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+The Project Gutenberg EBook of O Descobrimento do Brazil, by Garcia Redondo
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Descobrimento do Brazil
+ Prioridade dos Portugueses no Descobrimento da America
+
+Author: Garcia Redondo
+
+Release Date: January 17, 2008 [EBook #24344]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL ***
+
+
+
+
+Produced by Ricardo F. Diogo, Júlio Reis and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
+file was produced from images generously made available
+by The Internet Archive)
+
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+
+
+Notas de transcrição:
+
+Pg 26: aspas abertas antes de "a terra achada"; original não tinha
+aspas.
+
+Pg 28: em "carta regia de D. João I" trata-se, na verdade, do rei D.
+João II (não corrigido).
+
+Pg 37: substituido "em 1742, vinte annos antes de Colombo" por "em 1472,
+..."; havia sido corrigido à mão na cópia digitalizada que serviu de
+base a esta transcrição.
+
+
+
+
+ GARCIA REDONDO
+
+ (DA ACADEMIA BRASILEIRA)
+
+ O DESCOBRIMENTO
+ DO
+ BRAZIL
+
+PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA
+
+
+Primeira conferencia da serie organisada pelo Centro Republicano
+Portuguez de São Paulo, realizada no Instituto Historico e Geographico
+de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911
+
+
+ SÃO PAULO
+CASA VANORDEN
+ 1911
+
+
+
+
+ GARCIA REDONDO
+
+(DA ACADEMIA BRASILEIRA)
+
+ O DESCOBRIMENTO
+ DO
+ BRAZIL
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+PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA
+
+
+Primeira conferencia da serie organisada pelo Centro Republicano
+Portuguez de São Paulo, realizada no Instituto Historico e Geographico
+de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911
+
+
+ SÃO PAULO
+CASA VANORDEN
+ 1911
+
+
+
+
+Assistiram a esta conferencia, além do ministro de Portugal, Snr. Dr.
+Antonio Luiz Gomes, e do seu secretario, Dr. Bartholomeu Ferreira, que
+do Rio de Janeiro vieram especialmente para esse fim, o consul da
+França, Snr. Jacques Dupas e sua familia, os consules de Portugal em S.
+Paulo e Santos, os consules do Paraguay e da Guatemala, os
+representantes do Governo do Estado e do Governo Federal, a directoria e
+membros do Centro Republicano Portuguez de S. Paulo, o director e muitos
+lentes da Escola Polytechnica, uma parte da directoria e muitos socios
+do Instituto Historico e a fina flor da sociedade culta e da colonia
+portugueza de S. Paulo.
+
+
+ Esta conferencia é impressa no formato do livro _Conferencias_ do
+ auctor para que possa ser annexada a esse livro.
+
+
+
+
+O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL
+
+Prioridade dos portugueses no descobrimento da America
+
+
+ _O orador, depois de agradecer a presença do numeroso e luzido
+ auditorio, que affluiu ao salão do Instituto Historico para ouvir a
+ sua palavra rude e, depois de varias explicações que deu sobre o
+ grande mappa que organisou para illustrar e esclarecer a sua
+ conferencia, diz:_
+
+_Minhas senhoras, meus senhores:_
+
+Na minha ultima viagem ao Velho Mundo, em 1906, achando-me na Suissa e
+querendo visitar a exposição internacional de Milão, em vez de fazer a
+viagem directa e curta, indo de Genebra, onde estava, a Montreux e de
+Montreux a Milão, preferi fazer uma grande volta, indo de Genebra a Lyon
+e a Marselha e percorrendo depois toda essa extensa e deliciosa costa do
+Mediterraneo que se chama Côte d'Azur.
+
+Para que? Para entrar na Italia por Genova e prestar, antes de tudo, a
+minha homenagem de americano á memoria de Christovam Colombo, visitando
+a casa onde elle nasceu.
+
+Alli fui, pois, e alli estive no vetusto predio, onde, em 1450, viu a
+luz do dia o audacioso genovez, conforme reza a placa commemorativa
+collocada entre duas janellas antigas desastradamente vestidas á moderna
+com venezianas verdes.
+
+Até então, eu suppunha, pelo que sabia, pelo que havia lido, que
+Christovam Colombo era o descobridor da America, assim como suppunha
+tambem que Pedro Alvares Cabral era o descobridor do Brazil.
+
+Mas, veio-me depois ás mãos um livro--_A descoberta do Brazil_--do sr.
+Faustino da Fonseca, e esse livro precioso, feito com o nobilissimo
+intuito de reivindicar para Portugal a gloria completa do descobrimento
+do Novo Mundo, livro que, em abono da civilização portugueza, que, em
+abono dos nossos maiores, deveria ser traduzido em todas as linguas
+vivas para ser distribuido em todas as escolas do universo, veio
+mostrar-me, á luz de documentos authenticos e irrefutaveis, que nem o
+navegante genovez foi o primeiro a chegar ao Novo Mundo, nem Cabral o
+primeiro a achar essa parte do Novo Mundo que se chama o Brazil.
+
+Colombo e Cabral--o primeiro ao aportar, em 1492, ás Antilhas, e o
+segundo, em 1500, á costa brazileira, não fizeram mais do que
+_reconhecer e tomar posse_ officialmente de terras que muitos annos
+antes já haviam sido descobertas por navegantes portuguezes.
+
+Baseia-se o precioso livro do sr. Faustino da Fonseca em doações feitas
+pelos reis portuguezes aos primeiros navegantes que sulcaram o
+Atlantico, em tratados de limites, em correspondencias officiaes,
+roteiros, mappas, relações, cartas de testemunhas dos acontecimentos e
+outros documentos que o autor, no seu louvavel ardor patriotico, foi
+descobrir e copiar com uma paciencia de benedictino nos archivos
+hespanhóes e açorianos e na Torre do Tombo.
+
+É com esse fanal em punho, que dá por terra com todas as lendas, todos
+os erros e embustes dos historiadores que precederam o sr. Fonseca, que
+eu venho, hoje, na medida das minhas fracas forças, ajudal-o a
+reivindicar para Portugal, não a gloria de haver descoberto o Brazil
+sómente, mas tambem a gloria de haver descoberto a America.
+
+Oxalá seja esse meu auxilio efficaz, oxalá possa elle levar a convicção
+ao animo dos que me ouvem e dos que me lerem, para que possamos dizer
+todos, _una voce_, e fazendo a justiça tardia a que tem direito a velha
+civilização portugueza: Gloria a Portugal, descobridor do Novo Mundo!
+
+ * * * * *
+
+Os conhecimentos geographicos dos antigos eram limitadissimos, não
+conhecendo os europeus mais do que duas terças partes do seu continente,
+o norte da Africa e o sudoeste da Asia, acreditando Ptolomeu que a
+Africa se estendia até ao polo antarctico, reduzindo assim o Oceano
+Indico a um simples lago ou pequeno mar interior. Nessa época, o que se
+chama India comprehendia a Indo-China, o Indostão, as ilhas e regiões do
+extremo Oriente. Era a India considerada como um paiz de fabulosas
+riquezas e nella dizia-se que habitava o Prestes João, soberano
+Christão, que reunia o poder temporal ao espiritual e era o summo
+pontifice do Oriente.
+
+O Oceano Atlantico era tratado por mar tenebroso e considerado
+innavegavel, povoado por monstros, coalhado de escolhos, coberto de
+nevoa densa. Era um mar onde, para uns, reinava a eterna calmaria podre,
+para outros, era constantemente açoutado por violentos tufões, de sorte
+que era uma barreira á communicação entre os dois hemispherios.
+
+Não contentes de limitar a tão pouco os seus conhecimentos geographicos,
+os antigos inventavam lendas, semeavam o oceano de ilhas imaginarias, de
+estatuas e de columnas, que impediam os navegantes de marchar.
+
+As columnas de Hercules fechavam o caminho do Atlantico, outras duas
+columnas erguiam-se num estreito, impedindo a entrada do mar da India. A
+phantasia não tinha diques e os mappas, principalmente o de Marco Polo,
+marcavam milhares de ilhas em algumas das quaes se localizava o paraiso,
+o purgatorio e o inferno! Na ilha de Salomão, onde se dizia estar o
+cadaver desse rei mulherengo, num maravilhoso palacio, tres estatuas
+faziam retroceder o navegante sob pena de morte. O cabo Bojador era um
+ninho de serpentes e na ilha de Ceylão estava o tumulo de Adão!
+
+Ainda em 1375 a costa africana só era conhecida de Ceuta até ao Cabo
+Bojador, e ainda em 1436, já em pleno seculo XV, o mappa de André
+Bianco, um mixto de christianismo e de paganismo, reproduz as lendas e
+figuras da edade média, collocando Jerusalém no centro do mundo e
+determinando o local do paraiso terrestre!... Toda a terra conhecida
+resumia-se num unico continente. Tudo mais eram ilhas entre as quaes
+estava a de Cypango, onde Colombo julgou ter chegado em 1492, quando
+aportou ás Antilhas.
+
+Lendas de origem portugueza só havia duas--a do gigante Adamastor, no
+Cabo das Tormentas, que o grande épico dos Lusiadas tão lindamente
+narrou em verso sonoroso, e a do cavalleiro de pedra, na ilha do
+Corvo--mas este, ao contrario dos outros que intimavam o navegante a
+retroceder, mandava-o avançar, apontava-lhe o caminho a seguir,
+demandando novas regiões.
+
+Taes eram os conhecimentos geographicos até ao primeiro terço do seculo
+XV.
+
+Foi então que appareceu o famoso projecto do infante d. Henrique,
+projecto que revolucionou o systema do mundo.
+
+Até ahi só se conheciam dois caminhos para chegar ao Oriente, ambos por
+terra, ambos partindo do Mediterraneo. Conhecida a India como um paiz de
+riquezas fabulosas e tendo cessado para os portuguezes, com a tomada de
+Ceuta, o trafico dos generos do sertão pelo Mediterraneo, cogitou o
+infante d. Henrique em chegar á India por um outro caminho--a via
+maritima, pelo occidente. Mas, para isso, tinha de affrontar o Mar
+Tenebroso, esse oceano inçado de escolhos e de monstros, impenetravel e
+mysterioso. Como o seu intuito era explorar as riquezas indianas e levar
+a fé aos musulmanos, com os quaes esperava combater, elle sentiu a
+necessidade de um alliado e o alliado natural era o Prestes João, o
+summo pontifice da christianidade indiana.
+
+Era preciso, pois, procural-o, mas seguindo pela via maritima.
+
+«Provêm desta origem, diz o sr. Faustino da Fonseca na sua obra
+admiravel, as explorações para o sul e para o occidente; as grandes
+viagens do occidente e do oriente; o encontro de duas passagens a leste
+e a oéste,--o Cabo da Boa Esperança e o estreito de Magalhães; as
+descobertas da costa da Africa e das ilhas do Atlantico, da America do
+Norte e do Brazil.»
+
+«Obedece tudo a este proposito, subordina-se tudo a este projecto, são
+tudo soluções ao problema: os conselhos de Toscanelli e de Monetario, o
+erro de Colombo, a audacia de Magalhães.»
+
+ * * * * *
+
+Não é difficil provar que Colombo não descobriu a America e que quando
+chegou ás Antilhas, em 1492, já a America havia sido descoberta pelos
+portuguezes, muitos annos antes. O difficil seria provar hoje, em face
+dos documentos encontrados pelo sr. Faustino da Fonseca e dos quaes me
+vou soccorrer nesta conferencia, que o ousado genovez fez tal
+descoberta.
+
+Esmiucemos o interessante assumpto.
+
+Quando o infante d. Henrique fundou a escola de Sagres com observatorio
+astronomico, para o qual fez vir cosmographos e mathematicos
+estrangeiros, e mandou construir nos seus estaleiros as primeiras
+caravelas e ordenou que ellas sahissem, para o mar tenebroso e pelo
+occidente, dizendo aos capitães que avançassem sem receio, fazendo-se ao
+largo, já Gonçalves Zarco havia descoberto a ilha da Madeira e já o
+infante conhecia o livro de Marco Polo, que existia em Portugal desde
+1418, trazido pelo infante d. Pedro, que o recebera como dadiva do
+senado de Veneza, assim como conhecia tambem o mappa do mesmo Marco Polo
+onde se veem as regiões do oriente muito proximas das do occidente. No
+seu livro, Marco Polo assegurava que Catay estava no Atlantico (que elle
+chama o mar de Cyn) a pequena distancia da Europa e que, no Atlantico,
+estavam tambem Cypango e outras ilhas de especiarias.
+
+As primeiras caravelas, construidas e equipadas pelo infante em 1431,
+começam a perscrutar o mar vasto e, um dia, de uma dellas, Gonçalo Velho
+Cabral descobre as _Formigas_. Um anno depois, em 1432, descobre ainda
+_Santa Maria_. As expedições maritimas portuguezas, desde então,
+succedem-se ininterruptamente e, annos depois, é descoberta grande parte
+das ilhas do archipelago dos Açores pelo mesmo Gonçalo Velho e depois as
+do Cabo Verde (1460) por Antonio Gomes e Diogo de Nola.
+
+Em 1435, já o mappa-mundi de Bechario representa a Antilia e outras
+ilhas, a oéste dos Açores, acompanhadas da seguinte legenda:--_Insule de
+novo reperte_ (ilhas recentemente descobertas.)
+
+Em 1436, um anno após, apparecem o mappa-mundi de André Bianco e o seu
+portulano cujas cartas já representam o mar de Baga, o mar dos Sargaços,
+as Antilhas e o Brazil, figurando este como se fosse uma grande ilha. Em
+1447, uma nau parte do Porto e descobre a Groelandia aonde os
+marinheiros desembarcaram.
+
+No entretanto, do celebre promontorio de Sagres, o infante d. Henrique
+vê sumirem-se no mar intermino as caravelas, que successivamente iam
+partindo á descoberta, e já em 1448, numa carta do portulano de André
+Bianco, tratando dos descobrimentos dos portuguezes, se regista o Brazil
+de uma forma precisa, na parte oéste e sul do Cabo de S. Roque, ao sul
+das ilhas do Fogo e Brava de Cabo Verde, na sua verdadeira posição, em
+frente á costa africana, sendo designado por _ilha authentica_ e
+assignalada a sua distancia exacta de 1500 milhas do archipelago de Cabo
+Verde.
+
+Esta carta do portulano de Bianco, bem como os anteriores de 1436
+mostram, pois, meus senhores, que o Brazil foi descoberto em 1435, ou
+antes, por navegantes portuguezes e que até das Antilhas já havia
+noticia nessa época.
+
+Mas, não fica nisto. As caravelas portuguezas continuam a singrar o mar
+tenebroso e, em 1452, Diogo de Teive e seu filho João de Teive descobrem
+as ilhas Corvo e das Flores e chegam á latitude da terra que se chamou
+mais tarde «do Lavrador» (porque a descobriu um portuguez deste nome)
+não desembarcando nella com receio do inverno.
+
+Em 1460 morre o infante d. Henrique, deixando reconhecida toda a costa
+africana até Serra Leôa e legando ainda á sua patria os descobrimentos
+dos archipelagos dos Açores, de Cabo Verde e do Brazil.
+
+A morte do infante não faz, porém, arrefecer o enthusiasmo lusitano
+pelos descobrimentos e já dois annos depois, em 1462, d. Affonso V, por
+carta regia de 29 de outubro, faz doação a seu irmão o infante d.
+Fernando, filho adoptivo de d. Henrique e seu herdeiro universal, de uma
+terra achada no mar alto, a noroeste das ilhas Canarias e da Madeira,
+que Gonçalo Fernandes havia descoberto. Essa terra não podia ser outra
+senão a America.
+
+Mezes antes, por carta régia de 19 de fevereiro, esse mesmo Affonso V
+havia feito doação a João Vogado de duas ilhas por elle descobertas no
+_mar oceano_, ás quaes dera os nomes de Lono e Capraria. Nos documentos
+da época, a expressão _mar oceano_ era usada para designar o mar que
+banhava a America, que então ainda não tinha esse nome. Esta doação a
+João Vogado prova que as duas ilhas Lono e Capraria eram ilhas ou pontos
+da costa americana.
+
+Onze annos depois, em 1473, d. Affonso V, por carta régia de 12 de
+janeiro, faz doação á sua sobrinha d. Beatriz, filha do infante d.
+Fernando, de uma ilha que apparecera, em 1468, através da ilha de
+Santiago, e que era uma das Antilhas, aonde só 24 annos depois aportou
+Colombo. Convém notar que esta descoberta é feita por navegadores
+portuguezes 5 annos antes da chegada de Colombo a Lisboa.
+
+Do exposto se conclue que as proprias Antilhas já tinham sido
+descobertas pelos portuguezes muitos annos antes de Colombo lá ir tomar
+dellas posse para a corôa da Hespanha.
+
+Todas estas consecutivas viagens para o occidente formam uma série que
+já constitue uma brilhante e indiscutivel documentação da prioridade dos
+portuguezes na descoberta da America.
+
+Mas ha ainda outros e valiosos documentos que melhor provam esta
+asserção áquelles a quem ella possa parecer um pouco vaga.
+
+Vejamos quaes são.
+
+Em 1472, tendo vagado a capitania da Ilha Terceira por fallecimento de
+Jacome de Bruges, a infanta d. Beatriz fez doação a João Vaz Côrte Real
+da capitania dessa ilha, na parte de Angra, doando a parte da Praia a
+Alvaro Martins.
+
+Na carta de doação, encontram-se as seguintes palavras: «havendo eu, por
+informação, estar ora vaga a capitania da ilha Terceira de Jesus
+Christo... por se affirmar ser morto Jacome de Bruges... houve por bem
+de a partir entre o dito João Vaz e o dito Alvaro Martins, mandei ao
+dito João Vaz que escolhesse e elle escolheu a parte de Angra... E
+considerando eu, de outra parte, _os muitos e grandes serviços_ que o
+dito João Vaz Côrte Real, fidalgo da casa do dito senhor meu filho, tem
+feito ao infante meu senhor e seu padre que Deus haja (é o infante d.
+Fernando), e depois a mim e a elle, _em galardão_ dos ditos serviços,
+lhe fiz mercê da dita capitania da ilha Terceira.»
+
+Annos após, em 1488, confirmando essa doação, o duque de Vizeu, filho de
+d. Beatriz, alludiu aos _grandes serviços_ de João Vaz Côrte Real a seus
+paes, dizendo: «querendo lhe fazer graça e mercê pelos _muitos serviços_
+que tem feito ao infante meu senhor e padre, que Deus haja, e a mim,
+espero que ao deante fará.»
+
+Quem era esse João Vaz Côrte Real, que assim era galardoado e que
+serviços relevantes eram esses que havia prestado para receber tal
+galardão?
+
+Era um homem que, nesse mesmo anno de 1472, vinha de chegar da _Terra
+Nova_ ou _Terra dos Bacalhaus_, trazendo essa nova descoberta americana
+para a corôa portugueza, vinte annos antes de Colombo aportar ás
+Antilhas.
+
+As provas desta descoberta de João Vaz não escasseiam e encontram-se:
+
+1.º--Na carta relativa á America do Norte do Atlas de Fernão Vaz
+Dourado, existente na Torre do Tombo, onde se lê, na parte referente á
+Terra Nova, a seguinte designação: _B. de João, Terra de João Vaz_.
+
+2.º--No mappa-mundi do Atlas de Jomard, feito em pergaminho por ordem de
+Henrique II da França (1547-1559), onde a mesma designação para a Terra
+Nova se encontra.
+
+3.º--No mappa-mundi de Mercator, do mesmo Atlas de Jomard, onde vem por
+extenso, designando a Terra Nova--_Terra de Joam Vaz_, _Rio de Joam
+Vaz_.
+
+4.º--Num manuscripto feito entre 1672 e 1711 nos Açores, onde melhor se
+conheciam os descobrimentos de João Vaz, no qual é encontrada a seguinte
+referencia á doação de d. Beatriz a João Vaz: «Estando as cousas nesta
+forma, morreu o capitão Bruges, não deixando herdeiros. Chegaram então á
+ilha dois fidalgos que vinham de descobrir a _Terra do Bacalhau_; estes
+pediram a ilha a d. Beatriz, mulher do infante d. Fernando, por serviços
+que lhe tinham feito, lhes fizesse mercê da capitania da ilha Terceira,
+a qual ella lhe concedeu. A João Vaz Côrte Real, que era um destes
+fidalgos, ficou a de Angra.»
+
+5.º--Finalmente, nestes trechos das _Saudades da Terra_, de Gaspar
+Fructuoso, nascido nos Açores em 1522: «João Vaz Côrte Real, primeiro
+capitão da ilha Terceira da parte de Angra, por serviços que fez a
+el-rei de Portugal nas guerras contra Castella, andando por _capitão de
+grossa armada_; do qual dizem que foi _tão grande aventureiro no mar que
+neste Reino não tem segundo_; e alguns querem dizer que descobriu a
+mesma ilha Terceira e _algumas partes do ponente e do Brazil, Cabo
+Verde_, onde foi o primeiro que houve vista da _ilha do Fogo_... e
+vindo, como atrás tenho dito, João Vaz Côrte Real do _descobrimento da
+Terra dos Bacalhaus que, por mandado de el-rei foi fazer_, lhe foi dada
+a capitania de Angra, da Ilha Terceira e da ilha de S. Jorge... Dizem
+alguns que Jacome de Bruges, primeiro capitão da ilha Terceira de Jesus
+Christo, era flamengo... e, estando-a povoando veio ter ahi João Vaz
+Côrte Real... e vinha do _descobrimento da Terra Nova do Bacalhau_ e o
+Jacome de Bruges o recolheu e lhe disse que lhe largaria metade da ilha,
+a qual acceitou, e depois Jacome de Bruges se foi para sua terra e
+desappareceu, de maneira que não tornou mais, e a infanta d. Beatriz,
+por vaga, deu a ilha ao dito João Vaz Côrte Real.»
+
+Não ha nada de mais positivo, de mais claro e comprovante, do que estes
+cinco documentos, que venho de citar, no ultimo dos quaes se allude,
+nada menos de trez vezes, ao descobrimento feito por João Vaz Côrte Real
+da _Terra Nova_ ou _Terra do Bacalhau_, na America do Norte, em 1472,
+vinte annos antes de Colombo aportar ás Antilhas.
+
+Mas, não foram sómente João Vaz e outros navegadores portuguezes, já
+citados, os precursores de Colombo na descoberta da America.
+
+João Vaz Côrte Real tinha tres filhos--Vasco Annes, Miguel e Gaspar
+Côrte Real--os quaes, como o pae, foram ousados navegantes,
+principalmente o ultimo, Gaspar, que ficou captivo dos indigenas numa
+das suas viagens á America. A carta regia de 12 de maio de 1500, fazendo
+doação a Gaspar Côrte Real de terras que vae descobrir (carta passada
+poucos dias após a chegada de Cabral ao Brazil, chegada essa de que
+ainda não havia noticia em Portugal) regista importantes trabalhos do
+mesmo Gaspar, anteriores ás duas viagens suas de que ha noticia e
+refere-se _ás suas explorações maritimas feitas com muito trabalho,
+despeza e perigos, realizadas por Gaspar á sua custa com seus navios e
+homens_. Diz ainda essa carta de doação que _elle vae continuar a
+descobrir_ ou reconhecer _ilhas e terra firme_ das quaes lhe são
+outorgadas as capitanias.
+
+A expressão vae _continuar a descobrir_, empregada na carta regia,
+significa que Gaspar já havia anteriormente feito descobertas.
+
+Infelizmente, Gaspar Côrte Real, partindo de Lisboa em 1501 para uma
+nova exploração na America, por lá ficou captivo dos naturaes, voltando
+todavia ao reino os dois navios que o haviam acompanhado. Em 1502, seu
+irmão Miguel sahiu com outros dois navios no intuito de o procurar e
+remir, mas tambem não regressou. Vasco Annes quiz ainda ir em busca dos
+dois irmãos, mas D. Manoel não lh'o consentiu.
+
+Documentos posteriores ao desapparecimento dos dois irmãos, Gaspar e
+Miguel Côrte Real, registam os seus feitos e os de seu pae João Vaz.
+Taes são: a carta régia de 17 de setembro de 1506 e principalmente a 4
+de maio de 1567, de doação a Manoel Côrte Real, filho de Vasco Annes e
+neto de João Vaz, na qual se encontra a seguinte phrase: «seu pae e tios
+mandaram descobrir a Terra Nova».
+
+Mas, anteriormente, a carta régia de 4 de novembro de 1501, de d.
+Manoel--o venturoso--filho do duque de Vizeu e de d. Beatriz, concedendo
+a tença de 30.000 cruzados a Miguel Côrte Real por serviços feitos a d.
+João II, que falleceu em 1495, fixa ás viagens maritimas dos Côrtes
+Reaes uma data anterior a 1495.
+
+Ora, a sete de junho de 1494, d. João II assignou com a Hespanha o
+tratado de Tordesillas, abrangendo na demarcação portugueza não só a
+costa do Brazil (aonde Pedro Alvares Cabral só aportou _6 annos depois_)
+como a terra dos Côrtes Reaes, isto é, a _Terra Nova_ ou _dos
+Bacalhaus_, o que prova que a descoberta dessa terra é anterior ainda a
+1494. Por ultimo, Bartholomeu las Casas, amigo de Colombo e companheiro
+do genovez numa das suas viagens ás Antilhas, na sua _Historia das
+Indias_, apontando ingenua e sinceramente as indicações que Colombo teve
+para ir ás Antilhas, indicações, aliás, confessadas pelo proprio
+Colombo, cita, entre outras, as viagens dos Côrtes Reaes, empregando
+estas expressões: «Os Côrte Reaes que foram em diversos tempos buscar
+_aquella terra_.»
+
+E isto prova ainda que o descobrimento da _Terra Nova_ ou _dos
+Bacalhaus_ e, portanto, da America, é anterior á primeira viagem de
+Colombo ás Antilhas, isto é, anterior a 1492 e mesmo anterior a 1484,
+porque foi em 1484 que Colombo sahiu de Portugal, onde obteve taes
+indicações e onde viu e conheceu Miguel e Gaspar Côrte Real, filhos de
+João Vaz Côrte Real, e Affonso Sanches, que descobriu as Antilhas de
+1473 a 1484. As expressões que Las Casas emprega, referindo-se ás
+confissões feitas pelo seu amigo Colombo são as seguintes, que reproduzo
+textualmente: «_Disse_, pois, Christovam Colombo entre outras cousas
+_que poz em seus livros por escripto_... e accrescentou mais que tinha
+visto dois filhos do capitão que descobriu a ilha Terceira, que se
+chamavam Miguel e Gaspar Côrte Real, _ir em diversos tempos a buscar
+aquella terra_.»
+
+_Aquella terra_ era a _Terra Nova_ ou _Terra dos Bacalhaus_.
+
+Ainda relatando Las Casas as indicações e informações que conduziram
+Colombo ás Antilhas, cita a viagem de Vicente Dias e mais uma outra a
+respeito da qual assim se exprime: «uma caravela ou navio que tinha
+sahido de um porto de Hespanha (não me recordo ter ouvido indicar qual
+fosse, ainda que creio que do reino de Portugal, se dizia)... veio...
+parar a estas Antilhas e que esta caravela foi a primeira que as
+descobriu. Que isto assim acontecesse alguns argumentos ha para
+demonstral-o.»
+
+E ajunta que o piloto dessa caravela, «que alguns escriptores hespanhóes
+chamam Affonso Sanches e dão como natural de Cascaes, recolhido por
+Colombo em sua residencia na ilha da Madeira, ao sentir perto a morte
+lhe revelara o segredo e lhe dera por escripto os rumos e caminhos que
+tinham levado e trazido por carta de marear e pelas alturas e paragem
+aonde estava a ilha.»
+
+Esta confissão de Las Casas, amigo e companheiro de viagem de Colombo, é
+importantissima.
+
+Diz ainda Las Casas que, quando foi com Colombo ao primeiro
+descobrimento de Cuba, «os indios vizinhos daquella déram noticia de
+terem chegado a esta ilha Hespanhola outros homens brancos e barbados,
+como nós outros, _antes que nós outros não muitos annos_.»
+
+Mas, não fica nisto.
+
+Em 1501, Pietro Pasqualigo, referindo ao senado de Veneza a segunda
+viagem de Gaspar Côrte Real á America, disse que Gaspar e seus
+companheiros acreditavam que «a terra achada era firme e estava ligada
+com a outra (Terra dos Papagaios ou Brazil) que o anno passado (1500)
+foi descoberta por outras caravelas de S. Magestade, acreditando estar
+ligada com as Antilhas.»
+
+Humboldt confirma este conceito, quando diz «que antes mesmo das
+viagens de Colombo a Honduras e Veragua, em outubro de 1501, já se sabia
+em Portugal que as terras do norte eram cobertas de neve e gelo,
+contiguas ás Antilhas e á terra dos Papagaios _novamente_ achada.»
+
+E admiradissimo, Humboldt accrescenta: «esta _adivinhação_ que proclama,
+apesar da ausencia de tantos élos intermediarios, uma ligação
+continental entre o Brazil e as terras geladas do Lavrador _é muito
+surprehendente_.»
+
+Nem foi _adivinhação_ nem _cousa para surprehender_; os élos
+intermediarios, estabelecendo a ligação continental entre o Brazil e as
+terras geladas do Lavrador, existiam e eram conhecidos dos portuguezes
+pelas viagens e descobrimentos que haviam feito na sua pertinancia de
+procurar o caminho para a India, navegando constantemente para o
+occidente e para o sul, desde 1431. Ora, todos os documentos que citamos
+demonstram de um modo cabal e decisivo que os descobridores da Terra
+Nova e portanto da America do Norte foram João Vaz Côrte Real e seus
+filhos e que este descobrimento foi feito muitos annos antes que Colombo
+aportasse ás Antilhas.
+
+Mas o estudo dos documentos portuguezes e castelhanos que o sr. Faustino
+da Fonseca exhumou da Torre do Tombo, dos archivos açorianos e
+hespanhóes e a que deu publicidade no seu luminoso livro, referentes ás
+viagens maritimas dos seus antepassados, provam de um modo
+incontestavel que desde 1435, ou antes havia em Portugal conhecimento
+perfeito de terras americanas (o Brazil ou terra dos Papagaios com a sua
+posição determinada no mappa de Bianco e a sua distancia de 1500 milhas
+entre as ilhas de Cabo Verde e o Cabo de S. Roque precisamente marcada
+no mesmo mappa) e tambem que, desde 1475, as viagens dos portuguezes
+para o occidente já se realizavam, não tanto no empenho de procurar por
+ahi o caminho para chegar á India, como no de «colonizar, de aproveitar
+as terras americanas e nellas commerciar, como se commerciava na costa
+africana e nas ilhas dos seus mares.»
+
+Era pelo sul da costa da Africa que os navios da corôa portugueza
+procuravam o caminho do oriente e as viagens á Guiné eram então
+privativas dos navios reaes, não podendo os particulares emprehendel-as.
+Já para o occidente a navegação era francamente aberta ás naus dos
+particulares, dando-lhes ensejo ás descobertas e explorações
+commerciaes.
+
+A carta de doação a Fernão Dulmo, em 1486 e a confirmação do seu
+contracto com João Affonso Estreito, feita pela carta regia de D. João
+I, vem demonstrar de um modo cabal, como muito bem diz o sr. Faustino da
+Fonseca, «a existencia de trabalhos de mór importancia relativos á
+America em que se não trata já da descoberta, mas da posse effectiva,
+da conquista, da occupação.»
+
+Nessa carta de doação diz o rei que Fernão Dulmo, capitão da ilha
+Terceira, «lhe queria dar achada ao occidente uma grande ilha, ou ilhas,
+ou terra firme por costa», ilha essa que se presumia ser a das Sete
+Cidades, e isto prova «que não se julgava ser a India, como pensava
+Colombo, nem Catay, nem Cypango, terras do oriente, que o genovez
+procurava e que até morrer julgou ter descoberto.»
+
+Era uma outra terra a que se dava o nome de Sete Cidades por causa de
+uma velha lenda. Effectivamente, o que Fernão Dulmo queria dar ao rei
+_achada_ era, não uma ilha, mas terra firme, isto é, um continente.
+
+Dava-lhe a carta regia poder e autoridade para tomar posse real e autual
+de todas ilhas e terra firme que descobrisse, «podendo enforcar, matar e
+applicar toda outra pena criminal» e accrescentava que, «se as ilhas e
+terra firme não quizessem sujeitar-se, elle rei mandaria com Fernão
+Dulmo gentes e armadas de navios para as sujeitar.»
+
+Tão amplas eram as autorizações e poderes conferidos a Fernão Dulmo,
+contrastando com as restricções feitas nas doações anteriores, nas quaes
+a corôa reservava para si «a alçada de morte ou talhamento de membro,»
+que taes concessões levam a crer, com relativa segurança, que na terra,
+que Dulmo queria dar _achada_ ao seu rei, já elle havia estado, havendo
+encontrado resistencia á occupação por parte da população indigena.
+
+Nessa terra do occidente, ou America, que Dulmo queria dar _achada_ á
+corôa portugueza, já elle estivera, portanto, em 1486, ou antes. Que
+tinha havido luctas na America entre os donatarios e os indigenas
+prova-o ainda a carta de doação a Vasco Annes Côrte Real na qual se
+refere que Miguel Côrte Real (irmão de Vasco Annes), ao partir, em busca
+de seu irmão Gaspar, que ficara captivo das tribus americanas na terra
+onde aportara, ia «buscar, achar e remir o dito seu irmão.» Que Fernão
+Dulmo estivera na America em 1486, ou antes, prova-o ainda o contracto
+por elle feito com João Affonso Estreito pelo qual este fazia todas as
+despesas da expedição, e ainda o prazo marcado para irem e voltarem,
+ficando Dulmo com o commando da frota durante os primeiros 40 dias e
+assumindo-o João Affonso após esse tempo, o que significa que Fernão
+Dulmo estava seguro de attingir a terra achada em 40 dias e que João
+Affonso não receiava empregar o seu capital numa empresa temeraria,
+seguindo com o seu socio para o desconhecido.
+
+Estabelecia o contracto que as caravelas seriam abastecidas para 6 mezes
+ou 180 dias approximadamente. E dahi se deduz que, sendo precisos 80
+dias para a viagem de ida e de volta, ficavam 100 dias para a
+permanencia na America, para a exploração, marcação e divisão das
+capitanias de que eram donatarios os dois associados e, finalmente, para
+a sujeição dos indigenas.
+
+A confiança de João Affonso Estreito na expedição era tal que, além de
+todas as despesas com o abastecimento das caravelas e sua equipagem,
+ainda deu 6.000 reaes brancos a Fernão Dulmo.
+
+Ora, o conhecimento que temos de Colombo ter gasto, posteriormente, 48
+dias na sua primeira viagem de regresso das Antilhas, com atrasos
+devidos a temporaes e a uma arribada á ilha de Santa Maria, e ainda o
+facto de Pedro Alvares Cabral ter gasto 43 dias na sua viagem ao Brazil,
+_apesar da calmaria que encontrou_, e ainda a circumstancia de ter gasto
+Colombo, exactamente, 40 dias na sua viagem de Cadiz á Dominica, prova
+que 40 dias era o tempo, em média, preciso para ir da Europa á America e
+que, portanto, o facto de tal prazo ter sido fixado no contracto de
+Dulmo com João Affonso Estreito mostra que Dulmo tinha perfeito
+conhecimento do tempo que era preciso para chegar á terra _achada_ por
+elle em 1486, ou antes, e que essa terra era positivamente a America.
+
+Desta expedição de Dulmo fazia parte um allemão chamado Martim Behaim,
+que o Dr. Monetario, ou Montaro, na sua carta a d. João II, chama
+Martinho Bohemio. Ora, este allemão, que, de 1484 a 1486, acompanhou
+Diogo Cão, como cosmographo, rezidindo nos Açores de 1486 até 1490,
+seguia a opinião dos antigos de que o caminho para a India era pelo
+occidente. Foi, pois, nesta viagem de Dulmo que Behaim obteve o
+conhecimento da costa Americana, o qual registou depois no globo que
+construiu ao regressar á Europa e que tambem representou no mappa, que
+existia no erario do rei de Portugal e ao qual allude Pigaffeta. Nesse
+globo terraqueo de Behaim foram representados a peninsula da Florida, o
+golfo do Mexico e as Antilhas, embora sem estas denominações. Estes
+trabalhos geographicos de Behaim confirmam que Dulmo estivera na America
+do Norte e estabelecem de um modo preciso que as terras achadas por elle
+eram a Florida, as Antilhas e o golfo do Mexico.
+
+Em 1499 fez d. Manuel doação a João Fernandes Lavrador da capitania da
+ilha ou ilhas que elle _descobrir ou achar novamente_. Não tendo meios
+para custear a expedição, João Fernandes Lavrador associou-se a
+Francisco Fernandes e João Gonçalves, escudeiros, naturaes dos Açores, e
+com tres negociantes inglezes de Bristol, os quaes, provavelmente,
+forneceram o capital preciso, e com elles obteve do rei Henrique VII da
+Inglaterra nova carta de doação das terras que descobrisse.
+
+A expedição seguiu a sua rota e conseguiu descobrir a terra avistada em
+1452 por Diogo de Teive e seu filho João de Teive, á qual foi dada o
+nome de Terra do Lavrador, que era o do seu novo descobridor e
+donatario.
+
+Ora, João Fernandes Lavrador, quando organizou a expedição, já sabia da
+existencia da terra que _ia achar_ porque nella estivera com Pedro de
+Barcellos de janeiro a abril de 1492, e o fim de sua expedição com os
+negociantes de Bristol não era outro senão tomar posse da terra
+anteriormente achada.
+
+Portanto, ainda alguns mezes antes de Colombo, que só a 8 de agosto de
+1492 partiu para as Antilhas, dois navegantes portuguezes, João
+Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos haviam estado na America.
+
+Assim, synthetizando esta série de provas de ida e estada de navegantes
+portuguezes na America, anteriormente a Colombo, encontra-se o seguinte
+quadro chronologico registador dessas viagens e descobrimentos:
+
+1436--Regista André Bianco nas suas cartas e no seu portulano as
+descobertas do Brazil ou Antilia, Mar de Baga e Mar de Sargaços.
+
+1447--Um navio parte do Porto e vae á Groelandia onde os marinheiros
+desembarcam.
+
+1448--Regista André Bianco nas suas cartas a existencia do Brazil á
+distancia precisa de 1500 milhas comprehendidas entre as ilhas do Cabo
+Verde e o Cabo de S. Roque.
+
+1452--Diogo de Teive e seu filho João descobrem a ilha das Flores e
+chegam á latitude da terra do Lavrador.
+
+1472--Descobre João Vaz Corte Real a Terra de João Vaz, ou Terra Nova,
+ou Terra dos Bacalhaus, na America do Norte.
+
+1473-1484--Affonso Sanches descobre as Antilhas.
+
+1487--Viagem á America de Fernão Dulmo e João Affonso Estreito,
+acompanhados de Martim Behaim, que registou, depois, no globo terraqueo
+que construiu e no mappa do erario real portuguez, a existencia da
+peninsula da Florida, das Antilhas e do golfo do Mexico.
+
+1492--Descoberta, entre 30 de Janeiro e 14 de abril, da terra do
+Lavrador, por João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos.
+
+Todas estas viagens, todos estes descobrimentos são anteriores á
+primeira viagem de Colombo, realizada a 8 de Agosto de 1492 e
+estabelecem a prioridade dos navegantes portuguezes no descobrimento da
+America.
+
+A carta do dr. Jeronymo Montaro, ou Monetario, de Nuremberg, a d. João
+II, em 1493, quando ainda ignorava a primeira viagem de Colombo ás
+Antilhas, aconselhando o monarcha lusitano a que demandasse a India pelo
+caminho do occidente, confirma o conhecimento que tinham os portuguezes
+das terras americanas.
+
+Ignorando, como Colombo (que até morrer suppoz sempre que chegando ás
+Antilhas havia chegado á India) que as terras do occidente constituiam
+um novo continente, formando a parte quarta do universo até então
+conhecido, o dr. Montaro elogia na sua carta o saber dos mareantes
+portuguezes, usando das seguintes expressões: «sabios que navegaram a
+_largura do mar_, que tomaram o caminho dos Açores por quadrantes
+chilindricos e astrolabio e outros engenhos, onde _nem frio nem calma os
+anojara_ e mais navegaram a _praia oriental_ sob uma temperança
+(temperatura) muito temperada do ar e do mar.»
+
+Nestas expressões--_navegaram a largura do mar, tomando o caminho dos
+Açores_--(que era o ponto de partida dos navegantes que iam ao novo
+continente) põe Montaro em evidencia as viagens dos portuguezes á
+America, muito embora ignorasse que essa terra era o Novo Mundo.
+Empregou a expressão _praia oriental_ suppondo sempre que era a India
+cujo caminho pelo oriente já havia sido descoberto, cinco annos antes,
+por Bartholomeu Dias, quando em 1487 dobrara o cabo da Boa Esperança,
+indo em busca do reino do Prestes João.
+
+Não admira que o dr. Montaro estivesse nessa ignorancia quando Colombo
+permanecia nella e insistia em acreditar que a America era a Asia e que,
+atravez della, havia um caminho por agua, que abreviava a viagem pelo
+occidente para a India.
+
+Esse caminho, que o audaz e astuto genovez embalde procurou até morrer,
+existia de facto, mas, em vez de abreviar, alongava a viagem para a
+India. Esse caminho, que elle nunca conseguiu achar, descobriu-o ainda
+um portuguez, Fernão de Magalhães, quando, a soldo da Hespanha, mas com
+marinheiros portuguezes e com o cosmographo portuguez Ruy Faleiro,
+transpoz o estreito a que ligou o seu nome, no extremo sul da America, e
+fez a primeira viagem de circumnavegação, dando a volta ao mundo e
+confirmando a doutrina da espheroicidade da terra.
+
+De tudo o que fica exposto resulta, meus senhores, de um modo
+indiscutivel, com uma veracidade esmagadora, que não foi Colombo quem
+teve a prioridade na descoberta da America e que essa grande gloria cabe
+de direito e de facto aos destemidos e desinteressados navegantes
+portuguezes do seculo XV, que á America foram e que na America estiveram
+muito antes do genovez.
+
+Qual delles, qual desses ousados lusos, precursores de Colombo, foi o
+primeiro a pôr o pé no solo americano?
+
+Evidentemente, aquelle que, em 1435, ou antes, segundo o registo de
+André Bianco, descobriu o Brazil. Desse, infelizmente, a historia não
+guardou o nome. Mas, daquelles que foram á parte norte da America e que
+lá estiveram, dando-lhe o seu nome, ha noticia; e o que firmou o direito
+á prioridade na descoberta foi evidentemente João Vaz Corte Real que, em
+1472, vinte annos antes de Colombo, descobriu a _Terra Nova_, que os
+mappas, portulanos e manuscriptos da época designaram por essa
+denominação, pela de _Terra dos Bacalhaus_, pela de _Terra de João Vaz_
+e ainda de _Terra dos Corte Reaes_, em homenagem ao grande navegante
+luso e a seus filhos, que á mesma terra foram, no mesmo ardor empenhados
+de engrandecerem a sua patria.
+
+ * * * * *
+
+Mas, vejamos agora quem era Colombo e o que fez elle, não para
+_descobrir_, mas para _chegar_ á America e de uma parte della tomar
+posse official para a corôa de Hespanha.
+
+Por uma ironia da sorte, Colombo, nascido em Genova em 1450, veio ao
+mundo dois annos depois daquelle (1448) em que André Bianco registou no
+seu mappa a existencia do Brazil a 1.500 milhas das ilhas de Cabo Verde,
+tres annos depois que um navio portuguez foi á Groenlandia, e apenas
+dois annos antes daquelle em que o navegante portuguez Diogo de Teive
+chegou á latitude da Terra do Lavrador, terra americana que João
+Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos ainda descobriram e della
+tomaram posse em 1492, mezes antes de Colombo chegar pela primeira vez
+ás Antilhas.
+
+Filho de uma familia de operarios, era Colombo um tecelão, que apenas
+apprendera a ler e a escrever e que, até aos 23 annos de edade, se
+conservara sem fazer estudos universitarios, sem seguir a carreira
+maritima, sem nada saber de cosmographia nem de pilotagem. Indo para
+Savone, em 1470, ahi estabeleceu uma taverna e ahi se conservou durante
+dois annos. Não lhe sorrindo a fortuna como taverneiro, foi, em 1473,
+para Portugal, e fixou-se na ilha da Madeira, onde abriu uma casa de
+pasto, e onde casou com uma rapariga portugueza, filha de um tal
+Bartholomeu Perestrello, mareante, já então fallecido. Na Madeira
+nasceu-lhe o primeiro filho e na Madeira começou elle a apprender
+nautica nos documentos, instrumentos e mappas de Perestrello, que a
+sogra lhe forneceu. Mais tarde, ficou sabedor da exacta situação das
+Antilhas pelos papeis de Affonso Sanches[1], que as descobriu, que em
+sua casa de pasto se hospedou e que ahi falleceu. Creio que ainda existe
+na Madeira essa casa que Colombo habitou. É Bartholomeu de las Casas, o
+amigo e companheiro de Colombo numa das suas viagens, quem, na sua
+_Historia das Indias_, nos dá conta desse episodio da vida do genovez em
+Portugal. Referindo-se aos objectos de Perestrello, que a sogra dera a
+Colombo, diz: «eram instrumentos e escriptos e pinturas (cartas e
+mappas), convenientes á navegação, os quaes deu a sogra ao dito Colombo,
+que com a vista delles muito se alegrou.» E accrescenta: «_com estes se
+crê haver sido instigada a sua natural inclinação_.»
+
+[Nota de rodapé 1: Affonso Sanches descobriu as Antilhas de 1473 a
+1484.]
+
+Quando Colombo chegou a Portugal já ahi eram conhecidas as cartas
+hydrographicas planas inventadas pelo infante d. Henrique, e foi durante
+a sua permanencia no reino que o portuguez Fernando construiu a primeira
+bussola completa com a rosa dos ventos e que a junta dos cosmographos do
+rei aperfeiçou o astrolabio, assim como as taboas astronomicas
+applicadas á navegação.
+
+Vivendo no meio de uma grande familia de navegadores, sabios, como o
+testemunhou mais tarde o sabio dr. Montaro, de Nuremberg, conhecedor das
+viagens e descobertas dos portuguezes, é natural que Colombo, instigado
+pela mulher e pela sogra, fascinado pelos instrumentos e documentos que
+recebeu e por outros que manuseou e consultou depois, estimulado pelas
+audacias felizes dos mareantes lusos, quizesse tentar fortuna pelo mar e
+procurasse obter a pratica da navegação que de todo lhe faltava. Para
+isso conseguir, embarcou em navios portuguezes e com pilotos
+portuguezes apprendeu a navegar.
+
+É ainda Las Casas quem nol-o affirma, quando diz, na sua já citada
+_Historia das Indias_: «resolveu ter por experiencia o que então do
+mundo pela de Ethiopia se andava e praticava pelo mar e assim navegou
+algumas vezes aquelle caminho em companhia de portuguezes, como pessoa
+já residente e quasi natural de Portugal.»
+
+Foi, portanto, em Portugal que Colombo apprendeu a navegar e foi ainda
+em Portugal que teve conhecimento exacto de terras ao occidente, terras
+que, obcecado pelas theorias de Toscanelli, Marco Polo e outros
+geographos e cosmographos antigos, elle suppoz sempre que fossem
+asiaticas.
+
+Foi então, depois de adquirida esta instrucção theorica e pratica,
+ministrada pelos portuguezes, que o genovez affagou a idéa de descobrir
+o caminho da India pelo occidente, indo á terra onde já havia chegado
+Affonso Sanches.
+
+Para conseguir os seus fins, procurou desde logo fazer relações com d.
+João II, rei de Portugal, o qual, longe de esconder delle as provas que
+possuia da existencia de terras ao occidente e ao sul, lh'as mostrou,
+como o proprio Colombo confessa, indicando-lhe nos mappas a situação da
+Terra Nova ou de João Vaz e a do Brazil ou Terra dos Papagaios.
+
+Ora, aconteceu, segundo informa Las Casas, que um dia, «soprando fortes
+ventos do poente, o mar trouxe ás costas das ilhas do Fayal e da
+Graciosa alguns troncos de pinheiros e ás da ilha das Flores dois
+cadaveres de caras mui largas e de feições differentes das dos
+christãos.»
+
+Guiado por estes indicios, e tendo conhecimento, como ainda informa Las
+Casas, da viagem do navio portuense que em 1447 tinha ido á Groelandia,
+da ida de Diogo de Teive em 1452 á latitude da Terra do Lavrador, das
+viagens de Vicente Dias, de Antonio Teive e de Affonso Sanches, de 1473
+a 1484, da concessão a Fernão Domingues do Arco, em 1484, e das viagens
+de João Vaz Côrte Real e seus filhos, começadas em 1472, resolveu
+Colombo, certo da existencia de terras ao occidente, procurar um
+principe christão que o ajudasse e protegesse na empresa do
+descobrimento da India pelo poente.
+
+Foi então a Castella offerecer os seus serviços á corôa hespanhola.
+
+Diz Las Casas que, guiado pelas informações que possuia, «_Colombo tinha
+a certeza que havia de descobrir terras e gentes nellas, como si nellas
+pessoalmente tivesse estado_.»
+
+E foi isso, provavelmente, o que Colombo, munido de copias dos mappas
+que viu em Portugal, e conhecedor das viagens e das doações alli feitas,
+affirmou aos reis de Castella, assegurando-lhes, não que ia achar ou
+descobrir, mas tomar posse para a Hespanha de terras anteriormente
+descobertas pelos portuguezes, dessas Antilhas que Affonso Sanches
+descobrira, cuja situação os seus mappas e papeis lhe revelaram.
+
+Tal offerta elle não podia fazel-a ao rei de Portugal, porque tinha a
+certeza de que seria recusada. Que poderia elle offerecer á corôa
+portugueza, que esta já não conhecesse?
+
+Accresce que, achando-se individado e sendo perseguido pelos credores,
+elle sentia necessidade urgente de sahir de Portugal e procurar no
+estrangeiro os meios de solver os seus compromissos.
+
+Eis ahi as razões pelas quaes deixou Portugal e foi á Hespanha, não no
+nobre intuito de descobrir terras e de praticar feitos que lhe dessem
+renome, mas no de ganhar dinheiro.
+
+Os que, como Humbolt, affirmam que Colombo foi, _por inveja_, maltratado
+em Portugal e, por isso, de lá sahiu, fugindo, faltam á verdade.
+
+Inveja de que? Que feitos, que emprehendimentos, que descobertas havia
+elle feito, quando deixou o reino portuguez, onde tudo foi apprender,
+para que delle alli tivessem inveja? Inveja poderia elle ter, e
+certamente tinha, daquelles que, arriscando a vida e a fortuna, já
+haviam dilatado o mundo, quando elle nada tinha feito até então.
+
+Mas, é elle proprio quem desmente os que affirmam que foi a inveja que o
+fez sahir de Portugal, quando, em uma carta ao rei de Castella, diz:
+«fui aportar a Portugal cujo rei entendia de descobrimentos mais do que
+nenhum outro.» E, em outra carta, accrescenta: «o grande coração dos
+principes de Portugal que ha tanto tempo proseguem na empresa de Guiné e
+tambem na de Africa onde gastaram metade da gente do reino...»
+
+Não teria elle feito taes elogios aos reis portuguezes se, _por inveja_,
+tivesse sido maltratado em Portugal. Que a causa principal da sua
+precipitada sahida de Portugal foram as dividas, deprehende-se
+claramente dos seguintes trechos da amistosa e protectora carta que d.
+João II, em 1488, lhe dirigiu: «E porque por ventura tereis algum receio
+das nossas justiças _por razão de algumas cousas a que sejaes obrigado_,
+nós por esta carta vos asseguramos pela vinda, estada e tornada, que não
+sejaes preso, retido, accusado, citado nem demandado por nenhuma cousa
+ou seja civil ou criminal de qualquer penalidade. E por ella mesmo
+mandamos as nossas justiças que a cumpram assim.»
+
+Eis ahi como cáe por terra a invencionice da inveja e como fica patente
+que as dividas foram a causa principal da fuga do genovez.
+
+Munido dessa generosa carta de D. João II, que é um salvo conducto,
+Colombo volta a Portugal e vae então offerecer ao rei os seus serviços
+na empresa dos descobrimentos e o rei os acceita, não para aproveitar-se
+delles, mas para reter Colombo junto a si, evitando que, por meio delle,
+Castella se apropriasse de terras que a Portugal já pertenciam.
+
+Mas, o astuto genovez, nem pelo facto de ficar ao serviço do rei de
+Portugal, deixa de conservar-se ao serviço da Hespanha de cujo thesouro
+havia recebido 14.000 maravedis[2] em 1487, mais 3.000 pouco depois e
+ainda 3.000 em junho de 1488, isto é, mezes depois de receber a carta de
+d. João II que lhe dava o salvo conducto para voltar ao reino!!...
+
+[Nota de rodapé 2: O maravedi valia cerca de 25 réis fortes.]
+
+Eis ahi patente a dualidade ambiciosa de Colombo, que fica ao serviço de
+Portugal e ao da Hespanha, simultaneamente, explorando a ambos sem
+escrupulos!...
+
+Essa dualidade elle a revelou ainda no proprio nome, pois assignava-se
+_Colon_ na Hespanha e _Colombo_ na Italia e em Portugal!!!...
+
+Ao fim de quatro annos dessa dupla exploração, consegue Colombo assignar
+um tratado com a corôa de Hespanha, obtendo della as tres caravelas de
+que carecia para ir á India pelo occidente e _achar_ terras que já
+tinham sido achadas pelos navegantes portuguezes. Por esse tratado, elle
+obteve as seguintes vantagens: «o grau de cavalleiro da espada dourada,
+os cargos de almirante mór do mar oceano, de vice-rei e governador
+perpetuo das terras que descobrisse, a decima de todas as rendas, e o
+direito de poder concorrer com o oitavo das despesas de todas as
+frotas, recebendo o oitavo dos lucros.»
+
+Que contraste resalta do procedimento deste aventureiro com o dos
+navegantes portuguezes que, antes delle, haviam ido á America,--como os
+Corte Reaes, Fernão Dulmo e Lavrador--que armavam as caravelas á sua
+custa, que, nisso consumiam as suas fortunas e se individavam, vindo, ao
+depois, offerecer ao seu rei e ao seu paiz as terras achadas, sem pedir
+favor nem retribuição alguma!
+
+Havia no tratado entre Colombo e os reis de Castella uma clausula pela
+qual fora estipulado que 10.000 maravedis seriam dados pela corôa e de
+alviçaras ao marinheiro da frota columbina que primeiro avistasse e
+annunciasse terra ao commandante. Esse marinheiro foi Rodrigo de Triana.
+Mas quando elle, do cesto da gavea, enthusiasmado apontou para o
+horizonte onde apparecia o relevo da terra desejada e, alegremente, a
+annunciou a Colombo, este declarou logo que, na noite anterior, já havia
+visto uma _luz_ e, estabelecendo com essa _luz_ a prioridade, apossou-se
+da gratificação que ao seu subordinado competia!
+
+Os que pela rama estudaram a vida deste aventureiro audaz exaltam a sua
+caridade christã, esquecendo: que, na sua primeira viagem ás Antilhas,
+nem padre elle levou na frota para chamar o gentio ao gremio da egreja;
+que, ao chegar ao golfo de Samaná, fez logo correr sangue, atacando os
+indigenas nús e quasi desarmados; que, não podendo enviar aos reis de
+Castella as promettidas e almejadas riquezas em especiarias, pedras e
+metaes preciosos, mandou navios carregados de escravos para serem
+vendidos e com o preço obtido pagar-se a despesa da viagem; que, de 1493
+a 1496, governando a Hespaniola, que é o Haiti de hoje, exterminou
+barbaramente a terça parte da população; que, quando mandou Pedro
+Margarite reconhecer a ilha de Cuba, deu-lhe ordem para mutilar os
+indigenas que lá encontrasse; que, finalmente, quando ordenou a Hojeda
+(um dos pretensos descobridores do Brazil) que fosse prender o cacique
+Cahonaboa, deu-lhe instrucções para que o fizesse á traição,
+attrahindo-o com presentes, illudindo-o com fingida amizade e
+apoderando-se delle em seguida!!...
+
+Eis ahi o quilate da caridade christã de Colombo.
+
+Parece que a cavalheiresca Hespanha, a despeito de Colombo a ter
+enriquecido, sempre suspeitou desse _descobridor_, que a seu soldo
+trazia, pois, logo após a sua segunda viagem á America, perseguiu-o
+tenazmente, submettendo-o a um tribunal e, quando elle regressou da
+terceira, após dois mezes de prisão em calabouço, mandou que viesse a
+bordo preso a uma grilheta, como se fosse um bandido!
+
+Morto em 1506, ignorando sempre que a terra que alcançara para a
+Hespanha era a America, pois viveu sempre convicto de que era a Asia,
+nem depois de morto conseguiu descansar, pois os seus ossos andaram em
+viagens continuas de Valladolid, onde primeiro foi sepultado, para
+Sevilha, depois para o Haiti, depois para Cuba e, finalmente, de Cuba,
+de novo, para a Hespanha, onde actualmente param.
+
+E sendo genovez, a Italia, que aliás lhe ergueu uma estatua, não
+reclamou jamais as suas atormentadas cinzas, talvez por desconfiar da
+authenticidade desse pretenso filho cuja nacionalidade é ainda hoje
+discutida.[3]
+
+[Nota de rodapé 3: Vide _Nota A_ no fim da conferencia.]
+
+Eis ahi senhores, quem foi Colombo, e como foi que elle deu á Hespanha
+terras dessa America que os portuguezes haviam descoberto.
+
+Conhecidos os factos que venho de narrar, posso dizer agora, sem receio
+de contestação séria, que Colombo não descobriu a America, porque, 15
+annos, pelo menos, antes delle nascer, já a America havia sido
+descoberta pelos navegantes lusos do primeiro terço do seculo XV.
+
+Como nota elucidativa e de importancia historica, cumpre-me accrescentar
+que, quando Colombo regressou da sua primeira viagem ás Antilhas e
+communicou a sua descoberta ao rei de Portugal, d. João II, logo este
+monarcha protestou energicamente, dizendo-lhe: «Que aquella conquista
+lhe pertencia e que suas eram as terras aonde elle chegára.»
+
+A este protesto do rei portuguez, respondeu Colombo hypocritamente, «que
+o não sabia e que os reis de Castella apenas lhe haviam ordenado que não
+fosse á Guiné nem á Mina.»
+
+Ao que retrucou d. João II: «Que tinha a certeza que nisso não haveria
+mistér de terceiros».
+
+Este dialogo, extrahido do diario da primeira viagem de Colombo, por
+elle proprio escripto, mostra que o usurpador da gloria alheia
+esquivava-se á responsabilidade directa do delicto por elle commettido,
+sciente e conscientemente, e que atirava essa responsabilidade para os
+hombros dos reis de Castella, como se fossem estes que tivessem ido ás
+Antilhas ou que o tivessem induzido a ir até lá!...
+
+Mas, deixemos Colombo e vejamos agora como foi descoberta esta parte do
+continente americano que se chama o Brazil.
+
+Desde o começo desta conferencia, vos disse que não foi Pedro Alvares
+Cabral quem descobriu o Brazil, pois o Brazil já estava designado e
+marcado nos mappas que a corôa portugueza possuia desde 1436, fixando
+André Bianco, desde 1448, a sua distancia das ilhas de Cabo Verde em
+1500 milhas.
+
+Nesse mappa de 1448, que André Bianco traçou em Londres, _depois de
+haver passado por Portugal_, estava o Brazil representado ao sul das
+ilhas dos Hermanos do archipelago de Cabo Verde, ilhas que têm hoje a
+denominação de Brava e do Fogo. Na parte referente ao Brazil e
+correspondente ao Cabo de S. Roque, havia no mappa esta legenda: _Ixola
+otincticha xe longa a ponente 1500 mia_, cuja traducção é esta: «Ilha
+authentica (ou Antilia) 1500 milhas ao poente.»
+
+Ora, o cabo de S. Roque, como todos sabem, dista exactamente 1520 milhas
+das ilhas de Cabo Verde.
+
+Estes dois documentos bastam para deixar patente que, quando, em 1500,
+Pedro Alvares Cabral aportou a Porto Seguro da costa brazileira, fazia,
+no minimo, 65 annos que essa parte da America tinha sido descoberta.
+
+Foram ainda navegantes portuguezes que a descobriram e até o testamento
+de João Ramalho, escripto nas notas do tabellião Lourenço Vaz, na villa
+de S. Paulo, em 3 de maio de 1580, segundo o testemunho do frei Gaspar
+da Madre de Deus, que delle teve uma copia, o prova, pois, ahi, Ramalho,
+na presença do dito tabellião, do juiz ordinario Pedro Dias e de quatro
+testemunhas, declarou que estava no Brazil ha 90 annos, isto é, desde
+1490, dois annos antes da ida de Colombo ás Antilhas e dez annos antes
+da chegada de Cabral a Porto Seguro.
+
+Prova-o ainda o tratado de Tordesillas, assignado em 1494 entre Portugal
+e a Hespanha, o qual, marcando para limites entre os dois reinos uma
+linha divisoria, do polo artico ao antarctico, distante 370 leguas das
+ilhas de Cabo Verde, abrangia na parte portugueza o Brazil, cujos
+limites foram traçados por esse meridiano.
+
+O mappa de Cantino, de 1502, regista essa linha divisoria e inclue, de
+accordo com o tratado, na parte portugueza, não só o Brazil como a Terra
+Nova ou de João Vaz e a Groelandia, assignalando tudo o que ficava á
+direita da linha divisoria com a bandeira portugueza e a parte á
+esquerda com a de Castella, com a seguinte legenda:--«Este é o marco
+dantre Castella e Portugal.»
+
+O açoriano Fructuoso, tratando de João Vaz Côrte Real, diz que elle
+«descobriu algumas partes do Poente e do Brazil», devendo, portanto,
+esta ultima descoberta ser anterior a 1500, pois João Vaz falleceu em
+1496.
+
+Por um manuscripto de frei Diogo das Chagas, citado por Drumond nos seus
+_Annaes da Ilha Terceira_, sabe-se que, antes de 1496, tambem o
+navegante João Coelho veio ao Brazil.
+
+Em 1514, Estevam Fróes confirma este asserto, numa carta ao rei de
+Portugal, na qual lhe diz: «alegravamos que vossa alteza possuia esta
+terra ha vinte annos e mais (portanto, desde antes de 1494), e que já
+João Coelho... viera ter por onde nós outros vinhamos a descobrir e que
+vossa alteza estava em posse destas terras por muitos tempos.»
+
+O proprio Vasco da Gama, na sua primeira viagem á India, em 1497, passou
+proximo do Brazil, tendo signaes de terra em 22 de agosto, isto é, 19
+dias depois que sahiu de Cabo Verde, como se verifica no Roteiro dessa
+sua viagem.
+
+No seu _Esmeraldo de situ orbis_ refere Duarte Pacheco, o celebre
+cosmographo, _que em 1498 estivera no Brazil_, provavelmente, como
+suppõe plausivelmente o sr. Faustino da Fonseca, no intuito de
+verificar, por ordem da corôa portugueza, os limites determinados pela
+linha divisoria do tratado de Tordesillas.
+
+Mestre João, physico mór de d. Manoel, e cosmographo da frota de Cabral,
+que na sua interessante carta ao rei, escripta de Porto Seguro, regista
+o Cruzeiro do Sul e marca para o Brazil a latitude de 17 graus, diz,
+entre outras cousas interessantes, referindo-se á terra brazileira, que
+a terra onde chegara, _já se achava traçada no mappa-mundi de Pedro Vaz
+da Cunha Bisagudo_, affirmando-o categoricamente na seguinte passagem da
+carta: «quanto, senhor, ao sitio desta terra, mande vossa alteza trazer
+um mappa-mundi, que tem Pedro Vaz Bisagudo, e por ahi poderá ver vossa
+alteza o sitio desta terra, ainda que aquelle mappa-mundi não certifica
+si esta terra é habitada ou não: é mappa-mundi antigo e ahi achará vossa
+alteza escripta tambem a Mina...»
+
+Portanto, o proprio cosmographo da frota de Cabral sabia, desde antes
+da viagem de 1500, que havia terra nesse rumo de sudoeste que a frota
+cabralina seguiu, como o sabia tambem Duarte Pacheco, o qual já nessa
+terra tinha estado em 1498.
+
+Tudo isto vem provar que, se Cabral não descobriu o Brazil, tambem o não
+descobriram os pretensos descobridores Vicente Yanez Pinzon, Diogo de
+Lepe e Alonso Hojeda, aventureiros, que só chegaram á costa americana em
+1499, não podendo tomar posse da terra brazileira porque o tratado de
+Tordesillas de 1494 não consentia em tal. As proprias instrucções que o
+rei de Castella lhes deu em 1499, determinavam «que não tocassem nas
+terras de Portugal».
+
+Elles estiveram, de facto, em terras do Brazil, antes de Cabral, mas a
+descoberta dessas terras não lhes pertence.
+
+Não foram, pois, Cabral, nem Pinzon, nem Lepe, nem Hojeda, os
+descobridores do Brazil, podendo-se, porém, assegurar que essa gloria
+cabe incontestavelmente a navegantes portuguezes do seculo XV, embora
+seja difficil determinar qual foi desses intrepidos argonautas o
+primeiro que pisou o solo brazileiro.
+
+Á vista das cartas e portulanos de André Bianco, de 1436 e de 1448,
+pode-se affirmar que essa descoberta foi feita, como já disse, em 1435,
+ou antes.
+
+Vejamos, agora, como Cabral aportou a esta terra e della tomou posse
+official para a corôa de Portugal.
+
+O fim ostensivo, o fim apparente da expedição de Cabral era ir á India.
+O fim real, o fim verdadeiro era ir, primeiro, ao Brazil, delle tomar
+posse official, e, em seguida, fazer rumo para o Cabo da Boa Esperança,
+em demanda da India.
+
+Como já referi, a corôa portugueza, anteriormente á viagem de Cabral,
+havia enviado ao Brazil Duarte Pacheco, eminente cosmographo, que tambem
+veio na frota cabralina. O autor do _Esmeraldo de situ orbis_ aqui
+estivera, pois, em 1498, para verificar os limites da linha divisoria do
+tratado de Tordesillas, que, na parte portugueza, abrangia as terras dos
+Corte Reaes, a Groelandia e o Brazil, mas deste não havia tomado posse
+official.
+
+Tornava-se, pois, indispensavel a Portugal reconhecer e tomar posse, sem
+demora, dessa terra e, assim, guiando-se pelas informações de Duarte
+Pacheco e do proprio Vasco da Gama, bem como pelas de outros seus
+navegantes, que haviam aportado á Terra dos Papagaios, aproveitava a
+expedição á India para, de passagem, tomar posse official do Brazil. O
+Brasil era, portanto, um ponto de escala da viagem de Cabral á India,
+mas um ponto de escala forçado e já conhecido, pois sabia tambem a
+corôa portugueza, pelos mappas e portulanos de Bianco, que essa «Ilha
+authentica ou Antilia» ficava a 1500 milhas de distancia das ilhas Brava
+e do Fogo, do archipelago de Cabo Verde.
+
+Era a frota de Cabral composta de 13 naus, uma das quaes com
+mantimentos, e nellas embarcaram 1.200 homens, entre os quaes o
+capitão-mór Pedro Alvares Cabral, que commandava a nau capitanea, os
+capitães das outras naus Sancho de Toar, Simão de Miranda de Azevedo,
+Ayres Gomes da Silva, Nicolau Coelho, Bartholomeu Dias (o descobridor do
+Cabo da Boa Esperança), Diogo Dias, Gaspar de Lemos, Luiz Pires, Simão
+de Pina, Pedro de Atayde Inferno, Vasco de Atayde e Nuno Leitão da
+Cunha.
+
+Iam tambem na frota: Duarte Pacheco, autor do _Esmeraldo de situ orbis_,
+Mestre João, physico mór do rei, que ia como cosmographo, o escrivão
+Pero Vaz Caminha, diversos frades, entre os quaes frei Henrique de
+Coimbra, os pilotos Affonso Lopes, Pedro Escolar e outros que Vasco da
+Gama trouxera da India, diversos indios, um grumete negro da Guiné,
+alguns interpretes e varios degredados.
+
+Iam os navios de Cabral apparelhados e munidos do necessario para anno e
+meio de viagem, bem providos de artilheria, de munições de bocca, de
+armas brancas, como espadas e lanças, e, em cada nau, havia uma botica.
+Para o commercio, levavam as caravelas, velludos, setins, damascos,
+pannos de lã, coral, cobre, vermelhão, mercurio e ambar. Além disso,
+levavam os padres comsigo um orgão e alfaias de prata.
+
+Era, evidentemente, a maior, a melhor apparelhada e a mais garrida frota
+que partia da Europa.
+
+Em 15 de fevereiro de 1500 recebeu Cabral a carta de capitão mór e dos
+poderes de que ia revestido. Com essa carta foi-lhe dado o regimento
+pelo qual se devia guiar na viagem e, nesse regimento, que, na parte
+relativa ao rumo, fôra organizado por Vasco da Gama, estava traçada a
+rota que devia seguir.
+
+Nesse documento minucioso, recommendava-se ao capitão mór que «se
+afastasse da costa da Africa para encurtar a via e que, ao partir da
+ilha de Santiago em Cabo Verde, deviam os navios fazer o seu caminho
+pelo sul, _bordejando pelas bandas do sudoeste_... e, depois, na volta
+do mar, até metterem o Cabo da Boa Esperança, em leste franco.»
+
+O regimento não fala claramente em aportar á Terra dos Papagaios, mas
+estipula que, ao deixar Cabo Verde, «fáça a frota caminho pelo sul,
+bordejando pelas bandas de sudoeste» e sendo a missão secreta de Cabral
+tomar posse official dessa terra e devendo elle de ter necessidade de
+arribar a uma terra qualquer, antes da chegada ao Cabo ou á India, para
+abastecer a frota de agua e lenha e dar descanso á marinhagem, a terra
+do Brazil estava naturalmente indicada para tal fim. Accresce que, na
+frota, ia Duarte Pacheco que, tendo já estado no Brazil, saberia guiar
+Cabral com segurança a esse ponto de escala forçada da gran viagem, de
+antemão indicada pelo Gama.
+
+A rota traçada nas linhas e entrelinhas do regimento era, pois: seguir a
+frota de Lisboa á ilha de Santiago, de Cabo Verde, dahi seguir pelo sul,
+bordejando pelo sudoeste, até alcançar a costa da Terra dos Papagaios,
+dahi zarpar para o Cabo, dobral-o e seguir para a India.
+
+Esse rumo inda é o mesmo que hoje seguem os navios que vêm de Lisboa ao
+Brazil. Prompta a frota de Cabral, partiu ella do Tejo aos 9 de março de
+1500, acompanhando-a o rei d. Manuel até fora da barra. Cinco dias
+depois, a 14 de março, passa a frota pelas Canarias onde encontra
+calmaria e onde permanece um dia; a 22, chega a Cabo Verde e,
+exactamente um mez depois, a 22 de abril, avista a terra brazileira,
+gastando, de Lisboa a Porto Seguro, 43 dias.[4]
+
+[Nota de rodapé 4: Vide _Nota C_ no fim da Conferencia]
+
+Dos historiadores que consultei, e não poucos foram, sobre a viagem de
+Cabral ao Brazil, attribuem uns ao _acaso_ esse feito, dizem outros que
+a frota fôra impellida para a nossa costa por um _forte temporal_, que a
+apanhou.
+
+Nenhum delles porém, explica em que altura a frota foi apanhada pelo
+temporal nem quanto tempo este durou.
+
+Ora, contra esse _forte temporal_ protestam energicamente os dois
+melhores documentos que possuimos da viagem de Cabral: as cartas que
+Mestre João, o cosmographo da frota, e Vaz Caminha, o escrivão, enviaram
+ao rei d. Manuel, de Porto Seguro, pela nau que dahi partiu a 1.º de
+maio, de regresso a Lisboa, para dar conta do feito ao monarcha.
+
+Nem o cosmographo nem Caminha falam de tal temporal, pelo contrario, o
+que dizem é que, durante a viagem, houve calmaria e que por causa della
+perdeu a frota um dia em frente ás Canarias. Temporal soffreu a frota,
+mas depois que deixou o Brazil e se fez vella para o Cabo, onde falleceu
+o seu descobridor Bartholomeu Dias.
+
+Não houve, pois, temporal na travessia até ao Brazil, nem o acaso
+interveio na chegada da frota cabralina a esta terra. O rumo a seguir
+tinha-lhe sido traçado; além disso, já nessa época tinham os portuguezes
+perfeito conhecimento das correntes maritimas e dos ventos geraes e
+sabiam aproveital-os de accôrdo com as rotas a seguir. O duplo fim de
+Cabral, tomando o rumo seguido e aportando ao Brazil, éra, como já o
+disse, abastecer-se de lenha e agua, dando descanso á marinhagem e tomar
+posse official da Terra dos Papagaios para a corôa portugueza.
+
+O _acaso_ e o _temporal_ têm, portanto, de ser banidos dos livros que
+se occupam do descobrimento da terra de Vera Cruz.
+
+O primeiro e grande historiador que o Brazil teve, ainda hoje o mais
+sincero e veridico, é Pero Vaz Caminha, o modesto escrivão, que narrou
+ao rei d. Manoel, numa commovente e encantadora carta, onde a minucia
+corre parelhas com a simplicidade, a historia da travessia, da chegada e
+da permanencia de Cabral na terra brazileira.
+
+Nessa longa missiva, escripta de Porto Seguro e datada de 1.º de maio de
+1500, o consciencioso historiador dá conta ao seu rei e senhor de todas
+as peripecias da viagem, desde a partida de Lisboa até ao Brazil e ainda
+de tudo o que se passou durante os 12 dias em que a frota ficou ancorada
+em frente á costa brazileira. Persuadido de que o que mais interessaria
+a D. Manuel era o conhecimento exacto da terra reconhecida, da gente que
+a habitava, dos seus costumes e indole, das riquezas que possuia e da
+facilidade que poderia offerecer á colonização, não poupou minucias para
+pôr o rei ao corrente do que vira e do que lhe poderia ser proveitoso.
+
+É assim que elle descreveu com enthusiasmo e cores vivas o esplendor da
+natureza brazileira, a frescura, abundancia e potabilidade das nossas
+aguas, a brandura do clima, a belleza do nosso céo, onde rutilava o
+cruzeiro, referindo-se com interesse e insistencia á indole pacifica
+dos nossos indigenas, aos seus habitos e costumes, á belleza das suas
+formas, á sua completa innocencia, deprehendida da sua completa nudez, e
+á facilidade com que acceitavam a cathechese, parecendo-lhe empresa de
+pequeno esforço fazel-os christãos, chamando-os ao gremio da egreja.
+Tratando dos productos naturaes, descreveu a fauna e a flora que
+encontrou, accentuando que os incolas, haviam dado demonstrações
+evidentes aos da frota de que em terra havia ouro, prata e papagaios.
+
+Descrevendo o que fizeram os indigenas, que acudiram á praia, quando das
+naus partiram as primeiras almadias para o transporte de agua, diz que
+«os indios logo trouxeram cabaças e tomavam alguns barris que nós
+levavamos, enchiam-os de agua e traziam-os aos bateis».
+
+Este trecho da carta de Caminha prova que a frota cabralina começou logo
+por fazer aguada e prova tambem que os indigenas vinham offerecer agua
+aos homens brancos, como se já estivessem habituados a praticar esse
+serviço, repetindo actos praticados anteriormente; o que demonstra que
+não era a primeira vez que viam homens brancos e naus.
+
+A facilidade com que alguns dos naturaes se deixaram capturar e levar a
+bordo da nau capitanea, alli permanecendo e dormindo tranquilamente
+durante uma noite, como narra Caminha, prova ainda que os nossos
+indigenas já estavam familiarizados com os europeus, que já os
+conheciam, que conheciam os seus habitos e costumes, que delles não
+tinham receio.
+
+E isso é ainda uma prova indirecta de que os portuguezes já haviam
+estado no Brazil antes de Cabral aqui chegar. E, de facto, cá estiveram,
+porque já aqui estava João Ramalho, que havia chegado 10 annos antes e
+que tanto facilitou a missão de Martim Affonso, quando este aportou á
+antiga capitania de S. Vicente.
+
+Ao primeiro monte que avistou deu Cabral o nome de Monte Paschoal, á
+terra o nome de Vera Cruz, porque no céo rutilava o cruzeiro, e ao
+porto, onde definitivamente fundeou, o de Porto Seguro. Chegou o domingo
+de paschoela, e, narra Caminha, que o capitão mór deliberou ouvir missa
+e sermão em um ilhéo de Porto Seguro. Logo alli se armou o altar e frei
+Henrique de Coimbra officiou, cercado de todos os padres da frota. Foi
+essa a primeira missa, de que temos noticia exacta e circumstanciada,
+dita no Brazil, que forneceu assumpto para um dos mais bellos e
+suggestivos quadros de Victor Meirelles. Terminada a missa, frei
+Henrique subiu a uma cadeira alta, que lhe serviu de pulpito e dahi
+prégou, fazendo a historia do Evangelho, descrevendo a travessia e pondo
+a terra reconhecida por Cabral sob a protecção da Cruz. Á missa e ao
+sermão assistiram os naturaes que ao ilhéo acudiram e que ao depois,
+folgaram, fraternizando com os tripulantes da frota. Na nau capitanea
+discutiu-se depois se conviria tomar dois indigenas para envial-os ao
+reino, ou se seria preferivel deixar entre elles alguns degredados,
+sendo por grande maioria, adoptado de preferencia este ultimo alvitre,
+pois os degredados, ficando alli, apprenderiam a lingua dos naturaes e
+poderiam servir de interpretes, quando o rei mandasse nova frota ao
+Brazil para o colonizar; accresce que era do plano de Cabral, como foi
+mais tarde do de Martim Affonso, não hostilizar os indigenas, não lhes
+incutir desconfiança alguma, tratando-os com carinho e brandura, sem os
+violentar jámais, para assim não sahir dos preceitos da caridade christã
+e tel-os sempre como alliados. Para os ir habituando á vida com os
+brancos, que deviam ficar definitivamente com elles, foram logo enviados
+á praia e ahi deixados dois degredados, que deviam passar a noite com os
+naturaes; mas estes, sem os molestar, coagiram-nos a voltar ás naus.
+Quando os da frota ergueram num ponto elevado da costa, dominando o mar,
+a primeira cruz, que ficou em terra brazileira e que confirmou o nome de
+Vera Cruz, que Cabral lhe havia dado, os indigenas auxiliaram depois á
+abastecer as naus de lenha e de agua. E quando a maruja beijou a cruz
+erguida, os indios tambem a beijaram, pondo-se de joelhos, gestos que
+levaram Caminha a affirmar «que era gente de tal innocencia que, se os
+intendessemos e elles a nós, seriam logo christãos, porque, segundo
+parece, não têm nenhuma crença». E accrescenta, logo depois, na sua
+luminosa carta ao rei: «se os degredados, que hão de ficar, aprenderem
+bem a sua fala, não duvido, _segundo a santa tenção de vossa alteza_,
+fazerem-se christãos e crerem a nossa santa fé á qual praza Nosso Senhor
+que os traga, porque decerto esta gente é boa e imprimir-se-á
+ligeiramente nelles qualquer cunho que lhe quizerem dar... e, portanto
+v. alteza, pois tanto deseja accrescentar na santa fé catholica, deve
+entender na sua salvação, e prazerá a Deus que com pouco trabalho será
+assim.»
+
+Prova este trecho de carta do escrivão da frota que elle conhecia a
+tenção do rei, que sabia que o seu intento era chamar os naturaes das
+terras, por onde passasse a frota, ao gremio da egreja e que, ao
+contrario do que fizeram Colombo, Pinzon, Hojeda, Lepe e outros, era do
+seu programma assegurar a posse da terra reconhecida, conquistando os
+naturaes pela brandura e carinho, incutindo-lhes a fé christã.
+
+No dia primeiro de maio de 1500, vespera da partida de Cabral para o
+Cabo, nova missa foi dita por frei Henrique de Coimbra, não mais no
+ilhéu em que disséra a primeira, mas junto á cruz erguida em terra e á
+qual foi pregado o escudo das armas de Portugal.
+
+Ainda a essa missa assistiram os indigenas, imitando todos os gestos que
+viram fazer aos portuguezes e, depois do sermão, frei Henrique lançou ao
+pescoço de todos os que alli estavam, pequenos crucifixos de metal, que
+elles beijaram com satisfação e receberam com visivel empenho.
+
+Em seguida, foram-se os mareantes para as naus, deixando em terra dois
+degredados e no dia immediato, 2 de maio, a frota fez-se de véla para o
+Cabo da Boa Esperança, tendo regressado ao reino uma das caravelas,
+capitaneada por Gaspar de Lemos, para levar ao rei a noticia do
+reconhecimento officialmente feito da terra do Brazil e da sua posse
+para a corôa portugueza.
+
+A essa terra, que era conhecida pelo nome de Terra dos Papagaios e que
+Cabral denominou Vera Cruz, poz d. Manoel, em 1502, o nome de Santa
+Cruz, que foi posteriormente substituido pelo de Brazil, devido ao
+grande commercio do pau brazil que ella produzia.
+
+Dando conta, em carta, ao rei da Hespanha do reconhecimento do Brazil
+feito por Cabral, disse d. Manoel: «o capitão deixou alli dois
+degredados á mercê de Deus.» Um dos pilotos da frota explicou depois que
+esses degredados puzeram-se a chorar e que logo os naturaes os animaram,
+mostrando ter piedade delles.
+
+Vaz Caminha, na sua deliciosa carta, revela, que, além desses dois
+degredados, que foram abandonados em terra, dois grumetes da frota para
+ella fugiram e nella ficaram por sua livre vontade, o que significa que
+a gente que a habitava era pacifica e hospitaleira.
+
+Vem talvez dahi a herança dessa proverbial hospitalidade brazileira, que
+tanto surprehende e encanta os estrangeiros que visitam o nosso paiz.
+
+Eis, senhores, como foi descoberto o Brazil e como Cabral, 65 annos
+depois do seu descobrimento, o reconheceu e delle officialmente tomou
+posse para a corôa de Portugal, á qual aliás já pertencia pelo tratado
+de Tordesillas.
+
+Não coube, pois, a Cabral a grande gloria de descobrir o Brazil, mas
+coube-lhe a não pequena gloria de fazer o seu reconhecimento e delle
+tomar posse para o paiz que o descobrira, realizando o memoravel feito
+sem hostilizar os filhos dessas regiões incultas, sem inflingir um
+ligeiro castigo, sem despertar nelles o odio que Colombo e os
+hespanhoes, que depois vieram á conquista da America, accenderam entre
+os indigenas, dizimando-os, submettendo-os a ferro e fogo, caçando-os
+barbara e deshumanamente _com cães amestrados na caça do homem_, como
+quem caça hyenas e lobos!
+
+Essa imperecivel gloria coube a Cabral e basta ella para que se
+justifique o preito de admiração que lhe rendemos, sem olvidar os
+serviços inestimaveis dos seus maiores na busca e descobrimento desta
+terra abençoada.
+
+Bastava a sua caridade christã para com os filhos deste paiz para que
+lhe devessemos o monumento que no Rio de Janeiro se acha erguido em
+frente ao mar glauco e luminoso, perpetuando a sua memoria immaculada e
+a do seu feito incruento.
+
+Com o reconhecimento do Brazil em 1500, fechou Portugal com élo de ouro
+o ciclo grandioso das suas descobertas no seculo XV com as quaes dilatou
+o mundo e fez avançar a civilização.
+
+Nesse seculo de estupenda actividade maritima, em que os lusos
+mareantes, guiados e instigados pela voz prophetica do infante d.
+Henrique, avançaram sem pavor pelo mar immenso e tenebroso, que devia
+estar cheio de escolhos, de bruma negra e povoado de monstros
+assustadores, descobriram elles, caminhando para o desconhecido, a ilha
+da Madeira, as Formigas, todas as ilhas do archipelago dos Açores, todas
+as de Cabo Verde, o mar de Sargaços, uma grande parte do Brazil, uma
+parte da America Central e da America do Norte e, caminhando de ousadia
+em ousadia, dobraram o Cabo das Tormentas, descobriram e atravessaram o
+estreito de Magalhães, fizeram a primeira viagem em redor do mundo,
+apoderaram-se de uma parte da Asia e de uma parte da Africa, enchendo o
+mappa com conquistas suas!...
+
+E tudo isto foi feito do decurso de menos de um seculo por um punhado
+de homens que partiram, affrontando a morte, de uma insignificante nesga
+de terra erguida á beira mar, no occidente da vasta Europa!...
+
+Olhae para o mappa que vos apresento e nelle vereis, em côr vermelha,
+traçada a epopéa desses grandiosos feitos.
+
+Podeis dizer agora commigo, senhores, sem hesitação e com
+ufania:--Gloria aos portuguezes, mestres de Colombo, precursores de
+Colombo, incontestaveis e unicos descobridores do Novo Mundo![5]
+
+[Nota de rodapé 5: Vide _Nota B_ no fim da conferencia.]
+
+ * * * * *
+
+Portuguezes que me ouvis, meus amigos e meus irmãos; a monarchia
+tradicional que, por tantos seculos, regeu os vossos destinos, começou a
+dissolver-se na batalha de Alcacer Kibir, e, combalida, ruiu de todo com
+a quéda e com a fuga do ultimo Bragança, em 5 de outubro de 1910.
+
+Depois de tanta luz offuscante, que o seculo XV projectou da occidental
+praia lusitana, veio a sombra e veio o marasmo, que vos não deixou
+avançar mais.
+
+Dir-se-ia que, desde 1500 até ha pouco, vivestes acorrentados,
+manietados, sem poder dar expansão ao vosso genio irrequieto e
+aventuroso, sem poder tirar partido das conquistas feitas com tanto
+sacrificio e perigo.
+
+Raiou para vós agora a aurora da liberdade com a proclamação da
+Republica em vossa terra.
+
+Uma nova era, promissora e fecunda, apresenta-se, durante a qual podeis
+resgatar os erros de quatro seculos e achar as energias precisas para
+conquistar o antigo esplendor.
+
+Vejo-vos, com pesar, divididos nos campos maninhos da politica esteril,
+da politica dissolvente dos partidos. Que quereis obter com a lucta
+perturbadora neste momento em que a vossa patria mais precisa de paz, de
+dedicações e de tino? A reconquista de um regimen que vos amesquinhou,
+que vos empobreceu, que vos fez descer do alto da columna onde já
+estivestes erguidos, dominando o universe? A reconquista de um regimen
+que vos deu o jugo da Hespanha, por 60 annos, a vergonha da fuga da
+vossa familia real e da sua côrte para o Brazil, e o abandono da vossa
+patria á invasão estrangeira? a reconquista de um regimen que vos deu o
+vergonhoso «ultimatum» de 1890? Sois ainda hoje os depositarios de dois
+legados sagrados, que vos deixou o creador fecundo da Escola de Sagres e
+o grande épico, que, em verso estridente, cantou as vossas glorias e
+descortinou ao mundo o vosso saber e as vossas gloriosas jornadas.
+
+Que quereis fazer dessa herança, levando-a á labareda das vossas
+disputas domesticas? Enfraquecer mais a patria, desprestigial-a, deixar
+que, considerada ingovernavel, vá parar ás mãos do estrangeiro, ávido e
+cobiçoso, que já pensa como repartir entre si o precioso legado do
+previdente infante? Não, não! Deixae o velho regimen sepultado nas
+trévas do passado, cessae as vossas luctas fratricidas, e, unidos todos,
+em blóco, trabalhae pela rehabilitação do vosso formoso paiz, pela
+consolidação das suas actuaes instituições, sendo sempre portuguezes,
+mais portuguezes ainda no regimen da democracia e da liberdade, sendo
+sempre os briosos descendentes de d. Henrique, que mandou a descobrir
+esta formosa terra que, em vinte annos de Republica, tem avançado sempre
+e tem sabido sempre impor-se ao respeito e á admiração das potencias.
+
+Tenho dito.
+
+
+
+
+Notas e Noticias
+
+
+
+
+NOTAS
+
+
+NOTA A
+
+A revista hespanhola _España Moderna_, de Junho de 1910, consagrou um
+longo artigo, á nacionalidade de Colombo e chegou á conclusão de que
+elle era hespanhol, natural de Pontevedra e, portanto, gallego. Entre os
+argumentos apresentados para firmar a sua asserção, cita o facto da
+caravela _Santa Maria_, uma das trez da frota com que Colombo foi ás
+Antilhas, ser appellidada vulgarmente _La Gallega_.
+
+O historiador hespanhol D. Celso Garcia de la Riega, filho de
+Pontevedra, sustentou a affirmação da _España Moderna_ em um longo
+artigo que, posteriormente, em Janeiro de 1911, publicou no _Heraldo_,
+de Madrid.
+
+A Hespanha reclama, pois, para si, a gloria de ter dado nascimento a
+Colombo, que ainda é lá conhecido por Colon.
+
+Todavia, Las Casas, amigo intimo de Colombo, affirma que este era
+genovez e Toscanelli, em uma das suas cartas ao proprio Colombo,
+considera-o portuguez!...
+
+Eis ahi porque dissemos que a nacionalidade de Colombo ainda hoje é
+discutida.
+
+
+
+
+NOTA B
+
+Não se tractou nesta conferencia de Americo Vespucio porque, a despeito
+de affirmarem que elle legou o seu nome á America, della ainda foi menos
+descobridor do que Colombo. Quem se lembrou de baptisar com o nome de
+America a terra, que João Vaz Corte Real e outros navegantes lusos
+descobriram, foi o cosmographo francez Mathias Ringmann que, na sua
+_Cosmographiae introductio in super quatuor Americi navigationes_,
+publicada em 1507, em Saint-Dié, na Alsacia franceza, escreveu:[6]
+
+[Nota de rodapé 6: A Cosmographia de Ringmann foi publicada em Saint-Dié
+a 25 de Abril de 1507. Ringmann falleceu em Strasburgo em 1511. A
+França, querendo perpetuar a leviandade de Ringmann, festejou este anno
+o quarto anniversario da sua morte, sob o pretexto de ter sido elle o
+baptizador do Novo Mundo! Eis ahi como se escreve e como se faz a
+Historia!...]
+
+«No mundo existe mais uma quarta parte que Americo Vespucio descobriu e
+que, por essa razão, poderiamos chamar America, isto é, Terra de
+Americo.»
+
+O alvitre de Ringmann foi aceito e á nova terra descoberta deu-se o nome
+desse usurpador da gloria alheia, que nunca passou de um cosmographo,
+que veio ás terras americanas com Hojeda, muito depois que os Corte
+Reaes, Lavrador, Dulmo, Affonso Sanches e outros navegantes lusos nellas
+estiveram e ainda mesmo depois de Colombo, que já foi um retardatario.
+
+Accresce que ha quem affirme (é o erudito Snr. H. Vart) que o nome
+America, dado ao Novo Mundo, provêm, não do prenome de Vespucio, mas da
+denominação que os indios de Nicaragua davam ás «terras altas» dessa
+região americana de onde extrahiam o ouro que empregavam nos seus
+utensilios e adornos, terras essas que elles chamavam America, expressão
+equivalente a Eldorado ou Terra do Ouro, que, primeiro, os companheiros
+de Colombo e, depois, todos os outros navegadores foram acceitando e que
+serviu para designar, não só as terras altas de Nicaragua, mas todo o
+novo continente.
+
+A ser verdadeira a affirmação de H. Vart, o nome America é de origem
+americana.
+
+
+
+
+NOTA C
+
+A 6 de Maio de 1895, quando eu ainda desconhecia o livro do Snr.
+Faustino da Fonseca, que só veio a lume muitos annos depois, publiquei
+no _O Paiz_ da Capital Federal o seguinte artigo sobre a commemoração
+official da data do pretenso descobrimento do Brazil, feito por Pedro
+Alvares Cabral, em 1500:
+
+«O dia 3 de Maio é officialmente commemorado como data anniversaria do
+descobrimento do Brazil. E todavia é um erro, é um anniversario falso,
+porque a verdadeira data anniversaria desse descobrimento é 22 de Abril,
+pois foi a 22 de Abril de 1500, que Pedro Alvares Cabral, em demanda das
+terras da India, avistou na frente da sua frota um morro elevado da
+terra brazileira para o qual mandou aproar fundeando a seis leguas de
+distancia.
+
+Celebrava então a igreja catholica as festas da Paschoa e d'ahi a razão
+porque Cabral deu a esse morro o nome do Monte Paschoal.
+
+Os historiadores dos seculos XVII e XVIII e notadamente a obra de Fr.
+Gaspar da Madre de Deus é que, no dizer de Pereira da Silva, induziram
+os estadistas fundadores do imperio brazileiro ao erro de estabelecerem
+a data de 3 de Maio como a do descobrimento. Todavia a carta de Pero Vaz
+Caminha, publicada pela Academia Real de Sciencias de Lisboa e escripta
+a el-rei D. Manoel em 1.º de maio de 1500, annunciando-lhe a descoberta
+e os documentos deixados pelo physico-mór da armada de Cabral e por um
+piloto que fazia parte da frota, não deixam duvida sobre o dia exacto em
+que o almirante viu e mandou aproar para a terra brazileira.
+
+Basta a circumstancia de ser a carta de Pero Vaz Caminha, que ia n'uma
+das treze náos da frota de Cabral como futuro escrivão do almoxarifado
+que o almirante devia fundar nas Indias, datada de 1.º de maio, para
+tornar patente a impossibilidade do descobrimento a 3 desse mez. Nessa
+carta, onde Vaz Caminha dá conta do descobrimento, lê-se que elle foi
+effectuado a 22 de abril. Nesse dia, que era uma quarta-feira, Cabral
+limitou-se a approximar-se de terra, fundeando ás 4 horas da tarde, em
+ponto em que havia 19 braças de profundidade. Só no dia seguinte, 23 de
+abril, aproximou-se mais de terra com as precisas cautelas e, ao chegar
+á desembocadura de um rio, mandou que Nicoláo Coelho fosse em uma
+almadia explorar as plagas que se avistavam da frota. Partiu Coelho e
+vendo homens nús na praia, sem comtudo desembarcar, atirou-lhes alguns
+objectos que levara comsigo e delles recebeu outros em troca,
+entabolando assim relações amistosas com os naturaes da terra.
+
+Voltou a bordo e deu conta do succedido ao almirante. Nessa noite,
+porém, levantou-se forte vento do sueste e Cabral, não se considerando
+seguro no ponto em que estava, tratou de procurar um ancoradouro para
+abrigo dos navios e, continuando a navegação em rumo de norte, mas
+sempre á vista da costa, foi fundear de novo, dez leguas adiante, em
+uma bella enseada á qual deu o nome de Porto Seguro. Isto passava-se
+n'uma sexta-feira, 24 de abril de 1500. Essa enseada, mais tarde, passou
+a denominar-se bahia Cabralia, sendo transferido o seu primitivo nome de
+Porto Seguro para a povoação que se fundou nas suas proximidades.
+
+Na enseada de Porto Seguro appareceu logo uma piroga com indigenas e,
+aos poucos, a costa foi-se enchendo de gentios, manifestando intenções
+pacificas. Só no dia 25 o almirante dirigiu-se a terra. No dia 26, que
+era domingo de Paschoela, foi erguido um altar em terra e ahi celebrada
+a primeira missa no Brazil, acontecimento este que Victor Meirelles
+celebrisou e commemorou n'um magnifico quadro, o melhor e o mais
+commovente que o seu pincel produziu.
+
+A essa missa assistiu o gentio que dansou e cantou após a cerimonia,
+fraternisando com os portuguezes.
+
+Só no dia 1.º de maio é que o almirante resolveu dar conta a D. Manoel
+do seu feito e nesse dia, depois de mandar dizer segunda missa, tomou
+posse official da terra e despachou para Lisboa a nao que devia levar ao
+rei a noticia da nova terra descoberta, a que elle deu o nome de Vera
+Cruz, mais tarde substituido por Santa Cruz e ainda depois por Brazil.
+
+Foi nessa nao, commandada por Gaspar Lemos, que seguiu para o reino a
+carta de Pero Vaz Caminha escripta nesse mesmo dia 1.º de maio de 1500.
+
+Tal é, em resumo, a narração contida nos tres documentos da época, aos
+quaes allude com interesse e perfeito conhecimento do assumpto o
+conselheiro Pereira da Silva na segunda serie dos interessantes
+escriptos que denominou _A Historia e a Legenda_.
+
+Ora, se isto é assim, se hoje não pode restar mais duvida a ninguem, em
+presença desses documentos do seculo XVI, que determinam com perfeita
+exactidão a data da chegada de Cabral ao Brazil, por que havemos de
+conservar officialmente um anniversario falso, que, se ao tempo em que
+foi decretado pelos estadistas fundadores do imperio, se justificava
+pela ignorancia em que viviam desses documentos, não se justifica nem se
+explica mais hoje, que estão publicados e ao alcance de toda a gente?
+
+É que os estadistas da Republica, que conservaram o erro, fundam-se na
+correcção que soffreu o calendario Juliano mandado executar pelo papa
+Gregorio XIII, que, em 1582, mandou supprimir 10 dias a esse anno,
+ordenando que o dia 5 de outubro fosse designado pelo numero 15, o
+immediato 16 e assim por diante, encurtando esse anno de dez dias para
+compensar a differença para mais desse mesmo espaço de tempo, que o
+calendario Juliano já accusava no fim do seculo XVI.
+
+E assim, em virtude dessa corrigenda, o dia 22 de abril de 1500 passou a
+ser, em qualquer dos annos posteriores a 1582, correspondente ao dia 3
+de maio.
+
+Mas tal razão será sufficiente para manter na tradição popular uma
+crença falsa? Pensamos que não. Officialmente, o dia consagrado como
+data anniversaria do descobrimento do Brazil é o dia 3 de maio. E assim
+o povo, que não sabe das correcções que soffreu o calendario Juliano,
+nem dos motivos que as determinaram, fica persuadido que effectivamente
+foi no dia 3 de maio de 1500 que se realizou o descobrimento, quando os
+documentos do seculo XVI, que as historias populares do Brazil já
+registram, não consignam tal data, mas sim a de 22 de abril.
+
+Sou de parecer que, se ao tempo da descoberta ainda não existia no
+calendario Juliano a correcção ordenada por Gregorio XIII, que só se
+realizou 82 annos depois, se para Pedro Alvares Cabral o dia desse feliz
+successo foi o de 22 de abril, essa é a data que deve ser officialmente
+consagrada para assim manter-se na tradição popular.
+
+De 1500 a 1582 acontecimentos houve que ficaram registrados na historia
+da nossa terra e, todavia, ninguem se lembrou de applicar aos seus
+respectivos anniversarios a correcção ordenada por Gregorio XIII,
+limitando-se a corrigenda tão sómente ao successo, isto é, á data da
+chegada de Cabral ao Brazil.
+
+Ora, uma de duas, ou os estadistas da Republica têm de mandar fazer uma
+revisão completa de todas as datas mais ou menos celebres da historia, e
+principalmente da nossa, no periodo comprehendido entre 1500 e 1582, ou,
+para serem coherentes, têm de mantel-as taes como ainda hoje a tradição
+as conserva; mas, nesse caso, preciso se torna que a consagração do
+feito de Cabral seja feita não mais a 3 de maio, mas sim a 22 de abril.
+
+Tal é o meu modo de ver, salvo melhor juizo.»
+
+GARCIA REDONDO
+
+
+
+
+NOTICIAS
+
+
+Conferencias portuguezas
+
+Não podia ser mais auspiciosa a inauguração da primeira série das
+conferencias portuguezas, promovidas pelo Centro Republicano Portuguez
+desta capital.
+
+A despeito da noite fria e chuvosa, o amplo salão do Instituto Historico
+e Geographico encheu-se completamente, de uma assistencia distincta e
+brilhante, quer pela quantidade, quer pela qualidade.
+
+Além de muitas senhoras e senhoritas, compareceram tambem á primeira
+conferencia do Centro Republicano Portuguez os srs. Jacques Dupas,
+consul da França, Daniel Monteiro de Abreu, consul do Paraguay e
+encarregado de negocios de Portugal, o representante do sr. general
+Ferreira de Abreu, inspector da decima região militar, o dr. Paula
+Souza, director da Escola Polytechnica, commendador Mondim Pestana,
+official de gabinete do sr. dr. secretario do interior, dr. Bettencourt
+Rodrigues, dr. Rodolpho de Santiago, dr. Ricardo Severo, dr. Eugenio
+Egas, e muitas outras pessoas gradas.
+
+O sr. Antonio Luiz Gomes, Ministro de Portugal, chegou ao Instituto
+Historico ás 8 e meia da noite, em companhia do dr. Bartholomeu
+Ferreira, secretario da Legação Portugueza, sendo recebido á porta pela
+directoria do Centro.
+
+Em seguida, s. exa. foi introduzido no salão pelos srs. drs. Bettencourt
+Rodrigues e Ricardo Severo, tomando assento na mesa, ao lado da
+directoria do Centro, e tendo á sua esquerda o dr. Bettencourt
+Rodrigues.
+
+Abrindo a sessão, o sr. Joaquim Dias da Cunha Barbosa, presidente do
+Centro R. Portuguez, explicou o fim das conferencias portuguezas,
+dizendo que, antes de apresentar á assistencia o conferencista sr. dr.
+Garcia Redondo, cumpria lhe o dever de agradecer á directoria do
+Instituto Historico, que promptamente poz á disposição do Centro o seu
+salão, afim de ahi serem realisadas as conferencias. Agradece tambem a
+honrosa visita do sr. ministro portuguez, que, com sua presença, veio
+dar maior solennidade á primeira conferencia.
+
+Alludindo á pessoa do conferencista, o sr. presidente diz que o dr.
+Garcia Redondo é por demais conhecido do auditorio que, sobejamente,
+conhece a sua bagagem literaria, pelo que se dispensa de apresental-o.
+
+Em seguida, é dada a palavra ao sr. dr. Garcia Redondo para proceder á
+leitura de sua conferencia sobre «O descobrimento do Brasil--Prioridade
+dos portuguezes no descobrimento da America.»
+
+Por ser muito longo o trabalho do dr. Garcia Redondo, e não dispomos,
+hoje, do necessario espaço, só amanhan poderemos dar na integra a sua
+conferencia.
+
+As ultimas palavras do conferencista foram abafadas com uma grande
+salva de palmas, sendo s. s. abraçado e cumprimentado pela directoria do
+Centro e pelo sr. ministro de Portugal.
+
+Antes de ser encerrada a sessão, o sr. ministro de Portugal solicita a
+palavra pronunciando um discurso do qual damos o resumo que se segue:
+
+O sr. Antonio Luiz Gomes começa dizendo que não vinha com a intenção de
+tomar a palavra nesta assembléa. Vinha apenas, na qualidade de
+representante do seu paiz, trazer as saudações mais affectuosas ao
+Gremio Republicano Portuguez de S. Paulo e aos iniciadores destas
+magnificas conferencias.
+
+«Quando vi o assumpto de que se ia tratar, diz o orador, despertou-se
+logo no meu espirito e na minha alma a certeza absoluta de que estas
+conferencias deviam ter uma influencia muitissimo grande na pacificação
+dos espiritos dos portuguezes, um pouco revoltados, e que ellas teriam,
+como conclusão final, approximar ainda mais a familia portugueza da
+familia brazileira.
+
+E, senão bastara isso, eu tambem não podia conservar-me calado depois de
+ouvir a palavra brilhantissima do sr. dr. Garcia Redondo. Seria uma
+crueldade, uma injustiça que eu, em publico, deixasse de attestar, não
+só o meu reconhecimento, mas, o que é mais, o reconhecimento do meu
+paiz, por este formosissimo e esplendido trabalho. (Muito bem).
+
+Se por ventura o nome do dr. Garcia Redondo não fosse sufficientemente
+conhecido, não só nas boas letras, como na sciencia, bastava esta
+conferencia para justificar o elevadissimo conceito em que o seu nome é
+tido entre portuguezes e brazileiros.
+
+Trabalho magnifico, soberbo, onde se alliam, indiscutivelmente, altos
+pensamentos com uma forma burilada e perfeita, e que vem coroar a sua já
+larga obra na sciencia e nas letras.
+
+E depois de prestar um enorme serviço, de vir levantar a minha patria á
+altura a que indiscutivelmente ella tem direito, porque Portugal, embora
+pequeno como disse s. exa., aquella mancha pequena, que se encontra no
+ponto occidental da Europa, prestou serviços á humanidade, e á
+civilisação humana, que, positivamente, não foram excedidos por povo
+algum do mundo. (Muito bem.)
+
+A civilisação do mundo, meus senhores, firma-se em tres peninsulas, nos
+tres pontos que observaes naquelle mappa.
+
+Se na Grecia nasce a civilisação, nascem as artes, a philosophia, a
+sciencia; se naquella peninsula italica nasce o direito, porque o
+direito romano, pode-se dizer, é a propria razão humana feita lei; foi
+naquella pequenina peninsula iberica, naquelle extremo do occidente,
+que, numa época em que os grandes povos de hoje viviam uma vida
+inteiramente apagada, numa época em que a valorosa Inglaterra ainda não
+tinha historia; em que a Allemanha apenas se preparava para esse
+movimento augusto e sublime que proclamava perante o mundo inteiro a
+liberdade de consciencia; em que a França fazia os ultimos retoques na
+sua lingua e se preparava para escrever paginas brilhantissimas sobre a
+historia da humanidade, é certo, entretanto, que nenhuma dellas, por
+assim dizer, tinha ainda firmada a sua civilisação.
+
+Por esse tempo, naquelle «pontinho» se levantava um povo pequenino de
+lavradores e de guerreiros, que deixava a patria, para levar o pendão
+das Quinas aos extremos mais remotos, aos confins do mundo.
+
+Essa historia é assombrosa: é inacreditavel.
+
+Custa a acreditar que esse povo, como disse um dos grandes philosophos
+contemporaneos, Max Nordau, fosse o precursor em todos os grandes
+acontecimentos.
+
+Elle tinha dispersado os arabes sem que a Hespanha o conseguisse em
+duzentos annos.
+
+É que durante esse tempo a essa grande raça nada faltava: tinha força,
+tinha talento, tinha sciencia.
+
+Foi precisamente esse povo pequenino que deixou sementes por toda a
+parte da grandesa do genio de sua raça.
+
+Por isso, meus senhores, espero que a invocação do dr. Garcia Redondo
+produza bem rapidamente seus frutos.
+
+Estas lutas não podem continuar, e não podem continuar, sobretudo, no
+campo em que infelizmente foram postas.
+
+Eu, quando vim representar a Republica Portugueza, não vim com o desejo
+de que todos os portuguezes se fizessem republicanos: não precisamos de
+tanto. A unica coisa que desejamos, que eu desejo, como patriota, é que
+todos sejamos bons portuguezes. (Muito bem, muito bem.)
+
+Eu louvo até, com a franqueza que me caracteriza, que hajam convicções
+monarchicas no meio de portuguezes. O que é necessario é que os
+republicanos respeitem os monarchistas e que os monarchistas respeitem
+os republicanos (Muito bem).
+
+O que nós pedimos é muito pouco: é que nunca confundam as glorias da
+patria, da terra onde nasceram com as pequeninas paixões que possam
+viver no nosso espirito. (Muito bem, muito bem).
+
+E, posta a luta nestes termos, como é facil todos nos entendermos! Basta
+que cada um de nós se esforce para ser o melhor portuguez que possa ser;
+trabalhe pelo engrandecimento do seu paiz; honre o nome portuguez por
+toda a parte; defenda as suas convicções politicas, mas honradamente,
+honestamente.» (Muito bem. Palmas).
+
+Depois de varias considerações termina o sr. Antonio Luiz Gomes.
+
+«Para realisar a nossa obra não queremos que todos sejam republicanos; o
+que queremos apenas é que ninguem se esqueça que a patria está acima das
+paixões de cada um. (Muito bem).
+
+E eu estou convencido de que esse tempo vae chegar rapidamente.
+
+A Republica vae, dentro de pouco tempo, ter a sua constituinte, a sua
+constituição.
+
+Nas ultimas eleições, que foram feitas em condições excepcionaes, depois
+de uma revolução, depois de boatos aterradores, a Republica já teve a
+sua consagração.
+
+Nunca as urnas portuguezas foram tão concorridas como neste momento: 80
+por cento do corpo eleitoral de Lisboa foi votar.
+
+O Porto, considerado como reaccionario, não para nós republicanos,
+porque foi precisamente lá que tiveram inicio todos os grandes
+movimentos de Portugal, no proprio Porto, a votação foi maior do que em
+qualquer outro ponto.
+
+Portanto, todos vêm a situação definida e clara em que se encontra hoje
+Portugal.
+
+Vindo a S. Paulo, eu dirijo as minhas saudações mais affectuosas não só
+ao povo de S. Paulo, mas tambem á auctoridades do Estado, que nos deram
+a alta honra de se fazer representar nesta conferencia, e remato por
+agradecer a todas as senhoras, a todos os cidadãos que aqui vieram e,
+finalmente de novo, dirijo os meus agradecimentos mais sinceros e
+profundos ao dr. Garcia Redondo, não só em meu nome, como no de
+Portugal, que tenho a honra de representar.»
+
+As ultimas palavras do dr. Antonio Luiz Gomes foram abafadas com uma
+estrepitosa e prolongada salva de palmas da grande assistencia.
+
+(_Noticia do_ ESTADO DE S. PAULO _de 4 de Junho de 1911_).
+
+
+Conferencias portuguezas
+
+Em carro reservado ligado ao nocturno de luxo, chegou hontem a esta
+capital, conforme era esperado, o dr. Antonio Luiz Gomes, ministro de
+Portugal junto ao nosso governo, acompanhado de seu secretario, sr. dr.
+Bartholomeu Ferreira.
+
+Á noite s. exc. assistiu á conferencia que o sr. dr. Garcia Redondo, com
+grande successo e brilhantismo, realizou no salão nobre do Instituto
+Historico e Geographico, tendo por thema: «O descobrimento do Brazil e a
+prioridade dos portuguezes no descobrimento da America».
+
+Publicaremos amanhã, na integra, esse importante trabalho do distincto
+membro da Academia Brazileira de Letras, que foi, pelo successo que
+alcançou, vivamente applaudido e felicitado.
+
+Depois da conferencia do dr. Garcia Redondo, o dr. Antonio Luiz Gomes,
+usou da palavra, produzindo bellissima allocução, durante a qual era
+constantemente interrompido por estrepitosa salva de palmas.
+
+(_Noticia do_ SÃO PAULO _de 4 de Junho de 1911_).
+
+
+Conferencias portuguezas
+
+No salão nobre do Instituto Historico e Geographico de S. Paulo,
+realizou-se hontem á noite, conforme se annunciára, a primeira
+conferencia da série promovida pelo Centro Republicano Portuguez, desta
+capital.
+
+Coube o inicio das conferencias ao dr. Garcia Redondo, que tomou por
+thema de sua oração--«O descobrimento do Brazil» «Prioridade dos
+portuguezes, no descobrimento da America».
+
+Precisamente ás 8 horas e meia, constituida a mesa da presidencia pelo
+sr. Joaquim Dias da Cunha Barbosa, tendo a seu lado o ministro
+plenipotenciario de Portugal no Rio de Janeiro, sr. Dr. Antonio Luiz
+Gomes, que para tal fim veio a esta capital; dr. Bitencourt Rodrigues, e
+membros da directoria do Centro Republicano Portuguez, era o
+conferencista introduzido no salão, que já regorgitava de numerosos
+cavalheiros e gentilissimas senhoras e senhoritas.
+
+Pudemos mesmo notar entre os assistentes, os seguintes:
+
+Commendador Tiburtino Mondim Pestana, segundo-tenente Carlos Rocha,
+representando o general Ferreira de Abreu, inspector da 10.ª região
+militar, com séde nesta capital; major Arthur da Graça Martins,
+secretario do commando geral, da Força Publica; Jacques Dupas, consul da
+França, e sua familia; commendador Daniel Monteiro de Abreu, consul do
+Paraguay e encarregado do consulado de Portugal; dr. Eugenio Egas,
+Arthur Vautier, Nestor Rangel Pestana, Gelasio Pimenta, José Vicente
+Sobrinho, dr. Antonio Francisco de Paula Sousa, director da Escola
+Polytechnica; dr. Rodolpho S. Thiago, lente da mesma escola; dr. Ricardo
+Severo, dr. Leopoldo de Freitas, consul de Guatemala, dr. Alfredo
+Redondo, dr. Manoel Redondo, Jayme Redondo e sua familia.
+
+Abriu a sessão o sr. Cunha Barbosa.
+
+Referiu-se s. s. com palavras elogiosas ao dr. Bettencourt Rodrigues, de
+quem partira a idéa das conferencias, cujo grande valor salientou, pois
+ellas viriam cada vez mais estreitar os vinculos que unem os dois povos
+portuguez e brazileiro.
+
+Saudava a patria portugueza, alli directamente representada na pessoa do
+seu ministro plenipotenciario, cuja presença, agradecia.
+
+Á directoria do Instituto Historico e Geographico agradecia tambem,
+penhorada, a gentileza de haver cedido o salão da sua séde, para a
+realização da conferencia.
+
+Isto dito, e como não desejava prender por mais tempo a attenção do
+auditorio, naturalmente ancioso, dava a palavra ao dr. Garcia Redondo,
+cuja apresentação julgava desnecessario fazer, pois tinha absoluta
+certeza de que nem uma só pessoa alli presente, desconhecia, quer
+através da imprensa ou da literatura, os altos meritos do conferencista.
+
+Uma prolongada salva de palmas ecôa pela sala.
+
+Levanta-se então o dr. Garcia Redondo que começa agradecendo aos
+circumstantes a sua temeridade em affrontar os rigores daquella noite
+humida e fria, não para ouvir a sua modesta palavra, pois não tinha
+sobre isso illusão alguma, mas para corresponder ao appello que lhes
+dirigiram os promotores daquella conferencia.
+
+Sobretudo, era-lhe grato constatar alli a presença das representantes do
+sexo gentil, que á festa emprestavam a nota brilhante.
+
+Diz que o thema da sua conferencia havia sido para elle objecto de
+longos e profundos estudos. Poderia por isso dissertar sobre elle sem
+ter necessidade de ler, nem mesmo simples annotações.
+
+Mas, importando o que tinha de dizer responsabilidades que queria
+assumir e receiando que a memoria o trahisse, considerava mais prudente
+ler a sua conferencia.
+
+Em seguida, offerece alguns esclarecimentos sobre um grande mappa que
+está ao seu lado, e que elle organizou para illustrar a conferencia, e
+entra finalmente no assumpto.
+
+Ás ultimas palavras da brilhante oração do dr. Garcia Redondo, uma
+calorosa e prolongada salva de palmas se fez ouvir no salão.
+
+S. s. foi distinguido com a offerta de um lindo «bouquet» de flôres
+naturaes.
+
+Levantou-se então o ministro plenipotenciario da Republica de Portugal,
+sr. Antonio Luiz Gomes.
+
+Recáe sobre a sala um profundo silencio.
+
+O illustrado diplomata começa affirmando que não comparecera áquella
+reunião com o intuito de falar.
+
+Mas, cumpria-lhe o dever de agradecer em nome de Portugal, que tinha a
+honra de representar, o bello trabalho do dr. Garcia Redondo.
+
+Tratando da moderna phase da sua patria, fala sobre o Portugal antigo,
+cujos feitos enchem as paginas da historia universal.
+
+Refere-se á Monarchia, dizendo que ella teve tempo mais que sufficiente
+para demonstrar a capacidade dos seus homens.
+
+Por occasião do assassinato de d. Carlos, levaram os republicanos a sua
+generosidade ao ponto de prestigiar--sem o sacrificio, porém, das suas
+convicções politicas--as instituições então vigentes, desde que isso
+concorresse para o bem do paiz.
+
+Entretanto a Monarchia mostrou-se impotente; nada fez porque nada poude
+fazer para manter o prestigio de Portugal.
+
+As crises ministeriaes succediam-se de um modo assustador e a situação
+chegou a tal ponto que só a Republica poderia salvar as gloriosas
+tradições do paiz.
+
+E a Republica veio, não a Republica do terror, das perseguições, como
+apraz aos boateiros vulgares, mas a Republica que tem por lemma o
+levantamento moral do tradicional paiz das quinas.
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's O Descobrimento do Brazil, by Garcia Redondo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL ***
+
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+ http://www.gutenberg.org/2/4/3/4/24344/
+
+Produced by Ricardo F. Diogo, Júlio Reis and the Online
+Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
+file was produced from images generously made available
+by The Internet Archive)
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+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
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+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
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+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
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+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
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+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
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+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
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+Foundation as set forth in Section 3 below.
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+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
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+works, and the medium on which they may be stored, may contain
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+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
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+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+The Project Gutenberg EBook of O Descobrimento do Brazil, by Garcia Redondo
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+Title: O Descobrimento do Brazil
+ Prioridade dos Portugueses no Descobrimento da America
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+Author: Garcia Redondo
+
+Release Date: January 17, 2008 [EBook #24344]
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+Language: Portuguese
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL ***
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+Produced by Ricardo F. Diogo, Júlio Reis and the Online
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+<p>
+<a href="#O_DESCOBRIMENTO_DO_BRAZIL"><b>O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL</b></a><br />
+<a href="#NOTAS"><b>NOTAS</b></a><br />
+<a href="#NOTICIAS"><b>NOTICIAS</b></a><br />
+</p>
+<!-- End Autogenerated TOC. -->
+<p>Notas de transcrição:</p>
+<ul>
+<li><a href="#Page_26">Pg 26</a>: aspas abertas antes de "a terra achada"; original não tinha aspas.
+</li>
+<li><a href="#Page_28">Pg 28</a>: em "carta regia de D. João I" trata-se, na verdade, do rei D. João II (não corrigido).
+</li>
+<li><a href="#Page_37">Pg 37</a>: substituido "em 1742, vinte annos antes de Colombo" por "em 1472,
+..."; havia sido corrigido à mão na cópia digitalizada que serviu de base a esta transcrição.</li>
+</ul>
+</div>
+
+
+
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_3" id="Page_3">[Pg 3]</a></span></p>
+<div class="bbox">
+<h3 class="smcap">Garcia Redondo</h3>
+<p class="center">(DA ACADEMIA BRASILEIRA)</p>
+
+<h1>O DESCOBRIMENTO<br />DO<br />BRAZIL</h1>
+
+<h3>PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES
+NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA</h3>
+<hr />
+
+<p>Primeira conferencia da serie organisada pelo
+Centro Republicano Portuguez de S&atilde;o Paulo,
+realizada no Instituto Historico e Geographico
+de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911</p>
+<hr />
+
+
+<p class="center">S&Atilde;O PAULO<br />
+CASA VANORDEN</p>
+<p class="center">1911</p>
+</div>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_5" id="Page_5">[Pg 5]</a></span>
+</p>
+<div class="bbox">
+<h3 class="smcap">Garcia Redondo</h3>
+<p class="center">(DA ACADEMIA BRASILEIRA)</p>
+
+
+<h1>O DESCOBRIMENTO<br />DO<br />BRAZIL</h1>
+
+<h3>PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES
+NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA</h3>
+<hr />
+
+<p>Primeira conferencia da serie organisada pelo
+Centro Republicano Portuguez de S&atilde;o Paulo,
+realizada no Instituto Historico e Geographico
+de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911</p>
+<hr />
+
+
+<p class="center">S&Atilde;O PAULO<br />
+CASA VANORDEN</p>
+<p class="center">1911</p>
+</div>
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_7" id="Page_7">[Pg 7]</a></span></p>
+<p>Assistiram a esta conferencia, al&eacute;m do ministro de
+Portugal, Snr. Dr. Antonio Luiz Gomes, e do seu secretario,
+Dr. Bartholomeu Ferreira, que do Rio de Janeiro
+vieram especialmente para esse fim, o consul da Fran&ccedil;a,
+Snr. Jacques Dupas e sua familia, os consules de Portugal
+em S. Paulo e Santos, os consules do Paraguay e
+da Guatemala, os representantes do Governo do Estado
+e do Governo Federal, a directoria e membros do Centro
+Republicano Portuguez de S. Paulo, o director e muitos
+lentes da Escola Polytechnica, uma parte da directoria
+e muitos socios do Instituto Historico e a fina flor da
+sociedade culta e da colonia portugueza de S. Paulo.</p>
+
+
+<div class="blockquot"><p>Esta conferencia &eacute; impressa no formato do livro <i>Conferencias</i> do
+auctor para que possa ser annexada a esse livro.</p></div>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_9" id="Page_9">[Pg 9]</a></span></p>
+<h2><a name="O_DESCOBRIMENTO_DO_BRAZIL" id="O_DESCOBRIMENTO_DO_BRAZIL"></a>O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL</h2>
+<h3>Prioridade dos portugueses no descobrimento da America</h3>
+
+
+<div class="blockquot"><p><i>O orador, depois de agradecer a presen&ccedil;a do numeroso
+e luzido auditorio, que affluiu ao sal&atilde;o do Instituto Historico
+para ouvir a sua palavra rude e, depois de varias explica&ccedil;&otilde;es
+que deu sobre o grande mappa que organisou para illustrar e
+esclarecer a sua conferencia, diz:</i></p></div>
+
+<p><i>Minhas senhoras, meus senhores:</i></p>
+
+<p>Na minha ultima viagem ao Velho Mundo,
+em 1906, achando-me na Suissa e querendo
+visitar a exposi&ccedil;&atilde;o internacional de Mil&atilde;o, em
+vez de fazer a viagem directa e curta, indo de
+Genebra, onde estava, a Montreux e de Montreux
+a Mil&atilde;o, preferi fazer uma grande volta,
+indo de Genebra a Lyon e a Marselha e percorrendo
+depois toda essa extensa e deliciosa costa
+do Mediterraneo que se chama C&ocirc;te d'Azur.</p>
+
+<p>Para que? Para entrar na Italia por Genova
+e prestar, antes de tudo, a minha homenagem
+<span class='pagenum'><a name="Page_10" id="Page_10">[Pg 10]</a></span>de americano &aacute; memoria de Christovam Colombo,
+visitando a casa onde elle nasceu.</p>
+
+<p>Alli fui, pois, e alli estive no vetusto predio, onde,
+em 1450, viu a luz do dia o audacioso genovez,
+conforme reza a placa commemorativa collocada
+entre duas janellas antigas desastradamente vestidas
+&aacute; moderna com venezianas verdes.</p>
+
+<p>At&eacute; ent&atilde;o, eu suppunha, pelo que sabia, pelo
+que havia lido, que Christovam Colombo era o
+descobridor da America, assim como suppunha
+tambem que Pedro Alvares Cabral era o descobridor
+do Brazil.</p>
+
+<p>Mas, veio-me depois &aacute;s m&atilde;os um livro&mdash;<i>A
+descoberta do Brazil</i>&mdash;do sr. Faustino da Fonseca,
+e esse livro precioso, feito com o nobilissimo
+intuito de reivindicar para Portugal a gloria completa
+do descobrimento do Novo Mundo, livro
+que, em abono da civiliza&ccedil;&atilde;o portugueza, que, em
+abono dos nossos maiores, deveria ser traduzido
+em todas as linguas vivas para ser distribuido
+em todas as escolas do universo, veio mostrar-me,
+&aacute; luz de documentos authenticos e irrefutaveis,
+que nem o navegante genovez foi o primeiro a
+chegar ao Novo Mundo, nem Cabral o primeiro
+a achar essa parte do Novo Mundo que se chama
+o Brazil.</p>
+
+<p>Colombo e Cabral&mdash;o primeiro ao aportar,
+em 1492, &aacute;s Antilhas, e o segundo, em 1500,
+&aacute; costa brazileira, n&atilde;o fizeram mais do que <i>reconhecer
+e tomar posse</i> officialmente de terras que
+<span class='pagenum'><a name="Page_11" id="Page_11">[Pg 11]</a></span>muitos annos antes j&aacute; haviam sido descobertas
+por navegantes portuguezes.</p>
+
+<p>Baseia-se o precioso livro do sr. Faustino da
+Fonseca em doa&ccedil;&otilde;es feitas pelos reis portuguezes
+aos primeiros navegantes que sulcaram o Atlantico,
+em tratados de limites, em correspondencias
+officiaes, roteiros, mappas, rela&ccedil;&otilde;es, cartas de
+testemunhas dos acontecimentos e outros documentos
+que o autor, no seu louvavel ardor patriotico,
+foi descobrir e copiar com uma paciencia
+de benedictino nos archivos hespanh&oacute;es e a&ccedil;orianos
+e na Torre do Tombo.</p>
+
+<p>&Eacute; com esse fanal em punho, que d&aacute; por
+terra com todas as lendas, todos os erros e embustes
+dos historiadores que precederam o sr.
+Fonseca, que eu venho, hoje, na medida das minhas
+fracas for&ccedil;as, ajudal-o a reivindicar para
+Portugal, n&atilde;o a gloria de haver descoberto o
+Brazil s&oacute;mente, mas tambem a gloria de haver
+descoberto a America.</p>
+
+<p>Oxal&aacute; seja esse meu auxilio efficaz, oxal&aacute; possa
+elle levar a convic&ccedil;&atilde;o ao animo dos que me
+ouvem e dos que me lerem, para que possamos
+dizer todos, <i>una voce</i>, e fazendo a justi&ccedil;a tardia
+a que tem direito a velha civiliza&ccedil;&atilde;o portugueza:
+Gloria a Portugal, descobridor do Novo Mundo!</p>
+
+<hr style='width: 45%;' /><p><span class='pagenum'><a name="Page_12" id="Page_12">[Pg 12]</a></span></p>
+
+<p>Os conhecimentos geographicos dos antigos
+eram limitadissimos, n&atilde;o conhecendo os europeus
+mais do que duas ter&ccedil;as partes do seu continente,
+o norte da Africa e o sudoeste da Asia,
+acreditando Ptolomeu que a Africa se estendia
+at&eacute; ao polo antarctico, reduzindo assim o Oceano
+Indico a um simples lago ou pequeno mar interior.
+Nessa &eacute;poca, o que se chama India comprehendia
+a Indo-China, o Indost&atilde;o, as ilhas e
+regi&otilde;es do extremo Oriente. Era a India considerada
+como um paiz de fabulosas riquezas e
+nella dizia-se que habitava o Prestes Jo&atilde;o, soberano
+Christ&atilde;o, que reunia o poder temporal ao
+espiritual e era o summo pontifice do Oriente.</p>
+
+<p>O Oceano Atlantico era tratado por mar tenebroso
+e considerado innavegavel, povoado por
+monstros, coalhado de escolhos, coberto de nevoa
+densa. Era um mar onde, para uns, reinava a
+eterna calmaria podre, para outros, era constantemente
+a&ccedil;outado por violentos tuf&otilde;es, de sorte
+que era uma barreira &aacute; communica&ccedil;&atilde;o entre os
+dois hemispherios.</p>
+
+<p>N&atilde;o contentes de limitar a t&atilde;o pouco os seus
+conhecimentos geographicos, os antigos inventavam
+lendas, semeavam o oceano de ilhas imaginarias,
+de estatuas e de columnas, que impediam
+os navegantes de marchar.</p>
+
+<p>As columnas de Hercules fechavam o caminho
+<span class='pagenum'><a name="Page_13" id="Page_13">[Pg 13]</a></span>do Atlantico, outras duas columnas erguiam-se
+num estreito, impedindo a entrada do mar da
+India. A phantasia n&atilde;o tinha diques e os mappas,
+principalmente o de Marco Polo, marcavam
+milhares de ilhas em algumas das quaes se localizava
+o paraiso, o purgatorio e o inferno! Na
+ilha de Salom&atilde;o, onde se dizia estar o cadaver
+desse rei mulherengo, num maravilhoso palacio,
+tres estatuas faziam retroceder o navegante sob
+pena de morte. O cabo Bojador era um ninho
+de serpentes e na ilha de Ceyl&atilde;o estava o tumulo
+de Ad&atilde;o!</p>
+
+<p>Ainda em 1375 a costa africana s&oacute; era conhecida
+de Ceuta at&eacute; ao Cabo Bojador, e ainda em
+1436, j&aacute; em pleno seculo XV, o mappa de Andr&eacute;
+Bianco, um mixto de christianismo e de paganismo,
+reproduz as lendas e figuras da edade
+m&eacute;dia, collocando Jerusal&eacute;m no centro do mundo
+e determinando o local do paraiso terrestre!...
+Toda a terra conhecida resumia-se num unico
+continente. Tudo mais eram ilhas entre as quaes
+estava a de Cypango, onde Colombo julgou ter
+chegado em 1492, quando aportou &aacute;s Antilhas.</p>
+
+<p>Lendas de origem portugueza s&oacute; havia duas&mdash;a
+do gigante Adamastor, no Cabo das Tormentas,
+que o grande &eacute;pico dos Lusiadas t&atilde;o
+lindamente narrou em verso sonoroso, e a do
+cavalleiro de pedra, na ilha do Corvo&mdash;mas
+este, ao contrario dos outros que intimavam o
+navegante a retroceder, mandava-o avan&ccedil;ar, apon<span class='pagenum'><a name="Page_14" id="Page_14">[Pg 14]</a></span>tava-lhe
+o caminho a seguir, demandando novas
+regi&otilde;es.</p>
+
+<p>Taes eram os conhecimentos geographicos at&eacute;
+ao primeiro ter&ccedil;o do seculo XV.</p>
+
+<p>Foi ent&atilde;o que appareceu o famoso projecto
+do infante d. Henrique, projecto que revolucionou
+o systema do mundo.</p>
+
+<p>At&eacute; ahi s&oacute; se conheciam dois caminhos para
+chegar ao Oriente, ambos por terra, ambos partindo
+do Mediterraneo. Conhecida a India como
+um paiz de riquezas fabulosas e tendo cessado
+para os portuguezes, com a tomada de Ceuta, o
+trafico dos generos do sert&atilde;o pelo Mediterraneo,
+cogitou o infante d. Henrique em chegar &aacute; India
+por um outro caminho&mdash;a via maritima, pelo
+occidente. Mas, para isso, tinha de affrontar o
+Mar Tenebroso, esse oceano in&ccedil;ado de escolhos
+e de monstros, impenetravel e mysterioso. Como
+o seu intuito era explorar as riquezas indianas
+e levar a f&eacute; aos musulmanos, com os quaes esperava
+combater, elle sentiu a necessidade de um
+alliado e o alliado natural era o Prestes Jo&atilde;o,
+o summo pontifice da christianidade indiana.</p>
+
+<p>Era preciso, pois, procural-o, mas seguindo
+pela via maritima.</p>
+
+<p>&laquo;Prov&ecirc;m desta origem, diz o sr. Faustino da
+Fonseca na sua obra admiravel, as explora&ccedil;&otilde;es
+para o sul e para o occidente; as grandes viagens
+do occidente e do oriente; o encontro de
+<span class='pagenum'><a name="Page_15" id="Page_15">[Pg 15]</a></span>duas passagens a leste e a o&eacute;ste,&mdash;o Cabo da
+Boa Esperan&ccedil;a e o estreito de Magalh&atilde;es; as
+descobertas da costa da Africa e das ilhas do
+Atlantico, da America do Norte e do Brazil.&raquo;</p>
+
+<p>&laquo;Obedece tudo a este proposito, subordina-se
+tudo a este projecto, s&atilde;o tudo solu&ccedil;&otilde;es ao problema:
+os conselhos de Toscanelli e de Monetario,
+o erro de Colombo, a audacia de Magalh&atilde;es.&raquo;</p>
+
+<hr style='width: 45%;' />
+
+<p>N&atilde;o &eacute; difficil provar que Colombo n&atilde;o descobriu
+a America e que quando chegou &aacute;s Antilhas,
+em 1492, j&aacute; a America havia sido descoberta
+pelos portuguezes, muitos annos antes. O
+difficil seria provar hoje, em face dos documentos
+encontrados pelo sr. Faustino da Fonseca e
+dos quaes me vou soccorrer nesta conferencia,
+que o ousado genovez fez tal descoberta.</p>
+
+<p>Esmiucemos o interessante assumpto.</p>
+
+<p>Quando o infante d. Henrique fundou a escola
+de Sagres com observatorio astronomico, para o
+qual fez vir cosmographos e mathematicos estrangeiros,
+e mandou construir nos seus estaleiros as
+primeiras caravelas e ordenou que ellas sahissem,
+para o mar tenebroso e pelo occidente, dizendo
+aos capit&atilde;es que avan&ccedil;assem sem receio, fazendo-se
+ao largo, j&aacute; Gon&ccedil;alves Zarco havia descoberto
+a ilha da Madeira e j&aacute; o infante conhecia
+o livro de Marco Polo, que existia em Portugal
+desde 1418, trazido pelo infante d. Pedro, que o
+<span class='pagenum'><a name="Page_16" id="Page_16">[Pg 16]</a></span>recebera como dadiva do senado de Veneza, assim
+como conhecia tambem o mappa do mesmo Marco
+Polo onde se veem as regi&otilde;es do oriente muito proximas
+das do occidente. No seu livro, Marco Polo
+assegurava que Catay estava no Atlantico (que
+elle chama o mar de Cyn) a pequena distancia
+da Europa e que, no Atlantico, estavam tambem
+Cypango e outras ilhas de especiarias.</p>
+
+<p>As primeiras caravelas, construidas e equipadas
+pelo infante em 1431, come&ccedil;am a perscrutar
+o mar vasto e, um dia, de uma dellas, Gon&ccedil;alo
+Velho Cabral descobre as <i>Formigas</i>. Um anno
+depois, em 1432, descobre ainda <i>Santa Maria</i>.
+As expedi&ccedil;&otilde;es maritimas portuguezas, desde ent&atilde;o,
+succedem-se ininterruptamente e, annos depois,
+&eacute; descoberta grande parte das ilhas do archipelago
+dos A&ccedil;ores pelo mesmo Gon&ccedil;alo Velho e
+depois as do Cabo Verde (1460) por Antonio
+Gomes e Diogo de Nola.</p>
+
+<p>Em 1435, j&aacute; o mappa-mundi de Bechario
+representa a Antilia e outras ilhas, a o&eacute;ste dos
+A&ccedil;ores, acompanhadas da seguinte legenda:&mdash;<i>Insule
+de novo reperte</i> (ilhas recentemente descobertas.)</p>
+
+<p>Em 1436, um anno ap&oacute;s, apparecem o mappa-mundi
+de Andr&eacute; Bianco e o seu portulano
+cujas cartas j&aacute; representam o mar de Baga, o
+mar dos Sarga&ccedil;os, as Antilhas e o Brazil, figurando
+este como se fosse uma grande ilha. Em
+1447, uma nau parte do Porto e descobre a
+Groelandia aonde os marinheiros desembarcaram.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_17" id="Page_17">[Pg 17]</a></span>No entretanto, do celebre promontorio de
+Sagres, o infante d. Henrique v&ecirc; sumirem-se no
+mar intermino as caravelas, que successivamente
+iam partindo &aacute; descoberta, e j&aacute; em 1448, numa
+carta do portulano de Andr&eacute; Bianco, tratando
+dos descobrimentos dos portuguezes, se regista o
+Brazil de uma forma precisa, na parte o&eacute;ste e
+sul do Cabo de S. Roque, ao sul das ilhas do
+Fogo e Brava de Cabo Verde, na sua verdadeira
+posi&ccedil;&atilde;o, em frente &aacute; costa africana, sendo designado
+por <i>ilha authentica</i> e assignalada a sua
+distancia exacta de 1500 milhas do archipelago
+de Cabo Verde.</p>
+
+<p>Esta carta do portulano de Bianco, bem como
+os anteriores de 1436 mostram, pois, meus senhores,
+que o Brazil foi descoberto em 1435, ou antes, por
+navegantes portuguezes e que at&eacute; das Antilhas j&aacute;
+havia noticia nessa &eacute;poca.</p>
+
+<p>Mas, n&atilde;o fica nisto. As caravelas portuguezas
+continuam a singrar o mar tenebroso e, em
+1452, Diogo de Teive e seu filho Jo&atilde;o de
+Teive descobrem as ilhas Corvo e das Flores
+e chegam &aacute; latitude da terra que se chamou
+mais tarde &laquo;do Lavrador&raquo; (porque a descobriu
+um portuguez deste nome) n&atilde;o desembarcando
+nella com receio do inverno.</p>
+
+<p>Em 1460 morre o infante d. Henrique,
+deixando reconhecida toda a costa africana at&eacute;
+Serra Le&ocirc;a e legando ainda &aacute; sua patria os
+<span class='pagenum'><a name="Page_18" id="Page_18">[Pg 18]</a></span>descobrimentos dos archipelagos dos A&ccedil;ores, de
+Cabo Verde e do Brazil.</p>
+
+<p>A morte do infante n&atilde;o faz, por&eacute;m, arrefecer
+o enthusiasmo lusitano pelos descobrimentos e j&aacute;
+dois annos depois, em 1462, d. Affonso V, por
+carta regia de 29 de outubro, faz doa&ccedil;&atilde;o a seu
+irm&atilde;o o infante d. Fernando, filho adoptivo de
+d. Henrique e seu herdeiro universal, de uma
+terra achada no mar alto, a noroeste das ilhas
+Canarias e da Madeira, que Gon&ccedil;alo Fernandes
+havia descoberto. Essa terra n&atilde;o podia ser outra
+sen&atilde;o a America.</p>
+
+<p>Mezes antes, por carta r&eacute;gia de 19 de fevereiro,
+esse mesmo Affonso V havia feito doa&ccedil;&atilde;o
+a Jo&atilde;o Vogado de duas ilhas por elle descobertas
+no <i>mar oceano</i>, &aacute;s quaes dera os nomes de Lono
+e Capraria. Nos documentos da &eacute;poca, a express&atilde;o
+<i>mar oceano</i> era usada para designar o mar que
+banhava a America, que ent&atilde;o ainda n&atilde;o tinha
+esse nome. Esta doa&ccedil;&atilde;o a Jo&atilde;o Vogado prova
+que as duas ilhas Lono e Capraria eram ilhas ou
+pontos da costa americana.</p>
+
+<p>Onze annos depois, em 1473, d. Affonso V,
+por carta r&eacute;gia de 12 de janeiro, faz doa&ccedil;&atilde;o &aacute;
+sua sobrinha d. Beatriz, filha do infante d. Fernando,
+de uma ilha que apparecera, em 1468,
+atrav&eacute;s da ilha de Santiago, e que era uma das
+Antilhas, aonde s&oacute; 24 annos depois aportou Colombo.
+Conv&eacute;m notar que esta descoberta &eacute; feita
+<span class='pagenum'><a name="Page_19" id="Page_19">[Pg 19]</a></span>por navegadores portuguezes 5 annos antes da
+chegada de Colombo a Lisboa.</p>
+
+<p>Do exposto se conclue que as proprias Antilhas
+j&aacute; tinham sido descobertas pelos portuguezes
+muitos annos antes de Colombo l&aacute; ir
+tomar dellas posse para a cor&ocirc;a da Hespanha.</p>
+
+<p>Todas estas consecutivas viagens para o occidente
+formam uma s&eacute;rie que j&aacute; constitue uma
+brilhante e indiscutivel documenta&ccedil;&atilde;o da prioridade
+dos portuguezes na descoberta da America.</p>
+
+<p>Mas ha ainda outros e valiosos documentos
+que melhor provam esta asser&ccedil;&atilde;o &aacute;quelles a quem
+ella possa parecer um pouco vaga.</p>
+
+<p>Vejamos quaes s&atilde;o.</p>
+
+<p>Em 1472, tendo vagado a capitania da Ilha
+Terceira por fallecimento de Jacome de Bruges,
+a infanta d. Beatriz fez doa&ccedil;&atilde;o a Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte
+Real da capitania dessa ilha, na parte de Angra,
+doando a parte da Praia a Alvaro Martins.</p>
+
+<p>Na carta de doa&ccedil;&atilde;o, encontram-se as seguintes
+palavras: &laquo;havendo eu, por informa&ccedil;&atilde;o, estar ora
+vaga a capitania da ilha Terceira de Jesus Christo...
+por se affirmar ser morto Jacome de Bruges...
+houve por bem de a partir entre o dito Jo&atilde;o
+Vaz e o dito Alvaro Martins, mandei ao dito
+Jo&atilde;o Vaz que escolhesse e elle escolheu a parte
+de Angra... E considerando eu, de outra parte,
+<i>os muitos e grandes servi&ccedil;os</i> que o dito Jo&atilde;o Vaz
+C&ocirc;rte Real, fidalgo da casa do dito senhor meu
+filho, tem feito ao infante meu senhor e seu
+<span class='pagenum'><a name="Page_20" id="Page_20">[Pg 20]</a></span>padre que Deus haja (&eacute; o infante d. Fernando),
+e depois a mim e a elle, <i>em galard&atilde;o</i> dos ditos
+servi&ccedil;os, lhe fiz merc&ecirc; da dita capitania da ilha
+Terceira.&raquo;</p>
+
+<p>Annos ap&oacute;s, em 1488, confirmando essa doa&ccedil;&atilde;o,
+o duque de Vizeu, filho de d. Beatriz, alludiu
+aos <i>grandes servi&ccedil;os</i> de Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real a
+seus paes, dizendo: &laquo;querendo lhe fazer gra&ccedil;a e
+merc&ecirc; pelos <i>muitos servi&ccedil;os</i> que tem feito ao infante
+meu senhor e padre, que Deus haja, e a
+mim, espero que ao deante far&aacute;.&raquo;</p>
+
+<p>Quem era esse Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real, que assim
+era galardoado e que servi&ccedil;os relevantes eram
+esses que havia prestado para receber tal galard&atilde;o?</p>
+
+<p>Era um homem que, nesse mesmo anno de
+1472, vinha de chegar da <i>Terra Nova</i> ou <i>Terra
+dos Bacalhaus</i>, trazendo essa nova descoberta americana
+para a cor&ocirc;a portugueza, vinte annos antes
+de Colombo aportar &aacute;s Antilhas.</p>
+
+<p>As provas desta descoberta de Jo&atilde;o Vaz n&atilde;o
+escasseiam e encontram-se:</p>
+
+<p>1.º&mdash;Na carta relativa &aacute; America do Norte
+do Atlas de Fern&atilde;o Vaz Dourado, existente na
+Torre do Tombo, onde se l&ecirc;, na parte referente
+&aacute; Terra Nova, a seguinte designa&ccedil;&atilde;o: <i>B. de Jo&atilde;o,
+Terra de Jo&atilde;o Vaz</i>.</p>
+
+<p>2.º&mdash;No mappa-mundi do Atlas de Jomard,
+feito em pergaminho por ordem de Henrique II
+<span class='pagenum'><a name="Page_21" id="Page_21">[Pg 21]</a></span>da Fran&ccedil;a (1547-1559), onde a mesma designa&ccedil;&atilde;o
+para a Terra Nova se encontra.</p>
+
+<p>3.º&mdash;No mappa-mundi de Mercator, do mesmo
+Atlas de Jomard, onde vem por extenso, designando
+a Terra Nova&mdash;<i>Terra de Joam Vaz</i>,
+<i>Rio de Joam Vaz</i>.</p>
+
+<p>4.º&mdash;Num manuscripto feito entre 1672 e
+1711 nos A&ccedil;ores, onde melhor se conheciam os
+descobrimentos de Jo&atilde;o Vaz, no qual &eacute; encontrada
+a seguinte referencia &aacute; doa&ccedil;&atilde;o de d. Beatriz
+a Jo&atilde;o Vaz: &laquo;Estando as cousas nesta forma,
+morreu o capit&atilde;o Bruges, n&atilde;o deixando herdeiros.
+Chegaram ent&atilde;o &aacute; ilha dois fidalgos que vinham
+de descobrir a <i>Terra do Bacalhau</i>; estes pediram
+a ilha a d. Beatriz, mulher do infante d. Fernando,
+por servi&ccedil;os que lhe tinham feito, lhes
+fizesse merc&ecirc; da capitania da ilha Terceira, a
+qual ella lhe concedeu. A Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real,
+que era um destes fidalgos, ficou a de Angra.&raquo;</p>
+
+<p>5.º&mdash;Finalmente, nestes trechos das <i>Saudades
+da Terra</i>, de Gaspar Fructuoso, nascido nos A&ccedil;ores
+em 1522: &laquo;Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real, primeiro capit&atilde;o
+da ilha Terceira da parte de Angra, por servi&ccedil;os
+que fez a el-rei de Portugal nas guerras contra
+Castella, andando por <i>capit&atilde;o de grossa armada</i>;
+do qual dizem que foi <i>t&atilde;o grande aventureiro no
+mar que neste Reino n&atilde;o tem segundo</i>; e alguns
+querem dizer que descobriu a mesma ilha Terceira
+e <i>algumas partes do ponente e do Brazil, Cabo
+Verde</i>, onde foi o primeiro que houve vista da
+<span class='pagenum'><a name="Page_22" id="Page_22">[Pg 22]</a></span><i>ilha do Fogo</i>... e vindo, como atr&aacute;s tenho dito,
+Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real do <i>descobrimento da Terra
+dos Bacalhaus que, por mandado de el-rei foi fazer</i>,
+lhe foi dada a capitania de Angra, da Ilha Terceira
+e da ilha de S. Jorge... Dizem alguns que
+Jacome de Bruges, primeiro capit&atilde;o da ilha Terceira
+de Jesus Christo, era flamengo... e, estando-a
+povoando veio ter ahi Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte
+Real... e vinha do <i>descobrimento da Terra Nova
+do Bacalhau</i> e o Jacome de Bruges o recolheu e
+lhe disse que lhe largaria metade da ilha, a qual
+acceitou, e depois Jacome de Bruges se foi para
+sua terra e desappareceu, de maneira que n&atilde;o
+tornou mais, e a infanta d. Beatriz, por vaga,
+deu a ilha ao dito Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real.&raquo;</p>
+
+<p>N&atilde;o ha nada de mais positivo, de mais claro
+e comprovante, do que estes cinco documentos,
+que venho de citar, no ultimo dos quaes se allude,
+nada menos de trez vezes, ao descobrimento
+feito por Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real da <i>Terra Nova</i> ou
+<i>Terra do Bacalhau</i>, na America do Norte, em
+1472, vinte annos antes de Colombo aportar
+&aacute;s Antilhas.</p>
+
+<p>Mas, n&atilde;o foram s&oacute;mente Jo&atilde;o Vaz e outros
+navegadores portuguezes, j&aacute; citados, os precursores
+de Colombo na descoberta da America.</p>
+
+<p>Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real tinha tres filhos&mdash;Vasco
+Annes, Miguel e Gaspar C&ocirc;rte Real&mdash;os quaes, como
+o pae, foram ousados navegantes, principalmente
+o ultimo, Gaspar, que ficou captivo dos indigenas
+<span class='pagenum'><a name="Page_23" id="Page_23">[Pg 23]</a></span>numa das suas viagens &aacute; America. A carta regia
+de 12 de maio de 1500, fazendo doa&ccedil;&atilde;o a Gaspar
+C&ocirc;rte Real de terras que vae descobrir (carta
+passada poucos dias ap&oacute;s a chegada de Cabral
+ao Brazil, chegada essa de que ainda n&atilde;o havia
+noticia em Portugal) regista importantes trabalhos
+do mesmo Gaspar, anteriores &aacute;s duas viagens
+suas de que ha noticia e refere-se <i>&aacute;s suas explora&ccedil;&otilde;es
+maritimas feitas com muito trabalho, despeza
+e perigos, realizadas por Gaspar &aacute; sua custa com
+seus navios e homens</i>. Diz ainda essa carta de
+doa&ccedil;&atilde;o que <i>elle vae continuar a descobrir</i> ou reconhecer
+<i>ilhas e terra firme</i> das quaes lhe s&atilde;o
+outorgadas as capitanias.</p>
+
+<p>A express&atilde;o vae <i>continuar a descobrir</i>, empregada
+na carta regia, significa que Gaspar j&aacute; havia
+anteriormente feito descobertas.</p>
+
+<p>Infelizmente, Gaspar C&ocirc;rte Real, partindo de
+Lisboa em 1501 para uma nova explora&ccedil;&atilde;o na
+America, por l&aacute; ficou captivo dos naturaes, voltando
+todavia ao reino os dois navios que o
+haviam acompanhado. Em 1502, seu irm&atilde;o
+Miguel sahiu com outros dois navios no intuito
+de o procurar e remir, mas tambem n&atilde;o regressou.
+Vasco Annes quiz ainda ir em busca dos
+dois irm&atilde;os, mas D. Manoel n&atilde;o lh'o consentiu.</p>
+
+<p>Documentos posteriores ao desapparecimento
+dos dois irm&atilde;os, Gaspar e Miguel C&ocirc;rte Real,
+registam os seus feitos e os de seu pae Jo&atilde;o Vaz.
+<span class='pagenum'><a name="Page_24" id="Page_24">[Pg 24]</a></span>Taes s&atilde;o: a carta r&eacute;gia de 17 de setembro de
+1506 e principalmente a 4 de maio de 1567, de
+doa&ccedil;&atilde;o a Manoel C&ocirc;rte Real, filho de Vasco
+Annes e neto de Jo&atilde;o Vaz, na qual se encontra a
+seguinte phrase: &laquo;seu pae e tios mandaram descobrir
+a Terra Nova&raquo;.</p>
+
+<p>Mas, anteriormente, a carta r&eacute;gia de 4 de
+novembro de 1501, de d. Manoel&mdash;o venturoso&mdash;filho
+do duque de Vizeu e de d. Beatriz,
+concedendo a ten&ccedil;a de 30.000 cruzados a Miguel
+C&ocirc;rte Real por servi&ccedil;os feitos a d. Jo&atilde;o II, que
+falleceu em 1495, fixa &aacute;s viagens maritimas dos
+C&ocirc;rtes Reaes uma data anterior a 1495.</p>
+
+<p>Ora, a sete de junho de 1494, d. Jo&atilde;o II
+assignou com a Hespanha o tratado de Tordesillas,
+abrangendo na demarca&ccedil;&atilde;o portugueza n&atilde;o
+s&oacute; a costa do Brazil (aonde Pedro Alvares Cabral
+s&oacute; aportou <i>6 annos depois</i>) como a terra dos C&ocirc;rtes
+Reaes, isto &eacute;, a <i>Terra Nova</i> ou <i>dos Bacalhaus</i>, o
+que prova que a descoberta dessa terra &eacute; anterior
+ainda a 1494. Por ultimo, Bartholomeu las Casas,
+amigo de Colombo e companheiro do genovez
+numa das suas viagens &aacute;s Antilhas, na sua <i>Historia
+das Indias</i>, apontando ingenua e sinceramente
+as indica&ccedil;&otilde;es que Colombo teve para ir
+&aacute;s Antilhas, indica&ccedil;&otilde;es, ali&aacute;s, confessadas pelo
+proprio Colombo, cita, entre outras, as viagens
+dos C&ocirc;rtes Reaes, empregando estas express&otilde;es:
+&laquo;Os C&ocirc;rte Reaes que foram em diversos tempos
+buscar <i>aquella terra</i>.&raquo;</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_25" id="Page_25">[Pg 25]</a></span>E isto prova ainda que o descobrimento da
+<i>Terra Nova</i> ou <i>dos Bacalhaus</i> e, portanto, da
+America, &eacute; anterior &aacute; primeira viagem de Colombo
+&aacute;s Antilhas, isto &eacute;, anterior a 1492 e mesmo
+anterior a 1484, porque foi em 1484 que Colombo
+sahiu de Portugal, onde obteve taes indica&ccedil;&otilde;es
+e onde viu e conheceu Miguel e Gaspar
+C&ocirc;rte Real, filhos de Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real, e Affonso
+Sanches, que descobriu as Antilhas de 1473 a
+1484. As express&otilde;es que Las Casas emprega, referindo-se
+&aacute;s confiss&otilde;es feitas pelo seu amigo Colombo
+s&atilde;o as seguintes, que reproduzo textualmente:
+&laquo;<i>Disse</i>, pois, Christovam Colombo entre
+outras cousas <i>que poz em seus livros por escripto</i>...
+e accrescentou mais que tinha visto dois filhos
+do capit&atilde;o que descobriu a ilha Terceira, que se
+chamavam Miguel e Gaspar C&ocirc;rte Real, <i>ir em
+diversos tempos a buscar aquella terra</i>.&raquo;</p>
+
+<p><i>Aquella terra</i> era a <i>Terra Nova</i> ou <i>Terra dos
+Bacalhaus</i>.</p>
+
+<p>Ainda relatando Las Casas as indica&ccedil;&otilde;es e informa&ccedil;&otilde;es
+que conduziram Colombo &aacute;s Antilhas,
+cita a viagem de Vicente Dias e mais uma outra
+a respeito da qual assim se exprime: &laquo;uma caravela
+ou navio que tinha sahido de um porto
+de Hespanha (n&atilde;o me recordo ter ouvido indicar
+qual fosse, ainda que creio que do reino de Portugal,
+se dizia)... veio... parar a estas Antilhas
+e que esta caravela foi a primeira que as des<span class='pagenum'><a name="Page_26" id="Page_26">[Pg 26]</a></span>cobriu.
+Que isto assim acontecesse alguns argumentos
+ha para demonstral-o.&raquo;</p>
+
+<p>E ajunta que o piloto dessa caravela, &laquo;que
+alguns escriptores hespanh&oacute;es chamam Affonso
+Sanches e d&atilde;o como natural de Cascaes, recolhido
+por Colombo em sua residencia na ilha da Madeira,
+ao sentir perto a morte lhe revelara o segredo
+e lhe dera por escripto os rumos e caminhos
+que tinham levado e trazido por carta
+de marear e pelas alturas e paragem aonde estava
+a ilha.&raquo;</p>
+
+<p>Esta confiss&atilde;o de Las Casas, amigo e companheiro
+de viagem de Colombo, &eacute; importantissima.</p>
+
+<p>Diz ainda Las Casas que, quando foi com Colombo
+ao primeiro descobrimento de Cuba, &laquo;os
+indios vizinhos daquella d&eacute;ram noticia de terem
+chegado a esta ilha Hespanhola outros homens
+brancos e barbados, como n&oacute;s outros, <i>antes que
+n&oacute;s outros n&atilde;o muitos annos</i>.&raquo;</p>
+
+<p>Mas, n&atilde;o fica nisto.</p>
+
+<p>Em 1501, Pietro Pasqualigo, referindo ao senado
+de Veneza a segunda viagem de Gaspar
+C&ocirc;rte Real &aacute; America, disse que Gaspar e seus
+companheiros acreditavam que &laquo;a terra achada era
+firme e estava ligada com a outra (Terra dos
+Papagaios ou Brazil) que o anno passado (1500)
+foi descoberta por outras caravelas de S. Magestade,
+acreditando estar ligada com as Antilhas.&raquo;</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_27" id="Page_27">[Pg 27]</a></span>Humboldt confirma este conceito, quando diz
+&laquo;que antes mesmo das viagens de Colombo a
+Honduras e Veragua, em outubro de 1501, j&aacute; se
+sabia em Portugal que as terras do norte eram
+cobertas de neve e gelo, contiguas &aacute;s Antilhas e
+&aacute; terra dos Papagaios <i>novamente</i> achada.&raquo;</p>
+
+<p>E admiradissimo, Humboldt accrescenta: &laquo;esta
+<i>adivinha&ccedil;&atilde;o</i> que proclama, apesar da ausencia de
+tantos &eacute;los intermediarios, uma liga&ccedil;&atilde;o continental
+entre o Brazil e as terras geladas do Lavrador
+<i>&eacute; muito surprehendente</i>.&raquo;</p>
+
+<p>Nem foi <i>adivinha&ccedil;&atilde;o</i> nem <i>cousa para surprehender</i>;
+os &eacute;los intermediarios, estabelecendo a
+liga&ccedil;&atilde;o continental entre o Brazil e as terras geladas
+do Lavrador, existiam e eram conhecidos
+dos portuguezes pelas viagens e descobrimentos
+que haviam feito na sua pertinancia de procurar
+o caminho para a India, navegando constantemente
+para o occidente e para o sul, desde 1431.
+Ora, todos os documentos que citamos demonstram
+de um modo cabal e decisivo que os descobridores
+da Terra Nova e portanto da America do
+Norte foram Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real e seus filhos
+e que este descobrimento foi feito muitos annos
+antes que Colombo aportasse &aacute;s Antilhas.</p>
+
+<p>Mas o estudo dos documentos portuguezes
+e castelhanos que o sr. Faustino da Fonseca
+exhumou da Torre do Tombo, dos archivos
+a&ccedil;orianos e hespanh&oacute;es e a que deu publicidade
+no seu luminoso livro, referentes &aacute;s viagens
+<span class='pagenum'><a name="Page_28" id="Page_28">[Pg 28]</a></span>maritimas dos seus antepassados, provam de
+um modo incontestavel que desde 1435, ou antes
+havia em Portugal conhecimento perfeito de terras
+americanas (o Brazil ou terra dos Papagaios com
+a sua posi&ccedil;&atilde;o determinada no mappa de Bianco
+e a sua distancia de 1500 milhas entre as ilhas de
+Cabo Verde e o Cabo de S. Roque precisamente
+marcada no mesmo mappa) e tambem que,
+desde 1475, as viagens dos portuguezes para
+o occidente j&aacute; se realizavam, n&atilde;o tanto no empenho
+de procurar por ahi o caminho para
+chegar &aacute; India, como no de &laquo;colonizar, de aproveitar
+as terras americanas e nellas commerciar,
+como se commerciava na costa africana e nas
+ilhas dos seus mares.&raquo;</p>
+
+<p>Era pelo sul da costa da Africa que os
+navios da cor&ocirc;a portugueza procuravam o caminho
+do oriente e as viagens &aacute; Guin&eacute; eram ent&atilde;o
+privativas dos navios reaes, n&atilde;o podendo os
+particulares emprehendel-as. J&aacute; para o occidente
+a navega&ccedil;&atilde;o era francamente aberta &aacute;s naus
+dos particulares, dando-lhes ensejo &aacute;s descobertas
+e explora&ccedil;&otilde;es commerciaes.</p>
+
+<p>A carta de doa&ccedil;&atilde;o a Fern&atilde;o Dulmo, em 1486
+e a confirma&ccedil;&atilde;o do seu contracto com Jo&atilde;o
+Affonso Estreito, feita pela carta regia de D.
+Jo&atilde;o I, vem demonstrar de um modo cabal,
+como muito bem diz o sr. Faustino da Fonseca,
+&laquo;a existencia de trabalhos de m&oacute;r importancia
+relativos &aacute; America em que se n&atilde;o trata j&aacute; da
+<span class='pagenum'><a name="Page_29" id="Page_29">[Pg 29]</a></span>descoberta, mas da posse effectiva, da conquista,
+da occupa&ccedil;&atilde;o.&raquo;</p>
+
+<p>Nessa carta de doa&ccedil;&atilde;o diz o rei que Fern&atilde;o
+Dulmo, capit&atilde;o da ilha Terceira, &laquo;lhe queria
+dar achada ao occidente uma grande ilha, ou
+ilhas, ou terra firme por costa&raquo;, ilha essa que
+se presumia ser a das Sete Cidades, e isto prova
+&laquo;que n&atilde;o se julgava ser a India, como pensava
+Colombo, nem Catay, nem Cypango, terras
+do oriente, que o genovez procurava e que at&eacute;
+morrer julgou ter descoberto.&raquo;</p>
+
+<p>Era uma outra terra a que se dava o nome
+de Sete Cidades por causa de uma velha lenda.
+Effectivamente, o que Fern&atilde;o Dulmo queria dar
+ao rei <i>achada</i> era, n&atilde;o uma ilha, mas terra
+firme, isto &eacute;, um continente.</p>
+
+<p>Dava-lhe a carta regia poder e autoridade
+para tomar posse real e autual de todas ilhas
+e terra firme que descobrisse, &laquo;podendo enforcar,
+matar e applicar toda outra pena criminal&raquo;
+e accrescentava que, &laquo;se as ilhas e terra firme
+n&atilde;o quizessem sujeitar-se, elle rei mandaria com
+Fern&atilde;o Dulmo gentes e armadas de navios
+para as sujeitar.&raquo;</p>
+
+<p>T&atilde;o amplas eram as autoriza&ccedil;&otilde;es e poderes
+conferidos a Fern&atilde;o Dulmo, contrastando com
+as restric&ccedil;&otilde;es feitas nas doa&ccedil;&otilde;es anteriores, nas
+quaes a cor&ocirc;a reservava para si &laquo;a al&ccedil;ada de
+morte ou talhamento de membro,&raquo; que taes
+concess&otilde;es levam a crer, com relativa segu<span class='pagenum'><a name="Page_30" id="Page_30">[Pg 30]</a></span>ran&ccedil;a,
+que na terra, que Dulmo queria dar
+<i>achada</i> ao seu rei, j&aacute; elle havia estado, havendo
+encontrado resistencia &aacute; occupa&ccedil;&atilde;o por parte da
+popula&ccedil;&atilde;o indigena.</p>
+
+<p>Nessa terra do occidente, ou America, que
+Dulmo queria dar <i>achada</i> &aacute; cor&ocirc;a portugueza,
+j&aacute; elle estivera, portanto, em 1486, ou antes.
+Que tinha havido luctas na America entre os
+donatarios e os indigenas prova-o ainda a carta
+de doa&ccedil;&atilde;o a Vasco Annes C&ocirc;rte Real na qual
+se refere que Miguel C&ocirc;rte Real (irm&atilde;o de
+Vasco Annes), ao partir, em busca de seu irm&atilde;o
+Gaspar, que ficara captivo das tribus americanas
+na terra onde aportara, ia &laquo;buscar, achar
+e remir o dito seu irm&atilde;o.&raquo; Que Fern&atilde;o Dulmo
+estivera na America em 1486, ou antes, prova-o
+ainda o contracto por elle feito com Jo&atilde;o
+Affonso Estreito pelo qual este fazia todas as
+despesas da expedi&ccedil;&atilde;o, e ainda o prazo marcado
+para irem e voltarem, ficando Dulmo
+com o commando da frota durante os primeiros
+40 dias e assumindo-o Jo&atilde;o Affonso ap&oacute;s
+esse tempo, o que significa que Fern&atilde;o Dulmo
+estava seguro de attingir a terra achada em
+40 dias e que Jo&atilde;o Affonso n&atilde;o receiava empregar
+o seu capital numa empresa temeraria,
+seguindo com o seu socio para o desconhecido.</p>
+
+<p>Estabelecia o contracto que as caravelas
+seriam abastecidas para 6 mezes ou 180 dias
+approximadamente. E dahi se deduz que, sendo
+<span class='pagenum'><a name="Page_31" id="Page_31">[Pg 31]</a></span>precisos 80 dias para a viagem de ida e de
+volta, ficavam 100 dias para a permanencia
+na America, para a explora&ccedil;&atilde;o, marca&ccedil;&atilde;o e divis&atilde;o
+das capitanias de que eram donatarios os
+dois associados e, finalmente, para a sujei&ccedil;&atilde;o
+dos indigenas.</p>
+
+<p>A confian&ccedil;a de Jo&atilde;o Affonso Estreito na
+expedi&ccedil;&atilde;o era tal que, al&eacute;m de todas as despesas
+com o abastecimento das caravelas e
+sua equipagem, ainda deu 6.000 reaes brancos
+a Fern&atilde;o Dulmo.</p>
+
+<p>Ora, o conhecimento que temos de Colombo
+ter gasto, posteriormente, 48 dias na sua primeira
+viagem de regresso das Antilhas, com
+atrasos devidos a temporaes e a uma arribada
+&aacute; ilha de Santa Maria, e ainda o facto de
+Pedro Alvares Cabral ter gasto 43 dias na sua
+viagem ao Brazil, <i>apesar da calmaria que encontrou</i>,
+e ainda a circumstancia de ter gasto
+Colombo, exactamente, 40 dias na sua viagem
+de Cadiz &aacute; Dominica, prova que 40 dias era
+o tempo, em m&eacute;dia, preciso para ir da Europa
+&aacute; America e que, portanto, o facto de tal prazo
+ter sido fixado no contracto de Dulmo com
+Jo&atilde;o Affonso Estreito mostra que Dulmo tinha
+perfeito conhecimento do tempo que era preciso
+para chegar &aacute; terra <i>achada</i> por elle em
+1486, ou antes, e que essa terra era positivamente
+a America.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_32" id="Page_32">[Pg 32]</a></span>Desta expedi&ccedil;&atilde;o de Dulmo fazia parte um
+allem&atilde;o chamado Martim Behaim, que o Dr.
+Monetario, ou Montaro, na sua carta a d. Jo&atilde;o II,
+chama Martinho Bohemio. Ora, este allem&atilde;o,
+que, de 1484 a 1486, acompanhou Diogo C&atilde;o,
+como cosmographo, rezidindo nos A&ccedil;ores de
+1486 at&eacute; 1490, seguia a opini&atilde;o dos antigos
+de que o caminho para a India era pelo occidente.
+Foi, pois, nesta viagem de Dulmo que
+Behaim obteve o conhecimento da costa Americana,
+o qual registou depois no globo que
+construiu ao regressar &aacute; Europa e que tambem
+representou no mappa, que existia no erario do
+rei de Portugal e ao qual allude Pigaffeta. Nesse
+globo terraqueo de Behaim foram representados
+a peninsula da Florida, o golfo do Mexico e
+as Antilhas, embora sem estas denomina&ccedil;&otilde;es.
+Estes trabalhos geographicos de Behaim confirmam
+que Dulmo estivera na America do
+Norte e estabelecem de um modo preciso que
+as terras achadas por elle eram a Florida, as
+Antilhas e o golfo do Mexico.</p>
+
+<p>Em 1499 fez d. Manuel doa&ccedil;&atilde;o a Jo&atilde;o Fernandes
+Lavrador da capitania da ilha ou ilhas
+que elle <i>descobrir ou achar novamente</i>. N&atilde;o tendo
+meios para custear a expedi&ccedil;&atilde;o, Jo&atilde;o Fernandes
+Lavrador associou-se a Francisco Fernandes
+e Jo&atilde;o Gon&ccedil;alves, escudeiros, naturaes dos A&ccedil;ores,
+e com tres negociantes inglezes de Bristol, os
+quaes, provavelmente, forneceram o capital pre<span class='pagenum'><a name="Page_33" id="Page_33">[Pg 33]</a></span>ciso,
+e com elles obteve do rei Henrique VII
+da Inglaterra nova carta de doa&ccedil;&atilde;o das terras
+que descobrisse.</p>
+
+<p>A expedi&ccedil;&atilde;o seguiu a sua rota e conseguiu
+descobrir a terra avistada em 1452 por Diogo
+de Teive e seu filho Jo&atilde;o de Teive, &aacute; qual foi
+dada o nome de Terra do Lavrador, que era
+o do seu novo descobridor e donatario.</p>
+
+<p>Ora, Jo&atilde;o Fernandes Lavrador, quando organizou
+a expedi&ccedil;&atilde;o, j&aacute; sabia da existencia da
+terra que <i>ia achar</i> porque nella estivera com
+Pedro de Barcellos de janeiro a abril de 1492,
+e o fim de sua expedi&ccedil;&atilde;o com os negociantes
+de Bristol n&atilde;o era outro sen&atilde;o tomar posse da
+terra anteriormente achada.</p>
+
+<p>Portanto, ainda alguns mezes antes de Colombo,
+que s&oacute; a 8 de agosto de 1492 partiu
+para as Antilhas, dois navegantes portuguezes,
+Jo&atilde;o Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos
+haviam estado na America.</p>
+
+<p>Assim, synthetizando esta s&eacute;rie de provas de
+ida e estada de navegantes portuguezes na America,
+anteriormente a Colombo, encontra-se o
+seguinte quadro chronologico registador dessas
+viagens e descobrimentos:</p>
+
+<p>1436&mdash;Regista Andr&eacute; Bianco nas suas cartas
+e no seu portulano as descobertas do Brazil
+ou Antilia, Mar de Baga e Mar de Sarga&ccedil;os.</p>
+
+<p>1447&mdash;Um navio parte do Porto e vae &aacute;
+Groelandia onde os marinheiros desembarcam.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_34" id="Page_34">[Pg 34]</a></span>1448&mdash;Regista Andr&eacute; Bianco nas suas cartas
+a existencia do Brazil &aacute; distancia precisa de
+1500 milhas comprehendidas entre as ilhas do
+Cabo Verde e o Cabo de S. Roque.</p>
+
+<p>1452&mdash;Diogo de Teive e seu filho Jo&atilde;o
+descobrem a ilha das Flores e chegam &aacute; latitude
+da terra do Lavrador.</p>
+
+<p>1472&mdash;Descobre Jo&atilde;o Vaz Corte Real a
+Terra de Jo&atilde;o Vaz, ou Terra Nova, ou Terra
+dos Bacalhaus, na America do Norte.</p>
+
+<p>1473-1484&mdash;Affonso Sanches descobre as Antilhas.</p>
+
+<p>1487&mdash;Viagem &aacute; America de Fern&atilde;o Dulmo
+e Jo&atilde;o Affonso Estreito, acompanhados de Martim
+Behaim, que registou, depois, no globo terraqueo
+que construiu e no mappa do erario
+real portuguez, a existencia da peninsula da
+Florida, das Antilhas e do golfo do Mexico.</p>
+
+<p>1492&mdash;Descoberta, entre 30 de Janeiro e 14
+de abril, da terra do Lavrador, por Jo&atilde;o Fernandes
+Lavrador e Pedro de Barcellos.</p>
+
+<p>Todas estas viagens, todos estes descobrimentos
+s&atilde;o anteriores &aacute; primeira viagem de
+Colombo, realizada a 8 de Agosto de 1492 e
+estabelecem a prioridade dos navegantes portuguezes
+no descobrimento da America.</p>
+
+<p>A carta do dr. Jeronymo Montaro, ou Monetario,
+de Nuremberg, a d. Jo&atilde;o II, em 1493,
+quando ainda ignorava a primeira viagem de
+<span class='pagenum'><a name="Page_35" id="Page_35">[Pg 35]</a></span>Colombo &aacute;s Antilhas, aconselhando o monarcha
+lusitano a que demandasse a India pelo caminho
+do occidente, confirma o conhecimento que
+tinham os portuguezes das terras americanas.</p>
+
+<p>Ignorando, como Colombo (que at&eacute; morrer
+suppoz sempre que chegando &aacute;s Antilhas havia
+chegado &aacute; India) que as terras do occidente
+constituiam um novo continente, formando a
+parte quarta do universo at&eacute; ent&atilde;o conhecido,
+o dr. Montaro elogia na sua carta o saber dos
+mareantes portuguezes, usando das seguintes
+express&otilde;es: &laquo;sabios que navegaram a <i>largura
+do mar</i>, que tomaram o caminho dos A&ccedil;ores
+por quadrantes chilindricos e astrolabio e outros
+engenhos, onde <i>nem frio nem calma os anojara</i>
+e mais navegaram a <i>praia oriental</i> sob uma
+temperan&ccedil;a (temperatura) muito temperada do
+ar e do mar.&raquo;</p>
+
+<p>Nestas express&otilde;es&mdash;<i>navegaram a largura do
+mar, tomando o caminho dos A&ccedil;ores</i>&mdash;(que era
+o ponto de partida dos navegantes que iam ao
+novo continente) p&otilde;e Montaro em evidencia as
+viagens dos portuguezes &aacute; America, muito embora
+ignorasse que essa terra era o Novo Mundo.
+Empregou a express&atilde;o <i>praia oriental</i> suppondo
+sempre que era a India cujo caminho pelo
+oriente j&aacute; havia sido descoberto, cinco annos
+antes, por Bartholomeu Dias, quando em 1487
+dobrara o cabo da Boa Esperan&ccedil;a, indo em
+busca do reino do Prestes Jo&atilde;o.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_36" id="Page_36">[Pg 36]</a></span>N&atilde;o admira que o dr. Montaro estivesse nessa
+ignorancia quando Colombo permanecia nella e
+insistia em acreditar que a America era a Asia
+e que, atravez della, havia um caminho por
+agua, que abreviava a viagem pelo occidente
+para a India.</p>
+
+<p>Esse caminho, que o audaz e astuto genovez
+embalde procurou at&eacute; morrer, existia de
+facto, mas, em vez de abreviar, alongava a
+viagem para a India. Esse caminho, que elle
+nunca conseguiu achar, descobriu-o ainda um
+portuguez, Fern&atilde;o de Magalh&atilde;es, quando, a soldo
+da Hespanha, mas com marinheiros portuguezes
+e com o cosmographo portuguez Ruy Faleiro,
+transpoz o estreito a que ligou o seu
+nome, no extremo sul da America, e fez a
+primeira viagem de circumnavega&ccedil;&atilde;o, dando a
+volta ao mundo e confirmando a doutrina da
+espheroicidade da terra.</p>
+
+<p>De tudo o que fica exposto resulta, meus
+senhores, de um modo indiscutivel, com uma veracidade
+esmagadora, que n&atilde;o foi Colombo quem
+teve a prioridade na descoberta da America e que
+essa grande gloria cabe de direito e de facto aos
+destemidos e desinteressados navegantes portuguezes
+do seculo XV, que &aacute; America foram e que
+na America estiveram muito antes do genovez.</p>
+
+<p>Qual delles, qual desses ousados lusos, precursores
+de Colombo, foi o primeiro a p&ocirc;r o p&eacute; no
+solo americano?</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_37" id="Page_37">[Pg 37]</a></span>Evidentemente, aquelle que, em 1435, ou antes,
+segundo o registo de Andr&eacute; Bianco, descobriu
+o Brazil. Desse, infelizmente, a historia n&atilde;o guardou
+o nome. Mas, daquelles que foram &aacute; parte
+norte da America e que l&aacute; estiveram, dando-lhe
+o seu nome, ha noticia; e o que firmou o direito
+&aacute; prioridade na descoberta foi evidentemente Jo&atilde;o
+Vaz Corte Real que, em 1472, vinte annos antes de
+Colombo, descobriu a <i>Terra Nova</i>, que os mappas,
+portulanos e manuscriptos da &eacute;poca designaram
+por essa denomina&ccedil;&atilde;o, pela de <i>Terra dos Bacalhaus</i>,
+pela de <i>Terra de Jo&atilde;o Vaz</i> e ainda de <i>Terra dos
+Corte Reaes</i>, em homenagem ao grande navegante
+luso e a seus filhos, que &aacute; mesma terra foram,
+no mesmo ardor empenhados de engrandecerem
+a sua patria.</p>
+
+<hr style='width: 45%;' />
+
+<p>Mas, vejamos agora quem era Colombo e o
+que fez elle, n&atilde;o para <i>descobrir</i>, mas para <i>chegar</i>
+&aacute; America e de uma parte della tomar posse official
+para a cor&ocirc;a de Hespanha.</p>
+
+<p>Por uma ironia da sorte, Colombo, nascido em
+Genova em 1450, veio ao mundo dois annos depois
+daquelle (1448) em que Andr&eacute; Bianco registou
+no seu mappa a existencia do Brazil a 1.500
+milhas das ilhas de Cabo Verde, tres annos depois
+que um navio portuguez foi &aacute; Groenlandia, e
+apenas dois annos antes daquelle em que o navegante
+portuguez Diogo de Teive chegou &aacute; latitude
+<span class='pagenum'><a name="Page_38" id="Page_38">[Pg 38]</a></span>da Terra do Lavrador, terra americana que Jo&atilde;o
+Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos ainda
+descobriram e della tomaram posse em 1492, mezes
+antes de Colombo chegar pela primeira vez
+&aacute;s Antilhas.</p>
+
+<p>Filho de uma familia de operarios, era Colombo
+um tecel&atilde;o, que apenas apprendera a ler
+e a escrever e que, at&eacute; aos 23 annos de edade, se
+conservara sem fazer estudos universitarios, sem
+seguir a carreira maritima, sem nada saber de
+cosmographia nem de pilotagem. Indo para Savone,
+em 1470, ahi estabeleceu uma taverna e ahi se
+conservou durante dois annos. N&atilde;o lhe sorrindo
+a fortuna como taverneiro, foi, em 1473, para
+Portugal, e fixou-se na ilha da Madeira, onde abriu
+uma casa de pasto, e onde casou com uma rapariga
+portugueza, filha de um tal Bartholomeu Perestrello,
+mareante, j&aacute; ent&atilde;o fallecido. Na Madeira
+nasceu-lhe o primeiro filho e na Madeira come&ccedil;ou
+elle a apprender nautica nos documentos, instrumentos
+e mappas de Perestrello, que a sogra lhe
+forneceu. Mais tarde, ficou sabedor da exacta situa&ccedil;&atilde;o
+das Antilhas pelos papeis de Affonso Sanches<a name="FNanchor_1_1" id="FNanchor_1_1"></a><a href="#Footnote_1_1" class="fnanchor">[1]</a>,
+que as descobriu, que em sua casa de pasto se
+hospedou e que ahi falleceu. Creio que ainda
+existe na Madeira essa casa que Colombo habitou.
+&Eacute; Bartholomeu de las Casas, o amigo e compa<span class='pagenum'><a name="Page_39" id="Page_39">[Pg 39]</a></span>nheiro
+de Colombo numa das suas viagens, quem,
+na sua <i>Historia das Indias</i>, nos d&aacute; conta desse
+episodio da vida do genovez em Portugal. Referindo-se
+aos objectos de Perestrello, que a sogra
+dera a Colombo, diz: &laquo;eram instrumentos e escriptos
+e pinturas (cartas e mappas), convenientes
+&aacute; navega&ccedil;&atilde;o, os quaes deu a sogra ao dito Colombo,
+que com a vista delles muito se alegrou.&raquo;
+E accrescenta: &laquo;<i>com estes se cr&ecirc; haver sido instigada
+a sua natural inclina&ccedil;&atilde;o</i>.&raquo;</p>
+
+<div class="footnote"><p><a name="Footnote_1_1" id="Footnote_1_1"></a><a href="#FNanchor_1_1"><span class="label">[1]</span></a> Affonso Sanches descobriu as Antilhas de 1473
+a 1484.</p></div>
+
+<p>Quando Colombo chegou a Portugal j&aacute; ahi
+eram conhecidas as cartas hydrographicas planas
+inventadas pelo infante d. Henrique, e foi durante
+a sua permanencia no reino que o portuguez
+Fernando construiu a primeira bussola completa
+com a rosa dos ventos e que a junta dos cosmographos
+do rei aperfei&ccedil;ou o astrolabio, assim como
+as taboas astronomicas applicadas &aacute; navega&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Vivendo no meio de uma grande familia de
+navegadores, sabios, como o testemunhou mais
+tarde o sabio dr. Montaro, de Nuremberg, conhecedor
+das viagens e descobertas dos portuguezes,
+&eacute; natural que Colombo, instigado pela mulher
+e pela sogra, fascinado pelos instrumentos e documentos
+que recebeu e por outros que manuseou
+e consultou depois, estimulado pelas audacias
+felizes dos mareantes lusos, quizesse tentar
+fortuna pelo mar e procurasse obter a pratica da
+navega&ccedil;&atilde;o que de todo lhe faltava. Para isso con<span class='pagenum'><a name="Page_40" id="Page_40">[Pg 40]</a></span>seguir,
+embarcou em navios portuguezes e com
+pilotos portuguezes apprendeu a navegar.</p>
+
+<p>&Eacute; ainda Las Casas quem nol-o affirma, quando
+diz, na sua j&aacute; citada <i>Historia das Indias</i>: &laquo;resolveu
+ter por experiencia o que ent&atilde;o do mundo
+pela de Ethiopia se andava e praticava pelo mar
+e assim navegou algumas vezes aquelle caminho
+em companhia de portuguezes, como pessoa j&aacute;
+residente e quasi natural de Portugal.&raquo;</p>
+
+<p>Foi, portanto, em Portugal que Colombo apprendeu
+a navegar e foi ainda em Portugal que teve
+conhecimento exacto de terras ao occidente, terras
+que, obcecado pelas theorias de Toscanelli,
+Marco Polo e outros geographos e cosmographos
+antigos, elle suppoz sempre que fossem asiaticas.</p>
+
+<p>Foi ent&atilde;o, depois de adquirida esta instruc&ccedil;&atilde;o
+theorica e pratica, ministrada pelos portuguezes,
+que o genovez affagou a id&eacute;a de descobrir o caminho
+da India pelo occidente, indo &aacute; terra onde
+j&aacute; havia chegado Affonso Sanches.</p>
+
+<p>Para conseguir os seus fins, procurou desde
+logo fazer rela&ccedil;&otilde;es com d. Jo&atilde;o II, rei de Portugal,
+o qual, longe de esconder delle as provas
+que possuia da existencia de terras ao occidente
+e ao sul, lh'as mostrou, como o proprio Colombo
+confessa, indicando-lhe nos mappas a situa&ccedil;&atilde;o da
+Terra Nova ou de Jo&atilde;o Vaz e a do Brazil ou Terra
+dos Papagaios.</p>
+
+<p>Ora, aconteceu, segundo informa Las Casas, que
+um dia, &laquo;soprando fortes ventos do poente, o mar
+<span class='pagenum'><a name="Page_41" id="Page_41">[Pg 41]</a></span>trouxe &aacute;s costas das ilhas do Fayal e da Graciosa
+alguns troncos de pinheiros e &aacute;s da ilha das Flores
+dois cadaveres de caras mui largas e de fei&ccedil;&otilde;es differentes
+das dos christ&atilde;os.&raquo;</p>
+
+<p>Guiado por estes indicios, e tendo conhecimento,
+como ainda informa Las Casas, da viagem do navio
+portuense que em 1447 tinha ido &aacute; Groelandia, da
+ida de Diogo de Teive em 1452 &aacute; latitude da Terra
+do Lavrador, das viagens de Vicente Dias, de Antonio
+Teive e de Affonso Sanches, de 1473 a 1484,
+da concess&atilde;o a Fern&atilde;o Domingues do Arco, em 1484,
+e das viagens de Jo&atilde;o Vaz C&ocirc;rte Real e seus filhos,
+come&ccedil;adas em 1472, resolveu Colombo, certo da
+existencia de terras ao occidente, procurar um principe
+christ&atilde;o que o ajudasse e protegesse na empresa
+do descobrimento da India pelo poente.</p>
+
+<p>Foi ent&atilde;o a Castella offerecer os seus servi&ccedil;os
+&aacute; cor&ocirc;a hespanhola.</p>
+
+<p>Diz Las Casas que, guiado pelas informa&ccedil;&otilde;es
+que possuia, &laquo;<i>Colombo tinha a certeza que havia
+de descobrir terras e gentes nellas, como si nellas
+pessoalmente tivesse estado</i>.&raquo;</p>
+
+<p>E foi isso, provavelmente, o que Colombo,
+munido de copias dos mappas que viu em Portugal,
+e conhecedor das viagens e das doa&ccedil;&otilde;es
+alli feitas, affirmou aos reis de Castella, assegurando-lhes,
+n&atilde;o que ia achar ou descobrir, mas
+tomar posse para a Hespanha de terras anteriormente
+descobertas pelos portuguezes, dessas Anti<span class='pagenum'><a name="Page_42" id="Page_42">[Pg 42]</a></span>lhas
+que Affonso Sanches descobrira, cuja situa&ccedil;&atilde;o
+os seus mappas e papeis lhe revelaram.</p>
+
+<p>Tal offerta elle n&atilde;o podia fazel-a ao rei de
+Portugal, porque tinha a certeza de que seria
+recusada. Que poderia elle offerecer &aacute; cor&ocirc;a
+portugueza, que esta j&aacute; n&atilde;o conhecesse?</p>
+
+<p>Accresce que, achando-se individado e sendo
+perseguido pelos credores, elle sentia necessidade
+urgente de sahir de Portugal e procurar no estrangeiro
+os meios de solver os seus compromissos.</p>
+
+<p>Eis ahi as raz&otilde;es pelas quaes deixou Portugal
+e foi &aacute; Hespanha, n&atilde;o no nobre intuito de descobrir
+terras e de praticar feitos que lhe dessem
+renome, mas no de ganhar dinheiro.</p>
+
+<p>Os que, como Humbolt, affirmam que Colombo
+foi, <i>por inveja</i>, maltratado em Portugal e,
+por isso, de l&aacute; sahiu, fugindo, faltam &aacute; verdade.</p>
+
+<p>Inveja de que? Que feitos, que emprehendimentos,
+que descobertas havia elle feito, quando
+deixou o reino portuguez, onde tudo foi apprender,
+para que delle alli tivessem inveja?
+Inveja poderia elle ter, e certamente tinha, daquelles
+que, arriscando a vida e a fortuna, j&aacute;
+haviam dilatado o mundo, quando elle nada tinha
+feito at&eacute; ent&atilde;o.</p>
+
+<p>Mas, &eacute; elle proprio quem desmente os que affirmam
+que foi a inveja que o fez sahir de Portugal,
+quando, em uma carta ao rei de Castella,
+diz: &laquo;fui aportar a Portugal cujo rei entendia de
+<span class='pagenum'><a name="Page_43" id="Page_43">[Pg 43]</a></span>descobrimentos mais do que nenhum outro.&raquo; E,
+em outra carta, accrescenta: &laquo;o grande cora&ccedil;&atilde;o
+dos principes de Portugal que ha tanto tempo
+proseguem na empresa de Guin&eacute; e tambem na
+de Africa onde gastaram metade da gente do
+reino...&raquo;</p>
+
+<p>N&atilde;o teria elle feito taes elogios aos reis portuguezes
+se, <i>por inveja</i>, tivesse sido maltratado em
+Portugal. Que a causa principal da sua precipitada
+sahida de Portugal foram as dividas,
+deprehende-se claramente dos seguintes trechos da
+amistosa e protectora carta que d. Jo&atilde;o II, em
+1488, lhe dirigiu: &laquo;E porque por ventura tereis
+algum receio das nossas justi&ccedil;as <i>por raz&atilde;o de
+algumas cousas a que sejaes obrigado</i>, n&oacute;s por esta
+carta vos asseguramos pela vinda, estada e tornada,
+que n&atilde;o sejaes preso, retido, accusado, citado
+nem demandado por nenhuma cousa ou seja
+civil ou criminal de qualquer penalidade. E por
+ella mesmo mandamos as nossas justi&ccedil;as que a
+cumpram assim.&raquo;</p>
+
+<p>Eis ahi como c&aacute;e por terra a invencionice da
+inveja e como fica patente que as dividas foram a
+causa principal da fuga do genovez.</p>
+
+<p>Munido dessa generosa carta de D. Jo&atilde;o II,
+que &eacute; um salvo conducto, Colombo volta a Portugal
+e vae ent&atilde;o offerecer ao rei os seus servi&ccedil;os
+na empresa dos descobrimentos e o rei os acceita,
+n&atilde;o para aproveitar-se delles, mas para reter
+Colombo junto a si, evitando que, por meio delle,
+<span class='pagenum'><a name="Page_44" id="Page_44">[Pg 44]</a></span>Castella se apropriasse de terras que a Portugal
+j&aacute; pertenciam.</p>
+
+<p>Mas, o astuto genovez, nem pelo facto de
+ficar ao servi&ccedil;o do rei de Portugal, deixa de conservar-se
+ao servi&ccedil;o da Hespanha de cujo thesouro
+havia recebido 14.000 maravedis<a name="FNanchor_2_2" id="FNanchor_2_2"></a><a href="#Footnote_2_2" class="fnanchor">[2]</a> em
+1487, mais 3.000 pouco depois e ainda 3.000
+em junho de 1488, isto &eacute;, mezes depois de receber
+a carta de d. Jo&atilde;o II que lhe dava o salvo
+conducto para voltar ao reino!!...</p>
+
+<div class="footnote"><p><a name="Footnote_2_2" id="Footnote_2_2"></a><a href="#FNanchor_2_2"><span class="label">[2]</span></a> O maravedi valia cerca de 25 r&eacute;is fortes.</p></div>
+
+<p>Eis ahi patente a dualidade ambiciosa de Colombo,
+que fica ao servi&ccedil;o de Portugal e ao da
+Hespanha, simultaneamente, explorando a ambos
+sem escrupulos!...</p>
+
+<p>Essa dualidade elle a revelou ainda no proprio
+nome, pois assignava-se <i>Colon</i> na Hespanha e
+<i>Colombo</i> na Italia e em Portugal!!!...</p>
+
+<p>Ao fim de quatro annos dessa dupla explora&ccedil;&atilde;o,
+consegue Colombo assignar um tratado
+com a cor&ocirc;a de Hespanha, obtendo della as
+tres caravelas de que carecia para ir &aacute; India
+pelo occidente e <i>achar</i> terras que j&aacute; tinham
+sido achadas pelos navegantes portuguezes. Por
+esse tratado, elle obteve as seguintes vantagens:
+&laquo;o grau de cavalleiro da espada dourada, os
+cargos de almirante m&oacute;r do mar oceano, de
+vice-rei e governador perpetuo das terras que
+descobrisse, a decima de todas as rendas, e o
+<span class='pagenum'><a name="Page_45" id="Page_45">[Pg 45]</a></span>direito de poder concorrer com o oitavo das
+despesas de todas as frotas, recebendo o oitavo
+dos lucros.&raquo;</p>
+
+<p>Que contraste resalta do procedimento deste
+aventureiro com o dos navegantes portuguezes
+que, antes delle, haviam ido &aacute; America,&mdash;como
+os Corte Reaes, Fern&atilde;o Dulmo e Lavrador&mdash;que
+armavam as caravelas &aacute; sua custa, que,
+nisso consumiam as suas fortunas e se individavam,
+vindo, ao depois, offerecer ao seu rei e
+ao seu paiz as terras achadas, sem pedir favor
+nem retribui&ccedil;&atilde;o alguma!</p>
+
+<p>Havia no tratado entre Colombo e os reis de
+Castella uma clausula pela qual fora estipulado
+que 10.000 maravedis seriam dados pela cor&ocirc;a e
+de alvi&ccedil;aras ao marinheiro da frota columbina
+que primeiro avistasse e annunciasse terra ao
+commandante. Esse marinheiro foi Rodrigo de
+Triana. Mas quando elle, do cesto da gavea,
+enthusiasmado apontou para o horizonte onde
+apparecia o relevo da terra desejada e, alegremente,
+a annunciou a Colombo, este declarou
+logo que, na noite anterior, j&aacute; havia visto uma
+<i>luz</i> e, estabelecendo com essa <i>luz</i> a prioridade,
+apossou-se da gratifica&ccedil;&atilde;o que ao seu subordinado
+competia!</p>
+
+<p>Os que pela rama estudaram a vida deste
+aventureiro audaz exaltam a sua caridade christ&atilde;,
+esquecendo: que, na sua primeira viagem &aacute;s Antilhas,
+nem padre elle levou na frota para cha<span class='pagenum'><a name="Page_46" id="Page_46">[Pg 46]</a></span>mar
+o gentio ao gremio da egreja; que, ao chegar
+ao golfo de Saman&aacute;, fez logo correr sangue,
+atacando os indigenas n&uacute;s e quasi desarmados;
+que, n&atilde;o podendo enviar aos reis de Castella as
+promettidas e almejadas riquezas em especiarias,
+pedras e metaes preciosos, mandou navios carregados
+de escravos para serem vendidos e com o
+pre&ccedil;o obtido pagar-se a despesa da viagem; que,
+de 1493 a 1496, governando a Hespaniola, que &eacute;
+o Haiti de hoje, exterminou barbaramente a ter&ccedil;a
+parte da popula&ccedil;&atilde;o; que, quando mandou Pedro
+Margarite reconhecer a ilha de Cuba, deu-lhe
+ordem para mutilar os indigenas que l&aacute; encontrasse;
+que, finalmente, quando ordenou a Hojeda
+(um dos pretensos descobridores do Brazil) que
+fosse prender o cacique Cahonaboa, deu-lhe instruc&ccedil;&otilde;es
+para que o fizesse &aacute; trai&ccedil;&atilde;o, attrahindo-o
+com presentes, illudindo-o com fingida amizade e
+apoderando-se delle em seguida!!...</p>
+
+<p>Eis ahi o quilate da caridade christ&atilde; de Colombo.</p>
+
+<p>Parece que a cavalheiresca Hespanha, a despeito
+de Colombo a ter enriquecido, sempre suspeitou
+desse <i>descobridor</i>, que a seu soldo trazia,
+pois, logo ap&oacute;s a sua segunda viagem &aacute; America,
+perseguiu-o tenazmente, submettendo-o a um tribunal
+e, quando elle regressou da terceira, ap&oacute;s dois
+mezes de pris&atilde;o em calabou&ccedil;o, mandou que viesse
+a bordo preso a uma grilheta, como se fosse um
+bandido!</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_47" id="Page_47">[Pg 47]</a></span>Morto em 1506, ignorando sempre que a terra
+que alcan&ccedil;ara para a Hespanha era a America,
+pois viveu sempre convicto de que era a Asia,
+nem depois de morto conseguiu descansar, pois
+os seus ossos andaram em viagens continuas de
+Valladolid, onde primeiro foi sepultado, para Sevilha,
+depois para o Haiti, depois para Cuba
+e, finalmente, de Cuba, de novo, para a Hespanha,
+onde actualmente param.</p>
+
+<p>E sendo genovez, a Italia, que ali&aacute;s lhe ergueu
+uma estatua, n&atilde;o reclamou jamais as suas
+atormentadas cinzas, talvez por desconfiar da authenticidade
+desse pretenso filho cuja nacionalidade
+&eacute; ainda hoje discutida.<a name="FNanchor_3_3" id="FNanchor_3_3"></a><a href="#Footnote_3_3" class="fnanchor">[3]</a></p>
+
+<div class="footnote"><p><a name="Footnote_3_3" id="Footnote_3_3"></a><a href="#FNanchor_3_3"><span class="label">[3]</span></a> Vide <i>Nota A</i> no fim da conferencia.</p></div>
+
+<p>Eis ahi senhores, quem foi Colombo, e como
+foi que elle deu &aacute; Hespanha terras dessa America
+que os portuguezes haviam descoberto.</p>
+
+<p>Conhecidos os factos que venho de narrar,
+posso dizer agora, sem receio de contesta&ccedil;&atilde;o s&eacute;ria,
+que Colombo n&atilde;o descobriu a America, porque,
+15 annos, pelo menos, antes delle nascer, j&aacute; a
+America havia sido descoberta pelos navegantes
+lusos do primeiro ter&ccedil;o do seculo XV.</p>
+
+<p>Como nota elucidativa e de importancia historica,
+cumpre-me accrescentar que, quando Colombo
+regressou da sua primeira viagem &aacute;s Antilhas
+e communicou a sua descoberta ao rei de
+Portugal, d. Jo&atilde;o II, logo este monarcha protestou
+<span class='pagenum'><a name="Page_48" id="Page_48">[Pg 48]</a></span>energicamente, dizendo-lhe: &laquo;Que aquella conquista
+lhe pertencia e que suas eram as terras
+aonde elle cheg&aacute;ra.&raquo;</p>
+
+<p>A este protesto do rei portuguez, respondeu
+Colombo hypocritamente, &laquo;que o n&atilde;o sabia e que
+os reis de Castella apenas lhe haviam ordenado
+que n&atilde;o fosse &aacute; Guin&eacute; nem &aacute; Mina.&raquo;</p>
+
+<p>Ao que retrucou d. Jo&atilde;o II: &laquo;Que tinha a
+certeza que nisso n&atilde;o haveria mist&eacute;r de terceiros&raquo;.</p>
+
+<p>Este dialogo, extrahido do diario da primeira
+viagem de Colombo, por elle proprio escripto,
+mostra que o usurpador da gloria alheia esquivava-se
+&aacute; responsabilidade directa do delicto por
+elle commettido, sciente e conscientemente, e que
+atirava essa responsabilidade para os hombros
+dos reis de Castella, como se fossem estes que
+tivessem ido &aacute;s Antilhas ou que o tivessem induzido
+a ir at&eacute; l&aacute;!...</p>
+
+<p>Mas, deixemos Colombo e vejamos agora
+como foi descoberta esta parte do continente
+americano que se chama o Brazil.</p>
+
+<p>Desde o come&ccedil;o desta conferencia, vos disse
+que n&atilde;o foi Pedro Alvares Cabral quem descobriu
+o Brazil, pois o Brazil j&aacute; estava designado e marcado
+nos mappas que a cor&ocirc;a portugueza possuia
+desde 1436, fixando Andr&eacute; Bianco, desde 1448,
+a sua distancia das ilhas de Cabo Verde em 1500
+milhas.</p>
+
+<p>Nesse mappa de 1448, que Andr&eacute; Bianco
+tra&ccedil;ou em Londres, <i>depois de haver passado por
+<span class='pagenum'><a name="Page_49" id="Page_49">[Pg 49]</a></span>Portugal</i>, estava o Brazil representado ao sul das
+ilhas dos Hermanos do archipelago de Cabo
+Verde, ilhas que t&ecirc;m hoje a denomina&ccedil;&atilde;o de
+Brava e do Fogo. Na parte referente ao Brazil
+e correspondente ao Cabo de S. Roque, havia no
+mappa esta legenda: <i>Ixola otincticha xe longa a
+ponente 1500 mia</i>, cuja traduc&ccedil;&atilde;o &eacute; esta: &laquo;Ilha
+authentica (ou Antilia) 1500 milhas ao poente.&raquo;</p>
+
+<p>Ora, o cabo de S. Roque, como todos sabem,
+dista exactamente 1520 milhas das ilhas de Cabo
+Verde.</p>
+
+<p>Estes dois documentos bastam para deixar
+patente que, quando, em 1500, Pedro Alvares
+Cabral aportou a Porto Seguro da costa brazileira,
+fazia, no minimo, 65 annos que essa parte da
+America tinha sido descoberta.</p>
+
+<p>Foram ainda navegantes portuguezes que a
+descobriram e at&eacute; o testamento de Jo&atilde;o Ramalho,
+escripto nas notas do tabelli&atilde;o Louren&ccedil;o
+Vaz, na villa de S. Paulo, em 3 de maio de
+1580, segundo o testemunho do frei Gaspar da
+Madre de Deus, que delle teve uma copia, o
+prova, pois, ahi, Ramalho, na presen&ccedil;a do dito
+tabelli&atilde;o, do juiz ordinario Pedro Dias e de
+quatro testemunhas, declarou que estava no Brazil
+ha 90 annos, isto &eacute;, desde 1490, dois annos antes
+da ida de Colombo &aacute;s Antilhas e dez annos antes
+da chegada de Cabral a Porto Seguro.</p>
+
+<p>Prova-o ainda o tratado de Tordesillas, assignado
+em 1494 entre Portugal e a Hespanha, o
+<span class='pagenum'><a name="Page_50" id="Page_50">[Pg 50]</a></span>qual, marcando para limites entre os dois reinos
+uma linha divisoria, do polo artico ao antarctico,
+distante 370 leguas das ilhas de Cabo Verde,
+abrangia na parte portugueza o Brazil, cujos limites
+foram tra&ccedil;ados por esse meridiano.</p>
+
+<p>O mappa de Cantino, de 1502, regista essa
+linha divisoria e inclue, de accordo com o tratado,
+na parte portugueza, n&atilde;o s&oacute; o Brazil como
+a Terra Nova ou de Jo&atilde;o Vaz e a Groelandia,
+assignalando tudo o que ficava &aacute; direita da linha
+divisoria com a bandeira portugueza e a parte
+&aacute; esquerda com a de Castella, com a seguinte
+legenda:&mdash;&laquo;Este &eacute; o marco dantre Castella e
+Portugal.&raquo;</p>
+
+<p>O a&ccedil;oriano Fructuoso, tratando de Jo&atilde;o Vaz
+C&ocirc;rte Real, diz que elle &laquo;descobriu algumas partes
+do Poente e do Brazil&raquo;, devendo, portanto, esta
+ultima descoberta ser anterior a 1500, pois Jo&atilde;o
+Vaz falleceu em 1496.</p>
+
+<p>Por um manuscripto de frei Diogo das Chagas,
+citado por Drumond nos seus <i>Annaes da Ilha
+Terceira</i>, sabe-se que, antes de 1496, tambem
+o navegante Jo&atilde;o Coelho veio ao Brazil.</p>
+
+<p>Em 1514, Estevam Fr&oacute;es confirma este asserto,
+numa carta ao rei de Portugal, na qual lhe
+diz: &laquo;alegravamos que vossa alteza possuia esta
+terra ha vinte annos e mais (portanto, desde
+antes de 1494), e que j&aacute; Jo&atilde;o Coelho... viera
+ter por onde n&oacute;s outros vinhamos a descobrir
+<span class='pagenum'><a name="Page_51" id="Page_51">[Pg 51]</a></span>e que vossa alteza estava em posse destas terras
+por muitos tempos.&raquo;</p>
+
+<p>O proprio Vasco da Gama, na sua primeira
+viagem &aacute; India, em 1497, passou proximo do
+Brazil, tendo signaes de terra em 22 de agosto,
+isto &eacute;, 19 dias depois que sahiu de Cabo Verde,
+como se verifica no Roteiro dessa sua viagem.</p>
+
+<p>No seu <i>Esmeraldo de situ orbis</i> refere Duarte
+Pacheco, o celebre cosmographo, <i>que em 1498 estivera
+no Brazil</i>, provavelmente, como supp&otilde;e plausivelmente
+o sr. Faustino da Fonseca, no intuito de
+verificar, por ordem da cor&ocirc;a portugueza, os
+limites determinados pela linha divisoria do tratado
+de Tordesillas.</p>
+
+<p>Mestre Jo&atilde;o, physico m&oacute;r de d. Manoel, e
+cosmographo da frota de Cabral, que na sua
+interessante carta ao rei, escripta de Porto Seguro,
+regista o Cruzeiro do Sul e marca para o
+Brazil a latitude de 17 graus, diz, entre outras
+cousas interessantes, referindo-se &aacute; terra brazileira,
+que a terra onde chegara, <i>j&aacute; se achava tra&ccedil;ada
+no mappa-mundi de Pedro Vaz da Cunha Bisagudo</i>,
+affirmando-o categoricamente na seguinte passagem
+da carta: &laquo;quanto, senhor, ao sitio desta terra,
+mande vossa alteza trazer um mappa-mundi, que
+tem Pedro Vaz Bisagudo, e por ahi poder&aacute; ver
+vossa alteza o sitio desta terra, ainda que aquelle
+mappa-mundi n&atilde;o certifica si esta terra &eacute; habitada
+ou n&atilde;o: &eacute; mappa-mundi antigo e ahi achar&aacute;
+vossa alteza escripta tambem a Mina...&raquo;</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_52" id="Page_52">[Pg 52]</a></span>Portanto, o proprio cosmographo da frota de
+Cabral sabia, desde antes da viagem de 1500,
+que havia terra nesse rumo de sudoeste que a
+frota cabralina seguiu, como o sabia tambem
+Duarte Pacheco, o qual j&aacute; nessa terra tinha
+estado em 1498.</p>
+
+<p>Tudo isto vem provar que, se Cabral n&atilde;o
+descobriu o Brazil, tambem o n&atilde;o descobriram
+os pretensos descobridores Vicente Yanez Pinzon,
+Diogo de Lepe e Alonso Hojeda, aventureiros,
+que s&oacute; chegaram &aacute; costa americana em 1499,
+n&atilde;o podendo tomar posse da terra brazileira
+porque o tratado de Tordesillas de 1494 n&atilde;o
+consentia em tal. As proprias instruc&ccedil;&otilde;es que
+o rei de Castella lhes deu em 1499, determinavam
+&laquo;que n&atilde;o tocassem nas terras de Portugal&raquo;.</p>
+
+<p>Elles estiveram, de facto, em terras do Brazil,
+antes de Cabral, mas a descoberta dessas terras
+n&atilde;o lhes pertence.</p>
+
+<p>N&atilde;o foram, pois, Cabral, nem Pinzon, nem
+Lepe, nem Hojeda, os descobridores do Brazil,
+podendo-se, por&eacute;m, assegurar que essa gloria
+cabe incontestavelmente a navegantes portuguezes
+do seculo XV, embora seja difficil determinar
+qual foi desses intrepidos argonautas o primeiro
+que pisou o solo brazileiro.</p>
+
+<p>&Aacute; vista das cartas e portulanos de Andr&eacute;
+Bianco, de 1436 e de 1448, pode-se affirmar
+que essa descoberta foi feita, como j&aacute; disse,
+em 1435, ou antes.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_53" id="Page_53">[Pg 53]</a></span>Vejamos, agora, como Cabral aportou a esta
+terra e della tomou posse official para a cor&ocirc;a
+de Portugal.</p>
+
+<p>O fim ostensivo, o fim apparente da expedi&ccedil;&atilde;o
+de Cabral era ir &aacute; India. O fim real,
+o fim verdadeiro era ir, primeiro, ao Brazil,
+delle tomar posse official, e, em seguida, fazer
+rumo para o Cabo da Boa Esperan&ccedil;a, em demanda
+da India.</p>
+
+<p>Como j&aacute; referi, a cor&ocirc;a portugueza, anteriormente
+&aacute; viagem de Cabral, havia enviado
+ao Brazil Duarte Pacheco, eminente cosmographo,
+que tambem veio na frota cabralina. O
+autor do <i>Esmeraldo de situ orbis</i> aqui estivera,
+pois, em 1498, para verificar os limites da linha
+divisoria do tratado de Tordesillas, que, na parte
+portugueza, abrangia as terras dos Corte Reaes,
+a Groelandia e o Brazil, mas deste n&atilde;o havia
+tomado posse official.</p>
+
+<p>Tornava-se, pois, indispensavel a Portugal
+reconhecer e tomar posse, sem demora, dessa
+terra e, assim, guiando-se pelas informa&ccedil;&otilde;es
+de Duarte Pacheco e do proprio Vasco da
+Gama, bem como pelas de outros seus navegantes,
+que haviam aportado &aacute; Terra dos Papagaios,
+aproveitava a expedi&ccedil;&atilde;o &aacute; India para,
+de passagem, tomar posse official do Brazil.
+O Brasil era, portanto, um ponto de escala da
+viagem de Cabral &aacute; India, mas um ponto de
+escala for&ccedil;ado e j&aacute; conhecido, pois sabia tam<span class='pagenum'><a name="Page_54" id="Page_54">[Pg 54]</a></span>bem
+a cor&ocirc;a portugueza, pelos mappas e portulanos
+de Bianco, que essa &laquo;Ilha authentica
+ou Antilia&raquo; ficava a 1500 milhas de distancia
+das ilhas Brava e do Fogo, do archipelago
+de Cabo Verde.</p>
+
+<p>Era a frota de Cabral composta de 13 naus,
+uma das quaes com mantimentos, e nellas embarcaram
+1.200 homens, entre os quaes o capit&atilde;o-m&oacute;r
+Pedro Alvares Cabral, que commandava
+a nau capitanea, os capit&atilde;es das outras naus
+Sancho de Toar, Sim&atilde;o de Miranda de Azevedo,
+Ayres Gomes da Silva, Nicolau Coelho, Bartholomeu
+Dias (o descobridor do Cabo da Boa
+Esperan&ccedil;a), Diogo Dias, Gaspar de Lemos,
+Luiz Pires, Sim&atilde;o de Pina, Pedro de Atayde
+Inferno, Vasco de Atayde e Nuno Leit&atilde;o da
+Cunha.</p>
+
+<p>Iam tambem na frota: Duarte Pacheco, autor
+do <i>Esmeraldo de situ orbis</i>, Mestre Jo&atilde;o, physico
+m&oacute;r do rei, que ia como cosmographo, o escriv&atilde;o
+Pero Vaz Caminha, diversos frades, entre os quaes
+frei Henrique de Coimbra, os pilotos Affonso
+Lopes, Pedro Escolar e outros que Vasco da
+Gama trouxera da India, diversos indios, um
+grumete negro da Guin&eacute;, alguns interpretes e
+varios degredados.</p>
+
+<p>Iam os navios de Cabral apparelhados e
+munidos do necessario para anno e meio de
+viagem, bem providos de artilheria, de muni&ccedil;&otilde;es
+de bocca, de armas brancas, como espadas
+<span class='pagenum'><a name="Page_55" id="Page_55">[Pg 55]</a></span>e lan&ccedil;as, e, em cada nau, havia uma botica.
+Para o commercio, levavam as caravelas, velludos,
+setins, damascos, pannos de l&atilde;, coral,
+cobre, vermelh&atilde;o, mercurio e ambar. Al&eacute;m
+disso, levavam os padres comsigo um org&atilde;o e
+alfaias de prata.</p>
+
+<p>Era, evidentemente, a maior, a melhor apparelhada
+e a mais garrida frota que partia da
+Europa.</p>
+
+<p>Em 15 de fevereiro de 1500 recebeu Cabral
+a carta de capit&atilde;o m&oacute;r e dos poderes de que
+ia revestido. Com essa carta foi-lhe dado o regimento
+pelo qual se devia guiar na viagem e,
+nesse regimento, que, na parte relativa ao rumo,
+f&ocirc;ra organizado por Vasco da Gama, estava
+tra&ccedil;ada a rota que devia seguir.</p>
+
+<p>Nesse documento minucioso, recommendava-se
+ao capit&atilde;o m&oacute;r que &laquo;se afastasse da costa da Africa
+para encurtar a via e que, ao partir da ilha de Santiago
+em Cabo Verde, deviam os navios fazer o seu
+caminho pelo sul, <i>bordejando pelas bandas do sudoeste</i>...
+e, depois, na volta do mar, at&eacute; metterem o
+Cabo da Boa Esperan&ccedil;a, em leste franco.&raquo;</p>
+
+<p>O regimento n&atilde;o fala claramente em aportar &aacute;
+Terra dos Papagaios, mas estipula que, ao deixar
+Cabo Verde, &laquo;f&aacute;&ccedil;a a frota caminho pelo sul, bordejando
+pelas bandas de sudoeste&raquo; e sendo a miss&atilde;o
+secreta de Cabral tomar posse official dessa terra e
+devendo elle de ter necessidade de arribar a uma
+terra qualquer, antes da chegada ao Cabo ou &aacute;
+<span class='pagenum'><a name="Page_56" id="Page_56">[Pg 56]</a></span>India, para abastecer a frota de agua e lenha e dar
+descanso &aacute; marinhagem, a terra do Brazil estava
+naturalmente indicada para tal fim. Accresce que,
+na frota, ia Duarte Pacheco que, tendo j&aacute; estado no
+Brazil, saberia guiar Cabral com seguran&ccedil;a a esse
+ponto de escala for&ccedil;ada da gran viagem, de antem&atilde;o
+indicada pelo Gama.</p>
+
+<p>A rota tra&ccedil;ada nas linhas e entrelinhas do regimento
+era, pois: seguir a frota de Lisboa &aacute; ilha de
+Santiago, de Cabo Verde, dahi seguir pelo sul, bordejando
+pelo sudoeste, at&eacute; alcan&ccedil;ar a costa da Terra
+dos Papagaios, dahi zarpar para o Cabo, dobral-o e
+seguir para a India.</p>
+
+<p>Esse rumo inda &eacute; o mesmo que hoje seguem
+os navios que v&ecirc;m de Lisboa ao Brazil. Prompta a
+frota de Cabral, partiu ella do Tejo aos 9 de mar&ccedil;o
+de 1500, acompanhando-a o rei d. Manuel at&eacute; fora
+da barra. Cinco dias depois, a 14 de mar&ccedil;o, passa
+a frota pelas Canarias onde encontra calmaria e
+onde permanece um dia; a 22, chega a Cabo Verde
+e, exactamente um mez depois, a 22 de abril, avista
+a terra brazileira, gastando, de Lisboa a Porto Seguro,
+43 dias.<a name="FNanchor_4_4" id="FNanchor_4_4"></a><a href="#Footnote_4_4" class="fnanchor">[4]</a></p>
+
+<div class="footnote"><p><a name="Footnote_4_4" id="Footnote_4_4"></a><a href="#FNanchor_4_4"><span class="label">[4]</span></a> Vide <i>Nota C</i> no fim da Conferencia</p></div>
+
+<p>Dos historiadores que consultei, e n&atilde;o poucos
+foram, sobre a viagem de Cabral ao Brazil, attribuem
+uns ao <i>acaso</i> esse feito, dizem outros que a
+frota f&ocirc;ra impellida para a nossa costa por um
+<i>forte temporal</i>, que a apanhou.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_57" id="Page_57">[Pg 57]</a></span>Nenhum delles por&eacute;m, explica em que altura a
+frota foi apanhada pelo temporal nem quanto tempo
+este durou.</p>
+
+<p>Ora, contra esse <i>forte temporal</i> protestam energicamente
+os dois melhores documentos que possuimos
+da viagem de Cabral: as cartas que Mestre
+Jo&atilde;o, o cosmographo da frota, e Vaz Caminha, o
+escriv&atilde;o, enviaram ao rei d. Manuel, de Porto Seguro,
+pela nau que dahi partiu a 1.º de maio, de
+regresso a Lisboa, para dar conta do feito ao monarcha.</p>
+
+<p>Nem o cosmographo nem Caminha falam de
+tal temporal, pelo contrario, o que dizem &eacute; que,
+durante a viagem, houve calmaria e que por causa
+della perdeu a frota um dia em frente &aacute;s Canarias.
+Temporal soffreu a frota, mas depois que deixou o
+Brazil e se fez vella para o Cabo, onde falleceu o
+seu descobridor Bartholomeu Dias.</p>
+
+<p>N&atilde;o houve, pois, temporal na travessia at&eacute; ao
+Brazil, nem o acaso interveio na chegada da frota
+cabralina a esta terra. O rumo a seguir tinha-lhe
+sido tra&ccedil;ado; al&eacute;m disso, j&aacute; nessa &eacute;poca tinham
+os portuguezes perfeito conhecimento das correntes
+maritimas e dos ventos geraes e sabiam aproveital-os
+de acc&ocirc;rdo com as rotas a seguir. O duplo fim de
+Cabral, tomando o rumo seguido e aportando ao
+Brazil, &eacute;ra, como j&aacute; o disse, abastecer-se de lenha e
+agua, dando descanso &aacute; marinhagem e tomar posse
+official da Terra dos Papagaios para a cor&ocirc;a portugueza.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_58" id="Page_58">[Pg 58]</a></span>O <i>acaso</i> e o <i>temporal</i> t&ecirc;m, portanto, de ser banidos
+dos livros que se occupam do descobrimento
+da terra de Vera Cruz.</p>
+
+<p>O primeiro e grande historiador que o Brazil
+teve, ainda hoje o mais sincero e veridico, &eacute; Pero
+Vaz Caminha, o modesto escriv&atilde;o, que narrou ao
+rei d. Manoel, numa commovente e encantadora
+carta, onde a minucia corre parelhas com a simplicidade,
+a historia da travessia, da chegada e da
+permanencia de Cabral na terra brazileira.</p>
+
+<p>Nessa longa missiva, escripta de Porto Seguro e
+datada de 1.º de maio de 1500, o consciencioso
+historiador d&aacute; conta ao seu rei e senhor de
+todas as peripecias da viagem, desde a partida
+de Lisboa at&eacute; ao Brazil e ainda de tudo o que
+se passou durante os 12 dias em que a frota
+ficou ancorada em frente &aacute; costa brazileira. Persuadido
+de que o que mais interessaria a D.
+Manuel era o conhecimento exacto da terra reconhecida,
+da gente que a habitava, dos seus
+costumes e indole, das riquezas que possuia e
+da facilidade que poderia offerecer &aacute; coloniza&ccedil;&atilde;o,
+n&atilde;o poupou minucias para p&ocirc;r o rei ao
+corrente do que vira e do que lhe poderia ser
+proveitoso.</p>
+
+<p>&Eacute; assim que elle descreveu com enthusiasmo
+e cores vivas o esplendor da natureza brazileira,
+a frescura, abundancia e potabilidade das
+nossas aguas, a brandura do clima, a belleza
+do nosso c&eacute;o, onde rutilava o cruzeiro, refe<span class='pagenum'><a name="Page_59" id="Page_59">[Pg 59]</a></span>rindo-se
+com interesse e insistencia &aacute; indole pacifica
+dos nossos indigenas, aos seus habitos e
+costumes, &aacute; belleza das suas formas, &aacute; sua completa
+innocencia, deprehendida da sua completa
+nudez, e &aacute; facilidade com que acceitavam a cathechese,
+parecendo-lhe empresa de pequeno esfor&ccedil;o
+fazel-os christ&atilde;os, chamando-os ao gremio
+da egreja. Tratando dos productos naturaes, descreveu
+a fauna e a flora que encontrou, accentuando
+que os incolas, haviam dado demonstra&ccedil;&otilde;es
+evidentes aos da frota de que em terra
+havia ouro, prata e papagaios.</p>
+
+<p>Descrevendo o que fizeram os indigenas, que
+acudiram &aacute; praia, quando das naus partiram
+as primeiras almadias para o transporte de agua,
+diz que &laquo;os indios logo trouxeram caba&ccedil;as e
+tomavam alguns barris que n&oacute;s levavamos, enchiam-os
+de agua e traziam-os aos bateis&raquo;.</p>
+
+<p>Este trecho da carta de Caminha prova que
+a frota cabralina come&ccedil;ou logo por fazer aguada
+e prova tambem que os indigenas vinham offerecer
+agua aos homens brancos, como se j&aacute;
+estivessem habituados a praticar esse servi&ccedil;o, repetindo
+actos praticados anteriormente; o que
+demonstra que n&atilde;o era a primeira vez que viam
+homens brancos e naus.</p>
+
+<p>A facilidade com que alguns dos naturaes
+se deixaram capturar e levar a bordo da nau
+capitanea, alli permanecendo e dormindo tranquilamente
+durante uma noite, como narra
+<span class='pagenum'><a name="Page_60" id="Page_60">[Pg 60]</a></span>Caminha, prova ainda que os nossos indigenas
+j&aacute; estavam familiarizados com os europeus, que
+j&aacute; os conheciam, que conheciam os seus habitos
+e costumes, que delles n&atilde;o tinham receio.</p>
+
+<p>E isso &eacute; ainda uma prova indirecta de que
+os portuguezes j&aacute; haviam estado no Brazil antes
+de Cabral aqui chegar. E, de facto, c&aacute; estiveram,
+porque j&aacute; aqui estava Jo&atilde;o Ramalho,
+que havia chegado 10 annos antes e que tanto
+facilitou a miss&atilde;o de Martim Affonso, quando
+este aportou &aacute; antiga capitania de S. Vicente.</p>
+
+<p>Ao primeiro monte que avistou deu Cabral
+o nome de Monte Paschoal, &aacute; terra o nome de
+Vera Cruz, porque no c&eacute;o rutilava o cruzeiro,
+e ao porto, onde definitivamente fundeou, o de
+Porto Seguro. Chegou o domingo de paschoela,
+e, narra Caminha, que o capit&atilde;o m&oacute;r deliberou
+ouvir missa e serm&atilde;o em um ilh&eacute;o de Porto
+Seguro. Logo alli se armou o altar e frei Henrique
+de Coimbra officiou, cercado de todos os
+padres da frota. Foi essa a primeira missa, de
+que temos noticia exacta e circumstanciada, dita
+no Brazil, que forneceu assumpto para um dos
+mais bellos e suggestivos quadros de Victor
+Meirelles. Terminada a missa, frei Henrique
+subiu a uma cadeira alta, que lhe serviu de
+pulpito e dahi pr&eacute;gou, fazendo a historia do
+Evangelho, descrevendo a travessia e pondo a
+terra reconhecida por Cabral sob a protec&ccedil;&atilde;o da
+Cruz. &Aacute; missa e ao serm&atilde;o assistiram os na<span class='pagenum'><a name="Page_61" id="Page_61">[Pg 61]</a></span>turaes
+que ao ilh&eacute;o acudiram e que ao depois,
+folgaram, fraternizando com os tripulantes da
+frota. Na nau capitanea discutiu-se depois se
+conviria tomar dois indigenas para envial-os ao
+reino, ou se seria preferivel deixar entre elles
+alguns degredados, sendo por grande maioria,
+adoptado de preferencia este ultimo alvitre, pois
+os degredados, ficando alli, apprenderiam a lingua
+dos naturaes e poderiam servir de interpretes,
+quando o rei mandasse nova frota ao Brazil
+para o colonizar; accresce que era do plano de
+Cabral, como foi mais tarde do de Martim Affonso,
+n&atilde;o hostilizar os indigenas, n&atilde;o lhes incutir
+desconfian&ccedil;a alguma, tratando-os com carinho
+e brandura, sem os violentar j&aacute;mais, para
+assim n&atilde;o sahir dos preceitos da caridade christ&atilde;
+e tel-os sempre como alliados. Para os ir habituando
+&aacute; vida com os brancos, que deviam
+ficar definitivamente com elles, foram logo enviados
+&aacute; praia e ahi deixados dois degredados,
+que deviam passar a noite com os naturaes;
+mas estes, sem os molestar, coagiram-nos a voltar
+&aacute;s naus. Quando os da frota ergueram
+num ponto elevado da costa, dominando o mar,
+a primeira cruz, que ficou em terra brazileira
+e que confirmou o nome de Vera Cruz, que Cabral
+lhe havia dado, os indigenas auxiliaram depois &aacute;
+abastecer as naus de lenha e de agua. E quando
+a maruja beijou a cruz erguida, os indios tambem
+a beijaram, pondo-se de joelhos, gestos que le<span class='pagenum'><a name="Page_62" id="Page_62">[Pg 62]</a></span>varam
+Caminha a affirmar &laquo;que era gente de
+tal innocencia que, se os intendessemos e elles
+a n&oacute;s, seriam logo christ&atilde;os, porque, segundo
+parece, n&atilde;o t&ecirc;m nenhuma cren&ccedil;a&raquo;. E accrescenta,
+logo depois, na sua luminosa carta ao rei: &laquo;se
+os degredados, que h&atilde;o de ficar, aprenderem
+bem a sua fala, n&atilde;o duvido, <i>segundo a santa
+ten&ccedil;&atilde;o de vossa alteza</i>, fazerem-se christ&atilde;os e crerem
+a nossa santa f&eacute; &aacute; qual praza Nosso Senhor
+que os traga, porque decerto esta gente
+&eacute; boa e imprimir-se-&aacute; ligeiramente nelles qualquer
+cunho que lhe quizerem dar... e, portanto
+v. alteza, pois tanto deseja accrescentar na santa
+f&eacute; catholica, deve entender na sua salva&ccedil;&atilde;o, e
+prazer&aacute; a Deus que com pouco trabalho ser&aacute;
+assim.&raquo;</p>
+
+<p>Prova este trecho de carta do escriv&atilde;o da
+frota que elle conhecia a ten&ccedil;&atilde;o do rei, que
+sabia que o seu intento era chamar os naturaes
+das terras, por onde passasse a frota, ao
+gremio da egreja e que, ao contrario do que
+fizeram Colombo, Pinzon, Hojeda, Lepe e outros,
+era do seu programma assegurar a posse da terra
+reconhecida, conquistando os naturaes pela brandura
+e carinho, incutindo-lhes a f&eacute; christ&atilde;.</p>
+
+<p>No dia primeiro de maio de 1500, vespera da
+partida de Cabral para o Cabo, nova missa foi
+dita por frei Henrique de Coimbra, n&atilde;o mais
+no ilh&eacute;u em que diss&eacute;ra a primeira, mas junto
+<span class='pagenum'><a name="Page_63" id="Page_63">[Pg 63]</a></span>&aacute; cruz erguida em terra e &aacute; qual foi pregado o
+escudo das armas de Portugal.</p>
+
+<p>Ainda a essa missa assistiram os indigenas,
+imitando todos os gestos que viram fazer aos
+portuguezes e, depois do serm&atilde;o, frei Henrique
+lan&ccedil;ou ao pesco&ccedil;o de todos os que alli estavam,
+pequenos crucifixos de metal, que elles
+beijaram com satisfa&ccedil;&atilde;o e receberam com visivel
+empenho.</p>
+
+<p>Em seguida, foram-se os mareantes para as
+naus, deixando em terra dois degredados e no
+dia immediato, 2 de maio, a frota fez-se de
+v&eacute;la para o Cabo da Boa Esperan&ccedil;a, tendo regressado
+ao reino uma das caravelas, capitaneada
+por Gaspar de Lemos, para levar ao rei a noticia
+do reconhecimento officialmente feito da terra do
+Brazil e da sua posse para a cor&ocirc;a portugueza.</p>
+
+<p>A essa terra, que era conhecida pelo nome
+de Terra dos Papagaios e que Cabral denominou
+Vera Cruz, poz d. Manoel, em 1502, o
+nome de Santa Cruz, que foi posteriormente
+substituido pelo de Brazil, devido ao grande
+commercio do pau brazil que ella produzia.</p>
+
+<p>Dando conta, em carta, ao rei da Hespanha
+do reconhecimento do Brazil feito por Cabral,
+disse d. Manoel: &laquo;o capit&atilde;o deixou alli dois
+degredados &aacute; merc&ecirc; de Deus.&raquo; Um dos pilotos
+da frota explicou depois que esses degredados
+puzeram-se a chorar e que logo os naturaes os
+animaram, mostrando ter piedade delles.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_64" id="Page_64">[Pg 64]</a></span>Vaz Caminha, na sua deliciosa carta, revela,
+que, al&eacute;m desses dois degredados, que foram
+abandonados em terra, dois grumetes da frota
+para ella fugiram e nella ficaram por sua livre
+vontade, o que significa que a gente que a
+habitava era pacifica e hospitaleira.</p>
+
+<p>Vem talvez dahi a heran&ccedil;a dessa proverbial
+hospitalidade brazileira, que tanto surprehende e
+encanta os estrangeiros que visitam o nosso paiz.</p>
+
+<p>Eis, senhores, como foi descoberto o Brazil e
+como Cabral, 65 annos depois do seu descobrimento,
+o reconheceu e delle officialmente tomou
+posse para a cor&ocirc;a de Portugal, &aacute; qual ali&aacute;s j&aacute;
+pertencia pelo tratado de Tordesillas.</p>
+
+<p>N&atilde;o coube, pois, a Cabral a grande gloria de
+descobrir o Brazil, mas coube-lhe a n&atilde;o pequena
+gloria de fazer o seu reconhecimento e delle tomar
+posse para o paiz que o descobrira, realizando o
+memoravel feito sem hostilizar os filhos dessas
+regi&otilde;es incultas, sem inflingir um ligeiro castigo,
+sem despertar nelles o odio que Colombo e os
+hespanhoes, que depois vieram &aacute; conquista da
+America, accenderam entre os indigenas, dizimando-os,
+submettendo-os a ferro e fogo, ca&ccedil;ando-os
+barbara e deshumanamente <i>com c&atilde;es amestrados
+na ca&ccedil;a do homem</i>, como quem ca&ccedil;a hyenas
+e lobos!</p>
+
+<p>Essa imperecivel gloria coube a Cabral e basta
+ella para que se justifique o preito de admira&ccedil;&atilde;o
+que lhe rendemos, sem olvidar os servi&ccedil;os inesti<span class='pagenum'><a name="Page_65" id="Page_65">[Pg 65]</a></span>maveis
+dos seus maiores na busca e descobrimento
+desta terra aben&ccedil;oada.</p>
+
+<p>Bastava a sua caridade christ&atilde; para com os
+filhos deste paiz para que lhe devessemos o monumento
+que no Rio de Janeiro se acha erguido
+em frente ao mar glauco e luminoso, perpetuando a
+sua memoria immaculada e a do seu feito incruento.</p>
+
+<p>Com o reconhecimento do Brazil em 1500,
+fechou Portugal com &eacute;lo de ouro o ciclo grandioso
+das suas descobertas no seculo XV com as
+quaes dilatou o mundo e fez avan&ccedil;ar a civiliza&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Nesse seculo de estupenda actividade maritima,
+em que os lusos mareantes, guiados e instigados
+pela voz prophetica do infante d. Henrique,
+avan&ccedil;aram sem pavor pelo mar immenso e tenebroso,
+que devia estar cheio de escolhos, de bruma
+negra e povoado de monstros assustadores, descobriram
+elles, caminhando para o desconhecido, a
+ilha da Madeira, as Formigas, todas as ilhas do
+archipelago dos A&ccedil;ores, todas as de Cabo Verde,
+o mar de Sarga&ccedil;os, uma grande parte do Brazil,
+uma parte da America Central e da America do
+Norte e, caminhando de ousadia em ousadia, dobraram
+o Cabo das Tormentas, descobriram e
+atravessaram o estreito de Magalh&atilde;es, fizeram a
+primeira viagem em redor do mundo, apoderaram-se
+de uma parte da Asia e de uma parte da
+Africa, enchendo o mappa com conquistas suas!...</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_66" id="Page_66">[Pg 66]</a></span>E tudo isto foi feito do decurso de menos
+de um seculo por um punhado de homens que
+partiram, affrontando a morte, de uma insignificante
+nesga de terra erguida &aacute; beira mar, no
+occidente da vasta Europa!...</p>
+
+<p>Olhae para o mappa que vos apresento e
+nelle vereis, em c&ocirc;r vermelha, tra&ccedil;ada a epop&eacute;a
+desses grandiosos feitos.</p>
+
+<p>Podeis dizer agora commigo, senhores, sem
+hesita&ccedil;&atilde;o e com ufania:&mdash;Gloria aos portuguezes,
+mestres de Colombo, precursores de Colombo,
+incontestaveis e unicos descobridores do
+Novo Mundo!<a name="FNanchor_5_5" id="FNanchor_5_5"></a><a href="#Footnote_5_5" class="fnanchor">[5]</a></p>
+
+<div class="footnote"><p><a name="Footnote_5_5" id="Footnote_5_5"></a><a href="#FNanchor_5_5"><span class="label">[5]</span></a> Vide <i>Nota B</i> no fim da conferencia.</p></div>
+
+<hr style='width: 45%;' />
+
+<p>Portuguezes que me ouvis, meus amigos e
+meus irm&atilde;os; a monarchia tradicional que, por
+tantos seculos, regeu os vossos destinos, come&ccedil;ou
+a dissolver-se na batalha de Alcacer Kibir,
+e, combalida, ruiu de todo com a qu&eacute;da e
+com a fuga do ultimo Bragan&ccedil;a, em 5 de outubro
+de 1910.</p>
+
+<p>Depois de tanta luz offuscante, que o seculo
+XV projectou da occidental praia lusitana,
+veio a sombra e veio o marasmo, que vos n&atilde;o
+deixou avan&ccedil;ar mais.</p>
+
+<p>Dir-se-ia que, desde 1500 at&eacute; ha pouco, vivestes
+acorrentados, manietados, sem poder dar
+<span class='pagenum'><a name="Page_67" id="Page_67">[Pg 67]</a></span>expans&atilde;o ao vosso genio irrequieto e aventuroso,
+sem poder tirar partido das conquistas
+feitas com tanto sacrificio e perigo.</p>
+
+<p>Raiou para v&oacute;s agora a aurora da liberdade
+com a proclama&ccedil;&atilde;o da Republica em vossa terra.</p>
+
+<p>Uma nova era, promissora e fecunda, apresenta-se,
+durante a qual podeis resgatar os erros
+de quatro seculos e achar as energias precisas
+para conquistar o antigo esplendor.</p>
+
+<p>Vejo-vos, com pesar, divididos nos campos
+maninhos da politica esteril, da politica dissolvente
+dos partidos. Que quereis obter com a
+lucta perturbadora neste momento em que a vossa
+patria mais precisa de paz, de dedica&ccedil;&otilde;es e de tino?
+A reconquista de um regimen que vos amesquinhou,
+que vos empobreceu, que vos fez descer
+do alto da columna onde j&aacute; estivestes erguidos,
+dominando o universe? A reconquista de um
+regimen que vos deu o jugo da Hespanha, por
+60 annos, a vergonha da fuga da vossa familia
+real e da sua c&ocirc;rte para o Brazil, e o
+abandono da vossa patria &aacute; invas&atilde;o estrangeira?
+a reconquista de um regimen que vos
+deu o vergonhoso &laquo;ultimatum&raquo; de 1890? Sois
+ainda hoje os depositarios de dois legados sagrados,
+que vos deixou o creador fecundo da
+Escola de Sagres e o grande &eacute;pico, que, em
+verso estridente, cantou as vossas glorias e descortinou
+ao mundo o vosso saber e as vossas
+gloriosas jornadas.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_68" id="Page_68">[Pg 68]</a></span>Que quereis fazer dessa heran&ccedil;a, levando-a
+&aacute; labareda das vossas disputas domesticas? Enfraquecer
+mais a patria, desprestigial-a, deixar
+que, considerada ingovernavel, v&aacute; parar &aacute;s m&atilde;os
+do estrangeiro, &aacute;vido e cobi&ccedil;oso, que j&aacute; pensa
+como repartir entre si o precioso legado do
+previdente infante? N&atilde;o, n&atilde;o! Deixae o velho
+regimen sepultado nas tr&eacute;vas do passado, cessae
+as vossas luctas fratricidas, e, unidos todos,
+em bl&oacute;co, trabalhae pela rehabilita&ccedil;&atilde;o do vosso
+formoso paiz, pela consolida&ccedil;&atilde;o das suas actuaes
+institui&ccedil;&otilde;es, sendo sempre portuguezes, mais portuguezes
+ainda no regimen da democracia e da liberdade,
+sendo sempre os briosos descendentes de
+d. Henrique, que mandou a descobrir esta formosa
+terra que, em vinte annos de Republica, tem
+avan&ccedil;ado sempre e tem sabido sempre impor-se
+ao respeito e &aacute; admira&ccedil;&atilde;o das potencias.</p>
+
+<p>Tenho dito.</p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" /><p><span class='pagenum'><a name="Page_69" id="Page_69">[Pg 69]</a></span></p>
+<h2><a name="Notas_e_Noticias" id="Notas_e_Noticias"></a>Notas e Noticias</h2>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" />
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_71" id="Page_71">[Pg 71]</a></span></p>
+<h2><a name="NOTAS" id="NOTAS"></a>NOTAS</h2>
+
+
+<h2>NOTA A</h2>
+
+<p>A revista hespanhola <i>Espa&ntilde;a Moderna</i>, de Junho de
+1910, consagrou um longo artigo, &aacute; nacionalidade de Colombo
+e chegou &aacute; conclus&atilde;o de que elle era hespanhol,
+natural de Pontevedra e, portanto, gallego. Entre os
+argumentos apresentados para firmar a sua asser&ccedil;&atilde;o, cita
+o facto da caravela <i>Santa Maria</i>, uma das trez da frota
+com que Colombo foi &aacute;s Antilhas, ser appellidada vulgarmente
+<i>La Gallega</i>.</p>
+
+<p>O historiador hespanhol D. Celso Garcia de la Riega,
+filho de Pontevedra, sustentou a affirma&ccedil;&atilde;o da <i>Espa&ntilde;a
+Moderna</i> em um longo artigo que, posteriormente, em
+Janeiro de 1911, publicou no <i>Heraldo</i>, de Madrid.</p>
+
+<p>A Hespanha reclama, pois, para si, a gloria de ter
+dado nascimento a Colombo, que ainda &eacute; l&aacute; conhecido
+por Colon.</p>
+
+<p>Todavia, Las Casas, amigo intimo de Colombo, affirma
+que este era genovez e Toscanelli, em uma das suas
+cartas ao proprio Colombo, considera-o portuguez!...</p>
+
+<p>Eis ahi porque dissemos que a nacionalidade de
+Colombo ainda hoje &eacute; discutida.</p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" /><p><span class='pagenum'><a name="Page_72" id="Page_72">[Pg 72]</a></span></p>
+<h2><a name="NOTA_B" id="NOTA_B"></a>NOTA B</h2>
+
+<p>N&atilde;o se tractou nesta conferencia de Americo Vespucio
+porque, a despeito de affirmarem que elle legou o seu
+nome &aacute; America, della ainda foi menos descobridor do
+que Colombo. Quem se lembrou de baptisar com o
+nome de America a terra, que Jo&atilde;o Vaz Corte Real e
+outros navegantes lusos descobriram, foi o cosmographo
+francez Mathias Ringmann que, na sua <i>Cosmographiae
+introductio in super quatuor Americi navigationes</i>, publicada
+em 1507, em Saint-Di&eacute;, na Alsacia franceza, escreveu:<a name="FNanchor_6_6" id="FNanchor_6_6"></a><a href="#Footnote_6_6" class="fnanchor">[6]</a></p>
+
+<div class="footnote"><p><a name="Footnote_6_6" id="Footnote_6_6"></a><a href="#FNanchor_6_6"><span class="label">[6]</span></a> A Cosmographia de Ringmann foi publicada em Saint-Di&eacute; a
+25 de Abril de 1507. Ringmann falleceu em Strasburgo em 1511. A
+Fran&ccedil;a, querendo perpetuar a leviandade de Ringmann, festejou este
+anno o quarto anniversario da sua morte, sob o pretexto de ter sido
+elle o baptizador do Novo Mundo! Eis ahi como se escreve e como
+se faz a Historia!...</p></div>
+
+<p>&laquo;No mundo existe mais uma quarta parte que Americo
+Vespucio descobriu e que, por essa raz&atilde;o, poderiamos
+chamar America, isto &eacute;, Terra de Americo.&raquo;</p>
+
+<p>O alvitre de Ringmann foi aceito e &aacute; nova terra descoberta
+deu-se o nome desse usurpador da gloria alheia,
+que nunca passou de um cosmographo, que veio &aacute;s terras<span class='pagenum'><a name="Page_73" id="Page_73">[Pg 73]</a></span>
+americanas com Hojeda, muito depois que os Corte
+Reaes, Lavrador, Dulmo, Affonso Sanches e outros navegantes
+lusos nellas estiveram e ainda mesmo depois de
+Colombo, que j&aacute; foi um retardatario.</p>
+
+<p>Accresce que ha quem affirme (&eacute; o erudito Snr. H.
+Vart) que o nome America, dado ao Novo Mundo, prov&ecirc;m,
+n&atilde;o do prenome de Vespucio, mas da denomina&ccedil;&atilde;o que
+os indios de Nicaragua davam &aacute;s &laquo;terras altas&raquo; dessa
+regi&atilde;o americana de onde extrahiam o ouro que empregavam
+nos seus utensilios e adornos, terras essas que
+elles chamavam America, express&atilde;o equivalente a Eldorado
+ou Terra do Ouro, que, primeiro, os companheiros
+de Colombo e, depois, todos os outros navegadores
+foram acceitando e que serviu para designar, n&atilde;o s&oacute; as
+terras altas de Nicaragua, mas todo o novo continente.</p>
+
+<p>A ser verdadeira a affirma&ccedil;&atilde;o de H. Vart, o nome
+America &eacute; de origem americana.</p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" /><p><span class='pagenum'><a name="Page_74" id="Page_74">[Pg 74]</a></span></p>
+<h2><a name="NOTA_C" id="NOTA_C"></a>NOTA C</h2>
+
+<p>A 6 de Maio de 1895, quando eu ainda desconhecia o
+livro do Snr. Faustino da Fonseca, que s&oacute; veio a lume
+muitos annos depois, publiquei no <i>O Paiz</i> da Capital
+Federal o seguinte artigo sobre a commemora&ccedil;&atilde;o official
+da data do pretenso descobrimento do Brazil, feito por
+Pedro Alvares Cabral, em 1500:</p>
+
+<p>&laquo;O dia 3 de Maio &eacute; officialmente commemorado como
+data anniversaria do descobrimento do Brazil. E todavia
+&eacute; um erro, &eacute; um anniversario falso, porque a verdadeira
+data anniversaria desse descobrimento &eacute; 22 de Abril,
+pois foi a 22 de Abril de 1500, que Pedro Alvares Cabral,
+em demanda das terras da India, avistou na frente da
+sua frota um morro elevado da terra brazileira para o
+qual mandou aproar fundeando a seis leguas de distancia.</p>
+
+<p>Celebrava ent&atilde;o a igreja catholica as festas da Paschoa
+e d'ahi a raz&atilde;o porque Cabral deu a esse morro o nome
+do Monte Paschoal.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_75" id="Page_75">[Pg 75]</a></span>Os historiadores dos seculos XVII e XVIII e notadamente
+a obra de Fr. Gaspar da Madre de Deus &eacute; que,
+no dizer de Pereira da Silva, induziram os estadistas
+fundadores do imperio brazileiro ao erro de estabelecerem
+a data de 3 de Maio como a do descobrimento.
+Todavia a carta de Pero Vaz Caminha, publicada pela
+Academia Real de Sciencias de Lisboa e escripta a el-rei
+D. Manoel em 1.º de maio de 1500, annunciando-lhe a
+descoberta e os documentos deixados pelo physico-m&oacute;r
+da armada de Cabral e por um piloto que fazia parte
+da frota, n&atilde;o deixam duvida sobre o dia exacto em que
+o almirante viu e mandou aproar para a terra brazileira.</p>
+
+<p>Basta a circumstancia de ser a carta de Pero Vaz
+Caminha, que ia n'uma das treze n&aacute;os da frota de Cabral
+como futuro escriv&atilde;o do almoxarifado que o almirante
+devia fundar nas Indias, datada de 1.º de maio, para
+tornar patente a impossibilidade do descobrimento a 3
+desse mez. Nessa carta, onde Vaz Caminha d&aacute; conta
+do descobrimento, l&ecirc;-se que elle foi effectuado a 22 de abril.
+Nesse dia, que era uma quarta-feira, Cabral limitou-se a
+approximar-se de terra, fundeando &aacute;s 4 horas da tarde,
+em ponto em que havia 19 bra&ccedil;as de profundidade. S&oacute;
+no dia seguinte, 23 de abril, aproximou-se mais de terra
+com as precisas cautelas e, ao chegar &aacute; desembocadura
+de um rio, mandou que Nicol&aacute;o Coelho fosse em uma
+almadia explorar as plagas que se avistavam da frota.
+Partiu Coelho e vendo homens n&uacute;s na praia, sem comtudo
+desembarcar, atirou-lhes alguns objectos que levara
+comsigo e delles recebeu outros em troca, entabolando
+assim rela&ccedil;&otilde;es amistosas com os naturaes da terra.</p>
+
+<p>Voltou a bordo e deu conta do succedido ao almirante.
+Nessa noite, por&eacute;m, levantou-se forte vento do
+sueste e Cabral, n&atilde;o se considerando seguro no ponto
+em que estava, tratou de procurar um ancoradouro para
+abrigo dos navios e, continuando a navega&ccedil;&atilde;o em rumo
+de norte, mas sempre &aacute; vista da costa, foi fundear de
+<span class='pagenum'><a name="Page_76" id="Page_76">[Pg 76]</a></span>novo, dez leguas adiante, em uma bella enseada &aacute; qual
+deu o nome de Porto Seguro. Isto passava-se n'uma
+sexta-feira, 24 de abril de 1500. Essa enseada, mais tarde,
+passou a denominar-se bahia Cabralia, sendo transferido
+o seu primitivo nome de Porto Seguro para a povoa&ccedil;&atilde;o
+que se fundou nas suas proximidades.</p>
+
+<p>Na enseada de Porto Seguro appareceu logo uma
+piroga com indigenas e, aos poucos, a costa foi-se enchendo
+de gentios, manifestando inten&ccedil;&otilde;es pacificas. S&oacute;
+no dia 25 o almirante dirigiu-se a terra. No dia 26,
+que era domingo de Paschoela, foi erguido um altar em
+terra e ahi celebrada a primeira missa no Brazil, acontecimento
+este que Victor Meirelles celebrisou e commemorou
+n'um magnifico quadro, o melhor e o mais commovente
+que o seu pincel produziu.</p>
+
+<p>A essa missa assistiu o gentio que dansou e cantou
+ap&oacute;s a cerimonia, fraternisando com os portuguezes.</p>
+
+<p>S&oacute; no dia 1.º de maio &eacute; que o almirante resolveu
+dar conta a D. Manoel do seu feito e nesse dia,
+depois de mandar dizer segunda missa, tomou posse
+official da terra e despachou para Lisboa a nao que
+devia levar ao rei a noticia da nova terra descoberta, a
+que elle deu o nome de Vera Cruz, mais tarde substituido
+por Santa Cruz e ainda depois por Brazil.</p>
+
+<p>Foi nessa nao, commandada por Gaspar Lemos, que
+seguiu para o reino a carta de Pero Vaz Caminha
+escripta nesse mesmo dia 1.º de maio de 1500.</p>
+
+<p>Tal &eacute;, em resumo, a narra&ccedil;&atilde;o contida nos tres documentos
+da &eacute;poca, aos quaes allude com interesse e perfeito
+conhecimento do assumpto o conselheiro Pereira
+da Silva na segunda serie dos interessantes escriptos
+que denominou <i>A Historia e a Legenda</i>.</p>
+
+<p>Ora, se isto &eacute; assim, se hoje n&atilde;o pode restar mais
+duvida a ninguem, em presen&ccedil;a desses documentos do
+seculo XVI, que determinam com perfeita exactid&atilde;o a
+data da chegada de Cabral ao Brazil, por que havemos de
+<span class='pagenum'><a name="Page_77" id="Page_77">[Pg 77]</a></span>conservar officialmente um anniversario falso, que, se
+ao tempo em que foi decretado pelos estadistas fundadores
+do imperio, se justificava pela ignorancia em que
+viviam desses documentos, n&atilde;o se justifica nem se explica
+mais hoje, que est&atilde;o publicados e ao alcance de
+toda a gente?</p>
+
+<p>&Eacute; que os estadistas da Republica, que conservaram
+o erro, fundam-se na correc&ccedil;&atilde;o que soffreu o calendario
+Juliano mandado executar pelo papa Gregorio XIII, que,
+em 1582, mandou supprimir 10 dias a esse anno, ordenando
+que o dia 5 de outubro fosse designado pelo
+numero 15, o immediato 16 e assim por diante, encurtando
+esse anno de dez dias para compensar a differen&ccedil;a
+para mais desse mesmo espa&ccedil;o de tempo, que o calendario
+Juliano j&aacute; accusava no fim do seculo XVI.</p>
+
+<p>E assim, em virtude dessa corrigenda, o dia 22 de
+abril de 1500 passou a ser, em qualquer dos annos
+posteriores a 1582, correspondente ao dia 3 de maio.</p>
+
+<p>Mas tal raz&atilde;o ser&aacute; sufficiente para manter na tradi&ccedil;&atilde;o
+popular uma cren&ccedil;a falsa? Pensamos que n&atilde;o. Officialmente,
+o dia consagrado como data anniversaria do descobrimento
+do Brazil &eacute; o dia 3 de maio. E assim o
+povo, que n&atilde;o sabe das correc&ccedil;&otilde;es que soffreu o calendario
+Juliano, nem dos motivos que as determinaram,
+fica persuadido que effectivamente foi no dia 3 de maio
+de 1500 que se realizou o descobrimento, quando os
+documentos do seculo XVI, que as historias populares
+do Brazil j&aacute; registram, n&atilde;o consignam tal data, mas
+sim a de 22 de abril.</p>
+
+<p>Sou de parecer que, se ao tempo da descoberta
+ainda n&atilde;o existia no calendario Juliano a correc&ccedil;&atilde;o
+ordenada por Gregorio XIII, que s&oacute; se realizou 82 annos
+depois, se para Pedro Alvares Cabral o dia desse feliz
+successo foi o de 22 de abril, essa &eacute; a data que deve ser
+officialmente consagrada para assim manter-se na tradi&ccedil;&atilde;o
+popular.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_78" id="Page_78">[Pg 78]</a></span>De 1500 a 1582 acontecimentos houve que ficaram
+registrados na historia da nossa terra e, todavia, ninguem
+se lembrou de applicar aos seus respectivos anniversarios
+a correc&ccedil;&atilde;o ordenada por Gregorio XIII, limitando-se
+a corrigenda t&atilde;o s&oacute;mente ao successo, isto &eacute;, &aacute; data
+da chegada de Cabral ao Brazil.</p>
+
+<p>Ora, uma de duas, ou os estadistas da Republica t&ecirc;m
+de mandar fazer uma revis&atilde;o completa de todas as datas
+mais ou menos celebres da historia, e principalmente
+da nossa, no periodo comprehendido entre 1500 e 1582,
+ou, para serem coherentes, t&ecirc;m de mantel-as taes como
+ainda hoje a tradi&ccedil;&atilde;o as conserva; mas, nesse caso, preciso
+se torna que a consagra&ccedil;&atilde;o do feito de Cabral seja
+feita n&atilde;o mais a 3 de maio, mas sim a 22 de abril.</p>
+
+<p>Tal &eacute; o meu modo de ver, salvo melhor juizo.&raquo;</p>
+
+<p>
+<span class="smcap">Garcia Redondo</span><br />
+</p>
+
+
+
+<hr style="width: 65%;" /><p><span class='pagenum'><a name="Page_79" id="Page_79">[Pg 79]</a></span></p>
+<h2><a name="NOTICIAS" id="NOTICIAS"></a>NOTICIAS</h2>
+
+
+<h2>Conferencias portuguezas</h2>
+
+<p>N&atilde;o podia ser mais auspiciosa a inaugura&ccedil;&atilde;o
+da primeira s&eacute;rie das conferencias portuguezas,
+promovidas pelo Centro Republicano
+Portuguez desta capital.</p>
+
+<p>A despeito da noite fria e chuvosa, o amplo
+sal&atilde;o do Instituto Historico e Geographico
+encheu-se completamente, de uma assistencia
+distincta e brilhante, quer pela quantidade, quer
+pela qualidade.</p>
+
+<p>Al&eacute;m de muitas senhoras e senhoritas, compareceram
+tambem &aacute; primeira conferencia do Centro
+Republicano Portuguez os srs. Jacques Dupas, consul
+da Fran&ccedil;a, Daniel Monteiro de Abreu,
+consul do Paraguay e encarregado de negocios
+de Portugal, o representante do sr. general
+Ferreira de Abreu, inspector da decima regi&atilde;o
+militar, o dr. Paula Souza, director da Escola
+Polytechnica, commendador Mondim Pestana,
+official de gabinete do sr. dr. secretario do
+interior, dr. Bettencourt Rodrigues, dr. Rodolpho
+de Santiago, dr. Ricardo Severo, dr. Eugenio
+Egas, e muitas outras pessoas gradas.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_80" id="Page_80">[Pg 80]</a></span>O sr. Antonio Luiz Gomes, Ministro de Portugal,
+chegou ao Instituto Historico &aacute;s 8 e meia
+da noite, em companhia do dr. Bartholomeu
+Ferreira, secretario da Lega&ccedil;&atilde;o Portugueza, sendo
+recebido &aacute; porta pela directoria do Centro.</p>
+
+<p>Em seguida, s. exa. foi introduzido no sal&atilde;o
+pelos srs. drs. Bettencourt Rodrigues e Ricardo
+Severo, tomando assento na mesa, ao lado da
+directoria do Centro, e tendo &aacute; sua esquerda
+o dr. Bettencourt Rodrigues.</p>
+
+<p>Abrindo a sess&atilde;o, o sr. Joaquim Dias da Cunha
+Barbosa, presidente do Centro R. Portuguez, explicou
+o fim das conferencias portuguezas, dizendo
+que, antes de apresentar &aacute; assistencia o conferencista
+sr. dr. Garcia Redondo, cumpria lhe o
+dever de agradecer &aacute; directoria do Instituto Historico,
+que promptamente poz &aacute; disposi&ccedil;&atilde;o do
+Centro o seu sal&atilde;o, afim de ahi serem realisadas
+as conferencias. Agradece tambem a honrosa
+visita do sr. ministro portuguez, que, com sua
+presen&ccedil;a, veio dar maior solennidade &aacute; primeira
+conferencia.</p>
+
+<p>Alludindo &aacute; pessoa do conferencista, o sr. presidente
+diz que o dr. Garcia Redondo &eacute; por demais
+conhecido do auditorio que, sobejamente, conhece
+a sua bagagem literaria, pelo que se dispensa de
+apresental-o.</p>
+
+<p>Em seguida, &eacute; dada a palavra ao sr. dr. Garcia
+Redondo para proceder &aacute; leitura de sua conferencia
+sobre &laquo;O descobrimento do Brasil&mdash;Prioridade
+dos portuguezes no descobrimento da
+America.&raquo;</p>
+
+<p>Por ser muito longo o trabalho do dr. Garcia
+Redondo, e n&atilde;o dispomos, hoje, do necessario
+espa&ccedil;o, s&oacute; amanhan poderemos dar na integra a
+sua conferencia.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_81" id="Page_81">[Pg 81]</a></span>As ultimas palavras do conferencista foram
+abafadas com uma grande salva de palmas, sendo
+s. s. abra&ccedil;ado e cumprimentado pela directoria
+do Centro e pelo sr. ministro de Portugal.</p>
+
+<p>Antes de ser encerrada a sess&atilde;o, o sr. ministro
+de Portugal solicita a palavra pronunciando
+um discurso do qual damos o resumo que se
+segue:</p>
+
+<p>O sr. Antonio Luiz Gomes come&ccedil;a dizendo
+que n&atilde;o vinha com a inten&ccedil;&atilde;o de tomar a palavra
+nesta assembl&eacute;a. Vinha apenas, na qualidade
+de representante do seu paiz, trazer as
+sauda&ccedil;&otilde;es mais affectuosas ao Gremio Republicano
+Portuguez de S. Paulo e aos iniciadores
+destas magnificas conferencias.</p>
+
+<p>&laquo;Quando vi o assumpto de que se ia tratar, diz o
+orador, despertou-se logo no meu espirito e na minha
+alma a certeza absoluta de que estas conferencias
+deviam ter uma influencia muitissimo grande
+na pacifica&ccedil;&atilde;o dos espiritos dos portuguezes, um
+pouco revoltados, e que ellas teriam, como conclus&atilde;o
+final, approximar ainda mais a familia
+portugueza da familia brazileira.</p>
+
+<p>E, sen&atilde;o bastara isso, eu tambem n&atilde;o podia conservar-me
+calado depois de ouvir a palavra brilhantissima
+do sr. dr. Garcia Redondo. Seria uma
+crueldade, uma injusti&ccedil;a que eu, em publico, deixasse
+de attestar, n&atilde;o s&oacute; o meu reconhecimento,
+mas, o que &eacute; mais, o reconhecimento do meu
+paiz, por este formosissimo e esplendido trabalho.
+(Muito bem).</p>
+
+<p>Se por ventura o nome do dr. Garcia Redondo
+n&atilde;o fosse sufficientemente conhecido, n&atilde;o s&oacute; nas
+boas letras, como na sciencia, bastava esta conferencia
+para justificar o elevadissimo conceito
+<span class='pagenum'><a name="Page_82" id="Page_82">[Pg 82]</a></span>em que o seu nome &eacute; tido entre portuguezes e
+brazileiros.</p>
+
+<p>Trabalho magnifico, soberbo, onde se alliam,
+indiscutivelmente, altos pensamentos com uma
+forma burilada e perfeita, e que vem coroar a
+sua j&aacute; larga obra na sciencia e nas letras.</p>
+
+<p>E depois de prestar um enorme servi&ccedil;o, de
+vir levantar a minha patria &aacute; altura a que indiscutivelmente
+ella tem direito, porque Portugal,
+embora pequeno como disse s. exa., aquella mancha
+pequena, que se encontra no ponto occidental
+da Europa, prestou servi&ccedil;os &aacute; humanidade, e
+&aacute; civilisa&ccedil;&atilde;o humana, que, positivamente, n&atilde;o
+foram excedidos por povo algum do mundo.
+(Muito bem.)</p>
+
+<p>A civilisa&ccedil;&atilde;o do mundo, meus senhores, firma-se
+em tres peninsulas, nos tres pontos que
+observaes naquelle mappa.</p>
+
+<p>Se na Grecia nasce a civilisa&ccedil;&atilde;o, nascem as
+artes, a philosophia, a sciencia; se naquella peninsula
+italica nasce o direito, porque o direito
+romano, pode-se dizer, &eacute; a propria raz&atilde;o humana
+feita lei; foi naquella pequenina peninsula iberica,
+naquelle extremo do occidente, que, numa &eacute;poca
+em que os grandes povos de hoje viviam uma
+vida inteiramente apagada, numa &eacute;poca em que
+a valorosa Inglaterra ainda n&atilde;o tinha historia;
+em que a Allemanha apenas se preparava para
+esse movimento augusto e sublime que proclamava
+perante o mundo inteiro a liberdade de
+consciencia; em que a Fran&ccedil;a fazia os ultimos
+retoques na sua lingua e se preparava para escrever
+paginas brilhantissimas sobre a historia da
+humanidade, &eacute; certo, entretanto, que nenhuma
+dellas, por assim dizer, tinha ainda firmada a
+sua civilisa&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_83" id="Page_83">[Pg 83]</a></span>Por esse tempo, naquelle &laquo;pontinho&raquo; se
+levantava um povo pequenino de lavradores e
+de guerreiros, que deixava a patria, para levar o
+pend&atilde;o das Quinas aos extremos mais remotos,
+aos confins do mundo.</p>
+
+<p>Essa historia &eacute; assombrosa: &eacute; inacreditavel.</p>
+
+<p>Custa a acreditar que esse povo, como disse
+um dos grandes philosophos contemporaneos,
+Max Nordau, fosse o precursor em todos os
+grandes acontecimentos.</p>
+
+<p>Elle tinha dispersado os arabes sem que a
+Hespanha o conseguisse em duzentos annos.</p>
+
+<p>&Eacute; que durante esse tempo a essa grande
+ra&ccedil;a nada faltava: tinha for&ccedil;a, tinha talento,
+tinha sciencia.</p>
+
+<p>Foi precisamente esse povo pequenino que
+deixou sementes por toda a parte da grandesa
+do genio de sua ra&ccedil;a.</p>
+
+<p>Por isso, meus senhores, espero que a invoca&ccedil;&atilde;o
+do dr. Garcia Redondo produza bem
+rapidamente seus frutos.</p>
+
+<p>Estas lutas n&atilde;o podem continuar, e n&atilde;o podem
+continuar, sobretudo, no campo em que
+infelizmente foram postas.</p>
+
+<p>Eu, quando vim representar a Republica
+Portugueza, n&atilde;o vim com o desejo de que
+todos os portuguezes se fizessem republicanos:
+n&atilde;o precisamos de tanto. A unica coisa que
+desejamos, que eu desejo, como patriota, &eacute; que
+todos sejamos bons portuguezes. (Muito bem,
+muito bem.)</p>
+
+<p>Eu louvo at&eacute;, com a franqueza que me caracteriza,
+que hajam convic&ccedil;&otilde;es monarchicas no meio
+de portuguezes. O que &eacute; necessario &eacute; que os re<span class='pagenum'><a name="Page_84" id="Page_84">[Pg 84]</a></span>publicanos
+respeitem os monarchistas e que os
+monarchistas respeitem os republicanos (Muito
+bem).</p>
+
+<p>O que n&oacute;s pedimos &eacute; muito pouco: &eacute; que nunca
+confundam as glorias da patria, da terra onde
+nasceram com as pequeninas paix&otilde;es que possam
+viver no nosso espirito. (Muito bem, muito bem).</p>
+
+<p>E, posta a luta nestes termos, como &eacute; facil todos
+nos entendermos! Basta que cada um de n&oacute;s se
+esforce para ser o melhor portuguez que possa
+ser; trabalhe pelo engrandecimento do seu paiz;
+honre o nome portuguez por toda a parte; defenda
+as suas convic&ccedil;&otilde;es politicas, mas honradamente,
+honestamente.&raquo; (Muito bem. Palmas).</p>
+
+<p>Depois de varias considera&ccedil;&otilde;es termina o sr.
+Antonio Luiz Gomes.</p>
+
+<p>&laquo;Para realisar a nossa obra n&atilde;o queremos que
+todos sejam republicanos; o que queremos apenas
+&eacute; que ninguem se esque&ccedil;a que a patria est&aacute; acima
+das paix&otilde;es de cada um. (Muito bem).</p>
+
+<p>E eu estou convencido de que esse tempo
+vae chegar rapidamente.</p>
+
+<p>A Republica vae, dentro de pouco tempo, ter
+a sua constituinte, a sua constitui&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Nas ultimas elei&ccedil;&otilde;es, que foram feitas em condi&ccedil;&otilde;es
+excepcionaes, depois de uma revolu&ccedil;&atilde;o,
+depois de boatos aterradores, a Republica j&aacute; teve
+a sua consagra&ccedil;&atilde;o.</p>
+
+<p>Nunca as urnas portuguezas foram t&atilde;o concorridas
+como neste momento: 80 por cento do
+corpo eleitoral de Lisboa foi votar.</p>
+
+<p>O Porto, considerado como reaccionario, n&atilde;o
+para n&oacute;s republicanos, porque foi precisamente l&aacute;
+que tiveram inicio todos os grandes movimentos
+de Portugal, no proprio Porto, a vota&ccedil;&atilde;o foi maior
+do que em qualquer outro ponto.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_85" id="Page_85">[Pg 85]</a></span>Portanto, todos v&ecirc;m a situa&ccedil;&atilde;o definida e clara
+em que se encontra hoje Portugal.</p>
+
+<p>Vindo a S. Paulo, eu dirijo as minhas sauda&ccedil;&otilde;es
+mais affectuosas n&atilde;o s&oacute; ao povo de S.
+Paulo, mas tambem &aacute; auctoridades do Estado,
+que nos deram a alta honra de se fazer representar
+nesta conferencia, e remato por agradecer
+a todas as senhoras, a todos os cidad&atilde;os que
+aqui vieram e, finalmente de novo, dirijo os
+meus agradecimentos mais sinceros e profundos
+ao dr. Garcia Redondo, n&atilde;o s&oacute; em meu nome,
+como no de Portugal, que tenho a honra de
+representar.&raquo;</p>
+
+<p>As ultimas palavras do dr. Antonio Luiz Gomes
+foram abafadas com uma estrepitosa e prolongada
+salva de palmas da grande assistencia.</p>
+
+<p>(<i>Noticia do</i> <span class="smcap">Estado de S. Paulo</span> <i>de 4 de Junho de 1911</i>).</p>
+
+
+<h2>Conferencias portuguezas</h2>
+
+<p>Em carro reservado ligado ao nocturno de
+luxo, chegou hontem a esta capital, conforme
+era esperado, o dr. Antonio Luiz Gomes, ministro
+de Portugal junto ao nosso governo, acompanhado
+de seu secretario, sr. dr. Bartholomeu Ferreira.</p>
+
+<p>&Aacute; noite s. exc. assistiu &aacute; conferencia que o
+sr. dr. Garcia Redondo, com grande successo e
+brilhantismo, realizou no sal&atilde;o nobre do Instituto
+Historico e Geographico, tendo por thema: &laquo;O
+descobrimento do Brazil e a prioridade dos portuguezes
+no descobrimento da America&raquo;.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_86" id="Page_86">[Pg 86]</a></span>Publicaremos amanh&atilde;, na integra, esse importante
+trabalho do distincto membro da Academia
+Brazileira de Letras, que foi, pelo successo que
+alcan&ccedil;ou, vivamente applaudido e felicitado.</p>
+
+<p>Depois da conferencia do dr. Garcia Redondo,
+o dr. Antonio Luiz Gomes, usou da palavra, produzindo
+bellissima allocu&ccedil;&atilde;o, durante a qual era
+constantemente interrompido por estrepitosa salva
+de palmas.</p>
+
+<p>(<i>Noticia do</i> <span class="smcap">S&atilde;o Paulo</span> <i>de 4 de Junho de 1911</i>).</p>
+
+
+<h2>Conferencias portuguezas</h2>
+
+<p>No sal&atilde;o nobre do Instituto Historico e Geographico
+de S. Paulo, realizou-se hontem &aacute; noite,
+conforme se annunci&aacute;ra, a primeira conferencia
+da s&eacute;rie promovida pelo Centro Republicano Portuguez,
+desta capital.</p>
+
+<p>Coube o inicio das conferencias ao dr. Garcia
+Redondo, que tomou por thema de sua ora&ccedil;&atilde;o&mdash;&laquo;O
+descobrimento do Brazil&raquo; &laquo;Prioridade dos
+portuguezes, no descobrimento da America&raquo;.</p>
+
+<p>Precisamente &aacute;s 8 horas e meia, constituida a
+mesa da presidencia pelo sr. Joaquim Dias da
+Cunha Barbosa, tendo a seu lado o ministro plenipotenciario
+de Portugal no Rio de Janeiro, sr.
+Dr. Antonio Luiz Gomes, que para tal fim veio a
+esta capital; dr. Bitencourt Rodrigues, e membros
+da directoria do Centro Republicano Portuguez,
+era o conferencista introduzido no sal&atilde;o, que j&aacute;
+regorgitava de numerosos cavalheiros e gentilissimas
+senhoras e senhoritas.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_87" id="Page_87">[Pg 87]</a></span>Pudemos mesmo notar entre os assistentes, os
+seguintes:</p>
+
+<p>Commendador Tiburtino Mondim Pestana, segundo-tenente
+Carlos Rocha, representando o general
+Ferreira de Abreu, inspector da 10.ª regi&atilde;o
+militar, com s&eacute;de nesta capital; major Arthur da
+Gra&ccedil;a Martins, secretario do commando geral, da
+For&ccedil;a Publica; Jacques Dupas, consul da Fran&ccedil;a,
+e sua familia; commendador Daniel Monteiro de
+Abreu, consul do Paraguay e encarregado do
+consulado de Portugal; dr. Eugenio Egas, Arthur
+Vautier, Nestor Rangel Pestana, Gelasio Pimenta,
+Jos&eacute; Vicente Sobrinho, dr. Antonio Francisco de
+Paula Sousa, director da Escola Polytechnica;
+dr. Rodolpho S. Thiago, lente da mesma escola;
+dr. Ricardo Severo, dr. Leopoldo de Freitas, consul
+de Guatemala, dr. Alfredo Redondo, dr. Manoel
+Redondo, Jayme Redondo e sua familia.</p>
+
+<p>Abriu a sess&atilde;o o sr. Cunha Barbosa.</p>
+
+<p>Referiu-se s. s. com palavras elogiosas ao
+dr. Bettencourt Rodrigues, de quem partira a id&eacute;a
+das conferencias, cujo grande valor salientou,
+pois ellas viriam cada vez mais estreitar os vinculos
+que unem os dois povos portuguez e
+brazileiro.</p>
+
+<p>Saudava a patria portugueza, alli directamente
+representada na pessoa do seu ministro plenipotenciario,
+cuja presen&ccedil;a, agradecia.</p>
+
+<p>&Aacute; directoria do Instituto Historico e Geographico
+agradecia tambem, penhorada, a gentileza
+de haver cedido o sal&atilde;o da sua s&eacute;de, para a
+realiza&ccedil;&atilde;o da conferencia.</p>
+
+<p>Isto dito, e como n&atilde;o desejava prender por
+mais tempo a atten&ccedil;&atilde;o do auditorio, naturalmente
+ancioso, dava a palavra ao dr. Garcia Redondo,
+<span class='pagenum'><a name="Page_88" id="Page_88">[Pg 88]</a></span>cuja apresenta&ccedil;&atilde;o julgava desnecessario fazer,
+pois tinha absoluta certeza de que nem uma
+s&oacute; pessoa alli presente, desconhecia, quer atrav&eacute;s
+da imprensa ou da literatura, os altos meritos
+do conferencista.</p>
+
+<p>Uma prolongada salva de palmas ec&ocirc;a pela sala.</p>
+
+<p>Levanta-se ent&atilde;o o dr. Garcia Redondo que
+come&ccedil;a agradecendo aos circumstantes a sua
+temeridade em affrontar os rigores daquella
+noite humida e fria, n&atilde;o para ouvir a sua modesta
+palavra, pois n&atilde;o tinha sobre isso illus&atilde;o
+alguma, mas para corresponder ao appello que
+lhes dirigiram os promotores daquella conferencia.</p>
+
+<p>Sobretudo, era-lhe grato constatar alli a presen&ccedil;a
+das representantes do sexo gentil, que &aacute;
+festa emprestavam a nota brilhante.</p>
+
+<p>Diz que o thema da sua conferencia havia
+sido para elle objecto de longos e profundos
+estudos. Poderia por isso dissertar sobre elle sem
+ter necessidade de ler, nem mesmo simples
+annota&ccedil;&otilde;es.</p>
+
+<p>Mas, importando o que tinha de dizer responsabilidades
+que queria assumir e receiando que a
+memoria o trahisse, considerava mais prudente
+ler a sua conferencia.</p>
+
+<p>Em seguida, offerece alguns esclarecimentos
+sobre um grande mappa que est&aacute; ao seu lado,
+e que elle organizou para illustrar a conferencia,
+e entra finalmente no assumpto.</p>
+
+<p>&Aacute;s ultimas palavras da brilhante ora&ccedil;&atilde;o do
+dr. Garcia Redondo, uma calorosa e prolongada
+salva de palmas se fez ouvir no sal&atilde;o.</p>
+
+<p>S. s. foi distinguido com a offerta de um lindo
+&laquo;bouquet&raquo; de fl&ocirc;res naturaes.</p>
+
+<p><span class='pagenum'><a name="Page_89" id="Page_89">[Pg 89]</a></span>Levantou-se ent&atilde;o o ministro plenipotenciario
+da Republica de Portugal, sr. Antonio Luiz Gomes.</p>
+
+<p>Rec&aacute;e sobre a sala um profundo silencio.</p>
+
+<p>O illustrado diplomata come&ccedil;a affirmando
+que n&atilde;o comparecera &aacute;quella reuni&atilde;o com o
+intuito de falar.</p>
+
+<p>Mas, cumpria-lhe o dever de agradecer em
+nome de Portugal, que tinha a honra de representar,
+o bello trabalho do dr. Garcia Redondo.</p>
+
+<p>Tratando da moderna phase da sua patria,
+fala sobre o Portugal antigo, cujos feitos enchem
+as paginas da historia universal.</p>
+
+<p>Refere-se &aacute; Monarchia, dizendo que ella teve
+tempo mais que sufficiente para demonstrar a
+capacidade dos seus homens.</p>
+
+<p>Por occasi&atilde;o do assassinato de d. Carlos, levaram
+os republicanos a sua generosidade ao ponto
+de prestigiar&mdash;sem o sacrificio, por&eacute;m, das
+suas convic&ccedil;&otilde;es politicas&mdash;as institui&ccedil;&otilde;es ent&atilde;o
+vigentes, desde que isso concorresse para o bem
+do paiz.</p>
+
+<p>Entretanto a Monarchia mostrou-se impotente;
+nada fez porque nada poude fazer para
+manter o prestigio de Portugal.</p>
+
+<p>As crises ministeriaes succediam-se de um
+modo assustador e a situa&ccedil;&atilde;o chegou a tal
+ponto que s&oacute; a Republica poderia salvar as
+gloriosas tradi&ccedil;&otilde;es do paiz.</p>
+
+<p>E a Republica veio, n&atilde;o a Republica do
+terror, das persegui&ccedil;&otilde;es, como apraz aos boateiros
+vulgares, mas a Republica que tem por
+lemma o levantamento moral do tradicional paiz
+das quinas.</p>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's O Descobrimento do Brazil, by Garcia Redondo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL ***
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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