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+Project Gutenberg's Hamlet: Drama em cinco Actos, by William Shakespeare
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Hamlet: Drama em cinco Actos
+
+Author: William Shakespeare
+
+Translator: Luís I Rei de Portugal
+
+Release Date: June 1, 2008 [EBook #25667]
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+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HAMLET: DRAMA EM CINCO ACTOS ***
+
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+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
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+HAMLET
+
+DRAMA EM CINCO ACTOS
+
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+WILLIAM SHAKESPEARE
+
+
+HAMLET
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+Drama em cinco actos
+
+
+Traducção Portugueza
+
+Segunda Edição
+
+
+LISBOA
+
+Imprensa Nacional
+
+1880
+
+
+
+
+INTERLOCUTORES
+
+
+ CLAUDIO--Rei de Dinamarca.
+
+ HAMLET--Filho do defunto Rei e sobrinho do Rei reinante.
+
+ POLONIO--Camareiro mór.
+
+ HORACIO--Amigo de Hamlet.
+
+ LAERTE--Filho de Polonio.
+
+ VOLTIMANDO }
+ }
+ CORNELIO }
+ }
+ ROSENCRANTZ } Cortezãos dinamarquezes.
+ }
+ GUILDENSTERN }
+ }
+ OSRICO }
+
+ UM OUTRO CORTEZÃO.
+
+ UM PADRE.
+
+ REINALDO--Creado de Polonio.
+
+ MARCELLO E BERNARDO--Officiaes.
+
+ FRANCISCO--Soldado.
+
+ UM EMBAIXADOR.
+
+ A SOMBRA DO REI HAMLET.
+
+ FORTIMBRAZ--Principe de Noruega.
+
+ GERTRUDES--Rainha de Dinamarca, mãe de Hamlet.
+
+ OPHELIA--Filha de Polonio.
+
+Senhores, damas, officiaes, soldados, actores, padres, coveiros,
+marinheiros, mensageiros, creados, etc.
+
+
+A scena passa-se em Elsenor
+
+
+
+
+ACTO PRIMEIRO
+
+
+SCENA I
+
+Elsenor, a explanada do castello
+
+FRANCISCO de sentinella, BERNARDO vem encontrar-se com elle
+
+BERNARDO
+
+Quem vem lá? viva quem?
+
+FRANCISCO
+
+Responde tu primeiro, faze alto, deixa-te reconhecer.
+
+BERNARDO
+
+Viva o rei.
+
+FRANCISCO
+
+Bernardo?
+
+BERNARDO
+
+Eu mesmo.
+
+FRANCISCO
+
+És pontual.
+
+BERNARDO
+
+Acaba de dar meia noite; vae descansar, Francisco.
+
+FRANCISCO
+
+Agradeço-te de me teres vindo render; faz um frio glacial, e começava a
+sentir-me incommodado.
+
+BERNARDO
+
+Não houve novidade emquanto estiveste de sentinella?
+
+FRANCISCO
+
+Nem sequer ouvi correr um rato.
+
+BERNARDO
+
+Então boas noites; se vires Horacio e Marcello, que tambem estão de
+guarda, dize-lhes que se aviem.
+
+Chegam HORACIO e MARCELLO
+
+FRANCISCO
+
+Creio ouvil-os, façam alto, quem vem lá?
+
+HORACIO
+
+Amigos da patria.
+
+MARCELLO
+
+Subditos do rei de Dinamarca.
+
+FRANCISCO
+
+Santas noites.
+
+MARCELLO
+
+Viva, meu valente soldado, quem te rendeu?
+
+FRANCISCO
+
+Bernardo está agora de sentinella. Boa noite. (Retira-se.)
+
+MARCELLO
+
+Olá, Bernardo?
+
+BERNARDO
+
+Não é Horacio que eu vejo?
+
+HORACIO
+
+Elle mesmo em corpo e alma.
+
+BERNARDO
+
+Bemvindo sejas, Horacio, e tu tambem, amigo Marcello.
+
+MARCELLO
+
+Dize-me, já viste a apparição esta noite?
+
+BERNARDO
+
+Ainda nada vi.
+
+MARCELLO
+
+Horacio diz que é effeito da minha imaginação, e nega-se a acreditar na
+visão temerosa, de que já por duas vezes fomos testemunhas; pedi-lhe
+portanto que viesse comnosco, para que se o phantasma de novo apparecer,
+elle possa testemunhar a verdade do que afiançâmos e dirigir-lhe a
+palavra.
+
+HORACIO
+
+Historias, qual apparecer!
+
+BERNARDO
+
+Sentemo-nos um instante, e vamos repetir-te a narração do que temos
+presenceado duas noites consecutivas e a que prestas tão pouco credito.
+
+HORACIO
+
+Com todo o gosto, e deixemos fallar Bernardo.
+
+BERNARDO
+
+A noite passada, á hora em que esta estrella que vêem ao poente do polo
+descreve o seu giro e vem illuminar esta parte do firmamento, em que ora
+brilha, no momento em que na torre soava uma hora, Marcello e eu...
+
+MARCELLO
+
+Silencio, eil-o que apparece.
+
+Apparece a sombra do REI
+
+BERNARDO
+
+Assimilha-se ao defunto rei.
+
+MARCELLO
+
+Tu que estudaste, Horacio, falla-lhe.
+
+BERNARDO
+
+Não é verdade que se parece com o defunto rei? Observa bem, Horacio.
+
+HORACIO
+
+A similhança é espantosa; a surpreza e o terror paralysaram-me.
+
+BERNARDO
+
+Parece esperar que lhe fallem.
+
+MARCELLO
+
+Falla-lhe, Horacio.
+
+HORACIO
+
+Quem quer que és, que a esta hora da noite usurpas a fórma magestosa e
+guerreira, debaixo da qual se mostrava o meu defunto soberano, em nome
+do céu, falla, ordeno-to eu!
+
+MARCELLO
+
+Parece descontente.
+
+BERNARDO
+
+Eil-o que se afasta, caminhando lenta e gravemente.
+
+HORACIO
+
+Detem-te, falla, falla, intimo-te a que falles. (A sombra afasta-se.)
+
+MARCELLO
+
+Foi-se sem responder.
+
+BERNARDO
+
+Então, Horacio, que é essa tremura e pallidez; não haverá alguma cousa
+mais do que um effeito de imaginação, que dizes agora?
+
+HORACIO
+
+Pelo Deus do céu, não o acreditava sem o testemunho positivo e
+irrecusavel dos meus proprios olhos.
+
+MARCELLO
+
+Não se parece com o rei?
+
+HORACIO
+
+Como tu te pareces comtigo mesmo, era a armadura que usava quando
+combateu o ambicioso norueguez; tinha aquelle ar ameaçador, no dia em
+que no seu proprio carro, atacou, por causa de uma acalorada porfia, o
+guerreiro polaco, e o prostrou no gêlo para nunca mais se levantar. É
+assombroso!
+
+MARCELLO
+
+Assim é que elle já duas vezes passou pelo nosso posto de observação com
+o seu caminhar grave e marcial.
+
+HORACIO
+
+Com que designio, ignoro-o, mas em minha opinião é um presagio para o
+estado de alguma grande catastrophe.
+
+MARCELLO
+
+Pois bem, sentemo-nos, e aquelle d'entre vós todos que o souber, diga
+porque fatigam, com guardas vigilantes e rigorosas, os subditos d'este
+reino; para que esta fundição diaria de canhões de bronze, estas compras
+de armamentos e munições no estrangeiro; para que se enchem de operarios
+os nossos arsenaes maritimos; porque este augmento de trabalho, que nem
+os dias santos são respeitados; para que esta actividade de dia e de
+noite? O que será? Qual de vós m'o poderá dizer?
+
+HORACIO
+
+Posso eu, ao menos, referir os boatos. Nosso ultimo rei, cuja imagem
+ainda ha pouco vimos, foi, segundo dizem, convocado a campo fechado por
+Fortimbraz de Noruega, que um cioso orgulho tinha levado a esse acto.
+N'esse combate o nosso valente Hamlet, e era justa a sua reputação,
+matou a Fortimbraz. Ora em virtude de uma declaração authentica,
+sanccionada pelas leis da cavallaria, se Fortimbraz succumbisse, todos
+os seus estados pertenceriam ao vencedor. Por sua parte o nosso rei
+tinha empenhado da mesma fórma a sua palavra; e no caso de elle ser
+vencido, uma igual porção de territorio pertenceria a Fortimbraz. Assim,
+em virtude d'este pacto reciproco, a successão do vencido pertencia de
+direito a Hamlet. Comtudo o joven Fortimbraz, ardente e sem experiencia,
+reuniu nas fronteiras de Noruega um exercito de aventureiros, promptos e
+resolvidos pela soldada aos mais audaciosos commettimentos. O seu
+projecto, segundo o nosso governo está informado, é nada menos do que
+retomar á viva força e de mão armada esse territorio que seu pae perdeu
+com a vida: eis-aqui, na minha fraca opinião, a rasão principal dos
+preparativos que fazemos, das guardas a que somos obrigados, e d'esta
+actividade tumultuosa que se nota em todo o paiz.
+
+BERNARDO
+
+Tambem eu julgo ser esse o motivo; isto explica-nos porque vemos passar
+diante dos postos de guarda a sombra do rei, com a sua armadura e com o
+seu porte magestoso, d'esse rei que foi e é o causador d'esta guerra.
+
+HORACIO
+
+É um argueiro nos olhos da intelligencia para lhes perturbar a vista.
+Nos tempos mais gloriosos e florescentes de Roma, pouco antes da morte
+do grande Julio, abriram-se os tumulos, e os mortos, nas suas mortalhas,
+divagaram pela cidade, soltando gritos ameaçadores; viram-se estrellas
+deixar após si rastos luminosos, choveu sangue, desastrosos signaes
+appareceram no céu, e o astro humido, sob cuja influencia está o imperio
+de Neptuno, eclipsou-se; todos julgavam ser o fim do mundo. Estes mesmos
+signaes precursores de acontecimentos terriveis, correios de maus
+destinos, preludios de grandes catastrophes, o céu e a terra os fizeram
+apparecer nos nossos climas, aos olhos impressionaveis dos nossos
+compatriotas.
+
+A sombra reapparece
+
+HORACIO continuando
+
+Mas silencio, olhem, eil-o que volta. Vou interpellal-o, embora elle me
+fulmine. Pára. Illusão. Se tens o dom da palavra, se pódes articular
+sons, falla; se ha alguma boa acção cujo cumprimento te possa alliviar e
+contribuir para a minha salvação, responde-me: se és sabedor de alguma
+desgraça que ameace a tua patria, e que um aviso opportuno possa
+desviar... Oh falla! ou se em tua vida confiaste ás entranhas da terra
+riquezas mal adquiridas; e a maior parte das vezes é por isso que vós,
+os espiritos, divagaes depois da morte, dil-o. (O gallo canta.) Detem-te
+e falla. Veda-lhe o caminho, Marcello.
+
+MARCELLO
+
+Devo servir-me da minha partazana?
+
+HORACIO
+
+Serve-te se não parar.
+
+BERNARDO
+
+Para cá?
+
+HORACIO
+
+Por acolá. (A sombra afasta-se.)
+
+MARCELLO
+
+Partiu!--que presença magestosa!--são desacertadas estas demonstrações
+violentas! é invulneravel como o ar, e os nossos golpes não são senão o
+ridiculo esforço de uma colera impotente.
+
+BERNARDO
+
+Ia fallar quando cantou o gallo.
+
+HORACIO
+
+Estremeceu como um culpado que uma intimação subita aterra. Ouvi dizer
+que o gallo, que é o clarim da aurora, acorda o Deus da manhã com a sua
+voz sonora e penetrante, e que a esse signal todos os espiritos errantes
+no mar, no fogo, na terra ou no ar se apressam em voltar aos seus
+respectivos dominios. A prova está no que acabâmos de presencear.
+
+MARCELLO
+
+O gallo cantou, e elle desappareceu. Algumas pessoas dizem que na
+vespera do dia em que se celebra a natividade do Salvador do mundo, o
+arauto da manhã canta toda a noite sem interrupção; pretendem então que
+nenhum espirito ousa saír da sua mansão, que as noites são salubres, que
+nenhuma estrella exerce influencia maligna, nenhum maleficio surte
+effeito, que nenhuma feiticeira exercita os seus feitiços, tanto esse
+dia é bento, e está sob o imperio de uma graça celeste.
+
+HORACIO
+
+Assim o ouvi dizer, e acredito-o. Mas eis que no oriente, acolá no
+fundo, por detrás dos outeiros, surge a manhã, vestida de purpura por
+entre o orvalho. Demos fim á nossa vigilia, e vamos dar parte ao joven
+Hamlet do que vimos esta noite; porque, por vida minha, creio que este
+espirito, mudo para todos, lhe fallará. Approvam esta confidencia, que
+nos impõe o nosso dever e a nossa affeição?
+
+MARCELLO
+
+Vamos sem detença; sei onde o acharemos, e onde lhe poderemos fallar sem
+constrangimento. (Retiram-se.)
+
+
+SCENA II
+
+Uma sala apparatosa no castello
+
+Entram o REI e a sua comitiva, a RAINHA, HAMLET, POLONIO, LAERTE,
+VOLTIMANDO, CORNELIO e CORTEZÃOS
+
+O REI
+
+A morte de Hamlet, nosso amado irmão, ainda é tão recente, que pareceria
+justo, que nossos corações estivessem immersos na tristeza e saudade, e
+que uma nuvem de dor cobrisse o solo d'este reino; comtudo, a rasão
+combateu os impulsos da natureza, tanto que enfreámos a nossa dor, e
+embora ainda esteja bem viva a recordação, pensâmos tambem em nós.
+Portanto, com um prazer incompleto, confundindo os sorrisos com as
+lagrimas, a alegria com o luto; unindo o dobrar dos sinos aos canticos
+nupciaes, tomámos por esposa aquella que outr'ora era nossa irmã, e
+fizemol-a compartir comnosco a corôa d'este bellicoso paiz. N'esta
+conjunctura ouvimos primeiro os vossos illustrados conselhos, livremente
+enunciados. Somos-lhes gratos. Quanto ao joven Fortimbraz, fazendo
+seguramente uma fraca idéa do nosso poder, ou imaginando que a morte de
+nosso chorado irmão lançasse o estado na dissolução e na anarchia,
+embalando-se em chimerica esperança, ousou mandar-nos mensagem após
+mensagem, intimando-nos a restituir-lhe o territorio perdido por seu
+pae, e legalmente adquirido por nosso valoroso irmão; isto por o que lhe
+respeita. Fallemos agora de nós e do motivo d'esta reunião. O motivo é
+este. Pelas presentes escrevemos ao rei de Noruega, tio do joven
+Fortimbraz, que jazendo enfermo n'um leito, mal conhece os projectos de
+seu sobrinho, pedindo-lhe que ponha o seu veto á empreza, porque é de
+entre os seus subditos que se fazem as levas de soldados e os
+alistamentos. Encarregámo-vos, Cornelio e Voltimando, de apresentar as
+nossas saudações ao idoso monarcha norueguez, e é nossa vontade, que nas
+negociações vos conformeis adstrictamente ás instrucções que junto com a
+nossa carta recebereis. Adeus; a celeridade do resultado prove a
+dedicação dos negociadores.
+
+CORNELIO e VOLTIMANDO
+
+Senhor, a nossa dedicação e obediencia não tem limites.
+
+O REI continuando
+
+Nem o duvidâmos. Recebam um cordeal adeus. (Cornelio e Voltimando sáem.)
+Agora, tu, Laerte, que pretendes? Disseram-nos que nos querias fazer uma
+supplica? Qual é? Tu não podes fazer ao monarcha dinamarquez um pedido
+que não seja rasoavel, e não recorres a elle em vão. Que poderias
+desejar, Laerte, a que não estejamos promptos a annuir, mesmo antes de
+conhecer a pretensão. A cabeça não é mais sympathica ao coração, a mão
+não é mais prompta em servir a bôca do que o throno de Dinamarca é
+dedicado a teu pae. Que desejas pois, Laerte?
+
+LAERTE
+
+Meu augusto soberano, a vossa licença e o vosso consentimento, para
+voltar a França. Gostosamente vim a Dinamarca para assistir á vossa
+coroação, mas, cumprido esse dever, confesso-o, os meus desejos e a
+minha vontade me chamam a França, e supplico a vossa magestade que me
+conceda partir.
+
+O REI
+
+Já alcançaste o consentimento de teu pae? o que diz Polonio?
+
+A RAINHA
+
+Arrancou-me o meu consentimento, tanto me importunou; acabei por ceder,
+mau grado meu, aos seus desejos. Supplico-lhe, pois, senhor, que lhe
+conceda a licença pedida.
+
+O REI
+
+Podes partir quando te aprouver, Laerte; deixo-te a liberdade de
+dispores do teu tempo e da tua pessoa. Então, Hamlet, meu primo, meu
+filho?
+
+HAMLET á parte
+
+Aindaque mui proximos parentes não somos primos.
+
+O REI
+
+Porque essas nuvens que pesam sobre a tua fronte?
+
+HAMLET
+
+Engana-se, senhor, como póde haver nuvens, quando brilha o sol.
+
+A RAINHA
+
+Querido Hamlet, despe essas roupas de dó, e lança um olhar amigavel para
+o rei de Dinamarca. Descrava os teus olhos do chão; pareces procurar as
+pegadas do teu glorioso pae. Sabes bem que é um destino invariavel; tudo
+quanto vive ha de morrer, e este mundo é uma ponte para a eternidade.
+
+HAMLET
+
+Sim, senhora, é um destino commum.
+
+A RAINHA
+
+Se é assim, o que te parece a ti tão extraordinario?
+
+HAMLET
+
+Senhora, não me parece, é-o na verdade. O parecer para mim nada vale.
+Minha mãe, não são nem esta capa negra, nem estas vestes obrigadas nos
+lutos solemnes, nem os suspiros que mal póde soltar um peito opprimido,
+nem torrentes de lagrimas, nem o semblante macerado, nem todas as
+manifestações de uma dor pungente, que podem exprimir e revelar o que eu
+sinto. Todos estes signaes podem parecer dor; é um papel facil de
+representar, mas não são verdadeira dor, são como o fato para o
+comediante; mas eu (pondo a mão sobre o coração) sinto aqui, o que não
+ha palavras que o expressem.
+
+O REI
+
+Nada ha na verdade, Hamlet, mais commovente e louvavel do que os deveres
+funebres prestados á memoria de um pae. Mas lembra-te que teu pae já
+perdêra o seu, e que esse tambem já perdêra o pae. E para o sobrevivente
+um dever de piedade filial, dar durante um certo praso provas de uma dor
+respeitosa; mas perseverar n'uma afflicção obstinada, é mostrar uma
+teima impia; é uma dor cobarde, é a prova de uma vontade rebelde aos
+decretos da providencia, de um coração sem energia, de uma alma incapaz
+de resignação, de uma intelligencia pobre e limitada. Porque nos deve
+impressionar a tal ponto um acontecimento, que sabemos ser uma
+necessidade, e que se repete tão frequente, quanto as occorrencias mais
+vulgares; é uma triste indocilidade. Que!! É uma offensa a Deus, uma
+offensa aos finados, uma absurda offensa á natureza, que não tem em seus
+fastos mais vulgar acontecimento, que a morte de um pae; a qual, desde o
+primeiro cadaver até ao homem que hoje se finou, nunca deixou de nos
+clamar: Assim estava escripto. Supplico-te, portanto, abandona essa
+afflicção impotente, e vê em nós um segundo pae; porque queremos que
+todos saibam que tu és o mais proximo ao nosso throno, e que a affeição
+mais terna que um pae tem a seu filho, tenho-a eu a ti. Quanto á tua
+intenção de voltar a Wittemberg, para continuares os teus estudos, nada
+ha mais opposto aos nossos desejos; conjurâmos-te que fiques aqui, sê o
+prazer de nossos olhos, o primeiro da nossa côrte, nosso sobrinho, nosso
+filho.
+
+A RAINHA
+
+Hamlet, far-te-ha tua mãe uma supplica baldada? peço-te fica comnosco,
+não vás para Wittemberg.
+
+HAMLET
+
+Farei o que podér, para em tudo vos provar obediencia.
+
+O REI
+
+Eis emfim uma resposta affectuosa e comedida. Serás na Dinamarca um
+segundo _Eu_. (Á rainha) Venha, senhora, este acto de deferencia de
+Hamlet, cumprido tão naturalmente e sem esforço, enche de jubilo o meu
+coração. Para o celebrar o rei de Dinamarca não libará uma taça, sem que
+a voz do canhão o transmitta ás nuvens. A cada taça quero que o céu o
+annuncie, repercutindo o estrondo dos raios da terra. Vamos agora.
+(Todos sáem excepto Hamlet.)
+
+HAMLET só
+
+Ah! porque não poderá esta carne tão solida fundir-se e tornar-se
+orvalho. Ah que se o Eterno não tivesse fulminado como reprobo o
+suicida... Senhor Deus, meu Deus, como são insipidos, fastidiosos e vãos
+os gosos do mundo. Que pena! Elle é um jardim inculto que só tem plantas
+grosseiras e maleficas. Pois será possivel que ousassem tanto? Morto ha
+dois mezes! que digo? Nem dois mezes ainda. Um rei tão bom, que tanta
+similhança tinha com este como Hyperion com um Satyro, todo ternura para
+minha mãe, a ponto de não querer que uma brisa mais fresca açoutasse o
+seu rosto! Céus e terra! e deverei eu recordar-me? Parecia que a vida de
+um era a vida do outro! Comtudo, passado apenas um mez--não posso nem
+quero pensal-o--, fragilidade é synonymo de mulher. Só um mez, sem ainda
+ter gasto o calçado que usava acompanhando o feretro do marido, banhada
+em lagrimas como uma Niobe, ella mesma, essa mulher, oh céus! um animal
+privado do soccorro da rasão teria prolongado o seu luto; essa mulher
+desposou meu tio, o irmão de meu pae, mas que tem tanto de meu pae como
+eu de Hercules. No fim de um mez, antes que seccassem as suas hypocritas
+lagrimas, casou. Oh criminosa precipitação! Voar com tanto afan a um
+leito incestuoso, é horrivel! E será possivel que o céu o tolere?
+Despedaça-te coração, já que forçoso é calar.
+
+Chegam HORACIO, BERNARDO e MARCELLO
+
+HORACIO
+
+Deus guarde a Vossa Alteza.
+
+HAMLET
+
+Quanto folgo de te ver de boa saude. És tu, Horacio, não me engano.
+
+HORACIO
+
+Eu mesmo, o vosso servo fiel até á morte.
+
+HAMLET
+
+Queres dizer _amigo_; de hoje em diante dar-te-hei este nome. Mas que
+fazes tu longe de Wittemberg, Horacio? Marcello.
+
+MARCELLO
+
+Meu principe!
+
+HAMLET
+
+Alegro-me de te ver, bons dias. (A Horacio.) Mas, francamente, que
+motivo te obrigou a voltar de Wittemberg?
+
+HORACIO
+
+Tudo dissipei.
+
+HAMLET
+
+Nunca consentiria que um teu inimigo assim fallasse a teu respeito; e
+não me obrigarás a forçar a minha rasão a crer no que o meu coração se
+nega a acreditar. Accusares-te d'esta maneira a ti mesmo... tu não és
+dissipador. Que motivo tão forte te pôde pois trazer a Elsenor, tu m'o
+contarás mais tarde, entre dois copos de vinho generoso, antes da tua
+partida.
+
+HORACIO
+
+Senhor, vim prestar a ultima homenagem a seu augusto pae.
+
+HAMLET
+
+Peço-te, meu camarada de estudos, que não zombes; creio antes que vieste
+assistir ao casamento de minha mãe.
+
+HORACIO
+
+Verdade é que não houve quasi intervallo.
+
+HAMLET
+
+Por alvitre economico, Horacio. O banquete funerario ainda subministrou
+as iguarias e as viandas para o festim nupcial. Antes quizera encontrar
+no céu o meu mais encarniçado inimigo, do que ter visto despontar um tal
+dia, Horacio. Meu pobre pae, parece-me que o estou vendo!
+
+HORACIO
+
+Onde, senhor?
+
+HAMLET
+
+Na minha imaginação, Horacio.
+
+HORACIO
+
+Recordo-me de o ter visto, era um grande rei.
+
+HAMLET
+
+Era um homem que, bem considerado, não tinha rival na terra.
+
+HORACIO
+
+Julgo tel-o visto a noite passada.
+
+HAMLET
+
+Viste, quem?
+
+HORACIO
+
+Alteza, vi o rei seu pae.
+
+HAMLET
+
+O rei meu pae?
+
+HORACIO
+
+Senhor, acalme esta agitação e espanto, e preste attenção, emquanto eu,
+fundado no testemunho ocular d'estes senhores, vou relatar esse
+prodigio.
+
+HAMLET
+
+Falla, pelo amor de Deus, sou todo ouvidos.
+
+HORACIO
+
+Durante duas noites consecutivas, no meio das trevas e do silencio,
+emquanto estes senhores estavam de sentinella, eis o que lhes aconteceu.
+Uma figura parecida com seu pae, armada da cabeça aos pés, lhes
+appareceu caminhando lenta e magestosamente. Tres vezes, atemorisados e
+attonitos, o viram passar á distancia do bastão de commando que
+empunhava, emquanto elles, fulminados pelo terror, ficaram mudos, nem
+ousaram fallar. Confiaram-me, debaixo de segredo, tremulos ainda, o que
+tinham presenceado. Na noite seguinte entrei com elles de sentinella, e
+confirmando a verdade das suas palavras, á hora por elles indicada,
+debaixo da fórma por elles descripta, voltou a apparição. Reconheci seu
+pae; as minhas duas mãos não são mais parecidas.
+
+HAMLET
+
+Mas em que sitio appareceu?
+
+MARCELLO
+
+Senhor, na explanada, onde estavamos de sentinella.
+
+HAMLET
+
+Fallaram-lhe.
+
+HORACIO
+
+Fallámos, mas não respondeu. Comtudo uma vez pareceu-me que movia a
+cabeça, como quem quer fallar; mas n'esse momento cantou o gallo
+matinal; ao som do canto afastou-se o espectro apressadamente, e nós
+perdemol-o de vista.
+
+HAMLET
+
+Na verdade é incomprehensivel.
+
+HORACIO
+
+Senhor, juro-lhe pela minha vida que é verdade, e julgámos nosso dever
+informar Vossa Alteza.
+
+HAMLET
+
+Não posso dissimular a minha inquietação! Estão de guarda esta noite?
+
+TODOS
+
+Sim, Alteza.
+
+HAMLET
+
+Armado, disseram?
+
+TODOS
+
+Armado, meu senhor.
+
+HAMLET
+
+Da cabeça aos pés?
+
+TODOS
+
+Tal qual.
+
+HAMLET
+
+Viram-lhe as feições?
+
+TODOS
+
+Vimos, tinha a viseira levantada.
+
+HAMLET
+
+Tinha physionomia carregada?
+
+TODOS
+
+A expressão era antes triste que colerica.
+
+HAMLET
+
+Pallido ou córado?
+
+TODOS
+
+Muito pallido.
+
+HAMLET
+
+O seu olhar fixou-se em algum de vós?
+
+TODOS
+
+Constantemente.
+
+HAMLET
+
+Queria lá ter estado.
+
+HORACIO
+
+O seu espanto teria sido igual ao nosso.
+
+HAMLET
+
+É mais que provavel. Demorou-se muito?
+
+HORACIO
+
+O tempo necessario para contar até _um cento_, sem parar.
+
+MARCELLO e BERNARDO
+
+Muito mais, muito mais.
+
+HORACIO
+
+Não a vez que o vi.
+
+HAMLET
+
+A barba era grisalha, não é verdade?
+
+HORACIO
+
+Era, como em sua vida, de um negro prateado.
+
+HAMLET
+
+Velarei tambem esta noite, talvez que volte.
+
+HORACIO
+
+Sem duvida alguma.
+
+HAMLET
+
+Se se me apresentar debaixo da figura de meu pae, fallar-lhe-hei, embora
+o inferno me ordenasse o silencio, pelas suas horrendas fauces.
+Peço-vos, portanto, que se até hoje tendes guardado um segredo tal a
+respeito da apparição, de hoje em diante sejaes ainda mais cautelosos em
+conservar o sigillo; e aconteça o que acontecer esta noite, reflexão e
+silencio: serei grato a esta prova de affeição. Assim, pois, adeus,
+encontrarme-hei comvosco na explanada entre as onze horas e a meia
+noite.
+
+TODOS
+
+Os nossos respeitos, principe.
+
+HAMLET
+
+Sempre amigos, adeus. (Horacio, Marcello e Bernardo sáem.)
+(Continuando.) A sombra de meu pae, porque apparece armada? Haverá algum
+perigo. Suspeito alguma traição. Espero impacientemente a noite. Até
+então, socega coração. Não ha crimes tão occultos, que o homem não possa
+descobrir. (Sáe.)
+
+
+SCENA III
+
+Um quarto em casa de Polonio
+
+Entram LAERTE e OPHELIA
+
+LAERTE
+
+Já embarcaram os meus creados e roupas. Adeus, minha irmã; quando ventos
+propicios encherem as vélas ao navio que me leva, espero que com a minha
+ausencia não esfriará a tua amisade, e que me darás novas tuas.
+
+OPHELIA
+
+Duvídas porventura, irmão?
+
+LAERTE
+
+Quanto ao que respeita a Hamlet e á sua frivola amisade, considera-a
+como uma moda ephemera, um capricho dos sentidos, uma violeta da
+primavera, precoce mas passageira, suave mas fenecendo ao desabrochar, e
+cujo perfume dura um minuto apenas.
+
+OPHELIA
+
+Só um minuto?
+
+LAERTE
+
+Só, acredita-me, porque o teu desenvolvimento não é só nos musculos e no
+corpo; á medida que o templo toma proporções mais vastas, tambem se
+expande o espirito e a alma. É possivel que te ame agora, que nenhuma
+macula, nenhuma deslealdade offusque a pureza dos seus sentimentos; mas
+acautela-te, porque na posição que occupa é-lhe vedada a propria
+vontade, é escravo do seu nascimento. Não póde, como os outros homens,
+escolher só por affeição, porque á sua escolha estão ligados o bem-estar
+e a salvação do estado; por isso deve subordinal-a ao voto e á
+approvação da nação de que é chefe. Se, pois, te fallar de amor,
+assisadamente usarás, não acreditando senão o que a sua posição lhe
+permitte offerecer, vistoque a sua vontade deve ser a vontade da nação.
+Pensa bem, que mancha para a tua reputação, se prestasses ouvidos por
+demais credulos, ao encanto das suas fallas, se envenenasses tua alma,
+se abrisses o cofre da castidade ás suas audaciosas instancias.
+Acautela-te, Ophelia, acautela-te, querida irmã, luta com a tua affeição
+para vencer as settas e os perigos dos desejos. A virgem prudente já é
+assás prodiga se patenteia a sua belleza aos raios lunares; a propria
+virtude não escapa aos golpes da calumnia; o verme roe as filhas
+predilectas da primavera, antes das flores desabrocharem; e é na aurora
+da vida, regada pelo puro e limpido orvalho, que ha mais perigo para a
+flor da castidade. Sê, pois, circumspecta, a melhor protecção é o receio
+do perigo; a juventude é para si mesma um perigo, se não trava luta com
+outros maiores.
+
+OPHELIA
+
+Em meu coração encerrarei, como um preservativo, a tua salutar lição.
+Mas, querido irmão, não sejas tu, como certos pastores sem virtude, que
+indicam ás suas ovelhas o caminho escarpado e espinhoso que conduz ao
+céu, emquanto elles, libertinos, fogosos e sem pudor, trilham o caminho
+das flores, da licença, e são a antithese das suas palavras.
+
+LAERTE
+
+De mim não te arreceies: já devia ter partido; eis meu pae.
+
+Entra POLONIO
+
+Uma dupla benção é um beneficio duplo; abençôo a occasião de me despedir
+segunda vez de ti.
+
+POLONIO
+
+Ainda aqui, Laerte? para bordo, para bordo. Não te envergonhas? Teu
+navio só te espera para velejar. Recebe a minha benção, e grava na tua
+memoria os seguintes preceitos. Guarda para ti o pensamento, e não dês
+execução apressadamente aos teus projectos; medita-os maduramente. Sê
+lhano sem te esqueceres de quem és. Quando tomares um amigo cuja
+affeição tenhas experimentado, liga-o a ti por vinculos de aço; mas não
+dês confiança irreflectidamente. Faze por evitar questões; mas se o não
+podéres conseguir, conduze-te de maneira que fiques sempre superior ao
+teu adversario. Ouve a todos, mas sê avaro de palavras; escuta o
+conselho que te derem, forma depois o teu juizo. No teu trajar sê tão
+sumptuoso, quanto t'o permittam os teus meios, mas nunca affectado;
+rico, mas não offuscante; o porte dá a conhecer o homem, e n'esse ponto,
+as pessoas de qualidade em França revelam um gosto primoroso, e o mais
+fino tacto. Não emprestes, nem peças emprestado: quem empresta perde o
+dinheiro e o amigo, e o pedir emprestado é o primeiro passo para a
+ruina. Mas sobre tudo sê verdadeiro para a tua consciencia, e assim como
+a noite se segue ao dia, seguir-se-ha tambem, que o teu coração jamais
+abrigará falsidade. Adeus, que a minha benção selle em teu coração os
+meus conselhos.
+
+LAERTE
+
+Despedindo-me, humildemente vos beijo a mão, meu pae.
+
+POLONIO
+
+Não tens tempo que perder, teus creados esperam-te.
+
+LAERTE
+
+Adeus, Ophelia, recorda-te das minhas palavras.
+
+OPHELIA
+
+Fechei-as no meu coração; dou-te a chave, guarda-a.
+
+LAERTE
+
+Adeus. (Sáe.)
+
+POLONIO
+
+Que te disse elle, Ophelia?
+
+OPHELIA
+
+Com licença de meu pae, fallou-me a respeito de Hamlet.
+
+POLONIO
+
+Folgo que o fizesse. Disseram-me que ultimamente Hamlet tem tido comtigo
+frequentes entrevistas, e que tu não te esquivas ás suas frequentes
+visitas. Se assim é, e creio na informação que me deram, devo dizer-te
+que não encaras a tua posição com a lucidez que convem a minha filha, e
+que a tua honra exige. Dize-me a verdade, o que ha?
+
+OPHELIA
+
+Protestos de amor.
+
+POLONIO
+
+De amor! como inexperiente fallas, conservas as illusões todas. Dás tu
+porventura credito aos seus protestos, como tu lhe chamas?
+
+OPHELIA
+
+Nem sei, senhor, o que devo pensar.
+
+POLONIO
+
+Pois bem, eu t'o digo. É necessario que sejas bem creança para crer uma
+realidade os seus protestos, de cuja sinceridade devéras duvido. Não te
+deprecies assim; seria uma loucura.
+
+OPHELIA
+
+O seu respeito foi inseparavel das suas phrases de amor.
+
+POLONIO
+
+E tu acreditas, pobre louca.
+
+OPHELIA
+
+Firmou as suas palavras com os juramentos mais sagrados.
+
+POLONIO
+
+Assim arma o caçador os laços á avesinha innocente e incauta. Sei que,
+quando o sangue ferve, a nossa bôca nunca se nega a protestos e
+juramentos. Minha filha, estes lampejos que dão mais luz que calor, e
+cujo brilho é ephemero, nunca os tomes por verdadeira chamma de amor. A
+datar de hoje, não malbarates tanto a tua presença virginal; difficulta
+mais as entrevistas, que não baste pedir para as obter. Quanto ao sr.
+Hamlet e á confiança que n'elle podes ter, considera que é joven, e que
+póde tomar liberdades de que depois tenhas que te arrepender. N'uma
+palavra, Ophelia, descrê dos seus juramentos, porque não são
+verdadeiros; interpretes de desejos profanos, revestem-se da linguagem
+da mais santa sinceridade. Uma vez por todas, e franqueza, filha,
+prohibo-te toda e qualquer conversa com o sr. Hamlet. Pensa bem.
+Ordeno-t'o.
+
+OPHELIA
+
+Obedecerei, meu pae. (Sáem.)
+
+
+SCENA IV
+
+A explanada do castello de Elsenor
+
+Chegam HAMLET, HORACIO e MARCELLO
+
+HAMLET
+
+Que frio horrivel, gélo.
+
+HORACIO
+
+O ar está devéras glacial.
+
+HAMLET
+
+Que horas são?
+
+HORACIO
+
+Não deve tardar a meia noite.
+
+MARCELLO
+
+Está dando meia noite.
+
+HORACIO
+
+Já! não ouvi, em todo o caso approximâmo-nos da hora a que costuma
+apparecer o phantasma. (Ouvem-se ao longe tangeres de instrumentos, e o
+troar de artilheria.) Que rumor é este?
+
+HAMLET
+
+O rei consagra esta noite ao prazer, está bebendo, e a cada copo de
+vinho do Rheno, os timbales e clarins proclamam o brinde que levantou.
+
+HORACIO
+
+Isso é costume?
+
+HAMLET
+
+Sim é, mas apesar de eu ter nascido n'este paiz, e estar acostumado a
+estes usos, ha emquanto a mim mais gloria em infringil-os, do que em
+observal-os. Estas orgias abjectas trazem-nos, do oriente ao occidente,
+o desprezo das outras nações, que nos qualificam de ebrios, e juntam aos
+nossos nomes os epithetos mais grosseiros. Este defeito embaça as nossas
+mais brilhantes qualidades, e tira-lhes todo o valor. O mesmo acontece
+aos individuos. Se ao nascerem, receberam da natureza alguma macula
+original, de que não são culpados, poisque o nascimento é independente
+da nossa vontade; se os afflige algum vicio de temperamento contra o
+qual todos os esforços da rasão são impotentes, algum costume que
+desagrade nos seus modos destruindo-lhes o encanto; acontece a esses
+homens, tendo o estigma de um defeito unico, libré da natureza, sêllo da
+sua estrella, acontece, digo, que todas as suas virtudes, fossem ellas
+puras como a graça celeste, infinitas quanto comporta á humanidade,
+ficariam manchadas na opinião, publica por esse defeito unico. Basta uma
+mollecula de liga para depreciar esse metal.
+
+Apparece a sombra
+
+HORACIO
+
+Senhor, eil-o.
+
+HAMLET
+
+Anjos do céu, poderes misericordiosos, protegei-nos. Genio bemfazejo, ou
+demonio infernal, que exhalas os perfumes celestes, ou as emanações do
+averno; que sejam sinistras ou caridosas as tuas intenções, appareces-me
+debaixo de uma fórma tão grata que te quero fallar. Interrogo-te,
+Hamlet, senhor, meu pae, rei de Dinamarca, oh! responde-me, não me
+deixes, na ignorancia, morrer de emoção; mas dize-me, porque teus bentos
+ossos encerrados no ataude romperam os sellos; porque te levantaste do
+tumulo em que te haviamos depositado; porque se ergueu a lapide
+sepulchral para te lançar a este mundo? Como, cadaver inanimado,
+vestindo a tua armadura de aço, vagueias tu á duvidosa claridade da lua,
+imprimindo á noite um caracter de horror, lançando-nos, fracos ludibrios
+da natureza, nas ancias do terror; e fazendo surgir em nossas almas
+pensamentos que excedem o nosso alcance? Responde. Porque? Com que fim?
+Que exiges?
+
+HORACIO
+
+Faz-vos signal de o seguir, como se quizesse fallar-vos a sós.
+
+MARCELLO
+
+Veja, principe, o gesto cheio de cortezia e dignidade, com que o convida
+a seguil-o a logar mais remoto; mas não vá.
+
+HORACIO
+
+Senhor, pelo amor de Deus.
+
+HAMLET
+
+Quer-me fallar, pois bem, seguil-o-hei.
+
+HORACIO
+
+Não faça tal, senhor.
+
+HAMLET
+
+Porque? que tenho eu a receiar, importa-me tanto a vida, como se fosse
+um alfinete; quanto á minha alma, nada póde contra ella, porque é
+immortal, como elle é. Repete o signal, vou seguil-o.
+
+HORACIO
+
+E se elle vos attrahisse ao Oceano ou ao pincaro escarpado de algum
+rochedo saliente e sobranceiro ao mar; e se tomasse alguma fórma
+horrivel, cuja vista vos varresse a rasão tornando-vos demente? Pensae
+bem, senhor, não receiaes alguma vertigem ao contemplar de alto a
+immensidade debaixo de vossos pés?
+
+HAMLET
+
+Continua a fazer-me signal. Caminha, sigo-te.
+
+MARCELLO
+
+Não ha de ir, senhor.
+
+HAMLET
+
+Ninguem me detenha.
+
+HORACIO
+
+Seja rasoavel, principe, não vá.
+
+HAMLET
+
+Ouço a voz do meu destino; brada alto, e cada um dos meus musculos
+adquiriu o vigor dos do leão de Nemea. (A sombra faz-lhe signal de a
+seguir.) Chama-me outra vez, deixem-me, senhores (escapa-se-lhes dos
+braços.) Por Deus, que não viverá, quem ousar oppôr-se-me. Afastem-se,
+já disse. (Á sombra.) Caminha, sigo-te. (A sombra e Hamlet afastam-se.)
+
+HORACIO
+
+Apoderou-se d'elle o delirio.
+
+MARCELLO
+
+Sigamol-o; desobedecer-lhe é forçoso n'estas circumstancias.
+
+HORACIO
+
+Não o abandonemos. Qual será o resultado!
+
+MARCELLO
+
+Algum vicio ha na constituição da Dinamarca.
+
+HORACIO
+
+O céu proverá o que for melhor.
+
+MARCELLO
+
+Sigamos o principe. (Sáem todos.)
+
+
+SCENA V
+
+Uma parte mais afastada da explanada
+
+Chegam HAMLET e a SOMBRA
+
+HAMLET
+
+Onde pretendes conduzir-me; mais adiante não irei.
+
+A SOMBRA
+
+Encara-me, Hamlet.
+
+HAMLET
+
+Que queres?
+
+A SOMBRA
+
+Approxima-se a hora em que me devo recolher ás chammas sulphureas e
+ardentes.
+
+HAMLET
+
+Pobre alma!
+
+A SOMBRA
+
+Não me lastimes, mas presta attenção ao segredo que te vou revelar.
+
+HAMLET
+
+Falla, é meu dever escutar-te.
+
+A SOMBRA
+
+Dever tambem é vingar-me depois de me teres ouvido.
+
+HAMLET
+
+Que ouço!
+
+A SOMBRA
+
+Sou a alma de teu pae, condemnada a penar durante um tempo certo, a
+jejuar n'um carcere de chammas, até que as culpas que mancharam a minha
+vida estejam completamente expiadas e purificadas pelo fogo. Se não me
+fosse defezo revelar os segredos do meu carcere, far-te-ía uma narrativa
+de que cada palavra encheria de terror a tua alma, gelaria o teu sangue,
+os olhos quaes estrellas brilhantes saíriam das suas orbitas, os anneis
+do teu cabello desfazer-se-íam em completa desordem, e cada cabello
+ficaria hirto como as cerdas do javali; mas estes mysterios eternos não
+são para ouvidos profanos de carne e de sangue. Escuta, escuta, oh
+escuta-me! se alguma vez amaste teu carinhoso pae...
+
+HAMLET
+
+Oh céus!
+
+A SOMBRA
+
+Vinga a sua morte, causada por um assassinio, cobárde, infame e nefando.
+
+HAMLET
+
+Um assassinio?
+
+A SOMBRA
+
+Infame! todos os assassinios o são, mas nunca houve nenhum mais infame,
+inaudito e horrendo do que este.
+
+HAMLET
+
+Apressa-te em desvelar-m'o, para que prompto, como a meditação, ou como
+o pensamento de amor, possa saciar a minha vingança.
+
+A SOMBRA
+
+Grato sou ao teu empenho, Hamlet; era preciso que fosses mais apathico
+do que a planta grossa e crassa que immovel e inerte apodrece nas
+margens do Lethes, se não sentisses n'este momento commoção alguma.
+Agora, ouve-me. Espalhou-se que emquanto dormia no meu jardim, uma
+serpente me mordêra; é assim que uma fallaz narrativa enganou a
+Dinamarca sobre a causa da minha morte. Sabe tu pois a verdadeira, nobre
+mancebo: a serpente cujo dardo matou teu pae, cinge hoje a corôa d'este
+reino.
+
+HAMLET
+
+Oh meus propheticos presentimentos, meu tio!
+
+A SOMBRA
+
+Sim, esse monstro, incestuoso, adultero pela magia das palavras, pelos
+dotes insidiosos. Oh loquela perversa, oh dotes nefarios, poisque tem
+tal poder de seducção, e conseguiu inspirar essa vergonhosa paixão a
+minha mulher, apparentemente tão virtuosa. Oh! Hamlet, que degradação!
+Descer de mim, cujo amor nobre e digno não tinha desmentido um instante
+o juramento prestado junto ao altar, a um miseravel, entre cujas
+qualidades naturaes e as minhas havia um abysmo! Mas assim como a
+virtude resiste inabalavel ás tentações do vicio, aindaque debaixo da
+fórma da Divindade lhe apparecesse, assim tambem a impudicicia, embora
+associada a um anjo celeste de luz, cansa-se da santidade do leito
+conjugal, para ir habitar o mais desprezivel prostibulo. Mas já sinto a
+frescura da aurora, forçoso é que eu termine. Emquanto dormia no meu
+jardim, era esse o meu costume todas as tardes; teu tio, aproveitando a
+minha inconsciencia, approximou-se de mim, munido de um frasco de
+meimendro, e lançou-me n'um ouvido o conteúdo. É um veneno tão activo
+para o sangue humano, que com a subtileza do mercurio corre e se
+infiltra em todos os canaes, em todas as veias, coalhando e alterando o
+sangue pela sua acção energica: o mais puro e limpido não lhe resiste, é
+como uma gotta de qualquer acido n'uma taça de leite. Tal foi o seu
+effeito, que uma lepra instantanea cobriu meu corpo de uma crosta impura
+e infecta. Eis como durante o meu somno, tudo me foi arrebatado de uma
+vez, e pela mão de um irmão, vida, corôa e consorte. A morte
+surprehendeu-me em estado flagrante de peccado; sem sacramentos, sem me
+reconciliar, nem com Deus, nem com a minha consciencia; tinha que
+comparecer perante o Juiz Supremo vergando sob o peso das minhas
+iniquidades. Horror, horror, cumulo de horror! Se em teu coração vibra a
+fibra da sensibilidade, não o toleres. Não consintas que o leito do rei
+de Dinamarca se transforme em mansão da luxuria e do incesto. Mas seja
+qual for a tua vingança, conserva-te moral e puro, e poupa tua mãe.
+Entrega o seu castigo ao céu, e aos espinhos do remorso que lhe
+dilaceram o coração. Adeus, cumpre-me deixar-te; a luz do perilampo,
+cujo fogo sem calor começa a esmorecer, annuncia a approximação da
+aurora. Adeus, adeus, adeus. Recorda-te sempre de mim. (A sombra
+retira-se.)
+
+HAMLET
+
+Oh! santas legiões do céu, oh! terra, que mais? Invocarei o inferno? Oh!
+opprobrio; contém-te, ah! contém-te, meu coração, e vós, meus musculos,
+não percaes o vigor, e redobrae de força e energia para me suster.
+Recordar-me de ti? Sim, sombra infeliz, emquanto a memoria não abandonar
+este meu cerebro desordenado. _Recorda-te de mim_; sempre! quero varrer
+da minha memoria todas as recordações frivolas, todas as maximas
+colhidas nos livros, todos os vestigios, todas as impressões do passado,
+tudo quanto a juventude e a observação coordenaram, e em sua vez dar só
+lugar, sem rivaes, juro-o pelo céu, aos teus preceitos. Oh! mulher
+perversa, oh infame e damnado monstro! oh memoria, grava bem o seguinte,
+que nos sorrisos do homem se póde occultar um crime; assim é na
+Dinamarca (escreve n'uma carteira). Meu tio, espere-me. A minha senha
+será de hoje em diante. _Adeus, adeus, adeus. Recorda-te de mim._
+Jurei-o.
+
+HORACIO ao longe
+
+Senhor, senhor?
+
+MARCELLO ao longe
+
+Senhor Hamlet?
+
+HORACIO
+
+Que o céu o proteja.
+
+HAMLET
+
+Assim seja.
+
+MARCELLO ao longe
+
+Olá, olá, senhor!
+
+HAMLET
+
+Pousa meu falcão, pousa. (Imita o canto do falcão e o chamamento do
+falcoeiro.)
+
+Chegam HORACIO e MARCELLO
+
+MARCELLO
+
+O que se passou, senhor?
+
+HORACIO
+
+Que novas, senhor?
+
+HAMLET
+
+As mais extraordinarias.
+
+HORACIO
+
+Conte-nol-as, principe.
+
+HAMLET
+
+É um segredo.
+
+HORACIO
+
+E não sou eu capaz de o guardar? O principe conhece-me.
+
+MARCELLO
+
+E eu?
+
+HAMLET
+
+Que me dirão quando o souberem: que coração humano o teria pensado.
+Juram-me segredo?
+
+HORACIO e MARCELLO
+
+Jurâmos.
+
+HAMLET
+
+Não ha em toda a Dinamarca um scelerado igual.
+
+HORACIO
+
+Era necessario que um espectro saísse do tumulo para nol'o dizer?
+
+HAMLET
+
+É verdade, têem rasão. Basta de palavras, um aperto de mão, e cada um
+volte onde o chamam os negocios e as suas inclinações, porque todos têem
+inclinações e negocios, sejam quaes forem: eu, pobre pária do mundo, vou
+orar.
+
+HORACIO
+
+São palavras incoherentes e sem sentido, alteza.
+
+HAMLET
+
+Peza-me que te offendesses, peza-me devéras.
+
+HORACIO
+
+Em que, senhor?
+
+HAMLET
+
+Por S. Patricio, que te offendi e gravemente. Quanto á apparição de inda
+agora, é um phantasma honesto, digo-t'o eu. Quanto ao desejo de
+conhecerem, senhores, o que entre nós se passou, reprimam-n'o. E agora,
+meus bons amigos, em nome da nossa amisade, da nossa camaradagem de
+estudos e de armas, façam-me um favor.
+
+HORACIO
+
+Qual é? Não hesitâmos.
+
+HAMLET
+
+Nunca digam o que viram esta noite.
+
+AMBOS
+
+Conte com a nossa palavra, principe.
+
+HAMLET
+
+Quero um juramento.
+
+HORACIO
+
+Prometti o segredo.
+
+MARCELLO
+
+Já jurámos.
+
+HAMLET
+
+Mas jurem sobre a minha espada.
+
+A SOMBRA (debaixo da terra)
+
+Jurem.
+
+HAMLET
+
+Ah! ah! meu camarada, és tu que fallas; estás ahi, meu valente,
+approxima-te; ouvem a sua voz, prestem o juramento.
+
+HORACIO
+
+Diga-nos a formula, principe.
+
+HAMLET (afastando-se um pouco com elles)
+
+Jurem sobre a minha espada, que guardarão sigillo do que viram e
+ouviram.
+
+A SOMBRA (debaixo da terra)
+
+Jurem.
+
+HAMLET
+
+_Hic et ubique._ Vamos para mais longe. (Afastam-se um pouco.)
+Approximem-se, e estendendo a dextra sobre a minha espada, jurem por
+este gladio nunca revelar o que viram e ouviram.
+
+A SOMBRA (debaixo da terra)
+
+Jurem pela sua espada.
+
+HAMLET
+
+Bravo, velha toupeira, como caminhas depressa subterraneamente, que
+bello mineiro! Afastemo-nos mais uma vez, meus bons amigos.
+
+HORACIO
+
+Por vida minha, é prodigioso!
+
+HAMLET
+
+Acolhâmol-o como se acolhe um estrangeiro. O céu e a terra encerram mais
+mysterios, que os conhecidos pelos philosophos; mas venham. Notem o que
+notarem nos meus modos, se eu julgar necessario affectar maneiras
+extravagantes, jurem-me pela sua salvação que nunca cruzarão os braços,
+meneando a cabeça, nem lhes escaparão palavras ambiguas, como por
+exemplo: _Muito bem, muito bem_--_já sabemos_--ou--_se quizessemos
+fallar_--ou--_ainda ha pessoas que se ousassem_--ou outras expressões
+equivocas, dando a perceber que estão na confidencia; jurem que nada
+farão; e possa, quando mais precisarem, não lhes faltar a graça divina.
+
+A SOMBRA (debaixo da terra)
+
+Jurem.
+
+HAMLET
+
+Acalma-te, alma penada. Assim, senhores, recommendo-me á vossa affeição,
+e tudo quanto um homem tão debil como Hamlet possa fazer para lhes
+provar o seu affecto, fal-o-ha com a ajuda de Deus. Retiremo-nos juntos,
+e silencio; peço-lh'o eu. Ha no mundo alguma grande perturbação.
+Maldição. Porque serei eu o eleito para a terminar? Vamos, partâmos
+juntos.
+
+
+Fim do acto primeiro
+
+
+
+
+ACTO SEGUNDO
+
+
+SCENA I
+
+Uma sala em casa de Polonio
+
+Entram POLONIO e RINALDO
+
+POLONIO
+
+Rinaldo, entrega a meu filho este dinheiro e estas letras.
+
+RINALDO
+
+Sim, meu senhor.
+
+POLONIO
+
+Mas antes de o procurar, obrarás assisadamente tomando informações a seu
+respeito.
+
+RINALDO
+
+Era essa a minha intenção.
+
+POLONIO
+
+Bem, muito bem; toma antes todas as informações pelos dinamarquezes que
+estão em París, vê as suas relações, e com quem se dão, quaes os seus
+gastos; depois de te assegurares pelas tuas perguntas que conhecem meu
+filho, procura colher informações mais exactas, sem comtudo o dar a
+entender. Dissimula que o conheces perfeitamente, dizendo, por exemplo:
+Conheço o pae e a familia, mas d'elle não tenho conhecimento algum.
+Entendes, Rinaldo?
+
+RINALDO
+
+Perfeitamente, senhor.
+
+POLONIO
+
+De todo não me é desconhecido, pódes acrescentar. Conheço-o pouco é
+verdade, comtudo aquelle de quem fallo é um dissipador com todos os seus
+defeitos; imputa-lhe então todos os vicios que te parecer, excepto
+aquelles que podem deshonrar um homem, toma conta n'isso; só as loucuras
+e imprudencias proprias de um joven que se sente livre de todo o
+constrangimento paterno.
+
+RINALDO
+
+O jogo, talvez?
+
+POLONIO
+
+Bem, e as bebidas, a esgrima, as pragas, o genio buliçoso, a convivencia
+do prostibulo, é até onde te auctoriso que chegues.
+
+RINALDO
+
+Actos são, na verdade, que não deshonram.
+
+POLONIO
+
+Sabes bem como te deves haver fazendo estas imputações. Não aggraves os
+factos accusando-o de devassidão continua e habitual; não pretendo tal;
+censura-o mas com discrição; exprime-te como se attribuisses as suas
+faltas aos defeitos inherentes á mocidade, ao abuso da liberdade, ao
+arrebatamento de um espirito fogoso, á effervescencia de um sangue
+ardente.
+
+RINALDO
+
+Mas, senhor?
+
+POLONIO
+
+Porque será conveniente obrar assim.
+
+RINALDO
+
+Para lh'o perguntar estava eu.
+
+POLONIO
+
+É onde eu queria chegar, e na minha opinião é um ardil sem igual. Depois
+de teres imputado a meu filho esses ligeiros defeitos, que se podem
+considerar quando muito como imperfeições n'uma bella obra; se o teu
+interlocutor, aquelle que queres sondar, notou no joven a que te referes
+algum dos vicios mencionados, está certo que responderá immediatamente:
+Meu caro senhor, ou _meu amigo_--ou _meu cavalheiro_--segundo o costume
+do individuo, ou o uso do paiz...
+
+RINALDO
+
+Prosiga, senhor.
+
+POLONIO
+
+Então... que estava eu dizendo? pela santa missa--que queria eu dizer? o
+que era?
+
+RINALDO
+
+Fallava da resposta...
+
+POLONIO
+
+Que te darão, é isso, e não deixarão de responder: _Conheço esse
+mancebo, vi-o ainda hontem, ou outro qualquer dia, em tal epocha, com
+estes ou com aquelles, surprehendi-o jogando, ou n'uma orgia ou numa
+rixa_, ou ainda, _vi-o entrar n'uma casa suspeita_; ou outras cousas
+similhantes: agora vês como com a mentira se colhe a verdade. É assim
+que nós, as pessoas entendidas, empregâmos a miudo o embuste e a
+falsidade para descobrir a verdade. Ahi está o caminho que seguirás para
+saber o comportamento de meu filho. Percebes agora?
+
+RINALDO
+
+Sim, meu senhor.
+
+POLONIO
+
+O Senhor seja comtigo, boa viagem.
+
+RINALDO
+
+Meu amo!
+
+POLONIO
+
+Observa tu mesmo as suas inclinações.
+
+RINALDO
+
+Fal-o-hei, senhor.
+
+POLONIO
+
+Mas não o distráias da sua vida.
+
+RINALDO
+
+Bem entendo.
+
+POLONIO
+
+Adeus. (Rinaldo sáe.)
+
+Entra OPHELIA
+
+POLONIO
+
+Que te traz por aqui, Ophelia?
+
+OPHELIA
+
+Meu pae, meu pae, ainda tremo.
+
+POLONIO
+
+Porque? Falla por piedade.
+
+OPHELIA
+
+Querido pae, estava no meu quarto trabalhando em costura, quando de
+repente deparo com o sr. Hamlet, mas em que estado! as vestes em
+desordem, o cabello em desalinho, as meias caídas arrastavam pelo chão,
+pallido e branco como uma mortalha, tremiam-lhe as pernas, o rosto tinha
+a expressão do desespero, qual profugo do inferno mensageiro de novas
+horriveis.
+
+POLONIO
+
+Enlouqueceria por tua causa?
+
+OPHELIA
+
+Não sei, meu pae, mas receio-o devéras.
+
+POLONIO
+
+Que te disse elle, Ophelia?
+
+OPHELIA
+
+Tomou-me os pulsos, apertando-os convulsivamente, depois afastando-se á
+distancia do seu braço, levando a mão á testa, fitou os olhos no meu
+rosto, como se me quizesse retratar. Assim se demorou por largo tempo,
+por fim saccudindo-me levemente o braço, levantando e baixando por tres
+vezes a cabeça, suspirou tão profundamente, que todo o seu corpo
+estremeceu, parecia o prenuncio da morte. Feito isto, deixou-me, partiu
+e desviando a cabeça, como um homem que para achar caminho não precisa o
+auxilio da vista, transpoz a porta; mas então o seu olhar estava fito em
+mim.
+
+POLONIO
+
+Segue-me, filha, vou procurar o rei. É o delirio do amor; a sua
+violencia mata-o, e impõe á sua vontade actos de desespero, que nenhuma
+outra paixão humana excitaria. Peza-me sinceramente. Dize-me,
+ter-lhe-ías tu dirigido ultimamente alguma palavra cruel.
+
+OPHELIA
+
+Não, meu pae; mas obedecendo ás suas ordens, recusei as suas cartas e
+evitei a sua presença.
+
+POLONIO
+
+Eis o que perturbou a sua rasão. Doe-me de o não ter conhecido melhor:
+receiei que as suas intenções não fossem serias, e que só pretendesse
+consummar a tua ruina. Arrependo-me do fundo de alma das minhas
+desconfianças. Parece que o confiar cegamente na previdencia é o
+apanagio da minha idade, como o contrario é o defeito da mocidade. Vem,
+dirijâmo-nos ao rei, convem que elle nada ignore; porque o sigillo
+d'este amor poderia acarretar mais desgraças do que a sua revelação
+resentimentos. (Sáem ambos.)
+
+
+SCENA II
+
+Uma sala no castello de Elsenor
+
+Entram o REI, a RAINHA, as suas comitivas, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
+
+O REI
+
+Sejam bemvindos, caros Rosencrantz e Guildenstern. Independentemente do
+gosto de os ver, a necessidade do seu prestimo me obrigou a chamal-os a
+esta côrte sem demora. Ouviram seguramente fallar da transformação de
+Hamlet; digo transformação, porque já não é o mesmo homem, nem moral nem
+physicamente. Só a morte do pae póde ser a causa do transtorno da sua
+rasão, não posso conceber outra. Educados com elle desde a infancia,
+sympathisando entre si pela idade e pelo caracter, peço-lhes que
+permaneçam algum tempo na côrte, procurem inspirar-lhe o gosto e prazer
+da sua convivencia, aproveitem todas as occasiões para descobrir se a
+sua afflicção não tem alguma causa desconhecida, cuja revelação nos
+permittisse dar-lhe remedio.
+
+A RAINHA
+
+Bastante tem fallado nos senhores, e estou convencida que ninguem no
+mundo lhes é mais affeiçoado. A liberalidade do rei compensará
+largamente os seus serviços e os seus incommodos. Esperâmos dos senhores
+esta prova de affeição.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Vossas magestades são nossos soberanos, e os reis não pedem, mandam.
+
+GUILDENSTERN
+
+Estamos promptos a obedecer; disponham de nós, senhores. Depondo aos pés
+dos reis os nossos serviços e a nossa dedicação, pedimos-lhes só que
+ordenem.
+
+O REI
+
+Obrigado, senhores.
+
+A RAINHA
+
+Obrigada tambem eu; vão ter com meu filho: infelizmente mal o
+reconhecerão. (Á sua comitiva) Alguns d'estes senhores conduzam estes
+cavalheiros junto de Hamlet.
+
+GUILDENSTERN
+
+Praza a Deus, que a nossa presença lhe seja agradavel e os nossos
+cuidados um lenitivo.
+
+A RAINHA
+
+Deus queira. (Rosencrantz e Guildenstern sáem seguidos de alguns
+cortezãos.)
+
+Entra POLONIO
+
+POLONIO
+
+Senhor, regressaram de Noruega os embaixadores, satisfeitos com o
+resultado da sua missão.
+
+O REI
+
+És sempre correio de boas novas.
+
+POLONIO
+
+Senhor! esteja vossa magestade certo que a minha alma põe a par a
+dedicação ao meu rei e o respeito e amor ao meu Deus. A menos que a
+minha sagacidade habitual me enganasse, descobri a verdadeira causa da
+loucura do senhor Hamlet.
+
+O REI
+
+Estou ancioso por conhecel-a.
+
+POLONIO
+
+Primeiro os embaixadores, depois eu.
+
+O REI
+
+Recebe-os, e encarrego-te de os introduzir á nossa presença. (Polonio
+sáe.) (Á rainha.) Annunciou-me, querida Gertrudes, que conhece a causa
+da doença de seu filho.
+
+A RAINHA
+
+Receio bem que a morte de seu pae e o nosso precipitado consorcio sejam
+as causas unicas.
+
+O REI
+
+Sabel-o-hemos em breve.
+
+Entram POLONIO, VOLTIMANDO e CORNELIO
+
+O REI
+
+Bemvindos sejam, amigos. Falla tu, Voltimando; que novas trazes de nosso
+irmão de Noruega?
+
+VOLTIMANDO
+
+Envia-vos seus cumprimentos e sauda-vos cordealmente. Mal nos ouviu,
+ordenou ao sobrinho que pozesse fim aos seus preparativos guerreiros.
+Julgava-os dirigidos contra a Polonia; mas convencido por um detido
+exame que eram contra vossa magestade, e indignado por Fortimbraz se
+prevalecer do estado precario, a que a idade e a doença o tinham
+reduzido, ordenou-lhe que comparecesse na sua presença. Fortimbraz
+obedeceu á ordem intimada, e depois de severamente reprehendido pelo rei
+de Noruega, prestou nas mãos de seu tio o juramento de nada emprehender
+contra vossas magestades. O idoso monarcha, para provar o seu jubilo,
+concedeu-lhe uma pensão annual de tres mil escudos, e licença para
+combater os polacos com as tropas alistadas. Ao mesmo tempo pede-vos
+pelas presentes (entrega as cartas), que concedaes ás suas tropas livre
+passagem pelo vosso territorio nas condições estipuladas n'este
+escripto.
+
+O REI
+
+Este resultado enche-nos de satisfação; quanto ao pedido, lel-o-hemos, e
+depois de maduramente examinado, responderemos. Agradecemos-lhes os seus
+valiosos serviços. Descansem agora; juntos ceiaremos logo. (Voltimando e
+Cornelio sáem.)
+
+POLONIO
+
+Felizmente está terminado este negocio. Senhor e senhora; discutir o que
+constitue a auctoridade, e em que consiste a obediencia dos subditos,
+porque a noite é noite, o dia é dia, e o tempo é tempo, seria perder sem
+proveito a noite, o dia e o tempo; por isso, visto que a concisão é a
+alma do espirito, emquanto que a prolixidade é só o corpo ou o involucro
+exterior, serei breve: Vosso nobre filho está louco, digo louco, porque
+haveria falta de rasão em querer definir o que constitue verdadeiramente
+loucura. Passemos adiante...
+
+A RAINHA
+
+Menos estylo, Polonio.
+
+POLONIO
+
+Senhora, não faço estylo, juro-o. Seu filho está louco; é triste, mas é
+verdade. É verdade que é uma lastima, mas é uma lastima que seja
+verdade; é uma estulta antithese, mas tal qual é acceite-a; não emprego
+arte. Está louco; resta-nos procurar a causa d'esse effeito, ou antes
+defeito, porque forçosamente a deve ter. Siga bem o meu raciocinio:
+Tenho uma filha, tanto a tenho, que me pertence. Minha filha, fiel ao
+dever e á obediencia que me deve, note bem, entregou-me este escripto.
+(Mostra um papel.) Reflicta e depois tire a conclusão. (Lê.) _Ao idolo
+da minha alma, á celeste Ophelia, á belleza personificada..._ É uma
+desgraçada e estulta expressão. _Conserva preciosamente estas linhas, no
+teu seio alabastrino..._
+
+A RAINHA
+
+É de Hamlet a Ophelia.
+
+POLONIO
+
+Espere um momento, senhora, cito textualmente. (Lê)
+
+ Duvida que do céu a abobada azulada
+ Tenha espheras de luz de um magico esplendor,
+ Duvida seja o sol o facho da alvorada,
+ Duvida da verdade em tua alma gravada,
+ Mas não duvides nunca, oh! nunca, d'este amor.
+
+_Querida Ophelia, não sou poeta, não sei modular suspiros com arte, mas
+podes acreditar que te amo, mais que tudo n'este mundo. Adeus, a ti,
+para sempre minha vida, a ti emquanto esta machina mortal me
+pertencer._==Hamlet.==Eis-ahi o que, por obediencia, minha filha me
+entregou. Já antes ella me tinha confiado as tentativas de Hamlet, á
+proporção que renovava as suas instancias amorosas.
+
+O REI
+
+Como pôde ella acolher este amor?
+
+POLONIO
+
+Em que conta me tem, senhor?
+
+O REI
+
+Na de um homem leal e honrado.
+
+POLONIO
+
+Farei por merecer sempre esse conceito a vossa magestade; mas que
+pensaria o rei de mim, se vendo despontar esse amor, e já o tinha
+adivinhado antes da confissão de minha filha, que pensariam o rei e a
+rainha, se me calasse, e me tornasse mudo confidente do seu amor; se,
+testemunha da sua paixão, tivesse imposto silencio ao meu coração, ou se
+a considerasse com indifferença? má idéa por certo fariam de mim. Não
+perdi um momento, disse a minha filha: _O senhor Hamlet é um principe
+collocado fóra da tua esphera; isto não póde ser._--Ordenei-lhe então
+que evitasse a sua convivencia, e que nunca mais recebesse nem mensagens
+nem dadivas. Seguiu o meu conselho, e para abreviar a minha narração, o
+principe, vendo-se assim repellido, caíu primeiro n'uma profunda
+tristeza, em seguida repugnaram-lhe os alimentos, mais tarde teve
+insomnias, depois abatimentos e fraqueza intellectual, finalmente, e
+sempre gradualmente, chegou á demencia e ao delirio. Deplorâmol-o todos.
+
+O REI
+
+E pensas ser essa a causa?
+
+A RAINHA
+
+É muito provavel.
+
+POLONIO
+
+Quizera me dissessem, se aconteceu alguma vez affirmar eu alguma cousa
+que não fosse certa.
+
+O REI
+
+Nunca que eu saiba.
+
+POLONIO
+
+Se não é verdade o que disse (mostrando a cabeça), que esta role a seus
+pés. Basta-me a mais simples circumstancia para descobrir a verdade,
+aindaque estivesse occulta nas entranhas da terra.
+
+O REI
+
+Por que modo nol-o poderás tu provar.
+
+POLONIO
+
+Vossa magestade não ignora que o sr. Hamlet algumas vezes passeia quatro
+horas consecutivas n'esta galeria.
+
+A RAINHA
+
+É certo.
+
+POLONIO
+
+Quando ali estiver, enviar-lhe-hei minha filha, e nós, occultos por
+detrás d'esta cortina, seremos testemunhas da entrevista. Se não a ama,
+se não foi o amor a causa da sua loucura, deixe eu de pertencer aos
+conselhos de vossa magestade, e faça de mim um quinteiro, um hortelão ou
+um abegão.
+
+O REI
+
+Tentemos a experiencia.
+
+HAMLET entra lendo
+
+A RAINHA
+
+A leitura é a unica distracção d'este infeliz.
+
+POLONIO
+
+Retirem-se ambos por piedade. Vou fallar-lhe. Confiem em mim. (O rei e a
+rainha sáem) Como se sente o sr. Hamlet?
+
+HAMLET
+
+Bem, Deus louvado.
+
+POLONIO
+
+Conhece-me, principe?
+
+HAMLET
+
+Se conheço, és um vendilhão de peixe.
+
+POLONIO
+
+Engana-se, senhor.
+
+HAMLET
+
+N'esse caso, queria que ao menos fosses tão honrado.
+
+POLONIO
+
+Honrado?
+
+HAMLET
+
+Sim; pelo caminho em que vae o mundo, custa achar um homem honrado entre
+dez mil.
+
+POLONIO
+
+É uma triste verdade.
+
+HAMLET
+
+Ora o sol gera vermes no animal putrefacto, e embora divindade, acaricia
+o cadaver. Tens uma filha, não é verdade?
+
+POLONIO
+
+Sim, meu senhor.
+
+HAMLET
+
+Não a deixes caminhar ao sol, a concepção é um beneficio do céu, mas
+como tua filha póde conceber, cuidado... meu caro.
+
+POLONIO
+
+Que quer dizer, principe? (á parte) minha filha é a sua constante
+preoccupação, mas não me reconheceu logo, tomou-me por um vendilhão de
+peixe. O seu cerebro está gravemente atacado; verdade é, que na minha
+mocidade o amor algumas vezes me reduziu a um estado similhante a este.
+Dirijâmos-lhe de novo a palavra. Que está lendo, senhor?
+
+HAMLET
+
+Palavras e mais palavras, só palavras.
+
+POLONIO
+
+De que se trata, senhor?
+
+HAMLET
+
+Quem, o que?
+
+POLONIO
+
+Pergunto o que contém o livro que está lendo.
+
+HAMLET
+
+Calumnias, nada mais. O satyrico auctor tem a impudencia de dizer que
+nos velhos a barba é grisalha, a pelle rugosa, e que seus olhos
+distillam ambar e gomma em fusão; que o espirito está caduco, as pernas
+não os sustêem; tudo cousas que creio em minha consciencia, mas que se
+não devem escrever. Quanto ao senhor, poderia ter a minha idade, se
+podesse andar para trás como os caranguejos.
+
+POLONIO (á parte)
+
+Aindaque louco póde coordenar as idéas. (Alto.) Quer vir tomar ar, meu
+senhor?
+
+HAMLET
+
+Que ar? o do tumulo?
+
+POLONIO (á parte)
+
+Que agudeza e que verdade na replica. Ás vezes as palavras dos loucos
+têem mais conceito que as dos sãos. Vou deixal-o, e preparar a sua
+entrevista com minha filha. Senhor, tomo a liberdade de me retirar.
+
+HAMLET
+
+Nada podia tomar, que eu désse com mais gosto; excepto a vida, excepto a
+vida, excepto a vida.
+
+POLONIO
+
+Adeus, meu senhor.
+
+HAMLET (á parte)
+
+Que imbecil e fastidioso velho.
+
+Entram ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
+
+POLONIO
+
+Procuram o sr. Hamlet, eil-o.
+
+ROSENCRANTZ (a Hamlet)
+
+Deus seja comvosco, senhor. (Polonio sáe)
+
+GUILDENSTERN
+
+Meu nobre senhor.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Querido principe.
+
+HAMLET
+
+Meus bons e queridos amigos, como estão, tu Guildenstern e tu tambem
+Rosencrantz, meus caros, como passam.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Nem bem, nem mal.
+
+GUILDENSTERN
+
+Não nos peza demasiado a nossa felicidade, e não tocâmos o ponto
+culminante da fortuna.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Nem temos tambem rasões de queixa.
+
+HAMLET
+
+No meio está a virtude, é quando chovem as graças.
+
+GUILDENSTERN
+
+Vivemos familiarmente com ella.
+
+HAMLET
+
+Estão pois na intimidade da fortuna; não me admira, é uma cortezã. Que
+novas ha?
+
+ROSENCRANTZ
+
+Nenhumas, senhor, a não ser que este mundo se tornou virtuoso.
+
+HAMLET
+
+Em tal caso o seu fim está mui proximo, mas o que dizes é falso.
+Permittam-me uma pergunta que lhes diz respeito. Digam-me, que mal
+fizeram á fortuna para ella os enviar para este carcere?
+
+GUILDENSTERN
+
+Carcere, senhor?
+
+HAMLET
+
+A Dinamarca tambem é carcere.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Então é-o o mundo todo.
+
+HAMLET
+
+Sim, uma vasta prisão que em si encerra um grande numero de carceres,
+dos quaes o peior é de certo a Dinamarca.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Não somos da mesma opinião, principe.
+
+HAMLET
+
+Para os senhores não será uma prisão a Dinamarca, porque o bem ou o mal
+não existem senão quando assim o julgâmos. Para mim é.
+
+ROSENCRANTZ
+
+A ambição faz parecer a Dinamarca uma prisão a vossa alteza, não cabe
+n'ella a sua alma.
+
+HAMLET
+
+Acharia vasto reino uma casca de noz, se não fossem os meus terriveis
+sonhos.
+
+ROSENCRANTZ
+
+São justamente esses sonhos que constituem a ambição, porque toda a
+substancia do ambicioso é a sombra de um sonho.
+
+HAMLET
+
+Assim os mendigos são corpos, e os monarchas e os heroes ambiciosos não
+são senão a sua sombra. Querem que vamos á côrte? porque sinceramente
+não me sinto disposto a discutir.
+
+AMBOS
+
+Estamos ás suas ordens, principe.
+
+HAMLET
+
+Não o comprehendo eu assim, não o quero confundir com o resto dos meus
+creados; porque, para lhes dizer a verdade, sou pessimamente servido.
+Mas, com franqueza, amigos, o que os trouxe a Elsenor.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Unicamente visitar a vossa alteza, nenhum outro motivo.
+
+HAMLET
+
+Estou tão pobre, tão alheio ao reconhecimento! mas recebam os meus
+agradecimentos pelo preço que valem. Não os mandaram chamar? Foi por
+motu proprio que vieram? É a affeição que aqui os trouxe? Vamos, sejam
+francos, vamos, fallem.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Que quer que digâmos, senhor?
+
+HAMLET
+
+Tudo quanto lhes aprouver, mas respondam á minha pergunta. Mandaram-os
+chamar? Leio nos seus olhos uma confissão, que a sua candura não sabe
+dissimular. Sei que o nosso bom rei e a nossa excellente rainha os
+mandaram chamar.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Com que fim, senhor?
+
+HAMLET
+
+Os senhores é que o poderão dizer; mas imploro-lhes, pelos direitos da
+nossa amisade, pelas sympathias da nossa idade, pelos deveres que nos
+impõe a nossa verdadeira affeição, emfim por todas as rasões as mais
+convincentes que podesse allegar o mais habil orador, sejam francos e
+sinceros commigo; mandaram-os chamar? _Sim_ ou _não_.
+
+ROSENCRANTZ (a Guildenstern)
+
+Que devemos responder?
+
+HAMLET (á parte)
+
+Não os perderei de vista. (Alto.) Se devéras me têem affeição,
+expliquem-se com franqueza.
+
+GUILDENSTERN
+
+Pois bem, senhor, mandaram-nos chamar.
+
+HAMLET
+
+E eu dir-lhes-hei porque; d'est'arte a minha confissão precederá as suas
+investigações, e o segredo promettido ao rei e á rainha, não será nem de
+leve violado. Ultimamente, nem sei por que, perdi toda a minha alegria,
+renunciei a toda a especie de exercicio; e sinto na alma uma tal
+tristeza, que esta maravilhosa machina, a terra, me parece um esteril
+promontorio, este esplendido docel, o céu, esse magnifico firmamento
+suspenso sobre nossas cabeças, essa abobada sumptuosa, onde brilha o
+oiro de innumeras estrellas, tudo me parece um infecto monturo de
+vapores pestilentes. Que obra prima dos homens! que elevação na sua
+intelligencia! quanto são infinitas as suas faculdades! como a sua fórma
+é imponente e admiravel, como os seus actos approximam os homens dos
+anjos, e a sua rasão os approxima de Deus! são a maravilha do mundo, os
+reis da creação animada, e comtudo o que vale a meus olhos essa quinta
+essencia do pó? Aborreço os homens e as mulheres, embora os seus
+sorrisos incredulos, senhores, digam o contrario.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Não tinhamos em nosso pensamento tal intenção.
+
+HAMLET
+
+Então porque se riram quando disse que aborrecia os homens?
+
+ROSENCRANTZ
+
+É que eu pensava que, se os homens lhe são odiosos, triste acolhimento
+receberiam os actores que encontrámos no caminho e que vem offerecer a
+vossa alteza os seus serviços.
+
+HAMLET
+
+Bemvindo será o que representa os reis; tributarei a sua magestade as
+minhas homenagens; o cavalleiro andante manejará adaga e escudo, debalde
+não suspirará o namorado, o comico declamará em paz a sua parte; o bobo
+provocará o riso aos mais hypocondriacos, emfim a namorada estropiará os
+versos para não deixar de dizer o que cumpre sinta no coração. Que
+actores são?
+
+ROSENCRANTZ
+
+São os tragicos da cidade, que lhe agradavam tanto.
+
+HAMLET
+
+Porque se tornaram actores ambulantes? Com a permanencia na cidade,
+auferiam de certo maior honra e lucros.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Innovações recentes foram a causa d'isso.
+
+HAMLET
+
+Ainda gosam da mesma reputação que tinham quando eu habitava a cidade?
+As suas representações ainda são muito concorridas?
+
+ROSENCRANTZ
+
+Pouco, senhor.
+
+HAMLET
+
+Porque será? Terão elles desmerecido no seu modo de representar?
+
+ROSENCRANTZ
+
+Não, meu senhor; o seu zêlo não arrefece: mas vossa alteza de certo
+saberá, que appareceu um enxame de creanças, apenas saídas da primeira
+infancia, que declamam o dialogo o mais simples, no tom o mais elevado,
+e por isso são calorosamente applaudidas. São moda, e lançaram um tal
+desfavor sobre os actores ordinarios, como ellas lhe chamam, que muitos
+homens valentes no campo da batalha, mas que temem as pennas aguçadas,
+não ousam frequentar o verdadeiro theatro.
+
+HAMLET
+
+Como? pois são creanças? Quem as protege? quem lhes paga? quererão
+unicamente seguir a sua profissão emquanto conservarem a sua voz
+aflautada? E se um dia pela força das circumstancias se tornarem actores
+ordinarios, não terão direito então de se arrependerem, de terem
+acceitado os encomios das pennas que bem mau serviço lhes prestaram,
+quando se voltarem contra elles as armas de que se serviram para mal dos
+outros.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Não luctaram pouco entre si, e a nação inteira animou a contenda. Houve
+um momento em que a receita do emprezario dependia de brigarem os
+actores e auctores.
+
+HAMLET
+
+Será crivel?
+
+ROSENCRANTZ
+
+Houve mais de uma cabeça quebrada.
+
+HAMLET
+
+E foram as creanças que venceram?
+
+ROSENCRANTZ
+
+Sim, meu senhor. Venceram o proprio Hercules com o seu globo.
+
+HAMLET
+
+Nada me admira, sendo meu tio rei de Dinamarca. Os que o evitavam em
+vida de meu pae, pagam agora o seu retrato em miniatura, por vinte,
+cincoenta e cem ducados. Por vida minha que ha alguma cousa sobrenatural
+em tudo quanto presenceâmos, e que em verdade a philosophia devia
+esmerar-se por descobrir. (Ouve-se o som de uma musica de clarins ao
+longe.)
+
+GUILDENSTERN
+
+Chegam os actores.
+
+HAMLET
+
+Senhores, bemvindos sejam em Elsenor. As suas mãos que eu as aperte. O
+que distingue um bom acolhimento são os cuidados e as attenções polidas;
+deixem-me recebel-os assim para não parecer que a cortezia para com os
+actores, com os quaes é minha intenção ter a maior, ultrapassa a que
+lhes testemunho pessoalmente aos senhores. Bemvindos sejam, mas o tio
+que tenho por padrasto, e a mãe que tenho por tia estão completamente
+enganados a meu respeito.
+
+GUILDENSTERN
+
+Em que se enganam elles?
+
+HAMLET
+
+Só estou louco quando o vento sopra do nor-noroeste, em soprando do sul,
+distingo uma garça de um falcão.
+
+Entra POLONIO
+
+POLONIO
+
+Saudo os senhores.
+
+HAMLET
+
+Escuta, Guildenstern, (a Rosencrantz) e tu tambem: a bom entendedor meia
+palavra basta; esta creança que vêem ainda usa coeiros.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Talvez que os torne a usar; a velhice é, segundo dizem, uma segunda
+infancia.
+
+HAMLET
+
+Aposto que me vem fallar nos actores; vão ver. Tem rasão, senhor, foi
+effectivamente na manhã de segunda feira.
+
+POLONIO
+
+Trago uma nova para vossa alteza.
+
+HAMLET
+
+Tenho tambem uma para o senhor. Quando Roscio era actor em Roma...
+
+POLONIO
+
+Os actores acabam de chegar.
+
+HAMLET
+
+Não é verdade.
+
+POLONIO
+
+Palavra de honra.
+
+HAMLET
+
+Cada actor virá montado n'um jumento.
+
+POLONIO
+
+São os melhores actores do mundo para a tragedia, comedia, drama
+historico e pastoril, pastoral comica e historica, pastoral
+tragico-comico-historica, com ou sem unidade do logar da acção. Para
+elles não ha difficuldades, são tristes com Seneca, folgasãos com
+Plauto. Não têem rivaes quanto ao estylo e á expressão.
+
+HAMLET
+
+Ó Jephthé, juiz em Israel, que thesouro possuias!
+
+POLONIO
+
+Que thesouro possuia elle, senhor?
+
+HAMLET
+
+Mas...
+
+ Uma filha, uma só, mas essa encantadora
+ Que era da noite sua a celestial aurora.
+
+POLONIO (á parte)
+
+Ainda minha filha.
+
+HAMLET
+
+Não tenho eu rasão, velho Jephthé?
+
+POLONIO
+
+Se me chama Jephthé, é porque tenho uma filha que estremeço.
+
+HAMLET
+
+Não é consequencia.
+
+POLONIO
+
+Então qual é a consequencia?
+
+HAMLET
+
+Eil-o.
+
+ Mas Deus sabe porque o conto é memoravel!
+
+Conhece o seguimento?
+
+ Um dia aconteceu... o que era mais provavel.
+
+Para o final recorde-se da primeira parte d'estas trovas, porque eis
+quem me obriga a terminar.
+
+Entram tres ou quatro ACTORES
+
+HAMLET (continuando)
+
+Bemvindos todos, bemvindos sejam. Estou encantado de te ver de boa
+saude, bemvindos sejam, amigos. Ah, meu amigo, que mudança! já com
+barba! Quererás tu fazer-me sombra em Dinamarca? Ah eis-vos tambem aqui,
+minha menina! Por nosso senhor, depois que vos vi, subistes apenas um
+degrau para o céu. Deus queira que a vossa voz, moeda de liga mutavel,
+não se deprecie de mais com o tempo. Senhores, para mim são todos
+bemvindos; mas vamos direitos ao assumpto, como os falcoeiros francezes,
+que largam o falcão á primeira peça de caça que se apresenta, mostrem-me
+a sua pericia; vamos, um trecho bem pathetico.
+
+PRIMEIRO ACTOR
+
+Que trecho preferis, senhor?
+
+HAMLET
+
+Ouvi-te um dia declamar um trecho de uma peça nunca representada em
+scena, ou quando muito uma unica vez, porque, se bem me lembro, a peça
+não agradou a todos; era _caviar_ para o geral do publico: mas, segundo
+a minha opinião e das pessoas que n'este assumpto têem voz mais
+auctorisada do que a minha, era uma peça excellente, bem conduzida e
+escripta com tanta decencia como arte. Pelo que me lembro, diziam que os
+versos não eram bastante picantes para compensar a insipidez da acção,
+seu estylo na verdade nada tinha de affectado, mas que quanto ao resto a
+peça, escripta com tanta simplicidade como methodo, era natural,
+agradavel, e sem pretensão. Havia sobretudo um trecho que me agradou,
+era, na falla de Eneas a Dido, o ponto em que lhe refere a morte de
+Priamo. Se ainda te recordas, começa n'esta phrase, espera, deixa-me ver
+se me lembro.
+
+ Pyrrho, Pyrrho feroz como o tigre da Hyreania
+
+Não é isso--começa por Pyrrho.
+
+ Este ouriçado Pyrrho havia uma armadura
+ Que, bem como a alma, tinha a côr da noite escura
+ Quando elle era a dormir no cavallo sinistro.
+ Mensageiro do mal, de Belzebut ministro,
+ No corpo traz agora, em rubros caracteres,
+ Mais sinistro brazão; da fronte aos pés o cora
+ O sangue d'anciãos, d'infantes, de mulheres,
+ E por mil bôcas, mata a sêde que o devora
+ No sangue recosido aos raios d'essa chamma
+ Que Troia, em fogo ardendo, em torno a si derrama.
+ Tisnado pelo fogo e pela raiva ardente
+ Após Priamo corre...
+
+Continúa tu agora.
+
+POLONIO
+
+Boa declamação na verdade, com as medidas e intonações proprias.
+
+PRIMEIRO ACTOR
+
+ O velho, já cansado,
+ Mal vibra um frouxo golpe; aquella espada, outr'ora
+ Como o raio veloz, lá onde cae descansa,
+ Indocil á vontade, e á mão rebelde agora,
+ Oh lucta desigual! lucta sem esperança,
+ Pyrrho de raiva acceso, investe em frente e ao lado!
+ E, só do gladio ao sôpro eil-o no chão prostrado
+ O guerreiro senil! Então, Troia abatida
+ Parece haver sentido, os golpes derradeiros:
+ Ao ver prostrado o rei exhaure-se-lhe a vida,
+ Desabam sobre a base em chammas os outeiros,
+ E o som cavo e profundo a Pyrrho fere o ouvido.
+ Eis de repente o gladio, a grande altura erguido,
+ Já prestes a immolar a fronte alva, nevada,
+ Do venerando rei, detem-se lá na altura.
+ E Pyrrho assim parece um tyranno em pintura,
+ Suspenso entre a vontade e a obra começada!
+ Mas como, muita vez, pouco antes da procella
+ Se faz como que ouvir um silencio que gela,
+ Pára a nuvem no céu, o vento não retumba,
+ E a terra a nossos pés é muda como a tumba;
+ Subitamente após se vê no fundo baço
+ Um raio que illumina e rasga o immenso espaço,
+ Assim de Pyrrho a furia, instantes mal contida,
+ Irrompe a completar a obra interrompida.
+ Dos Cyclopes jamais caíram retumbantes
+ Com remorso menor os malhos flammejantes
+ Para forjar de Marte a gravida armadura,
+ Que sobre o nobre velho, ensanguentada, impura,
+ De Pyrrho a espada ardente!... É finda a horrenda lucta!
+ Atrás, fortuna, atrás, atrás, vil prostituta!
+ Vós, deuses immortaes, em synodo sagrado,
+ Roubae-lhe o audaz poder, quebrae todos os raios
+ Ás rodas do seu carro, e lá do céu lançae-os
+ Tão baixo que o demonio os veja sempre ao lado.
+
+POLONIO
+
+Parece-me demasiado longo.
+
+HAMLET
+
+Para o encurtar manda-se a um barbeiro ao mesmo tempo
+que a tua barba. (Ao actor.) Continúa, peço-to eu; se não lhe
+apresentam um bailado grutesco, ou uma scena immoral adormece
+logo. Continúa, pois, chegámos a Hecuba.
+
+PRIMEIRO ACTOR
+
+ Mas quem visse, oh, quem visse a rainha embuçada!
+
+HAMLET
+
+A rainha embuçada.
+
+POLONIO
+
+Optimo, _embuçada_ é bom.
+
+PRIMEIRO ACTOR
+
+ Correndo, nus os pés; com lagrimas que chora
+ As chammas, apagando; a fronte coroada
+ Por um farrapo vil, a fronte onde ainda agora
+ Brilhava um diadema; apenas mal vestida
+ Por coberta alcançada á pressa na fugida;
+ Quem visse tanto horror, acaso concebêra
+ Que a fortuna só tem entranhas de uma fera;
+ Mas se os deuses do Olympo houvessem escutado,
+ Quando ella vira Pyrrho entregue ao estranho goso
+ De cortar membro a membro, o corpo ao morto esposo,
+ De seu peito fremente, o grito amargurado
+ A não ser que da terra ao céu não suba a magua
+ Sentiriam como ella os olhos rasos d'agua!
+
+POLONIO
+
+Vejam, empallidece, o pranto inunda-lhe os olhos. Basta, peço-to.
+
+HAMLET
+
+Está bem, o resto m'o recitarás n'outra occasião; (a Polonio) queira
+prover que estes actores sejam bem tratados, percebeu? que nada lhes
+falte, porque são a chronica resumida e viva da epocha. Mais lhe
+valeria, Polonio, um mau epitaphio depois da sua morte, do que o seu
+vituperio em vida.
+
+POLONIO
+
+Tratal-os-hei segundo os seus merecimentos.
+
+HAMLET
+
+Melhor, meu caro, melhor; se se tratasse cada um segundo os seus
+merecimentos, de poucos se faria caso. Trate-os como o deve á jerarchia
+e á sua propria dignidade. Quantos menos titulos tiverem á sua
+benevolencia, mais se deve esmerar no seu tratamento. Agora póde-se
+retirar com elles.
+
+POLONIO
+
+Venham, senhores.
+
+HAMLET
+
+Sigam-o, meus amigos, ámanhã teremos a representação, (Polonio sáe com
+os actores, menos um a quem Hamlet faz signal que fique.)
+
+HAMLET (continuando)
+
+Dize-me, meu caro amigo, poderias representar a morte de Gonzaga?
+
+PRIMEIRO ACTOR
+
+Com mil vontades, senhor.
+
+HAMLET
+
+Então ámanhã. Dize-me mais, poderias tu aprender de cór, sendo preciso,
+doze ou dezeseis linhas que eu desejava intercalar na peça? pódes, não é
+verdade?
+
+PRIMEIRO ACTOR
+
+Posso perfeitamente, meu senhor.
+
+HAMLET
+
+Fica pois ajustado, segue aquelle senhor, e só te peço que não zombes
+d'elle. (O actor sáe.)
+
+HAMLET (a Rosencrantz e Guildenstern)
+
+Meus bons amigos, até á noite, estimei vel-os em Elsenor.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Meu senhor. (Sáe com Guildenstern.)
+
+HAMLET
+
+Finalmente estou só. Que miseravel eu sou! Pois não será monstruoso que
+este actor, n'uma ficção, na expressão de uma dor simulada, podesse
+elevar a sua alma, identificando-se com a sua parte, exaltando-se a
+ponto de empallidecer, de lhe borbulhar o pranto nos olhos, de se lhe
+pintar o desespero nas feições, entrecortada está a sua voz, e o seu
+todo faz uma verdade, de que não é senão uma situação fingida! E tudo,
+por quem? por Hecuba; que é Hecuba para elle, ou elle para Hecuba, para
+que a sua memoria lhe arranque lagrimas tão sentidas? Que faria elle no
+meu logar, se tivesse tantos motivos de dor, quantos eu tenho. Inundava
+de pranto a scena, aterrava os espectadores pela sua expressão terrivel,
+fulminava o culpado, atemorisava o innocente; attonitas ficavam as almas
+simples, e a commoção aos sentidos da vista e do ouvido seria geral. E
+eu, alma tibia, intelligencia confusa, fico n'uma estupida inacção,
+indifferente á minha propria causa, e nada acho que dizer, nada, mesmo
+nada a favor de um rei que perdeu a corôa e a vida pelo mais inaudito
+attentado! Ah como sou cobarde! Infame me deveriam chamar,
+esbofetear-me, arrancar-me as barbas, lançar-m'as ao rosto com o
+desprezo; insultar-me deveriam todos, dizer-me que pela gorja menti, e
+obrigar-me a soffrer calado todos os vilipendios possiveis. Quem quer
+fazel-o. Por vida minha que era justo; é forçoso que eu seja inoffensivo
+como uma pomba sem fel, para levantar uma offensa, para não ter feito
+pasto dos abutres as entranhas d'esse miseravel, sanguinario e impudico
+scelerado. Monstro de perfidia, juntas ao assassinio o adulterio! Como
+sou estupido! É bello na verdade ver-me, a mim, o filho de um rei e pae
+assassinado, a quem céus e terra instigam á vingança, gastar a minha
+indignação em palavras e vãs imprecações, como a mais vil e desprezivel
+prostituta. Que vergonha!! Procuremos Uma idéa... (depois de uma pausa
+prolongada) Eil-a, achei. Ouvi dizer que criminosos, assistindo a
+representações dramaticas, de tal modo se perturbaram vendo a sua culpa
+em scena, que espontanea e immediatamente fizeram confissão do seu
+crime, porque o assassino embora mudo trahe-se e falla. Quero que os
+actores representem, na presença de meu tio, a morte de meu pae,
+observarei as suas feições, sondarei as suas impressões; se se
+perturbar, sei o que me cumpre fazer. O espirito que me appareceu talvez
+seja um demonio, porque póde revestir-se da fórma de um objecto amado,
+tem poder sobre as almas melancholicas, e quem sabe se na minha fraqueza
+e dor acha os meios para me perder, condemnando-me para sempre. Quero
+ter a certeza completa; o drama em questão será o laço armado á
+consciencia do rei. (Sáe.)
+
+
+Fim do acto segundo
+
+
+
+
+ACTO TERCEIRO
+
+
+SCENA I
+
+Uma sala no castello de Elsenor
+
+Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
+
+O REI
+
+Então ainda não poderam, nas suas conversas com elle, descobrir a causa
+da desordem da sua intelligencia; d'aquella perigosa e turbulenta
+demencia que se apoderou do seu espirito e lhe rouba o descanso?
+
+ROSENCRANTZ
+
+Confessa sentir esvaír-se-lhe a rasão; mas não conseguimos que elle nos
+revelasse a causa.
+
+GUILDENSTERN
+
+Parece pouco disposto a deixar sondar os seus sentimentos. Na sua
+loucura não o abandona um resto de sagacidade; conserva-se na defensiva
+todas as vezes que tentâmos encaminhal-o a uma confissão tocante ao seu
+estado.
+
+A RAINHA
+
+Recebeu-os bem ao menos?
+
+ROSENCRANTZ
+
+Com toda a affabilidade de um homem bem educado.
+
+GUILDENSTERN
+
+Mas evidentemente constrangido.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Perguntando pouco, mas respondendo ás nossas perguntas com a maior
+naturalidade.
+
+A RAINHA
+
+E experimentaram algum divertimento para o distrahir?
+
+ROSENCRANTZ
+
+O acaso fez-nos encontrar no caminho alguns actores; fallámos-lhe
+n'elles, esta nova pareceu agradar-lhe. Estão aqui no palacio, e creio
+já terem recebido ordem para representarem esta noite na sua presença.
+
+POLONIO
+
+É verdade, e pede a vossas magestades que assistam á representação.
+
+O REI
+
+Com o maior prazer; estimo vêl-o assim disposto. Queiram estimulal-o,
+senhores, e dirigir a actividade do seu espirito para estes
+divertimentos.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Assim o faremos. (Sáe com Guildenstern.)
+
+O REI
+
+Deixa-nos tambem, querida Gertrudes. Mandámos chamar secretamente a
+Hamlet, para como por acaso o pôr na presença de Ophelia. Seu pae e eu,
+legitimos espias, collocar-nos-hemos de maneira que, sem sermos vistos,
+assistamos á entrevista e possamos julgar pelas suas palavras, se é um
+amor infeliz que assim o faz padecer.
+
+A RAINHA
+
+Obedeço retirando-me. Quanto a ti, Ophelia, desejo ardentemente que os
+teus encantos sejam a feliz causa da demencia de Hamlet; porque terei
+então esperança que as tuas virtudes o restituirão, a contento de ambos,
+ao primitivo estado.
+
+OPHELIA
+
+Quanto o desejo, senhora.
+
+POLONIO
+
+Ophelia, passeia aqui n'esta sala; (ao rei) vamo-nos collocar, senhor;
+(a Ophelia) lê n'este livro; esta leitura simulada servirá de pretexto á
+tua solidão. Enganâmo-nos tantas vezes, e quão frequentemente acontece,
+com uma capa de santidade e attitude reservada conseguirmos fazer um
+santo do proprio demonio!
+
+O REI
+
+Oh é bem verdade; que pungente dor esta observação inflige á minha
+consciencia! O rosto da prostituta não é mais asqueroso debaixo da
+mascara do seu arrebique, do que o é o meu crime debaixo do falso verniz
+do meu discurso. Oh peso terrivel!
+
+POLONIO
+
+Hamlet approxima-se, retiremo-nos, senhor. (O rei e Polonio occultam-se
+atrás da cortina.)
+
+Entra HAMLET
+
+_Ser ou não ser_, eis o problema. Uma alma valorosa, deve ella supportar
+os golpes pungentes da fortuna adversa, ou armar-se contra um diluvio de
+dores, ou pôr-lhes fim, combatendo-as? _Morrer, dormir, mais nada_, e
+dizer que por esse somno pomos termo aos soffrimentos do coração e ás
+mil dores legadas pela natureza á nossa carne mortal; e será esse o
+resultado que mais devamos ambicionar? _Morrer, dormir, dormir, sonhar
+talvez_; terrivel perplexidade. Sabemos nós porventura que sonhos
+teremos, com o somno da morte, depois de expulsarmos de nós uma
+existencia agitada? E não deverei eu reflectir? É este pensamento que
+torna tão longa a vida do infeliz! Quem ousaria supportar os flagellos e
+ultrages do mundo, as injurias do oppressor, as affrontas do orgulhoso,
+as ancias de um amor desprezado, as lentezas da lei, a insolencia dos
+imperantes, e o desprezo que o ignorante inflige ao merito paciente,
+quando basta a ponta de um punhal para alcançar o descanso eterno? Quem
+se resignaria a supportar gemendo o peso de uma vida importuna, se não
+fosse o receio de alguma cousa alem da morte, esse ignoto paiz, do qual
+jámais viajante regressou? Eis o que entibia e perturba a nossa vontade;
+eis o que nos faz antes supportar as nossas dores presentes do que
+procurar outros males que não conhecemos. Assim, somos cobardes todos,
+mas pela consciencia; assim a brilhante côr da resolução se transforma
+pela reflexão em pallida e livida penumbra, e basta esta consideração
+para desviar o curso das emprezas mais importantes, e fazer-lhes perder
+até o nome de acção. Mas silencio, vejo a linda Ophelia. Joven beldade,
+lembra-te dos meus peccados nas tuas orações.
+
+OPHELIA
+
+Como tem vossa alteza passado estes dias ultimos?
+
+HAMLET
+
+Bem, agradeço-te do coração.
+
+OPHELIA
+
+Senhor, tenho dadivas e lembranças suas que ha muito lhe desejava
+restituir. Permitta-me que lh'as devolva.
+
+HAMLET
+
+Eu! de certo que não, nunca te dei nada.
+
+OPHELIA
+
+O principe sabe perfeitamente que me fez essas dadivas, e as doces
+palavras que as acompanharam ainda lhes realçaram o valor; agora que
+perderam todo o seu perfume, tome-as, principe, porque para uma alma
+nobre, as mais ricas dadivas perdem o seu valor, no momento em que
+aquelle que nol-as fez só nos mostra indifferença. Receba-as, pois,
+senhor.
+
+HAMLET
+
+Ah, ah, és virtuosa.
+
+OPHELIA
+
+Meu senhor.
+
+HAMLET
+
+És bella.
+
+OPHELIA
+
+Que diz vossa alteza?
+
+HAMLET
+
+Digo que se és virtuosa e bella, deves evitar toda a communicação entre
+a tua virtude e a tua belleza.
+
+OPHELIA
+
+Que melhor commercio ha para a belleza que o da virtude?
+
+HAMLET
+
+A influencia da belleza será mais prompta em metamorphosear a virtude em
+vil cortezã, do que a força da virtude em transformar a belleza á sua
+imagem. Antigamente seria paradoxo, hoje é um facto provado. Amei-te
+n'outro tempo, é verdade.
+
+OPHELIA
+
+Vossa alteza bem m'o fez acreditar.
+
+HAMLET
+
+Fizeste mal em acreditar. Porque embora a virtude se inocule na nossa
+primitiva natureza, sempre nos ficam restos d'ella. Nunca te amei.
+
+OPHELIA
+
+Maior foi o meu engano.
+
+HAMLET
+
+Professa, Ophelia, encerra-te n'um claustro. Para que queres continuar
+uma raça de peccadores; quanto a mim julgo-me ainda assás honesto; e
+comtudo podia formular contra mim taes accusações, que melhor teria
+valido, que minha mãe me não tivesse dado á luz. Sou orgulhoso,
+vingativo e ambicioso; gero no meu cerebro tantas acções más, que o meu
+pensamento não basta para as distinguir, nem a minha imaginação para
+lhes dar uma fórma, e falta-me o tempo para as executar. Que vantagem
+haverá pois que seres como eu se rojem como reptis entre o céu e a
+terra? Todos somos infames, não te fies em nenhum homem; vae, recolhe-te
+a um claustro. Onde está teu pae?
+
+OPHELIA
+
+Em casa, meu senhor.
+
+HAMLET
+
+Que lhe fechem as portas para impedir que represente de louco fóra de
+casa. Adeus.
+
+OPHELIA
+
+Deus misericordioso, tende piedade de Hamlet.
+
+HAMLET
+
+Se alguma vez te casares, dar-te-hei como dote esta triste verdade. Sê
+tu fria como o gêlo; se fores pura como a neve a calumnia não te
+poupará. Entra para um claustro, professa, adeus. Mas se absolutamente
+precisas um marido, então escolhe um louco, porque os homens assisados
+sabem em que monstros vós as mulheres os tornaes. Professa, recolhe-te a
+um convento, mas avia-te. Adeus.
+
+OPHELIA
+
+Poderes celestes, restitui-lhe a rasão!
+
+HAMLET
+
+Tambem ouvi fallar da vossa loquacidade. Deus deu-vos um porte e vós o
+transformaes por vossa culpa. Saltitaes, requebrae-vos; gestos e
+affabilidade são artificio, zombaes das creaturas de Deus, e fazeis
+passar por ignorancia o que é simples e pura affectação. Nem quero
+pensar em vós, mulheres; foi o que me enlouqueceu. Digo que não teremos
+mais casamentos, todos que estão casados viverão, excepto um, os outros
+ficarão como estão. Professa, entra para um convento, vae. Adeus.
+(Hamlet sáe.)
+
+OPHELIA (só)
+
+Oh que nobre intelligencia está ali desthronada. A perspicacia do homem
+de côrte, a espada do guerreiro, a palavra do sabio, o futuro d'este
+reino, o espelho do bom tom, o typo dos modos nobres, o modelo em que
+todos fictavam os olhos, tudo destruido e destruido sem esperança; e eu,
+a mais afflicta e infeliz das mulheres, eu que saboreei a inebriante
+ambrosia dos seus juramentos de amor, estou condemnada a ver essa
+potente e elevada rasão, similhante ao bronze fendido, não dar senão
+sons falhos e dissonantes; e tanta belleza e juventude crestadas pelo
+sôpro da demencia! Oh infeliz, oh desgraçada, que vi o que vi, e vejo o
+que vejo!!!
+
+Sáem de trás da cortina o REI e POLONIO
+
+O REI
+
+O amor! não é a ella que elle dedica a sua affeição; alem d'isso o seu
+fallar, aindaque um pouco falto de logica, não tem cunho de loucura. Ha
+na sua alma alguma dor secreta. Receio algum perigo que nos seja fatal.
+Para prevenir esse resultado, eis o plano que formei e no qual assentei.
+Quero que Hamlet parta sem demora para Inglaterra, para reclamar o
+tributo a que esse paiz se nega e a que é obrigado. Talvez que o mar, a
+mudança de clima, a vista de objectos novos, lhe restituam a rasão,
+expulsando do seu coração aquella obstinada preoccupação. Que lhe
+parece?
+
+POLONIO
+
+Parece-me acertado. Comtudo persisto na minha idéa, que um amor
+desprezado é a causa unica da sua dor. (A Ophelia) Não precisas
+referir-nos o que te disse o sr. Hamlet. Tudo ouvimos. (Ao rei) Senhor,
+faça o que lhe parecer conveniente, mas se me quer dar ouvidos, diga á
+rainha, que, depois da representação, o chame a sós e inste para
+conhecer d'elle a causa da sua mágua; porém cumpre que lhe falle
+severamente: com o vosso assentimento ouvirei escondido toda a
+conversação. Se a rainha não podér penetrar aquelle espirito rebelde a
+toda a confidencia, ordene-lhe então a partida, e desterre-o, senhor,
+para o logar que a prudencia lhe dictar.
+
+O REI
+
+Concordo plenamente comtigo; nos grandes é que a demencia deve ser mais
+vigiada. (Sáem todos.)
+
+
+SCENA II
+
+Uma sala no castello de Elsenor
+
+Entram HAMLET e differentes actores
+
+HAMLET (a um dos actores)
+
+Não esqueças de dizer aquelle trecho, tal qual o declamei na tua
+presença; mais que tudo fogo e energia; mas se o recitares como a maior
+parte dos actores, mais me valeria ouvir a minha prosa na bôca de um
+pregoeiro. Não movas descompassadamente os braços, acciona
+moderadamente; no meio mesmo da torrente, da tempestade, do tufão, da
+paixão, procura ser comedido. Nada impressiona mais desfavoravelmente,
+do que ver homens robustos reduzirem a pó uma paixão e escorchar os
+ouvidos dos assistentes, que, pela maior parte, não merecem senão uma
+declamação absurdamente arrebatada e uma acção desordenada. Açoutados
+mereciam esses actores, cujo accionado mais parece renhida batalha, e
+que mais crueis se fingem que um Herodes de comedia. Peço-te que evites
+esses defeitos.
+
+PRIMEIRO ACTOR
+
+Pela minha parte, prometto-lh'o, senhor.
+
+HAMLET
+
+Não vás tambem caír no excesso contrario, sirva-te de guia a tua
+intelligencia. Accommoda a acção ás palavras, as palavras á acção, tendo
+sempre em vista a naturalidade; só é proprio da scena intelligente, que
+foi e é o espelho em que se deve reflectir a natureza, mostrar a virtude
+tal qual é, a vaidade sem véu, e cada tempo e cada idade com a sua
+physionomia propria e com o cunho de verdade. Se se excede, ou se fica
+áquem do fim proposto, poderá excitar-se a hilaridade do homem
+ignorante, mas afflige-se o sensato, cujo juizo vale mais que o
+suffragio de uma sala inteira. Oh! vi representar e ouvi elogiar
+actores, que, Deus me perdôe, nada tinham de christão na voz, nada de
+christão, pagão ou mesmo humano no porte, e que se estorciam e bramavam
+de tal modo, que sempre os julguei obra de algum aprendiz da natureza,
+que, querendo fabricar homens, errou a vocação, e não tinha produzido
+senão uma desgraçada imitação da humanidade.
+
+PRIMEIRO ACTOR
+
+Espero em Deus, que vossa alteza não nos poderá notar taes defeitos;
+entre nós, senhor, estão banidas de todo as exagerações.
+
+HAMLET
+
+Mas que o estejam na verdade; que os bobos não digam mais do que ao que
+são obrigados pela sua parte; alguns ha que introduzem alguma facecia
+para excitar o riso dos espectadores ignaros no ponto em que mais
+attenção se reclama da parte do publico. É um desacerto, e o bobo que
+recorre a esses expedientes, mostra uma pretensão desgraçada. Vão-se
+agora preparar. (Os actores sáem.)
+
+Entram POLONIO, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
+
+HAMLET (a Polonio)
+
+Então o rei está decidido á nossa peça?
+
+POLONIO
+
+Com certeza, e a rainha tambem. Não tardam.
+
+HAMLET
+
+Diga então aos actores que se aviem. (Polonio sáe.)
+
+HAMLET (continuando, a Rosencrantz e Guildenstern.)
+
+Querem fazer-me o favor de tambem ir apressar os preparativos.
+
+AMBOS
+
+Sim, meu senhor. (Sáem.)
+
+Entra HORACIO
+
+HAMLET
+
+Ah, és tu, Horacio?
+
+HORACIO
+
+Estou sempre ás suas ordens, meu senhor.
+
+HAMLET
+
+Meu caro Horacio, és a flor dos homens, cujo trato tenho cultivado.
+
+HORACIO
+
+Meu querido senhor.
+
+HAMLET
+
+Não julgues que te lisonjeio; que posso eu esperar de ti, cujas unicas
+rendas são a jovialidade e a honestidade. Quem lisonjeia um pobre? Não,
+que a lisonja roja-se aos pés da opulencia estupida, e o servilismo
+curva o joelho, á espera do comprador. Escuta, depois que a minha alma
+pôde livremente escolher e soube distinguir os homens, marcou-te com o
+sêllo da predilecção, porque reconheceu em ti um homem que não se abate
+pelos revezes; um homem que acceita com a mesma indifferença os favores
+e os rigores da fortuna; felizes os mortaes em quem o juizo e as paixões
+têem igual imperio, e não são um joguete nas mãos da fortuna. Mostrem-me
+um homem que não seja escravo das paixões, e terá conquistado, como tu,
+o meu coração, e abrir-lhe-hei o santuario da affeição mais íntima.
+Basta sobre o assumpto. Deve-se hoje representar na presença do rei um
+drama, no qual ha uma scena, que é a historia da morte de meu pae, cujos
+pormenores já em tempo te contei. Quando se approximar a scena, observa
+meu tio, com toda a vigilancia que auctorisam as minhas suspeitas; se o
+segredo do seu crime se não revelar por alguma palavra, então era a
+apparição obra do demonio, e as minhas imaginações são mais negras que
+as lavas e cinzas de um vulcão. Tu observa-o attentamente, eu não o
+perderei de vista; depois, juntando os nossos juizos, concluiremos
+conforme ao que virmos.
+
+HORACIO
+
+Muito bem, senhor, tão firme estarei no meu posto de observação, que
+juro por Deus, que me não escapará um movimento, uma impressão da sua
+alma.
+
+HAMLET
+
+Eil-os que chegam para a representação; agora, cumpre-me ser espectador
+indifferente. (Ouve-se a marcha real e clarins.)
+
+Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ, GUILDENSTERN e a
+CORTE
+
+O REI
+
+Como passa nosso sobrinho Hamlet?
+
+HAMLET
+
+Melhor não póde ser; em verdade passei a viver como os camaleões,
+nutro-me só de ar, e alimento-me de promessas, as iguarias mais finas
+não me satisfariam melhor.
+
+O REI
+
+A tua resposta é-me inintelligivel; não é de certo a mim que ella é
+dirigida.
+
+HAMLET
+
+Pois nem a mim. (A Polonio.) Não me disse que já tinha representado uma
+vez, quando cursava a universidade?
+
+POLONIO
+
+É verdade, senhor, e era reputado um habil actor.
+
+HAMLET
+
+Que parte representou?
+
+POLONIO
+
+A de Julio Cesar; assassinaram-me no capitolio; Bruto apunhalava-me.
+
+HAMLET
+
+Que brutalidade apunhalar, e n'aquelle logar, um tão excellente bezerro.
+Os actores já estão promptos?
+
+ROSENCRANTZ
+
+Sim, meu senhor, esperam só as ordens.
+
+A RAINHA
+
+Vem, meu Hamlet, sentar-te a meu lado.
+
+HAMLET
+
+Não, minha mãe; (mostrando Ophelia) este metal tem mais força de
+attracção.
+
+POLONIO
+
+Que me diz agora, senhor?
+
+HAMLET
+
+Ser-me-ha permittido estar a vossos pés, senhora? (Senta-se no chão aos
+pés de Ophelia.)
+
+OPHELIA
+
+Não, meu senhor.
+
+HAMLET
+
+Queria dizer, recostar a cabeça sobre vossos joelhos.
+
+OPHELIA
+
+Sim, meu senhor.
+
+HAMLET
+
+Pensaveis talvez que tivesse outra idéa?
+
+OPHELIA
+
+Nada pensava.
+
+HAMLET
+
+É um pensamento este digno de um coração de donzella.
+
+OPHELIA
+
+O que, senhor?
+
+HAMLET
+
+Nada.
+
+OPHELIA
+
+Vejo-o hoje alegre, senhor.
+
+HAMLET
+
+Quem, eu?
+
+OPHELIA
+
+Sim, vossa alteza.
+
+HAMLET
+
+Sou o seu bobo e nada mais. Cousa alguma ha melhor para o homem do que a
+alegria. Repare, veja como minha mãe está hoje muito alegre, e ainda não
+ha duas horas que meu pae morreu.
+
+OPHELIA
+
+Vossa alteza engana-se por certo; ha mais de duas vezes dois mezes.
+
+HAMLET
+
+Tanto tempo!! n'esse caso use o demonio o lucto, eu quero vestir-me de
+arminhos. Oh céus, morto ha dois mezes, e ainda não esquecido, não é
+então de estranhar que a recordação de um grande homem dure mais de seis
+mezes; mas, pela Virgem Santa, deve então ter edificado igrejas, aliás
+arriscava-se a que o esquecessem, como aquelle a quem lavraram este
+epitaphio:
+
+_Aqui jaz esquecido um cavallo de pau._
+
+Soam os clarins, começa a pantomima
+
+(Um rei e uma rainha entram em scena, o seu aspecto é de namorados,
+abraçam-se. A rainha ajoelha aos pés do rei, mostrando pelos seus gestos
+que lhe protesta o mais vivo amor. O rei levanta-a, e inclina a cabeça
+sobre o seu hombro; depois deita-se n'um banco coberto de flores. A
+rainha vendo-o adormecido, sáe. Apparece um personagem que lhe tira a
+corôa e a leva aos labios, lança veneno n'um ouvido do rei, e sáe em
+seguida. Volta a rainha, acha o rei morto, e dá mil signaes de
+desespero. O envenenador seguido por duas ou tres pessoas, chega e
+parece lamentar-se com a rainha. O cadaver é levado da scena. O
+envenenador requesta a rainha, dá-lhe presentes. Ella mostra a principio
+repugnancia, mas acaba por acceitar o amor offerecido. Sáem.)
+
+OPHELIA
+
+Que significa esta scena, senhor?
+
+HAMLET
+
+Nada que seja bom, é um laço armado ao crime.
+
+OPHELIA
+
+Esta pantomima indica sem duvida o entrecho da peça?
+
+Entra o PROLOGO
+
+HAMLET
+
+Vamos sabel-o, os comediantes não podem guardar um segredo, têem por
+costume fallar sempre.
+
+OPHELIA
+
+Explicará elle o que significa a pantomima?
+
+HAMLET
+
+Sem duvida, não só essa, mas todas as que lhe quizer apresentar,
+qualquer que seja a sua especie, e terá a explicação prompta.
+
+OPHELIA
+
+O principe é mau, deixe-me seguir a peça.
+
+O PROLOGO
+
+ Pedimos, para nós, toda a vossa indulgencia;
+ Para a nossa tragedia, attenta paciencia.
+
+HAMLET
+
+Parece antes divisa de annel do que prologo.
+
+OPHELIA
+
+Tão curto, senhor.
+
+HAMLET
+
+Como o amor de uma mulher.
+
+Entram um REI e uma RAINHA
+
+O REI DA PEÇA
+
+ Trinta vezes de Phebo o carro luminoso
+ De Tellus e Neptuno, o largo giro ha feito,
+ E trinta vezes doze a lua, astro saudoso,
+ De refrangida luz, á terra ha dado o preito,
+ Desde que as nossas mãos, com mutuo amor se deram,
+ E as bençãos d'Hymeneu o sacro nó teceram.
+
+A RAINHA DA PEÇA
+
+ Possamos lua e sol, ver outras tantas vezes,
+ Antes que d'este amor se rompa o doce laço;
+ Mas seguem-se á ventura as maguas, os revezes,
+ E vejo-vos caído, ha pouco, em tal cansaço,
+ Tão triste, meu senhor, tão triste e tão mudado,
+ Que não posso esconder mais tempo o meu cuidado.
+ Mas que não se perturbe o vosso animo forte
+ Porque inquieta eu sou, e ousei pensar na morte.
+ De affecto e de anciedade igual medida temos,
+ Ou nullos um e o outro, ou um e o outro extremos.
+ Se é grande o meu amor, demais senhor o vêdes,
+ Que a par anda o receio, em minha fronte o lêdes.
+ Sempre que o amor é grande, as apprehensões mais breves
+ Transformam-se de prompto em maximos temores;
+ Quando é grande o receio, os affectos mais leves
+ Ascendem de repente aos mais grandes amores.
+
+O REI DA PEÇA
+
+ Bem cedo é força, amor, que d'este mundo eu parta,
+ Bem vês, d'esta alma a luz já quasi que se aparta.
+ Tu viverás sem mim, sob este céu formoso,
+ Querida, idolatrada e sempre honesta e casta.
+ Depois, talvez depois, quem sabe? um novo esposo...
+ Um homem justo e bom...
+
+A RAINHA DA PEÇA
+
+ Oh! basta, senhor, basta!
+ Seria um novo amor perfidia negra e infame.
+ Amaldiçoado seja o dia em que outro eu ame!
+ Embora justo e bom, segundo companheiro
+ Não n'o acceita ninguem, sem ter morto o primeiro.
+
+HAMLET
+
+Isto é absintho, e que absintho!
+
+A RAINHA DA PEÇA
+
+ Poisque motivo arrasta a viuva ao casamento?
+ Acaso um novo amor? um nobre sentimento?
+ Um sordido interesse: e eu cravára no peito
+ De meu morto senhor a ponta de uma espada,
+ Cada vez que, olvidando a antiga fé jurada,
+ Compartisse outro ser commigo o mesmo leito.
+
+O REI DA PEÇA
+
+ Creio bem, que pensaes o que dizeis, se creio?!
+ Mas quanta, oh! quanta vez, se quebra a acção no meio,
+ Nasce a resolução escrava da memoria,
+ Producto da violencia, é curta a sua historia.
+ A fructa emquanto verde em qualquer ramo atura
+ Mas, sem abalo algum, tomba apenas madura.
+ Fatalmente olvidando o que a nós nos devemos
+ Não pagâmos jámais, a divida esquecemos.
+ O que durante a dor parece a eternidade,
+ Mal extincta a paixão, cessa de ser vontade.
+ O jubilo e o martyrio, ainda os mais completos,
+ Destruindo-se a si, destroem seus decretos.
+ Onde o prazer mais ri, mais chora a dor pungente;
+ Entristece a alegria, alegra-se a tristeza,
+ Á causa mais subtil, ao mais leve accidente,
+ E este um dom fatal da vária natureza.
+ Passâmos pelo mundo, e nada aqui tem dura
+ Que até o proprio amor muda com a ventura;
+ Porque é problema ainda occulto aos pensadores
+ Se dá o amor fortuna, ou se a fortuna amores.
+ Um principe decáe? somem-se os que os adulam;
+ Um mendigo se eleva? os amigos pullulam.
+ Até aqui o amor seguiu sempre a fortuna;
+ Quem não precisa encontra em toda a parte amigos,
+ E quem precisa e pede, é lepra que importuna,
+ Todos transforma e muda em feros inimigos,
+ Mas para concluir, escuta o corollario:
+ A vontade e o destino, andam tanto ao contrario
+ Que o mais leve projecto é sempre letra morta.
+ Assim crês, não terás jamais outro marido;
+ Pois abra-me o sepulchro a sua eterna porta
+ E tudo irá sumir-se em um perpetuo olvido.
+
+A RAINHA DA PEÇA
+
+ Negue-me a terra o pão, e a luz o firmamento!
+ O meu goso maior transforme-se em tormento!
+ Minha esperança e fé tornem-se em negro inferno!
+ Seja a fome em prisão o meu futuro eterno!
+ Não tenha eu, viva ou morta, o mais curto repouso,
+ Se, viuva uma vez, tomar um outro esposo!
+
+HAMLET
+
+E se lhe acontecer violar o juramento?
+
+O REI DA PEÇA
+
+ Solemne juramento!... Amor, deixa-me agora;
+ Exhausta sinto a fronte, e bom grado entregára
+ Os restos d'este dia á paz consoladora
+ Dos braços de Morpheu. Adeus! Oh! sempre cara. (Adormece.)
+
+A RAINHA DA PEÇA
+
+ Que um somno brando e doce embale a tua mente
+ E a desgraça jamais entre nós dois se assente!... (Sáe a rainha.)
+
+HAMLET
+
+Senhora, como acha esta peça?
+
+A RAINHA
+
+A rainha parece-me que faz demasiados protestos.
+
+HAMLET
+
+Mas dada a palavra, não póde faltar.
+
+O REI
+
+Conhece a peça? não contém nada reprehensivel?
+
+HAMLET
+
+Absolutamente nada; tudo quanto contém é só gracejo, até se envenena por
+gracejo. É a peça mais inoffensiva que póde haver.
+
+O REI
+
+Que titulo tem?
+
+HAMLET
+
+O _Laço_, já se sabe, por metaphora. O assumpto da peça é um assassinio
+commettido em Vienna. O rei chama-se Gonzaga, sua mulher Baptista. Vae
+ver, um crime horrivel. Mas que importa a vossa magestade e a mim, que
+temos a consciencia pura e que nada temos a receiar! O peior é para
+aquelles a quem punge algum espinho, a nós nada nos pesa na consciencia.
+
+Entra LUCIANO
+
+HAMLET (continuando)
+
+É este um chamado Luciano, sobrinho do rei.
+
+OPHELIA
+
+Vossa alteza faz o serviço do côro.
+
+HAMLET
+
+Podia até servir de ponto n'uma conversa sua com o seu amante; o caso
+era eu ver manobrar os dois titeres.
+
+OPHELIA
+
+Sois na verdade mordaz, principe; sois bem mordaz.
+
+HAMLET
+
+A sua pena seria que eu deixasse de o ser.
+
+OPHELIA
+
+De bem para melhor, de mal para peior.
+
+HAMLET
+
+É a sorte que a espera na escolha de um marido! Começa, assassino. Põe
+de parte esses horriveis tregeitos, avia-te, começa.
+
+ Eis o corvo que avança,
+ Chamando em seu grasnar a lugubre vingança.
+
+LUCIANO
+
+ O pensamento negro, o braço bem disposto,
+ A droga preparada, a hora favoravel,
+ Cumplice a occasião, a ver nem um só rosto.
+ Mistura infecta e immunda, extracto abominavel
+ De peçonhenta sarça á meia noite achada,
+ Tres vezes polluida e tres envenenada
+ D'Hecate á maldição, possa a tua virtude
+ Fechar uma existencia, e abrir um ataúde.
+
+(Deita veneno n'um ouvido do rei adormecido.)
+
+HAMLET
+
+Envenena-o no jardim, para se apoderar da corôa. O nome do rei é
+Gonzaga; é uma historia authentica escripta no mais elegante italiano.
+Verão como logo o assassino obtem o amor da mulher de Gonzaga.
+
+OPHELIA
+
+O rei levantou-se.
+
+HAMLET
+
+Quê!! um pequeno clarão apenas, já o assusta?
+
+A RAINHA
+
+Que tem, senhor?
+
+POLONIO
+
+Cesse a peça.
+
+O REI
+
+Tragam luzes. Saiâmos.
+
+POLONIO
+
+Luzes, venham luzes, luzes. (Todos sáem, excepto Hamlet e Horacio.)
+
+HAMLET
+
+ Sim! que fuja e que chore o cervo mal ferido,
+ E o que ao golpe escapou, gose um prazer profundo.
+ Quando um chora, outro ri. Oh! sempre assim ha sido,
+ E assim é feito o mundo.
+
+Se alguma vez a fortuna me maltratar, não bastaria uma scena de effeito
+como esta, acrescentando-lhe um chapéu ornado de pennas, e duas rosas de
+Provença nos laços dos sapatos, para que me admittissem n'uma companhia
+dramatica.
+
+HORACIO
+
+Talvez o admittissem, mas com meia paga.
+
+HAMLET
+
+Ou inteira.
+
+ Porque sabes, Damon, bem sabes tu que outr'ora
+ Mandava n'este reino, que vês hoje aviltado,
+ Qual Jupiter no Olympo, um grande rei... agora
+ Governa aqui... um chavo.
+
+HORACIO
+
+Foi pena não rimar.
+
+HAMLET
+
+Meu querido Horacio, aposto mil libras esterlinas, em como a sombra
+fallou só a verdade. Reparaste?
+
+HORACIO
+
+Em tudo reparei, senhor.
+
+HAMLET
+
+Quando se tratava do envenenamento?
+
+HORACIO
+
+Tudo observei.
+
+HAMLET
+
+Ah! ah! ah! quero musica, tanjam as charamelas.
+
+ Porque, se da comedia o rei não gosta nada,
+ Sei eu dar a rasão... não gosta, está dada.
+
+Venha a musica, quero muita musica. (Entram Rosencrantz e Guildenstern.)
+
+GUILDENSTERN
+
+Senhor, permitta-me que lhe dê uma palavra.
+
+HAMLET
+
+Mil até, se n'isso fizer gosto.
+
+GUILDENSTERN
+
+Senhor... o rei...
+
+HAMLET
+
+Que é?... que me vem dizer d'elle?
+
+GUILDENSTERN
+
+Retirou-se aos seus aposentos, estranhamente indisposto.
+
+HAMLET
+
+Pelo vinho?
+
+GUILDENSTERN
+
+Não, senhor, mas pela colera.
+
+HAMLET
+
+Mais assisado seria terem chamado um medico. Eu não faria senão
+exacerbar a sua colera com a minha presença.
+
+GUILDENSTERN
+
+Queira, senhor, ter mais nexo nos seus discursos, e não se afastar assim
+tão bruscamente da questão.
+
+HAMLET
+
+Escutal-o-hei tranquillamente. Falle.
+
+GUILDENSTERN
+
+A sua rainha e mãe me envia a vossa alteza.
+
+HAMLET
+
+Bemvindo seja.
+
+GUILDENSTERN
+
+Senhor, essa polidez é mal cabida n'esta occasião. Se me promette
+responder rasoavelmente, executarei então as ordens de sua mãe, quando
+não, retiro-me pedindo desculpa a vossa alteza.
+
+HAMLET
+
+Não posso.
+
+GUILDENSTERN
+
+O que, meu senhor?
+
+HAMLET
+
+Responder rasoavelmente; a minha intelligencia enfermou, no emtanto
+dar-lhe-hei uma resposta, ou antes como ordena a minha mãe, a melhor que
+podér. Diga-me agora, que pretende de mim a rainha?
+
+ROSENCRANTZ
+
+Encarregou-nos de lhe dizer, principe, que o seu comportamento lhe
+causou espanto e dor.
+
+HAMLET
+
+Ah! sou pois um filho tão extraordinario que causo espanto e dor a minha
+mãe! Nada mais lhe disse? Fallem.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Deseja fallar-lhe, alteza, no seu quarto, antes de o principe se deitar.
+
+HAMLET
+
+Obedecer-lhe-hemos, aindaque fosse dez vezes nossa mãe. Tem mais alguma
+cousa a dizer?
+
+ROSENCRANTZ
+
+Houve tempo em que o principe era meu amigo.
+
+HAMLET
+
+Ainda hoje o sou, juro-o por estes dez dedos.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Senhor, qual é a causa da sua dor profunda? É impor-se um
+constrangimento inutil, guardar esse segredo para comnosco, que somos
+tão seus amigos.
+
+HAMLET
+
+Inquieta-me o meu futuro!
+
+ROSENCRANTZ
+
+Como póde isso ser, pois o rei já o escolheu para successor ao throno de
+Dinamarca?
+
+HAMLET
+
+É verdade; mas guardado está o bocado... o proverbio é antigo.
+
+Entram differentes actores cada um com uma charamela
+
+HAMLET
+
+Ah! chegam as charamelas, dá-me uma. (Tira a charamela a um dos
+actores.) Quer que o acompanhe? então deixe de me perseguir como o
+caçador persegue a caça.
+
+GUILDENSTERN
+
+Se o meu zêlo, senhor, me faz obstinado, é porque a affeição me torna
+importuno.
+
+HAMLET
+
+Não o posso comprehender, faz-me favor de tocar n'esta charamela.
+
+GUILDENSTERN
+
+Senhor, eu não sei!
+
+HAMLET
+
+Peço-lhe.
+
+GUILDENSTERN
+
+Creia-me, senhor, não posso.
+
+HAMLET
+
+Supplico-lhe.
+
+GUILDENSTERN
+
+Se nunca soube tocar tal instrumento!
+
+HAMLET
+
+Pois mais difficil é mentir. Com os quatro dedos e o pollegar tapam-se e
+destapam-se por sua vez os orificios; sopre, e verá que encantadora
+harmonia produz. Vamos.
+
+GUILDENSTERN
+
+Mas, senhor, eu não posso nem sequer tirar um som d'este instrumento;
+falta-me o talento.
+
+HAMLET
+
+Que especie de imbecil me julga então? Sou a seus olhos um instrumento
+de que pretende tirar sons, e que parece conhecer tão bem. Pretende
+sondar até ao fundo da minha alma, para descobrir o meu segredo; queria
+então fazer vibrar todas as cordas do meu sentimento. D'este pequeno
+instrumento (Mostrando-lhe a charamela) tiram-se sons e notas as mais
+melodiosas; e comtudo nas suas mãos não póde fallar. Pela Virgem santa,
+sou então mais facil de tocar do que uma flauta? O que lhe asseguro é
+que se me julga um instrumento nas suas mãos, nunca conseguirá fazel-o
+fallar. Está muito enganado commigo.
+
+Entra POLONIO
+
+HAMLET (continuando)
+
+Guarde-o Deus.
+
+POLONIO
+
+Senhor, a rainha deseja fallar-lhe immediatamente.
+
+HAMLET (approximando-se de uma janella)
+
+Vê acolá aquella nuvem que tem quasi a fórma de um camello?
+
+POLONIO
+
+Não ha duvida, dir-se-ia effectivamente um camello.
+
+HAMLET
+
+Parece-se mais com uma doninha.
+
+POLONIO
+
+É verdade! tem o feitio da doninha.
+
+HAMLET
+
+Ou de uma baleia?
+
+POLONIO
+
+Realmente, com o que se parece é com uma baleia.
+
+HAMLET
+
+Agora vou ter com minha mãe, hão de acabar por enlouquecer-me devéras.
+Vou já.
+
+POLONIO
+
+Vou communical-o á rainha. (Polonio sáe.)
+
+HAMLET
+
+Já! É facil dizel-o. Deixem-me sós, meus amigos. (Sáem todos excepto
+Hamlet.)
+
+HAMLET (só)
+
+É esta a hora da noite propria dos mysterios da magia, a hora em que os
+tumulos se abrem, em que o inferno exhala sobre a terra o seu sopro
+contagioso; agora sinto-me capaz de beber sangue ainda fumegante, e
+commetter actos que o dia consternado não poderia presencear sem terror!
+Prudencia! Vamos ao quarto de minha mãe. Oh! meu coração, não dispas o
+teu vigor; firmeza agora, mas que o coração de Nero nunca entre em meu
+peito. Sejamos inflexiveis, mas não filho desnaturado; seja a minha
+lingua um punhal, mas minha mão esteja desarmada; e n'esta occasião
+sejam a minha bôca e o meu coração obrigados pela rasão a dissimular.
+Por mais violentas que sejam as minhas palavras, dae-me força, meu Deus,
+para que sejam sempre comedidas, assim como os meus actos. (Sáe.)
+
+
+SCENA III
+
+Um quarto no castello de Elsenor
+
+Entram o REI, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
+
+O REI
+
+Ha n'elle alguma cousa que me desagrada, e creio que haveria perigo para
+nós em não vigiar a sua loucura; façam pois todos os preparativos de
+viagem. Vou dar as ordens, e quero que parta sem demora para Inglaterra
+acompanhado pelos senhores. O interesse da nossa corôa me veda o
+expor-me aos continuos perigos com que a sua demencia me ameaça.
+
+GUILDENSTERN
+
+Vamo-nos preparar. É um receio santo e salutar o que tem por objecto
+assegurar a salvação de innumeras existencias, que depende da vida de
+vossa magestade.
+
+ROSENCRANTZ
+
+É um dever que toca a cada um na sua esphera individual, o applicar
+todas as suas forças e toda a energia para defender a propria vida
+contra qualquer ataque; quanto mais obrigado a fazel-o é aquelle de cuja
+vida dependem tantas existencias! Quando um rei morre, não morre só, é
+um turbilhão que attrahe tudo quanto encontra no caminho, ou lhe fica
+proximo: roda colossal fixada no cume de uma elevada montanha, cujos
+gigantescos raios estão carregados de innumeros accessorios, e cuja
+quéda os impelle forçosamente a um desastre commum. Quando o rei padece,
+padecem todos.
+
+O REI
+
+Preparem-se, peço-lh'o, para uma partida immediata, porque estamos
+resolvidos a pôr um termo ás causas de inquietação que demasiado
+livremente se dão n'este paiz.
+
+AMBOS
+
+Não nos faremos esperar. (Sáem.)
+
+Entra POLONIO
+
+POLONIO
+
+Senhor, Hamlet entrou agora para o quarto de sua mãe; occultar-me-hei
+cuidadosamente para ouvir a sua conversa. Asseguro a vossa magestade que
+a rainha o vae reprehender severamente. É conveniente, como el-rei muito
+bem disse, que outros ouvidos que não sejam os de mãe, naturalmente
+propensos á indulgencia, ouçam o que se disserem mutuamente. Adeus, meu
+senhor; virei aos seus quartos antes que vossa magestade se recolha, e o
+rei será sabedor de tudo quanto se passou.
+
+O REI
+
+Obrigado, Polonio. (Polonio sáe.)
+
+O REI (só)
+
+O meu crime já não tem perdão no céu, está marcado pelo estigma da
+maldição divina, como o foi o primeiro fratricida. Apesar de todos os
+meus desejos, não posso orar; pareço um homem que duas occupações
+reclamam, e que, não sabendo por qual optar, não escolhe nenhuma.
+Poisque, quando sobre esta mão maldita se formasse uma crosta de sangue
+mais espessa que a propria mão, não teria o céu bastante misericordia
+para que a onda da sua graça a purificasse e a tornasse branca como a
+neve? Para que serve a bondade divina, senão para remir as nossas
+culpas? De que vale a oração, se não tem a dupla virtude de prevenir a
+nossa quéda, ou obter o perdão depois d'ella? Dirijâmos as nossas
+supplicas ao céu, já que não podemos evitar o crime consummado. Mas,
+infeliz, como hei de orar? Perdoae-me, Senhor, o meu crime nefando. Não
+posso, poisque possuo os objectos que me induziram ao assassinio, corôa,
+throno e consorte. Poder-se-ha obter o perdão, quando se conservam os
+fructos do crime? N'este mundo corrompido, a iniquidade póde a preço de
+oiro desviar o curso da justiça, e com o producto do crime comprar a
+impunidade; mas o céu é justo, todo o subterfugio é inutil; ali os
+nossos actos são justamente avaliados e os nossos crimes conhecidos. Que
+devo fazer? Nada me resta. Tentemos o arrependimento. Grande é a sua
+efficacia; mas que póde n'aquelle a quem mesmo o arrepender-se é vedado?
+Oh! deploravel condição, oh! consciencia negra como a morte, oh! minha
+alma, não tens perdão, e quanto mais te esforçares por obtel-o, mais
+aggravas a tua situação. Anjos do céu, vinde em meu auxilio, tentae um
+esforço supremo. Dobrae-vos, joelhos rebeldes. E tu, meu coração, que as
+tuas fibras de aço voltem ao estado primitivo das do recem-nascido.
+Ainda me resta esta ultima esperança. (Retira-se a um lado da scena,
+ajoelha e ora.)
+
+Entra HAMLET
+
+HAMLET (vendo o rei)
+
+A occasião é propicia, está orando. Coragem, Hamlet. Sim, mas
+salvar-se-ía a sua alma, e não é essa a minha vingança desejada.
+Reflictâmos; um scelerado assassina meu pae, e eu, seu filho unico, abro
+as portas do céu a esse infame! Seria uma recompensa e não um castigo.
+Assassinou meu pae, entregue ás preoccupações da carne, quando seus
+peccados mais vivazes estavam, como as flores na primavera; e quem sabe,
+a não ser o céu, que contas daria ao Creador? as penas eternas, de
+certo, não o pouparam. Seria uma vingança immolar este scelerado, quando
+a sua alma deve estar pura, quando está preparado para a sua ultima
+viagem? Não! Entra na tua bainha, minha espada, e espera para ferir,
+golpe mais terrivel e justo. Quando estiver ebrio ou adormecido, ou
+encolerisado, ou immerso nos prazeres de um leito incestuoso, ou
+absorvido pelo jogo, ou blasphemando, ou praticando algum acto contrario
+á salvação da sua alma, então fere, que as penas do inferno serão poucas
+para um tal crime. (Olhando para o rei.) Prolonga ainda os teus dias
+enfermos: adiar não é desistir. (Sáe.)
+
+O REI
+
+Sobem as minhas palavras, o pensamento não, e as palavras sem o
+pensamento não chegam ao céu. (Sáe.)
+
+
+SCENA IV
+
+Um quarto no castello
+
+Entram a RAINHA e POLONIO
+
+POLONIO
+
+O sr. Hamlet não tarda. Reprehenda-o asperamente; diga-lhe que os seus
+atrevimentos excedem os limites da paciencia, e que vossa magestade já
+teve que se interpor entre elle e a colera do rei. Nada mais digo,
+senhora, peço só que falle com firmeza.
+
+A RAINHA
+
+Fallar-lhe-hei com firmeza, esteja descansado. Afaste-se, ouço os seus
+passos. (Polonio esconde-se.)
+
+Entra HAMLET
+
+HAMLET
+
+Que me quer, minha mãe?
+
+A RAINHA
+
+Hamlet, offendeste gravemente teu pae.
+
+HAMLET
+
+Minha mãe offendeu gravemente meu pae!
+
+A RAINHA
+
+Como insensato fallas.
+
+HAMLET
+
+A rainha falla como culpada!
+
+A RAINHA
+
+Que queres tu dizer, Hamlet?
+
+HAMLET
+
+O que é, senhora?
+
+A RAINHA
+
+Esqueces quem eu sou?
+
+HAMLET
+
+Pela cruz do Redemptor, que não. Rainha é, foi esposa do irmão de seu
+marido, e prouvera a Deus que não o fosse, mas é minha mãe!
+
+A RAINHA
+
+Mandar-te-hei alguem que melhor do que eu te saiba fallar.
+
+HAMLET
+
+Vamos, sente-se, minha mãe. Não se moverá, não saírá d'aqui emquanto eu
+não tiver posto diante dos seus olhos um espelho em que possa ver até ás
+profundidades da sua alma.
+
+A RAINHA
+
+Que pretendes de mim? queres tu porventura assassinar-me? Acudam á
+rainha, acudam!
+
+POLONIO (por detrás do reposteiro)
+
+O que é! olá, soccorro!
+
+HAMLET (desembainhando a espada)
+
+Que é isso? Um rato? (Dando-lhe uma estocada.) Aposto um ducado em como
+o matei!
+
+POLONIO (atrás do reposteiro)
+
+Mataram-me, eu morro. (Cáe para fóra do reposteiro e morre.)
+
+A RAINHA
+
+Que fizeste, infeliz?
+
+HAMLET
+
+Ignoro-o; seria o rei? (Levanta o reposteiro e puxa pelo cadaver de
+Polonio.)
+
+A RAINHA
+
+Que acto de crueldade e de sangue!
+
+HAMLET
+
+De sangue; quasi tão reprehensivel, minha mãe, como assassinar um rei e
+desposar o irmão!
+
+A RAINHA
+
+Assassinar um rei?
+
+HAMLET
+
+Sim, um rei, foi o que eu disse. (A Polonio.) Quanto a ti, pobre diabo,
+louco, temerario e indiscreto, as nossas contas estão ajustadas,
+aprendeste á tua custa o perigo que corre quem se intromette nos
+negocios dos outros. (Á rainha.) Cesse de estorcer-se. Silencio,
+sente-se, quero torturar o seu coração, e fal-o-hei, se ainda possue
+alguma sensibilidade, e o habito do crime não a bronzeou a ponto de ser
+insensivel a toda a especie de emoção.
+
+A RAINHA
+
+Que fiz eu, Hamlet, para que me falles n'esse tom ameaçador?
+
+HAMLET
+
+Uma acção que mancha o rubor e a graça do pudor; que transforma a
+virtude em hypocrisia; que arranca á fronte innocente do amor a sua
+corôa de rosas, e a substitue por uma chaga asquerosa; que torna os
+juramentos do hymeneu tão falsos como os do jogador! Oh! uma acção que
+rouba ao corpo dos contratos a santidade, que é a sua alma, e faz da
+religião uma rapsodia de palavras. Indigna-se o céu, contrista-se o
+globo solido e compacto, lê-se-lhe nas faces a consternação como se
+fosse o ultimo dia do mundo.
+
+A RAINHA
+
+Qual é pois a acção que denunciam este ameaçador preludio e esta
+expressão fulminante?
+
+HAMLET (mostrando dois retratos em pé que ornam as paredes)
+
+Veja bem esses dois retratos, são as imagens de dois irmãos. Veja que
+graça impressa n'estas feições: o cabello annellado de Apollo; a fronte
+do proprio Jupiter; o olhar de Marte, onde se lê a commando e a ameaça;
+o porte de Mercurio, o mensageiro celeste, quando apenas pousa o alado
+pé sobre o cimo das nuvens; uma tão feliz reunião das fórmas perfeitas,
+que cada um dos deuses parecia ter contribuido com o seu quinhão, como
+se quizessem mostrar ao mundo o modelo do verdadeiro homem! Esse era o
+seu primeiro esposo. Volva agora os olhares para este lado. Eis o que é
+o seu segundo esposo! que, similhante á espiga mangrada, pelo seu
+contacto causa a morte a sua irmã a espiga sã. E saberá ver? Como pôde
+então abandonar as ferteis e salubres collinas, para se immergir n'este
+immundo paul!! Se ainda tem olhos, senhora, não póde imputar ao amor o
+seu comportamento; na sua idade já se acalmou a effervescencia do
+sangue, e a paixão obedece á rasão. E qual seria a creatura racional,
+que ousasse trocar o seu primeiro marido por este segundo? É sem duvida
+dotada de sensibilidade, aliás não seria um ser animado; mas na senhora
+estão paralysados todos os sentimentos, porque não ha demencia que não
+deixe ao que verga sob o seu peso uma porção bastante de discernimento,
+para saber escolher entre objectos tão dissimilhantes. Que demonio a
+perturbou a ponto de lhe vendar os olhos? A vista sem o tacto, o tacto
+sem o auxilio da vista, o ouvido sem o uso das mãos e dos olhos, o
+olfato só por si, uma porção mesmo alterada de um verdadeiro sentido,
+não podiam ter-se enganado tão estultamente. Oh! vergonha! onde está o
+teu rubor? Inferno rebelde, que assim pódes atear a revolta nos sentidos
+de uma mulher, ha muito esposa e mãe. Que admira que, para a ardente
+juventude, a virtude seja como a cera, que se derrete á chamma que
+alimenta; que não seja vergonha ceder quando nos arrasta a paixão,
+poisque o proprio crystal se funde e a rasão prostitue aos desejos os
+seus vergonhosos serviços.
+
+A RAINHA
+
+Oh! Hamlet, cessa por piedade, obrigas o meu olhar a volver-se todo para
+a minha alma, e n'ella descubro máculas tão negras e tão profundamente
+impressas, que nada já as póde lavar.
+
+HAMLET
+
+Viver no suor impuro de um leito infecto, sobre o esterco da corrupção,
+revolver-se no lodaçal de um asqueroso amor.
+
+A RAINHA
+
+Cala-te, Hamlet, as tuas palavras são outras tantas punhaladas. Piedade!
+querido filho!
+
+HAMLET
+
+Um assassino, um scelerado, um miseravel, que não vale a centesima parte
+do seu primeiro marido, um rei de comedia, um ladrão, que empalmou o
+poder, e que achando a corôa debaixo de mão, a roubou e a metteu no
+bolso!
+
+A RAINHA
+
+Hamlet!
+
+HAMLET
+
+Um palhaço!
+
+Entra a SOMBRA
+
+HAMLET
+
+Protegei-me e abrigae-me sob vossas azas, anjos do céu. (Á sombra) Que
+pretendes de mim, sombra querida?
+
+A RAINHA
+
+Infeliz! enlouqueceu.
+
+HAMLET (á sombra)
+
+Vens tu reprehender a tibieza de teu filho, que, deixando passar o
+tempo, arrefecer a sua indignação, não se apressou em cumprir os teus
+terriveis preceitos? Falla!
+
+A SOMBRA
+
+Recorda-te que o unico fim d'esta minha apparição é atear em ti o fogo
+da resolução. Mas vê, tua mãe está succumbida, interpõe-te entre ella e
+os seus remorsos; é nas mais debeis organisações que mais estragos causa
+a imaginação. Falla-lhe tu, Hamlet.
+
+HAMLET
+
+Como se sente, minha mãe?
+
+A RAINHA
+
+Eu é que te devia fazer essa pergunta! Por que está teu olhar fito no
+espaço? por que conversas com seres immateriaes? Teu olhar indefinido
+revela a lucta da tua alma; como um soldado acordado em sobresalto; teus
+cabellos, como se a vida os animasse, levantam-se e ouriçam-se sobre a
+tua fronte. Oh! meu querido filho, apaga a chamma da tua colera, com as
+tranquillas e limpidas aguas da paciencia! Mas para onde olhas tu?
+
+HAMLET
+
+É elle! Elle! Como está pallido! O seu aspecto, e o motivo que aqui o
+traz, commoveriam as proprias pedras. (Á sombra) Descrava de mim os teus
+olhos, receio que me feneça a resolução, vendo teu triste e commovente
+olhar; que se transforme o caracter dos meus actos talvez em lagrimas em
+vez de sangue.
+
+A RAINHA
+
+Mas, filho, a quem fallas assim?
+
+HAMLET
+
+Não vê nada, minha mãe?
+
+A RAINHA
+
+Nada, senão tudo quanto existe n'esta camara.
+
+HAMLET
+
+E nada ouviu?
+
+A RAINHA
+
+Cousa alguma, a não ser as tuas palavras.
+
+HAMLET
+
+Mas olhe, minha mãe, não vê como elle se afasta, triste e pensativo? É
+meu pae, vestido como trajava em sua vida. Eil-o, transpõe agora mesmo a
+porta. Saíu. (A sombra sáe.)
+
+A RAINHA
+
+É á exaltação da tua imaginação e ao delirio que de ti se apoderou, que
+são devidas estas creações phantasticas.
+
+HAMLET
+
+O delirio! Senhora, apalpe o meu pulso, e conhecerá que não está menos
+tranquillo que o seu. Não fallei influenciado pelo delirio.
+Interrogue-me; em vez de divagar, repetir-lhe-hei textualmente as minhas
+palavras; não estou louco; engana-se, minha mãe. Por Deus, não se
+embale, no pensamento falso, que é o meu delirio e não a sua culpa que
+me faz fallar! Seria cicatrizar exteriormente a chaga, que a consciencia
+nunca deixaria de augmentar interiormente. Confesse-se ao céu,
+arrependa-se do passado, premuna-se para o futuro, e não dê pasto ao
+verme do remorso, que acabará por totalmente corroer o seu coração e
+obliterar a sua consciencia. Perdoe á minha virtude, porque n'este mundo
+sordido e venal a virtude deve implorar o perdão do vicio e pedir o
+favor de poder fazer o bem.
+
+A RAINHA
+
+Oh! Hamlet! Dilaceras-me o coração.
+
+HAMLET
+
+Expulse a parte corrompida, e com a outra metade viva tranquilla e pura.
+Boa noite; evite meu tio, e se não podér ser virtuosa, ao menos
+pareça-o. O habito, esse monstro, que destroe e neutralisa em nós toda a
+sensibilidade, esse demonio do habito, é anjo n'isto, porque consente á
+virtude e ás boas acções as suas vestes proprias. Não veja hoje o seu
+esposo, tornar-lhe-ha mais facil a abstenção futura; o habito tudo póde,
+muda a natureza individual, doma o demonio, e expulsa-o com o seu
+maravilhoso poder. Boas noites mais uma vez! e quando sentir a
+necessidade da benção divina, então pedir-lhe-hei a sua. (Mostrando
+Polonio.) Quanto a este homem, arrependo-me do que fiz; mas obedeci ao
+céu; assim o quiz tornando-me instrumento das suas vinganças, punindo-o
+por mim, a mim por elle. Sepultem-no, eu responderei pela morte que lhe
+dei! Adeus, pois. Cumpre-me ser cruel por humanidade; o primeiro mal
+está feito, o maior ainda ha de vir. Uma palavra ainda.
+
+A RAINHA
+
+Que devo fazer?
+
+HAMLET
+
+Nada do que eu lhe disse! Receba as caricias do avinhado monarcha,
+preste as suas faces aos seus osculos, ouça-lhes as palavras de amor;
+então n'um diluvio de ardentes osculos, entre as mais lubricas caricias,
+confesse-lhe, revele-lhe tudo, diga-lhe que nunca estive louco, que o
+fingi, faça-lhe essa confidencia. Qual seria a rainha, bella, sensata e
+honesta, que hesitasse em confiar áquelle animal immundo e repellente,
+asqueroso reptil, tão importantes segredos? Quem guardaria silencio?
+Ninguem. Depois, olvidando o bom senso e a discrição, abra a gaiola e
+deixe voar as avesinhas, e seguindo o exemplo do bugio da legenda, por
+simples experiencia, introduza-se na gaiola e rompa o pescoço caíndo!
+
+A RAINHA
+
+Acredita, Hamlet, que se as palavras se compozessem de fôlgo e o fôlgo
+de vida, eu não teria vida para articular as que tu me disseste.
+
+HAMLET
+
+Devo partir para Inglaterra; sabe-o sem duvida, minha mãe?
+
+A RAINHA
+
+Infeliz! Tinha-me esquecido; pois isso está definitivamente determinado?
+
+HAMLET
+
+Ha cartas selladas, e os meus dois companheiros de estudos, nos quaes me
+fio tanto como na innocencia dos envenenados dardos das viboras, são os
+portadores da ordem! São elles que me hão de aplanar o caminho, e se
+encarregarão de me conduzir ao laço armado pela mais negra traição.
+Deixemos caminhar os acontecimentos. Causa devéras prazer ver rebentar
+nas mãos do proprio artifice a bomba que para outrem preparava. Nada ha,
+senhora, que nos dê mais gosto do que combater a traição,
+contraminando-a pela sagacidade. A morte de Polonio apressará a minha
+partida. Levemos o seu cadaver para a camara vizinha. Boas noites, minha
+mãe. Este conselheiro está agora verdadeiramente a sangue frio, discreto
+e grave; em vida era dotado de estupida garrulice. Agora basta, acabemos
+por uma vez. Boas noites. Adeus, minha mãe. (A rainha sáe por um lado,
+Hamlet pelo outro, arrastando o cadaver de Polonio.)
+
+
+Fim do acto terceiro
+
+
+
+
+ACTO QUARTO
+
+
+SCENA I
+
+Um quarto no castello de Elsenor
+
+Entram o REI, a RAINHA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN
+
+O REI
+
+Esses suspiros, esse difficil arfar do peito, tudo deve ter uma causa.
+Queremos conhecel-a e pelos senhores. Onde está nosso filho?
+
+A RAINHA (a Rosencrantz e Guildenstern)
+
+Deixem-nos sós um momento. (Os dois sáem.) (Ao rei) Ah! senhor, que
+noite esta!
+
+O REI
+
+Que ha de novo, Gertrudes; em que estado achaste Hamlet?
+
+A RAINHA
+
+Tão revolta está a sua rasão, como o mar e o vento, quando entre si
+luctam, disputando a sua força. N'um dos seus arrebatamentos do delirio,
+ouvindo mexer atrás de uma cortina, exclamou: _Um rato, um rato_, e
+desembainhando a espada, cravou-a no peito d'aquelle excellente ancião.
+
+O REI
+
+Oh! triste acontecimento! Igual sorte teria tido se ali me achasse;
+livre, corremos o maior risco, mesmo tu; todos, emfim. Que rasões
+daremos para explicar este acto sanguinario? Taxar-nos-hão de
+imprevidentes, a responsabilidade toda caírá sobre nós; dirão que
+deviamos ter isolado esse insensato, mas era tão grande a nossa
+affeição, que não comprehendemos o que a prudencia nos aconselhava.
+Obrámos como um homem atacado de um mal vergonhoso, que para guardar
+segredo deixa enraizar-se esse mal e destruir toda a seiva vital. Onde
+está Hamlet?
+
+A RAINHA
+
+Pondo em logar seguro o cadaver d'aquelle a quem deu a morte. No meio
+mesmo da sua demencia, conserva-se pura e intacta a sua intelligencia,
+como um metal precioso encravado em rocha bruta. Rebenta-lhe o pranto ao
+lembrar-se da acção que commetteu.
+
+O REI
+
+Saiâmos, Gertrudes. Quando o sol tocar o cume das montanhas, já Hamlet
+deverá ter embarcado; logo em seguida partirá para Inglaterra. Quanto a
+esta odiosa acção precisâmos achar na nossa auctoridade e no nosso
+engenho alguma desculpa que a releve aos olhos do mundo. Olá,
+Guildenstern? (Entram outra vez Guildenstern e Rosencrantz.)
+
+O REI (continuando)
+
+Meus amigos, procurem pessoas que os ajudem e auxiliem. Hamlet, na sua
+demencia, matou Polonio, cujo cadaver levou para fóra da camara de sua
+mãe. Tratem de descobrir onde o occultou, encarrego-os d'esta missão.
+Nada digam que possa irritar Hamlet, e levem o corpo do infeliz Polonio
+para a capella; peço-lhes só que se aviem. (Sáem Rosencrantz e
+Guildenstern.)
+
+O REI (continuando)
+
+Vamos, Gertrudes, convoquemos os nossos mais doutos amigos, demos-lhe a
+conhecer o nosso designio e a desgraça acontecida. Precavendo-nos d'este
+modo, talvez a calumnia, que arremessa o seu dardo envenenado de uma
+extremidade do mundo á outra, e cujos tiros são tão certeiros, como os
+do mais perfeito canhão, poupe o nosso nome, perdendo-se na immensidade
+do espaço. Saiâmos d'aqui. Na minha alma não sinto senão perturbação e
+terror! (Sáem.)
+
+
+SCENA II
+
+Outro quarto no castello
+
+Entra HAMLET
+
+HAMLET
+
+Duvido que o encontrem.
+
+VOZES DE FÓRA
+
+Hamlet? senhor Hamlet?
+
+HAMLET
+
+De vagar. Que rumor é este? Quem ousa chamar Hamlet? Ah! eil-os que
+chegam. (Entram Rosencrantz e Guildenstern.)
+
+ROSENCRANTZ
+
+Senhor? que fez vossa alteza do cadaver?
+
+HAMLET
+
+Entreguei-o ao pó de que saíu.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Mas em que logar para o podermos levantar e depositar na capella?
+
+HAMLET
+
+Não pensem em tal.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Que devemos, pois, pensar?
+
+HAMLET
+
+Que pouco me importo com a sua cabeça, mas muito com a minha.
+Interrogado de mais a mais por uma esponja! Que resposta lhe póde dar o
+filho de um rei?
+
+ROSENCRANTZ
+
+É a mim que chama esponja?
+
+HAMLET
+
+A quem havia de ser? sim a ti, que bebes os favores, as recompensas e o
+poder real. Mas, no fim de contas, taes officiaes prestam ao monarcha
+relevantes serviços, são para elle como o fructo que o bugio conserva na
+bôca para depois o engulir; quando necessitar do que tem arrecadado,
+espreme-os como uma esponja, e ficarão completamente enxutos.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Não comprehendo, senhor!
+
+HAMLET
+
+Estimo muito. As palavras do traficante só tem por domicilio os ouvidos
+do tonto.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Diga-nos onde está o cadaver, e siga-nos á presença do rei.
+
+HAMLET
+
+Onde está o rei existe um corpo, mas o rei não está n'esse corpo. O rei
+é uma creatura.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Uma creatura, senhor?
+
+HAMLET
+
+Uma creatura que nada vale! Conduzam-me á sua presença. Vamos jogar as
+escondidas. (Sáem todos.)
+
+
+SCENA III
+
+Uma sala no castello
+
+Entra o REI com a sua comitiva
+
+O REI
+
+Mandei chamar Hamlet e procurar o cadaver. Que perigo deixar livre um
+tal homem; mas não podemos fazer pesar sobre elle todo o rigor das leis.
+A multidão insensata estima-o, decidindo-se mais pela vista do que pela
+rasão; n'estas circumstancias o que devemos pensar é o castigo dos
+culpados, nunca o crime só por si. Para prevenir qualquer
+descontentamento é forçoso que este precipitado exilio pareça
+consequencia de madura reflexão. Para males desesperados remedios
+energicos, ou nenhuns. (Entra Rosencrantz.) Então que aconteceu?
+
+ROSENCRANTZ
+
+Nada podemos saber da sua bôca relativamente ao cadaver.
+
+O REI
+
+Onde está Hamlet?
+
+ROSENCRANTZ
+
+No quarto vizinho, esperando debaixo de segura guarda as ordens de vossa
+magestade.
+
+O REI
+
+Que venha á nossa presença.
+
+ROSENCRANTZ
+
+Olá, Guildenstern. Conduze Hamlet a este aposento. (Entram Hamlet e
+Guildenstern.)
+
+O REI
+
+Hamlet, onde está Polonio?
+
+HAMLET
+
+N'um banquete.
+
+O REI
+
+N'um banquete?! onde?
+
+HAMLET
+
+Onde não come, mas é devorado. Uma multidão de vermes politicos disputa
+o seu cadaver. O verme é o monarcha dos comedores. Engordâmos todas as
+creaturas para nos engordarmos, e engordâmo-nos para pasto dos vermes.
+Um rei gordo e um mendigo magro são duas iguarias differentes, comtudo
+hão de ser servidas á mesma mesa. Esta é a verdade.
+
+O REI
+
+Infelizmente assim é!
+
+HAMLET
+
+É possivel que se pesque, com um verme creado em cadaver real, um peixe,
+e que se coma depois o peixe que enguliu o verme.
+
+O REI
+
+Que significam as tuas palavras?
+
+HAMLET
+
+Nada; apenas as transformações pelas quaes póde passar um rei para
+penetrar nos intestinos do pobre.
+
+O REI
+
+Onde está Polonio?
+
+HAMLET
+
+No céu. Mande ali o seu mensageiro procural-o, e se não o achar,
+procure-o então o rei no sitio opposto. Em todo o caso se não o acharem
+até d'aqui a um mez, o olfato o denunciará junto á escada da galeria.
+
+O REI (á sua comitiva)
+
+Procurem-o já.
+
+HAMLET
+
+Esperal-os-ha com certeza. (Sáe a comitiva do rei.)
+
+O REI
+
+Hamlet, no interesse da tua saude, que nos é tão cara, quanto dolorosa a
+acção que commetteste, é forçoso que partas com a maior brevidade; vae,
+pois, preparar-te. O navio está prompto e o vento sopra propicio; os
+teus companheiros esperam-te, e tudo está disposto para a tua viagem a
+Inglaterra.
+
+HAMLET
+
+A Inglaterra?
+
+O REI
+
+Sim, Hamlet.
+
+HAMLET
+
+Está bem.
+
+O REI
+
+O mesmo dirias conhecendo todos os meus projectos.
+
+HAMLET
+
+Descubro um anjo que os vê. Mas partâmos para Inglaterra. Adeus, minha
+querida mãe.
+
+A RAINHA
+
+E teu pae que te estremece?
+
+HAMLET
+
+Não, minha mãe; pae e mãe são marido e mulher, marido e mulher são uma e
+mesma carne. Assim, pois, adeus, minha mãe. Vamos para Inglaterra.
+(Sáe.)
+
+O REI (a Rosencrantz e Guildenstern)
+
+Sigam-o passo a passo, façam-o embarcar promptamente, não ha tempo que
+perder. Quero que já esta tarde esteja afastado d'estes sitios. Vão!
+Tudo quanto respeita a este negocio foi já expedido e sellado com as
+nossas armas. Aviem-se, peço-lh'o. (Sáem.) (Continuando) Rei de
+Inglaterra, sabes até onde chega o meu poder; as feridas infligidas pelo
+ferro dinamarquez ainda sangram, e teu respeito nos presta livre
+homenagem. Se, pois, prezas a minha benevolencia, não receberás
+friamente as ordens soberanas contidas nas minhas cartas e que exigem a
+morte de Hamlet. Obedece-me, rei de Inglaterra, porque Hamlet é febre
+que requeima o meu sangue, e tu é que me deves curar d'ella. Não terei
+um dia de prazer e descanso emquanto não souber a completa execução das
+minhas ordens, aconteça o que acontecer. (Sáe.)
+
+
+SCENA IV
+
+Uma planicie na Dinamarca
+
+Chega FORTIMBRAZ á frente das suas tropas
+
+FORTIMBRAZ (a um dos seus officiaes)
+
+Capitão, saúde da minha parte o rei de Dinamarca e diga-lhe, que, em
+conformidade com a sua promessa, Fortimbraz lhe pede livre passagem pelo
+seu territorio; sabe o ponto em que nos devemos encontrar. Se sua
+magestade desejar fallar-me, irei prestar-lhe as minhas homenagens.
+Diga-lh'o da minha parte.
+
+O OFFICIAL
+
+As suas ordens serão cumpridas, meu senhor!
+
+FORTIMBRAZ (ás suas tropas)
+
+Avancemos em attitude pacifica. (Fortimbraz e as suas tropas afastam-se.
+O official fica.)
+
+Chegam HAMLET, ROSENCRANTZ, GUILDENSTERN e mais pessoas
+
+HAMLET (ao official)
+
+Que tropas são essas, meu amigo?
+
+O OFFICIAL
+
+É o exercito norueguez, senhor!
+
+HAMLET
+
+Qual é o seu destino?
+
+O OFFICIAL
+
+Um ponto do território da Polonia.
+
+HAMLET
+
+Quem o commanda?
+
+O OFFICIAL
+
+Fortimbraz, sobrinho do rei de Noruega.
+
+HAMLET
+
+É contra a Polonia toda, ou só contra um ponto determinado da fronteira
+que marcham?
+
+O OFFICIAL
+
+Se quer que lhe diga a verdade, marchâmos contra uma parte da Polonia,
+cuja conquista será para nós gloria, sem proveito algum. Estou certo que
+a sua renda não vale cinco ducados, e se se vendesse ninguem daria mais.
+
+HAMLET
+
+Se assim é, os polacos não devem offerecer resistencia?
+
+O OFFICIAL
+
+Pelo contrario, até já o guarneceram.
+
+HAMLET
+
+Duas mil almas e vinte mil ducados chegarão apenas para tão futil
+empreza; é um d'estes abcessos que resultam de uma demasiada e
+prolongada prosperidade que rebenta internamente, sem que nada indique
+exteriormente a sua acção mortal. Obrigado, amigo.
+
+O OFFICIAL
+
+Deus seja comvosco, senhor. (Afasta-se.)
+
+ROSENCRANTZ
+
+O principe quer que continuemos o nosso caminho?
+
+HAMLET
+
+Póde ir indo, em breve o alcançarei. (Sáem Rosencrantz e Guildenstern.)
+(Continuando.) Como sempre tudo me accusa e me excita á tardia vingança.
+O que é o homem, se o seu primeiro bem, o maior negocio da sua vida,
+consiste em comer e dormir! É um animo brutal, nada mais. Seguramente,
+que aquelle que nos dotou com essa vasta comprehensão, capaz de abraçar
+o passado e o futuro, não nos deu essa intelligencia, esse admiravel
+raciocinio, para que ficassemos ociosos e sem emprego. Quer seja estulto
+esquecimento, quer cobarde escrupulo, medito demasiado na acção que
+tenho que commetter, pensamento composto de uma quarta parte de siso e
+tres quartas partes de cobardia. Como me espanto a mim mesmo quando
+repito: _Eis o que devo fazer_, já que me sobram os motivos, tenha eu ao
+menos vontade, força e energia para o executar. Incitam-me os mais
+irrecusaveis exemplos; testemunho este numeroso exercito, capitaneado
+pelo seu joven principe, cujo genio intrepido, soprado por uma ambição
+divina, affronta, rindo, as eventualidades de um porvir invisivel,
+expondo uma vida mortal e incerta, a tudo quanto podem ousar a fortuna,
+a morte e os perigos, e tudo por nada, por uma bagatella. A verdadeira
+grandeza consiste, não só em commover-se com grandes e poderosas rasões,
+mas tambem em achar n'uma bagatella rasões de conflicto, cuja verdadeira
+causa é o pundonor. Que posição pois a minha, eu que tenho um pae
+assassinado, uma mãe deshonrada; eu que tenho tantos motivos de colera e
+que tudo deixo adormecer, emquanto que para minha vergonha vejo vinte
+mil homens, por uma louca esperança de gloria exporem-se á morte,
+caminharem para o tumulo, como caminhariam para o leito; irem combater
+para conquistar um quinhão de terra insufficiente para caberem n'elle, e
+cujo terreno seria uma sepultura acanhada para os mortos. Ah! quanto se
+revelam sanguinarios os meus pensamentos, ou então nada. (Afasta-se.)
+
+
+SCENA V
+
+Uma sala no castello de Elsenor
+
+Entram HORACIO e a RAINHA
+
+A RAINHA
+
+Não lhe quero fallar.
+
+HORACIO
+
+Pede-o encarecidamente. Verdade é que ella perdeu a rasão; o seu estado
+é digno de compaixão.
+
+A RAINHA
+
+O que pretende ella?
+
+HORACIO
+
+Falla sempre no pae, pretende terem-lhe dito que n'este mundo se
+commettem bem más acções, suspira, bate no peito, exaspera-se sem
+motivo. Profere palavras equivocas e sem sentido. Nada diz, comtudo quem
+ao ouvil-a não teria vontade de a comprehender. Aquelles que a ouvem
+procuram adivinhar o sentido, e preenchendo as lacunas, tentam completar
+o sentido das suas fallas. Vendo os movimentos que faz, acompanhando as
+palavras, todos lhe suppõem um pensamento, um sentido, e provavelmente
+tem-no, mas de certo bem sinistro.
+
+A RAINHA
+
+É conveniente fallar-lhe, porque poderia impressionar malevola e
+perigosamente os espiritos. Que venha. (Horacio sáe.) (Continuando) Ah!
+minha alma enferma! Será uma condição do crime, que a menor bagatella
+pareça sempre a precursora de alguma grande calamidade? Tal é a
+desconfiança em uma consciencia culpada, que se trahe a si mesma com o
+receio de se trahir.
+
+HORACIO entra com OPHELIA
+
+OPHELIA
+
+Onde está a bella rainha de Dinamarca?
+
+A RAINHA
+
+Ophelia?
+
+OPHELIA
+
+ Como hei de eu conhecer o bem amado
+ Por entre a multidão?
+ Pelo chapéu de conchas enfeitado
+ E pelo seu bordão.
+
+A RAINHA
+
+Infeliz Ophelia! Que significam esses versos?
+
+OPHELIA
+
+Pergunta-mo? Escute então...
+
+ Levaram-no bem morto ao cemiterio!
+ O que tu foste e és!...
+ Sob a fronte senil myrto funereo,
+ E fria pedra aos pés!
+
+Ai de mim! (Chora.)
+
+A RAINHA
+
+Ophelia, querida Ophelia?
+
+OPHELIA
+
+Ouça mais, peço-lh'o...
+
+ Branca de neve a frigida mortalha...
+
+Entra o REI
+
+A RAINHA
+
+Veja, senhor!
+
+OPHELIA
+
+ É como um prado em flor
+ Baixou á campa a fronte e não a orvalha
+ Com lagrimas o amor!!
+
+O REI
+
+Como está bella, Ophelia?
+
+OPHELIA
+
+Bem, louvado Deus, dizem que a coruja fôra outr'ora filha de um padeiro.
+Meu Deus, nós sabemos o que somos, mas nunca o que poderemos vir a ser.
+Que Deus abençôe a sua mesa.
+
+O REI
+
+Recorda-se do pae?
+
+OPHELIA
+
+Não fallemos mais n'isso, mas se me perguntam o que significa,
+dir-lhes-hei o que é. Respondam.
+
+ São Valentim! dizes-me a minha sina?
+ A pé já todos são.
+ Queres que eu seja a tua Valentina?
+ Sou virgem, sim ou não?
+ Ergueu-se elle e vestiu-se; mansamente
+ Do quarto a porta abriu;
+ E virgem ella entrou... mas tão sómente
+ Mulher quando saíu.
+
+O REI
+
+Encantadora Ophelia!
+
+OPHELIA
+
+Em verdade vou terminar sem juramento.
+
+ Por Jesus! pela santa caridade!
+ Quem vale á infeliz?!
+ Ai! são todos assim na mocidade,
+ A sorte é quem n'o quiz!
+ Antes da minha quéda prometteste
+ Conduzir-me ao altar:
+ Por Deus o houvera feito... não quizeste.
+ Quem te mandou entrar?
+
+O REI
+
+Ha quanto tempo é que este infeliz estado se apoderou d'ella?
+
+OPHELIA
+
+Tudo vae bem! É preciso ter paciencia; não posso reter o pranto,
+pensando que está debaixo da terra fria e humida. Meu irmão ha de
+sabel-o, obrigada pelo conselho. Chegue a minha carruagem. Boa noite,
+minhas senhoras, boa noite, bellas senhoras, Adeus, boas noites! (Sáe
+correndo.)
+
+O REI (a Horacio)
+
+Siga-a, não a perca de vista, vigie-a cautelosamente, peço-lh'o eu!
+(Horacio sáe.) (Continuando) Oh! é aquelle o veneno de uma dor profunda,
+causada pela morte do pae. Ah! Gertrudes, Gertrudes, quando as dores nos
+assaltam, nunca é isoladamente, é como se viessem em tropel. Primeiro a
+morte do pae, depois a partida de Hamlet, que tão violentamente decretou
+o proprio exilio; o povo alvoroçado e descontente, commenta malevola e
+insidiosamente a morte de Polonio, e nós obrámos pouco assisadamente
+ordenando o prompto enterro; a infeliz Ophelia, inconsciente do seu
+estado, está privada da rasão, sem a qual somos simples estatuas,
+creaturas brutas. Para cumulo de desgraça esta vale todas as outras, seu
+irmão voltou secretamente de França, embrenha-se no labyrintho de
+noticias, e mantem-se occulto. Não deixará por certo de haver bôcas
+malevolas, que por occasião da morte de seu pae, envenenem seus ouvidos
+com insinuações perfidas, e a calumnia, na carencia de outro assumpto,
+não nos poupará com os seus dardos envenenados e mortiferos. Ah! querida
+Gertrudes; tudo isto, similhante a um instrumento de morte, vibra-me
+mais golpes que os necessarios para pôr termo á minha vida. (Ouve-se um
+grande rumor fóra da sala.)
+
+A RAINHA
+
+Que rumor é esse?
+
+O REI
+
+Olá, venha alguem. (Entra um official do palacio.)
+
+O REI (continuando)
+
+Onde estão os meus suissos? Que defendam as portas. Dize-me já o que ha.
+
+O OFFICIAL
+
+Fuja, senhor; o oceano, rompendo os diques, não invade com mais
+violencia a campina, do que o joven Laerte, á frente da rebellião,
+derruba a resistencia dos vossos officiaes. O povo chama-lhe soberano, e
+como se fosse no começo do mundo, sem tradições, nem passado, nem usos,
+sobre que tudo se firma, ou as tivesse esquecido, exclama: Elejâmos um
+rei! Laerte será o nosso rei? Todos se descobrem e agitam os gorros,
+todas as mãos applaudem, todas as vozes repetem: Laerte será rei. Viva o
+rei Laerte!
+
+A RAINHA
+
+Com que prazer esta matilha segue uma pista falsa! Enganam-se!
+Dinamarquezes ingratos!
+
+O REI
+
+Entraram á força. (Redobra o rumor. Entra Laerte seguido por muito povo
+dinamarquez.)
+
+LAERTE
+
+Onde está esse rei? Senhores, retirem-se para fóra.
+
+O POVO
+
+Nada! Queremos todos entrar.
+
+LAERTE
+
+Façam o que lhes peço.
+
+O POVO
+
+É justo! é justo! (Sáem.)
+
+LAERTE
+
+Obrigado, senhores; guardem as portas. (Ao rei.) Infame! entrega-me meu
+pae.
+
+O REI
+
+Socegue, meu caro Laerte.
+
+LAERTE
+
+Se uma só gota do meu sangue não fervesse, essa gota proclamar-me-ía
+bastardo, attestaria a deshonra de meu pae, e imprimiria na casta fronte
+de minha adorada mãe um estigma indelevel de infamia.
+
+O REI
+
+O que deu azo, Laerte, a uma rebellião, que assumiu proporções tão
+colossaes? Está tranquilla, Gertrudes, por nós nada receies; graças ao
+caracter sagrado que protege os reis, a traição não lança senão um olhar
+timido e incerto para o resultado que anhelam os seus desejos, e os
+effeitos estão longe de corresponder á sua esperança. Dize-me, Laerte, o
+motivo d'esta irritação violenta. Nada receies, Gertrudes. Falla,
+Laerte.
+
+LAERTE
+
+Onde está meu pae?
+
+O REI
+
+Morreu.
+
+A RAINHA
+
+Mas o rei está innocente.
+
+O REI
+
+Deixa-me interrogal-o á minha vontade.
+
+LAERTE
+
+Como morreu elle? Não admitto duvidas, dispenso juramentos; leve o
+demonio a fé jurada, sepultem-se no abysmo a consciencia e a fidelidade.
+Affrontarei a condemnação, declaro-o formalmente; renuncio a tudo n'este
+e no outro mundo, aconteça o que acontecer, comtanto que vingue de um
+modo bem patente a morte de meu pae.
+
+O REI
+
+E quem t'o impede?
+
+LAERTE
+
+A minha vontade só e não a do universo inteiro; quanto aos meios de que
+disponho, empregal-os-hei de modo que com recursos limitados tire
+d'elles o maior proveito.
+
+O REI
+
+Comprehendo, querido Laerte, que queiras saber a verdade toda a respeito
+da morte de teu estremecido pae. Mas estás tu resolvido a confundir
+amigos e inimigos, aquelles que perderam e aquelles que ganharam com a
+sua morte?
+
+LAERTE
+
+Unicamente os inimigos quero punir.
+
+O REI
+
+E queres conhecel-os?
+
+LAERTE
+
+Quanto aos seus amigos, abro-lhes os braços com alvoroço; e similhante
+ao pelicano que rasga o seio, para com o sangue alimentar os filhos,
+estou prompto a por elles dar o meu sangue todo.
+
+O REI
+
+Ainda bem; fallas agora como bom filho e homem honrado. Sou innocente na
+morte de teu pae, e deploro-a amargamente; demonstral-o-hei á tua rasão
+com provas tão claras como a luz do dia.
+
+O POVO (de fóra)
+
+Deixem-a entrar.
+
+LAERTE
+
+O que é? Que rumor é esse? (Entra Ophelia estranhamente enfeitada com
+flores na cabeça e palhas entrançadas nos cabellos.) (Continuando.) Meu
+pobre cerebro! Sequem-se as minhas lagrimas, que, sete vezes corrosivas,
+queimam meus olhos e afastam d'elles o sentido da vista! Por Deus! A tua
+demencia será paga com usura, até que o nosso peso faça baixar uma das
+conchas da balança. Rosa de primavera, filha querida, carinhosa irmã,
+boa Ophelia! Oh! ceus! pois será possivel que a rasão de uma jovem
+mulher seja tão fragil como a vida do ancião! A natureza tem no seu amor
+um perfume subtil e raro, cujas emanações se infiltram no objecto amado.
+
+OPHELIA
+
+ Levaram-no em mesquinha padiola
+ E foram-no enterrar!
+ Mas chove-lhe na tumba, ai! grata esmola
+ De lagrimas um mar.
+
+LAERTE
+
+Possuisses tu toda a tua rasão, animasses-me tu á vingança, não
+conseguias crear em mim uma emoção.
+
+OPHELIA
+
+Forçoso é que eu cante e tu tambem:
+
+ Abaixo! Abaixo!
+ Lançae-o abaixo!
+
+Devias ouvir cantar ás fiadeiras; é a canção do intendente desleal, que
+raptou a filha de seu amo.
+
+LAERTE
+
+Estes nadas tudo me dizem.
+
+OPHELIA (a Laerte, dando-lhe uma flor)
+
+Toma, é rosmaninho a flor da lembrança. Lembra-te de mim, peço-t'o, meu
+querido; estes são amores perfeitos, é para que sempre viva no teu
+coração de irmão.
+
+LAERTE
+
+Ha sentido no seu delirio. Acaba de distinguir acertadamente a lembrança
+e o pensamento.
+
+OPHELIA (ao rei)
+
+Aqui tendes, senhor, estas symbolicas flores. (Á rainha) Para vós,
+senhora, é arruda e tambem para mim; para vós será a herva da ventura,
+para mim a da dor. Eis um malmequer. Queria dar-vos violetas, mas
+feneceram todas quando meu pae morreu; dizem que teve o fim do justo.
+
+ Porque era o bom Robim minha alegria
+
+LAERTE
+
+A melancolia, a afflicção, a colera, o proprio inferno, tudo é divino
+proferido por ella.
+
+OPHELIA
+
+ E nunca mais virá?!
+ Morreu! morreu! morreu! ai! que agonia!
+ Não mais! não voltará!
+ Era a barba tão branca como a neve:
+ Partiu! foi para os céus.
+ Perdida, inutil dor! Breve, até breve,
+ Tem dó d'elle, meu Deus!...
+
+Assim como de todas as almas christãs, assim o peço a Deus, e elle seja
+comvosco. (Sáe.)
+
+LAERTE
+
+Vêem? Meu Deus!...
+
+O REI
+
+Deixa-me, Laerte, fallar-te no teu infortunio; é um direito que me
+pertence e que me não pódes negar sem injustiça. Reune em particular os
+teus amigos mais assisados; elles nos ouçam, e depois julguem entre nós
+dois. Se culpado me acharem, directa ou indirectamente, entrego-te, em
+expiação da minha culpa, reino, corôa e vida, e tudo quanto possa dizer
+meu; no caso contrario, peço-te só paciencia, e de accordo obraremos
+para te alcançar uma completa satisfação.
+
+LAERTE
+
+Consinto. As circumstancias da sua morte, o seu funeral obscuro, em que
+nem trophéus, nem espada, nem brazão figuraram, a ausencia de toda a
+ceremonia funebre no saímento do seu corpo, são como um aviso do céu,
+que me clama pela voz celeste: Indaga como foi.
+
+O REI
+
+Faça-se pois um inquerito, e o cutelo do algoz puna o culpado. Agora
+peço-te, Laerte, que me sigas. (Sáem ambos.)
+
+
+SCENA VI
+
+Um quarto no castello de Elsenor
+
+Entram HORACIO e um CREADO
+
+HORACIO
+
+Quem é que me pretende fallar?
+
+O CREADO
+
+Marinheiros... e dizem que têem cartas que lhe são dirigidas.
+
+HORACIO
+
+Que entrem pois; (o creado sáe) (só) não percebo de que canto do mundo
+se lembraram de me escrever. Só se for Hamlet.
+
+Entram os MARINHEIROS
+
+PRIMEIRO MARINHEIRO
+
+Guarde-o Deus, senhor!
+
+HORACIO
+
+Igualmente a ti!
+
+PRIMEIRO MARINHEIRO
+
+Fal-o-ha, se for da sua vontade. (Entrega uma carta) Aqui tem esta
+carta, é do embaixador que foi mandado a Inglaterra; o senhor, segundo
+me asseguraram, chama-se Horacio, não é verdade? (Dá-lhe outra carta.)
+
+HORACIO (abrindo a carta, lendo)
+
+«_Horacio, quando receberes esta carta, proporciona a estes homens o
+fallarem ao rei; têem cartas para lhe entregar. Mal tinhamos dois dias
+de viagem, um corsario armado até aos dentes deu-nos caça; vendo nós que
+elle era mais veleiro, fizemos das fraquezas forças, e encetámos
+combate. Na abordagem, saltei-lhe na tolda, mas n'aquelle momento
+afastaram-se os dois navios, e eu achei-me só e prisioneiro.
+Comportaram-se commigo como corsarios humanos, mas sabiam o que faziam,
+porque contam pedir avultado resgate. Faze chegar ás mãos do rei a carta
+que lhe envio, depois vem ter commigo, com a celeridade que porias em
+evitar a morte. Tenho que confiar aos_ _teus ouvidos palavras que te
+emudecerão de espanto, e comtudo ainda são fracas para a gravidade do
+assumpto que devem exprimir. Estes marinheiros te conduzirão ao sitio
+onde me acho. Rosencrantz e Guildenstern navegam para a Inglaterra.
+Tenho muito que te contar a esse respeito. Adeus. Aquelle que sabes ser
+teu do coração==Hamlet._» Venham, vou facilitar-lhes a entrega das
+cartas, depois conduzam-me o mais prompto que podérem junto d'aquelle
+que lh'as entregou. (Sáem todos.)
+
+
+SCENA VII
+
+Outro quarto no castello
+
+Entram o REI e LAERTE
+
+O REI
+
+Devo estar illibado aos teus olhos, e deves ver em mim um amigo sincero,
+agora que já deves ter percebido que o assassino de teu pae tambem
+queria a minha morte.
+
+LAERTE
+
+Parece-me evidente! Mas diga-me porque, depois de actos tão graves e
+criminosos por sua natureza, não perseguiu o auctor, como era obrigado a
+fazel-o, por sua dignidade, pela sua salvação, pela sua prudencia, por
+tudo emfim?
+
+O REI
+
+Ah! por duas rasões, que provavelmente acharás sem valia, mas que a meus
+olhos têem toda a gravidade. A rainha sua mãe idolatra-o, é a existencia
+d'ella esse filho; eu por minha parte não sei se deva considerar isto
+como virtude ou como desgraça; mas ella está tão intimamente ligada á
+minha alma, qual satellite ao seu planeta, que só por ella e para ella
+vivo. O outro motivo que me impede de formular contra elle uma accusação
+publica, é a immensa affeição que o povo lhe consagra; affeição que
+desculpa todas as suas faltas, e similhante a essas fontes que
+transformam em pedra a madeira, converteria as suas cadeias em aureola
+de gloria. N'estas circumstancias, pois, as minhas frechas demasiado
+tenues para romperem tão forte vento, em vez de tocarem no alvo,
+voltando-se, feririam só o que as despediu.
+
+LAERTE
+
+Assim perdi meu nobre pae, e vejo minha estremecida irmã na mais
+desordenada demencia! Mas se é permittido elogiar o que já passou, ella
+excedia em perfeições as creaturas da sua idade, e não me hei de eu
+vingar?
+
+O REI
+
+Essa mágua não te perturbe o somno; não me julgues de um caracter tão
+pusillanime e estulto, que um perigo, que tanto me impressionou, seja
+por mim tratado de bagatella. Brevemente saberás ainda mais. Eu
+estremecia o teu pae; nós somos devéras amigos, agora deves acreditar
+que...
+
+Entra um MENSAGEIRO
+
+O REI
+
+Que queres? que ha de novo?
+
+O MENSAGEIRO
+
+Senhor, cartas de Hamlet; esta para vossa magestade, est'outra para a
+rainha.
+
+O REI
+
+De Hamlet!! quem as trouxe?
+
+O MENSAGEIRO
+
+Disseram-me que uns marinheiros, eu não os vi. Estas cartas foram-me
+entregues por Claudio, que as recebeu do portador.
+
+O REI (pegando na carta)
+
+Ouvirás, Laerte, o seu conteúdo. (Ao mensageiro) Retira-te (o mensageiro
+sáe) (abre a carta e lê): «_Alto e poderoso monarcha, depozeram-me em
+territorio vosso, nú; ámanhã solicitarei o comparecer na vossa presença,
+e então se me for permittido referir-vos-hei o que deu causa ao meu
+estranho e inesperado regresso.==Hamlet_». Que significa isto? voltariam
+todos, será engano, será tudo falso?
+
+LAERTE
+
+Conhece a sua letra?
+
+O REI
+
+É a letra de Hamlet. _Nú_, e n'um post-scriptum acrescenta _só_. Poderás
+tu dizer-me o que tudo isto significa?
+
+LAERTE
+
+Nada sei responder; mas que venha. Sinto renascer a chamma no meu
+coração abatido, pensando que lhe poderei dizer cara a cara: Foste tu o
+assassino de meu pae.
+
+O REI
+
+Se assim é, Laerte, não póde nem poderia ser de outra maneira; queres tu
+seguir um meu conselho?
+
+LAERTE
+
+Sim, comtanto que não me aconselhe a paz.
+
+O REI
+
+Pois que faças pazes com o teu coração é que eu quero: se é verdade que
+regressou, o que indica que Hamlet recúa diante da viagem e renuncia a
+ella, suggerir-lhe-hei uma aventura, cujo plano está maduro no meu
+espirito, e em que não poderá deixar de succumbir, e sem que a sua morte
+possa ser attribuida a pessoa alguma intencionalmente; tanto que sua
+propria mãe limitar-se-ha a lastimar o occorrido, vendo só uma
+fatalidade.
+
+LAERTE
+
+Seguirei gostosamente os seus conselhos, e ainda de melhor vontade, se
+podér combinar de modo que eu seja o agente principal.
+
+O REI
+
+Vejo que os nossos desejos se combinam completamente. Frequentemente,
+desde as tuas viagens, têem-me gabado por excederes a todos no exercicio
+de uma arte. Todas as tuas qualidades reunidas excitaram em Hamlet menos
+ciumes do que esta só; é comtudo talvez a menos importante.
+
+LAERTE
+
+E qual é essa qualidade?
+
+O REI
+
+Um laço de fitas no chapéu da juventude, mas um enfeite necessario;
+porque não lhe fica menos bem um ornamento um pouco frivolo mesmo, do
+que convem á idade madura as vestes encorpadas e serias que lhe impõem a
+saude e a gravidade. Ha dois mezes esteve aqui um cavalleiro normando;
+tenho visto francezes e combatido com elles, e são devéras habeis, mas a
+habilidade d'esse homem parecia ter o poder da magia. Parecia arroscado
+á sella, e guiava o cavallo tão prodigiosamente, que pareciam um só e o
+mesmo animal intelligente. Excedeu tudo quanto se póde imaginar na arte
+de cavallaria e volteio, tão perfeita era a execução.
+
+LAERTE
+
+Um cavalleiro normando, disse?
+
+O REI
+
+Um normando.
+
+LAERTE
+
+Então era Lamond; não póde ser outro.
+
+O REI
+
+Elle mesmo.
+
+LAERTE
+
+Bem o conheço, é a phenix, a perola da sua patria.
+
+O REI
+
+Fallou de ti vantajosamente, fez os maiores elogios da tua pericia no
+manejo das armas, sobretudo da espada, declarando ser impossivel achar
+outro igual, e jurando que os jogadores de espada francezes perderam
+agilidade, posição e golpe de vista depois que comtigo se mediram. Estes
+elogios que elle te dispensava, de tal modo exasperaram o ciume de
+Hamlet, que anhelava só pelo teu regresso para comtigo combater, e
+transformaram o ciume em furia. Tirando pois partido d'estas
+circumstancias...
+
+LAERTE
+
+Que partido poderemos nós tirar?
+
+O REI
+
+Laerte, amavas tu realmente teu pae, ou não era a tua dor senão um
+simulacro, toda exterior e nada interior?
+
+LAERTE
+
+Porque esta pergunta?
+
+O REI
+
+Longe de mim o pensar que não amavas teu pae; mas a affeição é um
+sentimento que se gera em nós, e a experiencia de todos os dias nos faz
+ver que o tempo destempera a sua vivacidade e o seu ardor. Mesmo na
+chamma do amor ha ás vezes uma mancha que a amortece, e cousa alguma se
+conserva permanentemente bella, porque o bom, pelo crescimento degenera
+em plethora, e parece abafado pela demasiada nutrição. O que pretendemos
+fazer, devemos fazel-o na occasião propria, porque a vontade tambem
+muda; tantas são as suas mudanças, quantas as linguas, mãos e outros
+accessorios que se cruzam no seu caminho, e então a execução não é mais
+que um dever, cujo cumprimento, similhante aos demasiado frequentes
+suspiros, nos magôa, alliviando-nos. Mas entremos francamente na
+questão. Hamlet regressa. Que estás tu disposto a fazer, para te
+mostrares digno filho de teu pae, não com palavras, mas com obras?
+
+LAERTE
+
+Assassinal-o-ía mesmo no templo do Senhor.
+
+O REI
+
+Effectivamente o assassino não recúa perante o santuario, quando
+pretende saciar a vingança. Mas, querido Laerte, queres seguir o meu
+conselho? Encerra-te nos teus aposentos. Hamlet, regressando, saberá da
+tua estada n'estes logares; farei com que exaltem na sua presença os
+teus talentos, e que encareçam os elogios mais que os francezes o
+fizeram; por este meio seguir-se-hão um desafio e apostas sobre a
+pericia dos contendores. Elle que está desprevenido e é generoso e de
+nada desconfia, não examinará os floretes; de modo que, com alguma
+habilidade da tua parte, poderás escolher um florete sem botão, e por
+meio de uma bem dirigida estocada fazer-lhe pagar a morte de teu pae.
+
+LAERTE
+
+Como o rei disse, Laerte o fará; mesmo envenenarei a ponta do meu
+florete. Comprei a um empirico uma droga mortal. Por pouco que a ponta
+de um punhal esteja n'ella banhada, por leve que seja o ferimento, não
+ha balsamo precioso, embora composto dos mais energicos contravenenos,
+que possa salvar da morte inevitavel e rapida o ferido. Assim,
+prepararei a ponta do meu florete, para que mesmo leve arranhadura lhe
+seja fatal.
+
+O REI
+
+Tornaremos ao assumpto, e combinaremos o momento e maneira mais facil e
+favoravel para a sua execução. Se tivesse que falhar este nosso plano,
+mais valeria nada tentar. Mas é necessario que esta primeira combinação
+se firme n'uma segunda, que a substitua, no caso da arma se quebrar no
+primeiro encontro. Um momento... Vejamos. Faremos apostas importantes
+sobre a respectiva pericia de ambos. Quando, no calor do combate,
+estiverem afogueados e sedentos, para conseguir o intento não poupes o
+teu adversario, ataca-o com vigor. Hamlet, sem duvida, pedirá uma
+bebida; ser-lhe-ha então apresentada uma, de antemão preparada, e uma só
+gota bastará, se a tua espada te trahir, para conseguirmos o fim
+desejado. Mas silencio! Que rumor é este? (Entra a rainha.) Que ha de
+novo, querida Gertrudes?
+
+A RAINHA
+
+Accumulam-se as desgraças, e repetem-se com assustadora rapidez. Laerte,
+tua irmã suicidou-se, afogando-se.
+
+LAERTE
+
+Onde?
+
+A RAINHA
+
+Na margem da vizinha ribeira cresce um salgueiro, cuja prateada folhagem
+se reflecte nas aguas crystallinas. Tua irmã approximou-se d'aquelle
+sitio, sempre tecendo grinaldas de rainunculos, ortigas, malmequeres, e
+d'essas flores a que os nossos pastores dão um nome bem grosseiro, mas
+que as nossas castas donzellas denominam poeticamente _dedo da morte_.
+Quando procurava ornar com as suas innocentes grinaldas as argenteas
+frondes do salgueiro, oh! desgraça! descuidosa foi envolvida na
+corrente, cercada dos ornatos que lhe serviam como de corôa virginal.
+Algum tempo suspensa pelas vestes sobre a corrente, assimilhava-se á
+sereia, cantando incoherentes trechos, inconsciente do proprio risco,
+como se estivesse no seu nativo elemento. Mas tudo tem um fim, e em
+breve, sossobrando pelo peso das encharcadas vestes, cessou de cantar, e
+tornou-se cadaver levado pela corrente.
+
+LAERTE
+
+Oh! desgraçada! afogada!!
+
+A RAINHA
+
+Sim, Laerte!
+
+LAERTE
+
+Sequem-se as minhas lagrimas; já tiveste agua em demasia, infeliz
+Ophelia! Mas porque? Mais força tem a natureza do que a vontade; todos
+lhe devemos obediencia. Para que uma falsa vergonha? Rolem, pois pelas
+faces lagrimas santas, e arrebatem na sua corrente a minha ultima
+fraqueza. Adeus, senhor! As minhas palavras de fogo tornar-se-íam
+embravecido vulcão, se as lagrimas do coração o não apagassem. (Sáe.)
+
+O REI
+
+Sigâmol-o, Gertrudes. Quanto me custou a serenar a sua colera! Receio
+bem que estas novas desgraças lhe despertem em toda a sua plenitude a
+sanha da vingança. Sigâmol-o, pois.
+
+
+Fim do acto quarto
+
+
+
+
+ACTO QUINTO
+
+
+SCENA I
+
+Um cemiterio
+
+Entram DOIS COVEIROS com enxadas
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+Dever-se-ha enterrar em chão sagrado aquelle que voluntariamente
+procurou a sua salvação no suicidio?
+
+SEGUNDO COVEIRO
+
+Eu cá digo que sim; avia-te em cavar a cova, o magistrado viu e decidiu
+que aqui fosse sepultada.
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+Isso não póde ser, a menos que não se afogasse involuntariamente.
+
+SEGUNDO COVEIRO
+
+Já está reconhecido e decidido.
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+As probabilidades todas são que pereceu _se offendendo_. Ninguem é capaz
+persuadir do contrario. Vê tu como eu o provo. Se me afogar
+voluntariamente existe um acto; ora, um acto subvide-se em tres ramos: a
+acção, o cumprimento e a execução; ergo, afogou-se voluntariamente.
+
+SEGUNDO COVEIRO
+
+Assim será, mas escuta-me ao menos.
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+Ouve-me ainda; a agua está aqui, o homem está acolá; muito bem, o homem
+vae encontrar a agua e se afoga; forçosamente morre por seu motu
+proprio; nota isto bem. Mas se, pelo contrario, é a agua que vem
+encontrar o homem, e elle se afoga, então já não é elle que procura a
+morte; ergo, aquelle que não é culpado na sua morte, não poz termo
+voluntariamente á vida.
+
+SEGUNDO COVEIRO
+
+Mas será lei?
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+É a lei que preside ao inquerito do magistrado.
+
+SEGUNDO COVEIRO
+
+Queres que te diga o que penso? Se a defunta não fosse senhora de
+qualidade, de certo não a enterravam em chão sagrado.
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+É bem verdade o que dizes; é triste que as pessoas de qualidade tenham,
+a mais dos outros christãos seus iguaes, o direito de se afogarem e de
+se enforcarem. Vamos sempre cavando! Não ha nobreza mais antiga que a
+dos jardineiros, lavradores e coveiros; seguem a profissão de Adão!
+
+SEGUNDO COVEIRO
+
+Pois Adão era nobre?
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+O primeiro que usou armas!
+
+SEGUNDO COVEIRO
+
+Deixa-te d'isso, não consta que as tivesse!
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+Sempre és um pagão! como comprehendes tu então a escriptura sagrada? A
+escriptura diz que Adão trabalhava o solo; como poderia elle trabalhar
+sem pá ou enxada? Essas eram as suas armas. Vou fazer-te outra pergunta,
+se não me responderes com acerto, não és mais que um....
+
+SEGUNDO COVEIRO
+
+Asno! continúa.
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+Quem é que construiu mais solidamente que o pedreiro, carpinteiro e
+constructor de navios?
+
+SEGUNDO COVEIRO
+
+O constructor do cadafalso, porque sobrevive a innumeros hospedes.
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+Boa resposta, palavra de honra. Cadafalso é bem achado; mas para quem se
+fez o cadafalso? para os que fazem o mal; ora, tu fizeste mal em dizer
+que o cadafalso é mais solido que a igreja, logo merecias o cadafalso.
+Vamos, procura e responde.
+
+SEGUNDO COVEIRO
+
+Agora eu! Quem é que construiu mais solidamente do que o pedreiro,
+carpinteiro e constructor de navios?
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+Dize tu primeiro, eu cá já sei.
+
+SEGUNDO COVEIRO
+
+Tambem eu.
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+Vejamos.
+
+SEGUNDO COVEIRO
+
+Nada, não atino.
+
+HAMLET e HORACIO apparecem ao fundo
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+Basta de tratos ao teu cerebro; escusas de pensar mais, ficas sempre na
+mesma. Quando alguma vez te fizerem essa pergunta, responde: «É o
+coveiro; as moradas que construe duram até ao dia de juizo». Agora vae a
+casa de Vaughan e traze-me um copo de licor.(O segundo coveiro sáe,
+cantando.)
+
+ Quando eu era mancebo e quando amava
+ Tudo era para mim rapido goso,
+ Sómente noite e dia andava ancioso
+ Por o tempo matar que me matava.
+
+HAMLET
+
+Pois este homem não terá consciencia do que está fazendo, cantando
+assim, quando cava uma sepultura?
+
+HORACIO
+
+O habito tudo póde.
+
+HAMLET
+
+E verdade, a mão pouco afeita ao trabalho tem o tacto mais delicado!
+
+PRIMEIRO COVEIRO (cantando)
+
+ Mas a idade chegou, passo furtivo
+ Nas gastadoras garras me ha tomado,
+ E assim, mau grado meu, me ha condemnado
+ A viver entre a morte, morto-vivo. (Desenterra uma caveira.)
+
+HAMLET (apontando para uma caveira)
+
+Houve tempo em que esta cabeça tinha uma lingua e cantava; agora este
+rustico fal-a rolar pelo solo, como se fosse a mandibula de Caim, o
+primeiro homicida. O craneo que este imbecil trata com tão pouco
+respeito, era talvez de algum profundo politico, que se julgava até
+capaz de impor a sua opinião ao proprio Deus, não é verdade?
+
+HORACIO
+
+Tudo póde ser, senhor.
+
+HAMLET
+
+Ou talvez de algum cortezão cujo prestimo unico fosse repetir: «Deus
+seja comvosco, como está, meu senhor?» É talvez o craneo do sr. fulano,
+que gabava o cavallo do sr. cicrano, com a idéa que este lh'o désse, não
+é verdade, Horacio?
+
+HORACIO
+
+Sim, meu senhor!
+
+HAMLET
+
+Deve assim ser! Agora pertence aos vermes; não tem nem pelle, nem
+sangue, nem carne, e este coveiro fende-o com a sua enxada. Eis uma
+estranha revolução, assim a comprehendessemos bem. Joga-se a bola com
+esses ossos, como se nada tivessem custado a formar. Sinto estalar os
+meus só pensando-o.
+
+PRIMEIRO COVEIRO (cantando)
+
+ Uma enxada e uma pá logo em seguida,
+ Um lençol que amortalha o corpo todo,
+ Um buraco depois feito no lodo,
+ Eis ao que se reduz a humana vida. (Desenterra outra caveira.)
+
+HAMLET
+
+Eis um outro craneo; quem sabe se não seria de um jurisconsulto. Agora
+acabaram as trapaças, as distincções subtis, as causas, as auctoridades
+legaes e as finuras. Em vida, de certo não consentia sem um processo que
+este imbecil lhe percutisse o craneo com a enxada. Porque não lhe
+intenta agora uma acção por vias de facto e sevicias? Quem sabe, talvez
+fosse um nedio comprador de bens immoveis, com os seus direitos, rendas,
+privilegios, hypothecas e contratos. Eil-o agora elle mesmo hypothecado,
+tem o privilegio commum a todos os mortaes, de ver a sua cabeça coberta
+de pó e terra. Pois que! todas as acquisições tão bem garantidas, não
+terão outro complemento senão assegurar-lhe um espaço apenas igual á
+superficie de dois contratos de venda? Todos os seus titulos mal
+caberiam n'este cofre, e comtudo é hoje a sua unica propriedade. Ah!
+
+HORACIO
+
+Unica, senhor!
+
+HAMLET
+
+Horacio, o pergaminho faz-se de pelles de carneiro, não é verdade?
+
+HORACIO
+
+Tambem de bezerro.
+
+HAMLET
+
+São pois os carneiros e bezerros que fazem fé em taes titulos. Vou
+interrogar este rustico. A quem pertence essa cova?
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+A mim!
+
+(Cantando)
+
+ Um buraco depois feito no lodo,
+ Eis ao que se reduz a humana vida.
+
+HAMLET
+
+Effectivamente, creio ser tua, pois que estás dentro d'ella.
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+O senhor está fóra, logo não é sua; mas apesar d'ella não me ser
+destinada, é comtudo minha.
+
+HAMLET
+
+Mentes, é para um morto, e não para um vivo.
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+Eis um desmentido prompto e que não admitte replica.
+
+HAMLET
+
+Para que homem cavas essa cova?
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+Senhor, não é para um homem!
+
+HAMLET
+
+Para que mulher então?
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+Nem tão pouco para uma mulher!
+
+HAMLET
+
+Quem será pois depositado n'esta cova?
+
+PRIMEIRO COVEIRO
+
+Uma pessoa que foi mulher, hoje é defunta; Deus se compadeça da sua
+alma.
+
+HAMLET
+
+Que agudeza no seu positivismo! é preciso fallar-lhe com toda a clareza,
+para não ser por elle enredado. Por Deus, Horacio, que noto ha tres
+annos que o mundo se torna retrogrado, e o rustico se approxima tanto do
+cortezão, que quasi se confundem. Ha quanto tempo és coveiro?
+
+O COVEIRO
+
+Dei-me a este officio desde o dia em que o defunto rei Hamlet venceu a
+Fortimbraz.
+
+HAMLET
+
+Quanto tempo haverá?
+
+O COVEIRO
+
+Não o sabe? Pois não ha imbecil que lh'o não diga. Foi no mesmo dia em
+que nasceu o joven Hamlet, aquelle que enlouqueceu, e foi mandado para
+Inglaterra.
+
+HAMLET
+
+É isso; e porque o mandaram para Inglaterra?
+
+O COVEIRO
+
+Ora, porque? porque estava louco; talvez lá recupere a rasão, e se não a
+recuperar, tambem não se perde muito.
+
+HAMLET
+
+E porque?
+
+O COVEIRO
+
+Não será visto aqui, e lá todos são tão loucos como elle.
+
+HAMLET
+
+Como enlouqueceu elle?
+
+O COVEIRO
+
+De um modo bem estranho, segundo dizem.
+
+HAMLET
+
+Mas de que modo?
+
+O COVEIRO
+
+É claro, perdendo a rasão.
+
+HAMLET
+
+E qual foi o motivo?
+
+O COVEIRO
+
+Um motivo dinamarquez, um motivo d'este paiz em que sou coveiro desde a
+infancia, ha trinta annos.
+
+HAMLET
+
+Dize-me, quanto tempo póde um homem estar enterrado, antes de apodrecer?
+
+O COVEIRO
+
+Se não está já podre antes de morrer (porque temos n'esta epocha muito
+corpo gangrenado, que mal supporta a inhumação), póde conservar-se de
+oito a nove annos; um surrador conserva-se nove annos.
+
+HAMLET
+
+Porque mais tempo que os outros?
+
+O COVEIRO
+
+O exercicio da sua profissão cortiu-lhe de tal modo a pelle, que fica
+impermeavel por muito tempo, e de certo sabe que a agua é o mais activo
+destruidor dos cadaveres. Vê esta caveira? Ficou vinte e tres annos
+debaixo da terra.
+
+HAMLET
+
+De quem era?
+
+O COVEIRO
+
+De um typo original; ora, quem lhe parece que seria?
+
+HAMLET
+
+Como posso eu sabel-o?
+
+O COVEIRO
+
+Leve-o o diabo. Lembro-me ainda do dia em que me vasou sobre a cabeça um
+frasco de vinho do Rheno. Esta caveira, senhor, era de Yorick, o bobo do
+rei.
+
+HAMLET
+
+Este craneo?
+
+O COVEIRO
+
+Sim, este mesmo.
+
+HAMLET (pegando na caveira)
+
+Dá-m'o, deixa-me vel-o. Pobre Yorick! Conheci-o, Horacio, era uma mina
+inexgotavel de ditos engraçados; tinha uma imaginação viva e fecunda!
+quantas vezes me levou aos hombros! agora ao pensal-o annuvia-se-me o
+coração. Aqui estavam os seus labios, em que tantos osculos depuz. Onde
+estão agora os teus sarcasmos, as tuas replicas, as tuas canções, esses
+rasgos de alegria, que promoviam a hilaridade de todos os convivas? Que!
+pois ninguem já póde rir com as tuas facecias? Descarnadas estão as
+faces. Vae, entra como agora estás, na alcova de alguma beldade da moda;
+dize-lhe então que arrebique e enfeites nada lhe valem, porque um dia
+será igual a ti. Fal-a rir, dizendo-lh'o. Dize-me tu, Horacio...
+
+HORACIO
+
+O que, meu senhor?
+
+HAMLET
+
+Julgas tu que Alexandre, depois de enterrado, se parecesse com Yorick?
+
+HORACIO
+
+De certo!
+
+HAMLET
+
+E que tivesse tão mau cheiro? Fóra! (Deita fóra o craneo.)
+
+HORACIO
+
+Sem duvida alguma, senhor.
+
+HAMLET
+
+A que destinos grosseiros é possivel baixarmos, Horacio? Quem sabe se,
+proseguindo nas suas successivas transformações, as cinzas de Alexandre
+não estão hoje empregadas em tapar um barril?
+
+HORACIO
+
+Seria entrar n'um exame demasiado minucioso.
+
+HAMLET
+
+Não concordo. Podemos seguir seriamente esse exame, e com probabilidades
+de obter um resultado. Por exemplo, Alexandre está morto, Alexandre está
+sepultado, Alexandre tornou-se pó; o pó é terra, da terra tira-se
+argilla, e quem impede que esta argilla, ultima metamorphose de
+Alexandre, seja empregada como batoque n'um barril de cerveja? O
+imperial Cesar, morto, tornou-se pó, e serve talvez para vedar uma fenda
+e interceptar a passagem do ar; e essa argilla, que espalhava o terror
+sobre o universo, vae calafetar um muro para impedir que o vento passe.
+Mas, silencio: afastemo-nos, chega o rei: (Entram processionalmente
+padres, levando á mão o caixão de Ophelia; segue-se Laerte e o cortejo
+funebre, mais atrás o rei, a rainha e a côrte) e tambem a rainha! toda a
+côrte! A quem prestarão os ultimos deveres? De quem será este funeral
+incompleto? Tudo denuncia um suicidio. Deve porém ser pessoa de
+categoria! Occultemo-nos e observemos, Horacio. (Afastam-se um pouco
+Hamlet e Horacio.)
+
+LAERTE
+
+Que ceremonias falta cumprir?
+
+HAMLET
+
+Olha, é Laerte, um nobre mancebo.
+
+LAERTE
+
+Ha mais alguma cousa que fazer?
+
+PRIMEIRO PADRE
+
+Fizemos já para o seu funeral tudo quanto nos era licito fazer; a sua
+morte tinha um caracter suspeito, e se ordens superiores não tivessem
+imposto silencio aos canones da Igreja, teria sido sepultada em chão
+profano, onde teria ficado até que a acordasse o clarim do juizo final.
+Em vez de orar por ella, teriamos lançado sobre o seu corpo tições,
+entulho e pedras; e comtudo coroaram-n'a como virgem, e flores cobriram
+a sua campa, e o tanger do bronze sagrado acompanhou-a á sua ultima
+morada.
+
+LAERTE
+
+Então nada mais se póde fazer?
+
+PRIMEIRO PADRE
+
+Mais nada; profanariamos o rito sagrado se entoassemos um _requiem_, ou
+se implorassemos para ella o repouso destinado ás almas que voaram ao
+céu santamente.
+
+LAERTE
+
+Seja pois o seu corpo depositado na campa, e possam d'elle e da sua
+carne, pura e sem manha, desabrochar violetas! Sou eu que t'o digo,
+padre sem alma, minha irmã gosará no céu a bemaventurança eterna,
+emquanto que tu extorcer-te-has no inferno nas convulsões do supplicio
+dos condemnados.
+
+HAMLET
+
+Que? É pois a bella Ophelia?
+
+A RAINHA (lançando flores sobre a campa)
+
+Flores para esta joven flor. Adeus! Esperava ver-te esposa do meu
+Hamlet; contava, encantadora donzella, enfeitar o teu leito nupcial;
+nunca pensei espargir flores sobre a tua sepultura.
+
+LAERTE
+
+Oh! que uma triplice e dez vezes triplice maldição cáia sobre a cabeça
+do scelerado que commetteu tão negra acção, e provocou a perda da sua
+rasão. Esperem que, antes que a terra a cubra, a estreite mais uma vez
+nos meus braços (salta para dentro da cova). Agora enterrem
+conjunctamente vivos e mortos, elevem sobre nós uma montanha que exceda
+em altura o antigo Pélion, ou o azulado Olympo, cujo cimo vem beijar as
+nuvens.
+
+HAMLET (adiantando-se)
+
+Quem é que na sua dor se exprime com tanta emphase; cuja voz detem os
+astros no seu giro, attonitos de o ouvirem? Sou Hamlet, o dinamarquez!
+(Arremessa-se á cova.)
+
+LAERTE (lançando-se a elle)
+
+O inferno se apodere da tua alma!
+
+HAMLET
+
+É um abominavel desejo: larga-me a garganta, retira as mãos, abaixo,
+aconselho-t'o eu; não sou nem mau, nem arrebatado, mas é perigoso
+excitar-me, e obrarás assisadamente pensando assim. Abaixo as mãos!
+
+O REI
+
+Separem-os.
+
+A RAINHA
+
+Hamlet! Hamlet!
+
+TODOS
+
+Senhores!
+
+HORACIO
+
+Contenham-se.
+
+HAMLET
+
+Por um tal motivo sinto-me capaz de combater com elle até ao ultimo
+alento.
+
+A RAINHA
+
+Meu filho, qual é o motivo?
+
+HAMLET
+
+Amava Ophelia, e as affeições juntas de quarenta mil irmãos não poderiam
+igualar a minha; (a Laerte) e que serias tu capaz de fazer por ella?
+
+O REI
+
+Deixa-o, Laerte, está louco.
+
+A RAINHA
+
+Pelo amor de Deus, não faça caso das suas palavras.
+
+HAMLET
+
+Vamos, dize-me, que tencionas tu fazer? Prantear, combater, jejuar,
+rasgar tuas proprias carnes, beber o Issel todo, devorar um crocodilo?
+Tudo farei. Vieste aqui para te lamentar, para me desafiar,
+precipitando-te dentro da sua cova; enterra-te vivo com ella, outro
+tanto farei; e já que fallaste em montanhas, accumulem ellas sobre nós
+tanta terra, que o cume da nossa pyramide tumular toque a zona ardente,
+e ao pé d'ella o monte Ossa não pareça mais que uma verruga. Pódes
+encolerisar-te, que não me assustam os teus furores.
+
+A RAINHA
+
+É um accesso de loucura que durará algum tempo; depois, similhante á
+meiga pomba acalentando os filhinhos, ficará silencioso e immovel.
+
+HAMLET (a Laerte)
+
+Dize-me, porque me tratas assim? Sempre fui teu amigo. Mas não importa.
+Aindaque Hercules se oppozesse, se o gato miasse, o cão havia de ladrar
+(afasta-se).
+
+O REI
+
+Siga-o, peço-lhe, meu caro Horacio. (Horacio segue Hamlet) (a Laerte)
+Tem paciencia, lembra-te da nossa conversação de hontem, (Á rainha)
+Querida Gertrudes, faça com que velem sobre Hamlet; (á parte) é preciso
+dar como monumento a este tumulo uma victima humana. Cedo estarei
+descansado; até então, paciencia! (Sáem todos.)
+
+
+SCENA II
+
+Uma sala no castello
+
+Entram HAMLET e HORACIO
+
+HAMLET
+
+Basta sobre esse assumpto; passemos ao outro, recordas-te bem de todas
+as circumstancias?
+
+HORACIO
+
+Se me lembro, meu senhor!
+
+HAMLET
+
+Uma especie de lucta apoderára-se do meu coração, vedava-me o somno,
+sentia-me peior que um facinora acorrentado! Adoptando comtudo uma
+resolução temeraria, achei na temeridade a minha força; lembremo-nos
+sempre, Horacio, que a imprudencia é muitas vezes o nosso prestante
+auxiliar, quando os nossos mais profundos calculos são impotentes, e
+isto deve-nos ensinar que ha uma Providencia que aperfeiçoa e completa
+os projectos que imperfeitamente esboçâmos.
+
+HORACIO
+
+Não ha cousa mais certa!
+
+HAMLET
+
+Saí pois do meu camarote a bordo, e coberto com as roupas de viagem
+procurei e encontrei pelo tacto, ás escuras, a sua mala; abri-a e
+revolvi-a toda, em seguida recolhi-me ao meu aposento; então o perigo
+baniu todo o escrupulo, abri o despacho rompendo o sêllo real! Escuta o
+que li, Horacio. Oh! perfidia real! Apoiando-se em differentes motivos,
+a salvação da Dinamarca e da Inglaterra, e o perigo que para elle havia
+em eu continuar a viver, o rei ordenava expressamente, que depois da
+leitura d'essa carta, sem demora alguma, nem mesmo a necessaria para
+afiar o cutello, eu fosse decapitado.
+
+HORACIO
+
+Será possivel?
+
+HAMLET
+
+Aqui tens a carta, lê-a á tua vontade. Mas queres tu saber o que eu
+então fiz?
+
+HORACIO
+
+Diga, senhor; que foi?
+
+HAMLET
+
+Para saír salvo dos laços d'esta infame traição, appellei para a minha
+intelligencia, e depressa formei o meu plano. Sentei-me, e redigi um
+despacho com a melhor letra que pude fazer. Antigamente, assim como os
+nossos homens d'estado considerava uma vergonha ter boa letra; e se
+soubesses quanto eu desejei perdel-a! mas n'esta occasião foi-me
+maravilhosamente util. Queres saber o que escrevi?
+
+HORACIO
+
+Com todo o gosto, senhor.
+
+HAMLET
+
+Dirigindo-se ao monarcha inglez como seu fiel tributario, dizia-lhe o
+rei de Dinamarca, se queria que se conservasse virente a palma da
+amisade, a paz se coroasse de espigas e se estreitassem os laços de uma
+união duradoura, lhe ordenava que, finda a leitura da sua carta, sem
+outro exame, sem lhes dar tempo de se confessarem, fizesse suppliciar os
+portadores do despacho.
+
+HORACIO
+
+Mas com que sêllo fechou esse escripto?
+
+HAMLET
+
+A Providencia não me desamparou ainda n'essa occasião; tinha na minha
+bolsa o sêllo de meu pae, reproducção exacta do sêllo do estado. Dobrei
+pois o meu despacho na fórma do estylo, subscriptei-o e sellei-o, depois
+colloquei-o no logar em que estava o outro: o engano não foi descoberto.
+No dia seguinte, em vez de combate sabes o que houve.
+
+HORACIO
+
+Assim, Rosencrantz e Guildenstern, vão receber o seu justo castigo?
+
+HAMLET
+
+Procuraram-n'o por suas proprias mãos; não me peza na consciencia. Só de
+si se podem queixar. É sempre uma desgraça para vis subalternos
+acharem-se envolvidos nas contendas de dois poderosos adversarios.
+
+HORACIO
+
+E é rei? meu Deus!
+
+HAMLET
+
+O meu dever está agora claramente indicado. Áquelle que assassinou meu
+pae, deshonrou minha mãe, que se interpoz entre a escolha da nação e as
+minhas esperanças, que attentou contra a minha vida traiçoeira e
+perfidamente, é justiça que o meu braço o puna. E não seria um crime
+digno da condemnação eterna, deixar continuar esta ulcera no seu
+trabalho corrosivo?
+
+HORACIO
+
+Mas dentro em pouco saberá de Inglaterra o desenlace de todo este
+negocio?
+
+HAMLET
+
+Em breve o saberá, é verdade, mas o tempo que até então decorrer,
+pertence-me, e o fio da vida do homem corta-se em menos tempo do que o
+preciso para contar até dois. O que me peza, meu caro Horacio, é ter
+desattendido Laerte, porque eu tambem sinto o que elle deve sentir.
+Sempre prezei a sua estima; mas a emphatica exaltação da sua dor
+exacerbou-me.
+
+HORACIO
+
+Silencio, principe; approxima-se alguem.
+
+Entra OSRICO
+
+OSRICO
+
+Alegro-me, principe, que tenha regressado á Dinamarca.
+
+HAMLET
+
+Obrigado, senhor. (A Horacio) Conheces tu esse insecto?
+
+HORACIO
+
+Não, meu senhor.
+
+HAMLET
+
+És pois um homem moral, é um vicio conhecel-o. É verdade que possue
+muitas e ferteis propriedades, mas é um estupido animal, que tem mando
+sobre os outros, seguro de achar a sua mangedoura na mesa real; é um
+ente desprezivel, mas, como disse, é senhor de vastos dominios.
+
+OSRICO
+
+Meu bom senhor, se não incommodo vossa alteza, alguma cousa tinha que
+lhe communicar da parte de sua magestade.
+
+HAMLET
+
+Escutal-o-hei com prazer. Mas cubra-se já, que o chapéu foi feito para
+estar na cabeça.
+
+OSRICO
+
+Obrigado, senhor, mas faz muita calma.
+
+HAMLET
+
+Faz muito frio, não acha? O vento está norte.
+
+OSRICO
+
+Effectivamente, faz bastante frio.
+
+HAMLET
+
+Não sei se é effeito de uma predisposição particular, mas acho um calor
+abrasador.
+
+OSRICO
+
+Não ha duvida, faz tanto calor, que nem posso quasi respirar. Mas, meu
+senhor, sua magestade encarregou-me de lhe dizer que fez uma aposta
+consideravel, de que vossa alteza é o motivo.
+
+HAMLET (fazendo-lhe signal de se cobrir)
+
+Faz favor.
+
+OSRICO
+
+Perdão, senhor, mas não me incommoda. Vossa alteza de certo é sabedor
+que chegou a esta côrte Laerte, um joven mui dextro, dotado das mais
+raras qualidades, agradavel no trato, um perfeito moço. Para fallar
+d'elle como merece, póde-se dizer que é o espelho e o almanach do bom
+tom, porque n'elle estão reunidas todas as qualidades que deve possuir
+um perfeito cavalheiro.
+
+HAMLET
+
+Senhor, não encareceu o retrato que d'elle fez; não é sufficiente toda a
+arithmetica da memoria para redigir o inventario especificado de todas
+as suas perfeições, e ainda assim o juizo ficaria áquem da verdade.
+Fallando conscienciosamente, tenho-o na conta de um cavalheiro distincto
+e de raro merecimento; digo-o sinceramente; para achar outro igual,
+forçoso é que se olhe no seu espelho: os outros não seriam senão a sua
+sombra.
+
+OSRICO
+
+O principe falla d'elle com a convicção da estima.
+
+HAMLET
+
+De que se trata, pois? Escusâmos embaçar as suas qualidades com o nosso
+juizo.
+
+OSRICO
+
+Senhor!
+
+HORACIO
+
+Não seria possivel fallar uma lingua mais intelligivel? É-o por certo,
+senhor.
+
+HAMLET
+
+Com que fim pronunciou o nome d'aquelle cavalheiro?
+
+OSRICO
+
+De Laerte?
+
+HORACIO
+
+Acabou-se-lhe o cabedal; ignora completamente o que ha de responder.
+
+HAMLET
+
+É verdade.
+
+OSRICO
+
+Sei que não ignora...
+
+HAMLET
+
+Queria que assim pensasse a meu respeito; e se assim fosse, fraco elogio
+para mim seria. Continue agora.
+
+OSRICO
+
+Vossa alteza não ignora a superioridade de Laerte?
+
+HAMLET
+
+É o que não affirmo, com o receio de me comparar a elle. Para conhecer
+um homem a fundo era necessario vestir a sua pelle.
+
+OSRICO
+
+Quero fallar da sua superioridade em manejar as armas; gosa da reputação
+de não ter rival.
+
+HAMLET
+
+Quaes são as suas armas de predilecção?
+
+OSRICO
+
+Florete e adaga.
+
+HAMLET
+
+São só duas! prosiga.
+
+OSRICO
+
+O rei apostou seis bellos cavallos da melhor raça, contra seis espadas e
+seis adagas francezas de Laerte, sem contar os cinturões, talabartes e
+tudo o mais. Tres dos accessorios sobretudo são dignos da aposta e de um
+trabalho maravilhoso, no estylo mesmo das armas.
+
+HAMLET
+
+Que chama accessorios?
+
+HORACIO
+
+Bem sabia eu que antes de terminar era infallivel algum reparo do
+principe.
+
+OSRICO
+
+Os accessorios, senhor, são os enfeites dos cintos e talabartes em que
+se suspendem as espadas.
+
+HAMLET
+
+A expressão seria mais exacta se em vez de espada usassemos um canhão;
+sirvamo-nos pois do termo cinto na generalidade. Prosiga. Seis bellos
+cavallos contra seis espadas e seus pertences, incluindo tres cintos,
+obra prima da arte franceza; é pois a França contra a Dinamarca. Mas
+qual é o motivo d'esta aposta?
+
+OSRICO
+
+O rei apostou que em doze golpes, Laerte não tocaria o principe senão
+tres vezes. Laerte apostou que seriam nove em doze. A questão será
+promptamente decidida se vossa alteza se dignar responder.
+
+HAMLET
+
+E se eu responder negativamente?
+
+OSRICO
+
+Quer dizer, se o principe convier em combater.
+
+HAMLET
+
+Senhor, vou agora passeiar n'esta sala; costumo todos os dias a esta
+hora, entregar-me a esses exercicios: depois estou ás ordens do rei.
+Tragam floretes com a annuencia de Laerte; e se o rei persistir no seu
+empenho far-lhe-hei ganhar a aposta se podér; no caso contrario
+restam-me os golpes recebidos e a vergonha.
+
+OSRICO
+
+Deverei dar ao rei a sua resposta?
+
+HAMLET
+
+Disse-lhe o meu pensamento: o seu talento saberá completar a resposta.
+
+OSRICO
+
+Um servo dedicado de vossa alteza. (Sáe.)
+
+HAMLET
+
+Muito agradecido, obrigado (a Horacio); fez bem de o dizer elle mesmo,
+ninguem se encarregava por certo de tal missão.
+
+HORACIO
+
+Finalmente, estamos sós!
+
+HAMLET
+
+Estou certo que ao collo da ama, antes de o sugar, elogiava a alvura do
+seu seio; similhante a tantas pessoas da sua tempera, que são o encanto
+dos ignorantes, abraçam as modas do dia, e revestem-se de um falso
+verniz de polidez, e, graças a essa mascara, são escutados pelos
+sensatos; mas experimentem-os, são como bolas de sabão, que se
+desvanecem ao menor sopro.
+
+Entra UM SENHOR
+
+O SENHOR
+
+Senhor! o rei mandou o joven Osrico cumprimentar vossa alteza da sua
+parte, o qual lhe disse que o principe esperava n'esta sala. El-rei
+envia-me para saber se é intenção de vossa alteza combater já, ou adiar
+o combate.
+
+HAMLET
+
+Tomei já a minha resolução, e concorda com os desejos de sua magestade.
+Se Laerte está prompto, tambem eu o estou; immediatamente, ou quando
+quizer, comtanto que me sinta sempre tão bem disposto como agora o
+estou.
+
+O SENHOR
+
+Em breve chegarão o rei e a rainha, e toda a côrte.
+
+HAMLET
+
+Bemvindos sejam!
+
+O SENHOR
+
+É pedido da rainha que receba cordialmente Laerte, antes de dar
+principio á contenda.
+
+HAMLET
+
+É justo o seu conselho. (O senhor sáe.)
+
+HORACIO
+
+Receio que o principe perca a aposta.
+
+HAMLET
+
+Não creias tal; depois que elle partiu, tenho-me continuamente
+exercitado no jogo das armas: com a vantagem concedida a victoria é
+certa. Se tu soubesse que dor sinto no coração! Não importa.
+
+HORACIO
+
+Comtudo, senhor!
+
+HAMLET
+
+É uma loucura, uma leve apprehensão, que apenas poderia influenciar uma
+fraca mulher.
+
+HORACIO
+
+Se sente alguma repugnancia no seu espirito, obedeça-lhe. Vou
+prevenil-os que não venham, que o principe se sente indisposto.
+
+HAMLET
+
+De modo nenhum! Luctarei com os meus presentimentos; a Providencia tem
+já escripto o meu destino. Se tenho de morrer, nada o evitará, forçoso é
+obedecer aos seus decretos; que seja hoje ou ámanhã, estou prompto;
+tenho dito. Poisque o homem não é senhor do seu destino, que importa que
+seja mais tarde ou mais cedo? Será o que Deus quizer.
+
+Entram o REI, a RAINHA, LAERTE, OSRICO, SENHORES e CREADOS trazendo
+floretes e luvas e uma mesa com frascos e taças
+
+HAMLET (a Laerte)
+
+Perdoe-me, se o offendi, mas perdoe-me como cavalheiro. Os que nos
+cercam, sabem-o, e creio que tambem deve saber, que um terrivel
+desvairamento se apossou de mim. Se alguma cousa fiz que podesse irritar
+o seu caracter e a sua honra e melindre, proclamo-o bem alto: «Loucura!»
+Seria ainda Hamlet que offendeu Laerte? Nunca, nunca poderia ser Hamlet.
+Então não era elle, e não sendo elle, como offenderia Hamlet a Laerte? É
+claro, não era elle; renego todos esses actos. Quem foi então? a
+loucura. Sendo assim, Hamlet abraça o offendido; o verdadeiro inimigo do
+desditoso Hamlet é a sua loucura. Senhor, depois d'esta confissão, em
+que perante todos renego toda a má intenção, poderá ainda a sua
+generosidade condemnar-me? É como se inconscientemente despedisse por
+cima de uma casa um dardo, e fosse ferir um irmão.
+
+LAERTE
+
+Meu coração está satisfeito; era elle que mais me excitava á vingança;
+mas no campo da honra recuso-me a toda a conciliação, até que arbitros
+mais idosos e de provada lealdade, me imponham, fundados em precedentes,
+uma sentença de paz, que ponha o meu nome ao abrigo de toda a suspeita.
+Até então acceito a amisade que me offerece, e nada farei em seu
+detrimento.
+
+HAMLET
+
+Acceito francamente essa promessa, e a lucta fraternal que vamos
+encetar. Venham os floretes, comecemos.
+
+LAERTE
+
+Dêem-me um florete!
+
+HAMLET
+
+Vou ser o seu alvo, Laerte; ao pé da minha inexperiencia vae sobresaír a
+sua pericia, como um astro brilhante em noite escura.
+
+LAERTE
+
+Zomba de mim?
+
+HAMLET
+
+Juro que não!
+
+O REI
+
+Dá-lhes floretes, Osrico, Primo Hamlet, conheces a aposta?
+
+HAMLET
+
+Perfeitamente, senhor; aposta demasiado vantajosa para o mais fraco.
+
+O REI
+
+Nada receio; já os conheço ambos, e poisque Hamlet é quem mais
+avantajado está, a sorte está pelo nosso lado.
+
+LAERTE (examinando um florete)
+
+Este não, que é muito pesado; outro!
+
+HAMLET
+
+Este convem-me; os floretes são todos iguaes, não é verdade?
+
+OSRICO
+
+Sim, meu bom senhor. (Collocam-se.)
+
+O REI
+
+Ponham os frascos sobre a mesa. Se Hamlet o tocar a primeira e segunda
+vez, ou se elle aparar o terceiro golpe, que as baterias rompam uma
+salva geral; beberei á saude de Hamlet, e lançarei na taça uma perola
+mais preciosa que as que usavam nos seus diademas os quatro reis meus
+predecessores. Venham as taças. Que os timbales annunciem aos clarins,
+os clarins aos canhões, os canhões aos céus, os céus á terra que o rei
+brinda por Hamlet. Vamos, senhores, podem começar, e vós juizes,
+attenção!
+
+HAMLET
+
+Em guarda!
+
+LAERTE
+
+Em guarda, principe! (Começam.)
+
+HAMLET
+
+Uma!
+
+LAERTE
+
+Não tocou.
+
+HAMLET
+
+Os juizes que decidam!
+
+OSRICO
+
+Tocou, não ha duvida.
+
+LAERTE
+
+Recomecemos.
+
+O REI
+
+Esperem, encham as taças. Hamlet, dou-te esta perola, brindo por ti.
+Offereçam-lhe a taça. (Clarins e salvas.)
+
+HAMLET
+
+Prefiro acabar a contenda, esperem; depois beberei. Vamos, Laerte. Uma!
+que diz agora?
+
+LAERTE
+
+Fui tocado, confesso-o.
+
+O REI
+
+Hamlet ganha.
+
+A RAINHA
+
+Estás fatigado, falta-te o fôlego. Limpa a fronte com o meu lenço. A
+rainha bebe á tua victoria, Hamlet.
+
+HAMLET
+
+Minha senhora!
+
+O REI
+
+Não bebas, Gertrudes.
+
+A RAINHA
+
+Bebo, senhor, desculpe-me, desejo-o.
+
+O REI (á parte)
+
+Era a taça envenenada, já não ha remedio.
+
+HAMLET
+
+Ainda não bebo, mais tarde, senhora.
+
+A RAINHA
+
+Deixa-me limpar tua fronte, filho!
+
+LAERTE (ao rei, á parte)
+
+Senhor, agora verá.
+
+O REI
+
+Já não creio.
+
+LAERTE (á parte)
+
+E, comtudo, diz-me a consciencia que não.
+
+HAMLET
+
+Vamos, Laerte, a terceira prova; não me poupe, peço-lh'o; desenvolva
+toda a sua pericia, não me trate como creança.
+
+LAERTE
+
+Que diz? em guarda, pois.
+
+OSRICO
+
+Ainda nada.
+
+LAERTE
+
+Agora toquei. (No encarniçado da lucta trocam os floretes, e Hamlet é
+ferido e fere Laerte.)
+
+O REI
+
+Separem-nos, estão desesperados.
+
+HAMLET
+
+Não, recomecemos. (A rainha cáe)
+
+OSRICO
+
+Acudam á rainha; acudam!
+
+HORACIO
+
+Feridos ambos!! que é isto, senhor?
+
+OSRICO
+
+Como está Laerte?
+
+LAERTE
+
+Colhido no meu proprio laço, morro pela minha traição.
+
+HAMLET
+
+Que tem a rainha?
+
+O REI
+
+Desmaiou á vista do sangue.
+
+A RAINHA
+
+Não, não! a bebida, a bebida! meu Hamlet, a bebida! a bebida!
+envenenada... (Morre.)
+
+HAMLET
+
+Oh! infamia! fechem as portas, traição! quero conhecel-a.
+
+LAERTE
+
+Eu t'o digo, é esta: Hamlet, morres assassinado, nada te póde salvar;
+meia hora, quando muito, te resta de vida, na tua mão ainda conservas a
+arma da traição afiada e envenenada; tambem sou victima da minha
+perfidia. Escuta, já sinto a morte, tua mãe envenenada... morro, Hamlet!
+o rei... só o rei culpado... (Desfallecendo.)
+
+HAMLET
+
+A ponta envenenada! veneno, cumpre o teu dever. (Fere o rei.)
+
+OSRICO e SENHOR
+
+Traição! traição!
+
+O REI
+
+Defendam-me, é apenas leve ferimento.
+
+HAMLET
+
+Bebe os restos d'esta taça, incestuoso assassino, damnado dinamarquez.
+Procura a perola, achal-a-has seguindo minha mãe. (Vasa á força o resto
+da taça pela bôca do rei, que cáe e morre.)
+
+LAERTE (n'um ultimo alento de vida)
+
+É justo o castigo; morre pelo veneno que preparáras. Hamlet,
+perdoemo-nos mutuamente, e livres de qualquer reciproco remorso subam
+nossas almas abraçadas ao céu. (Morre.)
+
+HAMLET
+
+Absolva-te o céu, como eu te perdôo; sigo-te, Laerte (a Horacio) morro,
+Horacio. Rainha desgraçada, adeus. A vós todos, que ao ver esta
+catastrophe empallideceis, mudos espectadores d'este drama, se tivesse
+tempo ainda, se esta ancia terrivel não m'o vedasse, poderia dizer...
+agora, resignação. Eu morro, Horacio, tu viverás, justifica-me, explica
+o meu odio aos que o ignoram.
+
+HORACIO
+
+Isso nunca! sou mais romano que dinamarquez, e n'esta taça ainda ha
+liquido.
+
+HAMLET
+
+Se és homem, dá-m'a; larga-a, por Deus, quero-a. Vive para revelar um
+tão infame crime. Se alguma vez foste meu amigo, não apresses a tua
+felicidade celeste e permanece n'este mundo odioso, conta a minha
+historia. (Ouve-se uma marcha) Que rumor marcial é este?
+
+HORACIO
+
+É o jovem Fortimbraz, que regressa victorioso da Polonia, e que saúda os
+embaixadores de Inglaterra com esta salva guerreira. (Ouvem-se tiros.)
+
+HAMLET
+
+Morro, Horacio, triumpha o veneno poderoso; nem já as noticias de
+Inglaterra me é dado saber, mas predigo que Fortimbraz ha de reinar;
+morrendo, voto por elle; conta-lhe mais ou menos os pormenores da causa
+da minha morte. O resto... é... silencio... (Morre)
+
+HORACIO
+
+Que nobre alma! Adeus, meu adorado principe, os anjos do céu o embalem
+com os seus canticos divinos. Mas porque é esta marcha? (Ouve-se uma
+marcha militar.)
+
+Entram FORTIMBRAZ, os EMBAIXADORES a outras pessoas
+
+FORTIMBRAZ
+
+Que vejo?
+
+HORACIO
+
+Vae sabel-o. Desgraça ou prodigio, está patente a seus olhos.
+
+FORTIMBRAZ
+
+Que hecatombe, que horror! Oh! morte, que festim cruento preparavas tu,
+para precisar de uma só vez tanto sangue real?
+
+PRIMEIRO EMBAIXADOR
+
+Que horrivel espectaculo! tarde chegâmos de Inglaterra. Já não nos póde
+ouvir aquelle de cujas ordens annunciavamos o cumprimento, trazendo a
+nova da execução de Rosencrantz e Guildenstern. Quem nol-o agradecerá
+agora?
+
+HORACIO
+
+Elle não, que os seus labios agora gelidos nunca o ordenaram. Mas,
+poisque vindes de Inglaterra e de Polonia e presenceaes esta crise
+sangrenta, ordenae que bem alto, á vista de todos, sejam collocados
+estes corpos, e eu lhes direi a causa d'estes factos, poisque a ignoram.
+Então soarão aos seus ouvidos actos carnaes, incestos, sangue,
+expiações, assassinios fortuitos, mortes causadas pela perfidia ou por
+força maior, e para desfecho traições que feriram os proprios auctores;
+eis a minha narração, e juro que é verdade.
+
+FORTIMBRAZ
+
+Ouçâmol-o promptamente, convoquemos os nobres: dolorosamente acceito o
+meu novo encargo, pois tenho sobre este reino direitos incontestaveis,
+que é meu dever reivindicar.
+
+HORACIO
+
+Missão tenho de lhe fallar a esse respeito, da parte d'aquelle que vivo
+teria tido os suffragios do povo. Seja pois rapida a decisão, antes que
+os espiritos preplexos sejam dominados por alguma conspiração ou engano
+que causem novas desgraças.
+
+FORTIMBRAZ
+
+Sejam por quatro capitães levados os restos mortaes de Hamlet:
+façam-se-lhe todas as honras militares. Se vivesse teria sido um grande
+rei. Quando passar, salvem os canhões. Levem os cadaveres, esta vista é
+só propria dos campos de batalha; aqui causa horror! Executem as minhas
+ordens, rompam as salvas de canhões e as descargas de fuzilaria, e as
+marchas funebres. Morreu o que havia de ser rei de Dinamarca. (Desfilam
+todos com os cadaveres: ouvem-se salvas de artilheria, descargas de
+fuzilaria e marchas funebres. Cae o panno.)
+
+
+Fim do quinto e ultimo acto
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Hamlet: Drama em cinco Actos, by
+William Shakespeare
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HAMLET: DRAMA EM CINCO ACTOS ***
+
+***** This file should be named 25667-8.txt or 25667-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/2/5/6/6/25667/
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
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+*** START: FULL LICENSE ***
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+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
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+electronic works
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+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
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+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
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+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
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+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
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+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
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+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
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+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
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+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
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+
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+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
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+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
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+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
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+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
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+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
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+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
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+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
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+opportunities to fix the problem.
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+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
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+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+<head>
+ <title>Hamlet: drama em cinco actos, de William Shakespeare</title>
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+<pre>
+
+Project Gutenberg's Hamlet: Drama em cinco Actos, by William Shakespeare
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: Hamlet: Drama em cinco Actos
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+Author: William Shakespeare
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+Translator: Luís I Rei de Portugal
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+Release Date: June 1, 2008 [EBook #25667]
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+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HAMLET: DRAMA EM CINCO ACTOS ***
+
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+
+
+Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from the Google Print project.)
+
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+</pre>
+
+
+
+<h1>HAMLET</h1>
+
+
+<h3>DRAMA EM CINCO ACTOS</h3>
+
+<div class="capa">
+<p style="font-size: 1.4em;">WILLIAM SHAKESPEARE</p>
+
+<hr style="width: 70%; height: 4px;">
+<p style="font-size: 3em;">HAMLET</p>
+<hr style="width: 3em;">
+<br>
+<p style="font-size: 1.2em;">DRAMA EM CINCO ACTOS</p>
+<hr style="width: 2em;">
+<br>
+<p style="font-size: 1em;">TRADUCÇÃO PORTUGUEZA</p>
+<hr style="width: 2em;">
+<br>
+<p style="font-size: 0.7em;">SEGUNDA EDIÇÃO</p>
+<br>
+<br>
+<hr style="width: 4em;">
+<br>
+<p>LISBOA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">IMPRENSA NACIONAL</p>
+
+<p>1880</p>
+</div>
+
+
+
+
+<h2>INTERLOCUTORES</h2>
+
+
+<div class="personagem">
+CLAUDIO&mdash;Rei de Dinamarca.<br>
+
+HAMLET&mdash;Filho do defunto Rei e sobrinho do Rei reinante.<br>
+
+POLONIO&mdash;Camareiro mór.<br>
+
+HORACIO&mdash;Amigo de Hamlet.<br>
+
+LAERTE&mdash;Filho de Polonio.<br>
+<table cellpadding=0 cellspacing=0 summary="esta tabela serve apenas para formatar o texto">
+<tr>
+ <td style="padding-right: 1em;">
+VOLTIMANDO<br>
+CORNELIO<br>
+ROSENCRANTZ<br>
+GUILDENSTERN<br>
+OSRICO
+ </td>
+ <td style="border-left: solid 1px #000; vertical-align: middle; padding: 1em;">Cortezãos dinamarquezes.</td>
+</tr>
+</table>
+
+UM OUTRO CORTEZÃO.<br>
+
+UM PADRE.<br>
+
+REINALDO&mdash;Creado de Polonio.<br>
+
+MARCELLO E BERNARDO&mdash;Officiaes.<br>
+
+FRANCISCO&mdash;Soldado.<br>
+
+UM EMBAIXADOR.<br>
+
+A SOMBRA DO REI HAMLET.<br>
+
+FORTIMBRAZ&mdash;Principe de Noruega.<br>
+
+GERTRUDES&mdash;Rainha de Dinamarca, mãe de Hamlet.<br>
+
+OPHELIA&mdash;Filha de Polonio.<br>
+</div>
+
+<p style="text-align:center"><small>Senhores, damas, officiaes, soldados, actores,
+padres, coveiros, marinheiros, mensageiros, creados, etc.</small></p>
+
+<hr style="width: 4em;">
+
+<p style="text-align:center"><small>A scena passa-se em Elsenor</small></p>
+<span class="pagenum">[7]</span>
+<div id="corpo">
+
+
+
+<h2>ACTO PRIMEIRO</h2>
+
+
+<h3>SCENA I</h3>
+
+<h4>Elsenor, a explanada do castello</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">FRANCISCO de sentinella, BERNARDO vem encontrar-se com elle</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Quem vem lá? viva quem?</p>
+
+<h5>FRANCISCO</h5>
+
+<p>Responde tu primeiro, faze alto, deixa-te reconhecer.</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Viva o rei.</p>
+
+<h5>FRANCISCO</h5>
+
+<p>Bernardo?</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Eu mesmo.</p>
+
+<h5>FRANCISCO</h5>
+
+<p>És pontual.</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Acaba de dar meia noite; vae descansar, Francisco.</p>
+
+<h5>FRANCISCO</h5>
+
+<p>Agradeço-te de me teres vindo render; faz um frio glacial, e começava a
+sentir-me incommodado.</p> <span class="pagenum">[8]</span>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Não houve novidade emquanto estiveste de sentinella?</p>
+
+<h5>FRANCISCO</h5>
+
+<p>Nem sequer ouvi correr um rato.</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Então boas noites; se vires Horacio e Marcello, que tambem estão de
+guarda, dize-lhes que se aviem.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Chegam HORACIO e MARCELLO</p>
+
+<h5>FRANCISCO</h5>
+
+<p>Creio ouvil-os, façam alto, quem vem lá?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Amigos da patria.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Subditos do rei de Dinamarca.</p>
+
+<h5>FRANCISCO</h5>
+
+<p>Santas noites.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Viva, meu valente soldado, quem te rendeu?</p>
+
+<h5>FRANCISCO</h5>
+
+<p>Bernardo está agora de sentinella. Boa noite. <span class="instruccoes_cena">(Retira-se.)</span></p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Olá, Bernardo?</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Não é Horacio que eu vejo?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Elle mesmo em corpo e alma.</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Bemvindo sejas, Horacio, e tu tambem, amigo Marcello.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Dize-me, já viste a apparição esta noite?</p> <span class="pagenum">[9]</span>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Ainda nada vi.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Horacio diz que é effeito da minha imaginação, e nega-se a acreditar na
+visão temerosa, de que já por duas vezes fomos testemunhas; pedi-lhe
+portanto que viesse comnosco, para que se o phantasma de novo apparecer,
+elle possa testemunhar a verdade do que afiançâmos e dirigir-lhe a
+palavra.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Historias, qual apparecer!</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Sentemo-nos um instante, e vamos repetir-te a narração do que temos
+presenceado duas noites consecutivas e a que prestas tão pouco credito.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Com todo o gosto, e deixemos fallar Bernardo.</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>A noite passada, á hora em que esta estrella que vêem ao poente do polo
+descreve o seu giro e vem illuminar esta parte do firmamento, em que ora
+brilha, no momento em que na torre soava uma hora, Marcello e eu...</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Silencio, eil-o que apparece.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Apparece a sombra do REI</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Assimilha-se ao defunto rei.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Tu que estudaste, Horacio, falla-lhe.</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Não é verdade que se parece com o defunto rei? Observa bem, Horacio.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>A similhança é espantosa; a surpreza e o terror paralysaram-me.</p> <span class="pagenum">[10]</span>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Parece esperar que lhe fallem.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Falla-lhe, Horacio.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Quem quer que és, que a esta hora da noite usurpas a fórma magestosa e
+guerreira, debaixo da qual se mostrava o meu defunto soberano, em nome
+do céu, falla, ordeno-to eu!</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Parece descontente.</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Eil-o que se afasta, caminhando lenta e gravemente.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Detem-te, falla, falla, intimo-te a que falles. <span class="instruccoes_cena">(A sombra afasta-se.)</span></p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Foi-se sem responder.</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Então, Horacio, que é essa tremura e pallidez; não haverá alguma cousa
+mais do que um effeito de imaginação, que dizes agora?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Pelo Deus do céu, não o acreditava sem o testemunho positivo e
+irrecusavel dos meus proprios olhos.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Não se parece com o rei?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Como tu te pareces comtigo mesmo, era a armadura que usava quando
+combateu o ambicioso norueguez; tinha aquelle ar ameaçador, no dia em
+que no seu proprio carro, atacou, por causa de uma acalorada porfia, o
+guerreiro polaco, e o prostrou no gêlo para nunca mais se levantar. É
+assombroso!</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Assim é que elle já duas vezes passou pelo nosso posto de observação com
+o seu caminhar grave e marcial.</p> <span class="pagenum">[11]</span>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Com que designio, ignoro-o, mas em minha opinião é um presagio para o
+estado de alguma grande catastrophe.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Pois bem, sentemo-nos, e aquelle d'entre vós todos que o souber, diga
+porque fatigam, com guardas vigilantes e rigorosas, os subditos d'este
+reino; para que esta fundição diaria de canhões de bronze, estas compras
+de armamentos e munições no estrangeiro; para que se enchem de operarios
+os nossos arsenaes maritimos; porque este augmento de trabalho, que nem
+os dias santos são respeitados; para que esta actividade de dia e de
+noite? O que será? Qual de vós m'o poderá dizer?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Posso eu, ao menos, referir os boatos. Nosso ultimo rei, cuja imagem
+ainda ha pouco vimos, foi, segundo dizem, convocado a campo fechado por
+Fortimbraz de Noruega, que um cioso orgulho tinha levado a esse acto.
+N'esse combate o nosso valente Hamlet, e era justa a sua reputação,
+matou a Fortimbraz. Ora em virtude de uma declaração authentica,
+sanccionada pelas leis da cavallaria, se Fortimbraz succumbisse, todos
+os seus estados pertenceriam ao vencedor. Por sua parte o nosso rei
+tinha empenhado da mesma fórma a sua palavra; e no caso de elle ser
+vencido, uma igual porção de territorio pertenceria a Fortimbraz. Assim,
+em virtude d'este pacto reciproco, a successão do vencido pertencia de
+direito a Hamlet. Comtudo o joven Fortimbraz, ardente e sem experiencia,
+reuniu nas fronteiras de Noruega um exercito de aventureiros, promptos e
+resolvidos pela soldada aos mais audaciosos commettimentos. O seu
+projecto, segundo o nosso governo está informado, é nada menos do que
+retomar á viva força e de mão armada esse territorio que seu pae perdeu
+com a vida: eis-aqui, na minha fraca opinião, a rasão principal dos
+preparativos que fazemos, das guardas a que somos obrigados, e d'esta
+actividade tumultuosa que se nota em todo o paiz.</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Tambem eu julgo ser esse o motivo; isto explica-nos porque vemos passar
+diante dos postos de guarda a sombra do rei, <span class="pagenum">[12]</span> com a sua armadura e
+com o seu porte magestoso, d'esse rei que foi e é o causador d'esta
+guerra.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>É um argueiro nos olhos da intelligencia para lhes perturbar a vista.
+Nos tempos mais gloriosos e florescentes de Roma, pouco antes da morte
+do grande Julio, abriram-se os tumulos, e os mortos, nas suas mortalhas,
+divagaram pela cidade, soltando gritos ameaçadores; viram-se estrellas
+deixar após si rastos luminosos, choveu sangue, desastrosos signaes
+appareceram no céu, e o astro humido, sob cuja influencia está o imperio
+de Neptuno, eclipsou-se; todos julgavam ser o fim do mundo. Estes mesmos
+signaes precursores de acontecimentos terriveis, correios de maus
+destinos, preludios de grandes catastrophes, o céu e a terra os fizeram
+apparecer nos nossos climas, aos olhos impressionaveis dos nossos
+compatriotas.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">A sombra reapparece</p>
+
+<h5>HORACIO continuando</h5>
+
+<p>Mas silencio, olhem, eil-o que volta. Vou interpellal-o, embora elle me
+fulmine. Pára. Illusão. Se tens o dom da palavra, se pódes articular
+sons, falla; se ha alguma boa acção cujo cumprimento te possa alliviar e
+contribuir para a minha salvação, responde-me: se és sabedor de alguma
+desgraça que ameace a tua patria, e que um aviso opportuno possa
+desviar... Oh falla! ou se em tua vida confiaste ás entranhas da terra
+riquezas mal adquiridas; e a maior parte das vezes é por isso que vós,
+os espiritos, divagaes depois da morte, dil-o. <span class="instruccoes_cena">(O gallo canta.)</span> Detem-te
+e falla. Veda-lhe o caminho, Marcello.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Devo servir-me da minha partazana?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Serve-te se não parar.</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Para cá?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Por acolá. <span class="instruccoes_cena">(A sombra afasta-se.)</span></p> <span class="pagenum">[13]</span>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Partiu!&mdash;que presença magestosa!&mdash;são desacertadas estas demonstrações
+violentas! é invulneravel como o ar, e os nossos golpes não são senão o
+ridiculo esforço de uma colera impotente.</p>
+
+<h5>BERNARDO</h5>
+
+<p>Ia fallar quando cantou o gallo.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Estremeceu como um culpado que uma intimação subita aterra. Ouvi dizer
+que o gallo, que é o clarim da aurora, acorda o Deus da manhã com a sua
+voz sonora e penetrante, e que a esse signal todos os espiritos errantes
+no mar, no fogo, na terra ou no ar se apressam em voltar aos seus
+respectivos dominios. A prova está no que acabâmos de presencear.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>O gallo cantou, e elle desappareceu. Algumas pessoas dizem que na
+vespera do dia em que se celebra a natividade do Salvador do mundo, o
+arauto da manhã canta toda a noite sem interrupção; pretendem então que
+nenhum espirito ousa saír da sua mansão, que as noites são salubres, que
+nenhuma estrella exerce influencia maligna, nenhum maleficio surte
+effeito, que nenhuma feiticeira exercita os seus feitiços, tanto esse
+dia é bento, e está sob o imperio de uma graça celeste.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Assim o ouvi dizer, e acredito-o. Mas eis que no oriente, acolá no
+fundo, por detrás dos outeiros, surge a manhã, vestida de purpura por
+entre o orvalho. Demos fim á nossa vigilia, e vamos dar parte ao joven
+Hamlet do que vimos esta noite; porque, por vida minha, creio que este
+espirito, mudo para todos, lhe fallará. Approvam esta confidencia, que
+nos impõe o nosso dever e a nossa affeição?</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Vamos sem detença; sei onde o acharemos, e onde lhe poderemos fallar sem
+constrangimento. <span class="instruccoes_cena">(Retiram-se.)</span></p> <span class="pagenum">[14]</span>
+
+
+<h3>SCENA II</h3>
+
+<h4>Uma sala apparatosa no castello</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram o REI e a sua comitiva, a RAINHA, HAMLET, POLONIO, LAERTE,
+VOLTIMANDO, CORNELIO e CORTEZÃOS</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>A morte de Hamlet, nosso amado irmão, ainda é tão recente, que pareceria
+justo, que nossos corações estivessem immersos na tristeza e saudade, e
+que uma nuvem de dor cobrisse o solo d'este reino; comtudo, a rasão
+combateu os impulsos da natureza, tanto que enfreámos a nossa dor, e
+embora ainda esteja bem viva a recordação, pensâmos tambem em nós.
+Portanto, com um prazer incompleto, confundindo os sorrisos com as
+lagrimas, a alegria com o luto; unindo o dobrar dos sinos aos canticos
+nupciaes, tomámos por esposa aquella que outr'ora era nossa irmã, e
+fizemol-a compartir comnosco a corôa d'este bellicoso paiz. N'esta
+conjunctura ouvimos primeiro os vossos illustrados conselhos, livremente
+enunciados. Somos-lhes gratos. Quanto ao joven Fortimbraz, fazendo
+seguramente uma fraca idéa do nosso poder, ou imaginando que a morte de
+nosso chorado irmão lançasse o estado na dissolução e na anarchia,
+embalando-se em chimerica esperança, ousou mandar-nos mensagem após
+mensagem, intimando-nos a restituir-lhe o territorio perdido por seu
+pae, e legalmente adquirido por nosso valoroso irmão; isto por o que lhe
+respeita. Fallemos agora de nós e do motivo d'esta reunião. O motivo é
+este. Pelas presentes escrevemos ao rei de Noruega, tio do joven
+Fortimbraz, que jazendo enfermo n'um leito, mal conhece os projectos de
+seu sobrinho, pedindo-lhe que ponha o seu veto á empreza, porque é de
+entre os seus subditos que se fazem as levas de soldados e os
+alistamentos. Encarregámo-vos, Cornelio e Voltimando, de apresentar as
+nossas saudações ao idoso monarcha norueguez, e é nossa vontade, que nas
+negociações vos conformeis adstrictamente ás instrucções que junto com a
+nossa carta recebereis. Adeus; a celeridade do resultado prove a
+dedicação dos negociadores.</p>
+
+<h5>CORNELIO e VOLTIMANDO</h5>
+
+<p>Senhor, a nossa dedicação e obediencia não tem limites.</p> <span class="pagenum">[15]</span>
+
+<h5>O REI continuando</h5>
+
+<p>Nem o duvidâmos. Recebam um cordeal adeus. <span class="instruccoes_cena">(Cornelio e Voltimando sáem.)</span>
+Agora, tu, Laerte, que pretendes? Disseram-nos que nos querias fazer uma
+supplica? Qual é? Tu não podes fazer ao monarcha dinamarquez um pedido
+que não seja rasoavel, e não recorres a elle em vão. Que poderias
+desejar, Laerte, a que não estejamos promptos a annuir, mesmo antes de
+conhecer a pretensão. A cabeça não é mais sympathica ao coração, a mão
+não é mais prompta em servir a bôca do que o throno de Dinamarca é
+dedicado a teu pae. Que desejas pois, Laerte?</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Meu augusto soberano, a vossa licença e o vosso consentimento, para
+voltar a França. Gostosamente vim a Dinamarca para assistir á vossa
+coroação, mas, cumprido esse dever, confesso-o, os meus desejos e a
+minha vontade me chamam a França, e supplico a vossa magestade que me
+conceda partir.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Já alcançaste o consentimento de teu pae? o que diz Polonio?</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Arrancou-me o meu consentimento, tanto me importunou; acabei por ceder,
+mau grado meu, aos seus desejos. Supplico-lhe, pois, senhor, que lhe
+conceda a licença pedida.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Podes partir quando te aprouver, Laerte; deixo-te a liberdade de
+dispores do teu tempo e da tua pessoa. Então, Hamlet, meu primo, meu
+filho?</p>
+
+<h5>HAMLET á parte</h5>
+
+<p>Aindaque mui proximos parentes não somos primos.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Porque essas nuvens que pesam sobre a tua fronte?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Engana-se, senhor, como póde haver nuvens, quando brilha o sol.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Querido Hamlet, despe essas roupas de dó, e lança um olhar <span class="pagenum">[16]</span> amigavel
+para o rei de Dinamarca. Descrava os teus olhos do chão; pareces
+procurar as pegadas do teu glorioso pae. Sabes bem que é um destino
+invariavel; tudo quanto vive ha de morrer, e este mundo é uma ponte para
+a eternidade.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Sim, senhora, é um destino commum.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Se é assim, o que te parece a ti tão extraordinario?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Senhora, não me parece, é-o na verdade. O parecer para mim nada vale.
+Minha mãe, não são nem esta capa negra, nem estas vestes obrigadas nos
+lutos solemnes, nem os suspiros que mal póde soltar um peito opprimido,
+nem torrentes de lagrimas, nem o semblante macerado, nem todas as
+manifestações de uma dor pungente, que podem exprimir e revelar o que eu
+sinto. Todos estes signaes podem parecer dor; é um papel facil de
+representar, mas não são verdadeira dor, são como o fato para o
+comediante; mas eu <span class="instruccoes_cena">(pondo a mão sobre o coração)</span> sinto aqui, o que não
+ha palavras que o expressem.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Nada ha na verdade, Hamlet, mais commovente e louvavel do que os deveres
+funebres prestados á memoria de um pae. Mas lembra-te que teu pae já
+perdêra o seu, e que esse tambem já perdêra o pae. E para o sobrevivente
+um dever de piedade filial, dar durante um certo praso provas de uma dor
+respeitosa; mas perseverar n'uma afflicção obstinada, é mostrar uma
+teima impia; é uma dor cobarde, é a prova de uma vontade rebelde aos
+decretos da providencia, de um coração sem energia, de uma alma incapaz
+de resignação, de uma intelligencia pobre e limitada. Porque nos deve
+impressionar a tal ponto um acontecimento, que sabemos ser uma
+necessidade, e que se repete tão frequente, quanto as occorrencias mais
+vulgares; é uma triste indocilidade. Que!! É uma offensa a Deus, uma
+offensa aos finados, uma absurda offensa á natureza, que não tem em seus
+fastos mais vulgar acontecimento, que a morte de um pae; a qual, desde o
+primeiro cadaver até <span class="pagenum">[17]</span> ao homem que hoje se finou, nunca deixou de
+nos clamar: Assim estava escripto. Supplico-te, portanto, abandona essa
+afflicção impotente, e vê em nós um segundo pae; porque queremos que
+todos saibam que tu és o mais proximo ao nosso throno, e que a affeição
+mais terna que um pae tem a seu filho, tenho-a eu a ti. Quanto á tua
+intenção de voltar a Wittemberg, para continuares os teus estudos, nada
+ha mais opposto aos nossos desejos; conjurâmos-te que fiques aqui, sê o
+prazer de nossos olhos, o primeiro da nossa côrte, nosso sobrinho, nosso
+filho.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Hamlet, far-te-ha tua mãe uma supplica baldada? peço-te fica comnosco,
+não vás para Wittemberg.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Farei o que podér, para em tudo vos provar obediencia.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Eis emfim uma resposta affectuosa e comedida. Serás na Dinamarca um
+segundo <i>Eu</i>. <span class="instruccoes_cena">(Á rainha)</span> Venha, senhora, este acto de deferencia de
+Hamlet, cumprido tão naturalmente e sem esforço, enche de jubilo o meu
+coração. Para o celebrar o rei de Dinamarca não libará uma taça, sem que
+a voz do canhão o transmitta ás nuvens. A cada taça quero que o céu o
+annuncie, repercutindo o estrondo dos raios da terra. Vamos agora. <span
+class="instruccoes_cena">(Todos sáem excepto Hamlet.)</span></p>
+
+<h5>HAMLET só</h5>
+
+<p>Ah! porque não poderá esta carne tão solida fundir-se e tornar-se
+orvalho. Ah que se o Eterno não tivesse fulminado como reprobo o
+suicida... Senhor Deus, meu Deus, como são insipidos, fastidiosos e vãos
+os gosos do mundo. Que pena! Elle é um jardim inculto que só tem plantas
+grosseiras e maleficas. Pois será possivel que ousassem tanto? Morto ha
+dois mezes! que digo? Nem dois mezes ainda. Um rei tão bom, que tanta
+similhança tinha com este como Hyperion com um Satyro, todo ternura para
+minha mãe, a ponto de não querer que uma brisa mais fresca açoutasse o
+seu rosto! Céus e terra! e deverei eu recordar-me? Parecia que a vida de
+um era a vida do outro! Comtudo, passado apenas um mez&mdash;não posso nem
+quero pensal-o&mdash;, fragilidade é synonymo de mulher. Só um mez, sem <span class="pagenum">[18]</span>
+ainda ter gasto o calçado que usava acompanhando o feretro do marido,
+banhada em lagrimas como uma Niobe, ella mesma, essa mulher, oh céus! um
+animal privado do soccorro da rasão teria prolongado o seu luto; essa
+mulher desposou meu tio, o irmão de meu pae, mas que tem tanto de meu
+pae como eu de Hercules. No fim de um mez, antes que seccassem as suas
+hypocritas lagrimas, casou. Oh criminosa precipitação! Voar com tanto
+afan a um leito incestuoso, é horrivel! E será possivel que o céu o
+tolere? Despedaça-te coração, já que forçoso é calar.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Chegam HORACIO, BERNARDO e MARCELLO</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Deus guarde a Vossa Alteza.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Quanto folgo de te ver de boa saude. És tu, Horacio, não me engano.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Eu mesmo, o vosso servo fiel até á morte.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Queres dizer <i>amigo</i>; de hoje em diante dar-te-hei este nome. Mas que
+fazes tu longe de Wittemberg, Horacio? Marcello.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Meu principe!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Alegro-me de te ver, bons dias. <span class="instruccoes_cena">(A Horacio.)</span> Mas, francamente, que
+motivo te obrigou a voltar de Wittemberg?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Tudo dissipei.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Nunca consentiria que um teu inimigo assim fallasse a teu respeito; e
+não me obrigarás a forçar a minha rasão a crer no que o meu coração se
+nega a acreditar. Accusares-te d'esta maneira a ti mesmo... tu não és
+dissipador. Que motivo tão forte te pôde pois trazer a Elsenor, tu m'o
+contarás mais tarde, entre dois copos de vinho generoso, antes da tua
+partida.</p> <span class="pagenum">[19]</span>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Senhor, vim prestar a ultima homenagem a seu augusto pae.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Peço-te, meu camarada de estudos, que não zombes; creio antes que vieste
+assistir ao casamento de minha mãe.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Verdade é que não houve quasi intervallo.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Por alvitre economico, Horacio. O banquete funerario ainda subministrou
+as iguarias e as viandas para o festim nupcial. Antes quizera encontrar
+no céu o meu mais encarniçado inimigo, do que ter visto despontar um tal
+dia, Horacio. Meu pobre pae, parece-me que o estou vendo!</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Onde, senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Na minha imaginação, Horacio.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Recordo-me de o ter visto, era um grande rei.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Era um homem que, bem considerado, não tinha rival na terra.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Julgo tel-o visto a noite passada.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Viste, quem?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Alteza, vi o rei seu pae.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>O rei meu pae?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Senhor, acalme esta agitação e espanto, e preste attenção, emquanto eu,
+fundado no testemunho ocular d'estes senhores, vou relatar esse
+prodigio.</p> <span class="pagenum">[20]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Falla, pelo amor de Deus, sou todo ouvidos.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Durante duas noites consecutivas, no meio das trevas e do silencio,
+emquanto estes senhores estavam de sentinella, eis o que lhes aconteceu.
+Uma figura parecida com seu pae, armada da cabeça aos pés, lhes
+appareceu caminhando lenta e magestosamente. Tres vezes, atemorisados e
+attonitos, o viram passar á distancia do bastão de commando que
+empunhava, emquanto elles, fulminados pelo terror, ficaram mudos, nem
+ousaram fallar. Confiaram-me, debaixo de segredo, tremulos ainda, o que
+tinham presenceado. Na noite seguinte entrei com elles de sentinella, e
+confirmando a verdade das suas palavras, á hora por elles indicada,
+debaixo da fórma por elles descripta, voltou a apparição. Reconheci seu
+pae; as minhas duas mãos não são mais parecidas.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Mas em que sitio appareceu?</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Senhor, na explanada, onde estavamos de sentinella.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Fallaram-lhe.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Fallámos, mas não respondeu. Comtudo uma vez pareceu-me que movia a
+cabeça, como quem quer fallar; mas n'esse momento cantou o gallo
+matinal; ao som do canto afastou-se o espectro apressadamente, e nós
+perdemol-o de vista.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Na verdade é incomprehensivel.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Senhor, juro-lhe pela minha vida que é verdade, e julgámos nosso dever
+informar Vossa Alteza.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não posso dissimular a minha inquietação! Estão de guarda esta noite?</p>
+<span class="pagenum">[21]</span>
+
+<h5>TODOS</h5>
+
+<p>Sim, Alteza.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Armado, disseram?</p>
+
+<h5>TODOS</h5>
+
+<p>Armado, meu senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Da cabeça aos pés?</p>
+
+<h5>TODOS</h5>
+
+<p>Tal qual.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Viram-lhe as feições?</p>
+
+<h5>TODOS</h5>
+
+<p>Vimos, tinha a viseira levantada.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Tinha physionomia carregada?</p>
+
+<h5>TODOS</h5>
+
+<p>A expressão era antes triste que colerica.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Pallido ou córado?</p>
+
+<h5>TODOS</h5>
+
+<p>Muito pallido.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>O seu olhar fixou-se em algum de vós?</p>
+
+<h5>TODOS</h5>
+
+<p>Constantemente.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Queria lá ter estado.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>O seu espanto teria sido igual ao nosso.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>É mais que provavel. Demorou-se muito?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>O tempo necessario para contar até <i>um cento</i>, sem parar.</p> <span class="pagenum">[22]</span>
+
+<h5>MARCELLO e BERNARDO</h5>
+
+<p>Muito mais, muito mais.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Não a vez que o vi.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>A barba era grisalha, não é verdade?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Era, como em sua vida, de um negro prateado.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Velarei tambem esta noite, talvez que volte.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Sem duvida alguma.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Se se me apresentar debaixo da figura de meu pae, fallar-lhe-hei, embora
+o inferno me ordenasse o silencio, pelas suas horrendas fauces.
+Peço-vos, portanto, que se até hoje tendes guardado um segredo tal a
+respeito da apparição, de hoje em diante sejaes ainda mais cautelosos em
+conservar o sigillo; e aconteça o que acontecer esta noite, reflexão e
+silencio: serei grato a esta prova de affeição. Assim, pois, adeus,
+encontrarme-hei comvosco na explanada entre as onze horas e a meia
+noite.</p>
+
+<h5>TODOS</h5>
+
+<p>Os nossos respeitos, principe.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Sempre amigos, adeus. <span class="instruccoes_cena">(Horacio, Marcello e Bernardo sáem.)</span> <span
+class="instruccoes_cena">(Continuando.)</span> A sombra de meu pae, porque
+apparece armada? Haverá algum perigo. Suspeito alguma traição. Espero
+impacientemente a noite. Até então, socega coração. Não ha crimes tão
+occultos, que o homem não possa descobrir. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p> <span class="pagenum">[23]</span>
+
+
+<h3>SCENA III</h3>
+
+<h4>Um quarto em casa de Polonio</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram LAERTE e OPHELIA</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Já embarcaram os meus creados e roupas. Adeus, minha irmã; quando ventos
+propicios encherem as vélas ao navio que me leva, espero que com a minha
+ausencia não esfriará a tua amisade, e que me darás novas tuas.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Duvídas porventura, irmão?</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Quanto ao que respeita a Hamlet e á sua frivola amisade, considera-a
+como uma moda ephemera, um capricho dos sentidos, uma violeta da
+primavera, precoce mas passageira, suave mas fenecendo ao desabrochar, e
+cujo perfume dura um minuto apenas.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Só um minuto?
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Só, acredita-me, porque o teu desenvolvimento não é só nos musculos e no
+corpo; á medida que o templo toma proporções mais vastas, tambem se
+expande o espirito e a alma. É possivel que te ame agora, que nenhuma
+macula, nenhuma deslealdade offusque a pureza dos seus sentimentos; mas
+acautela-te, porque na posição que occupa é-lhe vedada a propria
+vontade, é escravo do seu nascimento. Não póde, como os outros homens,
+escolher só por affeição, porque á sua escolha estão ligados o bem-estar
+e a salvação do estado; por isso deve subordinal-a ao voto e á
+approvação da nação de que é chefe. Se, pois, te fallar de amor,
+assisadamente usarás, não acreditando senão o que a sua posição lhe
+permitte offerecer, vistoque a sua vontade deve ser a vontade da nação.
+Pensa bem, que mancha para a tua reputação, se prestasses ouvidos por
+demais credulos, ao encanto das suas fallas, se envenenasses tua alma,
+se abrisses o cofre da castidade ás suas audaciosas instancias. <span class="pagenum">[24]</span>
+Acautela-te, Ophelia, acautela-te, querida irmã, luta com a tua affeição
+para vencer as settas e os perigos dos desejos. A virgem prudente já é
+assás prodiga se patenteia a sua belleza aos raios lunares; a propria
+virtude não escapa aos golpes da calumnia; o verme roe as filhas
+predilectas da primavera, antes das flores desabrocharem; e é na aurora
+da vida, regada pelo puro e limpido orvalho, que ha mais perigo para a
+flor da castidade. Sê, pois, circumspecta, a melhor protecção é o receio
+do perigo; a juventude é para si mesma um perigo, se não trava luta com
+outros maiores.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Em meu coração encerrarei, como um preservativo, a tua salutar lição.
+Mas, querido irmão, não sejas tu, como certos pastores sem virtude, que
+indicam ás suas ovelhas o caminho escarpado e espinhoso que conduz ao
+céu, emquanto elles, libertinos, fogosos e sem pudor, trilham o caminho
+das flores, da licença, e são a antithese das suas palavras.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>De mim não te arreceies: já devia ter partido; eis meu pae.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra POLONIO</p>
+
+<p>Uma dupla benção é um beneficio duplo; abençôo a occasião de me despedir
+segunda vez de ti.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Ainda aqui, Laerte? para bordo, para bordo. Não te envergonhas? Teu
+navio só te espera para velejar. Recebe a minha benção, e grava na tua
+memoria os seguintes preceitos. Guarda para ti o pensamento, e não dês
+execução apressadamente aos teus projectos; medita-os maduramente. Sê
+lhano sem te esqueceres de quem és. Quando tomares um amigo cuja
+affeição tenhas experimentado, liga-o a ti por vinculos de aço; mas não
+dês confiança irreflectidamente. Faze por evitar questões; mas se o não
+podéres conseguir, conduze-te de maneira que fiques sempre superior ao
+teu adversario. Ouve a todos, mas sê avaro de palavras; escuta o
+conselho que te derem, forma depois o teu juizo. No teu trajar sê tão
+sumptuoso, quanto t'o permittam os teus meios, mas nunca affectado;
+rico, mas não offuscante; o porte dá a conhecer o homem, e n'esse ponto,
+as pessoas de <span class="pagenum">[25]</span> qualidade em França revelam um gosto primoroso, e o
+mais fino tacto. Não emprestes, nem peças emprestado: quem empresta
+perde o dinheiro e o amigo, e o pedir emprestado é o primeiro passo para
+a ruina. Mas sobre tudo sê verdadeiro para a tua consciencia, e assim
+como a noite se segue ao dia, seguir-se-ha tambem, que o teu coração
+jamais abrigará falsidade. Adeus, que a minha benção selle em teu
+coração os meus conselhos.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Despedindo-me, humildemente vos beijo a mão, meu pae.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Não tens tempo que perder, teus creados esperam-te.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Adeus, Ophelia, recorda-te das minhas palavras.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Fechei-as no meu coração; dou-te a chave, guarda-a.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Adeus. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Que te disse elle, Ophelia?</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Com licença de meu pae, fallou-me a respeito de Hamlet.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Folgo que o fizesse. Disseram-me que ultimamente Hamlet tem tido comtigo
+frequentes entrevistas, e que tu não te esquivas ás suas frequentes
+visitas. Se assim é, e creio na informação que me deram, devo dizer-te
+que não encaras a tua posição com a lucidez que convem a minha filha, e
+que a tua honra exige. Dize-me a verdade, o que ha?</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Protestos de amor.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>De amor! como inexperiente fallas, conservas as illusões todas. Dás tu
+porventura credito aos seus protestos, como tu lhe chamas?</p> <span class="pagenum">[26]</span>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Nem sei, senhor, o que devo pensar.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Pois bem, eu t'o digo. É necessario que sejas bem creança para crer uma
+realidade os seus protestos, de cuja sinceridade devéras duvido. Não te
+deprecies assim; seria uma loucura.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>O seu respeito foi inseparavel das suas phrases de amor.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>E tu acreditas, pobre louca.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Firmou as suas palavras com os juramentos mais sagrados.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Assim arma o caçador os laços á avesinha innocente e incauta. Sei que,
+quando o sangue ferve, a nossa bôca nunca se nega a protestos e
+juramentos. Minha filha, estes lampejos que dão mais luz que calor, e
+cujo brilho é ephemero, nunca os tomes por verdadeira chamma de amor. A
+datar de hoje, não malbarates tanto a tua presença virginal; difficulta
+mais as entrevistas, que não baste pedir para as obter. Quanto ao sr.
+Hamlet e á confiança que n'elle podes ter, considera que é joven, e que
+póde tomar liberdades de que depois tenhas que te arrepender. N'uma
+palavra, Ophelia, descrê dos seus juramentos, porque não são
+verdadeiros; interpretes de desejos profanos, revestem-se da linguagem
+da mais santa sinceridade. Uma vez por todas, e franqueza, filha,
+prohibo-te toda e qualquer conversa com o sr. Hamlet. Pensa bem.
+Ordeno-t'o.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Obedecerei, meu pae. <span class="instruccoes_cena">(Sáem.)</span></p> <span class="pagenum">[27]</span>
+
+
+<h3>SCENA IV</h3>
+
+<h4>A explanada do castello de Elsenor</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Chegam HAMLET, HORACIO e MARCELLO</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que frio horrivel, gélo.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>O ar está devéras glacial.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que horas são?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Não deve tardar a meia noite.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Está dando meia noite.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Já! não ouvi, em todo o caso approximâmo-nos da hora a que costuma
+apparecer o phantasma. <span class="instruccoes_cena">(Ouvem-se ao longe tangeres de instrumentos, e o
+troar de artilheria.)</span> Que rumor é este?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>O rei consagra esta noite ao prazer, está bebendo, e a cada copo de
+vinho do Rheno, os timbales e clarins proclamam o brinde que levantou.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Isso é costume?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Sim é, mas apesar de eu ter nascido n'este paiz, e estar acostumado a
+estes usos, ha emquanto a mim mais gloria em infringil-os, do que em
+observal-os. Estas orgias abjectas trazem-nos, do oriente ao occidente,
+o desprezo das outras nações, que nos qualificam de ebrios, e juntam aos
+nossos nomes os epithetos mais grosseiros. Este defeito embaça as nossas
+mais brilhantes qualidades, e tira-lhes todo o valor. O mesmo acontece
+aos individuos. Se ao nascerem, receberam da natureza alguma macula
+original, de que não são culpados, poisque o nascimento é independente
+da nossa vontade; se os <span class="pagenum">[28]</span> afflige algum vicio de temperamento contra
+o qual todos os esforços da rasão são impotentes, algum costume que
+desagrade nos seus modos destruindo-lhes o encanto; acontece a esses
+homens, tendo o estigma de um defeito unico, libré da natureza, sêllo da
+sua estrella, acontece, digo, que todas as suas virtudes, fossem ellas
+puras como a graça celeste, infinitas quanto comporta á humanidade,
+ficariam manchadas na opinião, publica por esse defeito unico. Basta uma
+mollecula de liga para depreciar esse metal.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Apparece a sombra</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Senhor, eil-o.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Anjos do céu, poderes misericordiosos, protegei-nos. Genio bemfazejo, ou
+demonio infernal, que exhalas os perfumes celestes, ou as emanações do
+averno; que sejam sinistras ou caridosas as tuas intenções, appareces-me
+debaixo de uma fórma tão grata que te quero fallar. Interrogo-te,
+Hamlet, senhor, meu pae, rei de Dinamarca, oh! responde-me, não me
+deixes, na ignorancia, morrer de emoção; mas dize-me, porque teus bentos
+ossos encerrados no ataude romperam os sellos; porque te levantaste do
+tumulo em que te haviamos depositado; porque se ergueu a lapide
+sepulchral para te lançar a este mundo? Como, cadaver inanimado,
+vestindo a tua armadura de aço, vagueias tu á duvidosa claridade da lua,
+imprimindo á noite um caracter de horror, lançando-nos, fracos ludibrios
+da natureza, nas ancias do terror; e fazendo surgir em nossas almas
+pensamentos que excedem o nosso alcance? Responde. Porque? Com que fim?
+Que exiges?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Faz-vos signal de o seguir, como se quizesse fallar-vos a sós.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Veja, principe, o gesto cheio de cortezia e dignidade, com que o convida
+a seguil-o a logar mais remoto; mas não vá.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Senhor, pelo amor de Deus.</p> <span class="pagenum">[29]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Quer-me fallar, pois bem, seguil-o-hei.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Não faça tal, senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Porque? que tenho eu a receiar, importa-me tanto a vida, como se fosse
+um alfinete; quanto á minha alma, nada póde contra ella, porque é
+immortal, como elle é. Repete o signal, vou seguil-o.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>E se elle vos attrahisse ao Oceano ou ao pincaro escarpado de algum
+rochedo saliente e sobranceiro ao mar; e se tomasse alguma fórma
+horrivel, cuja vista vos varresse a rasão tornando-vos demente? Pensae
+bem, senhor, não receiaes alguma vertigem ao contemplar de alto a
+immensidade debaixo de vossos pés?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Continua a fazer-me signal. Caminha, sigo-te.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Não ha de ir, senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ninguem me detenha.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Seja rasoavel, principe, não vá.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ouço a voz do meu destino; brada alto, e cada um dos meus musculos
+adquiriu o vigor dos do leão de Nemea. <span class="instruccoes_cena">(A sombra faz-lhe signal de a
+seguir.)</span> Chama-me outra vez, deixem-me, senhores <span class="instruccoes_cena">(escapa-se-lhes dos
+braços.)</span> Por Deus, que não viverá, quem ousar oppôr-se-me. Afastem-se,
+já disse. <span class="instruccoes_cena">(Á sombra.)</span> Caminha, sigo-te. <span class="instruccoes_cena">(A sombra e Hamlet afastam-se.)</span></p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Apoderou-se d'elle o delirio.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Sigamol-o; desobedecer-lhe é forçoso n'estas circumstancias.</p> <span class="pagenum">[30]</span>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Não o abandonemos. Qual será o resultado!</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Algum vicio ha na constituição da Dinamarca.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>O céu proverá o que for melhor.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Sigamos o principe. <span class="instruccoes_cena">(Sáem todos.)</span></p>
+
+
+<h3>SCENA V</h3>
+
+<h4>Uma parte mais afastada da explanada</h4>
+
+<p>Chegam HAMLET e a SOMBRA
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Onde pretendes conduzir-me; mais adiante não irei.</p>
+
+<h5>A SOMBRA</h5>
+
+<p>Encara-me, Hamlet.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que queres?</p>
+
+<h5>A SOMBRA</h5>
+
+<p>Approxima-se a hora em que me devo recolher ás chammas sulphureas e
+ardentes.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Pobre alma!</p>
+
+<h5>A SOMBRA</h5>
+
+<p>Não me lastimes, mas presta attenção ao segredo que te vou revelar.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Falla, é meu dever escutar-te.</p>
+
+<h5>A SOMBRA</h5>
+
+<p>Dever tambem é vingar-me depois de me teres ouvido.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que ouço! <span class="pagenum">[31]</span>
+
+<h5>A SOMBRA</h5>
+
+<p>Sou a alma de teu pae, condemnada a penar durante um tempo certo, a
+jejuar n'um carcere de chammas, até que as culpas que mancharam a minha
+vida estejam completamente expiadas e purificadas pelo fogo. Se não me
+fosse defezo revelar os segredos do meu carcere, far-te-ía uma narrativa
+de que cada palavra encheria de terror a tua alma, gelaria o teu sangue,
+os olhos quaes estrellas brilhantes saíriam das suas orbitas, os anneis
+do teu cabello desfazer-se-íam em completa desordem, e cada cabello
+ficaria hirto como as cerdas do javali; mas estes mysterios eternos não
+são para ouvidos profanos de carne e de sangue. Escuta, escuta, oh
+escuta-me! se alguma vez amaste teu carinhoso pae...</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Oh céus!</p>
+
+<h5>A SOMBRA</h5>
+
+<p>Vinga a sua morte, causada por um assassinio, cobárde, infame e nefando.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Um assassinio?</p>
+
+<h5>A SOMBRA</h5>
+
+<p>Infame! todos os assassinios o são, mas nunca houve nenhum mais infame,
+inaudito e horrendo do que este.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Apressa-te em desvelar-m'o, para que prompto, como a meditação, ou como
+o pensamento de amor, possa saciar a minha vingança.</p>
+
+<h5>A SOMBRA</h5>
+
+<p>Grato sou ao teu empenho, Hamlet; era preciso que fosses mais apathico
+do que a planta grossa e crassa que immovel e inerte apodrece nas
+margens do Lethes, se não sentisses n'este momento commoção alguma.
+Agora, ouve-me. Espalhou-se que emquanto dormia no meu jardim, uma
+serpente me mordêra; é assim que uma fallaz narrativa enganou a
+Dinamarca sobre a causa da minha morte. Sabe tu pois a verdadeira, nobre
+mancebo: a serpente cujo dardo matou teu pae, cinge hoje a corôa d'este
+reino.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Oh meus propheticos presentimentos, meu tio!</p> <span class="pagenum">[32]</span>
+
+<h5>A SOMBRA</h5>
+
+<p>Sim, esse monstro, incestuoso, adultero pela magia das palavras, pelos
+dotes insidiosos. Oh loquela perversa, oh dotes nefarios, poisque tem
+tal poder de seducção, e conseguiu inspirar essa vergonhosa paixão a
+minha mulher, apparentemente tão virtuosa. Oh! Hamlet, que degradação!
+Descer de mim, cujo amor nobre e digno não tinha desmentido um instante
+o juramento prestado junto ao altar, a um miseravel, entre cujas
+qualidades naturaes e as minhas havia um abysmo! Mas assim como a
+virtude resiste inabalavel ás tentações do vicio, aindaque debaixo da
+fórma da Divindade lhe apparecesse, assim tambem a impudicicia, embora
+associada a um anjo celeste de luz, cansa-se da santidade do leito
+conjugal, para ir habitar o mais desprezivel prostibulo. Mas já sinto a
+frescura da aurora, forçoso é que eu termine. Emquanto dormia no meu
+jardim, era esse o meu costume todas as tardes; teu tio, aproveitando a
+minha inconsciencia, approximou-se de mim, munido de um frasco de
+meimendro, e lançou-me n'um ouvido o conteúdo. É um veneno tão activo
+para o sangue humano, que com a subtileza do mercurio corre e se
+infiltra em todos os canaes, em todas as veias, coalhando e alterando o
+sangue pela sua acção energica: o mais puro e limpido não lhe resiste, é
+como uma gotta de qualquer acido n'uma taça de leite. Tal foi o seu
+effeito, que uma lepra instantanea cobriu meu corpo de uma crosta impura
+e infecta. Eis como durante o meu somno, tudo me foi arrebatado de uma
+vez, e pela mão de um irmão, vida, corôa e consorte. A morte
+surprehendeu-me em estado flagrante de peccado; sem sacramentos, sem me
+reconciliar, nem com Deus, nem com a minha consciencia; tinha que
+comparecer perante o Juiz Supremo vergando sob o peso das minhas
+iniquidades. Horror, horror, cumulo de horror! Se em teu coração vibra a
+fibra da sensibilidade, não o toleres. Não consintas que o leito do rei
+de Dinamarca se transforme em mansão da luxuria e do incesto. Mas seja
+qual for a tua vingança, conserva-te moral e puro, e poupa tua mãe.
+Entrega o seu castigo ao céu, e aos espinhos do remorso que lhe
+dilaceram o coração. Adeus, cumpre-me deixar-te; a luz do perilampo,
+cujo fogo sem calor começa a esmorecer, annuncia a approximação da
+aurora. Adeus, adeus, adeus. Recorda-te sempre de mim. <span class="instruccoes_cena">(A sombra
+retira-se.)</span></p> <span class="pagenum">[33]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Oh! santas legiões do céu, oh! terra, que mais? Invocarei o inferno? Oh!
+opprobrio; contém-te, ah! contém-te, meu coração, e vós, meus musculos,
+não percaes o vigor, e redobrae de força e energia para me suster.
+Recordar-me de ti? Sim, sombra infeliz, emquanto a memoria não abandonar
+este meu cerebro desordenado. <i>Recorda-te de mim</i>; sempre! quero varrer
+da minha memoria todas as recordações frivolas, todas as maximas
+colhidas nos livros, todos os vestigios, todas as impressões do passado,
+tudo quanto a juventude e a observação coordenaram, e em sua vez dar só
+lugar, sem rivaes, juro-o pelo céu, aos teus preceitos. Oh! mulher
+perversa, oh infame e damnado monstro! oh memoria, grava bem o seguinte,
+que nos sorrisos do homem se póde occultar um crime; assim é na
+Dinamarca <span class="instruccoes_cena">(escreve n'uma carteira)</span>. Meu tio, espere-me. A minha senha
+será de hoje em diante. <i>Adeus, adeus, adeus. Recorda-te de mim.</i>
+Jurei-o.</p>
+
+<h5>HORACIO ao longe</h5>
+
+<p>Senhor, senhor?</p>
+
+<h5>MARCELLO ao longe</h5>
+
+<p>Senhor Hamlet?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Que o céu o proteja.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Assim seja.</p>
+
+<h5>MARCELLO ao longe</h5>
+
+<p>Olá, olá, senhor!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Pousa meu falcão, pousa. <span class="instruccoes_cena">(Imita o canto do falcão e o chamamento do
+falcoeiro.)</span></p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Chegam HORACIO e MARCELLO</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>O que se passou, senhor?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Que novas, senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>As mais extraordinarias.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Conte-nol-as, principe.</p> <span class="pagenum">[34]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>É um segredo.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>E não sou eu capaz de o guardar? O principe conhece-me.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>E eu?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que me dirão quando o souberem: que coração humano o teria pensado.
+Juram-me segredo?</p>
+
+<h5>HORACIO e MARCELLO</h5>
+
+<p>Jurâmos.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não ha em toda a Dinamarca um scelerado igual.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Era necessario que um espectro saísse do tumulo para nol'o dizer?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>É verdade, têem rasão. Basta de palavras, um aperto de mão, e cada um
+volte onde o chamam os negocios e as suas inclinações, porque todos têem
+inclinações e negocios, sejam quaes forem: eu, pobre pária do mundo, vou
+orar.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>São palavras incoherentes e sem sentido, alteza.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Peza-me que te offendesses, peza-me devéras.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Em que, senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Por S. Patricio, que te offendi e gravemente. Quanto á apparição de inda
+agora, é um phantasma honesto, digo-t'o eu. Quanto ao desejo de
+conhecerem, senhores, o que entre nós se passou, reprimam-n'o. E agora,
+meus bons amigos, em nome da nossa amisade, da nossa camaradagem de
+estudos e de armas, façam-me um favor.</p> <span class="pagenum">[35]</span>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Qual é? Não hesitâmos.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Nunca digam o que viram esta noite.</p>
+
+<h5>AMBOS</h5>
+
+<p>Conte com a nossa palavra, principe.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Quero um juramento.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Prometti o segredo.</p>
+
+<h5>MARCELLO</h5>
+
+<p>Já jurámos.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Mas jurem sobre a minha espada.</p>
+
+<h5>A SOMBRA <span class="instruccoes_cena">(debaixo da terra)</span></h5>
+
+<p>Jurem.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ah! ah! meu camarada, és tu que fallas; estás ahi, meu valente,
+approxima-te; ouvem a sua voz, prestem o juramento.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Diga-nos a formula, principe.</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(afastando-se um pouco com elles)</span></h5>
+
+<p>Jurem sobre a minha espada, que guardarão sigillo do que viram e
+ouviram.</p>
+
+<h5>A SOMBRA <span class="instruccoes_cena">(debaixo da terra)</span></h5>
+
+<p>Jurem.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p><i>Hic et ubique.</i> Vamos para mais longe. <span class="instruccoes_cena">(Afastam-se um pouco.)</span>
+Approximem-se, e estendendo a dextra sobre a minha espada, jurem por
+este gladio nunca revelar o que viram e ouviram.</p>
+
+<h5>A SOMBRA <span class="instruccoes_cena">(debaixo da terra)</span></h5>
+
+<p>Jurem pela sua espada.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Bravo, velha toupeira, como caminhas depressa subterraneamente, <span class="pagenum">[36]</span> que
+bello mineiro! Afastemo-nos mais uma vez, meus bons amigos.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Por vida minha, é prodigioso!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Acolhâmol-o como se acolhe um estrangeiro. O céu e a terra encerram mais
+mysterios, que os conhecidos pelos philosophos; mas venham. Notem o que
+notarem nos meus modos, se eu julgar necessario affectar maneiras
+extravagantes, jurem-me pela sua salvação que nunca cruzarão os braços,
+meneando a cabeça, nem lhes escaparão palavras ambiguas, como por
+exemplo: <i>Muito bem, muito bem</i>&mdash;<i>já sabemos</i>&mdash;ou&mdash;<i>se quizessemos
+fallar</i>&mdash;ou&mdash;<i>ainda ha pessoas que se ousassem</i>&mdash;ou outras expressões
+equivocas, dando a perceber que estão na confidencia; jurem que nada
+farão; e possa, quando mais precisarem, não lhes faltar a graça divina.</p>
+
+<h5>A SOMBRA <span class="instruccoes_cena">(debaixo da terra)</span></h5>
+
+<p>Jurem.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Acalma-te, alma penada. Assim, senhores, recommendo-me á vossa affeição,
+e tudo quanto um homem tão debil como Hamlet possa fazer para lhes
+provar o seu affecto, fal-o-ha com a ajuda de Deus. Retiremo-nos juntos,
+e silencio; peço-lh'o eu. Ha no mundo alguma grande perturbação.
+Maldição. Porque serei eu o eleito para a terminar? Vamos, partâmos
+juntos.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Fim do acto primeiro</p> <span class="pagenum">[37]</span>
+
+
+
+
+<h2>ACTO SEGUNDO</h2>
+
+
+<h3>SCENA I</h3>
+
+<h4>Uma sala em casa de Polonio</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram POLONIO e RINALDO</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Rinaldo, entrega a meu filho este dinheiro e estas letras.</p>
+
+<h5>RINALDO</h5>
+
+<p>Sim, meu senhor.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Mas antes de o procurar, obrarás assisadamente tomando informações a seu
+respeito.</p>
+
+<h5>RINALDO</h5>
+
+<p>Era essa a minha intenção.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Bem, muito bem; toma antes todas as informações pelos dinamarquezes que
+estão em París, vê as suas relações, e com quem se dão, quaes os seus
+gastos; depois de te assegurares pelas tuas perguntas que conhecem meu
+filho, procura colher informações mais exactas, sem comtudo o dar a
+entender. Dissimula que o conheces perfeitamente, dizendo, por exemplo:
+Conheço o pae e a familia, mas d'elle não tenho conhecimento algum.
+Entendes, Rinaldo?</p> <span class="pagenum">[38]</span>
+
+<h5>RINALDO</h5>
+
+<p>Perfeitamente, senhor.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>De todo não me é desconhecido, pódes acrescentar. Conheço-o pouco é
+verdade, comtudo aquelle de quem fallo é um dissipador com todos os seus
+defeitos; imputa-lhe então todos os vicios que te parecer, excepto
+aquelles que podem deshonrar um homem, toma conta n'isso; só as loucuras
+e imprudencias proprias de um joven que se sente livre de todo o
+constrangimento paterno.</p>
+
+<h5>RINALDO</h5>
+
+<p>O jogo, talvez?</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Bem, e as bebidas, a esgrima, as pragas, o genio buliçoso, a convivencia
+do prostibulo, é até onde te auctoriso que chegues.</p>
+
+<h5>RINALDO</h5>
+
+<p>Actos são, na verdade, que não deshonram.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Sabes bem como te deves haver fazendo estas imputações. Não aggraves os
+factos accusando-o de devassidão continua e habitual; não pretendo tal;
+censura-o mas com discrição; exprime-te como se attribuisses as suas
+faltas aos defeitos inherentes á mocidade, ao abuso da liberdade, ao
+arrebatamento de um espirito fogoso, á effervescencia de um sangue
+ardente.</p>
+
+<h5>RINALDO</h5>
+
+<p>Mas, senhor?</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Porque será conveniente obrar assim.</p>
+
+<h5>RINALDO</h5>
+
+<p>Para lh'o perguntar estava eu.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>É onde eu queria chegar, e na minha opinião é um ardil sem igual. Depois
+de teres imputado a meu filho esses ligeiros defeitos, que se podem
+considerar quando muito como imperfeições n'uma bella obra; se o teu
+interlocutor, aquelle que queres sondar, notou no joven a que te referes
+algum dos vicios <span class="pagenum">[39]</span> mencionados, está certo que responderá
+immediatamente: Meu caro senhor, ou <i>meu amigo</i>&mdash;ou <i>meu
+cavalheiro</i>&mdash;segundo o costume do individuo, ou o uso do paiz...</p>
+
+<h5>RINALDO</h5>
+
+<p>Prosiga, senhor.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Então... que estava eu dizendo? pela santa missa&mdash;que queria eu dizer? o
+que era?</p>
+
+<h5>RINALDO</h5>
+
+<p>Fallava da resposta...</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Que te darão, é isso, e não deixarão de responder: <i>Conheço esse
+mancebo, vi-o ainda hontem, ou outro qualquer dia, em tal epocha, com
+estes ou com aquelles, surprehendi-o jogando, ou n'uma orgia ou numa
+rixa</i>, ou ainda, <i>vi-o entrar n'uma casa suspeita</i>; ou outras cousas
+similhantes: agora vês como com a mentira se colhe a verdade. É assim
+que nós, as pessoas entendidas, empregâmos a miudo o embuste e a
+falsidade para descobrir a verdade. Ahi está o caminho que seguirás para
+saber o comportamento de meu filho. Percebes agora?</p>
+
+<h5>RINALDO</h5>
+
+<p>Sim, meu senhor.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>O Senhor seja comtigo, boa viagem.</p>
+
+<h5>RINALDO</h5>
+
+<p>Meu amo!</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Observa tu mesmo as suas inclinações.</p>
+
+<h5>RINALDO</h5>
+
+<p>Fal-o-hei, senhor.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Mas não o distráias da sua vida.</p>
+
+<h5>RINALDO</h5>
+
+<p>Bem entendo.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Adeus. <span class="instruccoes_cena">(Rinaldo sáe.)</span></p> <span class="pagenum">[40]</span>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra OPHELIA</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Que te traz por aqui, Ophelia?</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Meu pae, meu pae, ainda tremo.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Porque? Falla por piedade.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Querido pae, estava no meu quarto trabalhando em costura, quando de
+repente deparo com o sr. Hamlet, mas em que estado! as vestes em
+desordem, o cabello em desalinho, as meias caídas arrastavam pelo chão,
+pallido e branco como uma mortalha, tremiam-lhe as pernas, o rosto tinha
+a expressão do desespero, qual profugo do inferno mensageiro de novas
+horriveis.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Enlouqueceria por tua causa?</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Não sei, meu pae, mas receio-o devéras.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Que te disse elle, Ophelia?</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Tomou-me os pulsos, apertando-os convulsivamente, depois afastando-se á
+distancia do seu braço, levando a mão á testa, fitou os olhos no meu
+rosto, como se me quizesse retratar. Assim se demorou por largo tempo,
+por fim saccudindo-me levemente o braço, levantando e baixando por tres
+vezes a cabeça, suspirou tão profundamente, que todo o seu corpo
+estremeceu, parecia o prenuncio da morte. Feito isto, deixou-me, partiu
+e desviando a cabeça, como um homem que para achar caminho não precisa o
+auxilio da vista, transpoz a porta; mas então o seu olhar estava fito em
+mim.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Segue-me, filha, vou procurar o rei. É o delirio do amor; a <span class="pagenum">[41]</span> sua
+violencia mata-o, e impõe á sua vontade actos de desespero, que nenhuma
+outra paixão humana excitaria. Peza-me sinceramente. Dize-me,
+ter-lhe-ías tu dirigido ultimamente alguma palavra cruel.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Não, meu pae; mas obedecendo ás suas ordens, recusei as suas cartas e
+evitei a sua presença.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Eis o que perturbou a sua rasão. Doe-me de o não ter conhecido melhor:
+receiei que as suas intenções não fossem serias, e que só pretendesse
+consummar a tua ruina. Arrependo-me do fundo de alma das minhas
+desconfianças. Parece que o confiar cegamente na previdencia é o
+apanagio da minha idade, como o contrario é o defeito da mocidade. Vem,
+dirijâmo-nos ao rei, convem que elle nada ignore; porque o sigillo
+d'este amor poderia acarretar mais desgraças do que a sua revelação
+resentimentos. <span class="instruccoes_cena">(Sáem ambos.)</span></p>
+
+
+<h3>SCENA II</h3>
+
+<h4>Uma sala no castello de Elsenor</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram o REI, a RAINHA, as suas comitivas, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Sejam bemvindos, caros Rosencrantz e Guildenstern. Independentemente do
+gosto de os ver, a necessidade do seu prestimo me obrigou a chamal-os a
+esta côrte sem demora. Ouviram seguramente fallar da transformação de
+Hamlet; digo transformação, porque já não é o mesmo homem, nem moral nem
+physicamente. Só a morte do pae póde ser a causa do transtorno da sua
+rasão, não posso conceber outra. Educados com elle desde a infancia,
+sympathisando entre si pela idade e pelo caracter, peço-lhes que
+permaneçam algum tempo na côrte, procurem inspirar-lhe o gosto e prazer
+da sua convivencia, aproveitem todas as occasiões para descobrir se a
+sua afflicção não tem alguma causa desconhecida, cuja revelação nos
+permittisse dar-lhe remedio.</p> <span class="pagenum">[42]</span>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Bastante tem fallado nos senhores, e estou convencida que ninguem no
+mundo lhes é mais affeiçoado. A liberalidade do rei compensará
+largamente os seus serviços e os seus incommodos. Esperâmos dos senhores
+esta prova de affeição.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Vossas magestades são nossos soberanos, e os reis não pedem, mandam.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Estamos promptos a obedecer; disponham de nós, senhores. Depondo aos pés
+dos reis os nossos serviços e a nossa dedicação, pedimos-lhes só que
+ordenem.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Obrigado, senhores.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Obrigada tambem eu; vão ter com meu filho: infelizmente mal o
+reconhecerão. <span class="instruccoes_cena">(Á sua comitiva)</span> Alguns d'estes senhores conduzam estes
+cavalheiros junto de Hamlet.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Praza a Deus, que a nossa presença lhe seja agradavel e os nossos
+cuidados um lenitivo.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Deus queira. <span class="instruccoes_cena">(Rosencrantz e Guildenstern sáem seguidos de alguns
+cortezãos.)</span></p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra POLONIO</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Senhor, regressaram de Noruega os embaixadores, satisfeitos com o
+resultado da sua missão.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>És sempre correio de boas novas.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Senhor! esteja vossa magestade certo que a minha alma põe a par a
+dedicação ao meu rei e o respeito e amor ao meu Deus. A menos que a
+minha sagacidade habitual me enganasse, descobri a verdadeira causa da
+loucura do senhor Hamlet.</p> <span class="pagenum">[43]</span>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Estou ancioso por conhecel-a.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Primeiro os embaixadores, depois eu.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Recebe-os, e encarrego-te de os introduzir á nossa presença. <span class="instruccoes_cena">(Polonio
+sáe.)</span> <span class="instruccoes_cena">(Á rainha.)</span> Annunciou-me, querida Gertrudes, que conhece a causa
+da doença de seu filho.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Receio bem que a morte de seu pae e o nosso precipitado consorcio sejam
+as causas unicas.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Sabel-o-hemos em breve.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram POLONIO, VOLTIMANDO e CORNELIO</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Bemvindos sejam, amigos. Falla tu, Voltimando; que novas trazes de nosso
+irmão de Noruega?</p>
+
+<h5>VOLTIMANDO</h5>
+
+<p>Envia-vos seus cumprimentos e sauda-vos cordealmente. Mal nos ouviu,
+ordenou ao sobrinho que pozesse fim aos seus preparativos guerreiros.
+Julgava-os dirigidos contra a Polonia; mas convencido por um detido
+exame que eram contra vossa magestade, e indignado por Fortimbraz se
+prevalecer do estado precario, a que a idade e a doença o tinham
+reduzido, ordenou-lhe que comparecesse na sua presença. Fortimbraz
+obedeceu á ordem intimada, e depois de severamente reprehendido pelo rei
+de Noruega, prestou nas mãos de seu tio o juramento de nada emprehender
+contra vossas magestades. O idoso monarcha, para provar o seu jubilo,
+concedeu-lhe uma pensão annual de tres mil escudos, e licença para
+combater os polacos com as tropas alistadas. Ao mesmo tempo pede-vos
+pelas presentes <span class="instruccoes_cena">(entrega as cartas)</span>, que concedaes ás suas tropas livre
+passagem pelo vosso territorio nas condições estipuladas n'este
+escripto.</p> <span class="pagenum">[44]</span>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Este resultado enche-nos de satisfação; quanto ao pedido, lel-o-hemos, e
+depois de maduramente examinado, responderemos. Agradecemos-lhes os seus
+valiosos serviços. Descansem agora; juntos ceiaremos logo. <span class="instruccoes_cena">(Voltimando e
+Cornelio sáem.)</span></p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Felizmente está terminado este negocio. Senhor e senhora; discutir o que
+constitue a auctoridade, e em que consiste a obediencia dos subditos,
+porque a noite é noite, o dia é dia, e o tempo é tempo, seria perder sem
+proveito a noite, o dia e o tempo; por isso, visto que a concisão é a
+alma do espirito, emquanto que a prolixidade é só o corpo ou o involucro
+exterior, serei breve: Vosso nobre filho está louco, digo louco, porque
+haveria falta de rasão em querer definir o que constitue verdadeiramente
+loucura. Passemos adiante...</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Menos estylo, Polonio.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Senhora, não faço estylo, juro-o. Seu filho está louco; é triste, mas é
+verdade. É verdade que é uma lastima, mas é uma lastima que seja
+verdade; é uma estulta antithese, mas tal qual é acceite-a; não emprego
+arte. Está louco; resta-nos procurar a causa d'esse effeito, ou antes
+defeito, porque forçosamente a deve ter. Siga bem o meu raciocinio:
+Tenho uma filha, tanto a tenho, que me pertence. Minha filha, fiel ao
+dever e á obediencia que me deve, note bem, entregou-me este escripto.
+<span class="instruccoes_cena">(Mostra um papel.)</span> Reflicta e depois tire a conclusão. <span class="instruccoes_cena">(Lê.)</span> <i>Ao idolo
+da minha alma, á celeste Ophelia, á belleza personificada...</i> É uma
+desgraçada e estulta expressão. <i>Conserva preciosamente estas linhas, no
+teu seio alabastrino...</i></p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>É de Hamlet a Ophelia.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Espere um momento, senhora, cito textualmente. <span class="instruccoes_cena">(Lê)</span></p>
+
+<div class="poesia">
+Duvida que do céu a abobada azulada<br>
+Tenha espheras de luz de um magico esplendor,<br>
+Duvida seja o sol o facho da alvorada,<br>
+Duvida da verdade em tua alma gravada,<br>
+Mas não duvides nunca, oh! nunca, d'este amor.<br>
+</div>
+<span class="pagenum">[45]</span>
+
+<p><i>Querida Ophelia, não sou poeta, não sei modular suspiros
+com arte, mas podes acreditar que te amo, mais que tudo n'este
+mundo. Adeus, a ti, para sempre minha vida, a ti emquanto
+esta machina mortal me pertencer.</i>==<span class="smallcaps">Hamlet</span>.==Eis-ahi o que,
+por obediencia, minha filha me entregou. Já antes ella me tinha
+confiado as tentativas de Hamlet, á proporção que renovava
+as suas instancias amorosas.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Como pôde ella acolher este amor?</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Em que conta me tem, senhor?</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Na de um homem leal e honrado.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Farei por merecer sempre esse conceito a vossa magestade;
+mas que pensaria o rei de mim, se vendo despontar esse amor,
+e já o tinha adivinhado antes da confissão de minha filha, que
+pensariam o rei e a rainha, se me calasse, e me tornasse mudo
+confidente do seu amor; se, testemunha da sua paixão, tivesse
+imposto silencio ao meu coração, ou se a considerasse com indifferença?
+má idéa por certo fariam de mim. Não perdi um
+momento, disse a minha filha: <i>O senhor Hamlet é um principe
+collocado fóra da tua esphera; isto não póde ser.</i>&mdash;Ordenei-lhe
+então que evitasse a sua convivencia, e que nunca mais
+recebesse nem mensagens nem dadivas. Seguiu o meu conselho,
+e para abreviar a minha narração, o principe, vendo-se
+assim repellido, caíu primeiro n'uma profunda tristeza, em seguida
+repugnaram-lhe os alimentos, mais tarde teve insomnias,
+depois abatimentos e fraqueza intellectual, finalmente, e sempre
+gradualmente, chegou á demencia e ao delirio. Deplorâmol-o
+todos.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>E pensas ser essa a causa?</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>É muito provavel.</p>
+<span class="pagenum">[46]</span>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Quizera me dissessem, se aconteceu alguma vez affirmar
+eu alguma cousa que não fosse certa.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Nunca que eu saiba.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Se não é verdade o que disse <span class="instruccoes_cena">(mostrando a cabeça)</span>, que esta role
+a seus pés. Basta-me a mais simples circumstancia para descobrir
+a verdade, aindaque estivesse occulta nas entranhas da
+terra.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Por que modo nol-o poderás tu provar.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Vossa magestade não ignora que o sr. Hamlet algumas vezes
+passeia quatro horas consecutivas n'esta galeria.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>É certo.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Quando ali estiver, enviar-lhe-hei minha filha, e nós, occultos
+por detrás d'esta cortina, seremos testemunhas da entrevista.
+Se não a ama, se não foi o amor a causa da sua loucura,
+deixe eu de pertencer aos conselhos de vossa magestade,
+e faça de mim um quinteiro, um hortelão ou um abegão.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Tentemos a experiencia.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">HAMLET entra lendo</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>A leitura é a unica distracção d'este infeliz.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Retirem-se ambos por piedade. Vou fallar-lhe. Confiem em
+mim. <span class="instruccoes_cena">(O rei e a rainha sáem)</span> Como se sente o sr. Hamlet?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Bem, Deus louvado.</p>
+<span class="pagenum">[47]</span>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Conhece-me, principe?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Se conheço, és um vendilhão de peixe.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Engana-se, senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>N'esse caso, queria que ao menos fosses tão honrado.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Honrado?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Sim; pelo caminho em que vae o mundo, custa achar um
+homem honrado entre dez mil.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>É uma triste verdade.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ora o sol gera vermes no animal putrefacto, e embora divindade,
+acaricia o cadaver. Tens uma filha, não é verdade?</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Sim, meu senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não a deixes caminhar ao sol, a concepção é um beneficio
+do céu, mas como tua filha póde conceber, cuidado... meu
+caro.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Que quer dizer, principe? <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span> minha filha é a sua constante
+preoccupação, mas não me reconheceu logo, tomou-me
+por um vendilhão de peixe. O seu cerebro está gravemente
+atacado; verdade é, que na minha mocidade o amor algumas
+vezes me reduziu a um estado similhante a este. Dirijâmos-lhe
+de novo a palavra. Que está lendo, senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Palavras e mais palavras, só palavras.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>De que se trata, senhor?</p>
+<span class="pagenum">[48]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Quem, o que?</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Pergunto o que contém o livro que está lendo.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Calumnias, nada mais. O satyrico auctor tem a impudencia
+de dizer que nos velhos a barba é grisalha, a pelle rugosa, e
+que seus olhos distillam ambar e gomma em fusão; que o espirito
+está caduco, as pernas não os sustêem; tudo cousas que
+creio em minha consciencia, mas que se não devem escrever.
+Quanto ao senhor, poderia ter a minha idade, se podesse andar
+para trás como os caranguejos.</p>
+
+<h5>POLONIO <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span></h5>
+
+<p>Aindaque louco póde coordenar as idéas. <span class="instruccoes_cena">(Alto.)</span> Quer vir tomar
+ar, meu senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que ar? o do tumulo?</p>
+
+<h5>POLONIO <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span></h5>
+
+<p>Que agudeza e que verdade na replica. Ás vezes as palavras
+dos loucos têem mais conceito que as dos sãos. Vou deixal-o,
+e preparar a sua entrevista com minha filha. Senhor,
+tomo a liberdade de me retirar.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Nada podia tomar, que eu désse com mais gosto; excepto
+a vida, excepto a vida, excepto a vida.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Adeus, meu senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span></h5>
+
+<p>Que imbecil e fastidioso velho.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Procuram o sr. Hamlet, eil-o.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ <span class="instruccoes_cena">(a Hamlet)</span></h5>
+
+<p>Deus seja comvosco, senhor. <span class="instruccoes_cena">(Polonio sáe)</span></p>
+<span class="pagenum">[49]</span>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Meu nobre senhor.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Querido principe.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Meus bons e queridos amigos, como estão, tu Guildenstern
+e tu tambem Rosencrantz, meus caros, como passam.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Nem bem, nem mal.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Não nos peza demasiado a nossa felicidade, e não tocâmos
+o ponto culminante da fortuna.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Nem temos tambem rasões de queixa.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>No meio está a virtude, é quando chovem as graças.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Vivemos familiarmente com ella.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Estão pois na intimidade da fortuna; não me admira, é uma
+cortezã. Que novas ha?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Nenhumas, senhor, a não ser que este mundo se tornou virtuoso.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Em tal caso o seu fim está mui proximo, mas o que dizes
+é falso. Permittam-me uma pergunta que lhes diz respeito.
+Digam-me, que mal fizeram á fortuna para ella os enviar para
+este carcere?</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Carcere, senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>A Dinamarca tambem é carcere.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Então é-o o mundo todo.</p>
+<span class="pagenum">[50]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Sim, uma vasta prisão que em si encerra um grande numero
+de carceres, dos quaes o peior é de certo a Dinamarca.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Não somos da mesma opinião, principe.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Para os senhores não será uma prisão a Dinamarca, porque
+o bem ou o mal não existem senão quando assim o julgâmos.
+Para mim é.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>A ambição faz parecer a Dinamarca uma prisão a vossa alteza,
+não cabe n'ella a sua alma.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Acharia vasto reino uma casca de noz, se não fossem os
+meus terriveis sonhos.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>São justamente esses sonhos que constituem a ambição,
+porque toda a substancia do ambicioso é a sombra de um sonho.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Assim os mendigos são corpos, e os monarchas e os heroes
+ambiciosos não são senão a sua sombra. Querem que vamos
+á côrte? porque sinceramente não me sinto disposto a discutir.</p>
+
+<h5>AMBOS</h5>
+
+<p>Estamos ás suas ordens, principe.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não o comprehendo eu assim, não o quero confundir com
+o resto dos meus creados; porque, para lhes dizer a verdade,
+sou pessimamente servido. Mas, com franqueza, amigos, o que
+os trouxe a Elsenor.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Unicamente visitar a vossa alteza, nenhum outro motivo.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Estou tão pobre, tão alheio ao reconhecimento! mas recebam
+os meus agradecimentos pelo preço que valem. Não os
+<span class="pagenum">[51]</span>
+mandaram chamar? Foi por motu proprio que vieram? É a
+affeição que aqui os trouxe? Vamos, sejam francos, vamos,
+fallem.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Que quer que digâmos, senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Tudo quanto lhes aprouver, mas respondam á minha pergunta.
+Mandaram-os chamar? Leio nos seus olhos uma confissão,
+que a sua candura não sabe dissimular. Sei que o nosso
+bom rei e a nossa excellente rainha os mandaram chamar.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Com que fim, senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Os senhores é que o poderão dizer; mas imploro-lhes, pelos
+direitos da nossa amisade, pelas sympathias da nossa idade,
+pelos deveres que nos impõe a nossa verdadeira affeição, emfim
+por todas as rasões as mais convincentes que podesse allegar
+o mais habil orador, sejam francos e sinceros commigo;
+mandaram-os chamar? <i>Sim</i> ou <i>não</i>.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ <span class="instruccoes_cena">(a Guildenstern)</span></h5>
+
+<p>Que devemos responder?</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span></h5>
+
+<p>Não os perderei de vista. <span class="instruccoes_cena">(Alto.)</span> Se devéras me têem affeição,
+expliquem-se com franqueza.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Pois bem, senhor, mandaram-nos chamar.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>E eu dir-lhes-hei porque; d'est'arte a minha confissão precederá
+as suas investigações, e o segredo promettido ao rei e á
+rainha, não será nem de leve violado. Ultimamente, nem sei
+por que, perdi toda a minha alegria, renunciei a toda a especie
+de exercicio; e sinto na alma uma tal tristeza, que esta
+maravilhosa machina, a terra, me parece um esteril promontorio,
+este esplendido docel, o céu, esse magnifico firmamento
+suspenso sobre nossas cabeças, essa abobada sumptuosa, onde
+<span class="pagenum">[52]</span>
+brilha o oiro de innumeras estrellas, tudo me parece um infecto
+monturo de vapores pestilentes. Que obra prima dos homens!
+que elevação na sua intelligencia! quanto são infinitas
+as suas faculdades! como a sua fórma é imponente e admiravel,
+como os seus actos approximam os homens dos anjos, e a
+sua rasão os approxima de Deus! são a maravilha do mundo,
+os reis da creação animada, e comtudo o que vale a meus olhos
+essa quinta essencia do pó? Aborreço os homens e as mulheres,
+embora os seus sorrisos incredulos, senhores, digam o
+contrario.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Não tinhamos em nosso pensamento tal intenção.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Então porque se riram quando disse que aborrecia os homens?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>É que eu pensava que, se os homens lhe são odiosos, triste
+acolhimento receberiam os actores que encontrámos no caminho
+e que vem offerecer a vossa alteza os seus serviços.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Bemvindo será o que representa os reis; tributarei a sua
+magestade as minhas homenagens; o cavalleiro andante manejará
+adaga e escudo, debalde não suspirará o namorado, o
+comico declamará em paz a sua parte; o bobo provocará o
+riso aos mais hypocondriacos, emfim a namorada estropiará os
+versos para não deixar de dizer o que cumpre sinta no coração.
+Que actores são?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>São os tragicos da cidade, que lhe agradavam tanto.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Porque se tornaram actores ambulantes? Com a permanencia
+na cidade, auferiam de certo maior honra e lucros.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Innovações recentes foram a causa d'isso.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ainda gosam da mesma reputação que tinham quando eu
+<span class="pagenum">[53]</span>
+habitava a cidade? As suas representações ainda são muito
+concorridas?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Pouco, senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Porque será? Terão elles desmerecido no seu modo de representar?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Não, meu senhor; o seu zêlo não arrefece: mas vossa alteza
+de certo saberá, que appareceu um enxame de creanças, apenas
+saídas da primeira infancia, que declamam o dialogo o
+mais simples, no tom o mais elevado, e por isso são calorosamente
+applaudidas. São moda, e lançaram um tal desfavor
+sobre os actores ordinarios, como ellas lhe chamam, que muitos
+homens valentes no campo da batalha, mas que temem as
+pennas aguçadas, não ousam frequentar o verdadeiro theatro.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Como? pois são creanças? Quem as protege? quem lhes paga?
+quererão unicamente seguir a sua profissão emquanto conservarem
+a sua voz aflautada? E se um dia pela força das circumstancias
+se tornarem actores ordinarios, não terão direito
+então de se arrependerem, de terem acceitado os encomios das
+pennas que bem mau serviço lhes prestaram, quando se voltarem
+contra elles as armas de que se serviram para mal dos
+outros.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Não luctaram pouco entre si, e a nação inteira animou a contenda.
+Houve um momento em que a receita do emprezario
+dependia de brigarem os actores e auctores.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Será crivel?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Houve mais de uma cabeça quebrada.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>E foram as creanças que venceram?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Sim, meu senhor. Venceram o proprio Hercules com o seu globo.</p>
+<span class="pagenum">[54]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Nada me admira, sendo meu tio rei de Dinamarca. Os que
+o evitavam em vida de meu pae, pagam agora o seu retrato
+em miniatura, por vinte, cincoenta e cem ducados. Por vida
+minha que ha alguma cousa sobrenatural em tudo quanto presenceâmos,
+e que em verdade a philosophia devia esmerar-se
+por descobrir. <span class="instruccoes_cena">(Ouve-se o som de uma musica de clarins ao longe.)</span></p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Chegam os actores.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Senhores, bemvindos sejam em Elsenor. As suas mãos que
+eu as aperte. O que distingue um bom acolhimento são os cuidados
+e as attenções polidas; deixem-me recebel-os assim para
+não parecer que a cortezia para com os actores, com os quaes
+é minha intenção ter a maior, ultrapassa a que lhes testemunho
+pessoalmente aos senhores. Bemvindos sejam, mas o tio
+que tenho por padrasto, e a mãe que tenho por tia estão completamente
+enganados a meu respeito.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Em que se enganam elles?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Só estou louco quando o vento sopra do nor-noroeste, em
+soprando do sul, distingo uma garça de um falcão.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra POLONIO</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Saudo os senhores.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Escuta, Guildenstern, <span class="instruccoes_cena">(a Rosencrantz)</span> e tu tambem: a bom entendedor
+meia palavra basta; esta creança que vêem ainda usa
+coeiros.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Talvez que os torne a usar; a velhice é, segundo dizem, uma
+segunda infancia.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Aposto que me vem fallar nos actores; vão ver. Tem rasão,
+senhor, foi effectivamente na manhã de segunda feira.</p>
+<span class="pagenum">[55]</span>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Trago uma nova para vossa alteza.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Tenho tambem uma para o senhor. Quando Roscio era actor
+em Roma...</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Os actores acabam de chegar.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não é verdade.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Palavra de honra.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Cada actor virá montado n'um jumento.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>São os melhores actores do mundo para a tragedia, comedia,
+drama historico e pastoril, pastoral comica e historica,
+pastoral tragico-comico-historica, com ou sem unidade do logar
+da acção. Para elles não ha difficuldades, são tristes com
+Seneca, folgasãos com Plauto. Não têem rivaes quanto ao estylo
+e á expressão.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ó Jephthé, juiz em Israel, que thesouro possuias!</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Que thesouro possuia elle, senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Mas...</p>
+
+<div class="poesia">
+Uma filha, uma só, mas essa encantadora<br>
+Que era da noite sua a celestial aurora.<br>
+</div>
+
+<h5>POLONIO <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span></h5>
+
+<p>Ainda minha filha.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não tenho eu rasão, velho Jephthé?</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Se me chama Jephthé, é porque tenho uma filha que estremeço.</p>
+<span class="pagenum">[56]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não é consequencia.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Então qual é a consequencia?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Eil-o.</p>
+
+<div class="poesia">
+Mas Deus sabe porque o conto é memoravel!<br>
+</div>
+
+<p>Conhece o seguimento?</p>
+
+<div class="poesia">
+Um dia aconteceu... o que era mais provavel.<br>
+</div>
+
+<p>Para o final recorde-se da primeira parte d'estas trovas, porque
+eis quem me obriga a terminar.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram tres ou quatro ACTORES</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(continuando)</span></h5>
+
+<p>Bemvindos todos, bemvindos sejam. Estou encantado de te
+ver de boa saude, bemvindos sejam, amigos. Ah, meu amigo,
+que mudança! já com barba! Quererás tu fazer-me sombra em
+Dinamarca? Ah eis-vos tambem aqui, minha menina! Por nosso
+senhor, depois que vos vi, subistes apenas um degrau para o
+céu. Deus queira que a vossa voz, moeda de liga mutavel, não
+se deprecie de mais com o tempo. Senhores, para mim são todos
+bemvindos; mas vamos direitos ao assumpto, como os falcoeiros
+francezes, que largam o falcão á primeira peça de caça
+que se apresenta, mostrem-me a sua pericia; vamos, um trecho
+bem pathetico.</p>
+
+<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5>
+
+<p>Que trecho preferis, senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ouvi-te um dia declamar um trecho de uma peça nunca
+representada em scena, ou quando muito uma unica vez, porque,
+se bem me lembro, a peça não agradou a todos; era <i>caviar</i>
+para o geral do publico: mas, segundo a minha opinião e
+das pessoas que n'este assumpto têem voz mais auctorisada do
+que a minha, era uma peça excellente, bem conduzida e escripta
+com tanta decencia como arte. Pelo que me lembro, diziam
+que os versos não eram bastante picantes para compensar a
+<span class="pagenum">[57]</span>
+insipidez da acção, seu estylo na verdade nada tinha de affectado,
+mas que quanto ao resto a peça, escripta com tanta
+simplicidade como methodo, era natural, agradavel, e sem
+pretensão. Havia sobretudo um trecho que me agradou, era,
+na falla de Eneas a Dido, o ponto em que lhe refere a morte
+de Priamo. Se ainda te recordas, começa n'esta phrase, espera,
+deixa-me ver se me lembro.</p>
+
+<div class="poesia">
+Pyrrho, Pyrrho feroz como o tigre da Hyreania<br>
+</div>
+
+<p>Não é isso&mdash;começa por Pyrrho.</p>
+
+<div class="poesia">
+Este ouriçado Pyrrho havia uma armadura<br>
+Que, bem como a alma, tinha a côr da noite escura<br>
+Quando elle era a dormir no cavallo sinistro.<br>
+Mensageiro do mal, de Belzebut ministro,<br>
+No corpo traz agora, em rubros caracteres,<br>
+Mais sinistro brazão; da fronte aos pés o cora<br>
+O sangue d'anciãos, d'infantes, de mulheres,<br>
+E por mil bôcas, mata a sêde que o devora<br>
+No sangue recosido aos raios d'essa chamma<br>
+Que Troia, em fogo ardendo, em torno a si derrama.<br>
+Tisnado pelo fogo e pela raiva ardente<br>
+Após Priamo corre...<br>
+</div>
+
+<p>Continúa tu agora.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Boa declamação na verdade, com as medidas e intonações
+proprias.</p>
+
+<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5>
+
+<div class="poesia">
+<span style="margin-left: 10em;"> O velho, já cansado,</span><br>
+Mal vibra um frouxo golpe; aquella espada, outr'ora<br>
+Como o raio veloz, lá onde cae descansa,<br>
+Indocil á vontade, e á mão rebelde agora,<br>
+Oh lucta desigual! lucta sem esperança,<br>
+Pyrrho de raiva acceso, investe em frente e ao lado!<br>
+E, só do gladio ao sôpro eil-o no chão prostrado<br>
+O guerreiro senil! Então, Troia abatida<br>
+Parece haver sentido, os golpes derradeiros:<br>
+Ao ver prostrado o rei exhaure-se-lhe a vida,<br>
+Desabam sobre a base em chammas os outeiros,<br>
+E o som cavo e profundo a Pyrrho fere o ouvido.<br>
+Eis de repente o gladio, a grande altura erguido,<br>
+Já prestes a immolar a fronte alva, nevada,<br>
+Do venerando rei, detem-se lá na altura.<br>
+E Pyrrho assim parece um tyranno em pintura,<br>
+Suspenso entre a vontade e a obra começada!<br>
+Mas como, muita vez, pouco antes da procella<br>
+Se faz como que ouvir um silencio que gela,<br>
+<span class="pagenum">[58]</span>
+Pára a nuvem no céu, o vento não retumba,<br>
+E a terra a nossos pés é muda como a tumba;<br>
+Subitamente após se vê no fundo baço<br>
+Um raio que illumina e rasga o immenso espaço,<br>
+Assim de Pyrrho a furia, instantes mal contida,<br>
+Irrompe a completar a obra interrompida.<br>
+Dos Cyclopes jamais caíram retumbantes<br>
+Com remorso menor os malhos flammejantes<br>
+Para forjar de Marte a gravida armadura,<br>
+Que sobre o nobre velho, ensanguentada, impura,<br>
+De Pyrrho a espada ardente!... É finda a horrenda lucta!<br>
+Atrás, fortuna, atrás, atrás, vil prostituta!<br>
+Vós, deuses immortaes, em synodo sagrado,<br>
+Roubae-lhe o audaz poder, quebrae todos os raios<br>
+Ás rodas do seu carro, e lá do céu lançae-os<br>
+Tão baixo que o demonio os veja sempre ao lado.<br>
+</div>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Parece-me demasiado longo.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Para o encurtar manda-se a um barbeiro ao mesmo tempo
+que a tua barba. <span class="instruccoes_cena">(Ao actor.)</span> Continúa, peço-to eu; se não lhe
+apresentam um bailado grutesco, ou uma scena immoral adormece
+logo. Continúa, pois, chegámos a Hecuba.</p>
+
+<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5>
+
+<div class="poesia">
+Mas quem visse, oh, quem visse a rainha embuçada!<br>
+</div>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>A rainha embuçada.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Optimo, <i>embuçada</i> é bom.</p>
+
+<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5>
+
+<div class="poesia">
+Correndo, nus os pés; com lagrimas que chora<br>
+As chammas, apagando; a fronte coroada<br>
+Por um farrapo vil, a fronte onde ainda agora<br>
+Brilhava um diadema; apenas mal vestida<br>
+Por coberta alcançada á pressa na fugida;<br>
+Quem visse tanto horror, acaso concebêra<br>
+Que a fortuna só tem entranhas de uma fera;<br>
+Mas se os deuses do Olympo houvessem escutado,<br>
+Quando ella vira Pyrrho entregue ao estranho goso<br>
+De cortar membro a membro, o corpo ao morto esposo,<br>
+De seu peito fremente, o grito amargurado<br>
+A não ser que da terra ao céu não suba a magua<br>
+Sentiriam como ella os olhos rasos d'agua!<br>
+</div>
+<span class="pagenum">[59]</span>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Vejam, empallidece, o pranto inunda-lhe os olhos. Basta,
+peço-to.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Está bem, o resto m'o recitarás n'outra occasião; <span class="instruccoes_cena">(a Polonio)</span>
+queira prover que estes actores sejam bem tratados, percebeu?
+que nada lhes falte, porque são a chronica resumida e viva da
+epocha. Mais lhe valeria, Polonio, um mau epitaphio depois da
+sua morte, do que o seu vituperio em vida.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Tratal-os-hei segundo os seus merecimentos.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Melhor, meu caro, melhor; se se tratasse cada um segundo
+os seus merecimentos, de poucos se faria caso. Trate-os como
+o deve á jerarchia e á sua propria dignidade. Quantos menos
+titulos tiverem á sua benevolencia, mais se deve esmerar no
+seu tratamento. Agora póde-se retirar com elles.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Venham, senhores.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Sigam-o, meus amigos, ámanhã teremos a representação,
+<span class="instruccoes_cena">(Polonio sáe com os actores, menos um a quem Hamlet faz signal que fique.)</span></p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(continuando)</span></h5>
+
+<p>Dize-me, meu caro amigo, poderias representar a morte de
+Gonzaga?</p>
+
+<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5>
+
+<p>Com mil vontades, senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Então ámanhã. Dize-me mais, poderias tu aprender de cór,
+sendo preciso, doze ou dezeseis linhas que eu desejava intercalar
+na peça? pódes, não é verdade?</p>
+
+<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5>
+
+<p>Posso perfeitamente, meu senhor.</p>
+<span class="pagenum">[60]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Fica pois ajustado, segue aquelle senhor, e só te peço que
+não zombes d'elle. <span class="instruccoes_cena">(O actor sáe.)</span></p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(a Rosencrantz e Guildenstern)</span></h5>
+
+<p>Meus bons amigos, até á noite, estimei vel-os em Elsenor.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Meu senhor. <span class="instruccoes_cena">(Sáe com Guildenstern.)</span></p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Finalmente estou só. Que miseravel eu sou! Pois não será
+monstruoso que este actor, n'uma ficção, na expressão de uma
+dor simulada, podesse elevar a sua alma, identificando-se com
+a sua parte, exaltando-se a ponto de empallidecer, de lhe borbulhar
+o pranto nos olhos, de se lhe pintar o desespero nas
+feições, entrecortada está a sua voz, e o seu todo faz uma verdade,
+de que não é senão uma situação fingida! E tudo, por
+quem? por Hecuba; que é Hecuba para elle, ou elle para Hecuba,
+para que a sua memoria lhe arranque lagrimas tão sentidas?
+Que faria elle no meu logar, se tivesse tantos motivos
+de dor, quantos eu tenho. Inundava de pranto a scena, aterrava
+os espectadores pela sua expressão terrivel, fulminava o
+culpado, atemorisava o innocente; attonitas ficavam as almas
+simples, e a commoção aos sentidos da vista e do ouvido seria
+geral. E eu, alma tibia, intelligencia confusa, fico n'uma estupida
+inacção, indifferente á minha propria causa, e nada acho
+que dizer, nada, mesmo nada a favor de um rei que perdeu a
+corôa e a vida pelo mais inaudito attentado! Ah como sou cobarde!
+Infame me deveriam chamar, esbofetear-me, arrancar-me
+as barbas, lançar-m'as ao rosto com o desprezo; insultar-me
+deveriam todos, dizer-me que pela gorja menti, e obrigar-me
+a soffrer calado todos os vilipendios possiveis. Quem
+quer fazel-o. Por vida minha que era justo; é forçoso que eu
+seja inoffensivo como uma pomba sem fel, para levantar uma
+offensa, para não ter feito pasto dos abutres as entranhas d'esse
+miseravel, sanguinario e impudico scelerado. Monstro de perfidia,
+juntas ao assassinio o adulterio! Como sou estupido!
+É bello na verdade ver-me, a mim, o filho de um rei e pae
+assassinado, a quem céus e terra instigam á vingança, gastar
+a minha indignação em palavras e vãs imprecações, como a
+<span class="pagenum">[61]</span>
+mais vil e desprezivel prostituta. Que vergonha!! Procuremos
+Uma idéa... <span class="instruccoes_cena">(depois de uma pausa prolongada)</span> Eil-a, achei. Ouvi dizer
+que criminosos, assistindo a representações dramaticas, de tal
+modo se perturbaram vendo a sua culpa em scena, que espontanea
+e immediatamente fizeram confissão do seu crime,
+porque o assassino embora mudo trahe-se e falla. Quero que
+os actores representem, na presença de meu tio, a morte de
+meu pae, observarei as suas feições, sondarei as suas impressões;
+se se perturbar, sei o que me cumpre fazer. O espirito
+que me appareceu talvez seja um demonio, porque póde revestir-se
+da fórma de um objecto amado, tem poder sobre as almas
+melancholicas, e quem sabe se na minha fraqueza e dor
+acha os meios para me perder, condemnando-me para sempre.
+Quero ter a certeza completa; o drama em questão será o laço
+armado á consciencia do rei. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Fim do acto segundo</p>
+<span class="pagenum">[63]</span>
+
+
+
+
+<h2>ACTO TERCEIRO</h2>
+
+
+<h3>SCENA I</h3>
+
+<h4>Uma sala no castello de Elsenor</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ
+e GUILDENSTERN</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Então ainda não poderam, nas suas conversas com elle, descobrir
+a causa da desordem da sua intelligencia; d'aquella perigosa
+e turbulenta demencia que se apoderou do seu espirito
+e lhe rouba o descanso?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Confessa sentir esvaír-se-lhe a rasão; mas não conseguimos
+que elle nos revelasse a causa.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Parece pouco disposto a deixar sondar os seus sentimentos.
+Na sua loucura não o abandona um resto de sagacidade; conserva-se
+na defensiva todas as vezes que tentâmos encaminhal-o
+a uma confissão tocante ao seu estado.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Recebeu-os bem ao menos?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Com toda a affabilidade de um homem bem educado.</p>
+<span class="pagenum">[64]</span>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Mas evidentemente constrangido.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Perguntando pouco, mas respondendo ás nossas perguntas
+com a maior naturalidade.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>E experimentaram algum divertimento para o distrahir?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>O acaso fez-nos encontrar no caminho alguns actores; fallámos-lhe
+n'elles, esta nova pareceu agradar-lhe. Estão aqui
+no palacio, e creio já terem recebido ordem para representarem
+esta noite na sua presença.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>É verdade, e pede a vossas magestades que assistam á representação.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Com o maior prazer; estimo vêl-o assim disposto. Queiram
+estimulal-o, senhores, e dirigir a actividade do seu espirito para
+estes divertimentos.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Assim o faremos. <span class="instruccoes_cena">(Sáe com Guildenstern.)</span></p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Deixa-nos tambem, querida Gertrudes. Mandámos chamar
+secretamente a Hamlet, para como por acaso o pôr na presença
+de Ophelia. Seu pae e eu, legitimos espias, collocar-nos-hemos
+de maneira que, sem sermos vistos, assistamos á
+entrevista e possamos julgar pelas suas palavras, se é um amor
+infeliz que assim o faz padecer.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Obedeço retirando-me. Quanto a ti, Ophelia, desejo ardentemente
+que os teus encantos sejam a feliz causa da demencia
+de Hamlet; porque terei então esperança que as tuas virtudes
+o restituirão, a contento de ambos, ao primitivo estado.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Quanto o desejo, senhora.</p>
+<span class="pagenum">[65]</span>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Ophelia, passeia aqui n'esta sala; <span class="instruccoes_cena">(ao rei)</span> vamo-nos collocar,
+senhor; <span class="instruccoes_cena">(a Ophelia)</span> lê n'este livro; esta leitura simulada servirá
+de pretexto á tua solidão. Enganâmo-nos tantas vezes, e quão
+frequentemente acontece, com uma capa de santidade e attitude
+reservada conseguirmos fazer um santo do proprio demonio!</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Oh é bem verdade; que pungente dor esta observação inflige
+á minha consciencia! O rosto da prostituta não é mais
+asqueroso debaixo da mascara do seu arrebique, do que o é o
+meu crime debaixo do falso verniz do meu discurso. Oh peso
+terrivel!</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Hamlet approxima-se, retiremo-nos, senhor. <span class="instruccoes_cena">(O rei e Polonio occultam-se
+atrás da cortina.)</span></p>
+
+<h5>Entra HAMLET</h5>
+
+<p><i>Ser ou não ser</i>, eis o problema. Uma alma valorosa, deve
+ella supportar os golpes pungentes da fortuna adversa, ou armar-se
+contra um diluvio de dores, ou pôr-lhes fim, combatendo-as?
+<i>Morrer, dormir, mais nada</i>, e dizer que por esse
+somno pomos termo aos soffrimentos do coração e ás mil dores
+legadas pela natureza á nossa carne mortal; e será esse
+o resultado que mais devamos ambicionar? <i>Morrer, dormir,
+dormir, sonhar talvez</i>; terrivel perplexidade. Sabemos nós porventura
+que sonhos teremos, com o somno da morte, depois de
+expulsarmos de nós uma existencia agitada? E não deverei eu
+reflectir? É este pensamento que torna tão longa a vida do infeliz!
+Quem ousaria supportar os flagellos e ultrages do mundo,
+as injurias do oppressor, as affrontas do orgulhoso, as ancias
+de um amor desprezado, as lentezas da lei, a insolencia dos
+imperantes, e o desprezo que o ignorante inflige ao merito paciente,
+quando basta a ponta de um punhal para alcançar o
+descanso eterno? Quem se resignaria a supportar gemendo o
+peso de uma vida importuna, se não fosse o receio de alguma
+cousa alem da morte, esse ignoto paiz, do qual jámais viajante
+regressou? Eis o que entibia e perturba a nossa vontade; eis o
+que nos faz antes supportar as nossas dores presentes do que
+procurar outros males que não conhecemos. Assim, somos cobardes
+todos, mas pela consciencia; assim a brilhante côr da
+<span class="pagenum">[66]</span>
+resolução se transforma pela reflexão em pallida e livida penumbra,
+e basta esta consideração para desviar o curso das
+emprezas mais importantes, e fazer-lhes perder até o nome de
+acção. Mas silencio, vejo a linda Ophelia. Joven beldade, lembra-te
+dos meus peccados nas tuas orações.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Como tem vossa alteza passado estes dias ultimos?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Bem, agradeço-te do coração.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Senhor, tenho dadivas e lembranças suas que ha muito lhe
+desejava restituir. Permitta-me que lh'as devolva.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Eu! de certo que não, nunca te dei nada.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>O principe sabe perfeitamente que me fez essas dadivas, e
+as doces palavras que as acompanharam ainda lhes realçaram
+o valor; agora que perderam todo o seu perfume, tome-as,
+principe, porque para uma alma nobre, as mais ricas dadivas
+perdem o seu valor, no momento em que aquelle que nol-as
+fez só nos mostra indifferença. Receba-as, pois, senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ah, ah, és virtuosa.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Meu senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>És bella.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Que diz vossa alteza?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Digo que se és virtuosa e bella, deves evitar toda a communicação
+entre a tua virtude e a tua belleza.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Que melhor commercio ha para a belleza que o da virtude?</p>
+<span class="pagenum">[67]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>A influencia da belleza será mais prompta em metamorphosear
+a virtude em vil cortezã, do que a força da virtude
+em transformar a belleza á sua imagem. Antigamente seria
+paradoxo, hoje é um facto provado. Amei-te n'outro tempo, é
+verdade.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Vossa alteza bem m'o fez acreditar.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Fizeste mal em acreditar. Porque embora a virtude se inocule
+na nossa primitiva natureza, sempre nos ficam restos d'ella.
+Nunca te amei.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Maior foi o meu engano.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Professa, Ophelia, encerra-te n'um claustro. Para que queres
+continuar uma raça de peccadores; quanto a mim julgo-me
+ainda assás honesto; e comtudo podia formular contra mim
+taes accusações, que melhor teria valido, que minha mãe me
+não tivesse dado á luz. Sou orgulhoso, vingativo e ambicioso;
+gero no meu cerebro tantas acções más, que o meu pensamento
+não basta para as distinguir, nem a minha imaginação para lhes
+dar uma fórma, e falta-me o tempo para as executar. Que
+vantagem haverá pois que seres como eu se rojem como reptis
+entre o céu e a terra? Todos somos infames, não te fies em
+nenhum homem; vae, recolhe-te a um claustro. Onde está teu
+pae?</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Em casa, meu senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que lhe fechem as portas para impedir que represente de
+louco fóra de casa. Adeus.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Deus misericordioso, tende piedade de Hamlet.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Se alguma vez te casares, dar-te-hei como dote esta triste verdade.
+Sê tu fria como o gêlo; se fores pura como a neve a calumnia
+não te poupará. Entra para um claustro, professa, adeus.
+<span class="pagenum">[68]</span>
+Mas se absolutamente precisas um marido, então escolhe um
+louco, porque os homens assisados sabem em que monstros vós
+as mulheres os tornaes. Professa, recolhe-te a um convento,
+mas avia-te. Adeus.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Poderes celestes, restitui-lhe a rasão!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Tambem ouvi fallar da vossa loquacidade. Deus deu-vos um
+porte e vós o transformaes por vossa culpa. Saltitaes, requebrae-vos;
+gestos e affabilidade são artificio, zombaes das creaturas
+de Deus, e fazeis passar por ignorancia o que é simples
+e pura affectação. Nem quero pensar em vós, mulheres; foi o
+que me enlouqueceu. Digo que não teremos mais casamentos,
+todos que estão casados viverão, excepto um, os outros ficarão
+como estão. Professa, entra para um convento, vae. Adeus.
+<span class="instruccoes_cena">(Hamlet sáe.)</span></p>
+
+<h5>OPHELIA <span class="instruccoes_cena">(só)</span></h5>
+
+<p>Oh que nobre intelligencia está ali desthronada. A perspicacia
+do homem de côrte, a espada do guerreiro, a palavra do
+sabio, o futuro d'este reino, o espelho do bom tom, o typo dos
+modos nobres, o modelo em que todos fictavam os olhos, tudo
+destruido e destruido sem esperança; e eu, a mais afflicta e infeliz
+das mulheres, eu que saboreei a inebriante ambrosia dos
+seus juramentos de amor, estou condemnada a ver essa potente
+e elevada rasão, similhante ao bronze fendido, não dar
+senão sons falhos e dissonantes; e tanta belleza e juventude
+crestadas pelo sôpro da demencia! Oh infeliz, oh desgraçada,
+que vi o que vi, e vejo o que vejo!!!</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Sáem de trás da cortina o REI e POLONIO</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>O amor! não é a ella que elle dedica a sua affeição; alem
+d'isso o seu fallar, aindaque um pouco falto de logica, não
+tem cunho de loucura. Ha na sua alma alguma dor secreta.
+Receio algum perigo que nos seja fatal. Para prevenir esse resultado,
+eis o plano que formei e no qual assentei. Quero que
+Hamlet parta sem demora para Inglaterra, para reclamar o tributo
+a que esse paiz se nega e a que é obrigado. Talvez que
+o mar, a mudança de clima, a vista de objectos novos, lhe restituam
+<span class="pagenum">[69]</span>
+a rasão, expulsando do seu coração aquella obstinada
+preoccupação. Que lhe parece?</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Parece-me acertado. Comtudo persisto na minha idéa, que
+um amor desprezado é a causa unica da sua dor. <span class="instruccoes_cena">(A Ophelia)</span>
+Não precisas referir-nos o que te disse o sr. Hamlet. Tudo ouvimos.
+<span class="instruccoes_cena">(Ao rei)</span> Senhor, faça o que lhe parecer conveniente, mas
+se me quer dar ouvidos, diga á rainha, que, depois da representação,
+o chame a sós e inste para conhecer d'elle a causa
+da sua mágua; porém cumpre que lhe falle severamente: com o
+vosso assentimento ouvirei escondido toda a conversação. Se a
+rainha não podér penetrar aquelle espirito rebelde a toda a
+confidencia, ordene-lhe então a partida, e desterre-o, senhor,
+para o logar que a prudencia lhe dictar.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Concordo plenamente comtigo; nos grandes é que a demencia
+deve ser mais vigiada. <span class="instruccoes_cena">(Sáem todos.)</span></p>
+
+
+<h3>SCENA II</h3>
+
+<h4>Uma sala no castello de Elsenor</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram HAMLET e differentes actores</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(a um dos actores)</span></h5>
+
+<p>Não esqueças de dizer aquelle trecho, tal qual o declamei
+na tua presença; mais que tudo fogo e energia; mas se o recitares
+como a maior parte dos actores, mais me valeria ouvir a minha
+prosa na bôca de um pregoeiro. Não movas descompassadamente
+os braços, acciona moderadamente; no meio mesmo da
+torrente, da tempestade, do tufão, da paixão, procura ser comedido.
+Nada impressiona mais desfavoravelmente, do que ver
+homens robustos reduzirem a pó uma paixão e escorchar os
+ouvidos dos assistentes, que, pela maior parte, não merecem senão
+uma declamação absurdamente arrebatada e uma acção
+desordenada. Açoutados mereciam esses actores, cujo accionado
+mais parece renhida batalha, e que mais crueis se fingem
+que um Herodes de comedia. Peço-te que evites esses defeitos.</p>
+<span class="pagenum">[70]</span>
+
+<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5>
+
+<p>Pela minha parte, prometto-lh'o, senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não vás tambem caír no excesso contrario, sirva-te de guia
+a tua intelligencia. Accommoda a acção ás palavras, as palavras
+á acção, tendo sempre em vista a naturalidade; só é proprio
+da scena intelligente, que foi e é o espelho em que se
+deve reflectir a natureza, mostrar a virtude tal qual é, a vaidade
+sem véu, e cada tempo e cada idade com a sua physionomia
+propria e com o cunho de verdade. Se se excede, ou se
+fica áquem do fim proposto, poderá excitar-se a hilaridade do
+homem ignorante, mas afflige-se o sensato, cujo juizo vale mais
+que o suffragio de uma sala inteira. Oh! vi representar e ouvi
+elogiar actores, que, Deus me perdôe, nada tinham de christão
+na voz, nada de christão, pagão ou mesmo humano no porte,
+e que se estorciam e bramavam de tal modo, que sempre os
+julguei obra de algum aprendiz da natureza, que, querendo
+fabricar homens, errou a vocação, e não tinha produzido senão
+uma desgraçada imitação da humanidade.</p>
+
+<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5>
+
+<p>Espero em Deus, que vossa alteza não nos poderá notar
+taes defeitos; entre nós, senhor, estão banidas de todo as exagerações.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Mas que o estejam na verdade; que os bobos não digam
+mais do que ao que são obrigados pela sua parte; alguns ha
+que introduzem alguma facecia para excitar o riso dos espectadores
+ignaros no ponto em que mais attenção se reclama da
+parte do publico. É um desacerto, e o bobo que recorre a esses
+expedientes, mostra uma pretensão desgraçada. Vão-se
+agora preparar. <span class="instruccoes_cena">(Os actores sáem.)</span></p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram POLONIO, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(a Polonio)</span></h5>
+
+<p>Então o rei está decidido á nossa peça?</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Com certeza, e a rainha tambem. Não tardam.</p>
+<span class="pagenum">[71]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Diga então aos actores que se aviem. <span class="instruccoes_cena">(Polonio sáe.)</span></p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(continuando, a Rosencrantz e Guildenstern.)</span></h5>
+
+<p>Querem fazer-me o favor de tambem ir apressar os preparativos.</p>
+
+<h5>AMBOS</h5>
+
+<p>Sim, meu senhor. <span class="instruccoes_cena">(Sáem.)</span></p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra HORACIO</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ah, és tu, Horacio?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Estou sempre ás suas ordens, meu senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Meu caro Horacio, és a flor dos homens, cujo trato tenho
+cultivado.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Meu querido senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não julgues que te lisonjeio; que posso eu esperar de ti,
+cujas unicas rendas são a jovialidade e a honestidade. Quem
+lisonjeia um pobre? Não, que a lisonja roja-se aos pés da opulencia
+estupida, e o servilismo curva o joelho, á espera do comprador.
+Escuta, depois que a minha alma pôde livremente
+escolher e soube distinguir os homens, marcou-te com o sêllo
+da predilecção, porque reconheceu em ti um homem que não
+se abate pelos revezes; um homem que acceita com a mesma
+indifferença os favores e os rigores da fortuna; felizes os mortaes
+em quem o juizo e as paixões têem igual imperio, e não são
+um joguete nas mãos da fortuna. Mostrem-me um homem que
+não seja escravo das paixões, e terá conquistado, como tu, o
+meu coração, e abrir-lhe-hei o santuario da affeição mais íntima.
+Basta sobre o assumpto. Deve-se hoje representar na presença
+do rei um drama, no qual ha uma scena, que é a historia
+da morte de meu pae, cujos pormenores já em tempo te
+contei. Quando se approximar a scena, observa meu tio, com
+toda a vigilancia que auctorisam as minhas suspeitas; se o
+segredo do seu crime se não revelar por alguma palavra, então
+<span class="pagenum">[72]</span>
+era a apparição obra do demonio, e as minhas imaginações
+são mais negras que as lavas e cinzas de um vulcão. Tu
+observa-o attentamente, eu não o perderei de vista; depois,
+juntando os nossos juizos, concluiremos conforme ao que virmos.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Muito bem, senhor, tão firme estarei no meu posto de observação,
+que juro por Deus, que me não escapará um movimento,
+uma impressão da sua alma.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Eil-os que chegam para a representação; agora, cumpre-me
+ser espectador indifferente. <span class="instruccoes_cena">(Ouve-se a marcha real e clarins.)</span></p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ,
+GUILDENSTERN e a CORTE</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Como passa nosso sobrinho Hamlet?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Melhor não póde ser; em verdade passei a viver como os
+camaleões, nutro-me só de ar, e alimento-me de promessas,
+as iguarias mais finas não me satisfariam melhor.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>A tua resposta é-me inintelligivel; não é de certo a mim que
+ella é dirigida.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Pois nem a mim. <span class="instruccoes_cena">(A Polonio.)</span> Não me disse que já tinha representado
+uma vez, quando cursava a universidade?</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>É verdade, senhor, e era reputado um habil actor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que parte representou?</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>A de Julio Cesar; assassinaram-me no capitolio; Bruto apunhalava-me.</p>
+<span class="pagenum">[73]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que brutalidade apunhalar, e n'aquelle logar, um tão excellente
+bezerro. Os actores já estão promptos?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Sim, meu senhor, esperam só as ordens.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Vem, meu Hamlet, sentar-te a meu lado.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não, minha mãe; <span class="instruccoes_cena">(mostrando Ophelia)</span> este metal tem mais força
+de attracção.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Que me diz agora, senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ser-me-ha permittido estar a vossos pés, senhora? <span class="instruccoes_cena">(Senta-se
+no chão aos pés de Ophelia.)</span></p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Não, meu senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Queria dizer, recostar a cabeça sobre vossos joelhos.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Sim, meu senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Pensaveis talvez que tivesse outra idéa?</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Nada pensava.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>É um pensamento este digno de um coração de donzella.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>O que, senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Nada.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Vejo-o hoje alegre, senhor.</p>
+<span class="pagenum">[74]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Quem, eu?</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Sim, vossa alteza.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Sou o seu bobo e nada mais. Cousa alguma ha melhor para
+o homem do que a alegria. Repare, veja como minha mãe está
+hoje muito alegre, e ainda não ha duas horas que meu pae
+morreu.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Vossa alteza engana-se por certo; ha mais de duas vezes
+dois mezes.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Tanto tempo!! n'esse caso use o demonio o lucto, eu quero
+vestir-me de arminhos. Oh céus, morto ha dois mezes, e ainda
+não esquecido, não é então de estranhar que a recordação de
+um grande homem dure mais de seis mezes; mas, pela Virgem
+Santa, deve então ter edificado igrejas, aliás arriscava-se
+a que o esquecessem, como aquelle a quem lavraram este epitaphio:</p>
+
+<p style="text-align: center;"><i>Aqui jaz esquecido um cavallo de pau.</i></p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Soam os clarins, começa a pantomima</p>
+
+<p><span class="instruccoes_cena">(Um rei e uma rainha entram em scena, o seu aspecto é de namorados, abraçam-se.
+A rainha ajoelha aos pés do rei, mostrando pelos seus gestos que lhe protesta o
+mais vivo amor. O rei levanta-a, e inclina a cabeça sobre o seu hombro; depois
+deita-se n'um banco coberto de flores. A rainha vendo-o adormecido, sáe. Apparece
+um personagem que lhe tira a corôa e a leva aos labios, lança veneno n'um
+ouvido do rei, e sáe em seguida. Volta a rainha, acha o rei morto, e dá mil signaes
+de desespero. O envenenador seguido por duas ou tres pessoas, chega e
+parece lamentar-se com a rainha. O cadaver é levado da scena. O envenenador
+requesta a rainha, dá-lhe presentes. Ella mostra a principio repugnancia, mas
+acaba por acceitar o amor offerecido. Sáem.)</span></p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Que significa esta scena, senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Nada que seja bom, é um laço armado ao crime.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Esta pantomima indica sem duvida o entrecho da peça?</p>
+<span class="pagenum">[75]</span>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra o PROLOGO</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Vamos sabel-o, os comediantes não podem guardar um segredo,
+têem por costume fallar sempre.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Explicará elle o que significa a pantomima?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Sem duvida, não só essa, mas todas as que lhe quizer apresentar,
+qualquer que seja a sua especie, e terá a explicação
+prompta.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>O principe é mau, deixe-me seguir a peça.</p>
+
+<h5>O PROLOGO</h5>
+
+<div class="poesia">
+Pedimos, para nós, toda a vossa indulgencia;<br>
+Para a nossa tragedia, attenta paciencia.<br>
+</div>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Parece antes divisa de annel do que prologo.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Tão curto, senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Como o amor de uma mulher.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram um REI e uma RAINHA</p>
+
+<h5>O REI DA PEÇA</h5>
+
+<div class="poesia">
+Trinta vezes de Phebo o carro luminoso<br>
+De Tellus e Neptuno, o largo giro ha feito,<br>
+E trinta vezes doze a lua, astro saudoso,<br>
+De refrangida luz, á terra ha dado o preito,<br>
+Desde que as nossas mãos, com mutuo amor se deram,<br>
+E as bençãos d'Hymeneu o sacro nó teceram.<br>
+</div>
+
+<h5>A RAINHA DA PEÇA</h5>
+
+<div class="poesia">
+Possamos lua e sol, ver outras tantas vezes,<br>
+Antes que d'este amor se rompa o doce laço;<br>
+Mas seguem-se á ventura as maguas, os revezes,<br>
+E vejo-vos caído, ha pouco, em tal cansaço,<br>
+Tão triste, meu senhor, tão triste e tão mudado,<br>
+Que não posso esconder mais tempo o meu cuidado.<br>
+<span class="pagenum">[76]</span>
+Mas que não se perturbe o vosso animo forte<br>
+Porque inquieta eu sou, e ousei pensar na morte.<br>
+De affecto e de anciedade igual medida temos,<br>
+Ou nullos um e o outro, ou um e o outro extremos.<br>
+Se é grande o meu amor, demais senhor o vêdes,<br>
+Que a par anda o receio, em minha fronte o lêdes.<br>
+Sempre que o amor é grande, as apprehensões mais breves<br>
+Transformam-se de prompto em maximos temores;<br>
+Quando é grande o receio, os affectos mais leves<br>
+Ascendem de repente aos mais grandes amores.<br>
+</div>
+
+<h5>O REI DA PEÇA</h5>
+
+<div class="poesia">
+Bem cedo é força, amor, que d'este mundo eu parta,<br>
+Bem vês, d'esta alma a luz já quasi que se aparta.<br>
+Tu viverás sem mim, sob este céu formoso,<br>
+Querida, idolatrada e sempre honesta e casta.<br>
+Depois, talvez depois, quem sabe? um novo esposo...<br>
+Um homem justo e bom...<br>
+</div>
+
+<h5>A RAINHA DA PEÇA</h5>
+
+<div class="poesia">
+<span style="margin-left: 13em;"> Oh! basta, senhor, basta!</span><br>
+Seria um novo amor perfidia negra e infame.<br>
+Amaldiçoado seja o dia em que outro eu ame!<br>
+Embora justo e bom, segundo companheiro<br>
+Não n'o acceita ninguem, sem ter morto o primeiro.<br>
+</div>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Isto é absintho, e que absintho!</p>
+
+<h5>A RAINHA DA PEÇA</h5>
+
+<div class="poesia">
+Poisque motivo arrasta a viuva ao casamento?<br>
+Acaso um novo amor? um nobre sentimento?<br>
+Um sordido interesse: e eu cravára no peito<br>
+De meu morto senhor a ponta de uma espada,<br>
+Cada vez que, olvidando a antiga fé jurada,<br>
+Compartisse outro ser commigo o mesmo leito.<br>
+</div>
+
+<h5>O REI DA PEÇA</h5>
+
+<div class="poesia">
+Creio bem, que pensaes o que dizeis, se creio?!<br>
+Mas quanta, oh! quanta vez, se quebra a acção no meio,<br>
+Nasce a resolução escrava da memoria,<br>
+Producto da violencia, é curta a sua historia.<br>
+A fructa emquanto verde em qualquer ramo atura<br>
+Mas, sem abalo algum, tomba apenas madura.<br>
+Fatalmente olvidando o que a nós nos devemos<br>
+Não pagâmos jámais, a divida esquecemos.<br>
+O que durante a dor parece a eternidade,<br>
+Mal extincta a paixão, cessa de ser vontade.<br>
+O jubilo e o martyrio, ainda os mais completos,<br>
+Destruindo-se a si, destroem seus decretos.<br>
+Onde o prazer mais ri, mais chora a dor pungente;<br>
+Entristece a alegria, alegra-se a tristeza,<br>
+<span class="pagenum">[77]</span>
+Á causa mais subtil, ao mais leve accidente,<br>
+E este um dom fatal da vária natureza.<br>
+Passâmos pelo mundo, e nada aqui tem dura<br>
+Que até o proprio amor muda com a ventura;<br>
+Porque é problema ainda occulto aos pensadores<br>
+Se dá o amor fortuna, ou se a fortuna amores.<br>
+Um principe decáe? somem-se os que os adulam;<br>
+Um mendigo se eleva? os amigos pullulam.<br>
+Até aqui o amor seguiu sempre a fortuna;<br>
+Quem não precisa encontra em toda a parte amigos,<br>
+E quem precisa e pede, é lepra que importuna,<br>
+Todos transforma e muda em feros inimigos,<br>
+Mas para concluir, escuta o corollario:<br>
+A vontade e o destino, andam tanto ao contrario<br>
+Que o mais leve projecto é sempre letra morta.<br>
+Assim crês, não terás jamais outro marido;<br>
+Pois abra-me o sepulchro a sua eterna porta<br>
+E tudo irá sumir-se em um perpetuo olvido.<br>
+</div>
+
+<h5>A RAINHA DA PEÇA</h5>
+
+<div class="poesia">
+Negue-me a terra o pão, e a luz o firmamento!<br>
+O meu goso maior transforme-se em tormento!<br>
+Minha esperança e fé tornem-se em negro inferno!<br>
+Seja a fome em prisão o meu futuro eterno!<br>
+Não tenha eu, viva ou morta, o mais curto repouso,<br>
+Se, viuva uma vez, tomar um outro esposo!<br>
+</div>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>E se lhe acontecer violar o juramento?</p>
+
+<h5>O REI DA PEÇA</h5>
+
+<div class="poesia">
+Solemne juramento!... Amor, deixa-me agora;<br>
+Exhausta sinto a fronte, e bom grado entregára<br>
+Os restos d'este dia á paz consoladora<br>
+Dos braços de Morpheu. Adeus! Oh! sempre cara. <span class="instruccoes_cena">(Adormece.)</span><br>
+</div>
+
+<h5>A RAINHA DA PEÇA</h5>
+
+<div class="poesia">
+Que um somno brando e doce embale a tua mente<br>
+E a desgraça jamais entre nós dois se assente!... <span class="instruccoes_cena">(Sáe a rainha.)</span><br>
+</div>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Senhora, como acha esta peça?</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>A rainha parece-me que faz demasiados protestos.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Mas dada a palavra, não póde faltar.</p>
+<span class="pagenum">[78]</span>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Conhece a peça? não contém nada reprehensivel?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Absolutamente nada; tudo quanto contém é só gracejo, até
+se envenena por gracejo. É a peça mais inoffensiva que póde
+haver.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Que titulo tem?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>O <i>Laço</i>, já se sabe, por metaphora. O assumpto da peça é
+um assassinio commettido em Vienna. O rei chama-se Gonzaga,
+sua mulher Baptista. Vae ver, um crime horrivel. Mas que
+importa a vossa magestade e a mim, que temos a consciencia
+pura e que nada temos a receiar! O peior é para aquelles a
+quem punge algum espinho, a nós nada nos pesa na consciencia.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra LUCIANO</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(continuando)</span></h5>
+
+<p>É este um chamado Luciano, sobrinho do rei.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Vossa alteza faz o serviço do côro.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Podia até servir de ponto n'uma conversa sua com o seu
+amante; o caso era eu ver manobrar os dois titeres.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Sois na verdade mordaz, principe; sois bem mordaz.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>A sua pena seria que eu deixasse de o ser.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>De bem para melhor, de mal para peior.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>É a sorte que a espera na escolha de um marido! Começa,
+<span class="pagenum">[79]</span>
+assassino. Põe de parte esses horriveis tregeitos, avia-te, começa.</p>
+
+<div class="poesia">
+<span style="margin-left: 5em;"> Eis o corvo que avança,</span><br>
+Chamando em seu grasnar a lugubre vingança.<br>
+</div>
+
+<h5>LUCIANO</h5>
+
+<div class="poesia">
+O pensamento negro, o braço bem disposto,<br>
+A droga preparada, a hora favoravel,<br>
+Cumplice a occasião, a ver nem um só rosto.<br>
+Mistura infecta e immunda, extracto abominavel<br>
+De peçonhenta sarça á meia noite achada,<br>
+Tres vezes polluida e tres envenenada<br>
+D'Hecate á maldição, possa a tua virtude<br>
+Fechar uma existencia, e abrir um ataúde.<br>
+</div>
+
+<p class="instruccoes_cena">(Deita veneno n'um ouvido do rei adormecido.)</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Envenena-o no jardim, para se apoderar da corôa. O nome
+do rei é Gonzaga; é uma historia authentica escripta no mais
+elegante italiano. Verão como logo o assassino obtem o amor
+da mulher de Gonzaga.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>O rei levantou-se.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Quê!! um pequeno clarão apenas, já o assusta?</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Que tem, senhor?</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Cesse a peça.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Tragam luzes. Saiâmos.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Luzes, venham luzes, luzes. <span class="instruccoes_cena">(Todos sáem, excepto Hamlet e Horacio.)</span></p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<div class="poesia">
+Sim! que fuja e que chore o cervo mal ferido,<br>
+E o que ao golpe escapou, gose um prazer profundo.<br>
+Quando um chora, outro ri. Oh! sempre assim ha sido,<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> E assim é feito o mundo.</span><br>
+</div>
+
+<p>Se alguma vez a fortuna me maltratar, não bastaria uma
+scena de effeito como esta, acrescentando-lhe um chapéu ornado
+de pennas, e duas rosas de Provença nos laços dos sapatos,
+para que me admittissem n'uma companhia dramatica.</p>
+<span class="pagenum">[80]</span>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Talvez o admittissem, mas com meia paga.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ou inteira.</p>
+
+<div class="poesia">
+Porque sabes, Damon, bem sabes tu que outr'ora<br>
+Mandava n'este reino, que vês hoje aviltado,<br>
+Qual Jupiter no Olympo, um grande rei... agora<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> Governa aqui... um chavo.</span><br>
+</div>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Foi pena não rimar.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Meu querido Horacio, aposto mil libras esterlinas, em como
+a sombra fallou só a verdade. Reparaste?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Em tudo reparei, senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Quando se tratava do envenenamento?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Tudo observei.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ah! ah! ah! quero musica, tanjam as charamelas.</p>
+
+<div class="poesia">
+Porque, se da comedia o rei não gosta nada,<br>
+Sei eu dar a rasão... não gosta, está dada.<br>
+</div>
+
+<p>Venha a musica, quero muita musica. <span class="instruccoes_cena">(Entram Rosencrantz e Guildenstern.)</span></p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Senhor, permitta-me que lhe dê uma palavra.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Mil até, se n'isso fizer gosto.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Senhor... o rei...</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que é?... que me vem dizer d'elle?</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Retirou-se aos seus aposentos, estranhamente indisposto.</p>
+<span class="pagenum">[81]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Pelo vinho?</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Não, senhor, mas pela colera.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Mais assisado seria terem chamado um medico. Eu não faria
+senão exacerbar a sua colera com a minha presença.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Queira, senhor, ter mais nexo nos seus discursos, e não se
+afastar assim tão bruscamente da questão.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Escutal-o-hei tranquillamente. Falle.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>A sua rainha e mãe me envia a vossa alteza.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Bemvindo seja.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Senhor, essa polidez é mal cabida n'esta occasião. Se me
+promette responder rasoavelmente, executarei então as ordens
+de sua mãe, quando não, retiro-me pedindo desculpa a vossa
+alteza.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não posso.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>O que, meu senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Responder rasoavelmente; a minha intelligencia enfermou,
+no emtanto dar-lhe-hei uma resposta, ou antes como ordena a
+minha mãe, a melhor que podér. Diga-me agora, que pretende
+de mim a rainha?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Encarregou-nos de lhe dizer, principe, que o seu comportamento
+lhe causou espanto e dor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ah! sou pois um filho tão extraordinario que causo espanto
+e dor a minha mãe! Nada mais lhe disse? Fallem.</p>
+<span class="pagenum">[82]</span>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Deseja fallar-lhe, alteza, no seu quarto, antes de o principe
+se deitar.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Obedecer-lhe-hemos, aindaque fosse dez vezes nossa mãe.
+Tem mais alguma cousa a dizer?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Houve tempo em que o principe era meu amigo.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ainda hoje o sou, juro-o por estes dez dedos.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Senhor, qual é a causa da sua dor profunda? É impor-se
+um constrangimento inutil, guardar esse segredo para comnosco,
+que somos tão seus amigos.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Inquieta-me o meu futuro!</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Como póde isso ser, pois o rei já o escolheu para successor
+ao throno de Dinamarca?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>É verdade; mas guardado está o bocado... o proverbio
+é antigo.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram differentes actores cada um com uma charamela</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ah! chegam as charamelas, dá-me uma. <span class="instruccoes_cena">(Tira a charamela a um
+dos actores.)</span> Quer que o acompanhe? então deixe de me perseguir
+como o caçador persegue a caça.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Se o meu zêlo, senhor, me faz obstinado, é porque a affeição
+me torna importuno.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não o posso comprehender, faz-me favor de tocar n'esta charamela.</p>
+<span class="pagenum">[83]</span>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Senhor, eu não sei!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Peço-lhe.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Creia-me, senhor, não posso.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Supplico-lhe.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Se nunca soube tocar tal instrumento!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Pois mais difficil é mentir. Com os quatro dedos e o pollegar
+tapam-se e destapam-se por sua vez os orificios; sopre, e
+verá que encantadora harmonia produz. Vamos.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Mas, senhor, eu não posso nem sequer tirar um som d'este
+instrumento; falta-me o talento.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que especie de imbecil me julga então? Sou a seus olhos
+um instrumento de que pretende tirar sons, e que parece conhecer
+tão bem. Pretende sondar até ao fundo da minha alma,
+para descobrir o meu segredo; queria então fazer vibrar todas
+as cordas do meu sentimento. D'este pequeno instrumento
+<span class="instruccoes_cena">(Mostrando-lhe a charamela)</span> tiram-se sons e notas as mais melodiosas;
+e comtudo nas suas mãos não póde fallar. Pela Virgem
+santa, sou então mais facil de tocar do que uma flauta? O que
+lhe asseguro é que se me julga um instrumento nas suas mãos,
+nunca conseguirá fazel-o fallar. Está muito enganado commigo.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra POLONIO</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(continuando)</span></h5>
+
+<p>Guarde-o Deus.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Senhor, a rainha deseja fallar-lhe immediatamente.</p>
+<span class="pagenum">[84]</span>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(approximando-se de uma janella)</span></h5>
+
+<p>Vê acolá aquella nuvem que tem quasi a fórma de um camello?</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Não ha duvida, dir-se-ia effectivamente um camello.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Parece-se mais com uma doninha.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>É verdade! tem o feitio da doninha.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ou de uma baleia?</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Realmente, com o que se parece é com uma baleia.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Agora vou ter com minha mãe, hão de acabar por enlouquecer-me
+devéras. Vou já.</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Vou communical-o á rainha. <span class="instruccoes_cena">(Polonio sáe.)</span></p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Já! É facil dizel-o. Deixem-me sós, meus amigos. <span class="instruccoes_cena">(Sáem todos
+excepto Hamlet.)</span></p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(só)</span></h5>
+
+<p>É esta a hora da noite propria dos mysterios da magia, a
+hora em que os tumulos se abrem, em que o inferno exhala
+sobre a terra o seu sopro contagioso; agora sinto-me capaz de
+beber sangue ainda fumegante, e commetter actos que o dia
+consternado não poderia presencear sem terror! Prudencia!
+Vamos ao quarto de minha mãe. Oh! meu coração, não dispas
+o teu vigor; firmeza agora, mas que o coração de Nero nunca
+entre em meu peito. Sejamos inflexiveis, mas não filho desnaturado;
+seja a minha lingua um punhal, mas minha mão esteja
+desarmada; e n'esta occasião sejam a minha bôca e o meu
+coração obrigados pela rasão a dissimular. Por mais violentas
+que sejam as minhas palavras, dae-me força, meu Deus, para
+que sejam sempre comedidas, assim como os meus actos. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p>
+<span class="pagenum">[85]</span>
+
+
+<h3>SCENA III</h3>
+
+<h4>Um quarto no castello de Elsenor</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram o REI, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Ha n'elle alguma cousa que me desagrada, e creio que haveria
+perigo para nós em não vigiar a sua loucura; façam pois
+todos os preparativos de viagem. Vou dar as ordens, e quero
+que parta sem demora para Inglaterra acompanhado pelos senhores.
+O interesse da nossa corôa me veda o expor-me aos
+continuos perigos com que a sua demencia me ameaça.</p>
+
+<h5>GUILDENSTERN</h5>
+
+<p>Vamo-nos preparar. É um receio santo e salutar o que tem
+por objecto assegurar a salvação de innumeras existencias, que
+depende da vida de vossa magestade.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>É um dever que toca a cada um na sua esphera individual,
+o applicar todas as suas forças e toda a energia para defender
+a propria vida contra qualquer ataque; quanto mais obrigado
+a fazel-o é aquelle de cuja vida dependem tantas existencias!
+Quando um rei morre, não morre só, é um turbilhão que attrahe
+tudo quanto encontra no caminho, ou lhe fica proximo:
+roda colossal fixada no cume de uma elevada montanha, cujos
+gigantescos raios estão carregados de innumeros accessorios,
+e cuja quéda os impelle forçosamente a um desastre commum.
+Quando o rei padece, padecem todos.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Preparem-se, peço-lh'o, para uma partida immediata, porque
+estamos resolvidos a pôr um termo ás causas de inquietação
+que demasiado livremente se dão n'este paiz.</p>
+
+<h5>AMBOS</h5>
+
+<p>Não nos faremos esperar. <span class="instruccoes_cena">(Sáem.)</span></p>
+<span class="pagenum">[86]</span>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra POLONIO</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>Senhor, Hamlet entrou agora para o quarto de sua mãe;
+occultar-me-hei cuidadosamente para ouvir a sua conversa. Asseguro
+a vossa magestade que a rainha o vae reprehender severamente.
+É conveniente, como el-rei muito bem disse, que
+outros ouvidos que não sejam os de mãe, naturalmente propensos
+á indulgencia, ouçam o que se disserem mutuamente.
+Adeus, meu senhor; virei aos seus quartos antes que vossa
+magestade se recolha, e o rei será sabedor de tudo quanto se
+passou.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Obrigado, Polonio. <span class="instruccoes_cena">(Polonio sáe.)</span></p>
+
+<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(só)</span></h5>
+
+<p>O meu crime já não tem perdão no céu, está marcado pelo
+estigma da maldição divina, como o foi o primeiro fratricida.
+Apesar de todos os meus desejos, não posso orar; pareço um
+homem que duas occupações reclamam, e que, não sabendo
+por qual optar, não escolhe nenhuma. Poisque, quando sobre
+esta mão maldita se formasse uma crosta de sangue mais espessa
+que a propria mão, não teria o céu bastante misericordia
+para que a onda da sua graça a purificasse e a tornasse branca
+como a neve? Para que serve a bondade divina, senão para remir
+as nossas culpas? De que vale a oração, se não tem a dupla
+virtude de prevenir a nossa quéda, ou obter o perdão depois
+d'ella? Dirijâmos as nossas supplicas ao céu, já que não
+podemos evitar o crime consummado. Mas, infeliz, como hei de
+orar? Perdoae-me, Senhor, o meu crime nefando. Não posso,
+poisque possuo os objectos que me induziram ao assassinio, corôa,
+throno e consorte. Poder-se-ha obter o perdão, quando se
+conservam os fructos do crime? N'este mundo corrompido, a iniquidade
+póde a preço de oiro desviar o curso da justiça, e com
+o producto do crime comprar a impunidade; mas o céu é justo,
+todo o subterfugio é inutil; ali os nossos actos são justamente
+avaliados e os nossos crimes conhecidos. Que devo fazer? Nada
+me resta. Tentemos o arrependimento. Grande é a sua efficacia;
+mas que póde n'aquelle a quem mesmo o arrepender-se
+é vedado? Oh! deploravel condição, oh! consciencia negra
+como a morte, oh! minha alma, não tens perdão, e quanto
+<span class="pagenum">[87]</span>
+mais te esforçares por obtel-o, mais aggravas a tua situação.
+Anjos do céu, vinde em meu auxilio, tentae um esforço supremo.
+Dobrae-vos, joelhos rebeldes. E tu, meu coração, que as
+tuas fibras de aço voltem ao estado primitivo das do recem-nascido.
+Ainda me resta esta ultima esperança. <span class="instruccoes_cena">(Retira-se a um
+lado da scena, ajoelha e ora.)</span></p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra HAMLET</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(vendo o rei)</span></h5>
+
+<p>A occasião é propicia, está orando. Coragem, Hamlet. Sim,
+mas salvar-se-ía a sua alma, e não é essa a minha vingança
+desejada. Reflictâmos; um scelerado assassina meu pae, e eu,
+seu filho unico, abro as portas do céu a esse infame! Seria uma
+recompensa e não um castigo. Assassinou meu pae, entregue
+ás preoccupações da carne, quando seus peccados mais vivazes
+estavam, como as flores na primavera; e quem sabe, a não
+ser o céu, que contas daria ao Creador? as penas eternas, de
+certo, não o pouparam. Seria uma vingança immolar este scelerado,
+quando a sua alma deve estar pura, quando está preparado
+para a sua ultima viagem? Não! Entra na tua bainha,
+minha espada, e espera para ferir, golpe mais terrivel e justo.
+Quando estiver ebrio ou adormecido, ou encolerisado, ou immerso
+nos prazeres de um leito incestuoso, ou absorvido pelo
+jogo, ou blasphemando, ou praticando algum acto contrario
+á salvação da sua alma, então fere, que as penas do inferno
+serão poucas para um tal crime. <span class="instruccoes_cena">(Olhando para o rei.)</span> Prolonga
+ainda os teus dias enfermos: adiar não é desistir. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Sobem as minhas palavras, o pensamento não, e as palavras
+sem o pensamento não chegam ao céu. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p>
+
+
+<h3>SCENA IV</h3>
+
+<h4>Um quarto no castello</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram a RAINHA e POLONIO</p>
+
+<h5>POLONIO</h5>
+
+<p>O sr. Hamlet não tarda. Reprehenda-o asperamente; diga-lhe
+que os seus atrevimentos excedem os limites da paciencia,
+<span class="pagenum">[88]</span>
+e que vossa magestade já teve que se interpor entre elle e a
+colera do rei. Nada mais digo, senhora, peço só que falle com
+firmeza.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Fallar-lhe-hei com firmeza, esteja descansado. Afaste-se,
+ouço os seus passos. <span class="instruccoes_cena">(Polonio esconde-se.)</span></p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra HAMLET</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que me quer, minha mãe?</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Hamlet, offendeste gravemente teu pae.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Minha mãe offendeu gravemente meu pae!</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Como insensato fallas.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>A rainha falla como culpada!</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Que queres tu dizer, Hamlet?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>O que é, senhora?</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Esqueces quem eu sou?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Pela cruz do Redemptor, que não. Rainha é, foi esposa do
+irmão de seu marido, e prouvera a Deus que não o fosse, mas
+é minha mãe!</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Mandar-te-hei alguem que melhor do que eu te saiba fallar.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Vamos, sente-se, minha mãe. Não se moverá, não saírá
+d'aqui emquanto eu não tiver posto diante dos seus olhos um
+espelho em que possa ver até ás profundidades da sua alma.</p>
+<span class="pagenum">[89]</span>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Que pretendes de mim? queres tu porventura assassinar-me?
+Acudam á rainha, acudam!</p>
+
+<h5>POLONIO <span class="instruccoes_cena">(por detrás do reposteiro)</span></h5>
+
+<p>O que é! olá, soccorro!</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(desembainhando a espada)</span></h5>
+
+<p>Que é isso? Um rato? <span class="instruccoes_cena">(Dando-lhe uma estocada.)</span> Aposto um ducado
+em como o matei!</p>
+
+<h5>POLONIO <span class="instruccoes_cena">(atrás do reposteiro)</span></h5>
+
+<p>Mataram-me, eu morro. <span class="instruccoes_cena">(Cáe para fóra do reposteiro e morre.)</span></p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Que fizeste, infeliz?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ignoro-o; seria o rei? <span class="instruccoes_cena">(Levanta o reposteiro e puxa pelo cadaver de Polonio.)</span></p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Que acto de crueldade e de sangue!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>De sangue; quasi tão reprehensivel, minha mãe, como assassinar
+um rei e desposar o irmão!</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Assassinar um rei?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Sim, um rei, foi o que eu disse. <span class="instruccoes_cena">(A Polonio.)</span> Quanto a ti, pobre
+diabo, louco, temerario e indiscreto, as nossas contas estão
+ajustadas, aprendeste á tua custa o perigo que corre quem se
+intromette nos negocios dos outros. <span class="instruccoes_cena">(Á rainha.)</span> Cesse de estorcer-se.
+Silencio, sente-se, quero torturar o seu coração, e fal-o-hei,
+se ainda possue alguma sensibilidade, e o habito do crime não
+a bronzeou a ponto de ser insensivel a toda a especie de emoção.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Que fiz eu, Hamlet, para que me falles n'esse tom ameaçador?</p>
+<span class="pagenum">[90]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Uma acção que mancha o rubor e a graça do pudor; que
+transforma a virtude em hypocrisia; que arranca á fronte innocente
+do amor a sua corôa de rosas, e a substitue por uma
+chaga asquerosa; que torna os juramentos do hymeneu tão falsos
+como os do jogador! Oh! uma acção que rouba ao corpo
+dos contratos a santidade, que é a sua alma, e faz da religião
+uma rapsodia de palavras. Indigna-se o céu, contrista-se o
+globo solido e compacto, lê-se-lhe nas faces a consternação
+como se fosse o ultimo dia do mundo.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Qual é pois a acção que denunciam este ameaçador preludio
+e esta expressão fulminante?</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(mostrando dois retratos em pé que ornam as paredes)</span></h5>
+
+<p>Veja bem esses dois retratos, são as imagens de dois irmãos.
+Veja que graça impressa n'estas feições: o cabello annellado
+de Apollo; a fronte do proprio Jupiter; o olhar de Marte, onde
+se lê a commando e a ameaça; o porte de Mercurio, o mensageiro
+celeste, quando apenas pousa o alado pé sobre o cimo
+das nuvens; uma tão feliz reunião das fórmas perfeitas, que
+cada um dos deuses parecia ter contribuido com o seu quinhão,
+como se quizessem mostrar ao mundo o modelo do verdadeiro
+homem! Esse era o seu primeiro esposo. Volva agora os olhares
+para este lado. Eis o que é o seu segundo esposo! que, similhante
+á espiga mangrada, pelo seu contacto causa a morte
+a sua irmã a espiga sã. E saberá ver? Como pôde então abandonar
+as ferteis e salubres collinas, para se immergir n'este immundo
+paul!! Se ainda tem olhos, senhora, não póde imputar
+ao amor o seu comportamento; na sua idade já se acalmou a
+effervescencia do sangue, e a paixão obedece á rasão. E qual
+seria a creatura racional, que ousasse trocar o seu primeiro
+marido por este segundo? É sem duvida dotada de sensibilidade,
+aliás não seria um ser animado; mas na senhora estão paralysados
+todos os sentimentos, porque não ha demencia que não
+deixe ao que verga sob o seu peso uma porção bastante de
+discernimento, para saber escolher entre objectos tão dissimilhantes.
+Que demonio a perturbou a ponto de lhe vendar os
+olhos? A vista sem o tacto, o tacto sem o auxilio da vista, o
+ouvido sem o uso das mãos e dos olhos, o olfato só por si,
+<span class="pagenum">[91]</span>
+uma porção mesmo alterada de um verdadeiro sentido, não
+podiam ter-se enganado tão estultamente. Oh! vergonha! onde
+está o teu rubor? Inferno rebelde, que assim pódes atear a revolta
+nos sentidos de uma mulher, ha muito esposa e mãe. Que
+admira que, para a ardente juventude, a virtude seja como a
+cera, que se derrete á chamma que alimenta; que não seja vergonha
+ceder quando nos arrasta a paixão, poisque o proprio
+crystal se funde e a rasão prostitue aos desejos os seus vergonhosos
+serviços.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Oh! Hamlet, cessa por piedade, obrigas o meu olhar a volver-se
+todo para a minha alma, e n'ella descubro máculas tão
+negras e tão profundamente impressas, que nada já as póde
+lavar.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Viver no suor impuro de um leito infecto, sobre o esterco
+da corrupção, revolver-se no lodaçal de um asqueroso amor.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Cala-te, Hamlet, as tuas palavras são outras tantas punhaladas.
+Piedade! querido filho!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Um assassino, um scelerado, um miseravel, que não vale a
+centesima parte do seu primeiro marido, um rei de comedia,
+um ladrão, que empalmou o poder, e que achando a corôa debaixo
+de mão, a roubou e a metteu no bolso!</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Hamlet!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Um palhaço!</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra a SOMBRA</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Protegei-me e abrigae-me sob vossas azas, anjos do céu.
+<span class="instruccoes_cena">(Á sombra)</span> Que pretendes de mim, sombra querida?</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Infeliz! enlouqueceu.</p>
+<span class="pagenum">[92]</span>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(á sombra)</span></h5>
+
+<p>Vens tu reprehender a tibieza de teu filho, que, deixando
+passar o tempo, arrefecer a sua indignação, não se apressou
+em cumprir os teus terriveis preceitos? Falla!</p>
+
+<h5>A SOMBRA</h5>
+
+<p>Recorda-te que o unico fim d'esta minha apparição é atear
+em ti o fogo da resolução. Mas vê, tua mãe está succumbida,
+interpõe-te entre ella e os seus remorsos; é nas mais debeis
+organisações que mais estragos causa a imaginação. Falla-lhe
+tu, Hamlet.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Como se sente, minha mãe?</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Eu é que te devia fazer essa pergunta! Por que está teu
+olhar fito no espaço? por que conversas com seres immateriaes?
+Teu olhar indefinido revela a lucta da tua alma; como
+um soldado acordado em sobresalto; teus cabellos, como se
+a vida os animasse, levantam-se e ouriçam-se sobre a tua fronte.
+Oh! meu querido filho, apaga a chamma da tua colera, com
+as tranquillas e limpidas aguas da paciencia! Mas para onde
+olhas tu?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>É elle! Elle! Como está pallido! O seu aspecto, e o motivo
+que aqui o traz, commoveriam as proprias pedras. <span class="instruccoes_cena">(Á sombra)</span>
+Descrava de mim os teus olhos, receio que me feneça a resolução,
+vendo teu triste e commovente olhar; que se transforme
+o caracter dos meus actos talvez em lagrimas em vez de
+sangue.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Mas, filho, a quem fallas assim?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não vê nada, minha mãe?</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Nada, senão tudo quanto existe n'esta camara.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>E nada ouviu?</p>
+<span class="pagenum">[93]</span>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Cousa alguma, a não ser as tuas palavras.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Mas olhe, minha mãe, não vê como elle se afasta, triste e
+pensativo? É meu pae, vestido como trajava em sua vida.
+Eil-o, transpõe agora mesmo a porta. Saíu. <span class="instruccoes_cena">(A sombra sáe.)</span></p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>É á exaltação da tua imaginação e ao delirio que de ti se
+apoderou, que são devidas estas creações phantasticas.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>O delirio! Senhora, apalpe o meu pulso, e conhecerá que
+não está menos tranquillo que o seu. Não fallei influenciado
+pelo delirio. Interrogue-me; em vez de divagar, repetir-lhe-hei
+textualmente as minhas palavras; não estou louco; engana-se,
+minha mãe. Por Deus, não se embale, no pensamento
+falso, que é o meu delirio e não a sua culpa que me faz fallar!
+Seria cicatrizar exteriormente a chaga, que a consciencia nunca
+deixaria de augmentar interiormente. Confesse-se ao céu, arrependa-se
+do passado, premuna-se para o futuro, e não dê
+pasto ao verme do remorso, que acabará por totalmente corroer
+o seu coração e obliterar a sua consciencia. Perdoe á
+minha virtude, porque n'este mundo sordido e venal a virtude
+deve implorar o perdão do vicio e pedir o favor de poder fazer
+o bem.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Oh! Hamlet! Dilaceras-me o coração.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Expulse a parte corrompida, e com a outra metade viva
+tranquilla e pura. Boa noite; evite meu tio, e se não podér ser
+virtuosa, ao menos pareça-o. O habito, esse monstro, que
+destroe e neutralisa em nós toda a sensibilidade, esse demonio
+do habito, é anjo n'isto, porque consente á virtude e ás
+boas acções as suas vestes proprias. Não veja hoje o seu esposo,
+tornar-lhe-ha mais facil a abstenção futura; o habito
+tudo póde, muda a natureza individual, doma o demonio, e
+expulsa-o com o seu maravilhoso poder. Boas noites mais uma
+vez! e quando sentir a necessidade da benção divina, então
+<span class="pagenum">[94]</span>
+pedir-lhe-hei a sua. <span class="instruccoes_cena">(Mostrando Polonio.)</span> Quanto a este homem, arrependo-me
+do que fiz; mas obedeci ao céu; assim o quiz tornando-me
+instrumento das suas vinganças, punindo-o por mim,
+a mim por elle. Sepultem-no, eu responderei pela morte que
+lhe dei! Adeus, pois. Cumpre-me ser cruel por humanidade;
+o primeiro mal está feito, o maior ainda ha de vir. Uma palavra
+ainda.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Que devo fazer?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Nada do que eu lhe disse! Receba as caricias do avinhado
+monarcha, preste as suas faces aos seus osculos, ouça-lhes as
+palavras de amor; então n'um diluvio de ardentes osculos, entre
+as mais lubricas caricias, confesse-lhe, revele-lhe tudo, diga-lhe
+que nunca estive louco, que o fingi, faça-lhe essa confidencia.
+Qual seria a rainha, bella, sensata e honesta, que hesitasse
+em confiar áquelle animal immundo e repellente, asqueroso
+reptil, tão importantes segredos? Quem guardaria silencio?
+Ninguem. Depois, olvidando o bom senso e a discrição, abra
+a gaiola e deixe voar as avesinhas, e seguindo o exemplo do
+bugio da legenda, por simples experiencia, introduza-se na
+gaiola e rompa o pescoço caíndo!</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Acredita, Hamlet, que se as palavras se compozessem de
+fôlgo e o fôlgo de vida, eu não teria vida para articular as que
+tu me disseste.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Devo partir para Inglaterra; sabe-o sem duvida, minha
+mãe?</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Infeliz! Tinha-me esquecido; pois isso está definitivamente
+determinado?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ha cartas selladas, e os meus dois companheiros de estudos,
+nos quaes me fio tanto como na innocencia dos envenenados
+dardos das viboras, são os portadores da ordem! São elles
+que me hão de aplanar o caminho, e se encarregarão de me
+conduzir ao laço armado pela mais negra traição. Deixemos
+caminhar os acontecimentos. Causa devéras prazer ver rebentar
+nas mãos do proprio artifice a bomba que para outrem
+<span class="pagenum">[95]</span>
+preparava. Nada ha, senhora, que nos dê mais gosto do que
+combater a traição, contraminando-a pela sagacidade. A morte
+de Polonio apressará a minha partida. Levemos o seu cadaver
+para a camara vizinha. Boas noites, minha mãe. Este conselheiro
+está agora verdadeiramente a sangue frio, discreto e
+grave; em vida era dotado de estupida garrulice. Agora basta,
+acabemos por uma vez. Boas noites. Adeus, minha mãe.
+<span class="instruccoes_cena">(A rainha sáe por um lado, Hamlet pelo outro, arrastando o cadaver de Polonio.)</span></p>
+
+
+<p class="instruccoes_cena">Fim do acto terceiro</p>
+<span class="pagenum">[97]</span>
+
+
+
+
+<h2>ACTO QUARTO</h2>
+
+
+<h3>SCENA I</h3>
+
+<h4>Um quarto no castello de Elsenor</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram o REI, a RAINHA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Esses suspiros, esse difficil arfar do peito, tudo deve ter
+uma causa. Queremos conhecel-a e pelos senhores. Onde está
+nosso filho?</p>
+
+<h5>A RAINHA <span class="instruccoes_cena">(a Rosencrantz e Guildenstern)</span></h5>
+<p>
+Deixem-nos sós um momento. <span class="instruccoes_cena">(Os dois sáem.)</span> <span class="instruccoes_cena">(Ao rei)</span> Ah! senhor,
+que noite esta!</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Que ha de novo, Gertrudes; em que estado achaste Hamlet?</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Tão revolta está a sua rasão, como o mar e o vento, quando
+entre si luctam, disputando a sua força. N'um dos seus arrebatamentos
+do delirio, ouvindo mexer atrás de uma cortina,
+exclamou: <i>Um rato, um rato</i>, e desembainhando a espada,
+cravou-a no peito d'aquelle excellente ancião.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Oh! triste acontecimento! Igual sorte teria tido se ali me
+<span class="pagenum">[98]</span>
+achasse; livre, corremos o maior risco, mesmo tu; todos, emfim.
+Que rasões daremos para explicar este acto sanguinario?
+Taxar-nos-hão de imprevidentes, a responsabilidade toda caírá
+sobre nós; dirão que deviamos ter isolado esse insensato,
+mas era tão grande a nossa affeição, que não comprehendemos
+o que a prudencia nos aconselhava. Obrámos como um
+homem atacado de um mal vergonhoso, que para guardar segredo
+deixa enraizar-se esse mal e destruir toda a seiva vital.
+Onde está Hamlet?</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Pondo em logar seguro o cadaver d'aquelle a quem deu a
+morte. No meio mesmo da sua demencia, conserva-se pura e
+intacta a sua intelligencia, como um metal precioso encravado
+em rocha bruta. Rebenta-lhe o pranto ao lembrar-se da acção
+que commetteu.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Saiâmos, Gertrudes. Quando o sol tocar o cume das montanhas,
+já Hamlet deverá ter embarcado; logo em seguida partirá
+para Inglaterra. Quanto a esta odiosa acção precisâmos
+achar na nossa auctoridade e no nosso engenho alguma desculpa
+que a releve aos olhos do mundo. Olá, Guildenstern?
+<span class="instruccoes_cena">(Entram outra vez Guildenstern e Rosencrantz.)</span></p>
+
+<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(continuando)</span></h5>
+
+<p>Meus amigos, procurem pessoas que os ajudem e auxiliem.
+Hamlet, na sua demencia, matou Polonio, cujo cadaver levou
+para fóra da camara de sua mãe. Tratem de descobrir onde o
+occultou, encarrego-os d'esta missão. Nada digam que possa
+irritar Hamlet, e levem o corpo do infeliz Polonio para a capella;
+peço-lhes só que se aviem. <span class="instruccoes_cena">(Sáem Rosencrantz e Guildenstern.)</span></p>
+
+<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(continuando)</span></h5>
+
+<p>Vamos, Gertrudes, convoquemos os nossos mais doutos amigos,
+demos-lhe a conhecer o nosso designio e a desgraça acontecida.
+Precavendo-nos d'este modo, talvez a calumnia, que
+arremessa o seu dardo envenenado de uma extremidade do
+mundo á outra, e cujos tiros são tão certeiros, como os do mais
+perfeito canhão, poupe o nosso nome, perdendo-se na immensidade
+do espaço. Saiâmos d'aqui. Na minha alma não sinto
+senão perturbação e terror! <span class="instruccoes_cena">(Sáem.)</span></p>
+<span class="pagenum">[99]</span>
+
+
+<h3>SCENA II</h3>
+
+<h4>Outro quarto no castello</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra HAMLET</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Duvido que o encontrem.</p>
+
+<h5>VOZES DE FÓRA</h5>
+
+<p>Hamlet? senhor Hamlet?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>De vagar. Que rumor é este? Quem ousa chamar Hamlet?
+Ah! eil-os que chegam. <span class="instruccoes_cena">(Entram Rosencrantz e Guildenstern.)</span></p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Senhor? que fez vossa alteza do cadaver?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Entreguei-o ao pó de que saíu.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Mas em que logar para o podermos levantar e depositar na
+capella?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não pensem em tal.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Que devemos, pois, pensar?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que pouco me importo com a sua cabeça, mas muito com
+a minha. Interrogado de mais a mais por uma esponja! Que
+resposta lhe póde dar o filho de um rei?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>É a mim que chama esponja?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>A quem havia de ser? sim a ti, que bebes os favores, as
+<span class="pagenum">[100]</span>
+recompensas e o poder real. Mas, no fim de contas, taes officiaes
+prestam ao monarcha relevantes serviços, são para elle
+como o fructo que o bugio conserva na bôca para depois o engulir;
+quando necessitar do que tem arrecadado, espreme-os
+como uma esponja, e ficarão completamente enxutos.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Não comprehendo, senhor!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Estimo muito. As palavras do traficante só tem por domicilio
+os ouvidos do tonto.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Diga-nos onde está o cadaver, e siga-nos á presença do rei.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Onde está o rei existe um corpo, mas o rei não está n'esse
+corpo. O rei é uma creatura.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Uma creatura, senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Uma creatura que nada vale! Conduzam-me á sua presença.
+Vamos jogar as escondidas. <span class="instruccoes_cena">(Sáem todos.)</span></p>
+
+
+<h3>SCENA III</h3>
+
+<h4>Uma sala no castello</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra o REI com a sua comitiva</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Mandei chamar Hamlet e procurar o cadaver. Que perigo
+deixar livre um tal homem; mas não podemos fazer pesar
+sobre elle todo o rigor das leis. A multidão insensata estima-o,
+decidindo-se mais pela vista do que pela rasão; n'estas
+circumstancias o que devemos pensar é o castigo dos culpados,
+nunca o crime só por si. Para prevenir qualquer descontentamento
+é forçoso que este precipitado exilio pareça
+consequencia de madura reflexão. Para males desesperados
+<span class="pagenum">[101]</span>
+remedios energicos, ou nenhuns. <span class="instruccoes_cena">(Entra Rosencrantz.)</span> Então que
+aconteceu?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Nada podemos saber da sua bôca relativamente ao cadaver.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Onde está Hamlet?</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>No quarto vizinho, esperando debaixo de segura guarda
+as ordens de vossa magestade.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Que venha á nossa presença.</p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>Olá, Guildenstern. Conduze Hamlet a este aposento. <span class="instruccoes_cena">(Entram
+Hamlet e Guildenstern.)</span></p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Hamlet, onde está Polonio?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>N'um banquete.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>N'um banquete?! onde?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Onde não come, mas é devorado. Uma multidão de vermes
+politicos disputa o seu cadaver. O verme é o monarcha dos
+comedores. Engordâmos todas as creaturas para nos engordarmos,
+e engordâmo-nos para pasto dos vermes. Um rei gordo e
+um mendigo magro são duas iguarias differentes, comtudo hão
+de ser servidas á mesma mesa. Esta é a verdade.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Infelizmente assim é!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>É possivel que se pesque, com um verme creado em cadaver
+real, um peixe, e que se coma depois o peixe que enguliu
+o verme.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Que significam as tuas palavras?</p>
+<span class="pagenum">[102]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Nada; apenas as transformações pelas quaes póde passar
+um rei para penetrar nos intestinos do pobre.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Onde está Polonio?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>No céu. Mande ali o seu mensageiro procural-o, e se não o
+achar, procure-o então o rei no sitio opposto. Em todo o caso
+se não o acharem até d'aqui a um mez, o olfato o denunciará
+junto á escada da galeria.</p>
+
+<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(á sua comitiva)</span></h5>
+
+<p>Procurem-o já.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Esperal-os-ha com certeza. <span class="instruccoes_cena">(Sáe a comitiva do rei.)</span></p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Hamlet, no interesse da tua saude, que nos é tão cara, quanto
+dolorosa a acção que commetteste, é forçoso que partas com
+a maior brevidade; vae, pois, preparar-te. O navio está prompto
+e o vento sopra propicio; os teus companheiros esperam-te,
+e tudo está disposto para a tua viagem a Inglaterra.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>A Inglaterra?</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Sim, Hamlet.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Está bem.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>O mesmo dirias conhecendo todos os meus projectos.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Descubro um anjo que os vê. Mas partâmos para Inglaterra.
+Adeus, minha querida mãe.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>E teu pae que te estremece?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não, minha mãe; pae e mãe são marido e mulher, marido
+<span class="pagenum">[103]</span>
+e mulher são uma e mesma carne. Assim, pois, adeus, minha
+mãe. Vamos para Inglaterra. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p>
+
+<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(a Rosencrantz e Guildenstern)</span></h5>
+
+<p>Sigam-o passo a passo, façam-o embarcar promptamente,
+não ha tempo que perder. Quero que já esta tarde esteja afastado
+d'estes sitios. Vão! Tudo quanto respeita a este negocio foi
+já expedido e sellado com as nossas armas. Aviem-se, peço-lh'o.
+<span class="instruccoes_cena">(Sáem.)</span> <span class="instruccoes_cena">(Continuando)</span> Rei de Inglaterra, sabes até onde chega
+o meu poder; as feridas infligidas pelo ferro dinamarquez
+ainda sangram, e teu respeito nos presta livre homenagem. Se,
+pois, prezas a minha benevolencia, não receberás friamente as
+ordens soberanas contidas nas minhas cartas e que exigem a
+morte de Hamlet. Obedece-me, rei de Inglaterra, porque
+Hamlet é febre que requeima o meu sangue, e tu é que me
+deves curar d'ella. Não terei um dia de prazer e descanso
+emquanto não souber a completa execução das minhas ordens,
+aconteça o que acontecer. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p>
+
+
+<h3>SCENA IV</h3>
+
+<h4>Uma planicie na Dinamarca</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Chega FORTIMBRAZ á frente das suas tropas</p>
+
+<h5>FORTIMBRAZ <span class="instruccoes_cena">(a um dos seus officiaes)</span></h5>
+
+<p>Capitão, saúde da minha parte o rei de Dinamarca e diga-lhe,
+que, em conformidade com a sua promessa, Fortimbraz
+lhe pede livre passagem pelo seu territorio; sabe o ponto em
+que nos devemos encontrar. Se sua magestade desejar fallar-me,
+irei prestar-lhe as minhas homenagens. Diga-lh'o da minha
+parte.</p>
+
+<h5>O OFFICIAL</h5>
+
+<p>As suas ordens serão cumpridas, meu senhor!</p>
+
+<h5>FORTIMBRAZ <span class="instruccoes_cena">(ás suas tropas)</span></h5>
+
+<p>Avancemos em attitude pacifica. <span class="instruccoes_cena">(Fortimbraz e as suas tropas afastam-se.
+O official fica.)</span></p>
+<span class="pagenum">[104]</span>
+
+<p class="instruccoes_cena">Chegam HAMLET, ROSENCRANTZ, GUILDENSTERN e mais pessoas</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(ao official)</span></h5>
+
+<p>Que tropas são essas, meu amigo?</p>
+
+<h5>O OFFICIAL</h5>
+
+<p>É o exercito norueguez, senhor!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Qual é o seu destino?</p>
+
+<h5>O OFFICIAL</h5>
+
+<p>Um ponto do território da Polonia.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Quem o commanda?</p>
+
+<h5>O OFFICIAL</h5>
+
+<p>Fortimbraz, sobrinho do rei de Noruega.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>É contra a Polonia toda, ou só contra um ponto determinado
+da fronteira que marcham?</p>
+
+<h5>O OFFICIAL</h5>
+
+<p>Se quer que lhe diga a verdade, marchâmos contra uma
+parte da Polonia, cuja conquista será para nós gloria, sem
+proveito algum. Estou certo que a sua renda não vale cinco
+ducados, e se se vendesse ninguem daria mais.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Se assim é, os polacos não devem offerecer resistencia?</p>
+
+<h5>O OFFICIAL</h5>
+
+<p>Pelo contrario, até já o guarneceram.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Duas mil almas e vinte mil ducados chegarão apenas para
+tão futil empreza; é um d'estes abcessos que resultam de uma
+demasiada e prolongada prosperidade que rebenta internamente,
+sem que nada indique exteriormente a sua acção mortal.
+Obrigado, amigo.</p>
+<span class="pagenum">[105]</span>
+
+<h5>O OFFICIAL</h5>
+
+<p>Deus seja comvosco, senhor. <span class="instruccoes_cena">(Afasta-se.)</span></p>
+
+<h5>ROSENCRANTZ</h5>
+
+<p>O principe quer que continuemos o nosso caminho?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Póde ir indo, em breve o alcançarei. <span class="instruccoes_cena">(Sáem Rosencrantz e Guildenstern.)</span>
+<span class="instruccoes_cena">(Continuando.)</span> Como sempre tudo me accusa e me excita
+á tardia vingança. O que é o homem, se o seu primeiro bem,
+o maior negocio da sua vida, consiste em comer e dormir! É um
+animo brutal, nada mais. Seguramente, que aquelle que nos
+dotou com essa vasta comprehensão, capaz de abraçar o passado
+e o futuro, não nos deu essa intelligencia, esse admiravel
+raciocinio, para que ficassemos ociosos e sem emprego.
+Quer seja estulto esquecimento, quer cobarde escrupulo, medito
+demasiado na acção que tenho que commetter, pensamento
+composto de uma quarta parte de siso e tres quartas partes de
+cobardia. Como me espanto a mim mesmo quando repito: <i>Eis
+o que devo fazer</i>, já que me sobram os motivos, tenha eu ao
+menos vontade, força e energia para o executar. Incitam-me os
+mais irrecusaveis exemplos; testemunho este numeroso exercito,
+capitaneado pelo seu joven principe, cujo genio intrepido,
+soprado por uma ambição divina, affronta, rindo, as eventualidades
+de um porvir invisivel, expondo uma vida mortal e incerta,
+a tudo quanto podem ousar a fortuna, a morte e os perigos,
+e tudo por nada, por uma bagatella. A verdadeira grandeza
+consiste, não só em commover-se com grandes e poderosas
+rasões, mas tambem em achar n'uma bagatella rasões de conflicto,
+cuja verdadeira causa é o pundonor. Que posição pois a minha,
+eu que tenho um pae assassinado, uma mãe deshonrada;
+eu que tenho tantos motivos de colera e que tudo deixo adormecer,
+emquanto que para minha vergonha vejo vinte mil
+homens, por uma louca esperança de gloria exporem-se á morte,
+caminharem para o tumulo, como caminhariam para o leito;
+irem combater para conquistar um quinhão de terra insufficiente
+para caberem n'elle, e cujo terreno seria uma sepultura
+acanhada para os mortos. Ah! quanto se revelam sanguinarios
+os meus pensamentos, ou então nada. <span class="instruccoes_cena">(Afasta-se.)</span></p>
+<span class="pagenum">[106]</span>
+
+
+<h3>SCENA V</h3>
+
+<h4>Uma sala no castello de Elsenor</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram HORACIO e a RAINHA</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Não lhe quero fallar.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Pede-o encarecidamente. Verdade é que ella perdeu a rasão;
+o seu estado é digno de compaixão.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>O que pretende ella?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Falla sempre no pae, pretende terem-lhe dito que n'este
+mundo se commettem bem más acções, suspira, bate no peito,
+exaspera-se sem motivo. Profere palavras equivocas e sem sentido.
+Nada diz, comtudo quem ao ouvil-a não teria vontade
+de a comprehender. Aquelles que a ouvem procuram adivinhar
+o sentido, e preenchendo as lacunas, tentam completar o sentido
+das suas fallas. Vendo os movimentos que faz, acompanhando
+as palavras, todos lhe suppõem um pensamento, um
+sentido, e provavelmente tem-no, mas de certo bem sinistro.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>É conveniente fallar-lhe, porque poderia impressionar malevola
+e perigosamente os espiritos. Que venha. <span class="instruccoes_cena">(Horacio sáe.)</span> <span class="instruccoes_cena">(Continuando)</span>
+Ah! minha alma enferma! Será uma condição do crime,
+que a menor bagatella pareça sempre a precursora de alguma
+grande calamidade? Tal é a desconfiança em uma consciencia
+culpada, que se trahe a si mesma com o receio de se
+trahir.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">HORACIO entra com OPHELIA</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Onde está a bella rainha de Dinamarca?</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Ophelia?</p>
+<span class="pagenum">[107]</span>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<div class="poesia">
+Como hei de eu conhecer o bem amado<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> Por entre a multidão?</span><br>
+Pelo chapéu de conchas enfeitado<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> E pelo seu bordão.</span><br>
+</div>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Infeliz Ophelia! Que significam esses versos?</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Pergunta-mo? Escute então...</p>
+
+<div class="poesia">
+Levaram-no bem morto ao cemiterio!<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> O que tu foste e és!...</span><br>
+Sob a fronte senil myrto funereo,<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> E fria pedra aos pés!</span><br>
+</div>
+
+<p>Ai de mim! <span class="instruccoes_cena">(Chora.)</span></p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Ophelia, querida Ophelia?</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Ouça mais, peço-lh'o...</p>
+
+<div class="poesia">
+Branca de neve a frigida mortalha...<br>
+</div>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra o REI</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Veja, senhor!</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<div class="poesia">
+<span style="margin-left: 5em;"> É como um prado em flor</span><br>
+Baixou á campa a fronte e não a orvalha<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> Com lagrimas o amor!!</span><br>
+</div>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Como está bella, Ophelia?</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Bem, louvado Deus, dizem que a coruja fôra outr'ora filha
+de um padeiro. Meu Deus, nós sabemos o que somos, mas
+nunca o que poderemos vir a ser. Que Deus abençôe a sua
+mesa.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Recorda-se do pae?</p>
+<span class="pagenum">[108]</span>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Não fallemos mais n'isso, mas se me perguntam o que significa,
+dir-lhes-hei o que é. Respondam.</p>
+
+<div class="poesia">
+São Valentim! dizes-me a minha sina?<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> A pé já todos são.</span><br>
+Queres que eu seja a tua Valentina?<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> Sou virgem, sim ou não?</span><br>
+Ergueu-se elle e vestiu-se; mansamente<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> Do quarto a porta abriu;</span><br>
+E virgem ella entrou... mas tão sómente<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> Mulher quando saíu.</span><br>
+</div>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Encantadora Ophelia!</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Em verdade vou terminar sem juramento.</p>
+
+<div class="poesia">
+Por Jesus! pela santa caridade!<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> Quem vale á infeliz?!</span><br>
+Ai! são todos assim na mocidade,<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> A sorte é quem n'o quiz!</span><br>
+Antes da minha quéda prometteste<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> Conduzir-me ao altar:</span><br>
+Por Deus o houvera feito... não quizeste.<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> Quem te mandou entrar?</span><br>
+</div>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Ha quanto tempo é que este infeliz estado se apoderou
+d'ella?</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Tudo vae bem! É preciso ter paciencia; não posso reter o
+pranto, pensando que está debaixo da terra fria e humida.
+Meu irmão ha de sabel-o, obrigada pelo conselho. Chegue a
+minha carruagem. Boa noite, minhas senhoras, boa noite,
+bellas senhoras, Adeus, boas noites! <span class="instruccoes_cena">(Sáe correndo.)</span></p>
+
+<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(a Horacio)</span></h5>
+
+<p>Siga-a, não a perca de vista, vigie-a cautelosamente, peço-lh'o
+eu! <span class="instruccoes_cena">(Horacio sáe.)</span> <span class="instruccoes_cena">(Continuando)</span> Oh! é aquelle o veneno de uma
+dor profunda, causada pela morte do pae. Ah! Gertrudes, Gertrudes,
+quando as dores nos assaltam, nunca é isoladamente,
+é como se viessem em tropel. Primeiro a morte do pae, depois
+a partida de Hamlet, que tão violentamente decretou o proprio
+exilio; o povo alvoroçado e descontente, commenta malevola e
+<span class="pagenum">[109]</span>
+insidiosamente a morte de Polonio, e nós obrámos pouco assisadamente
+ordenando o prompto enterro; a infeliz Ophelia, inconsciente
+do seu estado, está privada da rasão, sem a qual
+somos simples estatuas, creaturas brutas. Para cumulo de desgraça
+esta vale todas as outras, seu irmão voltou secretamente
+de França, embrenha-se no labyrintho de noticias, e mantem-se
+occulto. Não deixará por certo de haver bôcas malevolas,
+que por occasião da morte de seu pae, envenenem seus ouvidos
+com insinuações perfidas, e a calumnia, na carencia de outro
+assumpto, não nos poupará com os seus dardos envenenados
+e mortiferos. Ah! querida Gertrudes; tudo isto, similhante
+a um instrumento de morte, vibra-me mais golpes que os necessarios
+para pôr termo á minha vida. <span class="instruccoes_cena">(Ouve-se um grande rumor
+fóra da sala.)</span></p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Que rumor é esse?</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Olá, venha alguem. <span class="instruccoes_cena">(Entra um official do palacio.)</span></p>
+
+<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(continuando)</span></h5>
+
+<p>Onde estão os meus suissos? Que defendam as portas. Dize-me
+já o que ha.</p>
+
+<h5>O OFFICIAL</h5>
+
+<p>Fuja, senhor; o oceano, rompendo os diques, não invade
+com mais violencia a campina, do que o joven Laerte, á frente
+da rebellião, derruba a resistencia dos vossos officiaes. O povo
+chama-lhe soberano, e como se fosse no começo do mundo,
+sem tradições, nem passado, nem usos, sobre que tudo se
+firma, ou as tivesse esquecido, exclama: Elejâmos um rei!
+Laerte será o nosso rei? Todos se descobrem e agitam os gorros,
+todas as mãos applaudem, todas as vozes repetem: Laerte
+será rei. Viva o rei Laerte!</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Com que prazer esta matilha segue uma pista falsa! Enganam-se!
+Dinamarquezes ingratos!</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Entraram á força. <span class="instruccoes_cena">(Redobra o rumor. Entra Laerte seguido por muito
+povo dinamarquez.)</span></p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Onde está esse rei? Senhores, retirem-se para fóra.</p>
+<span class="pagenum">[110]</span>
+
+<h5>O POVO</h5>
+
+<p>Nada! Queremos todos entrar.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Façam o que lhes peço.</p>
+
+<h5>O POVO</h5>
+
+<p>É justo! é justo! <span class="instruccoes_cena">(Sáem.)</span></p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Obrigado, senhores; guardem as portas. <span class="instruccoes_cena">(Ao rei.)</span> Infame! entrega-me
+meu pae.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Socegue, meu caro Laerte.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Se uma só gota do meu sangue não fervesse, essa gota proclamar-me-ía
+bastardo, attestaria a deshonra de meu pae, e imprimiria
+na casta fronte de minha adorada mãe um estigma
+indelevel de infamia.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>O que deu azo, Laerte, a uma rebellião, que assumiu proporções
+tão colossaes? Está tranquilla, Gertrudes, por nós nada
+receies; graças ao caracter sagrado que protege os reis, a traição
+não lança senão um olhar timido e incerto para o resultado
+que anhelam os seus desejos, e os effeitos estão longe de
+corresponder á sua esperança. Dize-me, Laerte, o motivo d'esta
+irritação violenta. Nada receies, Gertrudes. Falla, Laerte.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Onde está meu pae?</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Morreu.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Mas o rei está innocente.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Deixa-me interrogal-o á minha vontade.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Como morreu elle? Não admitto duvidas, dispenso juramentos;
+leve o demonio a fé jurada, sepultem-se no abysmo a consciencia
+e a fidelidade. Affrontarei a condemnação, declaro-o
+<span class="pagenum">[111]</span>
+formalmente; renuncio a tudo n'este e no outro mundo, aconteça
+o que acontecer, comtanto que vingue de um modo bem
+patente a morte de meu pae.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>E quem t'o impede?</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>A minha vontade só e não a do universo inteiro; quanto
+aos meios de que disponho, empregal-os-hei de modo que com
+recursos limitados tire d'elles o maior proveito.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Comprehendo, querido Laerte, que queiras saber a verdade
+toda a respeito da morte de teu estremecido pae. Mas estás tu
+resolvido a confundir amigos e inimigos, aquelles que perderam
+e aquelles que ganharam com a sua morte?</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Unicamente os inimigos quero punir.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>E queres conhecel-os?</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Quanto aos seus amigos, abro-lhes os braços com alvoroço;
+e similhante ao pelicano que rasga o seio, para com o sangue
+alimentar os filhos, estou prompto a por elles dar o meu sangue
+todo.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Ainda bem; fallas agora como bom filho e homem honrado.
+Sou innocente na morte de teu pae, e deploro-a amargamente;
+demonstral-o-hei á tua rasão com provas tão claras como a
+luz do dia.</p>
+
+<h5>O POVO <span class="instruccoes_cena">(de fóra)</span></h5>
+
+<p>Deixem-a entrar.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>O que é? Que rumor é esse? <span class="instruccoes_cena">(Entra Ophelia estranhamente enfeitada
+com flores na cabeça e palhas entrançadas nos cabellos.)</span> <span class="instruccoes_cena">(Continuando.)</span> Meu pobre
+cerebro! Sequem-se as minhas lagrimas, que, sete vezes
+corrosivas, queimam meus olhos e afastam d'elles o sentido
+da vista! Por Deus! A tua demencia será paga com usura,
+até que o nosso peso faça baixar uma das conchas da balança.
+<span class="pagenum">[112]</span>
+Rosa de primavera, filha querida, carinhosa irmã, boa Ophelia!
+Oh! ceus! pois será possivel que a rasão de uma jovem
+mulher seja tão fragil como a vida do ancião! A natureza tem
+no seu amor um perfume subtil e raro, cujas emanações se infiltram
+no objecto amado.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<div class="poesia">
+Levaram-no em mesquinha padiola<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> E foram-no enterrar!</span><br>
+Mas chove-lhe na tumba, ai! grata esmola<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> De lagrimas um mar.</span><br>
+</div>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Possuisses tu toda a tua rasão, animasses-me tu á vingança,
+não conseguias crear em mim uma emoção.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<p>Forçoso é que eu cante e tu tambem:</p>
+
+<div class="poesia">
+Abaixo! Abaixo!<br>
+Lançae-o abaixo!<br>
+</div>
+
+<p>Devias ouvir cantar ás fiadeiras; é a canção do intendente
+desleal, que raptou a filha de seu amo.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Estes nadas tudo me dizem.</p>
+
+<h5>OPHELIA <span class="instruccoes_cena">(a Laerte, dando-lhe uma flor)</span></h5>
+
+<p>Toma, é rosmaninho a flor da lembrança. Lembra-te de
+mim, peço-t'o, meu querido; estes são amores perfeitos, é para
+que sempre viva no teu coração de irmão.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Ha sentido no seu delirio. Acaba de distinguir acertadamente
+a lembrança e o pensamento.</p>
+
+<h5>OPHELIA <span class="instruccoes_cena">(ao rei)</span></h5>
+
+<p>Aqui tendes, senhor, estas symbolicas flores. <span class="instruccoes_cena">(Á rainha)</span> Para
+vós, senhora, é arruda e tambem para mim; para vós será a
+herva da ventura, para mim a da dor. Eis um malmequer.
+Queria dar-vos violetas, mas feneceram todas quando meu pae
+morreu; dizem que teve o fim do justo.</p>
+
+<div class="poesia">
+Porque era o bom Robim minha alegria
+</div>
+<span class="pagenum">[113]</span>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>A melancolia, a afflicção, a colera, o proprio inferno,
+tudo é divino proferido por ella.</p>
+
+<h5>OPHELIA</h5>
+
+<div class="poesia">
+<span style="margin-left: 5em;"> E nunca mais virá?!</span><br>
+Morreu! morreu! morreu! ai! que agonia!<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> Não mais! não voltará!</span><br>
+Era a barba tão branca como a neve:<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> Partiu! foi para os céus.</span><br>
+Perdida, inutil dor! Breve, até breve,<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> Tem dó d'elle, meu Deus!...</span>
+</div>
+
+<p>Assim como de todas as almas christãs, assim o peço a Deus,
+e elle seja comvosco. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Vêem? Meu Deus!...</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Deixa-me, Laerte, fallar-te no teu infortunio; é um direito
+que me pertence e que me não pódes negar sem injustiça.
+Reune em particular os teus amigos mais assisados; elles nos
+ouçam, e depois julguem entre nós dois. Se culpado me acharem,
+directa ou indirectamente, entrego-te, em expiação da
+minha culpa, reino, corôa e vida, e tudo quanto possa dizer
+meu; no caso contrario, peço-te só paciencia, e de accordo
+obraremos para te alcançar uma completa satisfação.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Consinto. As circumstancias da sua morte, o seu funeral
+obscuro, em que nem trophéus, nem espada, nem brazão figuraram,
+a ausencia de toda a ceremonia funebre no saímento
+do seu corpo, são como um aviso do céu, que me clama pela
+voz celeste: Indaga como foi.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Faça-se pois um inquerito, e o cutelo do algoz puna o culpado.
+Agora peço-te, Laerte, que me sigas. <span class="instruccoes_cena">(Sáem ambos.)</span></p>
+<span class="pagenum">[114]</span>
+
+
+<h3>SCENA VI</h3>
+
+<h4>Um quarto no castello de Elsenor</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram HORACIO e um CREADO</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Quem é que me pretende fallar?</p>
+
+<h5>O CREADO</h5>
+
+<p>Marinheiros... e dizem que têem cartas que lhe são dirigidas.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Que entrem pois; <span class="instruccoes_cena">(o creado sáe)</span> <span class="instruccoes_cena">(só)</span> não percebo de que canto
+do mundo se lembraram de me escrever. Só se for Hamlet.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram os MARINHEIROS</p>
+
+<h5>PRIMEIRO MARINHEIRO</h5>
+
+<p>Guarde-o Deus, senhor!</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Igualmente a ti!</p>
+
+<h5>PRIMEIRO MARINHEIRO</h5>
+
+<p>Fal-o-ha, se for da sua vontade. <span class="instruccoes_cena">(Entrega uma carta)</span> Aqui tem
+esta carta, é do embaixador que foi mandado a Inglaterra;
+o senhor, segundo me asseguraram, chama-se Horacio, não
+é verdade? <span class="instruccoes_cena">(Dá-lhe outra carta.)</span></p>
+
+<h5>HORACIO <span class="instruccoes_cena">(abrindo a carta, lendo)</span></h5>
+
+<p>«<i>Horacio, quando receberes esta carta, proporciona a estes
+homens o fallarem ao rei; têem cartas para lhe entregar. Mal
+tinhamos dois dias de viagem, um corsario armado até aos dentes
+deu-nos caça; vendo nós que elle era mais veleiro, fizemos
+das fraquezas forças, e encetámos combate. Na abordagem, saltei-lhe
+na tolda, mas n'aquelle momento afastaram-se os dois
+navios, e eu achei-me só e prisioneiro. Comportaram-se commigo
+como corsarios humanos, mas sabiam o que faziam, porque
+contam pedir avultado resgate. Faze chegar ás mãos do
+rei a carta que lhe envio, depois vem ter commigo, com a celeridade
+que porias em evitar a morte. Tenho que confiar aos</i>
+<span class="pagenum">[115]</span>
+<i>teus ouvidos palavras que te emudecerão de espanto, e comtudo
+ainda são fracas para a gravidade do assumpto que devem exprimir.
+Estes marinheiros te conduzirão ao sitio onde me acho.
+Rosencrantz e Guildenstern navegam para a Inglaterra. Tenho
+muito que te contar a esse respeito. Adeus. Aquelle que sabes
+ser teu do coração==Hamlet.</i>» Venham, vou facilitar-lhes a
+entrega das cartas, depois conduzam-me o mais prompto que
+podérem junto d'aquelle que lh'as entregou. <span class="instruccoes_cena">(Sáem todos.)</span></p>
+
+
+<h3>SCENA VII</h3>
+
+<h4>Outro quarto no castello</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram o REI e LAERTE</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Devo estar illibado aos teus olhos, e deves ver em mim um
+amigo sincero, agora que já deves ter percebido que o assassino
+de teu pae tambem queria a minha morte.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Parece-me evidente! Mas diga-me porque, depois de actos
+tão graves e criminosos por sua natureza, não perseguiu o auctor,
+como era obrigado a fazel-o, por sua dignidade, pela sua
+salvação, pela sua prudencia, por tudo emfim?</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Ah! por duas rasões, que provavelmente acharás sem valia,
+mas que a meus olhos têem toda a gravidade. A rainha sua
+mãe idolatra-o, é a existencia d'ella esse filho; eu por minha
+parte não sei se deva considerar isto como virtude ou como
+desgraça; mas ella está tão intimamente ligada á minha alma,
+qual satellite ao seu planeta, que só por ella e para ella vivo.
+O outro motivo que me impede de formular contra elle uma
+accusação publica, é a immensa affeição que o povo lhe consagra;
+affeição que desculpa todas as suas faltas, e similhante
+a essas fontes que transformam em pedra a madeira, converteria
+as suas cadeias em aureola de gloria. N'estas circumstancias,
+pois, as minhas frechas demasiado tenues para romperem
+tão forte vento, em vez de tocarem no alvo, voltando-se, feririam
+só o que as despediu.</p>
+<span class="pagenum">[116]</span>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Assim perdi meu nobre pae, e vejo minha estremecida irmã
+na mais desordenada demencia! Mas se é permittido elogiar
+o que já passou, ella excedia em perfeições as creaturas da
+sua idade, e não me hei de eu vingar?</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Essa mágua não te perturbe o somno; não me julgues de
+um caracter tão pusillanime e estulto, que um perigo, que tanto
+me impressionou, seja por mim tratado de bagatella. Brevemente
+saberás ainda mais. Eu estremecia o teu pae; nós somos
+devéras amigos, agora deves acreditar que...</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra um MENSAGEIRO</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Que queres? que ha de novo?</p>
+
+<h5>O MENSAGEIRO</h5>
+
+<p>Senhor, cartas de Hamlet; esta para vossa magestade, est'outra
+para a rainha.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>De Hamlet!! quem as trouxe?</p>
+
+<h5>O MENSAGEIRO</h5>
+
+<p>Disseram-me que uns marinheiros, eu não os vi. Estas cartas
+foram-me entregues por Claudio, que as recebeu do portador.</p>
+
+<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(pegando na carta)</span></h5>
+
+<p>Ouvirás, Laerte, o seu conteúdo. <span class="instruccoes_cena">(Ao mensageiro)</span> Retira-te <span class="instruccoes_cena">(o mensageiro
+sáe)</span> <span class="instruccoes_cena">(abre a carta e lê)</span>: «<i>Alto e poderoso monarcha, depozeram-me
+em territorio vosso, nú; ámanhã solicitarei o comparecer na
+vossa presença, e então se me for permittido referir-vos-hei o
+que deu causa ao meu estranho e inesperado regresso.==Hamlet</i>».
+Que significa isto? voltariam todos, será engano, será tudo
+falso?</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Conhece a sua letra?</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>É a letra de Hamlet. <i>Nú</i>, e n'um post-scriptum acrescenta
+<i>só</i>. Poderás tu dizer-me o que tudo isto significa?</p>
+<span class="pagenum">[117]</span>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Nada sei responder; mas que venha. Sinto renascer a chamma
+no meu coração abatido, pensando que lhe poderei dizer
+cara a cara: Foste tu o assassino de meu pae.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Se assim é, Laerte, não póde nem poderia ser de outra maneira;
+queres tu seguir um meu conselho?</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Sim, comtanto que não me aconselhe a paz.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Pois que faças pazes com o teu coração é que eu quero:
+se é verdade que regressou, o que indica que Hamlet recúa
+diante da viagem e renuncia a ella, suggerir-lhe-hei uma aventura,
+cujo plano está maduro no meu espirito, e em que não poderá
+deixar de succumbir, e sem que a sua morte possa ser
+attribuida a pessoa alguma intencionalmente; tanto que sua
+propria mãe limitar-se-ha a lastimar o occorrido, vendo só uma
+fatalidade.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Seguirei gostosamente os seus conselhos, e ainda de melhor
+vontade, se podér combinar de modo que eu seja o agente
+principal.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Vejo que os nossos desejos se combinam completamente.
+Frequentemente, desde as tuas viagens, têem-me gabado por
+excederes a todos no exercicio de uma arte. Todas as tuas
+qualidades reunidas excitaram em Hamlet menos ciumes do
+que esta só; é comtudo talvez a menos importante.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>E qual é essa qualidade?</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Um laço de fitas no chapéu da juventude, mas um enfeite
+necessario; porque não lhe fica menos bem um ornamento um
+pouco frivolo mesmo, do que convem á idade madura as vestes
+encorpadas e serias que lhe impõem a saude e a gravidade.
+Ha dois mezes esteve aqui um cavalleiro normando; tenho
+visto francezes e combatido com elles, e são devéras habeis,
+<span class="pagenum">[118]</span>
+mas a habilidade d'esse homem parecia ter o poder da magia.
+Parecia arroscado á sella, e guiava o cavallo tão prodigiosamente,
+que pareciam um só e o mesmo animal intelligente.
+Excedeu tudo quanto se póde imaginar na arte de cavallaria
+e volteio, tão perfeita era a execução.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Um cavalleiro normando, disse?</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Um normando.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Então era Lamond; não póde ser outro.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Elle mesmo.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Bem o conheço, é a phenix, a perola da sua patria.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Fallou de ti vantajosamente, fez os maiores elogios da tua
+pericia no manejo das armas, sobretudo da espada, declarando
+ser impossivel achar outro igual, e jurando que os jogadores
+de espada francezes perderam agilidade, posição e golpe
+de vista depois que comtigo se mediram. Estes elogios que elle
+te dispensava, de tal modo exasperaram o ciume de Hamlet,
+que anhelava só pelo teu regresso para comtigo combater, e
+transformaram o ciume em furia. Tirando pois partido d'estas
+circumstancias...</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Que partido poderemos nós tirar?</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Laerte, amavas tu realmente teu pae, ou não era a tua dor
+senão um simulacro, toda exterior e nada interior?</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Porque esta pergunta?</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Longe de mim o pensar que não amavas teu pae; mas a
+affeição é um sentimento que se gera em nós, e a experiencia
+<span class="pagenum">[119]</span>
+de todos os dias nos faz ver que o tempo destempera a sua
+vivacidade e o seu ardor. Mesmo na chamma do amor ha ás
+vezes uma mancha que a amortece, e cousa alguma se conserva
+permanentemente bella, porque o bom, pelo crescimento
+degenera em plethora, e parece abafado pela demasiada nutrição.
+O que pretendemos fazer, devemos fazel-o na occasião
+propria, porque a vontade tambem muda; tantas são as suas
+mudanças, quantas as linguas, mãos e outros accessorios que
+se cruzam no seu caminho, e então a execução não é mais
+que um dever, cujo cumprimento, similhante aos demasiado
+frequentes suspiros, nos magôa, alliviando-nos. Mas entremos
+francamente na questão. Hamlet regressa. Que estás tu disposto
+a fazer, para te mostrares digno filho de teu pae, não com palavras,
+mas com obras?</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Assassinal-o-ía mesmo no templo do Senhor.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Effectivamente o assassino não recúa perante o santuario,
+quando pretende saciar a vingança. Mas, querido Laerte, queres
+seguir o meu conselho? Encerra-te nos teus aposentos.
+Hamlet, regressando, saberá da tua estada n'estes logares;
+farei com que exaltem na sua presença os teus talentos, e que
+encareçam os elogios mais que os francezes o fizeram; por este
+meio seguir-se-hão um desafio e apostas sobre a pericia dos
+contendores. Elle que está desprevenido e é generoso e de nada
+desconfia, não examinará os floretes; de modo que, com alguma
+habilidade da tua parte, poderás escolher um florete sem
+botão, e por meio de uma bem dirigida estocada fazer-lhe pagar
+a morte de teu pae.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Como o rei disse, Laerte o fará; mesmo envenenarei a ponta
+do meu florete. Comprei a um empirico uma droga mortal.
+Por pouco que a ponta de um punhal esteja n'ella banhada,
+por leve que seja o ferimento, não ha balsamo precioso, embora
+composto dos mais energicos contravenenos, que possa
+salvar da morte inevitavel e rapida o ferido. Assim, prepararei
+a ponta do meu florete, para que mesmo leve arranhadura
+lhe seja fatal.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Tornaremos ao assumpto, e combinaremos o momento e maneira
+<span class="pagenum">[120]</span>
+mais facil e favoravel para a sua execução. Se tivesse
+que falhar este nosso plano, mais valeria nada tentar. Mas é
+necessario que esta primeira combinação se firme n'uma segunda,
+que a substitua, no caso da arma se quebrar no primeiro
+encontro. Um momento... Vejamos. Faremos apostas importantes
+sobre a respectiva pericia de ambos. Quando, no
+calor do combate, estiverem afogueados e sedentos, para conseguir
+o intento não poupes o teu adversario, ataca-o com vigor.
+Hamlet, sem duvida, pedirá uma bebida; ser-lhe-ha então apresentada
+uma, de antemão preparada, e uma só gota bastará, se
+a tua espada te trahir, para conseguirmos o fim desejado. Mas
+silencio! Que rumor é este? <span class="instruccoes_cena">(Entra a rainha.)</span> Que ha de novo, querida
+Gertrudes?</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Accumulam-se as desgraças, e repetem-se com assustadora
+rapidez. Laerte, tua irmã suicidou-se, afogando-se.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Onde?</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Na margem da vizinha ribeira cresce um salgueiro, cuja
+prateada folhagem se reflecte nas aguas crystallinas. Tua irmã
+approximou-se d'aquelle sitio, sempre tecendo grinaldas de rainunculos,
+ortigas, malmequeres, e d'essas flores a que os nossos
+pastores dão um nome bem grosseiro, mas que as nossas
+castas donzellas denominam poeticamente <i>dedo da morte</i>.
+Quando procurava ornar com as suas innocentes grinaldas as
+argenteas frondes do salgueiro, oh! desgraça! descuidosa foi
+envolvida na corrente, cercada dos ornatos que lhe serviam
+como de corôa virginal. Algum tempo suspensa pelas vestes
+sobre a corrente, assimilhava-se á sereia, cantando incoherentes
+trechos, inconsciente do proprio risco, como se estivesse no
+seu nativo elemento. Mas tudo tem um fim, e em breve, sossobrando
+pelo peso das encharcadas vestes, cessou de cantar, e
+tornou-se cadaver levado pela corrente.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Oh! desgraçada! afogada!!</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Sim, Laerte!</p>
+<span class="pagenum">[121]</span>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Sequem-se as minhas lagrimas; já tiveste agua em demasia,
+infeliz Ophelia! Mas porque? Mais força tem a natureza
+do que a vontade; todos lhe devemos obediencia. Para que uma
+falsa vergonha? Rolem, pois pelas faces lagrimas santas, e arrebatem
+na sua corrente a minha ultima fraqueza. Adeus, senhor!
+As minhas palavras de fogo tornar-se-íam embravecido
+vulcão, se as lagrimas do coração o não apagassem. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Sigâmol-o, Gertrudes. Quanto me custou a serenar a sua
+colera! Receio bem que estas novas desgraças lhe despertem
+em toda a sua plenitude a sanha da vingança. Sigâmol-o,
+pois.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Fim do acto quarto</p>
+<span class="pagenum">[123]</span>
+
+
+
+
+<h2>ACTO QUINTO</h2>
+
+
+<h3>SCENA I</h3>
+
+<h4>Um cemiterio</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram DOIS COVEIROS com enxadas</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>Dever-se-ha enterrar em chão sagrado aquelle que voluntariamente
+procurou a sua salvação no suicidio?</p>
+
+<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5>
+
+<p>Eu cá digo que sim; avia-te em cavar a cova, o magistrado
+viu e decidiu que aqui fosse sepultada.</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>Isso não póde ser, a menos que não se afogasse involuntariamente.</p>
+
+<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5>
+
+<p>Já está reconhecido e decidido.</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>As probabilidades todas são que pereceu <i>se offendendo</i>.
+Ninguem é capaz persuadir do contrario. Vê tu como eu o provo.
+Se me afogar voluntariamente existe um acto; ora, um acto
+subvide-se em tres ramos: a acção, o cumprimento e a execução;
+ergo, afogou-se voluntariamente.</p>
+
+<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5>
+
+<p>Assim será, mas escuta-me ao menos.</p>
+<span class="pagenum">[124]</span>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>Ouve-me ainda; a agua está aqui, o homem está acolá;
+muito bem, o homem vae encontrar a agua e se afoga; forçosamente
+morre por seu motu proprio; nota isto bem. Mas se,
+pelo contrario, é a agua que vem encontrar o homem, e elle
+se afoga, então já não é elle que procura a morte; ergo, aquelle
+que não é culpado na sua morte, não poz termo voluntariamente
+á vida.</p>
+
+<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5>
+
+<p>Mas será lei?</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>É a lei que preside ao inquerito do magistrado.</p>
+
+<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5>
+
+<p>Queres que te diga o que penso? Se a defunta não fosse
+senhora de qualidade, de certo não a enterravam em chão sagrado.</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>É bem verdade o que dizes; é triste que as pessoas de qualidade
+tenham, a mais dos outros christãos seus iguaes, o direito
+de se afogarem e de se enforcarem. Vamos sempre cavando!
+Não ha nobreza mais antiga que a dos jardineiros, lavradores
+e coveiros; seguem a profissão de Adão!</p>
+
+<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5>
+
+<p>Pois Adão era nobre?</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>O primeiro que usou armas!</p>
+
+<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5>
+
+<p>Deixa-te d'isso, não consta que as tivesse!</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>Sempre és um pagão! como comprehendes tu então a escriptura
+sagrada? A escriptura diz que Adão trabalhava o solo;
+como poderia elle trabalhar sem pá ou enxada? Essas eram
+as suas armas. Vou fazer-te outra pergunta, se não me responderes
+com acerto, não és mais que um....</p>
+
+<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5>
+
+<p>Asno! continúa.</p>
+<span class="pagenum">[125]</span>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>Quem é que construiu mais solidamente que o pedreiro,
+carpinteiro e constructor de navios?</p>
+
+<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5>
+
+<p>O constructor do cadafalso, porque sobrevive a innumeros
+hospedes.</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>Boa resposta, palavra de honra. Cadafalso é bem achado;
+mas para quem se fez o cadafalso? para os que fazem o mal;
+ora, tu fizeste mal em dizer que o cadafalso é mais solido que
+a igreja, logo merecias o cadafalso. Vamos, procura e responde.</p>
+
+<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5>
+
+<p>Agora eu! Quem é que construiu mais solidamente do que
+o pedreiro, carpinteiro e constructor de navios?</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>Dize tu primeiro, eu cá já sei.</p>
+
+<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5>
+
+<p>Tambem eu.</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>Vejamos.</p>
+
+<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5>
+
+<p>Nada, não atino.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">HAMLET e HORACIO apparecem ao fundo</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>Basta de tratos ao teu cerebro; escusas de pensar mais, ficas
+sempre na mesma. Quando alguma vez te fizerem essa pergunta,
+responde: «É o coveiro; as moradas que construe duram
+até ao dia de juizo». Agora vae a casa de Vaughan e
+traze-me um copo de licor.<span class="instruccoes_cena">(O segundo coveiro sáe, cantando.)</span></p>
+
+<div class="poesia">
+Quando eu era mancebo e quando amava<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> Tudo era para mim rapido goso,</span><br>
+Sómente noite e dia andava ancioso<br>
+<span style="margin-left: 5em;"> Por o tempo matar que me matava.</span>
+</div>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Pois este homem não terá consciencia do que está fazendo,
+cantando assim, quando cava uma sepultura?</p>
+<span class="pagenum">[126]</span>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>O habito tudo póde.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>E verdade, a mão pouco afeita ao trabalho tem o tacto mais
+delicado!</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO <span class="instruccoes_cena">(cantando)</span></h5>
+
+<div class="poesia">
+Mas a idade chegou, passo furtivo<br>
+Nas gastadoras garras me ha tomado,<br>
+E assim, mau grado meu, me ha condemnado<br>
+A viver entre a morte, morto-vivo. <span class="instruccoes_cena">(Desenterra uma caveira.)</span>
+</div>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(apontando para uma caveira)</span></h5>
+
+<p>Houve tempo em que esta cabeça tinha uma lingua e cantava;
+agora este rustico fal-a rolar pelo solo, como se fosse a
+mandibula de Caim, o primeiro homicida. O craneo que este
+imbecil trata com tão pouco respeito, era talvez de algum profundo
+politico, que se julgava até capaz de impor a sua opinião
+ao proprio Deus, não é verdade?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Tudo póde ser, senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ou talvez de algum cortezão cujo prestimo unico fosse repetir:
+«Deus seja comvosco, como está, meu senhor?» É talvez
+o craneo do sr. fulano, que gabava o cavallo do sr. cicrano,
+com a idéa que este lh'o désse, não é verdade, Horacio?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Sim, meu senhor!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Deve assim ser! Agora pertence aos vermes; não tem nem
+pelle, nem sangue, nem carne, e este coveiro fende-o com a
+sua enxada. Eis uma estranha revolução, assim a comprehendessemos
+bem. Joga-se a bola com esses ossos, como se nada
+tivessem custado a formar. Sinto estalar os meus só pensando-o.</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO <span class="instruccoes_cena">(cantando)</span></h5>
+
+<div class="poesia">
+Uma enxada e uma pá logo em seguida,<br>
+Um lençol que amortalha o corpo todo,<br>
+Um buraco depois feito no lodo,<br>
+Eis ao que se reduz a humana vida. <span class="instruccoes_cena">(Desenterra outra caveira.)</span>
+</div>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Eis um outro craneo; quem sabe se não seria de um jurisconsulto.
+<span class="pagenum">[127]</span>
+Agora acabaram as trapaças, as distincções subtis,
+as causas, as auctoridades legaes e as finuras. Em vida, de
+certo não consentia sem um processo que este imbecil lhe percutisse
+o craneo com a enxada. Porque não lhe intenta agora
+uma acção por vias de facto e sevicias? Quem sabe, talvez fosse
+um nedio comprador de bens immoveis, com os seus direitos,
+rendas, privilegios, hypothecas e contratos. Eil-o agora
+elle mesmo hypothecado, tem o privilegio commum a todos os
+mortaes, de ver a sua cabeça coberta de pó e terra. Pois que!
+todas as acquisições tão bem garantidas, não terão outro complemento
+senão assegurar-lhe um espaço apenas igual á superficie
+de dois contratos de venda? Todos os seus titulos mal
+caberiam n'este cofre, e comtudo é hoje a sua unica propriedade.
+Ah!</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Unica, senhor!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Horacio, o pergaminho faz-se de pelles de carneiro, não é
+verdade?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Tambem de bezerro.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>São pois os carneiros e bezerros que fazem fé em taes titulos.
+Vou interrogar este rustico. A quem pertence essa cova?</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>A mim!</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">(Cantando)</p>
+
+<div class="poesia">
+Um buraco depois feito no lodo,<br>
+Eis ao que se reduz a humana vida.
+</div>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Effectivamente, creio ser tua, pois que estás dentro d'ella.</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>O senhor está fóra, logo não é sua; mas apesar d'ella não
+me ser destinada, é comtudo minha.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Mentes, é para um morto, e não para um vivo.</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>Eis um desmentido prompto e que não admitte replica.</p>
+<span class="pagenum">[128]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Para que homem cavas essa cova?</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>Senhor, não é para um homem!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Para que mulher então?</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>Nem tão pouco para uma mulher!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Quem será pois depositado n'esta cova?</p>
+
+<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5>
+
+<p>Uma pessoa que foi mulher, hoje é defunta; Deus se compadeça
+da sua alma.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que agudeza no seu positivismo! é preciso fallar-lhe com
+toda a clareza, para não ser por elle enredado. Por Deus, Horacio,
+que noto ha tres annos que o mundo se torna retrogrado,
+e o rustico se approxima tanto do cortezão, que quasi se
+confundem. Ha quanto tempo és coveiro?</p>
+
+<h5>O COVEIRO</h5>
+
+<p>Dei-me a este officio desde o dia em que o defunto rei Hamlet
+venceu a Fortimbraz.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Quanto tempo haverá?</p>
+
+<h5>O COVEIRO</h5>
+
+<p>Não o sabe? Pois não ha imbecil que lh'o não diga. Foi no
+mesmo dia em que nasceu o joven Hamlet, aquelle que enlouqueceu,
+e foi mandado para Inglaterra.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>É isso; e porque o mandaram para Inglaterra?</p>
+
+<h5>O COVEIRO</h5>
+
+<p>Ora, porque? porque estava louco; talvez lá recupere a rasão,
+e se não a recuperar, tambem não se perde muito.</p>
+<span class="pagenum">[129]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>E porque?</p>
+
+<h5>O COVEIRO</h5>
+
+<p>Não será visto aqui, e lá todos são tão loucos como elle.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Como enlouqueceu elle?</p>
+
+<h5>O COVEIRO</h5>
+
+<p>De um modo bem estranho, segundo dizem.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Mas de que modo?</p>
+
+<h5>O COVEIRO</h5>
+
+<p>É claro, perdendo a rasão.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>E qual foi o motivo?</p>
+
+<h5>O COVEIRO</h5>
+
+<p>Um motivo dinamarquez, um motivo d'este paiz em que sou
+coveiro desde a infancia, ha trinta annos.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Dize-me, quanto tempo póde um homem estar enterrado,
+antes de apodrecer?</p>
+
+<h5>O COVEIRO</h5>
+
+<p>Se não está já podre antes de morrer <span class="instruccoes_cena">(porque temos n'esta
+epocha muito corpo gangrenado, que mal supporta a inhumação)</span>,
+póde conservar-se de oito a nove annos; um surrador
+conserva-se nove annos.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Porque mais tempo que os outros?</p>
+
+<h5>O COVEIRO</h5>
+
+<p>O exercicio da sua profissão cortiu-lhe de tal modo a pelle,
+que fica impermeavel por muito tempo, e de certo sabe que a
+agua é o mais activo destruidor dos cadaveres. Vê esta caveira?
+Ficou vinte e tres annos debaixo da terra.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>De quem era?</p>
+<span class="pagenum">[130]</span>
+
+<h5>O COVEIRO</h5>
+
+<p>De um typo original; ora, quem lhe parece que seria?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Como posso eu sabel-o?</p>
+
+<h5>O COVEIRO</h5>
+
+<p>Leve-o o diabo. Lembro-me ainda do dia em que me vasou
+sobre a cabeça um frasco de vinho do Rheno. Esta caveira,
+senhor, era de Yorick, o bobo do rei.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Este craneo?</p>
+
+<h5>O COVEIRO</h5>
+
+<p>Sim, este mesmo.</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(pegando na caveira)</span></h5>
+
+<p>Dá-m'o, deixa-me vel-o. Pobre Yorick! Conheci-o, Horacio,
+era uma mina inexgotavel de ditos engraçados; tinha uma imaginação
+viva e fecunda! quantas vezes me levou aos hombros!
+agora ao pensal-o annuvia-se-me o coração. Aqui estavam os
+seus labios, em que tantos osculos depuz. Onde estão agora
+os teus sarcasmos, as tuas replicas, as tuas canções, esses
+rasgos de alegria, que promoviam a hilaridade de todos os
+convivas? Que! pois ninguem já póde rir com as tuas facecias?
+Descarnadas estão as faces. Vae, entra como agora estás, na
+alcova de alguma beldade da moda; dize-lhe então que arrebique
+e enfeites nada lhe valem, porque um dia será igual a ti.
+Fal-a rir, dizendo-lh'o. Dize-me tu, Horacio...</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>O que, meu senhor?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Julgas tu que Alexandre, depois de enterrado, se parecesse
+com Yorick?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>De certo!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>E que tivesse tão mau cheiro? Fóra! <span class="instruccoes_cena">(Deita fóra o craneo.)</span></p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Sem duvida alguma, senhor.</p>
+<span class="pagenum">[131]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>A que destinos grosseiros é possivel baixarmos, Horacio?
+Quem sabe se, proseguindo nas suas successivas transformações,
+as cinzas de Alexandre não estão hoje empregadas em
+tapar um barril?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Seria entrar n'um exame demasiado minucioso.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não concordo. Podemos seguir seriamente esse exame, e
+com probabilidades de obter um resultado. Por exemplo, Alexandre
+está morto, Alexandre está sepultado, Alexandre tornou-se
+pó; o pó é terra, da terra tira-se argilla, e quem impede
+que esta argilla, ultima metamorphose de Alexandre, seja empregada
+como batoque n'um barril de cerveja? O imperial Cesar,
+morto, tornou-se pó, e serve talvez para vedar uma fenda
+e interceptar a passagem do ar; e essa argilla, que espalhava
+o terror sobre o universo, vae calafetar um muro para impedir
+que o vento passe. Mas, silencio: afastemo-nos, chega o rei:
+<span class="instruccoes_cena">(Entram processionalmente padres, levando á mão o caixão de Ophelia;
+segue-se Laerte e o cortejo funebre, mais atrás o rei, a rainha e a côrte)</span> e tambem a
+rainha! toda a côrte! A quem prestarão os ultimos deveres?
+De quem será este funeral incompleto? Tudo denuncia um suicidio.
+Deve porém ser pessoa de categoria! Occultemo-nos e
+observemos, Horacio. <span class="instruccoes_cena">(Afastam-se um pouco Hamlet e Horacio.)</span></p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Que ceremonias falta cumprir?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Olha, é Laerte, um nobre mancebo.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Ha mais alguma cousa que fazer?</p>
+
+<h5>PRIMEIRO PADRE</h5>
+
+<p>Fizemos já para o seu funeral tudo quanto nos era licito fazer;
+a sua morte tinha um caracter suspeito, e se ordens superiores
+não tivessem imposto silencio aos canones da Igreja,
+teria sido sepultada em chão profano, onde teria ficado até que
+a acordasse o clarim do juizo final. Em vez de orar por ella,
+<span class="pagenum">[132]</span>
+teriamos lançado sobre o seu corpo tições, entulho e pedras;
+e comtudo coroaram-n'a como virgem, e flores cobriram a
+sua campa, e o tanger do bronze sagrado acompanhou-a á
+sua ultima morada.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Então nada mais se póde fazer?</p>
+
+<h5>PRIMEIRO PADRE</h5>
+
+<p>Mais nada; profanariamos o rito sagrado se entoassemos
+um <i>requiem</i>, ou se implorassemos para ella o repouso destinado
+ás almas que voaram ao céu santamente.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Seja pois o seu corpo depositado na campa, e possam d'elle
+e da sua carne, pura e sem manha, desabrochar violetas! Sou
+eu que t'o digo, padre sem alma, minha irmã gosará no céu a
+bemaventurança eterna, emquanto que tu extorcer-te-has no
+inferno nas convulsões do supplicio dos condemnados.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que? É pois a bella Ophelia?</p>
+
+<h5>A RAINHA <span class="instruccoes_cena">(lançando flores sobre a campa)</span></h5>
+
+<p>Flores para esta joven flor. Adeus! Esperava ver-te esposa
+do meu Hamlet; contava, encantadora donzella, enfeitar o teu
+leito nupcial; nunca pensei espargir flores sobre a tua sepultura.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Oh! que uma triplice e dez vezes triplice maldição cáia sobre
+a cabeça do scelerado que commetteu tão negra acção, e
+provocou a perda da sua rasão. Esperem que, antes que a terra
+a cubra, a estreite mais uma vez nos meus braços <span class="instruccoes_cena">(salta para
+dentro da cova)</span>. Agora enterrem conjunctamente vivos e mortos,
+elevem sobre nós uma montanha que exceda em altura o antigo
+Pélion, ou o azulado Olympo, cujo cimo vem beijar as nuvens.</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(adiantando-se)</span></h5>
+
+<p>Quem é que na sua dor se exprime com tanta emphase;
+cuja voz detem os astros no seu giro, attonitos de o ouvirem?
+Sou Hamlet, o dinamarquez! <span class="instruccoes_cena">(Arremessa-se á cova.)</span>
+<span class="pagenum">[133]</span></p>
+
+<h5>LAERTE <span class="instruccoes_cena">(lançando-se a elle)</span></h5>
+
+<p>O inferno se apodere da tua alma!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>É um abominavel desejo: larga-me a garganta, retira as
+mãos, abaixo, aconselho-t'o eu; não sou nem mau, nem arrebatado,
+mas é perigoso excitar-me, e obrarás assisadamente
+pensando assim. Abaixo as mãos!</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Separem-os.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Hamlet! Hamlet!</p>
+
+<h5>TODOS</h5>
+
+<p>Senhores!</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Contenham-se.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Por um tal motivo sinto-me capaz de combater com elle até
+ao ultimo alento.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Meu filho, qual é o motivo?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Amava Ophelia, e as affeições juntas de quarenta mil irmãos
+não poderiam igualar a minha; <span class="instruccoes_cena">(a Laerte)</span> e que serias tu
+capaz de fazer por ella?</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Deixa-o, Laerte, está louco.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Pelo amor de Deus, não faça caso das suas palavras.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Vamos, dize-me, que tencionas tu fazer? Prantear, combater,
+jejuar, rasgar tuas proprias carnes, beber o Issel todo, devorar
+um crocodilo? Tudo farei. Vieste aqui para te lamentar,
+para me desafiar, precipitando-te dentro da sua cova; enterra-te
+vivo com ella, outro tanto farei; e já que fallaste em montanhas,
+accumulem ellas sobre nós tanta terra, que o cume da
+nossa pyramide tumular toque a zona ardente, e ao pé d'ella
+<span class="pagenum">[134]</span>
+o monte Ossa não pareça mais que uma verruga. Pódes encolerisar-te,
+que não me assustam os teus furores.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>É um accesso de loucura que durará algum tempo; depois,
+similhante á meiga pomba acalentando os filhinhos, ficará silencioso
+e immovel.</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(a Laerte)</span></h5>
+
+<p>Dize-me, porque me tratas assim? Sempre fui teu amigo.
+Mas não importa. Aindaque Hercules se oppozesse, se o gato
+miasse, o cão havia de ladrar <span class="instruccoes_cena">(afasta-se)</span>.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Siga-o, peço-lhe, meu caro Horacio. <span class="instruccoes_cena">(Horacio segue Hamlet)</span> <span class="instruccoes_cena">(a Laerte)</span>
+Tem paciencia, lembra-te da nossa conversação de hontem,
+<span class="instruccoes_cena">(Á rainha)</span> Querida Gertrudes, faça com que velem sobre Hamlet;
+<span class="instruccoes_cena">(á parte)</span> é preciso dar como monumento a este tumulo uma
+victima humana. Cedo estarei descansado; até então, paciencia!
+<span class="instruccoes_cena">(Sáem todos.)</span></p>
+
+
+<h3>SCENA II</h3>
+
+<h4>Uma sala no castello</h4>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram HAMLET e HORACIO</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Basta sobre esse assumpto; passemos ao outro, recordas-te
+bem de todas as circumstancias?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Se me lembro, meu senhor!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Uma especie de lucta apoderára-se do meu coração, vedava-me
+o somno, sentia-me peior que um facinora acorrentado!
+Adoptando comtudo uma resolução temeraria, achei na temeridade
+a minha força; lembremo-nos sempre, Horacio, que a
+imprudencia é muitas vezes o nosso prestante auxiliar, quando
+os nossos mais profundos calculos são impotentes, e isto
+<span class="pagenum">[135]</span>
+deve-nos ensinar que ha uma Providencia que aperfeiçoa e
+completa os projectos que imperfeitamente esboçâmos.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Não ha cousa mais certa!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Saí pois do meu camarote a bordo, e coberto com as roupas
+de viagem procurei e encontrei pelo tacto, ás escuras, a
+sua mala; abri-a e revolvi-a toda, em seguida recolhi-me ao
+meu aposento; então o perigo baniu todo o escrupulo, abri o
+despacho rompendo o sêllo real! Escuta o que li, Horacio. Oh!
+perfidia real! Apoiando-se em differentes motivos, a salvação
+da Dinamarca e da Inglaterra, e o perigo que para elle havia
+em eu continuar a viver, o rei ordenava expressamente, que
+depois da leitura d'essa carta, sem demora alguma, nem mesmo
+a necessaria para afiar o cutello, eu fosse decapitado.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Será possivel?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Aqui tens a carta, lê-a á tua vontade. Mas queres tu saber
+o que eu então fiz?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Diga, senhor; que foi?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Para saír salvo dos laços d'esta infame traição, appellei
+para a minha intelligencia, e depressa formei o meu plano.
+Sentei-me, e redigi um despacho com a melhor letra que pude
+fazer. Antigamente, assim como os nossos homens d'estado
+considerava uma vergonha ter boa letra; e se soubesses
+quanto eu desejei perdel-a! mas n'esta occasião foi-me maravilhosamente
+util. Queres saber o que escrevi?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Com todo o gosto, senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Dirigindo-se ao monarcha inglez como seu fiel tributario,
+dizia-lhe o rei de Dinamarca, se queria que se conservasse
+virente a palma da amisade, a paz se coroasse de espigas
+e se estreitassem os laços de uma união duradoura, lhe
+<span class="pagenum">[136]</span>
+ordenava que, finda a leitura da sua carta, sem outro exame,
+sem lhes dar tempo de se confessarem, fizesse suppliciar
+os portadores do despacho.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Mas com que sêllo fechou esse escripto?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>A Providencia não me desamparou ainda n'essa occasião;
+tinha na minha bolsa o sêllo de meu pae, reproducção exacta
+do sêllo do estado. Dobrei pois o meu despacho na fórma do
+estylo, subscriptei-o e sellei-o, depois colloquei-o no logar em
+que estava o outro: o engano não foi descoberto. No dia seguinte,
+em vez de combate sabes o que houve.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Assim, Rosencrantz e Guildenstern, vão receber o seu justo
+castigo?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Procuraram-n'o por suas proprias mãos; não me peza na
+consciencia. Só de si se podem queixar. É sempre uma desgraça
+para vis subalternos acharem-se envolvidos nas contendas
+de dois poderosos adversarios.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>E é rei? meu Deus!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>O meu dever está agora claramente indicado. Áquelle que
+assassinou meu pae, deshonrou minha mãe, que se interpoz
+entre a escolha da nação e as minhas esperanças, que attentou
+contra a minha vida traiçoeira e perfidamente, é justiça
+que o meu braço o puna. E não seria um crime digno da condemnação
+eterna, deixar continuar esta ulcera no seu trabalho
+corrosivo?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Mas dentro em pouco saberá de Inglaterra o desenlace de
+todo este negocio?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Em breve o saberá, é verdade, mas o tempo que até então
+decorrer, pertence-me, e o fio da vida do homem corta-se em
+menos tempo do que o preciso para contar até dois. O que me
+<span class="pagenum">[137]</span>
+peza, meu caro Horacio, é ter desattendido Laerte, porque eu
+tambem sinto o que elle deve sentir. Sempre prezei a sua estima;
+mas a emphatica exaltação da sua dor exacerbou-me.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Silencio, principe; approxima-se alguem.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra OSRICO</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Alegro-me, principe, que tenha regressado á Dinamarca.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Obrigado, senhor. <span class="instruccoes_cena">(A Horacio)</span> Conheces tu esse insecto?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Não, meu senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>És pois um homem moral, é um vicio conhecel-o. É verdade
+que possue muitas e ferteis propriedades, mas é um estupido
+animal, que tem mando sobre os outros, seguro de achar
+a sua mangedoura na mesa real; é um ente desprezivel, mas,
+como disse, é senhor de vastos dominios.</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Meu bom senhor, se não incommodo vossa alteza, alguma
+cousa tinha que lhe communicar da parte de sua magestade.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Escutal-o-hei com prazer. Mas cubra-se já, que o chapéu
+foi feito para estar na cabeça.</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Obrigado, senhor, mas faz muita calma.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Faz muito frio, não acha? O vento está norte.</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Effectivamente, faz bastante frio.</p>
+<span class="pagenum">[138]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não sei se é effeito de uma predisposição particular, mas
+acho um calor abrasador.</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Não ha duvida, faz tanto calor, que nem posso quasi
+respirar. Mas, meu senhor, sua magestade encarregou-me
+de lhe dizer que fez uma aposta consideravel, de que vossa
+alteza é o motivo.</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(fazendo-lhe signal de se cobrir)</span></h5>
+
+<p>Faz favor.</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Perdão, senhor, mas não me incommoda. Vossa alteza de
+certo é sabedor que chegou a esta côrte Laerte, um joven mui
+dextro, dotado das mais raras qualidades, agradavel no trato,
+um perfeito moço. Para fallar d'elle como merece, póde-se dizer
+que é o espelho e o almanach do bom tom, porque n'elle
+estão reunidas todas as qualidades que deve possuir um perfeito
+cavalheiro.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Senhor, não encareceu o retrato que d'elle fez; não é sufficiente
+toda a arithmetica da memoria para redigir o inventario
+especificado de todas as suas perfeições, e ainda assim o
+juizo ficaria áquem da verdade. Fallando conscienciosamente,
+tenho-o na conta de um cavalheiro distincto e de raro merecimento;
+digo-o sinceramente; para achar outro igual, forçoso é
+que se olhe no seu espelho: os outros não seriam senão a sua
+sombra.</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>O principe falla d'elle com a convicção da estima.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>De que se trata, pois? Escusâmos embaçar as suas qualidades
+com o nosso juizo.</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Senhor!</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Não seria possivel fallar uma lingua mais intelligivel? É-o
+por certo, senhor.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Com que fim pronunciou o nome d'aquelle cavalheiro?</p>
+<span class="pagenum">[139]</span>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>De Laerte?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Acabou-se-lhe o cabedal; ignora completamente o que ha
+de responder.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>É verdade.</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Sei que não ignora...</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Queria que assim pensasse a meu respeito; e se assim fosse,
+fraco elogio para mim seria. Continue agora.</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Vossa alteza não ignora a superioridade de Laerte?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>É o que não affirmo, com o receio de me comparar a elle.
+Para conhecer um homem a fundo era necessario vestir a sua
+pelle.</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Quero fallar da sua superioridade em manejar as armas;
+gosa da reputação de não ter rival.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Quaes são as suas armas de predilecção?</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Florete e adaga.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>São só duas! prosiga.</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>O rei apostou seis bellos cavallos da melhor raça, contra
+seis espadas e seis adagas francezas de Laerte, sem contar os
+cinturões, talabartes e tudo o mais. Tres dos accessorios sobretudo
+são dignos da aposta e de um trabalho maravilhoso,
+no estylo mesmo das armas.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que chama accessorios?</p>
+<span class="pagenum">[140]</span>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Bem sabia eu que antes de terminar era infallivel algum
+reparo do principe.</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Os accessorios, senhor, são os enfeites dos cintos e talabartes
+em que se suspendem as espadas.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>A expressão seria mais exacta se em vez de espada usassemos
+um canhão; sirvamo-nos pois do termo cinto na generalidade.
+Prosiga. Seis bellos cavallos contra seis espadas e
+seus pertences, incluindo tres cintos, obra prima da arte franceza;
+é pois a França contra a Dinamarca. Mas qual é o motivo
+d'esta aposta?</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>O rei apostou que em doze golpes, Laerte não tocaria o
+principe senão tres vezes. Laerte apostou que seriam nove em
+doze. A questão será promptamente decidida se vossa alteza
+se dignar responder.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>E se eu responder negativamente?</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Quer dizer, se o principe convier em combater.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Senhor, vou agora passeiar n'esta sala; costumo todos os
+dias a esta hora, entregar-me a esses exercicios: depois estou
+ás ordens do rei. Tragam floretes com a annuencia de
+Laerte; e se o rei persistir no seu empenho far-lhe-hei
+ganhar a aposta se podér; no caso contrario restam-me os
+golpes recebidos e a vergonha.</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Deverei dar ao rei a sua resposta?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Disse-lhe o meu pensamento: o seu talento saberá completar
+a resposta.</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Um servo dedicado de vossa alteza. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p>
+<span class="pagenum">[141]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Muito agradecido, obrigado <span class="instruccoes_cena">(a Horacio)</span>; fez bem de o dizer elle
+mesmo, ninguem se encarregava por certo de tal missão.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Finalmente, estamos sós!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Estou certo que ao collo da ama, antes de o sugar, elogiava
+a alvura do seu seio; similhante a tantas pessoas da sua
+tempera, que são o encanto dos ignorantes, abraçam as modas
+do dia, e revestem-se de um falso verniz de polidez, e, graças
+a essa mascara, são escutados pelos sensatos; mas experimentem-os,
+são como bolas de sabão, que se desvanecem ao
+menor sopro.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entra UM SENHOR</p>
+
+<h5>O SENHOR</h5>
+
+<p>Senhor! o rei mandou o joven Osrico cumprimentar vossa
+alteza da sua parte, o qual lhe disse que o principe esperava
+n'esta sala. El-rei envia-me para saber se é intenção de vossa
+alteza combater já, ou adiar o combate.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Tomei já a minha resolução, e concorda com os desejos de
+sua magestade. Se Laerte está prompto, tambem eu o estou;
+immediatamente, ou quando quizer, comtanto que me sinta sempre
+tão bem disposto como agora o estou.</p>
+
+<h5>O SENHOR</h5>
+
+<p>Em breve chegarão o rei e a rainha, e toda a côrte.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Bemvindos sejam!</p>
+
+<h5>O SENHOR</h5>
+
+<p>É pedido da rainha que receba cordialmente Laerte, antes
+de dar principio á contenda.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>É justo o seu conselho. <span class="instruccoes_cena">(O senhor sáe.)</span></p>
+<span class="pagenum">[142]</span>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Receio que o principe perca a aposta.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não creias tal; depois que elle partiu, tenho-me continuamente
+exercitado no jogo das armas: com a vantagem concedida
+a victoria é certa. Se tu soubesse que dor sinto no coração!
+Não importa.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Comtudo, senhor!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>É uma loucura, uma leve apprehensão, que apenas poderia
+influenciar uma fraca mulher.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Se sente alguma repugnancia no seu espirito, obedeça-lhe.
+Vou prevenil-os que não venham, que o principe se sente indisposto.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>De modo nenhum! Luctarei com os meus presentimentos; a
+Providencia tem já escripto o meu destino. Se tenho de morrer,
+nada o evitará, forçoso é obedecer aos seus decretos; que seja
+hoje ou ámanhã, estou prompto; tenho dito. Poisque o homem
+não é senhor do seu destino, que importa que seja mais
+tarde ou mais cedo? Será o que Deus quizer.</p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram o REI, a RAINHA, LAERTE, OSRICO, SENHORES e CREADOS
+trazendo floretes e luvas e uma mesa com frascos e taças</p>
+
+<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(a Laerte)</span></h5>
+
+<p>Perdoe-me, se o offendi, mas perdoe-me como cavalheiro.
+Os que nos cercam, sabem-o, e creio que tambem deve saber,
+que um terrivel desvairamento se apossou de mim. Se alguma
+cousa fiz que podesse irritar o seu caracter e a sua
+honra e melindre, proclamo-o bem alto: «Loucura!» Seria ainda
+Hamlet que offendeu Laerte? Nunca, nunca poderia ser
+Hamlet. Então não era elle, e não sendo elle, como offenderia
+Hamlet a Laerte? É claro, não era elle; renego todos esses
+actos. Quem foi então? a loucura. Sendo assim, Hamlet abraça
+o offendido; o verdadeiro inimigo do desditoso Hamlet é a
+sua loucura. Senhor, depois d'esta confissão, em que perante
+<span class="pagenum">[143]</span>
+todos renego toda a má intenção, poderá ainda a sua generosidade
+condemnar-me? É como se inconscientemente despedisse
+por cima de uma casa um dardo, e fosse ferir um irmão.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Meu coração está satisfeito; era elle que mais me excitava
+á vingança; mas no campo da honra recuso-me a toda a conciliação,
+até que arbitros mais idosos e de provada lealdade,
+me imponham, fundados em precedentes, uma sentença de paz,
+que ponha o meu nome ao abrigo de toda a suspeita. Até então
+acceito a amisade que me offerece, e nada farei em seu
+detrimento.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Acceito francamente essa promessa, e a lucta fraternal que
+vamos encetar. Venham os floretes, comecemos.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Dêem-me um florete!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Vou ser o seu alvo, Laerte; ao pé da minha inexperiencia
+vae sobresaír a sua pericia, como um astro brilhante em noite
+escura.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Zomba de mim?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Juro que não!</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Dá-lhes floretes, Osrico, Primo Hamlet, conheces a aposta?</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Perfeitamente, senhor; aposta demasiado vantajosa para o
+mais fraco.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Nada receio; já os conheço ambos, e poisque Hamlet é quem
+mais avantajado está, a sorte está pelo nosso lado.</p>
+
+<h5>LAERTE <span class="instruccoes_cena">(examinando um florete)</span></h5>
+
+<p>Este não, que é muito pesado; outro!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Este convem-me; os floretes são todos iguaes, não é verdade?</p>
+<span class="pagenum">[144]</span>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Sim, meu bom senhor. <span class="instruccoes_cena">(Collocam-se.)</span></p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Ponham os frascos sobre a mesa. Se Hamlet o tocar a primeira
+e segunda vez, ou se elle aparar o terceiro golpe, que
+as baterias rompam uma salva geral; beberei á saude de
+Hamlet, e lançarei na taça uma perola mais preciosa que as
+que usavam nos seus diademas os quatro reis meus predecessores.
+Venham as taças. Que os timbales annunciem aos
+clarins, os clarins aos canhões, os canhões aos céus, os céus
+á terra que o rei brinda por Hamlet. Vamos, senhores, podem
+começar, e vós juizes, attenção!</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Em guarda!</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Em guarda, principe! <span class="instruccoes_cena">(Começam.)</span></p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Uma!</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Não tocou.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Os juizes que decidam!</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Tocou, não ha duvida.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Recomecemos.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Esperem, encham as taças. Hamlet, dou-te esta perola, brindo
+por ti. Offereçam-lhe a taça. <span class="instruccoes_cena">(Clarins e salvas.)</span></p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Prefiro acabar a contenda, esperem; depois beberei. Vamos,
+Laerte. Uma! que diz agora?</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Fui tocado, confesso-o.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Hamlet ganha.</p>
+<span class="pagenum">[145]</span>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Estás fatigado, falta-te o fôlego. Limpa a fronte com o meu
+lenço. A rainha bebe á tua victoria, Hamlet.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Minha senhora!</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Não bebas, Gertrudes.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Bebo, senhor, desculpe-me, desejo-o.</p>
+
+<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span></h5>
+
+<p>Era a taça envenenada, já não ha remedio.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Ainda não bebo, mais tarde, senhora.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Deixa-me limpar tua fronte, filho!</p>
+
+<h5>LAERTE <span class="instruccoes_cena">(ao rei, á parte)</span></h5>
+
+<p>Senhor, agora verá.</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Já não creio.</p>
+
+<h5>LAERTE <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span></h5>
+
+<p>E, comtudo, diz-me a consciencia que não.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Vamos, Laerte, a terceira prova; não me poupe, peço-lh'o;
+desenvolva toda a sua pericia, não me trate como creança.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Que diz? em guarda, pois.</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Ainda nada.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Agora toquei. <span class="instruccoes_cena">(No encarniçado da lucta trocam os floretes, e Hamlet é
+ferido
+e fere Laerte.)</span></p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Separem-nos, estão desesperados.</p>
+<span class="pagenum">[146]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Não, recomecemos. <span class="instruccoes_cena">(A rainha cáe)</span></p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Acudam á rainha; acudam!</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Feridos ambos!! que é isto, senhor?</p>
+
+<h5>OSRICO</h5>
+
+<p>Como está Laerte?</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Colhido no meu proprio laço, morro pela minha traição.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Que tem a rainha?</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Desmaiou á vista do sangue.</p>
+
+<h5>A RAINHA</h5>
+
+<p>Não, não! a bebida, a bebida! meu Hamlet, a bebida! a
+bebida! envenenada... <span class="instruccoes_cena">(Morre.)</span></p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Oh! infamia! fechem as portas, traição! quero conhecel-a.</p>
+
+<h5>LAERTE</h5>
+
+<p>Eu t'o digo, é esta: Hamlet, morres assassinado, nada te
+póde salvar; meia hora, quando muito, te resta de vida, na
+tua mão ainda conservas a arma da traição afiada e envenenada;
+tambem sou victima da minha perfidia. Escuta, já sinto
+a morte, tua mãe envenenada... morro, Hamlet! o rei... só
+o rei culpado... <span class="instruccoes_cena">(Desfallecendo.)</span></p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>A ponta envenenada! veneno, cumpre o teu dever. <span class="instruccoes_cena">(Fere o rei.)</span></p>
+
+<h5>OSRICO e SENHOR</h5>
+
+<p>Traição! traição!</p>
+
+<h5>O REI</h5>
+
+<p>Defendam-me, é apenas leve ferimento.</p>
+<span class="pagenum">[147]</span>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Bebe os restos d'esta taça, incestuoso assassino, damnado
+dinamarquez. Procura a perola, achal-a-has seguindo minha
+mãe. <span class="instruccoes_cena">(Vasa á força o resto da taça pela bôca do rei, que cáe e morre.)</span></p>
+
+<h5>LAERTE <span class="instruccoes_cena">(n'um ultimo alento de vida)</span></h5>
+
+<p>É justo o castigo; morre pelo veneno que preparáras. Hamlet,
+perdoemo-nos mutuamente, e livres de qualquer reciproco
+remorso subam nossas almas abraçadas ao céu. <span class="instruccoes_cena">(Morre.)</span></p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Absolva-te o céu, como eu te perdôo; sigo-te, Laerte <span class="instruccoes_cena">(a Horacio)</span>
+morro, Horacio. Rainha desgraçada, adeus. A vós todos,
+que ao ver esta catastrophe empallideceis, mudos espectadores
+d'este drama, se tivesse tempo ainda, se esta ancia terrivel
+não m'o vedasse, poderia dizer... agora, resignação. Eu morro,
+Horacio, tu viverás, justifica-me, explica o meu odio aos
+que o ignoram.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Isso nunca! sou mais romano que dinamarquez, e n'esta taça
+ainda ha liquido.</p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Se és homem, dá-m'a; larga-a, por Deus, quero-a. Vive
+para revelar um tão infame crime. Se alguma vez foste meu
+amigo, não apresses a tua felicidade celeste e permanece n'este
+mundo odioso, conta a minha historia. <span class="instruccoes_cena">(Ouve-se uma marcha)</span> Que
+rumor marcial é este?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>É o jovem Fortimbraz, que regressa victorioso da Polonia, e
+que saúda os embaixadores de Inglaterra com esta salva guerreira.
+<span class="instruccoes_cena">(Ouvem-se tiros.)</span></p>
+
+<h5>HAMLET</h5>
+
+<p>Morro, Horacio, triumpha o veneno poderoso; nem já as noticias
+de Inglaterra me é dado saber, mas predigo que Fortimbraz
+ha de reinar; morrendo, voto por elle; conta-lhe mais
+ou menos os pormenores da causa da minha morte. O resto...
+é... silencio... <span class="instruccoes_cena">(Morre)</span></p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Que nobre alma! Adeus, meu adorado principe, os anjos do
+céu o embalem com os seus canticos divinos. Mas porque é esta
+marcha? <span class="instruccoes_cena">(Ouve-se uma marcha militar.)</span></p>
+<span class="pagenum">[148]</span>
+
+<p class="instruccoes_cena">Entram FORTIMBRAZ, os EMBAIXADORES a outras pessoas</p>
+
+<h5>FORTIMBRAZ</h5>
+
+<p>Que vejo?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Vae sabel-o. Desgraça ou prodigio, está patente a seus olhos.</p>
+
+<h5>FORTIMBRAZ</h5>
+
+<p>Que hecatombe, que horror! Oh! morte, que festim cruento
+preparavas tu, para precisar de uma só vez tanto sangue real?</p>
+
+<h5>PRIMEIRO EMBAIXADOR</h5>
+
+<p>Que horrivel espectaculo! tarde chegâmos de Inglaterra. Já
+não nos póde ouvir aquelle de cujas ordens annunciavamos o
+cumprimento, trazendo a nova da execução de Rosencrantz e
+Guildenstern. Quem nol-o agradecerá agora?</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Elle não, que os seus labios agora gelidos nunca o ordenaram.
+Mas, poisque vindes de Inglaterra e de Polonia e presenceaes
+esta crise sangrenta, ordenae que bem alto, á vista de
+todos, sejam collocados estes corpos, e eu lhes direi a causa
+d'estes factos, poisque a ignoram. Então soarão aos seus ouvidos
+actos carnaes, incestos, sangue, expiações, assassinios
+fortuitos, mortes causadas pela perfidia ou por força maior, e
+para desfecho traições que feriram os proprios auctores; eis a
+minha narração, e juro que é verdade.</p>
+
+<h5>FORTIMBRAZ</h5>
+
+<p>Ouçâmol-o promptamente, convoquemos os nobres: dolorosamente
+acceito o meu novo encargo, pois tenho sobre este
+reino direitos incontestaveis, que é meu dever reivindicar.</p>
+
+<h5>HORACIO</h5>
+
+<p>Missão tenho de lhe fallar a esse respeito, da parte d'aquelle
+que vivo teria tido os suffragios do povo. Seja pois rapida a
+decisão, antes que os espiritos preplexos sejam dominados por
+alguma conspiração ou engano que causem novas desgraças.</p>
+
+<h5>FORTIMBRAZ</h5>
+
+<p>Sejam por quatro capitães levados os restos mortaes de Hamlet:
+<span class="pagenum">[149]</span>
+façam-se-lhe todas as honras militares. Se vivesse teria
+sido um grande rei. Quando passar, salvem os canhões. Levem
+os cadaveres, esta vista é só propria dos campos de batalha;
+aqui causa horror! Executem as minhas ordens, rompam as
+salvas de canhões e as descargas de fuzilaria, e as marchas
+funebres. Morreu o que havia de ser rei de Dinamarca. <span class="instruccoes_cena">(Desfilam
+todos com os cadaveres: ouvem-se salvas de artilheria, descargas de fuzilaria
+e marchas funebres. Cae o panno.)</span></p>
+
+<p class="instruccoes_cena">Fim do quinto e ultimo acto</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Hamlet: Drama em cinco Actos, by
+William Shakespeare
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HAMLET: DRAMA EM CINCO ACTOS ***
+
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
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+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
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+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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