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+The Project Gutenberg EBook of Voltareis ó Christo?, by
+Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Voltareis ó Christo?
+
+Author: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+Release Date: June 19, 2008 [EBook #25844]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VOLTAREIS Ó CHRISTO? ***
+
+
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
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+
+
+VOLTAREIS Ó CHRISTO?
+
+
+
+
+Porto
+Imprensa Portugueza
+Bom Jardim, 181
+
+
+
+
+VOLTAREIS, Ó CHRISTO?
+
+narrativa
+
+por
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+
+
+
+Porto
+Viuva Moré--Editora
+Praça de D. Pedro
+1871
+
+
+
+
+Um dos meus companheiros de jornada para Villa do Conde era sacerdote
+idoso, de mui agradavel semblante e maviosa tristeza no olhar,
+contemplativo.
+
+Os outros passageiros, gente alegre e agitada pelo trabalho intimo d'uma
+digestão rija, conversavam bestialmente a respeito do meu amado e
+honrado amigo José Cardoso Vieira de Castro.
+
+Sem intervir nas suas disputações, escutava-os o padre attento e
+melancolico.
+
+E, compadecido até ás lagrimas do formidavel infortunio que entretinha,
+entre chascos e insultos, aquella villanagem, eu encarava no taciturno
+clerigo, e dizia entre mim: «que pensará este ancião do desgraçado môço!
+Por que ampara elle a fronte á mão convulsa, e despede um gemido de
+apparente compaixão? Quem será que lh'a inspira? Ella que morreu, ou
+elle que tem deante de si um arrancar da vida com agonias, cujo praso
+está nos segredos da morte?»
+
+Apeamos em Moreira. Segui por debaixo das ramarias seculares que
+aformosentam a magestosa avenida da quinta dos Vieiras de Castro, na
+qual o meu amigo residira dous annos com sua esposa. Eu ia olhando para
+as arvores que elle amava, e cuidando que via despegar-se-lhes a
+folhagem que inverdecêra quando no seio d'aquelle incomparavel martyr de
+seu pundonor cahiram os gêlos d'um inverno sem fim.
+
+Observei que o padre me seguia a passo lento, e com o lance vago de
+olhos, aquelle vêr atravez de lagrimas, o scismar triste que os
+infelizes adivinham.
+
+Esperei-o.
+
+Elle abeirou-se de mim e cortejou-me, tratando-me pelo meu nome.
+
+Perguntou-me se n'aquella casa morára algum tempo o sobrinho do seu
+condiscipulo e amigo, o ministro de estado Antonio Manoel Lopes Vieira
+de Castro.
+
+Respondi: «Aqui viveu os mais encantados dias de sua vida.»
+
+E, volvidos alguns segundos, prosegui animado pelo aspeito contemplativo
+do sacerdote: «Esta grande casa avulta-se-me como o tumulo da felicidade
+d'elle. Quando d'aqui sahiram as duas almas, Vieira de Castro já não era
+feliz. Elle tinha a intelligencia tão alta como o coração, e devia
+sentir-se ferido do profetico terror de vêr cahir do pedestal do anjo a
+mulher que vestira da luz explendida do seu amor e de toda a poesia da
+sua juventude. Vieira de Castro, nos mezes que viveu aqui, damnificou a
+sua hombridade de homem. Como vivia absorvido em apaixonada
+contemplação, e do céo e da soledade se lhe augmentavam os enlevos da
+vida intima, o amor sopesou-lhe todas as faculdades, robustecendo-lhe a
+da soberba de ser amado de quem todas as mais paixões lhe pisava aos
+pés. A querida de sua alma não o viu descer de tão alto, até ajoelhar-se
+diante d'ella. Os homens d'aquella tempera, quando se arrependem de ter
+ajoelhado, erguem-se n'um impeto de dignidade, e quebram o idolo».
+
+O padre fitou-me com olhar de intelligencia e commiseração. Detivemo-nos
+silenciosos e encostados á gradaria do portal; depois voltamos para a
+estação onde nos esperava a _Diligencia_.
+
+N'este intervalo, o ancião encarou-me com tristeza e disse: «Encontrei
+uma vez um homem de quem ouvi palavras terriveis e absurdas contra a
+sociedade. Eu não podia comprehender que lampejasse luz de rasão
+n'aquelle homem... Reprobo diante de Deus creio eu que elle haja sido;
+mas integerrimo juiz dos costumes do seu tempo... isso foi elle,
+desgraçadamente... Quinze annos depois, as calamidades de Vieira de
+Castro dilucidaram-me a escureza enigmatica do homem, que me tinha
+parecido um peito de ferro a desbordar de crueldade.
+
+E, momentos depois, ajuntou: «Como V. está em Villa do Conde, disponha
+de duas horas inuteis, e vá á Povoa, onde tomo banhos, se quiser ouvir
+uma historia em que apparece esclarecido o absurdo pela infernal luz que
+lhe derramou a catastrophe d'esse grande coração. Não fallaremos d'elle
+senão a sós. Eu creio que no seio de Vieira de Castro as angustias são
+tantas, que já lá não podem entrar os insultos d'esta sociedade... que
+escarnece o marido tolerante, e roça a esponja do fel pelos labios do
+homem que acceita o degredo--as mil dores do morrer para a patria e
+familia--com a condição de lhe não duvidarem da honra.
+
+Fui.
+
+E o padre fallou assim:
+
+
+
+
+I
+
+
+Congela-se-me o coração de terror quando este relance pavoroso da minha
+vida me lembra. Já lá vão quinze annos. Ainda agora ha noites em que a
+visão me sobresalta, e sempre o meu espirito se estremece com o mesmo
+confrangimento.
+
+Ha quinze annos que eu pastoreava uma vigararia em Traz-os-montes.
+
+Em um dia de dezembro de 1855 sahi da minha residencia com destino a ir
+consoar nos dias festivos do Natal com um abbade, meu companheiro da
+Universidade, o qual residia oito leguas distante. Como os caminhos eram
+pessimos e mal sabidos do meu creado, perdemo-nos na cerração do
+nevoeiro, e chegamos tarde a um córrego, cujo pontilhão a enchente havia
+alagado. O unico váo possivel estava legua e meia afastado.
+
+Era ao fim do dia: seriam quatro horas e meia; mas a noite fechára-se
+subita, quando as nuvens se conglobaram ao poente, e uma neblina
+pardacenta rolou dos fragoedos das empinadas serras.
+
+Retrocedemos assustados.
+
+O meu creado tinha visto de passagem, por entre as brumas, alvejar uma
+casa grande com aspecto senhorial de torres e ameias.
+
+Distava-nos d'alli obra de meia legua.
+
+Ganhamos a custo a lomba da serra, onde chegamos com noite fechada.
+D'aqui enxergamos luzes trementes ao travez de vidraças, e ouvimos o
+latir de cães.
+
+Apeei, e desci amparado no braço do creado, cujo coração palpitava de
+medo, não já de ladrões nem de feras; senão de fantasmas e lobis-homens,
+que, no crêr e dizer d'elle, eram vulgares por aquelles despenhos e
+selvas de castanheiros.
+
+Consoante a minha philosophia me foi acudindo inspirativa, combati as
+crenças do meu pobre Manoel, cujo excellente espirito foi cedendo passo
+a passo á rasão omnipotente, por modo que a final incommodava-o mais a
+perspectiva do frio e fome que o pavor dos fantasmas e lobis-homens. Eu,
+n'este receio, não lhe levava vantagem em fortaleza de espirito.
+Figurava-se-me calamidade superior ás minhas forças o ter de pernoitar
+sobre um chão alagado, e sob o pavilhão de céo tão inclemente.
+
+N'esta conjectura, ouvimos o ladrar dos cães á nossa esquerda.
+
+Á primeira vereda que topamos, na direcção do consolativo signal de
+povoado, nos encaminhamos por barrocas lamacentas até entestarmos com um
+largo portão de quinta. Manoel aldravou com quanta força lhe déra o
+contentamento, e esperamos, não sem receio de que os molossos da quinta
+remettessem contra nós de sobre os estrepes que vedavam o alto muro.
+
+Do parapeito do mirante surgiu um vulto a perguntar-nos o que queriamos.
+Respondi que era um padre, perdido no caminho de Mirandella, e pedia ao
+dono d'aquella casa a caridade de me agazalhar e ao meu creado por
+aquella noute.
+
+Passado largo espaço, voltou o interrogador, que nos abriu o portão
+depois de haver acorrentado os cães, e nos metteu á cara uma alanterna
+de furta-fogo, deixando vêr debaixo de cada braço uma pistola de alcance.
+
+Aquietado pela confiança que lhe incutiu a minha cara pacifica, e a tão
+pacifica quanto estupida do meu Manoel, o creado caminhou serenamente
+diante de nós.
+
+Perguntei-lhe como se chamava o dono da casa. Disse-me o nome do
+fidalgo, e acrescentou que a fidalga estava a morrer ethica.
+
+--N'esse caso--tornei eu--queira dizer ao snr. barão que eu não quero
+causar-lhe o menor constrangimento na situação triste em que está. Basta
+que S. Ex.ª nos mande recolher, que nós sahiremos cedo sem perturbar o
+seu socêgo.
+
+Entrei para um salão cujas alfaias eram quatro escabellos de páo com
+grandes armas pintadas no alteroso espaldar.
+
+D'ahi a pouco, fui levado a outra sala mobilada á antiga com cadeiras de
+coiro marchetadas de pregaria amarella, á mistura com uns tremós
+dourados e artezoados do reinado de D. João V, segundo me quiz parecer.
+Das paredes pendiam nove retratos de homens, em que predominavam
+clerigos mitrados, e dos dois que vestiam farda agaloada com habito de
+Christo um dizia o letreiro que tinha sido capitão-mór.
+
+N'esta contemplação me interrompeu o fidalgo.
+
+Era homem de alta e direita estatura: figurava quarenta annos; tinha
+barbas grisalhas e grandes; ampla testa, e olhos rasgados e negros,
+impressivos, penetrantes, assustadores. De mim confesso que o fitava a
+medo, não sei porquê.
+
+Interrogou-me gravemente sobre o ponto d'onde vinha e para onde ia.
+Respondi como cumpria dilatando difusamente as respostas e
+circumstanciando-as para d'este modo captar a benevolencia do fidalgo
+que parecia escutar-me distrahido.
+
+D'ahi a pouco disse dentro uma voz que estava a ceia na mêza.
+
+O senhor ergueu-se, levantou um reposteiro, e obrigou-me a precedêl-o na
+entrada com gentil ademan de cortezão.
+
+A meza era espaçosa de mais para quarenta talheres; mas tinha só dois.
+
+Sentei-me na cadeira que me foi indicada, e comi com a sem-cerimonia
+muito conhecida dos descortezes e dos famintos.
+
+Durante a ceia substancial, occorreu-me perguntar-lhe pelo estado de sua
+esposa; todavia, conteve-me a inopportunidade da occasião, e o receio de
+me demasiar em inquirir de senhora que eu não conhecia, não me sendo
+semelhante pergunta auctorisada pelo silencio do barão.
+
+Finda a ceia, segui-o ao longo de um corredor, e entrei no quarto que me
+elle indicou, dizendo:
+
+--Não se deite já que eu preciso talvez do snr. para um acto proprio da
+sua profissão.
+
+E desandou.
+
+Fiquei a scismar, e suggeriu-se-me logo o pensamento de que eu seria
+chamado a ouvir de confissão a senhora inferma.
+
+Esperei duas horas, durante as quaes rezei as minhas rezas.
+
+Voltou o taciturno fidalgo, e disse laconicamente:
+
+--Ha aqui uma mulher doente que se quer confessar.
+
+«Estou prompto a ouvil-a--respondi espantado da seccura d'aquellas
+palavras tão desamoraveis com respeito a uma esposa doente.
+
+--Siga o creado que o está esperando no corredor--tornou elle.
+
+Sahi ao corredor. O creado que me estava esperando era o mais mal
+encarado homem que ainda vi na minha vida. Afusilavam-lhe os olhos como
+brazas. A testa, unico espaço alumiado d'aquella cara barbaçuda,
+sulcavam-na não sei se cicatrizes, se ulcerações da morphea. A
+corpulencia era agigantada, e o carregar do sobrôlho batia no coração
+d'um homem como o subito coriscar dos olhos de um tigre que rebenta
+d'entre os carrascaes d'um deserto. Os pintores christãos nunca souberam
+bosquejar Lucifer, porque semelhante homem jámais deu nos olhos de
+artista, que desejasse fazer bem conhecida a plastica do diabo com
+feitio de gente.
+
+Segui-o com calafrios, superiores á minha rasão que me aconselhava
+tranquillidade.
+
+Hoje, volvidos quinze annos, conto isto com certo sorriso de facil
+coragem; mas, nos primeiros tempos, aquelle vulto andava terrivelmente
+associado ao quadro negro que vou tentar descrever.
+
+
+
+
+II
+
+
+O medonho guia mostrou-me a porta de um quarto, e resmuneou:
+
+--Levante o fecho, e entre.
+
+Á primeira vista o que pude extremar das trevas era um clarão azulado,
+como de lamparina baça, cuja claridade se esvaecia logo absorvida pela
+escura algidez da alcova.
+
+Avisinhei-me a passos tremulos da lampada, e distingui um leito, e na
+almofada do leito um vulto. Fixei o que me parecia ser um rosto de
+creança, e pude entrever um semblante de mulher, com os olhos cravados
+em mim, olhos que vasquejavam os derradeiros clarões, olhos como devem
+de ser os dos spectros que surgem subitaneos nas trevas aos perversos
+que negam Deus e temem os espectros.
+
+--Approxime-se, snr. A moribunda sou eu--disse ella com voz rouca, mas
+serena.
+
+«Deus permittirá que V. Ex.ª esteja menos doente do que cuida--balbuciei
+com uma especie de terror secreto, presentimento d'alma que já se doía
+antecipadamente da magua que se lhe ia reflectir do singular e immenso
+supplicio d'aquella mulher.
+
+--Falle baixo que nos escutam--voltou ella ciciando as palavras, e
+esbugalhando os olhos para a porta.
+
+«Escutar-nos!--repliquei com assombro--É impossivel! Eu fui aqui enviado
+para ouvil-a de confissão, minha senhora...
+
+--Bem sei; mas isso não importa... Quero que me ouça; mas muito
+baixinho... Vou contar-lhe a minha vida como a Deus; mas não me confesso
+como a um padre... É a um homem que ha de ter pena de mim, depois de me
+ouvir; e me ha de fazer um serviço que lhe pede uma agonisante, que crê
+em Deus; mas não pode crer na religião feita por homens que tem a
+semelhança do algoz que me mata.
+
+Isto dizia ella de afogadilho e febril, mas com abafações e ancias
+augmentadas pelo medo de ser escutada.
+
+«Mas não é em confissão que a senhora me quer revelar as culpas que lhe
+pezam na consciencia?!--perguntei.
+
+--Não, snr.; eu não creio na confissão. Do mal que fiz estou perdoada;
+tenho soffrido todas as torturas d'este mundo; se as ha no outro,
+nenhuma póde assustar-me.
+
+O meu dever seria combater a incredulidade d'esta senhora com os solidos
+argumentos de que dispõe a theologia contra mais poderosos adversarios;
+abstive-me, porém, de exacerbar o animo affligido da inferma por me
+parecer extemporanea a discussão e recear que o tempo escasseasse ao
+triumpho, nem sempre prompto, dos bons principios. Não obstante,
+repliquei, no intento de encaminhal-a á piedade:
+
+«Se V. Ex.ª não quer confessar-se, diga-me que serviço posso fazer-lhe
+em beneficio da sua alma...
+
+--Vá vêr se alguem nos escuta...--insistiu ella, apontando para a porta
+com a mão descarnada.
+
+Fui com repugnancia, figurando-se-me que a minha posição no gremio
+d'esta familia sinistra ia assumindo certa gravidade e um ar de mysterio
+mais ou menos arriscado. Abri cautelosamente a porta, olhei ao longo do
+corredor, e nada vi; salvo lá ao cabo um lampeão a tremer baloiçado
+pelas esfusiadas de vento que assobiava no tecto. Fechei a porta,
+asseverando á enferma que ninguem nos escutava. Ella então sentou-se com
+violento impeto no leito, aconchegou do pescoço, que transpirava, a
+côlcha da cama, bebeu alguns tragos de agua, e balbuciou com anciosas
+suspensões:
+
+--Casaram-me ha seis annos com este homem que me mata. Eu amava outro
+homem, que não teve coração nem honra que me salvasse de tamanho
+verdugo. Meu pae sacrificou-me, cuidando que me felicitava. O homem que
+eu amava deixou-me sacrificar, porque não tinha peito que supportasse o
+peso de uma mulher pobre. Vim de Lisboa, onde o dono d'esta casa era
+deputado. Vim; e, ao cabo de alguns mezes, meu marido arrependera-se de
+se ter enganado, cuidando que uma mulher simplesmente formosa, mas sem
+amor, poderia encher-lhe as ambições, e dar-lhe o contentamento que ella
+não tinha. Saciou-se, enojou-se, aborreceu-me. Não me deu rivaes, por
+que só quem ama se sente ultrajada pelas infidelidades. Eu não conheci
+rivaes: conheci apenas mulheres que n'esta casa valiam e mandavam mais
+do que eu.
+
+Voltou á camara meu marido. Aqui fiquei, não obstante lhe pedir com
+muitas lagrimas que me deixasse ir vêr meu pae, e meus dous irmãos que
+tinham vindo da Africa, onde haviam estado alguns annos negociando. Meu
+marido demorou-se anno e meio em Lisboa. N'este longo intervalo chorei
+muito, e só deixei de chorar, quando... quando me vinguei. Comprehende-me?
+
+«Quando se vingou? como se vingou V. Ex.ª?!--perguntei.
+
+--Vinguei-me... mas foi a paixão que me deu forças... Houve um homem que
+teve por mim um grande amor e um grande dó. Amei-o. Luctei. Pedi a Deus
+que me ajudasse, que me fortalecesse. Pedi á alma de minha honrada mãe
+que me amparasse... pedi a meu marido que me deixasse ir para si ou para
+a companhia de meu pae... Nem Deus, nem minha mãe, nem meu marido me
+valeram... Succumbi... A minha culpa foi cega. Confiei-me d'uma creada
+que tinha chorado comigo. Fui atraiçoada. Meu marido teve denuncia da
+minha queda, e appareceu aqui inesperadamente. Nada me disse. Tratou-me
+com a mesma frieza, com o mesmo despreso. Não estranhei. O homem, que eu
+amava, era ainda parente d'elle e estudava em Coimbra. Tinha coração
+cheio de ancias e desejos da morte. Comprehendeu este infeliz que meu
+marido desconfiava. Quiz fugir comigo para Hespanha, e eu resisti, mais
+por amor d'elle que do meu credito. O meu cumplice não podia com o
+encargo, e iria viver ou morrer miseravelmente em paiz estranho.
+
+Passados dias, deixei de ter noticias d'elle. Imaginei-o já em Coimbra,
+posto que não fosse tempo de aulas. Correram trez mezes. Nova nenhuma. A
+criada que me fallava d'elle, recebido o premio da traição, tinha
+fingido que sua familia a chamava. Só então ouvi dizer a outra criada
+que o parente de meu marido desapparecêra sem dizer a ninguem o seu
+destino; e que a familia d'elle vivia consternada com tal successo,
+enviando a toda a parte indagações inuteis.
+
+Seis mezes depois que meu marido voltára de Lisboa, soube eu que se
+estava preparando este quarto por sua ordem. Vim vêr as obras, e
+perguntei-lhe para que era o armario estreito que se estava fazendo
+n'esta parede e para que eram as grades na janella. Meu marido
+respondeu: «Sabel-o-ha brevemente.»
+
+Concluidas as obras, vi que a minha cama era para aqui mudada, com tudo
+que me pertencia.
+
+Uma noite, meu marido conduziu-me a este quarto. Fechou-se por dentro e
+disse-me: «A senhora entra aqui d'onde nunca mais sahirá; e para não
+estar sósinha, aqui lhe deixo uma adoravel companhia com quem póde
+conversar á sua vontade.» E, dizendo isto, abriu aquelle armario, e
+apontou para um esqueleto, dizendo: «Aqui tem o seu amante. Abrace-se
+n'elle até ficar reduzida ao estado em que lh'o offereço para que o
+possa gosar com toda a liberdade.»
+
+Eu cahi por terra sem sentidos--proseguiu ella, limpando as lagrimas, e
+aspirando com força--Quando voltei á vida, cuidei que sahia d'um sonho.
+Ouvi dar meia noute. Era tudo escuridão n'este quarto. Apalpei á volta
+de mim. Não conheci onde estava. Continuei apalpando. Pousei as mãos
+n'uma coisa fria e aspera que estremeceu. Recuei horrorisada... Eram
+ossos... eram as costellas do esqueleto. Então acordei... então me fugiu
+outra vez a rasão com um grito do peito dilacerado. Cahi outra vez para
+diante com a face de encontro aos ossos frios, horrivelmente frios...--
+
+E ella estralejava com os dentes convulsos, e apertava a roupa no
+pescoço. Apoz longo espaço, proseguiu:
+
+--Ao romper do dia, abri uma janella com o proposito de me suicidar. Dei
+com a face nas grades. Lancei-me á porta que estava fechada por fóra, e
+gritei por soccorro. Abriu-se. Vi um creado com um aspecto ameaçador,
+impondo-me silencio. Este creado era um criminoso que meu marido
+acolhêra para o salvar da justiça que o perseguia. Era esse mesmo que o
+trouxe aqui ha pouco. É o unico ente vivo que eu vejo ha dois annos duas
+vezes por dia, quando me traz alimentos. Foi elle quem matou e espedaçou
+aquelle infeliz...
+
+E, dizendo, apontava para o armario do esqueleto. Continuou:
+
+--Eu quiz suicidar-me pela fome. Não pude. Quando as agonias da morte
+começavam, eu lançava-me vertiginosamente sobre a comida, e devorava-a
+sem a consciencia do que fazia. D'outra vez consegui com um garfo romper
+uma veia; mas o sangue estancou; senti ancias mortaes; envelheci;
+desfigurei-me, segundo o que sinto, se palpo o meu rosto; que eu ha dois
+annos me não vi n'um espelho... Não consegui morrer. Voltei-me para Deus
+com rogos, com desesperadas supplicas. Orei muito, chorei muito, e
+obtive um grande beneficio. Cahi n'um desalento, n'uma somnolencia de
+moribunda que durou não sei se dias se annos. Depois, quiz levantar-me
+d'este leito, e já não pude. Comecei a pedir a Deus a morte, e a
+sentil-a avisinhar-se pela mão da divina caridade. Ha de haver trez
+horas que entrou aqui o confidente do meu carrasco perguntando-me se me
+queria confessar. Fiquei espantada da religião d'estes algozes, e
+respondi que sim; mas o que eu queria, snr. padre--ajuntou ella
+estendendo para mim impetuosamente os braços--era pedir-lhe que depois
+da minha morte, faça saber a meus irmãos este miseravel fim que eu tive,
+para que elles me vinguem...
+
+Acabava a infeliz de proferir estas palavras em voz mais desafogada,
+quando a porta que eu havia fechado por dentro se abriu impellida por um
+valente encontro.
+
+
+
+
+III
+
+
+Era o marido.
+
+Faiscavam-lhe ascuas de rancor os olhos injectados. Crispavam-se-lhe os
+beiços retrahidos. A colera engasgava-o a ponto de tartamudear estas
+vozes ejaculadas a trancos:
+
+--Seus irmãos que venham cá e eu lhes contarei a vida da sua honrada irmã!
+
+E ella cobriu os olhos com as mãos, e resvalou para dentro da roupa,
+como se desejasse cahir na sepultura.
+
+Eu caminhei placidamente para aquelle homem terrivel, abeirei-me d'elle
+que me fitava com sobranceria, ajoelhei e disse-lhe com a voz tremente
+de lagrimas:
+
+--Perdôe-lhe. Deixe-a morrer em paz. Deixe-a experimentar os beneficios
+da sua compaixão para implorar confiadamente os da misericordia divina.
+
+Encarou-me d'um modo indefinivel. Sahiu do quarto, e, já fóra, murmurou
+seccamente:
+
+«O snr. padre recolha-se ao seu quarto.
+
+Relancei um derradeiro olhar para o leito: não a vi; mas ouvia o soluçar
+alto e cavernoso do peito que se esphacellava.
+
+Mal entrei ao quarto onde havia de pernoitar, rebentaram-me as lagrimas
+copiosas. Levantei a Deus o espirito repassado de terror e compaixão,
+pedindo-lhe que despenasse a penitente, ou radiasse luz de commiseração
+em tão carniceiras entranhas.
+
+N'este lance entrou elle, assentou a mão direita sobre o meu hombro, e
+disse:
+
+«Aquella mulher vociferou uma infamia digna da sua deshonra, se quiz
+desculpar o seu crime com as infidelidades de que me accusa. A mulher
+que se vinga do marido, prostituindo-se, cavou a sepultura, e espera que
+a sociedade ou o marido a sepultem. Eu não a matei. Encarreguei o
+esqueleto do homem, que a deshonrou, da missão de a ir matando
+lentamente. Olhe que eu amei aquella mulher. Não a seduzi, não a illudi,
+não a fascinei, nem a disputei a outro. Pedi-a a seu pae. Elle
+consultou-a, ou fingiu que a consultava, como quer que fosse, esta
+mulher veio risonha para os meus braços; chamou-se com orgulho a
+baroneza de ***; mentiu-me cem vezes accusando-me de ingrato ao seu
+coração que me estremecia. Afinal, esta mulher crê ainda imperfeita a
+sua vingança, e na hora extrema invoca os irmãos para que a vinguem. De
+quê? de que hão de vingal-a os irmãos? De eu lhe haver matado o amante?
+Que me responde a sua christã philosophia?
+
+--Que o terror que V. Ex.ª me incute não me deixa atinar com palavras
+que o commovam...--Balbuciei.
+
+«Mas responda, snr.!
+
+--Respondo ajoelhando novamente a supplicar-lhe o perdão da culpada.
+
+«Não posso!--bradou elle--Ha dois annos que não sahi de dia d'esta casa,
+receando que todos saibam da minha deshonra. Não posso perdoar-lhe sem
+que a providencia me desopprima do vexame do meu opprobio!
+
+--Seria generosidade havel-a matado...--interrompi.
+
+«Bem sei--redarguiu elle--bem sei. Ella soffria cinco minutos de
+castigo, e eu ficava soffrendo uma vida inteira de vergonha. Eram
+supplicios incomparaveis! Alem de que, se eu a houvesse esmagado debaixo
+do pêso da minha affrontosa desgraça, o mundo sanctifical-a-ia,
+lavando-lhe com hypocritas lagrimas os ferretes da cara para que se
+attendesse sómente ás manchas de sangue nas minhas mãos de assassino...
+Comprehende isto, padre? Conhece bem a sociedade em que toda a infamia é
+uma convenção, e toda a honra de marido que se desaffronta ha de luctar
+depois com a deshonra irritada dos maridos esporeados pelo zelo
+devassissimo das esposas? Conhece o mundo como Christo o encontrou ha
+1855 annos? Sabe o que veio fazer Jesus Christo á terra?
+
+--Morrer pela redempção dos que o mataram, snr.
+
+«Não o percebo!--exclamou elle com um formidavel brado, e sahiu do
+quarto...
+
+Eu não pude adormecer. Parecia-me ouvir um gemido longo confundido com o
+sibillo do nordeste no entravamento da casa. Rezei muito por ella.
+
+Ao alvorejar da manhã, vi um creado que perpassava no corredor.
+Perguntei-lhe a que horas se erguia o fidalgo. Respondeu-me que se havia
+deitado um quarto de hora antes. Pedi-lhe que mandasse o meu criado
+sahir do seu quarto, e fizesse ao dono da casa os meus comprimentos com
+os mais ardentes protestos de eterna gratidão.
+
+Despedi-me assombrado d'aquella casa, onde se respirava um acre
+nauseativo de cadaveres. Ardia-me o peito e a cabeça por tal sorte que
+eu não sentia a chuva glacial d'aquella manhã de 24 de dezembro de 1855.
+
+Fecho a minha historia com a pedra que cobriu o cadaver da baroneza de
+***. No dia 27 de dezembro me disseram uns pastores convisinhos que a
+fidalga morrêra á hora em que as familias honradas e felizes se
+ajunctavam para receberem as bençãos dos seus anciãos, e commemorarem
+com sanctos jubilos o nascimento do divino Redemptor.
+
+Agora dir-lhe-hei qual era o paradoxo, que tal se me figurou ha quinze
+annos. Aquelle cruelissimo homem tinha-me dito: _Se eu a houvesse
+esmagado debaixo do pezo da minha affrontosa desgraça, o mundo
+sanctifical-a-ia lavando-lhe com hypocritas lagrimas os ferretes da
+cara, para que se attendesse sómente ás manchas de sangue nas minhas
+mãos de assassino._
+
+Ora eu entendi a profunda verdade d'esta clausula depois que Vieira de
+Castro, ao cahir agonisante sobre a terra onde tem de vasquejar largos
+annos, matou a esposa, porque a cingia apaixonadamente nos braços da sua
+alma. Morreu-lhe o coração. Ella não teria morrido, se o infeliz a
+podesse arrancar de lá antes de cahir.
+
+
+
+
+Concluida a narrativa, o sacerdote deteve-se olhando contra o mar que
+mugia funebremente nos fragoedos socavados. Depois, levantando para o
+céo os olhos humidos e as mãos trementes, disse:
+
+«Meu Deus, enviae segunda vez á terra o vosso divino Filho! Esta
+negridão gentilica é peor que a de ha dois mil annos. N'aquelle tempo
+esperava-se; nas entranhas sociaes estremecia o presentimento d'um
+regenerador... Hoje em dia, nada, nada, ó altissima Providencia! Nada!
+Mas... voltareis, ó Christo?
+
+E proseguiu, corridos instantes:
+
+--Que haverá já agora n'esta vida que possa levantar a alma do seu amigo?
+
+«O esteio da dignidade.
+
+Conheci-o quando os horisontes da vida se lhe prefiguravam e realisavam
+em risonhas prosperidades. O destino, como forçado pelo talento,
+ajoelhava-lhe. Não o admirei então, senão por que felicidade e genio
+pareciam dar-se as mãos e concertar-se no plano de o exalçaram onde raro
+em Portugal subiram grande espirito e grande coração.
+
+Hoje cerram-se contra elle injurias e trevas.
+
+A luz do seu honrado infortunio é um reverberar sinistro d'uma estrella
+funesta, cuja claridade lhe banhará a sepultura por esse viver das
+gerações além. A posteridade de seus irmãos irá ahi retemperar
+sentimentos de pundonor; e os descendentes de meus filhos cuidarão que
+me vêem absorto entre elles defronte das cinzas de Vieira de Castro.
+
+Vae-se-lhe a vida diluida em lagrimas de sangue. Vae. Mas a pagina que
+deixa dirá que a onda da corrupção quando chegou até elle, desfez-se-lhe
+aos pés. Se a onda lhe revolveu e abriu a terra da sepultura, aqui ou em
+Africa, não importa.
+
+Prouvera a Deus que elle não chorasse a felicidade que lhe mataram!
+Sobre quem mandará Deus que caiam as lagrimas que Vieira de Castro ha de
+chorar por sua mãe e irmãos? No dia em que elle sahir para Africa, as
+almas compassivas irão ás egrejas pedir ao Altissimo que alumie o seio
+do degradado com um raio de misericordioso alento...
+
+Deixal-o ir.
+
+Deixal-o esconder-se dos olhos d'esta aviltante piedade que deixou de o
+apedrejar quando o viu perdido.
+
+
+
+
+Loura creança que eu vi, ha vinte annos, alumiada pelas ultimas alegrias
+da fugitiva infancia, prouvera a Deus que o sepulcro de teu pae se te
+abrisse então.
+
+Os embriões das tuas alegrias da juventude esmagou-os a pedra que desceu
+sobre o seio onde se perderam os thesouros que haviam de completar a
+felicidade da tua alma.
+
+O teu coração, aos desoito annos, abafava em si as amarguras da
+soledade, retrahia-se em devorantes desejos do amor de familia, a paixão
+santa, unica e profunda que eu te conheci.
+
+Quem imaginou que tu choraste amarissimas lagrimas n'aquella tua casa
+triste que demora solitaria entre duas serras?
+
+No mais verde dos annos, abalisaste os teus anhelos juvenís entre umas
+arvores que teus avós plantaram; e alli, sósinho, esperaste que a
+Providencia te deixasse reflorir uma primavera na alma.
+
+O teu formidavel espirito reagiu contra a mais crua sorte que ainda
+fadou uns vinte annos relegados d'esse gosar commum que permitte a cada
+homem sentir o alvorejar dos affectos e as musicas do céo que embalam a
+alma para sonhar venturas.
+
+Tu não as sonhaste quando o coração desbordava de seiva para renascer de
+suas mesmas cinzas, se a perfidia o cancerou com a sua peçonha.
+
+Um dia, já tarde, amaste pela primeira vez, quando te deu de rosto e te
+cegou a luz funesta que desce do céo com os anjos despenhados.
+
+Quando baixaste a face até ao chão onde ajoelhavas em adoração de
+creança que beija os labios de sua mãe, em adoração de pae que aconchega
+no seio as mãos de sua filha, sentiste que a deshonra te cravava as
+garras, e te desentranhava do peito a alma, e t'a expunha em pelourinho
+infame aos insultos dos que passavam.
+
+Tu não podias ajustar ás faces a mascara que te offereciam as mãos
+infames da tolerancia.
+
+Ao teu rosto não podiam sahir as lagrimas faceis das almas vulgares por
+que era sangue, era a vida toda que te haviam arrancado.
+
+E tu premeditaste!.. Oh! não premeditaste nada, infeliz!
+
+Quem contará as horas, os periodos de infernal duração que passaram na
+tua vida?
+
+Curvaste-te sobre o teu abysmo; e ali quedaste empedrado até que
+resvalaste nas fauces da voragem.
+
+No teu baque levaste comtigo um cadaver que te abrira o golphão com as
+mãos ainda quentes dos teus beijos.
+
+Não premeditaste nada, infeliz.
+
+Cada minuto que ia passando estalava-te uma fibra da alma, queimava-te
+uma particula do cerebro, escaldava-te em veneno dilacerante cada
+lagrima que te refluia dos olhos.
+
+Não era somente a honra perdida que te excruciava; era a mulher
+idolatrada que ainda vivia e já te pezava morta no coração.
+
+Ao passo que a mão de ferro da desgraça te batia no seio, tu ias
+acordando ao estrondo horrivel. Cada instante era o precursor de novas
+trevas que se iam condensando, era o bago da areia que ia cahindo, era
+uma esperança derruindo depoz outra, era o ir-se toda a alma espedaçada
+até esvasiar-se o peito de lagrimas, e encher-se de rancor inexoravel,
+espicassado pela deshonra e ingratidão.
+
+Oh! tu não premeditaste nada, infeliz!
+
+Os que delinquiram premeditando, não dizem á justiça humana: «Aqui
+estou! condemna-me!»
+
+FIM.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Voltareis ó Christo?, by
+Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VOLTAREIS Ó CHRISTO? ***
+
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
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+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+ Chief Executive and Director
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+Literary Archive Foundation
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+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
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+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+works.
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+ <title>Voltareis ó Christo?, por Camilo Castelo Branco</title>
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+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Voltareis ó Christo?, by
+Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Voltareis ó Christo?
+
+Author: Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+Release Date: June 19, 2008 [EBook #25844]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VOLTAREIS Ó CHRISTO? ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
+
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+</pre>
+
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<h2>VOLTAREIS Ó CHRISTO?</h2>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<div class="centrado">
+<p style="font-size: 0.6em;">
+PORTO
+<br>
+IMPRENSA PORTUGUEZA
+<br>
+BOM JARDIM, 181
+</p>
+</div>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<div class="capa">
+<p style="font-size: 2.4em;">VOLTAREIS, Ó CHRISTO?</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">NARRATIVA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.6em;">CAMILLO CASTELLO BRANCO</p>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<p style="font-size: 0.8em;">
+PORTO
+<br>
+VIUVA MORÉ&mdash;EDITORA
+<br>
+PRAÇA DE D. PEDRO
+<br>
+1871
+</p>
+</div>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<span class="pagenum"><a name="pag_5" id="pag_5">[5]</a></span>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+
+<div id="corpo">
+<p>Um dos meus companheiros de jornada para Villa do Conde era sacerdote
+idoso, de mui agradavel semblante e maviosa tristeza no olhar, contemplativo.</p>
+
+<p>Os outros passageiros, gente alegre e agitada pelo trabalho intimo
+d'uma digestão rija, conversavam bestialmente a respeito do meu amado
+e honrado amigo José Cardoso Vieira de Castro.</p>
+
+<p>Sem intervir nas suas disputações, escutava-os o padre attento e melancolico.</p>
+
+<p>E, compadecido até ás lagrimas do formidavel infortunio que entretinha,
+entre chascos e insultos, aquella villanagem, eu encarava no taciturno
+clerigo, e dizia entre mim: «que pensará este ancião do desgraçado
+môço! Por que ampara elle a fronte á mão convulsa, e despede um gemido
+de apparente <span class="pagenum"><a name="pag_6" id="pag_6">[6]</a></span>compaixão? Quem será que lh'a inspira? Ella
+que morreu, ou elle que tem deante de si um arrancar da vida com agonias,
+cujo praso está nos segredos da morte?»</p>
+
+<p>Apeamos em Moreira. Segui por debaixo das ramarias seculares que aformosentam
+a magestosa avenida da quinta dos Vieiras de Castro, na qual o meu
+amigo residira dous annos com sua esposa. Eu ia olhando para as arvores
+que elle amava, e cuidando que via despegar-se-lhes a folhagem que
+inverdecêra quando no seio d'aquelle incomparavel martyr de seu pundonor
+cahiram os gêlos d'um inverno sem fim.</p>
+
+<p>Observei que o padre me seguia a passo lento, e com o lance vago de
+olhos, aquelle vêr atravez de lagrimas, o scismar triste que os infelizes
+adivinham.</p>
+
+<p>Esperei-o.</p>
+
+<p>Elle abeirou-se de mim e cortejou-me, tratando-me pelo meu nome.</p>
+
+<p>Perguntou-me se n'aquella casa morára algum tempo o sobrinho do seu
+condiscipulo e amigo, o ministro de estado Antonio Manoel Lopes Vieira
+de Castro.</p>
+
+<p>Respondi: «Aqui viveu os mais encantados dias de sua vida.»</p>
+
+<p>E, volvidos alguns segundos, prosegui animado pelo aspeito contemplativo
+do sacerdote: «Esta grande casa avulta-se-me como o tumulo da <span class="pagenum"><a name="pag_7" id="pag_7">[7]</a></span>felicidade
+d'elle. Quando d'aqui sahiram as duas almas, Vieira de Castro já não
+era feliz. Elle tinha a intelligencia tão alta como o coração, e devia
+sentir-se ferido do profetico terror de vêr cahir do pedestal do anjo
+a mulher que vestira da luz explendida do seu amor e de toda a poesia
+da sua juventude. Vieira de Castro, nos mezes que viveu aqui, damnificou
+a sua hombridade de homem. Como vivia absorvido em apaixonada contemplação,
+e do céo e da soledade se lhe augmentavam os enlevos da vida intima,
+o amor sopesou-lhe todas as faculdades, robustecendo-lhe a da soberba
+de ser amado de quem todas as mais paixões lhe pisava aos pés. A querida
+de sua alma não o viu descer de tão alto, até ajoelhar-se diante d'ella.
+Os homens d'aquella tempera, quando se arrependem de ter ajoelhado,
+erguem-se n'um impeto de dignidade, e quebram o idolo».</p>
+
+<p>O padre fitou-me com olhar de intelligencia e commiseração. Detivemo-nos
+silenciosos e encostados á gradaria do portal; depois voltamos para
+a estação onde nos esperava a <i>Diligencia</i>.</p>
+
+<p>N'este intervalo, o ancião encarou-me com tristeza e disse: «Encontrei
+uma vez um homem de quem ouvi palavras terriveis e absurdas contra
+a sociedade. Eu não podia comprehender que lampejasse luz de rasão
+n'aquelle homem... Reprobo diante de Deus creio eu que elle haja sido;
+mas integerrimo juiz dos costumes do seu tempo... isso foi <span class="pagenum"><a name="pag_8" id="pag_8">[8]</a></span>elle,
+desgraçadamente... Quinze annos depois, as calamidades de Vieira de
+Castro dilucidaram-me a escureza enigmatica do homem, que me tinha
+parecido um peito de ferro a desbordar de crueldade.</p>
+
+<p>E, momentos depois, ajuntou: «Como V. está em Villa do Conde, disponha
+de duas horas inuteis, e vá á Povoa, onde tomo banhos, se quiser ouvir
+uma historia em que apparece esclarecido o absurdo pela infernal luz
+que lhe derramou a catastrophe d'esse grande coração. Não fallaremos
+d'elle senão a sós. Eu creio que no seio de Vieira de Castro as angustias
+são tantas, que já lá não podem entrar os insultos d'esta sociedade...
+que escarnece o marido tolerante, e roça a esponja do fel pelos labios
+do homem que acceita o degredo&mdash;as mil dores do morrer para a patria
+e familia&mdash;com a condição de lhe não duvidarem da honra.</p>
+
+<p>Fui.</p>
+
+<p>E o padre fallou assim:</p>
+
+<span class="pagenum"><a name="pag_9" id="pag_9">[9]</a></span>
+
+<H1>I</H1>
+
+<p>Congela-se-me o coração de terror quando este relance pavoroso da
+minha vida me lembra. Já lá vão quinze annos. Ainda agora ha noites
+em que a visão me sobresalta, e sempre o meu espirito se estremece
+com o mesmo confrangimento.</p>
+
+<p>Ha quinze annos que eu pastoreava uma vigararia em Traz-os-montes.</p>
+
+<p>Em um dia de dezembro de 1855 sahi da minha residencia com destino
+a ir consoar nos dias festivos do Natal com um abbade, meu companheiro
+da Universidade, o qual residia oito leguas distante. Como os caminhos
+eram pessimos e mal sabidos do meu creado, perdemo-nos na cerração
+do nevoeiro, e chegamos tarde a um córrego, cujo pontilhão a enchente
+havia alagado. O unico váo possivel estava legua e meia afastado.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_10" id="pag_10">[10]</a></span>Era ao fim do dia: seriam quatro horas e meia; mas a noite
+fechára-se subita, quando as nuvens se conglobaram ao poente, e uma
+neblina pardacenta rolou dos fragoedos das empinadas serras.</p>
+
+<p>Retrocedemos assustados.</p>
+
+<p>O meu creado tinha visto de passagem, por entre as brumas, alvejar
+uma casa grande com aspecto senhorial de torres e ameias.</p>
+
+<p>Distava-nos d'alli obra de meia legua.</p>
+
+<p>Ganhamos a custo a lomba da serra, onde chegamos com noite fechada.
+D'aqui enxergamos luzes trementes ao travez de vidraças, e ouvimos
+o latir de cães.</p>
+
+<p>Apeei, e desci amparado no braço do creado, cujo coração palpitava
+de medo, não já de ladrões nem de feras; senão de fantasmas e lobis-homens,
+que, no crêr e dizer d'elle, eram vulgares por aquelles despenhos
+e selvas de castanheiros.</p>
+
+<p>Consoante a minha philosophia me foi acudindo inspirativa, combati
+as crenças do meu pobre Manoel, cujo excellente espirito foi cedendo
+passo a passo á rasão omnipotente, por modo que a final incommodava-o
+mais a perspectiva do frio e fome que o pavor dos fantasmas e lobis-homens.
+Eu, n'este receio, não lhe levava vantagem em fortaleza de espirito.
+Figurava-se-me calamidade superior ás minhas forças o ter de pernoitar
+sobre um chão alagado, e sob o pavilhão de céo tão inclemente.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_11" id="pag_11">[11]</a></span>N'esta conjectura, ouvimos o ladrar dos cães á nossa esquerda.</p>
+
+<p>Á primeira vereda que topamos, na direcção do consolativo signal de
+povoado, nos encaminhamos por barrocas lamacentas até entestarmos
+com um largo portão de quinta. Manoel aldravou com quanta força lhe
+déra o contentamento, e esperamos, não sem receio de que os molossos
+da quinta remettessem contra nós de sobre os estrepes que vedavam
+o alto muro.</p>
+
+<p>Do parapeito do mirante surgiu um vulto a perguntar-nos o que queriamos.
+Respondi que era um padre, perdido no caminho de Mirandella, e pedia
+ao dono d'aquella casa a caridade de me agazalhar e ao meu creado
+por aquella noute.</p>
+
+<p>Passado largo espaço, voltou o interrogador, que nos abriu o portão
+depois de haver acorrentado os cães, e nos metteu á cara uma alanterna
+de furta-fogo, deixando vêr debaixo de cada braço uma pistola de alcance.</p>
+
+<p>Aquietado pela confiança que lhe incutiu a minha cara pacifica, e
+a tão pacifica quanto estupida do meu Manoel, o creado caminhou serenamente
+diante de nós.</p>
+
+<p>Perguntei-lhe como se chamava o dono da casa. Disse-me o nome do fidalgo,
+e acrescentou que a fidalga estava a morrer ethica.</p>
+
+<p>&mdash;N'esse caso&mdash;tornei eu&mdash;queira dizer ao snr. barão que eu não
+quero causar-lhe o menor <span class="pagenum"><a name="pag_12" id="pag_12">[12]</a></span>constrangimento na situação triste
+em que está. Basta que S. Ex.ª nos mande recolher, que nós sahiremos
+cedo sem perturbar o seu socêgo.</p>
+
+<p>Entrei para um salão cujas alfaias eram quatro escabellos de páo com
+grandes armas pintadas no alteroso espaldar.</p>
+
+<p>D'ahi a pouco, fui levado a outra sala mobilada á antiga com cadeiras
+de coiro marchetadas de pregaria amarella, á mistura com uns tremós
+dourados e artezoados do reinado de D. João V, segundo me quiz parecer.
+Das paredes pendiam nove retratos de homens, em que predominavam clerigos
+mitrados, e dos dois que vestiam farda agaloada com habito de Christo
+um dizia o letreiro que tinha sido capitão-mór.</p>
+
+<p>N'esta contemplação me interrompeu o fidalgo.</p>
+
+<p>Era homem de alta e direita estatura: figurava quarenta annos; tinha
+barbas grisalhas e grandes; ampla testa, e olhos rasgados e negros,
+impressivos, penetrantes, assustadores. De mim confesso que o fitava
+a medo, não sei porquê.</p>
+
+<p>Interrogou-me gravemente sobre o ponto d'onde vinha e para onde ia.
+Respondi como cumpria dilatando difusamente as respostas e circumstanciando-as
+para d'este modo captar a benevolencia do fidalgo que parecia escutar-me
+distrahido.</p>
+
+<p>D'ahi a pouco disse dentro uma voz que estava a ceia na mêza.</p>
+
+<p>O senhor ergueu-se, levantou um reposteiro, e <span class="pagenum"><a name="pag_13" id="pag_13">[13]</a></span>obrigou-me
+a precedêl-o na entrada com gentil ademan de cortezão.</p>
+
+<p>A meza era espaçosa de mais para quarenta talheres; mas tinha só dois.</p>
+
+<p>Sentei-me na cadeira que me foi indicada, e comi com a sem-cerimonia
+muito conhecida dos descortezes e dos famintos.</p>
+
+<p>Durante a ceia substancial, occorreu-me perguntar-lhe pelo estado
+de sua esposa; todavia, conteve-me a inopportunidade da occasião,
+e o receio de me demasiar em inquirir de senhora que eu não conhecia,
+não me sendo semelhante pergunta auctorisada pelo silencio do barão.</p>
+
+<p>Finda a ceia, segui-o ao longo de um corredor, e entrei no quarto
+que me elle indicou, dizendo:</p>
+
+<p>&mdash;Não se deite já que eu preciso talvez do snr. para um acto proprio
+da sua profissão.</p>
+
+<p>E desandou.</p>
+
+<p>Fiquei a scismar, e suggeriu-se-me logo o pensamento de que eu seria
+chamado a ouvir de confissão a senhora inferma.</p>
+
+<p>Esperei duas horas, durante as quaes rezei as minhas rezas.</p>
+
+<p>Voltou o taciturno fidalgo, e disse laconicamente:</p>
+
+<p>&mdash;Ha aqui uma mulher doente que se quer confessar.</p>
+
+<p>«Estou prompto a ouvil-a&mdash;respondi espantado <span class="pagenum"><a name="pag_14" id="pag_14">[14]</a></span>da seccura
+d'aquellas palavras tão desamoraveis com respeito a uma esposa doente.</p>
+
+<p>&mdash;Siga o creado que o está esperando no corredor&mdash;tornou elle.</p>
+
+<p>Sahi ao corredor. O creado que me estava esperando era o mais mal
+encarado homem que ainda vi na minha vida. Afusilavam-lhe os olhos
+como brazas. A testa, unico espaço alumiado d'aquella cara barbaçuda,
+sulcavam-na não sei se cicatrizes, se ulcerações da morphea. A corpulencia
+era agigantada, e o carregar do sobrôlho batia no coração d'um homem
+como o subito coriscar dos olhos de um tigre que rebenta d'entre os
+carrascaes d'um deserto. Os pintores christãos nunca souberam bosquejar
+Lucifer, porque semelhante homem jámais deu nos olhos de artista,
+que desejasse fazer bem conhecida a plastica do diabo com feitio de
+gente.</p>
+
+<p>Segui-o com calafrios, superiores á minha rasão que me aconselhava
+tranquillidade.</p>
+
+<p>Hoje, volvidos quinze annos, conto isto com certo sorriso de facil
+coragem; mas, nos primeiros tempos, aquelle vulto andava terrivelmente
+associado ao quadro negro que vou tentar descrever.</p>
+
+<span class="pagenum"><a name="pag_15" id="pag_15">[15]</a></span>
+<H1>II</H1>
+
+<p>O medonho guia mostrou-me a porta de um quarto, e resmuneou:</p>
+
+<p>&mdash;Levante o fecho, e entre.</p>
+
+<p>Á primeira vista o que pude extremar das trevas era um clarão azulado,
+como de lamparina baça, cuja claridade se esvaecia logo absorvida
+pela escura algidez da alcova.</p>
+
+<p>Avisinhei-me a passos tremulos da lampada, e distingui um leito, e
+na almofada do leito um vulto. Fixei o que me parecia ser um rosto
+de creança, e pude entrever um semblante de mulher, com os olhos cravados
+em mim, olhos que vasquejavam os derradeiros clarões, olhos como devem
+de ser os dos spectros que surgem subitaneos nas trevas aos perversos
+que negam Deus e temem os espectros.</p>
+
+<p>&mdash;Approxime-se, snr. A moribunda sou eu&mdash;disse ella com voz rouca,
+mas serena.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_16" id="pag_16">[16]</a></span>«Deus permittirá que V. Ex.ª esteja menos doente do que
+cuida&mdash;balbuciei com uma especie de terror secreto, presentimento
+d'alma que já se doía antecipadamente da magua que se lhe ia reflectir
+do singular e immenso supplicio d'aquella mulher.</p>
+
+<p>&mdash;Falle baixo que nos escutam&mdash;voltou ella ciciando as palavras,
+e esbugalhando os olhos para a porta.</p>
+
+<p>«Escutar-nos!&mdash;repliquei com assombro&mdash;É impossivel! Eu fui aqui
+enviado para ouvil-a de confissão, minha senhora...</p>
+
+<p>&mdash;Bem sei; mas isso não importa... Quero que me ouça; mas muito baixinho...
+Vou contar-lhe a minha vida como a Deus; mas não me confesso como
+a um padre... É a um homem que ha de ter pena de mim, depois de me
+ouvir; e me ha de fazer um serviço que lhe pede uma agonisante, que
+crê em Deus; mas não pode crer na religião feita por homens que tem
+a semelhança do algoz que me mata.</p>
+
+<p>Isto dizia ella de afogadilho e febril, mas com abafações e ancias
+augmentadas pelo medo de ser escutada.</p>
+
+<p>«Mas não é em confissão que a senhora me quer revelar as culpas que
+lhe pezam na consciencia?!&mdash;perguntei.</p>
+
+<p>&mdash;Não, snr.; eu não creio na confissão. Do mal que fiz estou perdoada;
+tenho soffrido todas as torturas <span class="pagenum"><a name="pag_17" id="pag_17">[17]</a></span>d'este mundo; se as ha
+no outro, nenhuma póde assustar-me.</p>
+
+<p>O meu dever seria combater a incredulidade d'esta senhora com os solidos
+argumentos de que dispõe a theologia contra mais poderosos adversarios;
+abstive-me, porém, de exacerbar o animo affligido da inferma por me
+parecer extemporanea a discussão e recear que o tempo escasseasse
+ao triumpho, nem sempre prompto, dos bons principios. Não obstante,
+repliquei, no intento de encaminhal-a á piedade:</p>
+
+<p>«Se V. Ex.ª não quer confessar-se, diga-me que serviço posso fazer-lhe
+em beneficio da sua alma...</p>
+
+<p>&mdash;Vá vêr se alguem nos escuta...&mdash;insistiu ella, apontando para
+a porta com a mão descarnada.</p>
+
+<p>Fui com repugnancia, figurando-se-me que a minha posição no gremio
+d'esta familia sinistra ia assumindo certa gravidade e um ar de mysterio
+mais ou menos arriscado. Abri cautelosamente a porta, olhei ao longo
+do corredor, e nada vi; salvo lá ao cabo um lampeão a tremer baloiçado
+pelas esfusiadas de vento que assobiava no tecto. Fechei a porta,
+asseverando á enferma que ninguem nos escutava. Ella então sentou-se
+com violento impeto no leito, aconchegou do pescoço, que transpirava,
+a côlcha da cama, bebeu alguns tragos de agua, e balbuciou com anciosas
+suspensões:</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_18" id="pag_18">[18]</a></span>&mdash;Casaram-me ha seis annos com este homem que me mata.
+Eu amava outro homem, que não teve coração nem honra que me salvasse
+de tamanho verdugo. Meu pae sacrificou-me, cuidando que me felicitava.
+O homem que eu amava deixou-me sacrificar, porque não tinha peito
+que supportasse o peso de uma mulher pobre. Vim de Lisboa, onde o
+dono d'esta casa era deputado. Vim; e, ao cabo de alguns mezes, meu
+marido arrependera-se de se ter enganado, cuidando que uma mulher
+simplesmente formosa, mas sem amor, poderia encher-lhe as ambições,
+e dar-lhe o contentamento que ella não tinha. Saciou-se, enojou-se,
+aborreceu-me. Não me deu rivaes, por que só quem ama se sente ultrajada
+pelas infidelidades. Eu não conheci rivaes: conheci apenas mulheres
+que n'esta casa valiam e mandavam mais do que eu.</p>
+
+<p>Voltou á camara meu marido. Aqui fiquei, não obstante lhe pedir com
+muitas lagrimas que me deixasse ir vêr meu pae, e meus dous irmãos
+que tinham vindo da Africa, onde haviam estado alguns annos negociando.
+Meu marido demorou-se anno e meio em Lisboa. N'este longo intervalo
+chorei muito, e só deixei de chorar, quando... quando me vinguei.
+Comprehende-me?</p>
+
+<p>«Quando se vingou? como se vingou V. Ex.ª?!&mdash;perguntei.</p>
+
+<p>&mdash;Vinguei-me... mas foi a paixão que me deu forças... Houve um homem
+que teve por mim um <span class="pagenum"><a name="pag_19" id="pag_19">[19]</a></span>grande amor e um grande dó. Amei-o.
+Luctei. Pedi a Deus que me ajudasse, que me fortalecesse. Pedi á alma
+de minha honrada mãe que me amparasse... pedi a meu marido que me
+deixasse ir para si ou para a companhia de meu pae... Nem Deus, nem
+minha mãe, nem meu marido me valeram... Succumbi... A minha culpa
+foi cega. Confiei-me d'uma creada que tinha chorado comigo. Fui atraiçoada.
+Meu marido teve denuncia da minha queda, e appareceu aqui inesperadamente.
+Nada me disse. Tratou-me com a mesma frieza, com o mesmo despreso.
+Não estranhei. O homem, que eu amava, era ainda parente d'elle e estudava
+em Coimbra. Tinha coração cheio de ancias e desejos da morte. Comprehendeu
+este infeliz que meu marido desconfiava. Quiz fugir comigo para Hespanha,
+e eu resisti, mais por amor d'elle que do meu credito. O meu cumplice
+não podia com o encargo, e iria viver ou morrer miseravelmente em
+paiz estranho.</p>
+
+<p>Passados dias, deixei de ter noticias d'elle. Imaginei-o já em Coimbra,
+posto que não fosse tempo de aulas. Correram trez mezes. Nova nenhuma.
+A criada que me fallava d'elle, recebido o premio da traição, tinha
+fingido que sua familia a chamava. Só então ouvi dizer a outra criada
+que o parente de meu marido desapparecêra sem dizer a ninguem o seu
+destino; e que a familia d'elle vivia consternada com tal successo,
+enviando a toda a parte indagações inuteis.</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_20" id="pag_20">[20]</a></span>Seis mezes depois que meu marido voltára de Lisboa, soube
+eu que se estava preparando este quarto por sua ordem. Vim vêr as
+obras, e perguntei-lhe para que era o armario estreito que se estava
+fazendo n'esta parede e para que eram as grades na janella. Meu marido
+respondeu: «Sabel-o-ha brevemente.»</p>
+
+<p>Concluidas as obras, vi que a minha cama era para aqui mudada, com
+tudo que me pertencia.</p>
+
+<p>Uma noite, meu marido conduziu-me a este quarto. Fechou-se por dentro
+e disse-me: «A senhora entra aqui d'onde nunca mais sahirá; e para
+não estar sósinha, aqui lhe deixo uma adoravel companhia com quem
+póde conversar á sua vontade.» E, dizendo isto, abriu aquelle armario,
+e apontou para um esqueleto, dizendo: «Aqui tem o seu amante. Abrace-se
+n'elle até ficar reduzida ao estado em que lh'o offereço para que
+o possa gosar com toda a liberdade.»</p>
+
+<p>Eu cahi por terra sem sentidos&mdash;proseguiu ella, limpando as lagrimas,
+e aspirando com força&mdash;Quando voltei á vida, cuidei que sahia d'um
+sonho. Ouvi dar meia noute. Era tudo escuridão n'este quarto. Apalpei
+á volta de mim. Não conheci onde estava. Continuei apalpando. Pousei
+as mãos n'uma coisa fria e aspera que estremeceu. Recuei horrorisada...
+Eram ossos... eram as costellas do esqueleto. Então acordei... então
+me fugiu outra vez a rasão com um grito do peito dilacerado. <span class="pagenum"><a name="pag_21" id="pag_21">[21]</a></span>Cahi
+outra vez para diante com a face de encontro aos ossos frios, horrivelmente
+frios...&mdash;</p>
+
+<p>E ella estralejava com os dentes convulsos, e apertava a roupa no
+pescoço. Apoz longo espaço, proseguiu:</p>
+
+<p>&mdash;Ao romper do dia, abri uma janella com o proposito de me suicidar.
+Dei com a face nas grades. Lancei-me á porta que estava fechada por
+fóra, e gritei por soccorro. Abriu-se. Vi um creado com um aspecto
+ameaçador, impondo-me silencio. Este creado era um criminoso que meu
+marido acolhêra para o salvar da justiça que o perseguia. Era esse
+mesmo que o trouxe aqui ha pouco. É o unico ente vivo que eu vejo
+ha dois annos duas vezes por dia, quando me traz alimentos. Foi elle
+quem matou e espedaçou aquelle infeliz...</p>
+
+<p>E, dizendo, apontava para o armario do esqueleto. Continuou:</p>
+
+<p>&mdash;Eu quiz suicidar-me pela fome. Não pude. Quando as agonias da morte
+começavam, eu lançava-me vertiginosamente sobre a comida, e devorava-a
+sem a consciencia do que fazia. D'outra vez consegui com um garfo
+romper uma veia; mas o sangue estancou; senti ancias mortaes; envelheci;
+desfigurei-me, segundo o que sinto, se palpo o meu rosto; que eu ha
+dois annos me não vi n'um espelho... Não consegui morrer. Voltei-me
+para Deus com rogos, com desesperadas supplicas. Orei muito, chorei
+muito, e obtive um grande beneficio. <span class="pagenum"><a name="pag_22" id="pag_22">[22]</a></span>Cahi n'um desalento,
+n'uma somnolencia de moribunda que durou não sei se dias se annos.
+Depois, quiz levantar-me d'este leito, e já não pude. Comecei a pedir
+a Deus a morte, e a sentil-a avisinhar-se pela mão da divina caridade.
+Ha de haver trez horas que entrou aqui o confidente do meu carrasco
+perguntando-me se me queria confessar. Fiquei espantada da religião
+d'estes algozes, e respondi que sim; mas o que eu queria, snr. padre&mdash;ajuntou
+ella estendendo para mim impetuosamente os braços&mdash;era pedir-lhe
+que depois da minha morte, faça saber a meus irmãos este miseravel
+fim que eu tive, para que elles me vinguem...</p>
+
+<p>Acabava a infeliz de proferir estas palavras em voz mais desafogada,
+quando a porta que eu havia fechado por dentro se abriu impellida
+por um valente encontro.</p>
+
+<span class="pagenum"><a name="pag_23" id="pag_23">[23]</a></span>
+<H1>III</H1>
+
+<p>Era o marido.</p>
+
+<p>Faiscavam-lhe ascuas de rancor os olhos injectados. Crispavam-se-lhe
+os beiços retrahidos. A colera engasgava-o a ponto de tartamudear
+estas vozes ejaculadas a trancos:</p>
+
+<p>&mdash;Seus irmãos que venham cá e eu lhes contarei a vida da sua honrada
+irmã!</p>
+
+<p>E ella cobriu os olhos com as mãos, e resvalou para dentro da roupa,
+como se desejasse cahir na sepultura.</p>
+
+<p>Eu caminhei placidamente para aquelle homem terrivel, abeirei-me d'elle
+que me fitava com sobranceria, ajoelhei e disse-lhe com a voz tremente
+de lagrimas:</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_24" id="pag_24">[24]</a></span>&mdash;Perdôe-lhe. Deixe-a morrer em paz. Deixe-a experimentar
+os beneficios da sua compaixão para implorar confiadamente os da misericordia
+divina.</p>
+
+<p>Encarou-me d'um modo indefinivel. Sahiu do quarto, e, já fóra, murmurou
+seccamente:</p>
+
+<p>«O snr. padre recolha-se ao seu quarto.</p>
+
+<p>Relancei um derradeiro olhar para o leito: não a vi; mas ouvia o soluçar
+alto e cavernoso do peito que se esphacellava.</p>
+
+<p>Mal entrei ao quarto onde havia de pernoitar, rebentaram-me as lagrimas
+copiosas. Levantei a Deus o espirito repassado de terror e compaixão,
+pedindo-lhe que despenasse a penitente, ou radiasse luz de commiseração
+em tão carniceiras entranhas.</p>
+
+<p>N'este lance entrou elle, assentou a mão direita sobre o meu hombro,
+e disse:</p>
+
+<p>«Aquella mulher vociferou uma infamia digna da sua deshonra, se quiz
+desculpar o seu crime com as infidelidades de que me accusa. A mulher
+que se vinga do marido, prostituindo-se, cavou a sepultura, e espera
+que a sociedade ou o marido a sepultem. Eu não a matei. Encarreguei
+o esqueleto do homem, que a deshonrou, da missão de a ir matando lentamente.
+Olhe que eu amei aquella mulher. Não a seduzi, não a illudi, não a
+fascinei, nem a disputei a outro. Pedi-a a seu pae. Elle consultou-a,
+ou fingiu que a consultava, como quer que fosse, esta mulher veio
+risonha para os <span class="pagenum"><a name="pag_25" id="pag_25">[25]</a></span>meus braços; chamou-se com orgulho a baroneza
+de ***; mentiu-me cem vezes accusando-me de ingrato ao seu coração
+que me estremecia. Afinal, esta mulher crê ainda imperfeita a sua
+vingança, e na hora extrema invoca os irmãos para que a vinguem. De
+quê? de que hão de vingal-a os irmãos? De eu lhe haver matado o amante?
+Que me responde a sua christã philosophia?</p>
+
+<p>&mdash;Que o terror que V. Ex.ª me incute não me deixa atinar com palavras
+que o commovam...&mdash;Balbuciei.</p>
+
+<p>«Mas responda, snr.!</p>
+
+<p>&mdash;Respondo ajoelhando novamente a supplicar-lhe o perdão da culpada.</p>
+
+<p>«Não posso!&mdash;bradou elle&mdash;Ha dois annos que não sahi de dia d'esta
+casa, receando que todos saibam da minha deshonra. Não posso perdoar-lhe
+sem que a providencia me desopprima do vexame do meu opprobio!</p>
+
+<p>&mdash;Seria generosidade havel-a matado...&mdash;interrompi.</p>
+
+<p>«Bem sei&mdash;redarguiu elle&mdash;bem sei. Ella soffria cinco minutos de
+castigo, e eu ficava soffrendo uma vida inteira de vergonha. Eram
+supplicios incomparaveis! Alem de que, se eu a houvesse esmagado debaixo
+do pêso da minha affrontosa desgraça, o mundo sanctifical-a-ia, lavando-lhe
+com hypocritas lagrimas os ferretes da cara para que se attendesse
+sómente ás manchas de sangue <span class="pagenum"><a name="pag_26" id="pag_26">[26]</a></span>nas minhas mãos de assassino...
+Comprehende isto, padre? Conhece bem a sociedade em que toda a infamia
+é uma convenção, e toda a honra de marido que se desaffronta ha de
+luctar depois com a deshonra irritada dos maridos esporeados pelo
+zelo devassissimo das esposas? Conhece o mundo como Christo o encontrou
+ha 1855 annos? Sabe o que veio fazer Jesus Christo á terra?</p>
+
+<p>&mdash;Morrer pela redempção dos que o mataram, snr.</p>
+
+<p>«Não o percebo!&mdash;exclamou elle com um formidavel brado, e sahiu do
+quarto...</p>
+
+<p>Eu não pude adormecer. Parecia-me ouvir um gemido longo confundido
+com o sibillo do nordeste no entravamento da casa. Rezei muito por
+ella.</p>
+
+<p>Ao alvorejar da manhã, vi um creado que perpassava no corredor. Perguntei-lhe
+a que horas se erguia o fidalgo. Respondeu-me que se havia deitado
+um quarto de hora antes. Pedi-lhe que mandasse o meu criado sahir
+do seu quarto, e fizesse ao dono da casa os meus comprimentos com
+os mais ardentes protestos de eterna gratidão.</p>
+
+<p>Despedi-me assombrado d'aquella casa, onde se respirava um acre nauseativo
+de cadaveres. Ardia-me o peito e a cabeça por tal sorte que eu não
+sentia a chuva glacial d'aquella manhã de 24 de dezembro de 1855.</p>
+
+<p>Fecho a minha historia com a pedra que cobriu o cadaver da baroneza
+de ***. No dia 27 de <span class="pagenum"><a name="pag_27" id="pag_27">[27]</a></span>dezembro me disseram uns pastores
+convisinhos que a fidalga morrêra á hora em que as familias honradas
+e felizes se ajunctavam para receberem as bençãos dos seus anciãos,
+e commemorarem com sanctos jubilos o nascimento do divino Redemptor.</p>
+
+<p>Agora dir-lhe-hei qual era o paradoxo, que tal se me figurou ha quinze
+annos. Aquelle cruelissimo homem tinha-me dito: <i>Se eu a houvesse
+esmagado debaixo do pezo da minha affrontosa desgraça, o mundo sanctifical-a-ia
+lavando-lhe com hypocritas lagrimas os ferretes da cara, para que
+se attendesse sómente ás manchas de sangue nas minhas mãos de assassino.</i></p>
+
+<p>Ora eu entendi a profunda verdade d'esta clausula depois que Vieira
+de Castro, ao cahir agonisante sobre a terra onde tem de vasquejar
+largos annos, matou a esposa, porque a cingia apaixonadamente nos
+braços da sua alma. Morreu-lhe o coração. Ella não teria morrido,
+se o infeliz a podesse arrancar de lá antes de cahir.<span class="pagenum"><a name="pag_28" id="pag_28">[28]</a></span></p>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_29" id="pag_29">[29]</a></span>Concluida a narrativa, o sacerdote deteve-se olhando contra o mar
+que mugia funebremente nos fragoedos socavados. Depois, levantando
+para o céo os olhos humidos e as mãos trementes, disse:</p>
+
+<p>«Meu Deus, enviae segunda vez á terra o vosso divino Filho! Esta negridão
+gentilica é peor que a de ha dois mil annos. N'aquelle tempo esperava-se;
+nas entranhas sociaes estremecia o presentimento d'um regenerador...
+Hoje em dia, nada, nada, ó altissima Providencia! Nada! Mas... voltareis,
+ó Christo?</p>
+
+<p>E proseguiu, corridos instantes:</p>
+
+<p>&mdash;Que haverá já agora n'esta vida que possa levantar a alma do seu
+amigo?</p>
+
+<p>«O esteio da dignidade.</p>
+
+<p>Conheci-o quando os horisontes da vida se lhe prefiguravam e realisavam
+em risonhas prosperidades. O destino, como forçado pelo talento, ajoelhava-lhe.
+<span class="pagenum"><a name="pag_30" id="pag_30">[30]</a></span>Não o admirei então, senão por que felicidade e genio pareciam
+dar-se as mãos e concertar-se no plano de o exalçaram onde raro em
+Portugal subiram grande espirito e grande coração.</p>
+
+<p>Hoje cerram-se contra elle injurias e trevas.</p>
+
+<p>A luz do seu honrado infortunio é um reverberar sinistro d'uma estrella
+funesta, cuja claridade lhe banhará a sepultura por esse viver das
+gerações além. A posteridade de seus irmãos irá ahi retemperar sentimentos
+de pundonor; e os descendentes de meus filhos cuidarão que me vêem
+absorto entre elles defronte das cinzas de Vieira de Castro.</p>
+
+<p>Vae-se-lhe a vida diluida em lagrimas de sangue. Vae. Mas a pagina
+que deixa dirá que a onda da corrupção quando chegou até elle, desfez-se-lhe
+aos pés. Se a onda lhe revolveu e abriu a terra da sepultura, aqui
+ou em Africa, não importa.</p>
+
+<p>Prouvera a Deus que elle não chorasse a felicidade que lhe mataram!
+Sobre quem mandará Deus que caiam as lagrimas que Vieira de Castro
+ha de chorar por sua mãe e irmãos? No dia em que elle sahir para Africa,
+as almas compassivas irão ás egrejas pedir ao Altissimo que alumie
+o seio do degradado com um raio de misericordioso alento...</p>
+
+<p>Deixal-o ir.</p>
+
+<p>Deixal-o esconder-se dos olhos d'esta aviltante piedade que deixou
+de o apedrejar quando o viu perdido.</p>
+
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_31" id="pag_31">[31]</a></span>Loura creança que eu vi, ha vinte annos, alumiada pelas ultimas alegrias
+da fugitiva infancia, prouvera a Deus que o sepulcro de teu pae se
+te abrisse então.</p>
+
+<p>Os embriões das tuas alegrias da juventude esmagou-os a pedra que
+desceu sobre o seio onde se perderam os thesouros que haviam de completar
+a felicidade da tua alma.</p>
+
+<p>O teu coração, aos desoito annos, abafava em si as amarguras da soledade,
+retrahia-se em devorantes desejos do amor de familia, a paixão santa,
+unica e profunda que eu te conheci.</p>
+
+<p>Quem imaginou que tu choraste amarissimas lagrimas n'aquella tua casa
+triste que demora solitaria entre duas serras?</p>
+
+<p>No mais verde dos annos, abalisaste os teus anhelos juvenís entre
+umas arvores que teus avós plantaram; e alli, sósinho, esperaste que
+a Providencia <span class="pagenum"><a name="pag_32" id="pag_32">[32]</a></span>te deixasse reflorir uma primavera na alma.</p>
+
+<p>O teu formidavel espirito reagiu contra a mais crua sorte que ainda
+fadou uns vinte annos relegados d'esse gosar commum que permitte a
+cada homem sentir o alvorejar dos affectos e as musicas do céo que
+embalam a alma para sonhar venturas.</p>
+
+<p>Tu não as sonhaste quando o coração desbordava de seiva para renascer
+de suas mesmas cinzas, se a perfidia o cancerou com a sua peçonha.</p>
+
+<p>Um dia, já tarde, amaste pela primeira vez, quando te deu de rosto
+e te cegou a luz funesta que desce do céo com os anjos despenhados.</p>
+
+<p>Quando baixaste a face até ao chão onde ajoelhavas em adoração de
+creança que beija os labios de sua mãe, em adoração de pae que aconchega
+no seio as mãos de sua filha, sentiste que a deshonra te cravava as
+garras, e te desentranhava do peito a alma, e t'a expunha em pelourinho
+infame aos insultos dos que passavam.</p>
+
+<p>Tu não podias ajustar ás faces a mascara que te offereciam as mãos
+infames da tolerancia.</p>
+
+<p>Ao teu rosto não podiam sahir as lagrimas faceis das almas vulgares
+por que era sangue, era a vida toda que te haviam arrancado.</p>
+
+<p>E tu premeditaste!.. Oh! não premeditaste nada, infeliz!</p>
+
+<p>Quem contará as horas, os periodos de infernal duração que passaram
+na tua vida?</p>
+
+<p><span class="pagenum"><a name="pag_33" id="pag_33">[33]</a></span>Curvaste-te sobre o teu abysmo; e ali quedaste empedrado
+até que resvalaste nas fauces da voragem.</p>
+
+<p>No teu baque levaste comtigo um cadaver que te abrira o golphão com
+as mãos ainda quentes dos teus beijos.</p>
+
+<p>Não premeditaste nada, infeliz.</p>
+
+<p>Cada minuto que ia passando estalava-te uma fibra da alma, queimava-te
+uma particula do cerebro, escaldava-te em veneno dilacerante cada
+lagrima que te refluia dos olhos.</p>
+
+<p>Não era somente a honra perdida que te excruciava; era a mulher idolatrada
+que ainda vivia e já te pezava morta no coração.</p>
+
+<p>Ao passo que a mão de ferro da desgraça te batia no seio, tu ias acordando
+ao estrondo horrivel. Cada instante era o precursor de novas trevas
+que se iam condensando, era o bago da areia que ia cahindo, era uma
+esperança derruindo depoz outra, era o ir-se toda a alma espedaçada
+até esvasiar-se o peito de lagrimas, e encher-se de rancor inexoravel,
+espicassado pela deshonra e ingratidão.</p>
+
+<p>Oh! tu não premeditaste nada, infeliz!</p>
+
+<p>Os que delinquiram premeditando, não dizem á justiça humana: «Aqui
+estou! condemna-me!»</p>
+
+<p class="centrado">FIM.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Voltareis ó Christo?, by
+Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK VOLTAREIS Ó CHRISTO? ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
+
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+will be renamed.
+
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+
+
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
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+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
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+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
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+ https://www.gutenberg.org
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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