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diff --git a/24464-h/24464-h.htm b/24464-h/24464-h.htm new file mode 100644 index 0000000..dfc7592 --- /dev/null +++ b/24464-h/24464-h.htm @@ -0,0 +1,3628 @@ +<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN" "http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd"> +<html> + +<head> + <title>Noites de Insomnia, offerecidas a quem não póde dormir, nº 2</title> + <meta name="GENERATOR" content="Quanta Plus"> + <meta name="AUTHOR" content="Camillo Castello Branco"> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"> + <meta name="KEYWORDS" content=""> + <style type="text/css"> + @media print { + .pagenum { display: none;} + } + @media handheld { + .pagenum { display: none;} + } + body {width: 520px; margin-left: 90px; text-align: justify;} + .pagenum {font-size: 0.6em; font-style: normal;color: #666666; position:absolute; left: 630px;} + .capa {text-align: center; border: solid 1px #000000;} + hr { + border: none; + border-bottom: solid 2px #000000; + text-align: center; + } + a {color: #000000; text-decoration: none;} + sup {font-size: 0.8em;} + h2, h3, h4 {text-align: center;} + h1 {text-align: center; margin-top: 2em; margin-bottom: 2em;} + .small-caps { + font-variant: small-caps; + } + .direita { + text-align: right; + } + .centrado { + text-align: center; + } + .poesia { + margin: 2em; + text-align: left; + } + .rodape { + font-size: 0.8em; + margin: 2em; + } + #corpo p{ + line-height: 1.5em; + } + .dotted {border: 0; border-bottom: dotted 2px #000000;} + #sumario { + width: 75%; + margin: auto; + border-left: solid 1px #000000; + border-top: solid 1px #000000; + border-right: solid 3px #000000; + border-bottom: solid 3px #000000; + padding: 1em; + } + </style> +</head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não +póde dormir. Nº2 (of 12), by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº2 (of 12) + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: January 31, 2008 [EBook #24464] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano + + + + + +</pre> + +<span class='pagenum'>[1]</span> +<div class="capa"> +<p style="font-size: 1.2em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p> +<hr style="width: 6em;"> +<p style="font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p> + +<p style="font-size: 0.7em;">OFFERECIDAS</p> + +<p>A QUEM NÃO PÓDE DORMIR</p> + +<p style="font-size: 0.7em;">POR</p> + +<p style="font-size: 1.2em;">Camillo Castello Branco</p> +<hr style="width: 3em;"> +<p style="font-size: 0.7em;">PUBLICAÇÃO MENSAL</p> +<br> +<hr style="width: 3em;"> +<p style="font-size: 0.9em;">N.<sup>o</sup> 2--FEVEREIRO</p> +<hr style="width: 3em;"> +<table width="100%"> +<tr> +<th colspan=2> +LIVRARIA INTERNACIONAL<br> +<span style="font-size: 0.7em;">DE</span> +</th> +</tr> +<tr> +<td style="border-right: solid 1px #000000;"> +<span style="font-size: 0.9em;"> +ERNESTO CHARDRON +<br> +<em>96, Largo dos Clerigos, 98</em><br> +<strong>PORTO</strong> +</span> +</td> +<td> +<span style="font-size: 0.9em;">EUGENIO CHARDRON<br> +<em>4, Largo de S. Francisco, 4</em><br> +<strong>BRAGA</strong> +</span> +</td> +</tr> +</table> +<hr style="width: 2em;"> +<p style="font-size: 0.9em;">1874</p> +</div> +<span class='pagenum'>[2]</span> + +<div id="impressor" style="text-align: center;"> +<br> +<br> +<br> +<br> +<hr style="width: 8em;"> +<p>PORTO</p> + +<p style="font-size: 0.9em;">TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA</p> + +<p style="font-size: 0.8em;">68--Rua da Cancella Velha--62</p> +<hr style="width: 2em;"> +<p style="font-size: 0.9em;">1874</p> +</div> +<span class='pagenum'>[3]</span> + +<div id="sumario"> +<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;"> +BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA +</p> +<hr style="width: 4em;"> +<p style="text-align: center; font-size: 2em;"> +NOITES DE INSOMNIA +</p> +<hr style="width: 4em;"> +<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;"> +<strong>SUMMARIO</strong> +</p> + +<p> +<em><a href="#cap01">Aquella casa triste... (romance)</a> +-- <a href="#cap02">Solução do problema historico</a> +-- <a href="#cap03">Dous preconceitos</a> +-- <a href="#cap04">Lisboa</a> +-- <a href="#cap05">Ferreira Rangel</a> +-- <a href="#cap06">As joias de um ministro de D. João 5.<sup>o</sup> no prego</a> +-- <a href="#cap07">O oraculo do marquez de Pombal</a> +-- <a href="#cap08">O principe perfeito</a> +-- <a href="#cap09">Ave rara</a> +-- <a href="#cap10">Vergonhas nacionaes</a> +-- <a href="#cap11">Rancho da Carqueja</a> +-- <a href="#cap12">Bom humor (resposta ao noticiarista da "Actualidade")</a> +-- <a href="#cap13">Declaração.</a></em> +</p> +</div> +<span class='pagenum'>[5]</span> +<div id="corpo"> +<hr> + + + +<a name="cap01"></a> +<h1>AQUELLA CASA TRISTE...</h1> + +<h2>(1872)</h2> + + +<h3>I</h3> + +<p>A casa grande das quinze janellas branqueja +no espinhaço do monte.</p> + +<p>As janellas fecharam-se ha seis mezes, ao +mesmo tempo que duas sepulturas se abriram.</p> + +<p>A sepultura do <em>Africano</em> que chegava ao cemiterio, +quando a filha expirava; e a sepultura +de Deolinda, quando o sino dobrava ainda nos +funeraes do pai.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Ao homem, que morreu n'aquella casa triste, +chamavam o <em>Africano</em>.</p> +<span class='pagenum'>[6]</span> + +<p>Estou-a vendo d'aqui.</p> + +<p>As vidraças reberveram o sol poente.</p> + +<p>Eu, ha hoje dez annos, vi abrir os alicerces +d'aquella casa.</p> + +<p>Lidavam operarios a centenares.</p> + +<p>Entre os alveneis estava um sujeito, na pujança +dos annos, magro, macilento e tostado pelo +sol da Africa.</p> + +<p>Disseram-me que era homem muito rico, e +viera do cabo do mundo, e se chamava o «Duque» +por appellido, e o <em>Africano</em> por alcunha.</p> + +<p>Avisinhei-me d'elle com o semblante risonho +de cortezias para lhe perguntar como ia, em monte +assim agro e ermo, fabricar edificio tão grandemente +cimentado.</p> + +<p>Respondeu que tinha em Benguela uma filha, +com quem andára viajando na Suissa. E que a sua +Deolinda, estanciando nas empinadas serras de +S. Gothard, lhe dissera que seria feliz se morasse +no topo d'uma montanha, em casa imitante de +outra onde pernoitára, e d'onde vira levantar-se +o sol do seu leito de neve.</p> + +<p>E elle, pai extremoso, rico e saudoso da patria, +disse á filha que, por cima da casinha onde +nascera, em um outeiro do Minho, sobranceava +um alto monte, golpeado de regatos que derivavam +por entre arvoredos fresquissimos.</p> +<span class='pagenum'>[7]</span> + +<p>E a filha, cingindo-se-lhe ao pescoço, exclamára:</p> + +<p>--E quando vamos?</p> + +<p>--Irei fazer a casa no alto do monte, e depois +irás tu, e levaremos para a capella os ossos de tua +mãi. E eu descançarei d'esta labutação em que +pude grangear mais que o preciso ao teu passadío, +visto que preferes a viver em Paris uma +casa nas serras de Portugal.</p> + +<p>E sahiu de Benguela, provido de dinheiro para +edificar o ostentoso <em>chalet</em> que a filha phantasiára.</p> + +<p>Ora, os architectos do Minho, como não percebessem +a planta do <em>Africano</em>, construiram-lhe +um palacio aldeão, espécie de dormitorio monastico, +um leviathan de granito zebrado de vidraças +enormes e portas alterosas.</p> + +<p>Perto d'alli, na outra lombada do mesmo outeiro, +está o antigo solar torreado dos senhores +de Farelães.</p> + +<p>E eu que, n'aquelle tempo, me embrenhava +nas ruinarias grandiosas do paço senhorial de +Ruivães, a decifrar a lenda meio historica dos +Corrêas de Sá nos frescos do tecto apainelado, +ao perpassar pelas grossas cantarias do <em>Africano</em>, +dizia entre mim: «O palacio cavalleiroso que desaba, +e o palacio industrial que se levanta. Aquelle +<span class='pagenum'>[8]</span> +recorda as manhas epicas do peito illustre lusitano, +a industria da lança que atirou da India para +alli, na ponta ensanguentada, a pedraria dos reis +de Chaul, de Calecut e Mombaça. Ergue-se o novo +palacio para assignalar á posteridade que o +peito moderno lusitano é ainda illustre e emprehendedor, +differençando-se do antigo sómente no +que vai entre adaga e azorrague, entre acutilar o +indio pela frente, ou verberar o ethyope pelas +costas.»</p> + +<p>Mas eu não sabia se aquelle homem, tão entranhadamente +pai, amealhára os seus haveres +por entre os perigos do cruzeiro. Talvez que não. +A riqueza não é sempre o estipendio generoso dos +homens crueis. E, em corações afistulados por +peçonha de cubiça--sêde execravel que se apaga +em lagrimas--não cabe o exaltado e santissimo +sentimento do amor paternal. Quem chora por um +filho não tem olhos que vejam, enxutos, arrancar +escravos dos braços de suas mães. Verdade é +que os praticos d'estes ultrajes a Jesus--ser divino +em que Deus se manifestou no mais elevado +grau da consciencia humana--dizem que lá, nas +cubatas, não ha mães, nem filhos: ha individuos +bestialmente rebanhados, e inconscientes de laços +de familia. Se assim é, meu Deus, porque não +déstes á vossa creatura de epiderme negra o amor +<span class='pagenum'>[9]</span> +maternal que dulcifica as meiguices da hyena enroscada +nos filhos?</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Aprumadas as paredes, delineados os repartimentos, +os patins, as portas, a capella e o jardim, +Duque, o <em>Africano</em>, saudoso da filha, deixou a +obra em meio, e dinheiro de sobra ao seu feitor, +pautando-lhe que, no prazo de doze mezes, a casa +estaria feita.</p> + +<p>E voltou a Benguela, onde tinha centenas de +escravos, armazéns de café, de marfim, de gommas, +e as suas vastas sementeiras sobre dez leguas +circulares de terra, onde o suor da pelle fusca, porejado +pelo sol a pique, era um como adubo forte, +um guano de sangue estillado por entre febras +vigorosas e distendidas pelo latego.</p> + +<p>Vendeu as fazendas, enfeirou as bestas e os +negros, abarrotou a galera de carregação sua, esquipou +a tolda, decorou de frouxeis de sêda o camarim +da filha, e proejou á patria. Parecia um +dos antigos viso-reis que voltavam da India, d'uns +que não se chamavam João de Castro nem Affonso +de Albuquerque.</p> + +<p>--Vale duzentos contos a carga da <em>Deolinda</em>!--diziam +os amigos do <em>Africano</em>, quando as velas +da galera, chamada com o nome da filha de +<span class='pagenum'>[10]</span> +seu dono, trapeavam bafejadas por aprazivel +briza.</p> + +<p>A navegação, por perto da costa, e sempre +ajudada por prosperos ventos, correu alegre e +descuidosa de receios.</p> + +<p>Deolinda deleitava-se a remirar a prata das +ondas espumantes, ou, enlevada em leituras amenas, +passava as tardes na tolda, em quanto não +chegavam os seus amores mais queridos, as estrellas +do céo e as phosphorescencias do mar.</p> + +<p>Ella era mulata, e bella quanto cabe ser, com +a face beijada por aquelles raios ardentes e o +sangue escaldeado das lufadas do deserto--mulata, +com as feições levemente denunciativas da +raça materna, quasi tirante a esmaiado amarellido, +um bem harmonisado conjuncto de graças, +avantajadas ao que se diz belleza, debaixo d'este +nosso céo de rostos niveos, sangue pobre, e epiderme +alvacenta.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Trasmontada a linha, e festejado o passo com +descantes da maruja, o céo entrou de nublar-se, +a nortada a ringir nas gaveas os silvos agoureiros, +e o piloto esperto a encarar mui fito em um +nevoeiro que se acastellava, sobre noite, á volta +do sol esmaecido. Era em fevereiro de 1889.</p> +<span class='pagenum'>[11]</span> + +<p>Ao repontar a manhã do dia seguinte, o mar +urrava acapellado, as nuvens desciam a sorver as +ondas que se encurvavam, o sol apenas entreluzia +frio e marmoreo na baça claridade da manhã.</p> + +<p>Ao meio dia, o escurecer fez-se rapido e pardacento +como um crepusculo de noite invernosa.</p> + +<p>Bravejou subita furia de mar, apenas colhido +o velame.</p> + +<p>O piloto vira terra, e cobrára alento na esperança +de aproar a Cabo Verde, com quanto se temesse +d'aquella costa infamada de muitos naufragios, +desde que portuguezes se andam á cata de +ouro e opprobrio por entre os colmilhos da morte, +na espadoa das tempestades; a braços com a ira +de Deus e dos homens.</p> + +<p>Noite alta, estrondeou no cavername da galera +um como estampido de peça que detonasse +dentro.</p> + +<p>Deolinda foi colhida nos braços do pai, +quando resvalava da camilha ao pavimento, com +o livro das suas orações nas mãos convulsas, e o +nome da Mãi dos afflictos nos labios.</p> + +<p>--Morreremos, meu pai?!--perguntou trespassada +de horror.</p> + +<p>--Animo!--murmurou elle--abraça-te em +mim, que eu não quero chorar-te nem que me +chores, filha... Morreremos juntos.</p> +<span class='pagenum'>[12]</span> + +<p>Em cima estrugia a celeuma dos marinheiros, +o rojar rispido das amarras, os gritos, as supplicas, +os apitos, o troar da peça que pedia soccorro, +e o dos trovões, que reboavam, e um relampadejar +que azulava os abysmos.</p> + +<p>E, de subito, a galera, após aquelle repellão +que lhe vibrou as cavernas, quedou-se arquejante, +a roçar nos espigões da restinga.</p> + +<p>E as vagas, raivando contra aquelle estorvo, +galgavam-no rolando-se, refervendo e marulhando +de um bordo a outro. O porão descosia-se, +bebendo e golfando jorros de agua como o monstro +dos mares escalavrado pelos arpéos.</p> + +<p>O capitão, pallido mas sereno, debruçou-se +no corrimão da camara, e disse:</p> + +<p>--Encalhou a galera, snr. Duque. É tempo +de sahir a terra.</p> + +<p>--Nenhuma esperança?--perguntou o <em>Africano</em>.</p> + +<p>--As vidas salvam-se... talvez...</p> + +<p>--Só?...</p> + +<p>Perguntou o homem rico; mas aquelle monosyllabo, +estrangulado na garganta, rouquejou +como um arranco da vida. <em>Só!</em> Só a vida? O meu +suor de quarenta annos, os meus duzentos +contos de reis não se salvam? Eu hei de sahir +pobre d'entre esta riqueza que é minha, que é o +<span class='pagenum'>[13]</span> +repouso da velhice, o patrimonio de minha filha? +<em>Só!</em></p> + +<p>E as lanchas, balançadas no vai-vem das ondas, +chofravam nos flancos do navio por entre espadanas +de espuma.</p> + +<p>Deolinda atravessou corajosa, e firmada no +braço do pai, até ao portaló. O <em>Africano</em> levava no +rosto um terror indescriptivel, e nas contorsões e +visagens de afflicção a agonia da peor morte.</p> + +<p>E ella saltou de impeto ao escaler, apenas +amparada na mão de um passageiro, que lhe +disse:</p> + +<p>--Adeus...</p> + +<p>--Não vem?--perguntou ella.</p> + +<p>--Primeiro hão de ir as crianças, as mulheres +e os velhos.</p> + +<p>Deolinda contemplou-o alguns momentos, e +amparou-se na face do pai, onde as lagrimas derivavam +copiosas.</p> + +<p>Os escaleres vararam na areia, revessados no +rolo da vaga. Estavam salvos os velhos, as mulheres +e as crianças.</p> + +<p>E, logo, os remadores intrepidos que outra +vez se arrostavam com a morte, viram a galera a +balouçar-se entre o vagalhão, e ouviram o estralejar +do cavername por sobre os clamores dos +naufragos; depois, levantou-se um grande mar, e +<span class='pagenum'>[14]</span> +a lancha ficou para além d'essa formidavel montanha; +e, quando o escarcéo descahiu para solevar +a barca, um momento quieta nas fauces da voragem, +os mareantes já não viram da galera senão +o gume da quilha, e á volta d'ella o bracejar dos +agonisantes.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Um dos que alli morreram foi aquelle que, +dando a mão a Deolinda, lhe dissera: «Adeus!»</p> + +<p>Era um homem de trinta annos, bem figurado, +ares de fina raça e maneiras de cortezão, com +palavras polidas e muito alheias das usuaes nos +homens que viandam por aquellas paragens. Não +lhe sei o nome, nem que lh'o soubera o diria. +Foi-lhe tumulo o mar, como se a sorte quizesse +que o seu nome se não lesse em epitaphio. Sei +que elle cumprira sentença de tres annos em Angola, +porque aspirára ás honras de ser rico, sem +escrupulisar nos meios. Tinham-lhe dito que os +seus conterraneos mais nobilitados se haviam enriquecido, +trocando as riquezas da sã consciencia +por outras que levam ao inferno, é verdade, mas +pelas portas do paraiso das regalias d'este mundo. +Via-os saborearem-se em socego dos bens mal +adquiridos, sem remorso que lhes desvelasse as +noites, nem injuria da sociedade que lhes pozesse +<span class='pagenum'>[15]</span> +ferrete na testa; ao revez d'isso elles eram a classe +mais ao de cima, a gente chamada ás honras, sem +desconto na estupidez nem proterva reputação, +quanto á procedencia de seus bens de fortuna.</p> + +<p>Nascimento illustre, educação primorosa em +letras, e bastante descuidada em moral, pobreza +repentina por effeito de demandas que o esbulharam +do patrimonio, impaciencia, ruins exemplos +de infames prosperados--todas estas cousas se +travaram de mão para o perderem. O seu crime +foi associar-se desaproveitadamente com moedeiros +falsos, prestando-se a servir de passador de +notas no Brazil; no acto, porém, de fazer-se á +vela para lá, de um porto do archipelago açoriano, +foi denunciado, preso, e condemnado.</p> + +<p>De volta para Portugal, foi visto por Deolinda +a bordo da galera de seu pai, que o tratava com +desdem, senão desprezo. A filha do negreiro--negreiro +no começo da vida mercantil, mas depois +(bemdita seja a civilisação!) philanthropo seguidor +das leis humanitarias impostas pelo cruzeiro--soube +de seu pai o crime do passageiro, e não se +compenetrou do racional horror de tamanho delicto. +Bem que o condemnado não ousasse abeirar-se +dos mercadores, e menos d'ella, Deolinda usou +traças de conversar com elle uma fugitiva hora +<span class='pagenum'>[16]</span> +de noite serena, em quanto o pai, no seu camarim, +formava esquadrões de algarismos, dos quaes tirou +a prova real de que os seus haveres excediam +para muito os duzentos contos que lhe attribuiam.</p> + +<p>Desde essa hora da noite estrellada em que +ella ouvira palavras nunca ouvidas, accendeu-se +no coração combustivel da mulata o fogo que costuma +purificar as culpas do homem amado, tanto +monta que elle seja moedeiro falso, como homicida, +quer negreiro, quer ladrão de encruzilhada.</p> + +<p>E elle soube que era amado d'aquella mulher +que havia de herdar muito ouro, e nem por isso +lhe deu o galardão de ter descido até ao pobre +estigmatisado para sempre. Nem palavra de humildade +agradecida, nem de animo alvoroçado +por esperança de ser, a um tempo, amado e rico. +Deolinda ousou arguil-o de frio e desdenhoso. +Elle explicou docemente a sua frialdade, dizendo +que só havia no mundo uma mulher que não devia +desprezal-o, e uma só a quem elle devesse +amar sem pejo nem temor de ser repellido.</p> + +<p>--Quem é?--perguntou ella em sobresalto.</p> + +<p>--É minha mãi. Vou procural-a, e pedir-lhe +perdão, porque puz a minha ignominia á cabeceira +<span class='pagenum'>[17]</span> +do seu leito de moribunda. Se a não mataram +vergonhas e saudades, é porque Deus quer +que eu a veja.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Quem sabe ahi dizer o que Deus quer de +nós?</p> + +<p>O degredado, na volta da patria; alli morreu +n'aquelle naufragio, depois que ajudou a salvar +as crianças, as mulheres e os anciãos, despedindo-se +de todos com aquelle sereno adeus que dissera +á filha do <em>Africano</em>.</p> + +<p>E Deolinda, quando soube que elle era um +dos vinte e cinco cadaveres escalavrados na costa +de Cabo Verde, chorou poucas lagrimas, e parecia +querer romper no seio uma represa d'ellas, +que lhe deliam os estames da vida.</p> + +<p>--Estamos pobres!--exclamava o pai.</p> + +<p>--Temos de mais para o que havemos de viver--respondia +ella com uma alegre serenidade.</p> + +<p>--Porque has de tu morrer, minha filha?--volvia +elle já conformado com a desgraça.</p> + +<p>--Porque senti ha pouco um estalo no coração, +e cuidei que morria abafada. Passou esta ancia, +mas sei que hei de morrer d'isto. Parece que +vejo a sepultura aberta, e que o frio do cadaver +me trespassa.</p> +<span class='pagenum'>[18]</span> + +<p>O pai aconchegou-a no seio, como quem aquece +uma criança enregelada, e soluçou:</p> + +<p>--Ó meu Deus! levai-me minha filha, quando +eu me queixar da vossa vontade que me reduziu +a esta pobreza!</p> + + +<h3>II</h3> + +<p>Quando soou em Ruivães a nova de haver chegado +ao Porto o <em>Africano</em>, com a filha, os homens +ricos e pobres, da terra e de fóra, contribuiram +com mais ou menos para se lhes fazer uma espera +de estrondo em Famalicão. Contractaram-se as +bandas musicaes mais em voga, ou <em>mais na berra</em>, +como diziam os antigos. Parece que a phrase seiscentista +foi inventada particularmente para as orchestras +d'aquelles sitios, as quaes <em>berram</em> pelas +suas guelas de metal, quando a paixão philarmonica +as não exalta do berro ao mugido, do mugido +ao urro, e do urro ao bramido. Ha alli trombetas +que parecem ter assistido ao arrazar-se da +Jericó da Biblia, e se reservam para trovejarem o +horrendo signal da resurreição em Josaphat.</p> + +<p>Eram quatro as philarmonicas chamadas a +festejarem a entrada de Antonio Duque no concelho. +A musica de Landim, famosa por seis cornetas +de chaves, que executavam valsas e peças +<span class='pagenum'>[19]</span> +theatraes, de modo que, se Ducis as ouvisse, diria +que a opera lyrica balbuciára os seus primordios +entre as florestas druidicas. A banda de Fafião +competia com a de Guinfões na substancia das trompas +e troada das caixas. A de Ruivães avantajava-se +ás tres rivaes na delicadeza das modas e sentimentalismo +com que as charamelas respiravam o +sopro d'aquelles musicos, cujas bochechas pareciam +estar cheias de alma e castanhas assadas.</p> + +<p>Sou um homem feliz e digno de inveja. Tenho +saboreado os innocentes deleites que prodigalisam +ao seu auditorio as quatro bandas musicaes de +Landim, Fafião, Ruivães e Guinfões. Quando algum +amigo vai alegrar o ermo de S. Miguel de +Seide, chamo logo a musica mais delicada, a de +Ruivães; principalmente se o amigo é de Lisboa, +e frequentador de S. Carlos. O senhor visconde de +Castilho e seu filho Eugenio são chamados a depôr +n'este processo da immortalidade que vou instaurando +ao figle e á requinta, principalmente á requinta +de Ruivães. Não vi o senhor visconde chorar +de prazer, mas observei que s. exc.<sup>a</sup> estava commovido +quando a requinta assobiava uns guinchos +estridentes da <em>Maria Caxuxa</em>.</p> + +<p>Thomaz Ribeiro, o poeta eminente, recolhia-se +ás vezes, não ao seu quarto a calafetar os ouvidos, +mas ao intimo de sua alma a fazer viveiro +<span class='pagenum'>[20]</span> +de inspirações. Eugenio de Castilho, o poeta das +phantasias louras, quer a musica de Ruivães lhe +amolentasse a sensibilidade, quer os rouxinoes +das ramarias lhe déssem invejas dos seus amores, +fosse o que fosse, foi assaltado e vencido d'uma +paixão.</p> + +<p>Esta paixão tem uma historia. Não sei se elle +tenciona escrevel-a nas suas memorias posthumas; +e, assim, contal-a eu, é esbulhal-o da novidade +e primazia; desconfio, porém, que o meu +hospede e amigo desconhece a historia d'aquella +raparigaça de cabellos de ouro e ancas boleadas +que deslumbrava a duzia de moças requebradas +que lhe apresentei na eira.</p> + +<p>Chamava-se ella Amelia de Landim. Contava-se +que tinha vindo para alli da roda dos expostos +de Barcellos. Naturalmente, porque era linda e +pobre, ou se vendera ou tinha sido vendida. Assim +se disse; mas o certo foi que um filho de lavrador +rico lhe dera o impulso no alto da ladeira, +ao fundo da qual estava a voragem. Póde ser que +a alma se abysmasse e requeimasse no fogo dos +infernos por onde resvala a mulher perdida. Póde +ser. Do corpo é que ella não perdera a menor belleza; +nem sequer o viçor dos dezoito annos.</p> + +<p>Teria então vinte e cinco. Não era belleza peninsular. +Aquelle escarlate, os olhos azues, os opulentos +<span class='pagenum'>[21]</span> +cabellos louros, a pujança das fórmas, a +musculatura rosada e rija, a elegancia congenita, +o riso, a desenvoltura sem despejo, a graça lubrica +do trajo, em fim, a mulher, os arvoredos, a musica +de Ruivães, nomeadamente a requinta, e em +meio de tudo isto um rapaz de vinte e dous annos, +poeta porque é Castilho, e ardente porque é +trigueiro, e apaixonado porque é ardente, eis +aqui o porquê d'aquelles amores.</p> + +<p>Castilho carecia de um confidente com ouvidos +e critica. A poesia não lhe deu para se confidenciar +com os sobreiros da mata, nem me consta +que elle se andasse a entalhar na cortiça iniciaes +e datas.</p> + +<p>O seu confidente foi o morgado de Pereira, +ultimo senhor da honra e couto de Esmeriz, +um rapaz de grande coração, que eu apresentei, +no Limoeiro, a José Cardoso Vieira de Castro, +que, em 5 de outubro do anno passado, morreu +no degredo, para onde o acompanhou aquelle +morgado. Este neto dos Ferreiras Eças, e dos +remotos castellões de Riba d'Ave, é hoje em Cassengo, +na Africa, negociante de café, de marfim, +de gommas, de farinhas, etc. Depois de haver +bandarreado vida de fausto, com muitas illusões +perdidas, mas pouquissimas lagrimas, porque +a desgraça lhe anda sempre a morder os tacões +<span class='pagenum'>[22]</span> +das botas, em dia de fieis defuntos, ajoelhava, +e então chorava, no cemiterio de Loanda, defronte +do cómoro onde jaz Vieira de Castro, o +mais sublime desgraçado que os homens injuriaram, +desde que o sol de Deus aquece condições +de feras dentro dos covis que se chamam arcas do +peito.</p> + +<p>Ó meu caro morgado, estas linhas não chegam +ao seu sertão, nem eu desejo que as leia, para lhe +não darem rebates de saudade d'aquellas noites +de 1866, quando vossê e mais o seu gentil confidente, +com intervenção da lua, fallavam da Amelia +de Landim, em quanto os meus queridos visconde +de Castilho e Thomaz Ribeiro se embellezavam +nas trovas da Custodia da Feira, que seria +Hypathias, se nascesse na Grecia, ou Corina, se +os amavíos de Italia lhe coassem no seio cousas +mais limpas do que as coplas que a trovadora do +Minho tirava do estomago em perfumes de vinho +verde.</p> + +<p>Não sei como Eugenio de Castilho sahiu de S. +Miguel de Seide, pelo que respeita á alma. Lá dizia-se +que Amelia, a douda, vehementemente +apaixonada, iria depós elle. Eu receei o lanço +de fino amor, d'onde adviriam ao meu hospede +agros desgostos. Se os de Lisboa lh'a vissem, +quantos rivaes, que mordentissimos ciumes! Aquillo +<span class='pagenum'>[23]</span> +era mulher para destinos extravagantes. Que a +sentassem n'uma friza de S. Carlos! Os binoculos +assestados n'ella seriam tantos como as paixões, e +ao outro dia a engeitada de Landim, se não fizesse +ministerios, havia de fazer muito amanuense +de secretaria, e dar vazão ao estanque de muito +bacharel.</p> + +<p>Não foi: estava-lhe reservado menos brilhante, +mas mais pacifico destino.</p> + +<p>Um dia, appareceu em Landim um homem de +Barcellos, procurando a mulher, que trouxera da +roda dos expostos, em 1851, uma menina chamada +Amelia. Vivia ainda a ama que a creára. Foi +chamada a exposta á presença do homem que se +dizia portador de uma fausta nova.</p> + +<p>Chegou Amelia, o recebeu do velho desconhecido +o tratamento de <em>excellencia</em>. Cuidou-se ella +ludibrio do sujeito, e riu-se ás casquinadas para +lhe agorentar o prazer da zombaria.</p> + +<p>No em tanto, o velho, composto gravemente o +aspecto, disse-lhe:</p> + +<p>--Minha senhora, não é para gargalhadas a +missão que venho cumprir...</p> + +<p>--Pois v. s.<sup>a</sup> está a dar-me <em>excellencia</em>!--volveu +Amelia.</p> + +<p>--Dou-lhe o tratamento de seu pai e seus +avós. Seu pai, o snr. Alvaro de Mendanha, antiquissimo +<span class='pagenum'>[24]</span> +fidalgo e representante dos alcaides-móres +de Barcellos, falleceu ha tres dias com testamento, +em que declara que houvera de uma sua +parenta, áquelle tempo freira no mosteiro de Vayrão, +uma filha, que por justos motivos expozera, +assignalando-a com o nome e outras circumstancias. +Acrescenta que tem noticia de existir em +Landim essa menina, que elle reconhece sua filha, +e a institue sua universal herdeira. É v. exc.<sup>a</sup> +por tanto a herdeira do snr. Alvaro de Mendanha.</p> + +<p>A ama abriu a bocca e despediu um <em>ah</em> surdo, +que vinha da garganta afogada pelo jubilo.</p> + +<p>Amelia quedou-se immovel, pensativa, triste, +e murmurou:</p> + +<p>--Se meu pai sabia que eu estava aqui, porque +me não levou para a sua companhia?</p> + +<p>--Respondo, minha senhora. Quando v. exc.<sup>a</sup> +tinha dezoito annos, seu pai indagou e descobriu +que a snr.<sup>a</sup> D. Amelia estava aqui; porém, ao +mesmo tempo, exactas ou inexactas informações +lhe asseveraram que a senhora levava uma vida +pessima, deshonrada e cheia de opprobrio. Receou, +com algum fundamento, o snr. Alvaro de +Mendanha que o aviltamento de sua filha desluzisse +o lustre do seu nome, e por isso abafou +o coração e o remorso debaixo do peso da dignidade, +<span class='pagenum'>[25]</span> +ou recuou diante da irrisão do mundo...</p> + +<p>--Mas...--interrompeu Amelia--se eu estava +perdida, foi porque elle me atirou ao mundo +e á sorte sem amparo de ninguem...</p> + +<p>--Tem razão, minha senhora, e foi essa mesma +a razão que moveu seu pai a deixar-lhe todos +os seus bens.</p> + +<p>--Mas eu antes queria conhecel-o e ser pobre, +que ser rica por morte d'elle.</p> + +<p>--Já que não é remediavel essa nobre dôr--tornou +o testamenteiro de Mendanha--receba +v. exc.<sup>a</sup> a suprema prova do arrependimento de +seu pai. N'este legado dos bens está o legado do +coração. Seja de hoje em diante v. exc.<sup>a</sup> digna d'elle, +já que desde esta hora os seus appellidos são +dos mais illustres d'esta provincia.</p> + +<p>N'este mesmo dia, D. Amelia de Mendanha +sahiu para Barcellos, onde entrou a occultas para o +palacete de seu pai, a fim de trajar luto e apparecer +convenientemente aos numerosos parentes que +confluiam a desanojal-a.</p> + +<p>Os bens eram grandes em terras e fóros. Casa +antiga e solida. Alfaias do tempo de D. João V a +dourarem os salões de tecto apainelado, com reposteiros +brazonados. Na parte mais velha do +edificio cadeiras repregadas de bronze, contadores +atauxiados de prata e enxadrezados a côres, guadalmesins +<span class='pagenum'>[26]</span> +nas paredes, amplas mesas de pés torneados, +leitos rendilhados com as armas dos Mendanhas +na espalda, bufetes, jarras da India com +as iniciaes de um governador de Chaul, oriundo +de Mendanhas, retratos de familia a começarem +em D. Gil Gutierres de Mendanha, solarengo de +Barcellos. Em meio d'isto, e senhora de tudo isto, +aquella Amelia de Landim, ó meu amigo Eugenio +de Castilho! aquella Amelia, que sarabandeava a +<em>cana verde</em>, o <em>Leva agua o regadinho</em>, e descantava +umas <em>torradas com manteiga</em> que não ha ahi mais +que se diga.</p> + +<p>--Onde estava ella?</p> + +<p>Perguntavam entre si as primas e os primos.</p> + +<p>E diziam exactamente onde ella estivera e de +que infectos paues se levantára com azas de ouro +aquella borboleta sahida de tão feio casulo! Relatavam-se +os pormenores da sua desgraçada vida, +encareciam-se, como se fosse preciso, as deshonestidades... +e visitavam-na.</p> + +<p>Volvidos alguns mezes, tres padres, á compíta, +lhe sahiram a propôr tres casamentos: rapazes, +parentes, abastados ou arruinados, mas fidalgos e +gentilissimos de suas pessoas.</p> + +<p>Rejeitou-os.</p> + +<p>Um dia, sahiu D. Amelia de Barcellos, na sua +sege, apeou em Famalicão, sahiu a pé, e parou +<span class='pagenum'>[27]</span> +perto de Landim, á porta de um lavrador. Procurou +por um homem que dava pelo nome de Antonio +do Couto-de-baixo.</p> + +<p>Sahiu a fallar-lhe no quinteiro, ou alpendre, +um sujeito de trinta annos, boa figura de camponio, +estupidez em barda por todo aquelle carão.</p> + +<p>--Antonio--disse ella--conheces-me?</p> + +<p>--A senhora, a senhora... acho que é...--tartamudeou +o lavrador agadanhando no occipital.</p> + +<p>--Sou a Amelia de Landim. Quando eu tinha +15 annos, amei-te. Era então innocente. Esperava +ser tua mulher, e perdi-me. Teu pai não te +quiz deixar casar commigo, porque eu era pobre. +Sei que soffreste, e quizeste fugir para o Brazil, +a fim de ganhares dinheiro, para depois me +receberes. Eu não te deixei ir. Sabes qual foi a +minha vida depois. Hoje estou rica, ainda te amo, +porque foste a origem da minha desventura. Queres +casar commigo? Responde.</p> + +<p>--Quero.</p> + +<p>--Então segue-me.</p> + +<p>--Deixa-me ir dizer a minha mãi; que essa +queria que eu casasse comtigo.</p> + +<p>--Podes dizel-o a teu pai, que esse tambem +quer agora.</p> + +<p>E, d'ahi a momentos, o pai e a mãi sahiram +<span class='pagenum'>[28]</span> +ao alpendre a recebel-a, e levaram-na para o sobrado +entre caricias.</p> + +<p>Ahi pernoitou.</p> + +<p>O velho nunca pôde desarticular os queixos da +apostura do espasmo, desde que D. Amelia principiou +a contar por milhares de alqueires de milho +o rendimento de sua casa.</p> + +<p>Ao outro dia, que era domingo, leram-se os +primeiros banhos, e, com dispensa dos immediatos, +casaram-se na igreja de Santa Maria de Abbade.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Mas a que proposito cahiu este conto, que não +tem que vêr com AQUELLA CASA TRISTE!...</p> + +<p>Ah! foi por amor da requinta da musica de +Ruivães, que está agora silvando na Barca da +Trofa, á espera de Antonio Duque, o <em>Africano</em>.</p> + + +<h3>III</h3> + +<p>As quatro musicas reunidas na Ponte da Trofa, +depois de espavorirem os passarinhos, que, ao +descer da tarde, se emboscavam nas ramarias do +rio Ave, retrocederam, porque o Duque não chegou. +Os promotores da festa, mandando sobraçar +os feixes de foguetes de tres estouros, disseram +<span class='pagenum'>[29]</span> +entre si que o <em>Africano</em>, faltando á hora da espera +triumphal, bem demonstrava ser filho do capador +da Lamela. Outro era de parecer que o +Duque, tratando de resto as pessoas que o obsequiavam, +dava a perceber que não queria amigos... +do seu dinheiro.</p> + +<p>O <em>Africano</em> havia escripto de Lisboa ao seu +feitor, annunciando-lhe o dia em que tencionava +chegar á sua casa de Ruivães, com recommendação +de lhe ter preparados os leitos e assoldadada +uma boa criada para o quarto de sua filha.</p> + +<p>Divulgou o feitor a nova, sem propalar a do +naufragio, porque a não sabia. Se o homem lesse +gazetas, informaria os seus visinhos do desastre +de seu amo, da riqueza engolida pelas guelas da +tormenta, da quasi pobreza em que ficára o naufrago, +e, em fim, das piedosas lastimas com que +os periodicos deploravam a catastrophe de duzentos +contos grangeados honestamente. Se isto se +soubesse em Ruivães, não haveria quem se afanasse +em busca de musicas, competindo entre si +os obsequiadores sobre qual arranjaria aquella +que maiores gritos fazia dar á fama pelos buracos +da requinta. Quanto ás vinte e quatro duzias de +foguetes de tres estouros, que os rapazinhos de +Ruivães tinham carregado até á Ponte da Trofa, +é bem de vêr que ninguem se abalançaria a tamanho +<span class='pagenum'>[30]</span> +estrondo de generosidade, se se soubesse que +o Duque não vinha em circumstancias de chorar +de ternura abraçado ao peito magnanimo d'onde +rabiavam tantos foguetes.</p> + +<p>No dia marcado ao feitor, devia o <em>Africano</em> +chegar á Ponte, onde era esperado; porém, apeando +na estalagem da Carriça, legua e meia distante, +ouviu dizer que na Trofa estava o poder do +mundo, com quatro musicas, e muito fogo do ar, +á espera de um brazileiro que vinha da Africa.</p> + +<p>Ouvido isto, Duque disse ao boleeiro que recolhesse +a parelha da sege, porque resolvera sahir +de madrugada.</p> + +<p>Depois, foi contar á filha o que ouvira, e o desgosto +que queria evitar no encontro de festas, tão +desapropositadas da tristeza de ambos.</p> + +<p>Deolinda, prostrada no leito, approvou a resolução +do pai, queixando-se de agonias, suffocações +e desmaios do coração, que mal a deixavam +seguir a jornada.</p> + +<p>Passou o pai o restante do dia e parte da noite +á beira da cama, inventando com santo esforço +alegrias que divertissem Deolinda da concentração +que uma ou outra lagrima desafogava por momentos. +Alegrias!...</p> + +<p>Que heroismos cabem em peito de pai! Quantos +ha que são suppliciados por esse amor que +<span class='pagenum'>[31]</span> +parece vir da mão de Deus! Que maiores angustias +tem esta vida, se comparamos todas á d'aquelle +pai que alli estava ao pé da filha que os medicos +de Lisboa lhe haviam auscultado e considerado +perdida!</p> + +<p>Mas elle, acreditando na sciencia que tem a +certeza de ser lesão mortal a hypertrophia do coração, +afigurava-se-lhe que a Providencia o não +castigaria tão severamente, fazendo-o sobreviver +ao perdimento dos bens, para depois amparar em +seus braços a filha agonisante. Nunca discutira +entre si se Deus era preciso, ou que parte lhe +coubesse no regimento d'este mundo. São meditações +estas que, em Africa, passam rapidas como +o sirôco, mas não abrazam, nem obrigam as caravanas +a curvar o corpo até bater com as faces +nos areaes. Os que por alli veniagam, á imitação +do pai de Deolinda, pensam, se acaso pensam, +que a justiça do céo tem alçada em mais amenos +climas, e descura saber se lá o homem tem mais +ou menos semelhança com o tigre. Porém, depois +que o céo se azula e estrella, áquem da linha, e +a briza refrigera o sangue, os expatriados, maiormente +os ricos, não recusam crêr que ha Deus, +dadas certas condições; fazem-lhe o obsequio de +o conjecturar sentado á mão direita do Padre +Eterno, e absorvido na perennal gloria de sua divindade, +<span class='pagenum'>[32]</span> +sem entender nas trivialidades d'este globo, +mais pequeno que os milhares de mundos +que lhe circumvalam á ourela do throno. Esta +philosophia é grandiosa e barata. Cançam-se os +mestres em a propagar, e todavia qualquer sandeu +bem engraxado a tem espontanea na alma, +como tortulho em lodaçal, sem que os philosophos +lh'a inculquem. Estudem Ario, Spinosa, Renan, e +outros, afóra o meu bacalhoeiro, que tem dentro +de si tres philosophos, um portico, um lyceu, dentro +de si, repito, porque o <em>si</em>, o <em>elle</em>, são as cedulas +bancarias, a burra, que tem um nome de predestinação +para aviso e escarmento de sabios que +se burrificam, não querendo acabar de entender +que saber, honras, regalos, respeitos, inviolabilidades, +vem tudo da burra.</p> + +<p>Succede, porém, uma vez ou outra, encrespar-se +uma onda, que logo se arqueia em vagalhão, +e se abre em voragem. Ahi resvala a riqueza +do homem, que se arrodelára com ella das farpas +do mundo. Os brilhantes impenetraveis do arnez +cahiram e rolam na profundidade do abysmo. Aqui +está o homem a pensar em Deus, porque está +pobre, está sósinho, já se não vê idolo dos outros +e divindade de si proprio. A desgraça, que traz +sempre comsigo um anjo vestido no céo com uma +luz que arde inextinguivel no tumulo de Silvio +<span class='pagenum'>[33]</span> +Pellico, assenta-se ao lado do infeliz, e começa +por lhe dizer:</p> + +<p>«Que eram esses bens da vida, se tão depressa +te reduziste a esta pobreza? Olha tu para as estrellas +que scintillam serenamente sobre a voragem +que t'os devorou, e pede ao meu anjo que te +diga o que ha d'estes milhões de mundos para +além!»</p> + +<p>Ah! quando esta voz repercute na consciencia +de um pai, e ao mesmo tempo a aza da morte +roça e tinge de rubor febril a face de sua filha, +então sim, Deus entreluz na treva, a alma crê, +mas crê para pedir de mãos erguidas. Isto é fé, é +fé que relampagueia; mas eu não sei se alguma +hora a razão dos grandes desgraçados foi alumiada +por esse relampago.</p> + +<p>Pelo que, assim orava o <em>Africano</em>, ás quatro +horas da manhã, em pé, defronte do leito da filha +adormecida.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Entraram na casa apalaçada de Ruivães, inesperadamente.</p> + +<p>Quando o souberam os visinhos, um correu á +igreja a repicar o sino e a sineta, outro rompeu +as nuvens com girandolas, a orchestra da terra, +<span class='pagenum'>[34]</span> +que andava dispersa a sachar os milharaes, confluiu +de galope a casa do mestre, escodeou as mãos +do regato, travou dos metaes, e prorompeu estridulamente +á porta do <em>Africano</em>, tocando o hymno +de 20, o hymno do snr. Costa Cabral, o hymno da +snr.<sup>a</sup> Maria da Fonte, o hymno do snr. duque de +Saldanha, e o do Santo Padre Pio IX.</p> + +<p>O <em>Africano</em> sahiu á janella com sua filha, cortejou +o publico, assistiu a duas mazurkas tocadas +com variações de requinta, e pediu venia para recolher-se +em razão de sua filha se sentir mal com +o sol que lhe dava no rosto.</p> + +<p>O publico murmurou, tregeitando uns momos +significativos de menos respeito.</p> + +<p>O feitor foi dizer a seu amo que era preciso +dar de beber aos musicos, e receber a visita dos +parentes e mais lavradores.</p> + +<p>O Duque respondeu:</p> + +<p>--Vá ahi fóra ao pateo, e diga bem alto que +eu estou pobre.</p> + +<p>--Pobre!--acudiu o feitor casquinando um +riso perspicaz--Bem me fio eu n'isso! V. s.<sup>a</sup> está +a mangar!...</p> + +<p>--Faça o que lhe digo--volveu severamente +o amo.</p> + +<p>E, de facto, o criado foi ao pateo, chamou a si +os lavradores mais grados, o mestre da musica, o +<span class='pagenum'>[35]</span> +boticario de Délães, e o boticario de Landim, e o +regedor de Vermoim, e disse-lhes:</p> + +<p>--O ill.<sup>mo</sup> snr. Duque manda-me dizer a vossemecês +que está pobre.</p> + +<p>Os circumstautes olharam uns para os outros, +embrutecidos pelo mesmo choque. Um d'elles, +porém, que eu presumo fosse um dos dous boticarios, +deu aos beiços um geito de quem vai orar. +Encararam-o todos, e o boticario tirou do peito +estas duas palavras:</p> + +<p>--Ora bolas!</p> + +<p>E sahiu do pateo.</p> + +<p>Tenho esquadrinhado o melhor sentido d'aquellas +palavras do attico pharmaceutico. Consultei +philologos, que mais convisinham d'este sujeito, +e apenas colhi que as expressões «ora bolas» +montavam tanto como dizer: ora bolas.</p> + +<p>Eu, porém, dou mais lata interpretação ao +epiphonema, sabendo que todo aquelle gentio <em>boloirou</em> +para casa<sup><a name="nota1" href="#desc1">[1]</a></sup>.</p> + +<p>O <em>Africano</em>, passados seis mezes, procurou um +<span class='pagenum'>[36]</span> +brazileiro rico de Ninães, recentemente chegado, +e disse-lhe:</p> + +<p>--Sei que o senhor está resolvido a edificar +uma casa. Se quer poupar-se a grandes despezas, +incommodos e desgostos, compre-me a minha. +Vendo-lh'a por metade do que me custou, com +uma condição: se eu e minha filha não tivermos +morrido dentro de seis mezes, serei obrigado a +dar-lhe a casa no fim d'este prazo; mas, n'estes +primeiros seis mezes, o senhor não poderá occupal-a.</p> + +<p>Pediu o brazileiro explicações de tão estranha +clausula.</p> + +<p>O Duque respondeu:</p> + +<p>--Minha filha está mortalmente enferma. Tem +um aneurisma. Eu tambem me sinto no termo da +vida. Vou morrendo a cada hora que a doença me +deixa vêr a morte na face de minha filha. Não hei +de sobreviver-lhe, se Deus me não fizer o beneficio +de me levar adiante.</p> + +<p>Consolou-o o brazileiro conforme soube, aceitou +a proposta, e assignou as escripturas no dia +seguinte, entregando ao vendedor alguns contos +de reis.</p> + +<p>Pagou o <em>Africano</em> as dividas contrahidas em +Cabo-Verde, encerrou-se na ante-camara do quarto +de sua filha, e deu-se pressa em aggravar os +<span class='pagenum'>[37]</span> +seus padecimentos á custa de se remirar no seu +infortunio, de cortar bem dentro as fibras ainda +rijas do coração, antecipando a imagem da filha +morta, repulsando todo o allivio da esperança, +furtando-se a todo o desafogo, matando-se com a +lentidão de um desvairado que se encavernasse +n'um antro, esperando sem terror a entrada da +fera, e anciando-a para se lhe rasgar nas presas.</p> + +<p>Ao quinto mez do contracto, os padecimentos +de Deolinda tocaram nos extremos symptomas da +morte. As hemorrhagias amiudaram-se. Estava já +entorpecida, immovel, salvo quando arrancava do +seio as aspirações, que revelavam ao través das +coberturas da cama os arquejos do coração.</p> + +<p>N'esta conjunctura, o pai estabeleceu entre si +e Deus uma convenção que era já delirio precursor +da demencia ou da morte: «Se ella hoje morrer, +ou Deus me mata ámanhã, ou, quando ella +estiver sepultada, eu me matarei.»</p> + +<p>O parocho, que sacramentára Deolinda, ouviu +estas vozes, e disse aos botões da sua batina: +«Este homem está no inferno.»</p> + +<p>Quando ficou sósinha, Deolinda chamou o pai +e disse-lhe:</p> + +<p>--Não quero ir d'esta vida, sem dizer-lhe um +segredo com que não devo morrer. No meu bahú +está uma caixinha de folha, que o mar lançou á +<span class='pagenum'>[38]</span> +praia, depois do naufragio. Levaram-me em Cabo-Verde +esta caixinha, cuidando um marujo que +fosse minha. Abri-a, e vi que encerrava cartas de +uma mãi muito extremosa para seu filho. O filho +era aquelle rapaz que vinha do degredo, e salvou +os velhos, e as crianças, antes de morrer. A mãi, +que lhe escrevia, diz-lhe em algumas cartas que +tem sentido as angustias da fome. Chama-se ella... +Meu pai lhe verá o nome e a terra onde vivia... +Se tiver morrido, feliz d'ella. Se ainda viver, meu +pai, mande-lhe como esmola o que ficar do meu +espolio, e diga-lhe que eu... lhe amei o seu infeliz +filho... até morrer... por elle!...</p> + +<p>--Cumprirei a tua vontade, minha filha--respondeu o pai.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Ditas aquellas palavras, o <em>Africano</em> encarou na +filha com a fixidez torva de um amaurotico. Depois, +como se sentisse dobrar sobre os joelhos, +sabiu da alcova, atirou-se como ebrio para o leito, +e murmurou estas vozes:</p> + +<p>--Meu Deus! morro por amor de minha filha, +e ella... morre por outro... Bem podia consentir +a desgraça que eu morresse sem este desengano... +Vinte annos a adorar esta filha, um anno a agonisar +<span class='pagenum'>[39]</span> +ao pé da sua agonia... e a final ouço-lhe dizer +que morre por um homem... que não era seu +pai...</p> + +<p>Escabujou em ancias muito afflictivas, pedindo +a Deus com dilacerante esforço que lhe abreviasse +o transe. Rompeu em soluços; e, suffocado pelo +choro ou por um golfo de sangue, arrancou da +vida n'um estremecimento instantaneo.</p> + +<p>Deolinda ouviu o murmurio rouco d'esta convulsão +da morte, e voltou a face para onde suppunha +que estava o pai.</p> + +<p>Chamou-o. Sentou-se no leito com supremo +esforço. Tangeu a campainha. Acudiu a criada, a +quem ella pediu que lhe désse o seu vestido. Foi +nos braços da criada á sala contigua, onde o pai +tinha o seu leito. Dobrou-se sobre o peito d'elle, +colhendo-lhe nos labios um halito ainda quente, +como vestigio da alma que passára queimando as +fibras por onde abrira a fuga do seu inferno.</p> + +<p>--Morto!--bradou ella, golfando-lhe no seio +o derradeiro sangue.</p> + +<p>Transportada ao canapé fronteiro, alli se quedou +empedernida. Não houve rogos que a tirassem +de lá. Viu amortalhar o cadaver de seu pai, +viu-o sahir no esquife para ser depositado na capella +da casa, ouviu o ultimo dobre da sepultura; +e então, comprimindo o seio esquerdo com ambas +<span class='pagenum'>[40]</span> +as mãos, invocou a compaixão da Virgem Santissima, +e expirou.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Lá está em cima aquella casa triste... O brazileiro, +que a comprou, não a quiz habitar. As +janellas nunca mais se abriram. O vestido, que +despiram do cadaver de Deolinda, pende ainda +da espalda do canapé em que ella morreu.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="desc1" href="#nota1">[1]</a></sup>Não se procure <em>boloirar</em> nos diccionarios, em quanto os +diccionaristas ignorarem a linguagem popular do classico povo do +Minho e Traz-os-Montes. Lá, fazer rolar uma bola, é <em>boloirar</em>.</p> +</div> +<hr> + + + +<a name="cap02"></a> +<h1>SOLUÇÃO DO PROBLEMA HISTORICO(!)</h1> + + +<p><em>Snr. redactor das NOITES DE INSOMNIA</em>.</p> + +<p>Conseguiu vossê que eu adormecesse antes de +lêr a terceira sentença a favor d'el-rei D. Sebastião. +Muito obrigado a vossê e aos tres papas.</p> + +<p>Aquelle D. Sebastião que em 1630, com 76 +annos de idade, tinha uns filhos, que ninguem +depois conheceu, seria causa a eu descrer da authenticidade +das sentenças, se não soubesse que +santo Isidoro, arcebispo de Sevilha, o prophetisou +<span class='pagenum'>[41]</span> +assim, tal e quejando, com filhos, netos e +bisnetos, um dos quaes afianço a vossê que não +sou eu.</p> + +<p>Palavras de santo Isidoro: <em>Muitos filhos e filhas +terá o Encoberto de legitimo matrimonio, e +sempre seus descendentes, uns depois dos outros, +reinarão pacificamente</em> (não diz o santo onde se +passa esta reinação); <em>e o sceptro sagrado do temporal +será administrado e regido por elles; e a final, +fazendo-se pagens do povo, tornarão do deserto</em>.</p> + +<p>Não ha nada mais claro. Os descendentes de +D. Sebastião, voltando do deserto, serão pagens +do povo. Por «pagens do povo» percebo eu que +o vidente de Sevilha queria fallar nos demagogos +d'este paiz, nos oradores do Casino, no Guerra +Junqueiro, nos redactores do <em>Diario da Tarde</em>, +no Eça e no Ortigão, nos satanicos, e nos mais +socialistas sobre quem pesam o gladio do Zêzere, +os pés do conselheiro Arrobas e o redenho do +conselheiro Viale. Os descendentes do Encoberto +vem, pelos modos, a ser aquelles. Quanto a virem +do deserto, como resa a prophecia, é obvia a +interpretação. «Deserto» aqui, entende-se o conteúdo +pelo continente. Veja se me percebe. Deserto +é o vasio da algibeira. Isto percebe vossê +bem. Um homem está no deserto quando não +tem no bolso a voz que clama no mesmo. Deserto +<span class='pagenum'>[42]</span> +é estar homem só como succede a toda a pessoa +que não tem</p> + +<p class="centrado"><em>Aquillo com que mais se accende o engenho,</em></p> + +<p>como disse um a quem o predilecto dos tres papas +mandou dar 15$000 reis por anno em paga de +ter perdido um olho em Africa e ter feito os <em>Lusiadas</em> +na India.</p> + +<p>Já vê vossê que, por este lado, as sentenças +dos tres bispos de Roma são invulneraveis. D. Sebastião, +com toda a certeza, de quinze em quinze +annos, ia até Roma mostrar ao papa que tinha +uma perna maior que a outra, um tufo de pello +no hombro esquerdo, o joanete no dedo mendinho, +e um dente de menos na queixada de baixo. +Quando lá foi aos 76 annos, aposto que já não +tinha dente nenhum.</p> + +<p>Os documentos pontificios que vossê apresentou +resistiriam á critica de João Pedro Ribeiro e +Theophilo Braga. Este sabio e vossê são os dous +homens que n'este seculo tem achado as melhores +peças historicas. Vossê achou as sentenças a +favor do Encoberto; o doutor Theophilo achou a +carta de Ayres Barbosa a André de Rezende. Eu +achei a vossês, os dous, dous odres de sciencia +em que espero exercitar o meu intellecto como +<span class='pagenum'>[43]</span> +os touros exercitam a força nos ôdres de vento. +Creio que está dada a solução do problema historico. +Mande-me o premio pelo portador. E +quando achar outra cousa, com esse faro de Herder +que Deus lhe deu, abra torneio aos talentos, +e faça invejas ao Theophilo a vêr se elle descobre +agora a resposta de André de Rezende a Ayres +Barbosa.</p> + +<p class="centrado">-----------------</p> + +<p>Entreguei o premio, antes que venha outra +carta mais insensata. N'este paiz quem, como +Theophilo Braga e eu, achar alguma cousa, está +perdido.</p> +<hr> + + + +<a name="cap03"></a> +<h1>DOUS PRECONCEITOS</h1> + + +<p>O primeiro, é dizer-se que, no governo absoluto, +as condecorações, os fóros de fidalguia e os +tratamentos eram judiciosamente dados e com +muita parcimonia a quem os merecia.</p> +<span class='pagenum'>[44]</span> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>O segundo, é dizer-se absolutamente que a +mudança do regimen politico de 1834 empobreceu +de repente os fidalgos, esbulhando-os dos +seus rendimentos provindos de privilegios, encargos, +commendas, etc.</p> + +<p class="centrado">*<br>* *</p> + +<p>Quanto ao primeiro preconceito, ouça-se o +depoimento de um notavel fidalgo, que estudou +cincoenta annos, e meditou dezesete nas lobregas +cavernas da Junqueira. Era D. João José Ansberto +de Noronha, conde de S. Lourenço, que +morreu em 1804, com 79 annos de idade. No penultimo +anno de sua vida, escreveu a sua ultima +obra, que ainda não sahiu das gavetas avarentas +dos curiosos de manuscriptos, e intitulou-a <em>Apontamentos +politicos</em>.</p> + +<p>Seja o conde de S. Lourenço quem impugne +a arguição injusta que se faz ao governo representativo, +doestando-o de perdulario de titulos e +nobilitações. Observe-se que o fidalgo escrevia +em 1803, e que as ultimas linhas d'este trecho +do seu escripto são uma prophecia; que, n'aquelle +tempo, a raros espiritos se prefiguravam idéas +<span class='pagenum'>[45]</span> +de liberdade, e menos ainda aos que haviam de +ser apeados por ella do pedestal de sete seculos.</p> + +<p>Eis a passagem que tem por epigraphe--<em>Dos ennobrecidos</em>:</p> + +<br> +<p>«Os serviços ordinarios, e por assim dizer +materiaes, pagam-se com dinheiro, que se tarifa +como qualquer salario, á proporção do trabalho. +Os serviços relevantes, isto é, os que são feitos +com perigo de vida, com força de engenho, ou +com espirito de patriotismo, e de que resultam +grandes vantagens ou de facto, ou de exemplo, +pagam-se com signaes honorificos, com distincções, +e com titulos, porque se julga, que não +tendo preço, se não podem remunerar senão com +honras. E segue-se d'isto, que a moeda mais preciosa +do thesouro do soberano é a faculdade de +distinguir e honrar, porque alcança com ella o +que não póde comprar com dinheiro. Mas se ha +facilidade em conceder honras, se se alcançam +sem sacrificios, nem habilidade, n'esse caso todos +as querem, muitos as conseguem, e ninguem fica +contente; uns porque querem mais, outros porque +ainda não tiveram, e outros que as tem por +seus justos cabaes, porque se acham confundidos +na inundação dos nobres de <em>acaso</em>. As consequencias +são, que as distincções deixam de o ser, porque +<span class='pagenum'>[46]</span> +se fazem geraes; que empobrece o thesouro +politico do soberano, porque a moeda mais preciosa +perde o seu valor, e que se perde o espirito +da gloria, porque os individuos vem a achar por +fim mais vantagens em buscar conveniencia, do +que signaes, que pela sua multiplicidade, e modo +por que se alcançaram vieram a ser de estimação +incerta.</p> + +<p>«Com effeito tem-se vulgarisado as honras, não +só á força de concessões avulsas, mas até de tarifas. +Na divisão das tres ordens militares deram-se +tantos habitos de S. Thiago, que apesar de ser +uma ordem tão respeitavel, já ninguem a quer. +Concedea-se o fôro de fidalgo a quem no emprestimo +real entrasse com porções avultadas, sem +embargo de ficar ganhando juros. Concedeu-se o +mesmo fôro a quem lavrasse certa porção de sêda +para vender. Os officiaes de secretaria, cujo numero +tem crescido tanto, tem o habito de Christo +no primeiro anno de serviço, e o fôro de escudeiro +no decimo. Os officiaes do erario tem o habito +de Christo, etc., etc., etc.</p> + +<p>«Esta quantidade de tarifas em muito poucos +annos reduz os tres milhões de habitantes a tres +milhões de nobres: n'este caso a maior distincção, +que póde haver, é não ser nobre; e o modo de a +conseguir é não servindo o estado de modo nenhum. +<span class='pagenum'>[47]</span> +Parecerá isto um paradoxo, mas a experiencia +já vai mostrando que o não é.</p> + +<p>«As leis do tratamento já não tem vigor, e a +arrogação de senhorias, e excellencias é geral.</p> + +<p>«É da maior difficuldade achar gente para trabalhar, +e tanto que no anno de 1801 querendo-se +expulsar os gallegos em razão da guerra, não se +fez porque o intendente geral da policia representou, +que se se mandassem embora, não haveria +quem servisse a cidade de Lisboa e a do Porto.</p> + +<p>«Se um corpo de nação não póde passar sem +tomar criados estrangeiros, não para as artes, +mas para o serviço ordinario, ou é a nação mais +fidalga do mundo, ou a mais paralytica, <em>e em todo +o caso a que mais velozmente corre para o systema +da igualdade, e que mais velozmente se afasta da +monarchia</em>.»</p> + +<br> +<p>Até aqui o descendente de el-rei D. Fernando +no que respeita á prodigalidade das mercês. +Agora, pelo que é da pobreza dos fidalgos, cumpre +saber que a maioria das casas titulares de primeira +plana já principiava a esboroar-se no principio +d'este seculo. O golpe da extincção das commendas +pouco sangue já encontrou nos corpos +dos commendadores. Se ainda no <em>Torneio real</em> de +1795, escripto pelo senhor de Pancas, encontramos +<span class='pagenum'>[48]</span> +trinta e dous fidalgos pompeando as galanices +da Asia, indaguemos hoje a paragem dos netos +d'esses homens, que eram os primeiros nomes +de Portugal. Onde estão os haveres do conde +de Aveiras? o grande patrimonio do marquez de +Abrantes? de Lavradio? de José Telles da Silva? +do marquez de Angeja? do de Ponte de Lima? do +conde da Ega? do de Obidos? do marquez de Nisa? +do de Penalva? do conde de S. Lourenço? do visconde +de Barbacena? do marquez de Tancos? do +conde de Sabugal? Estes eram do numero dos +trinta e dous fidalgos que resplandeceram nas +cavalhadas no anno de 1795 para festejar o nascimento +do principe D. Antonio. E dos restantes, +exceptuada a casa de Cadaval, com pesar de ss. +exc.<sup>as</sup>, força é declarar que não ha ahi barão moderno +que lhes inveje a riqueza.</p> + +<p>A santa casa da Misericordia de Lisboa abre-nos +o seu livro de creditos, no anno de 1813, e +mostra-nos a voragem da parte ainda hypothecavel +dos bens d'esses fidalgos que, em nossos dias, +vimos inteiramente desbaratados. Entre 1813 e +1833 rodaram vinte annos, e a ladeira que resvalava +os dissipadores á voragem era cada vez mais +escorregadia. O proprio conde de S. Lourenço, +que presentira o naufragio da nobreza, levada a +pique pela rajada da liberdade, não educou seus +<span class='pagenum'>[49]</span> +filhos melhormente que os seus iguaes em fidalguia, +e desigualissimos em intelligencia. Se elle +anteviu a borrasca, devera colher as velas á nau, +que se desmantelou, como as outras norteadas +por palinuros, ignorantes e cegos.</p> + +<p>Na lista dos devedores á Misericordia, encontramos +algum raro fidalgo, cuja casa se teve no +balanço, e hoje mantém o antigo luzimento. Esse +tal achal-o-hemos acostado á restauração liberal +de 1833, e quinhoeiro, por tanto, das regalias +que auferiram os parciaes do imperador. No entanto, +dos que serviram a liberdade, houve d'elles +que nem assim lograram reparar as ruinas.</p> + +<p>O leitor curioso poderá estremal-os na seguinte +lista:</p> + +<table> +<tr><td></td><td nowrap></td></tr> +<tr><td>A casa de Rezende devia á Misericordia de +Lisboa com vencimento de juros, no dia 8 +de março de 1813</td><td nowrap valign="bottom">9:991$509</td></tr> + +<tr><td>A de Ponte de Lima</td><td nowrap valign="bottom">1:270$442</td></tr> + +<tr><td>A de Abrantes</td><td nowrap>8:978$105</td></tr> + +<tr><td>A de Tancos</td><td nowrap>11:750$000</td></tr> + +<tr><td>A de Louriçal</td><td nowrap>9:600$000</td></tr> + +<tr><td>A de Obidos</td><td nowrap>101:490$899<sup><a name="nota2" href="#desc2">[2]</a></sup></td></tr> + +<tr><td>A de S. Vicente</td><td nowrap>4:000$00</td></tr> + +<tr><td>A de Soure</td><td nowrap>21:080$698</td></tr> + +<tr><td>A de Borba</td><td nowrap>1:278$154</td></tr> + +<tr><td>A de Pombeiro</td><td nowrap>18:508$500</td></tr> + +<tr><td>A de Coculim</td><td nowrap>9:400$000</td></tr> + +<tr><td>A de Loulé</td><td nowrap>5:715$494</td></tr> + +<tr><td>A de Lavradio</td><td nowrap>11:700$000</td></tr> + +<tr><td>A de Unhão</td><td nowrap>4:655$011</td></tr> + +<tr><td>A de Vidigueira</td><td nowrap>353$128<sup><a name="nota3" href="#desc3">[3]</a></sup></td></tr> + +<tr><td>A de Alorna</td><td nowrap>40:665$011</td></tr> + +<tr><td>A de Atouguia</td><td nowrap>3:989$115</td></tr> + +<tr><td>A de S. Miguel</td><td nowrap>10:295$565</td></tr> + +<tr><td>A de Tavora</td><td nowrap>7:289$433<sup><a name="nota4" href="#desc4">[4]</a></sup></td></tr> +</table> + +<p>Seguem-se Antonio Telles da Silva, D. Antonio +Soares de Noronha, o conde de Alvor, dos +Arcos, de José Felix da Canha, de D. Diniz d'Almeida, +<span class='pagenum'>[51]</span> +de D. Luiz de Portugal da Gama, de D. Rodrigo +Xavier Pedro de Sousa, e outros, perfazendo +340:359$700.</p> + +<p>O empregado da secretaria da Misericordia, +que passou a certidão n'aquelle mesmo anno de +1813, acrescenta de lavra sua: «Alguns d'estes +capitaes se consideram perdidos, porque os devedores +tem provisões com tempo illimilado, e +não possuem bens livres. Ha outros litigiosos e +duvidados pelos devedores; de sorte que são muito +poucos os que se podem manifestar como liquidos.»</p> + +<p>Por onde se conclue que a minguada fortuna +dos pobresinhos cahira em honradas mãos! Eu, +contra o parecer do escripturario, creio que os +fidalgos, menoscabados de insoluveis, pagaram todos +com mais ou menos pontualidade; e, se não +pagaram, desculpe-se-lhes o começarem a misericordia +por si.</p> + +<p>Eu sei que os fidalgos do <em>acaso</em>, como acima +lhes chama o conde de S. Lourenço, se rejubilam +de ter estirado as camadas do seu lodo por cima +dos honrosos vestigios dos outros. Ouso, porém, +a liberdade de lembrar a suas excellencias que +a tradição da raça e as pêas dos vinculos conservaram +através dos seculos os nomes historicos; +ao passo que estes adventicios afidalgados, +<span class='pagenum'>[52]</span> +á falta do vinculo que os tenha alguns seculos +pendurados no esgalho do tronco velho, bem póde +ser que se estejam desentranhando em filhos para +futuras tripeças.</p> + +<p>Se assim fôr, que Deus os faça sapateiros engenhosos, +para que a comedia humana não seja +de todo em todo ridicula e inutil ás artes.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="desc2" href="#nota2">[2]</a></sup> O palacio d'esta familia foi comprado ha pouco pelo rei, +e dado a uma senhora d'esta casa aia do principe.</p> +</div> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="desc3" href="#nota3">[3]</a></sup> O fallecido marques de Nisa succedera na posse de duas +riquissimas casas, a de Vidigueira e a de Cascaes. O Paul, +vastissima propriedade vendida ao capitalista Eugenio de Almeida, +havia sido dado por D. João I a João das Regras, ascendente +dos senhores de Cascaes. O marques morreu pobre. +Deixou dous nobilissimos filhos: um é aprendiz de negociante +no Brasil, o outro tem um engenho de fazer cigarros depois +de ter tido perto de Paris um restaurante, em que era caixeiro +um filho de José Estevão. Ó Vasco da Gama!... Ó Demosthenes +lusitano!</p> +</div> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="desc4" href="#nota4">[4]</a></sup> Estas quatro ultimas casas estão ementadas na lista +como extinctas.</p> +</div> +<hr> + + + +<a name="cap04"></a> +<h1>LISBOA</h1> + + +<p>Ha mais de dous seculos que um viajante francez +de grande qualidade esteve em Lisboa. Volvidos +trinta annos, o filho do companheiro de viagem +d'esse incognito senhor mandou imprimir em +Hollanda as viagens que seu pai escrevera, e deu +este titulo ao livro: <em>Voyages faits en divers temps +en Espagne, en Portugal, en Allemagne, en France +et ailleurs. Par Monsieur M. **** A Amsterdam, +MDCC</em>.</p> + +<p>Entraram os viajantes em Lisboa, no dia 18 +de maio de 1669. Em sete paginas de oitavo pequeno +<span class='pagenum'>[53]</span> +esgotaram as impressões que Portugal lhes suggeriu; +mas não nos detrahiram nem calumniaram. +D'essas sete paginas, provavelmente desconhecidas +ao commum dos leitores, a substancia é +esta:</p> + +<br> +<p>«Lisboa é muitissimo povoada, pois que todas +as nações alli trazem gente, sendo muita a +mourisma que lá é escrava, e procede de Guiné. +As liteiras são mais que as carroças; mas são magnificas. +E, porque a cidade se fórma de outeiros, +o que mais se usa são cavallos e mulas. As igrejas +são aceadissimas e formosas. Os portuguezes +andam armados de espada e punhal.</p> + +<p>«São os portuguezes mais ciosos de suas esposas +que os hespanhoes. As mulheres sahem de +casa menos vezes que as de Madrid: o que faz que +lá se diga que ellas vão á igreja tres vezes no anno: +baptisar-se, casar-se e enterrar-se.</p> + +<p>«É notório que o marido, apenas suspeita do +proceder da mulher, trata logo de a esfaquear; +d'onde lhes urge a ellas estarem muito de sobreaviso, +e haverem-se com grande precate no logro +dos maridos, vingando-se assim da escravidão em +que vivem.</p> + +<p>«Sobre a tarde, fomos vêr o convento da Esperança +onde a rainha esteve encerrada seis mezes<sup><a name="nota5" href="#desc5">[5]</a></sup> +<span class='pagenum'>[54]</span> +quando deixou o rei que está na ilha Terceira, +a trezentas leguas distante de Lisboa. D. +Pedro, seu irmão, governa actualmente, e casou +com a cunhada, filha do fallecido principe de +Nemours da casa de Saboya. Ella vai ao conselho, +e assiste com o marido ás audiencias. D. Pedro +não quiz ainda ir ao paço para ser coroado. Vive +em sua casa, que foi confiscada ao marquez de +Castello Rodrigo, que seguiu o partido de Castella +quando Portugal se rebellou. Segundo os tratados, +os bens já deviam ter sido restituidos ao +marquez; mas até agora nem n'isso pensam. Esta +casa está situada á ourela do Tejo, perto do palacio +real. Guardam-na vigilantemente trezentas +sentinellas vestidas de pardo agaloado de verde. O +paço é quadrado, e cheio de mercearias(?): é edificio +pouco distincto. Tem dentro uma praça limpamente +areada, e um chafariz no centro.</p> + +<p>«É ahi a praça dos touros. O paço estava desalfaiado. +A capella, rica de azul e ouro, é bellissima. +Os armazens dos utensis destinados á marinha +de guerra, são ahi ao pé. Navios mercantis tem +poucos. Mandam apenas cinco ou seis ao Brazil, +e servem-se dos inglezes e hollandezes para importar +assucar e outros generos a Lisboa. Ahi perto +<span class='pagenum'>[55]</span> +andam a edificar-se dous salões, em que os mercadores +se ajuntam a negociar. Vimos uma igreja +que a rainha-mãi fandou, e onde está enterrada<sup><a name="nota6" href="#desc6">[6]</a></sup>. +Todo o tecto é de ebano, bem como as columnas +de laçarias douradas. Os pavimentos de todas as +igrejas de Lisboa são de adobes azulejados com +figuras. Ha ahi uma, onde se veem retratadas as +cabeças das pessoas condemnadas e queimadas +pela inquisição. Presentemente não ha inquisidor +geral.</p> + +<p>«O palacio onde mora D. Pedro e a rainha é +composto de quatro pavilhões pequenos e dous +eirados onde aquella princeza vai de tarde tomar +ar com as damas. Está ahi sempre o «regimento +da armada.» As ante-camaras estão sempre atalaiadas.</p> + +<p>«O principe e ella dão audiencia todas as terças +feiras. Elle é corpulento, rosto magro e trigueiro. +Desde que esteve doente, usa cabelleira. +Sahe pouco acompanhado, e dizem ser affavel e +cortez. A rainha traja á hespanhola com guarda-infante, +com os cabellos soltos pelas costas, encaracolados, +e laçados de fitas. Tem uma filha que +<span class='pagenum'>[56]</span> +parece lindissima, cuja aia é a condessa de Añon +(Unhão). Segue-a o seu mordomo duque de Cadaval. +A rainha tem um anão indio que anda sempre +com ella: é tão bem proporcionado que parece +uma criança, visto pelas costas; mas pela +frente não, que já tem barba. Já tinha sido da +rainha-mãi, e goza da fama de engraçado... A +rua dos Mercadores é muito bonita. Ha ahi bons +acepipes, e confeitos excellentes. A 18 de maio +comemos cerejas e damascos já maduros. O que +é incommodo é não haver neve, nem as bebidas +refrigerantes de Hespanha.»</p> + +<br> +<p>E nada mais que mereça menção.</p> + +<p>A respeito da Lisboa de 1669, que era, pouco +menos, a Lisboa de 1754, um anno antes do terremoto, +darei alguns pormenores. O que tenho +visto impresso não satisfaz a curiosidade. João +Baptista de Castro, o author do <em>Mappa de Portugal</em>, +conheceu a velha Lisboa, e o que nos disse é +tão diminuto que pouco vale. No <em>Panorama</em> e <em>Archivo</em> +ha artigos de bons investigadores; mas pouco +mais fazem que distender as noticias de Nicolau +de Oliveira e outros que viram a Lisboa do seculo +XVII.</p> + +<p>O inedito, que tenho, ácerca da capital, dá +noticias que provam ser escripto em 1754. Não +<span class='pagenum'>[57]</span> +lhe conheço author. Foi homem que, viajando, +escrevia uma geographia da Europa alphabeticamente +e levava a sua obra na letra <em>L</em> (<em>LIXA, chamada +pelos europeus LARACHE</em>), quando, talvez, o +terremoto lhe colheu de golpe a vida, ou lhe +esfriou o ardor do trabalho.</p> + +<p>No proximo numero trasladarei o que me parecer +menos sabido.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="desc5" href="#nota5">[5]</a></sup> A mulher de Affonso VI e de Pedro II.</p> +</div> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="desc6" href="#nota6">[6]</a></sup> Era a de Corpus-Christi dos carmelitas descalços, fundada +no sitio em que Domingos Leite Pereira tentou matar +D. João IV. Esta igreja desappareceu no terremoto e incendio +de 1755.</p> +</div> +<hr> + + + +<a name="cap05"></a> +<h1>FERREIRA RANGEL</h1> + + +<p>Vivia aqui no Porto, ha pouco mais de mez, +um homem que, ha vinte annos, atroava o café-Guichard +com o trovão da sua voz. Chamava-se +Francisco Ferreira Ribeiro Pinto Rangel.</p> + +<p>Era liberal como um dos mais egregios romanos +que morreram no templo de Diana, á beira +de Caio Gracco. Era valente caudilho do povo; e +das primeiras cutiladas do sabre dos esquadrões, +nos motins anteriores a 1846, tinha elle as cicatrizes +na cabeça. Era poeta da escóla antiga de +<span class='pagenum'>[58]</span> +Filinto e Diniz, como se demonstra no seu poema +intitalado <em>D. Sebastião</em>. Era versado na lição +dos socialistas, cujas doutrinas apregoava nos botequins, +com um fogo de convicção, que lhe afusilava +através dos oculos, e mettia medo nos peitos +de mais fino aço.</p> + +<p>Teve um irmão que lhe foi antipoda na esphera +politica. As pessoas do tempo de D. Miguel conheceram-o, +vivendo faustamente. Chamavam-lhe +o <em>escrivão-fidalgo</em>, porque era escrivão e tratava-se +á lei da nobreza. Este homem conheci eu chefe +de estado-maior do general realista Macdonell. +Morreu briosamente, em uma madrugada de janeiro +de 1847, ao lado do general, desfechando +um par de pistolas de pederneira, cuja escorva a +neve d'aquella noite humedecera. O morto deixou +dous filhos, e tres ou quatro esbeltas meninas. +Parece-me que os vi e conheci na minha mocidade. +Ouvi dizer que voltaram ricos do Brazil. Se +bem me lembro, já escrevi a necrologia de um, +que por signal estava vivo, e nem sequer me +agradeceu, com um bilhete de visita, ser eu a unica +pessoa de Portugal que lhe ajuntou ao nome +esquecido quatro palavras de saudade e dó.</p> + +<p>Agora, faço o mesmo ao tio, que morreu ha +pouco mais de mez, e ninguem perguntou que +pobretão era um que levaram na tumba dos pobres, +<span class='pagenum'>[59]</span> +entre quatro tochas, desde a rua Chã até ao +Prado.</p> + +<p>Pois era, era aquelle Ferreira Rangel que todos +ouviamos e respeitavamos, ó rapazes de ha +vinte annos!</p> + +<p>A imprensa diária tem olheiros que superintendem +em estupros, facadas, roubos e incestos; +mas a alçada d'estes espias não chega até ao esquife +do defunto sem testamento.</p> + +<p>Ferreira Rangel chegou ao cemiterio ao fechar +de uma noite orvalhada de dezembro. O coveiro +estava prevenido e a postos. Não havia que esperar +garganteações de psalmos. A fossa da valla dos +pobres estava aberta. Na gleba desaterrada alvejava +ainda o craneo e as vertebras cervicaes d'outro +pobre. Tresandava o fartum da podridão abafada. +Aquillo fez-se depressa. O caixão baqueou, +desamparado de alto. Deu uma toada cava na terra +fôfa. Os portadores d'aquelle pobre aconchegaram +os capuzes das orelhas cortadas do suão, e sahiram +de corrida. O coveiro deixou ao relento o caixão, +e foi no dia seguinte, aquecido com aguardente, +volver sobre as taboas chuviscadas o comoro de +terra, que alisou com a pata da enxada.</p> + +<p>Depois, o eterno silencio.</p> + +<hr class="dotted"> +<hr class="dotted"> +<span class='pagenum'>[60]</span> + +<p>Envio os meus sentimentos aos sobrinhos ricos +d'este homem, e dispenso-os do bilhete de +visita.</p> +<hr> + + + +<a name="cap06"></a> +<h1>AS JOIAS D'UM MINISTRO DE D. JOÃO V NO PREGO</h1> + + +<p>Este ministro era Alexandre de Gusmão.</p> + +<p>Nasceu no Brazil, em Santos, provincia de S. +Paulo, por 1695, e falleceu em Lisboa, em 1753.</p> + +<p>Foi cavalleiro professo na ordem de Christo;</p> + +<p>Fidalgo da casa real;</p> + +<p>Secretario particular de D. João V--<em>o Dissipador</em>;</p> + +<p>Conselheiro de capa e espada do conselho ultramarino:</p> + +<p>E, quando morreu, parte dos seus haveres, as +joias de sua defunta mulher estavam empenhadas, +e foram vendidas em hasta publica.</p> + +<p>Tenho a triste satisfação de enviar esta novidade +aos biographos d'aquelle varão illustre, e +nomeadamente aos escriptores brazileiros, os +<span class='pagenum'>[61]</span> +snrs. Pereira da Silva e Fernandes Pinheiro, solicitos +averiguadores da accidentada vida do seu +conterraneo.</p> + +<p>S. exc.<sup>as</sup> dizem que Alexandre de Gusmão morreu +pobre, tendo perdido os bens e dous filhos +no incendio de sua casa. Os documentos que, pela +primeira vez se escavam no veio inexplorado das +secretarias, ajustam-se á opinião d'aquelles notaveis +escriptores; mas o ex-secretario de D. João V +morreu sem ter conhecido as necessidades dos +que se dizem pobres.</p> + +<p>Do <em>Livro dos registros</em>, ou <em>Copiador</em> dos officios +remettidos do gabinete do duque-regedor ás +corregedorias, trasladamos o seguinte:</p> + +<br> +<p>«Para o corregedor do civel da côrte Francisco +Xavier de Mattos Broa. Sua Magestade é servido +ordenar que vm.<sup>ce</sup>, em cumprimento do precatorio +que lhe passou o desembargador Antonio +de Sousa Bermudes de Torres, como juiz do inventario +dos bens de Alexandre de Gusmão, faça +logo remetter para o juizo do inventario para +n'elle ser vendido um laço, fita de pescoço, e uns +brincos de diamantes e rubins que se acham no +deposito geral da côrte, a requerimento de Anna +Maria do Vencimento, conservando-se no preço +d'estas joias a mesma hypotheca e direito que esta +<span class='pagenum'>[62]</span> +credora tem pela penhora que n'elles fez. Deus +Guarde a vm.<sup>ce</sup> Paço 13 de maio de 1755.»</p> + +<br> +<p>Segue-se, com data do dia anterior, outro officio +ao mesmo proposito:</p> + +<br> +<p>«Para Amador Antonio de Sousa Bermudes +de Torres. Sua Magestade deferindo ao requerimento +que lhe fez Miguel de Avilez Carneiro foi +servido ordenar que o corregedor do civel da côrte +remettesse ao juizo do inventario dos bens de +Alexandre de Gusmão as joias que se acham no +deposito da côrte, com penhora feita por Anna +Maria do Vencimento. É o mesmo senhor servido +que vm.<sup>ce</sup> as faça vender em o leilão que se está +fazendo dos ditos bens, com a declaração, porém, +que o procedido das ditas joias se não confundirá +com o preço dos outros bens, ficando no valor +d'estes conservada a penhora e hypotheca especial +que n'ellas tinha a credora, para se lhe reservar +n'esta parte o direito que tiver para a preferencia. +Deus Guarde a vm.<sup>ce</sup> Paço 12 de maio +de 1755.»</p> + +<br> +<p>Os descendentes d'esta snr.<sup>a</sup> Anna Maria, se +a sorte lhes bafejou mais propicia que ao ministro +<span class='pagenum'>[63]</span> +de D. João V, devem estar hoje de posse +das joias de Alexandre de Gusmão. Regosijem-se.</p> + +<p>Quaes seriam os outros bens leiloados? Uma +quinta já eu descobri folheando um grosso volume +manuscripto, intitulado: <em>Tombo das herdades +de Nossa Senhora da Ajuda, de Val de Figueira, +e da Atalaia, sitas no termo da villa de Cabrella, +que são do ill.<sup>mo</sup> e exc.<sup>mo</sup> conde de Oeiras, feito por +ordem de S. M. que Deus guarde. Anno de 1763.</em></p> + +<p>Vejam que cousas eu folheio no intervallo de +dous capitulos de romance em que ha meninas +louras e mancebos de pupilla ardente a dialogarem +á competencia com a calhandra portugueza e +o sabiá brazileiro!</p> + +<p>Pois d'este tombo a pag. 46 v. consta que uma +herdade do valido de D. José partia <em>com a quinta +que foi de Alexandre de Gusmão em Val de Figueira</em>.</p> + +<p>Quem possue hoje a quinta do privado de D. +João V?</p> + +<p>Não me recordo onde li que elle tivera boa +quinta de recreio no valle de Alcantara, e era convisinha +de outra que pertencera ao grande escriptor +D. Francisco Manoel de Mello, que lá se finou, +mais pobre que Alexandre de Gusmão, um +victima da libertinagem de D. João IV, outro victima +<span class='pagenum'>[64]</span> +da ingratidão de D. João V e de seu augusto +filho.</p> + +<p>Este ministro, irmão do padre Bartholomeu +de Gusmão, alcunhado o <em>Voador</em>, foi sempre malquisto +dos frades que perseguiram como necromante +o inventor dos balões. Tres homens affectos +a D. João V foram grandemente satyrisados +n'aquelle tempo: o marquez de Gouvêa, D. Martinho +Mascarenhas, pai do que depois foi duque +de Aveiro, e morreu no patibulo como regicida; +frei Gaspar Moscoso, ou da Encarnação, da mesma +familia, e Alexandre de Gusmão.</p> + +<p>Eis aqui um <em>specimen</em> das satyras:</p> + +<div class="poesia"> +<em>Quem destruir-nos idéa?--Gouvêa.</em><br> +<em>Quem merece a Inquisição?--Gusmão.</em><br> +<em>Quem o deve acompanhar?--Gaspar.</em><br> + <span style="margin-left: 4em"><em>Pois, meu rei, acautelar!</em></span><br> + <span style="margin-left: 4em"><em>Olho aberto, e vêde bem,</em></span><br> + <span style="margin-left: 4em"><em>Que no reino não convém.</em></span><br> + <span style="margin-left: 4em"><em>Gouvêa, Gusmão, Gaspar.</em></span><br> +</div> +<span class='pagenum'>[65]</span> +<hr> + + + +<a name="cap07"></a> +<h1>O ORACULO DO MARQUEZ DE POMBAL</h1> + + +<p>Costumavam os nossos avós queimar os judeus--(não +assevero que os avós de quem isto +escreve não fossem tambem queimados). Se os +não colhiam ás mãos, confiscavam-lhes os bens. +Mas, dado caso que os judeus fugitivos enviassem +lá do exilio aos reis ou aos ministros bons alvitres +da arte de governar, aceitavam-lhes o favor e +praticavam o seu parecer; mas não lhes concediam +voltarem ao reino, sem a condição de se +deixarem torrar. Isto aconteceu nomeadamente +com o famoso Antonio Nunes Ribeiro Sanches, +medico portuguez, nascido em Penamacor em +1699, e fallecido em Paris, por 1783. Vivendo 84 +annos, grande parte dos quaes curtiu nos invernos +da Russia, não precisa exhibir melhores certidões +de bom medico. Se se deixa ficar na patria, +havia de custar-lhe a resistir á temperatura +alta que os frades dominicanos faziam no campo +da Lã em obsequio á hygiene da alma.</p> + +<p>Antonio Nunes Ribeiro Sanches, conselheiro +de estado da imperatriz da Russia, correspondia-se +com os estadistas portuguezes, christãos +<span class='pagenum'>[66]</span> +velhos. O marquez de Pombal, ou não quiz, ou +apesar da sua omnipotencia, não logrou assegurar +repouso na patria ao seu douto oraculo, em +paga dos conselhos e projectos de boa administração +que o neto de hebreus lhe suggeriu de Paris, +e o valido ingrato aproveitou, occultando-lhes +a procedencia. A creação do <em>collegio dos nobres</em>, +por carta de lei de 7 de março de 1761, havia sido +aconselhada por carta de Ribeiro Sanches, datada +em Paris, em 19 de novembro de 1759.</p> + +<p>Possuo esta carta autographa. Contém 129 paginas +em 4.<sup>o</sup> maior. Não sei se um rarissimo livro +intitulado <em>Cartas sobre a educação da mocidade</em>, +impresso em Colonia em 1760, é o traslado d'este +manuscripto. Não vi ainda exemplar algum. Entre +as obras ineditas do illustre medico, nomeadas +na biographia que Vicq-d'Azir lhe escreveu e Francisco +Manoel do Nascimento traduziu, ha uma intitulada: +<em>Plano para a educação de um fidalgo moço.</em> +O manuscripto, de qualquer modo precioso, +que possuo, deve ser o original de alguma das +duas obras.</p> + +<p>Dous escriptores portuguezes de subida reputação, +ambos ministros de estado honorarios, os +snrs. José Silvestre Ribeiro e D. Antonio da Costa, +enriqueceram recentemente a litteratura patria, +com os seus livros intitulados <em>Historia da instrucção +<span class='pagenum'>[67]</span> +popular em Portugal desde a fundação da monarchia +até aos nossos dias</em>, e <em>Historia dos estabelecimentos +scientificos, litterarios e artisticos de Portugal +nos successivos reinados da monarchia</em>. Os +doutissimos authores, com certeza, aproveitariam +optimos subsidios da leitura do raro livro de Ribeiro +Sanches, se o manuscripto, que tenho, é o +rascunho do livro impresso em Colonia, cuja raridade +o snr. Innocencio F. da Silva encarece. O +senhor conselheiro José Silvestre Ribeiro, quando +louva o progresso das letras e artes no reinado de +D. José I, recordaria com menção gloriosa o nome +obscurecido do medico portuguez, e daria ao +marquez de Pombal a parte mediana que lhe cabe +no alvidramento da reforma da universidade, do +collegio dos nobres, nas escólas militares, e no +mais, respeitante aos beneficios que a historia lhe +desconta na ferocissima condição.</p> + +<p>Ribeiro Sanches, antes de indicar o methodo +proficuo na educação dos fidalgos, discorre ácerca +da educação antiga, e chegando ao meado do +seculo XVI, escreve:</p> + +<br> +<p>«.... Vimos acima que, desde o anno 1500 +até o anno de 1570, existiu o maior luxo que +jámais viu Portugal. El-rei D. Manoel introduziu-o +na côrte, e foi o primeiro que se vestiu umas vezes +<span class='pagenum'>[68]</span> +á franceza, outras á flamenga<sup><a name="nota7" href="#desc7">[7]</a></sup>. Como não teve +guerra na Europa, nem seu filho, nem seu bisneto +el-rei D. Sebastião, com as riquezas do Oriente +cahiu a fidalguia no maior luxo, e por consequencia +n'aquelle total esquecimento da boa educação +<span class='pagenum'>[69]</span> +que tinha ou na paço dos reis antigos ou +em casa de seus paes. No tempo d'el-rei D. Pedro, +<em>o Justiceiro</em>, tanto que se sabia no paço que tinha +nascido algum filho de fidalgo, mandava logo el-rei +a sua casa a provisão da moradia ou fôro que +deixava em poder da mãi ou da ama que creava o +menino, e n'estes tempos se chamavam os reis +paes de seus vassallos. Depois, crescendo o numero, +se ordenou que sómente se usasse d'esta +graça com o primogenito, e d'esta resolução veio +a descahir aquelle amor da patria, porque faltou +a boa educação que tinham no paço todos os filhos +de fidalgos com moradia.</p> + +<p>«No tempo d'el-rei D. João II lhe representaram +em côrtes que ordenasse se creassem os +fidalgos no paço como era costume antigamente: +signal certo que se educava alli a primeira mocidade +do reino. Já dissemos acima que a educação +da nobreza toda se reduzia a fazer o corpo +robusto, e fortissimo, o animo ousado, e destemido; +além d'aquelle agrado que reinava no galanteio, +e serviço das senhoras, não deixavam de +instruir o animo com aquelles poucos conhecimentos +scientificos que se conheciam: sómente +na familia do infante D. Henrique foi esta educação +mais consideravel, porque sahiram muitos do +paço d'aquelle famoso principe excellentemente +<span class='pagenum'>[70]</span> +instruidos nas mathematicas e boas letras, como +foi o grande Albuquerque, e D. João de Castro.»</p> + +<br> +<p>Discorre o medico ácerca das causas que abastardaram +a educação dos fidalgos:</p> + +<br> +<p>«Mas tanto que os reis tiveram mais que dar +que as terras da corôa; tanto que tiveram commendas, +governos, e cargos lucrativos, tanto nas +conquistas, como no reino, logo os fidalgos começaram +a cercar os reis, e ficarem na côrte; +porque pela adulação, pelo agrado, e pelas artes +dos cortezãos sabiam ganhar as vontades dos reis, +não tendo aquellas occasiões forçosas de obrarem +acções illustres para serem premiados por ellas. +Isto vêmos succedeu no tempo d'el-rei D. Duarte, +quando ordenou que todo o fidalgo que não tivesse +cargo na côrte que fosse a viver nas suas +terras.</p> + +<p>«Logo que todos os fidalgos fizeram a sua assistencia +na côrte no tempo da paz, logo que seus +filhos eram educados em suas casas, já ricas, e +poderosas pelas dadivas dos reis em commendas, +pensões, governos e cargos, necessariamente se +havia de seguir uma educação estragada; a meninice +entregue na mão das amas, e de mulheres +communs; a puericia entre as mãos dos +<span class='pagenum'>[71]</span> +criados, e dos escravos; até o tempo d'el-rei D. +Sebastião poucos sabiam mais que lêr e escrever; +porque já a escóla do infante D. Henrique estava +acabada; e toda a educação se reduzia a saber +os mysterios da fé, porque os seus mestres +sendo ecclesiasticos e ignorantes da obrigação de +subdito, de filho, e de marido, chegavam á idade +da adolescencia com o animo depravado: sem humanidade, +porque não conheciam igual; sem subordinação, +porque eram educados por escravas, +e escravos, ficava aquelle animo possuido da soberba, +e vangloria, sem conhecimento da vida civil, +nem com a minima idéa do bem commum. +Assim degenerou aquella educação do paço, na +qual pelo menos aprendiam a obedecer, na mais +insolente tyrannia de todos aquelles com quem +tratavam.»</p> + +<br> +<p>E, vindo ao ponto da reforma urgente na educação +da nobreza, escreve:</p> + +<br> +<p>«Parece-me que vistos os notaveis inconvenientes +da educação domestica, e das escolas ordinarias, +que não fica outro modo para educar a +nobreza, e a fidalgia do que aprender em sociedade, +ou em collegios: e como não é cousa nova +hoje em Europa esta sorte de ensino, com o titulo +<span class='pagenum'>[72]</span> +de <em>corpo de cadetes</em>, ou escóla militar, ou <em>collegio +dos nobres</em>, atrevo-me a propôr á minha patria +esta sorte de collegios, não sómente pela summa +utilidade que tirará d'esta educação a nobreza, +mas sobre tudo, o estado, e todo o povo.»</p> + +<br> +<p>Ahi está o aviso do christão novo, seguido, e +executado dous annos depois, quanto á fundação +do <em>collegio dos nobres</em>.</p> + +<p>Depois, indica o doutor Ribeiro Sanches as +sciencias que devem ensinar-se já no collegio, já +nas aulas militares. Todas entraram na organisação +dos estatutos.</p> + +<p>Em um §. intitulado: <em>Em que idade deveriam +entrar os educandos na escóla real militar</em>, divaga +o insigne medico por considerações a respeito +das mães. Transcrevo o que me parece digno de +ser lido por ellas:</p> + +<br> +<p>«Tanto que as riquezas da Africa e do Oriente +entraram em Portugal, logo começou a mostrar-se +o luxo nos vestidos, comidas, e mais commodidades +estrangeiras; começou a esfriar-se o amor +das familias, e por ultimo da patria. El-rei D. +João III foi o ultimo rei que foi creado com ama +nobre, e já seus filhos, nem seu neto el-rei D. Sebastião, +tiveram amas, mais que da classe plebêa; +<span class='pagenum'>[73]</span> +indicio certo que as senhoras não creavam já seus +filhos, como nos tempos anteriores: introduziu-se +este destructivo costume da raça humana, do amor +filial, e dos bons costumes; e apesar de tanto +sermão, missões, e praticas espirituaes, nenhuma +senhora quer sacrificar a sua formosura. Seria +loucura persuadir o que ninguem quer abraçar.</p> + +<p>«Tem para si estas mães, que não criam, que +conservarão por mais tempo a formosura, e que +dilatarão a vida com mais vigor e forças, e que +perderiam a sua boa constituição creando por +dezoito mezes ou dous annos. Mas é engano manifesto, +e o contrario se sabe pela experiencia, e +pela boa physica.</p> + +<p>«A mulher que deu á luz um filho, e que não +o cria, em pouco tempo vem a conceber de novo: +a gravidez de nove mezes é uma enfermidade, +que enfraquece mais o corpo, do que crear aos +peitos por anno e meio: e como concebem antes +que as partes da geração adquirissem pelo repouso +a sua natural consistencia, succede, que +estas senhoras abortam mais frequentemente: +enfermidade tão consideravel, que muitas ou perdem +a vida, ou ficam achacadas; perdendo em +poucos annos o idolo da sua belleza, ficando frustradas +<span class='pagenum'>[74]</span> +do seu intento, e expostas a viverem por +toda a vida com mil desgostos, e pezares.»</p> + +<hr class="dotted"> + +<p>«Até agora os damnos que soffrem as mães. +Mas os mais consideraveis e lamentaveis são +aquelles que se imprimem no animo das crianças +creadas por amas. Se fôramos nascidos para viver +nos desertos da Africa, ou nos bosques da +America, pouco importava que as amas imprimissem +no nosso animo aquellas idéas de terror +de feitiços, de feiticeiras, de duendes, de crueldade, +e de vingança; mas somos nascidos em sociedade +civil, e christã; aquellas idéas que nos +dão as amas são destructivas de tudo o que devemos +crêr, e obrar: ficam aquellas crianças expostas +ao ensino de mulheres ignorantes, supersticiosas; +são os primeiros mestres da lingua, dos +desejos, dos appetites, e das paixões depravadas: +chegou o menino a fallar, já está cercado de duas +ou tres mulheres mais ignorantes, mais supersticiosas +do que a ama; porque estas são mais velhas, +e sabem mais para destruir aquella primeira +intelligencia do menino: chega á idade de caminhar, +já tem seu mocinho, ordinariamente escravo, +e como foram pelas mães creados por taes +amas, e velhas, são os terceiros mestres até á +<span class='pagenum'>[75]</span> +idade de seis ou sete annos: e se o mau exemplo +do pai e da mãi põem o sello a esta educação, fica +o menino embebido n'estes detestaveis principios, +que mui difficilmente os melhores mestres podem +arrancar aquelles vicios pelo discurso da idade +pueril.</p> + +<p>«Será impossivel introduzir-se a boa educação +na fidalguia portugueza em quanto não houver +um collegio, ou recolhimento, quero dizer, uma +escóla com clausura para se educarem alli as +meninas fidalgas desde a mais tenra idade: porque +por ultimo as mães, e o sexo feminino são os primeiros +mestres do nosso; todas as primeiras idéas +que temos provém da creação que temos das mães, +amas, e aias; e se estas forem bem educadas nos +conhecimentos da verdadeira religião, da vida civil, +e das nossas obrigações, reduzindo todo o ensino +d'estas meninas fidalgas á geographia, á +historia sagrada, e profana, e ao trabalho de +mãos senhoril, que se emprega no risco, no bordar, +pintar, e estofar, não perderiam tanto tempo +em lêr novellas amorosas, versos, que nem todos +são sagrados, e em outros passatempos onde o +animo não só se dissipa, mas ás vezes se corrompe; +mas o peor d'esta vida assim empregada é +que se communica aos filhos, aos irmãos e aos +maridos. D'aqui vem, que sendo da mesma nação, +<span class='pagenum'>[76]</span> +da mesma familia, e da mesma casa, estão +introduzidas duas sortes de lingua, ou modos de +fallar: a conversação que se deve ter com as senhoras, +não ha de ser sobre materia grave, séria; +estas conversações judiciosas ficam reservadas +para algum velho, ou para algum notado de extravagante: +e assim succede que ficam as senhoras +por toda a vida (ordinariamente) meninas no +modo de pensar, e com tão miseraveis principios +vem ellas as suas amas, as suas aias, e donas a +serem os mestres d'aquelles destinados a servir +os reis.</p> + +<p>«Não me accuse v. ill.<sup>ma</sup> que sahi fóra do +intento que lhe prometti: achei que tratar da +educação que deviam ter as meninas nobres e fidalgas +merecia a maior attenção, porque por ultimo +vem a ser os primeiros mestres de seus +filhos, irmãos, e maridos. V. ill.<sup>ma</sup> sabe muito +melhor do que eu aquelles monumentos que +temos na historia romana, e tambem na nossa, +de tantas mães que por crearem, e ensinarem +seus filhos foram as que salvaram a patria, e a +illustraram: houve em Roma muitas Cornelias, +como em Portugal muitas Philippas de Vilhena. +Mas n'aquelle tempo ainda o luxo, ou a dissolução +não se tinha apoderado do animo portuguez, +porque as riquezas não eram tão appetecidas. A +<span class='pagenum'>[77]</span> +connexão que tem a educação da mocidade nobre +que prometti a v. ill.<sup>ma</sup> me obriga a ponderar, +se não seria mais util para a conservação e +augmento da religião catholica transformarem-se +tantos conventos de freiras, e das ordens, principalmente +militares sem exercicio algum da sua +destinação, n'estes estabelecimentos que proponho, +tanto para a mocidade nobre masculina, +como feminina? Com o exemplo das educandas, +ou <em>Filles de St.-Cyr</em>, fundação perto de Versailles, +e com o da escóla real militar, se poderiam fundar +no reino outros ainda mais vantajosos para a +mesma nobreza, e para a conservação e augmento +da religião e do reino. Mas espero ainda vêr nos +meus dias estabelecimentos semelhantes em tudo, +ou em parte que satisfaçam todo o meu desejo.»</p> + +<br> +<p>Eu tinha vontade de prolongar o traslado; +mas a leitora que é mãi, joven e formosa, desdenha +os conselhos do medico; a que não é mãi, +de certo não percebeu as theorias physiologicas +em que se fundamentam as censuras; e o leitor +que de certo leu á esposa as paginas impregnadas +de maternidade, n'aquelle tom circumspecto de +nossos avós patriarchaes, dorme... patriarchalmente.</p> + +<p>Boa noite.</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="desc7" href="#nota7">[7]</a></sup> Diogo de Paiva de Andrade, o sobrinho, confirma nas +soas <em>Memorias</em> ineditas, esta passagem com a seguinte anecdota: +«Duarte Galvão, um dos benemeritos varões do seu tempo, +foi secretario d'el-rei D. João II, e por elle e seu successor +el-rei D. Manoel mandado muitas vezes por embaixador a +differentes côrtes da Europa. Encarregado pelo emprego de +chronista-mór de ordenar as chronicas dos reis d'este reino, +escreveu nove desde D. Affonso Henriques até el-rei D. Fernando, +servindo em toda a sua vida com muita aceitação dos +seus principes os empregos que lhe confiaram.</p> + +<p>«Era já de quasi 80 annos quando o imperador da Ethiopia +mandou a Lisboa um embaixador com grandes presentes para +el-rei D. Manoel procurando sua amizade e propondo reciprocos +interesses; e, querendo el-rei corresponder-lhe, entrou na +consideração de quem seria a pessoa que lá mandasse por embaixador. +Succedeu depois, estando el-rei em Evora, mandar +fazer um gibão de uma fazenda rara que lhe chegára da India; +e, no dia em que o vestiu, sahiu a uma sala em que +estavam varios fidalgos, a cada um foi mostrando o gibão, +que todos gabavam por comprazer a el-rei; e, como fosse um +d'elles Duarte Galvão, só este o não lisongeou, dizendo-lhe +que os reis de Portugal seus antecessores cuidavam menos em +atavios do que em cumprirem com os encargos que Deus impunha +aos reis. Seria melhor que não fallasse assim para seu +descanço, porque isto decidiu a eleição do embaixador que havia +de ir á Ethiopia; e logo el-rei, com palavrosos termos de +honra e conceito, nomeou o pobre ancião; mas assentando que +morreria no caminho como succedeu na altura da ilha do Camarão +em 9 de junho de 1517.»</p> +</div> +<span class='pagenum'>[78]</span> +<hr> + + + +<a name="cap08"></a> +<h1>O PRINCIPE PERFEITO</h1> + + +<p>O snr. Pinheiro Chagas, na sua estimadissima +<em>Historia de Portugal</em>, tomo III, pag. 155, relatando +vigorosamente a ferocidade de D. João II, escreve:</p> + +<br> +<p>«Estamos bem longe d'applaudir, com Ruy de +Pina e Garcia de Rezende, estas ferocissimas repressões, +mas tambem não podemos concordar +com o snr. Camillo Castello Branco, que escreve o +seguinte a respeito d'el-rei D. João II:</p> + +<p>«O real carrasco, a quem infamissimos aduladores +da corôa chamaram <em>principe perfeito</em>, surge +hediondo diante da posteridade, alçando-se +por sobre a nuvem dos incensos, com que thuribularios +abjectos cuidavam escondel-o á execração +dos vindouros. Raro ha quem se canse em esgaravatar +razões d'estado, que contrapesem a ferocidade +do filho d'Affonso V. A historia, á volta d'elle, +o que encontra é cadaveres, oitenta cadaveres +de homens illustres, uns estrangulados, outros decapitados, +estes mortos a punhal, aquelles a peçonha. +<span class='pagenum'>[79]</span> +<em>Oitenta</em>, confessou elle o numero, quando a +morte lhe acenava de perto, e se lhe desabafava +a consciencia, supplicando ao papa contritamente +o perdão dos seus peccados.</p> + +<p>«Os lances capitaes de tão má alma contou-os +a historia á tragedia. O theatro portuguez já se +enlutou com os quadros de canibalismo, trazidos +á rampa e ao grande brilho dos lustres, para +que o povo visse justificada a razão que teve a +villanagem dos chronistas d'alligarem ao assassino +do duque de Vizeu o antonomastico epitheto +de <em>principe perfeito</em>.»</p> + +<p>«O illustre escriptor é demasiadamente severo +com o grande rei a quem Portugal deve tanto. +Que a energia de D. João II degenerava em ferocidade, +é incontestavel, e não pretendemos absolvel-o +dos crimes que pesam sobre a sua memoria. +Mas qual dos grandes homens, que figuram +na historia, se apresenta immaculado no tribunal +da posteridade? No assassinio do duque de +Vizeu achamos, devemos confessal-o, em attenção +aos costumes da época, D. João II, menos hediondo +do que no caso do duque de Bragança. É +uma luta a todo a transe entre D. João II e a nobreza, +e el-rei, que teve por tantas vezes a morte +diante dos olhos e que sempre a affrontou sem +empallidecer, pôde, quando se lhe offereceu ensejo, +<span class='pagenum'>[80]</span> +antecipar-se aos seus adversarios, e voltar +contra elles o punhal com que o ameaçavam. O +duque de Vizeu foi ferido pela catastrophe que +trazia pendente sobre a cabeça do seu adversario; +foi vencido na batalha. Se D. João II abusou +da victoria, e não soube, como nunca soubera, +perdoar, culpemos d'isso a imperfeição humana. +Perdoar! Parece que no mundo só Christo +soube cumprir essa maxima sublime, que debalde +prégou na sua santa doutrina. A civilisação, +abrandando os costumes e modificando as paixões, +tem introduzido felizmente, no espirito do +homem, o horror do sangue derramado, mas, nos +fins do seculo XV, ainda a vida das creaturas da +nossa especie estava longe de ter o caracter inviolavel +que hoje possue. Por tanto D. João II, +aceitando de rosto descoberto a batalha, e vibrando +o punhal como vibraria a espada, tem uma +certa grandeza selvagem, que não desculpa mas +attenua o crime.»</p> + +<br> +<p>Até aqui o destro escriptor. Agora, a historia +que os reis e as camarilhas não deixavam estampar.</p> + +<p>O punhal que D. João II vibrou ao peito do +duque de Vizeu foi acto cobarde que não póde ser +attenuado por grandeza selvagem. O rei apunhalava +<span class='pagenum'>[81]</span> +o adversario em quanto os braços possantes +de um valente alcaide prendiam pelas costas a +victima desarmada.</p> + +<p>Nas <em>Memorias</em> ineditas de Diogo de Paiva e +Andrade, author do <em>Casamento perfeito</em>, faz-se +menção do conflicto, e encarece-se a bravura do +coadjuctor de D. João II com uma anecdota bastante +significativa da coragem do fidalgo e da cobardia +do rei.</p> + +<p>Diz assim:</p> + +<br> +<p>«D. Pedro de Eça, alcaide-mór de Moura, foi +um fidalgo a quem a natureza dotou de muito +animo e grandes forças, e por isto el-rei D. João II +o escolheu, quando quiz matar a D. Diogo, duque +de Vizeu, a quem abraçou por detraz. Acontecendo +em Moura matarem um homem uns criados +seus, foram-se dous irmãos do morto queixarem +a el-rei e disseram-lhe que D. Pedro lh'o +mandára; pelo que o mandou vir á côrte, e esteve +n'ella mais de dous annos, posto que, tirada +a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. +Pedro disse a el-rei que, pois sua alteza não queria +crêr que elle não tinha culpa na morte do homem, +e os que o accusavam eram dous, que lhe +fizesse mercê de lhe mandar dar campo com ambos +para assim se purificar; do que, agastando-se +<span class='pagenum'>[82]</span> +el-rei, lhe disse que tomára elle ser um dos dous. +E D. Pedro lhe respondeu: «não fôra vossa alteza +meu rei, e fosse com elles o terceiro.»</p> + +<br> +<p>Não temos o desvanecimento de sobre-excitar +contra D. João II o animo do nosso talentoso +amigo; todavia, insinuamos-lhe a suspeita de que +o homem não era capaz de matar outro sem lh'o +agarrarem pelas costas, tendo ainda por cautela +mais dous bravos que se chamavam Diogo de +Azambuja e Lopo Mendes do Rio.</p> +<hr> + + + +<a name="cap09"></a> +<h1>AVE RARA</h1> + + +<p>O poeta satyrico Antonio Lobo de Carvalho, +fallecido em Lisboa aos 26 de outubro de 1787, +nasceu em Guimarães, não se sabe precisamente +quando. Era filho illegitimo de fidalgo, e tinha +em Villa Real parentes maternos que o educaram +nas letras, consoante os frades da terra podiam +ministrar-lh'as. O bom que os frades tinham não o +aprendeu o rapaz. Era poeta de lingua farpada, da +<span class='pagenum'>[83]</span> +escóla de Gregorio de Mattos Guerra, o maior e +mais sujo talento que deram as plagas de Santa +Cruz, desde a cidade de Jequitinhonha até á cidade +de Pindamonhamgaba.</p> + +<p>Os cavalheiros villa-realenses andavam mordidos +pelas vespas das suas trovas. Lobo não perdia +lanço de os satyrisar.</p> + +<p>Em uma procissão de Corpus-Christi, o senado +da terra ordenou que S. Jorge fosse em andor +e não em cavallo. A razão d'este descavalgamento +não é bem liquida. Ha muitos mysterios que nunca +se hão de dilucidar, mormente em cousas de +cavalgaduras.</p> + +<p>N'essa occasião, Antonio Lobo de Carvalho escreveu +e divulgou o seguinte soneto:</p> + +<div class="poesia"> +<em>Patria de valentões, paiz guerreiro,</em><br> +<em>Só tu, Villa Real! comtigo fallo!</em><br> +<em>Vão Panças e Roldões jogar o talo,</em><br> +<em>Ou vão na tua escóla andar primeiro.</em><br> +<br> +<em>Quem ha que os teus aguente no terreiro,</em><br> +<em>Se até S. Jorge foram desmontal-o!</em><br> +<em>Pois, indo nas mais terras a cavallo,</em><br> +<em>N'esta é capucho o santo cavalleiro!</em><br> +<br> +<em>Nos triumphos de Baccho a villa armada</em><br> +<em>Uns com brancos arnezes, outros tintos,</em><br> +<em>As meretrizes levam de assaltada.</em><br> +<span class='pagenum'>[84]</span> +<br> +<em>Fez-lhe o entrudo os broqueis, compoz-lhe os cintos,</em><br> +<em>E soltou um pendão co'esta fachada:</em><br> +<em>«Todos são pobretões; mas mui distinctos.»</em><br> +</div> + +<p>Os fidalgos da villa dilecta d'el-rei D. Diniz,--que +eram muitos, a julgar pelos brazões musgosos +em que as andorinhas dormem de verão e as +corujas assobiam de inverno--assanharam-se +contra o poeta, fazendo-se representar no desforço +pelos seus moxillas.</p> + +<p>Espancado e fugitivo, foi parar a Lisboa Antonio +Lobo, onde conhecia um tal Anacleto, que +mais tarde foi juiz de fóra em Angeja.</p> + +<p>A mãi do poeta era remediada de bens da +fortuna, e quanto tinha quanto deu ao estouvanado +filho, que nunca procurou modo de vida, +nem bajulou os grandes, á imitação dos vates do +seu tempo.</p> + +<p>O duque de Cadaval, D. Miguel, ouvindo recitar +versos de Antonio Lobo, disse aos seus criados +que lh'o levassem ao palacio... para se divertir. +Um lacaio de s. exc.<sup>a</sup> procurou o poeta e deu +conta do recado. Lobo mandou-o esperar, improvisou +um soneto, e remetteu-o ao duque. É o +mais galhardo feito de poeta do seculo XVIII. Dizia +assim:</p> +<span class='pagenum'>[85]</span> + +<div class="poesia"> +<em>Se eu fôra, excelso duque, homem perito,</em><br> +<em>Capinha, ferrador, cabelleireiro,</em><br> +<em>De cães decurião ou cozinheiro,</em><br> +<em>Em sopas mestre, em massas erudito:</em><br> +<br> +<em>Se em letra antiga visse o que anda escripto</em><br> +<em>Do vosso grande avô, João Primeiro,</em><br> +<em>Que o gothico mostrasse ao mau caseiro;</em><br> +<em>Que o tombo velho nunca está prescripto.</em><br> +<br> +<em>N'este caso, senhor, a vossa graça</em><br> +<em>Mais quizera alcançar, que ter mil burras,</em><br> +<em>Do metal louro que se ri da traça.</em><br> +<br> +<em>Mas como a sorte me tem dado surras,</em><br> +<em>Não vou servir-vos só por não ter praça</em><br> +<em>No livro mestre dos santões caturras.</em><br> +</div> + +<p>Antonio Lobo indispoz-se em Lisboa com fidalgos +e frades. A mezada que a mãi lhe enviava +permittia-lhe dispensar-se das sympathias de +clero e nobreza. Foi muito soado e mordido um +soneto que elle dardejou contra um frade leigo, +dado a libações de certa taverna. Era d'esta laia +o poema:</p> + +<div class="poesia"> +<em>Borracha de estamenha, ôdre sarrento,</em><br> +<em>Mil parabens te dou ao novo estado;</em><br> +<em>Pois de estupido leigo a um jubilado</em><br> +<em>Lente de rolhas vaes em largo vento.</em><br> +<br> +<em>Se ha longos annos mettes fogo lento</em><br> +<em>N'essa pança que é mãi de vinho aguado,</em><br> +<em>Frei Bourdeaux será hoje o teu prelado,</em><br> +<em>A adega d'esta casa o teu convento.</em><br> +<span class='pagenum'>[86]</span> +<br> +<em>Bebe, esponja claustral, té que a fumaça</em><br> +<em>Das vasilhas de França encha as pichorras</em><br> +<em>De umas bebadas tripas de outra raça;</em><br> +<br> +<em>E, antes que os limos dos toneis escorras,</em><br> +<em>Fuja o do Carmo, fuja o Leão da Graça,</em><br> +<em>Que hoje o que reina é o Leão dos Borras.</em><br> +</div> + +<p>Ao odio do clero e nobreza, ajuntou o poeta +o odio do povo representado nas pessoas dos capellistas, +acirrados por estes versos:</p> + +<div class="poesia"> +<em>Um rapaz a gritar como um cabrito</em><br> +<em>Com saudades da mãi sobre o vallado,</em><br> +<em>Que entre duas canastras vem deitado,</em><br> +<em>Em burro de almocreve, ancioso e afflicto;</em><br> +<br> +<em>Com rosario ao pescoço mui bonito,</em><br> +<em>Descalço, de barrete e de cajado,</em><br> +<em>C'um sacco á cinta, onde traz (coitado!)</em><br> +<em>A sua côdda, o seu bacalhau frito.</em><br> +<br> +<em>Posto a pé este misero mamote</em><br> +<em>Ora cahe, ora treme, ora encordôa,</em><br> +<em>Um lhe prega um sopapo, outro um calote.</em><br> +<br> +<em>Pois esta figurinha ou má ou boa</em><br> +<em>Faz qualquer capellista franchinote</em><br> +<em>Quando vem do sertão para Lisboa.</em><br> +</div> + +<p>N'esta vida de odios e irritações, viveu Antonio +Lobo de Carvalho até aos cincoenta annos. +Se nos merecesse credito o que João Bernardo +da Rocha escreveu no <em>Portuguez</em>, tom. X, pag. +<span class='pagenum'>[87]</span> +356, o atrevido vate haveria sido aleivosamente +assassinado por ordem de um tio do marquez de +Olhão, a quem o maldizente frechára com um +soneto que abria assim:</p> + +<div class="poesia"> +<em>Ferrabras, Satanaz, Fernão Zarolho,</em><br> +<em>Cruel harpia das que o inferno encerra...</em><br> +</div> + +<p>Mas o snr. Innocencio Francisco da Silva, posto +que não decida qual haja sido a morte do poeta, +com justificados motivos desabona a affirmativa +de João Bernardo da Rocha.</p> + +<p>Eu tambem não sei. Ando n'essas pesquizas; +e receio ir dar com elle no hospital, expirando +envolto em gloria... de cataplasmas de linhaça.</p> +<hr> + + + +<a name="cap10"></a> +<h1>VERGONHAS NACIONAES</h1> + + +<p>É notorio que o capitão Vicente Lunardi, natural +de Luca, e empregado na embaixada napolitana +em Londres, effectuou em Lisboa, na tarde +de 24 de agosto de 1794, uma viagem aerea.</p> +<span class='pagenum'>[88]</span> + +<p>Mas ainda ninguem disse que o aeronauta, antes +da ascensão, esteve preso á ordem do intendente +geral da policia Diogo Ignacio de Pina Manique, +pelo motivo de vir com tal novidade a Lisboa, +onde a inquisição, por causa identica, desejára +queimar o padre Bartholomeu de Gusmão.</p> + +<p>Os documentos que sobrevivem a tamanho opprobio +são autographos, authenticados pela assignatura +do famigerado intendente.</p> + +<p>Lunardi chegou a Lisboa em fins de maio de +1794. N'esse mesmo anno, em janeiro, tinha elle +em Madrid subido no seu balão, que desceu na +provincia da Mancha, onde os camponezes o receberam +tão benignamente que o levaram em +triumpho á igreja parochial da villa de Orcajo.</p> + +<p>Cuidou elle que a familia real portugueza o +recebesse com igual agrado ao da côrte hespanhola.</p> + +<p>Logo que chegou a Lisboa, foi intimado a comparecer +na corregedoria do bairro, e obrigado a +assignar termo de não subir ao ar, sem que a machina +fosse examinada por peritos. Este exame +levava em vista satisfazer as suspeitas do publico, +receoso de artes diabolicas.</p> + +<p>Assignou Lunardi o termo, e entendeu que +dava plena satisfação ás authoridades e ao publico, +expondo o balão com todos os seus aprestos. +<span class='pagenum'>[89]</span> +E, para isso, construiu uma barraca na praça do +Commercio, e grudou nas esquinas das ruas mais +concorridas um cartaz em que minudenciosamente +explicava o balão exposto, e os mais instrumentos +necessarios ás viagens aereas. (Veja o <em>Panorama</em>, +tom. VIII, pag. 15).</p> + +<p>Apenas o estirado cartaz appareceu, o intendente +geral da policia, officiou ao desembargador +Luiz Dias Pereira, corregedor do bairro dos Romulares, +no theor seguinte, e textual orthographia:</p> + +<br> +<p>«Vm.<sup>ce</sup> logo mandará hir seguro á sua presença +Vicente Leonardi, Author da Maquina +Aereostatica, e na presença de um dos escrivães +dos Lugares, que vm.<sup>ce</sup> está servindo, lhe perguntará, +com que authoridade fixou os editaes, +contra o que se havia determinado no termo +que elle assignou perante vm.<sup>ce</sup> por ordem d'esta +intendencia; e não apresentando ordem por escripto, +<em>emenada</em> (sic) das Secretarias de Estado, +ou do seu Real Gabinete, ou Gentil Homem da +Camara ou <em>Garda</em> (sic) Roupa do Dito senhor; +vm.<sup>ce</sup> o mandará prender, mandando-lhe abrir +assento á minha ordem; e dar-me<sup><a name="nota8" href="#desc8">[8]</a></sup> parte do resultado +<span class='pagenum'>[90]</span> +d'esta diligencia acompanhando o Auto +da declaração que o mesmo Vicente Leonardi +fizer. Deus guarde a vm.<sup>ce</sup> Lisboa 10 de junho +de 1794.==<em>Diogo Ign.<sup>eo</sup> de Pina Manique.==Snr. +Dz.<sup>or</sup> Luiz Dias Pereira.</em>»</p> + +<br> +<p>Lunardi, conduzido pelos quadrilheiros ao +corregedor, e interrogado, disse que, tendo assignado +termo de não funccionar sem que o balão +fosse examinado, cuidára dar a maxima prova de +boa fé e sciencia estreme de sortilegio, exhibindo +ao exame de toda a gente a sua machina.</p> + +<p>O corregedor achou-lhe razão. Não obstante, +mandou-o esperar, em custodia, novas ordens da +intendencia, em quanto elle officiava e a resposta +vinha.</p> + +<p>Eis a resposta do Manique:</p> + +<br> +<p>«Vm.<sup>ce</sup> executará sem exhitação, ou duvida +alguma, a diligencia que lhe encarreguei em +aviso da data de hontem a respeito do estrangeiro +Leonardi, author da maquina aereostatica; +pois me consta com toda a certeza não ter o +mesmo Estrangeiro licença alguma de Sua Alteza +Real o Principe Nosso Senhor para o referido +fim: e vm.<sup>ce</sup> me dará conta por escripto da execução +da sobredita diligencia, na conformidade +<span class='pagenum'>[91]</span> +que lhe tinha ordenado. Deus guarde a vm.<sup>ce</sup> +Lisboa 11 de junho de 1794.==<em>Diogo Ign.<sup>eo</sup> de +Pina Manique.==Snr. Dz.<sup>or</sup> Luiz Dias Pereira.</em>»</p> + +<br> +<p>Em vista d'isto, o aeronauta foi conduzido ao +Limoeiro; e, n'esse mesmo dia, o intendente elogiava +o corregedor n'estes termos:</p> + +<br> +<p>«Li a conta que vm.<sup>ce</sup> me deu em que me participava +a prisão do estrangeiro Leonardi, o que +vm.<sup>ce</sup> tem executado com todo o acerto; agora +porém vm.<sup>ce</sup> mandará arrancar todos os editaes, +que o mesmo tinha afixado. Deus guarde a vm.<sup>ce</sup> +Lisboa 11 de junho de 1794.==<em>Diogo Ign.<sup>eo</sup> de +Pina Manique.==Snr. Dz.<sup>or</sup> Luiz Dias Pereira.</em>»</p> + +<br> +<p>Não sei que tempo esteve o italiano em ferros; +mas tenho plausiveis razões para presumir +que o principe regente o mandou soltar, pois que, +volvidos dous mezes, foi sua alteza que lhe deu +licença para subir no balão.</p> + +<p>Aos ouvidos do intendente chegaram rumores +sinistros. Segredava-se que algumas pessoas, influenciadas +pelos frades de mais selvagem ignorancia +e acrisolada religião, tencionavam despedaçar +a machina e o aeronauta, suspeito de feiticeria. +E, visto que sua alteza licenciára a subida +<span class='pagenum'>[92]</span> +do balão, cumpria a elle intendente obstar que +os fanaticos insultassem o estrangeiro. No entanto, +o sagaz magistrado, que tinha mais velhacaria +que syntaxe, não queria indispôr-se com o povo +intimidando-o com o poder armado, nem indispôr-se +com o principe abandonando o aeronauta +á ferocidade das turbas. Neste proposito, officiou +assim ao corregedor na véspera da ascensão:</p> + +<br> +<p>«Vou a prevenir a vm.<sup>ce</sup> que não deve levar +official algum de capote ámanhã de tarde para +hir assistir na Praça do Commercio, nem ainda +mesmo os quadrilheiros, e aquelle que não tiver +cazaca o dispense vm.<sup>ce</sup> e lhe dê positiva ordem +para não apparecer na mesma Praça do Commercio: +o mesmo tambem ordenará vm.<sup>ce</sup> aos +Cabos geraes do seu Bairro para não haver alguma +confuzão e obviar, que alguns malvados +se queiram mascarar affectando serem officiaes, +para levarem as armas a seu salvo.</p> + +<p>«Recomendo a vm.<sup>ce</sup> a prudencia, procurando +não comprometter a authoridade, e respeito +da justiça, e só, no caso indispensavel que +ameace consequencias é que deve vm.<sup>ce</sup> ter o +procedimento, pedindo auxilio da tropa para rebater +qualquer insulto que se queira praticar: +o modo nestas occasiões, e a polidez conduzem +<span class='pagenum'>[93]</span> +muito para se concluir o dia sem que seja preciso +praticar procedimento algum, e sem que +tambem se suscitem conflictos de jurisdicção. +Tudo isto quer a prudencia, que recomendo a +vm.<sup>ce</sup> se pratique como sem hesitação espero; e +outro sim que não separe de si os seus officiaes +para que não vão fazer acção alguma que não +seja por vm.<sup>ce</sup> regulada. Deus guarde a vm.<sup>ce</sup> +Lisboa 23 de agosto de 1794.==<em>Diogo Ign.<sup>eo</sup> de +Pina Manique.==Snr. Luiz Dias Pereira.</em>»</p> + +<br> +<p>Na pagina em branco d'este officio, escreveu +o corregedor: <em>Subiu no dia 24 d'agosto na real +praça do Commercio depois das quatro horas e meia +da tarde. Eu o vi subir. Foi pelas oito horas e meia +da noite cahir ás Vendas Novas, voando depois a +Magaina(?) sem que elle a podesse segurar, a qual +foi depois cahir a Veiros.</em></p> + +<p>Vicente Lunardi escreveu depois a sua <em>Viagem +aerea</em>, impressa no mesmo mez e anno em Lisboa. +Da sua escripta não transpira queixume dos +portuguezes. Apenas estas expressões denotam +uma alma nobremente magoada: <em>Os applausos, +com que me tem honrado a nação portugueza, me +fazem esquecer «as minhas passadas desgraças» e +me obrigam a dar-lhe, em prova do meu reconhecimento, +uma exacta narração de toda a minha viagem +<span class='pagenum'>[94]</span> +aerea</em>, etc. (Veja o <em>Panorama</em>, tom. VIII, pag. +21 e seg.)</p> + +<p>Estes «applausos» consistiram em uns endecasyllabos +<em>anonymos</em>, publicados n'essa occasião. +Quem quer que fosse, o author não teve a coragem +de assignar os seus aleijados versos. Além +d'isto, uma epistola do padre José Agostinho de +Macedo a Stochler; e, sobre tudo o <em>elogio</em> que lhe +consagrou Bocage, em versos esplendidos, que +podem aferir-se por esta estancia:</p> + +<div class="poesia"> +<em>Portentoso mortal, que á summa altura</em><br> +<em>Vaes no ethereo baixel subindo ousado;</em><br> +<em>Que illusão, que prestigio, que loucura</em><br> +<em>Te arrisca a fim tremendo e desastrado?</em><br> +<em>Teu espirito insano, ah! que procura</em><br> +<em>Pela estrada do Olympo alcantilado?</em><br> +<em>Não temes, despenhando-te dos ares,</em><br> +<em>Qual Icaro infeliz, dar nome aos mares?</em><br> +</div> + +<p>Lunardi descrevendo os trabalhos que passou +até embarcar em Aldeia Gallega, conclue assim a +narrativa da sua viagem:</p> + +<br> +<p>«Embarquei finalmente ás quatro horas da +manhã, e com uma feliz viagem; cheguei ás 7 horas +da mesma manhã ao caes do Terreiro do +<span class='pagenum'>[95]</span> +Paço, onde achei um grande numero de pessoas +que me esperavam, e no meio de vivas de alegria +me conduziram á minha habitação.</p> + +<p>«Estes signaes de verdadeiro contentamento, +e o concurso continuo de pessoas ainda das ordens +mais respeitaveis, provam assás os sentimentos, +que produziu a minha viagem aerea, que tanto é +mais famosa, quanto mereceu os applausos de +uma nação illustre, que pelo muito, que se empenha +agora em honrar-me, tem adquirido incontrastaveis +direitos ao meu reconhecimento, e +eterna gratidão.</p> + +<p>«Esta a narração fiel da minha viagem, e dos +seus successos: e posto que ella não contenha em +si nada de extraordinario para os corações indifferentes, +deve com tudo interessar as almas sensiveis, +e compadecidas, que saberão estimar em +seu justo valor as minhas fadigas, e os meus soffrimentos. +Para estas pois é que eu escrevo, na +certeza de que, se não lhes merecer os seus louvores, +conseguirei ao menos a sua compaixão, e +o seu affecto, que é toda a minha ambição e o +unico objecto d'esta pequena descripção.--<em>Vicente +Lunardi.</em>»</p> + +<br> +<p>Seduzido pelas ovações, que alguns poetas e +rapazes lhe fizeram no Terreiro do Paço, cuidou +<span class='pagenum'>[96]</span> +o aeronauta que lhe seria permittido renovar a +ascensão, e auferir d'ahi recursos com que voltar +a Inglaterra onde tinha o seu emprego na embaixada +napolitana. Embalado pelas poesias de Bocage +e Macedo, lhe sorria a esperança, quando na +madrugada do dia 29 de agosto, cinco dias depois +da primeira subida, o acordaram para lhe +noticiarem que o seu barracão na praça do Commercio +se derruia esphacelado pelos machados de +quarenta carpinteiros, á ordem do corregedor.</p> + +<p>Aqui tem o leitor, como coronal d'este padrão +de vergonha patria, o officio do intendente Manique +ao corregedor que executou brutalmente a +demolição da barraca em que Lunardi gastára os +seus poucos recursos:</p> + +<br> +<p>«Vm.<sup>ce</sup> logo mandará chamar o mestre carpinteiro +Joaquim Pereira, que o foi da Praça +construida para a machina aereostatica de ordem +do capitão Vicente Leonardi, para dar logo principio +a demoli-la e deita-la abaixo, não lhe admittindo +subterfugio algum a este fim, e devendo +amanhan sesta feira dar principio á demolição +para o que lhe mandará embargar os carpinteiros +de obra branca e de machado, que lhe +forem necessarios: igualmente mandará vm.<sup>ce</sup> +notificar o dito capitão Vicente Leonardi para +<span class='pagenum'>[97]</span> +este mesmo fim. Deus guarde a vm.<sup>ce</sup> Lisboa +28 de agosto de 1794.==<em>Diogo Ign.<sup>eo</sup> de Pina +Manique.==Snr. Luiz Dias Pereira<sup><a name="nota9" href="#desc9">[9]</a></sup>.</em>»</p> + +<br> +<p>Os frades e a estupidez tinham vencido.</p> + +<p>Não sei se lhe abriram subscripção ao pobre +italiano para o livrarem de Portugal e das presas +do Manique. O que sei é que os poucos, que o +applaudiram, apenas podiam dar-lhe... versos.</p> + +<p>E, depois, a gente irrita-se quando os estrangeiros +nos não enfileiram na vanguarda da civilisação!...</p> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="desc8" href="#nota8">[8]</a></sup> Que grammatica a d'este afamado intendente geral!</p> +</div> + +<div class="rodape"> +<p><sup><a name="desc9" href="#nota9">[9]</a></sup> Estes documentos autographos podem vêr-se na livraria +do insigne bibliophilo, o snr. Innocencio Francisco da Silva, +que me fez a honra de os aceitar.<p> +</div> +<hr> + + + +<a name="cap11"></a> +<h1>RANCHO DA CARQUEJA</h1> + + +<p>São justas as reflexões do estudioso antiquario +o snr. Joaquim Martins de Carvalho, redactor +do <em>Conimbricense</em>.</p> + +<p>Agora direi os argumentos, bem que menos +valiosos, em que eu assentava o meu erro.</p> + +<p>Em 1805 divulgou-se em Vizeu um poema ou +pasquim, injuriando os magistrados. Houve devassa +<span class='pagenum'>[98]</span> +e um dos pronunciados foi o doutor Ferro, +que viveu no Porto, e aqui falleceu ha vinte annos, +deixando, como prova do seu mal empregado +engenho, um notavel poema que diz respeito +á invasão franceza.</p> + +<p>Em um volume de manuscriptos, tenho a celebrada +satyra do Ferro, precedida da seguinte +nota: <em>Este libello é dedicado á memoria do Estopa +e Carqueja, dous heroes que tudo levavam a pau e +espada em Vizeu, ahi pelos annos de mil setecentos +e tantos, e de um d'esses valentões tomaram o cognome +os estudantes de Coimbra chamados o Rancho +do Carqueja.</em></p> + +<p>Isto não obstante, a correcção do snr. Martins +de Carvalho deve antepor-se, visto que a sentença +condemnatoria diz: «<em>Rancho que denominaram +DA Carqueja, originando este nome de haverem +queimado com ella uma porta, etc.</em>»</p> +<hr> + + + +<a name="cap12"></a> +<h1>BOM HUMOR</h1> + +<h2>(AO NOTICIARISTA DA <em>ACTUALIDADE</em>)</h2> + + +<p>Chamar a D. João III <em>principe perfeito</em> podia +ser lapso, sem ser ignorancia; mas nem sequer +foi lapso: foi proposito.</p> +<span class='pagenum'>[99]</span> + +<p>Vá o noticiarista ao escriptorio da typographia, +onde as <em>Noites de insomnia</em> são impressas. +Peça ao snr. Antonio José da Silva Teixeira, honrado +proprietario da typographia, que lhe mostre +a primeira prova do artigo intitulado D. JOÃO III, +e encontrará <em>piedoso</em>, como estava no original, +emendado para <em>principe perfeito</em>, como está no livro. +Se quer saber por que motivo corrigi o que +havia escripto em harmonia com a historia official, +respondo-lhe que está no meu arbitrio alterar +os cognomes que não derivam de razão justificada; +e á luz da historia, tanto monta para mim +a <em>perfeição</em> de D. João II, o algoz, como a <em>piedade</em> +de D. João III, o fanatico. Uns historiadores chamaram +ao filho de D. Manoel o <em>Pai da patria</em>; outros +o <em>Filho da igreja</em>; outros, authorisados por +Paulo III, o <em>Zelador da fé</em>. Eu chamei-lhe o <em>principe +perfeito</em>, e cancellei na prova o titulo de <em>piedoso</em>, +que lhe dera de camaradagem com o snr. +Viale, por não querer manchar um adjectivo digno +de S. Francisco Xavier ou de S. João de Deus.</p> + +<p>Além de quê: está rigosamente estatuido que +sejam dogmas historicos a <em>perfeição</em> e a <em>piedade</em> do +D. João II e D. João III? Poderemos, com juizo, +associar-lhes taes epithetos, fóra de ironia? Ora +assim como uns historiadores cognominaram D. +João III com variados titulos, dá-me o noticiarista +<span class='pagenum'>[100]</span> +licença que eu chame <em>perfeito</em> ao principe, e <em>sabio</em> +a sua senhoria? A patarata é a mesma.</p> + +<p>N'isto de acolchetar antonomasias, tanto aos +reis como aos subditos, quero e peço que haja liberdade +plena. Por exemplo: o redactor da noticia +da <em>Actualidade</em>, conhecido entre os seus parceiros +por um epitheto qualquer, está sujeito a +que a posteridade lh'o altere ou inverta. Eu, por +em quanto, circumscrevo os limites da minha +phantasia a chamar-lhe tolo.</p> +<hr> + + + +<a name="cap13"></a> +<h1>DECLARAÇÃO</h1> + + +<p>Apesar de superfluo o meu testemunho, depois +da asseveração do snr. Camillo Castello Branco, +declaro que é verdade ter o mesmo snr. escripto +no original: D. JOÃO III, <em>o piedoso</em>, e na +prova que lhe enviei, e que conservo em meu poder, +ter o author emendado: D. JOÃO III, o <em>principe +perfeito</em>.</p> + +<p>Não obstante attentar na emenda feita, mandei, +como devia, que o typographo a observasse.</p> + +<p class="direita"><em>A. J. da Silva Teixeira.</em></p> + +<h4>FIM DO 2.<sup>o</sup> NUMERO</h4> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem +não póde dormir. Nº2 (of 12), by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA *** + +***** This file should be named 24464-h.htm or 24464-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/4/6/24464/ + +Produced by Pedro Saborano + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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