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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 02:04:39 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Gratidão + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: November 6, 2007 [EBook #23345] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A GRATIDÃO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + + + + +A GRATIDÃO. + + + * * * * * + + + + +A GRATIDÃO. + +ROMANCE. + + +I. + +Estavamos nos ultimos dias de Dezembro de 1846. Uma camada mui espessa +de neve cobria o sólo. O ar, sombrio e carregado, indicava que mais neve +não tardava a cahir. Os ramos nús das arvores dos montes tremiam +soprados pelo vento norte gelado. Estava tudo n'um perfeito socego, e +tristeza; nem o mais leve murmurio se ouvia. + +Uma velha, e uma criancinha, apesar do rigor do frio, seguiam com +difficuldade o caminho, que da serra de Vallongo conduz a S. Cosme. A +criança, d'espaço a espaço, soprava ás mãosinhas inteiriçadas pelo frio, +e não se podendo sustentar sobre os pés, que tinha inchados pelas +frieiras, caminhava vacillante; mas vencendo todos os obstaculos, com +uma energia superior á sua idade, tomava galhardamente o seu lugar ao +lado da velha. Esta parecia ter sessenta annos. Estava corcovada mais +pela miseria, do que pela idade, e tinha no rosto profundas rugas. Pelo +modo como andava, e tateava o caminho com a mulêta, via-se que era cega. + +--Aonde vamos nós, Rosa?--perguntou a velha á rapariguinha. + +--Em meio caminho, minha avó. + +--Jesus Senhor, valei-me,--disse a cega,--pois que as minhas pobres +pernas já estão cançadas, e parece-me que não chego ao fim da jornada. + +--Encoste-se ao meu hombro, avósinha, que eu não estou cançada. + +--Não, não. Tudo está acabado. Eu morro aqui, Rosinha. Tenho muita fome, +e muito frio para vencer o caminho até S. Cosme. Ai meu Pai do céo, que +me sinto desfallecer... + +Fez um gesto de desespero, e a cega cahiu sobre o caminho. + +--Avósinha, avósinha,--gritava Rosa assustada,--volte a si, que lh'o +peço eu; mais um pequeno esforço e chegaremos a S. Cosme. + +A cega não deu accordo de si. + +--Avósinha,--continuou Rosa chorando, e cobrindo-a de beijos,--se me +abandona, que hei-de fazer? Quer que eu morra de paixão? + +--Morrer, tu, minha Rosinha,--disse a cega levantando-se.--Oh! meu Deus, +não permittaes tal. + +--Então levante-se que lh'o peço eu; se fica aqui mais tempo o frio +matal-a-ia. Em S. Cosme nos aqueceremos. + +--Ai de mim,--disse a cega, levantando-se ajudada de Rosa,--e a snr.^a +D. Thereza receber-nos-ha? + +--Ha-de receber sim, minha avósinha, eu lh'o afianço. Não creio que a +boa snr.^a D. Thereza nos despeça. Quando eu lhe ia vender flôres +silvestres, que apanhava no monte, abraçava-me, e dizia-me muitas vezes, +que desejava que eu fosse sua filha. + +--Não duvido que ella te receba, porque és muito linda e agradavel; +agora o que eu não creio é que me receba a mim, que sou uma velha e +cega, que para nada sirvo. + +--Se assim acontecer, voltaremos á nossa aldêa, e os bons lavradores, +que conheceram meus paes, terão piedade de nós, soccorrer-nos-hão, e eu +trabalharei para lhes pagar, o que elles vos derem. + +A avó, muito commovida, apertou ao coração a pequena, e murmurou +palavras de ternura e gratidão; e reanimada por esta felicidade, que +Rosa lhe tinha feito experimentar, retomou com passo mais firme o +caminho de S. Cosme. + +O vento soprava já com mais força; o ar tinha escurecido mais, e +pequenos flocos de neve se viam voltejar no ar. Rosa, tiritando com +frio, fazia esforços sobrehumanos para poder andar, e cada passo, que a +pobre cega dava, era acompanhado d'um suspiro surdo. O vento augmentou, +e os flocos de neve, que ao principio eram raros, cahiam em maior +abundancia. + +--Rosinha,--disse a cega,--bem queria andar, mas não posso; deixa-me +ficar. + +--Avósinha, eu já avisto a torre da igreja de S. Cosme. + +--Estás bem certa d'isso? + +--Eu não queria mentir... + +--Vamos andando. Permitta Deus que eu possa vencer o caminho. + +--Não tenha receio de me cançar, minha avó; sou forte, e não estou +fatigada. Encoste-se ao meu hombro. + +--Meu querido anjinho, que Deus te pague tudo o que me fazes. + +Chegaram finalmente a S. Cosme, á quinta de D. Thereza de Sousa, depois +de mil esforços, que cançaram completamente avó e neta. + +Era tempo; mais um instante e teriam cahido ambas no chão. Entrando na +cozinha da casa, o calor produziu-lhes uma reacção tão violenta, que +desfalleceram. + + +II. + +D. Thereza de Sousa, e mais algumas visinhas, que se tinham reunido para +serandar, acercaram-se das duas infelizes. Depois de lhe ter ministrado +todos os cuidados necessarios para as reanimar, como o seu principal mal +era a fome, mandou-lhe dar um bom caldo, e acommodal-as a um dos cantos +do lar, em que ardia uma grande fogueira. + +--Agora, Rosinha,--disse D. Thereza, ameigando-a,--conta-nos, como a +esta hora, e com este tempo vieste até aqui com esta boa mulher. + +--Desculpai, minha boa senhora,--disse a cega,--Rosinha é minha neta. + +--Sim, snr.^a D. Thereza, é minha avó, de quem tantas vezes tenho +fallado a v. exc.^a e... + +--Então porque não continuas?--lhe replicou D. Thereza. + +A pequena levantou para D. Thereza os seus lindos olhos azues, com uma +tal expressão de supplica, que a commoveu. + +--Falla, falla, minha menina. Não tenhas receio. Queres pedir-me alguma +cousa, não é assim? + +--Vêde, minha boa senhora,--disse Rosa, contendo as lagrimas a +custo,--eu e minha avó, somos muito desgraçadas. Meu pai, que era +rachador de lenha, feriu-se pelo S. João em uma perna com o machado. +Minha mãi mandou-me chamar a toda a pressa o snr. Pereira, que é um +homem muito entendido. Fui, o mais depressa que pude, e quando cheguei a +casa do snr. Pereira estava elle para sahir, e não queria vir commigo +para não torcer o seu caminho; mas eu tanto lhe pedi, que sempre me +acompanhou. Quando viu a perna a meu pai, logo disse, que estava muito +mal, e que não promettia cural-o. Duas semanas depois veio á ferida uma +molestia, de que me não lembra agora o nome, e meu pai morreu. + +Rosa calou-se chorando, e a cega tambem soluçava. D. Thereza abraçou a +rapariguinha, apertou a mão á pobre velha, e disse: + +--Para hoje já é de mais, ámanhã... + +--Perdôe-me, snr.^a D. Thereza,--replicou Rosa,--mas é melhor que eu +termine hoje,--e continuou: + +--Havia um mez que meu pai tinha morrido, quando minha mãi cahiu de +cama; a febre não a deixava. Eu ia aos campos apanhar as hervas, que +minha avó me ensinava, para lhe fazer remedios, mas nada sarava minha +mãi. Um dia abraçou-me e disse-me: + +«Minha pobre Rosinha, eu vou unir-me com teu pai, mas que será de ti? + +Trabalharei, lhe respondi. + +És muito nova para isso; mas entretanto rogarei muito a Deus para que te +receba sob a sua santa guarda, e te não abandone. Nunca desampares tua +avó, sê-lhe obediente e carinhosa..., ainda queria fallar, mas não pôde, +abraçou-me e á avósinha, e expirou.» + +Desde então alguns rachadores, amigos de meu pai, nos recolheram e +soccorreram; mas como não são ricos, e precisam de mudar de terra por +não terem aqui que fazer, lembrei-me de vir pedir agasalho á senhora, +pois que, sendo tão boa, não deixaria de nos recolher, que somos tão +desgraçadas. Sou fraquinha, mas posso trabalhar. Sei fiar, e começo a +lavar. Guardarei os bois, e os carneiros e tratarei do gallinheiro. +Minha avó tambem fia muito bem e estou muito certa, que a ha-de +satisfazer com o seu trabalho. Oh! senhora--disse Rosa ajoelhando-se aos +pés de D. Thereza--não nos abandoneis; satisfazemos-nos com pouco, e +faremos todo o possivel para vos agradar, e rogaremos continuamente a +Deus pela vossa vida e felicidade. + +D. Thereza commoveu-se tanto, com a singeleza e candura d'esta supplica, +que duas lagrimas lhe brilharam nos olhos. + +--Levanta-te, Rosinha, ámanhã fallaremos n'isso. Tu e tua avó ide-vos +deitar. Sempre te direi, que és muito linda e corajosa, para que se não +tenha piedade de ti. + +Rosa beijou com reconhecimento as mãos de D. Thereza, e a cega encheu-a +de bençãos. D. Thereza mandou-as conduzir a um pequeno quarto, limpo e +quente, em que um somno reparador lhe reanimou as forças. + + +III. + +Ainda mal a aurora tinha raiado, já Rosa estava a pé. Fatigada, como +estava, da jornada do dia antecedente, custou-lhe muito a levantar-se +cedo, mas fez um esforço para mostrar os seus desejos a D. Thereza. + +Arranjou-se, o melhor que pôde, com os seus velhos vestidos, e, depois +de ter dirigido mentalmente a Deus uma oração fervente, desceu ao andar +terreo. + +--Já a pé,--lhe disse alegremente D. Thereza. + +--Estava tão cançada do caminho d'hontem, que receei, já fosse tarde; +mas graças aos vossos beneficios, minha senhora, já estou prompta, para +o que me determinardes. + +--E tua avó? + +--Ainda dorme. É tão velhinha e tão doente, que vos peço tenhaes piedade +d'ella. + +Rosa ergueu as mãos, e esperou tremula a resposta da dona da quinta. + +D. Thereza de Sousa era, o que vulgarmente se chama, uma mulher de casa. +Tendo viuvado ha doze annos, geria com tanto acerto e economia as suas +propriedades, que a sua fortuna tinha augmentado consideravelmente. + +Os visinhos do lugar diziam que, pela avareza e mesquinharia, é que +tinha alcançado a fortuna, que possuia, pois que em qualquer cousa +sempre tinha que diminuir, e acrescentavam ironicamente, que, dando +_tantas_ esmolas, o dinheiro nunca lhe havia de faltar. + +Fosse como fosse, o que sei é, que D. Thereza sensibilisou-se tanto com +a historia de Rosinha, que, quando ella ergueu as mãos, e a viu com os +olhos arrasados de lagrimas, esperando a resposta, disse para si; que a +uma supplica tão humilde e cheia de tanto amor filial, era impossivel +resistir. + +N'este momento quem accusasse de avarenta D. Thereza de Sousa, seria +injusto com ella, por que, recolhendo a avó e neta, tomava um encargo +bastante pesado. Rosa era ainda muito pequena, e de mais a mais muito +fraquinha, para poder ter utilidade real! A pobre criança estava a fazer +dez annos, mas era muito franzina e delicada. O seu rosto, cercado de +compridos caracóes louros, e animado com uns grandes olhos azues +escuros, inspirava sympathia. Tinha as maneiras delicadas, e a linguagem +menos rude, que a dos camponezes dos arredores. Esta distincção n'uma +criança, ainda tão tenra como Rosa, nascia da sua intelligencia mui +desenvolvida. + +A mãi, logo que ella teve tino para se não perder nos caminhos, +mandava-a apanhar flôres silvestres, que ia vender ás familias mais +abastadas das aldéas visinhas. Como Rosa era muito linda as senhoras das +casas acolhiam-na muito bem, divertiam-se com ella, ouvindo-a tagarelar, +e demoravam-na muitas vezes a brincar com as suas filhas. + +Sendo muito viva tomou facilmente as maneiras, e modo de fallar, das +pessoas com quem tratava, de modo que os rachadores denominavam-na a +fidalguinha. + +Se tinha adquirido maneiras delicadas, não havia perdido as boas +qualidades, de que era dotada; humilde e carinhosa para todos, quem a +conhecia adorava-a. + +O que a mim, minhas caras leitoras, me levou tanto tempo a dizer, passou +n'um instante pela idéa a D. Thereza de Sousa, e fixou-lhe a resolução +de recolher a avó e a neta. + +--Vou-te mandar vestir uma roupinha melhor, Rosinha,--lhe disse D. +Thereza, animando-a com uma brandura, que lhe não era habitual,--porque +espero has-de ser uma boa criada, serviçal e trabalhadeira. + +--Então fico em casa de v. exc.^a?--disse Rosa, não podendo crer em +tanta ventura. + +--Ficas, sim, e parece-me que nunca me darás motivo para me arrepender +do que hoje faço. + +--Oh! minha senhora, estai certa que me esforçarei o mais possivel, para +vos agradar e satisfazer os vossos desejos. + +--Assim o espero. Anda vestir-te. + +--Desculpe-me, senhora. Mas minha avó...--e Rosa parou corando. + +D. Thereza, querendo experimentar a sua protegida, disse: + +--Que queres a tua avó? + +--Ella tambem fica? + +--Não. Tua avó é cega e velha, para nada serve, e eu não sou rica +bastante, para me encarregar da sustentação de duas pessoas. + +--Então, senhora, agradeço os vossos beneficios, e todo o bem que me +querieis fazer, mas não posso abandonar a minha avósinha, que morreria +de paixão. + +Vou ajudal-a a levantar-se, e regressaremos à nossa aldêa. + +--E que has-de fazer na tua aldêa? + +--Irei humildemente pedir a um mestre tamanqueiro um pequeno cantinho da +sua casa, que estou certa me não negará. Não sou robusta, mas tenho +coragem, por isso trabalharei nos socos durante o inverno. Quando vier o +verão irei vender flôres e fructos, como os demais annos, e como eu, e a +pobre cega, de pouco precisamos para viver, parece-me que ganharei para +ambas. Logo que chegue a primavera não seremos pesadas a ninguem... + +D. Thereza apertou Rosa nos braços, e chegou-a ao coração. + +--Basta, Rosinha, tu és um anjo do céo, que Deus enviou a minha casa +para me trazer a felicidade. Vai-te vestir, e depois irás participar a +tua avó, que ambas ficaes para sempre em minha casa. + +Descrever a alegria da avó, quando soube a decisão de D. Thereza, é-me +impossivel fazel-o, minhas caras leitoras; vós, que deveis ser dotadas +de bom e piedoso coração, melhor a podereis imaginar. Abraçava Rosa, +agradecia a D. Thereza com um reconhecimento mui sincero, promettendo +fazer todo possivel para ser menos pesada á sua bemfeitora. Rosa nada +dizia, mas a eloquencia de seu olhar provava a D. Thereza a sua +gratidão. + + +IV. + +Rosa, ainda que novinha e de fraca organisação, tornou-se util em casa. +Incansavel no trabalho, de manhã cedo tratava da capoeira e do pombal; +depois ia guardar os bois e os carneiros, e, em quanto que os vigiava, +fiava na sua roca. + +Ao jantar, quando recolhia a casa, tinha sempre que fazer. Era um gosto +vêr esta criança tão tenrinha arrumar, limpar e lustrar os moveis, como +o faria a melhor mulher de casa. + +D. Thereza cada vez mais estimava a sua protegida, e felicitava-se pela +ter recolhido. A avó tambem não era inutil. A cegueira não a +impossibilitava de fiar desde pela manhã até á noite, e o seu trabalho +era perfeito. Tudo corria bem, e todos andavam contentes e satisfeitos. + +Chegou a primavera. Começaram a desabrochar com o tepido sôpro d'esta +estação, e mostraram as suas galas, a bella pervinca azul, o narciso de +corôa d'ouro, o lyrio de campanas odoriferas, e a bella violeta de +calices perfumados. + +Rosa, quando ia á serra, era para ella um dia d'alegria. Procurava os +caminhos tapetados de musgo, os regatos, que tantas vezes tinha passado, +as fontes escondidas pelas çarças, e as arvores, sob as quaes tinha +encontrado as mais lindas flôres. Rosa sentia-se mais livre e mais feliz +na serra, do que nos campos da quinta; a todo o momento parava extasiada +diante das bellezas da natureza, e cada sitio novo, que achava, era como +se fosse um amigo. Quando o socego voltava, depois d'esta alegria e +animação, esta poetica criança fazia cestinhos de vimes e juncos, que +guarnecia com musgo e flôres silvestres, mas com um gosto e belleza +exquisito, os quaes D. Thereza mandava vender, dando sempre bom preço. + +Ganharam renome os cestos de Rosa. + +Em todas as quintas e casas ricas dos arredores não queriam outros, e +até muitas familias da cidade, que iam passar o verão áquelles sitios, +compravam e procuravam com avidez os cestos d'esta gentil ramalheteira. + +D. Thereza, como mulher que comprehendia os seus interesses, entendeu +que lhe era de mais proveito o empregar Rosa, durante a primavera, a +fazer cestos e ramos, do que na quinta, por isso assim o determinou. +Quando Rosa o soube, saltou d'alegria, por que se dava melhor á sombra +dos pinheiros e carvalhos, do que em casa. + +Passou-se assim o verão, e D. Thereza não teve que se arrepender da sua +resolução. Um certo numero de meias corôas de prata provou o bom +resultado do negocio de cestos e flôres. + +O inverno pareceu triste e monotono a Rosa. Tinha-se habituado de tal +maneira a ir todas as manhãs para a serra, que chegava muitas vezes a +esquecer-se do trabalho, e ir insensivelmente até á baixa d'ella. +Voltava então muito apressada á quinta e redobrava d'actividade, para +fazer esquecer as suas faltas involuntarias. + +Occupou-se a fiar quasi todo o inverno, e o producto do seu trabalho foi +augmentar o pequeno thesouro principiado com a venda dos cestos e +flôres. + +D. Thereza considerava Rosa como sua filha, não podendo estar sem ella +um unico instante, e nos dias de feiras e romarias tinha gosto em que +Rosa apparecesse entre as mais lindas e mais ornadas lavradeiras do +lugar. + +A amisade, que tinha a Rosa, reflectia-se na avó; tratava-a com tal +respeito e affabilidade, que a poderiam tomar por mãi de D. Thereza, +tanto ella a cercava de cuidados e desvelos. + +A felicidade da pobre cega, e bem assim o futuro de Rosa poder-se-iam +julgar seguros; mas como nada n'este mundo é immutavel, o momento, em +que a adversidade ia estender o seu braço de ferro sobre as duas +infelizes, não estava longe. + + +V. + +Voltou a primavera e com ella as encantadoras occupações de Rosa. Foi +com enthusiasmo, que a candida e poetica criança encontrou as flôres, +suas amigas, com que preparou os primeiros ramos, que appareceram no +mercado. + +Os cestinhos e ramos de Rosa obtiveram uma grande extracção, como no +anno anterior. Ia entregal-os pessoalmente nas casas ricas, e muitas +vezes as senhoras morgadas, se julgavam felizes por ter em sua companhia +esta linda criança por algum tempo. + +Rosa, vestida á lavradeira, era muito galante e modesta; o seu metal de +voz era agradavel, e as maneiras tão delicadas, que quasi sempre as +freguezas, ao preço do ramo, juntavam um presentinho para a vendedeira; +mas quando perguntavam a Rosa o que era que mais estimava, respondia +sempre, que o seu maior desejo era possuir um livro para se instruir. + +Rosinha tinha uma paixão ardente pelo estudo; quasi sem mestre tinha +aprendido a lêr correntemente, e a sua maior alegria consistia em obter +um livro para se entregar á leitura. + +D. Thereza pela sua parte tambem não obstava aos desejos de Rosa, tanto +que se lhe não dava que ella faltasse ás suas obrigações; mas devemos +fazer-lhe justiça dizendo que sabia alliar a satisfação dos seus +desejos, com o cumprimento dos seus deveres, por isso só depois de ter +terminado os seus affazeres é que se dava ao estudo. + +Estava Rosinha uma occasião sentada á borda d'um ribeiro, entretida a +colher juncos para fazer um cesto, quando, sem ella o presentir, se lhe +aproximou uma senhora ainda joven. + +--Para que estaes escolhendo esses juncos, minha menina?--lhe disse a +joven senhora com modo affavel. + +Rosa levantou a cabeça, e vendo a desconhecida, saudou-a e respondeu: + +--Faço cestinhos com flôres para vender. + +--Quero então já avaliar a vossa habilidade. Amo muito as flôres, por +isso queria que me fizesses um cestinho já, e se eu ficar contente +has-de-me fazer um todos os dias. Aceitaes? + +--Aceito, sim, minha senhora, e ainda que tenho muitas encommendas a +satisfazer, vou já preparar o vosso. + +--Assento-me aqui ao pé de ti e vamos conversando. Como te chamas? + +--Rosa de Jesus, uma sua criada, minha senhora. + +--Assim, Rosa, o teu trabalho é fazer cestos de flôres para depois os +ires vender? + +--Sim, minha senhora. + +--E teus paes em que se occupam? + +--Já não tenho paes; só me resta minha avó, que é cega. + +--És orphã, e onde moras? + +--Estou em casa da snr.^a D. Thereza de Sousa, proprietaria em S. Cosme, +tão boa, como rica. + +Ha um anno, que eu e minha avó não sabiamos aonde nos haviamos de +recolher; estavamos em Dezembro, e havia dous dias que não tinhamos +comido, quando de repente me lembrei da snr.^a D. Thereza. Eu e minha +avó, que então moravamos na serra de Vallongo, pozemos-nos a caminho +para S. Cosme. O caminho é muito mau, por isso mais d'uma occasião +julguei que minha avó ficava na estrada, porque já não podia andar; mas +o Senhor teve misericordia de nós, e felizmente terminamos a jornada. A +snr.^a D. Thereza tratou-nos com muita bondade, e recolheu-nos em sua +casa, apesar de sermos um encargo muito pesado. + +--Amas então muito a snr.^a D. Thereza? + +--Se a amo. Não queria mais nada, senão poder reconhecer todo o bem, que +nos faz. Não desejo senão crescer e robustecer para lhe poder servir +d'utilidade. + +--Estou muito contente, minha pequena, por te ouvir fallar assim. Quando +te vi senti-me attrahida para ti, e ficaria muito desgostosa se te não +encontrasse com sentimentos dignos da estima que te consagro. + +Parece-me que o meu cesto está acabado? + +--Ainda lhe falta uma cercadura de _não me deixes_. Permitti, senhora, +que eu vá ao proximo ribeiro colher estas flôres, porque alli as ha mais +frescas, e em mais abundancia. + +--Ide, que aqui te espero. + +Rosa partiu correndo. + +D. Julia d'Andrade, que tanto interesse mostrava pela protegida de D. +Thereza, tinha vinte annos. + +O cabello preto muito comprido, e naturalmente encaracolado, fazia-lhe +sobresahir ainda mais a pallidez do rosto. Os olhos castanhos tinham um +brilho de febre. A physionomia demonstrava um padecimento interno, n'uma +palavra, estava affectada d'uma tisica pulmonar. + +Sua mãi, a viscondessa do Candal, receiando pela vida de D. Julia, tinha +consultado os mais acreditados medicos de Lisboa e Porto, e todos tinham +aconselhado os ares do campo, e o não constrangimento, como os meios +mais proficuos para debellar a molestia. A viscondessa tinha portanto +deixado o Porto e ido habitar com suas filhas D. Julia e D. Bertha uma +quinta proximo da serra de Vallongo. + +D. Julia parecia que revivia no meio da luxuosa natureza, que a cercava. +Todos os dias dava grandes passeios, e distrahia-se ou sentando-se á +sombra dos carvalhos e sobreiros, ou embrenhando-se entre as çarças. Ao +principio a viscondessa receiou que estes passeios tão longos +prejudicassem a saude de sua filha, mas vendo-a mais alegre e mais +vigorosa, e que se a pallidez não tinha desapparecido, a expressão +soffredôra do rosto era menos pronunciada, ficou mais socegada e esperou +obter o triumpho sobre a molestia. + +D. Julia era tão boa, e ao mesmo tempo tão prudente, que sua mãi não +temia deixal-a em plena liberdade, e gosar da vida segundo as suas +phantasias. + +A viscondessa queria que D. Bertha acompanhasse sua irmã nos seus +passeios; mas D. Bertha, que era uma joven de 16 annos d'idade, +orgulhosa do seu nascimento e belleza, recusou obstinadamente acompanhar +sua irmã, dando como razão, que lhe repugnava o juntar-se como ella com +esses _estupidos_ e _rudes_ aldeãos, que habitam os campos, e a quem +ella acariciava, e que além d'isso estragava os seus vestidos seguindo +D. Julia pelos caminhos estreitos e escabrosos dos campos e da serra. As +mil vozes da natureza eram mudas para D. Bertha; no seu coração só +imperava o egoismo. + +Num d'estes passeios é que D. Julia encontrou Rosinha, e que ficou +encantada com a sua innocencia. + +Havia muito que D. Julia esperava Rosa, e já receava que ella não +voltasse, quando a viu vir correndo. + +--Perdoai-me, senhora, o ter-vos feito esperar tanto tempo, mas eu fui +muito longe colher as violetas e os _não me deixes_, porque queria que o +meu cestinho vos agradasse.--Assim fallando Rosa apresentou a D. Julia +um cestinho, que era um primor d'arte no gosto, e esperou toda confusa, +a sua apreciação. + +Uma alegre exclamação de D. Julia lhe fez vir o sorriso aos labios. + +--Quero abraçar-te, minha querida menina; ha muito tempo que não vi nada +tão lindo, e como me causaste um grande prazer, quero recompensar-te; +mas deixa-me ainda admirar o teu bello trabalho. + +Este cestinho podia vêr-se. No centro tinha raminhos de violetas com as +folhas verdes, ainda humidas; uma corôa de lirios cercava as violetas, e +em volta uma grinalda de musgo, semeada de raminhos de rosas amarellas e +geranios. Dous ramos de madre-silva serpenteavam por entre os juncos +formando as azas. + +--Não quero--disse D. Julia, depois d'alguns instantes de silencio--que +uma obra tão bella tenha um viver ephemero; vou já bordar um quadro, +cópia d'este cestinho, que ha-de ficar muito rico. Mas, Rosinha, quanto +queres por este trabalho? + +--Dar-me-ha o que quizer, minha senhora, como costumam fazer as outras +minhas freguezas. + +--Mas quanto é que custam ordinariamente? + +--Tres ou quatro vintens. + +--Quatro vintens!--disse D. Julia admirada. + +--Acha caro, minha senhora?--disse Rosa com acanhamento. + +--Caro, não, minha pequena. Quando estava no Porto pagava, por muito +maior preço, ramos que tinham muito menos valor, que o teu cestinho. +Toma, Rosinha, não tenho aqui senão esta meia corôa, mas amanha a esta +hora apparece aqui, e fallaremos... + +--Não posso aceitar o que me dáes, minha senhora, porque é muito. + +--Queres fazer-me zangar? + +--Não, senhora. É a primeira vez que a vejo, mas já a estimo muito. Eu +não preciso de nada; a snr.^a D. Thereza é muito minha amiga e... + +--Não é uma esmola que te dou--replicou D. Julia, mettendo a moeda de +prata na mão de Rosinha--não te esqueças da recommendação, que te fiz, +de estares ámanhã aqui a esta mesma hora. + +E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, já D. Julia tinha +desapparecido, levando na mão o cestinho. + +Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas recomeçou +ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a casa, contou a D. +Thereza o seu encontro de pela manhã, o que lhe tinha acontecido e +perguntou-lhe se devia ou não guardar os cinco tostões. + +--Não te authoriso a pedir, Rosa, mas isso não é uma esmola, é um +presente, que te fazem, podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te. +Já sei. Esse dinheiro vem a proposito para augmentares o teu mealheiro, +com o qual te hei-de comprar um rico jaqué para o S. Miguel. + +--Não, senhora--replicou Rosa com a alegria nos olhos--não é esse o meu +pensamento, e que me causa tanta alegria. + +--Que é então? + +--Rogo-vos que me não façaes perguntas; depois o sabereis. + +--Guarda o teu segredo, porque sei que não és desgovernada, e que o não +has-de gastar mal gasto. + +Rosa abraçou ternamente D. Thereza, e foi entregar as suas encommendas +de flôres e cestos. + + +VI. + +D. Julia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que tinha +determinado. + +A viscondessa, impaciente e sobresaltada com a demora, sahiu, no +caminho, ao encontro de sua filha. + +--Estiveste incommodada, minha filha?--lhe disse ella. + +--Não, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago, é que foi a causa +da minha demora. + +E D. Julia mostrava a sua mãi o cestinho, que Rosa tinha feito. + +--Como é lindo--respondeu a viscondessa--Não sabia Julia, que tinhas a +prenda de fazer cestos de juncos entrançados. + +--Não fui eu que fiz este cestinho, minha mãi. + +--Então quem foi? + +--Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio. + +--Uma lavradeira?! + +--Sim, minha senhora. E acreditareis, minha mãi, que por todo este +trabalho me pediu a grande quantia de quatro vintens? + +--Não te pergunto quanto lhe déste, por que conheço a bondade do teu +coração, e tenho a firme convicção de que não abusaste da sua +simplicidade. + +--Dei-lhe só meia corôa, por que não tinha mais na minha bolsinha. Não +queria recebel-a, ajuizando que lh'a dava como uma esmola; mas tanto fiz +que a aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim +se chama) para nos encontrarmos ámanhã, no mesmo sitio, á mesma hora; e +se ella, como penso, fôr digna da sympathia, que me inspirou, e do +interesse que já me causa, consentir-me-heis, minha boa mãi, que a tome +sob a minha protecção? + +--Consinto em tudo, minha filha, que te dê prazer, e distracção. Se a +tua protegida fôr digna dos nossos beneficios, unir-me-hei comtigo, e +accordaremos no que devemos fazer para seu bem. + +D. Julia abraçou com ternura a viscondessa, e agradeceu-lhe a sua +bondade. + +N'este comenos, a viscondessa e sua filha, chegaram a casa. + +D. Julia collocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o cestinho, e +correu com presteza ao seu quarto a preparar um cavallete, pinceis e +tintas para dar principio ao quadro projectado, e, tendo tudo disposto, +desceu á sala a buscal-o. + +D. Bertha estava examinando o cestinho com attençào e minuciosidade. + +--Não estão tão bem dispostas e combinadas essas flôres, Bertha?--disse +D. Julia. + +--Assim, assim. Não gosto d'estas violetas, que formam o centro do ramo. +Podias ter tido melhor gosto e fazer cousa melhor. + +--Não concordo com a tua opinião. Estou convencida de que Rosa não podia +ter melhor gosto. + +--Rosa? + +--Sim, Rosa. Ah! é verdade; ainda te não contei o encontro, que tive +esta manhã. Ora ouve. + +D. Julia contou a sua irmã minuciosamente toda a conversa, que tivera +com Rosa. + +Quando ella acabou, D. Bertha fez um gesto de desdem. + +--E, sem duvida, Julia, já te affeiçoas-te a essa pequena; não é +assim?--disse D. Bertha. + +--Rosa,--respondeu unicamente D. Julia--tem merecimento bastante, que a +torna digna da protecção, que se lhe dispensar. + +--O que mais me admira e me espanta, Julia, é a rapidez com que +sympathisas com qualquer, e como instantaneamente conheces e decides, +que essa pessoa é digna da tua affeição e amisade... Não quero tomar-te +o tempo; julgo que vinhas buscar o teu lindo cestinho, não é assim? + +--Vinha, sim, para o ir copiar em um quadro, pintando-o. + +--Pintal-o?!--disse D. Bertha, dando uma grande gargalhada.--Que +liguemos alguma attenção ás flôres dos nossos parques e jardins, +concedo; mas que empreguemos o tempo e o talento com as silvestres, que +só tem os perfumes para si, parece-me uma singularidade esquisita. + +--A minha opinião, Bertha, é exactamente o contrario. Mas isso não +admira, por que nós raras vezes estamos accordes sobre qualquer materia. +Ponhamos isso de parte; queres tu vir ámanhã, commigo e com a nossa boa +mãi, vêr Rosa? + +--Não posso. Combinei com a Francisquinha e Ritinha Meirelles virem +amanhã aqui passar o dia. Além d'isso, fallar-te-hei francamente, não ha +nada para mim mais antipathico do que todas essas lavradeiras; e andar +uma legua para me ir achar face a face com um monstrosinho, parece-me um +tanto aborrecivel. + +--Rosa é muito linda e interessante. + +--Para ti, Julia, todas as lavradeiras são lindas e interessantes. Para +mim todas são feias, e broncas. O calor principia a incommodar-me--disse +D. Bertha, sentando-se indolentemente sobre um sophá.--Vai, Julia, vai +pintar o teu lindo cestinho, que eu vou sonhar com o meu Porto, para +onde espero ir muito breve. + +Estas ultimas palavras já mal se perceberam, porque foram acompanhadas +com um bocejo, e D. Bertha cerrou os olhos. + +D. Julia lançou sobre sua irmã um olhar de compaixão e sahiu. + +Alguns instantes depois deu principio ao quadro. + + +VII. + +No dia seguinte Rosa sahiu para a serra, muito cêdo, para adiantar o seu +trabalho, e poder assim dedicar mais tempo á joven senhora, que tão +amavel e generosa tinha sido com ella. + +Trabalhou com tal desembaraço, que, muito antes da hora marcada por D. +Julia, tinha terminado o seu serviço. + +Aproveitou portanto o tempo entregando-se á leitura d'algumas paginas +d'um livro, de que lhe tinham feito presente no dia anterior. Lia com +attenção, e, quando encontrava algum trecho rico e bello, parava, para +exprimir a sua alegria e enthusiasmo. + +Estava Rosa de tal sorte entregue á leitura, que não presentiu a chegada +da viscondessa e de sua filha D. Julia. + +--Que livro estás lendo, com tanta attenção, minha menina--lhe disse a +viscondessa. + +Rosa saudou-a, apresentou-lhe o livro e respondeu: + +--São as _Meditações religiosas_ de Rodrigues de Bastos. + +--E encontras grande prazer na sua leitura? + +--Se encontro, minha senhora. Quando estou sentada á borda d'um regato, +ou debaixo d'um carvalho annoso, lendo n'este livro, parece que a minha +alma se despe de todos os seus envolucros terrenos e mundanos, e se põe +em contacto com Deus, author de todas estas maravilhas da natureza, que +nos cercam, e a quem no fundo do meu coração adoro e venero. + +A viscondessa e sua filha, admiradas do que ouviam a uma pequena do +campo, trocaram entre si um olhar d'intelligencia. + +--E que mais costumas lêr?--perguntou D. Julia. + +--Não tenho muitos livros. Além d'este possuo um cathecismo, uma vida de +santos, de que leio uma pagina cada domingo, e mais uns livrinhos +d'historias bonitas. Esquecia-me dizer-vos, que tambem tenho um livro de +geographia, que me deu o mestre escóla da minha freguezia, mas que não +leio, por que tem muitas palavras, que não entendo. + +--Pelo que me dizes conheço que tens desejos de te instruires. Se te +proporcionassem os meios de o fazeres, serias feliz? + +--Seria, sim, minha senhora; mas infelizmente isso é impossivel, porque, +para ir todos os dias á mestra, é preciso ser muito rica. + +--Mas se te mandassem á mestra?--insistiu D. Julia. + +--Seria muito feliz, mas nem quero pensar n'isso. + +--Pelo contrario; eu e minha mãi, viemos procurar-te para que nos +conduzisses a casa da snr.^a D. Thereza, e, se a tua protectora estiver +satisfeita comtigo, pedir-lhe-hemos para te deixar ir todos os dias á +mestra. Então não respondes? + +--Perdoai-me, senhora. Estou muito contente e alegre, e queria +agradecer-vos, mas não posso. Que fiz eu para merecer tantos beneficios? + +--Mostraste-te reconhecida aos beneficios da snr.^a D. Thereza, e isso +indica um bom coração; és trabalhadeira e tens desejos de te instruires; +mereces portanto que nos interessemos por ti--lhe disse a +viscondessa.--Vamos, ensina-nos o caminho para a quinta da snr.^a D. +Thereza. + +Rosa, commovida, dirigiu-se para a quinta com a viscondessa e sua filha. +Pelo caminho respondeu modestamente, e com graça, a todas as perguntas, +que lhe fizeram, e cada uma das respostas confirmou mais, as duas +senhoras, no bom conceito, que tinham formado de Rosa. + +Quando chegaram á quinta, D. Thereza não estava em casa, mas não devia +tardar muito, por isso esperaram. Rosa apresentou ás duas senhoras +cadeiras para se sentarem e offereceu-lhes um copinho de leite fresco e +morno. + +D. Julia, a quem o caminho tinha fatigado, aceitou o offerecimento. + +Rosa trouxe então uma toalha de linho, alvo como neve, que estendeu +sobre uma mesa, na qual collocou o melhor pão, que havia em casa, +manteiga e um copo de leite. + +D. Julia, com uma alegria infantil, aceitou este _lunch_ frugal, e, +reanimadas com elle as suas forças, pediu para visitar a quinta. + +A avó de Rosa estava sentada no jardim, debaixo d'um caramanchel de +clematites, fiando, e cantando com voz tremula o estribilho d'um romance +antigo. N'esta boa velha, bem vestida e de boa presença, ninguem seria +capaz de reconhecer a pobre cega, que dezoito mezes antes, quasi +morrendo de fome e frio, e podendo apenas suster-se em pé, encontramos +seguindo o caminho da serra de Vallongo para S. Cosme. + +A viscondessa do Candal e sua filha saudaram a pobre cega, e esta, +prevenida pela netinha, correspondeu-lhe respeitosamente. + +--Não vos incommodeis, boa mulher---lhe disse a +viscondessa--permitti-nos sómente que conversemos por um instante +convosco. + +--É muita honra para mim, minha querida senhora;--respondeu a +cega--estou portanto ás vossas ordens. + +--Visto isso não vos recusareis a dizer-me se estaes satisfeita com a +vossa neta? + +--Se estou contente com a minha Rosinha?!--exclamou a cega---com ella, +que é a minha benção sobre a terra. Quando o meu genro morreu, por causa +d'uma ferida, que fez em uma perna com o seu machado, porque elle era +rachador de lenha na serra, e a quem minha filha, mãi de Rosa, seguiu +passado pouco tempo, quasi que enlouqueci, porque não sabia o que havia +de fazer. Rosa, disse-me com a sua voz meiga e humilde: avósinha, eu +conheço uma senhora muito caritativa; vamos a sua casa, que estou certa +nos ha-de recolher. E foi verdade. + +A snr.^a D. Thereza, essa boa e caritativa senhora, para quem peço a +Deus todos os beneficios e bençãos, teve a caridade de recolher em sua +casa uma velha enferma e inutil como eu. Mas isto devo-o a Rosinha, +porque ella sabe dizer as cousas de tal maneira, que, penetrando até o +coração, commovem e decidem á compaixão. Vai em dezoito mezes que aqui +nos achamos. Fio um pouco para não estar em descanço; mas Rosinha, +senhora, Rosinha, cantando sempre, trabalha desde pela manhã até á +noite. Em quanto que dura o verão, occupa-se a colher flôres na serra e +no campo, e a fazer cestinhos com ellas; mas isto não obsta a que, +quando se recolhe, lave a roupa, limpe os moveis, e ajude a cozinhar, e +se quizesse dizer-vos tudo o que ella faz, ou sabe fazer, levar-me-ia +muito tempo. + +Assim, amo muito a minha querida Rosinha. Mas onde estás tu, que te não +chegas a mim para te dar um abraço? + +Rosa, com o pretexto de ir colher um ramo para D. Julia, tinha-se +retirado, quando a avó começára a elogial-a. + +A viscondessa e sua filha ouviram com prazer o panegyrico de Rosa, feito +pela avó, e iam fazer novas perguntas, quando D. Thereza chegou. + +Depois de terminados os comprimentos preliminares, a viscondessa expoz a +D. Thereza como sua filha sympathisára com Rosa, e estava resolvida a +tomal-a sob a sua protecção, se D. Thereza a isso se não oppozesse. + +--Primeiro que tudo--respondeu D. Thereza--desejo a felicidade e +venturas de Rosinha, ainda que me ha-de custar muito a separar-me +d'ella: porém, se fôr sua vontade, não me opponho, por que julgo lhe +procuraes a sua felicidade; mas ponho por condição, que lhe não +prohibireis vir algumas vezes visitar-me. + +--Isso, senhora, é um dever sagrado, que Rosa tem a cumprir. Vamos porém +interrogal-a, por que ella nada sabe do que acabamos de fallar. + +D. Thereza chamou a pequena, que veio correndo, e disse-lhe: + +--Rosinha, queres ir viver com esta senhora e sua filha? + +--Pois vós, senhora--respondeu Rosa tremula e timida--quereis mandar-me +embora? + +--Não. Pergunto sómente se me queres deixar, para te tornares uma menina +da cidade, instruida e de maneiras polidas? + +--Não, minha senhora. Nunca--disse Rosa chorando, lançando-se nos braços +da sua bemfeitora--nunca vos deixarei. Tenho muitos e muitos desejos de +me instruir e de aprender, mas, se para isso é necessario o deixar-vos, +antes quero ficar ignorante toda a minha vida. Recolheste-nos, senhora, +quando eu e a minha querida avósinha, estavamos quasi a morrer de fome, +e havia de ser tão ingrata, que, quando principio a servir d'alguma +utilidade, vos abandonasse? Não, senhora, nunca, nunca vos deixarei. + +--Ouvistel-a, minhas senhoras--disse D. Thereza enxugando os olhos, +razos de lagrimas. + +--Pelo que vejo, Rosa, estás bem decidida a não vir comnosco?--lhe disse +a viscondessa. + +--Seria feliz e muito feliz, minha senhora, se podesse ir viver na sua +companhia, e de sua estimavel filha; mas antes de vós, está a snr.^a D. +Thereza, que salvou a minha pobre avósinha d'estender a mão á caridade +publica e que sempre tão minha amiga tem sido. Perdoai-me, senhora, se +assim fallo... + +--Dá-me um abraço, minha menina--lhe disse a viscondessa +interrompendo-a--dá-me um abraço, porque te mostraste tal, como eu +desejava, boa, humilde e reconhecida aos beneficios, que te fazem. + +Não tenhas receio, que te separemos da snr.^a D. Thereza. Pediremos +sómente á tua bemfeitora, que nos deixe entrar com metade nos +beneficios, que te prodigalisa. + +--E eu, Rosa--acrescentou D. Julia--quero ser a tua preceptora. Quando o +tempo estiver bom, dar-te-hei as lições na serra, á sombra d'um +sobreiro, ou d'um pinheiro, ou á borda d'um regato; e quando estiver +mau, dar-tas-hei em minha casa, porque ouso esperar, que a snr.^a D. +Thereza me não negará este favor, e prazer. + +--Oh não, minha senhora, esteja certa d'isso. Logo que termine o seu +serviço dos cestinhos fica livre para vos ir procurar. + +--É objecto convencionado--disse a viscondessa--por isso a snr.^a D. +Thereza ha-de-me permittir licença de offerecer a Rosa, para si e sua +avó, o que contém esta pequena bolsa. É para comprar em nosso nome um +vestido novo. + +E como D. Thereza, Rosa e a avó lhe fizessem muitos agradecimentos, a +viscondessa impoz-lhes com brandura silencio, e retirou-se, promettendo +voltar muito breve á quinta. + +D. Julia abraçou a sua pequena discipula, e retirou-se dizendo-lhe «até +ámanhã». + +Nas proximidades de casa a viscondessa e sua filha encontraram D. +Bertha, que estava esperando pelas meninas Meirelles. + +--Meu Deus, como estou aborrecida--lhes disse ella. + +--Pois eu, minha irmã--respondeu D. Julia--venho muito alegre; o +espectaculo, que acabo de gosar, dar-me-ha felicidade não só para hoje, +mas tambem para muito tempo, porque será contado no numero das minhas +mais gratas e queridas recordações. + + +VIII. + +D. Julia, na fórma convencionada, principiou no seguinte dia o curso, +que queria fazer seguir a Rosa. Tomou com ardor a obrigação, que se +tinha imposto desempenhar, mas o seu zelo não excedia, o que mostrava a +sua alumna. Intelligente, e anciosa por aprender, Rosa era incansavel, e +muitas vezes foi preciso que D. Julia moderasse a sua applicação; as +lições tinham lugar umas vezes na serra, outras vezes em casa da +viscondessa. + +Decorreram assim tres mezes. No fim d'este tempo, os progressos, que +Rosa tinha feito, eram espantosos, e como tanto a professora, como a +discipula não afrouxavam no seu zelo, era d'esperar que, no fim dos dous +mezes que D. Julia ainda tinha a passar no campo, Rosa estivesse +bastante desenvolvida para continuar, sem nada esquecer, a estudar +sósinha, durante o inverno. + +Mas, quando menos se esperava, a terrivel molestia, que parecia ter +deixado D. Julia, reappareceu com uma intensidade violenta. + +A pobre menina não teve forças para resistir a este ataque, e não podia +sahir do quarto. + +Rosa, que no auge da sua desesperação, com risco da propria vida, +quereria dar algumas forças á amiga do seu coração, podia a custo conter +as lagrimas, contemplando-a, pallida e cadaverica, recostada n'uma +cadeira de braços, forcejando por se levantar sem auxilio, para não +aterrar a sua querida mãi e a sua discipula predilecta. + +N'este momento Rosa tinha um unico pensamento; o de sacrificar-se por +aquella, que tanto a amava e lhe queria. Os mais pequenos desejos, e os +mais vagos caprichos eram adivinhados de Rosa, e executados antes mesmo +que D. Julia os tivesse enunciado. Se queria descer ao jardim, o braço +de Rosa é que a amparava; se queria ouvir alguma passagem dos seus +livros favoritos, Rosa lia-lh'a immediatamente. + +D. Julia, muito sensibilisada por tanta dedicação, affligia-se com a +lembrança, de que o progresso da sua discipula estava parado. D. Bertha +podia substituil-a, mas essa nunca consentiria em ser a preceptôra d'uma +lavradeira. A viscondessa resolveu-se a dar as lições a Rosa, para +socegar a inquietação de D. Julia. + +Havia já tres semanas que D. Julia estava doente, e cada dia ia a peor; +sua mãi já não tinha esperanças algumas. Tres medicos, que do Porto +haviam sido chamados, não deram esperanças da doente melhorar. + +A viscondessa, porém, não podendo convencer-se de que sua filha estava +irremediavelmente perdida, cria que os medicos se tinham enganado, e +resolveu recolher ao Porto, para lhe fazer uma nova junta. + +D. Bertha, contristada ao principio com a molestia de sua irmã, +consolava-se com a idéa de voltar ao seio da sociedade, que ella tanto +amava. + +Só á força de muitas instancias e esforços é que D. Julia consentiu em +deixar o campo; mas, ainda assim, com a expressa condição de para lá +voltar se peorasse. + +Quando Rosa soube que a viscondessa se ia retirar do campo, não pôde +conter a sua desesperação. Queria acompanhar D. Julia, e não a +desamparar um só instante. D. Julia procurava socegal-a, mas tudo era +baldado, por que Rosa estava inconsolavel. + +Na vespera da partida Rosa veio despedir-se de D. Julia; lançou-se-lhe +aos pés, chorando, e pediu-lhe que lhe escrevesse muitas e muitas vezes. +A doente assim lh'o prometteu, e, tirando debaixo do travesseiro uma +bolsinha de sêda, apresentou-a a Rosa. + +--Aceita, minha menina--lhe disse ella--esta bolsa; contem cem mil reis, +que são as minhas economias do verão; põe a juros este dinheiro, para +que se augmente este capitalsinho. + +É um presente muito pequeno; mas se nos não tornarmos a vêr, minha boa +mãi, dar-te-ha, em meu nome, mais alguma cousa. + +Rosa beijou as mãos de D. Julia, e queria recusar a bolsa. + +--Não recuses, Rosa--tornou D. Julia--senão fôr para ti, é para tua avó. +Sabes lá o que tem para vos acontecer, e se esta pequena somma ainda vos +será util? Adeus, Rosinha; ama-me sempre muito, e reza muito ao Senhor, +para que me dê saude. + +Rosa quiz responder, mas as lagrimas e soluços embargaram-lhe a voz. A +viscondessa, testemunha d'esta scena tão tocante, temendo as funestas +consequencias, que sua filha soffreria com tão grande commoção, levantou +Rosa, e pediu-lhe com instancia e por favor que se retirasse. A pobre +menina cedeu a custo, mas antes de se retirar ainda pôde vêr D. Julia, +que, com um olhar maternal, a abençoava. + + +IX. + +Já tinha decorrido mais d'um mez, desde que D. Julia recolhera ao Porto, +e Rosa ainda não tinha recebido carta da sua amiga. A pobre criança +affligia-se, julgando, que este silencio, para com ella, não tinha outra +causa, senão o estado cada vez mais perigoso de D. Julia. D. Thereza, +que partilhava do pesar de sua filha adoptiva, procurava por todos os +meios consolal-a, e fazer-lhe conceber esperanças. Uma carta de D. Julia +veio confirmar as prevenções de D. Thereza. + +D. Julia, com mão tremula, escreveu á sua querida discipula. +Participava-lhe que a sua doença parecia estar um pouco mais debellada, +e que os medicos davam algumas esperanças de a poder subjugar, e +embargar-lhe o seu progresso. + +Terminava a carta aconselhando Rosa a que não descurasse os seus +estudos, e pedindo-lhe que lhe escrevesse. + +Rosa cobriu de mil beijos esta carta, e no mesmo dia respondeu a D. +Julia, assegurando-lhe que não despresaria os seus conselhos, e que +tinha esperanças, de, para a primavera, renovar as suas lições sob as +arvores da serra; que nas suas orações rogava todos os dias a Deus, com +fervor, que lhe restituisse a saude, e que esperava as suas supplicas +fossem attendidas. + +Rosa, cumprido este dever sagrado, lançou mão do seu trabalho com mais +vigor. + +Estava proximo o dia natalicio de D. Thereza. Rosa preparava em segredo +um lindo presente para offerecer n'aquelle dia á sua bemfeitora, e para +isso tinha reunido todo o dinheiro, que lhe tinham dado de mimo, e +julgava-se bastante rica para poder apresentar a D. Thereza um brinde, +de que ella admirasse o valor e o gosto. + +Faltavam só quatro dias para que, esse dia tão anciosamente esperado, +chegasse, e Rosa ainda queria poder supprimir o tempo, tão longo lhe +parecia. + +Na vespera de manhã D. Thereza queixou-se d'uma dôr de cabeça, mas +julgou que um passeio lh'a dissiparia. Sahiu pois; mas passado uma hora +voltou ainda mais indisposta, do que tinha sahido. + +Despresando o seu estado, ainda presidiu, na fórma costumada, ao jantar +dos criados da quinta; mas, no meio d'elle, cahiu sem sentidos. + +Os criados, assustados, cercaram D. Thereza. Recolheram-na á cama, e +partiu immediatamente um criado a chamar, a toda a pressa, um cirurgião. + +Chegou este, e, mal viu a doente, não deu esperanças de a salvar. + +--Foi uma apoplexia fulminante--disse elle--é já tarde para se lhe dar +remedio. + +O desespero e a consternação espalharam-se na quinta. + +Os criados em geral estimavam muito D. Thereza, por que, apesar de ser +muito vigilante, era boa e justa. + +Os menores movimentos do cirurgião eram seguidos com anciedade por todos +os criados, mas entre elles tornava-se saliente Rosa pelo zelo e +actividade, que desenvolvia em executar as prescripções do cirurgião, +ainda bem não estavam dadas. + +Rosa não podia crêr que Deus lhe quizesse roubar a sua bemfeitora, e +esperava ainda que uma crise feliz a restituiria á vida. + +A avó de Rosa estava consternadissima, e o seu maior pesar consistia em +não poder fazer cousa alguma. + +De joelhos; junto do leito de D. Thereza, rezava com fervor e devoção. + +Entre as alternativas da esperança e desconforto se passou o dia. Á +noite o cirurgião declarou que já lhe não restava esperança alguma; que +D. Thereza ainda podia viver mais um dia ou dous, mas que não proferiria +mais uma palavra, nem faria um unico movimento. + +Descrever a afflicção de Rosa e de sua avó é-me impossivel; bastará +dizer que a dôr as tinha quasi enlouquecido. + +D. Thereza não tinha filhos, por isso foram avisar do succedido a D. +Euzebia, sua irmã, rica proprietaria em Rio Tinto. + +D. Euzebia, por causa do seu genio forte, e caracter duro, não estava em +intimas relações com D. Thereza. Assim que teve noticia da doença de sua +irmã poz-se logo a caminho, não por amisade que tivesse á moribunda, mas +sim para vigiar que lhe não roubassem a mais pequena parte da sua +herança. + +Logo que D. Euzebia chegou a S. Cosme, tomou o governo da casa, e deu +ordens como se já estivesse senhora da herança. Rosa e sua avó +inspiraram-lhe antipathia, e não podia comprehender como sua irmã +voluntariamente tinha tomado ao seu cuidado aquellas duas pessoas. + +D. Thereza ainda viveu dous dias, conforme o cirurgião dissera, mas sem +falla, e sem movimento, porque a apoplexia tinha-lhe paralysado todas as +faculdades. Só os olhos é que conservavam ainda alguns signaes de vida e +intelligencia, os quaes fixava sobre Rosa, fazendo esforços para fallar, +naturalmente para fazer o seu testamento; mas este ultimo consolo dos +moribundos não lhe foi permittido. + +O abbade da freguezia, que veio administrar os ultimos sacramentos á +moribunda, tentou mitigar a dôr de Rosa, mas a joven menina estava muito +consternada para poder ser consolada. Recusou obstinadamente retirar-se +de junto do leito, em que jazia D. Thereza, conservando-lhe a mão gelada +apertada nas suas. + +--O meu lugar é este,--dizia ella entre soluços,--só deixarei minha +segunda mãe no tumulo. + +Finalmente chegou o terrivel momento da morte. Uma convulsão, alguns +murmurios sufocados........ e D. Thereza tinha deixado d'existir entre +os vivos, e sua alma, desprendendo-se das ligações terrenas, voára ao +céo a receber da mão de Deus o premio das suas virtudes. + +Ao principio não se ouviam mais que os chóros de todos os criados da +quinta, mas em seguida uma voz forte e imperiosa se fez escutar. Era a +de D. Euzebia. Collocou uma pessoa junto do cadaver de sua irmã, deu as +ordens para os funeraes, e passou a inspeccionar as caixas e commodas, +que fechava com cuidado, guardando as chaves. + + +X + +Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz eleito +da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que pertencia a D. +Thereza. + +--Aqui estão as chaves, senhor juiz eleito--disse D. Euzebia,--mas é +inutil esse trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irmã, e +ella não podia desherdar-me. + +--É verdade, minha senhora,--respondeu o juiz--mas cumpro o meu dever, +por que a lei protege os direitos de todos. + +--Só eu é que tenho direito á fortuna de minha irmã, pois ella não tem +filhos. + +--Sim, minha senhora, mas esta orphãsinha, a quem ella deu asylo? + +--Minha irmã--replicou com colera D. Euzebia--seria por ventura capaz de +me desherdar, testando os seus bens a favor d'estas duas mendigas, que +ella teve a phantasia de recolher em sua casa? + +--Não o affirmo, minha senhora--respondeu com brandura o juiz;--mas sua +irmã póde ter feito testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua +estima e amisade. + +--Não julgaria sufficiente o sustental-a e mais á avó,--disse D. Euzebia +com voz forte--ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas +velhacas, virieis vós roubar o que de direito me pertence? Snr. juiz +eleito, queira tambem sellar a porta do quarto d'ella, pois quem sabe +lá, o que ella tem roubado. Minha irmã era tão pouco cautellosa... + +--Oh! senhora--respondeu Rosa com muita tristeza a esta supposição +offensiva--acreditaes que pagasse com o roubo os beneficios, que eu e +minha avó recebemos da snr.^a D. Thereza? + +O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para que D. +Euzebia não continuasse, diante d'um leito de morte, com uma discussão +tão vergonhosa, e feia. + +Logo que o juiz se retirou, Rosa viu-se de novo a braços com as +suspeitas da ambiciosa herdeira. Chegaram a tal ponto as cousas, que +Rosa não pôde refrear a sua indignação. + +--Não me injurieis, senhora,--disse Rosa com energia e dignidade--não me +injurieis diante do corpo de vossa irmã, de quem só a vista bastaria +para me proteger. Dizei-me, senhora, sahi eu por ventura um só instante +de junto da cama da minha bemfeitora, desde que ella foi atacada pela +apoplexia? Não, senhora. Então como podia eu subtrahir cousa alguma? +Examinai, e examinai bem, senhora, que achareis tudo intacto, porque eu +e minha avó preferiamos antes morrer de fome, do que tocar na cousa mais +insignificante, que nos não pertencesse. Louvado seja o Senhor, sou +forte; posso e quero trabalhar, por isso não serei pesada a ninguem. +Deixai-nos, senhora, chorar em paz a perda da nossa bemfeitora, que, +logo que o seu corpo saia d'esta casa, não vos pediremos asylo. + +Esta linguagem, firme e digna, impoz silencio a D. Euzebia, que ficou +corrida de vergonha. + +Rosa esperou com socego o dia seguinte, em que se devia fazer o enterro +a D. Thereza. + +A pobre criança, com a avó pelo braço, seguiu chorando o prestito. +Depois de terminado o officio, Rosa e sua avó, ajoelharam-se junto da +campa, em que D. Thereza foi sepultada: era já noite cerrada, e ainda as +duas desgraçadas não cuidavam em se retirar. + +O frio, que fez dar um gemido á avó, advertiu Rosa de que se devia +recolher; só então é que pensou para onde havia de ir. + +--Vamos, minha avósinha--disse Rosa--a casa da snr.^a Maria da Gandra, +que estou certa, sendo tão nossa amiga, nos não ha-de deixar na estrada. + +A snr.^a Maria da Gandra era uma boa e caridosa mulher, que, como todos +os moradores de S. Cosme, e seus arredores, estimava muito a protegida +de D. Thereza, e censurára o procedimento de D. Euzebia. + +--Oh! Rosinha, foi Deus que te dirigiu para minha casa--lhe disse ella +logo que a avistou.--Que prazer me não causa teres procurado a minha +casa para te recolheres. Tinham-me dito, que ias para casa da Joanna da +Quintella, por isso é que te não offereci para vires para aqui com tua +avó. + +--Agradeço-vos, senhora--disse Rosa--a vossa bondade, e a caridade com +que vos offereceis para nos recolherdes; mas não venho pedir-vos casa e +sustento de graça, porque tenho duas inscripções de cem mil reis cada +uma; o que vos rogo é que me aboneis tudo o que eu precisar e minha avó, +que vos satisfarei logo que termine a liquidação da herança da snr.^a D. +Thereza, e receba as minhas inscripções. + +--Sim, sim, minha menina,--lhe respondeu a snr.^a Maria da Gandra--Não +preciso do teu dinheiro para te sustentar e a tua avó. Mas diz-me, como +obtiveste essas inscripções? + +--A snr.^a D. Julia, antes de partir para o Porto, deu-me cem mil reis, +com os quaes a snr.^a D. Thereza, em cumprimento do seu desejo, comprou +duas inscripções em meu nome. + +--Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas em teu nome, porque +d'outra maneira D. Euzebia tomaria posse d'ellas. Tem resignação, assim +como vós, minha boa velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir +ao vosso quarto. + +Rosa e sua avó ficaram portanto habitando na Gandra. + +A pequena não estava ociosa, antes pelo contrario era tão zelosa e +trabalhadeira, que a snr.^a Maria, muito satisfeita, propoz-lhe que ella +e a avó, ficassem para sempre em sua casa. Rosa aceitou promptamente, e +com reconhecimento, pois n'aquella occasião era a maior felicidade, que +lhe podia apparecer. + +No dia em que se deviam tirar os sellos em casa da defunta D. Thereza, +Rosa alli compareceu por convite do juiz eleito. + +Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da casa, que +tinha sido para ella tão hospitaleira, o coração comprimiu-se-lhe e não +pôde reter as lagrimas. + +Tudo se passou sem novidade; só de quando em quando D. Euzebia mostrava +por gestos e exclamações o seu desapontamento por encontrar menos +dinheiro, do que imaginava. + +Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, não foi uma exclamação de +surpreza, que D. Euzebia soltou, mas sim de raiva, na qual se divisava +um accento de triumpho. + +--Bem certa estava eu,--disse ella--que esta velhaca havia de ter +_empalmado_ alguma cousa. Ah! se eu não viesse logo... o que teria +acontecido. Examinai, senhor escrivão, o que é que ahi existe. + +O escrivão tirou da caixa um magnifico vestido, que, a julgar pelo +tamanho, não pertencia de certo a Rosa. + +--Dize velhaca,--tornou D. Euzebia--como é que este vestido veio aqui +parar?--Não preciso perguntal-o, porque a culpada está-se denunciando +pelo rubôr, que lhe cobre as faces. + +--Senhora D. Euzebia--disse o juiz--o seu proceder para com esta criança +é digno de censura. Ainda, até agora, não encontramos cousa alguma, que +fizesse, nem ao menos, suspeitar de sua probidade. Deixai-a portanto +dar-me as explicações, que tiver a fazer. + +Responde Rosinha,--disse o juiz com modo affavel--como é que este +vestido se acha na tua caixa? + +Rosa fez-se muito corada e respondeu: + +--Este vestido, senhor, foi comprado com as minhas economias. + +--Que é; que é?--interrompeu D. Euzebia. + +--Senhora--disse severamente o juiz--ordeno que vos caleis. + +--É bem publico e sabido, que eu, durante o verão, fazia cestinhos de +flôres, que ia vender ás casas abastadas dos arredores. + +Quasi sempre me davam, como presente, mais do que o custo dos cestos: +entregava-me a snr.^a D. Thereza, para guardar no meu mealheiro, estas +pequenas quantias, que reservei com muito cuidado para poder brindar a +snr.^a D. Thereza no seu dia natalicio. + +Estava muito indecisa, por não saber o que lhe devia offerecer, e foi a +minha avó, que me suggeriu a idéa de lhe comprar um vestido. Para levar +a effeito este meu desejo combinei em segredo, com a costureira da +snr.^a D. Thereza, para o fazer, e estou muito certa de que a minha +bemfeitora não despresaria a minha offerta, se tivesse a felicidade de +lh'a apresentar. + +Esta explicação, simples e clara, que demonstrava um coração sincero e +grato, fez borbulhar as lagrimas nos olhos de todos os circumstantes. +Devemos comtudo excluir d'este numero D. Euzebia, que presistia em negar +a verdade. + +Quando se encontraram as duas inscripções, D. Euzebia chegou ao auge do +desespero e da colera, e de boa vontade as inutilisaria, se lhe fosse +possivel obtel-as á mão; mas, felizmente para Rosinha, não pôde +conseguil-o. + +Finalmente, pelos cuidados e protecção do juiz eleito, Rosa e sua avó, +apesar de todos os obstaculos e vontade de D. Euzebia, receberam tudo o +que lhes pertencia, e deixaram sem maior desgosto a casa, de que a mais +cruel e mais requintada avareza as expulsava. + + +XI. + +Estamos no anno seguinte. + +Rosa escreveu á viscondessa do Candal e a sua filha uma carta tão +affectuosa e consoladora, que fez despertar em D. Julia um vehemente +desejo de tornar a vêr a sua querida discipula e protegida. + +Os dias, que faltavam para Rosa poder abraçar a sua amiga, pareciam-lhe +seculos. Esperava com uma impaciencia impossivel de descrever, a chegada +da primavera, porque então é que devia, e podia estreitar ao coração a +sua querida amiga e preceptora. + +Raiou finalmente o dia tão anciosamente almejado. A primeira pessoa que +D. Julia avistou foi Rosa, que, louca d'alegria, viera esperar a sua +amiga querida, para lhe apresentar um cestinho, igual ao que tinha +estabelecido e sido causa das relações e intima união, que existia entre +ellas. + +D. Julia ao vêl-a deu um grito, e quiz immediatamente descer do coupé; +mas não pôde fazel-o, por que estava tão magra, fraca e desfigurada que, +quem a via, só a um milagre podia attribuir a sua existencia. Era na +verdade um milagre, devido ao amor maternal, e continuos cuidados e +desvelos, de que a cercava a viscondessa. + +Rosa passou todo o dia na companhia da sua querida amiga e protectora. +D. Julia tinha muito que lhe perguntar, por que queria saber +minuciosamente tudo o que tinha acontecido, desde que ella se tinha +retirado para o Porto. + +Apenas teve conhecimento da morte de D. Thereza, D. Julia pediu +immediatamente a sua mãi, que recebesse em sua casa Rosa e sua avó. + +A viscondessa, que desejava e queria satisfazer o mais pequeno desejo, +ou pedido de sua filha predilecta, accedeu sem demora. + +Rosa e sua avó vieram portanto morar para casa da viscondessa do Candal, +que foi pessoalmente dar parte d'esta sua resolução á snr.^a Maria da +Gandra. + +--Estou satisfeitissima, minha senhora--disse a snr.^a Maria da +Gandra--pela felicidade de Rosa; mas ao mesmo tempo sinto um grande +pesar, e é com difficuldade que me separo d'ella. Nunca mais encontrarei +uma pequena, que seja tão humilde e trabalhadeira. + +A viscondessa em seguida quiz satisfazer á snr.^a Maria da Gandra toda a +despeza, que Rosa e sua avó tinham feito em sua casa; mas a honrada e +digna aldeã não quiz aceitar a mais pequena e insignificante recompensa, +e respondeu--Que Rosa havia ganho o que ella e sua avó tinham +despendido. + +A despedida de Rosa e da snr.^a Maria da Gandra foi pathetica, e só a +muito custo se desprenderam, chorando, dos braços uma da outra, +promettendo Rosa vir visital-a a miudo, por que o carinho, com que a +snr.^a Maria a tinha tratado havia sido tal, que seria uma ingrata se +lhe não tributasse um profundo reconhecimento. + +A alegria, que se apoderou da pobre cega, quando lhe disseram que ia +viver em casa da viscondessa do Candal, foi tal, que só acreditou depois +de muito lh'o asseverarem, por que lhe parecia impossivel que semelhante +ventura lhe succedesse. + +--Que a minha Rosinha--disse ella--algum dia se havia de tornar senhora +da cidade, sempre eu o julguei, por que era muito gentil e linda para +ser camponeza; mas que eu partilhasse tal ventura, nunca o imaginei. + +Rosa e sua avó foram alojadas, em casa da viscondessa, em dous quartos, +muito perto d'aquelle em que habitava D. Julia; que assim o tinha +exigido para ter a sua protegida junto d'ella, o que se executou com +muita censura e reparo de D. Bertha. + +--Era só o que faltava--dizia um dia, a orgulhosa D. Bertha, a D. +Francisca de Meirelles, sua amiga--trazer para nossa casa estas duas +mendigas. Podes tu, minha querida, explicar-me como é que Julia pôde +affeiçoar-se tanto a estas duas creaturas? + +--Tua irmã, Bertha, tem o coração muito sensivel; basta que lhe façam +uma choradeira, ou que lhe contem uma historia triste para acreditar em +tudo, e logo se affeiçoar a qualquer, e lhe dedicar carinho é protecção. + +--Mas na verdade, esta sociedade não é tão agradavel e +attrahente?--disse D. Bertha com um sorriso ironico.--Se a cega e a neta +contam commigo para lhes fazer companhia, affirmo-te que lhes hei-de +deixar muito tempo para se aborrecerem. + +Conforme com estas _bellas_ resoluções D. Bertha evitava o mais possivel +dirigir a palavra a Rosa e sua avó, e, quando por necessidade o fazia, +era com um modo tão sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as duas +infelizes ficavam confusas e envergonhadas. + +D. Julia tentou por diversas vezes fazer nascer no coração de D. Bertha +sentimentos mais nobres e mais christãos, mas infructuosamente, por que, +procurar commover e sensibilisar o coração empedernido e orgulhoso de D. +Bertha, era um trabalho improbo e esteril. + +D. Julia, feliz por ter em sua companhia a querida de seu coração, a sua +discipula, recuperou algum vigor, e ainda pôde recomeçar as lições. A +fadiga, que d'este trabalho lhe podia provir, era attenuada pela +attenção e estudo, que Rosa prestava ás prelecções. + +D. Julia ainda quiz ensinar desenho a Rosa. + +--Queres dar a Rosa--disse uma occasião a viscondessa a sua filha--uma +educação e instrucção superiores á sua posição na sociedade, e não +receias que isso para o futuro lhe cause embaraços e dissabores? + +--Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida mãi, a bondade de +ouvir o que a minha protegida me dizia outro dia: + +«O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra, é alcançar bastante +instrucção e saber, para um dia ser professora. Como me julgaria feliz +podendo dizer ás minhas discipulas: era uma aldeã muito ignorante e +rustica; uma boa menina, a snr.^a D. Julia, filha da snr.^a viscondessa +do Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua protecção e de me +ensinar. É a ella, meninas, a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se +me amaes, deveis igualmente amar a snr.^a D. Julia, minha bemfeitora; e +então ellas vos renderão graças, assim como eu vol-as rendo agora.» + +--Não te torno a dizer mais nada--disse a viscondessa--Continua, minha +filha, pois Rosa é digna dos teus cuidados e desvelos, e para que elles +se tornem mais proficuos ajudar-te-hei a leccional-a. + +A viscondessa cumpriu a sua promessa e, alternadamente com D. Julia, +dava as lições a Rosa. + +Estes estudos não fizeram pôr de parte a preparação de Rosa para receber +dignamente a primeira communhão. Foi com uma piedade exemplar que ella +cumpriu este solemne acto, e o futuro provou não ter sido esteril para o +seu coração. + +D. Julia passou o verão entre as alternativas de melhoras e recahidas +nos seus padecimentos, que tinham uma successão quasi regular e +periodica. Umas vezes nem levantar-se da cama, ou d'uma cadeira de +braços, para onde a levavam, lhe era possivel; outras vezes chegava a +poder dar uns pequenos passeios pelos campos das visinhanças. Aos +proprios medicos custava a comprehender como ella vivia. + +D. Julia, porém, não se illudia sobre o seu estado de saude. Quando sua +mãi a entretinha fazendo projectos, ou, como ordinariamente se diz, +_castellos no ar_, para o futuro, ella sorria-se e respondia: que ainda +faltava muito tempo para a sua realisação, e que não chegava a vêl-os +confirmar. + +A sós com Rosa D. Julia fallava livremente sobre a proxima terminação da +sua existencia, e então ella supplicava-lhe com instancia, que +repellisse da sua imaginação tão sinistras idéas. + +--Não posso crêr,--dizia ella--que Deus nosso Senhor me queira tirar +d'este mundo todos os meus protectores: não sei que crime tenha +commettido, que mereça semelhante castigo. + +--Resta-te ainda minha mãi, minha Rosinha--respondia D. Julia--que estou +certa nunca te ha-de desamparar. + +Rosa terminava esta penosa conversação abraçando D. Julia e procurando +distrahil-a por todos os meios possiveis. + +O que a dedicação mais sincera e real póde suggerir de mais bello, tudo +Rosa executava, recebendo, por galardão, ou recompensa a mais grata, um +terno sorriso de D. Julia, ou um agradecimento da viscondessa, e para os +merecer faria o impossivel se necessario fosse. + + +XII. + +D. Julia apparentava exteriormente um socego d'espirito, que +interiormente não sentia, por que receiava muito a chegada do outono, +época, que os medicos tinham marcado, a mais longa a que poderia chegar. +A anciedade, pois, que todos soffriam pela aproximação d'esse termo +fatal, era geral. + +Chegou o outono. Por um d'estes phenomenos, que a tisica muitas vezes +apresenta, a molestia não offereceu n'esta estação alteração alguma. + +A esperança, de que D. Julia ainda poderia vencer a fatal doença, +começou a penetrar em todos os corações, e até no da propria enferma. +Rosa chegou a dizer á viscondessa, que tinha uma convicção firme de que +D. Julia não morreria, por que Deus Nosso Senhor era bom e não a havia +de privar da sua protectora. + +A viscondessa, que até ahi estava convencidissima, de que sua filha não +passaria além do termo marcado pelos medicos, vendo-o passar sem que a +sua fatal predicção se realisasse, começou a crêr que se tinham +enganado, e que D. Julia ainda lograria saude. + +Houve portanto grande alegria em casa da viscondessa. Todos os criados, +que não amavam só, mas que veneravam D. Julia, por que era sempre boa e +affectuosa para elles, crendo que a sua joven ama, não tendo morrido na +época marcada, estava salva, pediram unanimemente para a felicitarem; +tal foi a alegria e contentamento, de que se apoderaram com esta +esperança e crença. + +Estas demonstrações respeitosas de sympathia e amisade, que os criados +lhe deram, penhoraram e commoveram muito D. Julia. A todos agradeceu com +reconhecimento esta nova prova d'affecto. + +Porém, de todas as felicitações, a da sua discipula e de sua avó, foi a +que mais a impressionou. + +Quando Rosa, conduzindo sua cega avó, se ajoelhou com ella junto da cama +de D. Julia, e lhe exprimiu, com candura e ingenuidade, a alegria e +prazer, que sentiam pelas suas melhoras, e os votos, que faziam a Deus, +para que o seu restabelecimento fosse real e breve, não pôde soffrear a +sua commoção, e as lagrimas correram-lhe em fio pelas faces, agradecendo +a Deus o prazer que tinha gosado com a felicitação que acabava de lhe +ser dirigida. + +Passou-se o inverno, sem que o estado de saude de D. Julia soffresse +alteração sensivel. + +Com a chegada da primavera D. Julia recomeçou os seus passeios pelos +campos e pinheiraes visinhos, na companhia da sua inseparavel Rosa, a +que algumas vezes se aggregava tambem a viscondessa. + +Na quaresma seguinte Rosa recebeu pela segunda vez o sacramento da +communhão, e pouco tempo depois, D. Julia, querendo que a sua protegida +progredisse nos seus estudos, pediu a sua mãi que lhe escolhesse uma +professora. + +A viscondessa annuiu immediatamente ao pedido de sua filha. + +Pouco tempo depois entrou para casa da viscondessa, sob recommendação e +abono do abbade de S. Cosme, uma joven senhora, a quem ha pouco acabava +de ser concedido o titulo de capacidade. + +Rosa esforçava-se por todos os meios possiveis para corresponder +dignamente aos beneficios, que, D. Julia e sua mãi, lhe estavam +constantemente prodigalisando; procurando sempre não dar o mais leve +desgosto ás suas protectoras; comtudo, é preciso dizer que Rosa não era +perfeita. A sua vivacidade natural levava-a muitas vezes a +impacientar-se, e o seu ainda pouco peso ou juizo a commetter algumas +faltas nos seus deveres; mas reconhecia com tanta facilidade os seus +erros, e mostrava-se tão arrependida e desejosa de os emendar, com tanto +afinco e perseverança, que era impossivel tratal-a com rigor por muito +tempo. + +Rosa dava as suas lições, umas vezes no quarto de D. Julia, quando o seu +estado de saude o permittia; outras vezes no da viscondessa, que sentia +um verdadeiro e sincero prazer em observar os progressos da predilecta e +querida de sua filha. + +D. Maria d'Almeida, assim se chamava a professora, correspondeu +dignamente á confiança, que a viscondessa n'ella tinha depositado, +confiando-lhe a instrucção da sua pupilla. + +O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua direcção experimentou, +foi grande, dando já signaes de que em breve a discipula se tornaria uma +excellente professora. + +Rosa, assim que as suas obrigações e deveres estavam terminados, +dedicava-se exclusivamente a D. Julia, e sua avó. Esta, desde que viera +viver para casa da viscondessa do Candal, andava alegre e folgazã, e +ainda julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu +viver. + +Tinha já decorrido parte do anno; o outono estava quasi findo, e o +estado de saude de D. Julia não denunciava signal algum de peoramento; a +molestia, porém, que até então estivera encubada, reappareceu com grande +violencia, e em oito dias as crises succederam-se tão proximas umas das +outras, que pozeram a enferma em estado de se não conceber esperança +alguma de a salvar. + +A illusão, que até ahi existira em todos, desappareceu completamente: já +não esperavam senão o golpe final... Rosa, nem um só momento desamparava +a sua querida protectora, e juntamente com a viscondessa, cuidava e +tratava de D. Julia; não consentiam que mais ninguem lhe prestasse o +mais insignificante serviço, chegando até a ter zelos uma da outra. + +Tanta dedicação e amisade teriam feito com que Deus revogasse a fatal +sentença dada a D. Julia, se o Creador, na sua alta sabedoria, não +tivesse resolvido chamar á sua presença, a receber o premio das suas +virtudes, aquelle anjo de bondade e resignação. + +D. Julia, já moribunda e quasi expirante, pediu a sua mãi, como ultima +graça que lhe fazia, que não abandonasse Rosinha, a sua querida +discipula e amiga; que se não affligisse, nem desanimasse, porque em +Rosa lhe deixava, estava certa d'isso, uma filha obediente e dedicada, +que havia de substituir no seu coração o lugar que ella deixava vasio, e +a Rosa recommendou-lhe que amasse sempre muito sua mãi, por que n'ella +encontraria um sincero apoio, e uma terna e carinhosa amiga. + +Apenas D. Julia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha soado; +abraçou sua mãi, e Rosinha e, pronunciando os nomes de Rosa... e minha +mãi... expirou, voando a sua candida alma á presença de Deus a receber a +glorificação de suas virtudes. + +Assim terminou D. Julia a sua existencia, que, se tinha sido breve para +o mundo, fôra longa pelas boas obras, que sempre praticára, e pela +pureza em que sempre vivera. + + +XIII. + +Já decorreram seis annos depois das scenas descriptas no capitulo +antecedente. + +Não deixaremos, porém, a nossa muito conhecida casa, perto de S. Cosme, +pertencente á viscondessa do Candal, por que é no caminho, que a ella +conduz, que tem lugar o que passamos a contar. + +Uma senhora ainda joven, e outra já de mais idade caminham em silencio, +e commovidas. + +A mais idosa é a nossa muito conhecida viscondessa do Candal. + +O pesar da morte da sua querida filha Julia desfigurou-a muito. O rosto +tem-no emmagrecido, e sulcado de profundas rugas, e os cabellos +embranquecidos antes do tempo. + +A sua companheira é uma joven que figura ter dezesete para dezoito +annos, d'apparencia ingenua e modesta; é a nossa Rosa, a pequena dos +ramos e cestinhos. + +A viscondessa caminha apoiada no braço da sua companheira. Depois +d'alguma hesitação Rosa decidiu-se a dirigir-lhe a palavra. + +--Receio, minha querida senhora--disse Rosa respeitosamente--que esta +visita vos cause uma grande commoção e vos prejudique a saude. Por que a +não deixaes para quando estiverdes mais restabelecida? + +--Não, Rosa, não. Ha oito dias, que não vim visitar a campa onde jaz a +minha Julia, e oito dias já é um espaço muito longo. Sinto-me hoje +melhor, não despresarei portanto esta occasião que se me offerece, por +que, quem sabe se recahirei? + +--Não penseis em tal, senhora viscondessa. Creio que ainda haveis de ter +muitos annos de vida; tenho fé, que Deus vos não roubará á minha ternura +e reconhecimento. + +--Se as orações d'um anjo, Rosa, podessem deter a morte, conheço que as +tuas me preservariam d'ella. Mas, ai de mim, a morte da minha sempre +lembrada Julia despedaçou-me o coração. Não estou eu só n'este mundo? +Bertha não me abandonou logo que casou? Que faço então aqui n'este ermo, +a que chamam mundo? + +--Ah! senhora, esqueceis então a pobre Rosa, que vos estima e ama, e que +vos é tão dedicada como se fôra vossa filha? + +Estas palavras, pronunciadas com um accento de submissão, penetraram até +o imo do coração da viscondessa: sensibilisaram-na tanto, que abrindo os +braços recebeu n'elles Rosa banhada em lagrimas. + +--Sou uma ingrata, Rosa, bem o reconheço,--disse a viscondessa cingindo +Rosa ao coração. Recebo com indifferentismo os teus cuidados e carinhos, +e a tua inexcedivel dedicação. Perdôa-me, minha filha, minha querida +filha. Conheceste Julia, e melhor que outra qualquer sabes quanto era +merecedora da minha ternura e amisade, e quanto é digna de ser +pranteada. Mas Julia, antes de morrer, deixou-te na minha companhia, +para me servires de consolação e allivio na minha dôr. Abraça-me Rosa, +minha filha querida. + +Rosa, por unica resposta, abraçou com ternura a sua bemfeitora. + +As lagrimas, que lhe cobriam as faces, diziam bem alto e eloquentemente, +o que a commoção lhe embargava nos labios. + +Ainda caminharam por mais algum tempo e chegaram ao cemiterio. + +A viscondessa do Candal, como tributo á memoria de sua filha, +mandára-lhe levantar um lindo e rico mausoléo de marmore branco, no qual +ella tambem queria ser encerrada á sua morte. Em volta das grades +viam-se alegretes em que haviam violetas, geranios e rosas amarellas, +que Rosa cultivava e cuidava com muito esmero, como recordação das +flôres com que enfeitára o cestinho, que fôra causa da intima união, que +se estabelecera entre ella e D. Julia. + +A viscondessa e sua filha adoptiva oraram por muito tempo sobre a campa +d'aquella, que tanto tinham estremecido em vida, e que tanto choravam na +morte. + +Rosa, depois de ter examinado e regado todos os alegretes e pés de +flôres, um por um, para que os insectos, ou a seccura os não +estiolassem, dirigiu-se á viscondessa. + +--Deixo-vos, senhora--lhe disse ella--por um instante. Vou rezar junto +da campa de minha avó. + +--Tambem quero acompanhar-te--replicou a viscondessa. + +Não muito distante do mausoléo de D. Julia se elevava uma cruz simples. +Era ahi que jazia, havia dous annos, a pobre cega. Terminára os seus +dias socegadamente, bemdizendo a ternura de sua neta, e a caridade +affectuosa da sua bemfeitora. + +Devido ainda ao zelo de Rosa a campa da pobre cega, adornada com +diversas flôres, semelhava um jardimsinho. + +Rosa ajoelhou-se, e depois de ter rezado com fervor e devoção por algum +tempo, levantou-se, e dando o braço á viscondessa retiraram-se, fazendo +ainda uma ultima visita ao tumulo de D. Julia. + +Quando se recolheram, Rosa encontrou uma carta da sua antiga professora +D. Maria d'Almeida, na qual lhe participava, que d'ahi por dous mezes se +havia de proceder aos exames d'habilitação para os titulos de +capacidade, por isso, se ainda estava decidida a propôr-se a exame, que +enviasse os documentos necessarios ao commissario dos estudos. + +Rosa apresentou esta carta á viscondessa. + +--Sempre estás decidida a propôr-te a exame?--lhe disse ella. + +--Sim, minha senhora. É o meu mais fervente e afanoso desejo. Quero, +senhora, que a instrucção e saber, que vos devo, e a vossa querida e +chorada filha, aproveite ás crianças, que a pobresa retem na ignorancia +e na rudeza. Se eu poder ser util, ainda que seja a uma só d'entre +ellas, como, senhora, me reputarei feliz e bem paga do meu trabalho! + +--Tinha a esperança de te conservar sempre na minha companhia---replicou +a viscondessa.--Occuparias para sempre o lugar do anjo, que Deus me +levou, da minha Julia. Não queres, Rosa, ser minha filha? + +--Ah! senhora, quero sim, ser vossa filha; isso ainda vai além da minha +ambição. Mas recordo-me que era uma pobre rustica, e que só aos vossos +beneficios devo a minha instrucção, e a cultura da minha intelligencia. +Quero, senhora, dar de barato, e ter a vangloria de dizer que os vossos +cuidados não foram perdidos, mas com isso não me devo tornar vaidosa, +por que faltaria assim aos meus deveres. Serei sempre para vós uma filha +adoptiva, carinhosa, humilde e terna, e que achareis sempre ao vosso +lado, esforçando-se por pagar a sua divida de gratidão e reconhecimento: +Recebendo e aceitando a vossa affeição e amisade, para mim preciosa e +apreciavel, não me devo esquecer da classe onde nasci. O meu lugar é +mais humilde; mas como elle parece bello e grandioso ao meu coração, +quando me recordo do bem, que posso fazer a essas infelizes crianças, +que vivem na bruteza, ensinando-lhe o que sei e que é obra vossa! Ha +muito que concebi este meu projecto, e que o declarei a vossa filha: «Ás +pobres rapariguinhas das aldéas--lhe disse eu--farei o mesmo que a +snr.^a D. Julia me fez. Ensinar-lhes-hei a serem felizes com a sorte, +que Deus lhes destinou n'este mundo; cultivarei o seu coração e o seu +espirito, e por unica recompensa não quererei mais do que ouvil-as bem +dizer os nomes da exc.^ma viscondessa do Candal e de sua filha.» + +--Rosa, minha querida Rosa--disse a viscondessa abraçando-a, e com os +olhos rasos de lagrimas,--que Deus te pague a felicidade, e prazer, que +me fazes nascer no coração com as tuas palavras. + + * * * * * + +Dous mezes depois, a nossa, hoje, D. Rosa de Jesus e Sousa comparecia +perante o jury nomeado para proceder ao exame das concorrentes ao +professorado. O titulo de capacidade, em grau superior, foi-lhe +concedido por unanimidade e com distincção. + + +XIV. + +Dous annos se passaram já, depois que foi conferido a D. Rosa de Jesus e +Sousa o seu titulo de capacidade. + +Estamos em fins d'Outubro, n'uma casa caiada de branco, que se encontra +ao entrar na freguezia de S. Cosme, do lado de S. Pedro da Cova. Na +frente ha um pateo largo e espaçoso. Sobre o muro pendem os ramos +verdejantes de dous chorões. Nas trazeiras da casa ha um pequeno jardim, +muito bem tratado, com as ruas areadas com saibro, e que termina por um +caramanchãosinho, que, pelo bem cerrado que está, indica que no verão +deve alli haver uma frescura agradavel, auxiliada pela corrente d'uma +levada, que corre proximo. Na sala que fica ao nivel do jardim ouve-se +um murmurio confuso. Entremos, para examinar a que elle é devido. Que +vemos? Grupos de lavradeirinhas, ao todo umas trinta, pouco mais ou +menos, vestidas de branco, e tendo todas na mão um raminho de flôres do +campo, com um laço de fita. Ao fundo da sala vê-se uma rica imagem de +Nossa Senhora da Conceição, collocada sobre um altar, bem adornado com +castiçaes de prata, velas de cera e jarras com flôres. + +N'um dos lados da sala ha quatro cadeiras de braços; n'uma d'ellas está +sentada a viscondessa do Candal, a quem D. Rosa, de pé, junto d'ella, +está dizendo os nomes das suas discipulas. + +A viscondessa passeia a vista por todas ellas, e conhece-se-lhe na +expressão do rosto, que aquelle espectaculo a regosija e encanta. + +O modo, porque todas dirigem as vistas para a porta e pelas janellas, +indica que se espera alguem. + +O abbade da freguezia e o administrador do concelho entram n'este +momento pelo portão. + +Um sorriso alegre se vê deslisar em todos os rostos. Eram as pessoas por +quem se esperava. + +A viscondessa e a sua pupilla vieram recebel-os á porta, e +conduziram-nos ás cadeiras que lhe estavam destinadas. + +As crianças tomaram os seus lugares, e restabelecido o silencio, o +abbade da freguezia tomou a palavra, e fez o seguinte discurso: + +«Sinto, minhas meninas, um prazer immenso por vos vêr aqui reunidas para +a celebração do primeiro anniversario da installação d'esta escóla, +devida á muita philantropia e caridade christã da exc.^ma viscondessa do +Candal, e á dedicação exemplar da vossa digna professora a snr.^a D. +Rosa de Jesus e Sousa. Julgo desnecessario o rememorar-vos, que um tal +sacrificio merece um eterno reconhecimento, por que entendo que entre +vós, minhas filhas, não ha ingratas. Vós respeitaes e veneraes a exc.^ma +viscondessa, e amaes com um verdadeiro amor a vossa professora, não é +assim? É, assim o creio. Mas ha ainda uma pessoa, para quem deveis ter +uma saudosa recordação, e que tambem deveis encommendar a Deus nas +vossas orações. Prestai-me attenção, que vos vou dizer quem é essa +pessoa, cuja recordação vos deve ser grata. Ha pouco mais ou menos doze +annos, que uma pobre lavradeirinha ganhava a sua vida fazendo cestinhos +de juncos, e ramos de flôres silvestres. Uma joven e nobre senhora, que +reconheceu n'ella amabilidade, modestia e humildade, sympathisou com +ella, e encarregou-se de a educar e instruir. Como a sua bemfeitora a +achou sempre digna dos seus beneficios, encarregou-se tambem da sua +posição futura. Essa joven senhora, de que vos fallo, é a exc.^ma snr.^a +D. Julia, filha da exc.^ma viscondessa do Candal, e essa lavradeirinha, +a quem ella dispensou os seus carinhos e a sua affeição, é a vossa douta +professora. Ha já alguns annos, que a alma da exc.^ma snr.^a D. Julia +voou á presença do Deus eterno a receber o premio das suas virtudes e +das boas obras, que praticára n'este mundo; uma das quaes ainda existe, +que foi o deixar-vos a vossa professora e amiga. + +«Mostrai-vos, meninas, sempre merecedoras dos beneficios, que vos fazem, +porque isso é o unico desejo das vossas bemfeitoras e a unica +recompensa, que recebem da sua dedicação, que estou muito convencido +sempre fareis por merecer. + +«Não quero, porém, retardar por mais tempo o momento de receberem o +premio e galardão, que merecem pela sua applicação ao estudo e amor ao +trabalho, áquellas que d'isso se tornaram dignas; e ás que d'esta vez +não são galardoadas resta-lhes a esperança e o meio de, pela imitação +das suas condiscipulas, se tornarem dignas de o merecerem para o anno +futuro. + +«Vamos por tanto proceder á distribuição dos premios.» + +Um sussurro d'alegria acolheu as ultimas palavras do digno sacerdote. + +A conferencia dos premios foi esplendida. + +Os premios consistiam em livros religiosos e d'instrucção, que tinham +sido cuidadosamente escolhidos pela viscondessa, e sua filha adoptiva, +todos ricamente encadernados. Era interessante e bello vêr a alegria, +que se deslisava no rosto das que tinham sido contempladas na +distribuição. + +Terminada a conferencia dos premios teve lugar debaixo do caramanchão um +bem servido _lunch_. + +--Como é magnifico o espectaculo, que apresentam estas crianças, alegres +e satisfeitas--disse a viscondessa--Recordar-me-hei sempre d'este dia, +como o mais grato e feliz da minha vida. Tu, minha querida Rosa, +attrahes as bençãos do céo sobre nós, e sobre a memoria da minha +querida, e chorada Julia. + +--Ah! senhora,--disse Rosa com os olhos rasos de lagrimas--que a vossa +prophecia se realise, e a minha mais cara aspiração ficará satisfeita. + + * * * * * + +O desejo de Rosa realisou-se. A escóla está cada vez mais florescente, e +a freguezia ufana-se pela possuir. Todos os moradores do lugar ainda +hoje bemdizem os nomes da viscondessa do Candal, de sua filha e de D. +Rosa, modêlo raro d'um coração verdadeiramente grato e reconhecido aos +beneficios que recebera. + + +FIM. + + + * * * * * + +Nota do transcritor: + +A edição da obra aqui transcrita foi publicada em 1863 num volume que +continha 3 romances denominados: Annos de Prosa, A Gratidão e O +Arrependimento. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Gratidão, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A GRATIDÃO *** + +***** This file should be named 23345-8.txt or 23345-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/3/3/4/23345/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Gratidão + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: November 6, 2007 [EBook #23345] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A GRATIDÃO *** + + + + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + + + + + +<h1>A GRATIDÃO.</h1> + + +<hr> +<span class="pagenum">[221]</span> + + + + +<h1>A GRATIDÃO.</h1> + +<h2>ROMANCE.</h2> + + +<h3>I.</h3> + +<p>Estavamos nos ultimos dias de Dezembro de 1846. Uma camada mui espessa +de neve cobria o sólo. O ar, sombrio e carregado, indicava que mais neve +não tardava a cahir. Os ramos nús das arvores dos montes tremiam +soprados pelo vento norte gelado. Estava tudo n'um perfeito socego, e +tristeza; nem o mais leve murmurio se ouvia.</p> + +<p>Uma velha, e uma criancinha, apesar do rigor do frio, seguiam com +difficuldade o caminho, que da serra de Vallongo conduz a S. Cosme. A +criança, d'espaço a espaço, soprava ás mãosinhas inteiriçadas pelo frio, +e não se podendo sustentar sobre os pés, que tinha inchados pelas +frieiras, caminhava vacillante; mas vencendo todos os obstaculos, com +uma energia superior á sua idade, <span class="pagenum">[222]</span> tomava galhardamente o seu lugar +ao lado da velha. Esta parecia ter sessenta annos. Estava corcovada mais +pela miseria, do que pela idade, e tinha no rosto profundas rugas. Pelo +modo como andava, e tateava o caminho com a mulêta, via-se que era cega.</p> + +<p>--Aonde vamos nós, Rosa?--perguntou a velha á rapariguinha.</p> + +<p>--Em meio caminho, minha avó.</p> + +<p>--Jesus Senhor, valei-me,--disse a cega,--pois que as minhas pobres +pernas já estão cançadas, e parece-me que não chego ao fim da jornada.</p> + +<p>--Encoste-se ao meu hombro, avósinha, que eu não estou cançada.</p> + +<p>--Não, não. Tudo está acabado. Eu morro aqui, Rosinha. Tenho muita fome, +e muito frio para vencer o caminho até S. Cosme. Ai meu Pai do céo, que +me sinto desfallecer...</p> + +<p>Fez um gesto de desespero, e a cega cahiu sobre o caminho.</p> + +<p>--Avósinha, avósinha,--gritava Rosa assustada,--volte a si, que lh'o +peço eu; mais um pequeno esforço e chegaremos a S. Cosme.</p> + +<p>A cega não deu accordo de si.</p> + +<p>--Avósinha,--continuou Rosa chorando, e cobrindo-a de beijos,--se me +abandona, que hei-de fazer? Quer que eu morra de paixão?</p> + +<p>--Morrer, tu, minha Rosinha,--disse a cega levantando-se.--Oh! meu Deus, +não permittaes tal.</p> + +<p>--Então levante-se que lh'o peço eu; se fica aqui mais tempo o frio +matal-a-ia. Em S. Cosme nos aqueceremos.</p> + +<p>--Ai de mim,--disse a cega, levantando-se ajudada de Rosa,--e a snr.<sup>a</sup> D. +Thereza receber-nos-ha?</p> + +<p>--Ha-de receber sim, minha avósinha, eu lh'o afianço. Não creio que a +boa snr.<sup>a</sup> D. Thereza nos despeça. Quando eu lhe ia vender flôres +silvestres, que apanhava <span class="pagenum">[223]</span> no monte, abraçava-me, e dizia-me muitas +vezes, que desejava que eu fosse sua filha.</p> + +<p>--Não duvido que ella te receba, porque és muito linda e agradavel; +agora o que eu não creio é que me receba a mim, que sou uma velha e +cega, que para nada sirvo.</p> + +<p>--Se assim acontecer, voltaremos á nossa aldêa, e os bons lavradores, +que conheceram meus paes, terão piedade de nós, soccorrer-nos-hão, e eu +trabalharei para lhes pagar, o que elles vos derem.</p> + +<p>A avó, muito commovida, apertou ao coração a pequena, e murmurou +palavras de ternura e gratidão; e reanimada por esta felicidade, que +Rosa lhe tinha feito experimentar, retomou com passo mais firme o +caminho de S. Cosme.</p> + +<p>O vento soprava já com mais força; o ar tinha escurecido mais, e +pequenos flocos de neve se viam voltejar no ar. Rosa, tiritando com +frio, fazia esforços sobrehumanos para poder andar, e cada passo, que a +pobre cega dava, era acompanhado d'um suspiro surdo. O vento augmentou, +e os flocos de neve, que ao principio eram raros, cahiam em maior +abundancia.</p> + +<p>--Rosinha,--disse a cega,--bem queria andar, mas não posso; deixa-me +ficar.</p> + +<p>--Avósinha, eu já avisto a torre da igreja de S. Cosme.</p> + +<p>--Estás bem certa d'isso?</p> + +<p>--Eu não queria mentir...</p> + +<p>--Vamos andando. Permitta Deus que eu possa vencer o caminho.</p> + +<p>--Não tenha receio de me cançar, minha avó; sou forte, e não estou +fatigada. Encoste-se ao meu hombro.</p> + +<p>--Meu querido anjinho, que Deus te pague tudo o que me fazes.</p> + +<p>Chegaram finalmente a S. Cosme, á quinta de D. <span class="pagenum">[224]</span> Thereza de Sousa, +depois de mil esforços, que cançaram completamente avó e neta.</p> + +<p>Era tempo; mais um instante e teriam cahido ambas no chão. Entrando na +cozinha da casa, o calor produziu-lhes uma reacção tão violenta, que +desfalleceram.</p> <span class="pagenum">[225]</span> + + +<h3>II.</h3> + +<p>D. Thereza de Sousa, e mais algumas visinhas, que se tinham reunido para +serandar, acercaram-se das duas infelizes. Depois de lhe ter ministrado +todos os cuidados necessarios para as reanimar, como o seu principal mal +era a fome, mandou-lhe dar um bom caldo, e acommodal-as a um dos cantos +do lar, em que ardia uma grande fogueira.</p> + +<p>--Agora, Rosinha,--disse D. Thereza, ameigando-a,--conta-nos, como a +esta hora, e com este tempo vieste até aqui com esta boa mulher.</p> + +<p>--Desculpai, minha boa senhora,--disse a cega,--Rosinha é minha neta.</p> + +<p>--Sim, snr.<sup>a</sup> D. Thereza, é minha avó, de quem tantas vezes tenho fallado +a v. exc.<sup>a</sup> e...</p> <span class="pagenum">[226]</span> + +<p>--Então porque não continuas?--lhe replicou D. Thereza.</p> + +<p>A pequena levantou para D. Thereza os seus lindos olhos azues, com uma +tal expressão de supplica, que a commoveu.</p> + +<p>--Falla, falla, minha menina. Não tenhas receio. Queres pedir-me alguma +cousa, não é assim?</p> + +<p>--Vêde, minha boa senhora,--disse Rosa, contendo as lagrimas a +custo,--eu e minha avó, somos muito desgraçadas. Meu pai, que era +rachador de lenha, feriu-se pelo S. João em uma perna com o machado. +Minha mãi mandou-me chamar a toda a pressa o snr. Pereira, que é um +homem muito entendido. Fui, o mais depressa que pude, e quando cheguei a +casa do snr. Pereira estava elle para sahir, e não queria vir commigo +para não torcer o seu caminho; mas eu tanto lhe pedi, que sempre me +acompanhou. Quando viu a perna a meu pai, logo disse, que estava muito +mal, e que não promettia cural-o. Duas semanas depois veio á ferida uma +molestia, de que me não lembra agora o nome, e meu pai morreu.</p> + +<p>Rosa calou-se chorando, e a cega tambem soluçava. D. Thereza abraçou a +rapariguinha, apertou a mão á pobre velha, e disse:</p> + +<p>--Para hoje já é de mais, ámanhã...</p> + +<p>--Perdôe-me, snr.<sup>a</sup> D. Thereza,--replicou Rosa,--mas é melhor que eu +termine hoje,--e continuou:</p> + +<p>--Havia um mez que meu pai tinha morrido, quando minha mãi cahiu de +cama; a febre não a deixava. Eu ia aos campos apanhar as hervas, que +minha avó me ensinava, para lhe fazer remedios, mas nada sarava minha +mãi. Um dia abraçou-me e disse-me:</p> + +<p>«Minha pobre Rosinha, eu vou unir-me com teu pai, mas que será de ti?</p> + +<p>Trabalharei, lhe respondi.</p> + +<p>És muito nova para isso; mas entretanto rogarei muito a Deus para que te +receba sob a sua santa guarda, <span class="pagenum">[227]</span> e te não abandone. Nunca desampares +tua avó, sê-lhe obediente e carinhosa..., ainda queria fallar, mas não +pôde, abraçou-me e á avósinha, e expirou.»</p> + +<p>Desde então alguns rachadores, amigos de meu pai, nos recolheram e +soccorreram; mas como não são ricos, e precisam de mudar de terra por +não terem aqui que fazer, lembrei-me de vir pedir agasalho á senhora, +pois que, sendo tão boa, não deixaria de nos recolher, que somos tão +desgraçadas. Sou fraquinha, mas posso trabalhar. Sei fiar, e começo a +lavar. Guardarei os bois, e os carneiros e tratarei do gallinheiro. +Minha avó tambem fia muito bem e estou muito certa, que a ha-de +satisfazer com o seu trabalho. Oh! senhora--disse Rosa ajoelhando-se aos +pés de D. Thereza--não nos abandoneis; satisfazemos-nos com pouco, e +faremos todo o possivel para vos agradar, e rogaremos continuamente a +Deus pela vossa vida e felicidade.</p> + +<p>D. Thereza commoveu-se tanto, com a singeleza e candura d'esta supplica, +que duas lagrimas lhe brilharam nos olhos.</p> + +<p>--Levanta-te, Rosinha, ámanhã fallaremos n'isso. Tu e tua avó ide-vos +deitar. Sempre te direi, que és muito linda e corajosa, para que se não +tenha piedade de ti.</p> + +<p>Rosa beijou com reconhecimento as mãos de D. Thereza, e a cega encheu-a +de bençãos. D. Thereza mandou-as conduzir a um pequeno quarto, limpo e +quente, em que um somno reparador lhe reanimou as forças.</p> <span class="pagenum">[228]</span> + + +<h3>III.</h3> + +<p>Ainda mal a aurora tinha raiado, já Rosa estava a pé. Fatigada, como +estava, da jornada do dia antecedente, custou-lhe muito a levantar-se +cedo, mas fez um esforço para mostrar os seus desejos a D. Thereza.</p> + +<p>Arranjou-se, o melhor que pôde, com os seus velhos vestidos, e, depois +de ter dirigido mentalmente a Deus uma oração fervente, desceu ao andar +terreo.</p> + +<p>--Já a pé,--lhe disse alegremente D. Thereza.</p> + +<p>--Estava tão cançada do caminho d'hontem, que receei, já fosse tarde; +mas graças aos vossos beneficios, minha senhora, já estou prompta, para +o que me determinardes.</p> + +<p>--E tua avó?</p> + +<p>--Ainda dorme. É tão velhinha e tão doente, que vos peço tenhaes piedade +d'ella.</p> <span class="pagenum">[229]</span> + +<p>Rosa ergueu as mãos, e esperou tremula a resposta da dona da quinta.</p> + +<p>D. Thereza de Sousa era, o que vulgarmente se chama, uma mulher de casa. +Tendo viuvado ha doze annos, geria com tanto acerto e economia as suas +propriedades, que a sua fortuna tinha augmentado consideravelmente.</p> + +<p>Os visinhos do lugar diziam que, pela avareza e mesquinharia, é que +tinha alcançado a fortuna, que possuia, pois que em qualquer cousa +sempre tinha que diminuir, e acrescentavam ironicamente, que, dando +<i>tantas</i> esmolas, o dinheiro nunca lhe havia de faltar.</p> + +<p>Fosse como fosse, o que sei é, que D. Thereza sensibilisou-se tanto com +a historia de Rosinha, que, quando ella ergueu as mãos, e a viu com os +olhos arrasados de lagrimas, esperando a resposta, disse para si; que a +uma supplica tão humilde e cheia de tanto amor filial, era impossivel +resistir.</p> + +<p>N'este momento quem accusasse de avarenta D. Thereza de Sousa, seria +injusto com ella, por que, recolhendo a avó e neta, tomava um encargo +bastante pesado. Rosa era ainda muito pequena, e de mais a mais muito +fraquinha, para poder ter utilidade real! A pobre criança estava a fazer +dez annos, mas era muito franzina e delicada. O seu rosto, cercado de +compridos caracóes louros, e animado com uns grandes olhos azues +escuros, inspirava sympathia. Tinha as maneiras delicadas, e a linguagem +menos rude, que a dos camponezes dos arredores. Esta distincção n'uma +criança, ainda tão tenra como Rosa, nascia da sua intelligencia mui +desenvolvida.</p> + +<p>A mãi, logo que ella teve tino para se não perder nos caminhos, +mandava-a apanhar flôres silvestres, que ia vender ás familias mais +abastadas das aldéas visinhas. Como Rosa era muito linda as senhoras das +casas acolhiam-na muito bem, divertiam-se com ella, ouvindo-a <span class="pagenum">[230]</span> +tagarelar, e demoravam-na muitas vezes a brincar com as suas filhas.</p> + +<p>Sendo muito viva tomou facilmente as maneiras, e modo de fallar, das +pessoas com quem tratava, de modo que os rachadores denominavam-na a +fidalguinha.</p> + +<p>Se tinha adquirido maneiras delicadas, não havia perdido as boas +qualidades, de que era dotada; humilde e carinhosa para todos, quem a +conhecia adorava-a.</p> + +<p>O que a mim, minhas caras leitoras, me levou tanto tempo a dizer, passou +n'um instante pela idéa a D. Thereza de Sousa, e fixou-lhe a resolução +de recolher a avó e a neta.</p> + +<p>--Vou-te mandar vestir uma roupinha melhor, Rosinha,--lhe disse D. +Thereza, animando-a com uma brandura, que lhe não era habitual,--porque +espero has-de ser uma boa criada, serviçal e trabalhadeira.</p> + +<p>--Então fico em casa de v. exc.<sup>a</sup>?--disse Rosa, não podendo crer em tanta +ventura.</p> + +<p>--Ficas, sim, e parece-me que nunca me darás motivo para me arrepender +do que hoje faço.</p> + +<p>--Oh! minha senhora, estai certa que me esforçarei o mais possivel, para +vos agradar e satisfazer os vossos desejos.</p> + +<p>--Assim o espero. Anda vestir-te.</p> + +<p>--Desculpe-me, senhora. Mas minha avó...--e Rosa parou corando.</p> + +<p>D. Thereza, querendo experimentar a sua protegida, disse:</p> + +<p>--Que queres a tua avó?</p> + +<p>--Ella tambem fica?</p> + +<p>--Não. Tua avó é cega e velha, para nada serve, e eu não sou rica +bastante, para me encarregar da sustentação de duas pessoas.</p> + +<p>--Então, senhora, agradeço os vossos beneficios, e todo o bem que me +querieis fazer, mas não posso abandonar a minha avósinha, que morreria +de paixão.</p> <span class="pagenum">[231]</span> + +<p>Vou ajudal-a a levantar-se, e regressaremos à nossa aldêa.</p> + +<p>--E que has-de fazer na tua aldêa?</p> + +<p>--Irei humildemente pedir a um mestre tamanqueiro um pequeno cantinho da +sua casa, que estou certa me não negará. Não sou robusta, mas tenho +coragem, por isso trabalharei nos socos durante o inverno. Quando vier o +verão irei vender flôres e fructos, como os demais annos, e como eu, e a +pobre cega, de pouco precisamos para viver, parece-me que ganharei para +ambas. Logo que chegue a primavera não seremos pesadas a ninguem...</p> + +<p>D. Thereza apertou Rosa nos braços, e chegou-a ao coração.</p> + +<p>--Basta, Rosinha, tu és um anjo do céo, que Deus enviou a minha casa +para me trazer a felicidade. Vai-te vestir, e depois irás participar a +tua avó, que ambas ficaes para sempre em minha casa.</p> + +<p>Descrever a alegria da avó, quando soube a decisão de D. Thereza, é-me +impossivel fazel-o, minhas caras leitoras; vós, que deveis ser dotadas +de bom e piedoso coração, melhor a podereis imaginar. Abraçava Rosa, +agradecia a D. Thereza com um reconhecimento mui sincero, promettendo +fazer todo possivel para ser menos pesada á sua bemfeitora. Rosa nada +dizia, mas a eloquencia de seu olhar provava a D. Thereza a sua +gratidão.</p> <span class="pagenum">[232]</span> + + +<h3>IV.</h3> + +<p>Rosa, ainda que novinha e de fraca organisação, tornou-se util em casa. +Incansavel no trabalho, de manhã cedo tratava da capoeira e do pombal; +depois ia guardar os bois e os carneiros, e, em quanto que os vigiava, +fiava na sua roca.</p> + +<p>Ao jantar, quando recolhia a casa, tinha sempre que fazer. Era um gosto +vêr esta criança tão tenrinha arrumar, limpar e lustrar os moveis, como +o faria a melhor mulher de casa.</p> + +<p>D. Thereza cada vez mais estimava a sua protegida, e felicitava-se pela +ter recolhido. A avó tambem não era inutil. A cegueira não a +impossibilitava de fiar desde pela manhã até á noite, e o seu trabalho +era perfeito. Tudo corria bem, e todos andavam contentes e satisfeitos.</p> +<span class="pagenum">[233]</span> + +<p>Chegou a primavera. Começaram a desabrochar com o tepido sôpro d'esta +estação, e mostraram as suas galas, a bella pervinca azul, o narciso de +corôa d'ouro, o lyrio de campanas odoriferas, e a bella violeta de +calices perfumados.</p> + +<p>Rosa, quando ia á serra, era para ella um dia d'alegria. Procurava os +caminhos tapetados de musgo, os regatos, que tantas vezes tinha passado, +as fontes escondidas pelas çarças, e as arvores, sob as quaes tinha +encontrado as mais lindas flôres. Rosa sentia-se mais livre e mais feliz +na serra, do que nos campos da quinta; a todo o momento parava extasiada +diante das bellezas da natureza, e cada sitio novo, que achava, era como +se fosse um amigo. Quando o socego voltava, depois d'esta alegria e +animação, esta poetica criança fazia cestinhos de vimes e juncos, que +guarnecia com musgo e flôres silvestres, mas com um gosto e belleza +exquisito, os quaes D. Thereza mandava vender, dando sempre bom preço.</p> + +<p>Ganharam renome os cestos de Rosa.</p> + +<p>Em todas as quintas e casas ricas dos arredores não queriam outros, e +até muitas familias da cidade, que iam passar o verão áquelles sitios, +compravam e procuravam com avidez os cestos d'esta gentil ramalheteira.</p> + +<p>D. Thereza, como mulher que comprehendia os seus interesses, entendeu +que lhe era de mais proveito o empregar Rosa, durante a primavera, a +fazer cestos e ramos, do que na quinta, por isso assim o determinou. +Quando Rosa o soube, saltou d'alegria, por que se dava melhor á sombra +dos pinheiros e carvalhos, do que em casa.</p> + +<p>Passou-se assim o verão, e D. Thereza não teve que se arrepender da sua +resolução. Um certo numero de meias corôas de prata provou o bom +resultado do negocio de cestos e flôres.</p> + +<p>O inverno pareceu triste e monotono a Rosa. Tinha-se <span class="pagenum">[234]</span> habituado de +tal maneira a ir todas as manhãs para a serra, que chegava muitas vezes +a esquecer-se do trabalho, e ir insensivelmente até á baixa d'ella. +Voltava então muito apressada á quinta e redobrava d'actividade, para +fazer esquecer as suas faltas involuntarias.</p> + +<p>Occupou-se a fiar quasi todo o inverno, e o producto do seu trabalho foi +augmentar o pequeno thesouro principiado com a venda dos cestos e +flôres.</p> + +<p>D. Thereza considerava Rosa como sua filha, não podendo estar sem ella +um unico instante, e nos dias de feiras e romarias tinha gosto em que +Rosa apparecesse entre as mais lindas e mais ornadas lavradeiras do +lugar.</p> + +<p>A amisade, que tinha a Rosa, reflectia-se na avó; tratava-a com tal +respeito e affabilidade, que a poderiam tomar por mãi de D. Thereza, +tanto ella a cercava de cuidados e desvelos.</p> + +<p>A felicidade da pobre cega, e bem assim o futuro de Rosa poder-se-iam +julgar seguros; mas como nada n'este mundo é immutavel, o momento, em +que a adversidade ia estender o seu braço de ferro sobre as duas +infelizes, não estava longe.</p> <span class="pagenum">[235]</span> + + +<h3>V.</h3> + +<p>Voltou a primavera e com ella as encantadoras occupações de Rosa. Foi +com enthusiasmo, que a candida e poetica criança encontrou as flôres, +suas amigas, com que preparou os primeiros ramos, que appareceram no +mercado.</p> + +<p>Os cestinhos e ramos de Rosa obtiveram uma grande extracção, como no +anno anterior. Ia entregal-os pessoalmente nas casas ricas, e muitas +vezes as senhoras morgadas, se julgavam felizes por ter em sua companhia +esta linda criança por algum tempo.</p> + +<p>Rosa, vestida á lavradeira, era muito galante e modesta; o seu metal de +voz era agradavel, e as maneiras tão delicadas, que quasi sempre as +freguezas, ao preço do ramo, juntavam um presentinho para a vendedeira; +<span class="pagenum">[236]</span> mas quando perguntavam a Rosa o que era que mais estimava, +respondia sempre, que o seu maior desejo era possuir um livro para se +instruir.</p> + +<p>Rosinha tinha uma paixão ardente pelo estudo; quasi sem mestre tinha +aprendido a lêr correntemente, e a sua maior alegria consistia em obter +um livro para se entregar á leitura.</p> + +<p>D. Thereza pela sua parte tambem não obstava aos desejos de Rosa, tanto +que se lhe não dava que ella faltasse ás suas obrigações; mas devemos +fazer-lhe justiça dizendo que sabia alliar a satisfação dos seus +desejos, com o cumprimento dos seus deveres, por isso só depois de ter +terminado os seus affazeres é que se dava ao estudo.</p> + +<p>Estava Rosinha uma occasião sentada á borda d'um ribeiro, entretida a +colher juncos para fazer um cesto, quando, sem ella o presentir, se lhe +aproximou uma senhora ainda joven.</p> + +<p>--Para que estaes escolhendo esses juncos, minha menina?--lhe disse a +joven senhora com modo affavel.</p> + +<p>Rosa levantou a cabeça, e vendo a desconhecida, saudou-a e respondeu:</p> + +<p>--Faço cestinhos com flôres para vender.</p> + +<p>--Quero então já avaliar a vossa habilidade. Amo muito as flôres, por +isso queria que me fizesses um cestinho já, e se eu ficar contente +has-de-me fazer um todos os dias. Aceitaes?</p> + +<p>--Aceito, sim, minha senhora, e ainda que tenho muitas encommendas a +satisfazer, vou já preparar o vosso.</p> + +<p>--Assento-me aqui ao pé de ti e vamos conversando. Como te chamas?</p> + +<p>--Rosa de Jesus, uma sua criada, minha senhora.</p> + +<p>--Assim, Rosa, o teu trabalho é fazer cestos de flôres para depois os +ires vender?</p> + +<p>--Sim, minha senhora.</p> + +<p>--E teus paes em que se occupam?</p> <span class="pagenum">[237]</span> + +<p>--Já não tenho paes; só me resta minha avó, que é cega.</p> + +<p>--És orphã, e onde moras?</p> + +<p>--Estou em casa da snr.<sup>a</sup> D. Thereza de Sousa, proprietaria em S. Cosme, +tão boa, como rica.</p> + +<p>Ha um anno, que eu e minha avó não sabiamos aonde nos haviamos de +recolher; estavamos em Dezembro, e havia dous dias que não tinhamos +comido, quando de repente me lembrei da snr.<sup>a</sup> D. Thereza. Eu e minha +avó, que então moravamos na serra de Vallongo, pozemos-nos a caminho +para S. Cosme. O caminho é muito mau, por isso mais d'uma occasião +julguei que minha avó ficava na estrada, porque já não podia andar; mas +o Senhor teve misericordia de nós, e felizmente terminamos a jornada. A +snr.<sup>a</sup> D. Thereza tratou-nos com muita bondade, e recolheu-nos em sua +casa, apesar de sermos um encargo muito pesado.</p> + +<p>--Amas então muito a snr.<sup>a</sup> D. Thereza?</p> + +<p>--Se a amo. Não queria mais nada, senão poder reconhecer todo o bem, que +nos faz. Não desejo senão crescer e robustecer para lhe poder servir +d'utilidade.</p> + +<p>--Estou muito contente, minha pequena, por te ouvir fallar assim. Quando +te vi senti-me attrahida para ti, e ficaria muito desgostosa se te não +encontrasse com sentimentos dignos da estima que te consagro.</p> + +<p>Parece-me que o meu cesto está acabado?</p> + +<p>--Ainda lhe falta uma cercadura de <i>não me deixes</i>. Permitti, senhora, +que eu vá ao proximo ribeiro colher estas flôres, porque alli as ha mais +frescas, e em mais abundancia.</p> + +<p>--Ide, que aqui te espero.</p> + +<p>Rosa partiu correndo.</p> + +<p>D. Julia d'Andrade, que tanto interesse mostrava pela protegida de D. +Thereza, tinha vinte annos.</p> + +<p>O cabello preto muito comprido, e naturalmente encaracolado, fazia-lhe +sobresahir ainda mais a pallidez <span class="pagenum">[238]</span> do rosto. Os olhos castanhos +tinham um brilho de febre. A physionomia demonstrava um padecimento +interno, n'uma palavra, estava affectada d'uma tisica pulmonar.</p> + +<p>Sua mãi, a viscondessa do Candal, receiando pela vida de D. Julia, tinha +consultado os mais acreditados medicos de Lisboa e Porto, e todos tinham +aconselhado os ares do campo, e o não constrangimento, como os meios +mais proficuos para debellar a molestia. A viscondessa tinha portanto +deixado o Porto e ido habitar com suas filhas D. Julia e D. Bertha uma +quinta proximo da serra de Vallongo.</p> + +<p>D. Julia parecia que revivia no meio da luxuosa natureza, que a cercava. +Todos os dias dava grandes passeios, e distrahia-se ou sentando-se á +sombra dos carvalhos e sobreiros, ou embrenhando-se entre as çarças. Ao +principio a viscondessa receiou que estes passeios tão longos +prejudicassem a saude de sua filha, mas vendo-a mais alegre e mais +vigorosa, e que se a pallidez não tinha desapparecido, a expressão +soffredôra do rosto era menos pronunciada, ficou mais socegada e esperou +obter o triumpho sobre a molestia.</p> + +<p>D. Julia era tão boa, e ao mesmo tempo tão prudente, que sua mãi não +temia deixal-a em plena liberdade, e gosar da vida segundo as suas +phantasias.</p> + +<p>A viscondessa queria que D. Bertha acompanhasse sua irmã nos seus +passeios; mas D. Bertha, que era uma joven de 16 annos d'idade, +orgulhosa do seu nascimento e belleza, recusou obstinadamente acompanhar +sua irmã, dando como razão, que lhe repugnava o juntar-se como ella com +esses <i>estupidos</i> e <i>rudes</i> aldeãos, que habitam os campos, e a quem +ella acariciava, e que além d'isso estragava os seus vestidos seguindo +D. Julia pelos caminhos estreitos e escabrosos dos campos e da serra. As +mil vozes da natureza eram mudas para D. Bertha; no seu coração só +imperava o egoismo.</p> <span class="pagenum">[239]</span> + +<p>Num d'estes passeios é que D. Julia encontrou Rosinha, e que ficou +encantada com a sua innocencia.</p> + +<p>Havia muito que D. Julia esperava Rosa, e já receava que ella não +voltasse, quando a viu vir correndo.</p> + +<p>--Perdoai-me, senhora, o ter-vos feito esperar tanto tempo, mas eu fui +muito longe colher as violetas e os <i>não me deixes</i>, porque queria que o +meu cestinho vos agradasse.--Assim fallando Rosa apresentou a D. Julia +um cestinho, que era um primor d'arte no gosto, e esperou toda confusa, +a sua apreciação.</p> + +<p>Uma alegre exclamação de D. Julia lhe fez vir o sorriso aos labios.</p> + +<p>--Quero abraçar-te, minha querida menina; ha muito tempo que não vi nada +tão lindo, e como me causaste um grande prazer, quero recompensar-te; +mas deixa-me ainda admirar o teu bello trabalho.</p> + +<p>Este cestinho podia vêr-se. No centro tinha raminhos de violetas com as +folhas verdes, ainda humidas; uma corôa de lirios cercava as violetas, e +em volta uma grinalda de musgo, semeada de raminhos de rosas amarellas e +geranios. Dous ramos de madre-silva serpenteavam por entre os juncos +formando as azas.</p> + +<p>--Não quero--disse D. Julia, depois d'alguns instantes de silencio--que +uma obra tão bella tenha um viver ephemero; vou já bordar um quadro, +cópia d'este cestinho, que ha-de ficar muito rico. Mas, Rosinha, quanto +queres por este trabalho?</p> + +<p>--Dar-me-ha o que quizer, minha senhora, como costumam fazer as outras +minhas freguezas.</p> + +<p>--Mas quanto é que custam ordinariamente?</p> + +<p>--Tres ou quatro vintens.</p> + +<p>--Quatro vintens!--disse D. Julia admirada.</p> + +<p>--Acha caro, minha senhora?--disse Rosa com acanhamento.</p> + +<p>--Caro, não, minha pequena. Quando estava no Porto pagava, por muito +maior preço, ramos que tinham <span class="pagenum">[240]</span> muito menos valor, que o teu +cestinho. Toma, Rosinha, não tenho aqui senão esta meia corôa, mas +amanha a esta hora apparece aqui, e fallaremos...</p> + +<p>--Não posso aceitar o que me dáes, minha senhora, porque é muito.</p> + +<p>--Queres fazer-me zangar?</p> + +<p>--Não, senhora. É a primeira vez que a vejo, mas já a estimo muito. Eu +não preciso de nada; a snr.<sup>a</sup> D. Thereza é muito minha amiga e...</p> + +<p>--Não é uma esmola que te dou--replicou D. Julia, mettendo a moeda de +prata na mão de Rosinha--não te esqueças da recommendação, que te fiz, +de estares ámanhã aqui a esta mesma hora.</p> + +<p>E antes que Rosa tivesse tempo de recusar, já D. Julia tinha +desapparecido, levando na mão o cestinho.</p> + +<p>Rosa ficou um instante sem saber o que havia de fazer, mas recomeçou +ligeiramente o trabalho. Quando ao jantar voltou a casa, contou a D. +Thereza o seu encontro de pela manhã, o que lhe tinha acontecido e +perguntou-lhe se devia ou não guardar os cinco tostões.</p> + +<p>--Não te authoriso a pedir, Rosa, mas isso não é uma esmola, é um +presente, que te fazem, podes portanto arrecadar esse dinheiro. Ris-te. +Já sei. Esse dinheiro vem a proposito para augmentares o teu mealheiro, +com o qual te hei-de comprar um rico jaqué para o S. Miguel.</p> + +<p>--Não, senhora--replicou Rosa com a alegria nos olhos--não é esse o meu +pensamento, e que me causa tanta alegria.</p> + +<p>--Que é então?</p> + +<p>--Rogo-vos que me não façaes perguntas; depois o sabereis.</p> + +<p>--Guarda o teu segredo, porque sei que não és desgovernada, e que o não +has-de gastar mal gasto.</p> + +<p>Rosa abraçou ternamente D. Thereza, e foi entregar as suas encommendas +de flôres e cestos.</p> <span class="pagenum">[241]</span> + + +<h3>VI.</h3> + +<p>D. Julia recolheu-se para casa muito tempo depois da hora, que tinha +determinado.</p> + +<p>A viscondessa, impaciente e sobresaltada com a demora, sahiu, no +caminho, ao encontro de sua filha.</p> + +<p>--Estiveste incommodada, minha filha?--lhe disse ella.</p> + +<p>--Não, minha senhora. Este cestinho, que aqui trago, é que foi a causa +da minha demora.</p> + +<p>E D. Julia mostrava a sua mãi o cestinho, que Rosa tinha feito.</p> + +<p>--Como é lindo--respondeu a viscondessa--Não sabia Julia, que tinhas a +prenda de fazer cestos de juncos entrançados.</p> + +<p>--Não fui eu que fiz este cestinho, minha mãi.</p> <span class="pagenum">[242]</span> + +<p>--Então quem foi?</p> + +<p>--Foi uma lavradeirinha, que encontrei no meu passeio.</p> + +<p>--Uma lavradeira?!</p> + +<p>--Sim, minha senhora. E acreditareis, minha mãi, que por todo este +trabalho me pediu a grande quantia de quatro vintens?</p> + +<p>--Não te pergunto quanto lhe déste, por que conheço a bondade do teu +coração, e tenho a firme convicção de que não abusaste da sua +simplicidade.</p> + +<p>--Dei-lhe só meia corôa, por que não tinha mais na minha bolsinha. Não +queria recebel-a, ajuizando que lh'a dava como uma esmola; mas tanto fiz +que a aceitou, e convencionei com Rosa, (pois a minha ramalheteira assim +se chama) para nos encontrarmos ámanhã, no mesmo sitio, á mesma hora; e +se ella, como penso, fôr digna da sympathia, que me inspirou, e do +interesse que já me causa, consentir-me-heis, minha boa mãi, que a tome +sob a minha protecção?</p> + +<p>--Consinto em tudo, minha filha, que te dê prazer, e distracção. Se a +tua protegida fôr digna dos nossos beneficios, unir-me-hei comtigo, e +accordaremos no que devemos fazer para seu bem.</p> + +<p>D. Julia abraçou com ternura a viscondessa, e agradeceu-lhe a sua +bondade.</p> + +<p>N'este comenos, a viscondessa e sua filha, chegaram a casa.</p> + +<p>D. Julia collocou com muito cuidado sobre uma mesa da sala o cestinho, e +correu com presteza ao seu quarto a preparar um cavallete, pinceis e +tintas para dar principio ao quadro projectado, e, tendo tudo disposto, +desceu á sala a buscal-o.</p> + +<p>D. Bertha estava examinando o cestinho com attençào e minuciosidade.</p> + +<p>--Não estão tão bem dispostas e combinadas essas flôres, Bertha?--disse +D. Julia.</p> <span class="pagenum">[243]</span> + +<p>--Assim, assim. Não gosto d'estas violetas, que formam o centro do ramo. +Podias ter tido melhor gosto e fazer cousa melhor.</p> + +<p>--Não concordo com a tua opinião. Estou convencida de que Rosa não podia +ter melhor gosto.</p> + +<p>--Rosa?</p> + +<p>--Sim, Rosa. Ah! é verdade; ainda te não contei o encontro, que tive +esta manhã. Ora ouve.</p> + +<p>D. Julia contou a sua irmã minuciosamente toda a conversa, que tivera +com Rosa.</p> + +<p>Quando ella acabou, D. Bertha fez um gesto de desdem.</p> + +<p>--E, sem duvida, Julia, já te affeiçoas-te a essa pequena; não é +assim?--disse D. Bertha.</p> + +<p>--Rosa,--respondeu unicamente D. Julia--tem merecimento bastante, que a +torna digna da protecção, que se lhe dispensar.</p> + +<p>--O que mais me admira e me espanta, Julia, é a rapidez com que +sympathisas com qualquer, e como instantaneamente conheces e decides, +que essa pessoa é digna da tua affeição e amisade... Não quero tomar-te +o tempo; julgo que vinhas buscar o teu lindo cestinho, não é assim?</p> + +<p>--Vinha, sim, para o ir copiar em um quadro, pintando-o.</p> + +<p>--Pintal-o?!--disse D. Bertha, dando uma grande gargalhada.--Que +liguemos alguma attenção ás flôres dos nossos parques e jardins, +concedo; mas que empreguemos o tempo e o talento com as silvestres, que +só tem os perfumes para si, parece-me uma singularidade esquisita.</p> + +<p>--A minha opinião, Bertha, é exactamente o contrario. Mas isso não +admira, por que nós raras vezes estamos accordes sobre qualquer materia. +Ponhamos isso de parte; queres tu vir ámanhã, commigo e com a nossa boa +mãi, vêr Rosa?</p> <span class="pagenum">[244]</span> + +<p>--Não posso. Combinei com a Francisquinha e Ritinha Meirelles virem +amanhã aqui passar o dia. Além d'isso, fallar-te-hei francamente, não ha +nada para mim mais antipathico do que todas essas lavradeiras; e andar +uma legua para me ir achar face a face com um monstrosinho, parece-me um +tanto aborrecivel.</p> + +<p>--Rosa é muito linda e interessante.</p> + +<p>--Para ti, Julia, todas as lavradeiras são lindas e interessantes. Para +mim todas são feias, e broncas. O calor principia a incommodar-me--disse +D. Bertha, sentando-se indolentemente sobre um sophá.--Vai, Julia, vai +pintar o teu lindo cestinho, que eu vou sonhar com o meu Porto, para +onde espero ir muito breve.</p> + +<p>Estas ultimas palavras já mal se perceberam, porque foram acompanhadas +com um bocejo, e D. Bertha cerrou os olhos.</p> + +<p>D. Julia lançou sobre sua irmã um olhar de compaixão e sahiu.</p> + +<p>Alguns instantes depois deu principio ao quadro.</p> <span class="pagenum">[245]</span> + + +<h3>VII.</h3> + +<p>No dia seguinte Rosa sahiu para a serra, muito cêdo, para adiantar o seu +trabalho, e poder assim dedicar mais tempo á joven senhora, que tão +amavel e generosa tinha sido com ella.</p> + +<p>Trabalhou com tal desembaraço, que, muito antes da hora marcada por D. +Julia, tinha terminado o seu serviço.</p> + +<p>Aproveitou portanto o tempo entregando-se á leitura d'algumas paginas +d'um livro, de que lhe tinham feito presente no dia anterior. Lia com +attenção, e, quando encontrava algum trecho rico e bello, parava, para +exprimir a sua alegria e enthusiasmo.</p> + +<p>Estava Rosa de tal sorte entregue á leitura, que não presentiu a chegada +da viscondessa e de sua filha D. Julia.</p> <span class="pagenum">[246]</span> + +<p>--Que livro estás lendo, com tanta attenção, minha menina--lhe disse a +viscondessa.</p> + +<p>Rosa saudou-a, apresentou-lhe o livro e respondeu:</p> + +<p>--São as <i>Meditações religiosas</i> de Rodrigues de Bastos.</p> + +<p>--E encontras grande prazer na sua leitura?</p> + +<p>--Se encontro, minha senhora. Quando estou sentada á borda d'um regato, +ou debaixo d'um carvalho annoso, lendo n'este livro, parece que a minha +alma se despe de todos os seus envolucros terrenos e mundanos, e se põe +em contacto com Deus, author de todas estas maravilhas da natureza, que +nos cercam, e a quem no fundo do meu coração adoro e venero.</p> + +<p>A viscondessa e sua filha, admiradas do que ouviam a uma pequena do +campo, trocaram entre si um olhar d'intelligencia.</p> + +<p>--E que mais costumas lêr?--perguntou D. Julia.</p> + +<p>--Não tenho muitos livros. Além d'este possuo um cathecismo, uma vida de +santos, de que leio uma pagina cada domingo, e mais uns livrinhos +d'historias bonitas. Esquecia-me dizer-vos, que tambem tenho um livro de +geographia, que me deu o mestre escóla da minha freguezia, mas que não +leio, por que tem muitas palavras, que não entendo.</p> + +<p>--Pelo que me dizes conheço que tens desejos de te instruires. Se te +proporcionassem os meios de o fazeres, serias feliz?</p> + +<p>--Seria, sim, minha senhora; mas infelizmente isso é impossivel, porque, +para ir todos os dias á mestra, é preciso ser muito rica.</p> + +<p>--Mas se te mandassem á mestra?--insistiu D. Julia.</p> + +<p>--Seria muito feliz, mas nem quero pensar n'isso.</p> + +<p>--Pelo contrario; eu e minha mãi, viemos procurar-te para que nos +conduzisses a casa da snr.<sup>a</sup> D. Thereza, e, se a tua protectora estiver +satisfeita comtigo, pedir-lhe-hemos <span class="pagenum">[247]</span> para te deixar ir todos os +dias á mestra. Então não respondes?</p> + +<p>--Perdoai-me, senhora. Estou muito contente e alegre, e queria +agradecer-vos, mas não posso. Que fiz eu para merecer tantos beneficios?</p> + +<p>--Mostraste-te reconhecida aos beneficios da snr.<sup>a</sup> D. Thereza, e isso +indica um bom coração; és trabalhadeira e tens desejos de te instruires; +mereces portanto que nos interessemos por ti--lhe disse a +viscondessa.--Vamos, ensina-nos o caminho para a quinta da snr.<sup>a</sup> D. +Thereza.</p> + +<p>Rosa, commovida, dirigiu-se para a quinta com a viscondessa e sua filha. +Pelo caminho respondeu modestamente, e com graça, a todas as perguntas, +que lhe fizeram, e cada uma das respostas confirmou mais, as duas +senhoras, no bom conceito, que tinham formado de Rosa.</p> + +<p>Quando chegaram á quinta, D. Thereza não estava em casa, mas não devia +tardar muito, por isso esperaram. Rosa apresentou ás duas senhoras +cadeiras para se sentarem e offereceu-lhes um copinho de leite fresco e +morno.</p> + +<p>D. Julia, a quem o caminho tinha fatigado, aceitou o offerecimento.</p> + +<p>Rosa trouxe então uma toalha de linho, alvo como neve, que estendeu +sobre uma mesa, na qual collocou o melhor pão, que havia em casa, +manteiga e um copo de leite.</p> + +<p>D. Julia, com uma alegria infantil, aceitou este <i>lunch</i> frugal, e, +reanimadas com elle as suas forças, pediu para visitar a quinta.</p> + +<p>A avó de Rosa estava sentada no jardim, debaixo d'um caramanchel de +clematites, fiando, e cantando com voz tremula o estribilho d'um romance +antigo. N'esta boa velha, bem vestida e de boa presença, ninguem seria +capaz de reconhecer a pobre cega, que dezoito mezes antes, quasi +morrendo de fome e frio, e podendo apenas <span class="pagenum">[248]</span> suster-se em pé, +encontramos seguindo o caminho da serra de Vallongo para S. Cosme.</p> + +<p>A viscondessa do Candal e sua filha saudaram a pobre cega, e esta, +prevenida pela netinha, correspondeu-lhe respeitosamente.</p> + +<p>--Não vos incommodeis, boa mulher---lhe disse a +viscondessa--permitti-nos sómente que conversemos por um instante +convosco.</p> + +<p>--É muita honra para mim, minha querida senhora;--respondeu a +cega--estou portanto ás vossas ordens.</p> + +<p>--Visto isso não vos recusareis a dizer-me se estaes satisfeita com a +vossa neta?</p> + +<p>--Se estou contente com a minha Rosinha?!--exclamou a cega---com ella, +que é a minha benção sobre a terra. Quando o meu genro morreu, por causa +d'uma ferida, que fez em uma perna com o seu machado, porque elle era +rachador de lenha na serra, e a quem minha filha, mãi de Rosa, seguiu +passado pouco tempo, quasi que enlouqueci, porque não sabia o que havia +de fazer. Rosa, disse-me com a sua voz meiga e humilde: avósinha, eu +conheço uma senhora muito caritativa; vamos a sua casa, que estou certa +nos ha-de recolher. E foi verdade.</p> + +<p>A snr.<sup>a</sup> D. Thereza, essa boa e caritativa senhora, para quem peço a Deus +todos os beneficios e bençãos, teve a caridade de recolher em sua casa +uma velha enferma e inutil como eu. Mas isto devo-o a Rosinha, porque +ella sabe dizer as cousas de tal maneira, que, penetrando até o coração, +commovem e decidem á compaixão. Vai em dezoito mezes que aqui nos +achamos. Fio um pouco para não estar em descanço; mas Rosinha, senhora, +Rosinha, cantando sempre, trabalha desde pela manhã até á noite. Em +quanto que dura o verão, occupa-se a colher flôres na serra e no campo, +e a fazer cestinhos com ellas; mas isto não obsta a que, quando se +recolhe, lave a roupa, limpe os moveis, e ajude a <span class="pagenum">[249]</span> cozinhar, e se +quizesse dizer-vos tudo o que ella faz, ou sabe fazer, levar-me-ia muito +tempo.</p> + +<p>Assim, amo muito a minha querida Rosinha. Mas onde estás tu, que te não +chegas a mim para te dar um abraço?</p> + +<p>Rosa, com o pretexto de ir colher um ramo para D. Julia, tinha-se +retirado, quando a avó começára a elogial-a.</p> + +<p>A viscondessa e sua filha ouviram com prazer o panegyrico de Rosa, feito +pela avó, e iam fazer novas perguntas, quando D. Thereza chegou.</p> + +<p>Depois de terminados os comprimentos preliminares, a viscondessa expoz a +D. Thereza como sua filha sympathisára com Rosa, e estava resolvida a +tomal-a sob a sua protecção, se D. Thereza a isso se não oppozesse.</p> + +<p>--Primeiro que tudo--respondeu D. Thereza--desejo a felicidade e +venturas de Rosinha, ainda que me ha-de custar muito a separar-me +d'ella: porém, se fôr sua vontade, não me opponho, por que julgo lhe +procuraes a sua felicidade; mas ponho por condição, que lhe não +prohibireis vir algumas vezes visitar-me.</p> + +<p>--Isso, senhora, é um dever sagrado, que Rosa tem a cumprir. Vamos porém +interrogal-a, por que ella nada sabe do que acabamos de fallar.</p> + +<p>D. Thereza chamou a pequena, que veio correndo, e disse-lhe:</p> + +<p>--Rosinha, queres ir viver com esta senhora e sua filha?</p> + +<p>--Pois vós, senhora--respondeu Rosa tremula e timida--quereis mandar-me +embora?</p> + +<p>--Não. Pergunto sómente se me queres deixar, para te tornares uma menina +da cidade, instruida e de maneiras polidas?</p> + +<p>--Não, minha senhora. Nunca--disse Rosa chorando, lançando-se nos braços +da sua bemfeitora--nunca vos deixarei. Tenho muitos e muitos desejos de +me instruir <span class="pagenum">[250]</span> e de aprender, mas, se para isso é necessario o +deixar-vos, antes quero ficar ignorante toda a minha vida. +Recolheste-nos, senhora, quando eu e a minha querida avósinha, estavamos +quasi a morrer de fome, e havia de ser tão ingrata, que, quando +principio a servir d'alguma utilidade, vos abandonasse? Não, senhora, +nunca, nunca vos deixarei.</p> + +<p>--Ouvistel-a, minhas senhoras--disse D. Thereza enxugando os olhos, +razos de lagrimas.</p> + +<p>--Pelo que vejo, Rosa, estás bem decidida a não vir comnosco?--lhe disse +a viscondessa.</p> + +<p>--Seria feliz e muito feliz, minha senhora, se podesse ir viver na sua +companhia, e de sua estimavel filha; mas antes de vós, está a snr.<sup>a</sup> D. +Thereza, que salvou a minha pobre avósinha d'estender a mão á caridade +publica e que sempre tão minha amiga tem sido. Perdoai-me, senhora, se +assim fallo...</p> + +<p>--Dá-me um abraço, minha menina--lhe disse a viscondessa +interrompendo-a--dá-me um abraço, porque te mostraste tal, como eu +desejava, boa, humilde e reconhecida aos beneficios, que te fazem.</p> + +<p>Não tenhas receio, que te separemos da snr.<sup>a</sup> D. Thereza. Pediremos +sómente á tua bemfeitora, que nos deixe entrar com metade nos +beneficios, que te prodigalisa.</p> + +<p>--E eu, Rosa--acrescentou D. Julia--quero ser a tua preceptora. Quando o +tempo estiver bom, dar-te-hei as lições na serra, á sombra d'um +sobreiro, ou d'um pinheiro, ou á borda d'um regato; e quando estiver +mau, dar-tas-hei em minha casa, porque ouso esperar, que a snr.<sup>a</sup> D. +Thereza me não negará este favor, e prazer.</p> + +<p>--Oh não, minha senhora, esteja certa d'isso. Logo que termine o seu +serviço dos cestinhos fica livre para vos ir procurar.</p> + +<p>--É objecto convencionado--disse a viscondessa--por isso a snr.<sup>a</sup> D. +Thereza ha-de-me permittir licença <span class="pagenum">[251]</span> de offerecer a Rosa, para si e +sua avó, o que contém esta pequena bolsa. É para comprar em nosso nome +um vestido novo.</p> + +<p>E como D. Thereza, Rosa e a avó lhe fizessem muitos agradecimentos, a +viscondessa impoz-lhes com brandura silencio, e retirou-se, promettendo +voltar muito breve á quinta.</p> + +<p>D. Julia abraçou a sua pequena discipula, e retirou-se dizendo-lhe «até +ámanhã».</p> + +<p>Nas proximidades de casa a viscondessa e sua filha encontraram D. +Bertha, que estava esperando pelas meninas Meirelles.</p> + +<p>--Meu Deus, como estou aborrecida--lhes disse ella.</p> + +<p>--Pois eu, minha irmã--respondeu D. Julia--venho muito alegre; o +espectaculo, que acabo de gosar, dar-me-ha felicidade não só para hoje, +mas tambem para muito tempo, porque será contado no numero das minhas +mais gratas e queridas recordações.</p> <span class="pagenum">[252]</span> + + +<h3>VIII.</h3> + +<p>D. Julia, na fórma convencionada, principiou no seguinte dia o curso, +que queria fazer seguir a Rosa. Tomou com ardor a obrigação, que se +tinha imposto desempenhar, mas o seu zelo não excedia, o que mostrava a +sua alumna. Intelligente, e anciosa por aprender, Rosa era incansavel, e +muitas vezes foi preciso que D. Julia moderasse a sua applicação; as +lições tinham lugar umas vezes na serra, outras vezes em casa da +viscondessa.</p> + +<p>Decorreram assim tres mezes. No fim d'este tempo, os progressos, que +Rosa tinha feito, eram espantosos, e como tanto a professora, como a +discipula não afrouxavam no seu zelo, era d'esperar que, no fim dos dous +mezes que D. Julia ainda tinha a passar no campo, Rosa estivesse +bastante desenvolvida para continuar, sem nada esquecer, a estudar +sósinha, durante o inverno.</p> <span class="pagenum">[253]</span> + +<p>Mas, quando menos se esperava, a terrivel molestia, que parecia ter +deixado D. Julia, reappareceu com uma intensidade violenta.</p> + +<p>A pobre menina não teve forças para resistir a este ataque, e não podia +sahir do quarto.</p> + +<p>Rosa, que no auge da sua desesperação, com risco da propria vida, +quereria dar algumas forças á amiga do seu coração, podia a custo conter +as lagrimas, contemplando-a, pallida e cadaverica, recostada n'uma +cadeira de braços, forcejando por se levantar sem auxilio, para não +aterrar a sua querida mãi e a sua discipula predilecta.</p> + +<p>N'este momento Rosa tinha um unico pensamento; o de sacrificar-se por +aquella, que tanto a amava e lhe queria. Os mais pequenos desejos, e os +mais vagos caprichos eram adivinhados de Rosa, e executados antes mesmo +que D. Julia os tivesse enunciado. Se queria descer ao jardim, o braço +de Rosa é que a amparava; se queria ouvir alguma passagem dos seus +livros favoritos, Rosa lia-lh'a immediatamente.</p> + +<p>D. Julia, muito sensibilisada por tanta dedicação, affligia-se com a +lembrança, de que o progresso da sua discipula estava parado. D. Bertha +podia substituil-a, mas essa nunca consentiria em ser a preceptôra d'uma +lavradeira. A viscondessa resolveu-se a dar as lições a Rosa, para +socegar a inquietação de D. Julia.</p> + +<p>Havia já tres semanas que D. Julia estava doente, e cada dia ia a peor; +sua mãi já não tinha esperanças algumas. Tres medicos, que do Porto +haviam sido chamados, não deram esperanças da doente melhorar.</p> + +<p>A viscondessa, porém, não podendo convencer-se de que sua filha estava +irremediavelmente perdida, cria que os medicos se tinham enganado, e +resolveu recolher ao Porto, para lhe fazer uma nova junta.</p> + +<p>D. Bertha, contristada ao principio com a molestia de sua irmã, +consolava-se com a idéa de voltar ao seio da sociedade, que ella tanto +amava.</p> <span class="pagenum">[254]</span> + +<p>Só á força de muitas instancias e esforços é que D. Julia consentiu em +deixar o campo; mas, ainda assim, com a expressa condição de para lá +voltar se peorasse.</p> + +<p>Quando Rosa soube que a viscondessa se ia retirar do campo, não pôde +conter a sua desesperação. Queria acompanhar D. Julia, e não a +desamparar um só instante. D. Julia procurava socegal-a, mas tudo era +baldado, por que Rosa estava inconsolavel.</p> + +<p>Na vespera da partida Rosa veio despedir-se de D. Julia; lançou-se-lhe +aos pés, chorando, e pediu-lhe que lhe escrevesse muitas e muitas vezes. +A doente assim lh'o prometteu, e, tirando debaixo do travesseiro uma +bolsinha de sêda, apresentou-a a Rosa.</p> + +<p>--Aceita, minha menina--lhe disse ella--esta bolsa; contem cem mil reis, +que são as minhas economias do verão; põe a juros este dinheiro, para +que se augmente este capitalsinho.</p> + +<p>É um presente muito pequeno; mas se nos não tornarmos a vêr, minha boa +mãi, dar-te-ha, em meu nome, mais alguma cousa.</p> + +<p>Rosa beijou as mãos de D. Julia, e queria recusar a bolsa.</p> + +<p>--Não recuses, Rosa--tornou D. Julia--senão fôr para ti, é para tua avó. +Sabes lá o que tem para vos acontecer, e se esta pequena somma ainda vos +será util? Adeus, Rosinha; ama-me sempre muito, e reza muito ao Senhor, +para que me dê saude.</p> + +<p>Rosa quiz responder, mas as lagrimas e soluços embargaram-lhe a voz. A +viscondessa, testemunha d'esta scena tão tocante, temendo as funestas +consequencias, que sua filha soffreria com tão grande commoção, levantou +Rosa, e pediu-lhe com instancia e por favor que se retirasse. A pobre +menina cedeu a custo, mas antes de se retirar ainda pôde vêr D. Julia, +que, com um olhar maternal, a abençoava.</p> <span class="pagenum">[255]</span> + + +<h3>IX.</h3> + +<p>Já tinha decorrido mais d'um mez, desde que D. Julia recolhera ao Porto, +e Rosa ainda não tinha recebido carta da sua amiga. A pobre criança +affligia-se, julgando, que este silencio, para com ella, não tinha outra +causa, senão o estado cada vez mais perigoso de D. Julia. D. Thereza, +que partilhava do pesar de sua filha adoptiva, procurava por todos os +meios consolal-a, e fazer-lhe conceber esperanças. Uma carta de D. Julia +veio confirmar as prevenções de D. Thereza.</p> + +<p>D. Julia, com mão tremula, escreveu á sua querida discipula. +Participava-lhe que a sua doença parecia estar um pouco mais debellada, +e que os medicos davam algumas esperanças de a poder subjugar, e +embargar-lhe o seu progresso.</p> <span class="pagenum">[256]</span> + +<p>Terminava a carta aconselhando Rosa a que não descurasse os seus +estudos, e pedindo-lhe que lhe escrevesse.</p> + +<p>Rosa cobriu de mil beijos esta carta, e no mesmo dia respondeu a D. +Julia, assegurando-lhe que não despresaria os seus conselhos, e que +tinha esperanças, de, para a primavera, renovar as suas lições sob as +arvores da serra; que nas suas orações rogava todos os dias a Deus, com +fervor, que lhe restituisse a saude, e que esperava as suas supplicas +fossem attendidas.</p> + +<p>Rosa, cumprido este dever sagrado, lançou mão do seu trabalho com mais +vigor.</p> + +<p>Estava proximo o dia natalicio de D. Thereza. Rosa preparava em segredo +um lindo presente para offerecer n'aquelle dia á sua bemfeitora, e para +isso tinha reunido todo o dinheiro, que lhe tinham dado de mimo, e +julgava-se bastante rica para poder apresentar a D. Thereza um brinde, +de que ella admirasse o valor e o gosto.</p> + +<p>Faltavam só quatro dias para que, esse dia tão anciosamente esperado, +chegasse, e Rosa ainda queria poder supprimir o tempo, tão longo lhe +parecia.</p> + +<p>Na vespera de manhã D. Thereza queixou-se d'uma dôr de cabeça, mas +julgou que um passeio lh'a dissiparia. Sahiu pois; mas passado uma hora +voltou ainda mais indisposta, do que tinha sahido.</p> + +<p>Despresando o seu estado, ainda presidiu, na fórma costumada, ao jantar +dos criados da quinta; mas, no meio d'elle, cahiu sem sentidos.</p> + +<p>Os criados, assustados, cercaram D. Thereza. Recolheram-na á cama, e +partiu immediatamente um criado a chamar, a toda a pressa, um cirurgião.</p> + +<p>Chegou este, e, mal viu a doente, não deu esperanças de a salvar.</p> + +<p>--Foi uma apoplexia fulminante--disse elle--é já tarde para se lhe dar +remedio.</p> + +<p>O desespero e a consternação espalharam-se na quinta.</p> <span class="pagenum">[257]</span> + +<p>Os criados em geral estimavam muito D. Thereza, por que, apesar de ser +muito vigilante, era boa e justa.</p> + +<p>Os menores movimentos do cirurgião eram seguidos com anciedade por todos +os criados, mas entre elles tornava-se saliente Rosa pelo zelo e +actividade, que desenvolvia em executar as prescripções do cirurgião, +ainda bem não estavam dadas.</p> + +<p>Rosa não podia crêr que Deus lhe quizesse roubar a sua bemfeitora, e +esperava ainda que uma crise feliz a restituiria á vida.</p> + +<p>A avó de Rosa estava consternadissima, e o seu maior pesar consistia em +não poder fazer cousa alguma.</p> + +<p>De joelhos; junto do leito de D. Thereza, rezava com fervor e devoção.</p> + +<p>Entre as alternativas da esperança e desconforto se passou o dia. Á +noite o cirurgião declarou que já lhe não restava esperança alguma; que +D. Thereza ainda podia viver mais um dia ou dous, mas que não proferiria +mais uma palavra, nem faria um unico movimento.</p> + +<p>Descrever a afflicção de Rosa e de sua avó é-me impossivel; bastará +dizer que a dôr as tinha quasi enlouquecido.</p> + +<p>D. Thereza não tinha filhos, por isso foram avisar do succedido a D. +Euzebia, sua irmã, rica proprietaria em Rio Tinto.</p> + +<p>D. Euzebia, por causa do seu genio forte, e caracter duro, não estava em +intimas relações com D. Thereza. Assim que teve noticia da doença de sua +irmã poz-se logo a caminho, não por amisade que tivesse á moribunda, mas +sim para vigiar que lhe não roubassem a mais pequena parte da sua +herança.</p> + +<p>Logo que D. Euzebia chegou a S. Cosme, tomou o governo da casa, e deu +ordens como se já estivesse senhora da herança. Rosa e sua avó +inspiraram-lhe antipathia, e não podia comprehender como sua irmã +voluntariamente <span class="pagenum">[258]</span> tinha tomado ao seu cuidado aquellas duas pessoas.</p> + +<p>D. Thereza ainda viveu dous dias, conforme o cirurgião dissera, mas sem +falla, e sem movimento, porque a apoplexia tinha-lhe paralysado todas as +faculdades. Só os olhos é que conservavam ainda alguns signaes de vida e +intelligencia, os quaes fixava sobre Rosa, fazendo esforços para fallar, +naturalmente para fazer o seu testamento; mas este ultimo consolo dos +moribundos não lhe foi permittido.</p> + +<p>O abbade da freguezia, que veio administrar os ultimos sacramentos á +moribunda, tentou mitigar a dôr de Rosa, mas a joven menina estava muito +consternada para poder ser consolada. Recusou obstinadamente retirar-se +de junto do leito, em que jazia D. Thereza, conservando-lhe a mão gelada +apertada nas suas.</p> + +<p>--O meu lugar é este,--dizia ella entre soluços,--só deixarei minha +segunda mãe no tumulo.</p> + +<p>Finalmente chegou o terrivel momento da morte. Uma convulsão, alguns +murmurios sufocados........ e D. Thereza tinha deixado d'existir entre +os vivos, e sua alma, desprendendo-se das ligações terrenas, voára ao +céo a receber da mão de Deus o premio das suas virtudes.</p> + +<p>Ao principio não se ouviam mais que os chóros de todos os criados da +quinta, mas em seguida uma voz forte e imperiosa se fez escutar. Era a +de D. Euzebia. Collocou uma pessoa junto do cadaver de sua irmã, deu as +ordens para os funeraes, e passou a inspeccionar as caixas e commodas, +que fechava com cuidado, guardando as chaves.</p> <span class="pagenum">[259]</span> + + +<h3>X</h3> + +<p>Apenas D. Euzebia fechou as commodas e caixas, compareceu o juiz eleito +da freguezia para sellar e tomar conta de tudo o que pertencia a D. +Thereza.</p> + +<p>--Aqui estão as chaves, senhor juiz eleito--disse D. Euzebia,--mas é +inutil esse trabalho, por que eu sou a unica herdeira de minha irmã, e +ella não podia desherdar-me.</p> + +<p>--É verdade, minha senhora,--respondeu o juiz--mas cumpro o meu dever, +por que a lei protege os direitos de todos.</p> + +<p>--Só eu é que tenho direito á fortuna de minha irmã, pois ella não tem +filhos.</p> + +<p>--Sim, minha senhora, mas esta orphãsinha, a quem ella deu asylo?</p> <span class="pagenum">[260]</span> + +<p>--Minha irmã--replicou com colera D. Euzebia--seria por ventura capaz de +me desherdar, testando os seus bens a favor d'estas duas mendigas, que +ella teve a phantasia de recolher em sua casa?</p> + +<p>--Não o affirmo, minha senhora--respondeu com brandura o juiz;--mas sua +irmã póde ter feito testamento, no qual deixe a Rosa alguma prova da sua +estima e amisade.</p> + +<p>--Não julgaria sufficiente o sustental-a e mais á avó,--disse D. Euzebia +com voz forte--ainda lhe havia de deixar algum legado? Ah! minhas +velhacas, virieis vós roubar o que de direito me pertence? Snr. juiz +eleito, queira tambem sellar a porta do quarto d'ella, pois quem sabe +lá, o que ella tem roubado. Minha irmã era tão pouco cautellosa...</p> + +<p>--Oh! senhora--respondeu Rosa com muita tristeza a esta supposição +offensiva--acreditaes que pagasse com o roubo os beneficios, que eu e +minha avó recebemos da snr.<sup>a</sup> D. Thereza?</p> + +<p>O juiz eleito ordenou com brandura a Rosa que se calasse, para que D. +Euzebia não continuasse, diante d'um leito de morte, com uma discussão +tão vergonhosa, e feia.</p> + +<p>Logo que o juiz se retirou, Rosa viu-se de novo a braços com as +suspeitas da ambiciosa herdeira. Chegaram a tal ponto as cousas, que +Rosa não pôde refrear a sua indignação.</p> + +<p>--Não me injurieis, senhora,--disse Rosa com energia e dignidade--não me +injurieis diante do corpo de vossa irmã, de quem só a vista bastaria +para me proteger. Dizei-me, senhora, sahi eu por ventura um só instante +de junto da cama da minha bemfeitora, desde que ella foi atacada pela +apoplexia? Não, senhora. Então como podia eu subtrahir cousa alguma? +Examinai, e examinai bem, senhora, que achareis tudo intacto, porque eu +e minha avó preferiamos antes morrer <span class="pagenum">[261]</span> de fome, do que tocar na +cousa mais insignificante, que nos não pertencesse. Louvado seja o +Senhor, sou forte; posso e quero trabalhar, por isso não serei pesada a +ninguem. Deixai-nos, senhora, chorar em paz a perda da nossa bemfeitora, +que, logo que o seu corpo saia d'esta casa, não vos pediremos asylo.</p> + +<p>Esta linguagem, firme e digna, impoz silencio a D. Euzebia, que ficou +corrida de vergonha.</p> + +<p>Rosa esperou com socego o dia seguinte, em que se devia fazer o enterro +a D. Thereza.</p> + +<p>A pobre criança, com a avó pelo braço, seguiu chorando o prestito. +Depois de terminado o officio, Rosa e sua avó, ajoelharam-se junto da +campa, em que D. Thereza foi sepultada: era já noite cerrada, e ainda as +duas desgraçadas não cuidavam em se retirar.</p> + +<p>O frio, que fez dar um gemido á avó, advertiu Rosa de que se devia +recolher; só então é que pensou para onde havia de ir.</p> + +<p>--Vamos, minha avósinha--disse Rosa--a casa da snr.<sup>a</sup> Maria da Gandra, +que estou certa, sendo tão nossa amiga, nos não ha-de deixar na estrada.</p> + +<p>A snr.<sup>a</sup> Maria da Gandra era uma boa e caridosa mulher, que, como todos +os moradores de S. Cosme, e seus arredores, estimava muito a protegida +de D. Thereza, e censurára o procedimento de D. Euzebia.</p> + +<p>--Oh! Rosinha, foi Deus que te dirigiu para minha casa--lhe disse ella +logo que a avistou.--Que prazer me não causa teres procurado a minha +casa para te recolheres. Tinham-me dito, que ias para casa da Joanna da +Quintella, por isso é que te não offereci para vires para aqui com tua +avó.</p> + +<p>--Agradeço-vos, senhora--disse Rosa--a vossa bondade, e a caridade com +que vos offereceis para nos recolherdes; mas não venho pedir-vos casa e +sustento de graça, porque tenho duas inscripções de cem mil reis cada +uma; o que vos rogo é que me aboneis tudo o <span class="pagenum">[162]</span> que eu precisar e +minha avó, que vos satisfarei logo que termine a liquidação da herança +da snr.<sup>a</sup> D. Thereza, e receba as minhas inscripções.</p> + +<p>--Sim, sim, minha menina,--lhe respondeu a snr.<sup>a</sup> Maria da Gandra--Não +preciso do teu dinheiro para te sustentar e a tua avó. Mas diz-me, como +obtiveste essas inscripções?</p> + +<p>--A snr.<sup>a</sup> D. Julia, antes de partir para o Porto, deu-me cem mil reis, +com os quaes a snr.<sup>a</sup> D. Thereza, em cumprimento do seu desejo, comprou +duas inscripções em meu nome.</p> + +<p>--Foste feliz, Rosinha, em que fossem compradas em teu nome, porque +d'outra maneira D. Euzebia tomaria posse d'ellas. Tem resignação, assim +como vós, minha boa velhinha; vinde cear, que eu depois vou-vos conduzir +ao vosso quarto.</p> + +<p>Rosa e sua avó ficaram portanto habitando na Gandra.</p> + +<p>A pequena não estava ociosa, antes pelo contrario era tão zelosa e +trabalhadeira, que a snr.<sup>a</sup> Maria, muito satisfeita, propoz-lhe que ella +e a avó, ficassem para sempre em sua casa. Rosa aceitou promptamente, e +com reconhecimento, pois n'aquella occasião era a maior felicidade, que +lhe podia apparecer.</p> + +<p>No dia em que se deviam tirar os sellos em casa da defunta D. Thereza, +Rosa alli compareceu por convite do juiz eleito.</p> + +<p>Quando Rosa atravessou, como estranha, a soleira da porta da casa, que +tinha sido para ella tão hospitaleira, o coração comprimiu-se-lhe e não +pôde reter as lagrimas.</p> + +<p>Tudo se passou sem novidade; só de quando em quando D. Euzebia mostrava +por gestos e exclamações o seu desapontamento por encontrar menos +dinheiro, do que imaginava.</p> + +<p>Quando se abriu a caixa, que pertencia a Rosa, não <span class="pagenum">[263]</span> foi uma +exclamação de surpreza, que D. Euzebia soltou, mas sim de raiva, na qual +se divisava um accento de triumpho.</p> + +<p>--Bem certa estava eu,--disse ella--que esta velhaca havia de ter +<i>empalmado</i> alguma cousa. Ah! se eu não viesse logo... o que teria +acontecido. Examinai, senhor escrivão, o que é que ahi existe.</p> + +<p>O escrivão tirou da caixa um magnifico vestido, que, a julgar pelo +tamanho, não pertencia de certo a Rosa.</p> + +<p>--Dize velhaca,--tornou D. Euzebia--como é que este vestido veio aqui +parar?--Não preciso perguntal-o, porque a culpada está-se denunciando +pelo rubôr, que lhe cobre as faces.</p> + +<p>--Senhora D. Euzebia--disse o juiz--o seu proceder para com esta criança +é digno de censura. Ainda, até agora, não encontramos cousa alguma, que +fizesse, nem ao menos, suspeitar de sua probidade. Deixai-a portanto +dar-me as explicações, que tiver a fazer.</p> + +<p>Responde Rosinha,--disse o juiz com modo affavel--como é que este +vestido se acha na tua caixa?</p> + +<p>Rosa fez-se muito corada e respondeu:</p> + +<p>--Este vestido, senhor, foi comprado com as minhas economias.</p> + +<p>--Que é; que é?--interrompeu D. Euzebia.</p> + +<p>--Senhora--disse severamente o juiz--ordeno que vos caleis.</p> + +<p>--É bem publico e sabido, que eu, durante o verão, fazia cestinhos de +flôres, que ia vender ás casas abastadas dos arredores.</p> + +<p>Quasi sempre me davam, como presente, mais do que o custo dos cestos: +entregava-me a snr.<sup>a</sup> D. Thereza, para guardar no meu mealheiro, estas +pequenas quantias, que reservei com muito cuidado para poder brindar a +snr.<sup>a</sup> D. Thereza no seu dia natalicio.</p> + +<p>Estava muito indecisa, por não saber o que lhe devia offerecer, e foi a +minha avó, que me suggeriu a <span class="pagenum">[264]</span> idéa de lhe comprar um vestido. Para +levar a effeito este meu desejo combinei em segredo, com a costureira da +snr.<sup>a</sup> D. Thereza, para o fazer, e estou muito certa de que a minha +bemfeitora não despresaria a minha offerta, se tivesse a felicidade de +lh'a apresentar.</p> + +<p>Esta explicação, simples e clara, que demonstrava um coração sincero e +grato, fez borbulhar as lagrimas nos olhos de todos os circumstantes. +Devemos comtudo excluir d'este numero D. Euzebia, que presistia em negar +a verdade.</p> + +<p>Quando se encontraram as duas inscripções, D. Euzebia chegou ao auge do +desespero e da colera, e de boa vontade as inutilisaria, se lhe fosse +possivel obtel-as á mão; mas, felizmente para Rosinha, não pôde +conseguil-o.</p> + +<p>Finalmente, pelos cuidados e protecção do juiz eleito, Rosa e sua avó, +apesar de todos os obstaculos e vontade de D. Euzebia, receberam tudo o +que lhes pertencia, e deixaram sem maior desgosto a casa, de que a mais +cruel e mais requintada avareza as expulsava.</p> <span class="pagenum">[265]</span> + + +<h3>XI.</h3> + +<p>Estamos no anno seguinte.</p> + +<p>Rosa escreveu á viscondessa do Candal e a sua filha uma carta tão +affectuosa e consoladora, que fez despertar em D. Julia um vehemente +desejo de tornar a vêr a sua querida discipula e protegida.</p> + +<p>Os dias, que faltavam para Rosa poder abraçar a sua amiga, pareciam-lhe +seculos. Esperava com uma impaciencia impossivel de descrever, a chegada +da primavera, porque então é que devia, e podia estreitar ao coração a +sua querida amiga e preceptora.</p> + +<p>Raiou finalmente o dia tão anciosamente almejado. A primeira pessoa que +D. Julia avistou foi Rosa, que, louca d'alegria, viera esperar a sua +amiga querida, para lhe apresentar um cestinho, igual ao que tinha +estabelecido <span class="pagenum">[266]</span> e sido causa das relações e intima união, que existia +entre ellas.</p> + +<p>D. Julia ao vêl-a deu um grito, e quiz immediatamente descer do coupé; +mas não pôde fazel-o, por que estava tão magra, fraca e desfigurada que, +quem a via, só a um milagre podia attribuir a sua existencia. Era na +verdade um milagre, devido ao amor maternal, e continuos cuidados e +desvelos, de que a cercava a viscondessa.</p> + +<p>Rosa passou todo o dia na companhia da sua querida amiga e protectora. +D. Julia tinha muito que lhe perguntar, por que queria saber +minuciosamente tudo o que tinha acontecido, desde que ella se tinha +retirado para o Porto.</p> + +<p>Apenas teve conhecimento da morte de D. Thereza, D. Julia pediu +immediatamente a sua mãi, que recebesse em sua casa Rosa e sua avó.</p> + +<p>A viscondessa, que desejava e queria satisfazer o mais pequeno desejo, +ou pedido de sua filha predilecta, accedeu sem demora.</p> + +<p>Rosa e sua avó vieram portanto morar para casa da viscondessa do Candal, +que foi pessoalmente dar parte d'esta sua resolução á snr.<sup>a</sup> Maria da +Gandra.</p> + +<p>--Estou satisfeitissima, minha senhora--disse a snr.<sup>a</sup> Maria da +Gandra--pela felicidade de Rosa; mas ao mesmo tempo sinto um grande +pesar, e é com difficuldade que me separo d'ella. Nunca mais encontrarei +uma pequena, que seja tão humilde e trabalhadeira.</p> + +<p>A viscondessa em seguida quiz satisfazer á snr.<sup>a</sup> Maria da Gandra toda a +despeza, que Rosa e sua avó tinham feito em sua casa; mas a honrada e +digna aldeã não quiz aceitar a mais pequena e insignificante recompensa, +e respondeu--Que Rosa havia ganho o que ella e sua avó tinham +despendido.</p> + +<p>A despedida de Rosa e da snr.<sup>a</sup> Maria da Gandra foi pathetica, e só a +muito custo se desprenderam, chorando, <span class="pagenum">[267]</span> dos braços uma da outra, +promettendo Rosa vir visital-a a miudo, por que o carinho, com que a +snr.<sup>a</sup> Maria a tinha tratado havia sido tal, que seria uma ingrata se lhe +não tributasse um profundo reconhecimento.</p> + +<p>A alegria, que se apoderou da pobre cega, quando lhe disseram que ia +viver em casa da viscondessa do Candal, foi tal, que só acreditou depois +de muito lh'o asseverarem, por que lhe parecia impossivel que semelhante +ventura lhe succedesse.</p> + +<p>--Que a minha Rosinha--disse ella--algum dia se havia de tornar senhora +da cidade, sempre eu o julguei, por que era muito gentil e linda para +ser camponeza; mas que eu partilhasse tal ventura, nunca o imaginei.</p> + +<p>Rosa e sua avó foram alojadas, em casa da viscondessa, em dous quartos, +muito perto d'aquelle em que habitava D. Julia; que assim o tinha +exigido para ter a sua protegida junto d'ella, o que se executou com +muita censura e reparo de D. Bertha.</p> + +<p>--Era só o que faltava--dizia um dia, a orgulhosa D. Bertha, a D. +Francisca de Meirelles, sua amiga--trazer para nossa casa estas duas +mendigas. Podes tu, minha querida, explicar-me como é que Julia pôde +affeiçoar-se tanto a estas duas creaturas?</p> + +<p>--Tua irmã, Bertha, tem o coração muito sensivel; basta que lhe façam +uma choradeira, ou que lhe contem uma historia triste para acreditar em +tudo, e logo se affeiçoar a qualquer, e lhe dedicar carinho é protecção.</p> + +<p>--Mas na verdade, esta sociedade não é tão agradavel e +attrahente?--disse D. Bertha com um sorriso ironico.--Se a cega e a neta +contam commigo para lhes fazer companhia, affirmo-te que lhes hei-de +deixar muito tempo para se aborrecerem.</p> + +<p>Conforme com estas <i>bellas</i> resoluções D. Bertha evitava <span class="pagenum">[221]</span> o mais +possivel dirigir a palavra a Rosa e sua avó, e, quando por necessidade o +fazia, era com um modo tão sobranceiro, imperial e chocarreiro, que as +duas infelizes ficavam confusas e envergonhadas.</p> + +<p>D. Julia tentou por diversas vezes fazer nascer no coração de D. Bertha +sentimentos mais nobres e mais christãos, mas infructuosamente, por que, +procurar commover e sensibilisar o coração empedernido e orgulhoso de D. +Bertha, era um trabalho improbo e esteril.</p> + +<p>D. Julia, feliz por ter em sua companhia a querida de seu coração, a sua +discipula, recuperou algum vigor, e ainda pôde recomeçar as lições. A +fadiga, que d'este trabalho lhe podia provir, era attenuada pela +attenção e estudo, que Rosa prestava ás prelecções.</p> + +<p>D. Julia ainda quiz ensinar desenho a Rosa.</p> + +<p>--Queres dar a Rosa--disse uma occasião a viscondessa a sua filha--uma +educação e instrucção superiores á sua posição na sociedade, e não +receias que isso para o futuro lhe cause embaraços e dissabores?</p> + +<p>--Como resposta a essa pergunta tenha, minha querida mãi, a bondade de +ouvir o que a minha protegida me dizia outro dia:</p> + +<p>«O meu maior desejo, minha boa amiga e mestra, é alcançar bastante +instrucção e saber, para um dia ser professora. Como me julgaria feliz +podendo dizer ás minhas discipulas: era uma aldeã muito ignorante e +rustica; uma boa menina, a snr.<sup>a</sup> D. Julia, filha da snr.<sup>a</sup> viscondessa do +Candal, teve a bondade de me tomar sob a sua protecção e de me ensinar. +É a ella, meninas, a quem devo o que sei e o que vos ensino. Se me +amaes, deveis igualmente amar a snr.<sup>a</sup> D. Julia, minha bemfeitora; e +então ellas vos renderão graças, assim como eu vol-as rendo agora.»</p> + +<p>--Não te torno a dizer mais nada--disse a viscondessa--Continua, minha +filha, pois Rosa é digna dos <span class="pagenum">[269]</span> teus cuidados e desvelos, e para que +elles se tornem mais proficuos ajudar-te-hei a leccional-a.</p> + +<p>A viscondessa cumpriu a sua promessa e, alternadamente com D. Julia, +dava as lições a Rosa.</p> + +<p>Estes estudos não fizeram pôr de parte a preparação de Rosa para receber +dignamente a primeira communhão. Foi com uma piedade exemplar que ella +cumpriu este solemne acto, e o futuro provou não ter sido esteril para o +seu coração.</p> + +<p>D. Julia passou o verão entre as alternativas de melhoras e recahidas +nos seus padecimentos, que tinham uma successão quasi regular e +periodica. Umas vezes nem levantar-se da cama, ou d'uma cadeira de +braços, para onde a levavam, lhe era possivel; outras vezes chegava a +poder dar uns pequenos passeios pelos campos das visinhanças. Aos +proprios medicos custava a comprehender como ella vivia.</p> + +<p>D. Julia, porém, não se illudia sobre o seu estado de saude. Quando sua +mãi a entretinha fazendo projectos, ou, como ordinariamente se diz, +<i>castellos no ar</i>, para o futuro, ella sorria-se e respondia: que ainda +faltava muito tempo para a sua realisação, e que não chegava a vêl-os +confirmar.</p> + +<p>A sós com Rosa D. Julia fallava livremente sobre a proxima terminação da +sua existencia, e então ella supplicava-lhe com instancia, que +repellisse da sua imaginação tão sinistras idéas.</p> + +<p>--Não posso crêr,--dizia ella--que Deus nosso Senhor me queira tirar +d'este mundo todos os meus protectores: não sei que crime tenha +commettido, que mereça semelhante castigo.</p> + +<p>--Resta-te ainda minha mãi, minha Rosinha--respondia D. Julia--que estou +certa nunca te ha-de desamparar.</p> + +<p>Rosa terminava esta penosa conversação abraçando <span class="pagenum">[270]</span> D. Julia e +procurando distrahil-a por todos os meios possiveis.</p> + +<p>O que a dedicação mais sincera e real póde suggerir de mais bello, tudo +Rosa executava, recebendo, por galardão, ou recompensa a mais grata, um +terno sorriso de D. Julia, ou um agradecimento da viscondessa, e para os +merecer faria o impossivel se necessario fosse.</p> <span class="pagenum">[271]</span> + + +<h3>XII.</h3> + +<p>D. Julia apparentava exteriormente um socego d'espirito, que +interiormente não sentia, por que receiava muito a chegada do outono, +época, que os medicos tinham marcado, a mais longa a que poderia chegar. +A anciedade, pois, que todos soffriam pela aproximação d'esse termo +fatal, era geral.</p> + +<p>Chegou o outono. Por um d'estes phenomenos, que a tisica muitas vezes +apresenta, a molestia não offereceu n'esta estação alteração alguma.</p> + +<p>A esperança, de que D. Julia ainda poderia vencer a fatal doença, +começou a penetrar em todos os corações, e até no da propria enferma. +Rosa chegou a dizer á viscondessa, que tinha uma convicção firme de que +D. Julia não morreria, por que Deus Nosso Senhor era bom e não a havia +de privar da sua protectora.</p> <span class="pagenum">[272]</span> + +<p>A viscondessa, que até ahi estava convencidissima, de que sua filha não +passaria além do termo marcado pelos medicos, vendo-o passar sem que a +sua fatal predicção se realisasse, começou a crêr que se tinham +enganado, e que D. Julia ainda lograria saude.</p> + +<p>Houve portanto grande alegria em casa da viscondessa. Todos os criados, +que não amavam só, mas que veneravam D. Julia, por que era sempre boa e +affectuosa para elles, crendo que a sua joven ama, não tendo morrido na +época marcada, estava salva, pediram unanimemente para a felicitarem; +tal foi a alegria e contentamento, de que se apoderaram com esta +esperança e crença.</p> + +<p>Estas demonstrações respeitosas de sympathia e amisade, que os criados +lhe deram, penhoraram e commoveram muito D. Julia. A todos agradeceu com +reconhecimento esta nova prova d'affecto.</p> + +<p>Porém, de todas as felicitações, a da sua discipula e de sua avó, foi a +que mais a impressionou.</p> + +<p>Quando Rosa, conduzindo sua cega avó, se ajoelhou com ella junto da cama +de D. Julia, e lhe exprimiu, com candura e ingenuidade, a alegria e +prazer, que sentiam pelas suas melhoras, e os votos, que faziam a Deus, +para que o seu restabelecimento fosse real e breve, não pôde soffrear a +sua commoção, e as lagrimas correram-lhe em fio pelas faces, agradecendo +a Deus o prazer que tinha gosado com a felicitação que acabava de lhe +ser dirigida.</p> + +<p>Passou-se o inverno, sem que o estado de saude de D. Julia soffresse +alteração sensivel.</p> + +<p>Com a chegada da primavera D. Julia recomeçou os seus passeios pelos +campos e pinheiraes visinhos, na companhia da sua inseparavel Rosa, a +que algumas vezes se aggregava tambem a viscondessa.</p> + +<p>Na quaresma seguinte Rosa recebeu pela segunda vez o sacramento da +communhão, e pouco tempo depois, D. Julia, querendo que a sua protegida +progredisse <span class="pagenum">[273]</span> nos seus estudos, pediu a sua mãi que lhe escolhesse +uma professora.</p> + +<p>A viscondessa annuiu immediatamente ao pedido de sua filha.</p> + +<p>Pouco tempo depois entrou para casa da viscondessa, sob recommendação e +abono do abbade de S. Cosme, uma joven senhora, a quem ha pouco acabava +de ser concedido o titulo de capacidade.</p> + +<p>Rosa esforçava-se por todos os meios possiveis para corresponder +dignamente aos beneficios, que, D. Julia e sua mãi, lhe estavam +constantemente prodigalisando; procurando sempre não dar o mais leve +desgosto ás suas protectoras; comtudo, é preciso dizer que Rosa não era +perfeita. A sua vivacidade natural levava-a muitas vezes a +impacientar-se, e o seu ainda pouco peso ou juizo a commetter algumas +faltas nos seus deveres; mas reconhecia com tanta facilidade os seus +erros, e mostrava-se tão arrependida e desejosa de os emendar, com tanto +afinco e perseverança, que era impossivel tratal-a com rigor por muito +tempo.</p> + +<p>Rosa dava as suas lições, umas vezes no quarto de D. Julia, quando o seu +estado de saude o permittia; outras vezes no da viscondessa, que sentia +um verdadeiro e sincero prazer em observar os progressos da predilecta e +querida de sua filha.</p> + +<p>D. Maria d'Almeida, assim se chamava a professora, correspondeu +dignamente á confiança, que a viscondessa n'ella tinha depositado, +confiando-lhe a instrucção da sua pupilla.</p> + +<p>O progresso e desenvolvimento, que Rosa sob a sua direcção experimentou, +foi grande, dando já signaes de que em breve a discipula se tornaria uma +excellente professora.</p> + +<p>Rosa, assim que as suas obrigações e deveres estavam terminados, +dedicava-se exclusivamente a D. Julia, e sua avó. Esta, desde que viera +viver para casa da <span class="pagenum">[274]</span> viscondessa do Candal, andava alegre e folgazã, +e ainda julgava estar sonhando, tal era a placidez e amenidade do seu +viver.</p> + +<p>Tinha já decorrido parte do anno; o outono estava quasi findo, e o +estado de saude de D. Julia não denunciava signal algum de peoramento; a +molestia, porém, que até então estivera encubada, reappareceu com grande +violencia, e em oito dias as crises succederam-se tão proximas umas das +outras, que pozeram a enferma em estado de se não conceber esperança +alguma de a salvar.</p> + +<p>A illusão, que até ahi existira em todos, desappareceu completamente: já +não esperavam senão o golpe final... Rosa, nem um só momento desamparava +a sua querida protectora, e juntamente com a viscondessa, cuidava e +tratava de D. Julia; não consentiam que mais ninguem lhe prestasse o +mais insignificante serviço, chegando até a ter zelos uma da outra.</p> + +<p>Tanta dedicação e amisade teriam feito com que Deus revogasse a fatal +sentença dada a D. Julia, se o Creador, na sua alta sabedoria, não +tivesse resolvido chamar á sua presença, a receber o premio das suas +virtudes, aquelle anjo de bondade e resignação.</p> + +<p>D. Julia, já moribunda e quasi expirante, pediu a sua mãi, como ultima +graça que lhe fazia, que não abandonasse Rosinha, a sua querida +discipula e amiga; que se não affligisse, nem desanimasse, porque em +Rosa lhe deixava, estava certa d'isso, uma filha obediente e dedicada, +que havia de substituir no seu coração o lugar que ella deixava vasio, e +a Rosa recommendou-lhe que amasse sempre muito sua mãi, por que n'ella +encontraria um sincero apoio, e uma terna e carinhosa amiga.</p> + +<p>Apenas D. Julia proferiu estas palavras, a hora fatal tinha soado; +abraçou sua mãi, e Rosinha e, pronunciando os nomes de Rosa... e minha +mãi... expirou, <span class="pagenum">[275]</span> voando a sua candida alma á presença de Deus a +receber a glorificação de suas virtudes.</p> + +<p>Assim terminou D. Julia a sua existencia, que, se tinha sido breve para +o mundo, fôra longa pelas boas obras, que sempre praticára, e pela +pureza em que sempre vivera.</p> <span class="pagenum">[276]</span> + + +<h3>XIII.</h3> + +<p>Já decorreram seis annos depois das scenas descriptas no capitulo +antecedente.</p> + +<p>Não deixaremos, porém, a nossa muito conhecida casa, perto de S. Cosme, +pertencente á viscondessa do Candal, por que é no caminho, que a ella +conduz, que tem lugar o que passamos a contar.</p> + +<p>Uma senhora ainda joven, e outra já de mais idade caminham em silencio, +e commovidas.</p> + +<p>A mais idosa é a nossa muito conhecida viscondessa do Candal.</p> + +<p>O pesar da morte da sua querida filha Julia desfigurou-a muito. O rosto +tem-no emmagrecido, e sulcado de profundas rugas, e os cabellos +embranquecidos antes do tempo.</p> <span class="pagenum">[277]</span> + +<p>A sua companheira é uma joven que figura ter dezesete para dezoito +annos, d'apparencia ingenua e modesta; é a nossa Rosa, a pequena dos +ramos e cestinhos.</p> + +<p>A viscondessa caminha apoiada no braço da sua companheira. Depois +d'alguma hesitação Rosa decidiu-se a dirigir-lhe a palavra.</p> + +<p>--Receio, minha querida senhora--disse Rosa respeitosamente--que esta +visita vos cause uma grande commoção e vos prejudique a saude. Por que a +não deixaes para quando estiverdes mais restabelecida?</p> + +<p>--Não, Rosa, não. Ha oito dias, que não vim visitar a campa onde jaz a +minha Julia, e oito dias já é um espaço muito longo. Sinto-me hoje +melhor, não despresarei portanto esta occasião que se me offerece, por +que, quem sabe se recahirei?</p> + +<p>--Não penseis em tal, senhora viscondessa. Creio que ainda haveis de ter +muitos annos de vida; tenho fé, que Deus vos não roubará á minha ternura +e reconhecimento.</p> + +<p>--Se as orações d'um anjo, Rosa, podessem deter a morte, conheço que as +tuas me preservariam d'ella. Mas, ai de mim, a morte da minha sempre +lembrada Julia despedaçou-me o coração. Não estou eu só n'este mundo? +Bertha não me abandonou logo que casou? Que faço então aqui n'este ermo, +a que chamam mundo?</p> + +<p>--Ah! senhora, esqueceis então a pobre Rosa, que vos estima e ama, e que +vos é tão dedicada como se fôra vossa filha?</p> + +<p>Estas palavras, pronunciadas com um accento de submissão, penetraram até +o imo do coração da viscondessa: sensibilisaram-na tanto, que abrindo os +braços recebeu n'elles Rosa banhada em lagrimas.</p> + +<p>--Sou uma ingrata, Rosa, bem o reconheço,--disse a viscondessa cingindo +Rosa ao coração. Recebo com indifferentismo os teus cuidados e carinhos, +e a tua inexcedivel dedicação. Perdôa-me, minha filha, minha <span class="pagenum">[278]</span> +querida filha. Conheceste Julia, e melhor que outra qualquer sabes +quanto era merecedora da minha ternura e amisade, e quanto é digna de +ser pranteada. Mas Julia, antes de morrer, deixou-te na minha companhia, +para me servires de consolação e allivio na minha dôr. Abraça-me Rosa, +minha filha querida.</p> + +<p>Rosa, por unica resposta, abraçou com ternura a sua bemfeitora.</p> + +<p>As lagrimas, que lhe cobriam as faces, diziam bem alto e eloquentemente, +o que a commoção lhe embargava nos labios.</p> + +<p>Ainda caminharam por mais algum tempo e chegaram ao cemiterio.</p> + +<p>A viscondessa do Candal, como tributo á memoria de sua filha, +mandára-lhe levantar um lindo e rico mausoléo de marmore branco, no qual +ella tambem queria ser encerrada á sua morte. Em volta das grades +viam-se alegretes em que haviam violetas, geranios e rosas amarellas, +que Rosa cultivava e cuidava com muito esmero, como recordação das +flôres com que enfeitára o cestinho, que fôra causa da intima união, que +se estabelecera entre ella e D. Julia.</p> + +<p>A viscondessa e sua filha adoptiva oraram por muito tempo sobre a campa +d'aquella, que tanto tinham estremecido em vida, e que tanto choravam na +morte.</p> + +<p>Rosa, depois de ter examinado e regado todos os alegretes e pés de +flôres, um por um, para que os insectos, ou a seccura os não +estiolassem, dirigiu-se á viscondessa.</p> + +<p>--Deixo-vos, senhora--lhe disse ella--por um instante. Vou rezar junto +da campa de minha avó.</p> + +<p>--Tambem quero acompanhar-te--replicou a viscondessa.</p> + +<p>Não muito distante do mausoléo de D. Julia se elevava uma cruz simples. +Era ahi que jazia, havia dous annos, a pobre cega. Terminára os seus +dias socegadamente, <span class="pagenum">[279]</span> bemdizendo a ternura de sua neta, e a caridade +affectuosa da sua bemfeitora.</p> + +<p>Devido ainda ao zelo de Rosa a campa da pobre cega, adornada com +diversas flôres, semelhava um jardimsinho.</p> + +<p>Rosa ajoelhou-se, e depois de ter rezado com fervor e devoção por algum +tempo, levantou-se, e dando o braço á viscondessa retiraram-se, fazendo +ainda uma ultima visita ao tumulo de D. Julia.</p> + +<p>Quando se recolheram, Rosa encontrou uma carta da sua antiga professora +D. Maria d'Almeida, na qual lhe participava, que d'ahi por dous mezes se +havia de proceder aos exames d'habilitação para os titulos de +capacidade, por isso, se ainda estava decidida a propôr-se a exame, que +enviasse os documentos necessarios ao commissario dos estudos.</p> + +<p>Rosa apresentou esta carta á viscondessa.</p> + +<p>--Sempre estás decidida a propôr-te a exame?--lhe disse ella.</p> + +<p>--Sim, minha senhora. É o meu mais fervente e afanoso desejo. Quero, +senhora, que a instrucção e saber, que vos devo, e a vossa querida e +chorada filha, aproveite ás crianças, que a pobresa retem na ignorancia +e na rudeza. Se eu poder ser util, ainda que seja a uma só d'entre +ellas, como, senhora, me reputarei feliz e bem paga do meu trabalho!</p> + +<p>--Tinha a esperança de te conservar sempre na minha companhia---replicou +a viscondessa.--Occuparias para sempre o lugar do anjo, que Deus me +levou, da minha Julia. Não queres, Rosa, ser minha filha?</p> + +<p>--Ah! senhora, quero sim, ser vossa filha; isso ainda vai além da minha +ambição. Mas recordo-me que era uma pobre rustica, e que só aos vossos +beneficios devo a minha instrucção, e a cultura da minha intelligencia. +Quero, senhora, dar de barato, e ter a vangloria de dizer que os vossos +cuidados não foram perdidos, <span class="pagenum">[280]</span> mas com isso não me devo tornar +vaidosa, por que faltaria assim aos meus deveres. Serei sempre para vós +uma filha adoptiva, carinhosa, humilde e terna, e que achareis sempre ao +vosso lado, esforçando-se por pagar a sua divida de gratidão e +reconhecimento: Recebendo e aceitando a vossa affeição e amisade, para +mim preciosa e apreciavel, não me devo esquecer da classe onde nasci. O +meu lugar é mais humilde; mas como elle parece bello e grandioso ao meu +coração, quando me recordo do bem, que posso fazer a essas infelizes +crianças, que vivem na bruteza, ensinando-lhe o que sei e que é obra +vossa! Ha muito que concebi este meu projecto, e que o declarei a vossa +filha: «Ás pobres rapariguinhas das aldéas--lhe disse eu--farei o mesmo +que a snr.<sup>a</sup> D. Julia me fez. Ensinar-lhes-hei a serem felizes com a +sorte, que Deus lhes destinou n'este mundo; cultivarei o seu coração e o +seu espirito, e por unica recompensa não quererei mais do que ouvil-as +bem dizer os nomes da exc.<sup>ma</sup> viscondessa do Candal e de sua filha.»</p> + +<p>--Rosa, minha querida Rosa--disse a viscondessa abraçando-a, e com os +olhos rasos de lagrimas,--que Deus te pague a felicidade, e prazer, que +me fazes nascer no coração com as tuas palavras.</p> + +<hr style="border: 0; border-bottom: 2px dotted #000;"> +<hr style="border: 0; border-bottom: 2px dotted #000; height: 1em;"> +<hr style="border: 0; border-bottom: 2px dotted #000; height: 1em;"> + +<p>Dous mezes depois, a nossa, hoje, D. Rosa de Jesus e Sousa comparecia +perante o jury nomeado para proceder ao exame das concorrentes ao +professorado. O titulo de capacidade, em grau superior, foi-lhe +concedido por unanimidade e com distincção.</p> <span class="pagenum">[281]</span> + + +<h3>XIV.</h3> + +<p>Dous annos se passaram já, depois que foi conferido a D. Rosa de Jesus e +Sousa o seu titulo de capacidade.</p> + +<p>Estamos em fins d'Outubro, n'uma casa caiada de branco, que se encontra +ao entrar na freguezia de S. Cosme, do lado de S. Pedro da Cova. Na +frente ha um pateo largo e espaçoso. Sobre o muro pendem os ramos +verdejantes de dous chorões. Nas trazeiras da casa ha um pequeno jardim, +muito bem tratado, com as ruas areadas com saibro, e que termina por um +caramanchãosinho, que, pelo bem cerrado que está, indica que no verão +deve alli haver uma frescura agradavel, auxiliada pela corrente d'uma +levada, que corre proximo. Na sala que fica ao nivel do jardim ouve-se +um murmurio confuso. Entremos, para examinar a que elle é devido. <span class="pagenum">[282]</span> +Que vemos? Grupos de lavradeirinhas, ao todo umas trinta, pouco mais ou +menos, vestidas de branco, e tendo todas na mão um raminho de flôres do +campo, com um laço de fita. Ao fundo da sala vê-se uma rica imagem de +Nossa Senhora da Conceição, collocada sobre um altar, bem adornado com +castiçaes de prata, velas de cera e jarras com flôres.</p> + +<p>N'um dos lados da sala ha quatro cadeiras de braços; n'uma d'ellas está +sentada a viscondessa do Candal, a quem D. Rosa, de pé, junto d'ella, +está dizendo os nomes das suas discipulas.</p> + +<p>A viscondessa passeia a vista por todas ellas, e conhece-se-lhe na +expressão do rosto, que aquelle espectaculo a regosija e encanta.</p> + +<p>O modo, porque todas dirigem as vistas para a porta e pelas janellas, +indica que se espera alguem.</p> + +<p>O abbade da freguezia e o administrador do concelho entram n'este +momento pelo portão.</p> + +<p>Um sorriso alegre se vê deslisar em todos os rostos. Eram as pessoas por +quem se esperava.</p> + +<p>A viscondessa e a sua pupilla vieram recebel-os á porta, e +conduziram-nos ás cadeiras que lhe estavam destinadas.</p> + +<p>As crianças tomaram os seus lugares, e restabelecido o silencio, o +abbade da freguezia tomou a palavra, e fez o seguinte discurso:</p> + +<p>«Sinto, minhas meninas, um prazer immenso por vos vêr aqui reunidas para +a celebração do primeiro anniversario da installação d'esta escóla, +devida á muita philantropia e caridade christã da exc.<sup>ma</sup> viscondessa do +Candal, e á dedicação exemplar da vossa digna professora a snr.<sup>a</sup> D. Rosa +de Jesus e Sousa. Julgo desnecessario o rememorar-vos, que um tal +sacrificio merece um eterno reconhecimento, por que entendo que entre +vós, minhas filhas, não ha ingratas. Vós respeitaes e veneraes a exc.<sup>ma</sup> +viscondessa, e amaes com um verdadeiro <span class="pagenum">[283]</span> amor a vossa professora, +não é assim? É, assim o creio. Mas ha ainda uma pessoa, para quem deveis +ter uma saudosa recordação, e que tambem deveis encommendar a Deus nas +vossas orações. Prestai-me attenção, que vos vou dizer quem é essa +pessoa, cuja recordação vos deve ser grata. Ha pouco mais ou menos doze +annos, que uma pobre lavradeirinha ganhava a sua vida fazendo cestinhos +de juncos, e ramos de flôres silvestres. Uma joven e nobre senhora, que +reconheceu n'ella amabilidade, modestia e humildade, sympathisou com +ella, e encarregou-se de a educar e instruir. Como a sua bemfeitora a +achou sempre digna dos seus beneficios, encarregou-se tambem da sua +posição futura. Essa joven senhora, de que vos fallo, é a exc.<sup>ma</sup> snr.<sup>a</sup> +D. Julia, filha da exc.<sup>ma</sup> viscondessa do Candal, e essa lavradeirinha, a +quem ella dispensou os seus carinhos e a sua affeição, é a vossa douta +professora. Ha já alguns annos, que a alma da exc.<sup>ma</sup> snr.<sup>a</sup> D. Julia voou +á presença do Deus eterno a receber o premio das suas virtudes e das +boas obras, que praticára n'este mundo; uma das quaes ainda existe, que +foi o deixar-vos a vossa professora e amiga.</p> + +<p>«Mostrai-vos, meninas, sempre merecedoras dos beneficios, que vos fazem, +porque isso é o unico desejo das vossas bemfeitoras e a unica +recompensa, que recebem da sua dedicação, que estou muito convencido +sempre fareis por merecer.</p> + +<p>«Não quero, porém, retardar por mais tempo o momento de receberem o +premio e galardão, que merecem pela sua applicação ao estudo e amor ao +trabalho, áquellas que d'isso se tornaram dignas; e ás que d'esta vez +não são galardoadas resta-lhes a esperança e o meio de, pela imitação +das suas condiscipulas, se tornarem dignas de o merecerem para o anno +futuro.</p> + +<p>«Vamos por tanto proceder á distribuição dos premios.»</p> <span class="pagenum">[284]</span> + +<p>Um sussurro d'alegria acolheu as ultimas palavras do digno sacerdote.</p> + +<p>A conferencia dos premios foi esplendida.</p> + +<p>Os premios consistiam em livros religiosos e d'instrucção, que tinham +sido cuidadosamente escolhidos pela viscondessa, e sua filha adoptiva, +todos ricamente encadernados. Era interessante e bello vêr a alegria, +que se deslisava no rosto das que tinham sido contempladas na +distribuição.</p> + +<p>Terminada a conferencia dos premios teve lugar debaixo do caramanchão um +bem servido <i>lunch</i>.</p> + +<p>--Como é magnifico o espectaculo, que apresentam estas crianças, alegres +e satisfeitas--disse a viscondessa--Recordar-me-hei sempre d'este dia, +como o mais grato e feliz da minha vida. Tu, minha querida Rosa, +attrahes as bençãos do céo sobre nós, e sobre a memoria da minha +querida, e chorada Julia.</p> + +<p>--Ah! senhora,--disse Rosa com os olhos rasos de lagrimas--que a vossa +prophecia se realise, e a minha mais cara aspiração ficará satisfeita.</p> + +<hr style="border: 0; border-bottom: 2px dotted #000;"> +<hr style="border: 0; border-bottom: 2px dotted #000; height: 1em;"> + +<p>O desejo de Rosa realisou-se. A escóla está cada vez mais florescente, e +a freguezia ufana-se pela possuir. Todos os moradores do lugar ainda +hoje bemdizem os nomes da viscondessa do Candal, de sua filha e de D. +Rosa, modêlo raro d'um coração verdadeiramente grato e reconhecido aos +beneficios que recebera.</p> + + +<p class="centrado">FIM.</p> + + +<div class="notas_transcricao"> <p><b>Nota do transcritor:</b></p> + +<p>A edição da obra aqui transcrita foi publicada em 1863 num volume que +continha 3 romances denominados: Annos de Prosa, A Gratidão e O +Arrependimento.</p> +</div> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Gratidão, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A GRATIDÃO *** + +***** This file should be named 23345-h.htm or 23345-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/3/3/4/23345/ + +Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images +of public domain material from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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