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+The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não
+póde dormir. Nº3, by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº3
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: March 30, 2008 [EBook #24957]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA. NO. 3 ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+
+BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
+
+
+NOITES DE INSOMNIA
+
+OFFERECIDAS
+
+A QUEM NÃO PÓDE DORMIR
+
+POR
+
+Camillo Castello Branco
+
+PUBLICAÇÃO MENSAL
+
+
+N.º 3--MARÇO
+
+
+LIVRARIA INTERNACIONAL
+
+DE
+
+ERNESTO CHARDRON
+
+96, Largo dos Clerigos, 98
+
+PORTO
+
+EUGENIO CHARDRON
+
+4, Largo de S. Francisco, 4
+
+BRAGA
+
+1874
+
+
+PORTO
+
+TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA
+
+62--Rua da Cancella Velha--62
+
+1874
+
+
+BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
+
+
+NOITES DE INSOMNIA
+
+
+SUMMARIO
+
+
+Feitiços da guitarra--Em que veias gira o sangue de
+Camões?--Lisboa--Voltas do Mundo--Nova solução do problema
+historico--Desgraçado Balzac! (Á «Actualidade»)--Os 2 Joaquins--Flôres
+para a sepultura de Ferreira Rangel--Mysterio da Castanha--Bem
+vindo!--Os Salões, pelo exc.^mo snr. visconde de Ouguella--Subsidios
+para a historia da serenissima casa de Bragança
+
+
+
+
+FEITIÇOS DA GUITARRA
+
+
+Cuidará talvez muita gente, aliás instruida na historia da musica e seus
+effeitos, que a influencia da guitarra nos paços reaes é cousa moderna e
+peculiar da côrte portugueza. Não, senhores. O exemplo deu-o a Hespanha
+no fim do seculo passado, e a historia do mais afortunado guitarrista
+d'este planeta extravagante em que moramos, vou contal-a eu.
+
+Na volta do anno 1786, D. Gabriel Alvares de Faria, arcediago da sé de
+Badajoz, tinha dous sobrinhos, Luiz e Manoel. O arcediago, que blazonava
+descender dos Farias, alcaides-móres de Palmella, em Portugal, timbrava
+de muito fidalgo; mas declarava aos sobrinhos que fossem ganhar sua
+vida, porque a pitança da conezia não dava para tres.
+
+Os dous rapazes, que tangiam guitarra a primor, e cantavam seguidilhas
+de sua invenção, fizeram-se no rumo de Madrid, á cata de aventuras. O
+estalajadeiro, que lhes deu a credito o primeiro mez de hospedagem,
+folgava tanto de ouvir as tonadilhas de D. Manoel, que não quiz outra
+paga durante um anno.
+
+Conseguiram os dous rapazes entrar na guarda de corpus. Luiz, mediante a
+guitarra, insinuou-se no affecto de uma açafata da princeza Luiza de
+Parma, esposa do principe que depois foi Carlos IV; e, quando a dama
+ensandecia de amor ao seu menestrel, lhe disse elle que, se o seu cantar
+e tanger a transportavam, que seria se ouvisse seu irmão D. Manoel!
+
+Contou isto a dama á princeza. Sua alteza era folgazã. Quiz ouvir o
+guitarrista. Ouviu-o, admirou-o, amou-o, e--o que muito é--convenceu o
+marido a gostar das trovas de _a Tyrana_ acompanhadas d'um harpejo
+triste, que não ha ahi cousa que mais diga.
+
+O principe não era escorreito.
+
+Menos incauto era Carlos III, que mandou sahir de Madrid o guitarrista,
+logo que deu tento dos effeitos cupidineos dos bordões e prima, na
+pessoa da nora.
+
+Mas assim que o rei morreu, D. Manoel voltou a Madrid, foi restituido ao
+palacio, á alcova real, e nomeado successivamente sargento-mór da
+guarda, ajudante-general, grã-cruz de Carlos III, intendente dos
+correios, cavalleiro do tosão, duque de Alcudia, primeiro ministro,
+principe da paz, grande de Hespanha de primeira classe, com dotação
+territorial de 50:000 piastras de rendimento, e general supremo dos
+exercitos (em 1800) com o tractamento de _alteza serenissima_ (1807).
+
+Em 1797 casára com D. Maria Thereza de Bourbon, filha natural do infante
+D. Luiz, irmão d'el-rei Carlos III. A rainha conviera n'este consorcio,
+já porque a noiva era abominavel de feia, já porque tinha zelos
+infernaes de Josefa Tudo, formosissima mulher com quem o seu valido
+casára clandestinamente, intitulando-a depois condessa de Castello-Fiel.
+
+D. Manoel de Godoy, que assim tocára o galarim das grandezas humanas,
+desceu tão rapido quanto subira.
+
+Conjuraram contra elle influencias internas e externas.
+
+Os hespanhoes, obrigados a guerrear a Inglaterra, odiavam o amigo da
+França. Este odio exasperou-se depois do desastre de Trafalgar, onde
+acabou para sempre o poder naval de Hespanha. Á frente dos adversarios
+do principe da paz sahiu o principe das Asturias, chamado depois
+Fernando VII.
+
+Seguiram-se evoluções politicas, em que o heroe a resvalar ao ponto
+d'onde subira, se voltou contra a França, de accordo com Portugal. Em
+1808 preparava-se para fugir com a familia real, quando rebentou no
+Aranjuez a revolução em que sua alteza serenissima se escondeu em uma
+talha, e não foi estrangulado pelo povo a pedido do rei e da rainha.
+
+Ainda depois d'esta crise, o duque de Alcudia voltou a dominar o animo
+dos reis de Hespanha, e a rehaver a confiança de Napoleão; mas a final o
+baque foi irreparavel. Passou a França, e depois a Roma, onde o papa o
+intitulou _principe de Passerano_.
+
+Em Hespanha, confiscaram-lhe os bens. A esposa, de quem elle se
+divorciára amigavelmente, vivia pobre em Paris, intilulando-se _duqueza
+de Chinchon_, e lá morreu em 1828. O viuvo declarou então que já era
+casado com Josefa Tudo. A unica filha de D. Manoel Godoy casou em 1820
+com o principe romano Raspoli.
+
+Até 1844, o principe da paz viveu em Paris tão convisinho da indigencia
+que Deus sabe se elle teve tentações de tanger a guitarra da sua
+juventude á porta dos amadores do genero. Depois de 36 annos de exilio,
+obteve licença de entrar em Hespanha, e readquiriu parte dos bens, que
+lhe permittiram dez annos de vida relativamente abastada.
+
+Morreu, por 1851, em Paris, com 84 annos de idade.
+
+Os biographos d'este homem extraordinario ignoram todos que elle era, em
+Portugal, conde de Evora-Monte por carta de 2 de outubro de 1797.
+
+Tambem desconhecem que o alvará de mercê o faz primo de D. Maria I, e
+descendente de D. Pedro I e de D. Ignez de Castro, por ser quarto neto
+de Francisco de Faria, alcaide-mór de Palmella: descendencia a mais
+imaginosa que ainda vimos amanhar-se em cabeças de nobiliaristas.
+
+Ahi vai o alvará que é documento não despeciendo:
+
+
+«D. Maria, etc. Faço saber aos que esta minha carta virem que attendendo
+á mui antiga, e esclarecida nobreza, qualidades, e distinctos
+merecimentos de D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches
+Sarçosa, principe da paz, duque de Alcudia, grande de Hespanha de
+primeira classe, meu primo, e aos grandes serviços, que a estes reinos
+fizeram seus maiores antes e depois da fundação da monarchia com
+repetidas, e assignaladas acções, que os fizeram benemeritos da augusta
+consideração, e real munificencia dos senhores reis meus predecessores:
+tendo entendido ser o dito D. Manoel quarto neto de Francisco de Faria,
+alcaide-mór, e commendador de Palmella, por ser o filho segundo de Diogo
+Rodrigues de Faria, que passou a Hespanha d'um modo inculpavel, e de
+quem D. Manoel é terceiro neto: para dilatar com a maior distincção a
+memoria d'uma tão distincta familia, a qual pela mesma linha de
+Francisco de Faria é descendente do snr. rei D. Pedro I, e de D. Ignez de
+Castro, de quem descende a maior parte dos soberanos da Europa; tendo
+muito segura confiança nos sentimentos verdadeiros, e honrados de D.
+Manoel, hereditarios na sua familia, que tem lealmente exercitado em
+beneficio de meus reinos; conformando-me com os augustos, e cordiaes
+desejos de suas magestades catholicas, esperando, que assim os continue:
+hei por bem, com aprazimento dos mesmos reis catholicos, pelos ditos
+respeitos, e por honrar em D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios
+Sanches Sarçosa, a familia de Faria, de que descende, fazer-lhe a mercê
+do titulo de conde de Evora-Monte, com o senhorio para elle e seus
+descendentes, que houver na sua casa dispensando na lei mental, e quero
+e mando, que elle D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches
+Sarçosa se chame conde de Evora-Monte, e com o dito titulo goze de todas
+as honras, graças, liberdades, preeminencias, prerogativas,
+authoridades, e franquezas, que hão, e tem, e de que usam, e sempre
+usarão os condes d'estes reinos, assim como por direito, uso, e antigo
+costume lhe pertencem, das quaes em tudo, e por tudo quero, e mando que
+elle use, e possa usar por direito, uso, e costume sem minguamento, ou
+duvida alguma, que a isso lhe seja posta, porque assim é minha vontade,
+e com o referido titulo de conde de Evora-Monte haverá o assentamento
+que lhe pertencer, de que se lhe passará alvará na fórma costumada, e
+por firmeza de tudo lhe mandei dar esta carta por mim assignada, e
+sellada com o sello pendente de minhas armas, e passada pela
+chancellaria: e hei por bem que d'esta mercê se não paguem direitos
+alguns velhos, e novos, não obstante os regimentos, e quaesquer
+disposições contrarias. Dada no palacio de Queluz em 2 dias do mez de
+outubro do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1797.--O
+principe com guarda.==_José de Seabra da Silva._==_Joaquim Guilherme da
+Costa Posser_, a fez.»
+
+
+Respeito a _Farias_, houve um, em tempo d'el-rei D. Fernando. O leitor
+conhece da historia e do romance o celebrado alcaide do castello de
+Faria, chamado Nuno Gonçalves, que os castelhanos mataram, quando elle,
+na barbacã da fortaleza, ameaçou de maldição o filho, se a entregasse
+para salvar seu pai. O snr. Herculano refere este caso com primoroso
+enthusiasmo.
+
+O filho chamava-se Gonçalo Annes, que se fez clerigo por desgosto de vêr
+alli trespassado o pai debaixo de seus olhos; a paixão, porém, não lhe
+impedia reproduzir-se em tres meninos, de quem foi mãi Aldonsa Vasquez.
+
+Do mais velho, que se chamou Nuno Gonçalves de Faria, conhece-se a
+descendencia. Esse _Diogo_ que no alvará se diz ter passado a Castella,
+nem era filho de Francisco de Faria, nem passou a Castella: era filho do
+valido de D. João II, Antão de Faria, e casou com D. Maria de Goes,
+filha de Simão de Goes Machado.
+
+No lapso de quatro seculos, a varonia do alcaide de Faria--a que eu
+considero mais respeitavel, mais poetica, mais desculpavel aos fanaticos
+d'estes archaismos--é a que se tiver conservado na posse das penedias
+contiguas do esboroado castello, cuja alcaidaria foi do heroico Nuno
+Gonçalves. O possuidor, ha trinta annos, d'essas ruinas, era João de
+Faria Machado Pinto Roby. Vendeu as ruinas a um brazileiro.
+
+No mesmo anno em que morreu em Paris sua alteza serenissima o principe
+da paz, seu parente, morria elle em Lisboa. A providencia divina fez-lhe
+a mercê de o resgatar assim de um grande supplicio: elle sahia de noite,
+e pedia esmola aos que passavam. Tinha sido redactor do _Nacional de
+Lisboa_, e official de cavallaria muito valente.
+
+Deixou um filho chamado Isidoro de Faria Machado que se suicidou ha dous
+annos em Lisboa.
+
+Uma de suas filhas é hoje viuva do visconde da Carreira, Luiz. As outras
+não sei que destino tiveram.
+
+..........................................................................
+
+
+Toda esta noite se me foi de insomnia, a vêr sempre, na penumbra da
+lamparina, um homem que em Lisboa, ha 24 annos, me dizia com a face
+coberta de lagrimas:
+
+--Procurei tres amigos que me foram hospedes em meus lautos jantares,
+quando eu aqui dissipava o meu ouro e a minha intelligencia no serviço
+da politica. Apenas um se lembra de me conhecer em 1838; mas este é
+pobre; os outros não se recordam... Sabe qual é a minha esperança?
+
+--A queda dos Cabraes?
+
+--Não: uma congestão cerebral.
+
+Bella e bem realisada esperança!
+
+O representante de Nuno Gonçalves de Faria foi levado morto á sua
+familia no largo dos Cardeas de Jesus, por uma noite fria e chuvosa,
+quando as carruagens, que se recruzavam para bailes e theatros, o
+aspergiam da chuva dos tejadilhos e da lama das rodas.
+
+
+
+
+EM QUE VEIAS GIRA O SANGUE DE CAMÕES?
+
+
+Não é de mais saber-se isto, quando é moda esmiuçar tudo que entende com
+o maior poeta do seu seculo.
+
+O livro mais extravagante que, a tal respeito, viu a luz, é a _Historia
+de Camões_ pelo snr. doutor Theophilo Braga.
+
+As incurias, as criancices, os desvarios que esfervilham n'essas 441
+paginas não aparam a pontoada da critica. O livro faz tristeza... porque
+faz rir; e, por muito frouxo que seja o espirito de patriotismo no
+censor dos escriptores seus conterraneos, dóe ter de dizer: «o professor
+de litteratura fez córar a face dos discipulos.»
+
+Os meus reparos n'este livro tocam sómente com o que ha n'elle relativo
+á familia de Luiz de Camões; mas, ahi mesmo, é deploravel a falta de
+siso do biographo.
+
+A pag. 233 suppõe o snr. Theophilo que entre uns papeis que se perderam
+de Luiz de Camões houvesse cartas escriptas _aos seus amigos mais
+valiosos intercedendo por seu pai que estava preso_.
+
+A pag. 243, no summario do capitulo VI, diz: _A noticia do perdão de seu
+pai Simão Vaz de Camões._ Temos ainda Camões com pai.
+
+A pag. 259: _Por estas mesmas novas chegadas de Lisboa nas Náos partidas
+no principio do anno de 1557 soube Camões... da sentença que condemnava
+Simão Vaz de Camões, seu pai, para o degredo perpetuo do Brazil com
+pregão e cadeado._
+
+O leitor chega ao cabo do livro, persuadido que Camões tinha um pai, que
+por estouvamentos de rapaz devasso, ahi na volta dos 60 annos, mereceu
+ser condemnado a degredo com pregão e cadeado; mas, por acaso, volta a
+pagina das erratas, e vê que o biographo lhe pede que leia _primo_ onde
+estiver _pai_. Parece uma anecdota isto!
+
+Que razões motivaram esta correcção? Que raio de luz dardejou o bom
+senso na ultima pagina do livro? Pois o doutor, durante a formação do
+estirado livro, não teve um intervallo lucido? E, se o teve no fim,
+porque não queimou a obra desde a primeira pagina, embora se perdesse a
+_Carta de Ayres Barbosa a André de Rezende_?
+
+Eis aqui o modo como o snr. Theophilo descobriu a final que Simão Vaz de
+Camões era _primo_ e não era _pai_ do poeta.
+
+Quando o livro ia sahir do prelo, a humilde pessoa, que escreve estas
+linhas, publicava, no _Diccionario de educação_ de Campagne, um breve
+artigo intitulado _Camões_, em que se lêem estes periodos:
+
+
+«Os louvores ao prodigioso genio de Luiz de Camões são tantos, e tão
+amiudados no discurso de tres seculos que já hoje em dia o repetil-os,
+pelos mesmos conceitos e fórmas encomiasticas, nos parece banal
+encarecimento. Mais util e plausivel nos avulta o esforço de alguns
+biographos empenhados em esclarecer os lanços menos claros da biographia
+do poeta. N'esta ardua lide tem mostrado ardente zelo o snr. visconde de
+Juromenha, o mais particularisador noticiarista da vida de Luiz de
+Camões. Todavia, assentando boa parte de suas innovações em conjecturas,
+resulta que a louvavel vontade de esclarecer se demasie em hypotheses
+pouco menos de inverosimeis. Está em o numero d'estas a affirmativa de
+residir em Coimbra por 1556, o pai de Luiz de Camões, Simão Vaz. Este
+mesmo é na hypothese do biographo, um tal que o corregedor de Coimbra
+enviava preso a Lisboa, em 1563, por ter entrado em mosteiro de freiras,
+e vem a ser o mesmo que em 1576, juntamente com os seus criados,
+espancava o almotacé de Coimbra. Bastaria a despintar da phantasia do
+snr. visconde de Juromenha semelhante conjectura, a pobreza do filho,
+que recebeu 2$400 reis para se alistar na armada, em lugar d'outro, em
+quanto seu pai, com mais de cincoenta de idade, andava por Coimbra
+escalando conventos, e já com mais de setenta espancava as justiças,
+acaudilhando criados,--circumstancia indicativa de vida abastada, e
+orgulho de fidalgo com as posses que dão azas ao orgulho.
+
+«De todo em todo aniquila a supposição de que o mexediço Simão Vaz de
+Camões haja sido pai do poeta, e marido da desvalida Anna de Macedo, uma
+nota do snr. doutor Ayres de Campos, sobposta ao traslado da provisão
+passada em 16 de maio de 1576, a respeito das injurias e offensas
+praticadas por Simão Vaz de Camões no almotacé. Eis a nota: «E para
+tambem não ficarmos culpados em passar por alto alguns outros documentos
+que com estes tem estreitas relações, aqui os apontamos desde já em
+quanto as suas integras não forem publicadas no supplemento. Assim elles
+vão prestar auxilio valioso, e não grande embaraço a todos os criticos
+illustres que, talvez fascinados por meras semelhanças de nomes e
+appellidos, não teem hesitado em attribuir ao turbulento cidadão
+conimbricense Simão Vaz de Camões, muito vivo e são em 1576, a honrosa
+paternidade _legitima_ do author dos _Lusiadas_.» Cita mais o insigne
+antiquario a vereação da camara de Coimbra de 31 de julho de 1563 da
+qual se deprehende que Simão Vaz havia casado em 1562, e casára
+novamente. Ora, quer o _novamente_ signifique segundas nupcias, quer
+primeiras, como alguem aventa, sem dar a razão do alvitre, é certo que
+esse não podia ser o pai de Luiz de Camões, que falleceu antes de sua
+mãi. (Veja _Indices e Summarios dos Livros e Documentos mais antigos e
+importantes do Archivo da Camara Municipal de Coimbra._ Coimbra, 1867,
+pag. 7).
+
+«Temos presente a genealogia dos Camões, manuscripto de Jorge de Cabedo,
+fallecido em 1602 ou 1604, e pelo tanto contemporaneo de Luiz de Camões.
+(Veja _Diccion. bibliog._ de I. F. da Silva, tom. IV, pag. 161).
+
+«Cabedo falla do bisavô do poeta João Vaz de Camões, que foi corregedor
+em Coimbra, e jaz em Santa Cruz.
+
+«Segue Antão Vaz de Camões (filho d'aquelle e avô do poeta) que casou no
+Algarve com Guimar Vaz da Gama. Menciona Simão Vaz de Camões (filho de
+Antão Vaz e pai do poeta) _que foi por capitão d'uma náo á India, e deu
+á costa á vista de Goa, salvou-se em uma taboa, e lá morreu, deixando
+viuva Anna de Macedo, dos Macedos de Santarem_.
+
+«Faz tambem menção de outro Simão Vaz de Camões, residente em Coimbra,
+parente proximo do poeta, dizendo ter sido aquelle casado com Francisca
+Rebello[1] filha de Alvaro Rebello Cardoso, a qual, viuvando, casára com
+Domingos Roque Pereira[2].»
+
+O snr. Theophilo leu isto sem duvida alguma, e cedeu aos singelos
+argumentos do artigo do _Diccionario_.
+
+Que faria o leitor, sendo (Deus o livre!) author do livro de Theophilo?
+
+A não entregar a obra toda ao fogo purificador dos seus creditos
+litterarios, rasgava as paginas em que chamava _pai_ a Simão Vaz,
+substituindo-as por outras em que lhe chamasse _primo_.
+
+Diga-se verdade: o snr. Theophilo rasgou duas paginas do livro, a 59 e
+60; mas devia inutilisar as seguintes em que subsistem os erros
+derivados da confusão dos dous homonymos Simão Vaz de Camões.
+
+Escrevi no _Diccionario_, reportando-me impensadamente a um genealogico
+dos Camões: «Faz tambem menção de outro Simão Vaz de Camões, parente
+proximo do poeta, dizendo ter sido aquelle casado com Francisca Rebello,
+filha de Alvaro Rebello Cardoso, a qual, viuvando, casára com Domingos
+Roque Pereira.»
+
+Escreve o sr. Theophilo na regenerada pag. 59:
+
+«Simão Vaz de Camões, que em 1562 casou em Coimbra com Francisca
+Rebello, filha de Alvaro Cardoso[3].»
+
+Convido o snr. Theophilo Braga a declarar onde leu a noticia de tal
+casamento! Com toda a certeza, a primeira pessoa, que imaginou vêr isto
+em letra de mão, e o pôz em escriptura, desde que ha letra redonda, fui
+eu.
+
+Pesa-me do intimo seio que o snr. doutor T. Braga escorregasse na
+ladeira do meu engano. Já o snr. Felner lhe armou a esparrella da carta
+de Ayres Barbosa; e eu, mais innocentemente, fil-o casamenteiro de Simão
+Vaz com Francisca Rebello! É fado esquerdo do snr. Theophilo! Porém, o
+que tem graça infinita é o snr. doutor fixar o anno do casamento em
+1562! Que eu o inventasse, vá; mas que o snr. Theophilo lhe marcasse o
+anno, é vontade de callaborar nas indiscrições alheias!
+
+Isto não é simplesmente criancice párvoa--é desgraça; é mais que
+desgraça--é castigo da Providencia, porque o sr. Theophilo ladrou
+arrogantemente a Castilho, a Herculano, a Garrett, a Rebello, a
+Varnhagen; e não houve ainda detrahidor tão audaz, tão ignorante, e,
+sobre ignorante, ridiculo.
+
+O meu lapso procedeu de confundir dous nomes confusamente escriptos em
+uma arvore genealogica. Simão Vaz de Camões, o libertino parente do
+poeta, casou com uma sua criada, e morreu sem descendentes. Esta é a
+verdade. Quem casou em Coimbra com Francisca Rebello, filha de Alvaro
+Rebello Cardoso, morgado das Caldas, foi Simão _Vasconcellos_, e não
+Simão _Vaz_.
+
+Cá me fica pesando na consciencia o tempo e o papel que o snr. Theophilo
+desperdiçou. De ambas as cousas tenho escrupulo; menos da data do
+casamento; que essa é d'elle.
+
+Mas, se o snr. Theophilo substituiu as duas paginas que eram a fonte do
+erro, porque não supprimiu as correntes que derivam d'essa fonte? Não
+viu que todas as referencias ás paginas substituidas ficavam
+incomprehensiveis? O sentimentalismo que enternece o pesar do poeta pela
+prisão do _pai_ não póde subsistir racionalmente na prisão do _primo_!
+Que faz então o snr. Theophilo? Usa processos sobre maneira economicos:
+
+ ERRATA
+
+ Onde se lê _pai_, leia-se _primo_.
+
+E está acabado.
+
+Ninguem me dê definições d'este preceptor infeliz!
+
+Contem-me esta passagem, que eu não preciso cenhecel-o de perto, nem
+lobrigar-lhe o feitio interior dos camarins do pensamento. É um cháos!
+Eu já não me admirarei se o snr. Theophilo, depois de esponjar alguns
+centos de livros, escrever uma _Errata geral_ n'este sentido: onde se
+lê: OBRAS _de Theophilo_, leia-se: MANOBRAS _do mesmo_.
+
+ * * * * *
+
+Se o leitor quer, vamos agora farejar sangue de Camões nas veias dos
+nossos contemporaneos. Não cuide, porém, que vai deliciar-se n'esta
+leitura. É materia árida, fructo das taes insomnias constantes do
+proemio do numero primeiro.
+
+Vasco Pires de Camões veio de Castella no tempo de Fernando I. Foi
+alcaide-mór de Alemquer e Portalegre. Fugiu para Castella, quando o
+mestre de Aviz se levantou com o reino. Foi prisioneiro em Aljubarrota,
+perdeu os bens da corôa; mas cá ficou.
+
+Gonçalo Vaz, seu primogenito, instituiu um morgado em Evora, chamado da
+Camoeira. Não temos que vêr com os outros filhos, cujos descendentes ou
+foram pobres, ou identificaram os seus haveres nos morgadios do primeiro
+ramo, á falta de geração.
+
+Succedeu-lhe Antonio Vaz, pai de Lopo Vaz de Camões, cujo primogenito,
+tambem Antonio Vaz, teve um filho, que outro sim se chamou Lopo, e fez
+um morgado em Aviz.
+
+D'este ultimo gerou-se D. Anna de Castro, que foi casar a Guimarães com
+Diogo Lopes de Carvalho, quarto senhor dos coutos de Abbadim e Negrellos
+no tempo de Philippe II.
+
+Luiz Lopes de Carvalho, 5.º senhor dos coutos, foi assassinado em
+Guimarães.
+
+Gonçalo Lopes de Carvalho Camões e Castro Madureira, bisneto de Lopo Vaz
+de Camões, succedeu nos morgados da Camoeira da Torre de Almadafe no
+termo de Aviz, e da Gesteira no termo de Evora, ambos creados por
+Gonçalo Vaz de Camões e Duarte de Camões, ultimo representante da
+varonia, que morreu sem geração, e por isso os vinculos passaram aos
+descendentes femininos de Lopo Vaz de Camões, que eram os senhores de
+Abbadim e Negrellos. Existia esta posse em 1692[4].
+
+Thadeu Luiz Lopes de Carvalho, filho de Gonçalo Lopes, casou, depois do
+anno 1718, em Lisboa, com D. Brites Thereza de Menezes, que morreu muito
+nova. Celebrou segundas nupcias com D. Francisca Rosa de Menezes e
+Mendonça, filha de D. Francisco Furtado de Mendonça.
+
+Tiveram filhos varões, que morreram na infancia, e tres filhas que
+casaram: D. Marianna Luiza Ignacia, com Caetano Balthazar de Sousa de
+Carvalho, alcaide-mór de Villa Pouca de Aguiar; D. Anna Joaquina, com
+Gonçalo Barba Alardo Corrêa, em 1751; D. Guiomar Marianna Anacleta de
+Carvalho Fonseca Camões e Menezes, herdeira, com D. Antonio de
+Lencastre, governador de Angola--(1772-1179), filho segundo de D.
+Rodrigo de Lencastre.
+
+Nasceram, entre outros fallecidos na infancia, um filho, que se chamou
+D. Rodrigo de Lencastre Carvalho Fonseca e Camões, e uma senhora, D.
+Francisca Rosa de Lencastre, que casou com seu primo Lourenço de Almada,
+1.º visconde de Villa Nova de Souto de El-Rei.
+
+D. Rodrigo, herdeiro dos morgadios e senhorios de Negrellos, Abbadim,
+etc., e sargento-mór do regimento de cavallaria do principe D. João em
+1791, casou com D. Maria do Carmo Henriques, filha herdeira de João
+Henriques, do Bombarral.
+
+No morgado da Camoeira succedeu o 2.º visconde de Souto de El-Rei pelo
+seu casamento com D. Francisca Felizarda de Lencastre, filha de D.
+Guiomar de Camões, senhora de Abbadim e Negrellos. Uma filha d'estes
+viscondes, D. Guiomar, casou com Gonçalo da Silva Alcoforado.
+
+Está, por tanto, o sangue dos Camões em todos os descendentes da mulher
+do 1.º visconde de Souto de El-Rei. O terceiro ainda se assignou com o
+appellido Camões. Está igualmente na familia Alcoforado da casa da
+Silva, na familia da casa de Villa Pouca de Guimarães; nos descendentes
+de José Bruno de Cabedo, 1.º barão do Zambujal, por linha feminina, pois
+sua mãi era neta de D. Guiomar de Carvalho Camões e Fonseca; na casa da
+Pousada em Braga, representada ha quarenta annos por Francisco Xavier
+Alpoim da Silva e Castro, terceiro neto de Thadeu Camões, senhor de
+Abbadim.
+
+Em quasi analogo parentesco estão os snrs. Leites de Paço de Sousa, e os
+snrs. Pachecos Pereiras de Villar, ou de Belmonte.
+
+Não prolongarei esta resenha que de certo, hoje em dia, se ramifica tão
+copiosamente quanto cumpre imaginar das faculdades reproductoras das
+pessoas que representam aquelles illustres appellidos.
+
+Falta dizer que Luiz de Camões deixou um filho que não se reproduz, e é
+immortal: chama-se LUSIADAS.
+
+ [1] Adiante se verá que fui inexacto n'esta noticia.
+
+ [2] Este Simão Vaz de Camões era filho de Duarte de Camões de
+ Tavora, filho de outro Simão Vaz de Camões, senhor do morgado da
+ Torre. Casou Duarte com D. Isabel Lobo, filha de Ayres Tavares e
+ Sousa, de quem houve, além de Simão Vaz de Camões, Luiz Gonçalves
+ de Camões, e D. Maria da Camara, que casou com Francisco de Faria
+ Severim. Quanto ao Simão que viveu em Coimbra, diz o linhagista que
+ _se casára á sua vontade_, como quem desfaz na estirpe da esposa.
+
+ [3] A pag. 417 amplia o traslado do meu artigo, escrevendo: _a qual
+ casou depois em segundas nupcias com Domingos Roque Pereira._
+
+ [4] Veja Memorias resuscitadas da antiga Guimarães, pelo padre
+ Torquato Peixoto de Azevedo, em 1692, pag. 361.
+
+
+
+
+LISBOA
+
+
+Antes do traslado, darei breve noticia do livro de outro viajante bem
+creado que nos visitou mais de espaço em 1730. A _Description de la
+Ville de Lisbonne_, impressa em Paris, n'aquelle anno, é facil de
+encontrar em Portugal.
+
+Este viajante esteve no paço da Ribeira. Viu as riquissimas alfaias do
+vasto palacio. Reinava D. João V, o Salomão do occidente. Que valores
+não sorveu aquella vasa do Terreiro do Paço vinte e cinco annos depois!
+
+Uma cousa achou tristissima o viajante; eram as noites de Lisboa:
+
+
+«Esta grande cidade (diz elle) não é alumiada de noite, e é isso causa a
+que um homem se veja em embaraços para acertar com o seu caminho, e
+soffra sobre si os despejos de immundicies que lá se atiram das janellas
+ás ruas, porque as casas não tem latrinas. A obrigação de cada qual é
+levar essas immundicies ao rio, para o que ha negras que se occupam
+n'este serviço muito baratas; mas a plebe não quer saber d'essas ordens.
+Nas ruas não se anda de noite com bastante segurança, salvo quando se é,
+como lá dizem, _embuçado_, isto é, quando se envolve a gente em um farto
+capote, desde a cabeça até ás canellas: é um trajar exquisito, de que
+usam as pessoas mais qualificadas, e até os principes, como trajo
+privilegiado e respeitado. O respeito que se tem a esta especie de
+mascara, vem de impedir que os taes se reconheçam, e do receio que o
+disfarce encubra armas de fogo prestes a disparar-se sobre quem os
+insultar ou quizer conhecer... Lisboa não tem passeio algum, nem
+divertimento de nenhuma casta a não ser um mau theatro hespanhol. Os
+fidalgos, não obstante, frequentam este theatro; e, depois que sahem[5]
+vão gastar o restante do dia a passear nas suas carruagens, na praça do
+Rocio, onde palestream até á noite, sem sahir das carruagens. As
+cadeirinhas usam-se muito, e as liteiras estão na moda das damas
+distinctas e dos velhos; mas, por conta das ruas intransitaveis, os
+coches são raros.»
+
+
+Fallando de estalagens, diz que eram quasi todas francezas, inglezas e
+hollandezas, sendo a melhor de todas uma franceza na praça dos
+Romulares, onde o passadio de cada dia custava 6 francos.
+
+Attribue a carestia á diminuta concorrencia de estrangeiros, que se
+hospedem fóra das casas dos amigos.
+
+Já n'aquelle tempo, pelos modos, era mais barato hospedar-se a gente em
+casa dos amigos. N'este particular, não adiantamos nada. Outros
+forasteiros, que não tivessem amigos em Lisboa, costumavam alugar
+quartos, com uma banca, seis cadeiras de palha, louça de barro, e cama
+no chão, constante d'uma enxerga e duas cobertas, que á noite se
+desdobram sobre uma esteira de junco. Diz elle que nas hospedarias era
+peor.
+
+Conheceu o sujeito em Lisboa uma senhora portugueza, casada com um
+negociante francez, de Bayonna. A tal senhora via o que se passava no
+interior do corpo humano e nas entranhas da terra, não tendo nos olhos
+senão grande belleza. Incommodava-se-lhe a vista quando divisava nos
+reconditos escaninhos da economia animal abscessos asquerosos. Via os
+phenomenos physiologicos da digestão, e dizia se o feto no ventre
+materno era macho ou femea, aos sete mezes. Na profundeza de 30 ou 40
+braças descobria mananciaes d'agua. Estas prerogativas extraordinarias
+só as gozava em quanto estivesse em jejum; algumas vezes, porém, á hora
+de sesta, refinava no condão de vêr os rins de um homem gordo através do
+capote. Os descobrimentos de agua, já para o rei já para os
+particulares, o voto dos sabios e dos ministros, em fim, os
+incontroversos prodigios d'esta mulher grangearam-lhe a mercê regia do
+_dom_ e o habito de Christo para seu marido.
+
+O padre Le Brun, no anno seguinte á publicação d'este livro, metteu a
+riso a historia da lisboeta. (Veja _Histoire critique des Pratiques
+superstitieuses_, etc., l. 1.º, cap. 6, edição de Amsterd. 1733). Mas o
+cavalheiro de Oliveira que demorava então em Londres, onde publicava o
+seu _Amusement periodique_, a pag. 274 e seguintes do 2.º tomo, impugna
+a incredulidade do francez, com as seguintes razões. E note-se,
+primeiramente, que Francisco Xavier de Oliveira foi o portuguez mais
+incredulo do seu tempo; e, se não fugisse de Portugal, teria sido
+queimado como herege.
+
+Diz elle:
+
+
+«Eu não subscrevo ás suspeitas de impostura que o padre Le Brun irroga á
+mulher portugueza, porque a conheci pessoalmente, tendo ella entre onze
+e doze annos. Vi-a, pela primeira vez, em Paço d'Arcos na quinta de
+Jeronymo Lobo Guimarães, onde fôra para indicar o ponto onde havia agua.
+Do primeiro lanço de olhos, apontou o sitio. Lobo fez cavar no ponto
+indicado, e achou agua abundantemente. Verdade é que ella marcava entre
+seis e sete braças; e a agua borbulhou na profundidade de oito. Tambem é
+certo que, estando eu vestido, ella me disse positivamente os signaes
+todos que eu tinha na pelle, e o mesmo fez a cinco pessoas presentes.
+Afianço isto como testemunha ocular. Que ella visse através da pelle,
+nunca ouvi dizer...»
+
+
+Prolonga-se o cavalheiro de Oliveira abonando os prodigios contrariados
+por Le Brun, e prosegue:
+
+
+«Declarou esta menina que não podia entrar em igrejas e atravessar
+cemiterios, por causa do horror que lhe faziam os cadaveres enterrados,
+que ella via podres debaixo das lapides. Todos os tribunaes, e
+maiormente o do santo officio, tomaram conhecimento d'esta declaração.
+Abriu-se um tumulo como experiencia, e achou-se o cadaver qual ella o
+descrevera, antes que levantassem uma grossa lousa. Não sei que destino
+teve esta mulher: o que sei é que nem a inquisição nem algum tribunal a
+inquietou[6].»
+
+
+Proseguindo na viagem do admirador da prodigiosa lisboeta, refere elle
+algumas cousas da côrte de D. João V que precisam ser esclarecidas.
+
+Numera os officiaes, que servem a casa real, e diz que, áquelle tempo, o
+officio de mordomo-mór tinha vagado, em consequencia de ter fugido de
+Portugal em 1724 este empregado do paço com uma das mais formosas damas
+do reino, esposa de um fidalgo. E acrescenta:
+
+
+«O rei mandou depós os fugitivos um esquadrão de cavallos; mas como
+elles levavam um dia de avanço, e correram á desfilada, a tropa não
+logrou apanhal-os; por maneira que chegaram a Vigo[7], na Galliza sem
+embaraço. Com tudo, breve lhes foi o contentamento; porque o bispo
+d'aquella cidade fez entrar a dama em um mosteiro, e o fidalgo
+retirou-se para Madrid. O marido da fugitiva vestiu-se de luto, assim
+que soube da fuga; e, conforme o prejuizo do paiz, ou como lá dizem os
+portuguezes, _porque tinha barbas_, jurou não apparecer mais sem matar o
+raptor, e matar ou enclausurar para sempre sua mulher.»
+
+
+No immediato numero saberá o leitor quem foram os personagens d'este
+caso, que envolve tragedia digna de livro de maior fôlego.
+
+ [5] Vê-se que as representações eram de dia.
+
+ [6] São rarissimos ou talvez unicos em Portugal, estes livros do
+ cavalheiro de Oliveira. Diz elle que apenas tinha na sua patria
+ dous assignantes, e um era Jacome Raton.
+
+ [7] É erro: foi em _Tuy_.
+
+
+
+
+VOLTAS DO MUNDO
+
+
+Ayres Ferreira, da casa dos senhores de Cavalleiros, e couto de Frazão e
+Marvilla de Couros, viveu em Barcellos, no tempo de D. João III.
+
+Teve quatro filhos e duas filhas.
+
+Os rapazes, á excepção de um que morreu na infancia, foram todos servir
+na India: eram Ruy, Alvaro e Gonçalo.
+
+As meninas professaram, e foram abbadessas perpetuas no mosteiro de Cós.
+
+Os tres soldados grangearam fama no Oriente; e Ruy Ferreira de Mendonça,
+o mais velho, avantajou-se nas proezas--nas crueis façanhas que os
+Coutos e Barros chamaram proezas.
+
+Não lhes desluzam, por isso, a memoria. Era seculo de trevas e de
+missionarios. Reinava D. João III, o inquisidor. Cada qual é do seu
+tempo. Se algum contemporaneo, como o bispo de Silves, protestou contra
+o fanatismo sanguinario, deve-se o protesto honroso a não ter ido lá o
+insigne escriptor. Se fosse, pegaria d'elle a contagião da carnagem, a
+peste d'aquelle ar infecto da sangueira, o colera que accendia sêdes de
+cubiça insaciavel.
+
+No seu solar de Barcellos ficára Ayres Ferreira, sósinho e triste.
+Doia-lhe mais que tudo a saudade de Ruy, o seu primogenito, que lhe
+fugira, ancioso de batalhas, e invejoso dos irmãos, cujos nomes
+começaram a ser laureados na Asia em 1543. N'aquelle tempo, um mancebo
+de appellido _Goes_, renunciava esse appellido, que era o de seu
+progenitor, em affronta ao pai que lhe impedira servir as armas na
+India!
+
+Um dia, Ruy Ferreira de Mendonça recebeu em Goa carta de seu pai,
+queixando-se dos filhos que o deixaram velho, desamparado, e exposto aos
+affrontamentos de quem já lhe não temia o braço alquebrado por annos e
+desgostos.
+
+E contava que o abbade de Creixomil, clerigo fidalgo e possante, ousára
+pôr-lhe as mãos nas barbas.
+
+Ruy sahiu com a carta de seu pai em demanda do vice-rei a pedir-lhe
+licença para vir ao reino. O vice-rei negou-lh'a, com o intento de
+evitar um crime, privando-se de um dos seus mais valentes capitães. E,
+sabendo que o fidalgo lhe não obedeceria e se andava negociando
+clandestinamente passagem nas náos, deu-lhe ordem de prisão até que os
+navios levassem ancora.
+
+As náos abalaram, e Ruy foi posto em liberdade.
+
+Apenas livre, correu á barra, avistou ao longe o velame, arrojou-se ás
+ondas, e nadou na esteira d'ellas. Quatro horas bracejou, reagindo ao
+sossobro, que já o levava de vencida. Favorecido por subita calmaria, as
+náos balouçavam-se paradas, e as vagas alisaram-se como lago de aguas
+estanques. Viram da amurada o homem que nadava. O capitão, que lhe
+quizera dar passagem occulta, suspeitou quem fosse, e mandou, uma lancha
+com oito remadores ao encontro d'elle. Colheram-o reanimado, mas em
+tamanho quebranto de forças que levou dias a restaurar-se. Tinha cortado
+duas leguas de mar!
+
+Desembarcou em Lisboa, e seguiu para o Minho.
+
+S. Thiago de Creixomil, abbadia do então chamado Couto de Fragoso,
+demorava no termo de Barcellos.
+
+Ahi vivia o clerigo que affrontára Ayres Ferreira.
+
+Ruy, antes de se avistar com o pai, bateu á porta do abbade, e
+enviou-lhe o seu nome.
+
+O fidalgo tonsurado desceu ao recio da sua residencia, empunhando a
+espada de cavalleiro. O soldado da India rejubilou quando viu o
+adversario armado. Vexava-o ter de matar um inerme. Travaram-se os dous
+gladios; mas que prelio tão desigual entre o guerreiro experimentado e o
+fidalgo que sabia apenas a esgrima de curioso! Á volta de poucos botes,
+o abbade de Creixomil cahiu traspassado do peito ás costas, ouvindo
+estas vozes frementes de odio:
+
+--Perro! não pozesses as mãos nas barbas de um velho!
+
+E depois foi beijar a mão a seu pai, com quem se demorou algumas horas,
+e partiu para não perder a passagem das náos que estavam de vela para a
+India.
+
+E lá foi ceifar novos louros.
+
+Passados annos, o solarengo de Barcellos morreu, e foi sepultado na
+capella do Santissimo Sacramento da igreja matriz de Barcellos, onde
+estavam os ossos de seus paes e avós.
+
+Ruy Ferreira voltou ao reino, e succedeu na casa de seu pai.
+
+Ninguem lhe pediu saldo de contas com os descendentes do abbade que
+naturalmente os tinha, de collaboração com as mais nitidas ovelhas do
+seu rebanho.
+
+Disputou a posse do morgadio de S. Pedro de Fajozes, no concelho da
+Maya, a sua prima D. Joanna de Eça, da casa de Cavalleiros. Ganhou a
+demanda.
+
+Em seguida, casou com D. Philippa de Athaide, filha de Martim Lopes de
+Azevedo, decimo primeiro senhor da casa e solar d'Azevedo e da Villa de
+Souto.
+
+Tiveram seis ou mais filhos; parte d'estes morreram na India.
+
+A representação d'esta casa, volvidos 60 annos, estava em Duarte Pacheco
+Pereira, governador de Ormuz, descendente do heroe desgraçado que teve
+aquelle nome; porque um bisneto de Ruy, chamado Luiz de Mendonça, casou
+com D. Guiomar de Albuquerque, neta de Duarte Pacheco Pereira.
+
+Eu não sei se algum dos trinta e quatro barões que conheço, estando no
+Brazil, e sabendo que seu pai, o tio Antonio da Thereza, foi espancado
+pelo estadulho do tio Joaquim da Thomazia, seria capaz de vir da rua da
+Quitanda desaffrontar o seu velho progenitor! Acho que não; e faria
+muito bem. Ha 300 annos, aquelle Ruy poz o abbade a dormir o somno
+eterno, cavalgou na sua mula, e lá foi socegadamente para Lisboa, e de
+Lisboa para a India. Hoje em dia, se o barão de Ranhados matar o
+Januario do Quinchoso, que lhe bateu no pai, o mulherio grita á
+d'el-rei, o regedor participa ao administrador, este faz uma circular
+telegraphica para os quatro pontos cardeaes, e o barão, quando chegar,
+mais aqui ou mais além, dá de cara com dous policias, e depois bem
+sabemos o resto.
+
+Mudaram os tempos pela mesma razão que mudaram os fidalgos. Não ha pai
+por filho nem filho por pai, em quanto se ganha dinheiro.
+
+Entre HEROISMO antigo e DINHEIRO moderno está um fosso. Quem quizer
+palmilhar de salto as duas orlas do abysmo cahe no _ridiculo_ ou... nas
+mãos da policia.
+
+
+
+
+NOVA SOLUÇÃO DO PROBLEMA HISTORICO
+
+
+Cá está outra que me parece mais sensata que a primeira. O premio,
+infelizmente para o verdadeiro merito, era já distribuido. Não obstante,
+o snr. _Bibliophilo_ ha de ser galardoado. A minha livraria é pobre: não
+vejo livro digno de s. s.^a; mas vou munir-me de duas joias litterarias,
+que submetto á escolha do douto letrado.
+
+Disponha, pois, s. s.^a do FAUST do snr. Joaquim de Vasconcellos, ou dos
+ORIGINAES OPUSCULOS do snr. Jayme José Ribeiro de Carvalho. A primeira,
+bem que não trate de hygiene, é drastica; a segunda, posto que entenda
+com a sciencia dos derivativos, corre parelhas com a utilidade da
+primeira. D'este modo, dou testemunho publico da consideração que me
+merece o bibliophilo, e fio muito dos dous offerecidos authores a
+lapidação do seu espirito, que reslumbra e rasga na seguinte carta
+destinos de nenhum modo chochos.
+
+«_Snr. redactor das NOITES DE INSOMNIA._
+
+«Estimo esta occasião de o informar de um caso que succedeu em 1693, e
+esclarece completamente as suas duvidas a respeito do augusto forasteiro
+que tres pontifices sentenciaram rei de Portugal.
+
+«Tenho a satisfação de possuir um folheto rarissimo que meu avô
+conseguiu salvar no incendio da livraria do conde da Ericeira, em 1755.
+É conhecido outro exemplar no _Museu britannico_. E eu preso-o tanto que
+não me desfiz d'elle, quando me offereceram em troca as obras completas
+do doutor Theophilo, e sete menos cinco em dinheiro.
+
+«Intitula-se a minha raridade: _Relaçam do sucesso que teve o patacho
+chamado Nossa Senhora da Candelaria da Ilha da Madeira, o qual vindo da
+Costa de Guiné, no anno de 1693, huma rigorosa tempestade o fez varar na
+Ilha incognita. Que deixou escripta Francisco Corrêa, mestre do mesmo
+patacho, e se achou no anno de 1699, depois da sua morte. Impresso em
+Lisboa em 1734._»
+
+«Aproveitando as suas insomnias, vou dar-lhe muito resumida a substancia
+do referido opusculo.
+
+«Conta Francisco Corrêa que, ao avistar as ilhas de Cabo-Verde,
+toldou-se repentinamente o céo, e logo uma nebrina escura fez noite a
+bordo, a termos de se não conhecerem os tripolantes. De subito, pegam de
+esfuziar nas gaveas repellões de ventania, e os relampagos a fuzilarem,
+e logo as nuvens negras a abrirem-se em jorros de chuva.
+
+«Traquete e mezena voaram. A embarcação fez agua por todas as pranchas
+descosidas; e, apesar de esforços desesperados, não vingaram cegar os
+sorvedouros. Quinze eram os nautas que se deram em uma jangada á
+misericordia divina. Ao abrir da manhã, avistaram a leste uns morros
+pardacentos; mas como não tinham governo que alli os proejasse,
+deixaram-se ir na corrente e á mercê de Deus até varar em terra.
+
+«Em quanto se reparava a embarcação, o mestre do patacho, com Manoel
+Antunes e João de Arruda, embrenharam-se no matagal com os arcabuzes bem
+cevados. Viram mono de oito palmos, e dentes de duas pollegadas e meia;
+viram cobras grossas como pipotes de oito almudes; e viram a final uma
+mulher marinha que Francisco Corrêa descreve d'este feitio:
+
+
+«Tinha todas as perfeições até á cinta, que se discorrem na mais
+formosa, e sómente a desfeavam as grandes orelhas que tinha, pois lhe
+chegavam abaixo dos hombros, e quando as levantava, lhe subiam a
+distancia de mais de meio palmo por cima da cabeça. Da cinta para baixo,
+toda estava coberta de escamas, e os pés eram do feitio de cabra, com
+barbatanas pelas pernas. Tanto que se viu no monte, presentindo ser
+vista, deu taes berros, que estremecia a ilha, pelo retumbo dos echos; e
+sahiram tantos animaes, e de tão diversas castas, que nos causou muito
+medo. Arrojou-se finalmente ao mar pela outra parte com tal impeto, que
+sentimos nas aguas a sua vehemencia. Todos se assustaram, menos eu, pois
+já tinha visto outra no cabo de Gué; e tinha perdido o medo com outras
+semelhantes apparições; e me lembra, que junto a Teneriffe vi um homem
+marinho de tão horrendo feitio, que parecia o mesmo demonio. Tinha
+sómente a apparencia de homem na cara, na cabeça não tinha cabellos, mas
+uma armação, como de carneiro, revirada com duas voltas; as orelhas eram
+maiores que as de um burro, a côr era parda, o nariz com quatro ventas,
+um só olho no meio da testa, a bocca rasgada de orelha a orelha, e duas
+ordens de dentes, as mãos como de bugio, os pés como de boi, e o corpo
+coberto de escamas, mais duras, que conchas. Uma tempestade o lançou em
+terra, e taes bramidos deu, que entre elles expirou, e para memoria se
+mandou copiar a sua fórma, e se conserva na casa da cidade d'aquella
+ilha.»
+
+
+«Ao terceiro dia, 8 d'agosto de 1693, ouviram uma voz lá dos reconcavos
+da serra, a bradar: _Portugal!_ _Castella!_ Seguindo a toada das
+exclamações, toparam um homem de venerando aspecto, que lhes fallou
+assim:
+
+
+«_Graças a Deus Senhor; infinitas graças vos dou, por me chegardes a
+tempo, depois de tantos annos, em que eu visse gente da Europa_; e logo
+olhando gravemente, e cortez para nós, disse: _Senhores, de que nação
+sois?_ Nós pasmados, não acertavamos a responder; e conhecendo elle o
+nosso susto, nos animou brandamente, rogando-nos para a sua pobre
+habitação, aonde entrámos, e sentados em um tosco pau, nos fallou com
+taes palavras:
+
+«_Senhores, sois portuguezes, ou castelhanos? Respondei sem susto; que
+não tendes, quem n'esta ilha se opponha aos vossos designios. Se me
+procuraes, para acabardes com a minha vida, aqui me achaes sem
+resistencia, e sem defensa mais que a de Deus; e como de tanto viver
+estou aborrecido, grande favor me fazeis em me alliviardes de tão grande
+penalidade._ Eu, que respeitava a sua pessoa, desejando satisfazer á sua
+pergunta, o certifiquei de que eramos portugueses, que arribáramos com
+um grande temporal áquella ilha: do que, tanto que me ouviu, posto de
+joelhos, levantadas as mãos, pondo os olhos no céo, soltando as
+lagrimas, deu graças a Deus, dizendo: _Ah bom Deus, quão grande é a
+vossa infinita Providencia!_ E levantando-se, nos abraçou, e saudou,
+dizendo: _Meus portuguezes, meus portuguezes_; sem que as lagrimas
+cessassem: e levando-nos para o interior da cova, nos fez sentar junto a
+si, perguntando-me pelos companheiros, e pelo nosso infausto successo,
+de que lhe démos larga conta. Perguntou-nos quem reinava em Hespanha, e
+sabendo que em Castella reinava Carlos II, e em Portugal D. Pedro II,
+suspirando com alvoroço, disse: _E Portugal tem rei! Oh Deus immenso,
+que te lembraste do teu reino!_ E dizendo-lhe nós como fôra acclamado
+el-rei D. João IV, e os milagrosos successos d'aquelle dia, não cessava
+de mostrar o gozo, que interiormente sentia: e logo repetindo novas
+lagrimas, suspiros, e soluços, nos perguntou pela conquista de Africa,
+ao que respondemos dando-lhe conta, do que sabiamos, e como desde a
+batalha, que perdera el-rei D. Sebastião, se não continuára, tomando-se
+horror a tal terra: e desejosos nós de sabermos com quem tratavamos, lhe
+pedimos nos consolasse, dizendo-nos, quem o levára áquella ilha
+incognita, e não arrumada nas cartas, e roteiros; ao que satisfez com
+taes palavras:
+
+«No tempo, que Philippe II entrou com violencia em Portugal, se retirou
+muita gente, por não vêr o seu reino recuperado das mãos dos mouros
+pelos nossos ascendentes, sem ajuda dos visinhos, sujeito a principe
+estranho. Muito tempo andei retirado, discorrendo pelo interior da
+Africa, passei á Palestina, e outras terras, tendo tantos trabalhos por
+muito suaves, na consideração, de não vêr com os meus olhos o quanto
+padeciam os meus naturaes; e passados alguns annos, passando á Europa,
+cahi nas suas mãos; e entregando-me a certos homens, me levaram a uma
+embarcação na bahia de Cadix, que promptamente se fez á vela. Tinha o
+cabo ordem particular para que em certa altura me lançassem ao mar, sem
+que me ouvisse, nem me deixasse fallar; e notando elle as minhas acções,
+e innocencia, suspendeu a execução; até que na altura de Cabo Verde, me
+intimou a ordem com tanto pezar, que bem entendi o desejo que tinha de
+me favorecer. Preparou-se uma lancha, o melhor que se pôde, e n'ella se
+pôz mantimento para tres dias. Entrou logo a animar-me, exhortando-me a
+que confiasse em Deus, que me poderia livrar do perigo, a que me haviam
+de expôr: e me mandaram baixar á lancha, o que não quiz executar, sem me
+confessar, e me preparar espiritualmente, para entregar a alma a Deus;
+que tudo se me concedeu; e tanto que baixei, cortaram o cabo, e me
+entregaram á disposição das ondas. Não perdi o animo, antes constante
+soffri este golpe, esperando, que Deus olhasse para a minha causa; e
+nadando a lancha livremente, na manhã seguinte de 4 de outubro, cheguei
+por acaso a esta ilha, em que habito sem que no discurso de tantos annos
+visse alguma creatura racional. Penetrei o interior, encontrando a
+piedade nos brutos, que não experimentei nos homens; e descobri esta
+concavidade, que a natureza devia ter obrado para meu abrigo. Aqui me
+recolhi, aqui tenho passado tantos annos, sustentando-me com datiles, e
+outras frutas. Vivo, e não sei para o que vivo; Deus sabe o para que.»
+
+
+«O testemunho do narrador, confirmado por Manoel Antunes e João de
+Arruda, assevera-me que se alguma vez houve D. Sebastião era aquelle.
+Muito instaram os nautas que se deixasse levar a Portugal; «mas
+elle--acrescenta o mestre do patacho _Nossa Senhora da
+Candelaria_--encarecidamente nos pediu com as lagrimas nos olhos, que o
+não precisassemos a tal jornada, pois não chegára ainda o tempo de
+passar a Portugal; que pelo amor que nos tinha, o lançassemos, terra
+firme, em qualquer parte da Africa; e que debaixo da palavra que lhe
+haviamos de dar como portuguezes partiria comnosco; o que lhe juramos.
+Perguntamos-lhe se tinha alguma cousa na sua cova, que embarcasse; e
+respondeu, que desde que n'ella entrára não cuidára mais que viver para
+Deus; e que todos os annos lavrava por suas mãos uma tunica de folhas de
+palma, para cobrir honestamente o corpo; na cova não tinha mais que uma
+cruz, que por suas mãos fizera de madeira; e que essa deixassem, para
+que n'aquella terra ficasse o signal da nossa redempção; e quando ella
+se povoasse nos tempos futuros se acharia tambem a noticia do seu
+habitador. Embarcou-se comnosco, beijando a terra, com muitas lagrimas;
+e fazendo-nos á vela, esteve em nossa companhia dous dias e meio, em que
+nos contava monstruosidades d'aquella ilha; e satisfazendo ao seu
+pedimento o lançamos em terra duas leguas distante de Arguim,
+expondo-lhe os perigos a que se expunha, sem que o podessemos persuadir
+a suspender o desembarque em terra de barbaros; ao que respondia, que
+Deus que o conservára até aquelle tempo, o livraria de todos os perigos.
+
+«Despediu-se de nós com tantas lagrimas, e gosto, que bem mostrava as
+saudades, que de nós levava, e o quanto se alegrava de passar áquella
+terra. Abraçou-nos a todos, e saltando em terra, a beijou, e levantando
+as mãos agradeceu a Deus as mercês que lhe fizera, e esperava receber da
+sua piedosa mão; e penetrando aquella costa inculta, nos deixou sentidos
+pela falta da sua companhia. Jámais podemos alcançar, o sabermos d'elle,
+a sua patria, e nome; divertindo a resposta politicamente com tanta
+gravidade, que nos não dava confiança, para instarmos; e sómente ao
+despedir me disse, que a seu tempo o saberiam os nossos descendentes; e
+dizendo-lhe eu nos consolasse ao menos declarando o tempo, nos disse:
+que Deus o sabia.
+
+«Varios discursos fizemos sobre este homem, conservado por tantos annos
+n'aquella ilha, e agora caminhando por taes desertos; e nos persuadimos
+ser cousa maior. Deus o leve, e traga a salvamento.»
+
+
+«Confronte agora v. as datas das sentenças dos tres pontifices, e
+deprehenda que D. Sebastião, tendo corrido a Palestina e _varias terras_
+como elle disse aos marinheiros, muito é de crêr que estivesse em Roma
+nas tres épocas assignaladas na sentença.
+
+«Quanto á circumstancia de estar então o rei bastante avançado na
+idade--pois tinha 137 annos--isso é controversia que pertence á alta
+philosophia e não ao calendario decidir. São os _porquês_ de Deus, dos
+quaes, sobre o mesmo assumpto, escreveu o doutissimo padre Antonio
+Vieira:
+
+
+«Demais que os porquês de Deus são incomprehensiveis, e das suas razões
+não póde o entendimento humano dar razão; quanto mais, que Deus Nosso
+Senhor sempre faz as suas cousas grandes, e com grandes milagres. Bem
+podia Deus dar no tempo do Anti-Christo padres, que a este prégassem, e
+com tudo guarda ha tantos annos a Enoch e Elias: outras paridades podéra
+trazer se a brevidade as permittira.
+
+«... Ou este rei morreu, ou não! Se morreu, aonde? Na batalha, ou fóra
+d'ella? Se fóra d'ella, quem o testemunhou? Se morreu na batalha, como
+não acharam os mouros o despojo, que tanto desejavam, e procuravam? Se
+morreu no rio, como veio a sua espada? Como mandou o cardeal D. Henrique
+aos que se fingiram reis inquirir e perguntar se eram o verdadeiro rei?
+Se lhe a elle constára a sua morte, nunca fizera tal inquirição; e a
+quem melhor podia constar, senão a elle? E bem se viu, que lhe não fez
+exequias, nem officios, sendo um ministro da igreja, a quem
+verdadeiramente tocava como rei, como tio, como prelado e por obrigação.
+Mais: se morreu, como esteve depois em Veneza, e Napoles, preso e
+desprezado, o que consta evidentissimamente, o qual successo refere
+Lucio Floro nos seus _Annaes_, e D. João de Castro, que foi testemunha
+de vista, o escreveu; e todas as circumstancias d'isso, e os prodigios,
+que então succederam o confirmam, os quaes no quarto fundamento d'este
+discurso mostraremos? Mais: que o snr. rei D. João IV o testificou e
+contou, o que é uma mostra de evidencia certa, e outras muitas, que é
+trabalhoso o referil-as por papel.»
+
+
+«Responda-lhe, se póde.
+
+
+«Muito venerador
+
+
+«_Bibliophilo._»
+
+
+Não tenho que responder. S. s.^a cuidará que eu sou menos sebastianista
+que a sua pessoa?
+
+Já lhe disse que escolha uma das obras citadas, e... sabe que mais?
+mande-as buscar ambas, que as merece.
+
+
+
+
+DESGRAÇADO BALZAC!
+
+(Á _ACTUALIDADE_)
+
+
+Tantas vezes o noticiarista repete que eu sou assignante do seu papel,
+que parece estar-me convidando a declarar a razão por que assignei.
+
+Eu lh'a digo ao noticiarista. Foi para me regalar com as inepcias do
+folhetinista.
+
+Quer-me parecer que os dous são um e mesmissimo tolo (com licença: não
+diga que sou incivil).
+
+Se os dous não são homogeneos, então tenho centauro pela frente. Em
+cima, no noticiario, está a porção humana do aborto; em baixo, no
+folhetim, está (com a devida cortezia) a porção bestial do mesmo
+centauro.
+
+Mas ha lanços em que o centauro se cabriola de feitio que a metade
+debaixo esperneia em cima; e a gente, a meia volta, não sabe já onde
+está o homem, nem onde está (com a divida venia) a bêsta.
+
+O noticiarista, que me dizem chamar-se Silva Pinto, consinta que eu, por
+conveniencias da composição e da variedade da fórma, lhe não chame
+sempre centauro e tolo. Obriga-me a pedir-lhe licença todas as vezes em
+obsequio á urbanidade. O melhor é chamar-lhe, como variante, Silva
+Pinto.
+
+O snr. Silva Pinto começou no n.º 16 da _Actualidade_ a traduzir
+romances de Balzac.
+
+Ai da nomeada do eminente explorador da alma, se Balzac podesse
+espelhar-se na fusca photographia que lhe tirou este encarvoador de
+paredes caiadas!
+
+Eu não me despendo em considerações banaes acerca das difficuldades que
+empecem trasladar a portuguez os livros de Balzac.
+
+Quem entende as galas dos classicos francezes, e as encontra condensadas
+no author dos _Contes drolatiques_, ainda que lhe sóbre igual saber da
+linguagem portugueza, ha de vêr-se em apuros para moldurar em estylo
+vernaculo as concisões, os idiotismos, a energia, o atticismo de Balzac.
+
+Quem se afoutaria aos espinhos da empreitada? Um sujeito ignorantissimo
+de ambos os idiomas: o snr. Silva Pinto.
+
+E, sem mais delongas, vou provar-lh'o. O leitor faça-me o obsequio de se
+prover do n.º 16 da _Actualidade_, e abrir isso onde começa o martyrio
+de Balzac. Não me demoro a mostrar-lhe que tudo ahi tresanda bafio
+francez, sem um torneio de phrase portugueza, sem um resalto que denote
+primor, ou sequer um dizer que não venha gafado de construcção
+gallicista. Isso é o menos. Vamos ás tolices mais lerdas:
+
+Balzac, descrevendo um sujeito, a quem os seus amigos chamavam
+_tempo-brusco_, dá a razão do epitheto n'estes termos:
+
+_Il ne se rencontre en effet chez lui ni lumière trop vive, ni obscurité
+complete._
+
+E vai agora o snr. Silva Pinto, parvoejando, traduz:
+
+_Effectivamente, estão banidas por elle de sua casa tanto a luz
+demasiado viva como a escuridão completa._
+
+Viram? _chez lui_--de sua casa. Incrivel!
+
+Balzac, interpretado por um portuguez medianamente versado na sua
+lingua, quiz dizer:
+
+_Não ha que esperar d'este homem grandes luzes nem grandes trevas._
+
+Mas... _a casa do homem_! Quando quiz Balzac saber se o sujeito tinha
+luz ou estava ás escuras em casa? Quem estava em _escuridão completa_
+sabemos nós.
+
+Adiante.
+
+Balzac descreve uma senhora rodeada de homens desvanecidos, gentis,
+espirituosos, de notavel fama ou nome illustre, de baixa e alta
+condição, e acrescenta:
+
+_Auprès d'elle tout a blanchi._
+
+O snr. Silva interpreta assim a phrase:
+
+_Tudo isto via embranquecer á beira d'ella os proprios cabellos._
+
+Quer dizer: _áquelles homens, quando conversavam com aquella senhora,
+embranqueciam-se-lhes os proprios cabellos._
+
+Esta sandice faz-me compaixão. Se vejo outra assim, emigro.
+
+Balzac queria dizer: todos estes homens de prestigio, de galhardia, de
+renome, aos olhos d'ella, _tout a blanchi_, «eram como se fossem
+velhos». Não lhe inquietavam o coração, não lhe perturbavam a serena
+indifferença, etc.
+
+Adiante.
+
+Referindo-se á insensibilidade d'esta dama, acrescenta Balzac:
+_Certaines femmes coquettes sont capables de suivre ce plan la_. O
+author quer dizer: _Certas mulheres galanteadoras tem artes de
+dissimularem os mesmos geitos_; mas o snr. Pinto, subtrahindo o
+_coquettes_ que dá o relevo ao confronto, diz espalmadamente:
+
+_Ha mulheres capazes de seguir... aquelle plano._
+
+Chatissimo!
+
+Balzac diz que Eugène de Rastignac... _avait plus d'une fois regardé la
+marquise de manière à l'embarrasser_.
+
+Traducção do centauro:
+
+_Olhava de quando em quando a marqueza de modo capaz de embaraçal-a._
+
+Ha aqui um fartum de rapaz de escola, que faz engulho. Como é que os
+olhos embaraçam a dama? Com os rudimentos da lingua, um traductor menos
+soez diria:
+
+_Fitou-a algumas vezes de modo que a inquietou, ou enleou, ou
+perturbou._ Abstenho-me de extrahir dos diccionaristas as indecencias
+subentendidas na phrase _embaraçal-a_.
+
+Adiante.
+
+Balzac diz que o personagem _etait commodément assis, et avait les pieds
+plus souvent sur ses chenets que dans sa chancelière_.
+
+O tal Pinto estraga d'esta arte:
+
+_Estava commodamente sentado e aquecia mais frequentemente os pés no
+brazeiro do que no traste forrado de pelles, destinado para tal fim._
+
+No traste forrado de pelles!
+
+_Chancelière_,--uma palavra diluida em nove!
+
+Podia elle, avisinhando-se da indole da lingua, traduzir _capacho_, ou
+_ceirão de félpo_, ou _guarda-pés_, ou _pelliça_, por analogia com os
+mantos forrados de pelles; mas... _traste!_ Salvo seja!
+
+E traduzir _chenets_ para brazeiro!
+
+Este brazeiro deu-lhe provisão para tolejar á larga, e afogar no
+tinteiro as palavras que não percebeu.
+
+Logo em seguida, escreve Balzac:
+
+_Oh! avoir les pieds sur la barre polie qui reunit les deux griffons
+d'un garde-cendre_, etc.
+
+Querem vêr o que é uma traducção sovina?
+
+_Oh! conservar os pés junto ao brazeiro..._ E acabou-se.
+
+Áquelles _griphos_ embucharam-no ao bom do Pinto! Passou por aquillo
+como o leitor e eu pelas legendas arabes da sé velha de Coimbra. Com a
+sua crystallina ignorancia, privou o leitor de entender o suave
+sybaritismo do personagem que, refestellado na poltrona, recostava _os
+pés no varandim lustroso que entre-une os dous griphos do cinzeiro_.
+Percebeu elle que os fogões tem um receptaculo, que recebe a cinza, ao
+través de uma grelha, e que os ha ladeados de figuras que formam entre
+si o apoio dos pés? Não percebeu nada.
+
+Senhores leitores do Balzac, segundo a _Actualidade_:
+
+O homem que nos vai apresentar o author da _Comedia humana_, vestido de
+farrapos bordalengos, é esse que ahi fica... _ás moscas_, até ao numero
+seguinte.
+
+ * * * * *
+
+Agora, duas palavras graves.
+
+O snr. Theophilo Braga mandou acorrentar este _house-dog_ á porta da
+_Actualidade_. Fez mal. Eu tinha-me recolhido mansamente ao silencioso
+espanto das arrancadas que os cafres faziam no campo arroteado pelos
+Castilhos, Garretts, Herculanos, e outros somenos lidadores d'essa ala
+que ahi está exposta ás injurias de tanto biltre. Era meu proposito
+deixal-os cavar a sepultura d'elles com o seu proprio escoucear
+phrenetico.
+
+Logo, porém, que o rafeiro mais refilado da matilha me latiu á sombra,
+quando eu nem sequer o estremava dos anonymos que desprezo,
+sacudil-o-hei á cara dos que o açulam, e fal-o-hei portador das minhas
+caricias aos que o alimentam, em conformidade com o proverbio: _An
+hungry dog will eat dirty pudding._
+
+
+
+
+OS 2 JOAQUINS
+
+
+Um é o arranjador dos _Musicos_ e de outras maravalhas.
+
+Outro é Theophilo que tambem é _Joaquim_.
+
+E tambem é _Fernandes_.
+
+Expungiu o nome e o appellido, logo que se aforou em letras.
+
+_Joaquim Fernandes_ era a parte chata do sujeito.
+
+Desfez-se d'isto, poz-se ás cavalleiras do genio, e apregoou-se
+_Theophilo Braga_[8].
+
+Aviso á posteridade:
+
+Elle era Joaquim!
+
+A fatalidade dera 2 a Portugal, no mesmo seculo.
+
+Gemeos, homogeneos, homonymicos, productos de gravidez longa, parto
+feito a urros, ferozes no nascedouro, ringindo com dentes anavalhados,
+ao tempo que a lisonja os lambia, para os ageitar, como a ursa faz aos
+seus cachorros.
+
+E que cachorros!
+
+ * * * * *
+
+Nem os sepulcros respeitam.
+
+Remetteram contra um, simultaneamente, os 2 Joaquins.
+
+A sepultura era de gigante que o leitor, se não o viu, ainda o vê na
+projecção da sua imagem pelas paginas do livro amado.
+
+Chamára-se, n'esta vida, ALMEIDA-GARRETT;--e chama-se hoje a gloria
+imperecedoura de Portugal.
+
+O Joaquim, que se expurgou de Fernandes, para escoucear o cadaver de
+Cesar, disse...
+
+Mas, antes de reler-se o que elle disse, veja-se o que escreveu o editor
+de _Helena_, romance posthumo e incompleto do author de _Fr. Luiz de
+Sousa_:
+
+
+«Acabava o anno de 1854; ás primeiras cerrações do outomno inclinára
+mortalmente a fronte o snr. visconde de Almeida-Garrett, sentindo no
+coração os aggravos da doença que, dentro em pouco e para sempre, havia
+de apagar-lhe a luz dos olhos.
+
+«Cresceu o mal. Imminente o perigo, durante os poucos mezes em que a
+vida lhe fugia, quiz o nobre enfermo dizer o ultimo adeus ás queridas
+producções do seu elegante espirito. Era então que a voz quasi infantil
+da filha idolatrada lhe dizia os seus livros todos; foi então que,
+revendo o archivo dos seus papeis, elle rasgava os que não deviam
+sobreviver-lhe, guardando aquelles que, de mão propria, legava á
+posteridade. Era um sol no occaso, revendo-se na luz immensa com que
+alumiára a patria.
+
+«Finda a leitura, prompto o legado, extinguiu-se aquella existencia
+esplendida, abraçada á cruz de Christo, abençoando a herdeira do seu
+nome, e embalada pelos cantos da sua propria harpa. Fim sublime! Sentiu
+no ultimo suspiro,--o seu credo, o seu génio e todo o seu coração.»
+
+
+
+Agora, Joaquim Theophilo, interpretando com gaiata solercia as palavras
+de C. G., genro de Garrett e editor de _Helena_:
+
+
+«Elle escreve alludindo á morte de Garrett: «Era um sol no occaso
+_revendo-se na luz_ immensa com que alumiava a patria.» E em seguida:
+«extinguiu-se aquella existencia esplendida _abraçada á cruz_ de
+Christo...»
+
+
+E ajunta o pellitrapo das letras com brutalidade manhosa:
+
+
+«É de crêr que não haja aqui intenção maliciosa, mas desperta
+insensivelmente o dito celebre de Rodrigo da Fonseca Magalhães.»
+
+
+É impudor glosar essa sordicia que ahi fica. Ninguem se demora a
+observar um cão resêcco, pilharengo, derreado, chagoso, que lambe
+faminto a sangueira negra de um matadouro.
+
+Até os ossos de Rodrigo da Fonseca lhe serviram á gargalhada!
+
+Nunca o honrado estadista proferira o tal motejo que lhe assacaram,
+estando Garrett na agonia da morte.
+
+Garrett morreu entre dous amigos e duas irmãs da caridade.
+
+Eu perguntei a um dos intimos de Fonseca Magalhães, ao desembargador
+Northon, se o seu amigo proferira o gracejo tão celebrado.
+
+--Não--respondeu elle--mal sabe a dôr que eu involuntariamente causei a
+Rodrigo, quando lhe repeti a proterva zombaria que lhe attribuiam.
+
+ * * * * *
+
+Agora, o outro Joaquim, o musicógrapho.
+
+Escrevi em um livro estas linhas em fórma de carta a um amigo:
+
+
+«Sabes tu o que eu queria roubar á gaveta de José Gomes Monteiro? As
+cartas de Almeida-Garrett, as confidencias d'aquelle immenso genio, que
+se expandiam na alma e intelligencia de José Gomes Monteiro. Estas
+seriam as paginas de ouro da biographia de ambos. Uma sei eu que existe
+em que Almeida-Garrett, em perigo de vida ou previsão de morte proxima,
+encarrega o seu amigo de defender-lhe a honra e a fama assim que a pedra
+sepulchral lhe vedar o direito da defeza. Que sublime legado! que
+legitima e jubilosa vaidade para o coração honrado e generoso de José
+Gomes Monteiro![9]»
+
+E vai agora, o dos _Musicos_, péga de Garrett, adormecido, havia 19
+annos, no sagrado somno dos mortos santificados por saudade, talento e
+veneração, e enxovalha-o d'esta arte:
+
+
+«Sim, senhor, basta isto para nos pintar o janota de 55 annos, que, para
+brilhar como um _vieux vert_ aos olhos das _petites maítresses_ de ha 30
+annos, não teve vergonha de pintar as suas barbas com elixires, dando
+com a sua vida airada a confirmação de que o _genio immenso_ precisa da
+_bohème_ para a sua inspiração, etc.[10]».
+
+
+Alma e linguagem travam-se aqui de mão, e medem a sciencia e a educação
+do sujeito. Este snr. Joaquim usa gravata, e não me consta que passasse
+a infancia gandaiando nas escadas dos Congregados. Foi educado na
+Allemanha, por não caber (diz elle) _nos focos de immundicie physica,
+moral e intellectual de dous ou tres collegios do Porto onde o haviam
+mettido_[11]. Já vêem que o homem é limpo. Depois, veio á patria para se
+formar em Coimbra; e, como aquillo de Coimbra lhe cheirasse aos
+collegios do Porto, foi-se embora, e abriu, por sua conta, universidade
+de frandulagens no Porto, com succursaes em Allemanha, França, etc.
+
+Não só é conhecido mas até soffregamente lido em Paris.
+
+Elle mesmo nos conta esta cousa no livro onde estou esgaravatando:
+
+
+«Voltamos serenamente aos nossos trabalhos sobre a _Archeologia
+artistica para darmos_ a nova edição critica do _Catalogo da livraria
+d'el-rei D. João IV_ que, _como sabemos_ pelo nosso sabio amigo Mr.
+Ferdinand Denis, é esperada com impaciencia em Paris.»
+
+
+Viram? _com impaciencia_.
+
+Era em 1872, quando ainda o coração e o cerebro da França vibravam nas
+angustias do opprobrio nacional, da luta fratricida, da devastação, do
+petroleo, da ingente miseria das viuvas e dos orphãos. Pois, em meio de
+tanto horror, a unica esperança que, a intervallos, dava palpitações de
+gaudio a Paris era a impaciencia das turbas, com os olhos postos no
+occidente, á espera do livro do nosso, tão nosso, Joaquim! Cada vez que
+chegava á capital da França a mala de Portugal, as multidões
+acotovelavam-se frementes á porta do Mr. Ferdinand Denis, amigo do
+sobredito, e, ullulando insoffridas, pediam o _Catalogo_. O sabio
+francez linimentava com promessas o phrenesi da academia e dos
+institutos; as massas debandavam; e depois, recolhido ao seu gabinete,
+Mr. Denis pedia novamente o _Catalogo_ ao lusitano Joaquim, pintando-lhe
+com termos não encarecidos a impaciencia dos seus.
+
+Aqui está quem é o homem lá fora, e cá dentro.
+
+Elle embirra com a maioria do publico portuguez; e justifica a birra
+n'estes termos:
+
+
+«Porque lhe antepomos um ideal que elle não quer ter[12].»
+
+Então? fazem favor de aceitar o ideal que lhe antepõe o snr. Joaquim?
+Elle não sabe a significação do verbo _ante-pôr_; mas imagine-se que
+quer dizer o que a palavra não diz; presuma-se que nos _offerece_ um
+ideal, por um preço razoavel. Que duvida temos em haver ás mãos isso que
+o rapaz nos trouxe de Hamburgo, em vez de nos trazer dous costaes de
+queijos? Ha de haver muito quem antes quizesse, em vez do _ideal_
+anteposto, uma _idéa_ de servir; mas, se Joaquim dá _ideaes_, peguem
+n'elles, antes que o homem os exporte, como cá fazem aos bois gordos que
+os nossos magarefes não aceitam pela taxa de Londres, posto que lh'os
+anteponham.
+
+É o diabo este homem! Má mez p'ra elle!
+
+Lá que o rapazola verbere os escriptores vivos que lhe não aceitam o
+ideal, é bem feito. De Mendes Leal, por exemplo, diz que é _uma
+antigualha que só apparece nos leilões dos burguezes de ha 40 annos_. De
+Castilho diz que lhe riscára o nome, depois que o outro Joaquim _lhe
+applicou o processo_. (Ai d'aquelles a quem o outro applica processos!
+_Eheu!_) De Herculano diz: «está decrepito». Todos estes e outros de
+menos porte são os relapsos do ideal de Joaquim; mas Garrett e Rebello
+da Silva? Um era já morto; o outro fallecia quando o enxovedo alvorejava
+n'este novo dia da sciencia patria. É crueza injurial-os, posto que
+Joaquim Theophilo Fernandes lhes haja _applicado o processo_.
+
+Este Fernandes já processou o Herculano, e disse: «O snr. Alexandre
+Herculano nunca teve vocação litteraria[13].» E o _Eurico_? E a
+_Abobada_? E o _Monge de Cistér_? E o _Bobo_? e a _Historia de
+Portugal_? e a da _Inquisição_! e a _Harpa do crente_? Cuida o leitor
+que é mister vocação litteraria para escrever estas cousas? Não, senhor.
+Estes livros só os escreve quem a não tem. O snr. Herculano, se tivesse
+vocação litteraria, fazia umas botas.
+
+Parte d'aquellas obras diz Fernandes que é glosa da _Notre Dame_ de
+Victor Hugo.
+
+_Eurico_ é a variante do typo de _Claudio Frollo_;
+
+O _Monge de Cistér_ é variante da paixão de _Esmeralda e de Phebus_;
+
+O _Bobo_ é o desenvolvimento de Pierre Gringoire;
+
+A _Historia de Portugal_ é apenas a historia dos concelhos precedida da
+biographia dos reis.
+
+Depois, escalpella-lhe a linguagem, e diz que o seu estylo _só se
+admitte nos rapazes de escóla_[14].
+
+O leitor está em dizer que este Joaquim parvoeira tão fóra dos termos
+concedidos aos sandeus que a policia não deve ser estranha ao escandalo.
+
+Mas, n'este comenos, apparece um tal Adolpho Coelho, e diz:
+
+É _Theophilo Braga evidentemente um dos homens mais notaveis que
+Portugal tem produzido n'este seculo_[15].
+
+--E quem é Adolpho Coelho?--pergunta o leitor.
+
+Vem Theophilo, e responde:
+
+É o _introductor da sciencia da philologia comparada em Portugal_[16].
+
+Todos estes Joaquins é que sabem lá uns dos outros.
+
+Juntam-se ás vezes e perguntam entre si:
+
+_Theophilo a Coelho_: Quem és tu, ó aquelle?--Resposta: Eu sou o
+introductor da philologia comparada em Portugal.
+
+_Coelho a Theophilo_: E tu?--Resposta: Sou um dos homens mais notaveis
+que Portugal tem produzido n'este seculo.
+
+_Joaquim dos Musicos a Joaquim dos Mosárabes_: Quem sou eu?--Resposta:
+És o musicógrapho, e o inventor dos imperativos _sejai_ e _estejai_.
+
+_O 2.º ao 1.º Joaquim_: E eu?--Tu applicas processos, e eu risco os
+nomes.
+
+Ó pandegos, ó lombrigas que roeis o intestino recto da Minerva! Ó
+Joaquins! Eu vos arrenego!
+
+ [8]No _Diccionario bibliographico_ do snr. I. Francisco da Silva, é
+ conhecido por _Joaquim Theophilo Fernandes Braga_. (Veja
+ Supplemento).
+
+ [9] _Esboços de apreciações litterarias._
+
+ [10] _O consummado germanista_, por Joaquim do Vasconcellos, pag.
+ 50.
+
+ [11] _Obra cit._, pag. 2.
+
+ [12] _Obra cit._, pag. 9.
+
+ [13] _Bibliographia critica_, pag. 106.
+
+ [14] _Obra cit._, pag. 200 e 201.
+
+ [15] _Obra cit._, pag. 215.
+
+ [16] _Obra cit._, pag. 253.
+
+
+
+
+FLORES PARA A SEPULTURA DE FERREIRA RANGEL
+
+
+É o snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos que m'as envia. Irei
+levar-lh'as. Conheço a valia que principia a hervecer. As côres alegres
+da esperança cobrem a podridão.
+
+Estão como a dizer-nos que o viver é olhar para diante e para os vivos;
+e nada de mortos nem de saudades. Iremos levar-lhe as flôres do seu
+amigo da mocidade.
+
+Antonio Augusto escreveu, a respeito de Ferreira Rangel, no seu _Jornal
+da Noite_, uma pagina assignaladamente formosa e triste. Alli ha
+coração, ha lagrimas, ha o que quer que seja que resgata o delicto da
+imprensa, silenciosa, na morte de um valoroso obreiro da liberdade, e
+modesto cultor das letras. E, ao proposito de letras, acrescentarei que
+Ferreira Rangel, nos derradeiros annos da vida, tinha uns cem volumes de
+obras portuguezas mais de sua feição; e, quando expirou, esses cem
+volumes estavam empenhados para o custeio dos ultimos caldos.
+
+Indemnise-se a indigencia d'este homem de bem com a riqueza do alto
+louvor que lhe apregôa um brilhante espirito a quem não se escondem as
+desventuras alheias, nem esmorece o brado a favor dos desvalidos.
+
+Estas são as palavras pungitivas e eloquentes do grande escriptor:
+
+..........................................................................
+
+
+«Não succedeu porém outro tanto com o artigo intitulado FERREIRA RANGEL.
+Ahi assaltou-nos a saudade do homem, a recordação de obsequios
+recebidos, a magoa da sua desventura, e não podémos, nem quizemos conter
+as lagrimas. Se é vergonha chorar, diga-se que é a mais viciosa vergonha
+inventada por homens.
+
+«Conhecemos aquelle Francisco Ferreira Ribeiro Pinto Rangel em 1834.
+Ainda morava a Santo Antonio do Penedo em uma especie de ilha sem mar
+entre o convento de Santa Clara e o palacio dos Vieiras de Mello, então
+habitado pelo visconde de S. Gil de Perre, depois marquez de Terena, e
+agora pelo snr. visconde de Azevedo. A supposta ilha era formada, se a
+memoria nos não engana, pela capella de Santo Antonio e pela casa do
+chamado _escrivão fidalgo_ cujo brazão recentemente collocado alvejava
+na frontaria.
+
+«Ferreira Rangel tinha servido em um dos batalhões do Porto durante o
+cerco, e era liberal enthusiasta. Ainda trajava o uniforme militar, e
+apparecia nos theatros, nos passeios e em todas as reuniões. Não lhe
+chamavam _janota_ porque a palavra estava por cunhar na casa da moeda da
+vernaculidade. Os seus principaes companheiros eram Nicolau Coquet Pinto
+de Queiroz que foi depois empregado da camara municipal, e talvez já não
+viva, e Antonio Joaquim Carneiro Homem que foi acabar a vida em
+Moçambique, provido no mais reles emprego da provincia em recompensa de
+varias feridas recebidas no cerco e de ter gasto na defeza da liberdade
+toda a sua fazenda. O ministro que o despachou, envergonhava-se de
+empregar tão mesquinhamente homem de taes serviços. Era o snr. Mendes
+Leal. Mas não havia outro emprego, e o pobre voluntario liberal não
+podia esperar. Tinha mulher e filhos, e já não tinha pão nem calçado.
+
+«D'esses tres homens o que tinha imaginação mais viva, enthusiasmo
+vigoroso, e propensões litterarias era Ferreira Rangel. O seu amor á
+liberdade não tinha limites, e como era amor sincero, muitas vezes o
+impelliu a expôr a vida para salvar da furia brutal dos exaltados os
+proprios adversarios contra quem lutára havia pouco nas linhas do Porto.
+Alguns cavalheiros das provincias do norte lhe deveram n'esse tempo
+assignalados serviços. A generosidade do coração era n'elle igual á
+coragem e valentia.
+
+«Uma noite desciamos a rua do Bomjardim onde moravamos, e ao dobrar a
+esquina da rua do Bolhão vimo-nos cercados por quatro scelerados que
+tomando-nos, apesar de imberbe, por algum temeroso capitão das hostes
+realistas, iam demonstrar-nos com argumentos de carvalho-cerquinho a
+excellencia do governo liberal, e induzir-nos a crêr que os caceteiros
+azues e brancos não ficavam a dever nada aos seus predecessores azues e
+encarnados.
+
+«Subia a rua Ferreira Rangel e chegava ao sitio do combate; quando o
+rapaz de 18 annos principiava a rebater, como podia, a crua dureza
+d'aquelles argumentos. O mesmo foi advertir no caso que saltar ao meio
+do grupo, deitar por terra um dos aggressores, ferido de tremenda
+bofetada, e obrigar os outros a fugirem, envergonhados mas resmungando.
+
+«Conservamos sempre relações com este excellente homem. Depois de 1839
+nas ferias da universidade, iamos sempre visital-o quando passavamos no
+Porto. Desde 1850 nunca mais tivemos noticias d'elle. Quando agora lêmos
+no livro do snr. Camillo Castello Branco a commemoração da morte de
+Ferreira Rangel, desvalido, ignorado, e conduzido na tumba dos pobres
+entre quatro tochas desde a rua Chã até ao Prado, sentimos não ter
+estado no Porto n'esse dia para acompanhar á derradeira morada aquelle
+homem desditoso.
+
+Está explicada a sensação que nos causou o artigo FERREIRA RANGEL.
+Permitta o snr. Camillo Castello Branco que entre o ruido surdo da
+enxada do coveiro alizando o comoro de terra sobre as taboas chuviscadas
+do caixão, e o silencio eterno do mundo, se levante a nossa voz a
+prestar á memoria do morto a homenagem da gratidão que lhe deviamos.
+
+«D'esta vez a _alçada da imprensa chegará até ao esquife do defunto_, e
+derramará sobre elle sinceras lagrimas de saudade e de reconhecimento.»
+
+
+
+
+O MYSTERIO DA CASTANHA
+
+
+No estimavel livro das _Cartas familiares_ de D. Francisco Manoel de
+Mello, ha uma que estimulava fortemente a minha curiosidade, sempre que
+a lia. É a LXXIV da _centuria segunda_, escripta _a um amigo que passava
+á provincia da Beira_. A carta é breve, e diz assim:
+
+
+«Que vos hei de dizer? senão que vos vades embora, que estejaes pouco,
+que vos lembreis de mim. Não sei certo se se diz mais nas partidas: que
+eu, de puro estar, já não sei se como a gente se despede[17]. Só vos
+peço que, pois ides para terra de muitos castanheiros, me não caseis lá
+com alguma Maria Castanha; _cujo tempo parece que tornou agora, porque
+aqui entre nós o fez assim.... Mas que muito, se traz o diabo aos pés,
+que o fizesse resvalar e cahir? salvo na conta_. Ide com Deus, senhor
+meu, e tende em tudo tão bom successo, que vos pareça a Beira mal, e
+volteis logo. Nosso Senhor, etc. Torre em 15 de maio 1646.»
+
+
+As palavras grifadas eram o meu enleio. Toda a minha scisma laborava em
+saber o nome rebuçado n'aquellas reticencias, a razão por que o sujeito
+trazia o diabo aos pés, e que casta de pessoa era aquella Castanha
+casada com o anonymo, forçosamente individuo de alta prosapia.
+
+As pessoas de siso, que leram esta carta enigmatica, de certo não moêram
+sua paciencia a farejar-lhe o escandalo; eu, porém, que não posso
+dormir, e acordo os mortos para conversarem commigo á hora em que os
+vivos dormem, necessito saber por inteiro o viver das pessoas com quem
+estou relacionado.
+
+E, por tanto, á custa de muito averiguar, e bisbilhotar com os
+contemporaneos do illustre encarcerado da Torre Velha, logrei
+decifrar-lhe a carta.
+
+As reticencias encobrem o nome de Francisco Botelho, primeiro conde de
+S. Miguel. Por ser de _S. Miguel_, é que D. Francisco lhe põe o diabo
+aos pés.
+
+Temos o nome do mysterioso personagem.
+
+Saibamos agora quem era a _Castanha_.
+
+Era Ignez de Almeida, filha de Manoel Castanha, escrivão em Lisboa.
+
+Ignez era formosa e honesta.
+
+O conde de S. Miguel, já viuvo de D. Isabel de Mendonça, filha do
+segundo conde de Penaguião, apaixonou-se por Ignez. Frustrados na
+esquivança da moça todos os artificios do ouro com o prestigio da
+pessoa, o conde accedeu á condição que ella estipulou: o casamento.
+
+Divulgou-se em Lisboa o disparatado consorcio, que toda a fidalguia
+censurou, e D. Francisco Manoel metteu a riso, dando o noivo como
+resvalado e cahido por cambapé que lhe fez o diabo.
+
+No entanto, o escrivão Castanha rejubilava por se vêr tão egregiamente
+aparentado.
+
+Volvidos dous annos, apaixona-se o conde por D. Isabel Cecilia de
+Tavora, filha herdeira de Alvaro Pires de Tavora.
+
+Este fidalgo com os da sua parentella, e com os estranhos,
+escandalisam-se do proceder deshonrado do marido da Castanha, o qual
+ousa requestar uma donzella de primeira linhagem.
+
+O conde defende-se, publicando que não é legitimamente casado com Ignez
+Castanha.
+
+E, feita a infame declaração, separa-se d'ella e do filhinho, que se
+chamava Nuno.
+
+Ignez, ferida no coração e na honra, protesta que é legitima esposa do
+conde de S. Miguel.
+
+Instaura-se demanda.
+
+O conde confessa então que, na verdade, fizera um simulacro de
+casamento, mediante um padre fingido, que era seu criado, com corôa
+rapada, e vestido sacerdotalmente.
+
+A justiça aceitou a confissão do conde, confirmada pelo parocho fingido
+e pelas testemunhas da tromoia.
+
+Sentenciada a nullidade do casamento, cuida o leitor que o conde foi
+obrigado a revalidal-o, ou a seguir o seu criado e as testemunhas para o
+degredo?
+
+Não, leitor pio.
+
+A fidalguia restituiu ao seu parente a dignidade abalada pelo supposto
+consorcio com a Castanha.
+
+A lei desquitou-o da pobre senhora, cujo delicto estava santificado por
+ignorar que no mundo havia tamanho infame.
+
+Porém, como ella tivesse um filho, a sentença mandou que esse menino, D.
+Nuno Alvares Botelho, fosse considerado legitimo filho do conde de S.
+Miguel.
+
+Ignez lá se foi amparar nos braços de seu pai, o plebeu, a quem Deus
+inspiraria ternuras que despontassem os espinhos da sua corôa de
+condessa ridiculisada pela sociedade.
+
+Desembaraçado e readmittido á estima dos Tavoras, o conde casou com a
+tal Isabel Cecilia, de quem houve um filho que foi segundo conde de S.
+Miguel.
+
+Quanto ao filho de Ignez, sabemos que viveu com pouco luzimento e
+escassos haveres. Casou com D. Luiza de Moura, filha de Antonio
+Castanheira de Moura. Teve dous filhos e cinco filhas. Um dos rapazes
+chegou a general na India. O outro casou com uma filha do capitão-mór de
+Goes, Antonio Barreto Perdigão. Uma filha casou, e das outras quatro
+ignoro o destino.
+
+Esta linha, derivada da fraude e do vicio mascarado com a batina e
+sobrepeliz, desappareceu: era justo. Na outra, que é a legitima e
+consagrada pelo padre authentico, é que está o setimo conde de S.
+Miguel, que--ainda bem!--não tem que vêr com a Castanha, zombeteada por
+D. Francisco Manoel.
+
+Ora eu presumo que este fidalgo, que escreveu tão piedosas cousas a
+respeito de Santo Agostinho, quando soubesse que a supposta condessa de
+S. Miguel fôra apenas uma inconsciente concubina do seu torpe seductor,
+espantar-se-hia de se vêr a si entre ferros, e ao outro nos braços de D.
+Isabel de Tavora!
+
+ [17] Ia no seu 4.º anno de prisão D. Francisco Manoel.
+
+
+
+
+BEM VINDO!
+
+
+Brindo o leitor com o capitulo primeiro d'um livro que ha de chamar-se
+OS SALÕES.
+
+Firma-o--escuso apresental-o--um nome que, ha vinte annos, alvoreceu por
+entre duas formosissimas auroras: a das letras amenas, e a dos triumphos
+forenses.
+
+O visconde de Ouguella esteve já a meio caminho da montanha fragosa por
+onde se trepa a outra ordem de mais estrondosa celebridade. Por um triz
+que o não enxertam na estirpe tyrannicida dos Harmodios e Catões.
+
+O governo, o delegado, a côrte e o Moraes do _Mosquito_ principiavam a
+desbastar-lhe o marmore para o nicho no templo da Memoria, quando vem o
+jury, e nos diz que o visconde de Ouguella nem queria matar el-rei nosso
+senhor, nem vender-nos a Castella, nem frigir em petroleo as nossas
+carnes, mais ou menos pingues.
+
+Esta decisão abriu um sorriso de socegado contentamento desde o poço do
+Borratem até á rua da Betêsga, não ha duvida; mas o visconde achou-se de
+repente reduzido sómente á celebridade que tinha: a do talento.
+
+Um d'estes dias fui vêl-o a Lisboa. Achei-o na sua livraria, entre dous
+bustos de bronze que projectavam sobre elle umas sombras verde-negras,
+que lhe davam toques de luz sinistra. Os bustos figuraram-se-me de
+Ravaillac e Fieschi--os regicidas.
+
+Passados alguns minutos, afiz-me áquella meia luz crepuscular descórada
+pelos bronzes, e o meu coração e o meu figado aquietaram-se. Os bustos
+representavam a primor os dous estadistas mais philodynastas que deu
+Portugal: o duque de Palmella e Rodrigo da Fonseca Magalhães. O
+visconde, que, ao principio, me pareceu, nos tufos hirtos e espessos do
+seu cabello, o que quer que fosse de Mirabeau, já me transluzia no
+semblante o sorriso amoravel com que alumia o caminho de sua alma aos
+que lá sabem ir pela lealdade do coração.
+
+Relancei os olhos, ainda suspeitosos, á sua banca, e vi papeis escriptos
+recentemente. Com a liberdade de condiscipulo desde a escóla,
+inclinei-me sobre o manuscripto, e li no alto de uma folha de almasso:
+OS SALÕES. Depois li o capitulo, que era o primeiro; dobrei-o, metti-o
+na algibeira, resolvido a estampal-o entre as minhas insomnias, como um
+despertar alegre, lucido e côr de rosa, entre dous pesadelos.
+
+
+
+
+OS SALÕES
+
+
+CAPITULO I
+
+FATUM
+
+ Pour connaitre les hommes, pratiquer les femmes; pour connaitre les
+ femmes, pratiquer encore les femmes: c'est la sagesse des nations
+ folles.
+
+ * * * * *
+
+ La femme est le dernier mot du Créateur. Le grand maitre avait
+ d'abord sculpté les mondes, puis le mastodonte, puis l'aigle, puis
+ l'homme; il termina par la femme. Ce fut alors qu'il se reposa pour
+ se contempler dans son oeuvre.
+
+ ARSÈNE HOUSSAYE.
+
+O esboço é tudo.
+
+A esculptura, a sciencia, a pintura, a litteratura e a propria vida
+começam pelo embryão.
+
+Deus mesmo não cria de repente uma obra prima:--como todos os artistas,
+principia pelo esboço.
+
+A propria luz tem os seus arreboes, annuncia o seu alvorecer, tem as
+suas auroras, prepara-nos as suas alvoradas, insinua-se pelos cambiantes
+anacarados dos tons pallidos e transparentes da madrugada, formula o
+_fiat lux_ biblico, antes de se espargirem os seus opulentos e
+brilhantissimos raios por sobre as magnificencias do universo.
+
+Começar pelo esboço--no presente livro--era consultar as sibyllas da
+cidade antiga, as pythonissas que enunciavam a palavra divina, escutar
+os oraculos dos templos de Delphos e de Epheso, ouvir as Egerias do
+porvir, antes de dar a lume o manuscripto de João Aleixo de Castro
+Pimentel e Figueiredo.
+
+Assim fiz.
+
+Conta-se d'um povo d'Asia, que promettera o diadema de rei ao primeiro
+que, em determinado dia, visse nascer o sol. Correram á praça publica os
+ambiciosos da purpura real, e em quanto todos filavam o oriente, houve
+um, dos mais avisados, que, voltando costas ao berço do luzeiro
+esplendido da terra, pregou os olhos nas arrendadas cupulas d'um
+elegante e sumptuoso edificio, que demorava ao occidente.
+
+Foi este que alcançou a corôa. As primeiras frechas de ouro,
+arremessadas pelo astro supremo do dia, vieram cravar-se no topo das
+elevadas torres d'aquelle templo pagão.
+
+O passado vencera, aqui, o futuro.
+
+Sirva a lenda, n'este estylo e perfume oriental, para explicar o meu
+singelo proceder.
+
+Quiz ouvir os murmurios das épocas, que passaram, e que vão perdidas na
+escura noite dos tempos. Desejei escutar o trabalho ruidoso dos seculos
+que vem, as promessas do futuro, os periodos que se desdobram, e
+desenrolam nos horisontes rasgados da nossa idade, pela voz authorisada
+e prophetica dos que riram, e dos que soffreram.
+
+Foi por isso, que consultei a marqueza de ***, e a condessa de ***.
+
+Uma é a religião austera do passado, cheia de nobilissimas tradições,
+personificação viva da côrte antiga, reflexo ainda esplendoroso da
+fidalga portugueza, na altivez das fórmas, na elegancia do dizer, na
+familiaridade estudada do trato, na urbanidade singela das maneiras, e
+no preito pago constantemente a tudo quanto é grande, nobre e generoso.
+
+A outra, a condessa, senhora da mesma época, nascida, e educada no
+centro da mesma sociedade--permittam-me este desalinho de phrase--é,
+como a estatua da liberdade, erguida sobre um pedestal de marmore de
+Carrara ou de Paros, esquecendo a proposito os pulverulentos pergaminhos
+d'outras eras, e os emblemas heraldicos da sua nobillissima familia,
+para se lembrar sómente que é ella, esta excellente senhora, uma das
+mais illustres victimas das tremendas e formidaveis lutas de
+emancipação, por que combatemos e batalhamos ha um seculo.
+
+Sentei-me a seu lado, e escutei-as alternadamente.
+
+Uma fazia-me curvar de joelhos, respeitoso, e reverente, ao rememorar o
+passado. A outra robustecia, em mim, este preito, que eu presto
+diariamente á imagem sacrosanta da liberdade.
+
+A distincção, a grandeza do porte, a inimitavel polidez, a admiravel
+cortezia, a elegancia incomparavel, e as fórmas obsequiosamente
+aristocraticas são as mesmas.
+
+Mas a marqueza soffreu, e soffreu muito pelo antigo regimen.
+
+A condessa habitou, em tristezas amargas, e com dôres excruciantes, as
+cadêas da côrte pela liberdade.
+
+Uma é a vestal antiga, espiando, sentinella irreprehensivel, junto do
+fogo sagrado, se a scentelha divina vai apagar-se, e prompta a
+acudir-lhe, solicita, para que o facho se conserve acceso, e immaculado,
+na urna etrusca em que brilha e resplandece.
+
+A outra é a musa da democracia--risonha, serena, e impassivel, quer no
+carcere, gemendo pela ousadia das suas crenças liberaes, quer a cavallo,
+com os cabellos desprendidos ao vento das batalhas, sofrega do ruido, e
+do pó e fumo dos combates, ao lado do homem, que o seu coração elegeu
+para esposo, e que foi, Achilles d'esta Iliada, um dos heroes nas
+epopêas da nossa liberdade.
+
+E com o mesmo respeito, com a mesma attenção, e com a mesma homenagem li
+a estas duas illustres senhoras o manuscripto achado na gaveta do meu
+contador.
+
+Eu respeito todas as crenças.
+
+Onde ha uma alma, que se eleve nas aspirações grandiosas do futuro, onde
+ha um coração, que saiba palpitar, com enthusiasmo, na vasta arena de
+todas as religiões do sentimento--ha, ahi, de certo, uma individualidade
+marcada com o sello divino.
+
+O Senhor, na omnipotencia dos seus impenetraveis designios, curvando-se,
+em toda a sua magestade, no centro do universo, escuta o ruido surdo, e
+imperceptivel para ouvidos humanos, da herva ignorada, e rasteira, que
+rasga a custo os seios da terra, e ouve a prece fervorosa, e ardente da
+alma, que, em effluvios d'amor, se desprende das vaidades do mundo, e
+sobe até ao seu throno de gloria.
+
+Só a hypocrisia, e o scepticismo são vis.
+
+Não condemnemos crenças, nem aspirações.
+
+Tenho medo que o credo de hontem seja o anathema de ámanhã.
+
+Apavora-me o receio de que o axioma de hoje, da actualidade, seja a
+mentira, e a blasphemia do futuro.
+
+Depois de Platão, d'Aristoteles, de Socrates e de Christo, que sabemos
+nós mais do mundo moral?
+
+Newton, Galileu, Harvey, Cuvier, Laplace, Spinosa, Kant, Proudhon e
+tantos outros, n'essa pleiade immensa de illustrações, que vão
+atravessando os seculos, e renegando symbolos e credos, que passaram,
+são, para mim, a demonstração irrespondivel d'este clamor da
+consciencia.
+
+Basta.
+
+Volto ao manuscripto.
+
+No pendor d'uma das montanhas sobre que está edificada Lisboa, no ponto
+mais suave da encosta, levanta-se um palacio, cuja apparencia é modesta.
+
+Ahi vive a marqueza.
+
+Sobe-se uma escada de marmore á esquerda d'um pateo, que conserva todas
+as tradições arabes. No patamar superior rasga-se am corredor sombrio, e
+pouco alumiado, que conduz a uma saleta onde as elegancias modernas nada
+teem que vêr.
+
+Este aposento não o adornou Gardet, nem o forraram os estofadores mais
+afamados dos nossos tempos. Foram os seculos, que o vestiram, que o
+alindaram, que lhe cobriram as paredes, e que lhe deram aquella
+austeridade de ornamentação, disposta alli por varias gerações.
+Ligam-se, e ajustam-se uns aos outros, em severas molduras d'ebano, os
+retratos dos avós d'esta illustre familia. Ao lado d'um camarista de
+Carlos III, de Hespanha, sorri, em vestuario de côrte, um cavalleiro de
+S. Thiago, filho segundo d'esta nobre estirpe. Em convivencia com um
+mimoso pagem do Escurial apruma-se, vigoroso e forte, um rico-homem de
+Castella, envolto no arrogante e opulento manto de grande de Hespanha. E
+as senhoras, oriundas de tão distinctos appellidos, adornadas com as
+telas e estofos preciosos de épocas, que já acabaram, parecem estremecer
+de jubilo, e anciarem pelo futuro d'aquelles tempos, que são hoje, para
+nós, o passado, e a cinza d'aquelles cadaveres.
+
+Foi ahi, n'essa saleta, respirando aquelles perfumes do seculo
+preterito, que li á marqueza o manuscripto de que sou legatario por
+direito de conquista.
+
+A marqueza, se eu não quizera chamar-lhe a tradição viva, a imagem da
+luz diffusa, que se vai immergindo no oceano das nossas tradições
+heraldicas, e dos brasões esculpidos nas abobadas dos paços de Cintra,
+seria, ainda assim, um reflexo da bondade divina.
+
+Encostada a uma bengala, cujo castão era uma maravilha artistica de
+Benvenuto Cellini, envolta em vestes negras, que a acompanham desde a
+sua viuvez, sem lhe occultarem a altivez das fórmas, e a superioridade
+da mais elevada distincção, ouviu a marqueza, attenta, a leitura dos
+trabalhos do desembargador. Sorriu-se ao chegarmos á conclusão, e soltou
+apenas estas palavras, fitando os seus avós:
+
+--Visconde, ouça, e aconselhe-se com as illustrações do seculo. Eu sou o
+passado. Bata á porta da actualidade.
+
+Beijei-lhe a mão, que a marqueza me estendeu com a elegancia da sua
+primorosa educação, e sahi, curvando-me perante a grandeza d'aquelles
+nobres instinctos, e suavidade de fórmas, que vão perdidas no nosso
+seculo.
+
+Ao levantar o reposteiro, onde o brasão de familia, bordado em lãs
+finissimas, brilha no centro dos panos, que rastejam, em vastas pregas
+franjadas, n'aquelle recinto, que é um salão de antepassados, um
+verdadeiro solar, vedado a olhos profanos--ouvi a voz branda, e
+cadenciada da marqueza, que me dizia de pé, em face do retrato de seu
+marido:
+
+--Visconde, conte do marquez as historias que lhe narrei.
+
+--Os desejos de v. exc.^a são ordens para mim, minha senhora.
+
+E sahi.
+
+No fundo do passeio publico desdobram-se dous largos. Em um d'elles, por
+meio de casas mais ou menos mesquinhas, levanta-se um palacete no estylo
+moderno. Ha ahi uma sala, rica de adornos e de todo o conchego, que faz
+o confortavel da vida intima.
+
+Vive ahi a condessa.
+
+Pendem das paredes e cobrem as _étagères_ varios retratos de familia.
+
+Ha trabalhos de costura, e de _crochet_ estendidos por sobre as mesas;
+ha, finalmente, todos estes pequenos nadas, que explicam os sentimentos
+intimos da existencia, e que se traduzem em recordações do lar
+domestico.
+
+Não era o vestibulo, entre os romanos, a primeira adoração a Vesta?
+
+A condessa envolta, tambem, nos seus crepes negros, viuva do homem, que
+ajudou a cravar, com o vigor, e robustez do seu pulso, o pendão da
+liberdade em Portugal--recebeu-me com a semceremonia aristocratica do
+seu elegantissimo trato.
+
+Apesar dos annos decorridos, a despeito dos desgostos profundos, das
+lagrimas choradas no lugubre captiveiro, dos trabalhos inenarraveis
+soffridos em lutas titanicas--conserva a condessa os perfis e contornos
+da sua antiga formosura, tão puros, e tão correctos, que, se não é a
+Venus irrompendo do seio das ondas espumosas e crystallinas dos mares da
+Grecia, na deslumbrante belleza do Olympo pagão, tem, ainda assim, os
+vagos e recordaveis traços da austera Juno, quando presidia aos festins
+dos deuses.
+
+Ouviu impassivel a leitura do manuscripto.
+
+--Que me diz v. exc.^a a este livro?
+
+Havia um sorriso ironico e espirituoso brincando nos labios da condessa.
+
+--Digo-lhe, que o publique. Mas escute: faltam-lhe ahi os lampejos de fé
+viva, a crença robusta na liberdade, que animava e esforçava os heroes
+do Porto. Venha, aqui, por vezes, ouvir, como lh'as tenho contado, as
+lendas d'essas lutas de gigantes. Perdôe muito, como eu tenho perdoado,
+aos homens que se esqueceram ou que erraram. Analíse e estude as
+variadas transicções, que nos trouxeram a estas sinistras épocas de
+descrença. Consulte o passado.
+
+Abri, para sahir, a porta d'este magico e encantador gabinete na mesma
+perplexidade d'espirito com que entrára.
+
+--Ouça, visconde--disse-me ainda esta illustre senhora, na phrase breve,
+e perceptivelmente imperiosa com que parece ordenar.--Não esqueça as
+historias que lhe tenho narrado. Dê-as como suas ou como escriptas pelo
+doutor João Aleixo--nem por isso lhe tomará elle contas na eternidade.
+
+Curvei-me respeitoso, e sahi.
+
+A condessa e a marqueza insistiam pela narração das anecdotas do seu
+tempo. Quanto ao mais, quanto á historia vasta, severa, incisiva,
+analytica, e verdadeira, como é ou deve ser, mandavam-me estudal-a nos
+livros, porque não podiam, não queriam ou não desejavam esclarecer-me.
+
+Creio que o seculo XIX envolveu no sudario da agonia as idolatrias da
+idade media, assim como as lendas do Golgotha amortalharam, para todo o
+sempre, a mythologia pagã.
+
+Não se repetem agora os clamores sinistros, que reboavam nas florestas
+da Thessalia, e se ouviam nas clareiras dos bosques sagrados da Grecia e
+de Roma: «Morreu o Deus Pan!»
+
+Mas vai acabando a democracia com os preitos, que as cruzadas, as côrtes
+d'amor, os torneios, e as cavallarias feudaes prestavam á mulher,
+divinisando-a. Quer-me parecer que a ultima Egeria, _Madame_ Rolland,
+expirou no cadafalso em face da estatua da liberdade. É mais uma realeza
+que se extingue com tantas outras.
+
+Onde acabava o oraculo começava a crença. Escutei o futuro.
+
+E conservei intacto, sem rasuras, nem entrelinhas, o manuscripto do
+desembargador.
+
+VISCONDE DE OUGUELLA.
+
+
+
+
+SUBSIDIOS PARA A HISTORIA
+
+DA
+
+SERENISSIMA CASA DE BRAGANÇA
+
+
+I
+
+PEDRO DE ALPOEM
+
+Sempre que encontrei este nome ligado á vida aventureira de D. Antonio,
+prior do Crato, me detive a scismar no honrado homem que se chamou
+assim.
+
+Pedro de Alpoem era portuguez de rija tempera. Seguira o pequeno bando
+de D. Antonio, quando o duque de Bragança, D. João, primeiro de nome,
+transigiu com Philippe II, por preço que adiante se dirá. Acclamou-o em
+Santarem; fêl-o bemquisto da mocidade academica de Coimbra; seguiu-o na
+fuga, depois da derrota de Alcantara, até Vianna do Minho; e, d'ahi,
+como o infante se agasalhasse em seguro abrigo, voltou a Lisboa a
+negociar-lhe a emigração em navio estrangeiro. Colhido de sobresalto
+n'esta diligencia, foi posto a tormento. Confessou que viera a Lisboa a
+fim de arranjar a passagem do principe; não lhe arrancaram, porém, as
+torturas o segredo do escondrijo de D. Antonio. Ameaçaram-no com a
+decapitação. Pedro de Alpoem sob-poz o pescoço ao cutello do verdugo, e
+pereceu com o segredo do asylo do seu rei. Estremada probidade, que só
+por si nobilita o nome portuguez, aviltado pelo maximo da fidalguia
+bandeada com o usurpador!
+
+Entristecia-me a mingoada noticia que os historiadores nos transmittiram
+de tão memoravel sujeito. E esse pouco foi dadiva de Herrera (_Cinco
+libros de la historia de Portugal_, liv. III), de Faria e Sousa (_Europa
+portugueza_, tom. III, part. 1, cap. IV), e do opusculo francez
+intitulado_ Briefve et sommaire description de la vie et mort de D.
+Antoine, premier du nom et dix-huitième roy de Portugal_, impressa em
+Paris, no anno 1629.
+
+Uma vez, folheando a _Bibliotheca lusitana_, vi o nome e appellido do
+leal amigo de D. Antonio.
+
+Senti uma d'essas raras alegrias que só entendem os que andam a joeirar
+o lixo dos seculos por vêr se acham um certo diamante que a maior parte
+da gente não trocaria por missangas.
+
+A noticia que Barbosa Machado me deu, rezava assim: _Pedro de Alpoem
+Contador, natural de Coimbra, doutor em direito cesareo, collegial do
+collegio de S. Pedro, aonde foi admittido no 1.º de janeiro de 1578. Na
+universidade patria regentou a cadeira de Instituta, que levou por
+opposição a 18 de outubro de 1572, d'onde passou á do Código em 2 de
+janeiro de 1579. Foi um dos celebres defensores da successão da corôa
+portugueza a favor da senhora D. Catharina, como tambem do direito que
+tinha á mesma corôa o snr. D. Antonio, prior do Crato, por cuja causa
+morreu degolado._ _Escreveu_: Carta ao duque de Bragança D. João, o
+primeiro de nome, quando Philippe Prudente entrou em Portugal. _A data é
+do Seio de Abrahão a 20 de julho de 1581._ _Começa_: «Obriga-me a
+escrever a v. exc.^a cá d'est'outro mundo de verdades e desenganos.»
+_Acaba_: «Conforme a santa lei d'este reino ao qual Deus eternamente tem
+promettido conservar.» _É larga, muito judiciosa, e consta de uma forte
+invectiva contra o cardeal D. Henrique, por dispôr que os castelhanos se
+senhoreassem de Portugal, e juntamente contra o mesmo duque de Bragança
+por seguir o cardeal._ (Tom. III, pag. 553).
+
+Alguns annos frustrei esforços em busca da carta manuscripta de Pedro de
+Alpoem, pois, com certeza, não corria impressa; até que, entre uns
+papeis pertencentes á rica livraria do jurisconsulto Pereira e Sousa, e
+havidos por compra em 1873, se me deparou a carta que Barbosa Machado
+inculcára.
+
+O investigador equivocou-se attribuindo-a ao doutor Pedro de Alpoem. Se
+reparasse que ella é datada no _Seio de Abrahão_, deprehenderia logo
+que, em nome de Pedro de Alpoem, já degolado em 20 de julho de 1581,
+alguém escreveu aquella carta, como vinda d'além-mundo. E, até no começo
+da carta, as palavras: _Obriga-me a escrever a v. exc.^a cá d'est'outro
+mundo de verdades e desenganos_, estão confirmando a ficção.
+
+Posto que o prazer de possuir um inedito de Alpoem se me agorentasse á
+luz da boa critica, nem por isso desestimei o manuscripto, onde abundam
+especies historicas não sabidas, traços profundos da physionomia do avô
+de D. João IV, e alguns lanços ignorados da biographia da nobre victima
+da amizade e do patriotismo.
+
+Persisti, assim mesmo, na indagação da linhagem de Pedro de Alpoem,
+esperançado em descobrir miudezas que realçassem as feições principaes,
+já de si bastante proeminentes a caracterisal-o. Pouco mais
+esquadrinhei, senão que foi filho de Antonio de Alpoem, e neto de Pedro
+de Alpoem, e de uma senhora de appellido _Caldeira_, filha de Affonso
+Domingos de Aveiro, instituidor da capella de Santo Ildefonso, na igreja
+de S. Thiago em Coimbra, da qual o justiçado amigo de D. Antonio era
+administrador[18]; e, como não deixasse descendencia, o morgadio passou
+a seus parentes, filhos de Isabel Caldeira, irmã de seu avô, casada com
+Estevão Barradas.
+
+No fim do seculo XVIII, o possuidor do morgadio de Pedro de Alpoem era
+Lopo Cabral da Silveira, bisneto de D. Isabel Caldeira. Estas
+impertinencias genealogicas pouco montam na historia de um homem que se
+dispensava de avós illustres, bastando-lhe a proeza individual e sua de
+dar a cabeça ao algoz e legar o nome sem mancha ao coração do principe
+homisiado; mas seria hoje em dia brasão aos que procedessem d'esse
+egregio sangue.
+
+D. Antonio captivou na desgraça amigos que lhe sacrificaram haveres,
+liberdade, honras e vida. Sobrelevam entre outros o conde de Vimioso, o
+bispo da Guarda, D. Diogo de Menezes,--que o duque d'Avila mandou
+enforcar em Cascaes, juntamente com Henrique Pereira, alcaide do
+castello--, Duarte de Lemos, senhor da Trofa, D. João de Azevedo, Antonio
+de Brito Pimentel, Diogo Botelho, D. Duarte de Castro, D. Manoel de
+Portugal, Manoel da Fonseca da Nobrega, e D. João de Castro, o
+visionario, que, morta a esperança no filho de Violante Gomes,
+resuscitou D. Sebastião na pessoa do calabrez Marco Tullio.
+
+As historias antigas e tambem as modernamente escriptas pelos snrs.
+Rebello da Silva e Pinheiro Chagas não mencionam um amigo estrenuo do
+prior do Crato. Era Martim Lopes de Azevedo, 19.º senhor da casa de
+Azevedo, hoje representado pelo snr. visconde d'aquelle titulo,
+cavalheiro em quem se alliam as altas qualidades do coração com
+superiores dotes de provada intelligencia.
+
+Da inflexivel dedicação de Martim Lopes de Azevedo se lembra o principe
+desterrado na Carta latina que escreveu ao papa Gregorio XIII, e outro
+sim no seu testamento impresso nas _Provas da historia genealogica da
+casa real_, tom. II, pag. 556.
+
+Era, ao tempo, aquelle fidalgo senhor da villa de Souto de Riba-Homem, e
+outros senhorios e padroados de igrejas. Bandeou-se com o filho do
+infante D. Luiz, logo que o duque de Bragança offereceu a sua casa como
+valhacouto seguro aos embaixadores hespanhoes, a quem os partidarios do
+rei portuguez ameaçavam, depois da morte do cardeal-rei.
+
+Perdidas as esperanças, Martim Lopes de Azevedo provou as angustias do
+carcere e desterro, até que, volvidos annos, conseguiu perdão de
+Philippe II, mediante o patrocinio de sua tia D. Leonor de Mascarenhas,
+que havia sido dama da imperatriz D. Isabel, mãi do rei que lhe perdoou.
+Todavia, o mais grosso de seus haveres em commendas e senhorios da corôa
+nunca mais voltou á casa de Azevedo. Todos os conjurados contra a
+usurpação, cedo ou tarde, se recobraram, e houveram generosas
+indemnisações dos reis brigantinos; não assim os descendentes de Martim
+Lopes, cujo representante, em 1874, dos bens de seus avoengos possue
+apenas o que a rapacissima vingança de Philippe II lhe deixou. Entre os
+netos de D. Arnaldo de Bayão e os do bastardo de Ignez Pires não tem
+havido no decurso de tres seculos humiliações de vassallos nem
+magnanimidade de reis.
+
+Volvendo á suppositicia carta de Pedro de Alpoem, aceitemos de seu
+author, quem quer que fosse, o bosquejo do duque de Bragança, auxiliar,
+senão causa primaz, da escravidão de Portugal, da degradação da nobreza,
+da miseria do povo, do perdimento das colonias, e dos atrozes flagellos
+que se contaram pelos dias de sessenta annos.
+
+Sirva este papel de vestibulo por onde depois entraremos ao archivo
+secreto da veniaga que maniatou o duque de Bragança aos calcanhares de
+Philippe II.
+
+ [18] N'esta capella ainda existe a sepultura com epitaphio dos
+ ascendentes de Pedro de Alpoem, mandada construir por seu avô do
+ mesmo nome em 1514.
+
+
+
+
+ERRATA DO N.º 2
+
+Pag. 42, linha 3.ª:
+
+Aquillo com que mais se accende o engenho.
+
+Emende:
+
+_Aquillo_ «com que mais se accende o engenho».
+
+
+FIM DO 3.º NUMERO
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem
+não póde dormir. Nº3, by Camilo Castelo Branco
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+works. See paragraph 1.E below.
+
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+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
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+Foundation
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+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
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+ <title>Noites de Insomnia, offerecidas a quem não póde dormir, nº 3</title>
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+<pre>
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+The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não
+póde dormir. Nº3, by Camilo Castelo Branco
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº3
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: March 30, 2008 [EBook #24957]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA. NO. 3 ***
+
+
+
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+Produced by Pedro Saborano
+
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+
+
+
+</pre>
+
+<span class='pagenum'>[1]</span>
+<div class="capa">
+<p style="font-size: 1.2em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p>
+<hr style="width: 6em;">
+<p style="font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p>
+
+<p style="font-size: 0.7em;">OFFERECIDAS</p>
+
+<p>A QUEM NÃO PÓDE DORMIR</p>
+
+<p style="font-size: 0.7em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">Camillo Castello Branco</p>
+<hr style="width: 3em;">
+<p style="font-size: 0.7em;">PUBLICAÇÃO MENSAL</p>
+<br>
+<hr style="width: 3em;">
+<p style="font-size: 0.9em;">N.<sup>o</sup> 3--MARÇO</p>
+<hr style="width: 3em;">
+<table width="100%">
+<tr>
+<th colspan=2>
+LIVRARIA INTERNACIONAL<br>
+<span style="font-size: 0.7em;">DE</span>
+</th>
+</tr>
+<tr>
+<td style="border-right: solid 1px #000000;">
+<span style="font-size: 0.9em;">
+ERNESTO CHARDRON
+<br>
+<em>96, Largo dos Clerigos, 98</em><br>
+<strong>PORTO</strong>
+</span>
+</td>
+<td>
+<span style="font-size: 0.9em;">EUGENIO CHARDRON<br>
+<em>4, Largo de S. Francisco, 4</em><br>
+<strong>BRAGA</strong>
+</span>
+</td>
+</tr>
+</table>
+<hr style="width: 2em;">
+<p style="font-size: 0.9em;">1874</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>[2]</span>
+
+<div id="impressor" style="text-align: center;">
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<hr style="width: 8em;">
+<p>PORTO</p>
+
+<p style="font-size: 0.9em;">TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">68--Rua da Cancella Velha--62</p>
+<hr style="width: 2em;">
+<p style="font-size: 0.9em;">1874</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>[3]</span>
+
+<div id="sumario">
+<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">
+BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
+</p>
+<hr style="width: 4em;">
+<p style="text-align: center; font-size: 2em;">
+NOITES DE INSOMNIA
+</p>
+<hr style="width: 4em;">
+<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">
+<strong>SUMMARIO</strong>
+</p>
+
+<p>
+<em>
+<a href="#cap01">Feitiços da guitarra</a>
+-- <a href="#cap02">Em que veias gira o sangue de Camões?</a>
+-- <a href="#cap03">Lisboa</a>
+-- <a href="#cap04">Voltas do Mundo</a>
+-- <a href="#cap05">Nova solução do problema historico</a>
+-- <a href="#cap06">Desgraçado Balzac! (Á «Actualidade»)</a>
+-- <a href="#cap07">Os 2 Joaquins</a>
+-- <a href="#cap08">Flôres para a sepultura de Ferreira Rangel</a>
+-- <a href="#cap09">Mysterio da Castanha</a>
+-- <a href="#cap10">Bem vindo!</a>
+-- <a href="#cap11">Os Salões, pelo exc.<sup>mo</sup> snr. visconde de Ouguella</a>
+-- <a href="#cap12">Subsidios para a historia da serenissima casa de Bragança</a>
+</em>
+</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>[4]</span>
+
+<span class='pagenum'>[5]</span>
+
+
+
+<a name="cap01"></a>
+<h1>FEITIÇOS DA GUITARRA</h1>
+
+
+<p>Cuidará talvez muita gente, aliás instruida na historia da musica e seus
+effeitos, que a influencia da guitarra nos paços reaes é cousa moderna e
+peculiar da côrte portugueza. Não, senhores. O exemplo deu-o a Hespanha
+no fim do seculo passado, e a historia do mais afortunado guitarrista
+d'este planeta extravagante em que moramos, vou contal-a eu.</p>
+
+<p>Na volta do anno 1786, D. Gabriel Alvares de Faria, arcediago da sé de
+Badajoz, tinha dous sobrinhos, Luiz e Manoel. O arcediago, que blazonava
+descender dos Farias, alcaides-móres de Palmella, em Portugal, timbrava
+de muito fidalgo; mas declarava aos sobrinhos que fossem ganhar <span class='pagenum'>[6]</span> sua
+vida, porque a pitança da conezia não dava para tres.</p>
+
+<p>Os dous rapazes, que tangiam guitarra a primor, e cantavam seguidilhas
+de sua invenção, fizeram-se no rumo de Madrid, á cata de aventuras. O
+estalajadeiro, que lhes deu a credito o primeiro mez de hospedagem,
+folgava tanto de ouvir as tonadilhas de D. Manoel, que não quiz outra
+paga durante um anno.</p>
+
+<p>Conseguiram os dous rapazes entrar na guarda de corpus. Luiz, mediante a
+guitarra, insinuou-se no affecto de uma açafata da princeza Luiza de
+Parma, esposa do principe que depois foi Carlos IV; e, quando a dama
+ensandecia de amor ao seu menestrel, lhe disse elle que, se o seu cantar
+e tanger a transportavam, que seria se ouvisse seu irmão D. Manoel!</p>
+
+<p>Contou isto a dama á princeza. Sua alteza era folgazã. Quiz ouvir o
+guitarrista. Ouviu-o, admirou-o, amou-o, e--o que muito é--convenceu o
+marido a gostar das trovas de <em>a Tyrana</em> acompanhadas d'um harpejo triste,
+que não ha ahi cousa que mais diga.</p>
+
+<p>O principe não era escorreito.</p>
+
+<p>Menos incauto era Carlos III, que mandou sahir de Madrid o guitarrista,
+logo que deu tento dos <span class='pagenum'>[7]</span> effeitos cupidineos dos bordões e prima, na
+pessoa da nora.</p>
+
+<p>Mas assim que o rei morreu, D. Manoel voltou a Madrid, foi restituido ao
+palacio, á alcova real, e nomeado successivamente sargento-mór da
+guarda, ajudante-general, grã-cruz de Carlos III, intendente dos
+correios, cavalleiro do tosão, duque de Alcudia, primeiro ministro,
+principe da paz, grande de Hespanha de primeira classe, com dotação
+territorial de 50:000 piastras de rendimento, e general supremo dos
+exercitos (em 1800) com o tractamento de <em>alteza serenissima</em> (1807).</p>
+
+<p>Em 1797 casára com D. Maria Thereza de Bourbon, filha natural do infante
+D. Luiz, irmão d'el-rei Carlos III. A rainha conviera n'este consorcio,
+já porque a noiva era abominavel de feia, já porque tinha zelos
+infernaes de Josefa Tudo, formosissima mulher com quem o seu valido
+casára clandestinamente, intitulando-a depois condessa de Castello-Fiel.</p>
+
+<p>D. Manoel de Godoy, que assim tocára o galarim das grandezas humanas,
+desceu tão rapido quanto subira.</p>
+
+<p>Conjuraram contra elle influencias internas e externas.</p>
+
+<p>Os hespanhoes, obrigados a guerrear a Inglaterra, odiavam o amigo da
+França. Este odio <span class='pagenum'>[8]</span> exasperou-se depois do desastre de Trafalgar, onde
+acabou para sempre o poder naval de Hespanha. Á frente dos adversarios
+do principe da paz sahiu o principe das Asturias, chamado depois
+Fernando VII.</p>
+
+<p>Seguiram-se evoluções politicas, em que o heroe a resvalar ao ponto
+d'onde subira, se voltou contra a França, de accordo com Portugal. Em
+1808 preparava-se para fugir com a familia real, quando rebentou no
+Aranjuez a revolução em que sua alteza serenissima se escondeu em uma
+talha, e não foi estrangulado pelo povo a pedido do rei e da rainha.</p>
+
+<p>Ainda depois d'esta crise, o duque de Alcudia voltou a dominar o animo
+dos reis de Hespanha, e a rehaver a confiança de Napoleão; mas a final o
+baque foi irreparavel. Passou a França, e depois a Roma, onde o papa o
+intitulou <em>principe de Passerano</em>.</p>
+
+<p>Em Hespanha, confiscaram-lhe os bens. A esposa, de quem elle se
+divorciára amigavelmente, vivia pobre em Paris, intilulando-se <em>duqueza
+de Chinchon</em>, e lá morreu em 1828. O viuvo declarou então que já era
+casado com Josefa Tudo. A unica filha de D. Manoel Godoy casou em 1820
+com o principe romano Raspoli.</p>
+
+<p>Até 1844, o principe da paz viveu em Paris <span class='pagenum'>[9]</span> tão convisinho da
+indigencia que Deus sabe se elle teve tentações de tanger a guitarra da
+sua juventude á porta dos amadores do genero. Depois de 36 annos de
+exilio, obteve licença de entrar em Hespanha, e readquiriu parte dos
+bens, que lhe permittiram dez annos de vida relativamente abastada.</p>
+
+<p>Morreu, por 1851, em Paris, com 84 annos de idade.</p>
+
+<p>Os biographos d'este homem extraordinario ignoram todos que elle era, em
+Portugal, conde de Evora-Monte por carta de 2 de outubro de 1797.</p>
+
+<p>Tambem desconhecem que o alvará de mercê o faz primo de D. Maria I, e
+descendente de D. Pedro I e de D. Ignez de Castro, por ser quarto neto
+de Francisco de Faria, alcaide-mór de Palmella: descendencia a mais
+imaginosa que ainda vimos amanhar-se em cabeças de nobiliaristas.</p>
+
+<p>Ahi vai o alvará que é documento não despeciendo:</p> <br>
+
+<p>«D. Maria, etc. Faço saber aos que esta minha carta virem que attendendo
+á mui antiga, e esclarecida nobreza, qualidades, e distinctos
+merecimentos de D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches
+Sarçosa, principe da paz, duque de <span class='pagenum'>[10]</span> Alcudia, grande de Hespanha de
+primeira classe, meu primo, e aos grandes serviços, que a estes reinos
+fizeram seus maiores antes e depois da fundação da monarchia com
+repetidas, e assignaladas acções, que os fizeram benemeritos da augusta
+consideração, e real munificencia dos senhores reis meus predecessores:
+tendo entendido ser o dito D. Manoel quarto neto de Francisco de Faria,
+alcaide-mór, e commendador de Palmella, por ser o filho segundo de Diogo
+Rodrigues de Faria, que passou a Hespanha d'um modo inculpavel, e de
+quem D. Manoel é terceiro neto: para dilatar com a maior distincção a
+memoria d'uma tão distincta familia, a qual pela mesma linha de
+Francisco de Faria é descendente do snr. rei D. Pedro I, e de D. Ignez
+de Castro, de quem descende a maior parte dos soberanos da Europa; tendo
+muito segura confiança nos sentimentos verdadeiros, e honrados de D.
+Manoel, hereditarios na sua familia, que tem lealmente exercitado em
+beneficio de meus reinos; conformando-me com os augustos, e cordiaes
+desejos de suas magestades catholicas, esperando, que assim os continue:
+hei por bem, com aprazimento dos mesmos reis catholicos, pelos ditos
+respeitos, e por honrar em D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios
+Sanches Sarçosa, a familia de Faria, de que descende, <span class='pagenum'>[11]</span> fazer-lhe a
+mercê do titulo de conde de Evora-Monte, com o senhorio para elle e seus
+descendentes, que houver na sua casa dispensando na lei mental, e quero
+e mando, que elle D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches
+Sarçosa se chame conde de Evora-Monte, e com o dito titulo goze de todas
+as honras, graças, liberdades, preeminencias, prerogativas,
+authoridades, e franquezas, que hão, e tem, e de que usam, e sempre
+usarão os condes d'estes reinos, assim como por direito, uso, e antigo
+costume lhe pertencem, das quaes em tudo, e por tudo quero, e mando que
+elle use, e possa usar por direito, uso, e costume sem minguamento, ou
+duvida alguma, que a isso lhe seja posta, porque assim é minha vontade,
+e com o referido titulo de conde de Evora-Monte haverá o assentamento
+que lhe pertencer, de que se lhe passará alvará na fórma costumada, e
+por firmeza de tudo lhe mandei dar esta carta por mim assignada, e
+sellada com o sello pendente de minhas armas, e passada pela
+chancellaria: e hei por bem que d'esta mercê se não paguem direitos
+alguns velhos, e novos, não obstante os regimentos, e quaesquer
+disposições contrarias. Dada no palacio de Queluz em 2 dias do mez de
+outubro do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1797.--O
+principe <span class='pagenum'>[12]</span> com guarda.==<em>José de Seabra da Silva.</em>==<em>Joaquim Guilherme
+da Costa Posser</em>, a fez.»</p> <br>
+
+<p>Respeito a <em>Farias</em>, houve um, em tempo d'el-rei D. Fernando. O leitor
+conhece da historia e do romance o celebrado alcaide do castello de
+Faria, chamado Nuno Gonçalves, que os castelhanos mataram, quando elle,
+na barbacã da fortaleza, ameaçou de maldição o filho, se a entregasse
+para salvar seu pai. O snr. Herculano refere este caso com primoroso
+enthusiasmo.</p>
+
+<p>O filho chamava-se Gonçalo Annes, que se fez clerigo por desgosto de vêr
+alli trespassado o pai debaixo de seus olhos; a paixão, porém, não lhe
+impedia reproduzir-se em tres meninos, de quem foi mãi Aldonsa Vasquez.</p>
+
+<p>Do mais velho, que se chamou Nuno Gonçalves de Faria, conhece-se a
+descendencia. Esse <em>Diogo</em> que no alvará se diz ter passado a Castella,
+nem era filho de Francisco de Faria, nem passou a Castella: era filho do
+valido de D. João II, Antão de Faria, e casou com D. Maria de Goes,
+filha de Simão de Goes Machado.</p>
+
+<p>No lapso de quatro seculos, a varonia do alcaide de Faria--a que eu
+considero mais respeitavel, mais poetica, mais desculpavel aos fanaticos
+d'estes archaismos--é a que se tiver conservado <span class='pagenum'>[13]</span> na posse das
+penedias contiguas do esboroado castello, cuja alcaidaria foi do heroico
+Nuno Gonçalves. O possuidor, ha trinta annos, d'essas ruinas, era João
+de Faria Machado Pinto Roby. Vendeu as ruinas a um brazileiro.</p>
+
+<p>No mesmo anno em que morreu em Paris sua alteza serenissima o principe
+da paz, seu parente, morria elle em Lisboa. A providencia divina fez-lhe
+a mercê de o resgatar assim de um grande supplicio: elle sahia de noite,
+e pedia esmola aos que passavam. Tinha sido redactor do <em>Nacional de
+Lisboa</em>, e official de cavallaria muito valente.</p>
+
+<p>Deixou um filho chamado Isidoro de Faria Machado que se suicidou ha dous
+annos em Lisboa.</p>
+
+<p>Uma de suas filhas é hoje viuva do visconde da Carreira, Luiz. As outras
+não sei que destino tiveram.</p>
+
+<hr style="border-bottom: 2px dotted #000000;">
+
+<p>Toda esta noite se me foi de insomnia, a vêr sempre, na penumbra da
+lamparina, um homem que em Lisboa, ha 24 annos, me dizia com a face
+coberta de lagrimas:</p>
+
+<p>--Procurei tres amigos que me foram hospedes em meus lautos jantares,
+quando eu aqui dissipava o meu ouro e a minha intelligencia no serviço
+da politica. Apenas um se lembra de me conhecer em 1838; mas este é
+pobre; os outros <span class='pagenum'>[14]</span> não se recordam... Sabe qual é a minha esperança?</p>
+
+<p>--A queda dos Cabraes?</p>
+
+<p>--Não: uma congestão cerebral.</p>
+
+<p>Bella e bem realisada esperança!</p>
+
+<p>O representante de Nuno Gonçalves de Faria foi levado morto á sua
+familia no largo dos Cardeas de Jesus, por uma noite fria e chuvosa,
+quando as carruagens, que se recruzavam para bailes e theatros, o
+aspergiam da chuva dos tejadilhos e da lama das rodas.</p>
+
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap02"></a> <h1>EM QUE VEIAS GIRA O SANGUE DE CAMÕES?</h1>
+
+
+<p>Não é de mais saber-se isto, quando é moda esmiuçar tudo que entende com
+o maior poeta do seu seculo.</p>
+
+<p>O livro mais extravagante que, a tal respeito, viu a luz, é a <em>Historia
+de Camões</em> pelo snr. doutor Theophilo Braga.</p>
+
+<p>As incurias, as criancices, os desvarios que esfervilham n'essas 441
+paginas não aparam a pontoada da critica. O livro faz tristeza... porque
+<span class='pagenum'>[15]</span> faz rir; e, por muito frouxo que seja o espirito de patriotismo no
+censor dos escriptores seus conterraneos, dóe ter de dizer: «o professor
+de litteratura fez córar a face dos discipulos.»</p>
+
+<p>Os meus reparos n'este livro tocam sómente com o que ha n'elle relativo
+á familia de Luiz de Camões; mas, ahi mesmo, é deploravel a falta de
+siso do biographo.</p>
+
+<p>A pag. 233 suppõe o snr. Theophilo que entre uns papeis que se perderam
+de Luiz de Camões houvesse cartas escriptas <em>aos seus amigos mais
+valiosos intercedendo por seu pai que estava preso</em>.</p>
+
+<p>A pag. 243, no summario do capitulo VI, diz: <em>A noticia do perdão de seu
+pai Simão Vaz de Camões.</em> Temos ainda Camões com pai.</p>
+
+<p>A pag. 259: <em>Por estas mesmas novas chegadas de Lisboa nas Náos partidas
+no principio do anno de 1557 soube Camões... da sentença que condemnava
+Simão Vaz de Camões, seu pai, para o degredo perpetuo do Brazil com
+pregão e cadeado.</em></p>
+
+<p>O leitor chega ao cabo do livro, persuadido que Camões tinha um pai, que
+por estouvamentos de rapaz devasso, ahi na volta dos 60 annos, mereceu
+ser condemnado a degredo com pregão e cadeado; mas, por acaso, volta a
+pagina das erratas, e vê que o biographo lhe pede que leia <em>primo</em> onde
+estiver <em>pai</em>. Parece uma anecdota isto!</p> <span class='pagenum'>[16]</span>
+
+<p>Que razões motivaram esta correcção? Que raio de luz dardejou o bom
+senso na ultima pagina do livro? Pois o doutor, durante a formação do
+estirado livro, não teve um intervallo lucido? E, se o teve no fim,
+porque não queimou a obra desde a primeira pagina, embora se perdesse a
+<em>Carta de Ayres Barbosa a André de Rezende</em>?</p>
+
+<p>Eis aqui o modo como o snr. Theophilo descobriu a final que Simão Vaz de
+Camões era <em>primo</em> e não era <em>pai</em> do poeta.</p>
+
+<p>Quando o livro ia sahir do prelo, a humilde pessoa, que escreve estas
+linhas, publicava, no <em>Diccionario de educação</em> de Campagne, um breve
+artigo intitulado <em>Camões</em>, em que se lêem estes periodos:</p> <br>
+
+<p>«Os louvores ao prodigioso genio de Luiz de Camões são tantos, e tão
+amiudados no discurso de tres seculos que já hoje em dia o repetil-os,
+pelos mesmos conceitos e fórmas encomiasticas, nos parece banal
+encarecimento. Mais util e plausivel nos avulta o esforço de alguns
+biographos empenhados em esclarecer os lanços menos claros da biographia
+do poeta. N'esta ardua lide tem mostrado ardente zelo o snr. visconde de
+Juromenha, o mais particularisador noticiarista da vida de Luiz de
+Camões. Todavia, assentando boa <span class='pagenum'>[17]</span> parte de suas innovações em
+conjecturas, resulta que a louvavel vontade de esclarecer se demasie em
+hypotheses pouco menos de inverosimeis. Está em o numero d'estas a
+affirmativa de residir em Coimbra por 1556, o pai de Luiz de Camões,
+Simão Vaz. Este mesmo é na hypothese do biographo, um tal que o
+corregedor de Coimbra enviava preso a Lisboa, em 1563, por ter entrado
+em mosteiro de freiras, e vem a ser o mesmo que em 1576, juntamente com
+os seus criados, espancava o almotacé de Coimbra. Bastaria a despintar
+da phantasia do snr. visconde de Juromenha semelhante conjectura, a
+pobreza do filho, que recebeu 2$400 reis para se alistar na armada, em
+lugar d'outro, em quanto seu pai, com mais de cincoenta de idade, andava
+por Coimbra escalando conventos, e já com mais de setenta espancava as
+justiças, acaudilhando criados,--circumstancia indicativa de vida
+abastada, e orgulho de fidalgo com as posses que dão azas ao orgulho.</p>
+
+<p>«De todo em todo aniquila a supposição de que o mexediço Simão Vaz de
+Camões haja sido pai do poeta, e marido da desvalida Anna de Macedo, uma
+nota do snr. doutor Ayres de Campos, sobposta ao traslado da provisão
+passada em 16 de maio de 1576, a respeito das injurias e offensas
+praticadas por Simão Vaz de Camões no almotacé. <span class='pagenum'>[18]</span> Eis a nota: «E para
+tambem não ficarmos culpados em passar por alto alguns outros documentos
+que com estes tem estreitas relações, aqui os apontamos desde já em
+quanto as suas integras não forem publicadas no supplemento. Assim elles
+vão prestar auxilio valioso, e não grande embaraço a todos os criticos
+illustres que, talvez fascinados por meras semelhanças de nomes e
+appellidos, não teem hesitado em attribuir ao turbulento cidadão
+conimbricense Simão Vaz de Camões, muito vivo e são em 1576, a honrosa
+paternidade <em>legitima</em> do author dos <em>Lusiadas</em>.» Cita mais o insigne
+antiquario a vereação da camara de Coimbra de 31 de julho de 1563 da
+qual se deprehende que Simão Vaz havia casado em 1562, e casára
+novamente. Ora, quer o <em>novamente</em> signifique segundas nupcias, quer
+primeiras, como alguem aventa, sem dar a razão do alvitre, é certo que
+esse não podia ser o pai de Luiz de Camões, que falleceu antes de sua
+mãi. (Veja <em>Indices e Summarios dos Livros e Documentos mais antigos e
+importantes do Archivo da Camara Municipal de Coimbra.</em> Coimbra, 1867,
+pag. 7).</p>
+
+<p>«Temos presente a genealogia dos Camões, manuscripto de Jorge de Cabedo,
+fallecido em 1602 ou 1604, e pelo tanto contemporaneo de Luiz <span class='pagenum'>[19]</span> de
+Camões. (Veja <em>Diccion. bibliog.</em> de I. F. da Silva, tom. IV, pag. 161).</p>
+
+<p>«Cabedo falla do bisavô do poeta João Vaz de Camões, que foi corregedor
+em Coimbra, e jaz em Santa Cruz.</p>
+
+<p>«Segue Antão Vaz de Camões (filho d'aquelle e avô do poeta) que casou no
+Algarve com Guimar Vaz da Gama. Menciona Simão Vaz de Camões (filho de
+Antão Vaz e pai do poeta) <em>que foi por capitão d'uma náo á India, e deu á
+costa á vista de Goa, salvou-se em uma taboa, e lá morreu, deixando
+viuva Anna de Macedo, dos Macedos de Santarem</em>.</p>
+
+<p>«Faz tambem menção de outro Simão Vaz de Camões, residente em Coimbra,
+parente proximo do poeta, dizendo ter sido aquelle casado com Francisca
+Rebello<sup><a name="mfn1" href="#fn1">[1]</a></sup> filha de Alvaro Rebello Cardoso, a qual, viuvando, casára com
+Domingos Roque Pereira<sup><a name="mfn2" href="#fn2">[2]</a></sup>.»</p>
+
+<p>O snr. Theophilo leu isto sem duvida alguma, <span class='pagenum'>[20]</span> e cedeu aos singelos
+argumentos do artigo do <em>Diccionario</em>.</p>
+
+<p>Que faria o leitor, sendo (Deus o livre!) author do livro de Theophilo?</p>
+
+<p>A não entregar a obra toda ao fogo purificador dos seus creditos
+litterarios, rasgava as paginas em que chamava <em>pai</em> a Simão Vaz,
+substituindo-as por outras em que lhe chamasse <em>primo</em>.</p>
+
+<p>Diga-se verdade: o snr. Theophilo rasgou duas paginas do livro, a 59 e
+60; mas devia inutilisar as seguintes em que subsistem os erros
+derivados da confusão dos dous homonymos Simão Vaz de Camões.</p>
+
+<p>Escrevi no <em>Diccionario</em>, reportando-me impensadamente a um genealogico
+dos Camões: «Faz tambem menção de outro Simão Vaz de Camões, parente
+proximo do poeta, dizendo ter sido aquelle casado com Francisca Rebello,
+filha de Alvaro Rebello Cardoso, a qual, viuvando, casára com Domingos
+Roque Pereira.»</p>
+
+<p>Escreve o sr. Theophilo na regenerada pag. 59:</p>
+
+<p>«Simão Vaz de Camões, que em 1562 casou em Coimbra com Francisca
+Rebello, filha de Alvaro Cardoso<sup><a name="mfn3" href="#fn3">[3]</a></sup>.»</p> <span class='pagenum'>[21]</span>
+
+<p>Convido o snr. Theophilo Braga a declarar onde leu a noticia de tal
+casamento! Com toda a certeza, a primeira pessoa, que imaginou vêr isto
+em letra de mão, e o pôz em escriptura, desde que ha letra redonda, fui
+eu.</p>
+
+<p>Pesa-me do intimo seio que o snr. doutor T. Braga escorregasse na
+ladeira do meu engano. Já o snr. Felner lhe armou a esparrella da carta
+de Ayres Barbosa; e eu, mais innocentemente, fil-o casamenteiro de Simão
+Vaz com Francisca Rebello! É fado esquerdo do snr. Theophilo! Porém, o
+que tem graça infinita é o snr. doutor fixar o anno do casamento em
+1562! Que eu o inventasse, vá; mas que o snr. Theophilo lhe marcasse o
+anno, é vontade de callaborar nas indiscrições alheias!</p>
+
+<p>Isto não é simplesmente criancice párvoa--é desgraça; é mais que
+desgraça--é castigo da Providencia, porque o sr. Theophilo ladrou
+arrogantemente a Castilho, a Herculano, a Garrett, a Rebello, a
+Varnhagen; e não houve ainda detrahidor tão audaz, tão ignorante, e,
+sobre ignorante, ridiculo.</p>
+
+<p>O meu lapso procedeu de confundir dous nomes confusamente escriptos em
+uma arvore genealogica. Simão Vaz de Camões, o libertino parente do
+poeta, casou com uma sua criada, e morreu sem descendentes. Esta é a
+verdade. Quem casou em Coimbra com Francisca Rebello, filha de Alvaro
+<span class='pagenum'>[22]</span> Rebello Cardoso, morgado das Caldas, foi Simão <em>Vasconcellos</em>, e não
+Simão <em>Vaz</em>.</p>
+
+<p>Cá me fica pesando na consciencia o tempo e o papel que o snr. Theophilo
+desperdiçou. De ambas as cousas tenho escrupulo; menos da data do
+casamento; que essa é d'elle.</p>
+
+<p>Mas, se o snr. Theophilo substituiu as duas paginas que eram a fonte do
+erro, porque não supprimiu as correntes que derivam d'essa fonte? Não
+viu que todas as referencias ás paginas substituidas ficavam
+incomprehensiveis? O sentimentalismo que enternece o pesar do poeta pela
+prisão do <em>pai</em> não póde subsistir racionalmente na prisão do <em>primo</em>! Que
+faz então o snr. Theophilo? Usa processos sobre maneira economicos:</p>
+
+<div class="citacao"> <p class="centrado">ERRATA</p>
+
+<p class="centrado">Onde se lê <em>pai</em>, leia-se <em>primo</em>.</p> </div>
+
+<p>E está acabado.</p>
+
+<p>Ninguem me dê definições d'este preceptor infeliz!</p>
+
+<p>Contem-me esta passagem, que eu não preciso cenhecel-o de perto, nem
+lobrigar-lhe o feitio interior dos camarins do pensamento. É um cháos!
+Eu já não me admirarei se o snr. Theophilo, depois <span class='pagenum'>[23]</span> de esponjar
+alguns centos de livros, escrever uma <em>Errata geral</em> n'este sentido: onde
+se lê: <span class="small-caps">Obras</span> <em>de Theophilo</em>, leia-se: <span class="small-caps">Manobras</span> <em>do mesmo</em>.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>*&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Se o leitor quer, vamos agora farejar sangue de Camões nas veias dos
+nossos contemporaneos. Não cuide, porém, que vai deliciar-se n'esta
+leitura. É materia árida, fructo das taes insomnias constantes do
+proemio do numero primeiro.</p>
+
+<p>Vasco Pires de Camões veio de Castella no tempo de Fernando I. Foi
+alcaide-mór de Alemquer e Portalegre. Fugiu para Castella, quando o
+mestre de Aviz se levantou com o reino. Foi prisioneiro em Aljubarrota,
+perdeu os bens da corôa; mas cá ficou.</p>
+
+<p>Gonçalo Vaz, seu primogenito, instituiu um morgado em Evora, chamado da
+Camoeira. Não temos que vêr com os outros filhos, cujos descendentes ou
+foram pobres, ou identificaram os seus haveres nos morgadios do primeiro
+ramo, á falta de geração.</p>
+
+<p>Succedeu-lhe Antonio Vaz, pai de Lopo Vaz de Camões, cujo primogenito,
+tambem Antonio Vaz, teve um filho, que outro sim se chamou Lopo, e fez
+um morgado em Aviz.</p> <span class='pagenum'>[24]</span>
+
+<p>D'este ultimo gerou-se D. Anna de Castro, que foi casar a Guimarães com
+Diogo Lopes de Carvalho, quarto senhor dos coutos de Abbadim e Negrellos
+no tempo de Philippe II.</p>
+
+<p>Luiz Lopes de Carvalho, 5.º senhor dos coutos, foi assassinado em
+Guimarães.</p>
+
+<p>Gonçalo Lopes de Carvalho Camões e Castro Madureira, bisneto de Lopo Vaz
+de Camões, succedeu nos morgados da Camoeira da Torre de Almadafe no
+termo de Aviz, e da Gesteira no termo de Evora, ambos creados por
+Gonçalo Vaz de Camões e Duarte de Camões, ultimo representante da
+varonia, que morreu sem geração, e por isso os vinculos passaram aos
+descendentes femininos de Lopo Vaz de Camões, que eram os senhores de
+Abbadim e Negrellos. Existia esta posse em 1692<sup><a name="mfn4" href="#fn4">[4]</a></sup>.</p>
+
+<p>Thadeu Luiz Lopes de Carvalho, filho de Gonçalo Lopes, casou, depois do
+anno 1718, em Lisboa, com D. Brites Thereza de Menezes, que morreu muito
+nova. Celebrou segundas nupcias com D. Francisca Rosa de Menezes e
+Mendonça, filha de D. Francisco Furtado de Mendonça.</p>
+
+<p>Tiveram filhos varões, que morreram na infancia, <span class='pagenum'>[25]</span> e tres filhas que
+casaram: D. Marianna Luiza Ignacia, com Caetano Balthazar de Sousa de
+Carvalho, alcaide-mór de Villa Pouca de Aguiar; D. Anna Joaquina, com
+Gonçalo Barba Alardo Corrêa, em 1751; D. Guiomar Marianna Anacleta de
+Carvalho Fonseca Camões e Menezes, herdeira, com D. Antonio de
+Lencastre, governador de Angola--(1772-1179), filho segundo de D.
+Rodrigo de Lencastre.</p>
+
+<p>Nasceram, entre outros fallecidos na infancia, um filho, que se chamou
+D. Rodrigo de Lencastre Carvalho Fonseca e Camões, e uma senhora, D.
+Francisca Rosa de Lencastre, que casou com seu primo Lourenço de Almada,
+1.º visconde de Villa Nova de Souto de El-Rei.</p>
+
+<p>D. Rodrigo, herdeiro dos morgadios e senhorios de Negrellos, Abbadim,
+etc., e sargento-mór do regimento de cavallaria do principe D. João em
+1791, casou com D. Maria do Carmo Henriques, filha herdeira de João
+Henriques, do Bombarral.</p>
+
+<p>No morgado da Camoeira succedeu o 2.º visconde de Souto de El-Rei pelo
+seu casamento com D. Francisca Felizarda de Lencastre, filha de D.
+Guiomar de Camões, senhora de Abbadim e Negrellos. Uma filha d'estes
+viscondes, D. Guiomar, casou com Gonçalo da Silva Alcoforado.</p> <span class='pagenum'>[26]</span>
+
+<p>Está, por tanto, o sangue dos Camões em todos os descendentes da mulher
+do 1.º visconde de Souto de El-Rei. O terceiro ainda se assignou com o
+appellido Camões. Está igualmente na familia Alcoforado da casa da
+Silva, na familia da casa de Villa Pouca de Guimarães; nos descendentes
+de José Bruno de Cabedo, 1.º barão do Zambujal, por linha feminina, pois
+sua mãi era neta de D. Guiomar de Carvalho Camões e Fonseca; na casa da
+Pousada em Braga, representada ha quarenta annos por Francisco Xavier
+Alpoim da Silva e Castro, terceiro neto de Thadeu Camões, senhor de
+Abbadim.</p>
+
+<p>Em quasi analogo parentesco estão os snrs. Leites de Paço de Sousa, e os
+snrs. Pachecos Pereiras de Villar, ou de Belmonte.</p>
+
+<p>Não prolongarei esta resenha que de certo, hoje em dia, se ramifica tão
+copiosamente quanto cumpre imaginar das faculdades reproductoras das
+pessoas que representam aquelles illustres appellidos.</p>
+
+<p>Falta dizer que Luiz de Camões deixou um filho que não se reproduz, e é
+immortal: chama-se <span class="small-caps">Lusiadas</span>.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="fn1" href="#mfn1">[1]</a> Adiante se verá que fui inexacto n'esta noticia.</p>
+
+<p><a name="fn2" href="#mfn2">[2]</a> Este Simão Vaz de Camões era filho de Duarte de Camões de Tavora,
+filho de outro Simão Vaz de Camões, senhor do morgado da Torre. Casou
+Duarte com D. Isabel Lobo, filha de Ayres Tavares e Sousa, de quem
+houve, além de Simão Vaz de Camões, Luiz Gonçalves de Camões, e D. Maria
+da Camara, que casou com Francisco de Faria Severim. Quanto ao Simão que
+viveu em Coimbra, diz o linhagista que <em>se casára á sua vontade</em>, como
+quem desfaz na estirpe da esposa.</p>
+
+<p><a name="fn3" href="#mfn3">[3]</a> A pag. 417 amplia o traslado do meu artigo, escrevendo: <em>a qual casou
+depois em segundas nupcias com Domingos Roque Pereira.</em></p>
+
+<p><a name="fn4" href="#mfn4">[4]</a> Veja Memorias resuscitadas da antiga Guimarães, pelo padre Torquato
+Peixoto de Azevedo, em 1692, pag. 361.</p> </div> <span class='pagenum'>[27]</span>
+
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap03"></a> <h1>LISBOA</h1>
+
+
+<p>Antes do traslado, darei breve noticia do livro de outro viajante bem
+creado que nos visitou mais de espaço em 1730. A <em>Description de la Ville
+de Lisbonne</em>, impressa em Paris, n'aquelle anno, é facil de encontrar em
+Portugal.</p>
+
+<p>Este viajante esteve no paço da Ribeira. Viu as riquissimas alfaias do
+vasto palacio. Reinava D. João V, o Salomão do occidente. Que valores
+não sorveu aquella vasa do Terreiro do Paço vinte e cinco annos depois!</p>
+
+<p>Uma cousa achou tristissima o viajante; eram as noites de Lisboa:</p>
+
+<br>
+
+<p>«Esta grande cidade (diz elle) não é alumiada de noite, e é isso causa a
+que um homem se veja em embaraços para acertar com o seu caminho, e
+soffra sobre si os despejos de immundicies que lá se atiram das janellas
+ás ruas, porque as casas não tem latrinas. A obrigação de cada qual é
+levar essas immundicies ao rio, para o que ha negras que se occupam
+n'este serviço muito baratas; <span class='pagenum'>[28]</span> mas a plebe não quer saber d'essas
+ordens. Nas ruas não se anda de noite com bastante segurança, salvo
+quando se é, como lá dizem, <em>embuçado</em>, isto é, quando se envolve a gente
+em um farto capote, desde a cabeça até ás canellas: é um trajar
+exquisito, de que usam as pessoas mais qualificadas, e até os principes,
+como trajo privilegiado e respeitado. O respeito que se tem a esta
+especie de mascara, vem de impedir que os taes se reconheçam, e do
+receio que o disfarce encubra armas de fogo prestes a disparar-se sobre
+quem os insultar ou quizer conhecer... Lisboa não tem passeio algum, nem
+divertimento de nenhuma casta a não ser um mau theatro hespanhol. Os
+fidalgos, não obstante, frequentam este theatro; e, depois que sahem<sup><a
+name="mfn5" href="#fn5">[5]</a></sup> vão gastar o restante do dia a passear nas
+suas carruagens, na praça do Rocio, onde palestream até á noite, sem
+sahir das carruagens. As cadeirinhas usam-se muito, e as liteiras estão
+na moda das damas distinctas e dos velhos; mas, por conta das ruas
+intransitaveis, os coches são raros.»</p>
+
+<br>
+
+<p>Fallando de estalagens, diz que eram quasi todas francezas, inglezas e
+hollandezas, sendo a <span class='pagenum'>[29]</span> melhor de todas uma franceza na praça dos
+Romulares, onde o passadio de cada dia custava 6 francos.</p>
+
+<p>Attribue a carestia á diminuta concorrencia de estrangeiros, que se
+hospedem fóra das casas dos amigos.</p>
+
+<p>Já n'aquelle tempo, pelos modos, era mais barato hospedar-se a gente em
+casa dos amigos. N'este particular, não adiantamos nada. Outros
+forasteiros, que não tivessem amigos em Lisboa, costumavam alugar
+quartos, com uma banca, seis cadeiras de palha, louça de barro, e cama
+no chão, constante d'uma enxerga e duas cobertas, que á noite se
+desdobram sobre uma esteira de junco. Diz elle que nas hospedarias era
+peor.</p>
+
+<p>Conheceu o sujeito em Lisboa uma senhora portugueza, casada com um
+negociante francez, de Bayonna. A tal senhora via o que se passava no
+interior do corpo humano e nas entranhas da terra, não tendo nos olhos
+senão grande belleza. Incommodava-se-lhe a vista quando divisava nos
+reconditos escaninhos da economia animal abscessos asquerosos. Via os
+phenomenos physiologicos da digestão, e dizia se o feto no ventre
+materno era macho ou femea, aos sete mezes. Na profundeza de 30 ou 40
+braças descobria mananciaes d'agua. Estas prerogativas extraordinarias
+<span class='pagenum'>[30]</span> só as gozava em quanto estivesse em jejum; algumas vezes, porém, á
+hora de sesta, refinava no condão de vêr os rins de um homem gordo
+através do capote. Os descobrimentos de agua, já para o rei já para os
+particulares, o voto dos sabios e dos ministros, em fim, os
+incontroversos prodigios d'esta mulher grangearam-lhe a mercê regia do
+<em>dom</em> e o habito de Christo para seu marido.</p>
+
+<p>O padre Le Brun, no anno seguinte á publicação d'este livro, metteu a
+riso a historia da lisboeta. (Veja <em>Histoire critique des Pratiques
+superstitieuses</em>, etc., l. 1.º, cap. 6, edição de Amsterd. 1733). Mas o
+cavalheiro de Oliveira que demorava então em Londres, onde publicava o
+seu <em>Amusement periodique</em>, a pag. 274 e seguintes do 2.º tomo, impugna a
+incredulidade do francez, com as seguintes razões. E note-se,
+primeiramente, que Francisco Xavier de Oliveira foi o portuguez mais
+incredulo do seu tempo; e, se não fugisse de Portugal, teria sido
+queimado como herege.</p>
+
+<p>Diz elle:</p>
+
+<br>
+
+<p>«Eu não subscrevo ás suspeitas de impostura que o padre Le Brun irroga á
+mulher portugueza, porque a conheci pessoalmente, tendo ella entre onze
+e doze annos. Vi-a, pela primeira vez, em Paço d'Arcos na quinta de
+Jeronymo <span class='pagenum'>[31]</span> Lobo Guimarães, onde fôra para indicar o ponto onde havia
+agua. Do primeiro lanço de olhos, apontou o sitio. Lobo fez cavar no
+ponto indicado, e achou agua abundantemente. Verdade é que ella marcava
+entre seis e sete braças; e a agua borbulhou na profundidade de oito.
+Tambem é certo que, estando eu vestido, ella me disse positivamente os
+signaes todos que eu tinha na pelle, e o mesmo fez a cinco pessoas
+presentes. Afianço isto como testemunha ocular. Que ella visse através
+da pelle, nunca ouvi dizer...»</p>
+
+<br>
+
+<p>Prolonga-se o cavalheiro de Oliveira abonando os prodigios contrariados
+por Le Brun, e prosegue:</p>
+
+<br>
+
+<p>«Declarou esta menina que não podia entrar em igrejas e atravessar
+cemiterios, por causa do horror que lhe faziam os cadaveres enterrados,
+que ella via podres debaixo das lapides. Todos os tribunaes, e
+maiormente o do santo officio, tomaram conhecimento d'esta declaração.
+Abriu-se um tumulo como experiencia, e achou-se o cadaver qual ella o
+descrevera, antes que levantassem uma grossa lousa. Não sei que destino
+teve <span class='pagenum'>[32]</span> esta mulher: o que sei é que nem a inquisição nem algum
+tribunal a inquietou<sup><a name="mfn6" href="#fn6">[6]</a></sup>.»</p>
+
+<br>
+
+<p>Proseguindo na viagem do admirador da prodigiosa lisboeta, refere elle
+algumas cousas da côrte de D. João V que precisam ser esclarecidas.</p>
+
+<p>Numera os officiaes, que servem a casa real, e diz que, áquelle tempo, o
+officio de mordomo-mór tinha vagado, em consequencia de ter fugido de
+Portugal em 1724 este empregado do paço com uma das mais formosas damas
+do reino, esposa de um fidalgo. E acrescenta:</p>
+
+<br>
+
+<p>«O rei mandou depós os fugitivos um esquadrão de cavallos; mas como
+elles levavam um dia de avanço, e correram á desfilada, a tropa não
+logrou apanhal-os; por maneira que chegaram a Vigo<sup><a name="mfn7" href="#fn7">[7]</a></sup>, na Galliza sem
+embaraço. Com tudo, breve lhes foi o contentamento; porque o bispo
+d'aquella cidade fez entrar a dama em um mosteiro, e o fidalgo
+retirou-se para Madrid. O marido da fugitiva vestiu-se de luto, assim
+que soube da fuga; e, conforme o prejuizo do paiz, ou como lá dizem os
+portuguezes, <em>porque tinha barbas</em>, <span class='pagenum'>[33]</span> jurou não apparecer mais sem
+matar o raptor, e matar ou enclausurar para sempre sua mulher.»</p>
+
+<br>
+
+<p>No immediato numero saberá o leitor quem foram os personagens d'este
+caso, que envolve tragedia digna de livro de maior fôlego.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><a name="fn5" href="#mfn5">[5]</a> Vê-se que as representações eram de dia.</p>
+
+<p><a name="fn6" href="#mfn6">[6]</a> São rarissimos ou talvez unicos em Portugal, estes livros do
+cavalheiro de Oliveira. Diz elle que apenas tinha na sua patria dous
+assignantes, e um era Jacome Raton.</p>
+
+<p><a name="fn7" href="#mfn7">[7]</a> É erro: foi em <em>Tuy</em>.</p> </div>
+
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap04"></a> <h1>VOLTAS DO MUNDO</h1>
+
+
+<p>Ayres Ferreira, da casa dos senhores de Cavalleiros, e couto de Frazão e
+Marvilla de Couros, viveu em Barcellos, no tempo de D. João III.</p>
+
+<p>Teve quatro filhos e duas filhas.</p>
+
+<p>Os rapazes, á excepção de um que morreu na infancia, foram todos servir
+na India: eram Ruy, Alvaro e Gonçalo.</p>
+
+<p>As meninas professaram, e foram abbadessas perpetuas no mosteiro de Cós.</p>
+
+<p>Os tres soldados grangearam fama no Oriente; e Ruy Ferreira de Mendonça,
+o mais velho, avantajou-se <span class='pagenum'>[34]</span> nas proezas--nas crueis façanhas que os
+Coutos e Barros chamaram proezas.</p>
+
+<p>Não lhes desluzam, por isso, a memoria. Era seculo de trevas e de
+missionarios. Reinava D. João III, o inquisidor. Cada qual é do seu
+tempo. Se algum contemporaneo, como o bispo de Silves, protestou contra
+o fanatismo sanguinario, deve-se o protesto honroso a não ter ido lá o
+insigne escriptor. Se fosse, pegaria d'elle a contagião da carnagem, a
+peste d'aquelle ar infecto da sangueira, o colera que accendia sêdes de
+cubiça insaciavel.</p>
+
+<p>No seu solar de Barcellos ficára Ayres Ferreira, sósinho e triste.
+Doia-lhe mais que tudo a saudade de Ruy, o seu primogenito, que lhe
+fugira, ancioso de batalhas, e invejoso dos irmãos, cujos nomes
+começaram a ser laureados na Asia em 1543. N'aquelle tempo, um mancebo
+de appellido <em>Goes</em>, renunciava esse appellido, que era o de seu
+progenitor, em affronta ao pai que lhe impedira servir as armas na
+India!</p>
+
+<p>Um dia, Ruy Ferreira de Mendonça recebeu em Goa carta de seu pai,
+queixando-se dos filhos que o deixaram velho, desamparado, e exposto aos
+affrontamentos de quem já lhe não temia o braço alquebrado por annos e
+desgostos.</p>
+
+<p>E contava que o abbade de Creixomil, clerigo <span class='pagenum'>[35]</span> fidalgo e possante,
+ousára pôr-lhe as mãos nas barbas.</p>
+
+<p>Ruy sahiu com a carta de seu pai em demanda do vice-rei a pedir-lhe
+licença para vir ao reino. O vice-rei negou-lh'a, com o intento de
+evitar um crime, privando-se de um dos seus mais valentes capitães. E,
+sabendo que o fidalgo lhe não obedeceria e se andava negociando
+clandestinamente passagem nas náos, deu-lhe ordem de prisão até que os
+navios levassem ancora.</p>
+
+<p>As náos abalaram, e Ruy foi posto em liberdade.</p>
+
+<p>Apenas livre, correu á barra, avistou ao longe o velame, arrojou-se ás
+ondas, e nadou na esteira d'ellas. Quatro horas bracejou, reagindo ao
+sossobro, que já o levava de vencida. Favorecido por subita calmaria, as
+náos balouçavam-se paradas, e as vagas alisaram-se como lago de aguas
+estanques. Viram da amurada o homem que nadava. O capitão, que lhe
+quizera dar passagem occulta, suspeitou quem fosse, e mandou, uma lancha
+com oito remadores ao encontro d'elle. Colheram-o reanimado, mas em
+tamanho quebranto de forças que levou dias a restaurar-se. Tinha cortado
+duas leguas de mar!</p>
+
+<p>Desembarcou em Lisboa, e seguiu para o Minho.</p> <span class='pagenum'>[36]</span>
+
+<p>S. Thiago de Creixomil, abbadia do então chamado Couto de Fragoso,
+demorava no termo de Barcellos.</p>
+
+<p>Ahi vivia o clerigo que affrontára Ayres Ferreira.</p>
+
+<p>Ruy, antes de se avistar com o pai, bateu á porta do abbade, e
+enviou-lhe o seu nome.</p>
+
+<p>O fidalgo tonsurado desceu ao recio da sua residencia, empunhando a
+espada de cavalleiro. O soldado da India rejubilou quando viu o
+adversario armado. Vexava-o ter de matar um inerme. Travaram-se os dous
+gladios; mas que prelio tão desigual entre o guerreiro experimentado e o
+fidalgo que sabia apenas a esgrima de curioso! Á volta de poucos botes,
+o abbade de Creixomil cahiu traspassado do peito ás costas, ouvindo
+estas vozes frementes de odio:</p>
+
+<p>--Perro! não pozesses as mãos nas barbas de um velho!</p>
+
+<p>E depois foi beijar a mão a seu pai, com quem se demorou algumas horas,
+e partiu para não perder a passagem das náos que estavam de vela para a
+India.</p>
+
+<p>E lá foi ceifar novos louros.</p>
+
+<p>Passados annos, o solarengo de Barcellos morreu, e foi sepultado na
+capella do Santissimo Sacramento <span class='pagenum'>[37]</span> da igreja matriz de Barcellos,
+onde estavam os ossos de seus paes e avós.</p>
+
+<p>Ruy Ferreira voltou ao reino, e succedeu na casa de seu pai.</p>
+
+<p>Ninguem lhe pediu saldo de contas com os descendentes do abbade que
+naturalmente os tinha, de collaboração com as mais nitidas ovelhas do
+seu rebanho.</p>
+
+<p>Disputou a posse do morgadio de S. Pedro de Fajozes, no concelho da
+Maya, a sua prima D. Joanna de Eça, da casa de Cavalleiros. Ganhou a
+demanda.</p>
+
+<p>Em seguida, casou com D. Philippa de Athaide, filha de Martim Lopes de
+Azevedo, decimo primeiro senhor da casa e solar d'Azevedo e da Villa de
+Souto.</p>
+
+<p>Tiveram seis ou mais filhos; parte d'estes morreram na India.</p>
+
+<p>A representação d'esta casa, volvidos 60 annos, estava em Duarte Pacheco
+Pereira, governador de Ormuz, descendente do heroe desgraçado que teve
+aquelle nome; porque um bisneto de Ruy, chamado Luiz de Mendonça, casou
+com D. Guiomar de Albuquerque, neta de Duarte Pacheco Pereira.</p> <span class='pagenum'>[38]</span>
+
+<p>Eu não sei se algum dos trinta e quatro barões que conheço, estando no
+Brazil, e sabendo que seu pai, o tio Antonio da Thereza, foi espancado
+pelo estadulho do tio Joaquim da Thomazia, seria capaz de vir da rua da
+Quitanda desaffrontar o seu velho progenitor! Acho que não; e faria
+muito bem. Ha 300 annos, aquelle Ruy poz o abbade a dormir o somno
+eterno, cavalgou na sua mula, e lá foi socegadamente para Lisboa, e de
+Lisboa para a India. Hoje em dia, se o barão de Ranhados matar o
+Januario do Quinchoso, que lhe bateu no pai, o mulherio grita á
+d'el-rei, o regedor participa ao administrador, este faz uma circular
+telegraphica para os quatro pontos cardeaes, e o barão, quando chegar,
+mais aqui ou mais além, dá de cara com dous policias, e depois bem
+sabemos o resto.</p>
+
+<p>Mudaram os tempos pela mesma razão que mudaram os fidalgos. Não ha pai
+por filho nem filho por pai, em quanto se ganha dinheiro.</p>
+
+<p>Entre <span class="small-caps">heroismo</span> antigo e <span class="small-caps">dinheiro</span> moderno está um fosso. Quem quizer
+palmilhar de salto as duas orlas do abysmo cahe no <em>ridiculo</em> ou... nas
+mãos da policia.</p> <span class='pagenum'>[39]</span>
+
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap05"></a> <h1>NOVA SOLUÇÃO DO PROBLEMA HISTORICO</h1>
+
+
+<p>Cá está outra que me parece mais sensata que a primeira. O premio,
+infelizmente para o verdadeiro merito, era já distribuido. Não obstante,
+o snr. <em>Bibliophilo</em> ha de ser galardoado. A minha livraria é pobre: não
+vejo livro digno de s. s.<sup>a</sup>; mas vou munir-me de duas joias litterarias,
+que submetto á escolha do douto letrado.</p>
+
+<p>Disponha, pois, s. s.<sup>a</sup> do <span class="small-caps">Faust</span> do snr. Joaquim de Vasconcellos, ou dos
+<span class="small-caps">Originaes opusculos</span> do snr. Jayme José Ribeiro de Carvalho. A primeira,
+bem que não trate de hygiene, é drastica; a segunda, posto que entenda
+com a sciencia dos derivativos, corre parelhas com a utilidade da
+primeira. D'este modo, dou testemunho publico da consideração que me
+merece o bibliophilo, e fio muito dos dous offerecidos authores a
+lapidação do seu espirito, que reslumbra e rasga na seguinte carta
+destinos de nenhum modo chochos.</p> <span class='pagenum'>[40]</span>
+
+<p class="direita">«<em>Snr. redactor das <span class="small-caps">noites de insomnia</span>.</em></p>
+
+<p>«Estimo esta occasião de o informar de um caso que succedeu em 1693, e
+esclarece completamente as suas duvidas a respeito do augusto forasteiro
+que tres pontifices sentenciaram rei de Portugal.</p>
+
+<p>«Tenho a satisfação de possuir um folheto rarissimo que meu avô
+conseguiu salvar no incendio da livraria do conde da Ericeira, em 1755.
+É conhecido outro exemplar no <em>Museu britannico</em>. E eu preso-o tanto que
+não me desfiz d'elle, quando me offereceram em troca as obras completas
+do doutor Theophilo, e sete menos cinco em dinheiro.</p>
+
+<p>«Intitula-se a minha raridade: <em>Relaçam do sucesso que teve o patacho
+chamado Nossa Senhora da Candelaria da Ilha da Madeira, o qual vindo da
+Costa de Guiné, no anno de 1693, huma rigorosa tempestade o fez varar na
+Ilha incognita. Que deixou escripta Francisco Corrêa, mestre do mesmo
+patacho, e se achou no anno de 1699, depois da sua morte. Impresso em
+Lisboa em 1734.</em>»</p>
+
+<p>«Aproveitando as suas insomnias, vou dar-lhe muito resumida a substancia
+do referido opusculo.</p> <span class='pagenum'>[41]</span>
+
+<p>«Conta Francisco Corrêa que, ao avistar as ilhas de Cabo-Verde,
+toldou-se repentinamente o céo, e logo uma nebrina escura fez noite a
+bordo, a termos de se não conhecerem os tripolantes. De subito, pegam de
+esfuziar nas gaveas repellões de ventania, e os relampagos a fuzilarem,
+e logo as nuvens negras a abrirem-se em jorros de chuva.</p>
+
+<p>«Traquete e mezena voaram. A embarcação fez agua por todas as pranchas
+descosidas; e, apesar de esforços desesperados, não vingaram cegar os
+sorvedouros. Quinze eram os nautas que se deram em uma jangada á
+misericordia divina. Ao abrir da manhã, avistaram a leste uns morros
+pardacentos; mas como não tinham governo que alli os proejasse,
+deixaram-se ir na corrente e á mercê de Deus até varar em terra.</p>
+
+<p>«Em quanto se reparava a embarcação, o mestre do patacho, com Manoel
+Antunes e João de Arruda, embrenharam-se no matagal com os arcabuzes bem
+cevados. Viram mono de oito palmos, e dentes de duas pollegadas e meia;
+viram cobras grossas como pipotes de oito almudes; e viram a final uma
+mulher marinha que Francisco Corrêa descreve d'este feitio:</p>
+
+<br>
+
+<p>«Tinha todas as perfeições até á cinta, que se <span class='pagenum'>[42]</span> discorrem na mais
+formosa, e sómente a desfeavam as grandes orelhas que tinha, pois lhe
+chegavam abaixo dos hombros, e quando as levantava, lhe subiam a
+distancia de mais de meio palmo por cima da cabeça. Da cinta para baixo,
+toda estava coberta de escamas, e os pés eram do feitio de cabra, com
+barbatanas pelas pernas. Tanto que se viu no monte, presentindo ser
+vista, deu taes berros, que estremecia a ilha, pelo retumbo dos echos; e
+sahiram tantos animaes, e de tão diversas castas, que nos causou muito
+medo. Arrojou-se finalmente ao mar pela outra parte com tal impeto, que
+sentimos nas aguas a sua vehemencia. Todos se assustaram, menos eu, pois
+já tinha visto outra no cabo de Gué; e tinha perdido o medo com outras
+semelhantes apparições; e me lembra, que junto a Teneriffe vi um homem
+marinho de tão horrendo feitio, que parecia o mesmo demonio. Tinha
+sómente a apparencia de homem na cara, na cabeça não tinha cabellos, mas
+uma armação, como de carneiro, revirada com duas voltas; as orelhas eram
+maiores que as de um burro, a côr era parda, o nariz com quatro ventas,
+um só olho no meio da testa, a bocca rasgada de orelha a orelha, e duas
+ordens de dentes, as mãos como de bugio, os pés como de boi, e o corpo
+coberto de escamas, mais duras, que <span class='pagenum'>[43]</span> conchas. Uma tempestade o
+lançou em terra, e taes bramidos deu, que entre elles expirou, e para
+memoria se mandou copiar a sua fórma, e se conserva na casa da cidade
+d'aquella ilha.»</p>
+
+<br>
+
+<p>«Ao terceiro dia, 8 d'agosto de 1693, ouviram uma voz lá dos reconcavos
+da serra, a bradar: <em>Portugal!</em> <em>Castella!</em> Seguindo a toada das
+exclamações, toparam um homem de venerando aspecto, que lhes fallou
+assim:</p>
+
+<br>
+
+<p>«<em>Graças a Deus Senhor; infinitas graças vos dou, por me chegardes a
+tempo, depois de tantos annos, em que eu visse gente da Europa</em>; e logo
+olhando gravemente, e cortez para nós, disse: <em>Senhores, de que nação
+sois?</em> Nós pasmados, não acertavamos a responder; e conhecendo elle o
+nosso susto, nos animou brandamente, rogando-nos para a sua pobre
+habitação, aonde entrámos, e sentados em um tosco pau, nos fallou com
+taes palavras:</p>
+
+<p>«<em>Senhores, sois portuguezes, ou castelhanos? Respondei sem susto; que
+não tendes, quem n'esta ilha se opponha aos vossos designios. Se me
+procuraes, para acabardes com a minha vida, aqui me achaes sem
+resistencia, e sem defensa mais que a de Deus; e como de tanto viver
+estou aborrecido, <span class='pagenum'>[44]</span> grande favor me fazeis em me alliviardes de tão
+grande penalidade.</em> Eu, que respeitava a sua pessoa, desejando satisfazer
+á sua pergunta, o certifiquei de que eramos portugueses, que arribáramos
+com um grande temporal áquella ilha: do que, tanto que me ouviu, posto
+de joelhos, levantadas as mãos, pondo os olhos no céo, soltando as
+lagrimas, deu graças a Deus, dizendo: <em>Ah bom Deus, quão grande é a vossa
+infinita Providencia!</em> E levantando-se, nos abraçou, e saudou, dizendo:
+<em>Meus portuguezes, meus portuguezes</em>; sem que as lagrimas cessassem: e
+levando-nos para o interior da cova, nos fez sentar junto a si,
+perguntando-me pelos companheiros, e pelo nosso infausto successo, de
+que lhe démos larga conta. Perguntou-nos quem reinava em Hespanha, e
+sabendo que em Castella reinava Carlos II, e em Portugal D. Pedro II,
+suspirando com alvoroço, disse: <em>E Portugal tem rei! Oh Deus immenso, que
+te lembraste do teu reino!</em> E dizendo-lhe nós como fôra acclamado el-rei
+D. João IV, e os milagrosos successos d'aquelle dia, não cessava de
+mostrar o gozo, que interiormente sentia: e logo repetindo novas
+lagrimas, suspiros, e soluços, nos perguntou pela conquista de Africa,
+ao que respondemos dando-lhe conta, do que sabiamos, e como desde a
+batalha, que perdera el-rei D. Sebastião, se não <span class='pagenum'>[45]</span> continuára,
+tomando-se horror a tal terra: e desejosos nós de sabermos com quem
+tratavamos, lhe pedimos nos consolasse, dizendo-nos, quem o levára
+áquella ilha incognita, e não arrumada nas cartas, e roteiros; ao que
+satisfez com taes palavras:</p>
+
+<p>«No tempo, que Philippe II entrou com violencia em Portugal, se retirou
+muita gente, por não vêr o seu reino recuperado das mãos dos mouros
+pelos nossos ascendentes, sem ajuda dos visinhos, sujeito a principe
+estranho. Muito tempo andei retirado, discorrendo pelo interior da
+Africa, passei á Palestina, e outras terras, tendo tantos trabalhos por
+muito suaves, na consideração, de não vêr com os meus olhos o quanto
+padeciam os meus naturaes; e passados alguns annos, passando á Europa,
+cahi nas suas mãos; e entregando-me a certos homens, me levaram a uma
+embarcação na bahia de Cadix, que promptamente se fez á vela. Tinha o
+cabo ordem particular para que em certa altura me lançassem ao mar, sem
+que me ouvisse, nem me deixasse fallar; e notando elle as minhas acções,
+e innocencia, suspendeu a execução; até que na altura de Cabo Verde, me
+intimou a ordem com tanto pezar, que bem entendi o desejo que tinha de
+me favorecer. Preparou-se uma lancha, o melhor que se pôde, <span class='pagenum'>[46]</span> e
+n'ella se pôz mantimento para tres dias. Entrou logo a animar-me,
+exhortando-me a que confiasse em Deus, que me poderia livrar do perigo,
+a que me haviam de expôr: e me mandaram baixar á lancha, o que não quiz
+executar, sem me confessar, e me preparar espiritualmente, para entregar
+a alma a Deus; que tudo se me concedeu; e tanto que baixei, cortaram o
+cabo, e me entregaram á disposição das ondas. Não perdi o animo, antes
+constante soffri este golpe, esperando, que Deus olhasse para a minha
+causa; e nadando a lancha livremente, na manhã seguinte de 4 de outubro,
+cheguei por acaso a esta ilha, em que habito sem que no discurso de
+tantos annos visse alguma creatura racional. Penetrei o interior,
+encontrando a piedade nos brutos, que não experimentei nos homens; e
+descobri esta concavidade, que a natureza devia ter obrado para meu
+abrigo. Aqui me recolhi, aqui tenho passado tantos annos, sustentando-me
+com datiles, e outras frutas. Vivo, e não sei para o que vivo; Deus sabe
+o para que.»</p>
+
+<br>
+
+<p>«O testemunho do narrador, confirmado por Manoel Antunes e João de
+Arruda, assevera-me que se alguma vez houve D. Sebastião era aquelle.
+Muito instaram os nautas que se deixasse levar <span class='pagenum'>[47]</span> a Portugal; «mas
+elle--acrescenta o mestre do patacho <em>Nossa Senhora da
+Candelaria</em>--encarecidamente nos pediu com as lagrimas nos olhos, que o
+não precisassemos a tal jornada, pois não chegára ainda o tempo de
+passar a Portugal; que pelo amor que nos tinha, o lançassemos, terra
+firme, em qualquer parte da Africa; e que debaixo da palavra que lhe
+haviamos de dar como portuguezes partiria comnosco; o que lhe juramos.
+Perguntamos-lhe se tinha alguma cousa na sua cova, que embarcasse; e
+respondeu, que desde que n'ella entrára não cuidára mais que viver para
+Deus; e que todos os annos lavrava por suas mãos uma tunica de folhas de
+palma, para cobrir honestamente o corpo; na cova não tinha mais que uma
+cruz, que por suas mãos fizera de madeira; e que essa deixassem, para
+que n'aquella terra ficasse o signal da nossa redempção; e quando ella
+se povoasse nos tempos futuros se acharia tambem a noticia do seu
+habitador. Embarcou-se comnosco, beijando a terra, com muitas lagrimas;
+e fazendo-nos á vela, esteve em nossa companhia dous dias e meio, em que
+nos contava monstruosidades d'aquella ilha; e satisfazendo ao seu
+pedimento o lançamos em terra duas leguas distante de Arguim,
+expondo-lhe os perigos a que se expunha, sem que o podessemos <span class='pagenum'>[48]</span>
+persuadir a suspender o desembarque em terra de barbaros; ao que
+respondia, que Deus que o conservára até aquelle tempo, o livraria de
+todos os perigos.</p>
+
+<p>«Despediu-se de nós com tantas lagrimas, e gosto, que bem mostrava as
+saudades, que de nós levava, e o quanto se alegrava de passar áquella
+terra. Abraçou-nos a todos, e saltando em terra, a beijou, e levantando
+as mãos agradeceu a Deus as mercês que lhe fizera, e esperava receber da
+sua piedosa mão; e penetrando aquella costa inculta, nos deixou sentidos
+pela falta da sua companhia. Jámais podemos alcançar, o sabermos d'elle,
+a sua patria, e nome; divertindo a resposta politicamente com tanta
+gravidade, que nos não dava confiança, para instarmos; e sómente ao
+despedir me disse, que a seu tempo o saberiam os nossos descendentes; e
+dizendo-lhe eu nos consolasse ao menos declarando o tempo, nos disse:
+que Deus o sabia.</p>
+
+<p>«Varios discursos fizemos sobre este homem, conservado por tantos annos
+n'aquella ilha, e agora caminhando por taes desertos; e nos persuadimos
+ser cousa maior. Deus o leve, e traga a salvamento.»</p>
+
+<br>
+
+<p>«Confronte agora v. as datas das sentenças <span class='pagenum'>[49]</span> dos tres pontifices, e
+deprehenda que D. Sebastião, tendo corrido a Palestina e <em>varias terras</em>
+como elle disse aos marinheiros, muito é de crêr que estivesse em Roma
+nas tres épocas assignaladas na sentença.</p>
+
+<p>«Quanto á circumstancia de estar então o rei bastante avançado na
+idade--pois tinha 137 annos--isso é controversia que pertence á alta
+philosophia e não ao calendario decidir. São os <em>porquês</em> de Deus, dos
+quaes, sobre o mesmo assumpto, escreveu o doutissimo padre Antonio
+Vieira:</p>
+
+<br>
+
+<p>«Demais que os porquês de Deus são incomprehensiveis, e das suas razões
+não póde o entendimento humano dar razão; quanto mais, que Deus Nosso
+Senhor sempre faz as suas cousas grandes, e com grandes milagres. Bem
+podia Deus dar no tempo do Anti-Christo padres, que a este prégassem, e
+com tudo guarda ha tantos annos a Enoch e Elias: outras paridades podéra
+trazer se a brevidade as permittira.</p>
+
+<p>«... Ou este rei morreu, ou não! Se morreu, aonde? Na batalha, ou fóra
+d'ella? Se fóra d'ella, quem o testemunhou? Se morreu na batalha, como
+não acharam os mouros o despojo, que tanto desejavam, e procuravam? Se
+morreu no rio, como veio a sua espada? Como mandou o <span class='pagenum'>[50]</span> cardeal D.
+Henrique aos que se fingiram reis inquirir e perguntar se eram o
+verdadeiro rei? Se lhe a elle constára a sua morte, nunca fizera tal
+inquirição; e a quem melhor podia constar, senão a elle? E bem se viu,
+que lhe não fez exequias, nem officios, sendo um ministro da igreja, a
+quem verdadeiramente tocava como rei, como tio, como prelado e por
+obrigação. Mais: se morreu, como esteve depois em Veneza, e Napoles,
+preso e desprezado, o que consta evidentissimamente, o qual successo
+refere Lucio Floro nos seus <em>Annaes</em>, e D. João de Castro, que foi
+testemunha de vista, o escreveu; e todas as circumstancias d'isso, e os
+prodigios, que então succederam o confirmam, os quaes no quarto
+fundamento d'este discurso mostraremos? Mais: que o snr. rei D. João IV
+o testificou e contou, o que é uma mostra de evidencia certa, e outras
+muitas, que é trabalhoso o referil-as por papel.»</p>
+
+<br>
+
+<p>«Responda-lhe, se póde.</p>
+
+<br>
+
+<p class="direita">«Muito venerador</p>
+
+<br>
+
+<p class="direita">«<em>Bibliophilo.</em>»</p> <span class='pagenum'>[51]</span>
+
+<br>
+
+<p>Não tenho que responder. S. s.<sup>a</sup> cuidará que eu sou menos sebastianista
+que a sua pessoa?</p>
+
+<p>Já lhe disse que escolha uma das obras citadas, e... sabe que mais?
+mande-as buscar ambas, que as merece.</p>
+
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap06"></a> <h1>DESGRAÇADO BALZAC!</h1>
+
+<h2>(Á <em>ACTUALIDADE</em>)</h2>
+
+
+<p>Tantas vezes o noticiarista repete que eu sou assignante do seu papel,
+que parece estar-me convidando a declarar a razão por que assignei.</p>
+
+<p>Eu lh'a digo ao noticiarista. Foi para me regalar com as inepcias do
+folhetinista.</p>
+
+<p>Quer-me parecer que os dous são um e mesmissimo tolo (com licença: não
+diga que sou incivil).</p>
+
+<p>Se os dous não são homogeneos, então tenho centauro pela frente. Em
+cima, no noticiario, está a porção humana do aborto; em baixo, no
+folhetim, está (com a devida cortezia) a porção bestial do mesmo
+centauro.</p> <span class='pagenum'>[52]</span>
+
+<p>Mas ha lanços em que o centauro se cabriola de feitio que a metade
+debaixo esperneia em cima; e a gente, a meia volta, não sabe já onde
+está o homem, nem onde está (com a divida venia) a bêsta.</p>
+
+<p>O noticiarista, que me dizem chamar-se Silva Pinto, consinta que eu, por
+conveniencias da composição e da variedade da fórma, lhe não chame
+sempre centauro e tolo. Obriga-me a pedir-lhe licença todas as vezes em
+obsequio á urbanidade. O melhor é chamar-lhe, como variante, Silva
+Pinto.</p>
+
+<p>O snr. Silva Pinto começou no n.º 16 da <em>Actualidade</em> a traduzir romances
+de Balzac.</p>
+
+<p>Ai da nomeada do eminente explorador da alma, se Balzac podesse
+espelhar-se na fusca photographia que lhe tirou este encarvoador de
+paredes caiadas!</p>
+
+<p>Eu não me despendo em considerações banaes acerca das difficuldades que
+empecem trasladar a portuguez os livros de Balzac.</p>
+
+<p>Quem entende as galas dos classicos francezes, e as encontra condensadas
+no author dos <em>Contes drolatiques</em>, ainda que lhe sóbre igual saber da
+linguagem portugueza, ha de vêr-se em apuros para moldurar em estylo
+vernaculo as concisões, <span class='pagenum'>[53]</span> os idiotismos, a energia, o atticismo de
+Balzac.</p>
+
+<p>Quem se afoutaria aos espinhos da empreitada? Um sujeito ignorantissimo
+de ambos os idiomas: o snr. Silva Pinto.</p>
+
+<p>E, sem mais delongas, vou provar-lh'o. O leitor faça-me o obsequio de se
+prover do n.º 16 da <em>Actualidade</em>, e abrir isso onde começa o martyrio de
+Balzac. Não me demoro a mostrar-lhe que tudo ahi tresanda bafio francez,
+sem um torneio de phrase portugueza, sem um resalto que denote primor,
+ou sequer um dizer que não venha gafado de construcção gallicista. Isso
+é o menos. Vamos ás tolices mais lerdas:</p>
+
+<p>Balzac, descrevendo um sujeito, a quem os seus amigos chamavam
+<em>tempo-brusco</em>, dá a razão do epitheto n'estes termos:</p>
+
+<p><em>Il ne se rencontre en effet chez lui ni lumière trop vive, ni obscurité
+complete.</em></p>
+
+<p>E vai agora o snr. Silva Pinto, parvoejando, traduz:</p>
+
+<p><em>Effectivamente, estão banidas por elle de sua casa tanto a luz demasiado
+viva como a escuridão completa.</em></p>
+
+<p>Viram? <em>chez lui</em>--de sua casa. Incrivel!</p>
+
+<p>Balzac, interpretado por um portuguez medianamente versado na sua
+lingua, quiz dizer:</p> <span class='pagenum'>[54]</span>
+
+<p><em>Não ha que esperar d'este homem grandes luzes nem grandes trevas.</em></p>
+
+<p>Mas... <em>a casa do homem</em>! Quando quiz Balzac saber se o sujeito tinha luz
+ou estava ás escuras em casa? Quem estava em <em>escuridão completa</em> sabemos
+nós.</p>
+
+<p>Adiante.</p>
+
+<p>Balzac descreve uma senhora rodeada de homens desvanecidos, gentis,
+espirituosos, de notavel fama ou nome illustre, de baixa e alta
+condição, e acrescenta:</p>
+
+<p><em>Auprès d'elle tout a blanchi.</em></p>
+
+<p>O snr. Silva interpreta assim a phrase:</p>
+
+<p><em>Tudo isto via embranquecer á beira d'ella os proprios cabellos.</em></p>
+
+<p>Quer dizer: <em>áquelles homens, quando conversavam com aquella senhora,
+embranqueciam-se-lhes os proprios cabellos.</em></p>
+
+<p>Esta sandice faz-me compaixão. Se vejo outra assim, emigro.</p>
+
+<p>Balzac queria dizer: todos estes homens de prestigio, de galhardia, de
+renome, aos olhos d'ella, <em>tout a blanchi</em>, «eram como se fossem velhos».
+Não lhe inquietavam o coração, não lhe perturbavam a serena
+indifferença, etc.</p>
+
+<p>Adiante.</p>
+
+<p>Referindo-se á insensibilidade d'esta dama, <span class='pagenum'>[55]</span> acrescenta Balzac:
+<em>Certaines femmes coquettes sont capables de suivre ce plan la</em>. O author
+quer dizer: <em>Certas mulheres galanteadoras tem artes de dissimularem os
+mesmos geitos</em>; mas o snr. Pinto, subtrahindo o <em>coquettes</em> que dá o relevo
+ao confronto, diz espalmadamente:</p>
+
+<p><em>Ha mulheres capazes de seguir... aquelle plano.</em></p>
+
+<p>Chatissimo!</p>
+
+<p>Balzac diz que Eugène de Rastignac... <em>avait plus d'une fois regardé la
+marquise de manière à l'embarrasser</em>.</p>
+
+<p>Traducção do centauro:</p>
+
+<p><em>Olhava de quando em quando a marqueza de modo capaz de embaraçal-a.</em></p>
+
+<p>Ha aqui um fartum de rapaz de escola, que faz engulho. Como é que os
+olhos embaraçam a dama? Com os rudimentos da lingua, um traductor menos
+soez diria:</p>
+
+<p><em>Fitou-a algumas vezes de modo que a inquietou, ou enleou, ou perturbou.</em>
+Abstenho-me de extrahir dos diccionaristas as indecencias subentendidas
+na phrase <em>embaraçal-a</em>.</p>
+
+<p>Adiante.</p>
+
+<p>Balzac diz que o personagem <em>etait commodément assis, et avait les pieds
+plus souvent sur ses chenets que dans sa chancelière</em>.</p>
+
+<p>O tal Pinto estraga d'esta arte:</p> <span class='pagenum'>[56]</span>
+
+<p><em>Estava commodamente sentado e aquecia mais frequentemente os pés no
+brazeiro do que no traste forrado de pelles, destinado para tal fim.</em></p>
+
+<p>No traste forrado de pelles!</p>
+
+<p><em>Chancelière</em>,--uma palavra diluida em nove!</p>
+
+<p>Podia elle, avisinhando-se da indole da lingua, traduzir <em>capacho</em>, ou
+<em>ceirão de félpo</em>, ou <em>guarda-pés</em>, ou <em>pelliça</em>, por analogia com os mantos
+forrados de pelles; mas... <em>traste!</em> Salvo seja!</p>
+
+<p>E traduzir <em>chenets</em> para brazeiro!</p>
+
+<p>Este brazeiro deu-lhe provisão para tolejar á larga, e afogar no
+tinteiro as palavras que não percebeu.</p>
+
+<p>Logo em seguida, escreve Balzac:</p>
+
+<p><em>Oh! avoir les pieds sur la barre polie qui reunit les deux griffons d'un
+garde-cendre</em>, etc.</p>
+
+<p>Querem vêr o que é uma traducção sovina?</p>
+
+<p><em>Oh! conservar os pés junto ao brazeiro...</em> E acabou-se.</p>
+
+<p>Áquelles <em>griphos</em> embucharam-no ao bom do Pinto! Passou por aquillo como
+o leitor e eu pelas legendas arabes da sé velha de Coimbra. Com a sua
+crystallina ignorancia, privou o leitor de entender o suave sybaritismo
+do personagem que, refestellado na poltrona, recostava <em>os pés no
+varandim lustroso que entre-une os dous griphos do cinzeiro</em>. Percebeu
+elle que os fogões tem um receptaculo, <span class='pagenum'>[57]</span> que recebe a cinza, ao
+través de uma grelha, e que os ha ladeados de figuras que formam entre
+si o apoio dos pés? Não percebeu nada.</p>
+
+<p>Senhores leitores do Balzac, segundo a <em>Actualidade</em>:</p>
+
+<p>O homem que nos vai apresentar o author da <em>Comedia humana</em>, vestido de
+farrapos bordalengos, é esse que ahi fica... <em>ás moscas</em>, até ao numero
+seguinte.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>*&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Agora, duas palavras graves.</p>
+
+<p>O snr. Theophilo Braga mandou acorrentar este <em>house-dog</em> á porta da
+<em>Actualidade</em>. Fez mal. Eu tinha-me recolhido mansamente ao silencioso
+espanto das arrancadas que os cafres faziam no campo arroteado pelos
+Castilhos, Garretts, Herculanos, e outros somenos lidadores d'essa ala
+que ahi está exposta ás injurias de tanto biltre. Era meu proposito
+deixal-os cavar a sepultura d'elles com o seu proprio escoucear
+phrenetico.</p>
+
+<p>Logo, porém, que o rafeiro mais refilado da matilha me latiu á sombra,
+quando eu nem sequer o estremava dos anonymos que desprezo,
+sacudil-o-hei á cara dos que o açulam, e fal-o-hei portador das minhas
+caricias aos que o alimentam, <span class='pagenum'>[58]</span> em conformidade com o proverbio: <em>An
+hungry dog will eat dirty pudding.</em></p>
+
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap07"></a> <h1>OS 2 JOAQUINS</h1>
+
+
+<p>Um é o arranjador dos <em>Musicos</em> e de outras maravalhas.</p>
+
+<p>Outro é Theophilo que tambem é <em>Joaquim</em>.</p>
+
+<p>E tambem é <em>Fernandes</em>.</p>
+
+<p>Expungiu o nome e o appellido, logo que se aforou em letras.</p>
+
+<p><em>Joaquim Fernandes</em> era a parte chata do sujeito.</p>
+
+<p>Desfez-se d'isto, poz-se ás cavalleiras do genio, e apregoou-se
+<em>Theophilo Braga</em><sup><a name="mfn8" href="#fn8">[8]</a></sup>.</p>
+
+<p>Aviso á posteridade:</p>
+
+<p>Elle era Joaquim!</p>
+
+<p>A fatalidade dera 2 a Portugal, no mesmo seculo.</p> <span class='pagenum'>[59]</span>
+
+<p>Gemeos, homogeneos, homonymicos, productos de gravidez longa, parto
+feito a urros, ferozes no nascedouro, ringindo com dentes anavalhados,
+ao tempo que a lisonja os lambia, para os ageitar, como a ursa faz aos
+seus cachorros.</p>
+
+<p>E que cachorros!</p>
+
+<p class="centrado">*<br>*&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Nem os sepulcros respeitam.</p>
+
+<p>Remetteram contra um, simultaneamente, os 2 Joaquins.</p>
+
+<p>A sepultura era de gigante que o leitor, se não o viu, ainda o vê na
+projecção da sua imagem pelas paginas do livro amado.</p>
+
+<p>Chamára-se, n'esta vida, <span class="small-caps">Almeida-Garrett</span>;--e chama-se hoje a gloria
+imperecedoura de Portugal.</p>
+
+<p>O Joaquim, que se expurgou de Fernandes, para escoucear o cadaver de
+Cesar, disse...</p>
+
+<p>Mas, antes de reler-se o que elle disse, veja-se o que escreveu o editor
+de <em>Helena</em>, romance posthumo e incompleto do author de <em>Fr. Luiz de Sousa</em>:</p>
+
+<br>
+
+<p>«Acabava o anno de 1854; ás primeiras cerrações do outomno inclinára
+mortalmente a fronte o snr. visconde de Almeida-Garrett, sentindo no
+<span class='pagenum'>[60]</span> coração os aggravos da doença que, dentro em pouco e para sempre,
+havia de apagar-lhe a luz dos olhos.</p>
+
+<p>«Cresceu o mal. Imminente o perigo, durante os poucos mezes em que a
+vida lhe fugia, quiz o nobre enfermo dizer o ultimo adeus ás queridas
+producções do seu elegante espirito. Era então que a voz quasi infantil
+da filha idolatrada lhe dizia os seus livros todos; foi então que,
+revendo o archivo dos seus papeis, elle rasgava os que não deviam
+sobreviver-lhe, guardando aquelles que, de mão propria, legava á
+posteridade. Era um sol no occaso, revendo-se na luz immensa com que
+alumiára a patria.</p>
+
+<p>«Finda a leitura, prompto o legado, extinguiu-se aquella existencia
+esplendida, abraçada á cruz de Christo, abençoando a herdeira do seu
+nome, e embalada pelos cantos da sua propria harpa. Fim sublime! Sentiu
+no ultimo suspiro,--o seu credo, o seu génio e todo o seu coração.»</p>
+
+<br>
+
+<p>Agora, Joaquim Theophilo, interpretando com gaiata solercia as palavras
+de C. G., genro de Garrett e editor de <em>Helena</em>:</p>
+
+<br>
+
+<p>«Elle escreve alludindo á morte de Garrett: «Era um sol no occaso
+<em>revendo-se na luz</em> immensa <span class='pagenum'>[61]</span> com que alumiava a patria.» E em seguida:
+«extinguiu-se aquella existencia esplendida <em>abraçada á cruz</em> de
+Christo...»</p>
+
+<br>
+
+<p>E ajunta o pellitrapo das letras com brutalidade manhosa:</p>
+
+<br>
+
+<p>«É de crêr que não haja aqui intenção maliciosa, mas desperta
+insensivelmente o dito celebre de Rodrigo da Fonseca Magalhães.»</p>
+
+<br>
+
+<p>É impudor glosar essa sordicia que ahi fica. Ninguem se demora a
+observar um cão resêcco, pilharengo, derreado, chagoso, que lambe
+faminto a sangueira negra de um matadouro.</p>
+
+<p>Até os ossos de Rodrigo da Fonseca lhe serviram á gargalhada!</p>
+
+<p>Nunca o honrado estadista proferira o tal motejo que lhe assacaram,
+estando Garrett na agonia da morte.</p>
+
+<p>Garrett morreu entre dous amigos e duas irmãs da caridade.</p>
+
+<p>Eu perguntei a um dos intimos de Fonseca Magalhães, ao desembargador
+Northon, se o seu amigo proferira o gracejo tão celebrado.</p>
+
+<p>--Não--respondeu elle--mal sabe a dôr que <span class='pagenum'>[62]</span> eu involuntariamente
+causei a Rodrigo, quando lhe repeti a proterva zombaria que lhe
+attribuiam.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>*&nbsp;&nbsp;&nbsp;*</p>
+
+<p>Agora, o outro Joaquim, o musicógrapho.</p>
+
+<p>Escrevi em um livro estas linhas em fórma de carta a um amigo:</p>
+
+<br>
+
+<p>«Sabes tu o que eu queria roubar á gaveta de José Gomes Monteiro? As
+cartas de Almeida-Garrett, as confidencias d'aquelle immenso genio, que
+se expandiam na alma e intelligencia de José Gomes Monteiro. Estas
+seriam as paginas de ouro da biographia de ambos. Uma sei eu que existe
+em que Almeida-Garrett, em perigo de vida ou previsão de morte proxima,
+encarrega o seu amigo de defender-lhe a honra e a fama assim que a pedra
+sepulchral lhe vedar o direito da defeza. Que sublime legado! que
+legitima e jubilosa vaidade para o coração honrado e generoso de José
+Gomes Monteiro!<sup><a name="mfn9" href="#fn9">[9]</a></sup>»</p>
+
+<p>E vai agora, o dos <em>Musicos</em>, péga de Garrett, adormecido, havia 19 annos,
+no sagrado somno <span class='pagenum'>[63]</span> dos mortos santificados por saudade, talento e
+veneração, e enxovalha-o d'esta arte:</p>
+
+<br>
+
+<p>«Sim, senhor, basta isto para nos pintar o janota de 55 annos, que, para
+brilhar como um <em>vieux vert</em> aos olhos das <em>petites maítresses</em> de ha 30
+annos, não teve vergonha de pintar as suas barbas com elixires, dando
+com a sua vida airada a confirmação de que o <em>genio immenso</em> precisa da
+<em>bohème</em> para a sua inspiração, etc.<sup><a name="mfn10" href="#fn10">[10]</a></sup>».</p>
+
+<br>
+
+<p>Alma e linguagem travam-se aqui de mão, e medem a sciencia e a educação
+do sujeito. Este snr. Joaquim usa gravata, e não me consta que passasse
+a infancia gandaiando nas escadas dos Congregados. Foi educado na
+Allemanha, por não caber (diz elle) <em>nos focos de immundicie physica,
+moral e intellectual de dous ou tres collegios do Porto onde o haviam
+mettido</em><sup><a name="mfn11" href="#fn11">[11]</a></sup>. Já vêem que o homem é limpo. Depois, veio á patria para se
+formar em Coimbra; e, como aquillo de Coimbra lhe cheirasse aos
+collegios do Porto, foi-se embora, e abriu, por sua conta, universidade
+de frandulagens no Porto, com succursaes em Allemanha, França, etc.</p>
+<span class='pagenum'>[64]</span>
+
+<p>Não só é conhecido mas até soffregamente lido em Paris.</p>
+
+<p>Elle mesmo nos conta esta cousa no livro onde estou esgaravatando:</p>
+
+<br>
+
+<p>«Voltamos serenamente aos nossos trabalhos sobre a <em>Archeologia artistica
+para darmos</em> a nova edição critica do <em>Catalogo da livraria d'el-rei D.
+João IV</em> que, <em>como sabemos</em> pelo nosso sabio amigo Mr. Ferdinand Denis, é
+esperada com impaciencia em Paris.»</p>
+
+<br>
+
+<p>Viram? <em>com impaciencia</em>.</p>
+
+<p>Era em 1872, quando ainda o coração e o cerebro da França vibravam nas
+angustias do opprobrio nacional, da luta fratricida, da devastação, do
+petroleo, da ingente miseria das viuvas e dos orphãos. Pois, em meio de
+tanto horror, a unica esperança que, a intervallos, dava palpitações de
+gaudio a Paris era a impaciencia das turbas, com os olhos postos no
+occidente, á espera do livro do nosso, tão nosso, Joaquim! Cada vez que
+chegava á capital da França a mala de Portugal, as multidões
+acotovelavam-se frementes á porta do Mr. Ferdinand Denis, amigo do
+sobredito, e, ullulando insoffridas, pediam o <em>Catalogo</em>. O sabio francez
+linimentava com promessas o phrenesi da <span class='pagenum'>[65]</span> academia e dos institutos;
+as massas debandavam; e depois, recolhido ao seu gabinete, Mr. Denis
+pedia novamente o <em>Catalogo</em> ao lusitano Joaquim, pintando-lhe com termos
+não encarecidos a impaciencia dos seus.</p>
+
+<p>Aqui está quem é o homem lá fora, e cá dentro.</p>
+
+<p>Elle embirra com a maioria do publico portuguez; e justifica a birra
+n'estes termos:</p>
+
+<br>
+
+<p>«Porque lhe antepomos um ideal que elle não quer ter<sup><a name="mfn12" href="#fn12">[12]</a></sup>.»</p>
+
+<p>Então? fazem favor de aceitar o ideal que lhe antepõe o snr. Joaquim?
+Elle não sabe a significação do verbo <em>ante-pôr</em>; mas imagine-se que quer
+dizer o que a palavra não diz; presuma-se que nos <em>offerece</em> um ideal, por
+um preço razoavel. Que duvida temos em haver ás mãos isso que o rapaz
+nos trouxe de Hamburgo, em vez de nos trazer dous costaes de queijos? Ha
+de haver muito quem antes quizesse, em vez do <em>ideal</em> anteposto, uma <em>idéa</em>
+de servir; mas, se Joaquim dá <em>ideaes</em>, peguem n'elles, antes que o homem
+os exporte, como cá fazem aos bois gordos que os nossos <span class='pagenum'>[66]</span> magarefes
+não aceitam pela taxa de Londres, posto que lh'os anteponham.</p>
+
+<p>É o diabo este homem! Má mez p'ra elle!</p>
+
+<p>Lá que o rapazola verbere os escriptores vivos que lhe não aceitam o
+ideal, é bem feito. De Mendes Leal, por exemplo, diz que é <em>uma
+antigualha que só apparece nos leilões dos burguezes de ha 40 annos</em>. De
+Castilho diz que lhe riscára o nome, depois que o outro Joaquim <em>lhe
+applicou o processo</em>. (Ai d'aquelles a quem o outro applica processos!
+<em>Eheu!</em>) De Herculano diz: «está decrepito». Todos estes e outros de menos
+porte são os relapsos do ideal de Joaquim; mas Garrett e Rebello da
+Silva? Um era já morto; o outro fallecia quando o enxovedo alvorejava
+n'este novo dia da sciencia patria. É crueza injurial-os, posto que
+Joaquim Theophilo Fernandes lhes haja <em>applicado o processo</em>.</p>
+
+<p>Este Fernandes já processou o Herculano, e disse: «O snr. Alexandre
+Herculano nunca teve vocação litteraria<sup><a name="mfn13" href="#fn13">[13]</a></sup>.» E o <em>Eurico</em>? E a <em>Abobada</em>? E
+o <em>Monge de Cistér</em>? E o <em>Bobo</em>? e a <em>Historia de Portugal</em>? e a da
+<em>Inquisição</em>! e a <em>Harpa do crente</em>? Cuida o leitor que é mister vocação
+litteraria para escrever estas cousas? Não, senhor. Estes <span class='pagenum'>[67]</span> livros só
+os escreve quem a não tem. O snr. Herculano, se tivesse vocação
+litteraria, fazia umas botas.</p>
+
+<p>Parte d'aquellas obras diz Fernandes que é glosa da <em>Notre Dame</em> de Victor
+Hugo.</p>
+
+<p><em>Eurico</em> é a variante do typo de <em>Claudio Frollo</em>;</p>
+
+<p>O <em>Monge de Cistér</em> é variante da paixão de <em>Esmeralda e de Phebus</em>;</p>
+
+<p>O <em>Bobo</em> é o desenvolvimento de Pierre Gringoire;</p>
+
+<p>A <em>Historia de Portugal</em> é apenas a historia dos concelhos precedida da
+biographia dos reis.</p>
+
+<p>Depois, escalpella-lhe a linguagem, e diz que o seu estylo <em>só se admitte
+nos rapazes de escóla</em><sup><a name="mfn14" href="#fn14">[14]</a></sup>.</p>
+
+<p>O leitor está em dizer que este Joaquim parvoeira tão fóra dos termos
+concedidos aos sandeus que a policia não deve ser estranha ao escandalo.</p>
+
+<p>Mas, n'este comenos, apparece um tal Adolpho Coelho, e diz:</p>
+
+<p>É <em>Theophilo Braga evidentemente um dos homens mais notaveis que Portugal
+tem produzido n'este seculo</em><sup><a name="mfn15" href="#fn15">[15]</a></sup>.</p>
+
+<p>--E quem é Adolpho Coelho?--pergunta o leitor.</p> <span class='pagenum'>[68]</span>
+
+<p>Vem Theophilo, e responde:</p>
+
+<p>É o <em>introductor da sciencia da philologia comparada em Portugal</em><sup><a
+name="mfn16" href="#fn16">[16]</a></sup>.</p>
+
+<p>Todos estes Joaquins é que sabem lá uns dos outros.</p>
+
+<p>Juntam-se ás vezes e perguntam entre si:</p>
+
+<p><em>Theophilo a Coelho</em>: Quem és tu, ó aquelle?--Resposta: Eu sou o
+introductor da philologia comparada em Portugal.</p>
+
+<p><em>Coelho a Theophilo</em>: E tu?--Resposta: Sou um dos homens mais notaveis que
+Portugal tem produzido n'este seculo.</p>
+
+<p><em>Joaquim dos Musicos a Joaquim dos Mosárabes</em>: Quem sou eu?--Resposta: És
+o musicógrapho, e o inventor dos imperativos <em>sejai</em> e <em>estejai</em>.</p>
+
+<p><em>O 2.º ao 1.º Joaquim</em>: E eu?--Tu applicas processos, e eu risco os nomes.</p>
+
+<p>Ó pandegos, ó lombrigas que roeis o intestino recto da Minerva! Ó
+Joaquins! Eu vos arrenego!</p>
+
+<div class="rodape"> <p><sup><a name="fn8" href="#mfn8">[8]</a></sup>No <em>Diccionario bibliographico</em> do snr. I. Francisco da Silva, é
+conhecido por <em>Joaquim Theophilo Fernandes Braga</em>. (Veja Supplemento).</p>
+
+<p><sup><a name="fn9" href="#mfn9">[9]</a></sup> <em>Esboços de apreciações litterarias.</em></p>
+
+<p><sup><a name="fn10" href="#mfn10">[10]</a></sup> <em>O consummado germanista</em>, por Joaquim do Vasconcellos, pag. 50.</p>
+
+<p><sup><a name="fn11" href="#mfn11">[11]</a></sup> <em>Obra cit.</em>, pag. 2.</p>
+
+<p><sup><a name="fn12" href="#mfn12">[12]</a></sup> <em>Obra cit.</em>, pag. 9.</p>
+
+<p><sup><a name="fn13" href="#mfn13">[13]</a></sup> <em>Bibliographia critica</em>, pag. 106.</p>
+
+<p><sup><a name="fn14" href="#mfn14">[14]</a></sup> <em>Obra cit.</em>, pag. 200 e 201.</p>
+
+<p><sup><a name="fn15" href="#mfn15">[15]</a></sup> <em>Obra cit.</em>, pag. 215.</p>
+
+<p><sup><a name="fn16" href="#mfn16">[16]</a></sup> <em>Obra cit.</em>, pag. 253.</p> </div> <span class='pagenum'>[69]</span>
+
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap08"></a> <h1>FLORES PARA A SEPULTURA DE FERREIRA RANGEL</h1>
+
+
+<p>É o snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos que m'as envia. Irei
+levar-lh'as. Conheço a valia que principia a hervecer. As côres alegres
+da esperança cobrem a podridão.</p>
+
+<p>Estão como a dizer-nos que o viver é olhar para diante e para os vivos;
+e nada de mortos nem de saudades. Iremos levar-lhe as flôres do seu
+amigo da mocidade.</p>
+
+<p>Antonio Augusto escreveu, a respeito de Ferreira Rangel, no seu <em>Jornal
+da Noite</em>, uma pagina assignaladamente formosa e triste. Alli ha coração,
+ha lagrimas, ha o que quer que seja que resgata o delicto da imprensa,
+silenciosa, na morte de um valoroso obreiro da liberdade, e modesto
+cultor das letras. E, ao proposito de letras, acrescentarei que Ferreira
+Rangel, nos derradeiros annos da vida, tinha uns cem volumes de obras
+portuguezas mais de sua feição; e, quando expirou, esses cem volumes
+estavam empenhados para o custeio dos ultimos caldos.</p>
+
+<p>Indemnise-se a indigencia d'este homem de <span class='pagenum'>[70]</span> bem com a riqueza do alto
+louvor que lhe apregôa um brilhante espirito a quem não se escondem as
+desventuras alheias, nem esmorece o brado a favor dos desvalidos.</p>
+
+<p>Estas são as palavras pungitivas e eloquentes do grande escriptor:</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>«Não succedeu porém outro tanto com o artigo intitulado <span class="small-caps">Ferreira Rangel</span>.
+Ahi assaltou-nos a saudade do homem, a recordação de obsequios
+recebidos, a magoa da sua desventura, e não podémos, nem quizemos conter
+as lagrimas. Se é vergonha chorar, diga-se que é a mais viciosa vergonha
+inventada por homens.</p>
+
+<p>«Conhecemos aquelle Francisco Ferreira Ribeiro Pinto Rangel em 1834.
+Ainda morava a Santo Antonio do Penedo em uma especie de ilha sem mar
+entre o convento de Santa Clara e o palacio dos Vieiras de Mello, então
+habitado pelo visconde de S. Gil de Perre, depois marquez de Terena, e
+agora pelo snr. visconde de Azevedo. A supposta ilha era formada, se a
+memoria nos não engana, pela capella de Santo Antonio e pela casa do
+chamado <em>escrivão fidalgo</em> cujo brazão recentemente collocado alvejava na
+frontaria.</p>
+
+<p>«Ferreira Rangel tinha servido em um dos <span class='pagenum'>[71]</span> batalhões do Porto durante
+o cerco, e era liberal enthusiasta. Ainda trajava o uniforme militar, e
+apparecia nos theatros, nos passeios e em todas as reuniões. Não lhe
+chamavam <em>janota</em> porque a palavra estava por cunhar na casa da moeda da
+vernaculidade. Os seus principaes companheiros eram Nicolau Coquet Pinto
+de Queiroz que foi depois empregado da camara municipal, e talvez já não
+viva, e Antonio Joaquim Carneiro Homem que foi acabar a vida em
+Moçambique, provido no mais reles emprego da provincia em recompensa de
+varias feridas recebidas no cerco e de ter gasto na defeza da liberdade
+toda a sua fazenda. O ministro que o despachou, envergonhava-se de
+empregar tão mesquinhamente homem de taes serviços. Era o snr. Mendes
+Leal. Mas não havia outro emprego, e o pobre voluntario liberal não
+podia esperar. Tinha mulher e filhos, e já não tinha pão nem calçado.</p>
+
+<p>«D'esses tres homens o que tinha imaginação mais viva, enthusiasmo
+vigoroso, e propensões litterarias era Ferreira Rangel. O seu amor á
+liberdade não tinha limites, e como era amor sincero, muitas vezes o
+impelliu a expôr a vida para salvar da furia brutal dos exaltados os
+proprios adversarios contra quem lutára havia pouco nas linhas do Porto.
+Alguns cavalheiros das provincias <span class='pagenum'>[72]</span> do norte lhe deveram n'esse tempo
+assignalados serviços. A generosidade do coração era n'elle igual á
+coragem e valentia.</p>
+
+<p>«Uma noite desciamos a rua do Bomjardim onde moravamos, e ao dobrar a
+esquina da rua do Bolhão vimo-nos cercados por quatro scelerados que
+tomando-nos, apesar de imberbe, por algum temeroso capitão das hostes
+realistas, iam demonstrar-nos com argumentos de carvalho-cerquinho a
+excellencia do governo liberal, e induzir-nos a crêr que os caceteiros
+azues e brancos não ficavam a dever nada aos seus predecessores azues e
+encarnados.</p>
+
+<p>«Subia a rua Ferreira Rangel e chegava ao sitio do combate; quando o
+rapaz de 18 annos principiava a rebater, como podia, a crua dureza
+d'aquelles argumentos. O mesmo foi advertir no caso que saltar ao meio
+do grupo, deitar por terra um dos aggressores, ferido de tremenda
+bofetada, e obrigar os outros a fugirem, envergonhados mas resmungando.</p>
+
+<p>«Conservamos sempre relações com este excellente homem. Depois de 1839
+nas ferias da universidade, iamos sempre visital-o quando passavamos no
+Porto. Desde 1850 nunca mais tivemos noticias d'elle. Quando agora lêmos
+no livro do snr. Camillo Castello Branco a commemoração <span class='pagenum'>[73]</span> da morte de
+Ferreira Rangel, desvalido, ignorado, e conduzido na tumba dos pobres
+entre quatro tochas desde a rua Chã até ao Prado, sentimos não ter
+estado no Porto n'esse dia para acompanhar á derradeira morada aquelle
+homem desditoso.</p>
+
+<p>Está explicada a sensação que nos causou o artigo <span class="small-caps">Ferreira Rangel</span>.
+Permitta o snr. Camillo Castello Branco que entre o ruido surdo da
+enxada do coveiro alizando o comoro de terra sobre as taboas chuviscadas
+do caixão, e o silencio eterno do mundo, se levante a nossa voz a
+prestar á memoria do morto a homenagem da gratidão que lhe deviamos.</p>
+
+<p>«D'esta vez a <em>alçada da imprensa chegará até ao esquife do defunto</em>, e
+derramará sobre elle sinceras lagrimas de saudade e de reconhecimento.»</p>
+
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap09"></a> <h1>O MYSTERIO DA CASTANHA</h1>
+
+
+<p>No estimavel livro das <em>Cartas familiares</em> de D. Francisco Manoel de
+Mello, ha uma que estimulava fortemente a minha curiosidade, sempre que
+<span class='pagenum'>[74]</span> a lia. É a LXXIV da <em>centuria segunda</em>, escripta <em>a um amigo que
+passava á provincia da Beira</em>. A carta é breve, e diz assim:</p>
+
+<br>
+
+<p>«Que vos hei de dizer? senão que vos vades embora, que estejaes pouco,
+que vos lembreis de mim. Não sei certo se se diz mais nas partidas: que
+eu, de puro estar, já não sei se como a gente se despede<sup><a name="mfn17" href="#fn17">[17]</a></sup>. Só vos
+peço que, pois ides para terra de muitos castanheiros, me não caseis lá
+com alguma Maria Castanha; <em>cujo tempo parece que tornou agora, porque
+aqui entre nós o fez assim.... Mas que muito, se traz o diabo aos pés,
+que o fizesse resvalar e cahir? salvo na conta</em>. Ide com Deus, senhor
+meu, e tende em tudo tão bom successo, que vos pareça a Beira mal, e
+volteis logo. Nosso Senhor, etc. Torre em 15 de maio 1646.»</p>
+
+<br>
+
+<p>As palavras grifadas eram o meu enleio. Toda a minha scisma laborava em
+saber o nome rebuçado n'aquellas reticencias, a razão por que o sujeito
+trazia o diabo aos pés, e que casta de pessoa era aquella Castanha
+casada com o anonymo, forçosamente individuo de alta prosapia.</p>
+
+<p>As pessoas de siso, que leram esta carta enigmatica, <span class='pagenum'>[75]</span> de certo não
+moêram sua paciencia a farejar-lhe o escandalo; eu, porém, que não posso
+dormir, e acordo os mortos para conversarem commigo á hora em que os
+vivos dormem, necessito saber por inteiro o viver das pessoas com quem
+estou relacionado.</p>
+
+<p>E, por tanto, á custa de muito averiguar, e bisbilhotar com os
+contemporaneos do illustre encarcerado da Torre Velha, logrei
+decifrar-lhe a carta.</p>
+
+<p>As reticencias encobrem o nome de Francisco Botelho, primeiro conde de
+S. Miguel. Por ser de <em>S. Miguel</em>, é que D. Francisco lhe põe o diabo aos
+pés.</p>
+
+<p>Temos o nome do mysterioso personagem.</p>
+
+<p>Saibamos agora quem era a <em>Castanha</em>.</p>
+
+<p>Era Ignez de Almeida, filha de Manoel Castanha, escrivão em Lisboa.</p>
+
+<p>Ignez era formosa e honesta.</p>
+
+<p>O conde de S. Miguel, já viuvo de D. Isabel de Mendonça, filha do
+segundo conde de Penaguião, apaixonou-se por Ignez. Frustrados na
+esquivança da moça todos os artificios do ouro com o prestigio da
+pessoa, o conde accedeu á condição que ella estipulou: o casamento.</p>
+
+<p>Divulgou-se em Lisboa o disparatado consorcio, que toda a fidalguia
+censurou, e D. Francisco <span class='pagenum'>[76]</span> Manoel metteu a riso, dando o noivo como
+resvalado e cahido por cambapé que lhe fez o diabo.</p>
+
+<p>No entanto, o escrivão Castanha rejubilava por se vêr tão egregiamente
+aparentado.</p>
+
+<p>Volvidos dous annos, apaixona-se o conde por D. Isabel Cecilia de
+Tavora, filha herdeira de Alvaro Pires de Tavora.</p>
+
+<p>Este fidalgo com os da sua parentella, e com os estranhos,
+escandalisam-se do proceder deshonrado do marido da Castanha, o qual
+ousa requestar uma donzella de primeira linhagem.</p>
+
+<p>O conde defende-se, publicando que não é legitimamente casado com Ignez
+Castanha.</p>
+
+<p>E, feita a infame declaração, separa-se d'ella e do filhinho, que se
+chamava Nuno.</p>
+
+<p>Ignez, ferida no coração e na honra, protesta que é legitima esposa do
+conde de S. Miguel.</p>
+
+<p>Instaura-se demanda.</p>
+
+<p>O conde confessa então que, na verdade, fizera um simulacro de
+casamento, mediante um padre fingido, que era seu criado, com corôa
+rapada, e vestido sacerdotalmente.</p>
+
+<p>A justiça aceitou a confissão do conde, confirmada pelo parocho fingido
+e pelas testemunhas da tromoia.</p>
+
+<p>Sentenciada a nullidade do casamento, cuida o leitor que o conde foi
+obrigado a revalidal-o, <span class='pagenum'>[77]</span> ou a seguir o seu criado e as testemunhas
+para o degredo?</p>
+
+<p>Não, leitor pio.</p>
+
+<p>A fidalguia restituiu ao seu parente a dignidade abalada pelo supposto
+consorcio com a Castanha.</p>
+
+<p>A lei desquitou-o da pobre senhora, cujo delicto estava santificado por
+ignorar que no mundo havia tamanho infame.</p>
+
+<p>Porém, como ella tivesse um filho, a sentença mandou que esse menino, D.
+Nuno Alvares Botelho, fosse considerado legitimo filho do conde de S.
+Miguel.</p>
+
+<p>Ignez lá se foi amparar nos braços de seu pai, o plebeu, a quem Deus
+inspiraria ternuras que despontassem os espinhos da sua corôa de
+condessa ridiculisada pela sociedade.</p>
+
+<p>Desembaraçado e readmittido á estima dos Tavoras, o conde casou com a
+tal Isabel Cecilia, de quem houve um filho que foi segundo conde de S.
+Miguel.</p>
+
+<p>Quanto ao filho de Ignez, sabemos que viveu com pouco luzimento e
+escassos haveres. Casou com D. Luiza de Moura, filha de Antonio
+Castanheira de Moura. Teve dous filhos e cinco filhas. Um dos rapazes
+chegou a general na India. O outro casou com uma filha do capitão-mór de
+Goes, <span class='pagenum'>[78]</span> Antonio Barreto Perdigão. Uma filha casou, e das outras
+quatro ignoro o destino.</p>
+
+<p>Esta linha, derivada da fraude e do vicio mascarado com a batina e
+sobrepeliz, desappareceu: era justo. Na outra, que é a legitima e
+consagrada pelo padre authentico, é que está o setimo conde de S.
+Miguel, que--ainda bem!--não tem que vêr com a Castanha, zombeteada por
+D. Francisco Manoel.</p>
+
+<p>Ora eu presumo que este fidalgo, que escreveu tão piedosas cousas a
+respeito de Santo Agostinho, quando soubesse que a supposta condessa de
+S. Miguel fôra apenas uma inconsciente concubina do seu torpe seductor,
+espantar-se-hia de se vêr a si entre ferros, e ao outro nos braços de D.
+Isabel de Tavora!</p>
+
+<div class="rodape"> <p><sup><a name="fn17" href="#mfn17">[17]</a></sup> Ia no seu 4.º anno de prisão D. Francisco Manoel.</p> </div>
+
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap10"></a> <h1>BEM VINDO!</h1>
+
+
+<p>Brindo o leitor com o capitulo primeiro d'um livro que ha de chamar-se
+<span class="small-caps">os salões</span>.</p>
+
+<p>Firma-o--escuso apresental-o--um nome <span class='pagenum'>[79]</span> que, ha vinte annos,
+alvoreceu por entre duas formosissimas auroras: a das letras amenas, e a
+dos triumphos forenses.</p>
+
+<p>O visconde de Ouguella esteve já a meio caminho da montanha fragosa por
+onde se trepa a outra ordem de mais estrondosa celebridade. Por um triz
+que o não enxertam na estirpe tyrannicida dos Harmodios e Catões.</p>
+
+<p>O governo, o delegado, a côrte e o Moraes do <em>Mosquito</em> principiavam a
+desbastar-lhe o marmore para o nicho no templo da Memoria, quando vem o
+jury, e nos diz que o visconde de Ouguella nem queria matar el-rei nosso
+senhor, nem vender-nos a Castella, nem frigir em petroleo as nossas
+carnes, mais ou menos pingues.</p>
+
+<p>Esta decisão abriu um sorriso de socegado contentamento desde o poço do
+Borratem até á rua da Betêsga, não ha duvida; mas o visconde achou-se de
+repente reduzido sómente á celebridade que tinha: a do talento.</p>
+
+<p>Um d'estes dias fui vêl-o a Lisboa. Achei-o na sua livraria, entre dous
+bustos de bronze que projectavam sobre elle umas sombras verde-negras,
+que lhe davam toques de luz sinistra. Os bustos figuraram-se-me de
+Ravaillac e Fieschi--os regicidas.</p>
+
+<p>Passados alguns minutos, afiz-me áquella meia <span class='pagenum'>[80]</span> luz crepuscular
+descórada pelos bronzes, e o meu coração e o meu figado aquietaram-se.
+Os bustos representavam a primor os dous estadistas mais philodynastas
+que deu Portugal: o duque de Palmella e Rodrigo da Fonseca Magalhães. O
+visconde, que, ao principio, me pareceu, nos tufos hirtos e espessos do
+seu cabello, o que quer que fosse de Mirabeau, já me transluzia no
+semblante o sorriso amoravel com que alumia o caminho de sua alma aos
+que lá sabem ir pela lealdade do coração.</p>
+
+<p>Relancei os olhos, ainda suspeitosos, á sua banca, e vi papeis escriptos
+recentemente. Com a liberdade de condiscipulo desde a escóla,
+inclinei-me sobre o manuscripto, e li no alto de uma folha de almasso:
+<SPAN class="small-caps">os salões</SPAN>. Depois li o capitulo, que era o primeiro; dobrei-o, metti-o
+na algibeira, resolvido a estampal-o entre as minhas insomnias, como um
+despertar alegre, lucido e côr de rosa, entre dous pesadelos.</p> <span class='pagenum'>[81]</span>
+
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap11"></a> <h1>OS SALÕES</h1>
+
+
+<h2>CAPITULO I</h2>
+
+<h2>FATUM</h2>
+
+<DIV class="citacao"> <p>Pour connaitre les hommes, pratiquer les femmes; pour connaitre les
+femmes, pratiquer encore les femmes: c'est la sagesse des nations
+folles.</p>
+
+<hr style="width: 5em;">
+
+<p>La femme est le dernier mot du Créateur. Le grand maitre avait d'abord
+sculpté les mondes, puis le mastodonte, puis l'aigle, puis l'homme; il
+termina par la femme. Ce fut alors qu'il se reposa pour se contempler
+dans son oeuvre.</p>
+
+<p class="direita">ARSÈNE HOUSSAYE.</p> </DIV>
+
+<p>O esboço é tudo.</p>
+
+<p>A esculptura, a sciencia, a pintura, a litteratura e a propria vida
+começam pelo embryão.</p>
+
+<p>Deus mesmo não cria de repente uma obra prima:--como todos os artistas,
+principia pelo esboço.</p> <span class='pagenum'>[82]</span>
+
+<p>A propria luz tem os seus arreboes, annuncia o seu alvorecer, tem as
+suas auroras, prepara-nos as suas alvoradas, insinua-se pelos cambiantes
+anacarados dos tons pallidos e transparentes da madrugada, formula o
+<em>fiat lux</em> biblico, antes de se espargirem os seus opulentos e
+brilhantissimos raios por sobre as magnificencias do universo.</p>
+
+<p>Começar pelo esboço--no presente livro--era consultar as sibyllas da
+cidade antiga, as pythonissas que enunciavam a palavra divina, escutar
+os oraculos dos templos de Delphos e de Epheso, ouvir as Egerias do
+porvir, antes de dar a lume o manuscripto de João Aleixo de Castro
+Pimentel e Figueiredo.</p>
+
+<p>Assim fiz.</p>
+
+<p>Conta-se d'um povo d'Asia, que promettera o diadema de rei ao primeiro
+que, em determinado dia, visse nascer o sol. Correram á praça publica os
+ambiciosos da purpura real, e em quanto todos filavam o oriente, houve
+um, dos mais avisados, que, voltando costas ao berço do luzeiro
+esplendido da terra, pregou os olhos nas arrendadas cupulas d'um
+elegante e sumptuoso edificio, que demorava ao occidente.</p>
+
+<p>Foi este que alcançou a corôa. As primeiras frechas de ouro,
+arremessadas pelo astro supremo <span class='pagenum'>[83]</span> do dia, vieram cravar-se no topo
+das elevadas torres d'aquelle templo pagão.</p>
+
+<p>O passado vencera, aqui, o futuro.</p>
+
+<p>Sirva a lenda, n'este estylo e perfume oriental, para explicar o meu
+singelo proceder.</p>
+
+<p>Quiz ouvir os murmurios das épocas, que passaram, e que vão perdidas na
+escura noite dos tempos. Desejei escutar o trabalho ruidoso dos seculos
+que vem, as promessas do futuro, os periodos que se desdobram, e
+desenrolam nos horisontes rasgados da nossa idade, pela voz authorisada
+e prophetica dos que riram, e dos que soffreram.</p>
+
+<p>Foi por isso, que consultei a marqueza de ***, e a condessa de ***.</p>
+
+<p>Uma é a religião austera do passado, cheia de nobilissimas tradições,
+personificação viva da côrte antiga, reflexo ainda esplendoroso da
+fidalga portugueza, na altivez das fórmas, na elegancia do dizer, na
+familiaridade estudada do trato, na urbanidade singela das maneiras, e
+no preito pago constantemente a tudo quanto é grande, nobre e generoso.</p>
+
+<p>A outra, a condessa, senhora da mesma época, nascida, e educada no
+centro da mesma sociedade--permittam-me este desalinho de phrase--é,
+como a estatua da liberdade, erguida sobre <span class='pagenum'>[84]</span> um pedestal de marmore
+de Carrara ou de Paros, esquecendo a proposito os pulverulentos
+pergaminhos d'outras eras, e os emblemas heraldicos da sua nobillissima
+familia, para se lembrar sómente que é ella, esta excellente senhora,
+uma das mais illustres victimas das tremendas e formidaveis lutas de
+emancipação, por que combatemos e batalhamos ha um seculo.</p>
+
+<p>Sentei-me a seu lado, e escutei-as alternadamente.</p>
+
+<p>Uma fazia-me curvar de joelhos, respeitoso, e reverente, ao rememorar o
+passado. A outra robustecia, em mim, este preito, que eu presto
+diariamente á imagem sacrosanta da liberdade.</p>
+
+<p>A distincção, a grandeza do porte, a inimitavel polidez, a admiravel
+cortezia, a elegancia incomparavel, e as fórmas obsequiosamente
+aristocraticas são as mesmas.</p>
+
+<p>Mas a marqueza soffreu, e soffreu muito pelo antigo regimen.</p>
+
+<p>A condessa habitou, em tristezas amargas, e com dôres excruciantes, as
+cadêas da côrte pela liberdade.</p>
+
+<p>Uma é a vestal antiga, espiando, sentinella irreprehensivel, junto do
+fogo sagrado, se a scentelha divina vai apagar-se, e prompta a
+acudir-lhe, solicita, para que o facho se conserve acceso, <span class='pagenum'>[85]</span> e
+immaculado, na urna etrusca em que brilha e resplandece.</p>
+
+<p>A outra é a musa da democracia--risonha, serena, e impassivel, quer no
+carcere, gemendo pela ousadia das suas crenças liberaes, quer a cavallo,
+com os cabellos desprendidos ao vento das batalhas, sofrega do ruido, e
+do pó e fumo dos combates, ao lado do homem, que o seu coração elegeu
+para esposo, e que foi, Achilles d'esta Iliada, um dos heroes nas
+epopêas da nossa liberdade.</p>
+
+<p>E com o mesmo respeito, com a mesma attenção, e com a mesma homenagem li
+a estas duas illustres senhoras o manuscripto achado na gaveta do meu
+contador.</p>
+
+<p>Eu respeito todas as crenças.</p>
+
+<p>Onde ha uma alma, que se eleve nas aspirações grandiosas do futuro, onde
+ha um coração, que saiba palpitar, com enthusiasmo, na vasta arena de
+todas as religiões do sentimento--ha, ahi, de certo, uma individualidade
+marcada com o sello divino.</p>
+
+<p>O Senhor, na omnipotencia dos seus impenetraveis designios, curvando-se,
+em toda a sua magestade, no centro do universo, escuta o ruido surdo, e
+imperceptivel para ouvidos humanos, da herva ignorada, e rasteira, que
+rasga a custo os <span class='pagenum'>[86]</span> seios da terra, e ouve a prece fervorosa, e
+ardente da alma, que, em effluvios d'amor, se desprende das vaidades do
+mundo, e sobe até ao seu throno de gloria.</p>
+
+<p>Só a hypocrisia, e o scepticismo são vis.</p>
+
+<p>Não condemnemos crenças, nem aspirações.</p>
+
+<p>Tenho medo que o credo de hontem seja o anathema de ámanhã.</p>
+
+<p>Apavora-me o receio de que o axioma de hoje, da actualidade, seja a
+mentira, e a blasphemia do futuro.</p>
+
+<p>Depois de Platão, d'Aristoteles, de Socrates e de Christo, que sabemos
+nós mais do mundo moral?</p>
+
+<p>Newton, Galileu, Harvey, Cuvier, Laplace, Spinosa, Kant, Proudhon e
+tantos outros, n'essa pleiade immensa de illustrações, que vão
+atravessando os seculos, e renegando symbolos e credos, que passaram,
+são, para mim, a demonstração irrespondivel d'este clamor da
+consciencia.</p>
+
+<p>Basta.</p>
+
+<p>Volto ao manuscripto.</p>
+
+<p>No pendor d'uma das montanhas sobre que está edificada Lisboa, no ponto
+mais suave da encosta, levanta-se um palacio, cuja apparencia é modesta.</p>
+
+<p>Ahi vive a marqueza.</p> <span class='pagenum'>[87]</span>
+
+<p>Sobe-se uma escada de marmore á esquerda d'um pateo, que conserva todas
+as tradições arabes. No patamar superior rasga-se am corredor sombrio, e
+pouco alumiado, que conduz a uma saleta onde as elegancias modernas nada
+teem que vêr.</p>
+
+<p>Este aposento não o adornou Gardet, nem o forraram os estofadores mais
+afamados dos nossos tempos. Foram os seculos, que o vestiram, que o
+alindaram, que lhe cobriram as paredes, e que lhe deram aquella
+austeridade de ornamentação, disposta alli por varias gerações.
+Ligam-se, e ajustam-se uns aos outros, em severas molduras d'ebano, os
+retratos dos avós d'esta illustre familia. Ao lado d'um camarista de
+Carlos III, de Hespanha, sorri, em vestuario de côrte, um cavalleiro de
+S. Thiago, filho segundo d'esta nobre estirpe. Em convivencia com um
+mimoso pagem do Escurial apruma-se, vigoroso e forte, um rico-homem de
+Castella, envolto no arrogante e opulento manto de grande de Hespanha. E
+as senhoras, oriundas de tão distinctos appellidos, adornadas com as
+telas e estofos preciosos de épocas, que já acabaram, parecem estremecer
+de jubilo, e anciarem pelo futuro d'aquelles tempos, que são hoje, para
+nós, o passado, e a cinza d'aquelles cadaveres.</p> <span class='pagenum'>[88]</span>
+
+<p>Foi ahi, n'essa saleta, respirando aquelles perfumes do seculo
+preterito, que li á marqueza o manuscripto de que sou legatario por
+direito de conquista.</p>
+
+<p>A marqueza, se eu não quizera chamar-lhe a tradição viva, a imagem da
+luz diffusa, que se vai immergindo no oceano das nossas tradições
+heraldicas, e dos brasões esculpidos nas abobadas dos paços de Cintra,
+seria, ainda assim, um reflexo da bondade divina.</p>
+
+<p>Encostada a uma bengala, cujo castão era uma maravilha artistica de
+Benvenuto Cellini, envolta em vestes negras, que a acompanham desde a
+sua viuvez, sem lhe occultarem a altivez das fórmas, e a superioridade
+da mais elevada distincção, ouviu a marqueza, attenta, a leitura dos
+trabalhos do desembargador. Sorriu-se ao chegarmos á conclusão, e soltou
+apenas estas palavras, fitando os seus avós:</p>
+
+<p>--Visconde, ouça, e aconselhe-se com as illustrações do seculo. Eu sou o
+passado. Bata á porta da actualidade.</p>
+
+<p>Beijei-lhe a mão, que a marqueza me estendeu com a elegancia da sua
+primorosa educação, e sahi, curvando-me perante a grandeza d'aquelles
+nobres instinctos, e suavidade de fórmas, que vão perdidas no nosso
+seculo.</p> <span class='pagenum'>[89]</span>
+
+<p>Ao levantar o reposteiro, onde o brasão de familia, bordado em lãs
+finissimas, brilha no centro dos panos, que rastejam, em vastas pregas
+franjadas, n'aquelle recinto, que é um salão de antepassados, um
+verdadeiro solar, vedado a olhos profanos--ouvi a voz branda, e
+cadenciada da marqueza, que me dizia de pé, em face do retrato de seu
+marido:</p>
+
+<p>--Visconde, conte do marquez as historias que lhe narrei.</p>
+
+<p>--Os desejos de v. exc.<sup>a</sup> são ordens para mim, minha senhora.</p>
+
+<p>E sahi.</p>
+
+<p>No fundo do passeio publico desdobram-se dous largos. Em um d'elles, por
+meio de casas mais ou menos mesquinhas, levanta-se um palacete no estylo
+moderno. Ha ahi uma sala, rica de adornos e de todo o conchego, que faz
+o confortavel da vida intima.</p>
+
+<p>Vive ahi a condessa.</p>
+
+<p>Pendem das paredes e cobrem as <em>étagères</em> varios retratos de familia.</p>
+
+<p>Ha trabalhos de costura, e de <em>crochet</em> estendidos por sobre as mesas; ha,
+finalmente, todos estes pequenos nadas, que explicam os sentimentos
+intimos da existencia, e que se traduzem em recordações do lar
+domestico.</p> <span class='pagenum'>[90]</span>
+
+<p>Não era o vestibulo, entre os romanos, a primeira adoração a Vesta?</p>
+
+<p>A condessa envolta, tambem, nos seus crepes negros, viuva do homem, que
+ajudou a cravar, com o vigor, e robustez do seu pulso, o pendão da
+liberdade em Portugal--recebeu-me com a semceremonia aristocratica do
+seu elegantissimo trato.</p>
+
+<p>Apesar dos annos decorridos, a despeito dos desgostos profundos, das
+lagrimas choradas no lugubre captiveiro, dos trabalhos inenarraveis
+soffridos em lutas titanicas--conserva a condessa os perfis e contornos
+da sua antiga formosura, tão puros, e tão correctos, que, se não é a
+Venus irrompendo do seio das ondas espumosas e crystallinas dos mares da
+Grecia, na deslumbrante belleza do Olympo pagão, tem, ainda assim, os
+vagos e recordaveis traços da austera Juno, quando presidia aos festins
+dos deuses.</p>
+
+<p>Ouviu impassivel a leitura do manuscripto.</p>
+
+<p>--Que me diz v. exc.<sup>a</sup> a este livro?</p>
+
+<p>Havia um sorriso ironico e espirituoso brincando nos labios da condessa.</p>
+
+<p>--Digo-lhe, que o publique. Mas escute: faltam-lhe ahi os lampejos de fé
+viva, a crença robusta na liberdade, que animava e esforçava os heroes
+do Porto. Venha, aqui, por vezes, ouvir, <span class='pagenum'>[91]</span> como lh'as tenho contado,
+as lendas d'essas lutas de gigantes. Perdôe muito, como eu tenho
+perdoado, aos homens que se esqueceram ou que erraram. Analíse e estude
+as variadas transicções, que nos trouxeram a estas sinistras épocas de
+descrença. Consulte o passado.</p>
+
+<p>Abri, para sahir, a porta d'este magico e encantador gabinete na mesma
+perplexidade d'espirito com que entrára.</p>
+
+<p>--Ouça, visconde--disse-me ainda esta illustre senhora, na phrase breve,
+e perceptivelmente imperiosa com que parece ordenar.--Não esqueça as
+historias que lhe tenho narrado. Dê-as como suas ou como escriptas pelo
+doutor João Aleixo--nem por isso lhe tomará elle contas na eternidade.</p>
+
+<p>Curvei-me respeitoso, e sahi.</p>
+
+<p>A condessa e a marqueza insistiam pela narração das anecdotas do seu
+tempo. Quanto ao mais, quanto á historia vasta, severa, incisiva,
+analytica, e verdadeira, como é ou deve ser, mandavam-me estudal-a nos
+livros, porque não podiam, não queriam ou não desejavam esclarecer-me.</p>
+
+<p>Creio que o seculo XIX envolveu no sudario da agonia as idolatrias da
+idade media, assim <span class='pagenum'>[92]</span> como as lendas do Golgotha amortalharam, para
+todo o sempre, a mythologia pagã.</p>
+
+<p>Não se repetem agora os clamores sinistros, que reboavam nas florestas
+da Thessalia, e se ouviam nas clareiras dos bosques sagrados da Grecia e
+de Roma: «Morreu o Deus Pan!»</p>
+
+<p>Mas vai acabando a democracia com os preitos, que as cruzadas, as côrtes
+d'amor, os torneios, e as cavallarias feudaes prestavam á mulher,
+divinisando-a. Quer-me parecer que a ultima Egeria, <em>Madame</em> Rolland,
+expirou no cadafalso em face da estatua da liberdade. É mais uma realeza
+que se extingue com tantas outras.</p>
+
+<p>Onde acabava o oraculo começava a crença. Escutei o futuro.</p>
+
+<p>E conservei intacto, sem rasuras, nem entrelinhas, o manuscripto do
+desembargador.</p>
+
+<p class="direita">VISCONDE DE OUGUELLA.</p> <span class='pagenum'>[93]</span>
+
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap12"></a> <h1>SUBSIDIOS PARA A HISTORIA <br> DA <br> SERENISSIMA CASA DE BRAGANÇA</h1>
+
+
+<h2>I <br> PEDRO DE ALPOEM</h2>
+
+<p>Sempre que encontrei este nome ligado á vida aventureira de D. Antonio,
+prior do Crato, me detive a scismar no honrado homem que se chamou
+assim.</p>
+
+<p>Pedro de Alpoem era portuguez de rija tempera. Seguira o pequeno bando
+de D. Antonio, quando o duque de Bragança, D. João, primeiro de nome,
+transigiu com Philippe II, por preço que adiante se dirá. Acclamou-o em
+Santarem; fêl-o bemquisto da mocidade academica de Coimbra; seguiu-o na
+fuga, depois da derrota de Alcantara, até Vianna do Minho; e, d'ahi,
+como o infante se <span class='pagenum'>[94]</span> agasalhasse em seguro abrigo, voltou a Lisboa a
+negociar-lhe a emigração em navio estrangeiro. Colhido de sobresalto
+n'esta diligencia, foi posto a tormento. Confessou que viera a Lisboa a
+fim de arranjar a passagem do principe; não lhe arrancaram, porém, as
+torturas o segredo do escondrijo de D. Antonio. Ameaçaram-no com a
+decapitação. Pedro de Alpoem sob-poz o pescoço ao cutello do verdugo, e
+pereceu com o segredo do asylo do seu rei. Estremada probidade, que só
+por si nobilita o nome portuguez, aviltado pelo maximo da fidalguia
+bandeada com o usurpador!</p>
+
+<p>Entristecia-me a mingoada noticia que os historiadores nos transmittiram
+de tão memoravel sujeito. E esse pouco foi dadiva de Herrera (<em>Cinco
+libros de la historia de Portugal</em>, liv. III), de Faria e Sousa (<em>Europa
+portugueza</em>, tom. III, part. 1, cap. IV), e do opusculo francez
+intitulado<em> Briefve et sommaire description de la vie et mort de D.
+Antoine, premier du nom et dix-huitième roy de Portugal</em>, impressa em
+Paris, no anno 1629.</p>
+
+<p>Uma vez, folheando a <em>Bibliotheca lusitana</em>, vi o nome e appellido do leal
+amigo de D. Antonio.</p>
+
+<p>Senti uma d'essas raras alegrias que só entendem os que andam a joeirar
+o lixo dos seculos por vêr se acham um certo diamante que a maior parte
+da gente não trocaria por missangas.</p> <span class='pagenum'>[95]</span>
+
+<p>A noticia que Barbosa Machado me deu, rezava assim: <em>Pedro de Alpoem
+Contador, natural de Coimbra, doutor em direito cesareo, collegial do
+collegio de S. Pedro, aonde foi admittido no 1.º de janeiro de 1578. Na
+universidade patria regentou a cadeira de Instituta, que levou por
+opposição a 18 de outubro de 1572, d'onde passou á do Código em 2 de
+janeiro de 1579. Foi um dos celebres defensores da successão da corôa
+portugueza a favor da senhora D. Catharina, como tambem do direito que
+tinha á mesma corôa o snr. D. Antonio, prior do Crato, por cuja causa
+morreu degolado.</em> <em>Escreveu</em>: Carta ao duque de Bragança D. João, o
+primeiro de nome, quando Philippe Prudente entrou em Portugal. <em>A data é
+do Seio de Abrahão a 20 de julho de 1581.</em> <em>Começa</em>: «Obriga-me a escrever
+a v. exc.<sup>a</sup> cá d'est'outro mundo de verdades e desenganos.» <em>Acaba</em>:
+«Conforme a santa lei d'este reino ao qual Deus eternamente tem
+promettido conservar.» <em>É larga, muito judiciosa, e consta de uma forte
+invectiva contra o cardeal D. Henrique, por dispôr que os castelhanos se
+senhoreassem de Portugal, e juntamente contra o mesmo duque de Bragança
+por seguir o cardeal.</em> (Tom. III, pag. 553).</p>
+
+<p>Alguns annos frustrei esforços em busca da carta manuscripta de Pedro de
+Alpoem, pois, com certeza, não corria impressa; até que, entre uns <span class='pagenum'>[96]</span>
+papeis pertencentes á rica livraria do jurisconsulto Pereira e Sousa, e
+havidos por compra em 1873, se me deparou a carta que Barbosa Machado
+inculcára.</p>
+
+<p>O investigador equivocou-se attribuindo-a ao doutor Pedro de Alpoem. Se
+reparasse que ella é datada no <em>Seio de Abrahão</em>, deprehenderia logo que,
+em nome de Pedro de Alpoem, já degolado em 20 de julho de 1581, alguém
+escreveu aquella carta, como vinda d'além-mundo. E, até no começo da
+carta, as palavras: <em>Obriga-me a escrever a v. exc.<sup>a</sup> cá d'est'outro mundo
+de verdades e desenganos</em>, estão confirmando a ficção.</p>
+
+<p>Posto que o prazer de possuir um inedito de Alpoem se me agorentasse á
+luz da boa critica, nem por isso desestimei o manuscripto, onde abundam
+especies historicas não sabidas, traços profundos da physionomia do avô
+de D. João IV, e alguns lanços ignorados da biographia da nobre victima
+da amizade e do patriotismo.</p>
+
+<p>Persisti, assim mesmo, na indagação da linhagem de Pedro de Alpoem,
+esperançado em descobrir miudezas que realçassem as feições principaes,
+já de si bastante proeminentes a caracterisal-o. Pouco mais
+esquadrinhei, senão que foi filho de Antonio de Alpoem, e neto de Pedro
+de Alpoem, e de uma senhora de appellido <em>Caldeira</em>, <span class='pagenum'>[97]</span> filha de Affonso
+Domingos de Aveiro, instituidor da capella de Santo Ildefonso, na igreja
+de S. Thiago em Coimbra, da qual o justiçado amigo de D. Antonio era
+administrador<sup><a name="mfn18" href="#fn18">[18]</a></sup>; e, como não deixasse descendencia, o morgadio passou
+a seus parentes, filhos de Isabel Caldeira, irmã de seu avô, casada com
+Estevão Barradas.</p>
+
+<p>No fim do seculo XVIII, o possuidor do morgadio de Pedro de Alpoem era
+Lopo Cabral da Silveira, bisneto de D. Isabel Caldeira. Estas
+impertinencias genealogicas pouco montam na historia de um homem que se
+dispensava de avós illustres, bastando-lhe a proeza individual e sua de
+dar a cabeça ao algoz e legar o nome sem mancha ao coração do principe
+homisiado; mas seria hoje em dia brasão aos que procedessem d'esse
+egregio sangue.</p>
+
+<p>D. Antonio captivou na desgraça amigos que lhe sacrificaram haveres,
+liberdade, honras e vida. Sobrelevam entre outros o conde de Vimioso, o
+bispo da Guarda, D. Diogo de Menezes,--que o duque d'Avila mandou
+enforcar em Cascaes, juntamente com Henrique Pereira, alcaide do
+castello--, Duarte de Lemos, senhor da Trofa, <span class='pagenum'>[98]</span> D. João de Azevedo,
+Antonio de Brito Pimentel, Diogo Botelho, D. Duarte de Castro, D. Manoel
+de Portugal, Manoel da Fonseca da Nobrega, e D. João de Castro, o
+visionario, que, morta a esperança no filho de Violante Gomes,
+resuscitou D. Sebastião na pessoa do calabrez Marco Tullio.</p>
+
+<p>As historias antigas e tambem as modernamente escriptas pelos snrs.
+Rebello da Silva e Pinheiro Chagas não mencionam um amigo estrenuo do
+prior do Crato. Era Martim Lopes de Azevedo, 19.º senhor da casa de
+Azevedo, hoje representado pelo snr. visconde d'aquelle titulo,
+cavalheiro em quem se alliam as altas qualidades do coração com
+superiores dotes de provada intelligencia.</p>
+
+<p>Da inflexivel dedicação de Martim Lopes de Azevedo se lembra o principe
+desterrado na Carta latina que escreveu ao papa Gregorio XIII, e outro
+sim no seu testamento impresso nas <em>Provas da historia genealogica da
+casa real</em>, tom. II, pag. 556.</p>
+
+<p>Era, ao tempo, aquelle fidalgo senhor da villa de Souto de Riba-Homem, e
+outros senhorios e padroados de igrejas. Bandeou-se com o filho do
+infante D. Luiz, logo que o duque de Bragança offereceu a sua casa como
+valhacouto seguro aos embaixadores hespanhoes, a quem os partidarios
+<span class='pagenum'>[99]</span> do rei portuguez ameaçavam, depois da morte do cardeal-rei.</p>
+
+<p>Perdidas as esperanças, Martim Lopes de Azevedo provou as angustias do
+carcere e desterro, até que, volvidos annos, conseguiu perdão de
+Philippe II, mediante o patrocinio de sua tia D. Leonor de Mascarenhas,
+que havia sido dama da imperatriz D. Isabel, mãi do rei que lhe perdoou.
+Todavia, o mais grosso de seus haveres em commendas e senhorios da corôa
+nunca mais voltou á casa de Azevedo. Todos os conjurados contra a
+usurpação, cedo ou tarde, se recobraram, e houveram generosas
+indemnisações dos reis brigantinos; não assim os descendentes de Martim
+Lopes, cujo representante, em 1874, dos bens de seus avoengos possue
+apenas o que a rapacissima vingança de Philippe II lhe deixou. Entre os
+netos de D. Arnaldo de Bayão e os do bastardo de Ignez Pires não tem
+havido no decurso de tres seculos humiliações de vassallos nem
+magnanimidade de reis.</p>
+
+<p>Volvendo á suppositicia carta de Pedro de Alpoem, aceitemos de seu
+author, quem quer que fosse, o bosquejo do duque de Bragança, auxiliar,
+senão causa primaz, da escravidão de Portugal, da degradação da nobreza,
+da miseria do povo, <span class='pagenum'>[100]</span> do perdimento das colonias, e dos atrozes
+flagellos que se contaram pelos dias de sessenta annos.</p>
+
+<p>Sirva este papel de vestibulo por onde depois entraremos ao archivo
+secreto da veniaga que maniatou o duque de Bragança aos calcanhares de
+Philippe II.</p>
+
+<div class="rodape"> <p><sup><a name="fn18" href="#mfn18">[18]</a></sup> N'esta capella ainda existe a sepultura com epitaphio dos
+ascendentes de Pedro de Alpoem, mandada construir por seu avô do mesmo
+nome em 1514.</p> </div>
+
+<hr>
+
+<h2>ERRATA DO N.º 2</h2>
+
+<p>Pag. 42, linha 3.ª:</p>
+
+<p>Aquillo com que mais se accende o engenho.</p>
+
+<p>Emende:</p>
+
+<p><em>Aquillo</em> «com que mais se accende o engenho».</p>
+
+<p class="centrado">FIM DO 3.º NUMERO</p>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem
+não póde dormir. Nº3, by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA. NO. 3 ***
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+Produced by Pedro Saborano
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+works. See paragraph 1.E below.
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
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+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
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+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
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+any statements concerning tax treatment of donations received from
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+
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+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
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+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #24957 (https://www.gutenberg.org/ebooks/24957)