The Project Gutenberg EBook of Poesias, by Alexandre Herculano

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Title: Poesias

Author: Alexandre Herculano

Release Date: June 28, 2008 [EBook #25925]

Language: Portuguese

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POESIAS




IMPRENSA NACIONAL




POESIAS

POR

A. HERCULANO


SEGUNDA EDIO



LISBOA
EM CASA DA VIUVA BERTRAND E FILHOS
AOS MARTYRES, N.^o 73
M DCCC LX




LIVRO PRIMEIRO

A HARPA DO CRENTE.




A SEMANA SANCTA.


    Der Gedanke Gott weckt einen furchlerlichen Nachbar auf. Sein Name
    heisst Richter.

                                                          Schiller.


I.

Tibio o sol entre as nuvens do occidente,
J l se inclina ao mar. Grave e solemne
Vai a hora da tarde!--O oeste passa
Mudo nos troncos da alameda antiga,
Que  voz da primavera os gomos brota:
O oeste passa mudo, e cruza o atrio
Ponteagudo do templo, edificado
Por mos duras de avs, em monumento
De uma herana de f, que nos legaram,
A ns seus netos, homens de alto esforo,
Que nos rimos da herana, e que insultamos
A cruz e o templo e a crena de outras eras;
Ns, homens fortes, servos de tyrannos,
Que sabemos to bem rojar seus ferros
Sem nos queixar, menosprezando a Patria
E a liberdade, e o combater por ella.

Eu no!--eu rujo escravo; eu creio e espero
No Deus das almas generosas, puras,
E os despotas maldigo.--Entendimento
Bronco, lanado em seculo fundido
Na servido de goso ataviada,
Creio que Deus  Deus e os homens livres!


II.

Oh sim!--rude amador de antigos sonhos,
Irei pedir aos tumulos dos velhos
Religioso enthusiasmo, e canto novo
Hei-de tecer, que os homens do futuro
Entendero; um canto escarnecido
Pelos filhos dest' epocha mesquinha,
Em que vim peregrino a ver o mundo.
E chegar a meu termo, e reclinar-me
 branda sombra de cypreste amigo.


III.

Passa o vento os do portico da igreja
Esculpidos umbraes: correndo as naves
Sussurrou, sussurrou entre as columnas
De gothico lavor: no orgam do cro
Veiu, emfim, murmurar e esvaecer-se.


IV.

Mas porque sa o vento?--Est deserto,
Silencioso ainda o sacro templo:
Nenhuma voz humana ainda recorda
Os hymnos do Senhor. A natureza
Foi a primeira em celebrar seu nome
Neste dia de lucto e de saudade!
Trvas da quarta feira eu vos sado!
Negras paredes, mudos monumentos
De todas essas oraes de mgua,
De gratido, de susto ou de esperana,
Depositadas ante vs nos dias
De fervorosa crena, a vs que enlucta
A solido e o d, venho eu saudar-vos.
A loucura da cruz no morreu toda
Aps dezoito seculos!--Quem chore
Do soffrimento o Heroe existe ainda.
Eu chorarei--que as lagrymas so do homem--
Pelo Amigo do povo, assassinado
Por tyrannos, e hypocritas, e turbas
Envilecidas, barbaras, e servas.


V.

Tu, Anjo do Senhor, que accendes o estro;
Que no espao entre o abysmo e os cus vagueias,
D'onde mergulhas no oceano a vista;
Tu que do trovador  mente arrojas
Quanto ha nos cus esperanoso e bello,
Quanto ha no abysmo tenebroso e triste,
Quanto ha nos mares magestoso e vago,
Hoje te invoco!--oh vem!--lana em minha alma
A harmonia celeste e o fogo e o genio,
Que dm vida e vigor a um carme pio.


VI.

A noite escura desce: o sol de todo
Nos mares se atufou. A luz dos mortos,
Dos brandes o claro, fulgura ao longe
No cruzeiro smente e em volta da ara:
E pelas naves comeou rudo
De compassado andar. Fiis acodem
 morada de Deus, a ouvir queixumes
Do vate de Sio. Em breve os monges,
Suspirosas canes aos cus erguendo,
Sua voz uniro  voz desse orgam,
E os sons e os ecchos reboaro no templo.
Mudo o cro depois, neste recincto
Dentro em bem pouco reinar silencio,
O silencio dos tumulos, e as trvas
Cubriro por esta rea a luz escaa
Despedida das lampadas, que pendem
Ante os altares, bruxuleando frouxas.

Imagem da existencia!--Em quanto passam
Os dias infantis, as paixes tuas,
Homem, qual ento s, so debeis todas.
Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso
Sobrenadam a dr e o pranto e o longo
Gemido do remorso, a qual lanar-se
Vai com rouco estridor no antro da morte,
L, onde  tudo horror, silencio, noite.
Da vida tua instantes florescentes
Foram dous, e no mais: as cans e rugas,
Logo, rebate de teu fim te deram.
Tu foste apenas som, que, o ar ferindo,
Murmurou, esqueceu, passou no espao.

E a casa do Senhor ergueu-se.--O ferro
Cortou a penedia; e o canto enorme
Puldo alveja alli no espesso panno
Do muro colossal, que ra aps ra,
Como onda e onda ao desdobrar na areia,
Viu vir chegando e adormecer-lhe ao lado.
O ulmo e o choupo no cahir rangeram
Sob o machado: a trave affeioou-se;
L no cimo pousou: restruge ao longe
De martellos fragor, e eis ergue o templo,
Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.

Homem, do que s capaz! Tu, cujo alento
Se esvi, como da cerva a leve pista
No p se apaga ao respirar da tarde,
Do seio dessa terra, em que s estranho,
Sair fazes as moles seculares,
Que por ti, morto, falem; ds na ida
Eterna durao s obras tuas.
Tua alma  immortal, e a prova a dste!


VII.

Anoiteceu.--Nos claustros resoando
As pisadas dos monges ouo: eis entram;
Eis se curvaram para o cho, beijando
O pavimento, a pedra. Oh sim, beijae-a!
Igual vos cubrir a cinza um dia,
Talvez em breve--e a mim. Consolo ao morto
 a pedra do tumulo. S-lo-hia
Mais, se do justo s a herana fra;
Mas tambem ao malvado  dada a campa.

E o criminoso dormir quieto
Entre os bons sotterrado?--Oh no! Em quanto
No templo ondeiam silenciosas turbas,
Exultaro do abysmo os moradores,
Vendo o hypocrita vil, mais impio que elles,
Que escarnece do Eterno, e a si se engana;
Vendo o que julga que oraes apagam
Vicios e crimes, e o motejo e o riso
Dado em resposta s lagrymas do pobre;
Vendo os que nunca ao infeliz disseram
De consolo palavra ou de esperana.
Sim:--malvados tambem ho-de pisar-lhes
Os frios restos que separa a terra,
Um punhado de terra, a qual os ossos
Destes ha-de cubrir em tempo breve,
Como cubriu os seus; qual vai sumindo
No segredo da campa a humana raa.


VIII.

Eis que a turba rareia. Ermam bem poucos
Do templo na amplido: s l no escuro
De afumada capella o justo as preces
Ergue pio ao Senhor, as preces puras
De um corao que espera, e no mentidas
De labios de impostor, que engana os homens
Com seu meneio hypocrita, calando
Na alma lodosa da blasphemia o grito.
Ento exultaro os bons, e o mpio,
Que passou, tremer. Emfim, de vivos,
Da voz, do respirar o som confuso
Vem confundir-se no ferver das praas,
E pela galil s ruge o vento.

Em trvas no ficou silenciosas
O sagrado recincto: os candieiros,
No gelado ambiente ardendo a custo,
Espalham debeis raios, que reflectem
Das pedras pela alvura; o negro mocho,
Companheiro do morto, horrido pio
Solta l da cornija: pelas fendas
Dos sepulchros deslisa fumo espesso;
Ondeia pela nave, e esvi-se. Longo
Suspirar no se ouviu?--Olhae! l se erguem.
Sacudindo o sudario, em peso os mortos!

Mortos, quem vos chamou? O som da tuba
Ainda do Josaphat no fere os valles.
Dorm, dorm: deixae passar as eras...


IX.

Mas foi uma viso: foi como scena
D'imaginar febril. Creou-se, acaso,
Do poeta na mente, ou desvendou-lhe
A mo de Deus o ntimo ver da alma,
Que devassa a existencia mysteriosa
Do mundo dos espiritos? Quem sabe?
Dos vivos ja deserta, a igreja torva
Repovoou-se, para mim ao menos,
Dos extinctos, que ao p das sanctas aras
Leito commum na somnolencia extrema
Buscaram. O terror, que arreda o homem
Do limiar do templo s horas mortas,
No vem de crena van. Se fulgem astros,
Se a luz da lua estira a sombra eterna
Da cruz gigante (que campeia erguida
No vertice do timpano, ou no cimo
Do corucheu do campanario) ao longo
Dos inclinados tectos, afastae-vos!
Afastae-vos d'aqui, onde se passam
 meia-noite insolitos mysterios;
D'aqui, onde desperta a voz do archanjo
Os dormentes da morte; onde reune
O que foi forte e o que foi fraco, o pobre
E o opulento, o orgulhoso e o humilde,
O bom e o mau, o ignorante e o sabio,
Quantos, emfim, depositar vieram
Juncto do altar o que era seu no mundo,
Um corpo n, e corrompido e inerte.


X.

E seguia a viso.--Cria ainda achar-me,
Alta noite, na igreja solitaria
Entre os mortos, que, erectos sobre as campas,
Eram ha pouco um fumo que ondeiava
Pelas fisgas do vasto pavimento.
Olhei. Do erguido tecto o panno espesso
Rareava; rareava-me ante os olhos,
Como tenue cendal; mais tenue ainda,
Como o vapor de outono em quarto d'alva,
Que se libra no espao antes que desa
A consolar as plantas conglobado
Em matutino orvalho. O firmamento
Era profundo e amplo. Involto em gloria,
Sobre vagas de nuvens, rodeiado
Das legies do cu, o Ancio dos dias,
O Sancto, o Deus descia. Ao summo aceno
Parava o tempo, a immensidade, a vida
Dos mundos a escutar. Era esta a hora
Do julgamento desses que se alavam
 voz de cima sobre as sepulturas?


XI.

Era ainda a viso,--Do templo em meio
Do anjo da morte a espada flammejante
Crepitando bateu. Bem como insectos,
Que  flr de pego pantanoso e triste
Se balouavam--quando a tempestade
Veiu as azas molhar nas aguas turvas,
Que marulhando sussurraram--surgem
Volteando, zumbindo em dana douda,
E lassos, vo pousar em longas filas
Nas margens do paul, de um lado e de outro;
Tal o murmurio e a agitao incerta
Ciciava das sombras remoinhando
Ante o sopro de Deus. As melodias
Dos cros celestiaes, longinquas, frouxas,
Com frmito infernal se misturavam
Em cahos de dr e jubilo.
                          Dos mortos
Parava, emfim, o vortice enredado;
E os grupos vagos em distinctas turmas
Se enfileiravam de uma parte e de outra.
Depois, o gladio do anjo entre os dous bandos
Ficou, unica luz, que se estirava
Desde o cruzeiro ao portico, e fera
De reflexo vermelho os largos pannos
Das paredes de marmore, bem como
Mar de sangue, onde inertes fluctuassem
De humanos vultos indecisas frmas.


XII.

E seguia a viso.--Do templo  esquerda,
Mstas as faces, inclinada a fronte,
Da noite as larvas tinham sobre o slo
Fito o espantado olhar, e as dilatadas
Baas pupillas lhes tingia o susto.
Mas, como zona lucida de estrellas,
Nessa atmosphera crassa e afogueada
Pela espada rubente, refulgiam
Da direita os espiritos, banhado
De inenarravel placidez seu gesto.
Era inteiro o silencio, e no silencio
Uma voz resoou--Eleitos vinde!--
Ide prectos!--Vacillava a terra,
E ajoelhando eu me curvei tremendo.


XIII.

Quando me ergui e olhei, no cu profundo
Um rastilho de luz pura e serena
Se ia embebendo nesses mares de orbes
Infinitos, perdidos no infinito,
A que chammos o universo. Um hymno
De saudade e de amor, quasi inaudivel
Parecia romper desde as alturas
De tempo a tempo. Vinha como involto
Nas lufadas do vento, at perder-se
Em socego mortal.
                  O curvo tecto
Do templo, ento, se condensou de novo,
E para a terra o meu olhar volveu-se.
Da direita os espiritos radiosos
J no estavam l. Chispando a espaos,
Qual o ferro na incude, a espada do anjo
O mortio rubor mandava, apenas,
D'aurora boreal quando se extingue.


XIV.

Proseguia a viso.--Da esquerda s sombras
Anciava o seio a dr: tinham no gesto
Impressa a maldico, que lhes seccra
Eternamente a seiva da esperana.

Como se v, em noite estiva e negra,
Scintillar sobre as aguas a ardentia,
D'umas frontes s outras vagueiavam
Ceruleos lumes no esquadro dos mortos,
E ao estalar das lousas, grito immenso
Subterraneo, abafado e delirante,
Ineffavel compendio de agonias,
Misturado se ouviu com rir do inferno,
E a viso se desfez. Era ermo o templo:
E despertei do pesadelo em trevas.


XV.

Era loucura ou sonho? Entre as tristezas
E os terrores e angustias, que resume
Neste dia e logar a avita crena,
Irresistivel fora arrebatou-me
Da sepultura a devassar segredos,
Para dizer:--Tremei! Do altar  sombra
Tambem ha mau-dormir de somno extremo!--

A justia de Deus visita os mortos,
Embora a cruz da redempo proteja
A pedra tumular; embora a hostia
Do sacrificio o sacerdote eleve
Sobre as vizinhas aras. Quando a igreja
Rodeiam trevas, solido e medos,
Que a resguardam co'as asas acurvadas
Da vista do que vive, a mo do Eterno
Separa o joio do bom gro, e arroja
Para os abysmos a ruim semente.


XVI.

No!--no foi sonho vo, vago delirio
De imaginar ardente. Eu fui levado,
Galgando alm do tempo, s tardas horas,
Em que se passam scenas de mysterio,
Para dizer:--Tremei! Do altar  sombra
Tambem ha mau-dormir de somno extremo!--

Vejo ainda o que vi: da sepultura
Ainda o halito frio me enregela
O suor do pavor na fronte; o sangue
Hesita immoto nas inertes veias;
E embora os labios murmurar no ousem,
Ainda, incessante, me repete na alma
ntima voz:--Tremei! Do altar  sombra
Tambem ha mau-dormir de somno extremo!--


XVII.

Mas troa a voz do monge, e, emfim, desperto
O corao bateu. Eia, retumbem
Pelos ecchos do templo os sons dos psalmos,
Que em dia de afflico ignoto vate
Teceu, banhado em dr. Talvez foi elle
O primeiro cantor que em varias crdas,
 sombra das palmeiras da Iduma,
Soube entoar melodioso um hymno.
Deus inspirava ento os trovadores
Do seu povo querido, e a Palestina,
Rica dos meigos dons da natureza,
Tinha o sceptro, tambem, do enthusiasmo.
Virgem o genio ainda, o estro puro
Louvava Deus smente,  luz da aurora,
E ao esconder-se o sol entre as montanhas
De Bethoron.--Agora o genio  morto
Para o Senhor, e os cantos dissolutos
De lodoso folguedo os ares rompem,
Ou sussurram por paos de tyrannos,
Assellados de putrida lisonja,
Por preo vil, como o cantor que os tece.


XVIII.

O PSALMO.

Quanto  grande o meu Deus!.. T onde chega
      O seu poder immenso!
Elle abaixou os cus, desceu, calcando
      Um nevoeiro denso.
Dos cherubins nas asas radiosas
      Librando-se, voou;
E sobre turbilhes de rijo vento
      O mundo rodeiou.
Ante o olhar do Senhor vacilla a terra,
      E os mares assustados
Bramem ao longe, e os montes lanam fumo,
      Da sua mo tocados.
Se pensou no Universo, ei-lo patente
      Ante a face do Eterno:
Se o quiz, o firmamento os seios abre,
      Abre os seios o inferno.
Dos olhos do Senhor, homem, se pdes,
      Esconde-te um momento:
V onde encontrars logar que fique
      Da sua vista isento:
Sobe aos cus, transpe mares, busca o abysmo,
      L teu Deus has-de achar;
Elle te guiar, e a dextra sua
      L te ha-de sustentar:
Desce  sombra da noite, e no seu manto
      Involver-te procura...
Mas as trvas para elle no so trvas.
      Nem  a noite escura.
No dia do furor, em vo buscras
      Fugir ante o Deus forte,
Quando do arco tremendo, irado, impelle
      Setta em que pousa a morte.
Mas o que o teme dormir tranquillo
      No dia extremo seu,
Quando na campa se rasgar da vida
      Das illuses o vu.


XIX.

Calou-se o monge: sepulchral silencio
 sua voz seguiu-se. Uma toada
De orgam rompeu do cro. Assemelhava
O suspiro saudoso, e os ais de filha,
Que chora solitaria o pae, que dorme
Seu ultimo, profundo e eterno somno.
Melodias depois soltou mais doces
O severo instrumento: e ergueu-se o canto,
O doloroso canto do propheta,
Da patria sobre o fado. Elle, que o vira,
Sentado entre ruinas, contemplando
Seu avito esplendor, seu mal presente,
A quda lhe chorou. L na alta noite,
Modulando o Nebel, via-se o vate
Nos derribados porticos, abrigo
Do immundo stellio e gemedora poupa,
Extasiado--e a lua scintillando
Na sua calva fronte, onde pesavam
Annos e annos de dr. Ao venerando
Nas encovadas faces fundos regos
Tinham aberto as lagrymas. Ao longe,
Nas margens do Kedron, a ran grasnando
Quebrava a paz dos tumulos. Que tumulo
Era Sio!--o vasto cemiterio
Dos fortes de Israel. Mais venturosos
Que seus irmos, morreram pela patria;
A patria os sepultou dentro em seu seio.
Elles, em Babylonia, aos punhos ferros,
Passam de escravos miseranda vida,
Que Deus pesou seus crimes, e, ao pesa-los,
A dextra lhe vergou. No mais no templo
A nuvem repousra, e os cus de bronze
Dos prophetas aos rogos se amostravam.
O vate de Anathot a voz soltra
Entre o povo infiel, de Eloha em nome:
Ameaas, promessas, tudo inutil;
De bronze os coraes no se dobraram.
Vibrou-se a maldico. Bem como um sonho
Jerusalem passou: sua grandeza
Smente existe em derrocadas pedras.
O vate de Anathot, sobre seus restos,
Com triste canto deplorou a patria.
Hymno de morte alou: da noite as larvas
O som lhe ouviram: squallido esqueleto,
Rangendo os ossos, d'entre a hera e musgos
Do portico do templo erguia um pouco,
Alvejando, a caveira.--Era-lhe allivio
Do sagrado cantor a voz suave
Desferida ao luar, triste, no meio
Da vasta solido que o circumdava.
O propheta gemeu: no era o estro,
Ou o vvido jubilo que outr'ora
Inspirra Moyss: o sentimento
Foi sim pungente de silencio e morte,
Que da patria lhe fez sobre o cadaver
A elegia da noite erguer e o pranto
Derramar da esperana e da saudade.


XX.

A LAMENTAO.

Como assim jaz e solitaria e quda
Esta cidade outr'ora populosa!
Qual viuva ficou e tributaria
      A senhora das gentes.
Chorou durante a noite; em pranto as faces,
Ssinha, entregue  dr, nas penas suas
Ninguem a consolou: os mais queridos
      Contrarios se tornaram.
Ermas as praas de Sio e as ruas,
Cobre-as a verde relva: os sacerdotes
Gemem; as virgens pallidas suspiram
      Involtas na amargura.
Dos filhos de Israel nas cavas faces
Est pintada a macilenta fome;
Mendigos vo pedir, pedir a estranhos,
      Um po de infamia eivado.
O tremulo ancio, de longe, os olhos
Volve a Jerusalem, della fugindo;
V-a, suspira, cahe, e em breve expira
      Com seu nome nos labios.
Que horror!--mpias as mes os tenros filhos
Despedaaram: barbaras quaes tigres,
Os sanguinosos membros palpitantes
      No ventre sepultaram.
Deus, compassivo olhar volve a ns tristes:
Cessa de Te vingar! V-nos escravos,
Servos de servos em paiz estranho.
      Tem d de nossos males!
Acaso sers Tu sempre inflexivel?
Esqueceste de todo a nao tua?
O pranto dos hebreus no Te commove?
      s surdo a seus lamentos?


XXI.

Doce era a voz do velho: o som do Nablo
Sonoro: o cu sereno: clara a terra
Pelo brando fulgor do astro da noite:
E o propheta parou. Erguidos tinha
Os olhos para o cu, onde buscava
Um raio de esperana e de conforto:
E elle calra j, e ainda os ecchos,
Entre as ruinas sussurrando, ao longe
am os sons levar de seus queixumes.


XXII.

Choro piedoso, o choro consagrado
s desditas dos seus. Honra ao propheta!
Oh margens do Jordo, paiz formoso
Que fostes e no sois, tambem suspiro
Condodo vos dou.--Assim fenecem
Imperios, reinos, solides tornados!...
No:--nenhum deste modo: o peregrino
Pra em Palmyra e pensa. O brao do homem
A sacudiu  terra, e fez dormissem
O seu ultimo somno os filhos della--
E elle o veio dormir pouco mais longe...
Mas se chega a Sio treme, enxergando
Seus lacerados restos. Pelas pedras,
Aqui e alli dispersas, ainda escripta
Parece ver-se uma inscripo de agouros,
Bem como aquella que aterrou um mpio
Quando, no meio de ruidosa festa,
Blasphemava dos cus, e mo ignota
O dia extremo lhe apontou dos crimes.
A maldico do Eterno est vibrada
Sobre Jerusalem!--Quanto  terrivel
A vingana de Deus! O Israelita,
Sem patria e sem abrigo, vagabundo,
dio dos homens, neste mundo arrasta
Uma existencia mais cruel que a morte,
E que vem terminar a morte e inferno.
Desgraada nao!--Aquelle solo
Onde manava o mel, onde o carvalho,
O cedro e a palma o verde ou claro ou torvo,
To grato  vista, em bosques misturavam;
Onde o lyrio e a cecem nos prados tinham
Crescimento espontaneo entre as roseiras,
Hoje, campo de lagrymas, s cria
Humilde musgo de escalvados cerros.


XXIII.

Ide vs a Mambr.--L, bem no meio
De um valle, outr'ora de verdura ameno,
Erguia-se um carvalho magestoso.
Debaixo de seus ramos largos dias
Abraho repousou. Na primavera
Vinham os moos adornar-lhe o tronco
De capellas cheirosas de boninas,
E coreias gentis traar-lhe em roda.
Nasceu com o orbe a planta veneravel,
Viu passar geraes, julgou seu dia
Final fosse o do mundo, e quando airosa
Por entre as densas nuvens se elevava,
Mandou o Nume aos aquiles rugissem,
Ei-la por terra! As folhas, pouco a pouco,
Murcharam-se cahindo, e o rei dos bosques
Serviu de pasto aos tragadores vermes.
Deus estendeu a mo:--no mesmo instante
A vinha se mirrou: juncto aos ribeiros
Da Palestina os platanos frondosos
No mais cresceram, como d'antes, bellos:
O armento, em vez de relva, achou nos prados
Smente ingratas, espinhosas urzes.
No Golgotha plantada, a Cruz clamra
--Justia!--A tal clamor horrido espectro
No Mori surgiu. Era seu nome
Assolao.--E despregando um grito,
Cahiu com longo som de um povo a campa.
Assim a herana de Jud, outr'ora
Grata ao Senhor, existe s nos ecchos
Do tempo que j foi, e que ha passado
Como hora de prazer entre desditas.
...................................


XXIV.

Minha Patria onde existe?
                           l smente!
Oh lembrana da Patria acabrunhada
Um suspiro tambem tu me has pedido;
Um suspiro arrancado aos seios d'alma
Pela offuscada gloria, e pelos crimes
Dos homens que ora so, e pelo opprobrio
Da mais illustre das naes da terra!

A minha triste Patria era to bella,
E forte, e virtuosa! e ora o guerreiro
E o sabio e o homem bom acol dormem,
Acol, nos sepulchros esquecidos,
Que a seus netos infames nada contam
Da antiga honra e pudor e eternos feitos.
O escravo portugus agrilhoado
Carcomir-se lhes deixa juncto s lousas
Os decepados troncos desse arbusto,
Por mos delles plantado  liberdade,
E por tyrannos derribado em breve,
Quando patrias virtudes se acabaram,
Como um sonho da infancia!...
                              O vil escravo,
Immerso em vicios, em bruteza e infamia,
No erguer os macerados olhos
Para esses troncos, que destroem vermes
Sobre as cinzas de heroes, e, acceso em pejo,
No surgir jmais?--No ha na terra
Corao portugus, que mande um brado
De maldico atroz, que v cravar-se
Na vigilia e no somno dos tyrannos,
E envenenar-lhes o prazer por noites
De vil prostituio, e em seus banquetes
De embriaguez lanar fel e amarguras?

No!--Bem como um cadaver j corrupto,
A nao se dissolve: e em seu lethargo
O povo, involto na miseria, dorme.


XXV.

Oh, talvez, como o vate, ainda algum dia
Terei de erguer  Patria hymno de morte,
Sobre seus mudos restos vagueiando!
Sobre seus restos?--Nunca! Eterno, escuta
Minhas preces e lagrymas:--se em breve,
Qual jaz Sio, jazer deve Ulissea;
Se o anjo do exterminio ha-de risca-la
Do meio das naes, que d'entre os vivos
Risque tambem meu nome, e no me deixe
Na terra vagueiar, orpham de Patria.


XXVI.

Cessou da noite a gro solemnidade
Consagrada  tristeza, e a memorandas
Recordaes:--os monges se prostraram,
A face unida  pedra. A mim, a todos
Correm dos olhos lagrymas suaves
De compunco. Atheu, entra no templo;
No temas esse Deus, que os labios negam,
E o corao confessa. A corda do arco
Da vingana, em que a morte se debrua,
Frouxa est; Deus  bom: entra no templo.
Tu para quem a morte ou vida  frma,
Frma smente de mais puro barro,
Que nada crs, e em nada esperas, olha,
Olha o conforto do christo. Se o calis
Da amargura a provar os cus lhe deram,
Elle se consolou: balsamo sancto
Piedosa f no corao lhe verte.
--Deus compaixo ter!--Eis seu gemido:
Porque a esperana lhe sussurra em torno:
--Aqui, ou l... a Providencia  justa.

Atheu, a quem o mal fizera escravo,
Teu futuro qual ? Quaes so teus sonhos?
No dia da afflico emmudeceste
Ante o espectro do mal. E a quem alras
O gemente clamor?--Ao mar, que as ondas
No altera por ti?--Ao ar, que some
Pela sua amplido as queixas tuas?
Aos rochedos alpestres, que no sentem,
Nem sentir podem teu gemido inutil?
Tua dr, teu prazer existem, passam,
Sem porvir, sem passado, e sem sentido.
Nas angustias da vida, o teu consolo
O suicidio  s, que te promette
Rica messe de goso, a paz do nada!--
E ai de ti, se buscaste, emfim, repouso,
No limiar da morte indo assentar-te!
Alli grita uma voz no ultimo instante
Do passamento: a voz atterradora
Da consciencia  ella. E has-de escuta-la
Mau grado teu: e tremers em sustos,
Desesperado aos cus erguendo os olhos
Irados, de travs, amortecidos;
Aos cus, cujo caminho a Eternidade
Co'a vagarosa mo te vai cerrando,
Para guiar-te  solido das dres,
Onde maldigas teu primeiro alento,
Onde maldigas teu extremo arranco,
Onde maldigas a existencia e a morte.


XXVII.

Calou tudo no templo: o cu  puro,
A tempestade ameaadora dorme.
No espao immenso os astros scintillantes
O Rei da creao louvam com hymnos,
No ouvidos por ns nas profundezas
Do nosso abysmo. E aos cantos do Universo,
Ante milhes de estrellas, que recamam
O firmamento, ajunctar seu canto
Mesquinho trovador?--Que vale uma harpa
Mortal no meio da harmonia etherea,
No concerto da noite? Oh, no silencio,
Eu pequenino verme irei sentar-me
Aos ps da Cruz nas trvas do meu nada.
Assim se apaga a lampada nocturna
Ao despontar do sol o alvor primeiro:
Por entre a escurido deu claridade;
Mas do dia ao nascer, que j rutla,
As torrentes de luz vertendo ao longe,
Da lampada o claro sumiu-se, inutil,
Nesse fulgido mar, que inunda a terra.




A VOZ.


 to suave ess' hora,
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a lua
Das ondas a ardentia,

Se em alcantis marinhos,
Nas rochas assentado,
O trovador medita
Em sonhos enleiado!

O mar azul se encrespa
Co'a vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz ja se divisa.

E tudo em roda cala
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso
Quebrando em furna algosa.

Alli folga o poeta
Nos desvarios seus,
E nessa paz que o crca
Bemdiz a mo de Deus.

Mas despregou seu grito
A alcyone gemente,
E nuvem pequenina
Ergueu-se no occidente:

E sbe, e cresce, e immensa
Nos cus negra fluctua,
E o vento das procellas
J varre a fraga nua.

Turba-se o vasto oceano,
Com horrido clamor;
Dos vagalhes nas ribas
Expira o vo furor

E do poeta a fronte
Cubriu vu de tristeza:
Calou,  luz do raio,
Seu hymno  natureza.

Pela alma lhe vagava
Um negro pensamento,
Da alcyone ao gemido,
Ao sibillar do vento.

Era blasphema ida,
Que triumphava emfim;
Mas voz soou ignota,
Que lhe dizia assim:

         -----

--Cantor, esse queixume
Da nuncia das procellas,
E as nuvens, que te roubam
Myriadas de estrellas,

E o frmito dos euros,
E o estourar da vaga,
Na praia, que revolve,
Na rocha, onde se esmaga,

Onde espalhava a brisa
Sussurro harmonioso,
Em quanto do ether puro
Descia o sol radioso,

Typo da vida do homem,
 do universo a vida;
Depois do afan repouso,
Depois da paz a lida.

Se ergueste a Deus um hymno
Em dias de amargura;
Se te amostraste grato
Nos dias de ventura,

Seu nome no maldigas
Quando se turba o mar:
No Deus, que  pae, confia,
Do raio ao scintillar.

Elle o mandou: a causa
Disso o universo ignora,
E mudo est. O nume,
Como o universo, adora!--

         -----

Oh sim, torva blasphemia
No manchar seu canto!
Brama a procella embora;
Pse sobre elle o espanto;

Que de sua harpa os hymnos
Derramar contente
Aos ps de Deus, qual oleo
Do nardo recendente.




A ARRABIDA.


I.

Salve, oh valle do sul, saudoso e bello!
Salve, oh patria da paz, deserto sancto,
Onde no ruge a grande voz das turbas!
Slo sagrado a Deus, podesse ao mundo
O poeta fugir, cingir-se ao ermo,
Qual ao freixo robusto a fragil hera,
E a romagem do tumulo cumprindo,
S conhecer, ao despertar na morte,
Essa vida sem mal, sem dr, sem termo,
Que ntima voz contnuo nos promette
No transito chamado o viver do homem.


II.

Suspira o vento no alamo frondoso;
As aves soltam matutino canto;
Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra
Dos alcants na base carcomida:
Eis o rudo de ermo!--Ao longe o negro,
Insondado oceano, e o cu ceruleo
Se abraam no horisonte.--Immensa imagem
Da eternidade e do infinito, salve!


III.

Oh, como surge magestosa e bella,
Com vio da creao, a natureza
No solitario valle!--E o leve insecto
E a relva e os matos e a fragrancia pura
Das boninas da encosta esto contando
Mil saudades de Deus, que os ha lanado,
Com mo profusa, no regao ameno
Da solido, onde se esconde o justo.

E l campeiam no alto das montanhas
Os escalvados pincaros, severos,
Quaes guardadores de um logar que  sancto;
Atalaias que ao longe o mundo observam,
Cerrando at o mar o ultimo abrigo
Da crena viva, da orao piedosa,
Que se ergue a Deus de labios innocentes.

Sobre esta scena o sol verte em torrentes
Da manhan o fulgor; a brisa esva-se
Pelos rosmaninhaes, e inclina os topos
Do zimbro e alecrineiro, ao rez sentados
Desses thronos de fragas sobrepostas,
Que alpestres matas de medronhos vestem;
O roco da noite  branca rosa
No seio derramou frescor suave,
E 'inda existencia lhe dar um dia.

Formoso ermo do sul, outra vez, salve!


IV.

Negro, esteril rochedo, que contrastas,
Na mudez tua, o placido sussurro
Das arvores do valle, que vecejam
Ricas d'encantos, co' a estao propicia;
Suavissimo aroma, que, manando
Das variegadas flores, derramadas
Na sinuosa encosta da montanha,
Do altar da solido subindo aos ares,
s digno incenso ao Creador erguido;
Livres aves, vs filhas da espessura,
Que s teceis da natureza os hymnos,
O que cr, o cantor, que foi lanado,
Estranho ao mundo, no bulicio delle,
Vem saudar-vos, sentir um goso puro,
Dos homens esquecer paixes e opprobrio,
E ver, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
O sol, e uma s vez pura saudar-lh'a.

Comvosco eu sou maior; mais longe a mente
Pelos seios dos cus se immerge livre,
E se desprende de mortaes memorias
Na solido solemne, onde, incessante,
Em cada pedra, em cada flor se escuta
Do Sempiterno a voz, e v-se impressa
A dextra sua em multiforme quadro.


V.

Escalvado penedo, que repousas
L no cimo do monte, ameaando
Ruina ao roble secular da encosta,
Que somnolento move a coma estiva
Ante a aragem do mar, foste formoso;
J te cubriram cespedes virentes;
Mas o tempo voou, e nelle involta
A formosura tua. Despedidos
Das negras nuvens o chuveiro espesso
E o granizo, que o slo fustigando
Tritura a tenra lanceolada relva,
Durante largos seculos, no inverno,
Dos vendavaes no dorso a ti desceram,
Qual amplexo brutal de ardor grosseiro,
Que, maculando virginal pureza,
Do pudor varre a aureola celeste,
E deixa, em vez de um seraphim na terra,
Queimada flor que devorou o raio.


VI.

Cveira da montanha, ossada immensa,
 tua campa o cu: sepulchro o valle
Um dia te ser. Quando sentires
Rugir com som medonho a terra ao longe,
Na expanso dos volces, e o mar, bramindo,
Lanar  praia vagalhes cruzados;
Tremer-te a larga base, e sacudir-te
De sobre si, o fundo deste valle
Te vai servir de tumulo; e os carvalhos
Do mundo primogenitos, e os sobros,
Arrastados por ti l da collina,
Comtigo ho-de jazer. De novo a terra
Te cubrir o dorso sinuoso:
Outra vez sobre ti nascendo os lyrios,
Do seu puro candor ho-de adornar-te;
E tu, ora medonho e n e triste,
Ainda bello sers, vestido e alegre.


VII.

Mais que o homem feliz!--Quando eu no valle
Dos tumulos cahir; quando uma pedra
Os ossos me esconder, se me fr dada,
No mais reviverei; no mais meus olhos
Vero, ao pr-se, o sol em dia estivo,
Se em turbilhes de purpura, que ondeiam
Pelo extremo dos cus sobre o occidente,
Vai provar que um Deus ha a estranhos povos
E alm das ondas trmulo sumir-se;
Nem, quando, l do cimo das montanhas,
Com torrentes de luz inunda as veigas:
No mais verei o refulgir da lua
No irrequieto mar, na paz da noite,
Por horas em que vla o criminoso,
A quem ntima voz rouba o socego,
E em que o justo descana, ou, solitario,
Ergue ao Senhor um hymno harmonioso.


VIII.

Hontem, sentado n'um penhasco, e perto
Das aguas, ento qudas, do oceano,
Eu tambem o louvei sem ser um justo:
E meditei, e a mente extasiada
Deixei correr pela amplido das ondas.

Como abrao materno era suave
A aragem fresca do cahir das trvas,
Emquanto, involta em gloria, a clara lua
Sumia em seu fulgor milhes d'estrellas.
Tudo calado estava: o mar smente
As harmonias da creao soltava,
Em seu rugido; e o ulmeiro do deserto
Se agitava, gemendo e murmurando,
Ante o sopro de oeste:--alli dos olhos
O pranto me correu sem que o sentisse,
E aos ps de Deus se derramou minha alma.


IX.

Oh, que viesse o que no cr, comigo,
 vecejante Arrabida de noite,
E se assentasse aqui sobre estas fragas,
Escutando o sussurro incerto e triste
Das movedias ramas, que pova
De saudade e de amor nocturna brisa;
Que visse a lua, o espao oppresso de astros,
E ouvisse o mar soando:--elle chorra,
Qual eu chorei, as lagrymas do goso,
E adorando o Senhor detestaria
De uma sciencia van seu vo orgulho.


X.

 aqui neste valle, ao qual no chega
Humana voz e o tumultuar das turbas,
Onde o nada da vida sonda livre
O corao, que busca ir abrigar-se
No futuro, e debaixo do amplo manto
Da piedade de Deus: aqui serena
Vem a imagem da campa, como a imagem
Da patria ao desterrado; aqui, solemne,
Brada a montanha, memorando a morte.
Essas penhas, que, l no alto das serras
Nuas, crestadas, solitarias dormem,
Parecem imitar da sepultura
O aspecto melancholico e o repouso
To desejado do que em Deus confia.
Bem semelhante  paz, que se ha sentado
Por seculos, alli, nas cordilheiras
 o silencio do adro, onde reunem
Os cyprestes e a cruz, o cu e a terra.

Como tu vens cercado de esperana,
Para o innocente, oh placido sepulchro!
Juncto das tuas bordas pavorosas
O perverso reca horrorisado:
Aps si volve os olhos; na existencia
Deserto rido s descobre ao longe,
Onde a virtude no deixou um trilho.
Mas o justo, chegando  meta extrema,
Que separa de ns a eternidade,
Transpe-na sem temor, e em Deus exulta.
O infeliz e o feliz l dormem ambos,
Tranquillamente: e o trovador mesquinho,
Que peregrino vagueiou na terra,
Sem encontrar um corao ardente
Que o entendesse, a patria de seus sonhos,
Ignota, por l busca; e quando as eras
Vierem juncto s cinzas collocar-lhe
Tardios louros, que escondera a inveja,
Elle no erguer a mo mirrada,
Para os cingir na regelada fronte.
Justia, gloria, amor, saudade, tudo,
Ao p da sepultura,  som perdido
De harpa eolia esquecida em brenha ou selva:
O despertar um pae, que saboreia
Entre os braos da morte o extremo somno,
J no  dado ao filial suspiro;
Em vo o amante, alli, da amada sua
De rosas sobre a c'roa debruado,
Rga de amargo pranto as murchas flores
E a fria pedra: a pedra  sempre fria,
E para sempre as flores se murcharam.


XI.

Bello ermo! eu hei-de amar-te, emquanto esta alma,
Aspirando o futuro alm da vida
E um halito dos ceus, gemer atada
 columna do exilio, a que se chama
Em lingua vil e mentirosa o mundo.
Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho
Dos sonhos meus. A imagem do deserto
Guarda-la-hei no corao, bem juncto
Com minha f, meu unico thesouro.

Qual pomposo jardim de verme illustre,
Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo
Comparar-se, oh deserto? Aqui no cresce
Em vaso de alabastro a flor captiva,
Ou arvore educada por mo de homem,
Que lhe diga--s escrava e erga um ferro
E lhe decepe os troncos. Como  livre
A vaga do oceano  livre no ermo
A bonina rasteira e o freixo altivo!
No lhes diz--nasce aqui, ou l no cresas
Humana voz. Se baqueou o freixo,
Deus o mandou: se a flor pendida murcha,
 que o roco no desceu de noite,
E da vida o Senhor lhe nega a vida.

Cu livre, terra livre, e livre a mente,
Paz intima, e saudade, mas saudade
Que no de, que no mirra, e que consola,
So as riquezas do ermo, onde sorriem
Das procellas do mundo os que o deixaram.


XII.

Alli naquella encosta, hontem de noite,
Alvejava por entre os medronheiros
Do solitario a habitao tranquilla:
E eu vagueei por l. Patente estava
O pobre alvergue do eremita humilde,
Onde jazia o filho da esperana
Sob as asas de Deus,  luz dos astros,
Em leito, duro sim, no de remorsos.
Oh, com quanto socego o bom do velho
Dormia! A leve aragem lhe ondeiava
As raras cans na fronte, onde se lia
A bella historia de passados annos.
De alto choupo atravs passava um raio
Da lua--astro de paz, astro que chama
Os olhos para o cu, e a Deus a mente--
E em luz pallida as faces lhe banhava:
E talvez neste raio o Pae celeste
Da patria eterna lhe enviava a imagem,
Que o sorriso dos labios lhe fugia,
Como se um sonho de ventura e gloria
Na terra de antemo o consolasse.
E eu comparei o solitario obscuro
Ao inquieto filho das cidades:
Comparei o deserto silencioso
Ao perpetuo ruido que sussurra
Pelos palacios do abastado e nobre,
Pelos paos dos reis; e condo-me
Do cortezo suberbo, que s cura
De honras, haveres, gloria, que se compram
Com maldices e perennal remorso.
Gloria! A sua qual ? Pelas campinas,
Cubertas de cadaveres, regadas
De negro sangue, elle segou seus louros;
Louros que vo cingir-lhe a fronte altiva
Ao som do choro da viuva e do orpham;
Ou, dos sustos senhor, em seu delirio,
Os homens, seus irmos, flagella e opprime
L o filho do p se julga um nume,
Porque a terra o adorou: o desgraado
Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros
Nunca se ha-de chegar para traga-lo
Ao banquete da morte, imaginando
Que uma lagea de marmore, que esconde
O cadaver do grande,  mais duravel
Do que esse cho sem inscripo, sem nome,
Por onde o oppresso, o misero, procura
O repouso, e se atira aos ps do throno
Do Omnipotente, a demandar justia
Contra os fortes do mundo, os seus tyrannos.


XIII.

Oh cidade, cidade, que trasbordas
De vicios, de paixes, e de amarguras!
Tu l ests, na tua pompa involta,
Suberba prostituta, alardeiando
Os theatros, e os paos, e o ruido
Das carroas dos nobres, recamadas
De ouro e prata, e os prazeres de uma vida
Tempestuosa, e o tropeiar continuo
Dos frvidos ginetes, que alevantam
O p e o lodo cortezo das praas;
E as geraes corruptas de teus filhos
L se revolvem, qual monto de vermes
Sobre um cadaver putrido!--Cidade,
Branqueado sepulchro, que misturas
A opulencia, a miseria, a dr e o goso,
Honra e infamia, pudor e impudicicia,
Cu e inferno, que s tu? Escarneo ou gloria
Da humanidade?--O que o souber que o diga!

Bem negra avulta aqui, na paz do valle,
A imagem desse povo, que reflue
Das moradas  rua,  praa, ao templo;
Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre,
Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;
Absurdo mixto de baixeza extrema
E de extrema ousadia; vulto enorme,
Ora aos ps de um vil despota estendido,
Ora surgindo, e arremessando ao nada
As memorias dos seculos que foram,
E depois sobre o nada adormecendo.

V-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se
Em joelhos nos atrios dos tyrannos,
Onde, entre o lampejar de armas de servos,
O servo popular adora um tigre?
Esse tigre  o idolo do povo!
Saudae-o; que elle o manda: abenoae-lhe
O ferreo sceptro: ide folgar em roda
De cadafalsos, povoados sempre
De victimas illustres, cujo arranco
Seja como harmonia, que adormente
Em seus terrores o senhor das turbas.
Passae depois. Se a mo da Providencia
Esmigalhou a fronte  tyrannia;
Se o despota cahiu, e est deitado
No lodaal da sua infamia, a turba
L vai buscar o sceptro dos terrores,
E diz-- meu; e assenta-se na praa,
E involta em roto manto, e julga, e reina.
Se um mpio, ento, na affogueada bcca
De volco popular sacode um facho,
Eis o incendio que muge, e a lava sbe,
E referve, e trasborda, e se derrama
Pelas ruas alm: clamor retumba
De anarchia impudente, e o brilho de armas
Pelo escuro transluz, como um presagio
De assolao, e se amontoam vagas
Desse mar d'abjeco, chamado o vulgo;
Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos
Cava fundo da Patria a sepultura.
Onde, abraando a gloria do passado
E do futuro a ultima esperana,
As esmaga comsigo, e ri morrendo.

Tal s, cidade, licenciosa ou serva!
Outros louvem teus paos sumptuosos,
Teu ouro, teu poder:--sentina impura
De corrupes, teus no sero meus hymnos!


XIV.

Cantor da solido, vim assentar-me
Juncto do verde cespede do valle,
E a paz de Deus do mundo me consola.

Avulta aqui, e alveja entre o arvoredo,
Um pobre conventinho. Homem piedoso
O alevantou ha seculos, passando,
Como orvalho do cu, por este sitio,
De virtudes depois to rico e fertil.
Como um pae de seus filhos rodeado,
Pelos matos do outeiro o vo cercando
Os tugurios de humildes eremitas,
Onde o cilicio e a compunco apagam
Da lembrana de Deus passados erros
Do peccador, que reclinou a fronte
Penitente no p. O sacerdote
Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;
E perdoou-lhe, e consolou-o em nome
Do que expirando perdoava, o Justo
Que entre os humanos no achou piedade.


XV.

Religio! do misero conforto,
Abrigo extremo de alma, que ha mirrado
O longo agonisar de uma saudade,
Da deshonra, do exilio, ou da injustia,
Tu consolas aquelle, que ouve o Verbo,
Que renovou o corrompido mundo,
E que mil povos pouco a pouco ouviram.
Nobre, plebeu, dominador, ou servo,
O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,
Da desgraa no dia ajoelharam
No limiar do solitario templo.
Ao p desse portal, que veste o musgo,
Encontrou-os chorando o sacerdote,
Que da serra descia  meia-noite,
Pelo sino das preces convocado:
Ahi os viu ao despontar do dia,
Sob os raios do sol, ainda chorando.
Passados mezes, o burel grosseiro,
O leito de cortia, e a fervorosa
E contnua orao foram cerrando
Nos coraes dos miseros as chagas,
Que o mundo sabe abrir, mas que no cura.
Aqui, depois, qual halito suave
Da primavera, lhes correu a vida,
At sumir-se no adro do convento,
Debaixo de uma lagea tosca e humilde,
Sem nome, nem palavra, que recorde
O que a terra abrigou no somno extremo.

Eremiterio antigo, oh, se podesses
Dos annos que l vo contar a historia;
Se ora,  voz do cantor, possivel fosse
Transudar desse cho, gelado e mudo,
O mudo pranto, em noites dolorosas,
Por naufragos do mundo derramado
Sobre elle, e aos ps da cruz!... Se vs podesseis,
Broncas pedras, falar, o que dirieis!

Quantos nomes mimosos da ventura,
Convertidos em fabula das gentes,
Despertariam o eccho das montanhas,
Se aos negros troncos do sobreiro antigo
Mandasse o Eterno sussurrar a historia
Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
Para um leito formar, onde velassem
Da mgua, ou do remorso as longas noites!
Aqui veiu, talvez, buscar asylo
Um poderoso, outr'ora anjo da terra,
Despenhado nas trvas do infortunio;
Aqui gemeu, talvez, o amor trahido,
Ou pela morte convertido em cancro
De infernal desespero; aqui soaram
Do arrependido os ultimos gemidos,
Depois da vida derramada em gosos,
Depois do goso convertido em tedio.
Mas quem foram? Nenhum, depondo em terra
Vestidura mortal, deixou vestigios
De seu breve passar. E isso que importa,
Se Deus o viu; se as lagrymas do triste
Elle contou, para as pagar com gloria?


XVI.

Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda
Que serpeia do monte ao fundo valle,
Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
Como um pharol de vida em mar de escolhos:
Ao christo infeliz acolhe no ermo,
E consolando-o, diz-lhe--a patria tua
 l no cu: abraa-te comigo.
Juncto della esses homens, que passaram
Acurvados na dr, as mos ergueram
Para o Deus, que perdoa, e que  conforto
Dos que aos ps deste symbolo da esp'rana
Vem derramar seu corao afflicto:
 do deserto a historia a cruz e a campa;
E sobre tudo o mais pousa o silencio.


XVII.

Feliz da terra, os monges no maldigas;
Do que em Deus confiou no escarneas!
Folgando segue a trilha, que ha juncado,
Para teus ps, de flores a fortuna,
E sobre a morta crena em paz descana.
Que mal te faz, que goso vae roubar-te
O que ensanguenta os ps no tojo agreste,
E sobre a fria pedra encosta a fronte?
Que mal te faz uma orao erguida,
Nas solides, por voz sumida e frouxa,
E que, subindo aos cus, s Deus escuta?
Oh, no insultes lagrymas alheias,
E deixa a f ao que no tem mais nada!...

E se estes versos te contristam, rasga-os.
Teus menestreis te vendero seus hymnos,
Nos banquetes opiparos, emquanto
O negro po repartir comigo,
Seu trovador, o pobre anachoreta,
Que no te inveja as ditas, como as c'roas
Do prazer ao cantor eu no invejo;
Tristes coroas, sob as quaes s vezes
Est gravada uma inscripo d'infamia.




MOCIDADE E MORTE.


Solevantado o corpo, os olhos fitos,
As magras mos cruzadas sobre o peito,
Vde-o, to moo, velador de angustias,
Pela alta noite em solitario leito.

Por essas faces pallidas, cavadas,
Olhae, em fio as lagrymas deslisam;
E com o pulso, que apressado bate,
Do corao os stos harmonisam.

 que nas veias lhe circula a febre;
 que a fronte lhe alaga o suor frio;
 que l dentro  dor, que o vai roendo,
Responde horrivel ntimo ciclo.

Encostando na mo o rosto acceso,
Fitou os olhos humidos de pranto
Na lampada mortal alli pendente,
E l comsigo modulou um canto.

 um hymno de amor e de esperana?
 orao de angustia e de saudade?
Resignado na dor, sada a morte,
Ou vibra aos cus blasphemia d'impiedade?

 isso tudo, tumultuando incerto
No delrio febril daquella mente
Que, balouada  borda do sepulchro,
Volve aps si a vista longamente.

 a poesia a murmurar-lhe na alma
Ultima nota de quebrada lyra;
 o gemido do tombar do cedro;
 triste adeus do trovador que expira.


DESESPERANA.

Meia-noite bateu, volvendo ao nada
Um dia mais, e caminhando eu sigo!
Vejo-te bem, oh campa mysteriosa...
Eu vou, eu vou! Breve serei comtigo!

Qual tufo, que ao passar agita o pgo.
Meu placido existir turvou a sorte.
Halito impuro de pulmes ralados
Me diz que nelles se assentou a morte.

Em quanto mil e mil no largo mundo
Dormem em paz sorrindo, eu vlo e penso,
E julgo ouvir as preces por finados,
E ver a tumba e o fumegar do incenso.

Se dormito um momento, acrdo em sustos;
Pulos me d o corao no peito,
E abrao e beijo de uma vida extincta
O ultimo socio, o doloroso leito.

De um abysmo insondado s agras bordas
Insanavel doena me ha guiado,
E disse-me:--no fundo o esquecimento:
Desce; mas desce com andar pausado.

E eu lento vou descendo, e sondo as trvas:
Busco parar; parar um s instante!
Mas a cruel, travando-me da dextra,
Me faz cahir mais fundo, e grita:--vante!

Porque escutar o transito das horas?
Alguma dellas trar-me-ha conforto?
No! Esses golpes, que no bronze ferem,
So para mim como dobrar por morto.

Morto! morto!--me clama a consciencia:
Diz-m'o este respirar rouco e profundo.
Ai! porque fremes, corao de fogo,
Dentro de um seio corrompido e immundo?

Beber um ar diaphano e suave,
Que renovou da tarde o brando vento,
E converte-lo, no aspirar contnuo,
Em bafo apodrecido e peonhento!

Estender para o amigo a mo mirrada,
E elle negar a mo ao pobre amigo;
Querer uni-lo ao seio descarnado,
E elle fugir, temendo o seu perigo!

E ver aps um dia ainda cem dias,
Ns d'esperana, ferteis de amargura;
Soccorrer-me ao porvir, e acha-lo um ermo,
E s, bem l no extremo, a sepultura!

Agora!... quando a vida me sorria:
Agora!... que meu estro se accendra;
Que eu me enlaava a um mundo d'esperanas,
Como se enlaa pelo choupo a hera,

Deixar tudo, e partir, ssinho e mudo;
Varrer-me o nome escuro esquecimento:
No ter um eccho de louvor, que affague
Do desgraado o humilde monumento!

Oh tu, sde de um nome glorioso,
Que to fagueiros sonhos me tecias,
Fugiste, e s me resta a pobre herana
De ver a luz do sol mais alguns dias.

Vestem-se os campos do verdor primeiro:
J das aves canes no bosque ecchoam:
No para mim, que s escuto attento
Funereos dobres que no templo soam!

Eu que existo, e que penso, e falo, e vivo,
Irei to cedo repousar na terra?!
Oh, meu Deus, oh meu Deus! um anno ao menos;
Um louro s... e meu sepulchro cerra!

 to bom respirar, e a luz brilhante
Do sol oriental saudar no outeiro!
Ai, na manhan sauda-la posso ainda;
Mas ser este inverno o derradeiro!

Quando de pomos o vergel for cheio;
Quando ondeiar o trigo na planura;
Quando pender com aureo fructo a vide,
Eu tambem penderei na sepultura.

Dos que me cercam no turbado aspecto,
Na voz que prende desusado enleio,
No pranto a furto, no fingido riso
Fatal sentena de morrer eu leio.

Vistes vs criminoso, que ho lanado
Seus juizes nos trances da agonia,
Em oratorio estreito, onde no entra
Suavissima luz do claro dia;

Diante a cruz, ao lado o sacerdote,
O cadafalso, o crime, o algoz na mente,
O povo tumultuando, o extremo arranco,
E cu, e inferno, e as maldices da gente?

Se adormece, l surge um pesadelo,
Com os martyrios da sua alma acorde;
Desperta logo, e  terra se arremessa,
E os punhos cerra, e delirante os morde.

Sobre as lageas do duro pavimento
De verges e de sangue o rosto cobre.
Ergue-se e escuta com cabellos hirtos
Do sino ao longe o compassado dobre.

Sem esperana!...
                  No! Do cadafalso
Sbe as escadas o perdo s vezes;
Porm a mim... no me diro:--s salvo!
E o meu supplicio durar por mezes.

Dizer posso:--existi: que a dor conheo!
Do goso a taa s provei por horas:
E serei teu, calado cemiterio,
Que engenho, gloria, amor, tudo devoras.

Se o furaco rugiu, e o debil tronco
De arvore tenra espedaou passando,
Quem se doeu de a ver jazendo em terra?
Tal  o meu destino miserando!

Numen de sancto amor, mulher querida,
Anjo do cu, encanto da existencia,
Ora por mim a Deus, que ha-de escutar-te.
Por ti me salve a mo da Providencia.

Vem: aperta-me a dextra... Oh, foge, foge!
Um beijo ardente aos labios teus vora:
E neste beijo venenoso a morte
Talvez este infeliz s te entregra!

Se eu podesse viver... como teus dias
Cercaria de amor suave e puro!
Como te fra placido o presente;
Quanto risonho o aspecto do futuro!

Porm, medonho espectro ante meus olhos,
Como sombra infernal perpetuo ondeia,
Bradando-me que vai partir-se o fio
Com que da minha vida se urde a teia.

Entregue  seduco em quanto eu durmo,
No turbilho do mundo hei-de deixar-te!
Quem velar por ti, pomba innocente?
Quem do perjurio poder salvar-te?

Quando eu cerrar os olhos moribundos
Tu verters por mim pranto saudoso;
Mas quem me diz que no vir o riso
Banhar teu rosto triste e lachrymoso?

Ai, o extincto s herda o esquecimento!
Um novo amor te agitar o peito:
E a dura lagea cubrir meus ossos
Frios, despidos sobre terreo leito!...

Oh Deus, porque este calix de agonia
At as bordas de amargor me encheste?
Se eu devia acabar na juventude,
Porque ao mundo e a seus sonhos me prendeste?

Virgem do meu amor, porque perde-la?
Porque entre ns a campa ha-de assentar-se?
Tua suprema paz com goso ou dores,
Do mortal, que em ti cr, pde turbar-se?

No haver quem me salve! e vir um dia
Em que de minha o nome ainda lhe dsse!
Ento, Senhor, o umbral da eternidade,
Talvez sem um queixume, transposesse.

Mas, qual flor em boto pendida e murcha,
Sem de fragrancias perfumar a brisa,
Eu poeta, eu amante, ir esconder-me
Sob uma lousa desprezada e lisa!

Porque? Qual foi meu crime, oh Deus terrivel?
Em te adorar que fui, seno insano?...
O teu fatal poder hoje maldigo!
O que te chama pae, mente: s tyranno.

E se aos ps de teu throno os ais no chegam;
Se os gemidos da terra os ares somem;
Se a Providencia  crena van, mentida,
Porque geraste a intelligencia do homem?

Porque da virgem no sorrir poseste
Sancto presagio de suprema dita,
E apontaste ao poeta a immensidade
Na ancia de gloria que em sua alma habita?

A immensidade!... E que me importa herda-la,
Se na terra passei sem ser sentido?
Que val eterno vagueiar no espao,
Se nosso nome se afundou no olvido?


O ANJO DA GUARDA.

Impio, silencio! A tua voz blasphema
Da noite a paz perturba.
Verme, que te rebellas
Sob a mo do Senhor,
Vs os milhes d'estrellas
De nitido fulgor,
Que, em ordenada turba,
A Deus entoam incessantes hymnos?
Quantas vezes apaga
Do livro da existencia
Um orbe a mo do Eterno!
E o bello astro que expira
Maldiz a Providencia,
Maldiz a mo que o esmaga?
Acaso pra o cantico superno?
Ou apenas suspira
O moribundo,
Que se chamava um mundo?
Quem vai pr uma campa sobre os restos
Desse inerte planeta,
Que o destructor cometa
Incinerou na rapida passagem?
E tu, tomo obscuro,
Que varre  tarde a aragem,
Sltas do seio impuro
Maldico insensata,
Porque o teu Deus te evoca  eternidade?
Que  o viver? O umbral, a que um momento
O espirito, surgindo
Das solides do nada
 voz do Creador, se encosta, e attento
Contempla a luz e o cu; d'onde desata
Seu vo  immensidade.
Geme acaso o passarinho
De saudade,
Quando as azas expande, e deixa o ninho
A vez primeira, a mergulhar nos ares?
Volve olhos lachrymosos
Aos mares tormentosos
O navegante, quando aproa s plagas
Da patria suspirada?
Porque morres?! Pergunta  Providencia
Porque te fez nascer.
Qual era o teu direito a ver o mundo;
Teu jus  existencia?
Olha no outono o ulmeiro
Que o vendaval agita,
E cujas tenues folhas
Aos centos precipita.
So a folha do ulmeiro o nome e a fama,
E o amar dos humanos:
Ao nada do que foi assim se atiram
No vortice dos annos.
Que  a gloria na terra? Um eccho frouxo,
Que somem mil rudos.
E a voz da terra o que , na voz immensa
Dos orbes reunidos?
Amor! amor terreno!... Ai, se podesses
Comprehender a amargura,
Com que te chro, oh alma transviada!
Eu, que te amei do bero, e qual doura
Ha no affecto que liga o anjo ao homem,
Rindo despiras esse corpo enfermo,
Para te unir a mim, para aspirares
O goso celestial de amor sem termo!
Alma triste, que mesquinha
Te debruas sobre o inferno,
Ouve o anjo, pobresinha;
Vem ao goso sempiterno.
Resigna-te e espera, e os dias de prova
Sero para o crente quaes breves instantes.
Tomar-te-hei nos braos no trance da morte,
Fendendo o infinito co' as asas radiantes.
Depois, das alturas teu terreo vestido
Sorrindo veremos na terra guardar,
E ao hymno de Hosanna nos cros celestes
A voz de um remido iremos junctar.


A GRAA.

Que harmonia suave
 esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no corao
No sinto pesar tanto
O ferreo p da dor,
E o hymno da orao,
Em vez de irado canto,
Me pede ntimo ardor?

s tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solido do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim! s tu, que na infantil idade,
Da aurora  frouxa luz,
Me dizias:--acorda, innocentinho,
Faze o signal da cruz.
s tu, que eu via em sonhos, nesses annos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d'ouro e purpura descendo
Co' as roupas a alvejar.
s tu, s tu! que ao pr do sol, na veiga,
Juncto ao bosque fremente,
Me contavas mysterios, harmonias
Dos cus, do mar dormente.
s tu, s tu! que, l, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, ssinho erguia
Ao Deus tres vezes sancto.
s tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixes juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.

  Sinto a tua voz de novo,
  Que me revoca a Deus:
  Inspira-me a esperana,
  Que te seguiu dos cus!...


RESIGNAO

No teu seio reclinado
Dormirei, Senhor, um dia,
Quando for na terra fria
Meu repouso procurar;

Quando a lousa do sepulchro
Sohre mim tiver cahido
E este espirito affligido
Vir a tua luz brilhar!

No teu seio, de pesares
O existir no se entretece;
L eterno o amor florece;
L florece eterna paz:

L bramir juncto ao poeta
No iro paixes e dores,
Vos desejos, vos temores
Do desterro em que elle jaz.

Hora extrema, eu te sado!
Salve, oh trevas da jazida,
D'onde espera erguer-se  vida
Meu espirito immortal!

Anjo bom, no me abandones
Neste trance dilatado;
Que contrito, resignado
Me achars na hora fatal.

E depois... Perdoa, oh anjo,
Ao amor do moribundo,
Que s deixa neste mundo
Pouco p, muito gemer.

Oh... depois... dize  mesquinha
Um segredo de doura:
Que na patria o amor se apura,
Que o desterro viu nascer.

Que  o cu a patria nossa;
Que  o mundo exilio breve;
Que o morrer  cousa leve;
Que  _principio_, no  _fim_:

Que duas almas que se amaram
Vo l ter nova existencia,
Confundidas n'uma essencia,
A de um novo cherubim.




DEUS.


Nas horas do silencio,  meia-noite,
      Eu louvarei o Eterno!
Ouam-me a terra, e os mares rugidores,
      E os abysmos do inferno.
Pela amplido dos cus meus cantos sem,
      E a lua resplendente
Pare em seu gyro, ao resoar nest'harpa
      O hymno do Omnipotente.

Antes de tempo haver, quando o infinito
      Media a eternidade,
E s do vacuo as solides enchia
      De Deus a immensidade,
Elle existia, em sua essencia involto,
      E fra delle o nada:

No seio do Creador a vida do homem
      Estava ainda guardada:
Ainda ento do mundo os fundamentos
      Na mente se escondiam
De Jehovah, e os astros fulgurantes
      Nos cus no se volviam.

Eis o Tempo, o Universo, o Movimento
      Das mos slta o Senhor:
Surge o sol, banha a terra, e desabrocha
      Sua primeira flor:
Sobre o invisivel eixo range o globo:
      O vento o bosque ondeia:
Retumba ao longe o mar: da vida a fora
      A natureza anceia!

Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te,
      Ou cantar teu poder?
Quem dir de Teu brao as maravilhas,
      Fonte de todo o ser,
No dia da creao; quando os thesouros
      Da neve amontoaste;
Quando da terra nos mais fundos valles
      As aguas encerraste?!

E eu onde estava, quando o Eterno os mundos,
      Com dextra poderosa,
Fez, por lei immutavel, se librassem
      Na mole ponderosa?
Onde existia ento? No typo immenso
      Das geraes futuras;
Na mente do meu Deus. Louvor a Elle
      Na terra e nas alturas!

Oh, quanto  grande o Rei das tempestades,
      Do raio, e do trovo!
Quo grande o Deus, que manda, em secco estio,
      Da tarde a virao!
Por sua Providencia nunca, embalde,
      Zumbiu minimo insecto;
Nem volveu o elephante, em campo esteril,
      Os olhos inquieto.
No deu Elle  avesinha o gro da espiga,
      Que ao ceifador esquece;
Do norte ao urso o sol da primavera,
      Que o reanima e aquece?
No deu Elle  gazella amplos desertos,
      Ao cervo a amena selva,
Ao flamingo os paes, ao tigre o antro,
      No prado ao touro a relva?
No mandou Elle ao mundo, em lucto e trvas,
      Consolao e luz?
Acaso em vo algum desventurado
      Curvou-se aos ps da cruz?
A quem no ouve Deus? Smente ao impio
      No dia da afflico,
Quando psa sobre elle, por seus crimes,
      Do crime a punio.

Homem, ente immortal, que s tu perante
      A face do Senhor?
s a juna do brjo, harpa quebrada
      Nas mos do trovador!
Olha o velho pinheiro, campeiando
      Entre as neves alpinas:
Quem ir derribar o rei dos bosques
      Do throno das collinas?
Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia
      Extremo Deus mandou!
L correu o aquilo: fundas raizes
      Aos ares lhe assoprou.
Suberbo, sem temor, sau na margem
      Do caudaloso Nilo,
O corpo monstruoso ao sol voltando,
      Medonho crocodilo.
De seus dentes em roda o susto habita;
      V-se a morte assentada
Dentro em sua garganta, se descerra
      A bca affogueada:
Qual duro arnez de intrepido guerreiro
       seu dorso escamoso;
Como os ultimos ais de um moribundo
      Seu grito lamentoso:
Fumo e fogo respira quando irado;
      Porm, se Deus mandou,
Qual do norte impellida a nuvem passa,
      Assim elle passou!

Teu nome ousei cantar!--Perdoa, oh Nume;
      Perdoa ao teu cantor!
Dignos de ti no so meus frouxos hymnos,
      Mas so hymnos de amor.
Embora vs hypocritas te pintem
      Qual barbaro tyranno:
Mentem, por dominar com ferreo sceptro
      O vulgo cego e insano.
Quem os cr  um mpio! Receiar-te
       maldizer-te, oh Deus;
 o throno dos despotas da terra
      Ir collocar nos cus.
Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
      Dos males da existencia
Tranquillo, e sem temor,  sombra posto
      Da tua Providencia.




A TEMPESTADE.


Sibilla o vento:--os torrees de nuvens
      Psam nos densos ares:
Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas
      Pela extenso dos mares:
A immensa vaga ao longe vem correndo,
      Em seu terror envolta;
E, d'entre as sombras, rapidas centelhas
      A tempestade solta.
Do sol no occaso um raio derradeiro,
      Que, apenas fulge, morre,
Escapa  nuvem, que, apressada e espessa,
      Para apaga-lo corre.
Tal nos affaga em sonhos a esperana,
      Ao despontar do dia,
Mas, no acordar, l vem a consciencia
      Dizer que ella mentia!
As ondas negro-azues se conglobaram;
      Serras tornadas so,
Contra as quaes outras serras, que se arqueiam,
      Bater, partir-se vo.

Oh tempestade! Eu te sado, oh nume,
      Da natureza aoite!
Tu guias os bulces, do mar princesa,
      E  teu vestido a noite!
Quando pelos pinhaes, entre o granizo,
      Ao sussurrar das ramas,
Vibrando sustos, pavorosa ruges
      E assolao derramas,
Quem porfiar comtigo, ento, ousra
      De gloria e poderio;
Tu que fazes gemer pendido o cedro,
      Turbar-se o claro rio?

Quem me dera ser tu, por balouar-me
      Das nuvens nos castellos,
E ver dos ferros meus, emfim, quebrados
      Os rebatidos los!
Eu rodera, ento, o globo inteiro;
      Eu sublevra as aguas;
Eu dos volces com raios accendra
      Amortecidas frguas;
Do robusto carvalho e sobro antigo
      Acurvaria as frontes;
Com furaces, os areiaes da Lybia
      Converteria em montes;
Pelo fulgor da lua, l do norte
      No polo me assentra,
E vira prolongar-se o gelo eterno,
      Que o tempo amontora.
Alli, eu solitario, eu rei da morte,
      Ergura meu clamor,
E dissera:--sou livre, e tenho imperio;
      Aqui, sou eu senhor!

Quem se podra erguer, como estas vagas,
      Em turbilhes incertos,
E correr, e correr, troando ao longe,
      Nos liquidos desertos!
Mas entre membros de lodoso barro
      A mente presa est!...
Ergue-se em vo aos cus: precipitada,
      Rapido, em baixo d.

Oh morte, amiga morte!  sobre as vagas,
      Entre escarcus erguidos,
Que eu te invoco, pedindo-te feneam
      Meus dias aborridos:
Quebra duras prises, que a natureza
      Lanou a esta alma ardente;
Que ella possa voar, por entre os orbes,
      Aos ps do Omnipotente.
Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem
      Desa, e estourando a esmague,
E a grossa proa, dos tufes ludibrio,
      Solta, sem rumo vague!

Porm, no!... Dormir deixa os que me cercam
      O somno do existir;
Deixa-os, vos sonhadores de esperanas
      Nas trvas do porvir.
Doce me do repouso, extremo abrigo
      De um corao oppresso,
Que ao ligeiro prazer,  dor canada
      Negas no seio accsso,
No despertes, oh no! os que abominam
      Teu amoroso aspeito;
Febricitantes, que se abraam, loucos,
      Com seu dordo leito!
Tu, que ao misero rs com rir to meigo,
      Calumniada morte;
Tu, que entre os braos teus lhe ds asylo
      Contra o furor da sorte;
Tu, que esperas s portas dos senhores,
      Do servo ao limiar,
E eterna corres, peregrina, a terra
      E as solides do mar,
Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
      J filhos teus nasceram:
Um dia acordaro desses delirios,
      Que to gratos lhes eram.
E eu que vlo na vida, e j no sonho
      Nem gloria, nem ventura;
Eu, que esgotei to cedo, at as fzes,
      O calix da amargura:
Eu, vagabundo e pobre, e aos ps calcado
      De quanto ha vil no mundo,
Sanctas inspiraes morrer sentindo
      Do corao no fundo,
Sem achar no desterro uma harmonia
      De alma, que a minha entenda,
Porque seguir, curvado ante a desgraa,
      Esta espinhosa senda?

Torvo o oceano vai! Qual dobre, soa
      Fragor da tempestade,
Psalmo de morts, que retumba ao longe,
      Grito da eternidade!...

Pensamento infernal! Fugir covarde
      Ante o destino iroso?
Lanar-me, envolto em maldices celestes,
      No abysmo tormentoso?
Nunca! Deus ps-me aqui para apurar-me
      Nas lagrymas da terra;
Guardarei minha estancia atribulada,
      Com meu desejo em guerra.
O fiel guardador ter seu premio,
      O seu repouso, emfim,
E atalaiar o sol de um dia extremo
      Vir outro aps mim.
Herdarei o morrer! Como  suave
      Benam de pae querido.
Ser o despertar, ver meu cadaver,
      Ver o grilho partido.

Um consolo, entretanto, resta ainda
      Ao pobre velador:
Deus lhe deixou, nas trvas da existencia,
      Doce amizade e amor.
Tudo o mais  sepulchro branqueado
      Por embusteira mo;
Tudo o mais vos prazeres, que s trazem
      Remorso ao corao.
Passarei minha noite a luz to meiga,
      At o amanhecer;
At que suba  patria do repouso,
      Onde no ha morrer.




O SOLDADO.


I.

Veia tranquilla e pura
Do meu paterno rio,
Dos campos, que elle rga,
Mansissimo armentio.

Rocio matutino,
Prados to deleitosos,
Valles, que assombram selvas
De sinceiraes frondosos,

Terra da minha infancia,
Tecto de meus maiores,
Meu breve jardimzinho,
Minhas pendidas flores,

Harmonioso e sancto
Sino do presbyterio,
Cruzeiro venerando
Do humilde cemiterio.

Onde os avs dormiram,
E dormiro os paes;
Onde eu talvez no durma,
Nem rese, talvez, mais,

Eu vos sado! e o longo
Suspiro amargurado
Vos mando.  quanto pde
Mandar pobre soldado.

Sobre as cavadas ondas
Dos mares procellosos,
Por vs j fiz soar
Meus cantos dolorosos.

Na pra resonante
Eu me assentava mudo,
E aspirava ancioso
O vento frio e agudo;

Porque em meu sangue ardia
A febre da saudade,
Febre que s minora
Sopro de tempestade;

Mas que se irrita, e dura
Quando  tranquillo o mar;
Quando da patria o cu
Cu puro vem lembrar;

Quando, no extremo occaso,
A nuvem vaporosa,
 frouxa luz da tarde,
Na cr imita a rosa;

Quando, do sol vermelho
O disco ardente crece,
E paira sobre as aguas,
E emfim desapparece;

Quando no mar se estende
Manto de negro d;
Quando, ao quebrar do vento,
Noite e silencio  s;

Quando sussurram meigas
Ondas que a nau separa,
E a rapida ardentia
Em trno a sombra aclara.


II.

Eu j ouvi, de noite,
Entre o pinhal fechado,
Um fremito soturno
Passando o vento irado:

Assim o murmurio
Do mar, fervendo  pra,
Com o gemer do afflicto,
Sumido, accorde sa:

E o scintillar das aguas
Gera amargura e dor,
Qual lampada, que pende
No templo do Senhor,

L pela madrugada,
Se o oleo lhe escaceia,
E a espaos expirando,
Affrouxa e bruxuleia.


III.

Bem abundante messe
De pranto e de saudade
O foragdo errante
Colhe na soledade!

Para o que a patria perde
 o universo mudo;
Nada lhe r na vida;
Mora o fastio em tudo;

No meio das procellas,
Na calma do oceano,
No sopro do galerno,
Que enfuna o largo panno,

E no entestar co' a terra
Por abrigado esteiro,
E no pousar  sombra
Do tecto do estrangeiro.


IV.

E essas memorias tristes
Minha alma laceraram,
E a senda da existencia
Bem agra me tornaram:

Porm nem sempre ferreo
Foi meu destino escuro;
Sulcou de luz um raio
As trvas do futuro.

Do meu paiz querido
A praia ainda beijei,
E o velho e amigo cedro
No valle ainda abracei!

Nesta alma regelada
Surgiu ainda o goso,
E um sonho lhe sorriu
Fugaz, mas amoroso.

Oh, foi sonho da infancia
Desse momento o sonho!
Paz e esperana vinham
Ao corao tristonho.

Mas o sonhar que monta,
Se passa, e no conforta?
Minh' alma deu em terra,
Como se fosse morta.

Foi a esperana nuvem,
Que o vento some  tarde:
Facho de guerra acceso
Em labaredas arde!

Do fratricidio a luva
Irmo a irmo lanara,
E o grito: _ai do vencido!_
Nos montes retumbara.

As armas se ho cruzado:
O p mordeu o forte;
Cahiu: dorme tranquillo:
Deu-lhe repouso a morte.

Ao menos, nestes campos
Sepulchro conquistou,
E o adro dos estranhos
Seus ossos no guardou.

Elle herdar, ao menos,
Aos seus honrado nome,
Paga de curta vida
Ser-lhe-ha largo renome.


V.

E a bala sibilando,
E o trom da artilharia,
E a tuba clamorosa,
Que os peitos accendia,

E as ameaas torvas,
E os gritos de furor,
E desses, que expiravam,
Som cavo de estertor,

E as pragas do vencido,
Do vencedor o insulto,
E a pallidez do morto,
N, sanguento, insepulto,

Eram um c'os de dores
Em convulso horrivel,
Sonho de accesa febre,
Scena tremenda e incrivel!

E suspirei: nos olhos
Me borbulhava o pranto,
E a dor, que trasbordava,
Pediu-me infernal canto.

Oh, sim! maldisse o instante,
Em que buscar viera,
Por entre as tempestades,
A terra em que nascera.

Que , em fraternas lides,
Um canto de victoria?
 delirar maldicto;
 triumphar sem gloria.

Maldicto era o triumpho,
Que rodeiava o horror,
Que me tingia tudo
De sanguinosa cr!

Ento olhei saudoso
Para o sonoro mar;
Da nau do vagabundo
Meigo me riu o arfar.

De desespero um brado
Soltou, mpio, o poeta.
Perdo! Chegra o misero
Da desventura  meta.


VI.

Terra infame!--de servos aprisco,
Mais chamar-me teu filho no sei:
Desterrado, mendigo serei;
De outra terra meus ossos sero!

Mas a escravo, que pugna por ferros,
Que herdar deshonrada memoria,
Renegando da terra sem gloria,
Nunca mais darei nome de irmo!

Onde  livre tem patria o poeta,
Que ao exilio condemna mpia sorte.
Sobre os plainos gelados do norte
Luz do sol tambem desce do cu;

Tambem l se erguem montes, e o prado
De boninas, em maio, se veste;
Tambem l se meneia o cypreste
Sobre o corpo que  terra desceu.

Que me importa o loureiro da encosta?
Que me importa da fonte o ruido?
Que me importa o saudoso gemido
Da rollinha sedenta de amor?

Que me importam outeiros cubertos
Da verdura da vinha, no estio?
Que me importa o remanso do rio,
E, na calma, da selva o frescor?

Que me importa o perfume dos campos,
Quando passa da tarde a bafagem,
Que se embebe, na sua passagem,
Na fragrancia da rosa e aleli?

Que me importa? Pergunta insensata!
 meu bero: a minha alma est l...
Que me importa... Esta bca o dir?!
Minha patria, estou louco... menti!

Eia, servos! O ferro se cruze.
Assobie o pelouro nos ares;
Estes campos convertam-se em mares,
Onde o sangue se possa beber!

Larga a valla! que, aps a peleja,
Todos ns dormiremos unidos!
L vingados, e do odio esquecidos,
Paz faremos... depois do morrer!


VII.

Assim, entre amarguras,
Me delirava a mente;
E o sol ia fugindo
No termo do occidente.

E os fortes l jaziam
Co'a face ao cu voltada;
Sorria a noite aos mortos,
Passando socegada.

Porm, a noite delles
No era a que passava!
Na eternidade a sua
Corria, e no findava.

Contrarios ainda ha pouco,
Irmos, emfim, l eram!
O seu thesouro de odio,
Mordendo o p, cederam.

No limiar da morte
Assim tudo fenece:
Inimizades calam,
E at o amor esquece!

Meus dias rodeiados
Foram de amor outr'ora;
E nem um vo suspiro
Terei, morrendo, agora,

Nem o apertar da dextra
Ao desprender da vida,
Nem lagryma fraterna
Sobre a feral jazida!

Meu derradeiro alento
No colhero os meus.
Por minha alma atterrada
Quem pedir a Deus?

Ninguem! Aos ps o servo
Meus restos calcar,
E o riso mpio, odiento,
Mofando soltar.

O sino luctuoso
No lembrar meu fim:
Preces, que o morto afagam,
No se erguero por mim!

O filho dos desertos,
O lobo carniceiro,
Ha-de escutar alegre
Meu grito derradeiro!

Oh morte, o somno teu
S  somno mais largo;
Porm, na juventude,
 o dormi-lo amargo;

Quando na vida nasce
Essa mimosa flor.
Como a cecem suave,
Delicioso amor;

Quando a mente accendida
Cr na ventura e gloria;
Quando o presente  tudo,
E inda nada a memoria!

Deixar a cara vida,
Ento,  doloroso,
E o moribundo  terra
Lana um olhar saudoso.

A taa da existencia
No fundo fzes tem;
Mas os primeiros tragos
Doces, bem doces, vem.

E eu morrerei agora
Sem abraar os meus,
Sem jubiloso um hymno
Alevantar aos cus?

Morrer, morrer, que importa?
Final suspiro, ouvi-lo
Ha-de a patria. Na terra
Irei dormir tranquillo.

Dormir? S dorme o frio
Cadaver, que no sente;
A alma voa a abrigar-se
Aos ps do Omnipotente.

Reclinar-me-hei  sombra
Do amplo perdo do Eterno;
Que no conheo o crime,
E erros no pune o inferno.

E vs, entes queridos,
Entes que tanto amei,
Dando-vos liberdade
Contente acabarei.

Por mim livres chorar
Vs podereis um dia,
E s cinzas do soldado
Erguer memoria pia.




A VICTORIA E A PIEDADE.


I.

Eu nunca fiz soar meus pobres cantos
      Nos paos dos senhores!
Eu jmais consagrei hymno mentido
      Da terra aos oppressores.
Mal haja o trovador que vae sentar-se
       porta do abastado,
O qual com ouro paga a propria infamia,
      Louvor que foi comprado.
Deshonra quelle, que ao poder e ao ouro
      Prostitue o alade!
Deus  poesia deu por alvo a patria,
      Deu a gloria e a virtude.
Feliz ou infeliz, triste ou contente,
      Livre o poeta seja,
E em hymno isento a inspirao transforme,
      Que na sua alma adeja.


II.

No despontar da vida, do infortunio
      Murchou-me o sopro ardente;
E saudades curti em longes terras
      Da minha terra ausente.
O solo do desterro, ai, quanto ingrato
       para o foragido,
Ennevoado o cu, arido o prado,
      O rio adormecido!
Eu l chorei, na idade da esperaa,
      Da patria a dura sorte:
Esta alma encaneceu; e antes de tempo
      Ergueu hymnos  morte:
Que a morte  para o misero risonha,
      Sancta da campa a imagem...
Alli  que se afferra o porto amigo,
      Depois de ardua viagem.


III.

Mas quando o pranto me sulcava as faces,
      Pranto de atroz saudade,
Deus escutou do vagabundo as preces,
      Delle teve piedade.
Armas!--bradaram no desterro os fortes,
      Como bradar de um s:
Erguem-se, voam, cingem ferros; cinge-os
      Indissoluvel n.
Com seus irmos as sacrosanctas juras,
      Beijando a cruz da espada,
Repetiu o poeta:--Eia, partamos!
      Ao mar!--Partia a armada.
Pelas ondas azues correndo afoutos,
      As praias demandmos
Do velho Portugal, e o balso negro
      Da guerra despregmos;
De guerra em que era infamia o ser piedoso,
      Nobreza o ser cruel,
E em que o golpe mortal descia involto
      Das maldices no fel.


IV.

Fanatismo brutal, odio fraterno,
      De fogo cus toldados,
A fome, a peste, o mar avaro, as turbas
      De innumeros soldados;
Comprar com sangue o po, com sangue o lume
      Em regelado inverno;
Eis contra o que, por dias de amargura,
      Nos fez luctar o inferno.
Mas de fera victoria, emfim, colhemos
      A c'roa de cypreste;
Que a fronte ao vencedor em mpia lucta
      S essa c'roa veste.
Como ella torvo, soltarei um hymno
      Depois do triumphar.
Oh meus irmos, da embriaguez da guerra
      Bem triste  o acordar!
Nessa alta encosta sobranceira aos campos,
      De sangue ainda impuros,
Onde o canho troou por mais de um anno
      Contra invenciveis muros,
Eu, tomando o alade, irei sentar-me;
      Pedir inspiraes
 noite queda, ao genio que me ensina
      Segredos das canes.


V.

Reina em silencio a lua: o mar no brame,
      Os ventos nem bafejam;
Rasas co' a terra, s nocturnas aves
      Em gyros mil adejam.
No plaino pardacento, juncto ao marco
      Tombado, ou rota sebe,
Aqui e alli, de ossadas insepultas
      O alvejar se percebe.
 que essa veiga, to festiva outr'ora,
      Da paz tranquillo imperio,
Onde ao carvalho a vide se enlaava,
       hoje um cemiterio!


VI.

Eis de esforados mil inglorios restos,
      Depois de brava lida;
De longo combater atroz memento
      Em guerra fraticida.
Nenhum padro recordar aos homens
      Seus feitos derradeiros:
Nem dir:--aqui dormem portugueses;
      Aqui dormem guerreiros.
Nenhum padro, que pea aos que passarem
      Resa fervente e pia,
E juncto ao qual entes queridos vertam
      O pranto da agonia!
Nem hasteada cruz, consolo ao morto;
      Nem lagea que os proteja
Do ardente sol, da noite humida e fria,
      Que passa e que roreja!
No! L ho-de jazer no esquecimento
      De deshonrada morte,
Emquanto, pelo tempo em p desfeitos,
      No os dispersa o norte.


VII.

Quem, pois, consolar gementes sombras,
      Que ondeiam juncto a mim?
Quem seu perdo da Patria implorar ousa,
      Seu perdo de Elohim?
Eu, o christo, o trovador do exilio,
      Contrario em guerra crua,
Mas que no sei verter o fel da affronta
      Sobre uma ossada nua.


VIII.

Lavradores, zagaes, descem dos montes,
      Deixando terras, gados,
Para as armas vestir, dos cus em nome,
      Por phariseus chamados.
De um Deus de paz hypocritas ministros
      Os tristes enganaram:
Foram elles, no ns, que estas cveiras
      Aos vermes consagraram.
Maldicto sejas tu, monstro do inferno,
      Que do Senhor no templo,
Juncto da eterna cruz, ao crime incitas,
      Ds do furor o exemplo!
Sobre as cinzas da Patria, mpio, pensaste
      Folgar de nosso mal,
E, entre as ruinas de cidade illustre,
      Soltar riso infernal.
Tu, no teu corao insipiente,
      Disseste:--Deus no h!
Elle existe, malvado; e ns vencemos:
      Treme; que tempo  j!


IX.

Mas esses, cujos ossos espalhados
      No campo da peleja
Jazem, exoram a piedade nossa;
      Piedoso o livre seja!
Eu pedirei a paz dos inimigos,
      Mortos como valentes,
Ao Deus nosso juiz, ao que distingue
      Culpados de innocentes.


X.

Perdoou, expirando, o Filho do Homem
      Aos seus perseguidores:
Perdo, tambem, s cinzas de infelizes;
      Perdo, oh vencedores!
No insulteis o morto. Elle ha comprado
      Bem caro o esquecimento,
Vencido adormecendo em morte ignobil,
      Sem dobre ou monumento.
 tempo d'olvidar odios profundos
      De guerra deploravel.
O forte  generoso, e deixa ao fraco
      O ser inexoravel.
Oh, perdo para aquelle, a quem a morte
      No seio agasalhou!
Elle  mudo: pedi-lo j no pde;
      O d-lo a ns deixou.
Alm do limiar da eternidade
      O mundo no tem rus,
O que legou  terra o p da terra
      Julg-lo cabe a Deus.
E vs, meus companheiros, que no vistes
      Nossa triste victoria,
No precisaes do trovador o canto;
      Vosso nome  da historia.


XI.

Assim, foi do infeliz sobre a jazida
      Que um hymno murmurei,
E, do vencido consolando a sombra,
      Por vs eu perdoei.




A CRUZ MUTILADA.


Amo-te, oh cruz, no vertice firmada
      De esplendidas igrejas;
Amo-te quando  noite, sobre a campa,
      Juncto ao cypreste alvejas;
Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
      As preces te rodeiam;
Amo-te quando em prestito festivo
      As multides te hasteiam;
Amo-te erguida no cruzeiro antigo,
      No adro do presbyterio,
Ou quando o morto, impressa no atade,
      Guias ao cemiterio;
Amo-te, oh cruz, at, quando no valle
      Negrejas triste e s,
Nncia do crime, a que deveu a terra
      Do assassinado o p:

      Porm quando mais te amo,
      Oh cruz do meu Senhor,
       se te encontro  tarde,
      Antes de o sol se pr,

      Na clareira da serra,
      Que o arvoredo assombra,
      Quando  luz que fenece
      Se estira a tua sombra,

      E o dia ultimos raios
      Com o luar mistura,
      E o seu hymno da tarde
      O pinheiral murmura.

         -----

E eu te encontrei, n'um alcantil agreste,
Meia-quebrada, oh cruz. Ssinha estavas
Ao pr do sol, e ao elevar-se a lua
Detraz do calvo cerro. A soledade
No te pde valer contra a mo mpia,
Que te feriu sem d. As linhas puras
De teu perfil, falhadas, tortuosas,
Oh mutilada cruz, falam de um crime
Sacrilego, brutal e ao mpio inutil!
A tua sombra estampa-se no solo,
Como a sombra de antigo monumento,
Que o tempo quasi derrocou, truncada.
No pedestal musgoso, em que te ergueram
Nossos avs, eu me assentei. Ao longe,
Do presbyterio rustico mandava
O sino os simples sons pelas quebradas
Da cordilheira, annunciando o instante
Da _Ave-Maria_; da orao singela,
Mas solemne, mas sancta, em que a voz do homem
Se mistura nos canticos saudosos,
Que a natureza envia ao cu no extremo
Raio de sol, passando fugitivo
Na tangente deste orbe, ao qual trouxeste
Liberdade e progresso, e que te paga
Com a injuria e o desprezo, e que te inveja
At, na solido, o esquecimento!

         -----

Foi da sciencia incredula o sectario,
Acaso, oh cruz da serra, o que na face
Affrontas te gravou com mo profusa?
No! Foi o homem do povo, a quem consolo
Na miseria e na dr constante has sido
Por bem dezoito seculos: foi esse
Por cujo amor surgias qual remorso
Nos sonhos do abastado ou do tyranno,
Bradando--_esmola!_ a um--_piedade!_ ao outro.

Oh cruz, se desde o Golgotha no fras
Symbolo eterno de uma crena eterna;
Se a nossa f em ti fosse mentida,
Dos oppressos de outr'ora os livres netos
Por sua ingratido dignos de opprobrio,
Se no te amassem, ainda assim seriam.
Mas s nncia do cu, e elles te insultam,
Esquecidos das lgrymas perennes
Por trinta geraes, que guarda a campa,
Vertidas a teus ps nos dias torvos
Do seu viver d'escravido! Deslembram-se
De que, se a paz domestica, a pureza
Do leito conjugal bruta violencia
No vae contaminar, se a filha virgem
Do humilde campons no  ludibrio
Do opulento, do nobre, oh cruz, t'o devem;
Que por ti o cultor de ferteis campos
Colhe tranquillo da fadiga o premio,
Sem que a voz de um senhor, qual d'antes, dura
Lhe diga:-- meu, e s meu! A mim deleites,
Liberdade, abundancia: a ti, escravo,
O trabalho, a miseria unido  terra,
Que o suor dessa fronte fertiliza,
Emquanto, em dia de furor ou tedio,
No me apraz com teus restos fecunda-la.

Quando calada a humanidade ouvia
Este atroz blasphemar, tu te elevaste
L do oriente, oh cruz, involta em gloria,
E bradaste, tremenda, ao forte, ao rico:--
Mentira! E o servo alevantou os olhos,
Onde a esperana scintillava, a medo,
E viu as faces do senhor retinctas
Em pallidez mortal, e errar-lhe a vista
Trpida, vaga. A cruz no cu do oriente
Da liberdade annuncira a vinda.

         -----

Cansado, o ancio guerreiro, que a existencia
Desgastou no volver de cem combates,
Ao ver que, emfim, o seu paiz querido
J no ousam calcar os ps d'estranhos,
Vem assentar-se  luz meiga da tarde,
Na tarde do viver, juncto do teixo
Da montanha natal. Na fronte calva,
Que o sol tostou e que enrugaram annos,
Ha um como fulgor sereno e sancto.
Da aldeia semideus, devem-lhe todos
O tecto, a liberdade, e a honra e vida.
Ao perpassar do veterano os velhos
A mo que os protegeu apertam gratos;
Com amorosa timidez os moos
Sadam-no qual pae. Nas largas noites
Da gelada estao, sobre a lareira
Nunca lhe falta o cepo incendiado;
Sobre a mesa frugal nunca, no estio,
Refrigerante pomo. Assim do velho
Pelejador os derradeiros dias
Derivam para o tumulo suaves,
Rodeiados de affecto, e quando  terra
A mo do tempo gastador o guia,
Sobre a lousa a saudade ainda lhe esparze
Flores, lagrymas, benos, que consolem
Do defensor do fraco as cinzas frias.

Pobre cruz! Pelejaste mil combates,
Os gigantes combates dos tyrannos,
E venceste. No solo libertado,
Que pediste? Um retiro no deserto,
Um pincaro granitico, aoutado
Pelas azas do vento e ennegrecido
Por chuvas e por soes. Para ameigar-te
Este ar humido e gelido a segure
No foi ferir do bosque o rei. Do estio
No ardor canicular nunca disseste:--
De-me, sequer, do bravo medronheiro
O despresado fructo! O teu vestido
Era o musgo, que tece a mo do inverno,
E Deus creou para trajar as rochas.
Filha do cu, o cu era o teu tecto,
Teu escabelo o dorso da montanha.
Tempo houve em que esses braos te adrnava
C'roa viosa de gentis boninas,
E o pedestal te rodeiavam preces.
Ficaste em breve s, e a voz humana
Fez, pouco a pouco, juncto a ti silencio.
Que te importava? As arvores da encosta
Curvavam-se a saudar-te, e revoando
As aves vinham circumdar-te de hymnos.
Affagava-te o raio derradeiro,
Frouxo do sol ao mergulhar nos mares,
E esperavas o tumulo. O teu tumulo
Devera ser o seio destas serras,
Quando, em gnesis novo,  voz do Eterno,
Do orbe ao nucleo fervente, que as gerra,
Ellas nas fauces dos volces descessem.
Ento para essa campa flores, benos,
Ou de saudade lagrymas vertidas,
Qual do velho soldado a lousa pede,
No pedras  ingrata raa humana,
Ao p de ti no seu sudario involta.

         -----

Este longo esperar do dia extremo,
No esquecimento do ermo abandonada,
Foi duro de soffrer aos teus remidos,
Oh redemptora cruz. Eras, acaso,
Como um remorso e accusao perenne
No teu rochedo alpestre, onde te viam
Pousar tristonha e s? Acaso,  noite,
Quando a procella no pinhal rugia,
Criam ouvir-te a voz accusadora
Sobrelevar  voz da tempestade?
Que lhes dizias tu? De Deus falavas,
E do seu Christo, do divino martyr,
Que a ti, supplicio e affronta, a ti maldicta
Ergueu, purificou, clamando ao servo,
No seu trance final:--Ergue-te, escravo!
s livre, como  pura a cruz da infamia.
Ella vil e tu vil, sanctos, sublimes
Sereis ante meu Pae. Ergue-te, escravo!
Abraa tua irman: segue-a sem susto
No caminho dos seculos. Da terra
Pertence-lhe o porvir, e o seu triumpho
Trar da tua liberdade o dia.

Eis porque teus irmos te arrojam pedras,
Ao perpassar, oh cruz! Pensam ouvir-te
Nos rumores da noite, a antiga historia
Recontando do Golgotha, lembrando-lhes
Que s ao Christo a liberdade devem,
E que impio o povo ser  ser infame.
Mutilado por elle, a pouco e pouco,
Tu em fragmentos tombars do cerro,
Symbolo sacrosancto. Ho-de os humanos
Aos ps pisar-te; e esquecers no mundo.
Da gratido a divida no paga
Ficar, oh tremenda accusadora,
Sem que as faces lhes tinja a cr do pejo;
Sem que o remorso os coraes lhes rasgue.
Do Christo o nome passar na terra.

         -----

No! Quando, em p desfeita, a cruz divina
Deixar de ser perenne testemunho
Da avita crena, os montes, a espessura,
O mar, a lua, o murmurar da fonte,
Da natureza as vagas harmonias,
Da cruz em nome, falaro do Verbo.

Della no pedestal, ento deserto,
Do deserto no seio, ainda o poeta
Vir, talvez, ao pr do sol sentar-se;
E a voz da selva lhe dir que  sancto
Este rochedo n, e um hymno pio
A solido lhe ensinar e a noite.

Do cantico futuro uma toada
No sentes vir, oh cruz, de alm dos tempos
Da brisa do crepusculo nas azas?
 o porvir que te proclama eterna;
 a voz do poeta a sadar-te.

         -----

      Montanha do oriente,
Que, sobre as nuvens elevando o cume,
Divisas logo o sol, surgindo a aurora,
      E que, l no occidente,
Ultima vs seu radioso lume,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

      Rochedo, que descanas
No promontorio n e solitario,
Como atalaia que o oceano explora,
      Alheio s mil mudanas
Que o mundo agitam turbulento e vario,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

      Sobros, robles frondentes,
Cuja sombra procura o viandante,
Fugindo ao sol a prumo que o devora,
      Nesses dias ardentes
Em que o Leo nos cus passa radiante,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

      Oh mato variado,
De rosmaninho e murta entretecido,
De cujas tenues flores se evapora
      Aroma delicado,
Quando s por leve aragem sacudido,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.
      Oh mar, que vais quebrando
Rolo aps rolo pela praia fria,
E fremes som de paz consoladora,
      Dormente murmurando
Na caverna maritima sombria,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

      Oh lua silenciosa,
Que em perpetuo volver, seguindo a terra,
Esparzes tua luz ameigadora
      Pela serra formosa,
E pelos lagos que em seu seio encerra,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

      Debalde o servo ingrato
      No p te derribou
      E os restos te insultou,
      Oh veneranda cruz:

      Embora eu te no veja
      Neste ermo pedestal;
      s sancta, s immortal;
      Tu s a minha luz!

      Nas almas generosas
      Gravou-te a mo de Deus,
      E,  noite, fez nos cus.
      Teu vulto scintillar.

      Os raios das estrellas
      Cruzam o seu fulgor;
      Nas horas do furor
      As vagas cruza o mar.

      Os ramos enlaados
      Do roble, choupo e til,
      Cruzando em modos mil,
      Se vo entretecer.

      Ferido, abre o guerreiro
      Os braos, slta um ai,
      Pra, vacilla, e ce
      Para no mais se erguer.

      Cruzado aperta ao seio
      A me o filho seu,
      Que busca, mal nasceu,
      Fontes da vida e amor.

      Surges, symbolo eterno
      No cu, na terra e mar,
      Do forte no expirar,
      E do viver no alvor!




LIVRO SEGUNDO

POESIAS VARIAS.




A PERDA D'ARZILLA.

(1549).


Era noite: do cu limpo e sereno
Milhes d'estrellas trmulas pendiam,
Quaes as nocturnas lampadas d'um templo,
E as ribas ermas sussurrar se ouviam.
D'alterosa gal o negro vulto
Corta ao largo, bem largo, o mar do Algarve,
E l nas serras d'Africa fronteiras
Branqueja a espaos o albornoz do alarve.

Como tocheiros com brandes accesos,
      De um fretro ao redor,
Cuja vermelha luz o horror da morte
      S faz sentir melhor,
Taes as nocturnas almenras fulgem
      Nas torres d'atalaia,
Pelos outeiros, que circumdam muros
      De povoao na praia.

         -----

      Arzilla, a guerreira.
        L jaz na afflico,
        Que a rendeu aos mouros
        Elrei dom Joo.
      Tomar-te-ha Deus contas,
        Rei fraco e prasmado,
        De to grande vilta,
        De teu gro peccado.
      Maldiz-te nos mares
        Valente fronteiro,
        Que na s de Ceuta
        Se armou cavalleiro;
      Que dez aduares
        Em Tanger queimou,
        E em muros d'Alcacer
        Dez elches matou:
      Que era hoje d'Arzilla
        Temido adal,
        E a quem tu mandaste
        Fugir como vil.

         -----

      Vde-o l na gavia
        Da negra gal,
        De braos cruzados,
        Immovel, em p;
      E a nu que arfa e voa
        Na fremente via,
        Ferindo na esteira
        Fugaz ardentia;
      E d'Africa as praias,
        Que a r vo fugindo,
        E as vagas, que rolam,
        Distantes mugindo.
      Em roda o silencio:
        No cu noite escura:
        E o peito do triste
        Confrange a amargura.

         -----

      Do veterano as faces
        O salso pranto rga:
        Nos africanos montes
        Saudoso os olhos prga.
      Sente no seio as ancias
        D'incomportavel dor,
        E s vezes range os dentes
        Em trances de furor.
      Um cantico  su' alma
        A indignao inspira:
        Vai sussurra-lo ao longe
        Aura que branda espira.


O CANTO DO ADAL.

  Quando, ao longe, nos campos d'Arzilla,
Alvejava do mouro o albornoz,
E corria, e corria veloz
O ginete de Bellamarim;
  Quando o esculca, sado da villa
Da manh ao primeiro fulgor,
No podendo a atalaia transpr,
Vinha s portas bater de afim;
  Quando em Tanger, a forte, se ouvia
De armaduras continuo tinir,
E nos ares se via luzir
O montante, a acha d'armas, e o criz;
  Quando em Ceuta vencida se erguia
Sobre o alcacer pendo portugus,
Contra o qual na mesquita de Fs
A gaza prgava o caciz:
  Quando Alcacer-Ceguer, a viosa,
Que em vergeis se reclina gentil,
Pela noite fragrante d'abril
D'entre os robles sorria ao luar;
  Porque, rico de presa formosa,
J voltou nobre alcaide christo,
E inda ao longe de incendio o claro
Tinge o cu sobre um triste aduar:
  Nossa estrella era ento esplendente;
Nosso nome era um som do terror;
Nossos paes conduzia o Senhor,
Qual Jud d'entre a sara do Horeb.
  Portugal, oh leo do occidente,
Tu rugias  beira do mar,
E o teu grito c vinha troar
Temeroso no ardente Moghreb:
  Era o tempo dos crentes e ousados:
Era o tempo da gloria da cruz!
Ora contam-se as preas d'Ormuz;
Tem s nome Cochim, Calecut!
  E esses muros d'Arzilla, regados
Com o sangue de martyres mil,
Ermos hoje tu deixas, rei vil,
Porque o Estreito passou Rais Dragut!
  Oh valentes da India, do oceano,
Roncadores de fros no mar,
Cuja espada, porm, faiscar
No sabe inda do mouro no arnez,
  Mostrar vinde o valor sobre-humano
Neste clima de sol mirrador!
Aqui fama se compra com dor:
Facil gloria esquecei uma vez.
  As gals do arrais mouro so fortes;
Sua chusma berbers do Takrur;
Como o vosso rei indio, Badur,
No ha-de elle acabar  traio.
  Uma festa de sangue e de mortes
Do occidente nas vagas tereis;
Elmos rijos aqui achareis,
No o craneo d'inerme sulto!
  Mercadores!--deixae vosso cravo,
A canella, a pimenta, o marfi;
Os vestidos de seda desp;
Ponde, em vez de collar, um gorjal.
  Vella e remo soltae no mar bravo;
Vinde juncto de ns combater;
Ns que Arzilla deixmos perder,
Porque elrei...  um rei desleal.
  Para ns os castellos d'avante;
Para ns a arrombada e bailu;
Para ns pelejar ante o cu,
Que nos campos d'Arzilla nos viu:
  Para ns o machado e montante;
Para vs a bombarda e arcabuz;
Para ns, ao cahir, ver a luz;
Ver a mo que estes peitos feru;
  Para ns o tombar derradeiro
Sobre o ferreo esporo das gals;
O pelouro, de sob o convs,
C de longe enviar... para vs!
  O sudario do morto fronteiro
Alva escuma da proa ser;
E em seus labios--_Arzilla!_--ouvir
Quem ouvir sua ultima voz.

         -----

E elles, os fortes d'Asia, no vieram
Do cavalleiro d'Africa ao chamar;
E a nu d'elrei ao infamado Tejo
      Veio aportar:
E o adal deps as armas rotas,
      No no espaldar;
Que nunca o bom fronteiro viram mouros
      Costas voltar.

         -----

E tomando o bordo de peregrino,
Foi-se  Batalha, que  mosteiro pobre
      De dominicos,
Frades mui sanctos, que os judeus queimavam,
      Porque eram ricos.
No meio desses tumulos, que encerram
Os despojos mortaes dos reis que foram,
      Fretro antigo
O adal procurou. De um rei soldado
      Era o jazigo.
Quando o viu, ajoelhou nos degraus delle,
E palavras, que as lagrymas cortavam,
      Lhe dirigiu:
Maldico para alguem pedia ao morto;
      Mas nada ouviu!
Ento, livido o rosto, os labios brancos,
A fronte lhe pendeu sobre o atade
      Do rei extinto.
Expirra ao dizer--_perdeu-se Arzilla!_--
      A Affonso Quinto.




A ROSA.


      Pura em sua innocencia.
      Entre a sara espinhosa,
Purpurea esplende, inda boto intacto,
      Na madrugada a rosa.

       da campina a virgem
      A pudibunda flor;
Em seus efluvios matutina brisa
      Bebe o primeiro amor.

      O sol inunda as veigas:
      Calou-se o rouxinol;
E a flor, ebria de gloria,  luz fervente,
      Desabrochou-a o sol.

      O spro matutino
      No seio seu pousra:
Prostituida  luz, fugiu-lhe a brisa,
      Que a linda rosa amra.

      Bella se ostenta um dia;
      Sadam-na as pastoras;
Do-lhe mil beijos, gorgeando, as aves;
      Voam do goso as horas.

      L vem chegando a noite,
      E ella empallideceu:
Incessante prazer mirrou-lhe a seiva;
      A rosa emmurcheceu.

      Desce o tufo dos montes,
      Os matos sacudindo;
Desfallecida a flor desprende as folhas,
      Que o vento vai sumindo.

      Onde estar a rosa,
      Do prado a bella filha?
O tufo, que espalhou seus frageis restos,
      Passou: no deixou trilha.

      Da sara a flor virente
      Nasceu, gosou, e  morta:
E a qual desses amantes de um momento
      Seu fado escuro importa?

      Nenhum, nenhum por ella
      Gemeu saudoso  tarde;
No ha quem juncte as derramadas folhas,
      Quem amoroso as guarde.

      S da manhan o spro,
      Passando no outro dia,
Da rosa, que adorou, quando a innocencia
      Em seu boto sorria,

      Juncto do tronco humilde
      O curso demorando,
Veio depositar perdo, saudade,
      Queixoso sussurrando.

      De quantas s a imagem,
      Oh desgraada flor!
Quantos perdes sobre um sepulchro abjecto
      Tem murmurado o amor!




O MENDIGO.


I.

O sol passa nos cus:--sob o carvalho,
Por cujos troncos se pendura a vide,
        Cego ancio,
Mirrada dextra supplice estendendo,
Ao passageiro, que o despreza, implora
        Do opprobrio o po.

Ninguem o escuta, o dia foge, e a noite
Involve a luz no manto impenetravel:
        E elle chorou:
E em seus andrajos para choa alpestre,
Sem se queixar de Deus, tardios passos
        Encaminhou:

Mas antes que chegasse ao pobre alvergue,
Do presbyterio o sino harmonioso
        Soar ouvia,
Que, despedindo em roda os sons pausados,
Convidava os fiis a erguer as preces
        Da Ave-Maria.

 cruz do adro relvoso as mos mirradas
O velho ergueu, e ao cu inuteis olhos
        E uma orao,
A orao do infeliz, que Deus s ouve
Quando o desdenha o mundo e ludibria
        Sua afflico.

Para o velho a existencia  solitaria,
Bem como a fonte que esgotou o estio.
        Onde os pastores
Vinham a saciar o manso gado;
Onde contavam penas e prazeres
        Dos seus amores.

A alampada na igreja triste e muda
Bruxuleava seu claro, pendendo
        Ante o altar-mr:
Como o templo, o porvir era do velho
Cheio de sustos; muda como o templo
      Era a sua dor.

Resou, resou, e os olhos se enxugaram:
O orar fervente as lagrymas enxuga,
      Qual prado o lste.
Deus o inspirou; sperana  filha sua,
Doce esperana, que os mortaes s deixa
      Sob o cypreste.

Voltou  choa, e a macilenta fome,
Sem gemer, supportou sobre o seu leito,
      Que  quasi a terra;
E, confiado em Deus, entre as angustias
Do mal, menos crueis que as do remorso,
      Os olhos cerra.


II.

Restruge o mar cavado; o vento zune
Pelos mastros da nu; colhido o panno
      Das vergas pende;
Brinco das vagas, o baixel arfando
Fluctua incerto, e dos bulces guiado
      Os mares fende.

Correndo rvore secca avulta ao longe,
Como alma em pena vagueiando  noite
      Em seu fadario;
E pelas trvas branquejando a escuma,
Que da pra espadana, imita as prgas
      D'alvo sudario.

Envolto no gibo amplo e felpudo,
Rude piloto ao leme trabalhoso
      Vla encostado;
Que, se no mentem calculos, o porto
Proximo est, dos lassos navegantes
      To suspirado.


III.

O vento vai quebrando, e j rareiam
Grossos montes de acastelladas nuvens:
      Diurno alvor
Traa no cu d'oriente um risco immenso,
Que reflecte no mar, que veste, ao largo,
      Cerulea cr.

Surge o sol radioso e inunda as vagas,
Que se acalmam, nivelam-se: o horisonte
      Mais amplo  j:
Cava aragem ligeira a larga vela,
E do cesto o gageiro clama:--terra!
      Ei-la acol!

Como deslisa o goso nos semblantes
Por entre as rugas do terror passado!
      Como  formosa
Essa pallida praia, e esses rochedos,
E l no extremo os pincaros da serra
      Erma e saudosa!

De indicas mrces, de ouro carregada
Aproa  terra, com celeuma alegre,
      A nu pujante;
E pelo verde mar do porto amigo
Abrindo a esteira, restitue  patria
      O navegante.


IV.

 meia noite:--os gallos pela aldeia
Dizem que um dia mais desceu ao nada
      E que outro vem,
Para dar luz a dores e alegrias
E depois nos abysmos do passado
      Cahir tambem.

E o mendigo da aldeia, o velho cego,
Sobre o duro grabato, em choa humilde,
      Achou a paz.
Em sonhos via um filho: a longes terras
A miseria o levou: mudada sorte
      Feliz o traz.

Quantas vezes presga a mente do homem
Vla como um propheta, em quanto o somno
      Seus membros prende;
E como, em trevas de amargosos dias,
No porvir uma luz, prevista em sonhos,
      Grata se accende!


V.

Nos gonzos ferrugentos range a porta
Do tugurio do pobre adormecido,
      E descuidado;
Que do mendigo o umbral patente  sempre,
Nem carece de estar, como o do rico,
      Aferrolhado.

O bom do velho ao sobresalto acorda,
E as lagrymas de alguem banham-lhe a face,
      E o pranto  mudo;
Mas breve um grito e o soluar e os beijos
E o sonho que passou e a voz do sangue
      Lhe dizem tudo.

No mais sob o carvalho ao velho honrado
Esmoladora mo o peregrino
      Estender:
Meigos lhe sorriro extremos dias,
E as suas cinzas filial gemido
      Consolar.




O BOM PESCADOR.


O sol rubro, em leito
De nuvens descendo,
Tremente, crescendo,
No mar se ia a pr.

Sentado no barco,
Que a onda embalava,
Scismando cantava
O bom pescador.

A paz da sua alma
No olhar exprimia,
E a voz traduzia
Scismar do cantor:

E o canto sereno
Levava-lho a brisa,
Que  tarde deslisa
Com meigo frescor.

         -----

Acabem de todo
No prado as boninas,
E em vastas campinas
No surja uma flor;

Dispa-se o ameeiro
Da folha viosa,
E o Tejo em lodosa
Mude esta azul cr;

O vento gelado
S reine e as procellas;
Das vivas estrellas
Se apague o fulgor:

O sol radioso
Em nuvens se envolva,
E  terra no volva
Seu grato calor;

Que do horrido inverno,
Comtigo, oh serrana,
Na minha choupana
Rirei do furor!

No pensa se as veigas
Se vestem de relva,
Se est nua a selva
Do lindo verdor;

Nem ouve os rugidos
Do vento inquieto
Quem, sob o seu tecto,
Se abriga no amor.

Nasci, eduquei-me
N'um mundo mais nobre,
Agora sou pobre,
Sou um pescador.

s bordas do abysmo
Chegou-me a ventura;
Med delle a altura,
Desc sem pavor.

Co'a dita se enlaa
Humilde existencia,
Se do homem a essencia
O orgulho no fr.

Emquanto de paos,
De ferteis devesas,
Emfim, de riquezas
Eu pude dispor,

O somno tranquillo
A mim no descia,
Que o ferro temia
Do vil salteador.

Na minha alma, immersa
Em noite e amargura,
Pesava bem dura
A mo do Senhor!

Agora misturo
Do rude oceano
Nas vagas, ufano,
O honrado suor;

Agora sereno
Vem dia aps dia,
E a noite sombria
No cerca o temor;

Porque entre teus braos,
Esposa querida,
Me esqueo da lida
Do mar bramidor.

Da vida no sonho
Que importa vil ouro,
Se tu s thesouro
Perpetuo de amor;

Se ainda em teus labios,
Oh cara consorte,
Vir doce a morte
Minha alma depor?

Nas ribas fragosas,
Que os ventos castigam,
E as ondas fustigam
Com longo fragor,

Ao p da ermidinha,
Nesse adro to s,
Envoltos no p,
Sem goso, sem dr,

Tranquillos, obscuros,
Privados de luz,
 sombra da cruz
Do Deus Redemptor,

De ti s lembrados,
Em triste orao,
Os restos sero
Do teu pescador.




TRISTEZAS DO DESTERRO.

(FRAGMENTOS).


       Erit tristis et moeretis.
                         Isaias.


I.

Terra cara da patria, eu te hei saudado
D'entre as dores do exilio. Pelas ondas
Do irrequieto mar mandei-te o choro
Da saudade longinqua. Sobre as aguas,
Que de Albion nas ribas escabrosas
Vem marulhando branqueiar de escuma
A negra rocha em promontorio erguido,
D'onde o insulano audaz contempla o immenso
Imperio seu, o abysmo, aos olhos turvos
No sentida uma lagryma fugiu-me,
E devorou-a o mar. A vaga incerta,
Que rla livre, peregrina eterna,
Mais que os homens piedosa, ir depo-la,
Minha terra natal, nas praias tuas.
Essa lagryma acceita:  quanto pde
Do desterro enviar-te um pobre filho.

No silencio da noite, em slo estranho,
Patria minha gentil, em ti pensando,
Para os astros de Deus olhei: fulgiam,
Neste cu achatado, tristemente
Com luz mortia e pallida, no ricos
De inspirao e amor, quaes l refulgem.
Pela sombra amenissima, que chama
Do affastado oriente o sol no occaso,
No teu profundo cu has-de tu v-los:
Do desterrado filho os votos levam:
Acceita-os delles, desgraada patria!

J se acercava o tenebroso inverno;
Vinha fugindo a rapida andorinha,
Para um abrigo te ir pedir, oh patria,
Em cujos valles nunca alveja a neve:
Juncto de mim passou: em suas azas
Tambem mandei o filial suspiro.

Pelo dorso das vagas rugidoras
Eu corri de alm mar para estas plagas.
Pelas antenas, em nublada noite,
Ouvi o vento sul que assobiava,
E de ouvi-lo folguei. Da patria vinha:
Seu rijo sopro refrescou-me as veias.
.....................................


II.

Que ferreo corao esquece a terra,
Que lhe escutou os infants vagidos,
E lhe bebeu as lagrymas primeiras,
Preludio a tantas que no curto espao
Da vida ha-de verter? Quem, nunca, esquece
O tecto paternal, embora adeje
Ao redor delle o medo de tyrannos?
Quem no deseja misturar, na morte,
Com a gleba nativa o p de extincto,
E murmurar seu ultimo suspiro
Alli, onde primeiro a luz diurna
O allumiou na rapida passagem
Entre o nada e o morrer, chamada a vida?
Ai, que s tu existencia?! Um pesadelo,
Um sonho mau, de que se acorda em trvas,
Na valla dos cadaveres, em meio
Da unica herana que pertence ao homem,
Um sudario e o perpetuo esquecimento.
A infancia  dormir placido: inquieta
A mocidade , j; mas entre dores
Vem o amar e esperar, e a crena ardente,
E affectos sanctos consolar quem dorme:
Pouco a pouco, porm, sobre a jazida
Do sonhador, do mal se assenta o anjo,
E as imagens ridentes da ventura
Co' as negras asas dispersando ao longe,
Com duro p o corao lhe opprime.
Oh, no grabato meu bem cedo esse anjo
Veio assentar-se, e o juvenil enleio
De affectos puros em dormir sereno
Affugentou de mim. Vagueei nos mares;
Peregrinei na terra: em toda a parte
O p maldicto me esmagou o peito,
E da patria a saudade, em sonho triste,
Immovel, do viver me tece a noite.
..................................


III.

Solido, solido, quem diz que existes
Onde no soa tumultuar das turbas
Mentiu-te a essencia! Solido e morte
So uma ida s; um pensamento
Doloroso, indistincto. Oh, dae-me um valle,
Onde haja o sol da minha patria, e a brisa
Matutina e da tarde, e a vinha e o cedro,
E a larangeira em flor, e as harmonias
Que a natureza em vozes mil murmura
Na terra em que eu nasci, embora falte
No concerto immortal a voz humana,
Que um ermo assim povoar meus dias.
Mas aqui!... Que me importa o murmurio
Dos que passam? Que vale essa campina
Humida e verde, e no gelado pgo
Raio do sol que se refrange turvo?
 o desterro solido e morte
Para o poeta: embora estranha lingua
Lhe revele o pensar, o intimo verbo
Que em ar vibrado traduziram labios,
Se o cu, o til, o arroio, o prado, a selva
No tem para lhe dar um pensamento
De poesia e de amor?
                    No! Tudo  pallido,
Tudo  morto e ssinho e silencioso
Como um sepulchro e um cemiterio!
                                 E ainda
Campas e adros inspiram, quando hi dormem
Nossos irmos e paes, porque tem lagrymas
Que desopprimem a alma; tem memorias,
Tem uma cruz, em trno  qual sussurram
Preces, que alli vamos guardar, qual guarda
O avaro em ferreo cofre os seus thesouros,
Para os contar hoje, manhan e sempre
Emquanto vivo for.
                  E c? O engenho
Nem cr, nem sente bafejar-lhe um canto
O crepusculo, a lua, a aragem fresca,
O arrebol da manhan, ou cu sereno
Por noite escura recamado de astros.

Harpa meridional, porque, no extremo
Da terra patria, o trovador errante
No deixaste partir s com seus males?
Porque vieste, oh filha do occidente,
Cruzando os mares embrenhar-te em nevoas
De cu septentrional? Tu, pobresinha,
Se, hoje, pendente em tronco de pinheiro,
Sem haver mo que te vibrasse as cordas,
Jazesses esquecida, ainda soras
Com incerta harmonia. s horas meigas
Em que o dia se esvai, placida a brisa,
Que espira do oceano e encrespa as vagas,
Passaria por ti, e te agitra,
E murmurras som que respondera
Trmulo, fraco,  flauta dos pastores
Sussurrando suave entre as quebradas
Da montanha selvosa. E aqui? s muda;
s muda, que essas cordas carcomiu-t'as
Este ar gelido e turvo, e qual o engenho
De teu dono, no vio da existencia,
Envelheceu, envelheceste, oh harpa!
...................................


IV.

Bero do meu nascer, slo querido,
Onde cresc e amei e fui ditoso,
Onde a luz, onde o cu riem to meigos,
Meu pobre Portugal, hei-de chorar-te!

Quando, aterrado ante o minaz aspecto
Do anjo de Deus, tremente vagueiava
Nosso primeiro pae em volta do den,
No lhe tecia tanto de amarguras
A vida o duro affan com que trocava
Pelo po o suor co' a avara terra;
No era tanto o traspassar-lhe os membros
O hiberno sopro do aquilo, queimar-lh'os
O sol estivo, e o magoar, errante,
Os ps feridos nos tojaes bravios
Pelas sendas que abria em ermos valles,
Como as saudades de passados tempos,
Dessa infancia viril, em que surgira,
Para viver e amar, do barro inerte;
No o pungia tanto o mal presente
Como a recordao dos claros dias
De innocencia e de paz que alli vivra.
A primavera eterna, as auras puras,
O murmurar do arroio, o canto da ave,
O frmito do bosque, o grato aroma
E o vistoso matiz do ameno prado,
O lago quedo a reflectir a lua,
As montanhas to ricas de mysterios,
De ecchos, de sombras, de tristezas sanctas;
Isso tudo, trazia-lh'o ante os olhos
Vingadora a memoria inexoravel.
Por entre a bruma da estao chuvosa
Passavam-lhe de abril perfumes, galas;
Sob estuoso sol vinha a saudade
Dizer-lhe o sussurrar do manso arroio
E o ramalhar dos platanos copados.
Por tenebrosas noites de procella,
Quando a torrente e o vendaval bramiam,
Cria d'entre o fragor ouvir romperem
Os matutinos canticos das aves,
E ver no pgo reflectir-se a lua.
Longe, assim, do seu bero, o criminoso
Com dura punio remia o crime:
Mas para o consolar na senda agreste,
Em cujo termo o esperava a morte,
O severo juiz deixra ao triste
De uma esposa querida o seio casto,
Onde aspirar o amor, olhos que o pranto
Misturassem co'o seu. Perdendo a patria
Perdia encantos s de natureza
Formosa e juvenil. As harmonias
Dos coraes, os misticos affectos
No lhe truncou a espada flammejante
Do cherubim ao repelli-lo do den:
Para elle a patria renasceu no exilio.

Eu, prfugo como elle, o den nativo
Perd; e perd mais. Despedaados
Os affectos de irmo, de amante, e filho
Restam-me na alma qual buda frecha,
Que no peito ao cravar-se estala e deixa,
Cahindo, o ferro na ferida occulto.
...................................


V.

Oh meu pae, oh meu pae, como a memoria
Me reflecte, alta noite, a tua imagem
Por entre um vu de involuntario pranto!

Quo triste cogitar em mim desperta
A imagem cara!  noite, o bom do velho
As benams paternaes de Deus co' as benams
Sobre minha cabea derramava,
E ao comear o dia; e ellas desciam
A um corao exempto de remorsos
Onde encontravam filial piedade.
E agora? -lhe mysterio o meu destino.
Qual o seu para mim o exilio occulta.
Saciado, talvez, de dor e affrontas
Dorme j sob a campa o somno eterno?
Suas trmulas mos no mais lanar-me
Viro a benam da piedade? O extremo
Arranco seu no roar meus labios?
Ah, se um dia raiar para o proscripto
O suspirado alvor do sol da patria,
E se entre ns de um mpio as mos ergueram
A barreira da morte, ai delle, ai delle!
E tambem, ai de mim!........................
...................... Mas se 'inda um filho
Houver digno de o ser, eu criminoso
Terei quem me deplore; mos que plantem
No adro deserto onde jazer maldicto
Um cypreste, uma flor, e quem deponha
Aos ps do throno do juiz supremo
Por mim, uma orao fervente e pia.
...................................


VI.

Arvores, flores, que eu amava tanto,
Como viveis sem mim? Nas longas vias,
Que vou seguindo peregrino e pobre,
Sob este rude cu, entre o rudo
Dos odiosos folgares do sicambro,
Do monotono som da lingua sua,
Pelas horas da tarde, em varzea extensa,
E s bordas do ribeiro que murmura,
Diviso s vezes, em distancia, um bosque
De arvoredo onde bate o sol cadente,
E vem-me  ida o laranjal vioso
E os perfumes de abril que elle derrama,
E as brancas flores e os dourados fructos,
E illudo-me: essa varzea  do meu rio,
Esse bosque o pomar da minha terra.
Aproximo-me; o sonho de um momento
Ento se troca em acordar bem triste,
Como surge e se esvai por entre as nevoas
Vulto indeciso nos cantares d'Ossian.
 uniforme e torva esta verdura,
Acre o cheiro que exhala este arvoredo,
Mal-assombrado o rio, humido o valle,
Frio do sol o raio derradeiro
Espirando neste ar denso e pesado,
Que amplo aspirar recusa ao peito oppresso,
E rouba aos olhos horisonte immenso.

Ai, pobres flores que eu amava tanto,
Por certo no viveis! O sol pendeu-vos
Mirradas folhas para o cho fervente:
Ninguem se condoeu: seccou-se a seiva,
E morrestes. Morrestes sobre a terra,
Que por cuidados meus vos educra.
E eu? Talvez nestes campos estrangeiros
Minha existencia o fogo da desdita
Faa pender, murchar, ir-se mirrando
Sem que torne a ver mais esses que amava,
Sem que torne a abraar a arvore annosa,
Que se pendura sobre a limpha clara
L no meu Portugal, onde a frescura
Da ribeira perenne, da floresta
Tem valor, porque o sol tem luz, tem vida!
..........................................


VII

Eu j vi n'uma ilha arremessada
s solides do mar, entre os dous mundos,
Vestigios de volces que ho sido extinctos
Em no-sabidos seculos. Scintillam,
Aqui e alli, nos areientos plainos,
Onde espinhosas saras s vegetam,
Restos informes de metaes fundidos
Pelas chammas do abysmo, entre affumadas
Pedras que em parte amarellece o enxofre,
Que a lava em rios dispersou, deixando
S delle a cr em lascas arrancadas
Das entranhas dos montes penhascosos.
A natureza  morta em todo o espao
Que ella correu, no dia em que, rugindo,
Da cratra fervente,  voz do Eterno,
Desceu ao mar turbado, e elle, escumando,
A engoliu e passou, qual sumiria
De soobrada nau celeuma inutil.
Tal  meu corao. Bem como a lava
 o desterro ao trovador. Meus olhos
Ho-de esquecer as lagrymas; que a seiva
Do vivido sentir vai-se queimando
Ao suo mirrador de atroz saudade,
Que excede tudo em dor; excede a de orpham,
De viuva, de me que sobre o bero
V jazer morto o pallido filhinho.
E porqu? Porque ahi ha inclinar-se
Sobre o corpo do extincto; ha despedir-se
Com suspiros e prantos desses restos,
Que vo quedos dormir em adro antigo,
Onde os avs j dormem; onde ha patria,
Ha familia, ha irmos.--C, tudo  ermo,
E a dor est no corao do prfugo
Como um cadaver hirto quando espera
De noite, em leito n, que  tumba o desam.
A dor aqui  gelida, immutavel;
Pousa em labios alheios que sorriem,
E at em sorrir nosso; est sentada
Ao p do umbral do tecto que nos cobre,
Embebida na enxerga do repouso,
Entranhada no po que nos esmolam,
Enroscada, qual cobra peonhenta,
No nodoso bordo do peregrino,
E em toda a parte e em todo o tempo  nossa.

E depois, o morrer em leito alheio;
Despedir-se de um sol que no  esse,
Que, na infancia, nos fez florir os prados,
Que nos crestou, na infancia, as faces virgens;
Volver em torno os olhos moribundos
E no ver uma lagryma; inclinar-se
E no achar um seio feminino,
Ou de esposa ou de me, onde repouse
A fronte accesa por ardente febre;
E pensar entre as ancias derradeiras,
Que ser terra estranha a que nos trague;
Que ser til do norte o que proteja
Nosso humilde moimento, a verde gleba,
Onde de pinho a cruz por dous invernos
Apenas luctar co'a negra nuvem
Do esquecimento eterno, unica herana
Do que expirou no exilio!
                         Amarguradas
So taes cogitaes para o que sente
No seio em ondas trasbordar-lhe a vida.
Quaes, porm, no viro ao pobre velho,
Que, arrancado das bordas do seu tumulo,
Foi por cima dos mares arrojado
Para juncto do umbral de um cemiterio,
Onde no achar paternos ossos,
Para ao p delles se deitar morrendo?!
......................................


VIII.

Quando nos luz o sol no cu da patria,
Embora sobre ns verta a desdita
Torrentes de amargura, ha um consolo:
 o altar e a orao. Ao desterrado
Nem sequer isso resta. O templo alheio
 como ermo de Deus; como que param
Nesse craneo de marmore arqueado
Do gigante edificio as tristes preces
Em lingua estranha proferidas. Gelidas
E duras so do pavimento as lageas
Para quem sabe certo no o escutam
Mortos que muito amou; que nesse tecto
Vai bater frouxa uma orao discorde
Entre mil oraes.
                   falso!  impio!--
A razo o dir--De Deus o templo
 o mundo. No cimo das montanhas
O nome do Senhor sussurra em sopro
Do vento que passou rasgando as asas
Pelo cardo bravio; a gloria delle
Di-la o rolo do mar correndo  praia;
 o seu hymno o canto da avesinha
No salgueiro que pende e se baloua
Sobre o arroio do valle, e  do regato
O murmurinho o cantico nocturno
Mandado pela terra silenciosa
Qual suspiro fraterno, aos soes e aos mundos
Que pelos cus harmoniosos gyram.
Esses montes de cinzeladas pedras
De columnas e torres, que se elevam
Como as mos junctas de quem resa, apenas
So um memento da orao, um marco
Posto no ermo da vida, que nos lembre
Quem no-la deu, e o mal e o bem, e Aquelle,
Que  senhor e que  rei, que  pae e entende
O vento, o mar, os astros, a avesinha,
O sussurrar do arroio humilde, e as preces
De milhes d'orbes em milhes de linguas.

Ao brado da razo s no se dobra
O corao do desterrado!
                         Embora
Sob as asas do amor abrigue o Eterno
Homens, naes e o mundo: o amor por elle
Nasce, cresce, vigora-se enredado
Com os beijos de me, com sorrir meigo
De nossos paes e irmos, ensina-o a tarde,
O pr do sol da nossa terra, o choupo
Da nossa fonte, o mar que manso geme,
Nosso amigo da infancia, em praia amiga.

Quando isso tudo se converte em sombra,
Que em confuso passado apenas surge
Qual fumo tenuissimo ou phantasma
 meia-noite visto,  luz da lua,
Ao longe entre arvoredo: quando o sopro
Da tempestade assobiou nas trvas
Pela antena da nau do vagabundo;
Quando a dor sua em olhos de ente vivo
No achou uma lagryma piedosa,
E nos seus proprios so vergonha as lagrymas,
Quando, se 'inda as derrama, ellas gotejam,
No sobre seio que as esconda e enchugue,
Mas sobre a vaga que se arqueia, e passa
Sem as sentir; ento o soffrimento,
Filho de longo padecer, converte
O corao do desditoso em marmore,
Onde nunca penetra um puro affecto,
Onde o nome de Deus soobra e morre
Entre o bramir de maldices e pragas.

Oh, do desterro o mal supremo  este!
 o seccar-se o corao; mirrar-se
Como a sara do monte em fins d'estio;
 o descrer, e o blasphemar do Eterno.
Se aos cus levanta o desgraado os olhos,
 que primeiro os ps l no futuro,
E, bem que tenue luz, um fulgorzinho
Por entre as sombras lhe sorriu fagueiro:
Mas quando se ergue um muro intransitavel
Entre ns e a ventura; quando ao longe
Pelos campos da vida  tudo pallido
E perece a esperana, ento a mente
Reca com horror, e dando em terra,
Maldiz-se a si e a providencia e o mundo,
.........................................




O MOSTEIRO DESERTO.


I.

No mosteiro vai fundo o silencio;
Um silencio que gera terror;
S nos tectos, que banha o luar,
Slta o mocho seu pio de horror:

S o vento que gyra nos pateos,
E se engolfa na escada ogival,
Ramalhar vem nas folhas dos ulmos,
Que ladeiam normando portal.

Meia noite. E na crasta deserta
No reboam os ecchos do sino,
Que, vagando, murmuram nas cellas:--
So as horas do officio divino.

Meia noite! Bem como na torre
Voz de bronze dormente parece,
Tal o monge, na dura jazida,
Priguioso do templo se esquece.

Monge, o brado nocturno do sino
Ao resar no te chama,  verdade;
Mas talvez j no topo do cro
Somnolento te espera o abbade.

         -----

Nada quebra o remanso da noite
Pelas gothicas, vastas arcadas:
Nem de quicios ranger vagaroso,
Nem murmrio de lentas passadas.

Est s o mosteiro?--
                      Este grito
Repetiram-no os ecchos inteiro;
E, bem como em resposta  pergunta,
Retumbou:
         --Est s o mosteiro!

         -----

    Pouco ha inda, na alta noite
    Passava no espao a lua,
    Dos ulmos a cima ondeava
    Negra, qual ora fluctua:

    Mas tenebroso silencio
    No a, como ora vai:
    Bradava o sino da torre
    Aos monges dizendo:--orae.

    E pelos vidros crados
    Reverberava fulgor;
    De passos no longo claustro
    Soava tenue rumor.

    Depois, l dentro na igreja,
    Em cro alterno rompia
    O canto lento dos monges,
    Que s vozes do orgam se unia:

         -----

Porm, como se ao sopro do archanjo
A trombeta final retumbasse,
E da vida o tumulto na terra
Ao terrivel signal expirasse,

Assim do orgam calou a harmonia,
E dos cros os hymnos calaram,
E os fulgores das lampadas frouxos
Das vidraas no mais transudaram.


II.

 que o filho dos ermos, renegando
      Das tradies antigas,
Desceu a pelejar na ardente arena
      Das faces inimigas.
Amar, soffrer, orar era a existencia
      Que lhe talhra a sorte;
Enxugar muitas lagrymas na terra,
      E repousar na morte;
Realisar t onde  dado ao homem
      Esse typo ideal,
Que nos legou o Salvador, tomando
      Nossa veste mortal.

         -----

E no o quiz. Sacrilego, do pobre
      A herana, que a piedade
Confira ao ministro de uma crena
      Que  toda caridade,
Offertou-a, traidor a Deus e aos mortos,
      No altar impio da guerra,
E, abrindo o manto, sacudiu irado
      A assolao  terra.

         -----

      De noite no bosque,
      Na gandra deserta,
      No viso do monte,
      Do valle na aberta,

       luz das estrellas
      As armas fulgiam,
      E ouviam-se ao longe
      Corceis que nitriam:

      Horrendo propheta
      O abutre passava,
      E sobre as encostas
      Calado pairava:

      Depois, na alvorada,
      Com gritos sem fim
      Saudava do sangue
      Vizinho o festim.

         -----

      E  voz das trombetas,
      Ao trom dos canhes,
      Ao som das passadas
      De vinte esquadres;

      E em meio do fogo,
      Do fumo alvacento,
      Em rolos ondeando
      Nas asas do vento,

      De agudas baionetas
      A renque brilhante
      Tremente avanava,
      Ao brado de--vante!

      E ao bao rudo
      Dos leves ginetes,
      No plaino calcando
      Da relva os tapetes,

      Os ferros cruzados
      Luctavam tinindo,
      Pees, cavalleiros
      De involta ruindo,

      E a ferrea granada
      Nos ares zumbia,
      E aos seios das alas
      Qual raio descia.

      E aos ares, revolta,
      A terra espirrava,
      E o globo encendido
      Um pouco se alava,

      E prenhe de estragos,
      Com fero estampido,
      Mandava mil golpes,
      Em rachas partido.

         -----

      E as horas passavam
      Em scenas de morte;
      E o abutre mirava
      Os trances do forte.

         -----

Na garganta da serra ou sobre o outeiro,
Pelo pinhal da encosta ou na campina,
Nesse dia de atroz carnificina,
Negros uns vultos vagueiar se viam:
A cruz do Salvador na esquerda erguida,
Na dextra o ferro, preces blasphemando,
No perdoeis a um s!--feros bradando,
Entre as fileiras rapidos corriam:
      E era o monge que bradava,
      E era o monge que corria,
      E era o monge que, blasphemo,
      Preces vans a Deus fazia;
      Vans que,  tarde, nesse plaino
      No sangue d'irmos retincto,
      S restava o moribundo,
      O cadaver s do extincto.
      E por gandras e por montes,
      Aterrados, perseguidos,
      Em desordenada fuga
      Retiravam-se os vencidos.
      E os vencidos eram esses
      Que a esperana da victoria
      Arrastra, miserandos,
      A uma guerra impia, sem gloria!
L dos gritos de raiva baldada
Restrugia o confuso clamor,
E o gemido do mau desgraado
Na alma oppressa gerava terror.

         -----

Cia em p o mosteiro; e maldicto
O que ergue-lo outra vez intentar,
Se no treme ante as nuas cveiras,
Que insepultas ver branquejar!


III.

Surge a luz da alvorada. Podessem
Dessas campas geladas que vejo
Os bons monges dos tempos antigos
Surgir vivos  voz de um desejo!

E que ao longo das vastas arcadas
Se escutassem seus passos serenos,
Como se ouve o tranquillo regato
Sussurrar nestes campos amenos!

Quem ento no curvra ante o velho?
Quem a benam da mo descarnada,
Como a benam do cu, no pedra
Da virtude ao poder confiada?

Quem ousra soltar no deserto
Estridente clangor da trombeta,
E fazer scintillar pela noite
A cruel decisiva baioneta?

Quem ousra o sorriso do insulto
Juncto ao negro edificio soltar,
E com goso, na mente, por terra
Suas grimpas jazendo pintar?

Mas ha muito que os bons se finaram;
Mas ha muito que s dores fugiram,
E depois, nesses velhos sepulchros
Quantos maus inquietos dormiram!

Quem o sabe? Quaes foram? Seus nomes
Pereceram: ninguem o dir.
O que o sabe os julgou; e do abysmo
Nem um ai o cantor tirar.

Mas, oh harpa, transmitte as saudades
Do que foi em legado ao porvir,
E o presente, que em breve ha-de o olvido
Com o seu amplo manto cubrir.

Contaro as canes do poeta
To-smente do claustro o segredo.
Vai a hera vestir estas pedras:
Cahir este annoso arvoredo.

Sim, vir a segure insensata
Da montanha o senhor derribar!
Rei deste ermo, que os curos insultas,
Tu sers o ludibrio do mar.

Bem antigo  teu cepo. Tu viste
O mosteiro da encosta crescer;
Viste o colmo do humilde retiro
Em arcadas, em torres volver.

Tambem nasce o regato na origem
Pobre e puro: cem valles passou;
Vai j rico, mas turvo e suberbo;
Que a torrente desceu e o turbou.

         -----

Como esta aura suave suspira
Pelos bosques, e as ramas meneia!
Como a limpha murmura na fonte,
Sobre a qual pende o merlo e gorgeia.

Cala, oh ave! Que importam teus cantos?
Quem vens tu sadar, cantor do ermo?
 aos mortos? Aos gosos mais puros
Ps-lhe a lousa, na terra, j termo.

Tua voz costumava o eremita
Nos bons tempos folgando sentir:
Era imagem do cu, que entre as dores
Do desterro lhe vinha sorrir.

Mas depois affligiu o malvado
Da avesinha innocente a cantiga;
Tal os olhos affeitos a trvas
A cerrar-se luz subita obriga.

Nunca ao impio na dor deu consolo
Meigo som de cadente gorgeio.
Que harpa eolia lhe adoa o azedume
De que seu corao est cheio?

Ai do mau, cuja vida travada
Vai de sustos mandados do cu!
Nunca o sol a acorda-lo tranquillo
Em seu brilho dos montes desceu.

Mas duas vezes ai delle, se na alma
No lhe soa uma voz pavorosa,
Que o atterre, quando o ermo o roda,
Ao passar da procella ruidosa!


IV.

 to doce esta vaga saudade,
Na soido das montanhas colhida,
Para quem entre mil tempestades
Transitou pelos campos da vida!

Foge a luz:  sol-posto: na aldeia
D o sino esse triplo signal,
Com que o espirito, erguendo-se a Deus,
Diz ao dia seu ultimo val;

E o pastor, que o rebanho guiava
 malhada, descendo do outeiro,
Parou l, e ajoelhou descuberto
Juncto ao velho ssinho pinheiro.

Gloria a Deus! A orao do crepusculo
Pelo tronco elevado se ergueu.
E a guia-la ante o throno do Eterno
Sancto archanjo das preces desceu.

Ao piedoso pastor no cho duro
Brando a noite o repouso trar
E por certo em seu leito da morte
Mais tranquillo inda o somno ser.

         -----

A estas horas, talvez, nos combates
Um atheu expirante cau:
Oh, eu vejo-o voltear-se entre as ancias!
O seu grito final j se ouviu!

A luz foge-lhe aos olhos: a espada
Apertou: ainda a tenta esgrimir:
No a sente: conhece que morre,
Sem, comtudo, deixar de existir.

No o cr: abre os olhos a custo:
Nada o ceu, que se enluta, lhe diz:
Fecha-os breve; e no extremo soluo
Pensa e existe, e a existencia maldiz.

E o atheu, que era grande na terra,
Uma campa ter magestosa;
E ao pastor naquelle adro da aldeia
Cubrir uma gleba relvosa.

         -----

Como o atheu e o pastor, nas batalhas
Mil e mil sem alento caram;
Mil e mil, que em seu sangue este solo,
Nas fraternas discordias, tingiram!

Essas scenas de pranto e de lucto
Quem as trouxe a esta terra querida?
Foi o monge, que em animos rudes
Instillou o furor fratricida.

Que pediamos ns? Ver abrir-se
Ante ns da familia o larario,
E dormir juncto aos ossos paternos
Somno extremo n'um pobre sudario:

Sim, poder, ao mandar-nos a morte
Nossos corpos aos vermes ceder,
Ao sol bello, e to bello, da infancia
Com saudade, inda os olhos volver.

Respondeu-nos da balla o sibilo;
Respondeu-nos o brado da guerra!
Combatemos. Pertencem na patria
A qualquer sete palmos de terra.

Isso, ao menos, t-lo-hemos! Da lucta
Sabe Deus qual a sorte ser:
Mas  sombra do teixo da infancia
O proscripto infeliz dormir.

         -----

Cis em p o mosteiro; e maldicto
O que ergue-lo outra vez intentar,
Se no treme ante as nas caveiras,
Que insepultas ver branquejar!




A VOLTA DO PROSCRIPTO.


I.

      J suave a sorte dura
      Mostra a face ao desterrado:
      Porque surge ainda a amargura
      Em seu rosto carregado?

      Vento amigo ao patrio solo
      Pelo mar guia o proscripto,
      E um sorriso de sonsolo
      No lhe luz no rosto afflicto?

      Corta a proa o mar fremente;
      O cantor l se assentou
      E sua torva e altiva frente
      Sobre a dextra reclinou.

      Vem-lhe ida aps ida,
      J tristonha, j serena;
      Que no gesto lhe vagua
      Ora o goso, logo a pena.

      Corao affeito  mgoa
      Da esperana desconfia:
      Desalenta, e em viva frgoa,
      -lhe negra a noite, e o dia.

      Mas se, emfim, lhe tece a sorte
       existencia um aureo fio,
      E vencendo o mar e a morte
      O conduz ao patrio rio,

      A que mais agora aspira
      O mancebo trovador?
       por gloria que suspira?
      No lhe ri propicio o amor?

      No v perto a terra cara,
      Que chorou de dor absorto,
      E nos braos dos que amra
      No ter paz e conforto?

      Mas silencio!--A fronte erguendo,
      Elle os olhos poz nos ceuz,
      E a cano da alma rompendo
      Sussurrou nos labios seus.

II.

Rasga as ondas do pgo indomado
Leve barca: j freme o galerno:
Susta as iras o rabido hynverno:
Torna  patria infeliz trovador.

Como bate no seio ancioso
Corao que opprimiu a amargura,
Quando meiga sorr a ventura,
Quando volve esperana de amor!

Esperana, e smente esperana
Cabe quelle que os mares correu,
Quem lhe diz que 'inda no o esqueceu
A donzella por quem suspirou?

Quem lhe diz no ir n'outros laos
Venturosa encontra-la e infiel,
E que a voz do remorso cruel
Para a ingrata tremenda soou?

Quem lhe diz no ir murchas rosas
To-smente encontrar sobre a lousa,
Onde a amada tranquilla repousa,
onde v juncto della expirar?

Esperana, e smente esperana
Cabe quelle que os mares correu:
Ella s resta quelle que o ceu
Longos dias de dor fez passar

Eu traguei estes dias de lucto;
Encarei muitas vezes a morte;
Pude o louro colhr dado ao forte:
Tambem myrto de amor colherei?

Ou o arbusto que outr'ora plantra,
Que por mim cultivado crescra,
Que entre angustias jmais me esquecra
Esquecido por ella acharei?

Como alm desse cabo, que esconde
Verdes aguas do meu patrio Tejo,
A alma levam saudade e desejo!
Como atraz a compelle o terror!

Ledo o nauta sada a guarda
Aonde incolume o vento o ha guiado,
E alegrou esse olhar carregado
Com que insulta do mar o furor.

Feliz nauta, em teu seio tranquillo
Pulsa em paz corao baixo e rude;
Fado amigo negou-te o alade:
Deu-m'o a mim:--para prantos m'o deu.

Nunca, pois, surgir uma aurora
Em que nelle resoe a alegria,
E em que o triste, que a dor opprimia,
Erga um hymno de jubilo ao cu?

Nunca rir-me propicia a ventura
Sobre a terra vero estes olhos?
Ser sempre cuberto de abrolhos
Agro trilho que  morte conduz?

Ou nas trvas da minha existencia
Surgir inda um dia radioso,
Como, s vezes, em cu tenebroso
Rompe o sol com torrentes de luz?


III.

      J no porto a leve barca
      Longa esteira desdobrou,
      E ao claro final do dia
      Ferreo dente ao mar lanou.

      Eis as plagas da saudade;
      Eis a terra de seus sonhos;
      Eis os gestos to lembrados;
      Eis os campos to risonhos!

      Eis da infancia o tecto amigo;
      Eis a fonte que murmura;
      Eis o cu puro da patria;
      Eis o dia da ventura!...


IV.

Foi o cantor feliz?--Em breves dias
Viu-se cruzar errante incertos mares.
Sob o tecto paterno anciada noite
Elle passou; e o somno socegado
No lhe cerrou os olhos lachrymosos.
Conta-se que o seu amor fra trahido,
E que mirrado achou de amor o myrto,
Que deixra vioso, e que saudra
Desde alm do oceano em seu delirio.
Sobre a proa outra vez indo assentar-se,
No entoou um hymno de alegria.
Com ar sinistro e torvo e os labios mudos
Correu co' a vista as ondas inquietas,
E, porventura, a ida que as passra
Nas asas da esperana, e que a esperana
Tinha expirado ao limiar do goso,
Mais lhe turbou a fronte carregada.
O misero sorriu-se. Em tal sorriso
O passado e o futuro estava impresso,
E da sua alma a dolorosa noite.


V.

No mais o trovador no lar da infancia
Repousar talvez: talvez sua harpa
Durma pendente em solitario tronco
Do pinheiro bravio, onde a desfaa
O spro do aquilo. Ao desditoso
Sonho de gloria e amor tinha emballado;
Mas foi sonho, e passou, e uma existencia
Nua d'encantos despregou-se ante elle.
Quem o consolar?--De fogo essa alma
Consolo no ter, nem quer consolo.
A maldico de Deus vestiu-lhe a vida
De padecer e lagrymas. Ignoto
Ser ao mundo que surgiu na terra
O genio de um cantor, bem como planta
Morta apenas sada  flor do solo,
Ou como a aragem da manhan, que passa
Antes de o sol nascer, em dia estivo.

E que importa essa gloria ao dono della?
Esse fructo do Asphaltite que encerra
Seno cinza em involucro formoso?
Que  o eccho de um nome, que no soa
Seno sobre o sepulchro do que impresso
Na fronte o trouxe, em meio de amarguras,
Por vezes de ignominias?
                         Vive, oh triste,
Esquecido do mundo, e esquece o mundo!
Nas solides profundas da tua alma,
Vazia das paixes que a assassinaram,
Some os cantos que della transudavam
Para correr n'um seculo sem vida,
Sem virtude e sem f, e em que desabam
As crenas todas do passado, e  sonho
A constancia e o amor.
                        Palavras estas
Extremas foram do proscripto. Longe,
Em praia estranha abandonando a barca,
Qual o seu fado foi ninguem mais soube.




N'UM ALBUM.


Quando o Senhor envia
O trovador ao mundo,
Faz devorar a essa alma
Fel amargoso e immundo;

Porque lhe diz:--Poeta,
Vai conhecer a terra;
Prova dos seus deleites;
Prova do mal que encerra.

Desses e deste esgota
As taas muitas vezes,
Embora de uma e d'outra
Aches no fundo fzes:

E quando bem souberes
Que tudo  sonho vo;
Que  nada a dor e o goso,
Slta o teu hymno ento.

E o pobre desterrado
Vem seu mister cumprir.
Nasce: homens e universo,
Tudo lhe v sorrir;

E o seu balbuciar
Um canto  d'innocencia:
Mas outro foi seu fado;
Guia-o a providencia.

 cherubim precto
Qu' inda entrev o cu,
Mas atravs da vida,
Mas atravs de um vu.

Em turbilho d'affectos,
Seu ntimo viver
Rapido lhe devora
Sperana, amor e crer.

Do goso nos delirios
Debalde busca o amor;
Saudade melancholica
Pede debalde  dor.

Depois, desanimado,
Pra a pensar em si,
Acha no seio um ermo,
E tristemente ri.

 desde aquelle instante
De um acordar atroz,
Que ao condemnado lembra
Do que o mandou a voz.

Ento entende e cumpre
Seu barbaro destino;
Ento  que elle aprende
A modular um hymno.

Virgem, ao que assim passa
Por meio do existir,
Calcando os frios restos
Do crer e do sentir,

No peas te revele
Sua alma na poesia,
E d aos pensamentos
O encanto da harmonia;

Porque l, nesse abysmo,
No resta uma illuso:
S ha perpetua noite,
E injuria e maldico.

No entenderas, virgem
Ainda innocente e pura,
O canto que surgira
Dessa alma gasta e escura.

Deixa-o seguir seu norte,
Cumprir misso cruel;
Deixa-o verter o escarneo;
Deixa-o verter o fel;

Deixa-o cuspir em faces
Onde no ha pudor,
E ao mundo, ebrio de si,
Rindo ensinar a dor.

As sanctas harmonias
De cantico innocente
Sabe-as o alvor do dia
Quando rompe do oriente;

Murmura-as o regato;
Vibra-as o rouxinol;
Vem no zumbir do insecto,
No prado, ao pr do sol;

Vivem no puro affecto
Da filial piedade,
Nos sonhos e esperanas
Da juvenil idade.

Esta poesia  tua:
Eu j a ouvi e amei;
Mas hoje nem a entendo,
Nem repeti-la sei.

Assim, meu nome s
Escreverei aqui;
Som vo, intelligivel
Apenas para ti;

Extincto candelabro
Do templo do Senhor,
Que por algumas horas
Deu luz, teve calor;

Lenda de sepultura,
Que fala em gloria e vida,
E esconde ossada infecta
Dos vermes corroda;

Pinheiro solitario,
Que o raio fulminou,
E que gemeu tombando,
E no mais murmurou.
*/




A FELICIDADE.


Era bello esse tempo da vida,
Em que esta harpa falava de amores:
Era bello quando o estro accendiam
Em minha alma da guerra os terrores.

Nesse tempo o balouo das vagas
Me era grato, qual bero da infancia;
E o sibillo da bala harmonia
Semelhante  de flauta em distancia.

Eu corri pelos campos da gloria,
D'entre o sangue colhendo uma palma,
Para um dia a depor aos ps dessa
Que reinou largo tempo nesta alma.

Mas qual ha corao de donzella,
Que responda a um suspiro de amor,
Quando vibra nas cordas sonoras
Do alade de pobre cantor?

Triste o dom do poeta!--No seio
Tem volco que as entranhas lhe accende;
E a mulher que vestiu de seus sonhos
Nem sequer um olhar lhe compr'hende!

E trahido, e passado de angustias,
Ao amor este peito cerrara,
E, quebrada, no tronco do cedro
A minha harpa infeliz pendurara.

Um vu negro cubriu-me a existencia,
Que gelada, que inutil corria;
Meu engenho tornou-se um mysterio
Que ninguem neste mundo entendia.

E embrenhei-me por entre os deleites;
Mas tocando-o, fugia-me o goso;
Se o colhia, durava um momento;
Aps vinha o remorso amargoso.

Esqueci-me do Deus que adorara;
O prestigio da gloria passou;
E a minha alma, vazia de affectos,
No limiar do porvir se assentou:

Meus pulmes arquejaram com ancia,
Buscando ar na amplido do futuro,
E smente encontraram, por trvas,
De sepulchros um halito impuro.

Mas, emfim, eu te achei, meu consolo;
Eu te achei, oh milagre de amor!
Outra vez vibrar um suspiro
No alade do pobre cantor.

Eras tu, eras tu que eu sonhava;
Eras tu quem eu j adorei,
Quando aos ps de mulher enganosa
Meu alento em canes derramei.

Se na terra este amor de poeta
Corao ha que o possa pagar,
Sers tu, virgem pura dos campos,
Quem vir a minha harpa acordar

Como a luz duvidosa da tarde,
Quando o sol leva ao mar mais um dia,
Reverbera poesia e saudade
Na alma immensa de um rei da harmonia;

Tal poesia e saudade em torrentes
No teu meigo sorrir eu aspiro,
E no olhar que me lanas a furto,
E no encanto de um mudo suspiro,

Para mim s tu hoje o universo:
Soa em vo o bulicio do mundo;
Que este existe smente onde existes:
Tudo o mais  um ermo profundo.

No silencio do amor, da ventura,
Adorando-te, oh filha dos cus,
Eu direi ao Senhor:--tu m'a dste:
Em ti creio por ella, oh meu Deus!




OS INFANTES EM CEUTA.

DRAMA LYRICO EM UM ACTO.

(1415)


_O infante D. Duarte._
_O Infante D. Pedro._
_O Infante D. Henrique._
_Gulnar_, filha do wali de Ceuta.
_Lobna_, escrava.
_Haleva_, escrava.
_Um pagem._
_Um sobrerolda._
_Cro de cavalleiros portugueses._
_Cro de cavalleiros mouros._
_Cro de escravas, e de eunuchos negros._



SCENA I.


    Sala d'armas do alcacer de Ceuta. Cros de cavalleiros portugueses.
    D. Duarte, D. Pedro e D. Henrique entram na scena agitados: D.
    Duarte pra, cruza os braos e contempla por um instante os
    cavalleiros que ficam immoveis: os infantes afastam-se para um lado
    falando a ss, e volvendo de quando em quando os olhos para o
    principe.


D. DUARTE.

Eia pois, cavalleiros! Breve os mares
Cruzaremos de novo alm do Estreito!
Os inimigos timidos refogem
Da conquistada Ceuta.
Pelas campinas pallidas, ao longe,
Das altas torres espraiando os olhos,
No se v alvejar l no horisonte
Um albornoz mourisco.
Folgue o que volta  patria enriquecido
Pela ganhada gloria: folgue aquelle
A quem coube o desterro entre estes muros,
Por conservar erguida
Sobre a mesquita a cruz, sobre as ameias
O estandarte real: morrendo,  martyr:
Seu nome eterno viver na historia.
Folgae, meus cavalleiros!


CRO DE CAVALLEIROS VELHOS.

Oh, bem vinda, bem vinda essa nova,
Para o velho homem d'armas d'elrei,
Que ha trinta annos nos diz:--combatei!
Sem jmais a armadura largar!

Sob o forro do elmo pulido
Nossa fronte, senhor, se enrugou,
E estes peitos robustos quebrou
Dos arnezes continuo pesar!

      Bem vinda a hora
      Em que voltemos,
      E emfim saudemos
      O nosso lar;
      Em que possamos
      No patrio rio
      O sol do estio
      Ver scintillar;
      E, dos sinceiros
      Entre a espessura,
      Da guerra dura
      Ir repousar!


CRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.

    Parti vs, cavalleiros:
    A Portugal tornae;
    E o nosso nome s bellas
        Donzellas
        Lembrae!
     Dizei-lhes que, se s lides
     Votmos peito e braos,
     Por ellas suspiramos,
        E amamos
        Seus laos;
     E que destes labios
     Palavra amorosa
     Por moura formosa
     Jmais sair.
     Opprobrio e vergonha
     Ao que as esquecer!
     Infamia ao que arder
     Por filha d'Allah!


    D. Pedro e D. Henrique dirigem-se, com colera mal reprimida, ao meio
    dos cavalleiros.


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Infamia, dizeis vs?


D. DUARTE.


    Aproximando-se vivamente delles, e guiando-os pela mo para a frente
    da scena.



                    Por Deus, calae-vos!
Ignoram vosso amor esses guerreiros.
Da patria elles falavam:
No a trahir juravam.
E vs? Vs que sois filhos
D'elrei de Portugal; vs, cavalleiros,
Que d'Aviz e Lancastre a gloria herdastes,
Vosso nome manchastes
Com um affecto ignobil...


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Que ousaes dizer, senhor!


D. DUARTE.

Sim, ignobil affecto! Amor gerado
Entre rios de sangue, ao lampejarem
Cruzados ferros, no aduar mourisco
 viva fora entrado.
Conduziu-vos, dissestes-me, o combate
A suberbo palacio. Alto repouso
Era de morte ahi: seus defensores
Tinha-os o ferro portugus ceifado,
Duas mouras formosas,
Vencidas do terror, na fuga anciosas,
Cahindo a vossos ps pediram vida,
Liberdade, honra, e vs...


D. PEDRO.

                           Assegurmos-lhes
Liberdade, honra e vida. Oh, somos filhos
D'elrei de Portugal, e cavalleiros!
Era o nosso dever.


D. DUARTE.

                 E era-o cederdes
A um amor insensato; o prometterdes
Pelas nocturnas trvas conduzi-las
s naus que vo partir?


D. HENRIQUE.

Ser rouba-las
 falsa crena do koran...


D. DUARTE.


    Com vehemencia.


                             E a infamia
Lhes gravareis depois nas frontes puras?
Isso  torpe! Isso  vil!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

                          Senhor infante!


D. DUARTE.


    Com ardor.


Oh, que no ha-de ser! No quarto d'alva
A armada partir.


D. PEDRO E D. HENRIQUE.


    Com inquietao.


                  Zombaes?


D. DUARTE.

                           Ouvi-me!
 o mandado d'elrei...


    Dirigindo-se aos cavalleiros.


      Meus velhos guerreiros,
      As armas tomae,
      E  praia fremente
      Os passos guiae;
      Que as nus j fluctuam:
      No tarda o partir.
      Nos mares a aurora
      Veremos surgir.


CRO DE CAVALLEIROS VELHOS.


    Ajoelhando e estendendo os braos para o cu.


      Virgem! Esperana!
      Estrella do mar,
      Ouvi nosso orar;
      Mandae-nos bonana!
      Salvae-nos, salvae-nos!
      E  patria levae-nos!


    Erguem-se e vo saindo. Ouve-se-lhes ainda ao longe.


       patria levae-nos!...


D. DUARTE.

      Guerreiros novis
      As armas vest,
      E os muros de Ceuta
      De lanas cubr.
      Bandeira da serpe,
      Bandeira d'elrei,
      No alcacer, nas torres
      Guardae, ou morrei!


CRO DE CAVALLEIROS MANCEBOS.


    Tirando as espadas e cruzando-as umas sobre outras.


      Contentes saudamos
      Os dias de guerra:
      Ser dignos da terra
      Da infancia juramos.
      O brao no treme!...
      O peito no teme!...


    Vo saindo, e ouve-se-lhes ainda fra:


      O peito no teme!...


D. DUARTE.

      Restam bem poucas horas:
      Salvos estaes infantes!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Sabe um amor immenso
      Horas fazer de instantes.


D. DUARTE.

      Que!? Ousarieis 'inda?...


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Ns ousaremos tudo!


D. DUARTE.

      No! Filial piedade
      Vos servir d'escudo!


    Com gesto supplicante.


      Pela memoria sancta
      De nossa me querida,
      Que na feral jazida
      Tal crime assombrar,
      Afugentae qual sonho
      Esse insensato amor,
      Que o odio, que o furor
      Do cu accender!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Mas deste amor profundo
      Quem nos libertar?


D. DUARTE.

      Vde quem sois, e o mundo
      Como vos julgar!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Duas formosas almas
      Por ns a f ganhou.


D. DUARTE.

      Antes por vs o sangue
      De Aviz se deshonrou.


UM PAGEM.


    Entrando apressado.


Principe, elrei vos chama.


D. DUARTE.

                           Ide; eu vos sigo.


    Lanando os braos ao pescoo dos dous infantes apenas o pagem se,
    D. Duarte os vem conduzindo lentamente para a frente da scena.


Oh meu Pedro, oh meu Henrique,
Louco intento abandonaes?!
No passar de Ceuta as portas
Hoje, aqui, vs me juraes?!


    Os dous, volvendo olhar rapido um para o outro



D. PEDRO E D. HENRIQUE.

Senhor, do sceptro herdeiro,
Vossos irmos mandaes...
De Ceuta as ferreas portas
No cruzaremos mais!


D. DUARTE.

Basta-me tal promessa!
S mentem desleaes.




SCENA II.

D. PEDRO E D. HENRIQUE.


D. HENRIQUE.


    Olhando para o principe que se, e sorrindo.


A promessa ha-de cumprir-se!
Nobre infante, vae seguro!


D. PEDRO.


    Com hesitao.


Mas de Ceuta o erguido muro
Como alm, hoje, transpr?...


D. HENRIQUE.


    Conduzindo D. Pedro a uma gelosia, e apontando para fra.


Vedes vs, l em baixo, esse vulto
Amplo e negro da torre de Fez,
Que inda ha pouco o mais forte pavez
Do vencido muslim se ostentou?


D. PEDRO.

Vejo; e lembram-me as portas robustas
Que a acha d'armas a custo desfez;
E que nesse momento se fez
Um silencio que instantes durou...


D. HENRIQUE.

E parmos; e ouvimos ao longe
Tinir d'armas, correr de corceis,
E o confuso bradar d'infiis,
Restrugindo os seus gritos de dor...


D. PEDRO.

Subterraneo caminho os salvava
Das espadas dos nossos fiis,
Quando inuteis alfanges, broqueis
Lhes tornra profundo terror...


D. HENRIQUE.

O que ao mouro no trance tremendo
De destino cruento remiu,
Esta noite, a quem nunca mentiu
De mentir uma vez salvar.


D. PEDRO.


    Com grande jubilo.


Oh sim! sim! Velae guardas de Ceuta!
Outras portas o amor nos abriu;
Nossa estrella dos cus nos sorriu;
O caminho, o caminho  por l!


D. HENRIQUE E D. PEDRO.

      Noite placida e formosa,
      Noite grata a um vivo affecto,
      Para ns no torvo aspecto
      Te deslisa almo prazer!

      Bella noite silenciosa,
      S propicia ao nosso intento;
      Com teu vu cobre o momento
      Do partir e do volver!




SCENA III.


    Sala nos paos do wali Bensal n'uma aldeia das vizinhanas de
    Ceuta. Um candelabro, que derrama uma luz frouxa, pendente do tecto.
    No fundo, sobre uma especie de coxim elevado, Gulnar reclinada. Cro
    de donzellas arabes cantando ao som de harpas.


CRO.

      Dorme, dorme desgraada!
      Dorme, filha do wali!
      Possa o somno sobre ti
      O consolo derramar.

      Quando dormes  teu gesto
      Brando e meigo qual de huri;
      Mas vingana nelle ri
      Ferozmente ao despertar.


GULNAR.


    Erguendo-se lentamente.


Oh, como  doce o som de vossas harpas,
Desterradas de Ceuta!.. Adormecestes
Um pouco minha dor. Senti correrem
Destes olhos as lagrymas... Ai! breve,
Repentino terror veio enxuga-las.
Meu pae... Que diz Levi?


CRO.

                         Oh Deus!


GULNAR.

                                  Entendo:
No tenho que esperar?..


CRO.

      Delira. Golfa o sangue
      Da profunda ferida,
      Por onde foge a vida
      Do inerte corpo exangue.


GULNAR.


    Com gesto ameaador, e erguendo-se.


      Oh, basta! Inulto,
Senhor de Ceuta, em cemiterio estranho
No dormirs! Meu pae, Gulnar t'o jura!
Lobna e Haleva onde esto?




SCENA IV.

LOBNA E HALEVA.


    Entrando apressadamente assustadas.


LOBNA.

                         Eis-nos, princesa!
Os espias voltaram: tumultuando
Na marinha de Ceuta homens, ginetes,
Ao pr do sol: as naus soltando as vlas,
Proas  terra: o esquife aps o esquife
Entre a praia e as gals cruzando as ondas;
Tudo do amir christo mostra a partida.


GULNAR.

O tigre portugus volta ao seu antro!
Mas Ceuta...


    Com amargura.


             Profanada e serva s Ceuta!
O que te amou qual pae jaz moribundo
No seu leito de dor. Foi por salvar-te
Prola rica do Moghreb. Inutil
O sangue se verteu! Oh, sem vingana
No ficaremos ns: ns ambas orphans,
Eu desterrada e tu escrava. O nobre
Teu senhor e meu pae, talvez, da aurora
No veja mais a luz. Mas trema o fero
Amir de Portugal! Gulnar, a filha
Do vencido wali, ha-de vinga-lo.
Lobna e Haleva esta noite...


HALEVA.


    Hesitando.


      E quem vos disse
Que elles ho-de voltar?..


GULNAR.

                           O juramento:
O juramento seu!.. J no sois servas,
Bellas filhas do Caucaso; sois socias
Da implacavel Gulnar. A vs a gloria
De tornar mais cruel su' hora extrema.
Quanto ardente paixo tem de ternura
Quantas fascinaes ha no amor virgem:
Quanto o meigo sorrir, quanto as promessas,
O pranto, o resistir tem de delirio;
Tudo, tudo empregae! Raio de morte,
Juncto s portas do cu, lance-os no inferno.


    Erguendo as mos.


      Escuta, emfim, meu pranto,
      Dos impios vencedor:
      Manda, propheta sancto,
      O anjo exterminador.

      Chore a roubada prole
      O portugus amir:
      Que o sangue me console
      Antes de o sol surgir.

      Cercae-os vs de goso:
      Sintam que  bom viver:
      Ser mais horroroso
      Meu brado:--Ide morrer!

      Vem, oh terrivel hora,
      Hora do meu folgar,
      Hora em que vingadora
      Triumphar Gulnar.


    Dirigindo-se ao cro.


      Ide; patente
Do alcacer seja o dito: silencio
Profundo reine em toda a parte: os gritos
Dos moribundos s... ho-de quebra-lo!
Vingana a Bensal.


CRO.

                    Vingana  patria!


GULNAR.


    A Haleva e Lobna com gesto terrivel.


Em breve me vereis!...




SCENA V.

LOBNA E HALEVA.


    Olham aterradas para Gulnar, que sai precedida do cro, e depois
    correm a lanar-se nos braos uma da outra.


HALEVA.

      Ai, como foi mesquinha
      A nossa escura sorte!
      Porque a terrivel morte
      Os tristes conduzir?


LOBNA.

      Oh, se Gulnar os vra,
      De sangue inda banhados,
      Vencidos, humilhados,
      A nossos ps cahir!


HALEVA.

      Que lhes valra? Sangue,
      Sangue s quer a hyena:
      A clera a aliena:
      No pde perdoar!


LOBNA.

      Haleva, minha Haleva,
      De susto eu titubeio:
      Tu imagina o meio
      De as victimas salvar.


HALEVA.

      Miseras! S nos resta,
      Em festa sanguinosa,
      Sob a traidora rosa
      O aspide esconder.


LOBNA.

      Que importa a pobre escrava
      De susto e de amor trema?
      Embora chore e gema,
      Cumpre-lhe obedecer.


HALEVA E LOBNA.

      Slta o suave canto
      Captivo rouxinol,
      Quando o nascente sol
      Derrama seu fulgor;

      E as aves vem, correndo,
      Pousar no umbroso til,
      Onde com arte vil
      As prende o caador.

      O canto da avesinha
      Foi nosso amor fatal!
      E elles... destino igual
      Lhes reservou o amor!




SCENA VI.


    Terrado no primeiro plano da Torre de Fez, cujo corpo superior se
    alevanta ao lado esquerdo no fundo, seguindo para a direita a linha
    das ameias. Ao longe o facho de uma atalaia exterior. No cimo da
    torre, tambem ameiada, outro facho, cuja claridade allumia a scena,
    onde se vem tres ou quatro vigias encostados s ameias do plano
    inferior. Sobre a porta do corpo superior da torre l-se a seguinte
    inscripo:==_Esta torre de Fez ffoy combatida e entrada pollo muy
    eyscelente e esforado Iffante Dom Anrigue a 21 Dagosto de 1415
    annos._== noite.


D. DUARTE.


    Sando seguido de um sobrerolda, ambos apressados.


      Viste-los vs?...


SOBREROLDA.

                      Jura-lo
      Posso. Dous cavalleiros:
      Negras armas: cavallo
      Negro ambos. Ligeiros
      Voam... Ouv!...


    D. Duarte chega s ameias escutando.


                  Ao largo
      Ainda soa o tropel.


D. DUARTE.


    parte com afflio e despeito.


      Oh pensamento amargo!
      Oh receiar cruel!


    Ao sobrerolda.


      E os homens d'armas?


SOBREROLDA.

                     Velam:
      No falta um s.


    Escutando para a campanha.


                 Dir-se-hia,
      Ao seu correr, que anhelam
      Voltar antes do dia.


D. DUARTE.

      No mais...


    Chegando-se s ameias, e apontando para baixo.


             Para a barreira
Cem lanas o adail
Conduza: da dianteira
Todos; que valem mil!
E eu l serei em breve:
E elles ho-de seguir-me.
Sabe-lo elrei no deve.
Ai do que ousar trahir-me!


    O sobrerolda sai.


Sob o seu gesto candido
O engano se escondia!
Era uma ida perfida
Que na alma lhes surgia,
Quando de Ceuta as portas
Juravam no transpr!
Creram que a noite lobrega
Seu crime esconderia!
Perante o cu, oh miseros,
Que importa a noite, o dia,
Se de ira se ha turbado
A face do Senhor?


    Pausa: com terror.


      Mas se a suprema clera
      Terrivel j descesse!...
      Se, em vez do goso vvido,
      A morte os acolhesse!...


    Erguendo as mos.


      Meu Deus perdoa aos tristes;
      Cede  fraterna dor!

      Oh minha me, da placida
      Morada da ventura,
      Guia-me os passos tremulos
      Por esta noite escura,
      Para salvar teus filhos,
      Filhos de tanto amor!




SCENA VII.


    A mesma sala da scena II mal allumiada pelo candelabro onde apenas
    arda um ou dous lumes: a gelosia est aberta:  noite escura. Lobna
    e Haleva sando pela direita, e parando de quando em quando, lanam
    os olhos inquietos ora para a gelosia, ora para o portico da
    esquerda.


LOBNA.

No seu rapido gyro foge a noite
Ligeira e socegada:
Fulgor da madrugada
Em poucas horas subir d'oriente.
No poderam voltar!... Respiro...


HALEVA.


    Aproximando-se da gelosia.


                                  Escuta!
Ouviste um silvo agudo?
 o signal!...


LOBNA.

               Eu tremo...
Porm no... Quedo  tudo;
Salvo um rudo sussurrando ao perto,
De almogavar talvez...


HALEVA.

                       De dous ginetes
O tropeiar parece... Elles!... So elles!
Sobre trajos de ferro espadas tinem!
No ha que duvidar...


LOBNA.

                      Oh! desfalleo!


    Ouve-se um sibillo j perto.


HALEVA.

Ei-lo o triste signal, signal de morte!
 sua esquiva sorte
No podero fugir! Meu Deus!


LOBNA.

                             Patente
Ante si tudo ho-de encontrar. Se ao menos
Suspeitassem de ns!


HALEVA.

                     Ei-los! Silencio!




SCENA VIII.


    D. Pedro e D. Henrique entrando dirigem-se para Lobna e Haleva, que
    recuam aterradas.


D. PEDRO.

      Lobna!


D. HENRIQUE.

             Haleva!


D. PEDRO.

                    O juramento
      O momento  de cumprir!
      De partir no tarda a hora:
            Ha-de a aurora
      Refulgir-nos juncto ao mar.


D. HENRIQUE.

      Sobre os rapidos corceis
      Ns fieis vos guiaremos
      Aonde achemos mil delicias
            Nas caricias
      De que amor nos vai cercar!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Vinde! a noite nos protege:
      Dorme tudo pela aldeia;
      E este brao no receia,
      Quando cumpre, o pelejar.

      Vinde ser enlevo d'almas,
      Sob um cu meigo e sereno;
      Que nunca ha-de o sarraceno
      Como ns saber amar!


LOBNA.


    Correndo ao portico da direita, e voltando com afflico e energia.


      Fug breve, oh desgraados,
      Que cercados sois da morte!
      Queira a sorte que um momento
            Seu intento
      A cumprir tarde Gulnar!


HALEVA.

      De ninguem serdes sentidos,
      J perdidos, ainda creis!
      Mal sabeis vos esperava
            Quem velava
      Para em vs um pae vingar!


LOBNA E HALEVA.

      Triste umbral haveis cruzado,
      Do wali ultimo abrigo,
      Que no extremo do perigo
      Jaz a ponto d'expirar.

      Por seu sangue a feroz filha,
      Que essas portas franqueiou,
      Vingativa aos cus jurou
      Vosso sangue derramar.


D. PEDRO.

      A perfida em recompensa
      S achou o nosso ardor?!
      Desleaes! Porque o furor
      De mulher cruel servir?


D. HENRIQUE.

      Porque a vida nos pedieis,
      No olhar terno amor pedindo,
      Quando os golpes retinindo
      Era livre inda o fugir?


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Porque em noite deliciosa
      De delirios seductores,
      Generosos vencedores
      S pensaveis em trahir?!


LOBNA.

      Uma ida tenebrosa
      De Gulnar surgiu na mente
      Nessa noite, em que estridente
      Veiu a espada aqui luzir:


HALEVA.

      Ide:--disse-nos--sois bellas:
      Fascinae os nazarenos,
      Talvez possa assim, ao menos,
      Da vingana a senda abrir!


LOBNA E HALEVA.

      A lea do deserto
      Entre as cervas se escondia:
      Seu aceno constrangia
      Pobre escrava a amor fingir.


D. PEDRO E D. HENRIQUE.


    Com vivacidade e despeito.


      Era pois um falso affecto?!...


LOBNA.

      Foi-o s um breve instante...


HALEVA.

      Hoje puro, hoje constante


LOBNA E HALEVA.

      Far-nos-ha por vs morrer.


D. PEDRO.


    Pondo a mo sobre o punho da espada.


      Que ella venha, pois, e a cerquem
      Seus escravos traioeiros!
      Portugueses, cavalleiros
      Somos ns: ha-de tremer!


D. HENRIQUE.

      Sabe o forte nos combates
      Se este brao  prompto e duro;
      O covarde, que no escuro
      Fere s, o ha-de saber!


LOBNA E HALEVA.


    { Oh, fugi; que ainda  tempo,
    { Antes de ella aqui volver!
    {
  4 {  D. PEDRO E D. HENRIQUE
    {
    { Partiremos! Dentro em breve
    { Nos vereis aqui volver!


    O exterior da sala illumina-se de repente: a luz penetra pela
    gelosia, e pelos porticos da direita e da esquerda. Os infantes, que
    vo a sair, param e escutam.


CRO DE GUERREIROS MOUROS, _fra_.

Gloria ao sancto propheta que aos impios
A cerviz insolente vergou,
E do amir portugus crueis filhos
Do muslim ao punhal entregou!


LOBNA E HALEVA.

      Bateu funerea hora...
      Morreu nossa esperana!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Resta-nos a vingana...
      Sangue por sangue... Embora!




SCENA IX.


    Eunuchos negros armados de punhaes, que se precipitam na scena e vo
    collocar-se no fundo do theatro. Gulnar, saindo da direita,
    encaminha-se vagarosamente para as escravas e para os infantes.


GULNAR.


    A Lobna e Haleva.


      Fugir?!...  tarde, infames!
      Vs me trahieis, vs!
      Tremei! Gulnar velava...
      E eu sou vosso juiz!


    Aos infantes.


      Deponde inuteis ferros,
      De Ceuta vencedores!
      L fra meus guerreiros...


    Apontando para os eunuchos.


      Alli meus vingadores.


LOBNA.                         HALEVA.

      -------------^-------------

Ide trahi-los--          Para trahi-los
Impia,disseste...         Nos escolheste!..
Mui facil creste          Se nos venceste
Fingir amor.              Foi por temor.


LOBNA E HALEVA.

      Morrer com elles
       grata pena...
      Feroz hyena,
      Temos-te horror.


D. PEDRO.                 D. HENRIQUE.

      -------------^-------------

Aos teus escravos,          Os teus escravos
Mulher infida,              Com mortal lida
Mais larga vida             A nossa vida
Deixa gosar!                Tem de comprar!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Que nunca o susto
      Nos fez no p'rigo
      O ferro amigo
      Abandonar.


    Comea a ouvir-se um rudo como de golpes de machado.


GULNAR.

      Da louca audacia,
      Da van affronta
      Vingana prompta
      Gulnar vai ter.


    O rudo augmenta: tinir d'armas, gritos confusos.


      Mas qual rudo
      Confuso soa?
      Porque reboa
      Voz do adail?!...


    Ao chefe dos eunuchos, apontando para o portico da esquerda.


      Hussein!.. O ferro
      Retine!.. Gritos!
      Gemer d'afflictos!
      Sons de anafil!..


    Toque de trombeta fra. Hussein sai correndo pela esquerda: Gulnar
    fica suspensa.


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Que escuto?! L bradaram:
      --So Jorge! vante, vante!
      Oh jubiloso instante!
      Restruge o pelejar.


GULNAR.


    Acenando aos eunuchos.


      Morram os impios! Morram!
      Servos, rasgae seu peito.
      Sintam, emfim, o effeito
      Dos odios de Gulnar.


    Os infantes dirigem-se para o portico da esquerda: os eunuchos
    apinham-se diante delles com os punhaes erguidos: o cro das
    donzellas arabes precipita-se na scena pela direita com gestos de
    assombro e terror: no mesmo tempo pela esquerda guerreiros mouros
    fugindo desordenados diante dos cavalleiros portugueses, que rompem
    por entre os eunuchos e os dous infantes.





SCENA X E ULTIMA.


    Os dictos: D. Duarte: cros de cavalleiros portugueses e mouros:
    cro de donzellas arabes. Os mouros fugindo param no fundo da scena,
    e os cavalleiros portugueses prolongam-se pela esquerda. Gulnar,
    recuando, fica rodeada dos eunuchos e das donzellas. Lobna e Haleva
    refugiam-se juncto dos infantes.


CRO DE DONZELLAS.

      Que horrivel espectaculo!
      Por toda a parte a morte...


CRO DE GUER. MOUROS.               CRO DE CAVALLEIROS.

             ---------------^---------------

Ferros inuteis, ide-vos:          Cede o agareno timido:
Cumpra-se a nossa sorte!          Honra ao valor do forte!


Depondo os alfanges no cho.      Brandindo as armas.



D. DUARTE.


    Lanando os olhos para os eunuchos armados de punhaes estremece, e
    correndo para os infantes, ergue as mos ao cu.


      Vivos ainda, e inclumes!
      Graas te dou, Senhor!
      Laos de um impio amor
      Vinha-lhes eu partir...
      E a morte ia-os ferir!..
      Graas, oh meu Senhor!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.


    Curvando o joelho aos ps de D. Duarte.


      Foste enganado, e salvas-nos!..
      Perdoa, nobre infante!
      Foi de delirio instante,
      Que ao erro nos levou.


LOBNA E HALEVA.

      Agita ancioso o seio
      Insolito pulsar;
      Mas d'horrido receio
      No  este agitar!


D. DUARTE.


    Abraando successivamente os irmos.


Pedro, Henrique, sois salvos! Invencivel
A espada portuguesa,
Mais uma vez, terrivel,
A barbara fereza
Dos infiis domou.
O perfido punhal,
Da vingana guiado, em vo se alou...


GULNAR.


    Adiantando-se.


Vencestes, nazarenos!
Folgae na vossa gloria...
Segu facil victoria.
Pun-me! Eis-me captiva...
Do vosso amir na prole
Vingar meu pae eu quiz...
Pensando-o era feliz:
Agora infeliz sou.
Morrer  a esperana,
Que o fado me deixou.


CRO DE CAVALLEIROS.


    Interrompendo Gulnar, e brandindo de novo as armas.


Pune, oh principe, infames traidores:
Lava a affronta do sangue real!
Dos covardes, em trance fatal,
Tinja as faces da morte o pallor!


CRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.


    Com gesto supplicante.


Por piedade, dos teus seguidores
No escutes o voto lethal!
Generoso, o seu odio infernal,
Por piedade, no ouas, senhor!


D. DUARTE.


    Aos cavalleiros.


Silencio!


    Aos mouros.


          Livres sois.


    Aos cavalleiros.


                    Nunca aos vencidos
Sangue pediu meu pae. Eu serei digno
Filho do vosso rei.


    A Gulnar.


                    Mulher, s livre.


GULNAR.

      Tua clemencia hypocrita,
      Tyranno, vem mui tarde!
      Pensas apagar, barbaro,
      Fogo que immortal arde?!

      D-me Ceuta, a miserrima:
      Torna-me um pae que expira:
      Foge das praias d'Africa
      Serva, que mal respira!

      Foras assim magnanimo:
      Grata Gulnar te fora:
      Sem isso, um favor unico,
      Prompto morrer te implora!


CRO DE MOUROS E DONZELLAS.     CRO DE CAVALLEIROS.

             ---------------^---------------

Turba-te a dor e a clera,     Da perfida a van clera
Filha de Bensal:              Inutil brame j:
A tua raiva indomita           Do seu cruel proposito
 van e inutil j!             Ella nos vingar.


    Em quanto duram os cros o principe e os infantes falam em voz
    baixa: os infantes apontando para Lobna, e Haleva: D. Duarte
    mostra-se agitado, e depois dirige-se rapidamente para ellas.


D. DUARTE.


    Tomando pela mo as duas escravas.


      No!... Innocentes victimas
      D'impios no deveis ser!
      O vosso amor ingenuo
      Cumpre-vos esquecer;
      Mas a vingana barbara
      No vos entregarei.
      A Portugal seguindo-nos


    Olhando para os infantes com aspecto severo.


      Eu vos protegerei!


LOBNA E HALEVA.

      S ir nos concede
      O fado inhumano
      Alm do oceano
      De amor expirar!


D. PEDRO E D. HENRIQUE.

      Nest'hora solemne
      Do peito no arcano
      Nosso amor insano
      Juramos calar.


D. DUARTE.

      Da nossa clemencia
      Aprenda o africano
      A ser nobre e humano,
      E o que  perdoar.


GULNAR.

      Do meu odio immenso
      Cruel desengano!..
      Feroz lusitano
      Se ri de Gulnar!


CRO DE CAVALLEIROS.

      Risquemos da mente
      O perfido engano;
      Que o principe humano
       bello imitar.


CRO DE GUERREIROS MOUROS E DONZELLAS.

      A nobre clemencia
      Do heroe lusitano
      quem do oceano
      Sempre ha-de lembrar.




LIVRO TERCEIRO

VERSES.




O SECCAR DAS FOLHAS.

(_Millevoye_).


Das ruinas destes bosques
O outomno alastrou o cho:
A selva perdeu seus mimos;
Os rouxinoes mudos so.

No bosque, amigo da infancia,
Triste um joven vagueiava;
Na sua aurora a doena
Para o sepulchro o inclinava.

Adeus floresta querida!
Vestes lucto por meu fim?
Como te cai folha e folha
A morte me segue assim.

Intima voz, que revela
Seu fado extremo aos mortaes,
Me diz:--vs cahir as folhas?
So essas s: no ha mais!

Sobre esta pallida fronte
O torvo cypreste ondeia,
Como o que, pharol de mortos,
Sobre campas se meneia.

Antes da vide na encosta,
Antes da relva no prado,
Os dias da juventude
Tero para mim murchado!

Minha linda primavera
Qual a van sombra passou!
Eu morro: o euro gelado
Da vida a seiva mirrou.

Ce, oh passageira folha;
Vem esta senda cobrir;
Esconde ao pranto materno
Logar onde vou dormir.

Mas se vier minha amante,
Involta em vu luctuoso,
Ao pr do sol, na lameda,
Dar-me um suspiro saudoso,

Com o teu leve rugido
Desperta, oh, desperta o morto;
Que assim sua sombra tenha
Ainda allivio e conforto!

Disse: afastou-se, e no volve:
Ultima folha cahiu:
Era o signal: seu sepulchro
Sob o carvalho se abriu.

Mas sua amante no veio:
E s do valle o pastor
Quebrou com som de passadas
Repouso do trovador.




A NOIVA DO SEPULCHRO.

(_Imitado do inglez_).


I.

Juncto da raia d'Hespanha,
  Em monte calvo e deserto,
  V-se um vulto negro ao longe,
  Castello , vendo-se ao perto:
Mas castello derribado,
  De bons tempos, de outras eras,
  Hoje abrigo escuro e triste
  De reptis e bravas feras.
Foram formosos e fortes
  Esses muros derrocados,
  Por onde trepam as heras;
  Que cingem bastos silvados.
A voz delrei nelle tinha
  Nobre alcaide dom Sueiro;
  Nobre por sua linhagem,
  Nobre por bom cavalleiro.
Noivados, torneios, festas,
  Ninguem sem elle fazia:
  Ninguem, sem o convidar,
  Ajustava montaria;
Que nunca da sua bsta
  Virte partiu em vo;
  Como nunca os justadores
  O viram perder o aro.
Mulher, que elle muito amara,
  Lh'a roubara a sepultura;
  Mas por este golpe o alcaide
  No mostrou grande tristura.
At corria entre o povo
  Um mysterio de maldade...
  Suppunham uns ser mentira;
  Criam outros ser verdade.
Mas o que? Cubria a terra
  Esse caso mysterioso;
  E s o povo saba
  Ser viuvo o que era esposo.


II.

Cedo se ergue dom Sueiro;
  Cavalga no seu cavallo,
  E para caada alegre
  Passa quem do extremo vallo.
Por essas margens do Lima,
  Debaixo de puro cu,
  O nobre senhor alcaide
   rdea solta correu.
Veredas segue torcidas,
  At descubrir o outeiro,
  Que revestem pela encosta
  O zimbro, a urze e o pinheiro.
Soam sonoras buzinas,
  Ri do dia o lindo alvor,
  E no meio da paizagem
  Uma brilha e outra flor.
Dom Sueiro o seu cavallo
  Incita com ferrea espora;
  Que no logar aprazado
  Deve estar dentro de um' hora.
Nada lhe pe embarao;
  Nem resonantes ribeiros,
  Nem as chans apaladas,
  Nem escarpados outeiros.
Mas ao sair da floresta,
  Ainda perto do rio,
  Viu ir formosa donzella
  Buscando do ermo o desvio.
Celestes so seus meneios:
  No mortal, anjo parece:
  Da sua tez a brancura
  Alva aucena escurece.
O seu corcel dom Sueiro
  Fez parar. J se esquecera
  Da caada; e que no monte
  Em breve estar promettera.
--Dizei-me vs, oh donzella,
  Quem sois, que nunca vos vi;
  Que por minha alma vos juro
  Sois j senhora de mi.
Resposta nenhuma teve,
  Que ella no lhe respondia,
  E, sempre guiando ao valle,
  A curva senda seguia.
--No me fugireis assim:
  Bof que no fugireis!
  Um momento, um s momento,
  Dom Sueiro escutareis!
Disse: desmonta, e persegue-a,
  Nos braos para a estreitar;
  Mas ella furta-lhe o corpo,
  E elle abraa o subtil ar.
--Dizei-me vs, oh donzella,
  Pela vossa alma dizei,
  De que procede tal susto,
  Que a meu pesar vos causei?
Que, pelos cus o asseguro,
   verdadeiro este amor.
  No me fujaes, bella dama:
  No ha de que ter pavor.
De esposo, se vs quereis,
  Dar-vos-hei, contente, a mo:
  Sereis dona de um castello,
  Dona do meu corao.
--Dom Sueiro, oh dom Sueiro--
  Tornou a dama formosa--
  Eu sei quem s, qual teu nome,
  E eu seria tua esposa:
Mas como crer nos teus dictos,
  Dictos de homem fraudulento?
  Conheo tuas perfidias,
  E qual  teu vil intento.
Ds que morreu dona Dulce,
  A tua infeliz mulher,
  A linda Elvira roubaste
  Para teu ludibrio ser.
Com promessas refalsadas
  Enganaste uma innocente.
  Quem crer juras de um mpio,
  Que s jura quando mente?
Ella te creu, desditosa!
  Porm no te creio eu:
  Nem, qual de Elvira o destino,
  Ser o destino meu.
E como soffrera, esposa
  Tua sendo, uma rival?
  Folgras tu nos meus zelos;
  Folgras della no mal?
Ousras tu, dom Sueiro,
  A pobre Elvira expulsar,
  E dias de angustia e pejo,
  Misera, v-la tragar?--
Oh, voto a Christo, que sim!--
  O nobre alcaide atalhou:
  E desfazer-se de Elvira,
  Com mil pragas, protestou.
--Mas dizei vs, dama linda,
  Quem sois? quem so vossos paes?
  Que eu vos direi de mim tudo,
  Se tudo me perguntaes.--
Nunca!--tornou a donzella:--
  Quem eu sou no te direi.
  Nada te devo por ora:
  Quando dever pagarei.
Mas pdes estar seguro,
  Que, bem que nobre senhor.
  No  que o meu o teu sangue
  Sangue de maior primor.--
Pois sim, querida, pois sim!--
  Dom Sueiro proseguia;
  E algum signal de ternura
   bella dama pedia.
No, oh no, meu cavalleiro!
  Quando a mim te vir ligado
  Tua serei; que antes disso
  Fra horroroso peccado.--
Porm dizei-me, oh donzella,
  Onde vos hei-de encontrar?
  Que, pela cruz, ahi juro
  Nossas nupcias celebrar.--
Oh, que no ser de dia;
  Que mal de ns julgaro!--
  Tornou a dama--e os praguentos
  Certo de mim se riro.
 pela noite que eu voto;
  De noite no cemiterio,
  Quando soar doze vezes
  O sino do presbyterio.
Sob o teixo solitario,
  Onde ninguem nos no veja;
  E aonde nunca chegar-se
  Quem passar ousado seja.--
Vivam meus lindos amores!--
  Interrompeu dom Sueiro:--
  Sob o teixo,  meia noite?...
  Veremos quem vae primeiro.--
Sim!--volveu ella--a ess' hora.
  Nenhuma fra melhor;
  Porm, da tua palavra
  Que me dars em penhor?--
Minha paixo em seguro
  Do que promett te dou:
  Nunca promessas mentidas
  Fez quem devras amou.
Curvando o joelho, eu juro
  Teus grilhes sempre rojar:
  Meu corpo e alma so teus;
  E o tempo o ha-de provar.--
Basta!--a donzella lhe disse.--
  Dom Sueiro, sou contente.
  So meus teu corpo e tu' alma:
  Meus sero eternamente.--
Dicto isto, ao longo do rio
  Ligeira a senda seguiu,
  E elle aos outros caadores
  Alegre se reuniu.


III.

J da larga montaria
  O folguedo se acabava,
  E dom Sueiro ao castello,
  Ao seu castello voltava.
Arde-lhe na alma o desejo
  Com as imagens do goso,
  E re-lhe ida damnada
  O corao criminoso.
Infeliz e linda Elvira,
  Nos dias da juventude,
  Perdera nos braos delle
  Flor de innocencia e virtude.
Mas gosos faceis no duram;
  Breve aps o tedio chega:
  Elvira  j enfadonha:
  Novo amor o alcaide cega.
Cumpre de si afasta-la:
  O caso difficil :
  Ajunctar crime a crime?
  Elle outro meio no v.
Emfim decidiu-se: a morte
  Em aurea taa lhe deu.
  Nobre senhor, folgar pdes,
  Teu crime a terra escondeu!
Era noite: e dom Sueiro
  Para o adro ermo partia.
  Logar, horas ou remorsos,
  Nada terror lhe infundia.
Brilha a lua em seu crescente:
  Passa a noite silenciosa;
  E s lhe quebra o socego
  O mocho e a fonte ruidosa.
Ao cabo o adro elle avista:
  No meio o teixo lhe avulta:
  No deu meia noite ainda;
  A dama ainda se occulta.
Mas troa o sino! Uma!... Duas!...
  Contou; contou: mais dez so:
  E uma donzella, de branco,
  Surge da lua ao claro,
E est debaixo do teixo.
  Para l o alcaide corre.
  No enganou seus desejos
  Essa por quem elle morre.
Porm que  isto? Reca?
  Para trs a face vira?
  Sim; que no era a donzella,
  Mas o phantasma de Elvira.
Maldicto!--clamou o espectro--
  Pune a traio o traidor.
  Negro o sepulchro te espera.
  De teu mal s s o auctor.
Pensa, monstro, emquanto  tempo;
  Que no tardar teu fim.
  Teu nome apagou-se. Agora,
  Recorda-te bem de mim!--
No disse mais; e esvaeceu-se.
  Dom Sueiro, espavorido,
  Fugiu: sem volver os olhos,
  Sem parar, sempre ha corrido.
Brilha a lua em seu crescente:
  Passa a noite silenciosa;
  E s lhe quebra o socego
  O mocho e a fonte ruidosa.
 porta do seu castello
  J dom Sueiro chegava.
  Alli, vestida de branco,
  Do bosque a donzella estava.
Mal-hajas tu, cavalleiro:--
  Apenas o viu lhe disse:--
  O ter de mulheres medo
   signalada pequice.
Fui eu que fiz de phantasma:
  Teu valor conhecer quiz.
  Tremer como tu tremeste
   s proprio de homens vs.--
As faces do nobre alcaide
  De vermelho se tingiram;
  Mas voltou logo a ternura;
  Passados sustos fugiram.
Vinde a meus braos, querida!
  Vinde: no vos detenhaes,
  Digna de ser minha esposa
  S vs sois, e ninguem mais.
Neste sitio, hoje vos juro
  Amor firme e puro e ardente:
  Em corpo e alma sou vosso;
  S-lo-hei eternamente.--
Em corpo e alma!?--ella clama,
  Com uma voz sepulchral.--
  Certo ser graciosa
  Nossa unio conjugal!
Ento, qual bravo terol,
  Que em sua presa poz mira,
  Ao mesquinho dom Sueiro,
  Abrindo os braos, se atira.
Arredo! Filha do inferno!--
  Grita o alcaide.--Isto o que ?
  Ai!... olhou...  dona Dulce,
  No a donzella, quem v.
Com os braos descarnados
  Ella o collo lhe estreitou,
  E os labios apodrecidos
  Aos labios delle chegou.
Mortal halito de serpe
  Seu halito assemelhava:
  Sua figura era horrivel:
  Tocada apenas gelava.
Deixa-te agora de medos:--
  Disse o espectro a dom Sueiro.--
  Que  da audacia que mostravas,
  Audacia de cavalleiro?
Tremes?... De qu, assassino?
  Antes devras tremer,
  Quando envenenaste Elvira,
  E a tua pobre mulher.
Meu amor e meus encantos
  Pouco tempo te prenderam:
  Em mim do sepulchro os vermes
  Por tua mo se pasceram.
Depois, a amar-me tornando,
  Repetiste um crime horrivel...
  Teu amor  frouxo sempre;
  Teu odio sempre terrivel!
Mas agora, odiada ou grata,
  No sairei de teu lado:
  Nada quebra no outro mundo
  Dos mortos negro noivado.
Alma e corpo me cedeste:
  O corpo aqui dormir:
  Porm tua alma comigo
  Mais longe se acolher!
No lhe respondeu o alcaide,
  Que a morte empallidecera,
  E, ao som de arranco profundo,
  No cho, extincto, batera.
Mas contam 'inda os pastores,
  Que  meia-noite vagueia
  Nas margens do ameno Lima,
  Que murmurando serpeia;
E que, gritando e gemendo,
  O seguem duas figuras,
  Ambas com brancos vestidos
  E tisnadas cataduras.




O CANTO DO COSSACO.

(_Branger_).


Vem, meu ginete: oh vem, meu nobre amigo!
Chama-te em altos sons tuba do norte.
Prestes no saque, intrepido nas brigas,
D, guiado por mim, asas  morte.

Os teus jaezes no arreia o ouro;
Mas de meus feitos o ters em paga.
Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
E os reis e os povos com teus ps esmaga.

Tuas rdeas me entrega a paz que foge.
Ei-los por terra os europeus baluartes!
Meus aureos sonhos realisa agora;
Ters repouso na manso das artes.

Volve a terceira vez ao Sena inquieto,
Que te lavou sangrento, e a sede apaga.
Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
E os reis e os povos com teus ps esmaga.

Reis, sacerdotes, grandes nos clamaram,
Entre o choro de miseros humanos:
--Cossacos, vinde ser de ns senhores!
Servos seremos, por ficar tyrannos.

E a cruz e o sceptro quebraro meus fortes;
Que eu hei tomado minha lana e adaga.
Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
E os reis e os povos com teus ps esmaga.

De um enorme gigante vi o espectro
Nosso campo correr co' a vista ardente;
E, gritando:--meu reino outra vez surge!--
Mostrar com a acha d'armas o occidente.

A sombra era immortal do rei dos Hunos;
D'ttila a voz, qual maldico aziaga.
Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
E os reis e os povos com teus ps esmaga.

De que serve seu brilho  velha Europa?
Que lhe presta o saber para salvar-se?
Os turbilhes de p, que ho-de sumi-la,
Debaixo de teus ps vo levantar-se.

Templos, palacios, leis, memorias, usos,
Na correria extrema, e pisa e estraga.
Meu ginete fiel, rincha orgulhoso,
E os reis e os povos com teus ps esmaga.




O CAADOR FEROZ.

(_Burger_).


Sua buzina tocra
  O conde, altivo senhor:
  De p, de cavallo, lerta!--
  Disse; e monta o corredor.
O nobre animal relincha:
  Pula e parte; e a turba aps.
  Ei-los vo! Quem era o conde?
  Era o _caador feroz_.
Por estevaes e por saras,
  Por campinas cultivadas,
  Voam rapidos. Resoam
  Motejos, gritos, risadas.
O sol que vinha rompendo
  Em luz as veigas banhava,
  E do zimborio do templo
  O lanternim scintillava.
_Tlim, tlo!_--convocando  missa,
  Tangia o sagrado sino;
  E involto nos sons de um orgam,
  Do cro se ouvia o hymno.
Duas sendas l se cruzam;
  E a turba chegra l.
  Da direita um cavalleiro,
  E outro da esquerda est.
Nedio ginete, qual neve
  Alvo, guiava o primeiro;
  O segundo,  rdea solta,
  Esporeava um fouveiro.
Quem taes cavalleiros eram
  Creio certo adivinha-lo,
  Bem que ainda com certeza
  No me atreva a declara-lo.
Da direita ao cavalleiro
  Fulgia o rosto formoso;
  Porm no olhar do da esquerda
  Fulgor havia horroroso.
Bem vindos sois, cavalleiros;
  Bem vindos  montaria!
  Qual prazer, no cu, na terra,
  Ao nosso se igualaria!--
Assim disse o conde, e rija
  Palmada na cxa deu.
  Atirando pelos ares
  A grande altura o chapeu.
O som da tua buzina--
  Tornou logo o da direita--
  Nem aos canticos do cro
  Nem do sino ao som se ageita.
Ruim caada te espera!
  Atrs te cumpre voltar.
  Contra ti a ira celeste
  No queiras desafiar.
Nobre conde monteae--
  Prestes o outro atalhou--
  Que importa a bulha do cro,
  E se o sino badalou?
Deixae ao povo o seu medo:
  Que para a rel foi feito.
  No so palavras sandas
  Das que merecem respeito.--
Ah, bem dicto! Oh tu da esquerda,
  Um heroe s quanto a mim.
  S padre-nossos empecem
  A algum caador ruim!
Que tem missas, que tem resas
  Com o montear, sandeu?
  Se medo queres metter-me,
  Falhou o calculo teu.--
Disse o conde. vante correm:
  Vo por campinas e outeiros.
  Sempre da direita e esquerda
  Esto os dous cavalleiros.
Eis, l em distancia, um cervo
  Branco transpe a assomada,
  Tendo de pontas galhosas
  A erguida fronte adornada.
Ento o conde a buzina
  Com mais alento assoprou,
  E tudo, a p, a cavallo,
  Com mais rapidez voou.
Ora dos que por diante,
  Ora dos que de trs vo,
  Um ou outro rebentado
  Fica no meio do cho.
E o conde:--Cahem? No inferno
  Baqueiar podesseis vs!
  Os que desalentam fiquem:
  Sem elles bem vamos ns.--
N'uma seara guarida,
  Fugindo, o cervo buscou:
  O pobre dono do campo,
  Triste, ao conde se chegou:
Meu bom senhor--clamou elle--
  Compaixo, meu bom senhor!
  Ah, poupae mesquinhos fructos
  De um abundante suor.--
Da direita o cavalleiro
  O conde amoestou ento:
  Cortezes eram seus dictos,
  Cortezes e de razo:
Mas, atiando-o o da esquerda
   maldade perpetrar,
  Desprezou o da direita
  Para o maldicto o enredar.
Fra co!--ao camponez
  Grita o conde esbravejando--
  Quando no, com mil diabos,
  Soltar-te a matilha mando.
lerta, socios! O aoute
  Pelas orelhas chegae-lhe;
  E que sou fiel s juras
  Dessa maneira provae-lhe.
Dicto e feito. O conde salta
  Por cima os vallos fronteiros;
  E atrs delle, estrepitando,
  Homens, cavallos, balseiros.
O tropel, com grita horrenda,
  Pisa e destroe a seara;
  Que ninguem do lavrador
  Dorido choro escutra.
Pelo estridor acossado,
  Que j bem perto sentia,
  O cervo os crueis intentos,
  Veloz fugindo, illudia.
Atravs de montes, valles,
  Perseguido e no tomado,
  Manhoso se foi metter
  Entre um rebanho de gado.
Entrando do campo ao bosque,
  Saindo do bosque ao claro,
  Seguiram-no os ces, e em breve
  Lhe acharam da pista o faro.
Cheio de angustia o pastor,
  Por seu rebanho temendo,
  Por terra se arremessou
  Aos ps do conde, tremendo.
--Deixae meu pobre rebanho;
  Senhor, tende d de mi:
  De muitas tristes viuvas
  O gado retoua aqui.
Cada qual das pobrezinhas
  Tem das rezes uma s:
  Eis toda a sua riqueza:
  Senhor, tende dellas d.
Da direita o cavalleiro
  O conde amoestou ento:
  Cortezes eram seus dictos,
  Cortezes e de razo:
Mas a maldade do conde
  Sempre atiava o da esquerda,
  E elle, o bom ludibriando,
  Corria  ultima perda.
Co! A mim oppr-te queres?
  As contas vou-te eu fazer.
  Quem me dra entre essas vaccas
  Comtigo as taes velhas ver;
Que seria o mais suave
  Prazer do corao meu
  Montear-vos, mais que fosse
  Pelas campinas do cu.
lerta, socios, vante!
  Ces, avana! cs! perdido!--
  E os ces no que acham mais perto
  Saltam com fero latido.
O pegureiro por terra
  Ci em seu sangue banhado,
  E sanguento o gado fica
  Todo alli atassalhado.
 morte escapou a custo
  O veado, que fugia
  Cada vez menos ligeiro,
  N'uma floresta sombria.
Cuberto de escuma e sangue,
  Perdida a respirao,
  Do bosque em meio salvou-se
  No alvergue de um ermito.
Segue-o o tropel incanavel:
  Estala o aoute incessante:
  Soam buzinas; retinem
  Os gritos de--abca! vante!
O solitario piedoso
  Da cabana ento sau,
  E ao conde, com brando gesto,
  Taes palavras dirigiu:
--Senhor, deixa teus intentos,
  E o sacro asylo venera:
  A creatura ao cu se queixa;
  Delle teu castigo espera.
Aos bons avisos, oh conde,
  Cede pela ultima vez;
  Quando no, na perdio,
  Certo, abysmado te vs.
Cuidadoso o da direita
  Ao conde correu ento:
  Cortezes eram seus dictos,
  Cortezes e de razo.
Mas o da esquerda atiando
  Nelle o animo damnado,
  Do bom apesar do aviso,
  Ai, do mau foi enganado!
Perdio?! Disso me rio,
  No cuideis que eu tenha susto.
  No terceiro cu que fra
  Me escapra o cervo a custo.
Que me importa a ira divina?
  Vae-te prgar ao deserto.
  Teus sermes a montaria
  No faro falhar, por certo.--
Assim disse o conde. O aoute
  Sacode; as buzinas soam.
  Cs! abca!..--Ui! de diante
  Homens e cabana voam.
De trs corceis, homens fogem:
  Sons e gritos de caada
  Se esvaecem de repente
  Da morte na paz gelada.
Pvido o conde olha em roda:
  Tca a buzina... no soa:
  Grita... em vo: nada ouve: o aoute
  Vibra: mas no ar no toa.
Para um e para outro lado
  O seu cavallo esporeia...
  Nem para trs voltar pde,
  Nem vante se meneia.
Ento escurece emtorno:
  Cada vez mais de ennegrece:
  Qual sepulchro fica: ao longe
  Bramir triste o mar parece.
L troa voz de trovo!
  Que era o que dizia a voz?
  Era a sentena do conde,
  Sentena medonha e atroz.
Genio infernal, atrevido
  Contra Deus, homens e feras!
  Das creaturas os gemidos
  Resoaram nas espheras.
Tuas maldades e insultos
  Alto pedem punio,
  Onde da vingana o facho
  Ondeia erguido claro.
Malvado, foge; que os monstros
  Do inferno te vo seguir,
  Para que sejas exemplo
  Aos tyrannos do porvir!
Qual d'aurora boreal,
  Flavo pallido fulgor
  Tingiu ento na floresta
  Das folhas a verde cr.
Immovel, pasmado, mudo,
  Gelado o conde ficou;
  Trpida angustia dos ossos
   medulla lhe chegou.
Frio susto pela frente
  Contra elle arroja o terror:
  Pelas costas o persegue
  O trovo atroador.
O susto o gela; o cu ruge...
  Da terra vai-se elevando
  Negra agigantada mo,
  Ora abrindo, ora fechando.
Pelos cabellos da fronte,
  Ai, quer o conde prender!..
  Elle atrs o rosto volta;
  Nem mais o pde volver.
Em roda chammeja a terra
  Verde, azul, vermelho fogo:
  Delle um mar rodeia o conde:
  Surge o inferno em peso logo.
L dos abysmos profundos
  Sem mil mastins raivosos,
  Que, pelo averno aodados,
  Se tornam mais furiosos.
Toma alento o conde, e foge:
  Por montes, por campos vai,
  Do seio arrancando a espaos
  Do espanto terrivel ai:
Mas por todo o largo mundo
  Atrs delle ruge o inferno,
  De dia do orbe no centro,
  De noite no ar superno.
Ficou-lhe a face voltada,
  Por mais que vante corresse,
  Sem que dos horridos monstros
  Os olhos tirar podesse.
Eis como a caada foi
  Do tropel desenfreiado,
  A qual at nossos dias
  To constante tem passado,
Que, muitas vezes, durante
  As horas da noite escura,
  Ainda ao dissoluto causa
  Do medo o horror e amargura
De bastantes caadores
  Podia a boca dize-lo,
  Se antes no lhes conviesse
  Calado comsigo te-lo.




O CO DO LOUVRE.

(_Delavigne_).


Tu que passas, descobre-te! Alli dorme
      O forte que morreu.
D ao martyr do Louvre algumas flores;
      D po ao seu lebreu.
Da batalha era o dia. O canho troa:
E o livre corre  morte, e juncto delle
      O seu co vai:
A mesma bala ambos feriu: o martyr
No deploreis: o amigo seu que vive
      S pranteai!
Tristonho, sobre o forte elle se inclina,
Affagando-o e gemendo; e a ver se acorda
      Pe-se a latir;
E do seu companheiro no combate
Sobre o cadaver sanguinoso o pranto
      Deixa cahir.
Essa gleba guardando onde repousam
As cinzas dos heroes, nada o consola
      No seu gemer;
E ao que o ameiga triste repellindo,
Oh, que no s meu dono!--o co parece
      Tentar dizer.
Quando sobre as grinaldas de perpetuas
O matutino alvor da aurora o orvalho
      Faz scintillar,
Os olhos abre vvidos, e pula
Para affagar seu dono, que elle pensa
      Ha-de voltar!
Quando da noite a virao as c'roas
Fez ranger sobre a cruz do monumento,
      Desanimou:
Elle quizera que seu dono o ouvisse;
E ladra e uiva; mas o adeus de  noite
      L lhe faltou!
O inverno chega, e a neve, com violencia,
Ci, e branqueia, e esconde esse gelado
      Leito de morte:
Ei-lo que slta um lugubre gemido,
E busca, alli deitando-se, ampara-lo
      Do frio norte.
Antes que os membros lhe entorpea o somno,
Mil tentativas para erguer a campa
      Inuteis faz:
Depois comsigo diz, como hontem disse,
--Quando acordar, por certo, ha-de chamar-me.
      E dorme em paz.
Mas, na alta noite, em sonhos v trincheiras,
E seu dono entre as balas encontradas
      Cahir ferido:
E ouve-o que o chama com sibillo usado;
E ergue-se e corre aps uma van sombra,
      Dando um bramido.
 alli que elle espera horas e horas,
E saudoso murmura: alli pranteia,
      E morrer.
O seu nome qual ? Todos o ignoram.
O que o saba, o dono seu querido,
      Nunca o dir!..
Tu que passas, descobre-te! Alm dorme
      O forte que morreu.
D ao martyr do Louvre algumas flores,
      E esmola ao seu lebreu.




LEONOR.

(_Burger_).


Ralada de ruins sonhos
  J desperta est Leonor,
  E 'inda agora os cus d'oriente
  Da manhan tingiu o alvor.
Guilherme, s morto?--ella exclama--
  Ou trahiste a pobre amante?
  Se vives, porque retardas
  De te eu ver feliz instante?
Nas tropas de Friderico
  Tempo havia que partra
  Para a batalha de Praga,
  E cartas delle quem vira?
Mas a imperatriz e o rei[1],
  De guerras, emfim, cansados,
  Depondo os animos feros,
  De paz faziam tractados.
J aos seus lares tornavam
  Ambas as hostes folgando.
  Cingem frentes ramos verdes;
  Vem atabales rufando.
E por montes e por valles
  Velhos e moos chegavam,
  Dando brados de alegria,
  A encontrar os que voltavam.
Boa vinda! Adeus!--diziam
  As filhas, noivas, e esposas.
  E Leonor? Nenhum dos vindos
  Lhe faz caricias saudosas.
Por Guilherme ella pergunta;
  Por qual estrada viria.
  Vo trabalho; vans perguntas:
  Novas delle quem sabia?
No o v. Passaram todos...
  Em furioso devaneio,
  Ei-la arranca as negras tranas;
  Fere crua o lindo seio.
Sua me, correndo a ella:
  Valha-me Deus!--lhe bradou.--
  Minha filha, pois que  isso?!
  E entre os braos a apertou.
Minha me, perdeu-se tudo!
  O mundo, tudo perdi:
  De nada Deus se condoe...
  Oh dor, oh pobre de mi!--
Ai! Jesus venha  minha alma!
  Filha, um padre-nosso resa.
  Deus  pae: sempre nos ouve:
  Nunca a humana dor despreza.--
Minha me, inutil crena!
  Que bens me tem feito Deus?
  Padre-nossos!.. padre-nossos!..
  Que importam resas aos cus?--
Ai! Jesus venha  minha alma!
  Pois no  quem resa ouvido?
  Busca da igreja o consolo
  Vers teu pesar vencido.--
Me, oh me, esta amargura
  Nenhum sacramento adoa:
  No sei nenhum sacramento,
  Que aos mortos dar vida possa.--
Filha, quem sabe se, ingrato,
  Elle s promessas faltou;
  E l na remota Hungria
  Novo amor o captivou?
Se, mudavel, te abandona,
  Do crime o premio ter:
  Do ultimo trance na angustia
  O remorso o punir.--
Morreu-me, oh me, a esperana.
  Perdido... tudo  perdido!
  Morrer, tambem, s me resta.
  Nunca eu houvera nascido!
Foge, oh sol resplandecente!
  Manda a noite e os seus terrores...
  Deus, oh Deus, que nunca escutas
  O gemer de humanas dores.--
Meu Senhor! A desditosa
  No pensa o que a lingua exprime.
  No julgues a filha tua:
  Nem te lembres do seu crime.
Vans paixes esquece, oh filha:
  Cogita no goso eterno,
  No sangue que te remiu,
  E nos tormentos do inferno.--
O que  goso eterno, oh me,
  E o inferno em que consiste?
  Com Guilherme ha goso eterno,
  Sem Guilherme o inferno existe.
Sem elle, que a luz fugindo,
  Se troque em nocturno horror;
  Sem elle, no cu, na terra
  S conheo acerba dor!
Assim no sangue e na mente
  Furia insana lhe fervia:
  Cruel chamando ao Senhor,
  Mil blasphemias repetia.
Desde o sol brilhar no oriente
  At que o cu se estrellava,
  As mos, louca, retorcia,
  O brando seio pisava.

         -----

Porm ouamos!.. A terra
  Pisa um cavallo l fra!..
  E pelos degraus da escada
  Tinem sons d'espada e espra...
Ouamos! Batem na argola
  Pancadas que mal feriram...
  E atravs das portas, claro,
  Estas palavras se ouviram:
Oh l, querida, abre a porta.
  Dormes? Ests acordada?
  Folgas em riso? Pranteias?
  De mim s 'inda lembrada?--
Guilherme, tu?! Na alta noite?
  Tenho velado e gemido.
  Quanto padeci!.. Mas, d'onde
  At 'qui tens tu corrido?!--
Ns montamos  meia-noite
  S. Vim tarde, mas ligeiro,
  Desde a Bohemia, e comigo
  Levar-te-hei, por derradeiro.--
Oh meu querido Guilherme,
  Vem depressa: aqui te abriga
  Entre meus braos; que o vento
  Do bosque as crinas fustiga.--
Rugir o deixa nos matos.
  Sibilla? Sibille embora!
  No paro... que o meu ginete
  Escarva o cho... tine a espra...
Nosso leito nupcial
  Dista cem milhas d'aqui.
  Sobraa as roupas... vem... salta
  No murzelo, atrs de mi.--
Alm cem milhas, me queres
  Hoje ao thalamo guiar?
  Ouve... o relogio ainda soa:
  Doze vezes fere o ar.--
Olha em roda! A lua  clara:
  Ns e os mortos bem corremos.
  Aposto eu que n'um instante
  Ao leito nupcial iremos?--
Mas dize-me, onde  que habitas?
  Como  o leito do noivado?--
  Longe, quedo, fresco, breve:
  De oito taboas  formado.--
Para dous?--Para ns ambos.
  Sobraa as roupas: vem c.
  Os convidados esperam:
  O quarto patente est.--
Sobraada a roupa, a bella
  Para o ginete saltou,
  E ao seu leal cavalleiro
  Co' as alvas mos se enlaou.
Ei-los vo! Soa a corrida.
  Ei-los vo,  fula-fula!
  Ginete e guerreiro arquejam:
  A faisca, a pedra pula.
Ui, como,  direita,  esquerda,
  Ante seus olhos se escoam
  Prado e selva, e do galope
  Sob a ponte os sons ecchoam!
Tremes, cara? A lua  pura.
  Depressa o morto andar usa.
  Tens medo de mortos?--No.
  Mas delles falar se escusa.--
Que sons e cantos so estes?
  O corvo alli remoinha!
  Sons de sino? Hymnos de morte?
   morto que se avizinha!--
Era de feito um saimento,
  Que andas e esquife levava:
  Aos silvos de cobra em pgo
  Seu canto se assemelhava.
Um enterro  meia-noite,
  Com psalmos e com lamento,
  E eu a minha noiva levo
  Ao sarau do casamento?
Vinde, sacristo e o cro,
  O ephitalamio entoai-nos;
  Vinde, abbade, e antes que entremos
  No leito, a benam lanai-nos.--
Cala o som e o canto: a tumba
  Some-se: finda o clamor
  A seu mando; e o tropel voa
  Na pista do corredor.
Sempre mais alto a corrida
  Soa. Vo  fula-fula.
  Ginete e guerreiro arquejam:
  A faisca, a pedra pula.
Como  dextra e esquerda fogem
  Montes, bosques, matagaes!
  Como  dextra e esquerda fogem
  Cidades, villas, casaes!
Tremes, cara? A lua  pura.
  Depressa o morto usa andar.
  Temes os mortos, querida?--
  Ai, deixa-os l repousar!--
Olha! Ao redor de uma forca
  Danar em tropel no vs
  Aereos corpos, que alvejam
  Da luz da lua atravs?
Oh l, birbantes, aqui!
  Birbantes, acompanhai-me!
  Vinde. A dana do noivado
  Juncto do leito danai-me.--
E os vultos vem aps logo,
  Rudo immenso fazendo,
  Como o furaco nas folhas
  Seccas do vergel rangendo.
E resoando a corrida
  Ei-los vo,  fula-fula.
  Ginete e guerreiro arquejam:
  A faisca, a pedra pula.
Para trs fugir parece
  Quanto o luar allumia;
  Para trs suas estrellas
  Sumir o cu parecia.
Tremes, cara? A lua  pura.
  Depressa o morto andar usa.
  Temes os mortos, querida?--
  Ai, delles falar se escusa!--
Murzelo, o gallo ouvr creio!
  Breve a areia ha-de correr...
  Murzelo, avia-te, voa;
  Que sinto o ar do amanhecer!
Nossa jornada est finda:
  Ao leito nupcial chegmos:
  Ligeiro os mortos caminham:
  A mta final tocmos.--
D'uma porta s grades ferreas
   rdea solta chegaram,
  E de fragil vara ao toque
  Ferrolho e chave saltaram.
Fugiram piando as aves:
  A corrida, emfim, parra
  Sobre campas. Os moimentos
  Alvejam; que a noite  clara.
Pea aps pea, ao guerreiro
  Ce a armadura lustrosa
  Em negro p impalpavel,
  Qual de isca fuliginosa.
Sua cabea era um craneo
  Branco-pallido, escarnado:
  Nas mos tem fouce e ampulheta,
  Triste adorno de finado.
Ala-se e arqueja o ginete:
  Igneas faiscas lanou,
  E debaixo de seus ps
  Abriu-se a terra, e o tragou.
Dos covaes surgem phantasmas:
  Feio urrar os ares corta:
  Bate incerto o corao
  Da donzella semimorta.
Ao redor danas de espectros
  Em remoinho passavam:
  Canto de medonhas vozes
  Era o canto que cantavam:
Aflliges-te? Oh, tem paciencia!
  No fosses com Deus audaz.
  Teu corpo pertence  terra:
   tua alma o cu d paz.--

[1] Maria-Theresa d'Austria e Friderico de Prussia.




A COSTUREIRA, E O PINTASILGO MORTO.

(_Lamartine_).


      Tu cujas azas tremulas
      O meu olhar tornava;
      Cujo trinado harmonico
      Meus dias alegrava,
      Ai, j no ouves!--Chamo-te,
      E  vo este chamar!
      Chegou a estao gelida;
      Foi para te matar.

Nunca me has-de esquecer! Por bem seis annos,
      Companheira leal
      Tu me foste, avesinha;
Meiga entre as meigas, desprezando os campos,
Deslembrada da me, que,  noite, aninha
      No movel cannavial.

A ti, affeita a mim, affiz-me em breve.
      Meu unico recreio
      Era brincar comtigo.
Ao veres-me encerrar no pobre alvergue
Gorgeiavas, e o tedio o canto amigo
      Volvia em brando enleio.

Meu amor te suppria a liberdade;
      Meus passos traduzias,
      Meu gesto, meu falar;
Repetias-me o nome em teus modilhos;
      Punhas-te a chilrear
      Quando sorrir me vias.

Oh, que par! Que viver sereno e sancto!
      Estavamos to bem!
      Nosso parco alimento
Com a ponta da agulha eu mourejava,
E dizia scismando:--o meu sustento
       o delle tambem.
Sementes varias dava-te co' a alpista,
      E, qual ramalhetinho
      Feito na orla do prado,
 'splendida gaiola atar me vias,
Para debique teu, de herva um punhado,

      De alface um tenro olhinho....
      Se ao menos fosse licito
      Saberes que pranteio!..
      Ai, foi em dia identico,
      Que teu adejar veio
      Fazer brilhar o jubilo
      Neste triste aposento,
      Onde em saudosa magua,
      Ssinha te lamento!




INDICE.

LIVRO I

A HARPA DO CRENTE


                                        PAG.
A Semana Sancta.                          3
A Voz.                                   35
A Arrabida.                              41
Mocidade e Morte.                        63
Deus.                                    81
A Tempestade.                            87
O Soldado.                               95
A Victoria e a Piedade.                 111
A Cruz mutilada.                        121



LIVRO II

POESIAS VARIAS.


A Perda d'Arzilla.                      137
A Rosa.                                 147
O Mendigo.                              151
O Bom Pescador.                         159
Tristezas do Desterro.                  165
O Mosteiro deserto.                     185
A Volta do Proscripto.                  201
N'um Album.                             211
A Felicidade.                           217
Os Infantes em Ceuta.                   221




LIVRO III

VERSES


O Seccar das Folhas.                    273
A Noiva do Sepulchro.                   277
O Canto do Cossaco.                     293
O Caador feroz.                        297
O Co do Louvre.                        311
Leonor.                                 315
A Costureira e o Pintasilgo morto.      327






End of the Project Gutenberg EBook of Poesias, by Alexandre Herculano

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including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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Volunteers and financial support to provide volunteers with the
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Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
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The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
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number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
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Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
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business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

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     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


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