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diff --git a/23687-h/23687-h.htm b/23687-h/23687-h.htm new file mode 100644 index 0000000..87a2367 --- /dev/null +++ b/23687-h/23687-h.htm @@ -0,0 +1,18850 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + + + + + + <title>A Morte Vence</title> + <meta name="AUTHOR" content="João Grave" /> + + + + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" /> + + + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote {margin-left:5%;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.sbreak { +width: 20%; +margin-left:40%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.poetry {margin-left:20%;} +.poetry1 {margin-left:30%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + + + + + + + + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of A Morte Vence, by João José Grave + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Morte Vence + +Author: João José Grave + +Release Date: December 3, 2007 [EBook #23687] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORTE VENCE *** + + + + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + + + + + +</pre> + + + +<div> +<div class="fbox"><b>Nota de editor:</b> +Devido à +quantidade de erros tipográficos existentes neste texto, +foram tomadas várias decisões quanto à +versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi +mantida de acordo com o original. No final deste livro +encontrará a lista de erros corrigidos.<br /> + + +<br /> + + +<div style="text-align: right; font-style: italic;">Rita +Farinha (Dez. 2007) +</div> + + +</div> + + +<br /> + + +<h2>Obras de JOÃO GRAVE</h2> + + +<br /> + + +<table style="text-align: left; width: 100%;" border="0" cellpadding="2" cellspacing="2"> + + + <tbody> + + + <tr> + + + <td style="width: 287px;">Os Famintos</td> + + + <td colspan="1" rowspan="12" style="background-color: rgb(204, 204, 204); width: 1px;"></td> + + + <td colspan="1" rowspan="12"></td> + + + <td style="width: 306px;">Paixão e morte +da Infanta</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="width: 287px;">A Eterna Mentira</td> + + + <td style="width: 306px;">Os Sacrificados</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="width: 287px;">O Último Fauno</td> + + + <td style="width: 306px;">Os que amam e os que sofrem</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="width: 287px;">O Passado</td> + + + <td style="width: 306px;">Cruel Amor</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="width: 287px;">Gente Pobre</td> + + + <td style="width: 306px;">Fogueiras de Santo +António</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="width: 287px;">Jornada romântica</td> + + + <td style="width: 306px;">Vida do +Espíríto (pensamentos).</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="width: 287px;">Reflorir</td> + + + <td style="width: 306px;"></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="width: 287px;">Reinado trágico</td> + + + <td style="width: 306px;"></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="width: 287px;">A Inimiga</td> + + + <td style="width: 306px;"><em>No +prélo:</em></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="width: 287px;">O Mutilado</td> + + + <td style="width: 306px;"></td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="width: 287px;">A Morte Vence</td> + + + <td style="width: 306px;">Almas ínquietas.</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="width: 287px;">Vitória de +Parsifal</td> + + + <td style="width: 306px;"></td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="bbox"><br /> + + +<h2>JOÃO GRAVE</h2> + + +<h4> +DA ACADEMIA DAS SCIÊNCIAS DE LISBOA</h4> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h1>A MORTE VENCE +</h1> + + +<h3><em>ROMANCE</em></h3> + + +<br /> + + +<div class="signature"> +«<em>Sê leal a ti +mesmo</em>...»<br /> + + +<br /> + + +<span class="smallcaps">shakespeare</span>.</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div style="text-align: center;">SEGUNDA +EDIÇÃO, EMENDADA<br /> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div style="text-align: center;"><img style="width: 100px; height: 102px;" alt="" src="images/fig01.png" /><br /> + + +</div> + + +<br /> + + +<h3><br /> + + +</h3> + + +<h3>PORTO<br /> + + +Livraria Chardron, de Lélo & Irmão, +L.<sup>da</sup><br /> + + +editores―Rua das Carmelitas, 144<br /> + + +Aillaud e Bertrand―Lisboa-Paris<br /> + + +<br /> + + +1922</h3> + + +</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h2>A MORTE VENCE</h2> + + +<br /> + + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3> +I</h3> + + +<br /> + + +A criança dormia tranqùilamente, deitada no +seu pequenino berço vaporoso de rendas e resplandecendo +de brancura, por êsse glorioso meio-dia de +calor e de luz, no grande e benéfico silêncio que +envolvia +a vivenda feliz. A sua carne viriginal +e transparente, +ainda mal formada, parecia exalar claridade +e tinha a coloração suave de certas rosas +pálidas +e orvalhadas. A cabeleira anelada e loura espalhava-se, +como uma ligeira nuvem de ouro, na alvura +da almofada, macia e fôfa, que servia de travesseiro; +e sôbre essa fronte angélica não +profanada +por impuros, venenosos pensamentos, baixava um +halo de inocência luminosa e de graça imaterial.<br /> + + +<br /> + + +Havia no quarto uma penumbra sedosa e frouxa +que refrescava o ambiente inefável e que tornava +mais imprecisas, mais vagas, as linhas e as formas +do mobiliário. Na pacificação +deleitosa tudo repousava +<span class="pagenum">[8]</span>docemente. Em cima +do mármore do toucador, +em frente dum largo espêlho em que se reflectiam +imagens baças e indecisas, floriam perfumados ramos +de cravos brancos em jarras de cristal cheias de +água límpida; e da parede alta pendia, como a +protecção +celeste da infância adormecida, uma cópia a +óleo da Virgem, de Murillo, que, entre anjos alados, +extasiava os puros olhos nos fulgores siderais. +Cá fóra, o sol―um ardente sol de junho―rutilava +e ardia na atmosfera pesada e abafadiça.<br /> + + +<br /> + + +Brandamente, na ponta dos pés para não fazer +barulho, Júlia entrou no compartimento solitário, +aproximou-se do casto leito do filho, que tinha apenas +meses de vida, contemplando-o com enlêvo e +ternura. Ela contava então vinte e quatro anos, estava +em pleno esplendor da sua beleza e do seu encanto +de mulher, a alegria reflectia-se-lhe no rosto e a +ventura iluminava-se-lhe na alma. Duma elegância +natural e sóbria, vestia um amplo roupão de cassa +creme apertado na cinta por laços de veludo preto. +O curto decote deixava a descoberto a pele do colo +que era setinosa, dourada e sem o mais ligeiro vinco. +Um pente de tartaruga com embutidos de ouro +segurava a massa dos seus cabelos castanhos enrolados +no alto da nuca. Os seios direitos e rijos formavam +uma delicada curva sob os tecidos flexíveis, ao arfarem. +Dois +anos antes, em Vizela, apaixonara-se sériamente +por Nuno Aragão, para quem fôra levada +por um forte impulso de sentimento; e com êle casara +ao fim dum romântino idílio em que os seus +sonhos de felicidade deram flor. Essa união +íntima que +a fizera espôsa e mãe e a que se devotou com um +admirável espírito de +abnegação, completou-a. Os +<span class="pagenum">[9]</span> +dias do seu noivado tam doce fugiram de leve sem +que dêles ficassem resíduos de tédio... +<br /> + + +<br /> + + +Absorvida na visão do frágil sêr que +lhe trouxera, +com a sua pureza e a sua formosura, uma revelação +à inteligência e à subtileza emotiva, +Júlia +ajoelhou junto do berço, compondo a roupa à volta +da cabecinha ideal, que a virgindade aureolava, +com dedos mais ágeis do que asas―e nem sequer notava +a presença de Nuno que a seguira de perto e +que, por detrás dela, sorria comovido. Houve um +momento em que Júlia se curvou sôbre a face gorda +e picada de còvinhas do filho, roçando-a com os +lábios.<br /> + + +<br /> + + +―Cautela, não vás +acordá-lo!―murmurou o +marido em voz de segrêdo.<br /> + + +<br /> + + +Ela voltou a cabeça, sorridente: e, fitando-o com +uma emoção que o olhar traía, +interrogou:<br /> + + +<br /> + + +―Estavas aí?<br /> + + +<br /> + + +―Quis acompanhar-te na tua amorável visita―respondeu.<br /> + + +<br /> + + +―Olha, vem cá!...― pediu Júlia. Não +é verdade +que é lindo?<br /> + + +<br /> + + +Nuno aninhou-se tam perto dela que lhe sentia +o sussurro brando da respiração, passou-lhe um +braço +à volta do pescoço, puxou-a tôda para o +peito e +ambos se embeberam na adoração da +criança que +continuava dormindo com a gracilidade e a poesia +dum botão de rosa, fazendo um pequeno volume sob +as lãs quentes e as cambraias ténues.<br /> + + +<br /> + + +―Não é lindo?―insistiu Júlia. +Fala!...<br /> + + +<br /> + + +―Como não havia de ser lindo, se veio de ti, +da tua purificação, do teu amor!...<br /> + + +<br /> + + +―Do nosso amor!―emendou ela, com palavras +<span class="pagenum">[10]</span> +de mimo e de queixume, beijando-o demoradamente +na bôca.<br /> + + +<br /> + + +―Do nosso amor, dizes bem!―confirmou +Nuno, enleado.<br /> + + +<br /> + + +―E é curioso como já na sua carinha se desenham +as tuas feições. Vê... O nariz, a +testa, o queixo...<br /> + + +<br /> + + +―São os teus...<br /> + + +<br /> + + +―Não! São os teus!―atalhou Júlia, +indicando +com o dedo os traços fisionómicos do filho. Ora +observa com atenção...<br /> + + +<br /> + + +―Não lhe toques, que podes magoá-lo, +coitadinho!―exclamou +êle. A sua carninha é tam tenra, +que até tenho mêdo de amolgá-la, quando +a +beijo.<br /> + + +<br /> + + +―Que tolice!...―exclamou Júlia, rindo.<br /> + + +<br /> + + +Por um instante, as cabeças de ambos, unidas, +fizeram um docel animado sôbre o berço inocente +que agasalhava, embalava, um destino misterioso +para o qual aspiravam tôda a grandeza, todo o +génio, +tôda a bondade, todos os favores generosos da +sorte enigmática, nessa hora bemdita e profética +em que os seus corações palpitavam com o mesmo +ritmo e a mesma ânsia, as suas vontades se fundiam +numa só vontade e as suas ambições se +irmanavam. +Depois, com os olhos humedecidos de lágrimas de +gôzo interior, ergueram-se, sempre estreitados num +apertado abraço, fitaram-se com enternecimento, emmudecidos, +penetrados por idêntico júbilo, com a +imaginação +perdida no encanto das mesmas idealizações.<br /> + + +<br /> + + +―Abençoada sejas!―disse Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―E tu tambêm, por esta paz, esta certeza, +<span class="pagenum">[11]</span> +esta confiança, esta bôa fortuna que comunicaste +à +minha vida―atalhou Júlia com +convicção, afagando-o +no rosto.<br /> + + +<br /> + + +Saíram do quarto, mirando ainda o filho―que +fôra como que a visitação duma +divindade propícia +à adoração que nunca deixara de +aproximá-los +mais desde o instante admirável em que pela primeira +vez se conheceram e que, entre os ternos cuidados +dos dois, cresceria, se faria homem, prolongaria +as suas existências, iria para as éras vindouras, +cantando +um hino de esperança. Êle representava a +expressão +definitiva e tangível do amor que os identificara, +do desejo puro que os fizera vibrar e que +alvoroçara a sua carne, da simpatia física que os +juntou. +Nas suas veias corria um sangue que era de +ambos; no seu corpo latejava uma carne que lhes pertencia; +e, mais tarde, quando fôsse grande, teria a +mesma fé, as mesmas crenças, as mesmas ideias, as +mesmas piedades, as mesmas finuras de sentir, a +mesma nobreza de aspirações.<br /> + + +<br /> + + +―Estou hoje tam contente!―afirmou Júlia +já na sala, dispondo um +<em>bibelot</em> sôbre a mesa do +centro, coberta com um largo pano pintado, enquanto +Nuno acendia um charuto. E êste contentamento +vem-me de ti, da tua fidelidade, da tua delicadeza, +e vem tambêm do nosso filho. A luz e a ventura +que esta criancinha veio trazer à nossa casa, +Nuno! Pois não é assim?<br /> + + +<br /> + + +―É, querida!<br /> + + +<br /> + + +―Parece um milagre! Às vezes, nem quero +acreditar!...<br /> + + +<br /> + + +―Um milagre que merecíamos.<br /> + + +<br /> + + +―Antes dêle nascer, tudo em mim eram sustos, +<span class="pagenum">[12]</span> +receios, hesitações. Em certos momentos, tinha +dúvidas +que me faziam chorar!...<br /> + + +<br /> + + +―Dúvidas?<br /> + + +<br /> + + +―Sim, dúvidas! Que queres? Aterrava-me o +pensamento da morte, do abandôno em que ficavas... +Não era de ti que eu duvidava, isso não; mas +não sei que tristeza me pungia, ennegrecendo, obscurecendo +o meu cérebro... Agora, porêm, tudo se apaziguou, +serenaram as inquietações, +tranqùilizaram-se +os sobressaltos...<br /> + + +<br /> + + +Foi para o marido, que a esperava no meio da +sala, com um sorriso de fadiga que a tornava mais +graciosa e mais bela, as pálpebras meio cerradas, os +braços caídos e sem acção, +e, encostando-se-lhe ao +ombro forte, acrescentou:<br /> + + +<br /> + + +―E sempre te direi que o nosso filho me inspira +uma veneração maior por ti e me fez melhor, +mais compadecida por todo o infortúnio, por tôda a +humana desgraça, por todo o vasto sofrimento.<br /> + + +<br /> + + +―Se tu és uma santa!―disse Nuno, abraçando-a +novamente e com uma comoção +imperceptível +na voz.<br /> + + +<br /> + + +―Não! Sou apenas mulher e mãe. E é +por isso +que me lembro constantemente da desdita das outras +mulheres e das outras mães. Ainda ontem, por +exemplo, não pude reter o pranto―oh! um pranto +que me desoprimiu!―ao ver brincar na quinta os +filhos do caseiro, descalços e tam rotinhos, com as +faces chupadas e macilentas e uma funda melancolia +no olhar... Antigamente, êstes espectáculos +lamentáveis passavam-me despercebidos, Nuno...<br /> + + +<br /> + + +―O mundo está cheio de desigualdades, com +efeito. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[13]</span> ―Mas é doloroso que haja fome ao lado da nossa +abundância!...<br /> + + +<br /> + + +―Há de fazer-se alguma coisa, sossega...<br /> + + +<br /> + + +―Porque a verdade é que o nosso filho, se +fôssemos +pobres, andaria por aí tambêm faminto e +nú como os outros, os que nada teem!... É +êle que +me pede pelos deserdados...<br /> + + +<br /> + + +―Não digas isso!―acudiu Nuno, de repente, +muito perturbado... O nosso filho esfomeado e rôto!... +Bem sei que não pretendes acusar-me de injustiças +que não pratiquei... Eu mal conhecia esta +quinta e a gente que a habita; ainda hoje não +conheço +o caseiro e ignoro as suas misérias. Antes do nosso +casamento, só uma vez vim aqui, porque a +existência +tumultuosa das cidades solicitava-me, reclamava-me +e aturdia-me. Há uma semana apenas que nos +encontrâmos neste sitio e nestas terras, que são +nossas. +Não tive tempo para familiarizar-me com a sua +população, para tudo saber minuciosamente...<br /> + + +<br /> + + +―Oh! meu amor, quantas palavras inúteis!<br /> + + +<br /> + + +―Não!... É que me fizeste vislumbrar, de +repente, +possíveis castigos, terríveis calamidades, +abatendo-se +sôbre criaturas sem culpa!...<br /> + + +<br /> + + +―Eu não queria...―atalhou Júlia, perturbada.<br /> + + +<br /> + + +―Certamente, certamente!―disse Nuno, beijando-a +na fronte e nos olhos. É escusado defenderes-te... +Mas é que as palavras das mulheres que +amam como tu amas e que no seu amor abrangem +tôda a vida consciente, teem uma profundidade, +uma vastidão e uma inflexão que conturba... De +resto, tu só foste justa:―e esta +noção exacta da justiça +significa a superioridade das almas femininas +sôbre os homens, duros, +sêcos, implacáveis. Com +<span class="pagenum">[14]</span> +efeito, para sermos absolutamente felizes, é +necessário +que à nossa volta só haja felicidade...<br /> + + +<br /> + + +―Então, bem vês!...<br /> + + +<br /> + + +―Pois está claro, querida... Obrigado pela tua +lição tam digna e tam eloqùente. A tua +elevação moral +sublima o que em mim ainda existe de grosseiro +e de egoista. Sem o teu aviso, continuaria a haver, +perto de nós, privações e amarguras. +Eu nada via; +tu, com a subtileza dum amor materno incomparável, +viste tudo, num relance. Ensina-me sempre. Não +sou mau, com certeza, mas incompleto: felizmente, +tu completas-me e por isso a minha gratidão +subirá +perpétuamente para ti como o perdão dos crentes +sóbe para o céu...<br /> + + +<br /> + + +Tinham-se sentado num amplo sofá de molas +flácidas que, a um canto, convidava ao repouso. +O sol vivo que se filtrava pela vidraça da janela respirando +para o jardim, batia, já atenuado pelo +<em>store</em> +de linho cru e pelo tule dos cortinados, sôbre as rosas +que morríam nos solitários, faùlhava +sôbre os móveis, +dourava fugidiamente o papel verde que forrava as +paredes. De longe chegava o som duma nora rangendo +no meio dum imenso campo de milho e produzindo +um ruído especial e ritmado de tear. Júlia, +encolhida +perto de Nuno, com as mãos esquecidas no regaço, +tornava-se mais pequenina, mais humilde, como se temesse +pesar demasiadamente sôbre aquele amor que +pressentia isento de tôda a mácula, perfeito de +dedicação +e de constância―um amor que era a razão +do seu sêr e o seu maior orgulho. As express +de linho cru e pelo tule dos cortinados, sôbre as rosas +que morríam nos solitários, faùlhava +sôbre os móveis, +dourava fugidiamente o papel verde que forrava as +paredes. De longe chegava o som duma nora rangendo +no meio dum imenso campo de milho e produzindo +um ruído especial e ritmado de tear. Júlia, +encolhida +perto de Nuno, com as mãos esquecidas no regaço, +tornava-se mais pequenina, mais humilde, como se temesse +pesar demasiadamente sôbre aquele amor que +pressentia isento de tôda a mácula, perfeito de +dedicação +e de constância―um amor que era a razão +do seu sêr e o seu maior orgulho. As expressões +carinhosas +de Nuno faziam-na còrar, causavam-lhe uma +sensação de inexprimível bem-estar e +de pacificação +interior. No seu sobressalto, nem sabia que responder, +<span class="pagenum">[15]</span> +não encontrava os termos precisos com que manifestar +a sua gratidão.<br /> + + +<br /> + + +―Que maravilhosa manhã eu passei hoje na +tua companhia, minha preguiçosa!―exclamou Nuno, +quebrando a monotonia dum silêncio que se ia prolongando.<br /> + + +<br /> + + +―Estou tam cansada!―afirmou Júlia, pousando-lhe +a cabeça no ombro. E olha que não tenho +feito nada.<br /> + + +<br /> + + +―Anunciará êsse cansaço alguma +doença?<br /> + + +<br /> + + +―Não, que ideia! Nunca me senti com tanta +saúde. Êstes ares campestres teem-me feito muito +bem. Por mim, não saíria mais daqui!<br /> + + +<br /> + + +―Então, encontramo-nos na mesma +ambição, +o que não me surpreende, porque já nos +havíamos +encontrado no mesmo sentimento.<br /> + + +<br /> + + +―Pois queres, na verdade?...―perguntou +ela, fitando-o com infinita meiguice. Que prazer me +dás com isso!...<br /> + + +<br /> + + +Arrependendo-se, porêm, dum contentamento +que não soubera esconder e que lhe parecia impuro, +atalhou prontamente:<br /> + + +<br /> + + +―Não, não!... Que loucura! Na cidade, tens +os teus amigos, os teus passatempos, as tuas conversas, +as tuas distracções. Aqui não +há nada disso. +Terminarias por aborrecer-te, por enfadar-te...<br /> + + +<br /> + + +―É necessário que saibas que não +há coisa +que me cative, longe de ti, fóra do nosso lar, para +alêm +do berço do nosso filho. Nem sequer tenho pensamentos +que não sejam os teus.<br /> + + +<br /> + + +Júlia, no entanto, teimava na certeza de que a +permanência constante na quinta seria o sacrifício +de Nuno, segura de que se não pode romper sem +<span class="pagenum">[16]</span> +violência com hábitos contraídos e +fundamente enraízados: +e, para que a sua teimosia encontrasse +vibração no marido, asseverava:<br /> + + +<br /> + + +―Eu mesma viria a sofrer neste êrmo, mais +tarde. Enquanto durar o verão, isto será, +realmente, +bonito. Há luz, há horizonte, podemos dar largos +passeios, admirar tôda essa paisagem deliciosa, sentir +tôda a poesia rural... Mas depois, quando aparecer +o inverno, com os seus dias e as suas noites de +chuva, a sua desolação, os seus frios, as suas +tempestades, +a cidade, que é o movimento, a variedade, +a sociabilidade, voltaria a apetecer-nos...<br /> + + +<br /> + + +Falando assim, Júlia estava intimamente convencida +de que defendia a continuidade da adoração +de Nuno, a sua felicidade permanente, a inalterável +placidez de relações conjugais que um mal +entendido +seria capaz de comprometer irremediávelmente. A +ternura que sentia pelo marido e que se lhe apoderara +do sangue, da substância nervosa, de todo o seu organismo +psíquico e material, afinava-lhe a +inteligência, +tornava mais arguta a sua capacidade de analisar +e de compreender. Não aspirava, únicamente, +ao amor de Nuno, mas tambêm à sua +gratidão e ao +seu respeito. Residir para sempre na quinta, distante +dum bulício que a desgostava e de episódios +sociais que a não interessavam, sería o seu +supremo +desejo―um desejo a que Nuno acederia alegremente: +mas considerava que o isolamento, a ausência +de convivências e de amizades, a falta de +ocupações +recreativas, viriam fatalmente a deprimir e entristecer +aquele homem que era o mais fiel dos homens e que, +para a amar mais puramente e mais intensamente, +renunciara a tudo o que fôsse estranho à sua +paixão. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[17]</span> ―Ah! se é por isso!...―disse Nuno. Na verdade, +não te habituarias a êste deserto, minha +filha... Eu sim, porque gosto da solidão, porque as +multidões fazem-me mal. Mas, o que eu não permito +é que te sacrifiques...<br /> + + +<br /> + + +Uma criada entrou, trazendo o correio que acabava +de chegar. Eram jornais e cartas que Nuno +começou a abrir distraídamente, enquanto +Júlia +continuava a arrumar com mais ordem e mais elegância +as peças do mobiliário, a deitar água +nas jarras +das flores, a espanejar o pó leve que maculava o +verniz das +<em>étagères</em>.<br /> + + +<br /> + + +―Tu não tens quem faça êsse +serviço?―perguntou +Nuno, parando um momento de lêr a sua +correspondência.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! filho! Deixa-me ocupar em alguma coisa... +Depois, é uma séca. Por mais que recomende +e que ralhe, nunca me atendem, não fazem nenhum +caso do que digo. Isto de criadas...<br /> + + +<br /> + + +―Procuram-se outras melhores.<br /> + + +<br /> + + +―Ora! São tôdas piores!...―exclamou +Júlia, +rindo.<br /> + + +<br /> + + +―Mandam-se fabricar por um modêlo que tu +escolherás à tua vontade, com molas vindas das +oficinas +de Londres, movendo-se por um sistema de +relojoaria... E tu verás então como obedecem, +como +são atenciosas e pacientes...―respondeu êle, +rindo +tambêm e reencetando a leitura interrompida.<br /> + + +<br /> + + +A vélha habitação, onde outrora tinham +vivido +os avós de Nuno, que eram abastados proprietários +rurais, parecia cabecear de sono sob o dourado, +faíscante banho do sol, sem que o menor ruído +perturbasse +a sua sonolência. Altas roseiras de trepar +<span class="pagenum">[18]</span> +subiam pelas paredes cobrindo-as de vermelhas e míudinhas +rosas de toucar. No pombal, que ficava ao +lado, perto da capoeira, arrulhavam as pombas aos +pares. Errava no ar um dormente zumbido de moscas.<br /> + + +<br /> + + +―E esta?―bradou Nuno, de súbito, pousando +sôbre uma cadeira a carta que tinha entre as mãos. +<br /> + + +<br /> + + +―Que é?―inquiriu Júlia, aproximando-se. Alguma +novidade?<br /> + + +<br /> + + +―Uma novidade estupenda. Nem tu calculas. +Sabes quem vem aí, fazer-nos uma visita?<br /> + + +<br /> + + +―Não sei, não posso adivinhar...<br /> + + +<br /> + + +―Pois devias, para seres absolutamente perfeita, +dispor dêsse dom... Quem vem aí visitar-nos +é Frederico, aquele rapaz que foi meu camarada e +que é o meu, o nosso melhor amigo!...<br /> + + +<br /> + + +―Tinha-lo convidado?... E não me dizias +nada!...<br /> + + +<br /> + + +―Escrevi-lhe, antes de partirmos para aqui, +como me obrigava o meu afecto. Ofereci-lhe, na nossa +casa, uma enxêrga e uma tigela de caldo, à severa +moda de Esparta... E êle aceitou. Bom, excelente +Frederico!...<br /> + + +<br /> + + +―Quando chega êle?<br /> + + +<br /> + + +―Estará, entre nós, àmanhã +ao romper do +dia. Já almoça. Dá as tuas ordens para +que se arrange +um quarto a êste vagabundo que tam amávelmente +se lembra do nosso exílio... Será uma companhia.<br /> + + +<br /> + + +De dentro, da alcova, veio um débil vagido +que deteve repentinamente a conversa de Nuno e +de Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Sua ex.<sup>a</sup> despertou e reclama, naturalmente, +<span class="pagenum">[19]</span> o <em>lunch</em>―disse +êle, +levantando-se. Onde está a +ama?<br /> + + +<br /> + + +―Lá em baixo, a brunir. Vai chamá-la, enquanto +eu entretenho a criança―murmurou Júlia, +dirigindo-se +ao quarto.<br /> + + +<br /> + + +Nuno pegou nos jornais e nas cartas apressadamente +lidas e desceu ao pavimento inferior, gritando +pela ama do filho, que acudiu tôda afogueada do +calor do ferro. Era uma rapariga na fôrça da vida, +saùdavel, bem constituída, de fortes seios +estalando +de seiva sob o pano do colete, braços gordos e estriados +de rija musculatura.<br /> + + +<br /> + + +―Corra lá acima à senhora. O menino acordou +agora mesmo.<br /> + + +<br /> + + +Ela galgou logo as escadas ágilmente, num +rumor de saias engomadas, exclamando jovialmente:<br /> + + +<br /> + + +―Aí vou, meu amorsinho, aí vou!...<br /> + + +<br /> + + +Nuno, satisfeito com as suaves emoções daquela +clara e plácida manhã familiar, saíu +para o jardim +que, à roda da vivenda tranqùila, rescendia e +refrigerava, +com os seus canteiros coloridos onde desabrochavam +os cravos rajados e as derradeiras rosas +do estio. Estava um tempo maravilhoso. O céu luzente +e translúcido arqueava-se sôbre a quinta como +um enorme pálio de sêda azul sem uma ruga. Os +negrilhos, +as tílias, os amieiros e os plátanos deixavam +caír das suas espêssas folhagens +a consolação afável +das sombras. Pelas ramagens que sussurravam à brisa +adejante, cantavam as aves. A cada passo, amplos +bancos de cortiça, que as copas dos vetustos arvoredos +amenizavam de fresquidão, solicitavam ao +descanso e às séstas aprazíveis. Nuno, +passeando vagarosamente, +ia pensando que por ali se teriam sentado <span class="pagenum">[20]</span>outrora, +nas tardes de calor, as senhoras da sua +casa com os livros dos poetas esquecidos no regaço, +sempre que de verão vinham procurar ao campo a +saúde e as bôas côres que a cidade lhes +roubava. +Aquele retiro estava cheio de recordações, de +saùdosas +memórias dos antepassados. Sua mãe, que havia +falecido dois anos antes de êle se casar com +Júlia, passara no doce refúgio―em que agora se +encontrava com a família que constituira e que era +todo o seu enlêvo―a primeira infância, saltando +pelos +arruamentos que o Jacinto jardineiro trazia sempre +bem areados, regados e varridos. Evocando piedosamente +a figura de mamã, que fôra tam gentil e que +uma doença cruel bem cedo arrebatara, Nuno concentrava-se, +recolhia-se para com mais intensidade +sentir. Pobre, pobre mãe precocemente morta e +que com tanto fervor lhe queria! Revivia-a na +imaginação, +reconstituia-a com nitidez. Parecia-se ainda +um pouco com Júlia na bondade, na afabilidade, +nas maneiras, no timbre da voz, na candura e na +meiguice materna. Existiam nelas mesmo determinadas +semelhanças exteriores que o surpreendiam―nos +olhos que, em ambas, eram negros, profundos +e húmidos, na finura das linhas plásticas, na +brancura +da pele, na nobreza da expressão fisionómica +que reflectia conjuntamente a paixão, a gravidade +e a graça. Sobretudo, quando observava o sorriso +de Júlia―um sorriso em que havia qualquer coisa +de castidade infantil, de seriedade ponderada e de +ternura ingénua, Nuno assistia, deslumbrado, a uma +verdadeira ressurreição. E foi por isto, +de-certo, que +amou desvairadamente a espôsa desde a primeira +noite em que a viu, no salão dum hotel de Vizela +<span class="pagenum">[21]</span> +onde se dançava, e que ainda a amava e amaria sempre +com o mesmo transporte e a mesma firmeza. +A mãe, que não fôra feliz no +casamento―porque +o marido desertava do lar conjugal para correr atrás +doutros amores, para atirar ouro aos punhados sôbre +as bancas do jôgo, para dissipar uma existência que +nunca encontrou sossêgo senão na +sepultura―ressurgia +na mulher admirável que era a sua doce companheira +e que, com geito divino, devotando-se-lhe, +lhe fizera a revelação da felicidade!...<br /> + + +<br /> + + +Continuando o passeio e embebendo-se em lembranças, +que aviventava para seu gôzo espiritual, +Nuno chegou, insensivelmente, a meio da propriedade, +que era de vastas dimensões. Para lá do parque +frondoso, com uma rica decoração de troncos +nodosos +e recobertos de musgos parasitários, ficava o +pomar que vergava de frutas pelos outonos elegíacos, +quando as fôlhas amarelas caíam como asas que +cessassem de bater: e mais abaixo, espraiavam-se as +terras de cultura, as pastagens para o gado, abundantemente +regadas por águas espertas e vivas que desciam, +cantando, das bôcas negras das minas, frias e +saborosas: o casebre dos caseiros pegado aos currais: +a eira todo o dia batida de sol. Ao fundo, um +pinheiral cerrado de rama verde-negra, que dava a +lenha para o lume, fechava à vista a linha do horizonte. +Das bandas do norte, elevavam-se espinhaços de +serranias escarpadas, correndo dum extremo a outro +e azulando-se, no crepúsculo, com os nevoeiros +que, como um fumo ligeiro e branco, ascendiam das +profundidades do vale, afogado em vegetações +exuberantes. +A quinta, situada nos arredores de Guimarães, +pertencia já a Nuno ainda em vida dos pais. +<span class="pagenum">[22]</span> +Legara-lha seu avô materno, aterrado certamente +com as dissipações do genro que fundia em orgias, +em viagens que não tinham fim, em +ligações ilicitas, +o dote da mulher legítima e que ameaçava deixar +na miséria, aos acasos incertos do destino, o filho +único. Ah! êsse pai! Nuno não queria +mal à sua +memória, que venerava, recordava-o com +saùdade e +com mágoa, não invejava o dinheiro que +êle espalhara +estérilmente com mãos perdulárias. +Desculpava-o. +Era fogoso, irreflectido, embrenhava-se em aventuras +arriscadas, perseguindo uma ilusão dos sentidos +que jàmais alcançou, tinha um irónico +desdêm por +tôdas as convenções, caracterizava-se +por uma rebeldia +de temperamento que nenhum conselho prudente +e fecundo conseguia apaziguar; o seu egoísmo +de <em>jouisseur</em> não admitia +restrições naquilo que julgava +essencial ao seu gôzo próprio; fôra, +talvez, um +doente, uma organização enfêrma +expiando sucessivas +acumulações de hereditariedade mórbida +que +vinham de longe, prolongando-se em gerações +taradas +e denunciando um doloroso fim de raça. Obedecera +passivamente, por ausência de vontade, aos secretos +e vertiginosos impulsos do seu mal interior―do +mal que insaciávelmente o roía, lhe debilitava o +carácter, o esgotava de energia para tôdas as +reacções +nobilitantes...<br /> + + +<br /> + + +O amor tornava Nuno generoso. Só lamentava +que sua mãe tanto tivesse sofrido sem se queixar, +transida, conformada com o infortúnio, agarrando-se +ainda nervosamente ao seu verdugo como as heras +se agarram a uma árvore carcomida, negando-se com +obstinação a separar-se dêle e a voltar +para o lar +paterno, onde seria recebida em festa e onde a sua +<span class="pagenum">[23]</span> +existência atribulada encontraria suavidade e +consôlo―porque, +a-pesar-de tudo, continuava a amá-lo +com ansiedade, com loucura, com uma constância +que nunca afrouxou. Pensando neste caso singular +de devoção e de sacrifício, Nuno +julgava que havia +herdado da mãe as virtudes afectivas, a rectidão, +a lealdade, a sensibilidade aguda―e considerava-se +feliz por isso...<br /> + + +<br /> + + +Meteu-se resolutamente por um fechado milheiral, +onde amadurecia ao sol de Deus o pão sagrado +que daria alento e fartura às bôcas famintas +e pálidas. Largas fôlhas compridas como espadas +roçavam-lhe +o rosto, açoutavam-lhe as mãos; as suas +botas atolavam-se no terreno remexido de fresco e humedecido +das regas que levavam o alimento às raízes; +um cheiro acre de seivas e de ervas esmagadas impregnava +a aragem. Nuno aspirava-o a fundos haustos, +murmurando, regalado:<br /> + + +<br /> + + +―Ah! isto vigoriza, tonifica!<br /> + + +<br /> + + +Da banda do nascente, uma poeira de luz flutuava +sôbre os píncaros das montanhas escalvadas +que, por vezes, na sua imobilidade, tinham atitudes +quáse humanas, sugerindo formas gigantescas e +animadas, +curvando-se sôbre a sombra, o vazio dos abismos. +Enquanto caminhava e admirava êste maravilhoso +trecho de paisagem, Nuno ia recebendo uma +lição de coisas ignoradas. Com efeito, era aquela +a +primeira vez que visitava tam minuciosamente a +quinta, que fôra a morada pacífica e venturosa dos +seus avós, da sua gente. Só ali tinha vindo uma +vez, +de fugida, para conhecer uma parte dos domínios territoriais +de que era senhor, mas não passara do jardim, +onde por sinal havia colhido um cravo branco +<span class="pagenum">[24]</span> +com que floriu a lapela do seu casaco de casimira inglesa. +Ao cabo duma curta hora, logo abalou para o +Pôrto, onde nascera e onde vivia, alarmado com tanta +solitude, penetrado de melancolia e de desalento, +sem compreender como certas criaturas podiam permanecer +longe das cidades, do seu movimento, das +suas seduções, dos seus aliciantes +espectáculos. Nesse +tempo, estava ainda solteiro, completava na Academia +Politécnica o curso de engenharia, era +revolucionário +como todos os seus camaradas, freqùentava +com assiduidade as reùniões políticas +em que se +conspirava contra a Monarquia, tinha rixas com a +polícia e namorava as costureiras. Agora, porêm, +via com olhos diferentes dos dessa época, possuía +uma compreensão mais lúcida, tudo nêle +se havia +modificado, existia na sua alma um sentimento mais +equilibrado e mais justo. A inquietação antiga +apenas +servira para transmitir um grato sabor á paz actual: +a reflexão e o estudo tinham-lhe revelado o mundo e +as sociedades por um outro aspecto. Para êle, as +<em>urbs</em> +onde se agitam os densos formigueiros de seres conscientes, +gritando os seus desesperos e as suas cóleras, +representavam a tentação corruptora, a +deliqùescência, +eram as sinistras geradoras da dor e dos pessimismos +modernos: e o campo, a aldeia, constituíam +os reservatórios da vida salubre, os últimos +santuários +da crença religiosa e da felicidade onde os +réprobos +deviam retemperar-se anualmente. Como a sua +mocidade fôra inconsiderada! Em +compensação, +como os seus trinta e cinco anos eram sábios e estavam +na verdade!... Ao romper do milheiral em que se +perdera, encontrou uma clareira bucólica de terra +que andava a horta, onde cresciam e enconchavam +<span class="pagenum">[25]</span> +as couves tronchudas, verdejavam as tiras das alfaces +e os talhões de feijoal ondulavam ao vento brando. +Um homem, em mangas de camisa, magro, esguio, +de rosto queimado pelos ardentes bafos das soalheiras, +cavava, com uma grande tristeza na face, em que +se emmaranhava a barba crespa e negra, e nos olhos +que fulguravam. Nuno foi direito a êle, saùdando-o +amigávelmente. O cavador, tirando o chapeú +esburacado +e sujo, murmurou com humildade:<br /> + + +<br /> + + +―Salve-o Deus, meu senhor.<br /> + + +<br /> + + +Durante um momento Nuno entregou-se à +contemplação +do pobre trabalhador, de cara macilenta +e mãos calejadas e nodosas, em que os dedos deformados +lembravam negras raízes. A camisa aberta +no peito deixava a descoberto uma pele macerada, +repuxando sôbre os ossos salientes: e uma grande piedade +comoveu Nuno por tanta miséria.<br /> + + +<br /> + + +―Vocemecê―perguntou êle―é que +é o caseiro?<br /> + + +<br /> + + +―Saiba vossa senhoria que sim. Já lá vai um +ror de anos depois que para aqui entrei, e tenho pago +honradamente as rendas.<br /> + + +<br /> + + +―Bem sei, bem sei! Eu sou o dono da quinta...<br /> + + +<br /> + + +―Pois vossa senhoria é que é o netinho do snr. +Vicente, que Deus haja?<br /> + + +<br /> + + +―Sou eu mesmo...<br /> + + +<br /> + + +―Oh! meu senhor! Desculpe, que eu não o +conhecia.<br /> + + +<br /> + + +―Mas, desculpar o que, bom homem?...<br /> + + +<br /> + + +―É que eu nem sequer fui vê-lo lá +acima, ao +palácio... Não podia adivinhar... Tinha-me dito +o snr. José, procurador, que vinham viver na casa +grande por algum tempo uns senhores, mas eu não +<span class="pagenum">[26]</span> +contava... Sempre uma assim! A gente anda cá nas +nossas apoquentações, não tem vagar +para nada...<br /> + + +<br /> + + +E imediatamente, vergado ao hábito da obediência, +submetido ao jugo da escravidão que sempre, +no decurso duma vida trabalhosa e amarga, o coagia +a rojar-se, a fazer-se mais pequeno diante dos poderosos, +atirando a enxada para a leiva revolvida, +aproximou-se de Nuno, baixando a cabeça descoberta +como para receber o justo castigo duma grande +falta.<br /> + + +<br /> + + +―O senhor perdôe... Eu não sabia...<br /> + + +<br /> + + +―Homem, já lhe disse!... Não tenho que perdoar. +Está claro que a sua visita era-me +agradável:―mas +como amigo e não como dependente. +É boa... Ponha o chapéu.<br /> + + +<br /> + + +―Como amigo, como amigo!...―mastigou +o caseiro, com a língua embrulhada na bôca e os +olhos rasos de água, conservando o +chapéu nas mãos.<br /> + + +<br /> + + +―Como amigo, certamente... E ponha o chapéu. +Agora, mando eu. Ponha o chapéu, avie-se.<br /> + + +<br /> + + +―Isso é que não... O respeito não +fica mal a +ninguêm. É um dever...<br /> + + +<br /> + + +-Se não pôe o chapéu, zango-me e vou-me +embora...<br /> + + +<br /> + + +―Ora essa!... Pois!...<br /> + + +<br /> + + +―Afirmo-lho! Ou faz o que lhe peço ou retiro-me...<br /> + + +<br /> + + +―Então, com sua licença, fidalgo...<br /> + + +<br /> + + +―E vamos conversar à bôa paz... Está +contente +com os terrenos que traz arrendados?<br /> + + +<br /> + + +―Eu não me queixo... Vão dando para viver, +com a ninhada dos filhos e a mulher entrevada, melhor +ou pior, como Deus é servido. +<span class="pagenum">[27]</span> +<br /> + + +―Pois, não tira lucros?<br /> + + +<br /> + + +―Umas vezes pelas outras tiro, sim, senhor, +que a terra anda bem tratada. Não lhe roubo ao sustento +preciso... Mas lá vem um ano mau em que +parte das colheitas se perde, lá morre um boi, e +vão-se +as economias escassas, para uma pessoa não ficar +envergonhada... Adeus, minhas encomendas! +Percam-se os aneis, mas conservam-se os dedos, +como o outro que diz...<br /> + + +<br /> + + +―Ah! eu julgava que a lavoura era remuneradora.<br /> + + +<br /> + + +―A terra é quáse sempre ingrata para os que +dela vivem, senhor... Alêm disso, para recolher é +necessário semear e o dinheiro não me sobra... +Mas +isto não é chorar-me. Não quero +aborrecê-lo. Vive-se +com o muito e vive-se tambêm com o pouquinho...<br /> + + +<br /> + + +―E a mulher entrevada, disse?<br /> + + +<br /> + + +―É verdade, coitada! Fiquei dum dia para o +outro sem o braço que me ajudava, e ando consumido, +cá por dentro, de vê-la sofrer. Depois que teve +o último filho, nunca mais se ergueu...<br /> + + +<br /> + + +―Infeliz!... E os médicos?!...<br /> + + +<br /> + + +―Os médicos... São muito caros. Veio +aí um +algumas vezes, para me dizer que o mal não era de +morte mas que não tinha cura!... E o que mais +me custa, meu senhor, é que a pobre de Cristo +está +sempre a pensar na labuta, na canseira do trabalho, +e quando vou para comer a migalha, costuma dizer:―«Oh! +meu homem, que te matas... Oh! criatura +que não tens um momento de descanso e eu para +aqui a curtir a minha doença, sem poder auxiliar-te... +Que Deus me leve!»... Enfim, corta o +coração, +coitadinha... E foi sempre tam minha amiga, +<span class="pagenum">[28]</span> +Senhor do céu! Estamos casados há anos e +damo-nos +como Deus com os anjos...<br /> + + +<br /> + + +Enquanto falava, o cavador limpava as lágrimas, +que lhe corriam em fio dos olhos, às costas +da mão negra e cheia de terra. Nuno, condoído, +desviara +a vista.<br /> + + +<br /> + + +―Quantos filhos tem?<br /> + + +<br /> + + +- Em casa tenho seis. Quatro, três raparigas e +um rapaz, já casaram.<br /> + + +<br /> + + +―São grandes, os que vivem consigo?<br /> + + +<br /> + + +―Dois lá me vão ajudando a levar a cruz ao +Calvário. Os outros são pequeninos... Teem a +fatia +do pão, mas falta-lhes a mãe para olhar por +êles...<br /> + + +<br /> + + +―Pois, está bem! Creio que a renda anda +um pouco elevada... Hei de falar com o meu procurador... +E ouça...<br /> + + +<br /> + + +―Oh! meu fidalgo, eu não pedi que me baixasse +a renda...―acudiu o caseiro, de fronte erguida por +uns restos dêsse orgulho que existe tambêm no +coração +dos desgraçados.<br /> + + +<br /> + + +―E ouça―continuou Nuno―disse há pouco +que, se tivesse dinheiro, faria com que a terra produzisse +mais. Terá êsse dinheiro. Sou eu que lho +empresto... Nada de agradecimentos. Pagar-mo há +quando o tiver... Quanto à entrevada, é preciso +tratar dela. Minha mulher há de ir vê-la―porque +as mulheres entendem-se umas às outras. E adeus!―concluiu, +estendendo-lhe a mão.<br /> + + +<br /> + + +O caseiro olhou com espanto a mão aberta, franca +e leal de Nuno, cravou depois no rosto do seu senhorio +os olhos atónitos e fulgurantes como carvões +acesos, muito enleado, sem nada compreender, sem +fazer um movimento, sem murmurar uma palavra. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[29]</span> ―Adeus, bom homem!―insistiu Nuno. Não +se acanhe. Tenho apertado a mão a criaturas muito +menos dignas do que vocemecê é!<br /> + + +<br /> + + +Então, o caseiro, entalado de soluços, rendido +de admiração diante de tanta grandeza de alma, +apoderou-se +daquela mão purificada que se baixava +bondosamente para levantar os que sofriam e que +eram humildes, gaguejando, com a voz entaramelada:<br /> + + +<br /> + + +―Ah! meu amo, que isto é o fim do mundo! +Um fidalgo como vossa senhoria a tratar assim um +ninguêm como eu!... Bemdito seja o Senhor, que +ainda há tanta gente bôa!<br /> + + +<br /> + + +E, na sua exaltada gratidão, queria beijar a +mão que Nuno lhe dava.<br /> + + +<br /> + + +―Não, isso não! Há maneiras de +reconhecimento +que se não aceitam, porque melindram quem +as pratica e quem as recebe...<br /> + + +<br /> + + +―Deixe-me, meu senhor!... Ainda há pouco +disse: «meu amigo!» Um lagalhé, como eu, +amigo +de vossa senhoria!...<br /> + + +<br /> + + +Nuno, por fim, desembaraçando-se do cavador, +despediu-se e afastou-se dêle, enternecido e murmurando +entre dentes:<br /> + + +<br /> + + +―Creio que realizei hoje a melhor acção de +tôda +a minha vida... E devo a sua inspiração a +Júlia... +Que horror! Tanta miséria, mulher entrevada, criancinhas +com fome e eu a alimentar a minha opulência +com o esfôrço desta penúria!...<br /> + + +<br /> + + +Dirigindo-se novamente para o jardim, meditava +que, para as almas sensíveis, as transfiguradoras +alegrias de bem pouco dependem. Bastava +para conquistá-las, um gesto mais espontâneo de +bondade... Como o seu dia fôra +proveitoso, efectivamente! +<span class="pagenum">[30]</span> +Vivera momentos inolvidáveis junto do +berço +do filho, que dormia como uma doce flor por desabrochar +com tôda a alma inocente reflectindo-se-lhe +na face, que era inconsciente, que mal reparava +ainda nas coisas que o cercavam e que, no entanto, +enchia tôda a casa, tôda a sua vida, +todo o seu amor +de encanto, de esperança e de perfume! Depois, a +adoração da espôsa dera-lhe uma +lição de magnanimidade +e fizera-lhe sentir a branda promessa duma +ternura eterna, duma inalterável +dedicação que o iluminaria +pelos anos fóra. Em seguida, recordara a memória +venerável da mãe, no seu passeio pelo +parque―essa +mãe que tanto o tinha amado e que, mesmo +morta, era uma radiante luz de que lhe vinha claridade +e beleza moral, e corrigira nobremente desigualdades +sociais, decidido a conceder um pouco +mais de bem estar a sêres desditosos que activamente +lidavam, acrescentando a sua riqueza. Para que +nada faltasse à formosura dêste dia +magnífico, até o +seu único amigo e seu companheiro de estudos e de +boémias românticas, acabava de anunciar-lhe que +viria +passar junto dêle uma semana, um mês! Levantara-se +com sorte, certamente. Há horas predestinadas +para a ventura, como há outras predestinadas +para a desgraça...<br /> + + +<br /> + + +Entrou em casa, trazendo debaixo do braço +jornais que não abrira e cartas a que não ligara +atenção, exceptuando a de Frederico, que era +sumamente +grata à sua amizade. Subindo ao primeiro andar, +foi encontrar Júlia com o filho, gordo, robusto, de +cabelo muito louro e uns olhos muito +azúis, nos braços +amorosos. Nuno beijou a criança com mais +devoção +do que beijaria uma imagem religiosa, beijou tambêm +<span class="pagenum">[31]</span> +a espôsa longamente na testa e na bôca, para +agradecer-lhe +a felicidade de que transbordava.<br /> + + +<br /> + + +―Que é isso, que é isso?―perguntou ela, +sorrindo com aquele sorriso que lhe fazia evocar a +mãe.<br /> + + +<br /> + + +―É que te amo, que te amo, e que não sei +dizer-te por outra forma o meu amor!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3>II</h3> + + +<br /> + + +Frederico chegou, com efeito, na manhã seguinte +e foi efusivo o abraço que trocou com Nuno, +ao saltar do automóvel, diante do portão do +jardim +que um grande ramo de jasmineiro em flor cobria de +sombra, de frescura e de aroma. Enquanto os criados +conduziam as malas de viagem, do carro para casa, +êle, compondo a roupa desmanchada e alisando, +com a mão, os cabelos despenteados, dizia para o +amigo:<br /> + + +<br /> + + +―Menino, o que eu agora mais desejo, antes do +almôço, que ficarei devendo à tua +generosidade, é +um banho frio que me restitua a elasticidade aos +membros entorpecidos e me purifique da poeira da +jornada―uma poeira corrosiva que me morde a +pele.<br /> + + +<br /> + + +―Pois terás êsse banho purificador, +homem!―prometeu +Nuno, alegremente.<br /> + + +<br /> + + +Foram andando pelos arruamentos que corriam +<span class="pagenum">[34]</span> +junto dos canteiros rescendentes, no inspirador silêncio +matinal.<br /> + + +<br /> + + +―Tu tens isto lindíssimo, na verdade. Sente-se +a ventura, o encanto de viver à volta desta +habitação +que eu creio bem que seja a morada da Fortuna!... +E como vai a saúde da família? +Próspera, +não é assim?... Desculpa. Tinha-me esquecido de +cumprir êste elementar dever de cortesia.<br /> + + +<br /> + + +Do lado que dava para o parque havia uma +escada de pedra com grade de ferro pintada de verde, +subindo, entre redouças de trepadeiras que a bucolizavam, +até ao primeiro andar, sob a folhagem +fechada duma acácia. Tinham êles galgado o +primeiro +lanço, quando Júlia apareceu no alto, vestida +com simplicidade e gôsto. Frederico, tirando o +chapéu, +exclamou logo, ao avistá-la:<br /> + + +<br /> + + +―Oh! minha senhora!...<br /> + + +<br /> + + +E avançou, mais apressado, de mão estendida, +acrescentando:<br /> + + +<br /> + + +―Venho pedir um pouco de repouso, de tranqùilidade +espiritual, às divindades protectoras dêste +lar, que é o Palácio da Ventura...<br /> + + +<br /> + + +―Seja então bemvindo―acudiu ela, tôda risonha.<br /> + + +<br /> + + +―Não o acredites, Júlia! É um +réprobo e tem +o sentimento derrancado―gritou Nuno. Ainda agora +me dizia da aldeia coisas pavorosas. Não te admires +se êle, logo à tarde, bocejando o seu +aborrecimento +e renunciando a uma conversão de alma, +nos fugir para a cidade...<br /> + + +<br /> + + +Frederico, voltando-se para o amigo, murmurou +com ar cómico e forçadamente constrangido:<br /> + + +<br /> + + +―É, então, assim que o afecto fraternal +compreende +<span class="pagenum">[35]</span>e pratica as +obrigações sagradas da +hospitalidade, +mentindo para me comprometer? Com franqueza! +Isso não é leal...<br /> + + +<br /> + + +Júlia, còrada e encantadora no seu pudor e no +seu recato de espôsa e de mãe, ria enlevada.<br /> + + +<br /> + + +―Deixe-o falar!<br /> + + +<br /> + + +―Pois se eu, só de atravessar a +pacificação +campestre, embebendo-me, impregnando-me da sua +doçura, até já me sinto outro e me +parece que dentro +de mim um outro coração renasce!...―disse +Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―É que o Espírito Santo estava à tua +espera +para baixar-te sôbre a cabeça em língua +de lume e +iluminar-te―zombou Nuno.<br /> + + +<br /> + + +Entraram na sala que as flores das jarras incensavam. +Por tôda a parte se notava logo o cuidado e +a subtileza duma diligente +<em>ménagère</em>, tal +era a ordem, +a elegância, o claro aceio daquele atraente lugar de +repouso. Sentaram-se um momento, conversando.<br /> + + +<br /> + + +―Quis, então, dar-nos por algum tempo o prazer +da sua companhia, abandonando as alegrias da vida +citadina?―perguntou Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Nuno assim mo impôs. E creia V. Ex.<sup>a</sup> +que +nunca imposição alguma foi mais brandamente +acatada +por um rebelde como eu sou―afirmou Frederico.<br /> + + +<br /> + + +Um relógio de bronze dourado, montado em +colunas de alabastro côr de rosa, marcava as horas +sôbre +o mármore do fogão, quebrando com o ritmo do +seu <em>tic-tac</em> a paz do compartimento: +e evolava-se de +tudo o que os cercava essa serenidade, êsse divino +mistério inspirador, essa graça imaterial que +só +existem nos ambientes calmos em que as almas de +<em>élite</em> fazem a troca +mútua das suas afeições puras, +<span class="pagenum">[36]</span> +das suas emoções delicadas, das suas +aspirações nobres.<br /> + + +<br /> + + +―De-certo que não encontrará aqui as +distracções +que um grande centro de população pode +oferecer―exclamou +Júlia. No entanto, haverá para o +snr. uma sincera amizade.<br /> + + +<br /> + + +―Eis tudo de quanto eu preciso, minha senhora, +porque a amizade é o que ainda vale no egoísmo e +na +tristeza da nossa época.<br /> + + +<br /> + + +―Mas, não terias perdido a virtude, o dom +e motivo de senti-la?―interrogou Nuno, com ironia +afável. Êste homem é um perdido, +Júlia. Vamos a +ver se conseguimos levá-lo de novo para a luminosa +vereda da verdade... E vai-te arranjar, criatura, que +aqui, na aldeia, almoça-se cedo, janta-se cedo e deita-se +a gente ao anoitecer...<br /> + + +<br /> + + +―Bem! Começa a minha +regeneração―murmurou +Frederico, erguendo-se. Se me concede licença, +minha senhora, vou tratar da +<em>toilette</em>. Vejo que Nuno, +antes de me servir o alimento, pretende servir-me um +método. É justo. Quem dá o +pão, dá o pau...<br /> + + +<br /> + + +―Se precisas dêle!...<br /> + + +<br /> + + +―Do pau?<br /> + + +<br /> + + +―Não, desgraçado, do método!...<br /> + + +<br /> + + +Nuno acompanhou-o ao quarto, enquanto Júlia +descia à cozinha. A tranqùilidade envolvente era +tam profunda que os menores ruídos adquiriam uma +prolongada vibração. Ouvia-se a voz dos +carreteiros +ao longe, excitando os bois nas subidas e as cantigas +dos ranchos de mulheres que trabalhavam nas terras +de cultivo, sob o banho fluido e louro da luz. Nuno, +deixando Frederico, veio um instante para a varanda +envidraçada exposta ao sol, sentando-se numa cadeira +<span class="pagenum">[37]</span>de +encôsto, perto dos vasos com avenca e +com begónias de estufa, de largas fôlhas +espalmadas +e ferruginosas, onde costumava passar as tardes com +Júlia, contemplando a ondulação dos +milheirais que se +estendiam por todo o vale, a ramaria dos pinheiros +vasta como um mar de verdura, a mancha azulada das +montanhas de perfil irregular e que formavam, das bandas +do nascente, uma rica, prodigiosa scenografia natural. +Estava contente, a vida tinha para êle um grato +sabor, nesse momento. Por mais absorvido que andasse +na sua feliz, plácida existência conjugal, +não podia +subtrair-se a determinadas influências que certos +factos produziam. A vinda de Frederico tinha +acordado, para seu regalo, um mundo de sensações +longínquas, +de recordações adormecidas. Com a +presença +do amigo, ressuscitavam tambêm a sua mocidade +distante, os anos consagrados ao estudo, à conquista +duma posição social que lhe imprimisse maior +relêvo +à personalidade, as ilusões que +fôra tecendo, as +esperanças +sonhadas em prometedoras horas de confiança. +Relembravam-lhe episódios há muito olvidados, +uma tumultuosa onda de saùdade e de indecifrável +ternura invadia-o. Ah! êsse bom Frederico! Havia +perto de dois anos―desde o seu casamento, a que êle +assistira―que não tornara a vê-lo. Nos primeiros +meses +de casado, como o seu forte amor por Júlia reclamasse +um absoluto recolhimento, isolou-se inteiramente +das suas relações, duma sociabilidade que o +não +interessava. Fizera, com ela, uma longa viagem de +núpcias por países que nunca visitara e que muito +desejava conhecer, encantado pelo anonimato da sua +individualidade no meio das ruidosas multidões. Estiveram +em Itália, em França, na +Suíça, observando +<span class="pagenum">[38]</span> +uma civilização que se denunciava radiosamente em +tôdas as manifestações da actividade +humana, na +sumptuosidade de capitais que são resumos lúcidos +do mundo consciente, passando as manhãs nos Museus, +indo à noite aos teatros, aparecendo nos sítios +preferidos pelo mundanismo para a exibição +maravilhosa +da esplêndida flor do luxo e da beleza, ofertando +à adoração que os estreitava a +surprêsa de espectáculos +constantemente novos e cativando pela +sua variedade infindável. Depois, quando regressaram +ao Pôrto, amando-se mais porque entre os dois +se tinha feito uma perfeita unidade moral e afectiva, +Frederico havia partido igualmente «para uma +confortável +vadiagem por êsse bemdito Portugal» como +dizia numa carta a Nuno, porque, mesmo separados, +nunca deixaram de estar juntos em espírito, +correspondendo-se +com regularidade, comunicando-se as +impressões recebidas, as opiniões, os +pensamentos, +os pontos de vista, por uma necessidade imperiosa, +que provinha de identidades de inteligência e simpatias +de temperamento.<br /> + + +<br /> + + +Frederico nada ocultava ao amigo e ao camarada, +confessava-se-lhe sinceramente. Uma casualidade +singular os aproximava ainda mais:―eram +ambos ricos, sem família, fizeram o mesmo curso, +manifestavam +as mesmas predilecções. Nuno conhecia-o +minuciosamente no seu carácter, na sua psicologia, +nas suas tendências, nos seus hábitos. Um pouco +leviano e volúvel, por certo. Não havia em +Frederico +estabilidade de sentimentos, fixidez, reflexão. Os +seus actos quáse nunca estavam em concordância +com as suas ideias. Abandonava inconsideradamente, +como futilidades sem raízes na realidade universal, +<span class="pagenum">[39]</span> +projectos no dia anterior aceitos com entusiasmo e +fervor, como se representassem a verdade irredutível. +Era um dêsses homens estranhos que, possuindo +um grande orgulho de si próprios, ou pela superioridade +mental ou por dons puramente exteriores, +são incapazes de contrariarem a sua espontânea +vontade, +de se sacrificarem na satisfação do seu sonho, +muito embora sigam por caminhos errados, de renunciarem +ao que, para êles, encerra um efémero +minuto de prazer. Foi por isso mesmo que não quis +jàmais reduzir ou comprometer a sua liberdade, +conservando-se +solteiro com mêdo às responsabilidades +duma família, ao jugo dos deveres contraídos. +Nuno +lembrava-se, enquanto reavivava um passado ainda +recente, do desgôsto que em Frederico provocara a +sua decisão de casar-se com Júlia. Êle +ouvira-o friamente, +com uma expressão de sarcasmo na bôca―um +sarcasmo em que havia compaixão e desdêm.<br /> + + +<br /> + + +―E tu devias fazer o mesmo. Arranjavas, assim, +uma ocupação séria!―dissera-lhe Nuno. +<br /> + + +<br /> + + +―Ah! obrigado pela intenção―respondera +Frederico, sêcamente e encolhendo os ombros.<br /> + + +<br /> + + +―Homem, parece que estou a aconselhar-te +uma acção má!...<br /> + + +<br /> + + +―Não! Apenas me aconselhas a loucura, o +absurdo...<br /> + + +<br /> + + +Êle, casar-se, efectivamente! Nunca sentira +vocação para a vida conjugal, sempre que se +consultava +sôbre êsse complicado e perigoso problema. Julgava +que o casamento destruiria tôda a sua paz, tôda +a sua felicidade―se é que essa felicidade significa +mais alguma coisa do que uma rima frívola em +poesia ou do que uma imagem literária. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[40]</span> ―Tu bem sabes, Nuno, que não sou um inexperiente +em amor―asseverou Frederico.<br /> + + +<br /> + + +Não era um inexperiente, na realidade. Nuno +conheceu-lhe, durante muitos meses, uma ligação +sentimental +íntima com uma linda rapariga que êle seduzira +e de quem mais tarde, saciado, fatigado, desiludido, +se afastou, oferecendo-lhe um forte punhado de +oiro. E, nessa ligação, que foi mais do que um +capricho, +a princípio, porque a sua alma nela teve +interferência, +encontrou Frederico a certeza de que, para +o seu organismo, para a sua individualidade psíquica, +as venerações eternas e conservando +perpétuamente +a mesma intensidade, as afinidades da carne e da +emoção que estabelecem para sempre uma estreita +comunidade física e ideológica entre dois seres +de +sexos diferentes, pelo laço do desejo insaciável, +que +incessantemente se renova, e das semelhanças espirituais, +representam uma engenhosa mentira.<br /> + + +<br /> + + +―A não ser―concluiu êle―que para +além +da minha experiência haja um mundo por mim ignorado.<br /> + + +<br /> + + +―Porque não hás de tentar a sua +descoberta?―insinuava +Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Porque não quero enliçar-me em aventuras +arriscadas... Se falhasse, o mal seria irremediável.<br /> + + +<br /> + + +Nuno casou, entregou-se às meigas +preocupações +do seu amor, não tornou a falar com Frederico, a +não ser por cartas: mas êste facto nunca mais lhe +esqueceu. +Permaneceria ainda o amigo dentro dos +apertados limites das mesmas ideias, prevaleceria no +seu espírito o terror ao casamento? Era provável +que +assim fôsse: mas Frederico seria uma testemunha da +sua felicidade, que era imperturbável e perene: e +<span class="pagenum">[41]</span> +podia muito bem acontecer que modificasse raciocínios +falsos. Felicitava-se por êle haver aceitado o +seu convite, porque talvez a permanência naquela +casa o convertesse―o que seria sumamente grato +ao afecto que lhe consagrava.<br /> + + +<br /> + + +―Porque não? Porque não?―monologava +Nuno.<br /> + + +<br /> + + +A aridez da existência de Frederico entristecia-o, +porque o estimava profundamente. A-pesar da sua +leviandade, duma ponta de cinismo que a vida lhe +transmitira, do pessimismo que tornava estéreis +os seus anos alacres e improdutiva a sua actividade, +êle era um excelente moço duma lealdade firme, +afável, +encantador por mais dum traço da sua personalidade: +e só por isto, lhe abrira alegremente a porta +da sua vivenda onde com sobressalto, quáse com +ciúme, +guardava quanto possuía de mais querido e de +mais puro...<br /> + + +<br /> + + +Um berro súbito interrompeu o fio do scismar +de Nuno. Frederico, já lavado do pó da viagem, +já perfumado, já mudado de roupa, entrou +inesperadamente +na varanda, exclamando:<br /> + + +<br /> + + +―Tenho andado a procurar-te por tôda a parte +inutilmente.<br /> + + +<br /> + + +―Estava aqui a reviver coisas extintas que a +tua chegada me sugeriu. E sabes o que evoquei? +Não sabes? Pois foi a última conversa que tivemos +nas +vésperas do meu casamento. Lembras-te?<br /> + + +<br /> + + +―Perfeitamente...<br /> + + +<br /> + + +―E ainda pensas da mesma forma?<br /> + + +<br /> + + +―Pois que razão havia de desviar-me dêsse +pensamento?<br /> + + +<br /> + + +―Vejo que és um convicto no êrro. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[42]</span> ―Como tu o és na verdade...<br /> + + +<br /> + + +―Bem, bem. Não falemos mais nisso!... Ocupemo-nos +de coisas proveitosas. Nem sequer viste o +meu morgado... Vou mostrar-to. Anda comigo.<br /> + + +<br /> + + +Enquanto se dirigiam ao quarto da ama, que +comunicava com o de Nuno por uma ampla porta, êle +ia-lhe fornecendo esclarecimentos sôbre o filho:<br /> + + +<br /> + + +―Oh! é um respeitável senhor com as pernas e +os braços às roscas de carne, uma cara rabugenta +e +uns olhos negros como contas de vidro que, a-pesar-de +ser ainda pequenino, é já um déspota. +Manda em +mim, manda na mãe, que o adora, e, como os +príncipes, +tem servos atentos à volta da sua importante +pessoa. Todos nós somos seus escravos.<br /> + + +<br /> + + +Atravessavam um corredor quando Júlia apareceu +com a criança ao colo, entre rendas, cambraias, +laçarias de sêda.<br /> + + +<br /> + + +―Aqui o tens. Vê que figurão!<br /> + + +<br /> + + +Frederico curvou-se para uma carinha rosada, +emergindo da brancura imaculada das roupagens, tocou-lhe +levemente com a mão na face, esteve um +momento a contemplá-lo.<br /> + + +<br /> + + +―Hein? Que te parece?―perguntou Nuno, +beijando, com ternura, o pequenino.<br /> + + +<br /> + + +―Admirável!... Com certeza que a estas horas, +já elegeste, para êle, um destino +incomparável, já +meditaste na situação que mais lhe +convêm. É o primeiro +dever dos pais.<br /> + + +<br /> + + +―Coitadinho!―murmurou Júlia, enlevada.<br /> + + +<br /> + + +―E V. Ex.<sup>a</sup> tambêm, minha senhora. Ah! +as +mães! Se elas forem tôdas como a minha, que era +uma santa, nunca se sentarão à beira dum +berço sem +sonharem quimeras para os seres que lá dormem. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[43]</span> ―Não, não! Eu apenas quero que êle +viva, +para o meu amor, para o amor de Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Cá por mim―atalhou Nuno―decidi.<br /> + + +<br /> + + +―Sim? Então, conta lá...<br /> + + +<br /> + + +―Resolvi fazê-lo rei, dar-lhe um trono...<br /> + + +<br /> + + +―Oh! Nuno, que disparate!...―interrompeu +Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Disparate? Ora essa!... Que dizes tu, Frederico?<br /> + + +<br /> + + +―Eu digo que, na verdade, um trono é uma +grande comodidade para os mortais, mesmo por êstes +ásperos dias de democracia, de +revoluções, de +indisciplinados movimentos políticos e religiosos. +Sim, minha senhora. Nuno está na sapiência. Uma +corôa, uma rialeza, milhões de vassalos vergados e +sem vontade sob o poderio dum scetro é, entre +tôdas +as vaidades humanas, a mais invejável vaidade. Resta +saber...<br /> + + +<br /> + + +Júlia ouvia saborosamente as palavras de Frederico, +afagando o filho, aconchegando-o mais nos +braços, encostando-o ao seio com infinitas cautelas.<br /> + + +<br /> + + +―Resta saber o quê?―interrogou Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Resta saber se o pequerrucho terá uma decidida +vocação para tirano...<br /> + + +<br /> + + +Riram com alarido, dando alguns passos no +corredor que a meia-tinta da luz refrescava.<br /> + + +<br /> + + +―Se sair à mãe, será um tirano de +primeira +ordem!―concluiu Nuno, rindo ainda.<br /> + + +<br /> + + +―Não creia, Frederico―replicou Júlia, +jovialmente. +Quem aqui sofre um domínio tirânico, +sou eu!... Nem pode calcular...<br /> + + +<br /> + + +―Imagino, imagino, minha senhora. E lamento-a. +Em outras épocas, nos séculos mortos da +cavalaria, <span class="pagenum">[44]</span>eu +ofereceria a V. Ex.<sup>a</sup> uma espada +libertadora. +Mas, desde D. Quichote que os cavaleiros +andantes não são bem vistos pela +polícia. Tudo quanto +posso fazer é recomendar-lhe +resignação...<br /> + + +<br /> + + +―Sou já uma resignada―disse ela, envolvendo +Nuno num inexprimível olhar de afecto.<br /> + + +<br /> + + +A ama veio pegar na criança, que agitava os bracinhos, +que levava os punhos fechados à bôca e galrava, +quando em baixo, no rés-do-chão, uma sineta +de estridente timbre, tocou para o almôço, +assustando +as pombas no pombal.<br /> + + +<br /> + + +―Ora, graças a Deus! Pensava que nos querias +hoje matar à fome, Júlia―disse Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Que horas são?<br /> + + +<br /> + + +―Meio-dia. E Frederico deve estar com um +apetite igual ao de Ugolino na sua prisão. Desde alta +madrugada que rolou, através de estradas poeirentas, +para nossa casa, animado na sua tortura pela única +esperança duma farta mesa...<br /> + + +<br /> + + +―Nem só de pão vive o homem―exclamou +Frederico. Mas lá apetite há, bemdito seja o +Senhor +que nos fez assim glutões e terrestres.<br /> + + +<br /> + + +Foram caminhando pelo corredor, ao lado de +Júlia muito elegante no seu vestido de sedinha branca―um +vestido que lhe modelava nítidamente as +linhas corpóreas, ondulantes e flexíveis, e em +que +havia harmonia, graça e ritmo―entrando, por fim, +na sala de jantar, que era espaçosa, clara, +aprazível, +com o seu mobiliário de nogueira americana, as +suas três janelas abrindo para o jardim, os seus cortinados +de renda inglesa, os seus <em>brise-bise</em> +de tule bordado. +Nos aparadores, as pratas resplandeciam, iluminando-se +de súbitas claridades; o esmalte das porcelanas +<span class="pagenum">[45]</span>pintadas +faíscava +de brilhos metálicos; os +cristais dardejavam a um raio de sol que incidia nas +vidraças e se prolongava como um delgado fio de +ouro, ardendo, fulgurando, tremendo sôbre o verniz +dos móveis. Uma perturbante fragrância vinha de +fora, exalando-se das corolas, subindo na aragem.<br /> + + +<br /> + + +―É agradável, esta sala!―louvou Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Como situação...―alvitrou Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Por tudo:―pela situação, pelo aspecto +ornamental, +pela simplicidade, que logo revela o solícito +cuidado e o bom gôsto feminino... Os meus +cumprimentos, minha senhora.<br /> + + +<br /> + + +―Ora! Amabilidades de hóspede amável!―disse +Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Mas não, mas não! Digo a verdade, digo o +que sinto.<br /> + + +<br /> + + +A larga toalha da mesa, do linho mais puro +e mais fino, alvejava entre os solitários com cravos +e avencas e espalhava frescura; largas cadeiras de +couro lavrado, de alto espaldar e pregarias de metal +amarelo, ofereciam repouso; dos pratos cheios de +fruta evolavam-se vivos aromas; os morangos, colhidos +de manhã, no morangal, por Nuno, perfumavam +o ambiente. Sentaram-se: e Frederico, desdobrando +o guardanapo vagarosamente, afirmou:<br /> + + +<br /> + + +―Pois, senhores, adorável retiro para uma doce +convalescença de espíritos doentes, para um +perfeito +exame de consciência! Aqui é o El-Dorado que +o dr. Pangloss em vão procurou na terra.<br /> + + +<br /> + + +―Tu o dirás!―retorquiu Nuno. Mas mais +tarde. Por enquanto, é cedo para julgamentos ousados. +Não te precipites, não arrisques +opiniões temerárias <span class="pagenum">[46]</span>que +podem ser erradas... Chegaste há +três +horas apenas.<br /> + + +<br /> + + +―Há três horas já? Nunca, para mim, o +tempo +fugiu tam ligeiro...<br /> + + +<br /> + + +Júlia sorria sempre, muito rosada, muito animada, +diante de tôda aquela efusão do amigo da +casa, que viera trazer com o seu afecto por Nuno +mais movimento e mais vida à tranqùilidade +inefável +da vivenda rural. Os cabelos abundantes, enrolados +no alto da cabeça e apenas presos por travessas +guarnecidas a ouro em que fulguravam pequenos +brilhantes talhados em rosa, caíam-lhe em madeixas +até ao lóbulo das orelhas, onde duas +pérolas dum +belo íris reluziam em fogos surdos. Na sua testa +ebúrnea +havia toques de luz. Frederico olhou-a um momento, +assim envolvida de claridade, satisfeita na +sua ventura de mulher, numa atitude que dava a tôda +a sua pessoa um extraordinário poder de +sedução.<br /> + + +<br /> + + +―Quem tem feito uma grande diferença, para +melhor, é a snr.<sup>a</sup> D. +Júlia―disse.<br /> + + +<br /> + + +―Sinto-me bem, com efeito!―respondeu ela.<br /> + + +<br /> + + +―Eu, de resto, apenas a vi no dia do casamento, +e já lá vão dois longos, fastidiosos +anos. Mas parece-me +que tem mais côr e mais saúde, que está +um +pouco mais nutrida.<br /> + + +<br /> + + +―Pois, olha que veio para aqui adoentada, +muito fraca―esclareceu Nuno. Meses depois do +nascimento do filho, chegou a inspirar-me cuidados. +Os médicos mandaram-na sair da cidade a tôda a +pressa: e, com efeito, na aldeia, curou-se. Não +há +como o campo, para êstes milagres.<br /> + + +<br /> + + +―Visto isso, minha senhora, por gratidão, +deve ficar aqui, esquecer as grandes +aglomerações, +<span class="pagenum">[47]</span> +que são o veneno, a indigência orgânica, +a morte...―comentou +Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Por mim, ficava. Mas Nuno não se acostumaria +à solidão, à tristeza, ao +isolamento...<br /> + + +<br /> + + +E, como êle protestasse, acudiu logo:<br /> + + +<br /> + + +―E nem eu, tambêm. Já outro dia falamos +nisso... O inverno, neste destêrro, deve ser medonho...<br /> + + +<br /> + + +O almôço decorreu alegre, no calor constante +das palestras a que Frederico imprimia vivacidade +e graça, com a sua <em>verve</em> +faíscante. À sobremesa, +a conversação derivou para as questões +sensacionais +do dia, motivadas pela guerra que, dum +extremo ao outro, pegava fogo à Europa, sepultando +em ruínas uma civilização que levara +tantos +séculos a construir. Nuno achava-a necessária, +pois +só por ela seria possível restituir a liberdade +aos povos +e a independência às nacionalidades +débeis. +Júlia, pensando no filho, na desdita das outras +mães, +nas torrentes de sangue e de lágrimas que corriam +nos campos de batalha e nos lares lutuosos, horrorizava-se +com uma carnificina que imolava à morte +as primaveras humanas. Não compreendia a ferocidade +dos homens e das nações, +despedaçando-se por +ambições de domínio, de hegemonias +políticas, de +conquistas de territórios e de mercados comerciais, +quando para todos havia um lugar ao sol e um direito +à existencia. Falava com uma verbosidade que +Nuno não lhe conhecia e que encantava Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―V. Ex.<sup>a</sup>, minha senhora, é uma das +poucas +mulheres que assim pensam e eu creio que, como +mulher, está na lógica e na verdade. Mas quer +saber +o que faz o gentil mundo feminino das potências +<span class="pagenum">[48]</span> +envolvidas no conflito? Não pensa nas modas, no +luxo, o que até agora parecia impossível. +Trabalha +nas fábricas de munições, faz +granadas, engenhos de +destruìção!... +<br /> + + +<br /> + + +―Por isso mesmo, essas mulheres são +admiráveis!―atalhou +Nuno, com entusiasmo.<br /> + + +<br /> + + +―Admiráveis? Oh! Nuno, que heresia!―contrariou +Júlia.<br /> + + +<br /> + + +No seu critério simplista, ela compreendia que +as mulheres, seres de abnegação e de +sacrifício, destacando-se +mais intensamente pela emoção do que pela +inteligência, mais pelo espírito do que pelo +cérebro, +amassem as suas pátrias; mas era-lhe doloroso +pensar que mãos de afago e de carícia, feitas +para +apaziguarem o sofrimento, para enxugarem com +infinita doçura os olhos que choram, para sararem +feridas, se ennegrecessem na pólvora, destinada a +devastar homens que vão para os combates, passivamente, +como as rêses para um matadouro. A sua +colaboração nas pendências guerreiras +nunca devia +ir alêm dos hospitais de sangue, onde acalmariam +dores e tranqùilizariam delírios.<br /> + + +<br /> + + +―Pois, não é assim, Frederico? Diga! Seja +imparcial.<br /> + + +<br /> + + +―Na realidade, minha senhora, através de +tôda a história, nunca vi as mulheres associadas +às lúgubres matanças. Pelo +contrário, tenho-as +visto sempre dispostas a lutar para conseguirem +tudo o que signifique elevação, nobreza, bondade, +amor. Elas foram, positivamente, os melhores arautos +de Jesus para a vitória do Cristianismo, que +redimiu o mundo; elas impuzeram, com as religiões, +a arte e a poesia. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[49]</span> ―Então, aí está!―disse +Júlia, com um sorriso +triste.<br /> + + +<br /> + + +―Vejo que tu não eras capaz de dar o teu +filho, se ele fôsse grande e pudesse manejar uma arma, +para a defesa do país―exclamou Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Com certeza que não!―asseverou ela resolutamente +e com uma grande convicção na voz. E +digo-to:―para o defender da morte, eu era capaz +de tudo, de tudo, mesmo dum crime.<br /> + + +<br /> + + +―Pensa, portanto, no heroísmo das outras +mães...<br /> + + +<br /> + + +―Nenhuma delas os dará de bôa vontade... +Arrancam-lhos à fôrça, cruelmente !<br /> + + +<br /> + + +―Repara, Frederico! Aqui tens uma compatriota +de Brites de Almeida, a padeira de Aljubarrota, +de D. Filipa de Vilhena, doutras criaturas heróicas!―zombou +Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Ela está na razão, pensa como mulher―e as +mulheres, verdadeiramente, só vencem pelo sentimento.<br /> + + +<br /> + + +Acenderam os charutos e continuaram a discussão, +enquanto Júlia, levantando-se, dava ordens +á criada para que o café e os licores +fôssem servidos +no jardim. Nuno, que a guerra apaixonara, ia +agitando ideias, condenava o pacifismo que estava +fóra da sua acção eficaz:<br /> + + +<br /> + + +―Positivamente, por melhor intencionado que +seja, o pacifista é um produto nocivo do nosso estado +de perturbações e de ameaças. +Até hoje, imaginou +erradamente que a maneira mais prática de +realizar-se a paz seria odiar e condenar todos os movimentos +armados dos povos, sem distinguir lúcidamente +entre o justo e o injusto, entre a honra e a +<span class="pagenum">[50]</span> +cobardia. Quando a tranqùilidade do mundo entrava +numa fase precária, êsse pacifista aconselhava a +transigência dos menos poderosos, o que era uma +vileza.<br /> + + +<br /> + + +―Mas que outra coisa poderia êle fazer?―inquiriu +Frederico, interessado e soprando baforadas +de fumo.<br /> + + +<br /> + + +―Que outra coisa poderia fazer? Homem, +desconheço-te, perdeste a sagacidade antiga! No +domínio espiritual, a felicidade resulta da filosofia +e da religião; e no domínio material, da +sciência e +do trabalho. Igualmente, e nesta ordem de raciocínios, +a paz deriva do equilíbrio das potências e das +precauções a tomar contra aqueles que pretenderem +destruir êsse mesmo equilíbrio. A +missão útil e nobre +do pacifismo, se êle não andasse transviado, seria +esta, portanto.<br /> + + +<br /> + + +―É ainda impotente para isso―opinou Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Porque lhe falta organização―respondeu +Nuno.<br /> + + +<br /> + + +Júlia reentrou na sala para dizer que o café +já +fumegava sob as árvores e entre as flores, à +espera.<br /> + + +<br /> + + +―Já lá vamos, minha senhora!―informou +Frederico. Estávamos aqui a desenvolver coisas +muito sérias de sociologia e de política. Nuno +é terrível. +Tem uma argumentação, uma +dialéctica!...<br /> + + +<br /> + + +―É porque estou na verdade.<br /> + + +<br /> + + +Depois, debaixo dos arvoredos, o diálogo sôbre +o mesmo assunto ainda continuou, caloroso, vivo, +na tarde serena co +Depois, debaixo dos arvoredos, o diálogo sôbre +o mesmo assunto ainda continuou, caloroso, vivo, +na tarde serena como a doçura e a melancolia duma +rosa de luz e de sêda que se desfolhasse lentamente. +A sombra, caíndo, despregando-se molemente das +<span class="pagenum">[51]</span> +ramarias, espalhava na areia das ruas movediças +manchas rôxas. Um ar esperto e vitalizador circulava. +O sol, descendo para o poente, refulgia e dourava +tudo aquilo em que tocava.<br /> + + +<br /> + + +Nuno surpreendia uma beleza nova nas vastas +massas de homens que avançavam para as batalhas +altivamente, sem o temor no coração, sem a +palidez nas frontes―nesses soldados que conheciam +a embriaguez do sacrifício total a um pensamento +grande e nobre e que, no +<em>élan</em> supremo das +cargas, por entre o ciclone fulgurante da metralha, +tinham a visão nítida e simples das coisas, +sentindo +a divina claridade das almas heróicas, a alegria +prodigiosa da única verdade, que é a de lutar +até à +morte por uma liberdade mais ampla, por uma vida +melhor, pelo esplendor das nacionalidades a que +pertencem.<br /> + + +<br /> + + +―Porque, não tenhas dúvidas! Desta +convulsão +saírá uma liberdade luminosa.<br /> + + +<br /> + + +―Isto é―explicou Frederico―maior extensão +do privilégio. Eu não sei, realmente, em que +consiste +essa liberdade que tam calorosos hinos te merece...<br /> + + +<br /> + + +―Não sabes? Pois é fácil +sabê-lo. A liberdade +perfeita consiste na absoluta adaptação dos +interêsses, +das actividades e das energias humanas. No +nosso tempo, a adaptação de que falo é +essencial +entre os indivíduos; entre a colectividade e as +instituições; +entre as instituições e os governos. Quando +isto se conseguir, a existência será mais suave e +mais +bela...<br /> + + +<br /> + + +Na espessura dum caramanchão de madre-silvas +e clematites, um melro assobiava a sua canção +<span class="pagenum">[52]</span> +em louvor do claro dia; no parque, a solidão tornava-se +mais profunda; perto da varanda da casa, +sob a acácia, um gordo gato rebolava-se ao sol.<br /> + + +<br /> + + +―Não creio que esta guerra nos dê uma liberdade +mais dilatada. Quando muito, fará apenas +com que a tirania empregue uma subtileza maior―contestou +Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Não crês em nada. Perdeste a +fé―replicou +Nuno, bebendo o seu café a pequenos, espaçados +goles.<br /> + + +<br /> + + +―Penso, porêm―continuou Frederico sem o +ouvir―que dela saírá alguma coisa de +inédito. +Com efeito, uma parte do culto ocidente sossobra e +afunda-se com a hecatombe. Tombaram, sucessivamente, +como as messes diante da fouce do segador, +as mocidades da Europa, que era a renovadora do +mundo consciente pelo génio artístico e +scientífico. +Essas mocidades haviam sido educadas pelos antigos, +pelos vélhos, pelas personalidades formadas em +ideias já conhecidas, semente de que germinariam as +searas futuras. Deu-se, portanto, com êste salto brusco +para o mistério, uma solução de +continuìdade. Do +saber guardado e arquivado nos livros, pouco subsistirá. +A Europa nova tem de educar-se por si, de refazer +uma consciência e uma sensibilidade, um espírito +e uma razão, em bases tambêm novas...<br /> + + +<br /> + + +―Há talvez alguma verdade nas tuas palavras―atalhou +Nuno, surpreendido.<br /> + + +<br /> + + +―Quem me diz que a Europa de àmanhã +não +terá de ir outra vez, como na Renascença, +às civilizações +extintas a procurar as suas inspirações?<br /> + + +<br /> + + +―Não se anda para trás. A vida evolute numa +progressão ascendente...―exclamou Nuno. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p53">[53]</a></span> ―Não falo em retrocesso: falo na busca duma +fonte geradora de outros ideais. No entanto, se esta +peregrinação dos povos doloridos ao passado se +fizer, +muitas coisas hoje decadentes reconquistarão +o seu prestígio.<br /> + + +<br /> + + +―Por exemplo...<br /> + + +<br /> + + +―O Catolicismo que, depurado das suas +imperfeições +e das mentiras com que os homens o desfiguram, +terá belos e gloriosos dias.<br /> + + +<br /> + + +―Que fantasia!<br /> + + +<br /> + + +―Homem, contempla a febre, a ansiedade, +com que as nações que o tinham repelido, +novamente +se voltam para êle, procurando uma +consolação, uma +alegria interior que o racionalismo não lhes oferecia. +Em França os templos transbordam de fiéis. Nas +trincheiras, os padres combatentes pousam as espingardas +para dizerem a missa aos seus camaradas que +vivem debaixo da tempestade das granadas e da fuzilaria. +Não será isto uma profecia? Nas +terríveis +calamidades, Deus é preciso para que o sofrimento +seja menor...<br /> + + +<br /> + + +Júlia voltou a aparecer com o filho ao colo. +O seu <a href="#e1">perfil</a>, de linhas tam +delicadas, +recortava-se límpidamente +no disco, na auréola luminosa de que a +claridade lhe envolvia a fronte.<br /> + + +<br /> + + +―Santo nome de Maria! Pois ainda discutem +a guerra?!...―interrogou ela.<br /> + + +<br /> + + +―Sim! Temos feito, à volta de duas chávenas +de café e de dois cálices de +<em>cognac</em>, uma enorme quantidade +de filosofia, minha senhora!―disse Frederico, +levantando-se e indo ao seu encontro. Nuno +tem sido duma eloqùência notável... Nem +V. Ex.<sup>a</sup> +calcula. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[54]</span> ― Eu sei, eu sei! Quando êle se apaixona por +uma questão, é um falador +incorrigível.<br /> + + +<br /> + + +Nuno, que tambêm se aproximara do grupo, +todo afogueado do calor da controvérsia, acrescentou:<br /> + + +<br /> + + +―Demos à língua, efectivamente. Desforrei-me +da minha mudez consecutiva de meses. Frederico +estava interessante...<br /> + + +<br /> + + +Parou, um momento, absorvido na adoração +do pequenino, que mostrava os olhos espantados e +que incessantemente abria e fechava as mãosinhas +rosadas. Todo êle cheirava a perfumes, como uma +flor humana.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! lá, ó seu fidalgo!... Pst!...―acariciava +Nuno, pousando-lhe um dedo na còvinha do +queixo. Bem disposto, hein?<br /> + + +<br /> + + +―Tomou agora o seu banho, sente-se feliz―disso +Júlia, baixando os olhos pensativos sôbre a +fronte do filho.<br /> + + +<br /> + + +Ouvindo-a falar naturalmente, Frederico notava +nas suas palavras uma vibração, um timbre, um +enlêvo que não podia definir e que o perturbavam. +Na história da sua alma fazia-se uma página de +poesia +e de ternura, que lhe comunicava gôzo, +pacificação +interior. Como Nuno era feliz! E bem merecia +êle essa felicidade, pelos puros dons do seu +carácter, +pela sua bondade, pelas suas virtudes de +homem. Encontrara a mulher ideal que o completou +e que, à sua volta, fazia a graça, a serenidade, +a +confiança, o repouso.<br /> + + +<br /> + + +―E aqui tens tu, Frederico―disse Nuno―a +minha pátria grande.<br /> + + +<br /> + + +―Não! A tua família... A família +é apenas +<span class="pagenum">[55]</span> +a unidade da pátria, como o individuo é a unidade +da família.<br /> + + +<br /> + + +―Bem! Que seja então a minha pequenina +pátria. Não quero outra. E tu, homem, porque +não +procuras uma?<br /> + + +<br /> + + +Frederico olhou o amigo demoradamente, fitou +depois Júlia, agitado por sentimentos, por +inenarráveis +sensações que lhe pareciam +incompreensíveis +porque, na sua perturbação, não +conseguia explicá-los, +determinar-lhes a génese e o carácter. Por uma +revelação fulminante, via nessa doce mulher uma +imagem venerável e quási religiosa para que o seu +respeito e o seu reconhecimento subiam. Reconhecimento +de quê? Não o sabia.<br /> + + +<br /> + + +―Tenho a certeza de que a não encontrava―respondeu +êle. Não possuo o génio das +descobertas.<br /> + + +<br /> + + +―Não será isso egoísmo, +Frederico?―interrogou +Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Egoísmo? V. Ex.<sup>a</sup> é +injusta com um homem +que resolveu sacrificar-se só a êle para +não +sacrificar os outros...<br /> + + +<br /> + + +―Temos S. Francisco de Assis em nossa casa, +Júlia!― afirmou Nuno, afagando +distraídamente +o rosto do filho... Mas, se déssemos uma volta pelo +parque? A sombra, a amenidade do dia são convidativas. +E temos palrado tanto, justos céus!<br /> + + +<br /> + + +Entraram vagarosamente na solitude dos troncos +e das folhagens onde corria uma fresquidão vitalizante, +na tarde pesada e quente. Através dos +ramos entrelaçados, num azul muito alto, flutuavam +farrapos esparsos de nuvens. Por tôda a parte, +sob a imensa abóbada de verdura, floriam cheirosos +<span class="pagenum"><a name="p56">[56]</a></span> +arbustos que punham na suavidade da penumbra +uma atenuada e bela nota colorida. Por vezes, roseiras, +bracejando junto das árvores, trepavam às +ramagens, enroscavam-se nelas, rompendo depois +para o espaço livre em festões, em grinaldas, +desenhando +originais movimentos decorativos. Os seus +aromas harmonizavam-se, fundiam-se num só aroma, +que era excitante. No grande silêncio vespertino, +apenas se ouvia o canto medroso das aves que fugiam, +assustadas, da torreira do sol. Frederico e +Nuno caminhavam ao lado de Júlia, emmudecidos +para melhor sentirem e compreenderem a beleza envolvente. +A criança palrava entre as rendas e as cambraias +vaporosas; e uma bica de água, correndo perto +dum maciço de cedros e plátanos +enlaçando, casando +os seus ramos, cantava e brilhava na fina paz +vesperal.<br /> + + +<br /> + + +―Isto é a delícia das +delícias―disse, por fim, +<a href="#e2">Frederico</a>. Há muito +tempo já que +não me reconciliava +tanto com a vida.<br /> + + +<br /> + + +Enquanto êles se detinham numa clareira, +reencetando a conversa, Júlia adiantou-se alguns +passos, indo sentar-se num banco rústico de +cortiça +que ficava por baixo dum docel formado por mosqueteiras +ainda em flor. Ao vento brando que passava, +arripiando as fôlhas, um colorido e perfumado orvalho +de pétalas desprendia-se do alto, tremendo como +asas de borboletas, caindo sôbre Júlia e o filho. +Ela ria, com um riso mais contente, ditosa pela idílica +oferta que as trepadeiras faziam à sua gracilidade, +á sua pureza feminina, ao seu amor de espôsa, +à +sua divina maternidade, e Nuno e Frederico admiravam +êste espectáculo imprevisto. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[57]</span> ―As flores, para serem justas, deviam-lhe +essa homenagem, minha senhora―declarou o hóspede.<br /> + + +<br /> + + +O chuveiro das pétalas continuava sempre, cobria +duma geada aromática os cabelos de Júlia, o +rosto da criança.<br /> + + +<br /> + + +―As bôas fadas saùdam a princesa, sua afilhada, +e o principe dilecto!―observou Nuno, enternecido. +É como nos contos de Perrault, nas lendas +doutras idades.<br /> + + +<br /> + + +Por fim, Júlia levantou-se, tôda florida, com +as faces rosadas por uma ponta de sangue mais vivo, +enquanto Frederico a considerava, deslumbrado. +Como era encantadora e linda, na verdade!... E +outra vez louvou a felicidade de Nuno, do amigo +fraterno, para quem o destino tinha sido propício e +generoso, pondo no seu caminho, bem junto do seu +coração, aquela mulher incomparável.<br /> + + +<br /> + + +―Vou-me embora. Faz aqui frio. Tenho mêdo +de que a criança se constipe―disse Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Vai. Nós ainda por aqui nos conservaremos, +filosofando. Quero iniciar Frederico na formosura da +solidão!...―exclamou Nuno.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3>III</h3> + + +<br /> + + +Os dias deslizavam serenos, para Frederico, +no encanto da simplicidade campestre, no íntimo +convívio de Júlia e de Nuno. Nenhuma +imperfeição +da vida dolorosa e amarga alterava a pacificação +dum ambiente que se fazia mais doce à volta de +tanta ventura humana. Ao contacto permanente das +coisas e dos sentimentos puros, o coração de +Frederico +purificava-se tambêm, como se fôsse um pouco +sua a felicidade dos outros. Vivia numa espécie de +esquecimento, não se lembrava de ter sofrido moralmente, +parecia-lhe que, na sua existência árida, no +seu sentimento estéril, desabrochava, por fim, uma rara +e ditosa flor. As faculdades emotivas subtilizavam-se +nêle; as tristezas, os desesperos que o haviam +atormentado em horas inquietas e febris, dissipavam-se +na sua alma. Passava por uma funda renovação, +penetrava-o uma fôrça estranha, formava-se-lhe +na inteligência e na moral um novo princípio: e +uma +<span class="pagenum">[60]</span> +prodigiosa multidão de sensações +espontâneas, que +não sabia interpretar, convertiam-se, para êle, +num +intenso fenómeno psicológico.<br /> + + +<br /> + + +―Parece-me que vou renascendo, Nuno!― dizia +Frederico ao antigo companheiro de estudos. A +alegria que existe em tua casa comunica-se-me +tambêm aos nervos, à sensibilidade. E é +curioso! +A minha confiança no futuro, uma confiança que +nunca foi grande, aumenta agora sucessivamente. +Porquê? Porquê? Que elemento operou êste +milagre +estupendo?<br /> + + +<br /> + + +―É porque só agora desperta em ti a capacidade +mental para a compreensão das coisas belas―afirmava +Nuno, zombando. O sêr pensante anda +inconscientemente perdido no turbilhão do mundo, +até ao momento singular em que acorda para a verdade. +Tu nunca leste o drama de Ibsen:―«<em>Quando +dentre os mortos nós +ressuscitarmos</em>»?<br /> + + +<br /> + + +―Nunca li êsse nebuloso escandinavo, na realidade...<br /> + + +<br /> + + +―Fizeste mal, porque Ibsen ensina-nos a analisarmo-nos +com lucidez... Eras um morto. Começas +a ressuscitar. E olha que é dêstes bons ares, +desta +claridade puríssima, da paz rústica, da singeleza +que +nos rodeia.<br /> + + +<br /> + + +Frederico, em momentos de solitude, concentrava-se, +para melhor observar o seu caso, que era bizarro: +e tinha a impressão de que convalescia duma +doença de espírito e de corpo. Nesta +convalescença, +surpreendia-o um facto enigmático. Com efeito, alvorecia +nêle um encanto desconhecido que o absorvia +todo, que o exaltava e lhe perturbava os sentidos. +Levantava-se cedo, quando ainda a casa dormia na +<span class="pagenum">[61]</span> +frescura da luz, na ternura matinal, tomava o seu +banho bem frio, que o tonificava, descia ao jardim +que o orvalho nocturno tornava mais viçoso, passeava +nas ruas, fumando, entregando-se ao prazer contemplativo, +parando ingénuamente junto dos arbustos +floridos. Depois, Nuno levantava-se tambêm, vinha +ao seu encontro, ambos encetavam uma animada +palestra, que se demorava pelos inefáveis recantos +de sombra―por onde circulava um ar estimulante +e ligeiro―até ao almôço. Perto de +Júlia +Frederico principiava a sobressaltar-se, experimentava +uma ansiedade confusa que o angustiava. Nem +sequer pretendia investigar a origem dêsse sobressalto, +por temer que dentro dêle se fizesse uma +revelação assustadora e terrível... +Via-a andar dum +lado para o outro, nas ocupações caseiras, +tôda sorridente +e natural. A luz difusa imprimia-lhe mais nitidez +e destaque às linhas plásticas, dava uma +irradiação +maior à sua beleza de mulher completamente +formada. À mesa, sentada em frente dêle, perto +de Nuno, os seus olhos pensativos, iluminando-lhe o +rosto, pousavam, por vezes, sôbre Frederico, que se +sentia feliz sob aquela muda carícia em que nada de +impuro existia: e o tempo ia fugindo, leve e animado, +sem deixar resíduos de fadiga.<br /> + + +<br /> + + +Nas horas de solidão e de calor, Nuno, cansado, +recolhia-se ao quarto para dormir a sésta: e Frederico, +pegando num livro, que escolhia na pequena +biblioteca do amigo, ou num jornal, dirigia-se ao +parque, indo sentar-se no banco de cortiça, sob a +mosqueteira que, na tarde da sua chegada, peneirara +uma chuva colorida de florações sôbre +Júlia +e sôbre o filho: e ali, fazendo esforços para +recordar-se, +<span class="pagenum">[62]</span> +evocava com saùdade um passado que já ia +muito +longe, quando a sua existência era inconsiderada e +o seu pensamento não tinha +inquietações. Na solidão, +no isolamento, estudava-se. Fôra sempre um +afectivo, por necessidades de temperamento, talvez +por vícios de educação: e, justamente, +essa afectividade +levara-o outrora para as aventuras de amor, em +que procurava o infinito para a sêde ardente que o +devorava e em que sempre encontrou o desengano, +a desilusão, o aborrecimento, o desgôsto. Certas +imagens +femininas que mais forte impressão lhe tinham +produzido, despertavam um momento nas suas +recordações. Lembrava-se, sobretudo, de Adelaide, +uma pobre e linda costureira por quem se apaixonara +e com quem fez um idílio saboroso que durou +seis meses. O alvorôço com que para ela +fôra +impelido, como se essa mulher pudesse oferecer-lhe +a verdade nos seus beijos!... Mas, sossegada a +animalidade dum sensualismo grosseiro, apaziguada +a febre carnal, viu que se havia iludido, mais uma +vez, e que a crédula rapariga que nêle confiara, +entregando-se-lhe, nenhum gôzo emotivo e intelectual +lhe daria para assim prolongar uma voluptuosidade +que a posse arrefeceu.<br /> + + +<br /> + + +Nuno reconhecera êste seu romance, tinha-o mesmo +reprovado, dizendo-lhe que êle andava a gastar, +em caprichos banais da fantasia e da luxúria, e em +desvairamentos românticos, a reserva de energia sensitiva +de que precisaria mais tarde para uma adoração +séria que lhe enchesse tôda a vida, que o +transfigurasse. +Só depois, quando o desalento surgiu―e +com êle o cansaço, o enfado, a +saciedade―Frederico +verificara que Nuno estava na razão... Que +<span class="pagenum"><a name="p63">[63]</a></span> +seria feito de Adelaide? Em que lamaçais profundos +teria caído? Por que despenhadeiros a iria conduzindo +a mão implacável do destino? Frederico, na noite +em que decidiu separar-se dela―uma noite tempestuosa +que <a href="#e3">decorreu</a> entre +lágrimas e +lamentações―deixara-lhe +sôbre a roupa desfeita do leito +uma carteira com dinheiro. Fôra a sua primeira +acção +vil, porque nenhum ouro pagaria a felicidade para +sempre destruida duma alma que era virginal quando +o seu egoísmo a encontrou; mas, nesse procedimento, +reprovável de-certo, guiara-o ainda a generosidade. +Parecia-lhe que um punhado de notas de +Banco atenuaria o seu abominável feito―e só +agora +reconhecia o seu êrro e a sua ignomínia...<br /> + + +<br /> + + +Com o livro ou o jornal, que não lia, abertos +sôbre o joelho, scismando ininterruptamente, seguindo +com os olhos vagos as espirais de fumo do charuto, +que se esgarçavam e ascendiam na atmosfera +luminosa, Frederico, durante longas horas, revivia +os seus fantasmas inertes e experimentava a +sensação +dum pêso contínuo que o esmagava, que esmagava +tôda a sua vida. Oh! a bela quimera dum +amor eterno, conservando sempre a mesma intensidade, +a mesma fôrça superior de +atracção, uma +fonte inexaurível de sentimento, uma novidade que +jàmais, jàmais, se banalizasse para os +corações que +fizesse palpitar! Existia êle, na verdade? Ou não +seria +mais do que uma mentira entre o acervo de mentiras +de que o mundo estava cheio e que os homens +criavam conscientemente para se iludirem a si próprios?...<br /> + + +<br /> + + +Mas, quando o seu scepticismo era mais devastador, +o exemplo da união feliz de Júlia e de Nuno +<span class="pagenum">[64]</span> +surgia-lhe como a imagem tangível dêsse amor de +que duvidava. Então, para explicar a +contradição +que lhe exacerbava o sofrimento, construía teorias +originais.<br /> + + +<br /> + + +―O que há é almas completas e almas incompletas. +Umas, possuem uma finura sensível que as +torna perfeitamente aptas para a vida amorosa. Outras +não teem uma receptividade que as faça vibrar +sob as influências dessa vida, e daí deriva todo o +mal, +que vai espalhando nas sociedades a funda melancolia +contemporânea. A alma de Nuno pertence às +primeiras...<br /> + + +<br /> + + +De resto, Frederico entendia que as verdadeiras +mulheres são as admiráveis educadoras do +sentimento, as inspiradoras sublimes de tudo o que +pode fazer os homens grandes dentro do lar. Júlia +era uma dessas mulheres excelsas, pelas graças do +corpo e pelas graças mais puras e elevadas do +espírito: +e a ventura de Nuno provinha de êle a ter encontrado +no seu caminho. Por sua parte, em vão buscaria +uma criatura assim, que fôsse a companheira +ideal e perpétuamente desejada, a amante +incomparável, +a espôsa atenta, a mãe solícita! Com +ela, +a sua existência improdutiva entraria numa fase diversa +e activa, numa realidade que nunca se extinguisse...<br /> + + +<br /> + + +Lembrando-se insistentemente de Júlia, Frederico +era assaltado por um sentimento curioso. Tinha +a sensação especial de estar encerrado num +círculo muito estreito, em que nada havia de claro, +de definido, de preciso. Tôdas as impressões da +natureza +exterior passavam por êle, velozmente, sem lhe +provocarem uma simpatia mais demorada. Apenas +<span class="pagenum">[65]</span> +lhe ficava, na intimidade moral, a noção profunda +do +seu próprio isolamento, entre a vastidão e o +tumulto +das aspirações indecifráveis. Sofria +essa fascinação +estranha que um desejo veemente―que se +não abandona, porque o abandôno excitaria o +padecimento, +e se não procura realizar tambêm, porque a +realização teria +conseqùências funestas―produz +nas almas!... Por cima da sua cabeça, a mosqueteira, +ramalhando ao vento, sacudia os seus cachos aromáticos +que se desfolhavam numa nuvem loura; +ao seu lado, a fonte, correndo no jôrro faíscante +da +água entre musgos verdes e veludosos, cantava +sempre, exalando-se em frescura e murmúrio. Frederico, +extenuado de imaginação pelas suas +infindáveis +<em>rêveries</em>, erguia-se, +fechava o livro inútil, o jornal +mais inútil ainda, e recomeçava o passeio por +entre os arvoredos, por entre os canteiros de flores, +onde umas abelhas, tam douradas como as do Hymeto, +procuravam o mel. Nuno, às vezes com os olhos +inchados de sono, uma preguiça que lhe comunicava +lassidão, um pouco còrado, descia ao jardim, +perguntava-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Em que passaste o tempo?<br /> + + +<br /> + + +―Meditando, sentado num banco do parque―respondia +Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Procuras, como S. Bruno, os logares solitários +para pensares nas felicidades do céu?<br /> + + +<br /> + + +―Homem, ando a tratar da minha conversão +e S. Bruno, efectivamente, é um modêlo +desejável.<br /> + + +<br /> + + +―E se fizéssemos uma jornada mais larga, +por êsses campos, por essas amplidões? +Júlia podia +ir tambêm... +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[66]</span> ―Acho o teu alvitre muito digno de ser aceito.<br /> + + +<br /> + + +Iam acima chamar Júlia, +calçar luvas que lhes +resguardassem as mãos dos bafos da soalheira e do +pó cáustico dos caminhos, e na suavidade +maravilhosa +da tarde, rindo, conversando, sensíveis ao mais +fugidio eflúvio do ar ambiente, metiam pelos atalhos +escorregando por entre sébes que as madre-silvas +perfumavam, por azinhagas onde havia repouso +e penumbra, por congostas que os ervaçais reverdeciam. +A essa hora do dia, no delíquio da luz que +principiava, tudo era gracioso, jovial. Dos casais +disseminados pelas terras cultivadas, subiam colunas +delgadas e direitas dum fumo branco, que algodoava +o espaço. Nas eiras secava o milho, que lembrava +pequeninas bolhas de sol cristalizado. Errantes, +nas pastagens, os bois erguiam um instante a cabeça, +para os ver passar, fitando-os com uns grandes +olhos de infinita melancolia. Júlia que marchava +à +frente, na elegância dum vestido de tecidos leves +que lhe modelava puramente as formas corpóreas, +assustava-se, tinha mêdo, soltava pequeninos gritos, +acolhia-se à protecção de ambos. A +palha do seu +chapéu em que, entre laços de veludo negro, +destacava +a côr sugestiva de pálidas rosas de toucar, +fazia-lhe +uma sombra doce no rosto adorável. Nuno animava-a:<br /> + + +<br /> + + +―Que mulher! Que criança! Tem mêdo dos +bois, que são tam mansos. Oh! tôla! Olha que +não +fazem mal!...<br /> + + +<br /> + + +Frederico ria-se e achava-a encantadora.<br /> + + +<br /> + + +Cortavam através das pradarias, das lezírias, +das veigas, ao acaso, sem fim. Às roupas de Júlia +prendiam-se os perfumes dos fenos atravessados, que +<span class="pagenum"><a name="p67">[67]</a></span> +as suas saias roçavam, as seivas vitalizadoras das +ervas esmagadas. Sentiam uma grande e nobre +pacificação +interior. O gôzo íntimo emmudecia-os.<br /> + + +<br /> + + +―Hein, Frederico? Como isto é diferente da +cidade! Era preciso que conhecesses a aldeia, homem. +A aldeia é a verdade―<a href="#e4">dizia</a> +Nuno, +entusiasmado.<br /> + + +<br /> + + +Frederico não conhecia a aldeia, com efeito, e +nunca imaginara, vendo-a através das janelas de +combóios lançados a tôda a velocidade, +que pudesse +seduzir sêres civilizados; mas, eis que ela se lhe revelava, +totalmente, por uma feição atraente, que o +cativava. Louvava, com sinceras palavras, a <a href="#e5">fertilidade</a> +dos extensos domínios, que são o +Calvário da +gente humilde e que a sua dor, o seu suor, a sua miséria, +fecundam; as casas dos camponeses, duma +arquitectura rudimentar; os milheirais de longas +fôlhas já sêcas, ondulando e rangendo +à aragem; a +paìsagem que a luz, fulva e rutilante, espiritualizava, +transmitindo-lhe animação, uma vida +quáse supersticiosa, +insuflando-lhe uma alma. De quando em +quando, Júlia, batendo as palmas de contente, detinha-se +para observar de perto as trepadeiras silvestres +que se cobriam de florescências cheirosas, e as +suas mãos, que eram tam lindas, tinham delicadezas +extrêmas ao tocarem nas folhagens, nas corolas rescendentes.<br /> + + +<br /> + + +―Veja que beleza, Frederico!―convidava ela.<br /> + + +<br /> + + +E fazia um ramo que prendia, com alfinetes, +na blusa de sêda―uma sêda transparente que o +tom sadio e casto da sua carne rosava.<br /> + + +<br /> + + +A cada momento deparavam vergeis em que +os frutos apetitosos amadureciam. Nos ramos mais +<span class="pagenum">[68]</span> +altos, as maçãs còravam ao calor como +faces humanas; +as laranjas, no meio das fôlhas, redondas e +amarelas―dum amarelo brilhante,―ofereciam-se às +gulodices. A terra mostrava-se hospitaleira e generosa, +e Frederico, já iniciado, sob o céu que tinha a +meiguice dum amoroso olhar humano, compreendia, +enfim, que essa terra, mãe piedosa e inexaurível, +comunicasse às criaturas um pouco da sua bondade +clemente, da sua energia vigorosa, inspirando-lhes +uma regra justa da vida. Diante dos casebres pobres, +Júlia, compadecida, parava, contemplando com piedade +as crianças rotinhas e sujas que brincavam +pelos portais e pousando-lhes os dedos sôbre as +cabeças. +Elas fitavam-na, espantadas, com um secreto +temor no olhar.<br /> + + +<br /> + + +―A vossa mãe?―perguntava.<br /> + + +<br /> + + +―Não está cá―respondiam elas, com +modos +agressivos.<br /> + + +<br /> + + +Dava-lhes moedas de cobre, amimava-as com +essa ternura que só as mulheres felizes conhecem, +enquanto Nuno, enojado da porcaria em que a gracilidade +daquela infância murchava, dizia:<br /> + + +<br /> + + +―Nas aldeias há, de-certo, muita pobreza, +muita penúria. Mas tambêm há muito +desleixo. Oh! +senhores, uma tina de água transformaria em flores +êstes pequeninos selvagens!<br /> + + +<br /> + + +―Que queres tu, Nuno?―atalhava Júlia, +condoída. As desgraçadas mães +trabalham um dia +inteiro e quando chegam a casa o que querem é repousar.<br /> + + +<br /> + + +Vendo-a assim, luminosa, pura e branca no +meio das meninices desditosas, Frederico tinha +a visão deslumbrante duma aparição +celeste baixando +<span class="pagenum">[69]</span> +do azul, num vôo brando, para consolar +aflições, +acolher no seu desamparo as plebes lacrimosas, +sarar feridas, suavizar torturas: e cada vez a +sua admiração por Júlia mais crescia. +Nela tudo era +perfeito, sedução, perfume, ritmo, claridade: e o +encanto +que derramava à sua volta penetrava-o até +ao âmago da consciência. Pensando na sua beleza, +na unção da sua bondade, abstraía-se +por tal modo +que até chegava a esquecer Nuno, marchando ao seu +lado: e era-lhe necessário fazer um +esfôrço violento +para reentrar na realidade das coisas.<br /> + + +<br /> + + +Nestes instantes, analisando-se, espavorido, perguntava +a si próprio se não estaria interessando-se +demasiadamente por essa mulher tam digna e tam +cândida que, legítimamente, +pertencia ao seu melhor, +ao seu único amigo. No espírito passava-lhe +confusamente a recordação doutros dias +já extintos +em que, entre êle e Nuno, se fôra consolidando uma +camaradagem nunca interrompida; e, por isso mesmo, +julgava que a fôrça secreta que o impelia para +Júlia +era uma traição... Uma +traição? A esta ideia, ficava +transido de terror e ansiosamente pretendia conhecer +a essência da sua admiração, da sua +simpatia, para +ver se nelas surpreenderia qualquer coisa de impuro: +mas, a análise minuciosa tranqùilizava-o. +Não! +Não existia nenhuma impureza no seu sentimento. +Amava Júlia santamente, como amaria uma irmã +mais nova.<br /> + + +<br /> + + +―Em que diabo vais tu a matutar, Frederico?―interrogava +Nuno, intrigado com a sua prolongada +mudez.<br /> + + +<br /> + + +―Eu? Em nada! A paz rural mergulha-me +num estado psíquico de tal ordem que me torna +<span class="pagenum">[70]</span> +incapaz de sustentar uma conversa. Verdadeiramente, +nem sei o que hei de dizer. Custa-me a articular +os vocábulos, a construir as expressões.<br /> + + +<br /> + + +Quando o crepúsculo, descendo progressivamente, +idealizava as perspectívas e desdobrava sôbre +arvoredos, sôbre outeiros, pelas encostas, pelos vales +mais fundos, uma sombra e uma névoa que de +instante para instante se adensavam e gradualmente +escureciam, regressavam a casa, satisfeitos, reconciliados +com a natureza que lhes ofertava alegrias, +prazeres nunca experimentados. Júlia, pousando os +ramos de flores silvestres, que sempre trazia das +suas digressões pela campina, corria para o filho, +já +saùdosa da sua inocência, da sua formosura. +Devorava-o +com beijos, acariciava-o com meiguice, mostrava-o, +orgulhosamente, a Nuno, que sorria enlevado, +a Frederico, que a fitava num alheamento. +Os <em>stores</em> subidos das janelas +deixavam entrar os +derradeiros fulgores da claridade expirante. Lentamente, +o céu embranquecia. Longe, as linhas dos +montes tinham enredamentos complicados que decompunham +uma paìsagem quáse sem realidade, +fantástica, cheia de vago e de mistério.<br /> + + +<br /> + + +―E se tu tocasses alguma coisa antes do jantar, +Júlia?―lembrava Nuno. Até nos abria o apetite... +<br /> + + +<br /> + + +―Pois sim! Que queres que eu toque? +Prefere alguma composição, Frederico? Ou tem +horror á música?<br /> + + +<br /> + + +―Eu, minha senhora? Sou um guloso do +som...<br /> + + +<br /> + + +A delicadeza de Júl +A delicadeza de Júlia, interrogando-o sôbre as +suas preferências musicais, encantava-o. Não seria +isto já uma correspondência da simpatia +fraterna―oh! +<span class="pagenum">[71]</span>simplesmente +fraterna―que sentia por ela? +A suposição alvoroçava-o.<br /> + + +<br /> + + +―Que eu toco mal, muito mal. Não me julgue +uma grande artista. Há dificuldades que nunca +me foi possível vencer. Preciso que me escute com +benevolência...<br /> + + +<br /> + + +―Deixa falar, Frederico. É exímia, por exemplo, +em Chopin―nos <em>Nocturnos</em>,―afirmava +Nuno.<br /> + + +<br /> + + +Júlia, protestando, sentava-se ao piano. O marfim +das teclas reluzia ainda no fulgor indeciso da +luz moribunda. O verniz dos móveis perdia o brilho. +A sombra parecia prender-se molemente aos cortinados +de renda, amontoar-se aos cantos: e um +<em>Nocturno</em> soluçava, em +harmonias, sob os dedos afusados +de Júlia, em que as pedras dos aneis chamejavam +fogos mortiços. Nuno e Frederico, sentados em +poltronas de molas flácidas e embalados pelo afago +da música, em que vozes ignoradas, vindas de muito +longe, das mais recônditas regiões da alma, se +lamentavam, +narrando a tristeza das aspirações nunca +alcançadas, +os sonhos de amor traídos, as ilusões nunca +realizadas, fechavam os olhos para mais se absorverem +no segrêdo, no mistério espiritual dessa +música +divina que pouco a pouco, e por influxo da sua +beleza, da sua potência expressional, da sua +doçura +penetrante, extinguia todos os azedumes, acalmava, +pacificava as imaginações sobreexcitadas, era +como que uma simbólica promessa de +aspirações +veementes que haviam de realizar-se e parecia conter +em si o sentido oculto da graça de viver. Fóra, +na noite silenciosa, a lua branca e enorme flutuava +no céu, entornava o seu luar suave como uma +carícia +pelo jardim adormecido, sôbre as ramagens dos +<span class="pagenum">[72]</span> +arvoredos imóveis do parque, alongava as formas, +transmitia às coisas inertes quáse que uma +emoção.<br /> + + +<br /> + + +Na cozinha, em baixo, a vélha Margarida terminava +o jantar. O clarão vermelho do lume, que ardia +no fogão, irradiava, reflectia-se em cheio nos cobres +e nos metais, que resplandeciam, enquanto dois +belos gatos ingleses, cinzentos e listrados de negro, +ronronavam ao calor, enrodilhados debaixo duma +mesa. Depois, o piano calava-se, numa derradeira +vibração de som: e na tranqùilidade +que envolvia +a vivenda, a sineta retinia, anunciando festivamente +a refeição, que se prolongava até +tarde, entre +as conversas.<br /> + + +<br /> + + +Muitas vezes, se o tempo corria brandamente +e a temperatura convidava, Frederico e Nuno baixavam +ao jardim, fumando e palestrando, ou, com +Júlia, iam sentar-se à varanda, entre as avencas, +os +fétos arbóreos, as begónias, +contemplando a scenografia +nocturna, que era surpreendente. Os campos +solitários, sob o fulgor do luar, repousavam sem +um sussurro. Um lento nevoeiro elevava-se para o +alto como uma ténue nuvem de algodão, esfumando +a paisagem. Os casais adormeciam na efusão luminosa, +extenuados da lide diurna. A paz que caía sôbre +a natureza, como uma bênção de Deus, +era infinita +e inexprimível. De instante a instante, a aragem +desprendia das frondes fôlhas mortas que baixavam +vagarosamente, quáse imperceptíveis, que se +demoravam um momento, no ar, trémulas, hesitantes +como asas de falenas. No seu recolhimento, +Júlia dizia, em voz baixa, para não perturbar o +enlêvo +contemplativo em que os três se abismavam: +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[73]</span> ―Admirável! Admirável! Só o campo +ainda +pode oferecer êstes espectáculos aos que veem do +ruído, da barafunda das cidades!...<br /> + + +<br /> + + +O timbre da sua voz, que era muito puro, mais +encanto imprimia ao êxtase do Frederico, sentindo +que alguêm muito suavemente lhe falava à alma +para revelar-lhe sensações nunca +experimentadas...<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Nessa manhã, Júlia, que estivera tocando a +<em>Sonata +Patética</em>, de Beethoven, descansava ainda +os +dedos fatigados sôbre as teclas, enquanto Nuno e +Frederico, encostados ao peitoril da janela, espreitavam +o parque. Uma criada entrou, de repente, +na sala, com o correio. Eram cartas e jornais, de que +êles logo se apoderaram para conhecerem o que a +cidade, pela sua imprensa ou pelas suas epístolas, +lhes revelaria de mais importante. Em face da pressa +com que ambos correram para a correspondência, +Júlia riu saborosamente, comentando:<br /> + + +<br /> + + +―As grandes aglomerações hão de ser +eternamente +tentadoras para os que um dia habitaram a +sua perigosa confusão.<br /> + + +<br /> + + +―Porquê?―interrogou Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Ora! Ainda perguntas! A ansiedade com +que todos os dias esperas o correio! E dizes que te +agradaria ficar aqui, para sempre...<br /> + + +<br /> + + +―Viva! Viva!... Sim, senhor!―bradou Frederico, +de súbito, concluindo a leitura duma carta.<br /> + + +<br /> + + +―Que é, homem?<br /> + + +<br /> + + +―Pois, é uma coisa estupenda. Nem podem +imaginar!... +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[74]</span> ―Entrou a revolução no Vaticano? Foi proclamada +a monarquia na Suíça?<br /> + + +<br /> + + +―Santo Deus, não. Êsses factos +consideráveis +não me causariam surprêsa, porque hão +de dar-se +àmanhã, daqui a um ano, a dois +séculos... O caso +é êste:―a Alice Tôrres fugiu ao marido. +<br /> + + +<br /> + + +―A Alice Tôrres? Quem diabo é essa +Alice?―perguntou +Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Ora, tu conheces... A Alice, uma loura, +casada há dois anos com o Fernando Tôrres, que +foi nosso condiscípulo na Politécnica e que +não concluiu +o curso...<br /> + + +<br /> + + +―Ah! sei, sei... Perfeitamente... Agora me +lembro. E tu tambêm conheces, Júlia.<br /> + + +<br /> + + +Voltaram-se ambos para ela, que ainda se conservava +ao piano, muito còrada do pudor melindrado.<br /> + + +<br /> + + +―Sim, eu conheço-a... É uma infeliz!<br /> + + +<br /> + + +―Infeliz?... Não, o nome que ela merece é +outro mais violento.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! Nuno! Jesus!...<br /> + + +<br /> + + +―Queres, talvez, desculpá-la?<br /> + + +<br /> + + +―Não! Lamento-a... O seu acto não tem desculpa, +mais inspira compaixão.<br /> + + +<br /> + + +―O que êle inspira, no meu entender, é +bengaladas―atalhou +Nuno, brutalmente.<br /> + + +<br /> + + +―O que, porêm, torna mais reprovável esta +fuga é que o homem que ela seguiu foi o Vaz de Sousa, +o amigo íntimo, a inseparável sombra do +marido―comentou +Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―O que? Que porcaria é essa?―atalhou Nuno, +com furor.<br /> + + +<br /> + + +―Exactamente!... Com o Vaz de Sousa. Está +<span class="pagenum">[75]</span> +aqui a coisa com todos os pormenores, nesta carta +que me escreve o Alfredo de Oliveira.<br /> + + +<br /> + + +E, para dar às suas revelações um ar +mais solene +e verídico, Frederico leu alguns trechos menos +escabrosos.<br /> + + +<br /> + + +―Ouçam, que tem graça:―«O grande +escândalo +da semana forneceu-o a mulher do Fernando +Tôrres, a scismadora dos olhos ideais, que se +safou, com tôda a semcerimónia e todo o +descaramento, +com o Vaz de Sousa, visita permanente +dêste curioso ninho conjugal. Simpatia romântica? +Admiração pelo ôlho +lúbrico e pela melena do amante? +Não sei! Mas o palerma do marido―que nunca percebeu +que os dois há muito conjugavam o verbo +inglês <em>To +flirt</em>―está como uma bicha. Há +miopias +fatais e a de Fernando foi uma delas... Aqui tens +tu!...»<br /> + + +<br /> + + +Nuno, muito sério e sombrio, +cofiava o bigode, +enquanto Frederico lia. Júlia, emmudecida, curvada +mais sôbre o piano, batia nervosamente com a +ponta da unha sôbre um caderno de músicas. O +silêncio +tornava-se angustiado e embaraçoso para os +três.<br /> + + +<br /> + + +―Que fará agora Fernando?―perguntou, finalmente, +Frederico, levantando-se da cadeira em +que estava sentado e dando alguns passos sôbre o +tapête.<br /> + + +<br /> + + +―Não faz nada!―replicou Nuno. É um imbecil +e, alèm disso, é um +grotesco. Ainda havemos de +vê-lo, outra vez, muito amigo da mulher, depois +de perdoar à Madalena arrependida. Coitado, tem +bom coração, é inultrapassavelmente +cómico e a sua +dignidade é uma hipótese... +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p76">[76]</a></span> ―Crédo, Nuno!―interveio Júlia. Pois, +é lá +possivel?<br /> + + +<br /> + + +―Com êste idiota, tôdas as vergonhas +são +possíveis―afirmou sêcamente.<br /> + + +<br /> + + +Ergueu-se tambêm, torceu o bigode com fúria +e depois, de mãos nos bolsos, parando diante de +Frederico:<br /> + + +<br /> + + +―Se êle fôsse, na realidade, um homem, sabes +o que fazia?<br /> + + +<br /> + + +―Procurava uma solução violenta...<br /> + + +<br /> + + +―Tu o disseste... Porque esta traição carecia +dum castigo tremendo, exemplar, moralizador. +Portanto, partia atrás dos fugitivos, com um bom +punhal ou uma bôa pistola, corria até os +encontrar, +e, seguidamente, frio, implacável como a +vingança, +abatia-os a tiro como dois animais malfazejos e +imundos, retalhava-lhes as carnes sórdidas à +punhalada, +molhando bem as mãos no sangue culpado, que +escorresse das feridas, para se lavar...<br /> + + +<br /> + + +Nuno falava <a href="#e6">apressadamente</a>, com +uma raiva +concentrada nos olhos, que fulguravam. Júlia desconhecia-lhe +aquela cólera que de súbito irrompera, +costumada como estava a vê-lo sempre afável, +sempre +terno, cheio de delicadezas e de tolerâncias para +tôdas as fraquezas humanas.<br /> + + +<br /> + + +―Não há nada que mais me transtorne, que +me perturbe até à loucura, do que uma +deslealdade―explicou +êle. E neste caso, Frederico, há deslealdade +e há vileza. O coração humano tem +abismos de +infâmia insondáveis...<br /> + + +<br /> + + +Júlia levantou-se, pensativa e atribulada. Pensava +na doida que um engano de amor fazia desertar +do lar, para perseguir aventuras ilusórias, obrigando-a +<span class="pagenum">[77]</span> +a romper com o respeito e a consideração da gente +honesta, com as convenções sociais, a cobrir-se +de +lama, a preparar por suas próprias mãos um +destino +que seria doloroso e cruel. Tinha-a conhecido no colégio, +outrora, na mocidade, fôra mesmo amiga dela +até ao momento em que a vida as separara. E compadecida +com aquele desvairamento, encontrava na +sua bondade e na sua pureza um sentimento para +atenuar a sua culpa.<br /> + + +<br /> + + +―Vais-te?―inquiriu Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Tenho tanto que fazer, filho!―respondeu +ela.<br /> + + +<br /> + + +Nuno e Frederico ficaram sós, no salão que a +luz, entrando pelas vidraças descidas, alegrava. Sentaram-se +em frente um do outro, reatando a conversa +momentâneamente interrompida.<br /> + + +<br /> + + +―Ela era uma cabeça no ar―dizia Frederico. +E o ludibriado não valia mais do que a mulher.<br /> + + +<br /> + + +―Todos os maridos―retorquiu Nuno com +rancor―teem as mulheres que merecem; e êsse +Fernandete, já depois de casado, continuava uma +existência de devassidões. Ora, o casamento +é um acto +de responsabilidade que deve confinar-se na fidelidade +mútua dos cônjuges. Fóra +dêstes limites de dignidade +e de nobreza, transforma-se numa miséria. +Mas o que me indigna não é a fuga da +adúltera. +Caso banal... Ocorre constantemente... E muitas +vezes, mesmo, pode até justificar-se.<br /> + + +<br /> + + +―Então que é?<br /> + + +<br /> + + +―Mais desprezível do que Alice e do que Fernando +é êsse Vaz de Sousa, abusando duma estreita +amizade e da entrada num lar que o recebia confiadamente, +<span class="pagenum">[78]</span>para praticar as +suas odiosas façanhas...<br /> + + +<br /> + + +―Sim, com efeito!...―aprovou Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―É reles, é dissolvente de tôda a +moral.<br /> + + +<br /> + + +E puxando mais a sua cadeira para junto do +amigo, para que só êle o ouvisse nas +confidências que +ia fazer-lhe, Nuno continuou:<br /> + + +<br /> + + +―O primeiro dever do homem justo é saber +defender integralmente a sinceridade dos seus afectos―porque +para isso pensa―e saber dominar o +impulso das suas paixões bestiais―porque para isso +difere dos brutos e tem uma consciência. Posso falar +assim, porque já tive de repelir ásperamente dos +braços a espôsa dum conhecido―um simples +conhecido, +nota!―que por fôrça queria enxovalhar o +marido comigo.<br /> + + +<br /> + + +―E quem era essa interessante dama?<br /> + + +<br /> + + +―Perdoa-me. Não to digo―afirmou Nuno +com energia.<br /> + + +<br /> + + +―Desculpa-me... A minha curiosidade é, na +verdade, irreflectida...<br /> + + +<br /> + + +―Foi no último ano do nosso curso... Nunca +te falei nisto, por dignidade, porque me rebaixaria. +Há coisas que sujam... Mas, o mais pitoresco é +que +êsse marido e essa dama se transformaram, mais +tarde, em meus inimigos irreconciliáveis!... Não +é +encantador?... Embora! Ainda hoje me louvo por +esta acção, que é uma das mais belas +da minha vida, +Frederico!...<br /> + + +<br /> + + +―Efectivamente, há beleza, há coragem, +há +heroísmo nela. Só conheço um +acontecimento +semelhante +na História Sagrada―riu Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Tu, que és justo e que és leal, vê +isto:―Mete <span class="pagenum"><a name="p79">[79]</a></span>a +gente, ingénuamente, na sua casa um homem +que nos merece a maior confiança, para quem vai +a nossa dedicação, tôda a nossa +afectividade. E desde +o primeiro dia em que lá entra, êsse homem, +êsse +amigo certo, começa a observar que a nossa espôsa +é bonita e apetitosa, que deve ser tentador o sabor +dos seus beijos e doce a palpitação da sua +ternura. +Como goza de favores que só se concedem às +pessoas +que verdadeiramente se estimam, há para êle as +maiores +deferências. Surgem as ocasiões +propícias à traição, +veem as intimidades, as fraquezas da mulher +confiante. Diz-se-lhe uma palavra mais ousada, +que lhe melindra a candura, mas que a não faz protestar. +A sua passividade dá coragem ao sedutor +para levar mais longe a audácia. Depois, ambos +cúmplices no crime premeditado, encontram nêle +solicitações cada vez mais fortes. São +os sustos +perto do marido que se engana abominávelmente, a +suspeita de que êle venha a descobrir tudo e se +vingue, os olhares medrosos que se trocam. Por +fim, chega-se à quéda irremediável, a +maior injúria +com que se pode humilhar uma criatura. E de +quem parte essa injúria? Duma pessoa indiferente +ao nosso sentimento, alheia aos nossos interêsses +morais, à nossa alma? De modo algum! Parte dum +amigo!...<br /> + + +<br /> + + +―É horrivel, na verdade!―asseverou Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―É pavoroso!<br /> + + +<br /> + + +―Mas, sabes o que eu ainda não consegui entender +bem, Nuno? Pois, é isto. Nos casos de adultério +em que a mulher prevarica, as ironias insultantes +da <a href="#e7">multidão</a> +vão para o marido. Para a prevaricadora +existem a piedade e a absolvição!... +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[80]</span> ―Iniquidades sociais. A turba-multa é sempre +impulsiva, injusta, não raciocina, não procura +ser +equitativa nos seus juízos... Mas, por isso mesmo, +os traídos teem de desafrontar-se com a maior ferocidade. +Eu, no logar de Fernando, matava-os! Matava-os, +trucidava-os, despedaçava-os como bêstas +feras!...―concluiu +Nuno, rilhando os dentes de furor.<br /> + + +<br /> + + +Júlia, surgindo imprevistamente, veio +surpreendê-los +ainda no comentário fatigante daquele +escândalo clamoroso, que punha uma sombra mais +negra na fisionomia de Nuno e que não deixava expandir +livremente a jovialidade de Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Então, aqui fechados, com um dia que é uma +delícia, um verdadeiro dia de rosas?―exclamou +ela, com uma extraordinária animação +no rosto.<br /> + + +<br /> + + +―Tens razão! Êsse animal do Tôrres, com +as suas infelicidades caseiras, veio estragar a nossa +paz de espírito―murmurou Nuno. Queres ir até +lá abaixo, ao fundo da quinta, onde trago obras importantes +na habitação do caseiro, Frederico? É +uma diversão que nos há de fazer bem!...<br /> + + +<br /> + + +―Não! Se mo permites, aproveito o tempo +para pôr em ordem uma correspondência atrasada +e desordenada. Olha que estou aqui, na tua hospitaleira +vivenda, há duas semanas e ainda não respondi +a ninguêm! Quem sabe se me julgarão morto +ou exilado?<br /> + + +<br /> + + +―Bem! Então vou eu. Cumpre os teus deveres +de bisbilhotice.<br /> + + +<br /> + + +―E eu acompanho-te, Nuno―acudiu Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Tu? Mas é admirável a companhia. O +príncipe +e a princesa passarão as horas fazendo <em>le +tour</em> +<span class="pagenum"><a name="p81">[81]</a></span> +<em>du proprietaire</em> e oferecendo-se +à veneração dos seus +súbditos, dos seus vassalos, dos seus escravos... +Então, de-pressa! Vem daí.<br /> + + +<br /> + + +―Ando há tanto tempo para ir ver essa pobre +gente, essa entrevada de quem me falaste, essas +crianças desgraçadas...―disse Júlia, +comovida.<br /> + + +<br /> + + +―<em>Au revoir</em>, Frederico. E +sê prolixo, homem... +Olha...<br /> + + +<br /> + + +Curvou-se ao ouvido do amigo, murmurou qualquer +coisa que Júlia não pôde perceber, e +riram ambos +com alacridade. Descendo a escada, atrás da +espôsa, Nuno ainda ria, jovialmente, enquanto Frederico +se encerrava no escritório, diante dum tinteiro, +de cadernos de papel de cartas e duma jarra +com rosas frescas que Júlia tôdas as +manhãs renovava +para que ali houvesse continuamente graça, côr +e perfume.<br /> + + +<br /> + + +Sôbre a escrivaninha de pau preto com <a href="#e8">ferragens</a> +amarelas e polidas que refulgiam, brilhavam no banho +fluido da claridade envolvente, havia um soberbo +retrato de Júlia, representando-a vestida de +baile, em corpo inteiro. A sua beleza, a-pesar-de morta +na fotografia, tinira uma pureza de linhas, uma opulência +de contornos, um relêvo, um esplendor indizíveis. +O decote deixava a descoberto o <a href="#e9">princípio</a> +do +seio, que era redondo e farto; o pescoço, desafogado +da espuma das rendas, exibia uma elegância e uma +nitidez impecável de modelação, tendo +a gracilidade +e o movimento de certos caules de flores, ondulando +à aragem. Uma expressão de felicidade sem nuvens +animava todo o seu rosto; e uma grande rosa prendia-se +à <em>corsage</em>. Frederico +esteve contemplando o retrato +um instante, perdido em vagas meditações. Como +ela +<span class="pagenum">[82]</span> +era graciosa e divina, efectivamente! Os seus olhos +tinham um encanto virginal ainda―um encanto +que as lágrimas não haviam queimado. De +tôda ela +se exalavam, imperceptivelmente, a castidade, a +sedução, a ternura. A casa estava impregnada da +sua +personalidade, da sua virtude, do seu enlêvo. +Júlia +era a bôa deusa familiar que enchia, com a sua alma, +com a sua dedicação de mulher, com a sua +abnegação, +com o reflexo da sua formosura, aquela habitação +em +que um amor tam nobre vivia e se esquecia dos males +da existência. E Frederico via-a sorrir ao lado de +Nuno, mais presa do que nunca à sua paixão, +suavizando-lhe +os dias, acalmando-lhe as inquietações, +assistindo à formação das suas +vontades, dos seus desejos, +das suas ideias, para imediatamente obedecer-lhe, +oferecendo-lhe a bôca num beijo. Experimentava +uma inexprimível consolação interior, +pensando +nela...<br /> + + +<br /> + + +Ao mesmo tempo, e sem saber porquê, acudia-lhe +à memória a cólera tempestuosa de +Nuno, quando +soube da fuga da mulher de Fernando Tôrres com o +outro―uma cólera que se adensava no olhar, que +ardia, que coriscava, que chamejava... Os dois amantes +iriam agora, entregues ao ardor da sua volúpia +pecaminosa, impura, talvez para as cidades estrangeiras +onde melhor pudessem ocultar-se, na embriaguez +dum gôzo que dura apenas um fugaz minuto e com +que a desgraça fabrica a dor, que é eterna. Mas +ao +menos, considerava Frederico, seriam felizes. A si +mesmo perguntava se êsse minuto, de que restaria +uma perdurável recordação, +não constituirá a felicidade +duma vida, de duas vidas inteiras...<br /> + + +<br /> + + +Para fugir ao curso mórbido das suas +lucubrações, +<span class="pagenum">[83]</span>Frederico +levantou-se, aproximou-se da +janela, +na ponta dos pés, como se temesse que o sentissem. +Na radiação loura da manhã, uma +alegria esparsa +flutuava sôbre as coisas. De baixo, do jardim, subia +um arôma adocicado. Nuno e a espôsa, de +braço +dado como dois namorados, afastavam-se ao longe, +através dos arvoredos do parque. Por entre os troncos +musgosos alvejava a brancura do vestido de Júlia―brancura +que ficava pairando no ar macio... +Frederico voltou a sentar-se. Uma grande, confusa +tristeza abatia-se sôbre o seu +coração...<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3>IV</h3> + + +<br /> + + +As primeiras manhãs de setembro tinham chegado. +Emigravam as andorinhas e as rôlas bravas e +no ar luminoso errava a melancolia vaga dum outono +próximo. Grandes nortadas sopravam rijamente, levando +através do espaço densas nuvens de poeira. +Pelos arvoredos do parque, na meia tinta de luz, +amareleciam as folhagens: e os crepúsculos, tendo ainda, +no horizonte, reverbarações imensas, eram +já +um pouco húmidos. Havia, por vezes, céus brumosos +que davam indeterminados longes á paisagem, +tocando-a de lentos nevoeiros.<br /> + + +<br /> + + +Durante todo o tempo que Frederico passara +na quinta afastado da variedade e dos tumultos da +vida citadina, estabelecera-se entre êle e Júlia +uma +estreita intimidade afectiva que mais gratas tornava +as horas doces que de contínuo fugiam. Nuno +andava inteiramente ocupado com as alterações +<span class="pagenum">[86]</span> +a que mandara proceder nas dependências habitadas +pelo caseiro, para que nelas houvesse mais confôrto +e mais higiene. Interessava-o, afinal, o pobre cavador +que envelhecera precocemente, nas dolorosas labutas +da terra, vendo crescer à sua volta outras +vidas louras, frescas e inocentes, tambêm condenadas +â escravidão da +gleba, e enchera-o de piedade a miséria +da entrevada que no seu leito, escasso de roupas, +tinha um riso de resignação, absolutamente +conformada +com o destino. Mesmo enfêrma, enquanto +o homem, o bom Mateus, se extenuava de sol a sol, +segurando entre as mãos calejadas e firmes a +rabiça +do arado que rasgava o seio da leiva, para fertilizá-la, +ou espalhando no húmus revolvido as fecundas +sementes que germinariam nas abundantes searas, +remendava as roupas e dirigia o +<em>ménage</em>.<br /> + + +<br /> + + +―A-pesar-de doentinha―dizia uma vez o caseiro +a Nuno―ainda é uma ajuda. Deus ma conserve +mesmo assim, porque se morresse fazia-me grande +falta...<br /> + + +<br /> + + +De quando em quando Nuno, comovido, abria +vagarosamente a porta cerrada, para a ver, para lhe +falar. Júlia, com a sua bondade, melhorara muito a +sorte da paralítica, rodeando-a de bem-estar, mandando-lhe +todos os dias um alimento mais apetitoso +e nutritivo: e ela, grata a estas delicadezas, não se +cansava de louvar, nas suas orações ardentes, os +bons +senhores que ao seu lar desditoso haviam levado +uma clara luz de alegria.<br /> + + +<br /> + + +―Então, como vai hoje, snr.<sup>a</sup> Teresa? +Melhorsinha, +não é assim?―perguntava-lhe Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Para aqui estou à espera da minha hora! Pois, +como hei de estar, se é esta a vontade de Deus?... +<span class="pagenum">[87]</span> +E curtidinha de padecimentos!―respondia ela, com +um fundo suspiro.<br /> + + +<br /> + + +Mas logo, no seu rosto macerado e pálido se +iluminava a claridade dum sorriso.<br /> + + +<br /> + + +―E a senhora e o menino?―interrogava a +doente.<br /> + + +<br /> + + +―Estão esplèndidos. Não há +mal que lhes chegue, +neste paraíso. Êles qualquer dia por aí +voltam +a aparecer.<br /> + + +<br /> + + +―Ai! Deus os guie, que bem o merecem!...<br /> + + +<br /> + + +Nuno, que não queria que à roda da sua felicidade +existisse gente desgraçada, ordenou a +construção +duma casa nova ao lado da primitiva―que +se esboroava de vetustez e que vinha dos tempos +longínquos em que os seus antepassados tinham +adquirido aquela propriedade que constituía a parte +mais vasta dos seus domínios territoriais. Alargara os +estábulos para o gado, dera maior amplitude ao +alpendre e à eira e procurara longe, na encosta +dos montes que ficavam ao fundo da quinta, um +mais farto veio de água de rega, canalizando-o, +com argamassa e pedra, para as terras alugadas ao +tio Mateus, que resplandecia de contentamento e que +murmurava, com a face jubilosa e enrugada em que +as barbas crespas encaneciam:<br /> + + +<br /> + + +―Isto é o poder do mundo! As colheitas futuras +hão de encher-me celeiros e tulhas!...<br /> + + +<br /> + + +―Está contente?―inquiria Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Ora! se estou contente!... Pois, o patrão +faz um milagre destes e ainda me baixa a renda! +Que hei de querer mais?<br /> + + +<br /> + + +O caseiro, na sua gratidão, comparava a generosidade +do amo com a secura do procurador, um +<span class="pagenum">[88]</span> +unhas de fome que nunca lhe atendia as mínimas +reclamações, +que nem sequer lhe mandava concertar +o telhado por onde, nos invernos agrestes, entrava +a água das chuvas, e que, nos anos hostis, não +lhe +perdoava um ceitil.<br /> + + +<br /> + + +―Se quereis conhecer o vilão metei-lhe a vara +na mão―dizia o tio Mateus, lembrando-se dêsse +homem de expressão dura e coração +empedernido +que um mês antes do pagamento do aluguer, o procurava, +exclamando:<br /> + + +<br /> + + +―Olhe que é daqui a trinta dias. Previno-o, +para que não venha depois com desculpas.<br /> + + +<br /> + + +Agora, mercê da magnanimidade de Nuno, +a esperança renascia na alma do lutador +destroçado +que, durante uma longa existência, em vão se +afadigara para que nas suas arcas o pão fôsse mais +farto e que a vida amarga vencera, acabrunhando-o +de tristeza. E êsse renascimento +palpitava por tôda +a parte, nos vergeis, nas hortas, que eram mais viçosas, +nos espíritos humildes, que adquiriam maior +confiança!<br /> + + +<br /> + + +Entregue ao entusiasmo das suas ocupações +de proprietário rural, Nuno, em certas manhãs, +abalava +logo depois de almôço, de charuto aceso e uma +côr de saúde na face máscula, para +vigiar os trabalhos. +Esta actividade nova tinha para êle um grato +sabor. A princípio, Frederico acompanhava-o, interessando-se +tambêm por uma lide que desconhecia. +Depois, porém, enfadou-se: e, sempre que o amigo +o convidava para ir até ao fim da quinta, +êsse enfado acentuava-se, reflectindo-se-lhe no rosto +desconsolado. Acabou por desculpar-se, dizendo-lhe: +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[89]</span> ―Não! Eu fico, se a minha companhia te não +é indispensável.<br /> + + +<br /> + + +―Pois fica, homem. Fica e dorme!<br /> + + +<br /> + + +―Eis um ideal que me encanta, Nuno. Sempre +tive as melhores disposições para o sono.<br /> + + +<br /> + + +Então, Frederico, penetrado pela quebreira +que amolecia o ar, descia ao parque, escolhia um recanto +de sombra e lá se demorava lendo um romance +ou evocando as suas recordações e pensando no +caso +passional que o trazia inquieto. O calor, a +irradiação +crua do sol, faziam pesar mais o silêncio. A atmosfera +resplandecia, tinha uma vibração especial no +esplendor +matutino da claridade. Até ao seu isolamento +chegavam o chiar dos carros de bois, vergando +sob a carga e atravessando os caminhos desertos, +a cantiga idílica dum pastor distante, o sussurro +das folhagens estremecendo ao vento, sôbre a +sua cabeça. Em certos instantes, repousando das fadigas +caseiras, Júlia, ao piano, tocava uma página +musical +que embalava suavemente a solitude. O sol saía +em ondas pelas janelas abertas aos eflúvios do jardim―e +a música, nesta solidão inspiradora, adquiria +maior sedução e beleza. Frederico, pousando o +romance, analisava o estado particular dos seus +nervos. Uma grande, inexplicável lassidão +prostrava-o. +Sentia-se incapaz dum mais vivo esfôrço de +reflexão, dum metódico exame da sua +sensibilidade. +Parecia-lhe que estava fóra da sua personalidade +psíquica: a realidade exterior produzia-lhe uma +bizarra alucinação que o transtornava; mas, neste +sobressalto intimo havia, alternadamente, certos +fulgores de pensamento, relâmpagos de inteligência, +que lhe aumentavam a angústia e a opressão +interior. +<span class="pagenum">[90]</span>Um elemento +estranho, tendo qualquer coisa +de violento, de obscuro e de nítido, conjuntamente, +invadia-o e perturbava-o. A imagem de Júlia acudia-lhe, +sem repouso, à imaginação―e notava +que +essa imagem era muito diferente da mulher que êle +conhecia, da espôsa encantadora e virtuosa de Nuno, +Atribuía êste fenómeno desconcertante a +uma singularidade +do seu organismo enfêrmo. Monologava, +atribulado:<br /> + + +<br /> + + +―Eu estarei doente, na verdade? Doente de +espírito e de corpo?<br /> + + +<br /> + + +Como os dias que ia vivendo, no meio duma +confusão e duma agitação que lhe +não davam tréguas, +eram diversos dos que, dois meses antes, tinha +passado naquele refúgio em que Nuno se abrigara +com a sua ventura conjugal imensa! Então, +tudo era paz, enlêvo, serenidade no seu +coração, +lucidez +no seu cérebro. Compreendia mais fácilmente +o espectáculo que o cercava; era mais acessível +à +bondade e à beleza; convalescia, sarava, uma +esperança +floria no seu scepticismo, e o calor dos afectos +experimentados fundia dentro de si tôda a frieza e +todo o egoísmo. E agora, não! A tranquilidade +emotiva +dos primeiros dias perdera-se completamente. +Um agente mórbido, qualquer provocava nêle, +de-certo, +alterações profundas, transformava-o num +sêr +humano que o seu próprio sentido ignorava. Que +doença seria essa? Física ou espiritual? E se +fôsse +espiritual, proviria da influência duma luz +súbita, +revelando aos seus olhos uma felicidade possível, +ou da suspeita duma dor inevitavel? Frederico fazia +estas interrogações a si próprio, sem +encontrar uma +resposta que o esclarecesse. No entanto, observando-se +<span class="pagenum">[91]</span>minuciosamente, era +ditoso pensando em Júlia―e +êste sentimento, ao mesmo tempo que o iluminava +interiormente, gelava-o de terror, como se +representasse um perigo imediato, uma catástrofe de +que não pudesse já desviar-se. Ela era a +companheira +purificada e terna de Nuno, via-a ao lado do marido +imersa na ventura que êle lhe oferecia, como +uma flor imersa em aroma, surpreendia-os a cada +passo beijando-se com transporte, apertando-se no +mesmo abraço, peito contra peito, face contra face, +para mais intensamente sentirem a pulsação dos +corações. +Frederico, absorvendo-se em ideias de que +não conseguia emancipar-se e que eram a sua permanente +obsessão, em sensações que o +não abandonavam, +ao estudar a sua psicologia com pavor de +chegar a alguma conclusão que o aterrasse, murmurava, +para se iludir:<br /> + + +<br /> + + +―Verdadeiramente, não a amo com um amor +físico. Sou-lhe apenas grato pelo encanto que me +transmite e devo-lhe um reconhecimento moral a que +não quero fugir.<br /> + + +<br /> + + +Concentrando-se, calculava as consequências +que uma adoração menos pura por Júlia +provocaria +fatalmente. Via-se perto de Nuno, escondendo, como +um remorso ou como um crime, essa adoração que +nunca revelaria e que lhe roeria a alma como os +vermes roem os frutos podres, quando êle, com uma +lealdade que se lhe espelhasse nos olhos e com uma +amizade consolidada por longos anos de dedicação, +lhe confessasse o reconhecimento que consagrava a +Júlia, a claridade, o perfume, a graça que lhe +trouxera +a vida, a bôa fortuna que nela―na sua pureza, +na sua beleza, na sua devoção―encontrara; e, +raciocinando <span class="pagenum">[92]</span>assim, +como se admitisse a duplicidade +do seu afecto por Nuno e do seu amor por Júlia, considerava +que seria infinitamente desgraçado. Tinha +mêdo dum tal desfecho: e, para se libertar de +cogitações +dolorosas, tentava esquecer, espairecer, distrair-se. +Levantava-se, corria o parque a largos +passos, sacudia com as mãos nervosas os arbustos +floridos, fazendo cair nos musgos do chão um luminoso +e colorido orvalho de pétalas, monologando:<br /> + + +<br /> + + +―Ah! não, que horror! Não sinto ainda por +Júlia uma paixão sensual, não a desejo +pela carne, +não me impele para ela um fogo impuro, uma +fôrça +abominável. Quando essa paixão chegar―se +é que +ela tem de vir―saberei ser enérgico, hei de dominar-me, +fugir, esquecer...<br /> + + +<br /> + + +Por nada traíria Nuno, abusando da sua hospitalidade +tam carinhosa e tam franca. Não queria imitar +Vaz de Sousa; não mancharia, com uma inapagável +mácula, a santidade daquele lar; não toldaria +a pacificação daquela morada em que se +agasalhavam +sentimentos perfeitos já abençoados por uma +inocência angélica; não conturbaria a +limpidez da +sua afectividade fraterna com um punhado de lama +e de vileza. Era um homem, um consciente, possuía +uma dignidade, uma irredutível inteireza de +carácter. +De resto, Júlia, que aos dons da sua formosura +aliava os dons mais nobres e elevados duma +dedicação +admirável, seria a primeira a repeli-lo com +indignação, +a execrá-lo, intimando Nuno a pô-lo +fóra +da porta como um ladrão que ali penetrasse para +roubar uma felicidade que só a ela pertencia. E o amigo, +sabendo de tudo, iria para êle com uma cólera +que a imensidade da traição praticada mais +avolumasse, +<span class="pagenum">[93]</span>ferozmente, as +mãos crispadas, os dentes +rilhados, o desvairamento homicida fulgurando nos +olhos... Não era, de-certo, o temor que o fazia retroceder. +Nunca fôra timorato. O que o assustava mais +era a torpeza moral em que se afundaria para sempre.<br /> + + +<br /> + + +―Quantos disparates a minha fantasia enfermiça +arquitecta!―diria Frederico, zombando forçadamente.<br /> + + +<br /> + + +Com efeito, o irremediável não se interpusera, +por enquanto, entre êle, Nuno e Júlia. Podia estar +absolutamente tranqùilo, sem còrar da +perversidade +duma acção que nem sequer se esboçava. +Mas que +infortúnio, o seu! O ardor dos sentidos conduzira-o +a uma situação alarmante que já o +fazia sofrer com +amarga crueldade. Entrando naquela habitação, +pela +primeira vez, julgou que vinha encontrar o sossêgo +de espírito, a calmaria, o repouso da alma: e, afinal, +apenas encontrara uma angústia maior, uma tortura +mais lancinante! Como se operara no seu ser +uma transformação de tal ordem? O +convívio de +tôdas as horas, a ambição duma ternura +igual àquela, +o renascimento de ilusões que julgava extintas, +deprimiram-no, +certamente; o encanto que da formosura +e da pureza de Júlia irradiava, penetrava-o subtilmente, +contra a sua vontade, contra o seu veemente +desejo. Era êle, porventura, culpado desta fatalidade? +Podia ser acusado com eqùidade e justiça, +pela consciência e pela inteligência que lhe +formavam +a individualidade psicológica e mental? De-certo +que não! Êste subterfúgio +apaziguava-o...<br /> + + +<br /> + + +Continuava o passeio ou entregava-se, mais +calmo, à leitura, olhando a vida por aspectos menos +<span class="pagenum">[94]</span> +carregados. Se Nuno se demorava, ocupado pelos +trabalhos que andava dirigindo, Júlia descia +tambêm, +um momento, ao parque, graciosa, adorável de beleza +e de simplicidade. Frederico via-a avançar, com +o coração pulsando desordenadamente, o sangue +circulando +com mais pressa nas veias e uma grande +palidez no rosto. O busto de Júlia modelava-se +nítidamente +na leveza e na frescura duma blusa de sêda +branca, deixando-lhe a descoberto o pescoço redondo, +fino e alto, o princípio do colo, em que a pele +se dourava à luz, uma parte dos braços que +emergiam, +admirávelmente contornados, da espuma de +rendas das mangas: e isto provocava uma atracção +irresistível, tornava mais áspera a sua +ânsia. Júlia, +avistando-o, ia para êle naturalmente, sem acelerar +mais os passos que obedeciam ao ritmo sempre igual +dos seus movimentos, falava-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Então, para aqui só, aborrecendo-se +mortalmente?...<br /> + + +<br /> + + +―Oh! minha senhora, que ideia!<br /> + + +<br /> + + +―Nuno sempre tem um modo de compreender +a hospedagem!...<br /> + + +<br /> + + +―Mas, se fui eu que não quis acompanhá-lo!... +Hoje, +apetece-me o isolamento.<br /> + + +<br /> + + +―Tem, talvez, conversas com os espectros das +suas saùdades...<br /> + + +<br /> + + +―Não. Sou um esquecido do destino, um abandonado +da própria saùdade. Ninguêm se +interessa, +por mim!<br /> + + +<br /> + + +―Ninguêm?―interrogava Júlia, risonha e duvidosa. +<br /> + + +<br /> + + +―Ninguêm...!―afirmava Frederico, fitando-a.<br /> + + +<br /> + + +Mas arrependia-se imediatamente da fixídez +<span class="pagenum">[95]</span> +com que a olhava, no receio de cometer alguma +grosseria que a magoasse, no susto de que o seu +olhar revelasse coisas que êle nem sequer se atrevia +a formular, no confuso turbilhão dos seus sentimentos―e +muito perturbado, desviava a vista.<br /> + + +<br /> + + +―Creio eu lá nisso!―acrescentava ela.<br /> + + +<br /> + + +Numa destas ocasiões, perigosas para a serenidade +de Frederico, Júlia sentou-se num outro banco, +perto dêle, quis saber que livro lia, quais eram as +suas leituras predilectas: e Frederico respondeu com +um riso a que pretendia imprimir naturalidade:<br /> + + +<br /> + + +―As minhas leituras predilectas são as biografias, +a correspondência dos grandes homens, as obras +de psicologia.<br /> + + +<br /> + + +―Porquê, porquê?<br /> + + +<br /> + + +―Porque me interessam as almas superiores...<br /> + + +<br /> + + +Júlia pegou no volume que Frederico folheava, +viu o título.<br /> + + +<br /> + + +―Em todo o caso, lê tambêm romances!...<br /> + + +<br /> + + +―Nos romances, há ainda almas, minha senhora...<br /> + + +<br /> + + +―De que trata êste?<br /> + + +<br /> + + +―Dum amor infeliz, dum amor que nunca se +confessou, e que era incomparável de +elevação, de +fervor, de constância...<br /> + + +<br /> + + +―Bem sei! Dum amor absurdo, dum amor que +apenas existe na emoção e na ideia dos +artistas... +Um grande e puro amor confessa-se sempre.<br /> + + +<br /> + + +―Sempre?... Eis um belo êrro!<br /> + + +<br /> + + +―Ora essa! Êrro?... Não compreendo...<br /> + + +<br /> + + +Para se furtar a um diálogo em que, irreflectidamente, +podia traír-se, Frederico deu novo rumo à +conversação. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[96]</span> ―A uma mulher é que nunca se deve perguntar +quais são os livros da sua preferência, snr.<sup>a</sup> +D. +Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Não sei porque não. Olhe, eu digo-lhe +já o +que prefiro, em literatura:―são os poetas +líricos.<br /> + + +<br /> + + +―Não se deve fazer uma tal pergunta indiscreta +às senhoras, porque na selecção das +leituras +os espíritos femininos revelam-se.<br /> + + +<br /> + + +―Ah!―atalhava Júlia. Não sabia!...<br /> + + +<br /> + + +E os seus olhos negros e imensos, banhados +por um claro-escuro húmido e misterioso, pousaram-se +vagamente em Frederico, parecendo contemplar +aparições inefáveis, +longínquas, imprecisas.<br /> + + +<br /> + + +―Talvez haja alguma verdade no que diz―exclamou +ela.<br /> + + +<br /> + + +―Creio que há tôda a verdade...<br /> + + +<br /> + + +De repente, levantou-se, pousou o livro, murmurou:<br /> + + +<br /> + + +―Nuno demora-se tanto!...<br /> + + +<br /> + + +E sorrindo, com um enlêvo maior na voz, uma +gracilidade mais animada nos gestos:<br /> + + +<br /> + + +―Coitado! Anda todo apaixonado por uma +obra de generosidade e de misericórdia. É um +santo. +A miséria da família do caseiro atormentou-o.<br /> + + +<br /> + + +―Um coração de ouro!―concordava Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Não é verdade?―atalhou ela, tôda +interessada +e com o reflexo dum grande contentamento na fisionomia.<br /> + + +<br /> + + +―Um coração de ouro!―repetiu Frederico, +pondo nas suas palavras a convicção e a +sinceridade―uma +alma como poucas existem!...<br /> + + +<br /> + + +Júlia agradeceu-lhe com um olhar infínitamente +<span class="pagenum">[97]</span> +meigo aquele justo louvor ao marido e disse afectuosamente:<br /> + + +<br /> + + +―Vou até lá acima... Acompanha-me ou ainda +fica por aqui, pelas espessuras, como um namorado, +com as suas lembranças?<br /> + + +<br /> + + +―Ainda fico, minha senhora, mas só, sem +recordações, uno e indivisível, em +corpo e em alma.<br /> + + +<br /> + + +Soltando uma gargalhada, Júlia afastou-se vagarosamente, +colhendo uma ou outra flor no caminho, +cantando entre dentes, voltando-se ainda para trás +e rindo sempre; e Frederico, seguindo-a com a vista, +notava que junto dela, respirando o mesmo ar, o +envolvia a carícia dum ambiente em que a brisa +tépida e odorífera como que emanava a +vaporização +duma volúpia tôda esperitual em que não +havia +nenhuma instigação inferior da animalidade, da +substância, +do sangue, dos nervos. A notação fina desta +particularidade tranqùilizava-o. Ah! admirava profundamente +a mulher de Nuno, mas apenas porque, +entre a fealdade moral da sociedade que conhecia de +perto, Júlia era um dêsses raros seres dispondo do +condão de reconciliarem com a espécie o homem de +temperamento sensível...<br /> + + +<br /> + + +Neste devaneio infindável, as horas corriam ligeiras, +a tarde baixava, um arrepio friorento passava +no parque, entre os troncos, fazia tremer as fôlhas +pendentes. O azul, alto e brilhante, empalidecia: +e Nuno, voltando das obras, com a roupa em desalinho, +despenteado, as mãos cheias de terra, veio +encontrá-lo +ainda sentado no banco, meditando.<br /> + + +<br /> + + +―Cheio de tédio, hein? Mas a culpa é tua, +Frederico!―gritou +êle, surgindo, de repente, do meio +das árvores. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[98]</span> +E contou-lhe então, com entusiasmo, como fôra +ocupado e fértil em resultados o seu dia, a sua actividade +junto dos pedreiros e dos carpinteiros, dando +ordens, fornecendo indicações, +esboçando projectos de +trabalhos mais vastos, pedindo esclarecimentos ao +vélho Mateus sôbre a lida agrícola. +Até, para se +exercitar, para desemperrar as articulações, +tirara a +enxada ao caseiro e cavara um bom bocado! Mostrava +as botas enlameadas, as mãos vermelhas do +exercício +violento. Frederico, ouvindo-o e como se regressasse +das regiões longínquas, irreais, por onde andara +com a sua fantasia, atalhou:<br /> + + +<br /> + + +―Pretenderás tu fazer-te lavrador tambêm?<br /> + + +<br /> + + +―E porque não?―replicou Nuno, muito +sério.<br /> + + +<br /> + + +―Homem, isso é ainda literatura, poesia rural +à maneira das +<em>Geórgicas</em>...<br /> + + +<br /> + + +Mas Nuno protestava, afirmava que ia pensando, +realmente, em dedicar à lavoura a sua existência +improdutiva, sendo assim útil a si, aos seus, +à colectividade, empregando novos processos de cultura +que duplicariam a fecundidade da terra, fazendo +experiências em que constantemente pensava desde +que se instalara na quinta.<br /> + + +<br /> + + +―Porque, sabes tu? Os nossos agricultores seguem +fielmente o caminho trilhado por uma rotina +secular. Não querem afastar-se dêle, desdenhando +as inovações que, com menos dispêndio +de fôrças, +aumentariam a produção e ofereceriam +óptimas compensações.<br /> + + +<br /> + + +―Santo Deus, como vais de-pressa!―contrariou +Frederico. Mas isso é a multiplicação +dos pães +de que nos fala uma doce página da Bíblia. A +multiplicação <span class="pagenum">[99]</span>dos +pães? Que digo eu? +Trata-se dum milagre, +mais considerável. Chegas, da cidade, vestido +como um <em>dandy</em>, nada sabes de +agricultura, ignoras +mesmo como se produz a torrada que comes ao +almôço, com manteiga, mas isso que importa? Tens +audácia para tudo! Pegas num punhado de trigo, +ao levantar do leito, tomas o teu café, fumas o teu +charuto...<br /> + + +<br /> + + +―Não rias, Frederico! Olha que começou, na +verdade, para mim, uma vida nova...<br /> + + +<br /> + + +―Espera, deixa-me acabar!... Espalhas êsse +punhado de trigo ao raiar da manhã. Ao meio-dia, +uma enorme messe de louras espigas ondula já à +aragem, como um mar de ouro fôsco. Á tarde, chamas +os ceifeiros, fazes a colheita e enches um celeiro!... É +como nos contos do fadas...<br /> + + +<br /> + + +― Bem! Não há maneira de nos +entendermos―concluiu +Nuno. Vamos jantar. Isso é debilidade... A +fraqueza excita o teu delírio.<br /> + + +<br /> + + +Atravessando os arruamentos da floresta, que +escureciam, o jardim, que rescendia, Frederico ainda +satirizava as intenções de Nuno, afirmando:<br /> + + +<br /> + + +―Se, na realidade, pensas em fazer-te lavrador, em +te consagrares à terra, então sempre te digo que +há tôdas +as probabilidades de que venhas a arruìnar-te...<br /> + + +<br /> + + +―Arruìnar-me?<br /> + + +<br /> + + +―Não tenhas dúvidas! Um simples pão, +que podes +comprar por um vintèm em qualquer padaria, +agricultado por ti, com máquinas para arar a leira, +máquinas para ceifar o trigo, máquinas para a +debulha, adubos químicos, outras coisas requintadas +e modernas, virá a ficar-te por cinto tostões, o +que é, na realidade, barato, não te parece? +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[100]</span> +Entraram em casa, conversando e rindo. Cá fóra, +ao ar livre, anoitecia. O ocaso, com sua tristeza elegíaca +e o vago das suas sombras, descia apressadamente. +As ramagens dos arvoredos imobilizavam-se +na atmosfera. Uma névoa ténue subia da terra para +o alto. Das coisas inertes parecia elevar-se um confuso +múrmurio que fôsse como que a confissão +da natureza +para Deus. As criadas acendiam as luzes, na vivenda, +e as vidraças lampejavam batidas por um súbito, +inesperado +fulgor de ouro. Nuno e Frederico lavaram-se, +vestiram-se para o jantar, aparecendo na sala já +quando os esperava Júlia―e a palestra reatou-se:<br /> + + +<br /> + + +―Pois, minha senhora, dou-lhe os parabens!―exclamou +Frederico, sentando-se.<br /> + + +<br /> + + +―Parabens, porquê?―interrogou ela.<br /> + + +<br /> + + +―Nuno está decidido a integrar-se na simplicidade +e na lavoura. É bem provável que esta +habitação +mundana venha a transformar-se em herdade, +brevemente.<br /> + + +<br /> + + +―Está hoje impossível, +Júlia!―retorquiu +Nuno. Não compreende que um janota como eu venha +a ser um agricultor razoável, a fixar-se aqui +definitivamente, +a despir-se de todo o artifício por +amor à naturalidade.<br /> + + +<br /> + + +―Ouve-o? É a renovação que +começa. Teremos +em Nuno, dentro de pouco, o Jorge Brumell +das colheitas.<br /> + + +<br /> + + +―E porque não? Porque não?―perguntou +Júlia, olhando demoradamente o marido.<br /> + + +<br /> + + +―Tambêm V. Ex.<sup>a</sup>?... Belo! +Já está +convertida. +A coisa é mais importante e profunda do que +eu julgava. Assisti, neste lar afável, ao nascimento +duma religião nova... +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[101]</span> +A conversação alegrava-se, sob o reflexo da +claridade +que fazia relampejar as pratas, scintilar os cristais, +alvejar mais puramente os linhos e brilhar com +maior nitidez o verniz dos móveis e a +coloração +das flores que morriam nos solitários. A serenidade em +que a vivenda adormecia era tanta que se ouviam os +menores ruídos. A criada que servia à mesa, no +seu +severo vestido preto com punhos e gola de bretanha +gomada, ia e vinha sôbre a alcatifa do corredor longo, +em passos apressados e miúdos. Da cozinha chegava +o rumor das palestras e da louça que se entrechocava. +Cães latiam ao longe, pelos casais silenciosos. +De vez em quando, o som duma viola passando +para os serões ou para as desfolhadas nas eiras, sob +a lua branca, poetizava, bucolizava a solidão...<br /> + + +<br /> + + +No fim do jantar, Júlia levantou-se, estendendo +a face a Nuno para o beijo costumado e apertando +a mão de Frederico, para tratar da +refeição dos servos. +Os dois conservaram-se ainda sentados, fumando +e divagando...<br /> + + +<br /> + + +Depois, no seu quarto Frederico, sentindo um +desalento inexprímivel pesar mais duramente à sua +volta, na imensa melancolia dos ideais falhados, no +desespêro da ansiedade que o devorava e da incerteza +que o consumia, reencetou as suas lucubrações, +sentando-se +numa poltrona e deixando correr as infindáveis +horas de pacificação exterior. O que agora temia +era que nêle se viesse a dar o violento conflito do +espírito e do instinto, perto de Júlia―o que +seria +um suplício que mais lhe atribularia a amargura de +viver. Observava que já ao lado de Nuno não +estava +bem, que temia o desconhecido, que experimentava +um constrangimento inexplicável. E porquê? +De-certo +<span class="pagenum">[102]</span>que o amigo tinha +para êle as mesmas delicadezas, +as mesmas atenções, a mesma inefável +simpatia; +mas bastava que Nuno o fixasse mais detidamente +para que logo julgasse que o seu olhar penetrante pretendia +expiá-lo, ler-lhe na alma surpreender os sentimentos +impuros que lá se geravam. Suspeitaria dalguma +coisa? Teria Frederico deixado adivinhar o seu +drama, por uma frase impensada, por uma palavra +mais ardente de louvar a Júlia, por um estremecimento +de paixão irreprimível que pusesse Nuno de +sôbre-aviso? Não! Claramente, não! +Tôdas as suas +dúvidas nada mais representavam do que uma +perversão +da sensibilidade nervosa, uma alucinação dos +sentidos...<br /> + + +<br /> + + +Ainda não sabia se amava Júlia―porque tinha +mêdo de interrogar-se; se a desejava carnalmente; +se a admiração que lhe dedicava era de +essência espiritual +ou sensual: mas se, com efeito, era maior +a perturbação que o alvoroçava, +ninguêm―nem êle +mesmo―conheceria êsse amor insensato, que ficaria +para sempre secreto, que jàmais seria revelado!...<br /> + + +<br /> + + +Enquanto scismava, a casa, sob o afago da sombra +nocturna, repousava serena, como a felicidade +que a habitava. Apenas do quarto, onde a ama dormia +com o filho de Júlia e de Nuno vinha uma claridade +dúbia da lamparina acesa, filtrando-se através +das bandeiras das portas, que eram de vidro. E Frederico +continuava os seus devaneios. Naquele momento, +a mulher admirável para quem ascendiam, +como um incenso, a sua crença pura e a sua +admiração +exaltada, adormecia tranqùilamente, junto do +marido, tendo ainda na bôca o calor e o perfume +dum profundo beijo apaixonado e genesíaco. Êsse +calor <span class="pagenum">[103]</span>rosava-lhe +a pele da face, acelerava-lhe a +circulação +do sangue, tornava-a mais linda. Reconstituia-a +no sono, a cabeça pousada sôbre a alvura do +travesseiro +por onde se espalhavam, como uma núvem, os +seus cabelos desmanchados, o peito arfando docemente, +a carne esplêndida vibrando de desejos... Impaciente, +Frederico erguia-se, dava alguns passos +irresolutos sôbre o tapête fôfo, e +voltava a sentar-se +sem poder aquietar. Sentia subir das recônditas intimidades +do seu ser um ciúme horrivel pelo amigo, +que fruía uma indizível ventura com a posse da +mulher +esplêndida (que tambêm o aliciava a ele―e com que +formidável intensidade! Então, enclavinhando a +mão +trémula nos cabelos, Frederico revoltava-se contra +si próprio.<br /> + + +<br /> + + +―Que inferno êste, hein? E que abjecta criatura +desperta em mim!...<br /> + + +<br /> + + +Na realidade, Nuno era para êle o irmão, a amizade +inquebrantável e fidelíssima, a +afeição cega. Abrira-lhe +confiadamente as portas do seu lar virtuoso, considerava-o +como um membro da sua família, devotara-se-lhe +inteiramente, mostrara-lhe a alma. E +êle, correspondendo a esta confiança, a +êste afecto, +a esta devoção, estava ali, naquele doloroso +momento +de tortura, invejando-lhe criminosamente a +espôsa legítima, odiando-o pelos beijos que com +ela +trocava, pela presença de Júlia no seu +tálamo―um +tálamo que a adoração mútua +santificava e em que o +ventre da mulher amada recebia o calor que faria +germinar as vidas novas e esperançosas.<br /> + + +<br /> + + +―Não! Isto é verdadeiramente infame!―exclamava +Frederico, acusando-se com rancor.<br /> + + +<br /> + + +Deitou-se, mas não podia dormir. A imagem de +<span class="pagenum"><a name="p104">[104]</a></span> +Júlia perseguia-o; a inquietação +permanente irritava-lhe +os nervos, exauria-o. Quáse imputava a +Júlia a responsabilidade da dor fulgurante que sentia, +da agitação que o alucinava; mas logo +caía em si, +arrependendo-se. Era injusto, inexorávelmente injusto! +Ela não fizera nascer, por uma só palavra, +por uma atitude suspeita, por uma irreflectida +<em>coquetterie</em>, +o sentimento funesto que o invadira. Frederico +é que não pudera dominar-se, ser casto, ser +nobre, ser <a href="#e10">refractário a um +desejo</a> vil. +O culpado +único do seu tormento era êle, certamente. E +julgava +que, por mais que sofresse, todos os seus sofrimentos +não valeriam uma ligeira mágoa que pudesse +causar a Júlia, se lhe revelasse o fogo em que ardia; +que tôdas as suas lágrimas não valeriam +uma única +das lágrimas que Júlia choraria, se êle +tentasse destruir-lhe +uma placidez de que era tam digna, pela alma, +pela bondade, pela elevação moral, pela +formosura, +corpórea.<br /> + + +<br /> + + +Em determinados instantes, o seu cérebro tinha +uma estranha lucidez. Lembrou-se, repentinamente, +de factos, de acontecimentos há muito olvidados. +Ocorriam-lhe trechos de leituras feitas. Recordou-se, +por exemplo, de ter lido há muito tempo, +num livro de que esquecera o título, esta +sentença +que agora solicitava particularmente a sua +atenção:―«Elemento +divino e principal, que a natureza produz +mas que apenas a vontade aperfeiçoa, a Beleza +é uma simples exteriorização da forma. +Tudo é susceptível +de beleza, do gesto ao acto, do olhar à palavra. +Se o primeiro passo perfeito fôr o de concentrar +tôdas +as aspirações de beleza num sêr +único, o segundo +será o de preferir a beleza da alma à beleza +físicamente <span class="pagenum">[105]</span>afectiva +do corpo». No delírio da sua +febre, +Frederico construía teorias que lhe pareciam encerrar +a verdade total e que logo abandonava, como +infantis: e só de manhã, quando uma luz ainda +indecisa +e fresca se coou através das frinchas da janela, +êle conseguiu adormecer, cansado, extenuado pela +vigília +e pelas emoções intensas. Ao levantar-se, estava +pálido, mal disposto, cheio de tédio―e pensava +então +que a vivenda de Nuno se lhe tornava insuportável +de dia para dia...<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Uma tarde, o amigo abalou para as obras que +continuavam activamente. Ao passar no escritório de +Nuno, para escolher um livro, Frederico encontrou +lá Júlia, que bordava um pano de mesa, sentada +à +janela abrindo para o jardim e tôda ensombrada +por uma trepadeira já sem flor. Frederico sentou-se +tambêm, vendo-a trabalhar. Tinha um vestido preto +que lhe imprimia maior destaque à brancura das +carnações. Na gola da +<em>corsage</em>, afogada ao +pescoço, +fulgurava um brilhante, irrizando-se à luz. Os seus +dedos magros manejavam ágilmente a agulha. Como +sempre, a noite de Frederico fôra tempestuosa, +deixara-o doente e mais aborrecido. Resolvera internar-se +no parque, à procura do isolamento, do +sossêgo, que apaziguavam o seu frenesi: mas, deparando +Júlia, experimentou logo a irresistível +atracção +que ela exercia sobre o seu sentimento e achou +um doce sabor na sua companhia. Seguia mudamente +o bordado, com a face encostada à palma da mão; +e, para interromper um silêncio que lhe fazia, mal, +exclamou: +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[106]</span> ―Só as senhoras teem paciência para tais +tarefas...<br /> + + +<br /> + + +―Questão de hábito―respondeu Júlia, +sem +levantar a cabeça.<br /> + + +<br /> + + +―Eu era incapaz de chegar ao fim duma coisa +dessas, que me parece mais fatigante e difícil do que +os dôze trabalhos de Hércules... Estragava tudo, +rasgava +tudo...<br /> + + +<br /> + + +―Jesus! Pois é assim impaciente?...―perguntou +ela, fitando-o.<br /> + + +<br /> + + +―Sou assim impaciente!<br /> + + +<br /> + + +A radiação da luz fluida, que vinha de +fóra, +batia em cheio na cabeça de Júlia, aureolando-a; +sôbre os ombros descaídos havia tambêm +manchas luminosas. +Frederico, perturbado, voltou-se para a estante, +a escolher um volume.<br /> + + +<br /> + + +―Que vaí ler?―interrogou Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Sei lá! Talvez uma história triste +dalguêm +que nunca realizasse as suas aspirações. Estou +hoje +tam nervoso, tam melancólico!...<br /> + + +<br /> + + +―Pois por isso mesmo, devia preferir as leituras +alegres, para se desanuviar... E diga-me: Crê +que haja pessoas correndo continuamente atrás dum +ideal que nunca alcançam?<br /> + + +<br /> + + +―Oh! de-certo que há!<br /> + + +<br /> + + +―Eu julgo que essas pessoas estão fóra da +realidade, e eis porque não encontram nunca o seu +mundo...<br /> + + +<br /> + + +A voz de Júlia tinha, no seu timbre de ouro, +uma brandura acariciante. Frederico, enleado, contemplava-lhe +o busto, que era admirável de +proporções, +a linha, a curva ondulante dos seios que se +arredondavam sob os tecidos leves, o pescoço esbelto, +<span class="pagenum"><a name="p107">[107]</a></span> +o lóbulo das orelhas que o penteado deixava a descoberto +e que era côr de rosa.<br /> + + +<br /> + + +―Mesmo dentro da realidade―exclamou êle―nem +sequer se podem atingir certos ideais.<br /> + + +<br /> + + +A solitude em que a casa estava mergulhada +assustava-o. Desejava o ruido, o barulho, tudo o que +o aturdisse.<br /> + + +<br /> + + +―Conhece alguns casos dêsses?―perguntou +ela, mirando-o com a face tocada pela graça do +riso.<br /> + + +<br /> + + +Frederico sentiu uma perturbação +instantânea, +passou-lhe na mente uma névoa, tôda a +resolução +anterior se deteve no seu sêr, fez-se-lhe uma +espécie de vácuo na consciência, a sua +timidez aumentou. +Sem poder falar claramente, gaguejava. +Êste sobressalto inexplicável excitou ao mais alto +ponto a curiosidade de Júlia que o envolvia com a +luz dos seus olhos tam sinceros.<br /> + + +<br /> + + +―Diga!...―insistiu ela.<br /> + + +<br /> + + +―Talvez!―respondeu Frederico. Tenho-me +entregado a êstes estudos especiais, porque o +maior prazer duma alma é reconhecer outras almas +belas.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! mas essas almas escapam-se a tôda a +observação―atalhou Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Não. Quando muito, constituem um mistério―mas +mistério que se sente...<br /> + + +<br /> + + +Desvairado, Frederico levantou-se, encaminhando-se +para a porta.<br /> + + +<br /> + + +―Tem que fazer?―interrogou Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Não... Absolutamente nada.<br /> + + +<br /> + + +―Então, sente-se, seja a minha companhia, <a href="#e11">se +isso</a> lhe não +desagrada. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[108]</span> ―Oh! minha senhora!...<br /> + + +<br /> + + +As fontes latejavam-lhe, uma vermelhidão febril +afogueava-lhe as faces, a sua respiração +acelerava-se.<br /> + + +<br /> + + +―E como se denunciam, às vistas perspicazes, +as almas de que fala?―inquiriu Júlia, baixando +o rosto sôbre o bordado.<br /> + + +<br /> + + +―Pelo encanto que irradiam, pelo domínio que +exercem, pela inspiração que produzem.<br /> + + +<br /> + + +―Julgo que está enganado. As almas femininas, +por exemplo, furtam-se às mais subtis análises. +Se um homem louvar a beleza duma mulher, ela +sorrirá, não se defendendo, mas ocultando-se +às revelações +íntimas...<br /> + + +<br /> + + +―Mesmo quando ama? Sendo o amor a obra +da alma, ela revela-se totalmente sob a sua influência...<br /> + + +<br /> + + +Insensívelmente, o diálogo entre os dois tinha +resvalado para um plano perigoso, e Frederico empregava +esforços violentos para subtrair-se às +tentações, +porque começava a ter receio de dizer tudo +a Júlia, de lhe confessar o seu supremo segrêdo, +de +lhe denunciar, com lágrimas, o seu inferno, o seu +tormento de tôdas as horas. Ia-lhe fugindo a faculdade +de pensar, de reflectir antecipadamente na +significação +das suas palavras e de calcular-lhes as +conseqùências, porque erradamente supunha que o +interrogatório de Júlia, tam natural, tinha +qualquer +cousa duma provocação.<br /> + + +<br /> + + +―Mas ainda me não disse francamente se conhece +alguma dessas almas―exclamou ela, de novo.<br /> + + +<br /> + + +―Não conheço, mas tenho a certeza de que +existem...<br /> + + +<br /> + + +―Nos romances? +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[109]</span> ―Ah! nos romances, há lenda daquele príncipe +que se sabia perto da mulher que amava, que +lhe sentia as palpitações do +coração, mas que não +podia tocar-lhe nem vê-la, porque uma cortina de +névoa opaca o separava dela!...<br /> + + +<br /> + + +Júlia, esquecendo as mãos no regaço, +olhou-o +então longamente, como se quisesse compreender alguma +obscuridade psicológica que pressentia: e Frederico, +comprometido, levantou-se logo, rindo um +riso nervoso e atalhando:<br /> + + +<br /> + + +―Mas, é claro! O que os romances dizem não +tem veracidade. E estas nuvens só aparecem aos +príncipes e às princesas...<br /> + + +<br /> + + +Dirigiu-se para a porta, resolutamente, depois +de tirar um livro da estante.<br /> + + +<br /> + + +―Sai?―perguntou Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Sempre vou um pouco até ao jardim, tomar ar...<br /> + + +<br /> + + +E desceu rápidamente sem se voltar, desgostoso +consigo próprio, excitado, ainda no pavor da +leviandade irremediável que ia cometendo. Ah! +não! +Aquilo não podia continuar! Era muito duro, muito +cruel para êle. Agora, compreendia que o temido conflito +do seu espírito com o seu instinto se daria fatalmente, +se prolongasse por mais um dia, uma semana, +a sua estada perto de Júlia. Chegaria uma hora de +fraqueza em que a energia lhe faltasse para dominar-se. +Antes de isso acontecer, fugiria para longe, tentaria +esquecer. Queria ser digno de amizade de Nuno e +do afecto da mulher de quem um amor infeliz o aproximara. +Estava ainda a tempo! E firmemente, nesse +mesmo dia, ao jantar, anunciou a sua partida inevitável, +pretextando a solução urgente de +negócios +que não deviam ser adiados...<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3>V</h3> + + +<br /> + + +Foi num inquietante estado de alma que Frederico +deixou a vivenda pacífica onde o seu sentimento +fizera, inesperadamente, uma tam alarmante +descoberta, regressando ao Pôrto sem um fim determinado, +sem mesmo pensar na maneira de evadir-se +duma intensa e amarga tortura. A certeza de que +amava a mulher de Nuno com um amor que poderia +levá-lo, violentamente, a todos os crimes e a +tôdas +as degradações da alma, obcecava-o e obrigava-o a +reflectir na impureza da argila de que é formado o +coração humano. Fugia de Júlia, do +amigo, do repousado +lar em que vivera tam plácidos dias―antes da +fatalidade duma adoração que quisera evitar, a +que +tentou, em vão, resistir e que lentamente se lhe apoderou +de todo o sêr consciente―em condições +trágicas +para a sua emoção. Sentia-se +enfeitiçado por +uma espécie de malefício ao mesmo tempo cruel +<span class="pagenum"><a name="p112">[112]</a></span> +e doce, que lhe causava sofrimento e saùdade e que +nêle abolia o senso moral sem, no entanto, lhe conturbar +a lucidez da inteligência a ponto de não +discriminar +entre o bem e o mal...<br /> + + +<br /> + + +Durante a jornada para o Pôrto foi sobressaltado, +várias vezes, por uma singular diversidade +de sensações. Ia fugindo como um bandido, +trémulo, +aterrado, com mêdo de tudo―e porquê? +Ninguêm +conhecia o seu drama, bem oculto, bem recalcado dentro +de si próprio―a não ser que Júlia o +tivesse adivinhado, +porque as mulheres; em coisas de sentimento, +são subtis. Aquela deserção +representava a +cobardia dum homem incapaz de afrontar altivamente +o primeiro perigo que diante de si imprevistamente +se levantava, com a segurança de que venceria; +mesmo incapaz de dominar as instigações da +outra personalidade em que se desdobrava e que o +concitava ao êrro, à deslealdade, à +vileza, solicitando +a imediata satisfação dum desejo gerado no +seu egoísmo e na sua sensualidade; que se mostrava +impotente para conter a expansão vertiginosa do +instinto. Alucinava-o a quáse +eliminação da vontade―de +que o último lampejo se exaurira com a +resolução +de sair apressadamente da casa de Nuno, inventando +um pretexto fútil em que se traíria, se o +amigo não depositasse nêle a maior +confiança. Raciocinando +nesta leviandade, Frederico monologava, +encolhido a um canto do combóio, sem mesmo espreitar +rápidamente a maravilhosa paisagem, que +atravessava:<br /> + + +<br /> + + +―Como fui imprudente, na realidade!<br /> + + +<br /> + + +E agora, que estava mais sereno, aquela imprudência +atemorizava-o. Reconstituía na <a href="#e11">imaginação</a> +<span class="pagenum">[113]</span> sobreexcitada a +surprêsa de Nuno, +quando lhe +comunicou a resolução firme de voltar +à cidade. Fixando-o +com uns olhos penetrantes que o devassavam +até às recônditas intimidades da +consciência, êle exclamara:<br /> + + +<br /> + + +―O que? Vais-te embora?<br /> + + +<br /> + + +―Sim, vou!―atalhara bruscamente, com uma +perturbação que o denunciava. Assuntos +complicados +a liquidar, um inferno...<br /> + + +<br /> + + +―Homem, sê sincero. Tu o que estás é +aborrecidíssimo, +odiando êste cárcere, abominando esta +solidão, morto por te veres de novo no ruído, no +tumulto urbano...<br /> + + +<br /> + + +―Mas não, mas não! Que ideia!...<br /> + + +<br /> + + +Júlia expiava-o tambêm interrogadoramente, +com um olhar em que à vivacidade se mesclava uma +pontinha de ironia amável.<br /> + + +<br /> + + +―Para que hás de negar?―insistia Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! filho, mas que impertinência tamanha, +a tua!... Frederico é um homem do mundo +e julga ter cumprido já os deveres da amizade para +connosco, dando-nos algumas semanas da sua companhia. +Se quiséssemos retê-lo aqui por mais tempo, +entre estas árvores, nesta solidão, no meio +dêste deserto, +seria tirânico da nossa parte!―afirmara +Júlia benévolamente.<br /> + + +<br /> + + +―É claro―acrescentou Nuno ―eu não te +imponho o sacrifício de nos aturares até +à consumação +dos séculos... O meu despotismo não chega a +tanto...<br /> + + +<br /> + + +―Sacrifício?... Mas que sacrifício?... Se eu +te estou a dizer...<br /> + + +<br /> + + +―Bem, acabou-se!―concluiu Nuno. Parte... +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[114]</span> ―Quem sabe, de resto, se haverá na cidade +algum motivo superior que o reclame a tôda a +pressa?―insinuara +ainda Júlia com aquele riso que era de +graça, de bondade, de malícia e de +doçura e que +tanto encantava Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Certamente, minha senhora... Há um motivo!―respondeu +êle.<br /> + + +<br /> + + +―Sentimental?―inquirira Nuno, rindo tambêm.<br /> + + +<br /> + + +―Crê que estou a falar a sério!―replicara +Frederico.<br /> + + +<br /> + + +Propositadamente, para desviar o rumo da conversa, +que o fazia sofrer e o forçava a simular para +esconder uma verdade que não podia ser conhecida +sem vergonha para êle, sem dor para Nuno e sem +cólera +amargurada para Júlia, Frederico procurou ser +alegre, mas inutilmente. A intensidade da comoção +experimentada crestou-lhe a floração do +humorismo, +tornou-o fúnebre; e as horas que se seguiram à +sua +decisão foram monótonas, tristes, cheias de +fadiga. +A cada instante, Nuno murmurava, fumando um +charuto e quebrando a cinza na beira do cinzeiro de +porcelana:<br /> + + +<br /> + + +―Vais, então, para o Pôrto, scelerado, reentras +nos teus hábitos.<br /> + + +<br /> + + +Frederico notava nestas palavras de afecto, +que lhe doíam como um queixume, a vaga sombra +dum desconsôlo, e dizia:<br /> + + +<br /> + + +―Vou, de-certo... Deveres... As obrigações +primeiro e as devoções depois. O +método é tudo... E +tu? Ficas por aqui ainda?<br /> + + +<br /> + + +―Fico. Há uma infinita multidão de factos +que exigem a minha presença... Alêm disso, esta +<span class="pagenum">[115]</span> +é que é a minha casa... Júlia +dá-se bem. Eu +passo óptimamente. Retirar-me, para quê?<br /> + + +<br /> + + +―Pois olha que sou muito capaz de voltar +ao calor das vossas afeições, em concluindo os +meus +negócios!<br /> + + +<br /> + + +―Que lisonjeira mentira!―acudiu Júlia, aconchegada +na sua cadeira, ainda à mesa do jantar, seguindo +o diálogo com a face inclinada na mão.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! minha senhora, eu nunca minto, por +princípio. Seria um pecado.<br /> + + +<br /> + + +―Não! Muitas vezes, mentir por amabilidade +é uma virtude que denuncia puros dons de alma.<br /> + + +<br /> + + +Tornou-se impossivel animar a palestra em +tôda a noite. Frederico pensava que o desalento se +comunicara, como um fluido subtil e dissolvente, a +Júlia e a Nuno, destruindo o gôzo espiritual +daquele +momento: e foi para ele um grande alívio o instante +em que pôde recolher-se ao seu quarto, isolar-se, +concentrar-se +nas suas meditações. Deitando-se e apagando +a luz, reencetou a análise da sua própria +psicologia. +A impressão que Júlia lhe produzia na +sensibilidade +era cada vez mais forte. Por enquanto, a +imagem da mulher amada iluminava-se ainda de esplendor, +movia-se num círculo de claridade e de +pureza que o coagia a uma adoração casta. +Não atravessaria +a zona luminosa que o separava dela, para +tocar-lhe com mãos profanas. Chegaria, porêm, uma +hora de alucinação em que a generosidade e a +grandeza +moral que prevaleciam na sua organização +desaparecessem, +fundindo-se a um fogo de voluptuosidade +impetuosa, e em que a sua áspera ânsia carnal, +numa +súbita e espontânea erupção +de luxúria, o impelisse +às piores injustiças, às violentas +rebeliões, às brutalidades, <span class="pagenum">[116]</span>às loucuras em +que nada se respeita. Frederico +temia essa hora e libertava-se, pela fuga, da sua terrível +influência. Por enquanto, conservava tôda a +sua energia, tôda a sua lucidez mental, podia calar-se +a tempo, encerrar o seu amor secreto num silêncio +impenetrável; +mas não viria a perder essas faculdades +redentoras se prolongasse a sua estada junto da +mulher que inocentemente excitara a sua paixão? +Era preciso cortar como flor venenosa o sentimento +vil que lhe germinara na alma, exilar-se para longe, +esquecer... Tam ardente era nêle a +imaginação que +lhe parecia que a voz de Júlia tremera ao ouvir-lhe +anunciar a partida e que os seus imensos olhos, +negros e húmidos, fazendo-se mais lânguidos e +acariciadores +sob as pestanas, cravando-se nos dêle, +lhe pediam que ficasse, o aliciavam com promessas +de tôda a sorte. Resistir aos avisos da dignidade, que +o mandavam retirar sem demora, seria uma +abjecção, +um acto inqualificável. Êsse amor, apenas +nascente, +tinha para êle a sordidez, a vilania, a crápula +dum incesto―porque Nuno era o seu irmão. Não +reagir contra a voz secreta e criminosa do instinto +puramente animal que o tentava a não sair do lado +de Júlia representaria a queda num abismo +insondável, +a submissão que o desonraria para sempre, o +remorso, uma dor futura que nem sossegaria sequer, +mesmo que fôsse possível satisfazer a +ignomínia da +paixão que o exasperava.<br /> + + +<br /> + + +―Não! Não!―murmurava Frederico, revolvendo-se +no leito. Partindo, serei ainda nobre e +bom.<br /> + + +<br /> + + +E a bondade, para êle, era a mais pura, a mais +alta manifestação da vida consciente. Alucinado +por <span class="pagenum">[117]</span> +um sentimento que agitava tudo o que no seu ser +de homem havia de imperfeito, de inferior, de grosseiro, +sofrendo tôdas as torturas que um amor impossível +e sem esperança pode fazer experimentar +a um temperamento ardentemente apaixonado, Frederico +sentia, como uma carícia de +inexprimível +enlêvo, essa bondade à sua volta, naquele calmo +lar +tam digno. Ela irradiava da candura dum berço +onde dormia a inocência sem culpas; denunciava-se +numa adoração conjugal que se perpetuava +indefinidamente +com o mesmo encanto do dia maravilhoso +em que principiara; emanava-se de Júlia como +uma espécie de imaterialidade visível e +penetrava-o +a êle mesmo fazendo-lhe transbordar de ternura o +coração, purificando-o de pensamentos maus. Por +mais duma vez―absorvido na sua meditação e +louvando-se pela coragem, pela energia que revelava, +afastando-se dum enlêvo que para êle condensava, +nesse momento, a felicidade suprema―Frederico +descobria uma desconhecida frescura de emoções +novas e apaziguadoras, passava-lhe na alma +um sôpro vital que o rejuvenescia. Mas êste +entusiasmo +era fugaz: e uma saùdade muito funda―a +saùdade de tudo o que perdia―continuava a +exaltá-lo.<br /> + + +<br /> + + +Murmurava, na sua viagem para o Pôrto:<br /> + + +<br /> + + +―Fiz, talvez, uma asneira. Desertando, demonstrei +a mim próprio que sou cobarde, que tenho mêdo, +que sou incapaz de resistir...<br /> + + +<br /> + + +Então, arrependido, levantava-se do banco em +que ia sentado, dava alguns passos nervosos no +compartimento em que viajava só e assaltavam-no +tentações de descer da carruagem na primeira +estação <span class="pagenum">[118]</span>e +de voltar para trás, +regressando a casa de +Nuno e de Júlia. Logo, porém, caía em +si, exclamando:<br /> + + +<br /> + + +―Mas estou doido, doido! Êsse regresso seria +uma revelação, uma confissão completa +pelo menos +para Júlia, porque nada escapa à sagacidade das +mulheres, em amor.<br /> + + +<br /> + + +Para se distrair, dissipar os sentimentos contraditórios +que o desvairavam, curvou-se à janela da +carruagem, observando o panorama que se desdobrava +ao sol no esplendor das suas tintas. A manhã +resplandecia como um cristal translúcido; tôdas +as côres se aviventavam na radiação da +luz. As forfas +elegantes das árvores, que donde aonde davam +sombra e manchavam de verdura os descampados, +desenhavam-se com nitidez de linhas e de contornos +no azul claro, e a serenidade deliciosa do céu cumunicava-se +à natureza inteira. A largura infinita do espaço, +mais branco para as bandas do nascente, mais +anilado no alto, parecia decorada, vestida como para +uma festa voluptuosa e delicada. A profundidade alvacenta +e luminosa do ar que envolvia e vivificava +tôdas as coisas tinha para Frederico uma novidade +nunca surpreendida. Parecia-lhe que Júlia, despertando-lhe +a faculdade de amar, lhe despertara tambêm +a faculdade de compreender.<br /> + + +<br /> + + +Lentamente foi-se-lhe atenuando nos olhos a +imagem feminina que sem repouso acariciava. O fenómeno +fisiológico intenso que imprimira uma completa +modificação à sua +consciência em horas tam ardente +e dolorosamente vividas, dava agora um rumo +diferente aos seus pensamentos―e isto desanuviava-o +um pouco. Caía numa dessas cogitações +sem +<span class="pagenum">[119]</span> +objecto definido que constituem verdadeiros e inefáveis +desfalecimentos de espírito...<br /> + + +<br /> + + +Desejava chegar depressa ao Pôrto, reentrar +na serenidade da sua vida de solteirão, mergulhar no +tumulto citadino, entregar-se todo à +satisfação dos +seus caprichos, à sua fantasia, à multiplicidade +dos +seus prazeres, com a secreta esperança de esquecer +completamente, de depurar-se, para ser outra vez +digno do afecto de Nuno e da confiança de Júlia. +Enquanto dentro de si vivesse aquele amor criminoso, +julgava-se impuro:―e como impuro, não deveria +pensar no regresso à vivenda do amigo, que era um +templo e que a sua impureza profanaria. Foi nesta +excitação que entrou no Pôrto, num +sábado à tarde.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Começou, então, para Frederico um sombrio +período do miséria moral e de sofrimento. +Jàmais a +sua existência lhe aparecera tam solitária, tam +inútil, +tam recuada das verdades construtivas e dos sentimentos +renovadores. Um inexplicável desalento +enchia-o de desgôsto, humilhava-o. Nunca, como +nesses dias alucinantes em que, em vão, procurava +aturdir-se, afundar-se na embriaguez de tôdas as +excitações, Júlia lhe parcera tam +desejável. Um fogo +sensual muito violento ia secando nêle tôdas as +fontes +da virtude e da honestidade: e a sua ausência +infligia-lhe fulgurantes torturas. Recordava, com uma +vivacidade que lhe aumentava o padecimento, a +sua graça de mulher, as perfeições do +seu corpo, a +doçura que a sua posse lhe transmitiria. O ciúme, +que já por mais duma vez sentira por Nuno, intensificava-se. +<span class="pagenum">[120]</span>Como se na +evocação das coisas +amargas +houvesse para a sua alma um gôzo especial, Frederico +imaginava a cada momento Júlia nos braços do +marido, +fundindo-se ambos no mesmo beijo abrasador, +dando-lhe tôda a sua carne latejante, todo o sangue +das suas veias, murmurando-lhe ao ouvido tôda a +sorte de meiguices em palavras entrecortadas e ternas. +E via-a rolando a cabeça desfalecida no ombro +de Nuno, cerrando as pálpebras num delíquio, mais +côrada, com os lábios pálidos, o peito +arfando apressadamente. +Insurgia-se contra êste amor conjugal +como se êle representasse um crime, como se exprimisse +um pecado e como se fosse êle o traído... Um +acesso de impaciência e de cólera interrompia este +delírio dos seus sentidos. Reentrando novamente nos +domínios luminosos da inteligência, Frederico +exclamava:<br /> + + +<br /> + + +―Preciso de reagir contra esta doença que me +devasta, senão enlouqueço!<br /> + + +<br /> + + +Esperava que a crise lhe concedesse tréguas, e +para apressar êsse instante que seria venturoso e +afável para êle, ia aos teatros, aos concertos, +freqùentava +as reùniões das pessoas do seu conhecimento, +nunca faltava nos logares onde o mundanismo se +dá <em>rendez-vous</em>: mas, nas +salas de espectáculos, nos +salões de baile, nas +<em>soirées</em> familiares, +surpreendia-se +a aguardar a entrada súbita de Júlia, radiante no +esplendor duma beleza a que a vida campestre tivesse +insuflado mais graça e maior poder de +sedução, +sem reparar em nada do que à sua volta ocorria. +As senhoras achavam-no muito mudado e diziam-lho, +entre ironias. Não tinha a alegria antiga, a vivacidade +doutrora, era um outro Frederico sem a jovialidade +<span class="pagenum">[121]</span>que o +caracterizava e o impunha às +admirações.<br /> + + +<br /> + + +Uma noite, em casa de D. Francisca de Medeiros, +que às terças-feiras reùnia algumas +famílias íntimas, +a sua tristeza foi notada pelas damas com quem +se entregara, em outras épocas, às suavidades do +<em>flirt</em>. Uma delas, D. Felismina +Trigoso, que nutrira a +esperança de ser por êle amada em tempos findos de +que ainda conservava a lembrança doce, surpreendendo-o +a um canto a folhear uma revista ilustrada, +não se conteve.<br /> + + +<br /> + + +―Sabe?―exclamou ela―tôdas nós o estranhamos.<br /> + + +<br /> + + +―E porquê, minha senhora?―inquiriu Frederico, +fechando a revista e erguendo-se.<br /> + + +<br /> + + +―Estranhamo-lo por essa melancolia, pelo desinterêsse +de tudo o que o cérca, pelo isolamento +em que voluntáriamente se encerra.<br /> + + +<br /> + + +―É que ando a fazer um severo exame de +consciência. Fui um grande pecador, e para ganhar +a glória celeste, decidi fechar-me num convento, ser +monge, penitenciar-me―disse êle.<br /> + + +<br /> + + +―Não disfarce, não finja!<br /> + + +<br /> + + +―Mas sou sincero!<br /> + + +<br /> + + +―O que pretende é ocultar qualquer coisa―insistia +ela.<br /> + + +<br /> + + +―Ocultar o quê?<br /> + + +<br /> + + +―Que sei eu? Talvez alguma paixão infeliz, +algum desgôsto muito profundo.<br /> + + +<br /> + + +―Ah! como é errado o seu juízo! V. Ex.<sup>a</sup> +não +sabe, então, que as criaturas que se recolhem, que se +isolam, que se concentram, são precisamente as felizes?<br /> + + +<br /> + + +―As felizes? +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[122]</span> ―Certamente! Só a felicidade é +egoísta, concentrada, +e não gosta de revelar o seu gôzo interior. +O sofrimento, pelo contrário, precisa das +multidões, +das testemunhas, para dilatar-se.<br /> + + +<br /> + + +―Paradoxos...<br /> + + +<br /> + + +―Não, minha senhora. V. Ex.<sup>a</sup> +não conhece, +de-certo, Heraclito, um filósofo da antiguidade +clássica, +que, quando sofria, procurava as praças públicas, +as ruas das cidades, para chorar... Se eu fôsse +desgraçado...<br /> + + +<br /> + + +D. Felismina ria saborosamente daquela abundante +verbosidade que incitava ao humorismo pelos +efeitos do contraste.<br /> + + +<br /> + + +―Se fôsse desgraçado?...―interrogava ela.<br /> + + +<br /> + + +―Se fôsse desgraçado, rompia aqui num +chôro +de tal ordem, que a policia teria de acudir!...<br /> + + +<br /> + + +―Venham cá, venham cá!―chamou D. +Felismina―está +hoje brilhante!...<br /> + + +<br /> + + +As outras senhoras acudiram, num grande rumor +de riso e de sêdas amarrotadas: e D. Felismina, +voltando-se para a dona da casa, murmurou:<br /> + + +<br /> + + +―Tem estado a dizer-me coisas monstruosas, +não calcula!...<br /> + + +<br /> + + +―Sim?―atalhou D. Francisca, com um sorriso +afável iluminando-lhe o rosto simpático. +Então, +de que falavam?<br /> + + +<br /> + + +―De grandes verdades, minha senhora―respondeu +Frederico. Afirmava eu que as paixões +amorosas mais sérias, porque decidem de todo um +destino, são as que alvorecem nos +corações de cincoenta +anos de idade. A snr.<sup>a</sup> D. Felismina, +porêm, +é de opinião contrária e assevera que +essas paixões +só podem ser sentidas aos vinte anos... +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[123]</span> ―Não era de nada disso!―protestou D. Felismina. +É um mistificador...<br /> + + +<br /> + + +―E ainda não experimentou nenhuma, Frederico?<br /> + + +<br /> + + +―Não, D. Francisca. Encontro-me na infância. +Tenho apenas trinta e cinco anos, estou muito +longe da minha primavera!...<br /> + + +<br /> + + +O riso animou-se mais nas bôcas femininas, +que louvavam tôda aquela alegria, tôda aquela +mocidade +de espírito, e, por momentos, Frederico atraíu +as atenções; mas foi um fogo-fátuo +êsse instante de +jubiloso alvorôço, que se dessipou totalmente, +quando +D. Felismina, muito solicitada, se sentou ao piano, +tocando uma página de Mendelssohn, que ela interpretava +maravilhosamente.<br /> + + +<br /> + + +De novo isolado e absorvido nos seus pensamentos +dolorosos, folheando outra vez a revista +que o fatigava de tédio e que tinha aberta sôbre +uma +mesa de pau preto onde, em jarras de faiança antiga, +brilhantes de esmaltes e de coloridos, morriam e se +desfolhavam lentamente ramos de azáleas brancas, +Frederico observava aquele mundo fútil de exterioridades +encantadoras e recordava-se de Júlia. O ambiente +era, na verdade, elegante. O salão estava decorado +com gôsto. Um tapête de tons suaves, rosa e +verde-malva, +amortecia o som dos passos e tornava mais +confortável o compartimento; os móveis, leves e +bem +lançados, destacavam-so pela forma e pelos estofos +que os recobriam. Sôbre um fogão de +mármore, que +resplandecia de brancura na crueza da luz eléctrica, +um relógio de bronze, estilo Luis +<span class="smallcaps">xiv</span>, marcava as +horas que longos ponteiros dourados indicavam num +mostrador esmaltado em que corria, no esplendor das +<span class="pagenum">[124]</span> +tintas, uma scena idílica, evocando as telas de +António +Watteau, com pares de namorados enlaçando-se +sob as árvores. Ao fundo, um piano Bechstein com +velas ardendo em serpentinas de prata e acendendo +fulgores de chama no verniz negro da madeira, tinha +uma graça ornamental pesada e imóvel. +Sòbre a alcatifa, +encostados dum lado e doutro às paredes, que um +papel côr de ouro fosco forrava, havia enormes vasos +do Japão, com figurinhas de mulheres abrigando-se +do calor sob largas umbelas de sêda, penteados altos +seguros por pregos de feitios bizarros e cegonhas de +bico vermelho adormecendo à beira de lagos, junto +de cerejeiras em flor. +<em>Etagères</em> de ricas talhas +sustentavam +graciosamente cristais cheios duma água +que scintilava na claridade e em que esplendia a +graça duma rosa ou a beleza do ramos de violetas, +exalando-se em arôma. O que mais seduzia Frederico +era a harmonia, a disposição bem achada de cada +peça de mobiliário, contribuindo para o +equilíbrio +do conjunto, a correcção das linhas +plásticas e decorativas. +Por êste arranjo impecável, +reconstituía êle a +individualidade psicológica de D. Francisca, que se +fanava na sua viuvez de longos anos, que devia ser +inteligente, ter um sentimento acessível às +emoções +produzidas pela arte, possuir uma alma feita de tôdas +as delicadezas e de tôdas as bondades. Para ela +subiam o culto puro do seu afecto, a sua ternura de +homem. Sem saber porquê, D. Francisca fazia-o lembrar +com mais doçura de Júlia, que havia de ter, +mais tarde, uma velhice assim, encantadora, um +porte que inspirasse admiração e respeito, uns +olhos +em que vivessem milagrosamente as imagens dos +sonhos mortos... +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[125]</span> +Num gabinete ao lado, servindo de +<em>fumoir</em> e de +sala de jôgo, os homens entregavam-se com interêsse +ao seu <em>bridge</em>, enquanto esperavam +pela hora da debandada, +discutindo, em voz baixa, escândalos sentimentais +ou casos frustes de política. A atmosfera pesava, +aquecida pela luz, carregada de perfumes. E +a música de Mendelssohn ia dizendo, numa voz de +sortilégio, a aspiração das almas +pelos finos amores +idealizados, tudo o que murmura nas florestas pelos +crepúsculos religiosos, tudo o que suspira nas aragens, +tudo o que sussurra nas fontes e nas folhagens. +Conturbado, Frederico fechou a ilustração, +levantou-se, deu algumas voltas, sacudido por uma +emoção muito viva e muito forte...<br /> + + +<br /> + + +Aquela música segeria-lhe uma outra que ouvira +em casa de Nuno, por uma noite inspiradora e +silenciosa, pouco depois de chegar à aldeia e de conhecer +Júlia mais de perto. Nem um só pormenor lhe havia +esquecido, tam violenta fôra a comoção +experimentada. +A sua inteligência tinha uma extraordinária +argúcia. Relembrava o enlêvo daquela hora +reveladora; +a graça ideal do busto de Júlia, sentada ao +piano; +o banho luminoso que descia do candeeiro suspenso +no alto e batendo em cheio na sua cabeça, aureolando-a; +a ligeireza, dos seus dedos longos e brancos +pousando ágilmente sôbre as teclas de marfim; +o seu olhar animado e brilhante; o viço dos seus +lábios vermelhos e húmidos; o jardim florindo ao +luar; a massa confusa de sombra formada pelo parque, +ao longe...<br /> + + +<br /> + + +Entrou na sala do jôgo, parando durante minutos. +A conversa banal dos homems enfastiava, sufocava-o +o cheiro do fumo. Veio novamente para junto das +<span class="pagenum">[126]</span> +damas que sonhavam ainda sob a influência perturbante +e emotiva da música. D. Felismina tinha acabado +de tocar e sorria, cansada, encostando ao piano +um braço nú, emergindo da alvura das rendas, +redondo, gordo e puramente medelado. Frederico, +gentilmente, cumprimentou-a.<br /> + + +<br /> + + +―Sabe que é um nobre temperamento de artista?<br /> + + +<br /> + + +―Ora! Gentilezas...<br /> + + +<br /> + + +―Mas não, mas não! É perfeita. +Não lhe parece, +D. Francisca?<br /> + + +<br /> + + +―De-certo! Eu acho-a admirável.<br /> + + +<br /> + + +―E fica-lhe bem a modéstia―acudiu uma +outra senhora, D. Maria do Céu, espôsa dum +magistrado, +muito nutrida, entre duas filhas magras e pálidas.<br /> + + +<br /> + + +―Não é modéstia, D. Maria. +É sinceridade.<br /> + + +<br /> + + +―A música desperta em mim singulares +comoções, +fazendo aflorar tudo o que na minha organização +há de mais elevado moral e mentalmente―disse +ainda Frederico. É por isso que eu a considero +a arte superior, pelos sentimentos e pelas ideias +que inspira, quando os seus executantes lhe transmitem +uma alma. E é êste, justamente, o seu caso, minha +senhora.<br /> + + +<br /> + + +―Para que há de zombar duma +<em>dilettante</em> sem +pretenções?―exclamou D. Felismina.<br /> + + +<br /> + + +―Mas então, ninguêm me acredita, mesmo +se digo a verdade! Arranja fama de +<em>blagueur</em> e deita-te +a dormir―comentou Frederico, risonhamente.<br /> + + +<br /> + + +Demorou-se mais alguns momentos numa palestra +que o aborrecia, pelo seu ar de cortesia +convencional; e, por fim, despedindo-se, saíu, seguido +<span class="pagenum">[127]</span>pelo olhar de D. +Felismina, que outrora galanteara, +fazendo nascer na sua ternura feminina +uma fina flor de ilusão. A caminho de casa, pela +rua mergulhada numa meia obscuridade que mais +o entristecia, Frederico meditava na sua +condenação +atroz e monologava:<br /> + + +<br /> + + +―Como custa ser honesto!<br /> + + +<br /> + + +Efectivamente, a saùdade de Júlia acompanhava-o +para tôda a parte, no passeio, no teatro, nas ceias ruidosas +com amigos, nas reùniões familiares, velava-lhe +os sonos inquietos, seguia-o sem repouso, vigiava-lhe +a formação das emoções e +dos pensamentos. Não +podia separar-se dela um só minuto. Sentia-a +tirânicamente +no coração como um remorso conjuntamente aflitivo +e suave, no sangue, como um fluido que o incendiava, +nos nervos. Em vão procurava libertar-se. Para +a apagar no cérebro e na alma, torturava-se inutilmente. +Julgava-se abandonado de tôdas as +afeições, +mesmo de Nuno, que nunca mais dera sinal de si, desde +que Frederico deixara a quinta, no terror de praticar +uma vilania. Escrevera-lhe para lá uma longa carta, +narrando-lhe o repouso inolvidável das horas que +perto dêle e de Júlia passara durante duas +semanas, +pusera nas palavras mais vibração e calor, por +imaginar +que também ela leria essas linhas em que o seu +sentimento transbordava de gratidão, dissera-lhe a solitude +e a angústia dos dias que ia vivendo na cidade, +longe dum lar que lhe mostrára nítidamente a +realização +da felicidade terrestre―e nenhuma resposta +recebera. Porquê? Traíria êle, nessa +confissão ardente, +um segrêdo que ninguêm devia conhecer? Suspeitaria +Nuno dalguma coisa? Não teria a carta +chegado ao seu destino? Estas dúvidas pungiam-no. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[128]</span> +Enquanto caminhava, pelas ruas ermas que +se esgueiravam como cobras na sombra que as fileiras +irregulares de prédios projectavam nas calçadas, +Frederico +sentia um grande desalento subir e invadi-lo +todo. Como a sua existência era estéril! Nem +alegrias +morais presentes nem confiança no futuro. Evocava, +por uma especial associação de ideias e de +sentimentos, +a melancolia da sua vida desde os dias já remotos +da infância, e, por instantes, todo o passado +se iluminava aos seus olhos.<br /> + + +<br /> + + +Aos oito anos, quando as outras crianças ricas +brincavam e eram amimadas pelas mãos puras das +mães, fôra êle metido num +colégio como interno, +depois de lhe vestirem um fardamento. No internato +onde a sua meninice se enclausurara, deitava-se, +levantava-se, ia para as aulas, para as +refeições, +para a banca de estudo, para os ócios do recreio, +sempre ao toque duma sineta. A sua individualidade +passiva resumia-se em obedecer; os deveres da disciplina +vergavam-no, a êle que era então tam +tímido, +sem vontade, incapaz de rebeldias. Com que lucidez +maravilhosa se lembrava duma época para êle +desoladora! +Não lhe escapavam os mínimos detalhes. +Recordava, por exemplo, a ansiedade com que, tanto +êle como os condiscípulos, esperavam a hora da +folga, durante as lições enfadonhas que um homem +imensamente calvo e de bigodes brancos―o snr. +Justino―lhes professava. O snr. Justino tinha uma +voz que soava falso, uma face engelhada, vestia um vélho +<em>frac</em> muito coçado na gola +e nos cotovelos. Os seus +olhos, que eram vivos e pequeninos, faíscavam por +detrás dos vidros das lunetas. Nunca se irritava, +era fleugmático, pachorrento, as suas palavras arrastavam-se +<span class="pagenum">[129]</span>no +silêncio da sala―um silêncio tam +profundo +que, em junho, se ouvia o lento zumbido +das moscas descrevendo, no vôo, movimentos +giratórios +incoerentes. Os rapazes chamavam a êste pobre +professor, que era a imagem dos lutadores destroçados, +o <em>D. Ana</em>. Escondendo-se com os +livros abertos +e postos ao alto nas carteiras, curvando o busto, +deitavam a língua de fóra, faziam momices, +trejeitos +humorísticos, protestando assim contra a prisão +nas idades em que as infâncias, como as flores, +amam os grandes espaços livres, o tumulto, as indisciplinas. +Por vezes, das bancadas elevava-se um murmúrio +confuso, estalavam risos abafados, as solas das +botas raspavam, impacientemente, o soalho frio e encardido. +<em>D. Ana</em>, interrompendo a sua vagarosa +exposição, +erguia a cabeça, fitava um minuto os colegiais, +que logo emmudeciam, atemorizados, dizia, +na sua voz de falsete:<br /> + + +<br /> + + +―Então, meninos! Que é isso? Mais respeito +e mais atenção!...<br /> + + +<br /> + + +A tranqùilidade restabelecia-se imediatamente, +mas por pouco tempo. Perto de Frederico, um estudante +com raras aptidões para o desenho fazia a lápis +a caricatura do snr. Justino, com as lunetas dependuradas +tristemente do nariz que sugeria o agudo e +longo bico dum pássaro. A semelhança dos +traços +era flagrante e já com uma notável +noção do grotesco. +O caricaturista dava a sua obra humorística +a Frederico, dobrada em quatro. Êle abria-a e lia +por baixo da figura ridícula do mestre:―«Veja +e passe adiante». Frederico via e passava, sufocando +o riso na palma da mão com que comprimia a +bôca. A caricatura corria assim tôdas as bancadas +<span class="pagenum">[130]</span> +dum extremo ao outro, despertando as hilaridades +que não podiam expandir-se e que espalhavam a +inquietação, o nervosismo, a +impaciência, na aula. +Por vezes, o prefeito, que era muito severo e a quem +os rapazes denominavam de <em>Mata e +esfola</em>, surgia de +repente à porta. Na sua bochecha còrada e gorda, +tôda rapada, barbeada de fresco, como a dum padre, +espelhava-se a indignação. Lançava um +<em>schiu!</em> muito +sibilado que fazia entre os escolares o efeito duma +ameaça...<br /> + + +<br /> + + +Os rapazes odiavam-no, imputavam-lhe a responsabilidade +de todos os castigos sofridos, a supressão +da sobremesa e das liberdades do recreio, as +longas e fastidiosas páginas de escrita em que se repete +um verbo cem vezes―e prometiam vingar―se... Depois, +<em>D. Ana</em> terminava a +lição, os livros fechavam-se +de estalo, com alarido formidável, uma sineta +badalava na solidão e os colegiais saltavam as +carteiras, com o <em>bonet</em> agarrado nas +mãos, corriam para +o jardim que floria ao sol, no esplendor das formas +e das colorações, pulavam por entre os arvoredos +que +projectavam na areia branca do chão largas +máculas +de sombra oscilante.<br /> + + +<br /> + + +Era a hora melhor e mais doce para os internos +do Colégio. Formavam-se grupos, organizavam-se +jogos, a gritaria tornava-se ensurdecedora. Dum céu +muito nítido vinha uma luz muito loura que dormia +pacíficamente nas clareiras. As mimosas enchiam-se +de florações de ouro. Os adolescentes que +pertenciam a +classes mais adiantadas não se associavam aos divertimentos +dos mais novos―passeavam dois a dois, +liam versos rimados na solitude dos seus quartos, +sonhavam com possíveis glórias +literárias e tinham escondidos, <span class="pagenum">[131]</span>entre +o colchão e o enxergão das camas +de +ferro, que recordavam tarimbas de caserna, romances +de enrêdo complicado e sensacional, que devoravam +às escondidas, no refúgio dos momentos de +descanso. +Alguns, mesmo, ocultavam-se com as ramarias +das árvores, para fumarem cigarros...<br /> + + +<br /> + + +Frederico reconstituía com verdade surpreendente +todos os episódios dos seus longínquos anos +de colegial, sem deixar esquecido o menor detalhe. Relembrava +que já nessa era remota era infeliz. Nunca +pôde criar amigos entre os camaradas, que o miravam +desconfiados, que se afastavam dêle, que o +satirizavam. Uma vez, insurgindo-se contra estas +inexplicáveis antipatias, que não provocava, teve +uma +grave questão com um estudante, Pedro de Menezes, +contundindo-lhe a face com um forte murro. +Os guardas acudiram, foi repreendido severamente +pelo director do Colégio, que nem sequer escutou as +suas desculpas e privado dos folguedos do recreio +por tôda uma semana. O conflito, que o tornou temido, +mais o incompatibilizou com os condiscípulos. +Passou a ser designado pelo nome irónico de +<em>Ferrabrás</em> +e repelido amargamente pelos escolares, que o detestavam...<br /> + + +<br /> + + +Feitos os exames, vinham as férias, os descuidados +meses de liberdade por praias, termas, quintas +rurais, sem a tirania dos livros, sem os abomináveis +toques da sineta, que tinham para êle o horror +dum dobre a finados, sem as reprimendas dos +mestres, quando as lições se não +sabiam. A população +do Colégio debandava alegremente. As casas ricas +mandavam carros e automóveis para levar os seus; +os mais modestos mandavam simplesmente um criado. <span class="pagenum">[132]</span>Frederico ia, +então, para junto da mãe, +já viúva, +que andava sempre vestida de preto, rezando pelos +corredores ou ralhando, em voz baixa, com os +servos. Chamava-se D. Isabel de Noronha e havia +casado, aos trinta anos, com o capitalista Simão de +Noronha, muito mais vélho do que ela e que fôra +fulminado por uma congestão cerebral poucos meses +depois do nascimento de Frederico, único herdeiro +da sua abundante fortuna porque uma sua irmãzinha +morrera aos dois anos de idade.<br /> + + +<br /> + + +Dentro da casa, Frederico sentia-se mais só +do que no Colégio. A mamã, absorvida nos fervores +da devoção religiosa, nos ardores do seu +misticismo, +mal reparava nêle, e não ser para o admoestar +pelo barulho que fazia na vivenda, sempre de janelas +cerradas à luz exterior, como se lá dentro se +chorasse +uma desdita permanente, como se a morte a povoasse. +De manhã e à noite, ao levantar do leito e ao +deitar-se, Frederico aproximava, com indiferença, +o rosto da bôca materna e recebia um beijo frio +e rápido. No fim do almôço, do jantar e +depois do +chá, ela obrigava-o a rezar, de pé, junto da mesa +e de +mãos postas, pela glória de todos os santos +mencionados +na <em>Legenda Dourada</em>, de Voragine, que +tinha sempre +sôbre a mesinha de cabeceira, perto dum castiçal +de prata.<br /> + + +<br /> + + +De vez em quando, vinham visitas, quáse sempre +senhoras idosas tambêm severamente vestidas +de preto, com quem D. Isabel se fechava, no oratório +da casa, durante horas seguidas. Nestas ocasiões, +Frederico fruía uma liberdade mais larga. Descia +à +cozinha, palrava com as criadas que se riam muito +das suas diabruras, jogava o arco nos arruamentos +<span class="pagenum">[133]</span> +do jardim... Depois, as férias acabavam, a mamã +reforçava o enxoval, puxava-o para junto do peito +sêco em que nenhum desejo profano arfava―rosando-lhe +as carnes duma ponta de sangue mais +vivo―despedia-se dêle com o mesmo beijo frio que +lhe causava arrepios, murmurava em voz sumida:<br /> + + +<br /> + + +―Vê se tens juízo... Porta-te bem.<br /> + + +<br /> + + +Frederico regressava jovialmente ao Colégio, +de que já tinha saùdades, e ouvia os seus +condiscípulos, +com inveja e tristeza, narrarem uns aos outros +o encanto das vilegiaturas por estâncias de águas +e +estâncias marítimas, das pequenas viagens +recreativas +com a família, das reùniões e das +danças nos Casinos, +onde alguns tinham arranjado namoros.<br /> + + +<br /> + + +―E tu, <em>Ferrabrás</em>, onde +passaste o verão?―perguntavam-lhe.<br /> + + +<br /> + + +Frederico, por vergonha, para não ser humilhado, +tinha vontade de mentir, inventando digressões +maravilhosas; mas a mentira repugnava-lhe. +Calava-se, ruborizado, afastando-se dos camaradas...<br /> + + +<br /> + + +Mais tarde, concluiu os preparatórios, a mamã +morreu duma doença do coração, foi +nomeado um +tutor para administrar os seus bens, aumentados +considerávelmente pela viúva que vivia +parcimoniosamente, +que abominava o luxo como se êle representasse +ou um pecado ou um escândalo.<br /> + + +<br /> + + +Na Academia Politécnica travou conhecimento +com Nuno, que como êle tirava o curso de engenharia, +que era igualmente rico e órfão. As suas +relações +estreitaram-se mais de dia para dia, talvez por esta +coincidência que os identificava. Aproximava-os +uma singular semelhança de infortúnios, de +temperamento <span class="pagenum">[134]</span>e de +carácter e foram, durante seis anos, como +dois bons irmãos. Nunca no afecto de ambos se levantou +uma discórdia que os separasse um instante... E era +êste o tempo mais doce e mais feliz da sua +existència +de homem, pelo menos aquele de que se recordava +com maior ternura. Mas Nuno, uma vez, anunciou-lhe +o seu casamento. Estavam, então, em Vizela, +tôdas as noites se dançava no salão do +hotel, e todos os +dias se passeava no parque, se organizavam merendas +no alto das serras, gericadas, barcarolas, no rio, +ao som de guitarras românticas. Frederico assistiu +à lenta formação do amor que encheu o +coração de +Nuno, que o levou para a felicidade conjugal, para +as bemditas alegrias da paternidade, para os deveres +e para as sérias responsabilidades da vida familiar. +A princípio, tomou a inclinação do +amigo por +Júlia como um banal +<em>flirt</em>, como um capricho de que +nada restaria quando cada um fôsse para o seu lado. +Depois, vendo-o desinteressado de tudo quanto +não fôsse Júlia―que fielmente +acompanhava para +tôda a parte, com quem tôda a noite valsava ou +conversava, +em quem falava contínuamente como se +ela representasse o símbolo das suas mais belas +aspirações―sentiu +que Nuno estava bem preso e +bem apaixonado e que o desfêcho lógico daquele +namôro +seria o casamento. A partir de então, a sua vida +fez-se mais solitária e mais despegada, os seus +entusiasmos arrefeceram, perdeu tôdas as suas galvanizadoras +confianças. Nesta solitude, porêm, era +ainda relativamente feliz, até ao momento em que +Nuno teve a má ideia de aproximá-lo de +Júlia, já +mãe.<br /> + + +<br /> + + +―E aqui está―murmurou êle com infinita +<span class="pagenum">[135]</span> +desolação―o que um amor sem esperança +pode +fazer dum homem!... Que sorte!...<br /> + + +<br /> + + +No ermo da sua casa desabitada, Frederico, +no enorme silêncio que invadia os longos corredores, +as salas sombrias com um desagradável cheiro +e bafio, sentia tôda a imensidade da sua derrota. +Era um vencido. Para êle, o futuro não tinha +horizontes +luminosos, desde que uma adoração impura, +penetrando-lhe +insidiosamente na alma e incitando-o a +trair uma amizade fraternal, lhe cortara toda a possibilidade +de vir a amar com paixão e pureza uma outra +mulher que não fôsse Júlia. +Revoltava-se contra aquela +adoração, acusava-se a si próprio por +não ter +sabido manter uma absoluta impassibilidade de sentimento +diante da espôsa de Nuno. A fatalidade pesava +sôbre o seu destino, sôbre o seu +coração, que empolgava +com mão de ferro.<br /> + + +<br /> + + +―Mas serei eu o único responsavel?― monologava.<br /> + + +<br /> + + +E, na sua dor, alucinado por uma perturbação +que lhe toldava o cérebro e a noção da +equidade, +quáse que responsabilizava Júlia pela sua beleza +aliciante, +pela sua superioridade de mulher e pelas suas +admiráveis virtudes.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3>VI</h3> + + +<br /> + + +Não podendo viver tranqùilamente perto de +Júlia, +com o seu segrêdo sempre oculto, nem +longe dela, +com a angústia interior que o devorava, Frederico procurou +aturdir-se na febre duma vida em que se esquecesse, +que o consumisse lentamente e em que +corrompesse a parte pura do espírito, excitando a +sua avidez de prazer nos delírios das paixões +voluptuosas. +Queria libertar-se dum suplício que tanto lhe +atribulava a existência. A fatalidade retinha-o entre +o amor e os deveres da lealdade para com um +homem que era, mais do que o seu amigo, a única +pessoa a quem consagrava um afecto profundo. Se, +numa alucinação, obedecesse aos impulsos +desordenados +e abomináveis do instinto carnal, mancharia +a limpidez do seu sentimento afectivo: e, só de pensar +na possibilidade dum arrebatamento que o levasse +a confessar a Júlia a sua adoração +pecaminosa―que <span class="pagenum">[138]</span>ela, +de-certo, repeliria indignadamente, porque +era pura, honesta e refractária às +tentações criminosas―uma +dor muito funda agravava a sua exaltação +física e o seu desequilíbrio emocional...<br /> + + +<br /> + + +Notava, em todo o caso, que se tivesse a coragem, +a audácia e o cinismo de praticar uma +acção +vil, não seria o padecimento de Júlia que mais +vivamente +o pungiria, causando-lhe mágoa e +comiseração. +A sua piedade ia tôda para Nuno, tam leal, +tam comovido de bondade, dotado dum carácter do +melhor ouro. Na sua perturbação, imaginava, por +vezes, que todo o mal estava feito, que a +situação +criada pela sua loucura amorosa era já +irremediável:―e +concentrava-se, transido, para melhor reconstituir +a figura de Nuno, no instante em que conhecesse +o duplo ultraje à sua dignidade de marido e à +sua honra de homem, errando alucinado pela casa +erma, barafustando cheio de cóleras vingadoras, ferido +na sua alma e na sua confiança, devastado, +com a morte no coração e o calor da vergonha nas +faces, acusando-o a êle com mais fulgurante raiva +do que à espôsa, procurando-o por tôda a +parte +para lavar com sangue a afronta e a humilhação +que o tinham maculado e coberto de escárnio. +Então, +diante dêste sofrimento, Frederico, espavorido, +passava a mão trémula pelos cabelos, agitava-se +violentamente +para entrar na realidade das coisas, murmurava:<br /> + + +<br /> + + +―É horrível, horrível!...<br /> + + +<br /> + + +Readquirindo a serenidade e a lucidez, considerava +como o seu crime seria monstruoso e sem +perdão se êle não soubesse reagir +vitoriosamente +contra a fraqueza dos sentidos. Mas reagiria a todo o +<span class="pagenum">[139]</span> +transe, muito emhora a reacção o fizesse sofrer, +afirmava +Frederico a si próprio:―e parecia-lhe que a +sinceridade com que se defendia de desfalecimentos +de energia atenuava a imensidade da sua falta.<br /> + + +<br /> + + +Foi numa destas crises fulgurantes, repetidas +vezes provocadas pela desordem da sua conduta, que +Frederico decidiu fugir da inquietação e do +remorso, +mergulhando na embriaguez dos gozos que a fonte +impura dos vícios lhe oferecia como +consolação lógica +e única da sua singular doença. Ainda a +princípio +pensou que entregando-se, com delírio, à +deliqùescència +de todos os abusos, se tornaria indigno da +amizade de Nuno e do afecto de Júlia: mas, no seu +romantismo, sentia um júbilo íntimo em +degradar-se +por ela, em descer aos pântanos das misérias +morais, +erguendo sempre os olhos em èxtase para a mulher +intensamente amada através de tudo, como os +ergueria para uma claridade purificadora e divina.<br /> + + +<br /> + + +Orgulhoso e curioso dos seus actos, havia de ir +até ao fim, embora o caminho fosse errado e nêle +se +transviasse―porque era incapaz de conceber +abnegações +por si próprio.<br /> + + +<br /> + + +Perturbado e cheio de confusão por esta ideia +fixa, Frederico, que durante muitas semanas viveu +completamente isolado, começou a aparecer de repente +em tôda a parte, a freqùentar os cafés +e os Clubes. +Era novo, era rico, sabia insinuar-se, aliciar. Na +roda dos seus conhecimentos houve espanto.<br /> + + +<br /> + + +A ressurreição foi saùdada com ruidosa +alegria, +e logo alguns rapazes resolveram solenizar o acontecimento +extraordinário com uma ceia em que o +<em>champagne</em> festivamente estalasse e a +<em>verve</em> corresse +com uma scintilação dourada sob a brancura da +<span class="pagenum">[140]</span> +luz eléctrica. Alberto de Sequeira, que trazia no +dedo um grande anel brazonado e se vangloriava de +pertencer às raças finas, desejava um banquete +sério +e decente, em que os convivas fôssem de casaca, +correctos e irrepreensíveis, como para uma mesa +em que estivessem duquesas.<br /> + + +<br /> + + +―Vejam que devemos isto a Frederico e a +nós, à nossa classe social, à nobreza +das nossas estirpes―comentou +êle.<br /> + + +<br /> + + +O Paiva, toureiro amador e guitarrista, insurgiu-se, +porêm, muito desdenhoso de fidalguias e +pragmáticas, +bradando:<br /> + + +<br /> + + +―Não, senhor! Nada disso. Trata-se duma festa +pagã, para comemorar a volta à +estúrdia e à pândega +dum companheiro. Temos, portanto, de meter-lhe +paganismo:―a rabona igualitária, a ninfa de +gordos braços, lânguidos olhos e saborosos beijos. +Olha agora a casaca! Não querem ver? Palavra +de honra, é escandaloso!...<br /> + + +<br /> + + +―Sim, é claro! Devemos meter-lhe a ninfa ! +A casaca é fúnebre, e nós vamos para +uma calorosa +manifestação de regosijo!―concordou o Taveira, +filho dum capitalista enriquecido na Argentina.<br /> + + +<br /> + + +―Pois não é assim?―interrogou o Paiva.<br /> + + +<br /> + + +―Mas...―atalhou Alberto.<br /> + + +<br /> + + +―Não, filho! Não há mas nem meio mas. +Venha o belo pagode, a bela bacante agitando no ar +o seu tirso e saracoteando um <em>maxixe</em> +desbragado...<br /> + + +<br /> + + +―Muito bem!―acrescentou ainda o Paiva. A +bacante e o <em>maxixe</em>, primeiro... O +resto, é silêncio, +como Hamlet dizia a Horácio.<br /> + + +<br /> + + +Com efeito, a ceia realizou-se numa noite memorável, +depois do teatro, durou até à madrugada +<span class="pagenum"><a name="p141">[141]</a></span> +do dia seguinte e ficou marcando uma hora triste +de desvio moral na existência de Frederico. Aí +conheceu êle a mulher, a intrusa, que havia de +exercer uma influência nefasta na sua vida e no seu +sentimento. Chamava-se Branca, tinha vinte anos, +resplandecia duma beleza capitosa que o fogo dos +ósculos impuros ia queimando lentamente, era alta, +loura, notava-se-lhe no rosto uma candura, uma espécie +de <a href="#e13">virgindade</a> que certas +criaturas +femininas +nunca perdem por mais baixo que desçam nos charcos +da miséria. Foi Paiva quem lha apresentou, exclamando +irónicamente:<br /> + + +<br /> + + +―Aqui tens tu um regaço de sêda onde os +príncipes gostariam de dormir as suas séstas de +amor. +Infelizmente, pertence a um desgraçado país que +nem amar sabe e onde não há +príncipes... Tem de +contentar-se com os filhos da nossa virtuosa burguesia! +Mal empregada! Como o poeta célebre, esta +Musa da orgia chegou muito tarde a um mundo +muito vélho, caro amigo!...<br /> + + +<br /> + + +Frederico apertou-lhe a mão friamente, rindo +da apresentação.<br /> + + +<br /> + + +―Na Grécia antiga―continuou Paiva―os filósofos +da linhagem nobre e genial de Platão repousariam +e meditariam sob a luz doce dos seus olhos +com o respeito com que repousavam à sombra do Partenon. +Branca seria a inspiradora, a deusa. Até talvez +se lhe levantasse um templo, como à vaca Ísis, +no Egito!...<br /> + + +<br /> + + +―Ora! O cavalheiro está a chuchar comigo!...―exclamou +ela, amuada.<br /> + + +<br /> + + +―Agora, o que Branca desconhece, meu filho, +é a linguagem sonora e harmoniosa em que falavam <span class="pagenum">[142]</span>os Imortais... +«O cavalheiro está a chuchar +comigo!» Vê tu que +abominação. Se Péricles ouvisse +esta Xantipa, morreria com uma síncope cardíaca +ou correria a embriagar-se com o vinho das doces +colinas de Atenas. Perdoa-lhe tu, que és generoso...<br /> + + +<br /> + + +―E que não sou Péricles!―atalhou Frederico.<br /> + + +<br /> + + +A ceia correu tumultuosamente alegre, e os convivas +do «festim pagão», como havia anunciado +Paiva, beberam mais do que os deuses de Homero. +Frederico tinha ficado junto de Branca, que constantemente +o acariciava com a suavidade do seu +olhar cheio de promessas, que lhe floriu a botoeira +com uma rosa e que, durante tôda a noite, revelou uma +melancolia que mais vivo destaque imprimia à sua +graça +dorida. Alberto de Sequeira, toldado pelo alcool, +com as faces escarlates, agarrado a uma companheira +de Branca, a Eugénia, tam conhecida nas +<em>garçonnières</em> +da mocidade elegante, dava-lhe beijos e oferecia-lhe +os seus pergaminhos com a mão de marido. Ela, +rindo à gargalhada, recusava, dizia-lhe que não +tinha +vocação para espôsa.<br /> + + +<br /> + + +―Vai para um convento, vai para um convento!―intimou +Paiva, de pé, ao lado da mesa, erguendo +o braço e apontando com o dedo.<br /> + + +<br /> + + +―Sim! Talvez para um convento!―concordava +Eugénia, enroscando os braços à volta +do pescoço +de Alberto. E então?...<br /> + + +<br /> + + +A tristeza de Branca no meio da jovial estúrdia +impressionou Frederico. Perguntou-lhe:<br /> + + +<br /> + + +―Que tem?<br /> + + +<br /> + + +―Nada! Estou hoje assim!... São dias.<br /> + + +<br /> + + +―Tem «telha», é o que tem―afirmou uma +<span class="pagenum"><a name="p143">[143]</a></span> +outra, Luísa, a quem Paiva fazia ardentes +confissões, +prometendo-lhe um scetro, uma realeza.<br /> + + +<br /> + + +―Ou um scetro ou um poema. Escolhe―gaguejava +êle. E pode ser que, para a imortalidade, +te convenha mais o poema. Ainda não morreram +Beatriz, Laura, Virgínia. Ainda nem sequer +morreram aquelas loiras germânicas cantadas por +Goëthe.<br /> + + +<br /> + + +―Quem são essas damas?―inquiriu Luísa.<br /> + + +<br /> + + +―São umas senhoras das minhas +relações... +Não é verdade, Frederico?<br /> + + +<br /> + + +―Beatriz, Laura... Certamente! E damas +muito finas!―asseverou Frederico.<br /> + + +<br /> + + +Novamente se curvou para Branca, pegando-lhe +na mão, mirando-a nos olhos, interrogando:<br /> + + +<br /> + + +―E foi sempre assim triste?...<br /> + + +<br /> + + +―Para que quere saber?<br /> + + +<br /> + + +―Porque me interesso por si... Aí está!<br /> + + +<br /> + + +―Acredito eu lá nesse interêsse!<br /> + + +<br /> + + +Na mesa, onde brilhavam ainda nos cristais restos +de vinhos e licores que pareciam pedras preciosas +líquidas, desfolhavam-se as flores. O dourado fulgor +da luz batia em cheio nos linhos, fazia reluzir o vidrado +das porcelanas. Os criados entravam o saíam, +cambaleantes de sono, coçando a cabeça, com os +guardanapos sôbre o ombro. O ambiente aquecido +pesava e sufocava. Frederico subiu uma vidraça que +dava para fóra, sentido-se reanimar por uma lufada +de ar frio. Sôbre a cidade, arqueava-se um céu +<a href="#e14">picado</a> de estrêlas, que +já empalideciam no cerraceiro da +treva que devorava tôda a vida. Por um momento, +Frederico, encostado ao peitoril da janela, julgou-se +aviltado. Experimentava a sensação desgostante de +<span class="pagenum">[144]</span> +ter caído numa imundície que o sujava, que o +invadia +dum nojo profundo; e mentalmente comparava +a frescura de impressões de que um amor +oculto e malfadado fizera vibrar a sua sensibilidade, +a ventura risonha entrevista em exaltações de +imaginação, +o sôpro de alegria eterna que respirou junto +de Júlia, com aquela torpeza, em que se afundava. +A solidão da rua que, em baixo, se escoava na sombra, +a frialdade do vento, tudo o que para êle havia de +novo, de desconhecido, naquela noitada iniciadora, +excitavam-no, sacudiam-no. Fumando, olhava as +alturas celestes que, no esplendor das +constelações +scintilantes lhe sugeriam arabescos de luz, uma estranha +feeria que ardesse, rutilasse na escuridão. +Dentro, os beijos arrulhavam. Branca, levantando-se, +aproximou-se de Frederico, encostou-se-lhe ao braço, +dizendo numa voz de mimo e de fraqueza:<br /> + + +<br /> + + +―Estou tam fatigada!<br /> + + +<br /> + + +Êle voltou-se bruscamente, irritado contra +aquela interrupção importuna que vinha +quebrar-lhe +o fio das lucubrações e fazê-lo +reentrar de repente +na realidade das coisas, mas logo se conteve diante +da desdita duma mocidade e duma beleza que tôdas +as brutalidades da luxúria iam contagiando e maculando; +e, do fundo da sua bondade, ascendeu a emoção +compassiva para tanta fragilidade e tanto infortúnio. +A delicadeza de alma de Frederico tornava-o +incapaz de ser grosseiro e violento com uma mulher, +fôsse ela quem fôsse: e Branca, alêm de +débil, tinha +a graça romântica duma formosura a suavizar-lhe +o rosto, o aspecto doentio, uma meiguice que parecia +nascer da humildade dolorosa da sua vida e da +escravidão do seu corpo. Isto amoleceu a dureza de +<span class="pagenum"><a name="p145">[145]</a></span> +Frederico, apiedou-o. Pegando-lhe na mão que ela +abandonou, disse:<br /> + + +<br /> + + +―Cansada, hein?<br /> + + +<br /> + + +―Oh! Muito cansada e morta por me ver longe +dêste logar, acredite!―respondeu Branca.<br /> + + +<br /> + + +―Então, não gostou, não se divertiu?<br /> + + +<br /> + + +―Eu?!... Estou para aqui!...<br /> + + +<br /> + + +Enquanto falava, Branca olhava-o com uma expressão +em que havia ternura e sofrimento. Frederico +pensou que aquela sensibilidade numa mulher costumada +a vender-se era exagerada. Talvez ela fingisse +uma dor que não sentia para o comover, para +obter certas complacências que lhe agradavam, por +cálculo ou por outra circunstância qualquer: mas, +fixando-a mais demoradamente, pareceu-lhe surpreender +nos olhos um sorriso que tremia e nos lábios +pálidos uma súplica que não ousava +denunciar-se +claramente, com mêdo de ser repelida, e que no +seu silêncio queria dizer:<br /> + + +<br /> + + +―Leva-me contigo!... Sou uma companheira +ainda desejável para algumas horas. Porque não +experimentas? Farei tudo quanto me fôr possível +para te distrair, para ser amável!...<br /> + + +<br /> + + +Esta suposição comunicou-lhe aos nervos uma +languidez sensual: e, avançando para Branca, que se +havia afastado alguns passos e que aconchegava uma +pele de repôsa à volta do colo friorento, +exclamou:<br /> + + +<br /> + + +―Pois partamos. Eu acompanho-a...<br /> + + +<br /> + + +<a href="#e15">Nesse momento</a>, Sequeira, com o +charuto meio +queimado na bôca, dormia com os braços apertados +na cinta de Eugénia; Luísa bebia café +com Paiva, +pela mesma chávena; outros convivas da ceia jovial, +espalhados pela sala, palravam, pesados e sonolentos. +<span class="pagenum">[146]</span> +Já através das vidraças se filtrava +uma claridade +matinal indecisa e o ar era mais penetrante e vivo. +Frederico anunciou que se retirava e que levava +Branca. Foi um alarido.<br /> + + +<br /> + + +―O quê? Antes do nascer do sol?―interrogou +com estranheza o Andrade estrábico.<br /> + + +<br /> + + +―Certamente―afirmou Frederico. Não nos +encontramos num estado de alma suficientemente +puro para compreendermos e sentirmos a poesia +da aurora.<br /> + + +<br /> + + +―É uma perfídia!―gritaram muitas vozes.<br /> + + +<br /> + + +―É sono! E eu tambêm me saio e levo +Luísa!―acudiu +Paiva.<br /> + + +<br /> + + +―Mas, é o rapto das sabinas!...―exclamou o +Andrade.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! senhores, que chiste êste diabo tem!―aplaudiu +Paiva, enquanto os outros riam saborosamente.<br /> + + +<br /> + + +Frederico vestiu o casaco, despediu-se, deu o +braço a Branca, que o esperava arrepiada e frioenta.<br /> + + +<br /> + + +―Que Eros vos seja propício!―disse ainda o +Andrade, que nessa noite estava em veia.<br /> + + +<br /> + + +Frederico, que descia, já o não ouviu. Ajudou +Branca a subir para o automóvel que o tinha trazido, +acordou o <em>chauffeur</em> que dormitava, +encostado ao +volante, e partiu velozmente, envolvido na carícia +tónica da brisa matutina que o refrigerava e que rescendia +às seivas de que se impregnava, adejando por +quintais e jardins. Quando entrou em casa, com Branca, +o sol elevava-se numa explosão de ouro, e uma +leve poeira de luz errava, ardia sôbre os telhados, +incendiava as vidraçarias, que relampejavam, irradiavam +súbitos clarões... +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[147]</span> +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Às duas horas da tarde, ao despertar do seu profundo +sono, espreguiçou-se, bocejou. Prostrava-o uma +grande lassidão, desgostava-o interiormente um +tédio +como nunca havia experimentado, tinha mau +gôsto na bôca, sentia-se embrutecido. Branca dormia +a seu lado, fazendo um pequenino volume sob a roupa. +Olhou-a atentamente. Estava ainda mais pálida +do que na véspera; à volta dos seus olhos havia +um +grande círculo arroxeado, a mão que tinha +fóra da +roupa era exangue e tam magra que se lhe adivinhavam +todos os ossos. A pele da face e do colo, porêm, +era duma brancura, duma transparência que mostrava +nítidamente a rêde azulada dos vasos sanguineos; +e no seu perfil havia uma regularidade, uma +pureza, uma correcção de traços +incomparáveis. Frederico +esteve a considerá-la durante algum tempo, +com uma piedade que a narração da sua vida +atormentada +e dolorosa―que Branca lhe fizera com os +olhos rasos de lágrimas―mais aumentava. A essa piedade +mesclava-se conjuntamente um desgôsto muito +profundo e que êle não sabia explicar, uma +vergonha +íntima, uma humilhante sensação de +vèxame. Arrependia-se +já de ter compartilhado o seu leito com uma +criatura de acaso, que se alugava às noites, que nunca +tinha visto, por quem mal sentira um minuto de interêsse. +Fôra aquela a primeira vez! Resistira sempre +a trazer para casa as mulheres que na rua se ofereciam +passivamente aos seus beijos, por pudor, por +dignidade, por altivez de carácter. Que +alucinação o +afastara da honesta linha que traçara à sua +existência <span class="pagenum">[148]</span>de +homem? Que desvario lhe conturbara a lucidez +da razão, não lhe deixando ver o que no seu +procedimento +havia de sórdido, de inferior?... Outra vez +envolveu Branca num olhar vagaroso. Ela continuava +dormindo e arfando de leve no ritmo da +respiração. +Frederico novamente se enterneceu. Teria ela, +porventura, culpa de andar de mão em mão como uma +rosa a que se aspira todo o perfume e que depois se +abandona? Certamente que não. Era uma vítima do +egoísmo dos homens que lhe apeteciam, por momentos, +a beleza e a frescura da juventude e que em seguida, +enfastiados, saciados, a repeliam. Cumpria o +seu destino triste...<br /> + + +<br /> + + +A obscuridade do quarto era cortada, de quando +em quando, por claridades inesperadas que se filtravam +através das frinchas das janelas. Frederico ouvia +o ruído que vinha do exterior, do ar livre, da +rua―murmúrios +de conversas, de risos, de disputas, rolar +de carros que passavam arrastando-se nas pedras +da calçada.<br /> + + +<br /> + + +―Deve ser muito tarde...―pensou.<br /> + + +<br /> + + +Espreguiçou-se com lentidão. Tinha na +cabeça +uma desordenada multidão de ideas que não +chegavam +a clarificar-se, a definir-se límpidamente. Ia +reconstituindo a scena da noite anterior, a alegria +da ceia com mulheres―um espectáculo inteiramente +banal para êle―os ditos humorísticos e picantes +do Paiva... Acudiam-lhe à memória os mais +apagados +pormenores dessa festa de rapazes.<br /> + + +<br /> + + +―E como hei de desfazer-me desta criatura, +que tenho em casa, sem provocar curiosidades escandalosas +no bairro?―monologou de repente.<br /> + + +<br /> + + +Aí estava, na realidade, uma coisa bem dificil! <span class="pagenum">[149]</span>Morava num +sítio muito povoado e muito indiscreto, +havia mesmo, em frente à sua +habitação, uma +outra com vizinhas bisbilhoteiras que passavam os dias +por detrás dos cortinados, espreitando, investigando, +devassando. Uma delas, bem galante no esplendor dos +seus vinte e quatro anos, direita como uma estátua, +com uns olhos negros e perturbantes e uns seios +que se arredondavam sob a macieza, dos tecidos +da blusa como os das patrícias romanas sob o +<em>peplum</em>, +sorria-se com afabilidade sempre que o via +assomar à janela saùdando-a cerimoniosamente... +Durante muito tempo, Frederico contemplou-a com +encanto, como se quisesse surpreender-lhe no rosto a +revelação dum sonho de amor que, no seu +coração virginal, +se ia formando e desabrochando com a inocência +e a beleza duma flor. Depois, cansou-se e esqueceu-a... +Se ela visse Branca sair da sua vivenda, em +pleno dia, alarmaria a rua, daria, da sua varanda, +uma vasta publicidade àquela irreflectida aventura de +Frederico:―e, quando mais tarde passasse, tudo +seriam risinhos abafados e irónicos nas suas costas, +segui-lo-iam todos os olhares escarnecedores, durante +uma semana inteira a sua reputação constituiria +o tema obrigatório e fundamental da +eloqùência +da vizinhança!... Era um solteirão, era +independente, +tinha um desdêm absoluto pelos juízos e pelas +opiniões +que os outros formulassem a seu respeito:―no +entanto, a perspectiva de andar durante horas hilariantes +exposto ao ridículo público e cheio de grotesco, +vèxava-o. Precisava de ser prudente, de acautelar-se, +não por Branca, que nada perderia, mas por si. E +decidiu conservá-la em casa, até à +noite, comer, mesmo, +em sua companhia, um almôço que o Bernardo, +<span class="pagenum">[150]</span> +seu criado de confiança, iria buscar ao restaurante +que freqùentava e, assim que as sombras nocturnas +descessem, despedir-se dela com um beijo―e algumas +notas de Banco. Aborrecia-o, porêm, o facto de +ter de ficar uma tarde inteira fechado, diante duma +pobre rapariga que fôra o seu capricho dum instante +o que o não prendia nem pelas graças do +espírito, +nem pelos dons da inteligência e da cultura, nem sequer +por uma beleza que começava a fanar-se, queimada +pelo fogo da luxúria.<br /> + + +<br /> + + +―Olha que estopada eu arranjei por minhas próprias +mãos!...―murmurava, desconsolado.<br /> + + +<br /> + + +A inexprimível sensação de desalento e +de desgôsto +que o minava desde que despertou intensificava-se +na sua alma. Experimentava alguma coisa +de inconcebível; a sua vida interior acelerava-se e +fazia-o sofrer amargamente. Julgava-se com severidade:―ia +caindo de baixeza em baixeza. Até onde +chegaria?...<br /> + + +<br /> + + +A certa altura das suas divagações, lembrou-se, +subitamente, de Júlia: e esta lembrança tam pura +era +como uma acusação muda, pela torpeza moral em que +principiava a debater-se. Se ela soubesse!... Se ela +adivinhasse algum dia, por uma extraordinária +intuição +amorosa, vulgar nas mulheres de sensibilidade +mais fina e de razão mais lúcida, que Frederico a +amava e que, quando êsse amor era uma alvorada +de poesia na sua alma, longe de o elevar, de o sublimar, +de lhe inspirar as grandes bondades e as grandes +abnegações, o impelia para os braços +de criaturas que +pertencem a todos e lhe fazia apetecer os beijos voluptuosos +de bôcas femininas que osculam os homens +que lhes pagam!... Se Júlia pudesse assistir em +espírito <span class="pagenum">[151]</span>ao +espectáculo do seu coração +devastado diante da +imagem luminosa dela e duma cortesã, que tôdas as +noites dormia em leitos sempre diferentes! Absolvê-lo-ia +dessa miséria? Não se sentiria ela salpicada +tambêm +pela lama em que Frederico se atolava?... Mas +Júlia viveria na perpétua ignorância +dos sentimentos +impuros que acordavam no seu organismo doente +e, mesmo que viesse a conhecer tantos desvarios, +não se consideraria traída porque não +queria dêle +mais do que uma estima fraternal... Por entre a névoa +das emoções opostas que o faziam vibrar, +Frederico +raciocinava ainda com certa clareza. A crise por +que estava passando sugeria-lhe palavras que um +dia tinha lido em Taine. Compreendia naquele momento +que a vida humana―a do corpo ou a da +alma―era infinita e de uma imensa multiplicidade: +mas que apenas certas das suas porções, certos +dos +seus instantes, mereciam subsistir, como expressões +conscientes superiores. Êsses instantes, essas +porções, +a que aludia o filósofo excelso, eram marcados pelas +atitudes morais que nobilitam o ser pensante. Fóra +disso, nenhuma grandeza existia!...<br /> + + +<br /> + + +Levantou-se vagarosamente, para não despertar +Branca no seu sono. Ha quanto tempo―pensava +Frederico―ela não teria uma hora tam sossegada, +tam calma como aquela! Nem sempre encontraria +amantes condescendentes como êle!... Uma caridade +igual e tranqùila iluminava o quarto. Sôbre +uma cadeira, amontoado e amachucado, estava o vestido +da pobre flor de todos, tendo por cima o espartilho +de setim côr de rosa que êle lhe havia ajudado a +despir, na pressa violenta de aspirar o perfume de +amor que a sua carne exalava. Sôbre uma outra cadeira, <span class="pagenum">[152]</span>pousava uma pele de raposa +preta do Japão e +um chapéu de palha de Itália dum tom de ouro +fôsco +picado pelo colorido suave de dois ramos de lilases. +Deu alguns passos, com os pés nus, no tapête de +Bruxelas, +que espalhava uma nota de confôrto e de elegância +no compartimento; e, hesitante, voltou-se ainda +para olhar Branca. Sôbre a alvura do travesseiro, +destacava docemente a mancha fulva duns cabelos +louros desmanchados, emmoldurando um rosto sereno +e branco, de linhas muito finas. Uma colcha de sêda +escarlate bordada a matiz desenhava nítidamente as +formas correctas do gentil corpo adormecido. Como +Branca era linda e digna de piedade! E o que a vida, +com as suas impurezas e as suas terríveis +degradações, +fizera duma alma outrora virginal que poderia +ter sido a graça divina dum lar, uma adorável +espôsa, +uma admirável mãe capaz de todos os +sacrifícios e de +tôdas as exaltações da ternura!...<br /> + + +<br /> + + +Passou ao quarto de banho, que ficava próximo, +mergulhou ávidamente na canôa de ferro esmaltado +que Bernardo enchera, duma água fria que o +tonificou, enxugou-se a um lençol felpudo e +começou +a vestir-se lentamente. Mais desanuviado, com a pele +cheirando ao perfume do sabão com que se lavara, +Frederico contemplou novamente Branca e observou +que uma série de sensações +antagónicas se sucediam +umas às outras na sua emotividade. A verdade +apresentou-se diante dos seus olhos. Afinal, +Branca não era mais do que uma criatura trivial +que se entregava a todos os que a desejassem. O seu +ventre estéril era conhecido de muitos olhos +lúbricos; +a sua bôca havia sido esmagada por milhares de +bôcas +masculinas, em beijos bestiais. Odiosas imagens fisicas <span class="pagenum"><a name="p153">[153]</a></span><a href="#e16">intermináveis</a> +desfilavam diante dêle. Que +interêsse +poderia aquela mulher, profanada e ultrajada, +despertar-lhe? Como se arrependia de a ter trazido +para a sua habitação, para o seu leito! O +contacto +com ela manchara-o. E manchara igualmente a +limpidez do seu sonho, do seu ideal, deformara a +resplandecência +duma beleza vislumbrada que nunca +atingiria, de que não queria mesmo aproximar-se, +mas que, a-pesar disso, mesmo de longe o iluminava +e lhe causava orgulho! Esperava agora ansiosamente +a hora em que lhe fôsse possivel desembaraçar-se +de +Branca, para se dar com prazer à +recordação de Júlia. +Parecia-lhe que essa recordação o purificaria, +como uma água lustral...<br /> + + +<br /> + + +A um movimento mais brusco de Frederico, +devorado por impaciências que o agitavam, Branca +acordou, abriu os olhos inchados de sono, sorriu-se +para êle, com um sorriso em que havia gratidão, +lassitude, +contentamento.<br /> + + +<br /> + + +―Já a pé?... É curioso. E eu que +não o senti +levantar!...―murmurou ela, quebrada por uma fadiga +feliz.<br /> + + +<br /> + + +―Pudera! Se dormias profundamente!...―respondeu +Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Quantas horas são?<br /> + + +<br /> + + +―Duas e meia!...<br /> + + +<br /> + + +―Ih! meu Deus!... Que preguiçosa!―exclamou, +sentando-se no leito.<br /> + + +<br /> + + +As longas tranças do cabelo envolveram-na tôda +até à cintura. Através da +ténue nuvem de ouro +que formavam, alvejavam brancuras da camisa de +bretanha fina, de rendas vaporosas. O bafo morno +que se emanava dos lançóis amolecia-a. Tinha as +faces +<span class="pagenum">[154]</span> +còradas pela circulação mais +apressada do sangue, +e os seus olhos azúis iam-se enchendo duma luz que +mais os azulava, quáse os espiritualizava. Frederico +aproximou-se da beira do leito, acariciou-a levemente, +passando-lhe os dedos pela face. Admirava-lhe +a formosura, qualquer coisa de virgíneo, de inocente +que ainda existia nela. Uma comoção estranha +perturbava-o. Ah! Aquela linda rapariga―uma +primavera em flor―erguendo-se do seu leito +que sempre fôra casto, que nunca agasalhara corpos +alheios, comunícava-lhe a impressão singular +dum noivado:―e esta ideia subtilizava-o, tinha +para o seu sentimento uma venturosa novidade, +fazia-o esquecer de que Branca era a noiva de +quem a queria.<br /> + + +<br /> + + +―Ainda nem sequer me deu um beijo!―queixava-se +ela, prendendo as mãos nas mãos de Frederico... +Bons +dias!<br /> + + +<br /> + + +Êle beijou-a, sorrindo tristemente, e notou a +delicadeza de Branca, que não ousara tratá-lo por +tu. Abraçando-o, suspirava.<br /> + + +<br /> + + +―Estás triste?―inquiriu Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Estou. E, no entanto, nunca nenhum outro +homem me tratou com tanta bondade...<br /> + + +<br /> + + +―Então, como se explica essa tristeza?<br /> + + +<br /> + + +Branca, repelindo-o brandamente, quis levantar-se.<br /> + + +<br /> + + +―Responde!...<br /> + + +<br /> + + +―Eu não sei responder... Queria ficar sempre +aqui, perto do senhor... É talvez por isto, por ter +de ir-me embora... Naturalmente, nunca mais nos +tornaremos a encontrar...<br /> + + +<br /> + + +―Porque não? +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p155">[155]</a></span> ―Eu sei lá!... É sempre assim. Os amantes +duma noite nunca mais se encontram...<br /> + + +<br /> + + +―Mas, eu não sou como os outros―afirmou <a href="#e17">Frederico</a>, +fixando-a demoradamente.<br /> + + +<br /> + + +―Ora! Tantas vezes tenho ouvido isso!...<br /> + + +<br /> + + +Nas palavras de Branca havia uma frieza misturada +de desalento que fazia mal a Frederico. Enquanto +ela se penteava, sorrindo-lhe sempre―num +sorriso cansado e automático―êle considerava-a +mudamente, sendo invadido, de repente, por uma +aversão instintiva, por uma repugnância +inexplicável. +E sob a influência de impressões opostas, +observava +a incoerência das suas sensações que +umas vezes +lhe tornavam apetecida aquela beleza que ia morrendo +como uma rosa cortada e outras o forçavam a uma +grande violência sôbre si próprio, para +a +não repelir +brutalmente, aos empurrões, causar-lhe sofrimento, +obrigá-la a chorar. De que razão +psicológica oculta derivaria +tudo o que nos seus sentimentos havia de ilógico, +de inconseqùente? Com mêdo de soffrer mais, +Frederico nem sequer ousava interrogar-se, procurando +definir a laboração tumultuária da sua +vida íntima.<br /> + + +<br /> + + +Branca, acabando de vestir-se, sentou-se, extenuada, +numa cadeira. Frederico, acendendo um charuto, +passeava no quarto, a largos passos, enquanto +ela o seguia com o olhar inquieto. Esperava... O quê? +Naturalmente que êle a mandasse embora, pagando-lhe +o amor duma noite. Na sua atitude, na expressão +do rosto macerado, em que punham fundas manchas +escuras as olheiras de bistre, havia resignação e +melancolia. Frederico parou junto dela, encarando-a.<br /> + + +<br /> + + +―Estás pronta, hein?...―perguntou. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p156">[156]</a></span> ―Estou pronta―repetiu Branca.<br /> + + +<br /> + + +―Queres ir-te embora?... Mas, é que não pode +ser já! Tens de demorar-te até à +noite...<br /> + + +<br /> + + +―Não tenho que fazer...<br /> + + +<br /> + + +―Ainda bem! Almoças comigo, se isso te não +desgosta. Irás depois...<br /> + + +<br /> + + +Um clarão de alegria, que Frederico surpreendeu, +faíscou nos olhos de Branca. Suspirou, fundamente, +murmurou como se falasse para a sua consciência:<br /> + + +<br /> + + +―Tenho sido tam desgraçada!...<br /> + + +<br /> + + +Este grito sincero duma alma que espontâneamente +se confessava chocou Frederico, que se sentou +junto dela, tomando-lhe a mão que Branca abandonou +o que êle efusivamente apertou entre as suas, +pensando nas criaturas que incessantemente corriam +atrás da ilusão duma felicidade sem nunca a +alcançarem. +Tambêm êle era desgraçado! +Tambêm êle +aspirava a uma irrealizável ventura que só um +amor +impossível poderia oferecer-lhe. Um destino malfadado +irmanava-os na tristeza e no infortúnio:―e, +talvez por isso, a sua piedade transbordou.<br /> + + +<br /> + + +―Branca, queres ser a minha amante?―exclamou +de repente, aturdido.<br /> + + +<br /> + + +―Quero!―acudiu ela prontamente e tôda +alvoraçada.<br /> + + +<br /> + + +―Medita!... Se aceitas, serás só para mim... Na +tua <a href="#e18">situação</a>, +isto não é +fácil. Mas, eu é que não +me conformarei com partilhas. Ouve bem!... Não +terei rivais.<br /> + + +<br /> + + +―Aceito―afirmou ela, novamente, com firmeza +na voz.<br /> + + +<br /> + + +E, como Frederico a envolvesse num olhar +<span class="pagenum"><a name="p157">[157]</a></span> +perscrutador, que se demorava a investigá-la, Branca, +levantando-se, foi para êle, abraçou-o +esteitamente, +dizendo:<br /> + + +<br /> + + +―Oh! meu filho, como eu te agradeço esta +hora de paz e de consolação que me vem da tua +oferta... Olha para mim... Assim, não!... Nos +olhos... Isso mesmo! Agora, repara... Juro-te que +serei só tua e que te não traírei, +enquanto tu me +quiseres!...<br /> + + +<br /> + + +Enternecido, Frederico <a href="#e19">beijou-a</a> +longamente, como +se o seu beijo fôsse o princípio duma doce e +jubilosa +festa amorosa que principiava. Almoçaram e, +durante a refeição, Branca, que a intimidade que +se ia estabelecendo, tornava audaz, contou-lhe os +seus infortúnios e as suas amarguras, còrando +muitas +vezes por ter de ferir o secreto pudor da sua alma. +A sua história era inteiramente igual à +história de +tôdas as mulheres perdidas. Uma paixão absorvente +e cega em que se confia e a que tudo se sacrifica, a +queda, o abandôno, a miséria final duma +existência +passando de mão em mão, enquanto vicejam a +florescência +e a beleza da mocidade. Ouvindo-a, Frederico +compadecia-se, prometia-lhe daí para o futuro +uma vida serena e uma emoção pura que a +aurorizasse.<br /> + + +<br /> + + +―Não me enganes!―suplicava Branca. Se +depois de tudo isso hás de deixar-me, então, o +melhor +é separarmo-nos de vez...<br /> + + +<br /> + + +―Não crês na minha sinceridade?... Não +tens fé em mim?―interrogava Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―As desilusões teem sido tantas!...―respondia +ela, duvidosa.<br /> + + +<br /> + + +E baixando os olhos, na voz humilde e baixa +<span class="pagenum"><a name="p158">[158]</a></span> +de quem revela uma vida de vergonhas, foi dizendo +tudo o que deixara pelo mundo fóra:<br /> + + +<br /> + + +―Em minha casa, quando eu de lá saí, havia +criancinhas pequeninas, que eram minhas irmãs e +que eram puras. Nunca mais as tornei a ver...<br /> + + +<br /> + + +Ao baixar da noite, desdobrou-se sôbre a cidade +um denso lençol de sombra. Branca saíu contente, +com a esperança de que Frederico se encontraria com +ela, volvido pouco tempo, para a continuação dum +capricho +sentimental que ainda lhe parecia absurdo, +tanto a havia surpreendido a resolução inesperada +do +seu amante dalgumas horas; e êle, ficando só no +imenso casarão de treva e de silêncio, +experimentou +uma sensação de tédio mais fundo. +Tôda a vida lhe +parecia deserta, especialmente a vida emotiva; e, +recolhendo-se, a si mesmo perguntava se valeria a +pena vivê-la, sem encontrar nas almas e no mundo +exterior alegrias puras e interêsses morais. Sentado +numa cadeira de braços, junto duma mesa de pau +preto sustentando jarras com flores que Bernardo +tôdas as manhãs <a href="#e20">substituía</a>, +ia sofrendo o seu permanente +suplicio. Verificava que, em certos momentos, +ideias claras, fáceis, luminosas, o obrigavam a +obedecer-lhes alegremente, e que, em outras, essas +ideias eram sombrias, indecisas, indecifráveis, e o +assustavam. Encontrava-se, precisamente, num dêstes +últimos instantes em que as +inquietações interiores o +consumiam, como as brasas se consomem no fogo +intenso. Justos céus! Como o seu desamparo era +grande! E cada vez a solidão mais pesava à sua +volta e mais insuportável lhe tornava a carga que +trazia sôbre os ombros. Naquela vivenda em que +nascera, erravam os espectros do pai, que não chegara +<span class="pagenum"><a name="p159">[159]</a></span> +a conhecer, o da mãe, que morreu na sua infância, +o duma irmã, Maria das Dores, que era afilhada de +Nossa Senhora, com quem brincara na meninice e +que tambêm se sumira nos negros boqueirões da +morte. Da sua casta, que se extinguia, era êle o +derradeiro representante directo: e entrava no outono +da existência sem ter a coragem e a +abnegação +de criar uma família. Porque não procuraria uma +doce mulher que fôsse capaz de fazer um luar de +ventura à sua roda, de oferecer-lhe o peito para +êle +repousar a cabeça nas horas de angústia, em vez +de +levar para o leito criaturas que <a href="#e21">transformam</a> +o +divino +sentimento do amor numa mercadoria e numa +torpeza? Ah! como Nuno lhe era superior! Êsse +sim! Havia seguido, na sua marcha para os tempos +vindouros, o caminho da verdade e da beleza, de que +êle se afastara―de que se afastava ainda mais, de +dia para dia!...<br /> + + +<br /> + + +Com a imaginação perdida na melancolia destas +evocações aflitivas, via novamente a imagem de +Júlia +erguer-se, radiante de luz, ante os seus olhos: e, +então, lembrava-se com infinita saudade do lar +inefável +e calmo de Nuno, da felicidade perene que o envolvia, +radiosa como uma nuvem dourada. Enquanto +êle para ali estava curtindo o seu padecimento, desgarrado +de tudo quanto fôsse humano, fecundo, produtivo, +sob o ponto de vista psíquico e material, Nuno, +no seu escritório, e depois de um dia fértil em +trabalho +útil, em inteligência, repousaria lendo um livro, +perto +de Júlia, que a claridade aureolava e que pousaria de +momento a momento a agulha da costura para colhêr +um beijo na bôca nobre e risonha do marido. E não +haveria acidez, cólera, impurezas, nos +corações dum e +<span class="pagenum">[160]</span> +doutro, unidos pelo mesmo afecto, nutrindo-se de idênticas +aspirações, enlevando-se numa +confiança ilimitada... +Ou talvez que Júlia, ao piano, no sossêgo +nocturno, +tocasse uma bela página em que vozes enigmáticas +narrassem, numa linguagem de som e de harmonia, +a ascensão dos espíritos subtis para a +purificação +e para a graça. Dentro do seu berço, o filho +de Nuno, ainda pequenino, dormiria inocentemente, +lindo como um botão de rosa, e tôda a casa +adormeceria +tambêm ao embalo suave da música. Isto sim! +Era viver! Mas êle, que com tanta ansiedade buscava +a ternura, não passava dum esquecido do destino, +dum foragido...<br /> + + +<br /> + + +Fóra, na rua, começavam a acender-se os +candeeiros +de iluminação pública. A chama do +gás, torcendo-se +à ventania, projectava sôbre as +vidraças sombras +oscilantes e fantasmagóricas. O ruído afrouxava. +Bernardo, entrando de súbito na sala, perguntou:<br /> + + +<br /> + + +―Para que horas quere V. Ex.<sup>a</sup> o jantar?<br /> + + +<br /> + + +―Eu não janto hoje, criatura―afirmou Frederico, +erguendo-se e dirigindo-se ao criado.<br /> + + +<br /> + + +―Santo nome de Maria! Não janta?<br /> + + +<br /> + + +―Ou por outra, janto fóra. Arranjem-se lá +vocês, tu e a Rosalina.<br /> + + +<br /> + + +―Então, está bem!―disse Bernardo, retirando-se, +sem estranhar já as excentricidades do amo, +desde que nessa manhã o vira almoçar com uma +mulher da vida airada, em sua própria casa.<br /> + + +<br /> + + +Que fatalidade o perseguia!―pensava Frederico, +reatando novamente o fio das suas meditações. +A ambição duma família estava agora +para +sempre comprometida, porque êle não poderia +ligar-se +a uma mulher que não amasse, que havia de ser-lhe +<span class="pagenum">[161]</span> +odiosa, sempre que se lembrasse de Júlia, sua +única +e infeliz paixão... Nesse instante, Frederico via-a +bem real, duma personalidade bem determinada, +diante de si. A sua beleza era perigosa. Nos seus olhos +existia um ardor secreto que denunciava a amorosa. +Parecia-lhe que ela tinha uma dessas expressões +pensativas que nunca se definem com nitidez e que +tanto seduzem, porque denunciam almas de indizíveis +delicadezas. Frederico sentia-a em si, consagrava-lhe +a adoração perseverante, o culto absoluto, o +amor que se bastava a si próprio e que duraria, +veemente, vivaz, enquanto êle tambêm durasse. A +esta certeza, revoltava-se mais uma vez. Com efeito, +que maus fados o tinham levado para casa de Nuno! +E que fraqueza lamentável a sua, apaixonando-se pela +espôsa do seu melhor amigo, sem que reagisse violentamente +contra o amolecimento da vontade, o desfalecimento +do coração!<br /> + + +<br /> + + +Júlia insinuara-se―sem querer, porque era honesta―na +sua admiração, no seu desejo, na sua carne, +em todo o seu ser de homem: e, sendo tam pura e +tam santificada de bondade, envenenara-o para sempre, +fizera dêle alguma coisa de vil e de abjecto que entrava +num santuário familiar não para purificar-se ao +contacto das grandes virtudes, mas para trair. Porque +já traía Nuno, não por actos +irreparáveis, mas pelo +sentimento!...<br /> + + +<br /> + + +Sôb a influência mórbida dêste +raciocínio, exasperou-se. +Sufocava. Os olhos dardejavam-lhe um brilho +especial. Sentia a necessidade de aturdir-se, de +bestializar-se, de apagar tôda a claridade da +consciência. +Outra vez evocou Branca. Iria para ela, embora +se afundasse; havia de procurar nos ásperos +delírios +<span class="pagenum">[162]</span> +da sensualidade ou nas alucinações do alcool o +sossêgo +indispensável que lhe fugira, com o desespêro +com que Alfredo de Musset procurava nos copos de +absinto o reflexo verde dos olhos da Quimera! O +que êle pretendia era esquecer Júlia, por todo o +preço―mesmo à custa da sua dignidade...<br /> + + +<br /> + + +Como as noites fôssem já frias, vestiu um +sobretudo, +pôs o chapéu, pegou nas luvas e na bengala +e saíu, mergulhando no movimento exterior, +que o acalmava. Ao chegar à porta da rua, viu, na +casa fronteira, as vizinhas que, por detrás dos vidros +da janela, o espiavam. Irritado, não as cumprimentou, +seguindo em passos nervosos pela calçada. +Tinha feito uma promessa a Branca. Ia cumpri-la, +com o coração tranzido e com a certeza de que se +dirigia para o mal e para uma nova dor...<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3> +VII</h3> + + +<br /> + + +Certa manhã, ao entrar em casa depois de tôda +uma noite passada com Branca―já instalada numa +luxuosa e recolhida vivenda que Frederico para ela escolhera +numa rua solitária da Foz e onde reùnira tudo +quanto pudesse oferecer bem estar ao seu egoísmo e +encanto aos seus olhos saudosos de beleza +artística―encontrou +uma longa carta de Nuno que o correio +trouxera e que Bernardo solicitamente pousara sôbre +a larga mesa do seu gabinete de trabalho, num +sítio bem visível. Durante muito tempo +conservou-a, +hesitante, nas mãos, sem ter a coragem de rasgar o +envelope. Mirava-a, remirava-a, voltava-a entre os +dedos nervosos, estudava a letra miúda e firme do amigo, +como se quisesse perscrutar nas particularidades +exteriores o oculto sentido do que ela dizia, das +revelações +gratas ou dolorosas que iria fazer à sua +inquietação +de espírito cada vez mais violenta e que os +<span class="pagenum">[164]</span> +delírios da sensualidade carnal não apaziguavam, +ao +seu sofrimento moral de dia para dia mais veemente, +roendo-o com a lentidão com que um acido corrosivo +rói certos metais. Era a primeira vez que Nuno +lhe escrevia, desde que Frederico deixara a quinta +rural, afastando-se duma atmosfera mórbida que fazia +mal aos seus nervos, que lhe desgastava a energia, +que lhe amolecia a vontade, fugindo à permanente +adoração de Júlia―uma +adoração criminosa +que inutilmente se esforçava por abafar dentro do +coração e que subtilmente crescia sempre, +invadindo-o +todo, cegando-o, alucinando-o, vivaz como uma +planta daninha que se quere destruir e que constantemente +surge, com teimosia, à superficie da terra. +Que iria Nuno dizer-lhe? Inconscientemente, na +ignorância do seu amor impuro, o amigo trabalhava +contra si próprio, avivando coisas que Frederico pretendia, +em vão, esquecer para que mais de-pressa +curasse os seus nervos doentes, a sua alma enfêrma!...<br /> + + +<br /> + + +Passeando agitadamente, com a carta apertada +na mão trémula, Frederico notava que, por uma +singularidade inexplicável, tôda a gente, mesmo as +pessoas que mais estimava, conspiravam, contra a +sua paz, contra a sua ventura. Nuno, por exemplo, +havia de falar-lhe da sua felicidade conjugal, +da ternura de Júlia, da sua perfeição +como mulher +e como espôsa, o que o atormentaria, agravaria +excepcionalmente +o padecimento que trazia consigo. Os +beijos de Branca, a graça, a formosura esplêndida +do seu corpo nú vibrando dos desejos voluptuosos +que êle acendia, só lhe avivavam na +imaginação ardente +o fogo da paixão alucinante pela outra, por +Júlia―uma complexa paixão em que havia +conjuntamente <span class="pagenum">[165]</span>delicadezas, +mimos, aspirações, purezas +quáse +místicas e as impulsividades grosseiras duma +luxúria +que maculava as emotividades mais castas. Vivia, +por isso mesmo, numa perpétua ansiedade, sobressaltado +de temores contínuos diante dos insignificantes +factos que pudessem recordar-lhe a mulher +que a todo o transe deveria olvidar para seu sossêgo, +por imposições da sua dignidade ainda +não totalmente +amolecida. Estava reduzido à necessidade +de procurar a calmaria interior, aturdindo-se nas orgias +sensuais com Branca, nas noitadas com os conhecidos +pelos teatros e pelas mesas dos restaurantes, +em que bebia até perder a lucidez da consciência, +ou +a fugir ao seu semelhante, acolhendo-se ao isolamento +da sua fria casa de solteirão, onde não +encontrava +nada daquilo que o sentimento imperiosamente +lhe reclamava e onde, frente a frente, o encarava o +seu pior inimigo, que era êle próprio. Estas rudes +emoções, +de que lhe era impossível emancipar-se, iam-lhe +aviltando o carácter, extenuavam-no físicamente. +A +fôrça, a resistência, a +saúde, escapavam-se-lhe do +corpo como a tranqùilidade se lhe havia escapado da +alma. Durante horas seguidas, nada mais sentia do +que o pêso esmagador do infortúnio que teimava em +acabrunhá-lo; e, se tentava reagir era para se crivar +de sarcasmos, de ironias cruéis e fulgurantes, +súbitamente +avassalado pelo prazer secreto de destruir-se, +de se afundar mais nas torpezas que dilaceram e matam, +de acabar, com um golpe feroz e rápido, aquela +contínua tortura de todas as horas, fermentando nas +impurezas emocionais, de que era feito o seu abjecto +sêr de homem. Em Frederico, exauriam-se as fontes +psíquicas de que brotam as seivas criadoras que engrandecem <span class="pagenum">[166]</span>e nobilitam as criaturas. +O seu aniquilamento +tinha começado: mas, por cobardia moral ou +por orgulho, evitava tudo quanto pudesse sobressaltá-lo +neste vagaroso trabalho de desagregação, e lhe +perturbasse a alegria feroz com que assistia à sua +devastação +desordenada...<br /> + + +<br /> + + +Ao cabo de demoradas cogitações, aproximou-se +duma janela e olhou para fóra. A manhã corria +serenamente, +iluminada por um fulvo sol de inverno +que caía do alto sôbre a cidade como o +pólen duma +imensa flor de ouro. Na rua, curvada sôbre a carga do +seu gigo cheio de hortaliças frescas, passava uma mulher +lançando nos ares um pregão vibrante, com a saia +rôta embrulhando-se-lhe nas pernas. Bernardo entrou +de repente, perguntando a Frederico se tinha visto a +carta que o homem do correio trouxera.<br /> + + +<br /> + + +―Vi. Tenho-a aqui. Vou lê-la―respondeu.<br /> + + +<br /> + + +E, quando o criado saíu, fechando a porta, +Frederico, vencendo, por uma decisão súbita, +tôdas as +irresoluções que o alanceavam, rasgou com +desespêro +o envelope, desdobrou a larga fôlha de papel ennegrecida +de tinta e encetou a leitura. Logo às primeiras +palavras se lhe desenrugou a face que envelhecia e +se abaixou a curva das suas sobrancelhas contraídas. +Nuno narrava-lhe a labuta constante a que se entregava +na quinta, sob as soalheiras de verão, que lhe +tisnavam a pele, sob as chuvadas de outono, que lhe +enrigeciam a fibra, comunicando-lhe mais elasticidade. +As obras da vasta propriedade, alugada ao caseiro, +estavam quáse terminadas. Instalara o vélho +Mateus e a família num +«palácio», só para que +perto dêle não houvesse o espectáculo +dissolvente +da miséria humana; rompêra mais minas que, de +<span class="pagenum">[167]</span> +muito longe, da encosta dos montes próximos, traziam +em levadas uma água muito clara e cantante que, +pelos estios calcinadores, regariam as terras, levando +o alento e o vigor às culturas benéficas: +transformara +tudo. Entusiasmado, confiava-lhe os seus projectos +futuros. Andava com ideia de se fazer lavrador, de +abandonar para sempre a cidade, que só visitaria de +fugida, para tomar um banho de civilização, +regressando +logo à simplicidade do campo, à placidez +rústica. +Se esta vontade vitalizadora, que o galvanizava, +não viesse a esfriar, teria, mais tarde, em +estábulos +bem cuidados, manadas de vacas que lhe dariam o +bom leite, o queijo, a manteiga. Exploraria a indústria, +tam atrasada entre nós, dos lacticínios, +concorrendo +para a riqueza do país com uma parte da sua +fértil actividade...<br /> + + +<br /> + + +Frederico interrompeu a leitura da carta, para +murmurar humorísticamente, como se conversasse +com o amigo:<br /> + + +<br /> + + +―E nas horas vagas, como Vergílio, podes fazer +versos, escrever as +<em>Geórgicas</em> ou as +<em>Bucólicas</em>!...<br /> + + +<br /> + + +Sorrindo com a sua observação, reencetou a +longa epístola de Nuno que ia desenrolando outras +empresas que lhe pareciam fabulosas, esquecido completamente +de que Júlia lêra aquelas linhas que lhe +eram dirigidas, que os seus olhos pensativos haviam +pousado em cada palavra, que ela fôra mesmo composta +a seu lado, num daqueles demorados e pacíficos +serões que constituiam um dos maiores encantos +da vida familiar do amigo. Nuno falava agora, sempre +com o mesmo júbilo, em granjas, espigueiros, eirados, +tulhas e celeiros para os cereais que colheria, adegas +para o vinho, apetrechos de lavoura. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[168]</span> +«Quero―dizia êle―trabalhar para aumentar +assim a fortuna do meu filho―que está um +figurão, +um grande senhor de olhos espantados e cara +rabujenta, que se ri de tudo com uma alegria a que +as misérias da existência ainda não +comunicaram o +seu veneno e a sua dôr―de outros filhos que venham, +porque me não satisfaço com ter +únicamente +por descendente e representante um sêr pequenino e +frágil que a menor doença pode arrebatar ao meu +afecto. Júlia é da minha +opinião...»<br /> + + +<br /> + + +Esta última frase transtornou Frederico como +um insulto à pureza do seu amor, como uma +maldição +que tornasse estéril o seu sentimento. Parecia-lhe +que Nuno o ofendia e o escarnecia, confiando-lhe +a esperança que alimentava de Júlia lhe dar mais +filhos―filhos que seriam seus, gerados no calor genesíaco +dum beijo profundo em que duas bôcas, que +se queriam, se transformavam numa só bôca, em que +dois corpos, latejantes e convulsionados pela febre +da fecundidade, se fundiam num só corpo! Uma +cólera +absurda subiu do seu coração por essa mulher +que se lhe apoderara da alma e que ao marido entregava +tudo e ao amante ignorado nada oferecia que o +tranqùilizasse. Para Nuno, para a sua +satisfação, para +a sua vaidade, para a sua felicidade completa, a vida +jorraria ininterruptamente do flanco de Júlia, o seu +ventre geraria os sêres quáse divinos pela +graça e +pela +inocência―sêres admiráveis em que +ambos, +através +do tempo, se prolongassem, se perpetuassem. +Para êle, que tanto a amava, e que, por isso tanto +sofria, não havia mais do que uma amizade certamente +sincera, mas que não bastava à sua ansiedade +dolorida e que repelia com amargura! Irritado por êstes +<span class="pagenum">[169]</span> +raciocínios, Frederico nada mais via em Júlia do +que o facto brutal que derivava da sua ligação +legítima, +com Nuno―facto que manchava a purificação +do amor impossível que lhe consagrava, sem +que ela sequer o soubesse. Considerava que o seu +drama passional se transmudava em comédia. Sentia-se +ridículo e exagerava o que na sua +situação havia de +grotesco, para conseguir desdenhá-la, já que a +não podia +olvidar. Estava, certamente, fóra da equidade, da +razão, +da justiça, mas achava que a sua revolta era natural... +Por fim, reagindo sôbre si próprio, reentrou +na realidade das coisas, monologando, revoltado:<br /> + + +<br /> + + +―Já não haverá então +limites para a minha miséria?<br /> + + +<br /> + + +Com que direito, efectivamente, se insurgia êle +contra a ternura de Nuno pela espôsa? E com que direito +tambêm a reclamava para si, como se ela lhe pertencesse, +sem se lembrar do que devia à sua dignidade, +á sua afeição fraternal, ao respeito +por um lar sagrado +onde entrara como um amigo e donde saíra enxovalhado, +ennodoado por um sentimento criminoso que +fôra impotente para sufocar, à +nascença, no coração? +Estaria por tal forma perdido para a vida moral sadia, +honesta, elevada, que não compreendesse a vileza +suprema da acção que praticava? Mas a sua +libertinagem―a +libertinagem em que esperava consumir-se, +matar a sensibilidade, endurecer, embrutecer―era +recente...<br /> + + +<br /> + + +Arrependido, pedindo íntimamente perdão a +Nuno da sua loucura, pegou novamente na carta +que tinha pousado sôbre o peitoril da janela, continuando +a lê-la. O amigo anunciava-lhe que o inverno +havia chegado, com as suas intermináveis +<span class="pagenum"><a name="p170">[170]</a></span> +noites de treva, os seus cinzentos dias de vento e de +chuva. As árvores do parque já não +tinham fôlhas, a +paìsagem dos arredores da quinta parecia morta ou +embebida num sonho inerte em que as vidas futuras +germinavam, preparando-se para ascender à luz. +Nuno e Júlia levavam agora uma existência mais +recolhida e monótona, porque não podiam sair de +casa. A água, descendo em torrentes das serras, alagava +a planície, transformava caminhos, córregos, +azinhagas, <a href="#e22">barrocais</a>, em rios +lamacentos, +tornava intransitáveis +aquelas estreitas veredas, entre densos +silvados, que pelas primaveras românticas floriam e +se perfumavam com o aroma das madre-silvas e das +roseiras bravas e onde, nas manhãs de verão, +amadureciam +as negras amoras silvestres...<br /> + + +<br /> + + +«Mas―concluia Nuno―eu tenho os meus livros, +que leio e releio para colhêr alguma humilde parcela +da verdade e da beleza que através dos séculos +os cérebros e as sensibilidades mais finas nunca deixaram +de perscrutar; Júlia tem o seu piano, o seu +Beethoven, o seu Liszt, o seu Schubert, o seu Debussy; +e ambos temos ainda, para prender a esta casa solitária +um encanto sempre novo, o nosso amor e o nosso +filho. E estamos com uma infinita curiosidade de passar +aqui todo o inverno, assistindo à +ressurreição +primaveril, à aleluia das fôlhas e das +florações... E +tu? Se te aborreceres por aí, com os teus teatros, os +teus romances de coração, mais +efémeros do que as +rosas de Malherbe, os teus conhecimentos, os teus tédios, +faz as malas e vem. Serás recebido com a afabilidade +e a alegria que, no vasto mundo, apenas +nesta cabana amiga encontrarás...»<br /> + + +<br /> + + +As últimas linhas da carta enterneceram-no. +<span class="pagenum"><a name="p171">[171]</a></span> +Bom, admirável Nuno! Como a sua afectuosidade +perene se recordava dêle e de tam longe o chamava!...<br /> + + +<br /> + + +Havia ainda um <em>post-scriptum</em>. +Frederico, alvoroçado, +leu:<br /> + + +<br /> + + +―«Júlia, que está aqui ao meu lado, +depois +de ter adormecido ao colo o nosso morgado, recomenda-se, +manda-te muitas saùdades e pede-te que +te lembres de nós. Anda a estudar, com interêsse, +uma sonata de Beethoven, que será para ti e que, +na tua volta à quinta, hás de ouvir...» +<br /> + + +<br /> + + +Por um momento, estas palavras tam naturais +e tam simples, conturbaram-no, excitaram-lhe a +imaginação. +Júlia pedia-lhe para se lembrar dela, estudava +pra êle uma das mais belas sonatas de <a href="#e23">Beethoven</a>, +talvez inspirada ao maior poeta de música por +uma profunda, transfiguradora paixão, tinha consigo +delicadezas do que apenas são <a href="#e24">capazes</a> +as almas que +amam em silêncio. Quem sabe se essa doce mulher +fôra tocada pelo fluido invisível do amor que o +abrasava, +se tambêm o amaria em segrêdo, escondendo +êsse sentimento, ao mesmo tempo pecaminoso e divino, +bem no fundo do coração, para que nem Nuno +nem mesmo êle sequer o pressentissem? Quem poderia +adivinhar, decifrar o drama oculto naquela alma +tam requintadamente feminina?... Depois dalguns +minutos de reflexão, porêm, o seu desvairado +scismar +pareceu-lhe vão e sem sombras de realidade. Com efeito, +se Júlia lhe consagrasse um afecto que, por sua +essência, +tivesse de esconder cautelosamente, não pediria +a Nuno para acrescentar à carta que acabava de +receber um <em>post-scriptum</em> em que se +denunciaria. O +amor obrigado a esconder-se é sempre assustado, +supersticioso, <span class="pagenum">[172]</span>teme +mesmo os actos mais inocentes com +mêdo de revelar-se a olhos perspicazes. Não! Que +ideia +a sua! Júlia era, para êle, apenas uma +bôa, sincera +amiga, e nada mais do que isso. E esta virtude nobilitava-a +para Frederico!...<br /> + + +<br /> + + +Sôbre a sua alma passou, nesse momento, uma +nuvem da tristeza que, por um instante, o deixara +para de novo voltar a deprimi-lo; no seu espírito +manifestaram-se +alternativamente as crises contraditórias, +a desilusão que o pungia pela secura e as +aspirações +indefinidas que sossegavam a intervalos o +seu mal estranho. Amarrotou nervosamente nas mãos +a carta de Nuno, atirando-a para cima da mesa, e, +concentrado e sombrio, recomeçou o seu passeio. +Voltar à quinta, ser uma testemunha da felicidade de +Júlia e do marido, tam estreitamente unidos por um +amor que incessantemente refloria, que ao fim de +dois anos mantinha a mesma febre, a mesma ansiedade, +o mesmo calor, a mesma infinita, inextinguível +adoração? Não tinha coragem para isso, +porque +não podia conservar-se impassível, ao menos, +diante +do espectáculo duma ventura que ardentemente +desejava para si e de que, conjuntamente, fugia como +fugiria dum pavoroso crime. O amor de Júlia e de +Nuno era sagrado pela sua pureza; no entanto, tomava-o, +no seu egoísmo, como um insulto, como um +sarcasmo de fogo que o queimava, como um escárnio +ao seu infortúnio. Não! Nunca mais! +Não queria +presenciar a florescência maravilhosa e suave duma +ternura que tam ardentemente apetecia para si e +que um outro, legitímamente, fruía. A sua pessoa +não era necessária em casa do amigo para que +êle +fôsse feliz: e Frederico, êsse carecia de estar +longe +<span class="pagenum">[173]</span> +de ambos para ser menos desgraçado... O que existia +de paradoxal no seu caso singular! Sabia que +Júlia e Nuno o estimavam fraternamente; que, +se a sua alegria de viver, a sua placidez interior, +dêles dependessem, seria absolutamente ditoso; +que não tinha, no tumulto vertiginoso da +existência, +mais seguros e nobres afectos; e, no entanto, era +justamente de Nuno e de Júlia que para si vinha a +maior dor, a mais intensa amargura!...<br /> + + +<br /> + + +E o que tambêm havia de bizarro, de +incompreensível, +de insensato, no seu sentimento! Amando +Júlia alucinadamente, querendo-a acima de tôdas as +coisas, não odiava agora Nuno, que a possuía. +Pelo +contrário, a sua afeição crescia cada +vez mais por +êsse belo rapaz que a uma dignidade inquebrantável +aliava os brilhantes dons de carácter, de +inteligência, +de grandeza moral. Tudo aquilo lhe parecia +confuso, baralhado, incoerente, fóra da realidade +humana, obedecendo talvez a leis psicológicas ainda +ignoradas...<br /> + + +<br /> + + +Cansado de se debater sem tréguas na mesma +agitação árida, nas mesmas +angústias e nas mesmas +perplexidades, chegava a desejar que uma catástrofe +se abatesse de repente sôbre êle e o aniquilasse +ou esclarecesse uma situação que não +podia +sofrer por mais tempo. Tudo o que viesse imprevistamente, +luminoso ou sombrio, irremediável ou ditoso, +suave ou amargo, seria preferível àquela tortura +lenta +em que o seu ser de homem se dissolvia aflitivamente. +A casa parecia-lhe deserta como nunca e duma solitude +apenas comparável ao ermo do seu +coração. +O silêncio constrangia-o. Queria o ruído, as +conversas, +a animação, o riso à sua roda; +desejava tudo o +<span class="pagenum">[174]</span> +que o aturdisse, que desviasse o rumo das suas +cogitações, +que o insensibilizasse por instantes. Tirou o relógio +do bôlso, viu as horas. Era ainda muito cedo +para o almôço. Daria uma volta pela cidade, +iluminada +por um sol pálido de inverno que ardia num céu +claro como se fôsse feito de cristal, almoçaria +mesmo +em qualquer restaurante onde houvesse gente, barulho, +tinir de louças e de metais, onde entrassem homens +apressados e respirando fortemente, ocupados +por uma actividade que os movimentasse, por um interêsse +que os impelisse para a frente, sem repouso. +Nesse logar, estaria melhor do que à sua mesa, +diante dum fresco ramo de flores orvalhadas, de +porcelanas, de esmaltes brilhantes, de pratas scintilando +à luz, de toalhas de linho muito branco, +tendo por companhia única o respeitoso Bernardo +que o servia com a solenidade de quem celebrasse +um rito e que respondia por monossílabos às suas +perguntas... Pôs de novo o chapéu, pegou nas luvas +e na bengala, dobrou a carta de Nuno, que +guardou na gaveta, e chamou o criado para dizer-lhe +que não almoçava.<br /> + + +<br /> + + +―Mas, o almôço está quáse +pronto!―informou +Bernardo.<br /> + + +<br /> + + +―Pois, come-o tu e que te saiba bem!...―atalhou, +risonho.<br /> + + +<br /> + + +Bernardo considerava-o com espanto, envolvia-o +num olhar de surprêsa; e quando Frederico +saíu, descendo as escadas com rapidez, murmurou:<br /> + + +<br /> + + +―Umas vezes não almoça, outras não +janta, +deu agora em ficar fóra de casa, como um vadio, +êle que era tam regular na sua vida... Está +estragado... Enfim, +eu nada tenho com isso. Sou servo, <span class="pagenum">[175]</span>êle +é patrão, tem dinheiro, tem +saúde... Adeus, +minhas encomendas...<br /> + + +<br /> + + +Frederico, a quem a carícia do frio ar circulante +refrigerava e desoprimia, encaminhou-se para a +Praça da Liberdade, cortando ao acaso através de +ruas +ruidosas de multidão, coloridas, cheias de pitoresco, +exibindo uma fisionomia característica. Nos bairros +pobres, secava roupa atada em cordas por varandas +e trapeiras. Ranchos de crianças sujas e rôtas +erravam +nas calçadas, brincando. Criadas de servir regressavam +dos mercados e dos talhos com grandes cabazes +de vêrga enfiados no braço. As lojas estavam +apinhadas de compradores que, aos balcões, regateavam +com os caixeiros. Desfilavam soldados, aos +pares e de mãos dadas, com o +<em>bonet</em> de vivos vermelhos +sôbre a orelha e um ar obtuso nas frontes +assimétricas +e inexpressivas.<br /> + + +<br /> + + +Perto de mercado do Anjo, duas peixeiras, +de roupas descompostas e de gigas à cabeça, +jogavam +o braço furiosamente e insultavam-se nos termos +mais duros e obscenos, entre um enorme ajuntamento +de populares que riam, de bôca escancarada +e de face contraída e vincada de rugas. A tôrre +dos Clerigos subia na diafaneidade do espaço, projectando +uma esguia mancha de sombra no ambiente +luminoso e sereno.<br /> + + +<br /> + + +Era a um sábado, véspera de festa. Para os lados +do Bomfim, sôbre os telhados em que o sol caía +a prumo, estralejavam foguetes que subiam, rechinando, +no ar e que ao explodirem deixavam pequenas +nuvens dum fumo branco e denso pairando na limpidez +da atmosfera, como novelos de algodão que se +esfiassem ao vento, sob o céu azul e fino. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[176]</span> +Frederico marchava apressadamente, absorvido +em emoções e cuidados íntimos, sem +reparar na scenográfia +exterior. A vida envolvente com as suas +variadas formas, os seus coloridos, violentos ou ternos, +a sua particular expressão, passava-lhe inteiramente +despercebida, tam fundo era o recolhimento +do seu espírito no drama sentimental de que não +conseguia separar a personalidade psíquica. Sempre +aquela obcessão a persegui-lo, sempre a venenosa +flor dum venenoso desejo por Júlia―pela sua carne, +pela sua beleza física, pela sua candura, pela +sua graça fresca e luminosa―renascendo dentro +de si, perturbando-o, embriagando-o como um +perfume deletério! A luta―uma luta contínua +de tôdas as horas, de todos os dias―extenuava-o. +Já não podia, no desfalecimento de vontade que o +esmagava, conduzir-se com firmeza pela própria +razão +ou pela parte incorruptivel e intacta do seu sentimento:―era +conduzido pelo instinto sensual, sem +dispôr de energia para uma reacção +alacre e vitoriosa +que o emancipasse da tortura intensa, que lhe +restituisse à natureza espiritual o divino encanto +perdido e a pacificação deleitosa. Nuno, +ignorando a +sua agonia secreta, chamava-o de longe, colaborando +assim no monstruoso crime que pretendia evitar, concitando-o +a uma traição que Frederico, no seu +delírio, +julgava já consumada porque lhe ardia na alma o +lume dum amor impuro pela espôsa do amigo de tôda +a vida, do camarada de estudos, do irmão com quem +fizera, em plena concórdia, metade da jornada da +existência. +Era terrível! A fatalidade abatia-se inexoravelmente +sôbre êle, encarniçava-se contra o seu +infortúnio, +exacerbava-lhe a dor. Frederico notava, com +<span class="pagenum">[177]</span> +subtileza, a pequenez, a impotência do homem―mesmo +quando ele fôr culto e dipuser +duma sensibilidade―para +dominar-se, para conter-se em face do +mal, sempre que nesse mal houver a satisfação +áspera +dum gôzo, dum interêsse moral ou material. +Nestes momentos, que incessantemente se repetem, o +que no organismo humano, tam imperfeito, se impõe +é a revolta da animalidade grosseira, apagando-se +no ser consciente tudo quanto nêle há de +superior!...<br /> + + +<br /> + + +Mas, Frederico tentava ainda lutar contra essa +animalidade, vencer a sua impetuosa paixão, conservar-se +num estado de alma que o tornasse digno da +afeição fraterna de Nuno, sem que tivesse de +còrar de +remorsos ou de vergonha, quando diante de Júlia +êle +lhe chamasse amigo e o apontasse como um exemplo +de lealdade. Como não tinha confiança em si +mesmo, +como suspeitasse de que junto da mulher adorada em +silêncio não pudesse esconder um amor que +não devia +revelar-se para poupar sofrimentos e afrontas, como +temia que um instante de fraqueza e de desvairamento +o levassem a cometer desatinos que não teriam +remédio, caminhando aceleradamente nas ruas, cada +vez se aferrava mais à ideia de não voltar a casa +de +Nuno e de esquivar-se a um encontro com Júlia. +Longe dela, o perigo seria menor.<br /> + + +<br /> + + +Pensando assim, enquanto à sua roda a multidão +indiferente ria e palestrava, circulando activamente, +Frederico chegou à Praça da Liberdade e entrou +numa tabacaria a comprar charutos. À saída, +encontrou-se +face a face com alguêm que avançava para +êle, de mão estendida, que o saùdava +com uma +exclamação jovial.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! Frederico, oh! ladrão!... Que feliz +<span class="pagenum">[178]</span> +casualidade!... Há quanto tempo eu andava por estas +acidentadas e sujas ruas portuenses à procura +duma figura conhecida e sem a encontrar!...<br /> + + +<br /> + + +―Oh! Duarte!... Duarte de Alarcão e Ataíde, +dos Ataídes do Alentejo! Como diabo vieste tu +parar mais uma vez a esta nobre cidade de tráfico e +de negócios?<br /> + + +<br /> + + +―Coisas estupendas, quimeras... Cheguei de +Lisboa hoje, no correio da manhã e aqui me encontro.<br /> + + +<br /> + + +Apertaram efusivamente as mãos, contemplaram-se +por alguns momentos com simpatia.<br /> + + +<br /> + + +―Estás mais forte e mais moreno, digno Alarcão +e Ataíde!<br /> + + +<br /> + + +―E tu mais corcovado e triste, D. Frederico!<br /> + + +<br /> + + +―Que queres, amigo?―atalhou Frederico, +desalentado. <em>Ça ne marche +pas!</em>...<br /> + + +<br /> + + +Duarte havia sido seu condiscípulo, no segundo +ano da Academia Politécnica, onde não concluira +o curso de engenharia por ter armazenado já, segundo +confessava, a quantidade do sciência suficiente +para viver saborosamente a vida, com a abundante +pecúnia herdada. Era, então, ruidosamente +alegre, brilhante de vivacidade, tocava na guitarra, +que gemia entre os seus dedos, o fado do Conde de +Vimioso, com que acordava os corações namorados +das trapeiras em noites de luar e de serenata e que, +no seu entender, constituia a página de música +mais +nacional e poderosamente expressiva que Portugal +havia criado, desde que entrara nos horizontes maravilhosos +da civilização.<br /> + + +<br /> + + +―Verdadeiramente―asseverava êle, fazendo +a <em>blague</em>―a nossa Pátria +possue duas coisas grandes <span class="pagenum">[179]</span>e +de génio:―a descoberta do caminho +marítimo +para as Índias, que definiu os nossos compatriotas +como marinheiros e perseguidores de aventuras, +e o fado do Conde de Vimioso, que os definiu em +tudo quanto nêles existe de elegíaco, de +lírico, de +subjectivo. Estamos diante de duas epopeias, meninos!...<br /> + + +<br /> + + +Aquele admirável Duarte! Caía do céu, +providencialmente, +no meio das tristezas de Frederico, +das suas derrotas, dos seus desconsôlos, para os dourar +com uma réstea de alegria transitória como o sol +doura uma paìsagem, depois da chuva.<br /> + + +<br /> + + +―Tens estado sempre em Lisboa, desde que +abandonaste o Pôrto?<br /> + + +<br /> + + +-Não, criatura! De vez em quando, sempre +que o país me satura de enfado, e, com as suas eternas +farças, o seu entremez permanente, me comunica +um fastio de Tibério exausto, faço as malas, +viajo, desbestializo-me, tomando um banho de elegância, +de lucidez mental, por essas bemditas nacionalidades +cultas da Europa. E tu? Que fazes? Que +tens feito?<br /> + + +<br /> + + +―Nunca saí de Portugal, Duarte! Vou murchando, +por patriotismo, no nosso torrão natal, +como uma couve tronchuda. Sou assim patriota...<br /> + + +<br /> + + +―E selvagem!... Tambèm razoávelmente +selvagem.... E +agora, para onde te dirigias, a passos +largos, encurtando o caminho da sepultura, como +afirma o <em>Eclesisastes</em>?...<br /> + + +<br /> + + +―Deambulava por aí fóra, à procura +dum +sítio onde almoçasse sem escândalo. +Porque não vens +comigo, Alarcão e Ataíde? Faríamos um +pequenino +ágape, celebrando êste acontecimento festivo! +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[180]</span> ―Pois, aceito!... Que diabo, estou com debilidade, +com fome. E nem sequer me lembrava!...<br /> + + +<br /> + + +Atravessaram, lentamente, a Praça da Liberdade, +em direcção à rua de Sá da +Bandeira, parando +a cada instante para relembrarem episódios passados, +incidentes humorísticos da mocidade há muito +olvidados. Os carros eléctricos corriam velozmente +sôbre os <em>rails</em>, num +incessante retinir de campaínhas +de alarme, os automóveis fugiam no fio do vento, entre +nuvens de fumarada, atroando os caminhantes +com as suas <em>sirènes</em>; das +tílias altas que, nos dias +ardentes de verão, espalham sôbre a +calçada +nódoas +rôxas de sombras afagadoras, desciam as derradeiras +fôlhas. Duarte, enfiando o braço no de Frederico, +evocava scenas hilariantes dos anos extintos.<br /> + + +<br /> + + +―Tu ainda te lembras do Martinho, homem +terrível da Beira e da batota, que numa noite de +azar, vendeu a alma ao Diabo por dez tostões?<br /> + + +<br /> + + +―Perfeitamente!... Foi para a África. Nunca +mais se soube dêle.<br /> + + +<br /> + + +―Por sinal que o Diabo, cansado de comprar +almas inúteis para os seus fins de regenerar o mundo +pelo espectáculo da tortura, não aceitou a oferta +em condições excepcionais de preço, e +Martinho, +despeitado, pregou-lhe a maior descompostura que êle tem +apanhado, desde Santo Agostinho!<br /> + + +<br /> + + +Riram com satisfação, na beleza gloriosa da +manhã +que os remoçava.<br /> + + +<br /> + + +―Pobre camarada!―continuou Duarte. Ao dr. +Fausto, o Diabo deu ainda, com a juventude, a virgindade +e a beleza de Margarida. Ao nosso companheiro, +não deu nem dinheiro para cigarros. Era por isso que +êle dizia, com rancor, que Satanás, depois que +Goëthe +<span class="pagenum"><a name="p181">[181]</a></span> +o descobriu oculto na consciência, tinha perdido todo +o prestígio... E que é feito de Nuno, +êsse encantador +conviva das ceias de S. Mamede de Infesta, com bacalhau +e guitarras?<br /> + + +<br /> + + +―Está casado... E já tem um filho.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! O sórdido burguês!... E talvez feliz, hein?<br /> + + +<br /> + + +―Enormemente feliz.<br /> + + +<br /> + + +―O animal!... Tu, solteiro.<br /> + + +<br /> + + +―Sim, homem! Solteiro...<br /> + + +<br /> + + +―Como eu!... Como os heróis de Tyrso de Molina, +sempre à caça de rôlas assustadas. +Fazes bem. É +assim, justamente, que procedem os homens decentes.<br /> + + +<br /> + + +Tinham chegado à esquina do Café Portuense. +Duarte estacou, exclamando:<br /> + + +<br /> + + +―No meu tempo, havia aqui uma fonte e um tanque. +Uma noite, o Andrade, <a href="#e25">o de medicina</a>, +quis +afogar-se +nesse tanque, porque acabava de saber que a costureira +que amava o traíra com um oficial de barbeiro. +Suicidava-se não por orgulho ofendido, mas por +estética. +Tive um trabalhão para evitar que êle se +molhasse... +O que foi feito de tôda essa água?<br /> + + +<br /> + + +―Secou, desapareceu.<br /> + + +<br /> + + +―Como a fé nas almas!... Oh! os tempos modernos +são iconoclastas.<br /> + + +<br /> + + +Frederico, afagado por todo êste riso que se irisava +de jovialidade como uma espuma ténue e branca se +irisa à luz, sentia-se desoprimido das suas +inquietações +anteriores, e abençoava aquele encontro inesperado, +que o distraía, que lhe tornava mais leve e desanuviada +a vida. Por momentos, tudo lhe esquecia, tudo adormecia +na sua memoria e no seu sentimento:―a carta +de Nuno, o amor de Júlia, a luxúria em qu +Frederico, afagado por todo êste riso que se irisava +de jovialidade como uma espuma ténue e branca se +irisa à luz, sentia-se desoprimido das suas +inquietações +anteriores, e abençoava aquele encontro inesperado, +que o distraía, que lhe tornava mais leve e desanuviada +a vida. Por momentos, tudo lhe esquecia, tudo adormecia +na sua memoria e no seu sentimento:―a carta +de Nuno, o amor de Júlia, a luxúria em que se +afundava +com Branca. Do fundo do seu coração subia o +reconhecimento <span class="pagenum">[182]</span>para +aquele bom Duarte em quem a jovialidade +era perene e espontânea...<br /> + + +<br /> + + +Em frente do teatro Sá da Bandeira, ainda se detiveram. +Frederico, riscando gestos no ar com a ponta +do dedo enluvado, dizia:<br /> + + +<br /> + + +―Na parede dêste edificio já havia aquele mesmo +buraco, quando eu era estudante. Caíram tronos +depois disso, morreram dois Papas, houve três guerras +fulgurantes, o Império Celeste mudou as suas +instituìções +políticas, nasceram-me na cabeça os primeiros +cabelos +brancos e o buraco lá está. Só +êle não evolucionou +porque é um documento histórico e representa o +amor, o carinho, com que o Pôrto defende a sua fisionomia +secular.<br /> + + +<br /> + + +―Não zombes, Duarte―atalhou Frederico. Essa +tendência conservadora do Pôrto é uma +das suas +primaciais virtudes.<br /> + + +<br /> + + +―Mas, não zombo! Primeiro que tudo, o amor à +tradição. Só êle engrandece +os povos, no sábio e verídico +dizer de Fustel de Coulanges...<br /> + + +<br /> + + +Foram andando vagarosamente, meteram pelas +ruas próximas, dando uma volta, porque Duarte tinha +curiosidade em ver certos logares que lhe evocavam +os dias distantes da mocidade, que lhe relembravam +certos factos, determinados acontecimentos. A +cada instante, chamando a atenção de Frederico, +lhe +fazia revelações, dizendo:<br /> + + +<br /> + + +―Tive antigamente por aqui um namôro. Ela chamava-se +Faustina e eu considerava-me o seu Marco +Aurélio... Bons tempos!<br /> + + +<br /> + + +Mas Duarte, nas suas vagas observações, ia +verificando +que a cidade envelhecia, que a idade a deformava, +lhe comia a côr e o viço, como se +fôsse um +<span class="pagenum">[183]</span> +rosto feminino em que a beleza da juventude fôsse +morrendo.<br /> + + +<br /> + + +―Tudo envelhece, afinal―murmurava tristemente―o +corpo humano e as próprias pedras inertes +que fendem, ennegrecem, se cobrem de musgos parasitários. +Que formidável poder de destruição, o +da +morte! Nada é eterno!...<br /> + + +<br /> + + +Voltaram, novamente, à Praça, entrando por fim +num restaurante. Duarte, enquanto Frederico, depois +de tirar as luvas e o sobretudo, escolhia na lista os +pratos, coçando a ponta do queixo numa grande, +embaraçosa +irresolução, lamentava-se por não ter +encontrado +mais nenhum dos seus condiscípulos ou dos seus +conhecidos doutrora. A vida era uma infatigável dispersadora +de almas. Mesmo num país tam pequeno +como Portugal, os que uma vez se separam, geralmente +não tornam, a falar, a não ser por acaso.<br /> + + +<br /> + + +―Homem, aí tens a lista. Vê se preferes algum +cozinhado―exclamou +Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Não quero ver a lista! Escolhe tu, Brillat-Savarin. +Mas, mete no festim alguma iguaria bem portuguesa, +bem portuense, por causa da côr local, sempre +necessária +a românticos como eu sou, como tu eras...<br /> + + +<br /> + + +Ao passo que esperavam, esfregando os garfos e as +facas nos guardanapos, diante dos copos vazios e das +porcelanas que reluziam sôbre a toalha da mesa, +continuaram +a conversa.<br /> + + +<br /> + + +―Ora, tu pelo Pôrto, Duarte!... Que bela surprêsa! +<br /> + + +<br /> + + +―É verdade. Por aqui me trazem, durante algumas +horas, os meus pecados...<br /> + + +<br /> + + +―Aventuras amorosas, aposto...<br /> + + +<br /> + + +―Efectivamente, trata-se duma mulher que amo +<span class="pagenum">[184]</span> +e que me quere. O marido teve a triste lembrança de +vir ao Norte, nesta ocasião em que Lisboa está +tam bonita, +o trouxe-a com ele, para amenizar a jornada.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! devasso!...<br /> + + +<br /> + + +―Que remédio! O coração humano +é assim... E +nada de lições de moral, porque não me +convertes.<br /> + + +<br /> + + +Lições de moral! E com que autoridade?―meditava +Frederico. Tambêm êle amava profundamente a +espôsa do seu maior amigo, pensando nela constantemente +como se Júlia fôsse o centro de tôdas as +suas +recordações, da sua própria +existência. Quem tinha ensinado +a essa mulher o caminho do seu coração? Por +êsse amor sofria, por êle se via condenado a viver +num +permanente sonho doloroso, na agitação +contínua das +lutas indomáveis e estéreis, oscilando entre o +desejo, +a noção do dever a cumprir, a agonia e o +desespêro.<br /> + + +<br /> + + +―Não tens dêstes saborosos casos na tua +história +lírica, Frederico?―atalhou Duarte.<br /> + + +<br /> + + +―Eu?... Que ideia!―respondeu êle, perturbado.<br /> + + +<br /> + + +O criado surgiu, de repente, com uma travessa de +peixe frito na palma da mão. Serviram-se, encetaram +o almoço vagarosamente. Tentando desviar o fio duma +conversa que lhe desagradava, avivando-lhe sentimentos +amargos, Frederico, suspendendo o garfo e voltando-se +para Duarte, inquiriu:<br /> + + +<br /> + + +―Tens viajado muito, não é assim?<br /> + + +<br /> + + +―Bastante. Sou mesmo uma espécie de Judeu Errante +muito razoável para uma nação do +tamanho da +nossa. De resto, as viagens são os melhores mestres. +Só +elas nos ensinam essa fina sciência de sociabilidade +tam útil na nossa época. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[185]</span> ―Sabes que estou resolvido a viajar tambêm? +Vieste despertar-me o apetite.<br /> + + +<br /> + + +―Ainda bem que te forneci uma ideia excelente.<br /> + + +<br /> + + +A cada momento entravam na sala homens com +as golas dos <em>pardessus</em> erguidas +até às orelhas roxas +de frio, que respiravam com fôrça, tossiam, se +punham à vontade, abancando pelas mesas e comendo +com sofreguidão, por entre o ruído +monótono das conversas +e o barulho dos talheres e da louça, entrechocando-se. +Êste tumulto irritava Frederico, já desgostoso +com a promiscuidade. Curvado sôbre o mármore +côr de rosa do mostrador, um empregado pachorrento, +gordo, vermelho, com uma calvície enorme e +a cara tôda rapada à navalha de barba, que lhe +deixara +na face uma sombra azulada, olhava maquinalmente +a rua, através dos vidros das portas.<br /> + + +<br /> + + +―Só viajando, a gente se instrue―afirmava +Duarte, devorando o seu <em>beef</em> com +ovos... Diabo, +êste vinho é uma peste...<br /> + + +<br /> + + +Ouvindo o amigo, Frederico ia pensando, a sério, +num longo passeio pela Europa, numa viagem de esquecimento +e de purificação em que sarasse o seu +coração +enfêrmo e acalmasse a sua imaginação +exaltada. +As grandes capitais, com os seus vibrantes espectáculos +desconhecidos, as suas multidões, as suas sumptuosidades, +as suas ardentes, imperiosas solicitações +a pouco e pouco lhe comunicariam a tranqùilidade espiritual +que tanto desejava. Porque não? Veria outros +povos, outros costumes, outras civilizações, +misturar-se-ia, +contente, à onda duma vida complicada que faria +por analisar e compreender na sua essência e na sua +expressão; encontraria, por alguns meses, uma +ocupação +que lhe enchesse a alma, o distraísse, lhe serenasse +<span class="pagenum">[186]</span> +a febre que o queimava. No isolamento em que se confinara, +o seu amor por Júlia, longe de dissipar-se, havia +de precisar-se mais, de difinir-se, de fortificar-se, por +influxo da paixão que o devastava e que o esgotava de +tôdas as fôrças vitais, sem deixar-lhe +sequer o cuidado +pelas banalidades práticas... Talvez que noutros +países, +noutras cidades, longe de Nuno, longe da sua +adoração, +esta violência sentimental que o pungia diminuisse, +pela multiplicidade de diversões e de interêsse +em que se absorvesse...<br /> + + +<br /> + + +Tinham chegado à sobremesa, e Duarte, estranhando +o silêncio de Frederico, perguntou:<br /> + + +<br /> + + +―Em que profundos problemas cogitas tu, criatura?<br /> + + +<br /> + + +―No problema de atulhar o estômago. A minha +animalidade assim o reclama.<br /> + + +<br /> + + +―Estás na verdade cartesiana. Comes, logo existes...<br /> + + +<br /> + + +Sempre que no seu sentimento despertava o amor +por Júlia―amor que não podia adormecer +perpétuamente―Frederico +verificava que êle lhe transmitia +uma extraordinária abundância de +impressões novas e +intensas que terminavam por fatigá-lo, por deprimi-lo +até à tristeza e ao desalento. Precisava +subtraír-se a +êste trabalho interior em que o seu ser se abismava. +Viajaria, pois, e levaria Branca.<br /> + + +<br /> + + +―Está decidido, Alarcão e Ataíde... +Dentro em +breve, terás um servo humilde para a Europa.<br /> + + +<br /> + + +E voltando-se para o criado, pediu a conta que +pagou.<br /> + + +<br /> + + +Levantaram-se, acenderam os charutos, calçaram +as luvas e saíram para a rua, aspirando consoladamente +o ar vivo. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[187]</span> ―Demoras-te por esta óptima cidade, D. Duarte?<br /> + + +<br /> + + +―Não, menino. Parto ainda hoje à noite. As doces +exigências do coração cumpriram-se. De +novo me +afasto.<br /> + + +<br /> + + +―Que pena!<br /> + + +<br /> + + +―E até peço desculpa, por te abandonar tam +cedo, depois do almôço e do afecto. Enfim, outro +poder +mais alto se levanta, como disse o nosso épico.<br /> + + +<br /> + + +Pararam um instante na rua, apertando as mãos.<br /> + + +<br /> + + +―Quando vires êsse Nuno, dá-lhe um grande +abraço, +por mim. <em>Au revoir!</em>...<br /> + + +<br /> + + +Até à noite, Frederico vagabundeou pela cidade, +detendo-se diante das <em>vitrines</em>, +seguindo com a vista +alguma linda mulher que passava, num forte e aristocrático +rumor de sêdas. A tristeza que de manhã, com +a carta de Nuno, o invadira, acentuou-se, adensando-se +cada vez mais. Que suplício!... Por muito que quisesse +alhear o pensamento de Júlia, surpreendia-se +constantemente a reconstruí-la na fantasia, a recordar +os seus suaves olhos langorosos e profundos―uns +olhos que diziam tudo o que dentro dela se passava...<br /> + + +<br /> + + +A lembrança dessa mulher renovava-lhe incessantemente +o sofrimento, mas era-lhe muito grata.<br /> + + +<br /> + + +Cansado da sua interminável vadiagem, meteu-se +num carro eléctrico com destino à Foz, maldizendo +a +esterilidade do seu dia sem uma emoção de beleza +moral +superior, sem um acto nobre.<br /> + + +<br /> + + +―Como isto acabrunha! ― monologava, sentado +em frente duma inglesa esgrouviada, alta e sêca, com +uns cabelos dum louro sêco e uns óculos de ouro na +ponta do nariz, que lia um jornal de Londres.<br /> + + +<br /> + + +Foi nessa noute, jantando com Branca, que Frederico +lhe disse: +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[188]</span> ―Sabes? Ando com vontade de ir até Madrid, até +ao inferno.<br /> + + +<br /> + + +―E então eu? Deixas-me?―perguntou ela com +voz de mimo.<br /> + + +<br /> + + +―Não! Levo-te comigo, para nos aborrecermos +ambos. O tédio, dividido por dois, deve ser menos pesado...<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3>VIII</h3> + + +<br /> + + +O inverno tinha chegado, com efeito, à quinta onde +Nuno e Júlia ainda permaneciam, sem pressa de regressarem +à confusão e ao alarido da cidade, de que se +esqueciam na paz, na beatitude da sua vida de recolhimento +e de simplicidade, no enlêvo cada vez maior +da sua ventura. Como viviam únicamente um para o +outro, sentiam-se bem naquele isolamento de que nenhum +sobressalto exterior quebrava o ritmo. Parecia-lhes +que os seus pensamentos e as suas emoções +ganhavam, +na solitude, maior nitidez e mais intensidade +e que um amor, de instante para instante mais forte, +os aproximava tanto pela beleza moral como pela beleza +física, enriquecendo os matizes afectivos da sua +intimidade espiritual.<br /> + + +<br /> + + +A hostilidade do tempo retinha-os quáse sempre +dentro de casa. Grossas cordas de água fustigavam +com violência as janelas, escorregando lentamente nos +vidros, alagavam o jardim, davam, um aspecto lúgubre <span class="pagenum">[190]</span>a paìsagem que +se divizava ao longe, através +duma +cortina de névoa cinzenta e triste. Dos montes +próximos, +onde densos pinheirais ondulavam e ramalhavam +à ventania furiosa, despenhavam-se as torrentes, descendo +entre cachões de espuma até ao vale. Por vezes, +dos telhados dos casebres, que donde a onde branquejavam +na desolação campestre, subiam, colunas de fumo +que se torciam, se esfarrapavam, dissipando-se na +atmosfera baça. Grandes nuvens negras corriam no ar, +do sul para o norte, impelidas pela rajada dos furacões. +No cume das serranias havia uma claridade mais límpida +do que nas encostas e nas colinas onde um espêsso +vapor se acumulava. As árvores sem fôlhas do +parque +rangiam, gemiam ao vento. De noite, especialmente, +o barulho que faziam era sinistro e assustava Júlia. +De quando em quando, um pedaço de céu azul +rasgava-se +no alto, muito puro e translúcido, e uma pálida +claridade de sol derramava-se docemente, como uma +bênção divina, por tôda a +aldeia, dourando a verdura +das relvas humildes e rasteiras que vestiam a terra negra. +Nestas horas, parecia que a natureza tinha uma +alma de bondade e meiguice a comunicar-lhe o encanto +supremo duma poesia indizível, e duma infinita piedade +pelos desgraçados. Mas em breve o ambiente de novo +se toldava e a obscuridade dilatava as perspectivas.<br /> + + +<br /> + + +Em certas manhãs, Nuno, com o charuto na bôca, +as mãos nos bolsos das calças onde tilintavam +chaves, +bem agasalhado pelas roupas quentes, assomava à varanda +envidraçada, espreitando através dos vidros +embaciados, +e logo se refugiava junto de Júlia, murmurando:<br /> + + +<br /> + + +―Que invernia brava hoje vamos ter!...<br /> + + +<br /> + + +Ela olhava-o demoradamente, com êsse olhar em +<span class="pagenum">[191]</span> +que se reflectia tôda a pureza e tôda a ternura do +seu +coração e que tanto o comovia, dizendo:<br /> + + +<br /> + + +―Fizemos talvez mal em nos deixarmos ficar +aqui. Devíamos ter partido nos fins do verão... +Mas +essas obras que nunca terminaram...<br /> + + +<br /> + + +―Partir para quê?―inquiria Nuno, parando +diante dela. O inverno é tam fastidioso na aldeia como +na cidade. E nota! É mesmo curioso ver cair a chuva +entre estas árvores, pelos flancos destas montanhas. +Ao menos, temos horizontes largos, desafogados, respira-se. +Estamos a assistir a um espectáculo inteiramente +novo para nós...<br /> + + +<br /> + + +―Mas, na cidade...―contrariou Júlia, com timidez.<br /> + + +<br /> + + +―Eu sei. Na cidade, há os cafés, os +cinematógrafos, +os teatros, outras diversões. Mas ela apenas se torna +indispensável para os que não teem +família ou para +os que não fazem vida familiar. Para mim, que passo as +noites perto de ti, tanto me importa estar aqui como +num centro imensamente populoso...<br /> + + +<br /> + + +Ela agradecia-lhe fervorosamete aquela doce +devoção, +aquela constância de afecto que nunca afrouxava, +e experimentava um calor de ventura que a penetrava +tôda, que amaciava à sua roda as asperezas da +vida. A confiança de ambos no futuro aumentava +constantemente. +Tinham olvidado tudo o que se passava +para alêm da história lírica da sua +paixão―que havia +começado anos antes e que ainda não terminara; +nem +um nem outro se lembravam de ter padecido algum +dia. As recordações dos seus tempos antigos +diluiam―se, +apagavam-se, fundiam-se na fluidez original. Uma +nova fôrça, uma energia prodigiosa, pulsava nos +seus +sêres, renovando-os a cada momento. Dentro de casa, +<span class="pagenum">[192]</span> +nas alvoradas hostis ou nas tardes tempestuosas, ocupavam-se +na infinidade de coisas gratas que os cuidados +da habitação oferecem. Júlia, com o +saco de costura +no regaço, bordava, cosia, enquanto Nuno lia as +suas revistas e os seus jornais ou cortava as páginas +dalgum livro recente que da cidade o seu livreiro lhe +mandava. No abandôno íntimo dêstes +saborosos instantes, +se se contemplavam, subiam-lhes da alma à +memória as longínquas +recordações da sua adoração +revivida, com extraordinária lucidez. Encontravam, +então, +um fino prazer emotivo em relembrar tudo o que +mais de perto com essa adoração se prendia:―os +logares +idílicos em que ela tinha nascido, certos objectos e +certos episódios que lhe imprimiam relêvo. A +elaboração +interior destas lembranças emmudecia-os longamente, +abismava-os numa espécie de silêncio que temiam +interromper e que voluntáriamente prolongavam, +para que o seu gôzo espiritual fôsse mais +duradouro.<br /> + + +<br /> + + +Nuno conservava tam nítidamente na memória +êsses +acontecimentos, que podia reconstituí-los com facilidade, +sempre que quisesse. Não lhe esquecera ainda, +o mínimo detalhe do seu primeiro encontro com +Júlia, que chegara certa manhã a um hotel de +Vizela, +com o pai, a mãe e o irmão, o excelente Roberto, +que fôra educado em Londres, que tinha nas maneiras, +na franqueza, na correcção do porte e no +córte +do vestuário, acentuados traços +britânicos e que +partira para a America do Norte, como empregado +superior duma casa bancária, dois meses depois do +casàmento de Júlia. Viram-se a primeira vez no +parque, +por uma tarde de luz e de alegria. Ela trazia +um vestido de fustão branco muito justo que lhe desenhava +claramente as formas plásticas, ondulantes +<span class="pagenum">[193]</span> +e de linhas puras. O seu busto era perfeito de curvas +e de contornos: a sua mocidade tinha a graça subtil +duma flor plenamente desabrochada. O seu chapéu +de palha côr de ouro com duas rosas vermelhas presas +por uma laçada de gaze de sêda branca, fazia-lhe +uma discreta sombra sôbre a testa, suavizava-lhe +mais a luz dos olhos suaves, iluminando-lhe o rosto +dum oval delicado, imprimia-lhe maior destaque à +pele das faces e do colo, que parecia alumiada por +uma claridade interior e que não tinha um vinco, uma +ruga. Nas suas mãos, que eram magras, pequeninas +e de dedos delgados, fulgiam pedras de aneis.<br /> + + +<br /> + + +Cruzaram-se no passeio, trocaram um simples +olhar e foi como se ficassem compreendendo-se +para sempre―porque o amor casto dá aos olhos +uma inteligência especial, um admirável poder de +entendimento +e de expressão. Daí em diante, nunca +mais Nuno deixou de a seguir dócilmente para tôda +a parte, indo aos chás a que Júlia se associava, +às excursões, +em grandes ranchos, às serras próximas, para +a contemplação dos panoramas que se vislumbram +dos píncaros mais altos:―a ondulação +ininterrupta +e irregular do dorso das cordilheiras, que evocava um +colosso fulminado, tocado a espaços por manchas de +folhagem verde, alteando e deprimindo a sua ossatura +monstruosa na base, elevando-se bruscamente +em saltos e galgões de terreno. Em baixo, ao fim da +escarpa abrupta dos montes, a natureza rebentava +numa torrencial explosão de arvoredos, de milharais, +de pomares, de videiras de compridos braços, +enroscando-se nos troncos de olmos e de cerejeiras, +como as serpentes no coração do Lacoonte, subindo +até às copas e vergando de cachos. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[194]</span> +Uma frescura e uma abundância de écloga latina, +que Vergilio cantaria, em estrofes immortais, +corriam alacremente nos fundos vales que se almofadavam +de ervaçais e sombras; e em tôda a +extensão +panorâmica, as serranias sucediam-se umas às +outras +constantemente, como um mar de enormes vagas terrosas +que a tormenta açoutasse. As senhoras, assustadas +com a grandeza do espectáculo, sentiam deslumbramentos +e davam gritinhos de susto; os homens +riam. E Júlia e Nuno, um pouco afastados dos grupos +palradores, teciam as horas de sêda e ouro do seu +amor que começava e que, não sendo já +segrêdo para +ninguêm, provocava risinhos maliciosos, ditos picantes +ou de despeito.<br /> + + +<br /> + + +Ao cair da tarde, quando regressavam ao hotel +para jantar, nos olhos de Júlia havia uma +extraordinária +fascinação e, Nuno trazia uma alvorada na +alma. Depois, à noite, no +salão, organizavam +danças, enquanto os homens de idade se reùniam +às +mesas dos jogos improvisados, para as suas fastidiosas +partidas de <em>bridge</em>, e as damas, +sentadas pelo salão, +se emaranhavam em banais conversações sem +fim:―e Júlia era sempre o par de Nuno, nas valsas...<br /> + + +<br /> + + +Uma vez por outra, a colónia da estância balnear +levava mais longe as suas digressões, ia até +Guimarães, +visitando as vélhas igrejas que resplandeciam +das talhas douradas, até às Taipas, +até Braga, seguindo +em automóveis através de estradas cortando +campos onde crescia o milheiral e os feijões se cobriam +de flor, onde verdejavam os linhos tenros, onde +um murmúrio de aragem passava nas messes já +maduras, +procurando as tiras de sombra veludosa e mole +<span class="pagenum">[195]</span> +caindo das árvores que, duma banda e doutra, orlavam +o macadame. Era uma festa para a vista e para +o sentimento dos excursionistas tôda essa larga e +incomparável +paìsagem do Minho, túmida de seivas, +de fôrça, de vigor e duma tam rara e prodigiosa +vegetação. A cada instante se detinham +à beira +duma fonte que gorgolejava no jôrro cristalino das +suas linfas, oferecendo fresquidão e consôlo pelos +dias +tórridos, perto duma levada de água de rega vinda +de longe, rolando pedrinhas alvas, grossos saibros +reluzentes, cantando misteriosamente nas espessuras +discretas dos musgos ou das ervas e transmitindo +uma gloriosa vitalidade às raízes. +Incessantemente +topavam, trotando no cascalho da calçada, as +características diligências que rangiam aos +solavancos, +levando nas imperiais abades rubicundos com +guarda-sóis de paninho vermelho entre as pernas e +dentro tôda uma população em trajos +domingueiros. +No meio do estrépito das ferragens, o cocheiro praguejava, +fazendo estalar o chicote sôbre o lombo dos +cavalos cansados. Os melros assustavam-se pelas +balsas floridas, voando para longe; erguiam-se nuvens +sufocantes duma poeira cáustica e mordente. Às +portas +dos casais que davam para as estradas, sob ramadas +onde as uvas amadurciam, iam acudindo, ao +ruído dos automôveis que fugiam no fio da aragem, +mulheres com grosseiras mãos escondidas debaixo +dos aventais de riscado, crianças em camisa, com ventres +enormes e a palidez de doença na cara suja. +Cães ladravam, ameaçadoramente, por debaixo dos +portões vermelhos das quintas: e a ranchada jovial +dos excursionistas continuava a sua marcha, rindo, +palrando distraídamente. Nuno lembrava-se de que―numa <span class="pagenum">[196]</span>destas escapadas +encantadoras, por um meio-dia +de soalheira abrasadora em que foram ver o castelo +de Guimarães, com a sua tôrre de menagem, +os seus fossos cheios de ervas parasitárias, as suas +seteiras, +os seus travejamentos carcomidos―Júlia, +ao passar por um quintal onde um alto damasqueiro, +esgalhando ramagens para todos os lados, mostrava +os seus frutos dourados e penugentos, teve de repente +um desejo guloso de comer damascos; e logo êle, mandando +parar o carro, bateu à porta da granja, pedindo +que lhos vendessem. Imediatamente, uma voz de +mulher veio de dentro, convidando-o a entrar, a escolher, +a fartar-se, porque aquela fruta não se vendia:―dava-se.<br /> + + +<br /> + + +―Não quero isso, não quero. Venda-ma...<br /> + + +<br /> + + +―Oh! meu senhor, graças a Deus não precisamos. +Olha agora levar dinheiro por uma miséria assim!...―teimou +a aldeã, que era linda e ainda nova, +acudindo ao limiar. Entre, entre...<br /> + + +<br /> + + +E reparando em Júlia, que tinha ficado com o +irmão no autómóvel, +a mulher acrescentou:<br /> + + +<br /> + + +―E a menina e outro senhor tambêm!... Com +tôda a franqueza!<br /> + + +<br /> + + +Por fim, entraram alegremente e merendaram, +com delícia, sob o damasqueiro acolhedor, enquanto +a aldeã, sorridente e com uns dentes brancos brilhando +no seu esmalte entre uns lábios muito vermelhos, +os incitava a comerem mais.<br /> + + +<br /> + + +―E podem levar, se quiserem!―oferecia ela.<br /> + + +<br /> + + +Chamava-se Maria da Luz, era casada havia +seis anos com um lavrador abastado e já três +criancinhas, +de olhos muito espantados, belas como a +mãe, se lhe agarravam às saias. Nuno, enlevado, +deu +<span class="pagenum">[197]</span> +uma moeda de prata a cada uma, para comprarem +doces.<br /> + + +<br /> + + +―Não! Isso é que não!―acudiu a +aldeã, tôda +còrada. Ficava-lhe por bom preço a fruta, meu +senhor!<br /> + + +<br /> + + +―Ora essa!―atalhou Nuno. Coitados dos pequeninos, +que são tam simpáticos. Deixe, deixe...<br /> + + +<br /> + + +As crianças estenderam a palma das mãos +côr +de rosa, apertaram, muito contentes, as moedas, +enquanto a mãe lhes gritava:<br /> + + +<br /> + + +―Então, como se diz?!... Como se diz?!... +Êstes mafarricos que me consomem, não aprendem +a bôa educação nem à +mão de Deus Padre!...<br /> + + +<br /> + + +Todos êstes inefáveis episódios duma +época +distante e bem feliz se tinham gravado fundamente +no cérebro de Nuno; e diante de Júlia, que era +sua +espôsa, que era mãe do seu filho, sentia um prazer +infinitamente doce em reavivá-los. O casamento +fôra +combinado ainda em Vizela, ao fim dum curto namôro, +com grande desespêro de Frederico que tambêm +estava nessas termas, que ia espairecendo os seus tédios +entregando-se a um meigo <em>flírt</em> +sempre novo em +cada dia e que julgava severamente a imprevista evasão, +do amigo, da vida despreocupada de solteiro...<br /> + + +<br /> + + +Nas longas horas que agora passavam sós, dentro +de casa, Nuno e Júlia gostosamente evocavam o seu +passado, que era de dois anos―porque apenas começaram +a viver uma existência séria desde que se +conheceram +e se ligaram por laços que nenhuma dor ou +nenhuma fatalidade romperiam―e que lhes pareciam +do dia anterior, tam rápidamente o tempo lhes fugia +sem que êles o percebessem e sem que na sua +emoção +deixasse resíduos de amargura e de tristeza. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[198]</span> ―Tu lembras-te?―perguntava êle, fechando o +livro que tinha nas mãos, enquanto Júlia esquecia +sôbre o regaço a agulha do bordado.<br /> + + +<br /> + + +―Lembro!―afirmava ela com um sorriso que +a espiritualizava e transmitia maior encanto à sua +beleza. Lembro-me, como se tudo isso fôsse de +ontem...<br /> + + +<br /> + + +―Frederico não queria que eu casasse, dizia-me +horrores da vida conjugal, procurava afastar-me +de ti por todos os processos, teimava em que eu o +acompanhasse numa viagem que tencionava fazer. +Creio mesmo que chegou a ser teu inimigo, o pobre +rapaz...<br /> + + +<br /> + + +―Meu inimigo?... Que ideia! E porquê?<br /> + + +<br /> + + +―É claro, não te tinha ódio, +não te queria mal, +mas não perdoava à mulher que lhe arrebatava o +amigo de sempre, o camarada, o companheiro... Era +só por isto!<br /> + + +<br /> + + +Ah! êsse bom Frederico! Ambos pensavam +um pouco nêle―Nuno com saùdade e com uma +secreta pena daquela vida tam fecunda pela inteligência +e pelo carácter, que se esterilizava, que era +improdutiva, como um pragal áspero em que nunca, +por acaso ao menos, caísse uma semente fértil; +Júlia, +com o encanto, com a afeição que lhe merecia o +homem tam idêntico ao marido pelo +coração, e de +tanta grandeza de alma, de tanta finura de espírito...<br /> + + +<br /> + + +―O que fará êle por êsse +Pôrto, neste desabrido +inverno?―interrogava ela.<br /> + + +<br /> + + +―Aquilo que todos os rapazes, livres de responsabilidades +caseiras, fazem, naturalmente. Êle +não quis estar connosco, havia coisa que o chamasse, +<span class="pagenum">[199]</span> +que o seduzisse... Mas, ouve! Não sei que singularidade +descobri em Frederico nos últimos dias. Parecia-me +mais desalentado, mais triste do que o costume, +amava a solidão, quáse que me fugia... Apenas +despertava da sua melancolia quando tocavas, no +piano, essas páginas de Schubert que sempre admirou.<br /> + + +<br /> + + +―Êle não tinha, para estar alegre, as mesmas +razões que nós temos, bem sabes. É +só, não +ama, não é amado, anda á procura dum +destino que +ainda não encontrou...<br /> + + +<br /> + + +―E que não encontrará jàmais. +Aparentemente +enérgico, é um fraco de vontade, sofre de +preguiça +de sentimento, tem os defeitos da raça a que pertence...<br /> + + +<br /> + + +―Oh! Nuno! Que severidade!<br /> + + +<br /> + + +―Não! Que amizade! Porque eu estimo profundamente +Frederico. Não há alma tam leal como +a dêle, dedicação mais capaz, de +sacrifícios pelas pessoas +a quem se devotar! Mas, minha filha, é incompleto +como eu, como todos nós...<br /> + + +<br /> + + +―Como tu?<br /> + + +<br /> + + +―Como eu, não digo bem... Frederico foi mais +infeliz...<br /> + + +<br /> + + +As horas deslizavam apressadamente, nestas +conversas em que ambos se entretinham e em que +melhor se estudavam... Por vezes, discutiam juntos +o mesmo romance, o mesmo poema, ou então Júlia +ia para o piano e Nuno, de pé proximo dela, ia-lhe +voltando as fôlhas do caderno de música. Nos +momentos de repouso, enquanto a chuva caía, +monótona +e aborrecida, chamavam a ama, que acudia +com a criança ao colo e um grosso grilhão de ouro +<span class="pagenum">[200]</span> +ao pescoço. Júlia pegava no filho, com ternura e +delicadeza, +beijava-o num transporte, amimava-o, passava-o +ao marido, que o embalava nos braços. O pequenino +sorria, com a face cheia de covas, agitando +as mãos, galrando, espalhando por tôda a casa uma +grulhada infantil. Depois, Nuno beijava-o tambêm +longamente, picando-lhe a carinha tenra das faces +com a barba crespa, o que o fazia chorar.<br /> + + +<br /> + + +―Dá-o cá! Coitadinho!... Tem mêdo dos +teus +bigodes de turco―dizia Júlia, sorrindo.<br /> + + +<br /> + + +―Não! É que é já mais teu +amigo do que meu, +o ingrato...<br /> + + +<br /> + + +À noite, em seguida ao jantar, quando a treva +temerosamente afogava todos os aspectos na mesma +confusa massa negra e o sossêgo envolvia a vivenda +com as vidraças douradas pela luz, o criado, o +Manuel, soltava os cães de fila durante o dia amarrados +a fortes cadeados de ferro; as portas do +rés-do-chão +fechavam-se com estrondo; a Francisca, uma +vélha cozinheira, arrumava a cozinha, que ficava +em baixo, que era revestida de azulejos e que se iluminava +com a fulguração dos metais e dos esmaltes +faíscando, relampejando sob o clarão da fogueira. +Os molossos, de afiados colmilhos saíndo-lhes da +bôca babujada como pontas de punhais, latiam, uivavam +no jardim e no parque, à ventania que sacudia +vertiginosamente as árvores; outros latidos ouviam-se +ao longe, vindos das granjas e das herdades; +o pequenino adormecia ao peito farto da ama, ainda +com o bico rosado do seio que o amamentava +na bôca sem dentes, e era levado com mimos e cautelas +para o berço, aquecido antecipadamente com +botijas de água a ferver: e Nuno e Júlia +continuavam <span class="pagenum">[201]</span>ainda +os seus serões, conversando, lembrando-se +piedosamente dos pobres que não teriam roupa +nos leitos, por aquele frio, enregelado, hostil inverno, +e experimentando uma ternura doce e secreta no +isolamento rural em que se confinavam com a sua +felicidade―almas satisfeitas e contentes que nada +mais queriam da vida...<br /> + + +<br /> + + +Uma vez por outra, o céu desanuviava-se, as +manhãs raiavam límpidas como uma imensa e pura +flor azul que desabrochasse iluminada por um sol +muito louro que dourava os outeiros, os cimos dos +montes, tocava as altas ramarias dos arvoredos dum +fulgor vivo que parecia arder, scintilar no esplendor +da atmosfera. Então, a alegria ressuscitava na +paìsagem soturna como uma ave que, pela primavera, +é de repente surpreendida pela alvorada gloriosa +entre os ramos floridos e começa a cantar sob +o mistério celeste de que vitoriosamente desce a luz. +Envolvidas pelo banho fulvo da claridade, as próprias +coisas inertes pareciam impregnar-se de alma, +davam a ilusão de serem dotadas de movimento. Errava +no ar uma beleza esparsa; as perspectivas, na +nitidez do ambiente, prolongavam-se indefinidamente, +cheias de poesia e de vago. A vivenda, elevando-se +no meio do jardim, com as suas grossas paredes, +as suas varandas, os seus telhados de largo beiral +onde as pombas arrulhavam em certos instantes, as +suas escadas de pedra com grades de ferro pintadas de +verde, em que as roseiras de trepar se enroscavam, +animava-se tambêm com o júbilo triunfal daquela +festa da natureza. Mais satisfeitos e expansivos, os +criados palravam na cozinha, à volta da mesa do +almôço. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[202]</span> +Uma temperatura morna que fazia inchar os +gomos das árvores e das madre-silvas dos valados―que +em maio se cobriam de florações e ofereciam +embalo e perfume aos ninhos inocentes―convidava +aos lentos, agradáveis passeios. Nuno, sentindo o +coração desopresso e ligeiro, corria a levar a +Júlia a +bôa nova, em palavras comovidas e risonhas, interrompendo-a +no seu trabalho.<br /> + + +<br /> + + +―Que linda manhã, meu amor!―exclamava +êle. Vem daí! Faremos uma pequena +digressão pela +quinta... Até nos abrirá o apetite e nos +renovará a +saúde. Ao mesmo tempo, desentorpeceremos as pernas +emperradas por tôda uma semana de cativeiro.<br /> + + +<br /> + + +―Pois vamos!―concordava ela com júbilos +e ingenuìdades quáse infantis. Gosto tanto de +passear matinalmente!<br /> + + +<br /> + + +Animada e sorridente, Júlia vestia a tôda a pressa +um casaco de agasalho, calçava as galochas sôbre +os pequeninos sapatos de verniz, punha na cabeça +um gorro de lã branca, feito por ela nos seus +serões, +e saíam ambos, de braço dado, aspirando o cheiro +acre da terra molhada, internando-so pelas sombrias +e ermas alamedas do parque onde as mimosas começavam +a florir na pompa dos cachos de ouro pálido, tremendo +brandamente à aragem e a que o sol imprimia +mais brilho e côr, desciam, por caminhos empedrados, +às terras de cultivo já verdejantes de pastos +para +o gado, dos trêvos, torneavam as extensas vinhas que +enchiam tonéis, em setembro, dum vinho aromático +e leve, passavam pelos vergeis bem tratados onde, +em abril, as pereiras, os pessegueiros e as macieiras +vergavam de florescências multicôres que lembravam +irisados enxames de borboletas levantando vôo, e +<span class="pagenum">[203]</span> +paravam, enfim, diante da habitação destinada ao +caseiro e que era o orgulho de Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Vês tu o que se fez, hein? E a planta foi +minha. Para alguma coisa havia de servir-me o curso +de engenheiro. O vélho Mateus está aqui +óptimamente +instalado com a sua gente―dizia êle. Não +parece?<br /> + + +<br /> + + +Júlia aprovava, com um gesto afável da +cabeça, +enquanto Nuno minuciosamente lhe ia fornecendo +mais indicações:<br /> + + +<br /> + + +―Aqui―explicava êle―é a casa de moradia; +alêm, ficam os estábulos para os bois, os currais +para os porcos, os alpendres para a guarda dos +apetrechos de lavoura... Dêste lado, mandei construir +as adegas, a eira, o espigueiro e os celeiros. Que me +dizes a tudo isto? Olha que foi obra minha!<br /> + + +<br /> + + +Na graça luzente da manhã, as paredes caiadas +de branco alvejavam sob o tom vermelho dos telhados. +Ao fundo, para lá dos terrenos agricultados, +rumorejavam pinheirais e cresciam os matos aromáticos +que o rosmaninho, no estio, pintalgava de manchas +rôxas. Júlia, enlevada, contemplava o marido +com ternura, afagava-o com o olhar.<br /> + + +<br /> + + +―E agora―continuava Nuno, depois de terem +avançado mais alguns passos―aqui está o grande +tanque que me deu que entender e em que tanto +te falei, durante todo o verão findo, não sei se +te +recordas.<br /> + + +<br /> + + +―Recordo!―afirmava ela.<br /> + + +<br /> + + +―Servirá de reservatório das águas de +rega +que fui buscar longe, por meio dum cano, à encosta +daquele monte de pinheiros. Oh! é uma água +maravilhosa, +muito pura, filtrada por camadas sobrepostas +<span class="pagenum">[204]</span> +de rocha, e saibro grosso. Quando, nos dias quentes, +a colhia para beber, o copo ficava logo nevado. É saborosa +e frigidíssima. Porque não mandas a Francisca +buscá-la à bôca da mina para o nosso +chá? Ando há +tanto tempo para dizer-te isto e esquecia-me sempre!...<br /> + + +<br /> + + +―Está bem, mandarei―prometia Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Pois, essa água corre para êste tanque. Quando +se quiser regar, é só soltar a levada e ei-la por +êsses campos, fluindo, fecundando, dando alento às +plantações e às sementeiras!<br /> + + +<br /> + + +―O que tu sabes já das lidas agrícolas, +Nuno!―exclamava +ela com admiração.<br /> + + +<br /> + + +―Minha filha, tem-se estudado um pouco o +pelo processo prático, que é ainda o +melhor―respondia êle, +jovialmente. O meu verão, êste ano, foi +útil!<br /> + + +<br /> + + +O caseiro, o tio Mateus, se os pressentia, vinha +logo para êles, de chapéu na mão, com o +seu rosto +enrugado que o bom riso sadio, vindo da alma, espiritualizava +de bondade, cumprimentando-os respeitosamente. +Nuno correspondia ao cumprimento, +murmurando:<br /> + + +<br /> + + +―Olá! É você, Mateus? +Então, como vão os +trabalhos, homem?<br /> + + +<br /> + + +―Crédo, meu senhor! Com êste inverno de +desgraça +e de castigo, nada se pode fazer. Tudo parado. +As terras estão encharcadas, são lama...<br /> + + +<br /> + + +―Não que tambêm nós nunca nos +contentamos +com o que temos. Se o bom tempo e o calor se prolongam, +pede-se, implora-se chuva com preces, orações, +lágrimas. Afinal, chega ―Não que tambêm nós nunca nos +contentamos +com o que temos. Se o bom tempo e o calor se prolongam, +pede-se, implora-se chuva com preces, orações, +lágrimas. Afinal, chega a chuva, e a humanidade +sempre insatisfeita de novo deseja sol. Deus deve +<span class="pagenum">[205]</span> +ver-se e desejar-se com pedidos tam contraditórios, +não é verdade, tio Mateus?―perguntava Nuno +alegremente.<br /> + + +<br /> + + +―Deus é sábio, é justo, sabe o que +faz, meu senhor―replicava +o caseiro, rindo. Mas tudo se quere +em conta. Nem muito ao mar nem muito à terra. +Assim é que é...<br /> + + +<br /> + + +―E a doente está melhorzinha?―inquiria +Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Melhor, coitadinha?... Vai vivendo!... As +melhoras dela só na cova. E tanto tem sofrido!...<br /> + + +<br /> + + +―Não fale dêsse modo, tenha +esperança...<br /> + + +<br /> + + +―Pois esperança tenho eu. Esperança e +paciência, +que ela tudo merece―concluía êle, com voz +enternecida e trémula.<br /> + + +<br /> + + +Comovida, Júlia fitava-o; e êle, para desviar o +rumo da conversa, que o fazia sofrer, acudia:<br /> + + +<br /> + + +―Então, hoje a passear?<br /> + + +<br /> + + +-Com êste bom sol, não podíamos ficar +fechados―dizia +Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Está de rosas, meu senhor, de rosas!...<br /> + + +<br /> + + +Demoravam-se ainda a tagarelar por alguns +instantes e depois; vagarosamente, regressavam a +casa, na imensa paz que envolvia a natureza e que +baixava sôbre árvores, lameiros, casais e selvas, +como +uma bênção. Voltavam joviais, traziam a +alma dilatada +de encanto. Como o inverno era lindo na aldeia! +Na cidade, os grandes espectáculos naturais passavam-lhes +despercebidos na agitação das atormentadas +aglomerações humanas, nas atmosferas toldadas +de fumo.<br /> + + +<br /> + + +―Aquele Frederico, aquele doido!―bradava +Nuno. Podia ter ficado aqui connosco, a fazer um +<span class="pagenum">[206]</span> +severo exame de consciência, a rejuvenescer. Era +uma companhia e purificava o sentimento que agora +talvez traga pelos boeiros citadinos!...<br /> + + +<br /> + + +―Jesus, Nuno! Que expressões tam duras!―repreendia +Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Sim! Pelos boeiros, pelas sargêtas. É assim +mesmo. Hei de dizer-lho com esta ferocidade, numa +carta terrível... Enquanto que aqui era a luz, era a +pureza...<br /> + + +<br /> + + +Lavavam-se, almoçavam com saborosas lentidões, +conservavam-se à mesa por muito tempo, conversando. +E à tarde, ainda tornavam a sair, atravessando +pousios, congostas entre sebes, visitando a +aldeia próxima, com um interêsse, uma curiosidade +que nunca findava...<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um dia, logo ao romper da manhã, a ama foi +tôda aflita bater à porta do quarto, chamando +Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Que quere?―perguntou, ela, de dentro.<br /> + + +<br /> + + +―Era para contar à senhora uma coisa a respeito +do menino, que não está bom.<br /> + + +<br /> + + +―Que diz você, mulher?...―gritou Júlia, +com voz angustiada. Tu ouves isto, Nuno?...<br /> + + +<br /> + + +Saltou da cama, vestiu um roupão, calçou as +chinelinhas de setim côr de rosa, bordadas a branco +e ouro, que estavam sôbre o tapête, e correu logo, +assustada, inquieta, enquanto o marido, alarmado, se +levantava tambêm, vestindo-se atarantadamente.<br /> + + +<br /> + + +―Que tem o menino?―perguntou Júlia, abrindo +a porta da alcôva. Onde está êle, onde o +deixou +você? +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[207]</span> ―Deitado no berço... Está um pouco +desassossegado...<br /> + + +<br /> + + +Júlia dirigiu-se ao quarto da ama, que ficava ao +lado do seu, entrou desvairadamente, fóra de si, sacudindo, +com irritação nervosa, as madeixas do cabelo +solto que lhe caíam sôbre a testa, ajoelhou junto +do berço da criança que ergueu carinhosamente nos +braços. Encostou-lhe a cabecinha inocente e desfalecida +à sua face, amimou-a, passando-lhe levemente +as pontas dos dedos pela carne tenra do rosto, murmurando +com indizível ternura:<br /> + + +<br /> + + +― Está doentinho, o meu amor?... Está?!...<br /> + + +<br /> + + +Afastava-o de si, amparando-o com as mãos +amorosas, para melhor, mais demoradamente o observar, +espreitando, comovida, os seus olhos amortecidos +com um círculo arroxeado à volta, e achava-o, +na verdade, mais pálido, mais abatido.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! minha Mãe Santíssima! Mas isto que +será? Como notou você a doença do meu +filho, ama?<br /> + + +<br /> + + +―É que, durante a noite, tossiu algumas vezes, +minha senhora.<br /> + + +<br /> + + +―Tossiu?―perguntou Júlia, aflita. E a tosse +era rouca?<br /> + + +<br /> + + +―Pois era!...<br /> + + +<br /> + + +―E porque nâo foi logo avisar-me?<br /> + + +<br /> + + +―Pensei que não seria nada!...<br /> + + +<br /> + + +Nuno, que tinha acudido tambêm, curvou-se +sôbre o ombro de Júlia, envolveu o filho num olhar +de inquietação e de meiguice, inquirindo:<br /> + + +<br /> + + +―Afinal, o que tem? Parece-me tam tranqúilo!...<br /> + + +<br /> + + +―De-pressa, Nuno! Manda já um criado a +Guimarães, a procurar um automóvel fechado. +<span class="pagenum">[208]</span> +Que vá a cavalo... E que se não descuide. Temos +de +partir imediatamente para o Pôrto.<br /> + + +<br /> + + +―Um automóvel?... Partir imediatamente +para o Pôrto?―interrogava Nuno, maquinalmente, +Mas espera!... Dize...<br /> + + +<br /> + + +-Depois te digo... O criado que vá sem pêrda +de tempo... O nosso filho tem uma tosse rouca. Sabes +o que é?... Não sabes? É a difteria, +é talvez a +morte...<br /> + + +<br /> + + +Nuno, empalidecendo, abalou, enfiado, pelo corredor, +desceu a quatro e quatro os degraus da escada, +gritou:<br /> + + +<br /> + + +―Manuel! Manuel!... Onde estás tu?<br /> + + +<br /> + + +―Aqui, patrão!―respondeu o servo, saindo +dum canto e trazendo nas mãos um pedaço de +camurça +com que estava limpando e polindo metais.<br /> + + +<br /> + + +―Pousa o que estás a fazer, monta na égua e vai +a Guimarães, onde procurarás um +automóvel fechado, +por todo o preço. Que venha a tôda a velocidade. +É +um caso urgente.<br /> + + +<br /> + + +―Sim, meu senhor.<br /> + + +<br /> + + +―Mas vai! Deixa-te de cumprimentos, de +mesuras, que diabo! Se te estou a dizer que é urgente!...<br /> + + +<br /> + + +O criado desapareceu de pronto, e Nuno, desorientado, +ficou na cozinha, passeando agitadamente, a +largos passos, sôbre os mosaicos. Justos céus! A +difteria! +O seu filho tinha a difteria. Êle havia de assistir, +impotente, longe de todo o socorro da sciência, ao +lento agonizar dum corpinho sem culpa em cujas +veias corria o seu sangue, em cuja alma inocente se +fundia tambêm a sua alma! Havia de vê-lo asfixiar, +com o rosto congestionado, os olhos saltando +<span class="pagenum">[209]</span> +fóra das órbitas, sacudido por +convulsões horríveis +e sem poder acudir-lhe! Era terrível, terrível! +Do seu coração de pai subia urna grande, +avassaladora +cólera, contra tudo e contra todos. Que mal faria +aquele pobre sêr de castidade e de luz que nem +sequer conhecia a vida e que tam cedo começava a sofrer +dos seus males inevitáveis para que fôsse +submetido +a uma tal tortura?... Esquecia-se de Júlia que +em cima soluçava, andava dum lado para o outro, +mudo, sombrio, puxando as barbas, arrepelando-se.<br /> + + +<br /> + + +―Que foi, meu senhor? Que desgraça aconteceu?―perguntou +a cozinheira, que o contemplava, +assustada, encostando-se ao fogão ainda apagado.<br /> + + +<br /> + + +―Um horror, Francisca. Um verdadeiro horror. +O menino está muito doente.<br /> + + +<br /> + + +―Santo Deus!―exclamou ela.<br /> + + +<br /> + + +―E temos de ir já para o Pôrto, a senhora, +o doente, a ama, eu e tu. O Manuel e as outras criadas +ficam ainda a pôr tudo em ordem, e seguirão mais +tarde. Arranja as coisas, despacha-te.<br /> + + +<br /> + + +Subiu, novamente, a escada como um autómato, +governado mais pelo instinto do que pela +inteligência. O padecimento alheio sempre o tinha +perturbado; mas agora o de seu filho era-lhe atroz... Sentada +numa cadeira de braços, com a criança aconchegada +ao peito, Júlia chorava silenciosamente. As +lágrimas caíam-lhe fio a fio dos olhos. Perto +dela, a +ama repetia sem descanso:<br /> + + +<br /> + + +―Uma destas, uma destas!...<br /> + + +<br /> + + +Nuno parou diante da espôsa, revolvendo com +as mãos chaves que tinha no bôlso, entalado, sem +poder +articular as palavras, sem saber como havia +de consolar aquela dor inconsolável. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[210]</span> ―Que desventura a nossa, que desventura!...―gaguejava +Júlia.<br /> + + +<br /> + + +―Mas tranqùiliza-te, por Deus! Pode ser que +a doença não valha nada, que te enganes―acudiu +êle, por fim.<br /> + + +<br /> + + +―Tenho um pressentimento funesto! E olha +que as mães nunca se enganam.<br /> + + +<br /> + + +E voltando-se para a ama:<br /> + + +<br /> + + +―Pegue no menino, mas com cuidado... Vou-me +arranjar. E veste-te tambêm, Nuno, para estares +pronto.<br /> + + +<br /> + + +-Sim, menina!...<br /> + + +<br /> + + +Uma hora depois, um automóvel parava, em +baixo, junto do portão do jardim. Nuno chamou as +criadas, deu-lhes ordens para elas transmitirem a +Manuel, mandou que, depois de tudo arrumado, seguissem +para a casa do Pôrto e entrou no carro com +Júlia―que conduzia o filho ao colo, muito embrulhado, +agasalhado em lãs quentes―com a ama e com a +cozinheira, dizendo ao <em>chauffeur</em> +que, até Guimarães, +largasse com a maior velocidade.<br /> + + +<br /> + + +Estava uma cinzenta e fria manhã ameaçando +chuva. Pelos altos montes, por vales tristes e planícies +monótonas, a paìsagem azulava-se no ar +baço. Um +vento glacial sacudia os ramos das árvores. Nuno e +Júlia nem sequer olhavam para fóra, +através das +portas de vidro do automóvel, concentrados como +iam no seu sofrimento.<br /> + + +<br /> + + +Em Guimarães, procuraram alvoroçadamente um +médico, que logo os tranqùilizou, com um sorriso, +acabando de observar o pequenino enfêrmo. Não era +caso para sustos―afirmou.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! doutor! Quanta alegria nos dá!...―interrompeu <span class="pagenum">[211]</span>Nuno, avançando +para êle e +apertando―lhe +efusivamente a mão.<br /> + + +<br /> + + +―Mas não é a difteria?―perguntou +Júlia, +ainda duvidosa. Êle tem tosse rouca!<br /> + + +<br /> + + +Não! Não era a difteria―asseverou o +clínico, +já vélho e ageitando os óculos de aro +de ouro sôbre o +nariz. Uma simples bronquite sem complicações que +a tornassem de mau carácter. Curava-se com resguardo, +num compartimento em que não houvesse +oscilações +de temperatura, e com a aplicação de revulsivos +externos.<br /> + + +<br /> + + +―Vês, Júlia?―disse Nuno. Não +é nada de +cuidado. Eu bem o dizia.<br /> + + +<br /> + + +―O alarme desculpa-se nas mães... É tam +natural!―exclamou o médico.<br /> + + +<br /> + + +―E até podíamos voltar para trás, +continuarmos +a nossa estada na aldeia.<br /> + + +<br /> + + +―Não!―replicou Júlia com firmeza. Para +trás, não voltaremos. Já que estamos +aqui, seguiremos +para o Pôrto. Não ficaria sossegada.<br /> + + +<br /> + + +-Pois, como quiseres...<br /> + + +<br /> + + +O médico receitou, deu instruções; +Nuno pagou +a consulta generosamente. Despediram-se e reentraram, +mais calmos, no automóvel, continuando a +viagem―através +de estradas, de campos melancólicos, +de bosques que rugiam à ventania―para o Pôrto, +onde chegaram de tarde e já com uma chuva desabrida +fustigando as casarias, alagando, encharcando +as ruas negras duma lama viscosa, quáse líquida. +Moravam em Costa Cabral, numa vélha casa +apalaçada +de dois andares feita no gôsto arquitectural das +antigas vivendas portuguesas, e que todo o verão estivera +fechada. Foi um reboliço na habitação +deserta<span class="pagenum">[212]</span> +e cheia de treva. O automóvel largara velozmente, +e, enquanto Júlia, com o filho nos braços, +procurava, +no átrio imerso em escuridão, uma cadeira para +sentar-se, Nuno, a ama e a cozinheira, abriam portas +e janelas com alarido, para que a luz diurna entrasse +e desse vida e alegria ao casarão ermo.<br /> + + +<br /> + + +Outros médicos vieram e receitaram, nesse +mesmo dia, serenando temores sem motivo. A pouco +e pouco renasceu a confiança na alma de Júlia e +de +Nuno que, todo ocupado com a sua reinstalação +inesperada +no palacete da cidade, não saía, lidando +activamente, +dando ordens, substituindo na vivenda a +espôsa que não deixava, ainda atribulada, o leito +da +criança. E agora, outra vez no Pôrto, outra vez na +sua morada citadina, sentia-se bem, entre mobiliários +que conhecia e que considerava como amigos vélhos, +entre paredes a que se afeiçoara, no meio dum ambiente +de quietação em que vivera desde a +infância, +em que morara, a que tantas recordações +inolvidáveis +andavam presas. Novamente a felicidade entrava +na sua alma, na alma de Júlia, que assistia amorosa +e risonha à convalescença do filho. A nuvem +agoureira +passara, dissipara-se inteiramente. Já se encontravam +outra vez reconciliados com a vida que, por +momentos, os amargurara.<br /> + + +<br /> + + +―É verdade, Júlia―dizia uma noite Nuno. +Sabes de quem me lembrei agora, repentínamente? +Foi de Frederico! Ainda nem sequer apareceu!<br /> + + +<br /> + + +―Pois tu não tens saído, nem sequer lhe +escreveste! +De-certo que ignora o nosso regresso. Ninguêm +o sabe, alêm dos vizinhos... E pode ser até que +não +esteja no Pôrto...<br /> + + +<br /> + + +―Ah! não! Não deixaria a cidade sem me avisar... +<span class="pagenum">[213]</span>E estou zangado +com êle―concluiu Nuno, +risonhamente. O coração dum verdadeiro amigo +devia +adivinhar. Serei duro, quando o aviste. Há de +ouvi-las bonitas...<br /> + + +<br /> + + +Fóra, na rua, os candeeiros de +iluminação pública +chamejavam ao vento, sob um céu acarvoado. +A patrulha da guarda deslizava como uma sombra, +sem ruído. A aglomeração das casarias +ia adormecendo +no silêncio nocturno...<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3>IX</h3> + + +<br /> + + +Frederico sentia-se cada vez mais esgotado de +energias, mais fraco de vontade, à medida que se gastava +nos delírios da paixão carnal, nos desvairamentos +duma existência que nem sequer procurava já +equilibrar, +porque a vida, para êle, perdera todo o interêsse. +À sua excitação física, de +dia para dia mais +intensa, correspondia um desfalecimento moral que +constantemente se agravava, debilitando-lhe o carácter, +secando-lhe as fontes criadoras de sensibilidade. +Convencido da sua própria impotência, trazendo no +peito um coração árido, invadido por +uma dolorosa +melancolia que só os acessos da sensualidade, em horas +letais de luxúria, conseguiam dissipar por momentos, +levava uma existência desregrada de prazeres de +tôda +a sorte, em que a luz da sua própria inteligência, +tam +lúcida outrora, principiava a vacilar. Contudo, +conservava-se +no seu sentimento alguma coisa que não +<span class="pagenum">[216]</span> +queria morrer, que era vivaz, persistente, que se +obstinava em persegui-lo, empurrando-o violentamente +para as maiores loucuras:―o seu amor por +Júlia. Era uma obcecação, uma ideia +fixa que o aguilhoava +sem repouso, por mais que pretendesse esquecê-la. +Temendo que o isolamento, a solitude, exacerbassem +essa adoração perversa e abominável, +que o +enxovalhava sempre que espreitava, espavorido, a +própria consciência, freqùentava os +teatros e o jôgo +assíduamente e perdia grossas quantias com absoluta +indiferença, porque apenas desejava aturdir-se: arranchava +a comesainas tumultuosas com os amigos e ía +depois, exaltado pelo alcool, passar a noite com Branca, +que definitivamente se apossara dêle e que Frederico +considerava como um mal necessário ao apaziguamento +da sua tortura, como uma ilusão mentirosa +de que derivava, para a sua inquietação +permanente, +um pouco de tranqùilidade. Os seus nervos enfermos +careciam daquela mulher, como certos doentes +carecem de venenos para adormecer uma dor +fulgurante que os angustia. Consagrava-lhe por isso +reconhecimento em vez de ódio. A casa em que a tinha +instalado, com riqueza e luxo, era para êle, nas horas +de maior atribulação, o logar que uma +graça consoladora +habitava. Nestes momentos devastadores, submisso +como um crente, pousava sôbre a fronte doce e +pálida de Branca um beijo quáse religioso, que +ela +lhe agradecia com um sorriso inexpressivo.<br /> + + +<br /> + + +Em certos instantes mais calmos, porêm, quando +podia observar-se com lucidez, julgava-se serenamente, +acusava-se de se estar aviltando e praticando +uma infâmia, procurando apagar com a febre +duma lascívia brutal a recordação dum +amor puríssimo. <span class="pagenum">[217]</span>Alarmado, +cheio de remorsos, entregava-se +a longas cogitações, tentando encontrar uma +explicação +para aquela anormalidade. Que natureza vulgar +ou grosseira era a sua que, em vez de ter uma +origem de inspirações divinas na +paixão amorosa mais +elevada que até aí o fizera vibrar, tinha nela, +afinal, +só um estímulo que o impelia para as +abjecções +deprimentes? Como é que o amor por Júlia +não iluminava +a cegueira da sua alma, o não sublimava de +tôdas as imperfeições terrestres? E +seria, na verdade, +amor o que por ela sentia ou apenas um desejo bestial:―o +desejo do seu corpo tam perfeito, da sua +carne esplêndida, da sua beleza perturbante? Duvidava +da sua sinceridade, e sofria mais amargamente +por esta dúvida.<br /> + + +<br /> + + +O entusiasmo que a ideia duma demorada viagem +pelo estrangeiro nêle despertara, em breve arrefeceu. +Não manifestava curiosidade por nada: a +alegria de viver havia fugido do seu espírito: e pensava, +com terror, na perspectiva de sair de sua casa, +do seu país, para meter-se, com um monte de malas, +em combóios que rolassem monótonamente por terras +desconhecidas, para viver na barafunda dos hoteis, +entre multidões indiferentes e egoístas. Que +enorme alteração tudo isto representaria para os +seus hábitos rotineiros, que fadiga mesclaria ao seu +cansaço e que tédio juntaria ao seu +aborrecimento! +E, afinal, para quê? Que lucro positivo tiraria êle +duma vagabundagem a outras nacionalidades habitadas +por povos diversos do seu? Não lucraria nada! +De resto, só se deve viajar em absoluta serenidade +espiritual, em pleno contentamento de alma: e Frederico +não possuia nem essa serenidade nem êsse +<span class="pagenum">[218]</span> +contentamento essencial. Não! Não abandonaria o +Pôrto. Neste burgo se iria definhando, consumindo, +aniquilando!...<br /> + + +<br /> + + +Às vezes, Branca, abraçando-o, amimando-o, +com carícias em que se não escondia o frio, a +secura, +o desinterêsse, relembrava-lhe a promessa que Frederico +lhe fizera de a levar ao estrangeiro. Gostava tanto +de ir a Paris! Ai! Paris era a sua ambição! E, +para o convencer, apontava-lhe exemplos de rapazes +com dinheiro que tinham ido com as amantes, +numa jovial jornada, por essa Europa fóra.<br /> + + +<br /> + + +―O Gusmão, por exemplo! Levou a Adriana.<br /> + + +<br /> + + +―O Gusmão?―inquiria Frederico. Quem +é êsse Gusmão?<br /> + + +<br /> + + +―Ora! Tu conheces!... Um trigueiro, de grandes +bigodes, que tem um lindo automóvel e que vive +aí para os lados de S. Roque. Há quantos anos +êle +pôs a Adriana por conta! É como se +fôssem casados. +Aquela sim. Está de grande!...―terminava Branca, +fazendo beicinho.<br /> + + +<br /> + + +―Pois tambêm tu hás de ir ver a Europa, sossega. +Mas mais tarde... Por enquanto, não posso. +Preciso primeiro de deixar umas coisas em ordem―afirmava +êle, sentando-a nos joelhos e passando-lhe +um braço à volta de pescoço.<br /> + + +<br /> + + +―Sim, sim! Bem acredito eu nisso!...<br /> + + +<br /> + + +―Não acreditas!... Olha para mim... Mas olha +bem de frente. Dize lá. Eu tenho cara de quem mente?...<br /> + + +<br /> + + +―Não quero dizer que mentes...<br /> + + +<br /> + + +―Então, que queres dizer?...<br /> + + +<br /> + + +Ela não respondia, fazia-se mais amáv +Ela não respondia, fazia-se mais amável entre +os seus braços, pousava-lhe a cabeça no ombro, +muito +<span class="pagenum">[219]</span> +terna, muito quebrada, com geitos estudados e pieguices; +e Frederico, perturbado, beijava-a furiosamente, +exclamando:<br /> + + +<br /> + + +―De resto, para sermos felizes, não precisamos +de sair daqui...<br /> + + +<br /> + + +Uma noite, de volta do teatro Sá da Bandeira, +onde fôra ver uma revista deplorável, sem +vivacidade, +sem espírito, sem arte, maculada por ditos e +situações +lúbricas, encontrou na rua o jovial Paiva que passava, +muito embuçado, rente às paredes.<br /> + + +<br /> + + +―Pára aí, criatura―bradou Frederico. +Há +quanto tempo te não vejo!...<br /> + + +<br /> + + +―Oh! menino! Pois és tu?―respondeu Paiva.<br /> + + +<br /> + + +Cumprimentaram-se, trocando um demorado apêrto +de mão.<br /> + + +<br /> + + +―Para onde diabo vais, a esta hora e com +tanto mistério, Paiva magnífico?<br /> + + +<br /> + + +―Vou para o namôro.<br /> + + +<br /> + + +―Para o namôro?...<br /> + + +<br /> + + +―Sim! Um caso de sentimento, uma inclinação +irresistivel, com diálogos de janela, noite alta―porque +o pai é austero―com estrêlas que se contemplam +tristemente, com suspiros. Coisa muito +séria.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! Paiva! Tambêm tu?<br /> + + +<br /> + + +―É verdade, grande Frederico. Tambêm eu! +Que queres? Assim acabam todos os românticos. +E adeus, filho. Não posso demorar-me. Já vou +tarde. A pequena espera-me... Olha! Aparece qualquer +dia, para conversarmos. Depois te direi tudo.<br /> + + +<br /> + + +―Vai! Sê pontual como Romeu. Não faças +sofrer com a tua ausência os corações +ingénuos.<br /> + + +<br /> + + +Partiram cada um para o seu lado, em sentido <span class="pagenum">[220]</span>oposto; +mas, apenas Frederico tinha dado alguns +passos, Paiva, voltando-se de repente, chamou-o +aproximando-se novamente dêle:<br /> + + +<br /> + + +―Ouve lá, ó Frederico... Ia-me esquecendo... +Tu sabes quem está no Pôrto, chegado há +seis ou sete +dias?<br /> + + +<br /> + + +―Não sei. No Pôrto está tanta gente!<br /> + + +<br /> + + +―Pois, é Nuno, o teu amigo Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―O quê?―bradou Frederico, sobressaltado. +Nuno? Não pode ser.<br /> + + +<br /> + + +―E porque não pode ser? Se eu te estou a dizer +que está! Vi-o esta manhã na Praça da +Batalha. +Vinha do correio... Parámos um momento a palestrar. +Até êle me perguntou por ti.<br /> + + +<br /> + + +―Essa agora! Nuno no Pôrto! E sem me dizer +nada!<br /> + + +<br /> + + +―Como não te disse nada? Tu é que lhe foges, +ao que parece. Já te procurou em casa e não te +encontrou. +Deixou-te uma carta urgente e não lhe +respondeste! Foi o que êle me asseverou, e até um +pouco ressentido... Aparece-lhe! Escreve-lhe... E +adeus!<br /> + + +<br /> + + +Com efeito, havia uma semana que Frederico +não ia a casa. Branca retinha-o, no seu leito de amante, +uma parte da noite e uma parte do dia, porque +só muito tarde, às vezes de madrugada, lhe batia +à +porta, de regresso das estúrdias ou das bancas de +tavolagem com a roupa em desalinho, o olhar vago +e ardendo dum brilho especial, numa secreta e áspera +revolta contra si próprio. Ficava tôda a +manhã +deitado, dormindo com as mãos fechadas junto da +cara, a pele humedecida por uma transpiração +álgida, +agitado de sonhos pavorosos. Quando o sol ia já +<span class="pagenum">[221]</span> +muito alto, entrando no quarto em feixes de raios +difusos e rutilantes e inundando móveis, cortinados e +tapêtes com a sua dourada cabelugem que faíscava, +lampejava nos espelhos, Branca acordava-o, sacudindo-o +com fôrça, chamando-lhe dorminhoco, tirando a +roupa da cama, entre gargalhadas. Frederico espreguiçava-se, +bocejava. Ela, de <em>robe-de-chambre</em> de +sêda, +cabelos soltos e despenteados caindo-lhe pelas costas, +um ar petulante e vicioso que punha uma desagradável +mácula na sua meiguice mas que a tornava +mais picante, aninhava-se nas tapeçarias que alcatifavam +o soalho, rolava a cabeça na beira do leito com +lentidões de gata amimada, ria-se da moleza de Frederico, +fazendo-lhe momices que êle repelia, enfastiado. +Sempre que despertava dos seus desvairos +sensuais, sentia um desgôsto muito fundo pela +miséria +moral em que ia resvalando rápidamente, sem +coragem para romper com torpezas o reentrar numa +existência honesta. Branca amuava, dizia-lhe que +êle já a não amava, que estava morto +por desfazer-se +dela, falava em morrer.<br /> + + +<br /> + + +―Mas, vê lá! Se me queres deixar, confessa-o +francamente!―acrescentava.<br /> + + +<br /> + + +Frederico irritava-se, chamava-lhe douda, saltava +do leito, tomava banho, vestia-se, reconciliando-se +com Branca; e, então, volvidas horas de +repouso que êle aproveitava para ler os jornais, para +folhear revistas estrangeiras ilustradas, almoçavam +muito juntos na pequenina sala de jantar que as jarras +de flores aromatizavam, o papel claro das paredes +alegrava e a que os mobiliários caros davam +confôrto, +elegância e beleza ornamental. Pelos aparadores +scintilavam pratas e reluziam porcelanas; de +<span class="pagenum">[222]</span> +grandes pratos cheios de fruta madura exalavam-se +arômas aperitivos; os cristais irisavam-se à luz; +e +Frederico achava então um certo enlêvo naquela +vida +comum, parecia-lhe que tinha um lar, uma companheira +solícita, que possuia no mundo uma alma para +quem a sua personalidade não era estranha. Muitas +vezes, jantava mesmo com Branca, saindo à noite +para as suas vadiagens, que se prolongavam até horas +mortas. Seis dias seguidos assim foram deslizando, +sem que êle se lembrasse, sequer, de ir a sua casa. +E por isso Nuno o não encontrara, por isso não +tivera, +mais cedo, notícias do imprevisto regresso do amigo ao +Pôrto―regresso de que só por acaso havia sido +informado...<br /> + + +<br /> + + +Enquanto caminhava pelas ruas já desertas +e cheias de sombra, perdia-se em suposições. Nuno +dissera-lhe que passaria o inverno na aldeia, quando +se separaram, e voltara a afirmar-lhe, em carta, êsse +propósito. Que facto, grave certamente, o teria feito +mudar de tenções? Aborrecimento da monotonia +rural, +da solidão rústica? Saudades da +animação, da +sociabilidade citadinas? Não! Nuno não era +mundano, +abominava as exibições, os convívios +banais. +Taciturno, misantropo, já na sua mocidade só +estava +bem com uma ou duas amizades mais íntimas à +sua roda. Depois que se casara, meteu-se dentro da +sua vivenda e da sua felicidade, sequestrou-se de todo, +gostosamente, às curiosidades indiscretas da rua e das +salas. Que razão forte, que motivo imperioso, o teriam, +pois, desalojado da solitude campestre, obrígando-o +a refugiar-se no Pôrto?<br /> + + +<br /> + + +―E se Júlia adoeceu?―monologou Frederico, +invadido por um sobressalto repentino. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[223]</span> +Uma comoção dolorosa apoderou-se de todo o +seu ser; sentia um fundo mal-estar interior, uma angústia +que o atordoava, que lhe apertava o coração, +que o constrangia. Com efeito, aí estava a +explicação +da volta de Nuno ao Pôrto. Não podia ser +outra! Naquele momento, a mulher que êle amava +com infinita doçura, sofreria, queimada pela febre, +ir-se-ia fanando na sua beleza viçosa, na gentileza do +seu encanto supremo, enquanto Nuno, apreensivo, +assistindo transido a uma dor que não podia sarar, +nem ao menos tinha ao seu lado alguêm que o confortasse, +que lhe desse esperança.<br /> + + +<br /> + + +―Com certeza que Júlia está doente!―pensava +Frederico.<br /> + + +<br /> + + +Um relógio dava, ao longe, duas horas. Era-lhe +impossível correr a casa de Nuno, bater-lhe à +porta, +alarmar tôda a vivenda, para saber o que havia; +mas êle tinha-lhe escrito e, naturalmente, nessa carta, +contava-lhe tudo. Então, dominou-o, espicaçou-o o +desejo de chegar de-pressa à sua +habitação, que ficava +ainda distante. Acelerou o passo. Ao dobrar duma esquina, +um vulto de mulher sumido dentro do chaile +cruzado no seio, saindo repentinamente da sombra, +disse-lhe em voz baixa e ofegante qualquer coisa que +não entendeu. Tirou do bôlso uma moeda de prata e +meteu-a numa lívida e magra mão que para +êle se +estendia com um gesto rapace de garra. Mais adiante, +um polícia embuçado no seu capote fumava +encostado +a um candeeiro. Sôbre as casarias pairava +uma ligeira névoa. A cidade dormia profundamente...<br /> + + +<br /> + + +Uma tipóia surgiu, rolando lentamente na calçada. +Frederico fez um sinal ao cocheiro, que esticou +as rédeas e se endireitou na boleia, exclamando: +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[224]</span> ―Pronto, meu patrão!...<br /> + + +<br /> + + +Os cavalos, extenuados e de cabeças pendentes, +estacaram. Frederico abriu a portinhola, entrou de +salto.<br /> + + +<br /> + + +―Para onde quere que o leve?―perguntou +ainda o cocheiro.<br /> + + +<br /> + + +Indicou o bairro e o número do prédio em que +residia e o carro partiu logo, mais velozmente, ao estalar +sêco do chicote. As ferraduras dos cavalos, batendo +violentamente nas pedras, levantavam faúlhas +de lume que scintilavam um momento para +em seguida se apagarem. Devorado de impaciência, +Frederico, de quando em quando, espreitava através +das vidraças e apenas via ruas esgueirando-se na +sombra, fileiras monótonas de casas, algumas ainda +com luzes agonizando por detrás de +<em>stores</em> descidos +nas janelas dos segundos andares.<br /> + + +<br /> + + +―Como é triste uma grande cidade erma a horas +avançadas da noite! E essa tristeza envelhece a +gente!―meditava.<br /> + + +<br /> + + +E o maldito carro sem chegar ao fim daquela +corrida que o estava atormentando! Batia nos vidros +da frente, com os nós dos dedos para que o cocheiro +fizesse galopar os cavalos mais apressadamente. Parecia-lhe +que já há muito tempo rolava, aos solavancos, +dentro daquela caixa fechada e sem ar, através +do burgo solitário, e isto excitava-lhe os nervos... Por +fim, o carro deteve-se de repente. Frederico, +olhando para fóra, reconheceu o seu retiro, a sua vivenda; +saltou para o passeio, deu uma gorda gorgeta +ao cocheiro que tirou o chapéu agradecendo, sacou do +bôlso um mólho de chaves niqueladas, abriu a porta +e sumiu-se na treva. Depois, raspando um fósforo, +<span class="pagenum">[225]</span> +subiu ligeiramente a escada, procurando não fazer +barulho para não despertar o criado que dormia, entrou +no seu escritório, acendeu o gás que ardeu num +leque de luz dentro da tulipa de cristal, sibilando em +surdina, e olhou para cima da larga mesa de pau preto +em que escrevia. Lá estava a carta de Nuno, efectivamente. +Logo a reconheceu pela letra que negrejava no +<em>enveloppe</em>―uma letra de +traços finos e firmes em que +se denunciava alguma coisa do carácter do amigo―a +sua franqueza, a sua energia, a sua vontade sem +hesitações. Rasgou o sobrescrito com frenesi, +como +se êle representasse um forte obstáculo com o +poder de +lhe demorar ainda durante muito tempo o conhecimento +duma verdade que queria saber imediatamente +e logo encetou a leitura. Nuno, como pensara, dizia-lhe +o motivo do seu regresso à cidade, informava-o, +com pormenores, da doença do filho, já curado, do +susto que tiveram, êle e Júlia, na aldeia, quando +julgaram a criança atacada de difteria e da sua +viagem por um hostil, bravio dia de chuva açoutando +em bátegas o automóvel. Terminava, pedindo-lhe +que o fôsse ver, que lhe désse ao menos +notícias +suas.<br /> + + +<br /> + + +«―O Porto―escrevia Nuno +irónicamente―é +uma terra tam pequena que tôda a gente se conhece +uma à outra. Pois bem; há três dias que +te procuro +por praças e cafés, logares onde se dá +à língua, +no boletim mundano dos jornais, e―parece impossível!―ainda +te não encontrei, como se tu fôsses +<em>la Belle au bois</em> da lenda e se da lenda e se +tornasse necessário penetrar +numa vasta floresta encantada para chegar +junto de ti! Aparece. Tanto eu como Júlia, que +está mais nutrida, que lucrou imenso com a sua +permanência<span class="pagenum">[226]</span> +na aldeia, gostaríamos de ver-te por +esta +casa que é tua.»<br /> + + +<br /> + + +Acabando de ler a carta, Frederico respirou. +Júlia não estava doente, não ocorrera +na existência, +tam calma, tam feliz, tam igual do marido, nenhuma +fatalidade irremediável, nenhum perigo ameaçava +criaturas a quem a sua alma era dedicada. Fez-se a +paz no seu sobressalto emotivo. Dobrou a larga fôlha +de papel que Nuno para êle escrevera e atirou-a +para cima da mesa, sentando-se numa poltrona estofada +em que o seu corpo molemente se enterrou; e +por muito tempo entregou-se a um longo scismar. +Branca, que naquele momento o estaria esperando +com um chaile de lã pelas costas, estirada num +fôfo +divan da sala em que passava os seus serões, lendo +romances sentimentais ou conversando com Amélia, +sua criada de quarto e sua confidente, esqueceu-lhe +completamente. A sua recordação estava cheia da +imagem de Júlia, da sua beleza, da sua bondade, da +sua maravilhosa graça de mulher, que queria adorar +com uma emoção purificada de desejos inferiores, +venerar +como um crente, no ardor do seu misticismo, +venera as coisas de Deus e que afinal amava, para +seu tormento e sua angústia, com um amor lúbrico +que lhe acendia a febre no sangue, que lhe toldava +a lucidez do espírito, que maculava de crápula os +puros lirismos da sua paixão a princípio casta e +que +depois, pelas solicitações carnais que +não pudera +conter, se transformou em criminosa. Como era que +essa mulher, em vez de o tocar com o alvor da sua +santidade, de tudo o que nela havia de superior, de +elíseo, de admirável, de astral, só +lhe comunicava +uma estranha volúpia que o alucinava? +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[227]</span> ―A culpa não é dela, com certeza, mas da +impureza +da minha organização!―monologava.<br /> + + +<br /> + + +E ali estava ela no Pôrto, perto dêle, chamando-o +para junto de si com uma voz de amizade que Frederico, +no seu delírio voluptuoso, julgava carregada +do fluido magnético da atracção +voluptuosa. Um +espírito oculto e maléfico impelia-o para +Júlia, incitava-o +a loucuras, a infâmias. Aterrado com a própria +consciência―em que germinava a flor vermelha +dum impulso mau―fugiu-lhe, afastou-se dela, +para a esquecer. Em vão. O destino enigmático +aproximava-os novamente, e desta vez com a particularidade +de se conhecerem de perto, de não serem estranhos +a um afecto que em Júlia era digno e enternecido +e que nêle degenerara em sensualidade animal; +de haverem vivido sob o mesmo teto, de se terem confessado +as suas simpatias e as suas predilecções, de +se fazerem mútuas confidências em que notavam, +rindo, +um gôsto idêntico, uma inteligência que +tinha pontos +de contacto, modos de ver em que havia semelhança. +Iria a casa de Nuno? Não iria? Flutuava entre +estas duas hipóteses, sem se decidir. Tinha +mêdo...<br /> + + +<br /> + + +―Deve ser já muito tarde!―pensou.<br /> + + +<br /> + + +Viu as horas. Eram quatro. De fóra não vinha o +menor rumor. Tôda a vida parecia suspensa, perdida +no silêncio e na treva nocturna. Então, novamente +se +lembrou de Branca, mas esta lembrança súbita +inspirou-lhe +uma repugnância secreta. A lubricidade excitante +que essa mulher acordara nas profundidades do +seu ser, apagava-se repentinamente como uma brasa +sob a água e dela nada ficava―nem memória +afável +nem doce recordação. Júlia +apoderava-se outra vez +dêle, com o mesmo império, com a mesma +intensidade, <span class="pagenum">[228]</span>impregnava-se +da sua substância nervosa, do +seu sangue, da sua carne, dominava-o. Não tinha pensamento, +nem desejo, nem aspirações que não +fôssem +para ela: e a exaltação que o sacudia era por tal +forma enérgica e absorvente que Nuno ou lhe esquecia +e lhe aparecia inteiramente desligado da espôsa, como +se fôssem duas personalidades sem nada de comum, +inteiramente separadas moral e corpóreamente uma +da outra. Era-lhe necessário empregar um grande +esfôrço +para os associar de novo, para entrar na realidade +das coisas, para compreender com nitidez que Nuno +era o seu amigo, o seu sincero camarada e que, em +vez de traí-lo, lhe devia comovidos respeitos, lealdades +fervorosas.<br /> + + +<br /> + + +Êste fenómeno psíquico decidiu-o. +Não! Não iria +mais a sua casa, enquanto não pudesse estar diante +de Júlia com a serenidade com que estaria diante +duma irmã. Desculpar-se-ia, inventaria uma piedosa +mentira com que pudesse justificar-se, cometeria +mesmo grosserias, contanto que a sua dignidade de +homem consciente ficasse intacta―ainda que para +isso tivesse de romper abertamente com Nuno. Saíria +do Pôrto sem delongas, para Lisboa, para o estrangeiro, +para tôda a parte onde se soubesse longe de Júlia, +embora a tivesse sempre presente na sua saùdade +e na infinita sêde de amor do seu +coração. De +Branca fugiria tambêm com a alegria com que se +quebram cadeias tirânicas e se recupera uma liberdade +durante muito tempo perdida. O seu sentimento, +agora divinizado pela sagrada lembrança da mulher +mais que tudo amada, tornava-lhe insuportável +a presença da impura, que apenas lhe apagava as +ardentes solicitações da animalidade carnal e que +lhe +<span class="pagenum">[229]</span> +não apaziguava as inquietações da +alma, que acelerava +a vibração da sua febre voluptuosa sem +lhe fazer ascender no espírito uma pura, ideal +aspiração.<br /> + + +<br /> + + +Oh! de-certo que ela choraria, que o ameaçaria +com suicidar-se, com provocar clamorosos escândalos: +mas enxugar-lhe-ia as lágrimas com um farto +punhado de ouro que a tranqùilizasse no seu +desespêro +artificial. De resto, nada lhe devia, a não ser a ternura +de algumas horas, uma ternura que ela costumava vender +a todos os homens e que Frederico tambêm comprara, +pagando-a por excessivo preço. Tinha-a encontrado +numa ceia com amigos, simpatizara com ela―porque +a sua beleza e a sua desdita o impressionaram +e o comoveram―levara-a para casa, pedira-lhe não +inspirações mas luxúrias que o +atordoassem. Reconhecido +pela relativa tranqùilidade que Branca comunicara +à sua dôr, indemnizou-a generosamente. +Não +podia ir mais longe. Bem sabia que ela empregava +todos os recursos e toda a sciência da sua +<em>coquetterie</em> +para lhe agradar com mais intensidade, para se +tornar mais desejada―não movida por impulsos +amorosos mas por cálculos. Era amável; mostrava, +mesmo, nas suas relações com Frederico, +delicadezas +que eram meramente superficiais. Por debaixo delas +traía-se sempre a indiferença ou a secura, o +automatismo, +a inconsciência. A castidade das +emoções +que iluminariam a sua paixão primitiva não podia +mais renovar-se em Branca. Nos seus carinhos balbuciados +havia qualquer coisa de convencional, de estudado; +nos seus beijos havia frio. Era apenas um +corpo sem alma―um lindo corpo, certamente,―que +se entregava por dinheiro. E, nos primeiros tempos, +<span class="pagenum">[230]</span> +a posse dêsse corpo chegou a interessá-lo por +determinadas +afinidades físicas.<br /> + + +<br /> + + +Mas agora, Júlia ressurgia; os cuidados de que +era alimentada a adoração que lhe consagrava +reclamavam +todo o seu ser; uma luz nova o alumiava, invadia-o +a tortura dum amor sem finalidade, que lhe +era amargo mas em que tambêm os seus sentidos encontravam +uma particular doçura. Sentia-se renascer, +não para uma vida nobre de esperanças, de +júbilos +futuros, de graças aurorizantes, mas para +preocupações +e para comoções que lhe eram, conjuntamente, +deleitosas +e aflitivas. A sua excitação sensual arrefecia, +extinguia-se―e por isso Branca desaparecia das suas +impulsividades orgânicas. Na sua intimidade moral e +afectiva resplandecia apenas a imagem aliciante do +único amor sério da sua existência de +homem apaixonado +e consciente: e Júlia assumia aos seus olhos o +esplendor de certas figuras maravilhosas e místicas, +que andam nas lendas sagradas com um fulgor de +ouro à volta da fronte. Queria entregar-se inteiramente +à veneração silenciosa e oculta dessa +mulher, devotar-se-lhe―mas +de longe, procurando evitar que +esta devoção, êste culto, se +transformassem em crime. +Era a fatalidade! Estava, portanto, decidido. Iria +a casa de Branca, pela última vez, trocaria com ela o +derradeiro beijo, deixar-lhe-ia, delicadamente, sôbre o +leito, um <em>enveloppe</em> fechado. Depois, +escreveria a Nuno +uma longa carta e seguidamente partiria ainda não +sabia para onde. Esta ideia calmou-o um pouco: mas +em breve, tudo o que na sua natureza havia de tímido, +de indeciso, de incaracterístico, imprimiu-lhe um +rumo diferente aos pensamentos. Não! Não romperia +com Branca asim de repente. Dir-lhe-ia que era forçado <span class="pagenum">[231]</span>a sair do Pôrto +por alguns meses, por causa +de +negócios que se prendiam com a +administração da sua +fortuna, mas que voltaria logo que isso lhe fôsse +possível e que então, como dois noivos, +realizariam +essa prometida viagem à Europa. Só de longe lhe +comunicaria +a resolução duma ruptura inevitável, +poupando-se +por esta forma ao espectáculo, doloroso para +a sua sensibilidade doentia, de prantos, de soluços +sufocados, de recriminações sem fim.<br /> + + +<br /> + + +Com Nuno, usaria do mesmo processo, servir-se-ia +de igual subterfúgio. Havia de dizer-lhe que +apenas em Lisboa, em Madrid, em Paris, recebera a +sua carta―que lhe fôra mandada por Bernardo―e +que por isso não pudera correr, como a sua alma desejava, +a dar-lhe um abraço. Anunciar-lhe-ia até um +breve regresso, para que êle se tranqùilizasse e +não +procurasse saber da sua vida e das suas aventuras. +Dêste modo, sofreria menos!...<br /> + + +<br /> + + +Já pelas frinchas da janelas se filtrava uma +fresca e pura claridade matutina, quando uma quebreira +o invadiu, serenando as suas violentas agitações. +As pálpebras, pesadas de sonolência, +cerravam-se-lhe; +uma doce lassidão prostrava-o. Levantou-se na ponta +das botas, foi buscar ao quarto um +<em>couvre-pieds</em> e deitou-se, +mesmo vestido, sôbre a +<em>chaise-longue</em> que estava +na sala, no ângulo formado por duas paredes, +para repousar por algumas horas. Lentamente adormeceu, +perdendo a noção das coisas que o rodeavam, da +sua própria situação +equívoca. Só acordou quando +Bernardo, entrando no escritório com o sol já +alto, +abriu uma persiana, por onde a luz festiva e clara +entrou a jôrros. Frederico sentou-se indolentemente, +esfregando os olhos, bocejando com fôrça, chamando +<span class="pagenum"><a name="p232">[232]</a></span> +a atenção do criado, que se voltou espavorido no +receio +de que um desconhecido tivesse entrado em casa, +para roubar.<br /> + + +<br /> + + +―Sim, sou eu, homem! Que diabo de espanto +é êsse!―exclamou êle para <a href="#e26">Bernardo</a> que o contemplava, +intrigado.<br /> + + +<br /> + + +―Crédo, patrão! Que mêdo me meteu! +Até +pensei que eram ladrões. Estava tam longe de o saber +por ca!... E não admira! Não o senti entrar.<br /> + + +<br /> + + +―Vim tarde, com efeito... Olha, desce à cozinha +e diz à criada que me faça o +almôço para o meio-dia. +Por agora, quero <a href="#e27">uma</a> +chávena de +café... Mas +bem forte.<br /> + + +<br /> + + +―Então, o senhor hoje almoça?<br /> + + +<br /> + + +―Pois é claro que almoço―atalhou, rabujento...<br /> + + +<br /> + + +―Está bem!<br /> + + +<br /> + + +Enquanto Bernardo cumpria as ordens, Frederico +ergueu-se, entrou no quarto de vestir para mudar +a roupa, que estava amachucada e cheia de vincos, +para lavar-se... Que desordem, a da sua existência! +Como é que êle se emmaranhara em tanto tumulto, +enxovalhando-se, perdendo a noção da +decência, +do alinho exterior, da rectidão moral, de tudo quanto +pode nobilitar o ser consciente! Ai! dêle que não +conseguira encontrar uma actividade útil e um ideal +dignificador, derivava todo o mal―considerava Frederico, +enquanto banhava, regalado, a fronte em água +fria. Não acusava ninguêm. O culpado era +êle, exclusivamente +êle e da sua culpa amargamente se arrependia. +Estaria ainda a tempo de recomeçar uma +experiência, +de regenerar-se? Não haveria na sua alma, no +seu sentimento, estragos <a href="#e28">irremediáveis</a>? +Consultava-se, +<span class="pagenum">[233]</span> +analizava-se +minuciosamente e notava em si uma +ausência de coragem, uma falta de incentivos renovadores, +que o apavoravam. Com a face branca da espuma +do sabonete, que exalava um leve arôma de narcisos +em flor, levantou um instante a cabeça diante +do espêlho e teve a noção +lúgubre de que estava vélho e +morto para todos os actos elevados. E como tudo, igualmente, +envelhecia e morria à sua roda, sem um lampejo +de beleza, numa desolação que mais ennegrecia +o seu desconsôlo... Remergulhou, furiosamente, na +água: e, depois, enxugando as mãos e a cara a uma +toalha felpuda bem sêca, maldizia-se +por não ter +sabido construir uma outra vida nobre e fecunda, por +se haver deixado arrastar sem reacções, ao sabor +das +correntes do acaso ou do destino... Mas agora, +implacávelmente, +reagiria, limpar-se-ia de impurezas, tentaria +ganhar o tempo perdido, trabalhando sem repouso +para rejuvenescer-se, para ressuscitar, para se +emancipar duma apatia amolecedora. A resolução +anterior +fortalecia-lhe o coração. Apegava-se a ela com +desespêro. +Mais algumas horas, que lhe eram necessárias +para pôr em ordem vários papeis, para dar algumas +instruções aos criados, para escrever a Branca, +para arranjar as malas, e uma outra existência se +iniciaria para êle... A esta ideia, avivou-se-lhe o +sofrimento +interior. Ia afastar-se, talvez para sempre, de +Júlia, que era a sua saùdade, a sua +doçura e a sua dor. +Idealizava-a mais uma vez. Ela tinha o encanto altivo +unido a uma simplicidade encantadora. A palidez +espiritual das suas faces e a meiguice dos seus olhos +boiando numa luz que brilhava, tocavam-lhe a alma. +A sua bôca apaixonada, que a mentira nunca maculara, +tinha a dupla sedução do silêncio e da +palavra―como <span class="pagenum">[234]</span>as +mulheres cantadas em sonetos de ouro por +Dante Rossetti. E deixava-a, porque no coração de +Júlia, transbordante dum outro amor, não cabia o +seu, +que era um intruso...<br /> + + +<br /> + + +Mas Frederico, que ainda momentos antes se julgava +com tanta energia para a separação, +começava +a vacilar. Como poderia viver sem ela e longe dela? +Que novas formas de tortura atingiria o seu padecimento? +A tristeza e o desespêro, que já o pungiam, +davam-lhe a medida exacta da paixão que por Júlia +sentia.<br /> + + +<br /> + + +Acabou de vestir-se mais deprimido, mais acabrunhado, +e voltou ao escritório, murmurando entre +dentes:<br /> + + +<br /> + + +―Embora! Não retrocederei!...<br /> + + +<br /> + + +Bernardo bateu à porta, perguntando se poderia +entrar.<br /> + + +<br /> + + +―Entra!―ordenou Frederico.<br /> + + +<br /> + + +O criado entrou, trazendo uma chávena de café, +quente e aromático, numa bandeja de prata, que +pousou em cima da mesa, informando:<br /> + + +<br /> + + +―Está lá em baixo uma senhora ainda nova.<br /> + + +<br /> + + +―Uma senhora?<br /> + + +<br /> + + +―Sim, patrão. Uma senhora, que chegou de +automóvel. Diz que lhe quere falar sem demora. É +um caso urgente.<br /> + + +<br /> + + +―E porque lhe não afirmaste que eu não +estava?―gritou Frederico, irritado, na suspeita de +que Branca o procurasse.<br /> + + +<br /> + + +―Pois eu afirmei, meu senhor...<br /> + + +<br /> + + +―E então?<br /> + + +<br /> + + +―Então, ela duvidou das minhas palavras, +asseverou que bem sabia que o senhor estava, que +<span class="pagenum">[235]</span> +era escusado eu negar. E falava alto, parecia agastada... +Diz que é um momento...<br /> + + +<br /> + + +―Olha que estopada!―bradou Frederico. Bem! +Passa-me o café, e manda-a entrar para a sala de +visitas... Lá irei ter daqui a pouco.<br /> + + +<br /> + + +Que audácia! Não faltava mais nada +senão essa +criatura―flor do vício―a agarrar-se com ansiedade +aos seus braços, a colar-se ao seu corpo, a +manchá-lo +com uma nódoa, a fazer scenas públicas da sua +paixão, como se Frederico lhe devesse +reparações, +como se de si tivesse partido o lôgro que a despenhou +para sempre no lôdo e na desgraça! Com que direito +vinha ela procurá-lo a casa, denunciá-lo +à criadagem +como seu amante, sair dum automóvel à sua porta, +em pleno dia, diante de tôda a vizinhança rindo +sarcásticamente? E que lhe quereria? Talvez pretendesse +queixar-se pelo abandôno duma noite, lamentar-se, +mostrar as suas lágrimas e os seus ciúmes. +Ah! não! Isso, não lho permitiria...<br /> + + +<br /> + + +Tomou à pressa o resto do café que esfriava na +chávena de porcelana fina, acendeu um cigarro, soprou +algumas baforadas de fumo e encaminhou-se +para a sala de visitas. Logo de entrada reconheceu +Branca, que se sentara numa cadeira sem mesmo erguer +o espêsso véu preto que lhe cobria o rosto. Com +as mãos esquecidas no regaço, estava pensativa. O +seio arfava-lhe apressadamente.<br /> + + +<br /> + + +―Então, que loucura é esta? Para que vieste +aqui?―interrogou Frederico, de mau humor.<br /> + + +<br /> + + +―Ah! és tu!...―respondeu ela.<br /> + + +<br /> + + +Ergueu nervosamente o véu, +dirígiu-se para êle +de braços abertos. Tinha os olhos vermelhos de chorar.<br /> + + +<br /> + + +―Pensei que te não tornava a ver, que me tinhas <span class="pagenum"><a name="p236">[236]</a></span>fugido, +que estavas +fatigado de mim. Porque +não apareceste ontem, como de costume?―interrogou +ela.<br /> + + +<br /> + + +Falava sacudidamente, muito excitada. O seu +rosto pálido rosava-se duma ponta de sangue mais vivo.<br /> + + +<br /> + + +―Não apareci porque não pude.<br /> + + +<br /> + + +―E porque não pudeste? Dize! Tiveste outros +amores, outras mulheres? Não sou já nada para ti, +então?... Responde!... Mas responde!...<br /> + + +<br /> + + +Frederico deteve-se um momento a considerá-la +com um olhar mau, de rosto sombrio e contraído. +Branca teve mêdo e acudiu logo, para se desculpar +da sua impertinência:<br /> + + +<br /> + + +―Não <a href="#e29">repares</a> nas +minhas palavras, que eu +não sei o que digo. Não dormi nada em +tôda a +noite. Só chorei! Se conhecesses os meus tormentos, +até tinhas pena... Mas, porque não apareceste, +Frederico?<br /> + + +<br /> + + +Outra vez a impertinência! Aquele inquérito +exaltava-o, enchia-o de cólera. Tinha vontade de +conclui-lo repentinamente, pondo Branca fóra de +sua casa, com imprecações duras e +empurrões brutais. +E, azedado por uma súbita fúria, atalhou:<br /> + + +<br /> + + +―Se tu me vens com êsses ares de que eu sou +uma coisa que te pertence e de que tenho de dar-te +conta dos meus menores actos, não te respondo... +Que tal está a petulância? Não apareci +porque não +quis. E olha! Nunca mais apareço... Acabou tudo +entre nós! Tudo, entendes?<br /> + + +<br /> + + +Atirou violentamente a metade do cigarro que +ainda ardia entre os seus dedos para um cinzeiro, e +começou a pessear excitado, des +Atirou violentamente a metade do cigarro que +ainda ardia entre os seus dedos para um cinzeiro, e +começou a pessear excitado, desvairado pela +irritação +sempre crescente. Branca abateu-se sôbre o sofá, +<span class="pagenum">[237]</span> +vencida, ofendida, soluçante, abafando o chôro no +seu lenço de rendas.<br /> + + +<br /> + + +―Agora temos prantos!... É escusado. Não me +comoves!<br /> + + +<br /> + + +Mas olhou-a novamente, viu-a enrodilhada, +ennovelada, destroçada sôbre o sofá, +emmudecida na +sua dôr, teve dó daquele pobre corpo +frágil, daquele +coração que todos calcavam, comoveu-se. +Aproximou-se +dela, impressionado, chamou-a carinhosamente:<br /> + + +<br /> + + +―Branca!<br /> + + +<br /> + + +Ela fitou-o na humildade dum olhar que implorava +e que as lágrimas tomavam mais brilhante, +murmurando:<br /> + + +<br /> + + +―Eu vim aqui porque me parecias diferente dos +outros, porque me trataste com alguma bondade, +porque julguei que tinhas piedade de mim. Bem sei +que nada me deves, que não tenho direito de ser exigente +e de meter-me nos segredos da tua vida... +Mas que queres? Costumaste-me mal. Pensei que não +me empurrasses com violência... Desculpa-me!... Eu +vou já embora. Deixa-me sossegar um instante...<br /> + + +<br /> + + +―E quem é que te empurra?―exclamou êle, +comovido. Escuta... Eu é que te peço +perdão da +minha brutalidade... Mas, minha filha tu ignoras as +minhas crises íntimas, os desgostos que me enfurecem. +Fui arrebatado, é certo. Mas, se soubesses a +razão +do meu arrebatamento, absolvias-me.<br /> + + +<br /> + + +Branca enxugou os olhos, levantou-se vagarosamente +do sofá, foi para êle com um sorriso dolorido e +risonho, já esperançada.<br /> + + +<br /> + + +―O quê? Pois não me repeles? Queres +então +um pouco a uma mulher como eu, que se devota +<span class="pagenum"><a name="p238">[238]</a></span> +como os cães e que todos enxotam, queres? Então, +que Deus te pague!... Mas que tens? Que desgostos +são êsses em que falas? Oh! se não +podes dizê-los, +guarda-os para ti só, que eu não fico +ressentida...<br /> + + +<br /> + + +―Pois é o diabo, filha... Maçadas...<br /> + + +<br /> + + +Gaguejava, sem saber o que havia de dizer, +muito confuso, temendo que ela descobrisse as suas +mentiras, incapaz duma atitude resoluta.<br /> + + +<br /> + + +―Até estava agora para ir a tua casa, dizer-te +tudo, explicar-te tudo...<br /> + + +<br /> + + +E de repente, o subterfúgio que procurava iluminou-se-lhe +na inteligência. Concluiu, perturbado e +contente:<br /> + + +<br /> + + +―Tenho de sair do Porto, hoje, infalivelmente.<br /> + + +<br /> + + +―E demoras-te?<br /> + + +<br /> + + +―Algumas semanas. Imagina! Ontem à noite, +inesperadamente, recebi um telegrama de Lisboa +chamando-me a tôda a pressa para junto duma tia +minha que está a morrer!...<br /> + + +<br /> + + +―Ah! então!...<br /> + + +<br /> + + +―Pensa na minha angústia! Esta tia, é a +<a href="#e30">única pessoa</a> que me +resta duma família que se extingue... +E nem sequer posso levar-te comigo... Bem vês! É +caso de gravidade... Mas volto. Volto logo que seja +possível, para a continuação do nosso +amor.<br /> + + +<br /> + + +―Se eu pudesse acompanhar-te, Frederico!―exclamou +ela resignada.<br /> + + +<br /> + + +―Mas não podes. Como queres tu?...<br /> + + +<br /> + + +―Não! Estou doida, efectivamente... Mas não +me deixas?... Não estás zangado comigo?<br /> + + +<br /> + + +―Zangado, eu? Que ideia... Espera um momento.<br /> + + +<br /> + + +Foi dentro, ao escritório, abriu o cofre, tirou um +<span class="pagenum">[239]</span> +maço de notas, felicitando-se pelo ardil encontrado, +satisfeito na sua covardia por cortar com Branca mais +suavemente do que pensava; e, reentrando na sala +meteu-lhe o dinheiro na saquinha de mão, murmurando:<br /> + + +<br /> + + +―Leva! Podes ter precisão dêle, enquanto eu +não regresso...<br /> + + +<br /> + + +―Mas!...<br /> + + +<br /> + + +―Nada de recusas. Ordeno eu. E agora vai, e +sê-me fiel. Mandar-te hei noticias minhas. Dá-me +um +beijo e adeus!<br /> + + +<br /> + + +Quando Branca desceu a escada e entrou apressadamente +no automóvel, que largou numa corrida +vertiginosa, Frederico soltou um suspiro de alívio...<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<h3><a name="p241"></a>X</h3> + + +<br /> + + +Dois, três vagarosos meses decorreram com uma +lentidão cruel para Frederico, que sentia por vezes a +impressão do tempo se ter imobilizado, de tudo +cair +à sua volta numa inêrcia que o apavorava, +inspirando-lhe +um terror mais forte pela vida, exaurindo-o +totalmente de vontade. Saíra do Pôrto na +intenção +de partir para o estrangeiro, de se demorar por +lá, em cidades ruidosas ou sossegados logarejos onde +encontrasse algum repouso, até que o seu amor impuro +se lhe apagasse no coração como se apaga uma +luz que muito tempo espalhou claridade; mas, desde +que chegara a Lisboa, encontrou-se mais só, mais +desalentado e mais inquieto, arrependendo-se amargamente +de haver deixado <a href="#e31">a rua</a> em +que vivia, a casa +em que nascera, perseguido por um mêdo absurdo e +quáse infantil, por uma cobardia deplorável, e +por +uma fraqueza de alma que o envergonhava... +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[242]</span> +As sensações sucediam-se-lhe com rapidez +assombrosa +no sentimento. Na capital, parecia-lhe que +entrara numa região de imensa solitude―uma solitude +que o oprimia, que lhe constrangia, apertava o +coração. Como se tinha enganado! Imaginava que a +distracção das viagens lhe curaria ou, pelo +menos, atenuaria +o extraordinário mal que tanto o fazia sofrer:―e +agora nítidamente via que, quanto mais se afastasse +de Júlia, mais êsse mal se agravaria. A +doença estava +inteiramente dentro de si:―na sua imaginação, +nos seus nervos, na sua sensibilidade, no seu +sangue! A dor que o atormentava nada mais era do +que um dos variados aspectos do padecimento humano, +a eterna miséria dos sêres conscientes. Provinha +das tiranias +implacáveis da carne, da animalidade, da tristeza +infinita dos destinos, das fatalidades a que +ninguêm pode eximir-se! Fugir para onde? Esconder-se +em que sítio? A sua tortura permanente havia de +acompanhá-lo para tôda a parte, como certas +enfermidades +que não perdoam e que sem descanso, noite e +dia, devoram o organismo de que se apoderam...<br /> + + +<br /> + + +Pensando constantemente em Júlia, formara no +espírito uma imagem dessa doce mulher muito mais +viva do que a personalidade real. Dêste fenómeno +derivava a sua excitação, o seu frenesi. Era essa +imagem, +precisamente, que nêle activava a luta entre a dignidade, +a elevação moral e o desejo lúbrico, +entre +a noção do dever e o cego instinto. Considerando +como +absolutamente inútil para a sua paz―a paz de que +tanto carecia―a vagabundagem pela Europa em +que durante dias pensara, decidiu ficar em Portugal, +conservar-se em Lisboa, envelhecer a um canto do +seu país, respirando o mesmo ar que vivificava +Júlia, <span class="pagenum">[243]</span>alumiar-se +com a luz do sol que tambêm a iluminava +a ela. Para a infinita melancolia do seu amor, +havia um grande encanto nestas pequeninas coisas. +Aquela adoração sem esperança +comunícava, em todo +o caso, a radiação da sua beleza +intangível a tudo o que +o cercava, penetrava-o de suavidade, tinha o condão +misterioso de lhe ressuscitar na memória figuras queridas +em que lhe era grato meditar. O vulto de Júlia +andava íntimamente ligado, na sua +recordação, +às paìsagens rústicas que ambos tinham +contemplado +num mudo êxtase, a certas páginas de +música que Frederico +lhe ouvira tocar ao piano, aos plácidos serões +na casa de campo onde vivera dias inefáveis, antes da +tempestade emotiva em que agora se debatia. Lembrar-se +dela era lembrar-se tambêm dos episódios +ocorridos durante as horas iniciais duma paixão que +começara, insidiosamente, por +admirações comovidas +de virtudes e de bondades que a ennobreciam e +que, depois, sem saber por que secretas +elaborações +de sentimento, se transformara em delírio, em loucura. +Fôsse para onde fôsse, havia de +aguilhoá-lo +a agitação que lhe não dava um minuto +de +tréguas, continuaria a queimá-lo a febre em que +se gastava, se consumia, como os troncos secos se +consomem numa fogueira. Afastar-se ainda mais +para quê? Separava-o já de +Júlia uma grande distância +e nem por isso a sua angústia afrouxava. Não +dispunha de coragem para atravessar a fronteira, +correr nacionalidades estranhas, observar outros povos, +outros costumes, outras civilizações. No seu +presente estado de alma, nada veria, nada compreenderia. +Em Lisboa, estava entre a sua gente, tinha +relações, poderia conviver, procurando o +esquecimento. <span class="pagenum"><a name="p244">[244]</a></span>Foi-se +deixando ficar, num dissolvente abatimento, +sem formar projectos de vida futura, incapaz +de resoluções, de actos enérgicos em +que a sua +vaga individualidade se afirmasse. Fechava-se dias +inteiros no quarto do hotel em que se instalara, ruminando +o seu tédio, folheando livros que se arrastavam +indefinidamente por cima das mesas e das +cadeiras, fumando. À noite, ia aos teatros, encontrando +uma vez por outra algum conhecido com quem +se entretinha em palestras sem interêsse. O seu +gôsto +era estar só, para relembrar, no silêncio, coisas +que +lhe eram inefáveis. Reentrar na sua paz antiga, sentir +de novo a alegria de viver, seria a libertação: +mas, para isso tinha de esquecer, e o esquecimento +era-lhe impossível. Bastava o facto mais insignificante +para lhe despertar na emotividade as sensações +da sua primitiva ternura, para lhe dilatar amorosamente +o coração. A depressão constante e +progressiva +da vontade que em si desfalecia levava-o a acusar-se +duma fraqueza que o aviltava: mas não +empregava esforços para reagir. Deixava-se governar +dócilmente por uma atracção +misteriosa.<br /> + + +<br /> + + +Em certos momentos, julgava-se pueril. Com +efeito, porque sofria êle tanto? Que crime havia praticado? +Que falta grave era a sua, para que assim se +entregasse passivamente a um desespêro que o devastava? +<a href="#e32">Não poderia</a> +êle amar +Júlia, a espôsa do seu +maior amigo, sem se manchar de ignomínia, sem se +envilecer? Talvez. Mas, se o corpo, a grosseira matéria +de que era constituido, o empurravam para êsse +amor, a sua alma, que era a essência, que representava +a porção de divindade que cada homem digno traz +dentro de si, opunha-se tenazmente. Êste antagonismo <span class="pagenum">[245]</span>entre a carne e o +espírito que dentro dêle se +fazia +não era uma nítida prova da sua nobreza moral? +Pecava +pelos sentidos mas purificava-se pela razão. E o +seu pecado todos o absolveriam. Experimentava alguma +doçura em relembrar Júlia, porque não +podia +viver sem a recordação saùdosa dum +amor de que +só êle sabia e que representava o facto dominante +da +sua existência. Ninguêm conseguirá, +fácilmente, desabituar-se +da felicidade―e amando Júlia em segredo, +considerava-se relativamente feliz. Na desolação +duma existência sem outro ideal, essa +adoração +tinha a graça duma flor e mergulhava-o na beatitude +dum quimérico sonho que lhe dava a ilusão da +ventura. Mas não iria mais alêm, não +ultrapassaria os +limites estreitos em que a sua desgraçada paixão +se +confinara. Para que havia de atormentar-se com tam +sombrio ardor?<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +A primavera veio, outra vez, cobrir os arvoredos +de folhagens tenras e verdes, reflorir os jardins, +tocar as paìsagens de maravilhosas tintas. A luz era +já mais límpida e vibrante; o sol trespassava o +azul +da atmosfera como uma enorme flecha de ouro. Uma +vida mais jovial renascia. Nuno, que contínuamente +escrevia a Frederico, na ignorância das mentiras por +êle inventadas para se afastar e do conflito moral e +sentimental em que se debatia, anunciou-lhe, numa +longa carta, o propósito em que estava de regressar +à +quinta novamente, ficando por lá a fortalecer e a +renovar-se, +entre a beleza rural e as coisas simples, +até que o filho crescesse e o obrigasse a residir na cidade, +<span class="pagenum">[246]</span>para lhe vigiar de +perto a educação. +Preparava +tudo para uma longa ausência do Pôrto, onde +só voltaria, +em rápidas visitas, de fugida, quando negócios +urgentes a isso o forçassem. E pedia-lhe que se +não +demorasse mais, que não prolongasse um afastamento +inexplicável que justificava com pretextos +sempre fúteis e que o intrigava.<br /> + + +<br /> + + +―«Com efeito―acrescentava Nuno―eu e Júlia +temos pensado muitas vezes que existe na tua +vida um segrêdo. Qual? Não o sei nem quero +sabê-lo, +pois se na verdade me não iludo e tu o escondes, +é porque me não julgas digno de o conhecer. Mas, +seja como fôr, vem daí assistir, na aldeia, +à ressurreição +das flores e à aleluia da graça!...»<br /> + + +<br /> + + +Esta carta despertou violentamente tôdas as ideias +e reminiscências que existiam no seu cérebro. +Outra +vez viu iluminar-se-lhe diante dos olhos deslumbrados +aquela tarde em que a beleza de Júlia pela +primeira vez o impressionou vivamente, quando ela, +debaixo da mosqueteira que vergava de corolas, se +cobria das florações que caíam de alto +como uma +chuva loura e lhe evocavam docemente a lenda pagã +de Júpiter, descendo num orvalho dourado sôbre o +corpo branco de Danae. Outra vez recordava a angústia―que +nunca mais deixou de pungi-lo―com +que fizera a descoberta dum amor que devia morrer, +porque era impuro; a noite de perturbação e de +terror que se seguiu a esta revelação singular; a +ansiedade +com que, logo ao raiar da alvorada, fugiu +para o Pôrto à procura duma serenidade, duma +pacificação +que nunca mais encontrou―recriminando-se +pelo facto de haver-se abrigado sob um teto, que +afectuosamente o acolhera, para manchar uma honra, +<span class="pagenum">[247]</span> +para trair uma amizade, para roubar uma ventura +que a outro legítimamente pertencia, para violar no +seu próprio santuário +emoções castas, para cometer, +na alucinação da sua luxúria, um +sacrilégio. A intensidade +da veneração consagrada a Júlia +tornava-o +excessivo na fúria com que se acusava: e as +evocações +eram por tal forma nítidas que o seu padecimento +agravava-se, excitando-lhe a cobardia, aumentando-lhe +o temor de voltar a aproximar-se duma mulher +que, por muito respeitar, não queria tornar a ver. +Sofria duplamente pela certeza evidente da sua paixão +e pelo enfraquecimento duma dignidade que sentia +escapar-se-lhe, deixando-o à mercê de impulsivos +desatinos. +A própria alma se lhe dissipava a esta +recordação. +Perdia a confiança em si mesmo. A sua +situação +surgia-lhe perante a consciência como um abismo―cheio +de idêntica sombra, de idêntico +mistério, de +igual silêncio enigmático. Outrora, pensava que +todos os homens podiam dominar-se, mesmo no +confuso turbilhão das emoções +desencadeadas, porque +para isso dispunham da fôrça que deriva do +raciocínio +e da sua superioridade de conscientes; e agora, +pretendendo exercer sobre si próprio êsse +domínio, +não o conseguia, por mais que o tentasse. E +porquê? +Porque a sua vontade não era íntegra e +suficientemente +enérgica? Porque as paixões eram mais fortes +do que o carácter, tendo o poder de comunicar à +razão, à inteligência, aos sentimento +elevados, o seu +fogo criminoso? Parecia-lhe que sim. E tambêm lhe +parecia que apenas os homens que saíssem vencedores +das lutas em que êle impotentemente sucumbia, +deviam ser considerados os verdadeiros heróis...<br /> + + +<br /> + + +Sucedesse, porêm, o que sucedesse, estava decidido <span class="pagenum">[248]</span>a nunca mais entrar em +casa de Nuno. Ao cabo de +pacientes e dolorosas análises, pressentia que, em +face de Júlia, não se conteria, deixaria +transparecer +o seu drama oculto, se denunciaria. A fuga era a +salvação! +Mas regressaria ao Pôrto, certamente, agora +que Nuno o informava da sua mudança para a aldeia +onde ia instalar-se durante anos. Lisboa enfastiava-o +já até à fadiga. Julgava-se +estrangeiro dentro +dessa cidade, entre uma população tam diversa +da do norte, pela índole, pela origem, por +diferenciações +de casta. Tinha-se libertado definitivamente das +complicações que a episódica e +transitória ligação com +Branca trouxera à sua atribulada existência. +Rompera +para sempre com ela, embora se separassem como +amigos que, juntos, correram atrás duma ilusão +irrealizável +e de cujo encontro ficaria alguma coisa de +doce. Como era um fraco de temperamento, um indeciso, +pensou em prolongar com ela uma triste mentira +que seria cómoda para o seu egoísmo e para a +sua indecisão. Temeu, porêm, as futuras +consequências +dessa mentira e sentiu a necessidade do mostrar-se +sincero. O mais leal, o mais concordante com uma +bondade que o nobilitava era desenganá-la com uma +franqueza resoluta:―e assim procedeu, penalizado +com a lembrança das lágrimas que a sua +deliberação +provocaria. Mas era preciso! Branca aparecia-lhe +como uma atroz mancha na sagrada brancura +do seu único e verdadeiro amor. Não podia mais +aceitar-lhe os beijos sem repugnância instintiva, sorrir +às suas carícias sem um desejo muito fundo de +repeli-la com rancor, com ódio. Perguntava mesmo +como esta incompatibilidade carnal entre êle e a sua +amante dalguns meses só agora se definia claramente, <span class="pagenum">[249]</span>sem encontrar uma +explicação para +êsse fenómeno...<br /> + + +<br /> + + +Escreveu-lhe, de Lisboa, anunciando-lhe o fim +duma aventura que tinha de acabar, pedindo-lhe +que lhe não quisesse mal, que dêle conservasse uma +lembrança afável:―e quando, perturbado, +inquieto, +imaginava que Branca não aceitaria a ruptura +sem clamorosos escândalos, soube que ela se resignara +inteiramente, procurando e encontrando logo +outras ligações. Esta certeza desanuviou-o.<br /> + + +<br /> + + +Um domingo, por acaso, passeando tristemente +na Avenida da Liberdade, onde já floriam as olaias +sob a doçura e o afago da luz primaveril, deparou, +inesperadamente, o jovial Paiva, que descia o passeio +em sentido oposto, fitando com enternecimento as +belezas femininas que passavam na festa esplêndida +do sol. Foi para êle cheio de contentamento, apertando-lhe +efusivamente a mão, interrogando-o com +afabilidade:<br /> + + +<br /> + + +―Oh! scelerado!... Tu por aqui?<br /> + + +<br /> + + +―Oh! admirável Frederico! Que feliz encontro!... +É verdade, por aqui, nesta doce e morena +Lisboa.<br /> + + +<br /> + + +―E êsse Pôrto, êsse namôro?... +<br /> + + +<br /> + + +―O Pôrto, creio que está no mesmo +sítio, com +a sua monotonia, a sua tristeza de burgo histórico +inamovível. Quanto ao idílio, findou como tudo +finda:―Roma, Bizâncio, Cartago!...<br /> + + +<br /> + + +E pousando a mão magra, em que fulgia a pedra +fina dum anel, no ombro de Frederico, acrescentou, +sorrindo:<br /> + + +<br /> + + +―<em>Tout casse, tout lasse et tout +passe!</em> Os franceses +teem razão. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[250]</span> +Deram uma larga volta, conversando, recordando +episódios esquecidos, espairecendo. Paiva +achava que as mulheres de Lisboa eram lindas e perturbantes, +com uma graça, uma distinção, um ar +encantador:<br /> + + +<br /> + + +―Vê a elegância com que elas pisam, menino! +E que corpos, que harmonia de formas, que ritmo! +Sobretudo, que ritmo!...<br /> + + +<br /> + + +―Tu vens obsceno do Pôrto, homem―comentou +Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Pois como diabo querias tu que eu viesse? +Sim! Como querias?!...<br /> + + +<br /> + + +Voltaram ao Rocio, entraram no Martinho, +sentaram-se a uma mesa, pedindo cerveja; e então, +Paiva informou Frederico do desfêcho grotesco do +seu curto romance com Branca. Estava agora com +um capitalista―o Luís Tavares―que há muito +cobiçava a sua formusora, o seu encanto decadente.<br /> + + +<br /> + + +―Um capitalista, hein?―perguntava Frederico, +bebendo o seu <em>bock</em>.<br /> + + +<br /> + + +―De-certo. Um capitalista... O Tavares... +Tu conheces. Ora! Não conheces tu outra coisa.<br /> + + +<br /> + + +―Com franqueza, não me ocorre... Mas +estimo! Coitada da pequena. Tam bôa rapariga!... +Um anjo.<br /> + + +<br /> + + +―É gentil, da tua parte, esse desejo de fazê-la +entrar nos córos celestes. Mas não vás +mais longe, +não a metas entre as Onze Mil Virgens...<br /> + + +<br /> + + +Paiva, acendendo um charuto, deu mais esclarecimentos:<br /> + + +<br /> + + +―É babadinho por Branca, o Tavares. Oferece-lhe +quanto ela quere. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[251]</span> ―Estás óptimamente informado!<br /> + + +<br /> + + +―Foi Luísa que me contou tudo.<br /> + + +<br /> + + +―É verdade:―ainda dura essa paixoneta?<br /> + + +<br /> + + +―Não, caramba! Eu gosto da variedade. A +igualdade assusta-me... Luísa tambêm se colocou―e +entre a magistratura. Está por conta dum desembargador +que, no seu doce regaço, esquece as leis, os +códigos, +pousa a severa espada da justiça e humaniza-se. +Mas, é claro, encontrâmo-nos de vez em quando. +Às vezes, por fantasia, por capricho―ela é +caprichosa―sobe à minha trapeira romântica de +boémio, +como uma Musa... E narra-me, entre beijos, +a crónica mundana dos amores envergonhados.<br /> + + +<br /> + + +―Que progresso, o dessas damas! Uma com o capital, +outra com a jurisprudência, ambas influindo, +talvez, na vida nacional, governando-a como Aspásia +governava Atenas!<br /> + + +<br /> + + +―Meu rico! Ambas nos devem muito. Fomos +nós que as ensinamos a ter linha. Praticamos uma +acção meritória―acrescentava Paiva, +cínicamente.<br /> + + +<br /> + + +Frederico bateu as palmas, pagou a despesa. Levantaram-se, +saíram.<br /> + + +<br /> + + +―Queres tu hoje jantar comigo, ó Paiva +magnífico? +Ando tam só, tam desalentado!...<br /> + + +<br /> + + +―Não posso. Muito que lidar, uma tia rica e +vélha de quem sou o melhor dos sobrinhos e o mais +necessitado dos herdeiros, outros casos de consciência. +Jantar contigo era uma bela ideia. Mas não posso... +Não sei mesmo quando poderei. Acho que tenho +de seguir com minha adorável tia para o Alentejo, +onde vamos visitar uns domínios territoriais que +virão +talvez a pertencer-me!...<br /> + + +<br /> + + +Separaram-se. Paiva enfiou pela rua do Ouro, +<span class="pagenum">[252]</span> +soberbo de petulância, fitando insistentemente as +mulheres que passavam, e Frederico, mais aborrecido +e mais triste, reentrou no hotel, fechando-se no seu +quarto e estirando-se num sofá, farto até +à saciedade +de Lisboa, onde nada o prendia, e ansioso pelo regresso +ao Pôrto, donde tantas recordações o +chamavam. +O seu terror, a sua inquietação moral +desvaneciam-se, +pois que Nuno e Júlia iam partir―talvez +mesmo já tivessem partido―para a aldeia. Fumando +uns cigarros atrás dos outros, entregava-se com mais +subtileza crítica à +observação do caso singular que o +trazia em alvorôço permanente, que de-certo +derivava +da exaltação nervosa, duma violenta +paixão―mais +lasciva do que espiritual―insatisfeita, das +ásperas solicitações da carne bruta, +da infinita miséria +física do amor, de tudo o que faz do homem um +animal vivendo pelo instinto grosseiro e não pelas +finuras, pelas delicadezas da alma. A sua análise escolhia +de preferência os sentimentos da intimidade +moral, porque as imagens da vida exterior exasperavam-no. +Começava a achar ridícula aquela desvairada +fuga diante da mulher para quem um ardente +desejo e uma invencível simpatia o impeliam e de +quem a razão e a dignidade o afastavam, intimidando-o +como se êle fosse uma criança, um +irresponsável, +e não dispusesse duma inteligência. Reconheceu, no +entanto, que perdera a confiança em si mesmo, que +era mais um autómato, dirigido por +fôrças ocultas, +do que um ser moral, governado por ideias e +emoções +próprias...<br /> + + +<br /> + + +Levantou-se, caminhou para uma janela aberta, +curvando-se um momento sôbre o peitoril. A +população +atulhava as ruas que o sol dourava; os carros +<span class="pagenum">[253]</span> +eléctricos desfilavam uns atrás dos outros, +abarrotados +de gente; pelos passeios erravam janotas ociosos, +e oficiais do exército arrastavam espadas nas +pedras. Era a scenografia de todos os dias, que já o +fatigava; surpreendeu-se a apetecer, mais do que +nunca, o isolamento da sua casa do Pôrto, longe de +tôdas as curiosidades, como um cenobita, entre livros +e entre recordações suaves. Com que prazer +começou +a fazer as malas, para abalar no dia seguinte, sem +mesmo prevenir os criados da sua volta! E como foi +consoladora para a sua saùdade a hora em que reentrou +na vivenda pacífica e cheia de lembranças +familiares +que o enterneciam! Tinha a ilusão de que em +tudo o que o rodeava havia uma parte da sua personalidade, +alguma coisa do seu coração, uma beleza +indecifrável que para êle se iluminava. Bernardo, +que o recebeu com um riso satisfeito e que o achava +mais magro, mais mirrado, pareceu-lhe um amigo +venerável. As árvores do jardim, cobertas de +fôlhas +que o sol tocava de luz, ramalhavam alegremente à +aragem, saùdando-o.<br /> + + +<br /> + + +―Venho arrasado, Bernardo, arrasado!―disse +êle para o criado.<br /> + + +<br /> + + +―Pois assim, sempre nessas idas e vindas, nem +pode medrar, meu senhor.<br /> + + +<br /> + + +―Tens razão. Tu é que tens razão. +Não posso +medrar, dizes bem. Oh! mas agora, vais ver. Vou repousar, +recuperar o perdido. Engordarei, não saírei +de casa, como os gatos.<br /> + + +<br /> + + +―Santo nome de Maria, com que o patrão se +compara!...<br /> + + +<br /> + + +―E então? Haverá porventura nada mais caseiro, +mais apegado ao borralho, do que um gato? +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[254]</span> +Nos primeiros tempos, com efeito, Frederico, todo +ocupado no arrumo das suas coisas, passava os dias +encerrado na habitação, saíndo apenas +de noite, depois +do jantar, quando a cidade começava a ficar deserta +e êle não corria o perigo de encontros importunos. +Dava longos passeios, como se pretendesse extenuar-se, +acalmar a agitação permanente do seu +espírito. +Foi precisamente numa destas caminhadas nocturnas +que uma vez, insensivelmente, se surpreendeu defronte +da morada de Nuno, mergulhada em sombra e mudez. +Parou a olhá-la como se quisesse lobrigar nas +vidraças +reflexos de luz interior que denunciasse a presença +de sêres vivos. Não viu nada e êste +facto +comunicou-lhe alegria e tranqùilidade. Depois, como +uma polícia se aproximasse a passos lentos, mirando-o +com desconfiança, reencetou a marcha, murmurando:<br /> + + +<br /> + + +―Bem! Já cá não está!<br /> + + +<br /> + + +E sentia contentamento pela sua descoberta―um +contentamento quáse infantil. A ausência de +Júlia e de Nuno garantia-lhe uma quietude relativa. +Isto animou-o. Absolutamente certo de que o amigo +estava agora longe, começou a aparecer de dia, a +freqùentar os centros de conversa, a mostrar-se. Reatou +convivências durante muito tempo interrompidas, +para se distrair, para atenuar a violência do seu +mal, que, no entanto, ia crescendo com o desalento +que o minava. Mas, uma tarde, ao descer os Clérigos, +vago, alheado, viu-se inesperadamente diante dalguêm +que gritava o seu nome, que para êle avançava, +de braços estendidos, berrando:<br /> + + +<br /> + + +―Ora ainda bem que te encontro. Que diabo +tens tu feito? Por onde tens andado? Que mal te fiz +eu? Dize!... +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[255]</span> +Era Nuno! Frederico estacou, empalidecendo +um pouco, muito comprometido, gaguejando desculpas, +interrogando-o:<br /> + + +<br /> + + +―Pois, estás no Pôrto?<br /> + + +<br /> + + +―Justamente! Estou no Pôrto. Tive de vir +aqui a tôda a pressa, buscar coisas que nos eram essenciais, +a mim e a Júlia, ao nosso brando retiro.<br /> + + +<br /> + + +―E ela como está, tua espôsa? E êsse +querido +herdeiro?―perguntou Frederico, já mais sereno.<br /> + + +<br /> + + +―Magníficos. Gozam duma saúde de ferro.<br /> + + +<br /> + + +―Como já te disse em carta, só em Lisboa tive +conhecimento da doença de teu filho e tu +tranqùilizavas-me...<br /> + + +<br /> + + +Nuno contemplava-o com interêsse. Estava mais +abatido, mais gasto, havia fundos vincos na sua face, +cabelos brancos na sua cabeça, tristeza no seu rosto +e era cansado o riso da sua bôca.<br /> + + +<br /> + + +―Demoras-te por cá?―inquiriu Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Não. Sigo daqui a horas, em automóvel. Ah! +Já me esquecia dizer-te... Tenho agora automóvel +na quinta, introduzi no meu viver pacato esta comodidade. +E era preciso. Não estamos livres duma súbita +doença, do imprevisto... E é verdade:―essa +visita? Quando te resolves? A não ser que a nossa +companhia te desgoste...<br /> + + +<br /> + + +―Oh! Nuno! Pois acreditas?...<br /> + + +<br /> + + +―Não afirmei nada. Exprimi apenas uma dúvida. +E olha que, na realidade, tanto eu como Júlia +te temos estranhado... Para que hei de esconder-te a +nossa surprêsa?<br /> + + +<br /> + + +―Tolices... E podes crer que não falto... Mas +mais tarde. Ainda tenho prisões. Hei de ver... +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[256]</span> ―Não hás de ver nada. Quero saber o dia, a +semana, +ou então o motivo dessas hesitações... +<br /> + + +<br /> + + +―Bem! Por todo êste mês, contem comigo... +Para onde vais?<br /> + + +<br /> + + +―A Carlos Alberto, fazer umas encomendas. +O meu automóvel deve lá estar. Acompanhas-me?<br /> + + +<br /> + + +―Não posso. Desculpa. Coisas urgentes a resolver... +Mas, espera-me em breves dias.<br /> + + +<br /> + + +―Esperarei.<br /> + + +<br /> + + +―E recomenda-me lá em casa... Beijos ao +morgado.<br /> + + +<br /> + + +Despediram-se, seguindo em direcções opostas. +Nuno, ágilmente, Frederico, mais acabrunhado. +Santo Deus! O facto que tanto temera sempre, dera-se, +afinal. E agora? Como poderia fugir mais uma +vez, libertar-se, sem levantar suspeições? Como +julgaria Nuno uma nova fuga, que já não poderia +justificar honestamente? Era-lhe impossível prolongar +por mais tempo uma tam cómoda mentira, +continuar iludindo. A fatalidade empurrava-o, definitivamente, +para o desconhecido e com uma fôrça +a que não conseguiria resistir. O que iria acontecer? +Que rudes formas de tortura adquiriria o seu +desespêro? Vacilava, sem encontrar uma evasiva +tam profundamente desejada.<br /> + + +<br /> + + +Tudo o que no seu ser existia de tímido, de +cobarde, de dúbio, despertava, exacerbando-lho o +terror. Deambulando na rua, a largos passos, falava +sòzinho, em voz alta e numa tal +excitação que +parava gente intrigada a observá-lo.<br /> + + +<br /> + + +―Com certeza que não vou!―afirmava.<br /> + + +<br /> + + +Mas se não fôsse, o que pensaria Nuno? Que +desastrada ideia tivera em deixar Lisboa, em não +<span class="pagenum"><a name="p257">[257]</a></span> +ter ido para o estrangeiro, para tôda a parte onde +a vida lhe oferecesse um pouco de sossêgo! Para +que voltara ao Pôrto? Recordava-se de haver lido +em Dostoiewsky que os criminosos andam à roda do +seu crime―de que não podem afastar-se―como as +borboletas à roda da chama em que se queimam. +Era êsse fenómeno psíquico que se dava +com êle, +naturalmente...<br /> + + +<br /> + + +Cruzou com um carro que fugia na calçada. De +dentro, uma graciosa cabeça de mulher inclinou-se, +espreitando e sorrindo irónicamente. Frederico reconheceu +<a href="#e33">Branca</a>. +Até aquela o desdenhava. Que +vida, que miséria! Encontrava-se numa encruzilhada, +completamente desnorteado. Que caminho tomaria? +Apressou a marcha, aguilhoado por uma inquietação +muito íntima e muito funda. Passavam-lhe +na mente tentações tenebrosas. +Únicamente de +si próprio, duma instantânea +fulguração de coragem, +dependia a quietação perpétua. A +solução pareceu-lhe +bôa, por instantes; mas logo, raciocinando mais +detidamente, monologou:<br /> + + +<br /> + + +―Era a mesma coisa, a mesma denúncia... +E, depois, sou um poltrão...<br /> + + +<br /> + + +Nesta dúvida permanente, que tornava mais +cruel o seu sofrimento, viveu Frederico todo o resto +do mês, caído numa misantropia que o assustava, +nos raros momentos em que lúcidamente podia reflectir. +Tinha-se outra vez encerrado em casa, fechando +a porta a tôdas as curiosidades importunas, +e levava os dias num desespêro que apenas a imagem +serena de Júlia a espaços lúarizava. A +sua irresolução +era maior, mais tormentosa a sua angústia. +Sentia a necessidade duma fé religiosa que lhe iluminasse <span class="pagenum">[258]</span>o espírito +árido, que o apaziguasse. +Assaltava-o +o receio de enlouquecer. Bernardo aterrava-se. com +a fixidez do seu olhar em que brilhava alguma coisa +de bizarro e de mau...<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Um dia de manhã, o correio trouxe-lhe uma +carta―a carta a tôdas as horas esperada. As mãos +tremiam-lbe, quando lhe pegou. Rasgou o +<em>enveloppe</em>, +abriu-a e leu, com um rubor de vergonha na face, +estas linhas sêcas e curtas de Nuno:<br /> + + +<br /> + + +«Na verdade há uma razão secreta que te +afasta +desta casa, da minha amizade, da minha confiança. +Desconheço-te e a tua atitude inexplicável +preocupa-me. Existe entre nós um equívoco que +não +deve continuar por mais tempo e de que tu, francamente, +me informarás. O teu procedimento, que me +intriga, parece mais uma provocação do que outra +coisa; e o nosso antigo afecto de tôda uma mocidade +dá-me o direito de exigir-te +explicações.»<br /> + + +<br /> + + +A carta terminava com mais algumas palavras +que a humanizavam, lhe atenuavam a rispidez. Então, +tôdas as indecisões de Frederico se dissiparam. +Efectivamente, +reconhecia a sua culpa. Nuno tinha +motivos para estar magoado, para o recriminar. Que +homem era êle?―pensava Frederico, espreitando, +espavorido, a consciência. Queria furtar a sua dignidade +de amigo a atracções que a manchariam, e +comprometia únicamente as suas +afeições mais puras. +E tudo isto porquê? Pelo temor absurdo de praticar +uma acção vil. Mas, não dispunha +êle duma inteligência +capaz de compreender os eternos problemas +<span class="pagenum">[259]</span> +do Bem e do Mal e duma energia capaz de resistir às +alucinações criminosas?<br /> + + +<br /> + + +Chamou o criado na electrização duma vontade +que o vitalizava, mandou encher uma grande +mala de madeira, recoberta de couro, com roupa e +calçado, ordenou que lhe fôssem buscar um +automóvel, +e sem pensar, sem calcular as conseqùências da sua +carreira cega e vertiginosa para o amor e para a vergonha, +ou para a libertação e para a morte, partiu. +Ainda confiava numa coisa:―a sua timidez. Nunca +teria a audácia de revelar a Júlia o seu +segrêdo. Se +ela o perscrutasse e o aceitasse sem cóleras fulgurantes, +talvez a sua natureza imperfeita sucumbisse; +mas, pura, como era, ignorando as torpezas do +coração +humano, nunca ela o adivinharia. A sua adoração +continuaria, portanto, oculta, fazendo-o sofrer apenas +a êle...<br /> + + +<br /> + + +Volvidas horas duma impaciente correria por +estradas que cortavam através de espraiadas veigas, +de descampados, de terras de cultivo, de pinheirais +rumorosos, Frederico parava diante do portão da +quinta, tam seu conhecido, ao latir furioso dos cães de +guarda. Já pelas grades pintadas de verde floriam as +roseiras de trepar, e tôda a aldeia reverdecia, como +numa festa, sob as aragens perfumadas e o ouro dum +sol criador e maravilhoso de luz, descendo dum céu de +esmalte azul. Nuno que estava à varanda olhando +distraídamente +as montanhas que ao longe se esfuminhavam, +na vaga névoa, vendo deter-se um automóvel, +desceu apressadamente ao jardim, sem esperar +pelo criado e atirando uma saùdação +amigável ao viajante, +que sacudia a roupa empoeirada. Abraçaram―se +com efusão. Frederico repreendeu-o: +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[260]</span> ―Que estúpida carta foi aquela, Nuno?<br /> + + +<br /> + + +―Não foi estúpida, foi estimulante. Se me +não +zangasse sériamente, não vinhas. E olha que +começava +a não saber o que pensar... Mas vieste. Tudo se +esclareceu. Esqueçamos êsse +desagradável incidente...―explicava +êle, dirigindo-se a casa.<br /> + + +<br /> + + +Trémulo, transtornado, esforçando-se por +conservar +a tranqùilidade aparente, tôda superficial, +Frederico +acompanhava Nuno, que cruzava o jardim a +passos largos. Ia tornar a ver Júlia perto de si. +Há +quanto tempo a não via! Quáse um ano―uma +eternidade +para quem ama como êle amava―tinha decorrido, +desde que se separaram. A sua perturbação +aumentava, +o coração pulsava-lhe com violência, o +sangue +circulava-lhe apressadamente nas veias.<br /> + + +<br /> + + +―Júlia, Júlia!―bradou Nuno, ao subir, com +Frederico, a larga escadaria de pedra, sob as glicínias +brancas e rôxas, que conduzia ao primeiro andar.<br /> + + +<br /> + + +Ela apareceu logo, à porta de entrada, com o filho +ao colo, muito risonha, muito còrada e afàvel.<br /> + + +<br /> + + +―Cá está o pródigo!―zombou Nuno.<br /> + + +<br /> + + +―Que volta ao calor das vélhas amizades, +arrependido da sua prodigalidade―concluiu Frederico, +apertando a mão que ela lhe estendia, aberta e +leal, e beijando a criança com ternura, quáse com +devoção.<br /> + + +<br /> + + +―Pensei que nos tinha esquecido...<br /> + + +<br /> + + +―Oh! minha senhora... E como pôde supôr...<br /> + + +<br /> + + +Ergueu, a cabeça e fitou-a pela primeira vez +mais demoradamente, muito perturbado, tentando +sorrir. Ela encarou-o tambêm, satisfeita, com uma +grande alegria no rosto. Os seus olhares cruzaram-se. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[261]</span> ―Se lhe parece! Que devíamos pensar, então?... +Mas perdoamos-lhe, pelo muito que o estimamos, não +é verdade, Nuno?<br /> + + +<br /> + + +Êle fez um gesto de assentimento, muito contente.<br /> + + +<br /> + + +―Só por esta vez... Para a outra, não +haverá +perdões!―ameaçou Júlia.<br /> + + +<br /> + + +Enleado, sem saber o que responder, Frederico +refugiou-se todo na inocência do pequerrucho, que +sorria enlevado, agitando as mãozinhas côr de +rosa.<br /> + + +<br /> + + +―E cá o figurão? Admirável, +não é assim?―perguntou +êle, tocando-lhe com a ponta do dedo +levemente, afagando-o.<br /> + + +<br /> + + +―Está excelente, agora. Mas inspirou-nos um +susto!...<br /> + + +<br /> + + +―Eu sei, eu sei. Nuno contou-me tudo.<br /> + + +<br /> + + +―Oh! menino, deixa as expansões para logo―atalhou +Nuno. Teremos muito tempo de tagarelar, +durante esta deliciosa primavera. Porque deliberei não +te deixar evadir daqui tam cedo. Agora és meu prisioneiro... +Vai-te arranjar. O quarto é o mesmo do +ano passado... Cá em casa nada mudou. Amamos +as tradições.<br /> + + +<br /> + + +Frederico aproveitou a ordem providencial do +amigo, que vinha libertá-lo duma +situação de momento +a momento mais penosa para êle, exclamando:<br /> + + +<br /> + + +―Então, se V. Ex.<sup>a</sup> dá +licença, minha +senhora...<br /> + + +<br /> + + +―Pois não, pois não!...―declarou +Júlia.<br /> + + +<br /> + + +Entrou no quarto para onde os criados tinham +já levado a mala, lavou-se e vestiu-se. O silêncio +envolvente +apaziguava-o, tranqùilizava a sua +perturbação. +Aquela casa, que a luz inundava, era feliz: e a felicidade +foi sempre recolhida e pacífica. Mas, cheio de +<span class="pagenum">[262]</span> +desconsôlo, invadido por um desgôsto imenso, +Frederico +perguntava a si mesmo para que viera, porque +não tinha resistido tenazmente às +solicitações de +Nuno. Que leviandade! E como, por irreflexão, havia +concorrido para agravar o seu mal!<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +<br /> + + +Os dias foram passando num desespêro cada vez +maior para Frederico. O seu delírio atingia uma +violência +terrível de instante a instante. Surpreendia-se +muitas vezes a contemplar Júlia em êxtase, quando +à noite, ela, sentada ao piano, interpretava uma dessas +páginas de música que parecem falar da +aspiração +irrealizada das almas para a beleza e para a ventura. +A luz do candeeiro, que lembrava um hálito dourado, +derramando-se no ambiente, batia-lhe em cheio na +massa dos cabelos enrolados no alto da cabeça gentil, +nos ombros, nos lóbulos das orelhas, onde fulguravam +as pedrarias dos brincos. Frederico, sentado +numa cadeira de braços, absorvia-se na sua graça, +no +seu encanto, idealizava-a, considerava como devia ser +infinitamente doce o seu amor e setinosa a sua pele +tam branca, opalizando-se na claridade difusa, enquanto +Nuno, fumando um charuto, vagarosamente +folheava um livro. No fundo do seu coração havia +agora um inexplicável ressentimento, quáse +ódio +por +aquele homem que tirânicamente se interpunha entre +êle e a divina mulher da sua ardente paixão, em +nome dum afecto a que a sociedade―e talvez a +lealdade do seu carácter!―impunham obediência +passiva. Como a influência desta +adoração infindável +se tornasse mais imperiosa e dominadora de +<span class="pagenum">[263]</span> +hora para hora, Frederico, temendo o irremediável, +evitava tôdas as ocasiões de se encontrar +só com Júlia. +De dia, se Nuno descia à quinta, êle +acompanhava-o, +procurava interessar-se por coisas que não entendia, +demorava por tôdas as formas o regresso à +vivenda. O tempo estava esplêndido e a scenografia +era, realmente, maravilhosa. Todos os arvoredos do +parque agitavam no ar, brandamente, as ramarias +cobertas de folhagens novas, que os pássaros vestiam +de asas. As acácias douravam-se duma flor que, trespassada +pela luz, dava a impressão duma espuma +de ouro; altos castanheiros da Índia balouçavam +pingentes de florescências brancas e rosadas. As +fôlhas +densas formavam um docel duma côr verde e +tenra. Por vezes, flechas de sol, filtrando-se por entre +os ramos, mosaicavam a areia fina do chão de +manchas luminosas. Ao lado, o jardim enflorava, +exalando-se em perfume. Mais para alêm do muro +que circundava a vasta propriedade, ondulavam em +galgões as dobras de terreno, espraiavam-se os campos +cultivados, os ferregiais, os lameiros em que a +erva crescia, branquejavam casais pequeninos donde +aonde, verdejavam os pastos, subiam na atmosfera +os campanários em que, aos domingos, os sinos, +convocando os fiéis, espalhavam por todo o vale a +música festiva e mística dos seus claros sons. E +ao +fundo, subia a mole colossal das serras, mais fecundas +na base, mais áridas nos cimos, com a sua +decoração +de matagais cheirosos, de pinheirais, de rochedos +cortados em escarpa.<br /> + + +<br /> + + +―Que beleza!―murmurava Frederico, enlevado.<br /> + + +<br /> + + +―Não é verdade?―inquiria Nuno. Onde +é +que tu encontras êstes espectáculos, esta poesia, +na +<span class="pagenum">[264]</span> +cidade, em que tudo é tam pequenino, tam mesquinho, +tam banal?<br /> + + +<br /> + + +Depois, levava-o até ao fim da quinta, para +que êle visse os grandes melhoramentos em que +consumira a actividade de todo um estio. Nas terras +de pão, as sementeiras eram prometedoras. Vigorosamente, +os milhos miúdos «viam-se crescer»―como +dizia o velho Mateus, agora mais feliz, bem instalado +na sua granja que devia à generosidade do senhor; +os centeios e os trigais, impando de seiva, arrepiavam-se +à ligeira aragem que sôbre êles corria, +ágil +como um sôpro, fazendo-os encrespar; ramadas e vinhedos +lançavam pâmpanos; todo o vergel se estrelava +de floração. E sobre aquela alegria da leiva +fértil, +caía a luz pura como uma +bênção de Deus.<br /> + + +<br /> + + +―Isto é uma verdadeira maravilha, Nuno!―exclamava +Frederico, diante do caseiro que sorria, +agradecido.<br /> + + +<br /> + + +―O tio Mateus trata-me a propriedade com +amor.<br /> + + +<br /> + + +―Faz-se o que se pode... Mas o patrão é um +santo!―dizia êle para Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Oh, homem, olhe que só o Vaticano é que pode +fazer canonizações. Santo, eu? Pecador, +pecador...<br /> + + +<br /> + + +―O que tem feito por mim e pela pobre doente +e pelos filhos é mais do que de santo, pois não +é? +Ai! devo-lhe muito, devo-lhe muito.<br /> + + +<br /> + + +―É verdade, e como está sua mulher?<br /> + + +<br /> + + +―Na forma do costume, a infeliz.<br /> + + +<br /> + + +―Alguma doença?―perguntava Frederico, +condoído.<br /> + + +<br /> + + +―Uma paralisia... Coitada!<br /> + + +<br /> + + +Muitas vezes, saíam para fóra da quinta, pela +<span class="pagenum">[265]</span> +porta que servia a parte alugada ao caseiro, davam +grandes passeios através dos prados, internavam-se +nos caminhos sulcados pelas rodas dos pesados carros +de bois, coleando-se entre sebes já floridas, e +só +recolhiam quando se aproximavam as horas do jantar.<br /> + + +<br /> + + +Era êste o momento mais doloroso para Frederico, +que tinha de sofrer, diante de Júlia, o seu +suplício +atroz, ouvindo-lhe a voz de ouro, afagando-lhe +com os olhos a beleza a que a maternidade e a certeza +dum amor constante imprimiam mais serenidade e +mais graça, desejando-a com febre e temendo-a, ao +mesmo tempo, por êste desejo impuro que ela, sem +querer, comunicava aos seus sentidos, à sua carne, +à +sua animalidade. Uma noite, durante o serão, a conversa +entre os três animara-se. Discutia-se a incapacidade +dos homens para saberem procurar a sua felicidade. +Os que a encontravam não eram nunca orientados +pela inteligência ou pela finura psicológica, +mas pelo acaso, observava Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Sai-lhes a ventura, como lhes poderia sair a +sorte grande, num bilhete de lotaria...<br /> + + +<br /> + + +―Essa agora!―atalhou Júlia. É então +a inconsciência +que preside à vida consciente?<br /> + + +<br /> + + +―E porque não?―afirmava Frederico. A humanidade +é ainda tam imperfeita!...<br /> + + +<br /> + + +―Oh! menino, concede ao menos alguma sagacidade +ao instinto, que poucas vezes se engana.<br /> + + +<br /> + + +―Engana-se quáse sempre, porque está submetido +a influências nefastas.<br /> + + +<br /> + + +―É levares muito longe a tua furiosa vontade de +negar... Mas, aí tens tu as mulheres, por exemplo. +São duma argúcia!... Sobretudo em +questões de sentimento. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[266]</span> ―Pobres delas!―riu Frederico.<br /> + + +<br /> + + +―Pobres porquê?―perguntou Júlia, interessada.<br /> + + +<br /> + + +―Porque nunca verão claramente as almas. +A sua análise não ultrapassa as +exterioridades―insinuou +com intenção Frederico, em voz apressada +e viva.<br /> + + +<br /> + + +Júlia olhou-o demoradamente, enquanto Nuno +comentava:<br /> + + +<br /> + + +―São opiniões, pontos de vista.<br /> + + +<br /> + + +Sob o olhar penetrante de Júlia, Frederico +baixou a cabeça, perturbado e arrependido de ter +ido tam longe, arrebatado por um impulso que não +pudera dominar. A fixidez da vista dessa doce mulher +cravada nêle inquietava-o. Que queria ela +dizer, comunicar? Ter-se-ia denunciado? Adivinharia +Júlia, há muito, por uma dessas +intuições que certas +criaturas possuem, o segrêdo que êle trazia +escondido +no coração? Atarantado, acrescentou, como +se quisesse desculpar-se, furtar-se àquela +espécie de +interrogatório mudo:<br /> + + +<br /> + + +―É claro, há excepções. +Falei dum modo genérico...<br /> + + +<br /> + + +E sorrindo lívidamente, com os lábios muito +brancos, uma imperceptível tremura nas mãos, +disse +ainda, voltando-se para Júlia:<br /> + + +<br /> + + +―Não pense V. Ex.<sup>a</sup> que eu envolvi +tôdas as +mulheres na minha afirmativa...<br /> + + +<br /> + + +―Eu fui uma das exceptuadas?―interrogou +ela alegremente. É uma amabilidade de amigo.<br /> + + +<br /> + + +O incidente esqueceu, a palestra derivou para +outros assuntos que iam surgindo, mas Frederico +não pôde recuperar a sua serenidade de +espírito. Estava +doido, ia perdendo a noção das +conveniências e, +<span class="pagenum">[267]</span> +se permanecesse por mais tempo naquela casa, perto +de Júlia, vergado à tirania da sua +fascinação, viria a +praticar loucuras. Não via, não ouvia, deixava +muitas +vezes sem resposta perguntas de Nuno, que tinha de +o chamar à realidade, exclamando:<br /> + + +<br /> + + +―Que diabo de abstracção é essa?<br /> + + +<br /> + + +E foi, na verdade, um grande alívio para êle o +instante em que Júlia se levantou, sorrindo de fadiga, +despedindo-se e dirigindo-se ao seu quarto. +Êle e Nuno ficaram ainda no gabinete, à volta da +luz. Havia luar e uma claridade branca batia em +cheio nos vidros da janela. Fóra, tudo adormecia em +sossêgo, na pacificação nocturna. +Quebrando a cinza +do charuto no cinzeiro, Nuno sorria enlevado, e o +amigo, surpreendendo-lhe o sorriso, disse:<br /> + + +<br /> + + +―Em que coisas alegres pensas?<br /> + + +<br /> + + +―Na minha felicidade. Imagina...<br /> + + +<br /> + + +Calou-se, como se se arrependesse, de repente, +duma revelação que ia fazer.<br /> + + +<br /> + + +―Imagino o quê?<br /> + + +<br /> + + +―Não sabes nada? Não vês nada?... Bem +dizias tu, há pouco, que os homens são rombos de +compreensão, teem embotada a ponta da subtileza.<br /> + + +<br /> + + +Frederico observava-o, intrigado, batendo sôbre +a mesa com os nós dos dedos.<br /> + + +<br /> + + +―Tu és um amigo, um irmão. Não +és, nesta +casa, uma pessoa estranha. Pertences à família. +Pode, +portanto, dizer-se-te tudo... Júlia está outra +vez +grávida! Assim mo revelou esta manhã... Vou ter +outro filho... Talvez uma filha, para a felicidade +ser completa...<br /> + + +<br /> + + +Grávida! Júlia estava grávida! Que +horror! +E como essa certeza brutal o amachucava, o transtornava. <span class="pagenum">[268]</span>A garganta +constrangia-se-lhe. Fazia esforços +para falar, e não conseguia articular as palavras.<br /> + + +<br /> + + +―Mas não me dizes nada, não me felicitas, +não +me abraças por esta ternura que me envolve e que eu +agradeço ao meu doce destino?...<br /> + + +<br /> + + +―Ah! de-certo que és bem feliz!...―exclamou +Frederico, por fim.<br /> + + +<br /> + + +―Não é verdade?―interrogava Nuno, com a +face banhada de riso e de satisfação.<br /> + + +<br /> + + +―Um amimado da sorte!...<br /> + + +<br /> + + +Retiraram, por fim, da sala. Um criado veio +apagar a luz e arrumar os móveis.<br /> + + +<br /> + + +A noite tempestuosa que Frederico passou! +Que terror e que desalento geravam, para a sua alma +pávida de espanto, as sombrias larvas do delírio? +E que futuro entrevia, sem um ideal, sem um sentimento +mais puro que lhe enchessem a vida e lhe dessem +esperança e coragem! Tôda a doçura que +sonhara +findava repentinamente como uma flor que se +desfolhasse ao vento. Compreendia ágora +nítidamente +que falhara na existência. Na hora de agonia +que atravessava, tôdas as dúvidas se esclareciam +para +a sua inteligência conturbada. Nada ousaria tentar +para fugir a uma condenação fatal, para +reconquistar +uma paz que perdera. A sua consciência era uma +abjecção. +Estava endemoninhado dum pensamento mau, +que não podia arrancar dos sentidos como quem +arranca o ferro duma ferida sangrenta e profunda; +estava possesso do crime em que se envilecera e o espicaçava +como um remorso. Para viver tranqùilo, +seria necessário redimir-se da fúria cada vez +mais +ardente duma diabólica paixão insaciada.<br /> + + +<br /> + + +Estendido sôbre o leito, arquejante, Frederico, +<span class="pagenum">[269]</span> +de vez em quando, insurgia-se contra o curso das suas +meditações, contra si próprio; mas a +sua revolta era +inútil, não vingava desviar a +atenção concentrada naquela +absurda tortura. E que abismo de torpeza era o +homem! Odiava Nuno fulgurantemente, desejava +que tôdas as desgraças, todos os +infortúnios, se abatessem +sôbre a sua cabeça, que a amargura de +tôdas as +misérias o punisse implacavelmente. Com que vitorioso +grito de triunfo êle lhe anunciara a gravidez de +Júlia! E com que punhalada varara o seu +coração! +Essa nova maternidade sagrada da mulher que amava +era uma suja mácula na santidade da sua +adoração―mácula +bestial. Nuno, fecundando-a entre ásperos +beijos de luxúria e de fogo, na +vibração suprema +do seu organismo físico, poluira o sentimento que na +sua alma abrira puro como uma flor virginal. O filho +que viesse, que já fazia estremecer o ventre de +Júlia, +enxovalharia a mulher para quem a sua veneração +subia como o incenso subia dum turíbulo, na +nave dum templo. E fôra para assistir a esta vilania +que o amigo o convidara para casa, arrancando-o +irónicamente ao seu isolamento. Mas quem o impediria +da vingança, procurando Júlia, revelando-lhe +aquele doloroso segrêdo que trazia dentro de si e +que o sufocava?...<br /> + + +<br /> + + +A esta ideia, que por um momento lhe pareceu +justa, encolheu-se, espavorido.<br /> + + +<br /> + + +―Que canalha! Que canalha eu sou!―murmurava.<br /> + + +<br /> + + +Não, que pavor! Júlia devia ignorar tudo. Era +em saber guardar o mal que o atormentava, que residia +a beleza real do seu sacrifício. E com que direito +criminava êle aquela doce união conjugal em que +tudo +<span class="pagenum">[270]</span> +era graça, constância, virtude, pureza? Para que +havia de espalhar a lama no caminho de Júlia e de +Nuno, tam dignos um do outro e da ventura, pela sua +bondade, pela sua abnegação, pela sua lealdade? +Confessar-lhe um amor criminoso, que seria repelido +sem piedade, era dar a conhecer os aspectos mais torpes +da sua alma, que não hesitava em traír o amigo, +disputando-lhe a espôsa, o tálamo, em +ultrajá-lo, ofendê-lo, +humilhá-lo na dignidade do sêr consciente.<br /> + + +<br /> + + +De-certo que um dêles era de mais na vida―pensava +Frederico. Mas quem? Nuno, que tam dedicado +lhe fôra sempre, que lhe queria como a um irmão, +na ignorância da serpe do desejo que se lhe enroscara +no corpo e o despedaçava, o comprimia até +à +tortura, que confiadamente lhe abrira as portas do +seu lar―que se fechavam para tôda a gente? Seria +aquela a vítima que o seu egoísmo, a sua loucura +sensual, escolheria? Estas interrogações +passavam-lhe +no cérebro como a fulguração dum +sinistro relâmpago. +Depois, recuperando a lucidez, podendo raciocinar +com mais clareza, Frederico monologou:<br /> + + +<br /> + + +―Eu, eu é que sou de mais!...<br /> + + +<br /> + + +Ainda não tinha descido tanto no pântano em +que se afogava que não visse, acima da sua perversidade, +alguma coisa de sublime, de luminosamente +grande. Que Nuno, continuasse a viver para o amor, +para a felicidade, para o futuro. Que o seu sonho de +ventura nunca se interrompesse! Êle desapareceria, +já que lhe era honrosamente impossível amar +Júlia +sem incorrer no absoluto desprêzo de si próprio e +sem +traír um afecto mais santificado, e já que +tambêm não +conseguiria viver sem essa adoração. Morreria!... +<br /> + + +<br /> + + +Por um instante, na solitude nocturna que o rodeava, <span class="pagenum">[271]</span>pensou em matar-se ali +mesmo, dando um +tiro na cabeça. A detonação alarmaria +tôda a casa, +Júlia acudiria, aos gritos, pousaria, talvez, o primeiro e +último beijo na sua fronte ainda morna e lívida, +levaria +para a cova o encanto, a revelação, o perfume +dêsse +beijo derradeiro que lhe aurorizaria a morte. Fechou, +porêm, os olhos horrorizados. Êsse +suicídio naquele +logar, alêm de ser uma denúncia, depois da scena +do +serão, macularia com uma nódoa sangrenta a +ternura +infinita de Nuno e da espôsa―uma nódoa que +nenhuma +água, nenhum esquecimento, nenhum arôma +purificaria, como a das mãos de Macbeth. Não! +Viveria mais umas horas, umas horas apenas! Só o +tempo de chegar ao Pôrto...<br /> + + +<br /> + + +A luz da manhã veio surpreendê-lo ainda vestido, +rolando-se no leito desmanchado, pálido, os cabelos +revoltos. Abriu a janela vagarosamente. O ar vivo e +balsâmico entrou a jorros. Aspirou-o com volúpia. +Em baixo, passava o criado. Pediu-lhe que fôsse a +Guimarães buscar um automóvel.<br /> + + +<br /> + + +―E não te demores. É um caso de +urgência.<br /> + + +<br /> + + +Banhou o rosto em água fria, tirou da mala a +pistola que meteu no bôlso das calças, e quando +sentiu +Nuno a pé, correu para êle em +alvorôço. Ao passar +pela porta do quarto de Júlia, fitou-a com um +olhar em que ia todo o seu adeus, todo o seu desgraçado +amor, todo o seu perdão. Dirigindo-se ao jardim, +onde Nuno descera, como fazia sempre, para +gozar o encanto idílico das manhãs, bradou de +longe:<br /> + + +<br /> + + +―Sabes? Tenho de ir já ao Pôrto.<br /> + + +<br /> + + +―O quê? Estás doido! Não sais daqui, +não te +deixo. +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum"><a name="p272">[272]</a></span> ―Se eu te digo que tenho de ir! Mandei até o +Manuel a Guimarães, buscar um automóvel... Mas +volto hoje mesmo. Nem levo a mala... Preciso de ir +pagar umas letras que se vencem. É uma coisa +séria, +como vês!... Só esta noite me lembrei, de repente. +<br /> + + +<br /> + + +―Oh! Frederico!... Porque não recorreste a +mim!... E não tinhas o meu automóvel?...<br /> + + +<br /> + + +―Não me ocorreu... Mas é uma questão +rápida.<br /> + + +<br /> + + +―Nesse caso, vai...<br /> + + +<br /> + + +Uma hora depois, o automóvel chegava e Frederico, +impaciente, ao portão, despediu-se do Nuno, +saltou para dentro, dizendo ao +<em>chauffeur</em>:<br /> + + +<br /> + + +―Larga e com velocidade.<br /> + + +<br /> + + +Estava com pressa de pôr fim, por uma vez, +àquele tormento que fôra a angústia +pavorosa de todo +um ano de sofrimento! Fechou os olhos. Não queria +ver nada, para que um súbito arrependimento, um desmaio +de coragem, o não prendessem à vida. Ia como +numa embriaguez, concentrado na sua ideia fixa e fúnebre. +O automóvel rolava, fugia no fio do vento. +Era uma carreira para a morte, um paroxismo...<br /> + + +<br /> + + +Quando mais tarde entrou em sua casa, pagou +generosamente ao <em>chauffeur</em>, subiu a +escada rápidamente. +Bernardo acudira, perguntando-lhe se desejava +alguma coisa.<br /> + + +<br /> + + +―Nada, homem. Podes ir para baixo. Se eu precisar, +chamarei.<br /> + + +<br /> + + +Encerrou-se no seu escritório, sentou-se á +escrivaninha +e durante algum tempo esteve escrevendo. +Admirava a sua serenidade em face daquele acto terrível +e necessário que preparava. Seguidamente, fechou +a carta e tocou a <a href="#e34">campaínha</a>. +O criado veio, +ligeiro: +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[273]</span> ―Leva já esta carta ao correio. Mas não te +demores.<br /> + + +<br /> + + +E, quando ficou só, serenamente, como quem +cumpre com honra um dever contraído, tirou a pistola +do bôlso, encostou o cano à cabeça sem +que um +músculo da face se lhe enrugasse e desfechou. Um +jacto de sangue brotou, salpicando o papel das paredes; +um pedaço de massa encefálica fôra +projectado +violentamente contra a porta. Frederico caíu de +bôrco +no chão, sem um estremecimento, esvaziando-se de +tôda a seiva da vida sobre o tapête...<br /> + + +<br /> + + +<div class="break"> +<hr /></div> + + +<br /> + + +Na manhã seguinte, Nuno, que passara a noite +inquieto por aquela súbita fuga do amigo, não +sabendo +a que atribuí-la, recebia uma carta.<br /> + + +<br /> + + +Reconhecendo no <em>enveloppe</em> a letra do +Frederico, +abriu-a nervosamente. Que teria acontecido, para êle +escrever em vez de voltar, como prometera? Leu, apavorado, +estas palavras sombrias, gravadas numa letra +firme:<br /> + + +<br /> + + +―«Nuno:―Vou matar-me, em plena consciência, +e foi justamente para isso que deixei a tua companhia, +a tua afeição, a tua nobre e grande alma. Nem +a paz, a consolação imensa do teu lar tam belo, +puderam +reter-me por mais tempo num mundo em que +sou um intruso. Não posso viver mais. A vida para +mim é um suplício e por isso me liberto dela. O +homem +dispõe da força augusta que lhe permite aniquilar +a obra de Deus.<br /> + + +<br /> + + +Porque me mato? Porque há, realmente, na minha +existência um segrêdo terrível, o +segrêdo de que +<span class="pagenum">[274]</span> +um dia suspeitaste e que te não posso dizer, porque +me não pertence inteiramente. Oh! não +faças suposições +inconsideradas! Julga-me com equidade. Não +penses por um momento só que deixei, por um crime +atroz e sem perdão, de ser digno do teu afecto. Morro +em beleza espiritual... Mas o meu segredo tortura-me +sem repouso e é-me impossível sofrer mais. +Para que prolongar uma dôr incurável? Sou +só, o meu +acto, longamente meditado, não terá +conseqùências e +apenas fará padecer as poucas criaturas devotadas +que me estimaram e que hão de curvar-se, em +lágrimas, +sôbre o meu túmulo.<br /> + + +<br /> + + +Sê tu feliz, entre os teus, bom amigo! Que sempre +à volta da tua vida tam pura e da tua bondade +tam comovida, pousem a graça, o encanto e a +doçura! +Pensa em mim com um pouco de carinho e de mágoa. +Afinal, amei-te e desapareço inteiramente merecedor +da tua afeição―inteiramente merecedor dela, +ouve bem! Um beijo para teu filho e outro para tua +mulher―um beijo de irmão, o beijo dum +cadáver. +Adeus!―Frederico!».<br /> + + +<br /> + + +Ao concluir a leitura, Nuno ficou petrificado, +no jardim, alheado de tudo, como se a inteligência +inesperadamente lhe fugisse e êle se encontrasse num +logar desconhecido. Estava branco, os dedos tremiam-lhe. +Tinha a carta entre as mãos, e os seus olhos, +por uma alucinação dos sentidos, viam nela +manchas +sangrentas... Depois, fundos soluços abalaram-no, +chorou com desespêro, correndo para casa. Abriu +nervosamente a porta do quarto. Júlia ainda estava +no leito, com o filho que ria e galrava.<br /> + + +<br /> + + +―Tu queres saber?―exclamou êle. Uma desgraça +horrível, um pavor! +<br /> + + +<br /> + + +<span class="pagenum">[275]</span> ―Que foi, santo nome de Jesus?―exclamou +Júlia, sentando-se na cama.<br /> + + +<br /> + + +―Pois, foi uma fatalidade, filha! Frederico +matou-se, ontem, no Pôrto.<br /> + + +<br /> + + +―Matou-se?...―perguntou, num grito.<br /> + + +<br /> + + +―Sim, matou! Aqui está a carta dêle, +anunciando-me +a sua resolução, a sua loucura. Pobre amigo! +Antes de morrer, pensou em mim, pensou em nós!<br /> + + +<br /> + + +―Oh! meu Deus!―murmurou ela, levando +as mãos fechadas á cabeça. E porque +foi, porque +foi?...<br /> + + +<br /> + + +―Não o diz... Olha! Lê tu! Eu nem serenidade +tenho para nada.<br /> + + +<br /> + + +Júlia leu, com os olhos vidrados de pranto, aquela +carta para ela reveladora―só para ela!... Uma +dúvida +que por muito tempo a sobressaltou, esclareceu-se-lhe +de repente no espírito. Admirou a grandeza de +alma de Frederico―uma grandeza que se denunciava +ainda no beijo supremo e sublimado que o seu cadáver +lhe mandava da beira da sepultura. Mudamente +entregou a carta a Nuno, e as lágrimas correram-lhe +em fio dos olhos.<br /> + + +<br /> + + +―E então? Que te parece? Que julgas?...<br /> + + +<br /> + + +―Era um nobre coração!―exclamou ela, chorando +sempre.<br /> + + +<br /> + + +Nesse mesmo dia, Nuno partiu para o Pôrto, a +assistir ao entêrro do homem que, diante da +traição, +optou pela morte, para não deixar de ser leal aos outros +e a si próprio.<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="quote">Miramar, 9 de novembro de 1916.</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div class="fbox"> +<h2>Lista de erros corrigidos</h2> + + +<div style="text-align: center;">Aqui encontram-se +listados todos os erros encontrados e corrigidos:</div> + + +<br /> + + +<br /> + + +<table style="width: 80%; text-align: left; margin-left: auto; margin-right: auto;" border="0" cellpadding="4" cellspacing="4"> + + + <tbody> + + + <tr align="right"> + + + <td style="width: 88px;"></td> + + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 115px;">Original</td> + + + <td style="text-align: center; width: 12px;"></td> + + + <td style="font-weight: bold; text-align: center; width: 114px;">Correcção</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 88px;"><a name="e1"></a><a href="#p53">#pág. +53</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 115px;">pefil</td> + + + <td style="text-align: center; width: 12px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 114px;">perfil</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 88px;"><a name="e2"></a><a href="#p56">#pág. +56</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 115px;">Fredrico</td> + + + <td style="text-align: center; width: 12px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 114px;">Frederico</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; width: 88px;"><a name="e3"></a><a href="#p63">#pág. +63</a></td> + + + <td style="text-align: center; width: 115px;">docorreu</td> + + + <td style="text-align: center; width: 12px;">...</td> + + + <td style="text-align: center; width: 114px;">decorreu</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e4"></a><a href="#p67">#pág. 67</a></td> + + + <td style="text-align: center;">diza</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">dizia</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e5"></a><a href="#p67">#pág. 67</a></td> + + + <td style="text-align: center;">fertiliade</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">fertilidade</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e6"></a><a href="#p76">#pág. 76</a></td> + + + <td style="text-align: center;">apressadamnte</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">apressadamente</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e7"></a><a href="#p79">#pág. 79</a></td> + + + <td style="text-align: center;">mulidão</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">multidão</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e8"></a><a href="#p81">#pág. 81</a></td> + + + <td style="text-align: center;">ferragns</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">ferragens</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e9"></a><a href="#p81">#pág. 81</a></td> + + + <td style="text-align: center;">pincípio</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">princípio</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right; vertical-align: top;"><a name="e10"></a><a href="#p104">#pág. +104</a></td> + + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">refractário +e um desejo</td> + + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">...</td> + + + <td style="text-align: center; vertical-align: top;">refractário +a um desejo</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e11"></a><a href="#p107">#pág. 107</a></td> + + + <td style="text-align: center;">se se isso</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">se isso</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e12"></a><a href="#p112">#pág. 112</a></td> + + + <td style="text-align: center;">miaginação</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">imaginação</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e13"></a><a href="#p141">#pág. 141</a></td> + + + <td style="text-align: center;">vingindade</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">virgindade</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e14"></a><a href="#p143">#pág. 143</a></td> + + + <td style="text-align: center;">picacado</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">picado</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e15"></a><a href="#p145">#pág. 145</a></td> + + + <td style="text-align: center;">Nes e momento</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">Nesse momento</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e16"></a><a href="#p153">#pág. 153</a></td> + + + <td style="text-align: center;">iutermináveis</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">intermináveis</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e17"></a><a href="#p155">#pág. 155</a></td> + + + <td style="text-align: center;">Fredico</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">Frederico</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e18"></a><a href="#p156">#pág. 156</a></td> + + + <td style="text-align: center;">stuação</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">situação</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e19"></a><a href="#p157">#pág. 157</a></td> + + + <td style="text-align: center;">bejou-a</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">beijou-a</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e20"></a><a href="#p158">#pág. 158</a></td> + + + <td style="text-align: center;">subtituía</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">substituía</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e21"></a><a href="#p159">#pág. 159</a></td> + + + <td style="text-align: center;">tran formam</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">transformam</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e22"></a><a href="#p170">#pág. 170</a></td> + + + <td style="text-align: center;">borrocais</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">barrocais</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e23"></a><a href="#p171">#pág. 171</a></td> + + + <td style="text-align: center;">Beetheven</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">Beethoven</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e24"></a><a href="#p171">#pág. 171</a></td> + + + <td style="text-align: center;">capazas</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">capazes</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e25"></a><a href="#p181">#pág. 181</a></td> + + + <td style="text-align: center;">e de medicina</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">o de medicina</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e26"></a><a href="#p232">#pág. 232</a></td> + + + <td style="text-align: center;">Bernado</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">Bernardo</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e27"></a><a href="#p232">#pág. 232</a></td> + + + <td style="text-align: center;">uam</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">uma</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e28"></a><a href="#p232">#pág. 232</a></td> + + + <td style="text-align: center;">irrmediáveis</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">irremediáveis</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e29"></a><a href="#p236">#pág. 236</a></td> + + + <td style="text-align: center;">rapares</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">repares</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e30"></a><a href="#p238">#pág. 238</a></td> + + + <td style="text-align: center;">úni- +pessoa</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">única +pessoa</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e31"></a><a href="#p241">#pág. +241</a></td> + + + <td style="text-align: center;">rua a</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">a rua</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e32"></a><a href="#p244">#pág. 244</a></td> + + + <td style="text-align: center;">No poderia</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">Não +poderia</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e33"></a><a href="#p257">#pág. 257</a></td> + + + <td style="text-align: center;">Banca</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">Branca</td> + + + </tr> + + + <tr> + + + <td style="text-align: right;"><a name="e34"></a><a href="#p272">#pág. 272</a></td> + + + <td style="text-align: center;">compaínha</td> + + + <td style="text-align: center;">...</td> + + + <td style="text-align: center;">campaínha</td> + + + </tr> + + + + </tbody> +</table> + + +<br /> + + +<br /> + + +<div style="text-align: center;">A acentuação foi mantida de acordo com o original.<br /> + +<br /> + + +<br /> + + +</div> + + +</div> + + +</div> + + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Morte Vence, by João José Grave + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A MORTE VENCE *** + +***** This file should be named 23687-h.htm or 23687-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/3/6/8/23687/ + +Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online +Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. 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By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/23687-h/images/fig01.png b/23687-h/images/fig01.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..ff48d4c --- /dev/null +++ b/23687-h/images/fig01.png |
