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+ <title>Noites de Insomnia, offerecidas a quem não póde dormir, nº 2</title>
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+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem não
+póde dormir. Nº2 (of 12), by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº2 (of 12)
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: January 31, 2008 [EBook #24464]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<span class='pagenum'>[1]</span>
+<div class="capa">
+<p style="font-size: 1.2em;">BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA</p>
+<hr style="width: 6em;">
+<p style="font-size: 2em;">NOITES DE INSOMNIA</p>
+
+<p style="font-size: 0.7em;">OFFERECIDAS</p>
+
+<p>A QUEM NÃO PÓDE DORMIR</p>
+
+<p style="font-size: 0.7em;">POR</p>
+
+<p style="font-size: 1.2em;">Camillo Castello Branco</p>
+<hr style="width: 3em;">
+<p style="font-size: 0.7em;">PUBLICAÇÃO MENSAL</p>
+<br>
+<hr style="width: 3em;">
+<p style="font-size: 0.9em;">N.<sup>o</sup> 2--FEVEREIRO</p>
+<hr style="width: 3em;">
+<table width="100%">
+<tr>
+<th colspan=2>
+LIVRARIA INTERNACIONAL<br>
+<span style="font-size: 0.7em;">DE</span>
+</th>
+</tr>
+<tr>
+<td style="border-right: solid 1px #000000;">
+<span style="font-size: 0.9em;">
+ERNESTO CHARDRON
+<br>
+<em>96, Largo dos Clerigos, 98</em><br>
+<strong>PORTO</strong>
+</span>
+</td>
+<td>
+<span style="font-size: 0.9em;">EUGENIO CHARDRON<br>
+<em>4, Largo de S. Francisco, 4</em><br>
+<strong>BRAGA</strong>
+</span>
+</td>
+</tr>
+</table>
+<hr style="width: 2em;">
+<p style="font-size: 0.9em;">1874</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>[2]</span>
+
+<div id="impressor" style="text-align: center;">
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<hr style="width: 8em;">
+<p>PORTO</p>
+
+<p style="font-size: 0.9em;">TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA</p>
+
+<p style="font-size: 0.8em;">68--Rua da Cancella Velha--62</p>
+<hr style="width: 2em;">
+<p style="font-size: 0.9em;">1874</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>[3]</span>
+
+<div id="sumario">
+<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">
+BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA
+</p>
+<hr style="width: 4em;">
+<p style="text-align: center; font-size: 2em;">
+NOITES DE INSOMNIA
+</p>
+<hr style="width: 4em;">
+<p style="text-align: center; font-size: 1.5em;">
+<strong>SUMMARIO</strong>
+</p>
+
+<p>
+<em><a href="#cap01">Aquella casa triste... (romance)</a>
+-- <a href="#cap02">Solução do problema historico</a>
+-- <a href="#cap03">Dous preconceitos</a>
+-- <a href="#cap04">Lisboa</a>
+-- <a href="#cap05">Ferreira Rangel</a>
+-- <a href="#cap06">As joias de um ministro de D. João 5.<sup>o</sup> no prego</a>
+-- <a href="#cap07">O oraculo do marquez de Pombal</a>
+-- <a href="#cap08">O principe perfeito</a>
+-- <a href="#cap09">Ave rara</a>
+-- <a href="#cap10">Vergonhas nacionaes</a>
+-- <a href="#cap11">Rancho da Carqueja</a>
+-- <a href="#cap12">Bom humor (resposta ao noticiarista da "Actualidade")</a>
+-- <a href="#cap13">Declaração.</a></em>
+</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>[5]</span>
+<div id="corpo">
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap01"></a>
+<h1>AQUELLA CASA TRISTE...</h1>
+
+<h2>(1872)</h2>
+
+
+<h3>I</h3>
+
+<p>A casa grande das quinze janellas branqueja
+no espinhaço do monte.</p>
+
+<p>As janellas fecharam-se ha seis mezes, ao
+mesmo tempo que duas sepulturas se abriram.</p>
+
+<p>A sepultura do <em>Africano</em> que chegava ao cemiterio,
+quando a filha expirava; e a sepultura
+de Deolinda, quando o sino dobrava ainda nos
+funeraes do pai.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>* &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; *</p>
+
+<p>Ao homem, que morreu n'aquella casa triste,
+chamavam o <em>Africano</em>.</p>
+<span class='pagenum'>[6]</span>
+
+<p>Estou-a vendo d'aqui.</p>
+
+<p>As vidraças reberveram o sol poente.</p>
+
+<p>Eu, ha hoje dez annos, vi abrir os alicerces
+d'aquella casa.</p>
+
+<p>Lidavam operarios a centenares.</p>
+
+<p>Entre os alveneis estava um sujeito, na pujança
+dos annos, magro, macilento e tostado pelo
+sol da Africa.</p>
+
+<p>Disseram-me que era homem muito rico, e
+viera do cabo do mundo, e se chamava o «Duque»
+por appellido, e o <em>Africano</em> por alcunha.</p>
+
+<p>Avisinhei-me d'elle com o semblante risonho
+de cortezias para lhe perguntar como ia, em monte
+assim agro e ermo, fabricar edificio tão grandemente
+cimentado.</p>
+
+<p>Respondeu que tinha em Benguela uma filha,
+com quem andára viajando na Suissa. E que a sua
+Deolinda, estanciando nas empinadas serras de
+S. Gothard, lhe dissera que seria feliz se morasse
+no topo d'uma montanha, em casa imitante de
+outra onde pernoitára, e d'onde vira levantar-se
+o sol do seu leito de neve.</p>
+
+<p>E elle, pai extremoso, rico e saudoso da patria,
+disse á filha que, por cima da casinha onde
+nascera, em um outeiro do Minho, sobranceava
+um alto monte, golpeado de regatos que derivavam
+por entre arvoredos fresquissimos.</p>
+<span class='pagenum'>[7]</span>
+
+<p>E a filha, cingindo-se-lhe ao pescoço, exclamára:</p>
+
+<p>--E quando vamos?</p>
+
+<p>--Irei fazer a casa no alto do monte, e depois
+irás tu, e levaremos para a capella os ossos de tua
+mãi. E eu descançarei d'esta labutação em que
+pude grangear mais que o preciso ao teu passadío,
+visto que preferes a viver em Paris uma
+casa nas serras de Portugal.</p>
+
+<p>E sahiu de Benguela, provido de dinheiro para
+edificar o ostentoso <em>chalet</em> que a filha phantasiára.</p>
+
+<p>Ora, os architectos do Minho, como não percebessem
+a planta do <em>Africano</em>, construiram-lhe
+um palacio aldeão, espécie de dormitorio monastico,
+um leviathan de granito zebrado de vidraças
+enormes e portas alterosas.</p>
+
+<p>Perto d'alli, na outra lombada do mesmo outeiro,
+está o antigo solar torreado dos senhores
+de Farelães.</p>
+
+<p>E eu que, n'aquelle tempo, me embrenhava
+nas ruinarias grandiosas do paço senhorial de
+Ruivães, a decifrar a lenda meio historica dos
+Corrêas de Sá nos frescos do tecto apainelado,
+ao perpassar pelas grossas cantarias do <em>Africano</em>,
+dizia entre mim: «O palacio cavalleiroso que desaba,
+e o palacio industrial que se levanta. Aquelle
+<span class='pagenum'>[8]</span>
+recorda as manhas epicas do peito illustre lusitano,
+a industria da lança que atirou da India para
+alli, na ponta ensanguentada, a pedraria dos reis
+de Chaul, de Calecut e Mombaça. Ergue-se o novo
+palacio para assignalar á posteridade que o
+peito moderno lusitano é ainda illustre e emprehendedor,
+differençando-se do antigo sómente no
+que vai entre adaga e azorrague, entre acutilar o
+indio pela frente, ou verberar o ethyope pelas
+costas.»</p>
+
+<p>Mas eu não sabia se aquelle homem, tão entranhadamente
+pai, amealhára os seus haveres
+por entre os perigos do cruzeiro. Talvez que não.
+A riqueza não é sempre o estipendio generoso dos
+homens crueis. E, em corações afistulados por
+peçonha de cubiça--sêde execravel que se apaga
+em lagrimas--não cabe o exaltado e santissimo
+sentimento do amor paternal. Quem chora por um
+filho não tem olhos que vejam, enxutos, arrancar
+escravos dos braços de suas mães. Verdade é
+que os praticos d'estes ultrajes a Jesus--ser divino
+em que Deus se manifestou no mais elevado
+grau da consciencia humana--dizem que lá, nas
+cubatas, não ha mães, nem filhos: ha individuos
+bestialmente rebanhados, e inconscientes de laços
+de familia. Se assim é, meu Deus, porque não
+déstes á vossa creatura de epiderme negra o amor
+<span class='pagenum'>[9]</span>
+maternal que dulcifica as meiguices da hyena enroscada
+nos filhos?</p>
+
+<p class="centrado">*<br>* &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; *</p>
+
+<p>Aprumadas as paredes, delineados os repartimentos,
+os patins, as portas, a capella e o jardim,
+Duque, o <em>Africano</em>, saudoso da filha, deixou a
+obra em meio, e dinheiro de sobra ao seu feitor,
+pautando-lhe que, no prazo de doze mezes, a casa
+estaria feita.</p>
+
+<p>E voltou a Benguela, onde tinha centenas de
+escravos, armazéns de café, de marfim, de gommas,
+e as suas vastas sementeiras sobre dez leguas
+circulares de terra, onde o suor da pelle fusca, porejado
+pelo sol a pique, era um como adubo forte,
+um guano de sangue estillado por entre febras
+vigorosas e distendidas pelo latego.</p>
+
+<p>Vendeu as fazendas, enfeirou as bestas e os
+negros, abarrotou a galera de carregação sua, esquipou
+a tolda, decorou de frouxeis de sêda o camarim
+da filha, e proejou á patria. Parecia um
+dos antigos viso-reis que voltavam da India, d'uns
+que não se chamavam João de Castro nem Affonso
+de Albuquerque.</p>
+
+<p>--Vale duzentos contos a carga da <em>Deolinda</em>!--diziam
+os amigos do <em>Africano</em>, quando as velas
+da galera, chamada com o nome da filha de
+<span class='pagenum'>[10]</span>
+seu dono, trapeavam bafejadas por aprazivel
+briza.</p>
+
+<p>A navegação, por perto da costa, e sempre
+ajudada por prosperos ventos, correu alegre e
+descuidosa de receios.</p>
+
+<p>Deolinda deleitava-se a remirar a prata das
+ondas espumantes, ou, enlevada em leituras amenas,
+passava as tardes na tolda, em quanto não
+chegavam os seus amores mais queridos, as estrellas
+do céo e as phosphorescencias do mar.</p>
+
+<p>Ella era mulata, e bella quanto cabe ser, com
+a face beijada por aquelles raios ardentes e o
+sangue escaldeado das lufadas do deserto--mulata,
+com as feições levemente denunciativas da
+raça materna, quasi tirante a esmaiado amarellido,
+um bem harmonisado conjuncto de graças,
+avantajadas ao que se diz belleza, debaixo d'este
+nosso céo de rostos niveos, sangue pobre, e epiderme
+alvacenta.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>* &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; *</p>
+
+<p>Trasmontada a linha, e festejado o passo com
+descantes da maruja, o céo entrou de nublar-se,
+a nortada a ringir nas gaveas os silvos agoureiros,
+e o piloto esperto a encarar mui fito em um
+nevoeiro que se acastellava, sobre noite, á volta
+do sol esmaecido. Era em fevereiro de 1889.</p>
+<span class='pagenum'>[11]</span>
+
+<p>Ao repontar a manhã do dia seguinte, o mar
+urrava acapellado, as nuvens desciam a sorver as
+ondas que se encurvavam, o sol apenas entreluzia
+frio e marmoreo na baça claridade da manhã.</p>
+
+<p>Ao meio dia, o escurecer fez-se rapido e pardacento
+como um crepusculo de noite invernosa.</p>
+
+<p>Bravejou subita furia de mar, apenas colhido
+o velame.</p>
+
+<p>O piloto vira terra, e cobrára alento na esperança
+de aproar a Cabo Verde, com quanto se temesse
+d'aquella costa infamada de muitos naufragios,
+desde que portuguezes se andam á cata de
+ouro e opprobrio por entre os colmilhos da morte,
+na espadoa das tempestades; a braços com a ira
+de Deus e dos homens.</p>
+
+<p>Noite alta, estrondeou no cavername da galera
+um como estampido de peça que detonasse
+dentro.</p>
+
+<p>Deolinda foi colhida nos braços do pai,
+quando resvalava da camilha ao pavimento, com
+o livro das suas orações nas mãos convulsas, e o
+nome da Mãi dos afflictos nos labios.</p>
+
+<p>--Morreremos, meu pai?!--perguntou trespassada
+de horror.</p>
+
+<p>--Animo!--murmurou elle--abraça-te em
+mim, que eu não quero chorar-te nem que me
+chores, filha... Morreremos juntos.</p>
+<span class='pagenum'>[12]</span>
+
+<p>Em cima estrugia a celeuma dos marinheiros,
+o rojar rispido das amarras, os gritos, as supplicas,
+os apitos, o troar da peça que pedia soccorro,
+e o dos trovões, que reboavam, e um relampadejar
+que azulava os abysmos.</p>
+
+<p>E, de subito, a galera, após aquelle repellão
+que lhe vibrou as cavernas, quedou-se arquejante,
+a roçar nos espigões da restinga.</p>
+
+<p>E as vagas, raivando contra aquelle estorvo,
+galgavam-no rolando-se, refervendo e marulhando
+de um bordo a outro. O porão descosia-se,
+bebendo e golfando jorros de agua como o monstro
+dos mares escalavrado pelos arpéos.</p>
+
+<p>O capitão, pallido mas sereno, debruçou-se
+no corrimão da camara, e disse:</p>
+
+<p>--Encalhou a galera, snr. Duque. É tempo
+de sahir a terra.</p>
+
+<p>--Nenhuma esperança?--perguntou o <em>Africano</em>.</p>
+
+<p>--As vidas salvam-se... talvez...</p>
+
+<p>--Só?...</p>
+
+<p>Perguntou o homem rico; mas aquelle monosyllabo,
+estrangulado na garganta, rouquejou
+como um arranco da vida. <em>Só!</em> Só a vida? O meu
+suor de quarenta annos, os meus duzentos
+contos de reis não se salvam? Eu hei de sahir
+pobre d'entre esta riqueza que é minha, que é o
+<span class='pagenum'>[13]</span>
+repouso da velhice, o patrimonio de minha filha?
+<em>Só!</em></p>
+
+<p>E as lanchas, balançadas no vai-vem das ondas,
+chofravam nos flancos do navio por entre espadanas
+de espuma.</p>
+
+<p>Deolinda atravessou corajosa, e firmada no
+braço do pai, até ao portaló. O <em>Africano</em> levava no
+rosto um terror indescriptivel, e nas contorsões e
+visagens de afflicção a agonia da peor morte.</p>
+
+<p>E ella saltou de impeto ao escaler, apenas
+amparada na mão de um passageiro, que lhe
+disse:</p>
+
+<p>--Adeus...</p>
+
+<p>--Não vem?--perguntou ella.</p>
+
+<p>--Primeiro hão de ir as crianças, as mulheres
+e os velhos.</p>
+
+<p>Deolinda contemplou-o alguns momentos, e
+amparou-se na face do pai, onde as lagrimas derivavam
+copiosas.</p>
+
+<p>Os escaleres vararam na areia, revessados no
+rolo da vaga. Estavam salvos os velhos, as mulheres
+e as crianças.</p>
+
+<p>E, logo, os remadores intrepidos que outra
+vez se arrostavam com a morte, viram a galera a
+balouçar-se entre o vagalhão, e ouviram o estralejar
+do cavername por sobre os clamores dos
+naufragos; depois, levantou-se um grande mar, e
+<span class='pagenum'>[14]</span>
+a lancha ficou para além d'essa formidavel montanha;
+e, quando o escarcéo descahiu para solevar
+a barca, um momento quieta nas fauces da voragem,
+os mareantes já não viram da galera senão
+o gume da quilha, e á volta d'ella o bracejar dos
+agonisantes.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>* &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; *</p>
+
+<p>Um dos que alli morreram foi aquelle que,
+dando a mão a Deolinda, lhe dissera: «Adeus!»</p>
+
+<p>Era um homem de trinta annos, bem figurado,
+ares de fina raça e maneiras de cortezão, com
+palavras polidas e muito alheias das usuaes nos
+homens que viandam por aquellas paragens. Não
+lhe sei o nome, nem que lh'o soubera o diria.
+Foi-lhe tumulo o mar, como se a sorte quizesse
+que o seu nome se não lesse em epitaphio. Sei
+que elle cumprira sentença de tres annos em Angola,
+porque aspirára ás honras de ser rico, sem
+escrupulisar nos meios. Tinham-lhe dito que os
+seus conterraneos mais nobilitados se haviam enriquecido,
+trocando as riquezas da sã consciencia
+por outras que levam ao inferno, é verdade, mas
+pelas portas do paraiso das regalias d'este mundo.
+Via-os saborearem-se em socego dos bens mal
+adquiridos, sem remorso que lhes desvelasse as
+noites, nem injuria da sociedade que lhes pozesse
+<span class='pagenum'>[15]</span>
+ferrete na testa; ao revez d'isso elles eram a classe
+mais ao de cima, a gente chamada ás honras, sem
+desconto na estupidez nem proterva reputação,
+quanto á procedencia de seus bens de fortuna.</p>
+
+<p>Nascimento illustre, educação primorosa em
+letras, e bastante descuidada em moral, pobreza
+repentina por effeito de demandas que o esbulharam
+do patrimonio, impaciencia, ruins exemplos
+de infames prosperados--todas estas cousas se
+travaram de mão para o perderem. O seu crime
+foi associar-se desaproveitadamente com moedeiros
+falsos, prestando-se a servir de passador de
+notas no Brazil; no acto, porém, de fazer-se á
+vela para lá, de um porto do archipelago açoriano,
+foi denunciado, preso, e condemnado.</p>
+
+<p>De volta para Portugal, foi visto por Deolinda
+a bordo da galera de seu pai, que o tratava com
+desdem, senão desprezo. A filha do negreiro--negreiro
+no começo da vida mercantil, mas depois
+(bemdita seja a civilisação!) philanthropo seguidor
+das leis humanitarias impostas pelo cruzeiro--soube
+de seu pai o crime do passageiro, e não se
+compenetrou do racional horror de tamanho delicto.
+Bem que o condemnado não ousasse abeirar-se
+dos mercadores, e menos d'ella, Deolinda usou
+traças de conversar com elle uma fugitiva hora
+<span class='pagenum'>[16]</span>
+de noite serena, em quanto o pai, no seu camarim,
+formava esquadrões de algarismos, dos quaes tirou
+a prova real de que os seus haveres excediam
+para muito os duzentos contos que lhe attribuiam.</p>
+
+<p>Desde essa hora da noite estrellada em que
+ella ouvira palavras nunca ouvidas, accendeu-se
+no coração combustivel da mulata o fogo que costuma
+purificar as culpas do homem amado, tanto
+monta que elle seja moedeiro falso, como homicida,
+quer negreiro, quer ladrão de encruzilhada.</p>
+
+<p>E elle soube que era amado d'aquella mulher
+que havia de herdar muito ouro, e nem por isso
+lhe deu o galardão de ter descido até ao pobre
+estigmatisado para sempre. Nem palavra de humildade
+agradecida, nem de animo alvoroçado
+por esperança de ser, a um tempo, amado e rico.
+Deolinda ousou arguil-o de frio e desdenhoso.
+Elle explicou docemente a sua frialdade, dizendo
+que só havia no mundo uma mulher que não devia
+desprezal-o, e uma só a quem elle devesse
+amar sem pejo nem temor de ser repellido.</p>
+
+<p>--Quem é?--perguntou ella em sobresalto.</p>
+
+<p>--É minha mãi. Vou procural-a, e pedir-lhe
+perdão, porque puz a minha ignominia á cabeceira
+<span class='pagenum'>[17]</span>
+do seu leito de moribunda. Se a não mataram
+vergonhas e saudades, é porque Deus quer
+que eu a veja.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>* &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; *</p>
+
+<p>Quem sabe ahi dizer o que Deus quer de
+nós?</p>
+
+<p>O degredado, na volta da patria; alli morreu
+n'aquelle naufragio, depois que ajudou a salvar
+as crianças, as mulheres e os anciãos, despedindo-se
+de todos com aquelle sereno adeus que dissera
+á filha do <em>Africano</em>.</p>
+
+<p>E Deolinda, quando soube que elle era um
+dos vinte e cinco cadaveres escalavrados na costa
+de Cabo Verde, chorou poucas lagrimas, e parecia
+querer romper no seio uma represa d'ellas,
+que lhe deliam os estames da vida.</p>
+
+<p>--Estamos pobres!--exclamava o pai.</p>
+
+<p>--Temos de mais para o que havemos de viver--respondia
+ella com uma alegre serenidade.</p>
+
+<p>--Porque has de tu morrer, minha filha?--volvia
+elle já conformado com a desgraça.</p>
+
+<p>--Porque senti ha pouco um estalo no coração,
+e cuidei que morria abafada. Passou esta ancia,
+mas sei que hei de morrer d'isto. Parece que
+vejo a sepultura aberta, e que o frio do cadaver
+me trespassa.</p>
+<span class='pagenum'>[18]</span>
+
+<p>O pai aconchegou-a no seio, como quem aquece
+uma criança enregelada, e soluçou:</p>
+
+<p>--Ó meu Deus! levai-me minha filha, quando
+eu me queixar da vossa vontade que me reduziu
+a esta pobreza!</p>
+
+
+<h3>II</h3>
+
+<p>Quando soou em Ruivães a nova de haver chegado
+ao Porto o <em>Africano</em>, com a filha, os homens
+ricos e pobres, da terra e de fóra, contribuiram
+com mais ou menos para se lhes fazer uma espera
+de estrondo em Famalicão. Contractaram-se as
+bandas musicaes mais em voga, ou <em>mais na berra</em>,
+como diziam os antigos. Parece que a phrase seiscentista
+foi inventada particularmente para as orchestras
+d'aquelles sitios, as quaes <em>berram</em> pelas
+suas guelas de metal, quando a paixão philarmonica
+as não exalta do berro ao mugido, do mugido
+ao urro, e do urro ao bramido. Ha alli trombetas
+que parecem ter assistido ao arrazar-se da
+Jericó da Biblia, e se reservam para trovejarem o
+horrendo signal da resurreição em Josaphat.</p>
+
+<p>Eram quatro as philarmonicas chamadas a
+festejarem a entrada de Antonio Duque no concelho.
+A musica de Landim, famosa por seis cornetas
+de chaves, que executavam valsas e peças
+<span class='pagenum'>[19]</span>
+theatraes, de modo que, se Ducis as ouvisse, diria
+que a opera lyrica balbuciára os seus primordios
+entre as florestas druidicas. A banda de Fafião
+competia com a de Guinfões na substancia das trompas
+e troada das caixas. A de Ruivães avantajava-se
+ás tres rivaes na delicadeza das modas e sentimentalismo
+com que as charamelas respiravam o
+sopro d'aquelles musicos, cujas bochechas pareciam
+estar cheias de alma e castanhas assadas.</p>
+
+<p>Sou um homem feliz e digno de inveja. Tenho
+saboreado os innocentes deleites que prodigalisam
+ao seu auditorio as quatro bandas musicaes de
+Landim, Fafião, Ruivães e Guinfões. Quando algum
+amigo vai alegrar o ermo de S. Miguel de
+Seide, chamo logo a musica mais delicada, a de
+Ruivães; principalmente se o amigo é de Lisboa,
+e frequentador de S. Carlos. O senhor visconde de
+Castilho e seu filho Eugenio são chamados a depôr
+n'este processo da immortalidade que vou instaurando
+ao figle e á requinta, principalmente á requinta
+de Ruivães. Não vi o senhor visconde chorar
+de prazer, mas observei que s. exc.<sup>a</sup> estava commovido
+quando a requinta assobiava uns guinchos
+estridentes da <em>Maria Caxuxa</em>.</p>
+
+<p>Thomaz Ribeiro, o poeta eminente, recolhia-se
+ás vezes, não ao seu quarto a calafetar os ouvidos,
+mas ao intimo de sua alma a fazer viveiro
+<span class='pagenum'>[20]</span>
+de inspirações. Eugenio de Castilho, o poeta das
+phantasias louras, quer a musica de Ruivães lhe
+amolentasse a sensibilidade, quer os rouxinoes
+das ramarias lhe déssem invejas dos seus amores,
+fosse o que fosse, foi assaltado e vencido d'uma
+paixão.</p>
+
+<p>Esta paixão tem uma historia. Não sei se elle
+tenciona escrevel-a nas suas memorias posthumas;
+e, assim, contal-a eu, é esbulhal-o da novidade
+e primazia; desconfio, porém, que o meu
+hospede e amigo desconhece a historia d'aquella
+raparigaça de cabellos de ouro e ancas boleadas
+que deslumbrava a duzia de moças requebradas
+que lhe apresentei na eira.</p>
+
+<p>Chamava-se ella Amelia de Landim. Contava-se
+que tinha vindo para alli da roda dos expostos
+de Barcellos. Naturalmente, porque era linda e
+pobre, ou se vendera ou tinha sido vendida. Assim
+se disse; mas o certo foi que um filho de lavrador
+rico lhe dera o impulso no alto da ladeira,
+ao fundo da qual estava a voragem. Póde ser que
+a alma se abysmasse e requeimasse no fogo dos
+infernos por onde resvala a mulher perdida. Póde
+ser. Do corpo é que ella não perdera a menor belleza;
+nem sequer o viçor dos dezoito annos.</p>
+
+<p>Teria então vinte e cinco. Não era belleza peninsular.
+Aquelle escarlate, os olhos azues, os opulentos
+<span class='pagenum'>[21]</span>
+cabellos louros, a pujança das fórmas, a
+musculatura rosada e rija, a elegancia congenita,
+o riso, a desenvoltura sem despejo, a graça lubrica
+do trajo, em fim, a mulher, os arvoredos, a musica
+de Ruivães, nomeadamente a requinta, e em
+meio de tudo isto um rapaz de vinte e dous annos,
+poeta porque é Castilho, e ardente porque é
+trigueiro, e apaixonado porque é ardente, eis
+aqui o porquê d'aquelles amores.</p>
+
+<p>Castilho carecia de um confidente com ouvidos
+e critica. A poesia não lhe deu para se confidenciar
+com os sobreiros da mata, nem me consta
+que elle se andasse a entalhar na cortiça iniciaes
+e datas.</p>
+
+<p>O seu confidente foi o morgado de Pereira,
+ultimo senhor da honra e couto de Esmeriz,
+um rapaz de grande coração, que eu apresentei,
+no Limoeiro, a José Cardoso Vieira de Castro,
+que, em 5 de outubro do anno passado, morreu
+no degredo, para onde o acompanhou aquelle
+morgado. Este neto dos Ferreiras Eças, e dos
+remotos castellões de Riba d'Ave, é hoje em Cassengo,
+na Africa, negociante de café, de marfim,
+de gommas, de farinhas, etc. Depois de haver
+bandarreado vida de fausto, com muitas illusões
+perdidas, mas pouquissimas lagrimas, porque
+a desgraça lhe anda sempre a morder os tacões
+<span class='pagenum'>[22]</span>
+das botas, em dia de fieis defuntos, ajoelhava,
+e então chorava, no cemiterio de Loanda, defronte
+do cómoro onde jaz Vieira de Castro, o
+mais sublime desgraçado que os homens injuriaram,
+desde que o sol de Deus aquece condições
+de feras dentro dos covis que se chamam arcas do
+peito.</p>
+
+<p>Ó meu caro morgado, estas linhas não chegam
+ao seu sertão, nem eu desejo que as leia, para lhe
+não darem rebates de saudade d'aquellas noites
+de 1866, quando vossê e mais o seu gentil confidente,
+com intervenção da lua, fallavam da Amelia
+de Landim, em quanto os meus queridos visconde
+de Castilho e Thomaz Ribeiro se embellezavam
+nas trovas da Custodia da Feira, que seria
+Hypathias, se nascesse na Grecia, ou Corina, se
+os amavíos de Italia lhe coassem no seio cousas
+mais limpas do que as coplas que a trovadora do
+Minho tirava do estomago em perfumes de vinho
+verde.</p>
+
+<p>Não sei como Eugenio de Castilho sahiu de S.
+Miguel de Seide, pelo que respeita á alma. Lá dizia-se
+que Amelia, a douda, vehementemente
+apaixonada, iria depós elle. Eu receei o lanço
+de fino amor, d'onde adviriam ao meu hospede
+agros desgostos. Se os de Lisboa lh'a vissem,
+quantos rivaes, que mordentissimos ciumes! Aquillo
+<span class='pagenum'>[23]</span>
+era mulher para destinos extravagantes. Que a
+sentassem n'uma friza de S. Carlos! Os binoculos
+assestados n'ella seriam tantos como as paixões, e
+ao outro dia a engeitada de Landim, se não fizesse
+ministerios, havia de fazer muito amanuense
+de secretaria, e dar vazão ao estanque de muito
+bacharel.</p>
+
+<p>Não foi: estava-lhe reservado menos brilhante,
+mas mais pacifico destino.</p>
+
+<p>Um dia, appareceu em Landim um homem de
+Barcellos, procurando a mulher, que trouxera da
+roda dos expostos, em 1851, uma menina chamada
+Amelia. Vivia ainda a ama que a creára. Foi
+chamada a exposta á presença do homem que se
+dizia portador de uma fausta nova.</p>
+
+<p>Chegou Amelia, o recebeu do velho desconhecido
+o tratamento de <em>excellencia</em>. Cuidou-se ella
+ludibrio do sujeito, e riu-se ás casquinadas para
+lhe agorentar o prazer da zombaria.</p>
+
+<p>No em tanto, o velho, composto gravemente o
+aspecto, disse-lhe:</p>
+
+<p>--Minha senhora, não é para gargalhadas a
+missão que venho cumprir...</p>
+
+<p>--Pois v. s.<sup>a</sup> está a dar-me <em>excellencia</em>!--volveu
+Amelia.</p>
+
+<p>--Dou-lhe o tratamento de seu pai e seus
+avós. Seu pai, o snr. Alvaro de Mendanha, antiquissimo
+<span class='pagenum'>[24]</span>
+fidalgo e representante dos alcaides-móres
+de Barcellos, falleceu ha tres dias com testamento,
+em que declara que houvera de uma sua
+parenta, áquelle tempo freira no mosteiro de Vayrão,
+uma filha, que por justos motivos expozera,
+assignalando-a com o nome e outras circumstancias.
+Acrescenta que tem noticia de existir em
+Landim essa menina, que elle reconhece sua filha,
+e a institue sua universal herdeira. É v. exc.<sup>a</sup>
+por tanto a herdeira do snr. Alvaro de Mendanha.</p>
+
+<p>A ama abriu a bocca e despediu um <em>ah</em> surdo,
+que vinha da garganta afogada pelo jubilo.</p>
+
+<p>Amelia quedou-se immovel, pensativa, triste,
+e murmurou:</p>
+
+<p>--Se meu pai sabia que eu estava aqui, porque
+me não levou para a sua companhia?</p>
+
+<p>--Respondo, minha senhora. Quando v. exc.<sup>a</sup>
+tinha dezoito annos, seu pai indagou e descobriu
+que a snr.<sup>a</sup> D. Amelia estava aqui; porém, ao
+mesmo tempo, exactas ou inexactas informações
+lhe asseveraram que a senhora levava uma vida
+pessima, deshonrada e cheia de opprobrio. Receou,
+com algum fundamento, o snr. Alvaro de
+Mendanha que o aviltamento de sua filha desluzisse
+o lustre do seu nome, e por isso abafou
+o coração e o remorso debaixo do peso da dignidade,
+<span class='pagenum'>[25]</span>
+ou recuou diante da irrisão do mundo...</p>
+
+<p>--Mas...--interrompeu Amelia--se eu estava
+perdida, foi porque elle me atirou ao mundo
+e á sorte sem amparo de ninguem...</p>
+
+<p>--Tem razão, minha senhora, e foi essa mesma
+a razão que moveu seu pai a deixar-lhe todos
+os seus bens.</p>
+
+<p>--Mas eu antes queria conhecel-o e ser pobre,
+que ser rica por morte d'elle.</p>
+
+<p>--Já que não é remediavel essa nobre dôr--tornou
+o testamenteiro de Mendanha--receba
+v. exc.<sup>a</sup> a suprema prova do arrependimento de
+seu pai. N'este legado dos bens está o legado do
+coração. Seja de hoje em diante v. exc.<sup>a</sup> digna d'elle,
+já que desde esta hora os seus appellidos são
+dos mais illustres d'esta provincia.</p>
+
+<p>N'este mesmo dia, D. Amelia de Mendanha
+sahiu para Barcellos, onde entrou a occultas para o
+palacete de seu pai, a fim de trajar luto e apparecer
+convenientemente aos numerosos parentes que
+confluiam a desanojal-a.</p>
+
+<p>Os bens eram grandes em terras e fóros. Casa
+antiga e solida. Alfaias do tempo de D. João V a
+dourarem os salões de tecto apainelado, com reposteiros
+brazonados. Na parte mais velha do
+edificio cadeiras repregadas de bronze, contadores
+atauxiados de prata e enxadrezados a côres, guadalmesins
+<span class='pagenum'>[26]</span>
+nas paredes, amplas mesas de pés torneados,
+leitos rendilhados com as armas dos Mendanhas
+na espalda, bufetes, jarras da India com
+as iniciaes de um governador de Chaul, oriundo
+de Mendanhas, retratos de familia a começarem
+em D. Gil Gutierres de Mendanha, solarengo de
+Barcellos. Em meio d'isto, e senhora de tudo isto,
+aquella Amelia de Landim, ó meu amigo Eugenio
+de Castilho! aquella Amelia, que sarabandeava a
+<em>cana verde</em>, o <em>Leva agua o regadinho</em>, e descantava
+umas <em>torradas com manteiga</em> que não ha ahi mais
+que se diga.</p>
+
+<p>--Onde estava ella?</p>
+
+<p>Perguntavam entre si as primas e os primos.</p>
+
+<p>E diziam exactamente onde ella estivera e de
+que infectos paues se levantára com azas de ouro
+aquella borboleta sahida de tão feio casulo! Relatavam-se
+os pormenores da sua desgraçada vida,
+encareciam-se, como se fosse preciso, as deshonestidades...
+e visitavam-na.</p>
+
+<p>Volvidos alguns mezes, tres padres, á compíta,
+lhe sahiram a propôr tres casamentos: rapazes,
+parentes, abastados ou arruinados, mas fidalgos e
+gentilissimos de suas pessoas.</p>
+
+<p>Rejeitou-os.</p>
+
+<p>Um dia, sahiu D. Amelia de Barcellos, na sua
+sege, apeou em Famalicão, sahiu a pé, e parou
+<span class='pagenum'>[27]</span>
+perto de Landim, á porta de um lavrador. Procurou
+por um homem que dava pelo nome de Antonio
+do Couto-de-baixo.</p>
+
+<p>Sahiu a fallar-lhe no quinteiro, ou alpendre,
+um sujeito de trinta annos, boa figura de camponio,
+estupidez em barda por todo aquelle carão.</p>
+
+<p>--Antonio--disse ella--conheces-me?</p>
+
+<p>--A senhora, a senhora... acho que é...--tartamudeou
+o lavrador agadanhando no occipital.</p>
+
+<p>--Sou a Amelia de Landim. Quando eu tinha
+15 annos, amei-te. Era então innocente. Esperava
+ser tua mulher, e perdi-me. Teu pai não te
+quiz deixar casar commigo, porque eu era pobre.
+Sei que soffreste, e quizeste fugir para o Brazil,
+a fim de ganhares dinheiro, para depois me
+receberes. Eu não te deixei ir. Sabes qual foi a
+minha vida depois. Hoje estou rica, ainda te amo,
+porque foste a origem da minha desventura. Queres
+casar commigo? Responde.</p>
+
+<p>--Quero.</p>
+
+<p>--Então segue-me.</p>
+
+<p>--Deixa-me ir dizer a minha mãi; que essa
+queria que eu casasse comtigo.</p>
+
+<p>--Podes dizel-o a teu pai, que esse tambem
+quer agora.</p>
+
+<p>E, d'ahi a momentos, o pai e a mãi sahiram
+<span class='pagenum'>[28]</span>
+ao alpendre a recebel-a, e levaram-na para o sobrado
+entre caricias.</p>
+
+<p>Ahi pernoitou.</p>
+
+<p>O velho nunca pôde desarticular os queixos da
+apostura do espasmo, desde que D. Amelia principiou
+a contar por milhares de alqueires de milho
+o rendimento de sua casa.</p>
+
+<p>Ao outro dia, que era domingo, leram-se os
+primeiros banhos, e, com dispensa dos immediatos,
+casaram-se na igreja de Santa Maria de Abbade.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>* &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; *</p>
+
+<p>Mas a que proposito cahiu este conto, que não
+tem que vêr com AQUELLA CASA TRISTE!...</p>
+
+<p>Ah! foi por amor da requinta da musica de
+Ruivães, que está agora silvando na Barca da
+Trofa, á espera de Antonio Duque, o <em>Africano</em>.</p>
+
+
+<h3>III</h3>
+
+<p>As quatro musicas reunidas na Ponte da Trofa,
+depois de espavorirem os passarinhos, que, ao
+descer da tarde, se emboscavam nas ramarias do
+rio Ave, retrocederam, porque o Duque não chegou.
+Os promotores da festa, mandando sobraçar
+os feixes de foguetes de tres estouros, disseram
+<span class='pagenum'>[29]</span>
+entre si que o <em>Africano</em>, faltando á hora da espera
+triumphal, bem demonstrava ser filho do capador
+da Lamela. Outro era de parecer que o
+Duque, tratando de resto as pessoas que o obsequiavam,
+dava a perceber que não queria amigos...
+do seu dinheiro.</p>
+
+<p>O <em>Africano</em> havia escripto de Lisboa ao seu
+feitor, annunciando-lhe o dia em que tencionava
+chegar á sua casa de Ruivães, com recommendação
+de lhe ter preparados os leitos e assoldadada
+uma boa criada para o quarto de sua filha.</p>
+
+<p>Divulgou o feitor a nova, sem propalar a do
+naufragio, porque a não sabia. Se o homem lesse
+gazetas, informaria os seus visinhos do desastre
+de seu amo, da riqueza engolida pelas guelas da
+tormenta, da quasi pobreza em que ficára o naufrago,
+e, em fim, das piedosas lastimas com que
+os periodicos deploravam a catastrophe de duzentos
+contos grangeados honestamente. Se isto se
+soubesse em Ruivães, não haveria quem se afanasse
+em busca de musicas, competindo entre si
+os obsequiadores sobre qual arranjaria aquella
+que maiores gritos fazia dar á fama pelos buracos
+da requinta. Quanto ás vinte e quatro duzias de
+foguetes de tres estouros, que os rapazinhos de
+Ruivães tinham carregado até á Ponte da Trofa,
+é bem de vêr que ninguem se abalançaria a tamanho
+<span class='pagenum'>[30]</span>
+estrondo de generosidade, se se soubesse que
+o Duque não vinha em circumstancias de chorar
+de ternura abraçado ao peito magnanimo d'onde
+rabiavam tantos foguetes.</p>
+
+<p>No dia marcado ao feitor, devia o <em>Africano</em>
+chegar á Ponte, onde era esperado; porém, apeando
+na estalagem da Carriça, legua e meia distante,
+ouviu dizer que na Trofa estava o poder do
+mundo, com quatro musicas, e muito fogo do ar,
+á espera de um brazileiro que vinha da Africa.</p>
+
+<p>Ouvido isto, Duque disse ao boleeiro que recolhesse
+a parelha da sege, porque resolvera sahir
+de madrugada.</p>
+
+<p>Depois, foi contar á filha o que ouvira, e o desgosto
+que queria evitar no encontro de festas, tão
+desapropositadas da tristeza de ambos.</p>
+
+<p>Deolinda, prostrada no leito, approvou a resolução
+do pai, queixando-se de agonias, suffocações
+e desmaios do coração, que mal a deixavam
+seguir a jornada.</p>
+
+<p>Passou o pai o restante do dia e parte da noite
+á beira da cama, inventando com santo esforço
+alegrias que divertissem Deolinda da concentração
+que uma ou outra lagrima desafogava por momentos.
+Alegrias!...</p>
+
+<p>Que heroismos cabem em peito de pai! Quantos
+ha que são suppliciados por esse amor que
+<span class='pagenum'>[31]</span>
+parece vir da mão de Deus! Que maiores angustias
+tem esta vida, se comparamos todas á d'aquelle
+pai que alli estava ao pé da filha que os medicos
+de Lisboa lhe haviam auscultado e considerado
+perdida!</p>
+
+<p>Mas elle, acreditando na sciencia que tem a
+certeza de ser lesão mortal a hypertrophia do coração,
+afigurava-se-lhe que a Providencia o não
+castigaria tão severamente, fazendo-o sobreviver
+ao perdimento dos bens, para depois amparar em
+seus braços a filha agonisante. Nunca discutira
+entre si se Deus era preciso, ou que parte lhe
+coubesse no regimento d'este mundo. São meditações
+estas que, em Africa, passam rapidas como
+o sirôco, mas não abrazam, nem obrigam as caravanas
+a curvar o corpo até bater com as faces
+nos areaes. Os que por alli veniagam, á imitação
+do pai de Deolinda, pensam, se acaso pensam,
+que a justiça do céo tem alçada em mais amenos
+climas, e descura saber se lá o homem tem mais
+ou menos semelhança com o tigre. Porém, depois
+que o céo se azula e estrella, áquem da linha, e
+a briza refrigera o sangue, os expatriados, maiormente
+os ricos, não recusam crêr que ha Deus,
+dadas certas condições; fazem-lhe o obsequio de
+o conjecturar sentado á mão direita do Padre
+Eterno, e absorvido na perennal gloria de sua divindade,
+<span class='pagenum'>[32]</span>
+sem entender nas trivialidades d'este globo,
+mais pequeno que os milhares de mundos
+que lhe circumvalam á ourela do throno. Esta
+philosophia é grandiosa e barata. Cançam-se os
+mestres em a propagar, e todavia qualquer sandeu
+bem engraxado a tem espontanea na alma,
+como tortulho em lodaçal, sem que os philosophos
+lh'a inculquem. Estudem Ario, Spinosa, Renan, e
+outros, afóra o meu bacalhoeiro, que tem dentro
+de si tres philosophos, um portico, um lyceu, dentro
+de si, repito, porque o <em>si</em>, o <em>elle</em>, são as cedulas
+bancarias, a burra, que tem um nome de predestinação
+para aviso e escarmento de sabios que
+se burrificam, não querendo acabar de entender
+que saber, honras, regalos, respeitos, inviolabilidades,
+vem tudo da burra.</p>
+
+<p>Succede, porém, uma vez ou outra, encrespar-se
+uma onda, que logo se arqueia em vagalhão,
+e se abre em voragem. Ahi resvala a riqueza
+do homem, que se arrodelára com ella das farpas
+do mundo. Os brilhantes impenetraveis do arnez
+cahiram e rolam na profundidade do abysmo. Aqui
+está o homem a pensar em Deus, porque está
+pobre, está sósinho, já se não vê idolo dos outros
+e divindade de si proprio. A desgraça, que traz
+sempre comsigo um anjo vestido no céo com uma
+luz que arde inextinguivel no tumulo de Silvio
+<span class='pagenum'>[33]</span>
+Pellico, assenta-se ao lado do infeliz, e começa
+por lhe dizer:</p>
+
+<p>«Que eram esses bens da vida, se tão depressa
+te reduziste a esta pobreza? Olha tu para as estrellas
+que scintillam serenamente sobre a voragem
+que t'os devorou, e pede ao meu anjo que te
+diga o que ha d'estes milhões de mundos para
+além!»</p>
+
+<p>Ah! quando esta voz repercute na consciencia
+de um pai, e ao mesmo tempo a aza da morte
+roça e tinge de rubor febril a face de sua filha,
+então sim, Deus entreluz na treva, a alma crê,
+mas crê para pedir de mãos erguidas. Isto é fé, é
+fé que relampagueia; mas eu não sei se alguma
+hora a razão dos grandes desgraçados foi alumiada
+por esse relampago.</p>
+
+<p>Pelo que, assim orava o <em>Africano</em>, ás quatro
+horas da manhã, em pé, defronte do leito da filha
+adormecida.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>* &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; *</p>
+
+<p>Entraram na casa apalaçada de Ruivães, inesperadamente.</p>
+
+<p>Quando o souberam os visinhos, um correu á
+igreja a repicar o sino e a sineta, outro rompeu
+as nuvens com girandolas, a orchestra da terra,
+<span class='pagenum'>[34]</span>
+que andava dispersa a sachar os milharaes, confluiu
+de galope a casa do mestre, escodeou as mãos
+do regato, travou dos metaes, e prorompeu estridulamente
+á porta do <em>Africano</em>, tocando o hymno
+de 20, o hymno do snr. Costa Cabral, o hymno da
+snr.<sup>a</sup> Maria da Fonte, o hymno do snr. duque de
+Saldanha, e o do Santo Padre Pio IX.</p>
+
+<p>O <em>Africano</em> sahiu á janella com sua filha, cortejou
+o publico, assistiu a duas mazurkas tocadas
+com variações de requinta, e pediu venia para recolher-se
+em razão de sua filha se sentir mal com
+o sol que lhe dava no rosto.</p>
+
+<p>O publico murmurou, tregeitando uns momos
+significativos de menos respeito.</p>
+
+<p>O feitor foi dizer a seu amo que era preciso
+dar de beber aos musicos, e receber a visita dos
+parentes e mais lavradores.</p>
+
+<p>O Duque respondeu:</p>
+
+<p>--Vá ahi fóra ao pateo, e diga bem alto que
+eu estou pobre.</p>
+
+<p>--Pobre!--acudiu o feitor casquinando um
+riso perspicaz--Bem me fio eu n'isso! V. s.<sup>a</sup> está
+a mangar!...</p>
+
+<p>--Faça o que lhe digo--volveu severamente
+o amo.</p>
+
+<p>E, de facto, o criado foi ao pateo, chamou a si
+os lavradores mais grados, o mestre da musica, o
+<span class='pagenum'>[35]</span>
+boticario de Délães, e o boticario de Landim, e o
+regedor de Vermoim, e disse-lhes:</p>
+
+<p>--O ill.<sup>mo</sup> snr. Duque manda-me dizer a vossemecês
+que está pobre.</p>
+
+<p>Os circumstautes olharam uns para os outros,
+embrutecidos pelo mesmo choque. Um d'elles,
+porém, que eu presumo fosse um dos dous boticarios,
+deu aos beiços um geito de quem vai orar.
+Encararam-o todos, e o boticario tirou do peito
+estas duas palavras:</p>
+
+<p>--Ora bolas!</p>
+
+<p>E sahiu do pateo.</p>
+
+<p>Tenho esquadrinhado o melhor sentido d'aquellas
+palavras do attico pharmaceutico. Consultei
+philologos, que mais convisinham d'este sujeito,
+e apenas colhi que as expressões «ora bolas»
+montavam tanto como dizer: ora bolas.</p>
+
+<p>Eu, porém, dou mais lata interpretação ao
+epiphonema, sabendo que todo aquelle gentio <em>boloirou</em>
+para casa<sup><a name="nota1" href="#desc1">[1]</a></sup>.</p>
+
+<p>O <em>Africano</em>, passados seis mezes, procurou um
+<span class='pagenum'>[36]</span>
+brazileiro rico de Ninães, recentemente chegado,
+e disse-lhe:</p>
+
+<p>--Sei que o senhor está resolvido a edificar
+uma casa. Se quer poupar-se a grandes despezas,
+incommodos e desgostos, compre-me a minha.
+Vendo-lh'a por metade do que me custou, com
+uma condição: se eu e minha filha não tivermos
+morrido dentro de seis mezes, serei obrigado a
+dar-lhe a casa no fim d'este prazo; mas, n'estes
+primeiros seis mezes, o senhor não poderá occupal-a.</p>
+
+<p>Pediu o brazileiro explicações de tão estranha
+clausula.</p>
+
+<p>O Duque respondeu:</p>
+
+<p>--Minha filha está mortalmente enferma. Tem
+um aneurisma. Eu tambem me sinto no termo da
+vida. Vou morrendo a cada hora que a doença me
+deixa vêr a morte na face de minha filha. Não hei
+de sobreviver-lhe, se Deus me não fizer o beneficio
+de me levar adiante.</p>
+
+<p>Consolou-o o brazileiro conforme soube, aceitou
+a proposta, e assignou as escripturas no dia
+seguinte, entregando ao vendedor alguns contos
+de reis.</p>
+
+<p>Pagou o <em>Africano</em> as dividas contrahidas em
+Cabo-Verde, encerrou-se na ante-camara do quarto
+de sua filha, e deu-se pressa em aggravar os
+<span class='pagenum'>[37]</span>
+seus padecimentos á custa de se remirar no seu
+infortunio, de cortar bem dentro as fibras ainda
+rijas do coração, antecipando a imagem da filha
+morta, repulsando todo o allivio da esperança,
+furtando-se a todo o desafogo, matando-se com a
+lentidão de um desvairado que se encavernasse
+n'um antro, esperando sem terror a entrada da
+fera, e anciando-a para se lhe rasgar nas presas.</p>
+
+<p>Ao quinto mez do contracto, os padecimentos
+de Deolinda tocaram nos extremos symptomas da
+morte. As hemorrhagias amiudaram-se. Estava já
+entorpecida, immovel, salvo quando arrancava do
+seio as aspirações, que revelavam ao través das
+coberturas da cama os arquejos do coração.</p>
+
+<p>N'esta conjunctura, o pai estabeleceu entre si
+e Deus uma convenção que era já delirio precursor
+da demencia ou da morte: «Se ella hoje morrer,
+ou Deus me mata ámanhã, ou, quando ella
+estiver sepultada, eu me matarei.»</p>
+
+<p>O parocho, que sacramentára Deolinda, ouviu
+estas vozes, e disse aos botões da sua batina:
+«Este homem está no inferno.»</p>
+
+<p>Quando ficou sósinha, Deolinda chamou o pai
+e disse-lhe:</p>
+
+<p>--Não quero ir d'esta vida, sem dizer-lhe um
+segredo com que não devo morrer. No meu bahú
+está uma caixinha de folha, que o mar lançou á
+<span class='pagenum'>[38]</span>
+praia, depois do naufragio. Levaram-me em Cabo-Verde
+esta caixinha, cuidando um marujo que
+fosse minha. Abri-a, e vi que encerrava cartas de
+uma mãi muito extremosa para seu filho. O filho
+era aquelle rapaz que vinha do degredo, e salvou
+os velhos, e as crianças, antes de morrer. A mãi,
+que lhe escrevia, diz-lhe em algumas cartas que
+tem sentido as angustias da fome. Chama-se ella...
+Meu pai lhe verá o nome e a terra onde vivia...
+Se tiver morrido, feliz d'ella. Se ainda viver, meu
+pai, mande-lhe como esmola o que ficar do meu
+espolio, e diga-lhe que eu... lhe amei o seu infeliz
+filho... até morrer... por elle!...</p>
+
+<p>--Cumprirei a tua vontade, minha filha--respondeu o pai.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>* &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; *</p>
+
+<p>Ditas aquellas palavras, o <em>Africano</em> encarou na
+filha com a fixidez torva de um amaurotico. Depois,
+como se sentisse dobrar sobre os joelhos,
+sabiu da alcova, atirou-se como ebrio para o leito,
+e murmurou estas vozes:</p>
+
+<p>--Meu Deus! morro por amor de minha filha,
+e ella... morre por outro... Bem podia consentir
+a desgraça que eu morresse sem este desengano...
+Vinte annos a adorar esta filha, um anno a agonisar
+<span class='pagenum'>[39]</span>
+ao pé da sua agonia... e a final ouço-lhe dizer
+que morre por um homem... que não era seu
+pai...</p>
+
+<p>Escabujou em ancias muito afflictivas, pedindo
+a Deus com dilacerante esforço que lhe abreviasse
+o transe. Rompeu em soluços; e, suffocado pelo
+choro ou por um golfo de sangue, arrancou da
+vida n'um estremecimento instantaneo.</p>
+
+<p>Deolinda ouviu o murmurio rouco d'esta convulsão
+da morte, e voltou a face para onde suppunha
+que estava o pai.</p>
+
+<p>Chamou-o. Sentou-se no leito com supremo
+esforço. Tangeu a campainha. Acudiu a criada, a
+quem ella pediu que lhe désse o seu vestido. Foi
+nos braços da criada á sala contigua, onde o pai
+tinha o seu leito. Dobrou-se sobre o peito d'elle,
+colhendo-lhe nos labios um halito ainda quente,
+como vestigio da alma que passára queimando as
+fibras por onde abrira a fuga do seu inferno.</p>
+
+<p>--Morto!--bradou ella, golfando-lhe no seio
+o derradeiro sangue.</p>
+
+<p>Transportada ao canapé fronteiro, alli se quedou
+empedernida. Não houve rogos que a tirassem
+de lá. Viu amortalhar o cadaver de seu pai,
+viu-o sahir no esquife para ser depositado na capella
+da casa, ouviu o ultimo dobre da sepultura;
+e então, comprimindo o seio esquerdo com ambas
+<span class='pagenum'>[40]</span>
+as mãos, invocou a compaixão da Virgem Santissima,
+e expirou.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>* &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; *</p>
+
+<p>Lá está em cima aquella casa triste... O brazileiro,
+que a comprou, não a quiz habitar. As
+janellas nunca mais se abriram. O vestido, que
+despiram do cadaver de Deolinda, pende ainda
+da espalda do canapé em que ella morreu.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="desc1" href="#nota1">[1]</a></sup>Não se procure <em>boloirar</em> nos diccionarios, em quanto os
+diccionaristas ignorarem a linguagem popular do classico povo do
+Minho e Traz-os-Montes. Lá, fazer rolar uma bola, é <em>boloirar</em>.</p>
+</div>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap02"></a>
+<h1>SOLUÇÃO DO PROBLEMA HISTORICO(!)</h1>
+
+
+<p><em>Snr. redactor das NOITES DE INSOMNIA</em>.</p>
+
+<p>Conseguiu vossê que eu adormecesse antes de
+lêr a terceira sentença a favor d'el-rei D. Sebastião.
+Muito obrigado a vossê e aos tres papas.</p>
+
+<p>Aquelle D. Sebastião que em 1630, com 76
+annos de idade, tinha uns filhos, que ninguem
+depois conheceu, seria causa a eu descrer da authenticidade
+das sentenças, se não soubesse que
+santo Isidoro, arcebispo de Sevilha, o prophetisou
+<span class='pagenum'>[41]</span>
+assim, tal e quejando, com filhos, netos e
+bisnetos, um dos quaes afianço a vossê que não
+sou eu.</p>
+
+<p>Palavras de santo Isidoro: <em>Muitos filhos e filhas
+terá o Encoberto de legitimo matrimonio, e
+sempre seus descendentes, uns depois dos outros,
+reinarão pacificamente</em> (não diz o santo onde se
+passa esta reinação); <em>e o sceptro sagrado do temporal
+será administrado e regido por elles; e a final,
+fazendo-se pagens do povo, tornarão do deserto</em>.</p>
+
+<p>Não ha nada mais claro. Os descendentes de
+D. Sebastião, voltando do deserto, serão pagens
+do povo. Por «pagens do povo» percebo eu que
+o vidente de Sevilha queria fallar nos demagogos
+d'este paiz, nos oradores do Casino, no Guerra
+Junqueiro, nos redactores do <em>Diario da Tarde</em>,
+no Eça e no Ortigão, nos satanicos, e nos mais
+socialistas sobre quem pesam o gladio do Zêzere,
+os pés do conselheiro Arrobas e o redenho do
+conselheiro Viale. Os descendentes do Encoberto
+vem, pelos modos, a ser aquelles. Quanto a virem
+do deserto, como resa a prophecia, é obvia a
+interpretação. «Deserto» aqui, entende-se o conteúdo
+pelo continente. Veja se me percebe. Deserto
+é o vasio da algibeira. Isto percebe vossê
+bem. Um homem está no deserto quando não
+tem no bolso a voz que clama no mesmo. Deserto
+<span class='pagenum'>[42]</span>
+é estar homem só como succede a toda a pessoa
+que não tem</p>
+
+<p class="centrado"><em>Aquillo com que mais se accende o engenho,</em></p>
+
+<p>como disse um a quem o predilecto dos tres papas
+mandou dar 15$000 reis por anno em paga de
+ter perdido um olho em Africa e ter feito os <em>Lusiadas</em>
+na India.</p>
+
+<p>Já vê vossê que, por este lado, as sentenças
+dos tres bispos de Roma são invulneraveis. D. Sebastião,
+com toda a certeza, de quinze em quinze
+annos, ia até Roma mostrar ao papa que tinha
+uma perna maior que a outra, um tufo de pello
+no hombro esquerdo, o joanete no dedo mendinho,
+e um dente de menos na queixada de baixo.
+Quando lá foi aos 76 annos, aposto que já não
+tinha dente nenhum.</p>
+
+<p>Os documentos pontificios que vossê apresentou
+resistiriam á critica de João Pedro Ribeiro e
+Theophilo Braga. Este sabio e vossê são os dous
+homens que n'este seculo tem achado as melhores
+peças historicas. Vossê achou as sentenças a
+favor do Encoberto; o doutor Theophilo achou a
+carta de Ayres Barbosa a André de Rezende. Eu
+achei a vossês, os dous, dous odres de sciencia
+em que espero exercitar o meu intellecto como
+<span class='pagenum'>[43]</span>
+os touros exercitam a força nos ôdres de vento.
+Creio que está dada a solução do problema historico.
+Mande-me o premio pelo portador. E
+quando achar outra cousa, com esse faro de Herder
+que Deus lhe deu, abra torneio aos talentos,
+e faça invejas ao Theophilo a vêr se elle descobre
+agora a resposta de André de Rezende a Ayres
+Barbosa.</p>
+
+<p class="centrado">-----------------</p>
+
+<p>Entreguei o premio, antes que venha outra
+carta mais insensata. N'este paiz quem, como
+Theophilo Braga e eu, achar alguma cousa, está
+perdido.</p>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap03"></a>
+<h1>DOUS PRECONCEITOS</h1>
+
+
+<p>O primeiro, é dizer-se que, no governo absoluto,
+as condecorações, os fóros de fidalguia e os
+tratamentos eram judiciosamente dados e com
+muita parcimonia a quem os merecia.</p>
+<span class='pagenum'>[44]</span>
+
+<p class="centrado">*<br>* &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; *</p>
+
+<p>O segundo, é dizer-se absolutamente que a
+mudança do regimen politico de 1834 empobreceu
+de repente os fidalgos, esbulhando-os dos
+seus rendimentos provindos de privilegios, encargos,
+commendas, etc.</p>
+
+<p class="centrado">*<br>* &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; *</p>
+
+<p>Quanto ao primeiro preconceito, ouça-se o
+depoimento de um notavel fidalgo, que estudou
+cincoenta annos, e meditou dezesete nas lobregas
+cavernas da Junqueira. Era D. João José Ansberto
+de Noronha, conde de S. Lourenço, que
+morreu em 1804, com 79 annos de idade. No penultimo
+anno de sua vida, escreveu a sua ultima
+obra, que ainda não sahiu das gavetas avarentas
+dos curiosos de manuscriptos, e intitulou-a <em>Apontamentos
+politicos</em>.</p>
+
+<p>Seja o conde de S. Lourenço quem impugne
+a arguição injusta que se faz ao governo representativo,
+doestando-o de perdulario de titulos e
+nobilitações. Observe-se que o fidalgo escrevia
+em 1803, e que as ultimas linhas d'este trecho
+do seu escripto são uma prophecia; que, n'aquelle
+tempo, a raros espiritos se prefiguravam idéas
+<span class='pagenum'>[45]</span>
+de liberdade, e menos ainda aos que haviam de
+ser apeados por ella do pedestal de sete seculos.</p>
+
+<p>Eis a passagem que tem por epigraphe--<em>Dos ennobrecidos</em>:</p>
+
+<br>
+<p>«Os serviços ordinarios, e por assim dizer
+materiaes, pagam-se com dinheiro, que se tarifa
+como qualquer salario, á proporção do trabalho.
+Os serviços relevantes, isto é, os que são feitos
+com perigo de vida, com força de engenho, ou
+com espirito de patriotismo, e de que resultam
+grandes vantagens ou de facto, ou de exemplo,
+pagam-se com signaes honorificos, com distincções,
+e com titulos, porque se julga, que não
+tendo preço, se não podem remunerar senão com
+honras. E segue-se d'isto, que a moeda mais preciosa
+do thesouro do soberano é a faculdade de
+distinguir e honrar, porque alcança com ella o
+que não póde comprar com dinheiro. Mas se ha
+facilidade em conceder honras, se se alcançam
+sem sacrificios, nem habilidade, n'esse caso todos
+as querem, muitos as conseguem, e ninguem fica
+contente; uns porque querem mais, outros porque
+ainda não tiveram, e outros que as tem por
+seus justos cabaes, porque se acham confundidos
+na inundação dos nobres de <em>acaso</em>. As consequencias
+são, que as distincções deixam de o ser, porque
+<span class='pagenum'>[46]</span>
+se fazem geraes; que empobrece o thesouro
+politico do soberano, porque a moeda mais preciosa
+perde o seu valor, e que se perde o espirito
+da gloria, porque os individuos vem a achar por
+fim mais vantagens em buscar conveniencia, do
+que signaes, que pela sua multiplicidade, e modo
+por que se alcançaram vieram a ser de estimação
+incerta.</p>
+
+<p>«Com effeito tem-se vulgarisado as honras, não
+só á força de concessões avulsas, mas até de tarifas.
+Na divisão das tres ordens militares deram-se
+tantos habitos de S. Thiago, que apesar de ser
+uma ordem tão respeitavel, já ninguem a quer.
+Concedea-se o fôro de fidalgo a quem no emprestimo
+real entrasse com porções avultadas, sem
+embargo de ficar ganhando juros. Concedeu-se o
+mesmo fôro a quem lavrasse certa porção de sêda
+para vender. Os officiaes de secretaria, cujo numero
+tem crescido tanto, tem o habito de Christo
+no primeiro anno de serviço, e o fôro de escudeiro
+no decimo. Os officiaes do erario tem o habito
+de Christo, etc., etc., etc.</p>
+
+<p>«Esta quantidade de tarifas em muito poucos
+annos reduz os tres milhões de habitantes a tres
+milhões de nobres: n'este caso a maior distincção,
+que póde haver, é não ser nobre; e o modo de a
+conseguir é não servindo o estado de modo nenhum.
+<span class='pagenum'>[47]</span>
+Parecerá isto um paradoxo, mas a experiencia
+já vai mostrando que o não é.</p>
+
+<p>«As leis do tratamento já não tem vigor, e a
+arrogação de senhorias, e excellencias é geral.</p>
+
+<p>«É da maior difficuldade achar gente para trabalhar,
+e tanto que no anno de 1801 querendo-se
+expulsar os gallegos em razão da guerra, não se
+fez porque o intendente geral da policia representou,
+que se se mandassem embora, não haveria
+quem servisse a cidade de Lisboa e a do Porto.</p>
+
+<p>«Se um corpo de nação não póde passar sem
+tomar criados estrangeiros, não para as artes,
+mas para o serviço ordinario, ou é a nação mais
+fidalga do mundo, ou a mais paralytica, <em>e em todo
+o caso a que mais velozmente corre para o systema
+da igualdade, e que mais velozmente se afasta da
+monarchia</em>.»</p>
+
+<br>
+<p>Até aqui o descendente de el-rei D. Fernando
+no que respeita á prodigalidade das mercês.
+Agora, pelo que é da pobreza dos fidalgos, cumpre
+saber que a maioria das casas titulares de primeira
+plana já principiava a esboroar-se no principio
+d'este seculo. O golpe da extincção das commendas
+pouco sangue já encontrou nos corpos
+dos commendadores. Se ainda no <em>Torneio real</em> de
+1795, escripto pelo senhor de Pancas, encontramos
+<span class='pagenum'>[48]</span>
+trinta e dous fidalgos pompeando as galanices
+da Asia, indaguemos hoje a paragem dos netos
+d'esses homens, que eram os primeiros nomes
+de Portugal. Onde estão os haveres do conde
+de Aveiras? o grande patrimonio do marquez de
+Abrantes? de Lavradio? de José Telles da Silva?
+do marquez de Angeja? do de Ponte de Lima? do
+conde da Ega? do de Obidos? do marquez de Nisa?
+do de Penalva? do conde de S. Lourenço? do visconde
+de Barbacena? do marquez de Tancos? do
+conde de Sabugal? Estes eram do numero dos
+trinta e dous fidalgos que resplandeceram nas
+cavalhadas no anno de 1795 para festejar o nascimento
+do principe D. Antonio. E dos restantes,
+exceptuada a casa de Cadaval, com pesar de ss.
+exc.<sup>as</sup>, força é declarar que não ha ahi barão moderno
+que lhes inveje a riqueza.</p>
+
+<p>A santa casa da Misericordia de Lisboa abre-nos
+o seu livro de creditos, no anno de 1813, e
+mostra-nos a voragem da parte ainda hypothecavel
+dos bens d'esses fidalgos que, em nossos dias,
+vimos inteiramente desbaratados. Entre 1813 e
+1833 rodaram vinte annos, e a ladeira que resvalava
+os dissipadores á voragem era cada vez mais
+escorregadia. O proprio conde de S. Lourenço,
+que presentira o naufragio da nobreza, levada a
+pique pela rajada da liberdade, não educou seus
+<span class='pagenum'>[49]</span>
+filhos melhormente que os seus iguaes em fidalguia,
+e desigualissimos em intelligencia. Se elle
+anteviu a borrasca, devera colher as velas á nau,
+que se desmantelou, como as outras norteadas
+por palinuros, ignorantes e cegos.</p>
+
+<p>Na lista dos devedores á Misericordia, encontramos
+algum raro fidalgo, cuja casa se teve no
+balanço, e hoje mantém o antigo luzimento. Esse
+tal achal-o-hemos acostado á restauração liberal
+de 1833, e quinhoeiro, por tanto, das regalias
+que auferiram os parciaes do imperador. No entanto,
+dos que serviram a liberdade, houve d'elles
+que nem assim lograram reparar as ruinas.</p>
+
+<p>O leitor curioso poderá estremal-os na seguinte
+lista:</p>
+
+<table>
+<tr><td></td><td nowrap></td></tr>
+<tr><td>A casa de Rezende devia á Misericordia de
+Lisboa com vencimento de juros, no dia 8
+de março de 1813</td><td nowrap valign="bottom">9:991$509</td></tr>
+
+<tr><td>A de Ponte de Lima</td><td nowrap valign="bottom">1:270$442</td></tr>
+
+<tr><td>A de Abrantes</td><td nowrap>8:978$105</td></tr>
+
+<tr><td>A de Tancos</td><td nowrap>11:750$000</td></tr>
+
+<tr><td>A de Louriçal</td><td nowrap>9:600$000</td></tr>
+
+<tr><td>A de Obidos</td><td nowrap>101:490$899<sup><a name="nota2" href="#desc2">[2]</a></sup></td></tr>
+
+<tr><td>A de S. Vicente</td><td nowrap>4:000$00</td></tr>
+
+<tr><td>A de Soure</td><td nowrap>21:080$698</td></tr>
+
+<tr><td>A de Borba</td><td nowrap>1:278$154</td></tr>
+
+<tr><td>A de Pombeiro</td><td nowrap>18:508$500</td></tr>
+
+<tr><td>A de Coculim</td><td nowrap>9:400$000</td></tr>
+
+<tr><td>A de Loulé</td><td nowrap>5:715$494</td></tr>
+
+<tr><td>A de Lavradio</td><td nowrap>11:700$000</td></tr>
+
+<tr><td>A de Unhão</td><td nowrap>4:655$011</td></tr>
+
+<tr><td>A de Vidigueira</td><td nowrap>353$128<sup><a name="nota3" href="#desc3">[3]</a></sup></td></tr>
+
+<tr><td>A de Alorna</td><td nowrap>40:665$011</td></tr>
+
+<tr><td>A de Atouguia</td><td nowrap>3:989$115</td></tr>
+
+<tr><td>A de S. Miguel</td><td nowrap>10:295$565</td></tr>
+
+<tr><td>A de Tavora</td><td nowrap>7:289$433<sup><a name="nota4" href="#desc4">[4]</a></sup></td></tr>
+</table>
+
+<p>Seguem-se Antonio Telles da Silva, D. Antonio
+Soares de Noronha, o conde de Alvor, dos
+Arcos, de José Felix da Canha, de D. Diniz d'Almeida,
+<span class='pagenum'>[51]</span>
+de D. Luiz de Portugal da Gama, de D. Rodrigo
+Xavier Pedro de Sousa, e outros, perfazendo
+340:359$700.</p>
+
+<p>O empregado da secretaria da Misericordia,
+que passou a certidão n'aquelle mesmo anno de
+1813, acrescenta de lavra sua: «Alguns d'estes
+capitaes se consideram perdidos, porque os devedores
+tem provisões com tempo illimilado, e
+não possuem bens livres. Ha outros litigiosos e
+duvidados pelos devedores; de sorte que são muito
+poucos os que se podem manifestar como liquidos.»</p>
+
+<p>Por onde se conclue que a minguada fortuna
+dos pobresinhos cahira em honradas mãos! Eu,
+contra o parecer do escripturario, creio que os
+fidalgos, menoscabados de insoluveis, pagaram todos
+com mais ou menos pontualidade; e, se não
+pagaram, desculpe-se-lhes o começarem a misericordia
+por si.</p>
+
+<p>Eu sei que os fidalgos do <em>acaso</em>, como acima
+lhes chama o conde de S. Lourenço, se rejubilam
+de ter estirado as camadas do seu lodo por cima
+dos honrosos vestigios dos outros. Ouso, porém,
+a liberdade de lembrar a suas excellencias que
+a tradição da raça e as pêas dos vinculos conservaram
+através dos seculos os nomes historicos;
+ao passo que estes adventicios afidalgados,
+<span class='pagenum'>[52]</span>
+á falta do vinculo que os tenha alguns seculos
+pendurados no esgalho do tronco velho, bem póde
+ser que se estejam desentranhando em filhos para
+futuras tripeças.</p>
+
+<p>Se assim fôr, que Deus os faça sapateiros engenhosos,
+para que a comedia humana não seja
+de todo em todo ridicula e inutil ás artes.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="desc2" href="#nota2">[2]</a></sup> O palacio d'esta familia foi comprado ha pouco pelo rei,
+e dado a uma senhora d'esta casa aia do principe.</p>
+</div>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="desc3" href="#nota3">[3]</a></sup> O fallecido marques de Nisa succedera na posse de duas
+riquissimas casas, a de Vidigueira e a de Cascaes. O Paul,
+vastissima propriedade vendida ao capitalista Eugenio de Almeida,
+havia sido dado por D. João I a João das Regras, ascendente
+dos senhores de Cascaes. O marques morreu pobre.
+Deixou dous nobilissimos filhos: um é aprendiz de negociante
+no Brasil, o outro tem um engenho de fazer cigarros depois
+de ter tido perto de Paris um restaurante, em que era caixeiro
+um filho de José Estevão. Ó Vasco da Gama!... Ó Demosthenes
+lusitano!</p>
+</div>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="desc4" href="#nota4">[4]</a></sup> Estas quatro ultimas casas estão ementadas na lista
+como extinctas.</p>
+</div>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap04"></a>
+<h1>LISBOA</h1>
+
+
+<p>Ha mais de dous seculos que um viajante francez
+de grande qualidade esteve em Lisboa. Volvidos
+trinta annos, o filho do companheiro de viagem
+d'esse incognito senhor mandou imprimir em
+Hollanda as viagens que seu pai escrevera, e deu
+este titulo ao livro: <em>Voyages faits en divers temps
+en Espagne, en Portugal, en Allemagne, en France
+et ailleurs. Par Monsieur M. **** A Amsterdam,
+MDCC</em>.</p>
+
+<p>Entraram os viajantes em Lisboa, no dia 18
+de maio de 1669. Em sete paginas de oitavo pequeno
+<span class='pagenum'>[53]</span>
+esgotaram as impressões que Portugal lhes suggeriu;
+mas não nos detrahiram nem calumniaram.
+D'essas sete paginas, provavelmente desconhecidas
+ao commum dos leitores, a substancia é
+esta:</p>
+
+<br>
+<p>«Lisboa é muitissimo povoada, pois que todas
+as nações alli trazem gente, sendo muita a
+mourisma que lá é escrava, e procede de Guiné.
+As liteiras são mais que as carroças; mas são magnificas.
+E, porque a cidade se fórma de outeiros,
+o que mais se usa são cavallos e mulas. As igrejas
+são aceadissimas e formosas. Os portuguezes
+andam armados de espada e punhal.</p>
+
+<p>«São os portuguezes mais ciosos de suas esposas
+que os hespanhoes. As mulheres sahem de
+casa menos vezes que as de Madrid: o que faz que
+lá se diga que ellas vão á igreja tres vezes no anno:
+baptisar-se, casar-se e enterrar-se.</p>
+
+<p>«É notório que o marido, apenas suspeita do
+proceder da mulher, trata logo de a esfaquear;
+d'onde lhes urge a ellas estarem muito de sobreaviso,
+e haverem-se com grande precate no logro
+dos maridos, vingando-se assim da escravidão em
+que vivem.</p>
+
+<p>«Sobre a tarde, fomos vêr o convento da Esperança
+onde a rainha esteve encerrada seis mezes<sup><a name="nota5" href="#desc5">[5]</a></sup>
+<span class='pagenum'>[54]</span>
+quando deixou o rei que está na ilha Terceira,
+a trezentas leguas distante de Lisboa. D.
+Pedro, seu irmão, governa actualmente, e casou
+com a cunhada, filha do fallecido principe de
+Nemours da casa de Saboya. Ella vai ao conselho,
+e assiste com o marido ás audiencias. D. Pedro
+não quiz ainda ir ao paço para ser coroado. Vive
+em sua casa, que foi confiscada ao marquez de
+Castello Rodrigo, que seguiu o partido de Castella
+quando Portugal se rebellou. Segundo os tratados,
+os bens já deviam ter sido restituidos ao
+marquez; mas até agora nem n'isso pensam. Esta
+casa está situada á ourela do Tejo, perto do palacio
+real. Guardam-na vigilantemente trezentas
+sentinellas vestidas de pardo agaloado de verde. O
+paço é quadrado, e cheio de mercearias(?): é edificio
+pouco distincto. Tem dentro uma praça limpamente
+areada, e um chafariz no centro.</p>
+
+<p>«É ahi a praça dos touros. O paço estava desalfaiado.
+A capella, rica de azul e ouro, é bellissima.
+Os armazens dos utensis destinados á marinha
+de guerra, são ahi ao pé. Navios mercantis tem
+poucos. Mandam apenas cinco ou seis ao Brazil,
+e servem-se dos inglezes e hollandezes para importar
+assucar e outros generos a Lisboa. Ahi perto
+<span class='pagenum'>[55]</span>
+andam a edificar-se dous salões, em que os mercadores
+se ajuntam a negociar. Vimos uma igreja
+que a rainha-mãi fandou, e onde está enterrada<sup><a name="nota6" href="#desc6">[6]</a></sup>.
+Todo o tecto é de ebano, bem como as columnas
+de laçarias douradas. Os pavimentos de todas as
+igrejas de Lisboa são de adobes azulejados com
+figuras. Ha ahi uma, onde se veem retratadas as
+cabeças das pessoas condemnadas e queimadas
+pela inquisição. Presentemente não ha inquisidor
+geral.</p>
+
+<p>«O palacio onde mora D. Pedro e a rainha é
+composto de quatro pavilhões pequenos e dous
+eirados onde aquella princeza vai de tarde tomar
+ar com as damas. Está ahi sempre o «regimento
+da armada.» As ante-camaras estão sempre atalaiadas.</p>
+
+<p>«O principe e ella dão audiencia todas as terças
+feiras. Elle é corpulento, rosto magro e trigueiro.
+Desde que esteve doente, usa cabelleira.
+Sahe pouco acompanhado, e dizem ser affavel e
+cortez. A rainha traja á hespanhola com guarda-infante,
+com os cabellos soltos pelas costas, encaracolados,
+e laçados de fitas. Tem uma filha que
+<span class='pagenum'>[56]</span>
+parece lindissima, cuja aia é a condessa de Añon
+(Unhão). Segue-a o seu mordomo duque de Cadaval.
+A rainha tem um anão indio que anda sempre
+com ella: é tão bem proporcionado que parece
+uma criança, visto pelas costas; mas pela
+frente não, que já tem barba. Já tinha sido da
+rainha-mãi, e goza da fama de engraçado... A
+rua dos Mercadores é muito bonita. Ha ahi bons
+acepipes, e confeitos excellentes. A 18 de maio
+comemos cerejas e damascos já maduros. O que
+é incommodo é não haver neve, nem as bebidas
+refrigerantes de Hespanha.»</p>
+
+<br>
+<p>E nada mais que mereça menção.</p>
+
+<p>A respeito da Lisboa de 1669, que era, pouco
+menos, a Lisboa de 1754, um anno antes do terremoto,
+darei alguns pormenores. O que tenho
+visto impresso não satisfaz a curiosidade. João
+Baptista de Castro, o author do <em>Mappa de Portugal</em>,
+conheceu a velha Lisboa, e o que nos disse é
+tão diminuto que pouco vale. No <em>Panorama</em> e <em>Archivo</em>
+ha artigos de bons investigadores; mas pouco
+mais fazem que distender as noticias de Nicolau
+de Oliveira e outros que viram a Lisboa do seculo
+XVII.</p>
+
+<p>O inedito, que tenho, ácerca da capital, dá
+noticias que provam ser escripto em 1754. Não
+<span class='pagenum'>[57]</span>
+lhe conheço author. Foi homem que, viajando,
+escrevia uma geographia da Europa alphabeticamente
+e levava a sua obra na letra <em>L</em> (<em>LIXA, chamada
+pelos europeus LARACHE</em>), quando, talvez, o
+terremoto lhe colheu de golpe a vida, ou lhe
+esfriou o ardor do trabalho.</p>
+
+<p>No proximo numero trasladarei o que me parecer
+menos sabido.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="desc5" href="#nota5">[5]</a></sup> A mulher de Affonso VI e de Pedro II.</p>
+</div>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="desc6" href="#nota6">[6]</a></sup> Era a de Corpus-Christi dos carmelitas descalços, fundada
+no sitio em que Domingos Leite Pereira tentou matar
+D. João IV. Esta igreja desappareceu no terremoto e incendio
+de 1755.</p>
+</div>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap05"></a>
+<h1>FERREIRA RANGEL</h1>
+
+
+<p>Vivia aqui no Porto, ha pouco mais de mez,
+um homem que, ha vinte annos, atroava o café-Guichard
+com o trovão da sua voz. Chamava-se
+Francisco Ferreira Ribeiro Pinto Rangel.</p>
+
+<p>Era liberal como um dos mais egregios romanos
+que morreram no templo de Diana, á beira
+de Caio Gracco. Era valente caudilho do povo; e
+das primeiras cutiladas do sabre dos esquadrões,
+nos motins anteriores a 1846, tinha elle as cicatrizes
+na cabeça. Era poeta da escóla antiga de
+<span class='pagenum'>[58]</span>
+Filinto e Diniz, como se demonstra no seu poema
+intitalado <em>D. Sebastião</em>. Era versado na lição
+dos socialistas, cujas doutrinas apregoava nos botequins,
+com um fogo de convicção, que lhe afusilava
+através dos oculos, e mettia medo nos peitos
+de mais fino aço.</p>
+
+<p>Teve um irmão que lhe foi antipoda na esphera
+politica. As pessoas do tempo de D. Miguel conheceram-o,
+vivendo faustamente. Chamavam-lhe
+o <em>escrivão-fidalgo</em>, porque era escrivão e tratava-se
+á lei da nobreza. Este homem conheci eu chefe
+de estado-maior do general realista Macdonell.
+Morreu briosamente, em uma madrugada de janeiro
+de 1847, ao lado do general, desfechando
+um par de pistolas de pederneira, cuja escorva a
+neve d'aquella noite humedecera. O morto deixou
+dous filhos, e tres ou quatro esbeltas meninas.
+Parece-me que os vi e conheci na minha mocidade.
+Ouvi dizer que voltaram ricos do Brazil. Se
+bem me lembro, já escrevi a necrologia de um,
+que por signal estava vivo, e nem sequer me
+agradeceu, com um bilhete de visita, ser eu a unica
+pessoa de Portugal que lhe ajuntou ao nome
+esquecido quatro palavras de saudade e dó.</p>
+
+<p>Agora, faço o mesmo ao tio, que morreu ha
+pouco mais de mez, e ninguem perguntou que
+pobretão era um que levaram na tumba dos pobres,
+<span class='pagenum'>[59]</span>
+entre quatro tochas, desde a rua Chã até ao
+Prado.</p>
+
+<p>Pois era, era aquelle Ferreira Rangel que todos
+ouviamos e respeitavamos, ó rapazes de ha
+vinte annos!</p>
+
+<p>A imprensa diária tem olheiros que superintendem
+em estupros, facadas, roubos e incestos;
+mas a alçada d'estes espias não chega até ao esquife
+do defunto sem testamento.</p>
+
+<p>Ferreira Rangel chegou ao cemiterio ao fechar
+de uma noite orvalhada de dezembro. O coveiro
+estava prevenido e a postos. Não havia que esperar
+garganteações de psalmos. A fossa da valla dos
+pobres estava aberta. Na gleba desaterrada alvejava
+ainda o craneo e as vertebras cervicaes d'outro
+pobre. Tresandava o fartum da podridão abafada.
+Aquillo fez-se depressa. O caixão baqueou,
+desamparado de alto. Deu uma toada cava na terra
+fôfa. Os portadores d'aquelle pobre aconchegaram
+os capuzes das orelhas cortadas do suão, e sahiram
+de corrida. O coveiro deixou ao relento o caixão,
+e foi no dia seguinte, aquecido com aguardente,
+volver sobre as taboas chuviscadas o comoro de
+terra, que alisou com a pata da enxada.</p>
+
+<p>Depois, o eterno silencio.</p>
+
+<hr class="dotted">
+<hr class="dotted">
+<span class='pagenum'>[60]</span>
+
+<p>Envio os meus sentimentos aos sobrinhos ricos
+d'este homem, e dispenso-os do bilhete de
+visita.</p>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap06"></a>
+<h1>AS JOIAS D'UM MINISTRO DE D. JOÃO V NO PREGO</h1>
+
+
+<p>Este ministro era Alexandre de Gusmão.</p>
+
+<p>Nasceu no Brazil, em Santos, provincia de S.
+Paulo, por 1695, e falleceu em Lisboa, em 1753.</p>
+
+<p>Foi cavalleiro professo na ordem de Christo;</p>
+
+<p>Fidalgo da casa real;</p>
+
+<p>Secretario particular de D. João V--<em>o Dissipador</em>;</p>
+
+<p>Conselheiro de capa e espada do conselho ultramarino:</p>
+
+<p>E, quando morreu, parte dos seus haveres, as
+joias de sua defunta mulher estavam empenhadas,
+e foram vendidas em hasta publica.</p>
+
+<p>Tenho a triste satisfação de enviar esta novidade
+aos biographos d'aquelle varão illustre, e
+nomeadamente aos escriptores brazileiros, os
+<span class='pagenum'>[61]</span>
+snrs. Pereira da Silva e Fernandes Pinheiro, solicitos
+averiguadores da accidentada vida do seu
+conterraneo.</p>
+
+<p>S. exc.<sup>as</sup> dizem que Alexandre de Gusmão morreu
+pobre, tendo perdido os bens e dous filhos
+no incendio de sua casa. Os documentos que, pela
+primeira vez se escavam no veio inexplorado das
+secretarias, ajustam-se á opinião d'aquelles notaveis
+escriptores; mas o ex-secretario de D. João V
+morreu sem ter conhecido as necessidades dos
+que se dizem pobres.</p>
+
+<p>Do <em>Livro dos registros</em>, ou <em>Copiador</em> dos officios
+remettidos do gabinete do duque-regedor ás
+corregedorias, trasladamos o seguinte:</p>
+
+<br>
+<p>«Para o corregedor do civel da côrte Francisco
+Xavier de Mattos Broa. Sua Magestade é servido
+ordenar que vm.<sup>ce</sup>, em cumprimento do precatorio
+que lhe passou o desembargador Antonio
+de Sousa Bermudes de Torres, como juiz do inventario
+dos bens de Alexandre de Gusmão, faça
+logo remetter para o juizo do inventario para
+n'elle ser vendido um laço, fita de pescoço, e uns
+brincos de diamantes e rubins que se acham no
+deposito geral da côrte, a requerimento de Anna
+Maria do Vencimento, conservando-se no preço
+d'estas joias a mesma hypotheca e direito que esta
+<span class='pagenum'>[62]</span>
+credora tem pela penhora que n'elles fez. Deus
+Guarde a vm.<sup>ce</sup> Paço 13 de maio de 1755.»</p>
+
+<br>
+<p>Segue-se, com data do dia anterior, outro officio
+ao mesmo proposito:</p>
+
+<br>
+<p>«Para Amador Antonio de Sousa Bermudes
+de Torres. Sua Magestade deferindo ao requerimento
+que lhe fez Miguel de Avilez Carneiro foi
+servido ordenar que o corregedor do civel da côrte
+remettesse ao juizo do inventario dos bens de
+Alexandre de Gusmão as joias que se acham no
+deposito da côrte, com penhora feita por Anna
+Maria do Vencimento. É o mesmo senhor servido
+que vm.<sup>ce</sup> as faça vender em o leilão que se está
+fazendo dos ditos bens, com a declaração, porém,
+que o procedido das ditas joias se não confundirá
+com o preço dos outros bens, ficando no valor
+d'estes conservada a penhora e hypotheca especial
+que n'ellas tinha a credora, para se lhe reservar
+n'esta parte o direito que tiver para a preferencia.
+Deus Guarde a vm.<sup>ce</sup> Paço 12 de maio
+de 1755.»</p>
+
+<br>
+<p>Os descendentes d'esta snr.<sup>a</sup> Anna Maria, se
+a sorte lhes bafejou mais propicia que ao ministro
+<span class='pagenum'>[63]</span>
+de D. João V, devem estar hoje de posse
+das joias de Alexandre de Gusmão. Regosijem-se.</p>
+
+<p>Quaes seriam os outros bens leiloados? Uma
+quinta já eu descobri folheando um grosso volume
+manuscripto, intitulado: <em>Tombo das herdades
+de Nossa Senhora da Ajuda, de Val de Figueira,
+e da Atalaia, sitas no termo da villa de Cabrella,
+que são do ill.<sup>mo</sup> e exc.<sup>mo</sup> conde de Oeiras, feito por
+ordem de S. M. que Deus guarde. Anno de 1763.</em></p>
+
+<p>Vejam que cousas eu folheio no intervallo de
+dous capitulos de romance em que ha meninas
+louras e mancebos de pupilla ardente a dialogarem
+á competencia com a calhandra portugueza e
+o sabiá brazileiro!</p>
+
+<p>Pois d'este tombo a pag. 46 v. consta que uma
+herdade do valido de D. José partia <em>com a quinta
+que foi de Alexandre de Gusmão em Val de Figueira</em>.</p>
+
+<p>Quem possue hoje a quinta do privado de D.
+João V?</p>
+
+<p>Não me recordo onde li que elle tivera boa
+quinta de recreio no valle de Alcantara, e era convisinha
+de outra que pertencera ao grande escriptor
+D. Francisco Manoel de Mello, que lá se finou,
+mais pobre que Alexandre de Gusmão, um
+victima da libertinagem de D. João IV, outro victima
+<span class='pagenum'>[64]</span>
+da ingratidão de D. João V e de seu augusto
+filho.</p>
+
+<p>Este ministro, irmão do padre Bartholomeu
+de Gusmão, alcunhado o <em>Voador</em>, foi sempre malquisto
+dos frades que perseguiram como necromante
+o inventor dos balões. Tres homens affectos
+a D. João V foram grandemente satyrisados
+n'aquelle tempo: o marquez de Gouvêa, D. Martinho
+Mascarenhas, pai do que depois foi duque
+de Aveiro, e morreu no patibulo como regicida;
+frei Gaspar Moscoso, ou da Encarnação, da mesma
+familia, e Alexandre de Gusmão.</p>
+
+<p>Eis aqui um <em>specimen</em> das satyras:</p>
+
+<div class="poesia">
+<em>Quem destruir-nos idéa?--Gouvêa.</em><br>
+<em>Quem merece a Inquisição?--Gusmão.</em><br>
+<em>Quem o deve acompanhar?--Gaspar.</em><br>
+ <span style="margin-left: 4em"><em>Pois, meu rei, acautelar!</em></span><br>
+ <span style="margin-left: 4em"><em>Olho aberto, e vêde bem,</em></span><br>
+ <span style="margin-left: 4em"><em>Que no reino não convém.</em></span><br>
+ <span style="margin-left: 4em"><em>Gouvêa, Gusmão, Gaspar.</em></span><br>
+</div>
+<span class='pagenum'>[65]</span>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap07"></a>
+<h1>O ORACULO DO MARQUEZ DE POMBAL</h1>
+
+
+<p>Costumavam os nossos avós queimar os judeus--(não
+assevero que os avós de quem isto
+escreve não fossem tambem queimados). Se os
+não colhiam ás mãos, confiscavam-lhes os bens.
+Mas, dado caso que os judeus fugitivos enviassem
+lá do exilio aos reis ou aos ministros bons alvitres
+da arte de governar, aceitavam-lhes o favor e
+praticavam o seu parecer; mas não lhes concediam
+voltarem ao reino, sem a condição de se
+deixarem torrar. Isto aconteceu nomeadamente
+com o famoso Antonio Nunes Ribeiro Sanches,
+medico portuguez, nascido em Penamacor em
+1699, e fallecido em Paris, por 1783. Vivendo 84
+annos, grande parte dos quaes curtiu nos invernos
+da Russia, não precisa exhibir melhores certidões
+de bom medico. Se se deixa ficar na patria,
+havia de custar-lhe a resistir á temperatura
+alta que os frades dominicanos faziam no campo
+da Lã em obsequio á hygiene da alma.</p>
+
+<p>Antonio Nunes Ribeiro Sanches, conselheiro
+de estado da imperatriz da Russia, correspondia-se
+com os estadistas portuguezes, christãos
+<span class='pagenum'>[66]</span>
+velhos. O marquez de Pombal, ou não quiz, ou
+apesar da sua omnipotencia, não logrou assegurar
+repouso na patria ao seu douto oraculo, em
+paga dos conselhos e projectos de boa administração
+que o neto de hebreus lhe suggeriu de Paris,
+e o valido ingrato aproveitou, occultando-lhes
+a procedencia. A creação do <em>collegio dos nobres</em>,
+por carta de lei de 7 de março de 1761, havia sido
+aconselhada por carta de Ribeiro Sanches, datada
+em Paris, em 19 de novembro de 1759.</p>
+
+<p>Possuo esta carta autographa. Contém 129 paginas
+em 4.<sup>o</sup> maior. Não sei se um rarissimo livro
+intitulado <em>Cartas sobre a educação da mocidade</em>,
+impresso em Colonia em 1760, é o traslado d'este
+manuscripto. Não vi ainda exemplar algum. Entre
+as obras ineditas do illustre medico, nomeadas
+na biographia que Vicq-d'Azir lhe escreveu e Francisco
+Manoel do Nascimento traduziu, ha uma intitulada:
+<em>Plano para a educação de um fidalgo moço.</em>
+O manuscripto, de qualquer modo precioso,
+que possuo, deve ser o original de alguma das
+duas obras.</p>
+
+<p>Dous escriptores portuguezes de subida reputação,
+ambos ministros de estado honorarios, os
+snrs. José Silvestre Ribeiro e D. Antonio da Costa,
+enriqueceram recentemente a litteratura patria,
+com os seus livros intitulados <em>Historia da instrucção
+<span class='pagenum'>[67]</span>
+popular em Portugal desde a fundação da monarchia
+até aos nossos dias</em>, e <em>Historia dos estabelecimentos
+scientificos, litterarios e artisticos de Portugal
+nos successivos reinados da monarchia</em>. Os
+doutissimos authores, com certeza, aproveitariam
+optimos subsidios da leitura do raro livro de Ribeiro
+Sanches, se o manuscripto, que tenho, é o
+rascunho do livro impresso em Colonia, cuja raridade
+o snr. Innocencio F. da Silva encarece. O
+senhor conselheiro José Silvestre Ribeiro, quando
+louva o progresso das letras e artes no reinado de
+D. José I, recordaria com menção gloriosa o nome
+obscurecido do medico portuguez, e daria ao
+marquez de Pombal a parte mediana que lhe cabe
+no alvidramento da reforma da universidade, do
+collegio dos nobres, nas escólas militares, e no
+mais, respeitante aos beneficios que a historia lhe
+desconta na ferocissima condição.</p>
+
+<p>Ribeiro Sanches, antes de indicar o methodo
+proficuo na educação dos fidalgos, discorre ácerca
+da educação antiga, e chegando ao meado do
+seculo XVI, escreve:</p>
+
+<br>
+<p>«.... Vimos acima que, desde o anno 1500
+até o anno de 1570, existiu o maior luxo que
+jámais viu Portugal. El-rei D. Manoel introduziu-o
+na côrte, e foi o primeiro que se vestiu umas vezes
+<span class='pagenum'>[68]</span>
+á franceza, outras á flamenga<sup><a name="nota7" href="#desc7">[7]</a></sup>. Como não teve
+guerra na Europa, nem seu filho, nem seu bisneto
+el-rei D. Sebastião, com as riquezas do Oriente
+cahiu a fidalguia no maior luxo, e por consequencia
+n'aquelle total esquecimento da boa educação
+<span class='pagenum'>[69]</span>
+que tinha ou na paço dos reis antigos ou
+em casa de seus paes. No tempo d'el-rei D. Pedro,
+<em>o Justiceiro</em>, tanto que se sabia no paço que tinha
+nascido algum filho de fidalgo, mandava logo el-rei
+a sua casa a provisão da moradia ou fôro que
+deixava em poder da mãi ou da ama que creava o
+menino, e n'estes tempos se chamavam os reis
+paes de seus vassallos. Depois, crescendo o numero,
+se ordenou que sómente se usasse d'esta
+graça com o primogenito, e d'esta resolução veio
+a descahir aquelle amor da patria, porque faltou
+a boa educação que tinham no paço todos os filhos
+de fidalgos com moradia.</p>
+
+<p>«No tempo d'el-rei D. João II lhe representaram
+em côrtes que ordenasse se creassem os
+fidalgos no paço como era costume antigamente:
+signal certo que se educava alli a primeira mocidade
+do reino. Já dissemos acima que a educação
+da nobreza toda se reduzia a fazer o corpo
+robusto, e fortissimo, o animo ousado, e destemido;
+além d'aquelle agrado que reinava no galanteio,
+e serviço das senhoras, não deixavam de
+instruir o animo com aquelles poucos conhecimentos
+scientificos que se conheciam: sómente
+na familia do infante D. Henrique foi esta educação
+mais consideravel, porque sahiram muitos do
+paço d'aquelle famoso principe excellentemente
+<span class='pagenum'>[70]</span>
+instruidos nas mathematicas e boas letras, como
+foi o grande Albuquerque, e D. João de Castro.»</p>
+
+<br>
+<p>Discorre o medico ácerca das causas que abastardaram
+a educação dos fidalgos:</p>
+
+<br>
+<p>«Mas tanto que os reis tiveram mais que dar
+que as terras da corôa; tanto que tiveram commendas,
+governos, e cargos lucrativos, tanto nas
+conquistas, como no reino, logo os fidalgos começaram
+a cercar os reis, e ficarem na côrte;
+porque pela adulação, pelo agrado, e pelas artes
+dos cortezãos sabiam ganhar as vontades dos reis,
+não tendo aquellas occasiões forçosas de obrarem
+acções illustres para serem premiados por ellas.
+Isto vêmos succedeu no tempo d'el-rei D. Duarte,
+quando ordenou que todo o fidalgo que não tivesse
+cargo na côrte que fosse a viver nas suas
+terras.</p>
+
+<p>«Logo que todos os fidalgos fizeram a sua assistencia
+na côrte no tempo da paz, logo que seus
+filhos eram educados em suas casas, já ricas, e
+poderosas pelas dadivas dos reis em commendas,
+pensões, governos e cargos, necessariamente se
+havia de seguir uma educação estragada; a meninice
+entregue na mão das amas, e de mulheres
+communs; a puericia entre as mãos dos
+<span class='pagenum'>[71]</span>
+criados, e dos escravos; até o tempo d'el-rei D.
+Sebastião poucos sabiam mais que lêr e escrever;
+porque já a escóla do infante D. Henrique estava
+acabada; e toda a educação se reduzia a saber
+os mysterios da fé, porque os seus mestres
+sendo ecclesiasticos e ignorantes da obrigação de
+subdito, de filho, e de marido, chegavam á idade
+da adolescencia com o animo depravado: sem humanidade,
+porque não conheciam igual; sem subordinação,
+porque eram educados por escravas,
+e escravos, ficava aquelle animo possuido da soberba,
+e vangloria, sem conhecimento da vida civil,
+nem com a minima idéa do bem commum.
+Assim degenerou aquella educação do paço, na
+qual pelo menos aprendiam a obedecer, na mais
+insolente tyrannia de todos aquelles com quem
+tratavam.»</p>
+
+<br>
+<p>E, vindo ao ponto da reforma urgente na educação
+da nobreza, escreve:</p>
+
+<br>
+<p>«Parece-me que vistos os notaveis inconvenientes
+da educação domestica, e das escolas ordinarias,
+que não fica outro modo para educar a
+nobreza, e a fidalgia do que aprender em sociedade,
+ou em collegios: e como não é cousa nova
+hoje em Europa esta sorte de ensino, com o titulo
+<span class='pagenum'>[72]</span>
+de <em>corpo de cadetes</em>, ou escóla militar, ou <em>collegio
+dos nobres</em>, atrevo-me a propôr á minha patria
+esta sorte de collegios, não sómente pela summa
+utilidade que tirará d'esta educação a nobreza,
+mas sobre tudo, o estado, e todo o povo.»</p>
+
+<br>
+<p>Ahi está o aviso do christão novo, seguido, e
+executado dous annos depois, quanto á fundação
+do <em>collegio dos nobres</em>.</p>
+
+<p>Depois, indica o doutor Ribeiro Sanches as
+sciencias que devem ensinar-se já no collegio, já
+nas aulas militares. Todas entraram na organisação
+dos estatutos.</p>
+
+<p>Em um §. intitulado: <em>Em que idade deveriam
+entrar os educandos na escóla real militar</em>, divaga
+o insigne medico por considerações a respeito
+das mães. Transcrevo o que me parece digno de
+ser lido por ellas:</p>
+
+<br>
+<p>«Tanto que as riquezas da Africa e do Oriente
+entraram em Portugal, logo começou a mostrar-se
+o luxo nos vestidos, comidas, e mais commodidades
+estrangeiras; começou a esfriar-se o amor
+das familias, e por ultimo da patria. El-rei D.
+João III foi o ultimo rei que foi creado com ama
+nobre, e já seus filhos, nem seu neto el-rei D. Sebastião,
+tiveram amas, mais que da classe plebêa;
+<span class='pagenum'>[73]</span>
+indicio certo que as senhoras não creavam já seus
+filhos, como nos tempos anteriores: introduziu-se
+este destructivo costume da raça humana, do amor
+filial, e dos bons costumes; e apesar de tanto
+sermão, missões, e praticas espirituaes, nenhuma
+senhora quer sacrificar a sua formosura. Seria
+loucura persuadir o que ninguem quer abraçar.</p>
+
+<p>«Tem para si estas mães, que não criam, que
+conservarão por mais tempo a formosura, e que
+dilatarão a vida com mais vigor e forças, e que
+perderiam a sua boa constituição creando por
+dezoito mezes ou dous annos. Mas é engano manifesto,
+e o contrario se sabe pela experiencia, e
+pela boa physica.</p>
+
+<p>«A mulher que deu á luz um filho, e que não
+o cria, em pouco tempo vem a conceber de novo:
+a gravidez de nove mezes é uma enfermidade,
+que enfraquece mais o corpo, do que crear aos
+peitos por anno e meio: e como concebem antes
+que as partes da geração adquirissem pelo repouso
+a sua natural consistencia, succede, que
+estas senhoras abortam mais frequentemente:
+enfermidade tão consideravel, que muitas ou perdem
+a vida, ou ficam achacadas; perdendo em
+poucos annos o idolo da sua belleza, ficando frustradas
+<span class='pagenum'>[74]</span>
+do seu intento, e expostas a viverem por
+toda a vida com mil desgostos, e pezares.»</p>
+
+<hr class="dotted">
+
+<p>«Até agora os damnos que soffrem as mães.
+Mas os mais consideraveis e lamentaveis são
+aquelles que se imprimem no animo das crianças
+creadas por amas. Se fôramos nascidos para viver
+nos desertos da Africa, ou nos bosques da
+America, pouco importava que as amas imprimissem
+no nosso animo aquellas idéas de terror
+de feitiços, de feiticeiras, de duendes, de crueldade,
+e de vingança; mas somos nascidos em sociedade
+civil, e christã; aquellas idéas que nos
+dão as amas são destructivas de tudo o que devemos
+crêr, e obrar: ficam aquellas crianças expostas
+ao ensino de mulheres ignorantes, supersticiosas;
+são os primeiros mestres da lingua, dos
+desejos, dos appetites, e das paixões depravadas:
+chegou o menino a fallar, já está cercado de duas
+ou tres mulheres mais ignorantes, mais supersticiosas
+do que a ama; porque estas são mais velhas,
+e sabem mais para destruir aquella primeira
+intelligencia do menino: chega á idade de caminhar,
+já tem seu mocinho, ordinariamente escravo,
+e como foram pelas mães creados por taes
+amas, e velhas, são os terceiros mestres até á
+<span class='pagenum'>[75]</span>
+idade de seis ou sete annos: e se o mau exemplo
+do pai e da mãi põem o sello a esta educação, fica
+o menino embebido n'estes detestaveis principios,
+que mui difficilmente os melhores mestres podem
+arrancar aquelles vicios pelo discurso da idade
+pueril.</p>
+
+<p>«Será impossivel introduzir-se a boa educação
+na fidalguia portugueza em quanto não houver
+um collegio, ou recolhimento, quero dizer, uma
+escóla com clausura para se educarem alli as
+meninas fidalgas desde a mais tenra idade: porque
+por ultimo as mães, e o sexo feminino são os primeiros
+mestres do nosso; todas as primeiras idéas
+que temos provém da creação que temos das mães,
+amas, e aias; e se estas forem bem educadas nos
+conhecimentos da verdadeira religião, da vida civil,
+e das nossas obrigações, reduzindo todo o ensino
+d'estas meninas fidalgas á geographia, á
+historia sagrada, e profana, e ao trabalho de
+mãos senhoril, que se emprega no risco, no bordar,
+pintar, e estofar, não perderiam tanto tempo
+em lêr novellas amorosas, versos, que nem todos
+são sagrados, e em outros passatempos onde o
+animo não só se dissipa, mas ás vezes se corrompe;
+mas o peor d'esta vida assim empregada é
+que se communica aos filhos, aos irmãos e aos
+maridos. D'aqui vem, que sendo da mesma nação,
+<span class='pagenum'>[76]</span>
+da mesma familia, e da mesma casa, estão
+introduzidas duas sortes de lingua, ou modos de
+fallar: a conversação que se deve ter com as senhoras,
+não ha de ser sobre materia grave, séria;
+estas conversações judiciosas ficam reservadas
+para algum velho, ou para algum notado de extravagante:
+e assim succede que ficam as senhoras
+por toda a vida (ordinariamente) meninas no
+modo de pensar, e com tão miseraveis principios
+vem ellas as suas amas, as suas aias, e donas a
+serem os mestres d'aquelles destinados a servir
+os reis.</p>
+
+<p>«Não me accuse v. ill.<sup>ma</sup> que sahi fóra do
+intento que lhe prometti: achei que tratar da
+educação que deviam ter as meninas nobres e fidalgas
+merecia a maior attenção, porque por ultimo
+vem a ser os primeiros mestres de seus
+filhos, irmãos, e maridos. V. ill.<sup>ma</sup> sabe muito
+melhor do que eu aquelles monumentos que
+temos na historia romana, e tambem na nossa,
+de tantas mães que por crearem, e ensinarem
+seus filhos foram as que salvaram a patria, e a
+illustraram: houve em Roma muitas Cornelias,
+como em Portugal muitas Philippas de Vilhena.
+Mas n'aquelle tempo ainda o luxo, ou a dissolução
+não se tinha apoderado do animo portuguez,
+porque as riquezas não eram tão appetecidas. A
+<span class='pagenum'>[77]</span>
+connexão que tem a educação da mocidade nobre
+que prometti a v. ill.<sup>ma</sup> me obriga a ponderar,
+se não seria mais util para a conservação e
+augmento da religião catholica transformarem-se
+tantos conventos de freiras, e das ordens, principalmente
+militares sem exercicio algum da sua
+destinação, n'estes estabelecimentos que proponho,
+tanto para a mocidade nobre masculina,
+como feminina? Com o exemplo das educandas,
+ou <em>Filles de St.-Cyr</em>, fundação perto de Versailles,
+e com o da escóla real militar, se poderiam fundar
+no reino outros ainda mais vantajosos para a
+mesma nobreza, e para a conservação e augmento
+da religião e do reino. Mas espero ainda vêr nos
+meus dias estabelecimentos semelhantes em tudo,
+ou em parte que satisfaçam todo o meu desejo.»</p>
+
+<br>
+<p>Eu tinha vontade de prolongar o traslado;
+mas a leitora que é mãi, joven e formosa, desdenha
+os conselhos do medico; a que não é mãi,
+de certo não percebeu as theorias physiologicas
+em que se fundamentam as censuras; e o leitor
+que de certo leu á esposa as paginas impregnadas
+de maternidade, n'aquelle tom circumspecto de
+nossos avós patriarchaes, dorme... patriarchalmente.</p>
+
+<p>Boa noite.</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="desc7" href="#nota7">[7]</a></sup> Diogo de Paiva de Andrade, o sobrinho, confirma nas
+soas <em>Memorias</em> ineditas, esta passagem com a seguinte anecdota:
+«Duarte Galvão, um dos benemeritos varões do seu tempo,
+foi secretario d'el-rei D. João II, e por elle e seu successor
+el-rei D. Manoel mandado muitas vezes por embaixador a
+differentes côrtes da Europa. Encarregado pelo emprego de
+chronista-mór de ordenar as chronicas dos reis d'este reino,
+escreveu nove desde D. Affonso Henriques até el-rei D. Fernando,
+servindo em toda a sua vida com muita aceitação dos
+seus principes os empregos que lhe confiaram.</p>
+
+<p>«Era já de quasi 80 annos quando o imperador da Ethiopia
+mandou a Lisboa um embaixador com grandes presentes para
+el-rei D. Manoel procurando sua amizade e propondo reciprocos
+interesses; e, querendo el-rei corresponder-lhe, entrou na
+consideração de quem seria a pessoa que lá mandasse por embaixador.
+Succedeu depois, estando el-rei em Evora, mandar
+fazer um gibão de uma fazenda rara que lhe chegára da India;
+e, no dia em que o vestiu, sahiu a uma sala em que
+estavam varios fidalgos, a cada um foi mostrando o gibão,
+que todos gabavam por comprazer a el-rei; e, como fosse um
+d'elles Duarte Galvão, só este o não lisongeou, dizendo-lhe
+que os reis de Portugal seus antecessores cuidavam menos em
+atavios do que em cumprirem com os encargos que Deus impunha
+aos reis. Seria melhor que não fallasse assim para seu
+descanço, porque isto decidiu a eleição do embaixador que havia
+de ir á Ethiopia; e logo el-rei, com palavrosos termos de
+honra e conceito, nomeou o pobre ancião; mas assentando que
+morreria no caminho como succedeu na altura da ilha do Camarão
+em 9 de junho de 1517.»</p>
+</div>
+<span class='pagenum'>[78]</span>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap08"></a>
+<h1>O PRINCIPE PERFEITO</h1>
+
+
+<p>O snr. Pinheiro Chagas, na sua estimadissima
+<em>Historia de Portugal</em>, tomo III, pag. 155, relatando
+vigorosamente a ferocidade de D. João II, escreve:</p>
+
+<br>
+<p>«Estamos bem longe d'applaudir, com Ruy de
+Pina e Garcia de Rezende, estas ferocissimas repressões,
+mas tambem não podemos concordar
+com o snr. Camillo Castello Branco, que escreve o
+seguinte a respeito d'el-rei D. João II:</p>
+
+<p>«O real carrasco, a quem infamissimos aduladores
+da corôa chamaram <em>principe perfeito</em>, surge
+hediondo diante da posteridade, alçando-se
+por sobre a nuvem dos incensos, com que thuribularios
+abjectos cuidavam escondel-o á execração
+dos vindouros. Raro ha quem se canse em esgaravatar
+razões d'estado, que contrapesem a ferocidade
+do filho d'Affonso V. A historia, á volta d'elle,
+o que encontra é cadaveres, oitenta cadaveres
+de homens illustres, uns estrangulados, outros decapitados,
+estes mortos a punhal, aquelles a peçonha.
+<span class='pagenum'>[79]</span>
+<em>Oitenta</em>, confessou elle o numero, quando a
+morte lhe acenava de perto, e se lhe desabafava
+a consciencia, supplicando ao papa contritamente
+o perdão dos seus peccados.</p>
+
+<p>«Os lances capitaes de tão má alma contou-os
+a historia á tragedia. O theatro portuguez já se
+enlutou com os quadros de canibalismo, trazidos
+á rampa e ao grande brilho dos lustres, para
+que o povo visse justificada a razão que teve a
+villanagem dos chronistas d'alligarem ao assassino
+do duque de Vizeu o antonomastico epitheto
+de <em>principe perfeito</em>.»</p>
+
+<p>«O illustre escriptor é demasiadamente severo
+com o grande rei a quem Portugal deve tanto.
+Que a energia de D. João II degenerava em ferocidade,
+é incontestavel, e não pretendemos absolvel-o
+dos crimes que pesam sobre a sua memoria.
+Mas qual dos grandes homens, que figuram
+na historia, se apresenta immaculado no tribunal
+da posteridade? No assassinio do duque de
+Vizeu achamos, devemos confessal-o, em attenção
+aos costumes da época, D. João II, menos hediondo
+do que no caso do duque de Bragança. É
+uma luta a todo a transe entre D. João II e a nobreza,
+e el-rei, que teve por tantas vezes a morte
+diante dos olhos e que sempre a affrontou sem
+empallidecer, pôde, quando se lhe offereceu ensejo,
+<span class='pagenum'>[80]</span>
+antecipar-se aos seus adversarios, e voltar
+contra elles o punhal com que o ameaçavam. O
+duque de Vizeu foi ferido pela catastrophe que
+trazia pendente sobre a cabeça do seu adversario;
+foi vencido na batalha. Se D. João II abusou
+da victoria, e não soube, como nunca soubera,
+perdoar, culpemos d'isso a imperfeição humana.
+Perdoar! Parece que no mundo só Christo
+soube cumprir essa maxima sublime, que debalde
+prégou na sua santa doutrina. A civilisação,
+abrandando os costumes e modificando as paixões,
+tem introduzido felizmente, no espirito do
+homem, o horror do sangue derramado, mas, nos
+fins do seculo XV, ainda a vida das creaturas da
+nossa especie estava longe de ter o caracter inviolavel
+que hoje possue. Por tanto D. João II,
+aceitando de rosto descoberto a batalha, e vibrando
+o punhal como vibraria a espada, tem uma
+certa grandeza selvagem, que não desculpa mas
+attenua o crime.»</p>
+
+<br>
+<p>Até aqui o destro escriptor. Agora, a historia
+que os reis e as camarilhas não deixavam estampar.</p>
+
+<p>O punhal que D. João II vibrou ao peito do
+duque de Vizeu foi acto cobarde que não póde ser
+attenuado por grandeza selvagem. O rei apunhalava
+<span class='pagenum'>[81]</span>
+o adversario em quanto os braços possantes
+de um valente alcaide prendiam pelas costas a
+victima desarmada.</p>
+
+<p>Nas <em>Memorias</em> ineditas de Diogo de Paiva e
+Andrade, author do <em>Casamento perfeito</em>, faz-se
+menção do conflicto, e encarece-se a bravura do
+coadjuctor de D. João II com uma anecdota bastante
+significativa da coragem do fidalgo e da cobardia
+do rei.</p>
+
+<p>Diz assim:</p>
+
+<br>
+<p>«D. Pedro de Eça, alcaide-mór de Moura, foi
+um fidalgo a quem a natureza dotou de muito
+animo e grandes forças, e por isto el-rei D. João II
+o escolheu, quando quiz matar a D. Diogo, duque
+de Vizeu, a quem abraçou por detraz. Acontecendo
+em Moura matarem um homem uns criados
+seus, foram-se dous irmãos do morto queixarem
+a el-rei e disseram-lhe que D. Pedro lh'o
+mandára; pelo que o mandou vir á côrte, e esteve
+n'ella mais de dous annos, posto que, tirada
+a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D.
+Pedro disse a el-rei que, pois sua alteza não queria
+crêr que elle não tinha culpa na morte do homem,
+e os que o accusavam eram dous, que lhe
+fizesse mercê de lhe mandar dar campo com ambos
+para assim se purificar; do que, agastando-se
+<span class='pagenum'>[82]</span>
+el-rei, lhe disse que tomára elle ser um dos dous.
+E D. Pedro lhe respondeu: «não fôra vossa alteza
+meu rei, e fosse com elles o terceiro.»</p>
+
+<br>
+<p>Não temos o desvanecimento de sobre-excitar
+contra D. João II o animo do nosso talentoso
+amigo; todavia, insinuamos-lhe a suspeita de que
+o homem não era capaz de matar outro sem lh'o
+agarrarem pelas costas, tendo ainda por cautela
+mais dous bravos que se chamavam Diogo de
+Azambuja e Lopo Mendes do Rio.</p>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap09"></a>
+<h1>AVE RARA</h1>
+
+
+<p>O poeta satyrico Antonio Lobo de Carvalho,
+fallecido em Lisboa aos 26 de outubro de 1787,
+nasceu em Guimarães, não se sabe precisamente
+quando. Era filho illegitimo de fidalgo, e tinha
+em Villa Real parentes maternos que o educaram
+nas letras, consoante os frades da terra podiam
+ministrar-lh'as. O bom que os frades tinham não o
+aprendeu o rapaz. Era poeta de lingua farpada, da
+<span class='pagenum'>[83]</span>
+escóla de Gregorio de Mattos Guerra, o maior e
+mais sujo talento que deram as plagas de Santa
+Cruz, desde a cidade de Jequitinhonha até á cidade
+de Pindamonhamgaba.</p>
+
+<p>Os cavalheiros villa-realenses andavam mordidos
+pelas vespas das suas trovas. Lobo não perdia
+lanço de os satyrisar.</p>
+
+<p>Em uma procissão de Corpus-Christi, o senado
+da terra ordenou que S. Jorge fosse em andor
+e não em cavallo. A razão d'este descavalgamento
+não é bem liquida. Ha muitos mysterios que nunca
+se hão de dilucidar, mormente em cousas de
+cavalgaduras.</p>
+
+<p>N'essa occasião, Antonio Lobo de Carvalho escreveu
+e divulgou o seguinte soneto:</p>
+
+<div class="poesia">
+<em>Patria de valentões, paiz guerreiro,</em><br>
+<em>Só tu, Villa Real! comtigo fallo!</em><br>
+<em>Vão Panças e Roldões jogar o talo,</em><br>
+<em>Ou vão na tua escóla andar primeiro.</em><br>
+<br>
+<em>Quem ha que os teus aguente no terreiro,</em><br>
+<em>Se até S. Jorge foram desmontal-o!</em><br>
+<em>Pois, indo nas mais terras a cavallo,</em><br>
+<em>N'esta é capucho o santo cavalleiro!</em><br>
+<br>
+<em>Nos triumphos de Baccho a villa armada</em><br>
+<em>Uns com brancos arnezes, outros tintos,</em><br>
+<em>As meretrizes levam de assaltada.</em><br>
+<span class='pagenum'>[84]</span>
+<br>
+<em>Fez-lhe o entrudo os broqueis, compoz-lhe os cintos,</em><br>
+<em>E soltou um pendão co'esta fachada:</em><br>
+<em>«Todos são pobretões; mas mui distinctos.»</em><br>
+</div>
+
+<p>Os fidalgos da villa dilecta d'el-rei D. Diniz,--que
+eram muitos, a julgar pelos brazões musgosos
+em que as andorinhas dormem de verão e as
+corujas assobiam de inverno--assanharam-se
+contra o poeta, fazendo-se representar no desforço
+pelos seus moxillas.</p>
+
+<p>Espancado e fugitivo, foi parar a Lisboa Antonio
+Lobo, onde conhecia um tal Anacleto, que
+mais tarde foi juiz de fóra em Angeja.</p>
+
+<p>A mãi do poeta era remediada de bens da
+fortuna, e quanto tinha quanto deu ao estouvanado
+filho, que nunca procurou modo de vida,
+nem bajulou os grandes, á imitação dos vates do
+seu tempo.</p>
+
+<p>O duque de Cadaval, D. Miguel, ouvindo recitar
+versos de Antonio Lobo, disse aos seus criados
+que lh'o levassem ao palacio... para se divertir.
+Um lacaio de s. exc.<sup>a</sup> procurou o poeta e deu
+conta do recado. Lobo mandou-o esperar, improvisou
+um soneto, e remetteu-o ao duque. É o
+mais galhardo feito de poeta do seculo XVIII. Dizia
+assim:</p>
+<span class='pagenum'>[85]</span>
+
+<div class="poesia">
+<em>Se eu fôra, excelso duque, homem perito,</em><br>
+<em>Capinha, ferrador, cabelleireiro,</em><br>
+<em>De cães decurião ou cozinheiro,</em><br>
+<em>Em sopas mestre, em massas erudito:</em><br>
+<br>
+<em>Se em letra antiga visse o que anda escripto</em><br>
+<em>Do vosso grande avô, João Primeiro,</em><br>
+<em>Que o gothico mostrasse ao mau caseiro;</em><br>
+<em>Que o tombo velho nunca está prescripto.</em><br>
+<br>
+<em>N'este caso, senhor, a vossa graça</em><br>
+<em>Mais quizera alcançar, que ter mil burras,</em><br>
+<em>Do metal louro que se ri da traça.</em><br>
+<br>
+<em>Mas como a sorte me tem dado surras,</em><br>
+<em>Não vou servir-vos só por não ter praça</em><br>
+<em>No livro mestre dos santões caturras.</em><br>
+</div>
+
+<p>Antonio Lobo indispoz-se em Lisboa com fidalgos
+e frades. A mezada que a mãi lhe enviava
+permittia-lhe dispensar-se das sympathias de
+clero e nobreza. Foi muito soado e mordido um
+soneto que elle dardejou contra um frade leigo,
+dado a libações de certa taverna. Era d'esta laia
+o poema:</p>
+
+<div class="poesia">
+<em>Borracha de estamenha, ôdre sarrento,</em><br>
+<em>Mil parabens te dou ao novo estado;</em><br>
+<em>Pois de estupido leigo a um jubilado</em><br>
+<em>Lente de rolhas vaes em largo vento.</em><br>
+<br>
+<em>Se ha longos annos mettes fogo lento</em><br>
+<em>N'essa pança que é mãi de vinho aguado,</em><br>
+<em>Frei Bourdeaux será hoje o teu prelado,</em><br>
+<em>A adega d'esta casa o teu convento.</em><br>
+<span class='pagenum'>[86]</span>
+<br>
+<em>Bebe, esponja claustral, té que a fumaça</em><br>
+<em>Das vasilhas de França encha as pichorras</em><br>
+<em>De umas bebadas tripas de outra raça;</em><br>
+<br>
+<em>E, antes que os limos dos toneis escorras,</em><br>
+<em>Fuja o do Carmo, fuja o Leão da Graça,</em><br>
+<em>Que hoje o que reina é o Leão dos Borras.</em><br>
+</div>
+
+<p>Ao odio do clero e nobreza, ajuntou o poeta
+o odio do povo representado nas pessoas dos capellistas,
+acirrados por estes versos:</p>
+
+<div class="poesia">
+<em>Um rapaz a gritar como um cabrito</em><br>
+<em>Com saudades da mãi sobre o vallado,</em><br>
+<em>Que entre duas canastras vem deitado,</em><br>
+<em>Em burro de almocreve, ancioso e afflicto;</em><br>
+<br>
+<em>Com rosario ao pescoço mui bonito,</em><br>
+<em>Descalço, de barrete e de cajado,</em><br>
+<em>C'um sacco á cinta, onde traz (coitado!)</em><br>
+<em>A sua côdda, o seu bacalhau frito.</em><br>
+<br>
+<em>Posto a pé este misero mamote</em><br>
+<em>Ora cahe, ora treme, ora encordôa,</em><br>
+<em>Um lhe prega um sopapo, outro um calote.</em><br>
+<br>
+<em>Pois esta figurinha ou má ou boa</em><br>
+<em>Faz qualquer capellista franchinote</em><br>
+<em>Quando vem do sertão para Lisboa.</em><br>
+</div>
+
+<p>N'esta vida de odios e irritações, viveu Antonio
+Lobo de Carvalho até aos cincoenta annos.
+Se nos merecesse credito o que João Bernardo
+da Rocha escreveu no <em>Portuguez</em>, tom. X, pag.
+<span class='pagenum'>[87]</span>
+356, o atrevido vate haveria sido aleivosamente
+assassinado por ordem de um tio do marquez de
+Olhão, a quem o maldizente frechára com um
+soneto que abria assim:</p>
+
+<div class="poesia">
+<em>Ferrabras, Satanaz, Fernão Zarolho,</em><br>
+<em>Cruel harpia das que o inferno encerra...</em><br>
+</div>
+
+<p>Mas o snr. Innocencio Francisco da Silva, posto
+que não decida qual haja sido a morte do poeta,
+com justificados motivos desabona a affirmativa
+de João Bernardo da Rocha.</p>
+
+<p>Eu tambem não sei. Ando n'essas pesquizas;
+e receio ir dar com elle no hospital, expirando
+envolto em gloria... de cataplasmas de linhaça.</p>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap10"></a>
+<h1>VERGONHAS NACIONAES</h1>
+
+
+<p>É notorio que o capitão Vicente Lunardi, natural
+de Luca, e empregado na embaixada napolitana
+em Londres, effectuou em Lisboa, na tarde
+de 24 de agosto de 1794, uma viagem aerea.</p>
+<span class='pagenum'>[88]</span>
+
+<p>Mas ainda ninguem disse que o aeronauta, antes
+da ascensão, esteve preso á ordem do intendente
+geral da policia Diogo Ignacio de Pina Manique,
+pelo motivo de vir com tal novidade a Lisboa,
+onde a inquisição, por causa identica, desejára
+queimar o padre Bartholomeu de Gusmão.</p>
+
+<p>Os documentos que sobrevivem a tamanho opprobio
+são autographos, authenticados pela assignatura
+do famigerado intendente.</p>
+
+<p>Lunardi chegou a Lisboa em fins de maio de
+1794. N'esse mesmo anno, em janeiro, tinha elle
+em Madrid subido no seu balão, que desceu na
+provincia da Mancha, onde os camponezes o receberam
+tão benignamente que o levaram em
+triumpho á igreja parochial da villa de Orcajo.</p>
+
+<p>Cuidou elle que a familia real portugueza o
+recebesse com igual agrado ao da côrte hespanhola.</p>
+
+<p>Logo que chegou a Lisboa, foi intimado a comparecer
+na corregedoria do bairro, e obrigado a
+assignar termo de não subir ao ar, sem que a machina
+fosse examinada por peritos. Este exame
+levava em vista satisfazer as suspeitas do publico,
+receoso de artes diabolicas.</p>
+
+<p>Assignou Lunardi o termo, e entendeu que
+dava plena satisfação ás authoridades e ao publico,
+expondo o balão com todos os seus aprestos.
+<span class='pagenum'>[89]</span>
+E, para isso, construiu uma barraca na praça do
+Commercio, e grudou nas esquinas das ruas mais
+concorridas um cartaz em que minudenciosamente
+explicava o balão exposto, e os mais instrumentos
+necessarios ás viagens aereas. (Veja o <em>Panorama</em>,
+tom. VIII, pag. 15).</p>
+
+<p>Apenas o estirado cartaz appareceu, o intendente
+geral da policia, officiou ao desembargador
+Luiz Dias Pereira, corregedor do bairro dos Romulares,
+no theor seguinte, e textual orthographia:</p>
+
+<br>
+<p>«Vm.<sup>ce</sup> logo mandará hir seguro á sua presença
+Vicente Leonardi, Author da Maquina
+Aereostatica, e na presença de um dos escrivães
+dos Lugares, que vm.<sup>ce</sup> está servindo, lhe perguntará,
+com que authoridade fixou os editaes,
+contra o que se havia determinado no termo
+que elle assignou perante vm.<sup>ce</sup> por ordem d'esta
+intendencia; e não apresentando ordem por escripto,
+<em>emenada</em> (sic) das Secretarias de Estado,
+ou do seu Real Gabinete, ou Gentil Homem da
+Camara ou <em>Garda</em> (sic) Roupa do Dito senhor;
+vm.<sup>ce</sup> o mandará prender, mandando-lhe abrir
+assento á minha ordem; e dar-me<sup><a name="nota8" href="#desc8">[8]</a></sup> parte do resultado
+<span class='pagenum'>[90]</span>
+d'esta diligencia acompanhando o Auto
+da declaração que o mesmo Vicente Leonardi
+fizer. Deus guarde a vm.<sup>ce</sup> Lisboa 10 de junho
+de 1794.==<em>Diogo Ign.<sup>eo</sup> de Pina Manique.==Snr.
+Dz.<sup>or</sup> Luiz Dias Pereira.</em>»</p>
+
+<br>
+<p>Lunardi, conduzido pelos quadrilheiros ao
+corregedor, e interrogado, disse que, tendo assignado
+termo de não funccionar sem que o balão
+fosse examinado, cuidára dar a maxima prova de
+boa fé e sciencia estreme de sortilegio, exhibindo
+ao exame de toda a gente a sua machina.</p>
+
+<p>O corregedor achou-lhe razão. Não obstante,
+mandou-o esperar, em custodia, novas ordens da
+intendencia, em quanto elle officiava e a resposta
+vinha.</p>
+
+<p>Eis a resposta do Manique:</p>
+
+<br>
+<p>«Vm.<sup>ce</sup> executará sem exhitação, ou duvida
+alguma, a diligencia que lhe encarreguei em
+aviso da data de hontem a respeito do estrangeiro
+Leonardi, author da maquina aereostatica;
+pois me consta com toda a certeza não ter o
+mesmo Estrangeiro licença alguma de Sua Alteza
+Real o Principe Nosso Senhor para o referido
+fim: e vm.<sup>ce</sup> me dará conta por escripto da execução
+da sobredita diligencia, na conformidade
+<span class='pagenum'>[91]</span>
+que lhe tinha ordenado. Deus guarde a vm.<sup>ce</sup>
+Lisboa 11 de junho de 1794.==<em>Diogo Ign.<sup>eo</sup> de
+Pina Manique.==Snr. Dz.<sup>or</sup> Luiz Dias Pereira.</em>»</p>
+
+<br>
+<p>Em vista d'isto, o aeronauta foi conduzido ao
+Limoeiro; e, n'esse mesmo dia, o intendente elogiava
+o corregedor n'estes termos:</p>
+
+<br>
+<p>«Li a conta que vm.<sup>ce</sup> me deu em que me participava
+a prisão do estrangeiro Leonardi, o que
+vm.<sup>ce</sup> tem executado com todo o acerto; agora
+porém vm.<sup>ce</sup> mandará arrancar todos os editaes,
+que o mesmo tinha afixado. Deus guarde a vm.<sup>ce</sup>
+Lisboa 11 de junho de 1794.==<em>Diogo Ign.<sup>eo</sup> de
+Pina Manique.==Snr. Dz.<sup>or</sup> Luiz Dias Pereira.</em>»</p>
+
+<br>
+<p>Não sei que tempo esteve o italiano em ferros;
+mas tenho plausiveis razões para presumir
+que o principe regente o mandou soltar, pois que,
+volvidos dous mezes, foi sua alteza que lhe deu
+licença para subir no balão.</p>
+
+<p>Aos ouvidos do intendente chegaram rumores
+sinistros. Segredava-se que algumas pessoas, influenciadas
+pelos frades de mais selvagem ignorancia
+e acrisolada religião, tencionavam despedaçar
+a machina e o aeronauta, suspeito de feiticeria.
+E, visto que sua alteza licenciára a subida
+<span class='pagenum'>[92]</span>
+do balão, cumpria a elle intendente obstar que
+os fanaticos insultassem o estrangeiro. No entanto,
+o sagaz magistrado, que tinha mais velhacaria
+que syntaxe, não queria indispôr-se com o povo
+intimidando-o com o poder armado, nem indispôr-se
+com o principe abandonando o aeronauta
+á ferocidade das turbas. Neste proposito, officiou
+assim ao corregedor na véspera da ascensão:</p>
+
+<br>
+<p>«Vou a prevenir a vm.<sup>ce</sup> que não deve levar
+official algum de capote ámanhã de tarde para
+hir assistir na Praça do Commercio, nem ainda
+mesmo os quadrilheiros, e aquelle que não tiver
+cazaca o dispense vm.<sup>ce</sup> e lhe dê positiva ordem
+para não apparecer na mesma Praça do Commercio:
+o mesmo tambem ordenará vm.<sup>ce</sup> aos
+Cabos geraes do seu Bairro para não haver alguma
+confuzão e obviar, que alguns malvados
+se queiram mascarar affectando serem officiaes,
+para levarem as armas a seu salvo.</p>
+
+<p>«Recomendo a vm.<sup>ce</sup> a prudencia, procurando
+não comprometter a authoridade, e respeito
+da justiça, e só, no caso indispensavel que
+ameace consequencias é que deve vm.<sup>ce</sup> ter o
+procedimento, pedindo auxilio da tropa para rebater
+qualquer insulto que se queira praticar:
+o modo nestas occasiões, e a polidez conduzem
+<span class='pagenum'>[93]</span>
+muito para se concluir o dia sem que seja preciso
+praticar procedimento algum, e sem que
+tambem se suscitem conflictos de jurisdicção.
+Tudo isto quer a prudencia, que recomendo a
+vm.<sup>ce</sup> se pratique como sem hesitação espero; e
+outro sim que não separe de si os seus officiaes
+para que não vão fazer acção alguma que não
+seja por vm.<sup>ce</sup> regulada. Deus guarde a vm.<sup>ce</sup>
+Lisboa 23 de agosto de 1794.==<em>Diogo Ign.<sup>eo</sup> de
+Pina Manique.==Snr. Luiz Dias Pereira.</em>»</p>
+
+<br>
+<p>Na pagina em branco d'este officio, escreveu
+o corregedor: <em>Subiu no dia 24 d'agosto na real
+praça do Commercio depois das quatro horas e meia
+da tarde. Eu o vi subir. Foi pelas oito horas e meia
+da noite cahir ás Vendas Novas, voando depois a
+Magaina(?) sem que elle a podesse segurar, a qual
+foi depois cahir a Veiros.</em></p>
+
+<p>Vicente Lunardi escreveu depois a sua <em>Viagem
+aerea</em>, impressa no mesmo mez e anno em Lisboa.
+Da sua escripta não transpira queixume dos
+portuguezes. Apenas estas expressões denotam
+uma alma nobremente magoada: <em>Os applausos,
+com que me tem honrado a nação portugueza, me
+fazem esquecer «as minhas passadas desgraças» e
+me obrigam a dar-lhe, em prova do meu reconhecimento,
+uma exacta narração de toda a minha viagem
+<span class='pagenum'>[94]</span>
+aerea</em>, etc. (Veja o <em>Panorama</em>, tom. VIII, pag.
+21 e seg.)</p>
+
+<p>Estes «applausos» consistiram em uns endecasyllabos
+<em>anonymos</em>, publicados n'essa occasião.
+Quem quer que fosse, o author não teve a coragem
+de assignar os seus aleijados versos. Além
+d'isto, uma epistola do padre José Agostinho de
+Macedo a Stochler; e, sobre tudo o <em>elogio</em> que lhe
+consagrou Bocage, em versos esplendidos, que
+podem aferir-se por esta estancia:</p>
+
+<div class="poesia">
+<em>Portentoso mortal, que á summa altura</em><br>
+<em>Vaes no ethereo baixel subindo ousado;</em><br>
+<em>Que illusão, que prestigio, que loucura</em><br>
+<em>Te arrisca a fim tremendo e desastrado?</em><br>
+<em>Teu espirito insano, ah! que procura</em><br>
+<em>Pela estrada do Olympo alcantilado?</em><br>
+<em>Não temes, despenhando-te dos ares,</em><br>
+<em>Qual Icaro infeliz, dar nome aos mares?</em><br>
+</div>
+
+<p>Lunardi descrevendo os trabalhos que passou
+até embarcar em Aldeia Gallega, conclue assim a
+narrativa da sua viagem:</p>
+
+<br>
+<p>«Embarquei finalmente ás quatro horas da
+manhã, e com uma feliz viagem; cheguei ás 7 horas
+da mesma manhã ao caes do Terreiro do
+<span class='pagenum'>[95]</span>
+Paço, onde achei um grande numero de pessoas
+que me esperavam, e no meio de vivas de alegria
+me conduziram á minha habitação.</p>
+
+<p>«Estes signaes de verdadeiro contentamento,
+e o concurso continuo de pessoas ainda das ordens
+mais respeitaveis, provam assás os sentimentos,
+que produziu a minha viagem aerea, que tanto é
+mais famosa, quanto mereceu os applausos de
+uma nação illustre, que pelo muito, que se empenha
+agora em honrar-me, tem adquirido incontrastaveis
+direitos ao meu reconhecimento, e
+eterna gratidão.</p>
+
+<p>«Esta a narração fiel da minha viagem, e dos
+seus successos: e posto que ella não contenha em
+si nada de extraordinario para os corações indifferentes,
+deve com tudo interessar as almas sensiveis,
+e compadecidas, que saberão estimar em
+seu justo valor as minhas fadigas, e os meus soffrimentos.
+Para estas pois é que eu escrevo, na
+certeza de que, se não lhes merecer os seus louvores,
+conseguirei ao menos a sua compaixão, e
+o seu affecto, que é toda a minha ambição e o
+unico objecto d'esta pequena descripção.--<em>Vicente
+Lunardi.</em>»</p>
+
+<br>
+<p>Seduzido pelas ovações, que alguns poetas e
+rapazes lhe fizeram no Terreiro do Paço, cuidou
+<span class='pagenum'>[96]</span>
+o aeronauta que lhe seria permittido renovar a
+ascensão, e auferir d'ahi recursos com que voltar
+a Inglaterra onde tinha o seu emprego na embaixada
+napolitana. Embalado pelas poesias de Bocage
+e Macedo, lhe sorria a esperança, quando na
+madrugada do dia 29 de agosto, cinco dias depois
+da primeira subida, o acordaram para lhe
+noticiarem que o seu barracão na praça do Commercio
+se derruia esphacelado pelos machados de
+quarenta carpinteiros, á ordem do corregedor.</p>
+
+<p>Aqui tem o leitor, como coronal d'este padrão
+de vergonha patria, o officio do intendente Manique
+ao corregedor que executou brutalmente a
+demolição da barraca em que Lunardi gastára os
+seus poucos recursos:</p>
+
+<br>
+<p>«Vm.<sup>ce</sup> logo mandará chamar o mestre carpinteiro
+Joaquim Pereira, que o foi da Praça
+construida para a machina aereostatica de ordem
+do capitão Vicente Leonardi, para dar logo principio
+a demoli-la e deita-la abaixo, não lhe admittindo
+subterfugio algum a este fim, e devendo
+amanhan sesta feira dar principio á demolição
+para o que lhe mandará embargar os carpinteiros
+de obra branca e de machado, que lhe
+forem necessarios: igualmente mandará vm.<sup>ce</sup>
+notificar o dito capitão Vicente Leonardi para
+<span class='pagenum'>[97]</span>
+este mesmo fim. Deus guarde a vm.<sup>ce</sup> Lisboa
+28 de agosto de 1794.==<em>Diogo Ign.<sup>eo</sup> de Pina
+Manique.==Snr. Luiz Dias Pereira<sup><a name="nota9" href="#desc9">[9]</a></sup>.</em>»</p>
+
+<br>
+<p>Os frades e a estupidez tinham vencido.</p>
+
+<p>Não sei se lhe abriram subscripção ao pobre
+italiano para o livrarem de Portugal e das presas
+do Manique. O que sei é que os poucos, que o
+applaudiram, apenas podiam dar-lhe... versos.</p>
+
+<p>E, depois, a gente irrita-se quando os estrangeiros
+nos não enfileiram na vanguarda da civilisação!...</p>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="desc8" href="#nota8">[8]</a></sup> Que grammatica a d'este afamado intendente geral!</p>
+</div>
+
+<div class="rodape">
+<p><sup><a name="desc9" href="#nota9">[9]</a></sup> Estes documentos autographos podem vêr-se na livraria
+do insigne bibliophilo, o snr. Innocencio Francisco da Silva,
+que me fez a honra de os aceitar.<p>
+</div>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap11"></a>
+<h1>RANCHO DA CARQUEJA</h1>
+
+
+<p>São justas as reflexões do estudioso antiquario
+o snr. Joaquim Martins de Carvalho, redactor
+do <em>Conimbricense</em>.</p>
+
+<p>Agora direi os argumentos, bem que menos
+valiosos, em que eu assentava o meu erro.</p>
+
+<p>Em 1805 divulgou-se em Vizeu um poema ou
+pasquim, injuriando os magistrados. Houve devassa
+<span class='pagenum'>[98]</span>
+e um dos pronunciados foi o doutor Ferro,
+que viveu no Porto, e aqui falleceu ha vinte annos,
+deixando, como prova do seu mal empregado
+engenho, um notavel poema que diz respeito
+á invasão franceza.</p>
+
+<p>Em um volume de manuscriptos, tenho a celebrada
+satyra do Ferro, precedida da seguinte
+nota: <em>Este libello é dedicado á memoria do Estopa
+e Carqueja, dous heroes que tudo levavam a pau e
+espada em Vizeu, ahi pelos annos de mil setecentos
+e tantos, e de um d'esses valentões tomaram o cognome
+os estudantes de Coimbra chamados o Rancho
+do Carqueja.</em></p>
+
+<p>Isto não obstante, a correcção do snr. Martins
+de Carvalho deve antepor-se, visto que a sentença
+condemnatoria diz: «<em>Rancho que denominaram
+DA Carqueja, originando este nome de haverem
+queimado com ella uma porta, etc.</em>»</p>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap12"></a>
+<h1>BOM HUMOR</h1>
+
+<h2>(AO NOTICIARISTA DA <em>ACTUALIDADE</em>)</h2>
+
+
+<p>Chamar a D. João III <em>principe perfeito</em> podia
+ser lapso, sem ser ignorancia; mas nem sequer
+foi lapso: foi proposito.</p>
+<span class='pagenum'>[99]</span>
+
+<p>Vá o noticiarista ao escriptorio da typographia,
+onde as <em>Noites de insomnia</em> são impressas.
+Peça ao snr. Antonio José da Silva Teixeira, honrado
+proprietario da typographia, que lhe mostre
+a primeira prova do artigo intitulado D. JOÃO III,
+e encontrará <em>piedoso</em>, como estava no original,
+emendado para <em>principe perfeito</em>, como está no livro.
+Se quer saber por que motivo corrigi o que
+havia escripto em harmonia com a historia official,
+respondo-lhe que está no meu arbitrio alterar
+os cognomes que não derivam de razão justificada;
+e á luz da historia, tanto monta para mim
+a <em>perfeição</em> de D. João II, o algoz, como a <em>piedade</em>
+de D. João III, o fanatico. Uns historiadores chamaram
+ao filho de D. Manoel o <em>Pai da patria</em>; outros
+o <em>Filho da igreja</em>; outros, authorisados por
+Paulo III, o <em>Zelador da fé</em>. Eu chamei-lhe o <em>principe
+perfeito</em>, e cancellei na prova o titulo de <em>piedoso</em>,
+que lhe dera de camaradagem com o snr.
+Viale, por não querer manchar um adjectivo digno
+de S. Francisco Xavier ou de S. João de Deus.</p>
+
+<p>Além de quê: está rigosamente estatuido que
+sejam dogmas historicos a <em>perfeição</em> e a <em>piedade</em> do
+D. João II e D. João III? Poderemos, com juizo,
+associar-lhes taes epithetos, fóra de ironia? Ora
+assim como uns historiadores cognominaram D.
+João III com variados titulos, dá-me o noticiarista
+<span class='pagenum'>[100]</span>
+licença que eu chame <em>perfeito</em> ao principe, e <em>sabio</em>
+a sua senhoria? A patarata é a mesma.</p>
+
+<p>N'isto de acolchetar antonomasias, tanto aos
+reis como aos subditos, quero e peço que haja liberdade
+plena. Por exemplo: o redactor da noticia
+da <em>Actualidade</em>, conhecido entre os seus parceiros
+por um epitheto qualquer, está sujeito a
+que a posteridade lh'o altere ou inverta. Eu, por
+em quanto, circumscrevo os limites da minha
+phantasia a chamar-lhe tolo.</p>
+<hr>
+
+
+
+<a name="cap13"></a>
+<h1>DECLARAÇÃO</h1>
+
+
+<p>Apesar de superfluo o meu testemunho, depois
+da asseveração do snr. Camillo Castello Branco,
+declaro que é verdade ter o mesmo snr. escripto
+no original: D. JOÃO III, <em>o piedoso</em>, e na
+prova que lhe enviei, e que conservo em meu poder,
+ter o author emendado: D. JOÃO III, o <em>principe
+perfeito</em>.</p>
+
+<p>Não obstante attentar na emenda feita, mandei,
+como devia, que o typographo a observasse.</p>
+
+<p class="direita"><em>A. J. da Silva Teixeira.</em></p>
+
+<h4>FIM DO 2.<sup>o</sup> NUMERO</h4>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Noites de insomnia, offerecidas a quem
+não póde dormir. Nº2 (of 12), by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK NOITES DE INSOMNIA ***
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+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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