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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/25667-8.txt b/25667-8.txt new file mode 100644 index 0000000..1ef761d --- /dev/null +++ b/25667-8.txt @@ -0,0 +1,7409 @@ +Project Gutenberg's Hamlet: Drama em cinco Actos, by William Shakespeare + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Hamlet: Drama em cinco Actos + +Author: William Shakespeare + +Translator: Luís I Rei de Portugal + +Release Date: June 1, 2008 [EBook #25667] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HAMLET: DRAMA EM CINCO ACTOS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + + +HAMLET + +DRAMA EM CINCO ACTOS + + +WILLIAM SHAKESPEARE + + +HAMLET + +Drama em cinco actos + + +Traducção Portugueza + +Segunda Edição + + +LISBOA + +Imprensa Nacional + +1880 + + + + +INTERLOCUTORES + + + CLAUDIO--Rei de Dinamarca. + + HAMLET--Filho do defunto Rei e sobrinho do Rei reinante. + + POLONIO--Camareiro mór. + + HORACIO--Amigo de Hamlet. + + LAERTE--Filho de Polonio. + + VOLTIMANDO } + } + CORNELIO } + } + ROSENCRANTZ } Cortezãos dinamarquezes. + } + GUILDENSTERN } + } + OSRICO } + + UM OUTRO CORTEZÃO. + + UM PADRE. + + REINALDO--Creado de Polonio. + + MARCELLO E BERNARDO--Officiaes. + + FRANCISCO--Soldado. + + UM EMBAIXADOR. + + A SOMBRA DO REI HAMLET. + + FORTIMBRAZ--Principe de Noruega. + + GERTRUDES--Rainha de Dinamarca, mãe de Hamlet. + + OPHELIA--Filha de Polonio. + +Senhores, damas, officiaes, soldados, actores, padres, coveiros, +marinheiros, mensageiros, creados, etc. + + +A scena passa-se em Elsenor + + + + +ACTO PRIMEIRO + + +SCENA I + +Elsenor, a explanada do castello + +FRANCISCO de sentinella, BERNARDO vem encontrar-se com elle + +BERNARDO + +Quem vem lá? viva quem? + +FRANCISCO + +Responde tu primeiro, faze alto, deixa-te reconhecer. + +BERNARDO + +Viva o rei. + +FRANCISCO + +Bernardo? + +BERNARDO + +Eu mesmo. + +FRANCISCO + +És pontual. + +BERNARDO + +Acaba de dar meia noite; vae descansar, Francisco. + +FRANCISCO + +Agradeço-te de me teres vindo render; faz um frio glacial, e começava a +sentir-me incommodado. + +BERNARDO + +Não houve novidade emquanto estiveste de sentinella? + +FRANCISCO + +Nem sequer ouvi correr um rato. + +BERNARDO + +Então boas noites; se vires Horacio e Marcello, que tambem estão de +guarda, dize-lhes que se aviem. + +Chegam HORACIO e MARCELLO + +FRANCISCO + +Creio ouvil-os, façam alto, quem vem lá? + +HORACIO + +Amigos da patria. + +MARCELLO + +Subditos do rei de Dinamarca. + +FRANCISCO + +Santas noites. + +MARCELLO + +Viva, meu valente soldado, quem te rendeu? + +FRANCISCO + +Bernardo está agora de sentinella. Boa noite. (Retira-se.) + +MARCELLO + +Olá, Bernardo? + +BERNARDO + +Não é Horacio que eu vejo? + +HORACIO + +Elle mesmo em corpo e alma. + +BERNARDO + +Bemvindo sejas, Horacio, e tu tambem, amigo Marcello. + +MARCELLO + +Dize-me, já viste a apparição esta noite? + +BERNARDO + +Ainda nada vi. + +MARCELLO + +Horacio diz que é effeito da minha imaginação, e nega-se a acreditar na +visão temerosa, de que já por duas vezes fomos testemunhas; pedi-lhe +portanto que viesse comnosco, para que se o phantasma de novo apparecer, +elle possa testemunhar a verdade do que afiançâmos e dirigir-lhe a +palavra. + +HORACIO + +Historias, qual apparecer! + +BERNARDO + +Sentemo-nos um instante, e vamos repetir-te a narração do que temos +presenceado duas noites consecutivas e a que prestas tão pouco credito. + +HORACIO + +Com todo o gosto, e deixemos fallar Bernardo. + +BERNARDO + +A noite passada, á hora em que esta estrella que vêem ao poente do polo +descreve o seu giro e vem illuminar esta parte do firmamento, em que ora +brilha, no momento em que na torre soava uma hora, Marcello e eu... + +MARCELLO + +Silencio, eil-o que apparece. + +Apparece a sombra do REI + +BERNARDO + +Assimilha-se ao defunto rei. + +MARCELLO + +Tu que estudaste, Horacio, falla-lhe. + +BERNARDO + +Não é verdade que se parece com o defunto rei? Observa bem, Horacio. + +HORACIO + +A similhança é espantosa; a surpreza e o terror paralysaram-me. + +BERNARDO + +Parece esperar que lhe fallem. + +MARCELLO + +Falla-lhe, Horacio. + +HORACIO + +Quem quer que és, que a esta hora da noite usurpas a fórma magestosa e +guerreira, debaixo da qual se mostrava o meu defunto soberano, em nome +do céu, falla, ordeno-to eu! + +MARCELLO + +Parece descontente. + +BERNARDO + +Eil-o que se afasta, caminhando lenta e gravemente. + +HORACIO + +Detem-te, falla, falla, intimo-te a que falles. (A sombra afasta-se.) + +MARCELLO + +Foi-se sem responder. + +BERNARDO + +Então, Horacio, que é essa tremura e pallidez; não haverá alguma cousa +mais do que um effeito de imaginação, que dizes agora? + +HORACIO + +Pelo Deus do céu, não o acreditava sem o testemunho positivo e +irrecusavel dos meus proprios olhos. + +MARCELLO + +Não se parece com o rei? + +HORACIO + +Como tu te pareces comtigo mesmo, era a armadura que usava quando +combateu o ambicioso norueguez; tinha aquelle ar ameaçador, no dia em +que no seu proprio carro, atacou, por causa de uma acalorada porfia, o +guerreiro polaco, e o prostrou no gêlo para nunca mais se levantar. É +assombroso! + +MARCELLO + +Assim é que elle já duas vezes passou pelo nosso posto de observação com +o seu caminhar grave e marcial. + +HORACIO + +Com que designio, ignoro-o, mas em minha opinião é um presagio para o +estado de alguma grande catastrophe. + +MARCELLO + +Pois bem, sentemo-nos, e aquelle d'entre vós todos que o souber, diga +porque fatigam, com guardas vigilantes e rigorosas, os subditos d'este +reino; para que esta fundição diaria de canhões de bronze, estas compras +de armamentos e munições no estrangeiro; para que se enchem de operarios +os nossos arsenaes maritimos; porque este augmento de trabalho, que nem +os dias santos são respeitados; para que esta actividade de dia e de +noite? O que será? Qual de vós m'o poderá dizer? + +HORACIO + +Posso eu, ao menos, referir os boatos. Nosso ultimo rei, cuja imagem +ainda ha pouco vimos, foi, segundo dizem, convocado a campo fechado por +Fortimbraz de Noruega, que um cioso orgulho tinha levado a esse acto. +N'esse combate o nosso valente Hamlet, e era justa a sua reputação, +matou a Fortimbraz. Ora em virtude de uma declaração authentica, +sanccionada pelas leis da cavallaria, se Fortimbraz succumbisse, todos +os seus estados pertenceriam ao vencedor. Por sua parte o nosso rei +tinha empenhado da mesma fórma a sua palavra; e no caso de elle ser +vencido, uma igual porção de territorio pertenceria a Fortimbraz. Assim, +em virtude d'este pacto reciproco, a successão do vencido pertencia de +direito a Hamlet. Comtudo o joven Fortimbraz, ardente e sem experiencia, +reuniu nas fronteiras de Noruega um exercito de aventureiros, promptos e +resolvidos pela soldada aos mais audaciosos commettimentos. O seu +projecto, segundo o nosso governo está informado, é nada menos do que +retomar á viva força e de mão armada esse territorio que seu pae perdeu +com a vida: eis-aqui, na minha fraca opinião, a rasão principal dos +preparativos que fazemos, das guardas a que somos obrigados, e d'esta +actividade tumultuosa que se nota em todo o paiz. + +BERNARDO + +Tambem eu julgo ser esse o motivo; isto explica-nos porque vemos passar +diante dos postos de guarda a sombra do rei, com a sua armadura e com o +seu porte magestoso, d'esse rei que foi e é o causador d'esta guerra. + +HORACIO + +É um argueiro nos olhos da intelligencia para lhes perturbar a vista. +Nos tempos mais gloriosos e florescentes de Roma, pouco antes da morte +do grande Julio, abriram-se os tumulos, e os mortos, nas suas mortalhas, +divagaram pela cidade, soltando gritos ameaçadores; viram-se estrellas +deixar após si rastos luminosos, choveu sangue, desastrosos signaes +appareceram no céu, e o astro humido, sob cuja influencia está o imperio +de Neptuno, eclipsou-se; todos julgavam ser o fim do mundo. Estes mesmos +signaes precursores de acontecimentos terriveis, correios de maus +destinos, preludios de grandes catastrophes, o céu e a terra os fizeram +apparecer nos nossos climas, aos olhos impressionaveis dos nossos +compatriotas. + +A sombra reapparece + +HORACIO continuando + +Mas silencio, olhem, eil-o que volta. Vou interpellal-o, embora elle me +fulmine. Pára. Illusão. Se tens o dom da palavra, se pódes articular +sons, falla; se ha alguma boa acção cujo cumprimento te possa alliviar e +contribuir para a minha salvação, responde-me: se és sabedor de alguma +desgraça que ameace a tua patria, e que um aviso opportuno possa +desviar... Oh falla! ou se em tua vida confiaste ás entranhas da terra +riquezas mal adquiridas; e a maior parte das vezes é por isso que vós, +os espiritos, divagaes depois da morte, dil-o. (O gallo canta.) Detem-te +e falla. Veda-lhe o caminho, Marcello. + +MARCELLO + +Devo servir-me da minha partazana? + +HORACIO + +Serve-te se não parar. + +BERNARDO + +Para cá? + +HORACIO + +Por acolá. (A sombra afasta-se.) + +MARCELLO + +Partiu!--que presença magestosa!--são desacertadas estas demonstrações +violentas! é invulneravel como o ar, e os nossos golpes não são senão o +ridiculo esforço de uma colera impotente. + +BERNARDO + +Ia fallar quando cantou o gallo. + +HORACIO + +Estremeceu como um culpado que uma intimação subita aterra. Ouvi dizer +que o gallo, que é o clarim da aurora, acorda o Deus da manhã com a sua +voz sonora e penetrante, e que a esse signal todos os espiritos errantes +no mar, no fogo, na terra ou no ar se apressam em voltar aos seus +respectivos dominios. A prova está no que acabâmos de presencear. + +MARCELLO + +O gallo cantou, e elle desappareceu. Algumas pessoas dizem que na +vespera do dia em que se celebra a natividade do Salvador do mundo, o +arauto da manhã canta toda a noite sem interrupção; pretendem então que +nenhum espirito ousa saír da sua mansão, que as noites são salubres, que +nenhuma estrella exerce influencia maligna, nenhum maleficio surte +effeito, que nenhuma feiticeira exercita os seus feitiços, tanto esse +dia é bento, e está sob o imperio de uma graça celeste. + +HORACIO + +Assim o ouvi dizer, e acredito-o. Mas eis que no oriente, acolá no +fundo, por detrás dos outeiros, surge a manhã, vestida de purpura por +entre o orvalho. Demos fim á nossa vigilia, e vamos dar parte ao joven +Hamlet do que vimos esta noite; porque, por vida minha, creio que este +espirito, mudo para todos, lhe fallará. Approvam esta confidencia, que +nos impõe o nosso dever e a nossa affeição? + +MARCELLO + +Vamos sem detença; sei onde o acharemos, e onde lhe poderemos fallar sem +constrangimento. (Retiram-se.) + + +SCENA II + +Uma sala apparatosa no castello + +Entram o REI e a sua comitiva, a RAINHA, HAMLET, POLONIO, LAERTE, +VOLTIMANDO, CORNELIO e CORTEZÃOS + +O REI + +A morte de Hamlet, nosso amado irmão, ainda é tão recente, que pareceria +justo, que nossos corações estivessem immersos na tristeza e saudade, e +que uma nuvem de dor cobrisse o solo d'este reino; comtudo, a rasão +combateu os impulsos da natureza, tanto que enfreámos a nossa dor, e +embora ainda esteja bem viva a recordação, pensâmos tambem em nós. +Portanto, com um prazer incompleto, confundindo os sorrisos com as +lagrimas, a alegria com o luto; unindo o dobrar dos sinos aos canticos +nupciaes, tomámos por esposa aquella que outr'ora era nossa irmã, e +fizemol-a compartir comnosco a corôa d'este bellicoso paiz. N'esta +conjunctura ouvimos primeiro os vossos illustrados conselhos, livremente +enunciados. Somos-lhes gratos. Quanto ao joven Fortimbraz, fazendo +seguramente uma fraca idéa do nosso poder, ou imaginando que a morte de +nosso chorado irmão lançasse o estado na dissolução e na anarchia, +embalando-se em chimerica esperança, ousou mandar-nos mensagem após +mensagem, intimando-nos a restituir-lhe o territorio perdido por seu +pae, e legalmente adquirido por nosso valoroso irmão; isto por o que lhe +respeita. Fallemos agora de nós e do motivo d'esta reunião. O motivo é +este. Pelas presentes escrevemos ao rei de Noruega, tio do joven +Fortimbraz, que jazendo enfermo n'um leito, mal conhece os projectos de +seu sobrinho, pedindo-lhe que ponha o seu veto á empreza, porque é de +entre os seus subditos que se fazem as levas de soldados e os +alistamentos. Encarregámo-vos, Cornelio e Voltimando, de apresentar as +nossas saudações ao idoso monarcha norueguez, e é nossa vontade, que nas +negociações vos conformeis adstrictamente ás instrucções que junto com a +nossa carta recebereis. Adeus; a celeridade do resultado prove a +dedicação dos negociadores. + +CORNELIO e VOLTIMANDO + +Senhor, a nossa dedicação e obediencia não tem limites. + +O REI continuando + +Nem o duvidâmos. Recebam um cordeal adeus. (Cornelio e Voltimando sáem.) +Agora, tu, Laerte, que pretendes? Disseram-nos que nos querias fazer uma +supplica? Qual é? Tu não podes fazer ao monarcha dinamarquez um pedido +que não seja rasoavel, e não recorres a elle em vão. Que poderias +desejar, Laerte, a que não estejamos promptos a annuir, mesmo antes de +conhecer a pretensão. A cabeça não é mais sympathica ao coração, a mão +não é mais prompta em servir a bôca do que o throno de Dinamarca é +dedicado a teu pae. Que desejas pois, Laerte? + +LAERTE + +Meu augusto soberano, a vossa licença e o vosso consentimento, para +voltar a França. Gostosamente vim a Dinamarca para assistir á vossa +coroação, mas, cumprido esse dever, confesso-o, os meus desejos e a +minha vontade me chamam a França, e supplico a vossa magestade que me +conceda partir. + +O REI + +Já alcançaste o consentimento de teu pae? o que diz Polonio? + +A RAINHA + +Arrancou-me o meu consentimento, tanto me importunou; acabei por ceder, +mau grado meu, aos seus desejos. Supplico-lhe, pois, senhor, que lhe +conceda a licença pedida. + +O REI + +Podes partir quando te aprouver, Laerte; deixo-te a liberdade de +dispores do teu tempo e da tua pessoa. Então, Hamlet, meu primo, meu +filho? + +HAMLET á parte + +Aindaque mui proximos parentes não somos primos. + +O REI + +Porque essas nuvens que pesam sobre a tua fronte? + +HAMLET + +Engana-se, senhor, como póde haver nuvens, quando brilha o sol. + +A RAINHA + +Querido Hamlet, despe essas roupas de dó, e lança um olhar amigavel para +o rei de Dinamarca. Descrava os teus olhos do chão; pareces procurar as +pegadas do teu glorioso pae. Sabes bem que é um destino invariavel; tudo +quanto vive ha de morrer, e este mundo é uma ponte para a eternidade. + +HAMLET + +Sim, senhora, é um destino commum. + +A RAINHA + +Se é assim, o que te parece a ti tão extraordinario? + +HAMLET + +Senhora, não me parece, é-o na verdade. O parecer para mim nada vale. +Minha mãe, não são nem esta capa negra, nem estas vestes obrigadas nos +lutos solemnes, nem os suspiros que mal póde soltar um peito opprimido, +nem torrentes de lagrimas, nem o semblante macerado, nem todas as +manifestações de uma dor pungente, que podem exprimir e revelar o que eu +sinto. Todos estes signaes podem parecer dor; é um papel facil de +representar, mas não são verdadeira dor, são como o fato para o +comediante; mas eu (pondo a mão sobre o coração) sinto aqui, o que não +ha palavras que o expressem. + +O REI + +Nada ha na verdade, Hamlet, mais commovente e louvavel do que os deveres +funebres prestados á memoria de um pae. Mas lembra-te que teu pae já +perdêra o seu, e que esse tambem já perdêra o pae. E para o sobrevivente +um dever de piedade filial, dar durante um certo praso provas de uma dor +respeitosa; mas perseverar n'uma afflicção obstinada, é mostrar uma +teima impia; é uma dor cobarde, é a prova de uma vontade rebelde aos +decretos da providencia, de um coração sem energia, de uma alma incapaz +de resignação, de uma intelligencia pobre e limitada. Porque nos deve +impressionar a tal ponto um acontecimento, que sabemos ser uma +necessidade, e que se repete tão frequente, quanto as occorrencias mais +vulgares; é uma triste indocilidade. Que!! É uma offensa a Deus, uma +offensa aos finados, uma absurda offensa á natureza, que não tem em seus +fastos mais vulgar acontecimento, que a morte de um pae; a qual, desde o +primeiro cadaver até ao homem que hoje se finou, nunca deixou de nos +clamar: Assim estava escripto. Supplico-te, portanto, abandona essa +afflicção impotente, e vê em nós um segundo pae; porque queremos que +todos saibam que tu és o mais proximo ao nosso throno, e que a affeição +mais terna que um pae tem a seu filho, tenho-a eu a ti. Quanto á tua +intenção de voltar a Wittemberg, para continuares os teus estudos, nada +ha mais opposto aos nossos desejos; conjurâmos-te que fiques aqui, sê o +prazer de nossos olhos, o primeiro da nossa côrte, nosso sobrinho, nosso +filho. + +A RAINHA + +Hamlet, far-te-ha tua mãe uma supplica baldada? peço-te fica comnosco, +não vás para Wittemberg. + +HAMLET + +Farei o que podér, para em tudo vos provar obediencia. + +O REI + +Eis emfim uma resposta affectuosa e comedida. Serás na Dinamarca um +segundo _Eu_. (Á rainha) Venha, senhora, este acto de deferencia de +Hamlet, cumprido tão naturalmente e sem esforço, enche de jubilo o meu +coração. Para o celebrar o rei de Dinamarca não libará uma taça, sem que +a voz do canhão o transmitta ás nuvens. A cada taça quero que o céu o +annuncie, repercutindo o estrondo dos raios da terra. Vamos agora. +(Todos sáem excepto Hamlet.) + +HAMLET só + +Ah! porque não poderá esta carne tão solida fundir-se e tornar-se +orvalho. Ah que se o Eterno não tivesse fulminado como reprobo o +suicida... Senhor Deus, meu Deus, como são insipidos, fastidiosos e vãos +os gosos do mundo. Que pena! Elle é um jardim inculto que só tem plantas +grosseiras e maleficas. Pois será possivel que ousassem tanto? Morto ha +dois mezes! que digo? Nem dois mezes ainda. Um rei tão bom, que tanta +similhança tinha com este como Hyperion com um Satyro, todo ternura para +minha mãe, a ponto de não querer que uma brisa mais fresca açoutasse o +seu rosto! Céus e terra! e deverei eu recordar-me? Parecia que a vida de +um era a vida do outro! Comtudo, passado apenas um mez--não posso nem +quero pensal-o--, fragilidade é synonymo de mulher. Só um mez, sem ainda +ter gasto o calçado que usava acompanhando o feretro do marido, banhada +em lagrimas como uma Niobe, ella mesma, essa mulher, oh céus! um animal +privado do soccorro da rasão teria prolongado o seu luto; essa mulher +desposou meu tio, o irmão de meu pae, mas que tem tanto de meu pae como +eu de Hercules. No fim de um mez, antes que seccassem as suas hypocritas +lagrimas, casou. Oh criminosa precipitação! Voar com tanto afan a um +leito incestuoso, é horrivel! E será possivel que o céu o tolere? +Despedaça-te coração, já que forçoso é calar. + +Chegam HORACIO, BERNARDO e MARCELLO + +HORACIO + +Deus guarde a Vossa Alteza. + +HAMLET + +Quanto folgo de te ver de boa saude. És tu, Horacio, não me engano. + +HORACIO + +Eu mesmo, o vosso servo fiel até á morte. + +HAMLET + +Queres dizer _amigo_; de hoje em diante dar-te-hei este nome. Mas que +fazes tu longe de Wittemberg, Horacio? Marcello. + +MARCELLO + +Meu principe! + +HAMLET + +Alegro-me de te ver, bons dias. (A Horacio.) Mas, francamente, que +motivo te obrigou a voltar de Wittemberg? + +HORACIO + +Tudo dissipei. + +HAMLET + +Nunca consentiria que um teu inimigo assim fallasse a teu respeito; e +não me obrigarás a forçar a minha rasão a crer no que o meu coração se +nega a acreditar. Accusares-te d'esta maneira a ti mesmo... tu não és +dissipador. Que motivo tão forte te pôde pois trazer a Elsenor, tu m'o +contarás mais tarde, entre dois copos de vinho generoso, antes da tua +partida. + +HORACIO + +Senhor, vim prestar a ultima homenagem a seu augusto pae. + +HAMLET + +Peço-te, meu camarada de estudos, que não zombes; creio antes que vieste +assistir ao casamento de minha mãe. + +HORACIO + +Verdade é que não houve quasi intervallo. + +HAMLET + +Por alvitre economico, Horacio. O banquete funerario ainda subministrou +as iguarias e as viandas para o festim nupcial. Antes quizera encontrar +no céu o meu mais encarniçado inimigo, do que ter visto despontar um tal +dia, Horacio. Meu pobre pae, parece-me que o estou vendo! + +HORACIO + +Onde, senhor? + +HAMLET + +Na minha imaginação, Horacio. + +HORACIO + +Recordo-me de o ter visto, era um grande rei. + +HAMLET + +Era um homem que, bem considerado, não tinha rival na terra. + +HORACIO + +Julgo tel-o visto a noite passada. + +HAMLET + +Viste, quem? + +HORACIO + +Alteza, vi o rei seu pae. + +HAMLET + +O rei meu pae? + +HORACIO + +Senhor, acalme esta agitação e espanto, e preste attenção, emquanto eu, +fundado no testemunho ocular d'estes senhores, vou relatar esse +prodigio. + +HAMLET + +Falla, pelo amor de Deus, sou todo ouvidos. + +HORACIO + +Durante duas noites consecutivas, no meio das trevas e do silencio, +emquanto estes senhores estavam de sentinella, eis o que lhes aconteceu. +Uma figura parecida com seu pae, armada da cabeça aos pés, lhes +appareceu caminhando lenta e magestosamente. Tres vezes, atemorisados e +attonitos, o viram passar á distancia do bastão de commando que +empunhava, emquanto elles, fulminados pelo terror, ficaram mudos, nem +ousaram fallar. Confiaram-me, debaixo de segredo, tremulos ainda, o que +tinham presenceado. Na noite seguinte entrei com elles de sentinella, e +confirmando a verdade das suas palavras, á hora por elles indicada, +debaixo da fórma por elles descripta, voltou a apparição. Reconheci seu +pae; as minhas duas mãos não são mais parecidas. + +HAMLET + +Mas em que sitio appareceu? + +MARCELLO + +Senhor, na explanada, onde estavamos de sentinella. + +HAMLET + +Fallaram-lhe. + +HORACIO + +Fallámos, mas não respondeu. Comtudo uma vez pareceu-me que movia a +cabeça, como quem quer fallar; mas n'esse momento cantou o gallo +matinal; ao som do canto afastou-se o espectro apressadamente, e nós +perdemol-o de vista. + +HAMLET + +Na verdade é incomprehensivel. + +HORACIO + +Senhor, juro-lhe pela minha vida que é verdade, e julgámos nosso dever +informar Vossa Alteza. + +HAMLET + +Não posso dissimular a minha inquietação! Estão de guarda esta noite? + +TODOS + +Sim, Alteza. + +HAMLET + +Armado, disseram? + +TODOS + +Armado, meu senhor. + +HAMLET + +Da cabeça aos pés? + +TODOS + +Tal qual. + +HAMLET + +Viram-lhe as feições? + +TODOS + +Vimos, tinha a viseira levantada. + +HAMLET + +Tinha physionomia carregada? + +TODOS + +A expressão era antes triste que colerica. + +HAMLET + +Pallido ou córado? + +TODOS + +Muito pallido. + +HAMLET + +O seu olhar fixou-se em algum de vós? + +TODOS + +Constantemente. + +HAMLET + +Queria lá ter estado. + +HORACIO + +O seu espanto teria sido igual ao nosso. + +HAMLET + +É mais que provavel. Demorou-se muito? + +HORACIO + +O tempo necessario para contar até _um cento_, sem parar. + +MARCELLO e BERNARDO + +Muito mais, muito mais. + +HORACIO + +Não a vez que o vi. + +HAMLET + +A barba era grisalha, não é verdade? + +HORACIO + +Era, como em sua vida, de um negro prateado. + +HAMLET + +Velarei tambem esta noite, talvez que volte. + +HORACIO + +Sem duvida alguma. + +HAMLET + +Se se me apresentar debaixo da figura de meu pae, fallar-lhe-hei, embora +o inferno me ordenasse o silencio, pelas suas horrendas fauces. +Peço-vos, portanto, que se até hoje tendes guardado um segredo tal a +respeito da apparição, de hoje em diante sejaes ainda mais cautelosos em +conservar o sigillo; e aconteça o que acontecer esta noite, reflexão e +silencio: serei grato a esta prova de affeição. Assim, pois, adeus, +encontrarme-hei comvosco na explanada entre as onze horas e a meia +noite. + +TODOS + +Os nossos respeitos, principe. + +HAMLET + +Sempre amigos, adeus. (Horacio, Marcello e Bernardo sáem.) +(Continuando.) A sombra de meu pae, porque apparece armada? Haverá algum +perigo. Suspeito alguma traição. Espero impacientemente a noite. Até +então, socega coração. Não ha crimes tão occultos, que o homem não possa +descobrir. (Sáe.) + + +SCENA III + +Um quarto em casa de Polonio + +Entram LAERTE e OPHELIA + +LAERTE + +Já embarcaram os meus creados e roupas. Adeus, minha irmã; quando ventos +propicios encherem as vélas ao navio que me leva, espero que com a minha +ausencia não esfriará a tua amisade, e que me darás novas tuas. + +OPHELIA + +Duvídas porventura, irmão? + +LAERTE + +Quanto ao que respeita a Hamlet e á sua frivola amisade, considera-a +como uma moda ephemera, um capricho dos sentidos, uma violeta da +primavera, precoce mas passageira, suave mas fenecendo ao desabrochar, e +cujo perfume dura um minuto apenas. + +OPHELIA + +Só um minuto? + +LAERTE + +Só, acredita-me, porque o teu desenvolvimento não é só nos musculos e no +corpo; á medida que o templo toma proporções mais vastas, tambem se +expande o espirito e a alma. É possivel que te ame agora, que nenhuma +macula, nenhuma deslealdade offusque a pureza dos seus sentimentos; mas +acautela-te, porque na posição que occupa é-lhe vedada a propria +vontade, é escravo do seu nascimento. Não póde, como os outros homens, +escolher só por affeição, porque á sua escolha estão ligados o bem-estar +e a salvação do estado; por isso deve subordinal-a ao voto e á +approvação da nação de que é chefe. Se, pois, te fallar de amor, +assisadamente usarás, não acreditando senão o que a sua posição lhe +permitte offerecer, vistoque a sua vontade deve ser a vontade da nação. +Pensa bem, que mancha para a tua reputação, se prestasses ouvidos por +demais credulos, ao encanto das suas fallas, se envenenasses tua alma, +se abrisses o cofre da castidade ás suas audaciosas instancias. +Acautela-te, Ophelia, acautela-te, querida irmã, luta com a tua affeição +para vencer as settas e os perigos dos desejos. A virgem prudente já é +assás prodiga se patenteia a sua belleza aos raios lunares; a propria +virtude não escapa aos golpes da calumnia; o verme roe as filhas +predilectas da primavera, antes das flores desabrocharem; e é na aurora +da vida, regada pelo puro e limpido orvalho, que ha mais perigo para a +flor da castidade. Sê, pois, circumspecta, a melhor protecção é o receio +do perigo; a juventude é para si mesma um perigo, se não trava luta com +outros maiores. + +OPHELIA + +Em meu coração encerrarei, como um preservativo, a tua salutar lição. +Mas, querido irmão, não sejas tu, como certos pastores sem virtude, que +indicam ás suas ovelhas o caminho escarpado e espinhoso que conduz ao +céu, emquanto elles, libertinos, fogosos e sem pudor, trilham o caminho +das flores, da licença, e são a antithese das suas palavras. + +LAERTE + +De mim não te arreceies: já devia ter partido; eis meu pae. + +Entra POLONIO + +Uma dupla benção é um beneficio duplo; abençôo a occasião de me despedir +segunda vez de ti. + +POLONIO + +Ainda aqui, Laerte? para bordo, para bordo. Não te envergonhas? Teu +navio só te espera para velejar. Recebe a minha benção, e grava na tua +memoria os seguintes preceitos. Guarda para ti o pensamento, e não dês +execução apressadamente aos teus projectos; medita-os maduramente. Sê +lhano sem te esqueceres de quem és. Quando tomares um amigo cuja +affeição tenhas experimentado, liga-o a ti por vinculos de aço; mas não +dês confiança irreflectidamente. Faze por evitar questões; mas se o não +podéres conseguir, conduze-te de maneira que fiques sempre superior ao +teu adversario. Ouve a todos, mas sê avaro de palavras; escuta o +conselho que te derem, forma depois o teu juizo. No teu trajar sê tão +sumptuoso, quanto t'o permittam os teus meios, mas nunca affectado; +rico, mas não offuscante; o porte dá a conhecer o homem, e n'esse ponto, +as pessoas de qualidade em França revelam um gosto primoroso, e o mais +fino tacto. Não emprestes, nem peças emprestado: quem empresta perde o +dinheiro e o amigo, e o pedir emprestado é o primeiro passo para a +ruina. Mas sobre tudo sê verdadeiro para a tua consciencia, e assim como +a noite se segue ao dia, seguir-se-ha tambem, que o teu coração jamais +abrigará falsidade. Adeus, que a minha benção selle em teu coração os +meus conselhos. + +LAERTE + +Despedindo-me, humildemente vos beijo a mão, meu pae. + +POLONIO + +Não tens tempo que perder, teus creados esperam-te. + +LAERTE + +Adeus, Ophelia, recorda-te das minhas palavras. + +OPHELIA + +Fechei-as no meu coração; dou-te a chave, guarda-a. + +LAERTE + +Adeus. (Sáe.) + +POLONIO + +Que te disse elle, Ophelia? + +OPHELIA + +Com licença de meu pae, fallou-me a respeito de Hamlet. + +POLONIO + +Folgo que o fizesse. Disseram-me que ultimamente Hamlet tem tido comtigo +frequentes entrevistas, e que tu não te esquivas ás suas frequentes +visitas. Se assim é, e creio na informação que me deram, devo dizer-te +que não encaras a tua posição com a lucidez que convem a minha filha, e +que a tua honra exige. Dize-me a verdade, o que ha? + +OPHELIA + +Protestos de amor. + +POLONIO + +De amor! como inexperiente fallas, conservas as illusões todas. Dás tu +porventura credito aos seus protestos, como tu lhe chamas? + +OPHELIA + +Nem sei, senhor, o que devo pensar. + +POLONIO + +Pois bem, eu t'o digo. É necessario que sejas bem creança para crer uma +realidade os seus protestos, de cuja sinceridade devéras duvido. Não te +deprecies assim; seria uma loucura. + +OPHELIA + +O seu respeito foi inseparavel das suas phrases de amor. + +POLONIO + +E tu acreditas, pobre louca. + +OPHELIA + +Firmou as suas palavras com os juramentos mais sagrados. + +POLONIO + +Assim arma o caçador os laços á avesinha innocente e incauta. Sei que, +quando o sangue ferve, a nossa bôca nunca se nega a protestos e +juramentos. Minha filha, estes lampejos que dão mais luz que calor, e +cujo brilho é ephemero, nunca os tomes por verdadeira chamma de amor. A +datar de hoje, não malbarates tanto a tua presença virginal; difficulta +mais as entrevistas, que não baste pedir para as obter. Quanto ao sr. +Hamlet e á confiança que n'elle podes ter, considera que é joven, e que +póde tomar liberdades de que depois tenhas que te arrepender. N'uma +palavra, Ophelia, descrê dos seus juramentos, porque não são +verdadeiros; interpretes de desejos profanos, revestem-se da linguagem +da mais santa sinceridade. Uma vez por todas, e franqueza, filha, +prohibo-te toda e qualquer conversa com o sr. Hamlet. Pensa bem. +Ordeno-t'o. + +OPHELIA + +Obedecerei, meu pae. (Sáem.) + + +SCENA IV + +A explanada do castello de Elsenor + +Chegam HAMLET, HORACIO e MARCELLO + +HAMLET + +Que frio horrivel, gélo. + +HORACIO + +O ar está devéras glacial. + +HAMLET + +Que horas são? + +HORACIO + +Não deve tardar a meia noite. + +MARCELLO + +Está dando meia noite. + +HORACIO + +Já! não ouvi, em todo o caso approximâmo-nos da hora a que costuma +apparecer o phantasma. (Ouvem-se ao longe tangeres de instrumentos, e o +troar de artilheria.) Que rumor é este? + +HAMLET + +O rei consagra esta noite ao prazer, está bebendo, e a cada copo de +vinho do Rheno, os timbales e clarins proclamam o brinde que levantou. + +HORACIO + +Isso é costume? + +HAMLET + +Sim é, mas apesar de eu ter nascido n'este paiz, e estar acostumado a +estes usos, ha emquanto a mim mais gloria em infringil-os, do que em +observal-os. Estas orgias abjectas trazem-nos, do oriente ao occidente, +o desprezo das outras nações, que nos qualificam de ebrios, e juntam aos +nossos nomes os epithetos mais grosseiros. Este defeito embaça as nossas +mais brilhantes qualidades, e tira-lhes todo o valor. O mesmo acontece +aos individuos. Se ao nascerem, receberam da natureza alguma macula +original, de que não são culpados, poisque o nascimento é independente +da nossa vontade; se os afflige algum vicio de temperamento contra o +qual todos os esforços da rasão são impotentes, algum costume que +desagrade nos seus modos destruindo-lhes o encanto; acontece a esses +homens, tendo o estigma de um defeito unico, libré da natureza, sêllo da +sua estrella, acontece, digo, que todas as suas virtudes, fossem ellas +puras como a graça celeste, infinitas quanto comporta á humanidade, +ficariam manchadas na opinião, publica por esse defeito unico. Basta uma +mollecula de liga para depreciar esse metal. + +Apparece a sombra + +HORACIO + +Senhor, eil-o. + +HAMLET + +Anjos do céu, poderes misericordiosos, protegei-nos. Genio bemfazejo, ou +demonio infernal, que exhalas os perfumes celestes, ou as emanações do +averno; que sejam sinistras ou caridosas as tuas intenções, appareces-me +debaixo de uma fórma tão grata que te quero fallar. Interrogo-te, +Hamlet, senhor, meu pae, rei de Dinamarca, oh! responde-me, não me +deixes, na ignorancia, morrer de emoção; mas dize-me, porque teus bentos +ossos encerrados no ataude romperam os sellos; porque te levantaste do +tumulo em que te haviamos depositado; porque se ergueu a lapide +sepulchral para te lançar a este mundo? Como, cadaver inanimado, +vestindo a tua armadura de aço, vagueias tu á duvidosa claridade da lua, +imprimindo á noite um caracter de horror, lançando-nos, fracos ludibrios +da natureza, nas ancias do terror; e fazendo surgir em nossas almas +pensamentos que excedem o nosso alcance? Responde. Porque? Com que fim? +Que exiges? + +HORACIO + +Faz-vos signal de o seguir, como se quizesse fallar-vos a sós. + +MARCELLO + +Veja, principe, o gesto cheio de cortezia e dignidade, com que o convida +a seguil-o a logar mais remoto; mas não vá. + +HORACIO + +Senhor, pelo amor de Deus. + +HAMLET + +Quer-me fallar, pois bem, seguil-o-hei. + +HORACIO + +Não faça tal, senhor. + +HAMLET + +Porque? que tenho eu a receiar, importa-me tanto a vida, como se fosse +um alfinete; quanto á minha alma, nada póde contra ella, porque é +immortal, como elle é. Repete o signal, vou seguil-o. + +HORACIO + +E se elle vos attrahisse ao Oceano ou ao pincaro escarpado de algum +rochedo saliente e sobranceiro ao mar; e se tomasse alguma fórma +horrivel, cuja vista vos varresse a rasão tornando-vos demente? Pensae +bem, senhor, não receiaes alguma vertigem ao contemplar de alto a +immensidade debaixo de vossos pés? + +HAMLET + +Continua a fazer-me signal. Caminha, sigo-te. + +MARCELLO + +Não ha de ir, senhor. + +HAMLET + +Ninguem me detenha. + +HORACIO + +Seja rasoavel, principe, não vá. + +HAMLET + +Ouço a voz do meu destino; brada alto, e cada um dos meus musculos +adquiriu o vigor dos do leão de Nemea. (A sombra faz-lhe signal de a +seguir.) Chama-me outra vez, deixem-me, senhores (escapa-se-lhes dos +braços.) Por Deus, que não viverá, quem ousar oppôr-se-me. Afastem-se, +já disse. (Á sombra.) Caminha, sigo-te. (A sombra e Hamlet afastam-se.) + +HORACIO + +Apoderou-se d'elle o delirio. + +MARCELLO + +Sigamol-o; desobedecer-lhe é forçoso n'estas circumstancias. + +HORACIO + +Não o abandonemos. Qual será o resultado! + +MARCELLO + +Algum vicio ha na constituição da Dinamarca. + +HORACIO + +O céu proverá o que for melhor. + +MARCELLO + +Sigamos o principe. (Sáem todos.) + + +SCENA V + +Uma parte mais afastada da explanada + +Chegam HAMLET e a SOMBRA + +HAMLET + +Onde pretendes conduzir-me; mais adiante não irei. + +A SOMBRA + +Encara-me, Hamlet. + +HAMLET + +Que queres? + +A SOMBRA + +Approxima-se a hora em que me devo recolher ás chammas sulphureas e +ardentes. + +HAMLET + +Pobre alma! + +A SOMBRA + +Não me lastimes, mas presta attenção ao segredo que te vou revelar. + +HAMLET + +Falla, é meu dever escutar-te. + +A SOMBRA + +Dever tambem é vingar-me depois de me teres ouvido. + +HAMLET + +Que ouço! + +A SOMBRA + +Sou a alma de teu pae, condemnada a penar durante um tempo certo, a +jejuar n'um carcere de chammas, até que as culpas que mancharam a minha +vida estejam completamente expiadas e purificadas pelo fogo. Se não me +fosse defezo revelar os segredos do meu carcere, far-te-ía uma narrativa +de que cada palavra encheria de terror a tua alma, gelaria o teu sangue, +os olhos quaes estrellas brilhantes saíriam das suas orbitas, os anneis +do teu cabello desfazer-se-íam em completa desordem, e cada cabello +ficaria hirto como as cerdas do javali; mas estes mysterios eternos não +são para ouvidos profanos de carne e de sangue. Escuta, escuta, oh +escuta-me! se alguma vez amaste teu carinhoso pae... + +HAMLET + +Oh céus! + +A SOMBRA + +Vinga a sua morte, causada por um assassinio, cobárde, infame e nefando. + +HAMLET + +Um assassinio? + +A SOMBRA + +Infame! todos os assassinios o são, mas nunca houve nenhum mais infame, +inaudito e horrendo do que este. + +HAMLET + +Apressa-te em desvelar-m'o, para que prompto, como a meditação, ou como +o pensamento de amor, possa saciar a minha vingança. + +A SOMBRA + +Grato sou ao teu empenho, Hamlet; era preciso que fosses mais apathico +do que a planta grossa e crassa que immovel e inerte apodrece nas +margens do Lethes, se não sentisses n'este momento commoção alguma. +Agora, ouve-me. Espalhou-se que emquanto dormia no meu jardim, uma +serpente me mordêra; é assim que uma fallaz narrativa enganou a +Dinamarca sobre a causa da minha morte. Sabe tu pois a verdadeira, nobre +mancebo: a serpente cujo dardo matou teu pae, cinge hoje a corôa d'este +reino. + +HAMLET + +Oh meus propheticos presentimentos, meu tio! + +A SOMBRA + +Sim, esse monstro, incestuoso, adultero pela magia das palavras, pelos +dotes insidiosos. Oh loquela perversa, oh dotes nefarios, poisque tem +tal poder de seducção, e conseguiu inspirar essa vergonhosa paixão a +minha mulher, apparentemente tão virtuosa. Oh! Hamlet, que degradação! +Descer de mim, cujo amor nobre e digno não tinha desmentido um instante +o juramento prestado junto ao altar, a um miseravel, entre cujas +qualidades naturaes e as minhas havia um abysmo! Mas assim como a +virtude resiste inabalavel ás tentações do vicio, aindaque debaixo da +fórma da Divindade lhe apparecesse, assim tambem a impudicicia, embora +associada a um anjo celeste de luz, cansa-se da santidade do leito +conjugal, para ir habitar o mais desprezivel prostibulo. Mas já sinto a +frescura da aurora, forçoso é que eu termine. Emquanto dormia no meu +jardim, era esse o meu costume todas as tardes; teu tio, aproveitando a +minha inconsciencia, approximou-se de mim, munido de um frasco de +meimendro, e lançou-me n'um ouvido o conteúdo. É um veneno tão activo +para o sangue humano, que com a subtileza do mercurio corre e se +infiltra em todos os canaes, em todas as veias, coalhando e alterando o +sangue pela sua acção energica: o mais puro e limpido não lhe resiste, é +como uma gotta de qualquer acido n'uma taça de leite. Tal foi o seu +effeito, que uma lepra instantanea cobriu meu corpo de uma crosta impura +e infecta. Eis como durante o meu somno, tudo me foi arrebatado de uma +vez, e pela mão de um irmão, vida, corôa e consorte. A morte +surprehendeu-me em estado flagrante de peccado; sem sacramentos, sem me +reconciliar, nem com Deus, nem com a minha consciencia; tinha que +comparecer perante o Juiz Supremo vergando sob o peso das minhas +iniquidades. Horror, horror, cumulo de horror! Se em teu coração vibra a +fibra da sensibilidade, não o toleres. Não consintas que o leito do rei +de Dinamarca se transforme em mansão da luxuria e do incesto. Mas seja +qual for a tua vingança, conserva-te moral e puro, e poupa tua mãe. +Entrega o seu castigo ao céu, e aos espinhos do remorso que lhe +dilaceram o coração. Adeus, cumpre-me deixar-te; a luz do perilampo, +cujo fogo sem calor começa a esmorecer, annuncia a approximação da +aurora. Adeus, adeus, adeus. Recorda-te sempre de mim. (A sombra +retira-se.) + +HAMLET + +Oh! santas legiões do céu, oh! terra, que mais? Invocarei o inferno? Oh! +opprobrio; contém-te, ah! contém-te, meu coração, e vós, meus musculos, +não percaes o vigor, e redobrae de força e energia para me suster. +Recordar-me de ti? Sim, sombra infeliz, emquanto a memoria não abandonar +este meu cerebro desordenado. _Recorda-te de mim_; sempre! quero varrer +da minha memoria todas as recordações frivolas, todas as maximas +colhidas nos livros, todos os vestigios, todas as impressões do passado, +tudo quanto a juventude e a observação coordenaram, e em sua vez dar só +lugar, sem rivaes, juro-o pelo céu, aos teus preceitos. Oh! mulher +perversa, oh infame e damnado monstro! oh memoria, grava bem o seguinte, +que nos sorrisos do homem se póde occultar um crime; assim é na +Dinamarca (escreve n'uma carteira). Meu tio, espere-me. A minha senha +será de hoje em diante. _Adeus, adeus, adeus. Recorda-te de mim._ +Jurei-o. + +HORACIO ao longe + +Senhor, senhor? + +MARCELLO ao longe + +Senhor Hamlet? + +HORACIO + +Que o céu o proteja. + +HAMLET + +Assim seja. + +MARCELLO ao longe + +Olá, olá, senhor! + +HAMLET + +Pousa meu falcão, pousa. (Imita o canto do falcão e o chamamento do +falcoeiro.) + +Chegam HORACIO e MARCELLO + +MARCELLO + +O que se passou, senhor? + +HORACIO + +Que novas, senhor? + +HAMLET + +As mais extraordinarias. + +HORACIO + +Conte-nol-as, principe. + +HAMLET + +É um segredo. + +HORACIO + +E não sou eu capaz de o guardar? O principe conhece-me. + +MARCELLO + +E eu? + +HAMLET + +Que me dirão quando o souberem: que coração humano o teria pensado. +Juram-me segredo? + +HORACIO e MARCELLO + +Jurâmos. + +HAMLET + +Não ha em toda a Dinamarca um scelerado igual. + +HORACIO + +Era necessario que um espectro saísse do tumulo para nol'o dizer? + +HAMLET + +É verdade, têem rasão. Basta de palavras, um aperto de mão, e cada um +volte onde o chamam os negocios e as suas inclinações, porque todos têem +inclinações e negocios, sejam quaes forem: eu, pobre pária do mundo, vou +orar. + +HORACIO + +São palavras incoherentes e sem sentido, alteza. + +HAMLET + +Peza-me que te offendesses, peza-me devéras. + +HORACIO + +Em que, senhor? + +HAMLET + +Por S. Patricio, que te offendi e gravemente. Quanto á apparição de inda +agora, é um phantasma honesto, digo-t'o eu. Quanto ao desejo de +conhecerem, senhores, o que entre nós se passou, reprimam-n'o. E agora, +meus bons amigos, em nome da nossa amisade, da nossa camaradagem de +estudos e de armas, façam-me um favor. + +HORACIO + +Qual é? Não hesitâmos. + +HAMLET + +Nunca digam o que viram esta noite. + +AMBOS + +Conte com a nossa palavra, principe. + +HAMLET + +Quero um juramento. + +HORACIO + +Prometti o segredo. + +MARCELLO + +Já jurámos. + +HAMLET + +Mas jurem sobre a minha espada. + +A SOMBRA (debaixo da terra) + +Jurem. + +HAMLET + +Ah! ah! meu camarada, és tu que fallas; estás ahi, meu valente, +approxima-te; ouvem a sua voz, prestem o juramento. + +HORACIO + +Diga-nos a formula, principe. + +HAMLET (afastando-se um pouco com elles) + +Jurem sobre a minha espada, que guardarão sigillo do que viram e +ouviram. + +A SOMBRA (debaixo da terra) + +Jurem. + +HAMLET + +_Hic et ubique._ Vamos para mais longe. (Afastam-se um pouco.) +Approximem-se, e estendendo a dextra sobre a minha espada, jurem por +este gladio nunca revelar o que viram e ouviram. + +A SOMBRA (debaixo da terra) + +Jurem pela sua espada. + +HAMLET + +Bravo, velha toupeira, como caminhas depressa subterraneamente, que +bello mineiro! Afastemo-nos mais uma vez, meus bons amigos. + +HORACIO + +Por vida minha, é prodigioso! + +HAMLET + +Acolhâmol-o como se acolhe um estrangeiro. O céu e a terra encerram mais +mysterios, que os conhecidos pelos philosophos; mas venham. Notem o que +notarem nos meus modos, se eu julgar necessario affectar maneiras +extravagantes, jurem-me pela sua salvação que nunca cruzarão os braços, +meneando a cabeça, nem lhes escaparão palavras ambiguas, como por +exemplo: _Muito bem, muito bem_--_já sabemos_--ou--_se quizessemos +fallar_--ou--_ainda ha pessoas que se ousassem_--ou outras expressões +equivocas, dando a perceber que estão na confidencia; jurem que nada +farão; e possa, quando mais precisarem, não lhes faltar a graça divina. + +A SOMBRA (debaixo da terra) + +Jurem. + +HAMLET + +Acalma-te, alma penada. Assim, senhores, recommendo-me á vossa affeição, +e tudo quanto um homem tão debil como Hamlet possa fazer para lhes +provar o seu affecto, fal-o-ha com a ajuda de Deus. Retiremo-nos juntos, +e silencio; peço-lh'o eu. Ha no mundo alguma grande perturbação. +Maldição. Porque serei eu o eleito para a terminar? Vamos, partâmos +juntos. + + +Fim do acto primeiro + + + + +ACTO SEGUNDO + + +SCENA I + +Uma sala em casa de Polonio + +Entram POLONIO e RINALDO + +POLONIO + +Rinaldo, entrega a meu filho este dinheiro e estas letras. + +RINALDO + +Sim, meu senhor. + +POLONIO + +Mas antes de o procurar, obrarás assisadamente tomando informações a seu +respeito. + +RINALDO + +Era essa a minha intenção. + +POLONIO + +Bem, muito bem; toma antes todas as informações pelos dinamarquezes que +estão em París, vê as suas relações, e com quem se dão, quaes os seus +gastos; depois de te assegurares pelas tuas perguntas que conhecem meu +filho, procura colher informações mais exactas, sem comtudo o dar a +entender. Dissimula que o conheces perfeitamente, dizendo, por exemplo: +Conheço o pae e a familia, mas d'elle não tenho conhecimento algum. +Entendes, Rinaldo? + +RINALDO + +Perfeitamente, senhor. + +POLONIO + +De todo não me é desconhecido, pódes acrescentar. Conheço-o pouco é +verdade, comtudo aquelle de quem fallo é um dissipador com todos os seus +defeitos; imputa-lhe então todos os vicios que te parecer, excepto +aquelles que podem deshonrar um homem, toma conta n'isso; só as loucuras +e imprudencias proprias de um joven que se sente livre de todo o +constrangimento paterno. + +RINALDO + +O jogo, talvez? + +POLONIO + +Bem, e as bebidas, a esgrima, as pragas, o genio buliçoso, a convivencia +do prostibulo, é até onde te auctoriso que chegues. + +RINALDO + +Actos são, na verdade, que não deshonram. + +POLONIO + +Sabes bem como te deves haver fazendo estas imputações. Não aggraves os +factos accusando-o de devassidão continua e habitual; não pretendo tal; +censura-o mas com discrição; exprime-te como se attribuisses as suas +faltas aos defeitos inherentes á mocidade, ao abuso da liberdade, ao +arrebatamento de um espirito fogoso, á effervescencia de um sangue +ardente. + +RINALDO + +Mas, senhor? + +POLONIO + +Porque será conveniente obrar assim. + +RINALDO + +Para lh'o perguntar estava eu. + +POLONIO + +É onde eu queria chegar, e na minha opinião é um ardil sem igual. Depois +de teres imputado a meu filho esses ligeiros defeitos, que se podem +considerar quando muito como imperfeições n'uma bella obra; se o teu +interlocutor, aquelle que queres sondar, notou no joven a que te referes +algum dos vicios mencionados, está certo que responderá immediatamente: +Meu caro senhor, ou _meu amigo_--ou _meu cavalheiro_--segundo o costume +do individuo, ou o uso do paiz... + +RINALDO + +Prosiga, senhor. + +POLONIO + +Então... que estava eu dizendo? pela santa missa--que queria eu dizer? o +que era? + +RINALDO + +Fallava da resposta... + +POLONIO + +Que te darão, é isso, e não deixarão de responder: _Conheço esse +mancebo, vi-o ainda hontem, ou outro qualquer dia, em tal epocha, com +estes ou com aquelles, surprehendi-o jogando, ou n'uma orgia ou numa +rixa_, ou ainda, _vi-o entrar n'uma casa suspeita_; ou outras cousas +similhantes: agora vês como com a mentira se colhe a verdade. É assim +que nós, as pessoas entendidas, empregâmos a miudo o embuste e a +falsidade para descobrir a verdade. Ahi está o caminho que seguirás para +saber o comportamento de meu filho. Percebes agora? + +RINALDO + +Sim, meu senhor. + +POLONIO + +O Senhor seja comtigo, boa viagem. + +RINALDO + +Meu amo! + +POLONIO + +Observa tu mesmo as suas inclinações. + +RINALDO + +Fal-o-hei, senhor. + +POLONIO + +Mas não o distráias da sua vida. + +RINALDO + +Bem entendo. + +POLONIO + +Adeus. (Rinaldo sáe.) + +Entra OPHELIA + +POLONIO + +Que te traz por aqui, Ophelia? + +OPHELIA + +Meu pae, meu pae, ainda tremo. + +POLONIO + +Porque? Falla por piedade. + +OPHELIA + +Querido pae, estava no meu quarto trabalhando em costura, quando de +repente deparo com o sr. Hamlet, mas em que estado! as vestes em +desordem, o cabello em desalinho, as meias caídas arrastavam pelo chão, +pallido e branco como uma mortalha, tremiam-lhe as pernas, o rosto tinha +a expressão do desespero, qual profugo do inferno mensageiro de novas +horriveis. + +POLONIO + +Enlouqueceria por tua causa? + +OPHELIA + +Não sei, meu pae, mas receio-o devéras. + +POLONIO + +Que te disse elle, Ophelia? + +OPHELIA + +Tomou-me os pulsos, apertando-os convulsivamente, depois afastando-se á +distancia do seu braço, levando a mão á testa, fitou os olhos no meu +rosto, como se me quizesse retratar. Assim se demorou por largo tempo, +por fim saccudindo-me levemente o braço, levantando e baixando por tres +vezes a cabeça, suspirou tão profundamente, que todo o seu corpo +estremeceu, parecia o prenuncio da morte. Feito isto, deixou-me, partiu +e desviando a cabeça, como um homem que para achar caminho não precisa o +auxilio da vista, transpoz a porta; mas então o seu olhar estava fito em +mim. + +POLONIO + +Segue-me, filha, vou procurar o rei. É o delirio do amor; a sua +violencia mata-o, e impõe á sua vontade actos de desespero, que nenhuma +outra paixão humana excitaria. Peza-me sinceramente. Dize-me, +ter-lhe-ías tu dirigido ultimamente alguma palavra cruel. + +OPHELIA + +Não, meu pae; mas obedecendo ás suas ordens, recusei as suas cartas e +evitei a sua presença. + +POLONIO + +Eis o que perturbou a sua rasão. Doe-me de o não ter conhecido melhor: +receiei que as suas intenções não fossem serias, e que só pretendesse +consummar a tua ruina. Arrependo-me do fundo de alma das minhas +desconfianças. Parece que o confiar cegamente na previdencia é o +apanagio da minha idade, como o contrario é o defeito da mocidade. Vem, +dirijâmo-nos ao rei, convem que elle nada ignore; porque o sigillo +d'este amor poderia acarretar mais desgraças do que a sua revelação +resentimentos. (Sáem ambos.) + + +SCENA II + +Uma sala no castello de Elsenor + +Entram o REI, a RAINHA, as suas comitivas, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN + +O REI + +Sejam bemvindos, caros Rosencrantz e Guildenstern. Independentemente do +gosto de os ver, a necessidade do seu prestimo me obrigou a chamal-os a +esta côrte sem demora. Ouviram seguramente fallar da transformação de +Hamlet; digo transformação, porque já não é o mesmo homem, nem moral nem +physicamente. Só a morte do pae póde ser a causa do transtorno da sua +rasão, não posso conceber outra. Educados com elle desde a infancia, +sympathisando entre si pela idade e pelo caracter, peço-lhes que +permaneçam algum tempo na côrte, procurem inspirar-lhe o gosto e prazer +da sua convivencia, aproveitem todas as occasiões para descobrir se a +sua afflicção não tem alguma causa desconhecida, cuja revelação nos +permittisse dar-lhe remedio. + +A RAINHA + +Bastante tem fallado nos senhores, e estou convencida que ninguem no +mundo lhes é mais affeiçoado. A liberalidade do rei compensará +largamente os seus serviços e os seus incommodos. Esperâmos dos senhores +esta prova de affeição. + +ROSENCRANTZ + +Vossas magestades são nossos soberanos, e os reis não pedem, mandam. + +GUILDENSTERN + +Estamos promptos a obedecer; disponham de nós, senhores. Depondo aos pés +dos reis os nossos serviços e a nossa dedicação, pedimos-lhes só que +ordenem. + +O REI + +Obrigado, senhores. + +A RAINHA + +Obrigada tambem eu; vão ter com meu filho: infelizmente mal o +reconhecerão. (Á sua comitiva) Alguns d'estes senhores conduzam estes +cavalheiros junto de Hamlet. + +GUILDENSTERN + +Praza a Deus, que a nossa presença lhe seja agradavel e os nossos +cuidados um lenitivo. + +A RAINHA + +Deus queira. (Rosencrantz e Guildenstern sáem seguidos de alguns +cortezãos.) + +Entra POLONIO + +POLONIO + +Senhor, regressaram de Noruega os embaixadores, satisfeitos com o +resultado da sua missão. + +O REI + +És sempre correio de boas novas. + +POLONIO + +Senhor! esteja vossa magestade certo que a minha alma põe a par a +dedicação ao meu rei e o respeito e amor ao meu Deus. A menos que a +minha sagacidade habitual me enganasse, descobri a verdadeira causa da +loucura do senhor Hamlet. + +O REI + +Estou ancioso por conhecel-a. + +POLONIO + +Primeiro os embaixadores, depois eu. + +O REI + +Recebe-os, e encarrego-te de os introduzir á nossa presença. (Polonio +sáe.) (Á rainha.) Annunciou-me, querida Gertrudes, que conhece a causa +da doença de seu filho. + +A RAINHA + +Receio bem que a morte de seu pae e o nosso precipitado consorcio sejam +as causas unicas. + +O REI + +Sabel-o-hemos em breve. + +Entram POLONIO, VOLTIMANDO e CORNELIO + +O REI + +Bemvindos sejam, amigos. Falla tu, Voltimando; que novas trazes de nosso +irmão de Noruega? + +VOLTIMANDO + +Envia-vos seus cumprimentos e sauda-vos cordealmente. Mal nos ouviu, +ordenou ao sobrinho que pozesse fim aos seus preparativos guerreiros. +Julgava-os dirigidos contra a Polonia; mas convencido por um detido +exame que eram contra vossa magestade, e indignado por Fortimbraz se +prevalecer do estado precario, a que a idade e a doença o tinham +reduzido, ordenou-lhe que comparecesse na sua presença. Fortimbraz +obedeceu á ordem intimada, e depois de severamente reprehendido pelo rei +de Noruega, prestou nas mãos de seu tio o juramento de nada emprehender +contra vossas magestades. O idoso monarcha, para provar o seu jubilo, +concedeu-lhe uma pensão annual de tres mil escudos, e licença para +combater os polacos com as tropas alistadas. Ao mesmo tempo pede-vos +pelas presentes (entrega as cartas), que concedaes ás suas tropas livre +passagem pelo vosso territorio nas condições estipuladas n'este +escripto. + +O REI + +Este resultado enche-nos de satisfação; quanto ao pedido, lel-o-hemos, e +depois de maduramente examinado, responderemos. Agradecemos-lhes os seus +valiosos serviços. Descansem agora; juntos ceiaremos logo. (Voltimando e +Cornelio sáem.) + +POLONIO + +Felizmente está terminado este negocio. Senhor e senhora; discutir o que +constitue a auctoridade, e em que consiste a obediencia dos subditos, +porque a noite é noite, o dia é dia, e o tempo é tempo, seria perder sem +proveito a noite, o dia e o tempo; por isso, visto que a concisão é a +alma do espirito, emquanto que a prolixidade é só o corpo ou o involucro +exterior, serei breve: Vosso nobre filho está louco, digo louco, porque +haveria falta de rasão em querer definir o que constitue verdadeiramente +loucura. Passemos adiante... + +A RAINHA + +Menos estylo, Polonio. + +POLONIO + +Senhora, não faço estylo, juro-o. Seu filho está louco; é triste, mas é +verdade. É verdade que é uma lastima, mas é uma lastima que seja +verdade; é uma estulta antithese, mas tal qual é acceite-a; não emprego +arte. Está louco; resta-nos procurar a causa d'esse effeito, ou antes +defeito, porque forçosamente a deve ter. Siga bem o meu raciocinio: +Tenho uma filha, tanto a tenho, que me pertence. Minha filha, fiel ao +dever e á obediencia que me deve, note bem, entregou-me este escripto. +(Mostra um papel.) Reflicta e depois tire a conclusão. (Lê.) _Ao idolo +da minha alma, á celeste Ophelia, á belleza personificada..._ É uma +desgraçada e estulta expressão. _Conserva preciosamente estas linhas, no +teu seio alabastrino..._ + +A RAINHA + +É de Hamlet a Ophelia. + +POLONIO + +Espere um momento, senhora, cito textualmente. (Lê) + + Duvida que do céu a abobada azulada + Tenha espheras de luz de um magico esplendor, + Duvida seja o sol o facho da alvorada, + Duvida da verdade em tua alma gravada, + Mas não duvides nunca, oh! nunca, d'este amor. + +_Querida Ophelia, não sou poeta, não sei modular suspiros com arte, mas +podes acreditar que te amo, mais que tudo n'este mundo. Adeus, a ti, +para sempre minha vida, a ti emquanto esta machina mortal me +pertencer._==Hamlet.==Eis-ahi o que, por obediencia, minha filha me +entregou. Já antes ella me tinha confiado as tentativas de Hamlet, á +proporção que renovava as suas instancias amorosas. + +O REI + +Como pôde ella acolher este amor? + +POLONIO + +Em que conta me tem, senhor? + +O REI + +Na de um homem leal e honrado. + +POLONIO + +Farei por merecer sempre esse conceito a vossa magestade; mas que +pensaria o rei de mim, se vendo despontar esse amor, e já o tinha +adivinhado antes da confissão de minha filha, que pensariam o rei e a +rainha, se me calasse, e me tornasse mudo confidente do seu amor; se, +testemunha da sua paixão, tivesse imposto silencio ao meu coração, ou se +a considerasse com indifferença? má idéa por certo fariam de mim. Não +perdi um momento, disse a minha filha: _O senhor Hamlet é um principe +collocado fóra da tua esphera; isto não póde ser._--Ordenei-lhe então +que evitasse a sua convivencia, e que nunca mais recebesse nem mensagens +nem dadivas. Seguiu o meu conselho, e para abreviar a minha narração, o +principe, vendo-se assim repellido, caíu primeiro n'uma profunda +tristeza, em seguida repugnaram-lhe os alimentos, mais tarde teve +insomnias, depois abatimentos e fraqueza intellectual, finalmente, e +sempre gradualmente, chegou á demencia e ao delirio. Deplorâmol-o todos. + +O REI + +E pensas ser essa a causa? + +A RAINHA + +É muito provavel. + +POLONIO + +Quizera me dissessem, se aconteceu alguma vez affirmar eu alguma cousa +que não fosse certa. + +O REI + +Nunca que eu saiba. + +POLONIO + +Se não é verdade o que disse (mostrando a cabeça), que esta role a seus +pés. Basta-me a mais simples circumstancia para descobrir a verdade, +aindaque estivesse occulta nas entranhas da terra. + +O REI + +Por que modo nol-o poderás tu provar. + +POLONIO + +Vossa magestade não ignora que o sr. Hamlet algumas vezes passeia quatro +horas consecutivas n'esta galeria. + +A RAINHA + +É certo. + +POLONIO + +Quando ali estiver, enviar-lhe-hei minha filha, e nós, occultos por +detrás d'esta cortina, seremos testemunhas da entrevista. Se não a ama, +se não foi o amor a causa da sua loucura, deixe eu de pertencer aos +conselhos de vossa magestade, e faça de mim um quinteiro, um hortelão ou +um abegão. + +O REI + +Tentemos a experiencia. + +HAMLET entra lendo + +A RAINHA + +A leitura é a unica distracção d'este infeliz. + +POLONIO + +Retirem-se ambos por piedade. Vou fallar-lhe. Confiem em mim. (O rei e a +rainha sáem) Como se sente o sr. Hamlet? + +HAMLET + +Bem, Deus louvado. + +POLONIO + +Conhece-me, principe? + +HAMLET + +Se conheço, és um vendilhão de peixe. + +POLONIO + +Engana-se, senhor. + +HAMLET + +N'esse caso, queria que ao menos fosses tão honrado. + +POLONIO + +Honrado? + +HAMLET + +Sim; pelo caminho em que vae o mundo, custa achar um homem honrado entre +dez mil. + +POLONIO + +É uma triste verdade. + +HAMLET + +Ora o sol gera vermes no animal putrefacto, e embora divindade, acaricia +o cadaver. Tens uma filha, não é verdade? + +POLONIO + +Sim, meu senhor. + +HAMLET + +Não a deixes caminhar ao sol, a concepção é um beneficio do céu, mas +como tua filha póde conceber, cuidado... meu caro. + +POLONIO + +Que quer dizer, principe? (á parte) minha filha é a sua constante +preoccupação, mas não me reconheceu logo, tomou-me por um vendilhão de +peixe. O seu cerebro está gravemente atacado; verdade é, que na minha +mocidade o amor algumas vezes me reduziu a um estado similhante a este. +Dirijâmos-lhe de novo a palavra. Que está lendo, senhor? + +HAMLET + +Palavras e mais palavras, só palavras. + +POLONIO + +De que se trata, senhor? + +HAMLET + +Quem, o que? + +POLONIO + +Pergunto o que contém o livro que está lendo. + +HAMLET + +Calumnias, nada mais. O satyrico auctor tem a impudencia de dizer que +nos velhos a barba é grisalha, a pelle rugosa, e que seus olhos +distillam ambar e gomma em fusão; que o espirito está caduco, as pernas +não os sustêem; tudo cousas que creio em minha consciencia, mas que se +não devem escrever. Quanto ao senhor, poderia ter a minha idade, se +podesse andar para trás como os caranguejos. + +POLONIO (á parte) + +Aindaque louco póde coordenar as idéas. (Alto.) Quer vir tomar ar, meu +senhor? + +HAMLET + +Que ar? o do tumulo? + +POLONIO (á parte) + +Que agudeza e que verdade na replica. Ás vezes as palavras dos loucos +têem mais conceito que as dos sãos. Vou deixal-o, e preparar a sua +entrevista com minha filha. Senhor, tomo a liberdade de me retirar. + +HAMLET + +Nada podia tomar, que eu désse com mais gosto; excepto a vida, excepto a +vida, excepto a vida. + +POLONIO + +Adeus, meu senhor. + +HAMLET (á parte) + +Que imbecil e fastidioso velho. + +Entram ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN + +POLONIO + +Procuram o sr. Hamlet, eil-o. + +ROSENCRANTZ (a Hamlet) + +Deus seja comvosco, senhor. (Polonio sáe) + +GUILDENSTERN + +Meu nobre senhor. + +ROSENCRANTZ + +Querido principe. + +HAMLET + +Meus bons e queridos amigos, como estão, tu Guildenstern e tu tambem +Rosencrantz, meus caros, como passam. + +ROSENCRANTZ + +Nem bem, nem mal. + +GUILDENSTERN + +Não nos peza demasiado a nossa felicidade, e não tocâmos o ponto +culminante da fortuna. + +ROSENCRANTZ + +Nem temos tambem rasões de queixa. + +HAMLET + +No meio está a virtude, é quando chovem as graças. + +GUILDENSTERN + +Vivemos familiarmente com ella. + +HAMLET + +Estão pois na intimidade da fortuna; não me admira, é uma cortezã. Que +novas ha? + +ROSENCRANTZ + +Nenhumas, senhor, a não ser que este mundo se tornou virtuoso. + +HAMLET + +Em tal caso o seu fim está mui proximo, mas o que dizes é falso. +Permittam-me uma pergunta que lhes diz respeito. Digam-me, que mal +fizeram á fortuna para ella os enviar para este carcere? + +GUILDENSTERN + +Carcere, senhor? + +HAMLET + +A Dinamarca tambem é carcere. + +ROSENCRANTZ + +Então é-o o mundo todo. + +HAMLET + +Sim, uma vasta prisão que em si encerra um grande numero de carceres, +dos quaes o peior é de certo a Dinamarca. + +ROSENCRANTZ + +Não somos da mesma opinião, principe. + +HAMLET + +Para os senhores não será uma prisão a Dinamarca, porque o bem ou o mal +não existem senão quando assim o julgâmos. Para mim é. + +ROSENCRANTZ + +A ambição faz parecer a Dinamarca uma prisão a vossa alteza, não cabe +n'ella a sua alma. + +HAMLET + +Acharia vasto reino uma casca de noz, se não fossem os meus terriveis +sonhos. + +ROSENCRANTZ + +São justamente esses sonhos que constituem a ambição, porque toda a +substancia do ambicioso é a sombra de um sonho. + +HAMLET + +Assim os mendigos são corpos, e os monarchas e os heroes ambiciosos não +são senão a sua sombra. Querem que vamos á côrte? porque sinceramente +não me sinto disposto a discutir. + +AMBOS + +Estamos ás suas ordens, principe. + +HAMLET + +Não o comprehendo eu assim, não o quero confundir com o resto dos meus +creados; porque, para lhes dizer a verdade, sou pessimamente servido. +Mas, com franqueza, amigos, o que os trouxe a Elsenor. + +ROSENCRANTZ + +Unicamente visitar a vossa alteza, nenhum outro motivo. + +HAMLET + +Estou tão pobre, tão alheio ao reconhecimento! mas recebam os meus +agradecimentos pelo preço que valem. Não os mandaram chamar? Foi por +motu proprio que vieram? É a affeição que aqui os trouxe? Vamos, sejam +francos, vamos, fallem. + +ROSENCRANTZ + +Que quer que digâmos, senhor? + +HAMLET + +Tudo quanto lhes aprouver, mas respondam á minha pergunta. Mandaram-os +chamar? Leio nos seus olhos uma confissão, que a sua candura não sabe +dissimular. Sei que o nosso bom rei e a nossa excellente rainha os +mandaram chamar. + +ROSENCRANTZ + +Com que fim, senhor? + +HAMLET + +Os senhores é que o poderão dizer; mas imploro-lhes, pelos direitos da +nossa amisade, pelas sympathias da nossa idade, pelos deveres que nos +impõe a nossa verdadeira affeição, emfim por todas as rasões as mais +convincentes que podesse allegar o mais habil orador, sejam francos e +sinceros commigo; mandaram-os chamar? _Sim_ ou _não_. + +ROSENCRANTZ (a Guildenstern) + +Que devemos responder? + +HAMLET (á parte) + +Não os perderei de vista. (Alto.) Se devéras me têem affeição, +expliquem-se com franqueza. + +GUILDENSTERN + +Pois bem, senhor, mandaram-nos chamar. + +HAMLET + +E eu dir-lhes-hei porque; d'est'arte a minha confissão precederá as suas +investigações, e o segredo promettido ao rei e á rainha, não será nem de +leve violado. Ultimamente, nem sei por que, perdi toda a minha alegria, +renunciei a toda a especie de exercicio; e sinto na alma uma tal +tristeza, que esta maravilhosa machina, a terra, me parece um esteril +promontorio, este esplendido docel, o céu, esse magnifico firmamento +suspenso sobre nossas cabeças, essa abobada sumptuosa, onde brilha o +oiro de innumeras estrellas, tudo me parece um infecto monturo de +vapores pestilentes. Que obra prima dos homens! que elevação na sua +intelligencia! quanto são infinitas as suas faculdades! como a sua fórma +é imponente e admiravel, como os seus actos approximam os homens dos +anjos, e a sua rasão os approxima de Deus! são a maravilha do mundo, os +reis da creação animada, e comtudo o que vale a meus olhos essa quinta +essencia do pó? Aborreço os homens e as mulheres, embora os seus +sorrisos incredulos, senhores, digam o contrario. + +ROSENCRANTZ + +Não tinhamos em nosso pensamento tal intenção. + +HAMLET + +Então porque se riram quando disse que aborrecia os homens? + +ROSENCRANTZ + +É que eu pensava que, se os homens lhe são odiosos, triste acolhimento +receberiam os actores que encontrámos no caminho e que vem offerecer a +vossa alteza os seus serviços. + +HAMLET + +Bemvindo será o que representa os reis; tributarei a sua magestade as +minhas homenagens; o cavalleiro andante manejará adaga e escudo, debalde +não suspirará o namorado, o comico declamará em paz a sua parte; o bobo +provocará o riso aos mais hypocondriacos, emfim a namorada estropiará os +versos para não deixar de dizer o que cumpre sinta no coração. Que +actores são? + +ROSENCRANTZ + +São os tragicos da cidade, que lhe agradavam tanto. + +HAMLET + +Porque se tornaram actores ambulantes? Com a permanencia na cidade, +auferiam de certo maior honra e lucros. + +ROSENCRANTZ + +Innovações recentes foram a causa d'isso. + +HAMLET + +Ainda gosam da mesma reputação que tinham quando eu habitava a cidade? +As suas representações ainda são muito concorridas? + +ROSENCRANTZ + +Pouco, senhor. + +HAMLET + +Porque será? Terão elles desmerecido no seu modo de representar? + +ROSENCRANTZ + +Não, meu senhor; o seu zêlo não arrefece: mas vossa alteza de certo +saberá, que appareceu um enxame de creanças, apenas saídas da primeira +infancia, que declamam o dialogo o mais simples, no tom o mais elevado, +e por isso são calorosamente applaudidas. São moda, e lançaram um tal +desfavor sobre os actores ordinarios, como ellas lhe chamam, que muitos +homens valentes no campo da batalha, mas que temem as pennas aguçadas, +não ousam frequentar o verdadeiro theatro. + +HAMLET + +Como? pois são creanças? Quem as protege? quem lhes paga? quererão +unicamente seguir a sua profissão emquanto conservarem a sua voz +aflautada? E se um dia pela força das circumstancias se tornarem actores +ordinarios, não terão direito então de se arrependerem, de terem +acceitado os encomios das pennas que bem mau serviço lhes prestaram, +quando se voltarem contra elles as armas de que se serviram para mal dos +outros. + +ROSENCRANTZ + +Não luctaram pouco entre si, e a nação inteira animou a contenda. Houve +um momento em que a receita do emprezario dependia de brigarem os +actores e auctores. + +HAMLET + +Será crivel? + +ROSENCRANTZ + +Houve mais de uma cabeça quebrada. + +HAMLET + +E foram as creanças que venceram? + +ROSENCRANTZ + +Sim, meu senhor. Venceram o proprio Hercules com o seu globo. + +HAMLET + +Nada me admira, sendo meu tio rei de Dinamarca. Os que o evitavam em +vida de meu pae, pagam agora o seu retrato em miniatura, por vinte, +cincoenta e cem ducados. Por vida minha que ha alguma cousa sobrenatural +em tudo quanto presenceâmos, e que em verdade a philosophia devia +esmerar-se por descobrir. (Ouve-se o som de uma musica de clarins ao +longe.) + +GUILDENSTERN + +Chegam os actores. + +HAMLET + +Senhores, bemvindos sejam em Elsenor. As suas mãos que eu as aperte. O +que distingue um bom acolhimento são os cuidados e as attenções polidas; +deixem-me recebel-os assim para não parecer que a cortezia para com os +actores, com os quaes é minha intenção ter a maior, ultrapassa a que +lhes testemunho pessoalmente aos senhores. Bemvindos sejam, mas o tio +que tenho por padrasto, e a mãe que tenho por tia estão completamente +enganados a meu respeito. + +GUILDENSTERN + +Em que se enganam elles? + +HAMLET + +Só estou louco quando o vento sopra do nor-noroeste, em soprando do sul, +distingo uma garça de um falcão. + +Entra POLONIO + +POLONIO + +Saudo os senhores. + +HAMLET + +Escuta, Guildenstern, (a Rosencrantz) e tu tambem: a bom entendedor meia +palavra basta; esta creança que vêem ainda usa coeiros. + +ROSENCRANTZ + +Talvez que os torne a usar; a velhice é, segundo dizem, uma segunda +infancia. + +HAMLET + +Aposto que me vem fallar nos actores; vão ver. Tem rasão, senhor, foi +effectivamente na manhã de segunda feira. + +POLONIO + +Trago uma nova para vossa alteza. + +HAMLET + +Tenho tambem uma para o senhor. Quando Roscio era actor em Roma... + +POLONIO + +Os actores acabam de chegar. + +HAMLET + +Não é verdade. + +POLONIO + +Palavra de honra. + +HAMLET + +Cada actor virá montado n'um jumento. + +POLONIO + +São os melhores actores do mundo para a tragedia, comedia, drama +historico e pastoril, pastoral comica e historica, pastoral +tragico-comico-historica, com ou sem unidade do logar da acção. Para +elles não ha difficuldades, são tristes com Seneca, folgasãos com +Plauto. Não têem rivaes quanto ao estylo e á expressão. + +HAMLET + +Ó Jephthé, juiz em Israel, que thesouro possuias! + +POLONIO + +Que thesouro possuia elle, senhor? + +HAMLET + +Mas... + + Uma filha, uma só, mas essa encantadora + Que era da noite sua a celestial aurora. + +POLONIO (á parte) + +Ainda minha filha. + +HAMLET + +Não tenho eu rasão, velho Jephthé? + +POLONIO + +Se me chama Jephthé, é porque tenho uma filha que estremeço. + +HAMLET + +Não é consequencia. + +POLONIO + +Então qual é a consequencia? + +HAMLET + +Eil-o. + + Mas Deus sabe porque o conto é memoravel! + +Conhece o seguimento? + + Um dia aconteceu... o que era mais provavel. + +Para o final recorde-se da primeira parte d'estas trovas, porque eis +quem me obriga a terminar. + +Entram tres ou quatro ACTORES + +HAMLET (continuando) + +Bemvindos todos, bemvindos sejam. Estou encantado de te ver de boa +saude, bemvindos sejam, amigos. Ah, meu amigo, que mudança! já com +barba! Quererás tu fazer-me sombra em Dinamarca? Ah eis-vos tambem aqui, +minha menina! Por nosso senhor, depois que vos vi, subistes apenas um +degrau para o céu. Deus queira que a vossa voz, moeda de liga mutavel, +não se deprecie de mais com o tempo. Senhores, para mim são todos +bemvindos; mas vamos direitos ao assumpto, como os falcoeiros francezes, +que largam o falcão á primeira peça de caça que se apresenta, mostrem-me +a sua pericia; vamos, um trecho bem pathetico. + +PRIMEIRO ACTOR + +Que trecho preferis, senhor? + +HAMLET + +Ouvi-te um dia declamar um trecho de uma peça nunca representada em +scena, ou quando muito uma unica vez, porque, se bem me lembro, a peça +não agradou a todos; era _caviar_ para o geral do publico: mas, segundo +a minha opinião e das pessoas que n'este assumpto têem voz mais +auctorisada do que a minha, era uma peça excellente, bem conduzida e +escripta com tanta decencia como arte. Pelo que me lembro, diziam que os +versos não eram bastante picantes para compensar a insipidez da acção, +seu estylo na verdade nada tinha de affectado, mas que quanto ao resto a +peça, escripta com tanta simplicidade como methodo, era natural, +agradavel, e sem pretensão. Havia sobretudo um trecho que me agradou, +era, na falla de Eneas a Dido, o ponto em que lhe refere a morte de +Priamo. Se ainda te recordas, começa n'esta phrase, espera, deixa-me ver +se me lembro. + + Pyrrho, Pyrrho feroz como o tigre da Hyreania + +Não é isso--começa por Pyrrho. + + Este ouriçado Pyrrho havia uma armadura + Que, bem como a alma, tinha a côr da noite escura + Quando elle era a dormir no cavallo sinistro. + Mensageiro do mal, de Belzebut ministro, + No corpo traz agora, em rubros caracteres, + Mais sinistro brazão; da fronte aos pés o cora + O sangue d'anciãos, d'infantes, de mulheres, + E por mil bôcas, mata a sêde que o devora + No sangue recosido aos raios d'essa chamma + Que Troia, em fogo ardendo, em torno a si derrama. + Tisnado pelo fogo e pela raiva ardente + Após Priamo corre... + +Continúa tu agora. + +POLONIO + +Boa declamação na verdade, com as medidas e intonações proprias. + +PRIMEIRO ACTOR + + O velho, já cansado, + Mal vibra um frouxo golpe; aquella espada, outr'ora + Como o raio veloz, lá onde cae descansa, + Indocil á vontade, e á mão rebelde agora, + Oh lucta desigual! lucta sem esperança, + Pyrrho de raiva acceso, investe em frente e ao lado! + E, só do gladio ao sôpro eil-o no chão prostrado + O guerreiro senil! Então, Troia abatida + Parece haver sentido, os golpes derradeiros: + Ao ver prostrado o rei exhaure-se-lhe a vida, + Desabam sobre a base em chammas os outeiros, + E o som cavo e profundo a Pyrrho fere o ouvido. + Eis de repente o gladio, a grande altura erguido, + Já prestes a immolar a fronte alva, nevada, + Do venerando rei, detem-se lá na altura. + E Pyrrho assim parece um tyranno em pintura, + Suspenso entre a vontade e a obra começada! + Mas como, muita vez, pouco antes da procella + Se faz como que ouvir um silencio que gela, + Pára a nuvem no céu, o vento não retumba, + E a terra a nossos pés é muda como a tumba; + Subitamente após se vê no fundo baço + Um raio que illumina e rasga o immenso espaço, + Assim de Pyrrho a furia, instantes mal contida, + Irrompe a completar a obra interrompida. + Dos Cyclopes jamais caíram retumbantes + Com remorso menor os malhos flammejantes + Para forjar de Marte a gravida armadura, + Que sobre o nobre velho, ensanguentada, impura, + De Pyrrho a espada ardente!... É finda a horrenda lucta! + Atrás, fortuna, atrás, atrás, vil prostituta! + Vós, deuses immortaes, em synodo sagrado, + Roubae-lhe o audaz poder, quebrae todos os raios + Ás rodas do seu carro, e lá do céu lançae-os + Tão baixo que o demonio os veja sempre ao lado. + +POLONIO + +Parece-me demasiado longo. + +HAMLET + +Para o encurtar manda-se a um barbeiro ao mesmo tempo +que a tua barba. (Ao actor.) Continúa, peço-to eu; se não lhe +apresentam um bailado grutesco, ou uma scena immoral adormece +logo. Continúa, pois, chegámos a Hecuba. + +PRIMEIRO ACTOR + + Mas quem visse, oh, quem visse a rainha embuçada! + +HAMLET + +A rainha embuçada. + +POLONIO + +Optimo, _embuçada_ é bom. + +PRIMEIRO ACTOR + + Correndo, nus os pés; com lagrimas que chora + As chammas, apagando; a fronte coroada + Por um farrapo vil, a fronte onde ainda agora + Brilhava um diadema; apenas mal vestida + Por coberta alcançada á pressa na fugida; + Quem visse tanto horror, acaso concebêra + Que a fortuna só tem entranhas de uma fera; + Mas se os deuses do Olympo houvessem escutado, + Quando ella vira Pyrrho entregue ao estranho goso + De cortar membro a membro, o corpo ao morto esposo, + De seu peito fremente, o grito amargurado + A não ser que da terra ao céu não suba a magua + Sentiriam como ella os olhos rasos d'agua! + +POLONIO + +Vejam, empallidece, o pranto inunda-lhe os olhos. Basta, peço-to. + +HAMLET + +Está bem, o resto m'o recitarás n'outra occasião; (a Polonio) queira +prover que estes actores sejam bem tratados, percebeu? que nada lhes +falte, porque são a chronica resumida e viva da epocha. Mais lhe +valeria, Polonio, um mau epitaphio depois da sua morte, do que o seu +vituperio em vida. + +POLONIO + +Tratal-os-hei segundo os seus merecimentos. + +HAMLET + +Melhor, meu caro, melhor; se se tratasse cada um segundo os seus +merecimentos, de poucos se faria caso. Trate-os como o deve á jerarchia +e á sua propria dignidade. Quantos menos titulos tiverem á sua +benevolencia, mais se deve esmerar no seu tratamento. Agora póde-se +retirar com elles. + +POLONIO + +Venham, senhores. + +HAMLET + +Sigam-o, meus amigos, ámanhã teremos a representação, (Polonio sáe com +os actores, menos um a quem Hamlet faz signal que fique.) + +HAMLET (continuando) + +Dize-me, meu caro amigo, poderias representar a morte de Gonzaga? + +PRIMEIRO ACTOR + +Com mil vontades, senhor. + +HAMLET + +Então ámanhã. Dize-me mais, poderias tu aprender de cór, sendo preciso, +doze ou dezeseis linhas que eu desejava intercalar na peça? pódes, não é +verdade? + +PRIMEIRO ACTOR + +Posso perfeitamente, meu senhor. + +HAMLET + +Fica pois ajustado, segue aquelle senhor, e só te peço que não zombes +d'elle. (O actor sáe.) + +HAMLET (a Rosencrantz e Guildenstern) + +Meus bons amigos, até á noite, estimei vel-os em Elsenor. + +ROSENCRANTZ + +Meu senhor. (Sáe com Guildenstern.) + +HAMLET + +Finalmente estou só. Que miseravel eu sou! Pois não será monstruoso que +este actor, n'uma ficção, na expressão de uma dor simulada, podesse +elevar a sua alma, identificando-se com a sua parte, exaltando-se a +ponto de empallidecer, de lhe borbulhar o pranto nos olhos, de se lhe +pintar o desespero nas feições, entrecortada está a sua voz, e o seu +todo faz uma verdade, de que não é senão uma situação fingida! E tudo, +por quem? por Hecuba; que é Hecuba para elle, ou elle para Hecuba, para +que a sua memoria lhe arranque lagrimas tão sentidas? Que faria elle no +meu logar, se tivesse tantos motivos de dor, quantos eu tenho. Inundava +de pranto a scena, aterrava os espectadores pela sua expressão terrivel, +fulminava o culpado, atemorisava o innocente; attonitas ficavam as almas +simples, e a commoção aos sentidos da vista e do ouvido seria geral. E +eu, alma tibia, intelligencia confusa, fico n'uma estupida inacção, +indifferente á minha propria causa, e nada acho que dizer, nada, mesmo +nada a favor de um rei que perdeu a corôa e a vida pelo mais inaudito +attentado! Ah como sou cobarde! Infame me deveriam chamar, +esbofetear-me, arrancar-me as barbas, lançar-m'as ao rosto com o +desprezo; insultar-me deveriam todos, dizer-me que pela gorja menti, e +obrigar-me a soffrer calado todos os vilipendios possiveis. Quem quer +fazel-o. Por vida minha que era justo; é forçoso que eu seja inoffensivo +como uma pomba sem fel, para levantar uma offensa, para não ter feito +pasto dos abutres as entranhas d'esse miseravel, sanguinario e impudico +scelerado. Monstro de perfidia, juntas ao assassinio o adulterio! Como +sou estupido! É bello na verdade ver-me, a mim, o filho de um rei e pae +assassinado, a quem céus e terra instigam á vingança, gastar a minha +indignação em palavras e vãs imprecações, como a mais vil e desprezivel +prostituta. Que vergonha!! Procuremos Uma idéa... (depois de uma pausa +prolongada) Eil-a, achei. Ouvi dizer que criminosos, assistindo a +representações dramaticas, de tal modo se perturbaram vendo a sua culpa +em scena, que espontanea e immediatamente fizeram confissão do seu +crime, porque o assassino embora mudo trahe-se e falla. Quero que os +actores representem, na presença de meu tio, a morte de meu pae, +observarei as suas feições, sondarei as suas impressões; se se +perturbar, sei o que me cumpre fazer. O espirito que me appareceu talvez +seja um demonio, porque póde revestir-se da fórma de um objecto amado, +tem poder sobre as almas melancholicas, e quem sabe se na minha fraqueza +e dor acha os meios para me perder, condemnando-me para sempre. Quero +ter a certeza completa; o drama em questão será o laço armado á +consciencia do rei. (Sáe.) + + +Fim do acto segundo + + + + +ACTO TERCEIRO + + +SCENA I + +Uma sala no castello de Elsenor + +Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN + +O REI + +Então ainda não poderam, nas suas conversas com elle, descobrir a causa +da desordem da sua intelligencia; d'aquella perigosa e turbulenta +demencia que se apoderou do seu espirito e lhe rouba o descanso? + +ROSENCRANTZ + +Confessa sentir esvaír-se-lhe a rasão; mas não conseguimos que elle nos +revelasse a causa. + +GUILDENSTERN + +Parece pouco disposto a deixar sondar os seus sentimentos. Na sua +loucura não o abandona um resto de sagacidade; conserva-se na defensiva +todas as vezes que tentâmos encaminhal-o a uma confissão tocante ao seu +estado. + +A RAINHA + +Recebeu-os bem ao menos? + +ROSENCRANTZ + +Com toda a affabilidade de um homem bem educado. + +GUILDENSTERN + +Mas evidentemente constrangido. + +ROSENCRANTZ + +Perguntando pouco, mas respondendo ás nossas perguntas com a maior +naturalidade. + +A RAINHA + +E experimentaram algum divertimento para o distrahir? + +ROSENCRANTZ + +O acaso fez-nos encontrar no caminho alguns actores; fallámos-lhe +n'elles, esta nova pareceu agradar-lhe. Estão aqui no palacio, e creio +já terem recebido ordem para representarem esta noite na sua presença. + +POLONIO + +É verdade, e pede a vossas magestades que assistam á representação. + +O REI + +Com o maior prazer; estimo vêl-o assim disposto. Queiram estimulal-o, +senhores, e dirigir a actividade do seu espirito para estes +divertimentos. + +ROSENCRANTZ + +Assim o faremos. (Sáe com Guildenstern.) + +O REI + +Deixa-nos tambem, querida Gertrudes. Mandámos chamar secretamente a +Hamlet, para como por acaso o pôr na presença de Ophelia. Seu pae e eu, +legitimos espias, collocar-nos-hemos de maneira que, sem sermos vistos, +assistamos á entrevista e possamos julgar pelas suas palavras, se é um +amor infeliz que assim o faz padecer. + +A RAINHA + +Obedeço retirando-me. Quanto a ti, Ophelia, desejo ardentemente que os +teus encantos sejam a feliz causa da demencia de Hamlet; porque terei +então esperança que as tuas virtudes o restituirão, a contento de ambos, +ao primitivo estado. + +OPHELIA + +Quanto o desejo, senhora. + +POLONIO + +Ophelia, passeia aqui n'esta sala; (ao rei) vamo-nos collocar, senhor; +(a Ophelia) lê n'este livro; esta leitura simulada servirá de pretexto á +tua solidão. Enganâmo-nos tantas vezes, e quão frequentemente acontece, +com uma capa de santidade e attitude reservada conseguirmos fazer um +santo do proprio demonio! + +O REI + +Oh é bem verdade; que pungente dor esta observação inflige á minha +consciencia! O rosto da prostituta não é mais asqueroso debaixo da +mascara do seu arrebique, do que o é o meu crime debaixo do falso verniz +do meu discurso. Oh peso terrivel! + +POLONIO + +Hamlet approxima-se, retiremo-nos, senhor. (O rei e Polonio occultam-se +atrás da cortina.) + +Entra HAMLET + +_Ser ou não ser_, eis o problema. Uma alma valorosa, deve ella supportar +os golpes pungentes da fortuna adversa, ou armar-se contra um diluvio de +dores, ou pôr-lhes fim, combatendo-as? _Morrer, dormir, mais nada_, e +dizer que por esse somno pomos termo aos soffrimentos do coração e ás +mil dores legadas pela natureza á nossa carne mortal; e será esse o +resultado que mais devamos ambicionar? _Morrer, dormir, dormir, sonhar +talvez_; terrivel perplexidade. Sabemos nós porventura que sonhos +teremos, com o somno da morte, depois de expulsarmos de nós uma +existencia agitada? E não deverei eu reflectir? É este pensamento que +torna tão longa a vida do infeliz! Quem ousaria supportar os flagellos e +ultrages do mundo, as injurias do oppressor, as affrontas do orgulhoso, +as ancias de um amor desprezado, as lentezas da lei, a insolencia dos +imperantes, e o desprezo que o ignorante inflige ao merito paciente, +quando basta a ponta de um punhal para alcançar o descanso eterno? Quem +se resignaria a supportar gemendo o peso de uma vida importuna, se não +fosse o receio de alguma cousa alem da morte, esse ignoto paiz, do qual +jámais viajante regressou? Eis o que entibia e perturba a nossa vontade; +eis o que nos faz antes supportar as nossas dores presentes do que +procurar outros males que não conhecemos. Assim, somos cobardes todos, +mas pela consciencia; assim a brilhante côr da resolução se transforma +pela reflexão em pallida e livida penumbra, e basta esta consideração +para desviar o curso das emprezas mais importantes, e fazer-lhes perder +até o nome de acção. Mas silencio, vejo a linda Ophelia. Joven beldade, +lembra-te dos meus peccados nas tuas orações. + +OPHELIA + +Como tem vossa alteza passado estes dias ultimos? + +HAMLET + +Bem, agradeço-te do coração. + +OPHELIA + +Senhor, tenho dadivas e lembranças suas que ha muito lhe desejava +restituir. Permitta-me que lh'as devolva. + +HAMLET + +Eu! de certo que não, nunca te dei nada. + +OPHELIA + +O principe sabe perfeitamente que me fez essas dadivas, e as doces +palavras que as acompanharam ainda lhes realçaram o valor; agora que +perderam todo o seu perfume, tome-as, principe, porque para uma alma +nobre, as mais ricas dadivas perdem o seu valor, no momento em que +aquelle que nol-as fez só nos mostra indifferença. Receba-as, pois, +senhor. + +HAMLET + +Ah, ah, és virtuosa. + +OPHELIA + +Meu senhor. + +HAMLET + +És bella. + +OPHELIA + +Que diz vossa alteza? + +HAMLET + +Digo que se és virtuosa e bella, deves evitar toda a communicação entre +a tua virtude e a tua belleza. + +OPHELIA + +Que melhor commercio ha para a belleza que o da virtude? + +HAMLET + +A influencia da belleza será mais prompta em metamorphosear a virtude em +vil cortezã, do que a força da virtude em transformar a belleza á sua +imagem. Antigamente seria paradoxo, hoje é um facto provado. Amei-te +n'outro tempo, é verdade. + +OPHELIA + +Vossa alteza bem m'o fez acreditar. + +HAMLET + +Fizeste mal em acreditar. Porque embora a virtude se inocule na nossa +primitiva natureza, sempre nos ficam restos d'ella. Nunca te amei. + +OPHELIA + +Maior foi o meu engano. + +HAMLET + +Professa, Ophelia, encerra-te n'um claustro. Para que queres continuar +uma raça de peccadores; quanto a mim julgo-me ainda assás honesto; e +comtudo podia formular contra mim taes accusações, que melhor teria +valido, que minha mãe me não tivesse dado á luz. Sou orgulhoso, +vingativo e ambicioso; gero no meu cerebro tantas acções más, que o meu +pensamento não basta para as distinguir, nem a minha imaginação para +lhes dar uma fórma, e falta-me o tempo para as executar. Que vantagem +haverá pois que seres como eu se rojem como reptis entre o céu e a +terra? Todos somos infames, não te fies em nenhum homem; vae, recolhe-te +a um claustro. Onde está teu pae? + +OPHELIA + +Em casa, meu senhor. + +HAMLET + +Que lhe fechem as portas para impedir que represente de louco fóra de +casa. Adeus. + +OPHELIA + +Deus misericordioso, tende piedade de Hamlet. + +HAMLET + +Se alguma vez te casares, dar-te-hei como dote esta triste verdade. Sê +tu fria como o gêlo; se fores pura como a neve a calumnia não te +poupará. Entra para um claustro, professa, adeus. Mas se absolutamente +precisas um marido, então escolhe um louco, porque os homens assisados +sabem em que monstros vós as mulheres os tornaes. Professa, recolhe-te a +um convento, mas avia-te. Adeus. + +OPHELIA + +Poderes celestes, restitui-lhe a rasão! + +HAMLET + +Tambem ouvi fallar da vossa loquacidade. Deus deu-vos um porte e vós o +transformaes por vossa culpa. Saltitaes, requebrae-vos; gestos e +affabilidade são artificio, zombaes das creaturas de Deus, e fazeis +passar por ignorancia o que é simples e pura affectação. Nem quero +pensar em vós, mulheres; foi o que me enlouqueceu. Digo que não teremos +mais casamentos, todos que estão casados viverão, excepto um, os outros +ficarão como estão. Professa, entra para um convento, vae. Adeus. +(Hamlet sáe.) + +OPHELIA (só) + +Oh que nobre intelligencia está ali desthronada. A perspicacia do homem +de côrte, a espada do guerreiro, a palavra do sabio, o futuro d'este +reino, o espelho do bom tom, o typo dos modos nobres, o modelo em que +todos fictavam os olhos, tudo destruido e destruido sem esperança; e eu, +a mais afflicta e infeliz das mulheres, eu que saboreei a inebriante +ambrosia dos seus juramentos de amor, estou condemnada a ver essa +potente e elevada rasão, similhante ao bronze fendido, não dar senão +sons falhos e dissonantes; e tanta belleza e juventude crestadas pelo +sôpro da demencia! Oh infeliz, oh desgraçada, que vi o que vi, e vejo o +que vejo!!! + +Sáem de trás da cortina o REI e POLONIO + +O REI + +O amor! não é a ella que elle dedica a sua affeição; alem d'isso o seu +fallar, aindaque um pouco falto de logica, não tem cunho de loucura. Ha +na sua alma alguma dor secreta. Receio algum perigo que nos seja fatal. +Para prevenir esse resultado, eis o plano que formei e no qual assentei. +Quero que Hamlet parta sem demora para Inglaterra, para reclamar o +tributo a que esse paiz se nega e a que é obrigado. Talvez que o mar, a +mudança de clima, a vista de objectos novos, lhe restituam a rasão, +expulsando do seu coração aquella obstinada preoccupação. Que lhe +parece? + +POLONIO + +Parece-me acertado. Comtudo persisto na minha idéa, que um amor +desprezado é a causa unica da sua dor. (A Ophelia) Não precisas +referir-nos o que te disse o sr. Hamlet. Tudo ouvimos. (Ao rei) Senhor, +faça o que lhe parecer conveniente, mas se me quer dar ouvidos, diga á +rainha, que, depois da representação, o chame a sós e inste para +conhecer d'elle a causa da sua mágua; porém cumpre que lhe falle +severamente: com o vosso assentimento ouvirei escondido toda a +conversação. Se a rainha não podér penetrar aquelle espirito rebelde a +toda a confidencia, ordene-lhe então a partida, e desterre-o, senhor, +para o logar que a prudencia lhe dictar. + +O REI + +Concordo plenamente comtigo; nos grandes é que a demencia deve ser mais +vigiada. (Sáem todos.) + + +SCENA II + +Uma sala no castello de Elsenor + +Entram HAMLET e differentes actores + +HAMLET (a um dos actores) + +Não esqueças de dizer aquelle trecho, tal qual o declamei na tua +presença; mais que tudo fogo e energia; mas se o recitares como a maior +parte dos actores, mais me valeria ouvir a minha prosa na bôca de um +pregoeiro. Não movas descompassadamente os braços, acciona +moderadamente; no meio mesmo da torrente, da tempestade, do tufão, da +paixão, procura ser comedido. Nada impressiona mais desfavoravelmente, +do que ver homens robustos reduzirem a pó uma paixão e escorchar os +ouvidos dos assistentes, que, pela maior parte, não merecem senão uma +declamação absurdamente arrebatada e uma acção desordenada. Açoutados +mereciam esses actores, cujo accionado mais parece renhida batalha, e +que mais crueis se fingem que um Herodes de comedia. Peço-te que evites +esses defeitos. + +PRIMEIRO ACTOR + +Pela minha parte, prometto-lh'o, senhor. + +HAMLET + +Não vás tambem caír no excesso contrario, sirva-te de guia a tua +intelligencia. Accommoda a acção ás palavras, as palavras á acção, tendo +sempre em vista a naturalidade; só é proprio da scena intelligente, que +foi e é o espelho em que se deve reflectir a natureza, mostrar a virtude +tal qual é, a vaidade sem véu, e cada tempo e cada idade com a sua +physionomia propria e com o cunho de verdade. Se se excede, ou se fica +áquem do fim proposto, poderá excitar-se a hilaridade do homem +ignorante, mas afflige-se o sensato, cujo juizo vale mais que o +suffragio de uma sala inteira. Oh! vi representar e ouvi elogiar +actores, que, Deus me perdôe, nada tinham de christão na voz, nada de +christão, pagão ou mesmo humano no porte, e que se estorciam e bramavam +de tal modo, que sempre os julguei obra de algum aprendiz da natureza, +que, querendo fabricar homens, errou a vocação, e não tinha produzido +senão uma desgraçada imitação da humanidade. + +PRIMEIRO ACTOR + +Espero em Deus, que vossa alteza não nos poderá notar taes defeitos; +entre nós, senhor, estão banidas de todo as exagerações. + +HAMLET + +Mas que o estejam na verdade; que os bobos não digam mais do que ao que +são obrigados pela sua parte; alguns ha que introduzem alguma facecia +para excitar o riso dos espectadores ignaros no ponto em que mais +attenção se reclama da parte do publico. É um desacerto, e o bobo que +recorre a esses expedientes, mostra uma pretensão desgraçada. Vão-se +agora preparar. (Os actores sáem.) + +Entram POLONIO, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN + +HAMLET (a Polonio) + +Então o rei está decidido á nossa peça? + +POLONIO + +Com certeza, e a rainha tambem. Não tardam. + +HAMLET + +Diga então aos actores que se aviem. (Polonio sáe.) + +HAMLET (continuando, a Rosencrantz e Guildenstern.) + +Querem fazer-me o favor de tambem ir apressar os preparativos. + +AMBOS + +Sim, meu senhor. (Sáem.) + +Entra HORACIO + +HAMLET + +Ah, és tu, Horacio? + +HORACIO + +Estou sempre ás suas ordens, meu senhor. + +HAMLET + +Meu caro Horacio, és a flor dos homens, cujo trato tenho cultivado. + +HORACIO + +Meu querido senhor. + +HAMLET + +Não julgues que te lisonjeio; que posso eu esperar de ti, cujas unicas +rendas são a jovialidade e a honestidade. Quem lisonjeia um pobre? Não, +que a lisonja roja-se aos pés da opulencia estupida, e o servilismo +curva o joelho, á espera do comprador. Escuta, depois que a minha alma +pôde livremente escolher e soube distinguir os homens, marcou-te com o +sêllo da predilecção, porque reconheceu em ti um homem que não se abate +pelos revezes; um homem que acceita com a mesma indifferença os favores +e os rigores da fortuna; felizes os mortaes em quem o juizo e as paixões +têem igual imperio, e não são um joguete nas mãos da fortuna. Mostrem-me +um homem que não seja escravo das paixões, e terá conquistado, como tu, +o meu coração, e abrir-lhe-hei o santuario da affeição mais íntima. +Basta sobre o assumpto. Deve-se hoje representar na presença do rei um +drama, no qual ha uma scena, que é a historia da morte de meu pae, cujos +pormenores já em tempo te contei. Quando se approximar a scena, observa +meu tio, com toda a vigilancia que auctorisam as minhas suspeitas; se o +segredo do seu crime se não revelar por alguma palavra, então era a +apparição obra do demonio, e as minhas imaginações são mais negras que +as lavas e cinzas de um vulcão. Tu observa-o attentamente, eu não o +perderei de vista; depois, juntando os nossos juizos, concluiremos +conforme ao que virmos. + +HORACIO + +Muito bem, senhor, tão firme estarei no meu posto de observação, que +juro por Deus, que me não escapará um movimento, uma impressão da sua +alma. + +HAMLET + +Eil-os que chegam para a representação; agora, cumpre-me ser espectador +indifferente. (Ouve-se a marcha real e clarins.) + +Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ, GUILDENSTERN e a +CORTE + +O REI + +Como passa nosso sobrinho Hamlet? + +HAMLET + +Melhor não póde ser; em verdade passei a viver como os camaleões, +nutro-me só de ar, e alimento-me de promessas, as iguarias mais finas +não me satisfariam melhor. + +O REI + +A tua resposta é-me inintelligivel; não é de certo a mim que ella é +dirigida. + +HAMLET + +Pois nem a mim. (A Polonio.) Não me disse que já tinha representado uma +vez, quando cursava a universidade? + +POLONIO + +É verdade, senhor, e era reputado um habil actor. + +HAMLET + +Que parte representou? + +POLONIO + +A de Julio Cesar; assassinaram-me no capitolio; Bruto apunhalava-me. + +HAMLET + +Que brutalidade apunhalar, e n'aquelle logar, um tão excellente bezerro. +Os actores já estão promptos? + +ROSENCRANTZ + +Sim, meu senhor, esperam só as ordens. + +A RAINHA + +Vem, meu Hamlet, sentar-te a meu lado. + +HAMLET + +Não, minha mãe; (mostrando Ophelia) este metal tem mais força de +attracção. + +POLONIO + +Que me diz agora, senhor? + +HAMLET + +Ser-me-ha permittido estar a vossos pés, senhora? (Senta-se no chão aos +pés de Ophelia.) + +OPHELIA + +Não, meu senhor. + +HAMLET + +Queria dizer, recostar a cabeça sobre vossos joelhos. + +OPHELIA + +Sim, meu senhor. + +HAMLET + +Pensaveis talvez que tivesse outra idéa? + +OPHELIA + +Nada pensava. + +HAMLET + +É um pensamento este digno de um coração de donzella. + +OPHELIA + +O que, senhor? + +HAMLET + +Nada. + +OPHELIA + +Vejo-o hoje alegre, senhor. + +HAMLET + +Quem, eu? + +OPHELIA + +Sim, vossa alteza. + +HAMLET + +Sou o seu bobo e nada mais. Cousa alguma ha melhor para o homem do que a +alegria. Repare, veja como minha mãe está hoje muito alegre, e ainda não +ha duas horas que meu pae morreu. + +OPHELIA + +Vossa alteza engana-se por certo; ha mais de duas vezes dois mezes. + +HAMLET + +Tanto tempo!! n'esse caso use o demonio o lucto, eu quero vestir-me de +arminhos. Oh céus, morto ha dois mezes, e ainda não esquecido, não é +então de estranhar que a recordação de um grande homem dure mais de seis +mezes; mas, pela Virgem Santa, deve então ter edificado igrejas, aliás +arriscava-se a que o esquecessem, como aquelle a quem lavraram este +epitaphio: + +_Aqui jaz esquecido um cavallo de pau._ + +Soam os clarins, começa a pantomima + +(Um rei e uma rainha entram em scena, o seu aspecto é de namorados, +abraçam-se. A rainha ajoelha aos pés do rei, mostrando pelos seus gestos +que lhe protesta o mais vivo amor. O rei levanta-a, e inclina a cabeça +sobre o seu hombro; depois deita-se n'um banco coberto de flores. A +rainha vendo-o adormecido, sáe. Apparece um personagem que lhe tira a +corôa e a leva aos labios, lança veneno n'um ouvido do rei, e sáe em +seguida. Volta a rainha, acha o rei morto, e dá mil signaes de +desespero. O envenenador seguido por duas ou tres pessoas, chega e +parece lamentar-se com a rainha. O cadaver é levado da scena. O +envenenador requesta a rainha, dá-lhe presentes. Ella mostra a principio +repugnancia, mas acaba por acceitar o amor offerecido. Sáem.) + +OPHELIA + +Que significa esta scena, senhor? + +HAMLET + +Nada que seja bom, é um laço armado ao crime. + +OPHELIA + +Esta pantomima indica sem duvida o entrecho da peça? + +Entra o PROLOGO + +HAMLET + +Vamos sabel-o, os comediantes não podem guardar um segredo, têem por +costume fallar sempre. + +OPHELIA + +Explicará elle o que significa a pantomima? + +HAMLET + +Sem duvida, não só essa, mas todas as que lhe quizer apresentar, +qualquer que seja a sua especie, e terá a explicação prompta. + +OPHELIA + +O principe é mau, deixe-me seguir a peça. + +O PROLOGO + + Pedimos, para nós, toda a vossa indulgencia; + Para a nossa tragedia, attenta paciencia. + +HAMLET + +Parece antes divisa de annel do que prologo. + +OPHELIA + +Tão curto, senhor. + +HAMLET + +Como o amor de uma mulher. + +Entram um REI e uma RAINHA + +O REI DA PEÇA + + Trinta vezes de Phebo o carro luminoso + De Tellus e Neptuno, o largo giro ha feito, + E trinta vezes doze a lua, astro saudoso, + De refrangida luz, á terra ha dado o preito, + Desde que as nossas mãos, com mutuo amor se deram, + E as bençãos d'Hymeneu o sacro nó teceram. + +A RAINHA DA PEÇA + + Possamos lua e sol, ver outras tantas vezes, + Antes que d'este amor se rompa o doce laço; + Mas seguem-se á ventura as maguas, os revezes, + E vejo-vos caído, ha pouco, em tal cansaço, + Tão triste, meu senhor, tão triste e tão mudado, + Que não posso esconder mais tempo o meu cuidado. + Mas que não se perturbe o vosso animo forte + Porque inquieta eu sou, e ousei pensar na morte. + De affecto e de anciedade igual medida temos, + Ou nullos um e o outro, ou um e o outro extremos. + Se é grande o meu amor, demais senhor o vêdes, + Que a par anda o receio, em minha fronte o lêdes. + Sempre que o amor é grande, as apprehensões mais breves + Transformam-se de prompto em maximos temores; + Quando é grande o receio, os affectos mais leves + Ascendem de repente aos mais grandes amores. + +O REI DA PEÇA + + Bem cedo é força, amor, que d'este mundo eu parta, + Bem vês, d'esta alma a luz já quasi que se aparta. + Tu viverás sem mim, sob este céu formoso, + Querida, idolatrada e sempre honesta e casta. + Depois, talvez depois, quem sabe? um novo esposo... + Um homem justo e bom... + +A RAINHA DA PEÇA + + Oh! basta, senhor, basta! + Seria um novo amor perfidia negra e infame. + Amaldiçoado seja o dia em que outro eu ame! + Embora justo e bom, segundo companheiro + Não n'o acceita ninguem, sem ter morto o primeiro. + +HAMLET + +Isto é absintho, e que absintho! + +A RAINHA DA PEÇA + + Poisque motivo arrasta a viuva ao casamento? + Acaso um novo amor? um nobre sentimento? + Um sordido interesse: e eu cravára no peito + De meu morto senhor a ponta de uma espada, + Cada vez que, olvidando a antiga fé jurada, + Compartisse outro ser commigo o mesmo leito. + +O REI DA PEÇA + + Creio bem, que pensaes o que dizeis, se creio?! + Mas quanta, oh! quanta vez, se quebra a acção no meio, + Nasce a resolução escrava da memoria, + Producto da violencia, é curta a sua historia. + A fructa emquanto verde em qualquer ramo atura + Mas, sem abalo algum, tomba apenas madura. + Fatalmente olvidando o que a nós nos devemos + Não pagâmos jámais, a divida esquecemos. + O que durante a dor parece a eternidade, + Mal extincta a paixão, cessa de ser vontade. + O jubilo e o martyrio, ainda os mais completos, + Destruindo-se a si, destroem seus decretos. + Onde o prazer mais ri, mais chora a dor pungente; + Entristece a alegria, alegra-se a tristeza, + Á causa mais subtil, ao mais leve accidente, + E este um dom fatal da vária natureza. + Passâmos pelo mundo, e nada aqui tem dura + Que até o proprio amor muda com a ventura; + Porque é problema ainda occulto aos pensadores + Se dá o amor fortuna, ou se a fortuna amores. + Um principe decáe? somem-se os que os adulam; + Um mendigo se eleva? os amigos pullulam. + Até aqui o amor seguiu sempre a fortuna; + Quem não precisa encontra em toda a parte amigos, + E quem precisa e pede, é lepra que importuna, + Todos transforma e muda em feros inimigos, + Mas para concluir, escuta o corollario: + A vontade e o destino, andam tanto ao contrario + Que o mais leve projecto é sempre letra morta. + Assim crês, não terás jamais outro marido; + Pois abra-me o sepulchro a sua eterna porta + E tudo irá sumir-se em um perpetuo olvido. + +A RAINHA DA PEÇA + + Negue-me a terra o pão, e a luz o firmamento! + O meu goso maior transforme-se em tormento! + Minha esperança e fé tornem-se em negro inferno! + Seja a fome em prisão o meu futuro eterno! + Não tenha eu, viva ou morta, o mais curto repouso, + Se, viuva uma vez, tomar um outro esposo! + +HAMLET + +E se lhe acontecer violar o juramento? + +O REI DA PEÇA + + Solemne juramento!... Amor, deixa-me agora; + Exhausta sinto a fronte, e bom grado entregára + Os restos d'este dia á paz consoladora + Dos braços de Morpheu. Adeus! Oh! sempre cara. (Adormece.) + +A RAINHA DA PEÇA + + Que um somno brando e doce embale a tua mente + E a desgraça jamais entre nós dois se assente!... (Sáe a rainha.) + +HAMLET + +Senhora, como acha esta peça? + +A RAINHA + +A rainha parece-me que faz demasiados protestos. + +HAMLET + +Mas dada a palavra, não póde faltar. + +O REI + +Conhece a peça? não contém nada reprehensivel? + +HAMLET + +Absolutamente nada; tudo quanto contém é só gracejo, até se envenena por +gracejo. É a peça mais inoffensiva que póde haver. + +O REI + +Que titulo tem? + +HAMLET + +O _Laço_, já se sabe, por metaphora. O assumpto da peça é um assassinio +commettido em Vienna. O rei chama-se Gonzaga, sua mulher Baptista. Vae +ver, um crime horrivel. Mas que importa a vossa magestade e a mim, que +temos a consciencia pura e que nada temos a receiar! O peior é para +aquelles a quem punge algum espinho, a nós nada nos pesa na consciencia. + +Entra LUCIANO + +HAMLET (continuando) + +É este um chamado Luciano, sobrinho do rei. + +OPHELIA + +Vossa alteza faz o serviço do côro. + +HAMLET + +Podia até servir de ponto n'uma conversa sua com o seu amante; o caso +era eu ver manobrar os dois titeres. + +OPHELIA + +Sois na verdade mordaz, principe; sois bem mordaz. + +HAMLET + +A sua pena seria que eu deixasse de o ser. + +OPHELIA + +De bem para melhor, de mal para peior. + +HAMLET + +É a sorte que a espera na escolha de um marido! Começa, assassino. Põe +de parte esses horriveis tregeitos, avia-te, começa. + + Eis o corvo que avança, + Chamando em seu grasnar a lugubre vingança. + +LUCIANO + + O pensamento negro, o braço bem disposto, + A droga preparada, a hora favoravel, + Cumplice a occasião, a ver nem um só rosto. + Mistura infecta e immunda, extracto abominavel + De peçonhenta sarça á meia noite achada, + Tres vezes polluida e tres envenenada + D'Hecate á maldição, possa a tua virtude + Fechar uma existencia, e abrir um ataúde. + +(Deita veneno n'um ouvido do rei adormecido.) + +HAMLET + +Envenena-o no jardim, para se apoderar da corôa. O nome do rei é +Gonzaga; é uma historia authentica escripta no mais elegante italiano. +Verão como logo o assassino obtem o amor da mulher de Gonzaga. + +OPHELIA + +O rei levantou-se. + +HAMLET + +Quê!! um pequeno clarão apenas, já o assusta? + +A RAINHA + +Que tem, senhor? + +POLONIO + +Cesse a peça. + +O REI + +Tragam luzes. Saiâmos. + +POLONIO + +Luzes, venham luzes, luzes. (Todos sáem, excepto Hamlet e Horacio.) + +HAMLET + + Sim! que fuja e que chore o cervo mal ferido, + E o que ao golpe escapou, gose um prazer profundo. + Quando um chora, outro ri. Oh! sempre assim ha sido, + E assim é feito o mundo. + +Se alguma vez a fortuna me maltratar, não bastaria uma scena de effeito +como esta, acrescentando-lhe um chapéu ornado de pennas, e duas rosas de +Provença nos laços dos sapatos, para que me admittissem n'uma companhia +dramatica. + +HORACIO + +Talvez o admittissem, mas com meia paga. + +HAMLET + +Ou inteira. + + Porque sabes, Damon, bem sabes tu que outr'ora + Mandava n'este reino, que vês hoje aviltado, + Qual Jupiter no Olympo, um grande rei... agora + Governa aqui... um chavo. + +HORACIO + +Foi pena não rimar. + +HAMLET + +Meu querido Horacio, aposto mil libras esterlinas, em como a sombra +fallou só a verdade. Reparaste? + +HORACIO + +Em tudo reparei, senhor. + +HAMLET + +Quando se tratava do envenenamento? + +HORACIO + +Tudo observei. + +HAMLET + +Ah! ah! ah! quero musica, tanjam as charamelas. + + Porque, se da comedia o rei não gosta nada, + Sei eu dar a rasão... não gosta, está dada. + +Venha a musica, quero muita musica. (Entram Rosencrantz e Guildenstern.) + +GUILDENSTERN + +Senhor, permitta-me que lhe dê uma palavra. + +HAMLET + +Mil até, se n'isso fizer gosto. + +GUILDENSTERN + +Senhor... o rei... + +HAMLET + +Que é?... que me vem dizer d'elle? + +GUILDENSTERN + +Retirou-se aos seus aposentos, estranhamente indisposto. + +HAMLET + +Pelo vinho? + +GUILDENSTERN + +Não, senhor, mas pela colera. + +HAMLET + +Mais assisado seria terem chamado um medico. Eu não faria senão +exacerbar a sua colera com a minha presença. + +GUILDENSTERN + +Queira, senhor, ter mais nexo nos seus discursos, e não se afastar assim +tão bruscamente da questão. + +HAMLET + +Escutal-o-hei tranquillamente. Falle. + +GUILDENSTERN + +A sua rainha e mãe me envia a vossa alteza. + +HAMLET + +Bemvindo seja. + +GUILDENSTERN + +Senhor, essa polidez é mal cabida n'esta occasião. Se me promette +responder rasoavelmente, executarei então as ordens de sua mãe, quando +não, retiro-me pedindo desculpa a vossa alteza. + +HAMLET + +Não posso. + +GUILDENSTERN + +O que, meu senhor? + +HAMLET + +Responder rasoavelmente; a minha intelligencia enfermou, no emtanto +dar-lhe-hei uma resposta, ou antes como ordena a minha mãe, a melhor que +podér. Diga-me agora, que pretende de mim a rainha? + +ROSENCRANTZ + +Encarregou-nos de lhe dizer, principe, que o seu comportamento lhe +causou espanto e dor. + +HAMLET + +Ah! sou pois um filho tão extraordinario que causo espanto e dor a minha +mãe! Nada mais lhe disse? Fallem. + +ROSENCRANTZ + +Deseja fallar-lhe, alteza, no seu quarto, antes de o principe se deitar. + +HAMLET + +Obedecer-lhe-hemos, aindaque fosse dez vezes nossa mãe. Tem mais alguma +cousa a dizer? + +ROSENCRANTZ + +Houve tempo em que o principe era meu amigo. + +HAMLET + +Ainda hoje o sou, juro-o por estes dez dedos. + +ROSENCRANTZ + +Senhor, qual é a causa da sua dor profunda? É impor-se um +constrangimento inutil, guardar esse segredo para comnosco, que somos +tão seus amigos. + +HAMLET + +Inquieta-me o meu futuro! + +ROSENCRANTZ + +Como póde isso ser, pois o rei já o escolheu para successor ao throno de +Dinamarca? + +HAMLET + +É verdade; mas guardado está o bocado... o proverbio é antigo. + +Entram differentes actores cada um com uma charamela + +HAMLET + +Ah! chegam as charamelas, dá-me uma. (Tira a charamela a um dos +actores.) Quer que o acompanhe? então deixe de me perseguir como o +caçador persegue a caça. + +GUILDENSTERN + +Se o meu zêlo, senhor, me faz obstinado, é porque a affeição me torna +importuno. + +HAMLET + +Não o posso comprehender, faz-me favor de tocar n'esta charamela. + +GUILDENSTERN + +Senhor, eu não sei! + +HAMLET + +Peço-lhe. + +GUILDENSTERN + +Creia-me, senhor, não posso. + +HAMLET + +Supplico-lhe. + +GUILDENSTERN + +Se nunca soube tocar tal instrumento! + +HAMLET + +Pois mais difficil é mentir. Com os quatro dedos e o pollegar tapam-se e +destapam-se por sua vez os orificios; sopre, e verá que encantadora +harmonia produz. Vamos. + +GUILDENSTERN + +Mas, senhor, eu não posso nem sequer tirar um som d'este instrumento; +falta-me o talento. + +HAMLET + +Que especie de imbecil me julga então? Sou a seus olhos um instrumento +de que pretende tirar sons, e que parece conhecer tão bem. Pretende +sondar até ao fundo da minha alma, para descobrir o meu segredo; queria +então fazer vibrar todas as cordas do meu sentimento. D'este pequeno +instrumento (Mostrando-lhe a charamela) tiram-se sons e notas as mais +melodiosas; e comtudo nas suas mãos não póde fallar. Pela Virgem santa, +sou então mais facil de tocar do que uma flauta? O que lhe asseguro é +que se me julga um instrumento nas suas mãos, nunca conseguirá fazel-o +fallar. Está muito enganado commigo. + +Entra POLONIO + +HAMLET (continuando) + +Guarde-o Deus. + +POLONIO + +Senhor, a rainha deseja fallar-lhe immediatamente. + +HAMLET (approximando-se de uma janella) + +Vê acolá aquella nuvem que tem quasi a fórma de um camello? + +POLONIO + +Não ha duvida, dir-se-ia effectivamente um camello. + +HAMLET + +Parece-se mais com uma doninha. + +POLONIO + +É verdade! tem o feitio da doninha. + +HAMLET + +Ou de uma baleia? + +POLONIO + +Realmente, com o que se parece é com uma baleia. + +HAMLET + +Agora vou ter com minha mãe, hão de acabar por enlouquecer-me devéras. +Vou já. + +POLONIO + +Vou communical-o á rainha. (Polonio sáe.) + +HAMLET + +Já! É facil dizel-o. Deixem-me sós, meus amigos. (Sáem todos excepto +Hamlet.) + +HAMLET (só) + +É esta a hora da noite propria dos mysterios da magia, a hora em que os +tumulos se abrem, em que o inferno exhala sobre a terra o seu sopro +contagioso; agora sinto-me capaz de beber sangue ainda fumegante, e +commetter actos que o dia consternado não poderia presencear sem terror! +Prudencia! Vamos ao quarto de minha mãe. Oh! meu coração, não dispas o +teu vigor; firmeza agora, mas que o coração de Nero nunca entre em meu +peito. Sejamos inflexiveis, mas não filho desnaturado; seja a minha +lingua um punhal, mas minha mão esteja desarmada; e n'esta occasião +sejam a minha bôca e o meu coração obrigados pela rasão a dissimular. +Por mais violentas que sejam as minhas palavras, dae-me força, meu Deus, +para que sejam sempre comedidas, assim como os meus actos. (Sáe.) + + +SCENA III + +Um quarto no castello de Elsenor + +Entram o REI, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN + +O REI + +Ha n'elle alguma cousa que me desagrada, e creio que haveria perigo para +nós em não vigiar a sua loucura; façam pois todos os preparativos de +viagem. Vou dar as ordens, e quero que parta sem demora para Inglaterra +acompanhado pelos senhores. O interesse da nossa corôa me veda o +expor-me aos continuos perigos com que a sua demencia me ameaça. + +GUILDENSTERN + +Vamo-nos preparar. É um receio santo e salutar o que tem por objecto +assegurar a salvação de innumeras existencias, que depende da vida de +vossa magestade. + +ROSENCRANTZ + +É um dever que toca a cada um na sua esphera individual, o applicar +todas as suas forças e toda a energia para defender a propria vida +contra qualquer ataque; quanto mais obrigado a fazel-o é aquelle de cuja +vida dependem tantas existencias! Quando um rei morre, não morre só, é +um turbilhão que attrahe tudo quanto encontra no caminho, ou lhe fica +proximo: roda colossal fixada no cume de uma elevada montanha, cujos +gigantescos raios estão carregados de innumeros accessorios, e cuja +quéda os impelle forçosamente a um desastre commum. Quando o rei padece, +padecem todos. + +O REI + +Preparem-se, peço-lh'o, para uma partida immediata, porque estamos +resolvidos a pôr um termo ás causas de inquietação que demasiado +livremente se dão n'este paiz. + +AMBOS + +Não nos faremos esperar. (Sáem.) + +Entra POLONIO + +POLONIO + +Senhor, Hamlet entrou agora para o quarto de sua mãe; occultar-me-hei +cuidadosamente para ouvir a sua conversa. Asseguro a vossa magestade que +a rainha o vae reprehender severamente. É conveniente, como el-rei muito +bem disse, que outros ouvidos que não sejam os de mãe, naturalmente +propensos á indulgencia, ouçam o que se disserem mutuamente. Adeus, meu +senhor; virei aos seus quartos antes que vossa magestade se recolha, e o +rei será sabedor de tudo quanto se passou. + +O REI + +Obrigado, Polonio. (Polonio sáe.) + +O REI (só) + +O meu crime já não tem perdão no céu, está marcado pelo estigma da +maldição divina, como o foi o primeiro fratricida. Apesar de todos os +meus desejos, não posso orar; pareço um homem que duas occupações +reclamam, e que, não sabendo por qual optar, não escolhe nenhuma. +Poisque, quando sobre esta mão maldita se formasse uma crosta de sangue +mais espessa que a propria mão, não teria o céu bastante misericordia +para que a onda da sua graça a purificasse e a tornasse branca como a +neve? Para que serve a bondade divina, senão para remir as nossas +culpas? De que vale a oração, se não tem a dupla virtude de prevenir a +nossa quéda, ou obter o perdão depois d'ella? Dirijâmos as nossas +supplicas ao céu, já que não podemos evitar o crime consummado. Mas, +infeliz, como hei de orar? Perdoae-me, Senhor, o meu crime nefando. Não +posso, poisque possuo os objectos que me induziram ao assassinio, corôa, +throno e consorte. Poder-se-ha obter o perdão, quando se conservam os +fructos do crime? N'este mundo corrompido, a iniquidade póde a preço de +oiro desviar o curso da justiça, e com o producto do crime comprar a +impunidade; mas o céu é justo, todo o subterfugio é inutil; ali os +nossos actos são justamente avaliados e os nossos crimes conhecidos. Que +devo fazer? Nada me resta. Tentemos o arrependimento. Grande é a sua +efficacia; mas que póde n'aquelle a quem mesmo o arrepender-se é vedado? +Oh! deploravel condição, oh! consciencia negra como a morte, oh! minha +alma, não tens perdão, e quanto mais te esforçares por obtel-o, mais +aggravas a tua situação. Anjos do céu, vinde em meu auxilio, tentae um +esforço supremo. Dobrae-vos, joelhos rebeldes. E tu, meu coração, que as +tuas fibras de aço voltem ao estado primitivo das do recem-nascido. +Ainda me resta esta ultima esperança. (Retira-se a um lado da scena, +ajoelha e ora.) + +Entra HAMLET + +HAMLET (vendo o rei) + +A occasião é propicia, está orando. Coragem, Hamlet. Sim, mas +salvar-se-ía a sua alma, e não é essa a minha vingança desejada. +Reflictâmos; um scelerado assassina meu pae, e eu, seu filho unico, abro +as portas do céu a esse infame! Seria uma recompensa e não um castigo. +Assassinou meu pae, entregue ás preoccupações da carne, quando seus +peccados mais vivazes estavam, como as flores na primavera; e quem sabe, +a não ser o céu, que contas daria ao Creador? as penas eternas, de +certo, não o pouparam. Seria uma vingança immolar este scelerado, quando +a sua alma deve estar pura, quando está preparado para a sua ultima +viagem? Não! Entra na tua bainha, minha espada, e espera para ferir, +golpe mais terrivel e justo. Quando estiver ebrio ou adormecido, ou +encolerisado, ou immerso nos prazeres de um leito incestuoso, ou +absorvido pelo jogo, ou blasphemando, ou praticando algum acto contrario +á salvação da sua alma, então fere, que as penas do inferno serão poucas +para um tal crime. (Olhando para o rei.) Prolonga ainda os teus dias +enfermos: adiar não é desistir. (Sáe.) + +O REI + +Sobem as minhas palavras, o pensamento não, e as palavras sem o +pensamento não chegam ao céu. (Sáe.) + + +SCENA IV + +Um quarto no castello + +Entram a RAINHA e POLONIO + +POLONIO + +O sr. Hamlet não tarda. Reprehenda-o asperamente; diga-lhe que os seus +atrevimentos excedem os limites da paciencia, e que vossa magestade já +teve que se interpor entre elle e a colera do rei. Nada mais digo, +senhora, peço só que falle com firmeza. + +A RAINHA + +Fallar-lhe-hei com firmeza, esteja descansado. Afaste-se, ouço os seus +passos. (Polonio esconde-se.) + +Entra HAMLET + +HAMLET + +Que me quer, minha mãe? + +A RAINHA + +Hamlet, offendeste gravemente teu pae. + +HAMLET + +Minha mãe offendeu gravemente meu pae! + +A RAINHA + +Como insensato fallas. + +HAMLET + +A rainha falla como culpada! + +A RAINHA + +Que queres tu dizer, Hamlet? + +HAMLET + +O que é, senhora? + +A RAINHA + +Esqueces quem eu sou? + +HAMLET + +Pela cruz do Redemptor, que não. Rainha é, foi esposa do irmão de seu +marido, e prouvera a Deus que não o fosse, mas é minha mãe! + +A RAINHA + +Mandar-te-hei alguem que melhor do que eu te saiba fallar. + +HAMLET + +Vamos, sente-se, minha mãe. Não se moverá, não saírá d'aqui emquanto eu +não tiver posto diante dos seus olhos um espelho em que possa ver até ás +profundidades da sua alma. + +A RAINHA + +Que pretendes de mim? queres tu porventura assassinar-me? Acudam á +rainha, acudam! + +POLONIO (por detrás do reposteiro) + +O que é! olá, soccorro! + +HAMLET (desembainhando a espada) + +Que é isso? Um rato? (Dando-lhe uma estocada.) Aposto um ducado em como +o matei! + +POLONIO (atrás do reposteiro) + +Mataram-me, eu morro. (Cáe para fóra do reposteiro e morre.) + +A RAINHA + +Que fizeste, infeliz? + +HAMLET + +Ignoro-o; seria o rei? (Levanta o reposteiro e puxa pelo cadaver de +Polonio.) + +A RAINHA + +Que acto de crueldade e de sangue! + +HAMLET + +De sangue; quasi tão reprehensivel, minha mãe, como assassinar um rei e +desposar o irmão! + +A RAINHA + +Assassinar um rei? + +HAMLET + +Sim, um rei, foi o que eu disse. (A Polonio.) Quanto a ti, pobre diabo, +louco, temerario e indiscreto, as nossas contas estão ajustadas, +aprendeste á tua custa o perigo que corre quem se intromette nos +negocios dos outros. (Á rainha.) Cesse de estorcer-se. Silencio, +sente-se, quero torturar o seu coração, e fal-o-hei, se ainda possue +alguma sensibilidade, e o habito do crime não a bronzeou a ponto de ser +insensivel a toda a especie de emoção. + +A RAINHA + +Que fiz eu, Hamlet, para que me falles n'esse tom ameaçador? + +HAMLET + +Uma acção que mancha o rubor e a graça do pudor; que transforma a +virtude em hypocrisia; que arranca á fronte innocente do amor a sua +corôa de rosas, e a substitue por uma chaga asquerosa; que torna os +juramentos do hymeneu tão falsos como os do jogador! Oh! uma acção que +rouba ao corpo dos contratos a santidade, que é a sua alma, e faz da +religião uma rapsodia de palavras. Indigna-se o céu, contrista-se o +globo solido e compacto, lê-se-lhe nas faces a consternação como se +fosse o ultimo dia do mundo. + +A RAINHA + +Qual é pois a acção que denunciam este ameaçador preludio e esta +expressão fulminante? + +HAMLET (mostrando dois retratos em pé que ornam as paredes) + +Veja bem esses dois retratos, são as imagens de dois irmãos. Veja que +graça impressa n'estas feições: o cabello annellado de Apollo; a fronte +do proprio Jupiter; o olhar de Marte, onde se lê a commando e a ameaça; +o porte de Mercurio, o mensageiro celeste, quando apenas pousa o alado +pé sobre o cimo das nuvens; uma tão feliz reunião das fórmas perfeitas, +que cada um dos deuses parecia ter contribuido com o seu quinhão, como +se quizessem mostrar ao mundo o modelo do verdadeiro homem! Esse era o +seu primeiro esposo. Volva agora os olhares para este lado. Eis o que é +o seu segundo esposo! que, similhante á espiga mangrada, pelo seu +contacto causa a morte a sua irmã a espiga sã. E saberá ver? Como pôde +então abandonar as ferteis e salubres collinas, para se immergir n'este +immundo paul!! Se ainda tem olhos, senhora, não póde imputar ao amor o +seu comportamento; na sua idade já se acalmou a effervescencia do +sangue, e a paixão obedece á rasão. E qual seria a creatura racional, +que ousasse trocar o seu primeiro marido por este segundo? É sem duvida +dotada de sensibilidade, aliás não seria um ser animado; mas na senhora +estão paralysados todos os sentimentos, porque não ha demencia que não +deixe ao que verga sob o seu peso uma porção bastante de discernimento, +para saber escolher entre objectos tão dissimilhantes. Que demonio a +perturbou a ponto de lhe vendar os olhos? A vista sem o tacto, o tacto +sem o auxilio da vista, o ouvido sem o uso das mãos e dos olhos, o +olfato só por si, uma porção mesmo alterada de um verdadeiro sentido, +não podiam ter-se enganado tão estultamente. Oh! vergonha! onde está o +teu rubor? Inferno rebelde, que assim pódes atear a revolta nos sentidos +de uma mulher, ha muito esposa e mãe. Que admira que, para a ardente +juventude, a virtude seja como a cera, que se derrete á chamma que +alimenta; que não seja vergonha ceder quando nos arrasta a paixão, +poisque o proprio crystal se funde e a rasão prostitue aos desejos os +seus vergonhosos serviços. + +A RAINHA + +Oh! Hamlet, cessa por piedade, obrigas o meu olhar a volver-se todo para +a minha alma, e n'ella descubro máculas tão negras e tão profundamente +impressas, que nada já as póde lavar. + +HAMLET + +Viver no suor impuro de um leito infecto, sobre o esterco da corrupção, +revolver-se no lodaçal de um asqueroso amor. + +A RAINHA + +Cala-te, Hamlet, as tuas palavras são outras tantas punhaladas. Piedade! +querido filho! + +HAMLET + +Um assassino, um scelerado, um miseravel, que não vale a centesima parte +do seu primeiro marido, um rei de comedia, um ladrão, que empalmou o +poder, e que achando a corôa debaixo de mão, a roubou e a metteu no +bolso! + +A RAINHA + +Hamlet! + +HAMLET + +Um palhaço! + +Entra a SOMBRA + +HAMLET + +Protegei-me e abrigae-me sob vossas azas, anjos do céu. (Á sombra) Que +pretendes de mim, sombra querida? + +A RAINHA + +Infeliz! enlouqueceu. + +HAMLET (á sombra) + +Vens tu reprehender a tibieza de teu filho, que, deixando passar o +tempo, arrefecer a sua indignação, não se apressou em cumprir os teus +terriveis preceitos? Falla! + +A SOMBRA + +Recorda-te que o unico fim d'esta minha apparição é atear em ti o fogo +da resolução. Mas vê, tua mãe está succumbida, interpõe-te entre ella e +os seus remorsos; é nas mais debeis organisações que mais estragos causa +a imaginação. Falla-lhe tu, Hamlet. + +HAMLET + +Como se sente, minha mãe? + +A RAINHA + +Eu é que te devia fazer essa pergunta! Por que está teu olhar fito no +espaço? por que conversas com seres immateriaes? Teu olhar indefinido +revela a lucta da tua alma; como um soldado acordado em sobresalto; teus +cabellos, como se a vida os animasse, levantam-se e ouriçam-se sobre a +tua fronte. Oh! meu querido filho, apaga a chamma da tua colera, com as +tranquillas e limpidas aguas da paciencia! Mas para onde olhas tu? + +HAMLET + +É elle! Elle! Como está pallido! O seu aspecto, e o motivo que aqui o +traz, commoveriam as proprias pedras. (Á sombra) Descrava de mim os teus +olhos, receio que me feneça a resolução, vendo teu triste e commovente +olhar; que se transforme o caracter dos meus actos talvez em lagrimas em +vez de sangue. + +A RAINHA + +Mas, filho, a quem fallas assim? + +HAMLET + +Não vê nada, minha mãe? + +A RAINHA + +Nada, senão tudo quanto existe n'esta camara. + +HAMLET + +E nada ouviu? + +A RAINHA + +Cousa alguma, a não ser as tuas palavras. + +HAMLET + +Mas olhe, minha mãe, não vê como elle se afasta, triste e pensativo? É +meu pae, vestido como trajava em sua vida. Eil-o, transpõe agora mesmo a +porta. Saíu. (A sombra sáe.) + +A RAINHA + +É á exaltação da tua imaginação e ao delirio que de ti se apoderou, que +são devidas estas creações phantasticas. + +HAMLET + +O delirio! Senhora, apalpe o meu pulso, e conhecerá que não está menos +tranquillo que o seu. Não fallei influenciado pelo delirio. +Interrogue-me; em vez de divagar, repetir-lhe-hei textualmente as minhas +palavras; não estou louco; engana-se, minha mãe. Por Deus, não se +embale, no pensamento falso, que é o meu delirio e não a sua culpa que +me faz fallar! Seria cicatrizar exteriormente a chaga, que a consciencia +nunca deixaria de augmentar interiormente. Confesse-se ao céu, +arrependa-se do passado, premuna-se para o futuro, e não dê pasto ao +verme do remorso, que acabará por totalmente corroer o seu coração e +obliterar a sua consciencia. Perdoe á minha virtude, porque n'este mundo +sordido e venal a virtude deve implorar o perdão do vicio e pedir o +favor de poder fazer o bem. + +A RAINHA + +Oh! Hamlet! Dilaceras-me o coração. + +HAMLET + +Expulse a parte corrompida, e com a outra metade viva tranquilla e pura. +Boa noite; evite meu tio, e se não podér ser virtuosa, ao menos +pareça-o. O habito, esse monstro, que destroe e neutralisa em nós toda a +sensibilidade, esse demonio do habito, é anjo n'isto, porque consente á +virtude e ás boas acções as suas vestes proprias. Não veja hoje o seu +esposo, tornar-lhe-ha mais facil a abstenção futura; o habito tudo póde, +muda a natureza individual, doma o demonio, e expulsa-o com o seu +maravilhoso poder. Boas noites mais uma vez! e quando sentir a +necessidade da benção divina, então pedir-lhe-hei a sua. (Mostrando +Polonio.) Quanto a este homem, arrependo-me do que fiz; mas obedeci ao +céu; assim o quiz tornando-me instrumento das suas vinganças, punindo-o +por mim, a mim por elle. Sepultem-no, eu responderei pela morte que lhe +dei! Adeus, pois. Cumpre-me ser cruel por humanidade; o primeiro mal +está feito, o maior ainda ha de vir. Uma palavra ainda. + +A RAINHA + +Que devo fazer? + +HAMLET + +Nada do que eu lhe disse! Receba as caricias do avinhado monarcha, +preste as suas faces aos seus osculos, ouça-lhes as palavras de amor; +então n'um diluvio de ardentes osculos, entre as mais lubricas caricias, +confesse-lhe, revele-lhe tudo, diga-lhe que nunca estive louco, que o +fingi, faça-lhe essa confidencia. Qual seria a rainha, bella, sensata e +honesta, que hesitasse em confiar áquelle animal immundo e repellente, +asqueroso reptil, tão importantes segredos? Quem guardaria silencio? +Ninguem. Depois, olvidando o bom senso e a discrição, abra a gaiola e +deixe voar as avesinhas, e seguindo o exemplo do bugio da legenda, por +simples experiencia, introduza-se na gaiola e rompa o pescoço caíndo! + +A RAINHA + +Acredita, Hamlet, que se as palavras se compozessem de fôlgo e o fôlgo +de vida, eu não teria vida para articular as que tu me disseste. + +HAMLET + +Devo partir para Inglaterra; sabe-o sem duvida, minha mãe? + +A RAINHA + +Infeliz! Tinha-me esquecido; pois isso está definitivamente determinado? + +HAMLET + +Ha cartas selladas, e os meus dois companheiros de estudos, nos quaes me +fio tanto como na innocencia dos envenenados dardos das viboras, são os +portadores da ordem! São elles que me hão de aplanar o caminho, e se +encarregarão de me conduzir ao laço armado pela mais negra traição. +Deixemos caminhar os acontecimentos. Causa devéras prazer ver rebentar +nas mãos do proprio artifice a bomba que para outrem preparava. Nada ha, +senhora, que nos dê mais gosto do que combater a traição, +contraminando-a pela sagacidade. A morte de Polonio apressará a minha +partida. Levemos o seu cadaver para a camara vizinha. Boas noites, minha +mãe. Este conselheiro está agora verdadeiramente a sangue frio, discreto +e grave; em vida era dotado de estupida garrulice. Agora basta, acabemos +por uma vez. Boas noites. Adeus, minha mãe. (A rainha sáe por um lado, +Hamlet pelo outro, arrastando o cadaver de Polonio.) + + +Fim do acto terceiro + + + + +ACTO QUARTO + + +SCENA I + +Um quarto no castello de Elsenor + +Entram o REI, a RAINHA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN + +O REI + +Esses suspiros, esse difficil arfar do peito, tudo deve ter uma causa. +Queremos conhecel-a e pelos senhores. Onde está nosso filho? + +A RAINHA (a Rosencrantz e Guildenstern) + +Deixem-nos sós um momento. (Os dois sáem.) (Ao rei) Ah! senhor, que +noite esta! + +O REI + +Que ha de novo, Gertrudes; em que estado achaste Hamlet? + +A RAINHA + +Tão revolta está a sua rasão, como o mar e o vento, quando entre si +luctam, disputando a sua força. N'um dos seus arrebatamentos do delirio, +ouvindo mexer atrás de uma cortina, exclamou: _Um rato, um rato_, e +desembainhando a espada, cravou-a no peito d'aquelle excellente ancião. + +O REI + +Oh! triste acontecimento! Igual sorte teria tido se ali me achasse; +livre, corremos o maior risco, mesmo tu; todos, emfim. Que rasões +daremos para explicar este acto sanguinario? Taxar-nos-hão de +imprevidentes, a responsabilidade toda caírá sobre nós; dirão que +deviamos ter isolado esse insensato, mas era tão grande a nossa +affeição, que não comprehendemos o que a prudencia nos aconselhava. +Obrámos como um homem atacado de um mal vergonhoso, que para guardar +segredo deixa enraizar-se esse mal e destruir toda a seiva vital. Onde +está Hamlet? + +A RAINHA + +Pondo em logar seguro o cadaver d'aquelle a quem deu a morte. No meio +mesmo da sua demencia, conserva-se pura e intacta a sua intelligencia, +como um metal precioso encravado em rocha bruta. Rebenta-lhe o pranto ao +lembrar-se da acção que commetteu. + +O REI + +Saiâmos, Gertrudes. Quando o sol tocar o cume das montanhas, já Hamlet +deverá ter embarcado; logo em seguida partirá para Inglaterra. Quanto a +esta odiosa acção precisâmos achar na nossa auctoridade e no nosso +engenho alguma desculpa que a releve aos olhos do mundo. Olá, +Guildenstern? (Entram outra vez Guildenstern e Rosencrantz.) + +O REI (continuando) + +Meus amigos, procurem pessoas que os ajudem e auxiliem. Hamlet, na sua +demencia, matou Polonio, cujo cadaver levou para fóra da camara de sua +mãe. Tratem de descobrir onde o occultou, encarrego-os d'esta missão. +Nada digam que possa irritar Hamlet, e levem o corpo do infeliz Polonio +para a capella; peço-lhes só que se aviem. (Sáem Rosencrantz e +Guildenstern.) + +O REI (continuando) + +Vamos, Gertrudes, convoquemos os nossos mais doutos amigos, demos-lhe a +conhecer o nosso designio e a desgraça acontecida. Precavendo-nos d'este +modo, talvez a calumnia, que arremessa o seu dardo envenenado de uma +extremidade do mundo á outra, e cujos tiros são tão certeiros, como os +do mais perfeito canhão, poupe o nosso nome, perdendo-se na immensidade +do espaço. Saiâmos d'aqui. Na minha alma não sinto senão perturbação e +terror! (Sáem.) + + +SCENA II + +Outro quarto no castello + +Entra HAMLET + +HAMLET + +Duvido que o encontrem. + +VOZES DE FÓRA + +Hamlet? senhor Hamlet? + +HAMLET + +De vagar. Que rumor é este? Quem ousa chamar Hamlet? Ah! eil-os que +chegam. (Entram Rosencrantz e Guildenstern.) + +ROSENCRANTZ + +Senhor? que fez vossa alteza do cadaver? + +HAMLET + +Entreguei-o ao pó de que saíu. + +ROSENCRANTZ + +Mas em que logar para o podermos levantar e depositar na capella? + +HAMLET + +Não pensem em tal. + +ROSENCRANTZ + +Que devemos, pois, pensar? + +HAMLET + +Que pouco me importo com a sua cabeça, mas muito com a minha. +Interrogado de mais a mais por uma esponja! Que resposta lhe póde dar o +filho de um rei? + +ROSENCRANTZ + +É a mim que chama esponja? + +HAMLET + +A quem havia de ser? sim a ti, que bebes os favores, as recompensas e o +poder real. Mas, no fim de contas, taes officiaes prestam ao monarcha +relevantes serviços, são para elle como o fructo que o bugio conserva na +bôca para depois o engulir; quando necessitar do que tem arrecadado, +espreme-os como uma esponja, e ficarão completamente enxutos. + +ROSENCRANTZ + +Não comprehendo, senhor! + +HAMLET + +Estimo muito. As palavras do traficante só tem por domicilio os ouvidos +do tonto. + +ROSENCRANTZ + +Diga-nos onde está o cadaver, e siga-nos á presença do rei. + +HAMLET + +Onde está o rei existe um corpo, mas o rei não está n'esse corpo. O rei +é uma creatura. + +ROSENCRANTZ + +Uma creatura, senhor? + +HAMLET + +Uma creatura que nada vale! Conduzam-me á sua presença. Vamos jogar as +escondidas. (Sáem todos.) + + +SCENA III + +Uma sala no castello + +Entra o REI com a sua comitiva + +O REI + +Mandei chamar Hamlet e procurar o cadaver. Que perigo deixar livre um +tal homem; mas não podemos fazer pesar sobre elle todo o rigor das leis. +A multidão insensata estima-o, decidindo-se mais pela vista do que pela +rasão; n'estas circumstancias o que devemos pensar é o castigo dos +culpados, nunca o crime só por si. Para prevenir qualquer +descontentamento é forçoso que este precipitado exilio pareça +consequencia de madura reflexão. Para males desesperados remedios +energicos, ou nenhuns. (Entra Rosencrantz.) Então que aconteceu? + +ROSENCRANTZ + +Nada podemos saber da sua bôca relativamente ao cadaver. + +O REI + +Onde está Hamlet? + +ROSENCRANTZ + +No quarto vizinho, esperando debaixo de segura guarda as ordens de vossa +magestade. + +O REI + +Que venha á nossa presença. + +ROSENCRANTZ + +Olá, Guildenstern. Conduze Hamlet a este aposento. (Entram Hamlet e +Guildenstern.) + +O REI + +Hamlet, onde está Polonio? + +HAMLET + +N'um banquete. + +O REI + +N'um banquete?! onde? + +HAMLET + +Onde não come, mas é devorado. Uma multidão de vermes politicos disputa +o seu cadaver. O verme é o monarcha dos comedores. Engordâmos todas as +creaturas para nos engordarmos, e engordâmo-nos para pasto dos vermes. +Um rei gordo e um mendigo magro são duas iguarias differentes, comtudo +hão de ser servidas á mesma mesa. Esta é a verdade. + +O REI + +Infelizmente assim é! + +HAMLET + +É possivel que se pesque, com um verme creado em cadaver real, um peixe, +e que se coma depois o peixe que enguliu o verme. + +O REI + +Que significam as tuas palavras? + +HAMLET + +Nada; apenas as transformações pelas quaes póde passar um rei para +penetrar nos intestinos do pobre. + +O REI + +Onde está Polonio? + +HAMLET + +No céu. Mande ali o seu mensageiro procural-o, e se não o achar, +procure-o então o rei no sitio opposto. Em todo o caso se não o acharem +até d'aqui a um mez, o olfato o denunciará junto á escada da galeria. + +O REI (á sua comitiva) + +Procurem-o já. + +HAMLET + +Esperal-os-ha com certeza. (Sáe a comitiva do rei.) + +O REI + +Hamlet, no interesse da tua saude, que nos é tão cara, quanto dolorosa a +acção que commetteste, é forçoso que partas com a maior brevidade; vae, +pois, preparar-te. O navio está prompto e o vento sopra propicio; os +teus companheiros esperam-te, e tudo está disposto para a tua viagem a +Inglaterra. + +HAMLET + +A Inglaterra? + +O REI + +Sim, Hamlet. + +HAMLET + +Está bem. + +O REI + +O mesmo dirias conhecendo todos os meus projectos. + +HAMLET + +Descubro um anjo que os vê. Mas partâmos para Inglaterra. Adeus, minha +querida mãe. + +A RAINHA + +E teu pae que te estremece? + +HAMLET + +Não, minha mãe; pae e mãe são marido e mulher, marido e mulher são uma e +mesma carne. Assim, pois, adeus, minha mãe. Vamos para Inglaterra. +(Sáe.) + +O REI (a Rosencrantz e Guildenstern) + +Sigam-o passo a passo, façam-o embarcar promptamente, não ha tempo que +perder. Quero que já esta tarde esteja afastado d'estes sitios. Vão! +Tudo quanto respeita a este negocio foi já expedido e sellado com as +nossas armas. Aviem-se, peço-lh'o. (Sáem.) (Continuando) Rei de +Inglaterra, sabes até onde chega o meu poder; as feridas infligidas pelo +ferro dinamarquez ainda sangram, e teu respeito nos presta livre +homenagem. Se, pois, prezas a minha benevolencia, não receberás +friamente as ordens soberanas contidas nas minhas cartas e que exigem a +morte de Hamlet. Obedece-me, rei de Inglaterra, porque Hamlet é febre +que requeima o meu sangue, e tu é que me deves curar d'ella. Não terei +um dia de prazer e descanso emquanto não souber a completa execução das +minhas ordens, aconteça o que acontecer. (Sáe.) + + +SCENA IV + +Uma planicie na Dinamarca + +Chega FORTIMBRAZ á frente das suas tropas + +FORTIMBRAZ (a um dos seus officiaes) + +Capitão, saúde da minha parte o rei de Dinamarca e diga-lhe, que, em +conformidade com a sua promessa, Fortimbraz lhe pede livre passagem pelo +seu territorio; sabe o ponto em que nos devemos encontrar. Se sua +magestade desejar fallar-me, irei prestar-lhe as minhas homenagens. +Diga-lh'o da minha parte. + +O OFFICIAL + +As suas ordens serão cumpridas, meu senhor! + +FORTIMBRAZ (ás suas tropas) + +Avancemos em attitude pacifica. (Fortimbraz e as suas tropas afastam-se. +O official fica.) + +Chegam HAMLET, ROSENCRANTZ, GUILDENSTERN e mais pessoas + +HAMLET (ao official) + +Que tropas são essas, meu amigo? + +O OFFICIAL + +É o exercito norueguez, senhor! + +HAMLET + +Qual é o seu destino? + +O OFFICIAL + +Um ponto do território da Polonia. + +HAMLET + +Quem o commanda? + +O OFFICIAL + +Fortimbraz, sobrinho do rei de Noruega. + +HAMLET + +É contra a Polonia toda, ou só contra um ponto determinado da fronteira +que marcham? + +O OFFICIAL + +Se quer que lhe diga a verdade, marchâmos contra uma parte da Polonia, +cuja conquista será para nós gloria, sem proveito algum. Estou certo que +a sua renda não vale cinco ducados, e se se vendesse ninguem daria mais. + +HAMLET + +Se assim é, os polacos não devem offerecer resistencia? + +O OFFICIAL + +Pelo contrario, até já o guarneceram. + +HAMLET + +Duas mil almas e vinte mil ducados chegarão apenas para tão futil +empreza; é um d'estes abcessos que resultam de uma demasiada e +prolongada prosperidade que rebenta internamente, sem que nada indique +exteriormente a sua acção mortal. Obrigado, amigo. + +O OFFICIAL + +Deus seja comvosco, senhor. (Afasta-se.) + +ROSENCRANTZ + +O principe quer que continuemos o nosso caminho? + +HAMLET + +Póde ir indo, em breve o alcançarei. (Sáem Rosencrantz e Guildenstern.) +(Continuando.) Como sempre tudo me accusa e me excita á tardia vingança. +O que é o homem, se o seu primeiro bem, o maior negocio da sua vida, +consiste em comer e dormir! É um animo brutal, nada mais. Seguramente, +que aquelle que nos dotou com essa vasta comprehensão, capaz de abraçar +o passado e o futuro, não nos deu essa intelligencia, esse admiravel +raciocinio, para que ficassemos ociosos e sem emprego. Quer seja estulto +esquecimento, quer cobarde escrupulo, medito demasiado na acção que +tenho que commetter, pensamento composto de uma quarta parte de siso e +tres quartas partes de cobardia. Como me espanto a mim mesmo quando +repito: _Eis o que devo fazer_, já que me sobram os motivos, tenha eu ao +menos vontade, força e energia para o executar. Incitam-me os mais +irrecusaveis exemplos; testemunho este numeroso exercito, capitaneado +pelo seu joven principe, cujo genio intrepido, soprado por uma ambição +divina, affronta, rindo, as eventualidades de um porvir invisivel, +expondo uma vida mortal e incerta, a tudo quanto podem ousar a fortuna, +a morte e os perigos, e tudo por nada, por uma bagatella. A verdadeira +grandeza consiste, não só em commover-se com grandes e poderosas rasões, +mas tambem em achar n'uma bagatella rasões de conflicto, cuja verdadeira +causa é o pundonor. Que posição pois a minha, eu que tenho um pae +assassinado, uma mãe deshonrada; eu que tenho tantos motivos de colera e +que tudo deixo adormecer, emquanto que para minha vergonha vejo vinte +mil homens, por uma louca esperança de gloria exporem-se á morte, +caminharem para o tumulo, como caminhariam para o leito; irem combater +para conquistar um quinhão de terra insufficiente para caberem n'elle, e +cujo terreno seria uma sepultura acanhada para os mortos. Ah! quanto se +revelam sanguinarios os meus pensamentos, ou então nada. (Afasta-se.) + + +SCENA V + +Uma sala no castello de Elsenor + +Entram HORACIO e a RAINHA + +A RAINHA + +Não lhe quero fallar. + +HORACIO + +Pede-o encarecidamente. Verdade é que ella perdeu a rasão; o seu estado +é digno de compaixão. + +A RAINHA + +O que pretende ella? + +HORACIO + +Falla sempre no pae, pretende terem-lhe dito que n'este mundo se +commettem bem más acções, suspira, bate no peito, exaspera-se sem +motivo. Profere palavras equivocas e sem sentido. Nada diz, comtudo quem +ao ouvil-a não teria vontade de a comprehender. Aquelles que a ouvem +procuram adivinhar o sentido, e preenchendo as lacunas, tentam completar +o sentido das suas fallas. Vendo os movimentos que faz, acompanhando as +palavras, todos lhe suppõem um pensamento, um sentido, e provavelmente +tem-no, mas de certo bem sinistro. + +A RAINHA + +É conveniente fallar-lhe, porque poderia impressionar malevola e +perigosamente os espiritos. Que venha. (Horacio sáe.) (Continuando) Ah! +minha alma enferma! Será uma condição do crime, que a menor bagatella +pareça sempre a precursora de alguma grande calamidade? Tal é a +desconfiança em uma consciencia culpada, que se trahe a si mesma com o +receio de se trahir. + +HORACIO entra com OPHELIA + +OPHELIA + +Onde está a bella rainha de Dinamarca? + +A RAINHA + +Ophelia? + +OPHELIA + + Como hei de eu conhecer o bem amado + Por entre a multidão? + Pelo chapéu de conchas enfeitado + E pelo seu bordão. + +A RAINHA + +Infeliz Ophelia! Que significam esses versos? + +OPHELIA + +Pergunta-mo? Escute então... + + Levaram-no bem morto ao cemiterio! + O que tu foste e és!... + Sob a fronte senil myrto funereo, + E fria pedra aos pés! + +Ai de mim! (Chora.) + +A RAINHA + +Ophelia, querida Ophelia? + +OPHELIA + +Ouça mais, peço-lh'o... + + Branca de neve a frigida mortalha... + +Entra o REI + +A RAINHA + +Veja, senhor! + +OPHELIA + + É como um prado em flor + Baixou á campa a fronte e não a orvalha + Com lagrimas o amor!! + +O REI + +Como está bella, Ophelia? + +OPHELIA + +Bem, louvado Deus, dizem que a coruja fôra outr'ora filha de um padeiro. +Meu Deus, nós sabemos o que somos, mas nunca o que poderemos vir a ser. +Que Deus abençôe a sua mesa. + +O REI + +Recorda-se do pae? + +OPHELIA + +Não fallemos mais n'isso, mas se me perguntam o que significa, +dir-lhes-hei o que é. Respondam. + + São Valentim! dizes-me a minha sina? + A pé já todos são. + Queres que eu seja a tua Valentina? + Sou virgem, sim ou não? + Ergueu-se elle e vestiu-se; mansamente + Do quarto a porta abriu; + E virgem ella entrou... mas tão sómente + Mulher quando saíu. + +O REI + +Encantadora Ophelia! + +OPHELIA + +Em verdade vou terminar sem juramento. + + Por Jesus! pela santa caridade! + Quem vale á infeliz?! + Ai! são todos assim na mocidade, + A sorte é quem n'o quiz! + Antes da minha quéda prometteste + Conduzir-me ao altar: + Por Deus o houvera feito... não quizeste. + Quem te mandou entrar? + +O REI + +Ha quanto tempo é que este infeliz estado se apoderou d'ella? + +OPHELIA + +Tudo vae bem! É preciso ter paciencia; não posso reter o pranto, +pensando que está debaixo da terra fria e humida. Meu irmão ha de +sabel-o, obrigada pelo conselho. Chegue a minha carruagem. Boa noite, +minhas senhoras, boa noite, bellas senhoras, Adeus, boas noites! (Sáe +correndo.) + +O REI (a Horacio) + +Siga-a, não a perca de vista, vigie-a cautelosamente, peço-lh'o eu! +(Horacio sáe.) (Continuando) Oh! é aquelle o veneno de uma dor profunda, +causada pela morte do pae. Ah! Gertrudes, Gertrudes, quando as dores nos +assaltam, nunca é isoladamente, é como se viessem em tropel. Primeiro a +morte do pae, depois a partida de Hamlet, que tão violentamente decretou +o proprio exilio; o povo alvoroçado e descontente, commenta malevola e +insidiosamente a morte de Polonio, e nós obrámos pouco assisadamente +ordenando o prompto enterro; a infeliz Ophelia, inconsciente do seu +estado, está privada da rasão, sem a qual somos simples estatuas, +creaturas brutas. Para cumulo de desgraça esta vale todas as outras, seu +irmão voltou secretamente de França, embrenha-se no labyrintho de +noticias, e mantem-se occulto. Não deixará por certo de haver bôcas +malevolas, que por occasião da morte de seu pae, envenenem seus ouvidos +com insinuações perfidas, e a calumnia, na carencia de outro assumpto, +não nos poupará com os seus dardos envenenados e mortiferos. Ah! querida +Gertrudes; tudo isto, similhante a um instrumento de morte, vibra-me +mais golpes que os necessarios para pôr termo á minha vida. (Ouve-se um +grande rumor fóra da sala.) + +A RAINHA + +Que rumor é esse? + +O REI + +Olá, venha alguem. (Entra um official do palacio.) + +O REI (continuando) + +Onde estão os meus suissos? Que defendam as portas. Dize-me já o que ha. + +O OFFICIAL + +Fuja, senhor; o oceano, rompendo os diques, não invade com mais +violencia a campina, do que o joven Laerte, á frente da rebellião, +derruba a resistencia dos vossos officiaes. O povo chama-lhe soberano, e +como se fosse no começo do mundo, sem tradições, nem passado, nem usos, +sobre que tudo se firma, ou as tivesse esquecido, exclama: Elejâmos um +rei! Laerte será o nosso rei? Todos se descobrem e agitam os gorros, +todas as mãos applaudem, todas as vozes repetem: Laerte será rei. Viva o +rei Laerte! + +A RAINHA + +Com que prazer esta matilha segue uma pista falsa! Enganam-se! +Dinamarquezes ingratos! + +O REI + +Entraram á força. (Redobra o rumor. Entra Laerte seguido por muito povo +dinamarquez.) + +LAERTE + +Onde está esse rei? Senhores, retirem-se para fóra. + +O POVO + +Nada! Queremos todos entrar. + +LAERTE + +Façam o que lhes peço. + +O POVO + +É justo! é justo! (Sáem.) + +LAERTE + +Obrigado, senhores; guardem as portas. (Ao rei.) Infame! entrega-me meu +pae. + +O REI + +Socegue, meu caro Laerte. + +LAERTE + +Se uma só gota do meu sangue não fervesse, essa gota proclamar-me-ía +bastardo, attestaria a deshonra de meu pae, e imprimiria na casta fronte +de minha adorada mãe um estigma indelevel de infamia. + +O REI + +O que deu azo, Laerte, a uma rebellião, que assumiu proporções tão +colossaes? Está tranquilla, Gertrudes, por nós nada receies; graças ao +caracter sagrado que protege os reis, a traição não lança senão um olhar +timido e incerto para o resultado que anhelam os seus desejos, e os +effeitos estão longe de corresponder á sua esperança. Dize-me, Laerte, o +motivo d'esta irritação violenta. Nada receies, Gertrudes. Falla, +Laerte. + +LAERTE + +Onde está meu pae? + +O REI + +Morreu. + +A RAINHA + +Mas o rei está innocente. + +O REI + +Deixa-me interrogal-o á minha vontade. + +LAERTE + +Como morreu elle? Não admitto duvidas, dispenso juramentos; leve o +demonio a fé jurada, sepultem-se no abysmo a consciencia e a fidelidade. +Affrontarei a condemnação, declaro-o formalmente; renuncio a tudo n'este +e no outro mundo, aconteça o que acontecer, comtanto que vingue de um +modo bem patente a morte de meu pae. + +O REI + +E quem t'o impede? + +LAERTE + +A minha vontade só e não a do universo inteiro; quanto aos meios de que +disponho, empregal-os-hei de modo que com recursos limitados tire +d'elles o maior proveito. + +O REI + +Comprehendo, querido Laerte, que queiras saber a verdade toda a respeito +da morte de teu estremecido pae. Mas estás tu resolvido a confundir +amigos e inimigos, aquelles que perderam e aquelles que ganharam com a +sua morte? + +LAERTE + +Unicamente os inimigos quero punir. + +O REI + +E queres conhecel-os? + +LAERTE + +Quanto aos seus amigos, abro-lhes os braços com alvoroço; e similhante +ao pelicano que rasga o seio, para com o sangue alimentar os filhos, +estou prompto a por elles dar o meu sangue todo. + +O REI + +Ainda bem; fallas agora como bom filho e homem honrado. Sou innocente na +morte de teu pae, e deploro-a amargamente; demonstral-o-hei á tua rasão +com provas tão claras como a luz do dia. + +O POVO (de fóra) + +Deixem-a entrar. + +LAERTE + +O que é? Que rumor é esse? (Entra Ophelia estranhamente enfeitada com +flores na cabeça e palhas entrançadas nos cabellos.) (Continuando.) Meu +pobre cerebro! Sequem-se as minhas lagrimas, que, sete vezes corrosivas, +queimam meus olhos e afastam d'elles o sentido da vista! Por Deus! A tua +demencia será paga com usura, até que o nosso peso faça baixar uma das +conchas da balança. Rosa de primavera, filha querida, carinhosa irmã, +boa Ophelia! Oh! ceus! pois será possivel que a rasão de uma jovem +mulher seja tão fragil como a vida do ancião! A natureza tem no seu amor +um perfume subtil e raro, cujas emanações se infiltram no objecto amado. + +OPHELIA + + Levaram-no em mesquinha padiola + E foram-no enterrar! + Mas chove-lhe na tumba, ai! grata esmola + De lagrimas um mar. + +LAERTE + +Possuisses tu toda a tua rasão, animasses-me tu á vingança, não +conseguias crear em mim uma emoção. + +OPHELIA + +Forçoso é que eu cante e tu tambem: + + Abaixo! Abaixo! + Lançae-o abaixo! + +Devias ouvir cantar ás fiadeiras; é a canção do intendente desleal, que +raptou a filha de seu amo. + +LAERTE + +Estes nadas tudo me dizem. + +OPHELIA (a Laerte, dando-lhe uma flor) + +Toma, é rosmaninho a flor da lembrança. Lembra-te de mim, peço-t'o, meu +querido; estes são amores perfeitos, é para que sempre viva no teu +coração de irmão. + +LAERTE + +Ha sentido no seu delirio. Acaba de distinguir acertadamente a lembrança +e o pensamento. + +OPHELIA (ao rei) + +Aqui tendes, senhor, estas symbolicas flores. (Á rainha) Para vós, +senhora, é arruda e tambem para mim; para vós será a herva da ventura, +para mim a da dor. Eis um malmequer. Queria dar-vos violetas, mas +feneceram todas quando meu pae morreu; dizem que teve o fim do justo. + + Porque era o bom Robim minha alegria + +LAERTE + +A melancolia, a afflicção, a colera, o proprio inferno, tudo é divino +proferido por ella. + +OPHELIA + + E nunca mais virá?! + Morreu! morreu! morreu! ai! que agonia! + Não mais! não voltará! + Era a barba tão branca como a neve: + Partiu! foi para os céus. + Perdida, inutil dor! Breve, até breve, + Tem dó d'elle, meu Deus!... + +Assim como de todas as almas christãs, assim o peço a Deus, e elle seja +comvosco. (Sáe.) + +LAERTE + +Vêem? Meu Deus!... + +O REI + +Deixa-me, Laerte, fallar-te no teu infortunio; é um direito que me +pertence e que me não pódes negar sem injustiça. Reune em particular os +teus amigos mais assisados; elles nos ouçam, e depois julguem entre nós +dois. Se culpado me acharem, directa ou indirectamente, entrego-te, em +expiação da minha culpa, reino, corôa e vida, e tudo quanto possa dizer +meu; no caso contrario, peço-te só paciencia, e de accordo obraremos +para te alcançar uma completa satisfação. + +LAERTE + +Consinto. As circumstancias da sua morte, o seu funeral obscuro, em que +nem trophéus, nem espada, nem brazão figuraram, a ausencia de toda a +ceremonia funebre no saímento do seu corpo, são como um aviso do céu, +que me clama pela voz celeste: Indaga como foi. + +O REI + +Faça-se pois um inquerito, e o cutelo do algoz puna o culpado. Agora +peço-te, Laerte, que me sigas. (Sáem ambos.) + + +SCENA VI + +Um quarto no castello de Elsenor + +Entram HORACIO e um CREADO + +HORACIO + +Quem é que me pretende fallar? + +O CREADO + +Marinheiros... e dizem que têem cartas que lhe são dirigidas. + +HORACIO + +Que entrem pois; (o creado sáe) (só) não percebo de que canto do mundo +se lembraram de me escrever. Só se for Hamlet. + +Entram os MARINHEIROS + +PRIMEIRO MARINHEIRO + +Guarde-o Deus, senhor! + +HORACIO + +Igualmente a ti! + +PRIMEIRO MARINHEIRO + +Fal-o-ha, se for da sua vontade. (Entrega uma carta) Aqui tem esta +carta, é do embaixador que foi mandado a Inglaterra; o senhor, segundo +me asseguraram, chama-se Horacio, não é verdade? (Dá-lhe outra carta.) + +HORACIO (abrindo a carta, lendo) + +«_Horacio, quando receberes esta carta, proporciona a estes homens o +fallarem ao rei; têem cartas para lhe entregar. Mal tinhamos dois dias +de viagem, um corsario armado até aos dentes deu-nos caça; vendo nós que +elle era mais veleiro, fizemos das fraquezas forças, e encetámos +combate. Na abordagem, saltei-lhe na tolda, mas n'aquelle momento +afastaram-se os dois navios, e eu achei-me só e prisioneiro. +Comportaram-se commigo como corsarios humanos, mas sabiam o que faziam, +porque contam pedir avultado resgate. Faze chegar ás mãos do rei a carta +que lhe envio, depois vem ter commigo, com a celeridade que porias em +evitar a morte. Tenho que confiar aos_ _teus ouvidos palavras que te +emudecerão de espanto, e comtudo ainda são fracas para a gravidade do +assumpto que devem exprimir. Estes marinheiros te conduzirão ao sitio +onde me acho. Rosencrantz e Guildenstern navegam para a Inglaterra. +Tenho muito que te contar a esse respeito. Adeus. Aquelle que sabes ser +teu do coração==Hamlet._» Venham, vou facilitar-lhes a entrega das +cartas, depois conduzam-me o mais prompto que podérem junto d'aquelle +que lh'as entregou. (Sáem todos.) + + +SCENA VII + +Outro quarto no castello + +Entram o REI e LAERTE + +O REI + +Devo estar illibado aos teus olhos, e deves ver em mim um amigo sincero, +agora que já deves ter percebido que o assassino de teu pae tambem +queria a minha morte. + +LAERTE + +Parece-me evidente! Mas diga-me porque, depois de actos tão graves e +criminosos por sua natureza, não perseguiu o auctor, como era obrigado a +fazel-o, por sua dignidade, pela sua salvação, pela sua prudencia, por +tudo emfim? + +O REI + +Ah! por duas rasões, que provavelmente acharás sem valia, mas que a meus +olhos têem toda a gravidade. A rainha sua mãe idolatra-o, é a existencia +d'ella esse filho; eu por minha parte não sei se deva considerar isto +como virtude ou como desgraça; mas ella está tão intimamente ligada á +minha alma, qual satellite ao seu planeta, que só por ella e para ella +vivo. O outro motivo que me impede de formular contra elle uma accusação +publica, é a immensa affeição que o povo lhe consagra; affeição que +desculpa todas as suas faltas, e similhante a essas fontes que +transformam em pedra a madeira, converteria as suas cadeias em aureola +de gloria. N'estas circumstancias, pois, as minhas frechas demasiado +tenues para romperem tão forte vento, em vez de tocarem no alvo, +voltando-se, feririam só o que as despediu. + +LAERTE + +Assim perdi meu nobre pae, e vejo minha estremecida irmã na mais +desordenada demencia! Mas se é permittido elogiar o que já passou, ella +excedia em perfeições as creaturas da sua idade, e não me hei de eu +vingar? + +O REI + +Essa mágua não te perturbe o somno; não me julgues de um caracter tão +pusillanime e estulto, que um perigo, que tanto me impressionou, seja +por mim tratado de bagatella. Brevemente saberás ainda mais. Eu +estremecia o teu pae; nós somos devéras amigos, agora deves acreditar +que... + +Entra um MENSAGEIRO + +O REI + +Que queres? que ha de novo? + +O MENSAGEIRO + +Senhor, cartas de Hamlet; esta para vossa magestade, est'outra para a +rainha. + +O REI + +De Hamlet!! quem as trouxe? + +O MENSAGEIRO + +Disseram-me que uns marinheiros, eu não os vi. Estas cartas foram-me +entregues por Claudio, que as recebeu do portador. + +O REI (pegando na carta) + +Ouvirás, Laerte, o seu conteúdo. (Ao mensageiro) Retira-te (o mensageiro +sáe) (abre a carta e lê): «_Alto e poderoso monarcha, depozeram-me em +territorio vosso, nú; ámanhã solicitarei o comparecer na vossa presença, +e então se me for permittido referir-vos-hei o que deu causa ao meu +estranho e inesperado regresso.==Hamlet_». Que significa isto? voltariam +todos, será engano, será tudo falso? + +LAERTE + +Conhece a sua letra? + +O REI + +É a letra de Hamlet. _Nú_, e n'um post-scriptum acrescenta _só_. Poderás +tu dizer-me o que tudo isto significa? + +LAERTE + +Nada sei responder; mas que venha. Sinto renascer a chamma no meu +coração abatido, pensando que lhe poderei dizer cara a cara: Foste tu o +assassino de meu pae. + +O REI + +Se assim é, Laerte, não póde nem poderia ser de outra maneira; queres tu +seguir um meu conselho? + +LAERTE + +Sim, comtanto que não me aconselhe a paz. + +O REI + +Pois que faças pazes com o teu coração é que eu quero: se é verdade que +regressou, o que indica que Hamlet recúa diante da viagem e renuncia a +ella, suggerir-lhe-hei uma aventura, cujo plano está maduro no meu +espirito, e em que não poderá deixar de succumbir, e sem que a sua morte +possa ser attribuida a pessoa alguma intencionalmente; tanto que sua +propria mãe limitar-se-ha a lastimar o occorrido, vendo só uma +fatalidade. + +LAERTE + +Seguirei gostosamente os seus conselhos, e ainda de melhor vontade, se +podér combinar de modo que eu seja o agente principal. + +O REI + +Vejo que os nossos desejos se combinam completamente. Frequentemente, +desde as tuas viagens, têem-me gabado por excederes a todos no exercicio +de uma arte. Todas as tuas qualidades reunidas excitaram em Hamlet menos +ciumes do que esta só; é comtudo talvez a menos importante. + +LAERTE + +E qual é essa qualidade? + +O REI + +Um laço de fitas no chapéu da juventude, mas um enfeite necessario; +porque não lhe fica menos bem um ornamento um pouco frivolo mesmo, do +que convem á idade madura as vestes encorpadas e serias que lhe impõem a +saude e a gravidade. Ha dois mezes esteve aqui um cavalleiro normando; +tenho visto francezes e combatido com elles, e são devéras habeis, mas a +habilidade d'esse homem parecia ter o poder da magia. Parecia arroscado +á sella, e guiava o cavallo tão prodigiosamente, que pareciam um só e o +mesmo animal intelligente. Excedeu tudo quanto se póde imaginar na arte +de cavallaria e volteio, tão perfeita era a execução. + +LAERTE + +Um cavalleiro normando, disse? + +O REI + +Um normando. + +LAERTE + +Então era Lamond; não póde ser outro. + +O REI + +Elle mesmo. + +LAERTE + +Bem o conheço, é a phenix, a perola da sua patria. + +O REI + +Fallou de ti vantajosamente, fez os maiores elogios da tua pericia no +manejo das armas, sobretudo da espada, declarando ser impossivel achar +outro igual, e jurando que os jogadores de espada francezes perderam +agilidade, posição e golpe de vista depois que comtigo se mediram. Estes +elogios que elle te dispensava, de tal modo exasperaram o ciume de +Hamlet, que anhelava só pelo teu regresso para comtigo combater, e +transformaram o ciume em furia. Tirando pois partido d'estas +circumstancias... + +LAERTE + +Que partido poderemos nós tirar? + +O REI + +Laerte, amavas tu realmente teu pae, ou não era a tua dor senão um +simulacro, toda exterior e nada interior? + +LAERTE + +Porque esta pergunta? + +O REI + +Longe de mim o pensar que não amavas teu pae; mas a affeição é um +sentimento que se gera em nós, e a experiencia de todos os dias nos faz +ver que o tempo destempera a sua vivacidade e o seu ardor. Mesmo na +chamma do amor ha ás vezes uma mancha que a amortece, e cousa alguma se +conserva permanentemente bella, porque o bom, pelo crescimento degenera +em plethora, e parece abafado pela demasiada nutrição. O que pretendemos +fazer, devemos fazel-o na occasião propria, porque a vontade tambem +muda; tantas são as suas mudanças, quantas as linguas, mãos e outros +accessorios que se cruzam no seu caminho, e então a execução não é mais +que um dever, cujo cumprimento, similhante aos demasiado frequentes +suspiros, nos magôa, alliviando-nos. Mas entremos francamente na +questão. Hamlet regressa. Que estás tu disposto a fazer, para te +mostrares digno filho de teu pae, não com palavras, mas com obras? + +LAERTE + +Assassinal-o-ía mesmo no templo do Senhor. + +O REI + +Effectivamente o assassino não recúa perante o santuario, quando +pretende saciar a vingança. Mas, querido Laerte, queres seguir o meu +conselho? Encerra-te nos teus aposentos. Hamlet, regressando, saberá da +tua estada n'estes logares; farei com que exaltem na sua presença os +teus talentos, e que encareçam os elogios mais que os francezes o +fizeram; por este meio seguir-se-hão um desafio e apostas sobre a +pericia dos contendores. Elle que está desprevenido e é generoso e de +nada desconfia, não examinará os floretes; de modo que, com alguma +habilidade da tua parte, poderás escolher um florete sem botão, e por +meio de uma bem dirigida estocada fazer-lhe pagar a morte de teu pae. + +LAERTE + +Como o rei disse, Laerte o fará; mesmo envenenarei a ponta do meu +florete. Comprei a um empirico uma droga mortal. Por pouco que a ponta +de um punhal esteja n'ella banhada, por leve que seja o ferimento, não +ha balsamo precioso, embora composto dos mais energicos contravenenos, +que possa salvar da morte inevitavel e rapida o ferido. Assim, +prepararei a ponta do meu florete, para que mesmo leve arranhadura lhe +seja fatal. + +O REI + +Tornaremos ao assumpto, e combinaremos o momento e maneira mais facil e +favoravel para a sua execução. Se tivesse que falhar este nosso plano, +mais valeria nada tentar. Mas é necessario que esta primeira combinação +se firme n'uma segunda, que a substitua, no caso da arma se quebrar no +primeiro encontro. Um momento... Vejamos. Faremos apostas importantes +sobre a respectiva pericia de ambos. Quando, no calor do combate, +estiverem afogueados e sedentos, para conseguir o intento não poupes o +teu adversario, ataca-o com vigor. Hamlet, sem duvida, pedirá uma +bebida; ser-lhe-ha então apresentada uma, de antemão preparada, e uma só +gota bastará, se a tua espada te trahir, para conseguirmos o fim +desejado. Mas silencio! Que rumor é este? (Entra a rainha.) Que ha de +novo, querida Gertrudes? + +A RAINHA + +Accumulam-se as desgraças, e repetem-se com assustadora rapidez. Laerte, +tua irmã suicidou-se, afogando-se. + +LAERTE + +Onde? + +A RAINHA + +Na margem da vizinha ribeira cresce um salgueiro, cuja prateada folhagem +se reflecte nas aguas crystallinas. Tua irmã approximou-se d'aquelle +sitio, sempre tecendo grinaldas de rainunculos, ortigas, malmequeres, e +d'essas flores a que os nossos pastores dão um nome bem grosseiro, mas +que as nossas castas donzellas denominam poeticamente _dedo da morte_. +Quando procurava ornar com as suas innocentes grinaldas as argenteas +frondes do salgueiro, oh! desgraça! descuidosa foi envolvida na +corrente, cercada dos ornatos que lhe serviam como de corôa virginal. +Algum tempo suspensa pelas vestes sobre a corrente, assimilhava-se á +sereia, cantando incoherentes trechos, inconsciente do proprio risco, +como se estivesse no seu nativo elemento. Mas tudo tem um fim, e em +breve, sossobrando pelo peso das encharcadas vestes, cessou de cantar, e +tornou-se cadaver levado pela corrente. + +LAERTE + +Oh! desgraçada! afogada!! + +A RAINHA + +Sim, Laerte! + +LAERTE + +Sequem-se as minhas lagrimas; já tiveste agua em demasia, infeliz +Ophelia! Mas porque? Mais força tem a natureza do que a vontade; todos +lhe devemos obediencia. Para que uma falsa vergonha? Rolem, pois pelas +faces lagrimas santas, e arrebatem na sua corrente a minha ultima +fraqueza. Adeus, senhor! As minhas palavras de fogo tornar-se-íam +embravecido vulcão, se as lagrimas do coração o não apagassem. (Sáe.) + +O REI + +Sigâmol-o, Gertrudes. Quanto me custou a serenar a sua colera! Receio +bem que estas novas desgraças lhe despertem em toda a sua plenitude a +sanha da vingança. Sigâmol-o, pois. + + +Fim do acto quarto + + + + +ACTO QUINTO + + +SCENA I + +Um cemiterio + +Entram DOIS COVEIROS com enxadas + +PRIMEIRO COVEIRO + +Dever-se-ha enterrar em chão sagrado aquelle que voluntariamente +procurou a sua salvação no suicidio? + +SEGUNDO COVEIRO + +Eu cá digo que sim; avia-te em cavar a cova, o magistrado viu e decidiu +que aqui fosse sepultada. + +PRIMEIRO COVEIRO + +Isso não póde ser, a menos que não se afogasse involuntariamente. + +SEGUNDO COVEIRO + +Já está reconhecido e decidido. + +PRIMEIRO COVEIRO + +As probabilidades todas são que pereceu _se offendendo_. Ninguem é capaz +persuadir do contrario. Vê tu como eu o provo. Se me afogar +voluntariamente existe um acto; ora, um acto subvide-se em tres ramos: a +acção, o cumprimento e a execução; ergo, afogou-se voluntariamente. + +SEGUNDO COVEIRO + +Assim será, mas escuta-me ao menos. + +PRIMEIRO COVEIRO + +Ouve-me ainda; a agua está aqui, o homem está acolá; muito bem, o homem +vae encontrar a agua e se afoga; forçosamente morre por seu motu +proprio; nota isto bem. Mas se, pelo contrario, é a agua que vem +encontrar o homem, e elle se afoga, então já não é elle que procura a +morte; ergo, aquelle que não é culpado na sua morte, não poz termo +voluntariamente á vida. + +SEGUNDO COVEIRO + +Mas será lei? + +PRIMEIRO COVEIRO + +É a lei que preside ao inquerito do magistrado. + +SEGUNDO COVEIRO + +Queres que te diga o que penso? Se a defunta não fosse senhora de +qualidade, de certo não a enterravam em chão sagrado. + +PRIMEIRO COVEIRO + +É bem verdade o que dizes; é triste que as pessoas de qualidade tenham, +a mais dos outros christãos seus iguaes, o direito de se afogarem e de +se enforcarem. Vamos sempre cavando! Não ha nobreza mais antiga que a +dos jardineiros, lavradores e coveiros; seguem a profissão de Adão! + +SEGUNDO COVEIRO + +Pois Adão era nobre? + +PRIMEIRO COVEIRO + +O primeiro que usou armas! + +SEGUNDO COVEIRO + +Deixa-te d'isso, não consta que as tivesse! + +PRIMEIRO COVEIRO + +Sempre és um pagão! como comprehendes tu então a escriptura sagrada? A +escriptura diz que Adão trabalhava o solo; como poderia elle trabalhar +sem pá ou enxada? Essas eram as suas armas. Vou fazer-te outra pergunta, +se não me responderes com acerto, não és mais que um.... + +SEGUNDO COVEIRO + +Asno! continúa. + +PRIMEIRO COVEIRO + +Quem é que construiu mais solidamente que o pedreiro, carpinteiro e +constructor de navios? + +SEGUNDO COVEIRO + +O constructor do cadafalso, porque sobrevive a innumeros hospedes. + +PRIMEIRO COVEIRO + +Boa resposta, palavra de honra. Cadafalso é bem achado; mas para quem se +fez o cadafalso? para os que fazem o mal; ora, tu fizeste mal em dizer +que o cadafalso é mais solido que a igreja, logo merecias o cadafalso. +Vamos, procura e responde. + +SEGUNDO COVEIRO + +Agora eu! Quem é que construiu mais solidamente do que o pedreiro, +carpinteiro e constructor de navios? + +PRIMEIRO COVEIRO + +Dize tu primeiro, eu cá já sei. + +SEGUNDO COVEIRO + +Tambem eu. + +PRIMEIRO COVEIRO + +Vejamos. + +SEGUNDO COVEIRO + +Nada, não atino. + +HAMLET e HORACIO apparecem ao fundo + +PRIMEIRO COVEIRO + +Basta de tratos ao teu cerebro; escusas de pensar mais, ficas sempre na +mesma. Quando alguma vez te fizerem essa pergunta, responde: «É o +coveiro; as moradas que construe duram até ao dia de juizo». Agora vae a +casa de Vaughan e traze-me um copo de licor.(O segundo coveiro sáe, +cantando.) + + Quando eu era mancebo e quando amava + Tudo era para mim rapido goso, + Sómente noite e dia andava ancioso + Por o tempo matar que me matava. + +HAMLET + +Pois este homem não terá consciencia do que está fazendo, cantando +assim, quando cava uma sepultura? + +HORACIO + +O habito tudo póde. + +HAMLET + +E verdade, a mão pouco afeita ao trabalho tem o tacto mais delicado! + +PRIMEIRO COVEIRO (cantando) + + Mas a idade chegou, passo furtivo + Nas gastadoras garras me ha tomado, + E assim, mau grado meu, me ha condemnado + A viver entre a morte, morto-vivo. (Desenterra uma caveira.) + +HAMLET (apontando para uma caveira) + +Houve tempo em que esta cabeça tinha uma lingua e cantava; agora este +rustico fal-a rolar pelo solo, como se fosse a mandibula de Caim, o +primeiro homicida. O craneo que este imbecil trata com tão pouco +respeito, era talvez de algum profundo politico, que se julgava até +capaz de impor a sua opinião ao proprio Deus, não é verdade? + +HORACIO + +Tudo póde ser, senhor. + +HAMLET + +Ou talvez de algum cortezão cujo prestimo unico fosse repetir: «Deus +seja comvosco, como está, meu senhor?» É talvez o craneo do sr. fulano, +que gabava o cavallo do sr. cicrano, com a idéa que este lh'o désse, não +é verdade, Horacio? + +HORACIO + +Sim, meu senhor! + +HAMLET + +Deve assim ser! Agora pertence aos vermes; não tem nem pelle, nem +sangue, nem carne, e este coveiro fende-o com a sua enxada. Eis uma +estranha revolução, assim a comprehendessemos bem. Joga-se a bola com +esses ossos, como se nada tivessem custado a formar. Sinto estalar os +meus só pensando-o. + +PRIMEIRO COVEIRO (cantando) + + Uma enxada e uma pá logo em seguida, + Um lençol que amortalha o corpo todo, + Um buraco depois feito no lodo, + Eis ao que se reduz a humana vida. (Desenterra outra caveira.) + +HAMLET + +Eis um outro craneo; quem sabe se não seria de um jurisconsulto. Agora +acabaram as trapaças, as distincções subtis, as causas, as auctoridades +legaes e as finuras. Em vida, de certo não consentia sem um processo que +este imbecil lhe percutisse o craneo com a enxada. Porque não lhe +intenta agora uma acção por vias de facto e sevicias? Quem sabe, talvez +fosse um nedio comprador de bens immoveis, com os seus direitos, rendas, +privilegios, hypothecas e contratos. Eil-o agora elle mesmo hypothecado, +tem o privilegio commum a todos os mortaes, de ver a sua cabeça coberta +de pó e terra. Pois que! todas as acquisições tão bem garantidas, não +terão outro complemento senão assegurar-lhe um espaço apenas igual á +superficie de dois contratos de venda? Todos os seus titulos mal +caberiam n'este cofre, e comtudo é hoje a sua unica propriedade. Ah! + +HORACIO + +Unica, senhor! + +HAMLET + +Horacio, o pergaminho faz-se de pelles de carneiro, não é verdade? + +HORACIO + +Tambem de bezerro. + +HAMLET + +São pois os carneiros e bezerros que fazem fé em taes titulos. Vou +interrogar este rustico. A quem pertence essa cova? + +PRIMEIRO COVEIRO + +A mim! + +(Cantando) + + Um buraco depois feito no lodo, + Eis ao que se reduz a humana vida. + +HAMLET + +Effectivamente, creio ser tua, pois que estás dentro d'ella. + +PRIMEIRO COVEIRO + +O senhor está fóra, logo não é sua; mas apesar d'ella não me ser +destinada, é comtudo minha. + +HAMLET + +Mentes, é para um morto, e não para um vivo. + +PRIMEIRO COVEIRO + +Eis um desmentido prompto e que não admitte replica. + +HAMLET + +Para que homem cavas essa cova? + +PRIMEIRO COVEIRO + +Senhor, não é para um homem! + +HAMLET + +Para que mulher então? + +PRIMEIRO COVEIRO + +Nem tão pouco para uma mulher! + +HAMLET + +Quem será pois depositado n'esta cova? + +PRIMEIRO COVEIRO + +Uma pessoa que foi mulher, hoje é defunta; Deus se compadeça da sua +alma. + +HAMLET + +Que agudeza no seu positivismo! é preciso fallar-lhe com toda a clareza, +para não ser por elle enredado. Por Deus, Horacio, que noto ha tres +annos que o mundo se torna retrogrado, e o rustico se approxima tanto do +cortezão, que quasi se confundem. Ha quanto tempo és coveiro? + +O COVEIRO + +Dei-me a este officio desde o dia em que o defunto rei Hamlet venceu a +Fortimbraz. + +HAMLET + +Quanto tempo haverá? + +O COVEIRO + +Não o sabe? Pois não ha imbecil que lh'o não diga. Foi no mesmo dia em +que nasceu o joven Hamlet, aquelle que enlouqueceu, e foi mandado para +Inglaterra. + +HAMLET + +É isso; e porque o mandaram para Inglaterra? + +O COVEIRO + +Ora, porque? porque estava louco; talvez lá recupere a rasão, e se não a +recuperar, tambem não se perde muito. + +HAMLET + +E porque? + +O COVEIRO + +Não será visto aqui, e lá todos são tão loucos como elle. + +HAMLET + +Como enlouqueceu elle? + +O COVEIRO + +De um modo bem estranho, segundo dizem. + +HAMLET + +Mas de que modo? + +O COVEIRO + +É claro, perdendo a rasão. + +HAMLET + +E qual foi o motivo? + +O COVEIRO + +Um motivo dinamarquez, um motivo d'este paiz em que sou coveiro desde a +infancia, ha trinta annos. + +HAMLET + +Dize-me, quanto tempo póde um homem estar enterrado, antes de apodrecer? + +O COVEIRO + +Se não está já podre antes de morrer (porque temos n'esta epocha muito +corpo gangrenado, que mal supporta a inhumação), póde conservar-se de +oito a nove annos; um surrador conserva-se nove annos. + +HAMLET + +Porque mais tempo que os outros? + +O COVEIRO + +O exercicio da sua profissão cortiu-lhe de tal modo a pelle, que fica +impermeavel por muito tempo, e de certo sabe que a agua é o mais activo +destruidor dos cadaveres. Vê esta caveira? Ficou vinte e tres annos +debaixo da terra. + +HAMLET + +De quem era? + +O COVEIRO + +De um typo original; ora, quem lhe parece que seria? + +HAMLET + +Como posso eu sabel-o? + +O COVEIRO + +Leve-o o diabo. Lembro-me ainda do dia em que me vasou sobre a cabeça um +frasco de vinho do Rheno. Esta caveira, senhor, era de Yorick, o bobo do +rei. + +HAMLET + +Este craneo? + +O COVEIRO + +Sim, este mesmo. + +HAMLET (pegando na caveira) + +Dá-m'o, deixa-me vel-o. Pobre Yorick! Conheci-o, Horacio, era uma mina +inexgotavel de ditos engraçados; tinha uma imaginação viva e fecunda! +quantas vezes me levou aos hombros! agora ao pensal-o annuvia-se-me o +coração. Aqui estavam os seus labios, em que tantos osculos depuz. Onde +estão agora os teus sarcasmos, as tuas replicas, as tuas canções, esses +rasgos de alegria, que promoviam a hilaridade de todos os convivas? Que! +pois ninguem já póde rir com as tuas facecias? Descarnadas estão as +faces. Vae, entra como agora estás, na alcova de alguma beldade da moda; +dize-lhe então que arrebique e enfeites nada lhe valem, porque um dia +será igual a ti. Fal-a rir, dizendo-lh'o. Dize-me tu, Horacio... + +HORACIO + +O que, meu senhor? + +HAMLET + +Julgas tu que Alexandre, depois de enterrado, se parecesse com Yorick? + +HORACIO + +De certo! + +HAMLET + +E que tivesse tão mau cheiro? Fóra! (Deita fóra o craneo.) + +HORACIO + +Sem duvida alguma, senhor. + +HAMLET + +A que destinos grosseiros é possivel baixarmos, Horacio? Quem sabe se, +proseguindo nas suas successivas transformações, as cinzas de Alexandre +não estão hoje empregadas em tapar um barril? + +HORACIO + +Seria entrar n'um exame demasiado minucioso. + +HAMLET + +Não concordo. Podemos seguir seriamente esse exame, e com probabilidades +de obter um resultado. Por exemplo, Alexandre está morto, Alexandre está +sepultado, Alexandre tornou-se pó; o pó é terra, da terra tira-se +argilla, e quem impede que esta argilla, ultima metamorphose de +Alexandre, seja empregada como batoque n'um barril de cerveja? O +imperial Cesar, morto, tornou-se pó, e serve talvez para vedar uma fenda +e interceptar a passagem do ar; e essa argilla, que espalhava o terror +sobre o universo, vae calafetar um muro para impedir que o vento passe. +Mas, silencio: afastemo-nos, chega o rei: (Entram processionalmente +padres, levando á mão o caixão de Ophelia; segue-se Laerte e o cortejo +funebre, mais atrás o rei, a rainha e a côrte) e tambem a rainha! toda a +côrte! A quem prestarão os ultimos deveres? De quem será este funeral +incompleto? Tudo denuncia um suicidio. Deve porém ser pessoa de +categoria! Occultemo-nos e observemos, Horacio. (Afastam-se um pouco +Hamlet e Horacio.) + +LAERTE + +Que ceremonias falta cumprir? + +HAMLET + +Olha, é Laerte, um nobre mancebo. + +LAERTE + +Ha mais alguma cousa que fazer? + +PRIMEIRO PADRE + +Fizemos já para o seu funeral tudo quanto nos era licito fazer; a sua +morte tinha um caracter suspeito, e se ordens superiores não tivessem +imposto silencio aos canones da Igreja, teria sido sepultada em chão +profano, onde teria ficado até que a acordasse o clarim do juizo final. +Em vez de orar por ella, teriamos lançado sobre o seu corpo tições, +entulho e pedras; e comtudo coroaram-n'a como virgem, e flores cobriram +a sua campa, e o tanger do bronze sagrado acompanhou-a á sua ultima +morada. + +LAERTE + +Então nada mais se póde fazer? + +PRIMEIRO PADRE + +Mais nada; profanariamos o rito sagrado se entoassemos um _requiem_, ou +se implorassemos para ella o repouso destinado ás almas que voaram ao +céu santamente. + +LAERTE + +Seja pois o seu corpo depositado na campa, e possam d'elle e da sua +carne, pura e sem manha, desabrochar violetas! Sou eu que t'o digo, +padre sem alma, minha irmã gosará no céu a bemaventurança eterna, +emquanto que tu extorcer-te-has no inferno nas convulsões do supplicio +dos condemnados. + +HAMLET + +Que? É pois a bella Ophelia? + +A RAINHA (lançando flores sobre a campa) + +Flores para esta joven flor. Adeus! Esperava ver-te esposa do meu +Hamlet; contava, encantadora donzella, enfeitar o teu leito nupcial; +nunca pensei espargir flores sobre a tua sepultura. + +LAERTE + +Oh! que uma triplice e dez vezes triplice maldição cáia sobre a cabeça +do scelerado que commetteu tão negra acção, e provocou a perda da sua +rasão. Esperem que, antes que a terra a cubra, a estreite mais uma vez +nos meus braços (salta para dentro da cova). Agora enterrem +conjunctamente vivos e mortos, elevem sobre nós uma montanha que exceda +em altura o antigo Pélion, ou o azulado Olympo, cujo cimo vem beijar as +nuvens. + +HAMLET (adiantando-se) + +Quem é que na sua dor se exprime com tanta emphase; cuja voz detem os +astros no seu giro, attonitos de o ouvirem? Sou Hamlet, o dinamarquez! +(Arremessa-se á cova.) + +LAERTE (lançando-se a elle) + +O inferno se apodere da tua alma! + +HAMLET + +É um abominavel desejo: larga-me a garganta, retira as mãos, abaixo, +aconselho-t'o eu; não sou nem mau, nem arrebatado, mas é perigoso +excitar-me, e obrarás assisadamente pensando assim. Abaixo as mãos! + +O REI + +Separem-os. + +A RAINHA + +Hamlet! Hamlet! + +TODOS + +Senhores! + +HORACIO + +Contenham-se. + +HAMLET + +Por um tal motivo sinto-me capaz de combater com elle até ao ultimo +alento. + +A RAINHA + +Meu filho, qual é o motivo? + +HAMLET + +Amava Ophelia, e as affeições juntas de quarenta mil irmãos não poderiam +igualar a minha; (a Laerte) e que serias tu capaz de fazer por ella? + +O REI + +Deixa-o, Laerte, está louco. + +A RAINHA + +Pelo amor de Deus, não faça caso das suas palavras. + +HAMLET + +Vamos, dize-me, que tencionas tu fazer? Prantear, combater, jejuar, +rasgar tuas proprias carnes, beber o Issel todo, devorar um crocodilo? +Tudo farei. Vieste aqui para te lamentar, para me desafiar, +precipitando-te dentro da sua cova; enterra-te vivo com ella, outro +tanto farei; e já que fallaste em montanhas, accumulem ellas sobre nós +tanta terra, que o cume da nossa pyramide tumular toque a zona ardente, +e ao pé d'ella o monte Ossa não pareça mais que uma verruga. Pódes +encolerisar-te, que não me assustam os teus furores. + +A RAINHA + +É um accesso de loucura que durará algum tempo; depois, similhante á +meiga pomba acalentando os filhinhos, ficará silencioso e immovel. + +HAMLET (a Laerte) + +Dize-me, porque me tratas assim? Sempre fui teu amigo. Mas não importa. +Aindaque Hercules se oppozesse, se o gato miasse, o cão havia de ladrar +(afasta-se). + +O REI + +Siga-o, peço-lhe, meu caro Horacio. (Horacio segue Hamlet) (a Laerte) +Tem paciencia, lembra-te da nossa conversação de hontem, (Á rainha) +Querida Gertrudes, faça com que velem sobre Hamlet; (á parte) é preciso +dar como monumento a este tumulo uma victima humana. Cedo estarei +descansado; até então, paciencia! (Sáem todos.) + + +SCENA II + +Uma sala no castello + +Entram HAMLET e HORACIO + +HAMLET + +Basta sobre esse assumpto; passemos ao outro, recordas-te bem de todas +as circumstancias? + +HORACIO + +Se me lembro, meu senhor! + +HAMLET + +Uma especie de lucta apoderára-se do meu coração, vedava-me o somno, +sentia-me peior que um facinora acorrentado! Adoptando comtudo uma +resolução temeraria, achei na temeridade a minha força; lembremo-nos +sempre, Horacio, que a imprudencia é muitas vezes o nosso prestante +auxiliar, quando os nossos mais profundos calculos são impotentes, e +isto deve-nos ensinar que ha uma Providencia que aperfeiçoa e completa +os projectos que imperfeitamente esboçâmos. + +HORACIO + +Não ha cousa mais certa! + +HAMLET + +Saí pois do meu camarote a bordo, e coberto com as roupas de viagem +procurei e encontrei pelo tacto, ás escuras, a sua mala; abri-a e +revolvi-a toda, em seguida recolhi-me ao meu aposento; então o perigo +baniu todo o escrupulo, abri o despacho rompendo o sêllo real! Escuta o +que li, Horacio. Oh! perfidia real! Apoiando-se em differentes motivos, +a salvação da Dinamarca e da Inglaterra, e o perigo que para elle havia +em eu continuar a viver, o rei ordenava expressamente, que depois da +leitura d'essa carta, sem demora alguma, nem mesmo a necessaria para +afiar o cutello, eu fosse decapitado. + +HORACIO + +Será possivel? + +HAMLET + +Aqui tens a carta, lê-a á tua vontade. Mas queres tu saber o que eu +então fiz? + +HORACIO + +Diga, senhor; que foi? + +HAMLET + +Para saír salvo dos laços d'esta infame traição, appellei para a minha +intelligencia, e depressa formei o meu plano. Sentei-me, e redigi um +despacho com a melhor letra que pude fazer. Antigamente, assim como os +nossos homens d'estado considerava uma vergonha ter boa letra; e se +soubesses quanto eu desejei perdel-a! mas n'esta occasião foi-me +maravilhosamente util. Queres saber o que escrevi? + +HORACIO + +Com todo o gosto, senhor. + +HAMLET + +Dirigindo-se ao monarcha inglez como seu fiel tributario, dizia-lhe o +rei de Dinamarca, se queria que se conservasse virente a palma da +amisade, a paz se coroasse de espigas e se estreitassem os laços de uma +união duradoura, lhe ordenava que, finda a leitura da sua carta, sem +outro exame, sem lhes dar tempo de se confessarem, fizesse suppliciar os +portadores do despacho. + +HORACIO + +Mas com que sêllo fechou esse escripto? + +HAMLET + +A Providencia não me desamparou ainda n'essa occasião; tinha na minha +bolsa o sêllo de meu pae, reproducção exacta do sêllo do estado. Dobrei +pois o meu despacho na fórma do estylo, subscriptei-o e sellei-o, depois +colloquei-o no logar em que estava o outro: o engano não foi descoberto. +No dia seguinte, em vez de combate sabes o que houve. + +HORACIO + +Assim, Rosencrantz e Guildenstern, vão receber o seu justo castigo? + +HAMLET + +Procuraram-n'o por suas proprias mãos; não me peza na consciencia. Só de +si se podem queixar. É sempre uma desgraça para vis subalternos +acharem-se envolvidos nas contendas de dois poderosos adversarios. + +HORACIO + +E é rei? meu Deus! + +HAMLET + +O meu dever está agora claramente indicado. Áquelle que assassinou meu +pae, deshonrou minha mãe, que se interpoz entre a escolha da nação e as +minhas esperanças, que attentou contra a minha vida traiçoeira e +perfidamente, é justiça que o meu braço o puna. E não seria um crime +digno da condemnação eterna, deixar continuar esta ulcera no seu +trabalho corrosivo? + +HORACIO + +Mas dentro em pouco saberá de Inglaterra o desenlace de todo este +negocio? + +HAMLET + +Em breve o saberá, é verdade, mas o tempo que até então decorrer, +pertence-me, e o fio da vida do homem corta-se em menos tempo do que o +preciso para contar até dois. O que me peza, meu caro Horacio, é ter +desattendido Laerte, porque eu tambem sinto o que elle deve sentir. +Sempre prezei a sua estima; mas a emphatica exaltação da sua dor +exacerbou-me. + +HORACIO + +Silencio, principe; approxima-se alguem. + +Entra OSRICO + +OSRICO + +Alegro-me, principe, que tenha regressado á Dinamarca. + +HAMLET + +Obrigado, senhor. (A Horacio) Conheces tu esse insecto? + +HORACIO + +Não, meu senhor. + +HAMLET + +És pois um homem moral, é um vicio conhecel-o. É verdade que possue +muitas e ferteis propriedades, mas é um estupido animal, que tem mando +sobre os outros, seguro de achar a sua mangedoura na mesa real; é um +ente desprezivel, mas, como disse, é senhor de vastos dominios. + +OSRICO + +Meu bom senhor, se não incommodo vossa alteza, alguma cousa tinha que +lhe communicar da parte de sua magestade. + +HAMLET + +Escutal-o-hei com prazer. Mas cubra-se já, que o chapéu foi feito para +estar na cabeça. + +OSRICO + +Obrigado, senhor, mas faz muita calma. + +HAMLET + +Faz muito frio, não acha? O vento está norte. + +OSRICO + +Effectivamente, faz bastante frio. + +HAMLET + +Não sei se é effeito de uma predisposição particular, mas acho um calor +abrasador. + +OSRICO + +Não ha duvida, faz tanto calor, que nem posso quasi respirar. Mas, meu +senhor, sua magestade encarregou-me de lhe dizer que fez uma aposta +consideravel, de que vossa alteza é o motivo. + +HAMLET (fazendo-lhe signal de se cobrir) + +Faz favor. + +OSRICO + +Perdão, senhor, mas não me incommoda. Vossa alteza de certo é sabedor +que chegou a esta côrte Laerte, um joven mui dextro, dotado das mais +raras qualidades, agradavel no trato, um perfeito moço. Para fallar +d'elle como merece, póde-se dizer que é o espelho e o almanach do bom +tom, porque n'elle estão reunidas todas as qualidades que deve possuir +um perfeito cavalheiro. + +HAMLET + +Senhor, não encareceu o retrato que d'elle fez; não é sufficiente toda a +arithmetica da memoria para redigir o inventario especificado de todas +as suas perfeições, e ainda assim o juizo ficaria áquem da verdade. +Fallando conscienciosamente, tenho-o na conta de um cavalheiro distincto +e de raro merecimento; digo-o sinceramente; para achar outro igual, +forçoso é que se olhe no seu espelho: os outros não seriam senão a sua +sombra. + +OSRICO + +O principe falla d'elle com a convicção da estima. + +HAMLET + +De que se trata, pois? Escusâmos embaçar as suas qualidades com o nosso +juizo. + +OSRICO + +Senhor! + +HORACIO + +Não seria possivel fallar uma lingua mais intelligivel? É-o por certo, +senhor. + +HAMLET + +Com que fim pronunciou o nome d'aquelle cavalheiro? + +OSRICO + +De Laerte? + +HORACIO + +Acabou-se-lhe o cabedal; ignora completamente o que ha de responder. + +HAMLET + +É verdade. + +OSRICO + +Sei que não ignora... + +HAMLET + +Queria que assim pensasse a meu respeito; e se assim fosse, fraco elogio +para mim seria. Continue agora. + +OSRICO + +Vossa alteza não ignora a superioridade de Laerte? + +HAMLET + +É o que não affirmo, com o receio de me comparar a elle. Para conhecer +um homem a fundo era necessario vestir a sua pelle. + +OSRICO + +Quero fallar da sua superioridade em manejar as armas; gosa da reputação +de não ter rival. + +HAMLET + +Quaes são as suas armas de predilecção? + +OSRICO + +Florete e adaga. + +HAMLET + +São só duas! prosiga. + +OSRICO + +O rei apostou seis bellos cavallos da melhor raça, contra seis espadas e +seis adagas francezas de Laerte, sem contar os cinturões, talabartes e +tudo o mais. Tres dos accessorios sobretudo são dignos da aposta e de um +trabalho maravilhoso, no estylo mesmo das armas. + +HAMLET + +Que chama accessorios? + +HORACIO + +Bem sabia eu que antes de terminar era infallivel algum reparo do +principe. + +OSRICO + +Os accessorios, senhor, são os enfeites dos cintos e talabartes em que +se suspendem as espadas. + +HAMLET + +A expressão seria mais exacta se em vez de espada usassemos um canhão; +sirvamo-nos pois do termo cinto na generalidade. Prosiga. Seis bellos +cavallos contra seis espadas e seus pertences, incluindo tres cintos, +obra prima da arte franceza; é pois a França contra a Dinamarca. Mas +qual é o motivo d'esta aposta? + +OSRICO + +O rei apostou que em doze golpes, Laerte não tocaria o principe senão +tres vezes. Laerte apostou que seriam nove em doze. A questão será +promptamente decidida se vossa alteza se dignar responder. + +HAMLET + +E se eu responder negativamente? + +OSRICO + +Quer dizer, se o principe convier em combater. + +HAMLET + +Senhor, vou agora passeiar n'esta sala; costumo todos os dias a esta +hora, entregar-me a esses exercicios: depois estou ás ordens do rei. +Tragam floretes com a annuencia de Laerte; e se o rei persistir no seu +empenho far-lhe-hei ganhar a aposta se podér; no caso contrario +restam-me os golpes recebidos e a vergonha. + +OSRICO + +Deverei dar ao rei a sua resposta? + +HAMLET + +Disse-lhe o meu pensamento: o seu talento saberá completar a resposta. + +OSRICO + +Um servo dedicado de vossa alteza. (Sáe.) + +HAMLET + +Muito agradecido, obrigado (a Horacio); fez bem de o dizer elle mesmo, +ninguem se encarregava por certo de tal missão. + +HORACIO + +Finalmente, estamos sós! + +HAMLET + +Estou certo que ao collo da ama, antes de o sugar, elogiava a alvura do +seu seio; similhante a tantas pessoas da sua tempera, que são o encanto +dos ignorantes, abraçam as modas do dia, e revestem-se de um falso +verniz de polidez, e, graças a essa mascara, são escutados pelos +sensatos; mas experimentem-os, são como bolas de sabão, que se +desvanecem ao menor sopro. + +Entra UM SENHOR + +O SENHOR + +Senhor! o rei mandou o joven Osrico cumprimentar vossa alteza da sua +parte, o qual lhe disse que o principe esperava n'esta sala. El-rei +envia-me para saber se é intenção de vossa alteza combater já, ou adiar +o combate. + +HAMLET + +Tomei já a minha resolução, e concorda com os desejos de sua magestade. +Se Laerte está prompto, tambem eu o estou; immediatamente, ou quando +quizer, comtanto que me sinta sempre tão bem disposto como agora o +estou. + +O SENHOR + +Em breve chegarão o rei e a rainha, e toda a côrte. + +HAMLET + +Bemvindos sejam! + +O SENHOR + +É pedido da rainha que receba cordialmente Laerte, antes de dar +principio á contenda. + +HAMLET + +É justo o seu conselho. (O senhor sáe.) + +HORACIO + +Receio que o principe perca a aposta. + +HAMLET + +Não creias tal; depois que elle partiu, tenho-me continuamente +exercitado no jogo das armas: com a vantagem concedida a victoria é +certa. Se tu soubesse que dor sinto no coração! Não importa. + +HORACIO + +Comtudo, senhor! + +HAMLET + +É uma loucura, uma leve apprehensão, que apenas poderia influenciar uma +fraca mulher. + +HORACIO + +Se sente alguma repugnancia no seu espirito, obedeça-lhe. Vou +prevenil-os que não venham, que o principe se sente indisposto. + +HAMLET + +De modo nenhum! Luctarei com os meus presentimentos; a Providencia tem +já escripto o meu destino. Se tenho de morrer, nada o evitará, forçoso é +obedecer aos seus decretos; que seja hoje ou ámanhã, estou prompto; +tenho dito. Poisque o homem não é senhor do seu destino, que importa que +seja mais tarde ou mais cedo? Será o que Deus quizer. + +Entram o REI, a RAINHA, LAERTE, OSRICO, SENHORES e CREADOS trazendo +floretes e luvas e uma mesa com frascos e taças + +HAMLET (a Laerte) + +Perdoe-me, se o offendi, mas perdoe-me como cavalheiro. Os que nos +cercam, sabem-o, e creio que tambem deve saber, que um terrivel +desvairamento se apossou de mim. Se alguma cousa fiz que podesse irritar +o seu caracter e a sua honra e melindre, proclamo-o bem alto: «Loucura!» +Seria ainda Hamlet que offendeu Laerte? Nunca, nunca poderia ser Hamlet. +Então não era elle, e não sendo elle, como offenderia Hamlet a Laerte? É +claro, não era elle; renego todos esses actos. Quem foi então? a +loucura. Sendo assim, Hamlet abraça o offendido; o verdadeiro inimigo do +desditoso Hamlet é a sua loucura. Senhor, depois d'esta confissão, em +que perante todos renego toda a má intenção, poderá ainda a sua +generosidade condemnar-me? É como se inconscientemente despedisse por +cima de uma casa um dardo, e fosse ferir um irmão. + +LAERTE + +Meu coração está satisfeito; era elle que mais me excitava á vingança; +mas no campo da honra recuso-me a toda a conciliação, até que arbitros +mais idosos e de provada lealdade, me imponham, fundados em precedentes, +uma sentença de paz, que ponha o meu nome ao abrigo de toda a suspeita. +Até então acceito a amisade que me offerece, e nada farei em seu +detrimento. + +HAMLET + +Acceito francamente essa promessa, e a lucta fraternal que vamos +encetar. Venham os floretes, comecemos. + +LAERTE + +Dêem-me um florete! + +HAMLET + +Vou ser o seu alvo, Laerte; ao pé da minha inexperiencia vae sobresaír a +sua pericia, como um astro brilhante em noite escura. + +LAERTE + +Zomba de mim? + +HAMLET + +Juro que não! + +O REI + +Dá-lhes floretes, Osrico, Primo Hamlet, conheces a aposta? + +HAMLET + +Perfeitamente, senhor; aposta demasiado vantajosa para o mais fraco. + +O REI + +Nada receio; já os conheço ambos, e poisque Hamlet é quem mais +avantajado está, a sorte está pelo nosso lado. + +LAERTE (examinando um florete) + +Este não, que é muito pesado; outro! + +HAMLET + +Este convem-me; os floretes são todos iguaes, não é verdade? + +OSRICO + +Sim, meu bom senhor. (Collocam-se.) + +O REI + +Ponham os frascos sobre a mesa. Se Hamlet o tocar a primeira e segunda +vez, ou se elle aparar o terceiro golpe, que as baterias rompam uma +salva geral; beberei á saude de Hamlet, e lançarei na taça uma perola +mais preciosa que as que usavam nos seus diademas os quatro reis meus +predecessores. Venham as taças. Que os timbales annunciem aos clarins, +os clarins aos canhões, os canhões aos céus, os céus á terra que o rei +brinda por Hamlet. Vamos, senhores, podem começar, e vós juizes, +attenção! + +HAMLET + +Em guarda! + +LAERTE + +Em guarda, principe! (Começam.) + +HAMLET + +Uma! + +LAERTE + +Não tocou. + +HAMLET + +Os juizes que decidam! + +OSRICO + +Tocou, não ha duvida. + +LAERTE + +Recomecemos. + +O REI + +Esperem, encham as taças. Hamlet, dou-te esta perola, brindo por ti. +Offereçam-lhe a taça. (Clarins e salvas.) + +HAMLET + +Prefiro acabar a contenda, esperem; depois beberei. Vamos, Laerte. Uma! +que diz agora? + +LAERTE + +Fui tocado, confesso-o. + +O REI + +Hamlet ganha. + +A RAINHA + +Estás fatigado, falta-te o fôlego. Limpa a fronte com o meu lenço. A +rainha bebe á tua victoria, Hamlet. + +HAMLET + +Minha senhora! + +O REI + +Não bebas, Gertrudes. + +A RAINHA + +Bebo, senhor, desculpe-me, desejo-o. + +O REI (á parte) + +Era a taça envenenada, já não ha remedio. + +HAMLET + +Ainda não bebo, mais tarde, senhora. + +A RAINHA + +Deixa-me limpar tua fronte, filho! + +LAERTE (ao rei, á parte) + +Senhor, agora verá. + +O REI + +Já não creio. + +LAERTE (á parte) + +E, comtudo, diz-me a consciencia que não. + +HAMLET + +Vamos, Laerte, a terceira prova; não me poupe, peço-lh'o; desenvolva +toda a sua pericia, não me trate como creança. + +LAERTE + +Que diz? em guarda, pois. + +OSRICO + +Ainda nada. + +LAERTE + +Agora toquei. (No encarniçado da lucta trocam os floretes, e Hamlet é +ferido e fere Laerte.) + +O REI + +Separem-nos, estão desesperados. + +HAMLET + +Não, recomecemos. (A rainha cáe) + +OSRICO + +Acudam á rainha; acudam! + +HORACIO + +Feridos ambos!! que é isto, senhor? + +OSRICO + +Como está Laerte? + +LAERTE + +Colhido no meu proprio laço, morro pela minha traição. + +HAMLET + +Que tem a rainha? + +O REI + +Desmaiou á vista do sangue. + +A RAINHA + +Não, não! a bebida, a bebida! meu Hamlet, a bebida! a bebida! +envenenada... (Morre.) + +HAMLET + +Oh! infamia! fechem as portas, traição! quero conhecel-a. + +LAERTE + +Eu t'o digo, é esta: Hamlet, morres assassinado, nada te póde salvar; +meia hora, quando muito, te resta de vida, na tua mão ainda conservas a +arma da traição afiada e envenenada; tambem sou victima da minha +perfidia. Escuta, já sinto a morte, tua mãe envenenada... morro, Hamlet! +o rei... só o rei culpado... (Desfallecendo.) + +HAMLET + +A ponta envenenada! veneno, cumpre o teu dever. (Fere o rei.) + +OSRICO e SENHOR + +Traição! traição! + +O REI + +Defendam-me, é apenas leve ferimento. + +HAMLET + +Bebe os restos d'esta taça, incestuoso assassino, damnado dinamarquez. +Procura a perola, achal-a-has seguindo minha mãe. (Vasa á força o resto +da taça pela bôca do rei, que cáe e morre.) + +LAERTE (n'um ultimo alento de vida) + +É justo o castigo; morre pelo veneno que preparáras. Hamlet, +perdoemo-nos mutuamente, e livres de qualquer reciproco remorso subam +nossas almas abraçadas ao céu. (Morre.) + +HAMLET + +Absolva-te o céu, como eu te perdôo; sigo-te, Laerte (a Horacio) morro, +Horacio. Rainha desgraçada, adeus. A vós todos, que ao ver esta +catastrophe empallideceis, mudos espectadores d'este drama, se tivesse +tempo ainda, se esta ancia terrivel não m'o vedasse, poderia dizer... +agora, resignação. Eu morro, Horacio, tu viverás, justifica-me, explica +o meu odio aos que o ignoram. + +HORACIO + +Isso nunca! sou mais romano que dinamarquez, e n'esta taça ainda ha +liquido. + +HAMLET + +Se és homem, dá-m'a; larga-a, por Deus, quero-a. Vive para revelar um +tão infame crime. Se alguma vez foste meu amigo, não apresses a tua +felicidade celeste e permanece n'este mundo odioso, conta a minha +historia. (Ouve-se uma marcha) Que rumor marcial é este? + +HORACIO + +É o jovem Fortimbraz, que regressa victorioso da Polonia, e que saúda os +embaixadores de Inglaterra com esta salva guerreira. (Ouvem-se tiros.) + +HAMLET + +Morro, Horacio, triumpha o veneno poderoso; nem já as noticias de +Inglaterra me é dado saber, mas predigo que Fortimbraz ha de reinar; +morrendo, voto por elle; conta-lhe mais ou menos os pormenores da causa +da minha morte. O resto... é... silencio... (Morre) + +HORACIO + +Que nobre alma! Adeus, meu adorado principe, os anjos do céu o embalem +com os seus canticos divinos. Mas porque é esta marcha? (Ouve-se uma +marcha militar.) + +Entram FORTIMBRAZ, os EMBAIXADORES a outras pessoas + +FORTIMBRAZ + +Que vejo? + +HORACIO + +Vae sabel-o. Desgraça ou prodigio, está patente a seus olhos. + +FORTIMBRAZ + +Que hecatombe, que horror! Oh! morte, que festim cruento preparavas tu, +para precisar de uma só vez tanto sangue real? + +PRIMEIRO EMBAIXADOR + +Que horrivel espectaculo! tarde chegâmos de Inglaterra. Já não nos póde +ouvir aquelle de cujas ordens annunciavamos o cumprimento, trazendo a +nova da execução de Rosencrantz e Guildenstern. Quem nol-o agradecerá +agora? + +HORACIO + +Elle não, que os seus labios agora gelidos nunca o ordenaram. Mas, +poisque vindes de Inglaterra e de Polonia e presenceaes esta crise +sangrenta, ordenae que bem alto, á vista de todos, sejam collocados +estes corpos, e eu lhes direi a causa d'estes factos, poisque a ignoram. +Então soarão aos seus ouvidos actos carnaes, incestos, sangue, +expiações, assassinios fortuitos, mortes causadas pela perfidia ou por +força maior, e para desfecho traições que feriram os proprios auctores; +eis a minha narração, e juro que é verdade. + +FORTIMBRAZ + +Ouçâmol-o promptamente, convoquemos os nobres: dolorosamente acceito o +meu novo encargo, pois tenho sobre este reino direitos incontestaveis, +que é meu dever reivindicar. + +HORACIO + +Missão tenho de lhe fallar a esse respeito, da parte d'aquelle que vivo +teria tido os suffragios do povo. Seja pois rapida a decisão, antes que +os espiritos preplexos sejam dominados por alguma conspiração ou engano +que causem novas desgraças. + +FORTIMBRAZ + +Sejam por quatro capitães levados os restos mortaes de Hamlet: +façam-se-lhe todas as honras militares. Se vivesse teria sido um grande +rei. Quando passar, salvem os canhões. Levem os cadaveres, esta vista é +só propria dos campos de batalha; aqui causa horror! Executem as minhas +ordens, rompam as salvas de canhões e as descargas de fuzilaria, e as +marchas funebres. Morreu o que havia de ser rei de Dinamarca. (Desfilam +todos com os cadaveres: ouvem-se salvas de artilheria, descargas de +fuzilaria e marchas funebres. Cae o panno.) + + +Fim do quinto e ultimo acto + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Hamlet: Drama em cinco Actos, by +William Shakespeare + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HAMLET: DRAMA EM CINCO ACTOS *** + +***** This file should be named 25667-8.txt or 25667-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/5/6/6/25667/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/25667-8.zip b/25667-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..836ddd5 --- /dev/null +++ b/25667-8.zip diff --git a/25667-h.zip b/25667-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..122c6ae --- /dev/null +++ b/25667-h.zip diff --git a/25667-h/25667-h.htm b/25667-h/25667-h.htm new file mode 100644 index 0000000..268b69a --- /dev/null +++ b/25667-h/25667-h.htm @@ -0,0 +1,7913 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" +"http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html lang="pt"> + +<head> + <title>Hamlet: drama em cinco actos, de William Shakespeare</title> + <meta name="AUTHOR" content="William Shakespeare; Trad. D. Luís I, Rei de Portugal"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + @media handheld { + .pagenum { visibility: hidden;} + } + body{margin-left: 10%; + margin-right: 10%; + } + .pagenum { + text-indent: 0em; + position: absolute; + left: 92%; + font-size: smaller; + text-align: right; + color: silver; + } + + h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;} + h2 {margin-top: 3em; margin-bottom: 1em;} + h3 {font-variant: small-caps; margin-top: 2em;} + h5 {font-weight: normal;} + .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;} + #corpo p{text-align: justify; text-indent: 1em;} + hr { + border: none; + border-bottom: solid 2px #000000; + text-align: center; + } + .poesia {text-align: left; font-size: 0.8em; margin-left: 20%;} + .instruccoes_cena { + font-size: 0.8em; + } + #corpo p.instruccoes_cena { + text-align: center; + text-indent:0em; + } + hr { border: 0; border-top: solid 1px #000000; border-bottom: solid 1px #000000;} + .smallcaps {font-variant: small-caps} + .personagem { + font-size: 0.8em; + text-align: left; + margin: 1em; + } + + </style> +</head> +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's Hamlet: Drama em cinco Actos, by William Shakespeare + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Hamlet: Drama em cinco Actos + +Author: William Shakespeare + +Translator: Luís I Rei de Portugal + +Release Date: June 1, 2008 [EBook #25667] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HAMLET: DRAMA EM CINCO ACTOS *** + + + + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + + + + + +</pre> + + + +<h1>HAMLET</h1> + + +<h3>DRAMA EM CINCO ACTOS</h3> + +<div class="capa"> +<p style="font-size: 1.4em;">WILLIAM SHAKESPEARE</p> + +<hr style="width: 70%; height: 4px;"> +<p style="font-size: 3em;">HAMLET</p> +<hr style="width: 3em;"> +<br> +<p style="font-size: 1.2em;">DRAMA EM CINCO ACTOS</p> +<hr style="width: 2em;"> +<br> +<p style="font-size: 1em;">TRADUCÇÃO PORTUGUEZA</p> +<hr style="width: 2em;"> +<br> +<p style="font-size: 0.7em;">SEGUNDA EDIÇÃO</p> +<br> +<br> +<hr style="width: 4em;"> +<br> +<p>LISBOA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">IMPRENSA NACIONAL</p> + +<p>1880</p> +</div> + + + + +<h2>INTERLOCUTORES</h2> + + +<div class="personagem"> +CLAUDIO—Rei de Dinamarca.<br> + +HAMLET—Filho do defunto Rei e sobrinho do Rei reinante.<br> + +POLONIO—Camareiro mór.<br> + +HORACIO—Amigo de Hamlet.<br> + +LAERTE—Filho de Polonio.<br> +<table cellpadding=0 cellspacing=0 summary="esta tabela serve apenas para formatar o texto"> +<tr> + <td style="padding-right: 1em;"> +VOLTIMANDO<br> +CORNELIO<br> +ROSENCRANTZ<br> +GUILDENSTERN<br> +OSRICO + </td> + <td style="border-left: solid 1px #000; vertical-align: middle; padding: 1em;">Cortezãos dinamarquezes.</td> +</tr> +</table> + +UM OUTRO CORTEZÃO.<br> + +UM PADRE.<br> + +REINALDO—Creado de Polonio.<br> + +MARCELLO E BERNARDO—Officiaes.<br> + +FRANCISCO—Soldado.<br> + +UM EMBAIXADOR.<br> + +A SOMBRA DO REI HAMLET.<br> + +FORTIMBRAZ—Principe de Noruega.<br> + +GERTRUDES—Rainha de Dinamarca, mãe de Hamlet.<br> + +OPHELIA—Filha de Polonio.<br> +</div> + +<p style="text-align:center"><small>Senhores, damas, officiaes, soldados, actores, +padres, coveiros, marinheiros, mensageiros, creados, etc.</small></p> + +<hr style="width: 4em;"> + +<p style="text-align:center"><small>A scena passa-se em Elsenor</small></p> +<span class="pagenum">[7]</span> +<div id="corpo"> + + + +<h2>ACTO PRIMEIRO</h2> + + +<h3>SCENA I</h3> + +<h4>Elsenor, a explanada do castello</h4> + +<p class="instruccoes_cena">FRANCISCO de sentinella, BERNARDO vem encontrar-se com elle</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Quem vem lá? viva quem?</p> + +<h5>FRANCISCO</h5> + +<p>Responde tu primeiro, faze alto, deixa-te reconhecer.</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Viva o rei.</p> + +<h5>FRANCISCO</h5> + +<p>Bernardo?</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Eu mesmo.</p> + +<h5>FRANCISCO</h5> + +<p>És pontual.</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Acaba de dar meia noite; vae descansar, Francisco.</p> + +<h5>FRANCISCO</h5> + +<p>Agradeço-te de me teres vindo render; faz um frio glacial, e começava a +sentir-me incommodado.</p> <span class="pagenum">[8]</span> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Não houve novidade emquanto estiveste de sentinella?</p> + +<h5>FRANCISCO</h5> + +<p>Nem sequer ouvi correr um rato.</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Então boas noites; se vires Horacio e Marcello, que tambem estão de +guarda, dize-lhes que se aviem.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Chegam HORACIO e MARCELLO</p> + +<h5>FRANCISCO</h5> + +<p>Creio ouvil-os, façam alto, quem vem lá?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Amigos da patria.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Subditos do rei de Dinamarca.</p> + +<h5>FRANCISCO</h5> + +<p>Santas noites.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Viva, meu valente soldado, quem te rendeu?</p> + +<h5>FRANCISCO</h5> + +<p>Bernardo está agora de sentinella. Boa noite. <span class="instruccoes_cena">(Retira-se.)</span></p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Olá, Bernardo?</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Não é Horacio que eu vejo?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Elle mesmo em corpo e alma.</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Bemvindo sejas, Horacio, e tu tambem, amigo Marcello.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Dize-me, já viste a apparição esta noite?</p> <span class="pagenum">[9]</span> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Ainda nada vi.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Horacio diz que é effeito da minha imaginação, e nega-se a acreditar na +visão temerosa, de que já por duas vezes fomos testemunhas; pedi-lhe +portanto que viesse comnosco, para que se o phantasma de novo apparecer, +elle possa testemunhar a verdade do que afiançâmos e dirigir-lhe a +palavra.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Historias, qual apparecer!</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Sentemo-nos um instante, e vamos repetir-te a narração do que temos +presenceado duas noites consecutivas e a que prestas tão pouco credito.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Com todo o gosto, e deixemos fallar Bernardo.</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>A noite passada, á hora em que esta estrella que vêem ao poente do polo +descreve o seu giro e vem illuminar esta parte do firmamento, em que ora +brilha, no momento em que na torre soava uma hora, Marcello e eu...</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Silencio, eil-o que apparece.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Apparece a sombra do REI</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Assimilha-se ao defunto rei.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Tu que estudaste, Horacio, falla-lhe.</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Não é verdade que se parece com o defunto rei? Observa bem, Horacio.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>A similhança é espantosa; a surpreza e o terror paralysaram-me.</p> <span class="pagenum">[10]</span> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Parece esperar que lhe fallem.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Falla-lhe, Horacio.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Quem quer que és, que a esta hora da noite usurpas a fórma magestosa e +guerreira, debaixo da qual se mostrava o meu defunto soberano, em nome +do céu, falla, ordeno-to eu!</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Parece descontente.</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Eil-o que se afasta, caminhando lenta e gravemente.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Detem-te, falla, falla, intimo-te a que falles. <span class="instruccoes_cena">(A sombra afasta-se.)</span></p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Foi-se sem responder.</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Então, Horacio, que é essa tremura e pallidez; não haverá alguma cousa +mais do que um effeito de imaginação, que dizes agora?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Pelo Deus do céu, não o acreditava sem o testemunho positivo e +irrecusavel dos meus proprios olhos.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Não se parece com o rei?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Como tu te pareces comtigo mesmo, era a armadura que usava quando +combateu o ambicioso norueguez; tinha aquelle ar ameaçador, no dia em +que no seu proprio carro, atacou, por causa de uma acalorada porfia, o +guerreiro polaco, e o prostrou no gêlo para nunca mais se levantar. É +assombroso!</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Assim é que elle já duas vezes passou pelo nosso posto de observação com +o seu caminhar grave e marcial.</p> <span class="pagenum">[11]</span> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Com que designio, ignoro-o, mas em minha opinião é um presagio para o +estado de alguma grande catastrophe.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Pois bem, sentemo-nos, e aquelle d'entre vós todos que o souber, diga +porque fatigam, com guardas vigilantes e rigorosas, os subditos d'este +reino; para que esta fundição diaria de canhões de bronze, estas compras +de armamentos e munições no estrangeiro; para que se enchem de operarios +os nossos arsenaes maritimos; porque este augmento de trabalho, que nem +os dias santos são respeitados; para que esta actividade de dia e de +noite? O que será? Qual de vós m'o poderá dizer?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Posso eu, ao menos, referir os boatos. Nosso ultimo rei, cuja imagem +ainda ha pouco vimos, foi, segundo dizem, convocado a campo fechado por +Fortimbraz de Noruega, que um cioso orgulho tinha levado a esse acto. +N'esse combate o nosso valente Hamlet, e era justa a sua reputação, +matou a Fortimbraz. Ora em virtude de uma declaração authentica, +sanccionada pelas leis da cavallaria, se Fortimbraz succumbisse, todos +os seus estados pertenceriam ao vencedor. Por sua parte o nosso rei +tinha empenhado da mesma fórma a sua palavra; e no caso de elle ser +vencido, uma igual porção de territorio pertenceria a Fortimbraz. Assim, +em virtude d'este pacto reciproco, a successão do vencido pertencia de +direito a Hamlet. Comtudo o joven Fortimbraz, ardente e sem experiencia, +reuniu nas fronteiras de Noruega um exercito de aventureiros, promptos e +resolvidos pela soldada aos mais audaciosos commettimentos. O seu +projecto, segundo o nosso governo está informado, é nada menos do que +retomar á viva força e de mão armada esse territorio que seu pae perdeu +com a vida: eis-aqui, na minha fraca opinião, a rasão principal dos +preparativos que fazemos, das guardas a que somos obrigados, e d'esta +actividade tumultuosa que se nota em todo o paiz.</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Tambem eu julgo ser esse o motivo; isto explica-nos porque vemos passar +diante dos postos de guarda a sombra do rei, <span class="pagenum">[12]</span> com a sua armadura e +com o seu porte magestoso, d'esse rei que foi e é o causador d'esta +guerra.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>É um argueiro nos olhos da intelligencia para lhes perturbar a vista. +Nos tempos mais gloriosos e florescentes de Roma, pouco antes da morte +do grande Julio, abriram-se os tumulos, e os mortos, nas suas mortalhas, +divagaram pela cidade, soltando gritos ameaçadores; viram-se estrellas +deixar após si rastos luminosos, choveu sangue, desastrosos signaes +appareceram no céu, e o astro humido, sob cuja influencia está o imperio +de Neptuno, eclipsou-se; todos julgavam ser o fim do mundo. Estes mesmos +signaes precursores de acontecimentos terriveis, correios de maus +destinos, preludios de grandes catastrophes, o céu e a terra os fizeram +apparecer nos nossos climas, aos olhos impressionaveis dos nossos +compatriotas.</p> + +<p class="instruccoes_cena">A sombra reapparece</p> + +<h5>HORACIO continuando</h5> + +<p>Mas silencio, olhem, eil-o que volta. Vou interpellal-o, embora elle me +fulmine. Pára. Illusão. Se tens o dom da palavra, se pódes articular +sons, falla; se ha alguma boa acção cujo cumprimento te possa alliviar e +contribuir para a minha salvação, responde-me: se és sabedor de alguma +desgraça que ameace a tua patria, e que um aviso opportuno possa +desviar... Oh falla! ou se em tua vida confiaste ás entranhas da terra +riquezas mal adquiridas; e a maior parte das vezes é por isso que vós, +os espiritos, divagaes depois da morte, dil-o. <span class="instruccoes_cena">(O gallo canta.)</span> Detem-te +e falla. Veda-lhe o caminho, Marcello.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Devo servir-me da minha partazana?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Serve-te se não parar.</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Para cá?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Por acolá. <span class="instruccoes_cena">(A sombra afasta-se.)</span></p> <span class="pagenum">[13]</span> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Partiu!—que presença magestosa!—são desacertadas estas demonstrações +violentas! é invulneravel como o ar, e os nossos golpes não são senão o +ridiculo esforço de uma colera impotente.</p> + +<h5>BERNARDO</h5> + +<p>Ia fallar quando cantou o gallo.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Estremeceu como um culpado que uma intimação subita aterra. Ouvi dizer +que o gallo, que é o clarim da aurora, acorda o Deus da manhã com a sua +voz sonora e penetrante, e que a esse signal todos os espiritos errantes +no mar, no fogo, na terra ou no ar se apressam em voltar aos seus +respectivos dominios. A prova está no que acabâmos de presencear.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>O gallo cantou, e elle desappareceu. Algumas pessoas dizem que na +vespera do dia em que se celebra a natividade do Salvador do mundo, o +arauto da manhã canta toda a noite sem interrupção; pretendem então que +nenhum espirito ousa saír da sua mansão, que as noites são salubres, que +nenhuma estrella exerce influencia maligna, nenhum maleficio surte +effeito, que nenhuma feiticeira exercita os seus feitiços, tanto esse +dia é bento, e está sob o imperio de uma graça celeste.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Assim o ouvi dizer, e acredito-o. Mas eis que no oriente, acolá no +fundo, por detrás dos outeiros, surge a manhã, vestida de purpura por +entre o orvalho. Demos fim á nossa vigilia, e vamos dar parte ao joven +Hamlet do que vimos esta noite; porque, por vida minha, creio que este +espirito, mudo para todos, lhe fallará. Approvam esta confidencia, que +nos impõe o nosso dever e a nossa affeição?</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Vamos sem detença; sei onde o acharemos, e onde lhe poderemos fallar sem +constrangimento. <span class="instruccoes_cena">(Retiram-se.)</span></p> <span class="pagenum">[14]</span> + + +<h3>SCENA II</h3> + +<h4>Uma sala apparatosa no castello</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entram o REI e a sua comitiva, a RAINHA, HAMLET, POLONIO, LAERTE, +VOLTIMANDO, CORNELIO e CORTEZÃOS</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>A morte de Hamlet, nosso amado irmão, ainda é tão recente, que pareceria +justo, que nossos corações estivessem immersos na tristeza e saudade, e +que uma nuvem de dor cobrisse o solo d'este reino; comtudo, a rasão +combateu os impulsos da natureza, tanto que enfreámos a nossa dor, e +embora ainda esteja bem viva a recordação, pensâmos tambem em nós. +Portanto, com um prazer incompleto, confundindo os sorrisos com as +lagrimas, a alegria com o luto; unindo o dobrar dos sinos aos canticos +nupciaes, tomámos por esposa aquella que outr'ora era nossa irmã, e +fizemol-a compartir comnosco a corôa d'este bellicoso paiz. N'esta +conjunctura ouvimos primeiro os vossos illustrados conselhos, livremente +enunciados. Somos-lhes gratos. Quanto ao joven Fortimbraz, fazendo +seguramente uma fraca idéa do nosso poder, ou imaginando que a morte de +nosso chorado irmão lançasse o estado na dissolução e na anarchia, +embalando-se em chimerica esperança, ousou mandar-nos mensagem após +mensagem, intimando-nos a restituir-lhe o territorio perdido por seu +pae, e legalmente adquirido por nosso valoroso irmão; isto por o que lhe +respeita. Fallemos agora de nós e do motivo d'esta reunião. O motivo é +este. Pelas presentes escrevemos ao rei de Noruega, tio do joven +Fortimbraz, que jazendo enfermo n'um leito, mal conhece os projectos de +seu sobrinho, pedindo-lhe que ponha o seu veto á empreza, porque é de +entre os seus subditos que se fazem as levas de soldados e os +alistamentos. Encarregámo-vos, Cornelio e Voltimando, de apresentar as +nossas saudações ao idoso monarcha norueguez, e é nossa vontade, que nas +negociações vos conformeis adstrictamente ás instrucções que junto com a +nossa carta recebereis. Adeus; a celeridade do resultado prove a +dedicação dos negociadores.</p> + +<h5>CORNELIO e VOLTIMANDO</h5> + +<p>Senhor, a nossa dedicação e obediencia não tem limites.</p> <span class="pagenum">[15]</span> + +<h5>O REI continuando</h5> + +<p>Nem o duvidâmos. Recebam um cordeal adeus. <span class="instruccoes_cena">(Cornelio e Voltimando sáem.)</span> +Agora, tu, Laerte, que pretendes? Disseram-nos que nos querias fazer uma +supplica? Qual é? Tu não podes fazer ao monarcha dinamarquez um pedido +que não seja rasoavel, e não recorres a elle em vão. Que poderias +desejar, Laerte, a que não estejamos promptos a annuir, mesmo antes de +conhecer a pretensão. A cabeça não é mais sympathica ao coração, a mão +não é mais prompta em servir a bôca do que o throno de Dinamarca é +dedicado a teu pae. Que desejas pois, Laerte?</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Meu augusto soberano, a vossa licença e o vosso consentimento, para +voltar a França. Gostosamente vim a Dinamarca para assistir á vossa +coroação, mas, cumprido esse dever, confesso-o, os meus desejos e a +minha vontade me chamam a França, e supplico a vossa magestade que me +conceda partir.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Já alcançaste o consentimento de teu pae? o que diz Polonio?</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Arrancou-me o meu consentimento, tanto me importunou; acabei por ceder, +mau grado meu, aos seus desejos. Supplico-lhe, pois, senhor, que lhe +conceda a licença pedida.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Podes partir quando te aprouver, Laerte; deixo-te a liberdade de +dispores do teu tempo e da tua pessoa. Então, Hamlet, meu primo, meu +filho?</p> + +<h5>HAMLET á parte</h5> + +<p>Aindaque mui proximos parentes não somos primos.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Porque essas nuvens que pesam sobre a tua fronte?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Engana-se, senhor, como póde haver nuvens, quando brilha o sol.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Querido Hamlet, despe essas roupas de dó, e lança um olhar <span class="pagenum">[16]</span> amigavel +para o rei de Dinamarca. Descrava os teus olhos do chão; pareces +procurar as pegadas do teu glorioso pae. Sabes bem que é um destino +invariavel; tudo quanto vive ha de morrer, e este mundo é uma ponte para +a eternidade.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Sim, senhora, é um destino commum.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Se é assim, o que te parece a ti tão extraordinario?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Senhora, não me parece, é-o na verdade. O parecer para mim nada vale. +Minha mãe, não são nem esta capa negra, nem estas vestes obrigadas nos +lutos solemnes, nem os suspiros que mal póde soltar um peito opprimido, +nem torrentes de lagrimas, nem o semblante macerado, nem todas as +manifestações de uma dor pungente, que podem exprimir e revelar o que eu +sinto. Todos estes signaes podem parecer dor; é um papel facil de +representar, mas não são verdadeira dor, são como o fato para o +comediante; mas eu <span class="instruccoes_cena">(pondo a mão sobre o coração)</span> sinto aqui, o que não +ha palavras que o expressem.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Nada ha na verdade, Hamlet, mais commovente e louvavel do que os deveres +funebres prestados á memoria de um pae. Mas lembra-te que teu pae já +perdêra o seu, e que esse tambem já perdêra o pae. E para o sobrevivente +um dever de piedade filial, dar durante um certo praso provas de uma dor +respeitosa; mas perseverar n'uma afflicção obstinada, é mostrar uma +teima impia; é uma dor cobarde, é a prova de uma vontade rebelde aos +decretos da providencia, de um coração sem energia, de uma alma incapaz +de resignação, de uma intelligencia pobre e limitada. Porque nos deve +impressionar a tal ponto um acontecimento, que sabemos ser uma +necessidade, e que se repete tão frequente, quanto as occorrencias mais +vulgares; é uma triste indocilidade. Que!! É uma offensa a Deus, uma +offensa aos finados, uma absurda offensa á natureza, que não tem em seus +fastos mais vulgar acontecimento, que a morte de um pae; a qual, desde o +primeiro cadaver até <span class="pagenum">[17]</span> ao homem que hoje se finou, nunca deixou de +nos clamar: Assim estava escripto. Supplico-te, portanto, abandona essa +afflicção impotente, e vê em nós um segundo pae; porque queremos que +todos saibam que tu és o mais proximo ao nosso throno, e que a affeição +mais terna que um pae tem a seu filho, tenho-a eu a ti. Quanto á tua +intenção de voltar a Wittemberg, para continuares os teus estudos, nada +ha mais opposto aos nossos desejos; conjurâmos-te que fiques aqui, sê o +prazer de nossos olhos, o primeiro da nossa côrte, nosso sobrinho, nosso +filho.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Hamlet, far-te-ha tua mãe uma supplica baldada? peço-te fica comnosco, +não vás para Wittemberg.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Farei o que podér, para em tudo vos provar obediencia.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Eis emfim uma resposta affectuosa e comedida. Serás na Dinamarca um +segundo <i>Eu</i>. <span class="instruccoes_cena">(Á rainha)</span> Venha, senhora, este acto de deferencia de +Hamlet, cumprido tão naturalmente e sem esforço, enche de jubilo o meu +coração. Para o celebrar o rei de Dinamarca não libará uma taça, sem que +a voz do canhão o transmitta ás nuvens. A cada taça quero que o céu o +annuncie, repercutindo o estrondo dos raios da terra. Vamos agora. <span +class="instruccoes_cena">(Todos sáem excepto Hamlet.)</span></p> + +<h5>HAMLET só</h5> + +<p>Ah! porque não poderá esta carne tão solida fundir-se e tornar-se +orvalho. Ah que se o Eterno não tivesse fulminado como reprobo o +suicida... Senhor Deus, meu Deus, como são insipidos, fastidiosos e vãos +os gosos do mundo. Que pena! Elle é um jardim inculto que só tem plantas +grosseiras e maleficas. Pois será possivel que ousassem tanto? Morto ha +dois mezes! que digo? Nem dois mezes ainda. Um rei tão bom, que tanta +similhança tinha com este como Hyperion com um Satyro, todo ternura para +minha mãe, a ponto de não querer que uma brisa mais fresca açoutasse o +seu rosto! Céus e terra! e deverei eu recordar-me? Parecia que a vida de +um era a vida do outro! Comtudo, passado apenas um mez—não posso nem +quero pensal-o—, fragilidade é synonymo de mulher. Só um mez, sem <span class="pagenum">[18]</span> +ainda ter gasto o calçado que usava acompanhando o feretro do marido, +banhada em lagrimas como uma Niobe, ella mesma, essa mulher, oh céus! um +animal privado do soccorro da rasão teria prolongado o seu luto; essa +mulher desposou meu tio, o irmão de meu pae, mas que tem tanto de meu +pae como eu de Hercules. No fim de um mez, antes que seccassem as suas +hypocritas lagrimas, casou. Oh criminosa precipitação! Voar com tanto +afan a um leito incestuoso, é horrivel! E será possivel que o céu o +tolere? Despedaça-te coração, já que forçoso é calar.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Chegam HORACIO, BERNARDO e MARCELLO</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Deus guarde a Vossa Alteza.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Quanto folgo de te ver de boa saude. És tu, Horacio, não me engano.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Eu mesmo, o vosso servo fiel até á morte.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Queres dizer <i>amigo</i>; de hoje em diante dar-te-hei este nome. Mas que +fazes tu longe de Wittemberg, Horacio? Marcello.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Meu principe!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Alegro-me de te ver, bons dias. <span class="instruccoes_cena">(A Horacio.)</span> Mas, francamente, que +motivo te obrigou a voltar de Wittemberg?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Tudo dissipei.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Nunca consentiria que um teu inimigo assim fallasse a teu respeito; e +não me obrigarás a forçar a minha rasão a crer no que o meu coração se +nega a acreditar. Accusares-te d'esta maneira a ti mesmo... tu não és +dissipador. Que motivo tão forte te pôde pois trazer a Elsenor, tu m'o +contarás mais tarde, entre dois copos de vinho generoso, antes da tua +partida.</p> <span class="pagenum">[19]</span> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Senhor, vim prestar a ultima homenagem a seu augusto pae.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Peço-te, meu camarada de estudos, que não zombes; creio antes que vieste +assistir ao casamento de minha mãe.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Verdade é que não houve quasi intervallo.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Por alvitre economico, Horacio. O banquete funerario ainda subministrou +as iguarias e as viandas para o festim nupcial. Antes quizera encontrar +no céu o meu mais encarniçado inimigo, do que ter visto despontar um tal +dia, Horacio. Meu pobre pae, parece-me que o estou vendo!</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Onde, senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Na minha imaginação, Horacio.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Recordo-me de o ter visto, era um grande rei.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Era um homem que, bem considerado, não tinha rival na terra.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Julgo tel-o visto a noite passada.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Viste, quem?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Alteza, vi o rei seu pae.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>O rei meu pae?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Senhor, acalme esta agitação e espanto, e preste attenção, emquanto eu, +fundado no testemunho ocular d'estes senhores, vou relatar esse +prodigio.</p> <span class="pagenum">[20]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Falla, pelo amor de Deus, sou todo ouvidos.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Durante duas noites consecutivas, no meio das trevas e do silencio, +emquanto estes senhores estavam de sentinella, eis o que lhes aconteceu. +Uma figura parecida com seu pae, armada da cabeça aos pés, lhes +appareceu caminhando lenta e magestosamente. Tres vezes, atemorisados e +attonitos, o viram passar á distancia do bastão de commando que +empunhava, emquanto elles, fulminados pelo terror, ficaram mudos, nem +ousaram fallar. Confiaram-me, debaixo de segredo, tremulos ainda, o que +tinham presenceado. Na noite seguinte entrei com elles de sentinella, e +confirmando a verdade das suas palavras, á hora por elles indicada, +debaixo da fórma por elles descripta, voltou a apparição. Reconheci seu +pae; as minhas duas mãos não são mais parecidas.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Mas em que sitio appareceu?</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Senhor, na explanada, onde estavamos de sentinella.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Fallaram-lhe.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Fallámos, mas não respondeu. Comtudo uma vez pareceu-me que movia a +cabeça, como quem quer fallar; mas n'esse momento cantou o gallo +matinal; ao som do canto afastou-se o espectro apressadamente, e nós +perdemol-o de vista.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Na verdade é incomprehensivel.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Senhor, juro-lhe pela minha vida que é verdade, e julgámos nosso dever +informar Vossa Alteza.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não posso dissimular a minha inquietação! Estão de guarda esta noite?</p> +<span class="pagenum">[21]</span> + +<h5>TODOS</h5> + +<p>Sim, Alteza.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Armado, disseram?</p> + +<h5>TODOS</h5> + +<p>Armado, meu senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Da cabeça aos pés?</p> + +<h5>TODOS</h5> + +<p>Tal qual.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Viram-lhe as feições?</p> + +<h5>TODOS</h5> + +<p>Vimos, tinha a viseira levantada.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Tinha physionomia carregada?</p> + +<h5>TODOS</h5> + +<p>A expressão era antes triste que colerica.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Pallido ou córado?</p> + +<h5>TODOS</h5> + +<p>Muito pallido.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>O seu olhar fixou-se em algum de vós?</p> + +<h5>TODOS</h5> + +<p>Constantemente.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Queria lá ter estado.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>O seu espanto teria sido igual ao nosso.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>É mais que provavel. Demorou-se muito?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>O tempo necessario para contar até <i>um cento</i>, sem parar.</p> <span class="pagenum">[22]</span> + +<h5>MARCELLO e BERNARDO</h5> + +<p>Muito mais, muito mais.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Não a vez que o vi.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>A barba era grisalha, não é verdade?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Era, como em sua vida, de um negro prateado.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Velarei tambem esta noite, talvez que volte.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Sem duvida alguma.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Se se me apresentar debaixo da figura de meu pae, fallar-lhe-hei, embora +o inferno me ordenasse o silencio, pelas suas horrendas fauces. +Peço-vos, portanto, que se até hoje tendes guardado um segredo tal a +respeito da apparição, de hoje em diante sejaes ainda mais cautelosos em +conservar o sigillo; e aconteça o que acontecer esta noite, reflexão e +silencio: serei grato a esta prova de affeição. Assim, pois, adeus, +encontrarme-hei comvosco na explanada entre as onze horas e a meia +noite.</p> + +<h5>TODOS</h5> + +<p>Os nossos respeitos, principe.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Sempre amigos, adeus. <span class="instruccoes_cena">(Horacio, Marcello e Bernardo sáem.)</span> <span +class="instruccoes_cena">(Continuando.)</span> A sombra de meu pae, porque +apparece armada? Haverá algum perigo. Suspeito alguma traição. Espero +impacientemente a noite. Até então, socega coração. Não ha crimes tão +occultos, que o homem não possa descobrir. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p> <span class="pagenum">[23]</span> + + +<h3>SCENA III</h3> + +<h4>Um quarto em casa de Polonio</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entram LAERTE e OPHELIA</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Já embarcaram os meus creados e roupas. Adeus, minha irmã; quando ventos +propicios encherem as vélas ao navio que me leva, espero que com a minha +ausencia não esfriará a tua amisade, e que me darás novas tuas.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Duvídas porventura, irmão?</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Quanto ao que respeita a Hamlet e á sua frivola amisade, considera-a +como uma moda ephemera, um capricho dos sentidos, uma violeta da +primavera, precoce mas passageira, suave mas fenecendo ao desabrochar, e +cujo perfume dura um minuto apenas.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Só um minuto? + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Só, acredita-me, porque o teu desenvolvimento não é só nos musculos e no +corpo; á medida que o templo toma proporções mais vastas, tambem se +expande o espirito e a alma. É possivel que te ame agora, que nenhuma +macula, nenhuma deslealdade offusque a pureza dos seus sentimentos; mas +acautela-te, porque na posição que occupa é-lhe vedada a propria +vontade, é escravo do seu nascimento. Não póde, como os outros homens, +escolher só por affeição, porque á sua escolha estão ligados o bem-estar +e a salvação do estado; por isso deve subordinal-a ao voto e á +approvação da nação de que é chefe. Se, pois, te fallar de amor, +assisadamente usarás, não acreditando senão o que a sua posição lhe +permitte offerecer, vistoque a sua vontade deve ser a vontade da nação. +Pensa bem, que mancha para a tua reputação, se prestasses ouvidos por +demais credulos, ao encanto das suas fallas, se envenenasses tua alma, +se abrisses o cofre da castidade ás suas audaciosas instancias. <span class="pagenum">[24]</span> +Acautela-te, Ophelia, acautela-te, querida irmã, luta com a tua affeição +para vencer as settas e os perigos dos desejos. A virgem prudente já é +assás prodiga se patenteia a sua belleza aos raios lunares; a propria +virtude não escapa aos golpes da calumnia; o verme roe as filhas +predilectas da primavera, antes das flores desabrocharem; e é na aurora +da vida, regada pelo puro e limpido orvalho, que ha mais perigo para a +flor da castidade. Sê, pois, circumspecta, a melhor protecção é o receio +do perigo; a juventude é para si mesma um perigo, se não trava luta com +outros maiores.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Em meu coração encerrarei, como um preservativo, a tua salutar lição. +Mas, querido irmão, não sejas tu, como certos pastores sem virtude, que +indicam ás suas ovelhas o caminho escarpado e espinhoso que conduz ao +céu, emquanto elles, libertinos, fogosos e sem pudor, trilham o caminho +das flores, da licença, e são a antithese das suas palavras.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>De mim não te arreceies: já devia ter partido; eis meu pae.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Entra POLONIO</p> + +<p>Uma dupla benção é um beneficio duplo; abençôo a occasião de me despedir +segunda vez de ti.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Ainda aqui, Laerte? para bordo, para bordo. Não te envergonhas? Teu +navio só te espera para velejar. Recebe a minha benção, e grava na tua +memoria os seguintes preceitos. Guarda para ti o pensamento, e não dês +execução apressadamente aos teus projectos; medita-os maduramente. Sê +lhano sem te esqueceres de quem és. Quando tomares um amigo cuja +affeição tenhas experimentado, liga-o a ti por vinculos de aço; mas não +dês confiança irreflectidamente. Faze por evitar questões; mas se o não +podéres conseguir, conduze-te de maneira que fiques sempre superior ao +teu adversario. Ouve a todos, mas sê avaro de palavras; escuta o +conselho que te derem, forma depois o teu juizo. No teu trajar sê tão +sumptuoso, quanto t'o permittam os teus meios, mas nunca affectado; +rico, mas não offuscante; o porte dá a conhecer o homem, e n'esse ponto, +as pessoas de <span class="pagenum">[25]</span> qualidade em França revelam um gosto primoroso, e o +mais fino tacto. Não emprestes, nem peças emprestado: quem empresta +perde o dinheiro e o amigo, e o pedir emprestado é o primeiro passo para +a ruina. Mas sobre tudo sê verdadeiro para a tua consciencia, e assim +como a noite se segue ao dia, seguir-se-ha tambem, que o teu coração +jamais abrigará falsidade. Adeus, que a minha benção selle em teu +coração os meus conselhos.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Despedindo-me, humildemente vos beijo a mão, meu pae.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Não tens tempo que perder, teus creados esperam-te.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Adeus, Ophelia, recorda-te das minhas palavras.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Fechei-as no meu coração; dou-te a chave, guarda-a.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Adeus. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Que te disse elle, Ophelia?</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Com licença de meu pae, fallou-me a respeito de Hamlet.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Folgo que o fizesse. Disseram-me que ultimamente Hamlet tem tido comtigo +frequentes entrevistas, e que tu não te esquivas ás suas frequentes +visitas. Se assim é, e creio na informação que me deram, devo dizer-te +que não encaras a tua posição com a lucidez que convem a minha filha, e +que a tua honra exige. Dize-me a verdade, o que ha?</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Protestos de amor.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>De amor! como inexperiente fallas, conservas as illusões todas. Dás tu +porventura credito aos seus protestos, como tu lhe chamas?</p> <span class="pagenum">[26]</span> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Nem sei, senhor, o que devo pensar.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Pois bem, eu t'o digo. É necessario que sejas bem creança para crer uma +realidade os seus protestos, de cuja sinceridade devéras duvido. Não te +deprecies assim; seria uma loucura.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>O seu respeito foi inseparavel das suas phrases de amor.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>E tu acreditas, pobre louca.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Firmou as suas palavras com os juramentos mais sagrados.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Assim arma o caçador os laços á avesinha innocente e incauta. Sei que, +quando o sangue ferve, a nossa bôca nunca se nega a protestos e +juramentos. Minha filha, estes lampejos que dão mais luz que calor, e +cujo brilho é ephemero, nunca os tomes por verdadeira chamma de amor. A +datar de hoje, não malbarates tanto a tua presença virginal; difficulta +mais as entrevistas, que não baste pedir para as obter. Quanto ao sr. +Hamlet e á confiança que n'elle podes ter, considera que é joven, e que +póde tomar liberdades de que depois tenhas que te arrepender. N'uma +palavra, Ophelia, descrê dos seus juramentos, porque não são +verdadeiros; interpretes de desejos profanos, revestem-se da linguagem +da mais santa sinceridade. Uma vez por todas, e franqueza, filha, +prohibo-te toda e qualquer conversa com o sr. Hamlet. Pensa bem. +Ordeno-t'o.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Obedecerei, meu pae. <span class="instruccoes_cena">(Sáem.)</span></p> <span class="pagenum">[27]</span> + + +<h3>SCENA IV</h3> + +<h4>A explanada do castello de Elsenor</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Chegam HAMLET, HORACIO e MARCELLO</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que frio horrivel, gélo.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>O ar está devéras glacial.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que horas são?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Não deve tardar a meia noite.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Está dando meia noite.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Já! não ouvi, em todo o caso approximâmo-nos da hora a que costuma +apparecer o phantasma. <span class="instruccoes_cena">(Ouvem-se ao longe tangeres de instrumentos, e o +troar de artilheria.)</span> Que rumor é este?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>O rei consagra esta noite ao prazer, está bebendo, e a cada copo de +vinho do Rheno, os timbales e clarins proclamam o brinde que levantou.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Isso é costume?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Sim é, mas apesar de eu ter nascido n'este paiz, e estar acostumado a +estes usos, ha emquanto a mim mais gloria em infringil-os, do que em +observal-os. Estas orgias abjectas trazem-nos, do oriente ao occidente, +o desprezo das outras nações, que nos qualificam de ebrios, e juntam aos +nossos nomes os epithetos mais grosseiros. Este defeito embaça as nossas +mais brilhantes qualidades, e tira-lhes todo o valor. O mesmo acontece +aos individuos. Se ao nascerem, receberam da natureza alguma macula +original, de que não são culpados, poisque o nascimento é independente +da nossa vontade; se os <span class="pagenum">[28]</span> afflige algum vicio de temperamento contra +o qual todos os esforços da rasão são impotentes, algum costume que +desagrade nos seus modos destruindo-lhes o encanto; acontece a esses +homens, tendo o estigma de um defeito unico, libré da natureza, sêllo da +sua estrella, acontece, digo, que todas as suas virtudes, fossem ellas +puras como a graça celeste, infinitas quanto comporta á humanidade, +ficariam manchadas na opinião, publica por esse defeito unico. Basta uma +mollecula de liga para depreciar esse metal.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Apparece a sombra</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Senhor, eil-o.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Anjos do céu, poderes misericordiosos, protegei-nos. Genio bemfazejo, ou +demonio infernal, que exhalas os perfumes celestes, ou as emanações do +averno; que sejam sinistras ou caridosas as tuas intenções, appareces-me +debaixo de uma fórma tão grata que te quero fallar. Interrogo-te, +Hamlet, senhor, meu pae, rei de Dinamarca, oh! responde-me, não me +deixes, na ignorancia, morrer de emoção; mas dize-me, porque teus bentos +ossos encerrados no ataude romperam os sellos; porque te levantaste do +tumulo em que te haviamos depositado; porque se ergueu a lapide +sepulchral para te lançar a este mundo? Como, cadaver inanimado, +vestindo a tua armadura de aço, vagueias tu á duvidosa claridade da lua, +imprimindo á noite um caracter de horror, lançando-nos, fracos ludibrios +da natureza, nas ancias do terror; e fazendo surgir em nossas almas +pensamentos que excedem o nosso alcance? Responde. Porque? Com que fim? +Que exiges?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Faz-vos signal de o seguir, como se quizesse fallar-vos a sós.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Veja, principe, o gesto cheio de cortezia e dignidade, com que o convida +a seguil-o a logar mais remoto; mas não vá.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Senhor, pelo amor de Deus.</p> <span class="pagenum">[29]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Quer-me fallar, pois bem, seguil-o-hei.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Não faça tal, senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Porque? que tenho eu a receiar, importa-me tanto a vida, como se fosse +um alfinete; quanto á minha alma, nada póde contra ella, porque é +immortal, como elle é. Repete o signal, vou seguil-o.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>E se elle vos attrahisse ao Oceano ou ao pincaro escarpado de algum +rochedo saliente e sobranceiro ao mar; e se tomasse alguma fórma +horrivel, cuja vista vos varresse a rasão tornando-vos demente? Pensae +bem, senhor, não receiaes alguma vertigem ao contemplar de alto a +immensidade debaixo de vossos pés?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Continua a fazer-me signal. Caminha, sigo-te.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Não ha de ir, senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ninguem me detenha.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Seja rasoavel, principe, não vá.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ouço a voz do meu destino; brada alto, e cada um dos meus musculos +adquiriu o vigor dos do leão de Nemea. <span class="instruccoes_cena">(A sombra faz-lhe signal de a +seguir.)</span> Chama-me outra vez, deixem-me, senhores <span class="instruccoes_cena">(escapa-se-lhes dos +braços.)</span> Por Deus, que não viverá, quem ousar oppôr-se-me. Afastem-se, +já disse. <span class="instruccoes_cena">(Á sombra.)</span> Caminha, sigo-te. <span class="instruccoes_cena">(A sombra e Hamlet afastam-se.)</span></p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Apoderou-se d'elle o delirio.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Sigamol-o; desobedecer-lhe é forçoso n'estas circumstancias.</p> <span class="pagenum">[30]</span> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Não o abandonemos. Qual será o resultado!</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Algum vicio ha na constituição da Dinamarca.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>O céu proverá o que for melhor.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Sigamos o principe. <span class="instruccoes_cena">(Sáem todos.)</span></p> + + +<h3>SCENA V</h3> + +<h4>Uma parte mais afastada da explanada</h4> + +<p>Chegam HAMLET e a SOMBRA + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Onde pretendes conduzir-me; mais adiante não irei.</p> + +<h5>A SOMBRA</h5> + +<p>Encara-me, Hamlet.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que queres?</p> + +<h5>A SOMBRA</h5> + +<p>Approxima-se a hora em que me devo recolher ás chammas sulphureas e +ardentes.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Pobre alma!</p> + +<h5>A SOMBRA</h5> + +<p>Não me lastimes, mas presta attenção ao segredo que te vou revelar.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Falla, é meu dever escutar-te.</p> + +<h5>A SOMBRA</h5> + +<p>Dever tambem é vingar-me depois de me teres ouvido.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que ouço! <span class="pagenum">[31]</span> + +<h5>A SOMBRA</h5> + +<p>Sou a alma de teu pae, condemnada a penar durante um tempo certo, a +jejuar n'um carcere de chammas, até que as culpas que mancharam a minha +vida estejam completamente expiadas e purificadas pelo fogo. Se não me +fosse defezo revelar os segredos do meu carcere, far-te-ía uma narrativa +de que cada palavra encheria de terror a tua alma, gelaria o teu sangue, +os olhos quaes estrellas brilhantes saíriam das suas orbitas, os anneis +do teu cabello desfazer-se-íam em completa desordem, e cada cabello +ficaria hirto como as cerdas do javali; mas estes mysterios eternos não +são para ouvidos profanos de carne e de sangue. Escuta, escuta, oh +escuta-me! se alguma vez amaste teu carinhoso pae...</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Oh céus!</p> + +<h5>A SOMBRA</h5> + +<p>Vinga a sua morte, causada por um assassinio, cobárde, infame e nefando.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Um assassinio?</p> + +<h5>A SOMBRA</h5> + +<p>Infame! todos os assassinios o são, mas nunca houve nenhum mais infame, +inaudito e horrendo do que este.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Apressa-te em desvelar-m'o, para que prompto, como a meditação, ou como +o pensamento de amor, possa saciar a minha vingança.</p> + +<h5>A SOMBRA</h5> + +<p>Grato sou ao teu empenho, Hamlet; era preciso que fosses mais apathico +do que a planta grossa e crassa que immovel e inerte apodrece nas +margens do Lethes, se não sentisses n'este momento commoção alguma. +Agora, ouve-me. Espalhou-se que emquanto dormia no meu jardim, uma +serpente me mordêra; é assim que uma fallaz narrativa enganou a +Dinamarca sobre a causa da minha morte. Sabe tu pois a verdadeira, nobre +mancebo: a serpente cujo dardo matou teu pae, cinge hoje a corôa d'este +reino.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Oh meus propheticos presentimentos, meu tio!</p> <span class="pagenum">[32]</span> + +<h5>A SOMBRA</h5> + +<p>Sim, esse monstro, incestuoso, adultero pela magia das palavras, pelos +dotes insidiosos. Oh loquela perversa, oh dotes nefarios, poisque tem +tal poder de seducção, e conseguiu inspirar essa vergonhosa paixão a +minha mulher, apparentemente tão virtuosa. Oh! Hamlet, que degradação! +Descer de mim, cujo amor nobre e digno não tinha desmentido um instante +o juramento prestado junto ao altar, a um miseravel, entre cujas +qualidades naturaes e as minhas havia um abysmo! Mas assim como a +virtude resiste inabalavel ás tentações do vicio, aindaque debaixo da +fórma da Divindade lhe apparecesse, assim tambem a impudicicia, embora +associada a um anjo celeste de luz, cansa-se da santidade do leito +conjugal, para ir habitar o mais desprezivel prostibulo. Mas já sinto a +frescura da aurora, forçoso é que eu termine. Emquanto dormia no meu +jardim, era esse o meu costume todas as tardes; teu tio, aproveitando a +minha inconsciencia, approximou-se de mim, munido de um frasco de +meimendro, e lançou-me n'um ouvido o conteúdo. É um veneno tão activo +para o sangue humano, que com a subtileza do mercurio corre e se +infiltra em todos os canaes, em todas as veias, coalhando e alterando o +sangue pela sua acção energica: o mais puro e limpido não lhe resiste, é +como uma gotta de qualquer acido n'uma taça de leite. Tal foi o seu +effeito, que uma lepra instantanea cobriu meu corpo de uma crosta impura +e infecta. Eis como durante o meu somno, tudo me foi arrebatado de uma +vez, e pela mão de um irmão, vida, corôa e consorte. A morte +surprehendeu-me em estado flagrante de peccado; sem sacramentos, sem me +reconciliar, nem com Deus, nem com a minha consciencia; tinha que +comparecer perante o Juiz Supremo vergando sob o peso das minhas +iniquidades. Horror, horror, cumulo de horror! Se em teu coração vibra a +fibra da sensibilidade, não o toleres. Não consintas que o leito do rei +de Dinamarca se transforme em mansão da luxuria e do incesto. Mas seja +qual for a tua vingança, conserva-te moral e puro, e poupa tua mãe. +Entrega o seu castigo ao céu, e aos espinhos do remorso que lhe +dilaceram o coração. Adeus, cumpre-me deixar-te; a luz do perilampo, +cujo fogo sem calor começa a esmorecer, annuncia a approximação da +aurora. Adeus, adeus, adeus. Recorda-te sempre de mim. <span class="instruccoes_cena">(A sombra +retira-se.)</span></p> <span class="pagenum">[33]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Oh! santas legiões do céu, oh! terra, que mais? Invocarei o inferno? Oh! +opprobrio; contém-te, ah! contém-te, meu coração, e vós, meus musculos, +não percaes o vigor, e redobrae de força e energia para me suster. +Recordar-me de ti? Sim, sombra infeliz, emquanto a memoria não abandonar +este meu cerebro desordenado. <i>Recorda-te de mim</i>; sempre! quero varrer +da minha memoria todas as recordações frivolas, todas as maximas +colhidas nos livros, todos os vestigios, todas as impressões do passado, +tudo quanto a juventude e a observação coordenaram, e em sua vez dar só +lugar, sem rivaes, juro-o pelo céu, aos teus preceitos. Oh! mulher +perversa, oh infame e damnado monstro! oh memoria, grava bem o seguinte, +que nos sorrisos do homem se póde occultar um crime; assim é na +Dinamarca <span class="instruccoes_cena">(escreve n'uma carteira)</span>. Meu tio, espere-me. A minha senha +será de hoje em diante. <i>Adeus, adeus, adeus. Recorda-te de mim.</i> +Jurei-o.</p> + +<h5>HORACIO ao longe</h5> + +<p>Senhor, senhor?</p> + +<h5>MARCELLO ao longe</h5> + +<p>Senhor Hamlet?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Que o céu o proteja.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Assim seja.</p> + +<h5>MARCELLO ao longe</h5> + +<p>Olá, olá, senhor!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Pousa meu falcão, pousa. <span class="instruccoes_cena">(Imita o canto do falcão e o chamamento do +falcoeiro.)</span></p> + +<p class="instruccoes_cena">Chegam HORACIO e MARCELLO</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>O que se passou, senhor?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Que novas, senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>As mais extraordinarias.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Conte-nol-as, principe.</p> <span class="pagenum">[34]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>É um segredo.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>E não sou eu capaz de o guardar? O principe conhece-me.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>E eu?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que me dirão quando o souberem: que coração humano o teria pensado. +Juram-me segredo?</p> + +<h5>HORACIO e MARCELLO</h5> + +<p>Jurâmos.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não ha em toda a Dinamarca um scelerado igual.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Era necessario que um espectro saísse do tumulo para nol'o dizer?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>É verdade, têem rasão. Basta de palavras, um aperto de mão, e cada um +volte onde o chamam os negocios e as suas inclinações, porque todos têem +inclinações e negocios, sejam quaes forem: eu, pobre pária do mundo, vou +orar.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>São palavras incoherentes e sem sentido, alteza.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Peza-me que te offendesses, peza-me devéras.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Em que, senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Por S. Patricio, que te offendi e gravemente. Quanto á apparição de inda +agora, é um phantasma honesto, digo-t'o eu. Quanto ao desejo de +conhecerem, senhores, o que entre nós se passou, reprimam-n'o. E agora, +meus bons amigos, em nome da nossa amisade, da nossa camaradagem de +estudos e de armas, façam-me um favor.</p> <span class="pagenum">[35]</span> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Qual é? Não hesitâmos.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Nunca digam o que viram esta noite.</p> + +<h5>AMBOS</h5> + +<p>Conte com a nossa palavra, principe.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Quero um juramento.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Prometti o segredo.</p> + +<h5>MARCELLO</h5> + +<p>Já jurámos.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Mas jurem sobre a minha espada.</p> + +<h5>A SOMBRA <span class="instruccoes_cena">(debaixo da terra)</span></h5> + +<p>Jurem.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ah! ah! meu camarada, és tu que fallas; estás ahi, meu valente, +approxima-te; ouvem a sua voz, prestem o juramento.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Diga-nos a formula, principe.</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(afastando-se um pouco com elles)</span></h5> + +<p>Jurem sobre a minha espada, que guardarão sigillo do que viram e +ouviram.</p> + +<h5>A SOMBRA <span class="instruccoes_cena">(debaixo da terra)</span></h5> + +<p>Jurem.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p><i>Hic et ubique.</i> Vamos para mais longe. <span class="instruccoes_cena">(Afastam-se um pouco.)</span> +Approximem-se, e estendendo a dextra sobre a minha espada, jurem por +este gladio nunca revelar o que viram e ouviram.</p> + +<h5>A SOMBRA <span class="instruccoes_cena">(debaixo da terra)</span></h5> + +<p>Jurem pela sua espada.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Bravo, velha toupeira, como caminhas depressa subterraneamente, <span class="pagenum">[36]</span> que +bello mineiro! Afastemo-nos mais uma vez, meus bons amigos.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Por vida minha, é prodigioso!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Acolhâmol-o como se acolhe um estrangeiro. O céu e a terra encerram mais +mysterios, que os conhecidos pelos philosophos; mas venham. Notem o que +notarem nos meus modos, se eu julgar necessario affectar maneiras +extravagantes, jurem-me pela sua salvação que nunca cruzarão os braços, +meneando a cabeça, nem lhes escaparão palavras ambiguas, como por +exemplo: <i>Muito bem, muito bem</i>—<i>já sabemos</i>—ou—<i>se quizessemos +fallar</i>—ou—<i>ainda ha pessoas que se ousassem</i>—ou outras expressões +equivocas, dando a perceber que estão na confidencia; jurem que nada +farão; e possa, quando mais precisarem, não lhes faltar a graça divina.</p> + +<h5>A SOMBRA <span class="instruccoes_cena">(debaixo da terra)</span></h5> + +<p>Jurem.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Acalma-te, alma penada. Assim, senhores, recommendo-me á vossa affeição, +e tudo quanto um homem tão debil como Hamlet possa fazer para lhes +provar o seu affecto, fal-o-ha com a ajuda de Deus. Retiremo-nos juntos, +e silencio; peço-lh'o eu. Ha no mundo alguma grande perturbação. +Maldição. Porque serei eu o eleito para a terminar? Vamos, partâmos +juntos.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Fim do acto primeiro</p> <span class="pagenum">[37]</span> + + + + +<h2>ACTO SEGUNDO</h2> + + +<h3>SCENA I</h3> + +<h4>Uma sala em casa de Polonio</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entram POLONIO e RINALDO</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Rinaldo, entrega a meu filho este dinheiro e estas letras.</p> + +<h5>RINALDO</h5> + +<p>Sim, meu senhor.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Mas antes de o procurar, obrarás assisadamente tomando informações a seu +respeito.</p> + +<h5>RINALDO</h5> + +<p>Era essa a minha intenção.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Bem, muito bem; toma antes todas as informações pelos dinamarquezes que +estão em París, vê as suas relações, e com quem se dão, quaes os seus +gastos; depois de te assegurares pelas tuas perguntas que conhecem meu +filho, procura colher informações mais exactas, sem comtudo o dar a +entender. Dissimula que o conheces perfeitamente, dizendo, por exemplo: +Conheço o pae e a familia, mas d'elle não tenho conhecimento algum. +Entendes, Rinaldo?</p> <span class="pagenum">[38]</span> + +<h5>RINALDO</h5> + +<p>Perfeitamente, senhor.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>De todo não me é desconhecido, pódes acrescentar. Conheço-o pouco é +verdade, comtudo aquelle de quem fallo é um dissipador com todos os seus +defeitos; imputa-lhe então todos os vicios que te parecer, excepto +aquelles que podem deshonrar um homem, toma conta n'isso; só as loucuras +e imprudencias proprias de um joven que se sente livre de todo o +constrangimento paterno.</p> + +<h5>RINALDO</h5> + +<p>O jogo, talvez?</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Bem, e as bebidas, a esgrima, as pragas, o genio buliçoso, a convivencia +do prostibulo, é até onde te auctoriso que chegues.</p> + +<h5>RINALDO</h5> + +<p>Actos são, na verdade, que não deshonram.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Sabes bem como te deves haver fazendo estas imputações. Não aggraves os +factos accusando-o de devassidão continua e habitual; não pretendo tal; +censura-o mas com discrição; exprime-te como se attribuisses as suas +faltas aos defeitos inherentes á mocidade, ao abuso da liberdade, ao +arrebatamento de um espirito fogoso, á effervescencia de um sangue +ardente.</p> + +<h5>RINALDO</h5> + +<p>Mas, senhor?</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Porque será conveniente obrar assim.</p> + +<h5>RINALDO</h5> + +<p>Para lh'o perguntar estava eu.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>É onde eu queria chegar, e na minha opinião é um ardil sem igual. Depois +de teres imputado a meu filho esses ligeiros defeitos, que se podem +considerar quando muito como imperfeições n'uma bella obra; se o teu +interlocutor, aquelle que queres sondar, notou no joven a que te referes +algum dos vicios <span class="pagenum">[39]</span> mencionados, está certo que responderá +immediatamente: Meu caro senhor, ou <i>meu amigo</i>—ou <i>meu +cavalheiro</i>—segundo o costume do individuo, ou o uso do paiz...</p> + +<h5>RINALDO</h5> + +<p>Prosiga, senhor.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Então... que estava eu dizendo? pela santa missa—que queria eu dizer? o +que era?</p> + +<h5>RINALDO</h5> + +<p>Fallava da resposta...</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Que te darão, é isso, e não deixarão de responder: <i>Conheço esse +mancebo, vi-o ainda hontem, ou outro qualquer dia, em tal epocha, com +estes ou com aquelles, surprehendi-o jogando, ou n'uma orgia ou numa +rixa</i>, ou ainda, <i>vi-o entrar n'uma casa suspeita</i>; ou outras cousas +similhantes: agora vês como com a mentira se colhe a verdade. É assim +que nós, as pessoas entendidas, empregâmos a miudo o embuste e a +falsidade para descobrir a verdade. Ahi está o caminho que seguirás para +saber o comportamento de meu filho. Percebes agora?</p> + +<h5>RINALDO</h5> + +<p>Sim, meu senhor.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>O Senhor seja comtigo, boa viagem.</p> + +<h5>RINALDO</h5> + +<p>Meu amo!</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Observa tu mesmo as suas inclinações.</p> + +<h5>RINALDO</h5> + +<p>Fal-o-hei, senhor.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Mas não o distráias da sua vida.</p> + +<h5>RINALDO</h5> + +<p>Bem entendo.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Adeus. <span class="instruccoes_cena">(Rinaldo sáe.)</span></p> <span class="pagenum">[40]</span> + +<p class="instruccoes_cena">Entra OPHELIA</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Que te traz por aqui, Ophelia?</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Meu pae, meu pae, ainda tremo.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Porque? Falla por piedade.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Querido pae, estava no meu quarto trabalhando em costura, quando de +repente deparo com o sr. Hamlet, mas em que estado! as vestes em +desordem, o cabello em desalinho, as meias caídas arrastavam pelo chão, +pallido e branco como uma mortalha, tremiam-lhe as pernas, o rosto tinha +a expressão do desespero, qual profugo do inferno mensageiro de novas +horriveis.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Enlouqueceria por tua causa?</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Não sei, meu pae, mas receio-o devéras.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Que te disse elle, Ophelia?</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Tomou-me os pulsos, apertando-os convulsivamente, depois afastando-se á +distancia do seu braço, levando a mão á testa, fitou os olhos no meu +rosto, como se me quizesse retratar. Assim se demorou por largo tempo, +por fim saccudindo-me levemente o braço, levantando e baixando por tres +vezes a cabeça, suspirou tão profundamente, que todo o seu corpo +estremeceu, parecia o prenuncio da morte. Feito isto, deixou-me, partiu +e desviando a cabeça, como um homem que para achar caminho não precisa o +auxilio da vista, transpoz a porta; mas então o seu olhar estava fito em +mim.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Segue-me, filha, vou procurar o rei. É o delirio do amor; a <span class="pagenum">[41]</span> sua +violencia mata-o, e impõe á sua vontade actos de desespero, que nenhuma +outra paixão humana excitaria. Peza-me sinceramente. Dize-me, +ter-lhe-ías tu dirigido ultimamente alguma palavra cruel.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Não, meu pae; mas obedecendo ás suas ordens, recusei as suas cartas e +evitei a sua presença.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Eis o que perturbou a sua rasão. Doe-me de o não ter conhecido melhor: +receiei que as suas intenções não fossem serias, e que só pretendesse +consummar a tua ruina. Arrependo-me do fundo de alma das minhas +desconfianças. Parece que o confiar cegamente na previdencia é o +apanagio da minha idade, como o contrario é o defeito da mocidade. Vem, +dirijâmo-nos ao rei, convem que elle nada ignore; porque o sigillo +d'este amor poderia acarretar mais desgraças do que a sua revelação +resentimentos. <span class="instruccoes_cena">(Sáem ambos.)</span></p> + + +<h3>SCENA II</h3> + +<h4>Uma sala no castello de Elsenor</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entram o REI, a RAINHA, as suas comitivas, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Sejam bemvindos, caros Rosencrantz e Guildenstern. Independentemente do +gosto de os ver, a necessidade do seu prestimo me obrigou a chamal-os a +esta côrte sem demora. Ouviram seguramente fallar da transformação de +Hamlet; digo transformação, porque já não é o mesmo homem, nem moral nem +physicamente. Só a morte do pae póde ser a causa do transtorno da sua +rasão, não posso conceber outra. Educados com elle desde a infancia, +sympathisando entre si pela idade e pelo caracter, peço-lhes que +permaneçam algum tempo na côrte, procurem inspirar-lhe o gosto e prazer +da sua convivencia, aproveitem todas as occasiões para descobrir se a +sua afflicção não tem alguma causa desconhecida, cuja revelação nos +permittisse dar-lhe remedio.</p> <span class="pagenum">[42]</span> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Bastante tem fallado nos senhores, e estou convencida que ninguem no +mundo lhes é mais affeiçoado. A liberalidade do rei compensará +largamente os seus serviços e os seus incommodos. Esperâmos dos senhores +esta prova de affeição.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Vossas magestades são nossos soberanos, e os reis não pedem, mandam.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Estamos promptos a obedecer; disponham de nós, senhores. Depondo aos pés +dos reis os nossos serviços e a nossa dedicação, pedimos-lhes só que +ordenem.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Obrigado, senhores.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Obrigada tambem eu; vão ter com meu filho: infelizmente mal o +reconhecerão. <span class="instruccoes_cena">(Á sua comitiva)</span> Alguns d'estes senhores conduzam estes +cavalheiros junto de Hamlet.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Praza a Deus, que a nossa presença lhe seja agradavel e os nossos +cuidados um lenitivo.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Deus queira. <span class="instruccoes_cena">(Rosencrantz e Guildenstern sáem seguidos de alguns +cortezãos.)</span></p> + +<p class="instruccoes_cena">Entra POLONIO</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Senhor, regressaram de Noruega os embaixadores, satisfeitos com o +resultado da sua missão.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>És sempre correio de boas novas.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Senhor! esteja vossa magestade certo que a minha alma põe a par a +dedicação ao meu rei e o respeito e amor ao meu Deus. A menos que a +minha sagacidade habitual me enganasse, descobri a verdadeira causa da +loucura do senhor Hamlet.</p> <span class="pagenum">[43]</span> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Estou ancioso por conhecel-a.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Primeiro os embaixadores, depois eu.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Recebe-os, e encarrego-te de os introduzir á nossa presença. <span class="instruccoes_cena">(Polonio +sáe.)</span> <span class="instruccoes_cena">(Á rainha.)</span> Annunciou-me, querida Gertrudes, que conhece a causa +da doença de seu filho.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Receio bem que a morte de seu pae e o nosso precipitado consorcio sejam +as causas unicas.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Sabel-o-hemos em breve.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Entram POLONIO, VOLTIMANDO e CORNELIO</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Bemvindos sejam, amigos. Falla tu, Voltimando; que novas trazes de nosso +irmão de Noruega?</p> + +<h5>VOLTIMANDO</h5> + +<p>Envia-vos seus cumprimentos e sauda-vos cordealmente. Mal nos ouviu, +ordenou ao sobrinho que pozesse fim aos seus preparativos guerreiros. +Julgava-os dirigidos contra a Polonia; mas convencido por um detido +exame que eram contra vossa magestade, e indignado por Fortimbraz se +prevalecer do estado precario, a que a idade e a doença o tinham +reduzido, ordenou-lhe que comparecesse na sua presença. Fortimbraz +obedeceu á ordem intimada, e depois de severamente reprehendido pelo rei +de Noruega, prestou nas mãos de seu tio o juramento de nada emprehender +contra vossas magestades. O idoso monarcha, para provar o seu jubilo, +concedeu-lhe uma pensão annual de tres mil escudos, e licença para +combater os polacos com as tropas alistadas. Ao mesmo tempo pede-vos +pelas presentes <span class="instruccoes_cena">(entrega as cartas)</span>, que concedaes ás suas tropas livre +passagem pelo vosso territorio nas condições estipuladas n'este +escripto.</p> <span class="pagenum">[44]</span> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Este resultado enche-nos de satisfação; quanto ao pedido, lel-o-hemos, e +depois de maduramente examinado, responderemos. Agradecemos-lhes os seus +valiosos serviços. Descansem agora; juntos ceiaremos logo. <span class="instruccoes_cena">(Voltimando e +Cornelio sáem.)</span></p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Felizmente está terminado este negocio. Senhor e senhora; discutir o que +constitue a auctoridade, e em que consiste a obediencia dos subditos, +porque a noite é noite, o dia é dia, e o tempo é tempo, seria perder sem +proveito a noite, o dia e o tempo; por isso, visto que a concisão é a +alma do espirito, emquanto que a prolixidade é só o corpo ou o involucro +exterior, serei breve: Vosso nobre filho está louco, digo louco, porque +haveria falta de rasão em querer definir o que constitue verdadeiramente +loucura. Passemos adiante...</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Menos estylo, Polonio.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Senhora, não faço estylo, juro-o. Seu filho está louco; é triste, mas é +verdade. É verdade que é uma lastima, mas é uma lastima que seja +verdade; é uma estulta antithese, mas tal qual é acceite-a; não emprego +arte. Está louco; resta-nos procurar a causa d'esse effeito, ou antes +defeito, porque forçosamente a deve ter. Siga bem o meu raciocinio: +Tenho uma filha, tanto a tenho, que me pertence. Minha filha, fiel ao +dever e á obediencia que me deve, note bem, entregou-me este escripto. +<span class="instruccoes_cena">(Mostra um papel.)</span> Reflicta e depois tire a conclusão. <span class="instruccoes_cena">(Lê.)</span> <i>Ao idolo +da minha alma, á celeste Ophelia, á belleza personificada...</i> É uma +desgraçada e estulta expressão. <i>Conserva preciosamente estas linhas, no +teu seio alabastrino...</i></p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>É de Hamlet a Ophelia.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Espere um momento, senhora, cito textualmente. <span class="instruccoes_cena">(Lê)</span></p> + +<div class="poesia"> +Duvida que do céu a abobada azulada<br> +Tenha espheras de luz de um magico esplendor,<br> +Duvida seja o sol o facho da alvorada,<br> +Duvida da verdade em tua alma gravada,<br> +Mas não duvides nunca, oh! nunca, d'este amor.<br> +</div> +<span class="pagenum">[45]</span> + +<p><i>Querida Ophelia, não sou poeta, não sei modular suspiros +com arte, mas podes acreditar que te amo, mais que tudo n'este +mundo. Adeus, a ti, para sempre minha vida, a ti emquanto +esta machina mortal me pertencer.</i>==<span class="smallcaps">Hamlet</span>.==Eis-ahi o que, +por obediencia, minha filha me entregou. Já antes ella me tinha +confiado as tentativas de Hamlet, á proporção que renovava +as suas instancias amorosas.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Como pôde ella acolher este amor?</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Em que conta me tem, senhor?</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Na de um homem leal e honrado.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Farei por merecer sempre esse conceito a vossa magestade; +mas que pensaria o rei de mim, se vendo despontar esse amor, +e já o tinha adivinhado antes da confissão de minha filha, que +pensariam o rei e a rainha, se me calasse, e me tornasse mudo +confidente do seu amor; se, testemunha da sua paixão, tivesse +imposto silencio ao meu coração, ou se a considerasse com indifferença? +má idéa por certo fariam de mim. Não perdi um +momento, disse a minha filha: <i>O senhor Hamlet é um principe +collocado fóra da tua esphera; isto não póde ser.</i>—Ordenei-lhe +então que evitasse a sua convivencia, e que nunca mais +recebesse nem mensagens nem dadivas. Seguiu o meu conselho, +e para abreviar a minha narração, o principe, vendo-se +assim repellido, caíu primeiro n'uma profunda tristeza, em seguida +repugnaram-lhe os alimentos, mais tarde teve insomnias, +depois abatimentos e fraqueza intellectual, finalmente, e sempre +gradualmente, chegou á demencia e ao delirio. Deplorâmol-o +todos.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>E pensas ser essa a causa?</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>É muito provavel.</p> +<span class="pagenum">[46]</span> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Quizera me dissessem, se aconteceu alguma vez affirmar +eu alguma cousa que não fosse certa.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Nunca que eu saiba.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Se não é verdade o que disse <span class="instruccoes_cena">(mostrando a cabeça)</span>, que esta role +a seus pés. Basta-me a mais simples circumstancia para descobrir +a verdade, aindaque estivesse occulta nas entranhas da +terra.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Por que modo nol-o poderás tu provar.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Vossa magestade não ignora que o sr. Hamlet algumas vezes +passeia quatro horas consecutivas n'esta galeria.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>É certo.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Quando ali estiver, enviar-lhe-hei minha filha, e nós, occultos +por detrás d'esta cortina, seremos testemunhas da entrevista. +Se não a ama, se não foi o amor a causa da sua loucura, +deixe eu de pertencer aos conselhos de vossa magestade, +e faça de mim um quinteiro, um hortelão ou um abegão.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Tentemos a experiencia.</p> + +<p class="instruccoes_cena">HAMLET entra lendo</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>A leitura é a unica distracção d'este infeliz.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Retirem-se ambos por piedade. Vou fallar-lhe. Confiem em +mim. <span class="instruccoes_cena">(O rei e a rainha sáem)</span> Como se sente o sr. Hamlet?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Bem, Deus louvado.</p> +<span class="pagenum">[47]</span> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Conhece-me, principe?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Se conheço, és um vendilhão de peixe.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Engana-se, senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>N'esse caso, queria que ao menos fosses tão honrado.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Honrado?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Sim; pelo caminho em que vae o mundo, custa achar um +homem honrado entre dez mil.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>É uma triste verdade.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ora o sol gera vermes no animal putrefacto, e embora divindade, +acaricia o cadaver. Tens uma filha, não é verdade?</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Sim, meu senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não a deixes caminhar ao sol, a concepção é um beneficio +do céu, mas como tua filha póde conceber, cuidado... meu +caro.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Que quer dizer, principe? <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span> minha filha é a sua constante +preoccupação, mas não me reconheceu logo, tomou-me +por um vendilhão de peixe. O seu cerebro está gravemente +atacado; verdade é, que na minha mocidade o amor algumas +vezes me reduziu a um estado similhante a este. Dirijâmos-lhe +de novo a palavra. Que está lendo, senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Palavras e mais palavras, só palavras.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>De que se trata, senhor?</p> +<span class="pagenum">[48]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Quem, o que?</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Pergunto o que contém o livro que está lendo.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Calumnias, nada mais. O satyrico auctor tem a impudencia +de dizer que nos velhos a barba é grisalha, a pelle rugosa, e +que seus olhos distillam ambar e gomma em fusão; que o espirito +está caduco, as pernas não os sustêem; tudo cousas que +creio em minha consciencia, mas que se não devem escrever. +Quanto ao senhor, poderia ter a minha idade, se podesse andar +para trás como os caranguejos.</p> + +<h5>POLONIO <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span></h5> + +<p>Aindaque louco póde coordenar as idéas. <span class="instruccoes_cena">(Alto.)</span> Quer vir tomar +ar, meu senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que ar? o do tumulo?</p> + +<h5>POLONIO <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span></h5> + +<p>Que agudeza e que verdade na replica. Ás vezes as palavras +dos loucos têem mais conceito que as dos sãos. Vou deixal-o, +e preparar a sua entrevista com minha filha. Senhor, +tomo a liberdade de me retirar.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Nada podia tomar, que eu désse com mais gosto; excepto +a vida, excepto a vida, excepto a vida.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Adeus, meu senhor.</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span></h5> + +<p>Que imbecil e fastidioso velho.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Entram ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Procuram o sr. Hamlet, eil-o.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ <span class="instruccoes_cena">(a Hamlet)</span></h5> + +<p>Deus seja comvosco, senhor. <span class="instruccoes_cena">(Polonio sáe)</span></p> +<span class="pagenum">[49]</span> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Meu nobre senhor.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Querido principe.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Meus bons e queridos amigos, como estão, tu Guildenstern +e tu tambem Rosencrantz, meus caros, como passam.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Nem bem, nem mal.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Não nos peza demasiado a nossa felicidade, e não tocâmos +o ponto culminante da fortuna.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Nem temos tambem rasões de queixa.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>No meio está a virtude, é quando chovem as graças.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Vivemos familiarmente com ella.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Estão pois na intimidade da fortuna; não me admira, é uma +cortezã. Que novas ha?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Nenhumas, senhor, a não ser que este mundo se tornou virtuoso.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Em tal caso o seu fim está mui proximo, mas o que dizes +é falso. Permittam-me uma pergunta que lhes diz respeito. +Digam-me, que mal fizeram á fortuna para ella os enviar para +este carcere?</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Carcere, senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>A Dinamarca tambem é carcere.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Então é-o o mundo todo.</p> +<span class="pagenum">[50]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Sim, uma vasta prisão que em si encerra um grande numero +de carceres, dos quaes o peior é de certo a Dinamarca.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Não somos da mesma opinião, principe.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Para os senhores não será uma prisão a Dinamarca, porque +o bem ou o mal não existem senão quando assim o julgâmos. +Para mim é.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>A ambição faz parecer a Dinamarca uma prisão a vossa alteza, +não cabe n'ella a sua alma.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Acharia vasto reino uma casca de noz, se não fossem os +meus terriveis sonhos.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>São justamente esses sonhos que constituem a ambição, +porque toda a substancia do ambicioso é a sombra de um sonho.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Assim os mendigos são corpos, e os monarchas e os heroes +ambiciosos não são senão a sua sombra. Querem que vamos +á côrte? porque sinceramente não me sinto disposto a discutir.</p> + +<h5>AMBOS</h5> + +<p>Estamos ás suas ordens, principe.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não o comprehendo eu assim, não o quero confundir com +o resto dos meus creados; porque, para lhes dizer a verdade, +sou pessimamente servido. Mas, com franqueza, amigos, o que +os trouxe a Elsenor.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Unicamente visitar a vossa alteza, nenhum outro motivo.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Estou tão pobre, tão alheio ao reconhecimento! mas recebam +os meus agradecimentos pelo preço que valem. Não os +<span class="pagenum">[51]</span> +mandaram chamar? Foi por motu proprio que vieram? É a +affeição que aqui os trouxe? Vamos, sejam francos, vamos, +fallem.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Que quer que digâmos, senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Tudo quanto lhes aprouver, mas respondam á minha pergunta. +Mandaram-os chamar? Leio nos seus olhos uma confissão, +que a sua candura não sabe dissimular. Sei que o nosso +bom rei e a nossa excellente rainha os mandaram chamar.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Com que fim, senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Os senhores é que o poderão dizer; mas imploro-lhes, pelos +direitos da nossa amisade, pelas sympathias da nossa idade, +pelos deveres que nos impõe a nossa verdadeira affeição, emfim +por todas as rasões as mais convincentes que podesse allegar +o mais habil orador, sejam francos e sinceros commigo; +mandaram-os chamar? <i>Sim</i> ou <i>não</i>.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ <span class="instruccoes_cena">(a Guildenstern)</span></h5> + +<p>Que devemos responder?</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span></h5> + +<p>Não os perderei de vista. <span class="instruccoes_cena">(Alto.)</span> Se devéras me têem affeição, +expliquem-se com franqueza.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Pois bem, senhor, mandaram-nos chamar.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>E eu dir-lhes-hei porque; d'est'arte a minha confissão precederá +as suas investigações, e o segredo promettido ao rei e á +rainha, não será nem de leve violado. Ultimamente, nem sei +por que, perdi toda a minha alegria, renunciei a toda a especie +de exercicio; e sinto na alma uma tal tristeza, que esta +maravilhosa machina, a terra, me parece um esteril promontorio, +este esplendido docel, o céu, esse magnifico firmamento +suspenso sobre nossas cabeças, essa abobada sumptuosa, onde +<span class="pagenum">[52]</span> +brilha o oiro de innumeras estrellas, tudo me parece um infecto +monturo de vapores pestilentes. Que obra prima dos homens! +que elevação na sua intelligencia! quanto são infinitas +as suas faculdades! como a sua fórma é imponente e admiravel, +como os seus actos approximam os homens dos anjos, e a +sua rasão os approxima de Deus! são a maravilha do mundo, +os reis da creação animada, e comtudo o que vale a meus olhos +essa quinta essencia do pó? Aborreço os homens e as mulheres, +embora os seus sorrisos incredulos, senhores, digam o +contrario.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Não tinhamos em nosso pensamento tal intenção.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Então porque se riram quando disse que aborrecia os homens?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>É que eu pensava que, se os homens lhe são odiosos, triste +acolhimento receberiam os actores que encontrámos no caminho +e que vem offerecer a vossa alteza os seus serviços.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Bemvindo será o que representa os reis; tributarei a sua +magestade as minhas homenagens; o cavalleiro andante manejará +adaga e escudo, debalde não suspirará o namorado, o +comico declamará em paz a sua parte; o bobo provocará o +riso aos mais hypocondriacos, emfim a namorada estropiará os +versos para não deixar de dizer o que cumpre sinta no coração. +Que actores são?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>São os tragicos da cidade, que lhe agradavam tanto.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Porque se tornaram actores ambulantes? Com a permanencia +na cidade, auferiam de certo maior honra e lucros.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Innovações recentes foram a causa d'isso.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ainda gosam da mesma reputação que tinham quando eu +<span class="pagenum">[53]</span> +habitava a cidade? As suas representações ainda são muito +concorridas?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Pouco, senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Porque será? Terão elles desmerecido no seu modo de representar?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Não, meu senhor; o seu zêlo não arrefece: mas vossa alteza +de certo saberá, que appareceu um enxame de creanças, apenas +saídas da primeira infancia, que declamam o dialogo o +mais simples, no tom o mais elevado, e por isso são calorosamente +applaudidas. São moda, e lançaram um tal desfavor +sobre os actores ordinarios, como ellas lhe chamam, que muitos +homens valentes no campo da batalha, mas que temem as +pennas aguçadas, não ousam frequentar o verdadeiro theatro.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Como? pois são creanças? Quem as protege? quem lhes paga? +quererão unicamente seguir a sua profissão emquanto conservarem +a sua voz aflautada? E se um dia pela força das circumstancias +se tornarem actores ordinarios, não terão direito +então de se arrependerem, de terem acceitado os encomios das +pennas que bem mau serviço lhes prestaram, quando se voltarem +contra elles as armas de que se serviram para mal dos +outros.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Não luctaram pouco entre si, e a nação inteira animou a contenda. +Houve um momento em que a receita do emprezario +dependia de brigarem os actores e auctores.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Será crivel?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Houve mais de uma cabeça quebrada.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>E foram as creanças que venceram?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Sim, meu senhor. Venceram o proprio Hercules com o seu globo.</p> +<span class="pagenum">[54]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Nada me admira, sendo meu tio rei de Dinamarca. Os que +o evitavam em vida de meu pae, pagam agora o seu retrato +em miniatura, por vinte, cincoenta e cem ducados. Por vida +minha que ha alguma cousa sobrenatural em tudo quanto presenceâmos, +e que em verdade a philosophia devia esmerar-se +por descobrir. <span class="instruccoes_cena">(Ouve-se o som de uma musica de clarins ao longe.)</span></p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Chegam os actores.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Senhores, bemvindos sejam em Elsenor. As suas mãos que +eu as aperte. O que distingue um bom acolhimento são os cuidados +e as attenções polidas; deixem-me recebel-os assim para +não parecer que a cortezia para com os actores, com os quaes +é minha intenção ter a maior, ultrapassa a que lhes testemunho +pessoalmente aos senhores. Bemvindos sejam, mas o tio +que tenho por padrasto, e a mãe que tenho por tia estão completamente +enganados a meu respeito.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Em que se enganam elles?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Só estou louco quando o vento sopra do nor-noroeste, em +soprando do sul, distingo uma garça de um falcão.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Entra POLONIO</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Saudo os senhores.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Escuta, Guildenstern, <span class="instruccoes_cena">(a Rosencrantz)</span> e tu tambem: a bom entendedor +meia palavra basta; esta creança que vêem ainda usa +coeiros.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Talvez que os torne a usar; a velhice é, segundo dizem, uma +segunda infancia.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Aposto que me vem fallar nos actores; vão ver. Tem rasão, +senhor, foi effectivamente na manhã de segunda feira.</p> +<span class="pagenum">[55]</span> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Trago uma nova para vossa alteza.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Tenho tambem uma para o senhor. Quando Roscio era actor +em Roma...</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Os actores acabam de chegar.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não é verdade.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Palavra de honra.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Cada actor virá montado n'um jumento.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>São os melhores actores do mundo para a tragedia, comedia, +drama historico e pastoril, pastoral comica e historica, +pastoral tragico-comico-historica, com ou sem unidade do logar +da acção. Para elles não ha difficuldades, são tristes com +Seneca, folgasãos com Plauto. Não têem rivaes quanto ao estylo +e á expressão.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ó Jephthé, juiz em Israel, que thesouro possuias!</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Que thesouro possuia elle, senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Mas...</p> + +<div class="poesia"> +Uma filha, uma só, mas essa encantadora<br> +Que era da noite sua a celestial aurora.<br> +</div> + +<h5>POLONIO <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span></h5> + +<p>Ainda minha filha.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não tenho eu rasão, velho Jephthé?</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Se me chama Jephthé, é porque tenho uma filha que estremeço.</p> +<span class="pagenum">[56]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não é consequencia.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Então qual é a consequencia?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Eil-o.</p> + +<div class="poesia"> +Mas Deus sabe porque o conto é memoravel!<br> +</div> + +<p>Conhece o seguimento?</p> + +<div class="poesia"> +Um dia aconteceu... o que era mais provavel.<br> +</div> + +<p>Para o final recorde-se da primeira parte d'estas trovas, porque +eis quem me obriga a terminar.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Entram tres ou quatro ACTORES</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(continuando)</span></h5> + +<p>Bemvindos todos, bemvindos sejam. Estou encantado de te +ver de boa saude, bemvindos sejam, amigos. Ah, meu amigo, +que mudança! já com barba! Quererás tu fazer-me sombra em +Dinamarca? Ah eis-vos tambem aqui, minha menina! Por nosso +senhor, depois que vos vi, subistes apenas um degrau para o +céu. Deus queira que a vossa voz, moeda de liga mutavel, não +se deprecie de mais com o tempo. Senhores, para mim são todos +bemvindos; mas vamos direitos ao assumpto, como os falcoeiros +francezes, que largam o falcão á primeira peça de caça +que se apresenta, mostrem-me a sua pericia; vamos, um trecho +bem pathetico.</p> + +<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5> + +<p>Que trecho preferis, senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ouvi-te um dia declamar um trecho de uma peça nunca +representada em scena, ou quando muito uma unica vez, porque, +se bem me lembro, a peça não agradou a todos; era <i>caviar</i> +para o geral do publico: mas, segundo a minha opinião e +das pessoas que n'este assumpto têem voz mais auctorisada do +que a minha, era uma peça excellente, bem conduzida e escripta +com tanta decencia como arte. Pelo que me lembro, diziam +que os versos não eram bastante picantes para compensar a +<span class="pagenum">[57]</span> +insipidez da acção, seu estylo na verdade nada tinha de affectado, +mas que quanto ao resto a peça, escripta com tanta +simplicidade como methodo, era natural, agradavel, e sem +pretensão. Havia sobretudo um trecho que me agradou, era, +na falla de Eneas a Dido, o ponto em que lhe refere a morte +de Priamo. Se ainda te recordas, começa n'esta phrase, espera, +deixa-me ver se me lembro.</p> + +<div class="poesia"> +Pyrrho, Pyrrho feroz como o tigre da Hyreania<br> +</div> + +<p>Não é isso—começa por Pyrrho.</p> + +<div class="poesia"> +Este ouriçado Pyrrho havia uma armadura<br> +Que, bem como a alma, tinha a côr da noite escura<br> +Quando elle era a dormir no cavallo sinistro.<br> +Mensageiro do mal, de Belzebut ministro,<br> +No corpo traz agora, em rubros caracteres,<br> +Mais sinistro brazão; da fronte aos pés o cora<br> +O sangue d'anciãos, d'infantes, de mulheres,<br> +E por mil bôcas, mata a sêde que o devora<br> +No sangue recosido aos raios d'essa chamma<br> +Que Troia, em fogo ardendo, em torno a si derrama.<br> +Tisnado pelo fogo e pela raiva ardente<br> +Após Priamo corre...<br> +</div> + +<p>Continúa tu agora.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Boa declamação na verdade, com as medidas e intonações +proprias.</p> + +<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5> + +<div class="poesia"> +<span style="margin-left: 10em;"> O velho, já cansado,</span><br> +Mal vibra um frouxo golpe; aquella espada, outr'ora<br> +Como o raio veloz, lá onde cae descansa,<br> +Indocil á vontade, e á mão rebelde agora,<br> +Oh lucta desigual! lucta sem esperança,<br> +Pyrrho de raiva acceso, investe em frente e ao lado!<br> +E, só do gladio ao sôpro eil-o no chão prostrado<br> +O guerreiro senil! Então, Troia abatida<br> +Parece haver sentido, os golpes derradeiros:<br> +Ao ver prostrado o rei exhaure-se-lhe a vida,<br> +Desabam sobre a base em chammas os outeiros,<br> +E o som cavo e profundo a Pyrrho fere o ouvido.<br> +Eis de repente o gladio, a grande altura erguido,<br> +Já prestes a immolar a fronte alva, nevada,<br> +Do venerando rei, detem-se lá na altura.<br> +E Pyrrho assim parece um tyranno em pintura,<br> +Suspenso entre a vontade e a obra começada!<br> +Mas como, muita vez, pouco antes da procella<br> +Se faz como que ouvir um silencio que gela,<br> +<span class="pagenum">[58]</span> +Pára a nuvem no céu, o vento não retumba,<br> +E a terra a nossos pés é muda como a tumba;<br> +Subitamente após se vê no fundo baço<br> +Um raio que illumina e rasga o immenso espaço,<br> +Assim de Pyrrho a furia, instantes mal contida,<br> +Irrompe a completar a obra interrompida.<br> +Dos Cyclopes jamais caíram retumbantes<br> +Com remorso menor os malhos flammejantes<br> +Para forjar de Marte a gravida armadura,<br> +Que sobre o nobre velho, ensanguentada, impura,<br> +De Pyrrho a espada ardente!... É finda a horrenda lucta!<br> +Atrás, fortuna, atrás, atrás, vil prostituta!<br> +Vós, deuses immortaes, em synodo sagrado,<br> +Roubae-lhe o audaz poder, quebrae todos os raios<br> +Ás rodas do seu carro, e lá do céu lançae-os<br> +Tão baixo que o demonio os veja sempre ao lado.<br> +</div> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Parece-me demasiado longo.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Para o encurtar manda-se a um barbeiro ao mesmo tempo +que a tua barba. <span class="instruccoes_cena">(Ao actor.)</span> Continúa, peço-to eu; se não lhe +apresentam um bailado grutesco, ou uma scena immoral adormece +logo. Continúa, pois, chegámos a Hecuba.</p> + +<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5> + +<div class="poesia"> +Mas quem visse, oh, quem visse a rainha embuçada!<br> +</div> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>A rainha embuçada.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Optimo, <i>embuçada</i> é bom.</p> + +<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5> + +<div class="poesia"> +Correndo, nus os pés; com lagrimas que chora<br> +As chammas, apagando; a fronte coroada<br> +Por um farrapo vil, a fronte onde ainda agora<br> +Brilhava um diadema; apenas mal vestida<br> +Por coberta alcançada á pressa na fugida;<br> +Quem visse tanto horror, acaso concebêra<br> +Que a fortuna só tem entranhas de uma fera;<br> +Mas se os deuses do Olympo houvessem escutado,<br> +Quando ella vira Pyrrho entregue ao estranho goso<br> +De cortar membro a membro, o corpo ao morto esposo,<br> +De seu peito fremente, o grito amargurado<br> +A não ser que da terra ao céu não suba a magua<br> +Sentiriam como ella os olhos rasos d'agua!<br> +</div> +<span class="pagenum">[59]</span> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Vejam, empallidece, o pranto inunda-lhe os olhos. Basta, +peço-to.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Está bem, o resto m'o recitarás n'outra occasião; <span class="instruccoes_cena">(a Polonio)</span> +queira prover que estes actores sejam bem tratados, percebeu? +que nada lhes falte, porque são a chronica resumida e viva da +epocha. Mais lhe valeria, Polonio, um mau epitaphio depois da +sua morte, do que o seu vituperio em vida.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Tratal-os-hei segundo os seus merecimentos.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Melhor, meu caro, melhor; se se tratasse cada um segundo +os seus merecimentos, de poucos se faria caso. Trate-os como +o deve á jerarchia e á sua propria dignidade. Quantos menos +titulos tiverem á sua benevolencia, mais se deve esmerar no +seu tratamento. Agora póde-se retirar com elles.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Venham, senhores.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Sigam-o, meus amigos, ámanhã teremos a representação, +<span class="instruccoes_cena">(Polonio sáe com os actores, menos um a quem Hamlet faz signal que fique.)</span></p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(continuando)</span></h5> + +<p>Dize-me, meu caro amigo, poderias representar a morte de +Gonzaga?</p> + +<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5> + +<p>Com mil vontades, senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Então ámanhã. Dize-me mais, poderias tu aprender de cór, +sendo preciso, doze ou dezeseis linhas que eu desejava intercalar +na peça? pódes, não é verdade?</p> + +<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5> + +<p>Posso perfeitamente, meu senhor.</p> +<span class="pagenum">[60]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Fica pois ajustado, segue aquelle senhor, e só te peço que +não zombes d'elle. <span class="instruccoes_cena">(O actor sáe.)</span></p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(a Rosencrantz e Guildenstern)</span></h5> + +<p>Meus bons amigos, até á noite, estimei vel-os em Elsenor.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Meu senhor. <span class="instruccoes_cena">(Sáe com Guildenstern.)</span></p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Finalmente estou só. Que miseravel eu sou! Pois não será +monstruoso que este actor, n'uma ficção, na expressão de uma +dor simulada, podesse elevar a sua alma, identificando-se com +a sua parte, exaltando-se a ponto de empallidecer, de lhe borbulhar +o pranto nos olhos, de se lhe pintar o desespero nas +feições, entrecortada está a sua voz, e o seu todo faz uma verdade, +de que não é senão uma situação fingida! E tudo, por +quem? por Hecuba; que é Hecuba para elle, ou elle para Hecuba, +para que a sua memoria lhe arranque lagrimas tão sentidas? +Que faria elle no meu logar, se tivesse tantos motivos +de dor, quantos eu tenho. Inundava de pranto a scena, aterrava +os espectadores pela sua expressão terrivel, fulminava o +culpado, atemorisava o innocente; attonitas ficavam as almas +simples, e a commoção aos sentidos da vista e do ouvido seria +geral. E eu, alma tibia, intelligencia confusa, fico n'uma estupida +inacção, indifferente á minha propria causa, e nada acho +que dizer, nada, mesmo nada a favor de um rei que perdeu a +corôa e a vida pelo mais inaudito attentado! Ah como sou cobarde! +Infame me deveriam chamar, esbofetear-me, arrancar-me +as barbas, lançar-m'as ao rosto com o desprezo; insultar-me +deveriam todos, dizer-me que pela gorja menti, e obrigar-me +a soffrer calado todos os vilipendios possiveis. Quem +quer fazel-o. Por vida minha que era justo; é forçoso que eu +seja inoffensivo como uma pomba sem fel, para levantar uma +offensa, para não ter feito pasto dos abutres as entranhas d'esse +miseravel, sanguinario e impudico scelerado. Monstro de perfidia, +juntas ao assassinio o adulterio! Como sou estupido! +É bello na verdade ver-me, a mim, o filho de um rei e pae +assassinado, a quem céus e terra instigam á vingança, gastar +a minha indignação em palavras e vãs imprecações, como a +<span class="pagenum">[61]</span> +mais vil e desprezivel prostituta. Que vergonha!! Procuremos +Uma idéa... <span class="instruccoes_cena">(depois de uma pausa prolongada)</span> Eil-a, achei. Ouvi dizer +que criminosos, assistindo a representações dramaticas, de tal +modo se perturbaram vendo a sua culpa em scena, que espontanea +e immediatamente fizeram confissão do seu crime, +porque o assassino embora mudo trahe-se e falla. Quero que +os actores representem, na presença de meu tio, a morte de +meu pae, observarei as suas feições, sondarei as suas impressões; +se se perturbar, sei o que me cumpre fazer. O espirito +que me appareceu talvez seja um demonio, porque póde revestir-se +da fórma de um objecto amado, tem poder sobre as almas +melancholicas, e quem sabe se na minha fraqueza e dor +acha os meios para me perder, condemnando-me para sempre. +Quero ter a certeza completa; o drama em questão será o laço +armado á consciencia do rei. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p> + +<p class="instruccoes_cena">Fim do acto segundo</p> +<span class="pagenum">[63]</span> + + + + +<h2>ACTO TERCEIRO</h2> + + +<h3>SCENA I</h3> + +<h4>Uma sala no castello de Elsenor</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ +e GUILDENSTERN</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Então ainda não poderam, nas suas conversas com elle, descobrir +a causa da desordem da sua intelligencia; d'aquella perigosa +e turbulenta demencia que se apoderou do seu espirito +e lhe rouba o descanso?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Confessa sentir esvaír-se-lhe a rasão; mas não conseguimos +que elle nos revelasse a causa.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Parece pouco disposto a deixar sondar os seus sentimentos. +Na sua loucura não o abandona um resto de sagacidade; conserva-se +na defensiva todas as vezes que tentâmos encaminhal-o +a uma confissão tocante ao seu estado.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Recebeu-os bem ao menos?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Com toda a affabilidade de um homem bem educado.</p> +<span class="pagenum">[64]</span> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Mas evidentemente constrangido.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Perguntando pouco, mas respondendo ás nossas perguntas +com a maior naturalidade.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>E experimentaram algum divertimento para o distrahir?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>O acaso fez-nos encontrar no caminho alguns actores; fallámos-lhe +n'elles, esta nova pareceu agradar-lhe. Estão aqui +no palacio, e creio já terem recebido ordem para representarem +esta noite na sua presença.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>É verdade, e pede a vossas magestades que assistam á representação.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Com o maior prazer; estimo vêl-o assim disposto. Queiram +estimulal-o, senhores, e dirigir a actividade do seu espirito para +estes divertimentos.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Assim o faremos. <span class="instruccoes_cena">(Sáe com Guildenstern.)</span></p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Deixa-nos tambem, querida Gertrudes. Mandámos chamar +secretamente a Hamlet, para como por acaso o pôr na presença +de Ophelia. Seu pae e eu, legitimos espias, collocar-nos-hemos +de maneira que, sem sermos vistos, assistamos á +entrevista e possamos julgar pelas suas palavras, se é um amor +infeliz que assim o faz padecer.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Obedeço retirando-me. Quanto a ti, Ophelia, desejo ardentemente +que os teus encantos sejam a feliz causa da demencia +de Hamlet; porque terei então esperança que as tuas virtudes +o restituirão, a contento de ambos, ao primitivo estado.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Quanto o desejo, senhora.</p> +<span class="pagenum">[65]</span> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Ophelia, passeia aqui n'esta sala; <span class="instruccoes_cena">(ao rei)</span> vamo-nos collocar, +senhor; <span class="instruccoes_cena">(a Ophelia)</span> lê n'este livro; esta leitura simulada servirá +de pretexto á tua solidão. Enganâmo-nos tantas vezes, e quão +frequentemente acontece, com uma capa de santidade e attitude +reservada conseguirmos fazer um santo do proprio demonio!</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Oh é bem verdade; que pungente dor esta observação inflige +á minha consciencia! O rosto da prostituta não é mais +asqueroso debaixo da mascara do seu arrebique, do que o é o +meu crime debaixo do falso verniz do meu discurso. Oh peso +terrivel!</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Hamlet approxima-se, retiremo-nos, senhor. <span class="instruccoes_cena">(O rei e Polonio occultam-se +atrás da cortina.)</span></p> + +<h5>Entra HAMLET</h5> + +<p><i>Ser ou não ser</i>, eis o problema. Uma alma valorosa, deve +ella supportar os golpes pungentes da fortuna adversa, ou armar-se +contra um diluvio de dores, ou pôr-lhes fim, combatendo-as? +<i>Morrer, dormir, mais nada</i>, e dizer que por esse +somno pomos termo aos soffrimentos do coração e ás mil dores +legadas pela natureza á nossa carne mortal; e será esse +o resultado que mais devamos ambicionar? <i>Morrer, dormir, +dormir, sonhar talvez</i>; terrivel perplexidade. Sabemos nós porventura +que sonhos teremos, com o somno da morte, depois de +expulsarmos de nós uma existencia agitada? E não deverei eu +reflectir? É este pensamento que torna tão longa a vida do infeliz! +Quem ousaria supportar os flagellos e ultrages do mundo, +as injurias do oppressor, as affrontas do orgulhoso, as ancias +de um amor desprezado, as lentezas da lei, a insolencia dos +imperantes, e o desprezo que o ignorante inflige ao merito paciente, +quando basta a ponta de um punhal para alcançar o +descanso eterno? Quem se resignaria a supportar gemendo o +peso de uma vida importuna, se não fosse o receio de alguma +cousa alem da morte, esse ignoto paiz, do qual jámais viajante +regressou? Eis o que entibia e perturba a nossa vontade; eis o +que nos faz antes supportar as nossas dores presentes do que +procurar outros males que não conhecemos. Assim, somos cobardes +todos, mas pela consciencia; assim a brilhante côr da +<span class="pagenum">[66]</span> +resolução se transforma pela reflexão em pallida e livida penumbra, +e basta esta consideração para desviar o curso das +emprezas mais importantes, e fazer-lhes perder até o nome de +acção. Mas silencio, vejo a linda Ophelia. Joven beldade, lembra-te +dos meus peccados nas tuas orações.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Como tem vossa alteza passado estes dias ultimos?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Bem, agradeço-te do coração.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Senhor, tenho dadivas e lembranças suas que ha muito lhe +desejava restituir. Permitta-me que lh'as devolva.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Eu! de certo que não, nunca te dei nada.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>O principe sabe perfeitamente que me fez essas dadivas, e +as doces palavras que as acompanharam ainda lhes realçaram +o valor; agora que perderam todo o seu perfume, tome-as, +principe, porque para uma alma nobre, as mais ricas dadivas +perdem o seu valor, no momento em que aquelle que nol-as +fez só nos mostra indifferença. Receba-as, pois, senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ah, ah, és virtuosa.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Meu senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>És bella.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Que diz vossa alteza?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Digo que se és virtuosa e bella, deves evitar toda a communicação +entre a tua virtude e a tua belleza.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Que melhor commercio ha para a belleza que o da virtude?</p> +<span class="pagenum">[67]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>A influencia da belleza será mais prompta em metamorphosear +a virtude em vil cortezã, do que a força da virtude +em transformar a belleza á sua imagem. Antigamente seria +paradoxo, hoje é um facto provado. Amei-te n'outro tempo, é +verdade.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Vossa alteza bem m'o fez acreditar.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Fizeste mal em acreditar. Porque embora a virtude se inocule +na nossa primitiva natureza, sempre nos ficam restos d'ella. +Nunca te amei.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Maior foi o meu engano.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Professa, Ophelia, encerra-te n'um claustro. Para que queres +continuar uma raça de peccadores; quanto a mim julgo-me +ainda assás honesto; e comtudo podia formular contra mim +taes accusações, que melhor teria valido, que minha mãe me +não tivesse dado á luz. Sou orgulhoso, vingativo e ambicioso; +gero no meu cerebro tantas acções más, que o meu pensamento +não basta para as distinguir, nem a minha imaginação para lhes +dar uma fórma, e falta-me o tempo para as executar. Que +vantagem haverá pois que seres como eu se rojem como reptis +entre o céu e a terra? Todos somos infames, não te fies em +nenhum homem; vae, recolhe-te a um claustro. Onde está teu +pae?</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Em casa, meu senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que lhe fechem as portas para impedir que represente de +louco fóra de casa. Adeus.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Deus misericordioso, tende piedade de Hamlet.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Se alguma vez te casares, dar-te-hei como dote esta triste verdade. +Sê tu fria como o gêlo; se fores pura como a neve a calumnia +não te poupará. Entra para um claustro, professa, adeus. +<span class="pagenum">[68]</span> +Mas se absolutamente precisas um marido, então escolhe um +louco, porque os homens assisados sabem em que monstros vós +as mulheres os tornaes. Professa, recolhe-te a um convento, +mas avia-te. Adeus.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Poderes celestes, restitui-lhe a rasão!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Tambem ouvi fallar da vossa loquacidade. Deus deu-vos um +porte e vós o transformaes por vossa culpa. Saltitaes, requebrae-vos; +gestos e affabilidade são artificio, zombaes das creaturas +de Deus, e fazeis passar por ignorancia o que é simples +e pura affectação. Nem quero pensar em vós, mulheres; foi o +que me enlouqueceu. Digo que não teremos mais casamentos, +todos que estão casados viverão, excepto um, os outros ficarão +como estão. Professa, entra para um convento, vae. Adeus. +<span class="instruccoes_cena">(Hamlet sáe.)</span></p> + +<h5>OPHELIA <span class="instruccoes_cena">(só)</span></h5> + +<p>Oh que nobre intelligencia está ali desthronada. A perspicacia +do homem de côrte, a espada do guerreiro, a palavra do +sabio, o futuro d'este reino, o espelho do bom tom, o typo dos +modos nobres, o modelo em que todos fictavam os olhos, tudo +destruido e destruido sem esperança; e eu, a mais afflicta e infeliz +das mulheres, eu que saboreei a inebriante ambrosia dos +seus juramentos de amor, estou condemnada a ver essa potente +e elevada rasão, similhante ao bronze fendido, não dar +senão sons falhos e dissonantes; e tanta belleza e juventude +crestadas pelo sôpro da demencia! Oh infeliz, oh desgraçada, +que vi o que vi, e vejo o que vejo!!!</p> + +<p class="instruccoes_cena">Sáem de trás da cortina o REI e POLONIO</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>O amor! não é a ella que elle dedica a sua affeição; alem +d'isso o seu fallar, aindaque um pouco falto de logica, não +tem cunho de loucura. Ha na sua alma alguma dor secreta. +Receio algum perigo que nos seja fatal. Para prevenir esse resultado, +eis o plano que formei e no qual assentei. Quero que +Hamlet parta sem demora para Inglaterra, para reclamar o tributo +a que esse paiz se nega e a que é obrigado. Talvez que +o mar, a mudança de clima, a vista de objectos novos, lhe restituam +<span class="pagenum">[69]</span> +a rasão, expulsando do seu coração aquella obstinada +preoccupação. Que lhe parece?</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Parece-me acertado. Comtudo persisto na minha idéa, que +um amor desprezado é a causa unica da sua dor. <span class="instruccoes_cena">(A Ophelia)</span> +Não precisas referir-nos o que te disse o sr. Hamlet. Tudo ouvimos. +<span class="instruccoes_cena">(Ao rei)</span> Senhor, faça o que lhe parecer conveniente, mas +se me quer dar ouvidos, diga á rainha, que, depois da representação, +o chame a sós e inste para conhecer d'elle a causa +da sua mágua; porém cumpre que lhe falle severamente: com o +vosso assentimento ouvirei escondido toda a conversação. Se a +rainha não podér penetrar aquelle espirito rebelde a toda a +confidencia, ordene-lhe então a partida, e desterre-o, senhor, +para o logar que a prudencia lhe dictar.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Concordo plenamente comtigo; nos grandes é que a demencia +deve ser mais vigiada. <span class="instruccoes_cena">(Sáem todos.)</span></p> + + +<h3>SCENA II</h3> + +<h4>Uma sala no castello de Elsenor</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entram HAMLET e differentes actores</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(a um dos actores)</span></h5> + +<p>Não esqueças de dizer aquelle trecho, tal qual o declamei +na tua presença; mais que tudo fogo e energia; mas se o recitares +como a maior parte dos actores, mais me valeria ouvir a minha +prosa na bôca de um pregoeiro. Não movas descompassadamente +os braços, acciona moderadamente; no meio mesmo da +torrente, da tempestade, do tufão, da paixão, procura ser comedido. +Nada impressiona mais desfavoravelmente, do que ver +homens robustos reduzirem a pó uma paixão e escorchar os +ouvidos dos assistentes, que, pela maior parte, não merecem senão +uma declamação absurdamente arrebatada e uma acção +desordenada. Açoutados mereciam esses actores, cujo accionado +mais parece renhida batalha, e que mais crueis se fingem +que um Herodes de comedia. Peço-te que evites esses defeitos.</p> +<span class="pagenum">[70]</span> + +<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5> + +<p>Pela minha parte, prometto-lh'o, senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não vás tambem caír no excesso contrario, sirva-te de guia +a tua intelligencia. Accommoda a acção ás palavras, as palavras +á acção, tendo sempre em vista a naturalidade; só é proprio +da scena intelligente, que foi e é o espelho em que se +deve reflectir a natureza, mostrar a virtude tal qual é, a vaidade +sem véu, e cada tempo e cada idade com a sua physionomia +propria e com o cunho de verdade. Se se excede, ou se +fica áquem do fim proposto, poderá excitar-se a hilaridade do +homem ignorante, mas afflige-se o sensato, cujo juizo vale mais +que o suffragio de uma sala inteira. Oh! vi representar e ouvi +elogiar actores, que, Deus me perdôe, nada tinham de christão +na voz, nada de christão, pagão ou mesmo humano no porte, +e que se estorciam e bramavam de tal modo, que sempre os +julguei obra de algum aprendiz da natureza, que, querendo +fabricar homens, errou a vocação, e não tinha produzido senão +uma desgraçada imitação da humanidade.</p> + +<h5>PRIMEIRO ACTOR</h5> + +<p>Espero em Deus, que vossa alteza não nos poderá notar +taes defeitos; entre nós, senhor, estão banidas de todo as exagerações.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Mas que o estejam na verdade; que os bobos não digam +mais do que ao que são obrigados pela sua parte; alguns ha +que introduzem alguma facecia para excitar o riso dos espectadores +ignaros no ponto em que mais attenção se reclama da +parte do publico. É um desacerto, e o bobo que recorre a esses +expedientes, mostra uma pretensão desgraçada. Vão-se +agora preparar. <span class="instruccoes_cena">(Os actores sáem.)</span></p> + +<p class="instruccoes_cena">Entram POLONIO, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(a Polonio)</span></h5> + +<p>Então o rei está decidido á nossa peça?</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Com certeza, e a rainha tambem. Não tardam.</p> +<span class="pagenum">[71]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Diga então aos actores que se aviem. <span class="instruccoes_cena">(Polonio sáe.)</span></p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(continuando, a Rosencrantz e Guildenstern.)</span></h5> + +<p>Querem fazer-me o favor de tambem ir apressar os preparativos.</p> + +<h5>AMBOS</h5> + +<p>Sim, meu senhor. <span class="instruccoes_cena">(Sáem.)</span></p> + +<p class="instruccoes_cena">Entra HORACIO</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ah, és tu, Horacio?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Estou sempre ás suas ordens, meu senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Meu caro Horacio, és a flor dos homens, cujo trato tenho +cultivado.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Meu querido senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não julgues que te lisonjeio; que posso eu esperar de ti, +cujas unicas rendas são a jovialidade e a honestidade. Quem +lisonjeia um pobre? Não, que a lisonja roja-se aos pés da opulencia +estupida, e o servilismo curva o joelho, á espera do comprador. +Escuta, depois que a minha alma pôde livremente +escolher e soube distinguir os homens, marcou-te com o sêllo +da predilecção, porque reconheceu em ti um homem que não +se abate pelos revezes; um homem que acceita com a mesma +indifferença os favores e os rigores da fortuna; felizes os mortaes +em quem o juizo e as paixões têem igual imperio, e não são +um joguete nas mãos da fortuna. Mostrem-me um homem que +não seja escravo das paixões, e terá conquistado, como tu, o +meu coração, e abrir-lhe-hei o santuario da affeição mais íntima. +Basta sobre o assumpto. Deve-se hoje representar na presença +do rei um drama, no qual ha uma scena, que é a historia +da morte de meu pae, cujos pormenores já em tempo te +contei. Quando se approximar a scena, observa meu tio, com +toda a vigilancia que auctorisam as minhas suspeitas; se o +segredo do seu crime se não revelar por alguma palavra, então +<span class="pagenum">[72]</span> +era a apparição obra do demonio, e as minhas imaginações +são mais negras que as lavas e cinzas de um vulcão. Tu +observa-o attentamente, eu não o perderei de vista; depois, +juntando os nossos juizos, concluiremos conforme ao que virmos.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Muito bem, senhor, tão firme estarei no meu posto de observação, +que juro por Deus, que me não escapará um movimento, +uma impressão da sua alma.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Eil-os que chegam para a representação; agora, cumpre-me +ser espectador indifferente. <span class="instruccoes_cena">(Ouve-se a marcha real e clarins.)</span></p> + +<p class="instruccoes_cena">Entram o REI, a RAINHA, POLONIO, OPHELIA, ROSENCRANTZ, +GUILDENSTERN e a CORTE</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Como passa nosso sobrinho Hamlet?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Melhor não póde ser; em verdade passei a viver como os +camaleões, nutro-me só de ar, e alimento-me de promessas, +as iguarias mais finas não me satisfariam melhor.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>A tua resposta é-me inintelligivel; não é de certo a mim que +ella é dirigida.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Pois nem a mim. <span class="instruccoes_cena">(A Polonio.)</span> Não me disse que já tinha representado +uma vez, quando cursava a universidade?</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>É verdade, senhor, e era reputado um habil actor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que parte representou?</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>A de Julio Cesar; assassinaram-me no capitolio; Bruto apunhalava-me.</p> +<span class="pagenum">[73]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que brutalidade apunhalar, e n'aquelle logar, um tão excellente +bezerro. Os actores já estão promptos?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Sim, meu senhor, esperam só as ordens.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Vem, meu Hamlet, sentar-te a meu lado.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não, minha mãe; <span class="instruccoes_cena">(mostrando Ophelia)</span> este metal tem mais força +de attracção.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Que me diz agora, senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ser-me-ha permittido estar a vossos pés, senhora? <span class="instruccoes_cena">(Senta-se +no chão aos pés de Ophelia.)</span></p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Não, meu senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Queria dizer, recostar a cabeça sobre vossos joelhos.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Sim, meu senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Pensaveis talvez que tivesse outra idéa?</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Nada pensava.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>É um pensamento este digno de um coração de donzella.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>O que, senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Nada.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Vejo-o hoje alegre, senhor.</p> +<span class="pagenum">[74]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Quem, eu?</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Sim, vossa alteza.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Sou o seu bobo e nada mais. Cousa alguma ha melhor para +o homem do que a alegria. Repare, veja como minha mãe está +hoje muito alegre, e ainda não ha duas horas que meu pae +morreu.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Vossa alteza engana-se por certo; ha mais de duas vezes +dois mezes.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Tanto tempo!! n'esse caso use o demonio o lucto, eu quero +vestir-me de arminhos. Oh céus, morto ha dois mezes, e ainda +não esquecido, não é então de estranhar que a recordação de +um grande homem dure mais de seis mezes; mas, pela Virgem +Santa, deve então ter edificado igrejas, aliás arriscava-se +a que o esquecessem, como aquelle a quem lavraram este epitaphio:</p> + +<p style="text-align: center;"><i>Aqui jaz esquecido um cavallo de pau.</i></p> + +<p class="instruccoes_cena">Soam os clarins, começa a pantomima</p> + +<p><span class="instruccoes_cena">(Um rei e uma rainha entram em scena, o seu aspecto é de namorados, abraçam-se. +A rainha ajoelha aos pés do rei, mostrando pelos seus gestos que lhe protesta o +mais vivo amor. O rei levanta-a, e inclina a cabeça sobre o seu hombro; depois +deita-se n'um banco coberto de flores. A rainha vendo-o adormecido, sáe. Apparece +um personagem que lhe tira a corôa e a leva aos labios, lança veneno n'um +ouvido do rei, e sáe em seguida. Volta a rainha, acha o rei morto, e dá mil signaes +de desespero. O envenenador seguido por duas ou tres pessoas, chega e +parece lamentar-se com a rainha. O cadaver é levado da scena. O envenenador +requesta a rainha, dá-lhe presentes. Ella mostra a principio repugnancia, mas +acaba por acceitar o amor offerecido. Sáem.)</span></p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Que significa esta scena, senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Nada que seja bom, é um laço armado ao crime.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Esta pantomima indica sem duvida o entrecho da peça?</p> +<span class="pagenum">[75]</span> + +<p class="instruccoes_cena">Entra o PROLOGO</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Vamos sabel-o, os comediantes não podem guardar um segredo, +têem por costume fallar sempre.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Explicará elle o que significa a pantomima?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Sem duvida, não só essa, mas todas as que lhe quizer apresentar, +qualquer que seja a sua especie, e terá a explicação +prompta.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>O principe é mau, deixe-me seguir a peça.</p> + +<h5>O PROLOGO</h5> + +<div class="poesia"> +Pedimos, para nós, toda a vossa indulgencia;<br> +Para a nossa tragedia, attenta paciencia.<br> +</div> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Parece antes divisa de annel do que prologo.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Tão curto, senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Como o amor de uma mulher.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Entram um REI e uma RAINHA</p> + +<h5>O REI DA PEÇA</h5> + +<div class="poesia"> +Trinta vezes de Phebo o carro luminoso<br> +De Tellus e Neptuno, o largo giro ha feito,<br> +E trinta vezes doze a lua, astro saudoso,<br> +De refrangida luz, á terra ha dado o preito,<br> +Desde que as nossas mãos, com mutuo amor se deram,<br> +E as bençãos d'Hymeneu o sacro nó teceram.<br> +</div> + +<h5>A RAINHA DA PEÇA</h5> + +<div class="poesia"> +Possamos lua e sol, ver outras tantas vezes,<br> +Antes que d'este amor se rompa o doce laço;<br> +Mas seguem-se á ventura as maguas, os revezes,<br> +E vejo-vos caído, ha pouco, em tal cansaço,<br> +Tão triste, meu senhor, tão triste e tão mudado,<br> +Que não posso esconder mais tempo o meu cuidado.<br> +<span class="pagenum">[76]</span> +Mas que não se perturbe o vosso animo forte<br> +Porque inquieta eu sou, e ousei pensar na morte.<br> +De affecto e de anciedade igual medida temos,<br> +Ou nullos um e o outro, ou um e o outro extremos.<br> +Se é grande o meu amor, demais senhor o vêdes,<br> +Que a par anda o receio, em minha fronte o lêdes.<br> +Sempre que o amor é grande, as apprehensões mais breves<br> +Transformam-se de prompto em maximos temores;<br> +Quando é grande o receio, os affectos mais leves<br> +Ascendem de repente aos mais grandes amores.<br> +</div> + +<h5>O REI DA PEÇA</h5> + +<div class="poesia"> +Bem cedo é força, amor, que d'este mundo eu parta,<br> +Bem vês, d'esta alma a luz já quasi que se aparta.<br> +Tu viverás sem mim, sob este céu formoso,<br> +Querida, idolatrada e sempre honesta e casta.<br> +Depois, talvez depois, quem sabe? um novo esposo...<br> +Um homem justo e bom...<br> +</div> + +<h5>A RAINHA DA PEÇA</h5> + +<div class="poesia"> +<span style="margin-left: 13em;"> Oh! basta, senhor, basta!</span><br> +Seria um novo amor perfidia negra e infame.<br> +Amaldiçoado seja o dia em que outro eu ame!<br> +Embora justo e bom, segundo companheiro<br> +Não n'o acceita ninguem, sem ter morto o primeiro.<br> +</div> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Isto é absintho, e que absintho!</p> + +<h5>A RAINHA DA PEÇA</h5> + +<div class="poesia"> +Poisque motivo arrasta a viuva ao casamento?<br> +Acaso um novo amor? um nobre sentimento?<br> +Um sordido interesse: e eu cravára no peito<br> +De meu morto senhor a ponta de uma espada,<br> +Cada vez que, olvidando a antiga fé jurada,<br> +Compartisse outro ser commigo o mesmo leito.<br> +</div> + +<h5>O REI DA PEÇA</h5> + +<div class="poesia"> +Creio bem, que pensaes o que dizeis, se creio?!<br> +Mas quanta, oh! quanta vez, se quebra a acção no meio,<br> +Nasce a resolução escrava da memoria,<br> +Producto da violencia, é curta a sua historia.<br> +A fructa emquanto verde em qualquer ramo atura<br> +Mas, sem abalo algum, tomba apenas madura.<br> +Fatalmente olvidando o que a nós nos devemos<br> +Não pagâmos jámais, a divida esquecemos.<br> +O que durante a dor parece a eternidade,<br> +Mal extincta a paixão, cessa de ser vontade.<br> +O jubilo e o martyrio, ainda os mais completos,<br> +Destruindo-se a si, destroem seus decretos.<br> +Onde o prazer mais ri, mais chora a dor pungente;<br> +Entristece a alegria, alegra-se a tristeza,<br> +<span class="pagenum">[77]</span> +Á causa mais subtil, ao mais leve accidente,<br> +E este um dom fatal da vária natureza.<br> +Passâmos pelo mundo, e nada aqui tem dura<br> +Que até o proprio amor muda com a ventura;<br> +Porque é problema ainda occulto aos pensadores<br> +Se dá o amor fortuna, ou se a fortuna amores.<br> +Um principe decáe? somem-se os que os adulam;<br> +Um mendigo se eleva? os amigos pullulam.<br> +Até aqui o amor seguiu sempre a fortuna;<br> +Quem não precisa encontra em toda a parte amigos,<br> +E quem precisa e pede, é lepra que importuna,<br> +Todos transforma e muda em feros inimigos,<br> +Mas para concluir, escuta o corollario:<br> +A vontade e o destino, andam tanto ao contrario<br> +Que o mais leve projecto é sempre letra morta.<br> +Assim crês, não terás jamais outro marido;<br> +Pois abra-me o sepulchro a sua eterna porta<br> +E tudo irá sumir-se em um perpetuo olvido.<br> +</div> + +<h5>A RAINHA DA PEÇA</h5> + +<div class="poesia"> +Negue-me a terra o pão, e a luz o firmamento!<br> +O meu goso maior transforme-se em tormento!<br> +Minha esperança e fé tornem-se em negro inferno!<br> +Seja a fome em prisão o meu futuro eterno!<br> +Não tenha eu, viva ou morta, o mais curto repouso,<br> +Se, viuva uma vez, tomar um outro esposo!<br> +</div> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>E se lhe acontecer violar o juramento?</p> + +<h5>O REI DA PEÇA</h5> + +<div class="poesia"> +Solemne juramento!... Amor, deixa-me agora;<br> +Exhausta sinto a fronte, e bom grado entregára<br> +Os restos d'este dia á paz consoladora<br> +Dos braços de Morpheu. Adeus! Oh! sempre cara. <span class="instruccoes_cena">(Adormece.)</span><br> +</div> + +<h5>A RAINHA DA PEÇA</h5> + +<div class="poesia"> +Que um somno brando e doce embale a tua mente<br> +E a desgraça jamais entre nós dois se assente!... <span class="instruccoes_cena">(Sáe a rainha.)</span><br> +</div> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Senhora, como acha esta peça?</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>A rainha parece-me que faz demasiados protestos.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Mas dada a palavra, não póde faltar.</p> +<span class="pagenum">[78]</span> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Conhece a peça? não contém nada reprehensivel?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Absolutamente nada; tudo quanto contém é só gracejo, até +se envenena por gracejo. É a peça mais inoffensiva que póde +haver.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Que titulo tem?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>O <i>Laço</i>, já se sabe, por metaphora. O assumpto da peça é +um assassinio commettido em Vienna. O rei chama-se Gonzaga, +sua mulher Baptista. Vae ver, um crime horrivel. Mas que +importa a vossa magestade e a mim, que temos a consciencia +pura e que nada temos a receiar! O peior é para aquelles a +quem punge algum espinho, a nós nada nos pesa na consciencia.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Entra LUCIANO</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(continuando)</span></h5> + +<p>É este um chamado Luciano, sobrinho do rei.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Vossa alteza faz o serviço do côro.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Podia até servir de ponto n'uma conversa sua com o seu +amante; o caso era eu ver manobrar os dois titeres.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Sois na verdade mordaz, principe; sois bem mordaz.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>A sua pena seria que eu deixasse de o ser.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>De bem para melhor, de mal para peior.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>É a sorte que a espera na escolha de um marido! Começa, +<span class="pagenum">[79]</span> +assassino. Põe de parte esses horriveis tregeitos, avia-te, começa.</p> + +<div class="poesia"> +<span style="margin-left: 5em;"> Eis o corvo que avança,</span><br> +Chamando em seu grasnar a lugubre vingança.<br> +</div> + +<h5>LUCIANO</h5> + +<div class="poesia"> +O pensamento negro, o braço bem disposto,<br> +A droga preparada, a hora favoravel,<br> +Cumplice a occasião, a ver nem um só rosto.<br> +Mistura infecta e immunda, extracto abominavel<br> +De peçonhenta sarça á meia noite achada,<br> +Tres vezes polluida e tres envenenada<br> +D'Hecate á maldição, possa a tua virtude<br> +Fechar uma existencia, e abrir um ataúde.<br> +</div> + +<p class="instruccoes_cena">(Deita veneno n'um ouvido do rei adormecido.)</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Envenena-o no jardim, para se apoderar da corôa. O nome +do rei é Gonzaga; é uma historia authentica escripta no mais +elegante italiano. Verão como logo o assassino obtem o amor +da mulher de Gonzaga.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>O rei levantou-se.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Quê!! um pequeno clarão apenas, já o assusta?</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Que tem, senhor?</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Cesse a peça.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Tragam luzes. Saiâmos.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Luzes, venham luzes, luzes. <span class="instruccoes_cena">(Todos sáem, excepto Hamlet e Horacio.)</span></p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<div class="poesia"> +Sim! que fuja e que chore o cervo mal ferido,<br> +E o que ao golpe escapou, gose um prazer profundo.<br> +Quando um chora, outro ri. Oh! sempre assim ha sido,<br> +<span style="margin-left: 5em;"> E assim é feito o mundo.</span><br> +</div> + +<p>Se alguma vez a fortuna me maltratar, não bastaria uma +scena de effeito como esta, acrescentando-lhe um chapéu ornado +de pennas, e duas rosas de Provença nos laços dos sapatos, +para que me admittissem n'uma companhia dramatica.</p> +<span class="pagenum">[80]</span> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Talvez o admittissem, mas com meia paga.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ou inteira.</p> + +<div class="poesia"> +Porque sabes, Damon, bem sabes tu que outr'ora<br> +Mandava n'este reino, que vês hoje aviltado,<br> +Qual Jupiter no Olympo, um grande rei... agora<br> +<span style="margin-left: 5em;"> Governa aqui... um chavo.</span><br> +</div> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Foi pena não rimar.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Meu querido Horacio, aposto mil libras esterlinas, em como +a sombra fallou só a verdade. Reparaste?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Em tudo reparei, senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Quando se tratava do envenenamento?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Tudo observei.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ah! ah! ah! quero musica, tanjam as charamelas.</p> + +<div class="poesia"> +Porque, se da comedia o rei não gosta nada,<br> +Sei eu dar a rasão... não gosta, está dada.<br> +</div> + +<p>Venha a musica, quero muita musica. <span class="instruccoes_cena">(Entram Rosencrantz e Guildenstern.)</span></p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Senhor, permitta-me que lhe dê uma palavra.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Mil até, se n'isso fizer gosto.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Senhor... o rei...</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que é?... que me vem dizer d'elle?</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Retirou-se aos seus aposentos, estranhamente indisposto.</p> +<span class="pagenum">[81]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Pelo vinho?</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Não, senhor, mas pela colera.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Mais assisado seria terem chamado um medico. Eu não faria +senão exacerbar a sua colera com a minha presença.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Queira, senhor, ter mais nexo nos seus discursos, e não se +afastar assim tão bruscamente da questão.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Escutal-o-hei tranquillamente. Falle.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>A sua rainha e mãe me envia a vossa alteza.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Bemvindo seja.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Senhor, essa polidez é mal cabida n'esta occasião. Se me +promette responder rasoavelmente, executarei então as ordens +de sua mãe, quando não, retiro-me pedindo desculpa a vossa +alteza.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não posso.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>O que, meu senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Responder rasoavelmente; a minha intelligencia enfermou, +no emtanto dar-lhe-hei uma resposta, ou antes como ordena a +minha mãe, a melhor que podér. Diga-me agora, que pretende +de mim a rainha?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Encarregou-nos de lhe dizer, principe, que o seu comportamento +lhe causou espanto e dor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ah! sou pois um filho tão extraordinario que causo espanto +e dor a minha mãe! Nada mais lhe disse? Fallem.</p> +<span class="pagenum">[82]</span> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Deseja fallar-lhe, alteza, no seu quarto, antes de o principe +se deitar.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Obedecer-lhe-hemos, aindaque fosse dez vezes nossa mãe. +Tem mais alguma cousa a dizer?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Houve tempo em que o principe era meu amigo.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ainda hoje o sou, juro-o por estes dez dedos.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Senhor, qual é a causa da sua dor profunda? É impor-se +um constrangimento inutil, guardar esse segredo para comnosco, +que somos tão seus amigos.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Inquieta-me o meu futuro!</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Como póde isso ser, pois o rei já o escolheu para successor +ao throno de Dinamarca?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>É verdade; mas guardado está o bocado... o proverbio +é antigo.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Entram differentes actores cada um com uma charamela</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ah! chegam as charamelas, dá-me uma. <span class="instruccoes_cena">(Tira a charamela a um +dos actores.)</span> Quer que o acompanhe? então deixe de me perseguir +como o caçador persegue a caça.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Se o meu zêlo, senhor, me faz obstinado, é porque a affeição +me torna importuno.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não o posso comprehender, faz-me favor de tocar n'esta charamela.</p> +<span class="pagenum">[83]</span> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Senhor, eu não sei!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Peço-lhe.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Creia-me, senhor, não posso.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Supplico-lhe.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Se nunca soube tocar tal instrumento!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Pois mais difficil é mentir. Com os quatro dedos e o pollegar +tapam-se e destapam-se por sua vez os orificios; sopre, e +verá que encantadora harmonia produz. Vamos.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Mas, senhor, eu não posso nem sequer tirar um som d'este +instrumento; falta-me o talento.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que especie de imbecil me julga então? Sou a seus olhos +um instrumento de que pretende tirar sons, e que parece conhecer +tão bem. Pretende sondar até ao fundo da minha alma, +para descobrir o meu segredo; queria então fazer vibrar todas +as cordas do meu sentimento. D'este pequeno instrumento +<span class="instruccoes_cena">(Mostrando-lhe a charamela)</span> tiram-se sons e notas as mais melodiosas; +e comtudo nas suas mãos não póde fallar. Pela Virgem +santa, sou então mais facil de tocar do que uma flauta? O que +lhe asseguro é que se me julga um instrumento nas suas mãos, +nunca conseguirá fazel-o fallar. Está muito enganado commigo.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Entra POLONIO</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(continuando)</span></h5> + +<p>Guarde-o Deus.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Senhor, a rainha deseja fallar-lhe immediatamente.</p> +<span class="pagenum">[84]</span> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(approximando-se de uma janella)</span></h5> + +<p>Vê acolá aquella nuvem que tem quasi a fórma de um camello?</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Não ha duvida, dir-se-ia effectivamente um camello.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Parece-se mais com uma doninha.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>É verdade! tem o feitio da doninha.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ou de uma baleia?</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Realmente, com o que se parece é com uma baleia.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Agora vou ter com minha mãe, hão de acabar por enlouquecer-me +devéras. Vou já.</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Vou communical-o á rainha. <span class="instruccoes_cena">(Polonio sáe.)</span></p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Já! É facil dizel-o. Deixem-me sós, meus amigos. <span class="instruccoes_cena">(Sáem todos +excepto Hamlet.)</span></p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(só)</span></h5> + +<p>É esta a hora da noite propria dos mysterios da magia, a +hora em que os tumulos se abrem, em que o inferno exhala +sobre a terra o seu sopro contagioso; agora sinto-me capaz de +beber sangue ainda fumegante, e commetter actos que o dia +consternado não poderia presencear sem terror! Prudencia! +Vamos ao quarto de minha mãe. Oh! meu coração, não dispas +o teu vigor; firmeza agora, mas que o coração de Nero nunca +entre em meu peito. Sejamos inflexiveis, mas não filho desnaturado; +seja a minha lingua um punhal, mas minha mão esteja +desarmada; e n'esta occasião sejam a minha bôca e o meu +coração obrigados pela rasão a dissimular. Por mais violentas +que sejam as minhas palavras, dae-me força, meu Deus, para +que sejam sempre comedidas, assim como os meus actos. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p> +<span class="pagenum">[85]</span> + + +<h3>SCENA III</h3> + +<h4>Um quarto no castello de Elsenor</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entram o REI, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Ha n'elle alguma cousa que me desagrada, e creio que haveria +perigo para nós em não vigiar a sua loucura; façam pois +todos os preparativos de viagem. Vou dar as ordens, e quero +que parta sem demora para Inglaterra acompanhado pelos senhores. +O interesse da nossa corôa me veda o expor-me aos +continuos perigos com que a sua demencia me ameaça.</p> + +<h5>GUILDENSTERN</h5> + +<p>Vamo-nos preparar. É um receio santo e salutar o que tem +por objecto assegurar a salvação de innumeras existencias, que +depende da vida de vossa magestade.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>É um dever que toca a cada um na sua esphera individual, +o applicar todas as suas forças e toda a energia para defender +a propria vida contra qualquer ataque; quanto mais obrigado +a fazel-o é aquelle de cuja vida dependem tantas existencias! +Quando um rei morre, não morre só, é um turbilhão que attrahe +tudo quanto encontra no caminho, ou lhe fica proximo: +roda colossal fixada no cume de uma elevada montanha, cujos +gigantescos raios estão carregados de innumeros accessorios, +e cuja quéda os impelle forçosamente a um desastre commum. +Quando o rei padece, padecem todos.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Preparem-se, peço-lh'o, para uma partida immediata, porque +estamos resolvidos a pôr um termo ás causas de inquietação +que demasiado livremente se dão n'este paiz.</p> + +<h5>AMBOS</h5> + +<p>Não nos faremos esperar. <span class="instruccoes_cena">(Sáem.)</span></p> +<span class="pagenum">[86]</span> + +<p class="instruccoes_cena">Entra POLONIO</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>Senhor, Hamlet entrou agora para o quarto de sua mãe; +occultar-me-hei cuidadosamente para ouvir a sua conversa. Asseguro +a vossa magestade que a rainha o vae reprehender severamente. +É conveniente, como el-rei muito bem disse, que +outros ouvidos que não sejam os de mãe, naturalmente propensos +á indulgencia, ouçam o que se disserem mutuamente. +Adeus, meu senhor; virei aos seus quartos antes que vossa +magestade se recolha, e o rei será sabedor de tudo quanto se +passou.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Obrigado, Polonio. <span class="instruccoes_cena">(Polonio sáe.)</span></p> + +<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(só)</span></h5> + +<p>O meu crime já não tem perdão no céu, está marcado pelo +estigma da maldição divina, como o foi o primeiro fratricida. +Apesar de todos os meus desejos, não posso orar; pareço um +homem que duas occupações reclamam, e que, não sabendo +por qual optar, não escolhe nenhuma. Poisque, quando sobre +esta mão maldita se formasse uma crosta de sangue mais espessa +que a propria mão, não teria o céu bastante misericordia +para que a onda da sua graça a purificasse e a tornasse branca +como a neve? Para que serve a bondade divina, senão para remir +as nossas culpas? De que vale a oração, se não tem a dupla +virtude de prevenir a nossa quéda, ou obter o perdão depois +d'ella? Dirijâmos as nossas supplicas ao céu, já que não +podemos evitar o crime consummado. Mas, infeliz, como hei de +orar? Perdoae-me, Senhor, o meu crime nefando. Não posso, +poisque possuo os objectos que me induziram ao assassinio, corôa, +throno e consorte. Poder-se-ha obter o perdão, quando se +conservam os fructos do crime? N'este mundo corrompido, a iniquidade +póde a preço de oiro desviar o curso da justiça, e com +o producto do crime comprar a impunidade; mas o céu é justo, +todo o subterfugio é inutil; ali os nossos actos são justamente +avaliados e os nossos crimes conhecidos. Que devo fazer? Nada +me resta. Tentemos o arrependimento. Grande é a sua efficacia; +mas que póde n'aquelle a quem mesmo o arrepender-se +é vedado? Oh! deploravel condição, oh! consciencia negra +como a morte, oh! minha alma, não tens perdão, e quanto +<span class="pagenum">[87]</span> +mais te esforçares por obtel-o, mais aggravas a tua situação. +Anjos do céu, vinde em meu auxilio, tentae um esforço supremo. +Dobrae-vos, joelhos rebeldes. E tu, meu coração, que as +tuas fibras de aço voltem ao estado primitivo das do recem-nascido. +Ainda me resta esta ultima esperança. <span class="instruccoes_cena">(Retira-se a um +lado da scena, ajoelha e ora.)</span></p> + +<p class="instruccoes_cena">Entra HAMLET</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(vendo o rei)</span></h5> + +<p>A occasião é propicia, está orando. Coragem, Hamlet. Sim, +mas salvar-se-ía a sua alma, e não é essa a minha vingança +desejada. Reflictâmos; um scelerado assassina meu pae, e eu, +seu filho unico, abro as portas do céu a esse infame! Seria uma +recompensa e não um castigo. Assassinou meu pae, entregue +ás preoccupações da carne, quando seus peccados mais vivazes +estavam, como as flores na primavera; e quem sabe, a não +ser o céu, que contas daria ao Creador? as penas eternas, de +certo, não o pouparam. Seria uma vingança immolar este scelerado, +quando a sua alma deve estar pura, quando está preparado +para a sua ultima viagem? Não! Entra na tua bainha, +minha espada, e espera para ferir, golpe mais terrivel e justo. +Quando estiver ebrio ou adormecido, ou encolerisado, ou immerso +nos prazeres de um leito incestuoso, ou absorvido pelo +jogo, ou blasphemando, ou praticando algum acto contrario +á salvação da sua alma, então fere, que as penas do inferno +serão poucas para um tal crime. <span class="instruccoes_cena">(Olhando para o rei.)</span> Prolonga +ainda os teus dias enfermos: adiar não é desistir. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Sobem as minhas palavras, o pensamento não, e as palavras +sem o pensamento não chegam ao céu. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p> + + +<h3>SCENA IV</h3> + +<h4>Um quarto no castello</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entram a RAINHA e POLONIO</p> + +<h5>POLONIO</h5> + +<p>O sr. Hamlet não tarda. Reprehenda-o asperamente; diga-lhe +que os seus atrevimentos excedem os limites da paciencia, +<span class="pagenum">[88]</span> +e que vossa magestade já teve que se interpor entre elle e a +colera do rei. Nada mais digo, senhora, peço só que falle com +firmeza.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Fallar-lhe-hei com firmeza, esteja descansado. Afaste-se, +ouço os seus passos. <span class="instruccoes_cena">(Polonio esconde-se.)</span></p> + +<p class="instruccoes_cena">Entra HAMLET</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que me quer, minha mãe?</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Hamlet, offendeste gravemente teu pae.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Minha mãe offendeu gravemente meu pae!</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Como insensato fallas.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>A rainha falla como culpada!</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Que queres tu dizer, Hamlet?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>O que é, senhora?</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Esqueces quem eu sou?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Pela cruz do Redemptor, que não. Rainha é, foi esposa do +irmão de seu marido, e prouvera a Deus que não o fosse, mas +é minha mãe!</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Mandar-te-hei alguem que melhor do que eu te saiba fallar.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Vamos, sente-se, minha mãe. Não se moverá, não saírá +d'aqui emquanto eu não tiver posto diante dos seus olhos um +espelho em que possa ver até ás profundidades da sua alma.</p> +<span class="pagenum">[89]</span> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Que pretendes de mim? queres tu porventura assassinar-me? +Acudam á rainha, acudam!</p> + +<h5>POLONIO <span class="instruccoes_cena">(por detrás do reposteiro)</span></h5> + +<p>O que é! olá, soccorro!</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(desembainhando a espada)</span></h5> + +<p>Que é isso? Um rato? <span class="instruccoes_cena">(Dando-lhe uma estocada.)</span> Aposto um ducado +em como o matei!</p> + +<h5>POLONIO <span class="instruccoes_cena">(atrás do reposteiro)</span></h5> + +<p>Mataram-me, eu morro. <span class="instruccoes_cena">(Cáe para fóra do reposteiro e morre.)</span></p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Que fizeste, infeliz?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ignoro-o; seria o rei? <span class="instruccoes_cena">(Levanta o reposteiro e puxa pelo cadaver de Polonio.)</span></p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Que acto de crueldade e de sangue!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>De sangue; quasi tão reprehensivel, minha mãe, como assassinar +um rei e desposar o irmão!</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Assassinar um rei?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Sim, um rei, foi o que eu disse. <span class="instruccoes_cena">(A Polonio.)</span> Quanto a ti, pobre +diabo, louco, temerario e indiscreto, as nossas contas estão +ajustadas, aprendeste á tua custa o perigo que corre quem se +intromette nos negocios dos outros. <span class="instruccoes_cena">(Á rainha.)</span> Cesse de estorcer-se. +Silencio, sente-se, quero torturar o seu coração, e fal-o-hei, +se ainda possue alguma sensibilidade, e o habito do crime não +a bronzeou a ponto de ser insensivel a toda a especie de emoção.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Que fiz eu, Hamlet, para que me falles n'esse tom ameaçador?</p> +<span class="pagenum">[90]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Uma acção que mancha o rubor e a graça do pudor; que +transforma a virtude em hypocrisia; que arranca á fronte innocente +do amor a sua corôa de rosas, e a substitue por uma +chaga asquerosa; que torna os juramentos do hymeneu tão falsos +como os do jogador! Oh! uma acção que rouba ao corpo +dos contratos a santidade, que é a sua alma, e faz da religião +uma rapsodia de palavras. Indigna-se o céu, contrista-se o +globo solido e compacto, lê-se-lhe nas faces a consternação +como se fosse o ultimo dia do mundo.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Qual é pois a acção que denunciam este ameaçador preludio +e esta expressão fulminante?</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(mostrando dois retratos em pé que ornam as paredes)</span></h5> + +<p>Veja bem esses dois retratos, são as imagens de dois irmãos. +Veja que graça impressa n'estas feições: o cabello annellado +de Apollo; a fronte do proprio Jupiter; o olhar de Marte, onde +se lê a commando e a ameaça; o porte de Mercurio, o mensageiro +celeste, quando apenas pousa o alado pé sobre o cimo +das nuvens; uma tão feliz reunião das fórmas perfeitas, que +cada um dos deuses parecia ter contribuido com o seu quinhão, +como se quizessem mostrar ao mundo o modelo do verdadeiro +homem! Esse era o seu primeiro esposo. Volva agora os olhares +para este lado. Eis o que é o seu segundo esposo! que, similhante +á espiga mangrada, pelo seu contacto causa a morte +a sua irmã a espiga sã. E saberá ver? Como pôde então abandonar +as ferteis e salubres collinas, para se immergir n'este immundo +paul!! Se ainda tem olhos, senhora, não póde imputar +ao amor o seu comportamento; na sua idade já se acalmou a +effervescencia do sangue, e a paixão obedece á rasão. E qual +seria a creatura racional, que ousasse trocar o seu primeiro +marido por este segundo? É sem duvida dotada de sensibilidade, +aliás não seria um ser animado; mas na senhora estão paralysados +todos os sentimentos, porque não ha demencia que não +deixe ao que verga sob o seu peso uma porção bastante de +discernimento, para saber escolher entre objectos tão dissimilhantes. +Que demonio a perturbou a ponto de lhe vendar os +olhos? A vista sem o tacto, o tacto sem o auxilio da vista, o +ouvido sem o uso das mãos e dos olhos, o olfato só por si, +<span class="pagenum">[91]</span> +uma porção mesmo alterada de um verdadeiro sentido, não +podiam ter-se enganado tão estultamente. Oh! vergonha! onde +está o teu rubor? Inferno rebelde, que assim pódes atear a revolta +nos sentidos de uma mulher, ha muito esposa e mãe. Que +admira que, para a ardente juventude, a virtude seja como a +cera, que se derrete á chamma que alimenta; que não seja vergonha +ceder quando nos arrasta a paixão, poisque o proprio +crystal se funde e a rasão prostitue aos desejos os seus vergonhosos +serviços.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Oh! Hamlet, cessa por piedade, obrigas o meu olhar a volver-se +todo para a minha alma, e n'ella descubro máculas tão +negras e tão profundamente impressas, que nada já as póde +lavar.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Viver no suor impuro de um leito infecto, sobre o esterco +da corrupção, revolver-se no lodaçal de um asqueroso amor.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Cala-te, Hamlet, as tuas palavras são outras tantas punhaladas. +Piedade! querido filho!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Um assassino, um scelerado, um miseravel, que não vale a +centesima parte do seu primeiro marido, um rei de comedia, +um ladrão, que empalmou o poder, e que achando a corôa debaixo +de mão, a roubou e a metteu no bolso!</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Hamlet!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Um palhaço!</p> + +<p class="instruccoes_cena">Entra a SOMBRA</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Protegei-me e abrigae-me sob vossas azas, anjos do céu. +<span class="instruccoes_cena">(Á sombra)</span> Que pretendes de mim, sombra querida?</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Infeliz! enlouqueceu.</p> +<span class="pagenum">[92]</span> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(á sombra)</span></h5> + +<p>Vens tu reprehender a tibieza de teu filho, que, deixando +passar o tempo, arrefecer a sua indignação, não se apressou +em cumprir os teus terriveis preceitos? Falla!</p> + +<h5>A SOMBRA</h5> + +<p>Recorda-te que o unico fim d'esta minha apparição é atear +em ti o fogo da resolução. Mas vê, tua mãe está succumbida, +interpõe-te entre ella e os seus remorsos; é nas mais debeis +organisações que mais estragos causa a imaginação. Falla-lhe +tu, Hamlet.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Como se sente, minha mãe?</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Eu é que te devia fazer essa pergunta! Por que está teu +olhar fito no espaço? por que conversas com seres immateriaes? +Teu olhar indefinido revela a lucta da tua alma; como +um soldado acordado em sobresalto; teus cabellos, como se +a vida os animasse, levantam-se e ouriçam-se sobre a tua fronte. +Oh! meu querido filho, apaga a chamma da tua colera, com +as tranquillas e limpidas aguas da paciencia! Mas para onde +olhas tu?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>É elle! Elle! Como está pallido! O seu aspecto, e o motivo +que aqui o traz, commoveriam as proprias pedras. <span class="instruccoes_cena">(Á sombra)</span> +Descrava de mim os teus olhos, receio que me feneça a resolução, +vendo teu triste e commovente olhar; que se transforme +o caracter dos meus actos talvez em lagrimas em vez de +sangue.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Mas, filho, a quem fallas assim?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não vê nada, minha mãe?</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Nada, senão tudo quanto existe n'esta camara.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>E nada ouviu?</p> +<span class="pagenum">[93]</span> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Cousa alguma, a não ser as tuas palavras.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Mas olhe, minha mãe, não vê como elle se afasta, triste e +pensativo? É meu pae, vestido como trajava em sua vida. +Eil-o, transpõe agora mesmo a porta. Saíu. <span class="instruccoes_cena">(A sombra sáe.)</span></p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>É á exaltação da tua imaginação e ao delirio que de ti se +apoderou, que são devidas estas creações phantasticas.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>O delirio! Senhora, apalpe o meu pulso, e conhecerá que +não está menos tranquillo que o seu. Não fallei influenciado +pelo delirio. Interrogue-me; em vez de divagar, repetir-lhe-hei +textualmente as minhas palavras; não estou louco; engana-se, +minha mãe. Por Deus, não se embale, no pensamento +falso, que é o meu delirio e não a sua culpa que me faz fallar! +Seria cicatrizar exteriormente a chaga, que a consciencia nunca +deixaria de augmentar interiormente. Confesse-se ao céu, arrependa-se +do passado, premuna-se para o futuro, e não dê +pasto ao verme do remorso, que acabará por totalmente corroer +o seu coração e obliterar a sua consciencia. Perdoe á +minha virtude, porque n'este mundo sordido e venal a virtude +deve implorar o perdão do vicio e pedir o favor de poder fazer +o bem.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Oh! Hamlet! Dilaceras-me o coração.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Expulse a parte corrompida, e com a outra metade viva +tranquilla e pura. Boa noite; evite meu tio, e se não podér ser +virtuosa, ao menos pareça-o. O habito, esse monstro, que +destroe e neutralisa em nós toda a sensibilidade, esse demonio +do habito, é anjo n'isto, porque consente á virtude e ás +boas acções as suas vestes proprias. Não veja hoje o seu esposo, +tornar-lhe-ha mais facil a abstenção futura; o habito +tudo póde, muda a natureza individual, doma o demonio, e +expulsa-o com o seu maravilhoso poder. Boas noites mais uma +vez! e quando sentir a necessidade da benção divina, então +<span class="pagenum">[94]</span> +pedir-lhe-hei a sua. <span class="instruccoes_cena">(Mostrando Polonio.)</span> Quanto a este homem, arrependo-me +do que fiz; mas obedeci ao céu; assim o quiz tornando-me +instrumento das suas vinganças, punindo-o por mim, +a mim por elle. Sepultem-no, eu responderei pela morte que +lhe dei! Adeus, pois. Cumpre-me ser cruel por humanidade; +o primeiro mal está feito, o maior ainda ha de vir. Uma palavra +ainda.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Que devo fazer?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Nada do que eu lhe disse! Receba as caricias do avinhado +monarcha, preste as suas faces aos seus osculos, ouça-lhes as +palavras de amor; então n'um diluvio de ardentes osculos, entre +as mais lubricas caricias, confesse-lhe, revele-lhe tudo, diga-lhe +que nunca estive louco, que o fingi, faça-lhe essa confidencia. +Qual seria a rainha, bella, sensata e honesta, que hesitasse +em confiar áquelle animal immundo e repellente, asqueroso +reptil, tão importantes segredos? Quem guardaria silencio? +Ninguem. Depois, olvidando o bom senso e a discrição, abra +a gaiola e deixe voar as avesinhas, e seguindo o exemplo do +bugio da legenda, por simples experiencia, introduza-se na +gaiola e rompa o pescoço caíndo!</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Acredita, Hamlet, que se as palavras se compozessem de +fôlgo e o fôlgo de vida, eu não teria vida para articular as que +tu me disseste.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Devo partir para Inglaterra; sabe-o sem duvida, minha +mãe?</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Infeliz! Tinha-me esquecido; pois isso está definitivamente +determinado?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ha cartas selladas, e os meus dois companheiros de estudos, +nos quaes me fio tanto como na innocencia dos envenenados +dardos das viboras, são os portadores da ordem! São elles +que me hão de aplanar o caminho, e se encarregarão de me +conduzir ao laço armado pela mais negra traição. Deixemos +caminhar os acontecimentos. Causa devéras prazer ver rebentar +nas mãos do proprio artifice a bomba que para outrem +<span class="pagenum">[95]</span> +preparava. Nada ha, senhora, que nos dê mais gosto do que +combater a traição, contraminando-a pela sagacidade. A morte +de Polonio apressará a minha partida. Levemos o seu cadaver +para a camara vizinha. Boas noites, minha mãe. Este conselheiro +está agora verdadeiramente a sangue frio, discreto e +grave; em vida era dotado de estupida garrulice. Agora basta, +acabemos por uma vez. Boas noites. Adeus, minha mãe. +<span class="instruccoes_cena">(A rainha sáe por um lado, Hamlet pelo outro, arrastando o cadaver de Polonio.)</span></p> + + +<p class="instruccoes_cena">Fim do acto terceiro</p> +<span class="pagenum">[97]</span> + + + + +<h2>ACTO QUARTO</h2> + + +<h3>SCENA I</h3> + +<h4>Um quarto no castello de Elsenor</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entram o REI, a RAINHA, ROSENCRANTZ e GUILDENSTERN</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Esses suspiros, esse difficil arfar do peito, tudo deve ter +uma causa. Queremos conhecel-a e pelos senhores. Onde está +nosso filho?</p> + +<h5>A RAINHA <span class="instruccoes_cena">(a Rosencrantz e Guildenstern)</span></h5> +<p> +Deixem-nos sós um momento. <span class="instruccoes_cena">(Os dois sáem.)</span> <span class="instruccoes_cena">(Ao rei)</span> Ah! senhor, +que noite esta!</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Que ha de novo, Gertrudes; em que estado achaste Hamlet?</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Tão revolta está a sua rasão, como o mar e o vento, quando +entre si luctam, disputando a sua força. N'um dos seus arrebatamentos +do delirio, ouvindo mexer atrás de uma cortina, +exclamou: <i>Um rato, um rato</i>, e desembainhando a espada, +cravou-a no peito d'aquelle excellente ancião.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Oh! triste acontecimento! Igual sorte teria tido se ali me +<span class="pagenum">[98]</span> +achasse; livre, corremos o maior risco, mesmo tu; todos, emfim. +Que rasões daremos para explicar este acto sanguinario? +Taxar-nos-hão de imprevidentes, a responsabilidade toda caírá +sobre nós; dirão que deviamos ter isolado esse insensato, +mas era tão grande a nossa affeição, que não comprehendemos +o que a prudencia nos aconselhava. Obrámos como um +homem atacado de um mal vergonhoso, que para guardar segredo +deixa enraizar-se esse mal e destruir toda a seiva vital. +Onde está Hamlet?</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Pondo em logar seguro o cadaver d'aquelle a quem deu a +morte. No meio mesmo da sua demencia, conserva-se pura e +intacta a sua intelligencia, como um metal precioso encravado +em rocha bruta. Rebenta-lhe o pranto ao lembrar-se da acção +que commetteu.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Saiâmos, Gertrudes. Quando o sol tocar o cume das montanhas, +já Hamlet deverá ter embarcado; logo em seguida partirá +para Inglaterra. Quanto a esta odiosa acção precisâmos +achar na nossa auctoridade e no nosso engenho alguma desculpa +que a releve aos olhos do mundo. Olá, Guildenstern? +<span class="instruccoes_cena">(Entram outra vez Guildenstern e Rosencrantz.)</span></p> + +<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(continuando)</span></h5> + +<p>Meus amigos, procurem pessoas que os ajudem e auxiliem. +Hamlet, na sua demencia, matou Polonio, cujo cadaver levou +para fóra da camara de sua mãe. Tratem de descobrir onde o +occultou, encarrego-os d'esta missão. Nada digam que possa +irritar Hamlet, e levem o corpo do infeliz Polonio para a capella; +peço-lhes só que se aviem. <span class="instruccoes_cena">(Sáem Rosencrantz e Guildenstern.)</span></p> + +<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(continuando)</span></h5> + +<p>Vamos, Gertrudes, convoquemos os nossos mais doutos amigos, +demos-lhe a conhecer o nosso designio e a desgraça acontecida. +Precavendo-nos d'este modo, talvez a calumnia, que +arremessa o seu dardo envenenado de uma extremidade do +mundo á outra, e cujos tiros são tão certeiros, como os do mais +perfeito canhão, poupe o nosso nome, perdendo-se na immensidade +do espaço. Saiâmos d'aqui. Na minha alma não sinto +senão perturbação e terror! <span class="instruccoes_cena">(Sáem.)</span></p> +<span class="pagenum">[99]</span> + + +<h3>SCENA II</h3> + +<h4>Outro quarto no castello</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entra HAMLET</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Duvido que o encontrem.</p> + +<h5>VOZES DE FÓRA</h5> + +<p>Hamlet? senhor Hamlet?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>De vagar. Que rumor é este? Quem ousa chamar Hamlet? +Ah! eil-os que chegam. <span class="instruccoes_cena">(Entram Rosencrantz e Guildenstern.)</span></p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Senhor? que fez vossa alteza do cadaver?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Entreguei-o ao pó de que saíu.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Mas em que logar para o podermos levantar e depositar na +capella?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não pensem em tal.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Que devemos, pois, pensar?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que pouco me importo com a sua cabeça, mas muito com +a minha. Interrogado de mais a mais por uma esponja! Que +resposta lhe póde dar o filho de um rei?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>É a mim que chama esponja?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>A quem havia de ser? sim a ti, que bebes os favores, as +<span class="pagenum">[100]</span> +recompensas e o poder real. Mas, no fim de contas, taes officiaes +prestam ao monarcha relevantes serviços, são para elle +como o fructo que o bugio conserva na bôca para depois o engulir; +quando necessitar do que tem arrecadado, espreme-os +como uma esponja, e ficarão completamente enxutos.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Não comprehendo, senhor!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Estimo muito. As palavras do traficante só tem por domicilio +os ouvidos do tonto.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Diga-nos onde está o cadaver, e siga-nos á presença do rei.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Onde está o rei existe um corpo, mas o rei não está n'esse +corpo. O rei é uma creatura.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Uma creatura, senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Uma creatura que nada vale! Conduzam-me á sua presença. +Vamos jogar as escondidas. <span class="instruccoes_cena">(Sáem todos.)</span></p> + + +<h3>SCENA III</h3> + +<h4>Uma sala no castello</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entra o REI com a sua comitiva</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Mandei chamar Hamlet e procurar o cadaver. Que perigo +deixar livre um tal homem; mas não podemos fazer pesar +sobre elle todo o rigor das leis. A multidão insensata estima-o, +decidindo-se mais pela vista do que pela rasão; n'estas +circumstancias o que devemos pensar é o castigo dos culpados, +nunca o crime só por si. Para prevenir qualquer descontentamento +é forçoso que este precipitado exilio pareça +consequencia de madura reflexão. Para males desesperados +<span class="pagenum">[101]</span> +remedios energicos, ou nenhuns. <span class="instruccoes_cena">(Entra Rosencrantz.)</span> Então que +aconteceu?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Nada podemos saber da sua bôca relativamente ao cadaver.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Onde está Hamlet?</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>No quarto vizinho, esperando debaixo de segura guarda +as ordens de vossa magestade.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Que venha á nossa presença.</p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>Olá, Guildenstern. Conduze Hamlet a este aposento. <span class="instruccoes_cena">(Entram +Hamlet e Guildenstern.)</span></p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Hamlet, onde está Polonio?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>N'um banquete.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>N'um banquete?! onde?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Onde não come, mas é devorado. Uma multidão de vermes +politicos disputa o seu cadaver. O verme é o monarcha dos +comedores. Engordâmos todas as creaturas para nos engordarmos, +e engordâmo-nos para pasto dos vermes. Um rei gordo e +um mendigo magro são duas iguarias differentes, comtudo hão +de ser servidas á mesma mesa. Esta é a verdade.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Infelizmente assim é!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>É possivel que se pesque, com um verme creado em cadaver +real, um peixe, e que se coma depois o peixe que enguliu +o verme.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Que significam as tuas palavras?</p> +<span class="pagenum">[102]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Nada; apenas as transformações pelas quaes póde passar +um rei para penetrar nos intestinos do pobre.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Onde está Polonio?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>No céu. Mande ali o seu mensageiro procural-o, e se não o +achar, procure-o então o rei no sitio opposto. Em todo o caso +se não o acharem até d'aqui a um mez, o olfato o denunciará +junto á escada da galeria.</p> + +<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(á sua comitiva)</span></h5> + +<p>Procurem-o já.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Esperal-os-ha com certeza. <span class="instruccoes_cena">(Sáe a comitiva do rei.)</span></p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Hamlet, no interesse da tua saude, que nos é tão cara, quanto +dolorosa a acção que commetteste, é forçoso que partas com +a maior brevidade; vae, pois, preparar-te. O navio está prompto +e o vento sopra propicio; os teus companheiros esperam-te, +e tudo está disposto para a tua viagem a Inglaterra.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>A Inglaterra?</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Sim, Hamlet.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Está bem.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>O mesmo dirias conhecendo todos os meus projectos.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Descubro um anjo que os vê. Mas partâmos para Inglaterra. +Adeus, minha querida mãe.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>E teu pae que te estremece?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não, minha mãe; pae e mãe são marido e mulher, marido +<span class="pagenum">[103]</span> +e mulher são uma e mesma carne. Assim, pois, adeus, minha +mãe. Vamos para Inglaterra. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p> + +<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(a Rosencrantz e Guildenstern)</span></h5> + +<p>Sigam-o passo a passo, façam-o embarcar promptamente, +não ha tempo que perder. Quero que já esta tarde esteja afastado +d'estes sitios. Vão! Tudo quanto respeita a este negocio foi +já expedido e sellado com as nossas armas. Aviem-se, peço-lh'o. +<span class="instruccoes_cena">(Sáem.)</span> <span class="instruccoes_cena">(Continuando)</span> Rei de Inglaterra, sabes até onde chega +o meu poder; as feridas infligidas pelo ferro dinamarquez +ainda sangram, e teu respeito nos presta livre homenagem. Se, +pois, prezas a minha benevolencia, não receberás friamente as +ordens soberanas contidas nas minhas cartas e que exigem a +morte de Hamlet. Obedece-me, rei de Inglaterra, porque +Hamlet é febre que requeima o meu sangue, e tu é que me +deves curar d'ella. Não terei um dia de prazer e descanso +emquanto não souber a completa execução das minhas ordens, +aconteça o que acontecer. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p> + + +<h3>SCENA IV</h3> + +<h4>Uma planicie na Dinamarca</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Chega FORTIMBRAZ á frente das suas tropas</p> + +<h5>FORTIMBRAZ <span class="instruccoes_cena">(a um dos seus officiaes)</span></h5> + +<p>Capitão, saúde da minha parte o rei de Dinamarca e diga-lhe, +que, em conformidade com a sua promessa, Fortimbraz +lhe pede livre passagem pelo seu territorio; sabe o ponto em +que nos devemos encontrar. Se sua magestade desejar fallar-me, +irei prestar-lhe as minhas homenagens. Diga-lh'o da minha +parte.</p> + +<h5>O OFFICIAL</h5> + +<p>As suas ordens serão cumpridas, meu senhor!</p> + +<h5>FORTIMBRAZ <span class="instruccoes_cena">(ás suas tropas)</span></h5> + +<p>Avancemos em attitude pacifica. <span class="instruccoes_cena">(Fortimbraz e as suas tropas afastam-se. +O official fica.)</span></p> +<span class="pagenum">[104]</span> + +<p class="instruccoes_cena">Chegam HAMLET, ROSENCRANTZ, GUILDENSTERN e mais pessoas</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(ao official)</span></h5> + +<p>Que tropas são essas, meu amigo?</p> + +<h5>O OFFICIAL</h5> + +<p>É o exercito norueguez, senhor!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Qual é o seu destino?</p> + +<h5>O OFFICIAL</h5> + +<p>Um ponto do território da Polonia.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Quem o commanda?</p> + +<h5>O OFFICIAL</h5> + +<p>Fortimbraz, sobrinho do rei de Noruega.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>É contra a Polonia toda, ou só contra um ponto determinado +da fronteira que marcham?</p> + +<h5>O OFFICIAL</h5> + +<p>Se quer que lhe diga a verdade, marchâmos contra uma +parte da Polonia, cuja conquista será para nós gloria, sem +proveito algum. Estou certo que a sua renda não vale cinco +ducados, e se se vendesse ninguem daria mais.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Se assim é, os polacos não devem offerecer resistencia?</p> + +<h5>O OFFICIAL</h5> + +<p>Pelo contrario, até já o guarneceram.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Duas mil almas e vinte mil ducados chegarão apenas para +tão futil empreza; é um d'estes abcessos que resultam de uma +demasiada e prolongada prosperidade que rebenta internamente, +sem que nada indique exteriormente a sua acção mortal. +Obrigado, amigo.</p> +<span class="pagenum">[105]</span> + +<h5>O OFFICIAL</h5> + +<p>Deus seja comvosco, senhor. <span class="instruccoes_cena">(Afasta-se.)</span></p> + +<h5>ROSENCRANTZ</h5> + +<p>O principe quer que continuemos o nosso caminho?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Póde ir indo, em breve o alcançarei. <span class="instruccoes_cena">(Sáem Rosencrantz e Guildenstern.)</span> +<span class="instruccoes_cena">(Continuando.)</span> Como sempre tudo me accusa e me excita +á tardia vingança. O que é o homem, se o seu primeiro bem, +o maior negocio da sua vida, consiste em comer e dormir! É um +animo brutal, nada mais. Seguramente, que aquelle que nos +dotou com essa vasta comprehensão, capaz de abraçar o passado +e o futuro, não nos deu essa intelligencia, esse admiravel +raciocinio, para que ficassemos ociosos e sem emprego. +Quer seja estulto esquecimento, quer cobarde escrupulo, medito +demasiado na acção que tenho que commetter, pensamento +composto de uma quarta parte de siso e tres quartas partes de +cobardia. Como me espanto a mim mesmo quando repito: <i>Eis +o que devo fazer</i>, já que me sobram os motivos, tenha eu ao +menos vontade, força e energia para o executar. Incitam-me os +mais irrecusaveis exemplos; testemunho este numeroso exercito, +capitaneado pelo seu joven principe, cujo genio intrepido, +soprado por uma ambição divina, affronta, rindo, as eventualidades +de um porvir invisivel, expondo uma vida mortal e incerta, +a tudo quanto podem ousar a fortuna, a morte e os perigos, +e tudo por nada, por uma bagatella. A verdadeira grandeza +consiste, não só em commover-se com grandes e poderosas +rasões, mas tambem em achar n'uma bagatella rasões de conflicto, +cuja verdadeira causa é o pundonor. Que posição pois a minha, +eu que tenho um pae assassinado, uma mãe deshonrada; +eu que tenho tantos motivos de colera e que tudo deixo adormecer, +emquanto que para minha vergonha vejo vinte mil +homens, por uma louca esperança de gloria exporem-se á morte, +caminharem para o tumulo, como caminhariam para o leito; +irem combater para conquistar um quinhão de terra insufficiente +para caberem n'elle, e cujo terreno seria uma sepultura +acanhada para os mortos. Ah! quanto se revelam sanguinarios +os meus pensamentos, ou então nada. <span class="instruccoes_cena">(Afasta-se.)</span></p> +<span class="pagenum">[106]</span> + + +<h3>SCENA V</h3> + +<h4>Uma sala no castello de Elsenor</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entram HORACIO e a RAINHA</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Não lhe quero fallar.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Pede-o encarecidamente. Verdade é que ella perdeu a rasão; +o seu estado é digno de compaixão.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>O que pretende ella?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Falla sempre no pae, pretende terem-lhe dito que n'este +mundo se commettem bem más acções, suspira, bate no peito, +exaspera-se sem motivo. Profere palavras equivocas e sem sentido. +Nada diz, comtudo quem ao ouvil-a não teria vontade +de a comprehender. Aquelles que a ouvem procuram adivinhar +o sentido, e preenchendo as lacunas, tentam completar o sentido +das suas fallas. Vendo os movimentos que faz, acompanhando +as palavras, todos lhe suppõem um pensamento, um +sentido, e provavelmente tem-no, mas de certo bem sinistro.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>É conveniente fallar-lhe, porque poderia impressionar malevola +e perigosamente os espiritos. Que venha. <span class="instruccoes_cena">(Horacio sáe.)</span> <span class="instruccoes_cena">(Continuando)</span> +Ah! minha alma enferma! Será uma condição do crime, +que a menor bagatella pareça sempre a precursora de alguma +grande calamidade? Tal é a desconfiança em uma consciencia +culpada, que se trahe a si mesma com o receio de se +trahir.</p> + +<p class="instruccoes_cena">HORACIO entra com OPHELIA</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Onde está a bella rainha de Dinamarca?</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Ophelia?</p> +<span class="pagenum">[107]</span> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<div class="poesia"> +Como hei de eu conhecer o bem amado<br> +<span style="margin-left: 5em;"> Por entre a multidão?</span><br> +Pelo chapéu de conchas enfeitado<br> +<span style="margin-left: 5em;"> E pelo seu bordão.</span><br> +</div> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Infeliz Ophelia! Que significam esses versos?</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Pergunta-mo? Escute então...</p> + +<div class="poesia"> +Levaram-no bem morto ao cemiterio!<br> +<span style="margin-left: 5em;"> O que tu foste e és!...</span><br> +Sob a fronte senil myrto funereo,<br> +<span style="margin-left: 5em;"> E fria pedra aos pés!</span><br> +</div> + +<p>Ai de mim! <span class="instruccoes_cena">(Chora.)</span></p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Ophelia, querida Ophelia?</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Ouça mais, peço-lh'o...</p> + +<div class="poesia"> +Branca de neve a frigida mortalha...<br> +</div> + +<p class="instruccoes_cena">Entra o REI</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Veja, senhor!</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<div class="poesia"> +<span style="margin-left: 5em;"> É como um prado em flor</span><br> +Baixou á campa a fronte e não a orvalha<br> +<span style="margin-left: 5em;"> Com lagrimas o amor!!</span><br> +</div> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Como está bella, Ophelia?</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Bem, louvado Deus, dizem que a coruja fôra outr'ora filha +de um padeiro. Meu Deus, nós sabemos o que somos, mas +nunca o que poderemos vir a ser. Que Deus abençôe a sua +mesa.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Recorda-se do pae?</p> +<span class="pagenum">[108]</span> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Não fallemos mais n'isso, mas se me perguntam o que significa, +dir-lhes-hei o que é. Respondam.</p> + +<div class="poesia"> +São Valentim! dizes-me a minha sina?<br> +<span style="margin-left: 5em;"> A pé já todos são.</span><br> +Queres que eu seja a tua Valentina?<br> +<span style="margin-left: 5em;"> Sou virgem, sim ou não?</span><br> +Ergueu-se elle e vestiu-se; mansamente<br> +<span style="margin-left: 5em;"> Do quarto a porta abriu;</span><br> +E virgem ella entrou... mas tão sómente<br> +<span style="margin-left: 5em;"> Mulher quando saíu.</span><br> +</div> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Encantadora Ophelia!</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Em verdade vou terminar sem juramento.</p> + +<div class="poesia"> +Por Jesus! pela santa caridade!<br> +<span style="margin-left: 5em;"> Quem vale á infeliz?!</span><br> +Ai! são todos assim na mocidade,<br> +<span style="margin-left: 5em;"> A sorte é quem n'o quiz!</span><br> +Antes da minha quéda prometteste<br> +<span style="margin-left: 5em;"> Conduzir-me ao altar:</span><br> +Por Deus o houvera feito... não quizeste.<br> +<span style="margin-left: 5em;"> Quem te mandou entrar?</span><br> +</div> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Ha quanto tempo é que este infeliz estado se apoderou +d'ella?</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Tudo vae bem! É preciso ter paciencia; não posso reter o +pranto, pensando que está debaixo da terra fria e humida. +Meu irmão ha de sabel-o, obrigada pelo conselho. Chegue a +minha carruagem. Boa noite, minhas senhoras, boa noite, +bellas senhoras, Adeus, boas noites! <span class="instruccoes_cena">(Sáe correndo.)</span></p> + +<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(a Horacio)</span></h5> + +<p>Siga-a, não a perca de vista, vigie-a cautelosamente, peço-lh'o +eu! <span class="instruccoes_cena">(Horacio sáe.)</span> <span class="instruccoes_cena">(Continuando)</span> Oh! é aquelle o veneno de uma +dor profunda, causada pela morte do pae. Ah! Gertrudes, Gertrudes, +quando as dores nos assaltam, nunca é isoladamente, +é como se viessem em tropel. Primeiro a morte do pae, depois +a partida de Hamlet, que tão violentamente decretou o proprio +exilio; o povo alvoroçado e descontente, commenta malevola e +<span class="pagenum">[109]</span> +insidiosamente a morte de Polonio, e nós obrámos pouco assisadamente +ordenando o prompto enterro; a infeliz Ophelia, inconsciente +do seu estado, está privada da rasão, sem a qual +somos simples estatuas, creaturas brutas. Para cumulo de desgraça +esta vale todas as outras, seu irmão voltou secretamente +de França, embrenha-se no labyrintho de noticias, e mantem-se +occulto. Não deixará por certo de haver bôcas malevolas, +que por occasião da morte de seu pae, envenenem seus ouvidos +com insinuações perfidas, e a calumnia, na carencia de outro +assumpto, não nos poupará com os seus dardos envenenados +e mortiferos. Ah! querida Gertrudes; tudo isto, similhante +a um instrumento de morte, vibra-me mais golpes que os necessarios +para pôr termo á minha vida. <span class="instruccoes_cena">(Ouve-se um grande rumor +fóra da sala.)</span></p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Que rumor é esse?</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Olá, venha alguem. <span class="instruccoes_cena">(Entra um official do palacio.)</span></p> + +<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(continuando)</span></h5> + +<p>Onde estão os meus suissos? Que defendam as portas. Dize-me +já o que ha.</p> + +<h5>O OFFICIAL</h5> + +<p>Fuja, senhor; o oceano, rompendo os diques, não invade +com mais violencia a campina, do que o joven Laerte, á frente +da rebellião, derruba a resistencia dos vossos officiaes. O povo +chama-lhe soberano, e como se fosse no começo do mundo, +sem tradições, nem passado, nem usos, sobre que tudo se +firma, ou as tivesse esquecido, exclama: Elejâmos um rei! +Laerte será o nosso rei? Todos se descobrem e agitam os gorros, +todas as mãos applaudem, todas as vozes repetem: Laerte +será rei. Viva o rei Laerte!</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Com que prazer esta matilha segue uma pista falsa! Enganam-se! +Dinamarquezes ingratos!</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Entraram á força. <span class="instruccoes_cena">(Redobra o rumor. Entra Laerte seguido por muito +povo dinamarquez.)</span></p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Onde está esse rei? Senhores, retirem-se para fóra.</p> +<span class="pagenum">[110]</span> + +<h5>O POVO</h5> + +<p>Nada! Queremos todos entrar.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Façam o que lhes peço.</p> + +<h5>O POVO</h5> + +<p>É justo! é justo! <span class="instruccoes_cena">(Sáem.)</span></p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Obrigado, senhores; guardem as portas. <span class="instruccoes_cena">(Ao rei.)</span> Infame! entrega-me +meu pae.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Socegue, meu caro Laerte.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Se uma só gota do meu sangue não fervesse, essa gota proclamar-me-ía +bastardo, attestaria a deshonra de meu pae, e imprimiria +na casta fronte de minha adorada mãe um estigma +indelevel de infamia.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>O que deu azo, Laerte, a uma rebellião, que assumiu proporções +tão colossaes? Está tranquilla, Gertrudes, por nós nada +receies; graças ao caracter sagrado que protege os reis, a traição +não lança senão um olhar timido e incerto para o resultado +que anhelam os seus desejos, e os effeitos estão longe de +corresponder á sua esperança. Dize-me, Laerte, o motivo d'esta +irritação violenta. Nada receies, Gertrudes. Falla, Laerte.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Onde está meu pae?</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Morreu.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Mas o rei está innocente.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Deixa-me interrogal-o á minha vontade.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Como morreu elle? Não admitto duvidas, dispenso juramentos; +leve o demonio a fé jurada, sepultem-se no abysmo a consciencia +e a fidelidade. Affrontarei a condemnação, declaro-o +<span class="pagenum">[111]</span> +formalmente; renuncio a tudo n'este e no outro mundo, aconteça +o que acontecer, comtanto que vingue de um modo bem +patente a morte de meu pae.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>E quem t'o impede?</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>A minha vontade só e não a do universo inteiro; quanto +aos meios de que disponho, empregal-os-hei de modo que com +recursos limitados tire d'elles o maior proveito.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Comprehendo, querido Laerte, que queiras saber a verdade +toda a respeito da morte de teu estremecido pae. Mas estás tu +resolvido a confundir amigos e inimigos, aquelles que perderam +e aquelles que ganharam com a sua morte?</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Unicamente os inimigos quero punir.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>E queres conhecel-os?</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Quanto aos seus amigos, abro-lhes os braços com alvoroço; +e similhante ao pelicano que rasga o seio, para com o sangue +alimentar os filhos, estou prompto a por elles dar o meu sangue +todo.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Ainda bem; fallas agora como bom filho e homem honrado. +Sou innocente na morte de teu pae, e deploro-a amargamente; +demonstral-o-hei á tua rasão com provas tão claras como a +luz do dia.</p> + +<h5>O POVO <span class="instruccoes_cena">(de fóra)</span></h5> + +<p>Deixem-a entrar.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>O que é? Que rumor é esse? <span class="instruccoes_cena">(Entra Ophelia estranhamente enfeitada +com flores na cabeça e palhas entrançadas nos cabellos.)</span> <span class="instruccoes_cena">(Continuando.)</span> Meu pobre +cerebro! Sequem-se as minhas lagrimas, que, sete vezes +corrosivas, queimam meus olhos e afastam d'elles o sentido +da vista! Por Deus! A tua demencia será paga com usura, +até que o nosso peso faça baixar uma das conchas da balança. +<span class="pagenum">[112]</span> +Rosa de primavera, filha querida, carinhosa irmã, boa Ophelia! +Oh! ceus! pois será possivel que a rasão de uma jovem +mulher seja tão fragil como a vida do ancião! A natureza tem +no seu amor um perfume subtil e raro, cujas emanações se infiltram +no objecto amado.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<div class="poesia"> +Levaram-no em mesquinha padiola<br> +<span style="margin-left: 5em;"> E foram-no enterrar!</span><br> +Mas chove-lhe na tumba, ai! grata esmola<br> +<span style="margin-left: 5em;"> De lagrimas um mar.</span><br> +</div> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Possuisses tu toda a tua rasão, animasses-me tu á vingança, +não conseguias crear em mim uma emoção.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<p>Forçoso é que eu cante e tu tambem:</p> + +<div class="poesia"> +Abaixo! Abaixo!<br> +Lançae-o abaixo!<br> +</div> + +<p>Devias ouvir cantar ás fiadeiras; é a canção do intendente +desleal, que raptou a filha de seu amo.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Estes nadas tudo me dizem.</p> + +<h5>OPHELIA <span class="instruccoes_cena">(a Laerte, dando-lhe uma flor)</span></h5> + +<p>Toma, é rosmaninho a flor da lembrança. Lembra-te de +mim, peço-t'o, meu querido; estes são amores perfeitos, é para +que sempre viva no teu coração de irmão.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Ha sentido no seu delirio. Acaba de distinguir acertadamente +a lembrança e o pensamento.</p> + +<h5>OPHELIA <span class="instruccoes_cena">(ao rei)</span></h5> + +<p>Aqui tendes, senhor, estas symbolicas flores. <span class="instruccoes_cena">(Á rainha)</span> Para +vós, senhora, é arruda e tambem para mim; para vós será a +herva da ventura, para mim a da dor. Eis um malmequer. +Queria dar-vos violetas, mas feneceram todas quando meu pae +morreu; dizem que teve o fim do justo.</p> + +<div class="poesia"> +Porque era o bom Robim minha alegria +</div> +<span class="pagenum">[113]</span> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>A melancolia, a afflicção, a colera, o proprio inferno, +tudo é divino proferido por ella.</p> + +<h5>OPHELIA</h5> + +<div class="poesia"> +<span style="margin-left: 5em;"> E nunca mais virá?!</span><br> +Morreu! morreu! morreu! ai! que agonia!<br> +<span style="margin-left: 5em;"> Não mais! não voltará!</span><br> +Era a barba tão branca como a neve:<br> +<span style="margin-left: 5em;"> Partiu! foi para os céus.</span><br> +Perdida, inutil dor! Breve, até breve,<br> +<span style="margin-left: 5em;"> Tem dó d'elle, meu Deus!...</span> +</div> + +<p>Assim como de todas as almas christãs, assim o peço a Deus, +e elle seja comvosco. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Vêem? Meu Deus!...</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Deixa-me, Laerte, fallar-te no teu infortunio; é um direito +que me pertence e que me não pódes negar sem injustiça. +Reune em particular os teus amigos mais assisados; elles nos +ouçam, e depois julguem entre nós dois. Se culpado me acharem, +directa ou indirectamente, entrego-te, em expiação da +minha culpa, reino, corôa e vida, e tudo quanto possa dizer +meu; no caso contrario, peço-te só paciencia, e de accordo +obraremos para te alcançar uma completa satisfação.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Consinto. As circumstancias da sua morte, o seu funeral +obscuro, em que nem trophéus, nem espada, nem brazão figuraram, +a ausencia de toda a ceremonia funebre no saímento +do seu corpo, são como um aviso do céu, que me clama pela +voz celeste: Indaga como foi.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Faça-se pois um inquerito, e o cutelo do algoz puna o culpado. +Agora peço-te, Laerte, que me sigas. <span class="instruccoes_cena">(Sáem ambos.)</span></p> +<span class="pagenum">[114]</span> + + +<h3>SCENA VI</h3> + +<h4>Um quarto no castello de Elsenor</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entram HORACIO e um CREADO</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Quem é que me pretende fallar?</p> + +<h5>O CREADO</h5> + +<p>Marinheiros... e dizem que têem cartas que lhe são dirigidas.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Que entrem pois; <span class="instruccoes_cena">(o creado sáe)</span> <span class="instruccoes_cena">(só)</span> não percebo de que canto +do mundo se lembraram de me escrever. Só se for Hamlet.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Entram os MARINHEIROS</p> + +<h5>PRIMEIRO MARINHEIRO</h5> + +<p>Guarde-o Deus, senhor!</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Igualmente a ti!</p> + +<h5>PRIMEIRO MARINHEIRO</h5> + +<p>Fal-o-ha, se for da sua vontade. <span class="instruccoes_cena">(Entrega uma carta)</span> Aqui tem +esta carta, é do embaixador que foi mandado a Inglaterra; +o senhor, segundo me asseguraram, chama-se Horacio, não +é verdade? <span class="instruccoes_cena">(Dá-lhe outra carta.)</span></p> + +<h5>HORACIO <span class="instruccoes_cena">(abrindo a carta, lendo)</span></h5> + +<p>«<i>Horacio, quando receberes esta carta, proporciona a estes +homens o fallarem ao rei; têem cartas para lhe entregar. Mal +tinhamos dois dias de viagem, um corsario armado até aos dentes +deu-nos caça; vendo nós que elle era mais veleiro, fizemos +das fraquezas forças, e encetámos combate. Na abordagem, saltei-lhe +na tolda, mas n'aquelle momento afastaram-se os dois +navios, e eu achei-me só e prisioneiro. Comportaram-se commigo +como corsarios humanos, mas sabiam o que faziam, porque +contam pedir avultado resgate. Faze chegar ás mãos do +rei a carta que lhe envio, depois vem ter commigo, com a celeridade +que porias em evitar a morte. Tenho que confiar aos</i> +<span class="pagenum">[115]</span> +<i>teus ouvidos palavras que te emudecerão de espanto, e comtudo +ainda são fracas para a gravidade do assumpto que devem exprimir. +Estes marinheiros te conduzirão ao sitio onde me acho. +Rosencrantz e Guildenstern navegam para a Inglaterra. Tenho +muito que te contar a esse respeito. Adeus. Aquelle que sabes +ser teu do coração==Hamlet.</i>» Venham, vou facilitar-lhes a +entrega das cartas, depois conduzam-me o mais prompto que +podérem junto d'aquelle que lh'as entregou. <span class="instruccoes_cena">(Sáem todos.)</span></p> + + +<h3>SCENA VII</h3> + +<h4>Outro quarto no castello</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entram o REI e LAERTE</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Devo estar illibado aos teus olhos, e deves ver em mim um +amigo sincero, agora que já deves ter percebido que o assassino +de teu pae tambem queria a minha morte.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Parece-me evidente! Mas diga-me porque, depois de actos +tão graves e criminosos por sua natureza, não perseguiu o auctor, +como era obrigado a fazel-o, por sua dignidade, pela sua +salvação, pela sua prudencia, por tudo emfim?</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Ah! por duas rasões, que provavelmente acharás sem valia, +mas que a meus olhos têem toda a gravidade. A rainha sua +mãe idolatra-o, é a existencia d'ella esse filho; eu por minha +parte não sei se deva considerar isto como virtude ou como +desgraça; mas ella está tão intimamente ligada á minha alma, +qual satellite ao seu planeta, que só por ella e para ella vivo. +O outro motivo que me impede de formular contra elle uma +accusação publica, é a immensa affeição que o povo lhe consagra; +affeição que desculpa todas as suas faltas, e similhante +a essas fontes que transformam em pedra a madeira, converteria +as suas cadeias em aureola de gloria. N'estas circumstancias, +pois, as minhas frechas demasiado tenues para romperem +tão forte vento, em vez de tocarem no alvo, voltando-se, feririam +só o que as despediu.</p> +<span class="pagenum">[116]</span> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Assim perdi meu nobre pae, e vejo minha estremecida irmã +na mais desordenada demencia! Mas se é permittido elogiar +o que já passou, ella excedia em perfeições as creaturas da +sua idade, e não me hei de eu vingar?</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Essa mágua não te perturbe o somno; não me julgues de +um caracter tão pusillanime e estulto, que um perigo, que tanto +me impressionou, seja por mim tratado de bagatella. Brevemente +saberás ainda mais. Eu estremecia o teu pae; nós somos +devéras amigos, agora deves acreditar que...</p> + +<p class="instruccoes_cena">Entra um MENSAGEIRO</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Que queres? que ha de novo?</p> + +<h5>O MENSAGEIRO</h5> + +<p>Senhor, cartas de Hamlet; esta para vossa magestade, est'outra +para a rainha.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>De Hamlet!! quem as trouxe?</p> + +<h5>O MENSAGEIRO</h5> + +<p>Disseram-me que uns marinheiros, eu não os vi. Estas cartas +foram-me entregues por Claudio, que as recebeu do portador.</p> + +<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(pegando na carta)</span></h5> + +<p>Ouvirás, Laerte, o seu conteúdo. <span class="instruccoes_cena">(Ao mensageiro)</span> Retira-te <span class="instruccoes_cena">(o mensageiro +sáe)</span> <span class="instruccoes_cena">(abre a carta e lê)</span>: «<i>Alto e poderoso monarcha, depozeram-me +em territorio vosso, nú; ámanhã solicitarei o comparecer na +vossa presença, e então se me for permittido referir-vos-hei o +que deu causa ao meu estranho e inesperado regresso.==Hamlet</i>». +Que significa isto? voltariam todos, será engano, será tudo +falso?</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Conhece a sua letra?</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>É a letra de Hamlet. <i>Nú</i>, e n'um post-scriptum acrescenta +<i>só</i>. Poderás tu dizer-me o que tudo isto significa?</p> +<span class="pagenum">[117]</span> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Nada sei responder; mas que venha. Sinto renascer a chamma +no meu coração abatido, pensando que lhe poderei dizer +cara a cara: Foste tu o assassino de meu pae.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Se assim é, Laerte, não póde nem poderia ser de outra maneira; +queres tu seguir um meu conselho?</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Sim, comtanto que não me aconselhe a paz.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Pois que faças pazes com o teu coração é que eu quero: +se é verdade que regressou, o que indica que Hamlet recúa +diante da viagem e renuncia a ella, suggerir-lhe-hei uma aventura, +cujo plano está maduro no meu espirito, e em que não poderá +deixar de succumbir, e sem que a sua morte possa ser +attribuida a pessoa alguma intencionalmente; tanto que sua +propria mãe limitar-se-ha a lastimar o occorrido, vendo só uma +fatalidade.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Seguirei gostosamente os seus conselhos, e ainda de melhor +vontade, se podér combinar de modo que eu seja o agente +principal.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Vejo que os nossos desejos se combinam completamente. +Frequentemente, desde as tuas viagens, têem-me gabado por +excederes a todos no exercicio de uma arte. Todas as tuas +qualidades reunidas excitaram em Hamlet menos ciumes do +que esta só; é comtudo talvez a menos importante.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>E qual é essa qualidade?</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Um laço de fitas no chapéu da juventude, mas um enfeite +necessario; porque não lhe fica menos bem um ornamento um +pouco frivolo mesmo, do que convem á idade madura as vestes +encorpadas e serias que lhe impõem a saude e a gravidade. +Ha dois mezes esteve aqui um cavalleiro normando; tenho +visto francezes e combatido com elles, e são devéras habeis, +<span class="pagenum">[118]</span> +mas a habilidade d'esse homem parecia ter o poder da magia. +Parecia arroscado á sella, e guiava o cavallo tão prodigiosamente, +que pareciam um só e o mesmo animal intelligente. +Excedeu tudo quanto se póde imaginar na arte de cavallaria +e volteio, tão perfeita era a execução.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Um cavalleiro normando, disse?</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Um normando.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Então era Lamond; não póde ser outro.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Elle mesmo.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Bem o conheço, é a phenix, a perola da sua patria.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Fallou de ti vantajosamente, fez os maiores elogios da tua +pericia no manejo das armas, sobretudo da espada, declarando +ser impossivel achar outro igual, e jurando que os jogadores +de espada francezes perderam agilidade, posição e golpe +de vista depois que comtigo se mediram. Estes elogios que elle +te dispensava, de tal modo exasperaram o ciume de Hamlet, +que anhelava só pelo teu regresso para comtigo combater, e +transformaram o ciume em furia. Tirando pois partido d'estas +circumstancias...</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Que partido poderemos nós tirar?</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Laerte, amavas tu realmente teu pae, ou não era a tua dor +senão um simulacro, toda exterior e nada interior?</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Porque esta pergunta?</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Longe de mim o pensar que não amavas teu pae; mas a +affeição é um sentimento que se gera em nós, e a experiencia +<span class="pagenum">[119]</span> +de todos os dias nos faz ver que o tempo destempera a sua +vivacidade e o seu ardor. Mesmo na chamma do amor ha ás +vezes uma mancha que a amortece, e cousa alguma se conserva +permanentemente bella, porque o bom, pelo crescimento +degenera em plethora, e parece abafado pela demasiada nutrição. +O que pretendemos fazer, devemos fazel-o na occasião +propria, porque a vontade tambem muda; tantas são as suas +mudanças, quantas as linguas, mãos e outros accessorios que +se cruzam no seu caminho, e então a execução não é mais +que um dever, cujo cumprimento, similhante aos demasiado +frequentes suspiros, nos magôa, alliviando-nos. Mas entremos +francamente na questão. Hamlet regressa. Que estás tu disposto +a fazer, para te mostrares digno filho de teu pae, não com palavras, +mas com obras?</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Assassinal-o-ía mesmo no templo do Senhor.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Effectivamente o assassino não recúa perante o santuario, +quando pretende saciar a vingança. Mas, querido Laerte, queres +seguir o meu conselho? Encerra-te nos teus aposentos. +Hamlet, regressando, saberá da tua estada n'estes logares; +farei com que exaltem na sua presença os teus talentos, e que +encareçam os elogios mais que os francezes o fizeram; por este +meio seguir-se-hão um desafio e apostas sobre a pericia dos +contendores. Elle que está desprevenido e é generoso e de nada +desconfia, não examinará os floretes; de modo que, com alguma +habilidade da tua parte, poderás escolher um florete sem +botão, e por meio de uma bem dirigida estocada fazer-lhe pagar +a morte de teu pae.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Como o rei disse, Laerte o fará; mesmo envenenarei a ponta +do meu florete. Comprei a um empirico uma droga mortal. +Por pouco que a ponta de um punhal esteja n'ella banhada, +por leve que seja o ferimento, não ha balsamo precioso, embora +composto dos mais energicos contravenenos, que possa +salvar da morte inevitavel e rapida o ferido. Assim, prepararei +a ponta do meu florete, para que mesmo leve arranhadura +lhe seja fatal.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Tornaremos ao assumpto, e combinaremos o momento e maneira +<span class="pagenum">[120]</span> +mais facil e favoravel para a sua execução. Se tivesse +que falhar este nosso plano, mais valeria nada tentar. Mas é +necessario que esta primeira combinação se firme n'uma segunda, +que a substitua, no caso da arma se quebrar no primeiro +encontro. Um momento... Vejamos. Faremos apostas importantes +sobre a respectiva pericia de ambos. Quando, no +calor do combate, estiverem afogueados e sedentos, para conseguir +o intento não poupes o teu adversario, ataca-o com vigor. +Hamlet, sem duvida, pedirá uma bebida; ser-lhe-ha então apresentada +uma, de antemão preparada, e uma só gota bastará, se +a tua espada te trahir, para conseguirmos o fim desejado. Mas +silencio! Que rumor é este? <span class="instruccoes_cena">(Entra a rainha.)</span> Que ha de novo, querida +Gertrudes?</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Accumulam-se as desgraças, e repetem-se com assustadora +rapidez. Laerte, tua irmã suicidou-se, afogando-se.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Onde?</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Na margem da vizinha ribeira cresce um salgueiro, cuja +prateada folhagem se reflecte nas aguas crystallinas. Tua irmã +approximou-se d'aquelle sitio, sempre tecendo grinaldas de rainunculos, +ortigas, malmequeres, e d'essas flores a que os nossos +pastores dão um nome bem grosseiro, mas que as nossas +castas donzellas denominam poeticamente <i>dedo da morte</i>. +Quando procurava ornar com as suas innocentes grinaldas as +argenteas frondes do salgueiro, oh! desgraça! descuidosa foi +envolvida na corrente, cercada dos ornatos que lhe serviam +como de corôa virginal. Algum tempo suspensa pelas vestes +sobre a corrente, assimilhava-se á sereia, cantando incoherentes +trechos, inconsciente do proprio risco, como se estivesse no +seu nativo elemento. Mas tudo tem um fim, e em breve, sossobrando +pelo peso das encharcadas vestes, cessou de cantar, e +tornou-se cadaver levado pela corrente.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Oh! desgraçada! afogada!!</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Sim, Laerte!</p> +<span class="pagenum">[121]</span> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Sequem-se as minhas lagrimas; já tiveste agua em demasia, +infeliz Ophelia! Mas porque? Mais força tem a natureza +do que a vontade; todos lhe devemos obediencia. Para que uma +falsa vergonha? Rolem, pois pelas faces lagrimas santas, e arrebatem +na sua corrente a minha ultima fraqueza. Adeus, senhor! +As minhas palavras de fogo tornar-se-íam embravecido +vulcão, se as lagrimas do coração o não apagassem. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Sigâmol-o, Gertrudes. Quanto me custou a serenar a sua +colera! Receio bem que estas novas desgraças lhe despertem +em toda a sua plenitude a sanha da vingança. Sigâmol-o, +pois.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Fim do acto quarto</p> +<span class="pagenum">[123]</span> + + + + +<h2>ACTO QUINTO</h2> + + +<h3>SCENA I</h3> + +<h4>Um cemiterio</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entram DOIS COVEIROS com enxadas</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>Dever-se-ha enterrar em chão sagrado aquelle que voluntariamente +procurou a sua salvação no suicidio?</p> + +<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5> + +<p>Eu cá digo que sim; avia-te em cavar a cova, o magistrado +viu e decidiu que aqui fosse sepultada.</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>Isso não póde ser, a menos que não se afogasse involuntariamente.</p> + +<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5> + +<p>Já está reconhecido e decidido.</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>As probabilidades todas são que pereceu <i>se offendendo</i>. +Ninguem é capaz persuadir do contrario. Vê tu como eu o provo. +Se me afogar voluntariamente existe um acto; ora, um acto +subvide-se em tres ramos: a acção, o cumprimento e a execução; +ergo, afogou-se voluntariamente.</p> + +<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5> + +<p>Assim será, mas escuta-me ao menos.</p> +<span class="pagenum">[124]</span> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>Ouve-me ainda; a agua está aqui, o homem está acolá; +muito bem, o homem vae encontrar a agua e se afoga; forçosamente +morre por seu motu proprio; nota isto bem. Mas se, +pelo contrario, é a agua que vem encontrar o homem, e elle +se afoga, então já não é elle que procura a morte; ergo, aquelle +que não é culpado na sua morte, não poz termo voluntariamente +á vida.</p> + +<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5> + +<p>Mas será lei?</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>É a lei que preside ao inquerito do magistrado.</p> + +<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5> + +<p>Queres que te diga o que penso? Se a defunta não fosse +senhora de qualidade, de certo não a enterravam em chão sagrado.</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>É bem verdade o que dizes; é triste que as pessoas de qualidade +tenham, a mais dos outros christãos seus iguaes, o direito +de se afogarem e de se enforcarem. Vamos sempre cavando! +Não ha nobreza mais antiga que a dos jardineiros, lavradores +e coveiros; seguem a profissão de Adão!</p> + +<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5> + +<p>Pois Adão era nobre?</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>O primeiro que usou armas!</p> + +<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5> + +<p>Deixa-te d'isso, não consta que as tivesse!</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>Sempre és um pagão! como comprehendes tu então a escriptura +sagrada? A escriptura diz que Adão trabalhava o solo; +como poderia elle trabalhar sem pá ou enxada? Essas eram +as suas armas. Vou fazer-te outra pergunta, se não me responderes +com acerto, não és mais que um....</p> + +<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5> + +<p>Asno! continúa.</p> +<span class="pagenum">[125]</span> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>Quem é que construiu mais solidamente que o pedreiro, +carpinteiro e constructor de navios?</p> + +<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5> + +<p>O constructor do cadafalso, porque sobrevive a innumeros +hospedes.</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>Boa resposta, palavra de honra. Cadafalso é bem achado; +mas para quem se fez o cadafalso? para os que fazem o mal; +ora, tu fizeste mal em dizer que o cadafalso é mais solido que +a igreja, logo merecias o cadafalso. Vamos, procura e responde.</p> + +<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5> + +<p>Agora eu! Quem é que construiu mais solidamente do que +o pedreiro, carpinteiro e constructor de navios?</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>Dize tu primeiro, eu cá já sei.</p> + +<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5> + +<p>Tambem eu.</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>Vejamos.</p> + +<h5>SEGUNDO COVEIRO</h5> + +<p>Nada, não atino.</p> + +<p class="instruccoes_cena">HAMLET e HORACIO apparecem ao fundo</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>Basta de tratos ao teu cerebro; escusas de pensar mais, ficas +sempre na mesma. Quando alguma vez te fizerem essa pergunta, +responde: «É o coveiro; as moradas que construe duram +até ao dia de juizo». Agora vae a casa de Vaughan e +traze-me um copo de licor.<span class="instruccoes_cena">(O segundo coveiro sáe, cantando.)</span></p> + +<div class="poesia"> +Quando eu era mancebo e quando amava<br> +<span style="margin-left: 5em;"> Tudo era para mim rapido goso,</span><br> +Sómente noite e dia andava ancioso<br> +<span style="margin-left: 5em;"> Por o tempo matar que me matava.</span> +</div> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Pois este homem não terá consciencia do que está fazendo, +cantando assim, quando cava uma sepultura?</p> +<span class="pagenum">[126]</span> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>O habito tudo póde.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>E verdade, a mão pouco afeita ao trabalho tem o tacto mais +delicado!</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO <span class="instruccoes_cena">(cantando)</span></h5> + +<div class="poesia"> +Mas a idade chegou, passo furtivo<br> +Nas gastadoras garras me ha tomado,<br> +E assim, mau grado meu, me ha condemnado<br> +A viver entre a morte, morto-vivo. <span class="instruccoes_cena">(Desenterra uma caveira.)</span> +</div> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(apontando para uma caveira)</span></h5> + +<p>Houve tempo em que esta cabeça tinha uma lingua e cantava; +agora este rustico fal-a rolar pelo solo, como se fosse a +mandibula de Caim, o primeiro homicida. O craneo que este +imbecil trata com tão pouco respeito, era talvez de algum profundo +politico, que se julgava até capaz de impor a sua opinião +ao proprio Deus, não é verdade?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Tudo póde ser, senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ou talvez de algum cortezão cujo prestimo unico fosse repetir: +«Deus seja comvosco, como está, meu senhor?» É talvez +o craneo do sr. fulano, que gabava o cavallo do sr. cicrano, +com a idéa que este lh'o désse, não é verdade, Horacio?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Sim, meu senhor!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Deve assim ser! Agora pertence aos vermes; não tem nem +pelle, nem sangue, nem carne, e este coveiro fende-o com a +sua enxada. Eis uma estranha revolução, assim a comprehendessemos +bem. Joga-se a bola com esses ossos, como se nada +tivessem custado a formar. Sinto estalar os meus só pensando-o.</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO <span class="instruccoes_cena">(cantando)</span></h5> + +<div class="poesia"> +Uma enxada e uma pá logo em seguida,<br> +Um lençol que amortalha o corpo todo,<br> +Um buraco depois feito no lodo,<br> +Eis ao que se reduz a humana vida. <span class="instruccoes_cena">(Desenterra outra caveira.)</span> +</div> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Eis um outro craneo; quem sabe se não seria de um jurisconsulto. +<span class="pagenum">[127]</span> +Agora acabaram as trapaças, as distincções subtis, +as causas, as auctoridades legaes e as finuras. Em vida, de +certo não consentia sem um processo que este imbecil lhe percutisse +o craneo com a enxada. Porque não lhe intenta agora +uma acção por vias de facto e sevicias? Quem sabe, talvez fosse +um nedio comprador de bens immoveis, com os seus direitos, +rendas, privilegios, hypothecas e contratos. Eil-o agora +elle mesmo hypothecado, tem o privilegio commum a todos os +mortaes, de ver a sua cabeça coberta de pó e terra. Pois que! +todas as acquisições tão bem garantidas, não terão outro complemento +senão assegurar-lhe um espaço apenas igual á superficie +de dois contratos de venda? Todos os seus titulos mal +caberiam n'este cofre, e comtudo é hoje a sua unica propriedade. +Ah!</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Unica, senhor!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Horacio, o pergaminho faz-se de pelles de carneiro, não é +verdade?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Tambem de bezerro.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>São pois os carneiros e bezerros que fazem fé em taes titulos. +Vou interrogar este rustico. A quem pertence essa cova?</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>A mim!</p> + +<p class="instruccoes_cena">(Cantando)</p> + +<div class="poesia"> +Um buraco depois feito no lodo,<br> +Eis ao que se reduz a humana vida. +</div> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Effectivamente, creio ser tua, pois que estás dentro d'ella.</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>O senhor está fóra, logo não é sua; mas apesar d'ella não +me ser destinada, é comtudo minha.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Mentes, é para um morto, e não para um vivo.</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>Eis um desmentido prompto e que não admitte replica.</p> +<span class="pagenum">[128]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Para que homem cavas essa cova?</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>Senhor, não é para um homem!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Para que mulher então?</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>Nem tão pouco para uma mulher!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Quem será pois depositado n'esta cova?</p> + +<h5>PRIMEIRO COVEIRO</h5> + +<p>Uma pessoa que foi mulher, hoje é defunta; Deus se compadeça +da sua alma.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que agudeza no seu positivismo! é preciso fallar-lhe com +toda a clareza, para não ser por elle enredado. Por Deus, Horacio, +que noto ha tres annos que o mundo se torna retrogrado, +e o rustico se approxima tanto do cortezão, que quasi se +confundem. Ha quanto tempo és coveiro?</p> + +<h5>O COVEIRO</h5> + +<p>Dei-me a este officio desde o dia em que o defunto rei Hamlet +venceu a Fortimbraz.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Quanto tempo haverá?</p> + +<h5>O COVEIRO</h5> + +<p>Não o sabe? Pois não ha imbecil que lh'o não diga. Foi no +mesmo dia em que nasceu o joven Hamlet, aquelle que enlouqueceu, +e foi mandado para Inglaterra.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>É isso; e porque o mandaram para Inglaterra?</p> + +<h5>O COVEIRO</h5> + +<p>Ora, porque? porque estava louco; talvez lá recupere a rasão, +e se não a recuperar, tambem não se perde muito.</p> +<span class="pagenum">[129]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>E porque?</p> + +<h5>O COVEIRO</h5> + +<p>Não será visto aqui, e lá todos são tão loucos como elle.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Como enlouqueceu elle?</p> + +<h5>O COVEIRO</h5> + +<p>De um modo bem estranho, segundo dizem.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Mas de que modo?</p> + +<h5>O COVEIRO</h5> + +<p>É claro, perdendo a rasão.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>E qual foi o motivo?</p> + +<h5>O COVEIRO</h5> + +<p>Um motivo dinamarquez, um motivo d'este paiz em que sou +coveiro desde a infancia, ha trinta annos.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Dize-me, quanto tempo póde um homem estar enterrado, +antes de apodrecer?</p> + +<h5>O COVEIRO</h5> + +<p>Se não está já podre antes de morrer <span class="instruccoes_cena">(porque temos n'esta +epocha muito corpo gangrenado, que mal supporta a inhumação)</span>, +póde conservar-se de oito a nove annos; um surrador +conserva-se nove annos.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Porque mais tempo que os outros?</p> + +<h5>O COVEIRO</h5> + +<p>O exercicio da sua profissão cortiu-lhe de tal modo a pelle, +que fica impermeavel por muito tempo, e de certo sabe que a +agua é o mais activo destruidor dos cadaveres. Vê esta caveira? +Ficou vinte e tres annos debaixo da terra.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>De quem era?</p> +<span class="pagenum">[130]</span> + +<h5>O COVEIRO</h5> + +<p>De um typo original; ora, quem lhe parece que seria?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Como posso eu sabel-o?</p> + +<h5>O COVEIRO</h5> + +<p>Leve-o o diabo. Lembro-me ainda do dia em que me vasou +sobre a cabeça um frasco de vinho do Rheno. Esta caveira, +senhor, era de Yorick, o bobo do rei.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Este craneo?</p> + +<h5>O COVEIRO</h5> + +<p>Sim, este mesmo.</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(pegando na caveira)</span></h5> + +<p>Dá-m'o, deixa-me vel-o. Pobre Yorick! Conheci-o, Horacio, +era uma mina inexgotavel de ditos engraçados; tinha uma imaginação +viva e fecunda! quantas vezes me levou aos hombros! +agora ao pensal-o annuvia-se-me o coração. Aqui estavam os +seus labios, em que tantos osculos depuz. Onde estão agora +os teus sarcasmos, as tuas replicas, as tuas canções, esses +rasgos de alegria, que promoviam a hilaridade de todos os +convivas? Que! pois ninguem já póde rir com as tuas facecias? +Descarnadas estão as faces. Vae, entra como agora estás, na +alcova de alguma beldade da moda; dize-lhe então que arrebique +e enfeites nada lhe valem, porque um dia será igual a ti. +Fal-a rir, dizendo-lh'o. Dize-me tu, Horacio...</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>O que, meu senhor?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Julgas tu que Alexandre, depois de enterrado, se parecesse +com Yorick?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>De certo!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>E que tivesse tão mau cheiro? Fóra! <span class="instruccoes_cena">(Deita fóra o craneo.)</span></p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Sem duvida alguma, senhor.</p> +<span class="pagenum">[131]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>A que destinos grosseiros é possivel baixarmos, Horacio? +Quem sabe se, proseguindo nas suas successivas transformações, +as cinzas de Alexandre não estão hoje empregadas em +tapar um barril?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Seria entrar n'um exame demasiado minucioso.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não concordo. Podemos seguir seriamente esse exame, e +com probabilidades de obter um resultado. Por exemplo, Alexandre +está morto, Alexandre está sepultado, Alexandre tornou-se +pó; o pó é terra, da terra tira-se argilla, e quem impede +que esta argilla, ultima metamorphose de Alexandre, seja empregada +como batoque n'um barril de cerveja? O imperial Cesar, +morto, tornou-se pó, e serve talvez para vedar uma fenda +e interceptar a passagem do ar; e essa argilla, que espalhava +o terror sobre o universo, vae calafetar um muro para impedir +que o vento passe. Mas, silencio: afastemo-nos, chega o rei: +<span class="instruccoes_cena">(Entram processionalmente padres, levando á mão o caixão de Ophelia; +segue-se Laerte e o cortejo funebre, mais atrás o rei, a rainha e a côrte)</span> e tambem a +rainha! toda a côrte! A quem prestarão os ultimos deveres? +De quem será este funeral incompleto? Tudo denuncia um suicidio. +Deve porém ser pessoa de categoria! Occultemo-nos e +observemos, Horacio. <span class="instruccoes_cena">(Afastam-se um pouco Hamlet e Horacio.)</span></p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Que ceremonias falta cumprir?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Olha, é Laerte, um nobre mancebo.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Ha mais alguma cousa que fazer?</p> + +<h5>PRIMEIRO PADRE</h5> + +<p>Fizemos já para o seu funeral tudo quanto nos era licito fazer; +a sua morte tinha um caracter suspeito, e se ordens superiores +não tivessem imposto silencio aos canones da Igreja, +teria sido sepultada em chão profano, onde teria ficado até que +a acordasse o clarim do juizo final. Em vez de orar por ella, +<span class="pagenum">[132]</span> +teriamos lançado sobre o seu corpo tições, entulho e pedras; +e comtudo coroaram-n'a como virgem, e flores cobriram a +sua campa, e o tanger do bronze sagrado acompanhou-a á +sua ultima morada.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Então nada mais se póde fazer?</p> + +<h5>PRIMEIRO PADRE</h5> + +<p>Mais nada; profanariamos o rito sagrado se entoassemos +um <i>requiem</i>, ou se implorassemos para ella o repouso destinado +ás almas que voaram ao céu santamente.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Seja pois o seu corpo depositado na campa, e possam d'elle +e da sua carne, pura e sem manha, desabrochar violetas! Sou +eu que t'o digo, padre sem alma, minha irmã gosará no céu a +bemaventurança eterna, emquanto que tu extorcer-te-has no +inferno nas convulsões do supplicio dos condemnados.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que? É pois a bella Ophelia?</p> + +<h5>A RAINHA <span class="instruccoes_cena">(lançando flores sobre a campa)</span></h5> + +<p>Flores para esta joven flor. Adeus! Esperava ver-te esposa +do meu Hamlet; contava, encantadora donzella, enfeitar o teu +leito nupcial; nunca pensei espargir flores sobre a tua sepultura.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Oh! que uma triplice e dez vezes triplice maldição cáia sobre +a cabeça do scelerado que commetteu tão negra acção, e +provocou a perda da sua rasão. Esperem que, antes que a terra +a cubra, a estreite mais uma vez nos meus braços <span class="instruccoes_cena">(salta para +dentro da cova)</span>. Agora enterrem conjunctamente vivos e mortos, +elevem sobre nós uma montanha que exceda em altura o antigo +Pélion, ou o azulado Olympo, cujo cimo vem beijar as nuvens.</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(adiantando-se)</span></h5> + +<p>Quem é que na sua dor se exprime com tanta emphase; +cuja voz detem os astros no seu giro, attonitos de o ouvirem? +Sou Hamlet, o dinamarquez! <span class="instruccoes_cena">(Arremessa-se á cova.)</span> +<span class="pagenum">[133]</span></p> + +<h5>LAERTE <span class="instruccoes_cena">(lançando-se a elle)</span></h5> + +<p>O inferno se apodere da tua alma!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>É um abominavel desejo: larga-me a garganta, retira as +mãos, abaixo, aconselho-t'o eu; não sou nem mau, nem arrebatado, +mas é perigoso excitar-me, e obrarás assisadamente +pensando assim. Abaixo as mãos!</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Separem-os.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Hamlet! Hamlet!</p> + +<h5>TODOS</h5> + +<p>Senhores!</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Contenham-se.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Por um tal motivo sinto-me capaz de combater com elle até +ao ultimo alento.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Meu filho, qual é o motivo?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Amava Ophelia, e as affeições juntas de quarenta mil irmãos +não poderiam igualar a minha; <span class="instruccoes_cena">(a Laerte)</span> e que serias tu +capaz de fazer por ella?</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Deixa-o, Laerte, está louco.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Pelo amor de Deus, não faça caso das suas palavras.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Vamos, dize-me, que tencionas tu fazer? Prantear, combater, +jejuar, rasgar tuas proprias carnes, beber o Issel todo, devorar +um crocodilo? Tudo farei. Vieste aqui para te lamentar, +para me desafiar, precipitando-te dentro da sua cova; enterra-te +vivo com ella, outro tanto farei; e já que fallaste em montanhas, +accumulem ellas sobre nós tanta terra, que o cume da +nossa pyramide tumular toque a zona ardente, e ao pé d'ella +<span class="pagenum">[134]</span> +o monte Ossa não pareça mais que uma verruga. Pódes encolerisar-te, +que não me assustam os teus furores.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>É um accesso de loucura que durará algum tempo; depois, +similhante á meiga pomba acalentando os filhinhos, ficará silencioso +e immovel.</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(a Laerte)</span></h5> + +<p>Dize-me, porque me tratas assim? Sempre fui teu amigo. +Mas não importa. Aindaque Hercules se oppozesse, se o gato +miasse, o cão havia de ladrar <span class="instruccoes_cena">(afasta-se)</span>.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Siga-o, peço-lhe, meu caro Horacio. <span class="instruccoes_cena">(Horacio segue Hamlet)</span> <span class="instruccoes_cena">(a Laerte)</span> +Tem paciencia, lembra-te da nossa conversação de hontem, +<span class="instruccoes_cena">(Á rainha)</span> Querida Gertrudes, faça com que velem sobre Hamlet; +<span class="instruccoes_cena">(á parte)</span> é preciso dar como monumento a este tumulo uma +victima humana. Cedo estarei descansado; até então, paciencia! +<span class="instruccoes_cena">(Sáem todos.)</span></p> + + +<h3>SCENA II</h3> + +<h4>Uma sala no castello</h4> + +<p class="instruccoes_cena">Entram HAMLET e HORACIO</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Basta sobre esse assumpto; passemos ao outro, recordas-te +bem de todas as circumstancias?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Se me lembro, meu senhor!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Uma especie de lucta apoderára-se do meu coração, vedava-me +o somno, sentia-me peior que um facinora acorrentado! +Adoptando comtudo uma resolução temeraria, achei na temeridade +a minha força; lembremo-nos sempre, Horacio, que a +imprudencia é muitas vezes o nosso prestante auxiliar, quando +os nossos mais profundos calculos são impotentes, e isto +<span class="pagenum">[135]</span> +deve-nos ensinar que ha uma Providencia que aperfeiçoa e +completa os projectos que imperfeitamente esboçâmos.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Não ha cousa mais certa!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Saí pois do meu camarote a bordo, e coberto com as roupas +de viagem procurei e encontrei pelo tacto, ás escuras, a +sua mala; abri-a e revolvi-a toda, em seguida recolhi-me ao +meu aposento; então o perigo baniu todo o escrupulo, abri o +despacho rompendo o sêllo real! Escuta o que li, Horacio. Oh! +perfidia real! Apoiando-se em differentes motivos, a salvação +da Dinamarca e da Inglaterra, e o perigo que para elle havia +em eu continuar a viver, o rei ordenava expressamente, que +depois da leitura d'essa carta, sem demora alguma, nem mesmo +a necessaria para afiar o cutello, eu fosse decapitado.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Será possivel?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Aqui tens a carta, lê-a á tua vontade. Mas queres tu saber +o que eu então fiz?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Diga, senhor; que foi?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Para saír salvo dos laços d'esta infame traição, appellei +para a minha intelligencia, e depressa formei o meu plano. +Sentei-me, e redigi um despacho com a melhor letra que pude +fazer. Antigamente, assim como os nossos homens d'estado +considerava uma vergonha ter boa letra; e se soubesses +quanto eu desejei perdel-a! mas n'esta occasião foi-me maravilhosamente +util. Queres saber o que escrevi?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Com todo o gosto, senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Dirigindo-se ao monarcha inglez como seu fiel tributario, +dizia-lhe o rei de Dinamarca, se queria que se conservasse +virente a palma da amisade, a paz se coroasse de espigas +e se estreitassem os laços de uma união duradoura, lhe +<span class="pagenum">[136]</span> +ordenava que, finda a leitura da sua carta, sem outro exame, +sem lhes dar tempo de se confessarem, fizesse suppliciar +os portadores do despacho.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Mas com que sêllo fechou esse escripto?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>A Providencia não me desamparou ainda n'essa occasião; +tinha na minha bolsa o sêllo de meu pae, reproducção exacta +do sêllo do estado. Dobrei pois o meu despacho na fórma do +estylo, subscriptei-o e sellei-o, depois colloquei-o no logar em +que estava o outro: o engano não foi descoberto. No dia seguinte, +em vez de combate sabes o que houve.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Assim, Rosencrantz e Guildenstern, vão receber o seu justo +castigo?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Procuraram-n'o por suas proprias mãos; não me peza na +consciencia. Só de si se podem queixar. É sempre uma desgraça +para vis subalternos acharem-se envolvidos nas contendas +de dois poderosos adversarios.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>E é rei? meu Deus!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>O meu dever está agora claramente indicado. Áquelle que +assassinou meu pae, deshonrou minha mãe, que se interpoz +entre a escolha da nação e as minhas esperanças, que attentou +contra a minha vida traiçoeira e perfidamente, é justiça +que o meu braço o puna. E não seria um crime digno da condemnação +eterna, deixar continuar esta ulcera no seu trabalho +corrosivo?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Mas dentro em pouco saberá de Inglaterra o desenlace de +todo este negocio?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Em breve o saberá, é verdade, mas o tempo que até então +decorrer, pertence-me, e o fio da vida do homem corta-se em +menos tempo do que o preciso para contar até dois. O que me +<span class="pagenum">[137]</span> +peza, meu caro Horacio, é ter desattendido Laerte, porque eu +tambem sinto o que elle deve sentir. Sempre prezei a sua estima; +mas a emphatica exaltação da sua dor exacerbou-me.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Silencio, principe; approxima-se alguem.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Entra OSRICO</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Alegro-me, principe, que tenha regressado á Dinamarca.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Obrigado, senhor. <span class="instruccoes_cena">(A Horacio)</span> Conheces tu esse insecto?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Não, meu senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>És pois um homem moral, é um vicio conhecel-o. É verdade +que possue muitas e ferteis propriedades, mas é um estupido +animal, que tem mando sobre os outros, seguro de achar +a sua mangedoura na mesa real; é um ente desprezivel, mas, +como disse, é senhor de vastos dominios.</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Meu bom senhor, se não incommodo vossa alteza, alguma +cousa tinha que lhe communicar da parte de sua magestade.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Escutal-o-hei com prazer. Mas cubra-se já, que o chapéu +foi feito para estar na cabeça.</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Obrigado, senhor, mas faz muita calma.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Faz muito frio, não acha? O vento está norte.</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Effectivamente, faz bastante frio.</p> +<span class="pagenum">[138]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não sei se é effeito de uma predisposição particular, mas +acho um calor abrasador.</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Não ha duvida, faz tanto calor, que nem posso quasi +respirar. Mas, meu senhor, sua magestade encarregou-me +de lhe dizer que fez uma aposta consideravel, de que vossa +alteza é o motivo.</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(fazendo-lhe signal de se cobrir)</span></h5> + +<p>Faz favor.</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Perdão, senhor, mas não me incommoda. Vossa alteza de +certo é sabedor que chegou a esta côrte Laerte, um joven mui +dextro, dotado das mais raras qualidades, agradavel no trato, +um perfeito moço. Para fallar d'elle como merece, póde-se dizer +que é o espelho e o almanach do bom tom, porque n'elle +estão reunidas todas as qualidades que deve possuir um perfeito +cavalheiro.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Senhor, não encareceu o retrato que d'elle fez; não é sufficiente +toda a arithmetica da memoria para redigir o inventario +especificado de todas as suas perfeições, e ainda assim o +juizo ficaria áquem da verdade. Fallando conscienciosamente, +tenho-o na conta de um cavalheiro distincto e de raro merecimento; +digo-o sinceramente; para achar outro igual, forçoso é +que se olhe no seu espelho: os outros não seriam senão a sua +sombra.</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>O principe falla d'elle com a convicção da estima.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>De que se trata, pois? Escusâmos embaçar as suas qualidades +com o nosso juizo.</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Senhor!</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Não seria possivel fallar uma lingua mais intelligivel? É-o +por certo, senhor.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Com que fim pronunciou o nome d'aquelle cavalheiro?</p> +<span class="pagenum">[139]</span> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>De Laerte?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Acabou-se-lhe o cabedal; ignora completamente o que ha +de responder.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>É verdade.</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Sei que não ignora...</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Queria que assim pensasse a meu respeito; e se assim fosse, +fraco elogio para mim seria. Continue agora.</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Vossa alteza não ignora a superioridade de Laerte?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>É o que não affirmo, com o receio de me comparar a elle. +Para conhecer um homem a fundo era necessario vestir a sua +pelle.</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Quero fallar da sua superioridade em manejar as armas; +gosa da reputação de não ter rival.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Quaes são as suas armas de predilecção?</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Florete e adaga.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>São só duas! prosiga.</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>O rei apostou seis bellos cavallos da melhor raça, contra +seis espadas e seis adagas francezas de Laerte, sem contar os +cinturões, talabartes e tudo o mais. Tres dos accessorios sobretudo +são dignos da aposta e de um trabalho maravilhoso, +no estylo mesmo das armas.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que chama accessorios?</p> +<span class="pagenum">[140]</span> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Bem sabia eu que antes de terminar era infallivel algum +reparo do principe.</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Os accessorios, senhor, são os enfeites dos cintos e talabartes +em que se suspendem as espadas.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>A expressão seria mais exacta se em vez de espada usassemos +um canhão; sirvamo-nos pois do termo cinto na generalidade. +Prosiga. Seis bellos cavallos contra seis espadas e +seus pertences, incluindo tres cintos, obra prima da arte franceza; +é pois a França contra a Dinamarca. Mas qual é o motivo +d'esta aposta?</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>O rei apostou que em doze golpes, Laerte não tocaria o +principe senão tres vezes. Laerte apostou que seriam nove em +doze. A questão será promptamente decidida se vossa alteza +se dignar responder.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>E se eu responder negativamente?</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Quer dizer, se o principe convier em combater.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Senhor, vou agora passeiar n'esta sala; costumo todos os +dias a esta hora, entregar-me a esses exercicios: depois estou +ás ordens do rei. Tragam floretes com a annuencia de +Laerte; e se o rei persistir no seu empenho far-lhe-hei +ganhar a aposta se podér; no caso contrario restam-me os +golpes recebidos e a vergonha.</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Deverei dar ao rei a sua resposta?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Disse-lhe o meu pensamento: o seu talento saberá completar +a resposta.</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Um servo dedicado de vossa alteza. <span class="instruccoes_cena">(Sáe.)</span></p> +<span class="pagenum">[141]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Muito agradecido, obrigado <span class="instruccoes_cena">(a Horacio)</span>; fez bem de o dizer elle +mesmo, ninguem se encarregava por certo de tal missão.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Finalmente, estamos sós!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Estou certo que ao collo da ama, antes de o sugar, elogiava +a alvura do seu seio; similhante a tantas pessoas da sua +tempera, que são o encanto dos ignorantes, abraçam as modas +do dia, e revestem-se de um falso verniz de polidez, e, graças +a essa mascara, são escutados pelos sensatos; mas experimentem-os, +são como bolas de sabão, que se desvanecem ao +menor sopro.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Entra UM SENHOR</p> + +<h5>O SENHOR</h5> + +<p>Senhor! o rei mandou o joven Osrico cumprimentar vossa +alteza da sua parte, o qual lhe disse que o principe esperava +n'esta sala. El-rei envia-me para saber se é intenção de vossa +alteza combater já, ou adiar o combate.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Tomei já a minha resolução, e concorda com os desejos de +sua magestade. Se Laerte está prompto, tambem eu o estou; +immediatamente, ou quando quizer, comtanto que me sinta sempre +tão bem disposto como agora o estou.</p> + +<h5>O SENHOR</h5> + +<p>Em breve chegarão o rei e a rainha, e toda a côrte.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Bemvindos sejam!</p> + +<h5>O SENHOR</h5> + +<p>É pedido da rainha que receba cordialmente Laerte, antes +de dar principio á contenda.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>É justo o seu conselho. <span class="instruccoes_cena">(O senhor sáe.)</span></p> +<span class="pagenum">[142]</span> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Receio que o principe perca a aposta.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não creias tal; depois que elle partiu, tenho-me continuamente +exercitado no jogo das armas: com a vantagem concedida +a victoria é certa. Se tu soubesse que dor sinto no coração! +Não importa.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Comtudo, senhor!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>É uma loucura, uma leve apprehensão, que apenas poderia +influenciar uma fraca mulher.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Se sente alguma repugnancia no seu espirito, obedeça-lhe. +Vou prevenil-os que não venham, que o principe se sente indisposto.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>De modo nenhum! Luctarei com os meus presentimentos; a +Providencia tem já escripto o meu destino. Se tenho de morrer, +nada o evitará, forçoso é obedecer aos seus decretos; que seja +hoje ou ámanhã, estou prompto; tenho dito. Poisque o homem +não é senhor do seu destino, que importa que seja mais +tarde ou mais cedo? Será o que Deus quizer.</p> + +<p class="instruccoes_cena">Entram o REI, a RAINHA, LAERTE, OSRICO, SENHORES e CREADOS +trazendo floretes e luvas e uma mesa com frascos e taças</p> + +<h5>HAMLET <span class="instruccoes_cena">(a Laerte)</span></h5> + +<p>Perdoe-me, se o offendi, mas perdoe-me como cavalheiro. +Os que nos cercam, sabem-o, e creio que tambem deve saber, +que um terrivel desvairamento se apossou de mim. Se alguma +cousa fiz que podesse irritar o seu caracter e a sua +honra e melindre, proclamo-o bem alto: «Loucura!» Seria ainda +Hamlet que offendeu Laerte? Nunca, nunca poderia ser +Hamlet. Então não era elle, e não sendo elle, como offenderia +Hamlet a Laerte? É claro, não era elle; renego todos esses +actos. Quem foi então? a loucura. Sendo assim, Hamlet abraça +o offendido; o verdadeiro inimigo do desditoso Hamlet é a +sua loucura. Senhor, depois d'esta confissão, em que perante +<span class="pagenum">[143]</span> +todos renego toda a má intenção, poderá ainda a sua generosidade +condemnar-me? É como se inconscientemente despedisse +por cima de uma casa um dardo, e fosse ferir um irmão.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Meu coração está satisfeito; era elle que mais me excitava +á vingança; mas no campo da honra recuso-me a toda a conciliação, +até que arbitros mais idosos e de provada lealdade, +me imponham, fundados em precedentes, uma sentença de paz, +que ponha o meu nome ao abrigo de toda a suspeita. Até então +acceito a amisade que me offerece, e nada farei em seu +detrimento.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Acceito francamente essa promessa, e a lucta fraternal que +vamos encetar. Venham os floretes, comecemos.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Dêem-me um florete!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Vou ser o seu alvo, Laerte; ao pé da minha inexperiencia +vae sobresaír a sua pericia, como um astro brilhante em noite +escura.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Zomba de mim?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Juro que não!</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Dá-lhes floretes, Osrico, Primo Hamlet, conheces a aposta?</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Perfeitamente, senhor; aposta demasiado vantajosa para o +mais fraco.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Nada receio; já os conheço ambos, e poisque Hamlet é quem +mais avantajado está, a sorte está pelo nosso lado.</p> + +<h5>LAERTE <span class="instruccoes_cena">(examinando um florete)</span></h5> + +<p>Este não, que é muito pesado; outro!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Este convem-me; os floretes são todos iguaes, não é verdade?</p> +<span class="pagenum">[144]</span> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Sim, meu bom senhor. <span class="instruccoes_cena">(Collocam-se.)</span></p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Ponham os frascos sobre a mesa. Se Hamlet o tocar a primeira +e segunda vez, ou se elle aparar o terceiro golpe, que +as baterias rompam uma salva geral; beberei á saude de +Hamlet, e lançarei na taça uma perola mais preciosa que as +que usavam nos seus diademas os quatro reis meus predecessores. +Venham as taças. Que os timbales annunciem aos +clarins, os clarins aos canhões, os canhões aos céus, os céus +á terra que o rei brinda por Hamlet. Vamos, senhores, podem +começar, e vós juizes, attenção!</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Em guarda!</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Em guarda, principe! <span class="instruccoes_cena">(Começam.)</span></p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Uma!</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Não tocou.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Os juizes que decidam!</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Tocou, não ha duvida.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Recomecemos.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Esperem, encham as taças. Hamlet, dou-te esta perola, brindo +por ti. Offereçam-lhe a taça. <span class="instruccoes_cena">(Clarins e salvas.)</span></p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Prefiro acabar a contenda, esperem; depois beberei. Vamos, +Laerte. Uma! que diz agora?</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Fui tocado, confesso-o.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Hamlet ganha.</p> +<span class="pagenum">[145]</span> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Estás fatigado, falta-te o fôlego. Limpa a fronte com o meu +lenço. A rainha bebe á tua victoria, Hamlet.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Minha senhora!</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Não bebas, Gertrudes.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Bebo, senhor, desculpe-me, desejo-o.</p> + +<h5>O REI <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span></h5> + +<p>Era a taça envenenada, já não ha remedio.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Ainda não bebo, mais tarde, senhora.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Deixa-me limpar tua fronte, filho!</p> + +<h5>LAERTE <span class="instruccoes_cena">(ao rei, á parte)</span></h5> + +<p>Senhor, agora verá.</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Já não creio.</p> + +<h5>LAERTE <span class="instruccoes_cena">(á parte)</span></h5> + +<p>E, comtudo, diz-me a consciencia que não.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Vamos, Laerte, a terceira prova; não me poupe, peço-lh'o; +desenvolva toda a sua pericia, não me trate como creança.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Que diz? em guarda, pois.</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Ainda nada.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Agora toquei. <span class="instruccoes_cena">(No encarniçado da lucta trocam os floretes, e Hamlet é +ferido +e fere Laerte.)</span></p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Separem-nos, estão desesperados.</p> +<span class="pagenum">[146]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Não, recomecemos. <span class="instruccoes_cena">(A rainha cáe)</span></p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Acudam á rainha; acudam!</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Feridos ambos!! que é isto, senhor?</p> + +<h5>OSRICO</h5> + +<p>Como está Laerte?</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Colhido no meu proprio laço, morro pela minha traição.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Que tem a rainha?</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Desmaiou á vista do sangue.</p> + +<h5>A RAINHA</h5> + +<p>Não, não! a bebida, a bebida! meu Hamlet, a bebida! a +bebida! envenenada... <span class="instruccoes_cena">(Morre.)</span></p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Oh! infamia! fechem as portas, traição! quero conhecel-a.</p> + +<h5>LAERTE</h5> + +<p>Eu t'o digo, é esta: Hamlet, morres assassinado, nada te +póde salvar; meia hora, quando muito, te resta de vida, na +tua mão ainda conservas a arma da traição afiada e envenenada; +tambem sou victima da minha perfidia. Escuta, já sinto +a morte, tua mãe envenenada... morro, Hamlet! o rei... só +o rei culpado... <span class="instruccoes_cena">(Desfallecendo.)</span></p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>A ponta envenenada! veneno, cumpre o teu dever. <span class="instruccoes_cena">(Fere o rei.)</span></p> + +<h5>OSRICO e SENHOR</h5> + +<p>Traição! traição!</p> + +<h5>O REI</h5> + +<p>Defendam-me, é apenas leve ferimento.</p> +<span class="pagenum">[147]</span> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Bebe os restos d'esta taça, incestuoso assassino, damnado +dinamarquez. Procura a perola, achal-a-has seguindo minha +mãe. <span class="instruccoes_cena">(Vasa á força o resto da taça pela bôca do rei, que cáe e morre.)</span></p> + +<h5>LAERTE <span class="instruccoes_cena">(n'um ultimo alento de vida)</span></h5> + +<p>É justo o castigo; morre pelo veneno que preparáras. Hamlet, +perdoemo-nos mutuamente, e livres de qualquer reciproco +remorso subam nossas almas abraçadas ao céu. <span class="instruccoes_cena">(Morre.)</span></p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Absolva-te o céu, como eu te perdôo; sigo-te, Laerte <span class="instruccoes_cena">(a Horacio)</span> +morro, Horacio. Rainha desgraçada, adeus. A vós todos, +que ao ver esta catastrophe empallideceis, mudos espectadores +d'este drama, se tivesse tempo ainda, se esta ancia terrivel +não m'o vedasse, poderia dizer... agora, resignação. Eu morro, +Horacio, tu viverás, justifica-me, explica o meu odio aos +que o ignoram.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Isso nunca! sou mais romano que dinamarquez, e n'esta taça +ainda ha liquido.</p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Se és homem, dá-m'a; larga-a, por Deus, quero-a. Vive +para revelar um tão infame crime. Se alguma vez foste meu +amigo, não apresses a tua felicidade celeste e permanece n'este +mundo odioso, conta a minha historia. <span class="instruccoes_cena">(Ouve-se uma marcha)</span> Que +rumor marcial é este?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>É o jovem Fortimbraz, que regressa victorioso da Polonia, e +que saúda os embaixadores de Inglaterra com esta salva guerreira. +<span class="instruccoes_cena">(Ouvem-se tiros.)</span></p> + +<h5>HAMLET</h5> + +<p>Morro, Horacio, triumpha o veneno poderoso; nem já as noticias +de Inglaterra me é dado saber, mas predigo que Fortimbraz +ha de reinar; morrendo, voto por elle; conta-lhe mais +ou menos os pormenores da causa da minha morte. O resto... +é... silencio... <span class="instruccoes_cena">(Morre)</span></p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Que nobre alma! Adeus, meu adorado principe, os anjos do +céu o embalem com os seus canticos divinos. Mas porque é esta +marcha? <span class="instruccoes_cena">(Ouve-se uma marcha militar.)</span></p> +<span class="pagenum">[148]</span> + +<p class="instruccoes_cena">Entram FORTIMBRAZ, os EMBAIXADORES a outras pessoas</p> + +<h5>FORTIMBRAZ</h5> + +<p>Que vejo?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Vae sabel-o. Desgraça ou prodigio, está patente a seus olhos.</p> + +<h5>FORTIMBRAZ</h5> + +<p>Que hecatombe, que horror! Oh! morte, que festim cruento +preparavas tu, para precisar de uma só vez tanto sangue real?</p> + +<h5>PRIMEIRO EMBAIXADOR</h5> + +<p>Que horrivel espectaculo! tarde chegâmos de Inglaterra. Já +não nos póde ouvir aquelle de cujas ordens annunciavamos o +cumprimento, trazendo a nova da execução de Rosencrantz e +Guildenstern. Quem nol-o agradecerá agora?</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Elle não, que os seus labios agora gelidos nunca o ordenaram. +Mas, poisque vindes de Inglaterra e de Polonia e presenceaes +esta crise sangrenta, ordenae que bem alto, á vista de +todos, sejam collocados estes corpos, e eu lhes direi a causa +d'estes factos, poisque a ignoram. Então soarão aos seus ouvidos +actos carnaes, incestos, sangue, expiações, assassinios +fortuitos, mortes causadas pela perfidia ou por força maior, e +para desfecho traições que feriram os proprios auctores; eis a +minha narração, e juro que é verdade.</p> + +<h5>FORTIMBRAZ</h5> + +<p>Ouçâmol-o promptamente, convoquemos os nobres: dolorosamente +acceito o meu novo encargo, pois tenho sobre este +reino direitos incontestaveis, que é meu dever reivindicar.</p> + +<h5>HORACIO</h5> + +<p>Missão tenho de lhe fallar a esse respeito, da parte d'aquelle +que vivo teria tido os suffragios do povo. Seja pois rapida a +decisão, antes que os espiritos preplexos sejam dominados por +alguma conspiração ou engano que causem novas desgraças.</p> + +<h5>FORTIMBRAZ</h5> + +<p>Sejam por quatro capitães levados os restos mortaes de Hamlet: +<span class="pagenum">[149]</span> +façam-se-lhe todas as honras militares. Se vivesse teria +sido um grande rei. Quando passar, salvem os canhões. Levem +os cadaveres, esta vista é só propria dos campos de batalha; +aqui causa horror! Executem as minhas ordens, rompam as +salvas de canhões e as descargas de fuzilaria, e as marchas +funebres. Morreu o que havia de ser rei de Dinamarca. <span class="instruccoes_cena">(Desfilam +todos com os cadaveres: ouvem-se salvas de artilheria, descargas de fuzilaria +e marchas funebres. Cae o panno.)</span></p> + +<p class="instruccoes_cena">Fim do quinto e ultimo acto</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Hamlet: Drama em cinco Actos, by +William Shakespeare + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK HAMLET: DRAMA EM CINCO ACTOS *** + +***** This file should be named 25667-h.htm or 25667-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/5/6/6/25667/ + +Produced by Pedro Saborano and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This book was +produced from scanned images of public domain material +from the Google Print project.) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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