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NO. 3 *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + + +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA + + +NOITES DE INSOMNIA + +OFFERECIDAS + +A QUEM NÃO PÓDE DORMIR + +POR + +Camillo Castello Branco + +PUBLICAÇÃO MENSAL + + +N.º 3--MARÇO + + +LIVRARIA INTERNACIONAL + +DE + +ERNESTO CHARDRON + +96, Largo dos Clerigos, 98 + +PORTO + +EUGENIO CHARDRON + +4, Largo de S. Francisco, 4 + +BRAGA + +1874 + + +PORTO + +TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA + +62--Rua da Cancella Velha--62 + +1874 + + +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA + + +NOITES DE INSOMNIA + + +SUMMARIO + + +Feitiços da guitarra--Em que veias gira o sangue de +Camões?--Lisboa--Voltas do Mundo--Nova solução do problema +historico--Desgraçado Balzac! (Á «Actualidade»)--Os 2 Joaquins--Flôres +para a sepultura de Ferreira Rangel--Mysterio da Castanha--Bem +vindo!--Os Salões, pelo exc.^mo snr. visconde de Ouguella--Subsidios +para a historia da serenissima casa de Bragança + + + + +FEITIÇOS DA GUITARRA + + +Cuidará talvez muita gente, aliás instruida na historia da musica e seus +effeitos, que a influencia da guitarra nos paços reaes é cousa moderna e +peculiar da côrte portugueza. Não, senhores. O exemplo deu-o a Hespanha +no fim do seculo passado, e a historia do mais afortunado guitarrista +d'este planeta extravagante em que moramos, vou contal-a eu. + +Na volta do anno 1786, D. Gabriel Alvares de Faria, arcediago da sé de +Badajoz, tinha dous sobrinhos, Luiz e Manoel. O arcediago, que blazonava +descender dos Farias, alcaides-móres de Palmella, em Portugal, timbrava +de muito fidalgo; mas declarava aos sobrinhos que fossem ganhar sua +vida, porque a pitança da conezia não dava para tres. + +Os dous rapazes, que tangiam guitarra a primor, e cantavam seguidilhas +de sua invenção, fizeram-se no rumo de Madrid, á cata de aventuras. O +estalajadeiro, que lhes deu a credito o primeiro mez de hospedagem, +folgava tanto de ouvir as tonadilhas de D. Manoel, que não quiz outra +paga durante um anno. + +Conseguiram os dous rapazes entrar na guarda de corpus. Luiz, mediante a +guitarra, insinuou-se no affecto de uma açafata da princeza Luiza de +Parma, esposa do principe que depois foi Carlos IV; e, quando a dama +ensandecia de amor ao seu menestrel, lhe disse elle que, se o seu cantar +e tanger a transportavam, que seria se ouvisse seu irmão D. Manoel! + +Contou isto a dama á princeza. Sua alteza era folgazã. Quiz ouvir o +guitarrista. Ouviu-o, admirou-o, amou-o, e--o que muito é--convenceu o +marido a gostar das trovas de _a Tyrana_ acompanhadas d'um harpejo +triste, que não ha ahi cousa que mais diga. + +O principe não era escorreito. + +Menos incauto era Carlos III, que mandou sahir de Madrid o guitarrista, +logo que deu tento dos effeitos cupidineos dos bordões e prima, na +pessoa da nora. + +Mas assim que o rei morreu, D. Manoel voltou a Madrid, foi restituido ao +palacio, á alcova real, e nomeado successivamente sargento-mór da +guarda, ajudante-general, grã-cruz de Carlos III, intendente dos +correios, cavalleiro do tosão, duque de Alcudia, primeiro ministro, +principe da paz, grande de Hespanha de primeira classe, com dotação +territorial de 50:000 piastras de rendimento, e general supremo dos +exercitos (em 1800) com o tractamento de _alteza serenissima_ (1807). + +Em 1797 casára com D. Maria Thereza de Bourbon, filha natural do infante +D. Luiz, irmão d'el-rei Carlos III. A rainha conviera n'este consorcio, +já porque a noiva era abominavel de feia, já porque tinha zelos +infernaes de Josefa Tudo, formosissima mulher com quem o seu valido +casára clandestinamente, intitulando-a depois condessa de Castello-Fiel. + +D. Manoel de Godoy, que assim tocára o galarim das grandezas humanas, +desceu tão rapido quanto subira. + +Conjuraram contra elle influencias internas e externas. + +Os hespanhoes, obrigados a guerrear a Inglaterra, odiavam o amigo da +França. Este odio exasperou-se depois do desastre de Trafalgar, onde +acabou para sempre o poder naval de Hespanha. Á frente dos adversarios +do principe da paz sahiu o principe das Asturias, chamado depois +Fernando VII. + +Seguiram-se evoluções politicas, em que o heroe a resvalar ao ponto +d'onde subira, se voltou contra a França, de accordo com Portugal. Em +1808 preparava-se para fugir com a familia real, quando rebentou no +Aranjuez a revolução em que sua alteza serenissima se escondeu em uma +talha, e não foi estrangulado pelo povo a pedido do rei e da rainha. + +Ainda depois d'esta crise, o duque de Alcudia voltou a dominar o animo +dos reis de Hespanha, e a rehaver a confiança de Napoleão; mas a final o +baque foi irreparavel. Passou a França, e depois a Roma, onde o papa o +intitulou _principe de Passerano_. + +Em Hespanha, confiscaram-lhe os bens. A esposa, de quem elle se +divorciára amigavelmente, vivia pobre em Paris, intilulando-se _duqueza +de Chinchon_, e lá morreu em 1828. O viuvo declarou então que já era +casado com Josefa Tudo. A unica filha de D. Manoel Godoy casou em 1820 +com o principe romano Raspoli. + +Até 1844, o principe da paz viveu em Paris tão convisinho da indigencia +que Deus sabe se elle teve tentações de tanger a guitarra da sua +juventude á porta dos amadores do genero. Depois de 36 annos de exilio, +obteve licença de entrar em Hespanha, e readquiriu parte dos bens, que +lhe permittiram dez annos de vida relativamente abastada. + +Morreu, por 1851, em Paris, com 84 annos de idade. + +Os biographos d'este homem extraordinario ignoram todos que elle era, em +Portugal, conde de Evora-Monte por carta de 2 de outubro de 1797. + +Tambem desconhecem que o alvará de mercê o faz primo de D. Maria I, e +descendente de D. Pedro I e de D. Ignez de Castro, por ser quarto neto +de Francisco de Faria, alcaide-mór de Palmella: descendencia a mais +imaginosa que ainda vimos amanhar-se em cabeças de nobiliaristas. + +Ahi vai o alvará que é documento não despeciendo: + + +«D. Maria, etc. Faço saber aos que esta minha carta virem que attendendo +á mui antiga, e esclarecida nobreza, qualidades, e distinctos +merecimentos de D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches +Sarçosa, principe da paz, duque de Alcudia, grande de Hespanha de +primeira classe, meu primo, e aos grandes serviços, que a estes reinos +fizeram seus maiores antes e depois da fundação da monarchia com +repetidas, e assignaladas acções, que os fizeram benemeritos da augusta +consideração, e real munificencia dos senhores reis meus predecessores: +tendo entendido ser o dito D. Manoel quarto neto de Francisco de Faria, +alcaide-mór, e commendador de Palmella, por ser o filho segundo de Diogo +Rodrigues de Faria, que passou a Hespanha d'um modo inculpavel, e de +quem D. Manoel é terceiro neto: para dilatar com a maior distincção a +memoria d'uma tão distincta familia, a qual pela mesma linha de +Francisco de Faria é descendente do snr. rei D. Pedro I, e de D. Ignez de +Castro, de quem descende a maior parte dos soberanos da Europa; tendo +muito segura confiança nos sentimentos verdadeiros, e honrados de D. +Manoel, hereditarios na sua familia, que tem lealmente exercitado em +beneficio de meus reinos; conformando-me com os augustos, e cordiaes +desejos de suas magestades catholicas, esperando, que assim os continue: +hei por bem, com aprazimento dos mesmos reis catholicos, pelos ditos +respeitos, e por honrar em D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios +Sanches Sarçosa, a familia de Faria, de que descende, fazer-lhe a mercê +do titulo de conde de Evora-Monte, com o senhorio para elle e seus +descendentes, que houver na sua casa dispensando na lei mental, e quero +e mando, que elle D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches +Sarçosa se chame conde de Evora-Monte, e com o dito titulo goze de todas +as honras, graças, liberdades, preeminencias, prerogativas, +authoridades, e franquezas, que hão, e tem, e de que usam, e sempre +usarão os condes d'estes reinos, assim como por direito, uso, e antigo +costume lhe pertencem, das quaes em tudo, e por tudo quero, e mando que +elle use, e possa usar por direito, uso, e costume sem minguamento, ou +duvida alguma, que a isso lhe seja posta, porque assim é minha vontade, +e com o referido titulo de conde de Evora-Monte haverá o assentamento +que lhe pertencer, de que se lhe passará alvará na fórma costumada, e +por firmeza de tudo lhe mandei dar esta carta por mim assignada, e +sellada com o sello pendente de minhas armas, e passada pela +chancellaria: e hei por bem que d'esta mercê se não paguem direitos +alguns velhos, e novos, não obstante os regimentos, e quaesquer +disposições contrarias. Dada no palacio de Queluz em 2 dias do mez de +outubro do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1797.--O +principe com guarda.==_José de Seabra da Silva._==_Joaquim Guilherme da +Costa Posser_, a fez.» + + +Respeito a _Farias_, houve um, em tempo d'el-rei D. Fernando. O leitor +conhece da historia e do romance o celebrado alcaide do castello de +Faria, chamado Nuno Gonçalves, que os castelhanos mataram, quando elle, +na barbacã da fortaleza, ameaçou de maldição o filho, se a entregasse +para salvar seu pai. O snr. Herculano refere este caso com primoroso +enthusiasmo. + +O filho chamava-se Gonçalo Annes, que se fez clerigo por desgosto de vêr +alli trespassado o pai debaixo de seus olhos; a paixão, porém, não lhe +impedia reproduzir-se em tres meninos, de quem foi mãi Aldonsa Vasquez. + +Do mais velho, que se chamou Nuno Gonçalves de Faria, conhece-se a +descendencia. Esse _Diogo_ que no alvará se diz ter passado a Castella, +nem era filho de Francisco de Faria, nem passou a Castella: era filho do +valido de D. João II, Antão de Faria, e casou com D. Maria de Goes, +filha de Simão de Goes Machado. + +No lapso de quatro seculos, a varonia do alcaide de Faria--a que eu +considero mais respeitavel, mais poetica, mais desculpavel aos fanaticos +d'estes archaismos--é a que se tiver conservado na posse das penedias +contiguas do esboroado castello, cuja alcaidaria foi do heroico Nuno +Gonçalves. O possuidor, ha trinta annos, d'essas ruinas, era João de +Faria Machado Pinto Roby. Vendeu as ruinas a um brazileiro. + +No mesmo anno em que morreu em Paris sua alteza serenissima o principe +da paz, seu parente, morria elle em Lisboa. A providencia divina fez-lhe +a mercê de o resgatar assim de um grande supplicio: elle sahia de noite, +e pedia esmola aos que passavam. Tinha sido redactor do _Nacional de +Lisboa_, e official de cavallaria muito valente. + +Deixou um filho chamado Isidoro de Faria Machado que se suicidou ha dous +annos em Lisboa. + +Uma de suas filhas é hoje viuva do visconde da Carreira, Luiz. As outras +não sei que destino tiveram. + +.......................................................................... + + +Toda esta noite se me foi de insomnia, a vêr sempre, na penumbra da +lamparina, um homem que em Lisboa, ha 24 annos, me dizia com a face +coberta de lagrimas: + +--Procurei tres amigos que me foram hospedes em meus lautos jantares, +quando eu aqui dissipava o meu ouro e a minha intelligencia no serviço +da politica. Apenas um se lembra de me conhecer em 1838; mas este é +pobre; os outros não se recordam... Sabe qual é a minha esperança? + +--A queda dos Cabraes? + +--Não: uma congestão cerebral. + +Bella e bem realisada esperança! + +O representante de Nuno Gonçalves de Faria foi levado morto á sua +familia no largo dos Cardeas de Jesus, por uma noite fria e chuvosa, +quando as carruagens, que se recruzavam para bailes e theatros, o +aspergiam da chuva dos tejadilhos e da lama das rodas. + + + + +EM QUE VEIAS GIRA O SANGUE DE CAMÕES? + + +Não é de mais saber-se isto, quando é moda esmiuçar tudo que entende com +o maior poeta do seu seculo. + +O livro mais extravagante que, a tal respeito, viu a luz, é a _Historia +de Camões_ pelo snr. doutor Theophilo Braga. + +As incurias, as criancices, os desvarios que esfervilham n'essas 441 +paginas não aparam a pontoada da critica. O livro faz tristeza... porque +faz rir; e, por muito frouxo que seja o espirito de patriotismo no +censor dos escriptores seus conterraneos, dóe ter de dizer: «o professor +de litteratura fez córar a face dos discipulos.» + +Os meus reparos n'este livro tocam sómente com o que ha n'elle relativo +á familia de Luiz de Camões; mas, ahi mesmo, é deploravel a falta de +siso do biographo. + +A pag. 233 suppõe o snr. Theophilo que entre uns papeis que se perderam +de Luiz de Camões houvesse cartas escriptas _aos seus amigos mais +valiosos intercedendo por seu pai que estava preso_. + +A pag. 243, no summario do capitulo VI, diz: _A noticia do perdão de seu +pai Simão Vaz de Camões._ Temos ainda Camões com pai. + +A pag. 259: _Por estas mesmas novas chegadas de Lisboa nas Náos partidas +no principio do anno de 1557 soube Camões... da sentença que condemnava +Simão Vaz de Camões, seu pai, para o degredo perpetuo do Brazil com +pregão e cadeado._ + +O leitor chega ao cabo do livro, persuadido que Camões tinha um pai, que +por estouvamentos de rapaz devasso, ahi na volta dos 60 annos, mereceu +ser condemnado a degredo com pregão e cadeado; mas, por acaso, volta a +pagina das erratas, e vê que o biographo lhe pede que leia _primo_ onde +estiver _pai_. Parece uma anecdota isto! + +Que razões motivaram esta correcção? Que raio de luz dardejou o bom +senso na ultima pagina do livro? Pois o doutor, durante a formação do +estirado livro, não teve um intervallo lucido? E, se o teve no fim, +porque não queimou a obra desde a primeira pagina, embora se perdesse a +_Carta de Ayres Barbosa a André de Rezende_? + +Eis aqui o modo como o snr. Theophilo descobriu a final que Simão Vaz de +Camões era _primo_ e não era _pai_ do poeta. + +Quando o livro ia sahir do prelo, a humilde pessoa, que escreve estas +linhas, publicava, no _Diccionario de educação_ de Campagne, um breve +artigo intitulado _Camões_, em que se lêem estes periodos: + + +«Os louvores ao prodigioso genio de Luiz de Camões são tantos, e tão +amiudados no discurso de tres seculos que já hoje em dia o repetil-os, +pelos mesmos conceitos e fórmas encomiasticas, nos parece banal +encarecimento. Mais util e plausivel nos avulta o esforço de alguns +biographos empenhados em esclarecer os lanços menos claros da biographia +do poeta. N'esta ardua lide tem mostrado ardente zelo o snr. visconde de +Juromenha, o mais particularisador noticiarista da vida de Luiz de +Camões. Todavia, assentando boa parte de suas innovações em conjecturas, +resulta que a louvavel vontade de esclarecer se demasie em hypotheses +pouco menos de inverosimeis. Está em o numero d'estas a affirmativa de +residir em Coimbra por 1556, o pai de Luiz de Camões, Simão Vaz. Este +mesmo é na hypothese do biographo, um tal que o corregedor de Coimbra +enviava preso a Lisboa, em 1563, por ter entrado em mosteiro de freiras, +e vem a ser o mesmo que em 1576, juntamente com os seus criados, +espancava o almotacé de Coimbra. Bastaria a despintar da phantasia do +snr. visconde de Juromenha semelhante conjectura, a pobreza do filho, +que recebeu 2$400 reis para se alistar na armada, em lugar d'outro, em +quanto seu pai, com mais de cincoenta de idade, andava por Coimbra +escalando conventos, e já com mais de setenta espancava as justiças, +acaudilhando criados,--circumstancia indicativa de vida abastada, e +orgulho de fidalgo com as posses que dão azas ao orgulho. + +«De todo em todo aniquila a supposição de que o mexediço Simão Vaz de +Camões haja sido pai do poeta, e marido da desvalida Anna de Macedo, uma +nota do snr. doutor Ayres de Campos, sobposta ao traslado da provisão +passada em 16 de maio de 1576, a respeito das injurias e offensas +praticadas por Simão Vaz de Camões no almotacé. Eis a nota: «E para +tambem não ficarmos culpados em passar por alto alguns outros documentos +que com estes tem estreitas relações, aqui os apontamos desde já em +quanto as suas integras não forem publicadas no supplemento. Assim elles +vão prestar auxilio valioso, e não grande embaraço a todos os criticos +illustres que, talvez fascinados por meras semelhanças de nomes e +appellidos, não teem hesitado em attribuir ao turbulento cidadão +conimbricense Simão Vaz de Camões, muito vivo e são em 1576, a honrosa +paternidade _legitima_ do author dos _Lusiadas_.» Cita mais o insigne +antiquario a vereação da camara de Coimbra de 31 de julho de 1563 da +qual se deprehende que Simão Vaz havia casado em 1562, e casára +novamente. Ora, quer o _novamente_ signifique segundas nupcias, quer +primeiras, como alguem aventa, sem dar a razão do alvitre, é certo que +esse não podia ser o pai de Luiz de Camões, que falleceu antes de sua +mãi. (Veja _Indices e Summarios dos Livros e Documentos mais antigos e +importantes do Archivo da Camara Municipal de Coimbra._ Coimbra, 1867, +pag. 7). + +«Temos presente a genealogia dos Camões, manuscripto de Jorge de Cabedo, +fallecido em 1602 ou 1604, e pelo tanto contemporaneo de Luiz de Camões. +(Veja _Diccion. bibliog._ de I. F. da Silva, tom. IV, pag. 161). + +«Cabedo falla do bisavô do poeta João Vaz de Camões, que foi corregedor +em Coimbra, e jaz em Santa Cruz. + +«Segue Antão Vaz de Camões (filho d'aquelle e avô do poeta) que casou no +Algarve com Guimar Vaz da Gama. Menciona Simão Vaz de Camões (filho de +Antão Vaz e pai do poeta) _que foi por capitão d'uma náo á India, e deu +á costa á vista de Goa, salvou-se em uma taboa, e lá morreu, deixando +viuva Anna de Macedo, dos Macedos de Santarem_. + +«Faz tambem menção de outro Simão Vaz de Camões, residente em Coimbra, +parente proximo do poeta, dizendo ter sido aquelle casado com Francisca +Rebello[1] filha de Alvaro Rebello Cardoso, a qual, viuvando, casára com +Domingos Roque Pereira[2].» + +O snr. Theophilo leu isto sem duvida alguma, e cedeu aos singelos +argumentos do artigo do _Diccionario_. + +Que faria o leitor, sendo (Deus o livre!) author do livro de Theophilo? + +A não entregar a obra toda ao fogo purificador dos seus creditos +litterarios, rasgava as paginas em que chamava _pai_ a Simão Vaz, +substituindo-as por outras em que lhe chamasse _primo_. + +Diga-se verdade: o snr. Theophilo rasgou duas paginas do livro, a 59 e +60; mas devia inutilisar as seguintes em que subsistem os erros +derivados da confusão dos dous homonymos Simão Vaz de Camões. + +Escrevi no _Diccionario_, reportando-me impensadamente a um genealogico +dos Camões: «Faz tambem menção de outro Simão Vaz de Camões, parente +proximo do poeta, dizendo ter sido aquelle casado com Francisca Rebello, +filha de Alvaro Rebello Cardoso, a qual, viuvando, casára com Domingos +Roque Pereira.» + +Escreve o sr. Theophilo na regenerada pag. 59: + +«Simão Vaz de Camões, que em 1562 casou em Coimbra com Francisca +Rebello, filha de Alvaro Cardoso[3].» + +Convido o snr. Theophilo Braga a declarar onde leu a noticia de tal +casamento! Com toda a certeza, a primeira pessoa, que imaginou vêr isto +em letra de mão, e o pôz em escriptura, desde que ha letra redonda, fui +eu. + +Pesa-me do intimo seio que o snr. doutor T. Braga escorregasse na +ladeira do meu engano. Já o snr. Felner lhe armou a esparrella da carta +de Ayres Barbosa; e eu, mais innocentemente, fil-o casamenteiro de Simão +Vaz com Francisca Rebello! É fado esquerdo do snr. Theophilo! Porém, o +que tem graça infinita é o snr. doutor fixar o anno do casamento em +1562! Que eu o inventasse, vá; mas que o snr. Theophilo lhe marcasse o +anno, é vontade de callaborar nas indiscrições alheias! + +Isto não é simplesmente criancice párvoa--é desgraça; é mais que +desgraça--é castigo da Providencia, porque o sr. Theophilo ladrou +arrogantemente a Castilho, a Herculano, a Garrett, a Rebello, a +Varnhagen; e não houve ainda detrahidor tão audaz, tão ignorante, e, +sobre ignorante, ridiculo. + +O meu lapso procedeu de confundir dous nomes confusamente escriptos em +uma arvore genealogica. Simão Vaz de Camões, o libertino parente do +poeta, casou com uma sua criada, e morreu sem descendentes. Esta é a +verdade. Quem casou em Coimbra com Francisca Rebello, filha de Alvaro +Rebello Cardoso, morgado das Caldas, foi Simão _Vasconcellos_, e não +Simão _Vaz_. + +Cá me fica pesando na consciencia o tempo e o papel que o snr. Theophilo +desperdiçou. De ambas as cousas tenho escrupulo; menos da data do +casamento; que essa é d'elle. + +Mas, se o snr. Theophilo substituiu as duas paginas que eram a fonte do +erro, porque não supprimiu as correntes que derivam d'essa fonte? Não +viu que todas as referencias ás paginas substituidas ficavam +incomprehensiveis? O sentimentalismo que enternece o pesar do poeta pela +prisão do _pai_ não póde subsistir racionalmente na prisão do _primo_! +Que faz então o snr. Theophilo? Usa processos sobre maneira economicos: + + ERRATA + + Onde se lê _pai_, leia-se _primo_. + +E está acabado. + +Ninguem me dê definições d'este preceptor infeliz! + +Contem-me esta passagem, que eu não preciso cenhecel-o de perto, nem +lobrigar-lhe o feitio interior dos camarins do pensamento. É um cháos! +Eu já não me admirarei se o snr. Theophilo, depois de esponjar alguns +centos de livros, escrever uma _Errata geral_ n'este sentido: onde se +lê: OBRAS _de Theophilo_, leia-se: MANOBRAS _do mesmo_. + + * * * * * + +Se o leitor quer, vamos agora farejar sangue de Camões nas veias dos +nossos contemporaneos. Não cuide, porém, que vai deliciar-se n'esta +leitura. É materia árida, fructo das taes insomnias constantes do +proemio do numero primeiro. + +Vasco Pires de Camões veio de Castella no tempo de Fernando I. Foi +alcaide-mór de Alemquer e Portalegre. Fugiu para Castella, quando o +mestre de Aviz se levantou com o reino. Foi prisioneiro em Aljubarrota, +perdeu os bens da corôa; mas cá ficou. + +Gonçalo Vaz, seu primogenito, instituiu um morgado em Evora, chamado da +Camoeira. Não temos que vêr com os outros filhos, cujos descendentes ou +foram pobres, ou identificaram os seus haveres nos morgadios do primeiro +ramo, á falta de geração. + +Succedeu-lhe Antonio Vaz, pai de Lopo Vaz de Camões, cujo primogenito, +tambem Antonio Vaz, teve um filho, que outro sim se chamou Lopo, e fez +um morgado em Aviz. + +D'este ultimo gerou-se D. Anna de Castro, que foi casar a Guimarães com +Diogo Lopes de Carvalho, quarto senhor dos coutos de Abbadim e Negrellos +no tempo de Philippe II. + +Luiz Lopes de Carvalho, 5.º senhor dos coutos, foi assassinado em +Guimarães. + +Gonçalo Lopes de Carvalho Camões e Castro Madureira, bisneto de Lopo Vaz +de Camões, succedeu nos morgados da Camoeira da Torre de Almadafe no +termo de Aviz, e da Gesteira no termo de Evora, ambos creados por +Gonçalo Vaz de Camões e Duarte de Camões, ultimo representante da +varonia, que morreu sem geração, e por isso os vinculos passaram aos +descendentes femininos de Lopo Vaz de Camões, que eram os senhores de +Abbadim e Negrellos. Existia esta posse em 1692[4]. + +Thadeu Luiz Lopes de Carvalho, filho de Gonçalo Lopes, casou, depois do +anno 1718, em Lisboa, com D. Brites Thereza de Menezes, que morreu muito +nova. Celebrou segundas nupcias com D. Francisca Rosa de Menezes e +Mendonça, filha de D. Francisco Furtado de Mendonça. + +Tiveram filhos varões, que morreram na infancia, e tres filhas que +casaram: D. Marianna Luiza Ignacia, com Caetano Balthazar de Sousa de +Carvalho, alcaide-mór de Villa Pouca de Aguiar; D. Anna Joaquina, com +Gonçalo Barba Alardo Corrêa, em 1751; D. Guiomar Marianna Anacleta de +Carvalho Fonseca Camões e Menezes, herdeira, com D. Antonio de +Lencastre, governador de Angola--(1772-1179), filho segundo de D. +Rodrigo de Lencastre. + +Nasceram, entre outros fallecidos na infancia, um filho, que se chamou +D. Rodrigo de Lencastre Carvalho Fonseca e Camões, e uma senhora, D. +Francisca Rosa de Lencastre, que casou com seu primo Lourenço de Almada, +1.º visconde de Villa Nova de Souto de El-Rei. + +D. Rodrigo, herdeiro dos morgadios e senhorios de Negrellos, Abbadim, +etc., e sargento-mór do regimento de cavallaria do principe D. João em +1791, casou com D. Maria do Carmo Henriques, filha herdeira de João +Henriques, do Bombarral. + +No morgado da Camoeira succedeu o 2.º visconde de Souto de El-Rei pelo +seu casamento com D. Francisca Felizarda de Lencastre, filha de D. +Guiomar de Camões, senhora de Abbadim e Negrellos. Uma filha d'estes +viscondes, D. Guiomar, casou com Gonçalo da Silva Alcoforado. + +Está, por tanto, o sangue dos Camões em todos os descendentes da mulher +do 1.º visconde de Souto de El-Rei. O terceiro ainda se assignou com o +appellido Camões. Está igualmente na familia Alcoforado da casa da +Silva, na familia da casa de Villa Pouca de Guimarães; nos descendentes +de José Bruno de Cabedo, 1.º barão do Zambujal, por linha feminina, pois +sua mãi era neta de D. Guiomar de Carvalho Camões e Fonseca; na casa da +Pousada em Braga, representada ha quarenta annos por Francisco Xavier +Alpoim da Silva e Castro, terceiro neto de Thadeu Camões, senhor de +Abbadim. + +Em quasi analogo parentesco estão os snrs. Leites de Paço de Sousa, e os +snrs. Pachecos Pereiras de Villar, ou de Belmonte. + +Não prolongarei esta resenha que de certo, hoje em dia, se ramifica tão +copiosamente quanto cumpre imaginar das faculdades reproductoras das +pessoas que representam aquelles illustres appellidos. + +Falta dizer que Luiz de Camões deixou um filho que não se reproduz, e é +immortal: chama-se LUSIADAS. + + [1] Adiante se verá que fui inexacto n'esta noticia. + + [2] Este Simão Vaz de Camões era filho de Duarte de Camões de + Tavora, filho de outro Simão Vaz de Camões, senhor do morgado da + Torre. Casou Duarte com D. Isabel Lobo, filha de Ayres Tavares e + Sousa, de quem houve, além de Simão Vaz de Camões, Luiz Gonçalves + de Camões, e D. Maria da Camara, que casou com Francisco de Faria + Severim. Quanto ao Simão que viveu em Coimbra, diz o linhagista que + _se casára á sua vontade_, como quem desfaz na estirpe da esposa. + + [3] A pag. 417 amplia o traslado do meu artigo, escrevendo: _a qual + casou depois em segundas nupcias com Domingos Roque Pereira._ + + [4] Veja Memorias resuscitadas da antiga Guimarães, pelo padre + Torquato Peixoto de Azevedo, em 1692, pag. 361. + + + + +LISBOA + + +Antes do traslado, darei breve noticia do livro de outro viajante bem +creado que nos visitou mais de espaço em 1730. A _Description de la +Ville de Lisbonne_, impressa em Paris, n'aquelle anno, é facil de +encontrar em Portugal. + +Este viajante esteve no paço da Ribeira. Viu as riquissimas alfaias do +vasto palacio. Reinava D. João V, o Salomão do occidente. Que valores +não sorveu aquella vasa do Terreiro do Paço vinte e cinco annos depois! + +Uma cousa achou tristissima o viajante; eram as noites de Lisboa: + + +«Esta grande cidade (diz elle) não é alumiada de noite, e é isso causa a +que um homem se veja em embaraços para acertar com o seu caminho, e +soffra sobre si os despejos de immundicies que lá se atiram das janellas +ás ruas, porque as casas não tem latrinas. A obrigação de cada qual é +levar essas immundicies ao rio, para o que ha negras que se occupam +n'este serviço muito baratas; mas a plebe não quer saber d'essas ordens. +Nas ruas não se anda de noite com bastante segurança, salvo quando se é, +como lá dizem, _embuçado_, isto é, quando se envolve a gente em um farto +capote, desde a cabeça até ás canellas: é um trajar exquisito, de que +usam as pessoas mais qualificadas, e até os principes, como trajo +privilegiado e respeitado. O respeito que se tem a esta especie de +mascara, vem de impedir que os taes se reconheçam, e do receio que o +disfarce encubra armas de fogo prestes a disparar-se sobre quem os +insultar ou quizer conhecer... Lisboa não tem passeio algum, nem +divertimento de nenhuma casta a não ser um mau theatro hespanhol. Os +fidalgos, não obstante, frequentam este theatro; e, depois que sahem[5] +vão gastar o restante do dia a passear nas suas carruagens, na praça do +Rocio, onde palestream até á noite, sem sahir das carruagens. As +cadeirinhas usam-se muito, e as liteiras estão na moda das damas +distinctas e dos velhos; mas, por conta das ruas intransitaveis, os +coches são raros.» + + +Fallando de estalagens, diz que eram quasi todas francezas, inglezas e +hollandezas, sendo a melhor de todas uma franceza na praça dos +Romulares, onde o passadio de cada dia custava 6 francos. + +Attribue a carestia á diminuta concorrencia de estrangeiros, que se +hospedem fóra das casas dos amigos. + +Já n'aquelle tempo, pelos modos, era mais barato hospedar-se a gente em +casa dos amigos. N'este particular, não adiantamos nada. Outros +forasteiros, que não tivessem amigos em Lisboa, costumavam alugar +quartos, com uma banca, seis cadeiras de palha, louça de barro, e cama +no chão, constante d'uma enxerga e duas cobertas, que á noite se +desdobram sobre uma esteira de junco. Diz elle que nas hospedarias era +peor. + +Conheceu o sujeito em Lisboa uma senhora portugueza, casada com um +negociante francez, de Bayonna. A tal senhora via o que se passava no +interior do corpo humano e nas entranhas da terra, não tendo nos olhos +senão grande belleza. Incommodava-se-lhe a vista quando divisava nos +reconditos escaninhos da economia animal abscessos asquerosos. Via os +phenomenos physiologicos da digestão, e dizia se o feto no ventre +materno era macho ou femea, aos sete mezes. Na profundeza de 30 ou 40 +braças descobria mananciaes d'agua. Estas prerogativas extraordinarias +só as gozava em quanto estivesse em jejum; algumas vezes, porém, á hora +de sesta, refinava no condão de vêr os rins de um homem gordo através do +capote. Os descobrimentos de agua, já para o rei já para os +particulares, o voto dos sabios e dos ministros, em fim, os +incontroversos prodigios d'esta mulher grangearam-lhe a mercê regia do +_dom_ e o habito de Christo para seu marido. + +O padre Le Brun, no anno seguinte á publicação d'este livro, metteu a +riso a historia da lisboeta. (Veja _Histoire critique des Pratiques +superstitieuses_, etc., l. 1.º, cap. 6, edição de Amsterd. 1733). Mas o +cavalheiro de Oliveira que demorava então em Londres, onde publicava o +seu _Amusement periodique_, a pag. 274 e seguintes do 2.º tomo, impugna +a incredulidade do francez, com as seguintes razões. E note-se, +primeiramente, que Francisco Xavier de Oliveira foi o portuguez mais +incredulo do seu tempo; e, se não fugisse de Portugal, teria sido +queimado como herege. + +Diz elle: + + +«Eu não subscrevo ás suspeitas de impostura que o padre Le Brun irroga á +mulher portugueza, porque a conheci pessoalmente, tendo ella entre onze +e doze annos. Vi-a, pela primeira vez, em Paço d'Arcos na quinta de +Jeronymo Lobo Guimarães, onde fôra para indicar o ponto onde havia agua. +Do primeiro lanço de olhos, apontou o sitio. Lobo fez cavar no ponto +indicado, e achou agua abundantemente. Verdade é que ella marcava entre +seis e sete braças; e a agua borbulhou na profundidade de oito. Tambem é +certo que, estando eu vestido, ella me disse positivamente os signaes +todos que eu tinha na pelle, e o mesmo fez a cinco pessoas presentes. +Afianço isto como testemunha ocular. Que ella visse através da pelle, +nunca ouvi dizer...» + + +Prolonga-se o cavalheiro de Oliveira abonando os prodigios contrariados +por Le Brun, e prosegue: + + +«Declarou esta menina que não podia entrar em igrejas e atravessar +cemiterios, por causa do horror que lhe faziam os cadaveres enterrados, +que ella via podres debaixo das lapides. Todos os tribunaes, e +maiormente o do santo officio, tomaram conhecimento d'esta declaração. +Abriu-se um tumulo como experiencia, e achou-se o cadaver qual ella o +descrevera, antes que levantassem uma grossa lousa. Não sei que destino +teve esta mulher: o que sei é que nem a inquisição nem algum tribunal a +inquietou[6].» + + +Proseguindo na viagem do admirador da prodigiosa lisboeta, refere elle +algumas cousas da côrte de D. João V que precisam ser esclarecidas. + +Numera os officiaes, que servem a casa real, e diz que, áquelle tempo, o +officio de mordomo-mór tinha vagado, em consequencia de ter fugido de +Portugal em 1724 este empregado do paço com uma das mais formosas damas +do reino, esposa de um fidalgo. E acrescenta: + + +«O rei mandou depós os fugitivos um esquadrão de cavallos; mas como +elles levavam um dia de avanço, e correram á desfilada, a tropa não +logrou apanhal-os; por maneira que chegaram a Vigo[7], na Galliza sem +embaraço. Com tudo, breve lhes foi o contentamento; porque o bispo +d'aquella cidade fez entrar a dama em um mosteiro, e o fidalgo +retirou-se para Madrid. O marido da fugitiva vestiu-se de luto, assim +que soube da fuga; e, conforme o prejuizo do paiz, ou como lá dizem os +portuguezes, _porque tinha barbas_, jurou não apparecer mais sem matar o +raptor, e matar ou enclausurar para sempre sua mulher.» + + +No immediato numero saberá o leitor quem foram os personagens d'este +caso, que envolve tragedia digna de livro de maior fôlego. + + [5] Vê-se que as representações eram de dia. + + [6] São rarissimos ou talvez unicos em Portugal, estes livros do + cavalheiro de Oliveira. Diz elle que apenas tinha na sua patria + dous assignantes, e um era Jacome Raton. + + [7] É erro: foi em _Tuy_. + + + + +VOLTAS DO MUNDO + + +Ayres Ferreira, da casa dos senhores de Cavalleiros, e couto de Frazão e +Marvilla de Couros, viveu em Barcellos, no tempo de D. João III. + +Teve quatro filhos e duas filhas. + +Os rapazes, á excepção de um que morreu na infancia, foram todos servir +na India: eram Ruy, Alvaro e Gonçalo. + +As meninas professaram, e foram abbadessas perpetuas no mosteiro de Cós. + +Os tres soldados grangearam fama no Oriente; e Ruy Ferreira de Mendonça, +o mais velho, avantajou-se nas proezas--nas crueis façanhas que os +Coutos e Barros chamaram proezas. + +Não lhes desluzam, por isso, a memoria. Era seculo de trevas e de +missionarios. Reinava D. João III, o inquisidor. Cada qual é do seu +tempo. Se algum contemporaneo, como o bispo de Silves, protestou contra +o fanatismo sanguinario, deve-se o protesto honroso a não ter ido lá o +insigne escriptor. Se fosse, pegaria d'elle a contagião da carnagem, a +peste d'aquelle ar infecto da sangueira, o colera que accendia sêdes de +cubiça insaciavel. + +No seu solar de Barcellos ficára Ayres Ferreira, sósinho e triste. +Doia-lhe mais que tudo a saudade de Ruy, o seu primogenito, que lhe +fugira, ancioso de batalhas, e invejoso dos irmãos, cujos nomes +começaram a ser laureados na Asia em 1543. N'aquelle tempo, um mancebo +de appellido _Goes_, renunciava esse appellido, que era o de seu +progenitor, em affronta ao pai que lhe impedira servir as armas na +India! + +Um dia, Ruy Ferreira de Mendonça recebeu em Goa carta de seu pai, +queixando-se dos filhos que o deixaram velho, desamparado, e exposto aos +affrontamentos de quem já lhe não temia o braço alquebrado por annos e +desgostos. + +E contava que o abbade de Creixomil, clerigo fidalgo e possante, ousára +pôr-lhe as mãos nas barbas. + +Ruy sahiu com a carta de seu pai em demanda do vice-rei a pedir-lhe +licença para vir ao reino. O vice-rei negou-lh'a, com o intento de +evitar um crime, privando-se de um dos seus mais valentes capitães. E, +sabendo que o fidalgo lhe não obedeceria e se andava negociando +clandestinamente passagem nas náos, deu-lhe ordem de prisão até que os +navios levassem ancora. + +As náos abalaram, e Ruy foi posto em liberdade. + +Apenas livre, correu á barra, avistou ao longe o velame, arrojou-se ás +ondas, e nadou na esteira d'ellas. Quatro horas bracejou, reagindo ao +sossobro, que já o levava de vencida. Favorecido por subita calmaria, as +náos balouçavam-se paradas, e as vagas alisaram-se como lago de aguas +estanques. Viram da amurada o homem que nadava. O capitão, que lhe +quizera dar passagem occulta, suspeitou quem fosse, e mandou, uma lancha +com oito remadores ao encontro d'elle. Colheram-o reanimado, mas em +tamanho quebranto de forças que levou dias a restaurar-se. Tinha cortado +duas leguas de mar! + +Desembarcou em Lisboa, e seguiu para o Minho. + +S. Thiago de Creixomil, abbadia do então chamado Couto de Fragoso, +demorava no termo de Barcellos. + +Ahi vivia o clerigo que affrontára Ayres Ferreira. + +Ruy, antes de se avistar com o pai, bateu á porta do abbade, e +enviou-lhe o seu nome. + +O fidalgo tonsurado desceu ao recio da sua residencia, empunhando a +espada de cavalleiro. O soldado da India rejubilou quando viu o +adversario armado. Vexava-o ter de matar um inerme. Travaram-se os dous +gladios; mas que prelio tão desigual entre o guerreiro experimentado e o +fidalgo que sabia apenas a esgrima de curioso! Á volta de poucos botes, +o abbade de Creixomil cahiu traspassado do peito ás costas, ouvindo +estas vozes frementes de odio: + +--Perro! não pozesses as mãos nas barbas de um velho! + +E depois foi beijar a mão a seu pai, com quem se demorou algumas horas, +e partiu para não perder a passagem das náos que estavam de vela para a +India. + +E lá foi ceifar novos louros. + +Passados annos, o solarengo de Barcellos morreu, e foi sepultado na +capella do Santissimo Sacramento da igreja matriz de Barcellos, onde +estavam os ossos de seus paes e avós. + +Ruy Ferreira voltou ao reino, e succedeu na casa de seu pai. + +Ninguem lhe pediu saldo de contas com os descendentes do abbade que +naturalmente os tinha, de collaboração com as mais nitidas ovelhas do +seu rebanho. + +Disputou a posse do morgadio de S. Pedro de Fajozes, no concelho da +Maya, a sua prima D. Joanna de Eça, da casa de Cavalleiros. Ganhou a +demanda. + +Em seguida, casou com D. Philippa de Athaide, filha de Martim Lopes de +Azevedo, decimo primeiro senhor da casa e solar d'Azevedo e da Villa de +Souto. + +Tiveram seis ou mais filhos; parte d'estes morreram na India. + +A representação d'esta casa, volvidos 60 annos, estava em Duarte Pacheco +Pereira, governador de Ormuz, descendente do heroe desgraçado que teve +aquelle nome; porque um bisneto de Ruy, chamado Luiz de Mendonça, casou +com D. Guiomar de Albuquerque, neta de Duarte Pacheco Pereira. + +Eu não sei se algum dos trinta e quatro barões que conheço, estando no +Brazil, e sabendo que seu pai, o tio Antonio da Thereza, foi espancado +pelo estadulho do tio Joaquim da Thomazia, seria capaz de vir da rua da +Quitanda desaffrontar o seu velho progenitor! Acho que não; e faria +muito bem. Ha 300 annos, aquelle Ruy poz o abbade a dormir o somno +eterno, cavalgou na sua mula, e lá foi socegadamente para Lisboa, e de +Lisboa para a India. Hoje em dia, se o barão de Ranhados matar o +Januario do Quinchoso, que lhe bateu no pai, o mulherio grita á +d'el-rei, o regedor participa ao administrador, este faz uma circular +telegraphica para os quatro pontos cardeaes, e o barão, quando chegar, +mais aqui ou mais além, dá de cara com dous policias, e depois bem +sabemos o resto. + +Mudaram os tempos pela mesma razão que mudaram os fidalgos. Não ha pai +por filho nem filho por pai, em quanto se ganha dinheiro. + +Entre HEROISMO antigo e DINHEIRO moderno está um fosso. Quem quizer +palmilhar de salto as duas orlas do abysmo cahe no _ridiculo_ ou... nas +mãos da policia. + + + + +NOVA SOLUÇÃO DO PROBLEMA HISTORICO + + +Cá está outra que me parece mais sensata que a primeira. O premio, +infelizmente para o verdadeiro merito, era já distribuido. Não obstante, +o snr. _Bibliophilo_ ha de ser galardoado. A minha livraria é pobre: não +vejo livro digno de s. s.^a; mas vou munir-me de duas joias litterarias, +que submetto á escolha do douto letrado. + +Disponha, pois, s. s.^a do FAUST do snr. Joaquim de Vasconcellos, ou dos +ORIGINAES OPUSCULOS do snr. Jayme José Ribeiro de Carvalho. A primeira, +bem que não trate de hygiene, é drastica; a segunda, posto que entenda +com a sciencia dos derivativos, corre parelhas com a utilidade da +primeira. D'este modo, dou testemunho publico da consideração que me +merece o bibliophilo, e fio muito dos dous offerecidos authores a +lapidação do seu espirito, que reslumbra e rasga na seguinte carta +destinos de nenhum modo chochos. + +«_Snr. redactor das NOITES DE INSOMNIA._ + +«Estimo esta occasião de o informar de um caso que succedeu em 1693, e +esclarece completamente as suas duvidas a respeito do augusto forasteiro +que tres pontifices sentenciaram rei de Portugal. + +«Tenho a satisfação de possuir um folheto rarissimo que meu avô +conseguiu salvar no incendio da livraria do conde da Ericeira, em 1755. +É conhecido outro exemplar no _Museu britannico_. E eu preso-o tanto que +não me desfiz d'elle, quando me offereceram em troca as obras completas +do doutor Theophilo, e sete menos cinco em dinheiro. + +«Intitula-se a minha raridade: _Relaçam do sucesso que teve o patacho +chamado Nossa Senhora da Candelaria da Ilha da Madeira, o qual vindo da +Costa de Guiné, no anno de 1693, huma rigorosa tempestade o fez varar na +Ilha incognita. Que deixou escripta Francisco Corrêa, mestre do mesmo +patacho, e se achou no anno de 1699, depois da sua morte. Impresso em +Lisboa em 1734._» + +«Aproveitando as suas insomnias, vou dar-lhe muito resumida a substancia +do referido opusculo. + +«Conta Francisco Corrêa que, ao avistar as ilhas de Cabo-Verde, +toldou-se repentinamente o céo, e logo uma nebrina escura fez noite a +bordo, a termos de se não conhecerem os tripolantes. De subito, pegam de +esfuziar nas gaveas repellões de ventania, e os relampagos a fuzilarem, +e logo as nuvens negras a abrirem-se em jorros de chuva. + +«Traquete e mezena voaram. A embarcação fez agua por todas as pranchas +descosidas; e, apesar de esforços desesperados, não vingaram cegar os +sorvedouros. Quinze eram os nautas que se deram em uma jangada á +misericordia divina. Ao abrir da manhã, avistaram a leste uns morros +pardacentos; mas como não tinham governo que alli os proejasse, +deixaram-se ir na corrente e á mercê de Deus até varar em terra. + +«Em quanto se reparava a embarcação, o mestre do patacho, com Manoel +Antunes e João de Arruda, embrenharam-se no matagal com os arcabuzes bem +cevados. Viram mono de oito palmos, e dentes de duas pollegadas e meia; +viram cobras grossas como pipotes de oito almudes; e viram a final uma +mulher marinha que Francisco Corrêa descreve d'este feitio: + + +«Tinha todas as perfeições até á cinta, que se discorrem na mais +formosa, e sómente a desfeavam as grandes orelhas que tinha, pois lhe +chegavam abaixo dos hombros, e quando as levantava, lhe subiam a +distancia de mais de meio palmo por cima da cabeça. Da cinta para baixo, +toda estava coberta de escamas, e os pés eram do feitio de cabra, com +barbatanas pelas pernas. Tanto que se viu no monte, presentindo ser +vista, deu taes berros, que estremecia a ilha, pelo retumbo dos echos; e +sahiram tantos animaes, e de tão diversas castas, que nos causou muito +medo. Arrojou-se finalmente ao mar pela outra parte com tal impeto, que +sentimos nas aguas a sua vehemencia. Todos se assustaram, menos eu, pois +já tinha visto outra no cabo de Gué; e tinha perdido o medo com outras +semelhantes apparições; e me lembra, que junto a Teneriffe vi um homem +marinho de tão horrendo feitio, que parecia o mesmo demonio. Tinha +sómente a apparencia de homem na cara, na cabeça não tinha cabellos, mas +uma armação, como de carneiro, revirada com duas voltas; as orelhas eram +maiores que as de um burro, a côr era parda, o nariz com quatro ventas, +um só olho no meio da testa, a bocca rasgada de orelha a orelha, e duas +ordens de dentes, as mãos como de bugio, os pés como de boi, e o corpo +coberto de escamas, mais duras, que conchas. Uma tempestade o lançou em +terra, e taes bramidos deu, que entre elles expirou, e para memoria se +mandou copiar a sua fórma, e se conserva na casa da cidade d'aquella +ilha.» + + +«Ao terceiro dia, 8 d'agosto de 1693, ouviram uma voz lá dos reconcavos +da serra, a bradar: _Portugal!_ _Castella!_ Seguindo a toada das +exclamações, toparam um homem de venerando aspecto, que lhes fallou +assim: + + +«_Graças a Deus Senhor; infinitas graças vos dou, por me chegardes a +tempo, depois de tantos annos, em que eu visse gente da Europa_; e logo +olhando gravemente, e cortez para nós, disse: _Senhores, de que nação +sois?_ Nós pasmados, não acertavamos a responder; e conhecendo elle o +nosso susto, nos animou brandamente, rogando-nos para a sua pobre +habitação, aonde entrámos, e sentados em um tosco pau, nos fallou com +taes palavras: + +«_Senhores, sois portuguezes, ou castelhanos? Respondei sem susto; que +não tendes, quem n'esta ilha se opponha aos vossos designios. Se me +procuraes, para acabardes com a minha vida, aqui me achaes sem +resistencia, e sem defensa mais que a de Deus; e como de tanto viver +estou aborrecido, grande favor me fazeis em me alliviardes de tão grande +penalidade._ Eu, que respeitava a sua pessoa, desejando satisfazer á sua +pergunta, o certifiquei de que eramos portugueses, que arribáramos com +um grande temporal áquella ilha: do que, tanto que me ouviu, posto de +joelhos, levantadas as mãos, pondo os olhos no céo, soltando as +lagrimas, deu graças a Deus, dizendo: _Ah bom Deus, quão grande é a +vossa infinita Providencia!_ E levantando-se, nos abraçou, e saudou, +dizendo: _Meus portuguezes, meus portuguezes_; sem que as lagrimas +cessassem: e levando-nos para o interior da cova, nos fez sentar junto a +si, perguntando-me pelos companheiros, e pelo nosso infausto successo, +de que lhe démos larga conta. Perguntou-nos quem reinava em Hespanha, e +sabendo que em Castella reinava Carlos II, e em Portugal D. Pedro II, +suspirando com alvoroço, disse: _E Portugal tem rei! Oh Deus immenso, +que te lembraste do teu reino!_ E dizendo-lhe nós como fôra acclamado +el-rei D. João IV, e os milagrosos successos d'aquelle dia, não cessava +de mostrar o gozo, que interiormente sentia: e logo repetindo novas +lagrimas, suspiros, e soluços, nos perguntou pela conquista de Africa, +ao que respondemos dando-lhe conta, do que sabiamos, e como desde a +batalha, que perdera el-rei D. Sebastião, se não continuára, tomando-se +horror a tal terra: e desejosos nós de sabermos com quem tratavamos, lhe +pedimos nos consolasse, dizendo-nos, quem o levára áquella ilha +incognita, e não arrumada nas cartas, e roteiros; ao que satisfez com +taes palavras: + +«No tempo, que Philippe II entrou com violencia em Portugal, se retirou +muita gente, por não vêr o seu reino recuperado das mãos dos mouros +pelos nossos ascendentes, sem ajuda dos visinhos, sujeito a principe +estranho. Muito tempo andei retirado, discorrendo pelo interior da +Africa, passei á Palestina, e outras terras, tendo tantos trabalhos por +muito suaves, na consideração, de não vêr com os meus olhos o quanto +padeciam os meus naturaes; e passados alguns annos, passando á Europa, +cahi nas suas mãos; e entregando-me a certos homens, me levaram a uma +embarcação na bahia de Cadix, que promptamente se fez á vela. Tinha o +cabo ordem particular para que em certa altura me lançassem ao mar, sem +que me ouvisse, nem me deixasse fallar; e notando elle as minhas acções, +e innocencia, suspendeu a execução; até que na altura de Cabo Verde, me +intimou a ordem com tanto pezar, que bem entendi o desejo que tinha de +me favorecer. Preparou-se uma lancha, o melhor que se pôde, e n'ella se +pôz mantimento para tres dias. Entrou logo a animar-me, exhortando-me a +que confiasse em Deus, que me poderia livrar do perigo, a que me haviam +de expôr: e me mandaram baixar á lancha, o que não quiz executar, sem me +confessar, e me preparar espiritualmente, para entregar a alma a Deus; +que tudo se me concedeu; e tanto que baixei, cortaram o cabo, e me +entregaram á disposição das ondas. Não perdi o animo, antes constante +soffri este golpe, esperando, que Deus olhasse para a minha causa; e +nadando a lancha livremente, na manhã seguinte de 4 de outubro, cheguei +por acaso a esta ilha, em que habito sem que no discurso de tantos annos +visse alguma creatura racional. Penetrei o interior, encontrando a +piedade nos brutos, que não experimentei nos homens; e descobri esta +concavidade, que a natureza devia ter obrado para meu abrigo. Aqui me +recolhi, aqui tenho passado tantos annos, sustentando-me com datiles, e +outras frutas. Vivo, e não sei para o que vivo; Deus sabe o para que.» + + +«O testemunho do narrador, confirmado por Manoel Antunes e João de +Arruda, assevera-me que se alguma vez houve D. Sebastião era aquelle. +Muito instaram os nautas que se deixasse levar a Portugal; «mas +elle--acrescenta o mestre do patacho _Nossa Senhora da +Candelaria_--encarecidamente nos pediu com as lagrimas nos olhos, que o +não precisassemos a tal jornada, pois não chegára ainda o tempo de +passar a Portugal; que pelo amor que nos tinha, o lançassemos, terra +firme, em qualquer parte da Africa; e que debaixo da palavra que lhe +haviamos de dar como portuguezes partiria comnosco; o que lhe juramos. +Perguntamos-lhe se tinha alguma cousa na sua cova, que embarcasse; e +respondeu, que desde que n'ella entrára não cuidára mais que viver para +Deus; e que todos os annos lavrava por suas mãos uma tunica de folhas de +palma, para cobrir honestamente o corpo; na cova não tinha mais que uma +cruz, que por suas mãos fizera de madeira; e que essa deixassem, para +que n'aquella terra ficasse o signal da nossa redempção; e quando ella +se povoasse nos tempos futuros se acharia tambem a noticia do seu +habitador. Embarcou-se comnosco, beijando a terra, com muitas lagrimas; +e fazendo-nos á vela, esteve em nossa companhia dous dias e meio, em que +nos contava monstruosidades d'aquella ilha; e satisfazendo ao seu +pedimento o lançamos em terra duas leguas distante de Arguim, +expondo-lhe os perigos a que se expunha, sem que o podessemos persuadir +a suspender o desembarque em terra de barbaros; ao que respondia, que +Deus que o conservára até aquelle tempo, o livraria de todos os perigos. + +«Despediu-se de nós com tantas lagrimas, e gosto, que bem mostrava as +saudades, que de nós levava, e o quanto se alegrava de passar áquella +terra. Abraçou-nos a todos, e saltando em terra, a beijou, e levantando +as mãos agradeceu a Deus as mercês que lhe fizera, e esperava receber da +sua piedosa mão; e penetrando aquella costa inculta, nos deixou sentidos +pela falta da sua companhia. Jámais podemos alcançar, o sabermos d'elle, +a sua patria, e nome; divertindo a resposta politicamente com tanta +gravidade, que nos não dava confiança, para instarmos; e sómente ao +despedir me disse, que a seu tempo o saberiam os nossos descendentes; e +dizendo-lhe eu nos consolasse ao menos declarando o tempo, nos disse: +que Deus o sabia. + +«Varios discursos fizemos sobre este homem, conservado por tantos annos +n'aquella ilha, e agora caminhando por taes desertos; e nos persuadimos +ser cousa maior. Deus o leve, e traga a salvamento.» + + +«Confronte agora v. as datas das sentenças dos tres pontifices, e +deprehenda que D. Sebastião, tendo corrido a Palestina e _varias terras_ +como elle disse aos marinheiros, muito é de crêr que estivesse em Roma +nas tres épocas assignaladas na sentença. + +«Quanto á circumstancia de estar então o rei bastante avançado na +idade--pois tinha 137 annos--isso é controversia que pertence á alta +philosophia e não ao calendario decidir. São os _porquês_ de Deus, dos +quaes, sobre o mesmo assumpto, escreveu o doutissimo padre Antonio +Vieira: + + +«Demais que os porquês de Deus são incomprehensiveis, e das suas razões +não póde o entendimento humano dar razão; quanto mais, que Deus Nosso +Senhor sempre faz as suas cousas grandes, e com grandes milagres. Bem +podia Deus dar no tempo do Anti-Christo padres, que a este prégassem, e +com tudo guarda ha tantos annos a Enoch e Elias: outras paridades podéra +trazer se a brevidade as permittira. + +«... Ou este rei morreu, ou não! Se morreu, aonde? Na batalha, ou fóra +d'ella? Se fóra d'ella, quem o testemunhou? Se morreu na batalha, como +não acharam os mouros o despojo, que tanto desejavam, e procuravam? Se +morreu no rio, como veio a sua espada? Como mandou o cardeal D. Henrique +aos que se fingiram reis inquirir e perguntar se eram o verdadeiro rei? +Se lhe a elle constára a sua morte, nunca fizera tal inquirição; e a +quem melhor podia constar, senão a elle? E bem se viu, que lhe não fez +exequias, nem officios, sendo um ministro da igreja, a quem +verdadeiramente tocava como rei, como tio, como prelado e por obrigação. +Mais: se morreu, como esteve depois em Veneza, e Napoles, preso e +desprezado, o que consta evidentissimamente, o qual successo refere +Lucio Floro nos seus _Annaes_, e D. João de Castro, que foi testemunha +de vista, o escreveu; e todas as circumstancias d'isso, e os prodigios, +que então succederam o confirmam, os quaes no quarto fundamento d'este +discurso mostraremos? Mais: que o snr. rei D. João IV o testificou e +contou, o que é uma mostra de evidencia certa, e outras muitas, que é +trabalhoso o referil-as por papel.» + + +«Responda-lhe, se póde. + + +«Muito venerador + + +«_Bibliophilo._» + + +Não tenho que responder. S. s.^a cuidará que eu sou menos sebastianista +que a sua pessoa? + +Já lhe disse que escolha uma das obras citadas, e... sabe que mais? +mande-as buscar ambas, que as merece. + + + + +DESGRAÇADO BALZAC! + +(Á _ACTUALIDADE_) + + +Tantas vezes o noticiarista repete que eu sou assignante do seu papel, +que parece estar-me convidando a declarar a razão por que assignei. + +Eu lh'a digo ao noticiarista. Foi para me regalar com as inepcias do +folhetinista. + +Quer-me parecer que os dous são um e mesmissimo tolo (com licença: não +diga que sou incivil). + +Se os dous não são homogeneos, então tenho centauro pela frente. Em +cima, no noticiario, está a porção humana do aborto; em baixo, no +folhetim, está (com a devida cortezia) a porção bestial do mesmo +centauro. + +Mas ha lanços em que o centauro se cabriola de feitio que a metade +debaixo esperneia em cima; e a gente, a meia volta, não sabe já onde +está o homem, nem onde está (com a divida venia) a bêsta. + +O noticiarista, que me dizem chamar-se Silva Pinto, consinta que eu, por +conveniencias da composição e da variedade da fórma, lhe não chame +sempre centauro e tolo. Obriga-me a pedir-lhe licença todas as vezes em +obsequio á urbanidade. O melhor é chamar-lhe, como variante, Silva +Pinto. + +O snr. Silva Pinto começou no n.º 16 da _Actualidade_ a traduzir +romances de Balzac. + +Ai da nomeada do eminente explorador da alma, se Balzac podesse +espelhar-se na fusca photographia que lhe tirou este encarvoador de +paredes caiadas! + +Eu não me despendo em considerações banaes acerca das difficuldades que +empecem trasladar a portuguez os livros de Balzac. + +Quem entende as galas dos classicos francezes, e as encontra condensadas +no author dos _Contes drolatiques_, ainda que lhe sóbre igual saber da +linguagem portugueza, ha de vêr-se em apuros para moldurar em estylo +vernaculo as concisões, os idiotismos, a energia, o atticismo de Balzac. + +Quem se afoutaria aos espinhos da empreitada? Um sujeito ignorantissimo +de ambos os idiomas: o snr. Silva Pinto. + +E, sem mais delongas, vou provar-lh'o. O leitor faça-me o obsequio de se +prover do n.º 16 da _Actualidade_, e abrir isso onde começa o martyrio +de Balzac. Não me demoro a mostrar-lhe que tudo ahi tresanda bafio +francez, sem um torneio de phrase portugueza, sem um resalto que denote +primor, ou sequer um dizer que não venha gafado de construcção +gallicista. Isso é o menos. Vamos ás tolices mais lerdas: + +Balzac, descrevendo um sujeito, a quem os seus amigos chamavam +_tempo-brusco_, dá a razão do epitheto n'estes termos: + +_Il ne se rencontre en effet chez lui ni lumière trop vive, ni obscurité +complete._ + +E vai agora o snr. Silva Pinto, parvoejando, traduz: + +_Effectivamente, estão banidas por elle de sua casa tanto a luz +demasiado viva como a escuridão completa._ + +Viram? _chez lui_--de sua casa. Incrivel! + +Balzac, interpretado por um portuguez medianamente versado na sua +lingua, quiz dizer: + +_Não ha que esperar d'este homem grandes luzes nem grandes trevas._ + +Mas... _a casa do homem_! Quando quiz Balzac saber se o sujeito tinha +luz ou estava ás escuras em casa? Quem estava em _escuridão completa_ +sabemos nós. + +Adiante. + +Balzac descreve uma senhora rodeada de homens desvanecidos, gentis, +espirituosos, de notavel fama ou nome illustre, de baixa e alta +condição, e acrescenta: + +_Auprès d'elle tout a blanchi._ + +O snr. Silva interpreta assim a phrase: + +_Tudo isto via embranquecer á beira d'ella os proprios cabellos._ + +Quer dizer: _áquelles homens, quando conversavam com aquella senhora, +embranqueciam-se-lhes os proprios cabellos._ + +Esta sandice faz-me compaixão. Se vejo outra assim, emigro. + +Balzac queria dizer: todos estes homens de prestigio, de galhardia, de +renome, aos olhos d'ella, _tout a blanchi_, «eram como se fossem +velhos». Não lhe inquietavam o coração, não lhe perturbavam a serena +indifferença, etc. + +Adiante. + +Referindo-se á insensibilidade d'esta dama, acrescenta Balzac: +_Certaines femmes coquettes sont capables de suivre ce plan la_. O +author quer dizer: _Certas mulheres galanteadoras tem artes de +dissimularem os mesmos geitos_; mas o snr. Pinto, subtrahindo o +_coquettes_ que dá o relevo ao confronto, diz espalmadamente: + +_Ha mulheres capazes de seguir... aquelle plano._ + +Chatissimo! + +Balzac diz que Eugène de Rastignac... _avait plus d'une fois regardé la +marquise de manière à l'embarrasser_. + +Traducção do centauro: + +_Olhava de quando em quando a marqueza de modo capaz de embaraçal-a._ + +Ha aqui um fartum de rapaz de escola, que faz engulho. Como é que os +olhos embaraçam a dama? Com os rudimentos da lingua, um traductor menos +soez diria: + +_Fitou-a algumas vezes de modo que a inquietou, ou enleou, ou +perturbou._ Abstenho-me de extrahir dos diccionaristas as indecencias +subentendidas na phrase _embaraçal-a_. + +Adiante. + +Balzac diz que o personagem _etait commodément assis, et avait les pieds +plus souvent sur ses chenets que dans sa chancelière_. + +O tal Pinto estraga d'esta arte: + +_Estava commodamente sentado e aquecia mais frequentemente os pés no +brazeiro do que no traste forrado de pelles, destinado para tal fim._ + +No traste forrado de pelles! + +_Chancelière_,--uma palavra diluida em nove! + +Podia elle, avisinhando-se da indole da lingua, traduzir _capacho_, ou +_ceirão de félpo_, ou _guarda-pés_, ou _pelliça_, por analogia com os +mantos forrados de pelles; mas... _traste!_ Salvo seja! + +E traduzir _chenets_ para brazeiro! + +Este brazeiro deu-lhe provisão para tolejar á larga, e afogar no +tinteiro as palavras que não percebeu. + +Logo em seguida, escreve Balzac: + +_Oh! avoir les pieds sur la barre polie qui reunit les deux griffons +d'un garde-cendre_, etc. + +Querem vêr o que é uma traducção sovina? + +_Oh! conservar os pés junto ao brazeiro..._ E acabou-se. + +Áquelles _griphos_ embucharam-no ao bom do Pinto! Passou por aquillo +como o leitor e eu pelas legendas arabes da sé velha de Coimbra. Com a +sua crystallina ignorancia, privou o leitor de entender o suave +sybaritismo do personagem que, refestellado na poltrona, recostava _os +pés no varandim lustroso que entre-une os dous griphos do cinzeiro_. +Percebeu elle que os fogões tem um receptaculo, que recebe a cinza, ao +través de uma grelha, e que os ha ladeados de figuras que formam entre +si o apoio dos pés? Não percebeu nada. + +Senhores leitores do Balzac, segundo a _Actualidade_: + +O homem que nos vai apresentar o author da _Comedia humana_, vestido de +farrapos bordalengos, é esse que ahi fica... _ás moscas_, até ao numero +seguinte. + + * * * * * + +Agora, duas palavras graves. + +O snr. Theophilo Braga mandou acorrentar este _house-dog_ á porta da +_Actualidade_. Fez mal. Eu tinha-me recolhido mansamente ao silencioso +espanto das arrancadas que os cafres faziam no campo arroteado pelos +Castilhos, Garretts, Herculanos, e outros somenos lidadores d'essa ala +que ahi está exposta ás injurias de tanto biltre. Era meu proposito +deixal-os cavar a sepultura d'elles com o seu proprio escoucear +phrenetico. + +Logo, porém, que o rafeiro mais refilado da matilha me latiu á sombra, +quando eu nem sequer o estremava dos anonymos que desprezo, +sacudil-o-hei á cara dos que o açulam, e fal-o-hei portador das minhas +caricias aos que o alimentam, em conformidade com o proverbio: _An +hungry dog will eat dirty pudding._ + + + + +OS 2 JOAQUINS + + +Um é o arranjador dos _Musicos_ e de outras maravalhas. + +Outro é Theophilo que tambem é _Joaquim_. + +E tambem é _Fernandes_. + +Expungiu o nome e o appellido, logo que se aforou em letras. + +_Joaquim Fernandes_ era a parte chata do sujeito. + +Desfez-se d'isto, poz-se ás cavalleiras do genio, e apregoou-se +_Theophilo Braga_[8]. + +Aviso á posteridade: + +Elle era Joaquim! + +A fatalidade dera 2 a Portugal, no mesmo seculo. + +Gemeos, homogeneos, homonymicos, productos de gravidez longa, parto +feito a urros, ferozes no nascedouro, ringindo com dentes anavalhados, +ao tempo que a lisonja os lambia, para os ageitar, como a ursa faz aos +seus cachorros. + +E que cachorros! + + * * * * * + +Nem os sepulcros respeitam. + +Remetteram contra um, simultaneamente, os 2 Joaquins. + +A sepultura era de gigante que o leitor, se não o viu, ainda o vê na +projecção da sua imagem pelas paginas do livro amado. + +Chamára-se, n'esta vida, ALMEIDA-GARRETT;--e chama-se hoje a gloria +imperecedoura de Portugal. + +O Joaquim, que se expurgou de Fernandes, para escoucear o cadaver de +Cesar, disse... + +Mas, antes de reler-se o que elle disse, veja-se o que escreveu o editor +de _Helena_, romance posthumo e incompleto do author de _Fr. Luiz de +Sousa_: + + +«Acabava o anno de 1854; ás primeiras cerrações do outomno inclinára +mortalmente a fronte o snr. visconde de Almeida-Garrett, sentindo no +coração os aggravos da doença que, dentro em pouco e para sempre, havia +de apagar-lhe a luz dos olhos. + +«Cresceu o mal. Imminente o perigo, durante os poucos mezes em que a +vida lhe fugia, quiz o nobre enfermo dizer o ultimo adeus ás queridas +producções do seu elegante espirito. Era então que a voz quasi infantil +da filha idolatrada lhe dizia os seus livros todos; foi então que, +revendo o archivo dos seus papeis, elle rasgava os que não deviam +sobreviver-lhe, guardando aquelles que, de mão propria, legava á +posteridade. Era um sol no occaso, revendo-se na luz immensa com que +alumiára a patria. + +«Finda a leitura, prompto o legado, extinguiu-se aquella existencia +esplendida, abraçada á cruz de Christo, abençoando a herdeira do seu +nome, e embalada pelos cantos da sua propria harpa. Fim sublime! Sentiu +no ultimo suspiro,--o seu credo, o seu génio e todo o seu coração.» + + + +Agora, Joaquim Theophilo, interpretando com gaiata solercia as palavras +de C. G., genro de Garrett e editor de _Helena_: + + +«Elle escreve alludindo á morte de Garrett: «Era um sol no occaso +_revendo-se na luz_ immensa com que alumiava a patria.» E em seguida: +«extinguiu-se aquella existencia esplendida _abraçada á cruz_ de +Christo...» + + +E ajunta o pellitrapo das letras com brutalidade manhosa: + + +«É de crêr que não haja aqui intenção maliciosa, mas desperta +insensivelmente o dito celebre de Rodrigo da Fonseca Magalhães.» + + +É impudor glosar essa sordicia que ahi fica. Ninguem se demora a +observar um cão resêcco, pilharengo, derreado, chagoso, que lambe +faminto a sangueira negra de um matadouro. + +Até os ossos de Rodrigo da Fonseca lhe serviram á gargalhada! + +Nunca o honrado estadista proferira o tal motejo que lhe assacaram, +estando Garrett na agonia da morte. + +Garrett morreu entre dous amigos e duas irmãs da caridade. + +Eu perguntei a um dos intimos de Fonseca Magalhães, ao desembargador +Northon, se o seu amigo proferira o gracejo tão celebrado. + +--Não--respondeu elle--mal sabe a dôr que eu involuntariamente causei a +Rodrigo, quando lhe repeti a proterva zombaria que lhe attribuiam. + + * * * * * + +Agora, o outro Joaquim, o musicógrapho. + +Escrevi em um livro estas linhas em fórma de carta a um amigo: + + +«Sabes tu o que eu queria roubar á gaveta de José Gomes Monteiro? As +cartas de Almeida-Garrett, as confidencias d'aquelle immenso genio, que +se expandiam na alma e intelligencia de José Gomes Monteiro. Estas +seriam as paginas de ouro da biographia de ambos. Uma sei eu que existe +em que Almeida-Garrett, em perigo de vida ou previsão de morte proxima, +encarrega o seu amigo de defender-lhe a honra e a fama assim que a pedra +sepulchral lhe vedar o direito da defeza. Que sublime legado! que +legitima e jubilosa vaidade para o coração honrado e generoso de José +Gomes Monteiro![9]» + +E vai agora, o dos _Musicos_, péga de Garrett, adormecido, havia 19 +annos, no sagrado somno dos mortos santificados por saudade, talento e +veneração, e enxovalha-o d'esta arte: + + +«Sim, senhor, basta isto para nos pintar o janota de 55 annos, que, para +brilhar como um _vieux vert_ aos olhos das _petites maítresses_ de ha 30 +annos, não teve vergonha de pintar as suas barbas com elixires, dando +com a sua vida airada a confirmação de que o _genio immenso_ precisa da +_bohème_ para a sua inspiração, etc.[10]». + + +Alma e linguagem travam-se aqui de mão, e medem a sciencia e a educação +do sujeito. Este snr. Joaquim usa gravata, e não me consta que passasse +a infancia gandaiando nas escadas dos Congregados. Foi educado na +Allemanha, por não caber (diz elle) _nos focos de immundicie physica, +moral e intellectual de dous ou tres collegios do Porto onde o haviam +mettido_[11]. Já vêem que o homem é limpo. Depois, veio á patria para se +formar em Coimbra; e, como aquillo de Coimbra lhe cheirasse aos +collegios do Porto, foi-se embora, e abriu, por sua conta, universidade +de frandulagens no Porto, com succursaes em Allemanha, França, etc. + +Não só é conhecido mas até soffregamente lido em Paris. + +Elle mesmo nos conta esta cousa no livro onde estou esgaravatando: + + +«Voltamos serenamente aos nossos trabalhos sobre a _Archeologia +artistica para darmos_ a nova edição critica do _Catalogo da livraria +d'el-rei D. João IV_ que, _como sabemos_ pelo nosso sabio amigo Mr. +Ferdinand Denis, é esperada com impaciencia em Paris.» + + +Viram? _com impaciencia_. + +Era em 1872, quando ainda o coração e o cerebro da França vibravam nas +angustias do opprobrio nacional, da luta fratricida, da devastação, do +petroleo, da ingente miseria das viuvas e dos orphãos. Pois, em meio de +tanto horror, a unica esperança que, a intervallos, dava palpitações de +gaudio a Paris era a impaciencia das turbas, com os olhos postos no +occidente, á espera do livro do nosso, tão nosso, Joaquim! Cada vez que +chegava á capital da França a mala de Portugal, as multidões +acotovelavam-se frementes á porta do Mr. Ferdinand Denis, amigo do +sobredito, e, ullulando insoffridas, pediam o _Catalogo_. O sabio +francez linimentava com promessas o phrenesi da academia e dos +institutos; as massas debandavam; e depois, recolhido ao seu gabinete, +Mr. Denis pedia novamente o _Catalogo_ ao lusitano Joaquim, pintando-lhe +com termos não encarecidos a impaciencia dos seus. + +Aqui está quem é o homem lá fora, e cá dentro. + +Elle embirra com a maioria do publico portuguez; e justifica a birra +n'estes termos: + + +«Porque lhe antepomos um ideal que elle não quer ter[12].» + +Então? fazem favor de aceitar o ideal que lhe antepõe o snr. Joaquim? +Elle não sabe a significação do verbo _ante-pôr_; mas imagine-se que +quer dizer o que a palavra não diz; presuma-se que nos _offerece_ um +ideal, por um preço razoavel. Que duvida temos em haver ás mãos isso que +o rapaz nos trouxe de Hamburgo, em vez de nos trazer dous costaes de +queijos? Ha de haver muito quem antes quizesse, em vez do _ideal_ +anteposto, uma _idéa_ de servir; mas, se Joaquim dá _ideaes_, peguem +n'elles, antes que o homem os exporte, como cá fazem aos bois gordos que +os nossos magarefes não aceitam pela taxa de Londres, posto que lh'os +anteponham. + +É o diabo este homem! Má mez p'ra elle! + +Lá que o rapazola verbere os escriptores vivos que lhe não aceitam o +ideal, é bem feito. De Mendes Leal, por exemplo, diz que é _uma +antigualha que só apparece nos leilões dos burguezes de ha 40 annos_. De +Castilho diz que lhe riscára o nome, depois que o outro Joaquim _lhe +applicou o processo_. (Ai d'aquelles a quem o outro applica processos! +_Eheu!_) De Herculano diz: «está decrepito». Todos estes e outros de +menos porte são os relapsos do ideal de Joaquim; mas Garrett e Rebello +da Silva? Um era já morto; o outro fallecia quando o enxovedo alvorejava +n'este novo dia da sciencia patria. É crueza injurial-os, posto que +Joaquim Theophilo Fernandes lhes haja _applicado o processo_. + +Este Fernandes já processou o Herculano, e disse: «O snr. Alexandre +Herculano nunca teve vocação litteraria[13].» E o _Eurico_? E a +_Abobada_? E o _Monge de Cistér_? E o _Bobo_? e a _Historia de +Portugal_? e a da _Inquisição_! e a _Harpa do crente_? Cuida o leitor +que é mister vocação litteraria para escrever estas cousas? Não, senhor. +Estes livros só os escreve quem a não tem. O snr. Herculano, se tivesse +vocação litteraria, fazia umas botas. + +Parte d'aquellas obras diz Fernandes que é glosa da _Notre Dame_ de +Victor Hugo. + +_Eurico_ é a variante do typo de _Claudio Frollo_; + +O _Monge de Cistér_ é variante da paixão de _Esmeralda e de Phebus_; + +O _Bobo_ é o desenvolvimento de Pierre Gringoire; + +A _Historia de Portugal_ é apenas a historia dos concelhos precedida da +biographia dos reis. + +Depois, escalpella-lhe a linguagem, e diz que o seu estylo _só se +admitte nos rapazes de escóla_[14]. + +O leitor está em dizer que este Joaquim parvoeira tão fóra dos termos +concedidos aos sandeus que a policia não deve ser estranha ao escandalo. + +Mas, n'este comenos, apparece um tal Adolpho Coelho, e diz: + +É _Theophilo Braga evidentemente um dos homens mais notaveis que +Portugal tem produzido n'este seculo_[15]. + +--E quem é Adolpho Coelho?--pergunta o leitor. + +Vem Theophilo, e responde: + +É o _introductor da sciencia da philologia comparada em Portugal_[16]. + +Todos estes Joaquins é que sabem lá uns dos outros. + +Juntam-se ás vezes e perguntam entre si: + +_Theophilo a Coelho_: Quem és tu, ó aquelle?--Resposta: Eu sou o +introductor da philologia comparada em Portugal. + +_Coelho a Theophilo_: E tu?--Resposta: Sou um dos homens mais notaveis +que Portugal tem produzido n'este seculo. + +_Joaquim dos Musicos a Joaquim dos Mosárabes_: Quem sou eu?--Resposta: +És o musicógrapho, e o inventor dos imperativos _sejai_ e _estejai_. + +_O 2.º ao 1.º Joaquim_: E eu?--Tu applicas processos, e eu risco os +nomes. + +Ó pandegos, ó lombrigas que roeis o intestino recto da Minerva! Ó +Joaquins! Eu vos arrenego! + + [8]No _Diccionario bibliographico_ do snr. I. Francisco da Silva, é + conhecido por _Joaquim Theophilo Fernandes Braga_. (Veja + Supplemento). + + [9] _Esboços de apreciações litterarias._ + + [10] _O consummado germanista_, por Joaquim do Vasconcellos, pag. + 50. + + [11] _Obra cit._, pag. 2. + + [12] _Obra cit._, pag. 9. + + [13] _Bibliographia critica_, pag. 106. + + [14] _Obra cit._, pag. 200 e 201. + + [15] _Obra cit._, pag. 215. + + [16] _Obra cit._, pag. 253. + + + + +FLORES PARA A SEPULTURA DE FERREIRA RANGEL + + +É o snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos que m'as envia. Irei +levar-lh'as. Conheço a valia que principia a hervecer. As côres alegres +da esperança cobrem a podridão. + +Estão como a dizer-nos que o viver é olhar para diante e para os vivos; +e nada de mortos nem de saudades. Iremos levar-lhe as flôres do seu +amigo da mocidade. + +Antonio Augusto escreveu, a respeito de Ferreira Rangel, no seu _Jornal +da Noite_, uma pagina assignaladamente formosa e triste. Alli ha +coração, ha lagrimas, ha o que quer que seja que resgata o delicto da +imprensa, silenciosa, na morte de um valoroso obreiro da liberdade, e +modesto cultor das letras. E, ao proposito de letras, acrescentarei que +Ferreira Rangel, nos derradeiros annos da vida, tinha uns cem volumes de +obras portuguezas mais de sua feição; e, quando expirou, esses cem +volumes estavam empenhados para o custeio dos ultimos caldos. + +Indemnise-se a indigencia d'este homem de bem com a riqueza do alto +louvor que lhe apregôa um brilhante espirito a quem não se escondem as +desventuras alheias, nem esmorece o brado a favor dos desvalidos. + +Estas são as palavras pungitivas e eloquentes do grande escriptor: + +.......................................................................... + + +«Não succedeu porém outro tanto com o artigo intitulado FERREIRA RANGEL. +Ahi assaltou-nos a saudade do homem, a recordação de obsequios +recebidos, a magoa da sua desventura, e não podémos, nem quizemos conter +as lagrimas. Se é vergonha chorar, diga-se que é a mais viciosa vergonha +inventada por homens. + +«Conhecemos aquelle Francisco Ferreira Ribeiro Pinto Rangel em 1834. +Ainda morava a Santo Antonio do Penedo em uma especie de ilha sem mar +entre o convento de Santa Clara e o palacio dos Vieiras de Mello, então +habitado pelo visconde de S. Gil de Perre, depois marquez de Terena, e +agora pelo snr. visconde de Azevedo. A supposta ilha era formada, se a +memoria nos não engana, pela capella de Santo Antonio e pela casa do +chamado _escrivão fidalgo_ cujo brazão recentemente collocado alvejava +na frontaria. + +«Ferreira Rangel tinha servido em um dos batalhões do Porto durante o +cerco, e era liberal enthusiasta. Ainda trajava o uniforme militar, e +apparecia nos theatros, nos passeios e em todas as reuniões. Não lhe +chamavam _janota_ porque a palavra estava por cunhar na casa da moeda da +vernaculidade. Os seus principaes companheiros eram Nicolau Coquet Pinto +de Queiroz que foi depois empregado da camara municipal, e talvez já não +viva, e Antonio Joaquim Carneiro Homem que foi acabar a vida em +Moçambique, provido no mais reles emprego da provincia em recompensa de +varias feridas recebidas no cerco e de ter gasto na defeza da liberdade +toda a sua fazenda. O ministro que o despachou, envergonhava-se de +empregar tão mesquinhamente homem de taes serviços. Era o snr. Mendes +Leal. Mas não havia outro emprego, e o pobre voluntario liberal não +podia esperar. Tinha mulher e filhos, e já não tinha pão nem calçado. + +«D'esses tres homens o que tinha imaginação mais viva, enthusiasmo +vigoroso, e propensões litterarias era Ferreira Rangel. O seu amor á +liberdade não tinha limites, e como era amor sincero, muitas vezes o +impelliu a expôr a vida para salvar da furia brutal dos exaltados os +proprios adversarios contra quem lutára havia pouco nas linhas do Porto. +Alguns cavalheiros das provincias do norte lhe deveram n'esse tempo +assignalados serviços. A generosidade do coração era n'elle igual á +coragem e valentia. + +«Uma noite desciamos a rua do Bomjardim onde moravamos, e ao dobrar a +esquina da rua do Bolhão vimo-nos cercados por quatro scelerados que +tomando-nos, apesar de imberbe, por algum temeroso capitão das hostes +realistas, iam demonstrar-nos com argumentos de carvalho-cerquinho a +excellencia do governo liberal, e induzir-nos a crêr que os caceteiros +azues e brancos não ficavam a dever nada aos seus predecessores azues e +encarnados. + +«Subia a rua Ferreira Rangel e chegava ao sitio do combate; quando o +rapaz de 18 annos principiava a rebater, como podia, a crua dureza +d'aquelles argumentos. O mesmo foi advertir no caso que saltar ao meio +do grupo, deitar por terra um dos aggressores, ferido de tremenda +bofetada, e obrigar os outros a fugirem, envergonhados mas resmungando. + +«Conservamos sempre relações com este excellente homem. Depois de 1839 +nas ferias da universidade, iamos sempre visital-o quando passavamos no +Porto. Desde 1850 nunca mais tivemos noticias d'elle. Quando agora lêmos +no livro do snr. Camillo Castello Branco a commemoração da morte de +Ferreira Rangel, desvalido, ignorado, e conduzido na tumba dos pobres +entre quatro tochas desde a rua Chã até ao Prado, sentimos não ter +estado no Porto n'esse dia para acompanhar á derradeira morada aquelle +homem desditoso. + +Está explicada a sensação que nos causou o artigo FERREIRA RANGEL. +Permitta o snr. Camillo Castello Branco que entre o ruido surdo da +enxada do coveiro alizando o comoro de terra sobre as taboas chuviscadas +do caixão, e o silencio eterno do mundo, se levante a nossa voz a +prestar á memoria do morto a homenagem da gratidão que lhe deviamos. + +«D'esta vez a _alçada da imprensa chegará até ao esquife do defunto_, e +derramará sobre elle sinceras lagrimas de saudade e de reconhecimento.» + + + + +O MYSTERIO DA CASTANHA + + +No estimavel livro das _Cartas familiares_ de D. Francisco Manoel de +Mello, ha uma que estimulava fortemente a minha curiosidade, sempre que +a lia. É a LXXIV da _centuria segunda_, escripta _a um amigo que passava +á provincia da Beira_. A carta é breve, e diz assim: + + +«Que vos hei de dizer? senão que vos vades embora, que estejaes pouco, +que vos lembreis de mim. Não sei certo se se diz mais nas partidas: que +eu, de puro estar, já não sei se como a gente se despede[17]. Só vos +peço que, pois ides para terra de muitos castanheiros, me não caseis lá +com alguma Maria Castanha; _cujo tempo parece que tornou agora, porque +aqui entre nós o fez assim.... Mas que muito, se traz o diabo aos pés, +que o fizesse resvalar e cahir? salvo na conta_. Ide com Deus, senhor +meu, e tende em tudo tão bom successo, que vos pareça a Beira mal, e +volteis logo. Nosso Senhor, etc. Torre em 15 de maio 1646.» + + +As palavras grifadas eram o meu enleio. Toda a minha scisma laborava em +saber o nome rebuçado n'aquellas reticencias, a razão por que o sujeito +trazia o diabo aos pés, e que casta de pessoa era aquella Castanha +casada com o anonymo, forçosamente individuo de alta prosapia. + +As pessoas de siso, que leram esta carta enigmatica, de certo não moêram +sua paciencia a farejar-lhe o escandalo; eu, porém, que não posso +dormir, e acordo os mortos para conversarem commigo á hora em que os +vivos dormem, necessito saber por inteiro o viver das pessoas com quem +estou relacionado. + +E, por tanto, á custa de muito averiguar, e bisbilhotar com os +contemporaneos do illustre encarcerado da Torre Velha, logrei +decifrar-lhe a carta. + +As reticencias encobrem o nome de Francisco Botelho, primeiro conde de +S. Miguel. Por ser de _S. Miguel_, é que D. Francisco lhe põe o diabo +aos pés. + +Temos o nome do mysterioso personagem. + +Saibamos agora quem era a _Castanha_. + +Era Ignez de Almeida, filha de Manoel Castanha, escrivão em Lisboa. + +Ignez era formosa e honesta. + +O conde de S. Miguel, já viuvo de D. Isabel de Mendonça, filha do +segundo conde de Penaguião, apaixonou-se por Ignez. Frustrados na +esquivança da moça todos os artificios do ouro com o prestigio da +pessoa, o conde accedeu á condição que ella estipulou: o casamento. + +Divulgou-se em Lisboa o disparatado consorcio, que toda a fidalguia +censurou, e D. Francisco Manoel metteu a riso, dando o noivo como +resvalado e cahido por cambapé que lhe fez o diabo. + +No entanto, o escrivão Castanha rejubilava por se vêr tão egregiamente +aparentado. + +Volvidos dous annos, apaixona-se o conde por D. Isabel Cecilia de +Tavora, filha herdeira de Alvaro Pires de Tavora. + +Este fidalgo com os da sua parentella, e com os estranhos, +escandalisam-se do proceder deshonrado do marido da Castanha, o qual +ousa requestar uma donzella de primeira linhagem. + +O conde defende-se, publicando que não é legitimamente casado com Ignez +Castanha. + +E, feita a infame declaração, separa-se d'ella e do filhinho, que se +chamava Nuno. + +Ignez, ferida no coração e na honra, protesta que é legitima esposa do +conde de S. Miguel. + +Instaura-se demanda. + +O conde confessa então que, na verdade, fizera um simulacro de +casamento, mediante um padre fingido, que era seu criado, com corôa +rapada, e vestido sacerdotalmente. + +A justiça aceitou a confissão do conde, confirmada pelo parocho fingido +e pelas testemunhas da tromoia. + +Sentenciada a nullidade do casamento, cuida o leitor que o conde foi +obrigado a revalidal-o, ou a seguir o seu criado e as testemunhas para o +degredo? + +Não, leitor pio. + +A fidalguia restituiu ao seu parente a dignidade abalada pelo supposto +consorcio com a Castanha. + +A lei desquitou-o da pobre senhora, cujo delicto estava santificado por +ignorar que no mundo havia tamanho infame. + +Porém, como ella tivesse um filho, a sentença mandou que esse menino, D. +Nuno Alvares Botelho, fosse considerado legitimo filho do conde de S. +Miguel. + +Ignez lá se foi amparar nos braços de seu pai, o plebeu, a quem Deus +inspiraria ternuras que despontassem os espinhos da sua corôa de +condessa ridiculisada pela sociedade. + +Desembaraçado e readmittido á estima dos Tavoras, o conde casou com a +tal Isabel Cecilia, de quem houve um filho que foi segundo conde de S. +Miguel. + +Quanto ao filho de Ignez, sabemos que viveu com pouco luzimento e +escassos haveres. Casou com D. Luiza de Moura, filha de Antonio +Castanheira de Moura. Teve dous filhos e cinco filhas. Um dos rapazes +chegou a general na India. O outro casou com uma filha do capitão-mór de +Goes, Antonio Barreto Perdigão. Uma filha casou, e das outras quatro +ignoro o destino. + +Esta linha, derivada da fraude e do vicio mascarado com a batina e +sobrepeliz, desappareceu: era justo. Na outra, que é a legitima e +consagrada pelo padre authentico, é que está o setimo conde de S. +Miguel, que--ainda bem!--não tem que vêr com a Castanha, zombeteada por +D. Francisco Manoel. + +Ora eu presumo que este fidalgo, que escreveu tão piedosas cousas a +respeito de Santo Agostinho, quando soubesse que a supposta condessa de +S. Miguel fôra apenas uma inconsciente concubina do seu torpe seductor, +espantar-se-hia de se vêr a si entre ferros, e ao outro nos braços de D. +Isabel de Tavora! + + [17] Ia no seu 4.º anno de prisão D. Francisco Manoel. + + + + +BEM VINDO! + + +Brindo o leitor com o capitulo primeiro d'um livro que ha de chamar-se +OS SALÕES. + +Firma-o--escuso apresental-o--um nome que, ha vinte annos, alvoreceu por +entre duas formosissimas auroras: a das letras amenas, e a dos triumphos +forenses. + +O visconde de Ouguella esteve já a meio caminho da montanha fragosa por +onde se trepa a outra ordem de mais estrondosa celebridade. Por um triz +que o não enxertam na estirpe tyrannicida dos Harmodios e Catões. + +O governo, o delegado, a côrte e o Moraes do _Mosquito_ principiavam a +desbastar-lhe o marmore para o nicho no templo da Memoria, quando vem o +jury, e nos diz que o visconde de Ouguella nem queria matar el-rei nosso +senhor, nem vender-nos a Castella, nem frigir em petroleo as nossas +carnes, mais ou menos pingues. + +Esta decisão abriu um sorriso de socegado contentamento desde o poço do +Borratem até á rua da Betêsga, não ha duvida; mas o visconde achou-se de +repente reduzido sómente á celebridade que tinha: a do talento. + +Um d'estes dias fui vêl-o a Lisboa. Achei-o na sua livraria, entre dous +bustos de bronze que projectavam sobre elle umas sombras verde-negras, +que lhe davam toques de luz sinistra. Os bustos figuraram-se-me de +Ravaillac e Fieschi--os regicidas. + +Passados alguns minutos, afiz-me áquella meia luz crepuscular descórada +pelos bronzes, e o meu coração e o meu figado aquietaram-se. Os bustos +representavam a primor os dous estadistas mais philodynastas que deu +Portugal: o duque de Palmella e Rodrigo da Fonseca Magalhães. O +visconde, que, ao principio, me pareceu, nos tufos hirtos e espessos do +seu cabello, o que quer que fosse de Mirabeau, já me transluzia no +semblante o sorriso amoravel com que alumia o caminho de sua alma aos +que lá sabem ir pela lealdade do coração. + +Relancei os olhos, ainda suspeitosos, á sua banca, e vi papeis escriptos +recentemente. Com a liberdade de condiscipulo desde a escóla, +inclinei-me sobre o manuscripto, e li no alto de uma folha de almasso: +OS SALÕES. Depois li o capitulo, que era o primeiro; dobrei-o, metti-o +na algibeira, resolvido a estampal-o entre as minhas insomnias, como um +despertar alegre, lucido e côr de rosa, entre dous pesadelos. + + + + +OS SALÕES + + +CAPITULO I + +FATUM + + Pour connaitre les hommes, pratiquer les femmes; pour connaitre les + femmes, pratiquer encore les femmes: c'est la sagesse des nations + folles. + + * * * * * + + La femme est le dernier mot du Créateur. Le grand maitre avait + d'abord sculpté les mondes, puis le mastodonte, puis l'aigle, puis + l'homme; il termina par la femme. Ce fut alors qu'il se reposa pour + se contempler dans son oeuvre. + + ARSÈNE HOUSSAYE. + +O esboço é tudo. + +A esculptura, a sciencia, a pintura, a litteratura e a propria vida +começam pelo embryão. + +Deus mesmo não cria de repente uma obra prima:--como todos os artistas, +principia pelo esboço. + +A propria luz tem os seus arreboes, annuncia o seu alvorecer, tem as +suas auroras, prepara-nos as suas alvoradas, insinua-se pelos cambiantes +anacarados dos tons pallidos e transparentes da madrugada, formula o +_fiat lux_ biblico, antes de se espargirem os seus opulentos e +brilhantissimos raios por sobre as magnificencias do universo. + +Começar pelo esboço--no presente livro--era consultar as sibyllas da +cidade antiga, as pythonissas que enunciavam a palavra divina, escutar +os oraculos dos templos de Delphos e de Epheso, ouvir as Egerias do +porvir, antes de dar a lume o manuscripto de João Aleixo de Castro +Pimentel e Figueiredo. + +Assim fiz. + +Conta-se d'um povo d'Asia, que promettera o diadema de rei ao primeiro +que, em determinado dia, visse nascer o sol. Correram á praça publica os +ambiciosos da purpura real, e em quanto todos filavam o oriente, houve +um, dos mais avisados, que, voltando costas ao berço do luzeiro +esplendido da terra, pregou os olhos nas arrendadas cupulas d'um +elegante e sumptuoso edificio, que demorava ao occidente. + +Foi este que alcançou a corôa. As primeiras frechas de ouro, +arremessadas pelo astro supremo do dia, vieram cravar-se no topo das +elevadas torres d'aquelle templo pagão. + +O passado vencera, aqui, o futuro. + +Sirva a lenda, n'este estylo e perfume oriental, para explicar o meu +singelo proceder. + +Quiz ouvir os murmurios das épocas, que passaram, e que vão perdidas na +escura noite dos tempos. Desejei escutar o trabalho ruidoso dos seculos +que vem, as promessas do futuro, os periodos que se desdobram, e +desenrolam nos horisontes rasgados da nossa idade, pela voz authorisada +e prophetica dos que riram, e dos que soffreram. + +Foi por isso, que consultei a marqueza de ***, e a condessa de ***. + +Uma é a religião austera do passado, cheia de nobilissimas tradições, +personificação viva da côrte antiga, reflexo ainda esplendoroso da +fidalga portugueza, na altivez das fórmas, na elegancia do dizer, na +familiaridade estudada do trato, na urbanidade singela das maneiras, e +no preito pago constantemente a tudo quanto é grande, nobre e generoso. + +A outra, a condessa, senhora da mesma época, nascida, e educada no +centro da mesma sociedade--permittam-me este desalinho de phrase--é, +como a estatua da liberdade, erguida sobre um pedestal de marmore de +Carrara ou de Paros, esquecendo a proposito os pulverulentos pergaminhos +d'outras eras, e os emblemas heraldicos da sua nobillissima familia, +para se lembrar sómente que é ella, esta excellente senhora, uma das +mais illustres victimas das tremendas e formidaveis lutas de +emancipação, por que combatemos e batalhamos ha um seculo. + +Sentei-me a seu lado, e escutei-as alternadamente. + +Uma fazia-me curvar de joelhos, respeitoso, e reverente, ao rememorar o +passado. A outra robustecia, em mim, este preito, que eu presto +diariamente á imagem sacrosanta da liberdade. + +A distincção, a grandeza do porte, a inimitavel polidez, a admiravel +cortezia, a elegancia incomparavel, e as fórmas obsequiosamente +aristocraticas são as mesmas. + +Mas a marqueza soffreu, e soffreu muito pelo antigo regimen. + +A condessa habitou, em tristezas amargas, e com dôres excruciantes, as +cadêas da côrte pela liberdade. + +Uma é a vestal antiga, espiando, sentinella irreprehensivel, junto do +fogo sagrado, se a scentelha divina vai apagar-se, e prompta a +acudir-lhe, solicita, para que o facho se conserve acceso, e immaculado, +na urna etrusca em que brilha e resplandece. + +A outra é a musa da democracia--risonha, serena, e impassivel, quer no +carcere, gemendo pela ousadia das suas crenças liberaes, quer a cavallo, +com os cabellos desprendidos ao vento das batalhas, sofrega do ruido, e +do pó e fumo dos combates, ao lado do homem, que o seu coração elegeu +para esposo, e que foi, Achilles d'esta Iliada, um dos heroes nas +epopêas da nossa liberdade. + +E com o mesmo respeito, com a mesma attenção, e com a mesma homenagem li +a estas duas illustres senhoras o manuscripto achado na gaveta do meu +contador. + +Eu respeito todas as crenças. + +Onde ha uma alma, que se eleve nas aspirações grandiosas do futuro, onde +ha um coração, que saiba palpitar, com enthusiasmo, na vasta arena de +todas as religiões do sentimento--ha, ahi, de certo, uma individualidade +marcada com o sello divino. + +O Senhor, na omnipotencia dos seus impenetraveis designios, curvando-se, +em toda a sua magestade, no centro do universo, escuta o ruido surdo, e +imperceptivel para ouvidos humanos, da herva ignorada, e rasteira, que +rasga a custo os seios da terra, e ouve a prece fervorosa, e ardente da +alma, que, em effluvios d'amor, se desprende das vaidades do mundo, e +sobe até ao seu throno de gloria. + +Só a hypocrisia, e o scepticismo são vis. + +Não condemnemos crenças, nem aspirações. + +Tenho medo que o credo de hontem seja o anathema de ámanhã. + +Apavora-me o receio de que o axioma de hoje, da actualidade, seja a +mentira, e a blasphemia do futuro. + +Depois de Platão, d'Aristoteles, de Socrates e de Christo, que sabemos +nós mais do mundo moral? + +Newton, Galileu, Harvey, Cuvier, Laplace, Spinosa, Kant, Proudhon e +tantos outros, n'essa pleiade immensa de illustrações, que vão +atravessando os seculos, e renegando symbolos e credos, que passaram, +são, para mim, a demonstração irrespondivel d'este clamor da +consciencia. + +Basta. + +Volto ao manuscripto. + +No pendor d'uma das montanhas sobre que está edificada Lisboa, no ponto +mais suave da encosta, levanta-se um palacio, cuja apparencia é modesta. + +Ahi vive a marqueza. + +Sobe-se uma escada de marmore á esquerda d'um pateo, que conserva todas +as tradições arabes. No patamar superior rasga-se am corredor sombrio, e +pouco alumiado, que conduz a uma saleta onde as elegancias modernas nada +teem que vêr. + +Este aposento não o adornou Gardet, nem o forraram os estofadores mais +afamados dos nossos tempos. Foram os seculos, que o vestiram, que o +alindaram, que lhe cobriram as paredes, e que lhe deram aquella +austeridade de ornamentação, disposta alli por varias gerações. +Ligam-se, e ajustam-se uns aos outros, em severas molduras d'ebano, os +retratos dos avós d'esta illustre familia. Ao lado d'um camarista de +Carlos III, de Hespanha, sorri, em vestuario de côrte, um cavalleiro de +S. Thiago, filho segundo d'esta nobre estirpe. Em convivencia com um +mimoso pagem do Escurial apruma-se, vigoroso e forte, um rico-homem de +Castella, envolto no arrogante e opulento manto de grande de Hespanha. E +as senhoras, oriundas de tão distinctos appellidos, adornadas com as +telas e estofos preciosos de épocas, que já acabaram, parecem estremecer +de jubilo, e anciarem pelo futuro d'aquelles tempos, que são hoje, para +nós, o passado, e a cinza d'aquelles cadaveres. + +Foi ahi, n'essa saleta, respirando aquelles perfumes do seculo +preterito, que li á marqueza o manuscripto de que sou legatario por +direito de conquista. + +A marqueza, se eu não quizera chamar-lhe a tradição viva, a imagem da +luz diffusa, que se vai immergindo no oceano das nossas tradições +heraldicas, e dos brasões esculpidos nas abobadas dos paços de Cintra, +seria, ainda assim, um reflexo da bondade divina. + +Encostada a uma bengala, cujo castão era uma maravilha artistica de +Benvenuto Cellini, envolta em vestes negras, que a acompanham desde a +sua viuvez, sem lhe occultarem a altivez das fórmas, e a superioridade +da mais elevada distincção, ouviu a marqueza, attenta, a leitura dos +trabalhos do desembargador. Sorriu-se ao chegarmos á conclusão, e soltou +apenas estas palavras, fitando os seus avós: + +--Visconde, ouça, e aconselhe-se com as illustrações do seculo. Eu sou o +passado. Bata á porta da actualidade. + +Beijei-lhe a mão, que a marqueza me estendeu com a elegancia da sua +primorosa educação, e sahi, curvando-me perante a grandeza d'aquelles +nobres instinctos, e suavidade de fórmas, que vão perdidas no nosso +seculo. + +Ao levantar o reposteiro, onde o brasão de familia, bordado em lãs +finissimas, brilha no centro dos panos, que rastejam, em vastas pregas +franjadas, n'aquelle recinto, que é um salão de antepassados, um +verdadeiro solar, vedado a olhos profanos--ouvi a voz branda, e +cadenciada da marqueza, que me dizia de pé, em face do retrato de seu +marido: + +--Visconde, conte do marquez as historias que lhe narrei. + +--Os desejos de v. exc.^a são ordens para mim, minha senhora. + +E sahi. + +No fundo do passeio publico desdobram-se dous largos. Em um d'elles, por +meio de casas mais ou menos mesquinhas, levanta-se um palacete no estylo +moderno. Ha ahi uma sala, rica de adornos e de todo o conchego, que faz +o confortavel da vida intima. + +Vive ahi a condessa. + +Pendem das paredes e cobrem as _étagères_ varios retratos de familia. + +Ha trabalhos de costura, e de _crochet_ estendidos por sobre as mesas; +ha, finalmente, todos estes pequenos nadas, que explicam os sentimentos +intimos da existencia, e que se traduzem em recordações do lar +domestico. + +Não era o vestibulo, entre os romanos, a primeira adoração a Vesta? + +A condessa envolta, tambem, nos seus crepes negros, viuva do homem, que +ajudou a cravar, com o vigor, e robustez do seu pulso, o pendão da +liberdade em Portugal--recebeu-me com a semceremonia aristocratica do +seu elegantissimo trato. + +Apesar dos annos decorridos, a despeito dos desgostos profundos, das +lagrimas choradas no lugubre captiveiro, dos trabalhos inenarraveis +soffridos em lutas titanicas--conserva a condessa os perfis e contornos +da sua antiga formosura, tão puros, e tão correctos, que, se não é a +Venus irrompendo do seio das ondas espumosas e crystallinas dos mares da +Grecia, na deslumbrante belleza do Olympo pagão, tem, ainda assim, os +vagos e recordaveis traços da austera Juno, quando presidia aos festins +dos deuses. + +Ouviu impassivel a leitura do manuscripto. + +--Que me diz v. exc.^a a este livro? + +Havia um sorriso ironico e espirituoso brincando nos labios da condessa. + +--Digo-lhe, que o publique. Mas escute: faltam-lhe ahi os lampejos de fé +viva, a crença robusta na liberdade, que animava e esforçava os heroes +do Porto. Venha, aqui, por vezes, ouvir, como lh'as tenho contado, as +lendas d'essas lutas de gigantes. Perdôe muito, como eu tenho perdoado, +aos homens que se esqueceram ou que erraram. Analíse e estude as +variadas transicções, que nos trouxeram a estas sinistras épocas de +descrença. Consulte o passado. + +Abri, para sahir, a porta d'este magico e encantador gabinete na mesma +perplexidade d'espirito com que entrára. + +--Ouça, visconde--disse-me ainda esta illustre senhora, na phrase breve, +e perceptivelmente imperiosa com que parece ordenar.--Não esqueça as +historias que lhe tenho narrado. Dê-as como suas ou como escriptas pelo +doutor João Aleixo--nem por isso lhe tomará elle contas na eternidade. + +Curvei-me respeitoso, e sahi. + +A condessa e a marqueza insistiam pela narração das anecdotas do seu +tempo. Quanto ao mais, quanto á historia vasta, severa, incisiva, +analytica, e verdadeira, como é ou deve ser, mandavam-me estudal-a nos +livros, porque não podiam, não queriam ou não desejavam esclarecer-me. + +Creio que o seculo XIX envolveu no sudario da agonia as idolatrias da +idade media, assim como as lendas do Golgotha amortalharam, para todo o +sempre, a mythologia pagã. + +Não se repetem agora os clamores sinistros, que reboavam nas florestas +da Thessalia, e se ouviam nas clareiras dos bosques sagrados da Grecia e +de Roma: «Morreu o Deus Pan!» + +Mas vai acabando a democracia com os preitos, que as cruzadas, as côrtes +d'amor, os torneios, e as cavallarias feudaes prestavam á mulher, +divinisando-a. Quer-me parecer que a ultima Egeria, _Madame_ Rolland, +expirou no cadafalso em face da estatua da liberdade. É mais uma realeza +que se extingue com tantas outras. + +Onde acabava o oraculo começava a crença. Escutei o futuro. + +E conservei intacto, sem rasuras, nem entrelinhas, o manuscripto do +desembargador. + +VISCONDE DE OUGUELLA. + + + + +SUBSIDIOS PARA A HISTORIA + +DA + +SERENISSIMA CASA DE BRAGANÇA + + +I + +PEDRO DE ALPOEM + +Sempre que encontrei este nome ligado á vida aventureira de D. Antonio, +prior do Crato, me detive a scismar no honrado homem que se chamou +assim. + +Pedro de Alpoem era portuguez de rija tempera. Seguira o pequeno bando +de D. Antonio, quando o duque de Bragança, D. João, primeiro de nome, +transigiu com Philippe II, por preço que adiante se dirá. Acclamou-o em +Santarem; fêl-o bemquisto da mocidade academica de Coimbra; seguiu-o na +fuga, depois da derrota de Alcantara, até Vianna do Minho; e, d'ahi, +como o infante se agasalhasse em seguro abrigo, voltou a Lisboa a +negociar-lhe a emigração em navio estrangeiro. Colhido de sobresalto +n'esta diligencia, foi posto a tormento. Confessou que viera a Lisboa a +fim de arranjar a passagem do principe; não lhe arrancaram, porém, as +torturas o segredo do escondrijo de D. Antonio. Ameaçaram-no com a +decapitação. Pedro de Alpoem sob-poz o pescoço ao cutello do verdugo, e +pereceu com o segredo do asylo do seu rei. Estremada probidade, que só +por si nobilita o nome portuguez, aviltado pelo maximo da fidalguia +bandeada com o usurpador! + +Entristecia-me a mingoada noticia que os historiadores nos transmittiram +de tão memoravel sujeito. E esse pouco foi dadiva de Herrera (_Cinco +libros de la historia de Portugal_, liv. III), de Faria e Sousa (_Europa +portugueza_, tom. III, part. 1, cap. IV), e do opusculo francez +intitulado_ Briefve et sommaire description de la vie et mort de D. +Antoine, premier du nom et dix-huitième roy de Portugal_, impressa em +Paris, no anno 1629. + +Uma vez, folheando a _Bibliotheca lusitana_, vi o nome e appellido do +leal amigo de D. Antonio. + +Senti uma d'essas raras alegrias que só entendem os que andam a joeirar +o lixo dos seculos por vêr se acham um certo diamante que a maior parte +da gente não trocaria por missangas. + +A noticia que Barbosa Machado me deu, rezava assim: _Pedro de Alpoem +Contador, natural de Coimbra, doutor em direito cesareo, collegial do +collegio de S. Pedro, aonde foi admittido no 1.º de janeiro de 1578. Na +universidade patria regentou a cadeira de Instituta, que levou por +opposição a 18 de outubro de 1572, d'onde passou á do Código em 2 de +janeiro de 1579. Foi um dos celebres defensores da successão da corôa +portugueza a favor da senhora D. Catharina, como tambem do direito que +tinha á mesma corôa o snr. D. Antonio, prior do Crato, por cuja causa +morreu degolado._ _Escreveu_: Carta ao duque de Bragança D. João, o +primeiro de nome, quando Philippe Prudente entrou em Portugal. _A data é +do Seio de Abrahão a 20 de julho de 1581._ _Começa_: «Obriga-me a +escrever a v. exc.^a cá d'est'outro mundo de verdades e desenganos.» +_Acaba_: «Conforme a santa lei d'este reino ao qual Deus eternamente tem +promettido conservar.» _É larga, muito judiciosa, e consta de uma forte +invectiva contra o cardeal D. Henrique, por dispôr que os castelhanos se +senhoreassem de Portugal, e juntamente contra o mesmo duque de Bragança +por seguir o cardeal._ (Tom. III, pag. 553). + +Alguns annos frustrei esforços em busca da carta manuscripta de Pedro de +Alpoem, pois, com certeza, não corria impressa; até que, entre uns +papeis pertencentes á rica livraria do jurisconsulto Pereira e Sousa, e +havidos por compra em 1873, se me deparou a carta que Barbosa Machado +inculcára. + +O investigador equivocou-se attribuindo-a ao doutor Pedro de Alpoem. Se +reparasse que ella é datada no _Seio de Abrahão_, deprehenderia logo +que, em nome de Pedro de Alpoem, já degolado em 20 de julho de 1581, +alguém escreveu aquella carta, como vinda d'além-mundo. E, até no começo +da carta, as palavras: _Obriga-me a escrever a v. exc.^a cá d'est'outro +mundo de verdades e desenganos_, estão confirmando a ficção. + +Posto que o prazer de possuir um inedito de Alpoem se me agorentasse á +luz da boa critica, nem por isso desestimei o manuscripto, onde abundam +especies historicas não sabidas, traços profundos da physionomia do avô +de D. João IV, e alguns lanços ignorados da biographia da nobre victima +da amizade e do patriotismo. + +Persisti, assim mesmo, na indagação da linhagem de Pedro de Alpoem, +esperançado em descobrir miudezas que realçassem as feições principaes, +já de si bastante proeminentes a caracterisal-o. Pouco mais +esquadrinhei, senão que foi filho de Antonio de Alpoem, e neto de Pedro +de Alpoem, e de uma senhora de appellido _Caldeira_, filha de Affonso +Domingos de Aveiro, instituidor da capella de Santo Ildefonso, na igreja +de S. Thiago em Coimbra, da qual o justiçado amigo de D. Antonio era +administrador[18]; e, como não deixasse descendencia, o morgadio passou +a seus parentes, filhos de Isabel Caldeira, irmã de seu avô, casada com +Estevão Barradas. + +No fim do seculo XVIII, o possuidor do morgadio de Pedro de Alpoem era +Lopo Cabral da Silveira, bisneto de D. Isabel Caldeira. Estas +impertinencias genealogicas pouco montam na historia de um homem que se +dispensava de avós illustres, bastando-lhe a proeza individual e sua de +dar a cabeça ao algoz e legar o nome sem mancha ao coração do principe +homisiado; mas seria hoje em dia brasão aos que procedessem d'esse +egregio sangue. + +D. Antonio captivou na desgraça amigos que lhe sacrificaram haveres, +liberdade, honras e vida. Sobrelevam entre outros o conde de Vimioso, o +bispo da Guarda, D. Diogo de Menezes,--que o duque d'Avila mandou +enforcar em Cascaes, juntamente com Henrique Pereira, alcaide do +castello--, Duarte de Lemos, senhor da Trofa, D. João de Azevedo, Antonio +de Brito Pimentel, Diogo Botelho, D. Duarte de Castro, D. Manoel de +Portugal, Manoel da Fonseca da Nobrega, e D. João de Castro, o +visionario, que, morta a esperança no filho de Violante Gomes, +resuscitou D. Sebastião na pessoa do calabrez Marco Tullio. + +As historias antigas e tambem as modernamente escriptas pelos snrs. +Rebello da Silva e Pinheiro Chagas não mencionam um amigo estrenuo do +prior do Crato. Era Martim Lopes de Azevedo, 19.º senhor da casa de +Azevedo, hoje representado pelo snr. visconde d'aquelle titulo, +cavalheiro em quem se alliam as altas qualidades do coração com +superiores dotes de provada intelligencia. + +Da inflexivel dedicação de Martim Lopes de Azevedo se lembra o principe +desterrado na Carta latina que escreveu ao papa Gregorio XIII, e outro +sim no seu testamento impresso nas _Provas da historia genealogica da +casa real_, tom. II, pag. 556. + +Era, ao tempo, aquelle fidalgo senhor da villa de Souto de Riba-Homem, e +outros senhorios e padroados de igrejas. Bandeou-se com o filho do +infante D. Luiz, logo que o duque de Bragança offereceu a sua casa como +valhacouto seguro aos embaixadores hespanhoes, a quem os partidarios do +rei portuguez ameaçavam, depois da morte do cardeal-rei. + +Perdidas as esperanças, Martim Lopes de Azevedo provou as angustias do +carcere e desterro, até que, volvidos annos, conseguiu perdão de +Philippe II, mediante o patrocinio de sua tia D. Leonor de Mascarenhas, +que havia sido dama da imperatriz D. Isabel, mãi do rei que lhe perdoou. +Todavia, o mais grosso de seus haveres em commendas e senhorios da corôa +nunca mais voltou á casa de Azevedo. Todos os conjurados contra a +usurpação, cedo ou tarde, se recobraram, e houveram generosas +indemnisações dos reis brigantinos; não assim os descendentes de Martim +Lopes, cujo representante, em 1874, dos bens de seus avoengos possue +apenas o que a rapacissima vingança de Philippe II lhe deixou. Entre os +netos de D. Arnaldo de Bayão e os do bastardo de Ignez Pires não tem +havido no decurso de tres seculos humiliações de vassallos nem +magnanimidade de reis. + +Volvendo á suppositicia carta de Pedro de Alpoem, aceitemos de seu +author, quem quer que fosse, o bosquejo do duque de Bragança, auxiliar, +senão causa primaz, da escravidão de Portugal, da degradação da nobreza, +da miseria do povo, do perdimento das colonias, e dos atrozes flagellos +que se contaram pelos dias de sessenta annos. + +Sirva este papel de vestibulo por onde depois entraremos ao archivo +secreto da veniaga que maniatou o duque de Bragança aos calcanhares de +Philippe II. + + [18] N'esta capella ainda existe a sepultura com epitaphio dos + ascendentes de Pedro de Alpoem, mandada construir por seu avô do + mesmo nome em 1514. + + + + +ERRATA DO N.º 2 + +Pag. 42, linha 3.ª: + +Aquillo com que mais se accende o engenho. + +Emende: + +_Aquillo_ «com que mais se accende o engenho». + + +FIM DO 3.º NUMERO + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem +não póde dormir. Nº3, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA. NO. 3 *** + +***** This file should be named 24957-8.txt or 24957-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/4/9/5/24957/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/24957-8.zip b/24957-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..5cbe687 --- /dev/null +++ b/24957-8.zip diff --git a/24957-h.zip b/24957-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..e31f83a --- /dev/null +++ b/24957-h.zip diff --git a/24957-h/24957-h.htm b/24957-h/24957-h.htm new file mode 100644 index 0000000..6d8218e --- /dev/null +++ b/24957-h/24957-h.htm @@ -0,0 +1,2863 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> + +<head> + <title>Noites de Insomnia, offerecidas a quem não póde dormir, nº 3</title> + <meta name="GENERATOR" content="Quanta Plus"> + <meta name="AUTHOR" content="Camillo Castello Branco"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <meta name="KEYWORDS" content=""> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { display: none;} + } + @media handheld { + .pagenum { display: none;} + } + body {width: 520px; margin-left: 90px; text-align: justify;} + .pagenum {font-size: 0.6em; font-style: normal;color: #666666; position:absolute; left: 630px;} + .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;} + hr { + border: none; + border-bottom: solid 2px #000000; + text-align: center; + } + a {color: #000000; text-decoration: none;} + sup {font-size: 0.8em;} + h2, h3, h4 {text-align: center;} + h1 {text-align: center; margin-top: 2em; margin-bottom: 2em;} + .small-caps { + font-variant: small-caps; + } + .direita { + text-align: right; + } + .centrado { + text-align: center; + } + .poesia { + margin: 2em; + text-align: left; + } + .citacao { + margin-left: 40%; + margin-right: 5%; + font-size: 0.8em; + text-align: left; + } + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + #corpo p{ + line-height: 1.5em; + } + .dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000000;} + #sumario { + width: 75%; + margin: auto; + border-left: solid 1px #000000; + border-top: solid 1px #000000; + border-right: solid 3px #000000; + border-bottom: solid 3px #000000; + padding: 1em; + } + </style> +</head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não +póde dormir. 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NO. 3 *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<span class='pagenum'>[1]</span> +<div class="capa"> +<p style="font-size: 1.2em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p> +<hr style="width: 6em;"> +<p style="font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p> + +<p style="font-size: 0.7em;">OFFERECIDAS</p> + +<p>A QUEM NÃO PÓDE DORMIR</p> + +<p style="font-size: 0.7em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">Camillo Castello Branco</p> +<hr style="width: 3em;"> +<p style="font-size: 0.7em;">PUBLICAÇÃO MENSAL</p> +<br> +<hr style="width: 3em;"> +<p style="font-size: 0.9em;">N.<sup>o</sup> 3--MARÇO</p> +<hr style="width: 3em;"> +<table width="100%"> +<tr> +<th colspan=2> +LIVRARIA INTERNACIONAL<br> +<span style="font-size: 0.7em;">DE</span> +</th> +</tr> +<tr> +<td style="border-right: solid 1px #000000;"> +<span style="font-size: 0.9em;"> +ERNESTO CHARDRON +<br> +<em>96, Largo dos Clerigos, 98</em><br> +<strong>PORTO</strong> +</span> +</td> +<td> +<span style="font-size: 0.9em;">EUGENIO CHARDRON<br> +<em>4, Largo de S. Francisco, 4</em><br> +<strong>BRAGA</strong> +</span> +</td> +</tr> +</table> +<hr style="width: 2em;"> +<p style="font-size: 0.9em;">1874</p> +</div> +<span class='pagenum'>[2]</span> + +<div id="impressor" style="text-align: center;"> +<br> +<br> +<br> +<br> +<hr style="width: 8em;"> +<p>PORTO</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">68--Rua da Cancella Velha--62</p> +<hr style="width: 2em;"> +<p style="font-size: 0.9em;">1874</p> +</div> +<span class='pagenum'>[3]</span> + +<div id="sumario"> +<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;"> +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA +</p> +<hr style="width: 4em;"> +<p style="text-align: center; font-size: 2em;"> +NOITES DE INSOMNIA +</p> +<hr style="width: 4em;"> +<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;"> +<strong>SUMMARIO</strong> +</p> + +<p> +<em> +<a href="#cap01">Feitiços da guitarra</a> +-- <a href="#cap02">Em que veias gira o sangue de Camões?</a> +-- <a href="#cap03">Lisboa</a> +-- <a href="#cap04">Voltas do Mundo</a> +-- <a href="#cap05">Nova solução do problema historico</a> +-- <a href="#cap06">Desgraçado Balzac! (Á «Actualidade»)</a> +-- <a href="#cap07">Os 2 Joaquins</a> +-- <a href="#cap08">Flôres para a sepultura de Ferreira Rangel</a> +-- <a href="#cap09">Mysterio da Castanha</a> +-- <a href="#cap10">Bem vindo!</a> +-- <a href="#cap11">Os Salões, pelo exc.<sup>mo</sup> snr. visconde de Ouguella</a> +-- <a href="#cap12">Subsidios para a historia da serenissima casa de Bragança</a> +</em> +</p> +</div> +<span class='pagenum'>[4]</span> + +<span class='pagenum'>[5]</span> + + + +<a name="cap01"></a> +<h1>FEITIÇOS DA GUITARRA</h1> + + +<p>Cuidará talvez muita gente, aliás instruida na historia da musica e seus +effeitos, que a influencia da guitarra nos paços reaes é cousa moderna e +peculiar da côrte portugueza. Não, senhores. O exemplo deu-o a Hespanha +no fim do seculo passado, e a historia do mais afortunado guitarrista +d'este planeta extravagante em que moramos, vou contal-a eu.</p> + +<p>Na volta do anno 1786, D. Gabriel Alvares de Faria, arcediago da sé de +Badajoz, tinha dous sobrinhos, Luiz e Manoel. O arcediago, que blazonava +descender dos Farias, alcaides-móres de Palmella, em Portugal, timbrava +de muito fidalgo; mas declarava aos sobrinhos que fossem ganhar <span class='pagenum'>[6]</span> sua +vida, porque a pitança da conezia não dava para tres.</p> + +<p>Os dous rapazes, que tangiam guitarra a primor, e cantavam seguidilhas +de sua invenção, fizeram-se no rumo de Madrid, á cata de aventuras. O +estalajadeiro, que lhes deu a credito o primeiro mez de hospedagem, +folgava tanto de ouvir as tonadilhas de D. Manoel, que não quiz outra +paga durante um anno.</p> + +<p>Conseguiram os dous rapazes entrar na guarda de corpus. Luiz, mediante a +guitarra, insinuou-se no affecto de uma açafata da princeza Luiza de +Parma, esposa do principe que depois foi Carlos IV; e, quando a dama +ensandecia de amor ao seu menestrel, lhe disse elle que, se o seu cantar +e tanger a transportavam, que seria se ouvisse seu irmão D. Manoel!</p> + +<p>Contou isto a dama á princeza. Sua alteza era folgazã. Quiz ouvir o +guitarrista. Ouviu-o, admirou-o, amou-o, e--o que muito é--convenceu o +marido a gostar das trovas de <em>a Tyrana</em> acompanhadas d'um harpejo triste, +que não ha ahi cousa que mais diga.</p> + +<p>O principe não era escorreito.</p> + +<p>Menos incauto era Carlos III, que mandou sahir de Madrid o guitarrista, +logo que deu tento dos <span class='pagenum'>[7]</span> effeitos cupidineos dos bordões e prima, na +pessoa da nora.</p> + +<p>Mas assim que o rei morreu, D. Manoel voltou a Madrid, foi restituido ao +palacio, á alcova real, e nomeado successivamente sargento-mór da +guarda, ajudante-general, grã-cruz de Carlos III, intendente dos +correios, cavalleiro do tosão, duque de Alcudia, primeiro ministro, +principe da paz, grande de Hespanha de primeira classe, com dotação +territorial de 50:000 piastras de rendimento, e general supremo dos +exercitos (em 1800) com o tractamento de <em>alteza serenissima</em> (1807).</p> + +<p>Em 1797 casára com D. Maria Thereza de Bourbon, filha natural do infante +D. Luiz, irmão d'el-rei Carlos III. A rainha conviera n'este consorcio, +já porque a noiva era abominavel de feia, já porque tinha zelos +infernaes de Josefa Tudo, formosissima mulher com quem o seu valido +casára clandestinamente, intitulando-a depois condessa de Castello-Fiel.</p> + +<p>D. Manoel de Godoy, que assim tocára o galarim das grandezas humanas, +desceu tão rapido quanto subira.</p> + +<p>Conjuraram contra elle influencias internas e externas.</p> + +<p>Os hespanhoes, obrigados a guerrear a Inglaterra, odiavam o amigo da +França. Este odio <span class='pagenum'>[8]</span> exasperou-se depois do desastre de Trafalgar, onde +acabou para sempre o poder naval de Hespanha. Á frente dos adversarios +do principe da paz sahiu o principe das Asturias, chamado depois +Fernando VII.</p> + +<p>Seguiram-se evoluções politicas, em que o heroe a resvalar ao ponto +d'onde subira, se voltou contra a França, de accordo com Portugal. Em +1808 preparava-se para fugir com a familia real, quando rebentou no +Aranjuez a revolução em que sua alteza serenissima se escondeu em uma +talha, e não foi estrangulado pelo povo a pedido do rei e da rainha.</p> + +<p>Ainda depois d'esta crise, o duque de Alcudia voltou a dominar o animo +dos reis de Hespanha, e a rehaver a confiança de Napoleão; mas a final o +baque foi irreparavel. Passou a França, e depois a Roma, onde o papa o +intitulou <em>principe de Passerano</em>.</p> + +<p>Em Hespanha, confiscaram-lhe os bens. A esposa, de quem elle se +divorciára amigavelmente, vivia pobre em Paris, intilulando-se <em>duqueza +de Chinchon</em>, e lá morreu em 1828. O viuvo declarou então que já era +casado com Josefa Tudo. A unica filha de D. Manoel Godoy casou em 1820 +com o principe romano Raspoli.</p> + +<p>Até 1844, o principe da paz viveu em Paris <span class='pagenum'>[9]</span> tão convisinho da +indigencia que Deus sabe se elle teve tentações de tanger a guitarra da +sua juventude á porta dos amadores do genero. Depois de 36 annos de +exilio, obteve licença de entrar em Hespanha, e readquiriu parte dos +bens, que lhe permittiram dez annos de vida relativamente abastada.</p> + +<p>Morreu, por 1851, em Paris, com 84 annos de idade.</p> + +<p>Os biographos d'este homem extraordinario ignoram todos que elle era, em +Portugal, conde de Evora-Monte por carta de 2 de outubro de 1797.</p> + +<p>Tambem desconhecem que o alvará de mercê o faz primo de D. Maria I, e +descendente de D. Pedro I e de D. Ignez de Castro, por ser quarto neto +de Francisco de Faria, alcaide-mór de Palmella: descendencia a mais +imaginosa que ainda vimos amanhar-se em cabeças de nobiliaristas.</p> + +<p>Ahi vai o alvará que é documento não despeciendo:</p> <br> + +<p>«D. Maria, etc. Faço saber aos que esta minha carta virem que attendendo +á mui antiga, e esclarecida nobreza, qualidades, e distinctos +merecimentos de D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches +Sarçosa, principe da paz, duque de <span class='pagenum'>[10]</span> Alcudia, grande de Hespanha de +primeira classe, meu primo, e aos grandes serviços, que a estes reinos +fizeram seus maiores antes e depois da fundação da monarchia com +repetidas, e assignaladas acções, que os fizeram benemeritos da augusta +consideração, e real munificencia dos senhores reis meus predecessores: +tendo entendido ser o dito D. Manoel quarto neto de Francisco de Faria, +alcaide-mór, e commendador de Palmella, por ser o filho segundo de Diogo +Rodrigues de Faria, que passou a Hespanha d'um modo inculpavel, e de +quem D. Manoel é terceiro neto: para dilatar com a maior distincção a +memoria d'uma tão distincta familia, a qual pela mesma linha de +Francisco de Faria é descendente do snr. rei D. Pedro I, e de D. Ignez +de Castro, de quem descende a maior parte dos soberanos da Europa; tendo +muito segura confiança nos sentimentos verdadeiros, e honrados de D. +Manoel, hereditarios na sua familia, que tem lealmente exercitado em +beneficio de meus reinos; conformando-me com os augustos, e cordiaes +desejos de suas magestades catholicas, esperando, que assim os continue: +hei por bem, com aprazimento dos mesmos reis catholicos, pelos ditos +respeitos, e por honrar em D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios +Sanches Sarçosa, a familia de Faria, de que descende, <span class='pagenum'>[11]</span> fazer-lhe a +mercê do titulo de conde de Evora-Monte, com o senhorio para elle e seus +descendentes, que houver na sua casa dispensando na lei mental, e quero +e mando, que elle D. Manoel de Godoy Alvares de Faria Rios Sanches +Sarçosa se chame conde de Evora-Monte, e com o dito titulo goze de todas +as honras, graças, liberdades, preeminencias, prerogativas, +authoridades, e franquezas, que hão, e tem, e de que usam, e sempre +usarão os condes d'estes reinos, assim como por direito, uso, e antigo +costume lhe pertencem, das quaes em tudo, e por tudo quero, e mando que +elle use, e possa usar por direito, uso, e costume sem minguamento, ou +duvida alguma, que a isso lhe seja posta, porque assim é minha vontade, +e com o referido titulo de conde de Evora-Monte haverá o assentamento +que lhe pertencer, de que se lhe passará alvará na fórma costumada, e +por firmeza de tudo lhe mandei dar esta carta por mim assignada, e +sellada com o sello pendente de minhas armas, e passada pela +chancellaria: e hei por bem que d'esta mercê se não paguem direitos +alguns velhos, e novos, não obstante os regimentos, e quaesquer +disposições contrarias. Dada no palacio de Queluz em 2 dias do mez de +outubro do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1797.--O +principe <span class='pagenum'>[12]</span> com guarda.==<em>José de Seabra da Silva.</em>==<em>Joaquim Guilherme +da Costa Posser</em>, a fez.»</p> <br> + +<p>Respeito a <em>Farias</em>, houve um, em tempo d'el-rei D. Fernando. O leitor +conhece da historia e do romance o celebrado alcaide do castello de +Faria, chamado Nuno Gonçalves, que os castelhanos mataram, quando elle, +na barbacã da fortaleza, ameaçou de maldição o filho, se a entregasse +para salvar seu pai. O snr. Herculano refere este caso com primoroso +enthusiasmo.</p> + +<p>O filho chamava-se Gonçalo Annes, que se fez clerigo por desgosto de vêr +alli trespassado o pai debaixo de seus olhos; a paixão, porém, não lhe +impedia reproduzir-se em tres meninos, de quem foi mãi Aldonsa Vasquez.</p> + +<p>Do mais velho, que se chamou Nuno Gonçalves de Faria, conhece-se a +descendencia. Esse <em>Diogo</em> que no alvará se diz ter passado a Castella, +nem era filho de Francisco de Faria, nem passou a Castella: era filho do +valido de D. João II, Antão de Faria, e casou com D. Maria de Goes, +filha de Simão de Goes Machado.</p> + +<p>No lapso de quatro seculos, a varonia do alcaide de Faria--a que eu +considero mais respeitavel, mais poetica, mais desculpavel aos fanaticos +d'estes archaismos--é a que se tiver conservado <span class='pagenum'>[13]</span> na posse das +penedias contiguas do esboroado castello, cuja alcaidaria foi do heroico +Nuno Gonçalves. O possuidor, ha trinta annos, d'essas ruinas, era João +de Faria Machado Pinto Roby. Vendeu as ruinas a um brazileiro.</p> + +<p>No mesmo anno em que morreu em Paris sua alteza serenissima o principe +da paz, seu parente, morria elle em Lisboa. A providencia divina fez-lhe +a mercê de o resgatar assim de um grande supplicio: elle sahia de noite, +e pedia esmola aos que passavam. Tinha sido redactor do <em>Nacional de +Lisboa</em>, e official de cavallaria muito valente.</p> + +<p>Deixou um filho chamado Isidoro de Faria Machado que se suicidou ha dous +annos em Lisboa.</p> + +<p>Uma de suas filhas é hoje viuva do visconde da Carreira, Luiz. As outras +não sei que destino tiveram.</p> + +<hr style="border-bottom: 2px dotted #000000;"> + +<p>Toda esta noite se me foi de insomnia, a vêr sempre, na penumbra da +lamparina, um homem que em Lisboa, ha 24 annos, me dizia com a face +coberta de lagrimas:</p> + +<p>--Procurei tres amigos que me foram hospedes em meus lautos jantares, +quando eu aqui dissipava o meu ouro e a minha intelligencia no serviço +da politica. Apenas um se lembra de me conhecer em 1838; mas este é +pobre; os outros <span class='pagenum'>[14]</span> não se recordam... Sabe qual é a minha esperança?</p> + +<p>--A queda dos Cabraes?</p> + +<p>--Não: uma congestão cerebral.</p> + +<p>Bella e bem realisada esperança!</p> + +<p>O representante de Nuno Gonçalves de Faria foi levado morto á sua +familia no largo dos Cardeas de Jesus, por uma noite fria e chuvosa, +quando as carruagens, que se recruzavam para bailes e theatros, o +aspergiam da chuva dos tejadilhos e da lama das rodas.</p> + +<hr> + + + +<a name="cap02"></a> <h1>EM QUE VEIAS GIRA O SANGUE DE CAMÕES?</h1> + + +<p>Não é de mais saber-se isto, quando é moda esmiuçar tudo que entende com +o maior poeta do seu seculo.</p> + +<p>O livro mais extravagante que, a tal respeito, viu a luz, é a <em>Historia +de Camões</em> pelo snr. doutor Theophilo Braga.</p> + +<p>As incurias, as criancices, os desvarios que esfervilham n'essas 441 +paginas não aparam a pontoada da critica. O livro faz tristeza... porque +<span class='pagenum'>[15]</span> faz rir; e, por muito frouxo que seja o espirito de patriotismo no +censor dos escriptores seus conterraneos, dóe ter de dizer: «o professor +de litteratura fez córar a face dos discipulos.»</p> + +<p>Os meus reparos n'este livro tocam sómente com o que ha n'elle relativo +á familia de Luiz de Camões; mas, ahi mesmo, é deploravel a falta de +siso do biographo.</p> + +<p>A pag. 233 suppõe o snr. Theophilo que entre uns papeis que se perderam +de Luiz de Camões houvesse cartas escriptas <em>aos seus amigos mais +valiosos intercedendo por seu pai que estava preso</em>.</p> + +<p>A pag. 243, no summario do capitulo VI, diz: <em>A noticia do perdão de seu +pai Simão Vaz de Camões.</em> Temos ainda Camões com pai.</p> + +<p>A pag. 259: <em>Por estas mesmas novas chegadas de Lisboa nas Náos partidas +no principio do anno de 1557 soube Camões... da sentença que condemnava +Simão Vaz de Camões, seu pai, para o degredo perpetuo do Brazil com +pregão e cadeado.</em></p> + +<p>O leitor chega ao cabo do livro, persuadido que Camões tinha um pai, que +por estouvamentos de rapaz devasso, ahi na volta dos 60 annos, mereceu +ser condemnado a degredo com pregão e cadeado; mas, por acaso, volta a +pagina das erratas, e vê que o biographo lhe pede que leia <em>primo</em> onde +estiver <em>pai</em>. Parece uma anecdota isto!</p> <span class='pagenum'>[16]</span> + +<p>Que razões motivaram esta correcção? Que raio de luz dardejou o bom +senso na ultima pagina do livro? Pois o doutor, durante a formação do +estirado livro, não teve um intervallo lucido? E, se o teve no fim, +porque não queimou a obra desde a primeira pagina, embora se perdesse a +<em>Carta de Ayres Barbosa a André de Rezende</em>?</p> + +<p>Eis aqui o modo como o snr. Theophilo descobriu a final que Simão Vaz de +Camões era <em>primo</em> e não era <em>pai</em> do poeta.</p> + +<p>Quando o livro ia sahir do prelo, a humilde pessoa, que escreve estas +linhas, publicava, no <em>Diccionario de educação</em> de Campagne, um breve +artigo intitulado <em>Camões</em>, em que se lêem estes periodos:</p> <br> + +<p>«Os louvores ao prodigioso genio de Luiz de Camões são tantos, e tão +amiudados no discurso de tres seculos que já hoje em dia o repetil-os, +pelos mesmos conceitos e fórmas encomiasticas, nos parece banal +encarecimento. Mais util e plausivel nos avulta o esforço de alguns +biographos empenhados em esclarecer os lanços menos claros da biographia +do poeta. N'esta ardua lide tem mostrado ardente zelo o snr. visconde de +Juromenha, o mais particularisador noticiarista da vida de Luiz de +Camões. Todavia, assentando boa <span class='pagenum'>[17]</span> parte de suas innovações em +conjecturas, resulta que a louvavel vontade de esclarecer se demasie em +hypotheses pouco menos de inverosimeis. Está em o numero d'estas a +affirmativa de residir em Coimbra por 1556, o pai de Luiz de Camões, +Simão Vaz. Este mesmo é na hypothese do biographo, um tal que o +corregedor de Coimbra enviava preso a Lisboa, em 1563, por ter entrado +em mosteiro de freiras, e vem a ser o mesmo que em 1576, juntamente com +os seus criados, espancava o almotacé de Coimbra. Bastaria a despintar +da phantasia do snr. visconde de Juromenha semelhante conjectura, a +pobreza do filho, que recebeu 2$400 reis para se alistar na armada, em +lugar d'outro, em quanto seu pai, com mais de cincoenta de idade, andava +por Coimbra escalando conventos, e já com mais de setenta espancava as +justiças, acaudilhando criados,--circumstancia indicativa de vida +abastada, e orgulho de fidalgo com as posses que dão azas ao orgulho.</p> + +<p>«De todo em todo aniquila a supposição de que o mexediço Simão Vaz de +Camões haja sido pai do poeta, e marido da desvalida Anna de Macedo, uma +nota do snr. doutor Ayres de Campos, sobposta ao traslado da provisão +passada em 16 de maio de 1576, a respeito das injurias e offensas +praticadas por Simão Vaz de Camões no almotacé. <span class='pagenum'>[18]</span> Eis a nota: «E para +tambem não ficarmos culpados em passar por alto alguns outros documentos +que com estes tem estreitas relações, aqui os apontamos desde já em +quanto as suas integras não forem publicadas no supplemento. Assim elles +vão prestar auxilio valioso, e não grande embaraço a todos os criticos +illustres que, talvez fascinados por meras semelhanças de nomes e +appellidos, não teem hesitado em attribuir ao turbulento cidadão +conimbricense Simão Vaz de Camões, muito vivo e são em 1576, a honrosa +paternidade <em>legitima</em> do author dos <em>Lusiadas</em>.» Cita mais o insigne +antiquario a vereação da camara de Coimbra de 31 de julho de 1563 da +qual se deprehende que Simão Vaz havia casado em 1562, e casára +novamente. Ora, quer o <em>novamente</em> signifique segundas nupcias, quer +primeiras, como alguem aventa, sem dar a razão do alvitre, é certo que +esse não podia ser o pai de Luiz de Camões, que falleceu antes de sua +mãi. (Veja <em>Indices e Summarios dos Livros e Documentos mais antigos e +importantes do Archivo da Camara Municipal de Coimbra.</em> Coimbra, 1867, +pag. 7).</p> + +<p>«Temos presente a genealogia dos Camões, manuscripto de Jorge de Cabedo, +fallecido em 1602 ou 1604, e pelo tanto contemporaneo de Luiz <span class='pagenum'>[19]</span> de +Camões. (Veja <em>Diccion. bibliog.</em> de I. F. da Silva, tom. IV, pag. 161).</p> + +<p>«Cabedo falla do bisavô do poeta João Vaz de Camões, que foi corregedor +em Coimbra, e jaz em Santa Cruz.</p> + +<p>«Segue Antão Vaz de Camões (filho d'aquelle e avô do poeta) que casou no +Algarve com Guimar Vaz da Gama. Menciona Simão Vaz de Camões (filho de +Antão Vaz e pai do poeta) <em>que foi por capitão d'uma náo á India, e deu á +costa á vista de Goa, salvou-se em uma taboa, e lá morreu, deixando +viuva Anna de Macedo, dos Macedos de Santarem</em>.</p> + +<p>«Faz tambem menção de outro Simão Vaz de Camões, residente em Coimbra, +parente proximo do poeta, dizendo ter sido aquelle casado com Francisca +Rebello<sup><a name="mfn1" href="#fn1">[1]</a></sup> filha de Alvaro Rebello Cardoso, a qual, viuvando, casára com +Domingos Roque Pereira<sup><a name="mfn2" href="#fn2">[2]</a></sup>.»</p> + +<p>O snr. Theophilo leu isto sem duvida alguma, <span class='pagenum'>[20]</span> e cedeu aos singelos +argumentos do artigo do <em>Diccionario</em>.</p> + +<p>Que faria o leitor, sendo (Deus o livre!) author do livro de Theophilo?</p> + +<p>A não entregar a obra toda ao fogo purificador dos seus creditos +litterarios, rasgava as paginas em que chamava <em>pai</em> a Simão Vaz, +substituindo-as por outras em que lhe chamasse <em>primo</em>.</p> + +<p>Diga-se verdade: o snr. Theophilo rasgou duas paginas do livro, a 59 e +60; mas devia inutilisar as seguintes em que subsistem os erros +derivados da confusão dos dous homonymos Simão Vaz de Camões.</p> + +<p>Escrevi no <em>Diccionario</em>, reportando-me impensadamente a um genealogico +dos Camões: «Faz tambem menção de outro Simão Vaz de Camões, parente +proximo do poeta, dizendo ter sido aquelle casado com Francisca Rebello, +filha de Alvaro Rebello Cardoso, a qual, viuvando, casára com Domingos +Roque Pereira.»</p> + +<p>Escreve o sr. Theophilo na regenerada pag. 59:</p> + +<p>«Simão Vaz de Camões, que em 1562 casou em Coimbra com Francisca +Rebello, filha de Alvaro Cardoso<sup><a name="mfn3" href="#fn3">[3]</a></sup>.»</p> <span class='pagenum'>[21]</span> + +<p>Convido o snr. Theophilo Braga a declarar onde leu a noticia de tal +casamento! Com toda a certeza, a primeira pessoa, que imaginou vêr isto +em letra de mão, e o pôz em escriptura, desde que ha letra redonda, fui +eu.</p> + +<p>Pesa-me do intimo seio que o snr. doutor T. Braga escorregasse na +ladeira do meu engano. Já o snr. Felner lhe armou a esparrella da carta +de Ayres Barbosa; e eu, mais innocentemente, fil-o casamenteiro de Simão +Vaz com Francisca Rebello! É fado esquerdo do snr. Theophilo! Porém, o +que tem graça infinita é o snr. doutor fixar o anno do casamento em +1562! Que eu o inventasse, vá; mas que o snr. Theophilo lhe marcasse o +anno, é vontade de callaborar nas indiscrições alheias!</p> + +<p>Isto não é simplesmente criancice párvoa--é desgraça; é mais que +desgraça--é castigo da Providencia, porque o sr. Theophilo ladrou +arrogantemente a Castilho, a Herculano, a Garrett, a Rebello, a +Varnhagen; e não houve ainda detrahidor tão audaz, tão ignorante, e, +sobre ignorante, ridiculo.</p> + +<p>O meu lapso procedeu de confundir dous nomes confusamente escriptos em +uma arvore genealogica. Simão Vaz de Camões, o libertino parente do +poeta, casou com uma sua criada, e morreu sem descendentes. Esta é a +verdade. Quem casou em Coimbra com Francisca Rebello, filha de Alvaro +<span class='pagenum'>[22]</span> Rebello Cardoso, morgado das Caldas, foi Simão <em>Vasconcellos</em>, e não +Simão <em>Vaz</em>.</p> + +<p>Cá me fica pesando na consciencia o tempo e o papel que o snr. Theophilo +desperdiçou. De ambas as cousas tenho escrupulo; menos da data do +casamento; que essa é d'elle.</p> + +<p>Mas, se o snr. Theophilo substituiu as duas paginas que eram a fonte do +erro, porque não supprimiu as correntes que derivam d'essa fonte? Não +viu que todas as referencias ás paginas substituidas ficavam +incomprehensiveis? O sentimentalismo que enternece o pesar do poeta pela +prisão do <em>pai</em> não póde subsistir racionalmente na prisão do <em>primo</em>! Que +faz então o snr. Theophilo? Usa processos sobre maneira economicos:</p> + +<div class="citacao"> <p class="centrado">ERRATA</p> + +<p class="centrado">Onde se lê <em>pai</em>, leia-se <em>primo</em>.</p> </div> + +<p>E está acabado.</p> + +<p>Ninguem me dê definições d'este preceptor infeliz!</p> + +<p>Contem-me esta passagem, que eu não preciso cenhecel-o de perto, nem +lobrigar-lhe o feitio interior dos camarins do pensamento. É um cháos! +Eu já não me admirarei se o snr. Theophilo, depois <span class='pagenum'>[23]</span> de esponjar +alguns centos de livros, escrever uma <em>Errata geral</em> n'este sentido: onde +se lê: <span class="small-caps">Obras</span> <em>de Theophilo</em>, leia-se: <span class="small-caps">Manobras</span> <em>do mesmo</em>.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Se o leitor quer, vamos agora farejar sangue de Camões nas veias dos +nossos contemporaneos. Não cuide, porém, que vai deliciar-se n'esta +leitura. É materia árida, fructo das taes insomnias constantes do +proemio do numero primeiro.</p> + +<p>Vasco Pires de Camões veio de Castella no tempo de Fernando I. Foi +alcaide-mór de Alemquer e Portalegre. Fugiu para Castella, quando o +mestre de Aviz se levantou com o reino. Foi prisioneiro em Aljubarrota, +perdeu os bens da corôa; mas cá ficou.</p> + +<p>Gonçalo Vaz, seu primogenito, instituiu um morgado em Evora, chamado da +Camoeira. Não temos que vêr com os outros filhos, cujos descendentes ou +foram pobres, ou identificaram os seus haveres nos morgadios do primeiro +ramo, á falta de geração.</p> + +<p>Succedeu-lhe Antonio Vaz, pai de Lopo Vaz de Camões, cujo primogenito, +tambem Antonio Vaz, teve um filho, que outro sim se chamou Lopo, e fez +um morgado em Aviz.</p> <span class='pagenum'>[24]</span> + +<p>D'este ultimo gerou-se D. Anna de Castro, que foi casar a Guimarães com +Diogo Lopes de Carvalho, quarto senhor dos coutos de Abbadim e Negrellos +no tempo de Philippe II.</p> + +<p>Luiz Lopes de Carvalho, 5.º senhor dos coutos, foi assassinado em +Guimarães.</p> + +<p>Gonçalo Lopes de Carvalho Camões e Castro Madureira, bisneto de Lopo Vaz +de Camões, succedeu nos morgados da Camoeira da Torre de Almadafe no +termo de Aviz, e da Gesteira no termo de Evora, ambos creados por +Gonçalo Vaz de Camões e Duarte de Camões, ultimo representante da +varonia, que morreu sem geração, e por isso os vinculos passaram aos +descendentes femininos de Lopo Vaz de Camões, que eram os senhores de +Abbadim e Negrellos. Existia esta posse em 1692<sup><a name="mfn4" href="#fn4">[4]</a></sup>.</p> + +<p>Thadeu Luiz Lopes de Carvalho, filho de Gonçalo Lopes, casou, depois do +anno 1718, em Lisboa, com D. Brites Thereza de Menezes, que morreu muito +nova. Celebrou segundas nupcias com D. Francisca Rosa de Menezes e +Mendonça, filha de D. Francisco Furtado de Mendonça.</p> + +<p>Tiveram filhos varões, que morreram na infancia, <span class='pagenum'>[25]</span> e tres filhas que +casaram: D. Marianna Luiza Ignacia, com Caetano Balthazar de Sousa de +Carvalho, alcaide-mór de Villa Pouca de Aguiar; D. Anna Joaquina, com +Gonçalo Barba Alardo Corrêa, em 1751; D. Guiomar Marianna Anacleta de +Carvalho Fonseca Camões e Menezes, herdeira, com D. Antonio de +Lencastre, governador de Angola--(1772-1179), filho segundo de D. +Rodrigo de Lencastre.</p> + +<p>Nasceram, entre outros fallecidos na infancia, um filho, que se chamou +D. Rodrigo de Lencastre Carvalho Fonseca e Camões, e uma senhora, D. +Francisca Rosa de Lencastre, que casou com seu primo Lourenço de Almada, +1.º visconde de Villa Nova de Souto de El-Rei.</p> + +<p>D. Rodrigo, herdeiro dos morgadios e senhorios de Negrellos, Abbadim, +etc., e sargento-mór do regimento de cavallaria do principe D. João em +1791, casou com D. Maria do Carmo Henriques, filha herdeira de João +Henriques, do Bombarral.</p> + +<p>No morgado da Camoeira succedeu o 2.º visconde de Souto de El-Rei pelo +seu casamento com D. Francisca Felizarda de Lencastre, filha de D. +Guiomar de Camões, senhora de Abbadim e Negrellos. Uma filha d'estes +viscondes, D. Guiomar, casou com Gonçalo da Silva Alcoforado.</p> <span class='pagenum'>[26]</span> + +<p>Está, por tanto, o sangue dos Camões em todos os descendentes da mulher +do 1.º visconde de Souto de El-Rei. O terceiro ainda se assignou com o +appellido Camões. Está igualmente na familia Alcoforado da casa da +Silva, na familia da casa de Villa Pouca de Guimarães; nos descendentes +de José Bruno de Cabedo, 1.º barão do Zambujal, por linha feminina, pois +sua mãi era neta de D. Guiomar de Carvalho Camões e Fonseca; na casa da +Pousada em Braga, representada ha quarenta annos por Francisco Xavier +Alpoim da Silva e Castro, terceiro neto de Thadeu Camões, senhor de +Abbadim.</p> + +<p>Em quasi analogo parentesco estão os snrs. Leites de Paço de Sousa, e os +snrs. Pachecos Pereiras de Villar, ou de Belmonte.</p> + +<p>Não prolongarei esta resenha que de certo, hoje em dia, se ramifica tão +copiosamente quanto cumpre imaginar das faculdades reproductoras das +pessoas que representam aquelles illustres appellidos.</p> + +<p>Falta dizer que Luiz de Camões deixou um filho que não se reproduz, e é +immortal: chama-se <span class="small-caps">Lusiadas</span>.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="fn1" href="#mfn1">[1]</a> Adiante se verá que fui inexacto n'esta noticia.</p> + +<p><a name="fn2" href="#mfn2">[2]</a> Este Simão Vaz de Camões era filho de Duarte de Camões de Tavora, +filho de outro Simão Vaz de Camões, senhor do morgado da Torre. Casou +Duarte com D. Isabel Lobo, filha de Ayres Tavares e Sousa, de quem +houve, além de Simão Vaz de Camões, Luiz Gonçalves de Camões, e D. Maria +da Camara, que casou com Francisco de Faria Severim. Quanto ao Simão que +viveu em Coimbra, diz o linhagista que <em>se casára á sua vontade</em>, como +quem desfaz na estirpe da esposa.</p> + +<p><a name="fn3" href="#mfn3">[3]</a> A pag. 417 amplia o traslado do meu artigo, escrevendo: <em>a qual casou +depois em segundas nupcias com Domingos Roque Pereira.</em></p> + +<p><a name="fn4" href="#mfn4">[4]</a> Veja Memorias resuscitadas da antiga Guimarães, pelo padre Torquato +Peixoto de Azevedo, em 1692, pag. 361.</p> </div> <span class='pagenum'>[27]</span> + +<hr> + + + +<a name="cap03"></a> <h1>LISBOA</h1> + + +<p>Antes do traslado, darei breve noticia do livro de outro viajante bem +creado que nos visitou mais de espaço em 1730. A <em>Description de la Ville +de Lisbonne</em>, impressa em Paris, n'aquelle anno, é facil de encontrar em +Portugal.</p> + +<p>Este viajante esteve no paço da Ribeira. Viu as riquissimas alfaias do +vasto palacio. Reinava D. João V, o Salomão do occidente. Que valores +não sorveu aquella vasa do Terreiro do Paço vinte e cinco annos depois!</p> + +<p>Uma cousa achou tristissima o viajante; eram as noites de Lisboa:</p> + +<br> + +<p>«Esta grande cidade (diz elle) não é alumiada de noite, e é isso causa a +que um homem se veja em embaraços para acertar com o seu caminho, e +soffra sobre si os despejos de immundicies que lá se atiram das janellas +ás ruas, porque as casas não tem latrinas. A obrigação de cada qual é +levar essas immundicies ao rio, para o que ha negras que se occupam +n'este serviço muito baratas; <span class='pagenum'>[28]</span> mas a plebe não quer saber d'essas +ordens. Nas ruas não se anda de noite com bastante segurança, salvo +quando se é, como lá dizem, <em>embuçado</em>, isto é, quando se envolve a gente +em um farto capote, desde a cabeça até ás canellas: é um trajar +exquisito, de que usam as pessoas mais qualificadas, e até os principes, +como trajo privilegiado e respeitado. O respeito que se tem a esta +especie de mascara, vem de impedir que os taes se reconheçam, e do +receio que o disfarce encubra armas de fogo prestes a disparar-se sobre +quem os insultar ou quizer conhecer... Lisboa não tem passeio algum, nem +divertimento de nenhuma casta a não ser um mau theatro hespanhol. Os +fidalgos, não obstante, frequentam este theatro; e, depois que sahem<sup><a +name="mfn5" href="#fn5">[5]</a></sup> vão gastar o restante do dia a passear nas +suas carruagens, na praça do Rocio, onde palestream até á noite, sem +sahir das carruagens. As cadeirinhas usam-se muito, e as liteiras estão +na moda das damas distinctas e dos velhos; mas, por conta das ruas +intransitaveis, os coches são raros.»</p> + +<br> + +<p>Fallando de estalagens, diz que eram quasi todas francezas, inglezas e +hollandezas, sendo a <span class='pagenum'>[29]</span> melhor de todas uma franceza na praça dos +Romulares, onde o passadio de cada dia custava 6 francos.</p> + +<p>Attribue a carestia á diminuta concorrencia de estrangeiros, que se +hospedem fóra das casas dos amigos.</p> + +<p>Já n'aquelle tempo, pelos modos, era mais barato hospedar-se a gente em +casa dos amigos. N'este particular, não adiantamos nada. Outros +forasteiros, que não tivessem amigos em Lisboa, costumavam alugar +quartos, com uma banca, seis cadeiras de palha, louça de barro, e cama +no chão, constante d'uma enxerga e duas cobertas, que á noite se +desdobram sobre uma esteira de junco. Diz elle que nas hospedarias era +peor.</p> + +<p>Conheceu o sujeito em Lisboa uma senhora portugueza, casada com um +negociante francez, de Bayonna. A tal senhora via o que se passava no +interior do corpo humano e nas entranhas da terra, não tendo nos olhos +senão grande belleza. Incommodava-se-lhe a vista quando divisava nos +reconditos escaninhos da economia animal abscessos asquerosos. Via os +phenomenos physiologicos da digestão, e dizia se o feto no ventre +materno era macho ou femea, aos sete mezes. Na profundeza de 30 ou 40 +braças descobria mananciaes d'agua. Estas prerogativas extraordinarias +<span class='pagenum'>[30]</span> só as gozava em quanto estivesse em jejum; algumas vezes, porém, á +hora de sesta, refinava no condão de vêr os rins de um homem gordo +através do capote. Os descobrimentos de agua, já para o rei já para os +particulares, o voto dos sabios e dos ministros, em fim, os +incontroversos prodigios d'esta mulher grangearam-lhe a mercê regia do +<em>dom</em> e o habito de Christo para seu marido.</p> + +<p>O padre Le Brun, no anno seguinte á publicação d'este livro, metteu a +riso a historia da lisboeta. (Veja <em>Histoire critique des Pratiques +superstitieuses</em>, etc., l. 1.º, cap. 6, edição de Amsterd. 1733). Mas o +cavalheiro de Oliveira que demorava então em Londres, onde publicava o +seu <em>Amusement periodique</em>, a pag. 274 e seguintes do 2.º tomo, impugna a +incredulidade do francez, com as seguintes razões. E note-se, +primeiramente, que Francisco Xavier de Oliveira foi o portuguez mais +incredulo do seu tempo; e, se não fugisse de Portugal, teria sido +queimado como herege.</p> + +<p>Diz elle:</p> + +<br> + +<p>«Eu não subscrevo ás suspeitas de impostura que o padre Le Brun irroga á +mulher portugueza, porque a conheci pessoalmente, tendo ella entre onze +e doze annos. Vi-a, pela primeira vez, em Paço d'Arcos na quinta de +Jeronymo <span class='pagenum'>[31]</span> Lobo Guimarães, onde fôra para indicar o ponto onde havia +agua. Do primeiro lanço de olhos, apontou o sitio. Lobo fez cavar no +ponto indicado, e achou agua abundantemente. Verdade é que ella marcava +entre seis e sete braças; e a agua borbulhou na profundidade de oito. +Tambem é certo que, estando eu vestido, ella me disse positivamente os +signaes todos que eu tinha na pelle, e o mesmo fez a cinco pessoas +presentes. Afianço isto como testemunha ocular. Que ella visse através +da pelle, nunca ouvi dizer...»</p> + +<br> + +<p>Prolonga-se o cavalheiro de Oliveira abonando os prodigios contrariados +por Le Brun, e prosegue:</p> + +<br> + +<p>«Declarou esta menina que não podia entrar em igrejas e atravessar +cemiterios, por causa do horror que lhe faziam os cadaveres enterrados, +que ella via podres debaixo das lapides. Todos os tribunaes, e +maiormente o do santo officio, tomaram conhecimento d'esta declaração. +Abriu-se um tumulo como experiencia, e achou-se o cadaver qual ella o +descrevera, antes que levantassem uma grossa lousa. Não sei que destino +teve <span class='pagenum'>[32]</span> esta mulher: o que sei é que nem a inquisição nem algum +tribunal a inquietou<sup><a name="mfn6" href="#fn6">[6]</a></sup>.»</p> + +<br> + +<p>Proseguindo na viagem do admirador da prodigiosa lisboeta, refere elle +algumas cousas da côrte de D. João V que precisam ser esclarecidas.</p> + +<p>Numera os officiaes, que servem a casa real, e diz que, áquelle tempo, o +officio de mordomo-mór tinha vagado, em consequencia de ter fugido de +Portugal em 1724 este empregado do paço com uma das mais formosas damas +do reino, esposa de um fidalgo. E acrescenta:</p> + +<br> + +<p>«O rei mandou depós os fugitivos um esquadrão de cavallos; mas como +elles levavam um dia de avanço, e correram á desfilada, a tropa não +logrou apanhal-os; por maneira que chegaram a Vigo<sup><a name="mfn7" href="#fn7">[7]</a></sup>, na Galliza sem +embaraço. Com tudo, breve lhes foi o contentamento; porque o bispo +d'aquella cidade fez entrar a dama em um mosteiro, e o fidalgo +retirou-se para Madrid. O marido da fugitiva vestiu-se de luto, assim +que soube da fuga; e, conforme o prejuizo do paiz, ou como lá dizem os +portuguezes, <em>porque tinha barbas</em>, <span class='pagenum'>[33]</span> jurou não apparecer mais sem +matar o raptor, e matar ou enclausurar para sempre sua mulher.»</p> + +<br> + +<p>No immediato numero saberá o leitor quem foram os personagens d'este +caso, que envolve tragedia digna de livro de maior fôlego.</p> + +<div class="rodape"> <p><a name="fn5" href="#mfn5">[5]</a> Vê-se que as representações eram de dia.</p> + +<p><a name="fn6" href="#mfn6">[6]</a> São rarissimos ou talvez unicos em Portugal, estes livros do +cavalheiro de Oliveira. Diz elle que apenas tinha na sua patria dous +assignantes, e um era Jacome Raton.</p> + +<p><a name="fn7" href="#mfn7">[7]</a> É erro: foi em <em>Tuy</em>.</p> </div> + +<hr> + + + +<a name="cap04"></a> <h1>VOLTAS DO MUNDO</h1> + + +<p>Ayres Ferreira, da casa dos senhores de Cavalleiros, e couto de Frazão e +Marvilla de Couros, viveu em Barcellos, no tempo de D. João III.</p> + +<p>Teve quatro filhos e duas filhas.</p> + +<p>Os rapazes, á excepção de um que morreu na infancia, foram todos servir +na India: eram Ruy, Alvaro e Gonçalo.</p> + +<p>As meninas professaram, e foram abbadessas perpetuas no mosteiro de Cós.</p> + +<p>Os tres soldados grangearam fama no Oriente; e Ruy Ferreira de Mendonça, +o mais velho, avantajou-se <span class='pagenum'>[34]</span> nas proezas--nas crueis façanhas que os +Coutos e Barros chamaram proezas.</p> + +<p>Não lhes desluzam, por isso, a memoria. Era seculo de trevas e de +missionarios. Reinava D. João III, o inquisidor. Cada qual é do seu +tempo. Se algum contemporaneo, como o bispo de Silves, protestou contra +o fanatismo sanguinario, deve-se o protesto honroso a não ter ido lá o +insigne escriptor. Se fosse, pegaria d'elle a contagião da carnagem, a +peste d'aquelle ar infecto da sangueira, o colera que accendia sêdes de +cubiça insaciavel.</p> + +<p>No seu solar de Barcellos ficára Ayres Ferreira, sósinho e triste. +Doia-lhe mais que tudo a saudade de Ruy, o seu primogenito, que lhe +fugira, ancioso de batalhas, e invejoso dos irmãos, cujos nomes +começaram a ser laureados na Asia em 1543. N'aquelle tempo, um mancebo +de appellido <em>Goes</em>, renunciava esse appellido, que era o de seu +progenitor, em affronta ao pai que lhe impedira servir as armas na +India!</p> + +<p>Um dia, Ruy Ferreira de Mendonça recebeu em Goa carta de seu pai, +queixando-se dos filhos que o deixaram velho, desamparado, e exposto aos +affrontamentos de quem já lhe não temia o braço alquebrado por annos e +desgostos.</p> + +<p>E contava que o abbade de Creixomil, clerigo <span class='pagenum'>[35]</span> fidalgo e possante, +ousára pôr-lhe as mãos nas barbas.</p> + +<p>Ruy sahiu com a carta de seu pai em demanda do vice-rei a pedir-lhe +licença para vir ao reino. O vice-rei negou-lh'a, com o intento de +evitar um crime, privando-se de um dos seus mais valentes capitães. E, +sabendo que o fidalgo lhe não obedeceria e se andava negociando +clandestinamente passagem nas náos, deu-lhe ordem de prisão até que os +navios levassem ancora.</p> + +<p>As náos abalaram, e Ruy foi posto em liberdade.</p> + +<p>Apenas livre, correu á barra, avistou ao longe o velame, arrojou-se ás +ondas, e nadou na esteira d'ellas. Quatro horas bracejou, reagindo ao +sossobro, que já o levava de vencida. Favorecido por subita calmaria, as +náos balouçavam-se paradas, e as vagas alisaram-se como lago de aguas +estanques. Viram da amurada o homem que nadava. O capitão, que lhe +quizera dar passagem occulta, suspeitou quem fosse, e mandou, uma lancha +com oito remadores ao encontro d'elle. Colheram-o reanimado, mas em +tamanho quebranto de forças que levou dias a restaurar-se. Tinha cortado +duas leguas de mar!</p> + +<p>Desembarcou em Lisboa, e seguiu para o Minho.</p> <span class='pagenum'>[36]</span> + +<p>S. Thiago de Creixomil, abbadia do então chamado Couto de Fragoso, +demorava no termo de Barcellos.</p> + +<p>Ahi vivia o clerigo que affrontára Ayres Ferreira.</p> + +<p>Ruy, antes de se avistar com o pai, bateu á porta do abbade, e +enviou-lhe o seu nome.</p> + +<p>O fidalgo tonsurado desceu ao recio da sua residencia, empunhando a +espada de cavalleiro. O soldado da India rejubilou quando viu o +adversario armado. Vexava-o ter de matar um inerme. Travaram-se os dous +gladios; mas que prelio tão desigual entre o guerreiro experimentado e o +fidalgo que sabia apenas a esgrima de curioso! Á volta de poucos botes, +o abbade de Creixomil cahiu traspassado do peito ás costas, ouvindo +estas vozes frementes de odio:</p> + +<p>--Perro! não pozesses as mãos nas barbas de um velho!</p> + +<p>E depois foi beijar a mão a seu pai, com quem se demorou algumas horas, +e partiu para não perder a passagem das náos que estavam de vela para a +India.</p> + +<p>E lá foi ceifar novos louros.</p> + +<p>Passados annos, o solarengo de Barcellos morreu, e foi sepultado na +capella do Santissimo Sacramento <span class='pagenum'>[37]</span> da igreja matriz de Barcellos, +onde estavam os ossos de seus paes e avós.</p> + +<p>Ruy Ferreira voltou ao reino, e succedeu na casa de seu pai.</p> + +<p>Ninguem lhe pediu saldo de contas com os descendentes do abbade que +naturalmente os tinha, de collaboração com as mais nitidas ovelhas do +seu rebanho.</p> + +<p>Disputou a posse do morgadio de S. Pedro de Fajozes, no concelho da +Maya, a sua prima D. Joanna de Eça, da casa de Cavalleiros. Ganhou a +demanda.</p> + +<p>Em seguida, casou com D. Philippa de Athaide, filha de Martim Lopes de +Azevedo, decimo primeiro senhor da casa e solar d'Azevedo e da Villa de +Souto.</p> + +<p>Tiveram seis ou mais filhos; parte d'estes morreram na India.</p> + +<p>A representação d'esta casa, volvidos 60 annos, estava em Duarte Pacheco +Pereira, governador de Ormuz, descendente do heroe desgraçado que teve +aquelle nome; porque um bisneto de Ruy, chamado Luiz de Mendonça, casou +com D. Guiomar de Albuquerque, neta de Duarte Pacheco Pereira.</p> <span class='pagenum'>[38]</span> + +<p>Eu não sei se algum dos trinta e quatro barões que conheço, estando no +Brazil, e sabendo que seu pai, o tio Antonio da Thereza, foi espancado +pelo estadulho do tio Joaquim da Thomazia, seria capaz de vir da rua da +Quitanda desaffrontar o seu velho progenitor! Acho que não; e faria +muito bem. Ha 300 annos, aquelle Ruy poz o abbade a dormir o somno +eterno, cavalgou na sua mula, e lá foi socegadamente para Lisboa, e de +Lisboa para a India. Hoje em dia, se o barão de Ranhados matar o +Januario do Quinchoso, que lhe bateu no pai, o mulherio grita á +d'el-rei, o regedor participa ao administrador, este faz uma circular +telegraphica para os quatro pontos cardeaes, e o barão, quando chegar, +mais aqui ou mais além, dá de cara com dous policias, e depois bem +sabemos o resto.</p> + +<p>Mudaram os tempos pela mesma razão que mudaram os fidalgos. Não ha pai +por filho nem filho por pai, em quanto se ganha dinheiro.</p> + +<p>Entre <span class="small-caps">heroismo</span> antigo e <span class="small-caps">dinheiro</span> moderno está um fosso. Quem quizer +palmilhar de salto as duas orlas do abysmo cahe no <em>ridiculo</em> ou... nas +mãos da policia.</p> <span class='pagenum'>[39]</span> + +<hr> + + + +<a name="cap05"></a> <h1>NOVA SOLUÇÃO DO PROBLEMA HISTORICO</h1> + + +<p>Cá está outra que me parece mais sensata que a primeira. O premio, +infelizmente para o verdadeiro merito, era já distribuido. Não obstante, +o snr. <em>Bibliophilo</em> ha de ser galardoado. A minha livraria é pobre: não +vejo livro digno de s. s.<sup>a</sup>; mas vou munir-me de duas joias litterarias, +que submetto á escolha do douto letrado.</p> + +<p>Disponha, pois, s. s.<sup>a</sup> do <span class="small-caps">Faust</span> do snr. Joaquim de Vasconcellos, ou dos +<span class="small-caps">Originaes opusculos</span> do snr. Jayme José Ribeiro de Carvalho. A primeira, +bem que não trate de hygiene, é drastica; a segunda, posto que entenda +com a sciencia dos derivativos, corre parelhas com a utilidade da +primeira. D'este modo, dou testemunho publico da consideração que me +merece o bibliophilo, e fio muito dos dous offerecidos authores a +lapidação do seu espirito, que reslumbra e rasga na seguinte carta +destinos de nenhum modo chochos.</p> <span class='pagenum'>[40]</span> + +<p class="direita">«<em>Snr. redactor das <span class="small-caps">noites de insomnia</span>.</em></p> + +<p>«Estimo esta occasião de o informar de um caso que succedeu em 1693, e +esclarece completamente as suas duvidas a respeito do augusto forasteiro +que tres pontifices sentenciaram rei de Portugal.</p> + +<p>«Tenho a satisfação de possuir um folheto rarissimo que meu avô +conseguiu salvar no incendio da livraria do conde da Ericeira, em 1755. +É conhecido outro exemplar no <em>Museu britannico</em>. E eu preso-o tanto que +não me desfiz d'elle, quando me offereceram em troca as obras completas +do doutor Theophilo, e sete menos cinco em dinheiro.</p> + +<p>«Intitula-se a minha raridade: <em>Relaçam do sucesso que teve o patacho +chamado Nossa Senhora da Candelaria da Ilha da Madeira, o qual vindo da +Costa de Guiné, no anno de 1693, huma rigorosa tempestade o fez varar na +Ilha incognita. Que deixou escripta Francisco Corrêa, mestre do mesmo +patacho, e se achou no anno de 1699, depois da sua morte. Impresso em +Lisboa em 1734.</em>»</p> + +<p>«Aproveitando as suas insomnias, vou dar-lhe muito resumida a substancia +do referido opusculo.</p> <span class='pagenum'>[41]</span> + +<p>«Conta Francisco Corrêa que, ao avistar as ilhas de Cabo-Verde, +toldou-se repentinamente o céo, e logo uma nebrina escura fez noite a +bordo, a termos de se não conhecerem os tripolantes. De subito, pegam de +esfuziar nas gaveas repellões de ventania, e os relampagos a fuzilarem, +e logo as nuvens negras a abrirem-se em jorros de chuva.</p> + +<p>«Traquete e mezena voaram. A embarcação fez agua por todas as pranchas +descosidas; e, apesar de esforços desesperados, não vingaram cegar os +sorvedouros. Quinze eram os nautas que se deram em uma jangada á +misericordia divina. Ao abrir da manhã, avistaram a leste uns morros +pardacentos; mas como não tinham governo que alli os proejasse, +deixaram-se ir na corrente e á mercê de Deus até varar em terra.</p> + +<p>«Em quanto se reparava a embarcação, o mestre do patacho, com Manoel +Antunes e João de Arruda, embrenharam-se no matagal com os arcabuzes bem +cevados. Viram mono de oito palmos, e dentes de duas pollegadas e meia; +viram cobras grossas como pipotes de oito almudes; e viram a final uma +mulher marinha que Francisco Corrêa descreve d'este feitio:</p> + +<br> + +<p>«Tinha todas as perfeições até á cinta, que se <span class='pagenum'>[42]</span> discorrem na mais +formosa, e sómente a desfeavam as grandes orelhas que tinha, pois lhe +chegavam abaixo dos hombros, e quando as levantava, lhe subiam a +distancia de mais de meio palmo por cima da cabeça. Da cinta para baixo, +toda estava coberta de escamas, e os pés eram do feitio de cabra, com +barbatanas pelas pernas. Tanto que se viu no monte, presentindo ser +vista, deu taes berros, que estremecia a ilha, pelo retumbo dos echos; e +sahiram tantos animaes, e de tão diversas castas, que nos causou muito +medo. Arrojou-se finalmente ao mar pela outra parte com tal impeto, que +sentimos nas aguas a sua vehemencia. Todos se assustaram, menos eu, pois +já tinha visto outra no cabo de Gué; e tinha perdido o medo com outras +semelhantes apparições; e me lembra, que junto a Teneriffe vi um homem +marinho de tão horrendo feitio, que parecia o mesmo demonio. Tinha +sómente a apparencia de homem na cara, na cabeça não tinha cabellos, mas +uma armação, como de carneiro, revirada com duas voltas; as orelhas eram +maiores que as de um burro, a côr era parda, o nariz com quatro ventas, +um só olho no meio da testa, a bocca rasgada de orelha a orelha, e duas +ordens de dentes, as mãos como de bugio, os pés como de boi, e o corpo +coberto de escamas, mais duras, que <span class='pagenum'>[43]</span> conchas. Uma tempestade o +lançou em terra, e taes bramidos deu, que entre elles expirou, e para +memoria se mandou copiar a sua fórma, e se conserva na casa da cidade +d'aquella ilha.»</p> + +<br> + +<p>«Ao terceiro dia, 8 d'agosto de 1693, ouviram uma voz lá dos reconcavos +da serra, a bradar: <em>Portugal!</em> <em>Castella!</em> Seguindo a toada das +exclamações, toparam um homem de venerando aspecto, que lhes fallou +assim:</p> + +<br> + +<p>«<em>Graças a Deus Senhor; infinitas graças vos dou, por me chegardes a +tempo, depois de tantos annos, em que eu visse gente da Europa</em>; e logo +olhando gravemente, e cortez para nós, disse: <em>Senhores, de que nação +sois?</em> Nós pasmados, não acertavamos a responder; e conhecendo elle o +nosso susto, nos animou brandamente, rogando-nos para a sua pobre +habitação, aonde entrámos, e sentados em um tosco pau, nos fallou com +taes palavras:</p> + +<p>«<em>Senhores, sois portuguezes, ou castelhanos? Respondei sem susto; que +não tendes, quem n'esta ilha se opponha aos vossos designios. Se me +procuraes, para acabardes com a minha vida, aqui me achaes sem +resistencia, e sem defensa mais que a de Deus; e como de tanto viver +estou aborrecido, <span class='pagenum'>[44]</span> grande favor me fazeis em me alliviardes de tão +grande penalidade.</em> Eu, que respeitava a sua pessoa, desejando satisfazer +á sua pergunta, o certifiquei de que eramos portugueses, que arribáramos +com um grande temporal áquella ilha: do que, tanto que me ouviu, posto +de joelhos, levantadas as mãos, pondo os olhos no céo, soltando as +lagrimas, deu graças a Deus, dizendo: <em>Ah bom Deus, quão grande é a vossa +infinita Providencia!</em> E levantando-se, nos abraçou, e saudou, dizendo: +<em>Meus portuguezes, meus portuguezes</em>; sem que as lagrimas cessassem: e +levando-nos para o interior da cova, nos fez sentar junto a si, +perguntando-me pelos companheiros, e pelo nosso infausto successo, de +que lhe démos larga conta. Perguntou-nos quem reinava em Hespanha, e +sabendo que em Castella reinava Carlos II, e em Portugal D. Pedro II, +suspirando com alvoroço, disse: <em>E Portugal tem rei! Oh Deus immenso, que +te lembraste do teu reino!</em> E dizendo-lhe nós como fôra acclamado el-rei +D. João IV, e os milagrosos successos d'aquelle dia, não cessava de +mostrar o gozo, que interiormente sentia: e logo repetindo novas +lagrimas, suspiros, e soluços, nos perguntou pela conquista de Africa, +ao que respondemos dando-lhe conta, do que sabiamos, e como desde a +batalha, que perdera el-rei D. Sebastião, se não <span class='pagenum'>[45]</span> continuára, +tomando-se horror a tal terra: e desejosos nós de sabermos com quem +tratavamos, lhe pedimos nos consolasse, dizendo-nos, quem o levára +áquella ilha incognita, e não arrumada nas cartas, e roteiros; ao que +satisfez com taes palavras:</p> + +<p>«No tempo, que Philippe II entrou com violencia em Portugal, se retirou +muita gente, por não vêr o seu reino recuperado das mãos dos mouros +pelos nossos ascendentes, sem ajuda dos visinhos, sujeito a principe +estranho. Muito tempo andei retirado, discorrendo pelo interior da +Africa, passei á Palestina, e outras terras, tendo tantos trabalhos por +muito suaves, na consideração, de não vêr com os meus olhos o quanto +padeciam os meus naturaes; e passados alguns annos, passando á Europa, +cahi nas suas mãos; e entregando-me a certos homens, me levaram a uma +embarcação na bahia de Cadix, que promptamente se fez á vela. Tinha o +cabo ordem particular para que em certa altura me lançassem ao mar, sem +que me ouvisse, nem me deixasse fallar; e notando elle as minhas acções, +e innocencia, suspendeu a execução; até que na altura de Cabo Verde, me +intimou a ordem com tanto pezar, que bem entendi o desejo que tinha de +me favorecer. Preparou-se uma lancha, o melhor que se pôde, <span class='pagenum'>[46]</span> e +n'ella se pôz mantimento para tres dias. Entrou logo a animar-me, +exhortando-me a que confiasse em Deus, que me poderia livrar do perigo, +a que me haviam de expôr: e me mandaram baixar á lancha, o que não quiz +executar, sem me confessar, e me preparar espiritualmente, para entregar +a alma a Deus; que tudo se me concedeu; e tanto que baixei, cortaram o +cabo, e me entregaram á disposição das ondas. Não perdi o animo, antes +constante soffri este golpe, esperando, que Deus olhasse para a minha +causa; e nadando a lancha livremente, na manhã seguinte de 4 de outubro, +cheguei por acaso a esta ilha, em que habito sem que no discurso de +tantos annos visse alguma creatura racional. Penetrei o interior, +encontrando a piedade nos brutos, que não experimentei nos homens; e +descobri esta concavidade, que a natureza devia ter obrado para meu +abrigo. Aqui me recolhi, aqui tenho passado tantos annos, sustentando-me +com datiles, e outras frutas. Vivo, e não sei para o que vivo; Deus sabe +o para que.»</p> + +<br> + +<p>«O testemunho do narrador, confirmado por Manoel Antunes e João de +Arruda, assevera-me que se alguma vez houve D. Sebastião era aquelle. +Muito instaram os nautas que se deixasse levar <span class='pagenum'>[47]</span> a Portugal; «mas +elle--acrescenta o mestre do patacho <em>Nossa Senhora da +Candelaria</em>--encarecidamente nos pediu com as lagrimas nos olhos, que o +não precisassemos a tal jornada, pois não chegára ainda o tempo de +passar a Portugal; que pelo amor que nos tinha, o lançassemos, terra +firme, em qualquer parte da Africa; e que debaixo da palavra que lhe +haviamos de dar como portuguezes partiria comnosco; o que lhe juramos. +Perguntamos-lhe se tinha alguma cousa na sua cova, que embarcasse; e +respondeu, que desde que n'ella entrára não cuidára mais que viver para +Deus; e que todos os annos lavrava por suas mãos uma tunica de folhas de +palma, para cobrir honestamente o corpo; na cova não tinha mais que uma +cruz, que por suas mãos fizera de madeira; e que essa deixassem, para +que n'aquella terra ficasse o signal da nossa redempção; e quando ella +se povoasse nos tempos futuros se acharia tambem a noticia do seu +habitador. Embarcou-se comnosco, beijando a terra, com muitas lagrimas; +e fazendo-nos á vela, esteve em nossa companhia dous dias e meio, em que +nos contava monstruosidades d'aquella ilha; e satisfazendo ao seu +pedimento o lançamos em terra duas leguas distante de Arguim, +expondo-lhe os perigos a que se expunha, sem que o podessemos <span class='pagenum'>[48]</span> +persuadir a suspender o desembarque em terra de barbaros; ao que +respondia, que Deus que o conservára até aquelle tempo, o livraria de +todos os perigos.</p> + +<p>«Despediu-se de nós com tantas lagrimas, e gosto, que bem mostrava as +saudades, que de nós levava, e o quanto se alegrava de passar áquella +terra. Abraçou-nos a todos, e saltando em terra, a beijou, e levantando +as mãos agradeceu a Deus as mercês que lhe fizera, e esperava receber da +sua piedosa mão; e penetrando aquella costa inculta, nos deixou sentidos +pela falta da sua companhia. Jámais podemos alcançar, o sabermos d'elle, +a sua patria, e nome; divertindo a resposta politicamente com tanta +gravidade, que nos não dava confiança, para instarmos; e sómente ao +despedir me disse, que a seu tempo o saberiam os nossos descendentes; e +dizendo-lhe eu nos consolasse ao menos declarando o tempo, nos disse: +que Deus o sabia.</p> + +<p>«Varios discursos fizemos sobre este homem, conservado por tantos annos +n'aquella ilha, e agora caminhando por taes desertos; e nos persuadimos +ser cousa maior. Deus o leve, e traga a salvamento.»</p> + +<br> + +<p>«Confronte agora v. as datas das sentenças <span class='pagenum'>[49]</span> dos tres pontifices, e +deprehenda que D. Sebastião, tendo corrido a Palestina e <em>varias terras</em> +como elle disse aos marinheiros, muito é de crêr que estivesse em Roma +nas tres épocas assignaladas na sentença.</p> + +<p>«Quanto á circumstancia de estar então o rei bastante avançado na +idade--pois tinha 137 annos--isso é controversia que pertence á alta +philosophia e não ao calendario decidir. São os <em>porquês</em> de Deus, dos +quaes, sobre o mesmo assumpto, escreveu o doutissimo padre Antonio +Vieira:</p> + +<br> + +<p>«Demais que os porquês de Deus são incomprehensiveis, e das suas razões +não póde o entendimento humano dar razão; quanto mais, que Deus Nosso +Senhor sempre faz as suas cousas grandes, e com grandes milagres. Bem +podia Deus dar no tempo do Anti-Christo padres, que a este prégassem, e +com tudo guarda ha tantos annos a Enoch e Elias: outras paridades podéra +trazer se a brevidade as permittira.</p> + +<p>«... Ou este rei morreu, ou não! Se morreu, aonde? Na batalha, ou fóra +d'ella? Se fóra d'ella, quem o testemunhou? Se morreu na batalha, como +não acharam os mouros o despojo, que tanto desejavam, e procuravam? Se +morreu no rio, como veio a sua espada? Como mandou o <span class='pagenum'>[50]</span> cardeal D. +Henrique aos que se fingiram reis inquirir e perguntar se eram o +verdadeiro rei? Se lhe a elle constára a sua morte, nunca fizera tal +inquirição; e a quem melhor podia constar, senão a elle? E bem se viu, +que lhe não fez exequias, nem officios, sendo um ministro da igreja, a +quem verdadeiramente tocava como rei, como tio, como prelado e por +obrigação. Mais: se morreu, como esteve depois em Veneza, e Napoles, +preso e desprezado, o que consta evidentissimamente, o qual successo +refere Lucio Floro nos seus <em>Annaes</em>, e D. João de Castro, que foi +testemunha de vista, o escreveu; e todas as circumstancias d'isso, e os +prodigios, que então succederam o confirmam, os quaes no quarto +fundamento d'este discurso mostraremos? Mais: que o snr. rei D. João IV +o testificou e contou, o que é uma mostra de evidencia certa, e outras +muitas, que é trabalhoso o referil-as por papel.»</p> + +<br> + +<p>«Responda-lhe, se póde.</p> + +<br> + +<p class="direita">«Muito venerador</p> + +<br> + +<p class="direita">«<em>Bibliophilo.</em>»</p> <span class='pagenum'>[51]</span> + +<br> + +<p>Não tenho que responder. S. s.<sup>a</sup> cuidará que eu sou menos sebastianista +que a sua pessoa?</p> + +<p>Já lhe disse que escolha uma das obras citadas, e... sabe que mais? +mande-as buscar ambas, que as merece.</p> + +<hr> + + + +<a name="cap06"></a> <h1>DESGRAÇADO BALZAC!</h1> + +<h2>(Á <em>ACTUALIDADE</em>)</h2> + + +<p>Tantas vezes o noticiarista repete que eu sou assignante do seu papel, +que parece estar-me convidando a declarar a razão por que assignei.</p> + +<p>Eu lh'a digo ao noticiarista. Foi para me regalar com as inepcias do +folhetinista.</p> + +<p>Quer-me parecer que os dous são um e mesmissimo tolo (com licença: não +diga que sou incivil).</p> + +<p>Se os dous não são homogeneos, então tenho centauro pela frente. Em +cima, no noticiario, está a porção humana do aborto; em baixo, no +folhetim, está (com a devida cortezia) a porção bestial do mesmo +centauro.</p> <span class='pagenum'>[52]</span> + +<p>Mas ha lanços em que o centauro se cabriola de feitio que a metade +debaixo esperneia em cima; e a gente, a meia volta, não sabe já onde +está o homem, nem onde está (com a divida venia) a bêsta.</p> + +<p>O noticiarista, que me dizem chamar-se Silva Pinto, consinta que eu, por +conveniencias da composição e da variedade da fórma, lhe não chame +sempre centauro e tolo. Obriga-me a pedir-lhe licença todas as vezes em +obsequio á urbanidade. O melhor é chamar-lhe, como variante, Silva +Pinto.</p> + +<p>O snr. Silva Pinto começou no n.º 16 da <em>Actualidade</em> a traduzir romances +de Balzac.</p> + +<p>Ai da nomeada do eminente explorador da alma, se Balzac podesse +espelhar-se na fusca photographia que lhe tirou este encarvoador de +paredes caiadas!</p> + +<p>Eu não me despendo em considerações banaes acerca das difficuldades que +empecem trasladar a portuguez os livros de Balzac.</p> + +<p>Quem entende as galas dos classicos francezes, e as encontra condensadas +no author dos <em>Contes drolatiques</em>, ainda que lhe sóbre igual saber da +linguagem portugueza, ha de vêr-se em apuros para moldurar em estylo +vernaculo as concisões, <span class='pagenum'>[53]</span> os idiotismos, a energia, o atticismo de +Balzac.</p> + +<p>Quem se afoutaria aos espinhos da empreitada? Um sujeito ignorantissimo +de ambos os idiomas: o snr. Silva Pinto.</p> + +<p>E, sem mais delongas, vou provar-lh'o. O leitor faça-me o obsequio de se +prover do n.º 16 da <em>Actualidade</em>, e abrir isso onde começa o martyrio de +Balzac. Não me demoro a mostrar-lhe que tudo ahi tresanda bafio francez, +sem um torneio de phrase portugueza, sem um resalto que denote primor, +ou sequer um dizer que não venha gafado de construcção gallicista. Isso +é o menos. Vamos ás tolices mais lerdas:</p> + +<p>Balzac, descrevendo um sujeito, a quem os seus amigos chamavam +<em>tempo-brusco</em>, dá a razão do epitheto n'estes termos:</p> + +<p><em>Il ne se rencontre en effet chez lui ni lumière trop vive, ni obscurité +complete.</em></p> + +<p>E vai agora o snr. Silva Pinto, parvoejando, traduz:</p> + +<p><em>Effectivamente, estão banidas por elle de sua casa tanto a luz demasiado +viva como a escuridão completa.</em></p> + +<p>Viram? <em>chez lui</em>--de sua casa. Incrivel!</p> + +<p>Balzac, interpretado por um portuguez medianamente versado na sua +lingua, quiz dizer:</p> <span class='pagenum'>[54]</span> + +<p><em>Não ha que esperar d'este homem grandes luzes nem grandes trevas.</em></p> + +<p>Mas... <em>a casa do homem</em>! Quando quiz Balzac saber se o sujeito tinha luz +ou estava ás escuras em casa? Quem estava em <em>escuridão completa</em> sabemos +nós.</p> + +<p>Adiante.</p> + +<p>Balzac descreve uma senhora rodeada de homens desvanecidos, gentis, +espirituosos, de notavel fama ou nome illustre, de baixa e alta +condição, e acrescenta:</p> + +<p><em>Auprès d'elle tout a blanchi.</em></p> + +<p>O snr. Silva interpreta assim a phrase:</p> + +<p><em>Tudo isto via embranquecer á beira d'ella os proprios cabellos.</em></p> + +<p>Quer dizer: <em>áquelles homens, quando conversavam com aquella senhora, +embranqueciam-se-lhes os proprios cabellos.</em></p> + +<p>Esta sandice faz-me compaixão. Se vejo outra assim, emigro.</p> + +<p>Balzac queria dizer: todos estes homens de prestigio, de galhardia, de +renome, aos olhos d'ella, <em>tout a blanchi</em>, «eram como se fossem velhos». +Não lhe inquietavam o coração, não lhe perturbavam a serena +indifferença, etc.</p> + +<p>Adiante.</p> + +<p>Referindo-se á insensibilidade d'esta dama, <span class='pagenum'>[55]</span> acrescenta Balzac: +<em>Certaines femmes coquettes sont capables de suivre ce plan la</em>. O author +quer dizer: <em>Certas mulheres galanteadoras tem artes de dissimularem os +mesmos geitos</em>; mas o snr. Pinto, subtrahindo o <em>coquettes</em> que dá o relevo +ao confronto, diz espalmadamente:</p> + +<p><em>Ha mulheres capazes de seguir... aquelle plano.</em></p> + +<p>Chatissimo!</p> + +<p>Balzac diz que Eugène de Rastignac... <em>avait plus d'une fois regardé la +marquise de manière à l'embarrasser</em>.</p> + +<p>Traducção do centauro:</p> + +<p><em>Olhava de quando em quando a marqueza de modo capaz de embaraçal-a.</em></p> + +<p>Ha aqui um fartum de rapaz de escola, que faz engulho. Como é que os +olhos embaraçam a dama? Com os rudimentos da lingua, um traductor menos +soez diria:</p> + +<p><em>Fitou-a algumas vezes de modo que a inquietou, ou enleou, ou perturbou.</em> +Abstenho-me de extrahir dos diccionaristas as indecencias subentendidas +na phrase <em>embaraçal-a</em>.</p> + +<p>Adiante.</p> + +<p>Balzac diz que o personagem <em>etait commodément assis, et avait les pieds +plus souvent sur ses chenets que dans sa chancelière</em>.</p> + +<p>O tal Pinto estraga d'esta arte:</p> <span class='pagenum'>[56]</span> + +<p><em>Estava commodamente sentado e aquecia mais frequentemente os pés no +brazeiro do que no traste forrado de pelles, destinado para tal fim.</em></p> + +<p>No traste forrado de pelles!</p> + +<p><em>Chancelière</em>,--uma palavra diluida em nove!</p> + +<p>Podia elle, avisinhando-se da indole da lingua, traduzir <em>capacho</em>, ou +<em>ceirão de félpo</em>, ou <em>guarda-pés</em>, ou <em>pelliça</em>, por analogia com os mantos +forrados de pelles; mas... <em>traste!</em> Salvo seja!</p> + +<p>E traduzir <em>chenets</em> para brazeiro!</p> + +<p>Este brazeiro deu-lhe provisão para tolejar á larga, e afogar no +tinteiro as palavras que não percebeu.</p> + +<p>Logo em seguida, escreve Balzac:</p> + +<p><em>Oh! avoir les pieds sur la barre polie qui reunit les deux griffons d'un +garde-cendre</em>, etc.</p> + +<p>Querem vêr o que é uma traducção sovina?</p> + +<p><em>Oh! conservar os pés junto ao brazeiro...</em> E acabou-se.</p> + +<p>Áquelles <em>griphos</em> embucharam-no ao bom do Pinto! Passou por aquillo como +o leitor e eu pelas legendas arabes da sé velha de Coimbra. Com a sua +crystallina ignorancia, privou o leitor de entender o suave sybaritismo +do personagem que, refestellado na poltrona, recostava <em>os pés no +varandim lustroso que entre-une os dous griphos do cinzeiro</em>. Percebeu +elle que os fogões tem um receptaculo, <span class='pagenum'>[57]</span> que recebe a cinza, ao +través de uma grelha, e que os ha ladeados de figuras que formam entre +si o apoio dos pés? Não percebeu nada.</p> + +<p>Senhores leitores do Balzac, segundo a <em>Actualidade</em>:</p> + +<p>O homem que nos vai apresentar o author da <em>Comedia humana</em>, vestido de +farrapos bordalengos, é esse que ahi fica... <em>ás moscas</em>, até ao numero +seguinte.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Agora, duas palavras graves.</p> + +<p>O snr. Theophilo Braga mandou acorrentar este <em>house-dog</em> á porta da +<em>Actualidade</em>. Fez mal. Eu tinha-me recolhido mansamente ao silencioso +espanto das arrancadas que os cafres faziam no campo arroteado pelos +Castilhos, Garretts, Herculanos, e outros somenos lidadores d'essa ala +que ahi está exposta ás injurias de tanto biltre. Era meu proposito +deixal-os cavar a sepultura d'elles com o seu proprio escoucear +phrenetico.</p> + +<p>Logo, porém, que o rafeiro mais refilado da matilha me latiu á sombra, +quando eu nem sequer o estremava dos anonymos que desprezo, +sacudil-o-hei á cara dos que o açulam, e fal-o-hei portador das minhas +caricias aos que o alimentam, <span class='pagenum'>[58]</span> em conformidade com o proverbio: <em>An +hungry dog will eat dirty pudding.</em></p> + +<hr> + + + +<a name="cap07"></a> <h1>OS 2 JOAQUINS</h1> + + +<p>Um é o arranjador dos <em>Musicos</em> e de outras maravalhas.</p> + +<p>Outro é Theophilo que tambem é <em>Joaquim</em>.</p> + +<p>E tambem é <em>Fernandes</em>.</p> + +<p>Expungiu o nome e o appellido, logo que se aforou em letras.</p> + +<p><em>Joaquim Fernandes</em> era a parte chata do sujeito.</p> + +<p>Desfez-se d'isto, poz-se ás cavalleiras do genio, e apregoou-se +<em>Theophilo Braga</em><sup><a name="mfn8" href="#fn8">[8]</a></sup>.</p> + +<p>Aviso á posteridade:</p> + +<p>Elle era Joaquim!</p> + +<p>A fatalidade dera 2 a Portugal, no mesmo seculo.</p> <span class='pagenum'>[59]</span> + +<p>Gemeos, homogeneos, homonymicos, productos de gravidez longa, parto +feito a urros, ferozes no nascedouro, ringindo com dentes anavalhados, +ao tempo que a lisonja os lambia, para os ageitar, como a ursa faz aos +seus cachorros.</p> + +<p>E que cachorros!</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Nem os sepulcros respeitam.</p> + +<p>Remetteram contra um, simultaneamente, os 2 Joaquins.</p> + +<p>A sepultura era de gigante que o leitor, se não o viu, ainda o vê na +projecção da sua imagem pelas paginas do livro amado.</p> + +<p>Chamára-se, n'esta vida, <span class="small-caps">Almeida-Garrett</span>;--e chama-se hoje a gloria +imperecedoura de Portugal.</p> + +<p>O Joaquim, que se expurgou de Fernandes, para escoucear o cadaver de +Cesar, disse...</p> + +<p>Mas, antes de reler-se o que elle disse, veja-se o que escreveu o editor +de <em>Helena</em>, romance posthumo e incompleto do author de <em>Fr. Luiz de Sousa</em>:</p> + +<br> + +<p>«Acabava o anno de 1854; ás primeiras cerrações do outomno inclinára +mortalmente a fronte o snr. visconde de Almeida-Garrett, sentindo no +<span class='pagenum'>[60]</span> coração os aggravos da doença que, dentro em pouco e para sempre, +havia de apagar-lhe a luz dos olhos.</p> + +<p>«Cresceu o mal. Imminente o perigo, durante os poucos mezes em que a +vida lhe fugia, quiz o nobre enfermo dizer o ultimo adeus ás queridas +producções do seu elegante espirito. Era então que a voz quasi infantil +da filha idolatrada lhe dizia os seus livros todos; foi então que, +revendo o archivo dos seus papeis, elle rasgava os que não deviam +sobreviver-lhe, guardando aquelles que, de mão propria, legava á +posteridade. Era um sol no occaso, revendo-se na luz immensa com que +alumiára a patria.</p> + +<p>«Finda a leitura, prompto o legado, extinguiu-se aquella existencia +esplendida, abraçada á cruz de Christo, abençoando a herdeira do seu +nome, e embalada pelos cantos da sua propria harpa. Fim sublime! Sentiu +no ultimo suspiro,--o seu credo, o seu génio e todo o seu coração.»</p> + +<br> + +<p>Agora, Joaquim Theophilo, interpretando com gaiata solercia as palavras +de C. G., genro de Garrett e editor de <em>Helena</em>:</p> + +<br> + +<p>«Elle escreve alludindo á morte de Garrett: «Era um sol no occaso +<em>revendo-se na luz</em> immensa <span class='pagenum'>[61]</span> com que alumiava a patria.» E em seguida: +«extinguiu-se aquella existencia esplendida <em>abraçada á cruz</em> de +Christo...»</p> + +<br> + +<p>E ajunta o pellitrapo das letras com brutalidade manhosa:</p> + +<br> + +<p>«É de crêr que não haja aqui intenção maliciosa, mas desperta +insensivelmente o dito celebre de Rodrigo da Fonseca Magalhães.»</p> + +<br> + +<p>É impudor glosar essa sordicia que ahi fica. Ninguem se demora a +observar um cão resêcco, pilharengo, derreado, chagoso, que lambe +faminto a sangueira negra de um matadouro.</p> + +<p>Até os ossos de Rodrigo da Fonseca lhe serviram á gargalhada!</p> + +<p>Nunca o honrado estadista proferira o tal motejo que lhe assacaram, +estando Garrett na agonia da morte.</p> + +<p>Garrett morreu entre dous amigos e duas irmãs da caridade.</p> + +<p>Eu perguntei a um dos intimos de Fonseca Magalhães, ao desembargador +Northon, se o seu amigo proferira o gracejo tão celebrado.</p> + +<p>--Não--respondeu elle--mal sabe a dôr que <span class='pagenum'>[62]</span> eu involuntariamente +causei a Rodrigo, quando lhe repeti a proterva zombaria que lhe +attribuiam.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Agora, o outro Joaquim, o musicógrapho.</p> + +<p>Escrevi em um livro estas linhas em fórma de carta a um amigo:</p> + +<br> + +<p>«Sabes tu o que eu queria roubar á gaveta de José Gomes Monteiro? As +cartas de Almeida-Garrett, as confidencias d'aquelle immenso genio, que +se expandiam na alma e intelligencia de José Gomes Monteiro. Estas +seriam as paginas de ouro da biographia de ambos. Uma sei eu que existe +em que Almeida-Garrett, em perigo de vida ou previsão de morte proxima, +encarrega o seu amigo de defender-lhe a honra e a fama assim que a pedra +sepulchral lhe vedar o direito da defeza. Que sublime legado! que +legitima e jubilosa vaidade para o coração honrado e generoso de José +Gomes Monteiro!<sup><a name="mfn9" href="#fn9">[9]</a></sup>»</p> + +<p>E vai agora, o dos <em>Musicos</em>, péga de Garrett, adormecido, havia 19 annos, +no sagrado somno <span class='pagenum'>[63]</span> dos mortos santificados por saudade, talento e +veneração, e enxovalha-o d'esta arte:</p> + +<br> + +<p>«Sim, senhor, basta isto para nos pintar o janota de 55 annos, que, para +brilhar como um <em>vieux vert</em> aos olhos das <em>petites maítresses</em> de ha 30 +annos, não teve vergonha de pintar as suas barbas com elixires, dando +com a sua vida airada a confirmação de que o <em>genio immenso</em> precisa da +<em>bohème</em> para a sua inspiração, etc.<sup><a name="mfn10" href="#fn10">[10]</a></sup>».</p> + +<br> + +<p>Alma e linguagem travam-se aqui de mão, e medem a sciencia e a educação +do sujeito. Este snr. Joaquim usa gravata, e não me consta que passasse +a infancia gandaiando nas escadas dos Congregados. Foi educado na +Allemanha, por não caber (diz elle) <em>nos focos de immundicie physica, +moral e intellectual de dous ou tres collegios do Porto onde o haviam +mettido</em><sup><a name="mfn11" href="#fn11">[11]</a></sup>. Já vêem que o homem é limpo. Depois, veio á patria para se +formar em Coimbra; e, como aquillo de Coimbra lhe cheirasse aos +collegios do Porto, foi-se embora, e abriu, por sua conta, universidade +de frandulagens no Porto, com succursaes em Allemanha, França, etc.</p> +<span class='pagenum'>[64]</span> + +<p>Não só é conhecido mas até soffregamente lido em Paris.</p> + +<p>Elle mesmo nos conta esta cousa no livro onde estou esgaravatando:</p> + +<br> + +<p>«Voltamos serenamente aos nossos trabalhos sobre a <em>Archeologia artistica +para darmos</em> a nova edição critica do <em>Catalogo da livraria d'el-rei D. +João IV</em> que, <em>como sabemos</em> pelo nosso sabio amigo Mr. Ferdinand Denis, é +esperada com impaciencia em Paris.»</p> + +<br> + +<p>Viram? <em>com impaciencia</em>.</p> + +<p>Era em 1872, quando ainda o coração e o cerebro da França vibravam nas +angustias do opprobrio nacional, da luta fratricida, da devastação, do +petroleo, da ingente miseria das viuvas e dos orphãos. Pois, em meio de +tanto horror, a unica esperança que, a intervallos, dava palpitações de +gaudio a Paris era a impaciencia das turbas, com os olhos postos no +occidente, á espera do livro do nosso, tão nosso, Joaquim! Cada vez que +chegava á capital da França a mala de Portugal, as multidões +acotovelavam-se frementes á porta do Mr. Ferdinand Denis, amigo do +sobredito, e, ullulando insoffridas, pediam o <em>Catalogo</em>. O sabio francez +linimentava com promessas o phrenesi da <span class='pagenum'>[65]</span> academia e dos institutos; +as massas debandavam; e depois, recolhido ao seu gabinete, Mr. Denis +pedia novamente o <em>Catalogo</em> ao lusitano Joaquim, pintando-lhe com termos +não encarecidos a impaciencia dos seus.</p> + +<p>Aqui está quem é o homem lá fora, e cá dentro.</p> + +<p>Elle embirra com a maioria do publico portuguez; e justifica a birra +n'estes termos:</p> + +<br> + +<p>«Porque lhe antepomos um ideal que elle não quer ter<sup><a name="mfn12" href="#fn12">[12]</a></sup>.»</p> + +<p>Então? fazem favor de aceitar o ideal que lhe antepõe o snr. Joaquim? +Elle não sabe a significação do verbo <em>ante-pôr</em>; mas imagine-se que quer +dizer o que a palavra não diz; presuma-se que nos <em>offerece</em> um ideal, por +um preço razoavel. Que duvida temos em haver ás mãos isso que o rapaz +nos trouxe de Hamburgo, em vez de nos trazer dous costaes de queijos? Ha +de haver muito quem antes quizesse, em vez do <em>ideal</em> anteposto, uma <em>idéa</em> +de servir; mas, se Joaquim dá <em>ideaes</em>, peguem n'elles, antes que o homem +os exporte, como cá fazem aos bois gordos que os nossos <span class='pagenum'>[66]</span> magarefes +não aceitam pela taxa de Londres, posto que lh'os anteponham.</p> + +<p>É o diabo este homem! Má mez p'ra elle!</p> + +<p>Lá que o rapazola verbere os escriptores vivos que lhe não aceitam o +ideal, é bem feito. De Mendes Leal, por exemplo, diz que é <em>uma +antigualha que só apparece nos leilões dos burguezes de ha 40 annos</em>. De +Castilho diz que lhe riscára o nome, depois que o outro Joaquim <em>lhe +applicou o processo</em>. (Ai d'aquelles a quem o outro applica processos! +<em>Eheu!</em>) De Herculano diz: «está decrepito». Todos estes e outros de menos +porte são os relapsos do ideal de Joaquim; mas Garrett e Rebello da +Silva? Um era já morto; o outro fallecia quando o enxovedo alvorejava +n'este novo dia da sciencia patria. É crueza injurial-os, posto que +Joaquim Theophilo Fernandes lhes haja <em>applicado o processo</em>.</p> + +<p>Este Fernandes já processou o Herculano, e disse: «O snr. Alexandre +Herculano nunca teve vocação litteraria<sup><a name="mfn13" href="#fn13">[13]</a></sup>.» E o <em>Eurico</em>? E a <em>Abobada</em>? E +o <em>Monge de Cistér</em>? E o <em>Bobo</em>? e a <em>Historia de Portugal</em>? e a da +<em>Inquisição</em>! e a <em>Harpa do crente</em>? Cuida o leitor que é mister vocação +litteraria para escrever estas cousas? Não, senhor. Estes <span class='pagenum'>[67]</span> livros só +os escreve quem a não tem. O snr. Herculano, se tivesse vocação +litteraria, fazia umas botas.</p> + +<p>Parte d'aquellas obras diz Fernandes que é glosa da <em>Notre Dame</em> de Victor +Hugo.</p> + +<p><em>Eurico</em> é a variante do typo de <em>Claudio Frollo</em>;</p> + +<p>O <em>Monge de Cistér</em> é variante da paixão de <em>Esmeralda e de Phebus</em>;</p> + +<p>O <em>Bobo</em> é o desenvolvimento de Pierre Gringoire;</p> + +<p>A <em>Historia de Portugal</em> é apenas a historia dos concelhos precedida da +biographia dos reis.</p> + +<p>Depois, escalpella-lhe a linguagem, e diz que o seu estylo <em>só se admitte +nos rapazes de escóla</em><sup><a name="mfn14" href="#fn14">[14]</a></sup>.</p> + +<p>O leitor está em dizer que este Joaquim parvoeira tão fóra dos termos +concedidos aos sandeus que a policia não deve ser estranha ao escandalo.</p> + +<p>Mas, n'este comenos, apparece um tal Adolpho Coelho, e diz:</p> + +<p>É <em>Theophilo Braga evidentemente um dos homens mais notaveis que Portugal +tem produzido n'este seculo</em><sup><a name="mfn15" href="#fn15">[15]</a></sup>.</p> + +<p>--E quem é Adolpho Coelho?--pergunta o leitor.</p> <span class='pagenum'>[68]</span> + +<p>Vem Theophilo, e responde:</p> + +<p>É o <em>introductor da sciencia da philologia comparada em Portugal</em><sup><a +name="mfn16" href="#fn16">[16]</a></sup>.</p> + +<p>Todos estes Joaquins é que sabem lá uns dos outros.</p> + +<p>Juntam-se ás vezes e perguntam entre si:</p> + +<p><em>Theophilo a Coelho</em>: Quem és tu, ó aquelle?--Resposta: Eu sou o +introductor da philologia comparada em Portugal.</p> + +<p><em>Coelho a Theophilo</em>: E tu?--Resposta: Sou um dos homens mais notaveis que +Portugal tem produzido n'este seculo.</p> + +<p><em>Joaquim dos Musicos a Joaquim dos Mosárabes</em>: Quem sou eu?--Resposta: És +o musicógrapho, e o inventor dos imperativos <em>sejai</em> e <em>estejai</em>.</p> + +<p><em>O 2.º ao 1.º Joaquim</em>: E eu?--Tu applicas processos, e eu risco os nomes.</p> + +<p>Ó pandegos, ó lombrigas que roeis o intestino recto da Minerva! Ó +Joaquins! Eu vos arrenego!</p> + +<div class="rodape"> <p><sup><a name="fn8" href="#mfn8">[8]</a></sup>No <em>Diccionario bibliographico</em> do snr. I. Francisco da Silva, é +conhecido por <em>Joaquim Theophilo Fernandes Braga</em>. (Veja Supplemento).</p> + +<p><sup><a name="fn9" href="#mfn9">[9]</a></sup> <em>Esboços de apreciações litterarias.</em></p> + +<p><sup><a name="fn10" href="#mfn10">[10]</a></sup> <em>O consummado germanista</em>, por Joaquim do Vasconcellos, pag. 50.</p> + +<p><sup><a name="fn11" href="#mfn11">[11]</a></sup> <em>Obra cit.</em>, pag. 2.</p> + +<p><sup><a name="fn12" href="#mfn12">[12]</a></sup> <em>Obra cit.</em>, pag. 9.</p> + +<p><sup><a name="fn13" href="#mfn13">[13]</a></sup> <em>Bibliographia critica</em>, pag. 106.</p> + +<p><sup><a name="fn14" href="#mfn14">[14]</a></sup> <em>Obra cit.</em>, pag. 200 e 201.</p> + +<p><sup><a name="fn15" href="#mfn15">[15]</a></sup> <em>Obra cit.</em>, pag. 215.</p> + +<p><sup><a name="fn16" href="#mfn16">[16]</a></sup> <em>Obra cit.</em>, pag. 253.</p> </div> <span class='pagenum'>[69]</span> + +<hr> + + + +<a name="cap08"></a> <h1>FLORES PARA A SEPULTURA DE FERREIRA RANGEL</h1> + + +<p>É o snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos que m'as envia. Irei +levar-lh'as. Conheço a valia que principia a hervecer. As côres alegres +da esperança cobrem a podridão.</p> + +<p>Estão como a dizer-nos que o viver é olhar para diante e para os vivos; +e nada de mortos nem de saudades. Iremos levar-lhe as flôres do seu +amigo da mocidade.</p> + +<p>Antonio Augusto escreveu, a respeito de Ferreira Rangel, no seu <em>Jornal +da Noite</em>, uma pagina assignaladamente formosa e triste. Alli ha coração, +ha lagrimas, ha o que quer que seja que resgata o delicto da imprensa, +silenciosa, na morte de um valoroso obreiro da liberdade, e modesto +cultor das letras. E, ao proposito de letras, acrescentarei que Ferreira +Rangel, nos derradeiros annos da vida, tinha uns cem volumes de obras +portuguezas mais de sua feição; e, quando expirou, esses cem volumes +estavam empenhados para o custeio dos ultimos caldos.</p> + +<p>Indemnise-se a indigencia d'este homem de <span class='pagenum'>[70]</span> bem com a riqueza do alto +louvor que lhe apregôa um brilhante espirito a quem não se escondem as +desventuras alheias, nem esmorece o brado a favor dos desvalidos.</p> + +<p>Estas são as palavras pungitivas e eloquentes do grande escriptor:</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>«Não succedeu porém outro tanto com o artigo intitulado <span class="small-caps">Ferreira Rangel</span>. +Ahi assaltou-nos a saudade do homem, a recordação de obsequios +recebidos, a magoa da sua desventura, e não podémos, nem quizemos conter +as lagrimas. Se é vergonha chorar, diga-se que é a mais viciosa vergonha +inventada por homens.</p> + +<p>«Conhecemos aquelle Francisco Ferreira Ribeiro Pinto Rangel em 1834. +Ainda morava a Santo Antonio do Penedo em uma especie de ilha sem mar +entre o convento de Santa Clara e o palacio dos Vieiras de Mello, então +habitado pelo visconde de S. Gil de Perre, depois marquez de Terena, e +agora pelo snr. visconde de Azevedo. A supposta ilha era formada, se a +memoria nos não engana, pela capella de Santo Antonio e pela casa do +chamado <em>escrivão fidalgo</em> cujo brazão recentemente collocado alvejava na +frontaria.</p> + +<p>«Ferreira Rangel tinha servido em um dos <span class='pagenum'>[71]</span> batalhões do Porto durante +o cerco, e era liberal enthusiasta. Ainda trajava o uniforme militar, e +apparecia nos theatros, nos passeios e em todas as reuniões. Não lhe +chamavam <em>janota</em> porque a palavra estava por cunhar na casa da moeda da +vernaculidade. Os seus principaes companheiros eram Nicolau Coquet Pinto +de Queiroz que foi depois empregado da camara municipal, e talvez já não +viva, e Antonio Joaquim Carneiro Homem que foi acabar a vida em +Moçambique, provido no mais reles emprego da provincia em recompensa de +varias feridas recebidas no cerco e de ter gasto na defeza da liberdade +toda a sua fazenda. O ministro que o despachou, envergonhava-se de +empregar tão mesquinhamente homem de taes serviços. Era o snr. Mendes +Leal. Mas não havia outro emprego, e o pobre voluntario liberal não +podia esperar. Tinha mulher e filhos, e já não tinha pão nem calçado.</p> + +<p>«D'esses tres homens o que tinha imaginação mais viva, enthusiasmo +vigoroso, e propensões litterarias era Ferreira Rangel. O seu amor á +liberdade não tinha limites, e como era amor sincero, muitas vezes o +impelliu a expôr a vida para salvar da furia brutal dos exaltados os +proprios adversarios contra quem lutára havia pouco nas linhas do Porto. +Alguns cavalheiros das provincias <span class='pagenum'>[72]</span> do norte lhe deveram n'esse tempo +assignalados serviços. A generosidade do coração era n'elle igual á +coragem e valentia.</p> + +<p>«Uma noite desciamos a rua do Bomjardim onde moravamos, e ao dobrar a +esquina da rua do Bolhão vimo-nos cercados por quatro scelerados que +tomando-nos, apesar de imberbe, por algum temeroso capitão das hostes +realistas, iam demonstrar-nos com argumentos de carvalho-cerquinho a +excellencia do governo liberal, e induzir-nos a crêr que os caceteiros +azues e brancos não ficavam a dever nada aos seus predecessores azues e +encarnados.</p> + +<p>«Subia a rua Ferreira Rangel e chegava ao sitio do combate; quando o +rapaz de 18 annos principiava a rebater, como podia, a crua dureza +d'aquelles argumentos. O mesmo foi advertir no caso que saltar ao meio +do grupo, deitar por terra um dos aggressores, ferido de tremenda +bofetada, e obrigar os outros a fugirem, envergonhados mas resmungando.</p> + +<p>«Conservamos sempre relações com este excellente homem. Depois de 1839 +nas ferias da universidade, iamos sempre visital-o quando passavamos no +Porto. Desde 1850 nunca mais tivemos noticias d'elle. Quando agora lêmos +no livro do snr. Camillo Castello Branco a commemoração <span class='pagenum'>[73]</span> da morte de +Ferreira Rangel, desvalido, ignorado, e conduzido na tumba dos pobres +entre quatro tochas desde a rua Chã até ao Prado, sentimos não ter +estado no Porto n'esse dia para acompanhar á derradeira morada aquelle +homem desditoso.</p> + +<p>Está explicada a sensação que nos causou o artigo <span class="small-caps">Ferreira Rangel</span>. +Permitta o snr. Camillo Castello Branco que entre o ruido surdo da +enxada do coveiro alizando o comoro de terra sobre as taboas chuviscadas +do caixão, e o silencio eterno do mundo, se levante a nossa voz a +prestar á memoria do morto a homenagem da gratidão que lhe deviamos.</p> + +<p>«D'esta vez a <em>alçada da imprensa chegará até ao esquife do defunto</em>, e +derramará sobre elle sinceras lagrimas de saudade e de reconhecimento.»</p> + +<hr> + + + +<a name="cap09"></a> <h1>O MYSTERIO DA CASTANHA</h1> + + +<p>No estimavel livro das <em>Cartas familiares</em> de D. Francisco Manoel de +Mello, ha uma que estimulava fortemente a minha curiosidade, sempre que +<span class='pagenum'>[74]</span> a lia. É a LXXIV da <em>centuria segunda</em>, escripta <em>a um amigo que +passava á provincia da Beira</em>. A carta é breve, e diz assim:</p> + +<br> + +<p>«Que vos hei de dizer? senão que vos vades embora, que estejaes pouco, +que vos lembreis de mim. Não sei certo se se diz mais nas partidas: que +eu, de puro estar, já não sei se como a gente se despede<sup><a name="mfn17" href="#fn17">[17]</a></sup>. Só vos +peço que, pois ides para terra de muitos castanheiros, me não caseis lá +com alguma Maria Castanha; <em>cujo tempo parece que tornou agora, porque +aqui entre nós o fez assim.... Mas que muito, se traz o diabo aos pés, +que o fizesse resvalar e cahir? salvo na conta</em>. Ide com Deus, senhor +meu, e tende em tudo tão bom successo, que vos pareça a Beira mal, e +volteis logo. Nosso Senhor, etc. Torre em 15 de maio 1646.»</p> + +<br> + +<p>As palavras grifadas eram o meu enleio. Toda a minha scisma laborava em +saber o nome rebuçado n'aquellas reticencias, a razão por que o sujeito +trazia o diabo aos pés, e que casta de pessoa era aquella Castanha +casada com o anonymo, forçosamente individuo de alta prosapia.</p> + +<p>As pessoas de siso, que leram esta carta enigmatica, <span class='pagenum'>[75]</span> de certo não +moêram sua paciencia a farejar-lhe o escandalo; eu, porém, que não posso +dormir, e acordo os mortos para conversarem commigo á hora em que os +vivos dormem, necessito saber por inteiro o viver das pessoas com quem +estou relacionado.</p> + +<p>E, por tanto, á custa de muito averiguar, e bisbilhotar com os +contemporaneos do illustre encarcerado da Torre Velha, logrei +decifrar-lhe a carta.</p> + +<p>As reticencias encobrem o nome de Francisco Botelho, primeiro conde de +S. Miguel. Por ser de <em>S. Miguel</em>, é que D. Francisco lhe põe o diabo aos +pés.</p> + +<p>Temos o nome do mysterioso personagem.</p> + +<p>Saibamos agora quem era a <em>Castanha</em>.</p> + +<p>Era Ignez de Almeida, filha de Manoel Castanha, escrivão em Lisboa.</p> + +<p>Ignez era formosa e honesta.</p> + +<p>O conde de S. Miguel, já viuvo de D. Isabel de Mendonça, filha do +segundo conde de Penaguião, apaixonou-se por Ignez. Frustrados na +esquivança da moça todos os artificios do ouro com o prestigio da +pessoa, o conde accedeu á condição que ella estipulou: o casamento.</p> + +<p>Divulgou-se em Lisboa o disparatado consorcio, que toda a fidalguia +censurou, e D. Francisco <span class='pagenum'>[76]</span> Manoel metteu a riso, dando o noivo como +resvalado e cahido por cambapé que lhe fez o diabo.</p> + +<p>No entanto, o escrivão Castanha rejubilava por se vêr tão egregiamente +aparentado.</p> + +<p>Volvidos dous annos, apaixona-se o conde por D. Isabel Cecilia de +Tavora, filha herdeira de Alvaro Pires de Tavora.</p> + +<p>Este fidalgo com os da sua parentella, e com os estranhos, +escandalisam-se do proceder deshonrado do marido da Castanha, o qual +ousa requestar uma donzella de primeira linhagem.</p> + +<p>O conde defende-se, publicando que não é legitimamente casado com Ignez +Castanha.</p> + +<p>E, feita a infame declaração, separa-se d'ella e do filhinho, que se +chamava Nuno.</p> + +<p>Ignez, ferida no coração e na honra, protesta que é legitima esposa do +conde de S. Miguel.</p> + +<p>Instaura-se demanda.</p> + +<p>O conde confessa então que, na verdade, fizera um simulacro de +casamento, mediante um padre fingido, que era seu criado, com corôa +rapada, e vestido sacerdotalmente.</p> + +<p>A justiça aceitou a confissão do conde, confirmada pelo parocho fingido +e pelas testemunhas da tromoia.</p> + +<p>Sentenciada a nullidade do casamento, cuida o leitor que o conde foi +obrigado a revalidal-o, <span class='pagenum'>[77]</span> ou a seguir o seu criado e as testemunhas +para o degredo?</p> + +<p>Não, leitor pio.</p> + +<p>A fidalguia restituiu ao seu parente a dignidade abalada pelo supposto +consorcio com a Castanha.</p> + +<p>A lei desquitou-o da pobre senhora, cujo delicto estava santificado por +ignorar que no mundo havia tamanho infame.</p> + +<p>Porém, como ella tivesse um filho, a sentença mandou que esse menino, D. +Nuno Alvares Botelho, fosse considerado legitimo filho do conde de S. +Miguel.</p> + +<p>Ignez lá se foi amparar nos braços de seu pai, o plebeu, a quem Deus +inspiraria ternuras que despontassem os espinhos da sua corôa de +condessa ridiculisada pela sociedade.</p> + +<p>Desembaraçado e readmittido á estima dos Tavoras, o conde casou com a +tal Isabel Cecilia, de quem houve um filho que foi segundo conde de S. +Miguel.</p> + +<p>Quanto ao filho de Ignez, sabemos que viveu com pouco luzimento e +escassos haveres. Casou com D. Luiza de Moura, filha de Antonio +Castanheira de Moura. Teve dous filhos e cinco filhas. Um dos rapazes +chegou a general na India. O outro casou com uma filha do capitão-mór de +Goes, <span class='pagenum'>[78]</span> Antonio Barreto Perdigão. Uma filha casou, e das outras +quatro ignoro o destino.</p> + +<p>Esta linha, derivada da fraude e do vicio mascarado com a batina e +sobrepeliz, desappareceu: era justo. Na outra, que é a legitima e +consagrada pelo padre authentico, é que está o setimo conde de S. +Miguel, que--ainda bem!--não tem que vêr com a Castanha, zombeteada por +D. Francisco Manoel.</p> + +<p>Ora eu presumo que este fidalgo, que escreveu tão piedosas cousas a +respeito de Santo Agostinho, quando soubesse que a supposta condessa de +S. Miguel fôra apenas uma inconsciente concubina do seu torpe seductor, +espantar-se-hia de se vêr a si entre ferros, e ao outro nos braços de D. +Isabel de Tavora!</p> + +<div class="rodape"> <p><sup><a name="fn17" href="#mfn17">[17]</a></sup> Ia no seu 4.º anno de prisão D. Francisco Manoel.</p> </div> + +<hr> + + + +<a name="cap10"></a> <h1>BEM VINDO!</h1> + + +<p>Brindo o leitor com o capitulo primeiro d'um livro que ha de chamar-se +<span class="small-caps">os salões</span>.</p> + +<p>Firma-o--escuso apresental-o--um nome <span class='pagenum'>[79]</span> que, ha vinte annos, +alvoreceu por entre duas formosissimas auroras: a das letras amenas, e a +dos triumphos forenses.</p> + +<p>O visconde de Ouguella esteve já a meio caminho da montanha fragosa por +onde se trepa a outra ordem de mais estrondosa celebridade. Por um triz +que o não enxertam na estirpe tyrannicida dos Harmodios e Catões.</p> + +<p>O governo, o delegado, a côrte e o Moraes do <em>Mosquito</em> principiavam a +desbastar-lhe o marmore para o nicho no templo da Memoria, quando vem o +jury, e nos diz que o visconde de Ouguella nem queria matar el-rei nosso +senhor, nem vender-nos a Castella, nem frigir em petroleo as nossas +carnes, mais ou menos pingues.</p> + +<p>Esta decisão abriu um sorriso de socegado contentamento desde o poço do +Borratem até á rua da Betêsga, não ha duvida; mas o visconde achou-se de +repente reduzido sómente á celebridade que tinha: a do talento.</p> + +<p>Um d'estes dias fui vêl-o a Lisboa. Achei-o na sua livraria, entre dous +bustos de bronze que projectavam sobre elle umas sombras verde-negras, +que lhe davam toques de luz sinistra. Os bustos figuraram-se-me de +Ravaillac e Fieschi--os regicidas.</p> + +<p>Passados alguns minutos, afiz-me áquella meia <span class='pagenum'>[80]</span> luz crepuscular +descórada pelos bronzes, e o meu coração e o meu figado aquietaram-se. +Os bustos representavam a primor os dous estadistas mais philodynastas +que deu Portugal: o duque de Palmella e Rodrigo da Fonseca Magalhães. O +visconde, que, ao principio, me pareceu, nos tufos hirtos e espessos do +seu cabello, o que quer que fosse de Mirabeau, já me transluzia no +semblante o sorriso amoravel com que alumia o caminho de sua alma aos +que lá sabem ir pela lealdade do coração.</p> + +<p>Relancei os olhos, ainda suspeitosos, á sua banca, e vi papeis escriptos +recentemente. Com a liberdade de condiscipulo desde a escóla, +inclinei-me sobre o manuscripto, e li no alto de uma folha de almasso: +<SPAN class="small-caps">os salões</SPAN>. Depois li o capitulo, que era o primeiro; dobrei-o, metti-o +na algibeira, resolvido a estampal-o entre as minhas insomnias, como um +despertar alegre, lucido e côr de rosa, entre dous pesadelos.</p> <span class='pagenum'>[81]</span> + +<hr> + + + +<a name="cap11"></a> <h1>OS SALÕES</h1> + + +<h2>CAPITULO I</h2> + +<h2>FATUM</h2> + +<DIV class="citacao"> <p>Pour connaitre les hommes, pratiquer les femmes; pour connaitre les +femmes, pratiquer encore les femmes: c'est la sagesse des nations +folles.</p> + +<hr style="width: 5em;"> + +<p>La femme est le dernier mot du Créateur. Le grand maitre avait d'abord +sculpté les mondes, puis le mastodonte, puis l'aigle, puis l'homme; il +termina par la femme. Ce fut alors qu'il se reposa pour se contempler +dans son oeuvre.</p> + +<p class="direita">ARSÈNE HOUSSAYE.</p> </DIV> + +<p>O esboço é tudo.</p> + +<p>A esculptura, a sciencia, a pintura, a litteratura e a propria vida +começam pelo embryão.</p> + +<p>Deus mesmo não cria de repente uma obra prima:--como todos os artistas, +principia pelo esboço.</p> <span class='pagenum'>[82]</span> + +<p>A propria luz tem os seus arreboes, annuncia o seu alvorecer, tem as +suas auroras, prepara-nos as suas alvoradas, insinua-se pelos cambiantes +anacarados dos tons pallidos e transparentes da madrugada, formula o +<em>fiat lux</em> biblico, antes de se espargirem os seus opulentos e +brilhantissimos raios por sobre as magnificencias do universo.</p> + +<p>Começar pelo esboço--no presente livro--era consultar as sibyllas da +cidade antiga, as pythonissas que enunciavam a palavra divina, escutar +os oraculos dos templos de Delphos e de Epheso, ouvir as Egerias do +porvir, antes de dar a lume o manuscripto de João Aleixo de Castro +Pimentel e Figueiredo.</p> + +<p>Assim fiz.</p> + +<p>Conta-se d'um povo d'Asia, que promettera o diadema de rei ao primeiro +que, em determinado dia, visse nascer o sol. Correram á praça publica os +ambiciosos da purpura real, e em quanto todos filavam o oriente, houve +um, dos mais avisados, que, voltando costas ao berço do luzeiro +esplendido da terra, pregou os olhos nas arrendadas cupulas d'um +elegante e sumptuoso edificio, que demorava ao occidente.</p> + +<p>Foi este que alcançou a corôa. As primeiras frechas de ouro, +arremessadas pelo astro supremo <span class='pagenum'>[83]</span> do dia, vieram cravar-se no topo +das elevadas torres d'aquelle templo pagão.</p> + +<p>O passado vencera, aqui, o futuro.</p> + +<p>Sirva a lenda, n'este estylo e perfume oriental, para explicar o meu +singelo proceder.</p> + +<p>Quiz ouvir os murmurios das épocas, que passaram, e que vão perdidas na +escura noite dos tempos. Desejei escutar o trabalho ruidoso dos seculos +que vem, as promessas do futuro, os periodos que se desdobram, e +desenrolam nos horisontes rasgados da nossa idade, pela voz authorisada +e prophetica dos que riram, e dos que soffreram.</p> + +<p>Foi por isso, que consultei a marqueza de ***, e a condessa de ***.</p> + +<p>Uma é a religião austera do passado, cheia de nobilissimas tradições, +personificação viva da côrte antiga, reflexo ainda esplendoroso da +fidalga portugueza, na altivez das fórmas, na elegancia do dizer, na +familiaridade estudada do trato, na urbanidade singela das maneiras, e +no preito pago constantemente a tudo quanto é grande, nobre e generoso.</p> + +<p>A outra, a condessa, senhora da mesma época, nascida, e educada no +centro da mesma sociedade--permittam-me este desalinho de phrase--é, +como a estatua da liberdade, erguida sobre <span class='pagenum'>[84]</span> um pedestal de marmore +de Carrara ou de Paros, esquecendo a proposito os pulverulentos +pergaminhos d'outras eras, e os emblemas heraldicos da sua nobillissima +familia, para se lembrar sómente que é ella, esta excellente senhora, +uma das mais illustres victimas das tremendas e formidaveis lutas de +emancipação, por que combatemos e batalhamos ha um seculo.</p> + +<p>Sentei-me a seu lado, e escutei-as alternadamente.</p> + +<p>Uma fazia-me curvar de joelhos, respeitoso, e reverente, ao rememorar o +passado. A outra robustecia, em mim, este preito, que eu presto +diariamente á imagem sacrosanta da liberdade.</p> + +<p>A distincção, a grandeza do porte, a inimitavel polidez, a admiravel +cortezia, a elegancia incomparavel, e as fórmas obsequiosamente +aristocraticas são as mesmas.</p> + +<p>Mas a marqueza soffreu, e soffreu muito pelo antigo regimen.</p> + +<p>A condessa habitou, em tristezas amargas, e com dôres excruciantes, as +cadêas da côrte pela liberdade.</p> + +<p>Uma é a vestal antiga, espiando, sentinella irreprehensivel, junto do +fogo sagrado, se a scentelha divina vai apagar-se, e prompta a +acudir-lhe, solicita, para que o facho se conserve acceso, <span class='pagenum'>[85]</span> e +immaculado, na urna etrusca em que brilha e resplandece.</p> + +<p>A outra é a musa da democracia--risonha, serena, e impassivel, quer no +carcere, gemendo pela ousadia das suas crenças liberaes, quer a cavallo, +com os cabellos desprendidos ao vento das batalhas, sofrega do ruido, e +do pó e fumo dos combates, ao lado do homem, que o seu coração elegeu +para esposo, e que foi, Achilles d'esta Iliada, um dos heroes nas +epopêas da nossa liberdade.</p> + +<p>E com o mesmo respeito, com a mesma attenção, e com a mesma homenagem li +a estas duas illustres senhoras o manuscripto achado na gaveta do meu +contador.</p> + +<p>Eu respeito todas as crenças.</p> + +<p>Onde ha uma alma, que se eleve nas aspirações grandiosas do futuro, onde +ha um coração, que saiba palpitar, com enthusiasmo, na vasta arena de +todas as religiões do sentimento--ha, ahi, de certo, uma individualidade +marcada com o sello divino.</p> + +<p>O Senhor, na omnipotencia dos seus impenetraveis designios, curvando-se, +em toda a sua magestade, no centro do universo, escuta o ruido surdo, e +imperceptivel para ouvidos humanos, da herva ignorada, e rasteira, que +rasga a custo os <span class='pagenum'>[86]</span> seios da terra, e ouve a prece fervorosa, e +ardente da alma, que, em effluvios d'amor, se desprende das vaidades do +mundo, e sobe até ao seu throno de gloria.</p> + +<p>Só a hypocrisia, e o scepticismo são vis.</p> + +<p>Não condemnemos crenças, nem aspirações.</p> + +<p>Tenho medo que o credo de hontem seja o anathema de ámanhã.</p> + +<p>Apavora-me o receio de que o axioma de hoje, da actualidade, seja a +mentira, e a blasphemia do futuro.</p> + +<p>Depois de Platão, d'Aristoteles, de Socrates e de Christo, que sabemos +nós mais do mundo moral?</p> + +<p>Newton, Galileu, Harvey, Cuvier, Laplace, Spinosa, Kant, Proudhon e +tantos outros, n'essa pleiade immensa de illustrações, que vão +atravessando os seculos, e renegando symbolos e credos, que passaram, +são, para mim, a demonstração irrespondivel d'este clamor da +consciencia.</p> + +<p>Basta.</p> + +<p>Volto ao manuscripto.</p> + +<p>No pendor d'uma das montanhas sobre que está edificada Lisboa, no ponto +mais suave da encosta, levanta-se um palacio, cuja apparencia é modesta.</p> + +<p>Ahi vive a marqueza.</p> <span class='pagenum'>[87]</span> + +<p>Sobe-se uma escada de marmore á esquerda d'um pateo, que conserva todas +as tradições arabes. No patamar superior rasga-se am corredor sombrio, e +pouco alumiado, que conduz a uma saleta onde as elegancias modernas nada +teem que vêr.</p> + +<p>Este aposento não o adornou Gardet, nem o forraram os estofadores mais +afamados dos nossos tempos. Foram os seculos, que o vestiram, que o +alindaram, que lhe cobriram as paredes, e que lhe deram aquella +austeridade de ornamentação, disposta alli por varias gerações. +Ligam-se, e ajustam-se uns aos outros, em severas molduras d'ebano, os +retratos dos avós d'esta illustre familia. Ao lado d'um camarista de +Carlos III, de Hespanha, sorri, em vestuario de côrte, um cavalleiro de +S. Thiago, filho segundo d'esta nobre estirpe. Em convivencia com um +mimoso pagem do Escurial apruma-se, vigoroso e forte, um rico-homem de +Castella, envolto no arrogante e opulento manto de grande de Hespanha. E +as senhoras, oriundas de tão distinctos appellidos, adornadas com as +telas e estofos preciosos de épocas, que já acabaram, parecem estremecer +de jubilo, e anciarem pelo futuro d'aquelles tempos, que são hoje, para +nós, o passado, e a cinza d'aquelles cadaveres.</p> <span class='pagenum'>[88]</span> + +<p>Foi ahi, n'essa saleta, respirando aquelles perfumes do seculo +preterito, que li á marqueza o manuscripto de que sou legatario por +direito de conquista.</p> + +<p>A marqueza, se eu não quizera chamar-lhe a tradição viva, a imagem da +luz diffusa, que se vai immergindo no oceano das nossas tradições +heraldicas, e dos brasões esculpidos nas abobadas dos paços de Cintra, +seria, ainda assim, um reflexo da bondade divina.</p> + +<p>Encostada a uma bengala, cujo castão era uma maravilha artistica de +Benvenuto Cellini, envolta em vestes negras, que a acompanham desde a +sua viuvez, sem lhe occultarem a altivez das fórmas, e a superioridade +da mais elevada distincção, ouviu a marqueza, attenta, a leitura dos +trabalhos do desembargador. Sorriu-se ao chegarmos á conclusão, e soltou +apenas estas palavras, fitando os seus avós:</p> + +<p>--Visconde, ouça, e aconselhe-se com as illustrações do seculo. Eu sou o +passado. Bata á porta da actualidade.</p> + +<p>Beijei-lhe a mão, que a marqueza me estendeu com a elegancia da sua +primorosa educação, e sahi, curvando-me perante a grandeza d'aquelles +nobres instinctos, e suavidade de fórmas, que vão perdidas no nosso +seculo.</p> <span class='pagenum'>[89]</span> + +<p>Ao levantar o reposteiro, onde o brasão de familia, bordado em lãs +finissimas, brilha no centro dos panos, que rastejam, em vastas pregas +franjadas, n'aquelle recinto, que é um salão de antepassados, um +verdadeiro solar, vedado a olhos profanos--ouvi a voz branda, e +cadenciada da marqueza, que me dizia de pé, em face do retrato de seu +marido:</p> + +<p>--Visconde, conte do marquez as historias que lhe narrei.</p> + +<p>--Os desejos de v. exc.<sup>a</sup> são ordens para mim, minha senhora.</p> + +<p>E sahi.</p> + +<p>No fundo do passeio publico desdobram-se dous largos. Em um d'elles, por +meio de casas mais ou menos mesquinhas, levanta-se um palacete no estylo +moderno. Ha ahi uma sala, rica de adornos e de todo o conchego, que faz +o confortavel da vida intima.</p> + +<p>Vive ahi a condessa.</p> + +<p>Pendem das paredes e cobrem as <em>étagères</em> varios retratos de familia.</p> + +<p>Ha trabalhos de costura, e de <em>crochet</em> estendidos por sobre as mesas; ha, +finalmente, todos estes pequenos nadas, que explicam os sentimentos +intimos da existencia, e que se traduzem em recordações do lar +domestico.</p> <span class='pagenum'>[90]</span> + +<p>Não era o vestibulo, entre os romanos, a primeira adoração a Vesta?</p> + +<p>A condessa envolta, tambem, nos seus crepes negros, viuva do homem, que +ajudou a cravar, com o vigor, e robustez do seu pulso, o pendão da +liberdade em Portugal--recebeu-me com a semceremonia aristocratica do +seu elegantissimo trato.</p> + +<p>Apesar dos annos decorridos, a despeito dos desgostos profundos, das +lagrimas choradas no lugubre captiveiro, dos trabalhos inenarraveis +soffridos em lutas titanicas--conserva a condessa os perfis e contornos +da sua antiga formosura, tão puros, e tão correctos, que, se não é a +Venus irrompendo do seio das ondas espumosas e crystallinas dos mares da +Grecia, na deslumbrante belleza do Olympo pagão, tem, ainda assim, os +vagos e recordaveis traços da austera Juno, quando presidia aos festins +dos deuses.</p> + +<p>Ouviu impassivel a leitura do manuscripto.</p> + +<p>--Que me diz v. exc.<sup>a</sup> a este livro?</p> + +<p>Havia um sorriso ironico e espirituoso brincando nos labios da condessa.</p> + +<p>--Digo-lhe, que o publique. Mas escute: faltam-lhe ahi os lampejos de fé +viva, a crença robusta na liberdade, que animava e esforçava os heroes +do Porto. Venha, aqui, por vezes, ouvir, <span class='pagenum'>[91]</span> como lh'as tenho contado, +as lendas d'essas lutas de gigantes. Perdôe muito, como eu tenho +perdoado, aos homens que se esqueceram ou que erraram. Analíse e estude +as variadas transicções, que nos trouxeram a estas sinistras épocas de +descrença. Consulte o passado.</p> + +<p>Abri, para sahir, a porta d'este magico e encantador gabinete na mesma +perplexidade d'espirito com que entrára.</p> + +<p>--Ouça, visconde--disse-me ainda esta illustre senhora, na phrase breve, +e perceptivelmente imperiosa com que parece ordenar.--Não esqueça as +historias que lhe tenho narrado. Dê-as como suas ou como escriptas pelo +doutor João Aleixo--nem por isso lhe tomará elle contas na eternidade.</p> + +<p>Curvei-me respeitoso, e sahi.</p> + +<p>A condessa e a marqueza insistiam pela narração das anecdotas do seu +tempo. Quanto ao mais, quanto á historia vasta, severa, incisiva, +analytica, e verdadeira, como é ou deve ser, mandavam-me estudal-a nos +livros, porque não podiam, não queriam ou não desejavam esclarecer-me.</p> + +<p>Creio que o seculo XIX envolveu no sudario da agonia as idolatrias da +idade media, assim <span class='pagenum'>[92]</span> como as lendas do Golgotha amortalharam, para +todo o sempre, a mythologia pagã.</p> + +<p>Não se repetem agora os clamores sinistros, que reboavam nas florestas +da Thessalia, e se ouviam nas clareiras dos bosques sagrados da Grecia e +de Roma: «Morreu o Deus Pan!»</p> + +<p>Mas vai acabando a democracia com os preitos, que as cruzadas, as côrtes +d'amor, os torneios, e as cavallarias feudaes prestavam á mulher, +divinisando-a. Quer-me parecer que a ultima Egeria, <em>Madame</em> Rolland, +expirou no cadafalso em face da estatua da liberdade. É mais uma realeza +que se extingue com tantas outras.</p> + +<p>Onde acabava o oraculo começava a crença. Escutei o futuro.</p> + +<p>E conservei intacto, sem rasuras, nem entrelinhas, o manuscripto do +desembargador.</p> + +<p class="direita">VISCONDE DE OUGUELLA.</p> <span class='pagenum'>[93]</span> + +<hr> + + + +<a name="cap12"></a> <h1>SUBSIDIOS PARA A HISTORIA <br> DA <br> SERENISSIMA CASA DE BRAGANÇA</h1> + + +<h2>I <br> PEDRO DE ALPOEM</h2> + +<p>Sempre que encontrei este nome ligado á vida aventureira de D. Antonio, +prior do Crato, me detive a scismar no honrado homem que se chamou +assim.</p> + +<p>Pedro de Alpoem era portuguez de rija tempera. Seguira o pequeno bando +de D. Antonio, quando o duque de Bragança, D. João, primeiro de nome, +transigiu com Philippe II, por preço que adiante se dirá. Acclamou-o em +Santarem; fêl-o bemquisto da mocidade academica de Coimbra; seguiu-o na +fuga, depois da derrota de Alcantara, até Vianna do Minho; e, d'ahi, +como o infante se <span class='pagenum'>[94]</span> agasalhasse em seguro abrigo, voltou a Lisboa a +negociar-lhe a emigração em navio estrangeiro. Colhido de sobresalto +n'esta diligencia, foi posto a tormento. Confessou que viera a Lisboa a +fim de arranjar a passagem do principe; não lhe arrancaram, porém, as +torturas o segredo do escondrijo de D. Antonio. Ameaçaram-no com a +decapitação. Pedro de Alpoem sob-poz o pescoço ao cutello do verdugo, e +pereceu com o segredo do asylo do seu rei. Estremada probidade, que só +por si nobilita o nome portuguez, aviltado pelo maximo da fidalguia +bandeada com o usurpador!</p> + +<p>Entristecia-me a mingoada noticia que os historiadores nos transmittiram +de tão memoravel sujeito. E esse pouco foi dadiva de Herrera (<em>Cinco +libros de la historia de Portugal</em>, liv. III), de Faria e Sousa (<em>Europa +portugueza</em>, tom. III, part. 1, cap. IV), e do opusculo francez +intitulado<em> Briefve et sommaire description de la vie et mort de D. +Antoine, premier du nom et dix-huitième roy de Portugal</em>, impressa em +Paris, no anno 1629.</p> + +<p>Uma vez, folheando a <em>Bibliotheca lusitana</em>, vi o nome e appellido do leal +amigo de D. Antonio.</p> + +<p>Senti uma d'essas raras alegrias que só entendem os que andam a joeirar +o lixo dos seculos por vêr se acham um certo diamante que a maior parte +da gente não trocaria por missangas.</p> <span class='pagenum'>[95]</span> + +<p>A noticia que Barbosa Machado me deu, rezava assim: <em>Pedro de Alpoem +Contador, natural de Coimbra, doutor em direito cesareo, collegial do +collegio de S. Pedro, aonde foi admittido no 1.º de janeiro de 1578. Na +universidade patria regentou a cadeira de Instituta, que levou por +opposição a 18 de outubro de 1572, d'onde passou á do Código em 2 de +janeiro de 1579. Foi um dos celebres defensores da successão da corôa +portugueza a favor da senhora D. Catharina, como tambem do direito que +tinha á mesma corôa o snr. D. Antonio, prior do Crato, por cuja causa +morreu degolado.</em> <em>Escreveu</em>: Carta ao duque de Bragança D. João, o +primeiro de nome, quando Philippe Prudente entrou em Portugal. <em>A data é +do Seio de Abrahão a 20 de julho de 1581.</em> <em>Começa</em>: «Obriga-me a escrever +a v. exc.<sup>a</sup> cá d'est'outro mundo de verdades e desenganos.» <em>Acaba</em>: +«Conforme a santa lei d'este reino ao qual Deus eternamente tem +promettido conservar.» <em>É larga, muito judiciosa, e consta de uma forte +invectiva contra o cardeal D. Henrique, por dispôr que os castelhanos se +senhoreassem de Portugal, e juntamente contra o mesmo duque de Bragança +por seguir o cardeal.</em> (Tom. III, pag. 553).</p> + +<p>Alguns annos frustrei esforços em busca da carta manuscripta de Pedro de +Alpoem, pois, com certeza, não corria impressa; até que, entre uns <span class='pagenum'>[96]</span> +papeis pertencentes á rica livraria do jurisconsulto Pereira e Sousa, e +havidos por compra em 1873, se me deparou a carta que Barbosa Machado +inculcára.</p> + +<p>O investigador equivocou-se attribuindo-a ao doutor Pedro de Alpoem. Se +reparasse que ella é datada no <em>Seio de Abrahão</em>, deprehenderia logo que, +em nome de Pedro de Alpoem, já degolado em 20 de julho de 1581, alguém +escreveu aquella carta, como vinda d'além-mundo. E, até no começo da +carta, as palavras: <em>Obriga-me a escrever a v. exc.<sup>a</sup> cá d'est'outro mundo +de verdades e desenganos</em>, estão confirmando a ficção.</p> + +<p>Posto que o prazer de possuir um inedito de Alpoem se me agorentasse á +luz da boa critica, nem por isso desestimei o manuscripto, onde abundam +especies historicas não sabidas, traços profundos da physionomia do avô +de D. João IV, e alguns lanços ignorados da biographia da nobre victima +da amizade e do patriotismo.</p> + +<p>Persisti, assim mesmo, na indagação da linhagem de Pedro de Alpoem, +esperançado em descobrir miudezas que realçassem as feições principaes, +já de si bastante proeminentes a caracterisal-o. Pouco mais +esquadrinhei, senão que foi filho de Antonio de Alpoem, e neto de Pedro +de Alpoem, e de uma senhora de appellido <em>Caldeira</em>, <span class='pagenum'>[97]</span> filha de Affonso +Domingos de Aveiro, instituidor da capella de Santo Ildefonso, na igreja +de S. Thiago em Coimbra, da qual o justiçado amigo de D. Antonio era +administrador<sup><a name="mfn18" href="#fn18">[18]</a></sup>; e, como não deixasse descendencia, o morgadio passou +a seus parentes, filhos de Isabel Caldeira, irmã de seu avô, casada com +Estevão Barradas.</p> + +<p>No fim do seculo XVIII, o possuidor do morgadio de Pedro de Alpoem era +Lopo Cabral da Silveira, bisneto de D. Isabel Caldeira. Estas +impertinencias genealogicas pouco montam na historia de um homem que se +dispensava de avós illustres, bastando-lhe a proeza individual e sua de +dar a cabeça ao algoz e legar o nome sem mancha ao coração do principe +homisiado; mas seria hoje em dia brasão aos que procedessem d'esse +egregio sangue.</p> + +<p>D. Antonio captivou na desgraça amigos que lhe sacrificaram haveres, +liberdade, honras e vida. Sobrelevam entre outros o conde de Vimioso, o +bispo da Guarda, D. Diogo de Menezes,--que o duque d'Avila mandou +enforcar em Cascaes, juntamente com Henrique Pereira, alcaide do +castello--, Duarte de Lemos, senhor da Trofa, <span class='pagenum'>[98]</span> D. João de Azevedo, +Antonio de Brito Pimentel, Diogo Botelho, D. Duarte de Castro, D. Manoel +de Portugal, Manoel da Fonseca da Nobrega, e D. João de Castro, o +visionario, que, morta a esperança no filho de Violante Gomes, +resuscitou D. Sebastião na pessoa do calabrez Marco Tullio.</p> + +<p>As historias antigas e tambem as modernamente escriptas pelos snrs. +Rebello da Silva e Pinheiro Chagas não mencionam um amigo estrenuo do +prior do Crato. Era Martim Lopes de Azevedo, 19.º senhor da casa de +Azevedo, hoje representado pelo snr. visconde d'aquelle titulo, +cavalheiro em quem se alliam as altas qualidades do coração com +superiores dotes de provada intelligencia.</p> + +<p>Da inflexivel dedicação de Martim Lopes de Azevedo se lembra o principe +desterrado na Carta latina que escreveu ao papa Gregorio XIII, e outro +sim no seu testamento impresso nas <em>Provas da historia genealogica da +casa real</em>, tom. II, pag. 556.</p> + +<p>Era, ao tempo, aquelle fidalgo senhor da villa de Souto de Riba-Homem, e +outros senhorios e padroados de igrejas. Bandeou-se com o filho do +infante D. Luiz, logo que o duque de Bragança offereceu a sua casa como +valhacouto seguro aos embaixadores hespanhoes, a quem os partidarios +<span class='pagenum'>[99]</span> do rei portuguez ameaçavam, depois da morte do cardeal-rei.</p> + +<p>Perdidas as esperanças, Martim Lopes de Azevedo provou as angustias do +carcere e desterro, até que, volvidos annos, conseguiu perdão de +Philippe II, mediante o patrocinio de sua tia D. Leonor de Mascarenhas, +que havia sido dama da imperatriz D. Isabel, mãi do rei que lhe perdoou. +Todavia, o mais grosso de seus haveres em commendas e senhorios da corôa +nunca mais voltou á casa de Azevedo. Todos os conjurados contra a +usurpação, cedo ou tarde, se recobraram, e houveram generosas +indemnisações dos reis brigantinos; não assim os descendentes de Martim +Lopes, cujo representante, em 1874, dos bens de seus avoengos possue +apenas o que a rapacissima vingança de Philippe II lhe deixou. Entre os +netos de D. Arnaldo de Bayão e os do bastardo de Ignez Pires não tem +havido no decurso de tres seculos humiliações de vassallos nem +magnanimidade de reis.</p> + +<p>Volvendo á suppositicia carta de Pedro de Alpoem, aceitemos de seu +author, quem quer que fosse, o bosquejo do duque de Bragança, auxiliar, +senão causa primaz, da escravidão de Portugal, da degradação da nobreza, +da miseria do povo, <span class='pagenum'>[100]</span> do perdimento das colonias, e dos atrozes +flagellos que se contaram pelos dias de sessenta annos.</p> + +<p>Sirva este papel de vestibulo por onde depois entraremos ao archivo +secreto da veniaga que maniatou o duque de Bragança aos calcanhares de +Philippe II.</p> + +<div class="rodape"> <p><sup><a name="fn18" href="#mfn18">[18]</a></sup> N'esta capella ainda existe a sepultura com epitaphio dos +ascendentes de Pedro de Alpoem, mandada construir por seu avô do mesmo +nome em 1514.</p> </div> + +<hr> + +<h2>ERRATA DO N.º 2</h2> + +<p>Pag. 42, linha 3.ª:</p> + +<p>Aquillo com que mais se accende o engenho.</p> + +<p>Emende:</p> + +<p><em>Aquillo</em> «com que mais se accende o engenho».</p> + +<p class="centrado">FIM DO 3.º NUMERO</p> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem +não póde dormir. Nº3, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA. NO. 3 *** + +***** This file should be named 24957-h.htm or 24957-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/4/9/5/24957/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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