summaryrefslogtreecommitdiff
diff options
context:
space:
mode:
-rw-r--r--.gitattributes3
-rw-r--r--24338-8.txt1749
-rw-r--r--24338-8.zipbin0 -> 38821 bytes
-rw-r--r--24338-h.zipbin0 -> 40473 bytes
-rw-r--r--24338-h/24338-h.htm1849
-rw-r--r--LICENSE.txt11
-rw-r--r--README.md2
7 files changed, 3614 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes
new file mode 100644
index 0000000..6833f05
--- /dev/null
+++ b/.gitattributes
@@ -0,0 +1,3 @@
+* text=auto
+*.txt text
+*.md text
diff --git a/24338-8.txt b/24338-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..c7772b2
--- /dev/null
+++ b/24338-8.txt
@@ -0,0 +1,1749 @@
+The Project Gutenberg EBook of O Vegetarismo e a Moralidade das raças, by
+Jaime de Magalhães Lima
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Vegetarismo e a Moralidade das raças
+
+Author: Jaime de Magalhães Lima
+
+Release Date: January 17, 2008 [EBook #24338]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O VEGETARISMO E A MORALIDADE ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images from BibRia)
+
+
+
+
+
+
+
+O Vegetarismo
+
+e a Moralidade das raças
+
+
+
+
+Composição e impressão
+--Emprêsa Gráfica «A UNIVERSAL»--
+DE FIGUEIRINHAS & MOTA RIBEIRO, L.^DA
+--Rua Duque de Loulé, 111--Pôrto--
+
+
+9.^o volume da
+Biblioteca Vegetariana
+
+Dr. Jaime de Magalhães Lima
+
+
+O Vegetarismo
+e a Moralidade das raças
+
+--Notavel Conferencia realisada no
+ ATENEU COMERCIAL DO PORTO
+em 14 de Junho de 1912------------
+
+
+
+
+SOCIEDADE VEGETARIANA--Editôra
+393, AVENIDA RODRIGUES DE FREITAS
+PÔRTO
+
+
+
+
+O vegetarismo e a moralidade das raças
+
+
+I
+
+Tem os seus pergaminhos o vegetarismo. Não é uma doutrina nascida de
+ontem. Tem títulos autênticos de nobreza prolongada durante gerações sem
+número, respeitada nas mais altas civilizações em cujas superiores
+aspirações colaborou, definindo-as eloquentemente pela voz das suas mais
+belas e autorizadas individualidades e corroborando-as ardentemente pelo
+exemplo dos seus mais devotados apóstolos.
+
+Sem nos afastarmos da nossa propria civilização, sem sairmos d'este fóco
+de cultura chamado o ocidente da Europa onde nos criamos e onde os
+nossos mais remotos avós se criaram e educaram, legando-nos um espólio
+de sentimentos e ideias que constituem toda a nossa alma e que nos
+cumpre cultivar e aperfeiçoar para o transmitirmos aos nossos filhos
+acrescentado em formosura e benefícios, emendado, corrigido e depurado
+em seus vícios e insuficiências; dentro dêste círculo devéras estreito
+relativamente aos largos espaços em que fóra dele outras raças e outras
+condições naturais formaram sociedades que igualmente engrandeceram e
+honram a humanidade pelas concepções da vida que realizaram e de que
+foram veiculo e sublime instrumento no mundo; limitando-nos à exígua
+mancha do globo que é o nosso berço e o nosso lar e fazendo-o, não
+porque além dele não conheçamos corações iguais aos nossos, vivendo do
+mesmo alento, crentes na mesma fé e enamorados da mesma elevação mas
+sómente porque para o fim muito restrito que neste instante temos em
+vista convêm não distrair a atenção do que de mais nos toca e por isso
+será mais claramente demonstrativo: neste cantinho que acendeu seus
+fachos de luz em volta do Mediterraneo e de lá a fez irradiar através
+das montanhas até aos mares do norte, o vegetarismo foi e é uma das
+caracteristicas do zenit moral das civilizações, e como tal o aceitaram,
+proclamaram e praticaram os gênios que mais fundamente as compreenderam
+e mais brilhantemente as serviram.
+
+O reconhecimento deste facto é hoje uma verdade corrente. O mais
+rudimentar estudo do vegetarismo não deixará de o apontar. Por certo
+somarão milhões as folhas impressas em que se encontram os nomes de
+vegetarianos que foram na história dos povos da Europa como signais da
+sua grandeza e juizes e farois do seu tempo e dos tempos futuros. Mas
+nem é justo que se invoque o seu valor moral sem lembrar os que por uma
+sublimada inspiração no-lo mostraram, nem tão pouco seria prudente que,
+sómente porque uma verdade se tornou indiscutivel e porventura banal
+entre homens cultos, deixássemos de a repetir tão inumeráveis vezes
+quantas necessárias fossem para que ela se propague e produza todos os
+bens que só pela sua larga disseminação poderá produzir. E o
+vegetarismo, tendo já os seus altares e o seu heróico punhado de fieis
+em todos os paises que atingiram a sensibilidade moral e religiosa, está
+infelizmente longe de ter penetrado na concepção vulgar das obrigações
+humanas, como é mister para a redenção de tantos e tão dolorosos males
+que nos afligem e perseguem por culpa da nossa cegueira e obscuridade.
+
+Recordemos pois muito de passagem as lições dos profetas e mestres. É
+dever e é utilidade. E pena é que não possamos agora fazê-lo com a pausa
+que o encanto das suas palavras nos pede e que o proveito da própria
+educação imperiosamente nos aconselha.
+
+De Pitágoras a Shelley ou a Wagner ou a E. Réclus ou a Tolstoi que
+arautos não teve o vegetarismo, que divinos clamores não fez ouvir às
+multidões ignorantes da própria fortuna, escravas da primitiva
+animalidade ou ensandecidas e aviltadas em sórdidos prazeres!... Desde
+que a nossa civilização pôde gravar seu rasto na história, a tradição do
+vegetarismo jámais se interrompe completamente. Em mais de vinte e cinco
+séculos a sua taça passa de mão em mão, e ora se expõe à luz de sol
+erguida por austeros e hercúleos sacerdotes cuja rectidão e fôrça nos
+subjugam, ora é guardada devota e humildemente em solitárias ermidas,
+mas jámais se partiu ou sequer arrefeceu desamparada do alento de lábios
+que nela busquem beber a essencia do vigor do corpo e do espírito.
+
+A escola de Pitágoras cujas tradições de superioridade moral são
+memoráveis e cuja profunda e duradoura influência na filosofia, na
+sciência e na teologia antiga, se alargaram desde os tempos
+pre-socráticos até aos tempos do império romano, na Itália, na Grécia e
+na Alexandria, seis séculos antes de Cristo, já reivindicava para a vida
+de pureza moral a abstinência de alimentação carnívora, assim como de
+todo o derramamento de sangue, ainda que pretendesse justificar-se pelo
+sacrifício aos deuses. Outros eram os seus altares e, seja qual fôr a
+estreiteza de informação escrita que do profeta de Samos e seus
+discípulos nos houvesse ficado, o vigor da tradição por tal modo se
+acentua neste ponto de regime dietético que não nos póde restar a menor
+duvida de que nas origens da nossa civilização se encontra imposta, como
+preceito fundamental, a abstinência de carne aos que pretenderem seguir
+na vida o caminho da dignidade.
+
+Cinco séculos mais tarde, essa tradição vive por tal forma na memória e
+nas paixões íntimas dos grandes espíritos da época que Ovídio, o poeta,
+no-la repetirá nestes termos:
+
+«Havia em Crotona um homem da ilha de Samos que se exilara da pátria
+pelo ódio que tinha aos tiranos... Tinha com os deuses aturado
+comércio... O que sabia comunicava-o a uma multidão de discípulos que em
+um grande silêncio o admiravam...
+
+«Foi o primeiro que condenou o uso de comer a carne dos animais:
+doutrina sublime, e tão pouco apreciada, cuja paternidade se lhe
+atribuia.
+
+«Deixai, mortais», dizia, «deixai de vos servir de manjares abomináveis:
+dão-vos os campos searas abundantes; para vós vergam de frutos as
+árvores com os mais belos pomos e produzem uvas as vinhas. Tendes
+legumes dum suave gôsto, excelentes alguns quando cozidos. O mel e o
+leite não vos são defesos. Enfim para vós, a terra é pródiga de suas
+riquezas e oferece-vos toda a espécie de alimento sem que necessiteis
+para sustentar-vos de recorrer à morte e à carnagem.
+
+«Só aos animais convêm o comer carne, e ainda nem todos se sustentam
+dela. Os cavalos, os bois e as ovelhas vivem só de ervas; apenas as
+feras, os tigres, os liões, ursos e lobos fazem da carne seu sustento
+habitual.
+
+«Que crime horrível lançar em nossas entranhas as entranhas de seres
+animados, nutrir na sua substância e no seu sangue o nosso corpo! Para
+conservar a vida a um animal, porventura é mister que morra um outro?
+Porventura é mister que em meio de tantos bens que a melhor das mães, a
+terra, dá aos homens com tamanha profusão, pródigamente, se tenha ainda
+de recorrer à morte para o sustento, como fizeram ciclopes, e que só
+degolando animais seja possível cevar a nossa fome?
+
+«Procedia diferentemente a idade de ouro, ditosos tempos que nós assim
+chamamos. Contente com as plantas e os frutos que a terra produz, o
+homem não manchava a sua bôca com o sangue dos animais. As aves voavam
+sem temor no meio dos ares... O universo tranqùilo desconhecia laços e
+ciladas. Tudo era paz.
+
+«Aquele, seja quem fôr, que para desgostar os homens dos alimentos
+inocentes com que se alimentavam, criou o costume de comer a carne dos
+animais, abriu na mesma hora a porta a crimes de todo o gênero; porque
+foi sem dúvida pela carnificina dêsses animais que o ferro começou a ser
+ensanguentado. Na verdade, é permitido tirar a vida aos animais que nos
+atacam, mas não nutrir-nos com a sua carne. Todavia, fomos mais longe
+ainda; quizemos sacrifical-os aos deuses...
+
+«Que crime tinheis cometido, ovelhas inocentes, rebanhos tranqùilos, que
+dais aos homens um nectar delicioso, que para os cobrir vos deixais
+despojar do vosso manto e que enfim lhes sois mais úteis quando vos
+deixam viver do que quando vos matam? Que mal faz o boi, doce animal,
+incapaz de vos prejudicar e que não é senão para o trabalho?
+
+«É necessario ser ingrato, desnaturado, de todo indigno dos bens que nos
+dá a terra, quando vamos tirar da charrua esse animal tranqùilo, o
+melhor dos nossos obreiros, para o conduzir ao altar a receber o golpe
+fatal nessa cabeça que tantas vezes gemeu sob o jugo e, por um trabalho
+duro e penoso, tantas vezes nos renovou as searas.
+
+«Não bastava aos homens cometerem tão grandes crimes, precisavam ainda
+da cumplicidade dos deuses, crendo que lhes podia ser agradavel o
+sacrificio d'um animal tão útil... Levam assim a vitima ao altar; lá,
+recitam sôbre ela orações que ela não ouve; põe-lhe entre as pontas, que
+foram doiradas, um bolo feito d'aquele mesmo grão que ele cultivou, e
+afunda-se-lhe no seio a lâmina sagrada...
+
+«Logo lhe tiram as entranhas ainda palpitantes, para as consultarem e
+lerem n'elas os segredos dos deuses. Dizei-me, homens insaciáveis,
+d'onde vem esta avidez que só póde fartar-se em carnes proìbidas. Deixai
+tão criminoso uso. Segui os conselhos que vos dou. Sabei que, quando
+comeis a carne do boi que acabais de degolar, comeis aquele que vos
+lavrou o campo. Pois que é um deus que me inspira, só falo segundo a sua
+vontade...
+
+«As nossas almas são sempre as mesmas, embora tomem formas diferentes
+conforme os corpos que animam. Que a piedade não seja sacrificada à
+vossa gula, que para vos saciar não expulseis dos seus corpos as almas
+dos vossos pais nem vos alimenteis do seu sangue...
+
+«É acostumar-nos a derramar o sangue humano degolar animais inocentes e
+ouvirmos sem piedade seus tristes gemidos. É desumanidade não nos
+comovermos com a morte do cabrito, cujos gritos tanto se assemelham aos
+das crianças, e comermos as aves a que tantas vezes démos de comer. Ah!
+quão pouco dista d'um enorme crime!
+
+«Funesta aprendizagem! Deixai tranqùilamente o boi lavrar a terra e seja
+a sua morte o termo natural da sua velhice. Contente-nos o velo do
+rebanho que nos livra da atmosfera agreste, e o leite que as cabras dão
+para nos nutrir: parti os vossos laços e as redes, não mais o visco
+engane a ave crédula. Não mais se leve ao cêrco o tímido veado,
+perturbado com as penas que o espantam, e que não mais se oculte o anzol
+em traiçoeiro engôdo. Matai os animais que podem fazer mal; mas
+contentai-vos em só lhes dar a morte e não os comer, e que só vos sirvam
+alimentos legitimos.»
+
+Assim se compreendia a doutrina de Pitágoras cinco séculos depois de
+haver deixado a terra o seu fundador e assim a compreendia e traduzia o
+talento d'um dos espíritos mais cultos duma grande época.
+
+A vitalidade da doutrina e a superioridade do interprete são garantia de
+que não se tratava de qualquer coisa passageira, d'uma tendencia que só
+as circunstâncias de determinado momento haviam originado e
+desenvolvido, mas antes nos encontravamos em presença de problemas
+morais e soluções que se mostravam capazes de afrontar diverssíssimas
+situações históricas e de lhes sobreviverem, representando por
+conseguinte elementos essenciais à existência das comunidades cultas.
+
+De resto, a doutrina dietética de Pitágoras atravessava êsse longo e
+acidentado período dos primeiros séculos da nossa civilização
+refazendo-se, alargando-se e confirmando-se na meditação dos homens
+cujas lições de sabedoria ficariam nos evangelhos eternos da nossa raça.
+Não foi estranha à prodigiosa obra de Platão. E Sêneca, o filósofo,
+lembra-a nestes termos de simpatia:
+
+«Desde que comecei a contar-vos com que vivo ardor entrei a estudar a
+filosofia na minha mocidade, não devo envergonhar-me de confessar a
+afeição que Focion me inspirou pelo ensino de Pitágoras. Instruiu-me dos
+motivos por que ele mesmo, e depois dele Séxtio, resolveu abster-se da
+carne dos animais. Cada um tinha a sua razão, mas em ambos os casos era
+magnífica. Focion sustentava que o homem póde encontrar alimento
+bastante sem o derramamento do sangue e que a crueldade se torna
+habitual quando uma vez a pratica da carnificina se aplicou ao prazer do
+apetite. Acrescentava ele que é nosso dever limitar os materiais da
+luxúria. Que, todavia, a variedade de alimentos é nociva à saúde e não é
+natural ao nosso corpo. Se estas máximas (da escola de Pitágoras) são
+verdadeiras, então abster-nos da carne dos animais é animar e promover a
+inocência; se mal fundadas, ensinam-nos ao menos a frugalidade e a
+simplicidade de vida. E que perdeis vós perdendo a nossa crueldade?
+Apenas vos privo do alimento dos liões e dos abutres.
+
+«Levado por êstes e semelhantes argumentos, resolvi abster-me de carne,
+e ao fim dum ano o hábito da abstinência não só me era fácil mas
+delicioso. Creio firmemente que as faculdades do meu espírito eram mais
+activas... Perguntais-me porque é que eu voltei atrás e abandonei esse
+sistema de vida? Ao que eu respondo que a sorte dos meus primeiros dias
+foi lançada no reino do imperador Tibério. Certas religiões estranhas
+tornaram-se objecto das suspeitas imperiais, e entre as formas de adesão
+aos cultos ou superstições estranhas, estava o de abstinência de carne
+dos animais. Daí por instancias de meu pai, que na realidade não tinha
+medo de que essa pratica se tornasse motivo de acusação, mas que odiava
+a filosofia, fui induzido a voltar aos meus antigos hábitos dietéticos,
+e não teve ele maior dificuldade em me persuadir a voltar a refeições
+mais suntuosas»...
+
+«Isto digo com a intenção de vos provar como são poderosos os primeiros
+impulsos da mocidade para o que é mais verdadeiro e melhor, sob a
+exortação e incentivo de virtuosos mestres. Erramos, em parte por culpa
+dos nossos guias, que ensinam como se disputa e não como se vive: e em
+parte por nossa culpa, aguardando que os mestres cultivem não tanto a
+disposição do espírito como as faculdades da inteligência. D'esta forma,
+o que foi filosofia, tornou-se em filologia». (_Epistola CVIII._)
+
+Em outras passagens, condenando o luxo e os desmandos sensuais da sua
+época, se refere Seneca aos escravos do ventre que, como Salústio, quer
+que «sejam contados entre os animais inferiores e não entre os homens» e
+lembra que «em tempos mais simples não havia necessidade em tão larga
+escala de tantos médicos supranumerários, nem de tantos instrumentos
+cirúrgicos, nem de tantas caixas de drogas. A saúde era simples por uma
+razão simples. Muitos pratos trouxeram muitas doenças. Note-se que vasta
+quantidade de vidas um estômago absorve--devastador da terra e do mar.
+Não é de espantar que em tão discordante dieta a doença varie
+incessantemente... contem os cozinheiros e não mais se espantarão do
+número incontável das doenças humanas.»
+
+Por êsse mesmo tempo Musónio Rufo, outro filósofo eminente, sectário
+tambêm do melhor estoicismo, declarava «brutal» o uso da carne, «sómente
+próprio de animais selvagens, pesado e empecendo o pensamento e a
+inteligência. Os vapores que dele vem são túrbidos e escurecem a alma,
+de modo que os que dele partilham abundantemente mostram-se os mais
+lentos em apreender.»
+
+Mas para que alongar-nos em citações de nomes e rememoração de doutrinas
+dos filósofos e moralistas do classicismo greco-romano, que condenou por
+nocivo à justiça e ao entendimento o carnivorismo? Para que, se um só
+homem nessas horas remotas de extrema actividade mental e da mais
+exaltada sensibilidade moral, pôde por honra da espécie e glória da
+humanidade resumir todo o problema dietético com uma profundeza
+exaustiva e uma lucidez inexcedivel que os apóstolos da sua doutrina até
+hoje tem invocado como um evangelho a que a experiencia de muitos
+seculos pouco ou nada acrescentou?
+
+Leiam-se as obras morais de Plutarco, que viveu do primeiro ao segundo
+século da éra cristã. São um monumento, até hoje e por certo para sempre
+inabalável, da dignidade humana. Lá encontraremos a causa do vegetarismo
+posta em termos de tal evidencia que constituem como a razão ultima da
+sua legitimidade e do seu valor moral, religioso e fisiológico.
+
+Perguntas-me, diz Plutarco, «por que motivos Pitágoras se absteve de se
+alimentar com a carne dos animais. Pela minha parte, pasmo de que
+espécie de sentimento, espirito ou razão estava possuido aquele que
+primeiro poluiu a sua boca com sangue e consentiu que os seus lábios
+tocassem a carne dum ser assassinado, que espalhou sôbre a sua mesa os
+membros despedaçados de corpos mortos e pediu como alimento quotidiano e
+prato delicado o que ha pouco era um ser dotado de movimento, de
+percepção e de voz?...
+
+«Que luta pela existência ou que excitada loucura incitou a ensopar em
+sangue as tuas mãos, a ti que tens sempre abundancia de todas as coisas
+necessárias para viveres? Porque desmentes a terra como se ela fosse
+incapaz de te alimentar e nutrir? Porque atormentas Ceres que humaniza,
+e desonras as doces e suaves dádivas de Baco, como se não tivesses nelas
+o bastante? Não te envergonhas de misturar o assassinio e o sangue aos
+seus frutos benéficos? Chamas selvagens e ferozes outros carnivoros, os
+tigres, os liões e as serpentes, enquanto manchas no sangue as tuas mãos
+e em espécie alguma de barberie lhes ficas inferior. E para eles,
+todavia, o assassinio é apenas o meio de se sustentarem; para ti, é uma
+lascivia supérflua. De facto, não são liões e lobos que nós matamos para
+comer como em defeza própria o poderiamos faser--pelo contrário
+deixamo-los incólumes; e entretanto, aos inocentes, aos mansos, aos que
+não tem auxilio nem defesa,--a esses perseguimo-los e matamo-los,
+àqueles que a natureza parecia ter dado vida para sua beleza e graça...
+
+«Nada nos perturba, nem a beleza encantadora das suas formas, nem a
+dorida doçura da sua voz e do seu grito nem a sua inteligencia, nem a
+pureza da sua dieta nem a superioridade do entendimento. Só para ter um
+pedaço da sua carne, privamo-los da luz do sol, da vida para que
+nasceram. Tomamos por inarticulados e inexpressivos os gritos de
+queixume que eles soltam e voam em todas as direcções; quando na
+realidade são instâncias e suplicas e rogos que cada um deles nos dirige
+dizendo:--Não é da verdadeira satisfação das vossas reais necessidades
+que queremos livrar-nos mas da complacente luxuria dos nossos apetites.»
+
+Depois de mostrar com uma nitidez que é uma antecipação da sciencia
+contemporânea como o carnivorismo não pode justificar-se pela anatomia
+do homem, sem dentes nem garras nem boca nem intestinos que tal processo
+de nutrição suponham ou autorizem, Plutarco aponta os subterfugios de
+que nos servimos para consumar o nosso crime contra a natureza. Porque
+não fazes como o lião e o tigre, pergunto, e não arrancas o coração á
+tua vitima? «Nem mesmo depois que foi morta a comerás como veio do
+açougue. Has-de fervê-la, assá-la e inteiramente a transformarás pelo
+fogo e pelos condimentos. Completamente alteras e disfarças o animal
+morto, usando dez mil ervas doces e especiarias, para que o vosso
+paladar seja enganado e se prepare para receber o alimento que não é
+natural. Foi uma admoestação própria e sagaz a do espartano que comprou
+um peixe e o deu ao cozinheiro para o preparar. Quando este lhe pediu
+manteiga e azeite e vinagre, respondeu-lhe:--Se eu tivesse tudo isso não
+tinha comprado o peixe...
+
+«A tal ponto fazemos do sangue uma luxuria que chamamos à carne
+_delicadeza_ e logo reclamamos delicados condimentos para essa mesma
+carne e misturamos azeite e vinho e mel e molhos e vinagre e todas as
+especiarias da Síria e da Arábia, de todo o mundo, como se estivéssemos
+a embalsamar um cadáver humano. Depois que todas estas substâncias
+heterogênias se misturaram e dissolveram e até certo ponto se
+corromperam,[A] cabe sem dúvida ao estômago assimilá-las, se podér. E
+posto que isso possa no momento fazer-se, a sua consequencia natural é a
+variedade de doenças produzidas pelas digestões imperfeitas e pela
+repleição...
+
+«Não é só contra a natureza da nossa constituição física o uso da carne.
+O espírito e a inteligência tornam-se pesados pela supreabundância e
+pela repleição; é possivel que a carne e o vinho tendam a dar robustez
+ao corpo, mas para o espirito trazem sómente fraqueza.
+
+«Além e acima de todas estas razões, não parecerá admirável criar
+hábitos de filantropia? Quem é tão bondoso e gentil para os seres duma
+outra espécie inclinar-se-á algum dia a injuriar o seu próprio gênero?
+Lembro-me de ter ouvido em uma conversação, como dito por Xenócrates,
+que os atenienses impunham penas a quem esfolasse viva uma ovelha.
+Aquele que tortura um ser vivo é um pouco pior, parece-me, do que aquele
+que sem necessidade priva da vida e mata rapidamente. Temos, ao que
+parece, mais clara percepção do que é contrário à propriedade e ao
+custume do que daquilo que é contrario à natureza...»
+
+Com Plutarco, o vegetarismo, ou melhor, a condenação do carnivorismo
+passou a ser nas preocupações morais do homem culto um caso julgado,
+eloquentemente e inabavelmente julgado. Os que se lhe seguiram, e são
+legião de gênios e de santos, nada acrescentaram às razões basilares dos
+seus principios dietéticos, embora brilhantemente os interpretassem e
+devotadamente os praticassem em um apostolado verdadeiramente religioso,
+através de todas as contrariedades e adversidades. Os padres da igreja
+cristã primitiva, quando ela ainda se encontrava em toda a pureza, não
+se esqueceram, como não podiam esquecer-se, de verberar rigidamente as
+crueldades e a insânia do carnivorismo. E os filósofos estranhos ao
+cristianismo e até mesmo os que o combatiam mas que vinham repassados do
+platonismo helênico não foram menos ardentes na flagelação d'aquele
+vicio a todos os respeitos mortal.
+
+Dêstes é notável pela solidez e desenvolvimento da argumentação que
+emparelha a de Plutarco na repulsão do carnivorismo, Porfirio da
+Alexandria, homem extraordinário, discípulo de Plotino. Santo Agostinho
+coloca-o acima de Platão.
+
+Para êsse tambem o vegetarismo era salvação de muita angústia e
+tormento, desde que nem o médico nem o filósofo nem o atleta se atreviam
+a afirmar que a dieta carnivora era melhor para a saúde e para o vigor.
+
+Sendo assim, «porque», dizia, «não nos revoltamos e libertamos duma
+supreabundância de inquietações? Para aquêle que se habitua a
+contentar-se com o menor luxo, será isso a redenção não de uma mas de
+mil inquietações--dos serviços de criados em excesso, duma multidão de
+variados estorvos, dum estado físico de letargia e depressão, dum número
+infinito de doenças severas, da necessidade dos médicos, do incentivo à
+devassidão, de pesadas imaginações, de desordens infinitas e superfluas,
+dos ferros de grosseiros hábitos do corpo, dos excesso de fôrça fisica
+excitando a actos de violência--em suma, duma Ilíada de males. De tudo o
+que o alimento inocente que não rouba a vida e que a todos é fácilmente
+acessível nos liberta, dando paz à alma enquanto oferece ao corpo meios
+de saúde. «Não é dos que comem o grão», diz Diógenes, «que vem as
+guerras e a pirataria; mas é dos que comem carne que vem os tiranos e os
+opressores».
+
+E diz tambêm: «Deixo de insistir no facto de que, se nos pozermos na
+dependencia do argumento da necessidade ou da utilidade (do
+carnivorismo), não podemos deixar de admitir por implicação que nós
+mesmos fomos criados só por causa de certos animais destruidores, como
+os crocodilos, as serpentes e outros monstros, porque não recebemos
+dêles o menor benefício. Pelo contrário, são eles que apanham, destroem
+e devoram os homens que encontram--fazendo o que não procedem de modo
+algum menos cruelmente do que nós. De resto, eles são assim selvagens
+por necessidade e fome; e nós por insolente lascivia e luxuriosos
+prazeres, divertindo-nos, como usamos no circo e nos morticínios da
+caça. Em tais acções fortificamos em nós uma natureza bárbara e brutal
+que torna os homens insensíveis ao sentimento da piedade e compaixão.
+Aquêles que primeiro perpetraram essas iniquidades fatalmente
+entorpeceram a parte mais importante da alma. Por isso é que os
+discípulos de Pitágoras consideram a bondade e a graça com os animais
+inferiores um exercicio de filantropia e graça».
+
+Com Porfirio fecham-se as lições magnificas de vegetarismo que a
+antiguidade nos legou.
+
+Seguem-se-lhe na ordem cronológica as desordens e violências da idade
+média, o desabar dum mundo em grande parte caduco e a anciedade duma
+renovação que sabe mal os seus trâmites e anciosamente os procura. Mas
+nem assim, nem em meio dessas ruinas e tumulto, o vegetarismo será uma
+doutrina morta. Aqui e além sentimos-lhe as palpitações; nas homílias
+dum João Crisóstomo cujos ascetas não conheciam entre si, segundo a
+expressão do Santo, «nem os rios de sangue, nem a matança e nem o cortar
+da carne no açougue, nem cozinhas delicadas, nem o peso da cabeça, nem
+as exalações horríveis dos manjares carnívoros e os fumos desagradáveis
+das cozinhas»; nas comunidades dos cataros perseguidos pela igreja
+católica, que nem mesmo perante o cadafalso se sujeitaram a matar um
+frangão, quando em 1052, em Goslar, eram enforcados; e Deus sabe em
+quantas ermidas, nas quais os revoltados contra a ortodoxia eclesiástica
+que na solidão procuravam refugio das torturas que os ameaçavam,
+guardavam as melhores tradições dos paulicianos e dos albigenses,
+esperando no futuro melhor religião e mais pura moralidade. Pelo que
+toca à superioridade moral dos seus preceitos anti-carnívoros, êsses
+herejes, que assim se chamavam e como tais eram martirizados, até entre
+os seus cruéis inimigos encontraram quem lhes fizesse justiça. S.
+Bernardo foi um dos que condenando os crimes e as imoralidades da
+ortodoxia do seu tempo reconheceu virtude em uma dieta anti-carnívora.
+
+No século XVI entramos na renascença e com ela, reatado o fio da cultura
+antiga, dá signais de vida o senso moral que em tal agudeza sentimos nos
+primeiros tempos do império romano.
+
+Vem o _Compêndio da Vida Sóbria_ do celebre Cornaro que, fraco e
+arruinado aos trinta anos por excessos de gula, consegue prolongar a
+vida além dos cem por uma dieta rigorosa. Vem a _Utopia_ de Tomás Moore,
+a cujo povo modêlo não era permitido acostumar-se a matar os animais
+«pelo uso dos quais julgavam que a clemência, a mais graciosa afeição da
+nossa natureza decaía e morria». E vem finalmente a ressurreição plena
+da filosofia humanitária em Miguel de Montaigne.
+
+Grande leitor de Plutarco, seu legitimo discípulo, Montaigne renova
+brilhantemente as exortações do mestre contra as intoleráveis crueldades
+do carnivorismo.
+
+«Pela sua parte», disse, «nunca foi capaz de vêr sem desgôsto perseguir
+e matar um animal inocente e sem defesa, do qual não haviamos recebido
+mal ou ofensa. Quando um gamo, como vulgarmente acontecia, esfalfado e
+sem fôrças, sem outro recurso, se prostrava e rendia, como se pelas
+lágrimas pedisse misericórdia aos seus algozes, sempre lhe pareceu um
+desagradável espectáculo. Raro ou nunca apanhou vivo um animal que não o
+restituisse á liberdade. Pitágoras tinha o costume de comprar para o
+mesmo fim aos passarinheiros e aos pescadores as suas víctimas. As
+disposições sanguinárias relativamente aos outros animais demonstram uma
+crueldade natural com a nossa própria espécie. Desde que em Roma se
+habituaram ao espectáculo da chacina dos outros animais, passaram à dos
+homens e dos gladiadores. Temia que a natureza tivesse dado certo
+instinto de desumanidade às inclinações humanas. Ninguém tira prazer de
+vêr os outros animais alegres e afagando-se; e ninguém deixa de se
+alegrar vendo-os desmembrados e feitos em pedaços.»
+
+Repetindo o exemplo de Plutarco, Montaigne considera um caso de
+consciência mandar para o matadoiro a vaca que tantos anos nos serviu.
+Com Plutarco e Porfírio aponta os prejuizos sobre as faculdades mentais
+das raças não humanas, insistindo em que a diferença é de grau e não de
+espécie. «Platão» diz, «no seu quadro da Idade d'Oiro conta entre as
+principais vantagens dos homens d'aquêle tempo o comércio que êles
+tinham com os outros animais, investigando, instruindo-se e aprendendo
+as suas verdadeiras qualidades e as diferenças entre nós e êles, pelo
+que adquiriam um perfeitíssimo conhecimento e inteligência e dêste modo
+fizeram as suas vidas mais felizes do que a nossa. Isto digo com o fim
+de nos fazer retroceder e juntar-nos á multidão. Não estamos nem acima
+nem abaixo do resto. «Quantos estão sob o céu» diz o sábio judeu,
+«sofrem igual lei e destino.» Ha certa diferênça, ha ordens e gráus, mas
+acham-se sob o aspecto duma única e igual natureza.»
+
+Depois de Montaigne, é Pedro Gassendi que repete as lições de Plutarco,
+enquanto medita a _Vida e Moral de Epicuro_ que sabiamente traçou,
+encontrando, como este, «o bem supremo, _summum bonum_» no seu pequeno
+jardim. E logo após a sua morte, dentro de poucos anos, nasce Hecquet
+que por sua vez, no seculo XVII vinha acrescentar à Bíblia Vegetariana
+páginas definitivas.
+
+A êsse notável reformador da arte médica parecia «incrível a soma de
+prejuizos que se deixaram trabalhar em favor da carne, quando tantos
+factos se opõem à pretensa necessidade do seu uso». Renova todo o
+argumento fisiológico contra a dieta carnívora e, citando numerosos
+exemplos de homens eminentes e de nações que em todos os tempos a
+condenavam, observa com muito particular e inatacável sagacidade que
+«está provado que não é difícil sustentar sem carne os animais que vivem
+de carne, enquanto é quási impossível alimentar com carne aquêles que
+vivem ordináriamente de substâncias vegetais».
+
+Grande época de moralistas, o seculo XVII não deixaria escapar sem
+reflexão os problemas morais da dieta, e de facto os julgou com a
+severidade que uma sã moral reclama. Onde se insinuarem sentimentos de
+simples justiça, à parte mesmo toda a exaltação religiosa ou qualquer
+frouxa inspiração de poesia, logo a baixeza do carnivorismo será
+apontada e castigada como infração de princípios supremos.
+
+Bernardo de Mandeville, que nasceu em 1670, comenta nestes belos termos
+os hábitos carnívoros que ao tempo deveriam estar em plena expansão
+entre nobres e gente abastada:
+
+«Muitas vezes pensei que, se não fosse pela tirania que o costume exerce
+em nós, os homens duma natureza medianamente boa nunca se reconciliariam
+com a acção de matarem tantos animais para seu sustento quotidiano,
+enquanto a liberalidade da terra tão abundantemente lhes faculta as
+delicadas variedades de vegetais. Sei que a razão nos provoca a
+compaixão mas frouxamente, e por isso não me admira que os homens sejam
+tão desapiedados com criaturas imperfeitas como o caranguejo, a ostra, a
+ameijoa e, em geral, todo o peixe, porque são mudas e o seu intimo e a
+sua configuração externa largamente diferem de nós. Para nós,
+exprimem-se ininteligivelmente, e por conseguinte não é de estranhar que
+a sua dôr não afecte o nosso entendimento que ela não alcança; pois
+coisa alguma nos move mais seguramente à piedade do que os sintomas de
+miséria que ferem imediatamente os nossos sentidos. Encontrei
+comovendo-se com o rumor que uma lagosta faz quando a espetam gente que
+com prazer mataria meia dúzia de aves.
+
+«Animais perfeitos como as ovelhas e os bois, nos quais o coração, o
+cérebro, e os nervos diferem tão pouco dos nossos, e a separação do
+sangue e do espírito, os órgãos dos sentidos, e por consequência o
+próprio sentimento, são os mesmos que são em criaturas humanas, não
+posso imaginar como um homem que não esteja endurecido no massacre e no
+sangue póde vêr indiferente a sua morte e as agonias em que ela se
+consuma.
+
+«Em resposta a isso, a maior parte das pessoas julgarão suficiente dizer
+que, tendo sido feitas as _coisas_ para utilidade do homem, não póde
+haver crueldade em dar às criaturas o uso para que foram designadas. Mas
+tenho ouvido esta réplica, enquanto a natureza íntima de quem a deduz
+lhe acusa a falsidade da asserção.
+
+«Se não foi criado num açougue, não haverá numa multidão um homem entre
+dez que por sua vontade escolhesse entre todas as profissões a de
+magarefe; e pergunto se sequer alguém matou pela primeira vez sem
+relutância uma galinha.
+
+«Alguns não podem resolver-se a provar de quaisquer criaturas que tenham
+visto todos os dias e que conhessem quando estavam vivas. Outros não
+levam os escrúpulos alêm daquelas criaturas que viram todos os dias e
+conheceram enquanto vivas e lhes pertenciam. Outros limitam esses
+escrúpulos ás suas próprias aves, e recusam-se a comer daquelas que
+sustentaram e cuidaram. Todavia, todos se alimentam, sem remorsos e de
+coração leve, de carne de caça, de carneiro e de aves quando foi
+comprada no mercado. Neste procedimento, imagino, transparece qualquer
+coisa como a _consciência da culpa_; parece que se esforçam por se
+salvarem da imputação dum crime (cujas ligações percebem) afastando de
+si quanto possivel a respectiva causa. E nisso descubro vivos sinais da
+primitiva piedade e inocência, que o poder arbitrário do costume e a
+violência da luxúria ainda não foram capazes de conquistar.»
+
+Por êste mesmo tempo de Bernardo de Mandeville, no período tão fecundo
+de renovação religiosa e filosófica que vai do meiado do século XVII ao
+meiado do século XVIII, o respeito da vida dos animais inferiores
+encontrou invariavelmente defensores convictos nos melhores espíritos da
+época. Wesley foi um dêsses e Pope, o célebre poeta inglez, recordando
+lições do «excelente Plutarco» que, dizia, «tinha mais impulsos de boa
+natureza nos seus escritos do que qualquer outro autor de que se
+lembrasse», repete-lhe os conselhos analisando e condenando os costumes
+sanguinários de então que, como hoje, passavam para o maior número por
+admirável destreza física e modos sãos e legítimos de existência moral e
+fisiológica.
+
+«Não posso imaginar extravagante», escreveu Pope, «que o género humano
+seja, relativamente, menos responsável pelo mau uso do seu domínio sôbre
+as camadas inferiores dos seres do que o é pelo exercicio da tirania
+sôbre a sua própria espécie. Quanto mais completamente a criação
+inferior se encontra submetida à nossa fôrça mais responsáveis deveremos
+ficar pelo seu máu govêrno; por maioria de razão se deve considerar esta
+responsabilidade, visto que a própria natureza dos animais inferiores os
+torna incapazes de receberem em outro mundo qualquer recompensa dos máus
+tratos que sofrerem nêste. É de notar que os animais nocivos, com mais
+poderosas qualidades para nos fazerem mal, evitam naturalmente os homens
+e nunca nos ofendem senão provocados ou coagidos pela fome... Não parece
+fácil defender meramente por _sport_ a destruição de qualquer coisa que
+tenha vida. Todavia as crianças são educadas nesta ideia e um dos
+primeiros prazeres é a licença de infligir penas a animais sem defeza.
+Mal nos tornamos sensiveis ao que a vida é para nós, fazemos um
+passatempo de a roubarmos aos outros... Quando crescemos e nos fazemos
+homens, temos outra série de passatempos sanguinários, particularmente a
+caça. Não ouso atacar um divertimento que tem a sustentá-lo tal
+autoridade e costume; mas consintam-me que tenha a opinião de que a
+agitação daquêle exercício, com o exemplo e o número dos caçadores,
+contribue não pouco para resistir áqueles impulsos que a compaixão
+naturalmente sugere a favor dos animais perseguidos.»
+
+«Mas se os nossos _sports_ são destruidores, muito mais o é a nossa gula
+e duma fórma muito mais desumana. As lagostas assadas vivas, os porcos
+fustigados até à morte, as aves amanhadas, são testemunho da nossa
+luxúria. Aquêles que, na frase de Sêneca, repartem a vida entre uma
+consciência ambiciosa e um estômago enauseado, teem a justa recompensa
+da sua gula nas doenças que ela acarreta. Porque os selvagens humanos,
+como os outros animais bravios, encontram ratoeiras e venenos nas
+provisões da vida e enganados pelo apetite correm à propria destruição.
+Não conheço nada mais repelente do que o aspecto duma das suas cozinhas
+coberta de sangue onde se ouvem os gritos dos seres que expiram em
+torturas. Dá-nos a imagem da caverna dum gigante nos romances, juncada
+de cabeças dispersas e membros lacerados daquêles que a sua crueldade
+chacinou.»
+
+Com tão bons guias, chegaremos ao humanismo do século XVIII que Rousseau
+e Voltaire consubstanciaram maravilhosamente.
+
+Voltaire, no _Dicionário filosófico_, discorrendo sôbre a palavra carne,
+escreveu:
+
+«Sabe-se que Pitágoras, que estudou com os brahmanes a geometria e a
+moral, adoptou a sua doutrina humana e trouxe-a para a Itália. Muito
+tempo a seguiram os seus discipulos: os célebres filósophos Plotino,
+Jâmblico e Porfírio, recomendaram-na e até mesmo a praticaram, posto que
+seja muito raro fazer aquilo que prégamos. A obra de Porfírio sôbre a
+abstinência de carnes animais, escrita pelo meiado do nosso terceiro
+século, é muito estimada dos eruditos mas não fez mais discípulos entre
+nós que o livro do médico Hecquet. É em vão que Profírio propõe para
+modelos os brahmanes e os magos persas de primeira classe que tinham
+horror ao costume de engolfar nas suas entranhas as entranhas das suas
+criaturas. Não é seguido hoje senão pelos padres da Trapa. O escrito de
+Porfírio é dirigido a um dos seus discípulos, Firmus, que, diz-se, se
+fez cristão para ter a liberdade de comer carne e de beber vinho.
+Adverte a Firmus que abstendo-nos da carne e dos licores fortes
+conservamos a saúde da alma e do corpo, vivemos mais tempo e com mais
+inocência. Todas estas reflexões são dum teólogo escrupuloso, dum
+filósofo rígido e duma alma doce e sensível. Julgariamos ao lê-lo que
+êste grande inimigo da Igreja é um padre da Igreja. Considera os animais
+como nossos irmãos porque são animados como nós, porque teem os mesmos
+princípios de vida, porque teem, assim como nós, ideias, sentimento,
+memória, engenho. Só lhes falta a palavra. Se a tivessem, ousaríamos
+matá-los e comê-los? Ousaríamos cometer fratricídios? Qual é o bárbaro
+que poderia assar um cordeiro, se êsse cordeiro nos conjurasse por um
+discurso comovedor a que não fôssemos ao mesmo tempo assassinos e
+antropófagos? Este livro prova pelo menos que entre os gentílicos houve
+filósofos da mais austera virtude; mas não conseguiram prevalecer contra
+os magarefes e os glutões. A gula, o jôgo e a preguiça baniram do mundo
+toda a virtude.»
+
+Ao mesmo tempo que Voltaire, Rousseau fazia suas as ideias de Plutarco
+sôbre o regime alimentar; e proclamando-as com a violência habitual do
+seu carácter, com aquela mesma impetuosidade que incansavelmente
+empregou em fustigar a depravação do seu tempo e em incitar a uma
+regressão salutar ao contacto e à simplicidade da natureza, inscreveu o
+vegetarismo entre os artigos da nova fé. Sobretudo na educação da
+criança quer que rigorosamente o vegetarismo prevaleça porque uma das
+provas de que o sabor da carne não é natural ao homem é a indiferença
+das crianças por este gênero de alimento e a preferência que elas dão
+aos alimentos vegetais como as sopas, as massas, os frutos, etc.[B] É de
+suprema importância que não se lhes desnature o gôsto primitivo e não se
+tornem carnívoras, senão por motivos de saúde, pelo menos por causa do
+carácter. Porque, seja qual fôr a explicação da experiência, é certo que
+os grandes comedores de carne são, em geral mais cruéis e ferozes do que
+os outros homens. Esta observação é verdadeira em todos os lugares e em
+todos os tempos. É bem conhecida a grosseria inglesa. Os gauros, pelo
+contrário, são os mais gentis dos homens. Todos os selvagens são crueis,
+e não é a sua moral que os leva a isso; a sua crueldade provém do seu
+alimento. Vão para a guerra como para a caça e tratam os homens como
+tratam os ursos. Mesmo na Inglaterra os magarefes não são admitidos como
+testemunhas legais, assim como os cirurgiões. Os grandes criminosos
+endurecem-se para o assassinio bebendo sangue. Homero representa os
+ciclopes, que eram carnívoros, como homens terríveis, e os lotófagos
+como um povo tão doce que mal alguém tinha comércio com êle, logo
+esquecia tudo e a sua pátria para viver com êle... Já se viu alguém
+aborrecer o pão e a água? Veja-se o cunho da Natureza! Veja-se aí pois
+uma regra de vida. Conservemos na criança pelo mais largo tempo possível
+o seu gôsto primitivo; deixemos que o seu alimento seja simples e
+vulgar; façamos que o seu paladar sómente se familiarize com os aromas
+naturais e que não se forme gôsto algum exclusivo... Algumas vezes
+observei a gente que dá importância a _viver bem_, que pensa, mal
+acorda, no que ha-de comer durante o dia e descreve um jantar com mais
+exactidão do que Políbio usa na descripção duma batalha. Pensei que
+todos esses chamados homens eram apenas crianças de quarenta anos, sem
+vigor e sem consistência. A gula é o vício das almas que não teem fundo.
+A alma do glutão está no seu paladar. Veio ao mundo para devorar. Na sua
+estúpida incapacidade, só à mesa está à vontade. A sua capacidade de
+julgar limita-se às suas iguarias.»
+
+Um Shelley, um Lamartine, um Michelet ou um Gleizès tiveram na verdade
+bem desbravado o terreno para deixarem voar livres os seus sonhos duma
+nova existência toda de pureza que aborrecesse a carnificina e o sangue
+onde quer que os encontrasse, na floresta, no lar ou no campo da
+batalha, e sómente alimentasse o corpo e a alma nos inocentes e
+perfumados frutos da terra. O desenvolvimento do vegetarismo no século
+XIX, a discussão e consolidação da sua doutrina e o derramamento da sua
+prática, não serão já a aspiração de gênios privilegiados mas o
+patrimônio comum de milhares e milhares de espíritos esclarecidos e de
+corações exaltados em amor. Convinha que assim acontecesse, desde que
+uma vaga de libertação da humanidade, sem precedentes na história, nos
+punha deante de Deus, da natureza e do dever desprendidos de todo o
+estôrvo da opressão do costume e das tiranias sectárias. Mas não será em
+vão que os mais bem inspirados combatem pelo advento do novo reino. A
+liberdade de proceder não significa o domínio e a supressão da ruindade.
+O que nesse campo havia e ha a conquistar e é o legado funesto de
+gerações sôbre gerações de crueldade, é infinito. O que se conquistou é
+minimo relativamente ao que importa conquistar.
+
+Por isso um homem como Wagner descerá do altíssimo pedestal a que o
+próprio talento e a fama o ergueram e virá com os mais humildes exortar
+os infieis e os ignorantes a iniciarem a sua redenção no vegetarismo.
+
+Lichtenberger, no seu excelente estudo de Ricardo Wagner como poeta e
+pensador, expõe-nos nestes termos as ideias daquêle soberbo gênio sôbre
+o vegetarismo, particularmente sôbre a importância que ele lhe atribuia
+na regeneração física e moral das sociedades humanas.
+
+A citação será longa mas convém que se faça, é indispensável, aponta
+dados primaciais do problema:
+
+«Se consideramos primeiro a evolução humana como fenômeno fisiológico,
+verificamos, segundo Wagner, que duas causas trouxeram a degeneração da
+raça branca: a má alimentação, que do homem primitivamente frugívoro fez
+um carnívoro, e a mistura das raças que profundamente alterou o
+temperamento primitivo e as virtudes hereditárias dos antigos arias.
+Estas duas causas tem por efeito uma alteração do próprio sangue entre
+os povos modernos e em particular no povo alemão, alteração que deve ser
+considerada como a razão fisiológica, como o princípio inicial da
+corrupção profunda que hoje aparece no seio das nações europeias.
+
+«O homem natural, inocente e feliz, de que Wagner traçara outrora a
+imagem ideal no seu moço Siegfredo, não mais se concebe agora (nesta
+época da sua vida) sob as linhas do germânico belo e vigoroso, sempre
+pronto para a guerra e para as aventuras, belicoso pelo prazer de medir
+suas fôrças com os rivais, e inacessivel ao temor. É agora o índio dos
+tempos primitivos, o índio morigerado e reflectido por uma religião de
+suavidade: «Uma natureza generosa lhe oferecia o que era necessário para
+satisfazer as necessidades da vida; a vida contemplativa, a meditação
+séria podia levar estes homens, livres de todo o cuidado da sua
+sustentação, a reflectirem profundamente sobre a natureza deste mundo
+onde, como a experiência passada lhes havia mostrado, reinava a
+indigência, o cuidado, a dura necessidade do trabalho e mesmo da luta e
+do combate para a posse dos bens materiais. Ao brahmane, possuído do
+sentimento de ter em certo modo entrado em uma vida nova, o guerreiro
+parecia-lhe necessário como guarda da segurança exterior e por esta
+razão tambêm digno de piedade; o caçador, pelo contrário inspirava-lhe
+um horror profundo e o carrasco dos animais domésticos parecia-lhe
+inconcebível». Estes homens de costumes tão doces sabiam todavia dar
+provas duma fôrça dalma sem igual, quando disso era ensejo próprio:
+nenhuma tortura, nenhuma promessa pôde jámais obriga-los a renunciarem á
+sua fé religiosa; e Wagner cita com admiração a história comovente de
+tres milhões de indios que, por ocasião duma fome causada pelos
+especuladores ingleses, preferiram morrer de fome a tocar nos seus
+animais domésticos. Mas o homem primitivo, vegetariano e manso, que
+recusa derramar o sangue dos seus semelhantes e o dos seus irmãos
+inferiores, os animais, degenera pouco a pouco sob a pressão das
+circunstâncias exteriores. Transportado, no correr das emigrações, para
+climas menos clementes, torna-se caçador e carnívoro, para escapar á
+fome; aprende a alimentar-se com a carne dos animais domésticos. Desde
+os primeiros tempos da história, vemo-lo transformar-se assim em um
+animal de prêsa ávido de sangue e por fim deleitando-se em matar, não só
+para satisfazer a fome mas pelo prazer de matar. Este animal de prêsa
+conquista vastas províncias, subjuga raças frugivoras, funda por guerras
+sucessivas grandes impérios, dita leis e cria civilizações para gozar em
+paz da sua rapina, Hoje é mais perigoso e mais sanguinário do que nunca;
+aperfeiçoou dum modo terrível os engenhos de destruição, exgota-se em
+armamentos estéreis e vive num estado de _paz armada_ periodicamente
+interrompida por carnificinas medonhas. Depois, ao lado do homem de
+prêsa militar desenvolveu-se no correr dos séculos o homem de prêsa
+especulador, tão de temer e tão mortífero posto que menos bravo do que o
+primeiro, e cuja acção devastadora se exerce sem interrupção sobre a
+massa do povo que êle votou á miseria e à ruina. Mas se o homem de prêsa
+domina o mundo como a fera reina na floresta, é como ela degenerado: «Do
+mesmo modo que o animal de prêsa não prospera, diz Wagner, do mesmo modo
+vemos o homem de prêsa vitorioso finar-se lentamente. Por causa do
+alimento contra a natureza que êle usa, é vítima das doenças que só nêle
+aparecem, e nunca alcança nem o termo normal dos seus dias nem uma morte
+doce: sob o aguilhão de sofrimentos e de torturas que só êle conhece e
+que lhe ferem o corpo como a alma, apressa-se através duma vida de
+agitações vãs, para um fim sempre terrível».
+
+«Mas do mesmo modo que o homem primitivo, colocado em circunstâncias
+desfavoráveis, teve de trocar a alimentação vegetal pela alimentação
+animal, do mesmo modo poderá, quando tiver consciência da sua miseria e
+souber reconhecer como seus todos os sofrimentos dos homens e dos
+animais, voltar por um esforço de vontade a uma alimentação
+exclusivamente vegetal. Só por tal preço póde esperar a regeneração.
+Assim não se deixará desanimar nesta empresa por nenhuma dificuldade de
+ordem prática. Wagner considera como uma verdade experimental
+demonstrada que o homem pode amoldar-se a um regime vegetariano em todas
+as latitudes. Mas não hesita em declarar que no caso em que se
+reconhecesse a necessidade duma alimentação animal nos climas do norte,
+as raças superiores deveriam emigrar sistematicamente para regiões mais
+favorecidas do sol. Desde já considera como instituições de salvação as
+ligas de vegetarianos, as associações para a protecção dos animais e as
+associações de temperança que procuram libertar o homem da tirania
+medonha do álcool. Quando estas associações fracas, desprezadas e hoje
+um pouco ridículas, tiverem mais inteira consciência do fim sublime que
+teem em vista e se apresentarem ao público não como modestos apóstolos
+dum mediocre pensamento utilitário mas como os missionarios da doutrina
+da regeneração, poderão tornar-se os instrumentos eficazes da redempção
+do mundo moderno.»
+
+Eis aí o que Wagner pensava do vegetarismo, da alta missão social que
+lhe está guardada e da influência fundamental que tem na moralidade das
+raças. E pronunciando o seu nome desnecessário se torne lembrar em que
+assombrosas faculdades esta doutrina encontrou protecção e impenetrável
+escudo.
+
+Acrescentemos ainda a essa voz de excepcional poder mais um depoimento.
+É o de E. Réclus.
+
+O seu talento, o seu saber, os seus infinitos conhecimentos da terra e
+dos homens as suas virtudes morais, a sua sinceridade, a sua inteireza e
+a sua coragem que ele sujeitou às mais crueis provações e que de todas
+sairam vitoriosas, a sua própria experiência do vegetarismo que praticou
+durante mais de sessenta anos consecutivos e que não o impediu de morrer
+com mais de oitenta duma vida de trabalho infatigável e de ardente
+apostolodo, todas estas e muitas outras circunstâncias congêneres lhe
+dão um lugar privilegiado que convém respeitar, não por sua glória que
+do nosso humilde respeito não carece, mas por nosso interesse que do seu
+conselho não póde prescindir.
+
+«Não era químico nem doutor», confessa, «não mencionará nem o azote nem
+a albumina, nem reproduzirá as fórmulas dos analistas mas contentar-se-á
+simplesmente dizendo as suas impressões pessoais que de resto coincidem
+com as de muitos vegetarianos.» Foi virtualmente um vegetariano desde
+criança. Uma pessoa de familia mandou-o um dia ao açougue buscar um
+pedaço de carne, e perante os horrores que lá viu, desmaiou. Ouvia que o
+dono do talho o trouxera a casa sem sentidos. Foi esse o seu baptismo
+vegetariano. Não o aprendeu nas academias, nos hospitais ou nos
+laboratórios. Nasceu-lhe no coração.
+
+«Cada um de nós», diz Réclus, «especialmente aquêles que viveram em um
+canto da província, muito longe das cidades vulgares ordinárias, onde
+todas as coisas estão metodicamente classificadas e disfarçadas,--cada
+um de nós tem visto alguma coisa dessas barbaridades cometidas pelos que
+comem carne contra os animais que êles comem. Não ha necessidade de ir a
+nenhuma Porcopolis da América do Norte ou a uma _saladera_ de La Plata,
+para contemplar os horrores dos massacres que constituem a condição
+primária do nosso alimento quotidiano. Mas estas impressões gastam-se
+com o tempo; cedem perante a perniciosa influência da nossa educação de
+todos os dias, que tende a arrastar o indivíduo para a mediocridade, e o
+despoja de quanto concorra para o tornar uma personalidade original.
+Pais, mestres, por oficio ou por amizade, doutôres, para não falar desta
+poderosa individualidade que chamamos _toda a gente_, todos trabalham
+juntos para endurecerem o carácter da criança com respeito a êste
+«alimento de quatro pés» que, todavia, ama como nós amamos, sente como
+nós sentimos, e sob a nossa influência progride ou retrocede como nós...
+Não é uma digressão mencionar os horrores da guerra em conjunção com o
+massacre dos gados e os banquetes carnívoros. A dieta dos indivíduos
+corresponde exactamente aos seus modos. O sangue pede sangue. Nêste
+ponto, quem rememorar as suas lembranças daquêles que tem conhecido,
+encontrará que não póde haver dúvida possível quanto ao contraste que
+existe entre os vegetarianos e os grosseiros comedores de carne--ávidos
+bebedores de sangue--na amenidade dos seus modos, na gentileza de
+disposição e regularidade de vida. É certo que estas qualidades não são
+muito apreciadas daquelas _pessoas superiores_ que, não sendo de fórma
+alguma melhores que os outros mortais, são sempre mais arrogantes e
+imaginam que acrescentam a sua importância depreciando os humildes e
+exaltando os fortes. Para elas, doçura significa fraqueza: os doentes
+são um tropêço, e seria caridade varrêl-os do caminho. Se não forem
+mortos, deve-se pelo menos deixar que morram. Mas é justamente esta
+gente delicada que resiste á doença melhor do que os robustos...
+
+«Seja porém como fôr, apenas digo que para a grande maioria dos
+vegetarianos a questão não é se os seus biceps e triceps são mais
+sólidos do que os daquêles que comem carne, nem se o seu organismo está
+mais apto a resistir aos riscos da vida e às contingências da morte, não
+é isso o mais importante; para eles o ponto importante é o
+reconhecimento dos laços de afeição e bôa vontade que unem o homem aos
+chamados animais inferiores e a ampliação até êsses nossos irmãos do
+sentimento que já pôz termo ao canibalismo êntre os homens... O cavalo e
+a vaca, o coelho e o gato, o gamo e a lebre, o feisão e a cotovia,
+são-nos mais agradáveis como amigos do que como comida. Queremos
+conservá-los ou como respeitados companheiros de trabalho ou
+simplesmente como companheiros na alegria da vida e na amizade.»
+
+E, chegado a êste ponto, seja-me permitido prescindir das restantes
+testemunhas que são ainda dezenas e dezenas dos que deixaram o rasto
+marcado na história da civilização. Prescindo de depoimentos preciosos,
+prescindo, por agora, da sanção do vegetarismo pela autoridade de
+individualidades tão altas como, por exemplo, Leão Tolstoi, para o qual
+o vegetarismo é o _primeiro passo_, ou como êsse outro proféta de
+alêm-mar, Henrique David Thoreau que julgava «um benfeitor da sua raça»
+aquêle que ensinasse os homens a limitarem-se a uma dieta mais inocente
+e salutar do que aquela miserável de degolar cordeiros». Não ignoro que
+riquezas de elucidação e de exemplo deixo de usar, nem o faço sem mágoa.
+O meu desejo e o interesse da causa a que tão sinceramente consagro os
+meus pobres esforços, seria repetir linha a linha e gravar na memória
+dos que me escutam esse admirável breviário de Howard Williams que tem
+por titulo _A Etica da Dieta_ e ao qual fui beber a maior parte de
+aquilo que aqui reuni e coligi. Mas o que deixo apontado será por
+ventura o bastante para a demonstração da tése que me propus defender; e
+a necessidade de concluir este primeiro ponto das minhas considerações
+não permite que mais me alongue na apresentação dos documentos em que se
+fundam.
+
+
+II
+
+Disse que o vegetarismo tem os seus pergaminhos, que possue títulos
+autênticos de nobreza. Provam-no os documentos que apresentei. A
+história da civilisação registou-lhe a antiguidade; e as virtudes e os
+merecimentos dos homens eminentes que o serviram pela palavra e pelo
+exemplo são garantia da sua excelência.
+
+_Quid inde?_ Com que direitos e por que trâmites se criou essa nobreza e
+por que razões ha-de persistir em nossos dias?
+
+Consideremos por um instante os momentos em que a defesa e a prática do
+vegetarismo se mostraram mais calorosas, mais acentuadas nas afirmações
+e mais disseminadas na acção. Imediatamente se nos revelará o seu
+carácter e a sua influência na moralidade das raças.
+
+Aparece-nos primeiro o vegetarismo, claramente definido e apregoado como
+mandamento essencial de bem viver, na escola de Pitágoras, na aurora do
+helenismo, quando ele começou a ter consciencia dos seus destinos e a
+meditar lucidamente nas responsabilidades do homem perante a vida
+universal.
+
+Renova-se seis séculos mais tarde com Plutarco, quando uma pausa nas
+disputas do mundo sucedendo à amálgama de diferentes raças e
+diversíssimas aspirações religiosas em uma só e nova civilização
+permitiu aos homens que interrogassem o seu íntimo e conhecessem o que
+queriam da terra e o que lhe deviam, que fins e obrigações os
+encaminhavam e prendiam.
+
+Pouco depois encontramo-lo em Alexandria onde Porfírio e a pléiade de
+filósofos que naquelas terras meditava a experiência de quasi dez
+séculos de vida social intensa investigavam as consequências que de aí
+derivavam para a compreenção d'este pequenino ser que é o homem.
+
+Escurece-se na pulverização do império romano, enquanto o tumulto das
+guerras e a poeira do desabar de ruinas não consentiam parança em que os
+problemas morais da nossa vida se traçassem e solvessem. Mas logo a
+breve trecho eis renascido com Montaigne o vegetarismo em toda a sua
+pureza e formosura porque se reatava o fio perdido e quebrado da cultura
+antiga. Acaricia-o em seguida o humanismo do seculo XVIII, até que no
+seculo XIX lhe abrem de par a par as portas da cidade e porventura lhe
+dão ingresso no templo os mais venerandos levitas da redenção humana.
+
+Isto é--sempre que as sociedades europeias poderam pelo gráu de cultura
+que atingiam ouvir a voz da consciência moral e prestar obediência aos
+seus ditames, o vegetarismo surge e impõe-se como uma lei a que não é
+permitido esquivar-nos, sob pena de ignominiosa traição do dever e de
+crueis remorsos. Não é outra a lição da história sôbre esta doutrina,
+nem outra póde ser a interpretação das vicissitudes por que tem do
+passado, dos entusiasmos que despertou, e dos ódios que o perseguirem e
+da irrepressível expansão que em nossos dias o propaga. É um fenômeno da
+consciência moral, invariavelmente presente onde quer que a consciência
+moral assista, seu filho e servo. Não é um devaneio filosófico, questão
+de sistema ou de lógica, é um acto de religião.
+
+Por isso teve e tem inimigos, porque não póde dominar sem offender
+crenças arreigadas e potestades criadas, sem sobretudo escandalizar esse
+«poder arbitrário do costume e a violência da luxúria» de que falou
+Bernardo do Mandeville e que encontram na fé vegetariana como uma
+acusação dos seus crimes e uma ameaça de abolição contra as quais se
+revoltam.
+
+Singular coincidência! Os apóstolos do vegetarismo não mereceram em
+regra as boas graças dos poderes politicos constituídos. São aborrecidos
+de todos os despotismos. Sendo o vegetarismo uma doutrina de amor,
+porventura é odiada de toda a opressão e egoismo. O certo é que os
+discípulos de Pitágoras foram perseguidos; Ovídio foi desterrado e
+Sêneca foi condenado à morte e os cataros sofreram da igreja católica as
+mais bárbaras crueldades.
+
+Na verdade, significa uma profunda revolução moral com todas as
+consequências sociais que necessáriamente importa. Como tal o devem
+considerar os que o seguirem, armando-se com a coragem indispensável
+para afrontarem todas as penas e riscos d'uma revolução. Se os nossos
+tempos não toleram martírios, nem por isso pódem prescindir de
+tenacidade e firmeza d'animo onde uma grande aspiração se proposer
+conquistar o seu lugar no mundo.
+
+A tarefa será tanto mais árdua quanto é certo que o vegetarismo se vê
+enleiado e combatido por tradições terríveis.
+
+Toda a nossa civilização é filha da civilização romana. Dela viemos e na
+realidade nela nos mantemos; quanto julgamos progresso não é mais do que
+o natural desenvolvimento das bases em que ela se fundou. A nossa
+estrutura mental como a nossa estrutura econômica, como, sobretudo os
+nossos problemas sociais, tudo é a repetição e a ampliação em volume e
+complexidade do que o romano sentiu, criou e nos legou.
+
+Ora, não nos iludâmos; não há talvez pior inimigo do vegetarismo do que
+a cultura latina. Compare-se a civilização latina com as civilizações
+orientais e a superioridade moral destas últimas imediatamente se nos
+mostra com evidência. A intemperança, a gula e a crueldade foram vícios
+caraterísticos do mundo romano, que na escala dos valores morais o
+deixaram inferior, não já à puresa do budismo, que com êsse o confronto
+é inadmíssivel sôb êste aspecto, mas até mesmo à sobriedade e
+frugalidade do grego, de cuja civilização descendia em linha recta. Aos
+banquetes de Luculo correspondiam as atrocidades do circo, tal qual como
+agora a uma hecatombe de vitelas e aves corresponde a embriaguez das
+touradas. Por todos os lados corre igualmente a jorros o sangue inocente
+dos mansos animais e nêles se deleitam o nosso ventre, o paladar e os
+olhos. Parece que há mais de vinte e cinco séculos a nossa raça vive sôb
+um anátema irrevogável de crueldade, tanto mais pungente quanto é clara
+a consciência da maldição que nos atormenta.
+
+Catão, o Censor, diz-nos como orgulhoso do feito que, quando foi cônsul,
+deixou na Espanha o seu cavalo de guerra para aliviar o tesouro público
+dêsse encargo. E Plutarco, referindo o facto, acrescenta:--«Se tais
+coisas são exemplos de grandeza ou de mesquinhez de alma, o leitor que o
+julgue.»
+
+São exemplos de mesquinhez; sentia-o o historiador tão bem como nós o
+sentíamos. Mas a enfermidade persiste e até hoje não podemos vencê-la e
+sob o seu deprimente influxo nos arrastamos. O catonismo tornou-se senão
+um título pejorativo, pelo menos um estigma de desumanidade. Mas nem por
+isso condenando-o em palavras, banimos o catonismo dos nossos corações e
+deixamos de sacrificar á sua desapiedade soberba tanto os homens nossos
+irmãos como os animais a que as demências da nossa vaidade passaram
+diploma de inferioridade.
+
+Dobramos o cabo das Tormentas, escravizámos o índio, e ameaçando a
+terra, o mar e o mundo, tudo calcámos victoriosos e em nossos triunfos
+nos glorificámos. Se porém me fosse dado escolher entre a sorte do
+vencedor e a do vencido, diria, com pena de incorrêr em acusação de
+traição ao amor da pátria, que a todas as nossas glórias, que são
+muitas, sem embargo, e brilhantes, eu preferiria que como na Índia do
+seculo XVIII, trez milhões de portuguezes tivessem a coragem, que o
+índio teve, de preferirem morrer de fome a matar os animais seus
+companheiros e seus servos e amigos.
+
+Não sei de maior grandeza na história. Não sei de exemplo de mais
+sublimada moralidade duma raça, de mais grandiosa, perfeita e absoluta
+imolação ao amor, a este amor que é a essência da vida, a razão de ser
+da nossa existência, o padrão único por que se póde aferir a grandeza
+humana, «o comêço de todo o pensamento digno d'este nome» na feliz
+expressão de Carlyle.
+
+Heroísmo por heroísmo, o d'esses vencidos que maltratámos, foi
+infinitamente superior às façanhas militares de que tanto nos
+orgulhamos.
+
+
+III
+
+Se porêm o vegetarismo fôsse incapaz de captivar os homens de
+inteligência lúcida e coração recto só pelo seu valor moral absoluto,
+pelo que representa como signal da mais alta concepção moral das
+relações do homem com o universo e particularmente com os seres vivos
+que nos cercam, não poderia deixar de persuadir os mais rebeldes pela
+sua influência directa, imediata, como mecânica, na dissipação de
+flagêlo que presentemente é o maior e mais terrível dissolvente da
+moralidade das raças--o alcoolismo.
+
+Não é êste o ensejo de nos ocuparmos de semelhante calamidade para
+afastar a qual todo o esfôrço será pouco. Mas ninguém d'olhos abertos e
+medianamente preocupado com a vida das sociedades e a sua fortuna poderá
+deixar de reconhecer com J. Reinach que, «se a questão do alcoolismo não
+é toda a questão social, é a mais terrível e a mais grave das questões
+sociais.»
+
+O que a êsse respeito se passa em o nosso país, não o sei eu. Suponho
+que será tremendo, a julgar por aquilo que casualmente encontro a cada
+passo na vida quotidiana, pelo que vejo nas ruas e em todos os
+ajuntamentos dos dias de descanso, pelo que se ouve nos tribunais onde
+quási não há crime de violência contra as pessôas que não seja cometido
+sob a acção próxima ou remota do álcool, pelo movimento dos hospitais
+onde sob inumeráveis fórmas essa desgraça vai pedir socorro e o mais das
+vezes acabar.
+
+Não o sei. As estatísticas do nosso país são menos do que incompletas ou
+deficientes a tal respeito; são nada. Parece que tememos saber toda a
+verdade e preferímos afundar-nos em cegueira total e em criminosa
+indiferença, embora o exemplo dos demais países nos assegure que não é
+assim que cada um cumpre o que deve à pátria, à humanidade e à
+consciência.
+
+Mas conheço um pouco e de verdade certa o que se passa imediatamente em
+volta de mim, no lugar que habito, e isso basta para me aterrar
+infundindo-me no espírito as mais lugubres preocupações sobre o futuro
+da nossa raça.
+
+Pelas estatísticas municipais corrigidas por quem por longa experiência
+conhece o movimento dos impostos, Aveiro com os seus 10:000 habitantes
+deverá ter consumido em 1911 (numeros redondos):
+
+1.041:000 litros de vinho comum.
+
+7:500 litros de vinhos licorosos.
+
+11:000 litros de agua-ardente.
+
+Isto equivaleria na mais benigna hipótese a uma despeza de 50 contos de
+reis e a um consumo de álcool puro de 7,5 litros por habitante, pelo
+menos. Se nos lembrarmos da soma de mulheres e crianças que se acha
+incluída nos 10:000 habitantes do total da população da cidade,
+poderemos fazer uma vaga ideia das percentagens extremas que deve
+atingir o consumo para os consumidores efectivos e tambêm da
+precipitação de decadência física, moral e econômica que está minando a
+raça.
+
+Ora eu não posso crêr que Aveiro seja um lugar de maldição no país. Pelo
+contrário, inclino-me antes a pensar que será uma das terras do país
+menos desmoralizadas não só neste ponto mas em absoluto. E sendo assim,
+como tudo leva a crer, poderemos bem imaginar por este minúsculo exemplo
+em que inferno estamos vivendo, a que penas estamos sujeitando os nossos
+filhos e o futuro da nossa pátria, que tremendas responsabilidades de
+ignomínia e de traição não estamos tomando perante a história, porque
+outra traição mais infame eu não conheço do que aquela que resulta no
+aviltamento físico e moral dos nossos filhos.
+
+Salvação, se a póde haver, e sem dúvida a haverá porque assim o teem
+demonstrado os países mais adeantados do que o nosso que conscientes do
+mal não descansam em lhe acudir com todos os preservativos e remédios
+que a experiência lhes vai aconselhando, a salvação terá de começar pela
+propagação do regime vegetariano que em semelhante missão, sem se
+degradar e antes acrescendo as virtudes, passará d'um dever moral
+imprescindível a uma utilidade social de primeira grandeza.
+
+«Basta a questão do álcool para que o problema da dieta seja digno da
+atenção de todos os homens que amem a pátria», escreveu Russel no seu
+belo livro _Strength and Diet_, hoje um clássico. Se o vegetarismo é o
+_primeiro passo_, na opinião de Tolstoi, para a disciplina da nossa
+vontade na obediência religiosa, é simultaneamente a primeira regra para
+nos salvar da decadência do corpo e do espírito nêsse _embrutecimento_
+do álcool como Tardieu lhe chamou, resumindo em uma só palavra as
+consequências de tal processo de envenenamento dos homens e das raças.
+Porque _qualis enim esus, talis est potus_; tal comida, tal bebida.
+Assim o disse ha longos séculos Tertuliano meditando nos trâmites da
+vida religiosa, buscando os caminhos por que a santidade se alcança; e a
+sciência dos nossos dias não desmentiu as lucubrações do teologo. Pelo
+contrário, absolutamente as confirmou.
+
+Hoje, como então, a carne e o vinho são companheiros e cúmplices nessa
+embriaguez do nosso sangue e da nossa alma que nos conduz aos infernos
+de todas as demencias e abjecções.
+
+O seu processo na desmoralização das raças é sabido. A atrofia de
+consciência que é o invariável resultado de todas as intemperanças da
+gula começará por ser acidental e transitória na sua victima, para em
+seguida se tornar permanente, constante, ininterrompida por virtude de
+repetição, e para finalmente se transmitir por hereditariedade a toda a
+descendência, por isso mesmo que se tornou verdadeiramente
+constitucional e orgânica.
+
+É n'esta operação de aviltamento da nossa raça que o carnivorismo está
+colaborando activamente. Combater pelo vegetarismo é combater o
+alcoolismo na sua maior fortaleza.
+
+Dos resultados que os nossos esforços, poderão ter em uma tal calamidade
+dizem as lições que os países estrangeiros nos facultam. Um só exemplo
+invocarei. Há cerca de cincoenta anos a Suécia tinha uma taberna por 100
+habitantes e a Noruega uma por 200. Hoje a Suécia tem uma taberna por
+5:000 habitantes e a Noruega uma por 9:000. E isto que é gigantesco como
+capacidade de redenção dum pôvo, não foi a obra do acaso; foi o produto
+do método, sistema e energia de vontade que todas as terapêuticas
+aproveitou. Não se é uma nação civilizada e digna por menor preço.
+
+
+ [A] Na verdade, os processos de cosinha carnívora não são outra
+ coisa senão processos de corrupção; o alimento será tanto mais
+ saboroso quanto mais perfeitamente se lhe houver dissipado a
+ exalação fetida primitiva. Qualquer dama de mãos mimosas que trinca
+ com delicia uma costeleta coberta de pão e embalsamada em loiro, em
+ cravo, em salsa, em cebola, pimenta e limão, empalidece de nausea
+ sentindo o cheiro do açougue, considera imundicie um pedaço de carne
+ crúa nos seus vestidos e foge mais depressa da praça do peixe do que
+ da montureira que aduba a horta.
+
+ Pelo contrario, na cosinha vegetariana o esmero e a perfeição
+ consistem em conservar inalteravel o sabor proprio de cada alimento.
+ Ninguem jámais teve o capricho de querer cosinhar maçãs para saberem
+ a loiro ou feijões para cheirarem a salsa.
+
+ [B] Não acontece isso sómente com as creanças. Na gente do povo,
+ creança tambem pela vitalidade dos instintos primitivos, mostra-se
+ claramente a mesma tendencia. Muitos e muitos que seriam incapazes
+ de roubar de qualquer salgadeira uma grama de toucinho, não resistem
+ á tentação de se aproveitarem do primeiro cacho de uvas que lhes
+ esteja á mão. Os assaltos ás hortas e pomares são frequentes, e de
+ tal forma isso parece estar na ordem natural que grande numero dos
+ homens rudes não lhes associa nem de longe a noção do crime. Longos
+ seculos de corrupção da dieta não conseguiram atrofiar essas
+ tentações d'uma atiguidade biblica, as mesmas que desgraçaram Adão e
+ Eva.
+
+
+
+
+Livros indispensáveis aos Naturistas
+
+e a todos que desejem cultivar a saúde e a longevidade, praticando
+racionalmente o frugivorismo (dieta crua), vegetarismo, higiene natural
+pelos exercícios normais combinados com os banhos de ar, sol e água,
+restrição alimentar, etc., em perfeita concordância com a fisiologia
+animal da humanidade.
+
+
+Edições da Sociedade Vegetariana de Portugal:
+
+*"O Vegetariano"* 1.^a série, brochado. Muitas informações de
+vegetarismo, e receitas de culinária natural, tabelas do valor dos
+alimentos, leis de saúde e indicações aos principiantes.
+
+ Para sócios da S. V. de Portugal 500
+
+ Preço geral 700
+
+ Encadernação de luxo, respectivamente 800 e 1$000
+
+*"O Vegetariano"* 2.^a série, brochado. 500 páginas de texto. Gravuras
+em _couché_. Tratado completo de frugivorismo, vegetarismo, cura natural
+pela dieta, ar, sol, água, exercício, etc., fabrico do vinho sem alcool
+e adubo natural para as terras. O perigo da vacina, do alcoolismo, do
+tabagismo, do albuminismo ou carnivorismo, etc.
+
+ Para sócios da S. V. de Portugal 1$000
+
+ Preço geral 1$200
+
+ Encadernação de luxo, respectivamente 1$400 e 1$600
+
+*"O Vegetariano"* 3.^a série. Mensário Ilustrado de Naturismo (em
+publicação). Maior formato, melhor papel e novas secções de propaganda,
+informando de todo o movimento frugivoro--vegetariano--naturista em
+Portugal, Brasil e outras nações. Consultório naturista gratuito. Relato
+pessoal das curas naturais de doenças rebeldes ou crónicas, etc., etc.,
+órgão da S. V. de P. (continente e colonias), assinatura anual (12
+números) 1$000 reis--Brasil (moeda fraca) 3$500 reis--Outros paises 7
+frs.
+
+
+BIBLIOTECA VEGETARIANA
+
+(Ilustrada com fotogravuras)
+
+I--*Vivamos de Frutos*, por V. Bruant, trad. do Dr. Amilcar de Souza.
+Regime frugivoro e estudo sobre frutarismo.
+
+ Para sócios da S. V. de Portugal 200
+
+ Preço geral 300
+
+II--*Vinho sem alcool e Pão integral*, 12 gravuras. Apreciação pelo
+Dr. Amilcar de Souza. Indústria e fabrico domestico.
+
+ Para sócios da S. V. de Portugal 200
+
+ Preço geral 300
+
+III--*O Vegetarismo e a Fisiologia Alimentar*, pelo Dr. H. Colliére, de
+Paris. Trad. de Angelo Jorge. Análise, ao regime misto (carnivorismo) e
+aos regimes naturais; vegetariano, vegetalino e frugivoro com
+demonstrações, tabelas, etc., baseando-se nos melhores autores.
+
+ Para sócios da S. V. de Portugal 500
+
+ Preço geral 700
+
+IV--*A Questão Social e a Nova Sciência de Curar*, por Angelo Jorge.
+Apreciações aos problemas médico, alimentar e social.
+
+ Para sócios da S. V. de Portugal
+
+ Preço geral
+
+V--*Dieta Frugívora e Renovamento Físico*, pelo Dr. O. L. M. Abramowski,
+médico do Hospital de _Mildura_, Austrália. Trad. do Dr. João Volmer.
+Demonstração prática e racional do frutarismo scientifico.
+
+ Para sócios da S. V. de Portugal 100
+
+ Preço geral 150
+
+VI--*O Naturismo*, pelo Dr. Amilcar de Souza. O livro mais notável do
+século XX, versando todos os assuntos relacionados com a vida humana.
+Análise racional e soluções naturistas às questões alimentares,
+higiénicas, médicas, educativas, sociais e humanitárias.
+
+ Para sócio da S. V. de Portugal 400
+
+ Preço geral 600
+
+VII--*A base de todas as reformas na alimentação*, regeneração fisica e
+mental do homem pelo «frugivorismo: notável livro americano de Otto
+Carqué, esmerada trad. de J. Vitorino Pinto, estudante de medicina.
+
+ Para sócios da S. V. de Portugal 150
+
+ Preço geral 200
+
+VIII--*A Saúde e a longevidade*. (Um grito de alarme), por J. Bastos.
+Análise racional aos erros da vida humana _civilizada_. A saúde, a
+alimentação, a escola, os remédios e algumas curas relatadas são os
+capítulos nele desenvolvidos com superior criterio e verdade.
+
+ Para sócios da S. V. de Portugal 300
+
+ Preço geral 400
+
+IX--*O Vegetarismo e a moralidade das raças*, pelo Dr. Jaime de
+Magalhães Lima. Notavel conferencia realisada no Ateneu Comercial do
+Porto em 14 de junho de 1912. Com o retrato do autor em _couché_.
+
+ Para sócios da S. V. de Portugal 100
+
+ Preço geral 150
+
+«*A Cura da Tuberculose pelo Vegetarismo*», pelo Dr. Paul Carton;
+«Irmania», novela naturista por Angelo Jorge, «Os Agentes Físicos em
+Medicina.», pelo Dr. J. Bentes Castel-Branco, etc. (A imprimir).
+
+«*La Hacienda*»--Búfalo, América--Revista ilustrada sôbre agricultura,
+arboricultura e industrias rurais, e consultório técnico gratuito para
+assinantes. O melhor mensário agricola do mundo editado em português,
+assina-se na redacção de _O Vegetariano_.--Pôrto--(12
+numeros).--Assinatura anual.
+
+ Para sócios da S. V. de Portugal 3$600
+
+ Preço geral 4$000
+
+
+Todos os pedidos devem ser acompanhados das respectivas importâncias em
+dinheiro, cheques, vales ou estampilhas do continente, endereçadas à
+Sociedade Vegetariana de Portugal, redacção de _O Vegetariano_--Avenida
+Rodrigues de Freitas, 393 (Antiga rua de S. Lazaro)--Pôrto.
+
+A remessa pelo correio acresce 75 réis de porte e registo sendo para
+Portugal, e para o Brasil e outros paises 100 réis.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Vegetarismo e a Moralidade das raças, by
+Jaime de Magalhães Lima
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O VEGETARISMO E A MORALIDADE ***
+
+***** This file should be named 24338-8.txt or 24338-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/2/4/3/3/24338/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images from BibRia)
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+http://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
diff --git a/24338-8.zip b/24338-8.zip
new file mode 100644
index 0000000..c023995
--- /dev/null
+++ b/24338-8.zip
Binary files differ
diff --git a/24338-h.zip b/24338-h.zip
new file mode 100644
index 0000000..937ed52
--- /dev/null
+++ b/24338-h.zip
Binary files differ
diff --git a/24338-h/24338-h.htm b/24338-h/24338-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..fe4bf22
--- /dev/null
+++ b/24338-h/24338-h.htm
@@ -0,0 +1,1849 @@
+<!DOCTYPE HTML PUBLIC "-//W3C//DTD HTML 4.01 Transitional//EN"
+"http://www.w3.org/TR/html4/loose.dtd">
+<html>
+
+<head>
+ <title>O Vegetarismo
+ e a Moralidade das raças</title>
+ <meta name="AUTHOR" content="Jaime de Magalhães Lima">
+ <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1">
+ <style type="text/css">
+
+ body {width:560px; margin-left: 70px; margin-right: auto; text-align: justify;}
+
+ h1, h2, h3, h4, h5 { text-align: center;}
+ h2 {margin-top: 2em; margin-bottom: 1em;margin-top: 1.5em;}
+ h3 {margin-top: 2em;}
+ .centrado {text-align: center;}
+ a {text-decoration: none; color: #000000}
+ .notas {
+ font-size: 0.8em;
+ margin-left: 5%;
+ margin-right: 5%;}
+ .ficha_tecnica {text-align:center; border: solid 1px #000000; padding: 2em;}
+ .poesia {text-align: left; font-size: 0.8em; margin-left: 5%;}
+ sup {font-size: 0.6em;}
+ .instruccoes_cena {
+ text-align: center;
+ font-size: 0.8em;
+ }
+ hr { border: 0; border-top: solid 1px#000000; border-bottom: solid 1px #000000;}
+ th {font-variant: small-caps; font-weight: normal; text-align: left;}
+ .smallcaps {font-variant: small-caps}
+ .personagem {
+ font-size: 0.8em;
+ text-align: left;
+ margin: 1em;
+ }
+ .pagenum {
+ position: absolute;
+ left: 630px;
+ width: 3em;
+ font-size: 0.7em;
+ text-align: center;
+ color: #acacac;
+ }
+ #lista_outras_edicoes {
+ font-size: 0.8em;
+ margin: 2em;
+ }
+ #corpo p {
+ text-indent: 2em;
+ }
+ .indent_negativo {
+ text-indent: -2em;
+ }
+ </style>
+</head>
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of O Vegetarismo e a Moralidade das raças, by
+Jaime de Magalhães Lima
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: O Vegetarismo e a Moralidade das raças
+
+Author: Jaime de Magalhães Lima
+
+Release Date: January 17, 2008 [EBook #24338]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O VEGETARISMO E A MORALIDADE ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images from BibRia)
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+<br>
+<h1>O Vegetarismo
+<br>
+e a Moralidade das raças</h1>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<p style="text-align: center; font-size: 0.6em;">Composição e impressão<br>
+--Emprêsa Gráfica «A UNIVERSAL»--<br>
+DE FIGUEIRINHAS &amp; MOTA RIBEIRO, L.<sup>DA</sup><br>
+--Rua Duque de Loulé, 111--Pôrto--</p>
+<div class="ficha_tecnica">
+<br>
+<p style="width: 40%;text-align: right; font-size: 0.8em;">
+<u>9.<sup>o</sup> volume da<br>
+Biblioteca Vegetariana</u></p>
+
+<p style="text-align: right;">Dr. Jaime de Magalhães Lima</p>
+
+
+<h2 style="text-align: left; margin-left: 2em;">O Vegetarismo<br>
+e a Moralidade das raças</h2>
+
+<p style="width: 60%; text-align: left; font-size: 0.8em;">
+<u>--Notavel Conferencia realisada no<br>
+ATENEU COMERCIAL DO PORTO<br>
+em 14 de Junho de 1912---------</u></p>
+<br>
+<br>
+<br>
+<br>
+<p style="font-size: 0.8em;">1912<br>
+SOCIEDADE VEGETARIANA--Editôra<br>
+393, AVENIDA RODRIGUES DE FREITAS<br>
+PÔRTO</p>
+</div>
+<div id="corpo">
+
+
+
+
+<h2>O vegetarismo e a moralidade das raças</h2>
+
+
+<h3>I</h3>
+
+<p>Tem os seus pergaminhos o vegetarismo. Não é uma doutrina nascida de
+ontem. Tem títulos autênticos de nobreza prolongada durante gerações sem
+número, respeitada nas mais altas civilizações em cujas superiores
+aspirações colaborou, definindo-as eloquentemente pela voz das suas mais
+belas e autorizadas individualidades e corroborando-as ardentemente pelo
+exemplo dos seus mais devotados apóstolos.</p>
+
+<p>Sem nos afastarmos da nossa propria civilização, sem sairmos d'este fóco
+de cultura chamado o ocidente da Europa onde nos criamos e onde os
+nossos mais remotos avós se criaram e educaram, legando-nos um espólio
+de sentimentos e ideias que constituem toda a nossa alma e que nos
+cumpre cultivar e aperfeiçoar para o transmitirmos aos nossos filhos
+acrescentado em formosura e benefícios, emendado, corrigido e depurado
+em seus vícios e insuficiências; dentro dêste círculo devéras estreito
+relativamente aos largos espaços em que fóra dele outras raças e outras
+condições naturais formaram sociedades que igualmente engrandeceram e
+honram a humanidade pelas concepções da vida que realizaram e de que
+foram veiculo e sublime instrumento no mundo; limitando-nos à exígua
+mancha do globo que é o nosso berço e o nosso lar e fazendo-o, não
+porque além dele não conheçamos corações iguais aos nossos, vivendo do
+mesmo alento, crentes <span class="pagenum">[6]</span> na mesma fé e enamorados da mesma elevação mas
+sómente porque para o fim muito restrito que neste instante temos em
+vista convêm não distrair a atenção do que de mais nos toca e por isso
+será mais claramente demonstrativo: neste cantinho que acendeu seus
+fachos de luz em volta do Mediterraneo e de lá a fez irradiar através
+das montanhas até aos mares do norte, o vegetarismo foi e é uma das
+caracteristicas do zenit moral das civilizações, e como tal o aceitaram,
+proclamaram e praticaram os gênios que mais fundamente as compreenderam
+e mais brilhantemente as serviram.</p>
+
+<p>O reconhecimento deste facto é hoje uma verdade corrente. O mais
+rudimentar estudo do vegetarismo não deixará de o apontar. Por certo
+somarão milhões as folhas impressas em que se encontram os nomes de
+vegetarianos que foram na história dos povos da Europa como signais da
+sua grandeza e juizes e farois do seu tempo e dos tempos futuros. Mas
+nem é justo que se invoque o seu valor moral sem lembrar os que por uma
+sublimada inspiração no-lo mostraram, nem tão pouco seria prudente que,
+sómente porque uma verdade se tornou indiscutivel e porventura banal
+entre homens cultos, deixássemos de a repetir tão inumeráveis vezes
+quantas necessárias fossem para que ela se propague e produza todos os
+bens que só pela sua larga disseminação poderá produzir. E o
+vegetarismo, tendo já os seus altares e o seu heróico punhado de fieis
+em todos os paises que atingiram a sensibilidade moral e religiosa, está
+infelizmente longe de ter penetrado na concepção vulgar das obrigações
+humanas, como é mister para a redenção de tantos e tão dolorosos males
+que nos afligem e perseguem por culpa da nossa cegueira e obscuridade.</p>
+
+<p>Recordemos pois muito de passagem as lições dos profetas e mestres. É
+dever e é utilidade. E pena é que não possamos agora fazê-lo com a pausa
+que o encanto das suas palavras nos pede e que o proveito da própria
+educação imperiosamente nos aconselha.</p>
+
+<p>De Pitágoras a Shelley ou a Wagner ou a E. Réclus ou a Tolstoi que
+arautos não teve o vegetarismo, que divinos clamores não fez ouvir às
+multidões ignorantes da própria fortuna, escravas da primitiva
+animalidade ou ensandecidas e aviltadas em sórdidos prazeres!... Desde
+que a <span class="pagenum">[7]</span> nossa civilização pôde gravar seu rasto na história, a
+tradição do vegetarismo jámais se interrompe completamente. Em mais de
+vinte e cinco séculos a sua taça passa de mão em mão, e ora se expõe à
+luz de sol erguida por austeros e hercúleos sacerdotes cuja rectidão e
+fôrça nos subjugam, ora é guardada devota e humildemente em solitárias
+ermidas, mas jámais se partiu ou sequer arrefeceu desamparada do alento
+de lábios que nela busquem beber a essencia do vigor do corpo e do
+espírito.</p>
+
+<p>A escola de Pitágoras cujas tradições de superioridade moral são
+memoráveis e cuja profunda e duradoura influência na filosofia, na
+sciência e na teologia antiga, se alargaram desde os tempos
+pre-socráticos até aos tempos do império romano, na Itália, na Grécia e
+na Alexandria, seis séculos antes de Cristo, já reivindicava para a vida
+de pureza moral a abstinência de alimentação carnívora, assim como de
+todo o derramamento de sangue, ainda que pretendesse justificar-se pelo
+sacrifício aos deuses. Outros eram os seus altares e, seja qual fôr a
+estreiteza de informação escrita que do profeta de Samos e seus
+discípulos nos houvesse ficado, o vigor da tradição por tal modo se
+acentua neste ponto de regime dietético que não nos póde restar a menor
+duvida de que nas origens da nossa civilização se encontra imposta, como
+preceito fundamental, a abstinência de carne aos que pretenderem seguir
+na vida o caminho da dignidade.</p>
+
+<p>Cinco séculos mais tarde, essa tradição vive por tal forma na memória e
+nas paixões íntimas dos grandes espíritos da época que Ovídio, o poeta,
+no-la repetirá nestes termos:</p>
+
+<p>«Havia em Crotona um homem da ilha de Samos que se exilara da pátria
+pelo ódio que tinha aos tiranos... Tinha com os deuses aturado
+comércio... O que sabia comunicava-o a uma multidão de discípulos que em
+um grande silêncio o admiravam...</p>
+
+<p>«Foi o primeiro que condenou o uso de comer a carne dos animais:
+doutrina sublime, e tão pouco apreciada, cuja paternidade se lhe
+atribuia.</p>
+
+<p>«Deixai, mortais», dizia, «deixai de vos servir de manjares abomináveis:
+dão-vos os campos searas abundantes; para vós vergam de frutos as
+árvores com os mais belos pomos e produzem uvas as vinhas. Tendes
+legumes <span class="pagenum">[8]</span> dum suave gôsto, excelentes alguns quando cozidos. O mel e o
+leite não vos são defesos. Enfim para vós, a terra é pródiga de suas
+riquezas e oferece-vos toda a espécie de alimento sem que necessiteis
+para sustentar-vos de recorrer à morte e à carnagem.</p>
+
+<p>«Só aos animais convêm o comer carne, e ainda nem todos se sustentam
+dela. Os cavalos, os bois e as ovelhas vivem só de ervas; apenas as
+feras, os tigres, os liões, ursos e lobos fazem da carne seu sustento
+habitual.</p>
+
+<p>«Que crime horrível lançar em nossas entranhas as entranhas de seres
+animados, nutrir na sua substância e no seu sangue o nosso corpo! Para
+conservar a vida a um animal, porventura é mister que morra um outro?
+Porventura é mister que em meio de tantos bens que a melhor das mães, a
+terra, dá aos homens com tamanha profusão, pródigamente, se tenha ainda
+de recorrer à morte para o sustento, como fizeram ciclopes, e que só
+degolando animais seja possível cevar a nossa fome?</p>
+
+<p>«Procedia diferentemente a idade de ouro, ditosos tempos que nós assim
+chamamos. Contente com as plantas e os frutos que a terra produz, o
+homem não manchava a sua bôca com o sangue dos animais. As aves voavam
+sem temor no meio dos ares... O universo tranqùilo desconhecia laços e
+ciladas. Tudo era paz.</p>
+
+<p>«Aquele, seja quem fôr, que para desgostar os homens dos alimentos
+inocentes com que se alimentavam, criou o costume de comer a carne dos
+animais, abriu na mesma hora a porta a crimes de todo o gênero; porque
+foi sem dúvida pela carnificina dêsses animais que o ferro começou a ser
+ensanguentado. Na verdade, é permitido tirar a vida aos animais que nos
+atacam, mas não nutrir-nos com a sua carne. Todavia, fomos mais longe
+ainda; quizemos sacrifical-os aos deuses...</p>
+
+<p>«Que crime tinheis cometido, ovelhas inocentes, rebanhos tranqùilos, que
+dais aos homens um nectar delicioso, que para os cobrir vos deixais
+despojar do vosso manto e que enfim lhes sois mais úteis quando vos
+deixam viver do que quando vos matam? Que mal faz o boi, doce animal,
+incapaz de vos prejudicar e que não é senão para o trabalho?</p>
+
+<p>«É necessario ser ingrato, desnaturado, de todo indigno dos bens que nos
+dá a terra, quando vamos tirar da <span class="pagenum">[9]</span> charrua esse animal tranqùilo, o
+melhor dos nossos obreiros, para o conduzir ao altar a receber o golpe
+fatal nessa cabeça que tantas vezes gemeu sob o jugo e, por um trabalho
+duro e penoso, tantas vezes nos renovou as searas.</p>
+
+<p>«Não bastava aos homens cometerem tão grandes crimes, precisavam ainda
+da cumplicidade dos deuses, crendo que lhes podia ser agradavel o
+sacrificio d'um animal tão útil... Levam assim a vitima ao altar; lá,
+recitam sôbre ela orações que ela não ouve; põe-lhe entre as pontas, que
+foram doiradas, um bolo feito d'aquele mesmo grão que ele cultivou, e
+afunda-se-lhe no seio a lâmina sagrada...</p>
+
+<p>«Logo lhe tiram as entranhas ainda palpitantes, para as consultarem e
+lerem n'elas os segredos dos deuses. Dizei-me, homens insaciáveis,
+d'onde vem esta avidez que só póde fartar-se em carnes proìbidas. Deixai
+tão criminoso uso. Segui os conselhos que vos dou. Sabei que, quando
+comeis a carne do boi que acabais de degolar, comeis aquele que vos
+lavrou o campo. Pois que é um deus que me inspira, só falo segundo a sua
+vontade...</p>
+
+<p>«As nossas almas são sempre as mesmas, embora tomem formas diferentes
+conforme os corpos que animam. Que a piedade não seja sacrificada à
+vossa gula, que para vos saciar não expulseis dos seus corpos as almas
+dos vossos pais nem vos alimenteis do seu sangue...</p>
+
+<p>«É acostumar-nos a derramar o sangue humano degolar animais inocentes e
+ouvirmos sem piedade seus tristes gemidos. É desumanidade não nos
+comovermos com a morte do cabrito, cujos gritos tanto se assemelham aos
+das crianças, e comermos as aves a que tantas vezes démos de comer. Ah!
+quão pouco dista d'um enorme crime!</p>
+
+<p>«Funesta aprendizagem! Deixai tranqùilamente o boi lavrar a terra e seja
+a sua morte o termo natural da sua velhice. Contente-nos o velo do
+rebanho que nos livra da atmosfera agreste, e o leite que as cabras dão
+para nos nutrir: parti os vossos laços e as redes, não mais o visco
+engane a ave crédula. Não mais se leve ao cêrco o tímido veado,
+perturbado com as penas que o espantam, e que não mais se oculte o anzol
+em traiçoeiro engôdo. Matai os animais que podem fazer mal; mas
+contentai-vos em só lhes dar a morte e não os comer, e que só vos sirvam
+alimentos legitimos.»</p>
+
+<p>Assim se compreendia a doutrina de Pitágoras cinco <span class="pagenum">[10]</span> séculos depois
+de haver deixado a terra o seu fundador e assim a compreendia e traduzia
+o talento d'um dos espíritos mais cultos duma grande época.</p>
+
+<p>A vitalidade da doutrina e a superioridade do interprete são garantia de
+que não se tratava de qualquer coisa passageira, d'uma tendencia que só
+as circunstâncias de determinado momento haviam originado e
+desenvolvido, mas antes nos encontravamos em presença de problemas
+morais e soluções que se mostravam capazes de afrontar diverssíssimas
+situações históricas e de lhes sobreviverem, representando por
+conseguinte elementos essenciais à existência das comunidades cultas.</p>
+
+<p>De resto, a doutrina dietética de Pitágoras atravessava êsse longo e
+acidentado período dos primeiros séculos da nossa civilização
+refazendo-se, alargando-se e confirmando-se na meditação dos homens
+cujas lições de sabedoria ficariam nos evangelhos eternos da nossa raça.
+Não foi estranha à prodigiosa obra de Platão. E Sêneca, o filósofo,
+lembra-a nestes termos de simpatia:</p>
+
+<p>«Desde que comecei a contar-vos com que vivo ardor entrei a estudar a
+filosofia na minha mocidade, não devo envergonhar-me de confessar a
+afeição que Focion me inspirou pelo ensino de Pitágoras. Instruiu-me dos
+motivos por que ele mesmo, e depois dele Séxtio, resolveu abster-se da
+carne dos animais. Cada um tinha a sua razão, mas em ambos os casos era
+magnífica. Focion sustentava que o homem póde encontrar alimento
+bastante sem o derramamento do sangue e que a crueldade se torna
+habitual quando uma vez a pratica da carnificina se aplicou ao prazer do
+apetite. Acrescentava ele que é nosso dever limitar os materiais da
+luxúria. Que, todavia, a variedade de alimentos é nociva à saúde e não é
+natural ao nosso corpo. Se estas máximas (da escola de Pitágoras) são
+verdadeiras, então abster-nos da carne dos animais é animar e promover a
+inocência; se mal fundadas, ensinam-nos ao menos a frugalidade e a
+simplicidade de vida. E que perdeis vós perdendo a nossa crueldade?
+Apenas vos privo do alimento dos liões e dos abutres.</p>
+
+<p>«Levado por êstes e semelhantes argumentos, resolvi abster-me de carne,
+e ao fim dum ano o hábito da abstinência não só me era fácil mas
+delicioso. Creio firmemente que as faculdades do meu espírito eram mais
+activas... <span class="pagenum">[11]</span> Perguntais-me porque é que eu voltei atrás e abandonei
+esse sistema de vida? Ao que eu respondo que a sorte dos meus primeiros
+dias foi lançada no reino do imperador Tibério. Certas religiões
+estranhas tornaram-se objecto das suspeitas imperiais, e entre as formas
+de adesão aos cultos ou superstições estranhas, estava o de abstinência
+de carne dos animais. Daí por instancias de meu pai, que na realidade
+não tinha medo de que essa pratica se tornasse motivo de acusação, mas
+que odiava a filosofia, fui induzido a voltar aos meus antigos hábitos
+dietéticos, e não teve ele maior dificuldade em me persuadir a voltar a
+refeições mais suntuosas»...</p>
+
+<p>«Isto digo com a intenção de vos provar como são poderosos os primeiros
+impulsos da mocidade para o que é mais verdadeiro e melhor, sob a
+exortação e incentivo de virtuosos mestres. Erramos, em parte por culpa
+dos nossos guias, que ensinam como se disputa e não como se vive: e em
+parte por nossa culpa, aguardando que os mestres cultivem não tanto a
+disposição do espírito como as faculdades da inteligência. D'esta forma,
+o que foi filosofia, tornou-se em filologia». (<i>Epistola CVIII.</i>)</p>
+
+<p>Em outras passagens, condenando o luxo e os desmandos sensuais da sua
+época, se refere Seneca aos escravos do ventre que, como Salústio, quer
+que «sejam contados entre os animais inferiores e não entre os homens» e
+lembra que «em tempos mais simples não havia necessidade em tão larga
+escala de tantos médicos supranumerários, nem de tantos instrumentos
+cirúrgicos, nem de tantas caixas de drogas. A saúde era simples por uma
+razão simples. Muitos pratos trouxeram muitas doenças. Note-se que vasta
+quantidade de vidas um estômago absorve--devastador da terra e do mar.
+Não é de espantar que em tão discordante dieta a doença varie
+incessantemente... contem os cozinheiros e não mais se espantarão do
+número incontável das doenças humanas.»</p>
+
+<p>Por êsse mesmo tempo Musónio Rufo, outro filósofo eminente, sectário
+tambêm do melhor estoicismo, declarava «brutal» o uso da carne, «sómente
+próprio de animais selvagens, pesado e empecendo o pensamento e a
+inteligência. Os vapores que dele vem são túrbidos e escurecem a alma,
+de modo que os que dele partilham abundantemente mostram-se os mais
+lentos em apreender.»</p> <span class="pagenum">[12]</span>
+
+<p>Mas para que alongar-nos em citações de nomes e rememoração de doutrinas
+dos filósofos e moralistas do classicismo greco-romano, que condenou por
+nocivo à justiça e ao entendimento o carnivorismo? Para que, se um só
+homem nessas horas remotas de extrema actividade mental e da mais
+exaltada sensibilidade moral, pôde por honra da espécie e glória da
+humanidade resumir todo o problema dietético com uma profundeza
+exaustiva e uma lucidez inexcedivel que os apóstolos da sua doutrina até
+hoje tem invocado como um evangelho a que a experiencia de muitos
+seculos pouco ou nada acrescentou?</p>
+
+<p>Leiam-se as obras morais de Plutarco, que viveu do primeiro ao segundo
+século da éra cristã. São um monumento, até hoje e por certo para sempre
+inabalável, da dignidade humana. Lá encontraremos a causa do vegetarismo
+posta em termos de tal evidencia que constituem como a razão ultima da
+sua legitimidade e do seu valor moral, religioso e fisiológico.</p>
+
+<p>Perguntas-me, diz Plutarco, «por que motivos Pitágoras se absteve de se
+alimentar com a carne dos animais. Pela minha parte, pasmo de que
+espécie de sentimento, espirito ou razão estava possuido aquele que
+primeiro poluiu a sua boca com sangue e consentiu que os seus lábios
+tocassem a carne dum ser assassinado, que espalhou sôbre a sua mesa os
+membros despedaçados de corpos mortos e pediu como alimento quotidiano e
+prato delicado o que ha pouco era um ser dotado de movimento, de
+percepção e de voz?...</p>
+
+<p>«Que luta pela existência ou que excitada loucura incitou a ensopar em
+sangue as tuas mãos, a ti que tens sempre abundancia de todas as coisas
+necessárias para viveres? Porque desmentes a terra como se ela fosse
+incapaz de te alimentar e nutrir? Porque atormentas Ceres que humaniza,
+e desonras as doces e suaves dádivas de Baco, como se não tivesses nelas
+o bastante? Não te envergonhas de misturar o assassinio e o sangue aos
+seus frutos benéficos? Chamas selvagens e ferozes outros carnivoros, os
+tigres, os liões e as serpentes, enquanto manchas no sangue as tuas mãos
+e em espécie alguma de barberie lhes ficas inferior. E para eles,
+todavia, o assassinio é apenas o meio de se sustentarem; para ti, é uma
+lascivia supérflua. De facto, não são liões e lobos que nós matamos para
+<span class="pagenum">[13]</span> comer como em defeza própria o poderiamos faser--pelo contrário
+deixamo-los incólumes; e entretanto, aos inocentes, aos mansos, aos que
+não tem auxilio nem defesa,--a esses perseguimo-los e matamo-los,
+àqueles que a natureza parecia ter dado vida para sua beleza e graça...</p>
+
+<p>«Nada nos perturba, nem a beleza encantadora das suas formas, nem a
+dorida doçura da sua voz e do seu grito nem a sua inteligencia, nem a
+pureza da sua dieta nem a superioridade do entendimento. Só para ter um
+pedaço da sua carne, privamo-los da luz do sol, da vida para que
+nasceram. Tomamos por inarticulados e inexpressivos os gritos de
+queixume que eles soltam e voam em todas as direcções; quando na
+realidade são instâncias e suplicas e rogos que cada um deles nos dirige
+dizendo:--Não é da verdadeira satisfação das vossas reais necessidades
+que queremos livrar-nos mas da complacente luxuria dos nossos apetites.»</p>
+
+<p>Depois de mostrar com uma nitidez que é uma antecipação da sciencia
+contemporânea como o carnivorismo não pode justificar-se pela anatomia
+do homem, sem dentes nem garras nem boca nem intestinos que tal processo
+de nutrição suponham ou autorizem, Plutarco aponta os subterfugios de
+que nos servimos para consumar o nosso crime contra a natureza. Porque
+não fazes como o lião e o tigre, pergunto, e não arrancas o coração á
+tua vitima? «Nem mesmo depois que foi morta a comerás como veio do
+açougue. Has-de fervê-la, assá-la e inteiramente a transformarás pelo
+fogo e pelos condimentos. Completamente alteras e disfarças o animal
+morto, usando dez mil ervas doces e especiarias, para que o vosso
+paladar seja enganado e se prepare para receber o alimento que não é
+natural. Foi uma admoestação própria e sagaz a do espartano que comprou
+um peixe e o deu ao cozinheiro para o preparar. Quando este lhe pediu
+manteiga e azeite e vinagre, respondeu-lhe:--Se eu tivesse tudo isso não
+tinha comprado o peixe...</p>
+
+<p>«A tal ponto fazemos do sangue uma luxuria que chamamos à carne
+<i>delicadeza</i> e logo reclamamos delicados condimentos para essa mesma
+carne e misturamos azeite e vinho e mel e molhos e vinagre e todas as
+especiarias da Síria e da Arábia, de todo o mundo, como se estivéssemos
+<span class="pagenum">[14]</span> a embalsamar um cadáver humano. Depois que todas estas substâncias
+heterogênias se misturaram e dissolveram e até certo ponto se
+corromperam,<sup><a href="#nota1" name="o_nota1">[A]</a></sup> cabe sem dúvida ao estômago assimilá-las, se podér. E
+posto que isso possa no momento fazer-se, a sua consequencia natural é a
+variedade de doenças produzidas pelas digestões imperfeitas e pela
+repleição...</p>
+
+<p>«Não é só contra a natureza da nossa constituição física o uso da carne.
+O espírito e a inteligência tornam-se pesados pela supreabundância e
+pela repleição; é possivel que a carne e o vinho tendam a dar robustez
+ao corpo, mas para o espirito trazem sómente fraqueza.</p>
+
+<p>«Além e acima de todas estas razões, não parecerá admirável criar
+hábitos de filantropia? Quem é tão bondoso e gentil para os seres duma
+outra espécie inclinar-se-á algum dia a injuriar o seu próprio gênero?
+Lembro-me de ter ouvido em uma conversação, como dito por Xenócrates,
+que os atenienses impunham penas a quem esfolasse viva uma ovelha.
+Aquele que tortura um ser vivo é um pouco pior, parece-me, do que aquele
+que sem necessidade priva da vida e mata rapidamente. Temos, ao que
+parece, mais clara percepção do que é contrário à propriedade e ao
+custume do que daquilo que é contrario à natureza...»</p>
+
+<p>Com Plutarco, o vegetarismo, ou melhor, a condenação do carnivorismo
+passou a ser nas preocupações morais do homem culto um caso julgado,
+eloquentemente e inabavelmente julgado. Os que se lhe seguiram, e são
+legião de gênios e de santos, nada acrescentaram às razões basilares dos
+seus principios dietéticos, embora brilhantemente os interpretassem e
+devotadamente os praticassem em um <span class="pagenum">[15]</span> apostolado verdadeiramente
+religioso, através de todas as contrariedades e adversidades. Os padres
+da igreja cristã primitiva, quando ela ainda se encontrava em toda a
+pureza, não se esqueceram, como não podiam esquecer-se, de verberar
+rigidamente as crueldades e a insânia do carnivorismo. E os filósofos
+estranhos ao cristianismo e até mesmo os que o combatiam mas que vinham
+repassados do platonismo helênico não foram menos ardentes na flagelação
+d'aquele vicio a todos os respeitos mortal.</p>
+
+<p>Dêstes é notável pela solidez e desenvolvimento da argumentação que
+emparelha a de Plutarco na repulsão do carnivorismo, Porfirio da
+Alexandria, homem extraordinário, discípulo de Plotino. Santo Agostinho
+coloca-o acima de Platão.</p>
+
+<p>Para êsse tambem o vegetarismo era salvação de muita angústia e
+tormento, desde que nem o médico nem o filósofo nem o atleta se atreviam
+a afirmar que a dieta carnivora era melhor para a saúde e para o vigor.</p>
+
+<p>Sendo assim, «porque», dizia, «não nos revoltamos e libertamos duma
+supreabundância de inquietações? Para aquêle que se habitua a
+contentar-se com o menor luxo, será isso a redenção não de uma mas de
+mil inquietações--dos serviços de criados em excesso, duma multidão de
+variados estorvos, dum estado físico de letargia e depressão, dum número
+infinito de doenças severas, da necessidade dos médicos, do incentivo à
+devassidão, de pesadas imaginações, de desordens infinitas e superfluas,
+dos ferros de grosseiros hábitos do corpo, dos excesso de fôrça fisica
+excitando a actos de violência--em suma, duma Ilíada de males. De tudo o
+que o alimento inocente que não rouba a vida e que a todos é fácilmente
+acessível nos liberta, dando paz à alma enquanto oferece ao corpo meios
+de saúde. «Não é dos que comem o grão», diz Diógenes, «que vem as
+guerras e a pirataria; mas é dos que comem carne que vem os tiranos e os
+opressores».</p>
+
+<p>E diz tambêm: «Deixo de insistir no facto de que, se nos pozermos na
+dependencia do argumento da necessidade ou da utilidade (do
+carnivorismo), não podemos deixar de admitir por implicação que nós
+mesmos fomos criados só por causa de certos animais destruidores, como
+os crocodilos, as serpentes e outros monstros, porque não recebemos
+dêles o menor benefício. Pelo contrário, são eles que apanham, <span class="pagenum">[16]</span>
+destroem e devoram os homens que encontram--fazendo o que não procedem
+de modo algum menos cruelmente do que nós. De resto, eles são assim
+selvagens por necessidade e fome; e nós por insolente lascivia e
+luxuriosos prazeres, divertindo-nos, como usamos no circo e nos
+morticínios da caça. Em tais acções fortificamos em nós uma natureza
+bárbara e brutal que torna os homens insensíveis ao sentimento da
+piedade e compaixão. Aquêles que primeiro perpetraram essas iniquidades
+fatalmente entorpeceram a parte mais importante da alma. Por isso é que
+os discípulos de Pitágoras consideram a bondade e a graça com os animais
+inferiores um exercicio de filantropia e graça».</p>
+
+<p>Com Porfirio fecham-se as lições magnificas de vegetarismo que a
+antiguidade nos legou.</p>
+
+<p>Seguem-se-lhe na ordem cronológica as desordens e violências da idade
+média, o desabar dum mundo em grande parte caduco e a anciedade duma
+renovação que sabe mal os seus trâmites e anciosamente os procura. Mas
+nem assim, nem em meio dessas ruinas e tumulto, o vegetarismo será uma
+doutrina morta. Aqui e além sentimos-lhe as palpitações; nas homílias
+dum João Crisóstomo cujos ascetas não conheciam entre si, segundo a
+expressão do Santo, «nem os rios de sangue, nem a matança e nem o cortar
+da carne no açougue, nem cozinhas delicadas, nem o peso da cabeça, nem
+as exalações horríveis dos manjares carnívoros e os fumos desagradáveis
+das cozinhas»; nas comunidades dos cataros perseguidos pela igreja
+católica, que nem mesmo perante o cadafalso se sujeitaram a matar um
+frangão, quando em 1052, em Goslar, eram enforcados; e Deus sabe em
+quantas ermidas, nas quais os revoltados contra a ortodoxia eclesiástica
+que na solidão procuravam refugio das torturas que os ameaçavam,
+guardavam as melhores tradições dos paulicianos e dos albigenses,
+esperando no futuro melhor religião e mais pura moralidade. Pelo que
+toca à superioridade moral dos seus preceitos anti-carnívoros, êsses
+herejes, que assim se chamavam e como tais eram martirizados, até entre
+os seus cruéis inimigos encontraram quem lhes fizesse justiça. S.
+Bernardo foi um dos que condenando os crimes e as imoralidades da
+ortodoxia do seu tempo reconheceu virtude em uma dieta anti-carnívora.</p>
+<span class="pagenum">[17]</span>
+
+<p>No século XVI entramos na renascença e com ela, reatado o fio da cultura
+antiga, dá signais de vida o senso moral que em tal agudeza sentimos nos
+primeiros tempos do império romano.</p>
+
+<p>Vem o <i>Compêndio da Vida Sóbria</i> do celebre Cornaro que, fraco e
+arruinado aos trinta anos por excessos de gula, consegue prolongar a
+vida além dos cem por uma dieta rigorosa. Vem a <i>Utopia</i> de Tomás Moore,
+a cujo povo modêlo não era permitido acostumar-se a matar os animais
+«pelo uso dos quais julgavam que a clemência, a mais graciosa afeição da
+nossa natureza decaía e morria». E vem finalmente a ressurreição plena
+da filosofia humanitária em Miguel de Montaigne.</p>
+
+<p>Grande leitor de Plutarco, seu legitimo discípulo, Montaigne renova
+brilhantemente as exortações do mestre contra as intoleráveis crueldades
+do carnivorismo.</p>
+
+<p>«Pela sua parte», disse, «nunca foi capaz de vêr sem desgôsto perseguir
+e matar um animal inocente e sem defesa, do qual não haviamos recebido
+mal ou ofensa. Quando um gamo, como vulgarmente acontecia, esfalfado e
+sem fôrças, sem outro recurso, se prostrava e rendia, como se pelas
+lágrimas pedisse misericórdia aos seus algozes, sempre lhe pareceu um
+desagradável espectáculo. Raro ou nunca apanhou vivo um animal que não o
+restituisse á liberdade. Pitágoras tinha o costume de comprar para o
+mesmo fim aos passarinheiros e aos pescadores as suas víctimas. As
+disposições sanguinárias relativamente aos outros animais demonstram uma
+crueldade natural com a nossa própria espécie. Desde que em Roma se
+habituaram ao espectáculo da chacina dos outros animais, passaram à dos
+homens e dos gladiadores. Temia que a natureza tivesse dado certo
+instinto de desumanidade às inclinações humanas. Ninguém tira prazer de
+vêr os outros animais alegres e afagando-se; e ninguém deixa de se
+alegrar vendo-os desmembrados e feitos em pedaços.»</p>
+
+<p>Repetindo o exemplo de Plutarco, Montaigne considera um caso de
+consciência mandar para o matadoiro a vaca que tantos anos nos serviu.
+Com Plutarco e Porfírio aponta os prejuizos sobre as faculdades mentais
+das raças não humanas, insistindo em que a diferença é de grau e não de
+espécie. «Platão» diz, «no seu quadro da Idade d'Oiro conta entre as
+principais vantagens dos homens <span class="pagenum">[18]</span> d'aquêle tempo o comércio que êles
+tinham com os outros animais, investigando, instruindo-se e aprendendo
+as suas verdadeiras qualidades e as diferenças entre nós e êles, pelo
+que adquiriam um perfeitíssimo conhecimento e inteligência e dêste modo
+fizeram as suas vidas mais felizes do que a nossa. Isto digo com o fim
+de nos fazer retroceder e juntar-nos á multidão. Não estamos nem acima
+nem abaixo do resto. «Quantos estão sob o céu» diz o sábio judeu,
+«sofrem igual lei e destino.» Ha certa diferênça, ha ordens e gráus, mas
+acham-se sob o aspecto duma única e igual natureza.»</p>
+
+<p>Depois de Montaigne, é Pedro Gassendi que repete as lições de Plutarco,
+enquanto medita a <i>Vida e Moral de Epicuro</i> que sabiamente traçou,
+encontrando, como este, «o bem supremo, <i>summum bonum</i>» no seu pequeno
+jardim. E logo após a sua morte, dentro de poucos anos, nasce Hecquet
+que por sua vez, no seculo XVII vinha acrescentar à Bíblia Vegetariana
+páginas definitivas.</p>
+
+<p>A êsse notável reformador da arte médica parecia «incrível a soma de
+prejuizos que se deixaram trabalhar em favor da carne, quando tantos
+factos se opõem à pretensa necessidade do seu uso». Renova todo o
+argumento fisiológico contra a dieta carnívora e, citando numerosos
+exemplos de homens eminentes e de nações que em todos os tempos a
+condenavam, observa com muito particular e inatacável sagacidade que
+«está provado que não é difícil sustentar sem carne os animais que vivem
+de carne, enquanto é quási impossível alimentar com carne aquêles que
+vivem ordináriamente de substâncias vegetais».</p>
+
+<p>Grande época de moralistas, o seculo XVII não deixaria escapar sem
+reflexão os problemas morais da dieta, e de facto os julgou com a
+severidade que uma sã moral reclama. Onde se insinuarem sentimentos de
+simples justiça, à parte mesmo toda a exaltação religiosa ou qualquer
+frouxa inspiração de poesia, logo a baixeza do carnivorismo será
+apontada e castigada como infração de princípios supremos.</p>
+
+<p>Bernardo de Mandeville, que nasceu em 1670, comenta nestes belos termos
+os hábitos carnívoros que ao tempo deveriam estar em plena expansão
+entre nobres e gente abastada:</p>
+
+<p>«Muitas vezes pensei que, se não fosse pela tirania que o costume exerce
+em nós, os homens duma natureza <span class="pagenum">[19]</span> medianamente boa nunca se
+reconciliariam com a acção de matarem tantos animais para seu sustento
+quotidiano, enquanto a liberalidade da terra tão abundantemente lhes
+faculta as delicadas variedades de vegetais. Sei que a razão nos provoca
+a compaixão mas frouxamente, e por isso não me admira que os homens
+sejam tão desapiedados com criaturas imperfeitas como o caranguejo, a
+ostra, a ameijoa e, em geral, todo o peixe, porque são mudas e o seu
+intimo e a sua configuração externa largamente diferem de nós. Para nós,
+exprimem-se ininteligivelmente, e por conseguinte não é de estranhar que
+a sua dôr não afecte o nosso entendimento que ela não alcança; pois
+coisa alguma nos move mais seguramente à piedade do que os sintomas de
+miséria que ferem imediatamente os nossos sentidos. Encontrei
+comovendo-se com o rumor que uma lagosta faz quando a espetam gente que
+com prazer mataria meia dúzia de aves.</p>
+
+<p>«Animais perfeitos como as ovelhas e os bois, nos quais o coração, o
+cérebro, e os nervos diferem tão pouco dos nossos, e a separação do
+sangue e do espírito, os órgãos dos sentidos, e por consequência o
+próprio sentimento, são os mesmos que são em criaturas humanas, não
+posso imaginar como um homem que não esteja endurecido no massacre e no
+sangue póde vêr indiferente a sua morte e as agonias em que ela se
+consuma.</p>
+
+<p>«Em resposta a isso, a maior parte das pessoas julgarão suficiente dizer
+que, tendo sido feitas as <i>coisas</i> para utilidade do homem, não póde
+haver crueldade em dar às criaturas o uso para que foram designadas. Mas
+tenho ouvido esta réplica, enquanto a natureza íntima de quem a deduz
+lhe acusa a falsidade da asserção.</p>
+
+<p>«Se não foi criado num açougue, não haverá numa multidão um homem entre
+dez que por sua vontade escolhesse entre todas as profissões a de
+magarefe; e pergunto se sequer alguém matou pela primeira vez sem
+relutância uma galinha.</p>
+
+<p>«Alguns não podem resolver-se a provar de quaisquer criaturas que tenham
+visto todos os dias e que conhessem quando estavam vivas. Outros não
+levam os escrúpulos alêm daquelas criaturas que viram todos os dias e
+conheceram enquanto vivas e lhes pertenciam. Outros limitam esses
+escrúpulos ás suas próprias aves, <span class="pagenum">[20]</span> e recusam-se a comer daquelas que
+sustentaram e cuidaram. Todavia, todos se alimentam, sem remorsos e de
+coração leve, de carne de caça, de carneiro e de aves quando foi
+comprada no mercado. Neste procedimento, imagino, transparece qualquer
+coisa como a <i>consciência da culpa</i>; parece que se esforçam por se
+salvarem da imputação dum crime (cujas ligações percebem) afastando de
+si quanto possivel a respectiva causa. E nisso descubro vivos sinais da
+primitiva piedade e inocência, que o poder arbitrário do costume e a
+violência da luxúria ainda não foram capazes de conquistar.»</p>
+
+<p>Por êste mesmo tempo de Bernardo de Mandeville, no período tão fecundo
+de renovação religiosa e filosófica que vai do meiado do século XVII ao
+meiado do século XVIII, o respeito da vida dos animais inferiores
+encontrou invariavelmente defensores convictos nos melhores espíritos da
+época. Wesley foi um dêsses e Pope, o célebre poeta inglez, recordando
+lições do «excelente Plutarco» que, dizia, «tinha mais impulsos de boa
+natureza nos seus escritos do que qualquer outro autor de que se
+lembrasse», repete-lhe os conselhos analisando e condenando os costumes
+sanguinários de então que, como hoje, passavam para o maior número por
+admirável destreza física e modos sãos e legítimos de existência moral e
+fisiológica.</p>
+
+<p>«Não posso imaginar extravagante», escreveu Pope, «que o género humano
+seja, relativamente, menos responsável pelo mau uso do seu domínio sôbre
+as camadas inferiores dos seres do que o é pelo exercicio da tirania
+sôbre a sua própria espécie. Quanto mais completamente a criação
+inferior se encontra submetida à nossa fôrça mais responsáveis deveremos
+ficar pelo seu máu govêrno; por maioria de razão se deve considerar esta
+responsabilidade, visto que a própria natureza dos animais inferiores os
+torna incapazes de receberem em outro mundo qualquer recompensa dos máus
+tratos que sofrerem nêste. É de notar que os animais nocivos, com mais
+poderosas qualidades para nos fazerem mal, evitam naturalmente os homens
+e nunca nos ofendem senão provocados ou coagidos pela fome... Não parece
+fácil defender meramente por <i>sport</i> a destruição de qualquer coisa que
+tenha vida. Todavia as crianças são educadas nesta ideia e um dos
+primeiros prazeres é a licença de infligir penas a animais sem defeza.
+Mal nos <span class="pagenum">[21]</span> tornamos sensiveis ao que a vida é para nós, fazemos um
+passatempo de a roubarmos aos outros... Quando crescemos e nos fazemos
+homens, temos outra série de passatempos sanguinários, particularmente a
+caça. Não ouso atacar um divertimento que tem a sustentá-lo tal
+autoridade e costume; mas consintam-me que tenha a opinião de que a
+agitação daquêle exercício, com o exemplo e o número dos caçadores,
+contribue não pouco para resistir áqueles impulsos que a compaixão
+naturalmente sugere a favor dos animais perseguidos.»</p>
+
+<p>«Mas se os nossos <i>sports</i> são destruidores, muito mais o é a nossa gula
+e duma fórma muito mais desumana. As lagostas assadas vivas, os porcos
+fustigados até à morte, as aves amanhadas, são testemunho da nossa
+luxúria. Aquêles que, na frase de Sêneca, repartem a vida entre uma
+consciência ambiciosa e um estômago enauseado, teem a justa recompensa
+da sua gula nas doenças que ela acarreta. Porque os selvagens humanos,
+como os outros animais bravios, encontram ratoeiras e venenos nas
+provisões da vida e enganados pelo apetite correm à propria destruição.
+Não conheço nada mais repelente do que o aspecto duma das suas cozinhas
+coberta de sangue onde se ouvem os gritos dos seres que expiram em
+torturas. Dá-nos a imagem da caverna dum gigante nos romances, juncada
+de cabeças dispersas e membros lacerados daquêles que a sua crueldade
+chacinou.»</p>
+
+<p>Com tão bons guias, chegaremos ao humanismo do século XVIII que Rousseau
+e Voltaire consubstanciaram maravilhosamente.</p>
+
+<p>Voltaire, no <i>Dicionário filosófico</i>, discorrendo sôbre a palavra carne,
+escreveu:</p>
+
+<p>«Sabe-se que Pitágoras, que estudou com os brahmanes a geometria e a
+moral, adoptou a sua doutrina humana e trouxe-a para a Itália. Muito
+tempo a seguiram os seus discipulos: os célebres filósophos Plotino,
+Jâmblico e Porfírio, recomendaram-na e até mesmo a praticaram, posto que
+seja muito raro fazer aquilo que prégamos. A obra de Porfírio sôbre a
+abstinência de carnes animais, escrita pelo meiado do nosso terceiro
+século, é muito estimada dos eruditos mas não fez mais discípulos entre
+nós que o livro do médico Hecquet. É em vão que Profírio propõe para
+modelos os brahmanes e os magos persas de primeira classe <span class="pagenum">[22]</span> que
+tinham horror ao costume de engolfar nas suas entranhas as entranhas das
+suas criaturas. Não é seguido hoje senão pelos padres da Trapa. O
+escrito de Porfírio é dirigido a um dos seus discípulos, Firmus, que,
+diz-se, se fez cristão para ter a liberdade de comer carne e de beber
+vinho. Adverte a Firmus que abstendo-nos da carne e dos licores fortes
+conservamos a saúde da alma e do corpo, vivemos mais tempo e com mais
+inocência. Todas estas reflexões são dum teólogo escrupuloso, dum
+filósofo rígido e duma alma doce e sensível. Julgariamos ao lê-lo que
+êste grande inimigo da Igreja é um padre da Igreja. Considera os animais
+como nossos irmãos porque são animados como nós, porque teem os mesmos
+princípios de vida, porque teem, assim como nós, ideias, sentimento,
+memória, engenho. Só lhes falta a palavra. Se a tivessem, ousaríamos
+matá-los e comê-los? Ousaríamos cometer fratricídios? Qual é o bárbaro
+que poderia assar um cordeiro, se êsse cordeiro nos conjurasse por um
+discurso comovedor a que não fôssemos ao mesmo tempo assassinos e
+antropófagos? Este livro prova pelo menos que entre os gentílicos houve
+filósofos da mais austera virtude; mas não conseguiram prevalecer contra
+os magarefes e os glutões. A gula, o jôgo e a preguiça baniram do mundo
+toda a virtude.»</p>
+
+<p>Ao mesmo tempo que Voltaire, Rousseau fazia suas as ideias de Plutarco
+sôbre o regime alimentar; e proclamando-as com a violência habitual do
+seu carácter, com aquela mesma impetuosidade que incansavelmente
+empregou em fustigar a depravação do seu tempo e em incitar a uma
+regressão salutar ao contacto e à simplicidade da natureza, inscreveu o
+vegetarismo entre os artigos da nova fé. Sobretudo na educação da
+criança quer que rigorosamente o vegetarismo prevaleça porque uma das
+provas de que o sabor da carne não é natural ao homem é a indiferença
+das crianças por este gênero de alimento e a preferência que elas dão
+aos alimentos vegetais como as sopas, as massas, os frutos, etc.<sup><a
+href="#nota2" name="o_nota2">[B]</a></sup> É de suprema importância que <span class="pagenum">[23]</span> não
+se lhes desnature o gôsto primitivo e não se tornem carnívoras, senão
+por motivos de saúde, pelo menos por causa do carácter. Porque, seja
+qual fôr a explicação da experiência, é certo que os grandes comedores
+de carne são, em geral mais cruéis e ferozes do que os outros homens.
+Esta observação é verdadeira em todos os lugares e em todos os tempos. É
+bem conhecida a grosseria inglesa. Os gauros, pelo contrário, são os
+mais gentis dos homens. Todos os selvagens são crueis, e não é a sua
+moral que os leva a isso; a sua crueldade provém do seu alimento. Vão
+para a guerra como para a caça e tratam os homens como tratam os ursos.
+Mesmo na Inglaterra os magarefes não são admitidos como testemunhas
+legais, assim como os cirurgiões. Os grandes criminosos endurecem-se
+para o assassinio bebendo sangue. Homero representa os ciclopes, que
+eram carnívoros, como homens terríveis, e os lotófagos como um povo tão
+doce que mal alguém tinha comércio com êle, logo esquecia tudo e a sua
+pátria para viver com êle... Já se viu alguém aborrecer o pão e a água?
+Veja-se o cunho da Natureza! Veja-se aí pois uma regra de vida.
+Conservemos na criança pelo mais largo tempo possível o seu gôsto
+primitivo; deixemos que o seu alimento seja simples e vulgar; façamos
+que o seu paladar sómente se familiarize com os aromas naturais e que
+não se forme gôsto algum exclusivo... Algumas vezes observei a gente que
+dá importância a <i>viver bem</i>, que pensa, mal acorda, no que ha-de comer
+durante o dia e descreve um jantar com mais exactidão do que Políbio usa
+na descripção duma batalha. Pensei que todos esses chamados homens eram
+apenas crianças de quarenta anos, sem vigor e sem consistência. A gula é
+o vício das almas que não teem fundo. A alma do glutão está no seu
+paladar. Veio ao mundo para devorar. Na sua estúpida incapacidade, só à
+mesa está à vontade. A sua capacidade de julgar limita-se às suas
+iguarias.»</p>
+
+<p>Um Shelley, um Lamartine, um Michelet ou um Gleizès tiveram na verdade
+bem desbravado o terreno para deixarem <span class="pagenum">[24]</span> voar livres os seus sonhos
+duma nova existência toda de pureza que aborrecesse a carnificina e o
+sangue onde quer que os encontrasse, na floresta, no lar ou no campo da
+batalha, e sómente alimentasse o corpo e a alma nos inocentes e
+perfumados frutos da terra. O desenvolvimento do vegetarismo no século
+XIX, a discussão e consolidação da sua doutrina e o derramamento da sua
+prática, não serão já a aspiração de gênios privilegiados mas o
+patrimônio comum de milhares e milhares de espíritos esclarecidos e de
+corações exaltados em amor. Convinha que assim acontecesse, desde que
+uma vaga de libertação da humanidade, sem precedentes na história, nos
+punha deante de Deus, da natureza e do dever desprendidos de todo o
+estôrvo da opressão do costume e das tiranias sectárias. Mas não será em
+vão que os mais bem inspirados combatem pelo advento do novo reino. A
+liberdade de proceder não significa o domínio e a supressão da ruindade.
+O que nesse campo havia e ha a conquistar e é o legado funesto de
+gerações sôbre gerações de crueldade, é infinito. O que se conquistou é
+minimo relativamente ao que importa conquistar.</p>
+
+<p>Por isso um homem como Wagner descerá do altíssimo pedestal a que o
+próprio talento e a fama o ergueram e virá com os mais humildes exortar
+os infieis e os ignorantes a iniciarem a sua redenção no vegetarismo.</p>
+
+<p>Lichtenberger, no seu excelente estudo de Ricardo Wagner como poeta e
+pensador, expõe-nos nestes termos as ideias daquêle soberbo gênio sôbre
+o vegetarismo, particularmente sôbre a importância que ele lhe atribuia
+na regeneração física e moral das sociedades humanas.</p>
+
+<p>A citação será longa mas convém que se faça, é indispensável, aponta
+dados primaciais do problema:</p>
+
+<p>«Se consideramos primeiro a evolução humana como fenômeno fisiológico,
+verificamos, segundo Wagner, que duas causas trouxeram a degeneração da
+raça branca: a má alimentação, que do homem primitivamente frugívoro fez
+um carnívoro, e a mistura das raças que profundamente alterou o
+temperamento primitivo e as virtudes hereditárias dos antigos arias.
+Estas duas causas tem por efeito uma alteração do próprio sangue entre
+os povos modernos e em particular no povo alemão, alteração que deve ser
+considerada como a razão fisiológica, como o princípio <span class="pagenum">[25]</span> inicial da
+corrupção profunda que hoje aparece no seio das nações europeias.</p>
+
+<p>«O homem natural, inocente e feliz, de que Wagner traçara outrora a
+imagem ideal no seu moço Siegfredo, não mais se concebe agora (nesta
+época da sua vida) sob as linhas do germânico belo e vigoroso, sempre
+pronto para a guerra e para as aventuras, belicoso pelo prazer de medir
+suas fôrças com os rivais, e inacessivel ao temor. É agora o índio dos
+tempos primitivos, o índio morigerado e reflectido por uma religião de
+suavidade: «Uma natureza generosa lhe oferecia o que era necessário para
+satisfazer as necessidades da vida; a vida contemplativa, a meditação
+séria podia levar estes homens, livres de todo o cuidado da sua
+sustentação, a reflectirem profundamente sobre a natureza deste mundo
+onde, como a experiência passada lhes havia mostrado, reinava a
+indigência, o cuidado, a dura necessidade do trabalho e mesmo da luta e
+do combate para a posse dos bens materiais. Ao brahmane, possuído do
+sentimento de ter em certo modo entrado em uma vida nova, o guerreiro
+parecia-lhe necessário como guarda da segurança exterior e por esta
+razão tambêm digno de piedade; o caçador, pelo contrário inspirava-lhe
+um horror profundo e o carrasco dos animais domésticos parecia-lhe
+inconcebível». Estes homens de costumes tão doces sabiam todavia dar
+provas duma fôrça dalma sem igual, quando disso era ensejo próprio:
+nenhuma tortura, nenhuma promessa pôde jámais obriga-los a renunciarem á
+sua fé religiosa; e Wagner cita com admiração a história comovente de
+tres milhões de indios que, por ocasião duma fome causada pelos
+especuladores ingleses, preferiram morrer de fome a tocar nos seus
+animais domésticos. Mas o homem primitivo, vegetariano e manso, que
+recusa derramar o sangue dos seus semelhantes e o dos seus irmãos
+inferiores, os animais, degenera pouco a pouco sob a pressão das
+circunstâncias exteriores. Transportado, no correr das emigrações, para
+climas menos clementes, torna-se caçador e carnívoro, para escapar á
+fome; aprende a alimentar-se com a carne dos animais domésticos. Desde
+os primeiros tempos da história, vemo-lo transformar-se assim em um
+animal de prêsa ávido de sangue e por fim deleitando-se em matar, não só
+para satisfazer a fome mas pelo prazer de matar. Este animal de prêsa
+conquista vastas províncias, <span class="pagenum">[26]</span> subjuga raças frugivoras, funda por
+guerras sucessivas grandes impérios, dita leis e cria civilizações para
+gozar em paz da sua rapina, Hoje é mais perigoso e mais sanguinário do
+que nunca; aperfeiçoou dum modo terrível os engenhos de destruição,
+exgota-se em armamentos estéreis e vive num estado de <i>paz armada</i>
+periodicamente interrompida por carnificinas medonhas. Depois, ao lado
+do homem de prêsa militar desenvolveu-se no correr dos séculos o homem
+de prêsa especulador, tão de temer e tão mortífero posto que menos bravo
+do que o primeiro, e cuja acção devastadora se exerce sem interrupção
+sobre a massa do povo que êle votou á miseria e à ruina. Mas se o homem
+de prêsa domina o mundo como a fera reina na floresta, é como ela
+degenerado: «Do mesmo modo que o animal de prêsa não prospera, diz
+Wagner, do mesmo modo vemos o homem de prêsa vitorioso finar-se
+lentamente. Por causa do alimento contra a natureza que êle usa, é
+vítima das doenças que só nêle aparecem, e nunca alcança nem o termo
+normal dos seus dias nem uma morte doce: sob o aguilhão de sofrimentos e
+de torturas que só êle conhece e que lhe ferem o corpo como a alma,
+apressa-se através duma vida de agitações vãs, para um fim sempre
+terrível».</p>
+
+<p>«Mas do mesmo modo que o homem primitivo, colocado em circunstâncias
+desfavoráveis, teve de trocar a alimentação vegetal pela alimentação
+animal, do mesmo modo poderá, quando tiver consciência da sua miseria e
+souber reconhecer como seus todos os sofrimentos dos homens e dos
+animais, voltar por um esforço de vontade a uma alimentação
+exclusivamente vegetal. Só por tal preço póde esperar a regeneração.
+Assim não se deixará desanimar nesta empresa por nenhuma dificuldade de
+ordem prática. Wagner considera como uma verdade experimental
+demonstrada que o homem pode amoldar-se a um regime vegetariano em todas
+as latitudes. Mas não hesita em declarar que no caso em que se
+reconhecesse a necessidade duma alimentação animal nos climas do norte,
+as raças superiores deveriam emigrar sistematicamente para regiões mais
+favorecidas do sol. Desde já considera como instituições de salvação as
+ligas de vegetarianos, as associações para a protecção dos animais e as
+associações de temperança que procuram libertar o homem da tirania
+medonha do álcool. Quando estas associações fracas, desprezadas e hoje
+um <span class="pagenum">[27]</span> pouco ridículas, tiverem mais inteira consciência do fim sublime
+que teem em vista e se apresentarem ao público não como modestos
+apóstolos dum mediocre pensamento utilitário mas como os missionarios da
+doutrina da regeneração, poderão tornar-se os instrumentos eficazes da
+redempção do mundo moderno.»</p>
+
+<p>Eis aí o que Wagner pensava do vegetarismo, da alta missão social que
+lhe está guardada e da influência fundamental que tem na moralidade das
+raças. E pronunciando o seu nome desnecessário se torne lembrar em que
+assombrosas faculdades esta doutrina encontrou protecção e impenetrável
+escudo.</p>
+
+<p>Acrescentemos ainda a essa voz de excepcional poder mais um depoimento.
+É o de E. Réclus.</p>
+
+<p>O seu talento, o seu saber, os seus infinitos conhecimentos da terra e
+dos homens as suas virtudes morais, a sua sinceridade, a sua inteireza e
+a sua coragem que ele sujeitou às mais crueis provações e que de todas
+sairam vitoriosas, a sua própria experiência do vegetarismo que praticou
+durante mais de sessenta anos consecutivos e que não o impediu de morrer
+com mais de oitenta duma vida de trabalho infatigável e de ardente
+apostolodo, todas estas e muitas outras circunstâncias congêneres lhe
+dão um lugar privilegiado que convém respeitar, não por sua glória que
+do nosso humilde respeito não carece, mas por nosso interesse que do seu
+conselho não póde prescindir.</p>
+
+<p>«Não era químico nem doutor», confessa, «não mencionará nem o azote nem
+a albumina, nem reproduzirá as fórmulas dos analistas mas contentar-se-á
+simplesmente dizendo as suas impressões pessoais que de resto coincidem
+com as de muitos vegetarianos.» Foi virtualmente um vegetariano desde
+criança. Uma pessoa de familia mandou-o um dia ao açougue buscar um
+pedaço de carne, e perante os horrores que lá viu, desmaiou. Ouvia que o
+dono do talho o trouxera a casa sem sentidos. Foi esse o seu baptismo
+vegetariano. Não o aprendeu nas academias, nos hospitais ou nos
+laboratórios. Nasceu-lhe no coração.</p>
+
+<p>«Cada um de nós», diz Réclus, «especialmente aquêles que viveram em um
+canto da província, muito longe das cidades vulgares ordinárias, onde
+todas as coisas estão metodicamente classificadas e disfarçadas,--cada
+um de nós tem visto alguma coisa dessas barbaridades cometidas pelos
+<span class="pagenum">[28]</span> que comem carne contra os animais que êles comem. Não ha
+necessidade de ir a nenhuma Porcopolis da América do Norte ou a uma
+<i>saladera</i> de La Plata, para contemplar os horrores dos massacres que
+constituem a condição primária do nosso alimento quotidiano. Mas estas
+impressões gastam-se com o tempo; cedem perante a perniciosa influência
+da nossa educação de todos os dias, que tende a arrastar o indivíduo
+para a mediocridade, e o despoja de quanto concorra para o tornar uma
+personalidade original. Pais, mestres, por oficio ou por amizade,
+doutôres, para não falar desta poderosa individualidade que chamamos
+<i>toda a gente</i>, todos trabalham juntos para endurecerem o carácter da
+criança com respeito a êste «alimento de quatro pés» que, todavia, ama
+como nós amamos, sente como nós sentimos, e sob a nossa influência
+progride ou retrocede como nós... Não é uma digressão mencionar os
+horrores da guerra em conjunção com o massacre dos gados e os banquetes
+carnívoros. A dieta dos indivíduos corresponde exactamente aos seus
+modos. O sangue pede sangue. Nêste ponto, quem rememorar as suas
+lembranças daquêles que tem conhecido, encontrará que não póde haver
+dúvida possível quanto ao contraste que existe entre os vegetarianos e
+os grosseiros comedores de carne--ávidos bebedores de sangue--na
+amenidade dos seus modos, na gentileza de disposição e regularidade de
+vida. É certo que estas qualidades não são muito apreciadas daquelas
+<i>pessoas superiores</i> que, não sendo de fórma alguma melhores que os
+outros mortais, são sempre mais arrogantes e imaginam que acrescentam a
+sua importância depreciando os humildes e exaltando os fortes. Para
+elas, doçura significa fraqueza: os doentes são um tropêço, e seria
+caridade varrêl-os do caminho. Se não forem mortos, deve-se pelo menos
+deixar que morram. Mas é justamente esta gente delicada que resiste á
+doença melhor do que os robustos...</p>
+
+<p>«Seja porém como fôr, apenas digo que para a grande maioria dos
+vegetarianos a questão não é se os seus biceps e triceps são mais
+sólidos do que os daquêles que comem carne, nem se o seu organismo está
+mais apto a resistir aos riscos da vida e às contingências da morte, não
+é isso o mais importante; para eles o ponto importante é o
+reconhecimento dos laços de afeição e bôa vontade que unem o homem aos
+chamados animais inferiores e a ampliação até <span class="pagenum">[29]</span> êsses nossos irmãos
+do sentimento que já pôz termo ao canibalismo êntre os homens... O
+cavalo e a vaca, o coelho e o gato, o gamo e a lebre, o feisão e a
+cotovia, são-nos mais agradáveis como amigos do que como comida.
+Queremos conservá-los ou como respeitados companheiros de trabalho ou
+simplesmente como companheiros na alegria da vida e na amizade.»</p>
+
+<p>E, chegado a êste ponto, seja-me permitido prescindir das restantes
+testemunhas que são ainda dezenas e dezenas dos que deixaram o rasto
+marcado na história da civilização. Prescindo de depoimentos preciosos,
+prescindo, por agora, da sanção do vegetarismo pela autoridade de
+individualidades tão altas como, por exemplo, Leão Tolstoi, para o qual
+o vegetarismo é o <i>primeiro passo</i>, ou como êsse outro proféta de
+alêm-mar, Henrique David Thoreau que julgava «um benfeitor da sua raça»
+aquêle que ensinasse os homens a limitarem-se a uma dieta mais inocente
+e salutar do que aquela miserável de degolar cordeiros». Não ignoro que
+riquezas de elucidação e de exemplo deixo de usar, nem o faço sem mágoa.
+O meu desejo e o interesse da causa a que tão sinceramente consagro os
+meus pobres esforços, seria repetir linha a linha e gravar na memória
+dos que me escutam esse admirável breviário de Howard Williams que tem
+por titulo <i>A Etica da Dieta</i> e ao qual fui beber a maior parte de
+aquilo que aqui reuni e coligi. Mas o que deixo apontado será por
+ventura o bastante para a demonstração da tése que me propus defender; e
+a necessidade de concluir este primeiro ponto das minhas considerações
+não permite que mais me alongue na apresentação dos documentos em que se
+fundam.</p>
+
+
+<h3>II</h3>
+
+<p>Disse que o vegetarismo tem os seus pergaminhos, que possue títulos
+autênticos de nobreza. Provam-no os documentos que apresentei. A
+história da civilisação registou-lhe a antiguidade; e as virtudes e os
+merecimentos dos homens eminentes que o serviram pela palavra e pelo
+exemplo são garantia da sua excelência.</p> <span class="pagenum">[30]</span>
+
+<p><i>Quid inde?</i> Com que direitos e por que trâmites se criou essa nobreza e
+por que razões ha-de persistir em nossos dias?</p>
+
+<p>Consideremos por um instante os momentos em que a defesa e a prática do
+vegetarismo se mostraram mais calorosas, mais acentuadas nas afirmações
+e mais disseminadas na acção. Imediatamente se nos revelará o seu
+carácter e a sua influência na moralidade das raças.</p>
+
+<p>Aparece-nos primeiro o vegetarismo, claramente definido e apregoado como
+mandamento essencial de bem viver, na escola de Pitágoras, na aurora do
+helenismo, quando ele começou a ter consciencia dos seus destinos e a
+meditar lucidamente nas responsabilidades do homem perante a vida
+universal.</p>
+
+<p>Renova-se seis séculos mais tarde com Plutarco, quando uma pausa nas
+disputas do mundo sucedendo à amálgama de diferentes raças e
+diversíssimas aspirações religiosas em uma só e nova civilização
+permitiu aos homens que interrogassem o seu íntimo e conhecessem o que
+queriam da terra e o que lhe deviam, que fins e obrigações os
+encaminhavam e prendiam.</p>
+
+<p>Pouco depois encontramo-lo em Alexandria onde Porfírio e a pléiade de
+filósofos que naquelas terras meditava a experiência de quasi dez
+séculos de vida social intensa investigavam as consequências que de aí
+derivavam para a compreenção d'este pequenino ser que é o homem.</p>
+
+<p>Escurece-se na pulverização do império romano, enquanto o tumulto das
+guerras e a poeira do desabar de ruinas não consentiam parança em que os
+problemas morais da nossa vida se traçassem e solvessem. Mas logo a
+breve trecho eis renascido com Montaigne o vegetarismo em toda a sua
+pureza e formosura porque se reatava o fio perdido e quebrado da cultura
+antiga. Acaricia-o em seguida o humanismo do seculo XVIII, até que no
+seculo XIX lhe abrem de par a par as portas da cidade e porventura lhe
+dão ingresso no templo os mais venerandos levitas da redenção humana.</p>
+
+<p>Isto é--sempre que as sociedades europeias poderam pelo gráu de cultura
+que atingiam ouvir a voz da consciência moral e prestar obediência aos
+seus ditames, o vegetarismo surge e impõe-se como uma lei a que não é
+permitido esquivar-nos, sob pena de ignominiosa traição do dever <span class="pagenum">[31]</span> e
+de crueis remorsos. Não é outra a lição da história sôbre esta doutrina,
+nem outra póde ser a interpretação das vicissitudes por que tem do
+passado, dos entusiasmos que despertou, e dos ódios que o perseguirem e
+da irrepressível expansão que em nossos dias o propaga. É um fenômeno da
+consciência moral, invariavelmente presente onde quer que a consciência
+moral assista, seu filho e servo. Não é um devaneio filosófico, questão
+de sistema ou de lógica, é um acto de religião.</p>
+
+<p>Por isso teve e tem inimigos, porque não póde dominar sem offender
+crenças arreigadas e potestades criadas, sem sobretudo escandalizar esse
+«poder arbitrário do costume e a violência da luxúria» de que falou
+Bernardo do Mandeville e que encontram na fé vegetariana como uma
+acusação dos seus crimes e uma ameaça de abolição contra as quais se
+revoltam.</p>
+
+<p>Singular coincidência! Os apóstolos do vegetarismo não mereceram em
+regra as boas graças dos poderes politicos constituídos. São aborrecidos
+de todos os despotismos. Sendo o vegetarismo uma doutrina de amor,
+porventura é odiada de toda a opressão e egoismo. O certo é que os
+discípulos de Pitágoras foram perseguidos; Ovídio foi desterrado e
+Sêneca foi condenado à morte e os cataros sofreram da igreja católica as
+mais bárbaras crueldades.</p>
+
+<p>Na verdade, significa uma profunda revolução moral com todas as
+consequências sociais que necessáriamente importa. Como tal o devem
+considerar os que o seguirem, armando-se com a coragem indispensável
+para afrontarem todas as penas e riscos d'uma revolução. Se os nossos
+tempos não toleram martírios, nem por isso pódem prescindir de
+tenacidade e firmeza d'animo onde uma grande aspiração se proposer
+conquistar o seu lugar no mundo.</p>
+
+<p>A tarefa será tanto mais árdua quanto é certo que o vegetarismo se vê
+enleiado e combatido por tradições terríveis.</p>
+
+<p>Toda a nossa civilização é filha da civilização romana. Dela viemos e na
+realidade nela nos mantemos; quanto julgamos progresso não é mais do que
+o natural desenvolvimento das bases em que ela se fundou. A nossa
+estrutura mental como a nossa estrutura econômica, como, sobretudo os
+nossos problemas sociais, tudo é a repetição e a ampliação em volume e
+complexidade do que o romano sentiu, criou e nos legou.</p> <span class="pagenum">[32]</span>
+
+<p>Ora, não nos iludâmos; não há talvez pior inimigo do vegetarismo do que
+a cultura latina. Compare-se a civilização latina com as civilizações
+orientais e a superioridade moral destas últimas imediatamente se nos
+mostra com evidência. A intemperança, a gula e a crueldade foram vícios
+caraterísticos do mundo romano, que na escala dos valores morais o
+deixaram inferior, não já à puresa do budismo, que com êsse o confronto
+é inadmíssivel sôb êste aspecto, mas até mesmo à sobriedade e
+frugalidade do grego, de cuja civilização descendia em linha recta. Aos
+banquetes de Luculo correspondiam as atrocidades do circo, tal qual como
+agora a uma hecatombe de vitelas e aves corresponde a embriaguez das
+touradas. Por todos os lados corre igualmente a jorros o sangue inocente
+dos mansos animais e nêles se deleitam o nosso ventre, o paladar e os
+olhos. Parece que há mais de vinte e cinco séculos a nossa raça vive sôb
+um anátema irrevogável de crueldade, tanto mais pungente quanto é clara
+a consciência da maldição que nos atormenta.</p>
+
+<p>Catão, o Censor, diz-nos como orgulhoso do feito que, quando foi cônsul,
+deixou na Espanha o seu cavalo de guerra para aliviar o tesouro público
+dêsse encargo. E Plutarco, referindo o facto, acrescenta:--«Se tais
+coisas são exemplos de grandeza ou de mesquinhez de alma, o leitor que o
+julgue.»</p>
+
+<p>São exemplos de mesquinhez; sentia-o o historiador tão bem como nós o
+sentíamos. Mas a enfermidade persiste e até hoje não podemos vencê-la e
+sob o seu deprimente influxo nos arrastamos. O catonismo tornou-se senão
+um título pejorativo, pelo menos um estigma de desumanidade. Mas nem por
+isso condenando-o em palavras, banimos o catonismo dos nossos corações e
+deixamos de sacrificar á sua desapiedade soberba tanto os homens nossos
+irmãos como os animais a que as demências da nossa vaidade passaram
+diploma de inferioridade.</p>
+
+<p>Dobramos o cabo das Tormentas, escravizámos o índio, e ameaçando a
+terra, o mar e o mundo, tudo calcámos victoriosos e em nossos triunfos
+nos glorificámos. Se porém me fosse dado escolher entre a sorte do
+vencedor e a do vencido, diria, com pena de incorrêr em acusação de
+traição ao amor da pátria, que a todas as nossas glórias, que são
+muitas, sem embargo, e brilhantes, eu preferiria que como <span class="pagenum">[33]</span> na Índia
+do seculo XVIII, trez milhões de portuguezes tivessem a coragem, que o
+índio teve, de preferirem morrer de fome a matar os animais seus
+companheiros e seus servos e amigos.</p>
+
+<p>Não sei de maior grandeza na história. Não sei de exemplo de mais
+sublimada moralidade duma raça, de mais grandiosa, perfeita e absoluta
+imolação ao amor, a este amor que é a essência da vida, a razão de ser
+da nossa existência, o padrão único por que se póde aferir a grandeza
+humana, «o comêço de todo o pensamento digno d'este nome» na feliz
+expressão de Carlyle.</p>
+
+<p>Heroísmo por heroísmo, o d'esses vencidos que maltratámos, foi
+infinitamente superior às façanhas militares de que tanto nos
+orgulhamos.</p>
+
+
+<h3>III</h3>
+
+<p>Se porêm o vegetarismo fôsse incapaz de captivar os homens de
+inteligência lúcida e coração recto só pelo seu valor moral absoluto,
+pelo que representa como signal da mais alta concepção moral das
+relações do homem com o universo e particularmente com os seres vivos
+que nos cercam, não poderia deixar de persuadir os mais rebeldes pela
+sua influência directa, imediata, como mecânica, na dissipação de
+flagêlo que presentemente é o maior e mais terrível dissolvente da
+moralidade das raças--o alcoolismo.</p>
+
+<p>Não é êste o ensejo de nos ocuparmos de semelhante calamidade para
+afastar a qual todo o esfôrço será pouco. Mas ninguém d'olhos abertos e
+medianamente preocupado com a vida das sociedades e a sua fortuna poderá
+deixar de reconhecer com J. Reinach que, «se a questão do alcoolismo não
+é toda a questão social, é a mais terrível e a mais grave das questões
+sociais.»</p>
+
+<p>O que a êsse respeito se passa em o nosso país, não o sei eu. Suponho
+que será tremendo, a julgar por aquilo que casualmente encontro a cada
+passo na vida quotidiana, pelo que vejo nas ruas e em todos os
+ajuntamentos dos dias de descanso, pelo que se ouve nos tribunais onde
+quási não há crime de violência contra as pessôas que não seja <span class="pagenum">[34]</span>
+cometido sob a acção próxima ou remota do álcool, pelo movimento dos
+hospitais onde sob inumeráveis fórmas essa desgraça vai pedir socorro e
+o mais das vezes acabar.</p>
+
+<p>Não o sei. As estatísticas do nosso país são menos do que incompletas ou
+deficientes a tal respeito; são nada. Parece que tememos saber toda a
+verdade e preferímos afundar-nos em cegueira total e em criminosa
+indiferença, embora o exemplo dos demais países nos assegure que não é
+assim que cada um cumpre o que deve à pátria, à humanidade e à
+consciência.</p>
+
+<p>Mas conheço um pouco e de verdade certa o que se passa imediatamente em
+volta de mim, no lugar que habito, e isso basta para me aterrar
+infundindo-me no espírito as mais lugubres preocupações sobre o futuro
+da nossa raça.</p>
+
+<p>Pelas estatísticas municipais corrigidas por quem por longa experiência
+conhece o movimento dos impostos, Aveiro com os seus 10:000 habitantes
+deverá ter consumido em 1911 (numeros redondos):</p>
+
+<p>1.041:000 litros de vinho comum.</p>
+
+<p>7:500 litros de vinhos licorosos.</p>
+
+<p>11:000 litros de agua-ardente.</p>
+
+<p>Isto equivaleria na mais benigna hipótese a uma despeza de 50 contos de
+reis e a um consumo de álcool puro de 7,5 litros por habitante, pelo
+menos. Se nos lembrarmos da soma de mulheres e crianças que se acha
+incluída nos 10:000 habitantes do total da população da cidade,
+poderemos fazer uma vaga ideia das percentagens extremas que deve
+atingir o consumo para os consumidores efectivos e tambêm da
+precipitação de decadência física, moral e econômica que está minando a
+raça.</p>
+
+<p>Ora eu não posso crêr que Aveiro seja um lugar de maldição no país. Pelo
+contrário, inclino-me antes a pensar que será uma das terras do país
+menos desmoralizadas não só neste ponto mas em absoluto. E sendo assim,
+como tudo leva a crer, poderemos bem imaginar por este minúsculo exemplo
+em que inferno estamos vivendo, a que penas estamos sujeitando os nossos
+filhos e o futuro da nossa pátria, que tremendas responsabilidades de
+ignomínia e de traição não estamos tomando perante a história, porque
+outra traição mais infame eu não conheço do que aquela que resulta no
+aviltamento físico e moral dos nossos filhos.</p>
+
+<p>Salvação, se a póde haver, e sem dúvida a haverá <span class="pagenum">[35]</span> porque assim o
+teem demonstrado os países mais adeantados do que o nosso que
+conscientes do mal não descansam em lhe acudir com todos os
+preservativos e remédios que a experiência lhes vai aconselhando, a
+salvação terá de começar pela propagação do regime vegetariano que em
+semelhante missão, sem se degradar e antes acrescendo as virtudes,
+passará d'um dever moral imprescindível a uma utilidade social de
+primeira grandeza.</p>
+
+<p>«Basta a questão do álcool para que o problema da dieta seja digno da
+atenção de todos os homens que amem a pátria», escreveu Russel no seu
+belo livro <i>Strength and Diet</i>, hoje um clássico. Se o vegetarismo é o
+<i>primeiro passo</i>, na opinião de Tolstoi, para a disciplina da nossa
+vontade na obediência religiosa, é simultaneamente a primeira regra para
+nos salvar da decadência do corpo e do espírito nêsse <i>embrutecimento</i>
+do álcool como Tardieu lhe chamou, resumindo em uma só palavra as
+consequências de tal processo de envenenamento dos homens e das raças.
+Porque <i>qualis enim esus, talis est potus</i>; tal comida, tal bebida.
+Assim o disse ha longos séculos Tertuliano meditando nos trâmites da
+vida religiosa, buscando os caminhos por que a santidade se alcança; e a
+sciência dos nossos dias não desmentiu as lucubrações do teologo. Pelo
+contrário, absolutamente as confirmou.</p>
+
+<p>Hoje, como então, a carne e o vinho são companheiros e cúmplices nessa
+embriaguez do nosso sangue e da nossa alma que nos conduz aos infernos
+de todas as demencias e abjecções.</p>
+
+<p>O seu processo na desmoralização das raças é sabido. A atrofia de
+consciência que é o invariável resultado de todas as intemperanças da
+gula começará por ser acidental e transitória na sua victima, para em
+seguida se tornar permanente, constante, ininterrompida por virtude de
+repetição, e para finalmente se transmitir por hereditariedade a toda a
+descendência, por isso mesmo que se tornou verdadeiramente
+constitucional e orgânica.</p>
+
+<p>É n'esta operação de aviltamento da nossa raça que o carnivorismo está
+colaborando activamente. Combater pelo vegetarismo é combater o
+alcoolismo na sua maior fortaleza.</p>
+
+<p>Dos resultados que os nossos esforços, poderão ter em uma tal calamidade
+dizem as lições que os países <span class="pagenum">[36]</span> estrangeiros nos facultam. Um só
+exemplo invocarei. Há cerca de cincoenta anos a Suécia tinha uma taberna
+por 100 habitantes e a Noruega uma por 200. Hoje a Suécia tem uma
+taberna por 5:000 habitantes e a Noruega uma por 9:000. E isto que é
+gigantesco como capacidade de redenção dum pôvo, não foi a obra do
+acaso; foi o produto do método, sistema e energia de vontade que todas
+as terapêuticas aproveitou. Não se é uma nação civilizada e digna por
+menor preço.</p>
+
+<span class="pagenum">[37]</span>
+</div>
+
+<div class="notas">
+<p class="indent_negativo"><a href="#o_nota1" name="nota1">[A]</a> Na verdade, os processos de cosinha carnívora não são outra coisa
+senão processos de corrupção; o alimento será tanto mais saboroso quanto
+mais perfeitamente se lhe houver dissipado a exalação fetida primitiva.
+Qualquer dama de mãos mimosas que trinca com delicia uma costeleta
+coberta de pão e embalsamada em loiro, em cravo, em salsa, em cebola,
+pimenta e limão, empalidece de nausea sentindo o cheiro do açougue,
+considera imundicie um pedaço de carne crúa nos seus vestidos e foge
+mais depressa da praça do peixe do que da montureira que aduba a horta.</p>
+
+<p>Pelo contrario, na cosinha vegetariana o esmero e a perfeição consistem
+em conservar inalteravel o sabor proprio de cada alimento. Ninguem
+jámais teve o capricho de querer cosinhar maçãs para saberem a loiro ou
+feijões para cheirarem a salsa.</p>
+
+<p class="indent_negativo"><a href="#o_nota2" name="nota2">[B]</a> Não acontece isso sómente com as creanças. Na gente do povo, creança
+tambem pela vitalidade dos instintos primitivos, mostra-se claramente a
+mesma tendencia. Muitos e muitos que seriam incapazes de roubar de
+qualquer salgadeira uma grama de toucinho, não resistem á tentação de se
+aproveitarem do primeiro cacho de uvas que lhes esteja á mão. Os
+assaltos ás hortas e pomares são frequentes, e de tal forma isso parece
+estar na ordem natural que grande numero dos homens rudes não lhes
+associa nem de longe a noção do crime. Longos seculos de corrupção da
+dieta não conseguiram atrofiar essas tentações d'uma atiguidade biblica,
+as mesmas que desgraçaram Adão e Eva.</p>
+
+</div>
+<div id="lista_outras_edicoes">
+
+
+
+
+<h2>Livros indispensáveis aos Naturistas</h2>
+
+<p>e a todos que desejem cultivar a saúde e a longevidade, praticando
+racionalmente o frugivorismo (dieta crua), vegetarismo, higiene natural
+pelos exercícios normais combinados com os banhos de ar, sol e água,
+restrição alimentar, etc., em perfeita concordância com a fisiologia
+animal da humanidade.</p>
+
+
+<h3>Edições da Sociedade Vegetariana de Portugal:</h3>
+
+<table cellspacing="2">
+<tr><td><div class="indent_negativo"><b>"O Vegetariano"</b> 1.<sup>a</sup> série, brochado. Muitas informações de vegetarismo,
+e receitas de culinária natural, tabelas do valor dos alimentos, leis de
+saúde e indicações aos principiantes.</div></td></tr>
+
+<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">500</td></tr>
+
+<tr><td>Preço geral</td><td align="right">700</td></tr>
+
+<tr><td>Encadernação de luxo, respectivamente</td><td align="right">800 e 1$000</td></tr>
+
+<tr><td><div class="indent_negativo"><b>"O Vegetariano"</b> 2.<sup>a</sup> série, brochado. 500 páginas de texto. Gravuras em
+<i>couché</i>. Tratado completo de frugivorismo, vegetarismo, cura natural
+pela dieta, ar, sol, água, exercício, etc., fabrico do vinho sem alcool
+e adubo natural para as terras. O perigo da vacina, do alcoolismo, do
+tabagismo, do albuminismo ou carnivorismo, etc.</div></td></tr>
+
+<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">1$000</td></tr>
+
+<tr><td>Preço geral</td><td align="right">1$200</td></tr>
+
+<tr><td>Encadernação de luxo, respectivamente</td><td align="right" nowrap>1$400 e 1$600</td></tr>
+
+<tr><td><div class="indent_negativo"><b>"O Vegetariano"</b> 3.<sup>a</sup> série. Mensário Ilustrado de Naturismo (em
+publicação). Maior formato, melhor papel e novas secções de propaganda,
+informando de todo o movimento frugivoro--vegetariano--naturista em
+Portugal, Brasil e outras nações. Consultório naturista gratuito. Relato
+pessoal das curas naturais de doenças rebeldes ou crónicas, etc., etc.,
+órgão da S. V. de P. (continente e colonias), assinatura anual (12
+números) 1$000 reis--Brasil (moeda fraca) 3$500 reis--Outros paises 7
+frs.</div></td></tr>
+
+</table>
+
+
+<h3>BIBLIOTECA VEGETARIANA</h3>
+
+<h4>(Ilustrada com fotogravuras)</h4>
+
+<table cellspacing="2">
+<tr><td><div class="indent_negativo">I--<b>Vivamos de Frutos</b>, por V. Bruant, trad. do Dr. Amilcar de Souza.
+Regime frugivoro e estudo sobre frutarismo.</div></td></tr>
+
+<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">200</td></tr>
+
+<tr><td>Preço geral</td><td align="right">300</td></tr>
+
+<tr><td><div class="indent_negativo">II--<b>Vinho sem alcool e Pão integral</b>, 12 gravuras. Apreciação pelo Dr.
+Amilcar de Souza. Indústria e fabrico domestico.</div></td></tr>
+
+<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">200</td></tr>
+
+<tr><td>Preço geral</td><td align="right">300</td></tr>
+
+<tr><td><div class="indent_negativo">III--<b>O Vegetarismo e a Fisiologia Alimentar</b>, pelo Dr. H. Colliére, de
+Paris. Trad. de Angelo Jorge. Análise, ao regime misto (carnivorismo) e
+aos regimes naturais; vegetariano, vegetalino e frugivoro com
+demonstrações, tabelas, etc., baseando-se nos melhores autores.</div></td></tr>
+
+<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">500</td></tr>
+
+<tr><td>Preço geral</td><td align="right">700</td></tr>
+
+<tr><td><div class="indent_negativo">IV--<b>A Questão Social e a Nova Sciência de Curar</b>, por Angelo Jorge.
+Apreciações aos problemas médico, alimentar e social.</div></td></tr>
+
+<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td></tr>
+
+<tr><td>Preço geral</td></tr>
+
+<tr><td><div class="indent_negativo">V--<b>Dieta Frugívora e Renovamento Físico</b>, pelo Dr. O. L. M. Abramowski,
+médico do Hospital de <i>Mildura</i>, Austrália. Trad. do Dr. João Volmer.
+Demonstração prática e racional do frutarismo scientifico.</div></td></tr>
+
+<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">100</td></tr>
+
+<tr><td>Preço geral</td><td align="right">150</td></tr>
+
+<tr><td><div class="indent_negativo">VI--<b>O Naturismo</b>, pelo Dr. Amilcar de Souza. O livro mais notável do
+século XX, versando todos os assuntos relacionados com a vida humana.
+Análise racional e soluções naturistas às questões alimentares,
+higiénicas, médicas, educativas, sociais e humanitárias.</div></td></tr>
+
+<tr><td>Para sócio da S. V. de Portugal</td><td align="right">400</td></tr>
+
+<tr><td>Preço geral</td><td align="right">600</td></tr>
+
+<tr><td><div class="indent_negativo">VII--<b>A base de todas as reformas na alimentação</b>, regeneração fisica e
+mental do homem pelo «frugivorismo: notável livro americano de Otto
+Carqué, esmerada trad. de J. Vitorino Pinto, estudante de medicina.</div></td></tr>
+
+<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">150</td></tr>
+
+<tr><td>Preço geral</td><td align="right">200</td></tr>
+
+<tr><td><div class="indent_negativo">VIII--<b>A Saúde e a longevidade</b>. (Um grito de alarme), por J. Bastos.
+Análise racional aos erros da vida humana <i>civilizada</i>. A saúde, a
+alimentação, a escola, os remédios e algumas curas relatadas são os
+capítulos nele desenvolvidos com superior criterio e verdade.</div></td></tr>
+
+<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">300</td></tr>
+
+<tr><td>Preço geral</td><td align="right">400</td></tr>
+
+<tr><td><div class="indent_negativo">IX--<b>O Vegetarismo e a moralidade das raças</b>, pelo Dr. Jaime de Magalhães
+Lima. Notavel conferencia realisada no Ateneu Comercial do Porto em 14
+de junho de 1912. Com o retrato do autor em <i>couché</i>.</div></td></tr>
+
+<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">100</td></tr>
+
+<tr><td>Preço geral</td><td align="right">150</td></tr>
+
+<tr><td><div class="indent_negativo">«<b>A Cura da Tuberculose pelo Vegetarismo</b>», pelo Dr. Paul Carton;
+«Irmania», novela naturista por Angelo Jorge, «Os Agentes Físicos em
+Medicina.», pelo Dr. J. Bentes Castel-Branco, etc. (A imprimir).</div></td></tr>
+
+<tr><td><div class="indent_negativo">«<b>La Hacienda</b>»--Búfalo, América--Revista ilustrada sôbre agricultura,
+arboricultura e industrias rurais, e consultório técnico gratuito para
+assinantes. O melhor mensário agricola do mundo editado em português,
+assina-se na redacção de <i>O Vegetariano</i>.--Pôrto--(12
+numeros).--Assinatura anual.</div></td></tr>
+
+<tr><td>Para sócios da S. V. de Portugal</td><td align="right">3$600</td></tr>
+
+<tr><td>Preço geral</td><td align="right">4$000</td></tr>
+</table>
+
+
+<p class="indent_negativo">Todos os pedidos devem ser acompanhados das respectivas importâncias em
+dinheiro, cheques, vales ou estampilhas do continente, endereçadas à
+Sociedade Vegetariana de Portugal, redacção de <i>O Vegetariano</i>--Avenida
+Rodrigues de Freitas, 393 (Antiga rua de S. Lazaro)--Pôrto.</p>
+
+<p>A remessa pelo correio acresce 75 réis de porte e registo sendo para
+Portugal, e para o Brasil e outros paises 100 réis.</p>
+
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of O Vegetarismo e a Moralidade das raças, by
+Jaime de Magalhães Lima
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O VEGETARISMO E A MORALIDADE ***
+
+***** This file should be named 24338-h.htm or 24338-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/2/4/3/3/24338/
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images from BibRia)
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+http://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>
diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt
new file mode 100644
index 0000000..6312041
--- /dev/null
+++ b/LICENSE.txt
@@ -0,0 +1,11 @@
+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
new file mode 100644
index 0000000..920450a
--- /dev/null
+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #24338 (https://www.gutenberg.org/ebooks/24338)