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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/27689-8.txt b/27689-8.txt new file mode 100644 index 0000000..6ad515a --- /dev/null +++ b/27689-8.txt @@ -0,0 +1,1209 @@ +The Project Gutenberg EBook of Jaime de Magalhães Lima, by José Agostinho + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Jaime de Magalhães Lima + +Author: José Agostinho + +Release Date: January 3, 2009 [EBook #27689] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK JAIME DE MAGALHÃES LIMA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização +disponibilizada pela bibRIA. + + + + + + +OS NOSSOS ESCRITORES + +VI + +JAIME DE MAGALHÃES LIMA + +POR + +JOSÉ AGOSTINHO + + + +CASA EDITORA +DE +ANTONIO FIGUEIRINHAS +1911 + +Deposito Geral: +LIVRARIA PORTUENSE, de Lopes & C.ª Suc.or +119, Rua do Almada, 123 +PORTO + + + + +OS NOSSOS ESCRITORES + +VI + + +Comp. e imp.--Typ. Universal +de Figueirinhas & C.ª +Rua das Oliveiras, 75--Porto + + + + +OS NOSSOS ESCRITORES + +VI + +JAIME DE MAGALHÃES LIMA + +POR + +JOSÉ AGOSTINHO + + + +CASA EDITORA +DE +ANTONIO FIGUEIRINHAS +1911 + +Deposito Geral: +LIVRARIA PORTUENSE, de Lopes & C.ª Suc.or +119, Rua do Almada, 123 +PORTO + + + + +SUMARIO + + +Uma monstruosidade do Passado--A Meza Censória--Torquemada e Escobar--A +critica com o constitucionalismo--Como a Meza Censoria persiste--A +hypocrisia--Que critica a Republica recebe das mãos da Monarquia--O que +ela é, em geral--Como ha de haver Arte livre?--Como ha de haver +escritores e editores?--Os unicos trabalhadores livres--O faciosiamo na +politica e nas letras--José Caldas e Joaquim Costa--Emilio Littré e +Augusto Comte--Madame Comte e Clotilde de Vaux--Uma liberdade que a +Republica tem de conquistar--O heroismo português--Trabalhadores +independentes--Verdades sobre Garrett--Verdadeiros +livres-pensadores--Camilo, Inacio Pizarro, Pedro de Lima, Jorge Artur, +Hamilton, J. A. Vieira, S. Dias, A. da Costa, A. T. da Silva Leitão e +Castro, P. da Cunha, J. de Lemos, A. da Conceição, Guilherme +d'Azevedo--Os Magalhães Lima--O dr. Sebastião de Magalhães Lima--Jaime +Lima e o seu refugio--A sua vida moral e mental--Ideias de Malebranche, +Pascal, Moutesquieu, Guyau, Amiel e Fouillée--Constant Martha e Lucrecio +e Epicuro--Jesus-Cristo e Tolstoi--A Terra--Impopularidade +voluntaria--Heroismo perfeito--Filósofo na poesia, sociólogo no romance, +pensador na crítica--_Apostolos da Terra_--Amostras de estilo--_Via +Redentora_--_Vozes do meu lar_--Um belo excerto--Eduardo +Schuré--Defeitos--Melchior de Vogüé--O que seria desejavel na obra de J. +de M. Lima--O romancista--Superioridade notavel--Julio Dinis e Camilo--A +unica lei duravel da estetica positivista--Uma animação de +Lessing--Lessing e Winchelmann--A influencia de Platão e do pintor +Oeser--J. de M. Lima e Balzac, Victor Hugo, Flaubert e Tolstoi--Eça de +Queiroz e Julio Dinis--O romance _Na paz do Senhor_--Qualidades +excelentes--Nem Pangloss nem Baudelaire--Tipos verdadeiros--Os romances +_No Reino da Saudade_ e _Sonho de Perfeição_--Verdadeiros modelos--O +critico--_Menor e servo S. Francisco d'Assis_--Esquecimento das obras de +Prudenzano e Pardo Bazan--Guerra Junqueiro--Leonardo +Coimbra--Superioridade de J. M. de Lima--_Alexandre Herculano_ e _José +Estevão_--Nem Planche nem Sainte-Beuve--Balzac e Werdet--Alfredo de +Vigny--José Estevão, Danton, Robespierre, Lamartine e +Mirabeau--Fernandes Tomás e A. José d'Almeida--A conclusão dum belo +livro--Serenidade nos processos criticos--Porque destacamos a figura de +J. de Magalhães Lima. + + + + +Uma das monstruosidades do passado, e ainda com predominio no presente, +é a escravidão da conciencia. Horror e vergonha da Humanidade, foi Meza +Censoria, depois de ser cátedra e pulpito, fogueira e pôtro, fôrca e +anátema. + +Julgou sempre sem autoridade de juís, porque foi sempre verdugo. Nunca +pôde ser lei pura, porque foi sempre suplicio e ignominia, patibulo. + +Para cometer o seu crime com prestigio, com absolvição plena dos seus +rancores, abrigou-se em todos os refugios sagrados e vestiu todas as +túnicas luminosas: a túnica de Jesus-Cristo, a pretexta de Catão, o +manto de Sócrates. + +Tudo lhe serviu para armadura, escudo, auréola e máscara. + +Entre nós, como em toda a Europa, esse monstro alapardou-se na rigidês +da ortodoxia intolerante que apedrejou Fénelon, e mordeu o calcanhar +branco de S. Francisco d'Assis. Deu a Torquemada o báculo do pescador +Pedro e a Escobar o principado de S. Francisco Xavier. Ululou, queimou, +deturpou, assolou, enxertando a alma negra de Atila na haste aromal do +Evangelho, voz e guia da Humanidade em jornada. + +Veio, entretanto, a Liberdade no constitucionalismo. Como vitoria? +Infelizmente mais como vingança do que como evolução. As verdadeiras +vitorias não se vingam: destróem, mas construindo. A liberdade do +constitucionalismo foi principalmente represalia e assim a velha +intolerancia não se extinguiu: deslocou-se, dissimulada, cavilosa. + +Extinguiram a Meza Censoria? Decerto, mas não se extinguiu o espirito do +faciosismo, meza censoria latente e multipla que perpetra os mesmos +crimes contra a liberdade do pensamento e do sentimento. + +O regimen constitucional opôs á intolerancia a intolerancia, ao odio o +odio, ao despotismo sanguinolento, odioso em suplicios fisicos, a +tirania da opinião preconceituosa sobre todo o trabalho mental. + +E esta com um involucro repugnante: a hipocrisia. Todos são livres de +opinião! clamaram os caudilhos de Mousinho da Silveira. Entretanto, quem +ficáva deveras livre era só a opinião dos dirigentes do regimen. + +Divergir corajosamente dela era o escandalo. Se a obra intelètual não +ficava suprimida de direito, ficava-o de facto, tão excomungada, tão +deprimida, que ninguem a lia. + +Esta tirania mental e moral criou entre nós a critica, como da Monarquia +a acaba de receber a joven Republica. + +Os atuais governantes já a devem ter lobrigado no seu antro, onde +esperamos que a hão de sanear. Diz-se liberal e é absolutista. Diz-se +justiceira e é pessoalista e sètaria. Apregôa independencia, e acarinha +apenas vaidades individuais. Guia-se pela influencia dos habilidosos e +audazes. Flagela os cabotinos e, afinal, para alcandorar muitos deles, +ou desdenha dos honestos, ou beneficia estes com epítetos de +misericordia, que são afrontas flagrantes, ignobeis. + +Não tem, não póde ter, meios termos: ou turibulo ou chicote. Não arranca +das trevas um desconhecido de merito, mas arraza de lentejoilas muitos +nulos. + +E, entretanto, todos se queixam de que a nossa literatura e a nossa arte +tombam em decadencia. + +Mas, porque não, se Portugal se tem regido sempre pela peor tirania, +pela adulteração da Liberdade? + +Como querem Arte livre sem critica livre? Como querem os escritores e os +editores que o publico leia, se os poucos não analfabetos do país, em +vez de lêrem _tudo para discutir tudo_, ainda têm diante dos olhos o seu +_Index_ conforme o partidarismo apaixonado que os domina? + +Quem ha de trabalhar num _meio_ assim? O verdadeiro trabalhador? Mas +esse não procura nunca os criticos vulgares. Procurá-los é confessar +baixeza, é ter até de oferecer deprimidamente jantares ou ceias, ou +joias, a troco de elogios, é renegar implicitamente toda a ciencia e +filosofia moderna, toda a razão e toda a fé e sentimento; é aceitar um +qualquer partidarismo intolerante; é pôr a Arte debaixo da tutela de +qualquer efemero fetiche; é condenar-se a ser escravo do erro, se ele +domina, ou da paixão se ela triunfa. + +Ficam, pois, só vitoriosos e livres os maus trabalhadores, os que não +têm sinceridade, os que não têm principios. + +Em vão a Ciencia e a Razão lhes dizem que a Republica, por exemplo, em +todas as suas demolições é compativel com todos os grandes principios, +até com os dum elevado espiritualismo; que se póde ser cristão e ser +democrata, obrigando o Estado a separar-se da Egreja dentro da justiça +pura; clamando ao atual governo que não páre, que êrga o verdadeiro +edificio da liberdade, que vá, pouco a pouco, demolindo e construindo, +dando golpes energicos á Burguezia da agiotagem e erguendo os humildes, +o Povo, dentro da conciencia desoprimida. + +Eles não ouvem, nem pódem ouvir, tanto na vida politica como na vida +artistica. Convém-lhes perturbar. Merece-lhes todo o apoio o Capitalismo +que exploram. O que os preocupa é vencer depressa. Nunca é um ideal, +porque este, quando sincero, é feito de toda a justiça, dentro de toda a +austera tolerancia. O que os atrai é a popularidade e ela, embora mais +tarde por vezes de nada sirva, lisongeia agora o amor-proprio de quem +nem possue talento nem caráter, de quem não é democrata se não para +poder ser plutocrata. + +E estes séticos de hontem e acomodaticios de hoje é que fazem a Critica +contemporanea, raras vezes digna. Vemos que elogia ignobilmente, e +incondicionalmente, só o correligionario, ás vêses de ha minutos, ou só +o que é audaz no pedir, ou só o que é habil no grangeio de amizades +entre plumitivos, ou o que, algumas vezes, encontra a peso de oiro uma +trombeta passiva e estrepitosa a aturdir a opinião, os ingenuos, os +simples e, emfim, por contagio, os proprios cultos e inteligentes! + +Onde está, pois, o lugar dos grandes e verdadeiros trabalhadores? + +Raras vezes aparece. Para o corajoso e liberrimo cristianismo de José +Caldas lhe não negar a primasia de democrata, foi preciso que a +Republica tivesse dado o exemplo da sua gloriosa imparcialidade, +fazendo, do grande homem de letras, seu ministro em Roma. Assim, para +Joaquim Costa na Espanha, morrendo na velha fé, ter a apoteose admiravel +que foi o seu enterro, justiça triunfal a um lutador de sempre, foi +preciso que o partido republicano espanhol emudecesse os intolerantes +negros e escarlates com a luminosidade e generosidade da obra do +extinto, gloria peninsular e mundial. + +Mas, que admira, se na França Emilio Littré deprimiu, não ha muitos +anos, a progressão moral de Augusto Comte, favorecendo com azedumes e +sofismas o odio estreito da Madama que nunca perdoou ao marido o +predominio espiritual e as graças angelicas de Clotilde de Vaux? Não se +esqueceu então Littré do valor mental de Comte só porque supôs apostasia +sétaria o que era progressão psicológica? Poderemos nós ser superiores +ao amado _figurino_? + +Nada de estranhar é, pois, que tenhamos ainda, não já oficial, mas +sempre prepotente, uma perfeita e absurda Meza Censoria. + +D'aí esta decadencia mental e moral, toda reflètida na pequenês da +Critica. + + +D'aí um dos grandes problemas da liberdade a conquistar. Talvês a +Republica o venha a resolver lentamente, com profundas angustias +intimas, tão crueis como as de tantos que, na melhor das intenções, para +não excitarem os ódios dos cégos e dos furiosos, aparentam crer que a +politica póde impôr a fé ou o ceticismo religioso, a velha ciencia, ora +dogmatica ora metafisica no seu materialismo, ou a moderna, +essencialmente positivista, sim, mas porque não abre só os olhos da +Razão, e dá emfim liberdade cientifica e pura aos do Coração. + + * * * * * + +A boa alma portuguêsa, resplandesce de continuo em prodigios de +heroismo. E o heroismo em Portugal está em toda a parte. É condição +etnica. É atributo de povo celta, beijado de perto pelo mar profundo e +carinhoso. + +Apezar de a nossa critica ter raras conciencias livres, houve sempre, e +ainda ha, trabalhadores intelètuais que sofrem pelo seu ideal sem +transigencia com o flagelo da impopularidade. Nem todos se bandeiam com +os favores da opinião desvairada. Nem todos procuram na politica, além +dum talher, um carimbo com esplendor de corôa. Ha ainda alguns que não +perdoam a Garrett elogiar-se a si proprio nas gazetas, e que, só porque +ele foi orador primoroso, homem do mundo, legislador feliz, não vão +negar que o _Arco de Santana_ é mediocre, que as suas poesias liricas +nunca excedem as de Soares de Passos, Simões Dias e João de Deus, e que, +se não fôra o seu destaque politico, a beleza lapidar do _Fr. Luis de +Sousa_, da _D. Branca_, das _Viagens_ e do _Camões_, não teria encantado +tanto aquêles mesmos que não viram no feroz Padre Macedo, caceteiro +torvo de D. Miguel, o primeiro poeta didático de Portugal e da +Peninsula. + +Ha muitos ainda que não descem á construção astuta da sua imortalidade, +pondo-se á frente de todos os movimentos com probabilidades maiores de +vitoria, vestindo-se de apostolos e de leões, segundo o lance, ora +usando óculos de profeta, ora vestindo mantos de senadores com um +rochedo de Patmos á mão direita. + +Por Deus, que ainda ha, e haverá sempre, em Portugal verdadeiros +livres-pensadores e por isso heroicos, sem reclamo na sua abnegação e +laboriosidade intrepida. + +Anulam-nos? Respondem, trabalhando. Morrem ignorados na liça, ou +sistematicamente deslembrados? A sua agonia é um sorriso; a sua +resignação ilumina as gerações porvindoiras, e dessa luz vem a mais +tarde a justiça inteira. + +Assim sucedeu ao próprio Shakespeare, esquecido durante dois seculos. +Assim, entre nós, sucedeu ao cronista Brandão que Alexandre Herculano +rehabilitou. + +Assim foi visto, em plena gloria de Garrett, aquele alto poeta, que +Camilo festejou, Inacio Pizarro de Morais Sarmento, tão companheiro no +olvido--sempre temporario dentro da justiça dos povos--de Pedro de Lima, +de Jorge Artur, de Hamilton, de José Augusto Vieira, de Simões Dias, de +Antonio da Costa, de Antonio Tomaz da Silva Leitão e Castro, de Pereira +da Cunha, de João de Lemos, de Alexandre da Conceição, de Guilherme de +Azevedo, e de tantos, por vezes suplantados por homens muito menores. + +E, atualmente, não sabemos doutro mais elevado de intelèto, mais +verdadeiramente pensador e artista, do que Jaime de Magalhães Lima. + +Quem é? + +Ninguem em Portugal desconhece os Magalhães Lima. Um velho austero e +popularissimo em Aveiro usou esse nome, legando-o a dois homens +singulares de meritos, a dois irmãos: Sebastião e Jaime. + +O primeiro entregou-se á onda do povo, dominando, arrastando por vezes +os espiritos com um verbo ora romantico, ora rigido, talvez intolerante, +mas talvez no intimo cortado de duvidas profundas. Expandiu-se +brilhantemente no jornal, no opusculo, algumas vezes no livro. Galgando +as fronteiras, bebeu no estranjeiro as sinteses mais sedutoras e novas, +propagou-as com valor, com fé, com tenacidade, deu-se com elas todo á +politica, fez-se combate e a seguir meditação para voltar a ser luta, +ora quebrantada de melancolia, ora amargurada de deceções. + +É evidente que esse homem teve logicamente a popularidade que, afinal, +nunca mendigou. Não a evitou, embora não a suplicando. Não a desamou, +embora pedindo-lhe por vezes ou mais justiça ou mais cordura. + +Jaime ficou no seu lar e no seu jardim, ao pé das suas flores e das suas +brumas. Como? Egoistamente? Fruindo a fortuna, o prestigio paterno, o +renome do irmão, o livre amor da Arte? Responde por nós Sebastião de +Magalhães Lima, numa tarde melancolica, nevoenta como uma utopia, dentro +do seu pequenino gabinete da _Vanguarda_: + +--Quem me dera ter a elevação mental e moral de meu irmão Jaime! + +Eis uma definição alta e independente, digna como a Justiça sem mácula. + +Jaime de Magalhães Lima refugiava-se: não fugia da luta. Do refugio, fez +o estudo; fez a conciencia. Leu ali tudo, ouviu todos, e depois ouviu-se +a si mesmo dentro de toda a liberdade. Tutela mental não a aceitou a +ninguem; se a procurou mais tarde, foi porque a encontrou no caminho +como voz de conciencia alheia que concorda com a nossa. + +Não se esqueceu da frase de Malebranche: Todos pretendem ter razão, ao +seguirem afinal as sugestões dos seus sentidos. Compreendeu cêdo aquêle +perigo que apontou Pascal no imperio do amor-proprio, imperio que +significa o maior ódio á verdade, e viu, com o mesmo grande homem, que o +principio da moral é esforçarmo-nos sempre por pensar bem. + +Como literato, afês-se a ver a critica pelos canones suaves de +Montesquieu, mais tarde ampliados por Guyau e, entretanto, a sua alma +lavada avistava, e logo palpava, sem tortura, por livre intuição do +fundo da sua Arte, as verdades de Amiel quanto ao _ideal_ e ao _real_, +quanto ao cèticismo, pai seguro da tirania, por mais que êle prégue a +liberdade. Encontrou tão luminosos limites á teoria da _superioridade da +áção sobre o sonho_ do referido Guyau, valetudinario antes dos 30 ânos, +e morto aos 34, todo impelido sempre mentalmente pelo espirito de +Fouillée, como ensanchas generosas para a delicadeza de Constant Martha, +esse homem estranho que chegou a provar a religiosidade do poeta +Lucrecio e do proprio Epicuro. + +Nesta liberdade sã viu Jesus-Cristo no libertarismo genial de Tolstoi. +Compreendeu que, assim como a arte da Grecia é um alento na mais larga +vida da civilização cristã, assim a arte devida ao cristianismo palpita +na sociedade futura, trazendo já a vitoria do espiritualismo nas +lucubrações livremente experimentais da Ciencia. + +Entretanto, o seu refugio não lhe fês esquecer a Terra, _meio_ +indestrutivel das manifestações da sua alma, e amou-a, e cantou-a, e não +lhe negou um culto sadio e amoravel. + +Mas tudo isto não rogando favores do publico, nem os da bolsa nem os da +fama. + +Resignando-se com a relativa impopularidade duma obra profunda, +independente de faciosismos, livre de conveniencias estreitas. Não +procurando o plumitivo hiperbólico, o correligionario maleavel, o +agitador apoteótico, o reclâmo do amigo, a furia do inimigo, o escandalo +do indiferente, nada do que atrái atenções, do que provoca discussões, +do que escalda temperamentos. + +Tudo isto como um regato no ruido dos passos, embora como um grande rio +no poder de corrente. Tudo isto duma maneira silenciosa, ainda que +penetrante, como os bons arômas. + +E, nisto, vindo as cãs, e com elas a pureza maior, a elevação da +filosofia esoterica, a radiosidade da arte, a paz perfeita do coração, a +santidade e maior verdade da palavra, não veio a popularidade. + +Não admira. Ilogico seria o contrario. Tolstoi precisou de escandalizar +a Europa, embora involuntariamente, para se reconhecer como era um genio +moral e mental. Jaime de Magalhães Lima, avisado pelo exemplo do Mestre +do Caucaso, não póde ser precipitado na justiça pelo escandalo +involuntario sequer. A sua modestia, verdadeira a ponto de ser +excessiva, até desse destaque o afasta. Facilmente se vê quanto ha de +heroico na virtude perfeita, e o notavel escritor é dos poucos que ao +talento superior junta a virtude sincera. + + * * * * * + +Jaime de Magalhães Lima, com aquelas barbas de neve, com o olhar plácido +e franco dum velho cristão, vegetariano, simples em todos os habitos, é +um poeta-filosofo, um romancista-sociologo e um critico-pensador. + +Como poeta, não escolhe o verso: maneja com fulgor e nitidez uma prosa +opulenta e, ao mesmo tempo, substancial. A sua poesia é a sua fé no +maior amor de todos. Combativa? Sempre, mas porque é inabalavelmente +tolerante. A combatividade raivosa denuncia ou doença da alma ou +enfermidade pessima do caráter. Jaime de Magalhães Lima tem a saude +perfeita e tranquila no corpo e na conciencia. + +Quais os seus poêmas? Abramos um: _Apostolos da Terra_. É um rosario de +melodias doces e profundas á Natureza. Em cada melodia a emergencia duma +verdade, por vêses tão heroica que é a confissão duma culpa, só +insignificante aos olhos dos nulos. Mas isto numa enorme e solida +ciencia, como numa erudição rara. Isto, com um estilo original e +sincero, vernáculo e vivo, como o atestam as seguintes rápidas amostras. + +Na _Sede de Brancura_: «Tem sêde de brancura a nossa alma, de brancura +que corra como o sangue e seja casta como a madrugada. + +A neve, o diamante, aguas e nuvens são brancas, mas debalde lhes pedimos +que palpitem e ministrem comunhão na translucida essencia do seu brilho. + +Desliga-as do bater dos corações uma calma frieza sem piedade, como se +fôssem estranhas ao seu ritmo, ou passassem de longe, ignorando a +constante agitação d'amor que os faz pulsar». + +Na _Irmã do Mar_: «Misterio!... É bem salgado o mar e a seara é dôce. +Encerra o trigo a esperança de crescer, o latejar do sangue e do calor +que alimenta a beleza a mais gracil e a conciencia austera e redentora +na profunda expressão do seu poder. É corrosivo o mar e, destruindo, nem +ás pedras perdôa, desunindo a liga cristalina que se fês na pureza +sublimada d'altos fógos. E vivem ambos, a seára e o mar, na eterna +agitação do seu anceio!... Quem sabe?! Talvês sôfram ou se exaltem no +delirio do mesmo amor, sagrado por destino de quem sem êrro guia os sóes +e o mundo no triunfo divino da Harmonia». + +E o mesmo alto ideal, puro sentimento, e por vêses estudo de árduos +problemas, nos outros poêmas em prosa, _Via Redentora_ e _Vozes do meu +Lar_. No primeiro dêstes, e tambem para exemplo do estilo do notavel +escritor, bastam estes periodos do belo canto que é _A Enxada_: + +«O cavador ergueu-a novamente. Rompe o sol; sobre os carvalhos loirejou +fulgores; dissipa a treva na montanha; beija certamente a lamina polida; +e a enxada, em sagrada ancia de triunfo, inunda o arvorêdo e a seára de +clarões de estrêla. Batisou-a o fogo no rubor da forja, e deu-lhe a +pureza, diamantina voz, para entoar os cantos da luz celeste». + +Não ha aqui tanta espiritualidade moderna e sã como no melhor trabalho +de Eduardo Schuré? + +Não é aquêle estilo simples, limpido, espontaneo e, ao mesmo tempo, +magnifico de eufonia e graça? + +Comtudo, será o escritor sem defeitos? Não, até porque, como é +logar-comum dizer, os tiveram Milton, Dante e Camões. Por vêses, ha na +sua prosa poetica raptos que se esquecem demais de quem os póde ver. +Fógem demasiadamente do espirito dos mediocres, o que contradiz +involuntariamente, mas de facto, todo o seu generoso e completo amor aos +humildes. Neste ponto ha bastante da pecha principal de Melchior de +Vogue: aristocracia involuntaria dentro da elevação ardente duma Arte +que só pretende, afinal, fecundar a alma do Povo, porque até, não sendo +assim, seria descabida. + +D'aí, algumas obscuridades no estilo, raras, muito raras, dignas de +emenda, porém, e ainda o uso aqui e ali de epitetos eruditos, mas +gastos, crispados de sonoridade emfatica. + +Ás vezes, um mal grave--a como que convição de que mais escreve para si +proprio do que para o seu tempo e para a sua geração. + +E porisso, apezar de frequentemente cristalino, limpido, adoravel de +verdade, de sentimento de vida, nestes poêmas em prosa destôam a espaços +requintes preciosos, só acessiveis alguns aos espiritos altos e muito +cultos. Este defeito não aféta demais a obra no valor intrinseco: +priva-a de ser frutifera em toda a sua intensidade, o que é sempre +deploravel num _meio_ como o nosso, assim inculto, esteril, carecido de +verdadeiras obras. + +A filosofia de Jaime de Magalhães Lima reclamaria trabalhos de muito +graduada perfeição plastica, a começarem quase sem estilo, como quem +palestra com crianças e simples. Só assim este povo, tão atrazado e +desorientado, mas tão inteligente e bom, poderia, pouco a pouco, +perlibar o mel precioso, colher todo o dôce impulso da verdade livre, +compreendendo e vivendo o que a má fé certa de invejosos ou de sètarios +aponta com facilidade como arte egoista ou impenetravel, se não como +devaneio lunático. + +Já como romancista, o seu intento de dar o verdadeiro realismo lhe +inspira uma arte superior na comunicabilidade, uma fórma sempre +transparente e, comtudo, original. + +Os seus romances, depois dos de Julio Dinís e alguns de Camilo, são os +mais perfeitamente portuguêses da nossa literatura de ha 60 ânos. Não +são muito lidos. Nem por isso deixam de ser modelares. + +Jaime de Magalhães Lima entendeu, como poucos, o romance moderno, sem as +taras do excessivo romantismo, ou do excessivo realismo, inversão +positiva do primeiro. + +Espiritualista corajoso, muito superior, não desprezou a unica lei +duravel talvês da estetica positivista: «A Arte deriva do sentimento e +idealisa a realidade». + +A rigor, não poderia êle dizer como Lessing: «Se Deus tivesse a verdade +na sua mão direita e na esquerda o amor sempre inquieto da verdade, e me +dissesse:--Escolhe!--eu, ainda que me condenasse a enganar-me +eternamente, optaria pela esquerda. Pai--dir-lhe-ia eu--a verdade é só +para ti». Não. Jaime de Magalhães Lima não tem a febre da verdade, +porque a encontrou plenamente, e disso está convencido. Outra febre +sagrada o empolga: é a de ensinar a verdade que professa, ensiná-la na +doutrina e no exemplo. + +Falamos em Lessing, e o nome deste ingente torturado traz á memoria o do +critico Winckelmann, seu colaborador radioso na purificação e dignidade +maior da critica alemã. + +É que um e outro foram dois excessos, dois exageros combatentes e por +certo Jaime de Magalhães Lima, que tanto preza Carlyle, se apaixonou, +conhecendo o primeiro, pela orientação alegorista do segundo, todo +embebido na alma angelica de Platão, mas tambem muito tolhido pela +estetica exangue do pintor Oeser. Porém,--di-lo a sua obra--soube achar +o meio termo, como, especialmente no romance, pôs no seu logar Balzac e +Vitor Hugo, e saudou a magnificencia de Flaubert sem deixar de amar a +concisão espiritual de Tolstoi. + +Tendo esta pujança moral e mental, não se iludiu com o cinismo brilhante +de Eça, ora acrata ora aristocrata, nem se algemou na idealização, por +vêses excessiva, de Julio Dinís, embora este seja o nosso verdadeiro e +grande realista, o Maior dentro dos sentimentos nacionais. + +A prova do que afirmamos assim está em qualquer dos romances de Jaime de +Magalhães Lima. + +_Na Paz do Senhor._ A analise póde, a espaços, ter demasias, hoje +repelidas na morte plena do zolismo. + +Não demasias de crueza moral, mas de pormenores que já o Eça detestava +no fim da vida. + +Mas é rigorosa, metódica, pura. O _meio_ emerge inteiro e real, nosso. +Não é só o descritivo magistral e animado que o revela: são, +principalmente, os carateres e o enrêdo. + +O que não ha é o predominio pascóvio dos òtimismos á Pangloss +(degeneração do romantismo), nem os pessimismos sádicos dos Gourmont +(realismo triunfante). O meio é _real_, tem aspétos bons e maus, e a +moralidade, deixando os sermões, aliás brilhantes, da _Cabana do Pai +Tomás_, resulta lógica, sem vergonha de existir, sem medo de cair no +ridiculo. + +Tipos verdadeiros, excelentes: o Valadares, tão nosso, o Antonio +Carvalhaes--que a Republica vai ter pela prôa nas proximas +Constituintes--o Monteiro, o Mirandinha, o Frederico e o Prospero, este +mais vulgar do que os criticos imaginam. Realidades puras: a D. Rosa, o +Carlos de Macedo, o Duarte de Melo e a mulher, a Isabel e o seu +Basilio--nada parecido com o lustroso mandrião do Eça. A abnegação do +Frederico, principalmente, soberba de verdade. Não é um corruto, mas +tambem não é um santo. Não é um genio, mas tambem não é um espirito +mediocre. O seu sacrificio tem a nódoa dum egoismo, mas é humano dentro +duma conciencia iluminada. + +E no _Reino da Saudade_ e no _Sonho de Perfeição_, a mesma larga vida +concècional, o mesmo espirito de religiosidade cristã, mas purissima, +caratéres nitidos, descrições primorosas, noção profunda da vida +agricola, da burguesia-esponja, do preconceito-pôlvo, da paixão-álcool. + +Tudo assim, egual, perfeito, espontaneo, sem desmandos gritantes, sem +covardias morais, sem claudicancias do inteléto. E eis o que sobeja para +dar ao nosso romance um rumo seguro e radioso que na França, apezar dos +romances-poêmas e dos romances-sociais da escola hodierna, +espiritualista-positivista, ainda não foi traçado com gesto definitivo. +Mas esse rumo, se o não querem ver, ha de impôr-se. Se o árabe diz a +verdade, quando afirma _que os cães ladram, mas a caravana passa_, menos +se iludirá quem vaticinar caminho seguro á caravana, só porque coaxam +algumas rãs, chamando _desfastios_ aos _Contos do Natal_ de Candido de +Figueiredo, ou a qualquer deliciosa revelação da arte verdadeiramente +portuguêsa á qual Jaime de Magalhães Lima não dá só muito trabalho, como +muito talento e muita conciencia. + + * * * * * + +É lógico que mentalidade tão robusta e sentimento tão sincero dêm um +critico notavel. Tal o é Jaime de Magalhães Lima no livro e no jornal, e +com o esplendor dum eminente e livre sociólogo, dum democrata livre, +sincero, altissimo. + +Neste ponto, a nosso ver, a sua obra-prima é aquêle livro, cheio de +modestia e luz, d'amor e verdade, chamado _Servo e Menor S. Francisco +d'Assis_. Bem sabemos que o critico se inculca como simples decalcador +de Sabatier, como, de passagem, sabemos com estranheza que, lendo +Macdonell, Howel, Lechwer, etc., se esqueceu de Prudenzano e da amoravel +Pardo Bazan, nada despiciendos na psicologia admiravel do Patriarca mais +republicano da Egreja. + +Mas, em toda essa obra sadia e profunda, o seu espirito clarividente, +por mais que o oculte, surde com evidencia gloriosa. A narrativa de +honesto biógrafo denuncia a vida filosófica de quem a faz, e essa é por +vêses muito mais afim do espirito imaculado do Santo, modelo de +Democracia pura, do que o do proprio Sabatier, apezar de mentalidade +prodigiosa. + +Admiradores conhecidos de S. Francisco d'Assis são Guerra Junqueiro e +todos os modernos poetas de alma. Um orador brilhante, coragem real no +nosso _meio_, Leonardo Coimbra, rasgada democracia numa conciencia +livre, terá dito, ou poderá dizer-nos ainda, muito da elevação +cientifica que vive na espiritualidade do imortal revolucionario de +Assis. Nenhum, porém como Jaime de Magalhães Lima fês, do espirito do +Santo, o seu proprio espirito. + +Nenhum, pois, quanto a nós, póde exceder o valor modelar da sua critica +em assunto que é todo da sua alma, na crença convicta, no anceio intimo, +no aperfeiçoamento progressivo da bondade, vida livre e fecunda da sua +inteligencia e do seu coração. + +Estudando Alexandre Herculano e José Estevão, Jaime de Magalhães Lima +não pretende fazer estudos integrais. Colhe alguns aspétos, para ele +predominantes, e, como _vê_ sem preconceitos e tem uma linguagem nobre, +pura, original, deixa dois livros primorosos, perfeitos, completos. + +Não tem, não póde ter, a dureza rigida de Gustavo Planche. Este, como +dizia o justiçador de Balzac, Edmundo Werdet, era--egoista, de coração +de aço, de torso do Antinous, de pernas de argila, implacavel com tudo +que não fosse obra sua, de estilo corréto, mas seco e frio. + +Jaime de M. Lima é forte, mas tolerante, magestoso mas simples como os +patriarcas biblicos. + +Ninguem póde tambem esperar dele a venalidade de Sainte-Beuve, o seu +espirito de intriga, capaz de felonias como a que perpetrou com o enorme +poeta Alfredo de Vigny, o pessimista dolorido. + +A grande bondade de Jaime de M. Lima, genializada por uma intensa +paciencia, afastam-no da cólera, e a sua desambição perfeita livra-o por +completo de transigencias com o logar-comum e com o estrondo sètario. + +Assim, José Estevão é por êle rehabilitado contra os fanaticos de +qualquer campo. + +Não, o fogoso tribuno não foi Danton, vulcão, impeto cégo, catapulta +muitas vezes salpicada de sangue. + +Não foi, porém, Robespierre, razão fria, espiritualismo e egoismo, +astucia e fé em aliança assombrosa. + +Com o vigor do primeiro, não teve a sua impudencia: com o bom-senso do +segundo, não teve a sua hipocrisia. + +Foi muitas vezes Lamartine, até no pleno gosto artistico e no sonho, e +foi nos raptos bastante Mirabeau; um Mirabeau com a visão melhor da +moderna sociologia, e portanto sem a mascara disforme do +homem-tempestade. + +No fundo, a sua eloquencia era toda de bondade, como a de Fernandes +Tomás em 1820, como a de Antonio José de Almeida no nosso tempo. + +Se trovejava, os seus raios eram farois, não eram agentes de cega ruina. + +Parece esta a conclusão sintetica do belo trabalho de J. de Magalhães +Lima sobre José Estevão. + +A figura de Alexandre Herculano não a viu com a minucia, tantas vezes +arbitraria, de Taine; viu-a com a verdade ampla dum patriota e crente +que nunca esquece o que a patria e a fé representam na grandeza da +Humanidade. + +Assim, a conclusão do seu trabalho sobre o maior e mais austero vulto do +nosso romantismo deriva sem esforço, luminosa na sua singeleza, das +belas paginas em que estudou o grande escritor e grande +cidadão--_Alexandre Herculano_, diz, _a todos honrou igualmente, +engrandecendo-se e legando-nos um exemplo unico e supremo na historia do +povo português_. + +Dizer isto, depois de o provar sem estridor como sem desfalecimento de +fé, com vistas sempre originais e sinceras, num estilo belo, com +profundas noções cientificas em todos os aspétos encarados, significa +uma obra primacial, uma obra de eleição, e, na essencia, uma completa +obra de propaganda da Verdade Maior. + +Não aparece o lenhador, e sim o semeador. + +O machado e o bisturi trocam-se pela charrua paciente e pela luz do sol +sem nuvens. + +O critico não é a torrente cataduposa: é o rio poderoso, mas placido, +que nunca reflete nas aguas pedaço de céo que não seja amorosamente +azul. + +Mas, se o supondes lago apático, enganais-vos: a sua serenidade é cheia +de vida, e tanto que as suas aguas, porque são perfeitamente puras, são +adoravelmente limpidas. + +Ás vezes até, a profundidade da vida lhe dá murmurios de oceano: é o +salmo intenso das crenças perfeitas. + +É a Conciencia livre, a qual, por mais serena que se eleve, tem sempre +muito de Mar e como que de abismo. + +Compreende-se talvês agora como é que este crente é, afinal, um avançado +socialista, um ardente libertario. + +Como seu irmão Sebastião, procura a Patria Nova. A diferença está apenas +nos caminhos. + +Aquêle quis ver primeiro em terra o Trono que machadou durante 30 ânos. + +Jaime nunca se preocupou com as velharias do Passado. Sem as ferir +diretamente, rasgou com coragem e fé a verêda do Futuro e, parecendo +conservador, é o mais avançado revolucionario. + +Porisso a sua nobre tolerancia é o mais valente grito de guerra. + +Quem assim é tolerante tem a certeza de que o Erro cái de per si á +simples aparição de toda a Verdade. + + * * * * * + +Jaime de Magalhães Lima é talvês assim, visto como que num simples +instantaneo. + +Fotografado em todos os seus aspétos, seria o mesmo que pedir para êle +em vida uma estatua, mais justa do que a de alguns, nunca tão livres de +conciencia e honestos de verdadeira arte como este escritor, que é +notavel por isso mesmo que muitos teimam em não o notar. + +Nem o nosso caráter nem o dêle--e este muito menos--se comprazem com o +mais justificado fetichismo. + +Para êle, como para nós, a obra é valor da ideia e não do homem. + +O espirito hoje perfeito foi imperfeito, evolute, e, resplandescente +agora, tem ainda sêde de perfeição maior. Não ha grandes nem pequenos, +se não de momento. O verme de hoje ha de ser colosso ámanhã. O gigante +da atualidade foi anão nas trevas do passado. + +Apontar Jaime de Magalhães Lima dentro da justiça perfeita, não é, pois, +elogiar o individuo: é apelar para um belo manancial de ideias e +sentimentos de amor e verdade. + +Ha de um dia a literatura dar-lhe o lugar devido. Isso não nos preocupa. +O Futuro dignifica sempre o Passado. O que nos póde doer é que muitas +almas sequiosas desconheçam tão bela fonte de noções moraes e mentais e +se privem, por ingratidão mesquinha do _meio_, do pão artistico e +espiritual que uma obra tão superior, como a de Jaime de M. Lima, lhes +póde ministrar com grandes frutos para a Democracia e para a Verdade. + +Esse prejuizo causa horror. + +Estão secas as fontes verdadeiramente cristalinas da nossa Arte. Em vês +delas, superabundam chafarizes exóticos, canalisando e repuxando aguas +duvidosas. + +Quem desconhece o intoxicamento moral que elas semeiam? + +Quem não compreende que a nossa jóven Republica precisa de as vedar em +beneficio da boa saude da querida Patria Portuguesa? + + + + +Livraria Portuense, de Lopes & C.ª--Successor + +119, Rua do Almada, 123-PORTO + + +JOSÉ AGOSTINHO + +OS NOSSOS ESCRITORES: + + I--_Guerra Junqueiro_, 100 + II--_Teofilo Braga_, 100 + III--_José P. de Sampaio (Bruno)_, 100 + IV--_Jaime de Magalhães Lima_, 100 + +LUSIADAS, prefaciados, parafraseados, anotados, e com um vocabulario, +cada tomo ou canto, br. 150, enc. 250 + +LUSIADAS em 2 vol., br. 1$500, enc. 2$000 + +LUSIADAS em 1 grosso vol. os dez cantos, enc. 1$600 + +A MULHER EM PORTUGAL, br. 500, enc. 700 + +O HOMEM EM PORTUGAL, br. 600, enc. 800 + +O CAMINHO DAS LAGRIMAS (romance historico) br. 600, enc. 800 + +O PADRE ANTONIO (2.ª edição refundida) br. 400, enc. 600 + +POEMA DA PAZ, br. 400 + +MONSTRO, drama em verso, br. 400, enc. 600 + +DEFINIÇÕES--(verso), 200 + +As Noites do Avozinho--BELEZAS DA HISTORIA DE PORTUGAL, cada fasciculo, +broch. 100, enc. 250 + +FABULAS, (verso) br. 200, enc. 400 + +ALEXANDRE HERCULANO, br. 500, enc. 700 + +EÇA DE QUEIROZ (2.ª edição aumentada), br. 300, enc. 500 + + +D. ANTONIO DA COSTA + +HISTORIA DA INSTRUÇÃO POPULAR, 1 vol. br. 500 reis, e enc. 700 + +NO MINHO, 1 vol., br. 500 reis, enc. 700 + +TRES MUNDOS, br. 500 reis, enc. 700 + + +ALVARO DE MAGALHÃES + +O SECRETARIO, br. 500, enc. 700 + + + + + +End of Project Gutenberg's Jaime de Magalhães Lima, by José Agostinho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK JAIME DE MAGALHÃES LIMA *** + +***** This file should be named 27689-8.txt or 27689-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/7/6/8/27689/ + +Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização +disponibilizada pela bibRIA. + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Jaime de Magalhães Lima + +Author: José Agostinho + +Release Date: January 3, 2009 [EBook #27689] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK JAIME DE MAGALHÃES LIMA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano. A partir da digitalização +disponibilizada pela bibRIA. + + + + + + +</pre> + + +<div style="text-align: center; border: solid 2px #000000; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.5em;">OS NOSSOS ESCRITORES</p> +<hr style="width: 80%; border: 0; border-bottom: 2px solid #000000;"> +<hr style="width: 70%; border: 0; border-bottom: 2px solid #000000;"> +<p style="font-size: 1.2em;">VI</p> + +<p style="font-size: 2em;">JAIME de MAGALHÃES LIMA</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">JOSÉ AGOSTINHO</p> + +<p style="font-size: 3em;">*</p> + +<table style="width: 80%; font-size: small;" align="center" summary="Morada do editor"> +<tr><td width="50%" style="border-right: solid 1px #000000;"> +<p>CASA EDITORA<br> + +DE<br> + +ANTONIO FIGUEIRINHAS<br> + +1911</p> +</td> +<td> +<p>Deposito Geral:<br> + +LIVRARIA PORTUENSE, de Lopes & C.ª Suc.<sup>or</sup><br> + +119, Rua do Almada, 123<br> + +PORTO</p> +</td></tr> +</table> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p style="text-align:center;">OS NOSSOS ESCRITORES</p> + +<p style="text-align:center;">VI</p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<div style="font-size: 60%; margin-left: 50%; width: 50%;"> +<p style="text-align:center;">Comp. e imp.—Typ. Universal<br> +de Figueirinhas & C.ª<br> +Rua das Oliveiras, 75—Porto</p> +</div> + +<div style="text-align: center;"> +<p><img alt="Jaime de Magalhães Lima" src="images/jmlima.png"></p> + +<p>Jaime de Magalhães Lima</p> +</div> + +<div style="text-align: center; padding: 1em;"> +<p style="font-size: 1.5em;">OS NOSSOS ESCRITORES</p> +<hr style="width: 80%; border: 0; border-bottom: 2px solid #000000;"> +<hr style="width: 70%; border: 0; border-bottom: 2px solid #000000;"> +<p style="font-size: 1.2em;">VI</p> + +<p style="font-size: 2em;">JAIME de MAGALHÃES LIMA</p> + +<p>POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">JOSÉ AGOSTINHO</p> + +<p style="font-size: 3em;">*</p> + +<table style="width: 80%; font-size: small;" align="center" summary="Morada do editor"> +<tr><td width="50%" style="border-right: solid 1px #000000;"> +<p>CASA EDITORA<br> + +DE<br> + +ANTONIO FIGUEIRINHAS<br> + +1911</p> +</td> +<td> +<p>Deposito Geral:<br> + +LIVRARIA PORTUENSE, de Lopes & C.ª Suc.<sup>or</sup><br> + +119, Rua do Almada, 123<br> + +PORTO</p> +</td></tr> +</table> +</div> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<h2 style="text-align:center;">SUMARIO</h2> + +<p +style="margin-left: 1em; text-indent: -1em; font-size: small; text-align: justify;">Uma +monstruosidade do Passado—A Meza Censória—Torquemada e Escobar—A critica com +o constitucionalismo—Como a Meza Censoria persiste—A hypocrisia—Que critica +a Republica recebe das mãos da Monarquia—O que ela é, em geral—Como ha de +haver Arte livre?—Como ha de haver escritores e editores?—Os unicos +trabalhadores livres—O faciosiamo na politica e nas letras—José Caldas e +Joaquim Costa—Emilio Littré e Augusto Comte—Madame Comte e Clotilde de +Vaux—Uma liberdade que a Republica tem de conquistar—O heroismo +português—Trabalhadores independentes—Verdades sobre Garrett—Verdadeiros +livres-pensadores—Camilo, Inacio Pizarro, Pedro de Lima, Jorge Artur, +Hamilton, J. A. Vieira, S. Dias, A. da Costa, A. T. da Silva Leitão e Castro, +P. da Cunha, J. de Lemos, A. da Conceição, Guilherme d'Azevedo—Os Magalhães +Lima—O dr. Sebastião de Magalhães Lima—Jaime Lima e o seu refugio—A sua vida +moral e mental—Ideias de Malebranche, Pascal, Moutesquieu, Guyau, Amiel e +Fouillée—Constant Martha e Lucrecio e Epicuro—Jesus-Cristo e Tolstoi—A +Terra—Impopularidade voluntaria—Heroismo perfeito—Filósofo na poesia, +sociólogo no romance, pensador na crítica—<em>Apostolos da +Terra</em>—Amostras de estilo—<em>Via Redentora</em>—<em>Vozes do meu +lar</em>—Um belo excerto—Eduardo Schuré—Defeitos—Melchior de Vogüé—O que +seria desejavel na obra de J. de M. Lima—O romancista—Superioridade +notavel—Julio Dinis e Camilo—A unica lei duravel da estetica positivista—Uma +animação de Lessing—Lessing e Winchelmann—A influencia de Platão e do pintor +Oeser—J. de M. Lima e Balzac, Victor Hugo, Flaubert e Tolstoi—Eça de Queiroz +e Julio Dinis—O romance <em>Na paz do Senhor</em>—Qualidades excelentes—Nem +Pangloss nem Baudelaire—Tipos verdadeiros—Os romances <em>No Reino da +Saudade</em> e <em>Sonho de Perfeição</em>—Verdadeiros modelos—O +critico—<em>Menor e servo S. Francisco d'Assis</em>—Esquecimento das obras de +Prudenzano e Pardo Bazan—Guerra Junqueiro—Leonardo Coimbra—Superioridade de +J. M. de Lima—<em>Alexandre Herculano</em> e <em>José Estevão</em>—Nem +Planche nem Sainte-Beuve—Balzac e Werdet—Alfredo de Vigny—José Estevão, +Danton, Robespierre, Lamartine e Mirabeau—Fernandes Tomás e A. José +d'Almeida—A conclusão dum belo livro—Serenidade nos processos +criticos—Porque destacamos a figura de J. de Magalhães Lima.</p> + +<div id="corpo"> +<p><span class="pagenum">[7]</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p>Uma das monstruosidades do passado, e ainda com predominio no presente, é a +escravidão da conciencia. Horror e vergonha da Humanidade, foi Meza Censoria, +depois de ser cátedra e pulpito, fogueira e pôtro, fôrca e anátema.</p> + +<p>Julgou sempre sem autoridade de juís, porque foi sempre verdugo. Nunca pôde +ser lei pura, porque foi sempre suplicio e ignominia, patibulo.</p> + +<p>Para cometer o seu crime com prestigio, com absolvição plena dos seus +rancores, abrigou-se em todos os refugios sagrados e vestiu todas as túnicas +luminosas: a túnica de Jesus-Cristo, a pretexta de Catão, o manto de Sócrates. +</p> + +<p>Tudo lhe serviu para armadura, escudo, auréola e máscara.</p> + +<p>Entre nós, como em toda a Europa, esse monstro alapardou-se na rigidês da +ortodoxia intolerante que apedrejou Fénelon, e mordeu o calcanhar branco de S. +Francisco d'Assis. Deu a Torquemada o báculo do pescador Pedro e a Escobar o +principado de S. Francisco Xavier.<span class="pagenum">[8] </span>Ululou, +queimou, deturpou, assolou, enxertando a alma negra de Atila na haste aromal do +Evangelho, voz e guia da Humanidade em jornada.</p> + +<p>Veio, entretanto, a Liberdade no constitucionalismo. Como vitoria? +Infelizmente mais como vingança do que como evolução. As verdadeiras vitorias +não se vingam: destróem, mas construindo. A liberdade do constitucionalismo foi +principalmente represalia e assim a velha intolerancia não se extinguiu: +deslocou-se, dissimulada, cavilosa.</p> + +<p>Extinguiram a Meza Censoria? Decerto, mas não se extinguiu o espirito do +faciosismo, meza censoria latente e multipla que perpetra os mesmos crimes +contra a liberdade do pensamento e do sentimento.</p> + +<p>O regimen constitucional opôs á intolerancia a intolerancia, ao odio o odio, +ao despotismo sanguinolento, odioso em suplicios fisicos, a tirania da opinião +preconceituosa sobre todo o trabalho mental.</p> + +<p>E esta com um involucro repugnante: a hipocrisia. Todos são livres de +opinião! clamaram os caudilhos de Mousinho da Silveira. Entretanto, quem ficáva +deveras livre era só a opinião dos dirigentes do regimen.</p> + +<p>Divergir corajosamente dela era o escandalo. Se a obra intelètual não ficava +suprimida de direito, ficava-o de facto, tão excomungada, tão deprimida, que +ninguem a lia.<span class="pagenum">[9]</span></p> + +<p>Esta tirania mental e moral criou entre nós a critica, como da Monarquia a +acaba de receber a joven Republica.</p> + +<p>Os atuais governantes já a devem ter lobrigado no seu antro, onde esperamos +que a hão de sanear. Diz-se liberal e é absolutista. Diz-se justiceira e é +pessoalista e sètaria. Apregôa independencia, e acarinha apenas vaidades +individuais. Guia-se pela influencia dos habilidosos e audazes. Flagela os +cabotinos e, afinal, para alcandorar muitos deles, ou desdenha dos honestos, ou +beneficia estes com epítetos de misericordia, que são afrontas flagrantes, +ignobeis.</p> + +<p>Não tem, não póde ter, meios termos: ou turibulo ou chicote. Não arranca das +trevas um desconhecido de merito, mas arraza de lentejoilas muitos nulos.</p> + +<p>E, entretanto, todos se queixam de que a nossa literatura e a nossa arte +tombam em decadencia.</p> + +<p>Mas, porque não, se Portugal se tem regido sempre pela peor tirania, pela +adulteração da Liberdade?</p> + +<p>Como querem Arte livre sem critica livre? Como querem os escritores e os +editores que o publico leia, se os poucos não analfabetos do país, em vez de +lêrem <em>tudo para discutir tudo</em>, ainda têm diante dos olhos o seu +<em>Index</em> conforme o partidarismo apaixonado que os domina?<span +class="pagenum">[10]</span></p> + +<p>Quem ha de trabalhar num <em>meio</em> assim? O verdadeiro trabalhador? Mas +esse não procura nunca os criticos vulgares. Procurá-los é confessar baixeza, é +ter até de oferecer deprimidamente jantares ou ceias, ou joias, a troco de +elogios, é renegar implicitamente toda a ciencia e filosofia moderna, toda a +razão e toda a fé e sentimento; é aceitar um qualquer partidarismo intolerante; +é pôr a Arte debaixo da tutela de qualquer efemero fetiche; é condenar-se a ser +escravo do erro, se ele domina, ou da paixão se ela triunfa.</p> + +<p>Ficam, pois, só vitoriosos e livres os maus trabalhadores, os que não têm +sinceridade, os que não têm principios.</p> + +<p>Em vão a Ciencia e a Razão lhes dizem que a Republica, por exemplo, em todas +as suas demolições é compativel com todos os grandes principios, até com os dum +elevado espiritualismo; que se póde ser cristão e ser democrata, obrigando o +Estado a separar-se da Egreja dentro da justiça pura; clamando ao atual governo +que não páre, que êrga o verdadeiro edificio da liberdade, que vá, pouco a +pouco, demolindo e construindo, dando golpes energicos á Burguezia da agiotagem +e erguendo os humildes, o Povo, dentro da conciencia desoprimida.</p> + +<p>Eles não ouvem, nem pódem ouvir, tanto na vida politica como na vida +artistica. Convém-lhes perturbar. Merece-lhes todo o apoio o Capitalismo<span +class="pagenum">[11]</span> que exploram. O que os preocupa é vencer +depressa. Nunca é um ideal, porque este, quando sincero, é feito de toda a +justiça, dentro de toda a austera tolerancia. O que os atrai é a popularidade e +ela, embora mais tarde por vezes de nada sirva, lisongeia agora o amor-proprio +de quem nem possue talento nem caráter, de quem não é democrata se não para +poder ser plutocrata. </p> + +<p>E estes séticos de hontem e acomodaticios de hoje é que fazem a Critica +contemporanea, raras vezes digna. Vemos que elogia ignobilmente, e +incondicionalmente, só o correligionario, ás vêses de ha minutos, ou só o que é +audaz no pedir, ou só o que é habil no grangeio de amizades entre plumitivos, +ou o que, algumas vezes, encontra a peso de oiro uma trombeta passiva e +estrepitosa a aturdir a opinião, os ingenuos, os simples e, emfim, por +contagio, os proprios cultos e inteligentes!</p> + +<p>Onde está, pois, o lugar dos grandes e verdadeiros trabalhadores?</p> + +<p>Raras vezes aparece. Para o corajoso e liberrimo cristianismo de José Caldas +lhe não negar a primasia de democrata, foi preciso que a Republica tivesse dado +o exemplo da sua gloriosa imparcialidade, fazendo, do grande homem de letras, +seu ministro em Roma. Assim, para Joaquim Costa na Espanha, morrendo na velha +fé, ter a apoteose admiravel que foi o seu enterro, justiça<span +class="pagenum">[12]</span> triunfal a um lutador de sempre, foi preciso +que o partido republicano espanhol emudecesse os intolerantes negros e +escarlates com a luminosidade e generosidade da obra do extinto, gloria +peninsular e mundial.</p> + +<p>Mas, que admira, se na França Emilio Littré deprimiu, não ha muitos anos, a +progressão moral de Augusto Comte, favorecendo com azedumes e sofismas o odio +estreito da Madama que nunca perdoou ao marido o predominio espiritual e as +graças angelicas de Clotilde de Vaux? Não se esqueceu então Littré do valor +mental de Comte só porque supôs apostasia sétaria o que era progressão +psicológica? Poderemos nós ser superiores ao amado <em>figurino</em>?</p> + +<p>Nada de estranhar é, pois, que tenhamos ainda, não já oficial, mas sempre +prepotente, uma perfeita e absurda Meza Censoria.</p> + +<p>D'aí esta decadencia mental e moral, toda reflètida na pequenês da Critica. +</p> + +<p>D'aí um dos grandes problemas da liberdade a conquistar. Talvês a Republica +o venha a resolver lentamente, com profundas angustias intimas, tão crueis como +as de tantos que, na melhor das intenções, para não excitarem os ódios dos +cégos e dos furiosos, aparentam crer que a politica póde impôr a fé ou o +ceticismo religioso, a velha ciencia, ora dogmatica ora metafisica no seu +materialismo, ou a moderna, essencialmente<span class="pagenum">[13]</span> +positivista, sim, mas porque não abre só os olhos da Razão, e dá emfim +liberdade cientifica e pura aos do Coração.</p> + +<p style="text-align:center;">*</p> + +<p>A boa alma portuguêsa, resplandesce de continuo em prodigios de heroismo. E +o heroismo em Portugal está em toda a parte. É condição etnica. É atributo de +povo celta, beijado de perto pelo mar profundo e carinhoso.</p> + +<p>Apezar de a nossa critica ter raras conciencias livres, houve sempre, e +ainda ha, trabalhadores intelètuais que sofrem pelo seu ideal sem transigencia +com o flagelo da impopularidade. Nem todos se bandeiam com os favores da +opinião desvairada. Nem todos procuram na politica, além dum talher, um carimbo +com esplendor de corôa. Ha ainda alguns que não perdoam a Garrett elogiar-se a +si proprio nas gazetas, e que, só porque ele foi orador primoroso, homem do +mundo, legislador feliz, não vão negar que o <em>Arco de Santana</em> é +mediocre, que as suas poesias liricas nunca excedem as de Soares de Passos, +Simões Dias e João de Deus, e que, se não fôra o seu destaque politico, a +beleza lapidar do <em>Fr. Luis de Sousa</em>, da <em>D. Branca</em>, das +<em>Viagens</em> e do <em>Camões</em>, não teria encantado tanto aquêles +mesmos<span class="pagenum">[14]</span> que não viram no feroz Padre +Macedo, caceteiro torvo de D. Miguel, o primeiro poeta didático de Portugal e +da Peninsula.</p> + +<p>Ha muitos ainda que não descem á construção astuta da sua imortalidade, +pondo-se á frente de todos os movimentos com probabilidades maiores de vitoria, +vestindo-se de apostolos e de leões, segundo o lance, ora usando óculos de +profeta, ora vestindo mantos de senadores com um rochedo de Patmos á mão +direita.</p> + +<p>Por Deus, que ainda ha, e haverá sempre, em Portugal verdadeiros +livres-pensadores e por isso heroicos, sem reclamo na sua abnegação e +laboriosidade intrepida.</p> + +<p>Anulam-nos? Respondem, trabalhando. Morrem ignorados na liça, ou +sistematicamente deslembrados? A sua agonia é um sorriso; a sua resignação +ilumina as gerações porvindoiras, e dessa luz vem a mais tarde a justiça +inteira.</p> + +<p>Assim sucedeu ao próprio Shakespeare, esquecido durante dois seculos. Assim, +entre nós, sucedeu ao cronista Brandão que Alexandre Herculano rehabilitou.</p> + +<p>Assim foi visto, em plena gloria de Garrett, aquele alto poeta, que Camilo +festejou, Inacio Pizarro de Morais Sarmento, tão companheiro no olvido—sempre +temporario dentro da justiça dos povos—de Pedro de Lima, de Jorge Artur, de +Hamilton, de José Augusto Vieira, de Simões<span +class="pagenum">[15]</span> Dias, de Antonio da Costa, de Antonio Tomaz da +Silva Leitão e Castro, de Pereira da Cunha, de João de Lemos, de Alexandre da +Conceição, de Guilherme de Azevedo, e de tantos, por vezes suplantados por +homens muito menores.</p> + +<p>E, atualmente, não sabemos doutro mais elevado de intelèto, mais +verdadeiramente pensador e artista, do que Jaime de Magalhães Lima.</p> + +<p>Quem é?</p> + +<p>Ninguem em Portugal desconhece os Magalhães Lima. Um velho austero e +popularissimo em Aveiro usou esse nome, legando-o a dois homens singulares de +meritos, a dois irmãos: Sebastião e Jaime.</p> + +<p>O primeiro entregou-se á onda do povo, dominando, arrastando por vezes os +espiritos com um verbo ora romantico, ora rigido, talvez intolerante, mas +talvez no intimo cortado de duvidas profundas. Expandiu-se brilhantemente no +jornal, no opusculo, algumas vezes no livro. Galgando as fronteiras, bebeu no +estranjeiro as sinteses mais sedutoras e novas, propagou-as com valor, com fé, +com tenacidade, deu-se com elas todo á politica, fez-se combate e a seguir +meditação para voltar a ser luta, ora quebrantada de melancolia, ora amargurada +de deceções.</p> + +<p>É evidente que esse homem teve logicamente a popularidade que, afinal, nunca +mendigou. Não a evitou, embora não a suplicando.<span +class="pagenum">[16]</span> Não a desamou, embora pedindo-lhe por vezes ou +mais justiça ou mais cordura. </p> + +<p>Jaime ficou no seu lar e no seu jardim, ao pé das suas flores e das suas +brumas. Como? Egoistamente? Fruindo a fortuna, o prestigio paterno, o renome do +irmão, o livre amor da Arte? Responde por nós Sebastião de Magalhães Lima, numa +tarde melancolica, nevoenta como uma utopia, dentro do seu pequenino gabinete +da <em>Vanguarda</em>:</p> + +<p>—Quem me dera ter a elevação mental e moral de meu irmão Jaime!</p> + +<p>Eis uma definição alta e independente, digna como a Justiça sem mácula.</p> + +<p>Jaime de Magalhães Lima refugiava-se: não fugia da luta. Do refugio, fez o +estudo; fez a conciencia. Leu ali tudo, ouviu todos, e depois ouviu-se a si +mesmo dentro de toda a liberdade. Tutela mental não a aceitou a ninguem; se a +procurou mais tarde, foi porque a encontrou no caminho como voz de conciencia +alheia que concorda com a nossa.</p> + +<p>Não se esqueceu da frase de Malebranche: Todos pretendem ter razão, ao +seguirem afinal as sugestões dos seus sentidos. Compreendeu cêdo aquêle perigo +que apontou Pascal no imperio do amor-proprio, imperio que significa o maior +ódio á verdade, e viu, com o mesmo grande homem, que o principio da moral é +esforçarmo-nos sempre por pensar bem.<span class="pagenum">[17]</span></p> + +<p>Como literato, afês-se a ver a critica pelos canones suaves de Montesquieu, +mais tarde ampliados por Guyau e, entretanto, a sua alma lavada avistava, e +logo palpava, sem tortura, por livre intuição do fundo da sua Arte, as verdades +de Amiel quanto ao <em>ideal</em> e ao <em>real</em>, quanto ao cèticismo, pai +seguro da tirania, por mais que êle prégue a liberdade. Encontrou tão luminosos +limites á teoria da <em>superioridade da áção sobre o sonho</em> do referido +Guyau, valetudinario antes dos 30 ânos, e morto aos 34, todo impelido sempre +mentalmente pelo espirito de Fouillée, como ensanchas generosas para a +delicadeza de Constant Martha, esse homem estranho que chegou a provar a +religiosidade do poeta Lucrecio e do proprio Epicuro.</p> + +<p>Nesta liberdade sã viu Jesus-Cristo no libertarismo genial de Tolstoi. +Compreendeu que, assim como a arte da Grecia é um alento na mais larga vida da +civilização cristã, assim a arte devida ao cristianismo palpita na sociedade +futura, trazendo já a vitoria do espiritualismo nas lucubrações livremente +experimentais da Ciencia.</p> + +<p>Entretanto, o seu refugio não lhe fês esquecer a Terra, <em>meio</em> +indestrutivel das manifestações da sua alma, e amou-a, e cantou-a, e não lhe +negou um culto sadio e amoravel.</p> + +<p>Mas tudo isto não rogando favores do publico, nem os da bolsa nem os da +fama.<span class="pagenum">[18]</span></p> + +<p>Resignando-se com a relativa impopularidade duma obra profunda, independente +de faciosismos, livre de conveniencias estreitas. Não procurando o plumitivo +hiperbólico, o correligionario maleavel, o agitador apoteótico, o reclâmo do +amigo, a furia do inimigo, o escandalo do indiferente, nada do que atrái +atenções, do que provoca discussões, do que escalda temperamentos.</p> + +<p>Tudo isto como um regato no ruido dos passos, embora como um grande rio no +poder de corrente. Tudo isto duma maneira silenciosa, ainda que penetrante, +como os bons arômas.</p> + +<p>E, nisto, vindo as cãs, e com elas a pureza maior, a elevação da filosofia +esoterica, a radiosidade da arte, a paz perfeita do coração, a santidade e +maior verdade da palavra, não veio a popularidade.</p> + +<p>Não admira. Ilogico seria o contrario. Tolstoi precisou de escandalizar a +Europa, embora involuntariamente, para se reconhecer como era um genio moral e +mental. Jaime de Magalhães Lima, avisado pelo exemplo do Mestre do Caucaso, não +póde ser precipitado na justiça pelo escandalo involuntario sequer. A sua +modestia, verdadeira a ponto de ser excessiva, até desse destaque o afasta. +Facilmente se vê quanto ha de heroico na virtude perfeita, e o notavel escritor +é dos poucos que ao talento superior junta a virtude sincera.<span +class="pagenum">[19]</span></p> + +<p style="text-align:center;">*</p> + +<p>Jaime de Magalhães Lima, com aquelas barbas de neve, com o olhar plácido e +franco dum velho cristão, vegetariano, simples em todos os habitos, é um +poeta-filosofo, um romancista-sociologo e um critico-pensador.</p> + +<p>Como poeta, não escolhe o verso: maneja com fulgor e nitidez uma prosa +opulenta e, ao mesmo tempo, substancial. A sua poesia é a sua fé no maior amor +de todos. Combativa? Sempre, mas porque é inabalavelmente tolerante. A +combatividade raivosa denuncia ou doença da alma ou enfermidade pessima do +caráter. Jaime de Magalhães Lima tem a saude perfeita e tranquila no corpo e na +conciencia.</p> + +<p>Quais os seus poêmas? Abramos um: <em>Apostolos da Terra</em>. É um rosario +de melodias doces e profundas á Natureza. Em cada melodia a emergencia duma +verdade, por vêses tão heroica que é a confissão duma culpa, só insignificante +aos olhos dos nulos. Mas isto numa enorme e solida ciencia, como numa erudição +rara. Isto, com um estilo original e sincero, vernáculo e vivo, como o atestam +as seguintes rápidas amostras.</p> + +<p>Na <em>Sede de Brancura</em>: «Tem sêde de brancura a nossa alma, de +brancura que corra como o sangue e seja casta como a madrugada.<span +class="pagenum">[20]</span></p> + +<p>A neve, o diamante, aguas e nuvens são brancas, mas debalde lhes pedimos que +palpitem e ministrem comunhão na translucida essencia do seu brilho.</p> + +<p>Desliga-as do bater dos corações uma calma frieza sem piedade, como se +fôssem estranhas ao seu ritmo, ou passassem de longe, ignorando a constante +agitação d'amor que os faz pulsar».</p> + +<p>Na <em>Irmã do Mar</em>: «Misterio!... É bem salgado o mar e a seara é dôce. +Encerra o trigo a esperança de crescer, o latejar do sangue e do calor que +alimenta a beleza a mais gracil e a conciencia austera e redentora na profunda +expressão do seu poder. É corrosivo o mar e, destruindo, nem ás pedras perdôa, +desunindo a liga cristalina que se fês na pureza sublimada d'altos fógos. E +vivem ambos, a seára e o mar, na eterna agitação do seu anceio!... Quem sabe?! +Talvês sôfram ou se exaltem no delirio do mesmo amor, sagrado por destino de +quem sem êrro guia os sóes e o mundo no triunfo divino da Harmonia».</p> + +<p>E o mesmo alto ideal, puro sentimento, e por vêses estudo de árduos +problemas, nos outros poêmas em prosa, <em>Via Redentora</em> e <em>Vozes do +meu Lar</em>. No primeiro dêstes, e tambem para exemplo do estilo do notavel +escritor, bastam estes periodos do belo canto que é <em>A Enxada</em>:</p> + +<p>«O cavador ergueu-a novamente. Rompe o sol; sobre os carvalhos loirejou +fulgores; dissipa<span class="pagenum">[21]</span> a treva na montanha; +beija certamente a lamina polida; e a enxada, em sagrada ancia de triunfo, +inunda o arvorêdo e a seára de clarões de estrêla. Batisou-a o fogo no rubor da +forja, e deu-lhe a pureza, diamantina voz, para entoar os cantos da luz +celeste».</p> + +<p>Não ha aqui tanta espiritualidade moderna e sã como no melhor trabalho de +Eduardo Schuré?</p> + +<p>Não é aquêle estilo simples, limpido, espontaneo e, ao mesmo tempo, +magnifico de eufonia e graça?</p> + +<p>Comtudo, será o escritor sem defeitos? Não, até porque, como é logar-comum +dizer, os tiveram Milton, Dante e Camões. Por vêses, ha na sua prosa poetica +raptos que se esquecem demais de quem os póde ver. Fógem demasiadamente do +espirito dos mediocres, o que contradiz involuntariamente, mas de facto, todo o +seu generoso e completo amor aos humildes. Neste ponto ha bastante da pecha +principal de Melchior de Vogue: aristocracia involuntaria dentro da elevação +ardente duma Arte que só pretende, afinal, fecundar a alma do Povo, porque até, +não sendo assim, seria descabida.</p> + +<p>D'aí, algumas obscuridades no estilo, raras, muito raras, dignas de emenda, +porém, e ainda o uso aqui e ali de epitetos eruditos, mas gastos, crispados de +sonoridade emfatica.</p> + +<p>Ás vezes, um mal grave—a como que convição<span +class="pagenum">[22]</span> de que mais escreve para si proprio do que para +o seu tempo e para a sua geração.</p> + +<p>E porisso, apezar de frequentemente cristalino, limpido, adoravel de +verdade, de sentimento de vida, nestes poêmas em prosa destôam a espaços +requintes preciosos, só acessiveis alguns aos espiritos altos e muito cultos. +Este defeito não aféta demais a obra no valor intrinseco: priva-a de ser +frutifera em toda a sua intensidade, o que é sempre deploravel num +<em>meio</em> como o nosso, assim inculto, esteril, carecido de verdadeiras +obras.</p> + +<p>A filosofia de Jaime de Magalhães Lima reclamaria trabalhos de muito +graduada perfeição plastica, a começarem quase sem estilo, como quem palestra +com crianças e simples. Só assim este povo, tão atrazado e desorientado, mas +tão inteligente e bom, poderia, pouco a pouco, perlibar o mel precioso, colher +todo o dôce impulso da verdade livre, compreendendo e vivendo o que a má fé +certa de invejosos ou de sètarios aponta com facilidade como arte egoista ou +impenetravel, se não como devaneio lunático.</p> + +<p>Já como romancista, o seu intento de dar o verdadeiro realismo lhe inspira +uma arte superior na comunicabilidade, uma fórma sempre transparente e, +comtudo, original.</p> + +<p>Os seus romances, depois dos de Julio Dinís e alguns de Camilo, são os mais +perfeitamente<span class="pagenum">[23]</span> portuguêses da nossa +literatura de ha 60 ânos. Não são muito lidos. Nem por isso deixam de ser +modelares.</p> + +<p>Jaime de Magalhães Lima entendeu, como poucos, o romance moderno, sem as +taras do excessivo romantismo, ou do excessivo realismo, inversão positiva do +primeiro.</p> + +<p>Espiritualista corajoso, muito superior, não desprezou a unica lei duravel +talvês da estetica positivista: «A Arte deriva do sentimento e idealisa a +realidade».</p> + +<p>A rigor, não poderia êle dizer como Lessing: «Se Deus tivesse a verdade na +sua mão direita e na esquerda o amor sempre inquieto da verdade, e me +dissesse:—Escolhe!—eu, ainda que me condenasse a enganar-me eternamente, +optaria pela esquerda. Pai—dir-lhe-ia eu—a verdade é só para ti». Não. Jaime +de Magalhães Lima não tem a febre da verdade, porque a encontrou plenamente, e +disso está convencido. Outra febre sagrada o empolga: é a de ensinar a verdade +que professa, ensiná-la na doutrina e no exemplo.</p> + +<p>Falamos em Lessing, e o nome deste ingente torturado traz á memoria o do +critico Winckelmann, seu colaborador radioso na purificação e dignidade maior +da critica alemã.</p> + +<p>É que um e outro foram dois excessos, dois exageros combatentes e por certo +Jaime de Magalhães Lima, que tanto preza Carlyle, se apaixonou,<span +class="pagenum">[24]</span> conhecendo o primeiro, pela orientação +alegorista do segundo, todo embebido na alma angelica de Platão, mas tambem +muito tolhido pela estetica exangue do pintor Oeser. Porém,—di-lo a sua +obra—soube achar o meio termo, como, especialmente no romance, pôs no seu +logar Balzac e Vitor Hugo, e saudou a magnificencia de Flaubert sem deixar de +amar a concisão espiritual de Tolstoi.</p> + +<p>Tendo esta pujança moral e mental, não se iludiu com o cinismo brilhante de +Eça, ora acrata ora aristocrata, nem se algemou na idealização, por vêses +excessiva, de Julio Dinís, embora este seja o nosso verdadeiro e grande +realista, o Maior dentro dos sentimentos nacionais.</p> + +<p>A prova do que afirmamos assim está em qualquer dos romances de Jaime de +Magalhães Lima.</p> + +<p><em>Na Paz do Senhor.</em> A analise póde, a espaços, ter demasias, hoje +repelidas na morte plena do zolismo.</p> + +<p>Não demasias de crueza moral, mas de pormenores que já o Eça detestava no +fim da vida.</p> + +<p>Mas é rigorosa, metódica, pura. O <em>meio</em> emerge inteiro e real, +nosso. Não é só o descritivo magistral e animado que o revela: são, +principalmente, os carateres e o enrêdo.</p> + +<p>O que não ha é o predominio pascóvio dos òtimismos á Pangloss (degeneração +do romantismo), nem os pessimismos sádicos dos Gourmont<span +class="pagenum">[25]</span> (realismo triunfante). O meio é <em>real</em>, +tem aspétos bons e maus, e a moralidade, deixando os sermões, aliás brilhantes, +da <em>Cabana do Pai Tomás</em>, resulta lógica, sem vergonha de existir, sem +medo de cair no ridiculo.</p> + +<p>Tipos verdadeiros, excelentes: o Valadares, tão nosso, o Antonio +Carvalhaes—que a Republica vai ter pela prôa nas proximas Constituintes—o +Monteiro, o Mirandinha, o Frederico e o Prospero, este mais vulgar do que os +criticos imaginam. Realidades puras: a D. Rosa, o Carlos de Macedo, o Duarte de +Melo e a mulher, a Isabel e o seu Basilio—nada parecido com o lustroso +mandrião do Eça. A abnegação do Frederico, principalmente, soberba de verdade. +Não é um corruto, mas tambem não é um santo. Não é um genio, mas tambem não é +um espirito mediocre. O seu sacrificio tem a nódoa dum egoismo, mas é humano +dentro duma conciencia iluminada.</p> + +<p>E no <em>Reino da Saudade</em> e no <em>Sonho de Perfeição</em>, a mesma +larga vida concècional, o mesmo espirito de religiosidade cristã, mas +purissima, caratéres nitidos, descrições primorosas, noção profunda da vida +agricola, da burguesia-esponja, do preconceito-pôlvo, da paixão-álcool.</p> + +<p>Tudo assim, egual, perfeito, espontaneo, sem desmandos gritantes, sem +covardias morais, sem claudicancias do inteléto. E eis o que sobeja para dar ao +nosso romance um rumo seguro e radioso<span class="pagenum">[26]</span> que +na França, apezar dos romances-poêmas e dos romances-sociais da escola +hodierna, espiritualista-positivista, ainda não foi traçado com gesto +definitivo. Mas esse rumo, se o não querem ver, ha de impôr-se. Se o árabe diz +a verdade, quando afirma <em>que os cães ladram, mas a caravana passa</em>, +menos se iludirá quem vaticinar caminho seguro á caravana, só porque coaxam +algumas rãs, chamando <em>desfastios</em> aos <em>Contos do Natal</em> de +Candido de Figueiredo, ou a qualquer deliciosa revelação da arte +verdadeiramente portuguêsa á qual Jaime de Magalhães Lima não dá só muito +trabalho, como muito talento e muita conciencia.</p> + +<p style="text-align:center;">*</p> + +<p>É lógico que mentalidade tão robusta e sentimento tão sincero dêm um critico +notavel. Tal o é Jaime de Magalhães Lima no livro e no jornal, e com o +esplendor dum eminente e livre sociólogo, dum democrata livre, sincero, +altissimo.</p> + +<p>Neste ponto, a nosso ver, a sua obra-prima é aquêle livro, cheio de modestia +e luz, d'amor e verdade, chamado <em>Servo e Menor S. Francisco d'Assis</em>. +Bem sabemos que o critico se inculca como simples decalcador de Sabatier, como, +de passagem, sabemos com estranheza que, lendo Macdonell, Howel, Lechwer, etc., +se esqueceu de Prudenzano e da amoravel Pardo Bazan, nada<span +class="pagenum">[27]</span> despiciendos na psicologia admiravel do +Patriarca mais republicano da Egreja.</p> + +<p>Mas, em toda essa obra sadia e profunda, o seu espirito clarividente, por +mais que o oculte, surde com evidencia gloriosa. A narrativa de honesto +biógrafo denuncia a vida filosófica de quem a faz, e essa é por vêses muito +mais afim do espirito imaculado do Santo, modelo de Democracia pura, do que o +do proprio Sabatier, apezar de mentalidade prodigiosa.</p> + +<p>Admiradores conhecidos de S. Francisco d'Assis são Guerra Junqueiro e todos +os modernos poetas de alma. Um orador brilhante, coragem real no nosso +<em>meio</em>, Leonardo Coimbra, rasgada democracia numa conciencia livre, terá +dito, ou poderá dizer-nos ainda, muito da elevação cientifica que vive na +espiritualidade do imortal revolucionario de Assis. Nenhum, porém como Jaime de +Magalhães Lima fês, do espirito do Santo, o seu proprio espirito.</p> + +<p>Nenhum, pois, quanto a nós, póde exceder o valor modelar da sua critica em +assunto que é todo da sua alma, na crença convicta, no anceio intimo, no +aperfeiçoamento progressivo da bondade, vida livre e fecunda da sua +inteligencia e do seu coração.</p> + +<p>Estudando Alexandre Herculano e José Estevão, Jaime de Magalhães Lima não +pretende fazer estudos integrais. Colhe alguns aspétos,<span +class="pagenum">[28]</span> para ele predominantes, e, como <em>vê</em> sem +preconceitos e tem uma linguagem nobre, pura, original, deixa dois livros +primorosos, perfeitos, completos.</p> + +<p>Não tem, não póde ter, a dureza rigida de Gustavo Planche. Este, como dizia +o justiçador de Balzac, Edmundo Werdet, era—egoista, de coração de aço, de +torso do Antinous, de pernas de argila, implacavel com tudo que não fosse obra +sua, de estilo corréto, mas seco e frio.</p> + +<p>Jaime de M. Lima é forte, mas tolerante, magestoso mas simples como os +patriarcas biblicos.</p> + +<p>Ninguem póde tambem esperar dele a venalidade de Sainte-Beuve, o seu +espirito de intriga, capaz de felonias como a que perpetrou com o enorme poeta +Alfredo de Vigny, o pessimista dolorido.</p> + +<p>A grande bondade de Jaime de M. Lima, genializada por uma intensa paciencia, +afastam-no da cólera, e a sua desambição perfeita livra-o por completo de +transigencias com o logar-comum e com o estrondo sètario.</p> + +<p>Assim, José Estevão é por êle rehabilitado contra os fanaticos de qualquer +campo.</p> + +<p>Não, o fogoso tribuno não foi Danton, vulcão, impeto cégo, catapulta muitas +vezes salpicada de sangue.</p> + +<p>Não foi, porém, Robespierre, razão fria, espiritualismo e egoismo, astucia e +fé em aliança assombrosa.<span class="pagenum">[29]</span></p> + +<p>Com o vigor do primeiro, não teve a sua impudencia: com o bom-senso do +segundo, não teve a sua hipocrisia.</p> + +<p>Foi muitas vezes Lamartine, até no pleno gosto artistico e no sonho, e foi +nos raptos bastante Mirabeau; um Mirabeau com a visão melhor da moderna +sociologia, e portanto sem a mascara disforme do homem-tempestade.</p> + +<p>No fundo, a sua eloquencia era toda de bondade, como a de Fernandes Tomás em +1820, como a de Antonio José de Almeida no nosso tempo.</p> + +<p>Se trovejava, os seus raios eram farois, não eram agentes de cega ruina.</p> + +<p>Parece esta a conclusão sintetica do belo trabalho de J. de Magalhães Lima +sobre José Estevão.</p> + +<p>A figura de Alexandre Herculano não a viu com a minucia, tantas vezes +arbitraria, de Taine; viu-a com a verdade ampla dum patriota e crente que nunca +esquece o que a patria e a fé representam na grandeza da Humanidade.</p> + +<p>Assim, a conclusão do seu trabalho sobre o maior e mais austero vulto do +nosso romantismo deriva sem esforço, luminosa na sua singeleza, das belas +paginas em que estudou o grande escritor e grande cidadão—<em>Alexandre +Herculano</em>, diz, <em>a todos honrou igualmente, engrandecendo-se e +legando-nos um exemplo unico e supremo na historia do povo português</em>.<span +class="pagenum">[30]</span></p> + +<p>Dizer isto, depois de o provar sem estridor como sem desfalecimento de fé, +com vistas sempre originais e sinceras, num estilo belo, com profundas noções +cientificas em todos os aspétos encarados, significa uma obra primacial, uma +obra de eleição, e, na essencia, uma completa obra de propaganda da Verdade +Maior.</p> + +<p>Não aparece o lenhador, e sim o semeador.</p> + +<p>O machado e o bisturi trocam-se pela charrua paciente e pela luz do sol sem +nuvens.</p> + +<p>O critico não é a torrente cataduposa: é o rio poderoso, mas placido, que +nunca reflete nas aguas pedaço de céo que não seja amorosamente azul.</p> + +<p>Mas, se o supondes lago apático, enganais-vos: a sua serenidade é cheia de +vida, e tanto que as suas aguas, porque são perfeitamente puras, são +adoravelmente limpidas.</p> + +<p>Ás vezes até, a profundidade da vida lhe dá murmurios de oceano: é o salmo +intenso das crenças perfeitas.</p> + +<p>É a Conciencia livre, a qual, por mais serena que se eleve, tem sempre muito +de Mar e como que de abismo.</p> + +<p>Compreende-se talvês agora como é que este crente é, afinal, um avançado +socialista, um ardente libertario.</p> + +<p>Como seu irmão Sebastião, procura a Patria Nova. A diferença está apenas nos +caminhos.<span class="pagenum">[31]</span></p> + +<p>Aquêle quis ver primeiro em terra o Trono que machadou durante 30 ânos.</p> + +<p>Jaime nunca se preocupou com as velharias do Passado. Sem as ferir +diretamente, rasgou com coragem e fé a verêda do Futuro e, parecendo +conservador, é o mais avançado revolucionario.</p> + +<p>Porisso a sua nobre tolerancia é o mais valente grito de guerra.</p> + +<p>Quem assim é tolerante tem a certeza de que o Erro cái de per si á simples +aparição de toda a Verdade.</p> + +<p style="text-align:center;">*</p> + +<p>Jaime de Magalhães Lima é talvês assim, visto como que num simples +instantaneo.</p> + +<p>Fotografado em todos os seus aspétos, seria o mesmo que pedir para êle em +vida uma estatua, mais justa do que a de alguns, nunca tão livres de conciencia +e honestos de verdadeira arte como este escritor, que é notavel por isso mesmo +que muitos teimam em não o notar.</p> + +<p>Nem o nosso caráter nem o dêle—e este muito menos—se comprazem com o mais +justificado fetichismo.</p> + +<p>Para êle, como para nós, a obra é valor da ideia e não do homem.</p> + +<p>O espirito hoje perfeito foi imperfeito, evolute,<span +class="pagenum">[32]</span> e, resplandescente agora, tem ainda sêde de +perfeição maior. Não ha grandes nem pequenos, se não de momento. O verme de +hoje ha de ser colosso ámanhã. O gigante da atualidade foi anão nas trevas do +passado.</p> + +<p>Apontar Jaime de Magalhães Lima dentro da justiça perfeita, não é, pois, +elogiar o individuo: é apelar para um belo manancial de ideias e sentimentos de +amor e verdade.</p> + +<p>Ha de um dia a literatura dar-lhe o lugar devido. Isso não nos preocupa. O +Futuro dignifica sempre o Passado. O que nos póde doer é que muitas almas +sequiosas desconheçam tão bela fonte de noções moraes e mentais e se privem, +por ingratidão mesquinha do <em>meio</em>, do pão artistico e espiritual que +uma obra tão superior, como a de Jaime de M. Lima, lhes póde ministrar com +grandes frutos para a Democracia e para a Verdade.</p> + +<p>Esse prejuizo causa horror.</p> + +<p>Estão secas as fontes verdadeiramente cristalinas da nossa Arte. Em vês +delas, superabundam chafarizes exóticos, canalisando e repuxando aguas +duvidosas.</p> + +<p>Quem desconhece o intoxicamento moral que elas semeiam?</p> + +<p>Quem não compreende que a nossa jóven Republica precisa de as vedar em +beneficio da boa saude da querida Patria Portuguesa?<span +class="pagenum">[33]</span></p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> + +<p> </p> +</div> + +<div style="font-size: 80%; margin: auto; width: 80%;"> +<h3 style="text-align:center;">Livraria Portuense, de Lopes & +C.ª—Successor</h3> + +<p style="text-align:center;">119, Rua do Almada, 123-PORTO</p> + +<h4 style="text-align:center;">JOSÉ AGOSTINHO</h4> + +<p>OS NOSSOS ESCRITORES:</p> + +<p>I—<em>Guerra Junqueiro</em>, 100</p> + +<p>II—<em>Teofilo Braga</em>, 100</p> + +<p>III—<em>José P. de Sampaio (Bruno)</em>, 100</p> + +<p>IV—<em>Jaime de Magalhães Lima</em>, 100</p> + +<p>LUSIADAS, prefaciados, parafraseados, anotados, e com um vocabulario, cada +tomo ou canto, br. 150, enc. 250</p> + +<p>LUSIADAS em 2 vol., br. 1$500, enc. 2$000</p> + +<p>LUSIADAS em 1 grosso vol. os dez cantos, enc. 1$600</p> + +<p>A MULHER EM PORTUGAL, br. 500, enc. 700</p> + +<p>O HOMEM EM PORTUGAL, br. 600, enc. 800</p> + +<p>O CAMINHO DAS LAGRIMAS (romance historico) br. 600, enc. 800</p> + +<p>O PADRE ANTONIO (2.ª edição refundida) br. 400, enc. 600</p> + +<p>POEMA DA PAZ, br. 400</p> + +<p>MONSTRO, drama em verso, br. 400, enc. 600</p> + +<p>DEFINIÇÕES—(verso), 200</p> + +<p>As Noites do Avozinho—BELEZAS DA HISTORIA DE PORTUGAL, cada fasciculo, +broch. 100, enc. 250</p> + +<p>FABULAS, (verso) br. 200, enc. 400</p> + +<p>ALEXANDRE HERCULANO, br. 500, enc. 700</p> + +<p>EÇA DE QUEIROZ (2.ª edição aumentada), br. 300, enc. 500</p> + +<h4 style="text-align:center;">D. ANTONIO DA COSTA</h4> + +<p>HISTORIA DA INSTRUÇÃO POPULAR, 1 vol. br. 500 reis, e enc. 700</p> + +<p>NO MINHO, 1 vol., br. 500 reis, enc. 700</p> + +<p>TRES MUNDOS, br. 500 reis, enc. 700</p> + +<h4 style="text-align:center;">ALVARO DE MAGALHÃES</h4> + +<p>O SECRETARIO, br. 500, enc. 700</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Jaime de Magalhães Lima, by José Agostinho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK JAIME DE MAGALHÃES LIMA *** + +***** This file should be named 27689-h.htm or 27689-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/7/6/8/27689/ + +Produced by Pedro Saborano. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/27689-h/images/jmlima.png b/27689-h/images/jmlima.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..318d920 --- /dev/null +++ b/27689-h/images/jmlima.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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