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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Vegetarismo e a Moralidade das raças + +Author: Jaime de Magalhães Lima + +Release Date: January 17, 2008 [EBook #24338] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O VEGETARISMO E A MORALIDADE *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images from BibRia) + + + + + + + +O Vegetarismo + +e a Moralidade das raças + + + + +Composição e impressão +--Emprêsa Gráfica «A UNIVERSAL»-- +DE FIGUEIRINHAS & MOTA RIBEIRO, L.^DA +--Rua Duque de Loulé, 111--Pôrto-- + + +9.^o volume da +Biblioteca Vegetariana + +Dr. Jaime de Magalhães Lima + + +O Vegetarismo +e a Moralidade das raças + +--Notavel Conferencia realisada no + ATENEU COMERCIAL DO PORTO +em 14 de Junho de 1912------------ + + + + +SOCIEDADE VEGETARIANA--Editôra +393, AVENIDA RODRIGUES DE FREITAS +PÔRTO + + + + +O vegetarismo e a moralidade das raças + + +I + +Tem os seus pergaminhos o vegetarismo. Não é uma doutrina nascida de +ontem. Tem títulos autênticos de nobreza prolongada durante gerações sem +número, respeitada nas mais altas civilizações em cujas superiores +aspirações colaborou, definindo-as eloquentemente pela voz das suas mais +belas e autorizadas individualidades e corroborando-as ardentemente pelo +exemplo dos seus mais devotados apóstolos. + +Sem nos afastarmos da nossa propria civilização, sem sairmos d'este fóco +de cultura chamado o ocidente da Europa onde nos criamos e onde os +nossos mais remotos avós se criaram e educaram, legando-nos um espólio +de sentimentos e ideias que constituem toda a nossa alma e que nos +cumpre cultivar e aperfeiçoar para o transmitirmos aos nossos filhos +acrescentado em formosura e benefícios, emendado, corrigido e depurado +em seus vícios e insuficiências; dentro dêste círculo devéras estreito +relativamente aos largos espaços em que fóra dele outras raças e outras +condições naturais formaram sociedades que igualmente engrandeceram e +honram a humanidade pelas concepções da vida que realizaram e de que +foram veiculo e sublime instrumento no mundo; limitando-nos à exígua +mancha do globo que é o nosso berço e o nosso lar e fazendo-o, não +porque além dele não conheçamos corações iguais aos nossos, vivendo do +mesmo alento, crentes na mesma fé e enamorados da mesma elevação mas +sómente porque para o fim muito restrito que neste instante temos em +vista convêm não distrair a atenção do que de mais nos toca e por isso +será mais claramente demonstrativo: neste cantinho que acendeu seus +fachos de luz em volta do Mediterraneo e de lá a fez irradiar através +das montanhas até aos mares do norte, o vegetarismo foi e é uma das +caracteristicas do zenit moral das civilizações, e como tal o aceitaram, +proclamaram e praticaram os gênios que mais fundamente as compreenderam +e mais brilhantemente as serviram. + +O reconhecimento deste facto é hoje uma verdade corrente. O mais +rudimentar estudo do vegetarismo não deixará de o apontar. Por certo +somarão milhões as folhas impressas em que se encontram os nomes de +vegetarianos que foram na história dos povos da Europa como signais da +sua grandeza e juizes e farois do seu tempo e dos tempos futuros. Mas +nem é justo que se invoque o seu valor moral sem lembrar os que por uma +sublimada inspiração no-lo mostraram, nem tão pouco seria prudente que, +sómente porque uma verdade se tornou indiscutivel e porventura banal +entre homens cultos, deixássemos de a repetir tão inumeráveis vezes +quantas necessárias fossem para que ela se propague e produza todos os +bens que só pela sua larga disseminação poderá produzir. E o +vegetarismo, tendo já os seus altares e o seu heróico punhado de fieis +em todos os paises que atingiram a sensibilidade moral e religiosa, está +infelizmente longe de ter penetrado na concepção vulgar das obrigações +humanas, como é mister para a redenção de tantos e tão dolorosos males +que nos afligem e perseguem por culpa da nossa cegueira e obscuridade. + +Recordemos pois muito de passagem as lições dos profetas e mestres. É +dever e é utilidade. E pena é que não possamos agora fazê-lo com a pausa +que o encanto das suas palavras nos pede e que o proveito da própria +educação imperiosamente nos aconselha. + +De Pitágoras a Shelley ou a Wagner ou a E. Réclus ou a Tolstoi que +arautos não teve o vegetarismo, que divinos clamores não fez ouvir às +multidões ignorantes da própria fortuna, escravas da primitiva +animalidade ou ensandecidas e aviltadas em sórdidos prazeres!... Desde +que a nossa civilização pôde gravar seu rasto na história, a tradição do +vegetarismo jámais se interrompe completamente. Em mais de vinte e cinco +séculos a sua taça passa de mão em mão, e ora se expõe à luz de sol +erguida por austeros e hercúleos sacerdotes cuja rectidão e fôrça nos +subjugam, ora é guardada devota e humildemente em solitárias ermidas, +mas jámais se partiu ou sequer arrefeceu desamparada do alento de lábios +que nela busquem beber a essencia do vigor do corpo e do espírito. + +A escola de Pitágoras cujas tradições de superioridade moral são +memoráveis e cuja profunda e duradoura influência na filosofia, na +sciência e na teologia antiga, se alargaram desde os tempos +pre-socráticos até aos tempos do império romano, na Itália, na Grécia e +na Alexandria, seis séculos antes de Cristo, já reivindicava para a vida +de pureza moral a abstinência de alimentação carnívora, assim como de +todo o derramamento de sangue, ainda que pretendesse justificar-se pelo +sacrifício aos deuses. Outros eram os seus altares e, seja qual fôr a +estreiteza de informação escrita que do profeta de Samos e seus +discípulos nos houvesse ficado, o vigor da tradição por tal modo se +acentua neste ponto de regime dietético que não nos póde restar a menor +duvida de que nas origens da nossa civilização se encontra imposta, como +preceito fundamental, a abstinência de carne aos que pretenderem seguir +na vida o caminho da dignidade. + +Cinco séculos mais tarde, essa tradição vive por tal forma na memória e +nas paixões íntimas dos grandes espíritos da época que Ovídio, o poeta, +no-la repetirá nestes termos: + +«Havia em Crotona um homem da ilha de Samos que se exilara da pátria +pelo ódio que tinha aos tiranos... Tinha com os deuses aturado +comércio... O que sabia comunicava-o a uma multidão de discípulos que em +um grande silêncio o admiravam... + +«Foi o primeiro que condenou o uso de comer a carne dos animais: +doutrina sublime, e tão pouco apreciada, cuja paternidade se lhe +atribuia. + +«Deixai, mortais», dizia, «deixai de vos servir de manjares abomináveis: +dão-vos os campos searas abundantes; para vós vergam de frutos as +árvores com os mais belos pomos e produzem uvas as vinhas. Tendes +legumes dum suave gôsto, excelentes alguns quando cozidos. O mel e o +leite não vos são defesos. Enfim para vós, a terra é pródiga de suas +riquezas e oferece-vos toda a espécie de alimento sem que necessiteis +para sustentar-vos de recorrer à morte e à carnagem. + +«Só aos animais convêm o comer carne, e ainda nem todos se sustentam +dela. Os cavalos, os bois e as ovelhas vivem só de ervas; apenas as +feras, os tigres, os liões, ursos e lobos fazem da carne seu sustento +habitual. + +«Que crime horrível lançar em nossas entranhas as entranhas de seres +animados, nutrir na sua substância e no seu sangue o nosso corpo! Para +conservar a vida a um animal, porventura é mister que morra um outro? +Porventura é mister que em meio de tantos bens que a melhor das mães, a +terra, dá aos homens com tamanha profusão, pródigamente, se tenha ainda +de recorrer à morte para o sustento, como fizeram ciclopes, e que só +degolando animais seja possível cevar a nossa fome? + +«Procedia diferentemente a idade de ouro, ditosos tempos que nós assim +chamamos. Contente com as plantas e os frutos que a terra produz, o +homem não manchava a sua bôca com o sangue dos animais. As aves voavam +sem temor no meio dos ares... O universo tranqùilo desconhecia laços e +ciladas. Tudo era paz. + +«Aquele, seja quem fôr, que para desgostar os homens dos alimentos +inocentes com que se alimentavam, criou o costume de comer a carne dos +animais, abriu na mesma hora a porta a crimes de todo o gênero; porque +foi sem dúvida pela carnificina dêsses animais que o ferro começou a ser +ensanguentado. Na verdade, é permitido tirar a vida aos animais que nos +atacam, mas não nutrir-nos com a sua carne. Todavia, fomos mais longe +ainda; quizemos sacrifical-os aos deuses... + +«Que crime tinheis cometido, ovelhas inocentes, rebanhos tranqùilos, que +dais aos homens um nectar delicioso, que para os cobrir vos deixais +despojar do vosso manto e que enfim lhes sois mais úteis quando vos +deixam viver do que quando vos matam? Que mal faz o boi, doce animal, +incapaz de vos prejudicar e que não é senão para o trabalho? + +«É necessario ser ingrato, desnaturado, de todo indigno dos bens que nos +dá a terra, quando vamos tirar da charrua esse animal tranqùilo, o +melhor dos nossos obreiros, para o conduzir ao altar a receber o golpe +fatal nessa cabeça que tantas vezes gemeu sob o jugo e, por um trabalho +duro e penoso, tantas vezes nos renovou as searas. + +«Não bastava aos homens cometerem tão grandes crimes, precisavam ainda +da cumplicidade dos deuses, crendo que lhes podia ser agradavel o +sacrificio d'um animal tão útil... Levam assim a vitima ao altar; lá, +recitam sôbre ela orações que ela não ouve; põe-lhe entre as pontas, que +foram doiradas, um bolo feito d'aquele mesmo grão que ele cultivou, e +afunda-se-lhe no seio a lâmina sagrada... + +«Logo lhe tiram as entranhas ainda palpitantes, para as consultarem e +lerem n'elas os segredos dos deuses. Dizei-me, homens insaciáveis, +d'onde vem esta avidez que só póde fartar-se em carnes proìbidas. Deixai +tão criminoso uso. Segui os conselhos que vos dou. Sabei que, quando +comeis a carne do boi que acabais de degolar, comeis aquele que vos +lavrou o campo. Pois que é um deus que me inspira, só falo segundo a sua +vontade... + +«As nossas almas são sempre as mesmas, embora tomem formas diferentes +conforme os corpos que animam. Que a piedade não seja sacrificada à +vossa gula, que para vos saciar não expulseis dos seus corpos as almas +dos vossos pais nem vos alimenteis do seu sangue... + +«É acostumar-nos a derramar o sangue humano degolar animais inocentes e +ouvirmos sem piedade seus tristes gemidos. É desumanidade não nos +comovermos com a morte do cabrito, cujos gritos tanto se assemelham aos +das crianças, e comermos as aves a que tantas vezes démos de comer. Ah! +quão pouco dista d'um enorme crime! + +«Funesta aprendizagem! Deixai tranqùilamente o boi lavrar a terra e seja +a sua morte o termo natural da sua velhice. Contente-nos o velo do +rebanho que nos livra da atmosfera agreste, e o leite que as cabras dão +para nos nutrir: parti os vossos laços e as redes, não mais o visco +engane a ave crédula. Não mais se leve ao cêrco o tímido veado, +perturbado com as penas que o espantam, e que não mais se oculte o anzol +em traiçoeiro engôdo. Matai os animais que podem fazer mal; mas +contentai-vos em só lhes dar a morte e não os comer, e que só vos sirvam +alimentos legitimos.» + +Assim se compreendia a doutrina de Pitágoras cinco séculos depois de +haver deixado a terra o seu fundador e assim a compreendia e traduzia o +talento d'um dos espíritos mais cultos duma grande época. + +A vitalidade da doutrina e a superioridade do interprete são garantia de +que não se tratava de qualquer coisa passageira, d'uma tendencia que só +as circunstâncias de determinado momento haviam originado e +desenvolvido, mas antes nos encontravamos em presença de problemas +morais e soluções que se mostravam capazes de afrontar diverssíssimas +situações históricas e de lhes sobreviverem, representando por +conseguinte elementos essenciais à existência das comunidades cultas. + +De resto, a doutrina dietética de Pitágoras atravessava êsse longo e +acidentado período dos primeiros séculos da nossa civilização +refazendo-se, alargando-se e confirmando-se na meditação dos homens +cujas lições de sabedoria ficariam nos evangelhos eternos da nossa raça. +Não foi estranha à prodigiosa obra de Platão. E Sêneca, o filósofo, +lembra-a nestes termos de simpatia: + +«Desde que comecei a contar-vos com que vivo ardor entrei a estudar a +filosofia na minha mocidade, não devo envergonhar-me de confessar a +afeição que Focion me inspirou pelo ensino de Pitágoras. Instruiu-me dos +motivos por que ele mesmo, e depois dele Séxtio, resolveu abster-se da +carne dos animais. Cada um tinha a sua razão, mas em ambos os casos era +magnífica. Focion sustentava que o homem póde encontrar alimento +bastante sem o derramamento do sangue e que a crueldade se torna +habitual quando uma vez a pratica da carnificina se aplicou ao prazer do +apetite. Acrescentava ele que é nosso dever limitar os materiais da +luxúria. Que, todavia, a variedade de alimentos é nociva à saúde e não é +natural ao nosso corpo. Se estas máximas (da escola de Pitágoras) são +verdadeiras, então abster-nos da carne dos animais é animar e promover a +inocência; se mal fundadas, ensinam-nos ao menos a frugalidade e a +simplicidade de vida. E que perdeis vós perdendo a nossa crueldade? +Apenas vos privo do alimento dos liões e dos abutres. + +«Levado por êstes e semelhantes argumentos, resolvi abster-me de carne, +e ao fim dum ano o hábito da abstinência não só me era fácil mas +delicioso. Creio firmemente que as faculdades do meu espírito eram mais +activas... Perguntais-me porque é que eu voltei atrás e abandonei esse +sistema de vida? Ao que eu respondo que a sorte dos meus primeiros dias +foi lançada no reino do imperador Tibério. Certas religiões estranhas +tornaram-se objecto das suspeitas imperiais, e entre as formas de adesão +aos cultos ou superstições estranhas, estava o de abstinência de carne +dos animais. Daí por instancias de meu pai, que na realidade não tinha +medo de que essa pratica se tornasse motivo de acusação, mas que odiava +a filosofia, fui induzido a voltar aos meus antigos hábitos dietéticos, +e não teve ele maior dificuldade em me persuadir a voltar a refeições +mais suntuosas»... + +«Isto digo com a intenção de vos provar como são poderosos os primeiros +impulsos da mocidade para o que é mais verdadeiro e melhor, sob a +exortação e incentivo de virtuosos mestres. Erramos, em parte por culpa +dos nossos guias, que ensinam como se disputa e não como se vive: e em +parte por nossa culpa, aguardando que os mestres cultivem não tanto a +disposição do espírito como as faculdades da inteligência. D'esta forma, +o que foi filosofia, tornou-se em filologia». (_Epistola CVIII._) + +Em outras passagens, condenando o luxo e os desmandos sensuais da sua +época, se refere Seneca aos escravos do ventre que, como Salústio, quer +que «sejam contados entre os animais inferiores e não entre os homens» e +lembra que «em tempos mais simples não havia necessidade em tão larga +escala de tantos médicos supranumerários, nem de tantos instrumentos +cirúrgicos, nem de tantas caixas de drogas. A saúde era simples por uma +razão simples. Muitos pratos trouxeram muitas doenças. Note-se que vasta +quantidade de vidas um estômago absorve--devastador da terra e do mar. +Não é de espantar que em tão discordante dieta a doença varie +incessantemente... contem os cozinheiros e não mais se espantarão do +número incontável das doenças humanas.» + +Por êsse mesmo tempo Musónio Rufo, outro filósofo eminente, sectário +tambêm do melhor estoicismo, declarava «brutal» o uso da carne, «sómente +próprio de animais selvagens, pesado e empecendo o pensamento e a +inteligência. Os vapores que dele vem são túrbidos e escurecem a alma, +de modo que os que dele partilham abundantemente mostram-se os mais +lentos em apreender.» + +Mas para que alongar-nos em citações de nomes e rememoração de doutrinas +dos filósofos e moralistas do classicismo greco-romano, que condenou por +nocivo à justiça e ao entendimento o carnivorismo? Para que, se um só +homem nessas horas remotas de extrema actividade mental e da mais +exaltada sensibilidade moral, pôde por honra da espécie e glória da +humanidade resumir todo o problema dietético com uma profundeza +exaustiva e uma lucidez inexcedivel que os apóstolos da sua doutrina até +hoje tem invocado como um evangelho a que a experiencia de muitos +seculos pouco ou nada acrescentou? + +Leiam-se as obras morais de Plutarco, que viveu do primeiro ao segundo +século da éra cristã. São um monumento, até hoje e por certo para sempre +inabalável, da dignidade humana. Lá encontraremos a causa do vegetarismo +posta em termos de tal evidencia que constituem como a razão ultima da +sua legitimidade e do seu valor moral, religioso e fisiológico. + +Perguntas-me, diz Plutarco, «por que motivos Pitágoras se absteve de se +alimentar com a carne dos animais. Pela minha parte, pasmo de que +espécie de sentimento, espirito ou razão estava possuido aquele que +primeiro poluiu a sua boca com sangue e consentiu que os seus lábios +tocassem a carne dum ser assassinado, que espalhou sôbre a sua mesa os +membros despedaçados de corpos mortos e pediu como alimento quotidiano e +prato delicado o que ha pouco era um ser dotado de movimento, de +percepção e de voz?... + +«Que luta pela existência ou que excitada loucura incitou a ensopar em +sangue as tuas mãos, a ti que tens sempre abundancia de todas as coisas +necessárias para viveres? Porque desmentes a terra como se ela fosse +incapaz de te alimentar e nutrir? Porque atormentas Ceres que humaniza, +e desonras as doces e suaves dádivas de Baco, como se não tivesses nelas +o bastante? Não te envergonhas de misturar o assassinio e o sangue aos +seus frutos benéficos? Chamas selvagens e ferozes outros carnivoros, os +tigres, os liões e as serpentes, enquanto manchas no sangue as tuas mãos +e em espécie alguma de barberie lhes ficas inferior. E para eles, +todavia, o assassinio é apenas o meio de se sustentarem; para ti, é uma +lascivia supérflua. De facto, não são liões e lobos que nós matamos para +comer como em defeza própria o poderiamos faser--pelo contrário +deixamo-los incólumes; e entretanto, aos inocentes, aos mansos, aos que +não tem auxilio nem defesa,--a esses perseguimo-los e matamo-los, +àqueles que a natureza parecia ter dado vida para sua beleza e graça... + +«Nada nos perturba, nem a beleza encantadora das suas formas, nem a +dorida doçura da sua voz e do seu grito nem a sua inteligencia, nem a +pureza da sua dieta nem a superioridade do entendimento. Só para ter um +pedaço da sua carne, privamo-los da luz do sol, da vida para que +nasceram. Tomamos por inarticulados e inexpressivos os gritos de +queixume que eles soltam e voam em todas as direcções; quando na +realidade são instâncias e suplicas e rogos que cada um deles nos dirige +dizendo:--Não é da verdadeira satisfação das vossas reais necessidades +que queremos livrar-nos mas da complacente luxuria dos nossos apetites.» + +Depois de mostrar com uma nitidez que é uma antecipação da sciencia +contemporânea como o carnivorismo não pode justificar-se pela anatomia +do homem, sem dentes nem garras nem boca nem intestinos que tal processo +de nutrição suponham ou autorizem, Plutarco aponta os subterfugios de +que nos servimos para consumar o nosso crime contra a natureza. Porque +não fazes como o lião e o tigre, pergunto, e não arrancas o coração á +tua vitima? «Nem mesmo depois que foi morta a comerás como veio do +açougue. Has-de fervê-la, assá-la e inteiramente a transformarás pelo +fogo e pelos condimentos. Completamente alteras e disfarças o animal +morto, usando dez mil ervas doces e especiarias, para que o vosso +paladar seja enganado e se prepare para receber o alimento que não é +natural. Foi uma admoestação própria e sagaz a do espartano que comprou +um peixe e o deu ao cozinheiro para o preparar. Quando este lhe pediu +manteiga e azeite e vinagre, respondeu-lhe:--Se eu tivesse tudo isso não +tinha comprado o peixe... + +«A tal ponto fazemos do sangue uma luxuria que chamamos à carne +_delicadeza_ e logo reclamamos delicados condimentos para essa mesma +carne e misturamos azeite e vinho e mel e molhos e vinagre e todas as +especiarias da Síria e da Arábia, de todo o mundo, como se estivéssemos +a embalsamar um cadáver humano. Depois que todas estas substâncias +heterogênias se misturaram e dissolveram e até certo ponto se +corromperam,[A] cabe sem dúvida ao estômago assimilá-las, se podér. E +posto que isso possa no momento fazer-se, a sua consequencia natural é a +variedade de doenças produzidas pelas digestões imperfeitas e pela +repleição... + +«Não é só contra a natureza da nossa constituição física o uso da carne. +O espírito e a inteligência tornam-se pesados pela supreabundância e +pela repleição; é possivel que a carne e o vinho tendam a dar robustez +ao corpo, mas para o espirito trazem sómente fraqueza. + +«Além e acima de todas estas razões, não parecerá admirável criar +hábitos de filantropia? Quem é tão bondoso e gentil para os seres duma +outra espécie inclinar-se-á algum dia a injuriar o seu próprio gênero? +Lembro-me de ter ouvido em uma conversação, como dito por Xenócrates, +que os atenienses impunham penas a quem esfolasse viva uma ovelha. +Aquele que tortura um ser vivo é um pouco pior, parece-me, do que aquele +que sem necessidade priva da vida e mata rapidamente. Temos, ao que +parece, mais clara percepção do que é contrário à propriedade e ao +custume do que daquilo que é contrario à natureza...» + +Com Plutarco, o vegetarismo, ou melhor, a condenação do carnivorismo +passou a ser nas preocupações morais do homem culto um caso julgado, +eloquentemente e inabavelmente julgado. Os que se lhe seguiram, e são +legião de gênios e de santos, nada acrescentaram às razões basilares dos +seus principios dietéticos, embora brilhantemente os interpretassem e +devotadamente os praticassem em um apostolado verdadeiramente religioso, +através de todas as contrariedades e adversidades. Os padres da igreja +cristã primitiva, quando ela ainda se encontrava em toda a pureza, não +se esqueceram, como não podiam esquecer-se, de verberar rigidamente as +crueldades e a insânia do carnivorismo. E os filósofos estranhos ao +cristianismo e até mesmo os que o combatiam mas que vinham repassados do +platonismo helênico não foram menos ardentes na flagelação d'aquele +vicio a todos os respeitos mortal. + +Dêstes é notável pela solidez e desenvolvimento da argumentação que +emparelha a de Plutarco na repulsão do carnivorismo, Porfirio da +Alexandria, homem extraordinário, discípulo de Plotino. Santo Agostinho +coloca-o acima de Platão. + +Para êsse tambem o vegetarismo era salvação de muita angústia e +tormento, desde que nem o médico nem o filósofo nem o atleta se atreviam +a afirmar que a dieta carnivora era melhor para a saúde e para o vigor. + +Sendo assim, «porque», dizia, «não nos revoltamos e libertamos duma +supreabundância de inquietações? Para aquêle que se habitua a +contentar-se com o menor luxo, será isso a redenção não de uma mas de +mil inquietações--dos serviços de criados em excesso, duma multidão de +variados estorvos, dum estado físico de letargia e depressão, dum número +infinito de doenças severas, da necessidade dos médicos, do incentivo à +devassidão, de pesadas imaginações, de desordens infinitas e superfluas, +dos ferros de grosseiros hábitos do corpo, dos excesso de fôrça fisica +excitando a actos de violência--em suma, duma Ilíada de males. De tudo o +que o alimento inocente que não rouba a vida e que a todos é fácilmente +acessível nos liberta, dando paz à alma enquanto oferece ao corpo meios +de saúde. «Não é dos que comem o grão», diz Diógenes, «que vem as +guerras e a pirataria; mas é dos que comem carne que vem os tiranos e os +opressores». + +E diz tambêm: «Deixo de insistir no facto de que, se nos pozermos na +dependencia do argumento da necessidade ou da utilidade (do +carnivorismo), não podemos deixar de admitir por implicação que nós +mesmos fomos criados só por causa de certos animais destruidores, como +os crocodilos, as serpentes e outros monstros, porque não recebemos +dêles o menor benefício. Pelo contrário, são eles que apanham, destroem +e devoram os homens que encontram--fazendo o que não procedem de modo +algum menos cruelmente do que nós. De resto, eles são assim selvagens +por necessidade e fome; e nós por insolente lascivia e luxuriosos +prazeres, divertindo-nos, como usamos no circo e nos morticínios da +caça. Em tais acções fortificamos em nós uma natureza bárbara e brutal +que torna os homens insensíveis ao sentimento da piedade e compaixão. +Aquêles que primeiro perpetraram essas iniquidades fatalmente +entorpeceram a parte mais importante da alma. Por isso é que os +discípulos de Pitágoras consideram a bondade e a graça com os animais +inferiores um exercicio de filantropia e graça». + +Com Porfirio fecham-se as lições magnificas de vegetarismo que a +antiguidade nos legou. + +Seguem-se-lhe na ordem cronológica as desordens e violências da idade +média, o desabar dum mundo em grande parte caduco e a anciedade duma +renovação que sabe mal os seus trâmites e anciosamente os procura. Mas +nem assim, nem em meio dessas ruinas e tumulto, o vegetarismo será uma +doutrina morta. Aqui e além sentimos-lhe as palpitações; nas homílias +dum João Crisóstomo cujos ascetas não conheciam entre si, segundo a +expressão do Santo, «nem os rios de sangue, nem a matança e nem o cortar +da carne no açougue, nem cozinhas delicadas, nem o peso da cabeça, nem +as exalações horríveis dos manjares carnívoros e os fumos desagradáveis +das cozinhas»; nas comunidades dos cataros perseguidos pela igreja +católica, que nem mesmo perante o cadafalso se sujeitaram a matar um +frangão, quando em 1052, em Goslar, eram enforcados; e Deus sabe em +quantas ermidas, nas quais os revoltados contra a ortodoxia eclesiástica +que na solidão procuravam refugio das torturas que os ameaçavam, +guardavam as melhores tradições dos paulicianos e dos albigenses, +esperando no futuro melhor religião e mais pura moralidade. Pelo que +toca à superioridade moral dos seus preceitos anti-carnívoros, êsses +herejes, que assim se chamavam e como tais eram martirizados, até entre +os seus cruéis inimigos encontraram quem lhes fizesse justiça. S. +Bernardo foi um dos que condenando os crimes e as imoralidades da +ortodoxia do seu tempo reconheceu virtude em uma dieta anti-carnívora. + +No século XVI entramos na renascença e com ela, reatado o fio da cultura +antiga, dá signais de vida o senso moral que em tal agudeza sentimos nos +primeiros tempos do império romano. + +Vem o _Compêndio da Vida Sóbria_ do celebre Cornaro que, fraco e +arruinado aos trinta anos por excessos de gula, consegue prolongar a +vida além dos cem por uma dieta rigorosa. Vem a _Utopia_ de Tomás Moore, +a cujo povo modêlo não era permitido acostumar-se a matar os animais +«pelo uso dos quais julgavam que a clemência, a mais graciosa afeição da +nossa natureza decaía e morria». E vem finalmente a ressurreição plena +da filosofia humanitária em Miguel de Montaigne. + +Grande leitor de Plutarco, seu legitimo discípulo, Montaigne renova +brilhantemente as exortações do mestre contra as intoleráveis crueldades +do carnivorismo. + +«Pela sua parte», disse, «nunca foi capaz de vêr sem desgôsto perseguir +e matar um animal inocente e sem defesa, do qual não haviamos recebido +mal ou ofensa. Quando um gamo, como vulgarmente acontecia, esfalfado e +sem fôrças, sem outro recurso, se prostrava e rendia, como se pelas +lágrimas pedisse misericórdia aos seus algozes, sempre lhe pareceu um +desagradável espectáculo. Raro ou nunca apanhou vivo um animal que não o +restituisse á liberdade. Pitágoras tinha o costume de comprar para o +mesmo fim aos passarinheiros e aos pescadores as suas víctimas. As +disposições sanguinárias relativamente aos outros animais demonstram uma +crueldade natural com a nossa própria espécie. Desde que em Roma se +habituaram ao espectáculo da chacina dos outros animais, passaram à dos +homens e dos gladiadores. Temia que a natureza tivesse dado certo +instinto de desumanidade às inclinações humanas. Ninguém tira prazer de +vêr os outros animais alegres e afagando-se; e ninguém deixa de se +alegrar vendo-os desmembrados e feitos em pedaços.» + +Repetindo o exemplo de Plutarco, Montaigne considera um caso de +consciência mandar para o matadoiro a vaca que tantos anos nos serviu. +Com Plutarco e Porfírio aponta os prejuizos sobre as faculdades mentais +das raças não humanas, insistindo em que a diferença é de grau e não de +espécie. «Platão» diz, «no seu quadro da Idade d'Oiro conta entre as +principais vantagens dos homens d'aquêle tempo o comércio que êles +tinham com os outros animais, investigando, instruindo-se e aprendendo +as suas verdadeiras qualidades e as diferenças entre nós e êles, pelo +que adquiriam um perfeitíssimo conhecimento e inteligência e dêste modo +fizeram as suas vidas mais felizes do que a nossa. Isto digo com o fim +de nos fazer retroceder e juntar-nos á multidão. Não estamos nem acima +nem abaixo do resto. «Quantos estão sob o céu» diz o sábio judeu, +«sofrem igual lei e destino.» Ha certa diferênça, ha ordens e gráus, mas +acham-se sob o aspecto duma única e igual natureza.» + +Depois de Montaigne, é Pedro Gassendi que repete as lições de Plutarco, +enquanto medita a _Vida e Moral de Epicuro_ que sabiamente traçou, +encontrando, como este, «o bem supremo, _summum bonum_» no seu pequeno +jardim. E logo após a sua morte, dentro de poucos anos, nasce Hecquet +que por sua vez, no seculo XVII vinha acrescentar à Bíblia Vegetariana +páginas definitivas. + +A êsse notável reformador da arte médica parecia «incrível a soma de +prejuizos que se deixaram trabalhar em favor da carne, quando tantos +factos se opõem à pretensa necessidade do seu uso». Renova todo o +argumento fisiológico contra a dieta carnívora e, citando numerosos +exemplos de homens eminentes e de nações que em todos os tempos a +condenavam, observa com muito particular e inatacável sagacidade que +«está provado que não é difícil sustentar sem carne os animais que vivem +de carne, enquanto é quási impossível alimentar com carne aquêles que +vivem ordináriamente de substâncias vegetais». + +Grande época de moralistas, o seculo XVII não deixaria escapar sem +reflexão os problemas morais da dieta, e de facto os julgou com a +severidade que uma sã moral reclama. Onde se insinuarem sentimentos de +simples justiça, à parte mesmo toda a exaltação religiosa ou qualquer +frouxa inspiração de poesia, logo a baixeza do carnivorismo será +apontada e castigada como infração de princípios supremos. + +Bernardo de Mandeville, que nasceu em 1670, comenta nestes belos termos +os hábitos carnívoros que ao tempo deveriam estar em plena expansão +entre nobres e gente abastada: + +«Muitas vezes pensei que, se não fosse pela tirania que o costume exerce +em nós, os homens duma natureza medianamente boa nunca se reconciliariam +com a acção de matarem tantos animais para seu sustento quotidiano, +enquanto a liberalidade da terra tão abundantemente lhes faculta as +delicadas variedades de vegetais. Sei que a razão nos provoca a +compaixão mas frouxamente, e por isso não me admira que os homens sejam +tão desapiedados com criaturas imperfeitas como o caranguejo, a ostra, a +ameijoa e, em geral, todo o peixe, porque são mudas e o seu intimo e a +sua configuração externa largamente diferem de nós. Para nós, +exprimem-se ininteligivelmente, e por conseguinte não é de estranhar que +a sua dôr não afecte o nosso entendimento que ela não alcança; pois +coisa alguma nos move mais seguramente à piedade do que os sintomas de +miséria que ferem imediatamente os nossos sentidos. Encontrei +comovendo-se com o rumor que uma lagosta faz quando a espetam gente que +com prazer mataria meia dúzia de aves. + +«Animais perfeitos como as ovelhas e os bois, nos quais o coração, o +cérebro, e os nervos diferem tão pouco dos nossos, e a separação do +sangue e do espírito, os órgãos dos sentidos, e por consequência o +próprio sentimento, são os mesmos que são em criaturas humanas, não +posso imaginar como um homem que não esteja endurecido no massacre e no +sangue póde vêr indiferente a sua morte e as agonias em que ela se +consuma. + +«Em resposta a isso, a maior parte das pessoas julgarão suficiente dizer +que, tendo sido feitas as _coisas_ para utilidade do homem, não póde +haver crueldade em dar às criaturas o uso para que foram designadas. Mas +tenho ouvido esta réplica, enquanto a natureza íntima de quem a deduz +lhe acusa a falsidade da asserção. + +«Se não foi criado num açougue, não haverá numa multidão um homem entre +dez que por sua vontade escolhesse entre todas as profissões a de +magarefe; e pergunto se sequer alguém matou pela primeira vez sem +relutância uma galinha. + +«Alguns não podem resolver-se a provar de quaisquer criaturas que tenham +visto todos os dias e que conhessem quando estavam vivas. Outros não +levam os escrúpulos alêm daquelas criaturas que viram todos os dias e +conheceram enquanto vivas e lhes pertenciam. Outros limitam esses +escrúpulos ás suas próprias aves, e recusam-se a comer daquelas que +sustentaram e cuidaram. Todavia, todos se alimentam, sem remorsos e de +coração leve, de carne de caça, de carneiro e de aves quando foi +comprada no mercado. Neste procedimento, imagino, transparece qualquer +coisa como a _consciência da culpa_; parece que se esforçam por se +salvarem da imputação dum crime (cujas ligações percebem) afastando de +si quanto possivel a respectiva causa. E nisso descubro vivos sinais da +primitiva piedade e inocência, que o poder arbitrário do costume e a +violência da luxúria ainda não foram capazes de conquistar.» + +Por êste mesmo tempo de Bernardo de Mandeville, no período tão fecundo +de renovação religiosa e filosófica que vai do meiado do século XVII ao +meiado do século XVIII, o respeito da vida dos animais inferiores +encontrou invariavelmente defensores convictos nos melhores espíritos da +época. Wesley foi um dêsses e Pope, o célebre poeta inglez, recordando +lições do «excelente Plutarco» que, dizia, «tinha mais impulsos de boa +natureza nos seus escritos do que qualquer outro autor de que se +lembrasse», repete-lhe os conselhos analisando e condenando os costumes +sanguinários de então que, como hoje, passavam para o maior número por +admirável destreza física e modos sãos e legítimos de existência moral e +fisiológica. + +«Não posso imaginar extravagante», escreveu Pope, «que o género humano +seja, relativamente, menos responsável pelo mau uso do seu domínio sôbre +as camadas inferiores dos seres do que o é pelo exercicio da tirania +sôbre a sua própria espécie. Quanto mais completamente a criação +inferior se encontra submetida à nossa fôrça mais responsáveis deveremos +ficar pelo seu máu govêrno; por maioria de razão se deve considerar esta +responsabilidade, visto que a própria natureza dos animais inferiores os +torna incapazes de receberem em outro mundo qualquer recompensa dos máus +tratos que sofrerem nêste. É de notar que os animais nocivos, com mais +poderosas qualidades para nos fazerem mal, evitam naturalmente os homens +e nunca nos ofendem senão provocados ou coagidos pela fome... Não parece +fácil defender meramente por _sport_ a destruição de qualquer coisa que +tenha vida. Todavia as crianças são educadas nesta ideia e um dos +primeiros prazeres é a licença de infligir penas a animais sem defeza. +Mal nos tornamos sensiveis ao que a vida é para nós, fazemos um +passatempo de a roubarmos aos outros... Quando crescemos e nos fazemos +homens, temos outra série de passatempos sanguinários, particularmente a +caça. Não ouso atacar um divertimento que tem a sustentá-lo tal +autoridade e costume; mas consintam-me que tenha a opinião de que a +agitação daquêle exercício, com o exemplo e o número dos caçadores, +contribue não pouco para resistir áqueles impulsos que a compaixão +naturalmente sugere a favor dos animais perseguidos.» + +«Mas se os nossos _sports_ são destruidores, muito mais o é a nossa gula +e duma fórma muito mais desumana. As lagostas assadas vivas, os porcos +fustigados até à morte, as aves amanhadas, são testemunho da nossa +luxúria. Aquêles que, na frase de Sêneca, repartem a vida entre uma +consciência ambiciosa e um estômago enauseado, teem a justa recompensa +da sua gula nas doenças que ela acarreta. Porque os selvagens humanos, +como os outros animais bravios, encontram ratoeiras e venenos nas +provisões da vida e enganados pelo apetite correm à propria destruição. +Não conheço nada mais repelente do que o aspecto duma das suas cozinhas +coberta de sangue onde se ouvem os gritos dos seres que expiram em +torturas. Dá-nos a imagem da caverna dum gigante nos romances, juncada +de cabeças dispersas e membros lacerados daquêles que a sua crueldade +chacinou.» + +Com tão bons guias, chegaremos ao humanismo do século XVIII que Rousseau +e Voltaire consubstanciaram maravilhosamente. + +Voltaire, no _Dicionário filosófico_, discorrendo sôbre a palavra carne, +escreveu: + +«Sabe-se que Pitágoras, que estudou com os brahmanes a geometria e a +moral, adoptou a sua doutrina humana e trouxe-a para a Itália. Muito +tempo a seguiram os seus discipulos: os célebres filósophos Plotino, +Jâmblico e Porfírio, recomendaram-na e até mesmo a praticaram, posto que +seja muito raro fazer aquilo que prégamos. A obra de Porfírio sôbre a +abstinência de carnes animais, escrita pelo meiado do nosso terceiro +século, é muito estimada dos eruditos mas não fez mais discípulos entre +nós que o livro do médico Hecquet. É em vão que Profírio propõe para +modelos os brahmanes e os magos persas de primeira classe que tinham +horror ao costume de engolfar nas suas entranhas as entranhas das suas +criaturas. Não é seguido hoje senão pelos padres da Trapa. O escrito de +Porfírio é dirigido a um dos seus discípulos, Firmus, que, diz-se, se +fez cristão para ter a liberdade de comer carne e de beber vinho. +Adverte a Firmus que abstendo-nos da carne e dos licores fortes +conservamos a saúde da alma e do corpo, vivemos mais tempo e com mais +inocência. Todas estas reflexões são dum teólogo escrupuloso, dum +filósofo rígido e duma alma doce e sensível. Julgariamos ao lê-lo que +êste grande inimigo da Igreja é um padre da Igreja. Considera os animais +como nossos irmãos porque são animados como nós, porque teem os mesmos +princípios de vida, porque teem, assim como nós, ideias, sentimento, +memória, engenho. Só lhes falta a palavra. Se a tivessem, ousaríamos +matá-los e comê-los? Ousaríamos cometer fratricídios? Qual é o bárbaro +que poderia assar um cordeiro, se êsse cordeiro nos conjurasse por um +discurso comovedor a que não fôssemos ao mesmo tempo assassinos e +antropófagos? Este livro prova pelo menos que entre os gentílicos houve +filósofos da mais austera virtude; mas não conseguiram prevalecer contra +os magarefes e os glutões. A gula, o jôgo e a preguiça baniram do mundo +toda a virtude.» + +Ao mesmo tempo que Voltaire, Rousseau fazia suas as ideias de Plutarco +sôbre o regime alimentar; e proclamando-as com a violência habitual do +seu carácter, com aquela mesma impetuosidade que incansavelmente +empregou em fustigar a depravação do seu tempo e em incitar a uma +regressão salutar ao contacto e à simplicidade da natureza, inscreveu o +vegetarismo entre os artigos da nova fé. Sobretudo na educação da +criança quer que rigorosamente o vegetarismo prevaleça porque uma das +provas de que o sabor da carne não é natural ao homem é a indiferença +das crianças por este gênero de alimento e a preferência que elas dão +aos alimentos vegetais como as sopas, as massas, os frutos, etc.[B] É de +suprema importância que não se lhes desnature o gôsto primitivo e não se +tornem carnívoras, senão por motivos de saúde, pelo menos por causa do +carácter. Porque, seja qual fôr a explicação da experiência, é certo que +os grandes comedores de carne são, em geral mais cruéis e ferozes do que +os outros homens. Esta observação é verdadeira em todos os lugares e em +todos os tempos. É bem conhecida a grosseria inglesa. Os gauros, pelo +contrário, são os mais gentis dos homens. Todos os selvagens são crueis, +e não é a sua moral que os leva a isso; a sua crueldade provém do seu +alimento. Vão para a guerra como para a caça e tratam os homens como +tratam os ursos. Mesmo na Inglaterra os magarefes não são admitidos como +testemunhas legais, assim como os cirurgiões. Os grandes criminosos +endurecem-se para o assassinio bebendo sangue. Homero representa os +ciclopes, que eram carnívoros, como homens terríveis, e os lotófagos +como um povo tão doce que mal alguém tinha comércio com êle, logo +esquecia tudo e a sua pátria para viver com êle... Já se viu alguém +aborrecer o pão e a água? Veja-se o cunho da Natureza! Veja-se aí pois +uma regra de vida. Conservemos na criança pelo mais largo tempo possível +o seu gôsto primitivo; deixemos que o seu alimento seja simples e +vulgar; façamos que o seu paladar sómente se familiarize com os aromas +naturais e que não se forme gôsto algum exclusivo... Algumas vezes +observei a gente que dá importância a _viver bem_, que pensa, mal +acorda, no que ha-de comer durante o dia e descreve um jantar com mais +exactidão do que Políbio usa na descripção duma batalha. Pensei que +todos esses chamados homens eram apenas crianças de quarenta anos, sem +vigor e sem consistência. A gula é o vício das almas que não teem fundo. +A alma do glutão está no seu paladar. Veio ao mundo para devorar. Na sua +estúpida incapacidade, só à mesa está à vontade. A sua capacidade de +julgar limita-se às suas iguarias.» + +Um Shelley, um Lamartine, um Michelet ou um Gleizès tiveram na verdade +bem desbravado o terreno para deixarem voar livres os seus sonhos duma +nova existência toda de pureza que aborrecesse a carnificina e o sangue +onde quer que os encontrasse, na floresta, no lar ou no campo da +batalha, e sómente alimentasse o corpo e a alma nos inocentes e +perfumados frutos da terra. O desenvolvimento do vegetarismo no século +XIX, a discussão e consolidação da sua doutrina e o derramamento da sua +prática, não serão já a aspiração de gênios privilegiados mas o +patrimônio comum de milhares e milhares de espíritos esclarecidos e de +corações exaltados em amor. Convinha que assim acontecesse, desde que +uma vaga de libertação da humanidade, sem precedentes na história, nos +punha deante de Deus, da natureza e do dever desprendidos de todo o +estôrvo da opressão do costume e das tiranias sectárias. Mas não será em +vão que os mais bem inspirados combatem pelo advento do novo reino. A +liberdade de proceder não significa o domínio e a supressão da ruindade. +O que nesse campo havia e ha a conquistar e é o legado funesto de +gerações sôbre gerações de crueldade, é infinito. O que se conquistou é +minimo relativamente ao que importa conquistar. + +Por isso um homem como Wagner descerá do altíssimo pedestal a que o +próprio talento e a fama o ergueram e virá com os mais humildes exortar +os infieis e os ignorantes a iniciarem a sua redenção no vegetarismo. + +Lichtenberger, no seu excelente estudo de Ricardo Wagner como poeta e +pensador, expõe-nos nestes termos as ideias daquêle soberbo gênio sôbre +o vegetarismo, particularmente sôbre a importância que ele lhe atribuia +na regeneração física e moral das sociedades humanas. + +A citação será longa mas convém que se faça, é indispensável, aponta +dados primaciais do problema: + +«Se consideramos primeiro a evolução humana como fenômeno fisiológico, +verificamos, segundo Wagner, que duas causas trouxeram a degeneração da +raça branca: a má alimentação, que do homem primitivamente frugívoro fez +um carnívoro, e a mistura das raças que profundamente alterou o +temperamento primitivo e as virtudes hereditárias dos antigos arias. +Estas duas causas tem por efeito uma alteração do próprio sangue entre +os povos modernos e em particular no povo alemão, alteração que deve ser +considerada como a razão fisiológica, como o princípio inicial da +corrupção profunda que hoje aparece no seio das nações europeias. + +«O homem natural, inocente e feliz, de que Wagner traçara outrora a +imagem ideal no seu moço Siegfredo, não mais se concebe agora (nesta +época da sua vida) sob as linhas do germânico belo e vigoroso, sempre +pronto para a guerra e para as aventuras, belicoso pelo prazer de medir +suas fôrças com os rivais, e inacessivel ao temor. É agora o índio dos +tempos primitivos, o índio morigerado e reflectido por uma religião de +suavidade: «Uma natureza generosa lhe oferecia o que era necessário para +satisfazer as necessidades da vida; a vida contemplativa, a meditação +séria podia levar estes homens, livres de todo o cuidado da sua +sustentação, a reflectirem profundamente sobre a natureza deste mundo +onde, como a experiência passada lhes havia mostrado, reinava a +indigência, o cuidado, a dura necessidade do trabalho e mesmo da luta e +do combate para a posse dos bens materiais. Ao brahmane, possuído do +sentimento de ter em certo modo entrado em uma vida nova, o guerreiro +parecia-lhe necessário como guarda da segurança exterior e por esta +razão tambêm digno de piedade; o caçador, pelo contrário inspirava-lhe +um horror profundo e o carrasco dos animais domésticos parecia-lhe +inconcebível». Estes homens de costumes tão doces sabiam todavia dar +provas duma fôrça dalma sem igual, quando disso era ensejo próprio: +nenhuma tortura, nenhuma promessa pôde jámais obriga-los a renunciarem á +sua fé religiosa; e Wagner cita com admiração a história comovente de +tres milhões de indios que, por ocasião duma fome causada pelos +especuladores ingleses, preferiram morrer de fome a tocar nos seus +animais domésticos. Mas o homem primitivo, vegetariano e manso, que +recusa derramar o sangue dos seus semelhantes e o dos seus irmãos +inferiores, os animais, degenera pouco a pouco sob a pressão das +circunstâncias exteriores. Transportado, no correr das emigrações, para +climas menos clementes, torna-se caçador e carnívoro, para escapar á +fome; aprende a alimentar-se com a carne dos animais domésticos. Desde +os primeiros tempos da história, vemo-lo transformar-se assim em um +animal de prêsa ávido de sangue e por fim deleitando-se em matar, não só +para satisfazer a fome mas pelo prazer de matar. Este animal de prêsa +conquista vastas províncias, subjuga raças frugivoras, funda por guerras +sucessivas grandes impérios, dita leis e cria civilizações para gozar em +paz da sua rapina, Hoje é mais perigoso e mais sanguinário do que nunca; +aperfeiçoou dum modo terrível os engenhos de destruição, exgota-se em +armamentos estéreis e vive num estado de _paz armada_ periodicamente +interrompida por carnificinas medonhas. Depois, ao lado do homem de +prêsa militar desenvolveu-se no correr dos séculos o homem de prêsa +especulador, tão de temer e tão mortífero posto que menos bravo do que o +primeiro, e cuja acção devastadora se exerce sem interrupção sobre a +massa do povo que êle votou á miseria e à ruina. Mas se o homem de prêsa +domina o mundo como a fera reina na floresta, é como ela degenerado: «Do +mesmo modo que o animal de prêsa não prospera, diz Wagner, do mesmo modo +vemos o homem de prêsa vitorioso finar-se lentamente. Por causa do +alimento contra a natureza que êle usa, é vítima das doenças que só nêle +aparecem, e nunca alcança nem o termo normal dos seus dias nem uma morte +doce: sob o aguilhão de sofrimentos e de torturas que só êle conhece e +que lhe ferem o corpo como a alma, apressa-se através duma vida de +agitações vãs, para um fim sempre terrível». + +«Mas do mesmo modo que o homem primitivo, colocado em circunstâncias +desfavoráveis, teve de trocar a alimentação vegetal pela alimentação +animal, do mesmo modo poderá, quando tiver consciência da sua miseria e +souber reconhecer como seus todos os sofrimentos dos homens e dos +animais, voltar por um esforço de vontade a uma alimentação +exclusivamente vegetal. Só por tal preço póde esperar a regeneração. +Assim não se deixará desanimar nesta empresa por nenhuma dificuldade de +ordem prática. Wagner considera como uma verdade experimental +demonstrada que o homem pode amoldar-se a um regime vegetariano em todas +as latitudes. Mas não hesita em declarar que no caso em que se +reconhecesse a necessidade duma alimentação animal nos climas do norte, +as raças superiores deveriam emigrar sistematicamente para regiões mais +favorecidas do sol. Desde já considera como instituições de salvação as +ligas de vegetarianos, as associações para a protecção dos animais e as +associações de temperança que procuram libertar o homem da tirania +medonha do álcool. Quando estas associações fracas, desprezadas e hoje +um pouco ridículas, tiverem mais inteira consciência do fim sublime que +teem em vista e se apresentarem ao público não como modestos apóstolos +dum mediocre pensamento utilitário mas como os missionarios da doutrina +da regeneração, poderão tornar-se os instrumentos eficazes da redempção +do mundo moderno.» + +Eis aí o que Wagner pensava do vegetarismo, da alta missão social que +lhe está guardada e da influência fundamental que tem na moralidade das +raças. E pronunciando o seu nome desnecessário se torne lembrar em que +assombrosas faculdades esta doutrina encontrou protecção e impenetrável +escudo. + +Acrescentemos ainda a essa voz de excepcional poder mais um depoimento. +É o de E. Réclus. + +O seu talento, o seu saber, os seus infinitos conhecimentos da terra e +dos homens as suas virtudes morais, a sua sinceridade, a sua inteireza e +a sua coragem que ele sujeitou às mais crueis provações e que de todas +sairam vitoriosas, a sua própria experiência do vegetarismo que praticou +durante mais de sessenta anos consecutivos e que não o impediu de morrer +com mais de oitenta duma vida de trabalho infatigável e de ardente +apostolodo, todas estas e muitas outras circunstâncias congêneres lhe +dão um lugar privilegiado que convém respeitar, não por sua glória que +do nosso humilde respeito não carece, mas por nosso interesse que do seu +conselho não póde prescindir. + +«Não era químico nem doutor», confessa, «não mencionará nem o azote nem +a albumina, nem reproduzirá as fórmulas dos analistas mas contentar-se-á +simplesmente dizendo as suas impressões pessoais que de resto coincidem +com as de muitos vegetarianos.» Foi virtualmente um vegetariano desde +criança. Uma pessoa de familia mandou-o um dia ao açougue buscar um +pedaço de carne, e perante os horrores que lá viu, desmaiou. Ouvia que o +dono do talho o trouxera a casa sem sentidos. Foi esse o seu baptismo +vegetariano. Não o aprendeu nas academias, nos hospitais ou nos +laboratórios. Nasceu-lhe no coração. + +«Cada um de nós», diz Réclus, «especialmente aquêles que viveram em um +canto da província, muito longe das cidades vulgares ordinárias, onde +todas as coisas estão metodicamente classificadas e disfarçadas,--cada +um de nós tem visto alguma coisa dessas barbaridades cometidas pelos que +comem carne contra os animais que êles comem. Não ha necessidade de ir a +nenhuma Porcopolis da América do Norte ou a uma _saladera_ de La Plata, +para contemplar os horrores dos massacres que constituem a condição +primária do nosso alimento quotidiano. Mas estas impressões gastam-se +com o tempo; cedem perante a perniciosa influência da nossa educação de +todos os dias, que tende a arrastar o indivíduo para a mediocridade, e o +despoja de quanto concorra para o tornar uma personalidade original. +Pais, mestres, por oficio ou por amizade, doutôres, para não falar desta +poderosa individualidade que chamamos _toda a gente_, todos trabalham +juntos para endurecerem o carácter da criança com respeito a êste +«alimento de quatro pés» que, todavia, ama como nós amamos, sente como +nós sentimos, e sob a nossa influência progride ou retrocede como nós... +Não é uma digressão mencionar os horrores da guerra em conjunção com o +massacre dos gados e os banquetes carnívoros. A dieta dos indivíduos +corresponde exactamente aos seus modos. O sangue pede sangue. Nêste +ponto, quem rememorar as suas lembranças daquêles que tem conhecido, +encontrará que não póde haver dúvida possível quanto ao contraste que +existe entre os vegetarianos e os grosseiros comedores de carne--ávidos +bebedores de sangue--na amenidade dos seus modos, na gentileza de +disposição e regularidade de vida. É certo que estas qualidades não são +muito apreciadas daquelas _pessoas superiores_ que, não sendo de fórma +alguma melhores que os outros mortais, são sempre mais arrogantes e +imaginam que acrescentam a sua importância depreciando os humildes e +exaltando os fortes. Para elas, doçura significa fraqueza: os doentes +são um tropêço, e seria caridade varrêl-os do caminho. Se não forem +mortos, deve-se pelo menos deixar que morram. Mas é justamente esta +gente delicada que resiste á doença melhor do que os robustos... + +«Seja porém como fôr, apenas digo que para a grande maioria dos +vegetarianos a questão não é se os seus biceps e triceps são mais +sólidos do que os daquêles que comem carne, nem se o seu organismo está +mais apto a resistir aos riscos da vida e às contingências da morte, não +é isso o mais importante; para eles o ponto importante é o +reconhecimento dos laços de afeição e bôa vontade que unem o homem aos +chamados animais inferiores e a ampliação até êsses nossos irmãos do +sentimento que já pôz termo ao canibalismo êntre os homens... O cavalo e +a vaca, o coelho e o gato, o gamo e a lebre, o feisão e a cotovia, +são-nos mais agradáveis como amigos do que como comida. Queremos +conservá-los ou como respeitados companheiros de trabalho ou +simplesmente como companheiros na alegria da vida e na amizade.» + +E, chegado a êste ponto, seja-me permitido prescindir das restantes +testemunhas que são ainda dezenas e dezenas dos que deixaram o rasto +marcado na história da civilização. Prescindo de depoimentos preciosos, +prescindo, por agora, da sanção do vegetarismo pela autoridade de +individualidades tão altas como, por exemplo, Leão Tolstoi, para o qual +o vegetarismo é o _primeiro passo_, ou como êsse outro proféta de +alêm-mar, Henrique David Thoreau que julgava «um benfeitor da sua raça» +aquêle que ensinasse os homens a limitarem-se a uma dieta mais inocente +e salutar do que aquela miserável de degolar cordeiros». Não ignoro que +riquezas de elucidação e de exemplo deixo de usar, nem o faço sem mágoa. +O meu desejo e o interesse da causa a que tão sinceramente consagro os +meus pobres esforços, seria repetir linha a linha e gravar na memória +dos que me escutam esse admirável breviário de Howard Williams que tem +por titulo _A Etica da Dieta_ e ao qual fui beber a maior parte de +aquilo que aqui reuni e coligi. Mas o que deixo apontado será por +ventura o bastante para a demonstração da tése que me propus defender; e +a necessidade de concluir este primeiro ponto das minhas considerações +não permite que mais me alongue na apresentação dos documentos em que se +fundam. + + +II + +Disse que o vegetarismo tem os seus pergaminhos, que possue títulos +autênticos de nobreza. Provam-no os documentos que apresentei. A +história da civilisação registou-lhe a antiguidade; e as virtudes e os +merecimentos dos homens eminentes que o serviram pela palavra e pelo +exemplo são garantia da sua excelência. + +_Quid inde?_ Com que direitos e por que trâmites se criou essa nobreza e +por que razões ha-de persistir em nossos dias? + +Consideremos por um instante os momentos em que a defesa e a prática do +vegetarismo se mostraram mais calorosas, mais acentuadas nas afirmações +e mais disseminadas na acção. Imediatamente se nos revelará o seu +carácter e a sua influência na moralidade das raças. + +Aparece-nos primeiro o vegetarismo, claramente definido e apregoado como +mandamento essencial de bem viver, na escola de Pitágoras, na aurora do +helenismo, quando ele começou a ter consciencia dos seus destinos e a +meditar lucidamente nas responsabilidades do homem perante a vida +universal. + +Renova-se seis séculos mais tarde com Plutarco, quando uma pausa nas +disputas do mundo sucedendo à amálgama de diferentes raças e +diversíssimas aspirações religiosas em uma só e nova civilização +permitiu aos homens que interrogassem o seu íntimo e conhecessem o que +queriam da terra e o que lhe deviam, que fins e obrigações os +encaminhavam e prendiam. + +Pouco depois encontramo-lo em Alexandria onde Porfírio e a pléiade de +filósofos que naquelas terras meditava a experiência de quasi dez +séculos de vida social intensa investigavam as consequências que de aí +derivavam para a compreenção d'este pequenino ser que é o homem. + +Escurece-se na pulverização do império romano, enquanto o tumulto das +guerras e a poeira do desabar de ruinas não consentiam parança em que os +problemas morais da nossa vida se traçassem e solvessem. Mas logo a +breve trecho eis renascido com Montaigne o vegetarismo em toda a sua +pureza e formosura porque se reatava o fio perdido e quebrado da cultura +antiga. Acaricia-o em seguida o humanismo do seculo XVIII, até que no +seculo XIX lhe abrem de par a par as portas da cidade e porventura lhe +dão ingresso no templo os mais venerandos levitas da redenção humana. + +Isto é--sempre que as sociedades europeias poderam pelo gráu de cultura +que atingiam ouvir a voz da consciência moral e prestar obediência aos +seus ditames, o vegetarismo surge e impõe-se como uma lei a que não é +permitido esquivar-nos, sob pena de ignominiosa traição do dever e de +crueis remorsos. Não é outra a lição da história sôbre esta doutrina, +nem outra póde ser a interpretação das vicissitudes por que tem do +passado, dos entusiasmos que despertou, e dos ódios que o perseguirem e +da irrepressível expansão que em nossos dias o propaga. É um fenômeno da +consciência moral, invariavelmente presente onde quer que a consciência +moral assista, seu filho e servo. Não é um devaneio filosófico, questão +de sistema ou de lógica, é um acto de religião. + +Por isso teve e tem inimigos, porque não póde dominar sem offender +crenças arreigadas e potestades criadas, sem sobretudo escandalizar esse +«poder arbitrário do costume e a violência da luxúria» de que falou +Bernardo do Mandeville e que encontram na fé vegetariana como uma +acusação dos seus crimes e uma ameaça de abolição contra as quais se +revoltam. + +Singular coincidência! Os apóstolos do vegetarismo não mereceram em +regra as boas graças dos poderes politicos constituídos. São aborrecidos +de todos os despotismos. Sendo o vegetarismo uma doutrina de amor, +porventura é odiada de toda a opressão e egoismo. O certo é que os +discípulos de Pitágoras foram perseguidos; Ovídio foi desterrado e +Sêneca foi condenado à morte e os cataros sofreram da igreja católica as +mais bárbaras crueldades. + +Na verdade, significa uma profunda revolução moral com todas as +consequências sociais que necessáriamente importa. Como tal o devem +considerar os que o seguirem, armando-se com a coragem indispensável +para afrontarem todas as penas e riscos d'uma revolução. Se os nossos +tempos não toleram martírios, nem por isso pódem prescindir de +tenacidade e firmeza d'animo onde uma grande aspiração se proposer +conquistar o seu lugar no mundo. + +A tarefa será tanto mais árdua quanto é certo que o vegetarismo se vê +enleiado e combatido por tradições terríveis. + +Toda a nossa civilização é filha da civilização romana. Dela viemos e na +realidade nela nos mantemos; quanto julgamos progresso não é mais do que +o natural desenvolvimento das bases em que ela se fundou. A nossa +estrutura mental como a nossa estrutura econômica, como, sobretudo os +nossos problemas sociais, tudo é a repetição e a ampliação em volume e +complexidade do que o romano sentiu, criou e nos legou. + +Ora, não nos iludâmos; não há talvez pior inimigo do vegetarismo do que +a cultura latina. Compare-se a civilização latina com as civilizações +orientais e a superioridade moral destas últimas imediatamente se nos +mostra com evidência. A intemperança, a gula e a crueldade foram vícios +caraterísticos do mundo romano, que na escala dos valores morais o +deixaram inferior, não já à puresa do budismo, que com êsse o confronto +é inadmíssivel sôb êste aspecto, mas até mesmo à sobriedade e +frugalidade do grego, de cuja civilização descendia em linha recta. Aos +banquetes de Luculo correspondiam as atrocidades do circo, tal qual como +agora a uma hecatombe de vitelas e aves corresponde a embriaguez das +touradas. Por todos os lados corre igualmente a jorros o sangue inocente +dos mansos animais e nêles se deleitam o nosso ventre, o paladar e os +olhos. Parece que há mais de vinte e cinco séculos a nossa raça vive sôb +um anátema irrevogável de crueldade, tanto mais pungente quanto é clara +a consciência da maldição que nos atormenta. + +Catão, o Censor, diz-nos como orgulhoso do feito que, quando foi cônsul, +deixou na Espanha o seu cavalo de guerra para aliviar o tesouro público +dêsse encargo. E Plutarco, referindo o facto, acrescenta:--«Se tais +coisas são exemplos de grandeza ou de mesquinhez de alma, o leitor que o +julgue.» + +São exemplos de mesquinhez; sentia-o o historiador tão bem como nós o +sentíamos. Mas a enfermidade persiste e até hoje não podemos vencê-la e +sob o seu deprimente influxo nos arrastamos. O catonismo tornou-se senão +um título pejorativo, pelo menos um estigma de desumanidade. Mas nem por +isso condenando-o em palavras, banimos o catonismo dos nossos corações e +deixamos de sacrificar á sua desapiedade soberba tanto os homens nossos +irmãos como os animais a que as demências da nossa vaidade passaram +diploma de inferioridade. + +Dobramos o cabo das Tormentas, escravizámos o índio, e ameaçando a +terra, o mar e o mundo, tudo calcámos victoriosos e em nossos triunfos +nos glorificámos. Se porém me fosse dado escolher entre a sorte do +vencedor e a do vencido, diria, com pena de incorrêr em acusação de +traição ao amor da pátria, que a todas as nossas glórias, que são +muitas, sem embargo, e brilhantes, eu preferiria que como na Índia do +seculo XVIII, trez milhões de portuguezes tivessem a coragem, que o +índio teve, de preferirem morrer de fome a matar os animais seus +companheiros e seus servos e amigos. + +Não sei de maior grandeza na história. Não sei de exemplo de mais +sublimada moralidade duma raça, de mais grandiosa, perfeita e absoluta +imolação ao amor, a este amor que é a essência da vida, a razão de ser +da nossa existência, o padrão único por que se póde aferir a grandeza +humana, «o comêço de todo o pensamento digno d'este nome» na feliz +expressão de Carlyle. + +Heroísmo por heroísmo, o d'esses vencidos que maltratámos, foi +infinitamente superior às façanhas militares de que tanto nos +orgulhamos. + + +III + +Se porêm o vegetarismo fôsse incapaz de captivar os homens de +inteligência lúcida e coração recto só pelo seu valor moral absoluto, +pelo que representa como signal da mais alta concepção moral das +relações do homem com o universo e particularmente com os seres vivos +que nos cercam, não poderia deixar de persuadir os mais rebeldes pela +sua influência directa, imediata, como mecânica, na dissipação de +flagêlo que presentemente é o maior e mais terrível dissolvente da +moralidade das raças--o alcoolismo. + +Não é êste o ensejo de nos ocuparmos de semelhante calamidade para +afastar a qual todo o esfôrço será pouco. Mas ninguém d'olhos abertos e +medianamente preocupado com a vida das sociedades e a sua fortuna poderá +deixar de reconhecer com J. Reinach que, «se a questão do alcoolismo não +é toda a questão social, é a mais terrível e a mais grave das questões +sociais.» + +O que a êsse respeito se passa em o nosso país, não o sei eu. Suponho +que será tremendo, a julgar por aquilo que casualmente encontro a cada +passo na vida quotidiana, pelo que vejo nas ruas e em todos os +ajuntamentos dos dias de descanso, pelo que se ouve nos tribunais onde +quási não há crime de violência contra as pessôas que não seja cometido +sob a acção próxima ou remota do álcool, pelo movimento dos hospitais +onde sob inumeráveis fórmas essa desgraça vai pedir socorro e o mais das +vezes acabar. + +Não o sei. As estatísticas do nosso país são menos do que incompletas ou +deficientes a tal respeito; são nada. Parece que tememos saber toda a +verdade e preferímos afundar-nos em cegueira total e em criminosa +indiferença, embora o exemplo dos demais países nos assegure que não é +assim que cada um cumpre o que deve à pátria, à humanidade e à +consciência. + +Mas conheço um pouco e de verdade certa o que se passa imediatamente em +volta de mim, no lugar que habito, e isso basta para me aterrar +infundindo-me no espírito as mais lugubres preocupações sobre o futuro +da nossa raça. + +Pelas estatísticas municipais corrigidas por quem por longa experiência +conhece o movimento dos impostos, Aveiro com os seus 10:000 habitantes +deverá ter consumido em 1911 (numeros redondos): + +1.041:000 litros de vinho comum. + +7:500 litros de vinhos licorosos. + +11:000 litros de agua-ardente. + +Isto equivaleria na mais benigna hipótese a uma despeza de 50 contos de +reis e a um consumo de álcool puro de 7,5 litros por habitante, pelo +menos. Se nos lembrarmos da soma de mulheres e crianças que se acha +incluída nos 10:000 habitantes do total da população da cidade, +poderemos fazer uma vaga ideia das percentagens extremas que deve +atingir o consumo para os consumidores efectivos e tambêm da +precipitação de decadência física, moral e econômica que está minando a +raça. + +Ora eu não posso crêr que Aveiro seja um lugar de maldição no país. Pelo +contrário, inclino-me antes a pensar que será uma das terras do país +menos desmoralizadas não só neste ponto mas em absoluto. E sendo assim, +como tudo leva a crer, poderemos bem imaginar por este minúsculo exemplo +em que inferno estamos vivendo, a que penas estamos sujeitando os nossos +filhos e o futuro da nossa pátria, que tremendas responsabilidades de +ignomínia e de traição não estamos tomando perante a história, porque +outra traição mais infame eu não conheço do que aquela que resulta no +aviltamento físico e moral dos nossos filhos. + +Salvação, se a póde haver, e sem dúvida a haverá porque assim o teem +demonstrado os países mais adeantados do que o nosso que conscientes do +mal não descansam em lhe acudir com todos os preservativos e remédios +que a experiência lhes vai aconselhando, a salvação terá de começar pela +propagação do regime vegetariano que em semelhante missão, sem se +degradar e antes acrescendo as virtudes, passará d'um dever moral +imprescindível a uma utilidade social de primeira grandeza. + +«Basta a questão do álcool para que o problema da dieta seja digno da +atenção de todos os homens que amem a pátria», escreveu Russel no seu +belo livro _Strength and Diet_, hoje um clássico. Se o vegetarismo é o +_primeiro passo_, na opinião de Tolstoi, para a disciplina da nossa +vontade na obediência religiosa, é simultaneamente a primeira regra para +nos salvar da decadência do corpo e do espírito nêsse _embrutecimento_ +do álcool como Tardieu lhe chamou, resumindo em uma só palavra as +consequências de tal processo de envenenamento dos homens e das raças. +Porque _qualis enim esus, talis est potus_; tal comida, tal bebida. +Assim o disse ha longos séculos Tertuliano meditando nos trâmites da +vida religiosa, buscando os caminhos por que a santidade se alcança; e a +sciência dos nossos dias não desmentiu as lucubrações do teologo. Pelo +contrário, absolutamente as confirmou. + +Hoje, como então, a carne e o vinho são companheiros e cúmplices nessa +embriaguez do nosso sangue e da nossa alma que nos conduz aos infernos +de todas as demencias e abjecções. + +O seu processo na desmoralização das raças é sabido. A atrofia de +consciência que é o invariável resultado de todas as intemperanças da +gula começará por ser acidental e transitória na sua victima, para em +seguida se tornar permanente, constante, ininterrompida por virtude de +repetição, e para finalmente se transmitir por hereditariedade a toda a +descendência, por isso mesmo que se tornou verdadeiramente +constitucional e orgânica. + +É n'esta operação de aviltamento da nossa raça que o carnivorismo está +colaborando activamente. Combater pelo vegetarismo é combater o +alcoolismo na sua maior fortaleza. + +Dos resultados que os nossos esforços, poderão ter em uma tal calamidade +dizem as lições que os países estrangeiros nos facultam. Um só exemplo +invocarei. Há cerca de cincoenta anos a Suécia tinha uma taberna por 100 +habitantes e a Noruega uma por 200. Hoje a Suécia tem uma taberna por +5:000 habitantes e a Noruega uma por 9:000. E isto que é gigantesco como +capacidade de redenção dum pôvo, não foi a obra do acaso; foi o produto +do método, sistema e energia de vontade que todas as terapêuticas +aproveitou. Não se é uma nação civilizada e digna por menor preço. + + + [A] Na verdade, os processos de cosinha carnívora não são outra + coisa senão processos de corrupção; o alimento será tanto mais + saboroso quanto mais perfeitamente se lhe houver dissipado a + exalação fetida primitiva. Qualquer dama de mãos mimosas que trinca + com delicia uma costeleta coberta de pão e embalsamada em loiro, em + cravo, em salsa, em cebola, pimenta e limão, empalidece de nausea + sentindo o cheiro do açougue, considera imundicie um pedaço de carne + crúa nos seus vestidos e foge mais depressa da praça do peixe do que + da montureira que aduba a horta. + + Pelo contrario, na cosinha vegetariana o esmero e a perfeição + consistem em conservar inalteravel o sabor proprio de cada alimento. + Ninguem jámais teve o capricho de querer cosinhar maçãs para saberem + a loiro ou feijões para cheirarem a salsa. + + [B] Não acontece isso sómente com as creanças. Na gente do povo, + creança tambem pela vitalidade dos instintos primitivos, mostra-se + claramente a mesma tendencia. Muitos e muitos que seriam incapazes + de roubar de qualquer salgadeira uma grama de toucinho, não resistem + á tentação de se aproveitarem do primeiro cacho de uvas que lhes + esteja á mão. Os assaltos ás hortas e pomares são frequentes, e de + tal forma isso parece estar na ordem natural que grande numero dos + homens rudes não lhes associa nem de longe a noção do crime. Longos + seculos de corrupção da dieta não conseguiram atrofiar essas + tentações d'uma atiguidade biblica, as mesmas que desgraçaram Adão e + Eva. + + + + +Livros indispensáveis aos Naturistas + +e a todos que desejem cultivar a saúde e a longevidade, praticando +racionalmente o frugivorismo (dieta crua), vegetarismo, higiene natural +pelos exercícios normais combinados com os banhos de ar, sol e água, +restrição alimentar, etc., em perfeita concordância com a fisiologia +animal da humanidade. + + +Edições da Sociedade Vegetariana de Portugal: + +*"O Vegetariano"* 1.^a série, brochado. Muitas informações de +vegetarismo, e receitas de culinária natural, tabelas do valor dos +alimentos, leis de saúde e indicações aos principiantes. + + Para sócios da S. 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(continente e colonias), assinatura anual (12 +números) 1$000 reis--Brasil (moeda fraca) 3$500 reis--Outros paises 7 +frs. + + +BIBLIOTECA VEGETARIANA + +(Ilustrada com fotogravuras) + +I--*Vivamos de Frutos*, por V. Bruant, trad. do Dr. Amilcar de Souza. +Regime frugivoro e estudo sobre frutarismo. + + Para sócios da S. V. de Portugal 200 + + Preço geral 300 + +II--*Vinho sem alcool e Pão integral*, 12 gravuras. Apreciação pelo +Dr. Amilcar de Souza. Indústria e fabrico domestico. + + Para sócios da S. V. de Portugal 200 + + Preço geral 300 + +III--*O Vegetarismo e a Fisiologia Alimentar*, pelo Dr. H. Colliére, de +Paris. Trad. de Angelo Jorge. Análise, ao regime misto (carnivorismo) e +aos regimes naturais; vegetariano, vegetalino e frugivoro com +demonstrações, tabelas, etc., baseando-se nos melhores autores. + + Para sócios da S. V. de Portugal 500 + + Preço geral 700 + +IV--*A Questão Social e a Nova Sciência de Curar*, por Angelo Jorge. +Apreciações aos problemas médico, alimentar e social. + + Para sócios da S. V. de Portugal + + Preço geral + +V--*Dieta Frugívora e Renovamento Físico*, pelo Dr. O. L. M. Abramowski, +médico do Hospital de _Mildura_, Austrália. Trad. do Dr. João Volmer. +Demonstração prática e racional do frutarismo scientifico. + + Para sócios da S. V. de Portugal 100 + + Preço geral 150 + +VI--*O Naturismo*, pelo Dr. Amilcar de Souza. O livro mais notável do +século XX, versando todos os assuntos relacionados com a vida humana. +Análise racional e soluções naturistas às questões alimentares, +higiénicas, médicas, educativas, sociais e humanitárias. + + Para sócio da S. V. de Portugal 400 + + Preço geral 600 + +VII--*A base de todas as reformas na alimentação*, regeneração fisica e +mental do homem pelo «frugivorismo: notável livro americano de Otto +Carqué, esmerada trad. de J. Vitorino Pinto, estudante de medicina. + + Para sócios da S. V. de Portugal 150 + + Preço geral 200 + +VIII--*A Saúde e a longevidade*. (Um grito de alarme), por J. Bastos. +Análise racional aos erros da vida humana _civilizada_. A saúde, a +alimentação, a escola, os remédios e algumas curas relatadas são os +capítulos nele desenvolvidos com superior criterio e verdade. + + Para sócios da S. V. de Portugal 300 + + Preço geral 400 + +IX--*O Vegetarismo e a moralidade das raças*, pelo Dr. Jaime de +Magalhães Lima. Notavel conferencia realisada no Ateneu Comercial do +Porto em 14 de junho de 1912. Com o retrato do autor em _couché_. + + Para sócios da S. V. de Portugal 100 + + Preço geral 150 + +«*A Cura da Tuberculose pelo Vegetarismo*», pelo Dr. Paul Carton; +«Irmania», novela naturista por Angelo Jorge, «Os Agentes Físicos em +Medicina.», pelo Dr. J. Bentes Castel-Branco, etc. (A imprimir). + +«*La Hacienda*»--Búfalo, América--Revista ilustrada sôbre agricultura, +arboricultura e industrias rurais, e consultório técnico gratuito para +assinantes. O melhor mensário agricola do mundo editado em português, +assina-se na redacção de _O Vegetariano_.--Pôrto--(12 +numeros).--Assinatura anual. + + Para sócios da S. V. de Portugal 3$600 + + Preço geral 4$000 + + +Todos os pedidos devem ser acompanhados das respectivas importâncias em +dinheiro, cheques, vales ou estampilhas do continente, endereçadas à +Sociedade Vegetariana de Portugal, redacção de _O Vegetariano_--Avenida +Rodrigues de Freitas, 393 (Antiga rua de S. Lazaro)--Pôrto. + +A remessa pelo correio acresce 75 réis de porte e registo sendo para +Portugal, e para o Brasil e outros paises 100 réis. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Vegetarismo e a Moralidade das raças, by +Jaime de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O VEGETARISMO E A MORALIDADE *** + +***** This file should be named 24338-8.txt or 24338-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/3/3/24338/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images from BibRia) + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: O Vegetarismo e a Moralidade das raças + +Author: Jaime de Magalhães Lima + +Release Date: January 17, 2008 [EBook #24338] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O VEGETARISMO E A MORALIDADE *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images from BibRia) + + + + + +</pre> + +<br> +<h1>O Vegetarismo +<br> +e a Moralidade das raças</h1> +<br> +<br> +<br> +<br> +<p style="text-align: center; font-size: 0.6em;">Composição e impressão<br> +--Emprêsa Gráfica «A UNIVERSAL»--<br> +DE FIGUEIRINHAS & MOTA RIBEIRO, L.<sup>DA</sup><br> +--Rua Duque de Loulé, 111--Pôrto--</p> +<div class="ficha_tecnica"> +<br> +<p style="width: 40%;text-align: right; font-size: 0.8em;"> +<u>9.<sup>o</sup> volume da<br> +Biblioteca Vegetariana</u></p> + +<p style="text-align: right;">Dr. Jaime de Magalhães Lima</p> + + +<h2 style="text-align: left; margin-left: 2em;">O Vegetarismo<br> +e a Moralidade das raças</h2> + +<p style="width: 60%; text-align: left; font-size: 0.8em;"> +<u>--Notavel Conferencia realisada no<br> +ATENEU COMERCIAL DO PORTO<br> +em 14 de Junho de 1912---------</u></p> +<br> +<br> +<br> +<br> +<p style="font-size: 0.8em;">1912<br> +SOCIEDADE VEGETARIANA--Editôra<br> +393, AVENIDA RODRIGUES DE FREITAS<br> +PÔRTO</p> +</div> +<div id="corpo"> + + + + +<h2>O vegetarismo e a moralidade das raças</h2> + + +<h3>I</h3> + +<p>Tem os seus pergaminhos o vegetarismo. Não é uma doutrina nascida de +ontem. Tem títulos autênticos de nobreza prolongada durante gerações sem +número, respeitada nas mais altas civilizações em cujas superiores +aspirações colaborou, definindo-as eloquentemente pela voz das suas mais +belas e autorizadas individualidades e corroborando-as ardentemente pelo +exemplo dos seus mais devotados apóstolos.</p> + +<p>Sem nos afastarmos da nossa propria civilização, sem sairmos d'este fóco +de cultura chamado o ocidente da Europa onde nos criamos e onde os +nossos mais remotos avós se criaram e educaram, legando-nos um espólio +de sentimentos e ideias que constituem toda a nossa alma e que nos +cumpre cultivar e aperfeiçoar para o transmitirmos aos nossos filhos +acrescentado em formosura e benefícios, emendado, corrigido e depurado +em seus vícios e insuficiências; dentro dêste círculo devéras estreito +relativamente aos largos espaços em que fóra dele outras raças e outras +condições naturais formaram sociedades que igualmente engrandeceram e +honram a humanidade pelas concepções da vida que realizaram e de que +foram veiculo e sublime instrumento no mundo; limitando-nos à exígua +mancha do globo que é o nosso berço e o nosso lar e fazendo-o, não +porque além dele não conheçamos corações iguais aos nossos, vivendo do +mesmo alento, crentes <span class="pagenum">[6]</span> na mesma fé e enamorados da mesma elevação mas +sómente porque para o fim muito restrito que neste instante temos em +vista convêm não distrair a atenção do que de mais nos toca e por isso +será mais claramente demonstrativo: neste cantinho que acendeu seus +fachos de luz em volta do Mediterraneo e de lá a fez irradiar através +das montanhas até aos mares do norte, o vegetarismo foi e é uma das +caracteristicas do zenit moral das civilizações, e como tal o aceitaram, +proclamaram e praticaram os gênios que mais fundamente as compreenderam +e mais brilhantemente as serviram.</p> + +<p>O reconhecimento deste facto é hoje uma verdade corrente. O mais +rudimentar estudo do vegetarismo não deixará de o apontar. Por certo +somarão milhões as folhas impressas em que se encontram os nomes de +vegetarianos que foram na história dos povos da Europa como signais da +sua grandeza e juizes e farois do seu tempo e dos tempos futuros. Mas +nem é justo que se invoque o seu valor moral sem lembrar os que por uma +sublimada inspiração no-lo mostraram, nem tão pouco seria prudente que, +sómente porque uma verdade se tornou indiscutivel e porventura banal +entre homens cultos, deixássemos de a repetir tão inumeráveis vezes +quantas necessárias fossem para que ela se propague e produza todos os +bens que só pela sua larga disseminação poderá produzir. E o +vegetarismo, tendo já os seus altares e o seu heróico punhado de fieis +em todos os paises que atingiram a sensibilidade moral e religiosa, está +infelizmente longe de ter penetrado na concepção vulgar das obrigações +humanas, como é mister para a redenção de tantos e tão dolorosos males +que nos afligem e perseguem por culpa da nossa cegueira e obscuridade.</p> + +<p>Recordemos pois muito de passagem as lições dos profetas e mestres. É +dever e é utilidade. E pena é que não possamos agora fazê-lo com a pausa +que o encanto das suas palavras nos pede e que o proveito da própria +educação imperiosamente nos aconselha.</p> + +<p>De Pitágoras a Shelley ou a Wagner ou a E. Réclus ou a Tolstoi que +arautos não teve o vegetarismo, que divinos clamores não fez ouvir às +multidões ignorantes da própria fortuna, escravas da primitiva +animalidade ou ensandecidas e aviltadas em sórdidos prazeres!... Desde +que a <span class="pagenum">[7]</span> nossa civilização pôde gravar seu rasto na história, a +tradição do vegetarismo jámais se interrompe completamente. Em mais de +vinte e cinco séculos a sua taça passa de mão em mão, e ora se expõe à +luz de sol erguida por austeros e hercúleos sacerdotes cuja rectidão e +fôrça nos subjugam, ora é guardada devota e humildemente em solitárias +ermidas, mas jámais se partiu ou sequer arrefeceu desamparada do alento +de lábios que nela busquem beber a essencia do vigor do corpo e do +espírito.</p> + +<p>A escola de Pitágoras cujas tradições de superioridade moral são +memoráveis e cuja profunda e duradoura influência na filosofia, na +sciência e na teologia antiga, se alargaram desde os tempos +pre-socráticos até aos tempos do império romano, na Itália, na Grécia e +na Alexandria, seis séculos antes de Cristo, já reivindicava para a vida +de pureza moral a abstinência de alimentação carnívora, assim como de +todo o derramamento de sangue, ainda que pretendesse justificar-se pelo +sacrifício aos deuses. Outros eram os seus altares e, seja qual fôr a +estreiteza de informação escrita que do profeta de Samos e seus +discípulos nos houvesse ficado, o vigor da tradição por tal modo se +acentua neste ponto de regime dietético que não nos póde restar a menor +duvida de que nas origens da nossa civilização se encontra imposta, como +preceito fundamental, a abstinência de carne aos que pretenderem seguir +na vida o caminho da dignidade.</p> + +<p>Cinco séculos mais tarde, essa tradição vive por tal forma na memória e +nas paixões íntimas dos grandes espíritos da época que Ovídio, o poeta, +no-la repetirá nestes termos:</p> + +<p>«Havia em Crotona um homem da ilha de Samos que se exilara da pátria +pelo ódio que tinha aos tiranos... Tinha com os deuses aturado +comércio... O que sabia comunicava-o a uma multidão de discípulos que em +um grande silêncio o admiravam...</p> + +<p>«Foi o primeiro que condenou o uso de comer a carne dos animais: +doutrina sublime, e tão pouco apreciada, cuja paternidade se lhe +atribuia.</p> + +<p>«Deixai, mortais», dizia, «deixai de vos servir de manjares abomináveis: +dão-vos os campos searas abundantes; para vós vergam de frutos as +árvores com os mais belos pomos e produzem uvas as vinhas. Tendes +legumes <span class="pagenum">[8]</span> dum suave gôsto, excelentes alguns quando cozidos. O mel e o +leite não vos são defesos. Enfim para vós, a terra é pródiga de suas +riquezas e oferece-vos toda a espécie de alimento sem que necessiteis +para sustentar-vos de recorrer à morte e à carnagem.</p> + +<p>«Só aos animais convêm o comer carne, e ainda nem todos se sustentam +dela. Os cavalos, os bois e as ovelhas vivem só de ervas; apenas as +feras, os tigres, os liões, ursos e lobos fazem da carne seu sustento +habitual.</p> + +<p>«Que crime horrível lançar em nossas entranhas as entranhas de seres +animados, nutrir na sua substância e no seu sangue o nosso corpo! Para +conservar a vida a um animal, porventura é mister que morra um outro? +Porventura é mister que em meio de tantos bens que a melhor das mães, a +terra, dá aos homens com tamanha profusão, pródigamente, se tenha ainda +de recorrer à morte para o sustento, como fizeram ciclopes, e que só +degolando animais seja possível cevar a nossa fome?</p> + +<p>«Procedia diferentemente a idade de ouro, ditosos tempos que nós assim +chamamos. Contente com as plantas e os frutos que a terra produz, o +homem não manchava a sua bôca com o sangue dos animais. As aves voavam +sem temor no meio dos ares... O universo tranqùilo desconhecia laços e +ciladas. Tudo era paz.</p> + +<p>«Aquele, seja quem fôr, que para desgostar os homens dos alimentos +inocentes com que se alimentavam, criou o costume de comer a carne dos +animais, abriu na mesma hora a porta a crimes de todo o gênero; porque +foi sem dúvida pela carnificina dêsses animais que o ferro começou a ser +ensanguentado. Na verdade, é permitido tirar a vida aos animais que nos +atacam, mas não nutrir-nos com a sua carne. Todavia, fomos mais longe +ainda; quizemos sacrifical-os aos deuses...</p> + +<p>«Que crime tinheis cometido, ovelhas inocentes, rebanhos tranqùilos, que +dais aos homens um nectar delicioso, que para os cobrir vos deixais +despojar do vosso manto e que enfim lhes sois mais úteis quando vos +deixam viver do que quando vos matam? Que mal faz o boi, doce animal, +incapaz de vos prejudicar e que não é senão para o trabalho?</p> + +<p>«É necessario ser ingrato, desnaturado, de todo indigno dos bens que nos +dá a terra, quando vamos tirar da <span class="pagenum">[9]</span> charrua esse animal tranqùilo, o +melhor dos nossos obreiros, para o conduzir ao altar a receber o golpe +fatal nessa cabeça que tantas vezes gemeu sob o jugo e, por um trabalho +duro e penoso, tantas vezes nos renovou as searas.</p> + +<p>«Não bastava aos homens cometerem tão grandes crimes, precisavam ainda +da cumplicidade dos deuses, crendo que lhes podia ser agradavel o +sacrificio d'um animal tão útil... Levam assim a vitima ao altar; lá, +recitam sôbre ela orações que ela não ouve; põe-lhe entre as pontas, que +foram doiradas, um bolo feito d'aquele mesmo grão que ele cultivou, e +afunda-se-lhe no seio a lâmina sagrada...</p> + +<p>«Logo lhe tiram as entranhas ainda palpitantes, para as consultarem e +lerem n'elas os segredos dos deuses. Dizei-me, homens insaciáveis, +d'onde vem esta avidez que só póde fartar-se em carnes proìbidas. Deixai +tão criminoso uso. Segui os conselhos que vos dou. Sabei que, quando +comeis a carne do boi que acabais de degolar, comeis aquele que vos +lavrou o campo. Pois que é um deus que me inspira, só falo segundo a sua +vontade...</p> + +<p>«As nossas almas são sempre as mesmas, embora tomem formas diferentes +conforme os corpos que animam. Que a piedade não seja sacrificada à +vossa gula, que para vos saciar não expulseis dos seus corpos as almas +dos vossos pais nem vos alimenteis do seu sangue...</p> + +<p>«É acostumar-nos a derramar o sangue humano degolar animais inocentes e +ouvirmos sem piedade seus tristes gemidos. É desumanidade não nos +comovermos com a morte do cabrito, cujos gritos tanto se assemelham aos +das crianças, e comermos as aves a que tantas vezes démos de comer. Ah! +quão pouco dista d'um enorme crime!</p> + +<p>«Funesta aprendizagem! Deixai tranqùilamente o boi lavrar a terra e seja +a sua morte o termo natural da sua velhice. Contente-nos o velo do +rebanho que nos livra da atmosfera agreste, e o leite que as cabras dão +para nos nutrir: parti os vossos laços e as redes, não mais o visco +engane a ave crédula. Não mais se leve ao cêrco o tímido veado, +perturbado com as penas que o espantam, e que não mais se oculte o anzol +em traiçoeiro engôdo. Matai os animais que podem fazer mal; mas +contentai-vos em só lhes dar a morte e não os comer, e que só vos sirvam +alimentos legitimos.»</p> + +<p>Assim se compreendia a doutrina de Pitágoras cinco <span class="pagenum">[10]</span> séculos depois +de haver deixado a terra o seu fundador e assim a compreendia e traduzia +o talento d'um dos espíritos mais cultos duma grande época.</p> + +<p>A vitalidade da doutrina e a superioridade do interprete são garantia de +que não se tratava de qualquer coisa passageira, d'uma tendencia que só +as circunstâncias de determinado momento haviam originado e +desenvolvido, mas antes nos encontravamos em presença de problemas +morais e soluções que se mostravam capazes de afrontar diverssíssimas +situações históricas e de lhes sobreviverem, representando por +conseguinte elementos essenciais à existência das comunidades cultas.</p> + +<p>De resto, a doutrina dietética de Pitágoras atravessava êsse longo e +acidentado período dos primeiros séculos da nossa civilização +refazendo-se, alargando-se e confirmando-se na meditação dos homens +cujas lições de sabedoria ficariam nos evangelhos eternos da nossa raça. +Não foi estranha à prodigiosa obra de Platão. E Sêneca, o filósofo, +lembra-a nestes termos de simpatia:</p> + +<p>«Desde que comecei a contar-vos com que vivo ardor entrei a estudar a +filosofia na minha mocidade, não devo envergonhar-me de confessar a +afeição que Focion me inspirou pelo ensino de Pitágoras. Instruiu-me dos +motivos por que ele mesmo, e depois dele Séxtio, resolveu abster-se da +carne dos animais. Cada um tinha a sua razão, mas em ambos os casos era +magnífica. Focion sustentava que o homem póde encontrar alimento +bastante sem o derramamento do sangue e que a crueldade se torna +habitual quando uma vez a pratica da carnificina se aplicou ao prazer do +apetite. Acrescentava ele que é nosso dever limitar os materiais da +luxúria. Que, todavia, a variedade de alimentos é nociva à saúde e não é +natural ao nosso corpo. Se estas máximas (da escola de Pitágoras) são +verdadeiras, então abster-nos da carne dos animais é animar e promover a +inocência; se mal fundadas, ensinam-nos ao menos a frugalidade e a +simplicidade de vida. E que perdeis vós perdendo a nossa crueldade? +Apenas vos privo do alimento dos liões e dos abutres.</p> + +<p>«Levado por êstes e semelhantes argumentos, resolvi abster-me de carne, +e ao fim dum ano o hábito da abstinência não só me era fácil mas +delicioso. Creio firmemente que as faculdades do meu espírito eram mais +activas... <span class="pagenum">[11]</span> Perguntais-me porque é que eu voltei atrás e abandonei +esse sistema de vida? Ao que eu respondo que a sorte dos meus primeiros +dias foi lançada no reino do imperador Tibério. Certas religiões +estranhas tornaram-se objecto das suspeitas imperiais, e entre as formas +de adesão aos cultos ou superstições estranhas, estava o de abstinência +de carne dos animais. Daí por instancias de meu pai, que na realidade +não tinha medo de que essa pratica se tornasse motivo de acusação, mas +que odiava a filosofia, fui induzido a voltar aos meus antigos hábitos +dietéticos, e não teve ele maior dificuldade em me persuadir a voltar a +refeições mais suntuosas»...</p> + +<p>«Isto digo com a intenção de vos provar como são poderosos os primeiros +impulsos da mocidade para o que é mais verdadeiro e melhor, sob a +exortação e incentivo de virtuosos mestres. Erramos, em parte por culpa +dos nossos guias, que ensinam como se disputa e não como se vive: e em +parte por nossa culpa, aguardando que os mestres cultivem não tanto a +disposição do espírito como as faculdades da inteligência. D'esta forma, +o que foi filosofia, tornou-se em filologia». (<i>Epistola CVIII.</i>)</p> + +<p>Em outras passagens, condenando o luxo e os desmandos sensuais da sua +época, se refere Seneca aos escravos do ventre que, como Salústio, quer +que «sejam contados entre os animais inferiores e não entre os homens» e +lembra que «em tempos mais simples não havia necessidade em tão larga +escala de tantos médicos supranumerários, nem de tantos instrumentos +cirúrgicos, nem de tantas caixas de drogas. A saúde era simples por uma +razão simples. Muitos pratos trouxeram muitas doenças. Note-se que vasta +quantidade de vidas um estômago absorve--devastador da terra e do mar. +Não é de espantar que em tão discordante dieta a doença varie +incessantemente... contem os cozinheiros e não mais se espantarão do +número incontável das doenças humanas.»</p> + +<p>Por êsse mesmo tempo Musónio Rufo, outro filósofo eminente, sectário +tambêm do melhor estoicismo, declarava «brutal» o uso da carne, «sómente +próprio de animais selvagens, pesado e empecendo o pensamento e a +inteligência. Os vapores que dele vem são túrbidos e escurecem a alma, +de modo que os que dele partilham abundantemente mostram-se os mais +lentos em apreender.»</p> <span class="pagenum">[12]</span> + +<p>Mas para que alongar-nos em citações de nomes e rememoração de doutrinas +dos filósofos e moralistas do classicismo greco-romano, que condenou por +nocivo à justiça e ao entendimento o carnivorismo? Para que, se um só +homem nessas horas remotas de extrema actividade mental e da mais +exaltada sensibilidade moral, pôde por honra da espécie e glória da +humanidade resumir todo o problema dietético com uma profundeza +exaustiva e uma lucidez inexcedivel que os apóstolos da sua doutrina até +hoje tem invocado como um evangelho a que a experiencia de muitos +seculos pouco ou nada acrescentou?</p> + +<p>Leiam-se as obras morais de Plutarco, que viveu do primeiro ao segundo +século da éra cristã. São um monumento, até hoje e por certo para sempre +inabalável, da dignidade humana. Lá encontraremos a causa do vegetarismo +posta em termos de tal evidencia que constituem como a razão ultima da +sua legitimidade e do seu valor moral, religioso e fisiológico.</p> + +<p>Perguntas-me, diz Plutarco, «por que motivos Pitágoras se absteve de se +alimentar com a carne dos animais. Pela minha parte, pasmo de que +espécie de sentimento, espirito ou razão estava possuido aquele que +primeiro poluiu a sua boca com sangue e consentiu que os seus lábios +tocassem a carne dum ser assassinado, que espalhou sôbre a sua mesa os +membros despedaçados de corpos mortos e pediu como alimento quotidiano e +prato delicado o que ha pouco era um ser dotado de movimento, de +percepção e de voz?...</p> + +<p>«Que luta pela existência ou que excitada loucura incitou a ensopar em +sangue as tuas mãos, a ti que tens sempre abundancia de todas as coisas +necessárias para viveres? Porque desmentes a terra como se ela fosse +incapaz de te alimentar e nutrir? Porque atormentas Ceres que humaniza, +e desonras as doces e suaves dádivas de Baco, como se não tivesses nelas +o bastante? Não te envergonhas de misturar o assassinio e o sangue aos +seus frutos benéficos? Chamas selvagens e ferozes outros carnivoros, os +tigres, os liões e as serpentes, enquanto manchas no sangue as tuas mãos +e em espécie alguma de barberie lhes ficas inferior. E para eles, +todavia, o assassinio é apenas o meio de se sustentarem; para ti, é uma +lascivia supérflua. De facto, não são liões e lobos que nós matamos para +<span class="pagenum">[13]</span> comer como em defeza própria o poderiamos faser--pelo contrário +deixamo-los incólumes; e entretanto, aos inocentes, aos mansos, aos que +não tem auxilio nem defesa,--a esses perseguimo-los e matamo-los, +àqueles que a natureza parecia ter dado vida para sua beleza e graça...</p> + +<p>«Nada nos perturba, nem a beleza encantadora das suas formas, nem a +dorida doçura da sua voz e do seu grito nem a sua inteligencia, nem a +pureza da sua dieta nem a superioridade do entendimento. Só para ter um +pedaço da sua carne, privamo-los da luz do sol, da vida para que +nasceram. Tomamos por inarticulados e inexpressivos os gritos de +queixume que eles soltam e voam em todas as direcções; quando na +realidade são instâncias e suplicas e rogos que cada um deles nos dirige +dizendo:--Não é da verdadeira satisfação das vossas reais necessidades +que queremos livrar-nos mas da complacente luxuria dos nossos apetites.»</p> + +<p>Depois de mostrar com uma nitidez que é uma antecipação da sciencia +contemporânea como o carnivorismo não pode justificar-se pela anatomia +do homem, sem dentes nem garras nem boca nem intestinos que tal processo +de nutrição suponham ou autorizem, Plutarco aponta os subterfugios de +que nos servimos para consumar o nosso crime contra a natureza. Porque +não fazes como o lião e o tigre, pergunto, e não arrancas o coração á +tua vitima? «Nem mesmo depois que foi morta a comerás como veio do +açougue. Has-de fervê-la, assá-la e inteiramente a transformarás pelo +fogo e pelos condimentos. Completamente alteras e disfarças o animal +morto, usando dez mil ervas doces e especiarias, para que o vosso +paladar seja enganado e se prepare para receber o alimento que não é +natural. Foi uma admoestação própria e sagaz a do espartano que comprou +um peixe e o deu ao cozinheiro para o preparar. Quando este lhe pediu +manteiga e azeite e vinagre, respondeu-lhe:--Se eu tivesse tudo isso não +tinha comprado o peixe...</p> + +<p>«A tal ponto fazemos do sangue uma luxuria que chamamos à carne +<i>delicadeza</i> e logo reclamamos delicados condimentos para essa mesma +carne e misturamos azeite e vinho e mel e molhos e vinagre e todas as +especiarias da Síria e da Arábia, de todo o mundo, como se estivéssemos +<span class="pagenum">[14]</span> a embalsamar um cadáver humano. Depois que todas estas substâncias +heterogênias se misturaram e dissolveram e até certo ponto se +corromperam,<sup><a href="#nota1" name="o_nota1">[A]</a></sup> cabe sem dúvida ao estômago assimilá-las, se podér. E +posto que isso possa no momento fazer-se, a sua consequencia natural é a +variedade de doenças produzidas pelas digestões imperfeitas e pela +repleição...</p> + +<p>«Não é só contra a natureza da nossa constituição física o uso da carne. +O espírito e a inteligência tornam-se pesados pela supreabundância e +pela repleição; é possivel que a carne e o vinho tendam a dar robustez +ao corpo, mas para o espirito trazem sómente fraqueza.</p> + +<p>«Além e acima de todas estas razões, não parecerá admirável criar +hábitos de filantropia? Quem é tão bondoso e gentil para os seres duma +outra espécie inclinar-se-á algum dia a injuriar o seu próprio gênero? +Lembro-me de ter ouvido em uma conversação, como dito por Xenócrates, +que os atenienses impunham penas a quem esfolasse viva uma ovelha. +Aquele que tortura um ser vivo é um pouco pior, parece-me, do que aquele +que sem necessidade priva da vida e mata rapidamente. Temos, ao que +parece, mais clara percepção do que é contrário à propriedade e ao +custume do que daquilo que é contrario à natureza...»</p> + +<p>Com Plutarco, o vegetarismo, ou melhor, a condenação do carnivorismo +passou a ser nas preocupações morais do homem culto um caso julgado, +eloquentemente e inabavelmente julgado. Os que se lhe seguiram, e são +legião de gênios e de santos, nada acrescentaram às razões basilares dos +seus principios dietéticos, embora brilhantemente os interpretassem e +devotadamente os praticassem em um <span class="pagenum">[15]</span> apostolado verdadeiramente +religioso, através de todas as contrariedades e adversidades. Os padres +da igreja cristã primitiva, quando ela ainda se encontrava em toda a +pureza, não se esqueceram, como não podiam esquecer-se, de verberar +rigidamente as crueldades e a insânia do carnivorismo. E os filósofos +estranhos ao cristianismo e até mesmo os que o combatiam mas que vinham +repassados do platonismo helênico não foram menos ardentes na flagelação +d'aquele vicio a todos os respeitos mortal.</p> + +<p>Dêstes é notável pela solidez e desenvolvimento da argumentação que +emparelha a de Plutarco na repulsão do carnivorismo, Porfirio da +Alexandria, homem extraordinário, discípulo de Plotino. Santo Agostinho +coloca-o acima de Platão.</p> + +<p>Para êsse tambem o vegetarismo era salvação de muita angústia e +tormento, desde que nem o médico nem o filósofo nem o atleta se atreviam +a afirmar que a dieta carnivora era melhor para a saúde e para o vigor.</p> + +<p>Sendo assim, «porque», dizia, «não nos revoltamos e libertamos duma +supreabundância de inquietações? Para aquêle que se habitua a +contentar-se com o menor luxo, será isso a redenção não de uma mas de +mil inquietações--dos serviços de criados em excesso, duma multidão de +variados estorvos, dum estado físico de letargia e depressão, dum número +infinito de doenças severas, da necessidade dos médicos, do incentivo à +devassidão, de pesadas imaginações, de desordens infinitas e superfluas, +dos ferros de grosseiros hábitos do corpo, dos excesso de fôrça fisica +excitando a actos de violência--em suma, duma Ilíada de males. De tudo o +que o alimento inocente que não rouba a vida e que a todos é fácilmente +acessível nos liberta, dando paz à alma enquanto oferece ao corpo meios +de saúde. «Não é dos que comem o grão», diz Diógenes, «que vem as +guerras e a pirataria; mas é dos que comem carne que vem os tiranos e os +opressores».</p> + +<p>E diz tambêm: «Deixo de insistir no facto de que, se nos pozermos na +dependencia do argumento da necessidade ou da utilidade (do +carnivorismo), não podemos deixar de admitir por implicação que nós +mesmos fomos criados só por causa de certos animais destruidores, como +os crocodilos, as serpentes e outros monstros, porque não recebemos +dêles o menor benefício. Pelo contrário, são eles que apanham, <span class="pagenum">[16]</span> +destroem e devoram os homens que encontram--fazendo o que não procedem +de modo algum menos cruelmente do que nós. De resto, eles são assim +selvagens por necessidade e fome; e nós por insolente lascivia e +luxuriosos prazeres, divertindo-nos, como usamos no circo e nos +morticínios da caça. Em tais acções fortificamos em nós uma natureza +bárbara e brutal que torna os homens insensíveis ao sentimento da +piedade e compaixão. Aquêles que primeiro perpetraram essas iniquidades +fatalmente entorpeceram a parte mais importante da alma. Por isso é que +os discípulos de Pitágoras consideram a bondade e a graça com os animais +inferiores um exercicio de filantropia e graça».</p> + +<p>Com Porfirio fecham-se as lições magnificas de vegetarismo que a +antiguidade nos legou.</p> + +<p>Seguem-se-lhe na ordem cronológica as desordens e violências da idade +média, o desabar dum mundo em grande parte caduco e a anciedade duma +renovação que sabe mal os seus trâmites e anciosamente os procura. Mas +nem assim, nem em meio dessas ruinas e tumulto, o vegetarismo será uma +doutrina morta. Aqui e além sentimos-lhe as palpitações; nas homílias +dum João Crisóstomo cujos ascetas não conheciam entre si, segundo a +expressão do Santo, «nem os rios de sangue, nem a matança e nem o cortar +da carne no açougue, nem cozinhas delicadas, nem o peso da cabeça, nem +as exalações horríveis dos manjares carnívoros e os fumos desagradáveis +das cozinhas»; nas comunidades dos cataros perseguidos pela igreja +católica, que nem mesmo perante o cadafalso se sujeitaram a matar um +frangão, quando em 1052, em Goslar, eram enforcados; e Deus sabe em +quantas ermidas, nas quais os revoltados contra a ortodoxia eclesiástica +que na solidão procuravam refugio das torturas que os ameaçavam, +guardavam as melhores tradições dos paulicianos e dos albigenses, +esperando no futuro melhor religião e mais pura moralidade. Pelo que +toca à superioridade moral dos seus preceitos anti-carnívoros, êsses +herejes, que assim se chamavam e como tais eram martirizados, até entre +os seus cruéis inimigos encontraram quem lhes fizesse justiça. S. +Bernardo foi um dos que condenando os crimes e as imoralidades da +ortodoxia do seu tempo reconheceu virtude em uma dieta anti-carnívora.</p> +<span class="pagenum">[17]</span> + +<p>No século XVI entramos na renascença e com ela, reatado o fio da cultura +antiga, dá signais de vida o senso moral que em tal agudeza sentimos nos +primeiros tempos do império romano.</p> + +<p>Vem o <i>Compêndio da Vida Sóbria</i> do celebre Cornaro que, fraco e +arruinado aos trinta anos por excessos de gula, consegue prolongar a +vida além dos cem por uma dieta rigorosa. Vem a <i>Utopia</i> de Tomás Moore, +a cujo povo modêlo não era permitido acostumar-se a matar os animais +«pelo uso dos quais julgavam que a clemência, a mais graciosa afeição da +nossa natureza decaía e morria». E vem finalmente a ressurreição plena +da filosofia humanitária em Miguel de Montaigne.</p> + +<p>Grande leitor de Plutarco, seu legitimo discípulo, Montaigne renova +brilhantemente as exortações do mestre contra as intoleráveis crueldades +do carnivorismo.</p> + +<p>«Pela sua parte», disse, «nunca foi capaz de vêr sem desgôsto perseguir +e matar um animal inocente e sem defesa, do qual não haviamos recebido +mal ou ofensa. Quando um gamo, como vulgarmente acontecia, esfalfado e +sem fôrças, sem outro recurso, se prostrava e rendia, como se pelas +lágrimas pedisse misericórdia aos seus algozes, sempre lhe pareceu um +desagradável espectáculo. Raro ou nunca apanhou vivo um animal que não o +restituisse á liberdade. Pitágoras tinha o costume de comprar para o +mesmo fim aos passarinheiros e aos pescadores as suas víctimas. As +disposições sanguinárias relativamente aos outros animais demonstram uma +crueldade natural com a nossa própria espécie. Desde que em Roma se +habituaram ao espectáculo da chacina dos outros animais, passaram à dos +homens e dos gladiadores. Temia que a natureza tivesse dado certo +instinto de desumanidade às inclinações humanas. Ninguém tira prazer de +vêr os outros animais alegres e afagando-se; e ninguém deixa de se +alegrar vendo-os desmembrados e feitos em pedaços.»</p> + +<p>Repetindo o exemplo de Plutarco, Montaigne considera um caso de +consciência mandar para o matadoiro a vaca que tantos anos nos serviu. +Com Plutarco e Porfírio aponta os prejuizos sobre as faculdades mentais +das raças não humanas, insistindo em que a diferença é de grau e não de +espécie. «Platão» diz, «no seu quadro da Idade d'Oiro conta entre as +principais vantagens dos homens <span class="pagenum">[18]</span> d'aquêle tempo o comércio que êles +tinham com os outros animais, investigando, instruindo-se e aprendendo +as suas verdadeiras qualidades e as diferenças entre nós e êles, pelo +que adquiriam um perfeitíssimo conhecimento e inteligência e dêste modo +fizeram as suas vidas mais felizes do que a nossa. Isto digo com o fim +de nos fazer retroceder e juntar-nos á multidão. Não estamos nem acima +nem abaixo do resto. «Quantos estão sob o céu» diz o sábio judeu, +«sofrem igual lei e destino.» Ha certa diferênça, ha ordens e gráus, mas +acham-se sob o aspecto duma única e igual natureza.»</p> + +<p>Depois de Montaigne, é Pedro Gassendi que repete as lições de Plutarco, +enquanto medita a <i>Vida e Moral de Epicuro</i> que sabiamente traçou, +encontrando, como este, «o bem supremo, <i>summum bonum</i>» no seu pequeno +jardim. E logo após a sua morte, dentro de poucos anos, nasce Hecquet +que por sua vez, no seculo XVII vinha acrescentar à Bíblia Vegetariana +páginas definitivas.</p> + +<p>A êsse notável reformador da arte médica parecia «incrível a soma de +prejuizos que se deixaram trabalhar em favor da carne, quando tantos +factos se opõem à pretensa necessidade do seu uso». Renova todo o +argumento fisiológico contra a dieta carnívora e, citando numerosos +exemplos de homens eminentes e de nações que em todos os tempos a +condenavam, observa com muito particular e inatacável sagacidade que +«está provado que não é difícil sustentar sem carne os animais que vivem +de carne, enquanto é quási impossível alimentar com carne aquêles que +vivem ordináriamente de substâncias vegetais».</p> + +<p>Grande época de moralistas, o seculo XVII não deixaria escapar sem +reflexão os problemas morais da dieta, e de facto os julgou com a +severidade que uma sã moral reclama. Onde se insinuarem sentimentos de +simples justiça, à parte mesmo toda a exaltação religiosa ou qualquer +frouxa inspiração de poesia, logo a baixeza do carnivorismo será +apontada e castigada como infração de princípios supremos.</p> + +<p>Bernardo de Mandeville, que nasceu em 1670, comenta nestes belos termos +os hábitos carnívoros que ao tempo deveriam estar em plena expansão +entre nobres e gente abastada:</p> + +<p>«Muitas vezes pensei que, se não fosse pela tirania que o costume exerce +em nós, os homens duma natureza <span class="pagenum">[19]</span> medianamente boa nunca se +reconciliariam com a acção de matarem tantos animais para seu sustento +quotidiano, enquanto a liberalidade da terra tão abundantemente lhes +faculta as delicadas variedades de vegetais. Sei que a razão nos provoca +a compaixão mas frouxamente, e por isso não me admira que os homens +sejam tão desapiedados com criaturas imperfeitas como o caranguejo, a +ostra, a ameijoa e, em geral, todo o peixe, porque são mudas e o seu +intimo e a sua configuração externa largamente diferem de nós. Para nós, +exprimem-se ininteligivelmente, e por conseguinte não é de estranhar que +a sua dôr não afecte o nosso entendimento que ela não alcança; pois +coisa alguma nos move mais seguramente à piedade do que os sintomas de +miséria que ferem imediatamente os nossos sentidos. Encontrei +comovendo-se com o rumor que uma lagosta faz quando a espetam gente que +com prazer mataria meia dúzia de aves.</p> + +<p>«Animais perfeitos como as ovelhas e os bois, nos quais o coração, o +cérebro, e os nervos diferem tão pouco dos nossos, e a separação do +sangue e do espírito, os órgãos dos sentidos, e por consequência o +próprio sentimento, são os mesmos que são em criaturas humanas, não +posso imaginar como um homem que não esteja endurecido no massacre e no +sangue póde vêr indiferente a sua morte e as agonias em que ela se +consuma.</p> + +<p>«Em resposta a isso, a maior parte das pessoas julgarão suficiente dizer +que, tendo sido feitas as <i>coisas</i> para utilidade do homem, não póde +haver crueldade em dar às criaturas o uso para que foram designadas. Mas +tenho ouvido esta réplica, enquanto a natureza íntima de quem a deduz +lhe acusa a falsidade da asserção.</p> + +<p>«Se não foi criado num açougue, não haverá numa multidão um homem entre +dez que por sua vontade escolhesse entre todas as profissões a de +magarefe; e pergunto se sequer alguém matou pela primeira vez sem +relutância uma galinha.</p> + +<p>«Alguns não podem resolver-se a provar de quaisquer criaturas que tenham +visto todos os dias e que conhessem quando estavam vivas. Outros não +levam os escrúpulos alêm daquelas criaturas que viram todos os dias e +conheceram enquanto vivas e lhes pertenciam. Outros limitam esses +escrúpulos ás suas próprias aves, <span class="pagenum">[20]</span> e recusam-se a comer daquelas que +sustentaram e cuidaram. Todavia, todos se alimentam, sem remorsos e de +coração leve, de carne de caça, de carneiro e de aves quando foi +comprada no mercado. Neste procedimento, imagino, transparece qualquer +coisa como a <i>consciência da culpa</i>; parece que se esforçam por se +salvarem da imputação dum crime (cujas ligações percebem) afastando de +si quanto possivel a respectiva causa. E nisso descubro vivos sinais da +primitiva piedade e inocência, que o poder arbitrário do costume e a +violência da luxúria ainda não foram capazes de conquistar.»</p> + +<p>Por êste mesmo tempo de Bernardo de Mandeville, no período tão fecundo +de renovação religiosa e filosófica que vai do meiado do século XVII ao +meiado do século XVIII, o respeito da vida dos animais inferiores +encontrou invariavelmente defensores convictos nos melhores espíritos da +época. Wesley foi um dêsses e Pope, o célebre poeta inglez, recordando +lições do «excelente Plutarco» que, dizia, «tinha mais impulsos de boa +natureza nos seus escritos do que qualquer outro autor de que se +lembrasse», repete-lhe os conselhos analisando e condenando os costumes +sanguinários de então que, como hoje, passavam para o maior número por +admirável destreza física e modos sãos e legítimos de existência moral e +fisiológica.</p> + +<p>«Não posso imaginar extravagante», escreveu Pope, «que o género humano +seja, relativamente, menos responsável pelo mau uso do seu domínio sôbre +as camadas inferiores dos seres do que o é pelo exercicio da tirania +sôbre a sua própria espécie. Quanto mais completamente a criação +inferior se encontra submetida à nossa fôrça mais responsáveis deveremos +ficar pelo seu máu govêrno; por maioria de razão se deve considerar esta +responsabilidade, visto que a própria natureza dos animais inferiores os +torna incapazes de receberem em outro mundo qualquer recompensa dos máus +tratos que sofrerem nêste. É de notar que os animais nocivos, com mais +poderosas qualidades para nos fazerem mal, evitam naturalmente os homens +e nunca nos ofendem senão provocados ou coagidos pela fome... Não parece +fácil defender meramente por <i>sport</i> a destruição de qualquer coisa que +tenha vida. Todavia as crianças são educadas nesta ideia e um dos +primeiros prazeres é a licença de infligir penas a animais sem defeza. +Mal nos <span class="pagenum">[21]</span> tornamos sensiveis ao que a vida é para nós, fazemos um +passatempo de a roubarmos aos outros... Quando crescemos e nos fazemos +homens, temos outra série de passatempos sanguinários, particularmente a +caça. Não ouso atacar um divertimento que tem a sustentá-lo tal +autoridade e costume; mas consintam-me que tenha a opinião de que a +agitação daquêle exercício, com o exemplo e o número dos caçadores, +contribue não pouco para resistir áqueles impulsos que a compaixão +naturalmente sugere a favor dos animais perseguidos.»</p> + +<p>«Mas se os nossos <i>sports</i> são destruidores, muito mais o é a nossa gula +e duma fórma muito mais desumana. As lagostas assadas vivas, os porcos +fustigados até à morte, as aves amanhadas, são testemunho da nossa +luxúria. Aquêles que, na frase de Sêneca, repartem a vida entre uma +consciência ambiciosa e um estômago enauseado, teem a justa recompensa +da sua gula nas doenças que ela acarreta. Porque os selvagens humanos, +como os outros animais bravios, encontram ratoeiras e venenos nas +provisões da vida e enganados pelo apetite correm à propria destruição. +Não conheço nada mais repelente do que o aspecto duma das suas cozinhas +coberta de sangue onde se ouvem os gritos dos seres que expiram em +torturas. Dá-nos a imagem da caverna dum gigante nos romances, juncada +de cabeças dispersas e membros lacerados daquêles que a sua crueldade +chacinou.»</p> + +<p>Com tão bons guias, chegaremos ao humanismo do século XVIII que Rousseau +e Voltaire consubstanciaram maravilhosamente.</p> + +<p>Voltaire, no <i>Dicionário filosófico</i>, discorrendo sôbre a palavra carne, +escreveu:</p> + +<p>«Sabe-se que Pitágoras, que estudou com os brahmanes a geometria e a +moral, adoptou a sua doutrina humana e trouxe-a para a Itália. Muito +tempo a seguiram os seus discipulos: os célebres filósophos Plotino, +Jâmblico e Porfírio, recomendaram-na e até mesmo a praticaram, posto que +seja muito raro fazer aquilo que prégamos. A obra de Porfírio sôbre a +abstinência de carnes animais, escrita pelo meiado do nosso terceiro +século, é muito estimada dos eruditos mas não fez mais discípulos entre +nós que o livro do médico Hecquet. É em vão que Profírio propõe para +modelos os brahmanes e os magos persas de primeira classe <span class="pagenum">[22]</span> que +tinham horror ao costume de engolfar nas suas entranhas as entranhas das +suas criaturas. Não é seguido hoje senão pelos padres da Trapa. O +escrito de Porfírio é dirigido a um dos seus discípulos, Firmus, que, +diz-se, se fez cristão para ter a liberdade de comer carne e de beber +vinho. Adverte a Firmus que abstendo-nos da carne e dos licores fortes +conservamos a saúde da alma e do corpo, vivemos mais tempo e com mais +inocência. Todas estas reflexões são dum teólogo escrupuloso, dum +filósofo rígido e duma alma doce e sensível. Julgariamos ao lê-lo que +êste grande inimigo da Igreja é um padre da Igreja. Considera os animais +como nossos irmãos porque são animados como nós, porque teem os mesmos +princípios de vida, porque teem, assim como nós, ideias, sentimento, +memória, engenho. Só lhes falta a palavra. Se a tivessem, ousaríamos +matá-los e comê-los? Ousaríamos cometer fratricídios? Qual é o bárbaro +que poderia assar um cordeiro, se êsse cordeiro nos conjurasse por um +discurso comovedor a que não fôssemos ao mesmo tempo assassinos e +antropófagos? Este livro prova pelo menos que entre os gentílicos houve +filósofos da mais austera virtude; mas não conseguiram prevalecer contra +os magarefes e os glutões. A gula, o jôgo e a preguiça baniram do mundo +toda a virtude.»</p> + +<p>Ao mesmo tempo que Voltaire, Rousseau fazia suas as ideias de Plutarco +sôbre o regime alimentar; e proclamando-as com a violência habitual do +seu carácter, com aquela mesma impetuosidade que incansavelmente +empregou em fustigar a depravação do seu tempo e em incitar a uma +regressão salutar ao contacto e à simplicidade da natureza, inscreveu o +vegetarismo entre os artigos da nova fé. Sobretudo na educação da +criança quer que rigorosamente o vegetarismo prevaleça porque uma das +provas de que o sabor da carne não é natural ao homem é a indiferença +das crianças por este gênero de alimento e a preferência que elas dão +aos alimentos vegetais como as sopas, as massas, os frutos, etc.<sup><a +href="#nota2" name="o_nota2">[B]</a></sup> É de suprema importância que <span class="pagenum">[23]</span> não +se lhes desnature o gôsto primitivo e não se tornem carnívoras, senão +por motivos de saúde, pelo menos por causa do carácter. Porque, seja +qual fôr a explicação da experiência, é certo que os grandes comedores +de carne são, em geral mais cruéis e ferozes do que os outros homens. +Esta observação é verdadeira em todos os lugares e em todos os tempos. É +bem conhecida a grosseria inglesa. Os gauros, pelo contrário, são os +mais gentis dos homens. Todos os selvagens são crueis, e não é a sua +moral que os leva a isso; a sua crueldade provém do seu alimento. Vão +para a guerra como para a caça e tratam os homens como tratam os ursos. +Mesmo na Inglaterra os magarefes não são admitidos como testemunhas +legais, assim como os cirurgiões. Os grandes criminosos endurecem-se +para o assassinio bebendo sangue. Homero representa os ciclopes, que +eram carnívoros, como homens terríveis, e os lotófagos como um povo tão +doce que mal alguém tinha comércio com êle, logo esquecia tudo e a sua +pátria para viver com êle... Já se viu alguém aborrecer o pão e a água? +Veja-se o cunho da Natureza! Veja-se aí pois uma regra de vida. +Conservemos na criança pelo mais largo tempo possível o seu gôsto +primitivo; deixemos que o seu alimento seja simples e vulgar; façamos +que o seu paladar sómente se familiarize com os aromas naturais e que +não se forme gôsto algum exclusivo... Algumas vezes observei a gente que +dá importância a <i>viver bem</i>, que pensa, mal acorda, no que ha-de comer +durante o dia e descreve um jantar com mais exactidão do que Políbio usa +na descripção duma batalha. Pensei que todos esses chamados homens eram +apenas crianças de quarenta anos, sem vigor e sem consistência. A gula é +o vício das almas que não teem fundo. A alma do glutão está no seu +paladar. Veio ao mundo para devorar. Na sua estúpida incapacidade, só à +mesa está à vontade. A sua capacidade de julgar limita-se às suas +iguarias.»</p> + +<p>Um Shelley, um Lamartine, um Michelet ou um Gleizès tiveram na verdade +bem desbravado o terreno para deixarem <span class="pagenum">[24]</span> voar livres os seus sonhos +duma nova existência toda de pureza que aborrecesse a carnificina e o +sangue onde quer que os encontrasse, na floresta, no lar ou no campo da +batalha, e sómente alimentasse o corpo e a alma nos inocentes e +perfumados frutos da terra. O desenvolvimento do vegetarismo no século +XIX, a discussão e consolidação da sua doutrina e o derramamento da sua +prática, não serão já a aspiração de gênios privilegiados mas o +patrimônio comum de milhares e milhares de espíritos esclarecidos e de +corações exaltados em amor. Convinha que assim acontecesse, desde que +uma vaga de libertação da humanidade, sem precedentes na história, nos +punha deante de Deus, da natureza e do dever desprendidos de todo o +estôrvo da opressão do costume e das tiranias sectárias. Mas não será em +vão que os mais bem inspirados combatem pelo advento do novo reino. A +liberdade de proceder não significa o domínio e a supressão da ruindade. +O que nesse campo havia e ha a conquistar e é o legado funesto de +gerações sôbre gerações de crueldade, é infinito. O que se conquistou é +minimo relativamente ao que importa conquistar.</p> + +<p>Por isso um homem como Wagner descerá do altíssimo pedestal a que o +próprio talento e a fama o ergueram e virá com os mais humildes exortar +os infieis e os ignorantes a iniciarem a sua redenção no vegetarismo.</p> + +<p>Lichtenberger, no seu excelente estudo de Ricardo Wagner como poeta e +pensador, expõe-nos nestes termos as ideias daquêle soberbo gênio sôbre +o vegetarismo, particularmente sôbre a importância que ele lhe atribuia +na regeneração física e moral das sociedades humanas.</p> + +<p>A citação será longa mas convém que se faça, é indispensável, aponta +dados primaciais do problema:</p> + +<p>«Se consideramos primeiro a evolução humana como fenômeno fisiológico, +verificamos, segundo Wagner, que duas causas trouxeram a degeneração da +raça branca: a má alimentação, que do homem primitivamente frugívoro fez +um carnívoro, e a mistura das raças que profundamente alterou o +temperamento primitivo e as virtudes hereditárias dos antigos arias. +Estas duas causas tem por efeito uma alteração do próprio sangue entre +os povos modernos e em particular no povo alemão, alteração que deve ser +considerada como a razão fisiológica, como o princípio <span class="pagenum">[25]</span> inicial da +corrupção profunda que hoje aparece no seio das nações europeias.</p> + +<p>«O homem natural, inocente e feliz, de que Wagner traçara outrora a +imagem ideal no seu moço Siegfredo, não mais se concebe agora (nesta +época da sua vida) sob as linhas do germânico belo e vigoroso, sempre +pronto para a guerra e para as aventuras, belicoso pelo prazer de medir +suas fôrças com os rivais, e inacessivel ao temor. É agora o índio dos +tempos primitivos, o índio morigerado e reflectido por uma religião de +suavidade: «Uma natureza generosa lhe oferecia o que era necessário para +satisfazer as necessidades da vida; a vida contemplativa, a meditação +séria podia levar estes homens, livres de todo o cuidado da sua +sustentação, a reflectirem profundamente sobre a natureza deste mundo +onde, como a experiência passada lhes havia mostrado, reinava a +indigência, o cuidado, a dura necessidade do trabalho e mesmo da luta e +do combate para a posse dos bens materiais. Ao brahmane, possuído do +sentimento de ter em certo modo entrado em uma vida nova, o guerreiro +parecia-lhe necessário como guarda da segurança exterior e por esta +razão tambêm digno de piedade; o caçador, pelo contrário inspirava-lhe +um horror profundo e o carrasco dos animais domésticos parecia-lhe +inconcebível». Estes homens de costumes tão doces sabiam todavia dar +provas duma fôrça dalma sem igual, quando disso era ensejo próprio: +nenhuma tortura, nenhuma promessa pôde jámais obriga-los a renunciarem á +sua fé religiosa; e Wagner cita com admiração a história comovente de +tres milhões de indios que, por ocasião duma fome causada pelos +especuladores ingleses, preferiram morrer de fome a tocar nos seus +animais domésticos. Mas o homem primitivo, vegetariano e manso, que +recusa derramar o sangue dos seus semelhantes e o dos seus irmãos +inferiores, os animais, degenera pouco a pouco sob a pressão das +circunstâncias exteriores. Transportado, no correr das emigrações, para +climas menos clementes, torna-se caçador e carnívoro, para escapar á +fome; aprende a alimentar-se com a carne dos animais domésticos. Desde +os primeiros tempos da história, vemo-lo transformar-se assim em um +animal de prêsa ávido de sangue e por fim deleitando-se em matar, não só +para satisfazer a fome mas pelo prazer de matar. Este animal de prêsa +conquista vastas províncias, <span class="pagenum">[26]</span> subjuga raças frugivoras, funda por +guerras sucessivas grandes impérios, dita leis e cria civilizações para +gozar em paz da sua rapina, Hoje é mais perigoso e mais sanguinário do +que nunca; aperfeiçoou dum modo terrível os engenhos de destruição, +exgota-se em armamentos estéreis e vive num estado de <i>paz armada</i> +periodicamente interrompida por carnificinas medonhas. Depois, ao lado +do homem de prêsa militar desenvolveu-se no correr dos séculos o homem +de prêsa especulador, tão de temer e tão mortífero posto que menos bravo +do que o primeiro, e cuja acção devastadora se exerce sem interrupção +sobre a massa do povo que êle votou á miseria e à ruina. Mas se o homem +de prêsa domina o mundo como a fera reina na floresta, é como ela +degenerado: «Do mesmo modo que o animal de prêsa não prospera, diz +Wagner, do mesmo modo vemos o homem de prêsa vitorioso finar-se +lentamente. Por causa do alimento contra a natureza que êle usa, é +vítima das doenças que só nêle aparecem, e nunca alcança nem o termo +normal dos seus dias nem uma morte doce: sob o aguilhão de sofrimentos e +de torturas que só êle conhece e que lhe ferem o corpo como a alma, +apressa-se através duma vida de agitações vãs, para um fim sempre +terrível».</p> + +<p>«Mas do mesmo modo que o homem primitivo, colocado em circunstâncias +desfavoráveis, teve de trocar a alimentação vegetal pela alimentação +animal, do mesmo modo poderá, quando tiver consciência da sua miseria e +souber reconhecer como seus todos os sofrimentos dos homens e dos +animais, voltar por um esforço de vontade a uma alimentação +exclusivamente vegetal. Só por tal preço póde esperar a regeneração. +Assim não se deixará desanimar nesta empresa por nenhuma dificuldade de +ordem prática. Wagner considera como uma verdade experimental +demonstrada que o homem pode amoldar-se a um regime vegetariano em todas +as latitudes. Mas não hesita em declarar que no caso em que se +reconhecesse a necessidade duma alimentação animal nos climas do norte, +as raças superiores deveriam emigrar sistematicamente para regiões mais +favorecidas do sol. Desde já considera como instituições de salvação as +ligas de vegetarianos, as associações para a protecção dos animais e as +associações de temperança que procuram libertar o homem da tirania +medonha do álcool. Quando estas associações fracas, desprezadas e hoje +um <span class="pagenum">[27]</span> pouco ridículas, tiverem mais inteira consciência do fim sublime +que teem em vista e se apresentarem ao público não como modestos +apóstolos dum mediocre pensamento utilitário mas como os missionarios da +doutrina da regeneração, poderão tornar-se os instrumentos eficazes da +redempção do mundo moderno.»</p> + +<p>Eis aí o que Wagner pensava do vegetarismo, da alta missão social que +lhe está guardada e da influência fundamental que tem na moralidade das +raças. E pronunciando o seu nome desnecessário se torne lembrar em que +assombrosas faculdades esta doutrina encontrou protecção e impenetrável +escudo.</p> + +<p>Acrescentemos ainda a essa voz de excepcional poder mais um depoimento. +É o de E. Réclus.</p> + +<p>O seu talento, o seu saber, os seus infinitos conhecimentos da terra e +dos homens as suas virtudes morais, a sua sinceridade, a sua inteireza e +a sua coragem que ele sujeitou às mais crueis provações e que de todas +sairam vitoriosas, a sua própria experiência do vegetarismo que praticou +durante mais de sessenta anos consecutivos e que não o impediu de morrer +com mais de oitenta duma vida de trabalho infatigável e de ardente +apostolodo, todas estas e muitas outras circunstâncias congêneres lhe +dão um lugar privilegiado que convém respeitar, não por sua glória que +do nosso humilde respeito não carece, mas por nosso interesse que do seu +conselho não póde prescindir.</p> + +<p>«Não era químico nem doutor», confessa, «não mencionará nem o azote nem +a albumina, nem reproduzirá as fórmulas dos analistas mas contentar-se-á +simplesmente dizendo as suas impressões pessoais que de resto coincidem +com as de muitos vegetarianos.» Foi virtualmente um vegetariano desde +criança. Uma pessoa de familia mandou-o um dia ao açougue buscar um +pedaço de carne, e perante os horrores que lá viu, desmaiou. Ouvia que o +dono do talho o trouxera a casa sem sentidos. Foi esse o seu baptismo +vegetariano. Não o aprendeu nas academias, nos hospitais ou nos +laboratórios. Nasceu-lhe no coração.</p> + +<p>«Cada um de nós», diz Réclus, «especialmente aquêles que viveram em um +canto da província, muito longe das cidades vulgares ordinárias, onde +todas as coisas estão metodicamente classificadas e disfarçadas,--cada +um de nós tem visto alguma coisa dessas barbaridades cometidas pelos +<span class="pagenum">[28]</span> que comem carne contra os animais que êles comem. Não ha +necessidade de ir a nenhuma Porcopolis da América do Norte ou a uma +<i>saladera</i> de La Plata, para contemplar os horrores dos massacres que +constituem a condição primária do nosso alimento quotidiano. Mas estas +impressões gastam-se com o tempo; cedem perante a perniciosa influência +da nossa educação de todos os dias, que tende a arrastar o indivíduo +para a mediocridade, e o despoja de quanto concorra para o tornar uma +personalidade original. Pais, mestres, por oficio ou por amizade, +doutôres, para não falar desta poderosa individualidade que chamamos +<i>toda a gente</i>, todos trabalham juntos para endurecerem o carácter da +criança com respeito a êste «alimento de quatro pés» que, todavia, ama +como nós amamos, sente como nós sentimos, e sob a nossa influência +progride ou retrocede como nós... Não é uma digressão mencionar os +horrores da guerra em conjunção com o massacre dos gados e os banquetes +carnívoros. A dieta dos indivíduos corresponde exactamente aos seus +modos. O sangue pede sangue. Nêste ponto, quem rememorar as suas +lembranças daquêles que tem conhecido, encontrará que não póde haver +dúvida possível quanto ao contraste que existe entre os vegetarianos e +os grosseiros comedores de carne--ávidos bebedores de sangue--na +amenidade dos seus modos, na gentileza de disposição e regularidade de +vida. É certo que estas qualidades não são muito apreciadas daquelas +<i>pessoas superiores</i> que, não sendo de fórma alguma melhores que os +outros mortais, são sempre mais arrogantes e imaginam que acrescentam a +sua importância depreciando os humildes e exaltando os fortes. Para +elas, doçura significa fraqueza: os doentes são um tropêço, e seria +caridade varrêl-os do caminho. Se não forem mortos, deve-se pelo menos +deixar que morram. Mas é justamente esta gente delicada que resiste á +doença melhor do que os robustos...</p> + +<p>«Seja porém como fôr, apenas digo que para a grande maioria dos +vegetarianos a questão não é se os seus biceps e triceps são mais +sólidos do que os daquêles que comem carne, nem se o seu organismo está +mais apto a resistir aos riscos da vida e às contingências da morte, não +é isso o mais importante; para eles o ponto importante é o +reconhecimento dos laços de afeição e bôa vontade que unem o homem aos +chamados animais inferiores e a ampliação até <span class="pagenum">[29]</span> êsses nossos irmãos +do sentimento que já pôz termo ao canibalismo êntre os homens... O +cavalo e a vaca, o coelho e o gato, o gamo e a lebre, o feisão e a +cotovia, são-nos mais agradáveis como amigos do que como comida. +Queremos conservá-los ou como respeitados companheiros de trabalho ou +simplesmente como companheiros na alegria da vida e na amizade.»</p> + +<p>E, chegado a êste ponto, seja-me permitido prescindir das restantes +testemunhas que são ainda dezenas e dezenas dos que deixaram o rasto +marcado na história da civilização. Prescindo de depoimentos preciosos, +prescindo, por agora, da sanção do vegetarismo pela autoridade de +individualidades tão altas como, por exemplo, Leão Tolstoi, para o qual +o vegetarismo é o <i>primeiro passo</i>, ou como êsse outro proféta de +alêm-mar, Henrique David Thoreau que julgava «um benfeitor da sua raça» +aquêle que ensinasse os homens a limitarem-se a uma dieta mais inocente +e salutar do que aquela miserável de degolar cordeiros». Não ignoro que +riquezas de elucidação e de exemplo deixo de usar, nem o faço sem mágoa. +O meu desejo e o interesse da causa a que tão sinceramente consagro os +meus pobres esforços, seria repetir linha a linha e gravar na memória +dos que me escutam esse admirável breviário de Howard Williams que tem +por titulo <i>A Etica da Dieta</i> e ao qual fui beber a maior parte de +aquilo que aqui reuni e coligi. Mas o que deixo apontado será por +ventura o bastante para a demonstração da tése que me propus defender; e +a necessidade de concluir este primeiro ponto das minhas considerações +não permite que mais me alongue na apresentação dos documentos em que se +fundam.</p> + + +<h3>II</h3> + +<p>Disse que o vegetarismo tem os seus pergaminhos, que possue títulos +autênticos de nobreza. Provam-no os documentos que apresentei. A +história da civilisação registou-lhe a antiguidade; e as virtudes e os +merecimentos dos homens eminentes que o serviram pela palavra e pelo +exemplo são garantia da sua excelência.</p> <span class="pagenum">[30]</span> + +<p><i>Quid inde?</i> Com que direitos e por que trâmites se criou essa nobreza e +por que razões ha-de persistir em nossos dias?</p> + +<p>Consideremos por um instante os momentos em que a defesa e a prática do +vegetarismo se mostraram mais calorosas, mais acentuadas nas afirmações +e mais disseminadas na acção. Imediatamente se nos revelará o seu +carácter e a sua influência na moralidade das raças.</p> + +<p>Aparece-nos primeiro o vegetarismo, claramente definido e apregoado como +mandamento essencial de bem viver, na escola de Pitágoras, na aurora do +helenismo, quando ele começou a ter consciencia dos seus destinos e a +meditar lucidamente nas responsabilidades do homem perante a vida +universal.</p> + +<p>Renova-se seis séculos mais tarde com Plutarco, quando uma pausa nas +disputas do mundo sucedendo à amálgama de diferentes raças e +diversíssimas aspirações religiosas em uma só e nova civilização +permitiu aos homens que interrogassem o seu íntimo e conhecessem o que +queriam da terra e o que lhe deviam, que fins e obrigações os +encaminhavam e prendiam.</p> + +<p>Pouco depois encontramo-lo em Alexandria onde Porfírio e a pléiade de +filósofos que naquelas terras meditava a experiência de quasi dez +séculos de vida social intensa investigavam as consequências que de aí +derivavam para a compreenção d'este pequenino ser que é o homem.</p> + +<p>Escurece-se na pulverização do império romano, enquanto o tumulto das +guerras e a poeira do desabar de ruinas não consentiam parança em que os +problemas morais da nossa vida se traçassem e solvessem. Mas logo a +breve trecho eis renascido com Montaigne o vegetarismo em toda a sua +pureza e formosura porque se reatava o fio perdido e quebrado da cultura +antiga. Acaricia-o em seguida o humanismo do seculo XVIII, até que no +seculo XIX lhe abrem de par a par as portas da cidade e porventura lhe +dão ingresso no templo os mais venerandos levitas da redenção humana.</p> + +<p>Isto é--sempre que as sociedades europeias poderam pelo gráu de cultura +que atingiam ouvir a voz da consciência moral e prestar obediência aos +seus ditames, o vegetarismo surge e impõe-se como uma lei a que não é +permitido esquivar-nos, sob pena de ignominiosa traição do dever <span class="pagenum">[31]</span> e +de crueis remorsos. Não é outra a lição da história sôbre esta doutrina, +nem outra póde ser a interpretação das vicissitudes por que tem do +passado, dos entusiasmos que despertou, e dos ódios que o perseguirem e +da irrepressível expansão que em nossos dias o propaga. É um fenômeno da +consciência moral, invariavelmente presente onde quer que a consciência +moral assista, seu filho e servo. Não é um devaneio filosófico, questão +de sistema ou de lógica, é um acto de religião.</p> + +<p>Por isso teve e tem inimigos, porque não póde dominar sem offender +crenças arreigadas e potestades criadas, sem sobretudo escandalizar esse +«poder arbitrário do costume e a violência da luxúria» de que falou +Bernardo do Mandeville e que encontram na fé vegetariana como uma +acusação dos seus crimes e uma ameaça de abolição contra as quais se +revoltam.</p> + +<p>Singular coincidência! Os apóstolos do vegetarismo não mereceram em +regra as boas graças dos poderes politicos constituídos. São aborrecidos +de todos os despotismos. Sendo o vegetarismo uma doutrina de amor, +porventura é odiada de toda a opressão e egoismo. O certo é que os +discípulos de Pitágoras foram perseguidos; Ovídio foi desterrado e +Sêneca foi condenado à morte e os cataros sofreram da igreja católica as +mais bárbaras crueldades.</p> + +<p>Na verdade, significa uma profunda revolução moral com todas as +consequências sociais que necessáriamente importa. Como tal o devem +considerar os que o seguirem, armando-se com a coragem indispensável +para afrontarem todas as penas e riscos d'uma revolução. Se os nossos +tempos não toleram martírios, nem por isso pódem prescindir de +tenacidade e firmeza d'animo onde uma grande aspiração se proposer +conquistar o seu lugar no mundo.</p> + +<p>A tarefa será tanto mais árdua quanto é certo que o vegetarismo se vê +enleiado e combatido por tradições terríveis.</p> + +<p>Toda a nossa civilização é filha da civilização romana. Dela viemos e na +realidade nela nos mantemos; quanto julgamos progresso não é mais do que +o natural desenvolvimento das bases em que ela se fundou. A nossa +estrutura mental como a nossa estrutura econômica, como, sobretudo os +nossos problemas sociais, tudo é a repetição e a ampliação em volume e +complexidade do que o romano sentiu, criou e nos legou.</p> <span class="pagenum">[32]</span> + +<p>Ora, não nos iludâmos; não há talvez pior inimigo do vegetarismo do que +a cultura latina. Compare-se a civilização latina com as civilizações +orientais e a superioridade moral destas últimas imediatamente se nos +mostra com evidência. A intemperança, a gula e a crueldade foram vícios +caraterísticos do mundo romano, que na escala dos valores morais o +deixaram inferior, não já à puresa do budismo, que com êsse o confronto +é inadmíssivel sôb êste aspecto, mas até mesmo à sobriedade e +frugalidade do grego, de cuja civilização descendia em linha recta. Aos +banquetes de Luculo correspondiam as atrocidades do circo, tal qual como +agora a uma hecatombe de vitelas e aves corresponde a embriaguez das +touradas. Por todos os lados corre igualmente a jorros o sangue inocente +dos mansos animais e nêles se deleitam o nosso ventre, o paladar e os +olhos. Parece que há mais de vinte e cinco séculos a nossa raça vive sôb +um anátema irrevogável de crueldade, tanto mais pungente quanto é clara +a consciência da maldição que nos atormenta.</p> + +<p>Catão, o Censor, diz-nos como orgulhoso do feito que, quando foi cônsul, +deixou na Espanha o seu cavalo de guerra para aliviar o tesouro público +dêsse encargo. E Plutarco, referindo o facto, acrescenta:--«Se tais +coisas são exemplos de grandeza ou de mesquinhez de alma, o leitor que o +julgue.»</p> + +<p>São exemplos de mesquinhez; sentia-o o historiador tão bem como nós o +sentíamos. Mas a enfermidade persiste e até hoje não podemos vencê-la e +sob o seu deprimente influxo nos arrastamos. O catonismo tornou-se senão +um título pejorativo, pelo menos um estigma de desumanidade. Mas nem por +isso condenando-o em palavras, banimos o catonismo dos nossos corações e +deixamos de sacrificar á sua desapiedade soberba tanto os homens nossos +irmãos como os animais a que as demências da nossa vaidade passaram +diploma de inferioridade.</p> + +<p>Dobramos o cabo das Tormentas, escravizámos o índio, e ameaçando a +terra, o mar e o mundo, tudo calcámos victoriosos e em nossos triunfos +nos glorificámos. Se porém me fosse dado escolher entre a sorte do +vencedor e a do vencido, diria, com pena de incorrêr em acusação de +traição ao amor da pátria, que a todas as nossas glórias, que são +muitas, sem embargo, e brilhantes, eu preferiria que como <span class="pagenum">[33]</span> na Índia +do seculo XVIII, trez milhões de portuguezes tivessem a coragem, que o +índio teve, de preferirem morrer de fome a matar os animais seus +companheiros e seus servos e amigos.</p> + +<p>Não sei de maior grandeza na história. Não sei de exemplo de mais +sublimada moralidade duma raça, de mais grandiosa, perfeita e absoluta +imolação ao amor, a este amor que é a essência da vida, a razão de ser +da nossa existência, o padrão único por que se póde aferir a grandeza +humana, «o comêço de todo o pensamento digno d'este nome» na feliz +expressão de Carlyle.</p> + +<p>Heroísmo por heroísmo, o d'esses vencidos que maltratámos, foi +infinitamente superior às façanhas militares de que tanto nos +orgulhamos.</p> + + +<h3>III</h3> + +<p>Se porêm o vegetarismo fôsse incapaz de captivar os homens de +inteligência lúcida e coração recto só pelo seu valor moral absoluto, +pelo que representa como signal da mais alta concepção moral das +relações do homem com o universo e particularmente com os seres vivos +que nos cercam, não poderia deixar de persuadir os mais rebeldes pela +sua influência directa, imediata, como mecânica, na dissipação de +flagêlo que presentemente é o maior e mais terrível dissolvente da +moralidade das raças--o alcoolismo.</p> + +<p>Não é êste o ensejo de nos ocuparmos de semelhante calamidade para +afastar a qual todo o esfôrço será pouco. Mas ninguém d'olhos abertos e +medianamente preocupado com a vida das sociedades e a sua fortuna poderá +deixar de reconhecer com J. Reinach que, «se a questão do alcoolismo não +é toda a questão social, é a mais terrível e a mais grave das questões +sociais.»</p> + +<p>O que a êsse respeito se passa em o nosso país, não o sei eu. Suponho +que será tremendo, a julgar por aquilo que casualmente encontro a cada +passo na vida quotidiana, pelo que vejo nas ruas e em todos os +ajuntamentos dos dias de descanso, pelo que se ouve nos tribunais onde +quási não há crime de violência contra as pessôas que não seja <span class="pagenum">[34]</span> +cometido sob a acção próxima ou remota do álcool, pelo movimento dos +hospitais onde sob inumeráveis fórmas essa desgraça vai pedir socorro e +o mais das vezes acabar.</p> + +<p>Não o sei. As estatísticas do nosso país são menos do que incompletas ou +deficientes a tal respeito; são nada. Parece que tememos saber toda a +verdade e preferímos afundar-nos em cegueira total e em criminosa +indiferença, embora o exemplo dos demais países nos assegure que não é +assim que cada um cumpre o que deve à pátria, à humanidade e à +consciência.</p> + +<p>Mas conheço um pouco e de verdade certa o que se passa imediatamente em +volta de mim, no lugar que habito, e isso basta para me aterrar +infundindo-me no espírito as mais lugubres preocupações sobre o futuro +da nossa raça.</p> + +<p>Pelas estatísticas municipais corrigidas por quem por longa experiência +conhece o movimento dos impostos, Aveiro com os seus 10:000 habitantes +deverá ter consumido em 1911 (numeros redondos):</p> + +<p>1.041:000 litros de vinho comum.</p> + +<p>7:500 litros de vinhos licorosos.</p> + +<p>11:000 litros de agua-ardente.</p> + +<p>Isto equivaleria na mais benigna hipótese a uma despeza de 50 contos de +reis e a um consumo de álcool puro de 7,5 litros por habitante, pelo +menos. Se nos lembrarmos da soma de mulheres e crianças que se acha +incluída nos 10:000 habitantes do total da população da cidade, +poderemos fazer uma vaga ideia das percentagens extremas que deve +atingir o consumo para os consumidores efectivos e tambêm da +precipitação de decadência física, moral e econômica que está minando a +raça.</p> + +<p>Ora eu não posso crêr que Aveiro seja um lugar de maldição no país. Pelo +contrário, inclino-me antes a pensar que será uma das terras do país +menos desmoralizadas não só neste ponto mas em absoluto. E sendo assim, +como tudo leva a crer, poderemos bem imaginar por este minúsculo exemplo +em que inferno estamos vivendo, a que penas estamos sujeitando os nossos +filhos e o futuro da nossa pátria, que tremendas responsabilidades de +ignomínia e de traição não estamos tomando perante a história, porque +outra traição mais infame eu não conheço do que aquela que resulta no +aviltamento físico e moral dos nossos filhos.</p> + +<p>Salvação, se a póde haver, e sem dúvida a haverá <span class="pagenum">[35]</span> porque assim o +teem demonstrado os países mais adeantados do que o nosso que +conscientes do mal não descansam em lhe acudir com todos os +preservativos e remédios que a experiência lhes vai aconselhando, a +salvação terá de começar pela propagação do regime vegetariano que em +semelhante missão, sem se degradar e antes acrescendo as virtudes, +passará d'um dever moral imprescindível a uma utilidade social de +primeira grandeza.</p> + +<p>«Basta a questão do álcool para que o problema da dieta seja digno da +atenção de todos os homens que amem a pátria», escreveu Russel no seu +belo livro <i>Strength and Diet</i>, hoje um clássico. Se o vegetarismo é o +<i>primeiro passo</i>, na opinião de Tolstoi, para a disciplina da nossa +vontade na obediência religiosa, é simultaneamente a primeira regra para +nos salvar da decadência do corpo e do espírito nêsse <i>embrutecimento</i> +do álcool como Tardieu lhe chamou, resumindo em uma só palavra as +consequências de tal processo de envenenamento dos homens e das raças. +Porque <i>qualis enim esus, talis est potus</i>; tal comida, tal bebida. +Assim o disse ha longos séculos Tertuliano meditando nos trâmites da +vida religiosa, buscando os caminhos por que a santidade se alcança; e a +sciência dos nossos dias não desmentiu as lucubrações do teologo. Pelo +contrário, absolutamente as confirmou.</p> + +<p>Hoje, como então, a carne e o vinho são companheiros e cúmplices nessa +embriaguez do nosso sangue e da nossa alma que nos conduz aos infernos +de todas as demencias e abjecções.</p> + +<p>O seu processo na desmoralização das raças é sabido. A atrofia de +consciência que é o invariável resultado de todas as intemperanças da +gula começará por ser acidental e transitória na sua victima, para em +seguida se tornar permanente, constante, ininterrompida por virtude de +repetição, e para finalmente se transmitir por hereditariedade a toda a +descendência, por isso mesmo que se tornou verdadeiramente +constitucional e orgânica.</p> + +<p>É n'esta operação de aviltamento da nossa raça que o carnivorismo está +colaborando activamente. Combater pelo vegetarismo é combater o +alcoolismo na sua maior fortaleza.</p> + +<p>Dos resultados que os nossos esforços, poderão ter em uma tal calamidade +dizem as lições que os países <span class="pagenum">[36]</span> estrangeiros nos facultam. Um só +exemplo invocarei. Há cerca de cincoenta anos a Suécia tinha uma taberna +por 100 habitantes e a Noruega uma por 200. Hoje a Suécia tem uma +taberna por 5:000 habitantes e a Noruega uma por 9:000. E isto que é +gigantesco como capacidade de redenção dum pôvo, não foi a obra do +acaso; foi o produto do método, sistema e energia de vontade que todas +as terapêuticas aproveitou. Não se é uma nação civilizada e digna por +menor preço.</p> + +<span class="pagenum">[37]</span> +</div> + +<div class="notas"> +<p class="indent_negativo"><a href="#o_nota1" name="nota1">[A]</a> Na verdade, os processos de cosinha carnívora não são outra coisa +senão processos de corrupção; o alimento será tanto mais saboroso quanto +mais perfeitamente se lhe houver dissipado a exalação fetida primitiva. +Qualquer dama de mãos mimosas que trinca com delicia uma costeleta +coberta de pão e embalsamada em loiro, em cravo, em salsa, em cebola, +pimenta e limão, empalidece de nausea sentindo o cheiro do açougue, +considera imundicie um pedaço de carne crúa nos seus vestidos e foge +mais depressa da praça do peixe do que da montureira que aduba a horta.</p> + +<p>Pelo contrario, na cosinha vegetariana o esmero e a perfeição consistem +em conservar inalteravel o sabor proprio de cada alimento. Ninguem +jámais teve o capricho de querer cosinhar maçãs para saberem a loiro ou +feijões para cheirarem a salsa.</p> + +<p class="indent_negativo"><a href="#o_nota2" name="nota2">[B]</a> Não acontece isso sómente com as creanças. Na gente do povo, creança +tambem pela vitalidade dos instintos primitivos, mostra-se claramente a +mesma tendencia. Muitos e muitos que seriam incapazes de roubar de +qualquer salgadeira uma grama de toucinho, não resistem á tentação de se +aproveitarem do primeiro cacho de uvas que lhes esteja á mão. Os +assaltos ás hortas e pomares são frequentes, e de tal forma isso parece +estar na ordem natural que grande numero dos homens rudes não lhes +associa nem de longe a noção do crime. Longos seculos de corrupção da +dieta não conseguiram atrofiar essas tentações d'uma atiguidade biblica, +as mesmas que desgraçaram Adão e Eva.</p> + +</div> +<div id="lista_outras_edicoes"> + + + + +<h2>Livros indispensáveis aos Naturistas</h2> + +<p>e a todos que desejem cultivar a saúde e a longevidade, praticando +racionalmente o frugivorismo (dieta crua), vegetarismo, higiene natural +pelos exercícios normais combinados com os banhos de ar, sol e água, +restrição alimentar, etc., em perfeita concordância com a fisiologia +animal da humanidade.</p> + + +<h3>Edições da Sociedade Vegetariana de Portugal:</h3> + +<table cellspacing="2"> +<tr><td><div class="indent_negativo"><b>"O Vegetariano"</b> 1.<sup>a</sup> série, brochado. Muitas informações de vegetarismo, +e receitas de culinária natural, tabelas do valor dos alimentos, leis de +saúde e indicações aos principiantes.</div></td></tr> + +<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">500</td></tr> + +<tr><td>Preço geral</td><td align="right">700</td></tr> + +<tr><td>Encadernação de luxo, respectivamente</td><td align="right">800 e 1$000</td></tr> + +<tr><td><div class="indent_negativo"><b>"O Vegetariano"</b> 2.<sup>a</sup> série, brochado. 500 páginas de texto. Gravuras em +<i>couché</i>. Tratado completo de frugivorismo, vegetarismo, cura natural +pela dieta, ar, sol, água, exercício, etc., fabrico do vinho sem alcool +e adubo natural para as terras. O perigo da vacina, do alcoolismo, do +tabagismo, do albuminismo ou carnivorismo, etc.</div></td></tr> + +<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">1$000</td></tr> + +<tr><td>Preço geral</td><td align="right">1$200</td></tr> + +<tr><td>Encadernação de luxo, respectivamente</td><td align="right" nowrap>1$400 e 1$600</td></tr> + +<tr><td><div class="indent_negativo"><b>"O Vegetariano"</b> 3.<sup>a</sup> série. Mensário Ilustrado de Naturismo (em +publicação). Maior formato, melhor papel e novas secções de propaganda, +informando de todo o movimento frugivoro--vegetariano--naturista em +Portugal, Brasil e outras nações. Consultório naturista gratuito. Relato +pessoal das curas naturais de doenças rebeldes ou crónicas, etc., etc., +órgão da S. V. de P. (continente e colonias), assinatura anual (12 +números) 1$000 reis--Brasil (moeda fraca) 3$500 reis--Outros paises 7 +frs.</div></td></tr> + +</table> + + +<h3>BIBLIOTECA VEGETARIANA</h3> + +<h4>(Ilustrada com fotogravuras)</h4> + +<table cellspacing="2"> +<tr><td><div class="indent_negativo">I--<b>Vivamos de Frutos</b>, por V. Bruant, trad. do Dr. Amilcar de Souza. +Regime frugivoro e estudo sobre frutarismo.</div></td></tr> + +<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">200</td></tr> + +<tr><td>Preço geral</td><td align="right">300</td></tr> + +<tr><td><div class="indent_negativo">II--<b>Vinho sem alcool e Pão integral</b>, 12 gravuras. Apreciação pelo Dr. +Amilcar de Souza. Indústria e fabrico domestico.</div></td></tr> + +<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">200</td></tr> + +<tr><td>Preço geral</td><td align="right">300</td></tr> + +<tr><td><div class="indent_negativo">III--<b>O Vegetarismo e a Fisiologia Alimentar</b>, pelo Dr. H. Colliére, de +Paris. Trad. de Angelo Jorge. Análise, ao regime misto (carnivorismo) e +aos regimes naturais; vegetariano, vegetalino e frugivoro com +demonstrações, tabelas, etc., baseando-se nos melhores autores.</div></td></tr> + +<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">500</td></tr> + +<tr><td>Preço geral</td><td align="right">700</td></tr> + +<tr><td><div class="indent_negativo">IV--<b>A Questão Social e a Nova Sciência de Curar</b>, por Angelo Jorge. +Apreciações aos problemas médico, alimentar e social.</div></td></tr> + +<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td></tr> + +<tr><td>Preço geral</td></tr> + +<tr><td><div class="indent_negativo">V--<b>Dieta Frugívora e Renovamento Físico</b>, pelo Dr. O. L. M. Abramowski, +médico do Hospital de <i>Mildura</i>, Austrália. Trad. do Dr. João Volmer. +Demonstração prática e racional do frutarismo scientifico.</div></td></tr> + +<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">100</td></tr> + +<tr><td>Preço geral</td><td align="right">150</td></tr> + +<tr><td><div class="indent_negativo">VI--<b>O Naturismo</b>, pelo Dr. Amilcar de Souza. O livro mais notável do +século XX, versando todos os assuntos relacionados com a vida humana. +Análise racional e soluções naturistas às questões alimentares, +higiénicas, médicas, educativas, sociais e humanitárias.</div></td></tr> + +<tr><td>Para sócio da S. V. de Portugal</td><td align="right">400</td></tr> + +<tr><td>Preço geral</td><td align="right">600</td></tr> + +<tr><td><div class="indent_negativo">VII--<b>A base de todas as reformas na alimentação</b>, regeneração fisica e +mental do homem pelo «frugivorismo: notável livro americano de Otto +Carqué, esmerada trad. de J. Vitorino Pinto, estudante de medicina.</div></td></tr> + +<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">150</td></tr> + +<tr><td>Preço geral</td><td align="right">200</td></tr> + +<tr><td><div class="indent_negativo">VIII--<b>A Saúde e a longevidade</b>. (Um grito de alarme), por J. Bastos. +Análise racional aos erros da vida humana <i>civilizada</i>. A saúde, a +alimentação, a escola, os remédios e algumas curas relatadas são os +capítulos nele desenvolvidos com superior criterio e verdade.</div></td></tr> + +<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">300</td></tr> + +<tr><td>Preço geral</td><td align="right">400</td></tr> + +<tr><td><div class="indent_negativo">IX--<b>O Vegetarismo e a moralidade das raças</b>, pelo Dr. Jaime de Magalhães +Lima. Notavel conferencia realisada no Ateneu Comercial do Porto em 14 +de junho de 1912. Com o retrato do autor em <i>couché</i>.</div></td></tr> + +<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">100</td></tr> + +<tr><td>Preço geral</td><td align="right">150</td></tr> + +<tr><td><div class="indent_negativo">«<b>A Cura da Tuberculose pelo Vegetarismo</b>», pelo Dr. Paul Carton; +«Irmania», novela naturista por Angelo Jorge, «Os Agentes Físicos em +Medicina.», pelo Dr. J. Bentes Castel-Branco, etc. (A imprimir).</div></td></tr> + +<tr><td><div class="indent_negativo">«<b>La Hacienda</b>»--Búfalo, América--Revista ilustrada sôbre agricultura, +arboricultura e industrias rurais, e consultório técnico gratuito para +assinantes. O melhor mensário agricola do mundo editado em português, +assina-se na redacção de <i>O Vegetariano</i>.--Pôrto--(12 +numeros).--Assinatura anual.</div></td></tr> + +<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">3$600</td></tr> + +<tr><td>Preço geral</td><td align="right">4$000</td></tr> +</table> + + +<p class="indent_negativo">Todos os pedidos devem ser acompanhados das respectivas importâncias em +dinheiro, cheques, vales ou estampilhas do continente, endereçadas à +Sociedade Vegetariana de Portugal, redacção de <i>O Vegetariano</i>--Avenida +Rodrigues de Freitas, 393 (Antiga rua de S. Lazaro)--Pôrto.</p> + +<p>A remessa pelo correio acresce 75 réis de porte e registo sendo para +Portugal, e para o Brasil e outros paises 100 réis.</p> + +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of O Vegetarismo e a Moralidade das raças, by +Jaime de Magalhães Lima + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O VEGETARISMO E A MORALIDADE *** + +***** This file should be named 24338-h.htm or 24338-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/4/3/3/24338/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images from BibRia) + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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