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+The Project Gutenberg EBook of A Gratidão, by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Gratidão
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: November 6, 2007 [EBook #23345]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A GRATIDÃO ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
+of public domain material from Google Book Search)
+
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+
+A GRATIDÃO.
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+ * * * * *
+
+
+
+
+A GRATIDÃO.
+
+ROMANCE.
+
+
+I.
+
+Estavamos nos ultimos dias de Dezembro de 1846. Uma camada mui espessa
+de neve cobria o sólo. O ar, sombrio e carregado, indicava que mais neve
+não tardava a cahir. Os ramos nús das arvores dos montes tremiam
+soprados pelo vento norte gelado. Estava tudo n'um perfeito socego, e
+tristeza; nem o mais leve murmurio se ouvia.
+
+Uma velha, e uma criancinha, apesar do rigor do frio, seguiam com
+difficuldade o caminho, que da serra de Vallongo conduz a S. Cosme. A
+criança, d'espaço a espaço, soprava ás mãosinhas inteiriçadas pelo frio,
+e não se podendo sustentar sobre os pés, que tinha inchados pelas
+frieiras, caminhava vacillante; mas vencendo todos os obstaculos, com
+uma energia superior á sua idade, tomava galhardamente o seu lugar ao
+lado da velha. Esta parecia ter sessenta annos. Estava corcovada mais
+pela miseria, do que pela idade, e tinha no rosto profundas rugas. Pelo
+modo como andava, e tateava o caminho com a mulêta, via-se que era cega.
+
+--Aonde vamos nós, Rosa?--perguntou a velha á rapariguinha.
+
+--Em meio caminho, minha avó.
+
+--Jesus Senhor, valei-me,--disse a cega,--pois que as minhas pobres
+pernas já estão cançadas, e parece-me que não chego ao fim da jornada.
+
+--Encoste-se ao meu hombro, avósinha, que eu não estou cançada.
+
+--Não, não. Tudo está acabado. Eu morro aqui, Rosinha. Tenho muita fome,
+e muito frio para vencer o caminho até S. Cosme. Ai meu Pai do céo, que
+me sinto desfallecer...
+
+Fez um gesto de desespero, e a cega cahiu sobre o caminho.
+
+--Avósinha, avósinha,--gritava Rosa assustada,--volte a si, que lh'o
+peço eu; mais um pequeno esforço e chegaremos a S. Cosme.
+
+A cega não deu accordo de si.
+
+--Avósinha,--continuou Rosa chorando, e cobrindo-a de beijos,--se me
+abandona, que hei-de fazer? Quer que eu morra de paixão?
+
+--Morrer, tu, minha Rosinha,--disse a cega levantando-se.--Oh! meu Deus,
+não permittaes tal.
+
+--Então levante-se que lh'o peço eu; se fica aqui mais tempo o frio
+matal-a-ia. Em S. Cosme nos aqueceremos.
+
+--Ai de mim,--disse a cega, levantando-se ajudada de Rosa,--e a snr.^a
+D. Thereza receber-nos-ha?
+
+--Ha-de receber sim, minha avósinha, eu lh'o afianço. Não creio que a
+boa snr.^a D. Thereza nos despeça. Quando eu lhe ia vender flôres
+silvestres, que apanhava no monte, abraçava-me, e dizia-me muitas vezes,
+que desejava que eu fosse sua filha.
+
+--Não duvido que ella te receba, porque és muito linda e agradavel;
+agora o que eu não creio é que me receba a mim, que sou uma velha e
+cega, que para nada sirvo.
+
+--Se assim acontecer, voltaremos á nossa aldêa, e os bons lavradores,
+que conheceram meus paes, terão piedade de nós, soccorrer-nos-hão, e eu
+trabalharei para lhes pagar, o que elles vos derem.
+
+A avó, muito commovida, apertou ao coração a pequena, e murmurou
+palavras de ternura e gratidão; e reanimada por esta felicidade, que
+Rosa lhe tinha feito experimentar, retomou com passo mais firme o
+caminho de S. Cosme.
+
+O vento soprava já com mais força; o ar tinha escurecido mais, e
+pequenos flocos de neve se viam voltejar no ar. Rosa, tiritando com
+frio, fazia esforços sobrehumanos para poder andar, e cada passo, que a
+pobre cega dava, era acompanhado d'um suspiro surdo. O vento augmentou,
+e os flocos de neve, que ao principio eram raros, cahiam em maior
+abundancia.
+
+--Rosinha,--disse a cega,--bem queria andar, mas não posso; deixa-me
+ficar.
+
+--Avósinha, eu já avisto a torre da igreja de S. Cosme.
+
+--Estás bem certa d'isso?
+
+--Eu não queria mentir...
+
+--Vamos andando. Permitta Deus que eu possa vencer o caminho.
+
+--Não tenha receio de me cançar, minha avó; sou forte, e não estou
+fatigada. Encoste-se ao meu hombro.
+
+--Meu querido anjinho, que Deus te pague tudo o que me fazes.
+
+Chegaram finalmente a S. Cosme, á quinta de D. Thereza de Sousa, depois
+de mil esforços, que cançaram completamente avó e neta.
+
+Era tempo; mais um instante e teriam cahido ambas no chão. Entrando na
+cozinha da casa, o calor produziu-lhes uma reacção tão violenta, que
+desfalleceram.
+
+
+II.
+
+D. Thereza de Sousa, e mais algumas visinhas, que se tinham reunido para
+serandar, acercaram-se das duas infelizes. Depois de lhe ter ministrado
+todos os cuidados necessarios para as reanimar, como o seu principal mal
+era a fome, mandou-lhe dar um bom caldo, e acommodal-as a um dos cantos
+do lar, em que ardia uma grande fogueira.
+
+--Agora, Rosinha,--disse D. Thereza, ameigando-a,--conta-nos, como a
+esta hora, e com este tempo vieste até aqui com esta boa mulher.
+
+--Desculpai, minha boa senhora,--disse a cega,--Rosinha é minha neta.
+
+--Sim, snr.^a D. Thereza, é minha avó, de quem tantas vezes tenho
+fallado a v. exc.^a e...
+
+--Então porque não continuas?--lhe replicou D. Thereza.
+
+A pequena levantou para D. Thereza os seus lindos olhos azues, com uma
+tal expressão de supplica, que a commoveu.
+
+--Falla, falla, minha menina. Não tenhas receio. Queres pedir-me alguma
+cousa, não é assim?
+
+--Vêde, minha boa senhora,--disse Rosa, contendo as lagrimas a
+custo,--eu e minha avó, somos muito desgraçadas. Meu pai, que era
+rachador de lenha, feriu-se pelo S. João em uma perna com o machado.
+Minha mãi mandou-me chamar a toda a pressa o snr. Pereira, que é um
+homem muito entendido. Fui, o mais depressa que pude, e quando cheguei a
+casa do snr. Pereira estava elle para sahir, e não queria vir commigo
+para não torcer o seu caminho; mas eu tanto lhe pedi, que sempre me
+acompanhou. Quando viu a perna a meu pai, logo disse, que estava muito
+mal, e que não promettia cural-o. Duas semanas depois veio á ferida uma
+molestia, de que me não lembra agora o nome, e meu pai morreu.
+
+Rosa calou-se chorando, e a cega tambem soluçava. D. Thereza abraçou a
+rapariguinha, apertou a mão á pobre velha, e disse:
+
+--Para hoje já é de mais, ámanhã...
+
+--Perdôe-me, snr.^a D. Thereza,--replicou Rosa,--mas é melhor que eu
+termine hoje,--e continuou:
+
+--Havia um mez que meu pai tinha morrido, quando minha mãi cahiu de
+cama; a febre não a deixava. Eu ia aos campos apanhar as hervas, que
+minha avó me ensinava, para lhe fazer remedios, mas nada sarava minha
+mãi. Um dia abraçou-me e disse-me:
+
+«Minha pobre Rosinha, eu vou unir-me com teu pai, mas que será de ti?
+
+Trabalharei, lhe respondi.
+
+És muito nova para isso; mas entretanto rogarei muito a Deus para que te
+receba sob a sua santa guarda, e te não abandone. Nunca desampares tua
+avó, sê-lhe obediente e carinhosa..., ainda queria fallar, mas não pôde,
+abraçou-me e á avósinha, e expirou.»
+
+Desde então alguns rachadores, amigos de meu pai, nos recolheram e
+soccorreram; mas como não são ricos, e precisam de mudar de terra por
+não terem aqui que fazer, lembrei-me de vir pedir agasalho á senhora,
+pois que, sendo tão boa, não deixaria de nos recolher, que somos tão
+desgraçadas. Sou fraquinha, mas posso trabalhar. Sei fiar, e começo a
+lavar. Guardarei os bois, e os carneiros e tratarei do gallinheiro.
+Minha avó tambem fia muito bem e estou muito certa, que a ha-de
+satisfazer com o seu trabalho. Oh! senhora--disse Rosa ajoelhando-se aos
+pés de D. Thereza--não nos abandoneis; satisfazemos-nos com pouco, e
+faremos todo o possivel para vos agradar, e rogaremos continuamente a
+Deus pela vossa vida e felicidade.
+
+D. Thereza commoveu-se tanto, com a singeleza e candura d'esta supplica,
+que duas lagrimas lhe brilharam nos olhos.
+
+--Levanta-te, Rosinha, ámanhã fallaremos n'isso. Tu e tua avó ide-vos
+deitar. Sempre te direi, que és muito linda e corajosa, para que se não
+tenha piedade de ti.
+
+Rosa beijou com reconhecimento as mãos de D. Thereza, e a cega encheu-a
+de bençãos. D. Thereza mandou-as conduzir a um pequeno quarto, limpo e
+quente, em que um somno reparador lhe reanimou as forças.
+
+
+III.
+
+Ainda mal a aurora tinha raiado, já Rosa estava a pé. Fatigada, como
+estava, da jornada do dia antecedente, custou-lhe muito a levantar-se
+cedo, mas fez um esforço para mostrar os seus desejos a D. Thereza.
+
+Arranjou-se, o melhor que pôde, com os seus velhos vestidos, e, depois
+de ter dirigido mentalmente a Deus uma oração fervente, desceu ao andar
+terreo.
+
+--Já a pé,--lhe disse alegremente D. Thereza.
+
+--Estava tão cançada do caminho d'hontem, que receei, já fosse tarde;
+mas graças aos vossos beneficios, minha senhora, já estou prompta, para
+o que me determinardes.
+
+--E tua avó?
+
+--Ainda dorme. É tão velhinha e tão doente, que vos peço tenhaes piedade
+d'ella.
+
+Rosa ergueu as mãos, e esperou tremula a resposta da dona da quinta.
+
+D. Thereza de Sousa era, o que vulgarmente se chama, uma mulher de casa.
+Tendo viuvado ha doze annos, geria com tanto acerto e economia as suas
+propriedades, que a sua fortuna tinha augmentado consideravelmente.
+
+Os visinhos do lugar diziam que, pela avareza e mesquinharia, é que
+tinha alcançado a fortuna, que possuia, pois que em qualquer cousa
+sempre tinha que diminuir, e acrescentavam ironicamente, que, dando
+_tantas_ esmolas, o dinheiro nunca lhe havia de faltar.
+
+Fosse como fosse, o que sei é, que D. Thereza sensibilisou-se tanto com
+a historia de Rosinha, que, quando ella ergueu as mãos, e a viu com os
+olhos arrasados de lagrimas, esperando a resposta, disse para si; que a
+uma supplica tão humilde e cheia de tanto amor filial, era impossivel
+resistir.
+
+N'este momento quem accusasse de avarenta D. Thereza de Sousa, seria
+injusto com ella, por que, recolhendo a avó e neta, tomava um encargo
+bastante pesado. Rosa era ainda muito pequena, e de mais a mais muito
+fraquinha, para poder ter utilidade real! A pobre criança estava a fazer
+dez annos, mas era muito franzina e delicada. O seu rosto, cercado de
+compridos caracóes louros, e animado com uns grandes olhos azues
+escuros, inspirava sympathia. Tinha as maneiras delicadas, e a linguagem
+menos rude, que a dos camponezes dos arredores. Esta distincção n'uma
+criança, ainda tão tenra como Rosa, nascia da sua intelligencia mui
+desenvolvida.
+
+A mãi, logo que ella teve tino para se não perder nos caminhos,
+mandava-a apanhar flôres silvestres, que ia vender ás familias mais
+abastadas das aldéas visinhas. Como Rosa era muito linda as senhoras das
+casas acolhiam-na muito bem, divertiam-se com ella, ouvindo-a tagarelar,
+e demoravam-na muitas vezes a brincar com as suas filhas.
+
+Sendo muito viva tomou facilmente as maneiras, e modo de fallar, das
+pessoas com quem tratava, de modo que os rachadores denominavam-na a
+fidalguinha.
+
+Se tinha adquirido maneiras delicadas, não havia perdido as boas
+qualidades, de que era dotada; humilde e carinhosa para todos, quem a
+conhecia adorava-a.
+
+O que a mim, minhas caras leitoras, me levou tanto tempo a dizer, passou
+n'um instante pela idéa a D. Thereza de Sousa, e fixou-lhe a resolução
+de recolher a avó e a neta.
+
+--Vou-te mandar vestir uma roupinha melhor, Rosinha,--lhe disse D.
+Thereza, animando-a com uma brandura, que lhe não era habitual,--porque
+espero has-de ser uma boa criada, serviçal e trabalhadeira.
+
+--Então fico em casa de v. exc.^a?--disse Rosa, não podendo crer em
+tanta ventura.
+
+--Ficas, sim, e parece-me que nunca me darás motivo para me arrepender
+do que hoje faço.
+
+--Oh! minha senhora, estai certa que me esforçarei o mais possivel, para
+vos agradar e satisfazer os vossos desejos.
+
+--Assim o espero. Anda vestir-te.
+
+--Desculpe-me, senhora. Mas minha avó...--e Rosa parou corando.
+
+D. Thereza, querendo experimentar a sua protegida, disse:
+
+--Que queres a tua avó?
+
+--Ella tambem fica?
+
+--Não. Tua avó é cega e velha, para nada serve, e eu não sou rica
+bastante, para me encarregar da sustentação de duas pessoas.
+
+--Então, senhora, agradeço os vossos beneficios, e todo o bem que me
+querieis fazer, mas não posso abandonar a minha avósinha, que morreria
+de paixão.
+
+Vou ajudal-a a levantar-se, e regressaremos à nossa aldêa.
+
+--E que has-de fazer na tua aldêa?
+
+--Irei humildemente pedir a um mestre tamanqueiro um pequeno cantinho da
+sua casa, que estou certa me não negará. Não sou robusta, mas tenho
+coragem, por isso trabalharei nos socos durante o inverno. Quando vier o
+verão irei vender flôres e fructos, como os demais annos, e como eu, e a
+pobre cega, de pouco precisamos para viver, parece-me que ganharei para
+ambas. Logo que chegue a primavera não seremos pesadas a ninguem...
+
+D. Thereza apertou Rosa nos braços, e chegou-a ao coração.
+
+--Basta, Rosinha, tu és um anjo do céo, que Deus enviou a minha casa
+para me trazer a felicidade. Vai-te vestir, e depois irás participar a
+tua avó, que ambas ficaes para sempre em minha casa.
+
+Descrever a alegria da avó, quando soube a decisão de D. Thereza, é-me
+impossivel fazel-o, minhas caras leitoras; vós, que deveis ser dotadas
+de bom e piedoso coração, melhor a podereis imaginar. Abraçava Rosa,
+agradecia a D. Thereza com um reconhecimento mui sincero, promettendo
+fazer todo possivel para ser menos pesada á sua bemfeitora. Rosa nada
+dizia, mas a eloquencia de seu olhar provava a D. Thereza a sua
+gratidão.
+
+
+IV.
+
+Rosa, ainda que novinha e de fraca organisação, tornou-se util em casa.
+Incansavel no trabalho, de manhã cedo tratava da capoeira e do pombal;
+depois ia guardar os bois e os carneiros, e, em quanto que os vigiava,
+fiava na sua roca.
+
+Ao jantar, quando recolhia a casa, tinha sempre que fazer. Era um gosto
+vêr esta criança tão tenrinha arrumar, limpar e lustrar os moveis, como
+o faria a melhor mulher de casa.
+
+D. Thereza cada vez mais estimava a sua protegida, e felicitava-se pela
+ter recolhido. A avó tambem não era inutil. A cegueira não a
+impossibilitava de fiar desde pela manhã até á noite, e o seu trabalho
+era perfeito. Tudo corria bem, e todos andavam contentes e satisfeitos.
+
+Chegou a primavera. Começaram a desabrochar com o tepido sôpro d'esta
+estação, e mostraram as suas galas, a bella pervinca azul, o narciso de
+corôa d'ouro, o lyrio de campanas odoriferas, e a bella violeta de
+calices perfumados.
+
+Rosa, quando ia á serra, era para ella um dia d'alegria. Procurava os
+caminhos tapetados de musgo, os regatos, que tantas vezes tinha passado,
+as fontes escondidas pelas çarças, e as arvores, sob as quaes tinha
+encontrado as mais lindas flôres. Rosa sentia-se mais livre e mais feliz
+na serra, do que nos campos da quinta; a todo o momento parava extasiada
+diante das bellezas da natureza, e cada sitio novo, que achava, era como
+se fosse um amigo. Quando o socego voltava, depois d'esta alegria e
+animação, esta poetica criança fazia cestinhos de vimes e juncos, que
+guarnecia com musgo e flôres silvestres, mas com um gosto e belleza
+exquisito, os quaes D. Thereza mandava vender, dando sempre bom preço.
+
+Ganharam renome os cestos de Rosa.
+
+Em todas as quintas e casas ricas dos arredores não queriam outros, e
+até muitas familias da cidade, que iam passar o verão áquelles sitios,
+compravam e procuravam com avidez os cestos d'esta gentil ramalheteira.
+
+D. Thereza, como mulher que comprehendia os seus interesses, entendeu
+que lhe era de mais proveito o empregar Rosa, durante a primavera, a
+fazer cestos e ramos, do que na quinta, por isso assim o determinou.
+Quando Rosa o soube, saltou d'alegria, por que se dava melhor á sombra
+dos pinheiros e carvalhos, do que em casa.
+
+Passou-se assim o verão, e D. Thereza não teve que se arrepender da sua
+resolução. Um certo numero de meias corôas de prata provou o bom
+resultado do negocio de cestos e flôres.
+
+O inverno pareceu triste e monotono a Rosa. Tinha-se habituado de tal
+maneira a ir todas as manhãs para a serra, que chegava muitas vezes a
+esquecer-se do trabalho, e ir insensivelmente até á baixa d'ella.
+Voltava então muito apressada á quinta e redobrava d'actividade, para
+fazer esquecer as suas faltas involuntarias.
+
+Occupou-se a fiar quasi todo o inverno, e o producto do seu trabalho foi
+augmentar o pequeno thesouro principiado com a venda dos cestos e
+flôres.
+
+D. Thereza considerava Rosa como sua filha, não podendo estar sem ella
+um unico instante, e nos dias de feiras e romarias tinha gosto em que
+Rosa apparecesse entre as mais lindas e mais ornadas lavradeiras do
+lugar.
+
+A amisade, que tinha a Rosa, reflectia-se na avó; tratava-a com tal
+respeito e affabilidade, que a poderiam tomar por mãi de D. Thereza,
+tanto ella a cercava de cuidados e desvelos.
+
+A felicidade da pobre cega, e bem assim o futuro de Rosa poder-se-iam
+julgar seguros; mas como nada n'este mundo é immutavel, o momento, em
+que a adversidade ia estender o seu braço de ferro sobre as duas
+infelizes, não estava longe.
+
+
+V.
+
+Voltou a primavera e com ella as encantadoras occupações de Rosa. Foi
+com enthusiasmo, que a candida e poetica criança encontrou as flôres,
+suas amigas, com que preparou os primeiros ramos, que appareceram no
+mercado.
+
+Os cestinhos e ramos de Rosa obtiveram uma grande extracção, como no
+anno anterior. Ia entregal-os pessoalmente nas casas ricas, e muitas
+vezes as senhoras morgadas, se julgavam felizes por ter em sua companhia
+esta linda criança por algum tempo.
+
+Rosa, vestida á lavradeira, era muito galante e modesta; o seu metal de
+voz era agradavel, e as maneiras tão delicadas, que quasi sempre as
+freguezas, ao preço do ramo, juntavam um presentinho para a vendedeira;
+mas quando perguntavam a Rosa o que era que mais estimava, respondia
+sempre, que o seu maior desejo era possuir um livro para se instruir.
+
+Rosinha tinha uma paixão ardente pelo estudo; quasi sem mestre tinha
+aprendido a lêr correntemente, e a sua maior alegria consistia em obter
+um livro para se entregar á leitura.
+
+D. Thereza pela sua parte tambem não obstava aos desejos de Rosa, tanto
+que se lhe não dava que ella faltasse ás suas obrigações; mas devemos
+fazer-lhe justiça dizendo que sabia alliar a satisfação dos seus
+desejos, com o cumprimento dos seus deveres, por isso só depois de ter
+terminado os seus affazeres é que se dava ao estudo.
+
+Estava Rosinha uma occasião sentada á borda d'um ribeiro, entretida a
+colher juncos para fazer um cesto, quando, sem ella o presentir, se lhe
+aproximou uma senhora ainda joven.
+
+--Para que estaes escolhendo esses juncos, minha menina?--lhe disse a
+joven senhora com modo affavel.
+
+Rosa levantou a cabeça, e vendo a desconhecida, saudou-a e respondeu:
+
+--Faço cestinhos com flôres para vender.
+
+--Quero então já avaliar a vossa habilidade. Amo muito as flôres, por
+isso queria que me fizesses um cestinho já, e se eu ficar contente
+has-de-me fazer um todos os dias. Aceitaes?
+
+--Aceito, sim, minha senhora, e ainda que tenho muitas encommendas a
+satisfazer, vou já preparar o vosso.
+
+--Assento-me aqui ao pé de ti e vamos conversando. Como te chamas?
+
+--Rosa de Jesus, uma sua criada, minha senhora.
+
+--Assim, Rosa, o teu trabalho é fazer cestos de flôres para depois os
+ires vender?
+
+--Sim, minha senhora.
+
+--E teus paes em que se occupam?
+
+--Já não tenho paes; só me resta minha avó, que é cega.
+
+--És orphã, e onde moras?
+
+--Estou em casa da snr.^a D. Thereza de Sousa, proprietaria em S. Cosme,
+tão boa, como rica.
+
+Ha um anno, que eu e minha avó não sabiamos aonde nos haviamos de
+recolher; estavamos em Dezembro, e havia dous dias que não tinhamos
+comido, quando de repente me lembrei da snr.^a D. Thereza. Eu e minha
+avó, que então moravamos na serra de Vallongo, pozemos-nos a caminho
+para S. Cosme. O caminho é muito mau, por isso mais d'uma occasião
+julguei que minha avó ficava na estrada, porque já não podia andar; mas
+o Senhor teve misericordia de nós, e felizmente terminamos a jornada. A
+snr.^a D. Thereza tratou-nos com muita bondade, e recolheu-nos em sua
+casa, apesar de sermos um encargo muito pesado.
+
+--Amas então muito a snr.^a D. Thereza?
+
+--Se a amo. Não queria mais nada, senão poder reconhecer todo o bem, que
+nos faz. Não desejo senão crescer e robustecer para lhe poder servir
+d'utilidade.
+
+--Estou muito contente, minha pequena, por te ouvir fallar assim. Quando
+te vi senti-me attrahida para ti, e ficaria muito desgostosa se te não
+encontrasse com sentimentos dignos da estima que te consagro.
+
+Parece-me que o meu cesto está acabado?
+
+--Ainda lhe falta uma cercadura de _não me deixes_. Permitti, senhora,
+que eu vá ao proximo ribeiro colher estas flôres, porque alli as ha mais
+frescas, e em mais abundancia.
+
+--Ide, que aqui te espero.
+
+Rosa partiu correndo.
+
+D. Julia d'Andrade, que tanto interesse mostrava pela protegida de D.
+Thereza, tinha vinte annos.
+
+O cabello preto muito comprido, e naturalmente encaracolado, fazia-lhe
+sobresahir ainda mais a pallidez do rosto. Os olhos castanhos tinham um
+brilho de febre. A physionomia demonstrava um padecimento interno, n'uma
+palavra, estava affectada d'uma tisica pulmonar.
+
+Sua mãi, a viscondessa do Candal, receiando pela vida de D. Julia, tinha
+consultado os mais acreditados medicos de Lisboa e Porto, e todos tinham
+aconselhado os ares do campo, e o não constrangimento, como os meios
+mais proficuos para debellar a molestia. A viscondessa tinha portanto
+deixado o Porto e ido habitar com suas filhas D. Julia e D. Bertha uma
+quinta proximo da serra de Vallongo.
+
+D. Julia parecia que revivia no meio da luxuosa natureza, que a cercava.
+Todos os dias dava grandes passeios, e distrahia-se ou sentando-se á
+sombra dos carvalhos e sobreiros, ou embrenhando-se entre as çarças. Ao
+principio a viscondessa receiou que estes passeios tão longos
+prejudicassem a saude de sua filha, mas vendo-a mais alegre e mais
+vigorosa, e que se a pallidez não tinha desapparecido, a expressão
+soffredôra do rosto era menos pronunciada, ficou mais socegada e esperou
+obter o triumpho sobre a molestia.
+
+D. Julia era tão boa, e ao mesmo tempo tão prudente, que sua mãi não
+temia deixal-a em plena liberdade, e gosar da vida segundo as suas
+phantasias.
+
+A viscondessa queria que D. Bertha acompanhasse sua irmã nos seus
+passeios; mas D. Bertha, que era uma joven de 16 annos d'idade,
+orgulhosa do seu nascimento e belleza, recusou obstinadamente acompanhar
+sua irmã, dando como razão, que lhe repugnava o juntar-se como ella com
+esses _estupidos_ e _rudes_ aldeãos, que habitam os campos, e a quem
+ella acariciava, e que além d'isso estragava os seus vestidos seguindo
+D. Julia pelos caminhos estreitos e escabrosos dos campos e da serra. As
+mil vozes da natureza eram mudas para D. Bertha; no seu coração só
+imperava o egoismo.
+
+Num d'estes passeios é que D. Julia encontrou Rosinha, e que ficou
+encantada com a sua innocencia.
+
+Havia muito que D. Julia esperava Rosa, e já receava que ella não
+voltasse, quando a viu vir correndo.
+
+--Perdoai-me, senhora, o ter-vos feito esperar tanto tempo, mas eu fui
+muito longe colher as violetas e os _não me deixes_, porque queria que o
+meu cestinho vos agradasse.--Assim fallando Rosa apresentou a D. Julia
+um cestinho, que era um primor d'arte no gosto, e esperou toda confusa,
+a sua apreciação.
+
+Uma alegre exclamação de D. Julia lhe fez vir o sorriso aos labios.
+
+--Quero abraçar-te, minha querida menina; ha muito tempo que não vi nada
+tão lindo, e como me causaste um grande prazer, quero recompensar-te;
+mas deixa-me ainda admirar o teu bello trabalho.
+
+Este cestinho podia vêr-se. No centro tinha raminhos de violetas com as
+folhas verdes, ainda humidas; uma corôa de lirios cercava as violetas, e
+em volta uma grinalda de musgo, semeada de raminhos de rosas amarellas e
+geranios. Dous ramos de madre-silva serpenteavam por entre os juncos
+formando as azas.
+
+--Não quero--disse D. Julia, depois d'alguns instantes de silencio--que
+uma obra tão bella tenha um viver ephemero; vou já bordar um quadro,
+cópia d'este cestinho, que ha-de ficar muito rico. Mas, Rosinha, quanto
+queres por este trabalho?
+
+--Dar-me-ha o que quizer, minha senhora, como costumam fazer as outras
+minhas freguezas.
+
+--Mas quanto é que custam ordinariamente?
+
+--Tres ou quatro vintens.
+
+--Quatro vintens!--disse D. Julia admirada.
+
+--Acha caro, minha senhora?--disse Rosa com acanhamento.
+
+--Caro, não, minha pequena. Quando estava no Porto pagava, por muito
+maior preço, ramos que tinham muito menos valor, que o teu cestinho.
+Toma, Rosinha, não tenho aqui senão esta meia corôa, mas amanha a esta
+hora apparece aqui, e fallaremos...
+
+--Não posso aceitar o que me dáes, minha senhora, porque é muito.
+
+--Queres fazer-me zangar?
+
+--Não, senhora. É a primeira vez que a vejo, mas já a estimo muito. Eu
+não preciso de nada; a snr.^a D. Thereza é muito minha amiga e...
+
+--Não é uma esmola que te dou--replicou D. Julia, mettendo a moeda de
+prata na mão de Rosinha--não te esqueças da recommendação, que te fiz,
+de estares ámanhã aqui a esta mesma hora.
+
+E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, já D. Julia tinha
+desapparecido, levando na mão o cestinho.
+
+Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas recomeçou
+ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a casa, contou a D.
+Thereza o seu encontro de pela manhã, o que lhe tinha acontecido e
+perguntou-lhe se devia ou não guardar os cinco tostões.
+
+--Não te authoriso a pedir, Rosa, mas isso não é uma esmola, é um
+presente, que te fazem, podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te.
+Já sei. Esse dinheiro vem a proposito para augmentares o teu mealheiro,
+com o qual te hei-de comprar um rico jaqué para o S. Miguel.
+
+--Não, senhora--replicou Rosa com a alegria nos olhos--não é esse o meu
+pensamento, e que me causa tanta alegria.
+
+--Que é então?
+
+--Rogo-vos que me não façaes perguntas; depois o sabereis.
+
+--Guarda o teu segredo, porque sei que não és desgovernada, e que o não
+has-de gastar mal gasto.
+
+Rosa abraçou ternamente D. Thereza, e foi entregar as suas encommendas
+de flôres e cestos.
+
+
+VI.
+
+D. Julia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que tinha
+determinado.
+
+A viscondessa, impaciente e sobresaltada com a demora, sahiu, no
+caminho, ao encontro de sua filha.
+
+--Estiveste incommodada, minha filha?--lhe disse ella.
+
+--Não, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago, é que foi a causa
+da minha demora.
+
+E D. Julia mostrava a sua mãi o cestinho, que Rosa tinha feito.
+
+--Como é lindo--respondeu a viscondessa--Não sabia Julia, que tinhas a
+prenda de fazer cestos de juncos entrançados.
+
+--Não fui eu que fiz este cestinho, minha mãi.
+
+--Então quem foi?
+
+--Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio.
+
+--Uma lavradeira?!
+
+--Sim, minha senhora. E acreditareis, minha mãi, que por todo este
+trabalho me pediu a grande quantia de quatro vintens?
+
+--Não te pergunto quanto lhe déste, por que conheço a bondade do teu
+coração, e tenho a firme convicção de que não abusaste da sua
+simplicidade.
+
+--Dei-lhe só meia corôa, por que não tinha mais na minha bolsinha. Não
+queria recebel-a, ajuizando que lh'a dava como uma esmola; mas tanto fiz
+que a aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim
+se chama) para nos encontrarmos ámanhã, no mesmo sitio, á mesma hora; e
+se ella, como penso, fôr digna da sympathia, que me inspirou, e do
+interesse que já me causa, consentir-me-heis, minha boa mãi, que a tome
+sob a minha protecção?
+
+--Consinto em tudo, minha filha, que te dê prazer, e distracção. Se a
+tua protegida fôr digna dos nossos beneficios, unir-me-hei comtigo, e
+accordaremos no que devemos fazer para seu bem.
+
+D. Julia abraçou com ternura a viscondessa, e agradeceu-lhe a sua
+bondade.
+
+N'este comenos, a viscondessa e sua filha, chegaram a casa.
+
+D. Julia collocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o cestinho, e
+correu com presteza ao seu quarto a preparar um cavallete, pinceis e
+tintas para dar principio ao quadro projectado, e, tendo tudo disposto,
+desceu á sala a buscal-o.
+
+D. Bertha estava examinando o cestinho com attençào e minuciosidade.
+
+--Não estão tão bem dispostas e combinadas essas flôres, Bertha?--disse
+D. Julia.
+
+--Assim, assim. Não gosto d'estas violetas, que formam o centro do ramo.
+Podias ter tido melhor gosto e fazer cousa melhor.
+
+--Não concordo com a tua opinião. Estou convencida de que Rosa não podia
+ter melhor gosto.
+
+--Rosa?
+
+--Sim, Rosa. Ah! é verdade; ainda te não contei o encontro, que tive
+esta manhã. Ora ouve.
+
+D. Julia contou a sua irmã minuciosamente toda a conversa, que tivera
+com Rosa.
+
+Quando ella acabou, D. Bertha fez um gesto de desdem.
+
+--E, sem duvida, Julia, já te affeiçoas-te a essa pequena; não é
+assim?--disse D. Bertha.
+
+--Rosa,--respondeu unicamente D. Julia--tem merecimento bastante, que a
+torna digna da protecção, que se lhe dispensar.
+
+--O que mais me admira e me espanta, Julia, é a rapidez com que
+sympathisas com qualquer, e como instantaneamente conheces e decides,
+que essa pessoa é digna da tua affeição e amisade... Não quero tomar-te
+o tempo; julgo que vinhas buscar o teu lindo cestinho, não é assim?
+
+--Vinha, sim, para o ir copiar em um quadro, pintando-o.
+
+--Pintal-o?!--disse D. Bertha, dando uma grande gargalhada.--Que
+liguemos alguma attenção ás flôres dos nossos parques e jardins,
+concedo; mas que empreguemos o tempo e o talento com as silvestres, que
+só tem os perfumes para si, parece-me uma singularidade esquisita.
+
+--A minha opinião, Bertha, é exactamente o contrario. Mas isso não
+admira, por que nós raras vezes estamos accordes sobre qualquer materia.
+Ponhamos isso de parte; queres tu vir ámanhã, commigo e com a nossa boa
+mãi, vêr Rosa?
+
+--Não posso. Combinei com a Francisquinha e Ritinha Meirelles virem
+amanhã aqui passar o dia. Além d'isso, fallar-te-hei francamente, não ha
+nada para mim mais antipathico do que todas essas lavradeiras; e andar
+uma legua para me ir achar face a face com um monstrosinho, parece-me um
+tanto aborrecivel.
+
+--Rosa é muito linda e interessante.
+
+--Para ti, Julia, todas as lavradeiras são lindas e interessantes. Para
+mim todas são feias, e broncas. O calor principia a incommodar-me--disse
+D. Bertha, sentando-se indolentemente sobre um sophá.--Vai, Julia, vai
+pintar o teu lindo cestinho, que eu vou sonhar com o meu Porto, para
+onde espero ir muito breve.
+
+Estas ultimas palavras já mal se perceberam, porque foram acompanhadas
+com um bocejo, e D. Bertha cerrou os olhos.
+
+D. Julia lançou sobre sua irmã um olhar de compaixão e sahiu.
+
+Alguns instantes depois deu principio ao quadro.
+
+
+VII.
+
+No dia seguinte Rosa sahiu para a serra, muito cêdo, para adiantar o seu
+trabalho, e poder assim dedicar mais tempo á joven senhora, que tão
+amavel e generosa tinha sido com ella.
+
+Trabalhou com tal desembaraço, que, muito antes da hora marcada por D.
+Julia, tinha terminado o seu serviço.
+
+Aproveitou portanto o tempo entregando-se á leitura d'algumas paginas
+d'um livro, de que lhe tinham feito presente no dia anterior. Lia com
+attenção, e, quando encontrava algum trecho rico e bello, parava, para
+exprimir a sua alegria e enthusiasmo.
+
+Estava Rosa de tal sorte entregue á leitura, que não presentiu a chegada
+da viscondessa e de sua filha D. Julia.
+
+--Que livro estás lendo, com tanta attenção, minha menina--lhe disse a
+viscondessa.
+
+Rosa saudou-a, apresentou-lhe o livro e respondeu:
+
+--São as _Meditações religiosas_ de Rodrigues de Bastos.
+
+--E encontras grande prazer na sua leitura?
+
+--Se encontro, minha senhora. Quando estou sentada á borda d'um regato,
+ou debaixo d'um carvalho annoso, lendo n'este livro, parece que a minha
+alma se despe de todos os seus envolucros terrenos e mundanos, e se põe
+em contacto com Deus, author de todas estas maravilhas da natureza, que
+nos cercam, e a quem no fundo do meu coração adoro e venero.
+
+A viscondessa e sua filha, admiradas do que ouviam a uma pequena do
+campo, trocaram entre si um olhar d'intelligencia.
+
+--E que mais costumas lêr?--perguntou D. Julia.
+
+--Não tenho muitos livros. Além d'este possuo um cathecismo, uma vida de
+santos, de que leio uma pagina cada domingo, e mais uns livrinhos
+d'historias bonitas. Esquecia-me dizer-vos, que tambem tenho um livro de
+geographia, que me deu o mestre escóla da minha freguezia, mas que não
+leio, por que tem muitas palavras, que não entendo.
+
+--Pelo que me dizes conheço que tens desejos de te instruires. Se te
+proporcionassem os meios de o fazeres, serias feliz?
+
+--Seria, sim, minha senhora; mas infelizmente isso é impossivel, porque,
+para ir todos os dias á mestra, é preciso ser muito rica.
+
+--Mas se te mandassem á mestra?--insistiu D. Julia.
+
+--Seria muito feliz, mas nem quero pensar n'isso.
+
+--Pelo contrario; eu e minha mãi, viemos procurar-te para que nos
+conduzisses a casa da snr.^a D. Thereza, e, se a tua protectora estiver
+satisfeita comtigo, pedir-lhe-hemos para te deixar ir todos os dias á
+mestra. Então não respondes?
+
+--Perdoai-me, senhora. Estou muito contente e alegre, e queria
+agradecer-vos, mas não posso. Que fiz eu para merecer tantos beneficios?
+
+--Mostraste-te reconhecida aos beneficios da snr.^a D. Thereza, e isso
+indica um bom coração; és trabalhadeira e tens desejos de te instruires;
+mereces portanto que nos interessemos por ti--lhe disse a
+viscondessa.--Vamos, ensina-nos o caminho para a quinta da snr.^a D.
+Thereza.
+
+Rosa, commovida, dirigiu-se para a quinta com a viscondessa e sua filha.
+Pelo caminho respondeu modestamente, e com graça, a todas as perguntas,
+que lhe fizeram, e cada uma das respostas confirmou mais, as duas
+senhoras, no bom conceito, que tinham formado de Rosa.
+
+Quando chegaram á quinta, D. Thereza não estava em casa, mas não devia
+tardar muito, por isso esperaram. Rosa apresentou ás duas senhoras
+cadeiras para se sentarem e offereceu-lhes um copinho de leite fresco e
+morno.
+
+D. Julia, a quem o caminho tinha fatigado, aceitou o offerecimento.
+
+Rosa trouxe então uma toalha de linho, alvo como neve, que estendeu
+sobre uma mesa, na qual collocou o melhor pão, que havia em casa,
+manteiga e um copo de leite.
+
+D. Julia, com uma alegria infantil, aceitou este _lunch_ frugal, e,
+reanimadas com elle as suas forças, pediu para visitar a quinta.
+
+A avó de Rosa estava sentada no jardim, debaixo d'um caramanchel de
+clematites, fiando, e cantando com voz tremula o estribilho d'um romance
+antigo. N'esta boa velha, bem vestida e de boa presença, ninguem seria
+capaz de reconhecer a pobre cega, que dezoito mezes antes, quasi
+morrendo de fome e frio, e podendo apenas suster-se em pé, encontramos
+seguindo o caminho da serra de Vallongo para S. Cosme.
+
+A viscondessa do Candal e sua filha saudaram a pobre cega, e esta,
+prevenida pela netinha, correspondeu-lhe respeitosamente.
+
+--Não vos incommodeis, boa mulher---lhe disse a
+viscondessa--permitti-nos sómente que conversemos por um instante
+convosco.
+
+--É muita honra para mim, minha querida senhora;--respondeu a
+cega--estou portanto ás vossas ordens.
+
+--Visto isso não vos recusareis a dizer-me se estaes satisfeita com a
+vossa neta?
+
+--Se estou contente com a minha Rosinha?!--exclamou a cega---com ella,
+que é a minha benção sobre a terra. Quando o meu genro morreu, por causa
+d'uma ferida, que fez em uma perna com o seu machado, porque elle era
+rachador de lenha na serra, e a quem minha filha, mãi de Rosa, seguiu
+passado pouco tempo, quasi que enlouqueci, porque não sabia o que havia
+de fazer. Rosa, disse-me com a sua voz meiga e humilde: avósinha, eu
+conheço uma senhora muito caritativa; vamos a sua casa, que estou certa
+nos ha-de recolher. E foi verdade.
+
+A snr.^a D. Thereza, essa boa e caritativa senhora, para quem peço a
+Deus todos os beneficios e bençãos, teve a caridade de recolher em sua
+casa uma velha enferma e inutil como eu. Mas isto devo-o a Rosinha,
+porque ella sabe dizer as cousas de tal maneira, que, penetrando até o
+coração, commovem e decidem á compaixão. Vai em dezoito mezes que aqui
+nos achamos. Fio um pouco para não estar em descanço; mas Rosinha,
+senhora, Rosinha, cantando sempre, trabalha desde pela manhã até á
+noite. Em quanto que dura o verão, occupa-se a colher flôres na serra e
+no campo, e a fazer cestinhos com ellas; mas isto não obsta a que,
+quando se recolhe, lave a roupa, limpe os moveis, e ajude a cozinhar, e
+se quizesse dizer-vos tudo o que ella faz, ou sabe fazer, levar-me-ia
+muito tempo.
+
+Assim, amo muito a minha querida Rosinha. Mas onde estás tu, que te não
+chegas a mim para te dar um abraço?
+
+Rosa, com o pretexto de ir colher um ramo para D. Julia, tinha-se
+retirado, quando a avó começára a elogial-a.
+
+A viscondessa e sua filha ouviram com prazer o panegyrico de Rosa, feito
+pela avó, e iam fazer novas perguntas, quando D. Thereza chegou.
+
+Depois de terminados os comprimentos preliminares, a viscondessa expoz a
+D. Thereza como sua filha sympathisára com Rosa, e estava resolvida a
+tomal-a sob a sua protecção, se D. Thereza a isso se não oppozesse.
+
+--Primeiro que tudo--respondeu D. Thereza--desejo a felicidade e
+venturas de Rosinha, ainda que me ha-de custar muito a separar-me
+d'ella: porém, se fôr sua vontade, não me opponho, por que julgo lhe
+procuraes a sua felicidade; mas ponho por condição, que lhe não
+prohibireis vir algumas vezes visitar-me.
+
+--Isso, senhora, é um dever sagrado, que Rosa tem a cumprir. Vamos porém
+interrogal-a, por que ella nada sabe do que acabamos de fallar.
+
+D. Thereza chamou a pequena, que veio correndo, e disse-lhe:
+
+--Rosinha, queres ir viver com esta senhora e sua filha?
+
+--Pois vós, senhora--respondeu Rosa tremula e timida--quereis mandar-me
+embora?
+
+--Não. Pergunto sómente se me queres deixar, para te tornares uma menina
+da cidade, instruida e de maneiras polidas?
+
+--Não, minha senhora. Nunca--disse Rosa chorando, lançando-se nos braços
+da sua bemfeitora--nunca vos deixarei. Tenho muitos e muitos desejos de
+me instruir e de aprender, mas, se para isso é necessario o deixar-vos,
+antes quero ficar ignorante toda a minha vida. Recolheste-nos, senhora,
+quando eu e a minha querida avósinha, estavamos quasi a morrer de fome,
+e havia de ser tão ingrata, que, quando principio a servir d'alguma
+utilidade, vos abandonasse? Não, senhora, nunca, nunca vos deixarei.
+
+--Ouvistel-a, minhas senhoras--disse D. Thereza enxugando os olhos,
+razos de lagrimas.
+
+--Pelo que vejo, Rosa, estás bem decidida a não vir comnosco?--lhe disse
+a viscondessa.
+
+--Seria feliz e muito feliz, minha senhora, se podesse ir viver na sua
+companhia, e de sua estimavel filha; mas antes de vós, está a snr.^a D.
+Thereza, que salvou a minha pobre avósinha d'estender a mão á caridade
+publica e que sempre tão minha amiga tem sido. Perdoai-me, senhora, se
+assim fallo...
+
+--Dá-me um abraço, minha menina--lhe disse a viscondessa
+interrompendo-a--dá-me um abraço, porque te mostraste tal, como eu
+desejava, boa, humilde e reconhecida aos beneficios, que te fazem.
+
+Não tenhas receio, que te separemos da snr.^a D. Thereza. Pediremos
+sómente á tua bemfeitora, que nos deixe entrar com metade nos
+beneficios, que te prodigalisa.
+
+--E eu, Rosa--acrescentou D. Julia--quero ser a tua preceptora. Quando o
+tempo estiver bom, dar-te-hei as lições na serra, á sombra d'um
+sobreiro, ou d'um pinheiro, ou á borda d'um regato; e quando estiver
+mau, dar-tas-hei em minha casa, porque ouso esperar, que a snr.^a D.
+Thereza me não negará este favor, e prazer.
+
+--Oh não, minha senhora, esteja certa d'isso. Logo que termine o seu
+serviço dos cestinhos fica livre para vos ir procurar.
+
+--É objecto convencionado--disse a viscondessa--por isso a snr.^a D.
+Thereza ha-de-me permittir licença de offerecer a Rosa, para si e sua
+avó, o que contém esta pequena bolsa. É para comprar em nosso nome um
+vestido novo.
+
+E como D. Thereza, Rosa e a avó lhe fizessem muitos agradecimentos, a
+viscondessa impoz-lhes com brandura silencio, e retirou-se, promettendo
+voltar muito breve á quinta.
+
+D. Julia abraçou a sua pequena discipula, e retirou-se dizendo-lhe «até
+ámanhã».
+
+Nas proximidades de casa a viscondessa e sua filha encontraram D.
+Bertha, que estava esperando pelas meninas Meirelles.
+
+--Meu Deus, como estou aborrecida--lhes disse ella.
+
+--Pois eu, minha irmã--respondeu D. Julia--venho muito alegre; o
+espectaculo, que acabo de gosar, dar-me-ha felicidade não só para hoje,
+mas tambem para muito tempo, porque será contado no numero das minhas
+mais gratas e queridas recordações.
+
+
+VIII.
+
+D. Julia, na fórma convencionada, principiou no seguinte dia o curso,
+que queria fazer seguir a Rosa. Tomou com ardor a obrigação, que se
+tinha imposto desempenhar, mas o seu zelo não excedia, o que mostrava a
+sua alumna. Intelligente, e anciosa por aprender, Rosa era incansavel, e
+muitas vezes foi preciso que D. Julia moderasse a sua applicação; as
+lições tinham lugar umas vezes na serra, outras vezes em casa da
+viscondessa.
+
+Decorreram assim tres mezes. No fim d'este tempo, os progressos, que
+Rosa tinha feito, eram espantosos, e como tanto a professora, como a
+discipula não afrouxavam no seu zelo, era d'esperar que, no fim dos dous
+mezes que D. Julia ainda tinha a passar no campo, Rosa estivesse
+bastante desenvolvida para continuar, sem nada esquecer, a estudar
+sósinha, durante o inverno.
+
+Mas, quando menos se esperava, a terrivel molestia, que parecia ter
+deixado D. Julia, reappareceu com uma intensidade violenta.
+
+A pobre menina não teve forças para resistir a este ataque, e não podia
+sahir do quarto.
+
+Rosa, que no auge da sua desesperação, com risco da propria vida,
+quereria dar algumas forças á amiga do seu coração, podia a custo conter
+as lagrimas, contemplando-a, pallida e cadaverica, recostada n'uma
+cadeira de braços, forcejando por se levantar sem auxilio, para não
+aterrar a sua querida mãi e a sua discipula predilecta.
+
+N'este momento Rosa tinha um unico pensamento; o de sacrificar-se por
+aquella, que tanto a amava e lhe queria. Os mais pequenos desejos, e os
+mais vagos caprichos eram adivinhados de Rosa, e executados antes mesmo
+que D. Julia os tivesse enunciado. Se queria descer ao jardim, o braço
+de Rosa é que a amparava; se queria ouvir alguma passagem dos seus
+livros favoritos, Rosa lia-lh'a immediatamente.
+
+D. Julia, muito sensibilisada por tanta dedicação, affligia-se com a
+lembrança, de que o progresso da sua discipula estava parado. D. Bertha
+podia substituil-a, mas essa nunca consentiria em ser a preceptôra d'uma
+lavradeira. A viscondessa resolveu-se a dar as lições a Rosa, para
+socegar a inquietação de D. Julia.
+
+Havia já tres semanas que D. Julia estava doente, e cada dia ia a peor;
+sua mãi já não tinha esperanças algumas. Tres medicos, que do Porto
+haviam sido chamados, não deram esperanças da doente melhorar.
+
+A viscondessa, porém, não podendo convencer-se de que sua filha estava
+irremediavelmente perdida, cria que os medicos se tinham enganado, e
+resolveu recolher ao Porto, para lhe fazer uma nova junta.
+
+D. Bertha, contristada ao principio com a molestia de sua irmã,
+consolava-se com a idéa de voltar ao seio da sociedade, que ella tanto
+amava.
+
+Só á força de muitas instancias e esforços é que D. Julia consentiu em
+deixar o campo; mas, ainda assim, com a expressa condição de para lá
+voltar se peorasse.
+
+Quando Rosa soube que a viscondessa se ia retirar do campo, não pôde
+conter a sua desesperação. Queria acompanhar D. Julia, e não a
+desamparar um só instante. D. Julia procurava socegal-a, mas tudo era
+baldado, por que Rosa estava inconsolavel.
+
+Na vespera da partida Rosa veio despedir-se de D. Julia; lançou-se-lhe
+aos pés, chorando, e pediu-lhe que lhe escrevesse muitas e muitas vezes.
+A doente assim lh'o prometteu, e, tirando debaixo do travesseiro uma
+bolsinha de sêda, apresentou-a a Rosa.
+
+--Aceita, minha menina--lhe disse ella--esta bolsa; contem cem mil reis,
+que são as minhas economias do verão; põe a juros este dinheiro, para
+que se augmente este capitalsinho.
+
+É um presente muito pequeno; mas se nos não tornarmos a vêr, minha boa
+mãi, dar-te-ha, em meu nome, mais alguma cousa.
+
+Rosa beijou as mãos de D. Julia, e queria recusar a bolsa.
+
+--Não recuses, Rosa--tornou D. Julia--senão fôr para ti, é para tua avó.
+Sabes lá o que tem para vos acontecer, e se esta pequena somma ainda vos
+será util? Adeus, Rosinha; ama-me sempre muito, e reza muito ao Senhor,
+para que me dê saude.
+
+Rosa quiz responder, mas as lagrimas e soluços embargaram-lhe a voz. A
+viscondessa, testemunha d'esta scena tão tocante, temendo as funestas
+consequencias, que sua filha soffreria com tão grande commoção, levantou
+Rosa, e pediu-lhe com instancia e por favor que se retirasse. A pobre
+menina cedeu a custo, mas antes de se retirar ainda pôde vêr D. Julia,
+que, com um olhar maternal, a abençoava.
+
+
+IX.
+
+Já tinha decorrido mais d'um mez, desde que D. Julia recolhera ao Porto,
+e Rosa ainda não tinha recebido carta da sua amiga. A pobre criança
+affligia-se, julgando, que este silencio, para com ella, não tinha outra
+causa, senão o estado cada vez mais perigoso de D. Julia. D. Thereza,
+que partilhava do pesar de sua filha adoptiva, procurava por todos os
+meios consolal-a, e fazer-lhe conceber esperanças. Uma carta de D. Julia
+veio confirmar as prevenções de D. Thereza.
+
+D. Julia, com mão tremula, escreveu á sua querida discipula.
+Participava-lhe que a sua doença parecia estar um pouco mais debellada,
+e que os medicos davam algumas esperanças de a poder subjugar, e
+embargar-lhe o seu progresso.
+
+Terminava a carta aconselhando Rosa a que não descurasse os seus
+estudos, e pedindo-lhe que lhe escrevesse.
+
+Rosa cobriu de mil beijos esta carta, e no mesmo dia respondeu a D.
+Julia, assegurando-lhe que não despresaria os seus conselhos, e que
+tinha esperanças, de, para a primavera, renovar as suas lições sob as
+arvores da serra; que nas suas orações rogava todos os dias a Deus, com
+fervor, que lhe restituisse a saude, e que esperava as suas supplicas
+fossem attendidas.
+
+Rosa, cumprido este dever sagrado, lançou mão do seu trabalho com mais
+vigor.
+
+Estava proximo o dia natalicio de D. Thereza. Rosa preparava em segredo
+um lindo presente para offerecer n'aquelle dia á sua bemfeitora, e para
+isso tinha reunido todo o dinheiro, que lhe tinham dado de mimo, e
+julgava-se bastante rica para poder apresentar a D. Thereza um brinde,
+de que ella admirasse o valor e o gosto.
+
+Faltavam só quatro dias para que, esse dia tão anciosamente esperado,
+chegasse, e Rosa ainda queria poder supprimir o tempo, tão longo lhe
+parecia.
+
+Na vespera de manhã D. Thereza queixou-se d'uma dôr de cabeça, mas
+julgou que um passeio lh'a dissiparia. Sahiu pois; mas passado uma hora
+voltou ainda mais indisposta, do que tinha sahido.
+
+Despresando o seu estado, ainda presidiu, na fórma costumada, ao jantar
+dos criados da quinta; mas, no meio d'elle, cahiu sem sentidos.
+
+Os criados, assustados, cercaram D. Thereza. Recolheram-na á cama, e
+partiu immediatamente um criado a chamar, a toda a pressa, um cirurgião.
+
+Chegou este, e, mal viu a doente, não deu esperanças de a salvar.
+
+--Foi uma apoplexia fulminante--disse elle--é já tarde para se lhe dar
+remedio.
+
+O desespero e a consternação espalharam-se na quinta.
+
+Os criados em geral estimavam muito D. Thereza, por que, apesar de ser
+muito vigilante, era boa e justa.
+
+Os menores movimentos do cirurgião eram seguidos com anciedade por todos
+os criados, mas entre elles tornava-se saliente Rosa pelo zelo e
+actividade, que desenvolvia em executar as prescripções do cirurgião,
+ainda bem não estavam dadas.
+
+Rosa não podia crêr que Deus lhe quizesse roubar a sua bemfeitora, e
+esperava ainda que uma crise feliz a restituiria á vida.
+
+A avó de Rosa estava consternadissima, e o seu maior pesar consistia em
+não poder fazer cousa alguma.
+
+De joelhos; junto do leito de D. Thereza, rezava com fervor e devoção.
+
+Entre as alternativas da esperança e desconforto se passou o dia. Á
+noite o cirurgião declarou que já lhe não restava esperança alguma; que
+D. Thereza ainda podia viver mais um dia ou dous, mas que não proferiria
+mais uma palavra, nem faria um unico movimento.
+
+Descrever a afflicção de Rosa e de sua avó é-me impossivel; bastará
+dizer que a dôr as tinha quasi enlouquecido.
+
+D. Thereza não tinha filhos, por isso foram avisar do succedido a D.
+Euzebia, sua irmã, rica proprietaria em Rio Tinto.
+
+D. Euzebia, por causa do seu genio forte, e caracter duro, não estava em
+intimas relações com D. Thereza. Assim que teve noticia da doença de sua
+irmã poz-se logo a caminho, não por amisade que tivesse á moribunda, mas
+sim para vigiar que lhe não roubassem a mais pequena parte da sua
+herança.
+
+Logo que D. Euzebia chegou a S. Cosme, tomou o governo da casa, e deu
+ordens como se já estivesse senhora da herança. Rosa e sua avó
+inspiraram-lhe antipathia, e não podia comprehender como sua irmã
+voluntariamente tinha tomado ao seu cuidado aquellas duas pessoas.
+
+D. Thereza ainda viveu dous dias, conforme o cirurgião dissera, mas sem
+falla, e sem movimento, porque a apoplexia tinha-lhe paralysado todas as
+faculdades. Só os olhos é que conservavam ainda alguns signaes de vida e
+intelligencia, os quaes fixava sobre Rosa, fazendo esforços para fallar,
+naturalmente para fazer o seu testamento; mas este ultimo consolo dos
+moribundos não lhe foi permittido.
+
+O abbade da freguezia, que veio administrar os ultimos sacramentos á
+moribunda, tentou mitigar a dôr de Rosa, mas a joven menina estava muito
+consternada para poder ser consolada. Recusou obstinadamente retirar-se
+de junto do leito, em que jazia D. Thereza, conservando-lhe a mão gelada
+apertada nas suas.
+
+--O meu lugar é este,--dizia ella entre soluços,--só deixarei minha
+segunda mãe no tumulo.
+
+Finalmente chegou o terrivel momento da morte. Uma convulsão, alguns
+murmurios sufocados........ e D. Thereza tinha deixado d'existir entre
+os vivos, e sua alma, desprendendo-se das ligações terrenas, voára ao
+céo a receber da mão de Deus o premio das suas virtudes.
+
+Ao principio não se ouviam mais que os chóros de todos os criados da
+quinta, mas em seguida uma voz forte e imperiosa se fez escutar. Era a
+de D. Euzebia. Collocou uma pessoa junto do cadaver de sua irmã, deu as
+ordens para os funeraes, e passou a inspeccionar as caixas e commodas,
+que fechava com cuidado, guardando as chaves.
+
+
+X
+
+Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz eleito
+da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que pertencia a D.
+Thereza.
+
+--Aqui estão as chaves, senhor juiz eleito--disse D. Euzebia,--mas é
+inutil esse trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irmã, e
+ella não podia desherdar-me.
+
+--É verdade, minha senhora,--respondeu o juiz--mas cumpro o meu dever,
+por que a lei protege os direitos de todos.
+
+--Só eu é que tenho direito á fortuna de minha irmã, pois ella não tem
+filhos.
+
+--Sim, minha senhora, mas esta orphãsinha, a quem ella deu asylo?
+
+--Minha irmã--replicou com colera D. Euzebia--seria por ventura capaz de
+me desherdar, testando os seus bens a favor d'estas duas mendigas, que
+ella teve a phantasia de recolher em sua casa?
+
+--Não o affirmo, minha senhora--respondeu com brandura o juiz;--mas sua
+irmã póde ter feito testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua
+estima e amisade.
+
+--Não julgaria sufficiente o sustental-a e mais á avó,--disse D. Euzebia
+com voz forte--ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas
+velhacas, virieis vós roubar o que de direito me pertence? Snr. juiz
+eleito, queira tambem sellar a porta do quarto d'ella, pois quem sabe
+lá, o que ella tem roubado. Minha irmã era tão pouco cautellosa...
+
+--Oh! senhora--respondeu Rosa com muita tristeza a esta supposição
+offensiva--acreditaes que pagasse com o roubo os beneficios, que eu e
+minha avó recebemos da snr.^a D. Thereza?
+
+O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para que D.
+Euzebia não continuasse, diante d'um leito de morte, com uma discussão
+tão vergonhosa, e feia.
+
+Logo que o juiz se retirou, Rosa viu-se de novo a braços com as
+suspeitas da ambiciosa herdeira. Chegaram a tal ponto as cousas, que
+Rosa não pôde refrear a sua indignação.
+
+--Não me injurieis, senhora,--disse Rosa com energia e dignidade--não me
+injurieis diante do corpo de vossa irmã, de quem só a vista bastaria
+para me proteger. Dizei-me, senhora, sahi eu por ventura um só instante
+de junto da cama da minha bemfeitora, desde que ella foi atacada pela
+apoplexia? Não, senhora. Então como podia eu subtrahir cousa alguma?
+Examinai, e examinai bem, senhora, que achareis tudo intacto, porque eu
+e minha avó preferiamos antes morrer de fome, do que tocar na cousa mais
+insignificante, que nos não pertencesse. Louvado seja o Senhor, sou
+forte; posso e quero trabalhar, por isso não serei pesada a ninguem.
+Deixai-nos, senhora, chorar em paz a perda da nossa bemfeitora, que,
+logo que o seu corpo saia d'esta casa, não vos pediremos asylo.
+
+Esta linguagem, firme e digna, impoz silencio a D. Euzebia, que ficou
+corrida de vergonha.
+
+Rosa esperou com socego o dia seguinte, em que se devia fazer o enterro
+a D. Thereza.
+
+A pobre criança, com a avó pelo braço, seguiu chorando o prestito.
+Depois de terminado o officio, Rosa e sua avó, ajoelharam-se junto da
+campa, em que D. Thereza foi sepultada: era já noite cerrada, e ainda as
+duas desgraçadas não cuidavam em se retirar.
+
+O frio, que fez dar um gemido á avó, advertiu Rosa de que se devia
+recolher; só então é que pensou para onde havia de ir.
+
+--Vamos, minha avósinha--disse Rosa--a casa da snr.^a Maria da Gandra,
+que estou certa, sendo tão nossa amiga, nos não ha-de deixar na estrada.
+
+A snr.^a Maria da Gandra era uma boa e caridosa mulher, que, como todos
+os moradores de S. Cosme, e seus arredores, estimava muito a protegida
+de D. Thereza, e censurára o procedimento de D. Euzebia.
+
+--Oh! Rosinha, foi Deus que te dirigiu para minha casa--lhe disse ella
+logo que a avistou.--Que prazer me não causa teres procurado a minha
+casa para te recolheres. Tinham-me dito, que ias para casa da Joanna da
+Quintella, por isso é que te não offereci para vires para aqui com tua
+avó.
+
+--Agradeço-vos, senhora--disse Rosa--a vossa bondade, e a caridade com
+que vos offereceis para nos recolherdes; mas não venho pedir-vos casa e
+sustento de graça, porque tenho duas inscripções de cem mil reis cada
+uma; o que vos rogo é que me aboneis tudo o que eu precisar e minha avó,
+que vos satisfarei logo que termine a liquidação da herança da snr.^a D.
+Thereza, e receba as minhas inscripções.
+
+--Sim, sim, minha menina,--lhe respondeu a snr.^a Maria da Gandra--Não
+preciso do teu dinheiro para te sustentar e a tua avó. Mas diz-me, como
+obtiveste essas inscripções?
+
+--A snr.^a D. Julia, antes de partir para o Porto, deu-me cem mil reis,
+com os quaes a snr.^a D. Thereza, em cumprimento do seu desejo, comprou
+duas inscripções em meu nome.
+
+--Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas em teu nome, porque
+d'outra maneira D. Euzebia tomaria posse d'ellas. Tem resignação, assim
+como vós, minha boa velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir
+ao vosso quarto.
+
+Rosa e sua avó ficaram portanto habitando na Gandra.
+
+A pequena não estava ociosa, antes pelo contrario era tão zelosa e
+trabalhadeira, que a snr.^a Maria, muito satisfeita, propoz-lhe que ella
+e a avó, ficassem para sempre em sua casa. Rosa aceitou promptamente, e
+com reconhecimento, pois n'aquella occasião era a maior felicidade, que
+lhe podia apparecer.
+
+No dia em que se deviam tirar os sellos em casa da defunta D. Thereza,
+Rosa alli compareceu por convite do juiz eleito.
+
+Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da casa, que
+tinha sido para ella tão hospitaleira, o coração comprimiu-se-lhe e não
+pôde reter as lagrimas.
+
+Tudo se passou sem novidade; só de quando em quando D. Euzebia mostrava
+por gestos e exclamações o seu desapontamento por encontrar menos
+dinheiro, do que imaginava.
+
+Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, não foi uma exclamação de
+surpreza, que D. Euzebia soltou, mas sim de raiva, na qual se divisava
+um accento de triumpho.
+
+--Bem certa estava eu,--disse ella--que esta velhaca havia de ter
+_empalmado_ alguma cousa. Ah! se eu não viesse logo... o que teria
+acontecido. Examinai, senhor escrivão, o que é que ahi existe.
+
+O escrivão tirou da caixa um magnifico vestido, que, a julgar pelo
+tamanho, não pertencia de certo a Rosa.
+
+--Dize velhaca,--tornou D. Euzebia--como é que este vestido veio aqui
+parar?--Não preciso perguntal-o, porque a culpada está-se denunciando
+pelo rubôr, que lhe cobre as faces.
+
+--Senhora D. Euzebia--disse o juiz--o seu proceder para com esta criança
+é digno de censura. Ainda, até agora, não encontramos cousa alguma, que
+fizesse, nem ao menos, suspeitar de sua probidade. Deixai-a portanto
+dar-me as explicações, que tiver a fazer.
+
+Responde Rosinha,--disse o juiz com modo affavel--como é que este
+vestido se acha na tua caixa?
+
+Rosa fez-se muito corada e respondeu:
+
+--Este vestido, senhor, foi comprado com as minhas economias.
+
+--Que é; que é?--interrompeu D. Euzebia.
+
+--Senhora--disse severamente o juiz--ordeno que vos caleis.
+
+--É bem publico e sabido, que eu, durante o verão, fazia cestinhos de
+flôres, que ia vender ás casas abastadas dos arredores.
+
+Quasi sempre me davam, como presente, mais do que o custo dos cestos:
+entregava-me a snr.^a D. Thereza, para guardar no meu mealheiro, estas
+pequenas quantias, que reservei com muito cuidado para poder brindar a
+snr.^a D. Thereza no seu dia natalicio.
+
+Estava muito indecisa, por não saber o que lhe devia offerecer, e foi a
+minha avó, que me suggeriu a idéa de lhe comprar um vestido. Para levar
+a effeito este meu desejo combinei em segredo, com a costureira da
+snr.^a D. Thereza, para o fazer, e estou muito certa de que a minha
+bemfeitora não despresaria a minha offerta, se tivesse a felicidade de
+lh'a apresentar.
+
+Esta explicação, simples e clara, que demonstrava um coração sincero e
+grato, fez borbulhar as lagrimas nos olhos de todos os circumstantes.
+Devemos comtudo excluir d'este numero D. Euzebia, que presistia em negar
+a verdade.
+
+Quando se encontraram as duas inscripções, D. Euzebia chegou ao auge do
+desespero e da colera, e de boa vontade as inutilisaria, se lhe fosse
+possivel obtel-as á mão; mas, felizmente para Rosinha, não pôde
+conseguil-o.
+
+Finalmente, pelos cuidados e protecção do juiz eleito, Rosa e sua avó,
+apesar de todos os obstaculos e vontade de D. Euzebia, receberam tudo o
+que lhes pertencia, e deixaram sem maior desgosto a casa, de que a mais
+cruel e mais requintada avareza as expulsava.
+
+
+XI.
+
+Estamos no anno seguinte.
+
+Rosa escreveu á viscondessa do Candal e a sua filha uma carta tão
+affectuosa e consoladora, que fez despertar em D. Julia um vehemente
+desejo de tornar a vêr a sua querida discipula e protegida.
+
+Os dias, que faltavam para Rosa poder abraçar a sua amiga, pareciam-lhe
+seculos. Esperava com uma impaciencia impossivel de descrever, a chegada
+da primavera, porque então é que devia, e podia estreitar ao coração a
+sua querida amiga e preceptora.
+
+Raiou finalmente o dia tão anciosamente almejado. A primeira pessoa que
+D. Julia avistou foi Rosa, que, louca d'alegria, viera esperar a sua
+amiga querida, para lhe apresentar um cestinho, igual ao que tinha
+estabelecido e sido causa das relações e intima união, que existia entre
+ellas.
+
+D. Julia ao vêl-a deu um grito, e quiz immediatamente descer do coupé;
+mas não pôde fazel-o, por que estava tão magra, fraca e desfigurada que,
+quem a via, só a um milagre podia attribuir a sua existencia. Era na
+verdade um milagre, devido ao amor maternal, e continuos cuidados e
+desvelos, de que a cercava a viscondessa.
+
+Rosa passou todo o dia na companhia da sua querida amiga e protectora.
+D. Julia tinha muito que lhe perguntar, por que queria saber
+minuciosamente tudo o que tinha acontecido, desde que ella se tinha
+retirado para o Porto.
+
+Apenas teve conhecimento da morte de D. Thereza, D. Julia pediu
+immediatamente a sua mãi, que recebesse em sua casa Rosa e sua avó.
+
+A viscondessa, que desejava e queria satisfazer o mais pequeno desejo,
+ou pedido de sua filha predilecta, accedeu sem demora.
+
+Rosa e sua avó vieram portanto morar para casa da viscondessa do Candal,
+que foi pessoalmente dar parte d'esta sua resolução á snr.^a Maria da
+Gandra.
+
+--Estou satisfeitissima, minha senhora--disse a snr.^a Maria da
+Gandra--pela felicidade de Rosa; mas ao mesmo tempo sinto um grande
+pesar, e é com difficuldade que me separo d'ella. Nunca mais encontrarei
+uma pequena, que seja tão humilde e trabalhadeira.
+
+A viscondessa em seguida quiz satisfazer á snr.^a Maria da Gandra toda a
+despeza, que Rosa e sua avó tinham feito em sua casa; mas a honrada e
+digna aldeã não quiz aceitar a mais pequena e insignificante recompensa,
+e respondeu--Que Rosa havia ganho o que ella e sua avó tinham
+despendido.
+
+A despedida de Rosa e da snr.^a Maria da Gandra foi pathetica, e só a
+muito custo se desprenderam, chorando, dos braços uma da outra,
+promettendo Rosa vir visital-a a miudo, por que o carinho, com que a
+snr.^a Maria a tinha tratado havia sido tal, que seria uma ingrata se
+lhe não tributasse um profundo reconhecimento.
+
+A alegria, que se apoderou da pobre cega, quando lhe disseram que ia
+viver em casa da viscondessa do Candal, foi tal, que só acreditou depois
+de muito lh'o asseverarem, por que lhe parecia impossivel que semelhante
+ventura lhe succedesse.
+
+--Que a minha Rosinha--disse ella--algum dia se havia de tornar senhora
+da cidade, sempre eu o julguei, por que era muito gentil e linda para
+ser camponeza; mas que eu partilhasse tal ventura, nunca o imaginei.
+
+Rosa e sua avó foram alojadas, em casa da viscondessa, em dous quartos,
+muito perto d'aquelle em que habitava D. Julia; que assim o tinha
+exigido para ter a sua protegida junto d'ella, o que se executou com
+muita censura e reparo de D. Bertha.
+
+--Era só o que faltava--dizia um dia, a orgulhosa D. Bertha, a D.
+Francisca de Meirelles, sua amiga--trazer para nossa casa estas duas
+mendigas. Podes tu, minha querida, explicar-me como é que Julia pôde
+affeiçoar-se tanto a estas duas creaturas?
+
+--Tua irmã, Bertha, tem o coração muito sensivel; basta que lhe façam
+uma choradeira, ou que lhe contem uma historia triste para acreditar em
+tudo, e logo se affeiçoar a qualquer, e lhe dedicar carinho é protecção.
+
+--Mas na verdade, esta sociedade não é tão agradavel e
+attrahente?--disse D. Bertha com um sorriso ironico.--Se a cega e a neta
+contam commigo para lhes fazer companhia, affirmo-te que lhes hei-de
+deixar muito tempo para se aborrecerem.
+
+Conforme com estas _bellas_ resoluções D. Bertha evitava o mais possivel
+dirigir a palavra a Rosa e sua avó, e, quando por necessidade o fazia,
+era com um modo tão sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as duas
+infelizes ficavam confusas e envergonhadas.
+
+D. Julia tentou por diversas vezes fazer nascer no coração de D. Bertha
+sentimentos mais nobres e mais christãos, mas infructuosamente, por que,
+procurar commover e sensibilisar o coração empedernido e orgulhoso de D.
+Bertha, era um trabalho improbo e esteril.
+
+D. Julia, feliz por ter em sua companhia a querida de seu coração, a sua
+discipula, recuperou algum vigor, e ainda pôde recomeçar as lições. A
+fadiga, que d'este trabalho lhe podia provir, era attenuada pela
+attenção e estudo, que Rosa prestava ás prelecções.
+
+D. Julia ainda quiz ensinar desenho a Rosa.
+
+--Queres dar a Rosa--disse uma occasião a viscondessa a sua filha--uma
+educação e instrucção superiores á sua posição na sociedade, e não
+receias que isso para o futuro lhe cause embaraços e dissabores?
+
+--Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida mãi, a bondade de
+ouvir o que a minha protegida me dizia outro dia:
+
+«O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra, é alcançar bastante
+instrucção e saber, para um dia ser professora. Como me julgaria feliz
+podendo dizer ás minhas discipulas: era uma aldeã muito ignorante e
+rustica; uma boa menina, a snr.^a D. Julia, filha da snr.^a viscondessa
+do Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua protecção e de me
+ensinar. É a ella, meninas, a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se
+me amaes, deveis igualmente amar a snr.^a D. Julia, minha bemfeitora; e
+então ellas vos renderão graças, assim como eu vol-as rendo agora.»
+
+--Não te torno a dizer mais nada--disse a viscondessa--Continua, minha
+filha, pois Rosa é digna dos teus cuidados e desvelos, e para que elles
+se tornem mais proficuos ajudar-te-hei a leccional-a.
+
+A viscondessa cumpriu a sua promessa e, alternadamente com D. Julia,
+dava as lições a Rosa.
+
+Estes estudos não fizeram pôr de parte a preparação de Rosa para receber
+dignamente a primeira communhão. Foi com uma piedade exemplar que ella
+cumpriu este solemne acto, e o futuro provou não ter sido esteril para o
+seu coração.
+
+D. Julia passou o verão entre as alternativas de melhoras e recahidas
+nos seus padecimentos, que tinham uma successão quasi regular e
+periodica. Umas vezes nem levantar-se da cama, ou d'uma cadeira de
+braços, para onde a levavam, lhe era possivel; outras vezes chegava a
+poder dar uns pequenos passeios pelos campos das visinhanças. Aos
+proprios medicos custava a comprehender como ella vivia.
+
+D. Julia, porém, não se illudia sobre o seu estado de saude. Quando sua
+mãi a entretinha fazendo projectos, ou, como ordinariamente se diz,
+_castellos no ar_, para o futuro, ella sorria-se e respondia: que ainda
+faltava muito tempo para a sua realisação, e que não chegava a vêl-os
+confirmar.
+
+A sós com Rosa D. Julia fallava livremente sobre a proxima terminação da
+sua existencia, e então ella supplicava-lhe com instancia, que
+repellisse da sua imaginação tão sinistras idéas.
+
+--Não posso crêr,--dizia ella--que Deus nosso Senhor me queira tirar
+d'este mundo todos os meus protectores: não sei que crime tenha
+commettido, que mereça semelhante castigo.
+
+--Resta-te ainda minha mãi, minha Rosinha--respondia D. Julia--que estou
+certa nunca te ha-de desamparar.
+
+Rosa terminava esta penosa conversação abraçando D. Julia e procurando
+distrahil-a por todos os meios possiveis.
+
+O que a dedicação mais sincera e real póde suggerir de mais bello, tudo
+Rosa executava, recebendo, por galardão, ou recompensa a mais grata, um
+terno sorriso de D. Julia, ou um agradecimento da viscondessa, e para os
+merecer faria o impossivel se necessario fosse.
+
+
+XII.
+
+D. Julia apparentava exteriormente um socego d'espirito, que
+interiormente não sentia, por que receiava muito a chegada do outono,
+época, que os medicos tinham marcado, a mais longa a que poderia chegar.
+A anciedade, pois, que todos soffriam pela aproximação d'esse termo
+fatal, era geral.
+
+Chegou o outono. Por um d'estes phenomenos, que a tisica muitas vezes
+apresenta, a molestia não offereceu n'esta estação alteração alguma.
+
+A esperança, de que D. Julia ainda poderia vencer a fatal doença,
+começou a penetrar em todos os corações, e até no da propria enferma.
+Rosa chegou a dizer á viscondessa, que tinha uma convicção firme de que
+D. Julia não morreria, por que Deus Nosso Senhor era bom e não a havia
+de privar da sua protectora.
+
+A viscondessa, que até ahi estava convencidissima, de que sua filha não
+passaria além do termo marcado pelos medicos, vendo-o passar sem que a
+sua fatal predicção se realisasse, começou a crêr que se tinham
+enganado, e que D. Julia ainda lograria saude.
+
+Houve portanto grande alegria em casa da viscondessa. Todos os criados,
+que não amavam só, mas que veneravam D. Julia, por que era sempre boa e
+affectuosa para elles, crendo que a sua joven ama, não tendo morrido na
+época marcada, estava salva, pediram unanimemente para a felicitarem;
+tal foi a alegria e contentamento, de que se apoderaram com esta
+esperança e crença.
+
+Estas demonstrações respeitosas de sympathia e amisade, que os criados
+lhe deram, penhoraram e commoveram muito D. Julia. A todos agradeceu com
+reconhecimento esta nova prova d'affecto.
+
+Porém, de todas as felicitações, a da sua discipula e de sua avó, foi a
+que mais a impressionou.
+
+Quando Rosa, conduzindo sua cega avó, se ajoelhou com ella junto da cama
+de D. Julia, e lhe exprimiu, com candura e ingenuidade, a alegria e
+prazer, que sentiam pelas suas melhoras, e os votos, que faziam a Deus,
+para que o seu restabelecimento fosse real e breve, não pôde soffrear a
+sua commoção, e as lagrimas correram-lhe em fio pelas faces, agradecendo
+a Deus o prazer que tinha gosado com a felicitação que acabava de lhe
+ser dirigida.
+
+Passou-se o inverno, sem que o estado de saude de D. Julia soffresse
+alteração sensivel.
+
+Com a chegada da primavera D. Julia recomeçou os seus passeios pelos
+campos e pinheiraes visinhos, na companhia da sua inseparavel Rosa, a
+que algumas vezes se aggregava tambem a viscondessa.
+
+Na quaresma seguinte Rosa recebeu pela segunda vez o sacramento da
+communhão, e pouco tempo depois, D. Julia, querendo que a sua protegida
+progredisse nos seus estudos, pediu a sua mãi que lhe escolhesse uma
+professora.
+
+A viscondessa annuiu immediatamente ao pedido de sua filha.
+
+Pouco tempo depois entrou para casa da viscondessa, sob recommendação e
+abono do abbade de S. Cosme, uma joven senhora, a quem ha pouco acabava
+de ser concedido o titulo de capacidade.
+
+Rosa esforçava-se por todos os meios possiveis para corresponder
+dignamente aos beneficios, que, D. Julia e sua mãi, lhe estavam
+constantemente prodigalisando; procurando sempre não dar o mais leve
+desgosto ás suas protectoras; comtudo, é preciso dizer que Rosa não era
+perfeita. A sua vivacidade natural levava-a muitas vezes a
+impacientar-se, e o seu ainda pouco peso ou juizo a commetter algumas
+faltas nos seus deveres; mas reconhecia com tanta facilidade os seus
+erros, e mostrava-se tão arrependida e desejosa de os emendar, com tanto
+afinco e perseverança, que era impossivel tratal-a com rigor por muito
+tempo.
+
+Rosa dava as suas lições, umas vezes no quarto de D. Julia, quando o seu
+estado de saude o permittia; outras vezes no da viscondessa, que sentia
+um verdadeiro e sincero prazer em observar os progressos da predilecta e
+querida de sua filha.
+
+D. Maria d'Almeida, assim se chamava a professora, correspondeu
+dignamente á confiança, que a viscondessa n'ella tinha depositado,
+confiando-lhe a instrucção da sua pupilla.
+
+O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua direcção experimentou,
+foi grande, dando já signaes de que em breve a discipula se tornaria uma
+excellente professora.
+
+Rosa, assim que as suas obrigações e deveres estavam terminados,
+dedicava-se exclusivamente a D. Julia, e sua avó. Esta, desde que viera
+viver para casa da viscondessa do Candal, andava alegre e folgazã, e
+ainda julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu
+viver.
+
+Tinha já decorrido parte do anno; o outono estava quasi findo, e o
+estado de saude de D. Julia não denunciava signal algum de peoramento; a
+molestia, porém, que até então estivera encubada, reappareceu com grande
+violencia, e em oito dias as crises succederam-se tão proximas umas das
+outras, que pozeram a enferma em estado de se não conceber esperança
+alguma de a salvar.
+
+A illusão, que até ahi existira em todos, desappareceu completamente: já
+não esperavam senão o golpe final... Rosa, nem um só momento desamparava
+a sua querida protectora, e juntamente com a viscondessa, cuidava e
+tratava de D. Julia; não consentiam que mais ninguem lhe prestasse o
+mais insignificante serviço, chegando até a ter zelos uma da outra.
+
+Tanta dedicação e amisade teriam feito com que Deus revogasse a fatal
+sentença dada a D. Julia, se o Creador, na sua alta sabedoria, não
+tivesse resolvido chamar á sua presença, a receber o premio das suas
+virtudes, aquelle anjo de bondade e resignação.
+
+D. Julia, já moribunda e quasi expirante, pediu a sua mãi, como ultima
+graça que lhe fazia, que não abandonasse Rosinha, a sua querida
+discipula e amiga; que se não affligisse, nem desanimasse, porque em
+Rosa lhe deixava, estava certa d'isso, uma filha obediente e dedicada,
+que havia de substituir no seu coração o lugar que ella deixava vasio, e
+a Rosa recommendou-lhe que amasse sempre muito sua mãi, por que n'ella
+encontraria um sincero apoio, e uma terna e carinhosa amiga.
+
+Apenas D. Julia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha soado;
+abraçou sua mãi, e Rosinha e, pronunciando os nomes de Rosa... e minha
+mãi... expirou, voando a sua candida alma á presença de Deus a receber a
+glorificação de suas virtudes.
+
+Assim terminou D. Julia a sua existencia, que, se tinha sido breve para
+o mundo, fôra longa pelas boas obras, que sempre praticára, e pela
+pureza em que sempre vivera.
+
+
+XIII.
+
+Já decorreram seis annos depois das scenas descriptas no capitulo
+antecedente.
+
+Não deixaremos, porém, a nossa muito conhecida casa, perto de S. Cosme,
+pertencente á viscondessa do Candal, por que é no caminho, que a ella
+conduz, que tem lugar o que passamos a contar.
+
+Uma senhora ainda joven, e outra já de mais idade caminham em silencio,
+e commovidas.
+
+A mais idosa é a nossa muito conhecida viscondessa do Candal.
+
+O pesar da morte da sua querida filha Julia desfigurou-a muito. O rosto
+tem-no emmagrecido, e sulcado de profundas rugas, e os cabellos
+embranquecidos antes do tempo.
+
+A sua companheira é uma joven que figura ter dezesete para dezoito
+annos, d'apparencia ingenua e modesta; é a nossa Rosa, a pequena dos
+ramos e cestinhos.
+
+A viscondessa caminha apoiada no braço da sua companheira. Depois
+d'alguma hesitação Rosa decidiu-se a dirigir-lhe a palavra.
+
+--Receio, minha querida senhora--disse Rosa respeitosamente--que esta
+visita vos cause uma grande commoção e vos prejudique a saude. Por que a
+não deixaes para quando estiverdes mais restabelecida?
+
+--Não, Rosa, não. Ha oito dias, que não vim visitar a campa onde jaz a
+minha Julia, e oito dias já é um espaço muito longo. Sinto-me hoje
+melhor, não despresarei portanto esta occasião que se me offerece, por
+que, quem sabe se recahirei?
+
+--Não penseis em tal, senhora viscondessa. Creio que ainda haveis de ter
+muitos annos de vida; tenho fé, que Deus vos não roubará á minha ternura
+e reconhecimento.
+
+--Se as orações d'um anjo, Rosa, podessem deter a morte, conheço que as
+tuas me preservariam d'ella. Mas, ai de mim, a morte da minha sempre
+lembrada Julia despedaçou-me o coração. Não estou eu só n'este mundo?
+Bertha não me abandonou logo que casou? Que faço então aqui n'este ermo,
+a que chamam mundo?
+
+--Ah! senhora, esqueceis então a pobre Rosa, que vos estima e ama, e que
+vos é tão dedicada como se fôra vossa filha?
+
+Estas palavras, pronunciadas com um accento de submissão, penetraram até
+o imo do coração da viscondessa: sensibilisaram-na tanto, que abrindo os
+braços recebeu n'elles Rosa banhada em lagrimas.
+
+--Sou uma ingrata, Rosa, bem o reconheço,--disse a viscondessa cingindo
+Rosa ao coração. Recebo com indifferentismo os teus cuidados e carinhos,
+e a tua inexcedivel dedicação. Perdôa-me, minha filha, minha querida
+filha. Conheceste Julia, e melhor que outra qualquer sabes quanto era
+merecedora da minha ternura e amisade, e quanto é digna de ser
+pranteada. Mas Julia, antes de morrer, deixou-te na minha companhia,
+para me servires de consolação e allivio na minha dôr. Abraça-me Rosa,
+minha filha querida.
+
+Rosa, por unica resposta, abraçou com ternura a sua bemfeitora.
+
+As lagrimas, que lhe cobriam as faces, diziam bem alto e eloquentemente,
+o que a commoção lhe embargava nos labios.
+
+Ainda caminharam por mais algum tempo e chegaram ao cemiterio.
+
+A viscondessa do Candal, como tributo á memoria de sua filha,
+mandára-lhe levantar um lindo e rico mausoléo de marmore branco, no qual
+ella tambem queria ser encerrada á sua morte. Em volta das grades
+viam-se alegretes em que haviam violetas, geranios e rosas amarellas,
+que Rosa cultivava e cuidava com muito esmero, como recordação das
+flôres com que enfeitára o cestinho, que fôra causa da intima união, que
+se estabelecera entre ella e D. Julia.
+
+A viscondessa e sua filha adoptiva oraram por muito tempo sobre a campa
+d'aquella, que tanto tinham estremecido em vida, e que tanto choravam na
+morte.
+
+Rosa, depois de ter examinado e regado todos os alegretes e pés de
+flôres, um por um, para que os insectos, ou a seccura os não
+estiolassem, dirigiu-se á viscondessa.
+
+--Deixo-vos, senhora--lhe disse ella--por um instante. Vou rezar junto
+da campa de minha avó.
+
+--Tambem quero acompanhar-te--replicou a viscondessa.
+
+Não muito distante do mausoléo de D. Julia se elevava uma cruz simples.
+Era ahi que jazia, havia dous annos, a pobre cega. Terminára os seus
+dias socegadamente, bemdizendo a ternura de sua neta, e a caridade
+affectuosa da sua bemfeitora.
+
+Devido ainda ao zelo de Rosa a campa da pobre cega, adornada com
+diversas flôres, semelhava um jardimsinho.
+
+Rosa ajoelhou-se, e depois de ter rezado com fervor e devoção por algum
+tempo, levantou-se, e dando o braço á viscondessa retiraram-se, fazendo
+ainda uma ultima visita ao tumulo de D. Julia.
+
+Quando se recolheram, Rosa encontrou uma carta da sua antiga professora
+D. Maria d'Almeida, na qual lhe participava, que d'ahi por dous mezes se
+havia de proceder aos exames d'habilitação para os titulos de
+capacidade, por isso, se ainda estava decidida a propôr-se a exame, que
+enviasse os documentos necessarios ao commissario dos estudos.
+
+Rosa apresentou esta carta á viscondessa.
+
+--Sempre estás decidida a propôr-te a exame?--lhe disse ella.
+
+--Sim, minha senhora. É o meu mais fervente e afanoso desejo. Quero,
+senhora, que a instrucção e saber, que vos devo, e a vossa querida e
+chorada filha, aproveite ás crianças, que a pobresa retem na ignorancia
+e na rudeza. Se eu poder ser util, ainda que seja a uma só d'entre
+ellas, como, senhora, me reputarei feliz e bem paga do meu trabalho!
+
+--Tinha a esperança de te conservar sempre na minha companhia---replicou
+a viscondessa.--Occuparias para sempre o lugar do anjo, que Deus me
+levou, da minha Julia. Não queres, Rosa, ser minha filha?
+
+--Ah! senhora, quero sim, ser vossa filha; isso ainda vai além da minha
+ambição. Mas recordo-me que era uma pobre rustica, e que só aos vossos
+beneficios devo a minha instrucção, e a cultura da minha intelligencia.
+Quero, senhora, dar de barato, e ter a vangloria de dizer que os vossos
+cuidados não foram perdidos, mas com isso não me devo tornar vaidosa,
+por que faltaria assim aos meus deveres. Serei sempre para vós uma filha
+adoptiva, carinhosa, humilde e terna, e que achareis sempre ao vosso
+lado, esforçando-se por pagar a sua divida de gratidão e reconhecimento:
+Recebendo e aceitando a vossa affeição e amisade, para mim preciosa e
+apreciavel, não me devo esquecer da classe onde nasci. O meu lugar é
+mais humilde; mas como elle parece bello e grandioso ao meu coração,
+quando me recordo do bem, que posso fazer a essas infelizes crianças,
+que vivem na bruteza, ensinando-lhe o que sei e que é obra vossa! Ha
+muito que concebi este meu projecto, e que o declarei a vossa filha: «Ás
+pobres rapariguinhas das aldéas--lhe disse eu--farei o mesmo que a
+snr.^a D. Julia me fez. Ensinar-lhes-hei a serem felizes com a sorte,
+que Deus lhes destinou n'este mundo; cultivarei o seu coração e o seu
+espirito, e por unica recompensa não quererei mais do que ouvil-as bem
+dizer os nomes da exc.^ma viscondessa do Candal e de sua filha.»
+
+--Rosa, minha querida Rosa--disse a viscondessa abraçando-a, e com os
+olhos rasos de lagrimas,--que Deus te pague a felicidade, e prazer, que
+me fazes nascer no coração com as tuas palavras.
+
+ * * * * *
+
+Dous mezes depois, a nossa, hoje, D. Rosa de Jesus e Sousa comparecia
+perante o jury nomeado para proceder ao exame das concorrentes ao
+professorado. O titulo de capacidade, em grau superior, foi-lhe
+concedido por unanimidade e com distincção.
+
+
+XIV.
+
+Dous annos se passaram já, depois que foi conferido a D. Rosa de Jesus e
+Sousa o seu titulo de capacidade.
+
+Estamos em fins d'Outubro, n'uma casa caiada de branco, que se encontra
+ao entrar na freguezia de S. Cosme, do lado de S. Pedro da Cova. Na
+frente ha um pateo largo e espaçoso. Sobre o muro pendem os ramos
+verdejantes de dous chorões. Nas trazeiras da casa ha um pequeno jardim,
+muito bem tratado, com as ruas areadas com saibro, e que termina por um
+caramanchãosinho, que, pelo bem cerrado que está, indica que no verão
+deve alli haver uma frescura agradavel, auxiliada pela corrente d'uma
+levada, que corre proximo. Na sala que fica ao nivel do jardim ouve-se
+um murmurio confuso. Entremos, para examinar a que elle é devido. Que
+vemos? Grupos de lavradeirinhas, ao todo umas trinta, pouco mais ou
+menos, vestidas de branco, e tendo todas na mão um raminho de flôres do
+campo, com um laço de fita. Ao fundo da sala vê-se uma rica imagem de
+Nossa Senhora da Conceição, collocada sobre um altar, bem adornado com
+castiçaes de prata, velas de cera e jarras com flôres.
+
+N'um dos lados da sala ha quatro cadeiras de braços; n'uma d'ellas está
+sentada a viscondessa do Candal, a quem D. Rosa, de pé, junto d'ella,
+está dizendo os nomes das suas discipulas.
+
+A viscondessa passeia a vista por todas ellas, e conhece-se-lhe na
+expressão do rosto, que aquelle espectaculo a regosija e encanta.
+
+O modo, porque todas dirigem as vistas para a porta e pelas janellas,
+indica que se espera alguem.
+
+O abbade da freguezia e o administrador do concelho entram n'este
+momento pelo portão.
+
+Um sorriso alegre se vê deslisar em todos os rostos. Eram as pessoas por
+quem se esperava.
+
+A viscondessa e a sua pupilla vieram recebel-os á porta, e
+conduziram-nos ás cadeiras que lhe estavam destinadas.
+
+As crianças tomaram os seus lugares, e restabelecido o silencio, o
+abbade da freguezia tomou a palavra, e fez o seguinte discurso:
+
+«Sinto, minhas meninas, um prazer immenso por vos vêr aqui reunidas para
+a celebração do primeiro anniversario da installação d'esta escóla,
+devida á muita philantropia e caridade christã da exc.^ma viscondessa do
+Candal, e á dedicação exemplar da vossa digna professora a snr.^a D.
+Rosa de Jesus e Sousa. Julgo desnecessario o rememorar-vos, que um tal
+sacrificio merece um eterno reconhecimento, por que entendo que entre
+vós, minhas filhas, não ha ingratas. Vós respeitaes e veneraes a exc.^ma
+viscondessa, e amaes com um verdadeiro amor a vossa professora, não é
+assim? É, assim o creio. Mas ha ainda uma pessoa, para quem deveis ter
+uma saudosa recordação, e que tambem deveis encommendar a Deus nas
+vossas orações. Prestai-me attenção, que vos vou dizer quem é essa
+pessoa, cuja recordação vos deve ser grata. Ha pouco mais ou menos doze
+annos, que uma pobre lavradeirinha ganhava a sua vida fazendo cestinhos
+de juncos, e ramos de flôres silvestres. Uma joven e nobre senhora, que
+reconheceu n'ella amabilidade, modestia e humildade, sympathisou com
+ella, e encarregou-se de a educar e instruir. Como a sua bemfeitora a
+achou sempre digna dos seus beneficios, encarregou-se tambem da sua
+posição futura. Essa joven senhora, de que vos fallo, é a exc.^ma snr.^a
+D. Julia, filha da exc.^ma viscondessa do Candal, e essa lavradeirinha,
+a quem ella dispensou os seus carinhos e a sua affeição, é a vossa douta
+professora. Ha já alguns annos, que a alma da exc.^ma snr.^a D. Julia
+voou á presença do Deus eterno a receber o premio das suas virtudes e
+das boas obras, que praticára n'este mundo; uma das quaes ainda existe,
+que foi o deixar-vos a vossa professora e amiga.
+
+«Mostrai-vos, meninas, sempre merecedoras dos beneficios, que vos fazem,
+porque isso é o unico desejo das vossas bemfeitoras e a unica
+recompensa, que recebem da sua dedicação, que estou muito convencido
+sempre fareis por merecer.
+
+«Não quero, porém, retardar por mais tempo o momento de receberem o
+premio e galardão, que merecem pela sua applicação ao estudo e amor ao
+trabalho, áquellas que d'isso se tornaram dignas; e ás que d'esta vez
+não são galardoadas resta-lhes a esperança e o meio de, pela imitação
+das suas condiscipulas, se tornarem dignas de o merecerem para o anno
+futuro.
+
+«Vamos por tanto proceder á distribuição dos premios.»
+
+Um sussurro d'alegria acolheu as ultimas palavras do digno sacerdote.
+
+A conferencia dos premios foi esplendida.
+
+Os premios consistiam em livros religiosos e d'instrucção, que tinham
+sido cuidadosamente escolhidos pela viscondessa, e sua filha adoptiva,
+todos ricamente encadernados. Era interessante e bello vêr a alegria,
+que se deslisava no rosto das que tinham sido contempladas na
+distribuição.
+
+Terminada a conferencia dos premios teve lugar debaixo do caramanchão um
+bem servido _lunch_.
+
+--Como é magnifico o espectaculo, que apresentam estas crianças, alegres
+e satisfeitas--disse a viscondessa--Recordar-me-hei sempre d'este dia,
+como o mais grato e feliz da minha vida. Tu, minha querida Rosa,
+attrahes as bençãos do céo sobre nós, e sobre a memoria da minha
+querida, e chorada Julia.
+
+--Ah! senhora,--disse Rosa com os olhos rasos de lagrimas--que a vossa
+prophecia se realise, e a minha mais cara aspiração ficará satisfeita.
+
+ * * * * *
+
+O desejo de Rosa realisou-se. A escóla está cada vez mais florescente, e
+a freguezia ufana-se pela possuir. Todos os moradores do lugar ainda
+hoje bemdizem os nomes da viscondessa do Candal, de sua filha e de D.
+Rosa, modêlo raro d'um coração verdadeiramente grato e reconhecido aos
+beneficios que recebera.
+
+
+FIM.
+
+
+ * * * * *
+
+Nota do transcritor:
+
+A edição da obra aqui transcrita foi publicada em 1863 num volume que
+continha 3 romances denominados: Annos de Prosa, A Gratidão e O
+Arrependimento.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Gratidão, by Camilo Castelo Branco
+
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+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: A Gratidão
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+Author: Camilo Castelo Branco
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+Release Date: November 6, 2007 [EBook #23345]
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A GRATIDÃO ***
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+<span class="pagenum">[221]</span>
+
+
+
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+<h1>A GRATIDÃO.</h1>
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+<h2>ROMANCE.</h2>
+
+
+<h3>I.</h3>
+
+<p>Estavamos nos ultimos dias de Dezembro de 1846. Uma camada mui espessa
+de neve cobria o sólo. O ar, sombrio e carregado, indicava que mais neve
+não tardava a cahir. Os ramos nús das arvores dos montes tremiam
+soprados pelo vento norte gelado. Estava tudo n'um perfeito socego, e
+tristeza; nem o mais leve murmurio se ouvia.</p>
+
+<p>Uma velha, e uma criancinha, apesar do rigor do frio, seguiam com
+difficuldade o caminho, que da serra de Vallongo conduz a S. Cosme. A
+criança, d'espaço a espaço, soprava ás mãosinhas inteiriçadas pelo frio,
+e não se podendo sustentar sobre os pés, que tinha inchados pelas
+frieiras, caminhava vacillante; mas vencendo todos os obstaculos, com
+uma energia superior á sua idade, <span class="pagenum">[222]</span> tomava galhardamente o seu lugar
+ao lado da velha. Esta parecia ter sessenta annos. Estava corcovada mais
+pela miseria, do que pela idade, e tinha no rosto profundas rugas. Pelo
+modo como andava, e tateava o caminho com a mulêta, via-se que era cega.</p>
+
+<p>--Aonde vamos nós, Rosa?--perguntou a velha á rapariguinha.</p>
+
+<p>--Em meio caminho, minha avó.</p>
+
+<p>--Jesus Senhor, valei-me,--disse a cega,--pois que as minhas pobres
+pernas já estão cançadas, e parece-me que não chego ao fim da jornada.</p>
+
+<p>--Encoste-se ao meu hombro, avósinha, que eu não estou cançada.</p>
+
+<p>--Não, não. Tudo está acabado. Eu morro aqui, Rosinha. Tenho muita fome,
+e muito frio para vencer o caminho até S. Cosme. Ai meu Pai do céo, que
+me sinto desfallecer...</p>
+
+<p>Fez um gesto de desespero, e a cega cahiu sobre o caminho.</p>
+
+<p>--Avósinha, avósinha,--gritava Rosa assustada,--volte a si, que lh'o
+peço eu; mais um pequeno esforço e chegaremos a S. Cosme.</p>
+
+<p>A cega não deu accordo de si.</p>
+
+<p>--Avósinha,--continuou Rosa chorando, e cobrindo-a de beijos,--se me
+abandona, que hei-de fazer? Quer que eu morra de paixão?</p>
+
+<p>--Morrer, tu, minha Rosinha,--disse a cega levantando-se.--Oh! meu Deus,
+não permittaes tal.</p>
+
+<p>--Então levante-se que lh'o peço eu; se fica aqui mais tempo o frio
+matal-a-ia. Em S. Cosme nos aqueceremos.</p>
+
+<p>--Ai de mim,--disse a cega, levantando-se ajudada de Rosa,--e a snr.<sup>a</sup> D.
+Thereza receber-nos-ha?</p>
+
+<p>--Ha-de receber sim, minha avósinha, eu lh'o afianço. Não creio que a
+boa snr.<sup>a</sup> D. Thereza nos despeça. Quando eu lhe ia vender flôres
+silvestres, que apanhava <span class="pagenum">[223]</span> no monte, abraçava-me, e dizia-me muitas
+vezes, que desejava que eu fosse sua filha.</p>
+
+<p>--Não duvido que ella te receba, porque és muito linda e agradavel;
+agora o que eu não creio é que me receba a mim, que sou uma velha e
+cega, que para nada sirvo.</p>
+
+<p>--Se assim acontecer, voltaremos á nossa aldêa, e os bons lavradores,
+que conheceram meus paes, terão piedade de nós, soccorrer-nos-hão, e eu
+trabalharei para lhes pagar, o que elles vos derem.</p>
+
+<p>A avó, muito commovida, apertou ao coração a pequena, e murmurou
+palavras de ternura e gratidão; e reanimada por esta felicidade, que
+Rosa lhe tinha feito experimentar, retomou com passo mais firme o
+caminho de S. Cosme.</p>
+
+<p>O vento soprava já com mais força; o ar tinha escurecido mais, e
+pequenos flocos de neve se viam voltejar no ar. Rosa, tiritando com
+frio, fazia esforços sobrehumanos para poder andar, e cada passo, que a
+pobre cega dava, era acompanhado d'um suspiro surdo. O vento augmentou,
+e os flocos de neve, que ao principio eram raros, cahiam em maior
+abundancia.</p>
+
+<p>--Rosinha,--disse a cega,--bem queria andar, mas não posso; deixa-me
+ficar.</p>
+
+<p>--Avósinha, eu já avisto a torre da igreja de S. Cosme.</p>
+
+<p>--Estás bem certa d'isso?</p>
+
+<p>--Eu não queria mentir...</p>
+
+<p>--Vamos andando. Permitta Deus que eu possa vencer o caminho.</p>
+
+<p>--Não tenha receio de me cançar, minha avó; sou forte, e não estou
+fatigada. Encoste-se ao meu hombro.</p>
+
+<p>--Meu querido anjinho, que Deus te pague tudo o que me fazes.</p>
+
+<p>Chegaram finalmente a S. Cosme, á quinta de D. <span class="pagenum">[224]</span> Thereza de Sousa,
+depois de mil esforços, que cançaram completamente avó e neta.</p>
+
+<p>Era tempo; mais um instante e teriam cahido ambas no chão. Entrando na
+cozinha da casa, o calor produziu-lhes uma reacção tão violenta, que
+desfalleceram.</p> <span class="pagenum">[225]</span>
+
+
+<h3>II.</h3>
+
+<p>D. Thereza de Sousa, e mais algumas visinhas, que se tinham reunido para
+serandar, acercaram-se das duas infelizes. Depois de lhe ter ministrado
+todos os cuidados necessarios para as reanimar, como o seu principal mal
+era a fome, mandou-lhe dar um bom caldo, e acommodal-as a um dos cantos
+do lar, em que ardia uma grande fogueira.</p>
+
+<p>--Agora, Rosinha,--disse D. Thereza, ameigando-a,--conta-nos, como a
+esta hora, e com este tempo vieste até aqui com esta boa mulher.</p>
+
+<p>--Desculpai, minha boa senhora,--disse a cega,--Rosinha é minha neta.</p>
+
+<p>--Sim, snr.<sup>a</sup> D. Thereza, é minha avó, de quem tantas vezes tenho fallado
+a v. exc.<sup>a</sup> e...</p> <span class="pagenum">[226]</span>
+
+<p>--Então porque não continuas?--lhe replicou D. Thereza.</p>
+
+<p>A pequena levantou para D. Thereza os seus lindos olhos azues, com uma
+tal expressão de supplica, que a commoveu.</p>
+
+<p>--Falla, falla, minha menina. Não tenhas receio. Queres pedir-me alguma
+cousa, não é assim?</p>
+
+<p>--Vêde, minha boa senhora,--disse Rosa, contendo as lagrimas a
+custo,--eu e minha avó, somos muito desgraçadas. Meu pai, que era
+rachador de lenha, feriu-se pelo S. João em uma perna com o machado.
+Minha mãi mandou-me chamar a toda a pressa o snr. Pereira, que é um
+homem muito entendido. Fui, o mais depressa que pude, e quando cheguei a
+casa do snr. Pereira estava elle para sahir, e não queria vir commigo
+para não torcer o seu caminho; mas eu tanto lhe pedi, que sempre me
+acompanhou. Quando viu a perna a meu pai, logo disse, que estava muito
+mal, e que não promettia cural-o. Duas semanas depois veio á ferida uma
+molestia, de que me não lembra agora o nome, e meu pai morreu.</p>
+
+<p>Rosa calou-se chorando, e a cega tambem soluçava. D. Thereza abraçou a
+rapariguinha, apertou a mão á pobre velha, e disse:</p>
+
+<p>--Para hoje já é de mais, ámanhã...</p>
+
+<p>--Perdôe-me, snr.<sup>a</sup> D. Thereza,--replicou Rosa,--mas é melhor que eu
+termine hoje,--e continuou:</p>
+
+<p>--Havia um mez que meu pai tinha morrido, quando minha mãi cahiu de
+cama; a febre não a deixava. Eu ia aos campos apanhar as hervas, que
+minha avó me ensinava, para lhe fazer remedios, mas nada sarava minha
+mãi. Um dia abraçou-me e disse-me:</p>
+
+<p>«Minha pobre Rosinha, eu vou unir-me com teu pai, mas que será de ti?</p>
+
+<p>Trabalharei, lhe respondi.</p>
+
+<p>És muito nova para isso; mas entretanto rogarei muito a Deus para que te
+receba sob a sua santa guarda, <span class="pagenum">[227]</span> e te não abandone. Nunca desampares
+tua avó, sê-lhe obediente e carinhosa..., ainda queria fallar, mas não
+pôde, abraçou-me e á avósinha, e expirou.»</p>
+
+<p>Desde então alguns rachadores, amigos de meu pai, nos recolheram e
+soccorreram; mas como não são ricos, e precisam de mudar de terra por
+não terem aqui que fazer, lembrei-me de vir pedir agasalho á senhora,
+pois que, sendo tão boa, não deixaria de nos recolher, que somos tão
+desgraçadas. Sou fraquinha, mas posso trabalhar. Sei fiar, e começo a
+lavar. Guardarei os bois, e os carneiros e tratarei do gallinheiro.
+Minha avó tambem fia muito bem e estou muito certa, que a ha-de
+satisfazer com o seu trabalho. Oh! senhora--disse Rosa ajoelhando-se aos
+pés de D. Thereza--não nos abandoneis; satisfazemos-nos com pouco, e
+faremos todo o possivel para vos agradar, e rogaremos continuamente a
+Deus pela vossa vida e felicidade.</p>
+
+<p>D. Thereza commoveu-se tanto, com a singeleza e candura d'esta supplica,
+que duas lagrimas lhe brilharam nos olhos.</p>
+
+<p>--Levanta-te, Rosinha, ámanhã fallaremos n'isso. Tu e tua avó ide-vos
+deitar. Sempre te direi, que és muito linda e corajosa, para que se não
+tenha piedade de ti.</p>
+
+<p>Rosa beijou com reconhecimento as mãos de D. Thereza, e a cega encheu-a
+de bençãos. D. Thereza mandou-as conduzir a um pequeno quarto, limpo e
+quente, em que um somno reparador lhe reanimou as forças.</p> <span class="pagenum">[228]</span>
+
+
+<h3>III.</h3>
+
+<p>Ainda mal a aurora tinha raiado, já Rosa estava a pé. Fatigada, como
+estava, da jornada do dia antecedente, custou-lhe muito a levantar-se
+cedo, mas fez um esforço para mostrar os seus desejos a D. Thereza.</p>
+
+<p>Arranjou-se, o melhor que pôde, com os seus velhos vestidos, e, depois
+de ter dirigido mentalmente a Deus uma oração fervente, desceu ao andar
+terreo.</p>
+
+<p>--Já a pé,--lhe disse alegremente D. Thereza.</p>
+
+<p>--Estava tão cançada do caminho d'hontem, que receei, já fosse tarde;
+mas graças aos vossos beneficios, minha senhora, já estou prompta, para
+o que me determinardes.</p>
+
+<p>--E tua avó?</p>
+
+<p>--Ainda dorme. É tão velhinha e tão doente, que vos peço tenhaes piedade
+d'ella.</p> <span class="pagenum">[229]</span>
+
+<p>Rosa ergueu as mãos, e esperou tremula a resposta da dona da quinta.</p>
+
+<p>D. Thereza de Sousa era, o que vulgarmente se chama, uma mulher de casa.
+Tendo viuvado ha doze annos, geria com tanto acerto e economia as suas
+propriedades, que a sua fortuna tinha augmentado consideravelmente.</p>
+
+<p>Os visinhos do lugar diziam que, pela avareza e mesquinharia, é que
+tinha alcançado a fortuna, que possuia, pois que em qualquer cousa
+sempre tinha que diminuir, e acrescentavam ironicamente, que, dando
+<i>tantas</i> esmolas, o dinheiro nunca lhe havia de faltar.</p>
+
+<p>Fosse como fosse, o que sei é, que D. Thereza sensibilisou-se tanto com
+a historia de Rosinha, que, quando ella ergueu as mãos, e a viu com os
+olhos arrasados de lagrimas, esperando a resposta, disse para si; que a
+uma supplica tão humilde e cheia de tanto amor filial, era impossivel
+resistir.</p>
+
+<p>N'este momento quem accusasse de avarenta D. Thereza de Sousa, seria
+injusto com ella, por que, recolhendo a avó e neta, tomava um encargo
+bastante pesado. Rosa era ainda muito pequena, e de mais a mais muito
+fraquinha, para poder ter utilidade real! A pobre criança estava a fazer
+dez annos, mas era muito franzina e delicada. O seu rosto, cercado de
+compridos caracóes louros, e animado com uns grandes olhos azues
+escuros, inspirava sympathia. Tinha as maneiras delicadas, e a linguagem
+menos rude, que a dos camponezes dos arredores. Esta distincção n'uma
+criança, ainda tão tenra como Rosa, nascia da sua intelligencia mui
+desenvolvida.</p>
+
+<p>A mãi, logo que ella teve tino para se não perder nos caminhos,
+mandava-a apanhar flôres silvestres, que ia vender ás familias mais
+abastadas das aldéas visinhas. Como Rosa era muito linda as senhoras das
+casas acolhiam-na muito bem, divertiam-se com ella, ouvindo-a <span class="pagenum">[230]</span>
+tagarelar, e demoravam-na muitas vezes a brincar com as suas filhas.</p>
+
+<p>Sendo muito viva tomou facilmente as maneiras, e modo de fallar, das
+pessoas com quem tratava, de modo que os rachadores denominavam-na a
+fidalguinha.</p>
+
+<p>Se tinha adquirido maneiras delicadas, não havia perdido as boas
+qualidades, de que era dotada; humilde e carinhosa para todos, quem a
+conhecia adorava-a.</p>
+
+<p>O que a mim, minhas caras leitoras, me levou tanto tempo a dizer, passou
+n'um instante pela idéa a D. Thereza de Sousa, e fixou-lhe a resolução
+de recolher a avó e a neta.</p>
+
+<p>--Vou-te mandar vestir uma roupinha melhor, Rosinha,--lhe disse D.
+Thereza, animando-a com uma brandura, que lhe não era habitual,--porque
+espero has-de ser uma boa criada, serviçal e trabalhadeira.</p>
+
+<p>--Então fico em casa de v. exc.<sup>a</sup>?--disse Rosa, não podendo crer em tanta
+ventura.</p>
+
+<p>--Ficas, sim, e parece-me que nunca me darás motivo para me arrepender
+do que hoje faço.</p>
+
+<p>--Oh! minha senhora, estai certa que me esforçarei o mais possivel, para
+vos agradar e satisfazer os vossos desejos.</p>
+
+<p>--Assim o espero. Anda vestir-te.</p>
+
+<p>--Desculpe-me, senhora. Mas minha avó...--e Rosa parou corando.</p>
+
+<p>D. Thereza, querendo experimentar a sua protegida, disse:</p>
+
+<p>--Que queres a tua avó?</p>
+
+<p>--Ella tambem fica?</p>
+
+<p>--Não. Tua avó é cega e velha, para nada serve, e eu não sou rica
+bastante, para me encarregar da sustentação de duas pessoas.</p>
+
+<p>--Então, senhora, agradeço os vossos beneficios, e todo o bem que me
+querieis fazer, mas não posso abandonar a minha avósinha, que morreria
+de paixão.</p> <span class="pagenum">[231]</span>
+
+<p>Vou ajudal-a a levantar-se, e regressaremos à nossa aldêa.</p>
+
+<p>--E que has-de fazer na tua aldêa?</p>
+
+<p>--Irei humildemente pedir a um mestre tamanqueiro um pequeno cantinho da
+sua casa, que estou certa me não negará. Não sou robusta, mas tenho
+coragem, por isso trabalharei nos socos durante o inverno. Quando vier o
+verão irei vender flôres e fructos, como os demais annos, e como eu, e a
+pobre cega, de pouco precisamos para viver, parece-me que ganharei para
+ambas. Logo que chegue a primavera não seremos pesadas a ninguem...</p>
+
+<p>D. Thereza apertou Rosa nos braços, e chegou-a ao coração.</p>
+
+<p>--Basta, Rosinha, tu és um anjo do céo, que Deus enviou a minha casa
+para me trazer a felicidade. Vai-te vestir, e depois irás participar a
+tua avó, que ambas ficaes para sempre em minha casa.</p>
+
+<p>Descrever a alegria da avó, quando soube a decisão de D. Thereza, é-me
+impossivel fazel-o, minhas caras leitoras; vós, que deveis ser dotadas
+de bom e piedoso coração, melhor a podereis imaginar. Abraçava Rosa,
+agradecia a D. Thereza com um reconhecimento mui sincero, promettendo
+fazer todo possivel para ser menos pesada á sua bemfeitora. Rosa nada
+dizia, mas a eloquencia de seu olhar provava a D. Thereza a sua
+gratidão.</p> <span class="pagenum">[232]</span>
+
+
+<h3>IV.</h3>
+
+<p>Rosa, ainda que novinha e de fraca organisação, tornou-se util em casa.
+Incansavel no trabalho, de manhã cedo tratava da capoeira e do pombal;
+depois ia guardar os bois e os carneiros, e, em quanto que os vigiava,
+fiava na sua roca.</p>
+
+<p>Ao jantar, quando recolhia a casa, tinha sempre que fazer. Era um gosto
+vêr esta criança tão tenrinha arrumar, limpar e lustrar os moveis, como
+o faria a melhor mulher de casa.</p>
+
+<p>D. Thereza cada vez mais estimava a sua protegida, e felicitava-se pela
+ter recolhido. A avó tambem não era inutil. A cegueira não a
+impossibilitava de fiar desde pela manhã até á noite, e o seu trabalho
+era perfeito. Tudo corria bem, e todos andavam contentes e satisfeitos.</p>
+<span class="pagenum">[233]</span>
+
+<p>Chegou a primavera. Começaram a desabrochar com o tepido sôpro d'esta
+estação, e mostraram as suas galas, a bella pervinca azul, o narciso de
+corôa d'ouro, o lyrio de campanas odoriferas, e a bella violeta de
+calices perfumados.</p>
+
+<p>Rosa, quando ia á serra, era para ella um dia d'alegria. Procurava os
+caminhos tapetados de musgo, os regatos, que tantas vezes tinha passado,
+as fontes escondidas pelas çarças, e as arvores, sob as quaes tinha
+encontrado as mais lindas flôres. Rosa sentia-se mais livre e mais feliz
+na serra, do que nos campos da quinta; a todo o momento parava extasiada
+diante das bellezas da natureza, e cada sitio novo, que achava, era como
+se fosse um amigo. Quando o socego voltava, depois d'esta alegria e
+animação, esta poetica criança fazia cestinhos de vimes e juncos, que
+guarnecia com musgo e flôres silvestres, mas com um gosto e belleza
+exquisito, os quaes D. Thereza mandava vender, dando sempre bom preço.</p>
+
+<p>Ganharam renome os cestos de Rosa.</p>
+
+<p>Em todas as quintas e casas ricas dos arredores não queriam outros, e
+até muitas familias da cidade, que iam passar o verão áquelles sitios,
+compravam e procuravam com avidez os cestos d'esta gentil ramalheteira.</p>
+
+<p>D. Thereza, como mulher que comprehendia os seus interesses, entendeu
+que lhe era de mais proveito o empregar Rosa, durante a primavera, a
+fazer cestos e ramos, do que na quinta, por isso assim o determinou.
+Quando Rosa o soube, saltou d'alegria, por que se dava melhor á sombra
+dos pinheiros e carvalhos, do que em casa.</p>
+
+<p>Passou-se assim o verão, e D. Thereza não teve que se arrepender da sua
+resolução. Um certo numero de meias corôas de prata provou o bom
+resultado do negocio de cestos e flôres.</p>
+
+<p>O inverno pareceu triste e monotono a Rosa. Tinha-se <span class="pagenum">[234]</span> habituado de
+tal maneira a ir todas as manhãs para a serra, que chegava muitas vezes
+a esquecer-se do trabalho, e ir insensivelmente até á baixa d'ella.
+Voltava então muito apressada á quinta e redobrava d'actividade, para
+fazer esquecer as suas faltas involuntarias.</p>
+
+<p>Occupou-se a fiar quasi todo o inverno, e o producto do seu trabalho foi
+augmentar o pequeno thesouro principiado com a venda dos cestos e
+flôres.</p>
+
+<p>D. Thereza considerava Rosa como sua filha, não podendo estar sem ella
+um unico instante, e nos dias de feiras e romarias tinha gosto em que
+Rosa apparecesse entre as mais lindas e mais ornadas lavradeiras do
+lugar.</p>
+
+<p>A amisade, que tinha a Rosa, reflectia-se na avó; tratava-a com tal
+respeito e affabilidade, que a poderiam tomar por mãi de D. Thereza,
+tanto ella a cercava de cuidados e desvelos.</p>
+
+<p>A felicidade da pobre cega, e bem assim o futuro de Rosa poder-se-iam
+julgar seguros; mas como nada n'este mundo é immutavel, o momento, em
+que a adversidade ia estender o seu braço de ferro sobre as duas
+infelizes, não estava longe.</p> <span class="pagenum">[235]</span>
+
+
+<h3>V.</h3>
+
+<p>Voltou a primavera e com ella as encantadoras occupações de Rosa. Foi
+com enthusiasmo, que a candida e poetica criança encontrou as flôres,
+suas amigas, com que preparou os primeiros ramos, que appareceram no
+mercado.</p>
+
+<p>Os cestinhos e ramos de Rosa obtiveram uma grande extracção, como no
+anno anterior. Ia entregal-os pessoalmente nas casas ricas, e muitas
+vezes as senhoras morgadas, se julgavam felizes por ter em sua companhia
+esta linda criança por algum tempo.</p>
+
+<p>Rosa, vestida á lavradeira, era muito galante e modesta; o seu metal de
+voz era agradavel, e as maneiras tão delicadas, que quasi sempre as
+freguezas, ao preço do ramo, juntavam um presentinho para a vendedeira;
+<span class="pagenum">[236]</span> mas quando perguntavam a Rosa o que era que mais estimava,
+respondia sempre, que o seu maior desejo era possuir um livro para se
+instruir.</p>
+
+<p>Rosinha tinha uma paixão ardente pelo estudo; quasi sem mestre tinha
+aprendido a lêr correntemente, e a sua maior alegria consistia em obter
+um livro para se entregar á leitura.</p>
+
+<p>D. Thereza pela sua parte tambem não obstava aos desejos de Rosa, tanto
+que se lhe não dava que ella faltasse ás suas obrigações; mas devemos
+fazer-lhe justiça dizendo que sabia alliar a satisfação dos seus
+desejos, com o cumprimento dos seus deveres, por isso só depois de ter
+terminado os seus affazeres é que se dava ao estudo.</p>
+
+<p>Estava Rosinha uma occasião sentada á borda d'um ribeiro, entretida a
+colher juncos para fazer um cesto, quando, sem ella o presentir, se lhe
+aproximou uma senhora ainda joven.</p>
+
+<p>--Para que estaes escolhendo esses juncos, minha menina?--lhe disse a
+joven senhora com modo affavel.</p>
+
+<p>Rosa levantou a cabeça, e vendo a desconhecida, saudou-a e respondeu:</p>
+
+<p>--Faço cestinhos com flôres para vender.</p>
+
+<p>--Quero então já avaliar a vossa habilidade. Amo muito as flôres, por
+isso queria que me fizesses um cestinho já, e se eu ficar contente
+has-de-me fazer um todos os dias. Aceitaes?</p>
+
+<p>--Aceito, sim, minha senhora, e ainda que tenho muitas encommendas a
+satisfazer, vou já preparar o vosso.</p>
+
+<p>--Assento-me aqui ao pé de ti e vamos conversando. Como te chamas?</p>
+
+<p>--Rosa de Jesus, uma sua criada, minha senhora.</p>
+
+<p>--Assim, Rosa, o teu trabalho é fazer cestos de flôres para depois os
+ires vender?</p>
+
+<p>--Sim, minha senhora.</p>
+
+<p>--E teus paes em que se occupam?</p> <span class="pagenum">[237]</span>
+
+<p>--Já não tenho paes; só me resta minha avó, que é cega.</p>
+
+<p>--És orphã, e onde moras?</p>
+
+<p>--Estou em casa da snr.<sup>a</sup> D. Thereza de Sousa, proprietaria em S. Cosme,
+tão boa, como rica.</p>
+
+<p>Ha um anno, que eu e minha avó não sabiamos aonde nos haviamos de
+recolher; estavamos em Dezembro, e havia dous dias que não tinhamos
+comido, quando de repente me lembrei da snr.<sup>a</sup> D. Thereza. Eu e minha
+avó, que então moravamos na serra de Vallongo, pozemos-nos a caminho
+para S. Cosme. O caminho é muito mau, por isso mais d'uma occasião
+julguei que minha avó ficava na estrada, porque já não podia andar; mas
+o Senhor teve misericordia de nós, e felizmente terminamos a jornada. A
+snr.<sup>a</sup> D. Thereza tratou-nos com muita bondade, e recolheu-nos em sua
+casa, apesar de sermos um encargo muito pesado.</p>
+
+<p>--Amas então muito a snr.<sup>a</sup> D. Thereza?</p>
+
+<p>--Se a amo. Não queria mais nada, senão poder reconhecer todo o bem, que
+nos faz. Não desejo senão crescer e robustecer para lhe poder servir
+d'utilidade.</p>
+
+<p>--Estou muito contente, minha pequena, por te ouvir fallar assim. Quando
+te vi senti-me attrahida para ti, e ficaria muito desgostosa se te não
+encontrasse com sentimentos dignos da estima que te consagro.</p>
+
+<p>Parece-me que o meu cesto está acabado?</p>
+
+<p>--Ainda lhe falta uma cercadura de <i>não me deixes</i>. Permitti, senhora,
+que eu vá ao proximo ribeiro colher estas flôres, porque alli as ha mais
+frescas, e em mais abundancia.</p>
+
+<p>--Ide, que aqui te espero.</p>
+
+<p>Rosa partiu correndo.</p>
+
+<p>D. Julia d'Andrade, que tanto interesse mostrava pela protegida de D.
+Thereza, tinha vinte annos.</p>
+
+<p>O cabello preto muito comprido, e naturalmente encaracolado, fazia-lhe
+sobresahir ainda mais a pallidez <span class="pagenum">[238]</span> do rosto. Os olhos castanhos
+tinham um brilho de febre. A physionomia demonstrava um padecimento
+interno, n'uma palavra, estava affectada d'uma tisica pulmonar.</p>
+
+<p>Sua mãi, a viscondessa do Candal, receiando pela vida de D. Julia, tinha
+consultado os mais acreditados medicos de Lisboa e Porto, e todos tinham
+aconselhado os ares do campo, e o não constrangimento, como os meios
+mais proficuos para debellar a molestia. A viscondessa tinha portanto
+deixado o Porto e ido habitar com suas filhas D. Julia e D. Bertha uma
+quinta proximo da serra de Vallongo.</p>
+
+<p>D. Julia parecia que revivia no meio da luxuosa natureza, que a cercava.
+Todos os dias dava grandes passeios, e distrahia-se ou sentando-se á
+sombra dos carvalhos e sobreiros, ou embrenhando-se entre as çarças. Ao
+principio a viscondessa receiou que estes passeios tão longos
+prejudicassem a saude de sua filha, mas vendo-a mais alegre e mais
+vigorosa, e que se a pallidez não tinha desapparecido, a expressão
+soffredôra do rosto era menos pronunciada, ficou mais socegada e esperou
+obter o triumpho sobre a molestia.</p>
+
+<p>D. Julia era tão boa, e ao mesmo tempo tão prudente, que sua mãi não
+temia deixal-a em plena liberdade, e gosar da vida segundo as suas
+phantasias.</p>
+
+<p>A viscondessa queria que D. Bertha acompanhasse sua irmã nos seus
+passeios; mas D. Bertha, que era uma joven de 16 annos d'idade,
+orgulhosa do seu nascimento e belleza, recusou obstinadamente acompanhar
+sua irmã, dando como razão, que lhe repugnava o juntar-se como ella com
+esses <i>estupidos</i> e <i>rudes</i> aldeãos, que habitam os campos, e a quem
+ella acariciava, e que além d'isso estragava os seus vestidos seguindo
+D. Julia pelos caminhos estreitos e escabrosos dos campos e da serra. As
+mil vozes da natureza eram mudas para D. Bertha; no seu coração só
+imperava o egoismo.</p> <span class="pagenum">[239]</span>
+
+<p>Num d'estes passeios é que D. Julia encontrou Rosinha, e que ficou
+encantada com a sua innocencia.</p>
+
+<p>Havia muito que D. Julia esperava Rosa, e já receava que ella não
+voltasse, quando a viu vir correndo.</p>
+
+<p>--Perdoai-me, senhora, o ter-vos feito esperar tanto tempo, mas eu fui
+muito longe colher as violetas e os <i>não me deixes</i>, porque queria que o
+meu cestinho vos agradasse.--Assim fallando Rosa apresentou a D. Julia
+um cestinho, que era um primor d'arte no gosto, e esperou toda confusa,
+a sua apreciação.</p>
+
+<p>Uma alegre exclamação de D. Julia lhe fez vir o sorriso aos labios.</p>
+
+<p>--Quero abraçar-te, minha querida menina; ha muito tempo que não vi nada
+tão lindo, e como me causaste um grande prazer, quero recompensar-te;
+mas deixa-me ainda admirar o teu bello trabalho.</p>
+
+<p>Este cestinho podia vêr-se. No centro tinha raminhos de violetas com as
+folhas verdes, ainda humidas; uma corôa de lirios cercava as violetas, e
+em volta uma grinalda de musgo, semeada de raminhos de rosas amarellas e
+geranios. Dous ramos de madre-silva serpenteavam por entre os juncos
+formando as azas.</p>
+
+<p>--Não quero--disse D. Julia, depois d'alguns instantes de silencio--que
+uma obra tão bella tenha um viver ephemero; vou já bordar um quadro,
+cópia d'este cestinho, que ha-de ficar muito rico. Mas, Rosinha, quanto
+queres por este trabalho?</p>
+
+<p>--Dar-me-ha o que quizer, minha senhora, como costumam fazer as outras
+minhas freguezas.</p>
+
+<p>--Mas quanto é que custam ordinariamente?</p>
+
+<p>--Tres ou quatro vintens.</p>
+
+<p>--Quatro vintens!--disse D. Julia admirada.</p>
+
+<p>--Acha caro, minha senhora?--disse Rosa com acanhamento.</p>
+
+<p>--Caro, não, minha pequena. Quando estava no Porto pagava, por muito
+maior preço, ramos que tinham <span class="pagenum">[240]</span> muito menos valor, que o teu
+cestinho. Toma, Rosinha, não tenho aqui senão esta meia corôa, mas
+amanha a esta hora apparece aqui, e fallaremos...</p>
+
+<p>--Não posso aceitar o que me dáes, minha senhora, porque é muito.</p>
+
+<p>--Queres fazer-me zangar?</p>
+
+<p>--Não, senhora. É a primeira vez que a vejo, mas já a estimo muito. Eu
+não preciso de nada; a snr.<sup>a</sup> D. Thereza é muito minha amiga e...</p>
+
+<p>--Não é uma esmola que te dou--replicou D. Julia, mettendo a moeda de
+prata na mão de Rosinha--não te esqueças da recommendação, que te fiz,
+de estares ámanhã aqui a esta mesma hora.</p>
+
+<p>E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, já D. Julia tinha
+desapparecido, levando na mão o cestinho.</p>
+
+<p>Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas recomeçou
+ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a casa, contou a D.
+Thereza o seu encontro de pela manhã, o que lhe tinha acontecido e
+perguntou-lhe se devia ou não guardar os cinco tostões.</p>
+
+<p>--Não te authoriso a pedir, Rosa, mas isso não é uma esmola, é um
+presente, que te fazem, podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te.
+Já sei. Esse dinheiro vem a proposito para augmentares o teu mealheiro,
+com o qual te hei-de comprar um rico jaqué para o S. Miguel.</p>
+
+<p>--Não, senhora--replicou Rosa com a alegria nos olhos--não é esse o meu
+pensamento, e que me causa tanta alegria.</p>
+
+<p>--Que é então?</p>
+
+<p>--Rogo-vos que me não façaes perguntas; depois o sabereis.</p>
+
+<p>--Guarda o teu segredo, porque sei que não és desgovernada, e que o não
+has-de gastar mal gasto.</p>
+
+<p>Rosa abraçou ternamente D. Thereza, e foi entregar as suas encommendas
+de flôres e cestos.</p> <span class="pagenum">[241]</span>
+
+
+<h3>VI.</h3>
+
+<p>D. Julia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que tinha
+determinado.</p>
+
+<p>A viscondessa, impaciente e sobresaltada com a demora, sahiu, no
+caminho, ao encontro de sua filha.</p>
+
+<p>--Estiveste incommodada, minha filha?--lhe disse ella.</p>
+
+<p>--Não, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago, é que foi a causa
+da minha demora.</p>
+
+<p>E D. Julia mostrava a sua mãi o cestinho, que Rosa tinha feito.</p>
+
+<p>--Como é lindo--respondeu a viscondessa--Não sabia Julia, que tinhas a
+prenda de fazer cestos de juncos entrançados.</p>
+
+<p>--Não fui eu que fiz este cestinho, minha mãi.</p> <span class="pagenum">[242]</span>
+
+<p>--Então quem foi?</p>
+
+<p>--Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio.</p>
+
+<p>--Uma lavradeira?!</p>
+
+<p>--Sim, minha senhora. E acreditareis, minha mãi, que por todo este
+trabalho me pediu a grande quantia de quatro vintens?</p>
+
+<p>--Não te pergunto quanto lhe déste, por que conheço a bondade do teu
+coração, e tenho a firme convicção de que não abusaste da sua
+simplicidade.</p>
+
+<p>--Dei-lhe só meia corôa, por que não tinha mais na minha bolsinha. Não
+queria recebel-a, ajuizando que lh'a dava como uma esmola; mas tanto fiz
+que a aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim
+se chama) para nos encontrarmos ámanhã, no mesmo sitio, á mesma hora; e
+se ella, como penso, fôr digna da sympathia, que me inspirou, e do
+interesse que já me causa, consentir-me-heis, minha boa mãi, que a tome
+sob a minha protecção?</p>
+
+<p>--Consinto em tudo, minha filha, que te dê prazer, e distracção. Se a
+tua protegida fôr digna dos nossos beneficios, unir-me-hei comtigo, e
+accordaremos no que devemos fazer para seu bem.</p>
+
+<p>D. Julia abraçou com ternura a viscondessa, e agradeceu-lhe a sua
+bondade.</p>
+
+<p>N'este comenos, a viscondessa e sua filha, chegaram a casa.</p>
+
+<p>D. Julia collocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o cestinho, e
+correu com presteza ao seu quarto a preparar um cavallete, pinceis e
+tintas para dar principio ao quadro projectado, e, tendo tudo disposto,
+desceu á sala a buscal-o.</p>
+
+<p>D. Bertha estava examinando o cestinho com attençào e minuciosidade.</p>
+
+<p>--Não estão tão bem dispostas e combinadas essas flôres, Bertha?--disse
+D. Julia.</p> <span class="pagenum">[243]</span>
+
+<p>--Assim, assim. Não gosto d'estas violetas, que formam o centro do ramo.
+Podias ter tido melhor gosto e fazer cousa melhor.</p>
+
+<p>--Não concordo com a tua opinião. Estou convencida de que Rosa não podia
+ter melhor gosto.</p>
+
+<p>--Rosa?</p>
+
+<p>--Sim, Rosa. Ah! é verdade; ainda te não contei o encontro, que tive
+esta manhã. Ora ouve.</p>
+
+<p>D. Julia contou a sua irmã minuciosamente toda a conversa, que tivera
+com Rosa.</p>
+
+<p>Quando ella acabou, D. Bertha fez um gesto de desdem.</p>
+
+<p>--E, sem duvida, Julia, já te affeiçoas-te a essa pequena; não é
+assim?--disse D. Bertha.</p>
+
+<p>--Rosa,--respondeu unicamente D. Julia--tem merecimento bastante, que a
+torna digna da protecção, que se lhe dispensar.</p>
+
+<p>--O que mais me admira e me espanta, Julia, é a rapidez com que
+sympathisas com qualquer, e como instantaneamente conheces e decides,
+que essa pessoa é digna da tua affeição e amisade... Não quero tomar-te
+o tempo; julgo que vinhas buscar o teu lindo cestinho, não é assim?</p>
+
+<p>--Vinha, sim, para o ir copiar em um quadro, pintando-o.</p>
+
+<p>--Pintal-o?!--disse D. Bertha, dando uma grande gargalhada.--Que
+liguemos alguma attenção ás flôres dos nossos parques e jardins,
+concedo; mas que empreguemos o tempo e o talento com as silvestres, que
+só tem os perfumes para si, parece-me uma singularidade esquisita.</p>
+
+<p>--A minha opinião, Bertha, é exactamente o contrario. Mas isso não
+admira, por que nós raras vezes estamos accordes sobre qualquer materia.
+Ponhamos isso de parte; queres tu vir ámanhã, commigo e com a nossa boa
+mãi, vêr Rosa?</p> <span class="pagenum">[244]</span>
+
+<p>--Não posso. Combinei com a Francisquinha e Ritinha Meirelles virem
+amanhã aqui passar o dia. Além d'isso, fallar-te-hei francamente, não ha
+nada para mim mais antipathico do que todas essas lavradeiras; e andar
+uma legua para me ir achar face a face com um monstrosinho, parece-me um
+tanto aborrecivel.</p>
+
+<p>--Rosa é muito linda e interessante.</p>
+
+<p>--Para ti, Julia, todas as lavradeiras são lindas e interessantes. Para
+mim todas são feias, e broncas. O calor principia a incommodar-me--disse
+D. Bertha, sentando-se indolentemente sobre um sophá.--Vai, Julia, vai
+pintar o teu lindo cestinho, que eu vou sonhar com o meu Porto, para
+onde espero ir muito breve.</p>
+
+<p>Estas ultimas palavras já mal se perceberam, porque foram acompanhadas
+com um bocejo, e D. Bertha cerrou os olhos.</p>
+
+<p>D. Julia lançou sobre sua irmã um olhar de compaixão e sahiu.</p>
+
+<p>Alguns instantes depois deu principio ao quadro.</p> <span class="pagenum">[245]</span>
+
+
+<h3>VII.</h3>
+
+<p>No dia seguinte Rosa sahiu para a serra, muito cêdo, para adiantar o seu
+trabalho, e poder assim dedicar mais tempo á joven senhora, que tão
+amavel e generosa tinha sido com ella.</p>
+
+<p>Trabalhou com tal desembaraço, que, muito antes da hora marcada por D.
+Julia, tinha terminado o seu serviço.</p>
+
+<p>Aproveitou portanto o tempo entregando-se á leitura d'algumas paginas
+d'um livro, de que lhe tinham feito presente no dia anterior. Lia com
+attenção, e, quando encontrava algum trecho rico e bello, parava, para
+exprimir a sua alegria e enthusiasmo.</p>
+
+<p>Estava Rosa de tal sorte entregue á leitura, que não presentiu a chegada
+da viscondessa e de sua filha D. Julia.</p> <span class="pagenum">[246]</span>
+
+<p>--Que livro estás lendo, com tanta attenção, minha menina--lhe disse a
+viscondessa.</p>
+
+<p>Rosa saudou-a, apresentou-lhe o livro e respondeu:</p>
+
+<p>--São as <i>Meditações religiosas</i> de Rodrigues de Bastos.</p>
+
+<p>--E encontras grande prazer na sua leitura?</p>
+
+<p>--Se encontro, minha senhora. Quando estou sentada á borda d'um regato,
+ou debaixo d'um carvalho annoso, lendo n'este livro, parece que a minha
+alma se despe de todos os seus envolucros terrenos e mundanos, e se põe
+em contacto com Deus, author de todas estas maravilhas da natureza, que
+nos cercam, e a quem no fundo do meu coração adoro e venero.</p>
+
+<p>A viscondessa e sua filha, admiradas do que ouviam a uma pequena do
+campo, trocaram entre si um olhar d'intelligencia.</p>
+
+<p>--E que mais costumas lêr?--perguntou D. Julia.</p>
+
+<p>--Não tenho muitos livros. Além d'este possuo um cathecismo, uma vida de
+santos, de que leio uma pagina cada domingo, e mais uns livrinhos
+d'historias bonitas. Esquecia-me dizer-vos, que tambem tenho um livro de
+geographia, que me deu o mestre escóla da minha freguezia, mas que não
+leio, por que tem muitas palavras, que não entendo.</p>
+
+<p>--Pelo que me dizes conheço que tens desejos de te instruires. Se te
+proporcionassem os meios de o fazeres, serias feliz?</p>
+
+<p>--Seria, sim, minha senhora; mas infelizmente isso é impossivel, porque,
+para ir todos os dias á mestra, é preciso ser muito rica.</p>
+
+<p>--Mas se te mandassem á mestra?--insistiu D. Julia.</p>
+
+<p>--Seria muito feliz, mas nem quero pensar n'isso.</p>
+
+<p>--Pelo contrario; eu e minha mãi, viemos procurar-te para que nos
+conduzisses a casa da snr.<sup>a</sup> D. Thereza, e, se a tua protectora estiver
+satisfeita comtigo, pedir-lhe-hemos <span class="pagenum">[247]</span> para te deixar ir todos os
+dias á mestra. Então não respondes?</p>
+
+<p>--Perdoai-me, senhora. Estou muito contente e alegre, e queria
+agradecer-vos, mas não posso. Que fiz eu para merecer tantos beneficios?</p>
+
+<p>--Mostraste-te reconhecida aos beneficios da snr.<sup>a</sup> D. Thereza, e isso
+indica um bom coração; és trabalhadeira e tens desejos de te instruires;
+mereces portanto que nos interessemos por ti--lhe disse a
+viscondessa.--Vamos, ensina-nos o caminho para a quinta da snr.<sup>a</sup> D.
+Thereza.</p>
+
+<p>Rosa, commovida, dirigiu-se para a quinta com a viscondessa e sua filha.
+Pelo caminho respondeu modestamente, e com graça, a todas as perguntas,
+que lhe fizeram, e cada uma das respostas confirmou mais, as duas
+senhoras, no bom conceito, que tinham formado de Rosa.</p>
+
+<p>Quando chegaram á quinta, D. Thereza não estava em casa, mas não devia
+tardar muito, por isso esperaram. Rosa apresentou ás duas senhoras
+cadeiras para se sentarem e offereceu-lhes um copinho de leite fresco e
+morno.</p>
+
+<p>D. Julia, a quem o caminho tinha fatigado, aceitou o offerecimento.</p>
+
+<p>Rosa trouxe então uma toalha de linho, alvo como neve, que estendeu
+sobre uma mesa, na qual collocou o melhor pão, que havia em casa,
+manteiga e um copo de leite.</p>
+
+<p>D. Julia, com uma alegria infantil, aceitou este <i>lunch</i> frugal, e,
+reanimadas com elle as suas forças, pediu para visitar a quinta.</p>
+
+<p>A avó de Rosa estava sentada no jardim, debaixo d'um caramanchel de
+clematites, fiando, e cantando com voz tremula o estribilho d'um romance
+antigo. N'esta boa velha, bem vestida e de boa presença, ninguem seria
+capaz de reconhecer a pobre cega, que dezoito mezes antes, quasi
+morrendo de fome e frio, e podendo apenas <span class="pagenum">[248]</span> suster-se em pé,
+encontramos seguindo o caminho da serra de Vallongo para S. Cosme.</p>
+
+<p>A viscondessa do Candal e sua filha saudaram a pobre cega, e esta,
+prevenida pela netinha, correspondeu-lhe respeitosamente.</p>
+
+<p>--Não vos incommodeis, boa mulher---lhe disse a
+viscondessa--permitti-nos sómente que conversemos por um instante
+convosco.</p>
+
+<p>--É muita honra para mim, minha querida senhora;--respondeu a
+cega--estou portanto ás vossas ordens.</p>
+
+<p>--Visto isso não vos recusareis a dizer-me se estaes satisfeita com a
+vossa neta?</p>
+
+<p>--Se estou contente com a minha Rosinha?!--exclamou a cega---com ella,
+que é a minha benção sobre a terra. Quando o meu genro morreu, por causa
+d'uma ferida, que fez em uma perna com o seu machado, porque elle era
+rachador de lenha na serra, e a quem minha filha, mãi de Rosa, seguiu
+passado pouco tempo, quasi que enlouqueci, porque não sabia o que havia
+de fazer. Rosa, disse-me com a sua voz meiga e humilde: avósinha, eu
+conheço uma senhora muito caritativa; vamos a sua casa, que estou certa
+nos ha-de recolher. E foi verdade.</p>
+
+<p>A snr.<sup>a</sup> D. Thereza, essa boa e caritativa senhora, para quem peço a Deus
+todos os beneficios e bençãos, teve a caridade de recolher em sua casa
+uma velha enferma e inutil como eu. Mas isto devo-o a Rosinha, porque
+ella sabe dizer as cousas de tal maneira, que, penetrando até o coração,
+commovem e decidem á compaixão. Vai em dezoito mezes que aqui nos
+achamos. Fio um pouco para não estar em descanço; mas Rosinha, senhora,
+Rosinha, cantando sempre, trabalha desde pela manhã até á noite. Em
+quanto que dura o verão, occupa-se a colher flôres na serra e no campo,
+e a fazer cestinhos com ellas; mas isto não obsta a que, quando se
+recolhe, lave a roupa, limpe os moveis, e ajude a <span class="pagenum">[249]</span> cozinhar, e se
+quizesse dizer-vos tudo o que ella faz, ou sabe fazer, levar-me-ia muito
+tempo.</p>
+
+<p>Assim, amo muito a minha querida Rosinha. Mas onde estás tu, que te não
+chegas a mim para te dar um abraço?</p>
+
+<p>Rosa, com o pretexto de ir colher um ramo para D. Julia, tinha-se
+retirado, quando a avó começára a elogial-a.</p>
+
+<p>A viscondessa e sua filha ouviram com prazer o panegyrico de Rosa, feito
+pela avó, e iam fazer novas perguntas, quando D. Thereza chegou.</p>
+
+<p>Depois de terminados os comprimentos preliminares, a viscondessa expoz a
+D. Thereza como sua filha sympathisára com Rosa, e estava resolvida a
+tomal-a sob a sua protecção, se D. Thereza a isso se não oppozesse.</p>
+
+<p>--Primeiro que tudo--respondeu D. Thereza--desejo a felicidade e
+venturas de Rosinha, ainda que me ha-de custar muito a separar-me
+d'ella: porém, se fôr sua vontade, não me opponho, por que julgo lhe
+procuraes a sua felicidade; mas ponho por condição, que lhe não
+prohibireis vir algumas vezes visitar-me.</p>
+
+<p>--Isso, senhora, é um dever sagrado, que Rosa tem a cumprir. Vamos porém
+interrogal-a, por que ella nada sabe do que acabamos de fallar.</p>
+
+<p>D. Thereza chamou a pequena, que veio correndo, e disse-lhe:</p>
+
+<p>--Rosinha, queres ir viver com esta senhora e sua filha?</p>
+
+<p>--Pois vós, senhora--respondeu Rosa tremula e timida--quereis mandar-me
+embora?</p>
+
+<p>--Não. Pergunto sómente se me queres deixar, para te tornares uma menina
+da cidade, instruida e de maneiras polidas?</p>
+
+<p>--Não, minha senhora. Nunca--disse Rosa chorando, lançando-se nos braços
+da sua bemfeitora--nunca vos deixarei. Tenho muitos e muitos desejos de
+me instruir <span class="pagenum">[250]</span> e de aprender, mas, se para isso é necessario o
+deixar-vos, antes quero ficar ignorante toda a minha vida.
+Recolheste-nos, senhora, quando eu e a minha querida avósinha, estavamos
+quasi a morrer de fome, e havia de ser tão ingrata, que, quando
+principio a servir d'alguma utilidade, vos abandonasse? Não, senhora,
+nunca, nunca vos deixarei.</p>
+
+<p>--Ouvistel-a, minhas senhoras--disse D. Thereza enxugando os olhos,
+razos de lagrimas.</p>
+
+<p>--Pelo que vejo, Rosa, estás bem decidida a não vir comnosco?--lhe disse
+a viscondessa.</p>
+
+<p>--Seria feliz e muito feliz, minha senhora, se podesse ir viver na sua
+companhia, e de sua estimavel filha; mas antes de vós, está a snr.<sup>a</sup> D.
+Thereza, que salvou a minha pobre avósinha d'estender a mão á caridade
+publica e que sempre tão minha amiga tem sido. Perdoai-me, senhora, se
+assim fallo...</p>
+
+<p>--Dá-me um abraço, minha menina--lhe disse a viscondessa
+interrompendo-a--dá-me um abraço, porque te mostraste tal, como eu
+desejava, boa, humilde e reconhecida aos beneficios, que te fazem.</p>
+
+<p>Não tenhas receio, que te separemos da snr.<sup>a</sup> D. Thereza. Pediremos
+sómente á tua bemfeitora, que nos deixe entrar com metade nos
+beneficios, que te prodigalisa.</p>
+
+<p>--E eu, Rosa--acrescentou D. Julia--quero ser a tua preceptora. Quando o
+tempo estiver bom, dar-te-hei as lições na serra, á sombra d'um
+sobreiro, ou d'um pinheiro, ou á borda d'um regato; e quando estiver
+mau, dar-tas-hei em minha casa, porque ouso esperar, que a snr.<sup>a</sup> D.
+Thereza me não negará este favor, e prazer.</p>
+
+<p>--Oh não, minha senhora, esteja certa d'isso. Logo que termine o seu
+serviço dos cestinhos fica livre para vos ir procurar.</p>
+
+<p>--É objecto convencionado--disse a viscondessa--por isso a snr.<sup>a</sup> D.
+Thereza ha-de-me permittir licença <span class="pagenum">[251]</span> de offerecer a Rosa, para si e
+sua avó, o que contém esta pequena bolsa. É para comprar em nosso nome
+um vestido novo.</p>
+
+<p>E como D. Thereza, Rosa e a avó lhe fizessem muitos agradecimentos, a
+viscondessa impoz-lhes com brandura silencio, e retirou-se, promettendo
+voltar muito breve á quinta.</p>
+
+<p>D. Julia abraçou a sua pequena discipula, e retirou-se dizendo-lhe «até
+ámanhã».</p>
+
+<p>Nas proximidades de casa a viscondessa e sua filha encontraram D.
+Bertha, que estava esperando pelas meninas Meirelles.</p>
+
+<p>--Meu Deus, como estou aborrecida--lhes disse ella.</p>
+
+<p>--Pois eu, minha irmã--respondeu D. Julia--venho muito alegre; o
+espectaculo, que acabo de gosar, dar-me-ha felicidade não só para hoje,
+mas tambem para muito tempo, porque será contado no numero das minhas
+mais gratas e queridas recordações.</p> <span class="pagenum">[252]</span>
+
+
+<h3>VIII.</h3>
+
+<p>D. Julia, na fórma convencionada, principiou no seguinte dia o curso,
+que queria fazer seguir a Rosa. Tomou com ardor a obrigação, que se
+tinha imposto desempenhar, mas o seu zelo não excedia, o que mostrava a
+sua alumna. Intelligente, e anciosa por aprender, Rosa era incansavel, e
+muitas vezes foi preciso que D. Julia moderasse a sua applicação; as
+lições tinham lugar umas vezes na serra, outras vezes em casa da
+viscondessa.</p>
+
+<p>Decorreram assim tres mezes. No fim d'este tempo, os progressos, que
+Rosa tinha feito, eram espantosos, e como tanto a professora, como a
+discipula não afrouxavam no seu zelo, era d'esperar que, no fim dos dous
+mezes que D. Julia ainda tinha a passar no campo, Rosa estivesse
+bastante desenvolvida para continuar, sem nada esquecer, a estudar
+sósinha, durante o inverno.</p> <span class="pagenum">[253]</span>
+
+<p>Mas, quando menos se esperava, a terrivel molestia, que parecia ter
+deixado D. Julia, reappareceu com uma intensidade violenta.</p>
+
+<p>A pobre menina não teve forças para resistir a este ataque, e não podia
+sahir do quarto.</p>
+
+<p>Rosa, que no auge da sua desesperação, com risco da propria vida,
+quereria dar algumas forças á amiga do seu coração, podia a custo conter
+as lagrimas, contemplando-a, pallida e cadaverica, recostada n'uma
+cadeira de braços, forcejando por se levantar sem auxilio, para não
+aterrar a sua querida mãi e a sua discipula predilecta.</p>
+
+<p>N'este momento Rosa tinha um unico pensamento; o de sacrificar-se por
+aquella, que tanto a amava e lhe queria. Os mais pequenos desejos, e os
+mais vagos caprichos eram adivinhados de Rosa, e executados antes mesmo
+que D. Julia os tivesse enunciado. Se queria descer ao jardim, o braço
+de Rosa é que a amparava; se queria ouvir alguma passagem dos seus
+livros favoritos, Rosa lia-lh'a immediatamente.</p>
+
+<p>D. Julia, muito sensibilisada por tanta dedicação, affligia-se com a
+lembrança, de que o progresso da sua discipula estava parado. D. Bertha
+podia substituil-a, mas essa nunca consentiria em ser a preceptôra d'uma
+lavradeira. A viscondessa resolveu-se a dar as lições a Rosa, para
+socegar a inquietação de D. Julia.</p>
+
+<p>Havia já tres semanas que D. Julia estava doente, e cada dia ia a peor;
+sua mãi já não tinha esperanças algumas. Tres medicos, que do Porto
+haviam sido chamados, não deram esperanças da doente melhorar.</p>
+
+<p>A viscondessa, porém, não podendo convencer-se de que sua filha estava
+irremediavelmente perdida, cria que os medicos se tinham enganado, e
+resolveu recolher ao Porto, para lhe fazer uma nova junta.</p>
+
+<p>D. Bertha, contristada ao principio com a molestia de sua irmã,
+consolava-se com a idéa de voltar ao seio da sociedade, que ella tanto
+amava.</p> <span class="pagenum">[254]</span>
+
+<p>Só á força de muitas instancias e esforços é que D. Julia consentiu em
+deixar o campo; mas, ainda assim, com a expressa condição de para lá
+voltar se peorasse.</p>
+
+<p>Quando Rosa soube que a viscondessa se ia retirar do campo, não pôde
+conter a sua desesperação. Queria acompanhar D. Julia, e não a
+desamparar um só instante. D. Julia procurava socegal-a, mas tudo era
+baldado, por que Rosa estava inconsolavel.</p>
+
+<p>Na vespera da partida Rosa veio despedir-se de D. Julia; lançou-se-lhe
+aos pés, chorando, e pediu-lhe que lhe escrevesse muitas e muitas vezes.
+A doente assim lh'o prometteu, e, tirando debaixo do travesseiro uma
+bolsinha de sêda, apresentou-a a Rosa.</p>
+
+<p>--Aceita, minha menina--lhe disse ella--esta bolsa; contem cem mil reis,
+que são as minhas economias do verão; põe a juros este dinheiro, para
+que se augmente este capitalsinho.</p>
+
+<p>É um presente muito pequeno; mas se nos não tornarmos a vêr, minha boa
+mãi, dar-te-ha, em meu nome, mais alguma cousa.</p>
+
+<p>Rosa beijou as mãos de D. Julia, e queria recusar a bolsa.</p>
+
+<p>--Não recuses, Rosa--tornou D. Julia--senão fôr para ti, é para tua avó.
+Sabes lá o que tem para vos acontecer, e se esta pequena somma ainda vos
+será util? Adeus, Rosinha; ama-me sempre muito, e reza muito ao Senhor,
+para que me dê saude.</p>
+
+<p>Rosa quiz responder, mas as lagrimas e soluços embargaram-lhe a voz. A
+viscondessa, testemunha d'esta scena tão tocante, temendo as funestas
+consequencias, que sua filha soffreria com tão grande commoção, levantou
+Rosa, e pediu-lhe com instancia e por favor que se retirasse. A pobre
+menina cedeu a custo, mas antes de se retirar ainda pôde vêr D. Julia,
+que, com um olhar maternal, a abençoava.</p> <span class="pagenum">[255]</span>
+
+
+<h3>IX.</h3>
+
+<p>Já tinha decorrido mais d'um mez, desde que D. Julia recolhera ao Porto,
+e Rosa ainda não tinha recebido carta da sua amiga. A pobre criança
+affligia-se, julgando, que este silencio, para com ella, não tinha outra
+causa, senão o estado cada vez mais perigoso de D. Julia. D. Thereza,
+que partilhava do pesar de sua filha adoptiva, procurava por todos os
+meios consolal-a, e fazer-lhe conceber esperanças. Uma carta de D. Julia
+veio confirmar as prevenções de D. Thereza.</p>
+
+<p>D. Julia, com mão tremula, escreveu á sua querida discipula.
+Participava-lhe que a sua doença parecia estar um pouco mais debellada,
+e que os medicos davam algumas esperanças de a poder subjugar, e
+embargar-lhe o seu progresso.</p> <span class="pagenum">[256]</span>
+
+<p>Terminava a carta aconselhando Rosa a que não descurasse os seus
+estudos, e pedindo-lhe que lhe escrevesse.</p>
+
+<p>Rosa cobriu de mil beijos esta carta, e no mesmo dia respondeu a D.
+Julia, assegurando-lhe que não despresaria os seus conselhos, e que
+tinha esperanças, de, para a primavera, renovar as suas lições sob as
+arvores da serra; que nas suas orações rogava todos os dias a Deus, com
+fervor, que lhe restituisse a saude, e que esperava as suas supplicas
+fossem attendidas.</p>
+
+<p>Rosa, cumprido este dever sagrado, lançou mão do seu trabalho com mais
+vigor.</p>
+
+<p>Estava proximo o dia natalicio de D. Thereza. Rosa preparava em segredo
+um lindo presente para offerecer n'aquelle dia á sua bemfeitora, e para
+isso tinha reunido todo o dinheiro, que lhe tinham dado de mimo, e
+julgava-se bastante rica para poder apresentar a D. Thereza um brinde,
+de que ella admirasse o valor e o gosto.</p>
+
+<p>Faltavam só quatro dias para que, esse dia tão anciosamente esperado,
+chegasse, e Rosa ainda queria poder supprimir o tempo, tão longo lhe
+parecia.</p>
+
+<p>Na vespera de manhã D. Thereza queixou-se d'uma dôr de cabeça, mas
+julgou que um passeio lh'a dissiparia. Sahiu pois; mas passado uma hora
+voltou ainda mais indisposta, do que tinha sahido.</p>
+
+<p>Despresando o seu estado, ainda presidiu, na fórma costumada, ao jantar
+dos criados da quinta; mas, no meio d'elle, cahiu sem sentidos.</p>
+
+<p>Os criados, assustados, cercaram D. Thereza. Recolheram-na á cama, e
+partiu immediatamente um criado a chamar, a toda a pressa, um cirurgião.</p>
+
+<p>Chegou este, e, mal viu a doente, não deu esperanças de a salvar.</p>
+
+<p>--Foi uma apoplexia fulminante--disse elle--é já tarde para se lhe dar
+remedio.</p>
+
+<p>O desespero e a consternação espalharam-se na quinta.</p> <span class="pagenum">[257]</span>
+
+<p>Os criados em geral estimavam muito D. Thereza, por que, apesar de ser
+muito vigilante, era boa e justa.</p>
+
+<p>Os menores movimentos do cirurgião eram seguidos com anciedade por todos
+os criados, mas entre elles tornava-se saliente Rosa pelo zelo e
+actividade, que desenvolvia em executar as prescripções do cirurgião,
+ainda bem não estavam dadas.</p>
+
+<p>Rosa não podia crêr que Deus lhe quizesse roubar a sua bemfeitora, e
+esperava ainda que uma crise feliz a restituiria á vida.</p>
+
+<p>A avó de Rosa estava consternadissima, e o seu maior pesar consistia em
+não poder fazer cousa alguma.</p>
+
+<p>De joelhos; junto do leito de D. Thereza, rezava com fervor e devoção.</p>
+
+<p>Entre as alternativas da esperança e desconforto se passou o dia. Á
+noite o cirurgião declarou que já lhe não restava esperança alguma; que
+D. Thereza ainda podia viver mais um dia ou dous, mas que não proferiria
+mais uma palavra, nem faria um unico movimento.</p>
+
+<p>Descrever a afflicção de Rosa e de sua avó é-me impossivel; bastará
+dizer que a dôr as tinha quasi enlouquecido.</p>
+
+<p>D. Thereza não tinha filhos, por isso foram avisar do succedido a D.
+Euzebia, sua irmã, rica proprietaria em Rio Tinto.</p>
+
+<p>D. Euzebia, por causa do seu genio forte, e caracter duro, não estava em
+intimas relações com D. Thereza. Assim que teve noticia da doença de sua
+irmã poz-se logo a caminho, não por amisade que tivesse á moribunda, mas
+sim para vigiar que lhe não roubassem a mais pequena parte da sua
+herança.</p>
+
+<p>Logo que D. Euzebia chegou a S. Cosme, tomou o governo da casa, e deu
+ordens como se já estivesse senhora da herança. Rosa e sua avó
+inspiraram-lhe antipathia, e não podia comprehender como sua irmã
+voluntariamente <span class="pagenum">[258]</span> tinha tomado ao seu cuidado aquellas duas pessoas.</p>
+
+<p>D. Thereza ainda viveu dous dias, conforme o cirurgião dissera, mas sem
+falla, e sem movimento, porque a apoplexia tinha-lhe paralysado todas as
+faculdades. Só os olhos é que conservavam ainda alguns signaes de vida e
+intelligencia, os quaes fixava sobre Rosa, fazendo esforços para fallar,
+naturalmente para fazer o seu testamento; mas este ultimo consolo dos
+moribundos não lhe foi permittido.</p>
+
+<p>O abbade da freguezia, que veio administrar os ultimos sacramentos á
+moribunda, tentou mitigar a dôr de Rosa, mas a joven menina estava muito
+consternada para poder ser consolada. Recusou obstinadamente retirar-se
+de junto do leito, em que jazia D. Thereza, conservando-lhe a mão gelada
+apertada nas suas.</p>
+
+<p>--O meu lugar é este,--dizia ella entre soluços,--só deixarei minha
+segunda mãe no tumulo.</p>
+
+<p>Finalmente chegou o terrivel momento da morte. Uma convulsão, alguns
+murmurios sufocados........ e D. Thereza tinha deixado d'existir entre
+os vivos, e sua alma, desprendendo-se das ligações terrenas, voára ao
+céo a receber da mão de Deus o premio das suas virtudes.</p>
+
+<p>Ao principio não se ouviam mais que os chóros de todos os criados da
+quinta, mas em seguida uma voz forte e imperiosa se fez escutar. Era a
+de D. Euzebia. Collocou uma pessoa junto do cadaver de sua irmã, deu as
+ordens para os funeraes, e passou a inspeccionar as caixas e commodas,
+que fechava com cuidado, guardando as chaves.</p> <span class="pagenum">[259]</span>
+
+
+<h3>X</h3>
+
+<p>Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz eleito
+da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que pertencia a D.
+Thereza.</p>
+
+<p>--Aqui estão as chaves, senhor juiz eleito--disse D. Euzebia,--mas é
+inutil esse trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irmã, e
+ella não podia desherdar-me.</p>
+
+<p>--É verdade, minha senhora,--respondeu o juiz--mas cumpro o meu dever,
+por que a lei protege os direitos de todos.</p>
+
+<p>--Só eu é que tenho direito á fortuna de minha irmã, pois ella não tem
+filhos.</p>
+
+<p>--Sim, minha senhora, mas esta orphãsinha, a quem ella deu asylo?</p> <span class="pagenum">[260]</span>
+
+<p>--Minha irmã--replicou com colera D. Euzebia--seria por ventura capaz de
+me desherdar, testando os seus bens a favor d'estas duas mendigas, que
+ella teve a phantasia de recolher em sua casa?</p>
+
+<p>--Não o affirmo, minha senhora--respondeu com brandura o juiz;--mas sua
+irmã póde ter feito testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua
+estima e amisade.</p>
+
+<p>--Não julgaria sufficiente o sustental-a e mais á avó,--disse D. Euzebia
+com voz forte--ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas
+velhacas, virieis vós roubar o que de direito me pertence? Snr. juiz
+eleito, queira tambem sellar a porta do quarto d'ella, pois quem sabe
+lá, o que ella tem roubado. Minha irmã era tão pouco cautellosa...</p>
+
+<p>--Oh! senhora--respondeu Rosa com muita tristeza a esta supposição
+offensiva--acreditaes que pagasse com o roubo os beneficios, que eu e
+minha avó recebemos da snr.<sup>a</sup> D. Thereza?</p>
+
+<p>O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para que D.
+Euzebia não continuasse, diante d'um leito de morte, com uma discussão
+tão vergonhosa, e feia.</p>
+
+<p>Logo que o juiz se retirou, Rosa viu-se de novo a braços com as
+suspeitas da ambiciosa herdeira. Chegaram a tal ponto as cousas, que
+Rosa não pôde refrear a sua indignação.</p>
+
+<p>--Não me injurieis, senhora,--disse Rosa com energia e dignidade--não me
+injurieis diante do corpo de vossa irmã, de quem só a vista bastaria
+para me proteger. Dizei-me, senhora, sahi eu por ventura um só instante
+de junto da cama da minha bemfeitora, desde que ella foi atacada pela
+apoplexia? Não, senhora. Então como podia eu subtrahir cousa alguma?
+Examinai, e examinai bem, senhora, que achareis tudo intacto, porque eu
+e minha avó preferiamos antes morrer <span class="pagenum">[261]</span> de fome, do que tocar na
+cousa mais insignificante, que nos não pertencesse. Louvado seja o
+Senhor, sou forte; posso e quero trabalhar, por isso não serei pesada a
+ninguem. Deixai-nos, senhora, chorar em paz a perda da nossa bemfeitora,
+que, logo que o seu corpo saia d'esta casa, não vos pediremos asylo.</p>
+
+<p>Esta linguagem, firme e digna, impoz silencio a D. Euzebia, que ficou
+corrida de vergonha.</p>
+
+<p>Rosa esperou com socego o dia seguinte, em que se devia fazer o enterro
+a D. Thereza.</p>
+
+<p>A pobre criança, com a avó pelo braço, seguiu chorando o prestito.
+Depois de terminado o officio, Rosa e sua avó, ajoelharam-se junto da
+campa, em que D. Thereza foi sepultada: era já noite cerrada, e ainda as
+duas desgraçadas não cuidavam em se retirar.</p>
+
+<p>O frio, que fez dar um gemido á avó, advertiu Rosa de que se devia
+recolher; só então é que pensou para onde havia de ir.</p>
+
+<p>--Vamos, minha avósinha--disse Rosa--a casa da snr.<sup>a</sup> Maria da Gandra,
+que estou certa, sendo tão nossa amiga, nos não ha-de deixar na estrada.</p>
+
+<p>A snr.<sup>a</sup> Maria da Gandra era uma boa e caridosa mulher, que, como todos
+os moradores de S. Cosme, e seus arredores, estimava muito a protegida
+de D. Thereza, e censurára o procedimento de D. Euzebia.</p>
+
+<p>--Oh! Rosinha, foi Deus que te dirigiu para minha casa--lhe disse ella
+logo que a avistou.--Que prazer me não causa teres procurado a minha
+casa para te recolheres. Tinham-me dito, que ias para casa da Joanna da
+Quintella, por isso é que te não offereci para vires para aqui com tua
+avó.</p>
+
+<p>--Agradeço-vos, senhora--disse Rosa--a vossa bondade, e a caridade com
+que vos offereceis para nos recolherdes; mas não venho pedir-vos casa e
+sustento de graça, porque tenho duas inscripções de cem mil reis cada
+uma; o que vos rogo é que me aboneis tudo o <span class="pagenum">[162]</span> que eu precisar e
+minha avó, que vos satisfarei logo que termine a liquidação da herança
+da snr.<sup>a</sup> D. Thereza, e receba as minhas inscripções.</p>
+
+<p>--Sim, sim, minha menina,--lhe respondeu a snr.<sup>a</sup> Maria da Gandra--Não
+preciso do teu dinheiro para te sustentar e a tua avó. Mas diz-me, como
+obtiveste essas inscripções?</p>
+
+<p>--A snr.<sup>a</sup> D. Julia, antes de partir para o Porto, deu-me cem mil reis,
+com os quaes a snr.<sup>a</sup> D. Thereza, em cumprimento do seu desejo, comprou
+duas inscripções em meu nome.</p>
+
+<p>--Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas em teu nome, porque
+d'outra maneira D. Euzebia tomaria posse d'ellas. Tem resignação, assim
+como vós, minha boa velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir
+ao vosso quarto.</p>
+
+<p>Rosa e sua avó ficaram portanto habitando na Gandra.</p>
+
+<p>A pequena não estava ociosa, antes pelo contrario era tão zelosa e
+trabalhadeira, que a snr.<sup>a</sup> Maria, muito satisfeita, propoz-lhe que ella
+e a avó, ficassem para sempre em sua casa. Rosa aceitou promptamente, e
+com reconhecimento, pois n'aquella occasião era a maior felicidade, que
+lhe podia apparecer.</p>
+
+<p>No dia em que se deviam tirar os sellos em casa da defunta D. Thereza,
+Rosa alli compareceu por convite do juiz eleito.</p>
+
+<p>Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da casa, que
+tinha sido para ella tão hospitaleira, o coração comprimiu-se-lhe e não
+pôde reter as lagrimas.</p>
+
+<p>Tudo se passou sem novidade; só de quando em quando D. Euzebia mostrava
+por gestos e exclamações o seu desapontamento por encontrar menos
+dinheiro, do que imaginava.</p>
+
+<p>Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, não <span class="pagenum">[263]</span> foi uma
+exclamação de surpreza, que D. Euzebia soltou, mas sim de raiva, na qual
+se divisava um accento de triumpho.</p>
+
+<p>--Bem certa estava eu,--disse ella--que esta velhaca havia de ter
+<i>empalmado</i> alguma cousa. Ah! se eu não viesse logo... o que teria
+acontecido. Examinai, senhor escrivão, o que é que ahi existe.</p>
+
+<p>O escrivão tirou da caixa um magnifico vestido, que, a julgar pelo
+tamanho, não pertencia de certo a Rosa.</p>
+
+<p>--Dize velhaca,--tornou D. Euzebia--como é que este vestido veio aqui
+parar?--Não preciso perguntal-o, porque a culpada está-se denunciando
+pelo rubôr, que lhe cobre as faces.</p>
+
+<p>--Senhora D. Euzebia--disse o juiz--o seu proceder para com esta criança
+é digno de censura. Ainda, até agora, não encontramos cousa alguma, que
+fizesse, nem ao menos, suspeitar de sua probidade. Deixai-a portanto
+dar-me as explicações, que tiver a fazer.</p>
+
+<p>Responde Rosinha,--disse o juiz com modo affavel--como é que este
+vestido se acha na tua caixa?</p>
+
+<p>Rosa fez-se muito corada e respondeu:</p>
+
+<p>--Este vestido, senhor, foi comprado com as minhas economias.</p>
+
+<p>--Que é; que é?--interrompeu D. Euzebia.</p>
+
+<p>--Senhora--disse severamente o juiz--ordeno que vos caleis.</p>
+
+<p>--É bem publico e sabido, que eu, durante o verão, fazia cestinhos de
+flôres, que ia vender ás casas abastadas dos arredores.</p>
+
+<p>Quasi sempre me davam, como presente, mais do que o custo dos cestos:
+entregava-me a snr.<sup>a</sup> D. Thereza, para guardar no meu mealheiro, estas
+pequenas quantias, que reservei com muito cuidado para poder brindar a
+snr.<sup>a</sup> D. Thereza no seu dia natalicio.</p>
+
+<p>Estava muito indecisa, por não saber o que lhe devia offerecer, e foi a
+minha avó, que me suggeriu a <span class="pagenum">[264]</span> idéa de lhe comprar um vestido. Para
+levar a effeito este meu desejo combinei em segredo, com a costureira da
+snr.<sup>a</sup> D. Thereza, para o fazer, e estou muito certa de que a minha
+bemfeitora não despresaria a minha offerta, se tivesse a felicidade de
+lh'a apresentar.</p>
+
+<p>Esta explicação, simples e clara, que demonstrava um coração sincero e
+grato, fez borbulhar as lagrimas nos olhos de todos os circumstantes.
+Devemos comtudo excluir d'este numero D. Euzebia, que presistia em negar
+a verdade.</p>
+
+<p>Quando se encontraram as duas inscripções, D. Euzebia chegou ao auge do
+desespero e da colera, e de boa vontade as inutilisaria, se lhe fosse
+possivel obtel-as á mão; mas, felizmente para Rosinha, não pôde
+conseguil-o.</p>
+
+<p>Finalmente, pelos cuidados e protecção do juiz eleito, Rosa e sua avó,
+apesar de todos os obstaculos e vontade de D. Euzebia, receberam tudo o
+que lhes pertencia, e deixaram sem maior desgosto a casa, de que a mais
+cruel e mais requintada avareza as expulsava.</p> <span class="pagenum">[265]</span>
+
+
+<h3>XI.</h3>
+
+<p>Estamos no anno seguinte.</p>
+
+<p>Rosa escreveu á viscondessa do Candal e a sua filha uma carta tão
+affectuosa e consoladora, que fez despertar em D. Julia um vehemente
+desejo de tornar a vêr a sua querida discipula e protegida.</p>
+
+<p>Os dias, que faltavam para Rosa poder abraçar a sua amiga, pareciam-lhe
+seculos. Esperava com uma impaciencia impossivel de descrever, a chegada
+da primavera, porque então é que devia, e podia estreitar ao coração a
+sua querida amiga e preceptora.</p>
+
+<p>Raiou finalmente o dia tão anciosamente almejado. A primeira pessoa que
+D. Julia avistou foi Rosa, que, louca d'alegria, viera esperar a sua
+amiga querida, para lhe apresentar um cestinho, igual ao que tinha
+estabelecido <span class="pagenum">[266]</span> e sido causa das relações e intima união, que existia
+entre ellas.</p>
+
+<p>D. Julia ao vêl-a deu um grito, e quiz immediatamente descer do coupé;
+mas não pôde fazel-o, por que estava tão magra, fraca e desfigurada que,
+quem a via, só a um milagre podia attribuir a sua existencia. Era na
+verdade um milagre, devido ao amor maternal, e continuos cuidados e
+desvelos, de que a cercava a viscondessa.</p>
+
+<p>Rosa passou todo o dia na companhia da sua querida amiga e protectora.
+D. Julia tinha muito que lhe perguntar, por que queria saber
+minuciosamente tudo o que tinha acontecido, desde que ella se tinha
+retirado para o Porto.</p>
+
+<p>Apenas teve conhecimento da morte de D. Thereza, D. Julia pediu
+immediatamente a sua mãi, que recebesse em sua casa Rosa e sua avó.</p>
+
+<p>A viscondessa, que desejava e queria satisfazer o mais pequeno desejo,
+ou pedido de sua filha predilecta, accedeu sem demora.</p>
+
+<p>Rosa e sua avó vieram portanto morar para casa da viscondessa do Candal,
+que foi pessoalmente dar parte d'esta sua resolução á snr.<sup>a</sup> Maria da
+Gandra.</p>
+
+<p>--Estou satisfeitissima, minha senhora--disse a snr.<sup>a</sup> Maria da
+Gandra--pela felicidade de Rosa; mas ao mesmo tempo sinto um grande
+pesar, e é com difficuldade que me separo d'ella. Nunca mais encontrarei
+uma pequena, que seja tão humilde e trabalhadeira.</p>
+
+<p>A viscondessa em seguida quiz satisfazer á snr.<sup>a</sup> Maria da Gandra toda a
+despeza, que Rosa e sua avó tinham feito em sua casa; mas a honrada e
+digna aldeã não quiz aceitar a mais pequena e insignificante recompensa,
+e respondeu--Que Rosa havia ganho o que ella e sua avó tinham
+despendido.</p>
+
+<p>A despedida de Rosa e da snr.<sup>a</sup> Maria da Gandra foi pathetica, e só a
+muito custo se desprenderam, chorando, <span class="pagenum">[267]</span> dos braços uma da outra,
+promettendo Rosa vir visital-a a miudo, por que o carinho, com que a
+snr.<sup>a</sup> Maria a tinha tratado havia sido tal, que seria uma ingrata se lhe
+não tributasse um profundo reconhecimento.</p>
+
+<p>A alegria, que se apoderou da pobre cega, quando lhe disseram que ia
+viver em casa da viscondessa do Candal, foi tal, que só acreditou depois
+de muito lh'o asseverarem, por que lhe parecia impossivel que semelhante
+ventura lhe succedesse.</p>
+
+<p>--Que a minha Rosinha--disse ella--algum dia se havia de tornar senhora
+da cidade, sempre eu o julguei, por que era muito gentil e linda para
+ser camponeza; mas que eu partilhasse tal ventura, nunca o imaginei.</p>
+
+<p>Rosa e sua avó foram alojadas, em casa da viscondessa, em dous quartos,
+muito perto d'aquelle em que habitava D. Julia; que assim o tinha
+exigido para ter a sua protegida junto d'ella, o que se executou com
+muita censura e reparo de D. Bertha.</p>
+
+<p>--Era só o que faltava--dizia um dia, a orgulhosa D. Bertha, a D.
+Francisca de Meirelles, sua amiga--trazer para nossa casa estas duas
+mendigas. Podes tu, minha querida, explicar-me como é que Julia pôde
+affeiçoar-se tanto a estas duas creaturas?</p>
+
+<p>--Tua irmã, Bertha, tem o coração muito sensivel; basta que lhe façam
+uma choradeira, ou que lhe contem uma historia triste para acreditar em
+tudo, e logo se affeiçoar a qualquer, e lhe dedicar carinho é protecção.</p>
+
+<p>--Mas na verdade, esta sociedade não é tão agradavel e
+attrahente?--disse D. Bertha com um sorriso ironico.--Se a cega e a neta
+contam commigo para lhes fazer companhia, affirmo-te que lhes hei-de
+deixar muito tempo para se aborrecerem.</p>
+
+<p>Conforme com estas <i>bellas</i> resoluções D. Bertha evitava <span class="pagenum">[221]</span> o mais
+possivel dirigir a palavra a Rosa e sua avó, e, quando por necessidade o
+fazia, era com um modo tão sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as
+duas infelizes ficavam confusas e envergonhadas.</p>
+
+<p>D. Julia tentou por diversas vezes fazer nascer no coração de D. Bertha
+sentimentos mais nobres e mais christãos, mas infructuosamente, por que,
+procurar commover e sensibilisar o coração empedernido e orgulhoso de D.
+Bertha, era um trabalho improbo e esteril.</p>
+
+<p>D. Julia, feliz por ter em sua companhia a querida de seu coração, a sua
+discipula, recuperou algum vigor, e ainda pôde recomeçar as lições. A
+fadiga, que d'este trabalho lhe podia provir, era attenuada pela
+attenção e estudo, que Rosa prestava ás prelecções.</p>
+
+<p>D. Julia ainda quiz ensinar desenho a Rosa.</p>
+
+<p>--Queres dar a Rosa--disse uma occasião a viscondessa a sua filha--uma
+educação e instrucção superiores á sua posição na sociedade, e não
+receias que isso para o futuro lhe cause embaraços e dissabores?</p>
+
+<p>--Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida mãi, a bondade de
+ouvir o que a minha protegida me dizia outro dia:</p>
+
+<p>«O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra, é alcançar bastante
+instrucção e saber, para um dia ser professora. Como me julgaria feliz
+podendo dizer ás minhas discipulas: era uma aldeã muito ignorante e
+rustica; uma boa menina, a snr.<sup>a</sup> D. Julia, filha da snr.<sup>a</sup> viscondessa do
+Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua protecção e de me ensinar.
+É a ella, meninas, a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se me
+amaes, deveis igualmente amar a snr.<sup>a</sup> D. Julia, minha bemfeitora; e
+então ellas vos renderão graças, assim como eu vol-as rendo agora.»</p>
+
+<p>--Não te torno a dizer mais nada--disse a viscondessa--Continua, minha
+filha, pois Rosa é digna dos <span class="pagenum">[269]</span> teus cuidados e desvelos, e para que
+elles se tornem mais proficuos ajudar-te-hei a leccional-a.</p>
+
+<p>A viscondessa cumpriu a sua promessa e, alternadamente com D. Julia,
+dava as lições a Rosa.</p>
+
+<p>Estes estudos não fizeram pôr de parte a preparação de Rosa para receber
+dignamente a primeira communhão. Foi com uma piedade exemplar que ella
+cumpriu este solemne acto, e o futuro provou não ter sido esteril para o
+seu coração.</p>
+
+<p>D. Julia passou o verão entre as alternativas de melhoras e recahidas
+nos seus padecimentos, que tinham uma successão quasi regular e
+periodica. Umas vezes nem levantar-se da cama, ou d'uma cadeira de
+braços, para onde a levavam, lhe era possivel; outras vezes chegava a
+poder dar uns pequenos passeios pelos campos das visinhanças. Aos
+proprios medicos custava a comprehender como ella vivia.</p>
+
+<p>D. Julia, porém, não se illudia sobre o seu estado de saude. Quando sua
+mãi a entretinha fazendo projectos, ou, como ordinariamente se diz,
+<i>castellos no ar</i>, para o futuro, ella sorria-se e respondia: que ainda
+faltava muito tempo para a sua realisação, e que não chegava a vêl-os
+confirmar.</p>
+
+<p>A sós com Rosa D. Julia fallava livremente sobre a proxima terminação da
+sua existencia, e então ella supplicava-lhe com instancia, que
+repellisse da sua imaginação tão sinistras idéas.</p>
+
+<p>--Não posso crêr,--dizia ella--que Deus nosso Senhor me queira tirar
+d'este mundo todos os meus protectores: não sei que crime tenha
+commettido, que mereça semelhante castigo.</p>
+
+<p>--Resta-te ainda minha mãi, minha Rosinha--respondia D. Julia--que estou
+certa nunca te ha-de desamparar.</p>
+
+<p>Rosa terminava esta penosa conversação abraçando <span class="pagenum">[270]</span> D. Julia e
+procurando distrahil-a por todos os meios possiveis.</p>
+
+<p>O que a dedicação mais sincera e real póde suggerir de mais bello, tudo
+Rosa executava, recebendo, por galardão, ou recompensa a mais grata, um
+terno sorriso de D. Julia, ou um agradecimento da viscondessa, e para os
+merecer faria o impossivel se necessario fosse.</p> <span class="pagenum">[271]</span>
+
+
+<h3>XII.</h3>
+
+<p>D. Julia apparentava exteriormente um socego d'espirito, que
+interiormente não sentia, por que receiava muito a chegada do outono,
+época, que os medicos tinham marcado, a mais longa a que poderia chegar.
+A anciedade, pois, que todos soffriam pela aproximação d'esse termo
+fatal, era geral.</p>
+
+<p>Chegou o outono. Por um d'estes phenomenos, que a tisica muitas vezes
+apresenta, a molestia não offereceu n'esta estação alteração alguma.</p>
+
+<p>A esperança, de que D. Julia ainda poderia vencer a fatal doença,
+começou a penetrar em todos os corações, e até no da propria enferma.
+Rosa chegou a dizer á viscondessa, que tinha uma convicção firme de que
+D. Julia não morreria, por que Deus Nosso Senhor era bom e não a havia
+de privar da sua protectora.</p> <span class="pagenum">[272]</span>
+
+<p>A viscondessa, que até ahi estava convencidissima, de que sua filha não
+passaria além do termo marcado pelos medicos, vendo-o passar sem que a
+sua fatal predicção se realisasse, começou a crêr que se tinham
+enganado, e que D. Julia ainda lograria saude.</p>
+
+<p>Houve portanto grande alegria em casa da viscondessa. Todos os criados,
+que não amavam só, mas que veneravam D. Julia, por que era sempre boa e
+affectuosa para elles, crendo que a sua joven ama, não tendo morrido na
+época marcada, estava salva, pediram unanimemente para a felicitarem;
+tal foi a alegria e contentamento, de que se apoderaram com esta
+esperança e crença.</p>
+
+<p>Estas demonstrações respeitosas de sympathia e amisade, que os criados
+lhe deram, penhoraram e commoveram muito D. Julia. A todos agradeceu com
+reconhecimento esta nova prova d'affecto.</p>
+
+<p>Porém, de todas as felicitações, a da sua discipula e de sua avó, foi a
+que mais a impressionou.</p>
+
+<p>Quando Rosa, conduzindo sua cega avó, se ajoelhou com ella junto da cama
+de D. Julia, e lhe exprimiu, com candura e ingenuidade, a alegria e
+prazer, que sentiam pelas suas melhoras, e os votos, que faziam a Deus,
+para que o seu restabelecimento fosse real e breve, não pôde soffrear a
+sua commoção, e as lagrimas correram-lhe em fio pelas faces, agradecendo
+a Deus o prazer que tinha gosado com a felicitação que acabava de lhe
+ser dirigida.</p>
+
+<p>Passou-se o inverno, sem que o estado de saude de D. Julia soffresse
+alteração sensivel.</p>
+
+<p>Com a chegada da primavera D. Julia recomeçou os seus passeios pelos
+campos e pinheiraes visinhos, na companhia da sua inseparavel Rosa, a
+que algumas vezes se aggregava tambem a viscondessa.</p>
+
+<p>Na quaresma seguinte Rosa recebeu pela segunda vez o sacramento da
+communhão, e pouco tempo depois, D. Julia, querendo que a sua protegida
+progredisse <span class="pagenum">[273]</span> nos seus estudos, pediu a sua mãi que lhe escolhesse
+uma professora.</p>
+
+<p>A viscondessa annuiu immediatamente ao pedido de sua filha.</p>
+
+<p>Pouco tempo depois entrou para casa da viscondessa, sob recommendação e
+abono do abbade de S. Cosme, uma joven senhora, a quem ha pouco acabava
+de ser concedido o titulo de capacidade.</p>
+
+<p>Rosa esforçava-se por todos os meios possiveis para corresponder
+dignamente aos beneficios, que, D. Julia e sua mãi, lhe estavam
+constantemente prodigalisando; procurando sempre não dar o mais leve
+desgosto ás suas protectoras; comtudo, é preciso dizer que Rosa não era
+perfeita. A sua vivacidade natural levava-a muitas vezes a
+impacientar-se, e o seu ainda pouco peso ou juizo a commetter algumas
+faltas nos seus deveres; mas reconhecia com tanta facilidade os seus
+erros, e mostrava-se tão arrependida e desejosa de os emendar, com tanto
+afinco e perseverança, que era impossivel tratal-a com rigor por muito
+tempo.</p>
+
+<p>Rosa dava as suas lições, umas vezes no quarto de D. Julia, quando o seu
+estado de saude o permittia; outras vezes no da viscondessa, que sentia
+um verdadeiro e sincero prazer em observar os progressos da predilecta e
+querida de sua filha.</p>
+
+<p>D. Maria d'Almeida, assim se chamava a professora, correspondeu
+dignamente á confiança, que a viscondessa n'ella tinha depositado,
+confiando-lhe a instrucção da sua pupilla.</p>
+
+<p>O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua direcção experimentou,
+foi grande, dando já signaes de que em breve a discipula se tornaria uma
+excellente professora.</p>
+
+<p>Rosa, assim que as suas obrigações e deveres estavam terminados,
+dedicava-se exclusivamente a D. Julia, e sua avó. Esta, desde que viera
+viver para casa da <span class="pagenum">[274]</span> viscondessa do Candal, andava alegre e folgazã,
+e ainda julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu
+viver.</p>
+
+<p>Tinha já decorrido parte do anno; o outono estava quasi findo, e o
+estado de saude de D. Julia não denunciava signal algum de peoramento; a
+molestia, porém, que até então estivera encubada, reappareceu com grande
+violencia, e em oito dias as crises succederam-se tão proximas umas das
+outras, que pozeram a enferma em estado de se não conceber esperança
+alguma de a salvar.</p>
+
+<p>A illusão, que até ahi existira em todos, desappareceu completamente: já
+não esperavam senão o golpe final... Rosa, nem um só momento desamparava
+a sua querida protectora, e juntamente com a viscondessa, cuidava e
+tratava de D. Julia; não consentiam que mais ninguem lhe prestasse o
+mais insignificante serviço, chegando até a ter zelos uma da outra.</p>
+
+<p>Tanta dedicação e amisade teriam feito com que Deus revogasse a fatal
+sentença dada a D. Julia, se o Creador, na sua alta sabedoria, não
+tivesse resolvido chamar á sua presença, a receber o premio das suas
+virtudes, aquelle anjo de bondade e resignação.</p>
+
+<p>D. Julia, já moribunda e quasi expirante, pediu a sua mãi, como ultima
+graça que lhe fazia, que não abandonasse Rosinha, a sua querida
+discipula e amiga; que se não affligisse, nem desanimasse, porque em
+Rosa lhe deixava, estava certa d'isso, uma filha obediente e dedicada,
+que havia de substituir no seu coração o lugar que ella deixava vasio, e
+a Rosa recommendou-lhe que amasse sempre muito sua mãi, por que n'ella
+encontraria um sincero apoio, e uma terna e carinhosa amiga.</p>
+
+<p>Apenas D. Julia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha soado;
+abraçou sua mãi, e Rosinha e, pronunciando os nomes de Rosa... e minha
+mãi... expirou, <span class="pagenum">[275]</span> voando a sua candida alma á presença de Deus a
+receber a glorificação de suas virtudes.</p>
+
+<p>Assim terminou D. Julia a sua existencia, que, se tinha sido breve para
+o mundo, fôra longa pelas boas obras, que sempre praticára, e pela
+pureza em que sempre vivera.</p> <span class="pagenum">[276]</span>
+
+
+<h3>XIII.</h3>
+
+<p>Já decorreram seis annos depois das scenas descriptas no capitulo
+antecedente.</p>
+
+<p>Não deixaremos, porém, a nossa muito conhecida casa, perto de S. Cosme,
+pertencente á viscondessa do Candal, por que é no caminho, que a ella
+conduz, que tem lugar o que passamos a contar.</p>
+
+<p>Uma senhora ainda joven, e outra já de mais idade caminham em silencio,
+e commovidas.</p>
+
+<p>A mais idosa é a nossa muito conhecida viscondessa do Candal.</p>
+
+<p>O pesar da morte da sua querida filha Julia desfigurou-a muito. O rosto
+tem-no emmagrecido, e sulcado de profundas rugas, e os cabellos
+embranquecidos antes do tempo.</p> <span class="pagenum">[277]</span>
+
+<p>A sua companheira é uma joven que figura ter dezesete para dezoito
+annos, d'apparencia ingenua e modesta; é a nossa Rosa, a pequena dos
+ramos e cestinhos.</p>
+
+<p>A viscondessa caminha apoiada no braço da sua companheira. Depois
+d'alguma hesitação Rosa decidiu-se a dirigir-lhe a palavra.</p>
+
+<p>--Receio, minha querida senhora--disse Rosa respeitosamente--que esta
+visita vos cause uma grande commoção e vos prejudique a saude. Por que a
+não deixaes para quando estiverdes mais restabelecida?</p>
+
+<p>--Não, Rosa, não. Ha oito dias, que não vim visitar a campa onde jaz a
+minha Julia, e oito dias já é um espaço muito longo. Sinto-me hoje
+melhor, não despresarei portanto esta occasião que se me offerece, por
+que, quem sabe se recahirei?</p>
+
+<p>--Não penseis em tal, senhora viscondessa. Creio que ainda haveis de ter
+muitos annos de vida; tenho fé, que Deus vos não roubará á minha ternura
+e reconhecimento.</p>
+
+<p>--Se as orações d'um anjo, Rosa, podessem deter a morte, conheço que as
+tuas me preservariam d'ella. Mas, ai de mim, a morte da minha sempre
+lembrada Julia despedaçou-me o coração. Não estou eu só n'este mundo?
+Bertha não me abandonou logo que casou? Que faço então aqui n'este ermo,
+a que chamam mundo?</p>
+
+<p>--Ah! senhora, esqueceis então a pobre Rosa, que vos estima e ama, e que
+vos é tão dedicada como se fôra vossa filha?</p>
+
+<p>Estas palavras, pronunciadas com um accento de submissão, penetraram até
+o imo do coração da viscondessa: sensibilisaram-na tanto, que abrindo os
+braços recebeu n'elles Rosa banhada em lagrimas.</p>
+
+<p>--Sou uma ingrata, Rosa, bem o reconheço,--disse a viscondessa cingindo
+Rosa ao coração. Recebo com indifferentismo os teus cuidados e carinhos,
+e a tua inexcedivel dedicação. Perdôa-me, minha filha, minha <span class="pagenum">[278]</span>
+querida filha. Conheceste Julia, e melhor que outra qualquer sabes
+quanto era merecedora da minha ternura e amisade, e quanto é digna de
+ser pranteada. Mas Julia, antes de morrer, deixou-te na minha companhia,
+para me servires de consolação e allivio na minha dôr. Abraça-me Rosa,
+minha filha querida.</p>
+
+<p>Rosa, por unica resposta, abraçou com ternura a sua bemfeitora.</p>
+
+<p>As lagrimas, que lhe cobriam as faces, diziam bem alto e eloquentemente,
+o que a commoção lhe embargava nos labios.</p>
+
+<p>Ainda caminharam por mais algum tempo e chegaram ao cemiterio.</p>
+
+<p>A viscondessa do Candal, como tributo á memoria de sua filha,
+mandára-lhe levantar um lindo e rico mausoléo de marmore branco, no qual
+ella tambem queria ser encerrada á sua morte. Em volta das grades
+viam-se alegretes em que haviam violetas, geranios e rosas amarellas,
+que Rosa cultivava e cuidava com muito esmero, como recordação das
+flôres com que enfeitára o cestinho, que fôra causa da intima união, que
+se estabelecera entre ella e D. Julia.</p>
+
+<p>A viscondessa e sua filha adoptiva oraram por muito tempo sobre a campa
+d'aquella, que tanto tinham estremecido em vida, e que tanto choravam na
+morte.</p>
+
+<p>Rosa, depois de ter examinado e regado todos os alegretes e pés de
+flôres, um por um, para que os insectos, ou a seccura os não
+estiolassem, dirigiu-se á viscondessa.</p>
+
+<p>--Deixo-vos, senhora--lhe disse ella--por um instante. Vou rezar junto
+da campa de minha avó.</p>
+
+<p>--Tambem quero acompanhar-te--replicou a viscondessa.</p>
+
+<p>Não muito distante do mausoléo de D. Julia se elevava uma cruz simples.
+Era ahi que jazia, havia dous annos, a pobre cega. Terminára os seus
+dias socegadamente, <span class="pagenum">[279]</span> bemdizendo a ternura de sua neta, e a caridade
+affectuosa da sua bemfeitora.</p>
+
+<p>Devido ainda ao zelo de Rosa a campa da pobre cega, adornada com
+diversas flôres, semelhava um jardimsinho.</p>
+
+<p>Rosa ajoelhou-se, e depois de ter rezado com fervor e devoção por algum
+tempo, levantou-se, e dando o braço á viscondessa retiraram-se, fazendo
+ainda uma ultima visita ao tumulo de D. Julia.</p>
+
+<p>Quando se recolheram, Rosa encontrou uma carta da sua antiga professora
+D. Maria d'Almeida, na qual lhe participava, que d'ahi por dous mezes se
+havia de proceder aos exames d'habilitação para os titulos de
+capacidade, por isso, se ainda estava decidida a propôr-se a exame, que
+enviasse os documentos necessarios ao commissario dos estudos.</p>
+
+<p>Rosa apresentou esta carta á viscondessa.</p>
+
+<p>--Sempre estás decidida a propôr-te a exame?--lhe disse ella.</p>
+
+<p>--Sim, minha senhora. É o meu mais fervente e afanoso desejo. Quero,
+senhora, que a instrucção e saber, que vos devo, e a vossa querida e
+chorada filha, aproveite ás crianças, que a pobresa retem na ignorancia
+e na rudeza. Se eu poder ser util, ainda que seja a uma só d'entre
+ellas, como, senhora, me reputarei feliz e bem paga do meu trabalho!</p>
+
+<p>--Tinha a esperança de te conservar sempre na minha companhia---replicou
+a viscondessa.--Occuparias para sempre o lugar do anjo, que Deus me
+levou, da minha Julia. Não queres, Rosa, ser minha filha?</p>
+
+<p>--Ah! senhora, quero sim, ser vossa filha; isso ainda vai além da minha
+ambição. Mas recordo-me que era uma pobre rustica, e que só aos vossos
+beneficios devo a minha instrucção, e a cultura da minha intelligencia.
+Quero, senhora, dar de barato, e ter a vangloria de dizer que os vossos
+cuidados não foram perdidos, <span class="pagenum">[280]</span> mas com isso não me devo tornar
+vaidosa, por que faltaria assim aos meus deveres. Serei sempre para vós
+uma filha adoptiva, carinhosa, humilde e terna, e que achareis sempre ao
+vosso lado, esforçando-se por pagar a sua divida de gratidão e
+reconhecimento: Recebendo e aceitando a vossa affeição e amisade, para
+mim preciosa e apreciavel, não me devo esquecer da classe onde nasci. O
+meu lugar é mais humilde; mas como elle parece bello e grandioso ao meu
+coração, quando me recordo do bem, que posso fazer a essas infelizes
+crianças, que vivem na bruteza, ensinando-lhe o que sei e que é obra
+vossa! Ha muito que concebi este meu projecto, e que o declarei a vossa
+filha: «Ás pobres rapariguinhas das aldéas--lhe disse eu--farei o mesmo
+que a snr.<sup>a</sup> D. Julia me fez. Ensinar-lhes-hei a serem felizes com a
+sorte, que Deus lhes destinou n'este mundo; cultivarei o seu coração e o
+seu espirito, e por unica recompensa não quererei mais do que ouvil-as
+bem dizer os nomes da exc.<sup>ma</sup> viscondessa do Candal e de sua filha.»</p>
+
+<p>--Rosa, minha querida Rosa--disse a viscondessa abraçando-a, e com os
+olhos rasos de lagrimas,--que Deus te pague a felicidade, e prazer, que
+me fazes nascer no coração com as tuas palavras.</p>
+
+<hr style="border: 0; border-bottom: 2px dotted #000;">
+<hr style="border: 0; border-bottom: 2px dotted #000; height: 1em;">
+<hr style="border: 0; border-bottom: 2px dotted #000; height: 1em;">
+
+<p>Dous mezes depois, a nossa, hoje, D. Rosa de Jesus e Sousa comparecia
+perante o jury nomeado para proceder ao exame das concorrentes ao
+professorado. O titulo de capacidade, em grau superior, foi-lhe
+concedido por unanimidade e com distincção.</p> <span class="pagenum">[281]</span>
+
+
+<h3>XIV.</h3>
+
+<p>Dous annos se passaram já, depois que foi conferido a D. Rosa de Jesus e
+Sousa o seu titulo de capacidade.</p>
+
+<p>Estamos em fins d'Outubro, n'uma casa caiada de branco, que se encontra
+ao entrar na freguezia de S. Cosme, do lado de S. Pedro da Cova. Na
+frente ha um pateo largo e espaçoso. Sobre o muro pendem os ramos
+verdejantes de dous chorões. Nas trazeiras da casa ha um pequeno jardim,
+muito bem tratado, com as ruas areadas com saibro, e que termina por um
+caramanchãosinho, que, pelo bem cerrado que está, indica que no verão
+deve alli haver uma frescura agradavel, auxiliada pela corrente d'uma
+levada, que corre proximo. Na sala que fica ao nivel do jardim ouve-se
+um murmurio confuso. Entremos, para examinar a que elle é devido. <span class="pagenum">[282]</span>
+Que vemos? Grupos de lavradeirinhas, ao todo umas trinta, pouco mais ou
+menos, vestidas de branco, e tendo todas na mão um raminho de flôres do
+campo, com um laço de fita. Ao fundo da sala vê-se uma rica imagem de
+Nossa Senhora da Conceição, collocada sobre um altar, bem adornado com
+castiçaes de prata, velas de cera e jarras com flôres.</p>
+
+<p>N'um dos lados da sala ha quatro cadeiras de braços; n'uma d'ellas está
+sentada a viscondessa do Candal, a quem D. Rosa, de pé, junto d'ella,
+está dizendo os nomes das suas discipulas.</p>
+
+<p>A viscondessa passeia a vista por todas ellas, e conhece-se-lhe na
+expressão do rosto, que aquelle espectaculo a regosija e encanta.</p>
+
+<p>O modo, porque todas dirigem as vistas para a porta e pelas janellas,
+indica que se espera alguem.</p>
+
+<p>O abbade da freguezia e o administrador do concelho entram n'este
+momento pelo portão.</p>
+
+<p>Um sorriso alegre se vê deslisar em todos os rostos. Eram as pessoas por
+quem se esperava.</p>
+
+<p>A viscondessa e a sua pupilla vieram recebel-os á porta, e
+conduziram-nos ás cadeiras que lhe estavam destinadas.</p>
+
+<p>As crianças tomaram os seus lugares, e restabelecido o silencio, o
+abbade da freguezia tomou a palavra, e fez o seguinte discurso:</p>
+
+<p>«Sinto, minhas meninas, um prazer immenso por vos vêr aqui reunidas para
+a celebração do primeiro anniversario da installação d'esta escóla,
+devida á muita philantropia e caridade christã da exc.<sup>ma</sup> viscondessa do
+Candal, e á dedicação exemplar da vossa digna professora a snr.<sup>a</sup> D. Rosa
+de Jesus e Sousa. Julgo desnecessario o rememorar-vos, que um tal
+sacrificio merece um eterno reconhecimento, por que entendo que entre
+vós, minhas filhas, não ha ingratas. Vós respeitaes e veneraes a exc.<sup>ma</sup>
+viscondessa, e amaes com um verdadeiro <span class="pagenum">[283]</span> amor a vossa professora,
+não é assim? É, assim o creio. Mas ha ainda uma pessoa, para quem deveis
+ter uma saudosa recordação, e que tambem deveis encommendar a Deus nas
+vossas orações. Prestai-me attenção, que vos vou dizer quem é essa
+pessoa, cuja recordação vos deve ser grata. Ha pouco mais ou menos doze
+annos, que uma pobre lavradeirinha ganhava a sua vida fazendo cestinhos
+de juncos, e ramos de flôres silvestres. Uma joven e nobre senhora, que
+reconheceu n'ella amabilidade, modestia e humildade, sympathisou com
+ella, e encarregou-se de a educar e instruir. Como a sua bemfeitora a
+achou sempre digna dos seus beneficios, encarregou-se tambem da sua
+posição futura. Essa joven senhora, de que vos fallo, é a exc.<sup>ma</sup> snr.<sup>a</sup>
+D. Julia, filha da exc.<sup>ma</sup> viscondessa do Candal, e essa lavradeirinha, a
+quem ella dispensou os seus carinhos e a sua affeição, é a vossa douta
+professora. Ha já alguns annos, que a alma da exc.<sup>ma</sup> snr.<sup>a</sup> D. Julia voou
+á presença do Deus eterno a receber o premio das suas virtudes e das
+boas obras, que praticára n'este mundo; uma das quaes ainda existe, que
+foi o deixar-vos a vossa professora e amiga.</p>
+
+<p>«Mostrai-vos, meninas, sempre merecedoras dos beneficios, que vos fazem,
+porque isso é o unico desejo das vossas bemfeitoras e a unica
+recompensa, que recebem da sua dedicação, que estou muito convencido
+sempre fareis por merecer.</p>
+
+<p>«Não quero, porém, retardar por mais tempo o momento de receberem o
+premio e galardão, que merecem pela sua applicação ao estudo e amor ao
+trabalho, áquellas que d'isso se tornaram dignas; e ás que d'esta vez
+não são galardoadas resta-lhes a esperança e o meio de, pela imitação
+das suas condiscipulas, se tornarem dignas de o merecerem para o anno
+futuro.</p>
+
+<p>«Vamos por tanto proceder á distribuição dos premios.»</p> <span class="pagenum">[284]</span>
+
+<p>Um sussurro d'alegria acolheu as ultimas palavras do digno sacerdote.</p>
+
+<p>A conferencia dos premios foi esplendida.</p>
+
+<p>Os premios consistiam em livros religiosos e d'instrucção, que tinham
+sido cuidadosamente escolhidos pela viscondessa, e sua filha adoptiva,
+todos ricamente encadernados. Era interessante e bello vêr a alegria,
+que se deslisava no rosto das que tinham sido contempladas na
+distribuição.</p>
+
+<p>Terminada a conferencia dos premios teve lugar debaixo do caramanchão um
+bem servido <i>lunch</i>.</p>
+
+<p>--Como é magnifico o espectaculo, que apresentam estas crianças, alegres
+e satisfeitas--disse a viscondessa--Recordar-me-hei sempre d'este dia,
+como o mais grato e feliz da minha vida. Tu, minha querida Rosa,
+attrahes as bençãos do céo sobre nós, e sobre a memoria da minha
+querida, e chorada Julia.</p>
+
+<p>--Ah! senhora,--disse Rosa com os olhos rasos de lagrimas--que a vossa
+prophecia se realise, e a minha mais cara aspiração ficará satisfeita.</p>
+
+<hr style="border: 0; border-bottom: 2px dotted #000;">
+<hr style="border: 0; border-bottom: 2px dotted #000; height: 1em;">
+
+<p>O desejo de Rosa realisou-se. A escóla está cada vez mais florescente, e
+a freguezia ufana-se pela possuir. Todos os moradores do lugar ainda
+hoje bemdizem os nomes da viscondessa do Candal, de sua filha e de D.
+Rosa, modêlo raro d'um coração verdadeiramente grato e reconhecido aos
+beneficios que recebera.</p>
+
+
+<p class="centrado">FIM.</p>
+
+
+<div class="notas_transcricao"> <p><b>Nota do transcritor:</b></p>
+
+<p>A edição da obra aqui transcrita foi publicada em 1863 num volume que
+continha 3 romances denominados: Annos de Prosa, A Gratidão e O
+Arrependimento.</p>
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Gratidão, by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A GRATIDÃO ***
+
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+Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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+
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
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diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt
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index 0000000..6312041
--- /dev/null
+++ b/LICENSE.txt
@@ -0,0 +1,11 @@
+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
new file mode 100644
index 0000000..b1a7bcb
--- /dev/null
+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #23345 (https://www.gutenberg.org/ebooks/23345)