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+The Project Gutenberg EBook of A philosophia da natureza dos naturalistas, by
+Antero Tarquínio de Quental
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A philosophia da natureza dos naturalistas
+
+Author: Antero Tarquínio de Quental
+
+Release Date: October 4, 2008 [EBook #26776]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PHILOSOPHIA DA NATUREZA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+A PHILOSOPHIA DA NATUREZA
+
+NATURALISTAS
+
+1894
+
+
+
+
+HOMENAGEM POSTHUMA
+
+A
+
+ANTHERO DE QUENTAL
+
+
+(MICHAELENSE)
+
+
+
+ANTHERO DE QUENTAL
+
+A PHILOSOPHIA DA NATUREZA
+
+DOS
+
+NATURALISTAS
+
+
+1894
+Typ. Editora do CAMPEÃO POPULAR
+S. Miguel--PONTA DELGADA--Açores
+
+
+
+
+EXPLICAÇÃO PREVIA
+
+
+Digam o que disserem, Anthero de Quental foi indubitavelmente, um dos
+mais fecundos escriptores do seu paiz e da sua epocha.
+
+Raros, muito raros, foram as theorias ou problemas da actualidade,
+ventilados com interesse nos dominios da Sciencia, da Politica ou da
+Arte que deixassem d'exercitar a penna sempre prestigiosa e sempre
+elegante do grande Mestre.
+
+Na sua obra em prosa cabe, porem, um logar proeminente aos copiosos
+artigos de critica ou de polemica, que, durante quasi trinta annos,
+appareceram estampados em diversos orgãos da imprensa periodica
+portugueza, tanto da capital como da provincia, e nos quaes, á
+semelhança de Littré e de Taine, elle connotou, como n'um diario intimo,
+não sómente as suas opiniões pessoaes sobre os homens e os successos
+contemporaneos, mas ainda as correntes de influencias estranhas que
+actuaram no seu espirito e as impressões que d'ahi resultaram.
+
+Como critico e polemista, Anthero de Quental não teve em Portugal
+competidor; foi unico na energia fogosa da polemica e nos processos
+technicos da analyse critica.
+
+Os seus escriptos de critica bibliographica são exemplares de methodo e
+de bom senso, de finura e de erudição, de escrupulosa imparcialidade e
+d'aquella serena comprehensão dos multiplices aspectos das cousas e dos
+homens que dá ao critico a maxima authoridade e valor.
+
+N'este particular, pertence-lhe a gloria de ter sido entre nós o
+verdadeiro creador d'um genero litterario descurado, para não dizermos
+falseado, na sua applicação.
+
+Até elle a critica, aberrando diametralmente do seu papel objectivo,
+fazia-se pela antipathia ou sympathia do critico para com o nome do
+author; o louvor ou a censura previam-se justamente, dadas as relações
+de sentimento d'um para com outro.
+
+Foi Anthero quem iniciou a critica impessoal, a critica objectiva,
+desapaixonada, fria, inspirada por um sentimento de equidade e de
+justiça--critica, em summa, que é uma lição; porque ensina, e que pode
+fazer do criticado um adversario, mas nunca um inimigo--e do critico um
+juiz, mas nunca um louvaminheiro nem um delator.
+
+Os artigos criticos do grande Mestre teem todos estes caracteres
+acentuadamente impressos: não são exclusivamente laudatorios nem
+exclusivamente aggressivos; são justos e por isso mesmo verdadeiros.
+Teem authoridade; porque fallam sinceramente uma linguagem que não é a
+do odio nem a dos affectos; mas que é a voz d'uma consciencia honrada
+para a qual os Homens são o menos e a Verdade o mais.
+
+Se alguns d'esses trabalhos perderam já aquelle cunho de novidade que os
+fez circular vertiginosamente d'um a outro canto do nosso paiz, e se por
+isso não movem ao interesse e enthusiasmo que suscitaram aos primitivos
+leitores, é certo, que ainda assim, constituem documentos de summa
+valia, quer sob o ponto de vista meramente litterario, quer como
+subsidio para quem no futuro pretenda historiar as differentes phases do
+movimento das idéas em Portugal, na ultima metade do seculo XIX.
+
+Taes elementos são, portanto, indispensaveis para o estudo de Anthero e
+da sua epocha. Sem elles mal se poderá comprehender a obra do grande
+Mestre na sua extensão, valor, influencia, e mal se poderá explicar
+tambem a filiação ou dependencia das diversas partes d'essa obra
+complexa e vastissima.
+
+Vê-se, pois, que quem quizer formar uma idéa cabal do irrivalisavel
+escriptor e da sua actividade productora, ou procurar comprehender a
+acção exercida sobre os seus contemporaneos, ha de necessariamente
+recorrer ás collecções das Revistas e Gazetas, que o contaram entre os
+seus collaboradores, onde elle deixou archivado pelo seu proprio punho
+aquillo que bem pode chamar-se a sua _autobiographia mental_.
+
+Infelizmente, porém, são numerosos e pouco accessiveis esses
+repositorios, muitos dos quaes teem desapparecido (como succede á maior
+parte das revistas academicas, publicadas em Coimbra) e outros tornam-se
+cada dia mais raros, dada a procura dos collecionadores.
+
+N'estas condições, dentro em breve, poucos serão os estudiosos que
+tenham a dita de ler e consultar os escriptos jornalisticos d'Anthero.
+
+Esperar-se-ha que um editor tome sobre si o encargo de recolher essas
+numerosas especies dispersas?
+
+E não será isso, por assim dizer, sacrificar a obra do grande Mestre,
+deixando de recolher muitos dos escriptos da maior raridade?
+
+A edição definitiva das obras completas d'Anthero só poderá levar-se a
+cabo, quando primeiro se publiquem as reproducções d'esses escriptos
+avulsos.
+
+Aos amigos e discipulos do immortal escriptor impende, pois, um grande
+dever de gratidão:--é o dever de cada um de per si ou associados, salvar
+do olvidio e da destruição os trabalhos do Mestre, colligindo-os
+systematicamente e por ordem chronologica, á semelhança do que fez o sr.
+Oliveira Martins para os Sonetos e restantes composições poeticas.
+
+É urgente começar. Talvez mais tarde não seja possivel reconstituir a
+serie d'aquelles trabalhos ou por terem desapparecido os jornaes em que
+foram originalmente publicados, ou por muitos d'elles serem anonymos e
+terem tambem desapparecido as pessoas que poderiam reconhecer a sua
+paternidade.
+
+
+II
+
+No diario portuense--_A Provincia_--inseriu Anthero de Quental, em 1886,
+uma serie de cinco artigos, a proposito da obra de Vianna de Lima,
+intitulada--_Exposição summaria das theorias transformistas_.
+
+A questão versada era e é ainda das mais importantes e das mais
+disputadas, tanto no terreno propriamente especulativo, como no terreno
+das sciencias naturaes.
+
+Anthero de Quental, methaphysico de profissão, não podia entrar no
+debate como naturalista, embora os seus estudos tivessem fundos
+alicerces nas Sciencias da natureza. Discutiu e argumentou como
+philosopho;--philosophou; porque na materia tinha opiniões originaes
+definidas e razões peculiarmente suas.
+
+D'ahi a importancia e renome dos artigos que o publico illustrado
+victoriou, como modelos acabados de analyse critica, collocando-os do
+mesmo passo a par das melhores paginas de prosa portugueza.
+
+Tinha razão.
+
+São com effeito obras primas no seu genero e em que não se sabe qual
+mais admirar, se a belleza incomparavel de forma, se a genial pujança e
+superioridade do pensamento que anima aquella solida construcção
+especulativa, communicando-lhe a maxima potencia de suggestão e de
+interesse.
+
+Mostremo-lo, embora de relance.
+
+Anthero de Quental, partindo do principio de que a _sciencia não póde
+ser para a philosophia mais que uma materia prima_, impugna a pretensão
+de fundar uma philosophia da natureza com a a simples generalisação dos
+dados d'um grupo de sciencias, e sem ter em conta o indispensavel
+criterio das ideias. É este o thema principal que elle se esforça para
+estabelecer fundamentalmente.
+
+Analysando as duas noções que formam a base da doutrina Haeckeliana--_o
+movimento e a evolução_--mostra que a primeira é insufficiente, e á
+segunda falta a generalidade scientifica; visto como não intervem, senão
+_onde o elemento historico representa um papel proeminente_.
+
+Por outro lado demonstra que ha contradicção flagrante entre a idéa da
+espontaneidade da materia, como a admitte a escola monista, e a theoria
+da conservação do movimento, que domina nas sciencias physicas e em
+grande parte nas sciencias da organisação.
+
+E sobre estas premissas logicas, conclue que a doutrina da evolução,
+formulada por Haeckel, longe de ser, como se pretende, uma doutrina
+positiva, baseada nas sciencias e fluindo d'ellas como sua consequencia
+natural, implica, pelo contrario uma _extensão abusiva da inducção
+scientifica e a illegitima generalisação d'uma hypothese, que, se é
+perfeitamente fundada no terreno de determinadas sciencias, só ahi e só
+n'esse ponto de vista tem authoridade scientifica_.
+
+A _idéa da finalidade_, combatida pela escola monista, é sustentada por
+Anthero d'um modo superior e original.
+
+_A evolução_, diz elle, _implicando a idéa d'um typo, que as formas
+evolvendo, tendem a realisar, implica por isso mesmo uma finalidade.
+Quem diz evolução, diz progresso. Ora progresso que não tende para cousa
+alguma que não tem um typo e um fim, não se comprehende._
+
+Não é preciso mais para se ver a importancia e o valor do trabalho que
+se segue.
+
+Poderiamos fazer aqui algumas approximações entre as doutrinas d'Anthero
+e as doutrinas de Hartmann, Lang e Stallo--seus authores predilectos e
+mais compulsados.
+
+Poderiamos tambem mostrar que os bellos artigos sobre as tendencias da
+moderna philosophia, dados a lume na _Revista de Portugal_, são o
+desenvolvimento logico do pensamento dominante nas paginas adiante
+reproduzidas.
+
+Mas fallece-nos a authoridade e competencia para tanto, e demais, o
+trabalho d'Anthero não carece nem de criticas, nem de commentarios
+elucidativos:--impõe-se por si e tem em si a necessaria lucidez para
+convencer a uma simples leitura.
+
+Reproduzindo-o hoje temos apenas em vista render, no anniversario do seu
+passamento, uma derradeira homenagem de respeito e estima ao filho
+d'esta ilha que é uma das maiores glorias das letras patrias, e ao mesmo
+tempo facilitar aos estudiosos a leitura d'um dos trabalhos
+philosophicos d'elle em que mais claramente se patenteiam o seu subtil
+engenho dialectico, a originalidade das suas concepções especulativas e
+as maravilhosas qualidades didacticas da sua prosa expositiva e
+analytica.
+
+E d'est'arte fica explicada a presente publicação.
+
+
+ Ponta Delgada,
+ 11 Setembro de 1893.
+
+ _Eugenio Vaz Pacheco do Canto e Castro_
+
+
+
+
+PRIMEIRO ARTIGO[A]
+
+
+Um livro sobre as modernas theorias transformistas, publicado em Paris e
+em francez, e firmado por um nome portuguez, é facto tão extraordinario,
+que por si só bastaria para attrahir as attenções. Mas no livro do snr.
+Vianna de Lima, não é só a extranheza do facto que deve chamar a nossa
+attenção: é ainda o seu valor intrinseco. Esta _Exposição summaria das
+theorias transformistas_ é, como o titulo indica, uma especie de _summa_
+das doutrinas professadas sobre a philosophia da natureza por uma escola
+consideravel, cuja cabeça, E. Haeckel, é um dos nomes mais illustres, e
+justamente illustres, da Allemanha intellectual, na segunda metade do
+nosso seculo: e a obra do adepto não é indigna, nem pela intelligencia
+nem pelo saber, da escola nem do mestre.
+
+Não sou naturalista e, tendo a consciencia da minha incompetencia, não
+me atreveria a escrever sobre a obra do sr. Vianna de Lima, se o seu
+livro fosse propriamente um livro de sciencias naturaes, e se os quatro
+estudos, de que se compõe, se conservassem escrupulosamente nos limites
+rigorosos do campo scientifico. O livro, porem, do snr. Vianna de Lima,
+apezar da modestia do titulo, aspira de facto a ser um livro de
+philosophia da natureza, e, n'esse terreno, creio poder, sem temeridade,
+emittir algumas opiniões fundamentadas. Prestarei, assim uma homenagem
+ao moço portuguez (portuguez pelo nome e pelo sangue: ouço que é
+brazileiro) que tão galhardamente nos representa no grande mundo da
+intelligencia, aproveitando ao mesmo tempo o ensejo para dizer alguma
+cousa sobre uma escola philosophica, cujos chefes respeito e cuja
+importancia não desconheço; mas cujas tendencias estão muito longe, em
+meu entender, de serem satisfactorias.
+
+Alexandre de Humboldt, o naturalista encyclopedico e quasi legendario do
+primeiro quartel d'este seculo, costumava dizer causticamente,
+referindo-se á philosophia da natureza puramente especulativa, que então
+deslumbrava com os clarões do genio de Schelling e Hegel, não só a
+Allemanha pensadora, mas ainda a Allemanha scientifica, _que achava
+singularissimos aquelles naturalistas que pretendiam fazer chimica sem
+molhar a ponta dos dedos_.
+
+Tinha razão.
+
+Hoje, nós outros metaphysicos, podemos com igual razão dizer que são
+singulares estes philosophos, que, com os dedos mais que ensopados em
+chimica, pretendem fazer philosophia sem nunca se terem dado ao trabalho
+de reflectir.
+
+Com effeito, a philosophia é, de sua natureza, especulativa, e a
+sciencia não póde ser para ella mais que uma materia prima.
+
+Um homem de sciencia, por encyclopedico que seja, se não tiver ao mesmo
+tempo reflectido muito e profundamente sobre as questões puramente
+racionaes, que a sciencia suscita e não póde por si resolver, reflectido
+sobre as ideas abstractas, que são, umas, postulados para as differentes
+sciencias, outras, principios ordenadores d'uma explicação geral das
+cousas, um tal homem de sciencia, apesar do seu encyclopedismo, não
+poderá nunca aspirar ao titulo de philosopho. Pode dizer que _sabe_, mas
+não que _entende_, porque o problema do universo, como problema total e
+concreto, será para a sua intelligencia, aliás opulenta de factos, tão
+obscuro, como é para a intelligencia d'um simples e ignorante. A
+philosophia não é o mero ajuntamento ou ainda o quadro empiricamente
+ordenado dos factos do universo: é a comprehensão e explicação racional
+e total d'esse grande quadro. Ora, uma tal explicação só é possivel no
+ponto de vista das ideias ultimas e fundamentaes da rasão (_substancia_,
+_causa_, _fim_) e essas ideias teem por isso de ser tomadas em si,
+pesadas e analysadas. Não faz outra cousa a metaphysica, e sem
+metaphysica não ha philosophia, porque não ha verdadeira comprehensão
+racional, nem verdadeira e total explicação. Metaphysica (ou
+especulação) e sciencia (ou observação) são duas series convergentes,
+que partem de pontos oppostos e com leis de desenvolvimento diversas;
+mas, como são convergentes, encontram-se: o ponto onde se encontram e,
+sem se fundirem, reciprocamente se penetram, é que é a philosophia. A
+philosophia tem pois por materia a sciencia, por forma a metaphysica; ou
+ainda, a philosophia é a observação (quero dizer, os seus resultados)
+considerada no ponto de vista absoluta da rasão.
+
+O desconhecimento d'estas verdades e o desdem pela metaphysica, filho em
+grande parte da reacção, aliás justissima, provocada pelos excessos e
+intoleravel dogmatismo da especulação, na Allemanha, e pela sua
+insignificancia e convencionalismo, em França; e, por cima d'isso ainda,
+o maravilhoso desenvolvimento das sciencias naturaes, durante os ultimos
+40 annos, deram de si o apparecimento d'uma pseudo-philosophia da
+natureza que se pretende positiva e puramente filha das sciencias e que
+julga ingenuamente poder resolver os intrincados problemas das idéas,
+sem ter o incommodo de reflectir e só com grande somma de physica,
+chimica e physiologia.
+
+D'estes naturalistas philosophos o mais eminente, tanto pelo saber como
+pelo genio, é o apostolo de Darwin na Allemanha, o illustre autor da
+_Historia natural da Criação_, Ernesto Haeckel. É entre os discipulos de
+Haeckel que vem tomar logar, com o seu livro, o snr. V. de Lima.
+
+Profano, não me é dado conhecer e dizer até que ponto a rigorosa verdade
+e o rigoroso methodo scientificos tem sido violentados pelo sabio e
+engenhoso, mas não menos phantasioso e temerario professor de Munich[B],
+para se dobrarem e acommodarem ás suas doutrinas geraes. Sei só que
+outros mestres eminentes, como Virchow, Helmholtz, Huxley e Du
+Bois-Reymond estão longe de se darem por inteiramente satisfeitos com a
+orthodoxia scientifica de muitas das affirmações do padrinho do _monero
+batybio_. A mim só me é permittido occupar-me com as ideias e tendencias
+propriamente philosophicas da escola monista-evolucionista, cuja cabeça
+é Haeckel; e o livro do discipulo, que se propoz resumir a doutrina,
+ser-me-ha occasião para fazer sobresahir (embora só em dois pontos, mas
+capitaes ambos) a confusão e deficiencia na analyse das ideias, que
+impedem, a meu juizo, que a pretendida philosophia da natureza
+monista-evolucionista, apezar da imponente massa de sciencia sobre que
+assenta, attinja a verdadeira altura d'uma philosophia da natureza.
+
+Monismo e evolução são as duas noções que formam a base da doutrina
+Haekeliana. Comecemos por indagar que ideia precisa envolve esta
+palavra--_monismo_. Parece-me que a palavra é que é nova, não a ideia.
+Tanto valeria dizer pantheismo, ou ainda materialismo, pois não encontro
+no fundo d'aquella expressão nada mais do que n'estas duas outras; a
+saber: uma concepção unitaria da substancia.
+
+Esta concepção, porem, (na sua simplicidade e em quanto não fôr definida
+d'uma maneira particular) é propriedade commum de muitas escolas antigas
+e modernas e precisa sahir d'essa generalidade e indeterminação para
+poder caracterisar uma maneira especial de comprehender as cousas: assim
+o atomismo, assim o pantheismo de Spinoza, assim o idealismo realista de
+Hegel etc. Ora, é justamente essa falta de definição precisa, essa vaga
+de generalidade e indeterminação, que eu noto no _monismo_ de Haeckel.
+_Monismo_ parece-me apenas uma palavra nova (e muito dispensavel) e não
+a mais.
+
+Com effeito, affirmar abstractamente a unidade de substancia é, no
+terreno da philosophia da natureza, pouca cousa: o que importa é
+definil-a. Definil-a é apresental-a nas suas relações com a realidade, é
+caracterisal-a na sua maneira de ser positiva, é mostrar, não como a
+concebemos _em si_ (pertence isso á metaphysica), mas como a concebemos
+_realisavel_.
+
+Uma materia abstracta, una e simples, apenas vagamente susceptivel de se
+manifestar por omnimodas modalidades, é uma base insufficiente para a
+philosophia da natureza; porque é uma base insufficiente para a
+sciencia. O que a sciencia exige e o que é preciso á philosophia da
+natureza é determinar n'essa infinidade de moralidades, qual é a
+fundamental ou elementar, aquella a que se reduzem todas as outras. Ora
+é isso justamente o que as sciencias da natureza teem feito, reduzindo
+todas as modalidades da materia ao elemento primordial _movimento_. Os
+monistas, sempre que fallam como homens de sciencia, adoptam (e não
+podiam deixar d'adoptar) esta concepção. Mas, como philosophos, em vez
+de receberem das mãos da sciencia este resultado, para o elaborarem e
+desenvolverem, caem no vago e em inextrincaveis confusões.
+
+É assim que o nosso auctor começa por se declarar anti-materialista e
+pretende repellir o atomismo. affirmando que a materia não póde ser
+definida per esta ou aquella propriedade, mas que «para o monismo, a
+materia é o que é _in situ_.... é aquillo que se manifesta aos nossos
+sentidos e ao nosso entendimento por modos diversissimos, sob forma de
+phenomenos infinitamente variados.... pretender isolar (d'este
+conjuncto) certas propriedades, abstrahir certas qualidades, é grande
+erro.... para elle (o monista) qualidades, propriedades especificas ou
+funccionaes, funcções, etc. são inherentes á materia em que se
+manifestam e formam com ella um todo indissoluvel». Entretanto, meia
+pagina abaixo, dá a entender que todas as propriedades da materia são
+fórmas do movimento e se reduzem a movimentos elementares: «a força é a
+propriedade ou a maneira de ser mais geral da materia.... todas as
+forças são reductiveis a movimentos.... uma força não é mais do que
+materia em movimento». Mas, se isto é assim, a materia não é já «tudo o
+que é _in situ_» as suas propriedades não são já «inisolaveis e
+indissoluveis», nem é «grande erro abstrahir do conjuncto d'ellas certas
+propriedades», visto que, de facto, a materia é caracterisada por uma
+propriedade fundamental, o movimento, da qual todas as outras não são
+mais do que modalidades, ou, mais terminantemente, grupos e combinações
+de movimentos simples elementares. Seriamos assim levados ao dynamismo,
+concepção já mais precisa e mais pratica do que o vago e indeterminado
+monismo, e que, depois de Leibnitz, cada vez mais tem ido penetrando, ou
+antes, impondo-se á philosophia das sciencias.
+
+Já por aqui começamos a ver quanto a concepção monista da materia é
+confusa e mal definida e, por conseguinte, pouco philosophica. Mas não o
+é só por isto. A confusão primeira faz-se sentir em todos os aspectos da
+ideia de materia. É impossivel, com effeito, passar-se naturalmente da
+noção d'uma substancia una, simples e apenas virtualmente susceptivel
+d'omnimodas modalidades, para a rica e quasi infinita variedade dos
+seres e qualidades de que se compõe a universal realidade. Que importa
+que essa doutrina sibyllina nos diga que a sua substancia una e simples
+é virtualmente susceptivel de toda a variedade de formas e qualidades? A
+questão está justamente em se saber como é que, sendo una e simples, tal
+substancia póde effectivamente dar de si o movimento e a variedade.
+
+Sobre isto (e isto é justamente o nó vital da questão) é muda a
+doutrina.
+
+Como é que essa substancia una e simples se determina? como é que, sendo
+una e simples, se póde dar n'ella opposição, diversidade, movimento?
+
+A concepção monistia implica continuidade--e tudo no universo é
+descontinuo; implica simplicidade--e tudo no universo é complexo:
+implica inalterabilidade e indistincção--e tudo no universo é perpetua
+mudança, differenciação e instabilidade.
+
+O nosso auctor levanta se desdenhosamente contra o atomismo. Entretanto
+o seu monismo, ou é cousa nenhuma, ou tem de se resolver na ideia de
+atomo. Pois o que está no fundo da concepção atomista? A ideia da
+descontinuidade da materia. E tal ideia impõe-se: impõe-se como um facto
+á sensação; impõe-se como um postulado á sciencia, que, sem presuppor a
+descontinuidade, é incapaz d'avaliar e exprimir por numeros (e é esse o
+typo e a forma perfeita do conhecimento scientifico) seja o que fôr na
+successão dos phenomenos; impõe-se finalmente á especulação, que não
+póde conceber movimento onde não ha distincção, opposição e successão, e
+não póde pensar a distincção sem pensar _ipso facto_ a descontinuidade.
+
+Foi precisamente esta objecção que encontrou deante de si e contra a
+qual veio desmanchar-se a physica cartesiana com a sua ideia da
+materia-extensão.
+
+Como se concebe o movimento numa tal materia? perguntava-lhe o atomista
+Gassendi. E Boileau, com o seu solido bom senso, resumia a questão nos
+dois versos celebres:
+
+ C'est en vain que Rohault sèche pour concevoir
+ Comment, tout étant plein, tout a pu se mouvoir
+
+O snr. V. de Lima, levantando-se, com os seus mestres, contra o
+atomismo, e acceitando ao mesmo tempo, com as sciencias physicas, a
+reducção da ideia de materia á de movimento, mostra mais uma vez a
+inconsistencia do monismo no terreno das ideias geraes da natureza e a
+falta de analyse segura que patenteia a concepção fundamental sobre que
+assenta.
+
+Declamar contra o atomismo é facil: evitar com uma palavra vaga e ao
+mesmo tempo pomposa as difficuldades que envolve a concepção da materia,
+é mais facil ainda: mas não é isso o que se espera de verdadeiros
+philosophos; e uma tentativa de philosophia da natureza, só merecerá
+este nome, quando sobre a analyse das ideias de substancia, força e
+movimento se assente uma doutrina da materia que satisfaça ao mesmo
+tempo ás exigencias puramente racionaes da especulação e as mais
+praticas da indagação scientifica. Nada d'isto encontro no monismo de
+Haeckel e seus discipulos: o terreno sobre que pretendem construir está,
+quanto a mim, muito longe de ser solido.
+
+
+
+
+SEGUNDO ARTIGO[C]
+
+
+Falta-me ainda encarar, n'esta esphera da ideia de materia, a concepção
+monista, sob um outro ponto de vista. É o da espontaneidade da materia.
+
+O snr. Vianna de Lima affirma, por assim dizer, dogmaticamente, nas suas
+_Observações preliminares_, essa espontaneidade e protesta contra a
+physica da inercia: entretanto, todo o seu livro, toda a sua maneira de
+comprehender a evolução presupõe a inercia da materia. É que d'uma
+affirmação a uma theoria vae uma certa distancia, e não me consta que
+algum dos mestres do monismo tentasse ainda formular essa theoria. O
+assumpto envolve com effeito uma difficuldade, que me parece exceder a
+capacidade especulativa dos doutores monistas.
+
+A ideia da espontaneidade da materia (ideia puramente especulativa, em
+que peze ás pretensões do positivismo dos nossos naturalistas
+philosophos) parece estar em contradicção com a theoria da conservação
+do movimento, que domina nas sciencias physicas e já em grande parte nas
+sciencias da organisação.
+
+Não vejo que a doutrina monista resolva, como ella póde ser resolvida,
+n'uma esphera superior, esta contradicção. Pelo contrario, no livro do
+sr. V. de Lima, pela maneira por que o principio da conservação do
+movimento é applicado, sem a menor reserva ou explicação, desde a
+physica até á psychologia, e a evolução apresentada como o exclusivo
+resultado do puro mechanismo, a espontaneidade da materia, praticamente
+e apesar das affirmações preliminares, é constantemente desconhecida, ou
+antes, é negada implicitamente a cada instante. De facto, é como se o
+livro todo não tivesse outro fim senão destruir a these estabelecida nos
+prolegomenos--these que todavia é, philosophicamente, o seu fundamento.
+Com effeito, se havemos de entender que todo o movimento, seja de que
+ordem fôr, é não só condicionado por um movimento anterior, mas
+realmente e exclusivamente uma transformação d'esse movimento anterior,
+é claro que tal concepção do movimento exclue _in limine_ a ideia de
+espontaneidade. A condição passa a ser causa: o effeito, mera prolação
+da causa, é uma apparencia sem ser proprio, sem autonomia.
+
+Consideremos mais de perto a contradicção que d'aqui resulta. Se, por um
+lado, a materia em geral é dotada d'espontaneidade, isto é, se o
+movimento lhe é inherente; mas se, por outro lado, qualquer movimento
+particular e todo e qualquer movimento se reduz no fundo, a uma simples
+transformação das acções anteriores que o condicionam; pergunta-se: como
+se consegue então a espontaneidade geral e theorica da materia? Se o
+movimento *A* se reduz a uma simples transformação do movimento *B*, que
+o condiciona e não *é* por isso espontaneo, o movimento *B* está para
+com o movimento *C*, que por seu turno o condiciona, exactamente na
+mesma relação, assim como o movimento *C* para com o movimento D, o
+movimento *D* para com o movimento *E* e assim indefinidamente--de sorte
+que em parte alguma se encontra movimento espontaneo. O que significa,
+pois, a espontaneidade attribuida theoricamente á materia? E, sobre
+tudo, como se explica o proprio facto do movimento, que d'este modo está
+em toda a parte sem estar em parte alguma? que é por toda a parte
+effeito, sem ter causa em parte alguma? como se concebe esse modo de
+ser, que, não tendo autonomia em nenhum dos pontos onde se realisa e
+realisando-se universalmente, parece ser e não ser ao mesmo tempo?
+
+Ainda por este lado, se me não engano, a ideia da materia, segundo os
+monistas, está muito longe de apresentar a definição e consistencia
+necessarias. Ora essa idéa tem de ser a pedra mestra de toda a
+construcção philosophica na esphera da natureza. A final de contas bem
+apertada e espremida, a doutrina da materia, segundo a philosophia
+monista, reduz-se, como creio ter mostrado, ás noções correntes, nas
+sciencias physicas, de atomo e força. Não só não ha n'ella originalidade
+alguma, mas o que é peior, apresentam-se nos aquellas noções envolvidas
+nevoentamente n'uma concepção vaga, d'onde é necessario extrahil as e,
+no fim de tudo, em vez de esclarecidas e aprofundadas, obscurecidas por
+forma tal que nada ha de lucido e fecundo a tirar d'ellas para uma
+comprehensão superior e verdadeiramente philosophica dos phenomenos da
+natureza.
+
+Com as observações que acabo de fazer não pretendo de modo algum
+contestar o valor e a legitimidade, na esphera das sciencias physicas,
+das noções de materia, atomo, força e movimento, nos limites em que a
+sciencia emprega estas noções: ellas não são, com effeito, para a
+sciencia mais de que hypotheses, restrictas a um determinado campo e não
+tendo por fim senão a coordenação racional d'uma determinada ordem de
+phenomenos, d'um determinado aspecto da phenomenalidade. A sciencia,
+usando d'estas noções, não pretende impol-as fóra da sua esphera, nem
+dal-as em absoluto, como explicação ultima e irreductivel das cousas. A
+conservação do movimento, scientificamente, é um facto: um facto, que
+pela sua generalidade, envolvendo a explicação de innumeros outros
+factos, tem o valor d'uma theoria, mas d'uma theoria puramente
+scientifica. Se a conservação do movimento implica o determinismo,
+implica-o só nos limites e no ponto de vista do puro mechanismo, no
+ponto de vista da realidade como systema de movimentos--sem que a
+sciencia possa ou pretenda concluir d'ahi para um outro ponto de vista,
+que não é o seu, e em que o mechanismo já não apparece como o limite e
+termo ultimo do conhecimento.
+
+Sciencia e especulação (volto a repetil-o) são cousas muito diversas,
+embora dependentes uma da outra, e o que basta á sciencia não é
+sufficiente para a especulação. Ideias, que no terreno scientifico
+bastam e são por isso, n'esse terreno, muito legitimamente consideradas
+irreductiveis, não bastam já nas regiões da especulação, onde com
+effeito são reductiveis a categorias mais transcendentes. Se o conjunto
+das sciencias não póde, como todos os verdadeiros pensadores reconhecem,
+supprir a philosophia ou substituir-se a ella, é justamente porque o
+conjuncto das ideias geraes das sciencias, não inclue em si a totalidade
+dos elementos racionaes da comprehensão do universo, mas apenas o
+conjuncto d'esses elementos no ponto de vista da phenomenalidade. Ora o
+monismo, attribuindo ao ponto de vista das sciencias physicas um
+caracter absoluto, arvorando as ideias geraes d'um grupo de sciencias em
+ideias ultimas e irreductiveis, exorbitou da sciencia sem ao mesmo tempo
+fazer acto de philosophia. É o que talvez consiga mostrar ainda mais
+claramente, fazendo a critica da ideia de evolução segundo os monistas.
+
+
+
+
+TERCEIRO ARTIGO[D]
+
+
+A theoria geral da evolução, diz o snr. Vianna de Lima (e são estas as
+primeiras palavras do seu livro) não é _um systema_; é a synthese
+comparativa, a conclusão que sae do conjuncto de todos os factos
+positivos que o espirito humano tem podido até agora abraçar.... é a
+unica concepção racional e verdadeiramente scientifica do mundo».
+
+É necessario fazer aqui uma distincção importante. A evolução não é, com
+effeito, um systema no dominio circumscripto de cada uma d'aquellas
+sciencias onde esta ideia, por assim dizer, se impõe, onde mil factos a
+confirmam e onde fóra d'ella seria impossivel encontrar-se um principio
+geral de coordenação. Ahi, sem duvida, a evolução não é um systema, mas
+propriamente uma theoria scientifica.
+
+Mas estarão n'este caso todas as sciencias? De modo algum.
+
+A ideia de evolução não intervem senão onde o elemento historico
+representa um papel proeminente, isto é, acima de tudo, nas sciencias da
+organisação (incluindo n'este grupo a anthropologia e fazendo participar
+d'elle as sciencias sociaes, nos limites em que estas teem um caracter
+biologico) e depois ainda, mas d'uma maneira menos necessaria e menos
+definida, na astronomia, ou propriamente, astrogenia. É só ahi que a
+divisão do trabalho se exerce, differenciando gradualmente e como que
+analyticamente as formas contidas virtualmente e, por assim dizer,
+envolvidas n'um germen ou facto primeiro, que é o ponto da partida de
+toda a serie. A physica e a chimica, porem, estão completamente fóra dos
+dominios da ideia de evolução. A chimica parece reduzir-se toda á
+atomicidade, e a maior ou menor complexidade de composição não foi nunca
+considerada como um desenvolvimento, assim como a irredectubilidade dos
+corpos chamados simples, se não é um dogma, é certamente um facto que se
+impõe á sciencia e que, emquanto assim se impozer, obstará a toda a
+theoria geral evolucionista dos phenomenos chimicos. Por outro lado,
+entre as forças physicas, não ha hierarchia, mas parallelismo, e a
+reductibilidade d'umas ás outras implica unidade, mas não evolução,
+cousas bem distinctas.
+
+Onde está, pois, a generalidade scientifica da ideia de evolução? A
+verdade é que uma theoria positiva da evolução, como o sonham os
+monistas, _essa synthese comparativa que sae do conjuncto de todos os
+factos positivos_ só seria possivel se se dessem duas condições
+capitaes: 1.^o que a ideia de evolução se impozesse a toda a ordem de
+phenomenos, ou (o que para nós vale o mesmo) presidisse superiormente a
+todas as sciencias: 2.^o que alem de explicar, dentro do districto de
+cada sciencia, os factos n'elle comprehendidos, explica-se tambem a
+passagem evolutiva de cada uma d'essas ordens para a sua immediata, sem
+ter de recorrer a nenhuma ideia nova e superior.
+
+Ora, nenhuma d'estas condições se realisa.
+
+A ideia d'evolução (como já indiquei, e por isso não insisto n'este
+ponto) só impera em certas sciencias e, por conseguinte, n'uma esphera
+limitada da phenomenalidade.
+
+Em segundo logar, a passagem d'uma determinada ordem de phenomenos para
+outra não se póde explicar evolutivamente, no terreno rigorosamente
+scientifico, porque, n'esse terreno, o elemento commum d'essas varias
+ordens é só um elemento abstracto, o movimento, que pela sua mesma
+abstracção, não é capaz de dar razão do que ha de especial em cada uma
+d'ellas e a caracterisa, isto é, a forma ou funcção especial que
+representa. É assim, por exemplo, que embora os phenomenos vitaes se
+reduzam, em ultima analyse, ao movimento, isto é, a grupos e combinações
+complexas de movimentos elementares, nem por isso a vida pode ser
+satisfactoriamente definida como um modo de ser do movimento; porque uma
+tal definição, pela sua mesma abstracção, nada define; nem o quadro de
+todos esses movimentos póde ser dado como equivalente á ideia synthetica
+da vida; nem, finalmente, a concepção mechanica da vida representará
+outra cousa mais do que um aspecto da phenomenalidade da vida e nunca a
+concepção mesma da vida.
+
+Parece-me claro, em vista d'isto, que a doutrina de evolução formulada
+por Haeckel e seus discipulos não é de modo algum, como se pretende, uma
+doutrina positiva, fundada nas sciencias e sahindo d'ellas como a sua
+natural consequencia. Creio ter mostrado que essa doutrina implica uma
+extensão abusiva da inducção scientifica e a illegitima generalisação
+d'uma hypothese, que se é perfeitamente fundada no terreno de
+determinadas sciencias, só ahi e só n'esse ponto de vista tem
+authoridade scientifica.
+
+A doutrina monista tem, pois, em despeito das suas pretensões de
+positividade, um caracter especulativo e é propriamente _um systema_,
+uma construcção philosophica em que o _a priori_ representa um papel
+preeminente: n'uma palavra, apezar dos elementos scientificos que
+contem, não é uma doutrina scientifica, mas uma hypothese philosophica.
+
+Resta agora ver se, como hypothese philosophica, a ideia d'evolução, tal
+como a concebem os monistas, apresenta aquella definição e consistencia
+sem as quaes a mais ampla e brilhante hypothese é muito mais um producto
+da imaginação, do que da razão.
+
+Creio que não apresenta.
+
+Especulativos inconscientes, os monistas especulam mal. Tal como a
+concebem, a evolução, destituida de todos aquelles elementos de analyse
+racional, que só lhe poderiam dar um verdadeiro cunho philosophico, não
+é um principio: seria apenas (se as suas pretensões de positividade
+fossem fundadas) um facto; facto culminante e universal, mas simples
+facto e não principio.
+
+Ora os factos são apenas a materia prima da philosophia: são aquillo que
+se pretende explicar, em quanto que só os principios fornecem o criterio
+e o ponto de vista d'essa explicação; e a doutrina monista da evolução,
+que, como doutrina positiva, como generalisação scientifica dos factos
+da natureza, está muito longe de ser rigorosa e fundada, pecca por outro
+lado gravemente, como hypothese philosophica, como doutrina
+especulativa, pela falta d'analyse das ideias sobre que, para merecer o
+nome de philosophia da natureza, se deveria apoiar.
+
+Com effeito, se o universo evolve porque é que evolve? Se a sciencia
+nada tem que vêr com esta questão, a philosophia é que tem muito e
+tudo--e já mostrei que é sómente como tentativa philosophica de
+explicação que o evolucionismo monista deve ser considerado.
+
+Uma theoria geral philosophica do desenvolvimento das cousas implica,
+pois, uma theoria da razão de ser d'esse desenvolvimento. Sobre esta
+questão essencial o monismo é peior do que mudo; é absurdamente
+negativo.
+
+A ideia de evolução implica necessariamente a de finalidade; esta contem
+a explicação racional d'aquella, que, só por si, é inintelligivel e até
+contradictoria. Se o movimento, acto essencial da materia, é autonomo (e
+é esta a these monista fundamental) tal movimento não póde ser concebido
+senão como um impulso espontaneo, por conseguinte, como uma verdadeira
+determinação voluntaria: ora onde ha determinação voluntaria sem mobil,
+sem fim? Pois não é precisamente o fim que determina a vontade, e que
+explica o acto? Um movimento autonomo, que não tende a um fim, é
+perfeitamente inconcebivel: pois se não ha fim porque e para que o
+movimento? A ideia de finalidade é a pedra angular de toda a construcção
+philosophica no terreno da natureza.
+
+Assim o comprehendeu Leibnitz na sua Monadologia, assim o comprehenderam
+Schelling e Hegel, os verdadeiros paes da moderna philosophia da
+natureza.
+
+O horror pueril á metaphysica e a pretensão chimerica de fundar uma
+philosophia da natureza positiva e exclusivamente architectada no
+terreno da sciencia levou Haeckel (e muitos outros atraz d'elle e com
+elle) a desconhecerem a importancia capital da ideia de finalidade e a
+minarem aquillo que justamente lhes deveria servir de primeiro
+fundamento para o edificio que levantavam. É o que espero deixar
+suficientemente provado no meu proximo artigo.
+
+
+
+
+QUARTO ARTIGO[E]
+
+
+O Snr. Vianna de Lima consagra as ultimas 100 paginas do seu volume a
+combater a ideia de finalidade nos dominios da natureza e triumpha
+facilmente dos theologos ou simili-theologos, que, despojando a materia
+das suas propriedades espontaneas e da sua infinita virtualidade, veem
+em tudo os effeitos d'uma direcção exterior e se extasiam diante das
+harmonias intencionaes da Criação.
+
+Era facil o triumpho. Sómente, o snr. Vianna de Lima tomou a nuvem pela
+deusa, tomou a concepção infantil e anthropomorphica da finalidade pela
+propria ideia metaphysica de finalidade.
+
+Se o snr. Vianna de Lima se despojasse por algum tempo dos seus habitos
+de pensamento de puro naturalista e estudasse um pouco os tão
+abominaveis metaphysicos, não só Leibnitz e Hegel, mas ainda o
+representante nosso contemporaneo da alta especulação, Hartmann (que é,
+não menos do que foram aquelles dois, profundamente versado nas
+sciencias da natureza) veria que a ideia de finalidade não se reduz,
+como lhe parece, áquella concepção anthropomorphica, que com tão facil
+felicidade refuta no seu livro. Veria que a finalidade póde ainda ser
+concebida como immanente á materia e como aquelle segundo elemento que
+vem integrar, juntando-se ao movimento, a noção da realidade; que,
+n'este caso, longe de ser contradictoria com a espontaneidade do
+movimento, é justamente a explicação do movimento; que o que parece
+effeito, no ponto de vista do puro mechanismo, é causa no ponto de vista
+da finalidade, sem que uma cousa repugne á outra, porque são duas
+espheras do conhecimento, que ao mesmo tempo que se oppõem,
+reciprocamente se completam.
+
+Perceberia então uma cousa, e é que, não só o movimento em geral (o
+movimento em si, independentemente de qualquer ideia de desenvolvimento)
+é racionalmente inexplicavel e, por conseguinte, inconcebivel sem a
+ideia de finalidade ou de causa-final, mas que mais particularmente a
+evolução, isto é, o movimento como hierarchia ou desenvolvimento,
+implicando a ideia d'um typo, que as formas evolvendo, tendem a
+realisar, implíca por isso mesmo uma finalidade.
+
+O typo é realisado na serie, não é um producto d'ella: pois, se fosse um
+producto, como se explicaria a serie? Quem diz evolução diz progresso.
+Ora, progresso que não tende para cousa alguma, que não tem um typo e um
+fim, não se comprehende. Se não ha typo, não ha medida ou termo de
+comparação na serie, não ha, por conseguinte, hierarchia: ha variedade
+de formas parallelas e equivalentes; mas não desenvolvimento.
+
+No meio d'essa multidão de formas inexpressivas, tudo será igualmente
+perfeito ou imperfeito: haverá ainda transformismo; mas não haverá
+evolução progressiva.
+
+É assim que o ultimo capitulo do livro do snr. Vianna de Lima deita por
+terra a doutrina estabelecida laboriosamente nos que o precedem. É assim
+que metade da doutrina de Haeckel deita por terra a outra metade. É
+assim que uma philosophia da natureza que pertende não ser uma
+philosophia especulativa, acaba por não ser cousa alguma.
+
+Que concluiremos de toda esta critica? Concluiremos em primeiro logar,
+que os naturalistas, quando não são ao mesmo tempo philosophos, não
+podem construir uma philosophia da natureza que se sustenha de pé.
+Concluiremos, em segundo logar, que não póde haver, por muito que se
+apregoe, philosophia da natureza positiva (puramente scientifica), assim
+como em geral não póde haver philosophia positiva. O erro commum em que
+laboram os positivistas das differentes communhões (são varias, e todas
+egualmente positivas) é este: que o conhecimento scientifico é o typo do
+conhecimento, o conhecimento ultimo e perfeito; e que, por conseguinte,
+esgotando o ponto de vista scientifico a comprehensão da realidade,
+basta reunir em quadro as conclusões de todas as sciencias, ou
+generalisar as ideias fundamentaes communs a todas ellas para se obter a
+mais alta comprehensão das cousas, a que nos é dado aspirar. D'aqui a
+chimera d'uma philosophia positiva.
+
+Não seria chimera, se com effeito o conhecimento scientifico
+representasse o conhecimento supremo e definitivo, e não apenas uma
+determinada esphera do conhecimento. Nesse caso a generalisação dos
+dados scientificos corresponderia a uma verdadeira synthese e a
+abstracção suprema dos elementos da realidade tomaria o logar das ideias
+da razão. Infelizmente ou felizmente (que isso importa pouco) a razão
+subsiste e com ella o ponto de vista das ideias metaphysicas de
+_substancia_, _causa_ e finalidade_ ás quaes tem de ser referidas, em
+ultima instancia, as conclusões da sciencia. E porque? Porque essas
+conclusões, ainda nas suas mais vastas e deslumbrantes generalisações,
+não se explicam a si mesmas e, representando apenas as grandes linhas e
+como que a estructura abstracta do mundo phenomenal, precisam ellas
+mesmas de ser explicadas. Com o seu caracter abstracto são ainda factos,
+e os factos precisam do reflexo da razão para se tornarem intelligiveis.
+O conhecimento scientifico constitue apenas a região media do
+conhecimento, entre o senso commum, d'um lado, e o conhecimento
+metaphysico, do outro. É pois a rasão que tem, em ultima instancia, de
+se pronunciar sobre o valor e o logar, na comprehensão total do
+universo, dos dados quer do senso commum quer da sciencia. Essa
+comprehensão total é que é a philosophia: edificio sempre em
+construcção, sempre renovado nos seus materiaes (que o progresso dos
+conhecimentos positivos lhe vae fornecendo dia a dia) sempre instavel e
+ao mesmo tempo sempre de pé, e que sendo sempre incompleto nunca se pode
+dizer insufficiente, porque, tal como é, corresponde ás mais altas
+faculdades do espirito humano, abriga as mais sublimes aspirações,
+tormento e gloria ao mesmo tempo, d'este mysterioso animal racional
+chamado homem.
+
+E eis ahi porque uma philosophia positiva é uma chimera. Quem diz
+philosophia diz idealismo. Só o systema das ideias contem inteira a
+explicação do systema das cousas. O movimento não esgota o ser: o ser
+implica movimento e ideia. Os naturalistas, desprezando ou ignorando as
+ideias, ignoram metade das cousas e a sua philosophia é só meia
+philosophia, ou antes, é só um arremedo da philosophia. _Tudo quanto é,
+é racional_, disse Hegel.
+
+Pretender amputar a razão é pretender amputar a realidade.
+
+É dentro da razão, não fóra d'ella, que teem de ser marcados os limites
+do conhecimento. Só no ponto de vista total da razão se resolvem as
+contradicções que a realidade apresenta, como outras tantas esphinges á
+intelligencia indagadôra.
+
+Materia e espirito, determinismo e liberdade, evolução e finalidade, não
+são ideias contradictorias senão na apparencia: de facto, são só duas
+espheras differentes da comprehensão, these e antithese, cuja synthese é
+a razão.
+
+Assim, uma philosophia da natureza, tal como a concebo, uma philosophia
+da natureza á altura, não só do grande seculo das sciencias naturaes,
+mas do grande seculo de Kant e Hegel, não tem que regeitar o
+determinismo universal e a evolução como uma forma mechanica d'esse
+determinismo: mas o que não póde é ficar ahi.
+
+Determinismo e evolução serão apenas o seu ponto de partida, a forma
+universal da phenomenalidade, que a generalisação scientifica lhe
+fornece e que ella, a philosophia, terá d'analysar e interpretar á luz
+das ideias. Só assim terá satisfeito não só á rasão especulativa, mas ás
+exigencias não menos imperiosas da consciencia humana.
+
+Digo da consciencia humana; e é este um outro aspecto, e aspecto capital
+da questão que é necessario por em evidencia. Muitos dirão:--que tem que
+ver a philosophia com a consciencia humana? Responder-lhes-hei:--tem
+tudo. Por uma singular aberração, são justamente os que mais falam de
+positivismo e factos positivos os que parecem esquecer ou ignorar que a
+consciencia humana é um facto, que a sua actividade, expressa e
+objectivada em milhares de manifestações, desde os codigos até á poesia,
+e atravez de milhares d'annos, constitue uma ordem de factos tão
+positivos e tão irrecusaveis como os da physica ou da astronomia. E
+estes factos não são só positivos e evidentes: são ainda culminantes,
+pois os phenomenos sociaes e moraes, tendo atraz de si todas as outras
+ordens de phenomenos e apoiando-se n'ellas, constituem o ponto mais alto
+da serie evolutiva das cousas.
+
+Os factos da consciencia humana são, pois, não só factos positivos, mas
+os factos positivos culminantes.
+
+Ora que diriamos d'uma philosophia, que não podesse explicar, mais, que
+estivesse em contradicção com os factos da physica, por exemplo, ou de
+chimica? Diriamos ser uma philosophia não só incompleta, mas falsa. E
+que pensaremos então d'uma philosophia, que não só consegue explicar,
+mas está em flagrante contradicção com factos tão positivos como
+aquelles, e, alem de positivos, superiores e culminantes?
+
+A consciencia humana é, pois, verdadeiramente um criterio philosophico,
+n'este sentido que uma philosophia incapaz de explicar
+satisfactoriamente os phenomenos da consciencia, ou em contradicção com
+elles, é uma philosophia incompleta, ou errada, por deixar de fóra, ou
+contradizer, uma parte e justamente a parte mais importante da
+realidade.
+
+Este criterio bastaria só por si (alem de tudo que atraz fica dito) para
+condemnar toda a philosophia puramente materialista, sob qualquer forma
+em que se apresente:--mecanismo atomico, determinismo scientifico,
+monismo ou pantheismo naturalista. Sob qualquer destas formas, o
+materealismo envolve, o que é a sua essencia, a reducção de toda a ordem
+de phenomenos a forças elementares, sujeitas a uma determinação cega,
+mechanica e sem fim intelligivel: envolve a negação de todo o elemento
+racional nas cousas, reduzindo ao mesmo tempo as affirmações da
+consciencia a puras illusões subjectivas.
+
+A critica do materialismo, n'este ultimo ponto de vista, tem sido mil
+vezes feita e não preciso reproduzil-a aqui.
+
+O que quero é fazer sentir quanto o monismo evolucionista da escola de
+Haeckel (que não é mais do que uma forma do materialismo) cuja maior
+pretensão é ser uma philosophia positiva da natureza, ainda por este
+lado não é positivo, por não poder explicar uma ordem inteira e a mais
+importante dos factos do universo.
+
+Declarar que a liberdade e o sentimento moral são meras illusões
+subjectivas, e que os mais intimos e mais autonomos phenomenos da
+consciencia resultam apenas d'acções mechanicas e são a transformação
+d'essas acções--é facil. Agora o que não é facil, porque é simplesmente
+impossivel, é explicar e fazer comprehender (como ha poucos annos ainda
+Du Bois-Reymond perguntava a Haeckel) como é que o movimento, um grupo
+de movimentos por mais complexo que o supponhamos, pode produzir, não já
+os factos superiores da vida do pensamento, mas o mais elementar, a
+simples sensação? Deante d'esta simples pergunta desaba todo o edificio
+do monismo. A vida moral não é cousa que se decomponha em retortas, nem
+se descobrirá jámais o equivalente mechanico do genio ou da virtude:
+
+ _There are more things in heaven and earth, Horatio,
+ Than are dreamt off in your philosophie_
+
+
+
+
+QUINTO ARTIGO[F]
+
+
+Pretenderei eu accaso com esta critica, contestar o valor dos trabalhos
+da escola monista, ou ainda a sua importancia philosophica?
+
+De modo algum.
+
+O que eu contesto é o valor do seu systema, como systema, o que eu
+censuro é a pretensão de fundar uma philosophia da natureza com a
+simples generalisação dos dados d'um grupo de sciencias, e sem ter em
+conta o indispensavel criterio das ideias. Mas abstrahindo d'estas
+pretensões, a tentativa de Haeckel, considerada em si, tem um alto
+valor. Tem-no, sobre tudo, como symptoma da tendencia, que cada vez mais
+se manifesta na esphera da sciencia para uma unidade de comprehensão,
+que assentando rigorosamente no terreno scientifico, saia ao mesmo tempo
+da analyse e abstracção inherententes á sciencia, procurando como
+formula, uma ideia de caracter synthetico, isto é, uma ideia
+propriamente philosophica.
+
+Esta tendencia é sem duvida alguma, o facto intellectual mais importante
+do seculo actual e um d'aquelles em que mais se traduz d'um lado, a
+influencia d'ora em deante cada vez mais predominante do criticismo de
+Kant, e do outro, a feição eminentemente positivista do espirito
+moderno. Se uma philosophia positiva é e será sempre, como já mostrei,
+uma chimera, a acção e authoridade directa da sciencia na philosophia
+será d'aqui em deante (quero dizer depois da _Critica da Rasão pura_) um
+facto que tem de se impor a todos os pensadores.
+
+Mas acção e auctoridade da sciencia na philosophia é uma cousa, e
+philosophia positiva, outra. As ideias syntheticas da philosophia não
+saem das sciencias, não são simples generalisações scientificas: são um
+producto da especulação e quando chegam a apparecer no terreno
+scientifico é infiltradas para ali das regiões da especulação, é porque
+a especulação as forneceu, sob forma de hypothese, á sciencia. Não cabe
+em escrito d'estas dimensões expor a theoria da hypothese. Bastará
+mostrar como a theoria geral da evolução, hoje com tanto vigor e brilho
+formulada por Haeckel e seus concorrentes ou discipulos, longe de ser,
+como vulgarmente se imagina, uma _descoberta_ das sciencias naturaes e
+um resultado directo da analyse scientifica, é, pelo contrario, uma
+verdadeira hypothese philosophica, que, producto da elaboração
+especulativa de perto de trez seculos, acabou por se manifestar no
+dominio das sciencias.
+
+Com effeito são mais fundas as suas raizes, mais longiqua a sua
+procedencia.
+
+Essa ideia não saiu das sciencias naturaes, mas penetrou n'ellas pela
+influencia (obscura, é certo e indirecta, mas muito real) das noções
+metaphysicas lentamente elaboradas, a partir da renascença, dentro da
+ideia fundamental de _natureza_. A maneira dynamica, autonomica,
+realista, de conceber a natureza é o que mais radicalmente distingue o
+pensamento moderno do antigo. A natureza para o pensamento antigo, e
+ainda para o mais genial dos seus intrepretes e o mais objectivo,
+Aristoteles, era concebida como abstracta, inerte, passiva: longe de
+parecer concreta e espontanea, era considerada apenas como um reflexo,
+acto ou emanação d'um ser ou seres transcendentes e perfeitos: as
+_ideias_ de Platão, a _intelligencia_ de Anaxagores, o _motor immovel_ e
+as _formas substanciaes_ de Aristoteles etc.) exteriores a ella e só
+verdadeiramente autonomos. Esta maneira de conceber manteve-se pela
+Escolastica e pela Theologia christã, até á Renascença. A partir dos
+ultimos tempos da Edade-media, com a dissolução da philosophia
+escolastica e as revoluções de toda a especie, intellectuaes, sociaes
+religiosas, que annunciam a aurora dos tempos modernos, dá-se nas
+regiões mais profundas da intelligencia humana uma fermentação
+extraordinaria, que se exprime, ainda com pouca consciencia do seu
+proprio alcance, nas creações da astronomia e da physica modernas
+(Kopernico, Keppler, Galileo, Torricelli) e nas reformas philosophicas
+de Bacon e Descartes; que se avigora com Leibnitz e Spinosa e com os
+primeiros trabalhos de physiologia, botanica e sciencias sociaes
+(Gesner, Harvey, Malpighi, Boerhaave, Hobbes, Grocio, Vico, Lessing,
+etc.) para acabar, plenamente consciente no seculo XIX, por se affirmar,
+não já n'esta ou n'aquella ordem de phenomenos, mas em todas as espheras
+da actividade humana, nas sciencias, na philosophia, na sociedade civil
+e politica e na propria arte e poesia contemporaneas. O naturalismo é
+para os tempos modernos o que foi o racionalismo para a Antiguidade:--a
+formula mais geral da sua actividade.
+
+A doutrina da evolução é apenas uma das determinações, a mais recente e
+porisso a mais intensa, e intima, do naturalismo moderno.
+
+E convirá notar que o seu apparecimento é simultaneo na astronomia, na
+geologia, na biologia, na linguistica e na historia: Lamarck, Laplace,
+Werner, Goethe, Geoffroy Sainte-Hilaire, Herder, Saint-Simon, Bopp,
+Adelung, são contemporaneos, ou proximamente contemporaneos.
+
+O evolucionismo dentro das sciencias da natureza não é mais do que a
+applicação a uma ordem de factos do principio fundamental do pensamento
+moderno, uma das suas determinações particulares.
+
+Mas esse principio é uma hypothese geral e, como todas ideas
+syntheticas, um resultado da especulação, não é um facto positivo. Se
+apparece no dominio das sciencias, é como hypothese philosophica, não
+como lei scientifica. Se as sciencias da natureza e da sociedade
+convergem hoje no sentido da evolução, convergem movidas pelo influxo
+intimo do estado mental-metaphysico que as envolve, não pela força
+exclusiva e independente do seu desenvolvimento proprio. Não ha, como se
+pretende, a eliminação do elemento metaphysico pelo elemento
+scientifico: ha uma mutua penetração; penetração da especulação na
+sciencia, pela hypothese que a vem fecundar; penetração da sciencia na
+especulação, pelo correctivo imposto, em nome da realidade, dos factos
+positivos, ao á-priorismo inherente ao pensamento especulativo.
+
+E é por isso que o concurso da sciencia e da especulação é indispensavel
+para a constituição definitiva da philosophia moderna (da qual todos os
+systemas, desde Bruno e Bacon até aos nossos dias são apenas esboços e
+prenuncios), para a organisação systematica do pensamento moderno em
+todas as suas determinações.
+
+Creio com Haeckel, assim como com Schelling, Hegel, Hartmann, Comte e
+Spencer, que é no terreno da evolução que essa grande synthese tem de
+ser construida, e que, depois do seculo XVIII e depois de Kant, já não é
+possivel uma philosophia que não seja essencialmente uma theoria geral
+do desenvolvimento, isto é, uma philosophia da evolução. Mas creio
+tambem que a organisação da ideia d'evolução n'essa theoria geral do
+desenvolvimento é problema que excede muito a capacidade especial das
+sciencias da natureza, quero dizer, a esphera theorica d'essas
+sciencias, porque excede os limites e alcance do puro espirito
+scientifico.
+
+A metaphysica do seculo XIX apezar do descredito em que momentaneamente
+parece ter caido, não disse ainda a sua ultima palavra, nem abdicou. Se
+a conclusão final das sciencias tem de ser, como creio, o mechanismo
+universal, a conclusão final do pensamento metaphysico tem por seu lado
+de ser o universal idealismo. Mas já hoje se começa a comprehender que
+entre estes dois termos não ha contradicção essencial e que esta _these_
+e _antithese_ é reductivel a uma _synthese_, que satisfaça plenamente
+tanto a sciencia como a especulação. Essa synthese em que o idealismo
+apparecerá com complemento necessario do mechanismo já hoje se deixa
+entrever; e creio que nem a todos parecerá temeridade e paradoxo,
+concebel-a, como eu a concebo, nem idealista nem materialista no antigo
+e mais usual sentido das palavras, mas num sentido novo e mais profundo,
+como um _materíalismo idealista_.
+
+FIM
+
+
+
+
+======================================================================
+ Tiragem de 200 exemplares numerados
+======================================================================
+
+
+
+
+TYPOGRAPHIA DO CAMPEÃO POPULAR
+
+Rua da Graça n.^o 15--Ponta Delgada
+
+*Estabelecimento fundado em 1889*
+
+
+
+
+*Notas:*
+
+[A] _A Provincia_--N.^o 48, II anno--Porto, 1 de março de 1886.
+
+[B] Aliás de Iena. (E. P.)
+
+[C] _A Provincia_--N.^o 49--II anno--Porto, 2 de Março de 1886.
+
+[D] _A Provincia_--N.^o 50--II anno--Porto, 3 de março de 1886.
+
+[E] _A Provincia_--N.^o 51--II anno--Porto, 4 de março de 1887.
+
+[F] _A Provincia_--N.^o 52--II anno--Porto, 5 de março de 1887.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A philosophia da natureza dos
+naturalistas, by Antero Tarquínio de Quental
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PHILOSOPHIA DA NATUREZA ***
+
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+works. See paragraph 1.E below.
+
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
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+The Project Gutenberg EBook of A philosophia da natureza dos naturalistas, by
+Antero Tarquínio de Quental
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A philosophia da natureza dos naturalistas
+
+Author: Antero Tarquínio de Quental
+
+Release Date: October 4, 2008 [EBook #26776]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PHILOSOPHIA DA NATUREZA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was
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+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
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+
+
+<div>
+<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b>
+Devido &agrave;
+quantidade de erros tipogr&aacute;ficos existentes neste texto,
+foram tomadas v&aacute;rias decis&otilde;es quanto &agrave;
+vers&atilde;o final. Em caso de d&uacute;vida, a grafia foi
+mantida de acordo com o original. No final deste livro
+encontrar&aacute; a lista de erros corrigidos.<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita
+Farinha (Out. 2008)
+</div>
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>
+A PHILOSOPHIA DA NATUREZA<br />
+
+<br />
+
+NATURALISTAS
+</h2>
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h3>1894</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>HOMENAGEM POSTHUMA<br />
+
+<br />
+
+A<br />
+
+<br />
+
+ANTHERO DE QUENTAL
+</h4>
+
+<h4>
+(MICHAELENSE)
+</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<h3><span class="smallcaps">Anthero de Quental</span></h3>
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h2>
+A PHILOSOPHIA DA NATUREZA<br />
+
+<br />
+
+DOS<br />
+
+<br />
+
+NATURALISTAS
+</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<h4>1894
+</h4>
+
+<h5>Typ. Editora do <span class="smallcaps">CAMPE&Atilde;O
+POPULAR</span><br />
+
+<span class="smallcaps">S. Miguel--PONTA
+DELGADA--A&ccedil;ores</span>
+</h5>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>EXPLICA&Ccedil;&Atilde;O PREVIA
+</h3>
+
+<br />
+
+Digam o que disserem, Anthero de Quental
+foi indubitavelmente, um dos mais fecundos escriptores
+do seu paiz e da sua epocha.
+<br />
+
+<br />
+
+Raros, muito raros, foram as theorias ou problemas
+da actualidade, ventilados com interesse
+nos dominios da Sciencia, da Politica ou da Arte
+que deixassem d'exercitar a penna sempre prestigiosa
+e sempre elegante do grande Mestre.
+<br />
+
+<br />
+
+Na sua obra em prosa cabe, porem, um logar
+proeminente aos copiosos artigos de critica ou
+de polemica, que, durante quasi trinta annos, appareceram
+estampados em diversos org&atilde;os da imprensa
+periodica portugueza, tanto da capital como
+da provincia, e nos quaes, &aacute; semelhan&ccedil;a de
+Littr&eacute; e de Taine, elle connotou, como n'um diario
+<span class="pagenum">[VI]</span>
+intimo, n&atilde;o s&oacute;mente as suas opini&otilde;es
+pessoaes sobre
+os homens e os successos contemporaneos,
+mas ainda as correntes de influencias estranhas
+que actuaram no seu espirito e as impress&otilde;es que
+d'ahi resultaram.
+<br />
+
+<br />
+
+Como critico e polemista, Anthero de Quental
+n&atilde;o teve em Portugal competidor; foi unico
+na energia fogosa da polemica e nos processos
+technicos da analyse critica.
+<br />
+
+<br />
+
+Os seus escriptos de critica bibliographica
+s&atilde;o exemplares de methodo e de bom senso, de finura
+e de erudi&ccedil;&atilde;o, de escrupulosa imparcialidade
+e d'aquella serena comprehens&atilde;o dos multiplices
+aspectos das cousas e dos homens que d&aacute; ao critico
+a maxima authoridade e valor.
+<br />
+
+<br />
+
+N'este particular, pertence-lhe a gloria de ter
+sido entre n&oacute;s o verdadeiro creador d'um genero
+litterario descurado, para n&atilde;o dizermos falseado,
+na sua applica&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+At&eacute; elle a critica, aberrando diametralmente
+do seu papel objectivo, fazia-se pela antipathia ou
+sympathia do critico para com o nome do author;
+o louvor ou a censura previam-se justamente, dadas
+as rela&ccedil;&otilde;es de sentimento d'um para com outro.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi Anthero quem iniciou a critica impessoal,
+a critica objectiva, desapaixonada, fria, inspirada
+<span class="pagenum">[VII]</span>
+por um sentimento de equidade e de justi&ccedil;a--critica,
+em summa, que &eacute; uma li&ccedil;&atilde;o; porque
+ensina, e
+que pode fazer do criticado um adversario, mas
+nunca um inimigo--e do critico um juiz, mas nunca
+um louvaminheiro nem um delator.
+<br />
+
+<br />
+
+Os artigos criticos do grande Mestre teem todos
+estes caracteres acentuadamente impressos:
+n&atilde;o s&atilde;o exclusivamente laudatorios nem
+exclusivamente
+aggressivos; s&atilde;o justos e por isso mesmo
+verdadeiros. Teem authoridade; porque fallam sinceramente
+uma linguagem que n&atilde;o &eacute; a do odio
+nem a dos affectos; mas que &eacute; a voz d'uma consciencia
+honrada para a qual os Homens s&atilde;o o menos
+e a Verdade o mais.
+<br />
+
+<br />
+
+Se alguns d'esses trabalhos perderam j&aacute; aquelle
+cunho de novidade que os fez circular vertiginosamente
+d'um a outro canto do nosso paiz, e
+se por isso n&atilde;o movem ao interesse e enthusiasmo
+que suscitaram aos primitivos leitores, &eacute; certo,
+que ainda assim, constituem documentos de
+summa valia, quer sob o ponto de vista meramente
+litterario, quer como subsidio para quem
+no futuro pretenda historiar as differentes phases
+do movimento das id&eacute;as em Portugal, na ultima
+metade do seculo XIX.
+<br />
+
+<br />
+
+Taes elementos s&atilde;o, portanto, indispensaveis
+para o estudo de Anthero e da sua epocha. Sem
+<span class="pagenum">[VIII]</span>
+elles mal se poder&aacute; comprehender a obra do grande
+Mestre na sua extens&atilde;o, valor, influencia, e
+mal se poder&aacute; explicar tambem a
+filia&ccedil;&atilde;o ou dependencia
+das diversas partes d'essa obra complexa
+e vastissima.
+<br />
+
+<br />
+
+V&ecirc;-se, pois, que quem quizer formar uma
+id&eacute;a cabal do irrivalisavel escriptor e da sua actividade
+productora, ou procurar comprehender a
+ac&ccedil;&atilde;o exercida sobre os seus contemporaneos, ha
+de necessariamente recorrer &aacute;s
+collec&ccedil;&otilde;es das Revistas
+e Gazetas, que o contaram entre os seus
+collaboradores, onde elle deixou archivado pelo
+seu proprio punho aquillo que bem pode chamar-se
+a sua <em>autobiographia mental</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Infelizmente, por&eacute;m, s&atilde;o numerosos e pouco
+accessiveis esses repositorios, muitos dos quaes
+teem desapparecido (como succede &aacute; maior parte
+das revistas academicas, publicadas em Coimbra)
+e outros tornam-se cada dia mais raros, dada a
+procura dos collecionadores.
+<br />
+
+<br />
+
+N'estas condi&ccedil;&otilde;es, dentro em breve, poucos
+ser&atilde;o os estudiosos que tenham a dita de ler e
+consultar os escriptos jornalisticos d'Anthero.
+<br />
+
+<br />
+
+Esperar-se-ha que um editor tome sobre si o
+encargo de recolher essas numerosas especies dispersas?
+<br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o ser&aacute; isso, por assim dizer, sacrificar a
+<span class="pagenum">[IX]</span>
+obra do grande Mestre, deixando de recolher muitos
+dos escriptos da maior raridade?
+<br />
+
+<br />
+
+A edi&ccedil;&atilde;o definitiva das obras completas d'Anthero
+s&oacute; poder&aacute; levar-se a cabo, quando primeiro
+se publiquem as reproduc&ccedil;&otilde;es d'esses escriptos
+avulsos.
+<br />
+
+<br />
+
+Aos amigos e discipulos do immortal escriptor
+impende, pois, um grande dever de gratid&atilde;o:--&eacute;
+o dever de cada um de per si ou associados,
+salvar do olvidio e da destrui&ccedil;&atilde;o os trabalhos do
+Mestre, colligindo-os systematicamente e por ordem
+chronologica, &aacute; semelhan&ccedil;a do que fez o sr.
+Oliveira Martins para os Sonetos e restantes
+composi&ccedil;&otilde;es
+poeticas.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; urgente come&ccedil;ar. Talvez mais tarde
+n&atilde;o
+seja possivel reconstituir a serie d'aquelles trabalhos
+ou por terem desapparecido os jornaes em
+que foram originalmente publicados, ou por muitos
+d'elles serem anonymos e terem tambem desapparecido
+as pessoas que poderiam reconhecer
+a sua paternidade.
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="px">[X]</a></span>
+<h3>II
+</h3>
+
+<br />
+
+No diario portuense--<em>A
+Provincia</em>--inseriu Anthero
+de Quental, em 1886, uma serie de cinco
+artigos, a proposito da obra de Vianna de Lima,
+intitulada--<em>Exposi&ccedil;&atilde;o summaria
+das theorias
+transformistas</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A quest&atilde;o versada era e &eacute; ainda das mais
+importantes e das mais disputadas, tanto no terreno
+propriamente especulativo, como no terreno
+das sciencias naturaes.
+<br />
+
+<br />
+
+Anthero de Quental, <a href="#e1">metaphysico</a>
+de profiss&atilde;o,
+n&atilde;o podia entrar no debate como naturalista,
+embora os seus estudos tivessem fundos alicerces
+nas Sciencias da natureza. Discutiu e argumentou
+como philosopho;--philosophou; porque
+na materia tinha opini&otilde;es originaes definidas e
+raz&otilde;es peculiarmente suas.
+<br />
+
+<br />
+
+D'ahi a importancia e renome dos artigos que
+o publico illustrado victoriou, como modelos acabados
+de analyse critica, collocando-os do mesmo
+passo a par das melhores paginas de prosa portugueza.
+<br />
+
+<br />
+
+Tinha raz&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+S&atilde;o com effeito obras primas no seu genero e
+<span class="pagenum"><a name="pxi">[XI]</a></span>
+em que n&atilde;o se sabe qual mais admirar, se a belleza
+incomparavel de forma, se a genial pujan&ccedil;a
+e superioridade do pensamento que anima aquella
+solida construc&ccedil;&atilde;o especulativa, communicando-lhe
+a maxima potencia de suggest&atilde;o e de interesse.
+<br />
+
+<br />
+
+Mostremo-lo, embora de relance.
+<br />
+
+<br />
+
+Anthero de Quental, partindo do principio de
+que a <em>sciencia n&atilde;o p&oacute;de ser para
+a philosophia
+mais que uma materia prima</em>, impugna a
+pretens&atilde;o
+de fundar uma philosophia da natureza com a
+a simples generalisa&ccedil;&atilde;o dos dados d'um grupo de
+sciencias, e sem ter em conta o indispensavel criterio
+das ideias. &Eacute; este o thema principal que elle
+se esfor&ccedil;a para estabelecer fundamentalmente.
+<br />
+
+<br />
+
+Analysando as duas no&ccedil;&otilde;es que formam a base
+da doutrina Haeckeliana--<em>o <a href="#e2">monismo</a>
+e a
+evolu&ccedil;&atilde;o</em>--mostra
+que a primeira &eacute; insufficiente, e &aacute;
+segunda falta a generalidade scientifica; visto como
+n&atilde;o intervem, sen&atilde;o <em>onde o
+elemento historico
+representa um papel proeminente</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Por outro lado demonstra que ha contradic&ccedil;&atilde;o
+flagrante entre a id&eacute;a da espontaneidade da
+materia, como a admitte a escola monista, e a
+theoria da conserva&ccedil;&atilde;o do movimento, que domina
+nas sciencias physicas e em grande parte nas
+<span class="pagenum">[XII]</span>
+sciencias da organisa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+E sobre estas premissas logicas, conclue que
+a doutrina da evolu&ccedil;&atilde;o, formulada por Haeckel,
+longe de ser, como se pretende, uma doutrina positiva,
+baseada nas sciencias e fluindo d'ellas como
+sua consequencia natural, implica, pelo contrario
+uma <em>extens&atilde;o abusiva da
+induc&ccedil;&atilde;o scientifica
+e a illegitima generalisa&ccedil;&atilde;o d'uma hypothese,
+que, se &eacute; perfeitamente fundada no terreno de determinadas
+sciencias, s&oacute; ahi e s&oacute; n'esse ponto de
+vista tem authoridade scientifica</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+A <em>id&eacute;a da finalidade</em>,
+combatida pela escola
+monista, &eacute; sustentada por Anthero d'um modo
+superior e original.
+<br />
+
+<br />
+
+<em>A evolu&ccedil;&atilde;o</em>,
+diz elle, <em>implicando a id&eacute;a d'um
+typo, que as formas evolvendo, tendem a realisar,
+implica por isso mesmo uma finalidade. Quem diz
+evolu&ccedil;&atilde;o, diz progresso. Ora progresso que
+n&atilde;o
+tende para cousa alguma que n&atilde;o tem um typo e
+um fim, n&atilde;o se comprehende.</em>
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o &eacute; preciso mais para se ver a importancia
+e o valor do trabalho que se segue.
+<br />
+
+<br />
+
+Poderiamos fazer aqui algumas approxima&ccedil;&otilde;es
+entre as doutrinas d'Anthero e as doutrinas
+de Hartmann, Lang e Stallo--seus authores predilectos
+e mais compulsados.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[XIII]</span>
+Poderiamos tambem mostrar que os bellos artigos
+sobre as tendencias da moderna philosophia,
+dados a lume na <em>Revista de Portugal</em>,
+s&atilde;o o desenvolvimento
+logico do pensamento dominante nas
+paginas adiante reproduzidas.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas fallece-nos a authoridade e competencia
+para tanto, e demais, o trabalho d'Anthero n&atilde;o
+carece nem de criticas, nem de commentarios
+elucidativos:--imp&otilde;e-se
+por si e tem em si a necessaria
+lucidez para convencer a uma simples leitura.
+<br />
+
+<br />
+
+Reproduzindo-o hoje temos apenas em vista
+render, no anniversario do seu passamento, uma
+derradeira homenagem de respeito e estima ao filho
+d'esta ilha que &eacute; uma das maiores glorias das letras
+patrias, e ao mesmo tempo facilitar aos estudiosos
+a leitura d'um dos trabalhos philosophicos
+d'elle em que mais claramente se patenteiam o
+seu subtil engenho dialectico, a originalidade das
+suas concep&ccedil;&otilde;es especulativas e as maravilhosas
+qualidades didacticas da sua prosa expositiva e
+analytica.
+<br />
+
+<br />
+
+E d'est'arte fica explicada a presente
+publica&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote1">Ponta Delgada,<br />
+
+11 Setembro de 1893.</div>
+
+<br />
+
+<div class="signature"><em>Eugenio Vaz Pacheco do
+Canto e
+Castro</em></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>PRIMEIRO ARTIGO<sup><a href="#1">[A]</a></sup>
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Um livro sobre as modernas theorias
+transformistas, publicado em Paris e em
+francez, e firmado por um nome portuguez,
+&eacute; facto t&atilde;o extraordinario, que por si
+s&oacute;
+bastaria para attrahir as atten&ccedil;&otilde;es. Mas no livro
+do snr. Vianna de Lima, n&atilde;o &eacute; s&oacute; a
+extranheza
+do facto que deve chamar a nossa atten&ccedil;&atilde;o:
+&eacute;
+ainda o seu valor intrinseco. Esta
+<em>Exposi&ccedil;&atilde;o
+summaria das theorias transformistas</em> &eacute;,
+como o
+<span class="pagenum">[2]</span>
+titulo indica, uma especie de <em>summa</em>
+das doutrinas
+professadas sobre a philosophia da natureza
+por uma escola consideravel, cuja cabe&ccedil;a, E.
+Haeckel, &eacute; um dos nomes mais illustres, e justamente
+illustres, da Allemanha intellectual, na segunda
+metade do nosso seculo: e a obra do adepto
+n&atilde;o &eacute; indigna, nem pela intelligencia nem pelo
+saber, da escola nem do mestre.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o sou naturalista e, tendo a consciencia da
+minha incompetencia, n&atilde;o me atreveria a escrever
+sobre a obra do sr. Vianna de Lima, se o seu livro
+fosse propriamente um livro de sciencias naturaes,
+e se os quatro estudos, de que se comp&otilde;e,
+se conservassem escrupulosamente nos limites rigorosos
+do campo scientifico. O livro, porem, do
+snr. Vianna de Lima, apezar da modestia do titulo,
+aspira de facto a ser um livro de philosophia
+da natureza, e, n'esse terreno, creio poder,
+sem temeridade, emittir algumas opini&otilde;es fundamentadas.
+Prestarei, assim uma homenagem ao
+mo&ccedil;o portuguez (portuguez pelo nome e pelo sangue:
+ou&ccedil;o que &eacute; brazileiro) que t&atilde;o
+galhardamente
+nos representa no grande mundo da intelligencia,
+aproveitando ao mesmo tempo o ensejo para
+dizer alguma cousa sobre uma escola philosophica,
+cujos chefes respeito e cuja importancia n&atilde;o
+desconhe&ccedil;o; mas cujas tendencias est&atilde;o muito
+longe, em meu entender, de serem satisfactorias.
+<br />
+
+<br />
+
+Alexandre de Humboldt, o naturalista encyclopedico
+e quasi legendario do primeiro quartel
+<span class="pagenum">[3]</span>
+d'este seculo, costumava dizer causticamente, referindo-se
+&aacute; philosophia da natureza puramente
+especulativa, que ent&atilde;o deslumbrava com os
+clar&otilde;es
+do genio de Schelling e Hegel, n&atilde;o s&oacute; a Allemanha
+pensadora, mas ainda a Allemanha scientifica,
+<em>que achava singularissimos aquelles naturalistas
+que pretendiam fazer chimica sem molhar a
+ponta dos dedos</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Tinha raz&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Hoje, n&oacute;s outros metaphysicos, podemos com
+igual raz&atilde;o dizer que s&atilde;o singulares estes
+philosophos,
+que, com os dedos mais que ensopados em
+chimica, pretendem fazer philosophia sem nunca
+se terem dado ao trabalho de reflectir.
+<br />
+
+<br />
+
+Com effeito, a philosophia &eacute;, de sua natureza,
+especulativa, e a sciencia n&atilde;o p&oacute;de ser para ella
+mais que uma materia prima.
+<br />
+
+<br />
+
+Um homem de sciencia, por encyclopedico
+que seja, se n&atilde;o tiver ao mesmo tempo reflectido
+muito e profundamente sobre as quest&otilde;es puramente
+racionaes, que a sciencia suscita e n&atilde;o p&oacute;de
+por si resolver, reflectido sobre as ideas abstractas,
+que s&atilde;o, umas, postulados para as differentes
+sciencias, outras, principios ordenadores
+d'uma explica&ccedil;&atilde;o geral das cousas, um tal homem
+de sciencia, apesar do seu encyclopedismo, n&atilde;o
+poder&aacute; nunca aspirar ao titulo de philosopho. Pode
+dizer que <em>sabe</em>, mas n&atilde;o
+que <em>entende</em>, porque o
+problema do universo, como problema total e
+concreto, ser&aacute; para a sua intelligencia, ali&aacute;s
+opulenta
+<span class="pagenum">[4]</span>
+de factos, t&atilde;o obscuro, como &eacute; para a
+intelligencia
+d'um simples e ignorante. A philosophia
+n&atilde;o &eacute; o mero ajuntamento ou ainda o quadro
+empiricamente
+ordenado dos factos do universo: &eacute; a
+comprehens&atilde;o e explica&ccedil;&atilde;o racional e
+total d'esse
+grande quadro. Ora, uma tal explica&ccedil;&atilde;o
+s&oacute; &eacute; possivel
+no ponto de vista das ideias ultimas e fundamentaes
+da ras&atilde;o (<em>substancia</em>,
+<em>causa</em>,
+<em>fim</em>) e essas
+ideias teem por isso de ser tomadas em si,
+pesadas e analysadas. N&atilde;o faz outra cousa a metaphysica,
+e sem metaphysica n&atilde;o ha philosophia,
+porque n&atilde;o ha verdadeira comprehens&atilde;o
+racional, nem verdadeira e total explica&ccedil;&atilde;o.
+Metaphysica
+(ou especula&ccedil;&atilde;o) e sciencia (ou
+observa&ccedil;&atilde;o)
+s&atilde;o duas series convergentes, que partem
+de pontos oppostos e com leis de desenvolvimento
+diversas; mas, como s&atilde;o convergentes, encontram-se:
+o ponto onde se encontram e, sem se
+fundirem, reciprocamente se penetram, &eacute; que &eacute; a
+philosophia. A philosophia tem pois por materia
+a sciencia, por forma a metaphysica; ou ainda, a
+philosophia &eacute; a observa&ccedil;&atilde;o (quero
+dizer, os seus
+resultados) considerada no ponto de vista absoluta
+da ras&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+O desconhecimento d'estas verdades e o desdem
+pela metaphysica, filho em grande parte da
+reac&ccedil;&atilde;o, ali&aacute;s justissima, provocada
+pelos excessos
+e intoleravel dogmatismo da especula&ccedil;&atilde;o, na
+Allemanha, e pela sua insignificancia e convencionalismo,
+em Fran&ccedil;a; e, por cima d'isso ainda,
+<span class="pagenum">[5]</span>
+o maravilhoso desenvolvimento das sciencias naturaes,
+durante os ultimos 40 annos, deram de si
+o apparecimento d'uma pseudo-philosophia da
+natureza que se pretende positiva e puramente filha
+das sciencias e que julga ingenuamente poder resolver
+os intrincados problemas das id&eacute;as, sem
+ter o incommodo de reflectir e s&oacute; com grande
+somma de physica, chimica e physiologia.
+<br />
+
+<br />
+
+D'estes naturalistas philosophos o mais eminente,
+tanto pelo saber como pelo genio, &eacute; o apostolo
+de Darwin na Allemanha, o illustre autor da
+<em>Historia natural da
+Cria&ccedil;&atilde;o</em>, Ernesto Haeckel.
+&Eacute; entre os discipulos de Haeckel que vem tomar
+logar, com o seu livro, o snr. V. de Lima.
+<br />
+
+<br />
+
+Profano, n&atilde;o me &eacute; dado conhecer e dizer
+at&eacute; que ponto a rigorosa verdade e o rigoroso
+methodo scientificos tem sido violentados pelo
+sabio e engenhoso, mas n&atilde;o menos phantasioso e
+temerario professor de Munich<sup><a href="#2">[B]</a></sup>,
+para se dobrarem
+e acommodarem &aacute;s suas doutrinas geraes.
+Sei s&oacute; que outros mestres eminentes, como Virchow,
+Helmholtz, Huxley e Du Bois-Reymond est&atilde;o
+longe de se darem por inteiramente satisfeitos
+com a orthodoxia scientifica de muitas das
+affirma&ccedil;&otilde;es
+do padrinho do <em>monero batybio</em>. A mim
+s&oacute; me
+&eacute; permittido occupar-me com as ideias e tendencias
+propriamente philosophicas da escola monista-evolucionista,
+cuja cabe&ccedil;a &eacute; Haeckel; e o livro do discipulo,
+que se propoz resumir a doutrina, ser-me-ha
+<span class="pagenum"><a name="p6">[6]</a></span>
+occasi&atilde;o para fazer sobresahir (embora s&oacute; em
+dois pontos, mas capitaes ambos) a confus&atilde;o e deficiencia
+na analyse das ideias, que impedem, a
+meu juizo, que a pretendida philosophia da natureza
+monista-evolucionista, apezar da imponente
+massa de sciencia sobre que assenta, attinja a verdadeira
+altura d'uma philosophia da natureza.
+<br />
+
+<br />
+
+Monismo e evolu&ccedil;&atilde;o s&atilde;o as duas
+no&ccedil;&otilde;es que
+formam a base da doutrina Haekeliana. Comecemos
+por indagar que ideia precisa envolve esta
+palavra--<em>monismo</em>. Parece-me que a
+palavra &eacute; que
+&eacute; nova, n&atilde;o a ideia. Tanto valeria dizer
+pantheismo,
+ou ainda materialismo, pois n&atilde;o encontro no
+fundo d'aquella express&atilde;o nada mais do que n'estas
+duas outras; a saber: uma concep&ccedil;&atilde;o unitaria
+da substancia.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta concep&ccedil;&atilde;o, porem, (na sua simplicidade
+e em quanto n&atilde;o f&ocirc;r definida d'uma maneira
+particular)
+&eacute; propriedade commum de muitas escolas
+antigas e modernas e precisa sahir d'essa generalidade
+e indetermina&ccedil;&atilde;o para poder caracterisar
+uma maneira especial de comprehender as cousas:
+assim o atomismo, assim o pantheismo de
+Spinoza, assim o idealismo realista de Hegel etc.
+Ora, &eacute; justamente essa falta de
+defini&ccedil;&atilde;o precisa,
+essa <a href="#e3">vaga generalidade</a> e
+indetermina&ccedil;&atilde;o, que
+eu noto no <em>monismo</em> de Haeckel.
+<em>Monismo</em> parece-me
+apenas uma palavra nova (e muito dispensavel)
+e <a href="#e4">n&atilde;o mais</a>.
+<br />
+
+<br />
+
+Com effeito, affirmar abstractamente a unidade
+<span class="pagenum">[7]</span>
+de substancia &eacute;, no terreno da philosophia
+da natureza, pouca cousa: o que importa &eacute; definil-a.
+Definil-a &eacute; apresental-a nas suas
+rela&ccedil;&otilde;es com a realidade,
+&eacute; caracterisal-a na sua maneira de ser positiva,
+&eacute; mostrar, n&atilde;o como a concebemos
+<em>em si</em>
+(pertence isso &aacute; metaphysica), mas como a concebemos
+<em>realisavel</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma materia abstracta, una e simples, apenas
+vagamente susceptivel de se manifestar por
+omnimodas modalidades, &eacute; uma base insufficiente
+para a philosophia da natureza; porque &eacute; uma base
+insufficiente para a sciencia. O que a sciencia
+exige e o que &eacute; preciso &aacute; philosophia da natureza
+&eacute; determinar n'essa infinidade de moralidades,
+qual &eacute; a fundamental ou elementar, aquella a que
+se reduzem todas as outras. Ora &eacute; isso justamente
+o que as sciencias da natureza teem feito, reduzindo
+todas as modalidades da materia ao elemento
+primordial <em>movimento</em>. Os monistas,
+sempre
+que fallam como homens de sciencia, adoptam
+(e n&atilde;o podiam deixar d'adoptar) esta
+concep&ccedil;&atilde;o.
+Mas, como philosophos, em vez de receberem
+das m&atilde;os da sciencia este resultado, para o
+elaborarem e desenvolverem, caem no vago e em
+inextrincaveis confus&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; assim que o nosso auctor come&ccedil;a por se
+declarar anti-materialista e pretende repellir o atomismo.
+affirmando que a materia n&atilde;o p&oacute;de ser
+definida per esta ou aquella propriedade, mas que
+&laquo;para o monismo, a materia &eacute; o que &eacute;
+<em>in situ</em>....
+<span class="pagenum">[8]</span>
+&eacute; aquillo que se manifesta aos nossos sentidos e
+ao nosso entendimento por modos diversissimos,
+sob forma de phenomenos infinitamente variados....
+pretender isolar (d'este conjuncto) certas
+propriedades, abstrahir certas qualidades, &eacute; grande
+erro.... para elle (o monista) qualidades, propriedades
+especificas ou funccionaes, func&ccedil;&otilde;es, etc.
+s&atilde;o inherentes &aacute; materia em que se manifestam
+e formam com ella um todo indissoluvel&raquo;. Entretanto,
+meia pagina abaixo, d&aacute; a entender que todas
+as propriedades da materia s&atilde;o f&oacute;rmas do
+movimento e se reduzem a movimentos elementares:
+&laquo;a for&ccedil;a &eacute; a propriedade ou a maneira
+de
+ser mais geral da materia.... todas as for&ccedil;as s&atilde;o
+reductiveis a movimentos.... uma for&ccedil;a n&atilde;o
+&eacute;
+mais do que materia em movimento&raquo;. Mas, se isto
+&eacute; assim, a materia n&atilde;o &eacute; j&aacute;
+&laquo;tudo o que &eacute; <em>in
+situ</em>&raquo; as suas propriedades n&atilde;o
+s&atilde;o j&aacute; &laquo;inisolaveis
+e indissoluveis&raquo;, nem &eacute; &laquo;grande erro
+abstrahir do
+conjuncto d'ellas certas propriedades&raquo;, visto que,
+de facto, a materia &eacute; caracterisada por uma propriedade
+fundamental, o movimento, da qual todas
+as outras n&atilde;o s&atilde;o mais do que modalidades,
+ou, mais terminantemente, grupos e combina&ccedil;&otilde;es
+de movimentos simples elementares. Seriamos assim
+levados ao dynamismo, concep&ccedil;&atilde;o j&aacute;
+mais
+precisa e mais pratica do que o vago e indeterminado
+monismo, e que, depois de Leibnitz, cada
+vez mais tem ido penetrando, ou antes, impondo-se
+&aacute; philosop&raquo; as suas propriedades n&atilde;o
+s&atilde;o j&aacute; &laquo;inisolaveis
+e indissoluveis&raquo;, nem &eacute; &laquo;grande erro
+abstrahir do
+conjuncto d'ellas certas propriedades&raquo;, visto que,
+de facto, a materia &eacute; caracterisada por uma propriedade
+fundamental, o movimento, da qual todas
+as outras n&atilde;o s&atilde;o mais do que modalidades,
+ou, mais terminantemente, grupos e combina&ccedil;&otilde;es
+de movimentos simples elementares. Seriamos assim
+levados ao dynamismo, concep&ccedil;&atilde;o j&aacute;
+mais
+precisa e mais pratica do que o vago e indeterminado
+monismo, e que, depois de Leibnitz, cada
+vez mais tem ido penetrando, ou antes, impondo-se
+&aacute; philosophia das sciencias.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p9">[9]</a></span>
+J&aacute; por aqui come&ccedil;amos a ver quanto a
+concep&ccedil;&atilde;o
+monista da materia &eacute; confusa e mal definida
+e, por conseguinte, pouco philosophica. Mas
+n&atilde;o o &eacute; s&oacute; por isto. A
+confus&atilde;o primeira faz-se
+sentir em todos os aspectos da ideia de materia.
+&Eacute; impossivel, com effeito, passar-se naturalmente
+da no&ccedil;&atilde;o d'uma substancia una, simples e apenas
+virtualmente susceptivel d'omnimodas modalidades,
+para a rica e quasi infinita variedade dos
+seres e qualidades de que se comp&otilde;e a universal
+realidade. Que importa que essa doutrina sibyllina
+nos diga que a sua substancia una e simples &eacute;
+virtualmente susceptivel de toda a variedade de
+formas e qualidades? A quest&atilde;o est&aacute; justamente
+em se saber como &eacute; que, sendo una e simples,
+tal substancia p&oacute;de effectivamente dar de si o movimento
+e a variedade.
+<br />
+
+<br />
+
+Sobre isto (e isto &eacute; justamente o n&oacute; vital da
+quest&atilde;o) &eacute; muda a doutrina.
+<br />
+
+<br />
+
+Como &eacute; que essa substancia una e simples
+se determina? como &eacute; que, sendo una e simples,
+se p&oacute;de dar n'ella opposi&ccedil;&atilde;o,
+diversidade, movimento?
+<br />
+
+<br />
+
+A concep&ccedil;&atilde;o <a href="#e5">monista</a>
+implica continuidade--e
+tudo no universo &eacute; descontinuo; implica simplicidade--e
+tudo no universo &eacute; complexo: implica
+inalterabilidade e indistinc&ccedil;&atilde;o--e tudo no
+universo
+&eacute; perpetua mudan&ccedil;a,
+differencia&ccedil;&atilde;o e instabilidade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[10]</span>
+O nosso auctor levanta se desdenhosamente
+contra o atomismo. Entretanto o seu monismo, ou
+&eacute; cousa nenhuma, ou tem de se resolver na ideia
+de atomo. Pois o que est&aacute; no fundo da
+concep&ccedil;&atilde;o
+atomista? A ideia da descontinuidade da materia.
+E tal ideia imp&otilde;e-se: imp&otilde;e-se como um facto
+&aacute;
+sensa&ccedil;&atilde;o; imp&otilde;e-se como um postulado
+&aacute; sciencia,
+que, sem presuppor a descontinuidade, &eacute; incapaz
+d'avaliar e exprimir por numeros (e &eacute; esse o typo
+e a forma perfeita do conhecimento scientifico)
+seja o que f&ocirc;r na success&atilde;o dos phenomenos;
+imp&otilde;e-se finalmente &aacute;
+especula&ccedil;&atilde;o, que n&atilde;o p&oacute;de
+conceber movimento onde n&atilde;o ha
+distinc&ccedil;&atilde;o, opposi&ccedil;&atilde;o
+e success&atilde;o, e n&atilde;o p&oacute;de pensar a
+distinc&ccedil;&atilde;o
+sem pensar <em>ipso facto</em> a
+descontinuidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Foi precisamente esta objec&ccedil;&atilde;o que encontrou
+deante de si e contra a qual veio desmanchar-se
+a physica cartesiana com a sua ideia da
+materia-extens&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Como se concebe o movimento numa tal materia?
+perguntava-lhe o atomista Gassendi. E Boileau,
+com o seu solido bom senso, resumia a quest&atilde;o
+nos dois versos celebres:
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote">C'est en vain que Rohault
+s&egrave;che pour concevoir<br />
+
+Comment, tout &eacute;tant plein, tout a pu se mouvoir</div>
+
+<br />
+
+O snr. V. de Lima, levantando-se, com os
+seus mestres, contra o atomismo, e acceitando ao
+<span class="pagenum">[11]</span>
+mesmo tempo, com as sciencias physicas, a
+reduc&ccedil;&atilde;o
+da ideia de materia &aacute; de movimento, mostra
+mais uma vez a inconsistencia do monismo no
+terreno das ideias geraes da natureza e a falta de
+analyse segura que patenteia a concep&ccedil;&atilde;o
+fundamental
+sobre que assenta.
+<br />
+
+<br />
+
+Declamar contra o atomismo &eacute; facil: evitar
+com uma palavra vaga e ao mesmo tempo pomposa
+as difficuldades que envolve a concep&ccedil;&atilde;o da
+materia, &eacute; mais facil ainda: mas n&atilde;o &eacute;
+isso o que
+se espera de verdadeiros philosophos; e uma tentativa
+de philosophia da natureza, s&oacute; merecer&aacute;
+este nome, quando sobre a analyse das ideias de
+substancia, for&ccedil;a e movimento se assente uma
+doutrina da materia que satisfa&ccedil;a ao mesmo tempo
+&aacute;s exigencias puramente racionaes da
+especula&ccedil;&atilde;o
+e as mais praticas da indaga&ccedil;&atilde;o scientifica.
+Nada d'isto encontro no monismo de Haeckel e
+seus discipulos: o terreno sobre que pretendem
+construir est&aacute;, quanto a mim, muito longe de ser
+solido.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>SEGUNDO ARTIGO<sup><a href="#3">[C]</a></sup>
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Falta-me ainda encarar, n'esta esphera
+da ideia de materia, a concep&ccedil;&atilde;o
+monista, sob um outro ponto de vista.
+&Eacute; o da espontaneidade da materia.
+<br />
+
+<br />
+
+O snr. Vianna de Lima affirma, por assim
+dizer, dogmaticamente, nas suas
+<em>Observa&ccedil;&otilde;es
+preliminares</em>, essa espontaneidade e protesta
+contra a physica da inercia: entretanto, todo o
+seu livro, toda a sua maneira de comprehender a
+evolu&ccedil;&atilde;o presup&otilde;e a inercia da
+materia. &Eacute; que
+d'uma affirma&ccedil;&atilde;o a uma theoria vae uma certa
+distancia, e n&atilde;o me consta que algum dos mestres
+do monismo tentasse ainda formular essa
+<span class="pagenum">[14]</span>
+theoria. O assumpto envolve com effeito uma difficuldade,
+que me parece exceder a capacidade
+especulativa dos doutores monistas.
+<br />
+
+<br />
+
+A ideia da espontaneidade da materia (ideia
+puramente especulativa, em que peze &aacute;s pretens&otilde;es
+do positivismo dos nossos naturalistas philosophos)
+parece estar em contradic&ccedil;&atilde;o com a theoria da
+conserva&ccedil;&atilde;o
+do movimento, que domina nas sciencias
+physicas e j&aacute; em grande parte nas sciencias
+da organisa&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o vejo que a doutrina monista resolva, como
+ella p&oacute;de ser resolvida, n'uma esphera superior,
+esta contradic&ccedil;&atilde;o. Pelo contrario, no livro
+do sr. V. de Lima, pela maneira por que o principio
+da conserva&ccedil;&atilde;o do movimento &eacute;
+applicado,
+sem a menor reserva ou explica&ccedil;&atilde;o, desde a
+physica at&eacute; &aacute; psychologia, e a
+evolu&ccedil;&atilde;o apresentada
+como o exclusivo resultado do puro mechanismo,
+a espontaneidade da materia, praticamente
+e apesar das affirma&ccedil;&otilde;es preliminares,
+&eacute;
+constantemente desconhecida, ou antes, &eacute; negada
+implicitamente a cada instante. De facto, &eacute;
+como se o livro todo n&atilde;o tivesse outro fim sen&atilde;o
+destruir a these estabelecida nos prolegomenos--these
+que todavia &eacute;, philosophicamente,
+o seu fundamento. Com effeito, se havemos de
+entender que todo o movimento, seja de que
+ordem f&ocirc;r, &eacute; n&atilde;o s&oacute;
+condicionado por um movimento
+anterior, mas realmente e exclusivamente
+<span class="pagenum">[15]</span>
+uma transforma&ccedil;&atilde;o d'esse movimento anterior,
+&eacute;
+claro que tal concep&ccedil;&atilde;o do movimento exclue
+<em>in
+limine</em> a ideia de espontaneidade. A
+condi&ccedil;&atilde;o passa
+a ser causa: o effeito, mera prola&ccedil;&atilde;o da causa,
+&eacute; uma apparencia sem ser proprio, sem autonomia.
+<br />
+
+<br />
+
+Consideremos mais de perto a contradic&ccedil;&atilde;o
+que d'aqui resulta. Se, por um lado, a materia
+em geral &eacute; dotada d'espontaneidade, isto &eacute;, se o
+movimento lhe &eacute; inherente; mas se, por outro lado,
+qualquer movimento particular e todo e qualquer
+movimento se reduz no fundo, a uma simples
+transforma&ccedil;&atilde;o das ac&ccedil;&otilde;es
+anteriores que o
+condicionam; pergunta-se: como se consegue ent&atilde;o
+a espontaneidade geral e theorica da materia?
+Se o movimento <b>A</b> se reduz a uma
+simples transforma&ccedil;&atilde;o
+do movimento <b>B</b>, que o condiciona e
+n&atilde;o <b>&eacute;</b> por isso
+espontaneo, o movimento <b>B</b> est&aacute;
+para com o movimento <b>C</b>, que por seu turno o
+condiciona, exactamente na mesma rela&ccedil;&atilde;o, assim
+como o movimento <b>C</b> para com o movimento D,
+o movimento <b>D</b> para com o movimento <b>E</b>
+e assim
+indefinidamente--de sorte que em parte alguma
+se encontra movimento espontaneo. O que significa,
+pois, a espontaneidade attribuida theoricamente
+&aacute; materia? E, sobre tudo, como se explica
+o proprio facto do movimento, que d'este modo
+est&aacute; em toda a parte sem estar em parte alguma?
+que &eacute; por toda a parte effeito, sem ter causa em
+<span class="pagenum">[16]</span>
+parte alguma? como se concebe esse modo de
+ser, que, n&atilde;o tendo autonomia em nenhum dos
+pontos onde se realisa e realisando-se universalmente,
+parece ser e n&atilde;o ser ao mesmo tempo?
+<br />
+
+<br />
+
+Ainda por este lado, se me n&atilde;o engano, a
+ideia da materia, segundo os monistas, est&aacute; muito
+longe de apresentar a defini&ccedil;&atilde;o e consistencia
+necessarias. Ora essa id&eacute;a tem de ser a pedra
+mestra de toda a construc&ccedil;&atilde;o philosophica na
+esphera
+da natureza. A final de contas bem apertada
+e espremida, a doutrina da materia, segundo
+a philosophia monista, reduz-se, como creio ter
+mostrado, &aacute;s no&ccedil;&otilde;es correntes, nas
+sciencias physicas,
+de atomo e for&ccedil;a. N&atilde;o s&oacute;
+n&atilde;o ha n'ella
+originalidade alguma, mas o que &eacute; peior,
+apresentam-se nos aquellas
+no&ccedil;&otilde;es envolvidas nevoentamente
+n'uma concep&ccedil;&atilde;o vaga, d'onde &eacute;
+necessario
+extrahil as e, no fim de tudo, em vez de esclarecidas
+e aprofundadas, obscurecidas por forma
+tal que nada ha de lucido e fecundo a tirar
+d'ellas para uma comprehens&atilde;o superior e verdadeiramente
+philosophica dos phenomenos da natureza.
+<br />
+
+<br />
+
+Com as observa&ccedil;&otilde;es que acabo de fazer
+n&atilde;o
+pretendo de modo algum contestar o valor e a
+legitimidade, na esphera das sciencias physicas,
+das no&ccedil;&otilde;es de materia, atomo, for&ccedil;a e
+movimento,
+nos limites em que a sciencia emprega estas
+no&ccedil;&otilde;es: ellas n&atilde;o s&atilde;o, com
+effeito, para a sciencia
+<span class="pagenum">[17]</span>
+mais de que hypotheses, restrictas a um determinado
+campo e n&atilde;o tendo por fim sen&atilde;o a
+coordena&ccedil;&atilde;o
+racional d'uma determinada ordem de
+phenomenos, d'um determinado aspecto da phenomenalidade.
+A sciencia, usando d'estas no&ccedil;&otilde;es,
+n&atilde;o pretende impol-as f&oacute;ra da sua esphera, nem
+dal-as em absoluto, como explica&ccedil;&atilde;o ultima e
+irreductivel
+das cousas. A conserva&ccedil;&atilde;o do movimento,
+scientificamente, &eacute; um facto: um facto,
+que pela sua generalidade, envolvendo a
+explica&ccedil;&atilde;o
+de innumeros outros factos, tem o valor d'uma
+theoria, mas d'uma theoria puramente scientifica.
+Se a conserva&ccedil;&atilde;o do movimento implica o
+determinismo,
+implica-o s&oacute; nos limites e no ponto de
+vista do puro mechanismo, no ponto de vista da
+realidade como systema de movimentos--sem
+que a sciencia possa ou pretenda concluir d'ahi para
+um outro ponto de vista, que n&atilde;o &eacute; o seu, e
+em que o mechanismo j&aacute; n&atilde;o apparece como o limite
+e termo ultimo do conhecimento.
+<br />
+
+<br />
+
+Sciencia e especula&ccedil;&atilde;o (volto a repetil-o)
+s&atilde;o
+cousas muito diversas, embora dependentes uma
+da outra, e o que basta &aacute; sciencia n&atilde;o
+&eacute; sufficiente
+para a especula&ccedil;&atilde;o. Ideias, que no terreno
+scientifico bastam e s&atilde;o por isso, n'esse terreno,
+muito legitimamente consideradas irreductiveis,
+n&atilde;o bastam j&aacute; nas regi&otilde;es da
+especula&ccedil;&atilde;o, onde
+com effeito s&atilde;o reductiveis a categorias mais
+transcendentes.
+Se o conjunto das sciencias n&atilde;o p&oacute;de,
+<span class="pagenum">[18]</span>
+como todos os verdadeiros pensadores reconhecem,
+supprir a philosophia ou substituir-se a ella,
+&eacute; justamente porque o conjuncto das ideias geraes
+das sciencias, n&atilde;o inclue em si a totalidade
+dos elementos racionaes da comprehens&atilde;o do universo,
+mas apenas o conjuncto d'esses elementos
+no ponto de vista da phenomenalidade. Ora
+o monismo, attribuindo ao ponto de vista das
+sciencias physicas um caracter absoluto, arvorando
+as ideias geraes d'um grupo de sciencias em
+ideias ultimas e irreductiveis, exorbitou da sciencia
+sem ao mesmo tempo fazer acto de philosophia.
+&Eacute; o que talvez consiga mostrar ainda mais claramente,
+fazendo a critica da ideia de evolu&ccedil;&atilde;o
+segundo os monistas.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>TERCEIRO ARTIGO<sup><a href="#4">[D]</a></sup>
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A theoria geral da evolu&ccedil;&atilde;o, diz o snr.
+Vianna de Lima (e s&atilde;o estas as primeiras
+palavras do seu livro) n&atilde;o &eacute; <em>um
+systema</em>;
+&eacute; a synthese comparativa, a conclus&atilde;o que
+sae do conjuncto de todos os factos positivos que
+o espirito humano tem podido at&eacute; agora
+abra&ccedil;ar....
+&eacute; a unica concep&ccedil;&atilde;o racional e
+verdadeiramente
+scientifica do mundo&raquo;.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; necessario fazer aqui uma distinc&ccedil;&atilde;o
+importante.
+A evolu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute;, com
+effeito, um systema
+no dominio circumscripto de cada uma d'aquellas
+sciencias onde esta ideia, por assim dizer,
+se imp&otilde;e, onde mil factos a confirmam e onde f&oacute;ra
+<span class="pagenum">[20]</span>
+d'ella seria
+impossivel encontrar-se um principio
+geral de coordena&ccedil;&atilde;o. Ahi, sem duvida, a
+evolu&ccedil;&atilde;o
+n&atilde;o &eacute; um systema, mas propriamente uma
+theoria scientifica.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas estar&atilde;o n'este caso todas as sciencias?
+De modo algum.
+<br />
+
+<br />
+
+A ideia de evolu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o intervem
+sen&atilde;o onde
+o elemento historico representa um papel
+proeminente, isto &eacute;, acima de tudo, nas sciencias
+da organisa&ccedil;&atilde;o (incluindo n'este grupo a
+anthropologia
+e fazendo participar d'elle as sciencias sociaes,
+nos limites em que estas teem um caracter
+biologico) e depois ainda, mas d'uma maneira menos
+necessaria e menos definida, na astronomia,
+ou propriamente, astrogenia. &Eacute; s&oacute; ahi que a
+divis&atilde;o
+do trabalho se exerce, differenciando gradualmente
+e como que analyticamente as formas
+contidas virtualmente e, por assim dizer, envolvidas
+n'um germen ou facto primeiro, que &eacute; o ponto
+da partida de toda a serie. A physica e a chimica,
+porem, est&atilde;o completamente f&oacute;ra dos dominios
+da ideia de evolu&ccedil;&atilde;o. A chimica parece reduzir-se
+toda &aacute; atomicidade, e a maior ou menor
+complexidade de composi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi
+nunca considerada
+como um desenvolvimento, assim como a
+irredectubilidade dos corpos chamados simples,
+se n&atilde;o &eacute; um dogma, &eacute; certamente um
+facto que
+se imp&otilde;e &aacute; sciencia e que, emquanto assim se
+impozer, obstar&aacute; a toda a theoria geral evolucionista
+<span class="pagenum">[21]</span>
+dos phenomenos chimicos. Por outro lado,
+entre as for&ccedil;as physicas, n&atilde;o ha hierarchia, mas
+parallelismo, e a reductibilidade d'umas &aacute;s outras
+implica unidade, mas n&atilde;o evolu&ccedil;&atilde;o,
+cousas bem
+distinctas.
+<br />
+
+<br />
+
+Onde est&aacute;, pois, a generalidade scientifica da
+ideia de evolu&ccedil;&atilde;o? A verdade &eacute; que uma
+theoria
+positiva da evolu&ccedil;&atilde;o, como o sonham os monistas,
+<em>essa synthese comparativa que sae do conjuncto
+de todos os factos positivos</em> s&oacute; seria
+possivel se
+se dessem duas condi&ccedil;&otilde;es capitaes: 1.&ordm;
+que a
+ideia
+de evolu&ccedil;&atilde;o se impozesse a toda a ordem de
+phenomenos,
+ou (o que para n&oacute;s vale o mesmo) presidisse
+superiormente a todas as sciencias: 2.&ordm;
+que alem de explicar, dentro do districto de cada
+sciencia, os factos n'elle comprehendidos, explica-se
+tambem a passagem evolutiva de cada uma
+d'essas ordens para a sua immediata, sem ter
+de recorrer a nenhuma ideia nova e superior.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora, nenhuma d'estas condi&ccedil;&otilde;es se realisa.
+<br />
+
+<br />
+
+A ideia d'evolu&ccedil;&atilde;o (como j&aacute; indiquei,
+e por
+isso n&atilde;o insisto n'este ponto) s&oacute; impera em
+certas
+sciencias e, por conseguinte, n'uma esphera limitada
+da phenomenalidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Em segundo logar, a passagem d'uma determinada
+ordem de phenomenos para outra n&atilde;o se
+p&oacute;de explicar evolutivamente, no terreno rigorosamente
+scientifico, porque, n'esse terreno, o elemento
+commum d'essas varias ordens &eacute; s&oacute; um elemento
+<span class="pagenum"><a name="p22">[22]</a></span>
+abstracto, o movimento, que pela sua
+mesma abstrac&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute;
+capaz de dar raz&atilde;o do
+que ha de especial em cada uma d'ellas e a caracterisa,
+isto &eacute;, a forma ou func&ccedil;&atilde;o especial
+que
+representa. &Eacute; assim, por exemplo, que embora
+os phenomenos vitaes se reduzam, em ultima analyse,
+ao movimento, isto &eacute;, a grupos e
+combina&ccedil;&otilde;es
+complexas de movimentos elementares, nem
+por isso a vida pode ser satisfactoriamente definida
+como um modo de ser do movimento; porque
+uma tal defini&ccedil;&atilde;o, pela sua mesma
+abstrac&ccedil;&atilde;o,
+nada define; nem o quadro de todos esses movimentos
+p&oacute;de ser dado como equivalente &aacute; ideia
+<a href="#e6">synthetica</a> da vida; nem,
+finalmente, a
+concep&ccedil;&atilde;o
+mechanica da vida representar&aacute; outra cousa mais
+do que um aspecto da phenomenalidade da vida
+e nunca a concep&ccedil;&atilde;o mesma da vida.
+<br />
+
+<br />
+
+Parece-me claro, em vista d'isto, que a doutrina
+de evolu&ccedil;&atilde;o formulada por <a href="#e7">Haeckel</a>
+e seus
+discipulos n&atilde;o &eacute; de modo algum, como se pretende,
+uma doutrina positiva, fundada nas sciencias
+e sahindo d'ellas como a sua natural consequencia.
+Creio ter mostrado que essa doutrina implica
+uma extens&atilde;o abusiva da induc&ccedil;&atilde;o
+scientifica e
+a illegitima generalisa&ccedil;&atilde;o d'uma hypothese, que
+se
+&eacute; perfeitamente fundada no terreno de determinadas
+<a href="#e8">sciencias</a>, s&oacute; ahi e
+s&oacute;
+n'esse ponto de vista
+tem authoridade scientifica.
+<br />
+
+<br />
+
+A doutrina monista tem, pois, em despeito
+<span class="pagenum">[23]</span>
+das suas pretens&otilde;es de positividade, um caracter
+especulativo e &eacute; propriamente <em>um
+systema</em>, uma
+construc&ccedil;&atilde;o philosophica em que o
+<em>a priori</em> representa
+um papel preeminente: n'uma palavra, apezar
+dos elementos scientificos que contem, n&atilde;o &eacute;
+uma doutrina scientifica, mas uma hypothese philosophica.
+<br />
+
+<br />
+
+Resta agora ver se, como hypothese philosophica,
+a ideia d'evolu&ccedil;&atilde;o, tal como a concebem os
+monistas, apresenta aquella defini&ccedil;&atilde;o e
+consistencia
+sem as quaes a mais ampla e brilhante hypothese
+&eacute; muito mais um producto da
+imagina&ccedil;&atilde;o,
+do que da raz&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Creio que n&atilde;o apresenta.
+<br />
+
+<br />
+
+Especulativos inconscientes, os monistas especulam
+mal. Tal como a concebem, a evolu&ccedil;&atilde;o,
+destituida de todos aquelles elementos de analyse
+racional, que s&oacute; lhe poderiam dar um verdadeiro
+cunho philosophico, n&atilde;o &eacute; um principio: seria
+apenas
+(se as suas pretens&otilde;es de positividade fossem
+fundadas) um facto; facto culminante e universal,
+mas simples facto e n&atilde;o principio.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora os factos s&atilde;o apenas a materia prima
+da philosophia: s&atilde;o aquillo que se pretende explicar,
+em quanto que s&oacute; os principios fornecem o
+criterio e o ponto de vista d'essa explica&ccedil;&atilde;o; e
+a
+doutrina monista da evolu&ccedil;&atilde;o, que, como doutrina
+positiva, como generalisa&ccedil;&atilde;o scientifica dos
+factos da natureza, est&aacute; muito longe de ser rigorosa
+<span class="pagenum">[24]</span>
+e fundada, pecca por outro lado gravemente,
+como hypothese philosophica, como doutrina
+especulativa, pela falta d'analyse das ideias sobre
+que, para merecer o nome de philosophia da natureza,
+se deveria apoiar.
+<br />
+
+<br />
+
+Com effeito, se o universo evolve porque &eacute;
+que evolve? Se a sciencia nada tem que v&ecirc;r com
+esta quest&atilde;o, a philosophia &eacute; que tem muito e
+tudo--e j&aacute; mostrei que &eacute; s&oacute;mente como
+tentativa
+philosophica de explica&ccedil;&atilde;o que o evolucionismo
+monista deve ser considerado.
+<br />
+
+<br />
+
+Uma theoria geral philosophica do desenvolvimento
+das cousas implica, pois, uma theoria
+da raz&atilde;o de ser d'esse desenvolvimento. Sobre
+esta quest&atilde;o essencial o monismo &eacute; peior do que
+mudo; &eacute; absurdamente negativo.
+<br />
+
+<br />
+
+A ideia de evolu&ccedil;&atilde;o implica necessariamente
+a de finalidade; esta contem a explica&ccedil;&atilde;o
+racional
+d'aquella, que, s&oacute; por si, &eacute; inintelligivel e
+at&eacute;
+contradictoria. Se o movimento, acto essencial da
+materia, &eacute; autonomo (e &eacute; esta a these monista
+fundamental) tal movimento n&atilde;o p&oacute;de ser concebido
+sen&atilde;o como um impulso espontaneo, por
+conseguinte, como uma verdadeira determina&ccedil;&atilde;o
+voluntaria: ora onde ha determina&ccedil;&atilde;o voluntaria
+sem mobil, sem fim? Pois n&atilde;o &eacute; precisamente o
+fim que determina a vontade, e que explica o acto?
+Um movimento autonomo, que n&atilde;o tende a um
+fim, &eacute; perfeitamente inconcebivel: pois se n&atilde;o ha
+<span class="pagenum">[25]</span>
+fim porque e para que o movimento? A ideia de
+finalidade &eacute; a pedra angular de toda a
+construc&ccedil;&atilde;o
+philosophica no terreno da natureza.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim o comprehendeu Leibnitz na sua Monadologia,
+assim o comprehenderam Schelling e
+Hegel, os verdadeiros paes da moderna philosophia
+da natureza.
+<br />
+
+<br />
+
+O horror pueril &aacute; metaphysica e a pretens&atilde;o
+chimerica de fundar uma philosophia da natureza
+positiva e exclusivamente architectada no terreno
+da sciencia levou Haeckel (e muitos outros atraz
+d'elle e com elle) a desconhecerem a importancia
+capital da ideia de finalidade e a minarem aquillo
+que justamente lhes deveria servir de primeiro
+fundamento para o edificio que levantavam. &Eacute; o
+que espero deixar suficientemente provado no
+meu proximo artigo.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>QUARTO ARTIGO<sup><a href="#5">[E]</a></sup>
+</h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O Snr. Vianna de Lima consagra as ultimas
+100 paginas do seu volume a combater
+a ideia de finalidade nos dominios
+da natureza e triumpha facilmente dos theologos
+ou simili-theologos, que, despojando a materia das
+suas propriedades espontaneas e da sua infinita
+virtualidade, veem em tudo os effeitos d'uma
+direc&ccedil;&atilde;o
+exterior e se extasiam diante das harmonias
+intencionaes da Cria&ccedil;&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Era facil o triumpho. S&oacute;mente, o snr. Vianna
+de Lima tomou a nuvem pela deusa, tomou a
+concep&ccedil;&atilde;o infantil e anthropomorphica da
+finalidade
+pela propria ideia metaphysica de finalidade.
+<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum"><a name="p28">[28]</a></span>
+Se o snr. Vianna de Lima se despojasse por
+algum tempo dos seus habitos de pensamento de
+puro naturalista e estudasse um pouco os t&atilde;o abominaveis
+metaphysicos, n&atilde;o s&oacute; Leibnitz e Hegel,
+mas ainda o representante nosso contemporaneo
+da alta especula&ccedil;&atilde;o, Hartmann (que &eacute;,
+n&atilde;o
+menos do que foram aquelles dois, profundamente
+versado nas sciencias da natureza) veria que a
+ideia de finalidade n&atilde;o se reduz, como lhe parece,
+&aacute;quella concep&ccedil;&atilde;o <a href="#e9">anthropomorphica</a>,
+que com
+t&atilde;o facil felicidade refuta no seu livro. Veria que
+a finalidade p&oacute;de ainda ser concebida como immanente
+&aacute; materia e como aquelle segundo elemento
+que vem integrar, juntando-se ao movimento,
+a no&ccedil;&atilde;o da realidade; que, n'este caso,
+longe de ser contradictoria com a espontaneidade
+do movimento, &eacute; justamente a
+explica&ccedil;&atilde;o do movimento;
+que o que parece effeito, no ponto de
+vista do puro mechanismo, &eacute; causa no ponto de
+vista da finalidade, sem que uma cousa repugne
+&aacute; outra, porque s&atilde;o duas espheras do
+conhecimento,
+que ao mesmo tempo que se opp&otilde;em, reciprocamente
+se completam.
+<br />
+
+<br />
+
+Perceberia ent&atilde;o uma cousa, e &eacute; que,
+n&atilde;o s&oacute;
+o movimento em geral (o movimento em si, independentemente
+de qualquer ideia de desenvolvimento)
+&eacute; racionalmente inexplicavel e, por conseguinte,
+inconcebivel sem a ideia de finalidade ou
+de causa-final, mas que mais particularmente a
+evolu&ccedil;&atilde;o,
+<span class="pagenum">[29]</span>
+isto &eacute;, o movimento como
+hierarchia ou
+desenvolvimento, implicando a ideia d'um typo,
+que as formas evolvendo, tendem a realisar, impl&iacute;ca
+por isso mesmo uma finalidade.
+<br />
+
+<br />
+
+O typo &eacute; realisado na serie, n&atilde;o &eacute; um
+producto
+d'ella: pois, se fosse um producto, como se
+explicaria a serie? Quem diz evolu&ccedil;&atilde;o diz
+progresso.
+Ora, progresso que n&atilde;o tende para cousa
+alguma, que n&atilde;o tem um typo e um fim, n&atilde;o se
+comprehende. Se n&atilde;o ha typo, n&atilde;o ha medida ou
+termo de compara&ccedil;&atilde;o na serie, n&atilde;o ha,
+por conseguinte,
+hierarchia: ha variedade de formas parallelas
+e equivalentes; mas n&atilde;o desenvolvimento.
+<br />
+
+<br />
+
+No meio d'essa multid&atilde;o de formas inexpressivas,
+tudo ser&aacute; igualmente perfeito ou imperfeito:
+haver&aacute; ainda transformismo; mas n&atilde;o
+haver&aacute;
+evolu&ccedil;&atilde;o progressiva.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; assim que o ultimo capitulo do livro do
+snr. Vianna de Lima deita por terra a doutrina
+estabelecida laboriosamente nos que o precedem.
+&Eacute; assim que metade da doutrina de Haeckel deita
+por terra a outra metade. &Eacute; assim que uma
+philosophia da natureza que pertende
+n&atilde;o ser uma
+philosophia especulativa, acaba por n&atilde;o ser
+cousa alguma.
+<br />
+
+<br />
+
+Que concluiremos de toda esta critica? Concluiremos
+em primeiro logar, que os naturalistas,
+quando n&atilde;o s&atilde;o ao mesmo tempo philosophos,
+n&atilde;o podem construir uma philosophia da natureza
+<span class="pagenum">[30]</span>
+que se sustenha de p&eacute;. Concluiremos, em segundo
+logar, que n&atilde;o p&oacute;de haver, por muito que
+se apregoe, philosophia da natureza positiva (puramente
+scientifica), assim como em geral n&atilde;o p&oacute;de
+haver philosophia positiva. O erro commum
+em que laboram os positivistas das differentes communh&otilde;es
+(s&atilde;o varias, e todas egualmente positivas)
+&eacute; este: que o conhecimento scientifico &eacute; o typo
+do
+conhecimento, o conhecimento ultimo e perfeito; e
+que, por conseguinte, esgotando o ponto de vista
+scientifico a comprehens&atilde;o da realidade, basta reunir
+em quadro as conclus&otilde;es de todas as sciencias,
+ou generalisar as ideias fundamentaes communs a
+todas ellas para se obter a mais alta comprehens&atilde;o
+das cousas, a que nos &eacute; dado aspirar. D'aqui a
+chimera d'uma philosophia positiva.
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o seria chimera, se com effeito o conhecimento
+scientifico representasse o conhecimento
+supremo e definitivo, e n&atilde;o apenas uma determinada
+esphera do conhecimento. Nesse caso a
+generalisa&ccedil;&atilde;o
+dos dados scientificos corresponderia a
+uma verdadeira synthese e a abstrac&ccedil;&atilde;o suprema
+dos elementos da realidade tomaria o logar das
+ideias da raz&atilde;o. Infelizmente ou felizmente (que
+isso importa pouco) a raz&atilde;o subsiste e com ella o
+ponto de vista das ideias metaphysicas de
+<em>substancia</em>,
+<em>causa e finalidade</em> &aacute;s quaes tem
+de ser referidas,
+em ultima instancia, as conclus&otilde;es da sciencia.
+E porque? Porque essas conclus&otilde;es, ainda
+<span class="pagenum">[31]</span>
+nas suas mais vastas e deslumbrantes
+generalisa&ccedil;&otilde;es,
+n&atilde;o se explicam a si mesmas e, representando
+apenas as grandes linhas e como que a estructura
+abstracta do mundo phenomenal, precisam
+ellas mesmas de ser explicadas. Com o seu
+caracter abstracto s&atilde;o ainda factos, e os factos
+precisam do reflexo da raz&atilde;o para se tornarem
+intelligiveis. O conhecimento scientifico constitue
+apenas a regi&atilde;o media do conhecimento, entre o
+senso commum, d'um lado, e o conhecimento metaphysico,
+do outro. &Eacute; pois a ras&atilde;o que tem, em
+ultima instancia, de se pronunciar sobre o valor e
+o logar, na comprehens&atilde;o total do universo, dos
+dados quer do senso commum quer da sciencia.
+Essa comprehens&atilde;o total &eacute; que &eacute; a
+philosophia: edificio
+sempre em construc&ccedil;&atilde;o, sempre renovado
+nos seus materiaes (que o progresso dos conhecimentos
+positivos lhe vae fornecendo dia a dia)
+sempre instavel e ao mesmo tempo sempre de p&eacute;,
+e que sendo sempre incompleto nunca se pode
+dizer insufficiente, porque, tal como &eacute;, corresponde
+&aacute;s mais altas faculdades do espirito humano,
+abriga as mais sublimes aspira&ccedil;&otilde;es, tormento
+e gloria ao mesmo tempo, d'este mysterioso animal
+racional chamado homem.
+<br />
+
+<br />
+
+E eis ahi porque uma philosophia positiva &eacute;
+uma chimera. Quem diz philosophia diz idealismo.
+S&oacute; o systema das ideias contem inteira a
+explica&ccedil;&atilde;o
+do systema das cousas. O movimento n&atilde;o esgota o
+<span class="pagenum">[32]</span>
+ser: o ser implica movimento e ideia. Os naturalistas,
+desprezando ou ignorando as ideias, ignoram
+metade das cousas e a sua philosophia &eacute; s&oacute;
+meia philosophia, ou antes, &eacute; s&oacute; um arremedo da
+philosophia. <em>Tudo quanto &eacute;, &eacute;
+racional</em>, disse Hegel.
+<br />
+
+<br />
+
+Pretender amputar a raz&atilde;o &eacute; pretender amputar
+a realidade.
+<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; dentro da raz&atilde;o, n&atilde;o f&oacute;ra
+d'ella, que teem
+de ser marcados os limites do conhecimento. S&oacute;
+no ponto de vista total da raz&atilde;o se resolvem as
+contradic&ccedil;&otilde;es que a realidade apresenta, como
+outras tantas esphinges &aacute; intelligencia
+indagad&ocirc;ra.
+<br />
+
+<br />
+
+Materia e espirito, determinismo e liberdade,
+evolu&ccedil;&atilde;o e finalidade, n&atilde;o
+s&atilde;o ideias contradictorias
+sen&atilde;o na apparencia: de facto, s&atilde;o s&oacute;
+duas
+espheras differentes da comprehens&atilde;o, these e antithese,
+cuja synthese &eacute; a raz&atilde;o.
+<br />
+
+<br />
+
+Assim, uma philosophia da natureza, tal como
+a concebo, uma philosophia da natureza &aacute; altura,
+n&atilde;o s&oacute; do grande seculo das sciencias naturaes,
+mas do grande seculo de Kant e Hegel, n&atilde;o
+tem que regeitar o determinismo universal e a
+evolu&ccedil;&atilde;o
+como uma forma mechanica d'esse determinismo:
+mas o que n&atilde;o p&oacute;de &eacute; ficar ahi.
+<br />
+
+<br />
+
+Determinismo e evolu&ccedil;&atilde;o ser&atilde;o apenas o
+seu
+ponto de partida, a forma universal da phenomenalidade,
+que a generalisa&ccedil;&atilde;o scientifica lhe fornece
+<span class="pagenum">[33]</span>
+e que ella, a philosophia, ter&aacute; d'analysar e
+interpretar &aacute; luz das ideias. S&oacute; assim
+ter&aacute; satisfeito
+n&atilde;o s&oacute; &aacute; ras&atilde;o
+especulativa, mas &aacute;s exigencias
+n&atilde;o menos imperiosas da consciencia humana.
+<br />
+
+<br />
+
+Digo da consciencia humana; e &eacute; este um outro
+aspecto, e aspecto capital da quest&atilde;o que &eacute;
+necessario por em evidencia. Muitos dir&atilde;o:--que
+tem que ver a philosophia com a consciencia humana?
+Responder-lhes-hei:--tem tudo. Por uma singular
+aberra&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o justamente os que mais
+falam
+de positivismo e factos positivos os que parecem
+esquecer ou ignorar que a consciencia humana
+&eacute; um facto, que a sua actividade, expressa
+e objectivada em milhares de manifesta&ccedil;&otilde;es, desde
+os codigos at&eacute; &aacute; poesia, e atravez de milhares
+d'annos, constitue uma ordem de factos t&atilde;o positivos
+e t&atilde;o irrecusaveis como os da physica ou da
+astronomia. E estes factos n&atilde;o s&atilde;o s&oacute;
+positivos e
+evidentes: s&atilde;o ainda culminantes, pois os phenomenos
+sociaes e moraes, tendo atraz de si todas
+as outras ordens de phenomenos e apoiando-se
+n'ellas, constituem o ponto mais alto da serie evolutiva
+das cousas.
+<br />
+
+<br />
+
+Os factos da consciencia humana s&atilde;o, pois,
+n&atilde;o s&oacute; factos positivos, mas os factos positivos
+culminantes.
+<br />
+
+<br />
+
+Ora que diriamos d'uma philosophia, que n&atilde;o
+podesse explicar, mais, que estivesse em
+contradic&ccedil;&atilde;o
+<span class="pagenum">[34]</span>
+com os factos da physica, por exemplo, ou
+de chimica? Diriamos ser uma philosophia n&atilde;o s&oacute;
+incompleta, mas falsa. E que pensaremos ent&atilde;o
+d'uma philosophia, que n&atilde;o s&oacute; consegue explicar,
+mas est&aacute; em flagrante contradic&ccedil;&atilde;o com
+factos
+t&atilde;o positivos como aquelles, e, alem de positivos,
+superiores e culminantes?
+<br />
+
+<br />
+
+A consciencia humana &eacute;, pois, verdadeiramente
+um criterio philosophico, n'este sentido que uma
+philosophia incapaz de explicar satisfactoriamente
+os phenomenos da consciencia, ou em contradic&ccedil;&atilde;o
+com elles, &eacute; uma philosophia incompleta,
+ou errada, por deixar de f&oacute;ra, ou contradizer,
+uma parte e justamente a parte mais importante
+da realidade.
+<br />
+
+<br />
+
+Este criterio bastaria s&oacute; por si (alem de tudo
+que atraz fica dito) para condemnar toda a philosophia
+puramente materialista, sob qualquer forma
+em que se apresente:--mecanismo atomico, determinismo
+scientifico, monismo ou pantheismo
+naturalista. Sob qualquer destas formas, o materealismo
+envolve, o que &eacute; a sua essencia, a
+reduc&ccedil;&atilde;o
+de toda a ordem de phenomenos a for&ccedil;as
+elementares, sujeitas a uma determina&ccedil;&atilde;o cega,
+mechanica e sem fim intelligivel: envolve a
+nega&ccedil;&atilde;o
+de todo o elemento racional nas cousas, reduzindo
+ao mesmo tempo as affirma&ccedil;&otilde;es da consciencia
+a puras illus&otilde;es subjectivas.
+<br />
+
+<br />
+
+A critica do materialismo, n'este ultimo pono
+<span class="pagenum">[35]</span>
+de vista, tem sido mil vezes feita e n&atilde;o preciso
+reproduzil-a aqui.
+<br />
+
+<br />
+
+O que quero &eacute; fazer sentir quanto o monismo
+evolucionista da escola de Haeckel (que n&atilde;o &eacute;
+mais do que uma forma do materialismo) cuja
+maior pretens&atilde;o &eacute; ser uma philosophia positiva
+da natureza, ainda por este lado n&atilde;o &eacute; positivo,
+por n&atilde;o poder explicar uma ordem inteira e a
+mais importante dos factos do universo.
+<br />
+
+<br />
+
+Declarar que a liberdade e o sentimento moral
+s&atilde;o meras illus&otilde;es subjectivas, e que os mais
+intimos e mais autonomos phenomenos da consciencia
+resultam apenas d'ac&ccedil;&otilde;es mechanicas e
+s&atilde;o a transforma&ccedil;&atilde;o d'essas
+ac&ccedil;&otilde;es--&eacute; facil. Agora
+o que n&atilde;o &eacute; facil, porque &eacute;
+simplesmente impossivel,
+&eacute; explicar e fazer comprehender (como
+ha poucos annos ainda Du Bois-Reymond perguntava
+a Haeckel) como &eacute; que o movimento, um
+grupo de movimentos por mais complexo que o
+supponhamos, pode produzir, n&atilde;o j&aacute; os factos
+superiores
+da vida do pensamento, mas o mais elementar,
+a simples sensa&ccedil;&atilde;o? Deante d'esta simples
+pergunta desaba todo o edificio do monismo.
+A vida moral n&atilde;o &eacute; cousa que se decomponha
+em retortas, nem se descobrir&aacute; j&aacute;mais o
+equivalente
+mechanico do genio ou da virtude:<br />
+
+<br />
+
+<div class="quote">
+<em>There are more things in heaven and earth, Horatio,<br />
+
+Than are dreamt off in your philosophie</em>
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>QUINTO ARTIGO<sup><a href="#6">[F]</a></sup></h3>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+Pretenderei eu accaso com esta critica,
+contestar o valor dos trabalhos da
+escola monista, ou ainda a sua importancia
+philosophica?
+<br />
+
+<br />
+
+De modo algum.
+<br />
+
+<br />
+
+O que eu contesto &eacute; o valor do seu systema,
+como systema, o que eu censuro &eacute; a pretens&atilde;o
+de fundar uma philosophia da natureza com a
+simples generalisa&ccedil;&atilde;o dos dados d'um grupo de
+sciencias, e sem ter em conta o indispensavel criterio
+das ideias. Mas abstrahindo d'estas pretens&otilde;es,
+<span class="pagenum">[38]</span>
+a tentativa de Haeckel, considerada em si,
+tem um alto valor. Tem-no, sobre tudo, como
+symptoma da tendencia, que cada vez mais se
+manifesta na esphera da sciencia para uma unidade
+de comprehens&atilde;o, que assentando rigorosamente
+no terreno scientifico, saia ao mesmo tempo
+da analyse e abstrac&ccedil;&atilde;o inherententes
+&aacute; sciencia,
+procurando como formula, uma ideia de caracter
+synthetico, isto &eacute;, uma ideia propriamente
+philosophica.
+<br />
+
+<br />
+
+Esta tendencia &eacute; sem duvida alguma, o facto
+intellectual mais importante do seculo actual e um
+d'aquelles em que mais se traduz d'um lado, a influencia
+d'ora em deante cada vez mais predominante
+do criticismo de Kant, e do outro, a fei&ccedil;&atilde;o
+eminentemente positivista do espirito moderno.
+Se uma philosophia positiva &eacute; e ser&aacute; sempre, como
+j&aacute; mostrei, uma chimera, a ac&ccedil;&atilde;o e
+authoridade
+directa da sciencia na philosophia ser&aacute; d'aqui
+em deante (quero dizer depois da <em>Critica da
+Ras&atilde;o
+pura</em>) um facto que tem de se impor a todos
+os pensadores.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas ac&ccedil;&atilde;o e auctoridade da sciencia na
+philosophia
+&eacute; uma cousa, e philosophia positiva, outra.
+As ideias syntheticas da philosophia n&atilde;o saem
+das sciencias, n&atilde;o s&atilde;o simples
+generalisa&ccedil;&otilde;es scientificas:
+s&atilde;o um producto da especula&ccedil;&atilde;o e
+quando
+chegam a apparecer no terreno scientifico &eacute; infiltradas
+para ali das regi&otilde;es da especula&ccedil;&atilde;o,
+&eacute; porque
+<span class="pagenum">[39]</span>
+a especula&ccedil;&atilde;o as forneceu, sob forma de
+hypothese,
+&aacute; sciencia. N&atilde;o cabe em escrito d'estas
+dimens&otilde;es expor a theoria da hypothese. Bastar&aacute;
+mostrar como a theoria geral da evolu&ccedil;&atilde;o, hoje
+com tanto vigor e brilho formulada por Haeckel
+e seus concorrentes ou discipulos, longe de ser,
+como vulgarmente se imagina, uma
+<em>descoberta</em> das
+sciencias naturaes e um resultado directo da analyse
+scientifica, &eacute;, pelo contrario, uma verdadeira
+hypothese philosophica, que, producto da
+elabora&ccedil;&atilde;o
+especulativa de perto de trez seculos, acabou
+por se manifestar no dominio das sciencias.
+<br />
+
+<br />
+
+Com effeito s&atilde;o mais fundas as suas raizes,
+mais longiqua a sua procedencia.
+<br />
+
+<br />
+
+Essa ideia n&atilde;o saiu das sciencias naturaes,
+mas penetrou n'ellas pela influencia (obscura, &eacute;
+certo e indirecta, mas muito real) das no&ccedil;&otilde;es
+metaphysicas
+lentamente elaboradas, a partir da renascen&ccedil;a,
+dentro da ideia fundamental de
+<em>natureza</em>.
+A maneira dynamica, autonomica, realista, de
+conceber a natureza &eacute; o que mais radicalmente
+distingue o pensamento moderno do antigo. A natureza
+para o pensamento antigo, e ainda para o mais
+genial dos seus intrepretes e o mais objectivo,
+Aristoteles, era concebida como abstracta, inerte,
+passiva: longe de parecer concreta e espontanea,
+era considerada apenas como um reflexo,
+acto ou emana&ccedil;&atilde;o d'um ser ou seres transcendentes
+e perfeitos: as <em>ideias</em> de
+Plat&atilde;o, a <em>intelligencia</em>
+<span class="pagenum">[40]</span>
+de Anaxagores, o <em>motor immovel</em> e as
+<em>formas substanciaes</em>
+de Aristoteles etc.) exteriores a ella e s&oacute;
+verdadeiramente autonomos. Esta maneira de conceber
+manteve-se pela Escolastica e pela Theologia
+christ&atilde;, at&eacute; &aacute; Renascen&ccedil;a.
+A partir dos ultimos
+tempos da Edade-media, com a dissolu&ccedil;&atilde;o
+da philosophia escolastica e as revolu&ccedil;&otilde;es de
+toda
+a especie, intellectuaes, sociaes religiosas, que annunciam
+a aurora dos tempos modernos, d&aacute;-se
+nas regi&otilde;es mais profundas da intelligencia humana
+uma fermenta&ccedil;&atilde;o extraordinaria, que se exprime,
+ainda com pouca consciencia do seu proprio
+alcance, nas crea&ccedil;&otilde;es da astronomia e da physica
+modernas (Kopernico, Keppler, Galileo, Torricelli)
+e nas reformas philosophicas de Bacon e Descartes;
+que se avigora com Leibnitz e Spinosa e com
+os primeiros trabalhos de physiologia, botanica e
+sciencias sociaes (Gesner, Harvey, Malpighi, Boerhaave,
+Hobbes, Grocio, Vico, Lessing, etc.) para
+acabar, plenamente consciente no seculo XIX,
+por se affirmar, n&atilde;o j&aacute; n'esta ou n'aquella ordem
+de phenomenos, mas em todas as espheras da actividade
+humana, nas sciencias, na philosophia, na
+sociedade civil e politica e na propria arte e poesia
+contemporaneas. O naturalismo &eacute; para os
+tempos modernos o que foi o racionalismo para a
+Antiguidade:--a formula mais geral da sua actividade.
+<br />
+
+<br />
+
+A doutrina da evolu&ccedil;&atilde;o &eacute; apenas uma
+das
+<span class="pagenum"><a name="p41">[41]</a></span>
+determina&ccedil;&otilde;es, a mais recente e porisso a mais
+intensa, e intima, do naturalismo moderno.
+<br />
+
+<br />
+
+E convir&aacute; notar que o seu apparecimento &eacute;
+simultaneo na astronomia, na geologia, na biologia,
+na linguistica e na historia: Lamarck, Laplace,
+Werner, Goethe, Geoffroy Sainte-Hilaire, Herder,
+Saint-Simon, Bopp, Adelung, s&atilde;o contemporaneos,
+ou proximamente contemporaneos.
+<br />
+
+<br />
+
+O evolucionismo dentro das sciencias da natureza
+n&atilde;o &eacute; mais do que a
+applica&ccedil;&atilde;o a uma ordem
+de factos do principio fundamental do pensamento
+moderno, uma das suas determina&ccedil;&otilde;es
+particulares.
+<br />
+
+<br />
+
+Mas esse principio &eacute; uma hypothese geral e,
+como todas ideas syntheticas, um resultado da
+especula&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; um facto
+positivo. Se apparece
+no dominio das sciencias, &eacute; como hypothese
+philosophica, n&atilde;o como lei <a href="#e10">scientifica</a>.
+Se as sciencias
+da natureza e da sociedade convergem hoje
+no sentido da evolu&ccedil;&atilde;o, convergem movidas pelo
+influxo intimo do estado mental-metaphysico que
+as envolve, n&atilde;o pela for&ccedil;a exclusiva e
+independente
+do seu desenvolvimento proprio. N&atilde;o ha, como
+se pretende, a elimina&ccedil;&atilde;o do elemento metaphysico
+pelo elemento scientifico: ha uma mutua
+penetra&ccedil;&atilde;o;
+penetra&ccedil;&atilde;o da especula&ccedil;&atilde;o
+na sciencia,
+pela hypothese que a vem fecundar; penetra&ccedil;&atilde;o
+da sciencia na especula&ccedil;&atilde;o, pelo correctivo
+imposto,
+em nome da realidade, dos factos positivos,
+<span class="pagenum">[42]</span>
+ao &aacute;-priorismo inherente ao pensamento especulativo.
+<br />
+
+<br />
+
+E &eacute; por isso que o concurso da sciencia e da
+especula&ccedil;&atilde;o &eacute; indispensavel para a
+constitui&ccedil;&atilde;o
+definitiva da philosophia moderna (da qual todos
+os systemas, desde Bruno e Bacon at&eacute; aos nossos
+dias s&atilde;o apenas esbo&ccedil;os e prenuncios), para a
+organisa&ccedil;&atilde;o
+systematica do pensamento moderno em
+todas as suas determina&ccedil;&otilde;es.
+<br />
+
+<br />
+
+Creio com Haeckel, assim como com Schelling,
+Hegel, Hartmann, Comte e Spencer, que &eacute; no
+terreno da evolu&ccedil;&atilde;o que essa grande synthese tem
+de ser construida, e que, depois do seculo XVIII
+e depois de Kant, j&aacute; n&atilde;o &eacute; possivel
+uma philosophia
+que n&atilde;o seja essencialmente uma theoria geral
+do desenvolvimento, isto &eacute;, uma philosophia
+da evolu&ccedil;&atilde;o. Mas creio tambem que a
+organisa&ccedil;&atilde;o
+da ideia d'evolu&ccedil;&atilde;o n'essa theoria geral do
+desenvolvimento
+&eacute; problema que excede muito a capacidade
+especial das sciencias da natureza, quero
+dizer, a esphera theorica d'essas sciencias, porque
+excede os limites e alcance do puro espirito scientifico.
+<br />
+
+<br />
+
+A metaphysica do seculo XIX apezar do
+descredito em que momentaneamente parece ter
+caido, n&atilde;o disse ainda a sua ultima palavra, nem
+abdicou. Se a conclus&atilde;o final das sciencias tem
+de ser, como creio, o mechanismo universal, a conclus&atilde;o
+final do pensamento metaphysico tem por
+<span class="pagenum"><a name="p43">[43]</a></span>
+seu lado de ser o universal idealismo. Mas j&aacute; hoje
+se come&ccedil;a a comprehender que entre estes dois
+termos n&atilde;o ha contradic&ccedil;&atilde;o essencial e
+que esta
+<em>these</em> e
+<em>antithese</em> &eacute; reductivel a
+uma <em>synthese</em>, que
+satisfa&ccedil;a plenamente tanto a sciencia como a
+especula&ccedil;&atilde;o.
+Essa synthese em que o idealismo apparecer&aacute;
+com complemento necessario do mechanismo
+j&aacute; hoje se deixa entrever; e creio que <a href="#e11">nem
+a
+todos</a> parecer&aacute; temeridade e paradoxo, concebel-a,
+como eu a concebo, nem idealista nem materialista
+no antigo e mais usual sentido das palavras,
+mas num sentido novo e mais profundo, como
+um <em><a href="#e12">mater&iacute;alismo</a>
+idealista</em>.
+<br />
+
+<br />
+
+<h4>FIM</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<hr />
+<hr />
+<div style="text-align: center;"><b>Tiragem de 200
+exemplares
+numerados</b>
+</div>
+
+<hr />
+<hr /><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">
+<h4>TYPOGRAPHIA<br />
+
+DO<br />
+
+CAMPE&Atilde;O POPULAR
+</h4>
+
+<br />
+
+Rua da Gra&ccedil;a n.&ordm; 15--Ponta Delgada
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Estabelecimento fundado em 1889</b>
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<b>Notas:</b><br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<a name="1"></a><sup>[A]</sup> <em>A
+Provincia</em>--N.&ordm; 48,
+II anno--Porto, 1 de mar&ccedil;o de
+1886.<br />
+
+<br />
+
+<a name="2"></a><sup>[B]</sup> <em></em>Ali&aacute;s
+de Iena. (E. P.)<br />
+
+<br />
+
+<a name="3"></a><sup>[C]</sup> <em>A
+Provincia</em>--N.&ordm;
+49--II anno--Porto, 2 de Mar&ccedil;o
+de 1886.<br />
+
+<br />
+
+<a name="4"></a><sup>[D]</sup> <em>A
+Provincia</em>--N.&ordm;
+50--II anno--Porto, 3 de mar&ccedil;o de
+1886.<br />
+
+<br />
+
+<a name="5"></a><sup>[E]</sup> <em>A
+Provincia</em>--N.&ordm;
+51--II anno--Porto, 4 de mar&ccedil;o de
+1887.<br />
+
+<br />
+
+<a name="6"></a><sup>[F]</sup> <em>A
+Provincia</em>--N.&ordm;
+52--II anno--Porto, 5 de mar&ccedil;o
+de 1887.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+<div class="fbox">
+<h2>Lista de erros corrigidos</h2>
+
+<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se
+listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4">
+
+ <tbody>
+
+ <tr align="right">
+
+ <td style="width: 61px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 121px;">Original</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;"></td>
+
+ <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 135px;">Correc&ccedil;&atilde;o</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e1"></a><a href="#px">#p&aacute;g.
+X</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">methaphisico</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">metaphisico*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e2"></a><a href="#pxi">#p&aacute;g.
+XI</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;"><em>movimento</em></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;"><em>monismo</em>*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td>&nbsp;</td>
+
+ <td>&nbsp;</td>
+
+ <td>&nbsp;</td>
+
+ <td>&nbsp;</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><a name="e3"></a><a href="#p6">#p&aacute;g.
+6</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">vaga
+de generalidade</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; vertical-align: top;">vaga
+generalidade*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e4"></a><a href="#p6">#p&aacute;g. 6</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">n&atilde;o a mais</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">n&atilde;o mais*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p9">#p&aacute;g. 9</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">monistia</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">monista</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e6"></a><a href="#p22">#p&aacute;g.
+22</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;">sythetica</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;">synthetica</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p22">#p&aacute;g. 22</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">Hacekel</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">Haeckel</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p22">#p&aacute;g. 22</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">scinecias</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">sciencias</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p28">#p&aacute;g. 28</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">authropomorphica</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">anthropomorphica</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e10"></a><a href="#p41">#p&aacute;g. 41</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">scientica</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">scientifica</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p43">#p&aacute;g. 43</a></td>
+
+ <td style="text-align: center;">nem todos</td>
+
+ <td style="text-align: center;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center;">nem a todos*</td>
+
+ </tr>
+
+ <tr>
+
+ <td style="text-align: right; width: 61px;"><a name="e12"></a><a href="#p43">#p&aacute;g.
+43</a></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 121px;"> <em>materialista</em></td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 5px;">...</td>
+
+ <td style="text-align: center; width: 135px;"><em>mater&iacute;alismo</em>*</td>
+
+ </tr>
+
+ </tbody>
+</table>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">
+* correc&ccedil;&otilde;es feitas com base na errata do
+pr&oacute;prio livro.</div>
+
+<div style="text-align: center;"><br />
+
+<br />
+
+</div>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A philosophia da natureza dos
+naturalistas, by Antero Tarquínio de Quental
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PHILOSOPHIA DA NATUREZA ***
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+
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+
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+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
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+
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