuidavam da receita, nem do
+orçamento, nem do <em>deficit</em>, nem... eu sei cá como se chamam essas
+cousas que por ahi dizem os que sabem lá da salvação do paiz! O que eu sei é
+que este par de creaturas bemaventuradas, com quanto fossem muito anteriores ás
+importantes applicações do magnetismo, attribuiram ao magnetismo propriedades
+que os modernos ainda não sonharam, tendo sonhado quanto ha de tolice
+sub-lunar. Entenderam elles, pois, que o magnetismo era uma substancia
+nutritiva como vacca e arroz, como <em>roast-beef</em> e almondegas, como
+esparregado e pudim de batata! Que parece esta sandice ao leitor circumspecto,
+que tem o seu estomago na devida consideração, e crê que isto de poesia e
+poetas, de idealismo e espiritualismo, são o que realmente são:
+<em>indróminas</em>? Pois é verdade, como lhe vinha contando, amigo, senhor
+meu, cuidavam elles que o trivial e velhissimo facto de se amarem os separaria
+dessa lei commum, lei estupida por isso mesmo que é para todos, praxe, tão
+velha como o amor, de attender ás justas reclamações deste ser intimo que faz
+os grandes estadistas, os eximios patriotas, os jornalistas preclaros, e
+particularmente os homens gordos: quero dizer&mdash;o estomago, viscera-rainha,
+orgão dos orgãos, potencia sempre discutida, sob um pseudonimo qualquer, no
+discurso do throno, aganipe das locaes mais chorudas do jornalismo, irmão gemeo
+da soberania do talento, o estomago, oito letras a cujo serviço estão as outras
+dezeseis, porção, em fim, do homem notavel, que mais se<span
+class="pn">{152}</span> lhe venera, por isso que a chegada de uma summidade a
+qualquer terra é logo celebrada por tres, quatro, cinco jantares em que uma
+concava terrina de sôpa e uma pyramide de boi assado substituem os presentes
+d'ouro e pedrarias com que na antiguidade se regalavam os adventicios de longes
+terras.</p>
+
+<p>Era preciso todo este palavriado para saber-se que Leocadia e Vasco não
+scismavam com o que haviam de entreter o fogo sagrado d'essa mola por
+excellencia do machinismo humano. Dar-se-hia por injuriado o coração, se o
+torpe raciocinio lhes argumentasse <em>á priori</em> com as villãs necessidades
+da materia, cousa de que elles tinham apenas a necessaria para se amarem.</p>
+
+<p>Não pensava, porém, assim, o snr. Gervasio Leite, pai de Leocadia, nem a
+snr.ª D. Fortunata Proença, madrasta da mesma menina, casada tambem em segundas
+nupcias com o militar, e mãi d'um rapaz estragado, senhor d'uma boa casa no
+Alem-Téjo de que sua mãi era uso-fructueira.</p>
+
+<p>D. Fortunata, casando com o coronel, promettêra-lhe empregar a sua
+authoridade maternal sobre o filho para que elle, ultimada a sua formatura na
+Universidade, casasse com Leocadia. Este casamento assegurava á enteada, se não
+um digno esposo, ao menos uma boa casa, e, a todo o tempo, um dote que ella
+poderia levantar, se os maus costumes do marido fossem incorregiveis.<span
+class="pn">{153}</span></p>
+
+<h2>VIII.</h2>
+
+<p>O coronel, informado dos amores da filha por suspeitas da madrasta, resolveu
+curar heroicamente a enfermidade moral da menina. Francisco de Proença, que
+estava a completar a formatura, annuira á proposta da mãi, conhecendo apenas de
+vista a noiva, e as necessarias dispensas estavam já em poder do coronel.</p>
+
+<p>Leocadia foi chamada ao quarto de seu pai, e recebeu a noticia do seu
+proximo casamento. Fez-se escarlate, faltou-lhe o ar, e nem se quer pôde
+balbuciar uma supplica a seu pai. Passados os momentos da offegante surpreza,
+Leocadia, cobrando animo do ar compassivo do coronel, ousou dizer que já não
+podia dispôr do seu coração, porque amava outro homem.</p>
+
+<p>O militar riu-se da infantil pieguice de sua filha, achando que não valia a
+pena zangar-se por uma criancice sem consequencias. A menina tomou o riso por
+carinho paternal, e lançou-se de joelhos aos pés do pai, suffocada pelas
+lagrimas que lhe sahiam do coração agradecido e venturoso.<span
+class="pn">{154}</span></p>
+
+<p>&mdash;Então que é isso? (disse o coronel, tomando-a nos braços, e sentando-a ao
+pé de si) Cuidas tu, criança, que eu sou tão criança como tu? Achas que eu
+deixarei á tua vontade inexperiente a escolha do destino da minha querida
+filha? Essa é boa! Eu riu-me d'esse amor patetinha que tens ao Vasco da Cunha,
+tão tôlo como tu, e que não sabe melhor do que tu o futuro que vos esperava.
+Olha, Leocadia, não se póde ser pobre n'esta sociedade. A nossa casa é muito
+pequena, bem o sabes; e Vasco é um filho segundo, sem habilitações para modo de
+vida algum. Estes fidalgos cuidam que ser fidalgo é uma profissão. Os filhos
+segundos, se lhes faltam as sopas do primogenito, não servem para nada, não tem
+em si recursos para subsistirem fidalgamente, e julgar-se-hiam réos de
+leso-brazão se pedissem uma occupação plebêa. Meus irmãos, Leocadia, foram para
+o Brazil, logo que a razão lhes disse que a pequena casa onde viviam era minha.
+Trabalharam como se nascessem do populacho, e estão ricos, riquissimos, e serão
+mais fidalgos na sua patria, se voltarem, do que o eram quando de cá sahiram.
+Quem saberá melhor o que te convém do que eu, minha filha? Sei em que tempo
+estamos, e quero deixar-te preparada para um tempo que ha-de vir, muito peior
+que este. Espero ainda vêr em minha vida desapparecer o rendimento da Commenda
+que faz a nossa casa mediana; ido esse, o resto bem sabes o que é. Se casas com
+esse rapaz, que não tem nada, quem vos sustentará? Eu não poderei, nem, se
+podesse, quereria. Para que reconheças quanto me tenho a ti sacrificado,
+lembra-te que por teu bem casei com esta senhora que te quer como a filha. A
+condição de casares com Francisco, acceite por ella, explica o meu casamento
+n'esta idade, em que ainda choro saudades de tua mãi, cuja memoria me não
+deixou jámais encarar com bons olhos outra mulher. Depois d'isto, dir-me-has se
+eu não devo esperar que tu espontaneamente acceites a sorte que eu te preparei.
+Serias má filha,<span class="pn">{155}</span> se recusasses; e eu seria um pai
+muito infeliz, se me desobedecesses. Nunca o imaginei; e, tão firme estava na
+união das nossas vontades, que sem te consultar, pedi as dispensas necessarias
+para o teu casamento com o meu enteado. Enganar-me-hia eu, Leocadia?</p>
+
+<p>A menina soluçava com os labios collados na mão do pai, cobrindo-lh'a de
+lagrimas. O coronel apertou-a ao seio com amor, e tinha os olhos aguados.
+D'aquelle modo Leocadia fazia a seu pai o sacrificio do seu coração, o maior de
+todos, porque o menor era de certo a vida.</p>
+
+<p>&mdash;Não respondes, filha?&mdash;dizia o coronel, levantando-lhe a face que ella
+escondia no seio do pai.</p>
+
+<p>«Já respondi...» balbuciou ella.</p>
+
+<p>&mdash;O que? que respondeste, Leocadia?</p>
+
+<p>«Farei o que fôr da sua vontade, meu pai...</p>
+
+<p>&mdash;És a minha Leocadia...&mdash;disse elle com apaixonada meiguice&mdash;Reconheço a
+filha da minha chorada mulher... Agora, fallemos nos teus amores com Vasco...
+Senta-te, menina. Diz-me cá: ha que tempos andam vossês com essa brincadeira?</p>
+
+<p>«Brincadeira... não era brincadeira, meu pai... Nós amamo-nos muito... ha
+dous mezes.</p>
+
+<p>&mdash;Já ha dous mezes? Está feito! mas eu não tenho dado fé... Como se
+entendiam vossês? fallavam ás escondidas, ou...</p>
+
+<p>«Nunca fallámos ás escondidas...</p>
+
+<p>&mdash;Então, escreviam-se, sim?</p>
+
+<p>«Sim, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;E as vossas tenções?</p>
+
+<p>«Eram sentar elle praça, e, quando fosse official, pedir-me ao pai.</p>
+
+<p>«Está bom... E porque me não fallaste d'esse teu namôro?... Diz, filha, tu
+guardavas de mim o segredo; é signal de que a tua consciencia não o approvava
+como digno de contar-se a um pai...<span class="pn">{156}</span></p>
+
+<p>&mdash;Foi porque algumas senhoras, que deram fé logo no principio, me disseram
+que eu não fazia bem em gostar de Vasco, porque elle não era rico, e eu só
+devia gostar de pessoas que tivessem um grande dote. Se não fosse isto, eu
+seria a primeira a dizer ao pai...</p>
+
+<p>&mdash;Está bom, filha. Agora é necessario que tu escrevas, e lhe digas que teu
+pai deseja fallar com elle.</p>
+
+<p>«O pai!?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, menina. Quero eu fallar-lhe, porque, se até aqui o estimava pelas
+suas qualidades, e por elle ser filho de quem é, mais o estimo hoje por elle
+ser amigo de minha filha. Ingrato e villão seria eu se lhe quizesse mal porque
+minha filha o impressionou, inspirando-lhe a resolução de seguir uma carreira
+até ganhar a subsistencia d'ella. Poucos ou nenhuns pais assim pensam, bem o
+sei; mas eu, que devo a Deus uma filha docil, não quero esquecer-me de que sou
+o seu primeiro amigo pelo coração, e o seu primeiro conselheiro pelo dever.
+Vasco, depois de ouvir-me, ha-de transigir com as tuas circumstancias e com as
+d'elle. Ficará amando-nos ambos, e ficaremos todos amigos, de modo que jámais
+elle possa queixar-se da ingratidão de uma filha grata e submissa a seu pai.</p>
+
+<p>Leocadia beijou-lhe a mão, e retirou-se, obedecendo a um gesto do coronel. O
+velho militar ficou enxugando uma teimosa lagrima que lhe cahira sobre o
+bigode, no momento em que a filha, sahindo do quarto, desentalava a dôr
+oppressiva do seio por um ai.</p>
+
+<p>Na tarde desse dia, Vasco recebia um bilhete de Leocadia, assim conciso:
+«Meu pai quer fallar hoje ao amigo de sua filha. <em>Leocadia.</em>»</p>
+
+<p>Que surprehendente, e que mysterioso bilhete! O pobre moço não podia
+imaginar o meio-termo entre a completa ventura, e absoluta desgraça.
+Faltava-lhe o animo, e o desembaraço para apresentar-se, á ventura, diante do
+pai de Leocadia.<span class="pn">{157}</span></p>
+
+<p>Não ir, porém, seria desobedecer ao homem que respeitava como pai, e
+ennegrecer aos olhos d'ella a candura das suas intenções.</p>
+
+<p>Foi; e o leitor, se é curioso, póde espreitar commigo a scena que vai
+passar-se na sala do coronel.<span class="pn">{158}</span></p>
+
+<h2>IX.</h2>
+
+<p>Vasco entrou na sala, encolhido, como se o frio o arrepiasse. Não viu
+alguem, e parou, ao segundo passo, com as mãos juntas na aba do chapéo, e os
+olhos fitos na porta por onde havia de entrar o coronel.</p>
+
+<p>A porta abriu-se, e Vasco estremeceu. O pai de Leocadia, com a mão direita
+estendida ao hospede, e com a outra indicando-lhe o canapé, entrou,
+affavelmente encarado, como Vasco o não vira nunca.</p>
+
+<p>«Sente-se aqui, snr. Vasco, e conversemos como dous rapazes, ou como dous
+homens velhos&mdash;disse o coronel, apertando um cigarro, e offerecendo outro ao
+mancebo.&mdash;Já toma o seu cigarrito? A apostar que sim?</p>
+
+<p>&mdash;Não senhor, não fumo.</p>
+
+<p>«Pois admira! Este sujo prazer de soldados e marinheiros começa a ter boa
+hospedagem nas classes mais limpas da nossa sociedade. Por ahi, a mocidade,
+apenas deixa o guizo que lhe deu a ama de leite, pega do cigarro, e aprende
+logo a resfolegar o fumo pelo nariz. É o tom, dizem elles, desde 1820 para cá.
+Parece-me que esta geração<span class="pn">{159}</span> sahida do ovo, e a
+outra que está no chôco, hão-de ser, meu caro senhor, uma cousa assim a modo de
+nabal espigado. Não sei se me entende: quero dizer que a seiva forte de nossos
+pais, em vez de medrar as vergonteas, produzindo flores e fructos, cada cousa
+em tempo proprio, dará fructos temporãos, bichosos, desses que passam sem termo
+medio do verde ao podre. Não acha?</p>
+
+<p>&mdash;Ha-de haver, como sempre, o bom e o mau, penso eu&mdash;disse modestamente o
+moço.</p>
+
+<p>«E pensa bem para a sua idade. Os vicios são de todas as épocas, mas o do
+cigarro é muito moderno entre nós, ha-de confessar!</p>
+
+<p>Vasco sorriu involuntariamente á visagem comica do coronel, de proposito
+arranjada para se ajustar á solemnidade com que sorvia, deliciando-se, um
+d'aquelles sadios e gordos cigarros da herva santa de 1828, que não era de
+certo a herva satanica do contracto de 1857, congresso de Borgias, que
+envenenam a gente, reservando só para elles as explendidas orgias dos outros...</p>
+
+<p>«Está o meu caro snr. Vasco da Cunha morto por saber&mdash;disse Gervasio
+Leite&mdash;o que é que eu lhe quero. Lá vou já. Minha filha Leocadia...</p>
+
+<p>Vasco fez-se vermelho, côr de rosa, amarello, branco de marmore, tudo em
+menos tempo do que o necessario para articular as cinco syllabas desse nome.</p>
+
+<p>«Minha filha Leocadia&mdash;proseguiu o militar accendendo terceiro cigarro na
+ponta do segundo&mdash;tinha lá um segredo no coração, mas não segredo para o snr.
+Vasco; era-o só para mim, porque os pais parecem-se ás vezes muito com os
+maridos em serem os ultimos informados do que lhes toca pela roupa. Este ruim
+vêso da humanidade é que é muito mais antigo que o cigarro.</p>
+
+<p>O orador riu-se com militar modestia do seu gracejo; Vasco, porém, não tinha
+recuperado ainda o animo frio para saborear o chiste do equivoco, ou
+parecêra-lhe grosseiro<span class="pn">{160}</span> de mais o confronto do
+segredo santo da filha com o perfido da adultera.</p>
+
+<p>Gervasio Leite, satisfeito com um aceno affirmativo do interlocutor,
+continuou:</p>
+
+<p>«Disseram-me que minha filha e o snr. Vasco se amavam. Não estranhei a
+cousa: achei-a mais humana e natural que o contrario disso, por duas razões
+respeitaveis e persuasivas ambas: Leocadia é rapariga, o senhor é rapaz, ambos
+sahidos do collegio, cegos ambos, conduzidos por outro cego, valha a verdade,
+que dizem ser cego o snr. Cupido, e eu quero que elle seja mais do que cego...
+em quanto a mim é surdo, por que não ouve razões, é cego por que não vê
+precipicios, é mudo por que só tem lingua para fallar a linguagem que não está
+nos diccionarios, nem póde applicar-se a estes objectos da vida real que se
+veem, e apalpam, e sentem, como, por exemplo, o vestir, o calçar, o ignobil
+cortejo da realesa despotica do estomago, e outras miserias adjunctas. Deixe-me
+cortar a direito, snr. Vasco, e dizer as cousas como eu sei. Isto resabe ao meu
+genero de estudos: formei-me em mathematica, e affiz-me a estudar a vida como
+se estuda uma raiz, problemas sobre problemas, e para todos o mesmo X,
+dinheiro, sempre dinheiro, com mil diabos!... desculpe-me esta rhetorica de
+tarimba.</p>
+
+<p>Quando, pois, me disseram que minha filha amava o snr. Vasco, o neto do meu
+general na guerra peninsular, e o filho do meu camarada no quartel do general
+Beresford, tive sincera pena de ambos! Não entende, não. É necessario ter
+cabellos brancos, e mais brancos ainda os cabellos da alma, para conciliar duas
+idêas contrarias: ter compaixão de duas pessoas que se julgam felizes
+unindo-se. Ora eu me explico, e, quando não entender o meu vocabulario cá
+debaixo do mundo real, falle.</p>
+
+<p>A minha casa é insignificantissima. Posso dizer que o rendimento d'ella,
+junto ao meu soldo, difficilmente tem<span class="pn">{161}</span> chegado para
+a educação de Leocadia. Minha filha é pobre.</p>
+
+<p>&mdash;Oh senhor!&mdash;interrompeu Vasco agitadamente, e susteve-se.</p>
+
+<p>«Diga, diga, o que ia dizer.</p>
+
+<p>&mdash;Eu... não perguntei a v. exc.ª o que sua filha tinha.</p>
+
+<p>«Isso está claro. Quem é que se lembra de perguntar o que tem a mulher que
+se ama? O amor, meu amigo, recordo-me ainda do que elle é. Eu tambem amei uma
+mulher, casei, e, só depois de tres mezes de casado, é que me levantei uma
+bella manhã com a idéa de saber o que ella tinha. Soube que tinha umas leiras
+que renderiam, em anno de boa colheita, cincoenta mil reis, o maximo.
+Confessar-lhe-hei que não fiquei contente, por uma razão das mais racionaes que
+eu conheço. Minha mulher precisava vestir-se para apparecer n'um baile em
+Lisboa, e a minha gaveta estava ferida da esterilidade de Sara. Desde esse dia,
+meu caro snr. Vasco, quiz-me parecer que a minha situação de solteiro era
+melhor que a de casado. Entraram commigo receios de collocar minha mulher n'um
+posto inferior áquelle em que a encontrara na casa paterna, e as minhas doces
+chimeras de noivo fugiram como um bando de andorinhas quando as primeiras
+nortadas lhe embaraçam o vôo. Nunca minha mulher conheceu a tristeza que me
+descoroçoava por dentro, isso é verdade; mas o que lhe valeu para viver e
+morrer feliz foi eu ajuntar á delicadeza com que sempre a tractei, algumas
+dividas que ainda estou pagando hoje.</p>
+
+<p>Morreu minha mulher... attenda agora, snr. Vasco: morreu minha mulher; e eu,
+com quarenta e cinco annos d'idade, ralado por desgostos de todos os generos e
+feitios, herdava da mãi de minha filha o maior de todos: essa criança sem mãi,
+filha d'um major quasi pobre. Educal-a, ainda eu poderia; mas legar-lhe um
+patrimonio, como é preciso que uma senhora o tenha, para poder escolher um
+marido, não podia. Um pai, que ambiciona avaramente para<span
+class="pn">{162}</span> seus filhos o bem-estar que elle não quer para si, é
+desculpavel, é victima do seu amor de pai. Sacrifiquei-me, snr. Vasco; e sabe
+como? Sacrifiquei-me como pai nenhum. Casei-me com uma mulher aborrecida, por
+que essa viuva, mais velha do que eu, tinha um filho, herdeiro de um grande
+casal, e além de todas as probabilidades favoraveis ao meu pensamento,
+estipulamos, eu e ella, a condição de que Leocadia seria mulher do meu
+enteado.»</p>
+
+<p>Vasco ergueu-se com sobresalto; encostou-se ao espaldar d'uma cadeira,
+branco de neve, tremulo, que até os cabellos se lhe irriçavam, pasmando os
+olhos nos olhos do coronel, que se erguêra tambem.</p>
+
+<p>«Então, snr. Vasco, isso que é?&mdash;disse Gervasio, tomando-lhe affectuosamente
+a mão&mdash;Sente-se. Eu sou seu amigo; tempo virá em que faça justiça ao pai da
+mulher que será sempre sua amiga. É preciso que sejamos tres no sacrificio.</p>
+
+<p>&mdash;Qual sacrificio?&mdash;balbuciou Vasco.</p>
+
+<p>«É preciso que o snr. Vasco, bem longe de contrariar os meus planos, seja o
+meu auxiliar para encaminharmos Leocadia ao destino que lhe tracei,
+convencendo-se um e outro de que serão infelizes, desobedecendo-me.</p>
+
+<p>Vasco levou o lenço aos olhos. Era o chorar sem pejo dos dezoito annos.
+Vencendo os soluços, que forcejava por esconder no lenço, disse com intimativa:</p>
+
+<p>&mdash;Eu obedeço, senhor... Creio que poderei obedecer.<span
+class="pn">{163}</span></p>
+
+<h2>X.</h2>
+
+<p>E, quando o coronel parecia ter muito que lhe dizer, Vasco sahiu da sala, e
+desceu tão precipitadamente as escadas, que não voltou a cabeça para agradecer
+ao dono da casa a consideração de acompanhal-o fóra da sala.</p>
+
+<p>No pateo encontrou o afflicto moço o aguadeiro que diariamente lhe levava as
+cartas de Leocadia. Estava o prestante gallego sentado no barril, examinando os
+pregos dos sapatos, e calculando talvez os emolumentos que cobrára da sua
+posição importantemente diplomatica entre dous corações rendidos.</p>
+
+<p>Quando viu Vasco, calçou o collossal sapato, sacou dos abysmos interiores da
+jaqueta uma carta que entregou ao nosso amigo, atirou com o barril para o
+hombro, e não esperou resposta.</p>
+
+<p>Vasco rompeu ainda a obreia para lêr a carta, mas susteve-o o receio de ser
+visto por algum familiar do coronel. Escondeu-a e desviou-se para um canto do
+pateo a limpar as lagrimas, que rebentavam, cada vez mais copiosas, debaixo da
+pressão do lenço.<span class="pn">{164}</span></p>
+
+<p>«Que dirá esta carta?»&mdash;perguntava elle ao seu coração&mdash;«Será o adeus de
+Leocadia?... Saberia ella para que me chamou a sua casa?...»</p>
+
+<p>Tirou-a ainda outra vez do bolso, resolvido a lêl-a, quando entrou no pateo
+um criado, e em seguida um cavalleiro, esporeando o cavallo, com grande tropel.
+Era Francisco de Proença que chegava de Coimbra. Vasco não o vira nunca; mas
+pelo trajar de jaqueta de guizos, barrete á campina, e bota branca de canhão
+alto, conheceu o enteado do coronel, em que Leocadia lhe fallára algumas vezes,
+porque sua madrasta lhe estava sempre elogiando o talento, e encarecendo o
+grande morgadio.</p>
+
+<p>Francisco de Proença viu um rapaz de casaca preta arrumado para um lado, e
+cortejou-o de passagem. O coronel descêra quasi até ao pateo para receber nos
+braços o enteado, e ainda viu sahir Vasco. Quiz perguntar ao recem-chegado se
+encontrára alli sósinho o cavalheiro da casaca preta; porém, lembrou-se de que
+a pergunta provocaria outras. A este tempo descia com grande alvoroço a mãi de
+Francisco, com os braços abertos; e o rapaz, depois de beijado e abraçado, deu
+o braço á mãi, que estava gorda de mais para enthusiasmo tão buliçoso.</p>
+
+<p>D'ahi a pouco, lia Vasco, fechado no seu quarto, este bilhete:</p>
+
+<p>«Em quanto fallas com meu pai, escrevo-te duas linhas. Já sabes que desgraça
+nos ameaça. Querem separar-nos, meu Vasco. Todas as nossas bellas esperanças
+não podemos deixar que nol-as matem assim. Respeito a vontade de meu pai; mas o
+juramento que fiz de amar-te eternamente é superior a tudo. Sou mais tua do que
+de mim propria, meu querido Vasco. Cuidei que poderia morrer sem desgostar meu
+pai; não posso; porque me lembro que te mato. Vê o que queres que eu faça. Não
+podemos esperar que o tempo destrua os planos de meu pai e minha madrasta, que
+só hontem me foram ditos. Hoje espera-se de Coimbra<span
+class="pn">{165}</span> o tal homem. Decide, meu amigo. Em ultimo recurso, eu
+fujo de casa para ti; e depois... o que Deus quizer. Não seremos tão infelizes
+como meu pai diz, não achas, Vasco? Diz-me que não; dá-me animo para lhe
+desobedecer. Não sei se te demorarás pouco tempo com meu pai: vou dizer ao
+gallego, que te espere com esta carta.</p>
+
+<p class="direita">Tua L.»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Quando Leocadia (ahi vão reflexões philosophicas) me mostrou, entre outras,
+esta carta, pasmei, como a gente pasma, até certa idade, das maravilhas que se
+fazem no coração das raparigas! Aqui ha trinta annos, se me dissessem que uma
+donzellinha, a cheirar ainda ao esturrinho das mestras dos collegios de então,
+namorada pela primeira vez, pouco ou nada lida em novellas, e menos ainda
+experimentada nos romances ineditos de portas a dentro, se me dissessem que
+essa tal, contrariada pelo pai nas suas virginaes affeições, escrevera
+similhante carta ao namoro, eu não acreditaria, sem vêr a carta reconhecida
+pelo signal publico e razo d'um tabellião de provada moralidade.</p>
+
+<p>Pois não parece incrivel?</p>
+
+<p>Hoje que não ha anomalias para mim, que tudo se me afigura aleijões da
+alma&mdash;porque esta geração veio realmente estropeada e canhota do
+espirito&mdash;hoje, a menina iniciada no amor, embora creada e educada ao ar sereno
+e puro do collegio, comparo-a eu á rôla creada na gaiola, que nunca esvoaçou,
+nem sabe a serventia das suas azas, está contente do espaço, e da abundancia
+que tem, não sente o captiveiro... e, se, por descuido, deixaes aberta a porta
+da gaiola, a boa da rolinha mette primeiro a cabeça ao ar livre, sacode as
+pennas das azas virgens, desfere um vôo rasgado, sobe, sobe, e adeus!</p>
+
+<p>«Era o instincto!» dizia um philosopho pasmado para uma ave que lhe fugira.
+Pelo instincto é que eu, philosopho<span class="pn">{166}</span> de toda a
+passarinhada, explico tambem, a respeito de mulheres, este bater de azas em que
+ellas se vão do ninho para as altas regiões dos açores e dos milhafres, onde,
+quando o diabo quer, dão grande banquete ás aves de rapina que são tantas como
+os nossos peccados, por esses céos d'anil, onde os poetas imaginam colonias de
+amantes felizes.</p>
+
+<p>Isto é hoje, que só me falta conhecer a vigesima-quarta variedade que Deus
+formou d'uma costella homogénea:&mdash;mas, ha vinte e oito annos, quando Leocadia
+me mostrou a carta escripta a Vasco, olhei-a com ar palerma, e disse-lhe:</p>
+
+<p>«V. exc.ª, quando escreveu esta carta, comprehendia bem toda a extensão da
+loucura que fazia, entregando-se assim á descripção d'outra criança, sem casa,
+sem vida, sem habilitações para o trabalho?</p>
+
+<p>&mdash;Então o senhor não sabe o que é uma paixão!...</p>
+
+<p>«É que eu cuidava, minha querida irmã...</p>
+
+<p>Entre-parenthesis: Um destes dias, um meu amigo, contando-lhe eu seriamente
+a intimidade limpa e immaculada que contrahira com duas ou tres pessoas ás
+quaes eu chamava irmãs, disse-me, sorrindo, que tinha dezesete irmãs assim. O
+meu amigo pertence á geração nova, em que estas fraternidades não tem provado
+bem, porque, ordinariamente, os parentescos complicam-se de modo que não é
+facil saber-se quando se é tio, ou outra cousa ainda mais respeitavel. O mundo
+está virado! No meu tempo amava a gente, por exemplo, uma destas almas que hoje
+se chamam <em>não-comprehendidas</em> na terra, ou porque entre ellas e outras
+de eleição paternal e intervenção ecclesiastica não havia analogia de gostos,
+ou porque as posições sociaes não permittiam um enlace, ou, finalmente, porque
+era preciso fallar no amor d'um terceiro que devia lentamente desalojar-se&mdash;em
+qualquer dos casos essas pessoas inscreviam-se no catalogo dos parentescos
+honestos, e ficavam irmãos toda a<span class="pn">{167}</span> vida. Eu hoje
+conheço netos das minhas irmãs de então, e glorio-me de ser tio-avô de creanças
+muito gordinhas, que puxam ás avós as rêpas escassas das tranças d'ebano e ouro
+dos meus bons tempos...</p>
+
+<p>As <em>irmãs</em> de hoje...&mdash;diz muito bem o meu amigo&mdash;arranjam-se ás
+dezesete; e a maior prova de ser o titulo já ridiculo é que a sociedade não as
+reputa incestuosas...</p>
+
+<p>As <em>não-comprehendidas</em> contam em estylo lamuriante o vasio das suas
+almas a confidentes denominados <em>irmãos</em>, em momentos de expansiva
+familiaridade. O typo que sonharam, a imagem que as anceia, está fóra d'este
+mundo, respira o ar balsamico dos jardins celestiaes, é um anjo. Ora, acontece
+quasi sempre uma cousa muito racional: o <em>irmão</em> apresenta-se com
+procuração bastante do <em>anjo</em>, com poderes <em>in-solidum</em>. Passado
+algum tempo, esquece-se o constituinte, e fica o procurador escandalosamente
+encartado no usu-fructo do dominio e acção d'uma propriedade, que (aqui entre
+nós) os anjos não quereriam, nem eu, só pela decima, os cinco por cento, e os
+mais impostos annexos ao merinaque.</p>
+
+<p>A gravidade d'estas reflexões veio para prevenir os leitores mal
+intencionados contra o abuso que por ahi se faz d'um parentesco de
+circumstancia. Irmão, mais que irmão, fui eu de Leocadia. Esse titulo, que ella
+me deu, conservo-o como um legitimo vinculo, mais que legitimo, talvez
+sanctificado pela angustia de ambos... e doer-me-hia que o sorriso parvo ou mau
+da suspeita correspondesse á melancolica saudade com que vou recordando
+palavras da minha pobre irmã.</p>
+
+<p>Atem agora o fio partido do dialogo.</p>
+
+<p>«É que eu cuidava, minha querida irmã&mdash;disse eu&mdash;que o amor na sua idade, e
+com a sua innocencia, ignorava certos desenlaces que elle tem humanos de mais,
+rasteiramente humanos...</p>
+
+<p>&mdash;Que quer dizer?<span class="pn">{168}</span></p>
+
+<p>«Pensava eu que uma menina, na sua posição recatada, não seria capaz de
+conceber o pensamento da fuga da casa paterna! Vasco propozera-lhe alguma vez
+esse acto?</p>
+
+<p>&mdash;Nunca, e eu mesma tive esta idéa quando me vi presa á vontade de meu pai,
+e fraca, miseravelmente fraca para resistir-lhe. Se bem me recordo, estava eu
+chorando no meu quarto, quando de repente me lembrei da fuga. Não senti
+aquecer-se-me o rosto de pêjo, porque me pareceu natural a acção de fugir á
+desgraça. O pesar da desobediencia, esse sim, mortificou-me; porém, entre o
+remorso e a paixão, a lucta decidiu-se pelo amor.</p>
+
+<p>«E a idéa do seu descredito?</p>
+
+<p>&mdash;Eu sabia lá então o que era descredito! O meu irmão não sabe o que se
+passa no coração puro. Terá experimentado muito; mas deixe-me dizer-lhe que as
+suas analyses tem sido feitas sobre corações muito experimentados. Uma mulher
+receia o descredito só depois que sabe a maneira como elle se alcança. Eu não
+sabia nada, meu amigo. Se me dissessem que eu corria risco de ser coberta de
+infamia por fugir para Vasco, rir-me-hia, ou pasmaria do absurdo. Se me
+dissessem que Vasco era capaz de abrir-me os olhos para eu vêr o abysmo em que
+me lançára cégamente, quem m'o dissesse tomal-o-hia por um demonio mau que
+zombava da minha ternura, e injuriava o meu Vasco. Uma rapariga innocente
+guarda tão santas no coração as idéas do bem, que não póde crêr-se victima
+jámais do homem a quem se entrega com amor, com mil vontades de o fazer feliz,
+com as veias abertas para lhe dar o seu sangue, contente da sua pureza para o
+galardoar com ella, anciosa por sacrificar-lhe a vida, e ficar ainda na
+obrigação de maiores sacrificios. O meu descredito, diz o senhor! As que fallam
+no seu descredito, se tem de rebater a instancia de sacrificios, essas são as
+que querem estar bem com a sociedade, conhecem-na, fazem parte d'ella, e
+lançaram já muitas favas pretas contra o<span class="pn">{169}</span> credito
+de algumas infelizes, cujo amor as levou á abnegação dos diplomas de virtude,
+que a sociedade dá ás que sabem embuçar-se no manto da hypocrisia, ou mascarar
+o escandalo de qualquer modo.</p>
+
+<p>Eu estava de bocca aberta. Gostava tanto de ouvil-a, que não a interrompi.
+Discorreu meia hora boa neste assumpto, e disse maravilhas, que eu tive o
+descôco sandeu de alcunhar de romanticismo. Então não se dizia romanticismo,
+mas ás mulheres, que fallavam muito e bem, chamavam-lhes os alvares, pais dos
+que hoje vegetam, <em>pispontadas</em>, ou <em>pronosticas</em>.</p>
+
+<p>Não obstante, que sentir tão fino era o desta senhora! Que verdades tão
+axiomaticas a dôr, a desgraça, a reclusão, o entranhar-se em si propria, lhe
+tinha ensinado! Se esta mulher traspassasse em lagrimas ao papel o livro
+intimo, que o dedo do infortunio lhe folheára no coração, qual das minhas
+leitoras não faria esse livro o seu director espiritual, nestes calamitosos
+tempos em que não basta a alma que Deus lhe deu para luctarem com a materia que
+as traz abarbadas, e fóra do seu espiritual elemento!</p>
+
+<p>Cá estou outra vez encanhotado pela bruxaria das reflexões philosophicas!
+Resignem-se christãmente, leitores sensiveis. Não posso ser superior a este
+bacharellar de homem entendido na sciencia das almas dos outros, porque,
+lisamente o digo, da minha não entendo nada, e já agora morrerei com esta
+sphinge cá dentro não sei aonde.</p>
+
+<p>Vinha eu, pois, contando que Vasco lêra a carta de Leocadia tantas vezes
+quantas o leitor quizer, que eu não sei quantas foram, nem elle. É certo que as
+primeiras leituras fêl-as com os olhos scintillantes de alegria; e as ultimas
+com uma fonte de lagrimas a cahir-lhe no papel.</p>
+
+<p>Quer-se a razão da alegria e a das lagrimas. Pois sim.</p>
+
+<p>Vasco dera-se como perdida a mulher, o amor, a vida da sua alma. Sahira
+perturbado da entrevista com o coronel.<span class="pn">{170}</span> De lá a
+sua casa lembrou-lhe o suicidio, o meio mais prompto de sacudir a farpa do
+coração. Convencido de que era irremediavel o perdêl-a, abriu a carta, leu-a,
+encontrou o remedio, alvoroçou-se, teve febre, delirou de felicidade, creu-se
+doudo: eis-aqui a alegria, a radiação da alma no semblante, o volver á
+existencia, o apegar-se á prancha de salvação segura, quando a garganta da
+morte estava aberta.</p>
+
+<p>Depois, a razão, essa vibora idolatrada, cravou-lhe de subito o dente mortal
+no coração, o sangue refluiu-lhe todo alli, á purpura do jubilo succedeu o
+pallor do desalento, e o chammejar do enthusiasmo apagaram-no as lagrimas.</p>
+
+<p>Que lhe disse, pois, a razão, essa divindade tão cantada, essa mestra da
+vida, essa filha do céo, que cahiu de lá á terra pela mesma razão que Lucifer
+cahiu? A razão disse-lhe que Leocadia, entregue á sua providencia, não teria um
+telhado que a cobrisse, porque em casa de Vasco dominava a razão da virtude que
+não acceitaria uma filha familia fugitiva, se ella não tinha um patrimonio, que
+absolvesse um filho segundo de tamanha immoralidade. Disse-lhe mais a razão que
+elle filho segundo, sem arte nem officio, nem ao menos poderia repartir com a
+pobre menina um prato de feijões adquiridos pelo seu trabalho. Disse-lhe mais a
+consoladora razão que Leocadia fugitiva seria perseguida por seu pai,
+conspurcada pela opinião publica, e fechada na cella d'um convento como leprosa
+de que todas fugiriam receosas de se contaminarem. Foi o que lhe disse a razão
+do mundo, formada pelo mundo, adaptada ás conveniencias vigentes da sociedade,
+austera para uns, tolerante para outros, draconiana para os desvalidos, venal
+para os poderosos.</p>
+
+<p>Vasco ergueu-se do lethargo em que o deixára a briga das duas sensações
+contrarias.</p>
+
+<p>Tomou a penna, e escreveu as seguintes linhas:</p>
+
+<p>«Deus não quer a nossa união, Leocadia. Perdeu-se<span
+class="pn">{171}</span> tudo. Isto é tão atroz que parece impossivel. É
+verdade, Leocadia, é verdade que se abriu hoje a minha sepultura. Esperava
+morrer cêdo, mas tão depressa não queria. Vivia de esperanças, e agora é tudo
+negro diante de mim. Venha a morte, e seja já. Não sei o que te digo. Estou sem
+alma, nem forças. O que me dizes é impossivel. Eu não tenho um bocado de pão
+certo para cada dia. Contava com o meu trabalho no futuro; mas agora desfalleci
+de braço e de animo. Dous desgraçados é muito. Ninguem se compadeceria de nós.
+Perseguir-nos-hiam todos. Casa, Leocadia, casa com esse homem, mas espera
+alguns dias; eu quero morrer, e hei-de morrer antes. Faz-me este beneficio.
+Deixa-me dizer-te adeus, com a certeza de que me pódes chorar sósinha sem
+testemunhas, sem um... esposo que te diga: «escrava do meu ouro, porque
+choras?» Leocadia, eu previ sempre a desgraça, mas não assim. Isto é muito; e
+para estas agonias é que a morte sahiu das mãos de Deus. O Senhor te faça
+feliz, e a minha memoria te seja sempre saudosa e compassiva.</p>
+
+<p class="direita">«<em>Vasco.</em>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Acabára elle de fechar a carta, e sentiu um esvaimento de cabeça. Escondeu a
+face entre as mãos, porque o voltear dos objectos lhe causava a agonia do
+vomito. Um frouxo de tosse lhe sahiu do peito com dôr aguda e calafrios. Quiz
+respirar, e espirrou dos labios uma lufada de sangue que salpicou a carta.
+Lançou-se com impeto ao ar da janella, e viu na rua o aguadeiro que esperava a
+resposta. Desceu as escadas encostado ao corrimão, entregou a carta, quiz
+retroceder, e não pôde. Sentou-se n'um degrau, susteve o sangue no lenço,
+encostou a face á cantaria, e murmurou:</p>
+
+<p>«Se Deus quizesse que fosse já?...»</p>
+
+<p>&mdash;O que?!&mdash;perguntou uma voz perto d'elle.</p>
+
+<p>Era a mãi, que descia para sahir.<span class="pn">{172}</span></p>
+
+<p>&mdash;O que, meu filho?!&mdash;repetiu ella.</p>
+
+<p>«A morte.»</p>
+
+<p>A sobresaltada senhora tomou-o nos braços, soltando vozes de afflicção.
+Vasco pediu-lhe silencio, subiu com a mãi esforçando-se por occultar o sangue,
+entraram ambos no quarto d'ella; e, duas horas depois, quem os espreitasse
+veria o filho abraçado aos joelhos da mãi, exclamando:</p>
+
+<p>«Salvou-me!</p>
+
+<p>Salvou-o?! como?!</p>
+
+<p>Esperem.<span class="pn">{173}</span></p>
+
+<h2>XI.</h2>
+
+<p>Saiba-se o que tão extraordinariamente fizera respirar Vasco daquelle aperto
+d'alma, que não podia desafogar-se, sem que a mão bemdita de mãi lhe alargasse
+as angustias que a comprimiam.</p>
+
+<p>Entraram ambos, como disse, no quarto d'ella. Vasco, antes de responder ás
+perguntas amoraveis de sua mãi, encostou-lhe, como criança amimada, a cabeça ao
+hombro, e soluçou, chorando copiosamente.</p>
+
+<p>«Que é isto, meu Vasco?!&mdash;instou a impaciente senhora&mdash;Bem me parecia a mim
+que a tua melancolia vaticinava desgraça!... Falla filho...</p>
+
+<p>Neste momento, Vasco levou o lenço aos labios para esconder o sangue que
+espirrava da tosse suffocante. A mãi, vendo o lenço tinto de sangue fresco,
+soltou um grito.</p>
+
+<p>«Este sangue é teu, meu pobre filho?! exclamou ella.</p>
+
+<p>&mdash;Isso que importa, minha mãi?...&mdash;disse Vasco, sentindo diminuir a
+violencia da sua dôr, ao passo que o rosto da mãi dava signaes de afflicção e
+pasmo.<span class="pn">{174}</span></p>
+
+<p>«Que importa!?...&mdash;tornou ella, juntando as lagrimas ao sangue de seu filho,
+e cahindo quasi desanimada n'uma cadeira&mdash;Importa a minha morte, Vasco!...</p>
+
+<p>&mdash;Mas eu sou feliz, morrendo. Tenha pena de mim, se eu continuar a viver.
+Deus acceitará na sua presença um filho que nunca desgostou sua mãi, nem aos de
+fóra causou damno sabendo que o causava.</p>
+
+<p>«Jesus!&mdash;interrompeu a mãi arrependida da sua exaltação&mdash;estás-me matando
+com a serenidade das tuas palavras! E porque has-de tu morrer, meu pobre
+menino? Cuidas que não tem cura lançar sangue? Tem, meu filho, tem. Teu pai
+viveu assim trinta annos, e tuas manas, que Deus levou, se tomassem os meus
+conselhos, se não fossem as imprudencias dos bailes, recuperavam a saude...
+Choras por te vêres tão cedo ás portas da morte? Tens razão, meu querido filho;
+mas não te assustes; verás que o sangue cessa; vamos aos ares do campo; o que
+tu precisas é descanço. Não leias mais, pelo amor de Deus; não recebas o ar
+fresco da noite; não tornes a comer fóra d'horas, nem andes a passear no teu
+quarto até ser dia. Promettes isto tudo á tua afflicta mãi?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha senhora, prometto tudo.</p>
+
+<p>«Com que desalento me respondes, Vasco. Esse teu sorriso é muito triste...
+antes quero vêr-te chorar.</p>
+
+<p>&mdash;E eu tambem queria chorar... tambem!...</p>
+
+<p>«Tu escondes-me o teu coração, Vasco. Tive agora um raio de luz... Dizes-me
+tudo, filho?</p>
+
+<p>&mdash;Tudo... tudo, minha santa amiga, ainda que m'o não pergunte.</p>
+
+<p>«A mim disseram-me que a filha do coronal Gervasio te trazia enganado...</p>
+
+<p>&mdash;Por quem é, minha mãi!&mdash;atalhou elle com as faces instantemente
+abrazadas&mdash;Leocadia é incapaz de me trazer enganado! Quem tal lhe disse,
+calumniou-a cruelmente...<span class="pn">{175}</span></p>
+
+<p>«Pois antes assim, meu filho: mas sempre é certo que vos amaveis?</p>
+
+<p>&mdash;Sim... é desgraçadamente certo que nos amavamos.</p>
+
+<p>«Não te afflijas, Vasco... Eu hei-de dizer o que ouvi. Disseram-me que ella
+estava destinada para um filho da madrasta.</p>
+
+<p>&mdash;Destinaram-na, minha mãi... Que culpa tem a infeliz de que vendessem o seu
+coração? Ella não sabia que estava vendida. Cuidou que podia amar-me, e por
+fim...</p>
+
+<p>«Diz, Vasco... prohibiram-na de fallar-te?</p>
+
+<p>&mdash;Vai ser casada, disseram-lh'o hontem...</p>
+
+<p>«E ella acceita?...</p>
+
+<p>&mdash;Se acceita!... a morte das mãos de Deus, como eu lh'a peço. Ha-de ser
+entregue ao marido como um corpo sem alma, um cadaver... O coração é meu, morre
+commigo... Vou bem pago de tudo que soffri e hei-de soffrer... que, já agora,
+pouco será; mas o que tenho curtido calado, e docil á desgraça, foi muito,
+minha querida mãi, só Deus sabe o que foi. A minha Leocadia morre... e então
+verá se ella não era digna d'este amor que me mata.</p>
+
+<p>«Jesus! tanto fallar de morte, filho! Fallemos da vida; procuremos remedio,
+que o ha-de haver.</p>
+
+<p>&mdash;Nenhum.</p>
+
+<p>«Pois nenhum?! ella já está casada?!</p>
+
+<p>&mdash;Não está; mas o mesmo é estar casada, ou sêl-o ámanhã ou depois.</p>
+
+<p>«Olha, filho, lembra-me ir fallar ao coronel...</p>
+
+<p>&mdash;Sou pobre, minha mãi... Poderá v. exc.ª dizer ao coronel que me dá um bom
+patrimonio?</p>
+
+<p>«Não, infelizmente, não; aqui é tudo d'um só, tu bem o sabes... essa dôr cá
+a tenho como um espinho cravado no coração. O meu melhor filho, o anjo que
+nunca me deu um pesar, não tem nada, e nada póde haver do amor de sua mãi!...
+Que barbaras leis, justo céo! O que<span class="pn">{176}</span> os homens
+fazem! De todos os filhos que rodeam, á hora da morte, o leito de sua mãi, só
+um é rico, os outros... ficam á mercê do seu proprio trabalho, ou das sopas do
+irmão, que é sempre o mais ingrato...</p>
+
+<p>Vasco obstou á continuação dos soluços que embargavam estas palavras, com
+meiguice, tirando-lhe as mãos da face.</p>
+
+<p>«Isso agora a que vem! Não chore, que me faz mal. Eu não desejo a riqueza de
+meu irmão mais velho; queria alcançar uma mediania pelo meu trabalho, porque
+bem pouco me bastava a mim, e a ella, e a minha mãi, se Deus nos ajuntasse
+todos... Agora, nada desejo, porque sou de mais n'este mundo; houve uma força
+superior que destruiu a minha felicidade; não acharei outra... que faço eu
+agora aqui?!...</p>
+
+<p>&mdash;Espera, filho... se eu dissesse ao coronel...</p>
+
+<p>«O que, minha mãi?!</p>
+
+<p>&mdash;Que sua filha viria para nossa casa como tua esposa...</p>
+
+<p>«Está a querer tirar á força do seu coração esperanças para me dar... não
+estando ellas lá, minha mãi! É irremediavel... Não nos deixemos enganar, porque
+a realidade negra está perto de nós. É tarde para pensar nos meios de mudar a
+vontade do pai de Leocadia. O homem rico a quem a deram, já está com ella.
+Chegou hoje, e ella ainda hontem soube que não era senhora da sua alma. O
+coronel chamou-me, e disse-me: «faça que minha filha me obedeça; ajude-me a
+encaminhal-a ao destino que lhe dei; lembre-se que eu me sacrifiquei a uma
+mulher aborrecida, para assegurar a minha filha um futuro, casando-a com o meu
+enteado.»</p>
+
+<p>«E tu, filho...</p>
+
+<p>&mdash;Recebi o raio na cabeça, e sahi com o receio de cahir morto aos pés do
+homem que confiava a sorte de sua filha á minha generosidade. Isto parece-me um
+sonho...<span class="pn">{177}</span> Quando eu me convencer completamente que
+perdi a minha Leocadia, morro n'esse instante. E que espero eu agora, meu Deus!</p>
+
+<p>A mãi de Vasco, com a barba apoiada na palma da mão direita, contemplava seu
+filho a olhos enxutos. Calara-se elle; e longo tempo silenciosa, e como em
+spasmo, ainda ella o contemplava. Por fim, ergue-se, vai com impeto ao pé de
+Vasco, aperta-lhe a mão com força, e diz:</p>
+
+<p>«Acredita, filho, o que te diz uma mulher que conhece o coração das outras:
+Leocadia não é digna d'esse amor; Leocadia não te ama.</p>
+
+<p>Vasco ergueu-se d'um pulo, vibrou ainda as primeiras syllabas d'uma palavra
+dura, levou a mão á fronte que revia um suor subito, e disse com pausa e
+brandura:</p>
+
+<p>&mdash;Minha mãi, peça perdão a Deus de ter injuriado uma martyr.</p>
+
+<p>E as lagrimas rebentaram ao mesmo tempo dos olhos de ambos. A solemnidade
+triste com que elle se queixára da injusta opinião, feriu o seio da mãi.</p>
+
+<p>«Pois sim, meu filho, eu peço perdão a Deus de ter calumniado a tua amiga; e
+pedir-lhe-hei tambem que me tire d'este mundo se não posso valer-vos a ambos,
+meus queridos filhos.</p>
+
+<p>Vasco, arrebatado pela compunção d'estas ultimas palavras, beijou com fervor
+a mão da lagrimosa senhora, que o tomou para o seio, e o beijou na face.</p>
+
+<p>«Nosso Senhor, e a Virgem Santissima&mdash;dizia ella, quasi ao ouvido de Vasco,
+como quem acarinha uma criança&mdash;hão-de dar-te uma esposa que seja o retrato das
+virtudes de Leocadia, meu filho. São poucos n'este mundo os corações bons; mas
+a Providencia faz que esses corações se encontrem. Ha-de vir um procurar-te,
+Vasco; e, quando elle vier, teremos ambos prevenido tudo, para que tu possas
+ter uma esposa sem dote. Eu começo desde hoje a pedir para ti um emprego digno
+do teu nascimento. Empenharei<span class="pn">{178}</span> todas as minhas
+relações, todos os nossos parentes, com a regente, para tu seres bem collocado,
+sim, meu filho?</p>
+
+<p>&mdash;Não, minha senhora, não. V. exc.ª disse-me que iriamos para o campo; vamos
+quanto antes; parece-me que hei-de acabar lá mais tranquillamente. Veja quanto
+eu estou sendo infeliz! A unica esperança que me afaga, é a idéa de morrer n'um
+leito d'onde veja arvores, e céo, e flores. O tempo agora está bello para
+acabar assim...</p>
+
+<p>«Oh filho, que me estás despedaçando o coração...</p>
+
+<p>&mdash;Pois não fallemos em morrer... Olhe, mãi, diz-me uma cousa?</p>
+
+<p>«Que é, Vasco?</p>
+
+<p>&mdash;Porque duvidava ha pouco do amor de Leocadia? Que disse eu, ou que fez
+ella que désse causa á injusta suspeita de minha mãi?</p>
+
+<p>«Eu respondo, meu filho. Parecia-me que ella recebeu com frieza a noticia
+d'ir ser casada com um homem que não amava. O que tu estás soffrendo, é o que
+ella deveria soffrer, depois d'essa cruel violencia que o pai lhe fez. A paixão
+costuma mostrar-se d'outro modo, delira, é capaz de mil desatinos, em quanto
+dura a surpreza que Leocadia devia de receber. E que fez ella, meu filho? Que
+te disse ella, depois que o pai lhe disse: «não pódes ser esposa de Vasco,
+porque Vasco é pobre; sel-o-has d'um outro homem, que eu te destinei, sem
+consultar a tua vontade.» Que fez ella?</p>
+
+<p>&mdash;O que fez ella?&mdash;respondeu Vasco, desafogando sob o peso das accusações,
+que a mãi queria alliviar com a entonação branda da voz&mdash;O que fez ella?...
+Minha mãi... o que faria a senhora nas circumstancias de Leocadia?</p>
+
+<p>«Se amasse com a paixão ardente com que amei teu pai... das duas uma:
+morreria fulminada logo alli, ou...</p>
+
+<p>&mdash;Diga, diga, minha mãi, que eu preciso avaliar pelo seu coração o amor de
+Leocadia.<span class="pn">{179}</span></p>
+
+<p>«Direi, Vasco, direi o que mãi nenhuma deve dizer; mas o que eu faria, não
+morrendo logo alli, meu filho, era... desobedecer á tyrannia, fugir á violencia
+d'uma desgraça perpetua, seguir o destino prospero ou desgraçado do homem que
+me merecesse o sacrificio da minha reputação, da minha vida, de tudo!»</p>
+
+<p>A mãi de Vasco teria quarenta e cinco annos. A luz dos trinta
+irradiou-se-lhe no semblante. Dir-se-hia que o coração, rejuvenescido das
+forças que a viuvez e os dissabores domesticos alquebraram, revivera alguns
+minutos, apressando o giro do sangue que lá estivera estanque por falta
+d'estimulos. Vasco, fitava maravilhado a animação d'aquelle rosto, onde nunca
+vira o viço da adolescencia, porque, desde menino, vira n'elle sempre lagrimas.</p>
+
+<p>«Porque a mulher que ama&mdash;continuou ella, erguendo intencionalmente os olhos
+para o retracto de seu marido&mdash;porque a mulher que ama como eu amei teu pai,
+Vasco, faz o que fez tua mãi. Foge do convento onde a aferrolharam, e vai
+sósinha através cincoenta leguas procurar um militar que nesse tempo apenas
+cingia uma banda de alferes, e não tinha mais recursos para si e para mim que o
+seu soldo. Eu era filha unica, devia ser uma rica herdeira; e, comtudo, soffri
+necessidades durante dez annos. E sabes tu como eu acceitava das mãos de Deus a
+minha sorte? Cheia de alegria, seguindo teu pai na bagagem do exercito, pela
+França, pela Russia, com teu irmão mais velho deitado n'um berço de vêrga.
+Quando a força da lei me fez succeder na minha legitima, dir-te-hei, filho, que
+não senti melhorar a minha felicidade intima. Não era o dinheiro que a fazia,
+não; maior contentamento tinha quando via as feridas de teu pai remuneradas de
+patente em patente, até ser eu que, por minhas proprias mãos, lhe puz as
+dragonas de general, tendo elle apenas trinta e nove annos. Alli o tens a
+ouvir-nos, meu filho. Parece que lhe estou vendo ainda os olhos rasos de
+lagrimas<span class="pn">{180}</span> de felicidade com que elle tantas vezes
+me contemplava. Repara filho...</p>
+
+<p>Trémula da commoção, que devia terminar pelo chorar angustioso da saudade, a
+arrebatada senhora conduziu seu filho pela mão ao pé do retracto.</p>
+
+<p>Tinha melancolica bellesa aquelle grupo! Ella, apontando para o retracto,
+com o braço erguido e convulsivo, dizia:</p>
+
+<p>«Aquelle homem deve estar na presença de Deus. Foi para todo o mundo o que
+foi para mim. As suas vistas devem estar postas no teu destino, Vasco. Entrega
+a tua sorte á sua protecção; pede-lhe, commigo, que implore ao Senhor o
+descanço do teu espirito, e o esquecimento da mulher que não é para ti o que
+tua mãi foi para elle.</p>
+
+<p>&mdash;Não posso fazer similhante supplica...&mdash;interrompeu Vasco.</p>
+
+<p>«Não podes, filho? por que não podes?</p>
+
+<p>&mdash;Rogar assim era mentir a Deus. Leocadia é para mim o que minha mãi foi
+para o homem que a fez desobedecer á vontade de seu pai.</p>
+
+<p>E, tirando do bolso a carta de Leocadia, apresentou-a aberta a sua mãi.</p>
+
+<p>Subiu de novo á face da viuva o ardor que as lagrimas começavam a desmaiar.
+Leu e re-leu a carta; dobrou-a vagarosamente; fitou um olhar supplicante no
+retracto, declinou-o para um crucifixo; permaneceu silenciosa em oração,
+talvez; entregou a carta a Vasco, e disse-lhe com energia:</p>
+
+<p>«Pois diz-lhe que venha... Vai buscar tua esposa para o quarto de tua mãi,
+vai, meu filho. É tua mãi que t'o diz.</p>
+
+<p>Vasco, todo tremulo, só immovel nos olhos, estendia os braços para ella como
+se precisasse abraçal-a, para convencer-se de que não era phantastica a visão
+de sua mãi.</p>
+
+<p>Neste momento, batem á porta do quarto; a mãi de<span
+class="pn">{181}</span> Vasco recusa abrir, e dizem-lhe que está alli uma carta
+que deve ser immediatamente entregue ao menino.</p>
+
+<p>É ella que recebe a carta, e a entrega ao filho: Vasco reconhece o sinete, e
+diz a sua mãi que a leia.</p>
+
+<p>Continha isto:</p>
+
+<p>«Matas-me, Vasco. Se me não tiras d'aqui esta noite, amanhã suicido-me. És a
+causa da minha morte. Pelas chagas de Christo, diz-me que me salvas deste
+inferno. Responde-me já, já.</p>
+
+<p class="direita"><em>Leocadia.</em>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>«Eu vou responder, meu filho&mdash;disse a viuva, correndo á escrivaninha. Vasco
+estava arquejante com a fronte reclinada sobre o travesseiro de sua mãi.</p>
+
+<p>Ella voltou, e leu o seguinte bilhete:</p>
+
+<p>«Minha filha. Hoje ás 11 horas da noite está uma sege defronte do convento
+de Sant'Anna, a cincoenta passos da sua porta. Nessa sege espera-a a mãi de
+Vasco, e sua mãi extremosa</p>
+
+<p class="direita"><em>Maria Maldonado.</em>»</p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Foi então que Vasco se lançou aos pés de sua mãi, exclamando:</p>
+
+<p>«Salvou-me!<span class="pn">{182}</span></p>
+
+<h2>XII.</h2>
+
+<p>Leocadia narrou-me assim o proseguimento da sua historia:</p>
+
+<p>«Quando vi uma letra desconhecida, em resposta ao meu bilhete, fiquei
+passada de mêdo, e parece que a luz dos olhos se me toldára. Custou-me a lêr o
+nome da assignatura, que maior susto me incutiu. «A mãi de Vasco roubou-me a
+minha carta» foi logo a idéa que me assaltou. Refiz-me de coragem para lêr uma
+reprehensão... e que espanto, que alegria a minha ao passo que devorava
+aquellas palavras queridas! As lagrimas cahiam no papel duas a duas. Eu estava
+louca de prazer. Ajoelhei, agradecendo ao céo a inspiração que mandára á mãi do
+meu Vasco. A fuga, protegida por uma senhora de tanta virtude, parecia-me um
+passo digno de louvor. Congratulei-me até da minha idéa, e suppuz que o
+espirito de minha mãi, a quem eu pedira remedio, m'a tivesse suggerido da sua
+bemaventurança.</p>
+
+<p>«Eu não podia esconder o meu contentamento. Meu pai, que me deixára a
+chorar, voltando, reparou na repentina<span class="pn">{183}</span> mudança,
+porque os meus olhos inquietos e ardentes seguiam a bella imagem da vida, que
+voejava diante de mim, chamando-me para um futuro que os meus labios abençoavam
+com um sorriso.</p>
+
+<p>«Minha madrasta, agourando o que mais lhe convinha desta alegria, pensava
+que duas ou tres palavras que seu filho me dirigira, ao jantar, operaram
+estranha mudança em mim.</p>
+
+<p>«Francisco de Proença enganado por sua mãi, e mais ainda pelo seu orgulho,
+julgou que o milagre da mudança se devia a essas palavras aborrecidas que me
+dera. Como quizesse convencer-se e convencer sua mãi e convencer-me a mim do
+poder fascinante da sua lingua, fallou muito, penso que contou muitas anedoctas
+de estudantes de Coimbra, e com tal affectação o fazia que me causava tedio,
+posto que eu, apenas por cortezia, dissimulava escutal-o. Eu estava d'alma e
+coração embebecida na minha fuga, e não tirava os olhos da assustada agulha do
+relogio.</p>
+
+<p>«Meu pai disse algumas vozes baixas a minha madrasta, e entre estas ouvi
+proferir a palavra «theatro.» Foi uma nuvem negra que escureceu toda a alegria
+da minha alma. Notou-se em mim a repentina transfiguração; e Francisco de
+Proença, que estava conversando commigo, perguntou-me se me sentia incommodada,
+chamando a attenção de meu pai. Expliquei o descóramento por uma vertigem
+costumada, e pedi licença para entrar no meu quarto.</p>
+
+<p>«Ahi, d'onde pouco antes sahira douda de jubilo, entrei afflictissima. A ida
+ao theatro vinha baldar os nossos planos. Estava a anoitecer e eu não tinha por
+quem avisar Vasco. Os criados de casa tinham a confiança de meu pai, e as
+criadas a da minha madrasta. Entre estas, porém, havia uma que se mostrava
+minha amiga. Foi essa a que mandaram para ao pé de mim, logo que minha madrasta
+me deixou deitada n'um canapé recommendando-me, logo que o incommodo me
+passasse, me fosse vestindo para<span class="pn">{184}</span> irmos a S.
+Carlos. A minha angustia não me deixou reflectir. Eu disse á criada que estava
+muito attribulada, e só ella podia valer-me. Pedia-lhe que chegasse ella n'um
+instante a levar-me um escripto a D. Maria Maldonado, sem que ninguem de casa o
+soubesse. A criada respondeu-me que sim sem hesitação, e viu-me tirar d'entre
+os colchões uma escrivaninha. Escrevi algumas linhas apressadas, e ella sahiu,
+dando-me um beijo de Judas, quando eu, lavada em lagrimas de gratidão, lhe dava
+um abraço de infeliz soccorrida em extremos de afflicção.</p>
+
+<p>«Principiei a vestir-me, applicando o ouvido aos passos da criada, que eu
+esperava anciosamente. Passou-se uma hora, e ella sem chegar. Sahi do meu
+quarto, perguntei a outra criada por ella: disse-me que estava na cama com uma
+dôr de cabeça.</p>
+
+<p>«N'isto appareceu meu pai, e disse-me com ar mais grave que o seu costume:</p>
+
+<p>&mdash;Menina, vamos, que está sua madrasta já na sege.</p>
+
+<p>«Eu pretextei uma falta para entrar no meu quarto. O que eu queria era de
+fugida perguntar á criada se entregára o bilhete; meu pai, porém, acompanhou-me
+até ao meu quarto, viu-me pegar d'um lenço, e não me deixou sosinha um instante
+até me deixar na sege, onde depois entrou Francisco de Proença.</p>
+
+<p>«Meu pai disse que iria a pé, e só mais tarde, porque tinha de fazer uma
+inspecção ao quartel.</p>
+
+<p>«Que anciedade a minha até entrar no camarote! De lá procurei na platea
+Vasco. Se elle estivesse, ficava eu tranquilla: era signal de ter recebido o
+meu bilhete. Não estava, nem entrou jámais! Jesus! como me era custoso esconder
+as lagrimas e o alvorôço! Que horas de inferno aquellas! Logo que entrou em
+minha alma a suspeita de ter sido atraiçoada, tive a tentação de sahir do
+camarote, sob qualquer pretexto, e fugir.</p>
+
+<p>«Meu pai entrou ás onze horas e meia. Estava a<span class="pn">{185}</span>
+findar o espectaculo. Procurei ver-lhe a alma nos olhos. Pareceu-me socegado, e
+sem reserva.</p>
+
+<p>«Fomos para casa. Vi a pé todas as criadas, menos a portadora do bilhete.
+Reviveram as minhas suspeitas. Entendi que a infame não tinha animo de
+confrontar-se commigo, depois da traição.</p>
+
+<p>«Procurei entre os colchões a escrivaninha. Lá estava tudo como eu o
+deixára, e ao pé os massos das cartas de Vasco.</p>
+
+<p>«Não me deitei. Estive toda a noite accumulando conjecturas, qual d'ellas
+mais desgraçada. Cheguei a abrir subtilmente a porta do meu quarto, para ir á
+cama da criada. Fui palpando ao longo d'um corredor; mas a porta que
+determinava este corredor, e nunca se fechara, encontrei-a fechada! Então, sim,
+comprehendi que meu pai soubera tudo; e d'ahi em diante estudei a maneira de
+fugir de dia. A ancia facilitava-me o passo. Resolvi sahir disfarçada com um
+capote de criada, até encontrar um rapaz que me ensinasse as ruas. N'esta
+esperança desafogou o meu coração. Esperei o dia; e, logo que senti passos,
+pedi que me abrissem a porta do corredor. Respondeu-me um criado que ia
+procurar a chave; e voltou, dizendo que a devia ter o snr. coronel porque
+ninguem dava noticia d'ella.</p>
+
+<p>«Senti-me capaz de tudo. Tive odio a meu pai nesse momento, odio foi esse
+que o tempo não conseguiu desvanecer em minha alma. É que desde esse dia tenho
+chorado sempre, e o meu odio nutre-se de lagrimas... Senti até o desejo de
+matar a criada, que me atraiçoara. Desconhecia-me! Vi-me casualmente a um
+espelho, e os meus olhos tinham um fulgor sinistro, os meus labios pareciam
+crestados pelas palavras de maldição que passaram n'elles contra o meu tyranno.</p>
+
+<p>«Abri a janella do meu quarto, com a intenção de fugir por ella. Morreria,
+se o tentasse. Recuei diante da<span class="pn">{186}</span> idéa da morte sem
+justificação aos olhos de Vasco e de sua mãi, que me chamara <em>sua filha
+querida</em>. Lancei-me aos pés da Virgem, que fôra de minha mãi, e ergui-me
+sem esperança, sem o allivio que Deus concede aos que supplicam a sua
+misericordia.</p>
+
+<p>«Eram nove horas da manhã quando se abriu a porta, e entrou meu pai.</p>
+
+<p>«Não escondi as lagrimas, e elle, fingiu que as não via.</p>
+
+<p>&mdash;Leocadia, disse elle, vem ahi o almoço. Depois de almoçar, veste-te que
+vamos passar o dia a uma quinta de Campolide.</p>
+
+<p>«Meu pai!...» murmurei eu.</p>
+
+<p>&mdash;Que queres tu Leocadia?&mdash;disse elle com um ar de fria seriedade que me
+gelou as palavras, e sahiu.</p>
+
+<p>«Vesti-me, fazendo sahir o taboleiro do almoço. Minha madrasta entrou no meu
+quarto, com affectado sobresalto, perguntando-me por que não almoçava. Disse
+que não podia, e ella retirou-se, passando-me a mão pela face, e dizendo com
+abominavel meiguice: juizinho, minha filha, juizinho.</p>
+
+<p>«Indignou-me este carinho hypocrita como um insulto. Perguntei-lhe com
+altivez o que queria dizer a sua recommendação, e ella, carregando o sobr'olho,
+replicou: A culpa tem quem a quer fazer feliz, sua pobre soberba.</p>
+
+<p>«A raiva não me deixou articular senão sons inintelligiveis. Minha madrasta
+sahira com impeto, resmungando palavras, que eu não entendi.</p>
+
+<p>«Vieram dizer-me que esperava a sege. Sahi do meu quarto com a tenção de
+procurar de relance a criada; mas, ao cabo do corredor, estava meu pai,
+lançando-me um olhar severo.</p>
+
+<p>«Entrei n'uma sege com minha madrasta. Meu pai entrou n'outra com Proença.</p>
+
+<p>«Atravessamos Lisboa sem trocarmos uma palavra.<span class="pn">{187}</span></p>
+
+<p>«Apeamos no portão de uma quinta. Proença offereceu-me o braço, e
+perguntou-me que soffrimento era o meu que se denunciava no rubor dos olhos. Eu
+ia responder-lhe, com franqueza cruel, contando-lhe a minha vida em relação a
+elle, quando meu pai nos impoz silencio com a sua presença.</p>
+
+<p>«Passeamos uma hora entre os arvoredos da quinta. Ahi não lhe sei dizer que
+desesperada saudade me golpeava a pedaços o coração! No ruido da folhagem
+parecia-me ouvir o chorar gemente do meu Vasco. O fallar de Proença, e as
+risadas estupidas de minha madrasta, davam aos meus ouvidos o som infernal
+d'uma ironia de demonios á minha angustia.</p>
+
+<p>«Queria-me esconder sosinha por aquellas murtas; mas a comitiva amaldiçoada
+seguia-me constantemente, e as attenções delicadas de Proença provocavam-me
+sempre uma visagem de desdem.</p>
+
+<p>«Com elle só quizera eu estar para dizer-lhe que o aborrecia; porém, não nos
+deixavam juntos, porque meu pai receava isso mesmo.</p>
+
+<p>«Estive um instante sosinha á beira d'um tanque. Meu pai veio ahi
+encontrar-me a chorar. Sentou-se ao meu lado, e disse-me affavelmente,
+tomando-me a mão:</p>
+
+<p>&mdash;Leocadia, conspiraste contra teu pai. Cuspiste com feia ingratidão na face
+do amigo que tudo te sacrificou, e até a sua liberdade vendeu a preço do teu
+bem-estar. Antes de hontem, fallei-te como amigo, esquecendo que era pai.
+Cuidei que tocára o teu coração, e abençoei o céo por me ter dado um anjo
+d'amor onde eu poderia ter encontrado uma filha rebelde. A tua docilidade
+encheu-me de orgulho e alegria, orgulho por ter tal filha, e alegria por vêr
+tão galardoados os meus sacrificios. Deixáste o meu espirito em paz com as suas
+tenções. Vi que se realisava o bello futuro que eu planisara para ti, e tamanha
+confiança puz na tua razão, que eu iria jurar que ninguem teve uma<span
+class="pn">{188}</span> filha mais virtuosa. Enganaste-me, Leocadia, ou eu me
+enganei com o teu silencio. A vibora, que eu creára no seio, e acabava de
+afagar, mordeu-me cruelmente, ferindo-me talvez de morte. Em quanto eu velava a
+tua felicidade, tramavas tu a minha deshonra e a tua... Não me interrompas... é
+teu pai que falla e te impõe silencio, Leocadia. Premeditavas a tua fugida;
+trocavas teu pai, que conheces ha dezoito annos, pelo homem que viste hontem;
+trocavas a tua invejada reputação pela fama que segue á mulher que deixa no
+limiar da casa paterna abandonada os diplomas da sua virtude. Estás já
+deshonrada por intenção, filha; mas eu, desgraçado pai, serei ainda a tabua de
+salvação para ti. Fiz a accusação. Agora vou condemnar-te: estás perdoada;
+beija a mão do teu juiz, porque a justiça d'um pai tem em si o reflexo da
+misericordia de Deus.</p>
+
+<p>«Estas palavras tinham-me sob o peso d'uma fascinação dolorosissima. Levei
+machinalmente aos labios a mão que se me offerecia, e banhei-a de lagrimas. E
+eu não podia fallar, suffocada por soluços. Fazia-me compaixão o olhar aguado
+de meu pai; porém... não saberei dizer que terrivel qualidade de sentimentos
+luctavam em minha alma!... Entre a cabeça e o coração havia uma barreira
+insuperavel. O coração regeitava o amoroso perdão d'um pai despotico. A cabeça
+curvava-se diante da magestade das suas cãs, e mais ainda dos seus queixumes.
+Quando, porém, nesse instante, não senti extinguir-se o odio que me abrasára na
+manhã desse dia, é porque elle seria eterno, é porque o meu amor a Vasco era
+immenso, superior ao instincto filial, aos vinculos de sangue, e até á minha
+propria reputação.</p>
+
+<p>«Não respondi. Cruzei as mãos na face, e não sei que tempo meu pai esperou a
+resposta. Elle tinha sahido de ao pé de mim, e voltou com um ramo de flores.</p>
+
+<p>«Aqui tens, minha filha&mdash;disse elle&mdash;o ramo de paz entre nós. Ha-de haver
+dez annos que te dei um ramo<span class="pn">{189}</span> neste mesmo sitio.
+Foi quando vieste da provincia para entrares no collegio. Olha esse olmo que
+está atraz de ti e lá verás uma inicial e uma data. Já então scismei aqui muito
+no teu futuro. Prometti a mim mesmo trazer-te aqui, já senhora, para te mostrar
+essa data, que marca uma hora das horas attribuladas que só um pai, extremoso e
+pobre, sabe comprehender. Mal diria eu então que a minha segunda visita a este
+logar seria solemnisada pelas lagrimas de ambos nós! Repara que eu tambem
+choro, Leocadia.</p>
+
+<p>«Ergui os olhos timidos para meu pai, e não pude conter-me. O resentimento
+calou-se um instante. Abracei-o com devoção, e, nesse instante... só o via a
+elle, só sentia por elle... a imagem de Vasco fugira por não poder vencer as
+cãs d'um velho soldado chorando...»</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Neste momento, Leocadia suspendeu-se. A sua physionomia macilenta e
+descarnada pendeu para o seio. Uma lagrima das que vem ferventes do coração
+desceu-lhe na aridez da face, e sumiu-se logo como fio d'agua em terreno
+afogueado.</p>
+
+<p>E eu, que nem hoje ainda posso, com animo frio, contar uma vida que me
+hão-de receber como chimera, chorava tambem.<span class="pn">{190}</span></p>
+
+<h2>XIII.</h2>
+
+<p>O coronel, com palavras meigas, animára a filha a perguntar-lhe se o pai a
+violentava a casar com Francisco de Proença.</p>
+
+<p>A isto respondeu o pai, mudando de tom:</p>
+
+<p>«Eu, até aqui, empreguei todos os esforços da razão para convencer-te de que
+a docilidade ao querer d'um pai, que deseja dar-te um futuro certo, não é
+violencia, é juizo. Ora, se tu, minha filha, queres mudar o nome ás cousas, a
+obrigação d'um pai é ouvir a sua vontade experiente, e cerrar severamente os
+ouvidos ao querer irreflectido d'uma criança. Se ha um Deus, que julgue as
+tolerancias d'um pai com os caprichos d'uma filha, grandes contas eu daria,
+Leocadia, consentindo-te o alvedrio da escolha entre Vasco da Cunha e Francisco
+de Proença. Não quero o remorso de tamanha culpa, porque te amo muito, e muito
+preso a minha dignidade, e a minha palavra. Proença sabe que é teu noivo. Fui
+eu que lh'o disse, e basta.</p>
+
+<p>«Sou honrado, minha filha; e, como não tenho outra herança a legar-te, faço
+quanto posso por te deixar em<span class="pn">{191}</span> posição de a
+receberes, e guardares, como eu a recebi e guardei. Á mulher pobre é mais
+difficultoso manter-se no decoro. Os appellidos de teu pai nada valerão, se os
+não fizeres resplandecer nesse invejado posto de honra, que se esteia nos bens
+da fortuna.</p>
+
+<p>«A virtude pobre é uma virtude obscura, que, nestes tempos de egoismo e
+pompa, se a não soffrea a rédea da religião, troca de bom grado os seus fóros
+de honra ignorada pela ostentação brilhante do vicio. O que eu tenho querido é
+rodear-te dos bens passageiros e miseraveis que o vulgo venera para que as tuas
+virtudes deem assim nos olhos das pessoas que não são vulgo.</p>
+
+<p>«Eu não sou d'aquelles pais, que aconselham a desobediencia aos filhos
+alheios, e lhes dão um logar na sua sege, cuidando que assim os poupam á
+deshonra e ao crime... Maria Maldonado...</p>
+
+<p>«Leocadia estremeceu, erguendo piedosamente os olhos para o coronel. Nesse
+olhar, disse ella que implorára o respeito de seu pai ao amor d'aquella mãi.</p>
+
+<p>«Maria Maldonado&mdash;proseguiu elle entendendo o olhar da filha&mdash;parece que
+renegou da virtude que foi até hontem a conselheira de todas as suas acções.
+Praticou um feito que a desabona, embora seu filho, por ser criança, tenha ido
+chorar no seio d'ella, como menino amuado pelas travessuras dos irmãos.</p>
+
+<p>«Leocadia, suffocada pelos soluços, apiedou o pai, que não teve animo de
+continuar. Dando-lhe o braço, passeou com ella, e as poucas palavras que lhe
+disse eram brandamente conciliadoras. Levou-a para longe da madrasta, cuja
+aproximação a fizera empallidecer. Pediu-lhe que se esforçasse por não
+denunciar a scena violenta que se dera entre elles. Leocadia fez quanto podem
+humanas forças. Mentiu ás averiguações de Proença com um sorriso, que tanto
+podia ser timidez, como ironia. Gervasio foi prodigo de carinhos a sua filha
+durante aquelle dia, e lançava um<span class="pn">{192}</span> olhar de revez a
+sua mulher, quando esta, ferida de reflexo no amor proprio de seu filho notava
+a frieza com que Leocadia lhe acolhia os ditos arguciosos.</p>
+
+<p>Agora me ensina tu, ó musa, o que o coronel Gervasio disse a Maria
+Maldonado.</p>
+
+<p>Ás dez horas e meia entrou D. Maria na sua sege, e disse a seu filho,
+teimoso em acompanhal-a de longe, que a não seguisse.</p>
+
+<p>Juntamente com ella, entrou o capellão da casa, padre velho, que resmungára
+longo tempo contra a crueza de o não deixarem deitar ás nove horas, por causa
+d'uma expedição em que elle não fôra consultado.</p>
+
+<p>Eram trezentos passos da casa de Vasco á do coronel. D. Maria fez parar a
+sege defronte do mosteiro de Santa Anna, e foi com o padre collocar-se poucos
+passos distante da casa de Leocadia.</p>
+
+<p>Esperaram um quarto de hora, sem ouvirem rumor nas portas da casa.
+Precisamente ao soarem onze horas, um vulto se avisinhou de D. Maria, e ousou
+metter-lhe a cara, que ella procurava esconder nas costas do padre atrapalhado.</p>
+
+<p>«Não se esconda, snr.ª Dona... (disse o coronel) Não pronunciarei o seu
+nome, minha senhora, porque ouço sempre com reverencia pronunciar o nome de seu
+defunto marido, e não quero que possa alguem saber que a mulher do meu general
+está parada n'uma rua de Lisboa ás onze horas da noite.</p>
+
+<p>D. Maria estava em tremuras, como se a surprehendessem n'um crime. As
+palavras do coronel tinham só o tom urbano a neutralisar-lhes o agro da ironia,
+e o virulento da reprehensão. O padre estava naturalmente de bocca aberta, como
+quem diz «eu não dei para isto prego nem estopa.» Não lhe occorria idéa alguma
+á attribulada senhora, quando o coronel, offerecendo-lhe o braço, disse:</p>
+
+<p>«Não a convido a entrar em minha casa, snr.ª D.<span class="pn">{193}</span>
+Maria, porque em minha casa não está senhora alguma. Se v. exc.ª, porém, me
+permitte acompanhal-a á sua, ou seguir a sua sege, receberei a honra de lhe
+dizer duas palavras.</p>
+
+<p>&mdash;Aceito o offerecimento...&mdash;disse D. Maria reanimada pela confiança que pôz
+no dom persuasivo das suas palavras sobre a vontade pertinaz do coronel.</p>
+
+<p>Na sege não cabiam tres pessoas. O coronel disse que iria a pé. O padre
+parecia, por seu silencio, consentir em ir como viera; D. Maria, porém, disse
+ao padre que cedesse o seu logar.</p>
+
+<p>O capellão sorveu uma pitada de simonte, puxou para as orelhas a gola do seu
+capote de castorina parda, e lá foi de seu vagar, ruminando philosophicamente
+aquella diabrura.</p>
+
+<p>Poucas palavras deram um ao outro, na sege. Quando esta parou, ouviram-se
+passos velozes saltando as escadas. O coronel apeára para dar a mão a D. Maria.
+Vasco surgia no limiar do portão justamente no instante que sua mãi entrava
+pelo braço do coronel.</p>
+
+<p>O nosso amigo recuou estupefacto, e soltou uma interjeição de espanto, que
+tanto podia ser <em>ah!</em> como <em>oh!</em> como <em>ui!</em></p>
+
+<p>Gervasio levou a mão ao boné, e disse risonho:</p>
+
+<p>«Boas noites, snr. Vasco... Acha-me, talvez, muito barbado para noiva?!</p>
+
+<p>D. Maria apertou-lhe o braço, murmurando:</p>
+
+<p>&mdash;Não zombe do infortunio, snr. Gervasio... Eu tenho direito a esperar a
+continuação da sua delicadeza...</p>
+
+<p>«É um direito de que eu a não privarei, minha senhora. Serei delicado com o
+filho como o fui com a mãi... Por isso mesmo, rogo a v. exc.ª que mande seu
+filho assistir ás duas palavras que devo dizer-lhe.</p>
+
+<p>&mdash;Vem, filho...&mdash;murmurou D. Maria, ao mesmo tempo que o coronel estendia
+affectuosamente a mão a Vasco, bastante pundonoroso para regeital-a.<span
+class="pn">{194}</span></p>
+
+<p>«Recusa?!&mdash;disse o pai de Leocadia, franzindo a testa com sobranceria
+militar.</p>
+
+<p>&mdash;Então, Vasco?!&mdash;acudiu D. Maria, movendo o filho a curvar-se com humildade
+diante do coronel.</p>
+
+<p>«Quer que subamos, snr.ª D. Maria, ou mesmo aqui me escuta?&mdash;disse Gervasio
+com mal disfarçado azedume.</p>
+
+<p>&mdash;Não, senhor, subamos. Vens comnosco, Vasco?</p>
+
+<p>«Se minha mãi ordena...</p>
+
+<p>&mdash;Ordeno, sim.</p>
+
+<p>Já na sala de espera, o coronel, dispensando entrar na immediata, fallou
+assim:</p>
+
+<p>«Eu disse com cordial sinceridade ao snr. Vasco, em minha casa, que minha
+filha, pelo facto de ser minha filha, não podia ser sua mulher. Não lh'o disse
+com esta rudeza, porque o sentimento que seu filho dedica a Leocadia é
+respeitavel, em quanto está dentro dos limites que a honra prescreve a
+cavalheiros que se abonam de appellidos, synonimos da honra e da probidade.</p>
+
+<p>«O snr. Vasco sahiu de minha casa promettendo-me não desmerecer da opinião
+em que o tive. Maravilhou-me a coragem da virtude em annos tão verdes!
+Pareceu-me vêr n'este pequeno corpo a grande alma do bravo que lhe deu o
+nascimento.</p>
+
+<p>«Pesa-me dizer que me enganei, e o snr. Vasco deve esconder a face
+envergonhada diante de mim, e cortar essa mão que ainda agora hesitou apertar a
+minha, que lhe offereci com demasiada generosidade, ou pouco brio. Se o
+pundonor devesse aconselhar a algum de nós o despreso, o despresivel de certo
+não seria eu, porque o enganado, o atraiçoado não é v. exc.ª, snr. Vasco da
+Cunha.</p>
+
+<p>«Adiante: e não se estorça, escutando-me, snr.ª D. Maria: eu estou de certo
+contando a v. exc.ª uma novidade.</p>
+
+<p>&mdash;Duvido que meu filho...&mdash;interrompeu a pobre mãi.<span
+class="pn">{195}</span></p>
+
+<p>«Duvida que seu filho?...</p>
+
+<p>&mdash;Promettesse a v. exc.ª renunciar ao amor de sua filha...</p>
+
+<p>«Eu não disse tal. Quiz dizer que o filho de v. exc.ª me prometteu desviar
+as suas attenções de minha filha, de modo que ella não conspirasse contra a
+minha vontade. Snr. Vasco, isto é exacto?</p>
+
+<p>Vasco não respondeu: lançou a sua mãi um olhar de tortura intima, um olhar
+que pedia um pretexto para elle sahir d'alli. O que se passava no coração do
+infeliz moço não sei contal-o. Inferno?... inferno, sim, que nenhuma religião
+inventou ainda, devia de ser!</p>
+
+<p>Se o examinassem de perto, vêr-lhe-hiam coberta a fronte d'um glacial suor.
+Todo elle tremia como sacudido pelos embates que o coração lhe dava no peito.
+Uma só idéa, synthese horrivel de todas, o predominava então: o desejo de
+morrer logo alli.</p>
+
+<p>A infeliz mãi comprehendeu tudo, viu tudo, sentiu tudo!</p>
+
+<p>Pediu licença ao coronel, ergueu-se, tomou a mão do filho, e disse-lhe:</p>
+
+<p>&mdash;Vai para o teu quarto, Vasco. Eu não me demoro aqui... lá vou ter já.</p>
+
+<p>Vasco sahiu, curvando ligeiramente a cabeça, quando passava diante do
+coronel.</p>
+
+<p>«Pobre criança!...» disse comsigo o pai de Leocadia; e nestas palavras
+dissera tudo o que nós poderiamos dizer e sentir em largos commentarios.</p>
+
+<p>Pobre criança, sim, que não soube erguer a fronte, embora marcada com o
+stygma da deslealdade, e dizer ao seu accusador e juiz: «mentes» Pobre criança,
+que não sahiu d'alli a procurar duas testemunhas, que, no dia seguinte, o
+vissem morrer ás mãos do coronel, ou cravar um florete no seio onde se embalara
+Leocadia! Pobre criança, que succumbiu, como succumbe a honra ferida pelo
+remorso,<span class="pn">{196}</span> á reprehensão do tyranno que lhe vem
+diante de sua mãi, lançar em rosto a ignominia da perfidia!</p>
+
+<p>Ausente Vasco, D. Maria voltando-se com senhoril altivez para o coronel
+disse:</p>
+
+<p>&mdash;Pouco mais terá que me dizer, creio eu.</p>
+
+<p>«Pouco mais, minha senhora; mas esse pouco é importante.</p>
+
+<p>&mdash;Se é uma censura ao meu procedimento, digne-se omittil-a, por que sou eu a
+propria que me censuro.</p>
+
+<p>«Então, snr.ª D. Maria, disse tudo. Faltava-me perguntar-lhe se posso viver
+em paz com a minha familia. Visto, porém, que v. exc.ª se reprehende pela parte
+inconveniente que tomou nos amores do snr. Vasco, posso retirar-me com a
+certeza de que fica suspensa a sua correspondencia com a minha filha.</p>
+
+<p>&mdash;A minha? interrompeu ella.</p>
+
+<p>«A de v. exc.ª, queria eu dizer.</p>
+
+<p>&mdash;E eu digo a v. exc.ª&mdash;replicou D. Maria sensivelmente agastada&mdash;que sou
+mulher, e não posso dar ás suas ironias uma resposta condigna.</p>
+
+<p>O coronel soltou um frouxo de riso, cuja intenção é difficil entender. Era
+um destes risos <em>subjectivos</em>, (concedam o epytheto) cuja imagem está
+dentro da pessoa que ri.</p>
+
+<p>D. Maria, enraivecida pela desconsideração, interrogava-o com um olhar
+soberbo. O coronel, erguendo do pavimento a espada, e sobraçando-a, inclinou
+profundamente a cabeça, recuou até á porta, e disse:</p>
+
+<p>«Muito boas noites, minha senhora.»</p>
+
+<p>Ora aqui está o que se passou, até que o coronel entrou no camarote.<span
+class="pn">{197}</span></p>
+
+<h2>XIV.</h2>
+
+<p>Quinze dias depois ha um convite para casa do coronel: janta-se, e dança-se;
+festeja-se o casamento da sympathica Leocadia com o morgado de Sinfães,
+Francisco de Proença.</p>
+
+<p>Alto lá, senhor romancista! Não se escreve assim um romance. Vossê assim
+desacredita-se, e ámanhã não tem quem o leia. Quando a gente cuida que está no
+melhor do romance, o bom do homem, mette-se em duas semanas n'um carril a
+vapor, e vêl-o ahi vai levado com a historia no sacco de noite, de maneira que
+uma pessoa, que lhe faz o favor de o lêr, pedindo o livro emprestado, fica sem
+saber o que fez Leocadia, o que fez Vasco, o que fez a mãi, a madrasta, o
+noivo, o que fizeram todos, durante quinze dias! Isto é uma escandalosa
+empalmação!</p>
+
+<p>Senhoras e senhores meus, v. exc.<sup>as</sup> de certo conhecem muitas
+meninas na posição de Leocadia. Posição trivialissima, aliás. É uma pobre
+rapariga a amar um homem pobre; mas tem um pai a querer casal-a com um homem
+rico. Chora, arrepella-se, promette matar-se, se a<span class="pn">{198}</span>
+morte não vier espontaneamente. O pai teima, o homem rico teima, o homem pobre
+não póde teimar, ainda que queira. Por fim, a menina faz a vontade ao pai, ao
+noivo rico, á sociedade torpe, casa e dança por comprazer no dia em que casa, e
+almoça com pouco appetite, no dia seguinte, com mais algum no outro dia, e
+assim successivamente, até engordar. Isto é muito simples, e muito rotineiro,
+não é verdade?</p>
+
+<p>É. Então de que se espantam, se eu lhes digo que uma mulher, de carne e osso
+como v. exc.<sup>as</sup>, fez o que v. exc.<sup>as</sup> fizeram, viram fazer,
+ou farão?</p>
+
+<p>Alto lá! tambem eu digo. A minha pobre Leocadia, se hoje vivesse, e lesse
+essa pagina infanda que ahi fica, cobril-a-hia de lagrimas de remorso por me
+haver feito seu confidente. Perdôa-me, minha santa amiga! Eu tive-te um
+instante suspensa por uma hypothese cruel sobre o charco em que patinham muitas
+georgianas de chinellos, que por ahi se vendem para o harem de sujos pachás,
+que ao passarem a linha, lavaram a cara dos ferretes de sangue com que sahiram
+do açougue humano.</p>
+
+<p>Se eu fizesse uma criminosa omissão de tuas lagrimas, o mesmo seria
+pisal-as, Leocadia.</p>
+
+<p>Se eu te rebaixasse a transigires com o dinheiro de teu marido,
+mascarando-te com a obediencia filial, daria comtigo regalo e galardão a estas
+mulheres de almoeda, que, na alma, não valem mais que as de Babylonia, e no
+corpo não valem tanto.</p>
+
+<p>Não, espirito que me vês da tua gloria, eu contarei as tuas lagrimas; e, se
+não rasgo as paginas que escrevi, estremal-as-hei por um traço negro das que tu
+me segredaste nas fugitivas noites em que este gemer do mar, que ouço agora,
+vinha casar um murmurio melancolico á tua narração.<span
+class="pn">{199}</span></p>
+
+<h2>XV.</h2>
+
+<p>Leocadia era vigiada por toda a familia. Triste, sombria, e taciturna,
+causava suspeitas ao coronel, que postára militarmente o auxiliar, de
+sentinella, no pateo, de dia e de noite.</p>
+
+<p>Quasi sempre no seu quarto, Leocadia meditava fugir. Não achava, porém, o
+exito feliz dos seus planos. A fuga pela porta, unica evasiva que tinha, era
+impossivel. Desanimada, toda a sua valentia moral reservou-a para dizer «não
+quero» logo que seu pai a mandasse vestir-se para ir receber a benção nupcial.
+Firme neste proposito, esperava, com coragem e juramento de morrer, a hora da
+lucta horrivel, a formal desobediencia, todas as torturas que podesse
+inflingir-lhe o pai irritado.</p>
+
+<p>Tinham decorrido dous dias depois do passeio a Campolide, quando uma antiga
+criada, que já o fôra da primeira mulher de Gervasio, voltou da provincia, onde
+fôra visitar os seus parentes. Esta criada era aquella Thereza, que eu vi na
+Foz.</p>
+
+<p>A situação de Leocadia melhorou, porque Thereza<span class="pn">{200}</span>
+chorava com ella, aconselhando-lhe ao mesmo tempo obediencia a seu pai. O
+coronel, tambem amigo da velha criada, pedia-lhe que desvanecesse com suavidade
+do coração de sua filha uma paixão que fazia a infelicidade de todos.</p>
+
+<p>Thereza não podia tanto. Conheceu as intenções da menina, e disse-as ao
+coronel, affirmando-lhe que ella se deixaria matar, mas casar, não.</p>
+
+<p>Depois de cinco dias de desgostos para o pobre pai, e de irritações
+orgulhosas da madrasta, e suspeitas más de Francisco de Proença, e continuadas
+lagrimas e reclusão de Leocadia, o coronel queixou-se de violentas dores de
+cabeça, e febre.</p>
+
+<p>Apenas se recolheu á cama, Leocadia foi sentar-se á cabeceira do seu leito.
+Quando os medicos disseram que se declarava uma febre maligna, o sobresalto
+operou uma subita mudança nas maneiras de Leocadia.</p>
+
+<p>O sentimento desvaneceu-se. Quantas caricias uma boa filha tem no coração
+todas ella empregou para adoçar as amarguras do pai enfermo.</p>
+
+<p>O coronel queixou-se de serem desgostos moraes, causados por ella, os que o
+tinham levado áquelle extremo. Leocadia lançou-se aos braços febris de seu pai,
+pedindo-lhe perdão, e voltou-se a Nossa Senhora, promettendo sacrificar-se ao
+homem que lhe destinavam se seu pai recuperasse a saude. O coronel não ouvira o
+voto, mas adivinhou o silencio de sua filha.</p>
+
+<p>Ao setimo dia a febre recrudesceu. Eram curtos os intervallos da lucidez que
+o delirio lhe consentia. N'um d'esses intervallos, o enfermo chamou sua filha,
+e disse aos assistentes que se retirassem.</p>
+
+<p>Pungentes palavras foram estas:</p>
+
+<p>«Leocadia, creio que morro. Deixo-te, minha filha, n'um mundo que não
+conheces. Parto, e tu ficas só. Quando eu fechar os olhos, fecharam-se para
+sempre os unicos<span class="pn">{201}</span> olhos que te viam com amor. Ficas
+sem parentes. De tua mãi, ninguem já vive. De teu pai, tens dous tios no
+Brazil, que te não conhecem. Que farás tu, filha, quando me levantarem morto
+desta cama?</p>
+
+<p>&mdash;Meu pai!&mdash;exclamou Leocadia com vehemente afflicção&mdash;meu querido pai, não
+pense que morre...</p>
+
+<p>«Morro, filha, morro; e, se a minha agonia fôr trabalhosa, é o coração que
+se despedaça, separando-se de ti... Sem ti, morria tranquillamente. Estou
+cançado, porque nunca soube o que era a felicidade nesta vida; a da outra... a
+da outra, meu Deus, vós sabereis se eu a mereci com a paciencia... Leocadia,
+queres que eu acabe em paz, que eu expire abençoando-te?</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim, meu pai... quero que viva, abençoando-me!&mdash;bradou ella,
+beijando-lhe as mãos afogueadas.</p>
+
+<p>«Então, filha, cumpre a minha vontade. Liga-te a esse homem que te ha-de
+estimar, porque eu lh'o pedirei á minha ultima hora. Tu has-de ser feliz com
+elle; has-de olhal-o sempre como o amigo que teu pai moribundo te escolheu. Se
+elle te der algum motivo de soffrimento, quem os não tem neste mundo?! Se
+soffreres, offerece-me as tuas dores e eu virei em espirito agradecer-te o
+sacrificio. Serás então consolada, filha, pela memoria de teu pai, que pensava
+fazer-te venturosa, embora se enganasse. Responde-me, Leocadia... Casas com
+Francisco de Proença?</p>
+
+<p>Leocadia tirou das entranhas um gemido, um soluço suffocante, e com elle uma
+palavra que parecia a ultima da vida que vai n'ella:</p>
+
+<p>&mdash;Sim...&mdash;disse ella.</p>
+
+<p>O coronel, vencendo a fraqueza com grande esforço, pôde ainda sentar-se no
+leito, alongando os braços para ella. A filha sustentava no hombro a cabeça
+esvahida do enfermo, e refrigerava-lhe com lagrimas a mão convulsa.</p>
+
+<p>Seguiram-se minutos de silencio. Ouvia-se apenas o soluçar de ambos.<span
+class="pn">{202}</span></p>
+
+<p>O coronel desprendeu-se dos braços da filha, e pendeu a cabeça para o
+travesseiro. O sangue batia-lhe vertiginoso nas frontes. As palpebras
+cerraram-se. Phrases interrompidas sahiam-lhe dentre os labios seccos e quasi
+immoveis. Leocadia, assustada, chamou gente. A madrasta, vendo o lethargo do
+marido, voltou-se para a enteada e disse com rancor:</p>
+
+<p>«Quem mata meu marido é a senhora!</p>
+
+<p>Veja a que estado o reduziu! É uma parricida snr.ª D. Leocadia!</p>
+
+<p>Ha-de dar terriveis contas a Deus de ter arrastado seu pai á sepultura... É
+uma filha amaldiçoada!»</p>
+
+<p>Leocadia, não teve animo para responder-lhe. Pôz os olhos em seu pai, e
+disse-lhe em seu coração: «Vós bem sabeis que não é verdade o que ella diz!» e
+sahiu, apertando a cabeça com as mãos.</p>
+
+<p>A medicina cobriu de causticos o doente. Os tormentos deram-lhe com a
+irritabilidade uma vida de emprestimo. Dous dias se seguiram de esperanças,
+porque o delirio era menos frequente, e alguns instantes de dormir tranquillo
+vieram reparar-lhe as forças.</p>
+
+<p>O coronel chamou a filha, tendo ao pé de si Francisco de Proença, e sua mãi.</p>
+
+<p>Á cabeceira d'elle estava um crucifixo e duas luzes. Eram os preparatorios
+para o recebimento da extrema-uncção. O enfermo pedira um confessor, que se
+achava já no quarto.</p>
+
+<p>«Aproxima-te desta cruz, Leocadia&mdash;disse elle com energia&mdash;snr. Francisco de
+Proença, eu entrego-lhe, minha filha. Comprehende o senhor a valia deste
+thesouro que lhe entrego? Sabe como eu queria que o senhor amasse esta
+creatura?</p>
+
+<p>&mdash;Amal-a-hei quanto se póde amar nesta vida... disse Proença, sentindo
+eriçarem-se-lhe os cabellos, commovido pela religiosidade do acto.<span
+class="pn">{203}</span></p>
+
+<p>«Minha filha, ajoelha diante de Deus que nos escuta, e pede-lhe que faça
+duraveis os bons sentimentos no coração de teu esposo, e que te faça a ti
+sempre digna d'elles.</p>
+
+<p>Leocadia ajoelhou, e Francisco de Proença, arrebatado pelo bello funebre do
+lance, ajoelhou a par com ella.</p>
+
+<p>E oravam todos mudamente. O coronel tinha as mãos erguidas. O padre
+confessor, quebrou o silencio, erguendo-se, e tomando as mãos de Leocadia.</p>
+
+<p>«Estão accesas as luzes do altar.</p>
+
+<p>A menina prepare-se, que eu quero ter o jubilo de ser o ministro deste
+sacramento! Que união de tão bom agouro... Vamos, filhos.»</p>
+
+<p>O frade graciano enchia a poesia santa do grupo!</p>
+
+<p>Leocadia sahiu com sua madrasta.</p>
+
+<p>Parecia somnambula. Julgal-a-hieis sem idéa, sem vontade, sem consciencia do
+que fazia. Vestiram-na. Entrou n'uma sege, achou-se ajoelhada no arco d'uma
+igreja, respondeu umas palavras que lhe ensinaram, e viu-se sosinha com um
+homem, na sege, onde viera com sua madrasta.</p>
+
+<p>Conduziram-na ao quarto de seu pai. A vida então sahiu do lethargo. Leocadia
+achou abertos os braços paternaes para recebêl-a. Lançou-se a elles chorando,
+soluçando, arquejante, abafada por uma agonia, cuja intensidade ella não pôde
+explicar-me. O que me disse, para eu alcançar com os olhos d'alma a sombra da
+sua dôr, foi que, abraçando o pai na volta da igreja, se lhe figurara a imagem
+moribunda de Vasco, fitando-a com um olhar piedoso, em que parecia dizer-lhe:
+«perdoo-te a morte, Leocadia.»</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>O coronel sobreviveu quatro dias aos desposorios de sua filha.</p>
+
+<p>O festim de nupcias foi um funeral.</p>
+
+<p>A noticia do casamento foram as cartas de enterro.</p>
+
+<p>A noiva despiu o vestido branco para se envolver no de crepe que nunca mais
+despiu.<span class="pn">{204}</span></p>
+
+<h2>XVI.</h2>
+
+<p>O pinhal do <em>Pastelleiro</em> rumorejava brandamente, assoprado pelo ar
+da noite. O mar era uma immensa bacia d'aguas mortas. A lua mosqueava-lhe o
+dorso em escamas lucidas. O archanjo da poesia com o seu cortejo de chimeras
+volateis, brincava na alamêda das fontes murmurosas, gemia com o piar tristonho
+das aves queridas da noite, e sentava-se na peanha dos cruzeiros, que a
+projecção da luz assombrava no chão.</p>
+
+<p>Eu estava profundamente melancolico. E ao pé de mim viera sentar-se
+Leocadia, na pedra bruta, que ainda hoje vereis, servindo de tranqueira a uma
+cancella fronteira da casa.</p>
+
+<p>Acabára eu de ouvir o quadro que apenas esbocei no anterior capitulo.</p>
+
+<p>A narradora calara-se, e eu não ousára quebrar o seu religioso silencio.</p>
+
+<p>Eu bem vira que as suas palavras derradeiras eram um como tremulo gemido.
+Sentira vibrarem-lhe afflictivamente<span class="pn">{205}</span> as fibras do
+coração, como se as ferisse a realidade dos successos que a gentil martyr
+recordava.</p>
+
+<p>E, por isso, o meu silencio era a expressão da pena, o pasmo em que nos
+deixa um espectaculo lugubre. Eu tinha em mim todas aquellas imagens,
+descriptas por ella como quem as entalhára com fogo no coração. Via o altar do
+tremendo sacrificio, via o leito do agonisante. As feições do coronel,
+apanhadas pelo regêlo do trespasse, essas, que eu nunca vira, todas se me
+desenharam na imaginação, sempre fertil de creações funebres. Ao pé de mim
+estava a heroina desta tragedia, ainda formosa, ainda opulenta de encantos,
+flôr orvalhada das lagrimas do céo para onde ella mandava continuamente o seu
+perfume.</p>
+
+<p>Que mulher é esta que eu encontrei na terra, para apertarmos as mãos n'um
+adeus para sempre?</p>
+
+<p>Que attribulada expiação a da minha alma que só póde chorar as penas d'ella!</p>
+
+<p>Não póde amar-me, não; eu sei que não póde, e offertar-lhe o meu amor seria
+injuriar a sua saudade!</p>
+
+<p>Para que te encontrei eu, santa!</p>
+
+<p>Estas ultimas palavras fugiram-me, como a revelação d'um sonho. Leocadia
+tocou-me ligeiramente no hombro, e disse:</p>
+
+<p>«Que é? Não sei o que disse...</p>
+
+<p>&mdash;Nada dizia&mdash;repliquei eu&mdash;Sonhava, minha querida irmã, sonhava. Sabe,
+minha amiga? Está-me pesando a vida. Não sei o que ha-de ser de mim... quando a
+perder. Abençoada seja a mão da morte, que baixou a apanhar de entre os felizes
+do mundo os que vieram com o condão da minha desventura.</p>
+
+<p>«Porque, meu amigo?!</p>
+
+<p>&mdash;Porque entre nós ha só de commum a confidencia d'algumas horas, a
+confidencia que não modera os impetos d'um desgraçado amor...</p>
+
+<p>«Oh! não diga, não diga isso outra vez...&mdash;atalhou<span
+class="pn">{206}</span> Leocadia pondo-me a mão nos labios&mdash;Tenha pena de
+mim... Chame-me sua irmã, senão arrependo-me, sinto o primeiro remorso da minha
+vida...</p>
+
+<p>Beijei-lhe a mão, e murmurei:</p>
+
+<p>&mdash;Até ámanhã.</p>
+
+<p>«Sim? até ámanhã? quem sabe se nos veremos! De um momento para o outro posso
+ser mudada... E eu queria, meu irmão, queria acabar hoje a minha historia. Não
+sei que presagio me diz que não teremos outra noite assim... Mais alguns
+minutos... diz-se depressa o que falta... Quer?</p>
+
+<p>&mdash;Diga, diga, Leocadia; mas faça um juramento.</p>
+
+<p>«Juramento! qual?</p>
+
+<p>&mdash;Qualquer que seja o seu destino, se tiver vida, se tiver um instante seu,
+lembre-se de seu irmão, escreva-lhe uma palavra, uma só «vivo» só isto... jura?</p>
+
+<p>«Prometto, meu amigo, e não faltarei... E se lhe disser «morro» é que Deus
+me chamou para ao pé de Vasco...</p>
+
+<p>&mdash;Sim, sim, falle-me desse infeliz que a chama, desse amigo que a minha
+imaginação contrahiu... Morreu, sim?... e que morte!...</p>
+
+<p>«Eu quasi que o vi morrer.</p>
+
+<p>&mdash;Viu?! É horrivel, meu Deus!</p>
+
+<p>«Foi assim. Oito dias depois da morte de meu pai, Francisco de Proença
+perguntou-me se eu queria ir para o campo. Entreguei-me á sua vontade. Minha
+madrasta desejava sahir de Lisboa, para desafogar da sua saudade. Fomos para
+uma quinta entre Cintra e Collares.</p>
+
+<p>«Estavamos ahi havia um mez. Thereza, a meu pedido, escrevêra para Lisboa a
+quem a informasse de Vasco. Disseram-lhe que elle e a mãi estavam a ares em uma
+das quintas. Eu pedia por elle a Nossa Senhora todos os dias, muitas vezes, e
+com immensa fé.</p>
+
+<p>«Uma tarde, Francisco de Proença fôra á caça, e eu fui com Thereza passear
+para a banda de Collares. Havia no caminho uma azinheira, um sitio que
+respirava saudade,<span class="pn">{207}</span> entrei por alli dentro, e fui
+ter a um portão de quinta, que tinha uma grande arvore. Sentei-me áquella
+sombra, vendo cahir as folhas, e comparando-as á queda de tantas, de todas as
+minhas esperanças. Estava assim absorvida, bebendo as doçuras do meu fel,
+quando o portão se abriu. Estremeci... Era um padre que sahia... o padre
+capellão de D. Maria Maldonado!</p>
+
+<p>«Elle fixou-me com espanto, e apenas me cortejou; esteve um pouco a
+olhar-me, e disse:</p>
+
+<p>&mdash;A menina não é a snr.ª D. Leocadia?</p>
+
+<p>«Sou, sim, senhor.</p>
+
+<p>&mdash;Então que faz por estes sitios?! disse elle admirado.</p>
+
+<p>«Vim a passeio... Moro n'uma quinta perto d'aqui.</p>
+
+<p>&mdash;Pois se quer entrar, eu dou parte á snr.ª D. Maria.</p>
+
+<p>«Como!?&mdash;exclamei eu&mdash;a snr.ª D. Maria Maldonado?!</p>
+
+<p>&mdash;Sim, minha senhora, está aqui com o snr. Vasco&mdash;disse-me elle&mdash;e o snr.
+Vasco vai dar contas a Deus brevemente.</p>
+
+<p>«Meu Deus! eu não posso lembrar-me do que então disse ou fiz. Entrei n'uma
+tremura de susto, de terror, de não sei que tormento novo para mim. Conheci que
+me fugia o entendimento, e a vista. Queria tirar-me d'alli, e não podia; ainda
+pedi a mão a Thereza, e já não pude dar passada. Desfalleci nos braços d'ella.</p>
+
+<p>«Voltando á vida, que a justiça de Deus não quiz levar-me, achei-me sentada
+n'um banco de pedra, n'um jardim. Ao pé de mim estava D. Maria. Fiz um esforço
+por ajoelhar-me aos pés d'ella. Susteve-me; e chorava, meu Deus, como chorava a
+pobre senhora!</p>
+
+<p>«É a vontade de Deus... disse-lhe eu, que aqui me trouxe. Queria vêl-o,
+minha querida mãi, diga-lhe que a mão do Senhor me conduziu aqui para receber o
+seu perdão... Mas eu não sou culpada... Meu pai estava a expirar... Morreria
+atormentado...» Ai... eu não sei o que<span class="pn">{208}</span> disse,
+entre gemidos... D. Maria olhava-me com ar de compaixão, e consultava os olhos
+do padre. Este acenava negativamente. Não queria que eu visse Vasco... E eu
+estava de joelhos aos pés de D. Maria, quando ouvi proferir o meu nome, n'um
+grito. Olhei... era Vasco, abrindo uma vidraça. Era elle, livido como um
+espectro vestido de branco, com os olhos abrasados de delirio... A janella
+cahiu, Vasco desappareceu, e o padre subiu a correr umas escadas, em quanto D.
+Maria sustinha o meu arrebatamento. «Deixe-me, deixe-me vêl-o!» rogava eu,
+allucinada, louca de paixão, capaz de matar-me alli, se me não deixassem ir!</p>
+
+<p>«Ao cimo da escadaria, o padre encontrou-se com Vasco. Não o conteve;
+desceram ambos atropelladamente. E o meu infeliz anjo exclamou: «Vieste para
+mim, minha esposa?... Eu esperava-te, esperava-te, como se espera a salvação.»</p>
+
+<p>«E eu rompi n'um choro que era sentir-me morrer. O desgraçado não sabia que
+eu estava casada!</p>
+
+<p>&mdash;Falla, falla!&mdash;gritava elle&mdash;vens ser minha esposa? fugiste a teu pai?
+esse tyranno teve compaixão de nós?&mdash;Cala-te, meu filho!&mdash;exclamava D. Maria...
+Estás enganado! «Enganado! pois esta não é a minha esposa?!»</p>
+
+<p>«O padre tomou-o pelo braço, e exclamou:</p>
+
+<p>&mdash;Não, não é sua esposa... é esposa d'outro que seu pai lhe
+destinou!&mdash;«Vasco soltou um terrivel grito, levou as mãos á face, e foi cahir
+nos braços de sua mãi... «Matai-me, meu Deus!» exclamou elle.</p>
+
+<p>«Agora&mdash;proseguiu Leocadia arfando convulsivamente&mdash;peço-lhe eu que vá, meu
+amigo, não posso continuar... Estou doente... Adeus... Se eu não podér
+fallar-lhe, ha-de lêr o resto da minha historia.»</p>
+
+<p>Leocadia entrou encostada ao meu braço em sua casa. Eu fiquei alli não sei
+que tempo entorpecido. Quando me retirei, alvorecia a manhã.<span
+class="pn">{209}</span></p>
+
+<h2>XVII.</h2>
+
+<h3>O CARACTER DE FRANCISCO DE PROENÇA.</h3>
+
+<p>É preciso virmos procural-o aos nossos ultimos annos.</p>
+
+<p>Em 1828 o homem não era ainda feito á similhança do typo, que mais o
+encantára, no romance.</p>
+
+<p>Depois de 1834, é que as bibliothecas de novellas entraram por aqui dentro a
+fecundar este chão bravio, como extravasantes do Nilo.</p>
+
+<p>Era necessario ser-se excentrico, desde o ventre materno, para ser romantico
+em 1828.</p>
+
+<p>Francisco de Proença representa a vanguarda dos descabellados em Portugal.</p>
+
+<p>Desde criança, merecêra pelas suas escaramuças sanguinarias aos coelhos, o
+cognome de «Attila de coelheira.»</p>
+
+<p>Em Coimbra, chamavam-lhe o <em>chevalier sans peur et sans reproche</em>.</p>
+
+<p>A sua principal mania era o brasão. Estava apparentado com as primeiras
+casas da monarchia, por um tal Egas, filho de Mem, neto de Fuas, e bisneto de
+Ruy que<span class="pn">{210}</span> acompanhára D. Henrique a Cárquere, a
+cumprir um voto d'uma perna torcida.</p>
+
+<p>Depois, e em consequencia d'esta mania, tinha um requinte de brios que lhe
+custou muito puxão d'orelha.</p>
+
+<p>Desafiava a espadão todo o mundo, e quiz mandar um cartel a um doutor
+octogenario que o reprovou em mathematica.</p>
+
+<p>Na primeira carta a um namoro que tivera assignava-se o <em>commendador
+Francisco de Proença</em>. A menina riu-se, e o fidalgo, no adro d'uma igreja,
+perguntou-lhe se os trabalhos da cozinha a não deixaram responder.</p>
+
+<p>Tinha destas cousas.</p>
+
+<p>Os seus bens de fortuna não eram o que elle precisava que fossem para
+sustentar o seu orgulho.</p>
+
+<p>Aceitou a mão da filha de seu padrasto, porque a paixão o acolheu de subito.
+Leocadia, com o seu desdém, pisára-lhe a soberba. Proença foi vencido pelo
+desprezo.</p>
+
+<p>Sua mãi, de mais a mais, dissera-lhe que Leocadia era a presumptiva herdeira
+de dous tios millionarios que tinha na America.</p>
+
+<p>O <em>dinheiro commercial</em> não lisongeava o fidalgo; todavia, esta
+repugnancia pôde vencel-a o amor.</p>
+
+<p>Casou, e não se póde dizer se tractou bem ou mal sua esposa. Estas
+differenças são as mulheres que as notam, e Leocadia recebia com tedio
+disfarçado as amabilidades de seu marido.</p>
+
+<p>Para o não detestar, tinha sempre entre si e elle a imagem de seu pai
+moribundo, e o crucifixo do juramento.</p>
+
+<p>Leocadia habituára-se a viver fóra do seu corpo... A alma voava livre onde a
+chamava a saudade; a materia era a victima sacrificada. Deste modo,
+affazer-se-hia ao captiveiro, sem sondar a indole d'um homem que a chamava sua.</p>
+
+<p>O traço, porém, mais caracteristico da indole romanesca de Francisco de
+Proença, vai descobril-o um infeliz acontecimento.<span class="pn">{211}</span></p>
+
+<p>Quando Leocadia sahia, encostada ao braço do capellão, o portal da quinta
+dos Maldonados, Francisco de Proença, vindo da caça, atravessava a azinhaga,
+assobiando aos perdigueiros.</p>
+
+<p>Leocadia presente-o, e quer esconder-se; mas era tarde. Proença pára
+estupefacto, e Leocadia pára tambem. O fidalgo, que não conhecia o padre,
+interroga-o:</p>
+
+<p>«Quem é o senhor?! Como se acha aqui a senhora?!</p>
+
+<p>O padre tartamudeou:</p>
+
+<p>&mdash;Eu sou capellão d'esta casa.</p>
+
+<p>«Que casa é essa?</p>
+
+<p>&mdash;De uma minha amiga&mdash;balbuciou Leocadia.</p>
+
+<p>«É admiravel que eu não conheça as amigas da senhora! Como se chama essa
+amiga?</p>
+
+<p>O padre, aterrado pelo olhar soberano de Proença, disse:</p>
+
+<p>&mdash;É a snr.ª D. Maria Maldonado.</p>
+
+<p>O cavalheiro fixou attentamente sua mulher. Leocadia não levantava os olhos
+do chão. A surpreza reduziu-a ao silencio, que confessa o crime, e é já em si
+um principio de penitencia.</p>
+
+<p>«Vamos, senhora!&mdash;disse Proença.</p>
+
+<p>Decorreram tres dias, sem que Leocadia visse seu marido. Procurou-o,
+deliberada a convencêl-o da sua innocencia com a sincera historia do seu amor
+áquelle homem. Proença soubera tudo de sua mãi, e furtava-se ao encontro com
+sua mulher.</p>
+
+<p>Ao quarto dia, Leocadia foi avisada, da parte de seu marido, que preparasse
+o seu bahú para viajar, com elle, no dia seguinte. Ella pediu uma entrevista a
+Francisco de Proença. Respondeu-se-lhe que lá fóra teriam sobejas occasiões.
+Replicou a infeliz que não podia, que estava muito doente. Disse-se-lhe que em
+toda a parte havia uma sepultura.</p>
+
+<p>A comitiva dos viajantes era unicamente Thereza. Esta criada convinha ás
+intenções do marido.<span class="pn">{212}</span></p>
+
+<p>Desembarcaram na Madeira. Durante a passagem, Leocadia nunca pôde prender a
+attenção de seu marido dous segundos.</p>
+
+<p>Quinze dias depois do desembarque, Francisco de Proença apresenta-se, pela
+primeira vez, em rigoroso lucto diante de sua mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Quem lhe morreu?!&mdash;perguntou ella.</p>
+
+<p>«A senhora!</p>
+
+<p>&mdash;Como?! está delirando!</p>
+
+<p>«Quem morreu foi minha mulher&mdash;» tornou elle com uma visagem ridiculamente
+tragica.</p>
+
+<p>&mdash;Pois se morri, eu vou morrer&mdash;disse ella com angelica mansidão&mdash;o Senhor
+receba a minha alma.</p>
+
+<p>«A sua alma condemnada ha-de continuar a existir n'um corpo impuro.</p>
+
+<p>&mdash;Não quero entender a injuria&mdash;disse ella com firmeza&mdash;Antes a morte.</p>
+
+<p>«Morreu para mim; mas ha-de viver para o remorso. Eu sou viuvo, senhora. Em
+Portugal ha-de saber-se que eu sou viuvo. A que foi mulher de Francisco de
+Proença, terá de hoje em diante outro nome. A senhora jámais dirá que eu sou
+seu marido: o punhal está sobre o seu seio esperando que essa palavra lhe passe
+os labios. Dou-lhe a vida, porque vejo o coronel moribundo que me supplica este
+heroismo...</p>
+
+<p>&mdash;E eu não aceito a graça&mdash;interrompeu Leocadia...</p>
+
+<p>«Pois então, ha-de supportal-a como castigo. A senhora tem uma mesada, para
+viver onde queira, com tanto que a sua companhia unica seja essa criada que foi
+de sua mãi. Tenho a generosidade de conceder-lh'a; mas, senhora, repare que eu
+vou mostrar em Portugal a certidão do seu obito. No dia em que me desmentir,
+matei-a!</p>
+
+<p>Leocadia pendeu a cabeça para o seio, e murmurou, sem lagrimas:<span
+class="pn">{213}</span></p>
+
+<p>&mdash;Como quizer, senhor. Agora deixe-me em paz.</p>
+
+<p>«Ainda não. Na provincia de Traz-os-Montes tenho um casal, situado entre
+quatro montanhas: Quer habital-o?</p>
+
+<p>&mdash;Sou sua escrava, senhor.</p>
+
+<p>«Sabe que de hora em diante perdeu o nome que tinha?</p>
+
+<p>&mdash;O que quizer, mas não posso ouvil-o.</p>
+
+<p>«Nem eu vêl-a mais; porque minha mulher morreu!»</p>
+
+<p>E retirou-se, solemne e sonoro nos passos, como a estatua de D. João
+Tenorio.</p>
+
+<p>Aqui está o que se chama um homem romantico e uma mulher desgraçada.<span
+class="pn">{214}</span></p>
+
+<h2>XVIII.</h2>
+
+<p>Se bem me lembro, já disse que Leocadia é o nome que a mulher de Francisco
+de Proença adoptou, desde a scena do anterior capitulo.</p>
+
+<p>No decurso do romance, conservei esse nome, e já agora conserva-lo-hei até
+final. Podéra ter-lhe dado pseudonimo; mas tão leal quero ser á verdade, que, a
+não poder, por melindre e respeito, dizer o seu verdadeiro nome, escrupulisei
+na invenção de outro.</p>
+
+<p>Leocadia, pois, sahiu da Madeira para Lisboa. No mesmo navio viera Francisco
+de Proença, que, em todo o tempo da viagem, não deu signal de ser ao menos
+relação de Leocadia. Sahiram para o Porto no primeiro hiate. D'aqui, D.
+Leocadia e Thereza foram para a provincia. O morgado de Sinfães appareceu-lhe
+na despedida. Terriveis e de eterna condemnação foram as suas palavras: «Vá,
+sombra da mulher morta! vá, e veja sempre diante de si o punhal, que lhe espera
+nos labios uma palavra só... o meu nome, o nome de seu marido viuvo!»</p>
+
+<p>A desgraçada quiz ajoelhar-se aos pés do seu verdugo.<span
+class="pn">{215}</span> Proença repelliu-a com um tregeito de escarneo e asco.</p>
+
+<p>Leocadia foi viver no casal de seu marido. Era uma habitação mal reparada,
+sumida entre quatro montanhas.</p>
+
+<p>Apenas chegou, foi recebida respeitosamente por um caseiro, que a reputava
+irmã bastarda, ou rapariga das affeições de seu amo solteiro. Leocadia
+perguntou a este homem porque estava a pedra de armas coberta de negro:
+respondeu o caseiro, se ella ignorava que tivesse morrido a esposa do fidalgo!
+Leocadia abraçou-se á criada, chorando, e disse: «É verdade... essa desgraçada
+morreu...»</p>
+
+<p>O caseiro reparou n'isto, e disse á mulher que havia o quer que era de
+historia nos modos da senhora que viera lá de por ahi abaixo.</p>
+
+<p>Leocadia entrou na cama, que lhe mostraram, e disse a Thereza que a sua
+ultima paragem antes da sepultura era alli.</p>
+
+<p>Foi um chorar d'ambas de cortar o coração aos caseiros, que as escutavam.</p>
+
+<p>Era rapido o deperecer de Leocadia. Não se erguia do leito, e pedia a Deus
+um paroxismo curto. O caseiro communicava para o Porto ao patrão o estado da
+senhora. Não recebia resposta.</p>
+
+<p>Um dia, porém, appareceu na aldêa um homem que procurava D. Leocadia, com
+ordem de Francisco de Proença. Este homem diz ser medico. Examina a enferma, e
+diz-lhe que, por ordem da pessoa que alli a domina, deve immediatamente entrar
+n'uma liteira com a sua criada; e acompanhal-o. Leocadia, quasi exanime,
+obedece, sem saber a quem, nem para que fim.</p>
+
+<p>A liteira, depois de sete dias de jornada, parou no alto de S. João da Foz,
+no sitio do Pastelleiro, onde eu, João Junior, encontrei Leocadia para ouvir de
+seus labios convulsos de gemidos essa historia triste, que eu tive a impiedade
+de conspurcar com algumas facecias de estragado gosto.<span
+class="pn">{216}</span></p>
+
+<p>O que ella me não contou é o que me disse Thereza, alguns annos depois,
+quando sua ama já era defunta, e o acaso m'a deparou n'um recolhimento, em uma
+villa de Traz-os-Montes.</p>
+
+<p>Attendam agora, que ahi vai pendurar-se o romance no prégo philosophico com
+que o intitulei: <small>DINHEIRO</small>. Vai-se tractar de dinheiro, leitoras
+espirituosas; prestem-me a sua benevola attenção.</p>
+
+<p>Uma tarde passava eu no Pastelleiro; sahiu-me ao encontro a caseira da
+quinta, e deu-me a triste nova de ter sahido, na madrugada d'aquelle dia, a
+senhora para não tornar. Um homem novo, acrescentou a caseira, viera buscal-a,
+e descera com ella pelo braço a escada, fallando-lhe com muito bom modo. Agora
+vou fallar de mim um pouco.</p>
+
+<p>Eu fiquei esthetica e plasticamente parvo!</p>
+
+<p>Quem seria o homem?! O marido, de certo, não, porque o marido, até ao dia em
+que falláramos, estava viuvo, e não tratava de resuscitar a mulher. Seria a
+historia lamuriante uma logração á minha boa fé?! Seria ella uma visionaria,
+uma douda, ou, peor que tudo, uma destas mulheres desabusadas que mangam dos
+poetas da minha força?</p>
+
+<p>É impossivel! Leocadia deve ser necessariamente um anjo! É o marido que a
+arrasta pelos cabellos ao cepo do martyrio. Alguem lhe disse que eu vinha aqui,
+e o malvado não comprehendeu que eu era o sacerdote da mais santa das amisades.</p>
+
+<p>E, no afôgo da minha saudade, embrenhei-me por aquella bouça que lá verdeja
+ao fundo, enchi meu coração de tenebrosas angustias, e pedi aos meus olhos o
+chorar do desafôgo.</p>
+
+<p>Inutil, inutil foi o meu rogar, porque a minha dôr era como o encravar do
+estilete que não sangra; eu tinha dentro o brazido do deserto, sem gotta de
+pranto; era uma<span class="pn">{217}</span> contricção de matar, uma abafação
+em que os pulmões, batendo contra o coração, pareciam espedaçar-se.</p>
+
+<p>E porque? É que eu amava muito aquella martyr, muito, com o amor tres vezes
+immaculado do poeta. Não esperava d'alli senão a religiosa affeição da victima
+paciente ao consolador que dera a sua vida inteira por um dia de ventura para
+ella. Mais nada; porém, este pouco é o ar, o tempo, a luz, a bemaventurança do
+desgraçado que encontrou na terra uma mulher como Leocadia, e uma paixão como a
+minha.</p>
+
+<p>Tu viste, saudosa Poncia, que pranto ardente arou as minhas faces, no estio
+da existencia!</p>
+
+<p>Nos tectos cavernosos do meu quartel reboaram longo tempo os eccos dos meus
+soluços.</p>
+
+<p>Os meus dentes cerraram-se, como os do condemnado nas trévas inferiores, e
+tres dias e tres noites a minha lingua não encanou o bolo alimenticio.</p>
+
+<p>A restea do sol de Setembro, mosqueando o taboado carunchoso do meu quarto,
+vinha pallida como a luz betuminosa dos infernos dantescos.</p>
+
+<p>A brisa da tarde nunca mais se retouçou louçã pelas corollas das boninas
+tremulas.</p>
+
+<p>Negra como a minha saudade, era negra a tunica funeraria de que a natureza
+se vestiu.</p>
+
+<p>Diz tu, ó Poncia, se me viste comer ou beber durante oito dias, contados da
+data em que a minha alma se despegou d'aquella alma gentil que se partiu do
+Pastelleiro.</p>
+
+<p>É verdade que passados esses oito dias, obedeci ao despotismo da natureza
+vegetativa, e ás instancias impertinentes da minha consternada Poncia.</p>
+
+<p>O resultado foi sinistro: sobre uma paixão calamitosa uma indigestão
+pertinaz!</p>
+
+<p>Convalesci com jejuns dignos d'um S. Simão Stelita, e depois... amei
+perdidamente uma tal Catharina... Isto é outra historia, que ha-de vir depois.
+Os meus continuados<span class="pn">{218}</span> amores tem sido para mim um
+systema de medicina, por que diz o grande poeta:</p>
+
+<blockquote>
+ Que o veneno espalhado pelas vêas<br>
+ Curam-no ás vezes asperas triagas. </blockquote>
+
+<p>Eu curo-me sempre assim. Em 1828 era eu mais hom&oelig;opatha que o proprio
+Hahnemann.<span class="pn">{219}</span></p>
+
+<h2>XIX.</h2>
+
+<p>Agora vai explicar-se tudo, e acaba-se o conto.</p>
+
+<p>É o caso:</p>
+
+<p>Lembre-se o leitor que o coronel Gervasio tinha dous irmãos ricos no Brazil,
+ambos solteiros. Estes homens negociavam em brilhantes, e, na ultima das suas
+excursões ao centro do imperio, foram assassinados por salteadores, deixando um
+grande capital sem testamento.</p>
+
+<p>Do Rio de Janeiro vieram logo averiguadores a Portugal para comprarem a
+opulenta herança. Souberam em Lisboa que os herdeiros proximos, o coronel, ou
+sua filha, tinham morrido sem successão.</p>
+
+<p>Francisco de Proença estava então no Porto, e mais d'um amigo lhe repetiu os
+pesames da fatal viuvez, que o privava d'alguns milhões.</p>
+
+<p>Aqui está o nosso homem em embaraços de uma terrivel originalidade, ao passo
+que uma chusma de parentes remotos de sua mulher se habilitam
+pressurosamente!</p>
+
+<p>A resurreição de Leocadia será possivel? A herança compensará a zombaria com
+que a sociedade vai entrar no segredo dos seus ridiculos brios?<span
+class="pn">{220}</span></p>
+
+<p>Não foi longo o interrogatorio que o tragico viuvo se fez. Feito o
+escrutinio, os votos a favor da resurreição tinham a maioria. Proença resolveu
+arrancar sua mulher dos limbos, e para isso mandou á provincia o medico e a
+liteira.</p>
+
+<p>Leocadia, como vimos, é conduzida ao Pastelleiro, e espera ahi tres mezes a
+primeira visita de seu marido, depois de ter assignado algumas procurações,
+cuja significação ella não entendeu. Francisco de Proença fôra a Lisboa tractar
+de habilitar sua mulher.</p>
+
+<p>Julgaram-no doudo porque a morte da filha do coronel era caso decidido para
+as relações de ambos; e como o viuvo teimava em affirmar que era casado,
+protestando apresentar sua mulher viva em presença de testemunhas que a
+conhecessem de vista, a opinião da justiça foi que viesse a Lisboa a supposta
+defunta, e ao mesmo tempo se averiguasse na ilha da Madeira se alli, em tal
+mez, d'aquelle anno de 1828, fallecera a mulher de Francisco de Proença.</p>
+
+<p>O estranho successo foi estimulo de estrondosas gargalhadas na capital.
+Havia grande ancia de conhecer o milagroso parvo, cujas anedoctas de Coimbra
+reviveram com salgadas ampliações.</p>
+
+<p>Os mais sisudos commentadores do estranho caso queriam, por amor da
+moralidade, que se devassasse o tumulo de Leocadia, e dissesse ella, visto que
+resuscitou, que morte fôra aquella de sete mezes, onde estivera, e de que
+supplicios viéra resgatal-a a herança de seus tios.</p>
+
+<p>O thaumaturgo não ousava apparecer na orda das suas relações. Ninguem, se o
+conhecia, podia encaral-o com os labios seriamente fechados. O apupado marido
+da mulher redeviva queria explicar a algum dos mais impertinentes averiguadores
+do mysterio, aquella especie de catalepsia de sete mezes, e então dizia:</p>
+
+<p>«Pensei que fôra deslealmente deshonrado por minha mulher. O meu coração
+cobriu-se de lucto, o punhal vingativo<span class="pn">{221}</span> pedia o
+sangue da perfida, mas o meu espirito era nobre de mais para sanccionar o
+assassinio d'uma debil mulher. Quiz matal-a moralmente, e dei-a por morta
+moralmente para mim. Fiz-lhe graça da existencia, para que o remorso lento me
+vingasse. Vesti-me de lucto, disse que minha mulher morrêra; e, se alguem me
+perguntasse particularidades da sua morte, eu responderia que uma campa a
+separava de mim. O que hoje faz rir a sociedade seria então recebido como um
+rasgo de heroismo na desgraça. Os maridos atraiçoados achariam em fim a
+condigna penitencia da perfidia.</p>
+
+<p>&mdash;Mas...&mdash;alguem lhe disse&mdash;tua mulher estava innocente?</p>
+
+<p>A esta pergunta indiscreta Francisco de Proença titubeava, e não sabia se
+lhe convinha decidir-se pela absoluta innocencia de Leocadia.</p>
+
+<p>Lá se aveio como pôde com os importunos, até que um dia appareceu com sua
+mulher resuscitada, e encartada no nome e appellidos que teve quando foi
+viva.</p>
+
+<p>A presença desta pobre senhora foi, só em si, uma accusação contra seu
+marido. A desgraçada, quando lhe perguntaram, diante de testemunhas, se era
+mulher de Francisco de Proença, respondeu:</p>
+
+<p>«Dizem que sou.»</p>
+
+<p>&mdash;E a senhora não diz o mesmo?</p>
+
+<p>«Eu sou viuva» tornou ella.</p>
+
+<p>&mdash;Então qual dos senhores é viuvo? É original a mania d'ambos&mdash;replicou o
+jurisperito, rindo com os circumstantes, em quanto as lagrimas da herdeira
+millionaria lhe desciam na face purpurina de pejo.</p>
+<hr class="dotted">
+
+<p>Não me souberam contar o resto.</p>
+
+<p>O que eu sei é que cinco mezes depois recebi uma carta datada em Londres.</p>
+
+<p>Resava assim:<span class="pn">{222}</span></p>
+
+<p>«Prometti-lhe uma palavra: ella ahi vai: <small>E MORRO</small>.
+Chore-me.»</p>
+
+<p class="direita"><em>Leocadia.</em></p>
+
+<p>&nbsp;</p>
+
+<p>Em 1834 Francisco de Proença veio a Portugal. Viajára seis annos, e vinha
+casado, em segundas nupcias, ou terceiras, dizia alguem com a filha d'um
+correeiro de Manchester.</p>
+
+<p>Está vivo, e velho como eu.</p>
+
+<p>Acabou-se a historia.</p>
+
+<p style="text-align:center;">FIM.<span class="pn">{223}</span></p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Scenas da Foz, by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS DA FOZ ***
+
+***** This file should be named 28310-h.htm or 28310-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/2/8/3/1/28310/
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
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+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
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+
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #28310 (https://www.gutenberg.org/ebooks/28310)